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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Esmeralda / Zibia Gasparetto
Esmeralda / Zibia Gasparetto

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Esmeralda

 

                     

 

Todos nós escolhemos livremente nossos caminhos. Pressionados pelas emoções, baseados em nossos sentimentos, envolvidos em nossas ilusões.

     Escolhemos ao preferir esta ou aquela oportunidade, ao fazer este ou aquele conceito, ao colocarmos em nossos próprios olhos as lentes com as quais preferimos enxergar a vida, as pessoas, as coisas.

     Tudo é escolha nossa. Apesar disso, muitas vezes, nos revoltamos quando, ao toque da realidade que sempre toma o nome de desilusão, o reflexo de nossas escolhas nos atinge o coração, com resposta diferente da que esperávamos, porém a única possível como reação de nossos atos.

     Enganar-se na escolha é fato tão comum a nós todos como a presença do sofrimento e da dor, instrumentos de reajuste a que por isso fizemos jus.

     Revoltar-se diante das conseqüências de nossos próprios atos é tão ingênuo e inadequado quanto nossa teimosia em conduzir a vida como se ela pudesse obedecer-nos, servindo a nossas fantasias e infantilidades.

     A vida é perfeita porquanto é criação de Deus. Assim sendo, suas respostas guardam a sabedoria divina. Nenhum homem poderá controlá-la. Ao contrário, há necessidade de compreender-lhe a essência e procurar harmonizar-se a seu movimento, que é a garantia de nossa felicidade, porquanto sua meta única e objetiva é a de tornar-nos espíritos mais conscientes das verdades eternas que guarda em seu seio, e felizes participantes da alegria divina que tudo movimenta e harmoniza no belíssimo concerto universal.

     Ao trazermos neste livro pedaços de nossa memória, relembrando acontecimentos de outros tempos, temos o objetivo de mostrar, através dos fatos reais onde cada um dos protagonistas escolheu seu rumo, as respostas que tiveram da vida.

     É claro que, tanto eles quanto nós próprios continuamos em nossa trajetória, escolhendo novos rumos e recebendo as respostas e estímulos da vida. Porém, neste "flash" que relatamos de suas vidas, podemos, quem sabe, encontrar em suas emoções e lutas reflexos de nossos anseios mais íntimos e, desta forma, percebermos por antecipação as respostas que a vida nos daria, neste ou naquele roteiro, e podermos assim nortear nossas escolhas para colocar nu nossos caminhos mais alegria, mais felicidade e mais paz.

     Estes são meus votos.

                                                                     Lucius

                                                                                                       

    

Capítulo I

     Espanha! Terra do sonho! Sol, flores, músicas, colorido.

     Valença! Cidade do sol, das mulheres, dos amores e da música. Suas mas estão cobertas pelas lembranças dos tempos e pela poeira dos séculos.

     Agosto, 1812. A cidade em festa e o ruído alegre dos romeiros que demandavam à Praça para o Dia de Graças.

     Carlos caminhava alegre, tinha asas nos pés, música nos lábios, flores no chapéu e alegria no coração.

     Mocidade: tudo muda a seu toque mágico, todas as coisas se embelezam!

     Agosto, 1812. Festa em Valença, vinte anos, juventude, força e beleza. Como não sorrir? Como não brincar com o amor das mulheres ardentes da Andaluzia, como não tanger a guitarra em ritmos loucos? Como?

     Agosto, 1812. Espanha. Valença. Festa. Luz. Praça regurgitando. Cheiro gostoso das castanhas na brasa, dos biscoitos rosqueados e das brincadeiras ingênuas. O moço galgou a praça sentindo na boca o gosto de viver. O mundo era seu. Ele era o dono de tudo. No meio, as barracas coloridas de San Agustin, no pregão dos leilões o alarido alegre e a fumaça das fogueiras, onde as carnes eram assadas. No centro, as pipas de vinho e os bebedores inveterados contando seus chasqueados e mitos.

     Carlos queria dançar. O som da guitarra e da música cigana o animava. Vestira a roupa colorida dos moços da rua, longe do palácio escuro dos seus e da disciplina dos parentes. Seus muros pesavam, sua severidade o esmagava. Era verão e havia festa entre o povo. Ele queria estar entre eles. Vestira roupa plebéia. Ninguém o vira sair. Caminhou contente. Dançar! Era isso.

     De passagem, pegou uma caneca de vinho e bebeu deliciado. Até o vinho comum pareceu-lhe infinitamente melhor do que o de sua adega.

     Uma cigana rodopiava entre os pares que dançavam na rua. Mergulhou na música e nos braços dela. Seu corpo jovem e belo parecia ter asas e em seu rosto corado havia satisfação e êxtase. Parecia irreal e distante.

     Carlos a enlaçou, dançaram juntos, quanto tempo? Uma, duas, três, quatro horas? Até que a noite desceu e se atiraram rindo, exaustos e felizes, ao chão.

     A festa prosseguia e os lábios da cigana tinham a cor e a frescura dos botões de rosa. A certa altura ele não se conteve, levou-a para um local deserto e no campo ermo, à luz das estrelas, amaram-se loucamente.

     Depois, olhando-a nos olhos, Carlos indagou:

     — Como te chamas?

     — Esmeralda.

     — Esmeralda! Jóia preciosa.

     — E tu, como te chamas?

     — Ricardo — mentiu ele por força do hábito. Ela alisou-lhe o rosto com suavidade.

     — Não és cigano. Quem és?

     — Ninguém. Um pobre-diabo. Mas eu te amo. Ela riu deliciada.

     — Não nos deixaremos mais — sentenciou decidida. — Virás conosco. Se não és ninguém, podes ser cigano.

     Ele sorriu enlevado. Se ele pudesse! Por que não? Talvez fosse possível ficar uns tempos com eles. Seria fascinante.

     Afagou a cabeça morena da cigana, cujos cabelos sedosos e ondulados levantavam delicados caracóis que a dança liberara.

     — Posso ir contigo?

     — Claro. Miro não vai importar-se. Quanto ao resto, deixa comigo. Ficaremos juntos para sempre. Amanhã, depois da festa, seguiremos para Madri. Vens comigo?

     — Vou. Mas antes preciso pegar minhas roupas e algum dinheiro. Tenho pouco, não me demoro.

     — Não te vás ainda — pediu ela.

     Abraçaram-se de novo. Só de madrugada, o dia amanhecendo, ele pôde deixá-la com a promessa de que voltaria quando o sol saísse e juntos partiriam para sempre.

     Cansado e feliz, Carlos regressou. A abertura secreta por onde ele entrava e saía do castelo cheirava a mofo e provocou-lhe náuseas. Não bebera muito vinho, mas embriagara-o o amor de Esmeralda. Entrou no quarto onde seu valete dormia largado. Pobre-diabo. Uma caneca de vinho e pronto, não incomodava mais.

     Abriu as cortinas, pegou umas roupas e colocou-as num saco. Seu pai já se levantara, por certo. Tinha que lhe falar. O sol já ia alto quando Carlos entrou no salão e o viu ocupado no exame de uma caixa com armas de caça que estava aberta a sua frente.

     — Carlos!

     — Deus vos salve, meu pai.

     — Deus vos abençoe, meu filho.

     — Pai, preciso de vossa ajuda.

     O rico senhor, alto, moreno, caprichosa barba descendo-lhe sobre o peito alcançando o elegante gibão de veludo, seu olhar frio e meticuloso examinando as armas com atenção, respondeu:

     — Fala.

     — Preciso de vossos préstimos.

     — Para quê?

     — Preciso de vossa licença para ir a Madri.

     — Que queres de lá? Por acaso a corte te chama? Conhecendo-lhe o fraco, o moço aduziu:

     — Meu amigo Álvaro está em casa de D. Hernandez. Vão às festas de verão e por certo D. Maria estará lá.

     O velho pareceu agradavelmente surpreso.

     — Queres lá ir?

     — Sim. Com vossa permissão. Serei hóspede de D. Hernandez, pai de D. Maria. Tenho vossa permissão?

     — Com gosto. Leva este saco de ouro para tuas necessidades.

     Era com alegria que recebia a decisão do filho. Há tempos sonhava com a união de sua casa com a de D. Antônio Hernandez, nobre e conceituado senhor, rico e poderoso. Carlos sempre se mostrara indiferente e agora estava disposto a cooperar.

     — Leva teu valete. Não podes lá ir sem ginete.

     Carlos cocou a cabeça contrariado. Aquela mula poderia estragar tudo. Porém não podia contrariar o pai. Não desejava ter problemas. Queria gozar a vida, mas não pretendia deixar de lado seu patrimônio familiar.

     — Quando partes?

     — Agora, se vossa senhoria permitir...

     — Tanta pressa?

     — Sim. Esperam-me lá para abrir as danças.

     — Certo. Podes ir com meus préstimos a D. Antônio. Não podes partir sem mimos para a família. Seria imperdoável. Como hóspede, tens a obrigação de ser delicado.

     Carlos disfarçou o enfado. Tinha pressa em rever Esmeralda.

     — Achais necessário?

     — Por certo. Aqui tens esta pistola cravejada, leva-a para D. Antônio. Quanto a D. Engracia e D. Maria, tua mãe te dará algumas jóias delicadas. Vai ter com ela, que te vai servir.

     Carlos apanhou a caixa com a pistola e apressou-se em procurar seu valete. Sacudiu-o com força.

     — Acorda, diabo. Anda, arruma tuas coisas que vamos para Madri. Avia-te rápido.

     O criado acordou assustado e sem perguntar nada apressou-se a obedecer.

     — Prepara os cavalos, que tenho pressa.

     Em seguida, dirigiu-se aos aposentos de sua mãe. Seu rosto encheu-se de ternura fixando a figura robusta e agradável de D. Encarnação.

     Era jovem ainda, cabelos castanho-escuros caprichosamente penteados, presos em coque na nuca, tez clara e delicada, olhos castanhos e alegres, vivos e expressivos; porte ereto que o vestido severo afinava, dando-lhe gracioso aprumo.

     — Deus vos salve, mãe querida.

     D. Encarnação voltou-se surpresa. Um brilho malicioso apareceu-lhe no olhar, tornando-a incrivelmente jovem.

     — Que forças benditas arrancaram-te da cama tão cedo? Ou será que não te deitaste?

     Carlos tentou dissimular:

     — Nada, preciosa. Vou viajar. Acordei cedo. Vou a Madri.

     — A Madri? A que vais?

     — Às festas de verão. Vou hospedar-me em casa de D. Antônio Hernandez.

     A mãe abanou a cabeça, pensativa.

     — Por que queres lá ir? Por acaso teu pai exigiu?

     — Não. Mas cansei-me daqui e resolvi ir às festas. Meu pai deseja ofertar mimos às damas na casa de D. Hernandez. Vim despedir-me de ti e buscar algumas jóias de tua coleção.

     A mãe abraçou-o com carinho.

     — Certamente, meu filho. Mas vê lá o que fazes em Madri. Tens muita gana de divertimentos e a corte traz muitos perigos a um jovem como tu. Lá mata-se à espada por qualquer querela.

     — Levo meu valete. Há de proteger-me. Depois, sabes que sou trocista. Não gosto de pelear. Quero dançar e brincar. Não entro em disputas ou brigas.

     — É — suspirou ela —, isso me acalma. Quanto tempo estarás por lá?

     — Não te apures. Dois ou três meses. Se não gostar, volto antes. Agora preciso ir.

     D. Encarnação, resignada, apanhou uma caixa e dela escolheu dois regalos que acondicionou e entregou ao filho.

     —  Aí estão. O broche para D. Engracia e os brincos com o colar para D. Maria.

     —  Deus te bendiga, mãe querida. Sentirei tua falta.

     Carlos era sincero. Sua afinidade com a mãe era pronunciada. Apanhou o saco com as jóias e beijando-lhe a face com carinho saiu apressado. Pediu a bênção ao pai e deu-se pressa em alcançar o pátio onde o ginete o esperava com os cavalos, os sacos de cada um presos à sela do animal. Montaram e saíram. Assim que o castelo ficou para trás, Carlos parou e chamou seu valete:

     — Inácio.

     — Pronto, Dom Carlos.

     — Quero que entendas. Não me chames mais de Dom Carlos.

     — Não?!

     — Vais me chamar de Ricardo. Meu nome agora é Ricardo.

     — Como pode ser? Sois Dom Carlos.

     — Escuta. Se me chamares de Dom Carlos, mais uma vez que seja, parto teu pescoço e te arranco a língua. Entendeste agora?

     — Sim, senhor. Sim, senhor.

     — Vamos ao acampamento dos ciganos.

     — Ciganos? Valha-nos Deus. Vão assaltar-vos. Não podemos ir...

     — Cala-te homem. Se abres a boca para contar a D. Fernando, arranco-te a língua.

     — Patrão, é perigoso. D. Fernando quer que eu cuide do menino.

     — Pois de mim cuido eu. Vais comigo e não vais abrir a boca. Nem para os ciganos. Eu agora sou Ricardo Álvares, moço aventureiro e sem família.

     — Mas não sois. E mentira.

     — Mas estou sendo e se me desmentires, se alguém souber meu nome certo, tua vida não vale mais nada.

     — Ai, Deus meu! Que triste sorte! Se D. Fernando souber, me mata; se eu falar a verdade, o menino me mata. Estou morto de todo jeito...

     — Pára de lamentar-te. Se me servires com devotamento, se me obedeceres, só tens a ganhar. Estarás comigo e teremos muitas alegrias.

     — Para vos servir vivo eu. Minha vida por meu amo e senhor. Mas ir aos ciganos é loucura! Levam vida devassa. Assaltam, roubam, meu amo não os conhece.

     — Bobagens. Conheço-os muito bem. Sei o que faço, e não me chames de amo. Sou Ricardo e pronto. Vigia-te para não me traíres. A primeira marotada que fizeres, não te levo comigo.

     Inácio baixou a cabeça magoado.

     — Não podeis fazer isso comigo. Eu vos vi nascer.

     — Não me venhas com essa história. Se me obedeceres, tudo irá bem, ficaremos algum tempo e voltaremos para casa. Agora vamos, tenho pressa.

     Carlos esporeou o animal, que partiu a galope obrigando Inácio a correr para alcançá-lo.

     O sol já ia alto quando chegaram ao acampamento cigano. Este localizava-se em um belo bosque, onde tinham espalhado suas carroças, cada família fazendo sua própria comida. Os cavalos pastavam sossegados, e as carroças sob as árvores estavam silenciosas, demonstrando que a maioria dormia. Pelo chão, vestígios da festa, garrafas vazias, objetos, fitas coloridas, canecas, restos de fogueira e pedaços de carne ainda nos espetos, mostrando que tinham continuado a festa no acampamento. Algumas crianças brincavam descuidadas.

     — Acho que dormem — pensou Carlos, aspirando com delícia o cheiro de mato misturado ao odor particularmente excitante da aventura e do lugar.

     Inácio olhava o amo, temeroso e aflito. Carlos desceu do cavalo e dirigiu-se às crianças.

     — Menino, podes me dizer onde é a carroça de Esmeralda?

     — Posso. Ide por ali e no fim encontrareis três carroças: a do meio é a dela.

     — Vamos embora, Dom Carlos... digo, Dom Ricardo...

     — Cala-te, homem. Não é Dom, é só Ricardo. E não facilites ou te arranco a língua, assim ficas mudo e nunca mais dirás o que não deves. Fica aqui e espera.

     — Sim, senhor — disse Inácio amargurado.

     D. Carlos segurando o animal pelas rédeas adiantou-se rumo à carroça de Esmeralda. Ao lado, uma velha acendia uma fogueira colocando um tacho sobre ela.

     A carroça de Esmeralda estava fechada. Era de bom tamanho, em comparação com as demais, seus varais descansavam no chão, mas, apesar disso, ela continuava em posição reta, pois havia um encaixe onde os varais se movimentavam, tinha uns dois metros e meio de comprimento por um e oitenta de largo e estava coberta por espécie de lona de cor indefinida. Mas tanto na parte dianteira como na traseira, cortinas de panos coloridos colocavam uma nota alegre no acanhado veículo. Aproximando-se, Carlos chamou:

     — Esmeralda, Esmeralda! — Não obteve resposta. — Esmeralda! — continuou, elevando a voz.

     A velha continuava ao pé do fogo indo e vindo na carroça contígua. Depois de chamar algumas vezes, Carlos dirigiu-se a ela.

     — Mulher, podes me dizer onde está Esmeralda?

     — Para que a queres?

     — Ela me espera. Combinamos ontem em San Agustin. Ela não está? A velha sacudiu os ombros.

     — Deve estar. Mas está cansada e dorme. Melhor não chamar. Ela não vai acordar. É capaz de dormir o dia todo.

     — Disse que ia me esperar — retrucou ele, um pouco contrariado.

     — Disse? É, pode ser. Mas quando dorme, ninguém se arrisca a acordá-la. Fica contrariada e perde a alegria. E quando Esmeralda perde a alegria, tudo pode acontecer.

     — Queres dizer que devo esperar?

     — É. Deves. Se queres mesmo falar com ela, espera que ela mesmo te chame quando acordar.

     Apesar de contrariado, Carlos resolveu esperar. Não era de seu feitio ceder, mas Esmeralda dançara muito e bebera muito vinho também, certamente não possuía sua resistência e não conseguia acordar. Chamou Inácio.

     — Vamos dormir um pouco.

     — Mas eu não tenho sono. Dormi muito bem esta noite.

     — Eu vou dormir. Se queres ficar acordado, não fales com ninguém, nem saias daqui. Quando Esmeralda acordar, chama-me.

     Apesar de não saber quem era Esmeralda, Inácio concordou. Já suspeitava que devia ter rabo de saia na aventura. Apanhou a manta.

     — Onde desejais repousar?

     — Deixa que eu me arrumo.

     — E se esses homens acordarem?

     — O que tem?

     — Não vão nos expulsar?

     Vários ciganos dormiam a sono solto espalhados pelas moitas, alguns ainda conservavam entre os dedos a caneca vazia.

     — Não tem perigo. Deixa-me dormir. Estou cansado. Escolhendo uma moita de capim macio, estendeu a manta e estirou-se com gosto. Afinal, estava mesmo cansado. Um bom sono lhe faria muito bem. Olhou as nesgas de céu azul que apareciam por entre as copas das árvores. Era feliz. Vinte anos, alegria, aventura, amor!

     O rosto de Esmeralda, corado e brilhante, surgiu-lhe na mente entre volteios de dança, o gosto de seus beijos ardentes aqueceu-lhe o coração. Embalado por doce amolecimento, adormeceu.

     Despertou horas depois com um retinir de ferros e um alarido. Esfregou os olhos tentando lembrar-se de onde se encontrava. Avistou Inácio encolhido atrás da árvore.

     — Que diabo fazes aí? — indagou ainda sonolento.

     — Nada. Estava esperando que acordásseis. Tive medo deles.

     — Falaram contigo?

     — Não. Parece que nem nos notaram, mas tive medo. Falam aos berros. Soltam pragas, dão altas risadas, não agem como gentis-homens.

     — Claro que não. Viste Esmeralda? Inácio sacudiu a cabeça.

     — Não saiu da carroça?

     — Não saiu ninguém.

     Carlos perpassou o olhar pelo acampamento. Os homens tinham acordado e movimentavam-se de um lado a outro. As mulheres e as crianças circulavam ao redor das fogueiras comendo batatas e milho verde assados e restos de carne da noite anterior. Alguns bebiam borra de milho. Os homens cuidavam dos animais e dos arreios. Pelo jeito preparavam-se para levantar acampamento.

     — Preciso achar Esmeralda — pensou Carlos.

     Sentiu fome. Tinha provisões que trouxera para viagem. Pedaços de carneiro e pão. Inácio trouxera vinho, mas Carlos estava um pouco enjoado. Comeu e impacientou-se. Dirigiu-se à carroça de Esmeralda.

     — Esmeralda! Esmeralda!

     Não obteve resposta. Não ia esperar mais. Colocou a mão na cortina para abri-la. Violenta chicotada atingiu-lhe a mão crispada.

     Carlos deu um grito de dor e de susto, e furioso procurou a mão que o vergastara. Um cigano alto e muito forte estava de pé ao lado da carroça tendo ainda na mão o chicote que o castigara.

     — Esmeralda dorme. Não pode ser perturbada. E não deves tentar entrar. Se puseres a mão de novo aí, vou usar a espada e garanto que nunca mais terás mão para pôr em lugar algum.

     O cigano falava sem altear a voz, mas seus olhos brilhavam como aço. Carlos percebeu que ele não brincava. Resolveu contemporizar.

     — Ela combinou comigo. Mandou que eu viesse e quer me ver. Somos amigos. Não vou lhe fazer nenhum mal.

     O cigano riu sonoramente.

     — Fazer mal a Esmeralda? Tem graça. Mas se continuares amigo dela e ficares por aqui, tens que fazer o que ela quer. Quando Esmeralda dorme, eu vigio e só quando ela acorda e quer é que se levanta. Agora sai daí e espera, se quiseres.

     A contragosto, Carlos afastou-se da carroça, indo deitar-se novamente em sua manta. Inácio estava pálido.

     — Vamos embora, amo, enquanto é tempo. Isto não é lugar para nós. Esses ciganos vão nos matar.

     — Não vou embora sem falar com Esmeralda. Se ela não me quiser, voltaremos. Mas por enquanto vou esperar.

     — Por que não vamos à vila e voltamos mais tarde?

     — Não adianta. Não saio daqui. Vamos aguardar.

     Resignado, Inácio sentou-se. Mas apesar de fingir descansar, observava os ciganos entre preocupado e temeroso.

     As horas foram passando e Carlos cada vez se impacientava mais. Sentado sob uma árvore, cerrava os olhos fingindo dormir, mas as cortinas da carroça da cigana o atraíam e não conseguia desviar dali sua atenção.

     A atividade do acampamento prosseguia e algumas carroças já atrelavam os cavalos, preparando-se para viajar.

     Carlos irritava-se que ninguém se preocupasse com a cigana. Ela podia até estar doente. Será que ela não pretendia partir?

     A tarde já começava a declinar quando finalmente uma mão nervosa correu a cortina da carroça. A figura graciosa da cigana surgiu fresca como uma flor de manhã. Carlos levantou-se de um salto.

     — Finalmente.

     Ela saltou da carroça com agilidade. E passou por Carlos parecendo não vê-lo. Dirigiu-se aos ciganos com alegria, apanhou uma espiga de milho e a trincou com gosto.

     Carlos mal se continha. Será que Esmeralda não mais se lembrava dele? Irritado, acompanhou-a com o olhar. Ela pareceu ignorá-lo. Brincava com as crianças, chasqueava com os homens, abraçava as mulheres.

     Essa mulher parecia-lhe distante. Não era a mesma que suspirara de amor em seus braços. Certamente já o tinha esquecido. Profundamente decepcionado, Carlos, vendo-a abraçada ao moço cigano que o chicoteara, decidiu:

     — Acho que tens razão, Inácio. Vamos embora.

     O ginete suspirou aliviado. Graças a Deus! Apanhou os cavalos, Carlos juntou seus pertences e desanimado começou a preparar-se para partir. Afinal, sua aventura durara pouco. Puxando o animal pelas rédeas, foi se afastando vagaroso, lançando um último olhar para os ciganos. Não viu Esmeralda. Cabisbaixo, começou a andar pelo bosque, puxando o animal e seguido por Inácio aliviado.

     — Vamos montar para ir mais depressa. Chegaremos antes que escureça.

     — Não podemos voltar para casa. Melhor seguirmos para Madri.

     — Procurar D. Hernandez? Estás louco? Quero liberdade. Deixe-me pensar.

     — Melhor era voltar ao castelo...

     — Cala-te. Quem decide sou eu. Caminharam mais um pouco até que Carlos decidiu:

     — Sim. Vamos para Madri.

     — Vamos viajar à noite?

     — O que tem?

     — É perigoso, amo.

     — Vamos seguir.

     Montaram os animais e rumaram para a estrada que os levaria a Madri. Pelo caminho Carlos ia pensativo. Sua aventura começara mal. Estava exasperado. Esperar por uma cigana como se fosse um criado! Se não estivesse no meio de sua gente, ela não teria sido tão petulante. Haveria de dar-lhe uma lição. Iria a Madri e certamente lá teria oportunidade de vê-la. Talvez tivesse sido um pouco precipitado. Já que tinha esperado tanto, podia ter ficado um pouco mais para ver o que acontecia. Claro que ela o tinha visto, e era ainda mais claro que o tinha reconhecido. Apesar de ter bebido, ela não se embriagara. Estivera lúcida todo o tempo. Mas então, como entender? Seria mulher daquele brutamontes?

     A figura do cigano com o chicote na mão enraiveceu-o. Não podia ser. Se fosse assim, ela não teria abertamente namorado e se exibido com ele. Então como entender? Ela o tinha convidado com insistência para seguir com eles no acampamento. Por que fingira não vê-lo?

     Apesar de tudo, a figura da moça cigana não lhe saía da mente. Que mulher! Jamais conhecera alguém como ela! Apesar de muito jovem, Carlos tivera incontáveis aventuras amorosas. Desde menino demonstrara acentuada vocação para o amor, possuindo aquele encanto que fazia as mulheres se tornarem submissas e apaixonadas, e não se lembrava de nenhuma que tivesse durante muito tempo resistido a suas investidas. O inconstante era ele. Espírito sonhador e apaixonado, mas adulto e mimado, acabava por cansar-se e o que de início fora uma paixão irresistível e avassaladora se transformava em tédio e insatisfação.

     — Ela pensa que sou um pobre-diabo — pensou Carlos com raiva. — Se soubesse quem sou na realidade, iria cair a meus pés. Aquela interesseira!

     Mas ao mesmo tempo sentiu-se derrotado. Se Esmeralda o amasse por seu dinheiro, certamente ele se sentiria um incapaz de conquistar-lhe a preferência, e seu orgulho se feriria ainda mais.

     Mas seu romance com a cigana não estava encerrado. Ela ainda havia de ser dele. Ainda a teria submissa e apaixonada nos braços e teria o prazer de ser seu amo e senhor. "Esmeralda acorda à hora que quer", pensou irritado. Parecia uma rainha. Ninguém ousava perturbar-lhe o sono ou desobedecer-lhe a vontade.

     Teria o gosto de acordá-la quando bem quisesse e determinar o que ela iria fazer. A esse pensamento, sentiu-se mais calmo.

     Foi quando, de repente, ao dobrar uma curva da estrada, viu um vulto e sentiu violenta dor na cabeça, tombando sobre o animal, sem sentidos.

     Inácio berrava por socorro, quando violenta pancada também o prostrou. Três homens montados e vestindo escuro burel procuraram prender os animais de suas vítimas. Desceram e brutalmente jogaram os dois cavaleiros no chão. E ávidos procuraram os haveres que pretendiam roubar. Encontraram as jóias e o saco com o ouro. Levaram tudo, inclusive os animais. Carlos, ainda tonto, abriu os olhos no exato momento em que um deles lhe vasculhava as algibeiras e percebendo a situação reagiu agarrando-o pelo pescoço. Sentindo-se sufocar, o assaltante começou a golpeá-lo com ambas as mãos enquanto os outros dois, em socorro ao companheiro, aplicaram-lhe pontapés. Um deles pespegou-lhe violenta pancada na cabeça. Carlos estrebuchou e perdeu os sentidos.

    

Capítulo II

     Era uma noite estrelada e agradável quando os ciganos começaram a deixar a cidade. Iam alegres e bem-dispostos. Os bolsos cheios e, o estômago farto. Tinham-se divertido nas festas, mas tinham também amealhado recursos para o futuro.

     Pode parecer que eles tivessem vida livre e descontraída, o que até certo ponto era verdade. Seus preconceitos, porém, eram outros, bem diferentes das outras raças.

     Apesar de nômades, não eram imprevidentes e aproveitavam a primavera e o verão para angariar os recursos para o inverno e os tempos difíceis.

     Sergei era um cigano forte e decidido. Príncipe da raça, possuía o mesmo rigor de seus antepassados na liderança de seu povo. Sua palavra era lei. Seu clã contava com mais de cem componentes, e ele exercia a função de chefe, juiz e autoridade suprema. Era muito respeitado por seu povo e tido como homem astuto e capaz. Alguns o consideravam sábio. Sabia ler, e isso exercia incrível fascínio em seus subalternos. Cantava bem como poucos e tocava a guitarra como ninguém antes o soubera fazer. Dançava com leveza e elegância, apesar de seus cinqüenta anos, e ninguém se atrevera jamais a desobedecer-lhe uma determinação. Era tido por homem justo e sem protecionismo a qualquer deles. Cuidava zelosamente dos interesses do grupo. Talvez por isso eles fossem menos belicosos entre si, e embora se tratassem grosseiramente por serem homens rudes, estimavam-se e conviviam pacificamente.

     Suas brigas tinham o sabor de uma disputa esportiva, eram assistidas e festejadas pelo bando todo, que tinha suas preferências, cada um torcia por seu favorito. Mas muitos problemas da vida comunitária deles eram resolvidos assim no murro e na lei do mais forte, de frente e sem favoritismo. Quando alguém incorria em falta que se reputava grave, muitas vezes Sergei reunia os chefes de família, os mais velhos, e faziam um verdadeiro julgamento do culpado, sendo-lhe aplicada a pena que deliberavam necessária.

     Durante a chefia de Sergei, tinham aplicado apenas duas penas de morte, e isso em trinta anos de autoridade. Isso representava nada em uma época em que se matava com muita facilidade, principalmente nas cortes e no mundo tido por civilizado.

     Foram casos de traição violenta, e embora tivessem sido executados os dois ciganos, suas famílias não foram responsabilizadas e continuaram vivendo na comunidade e ninguém jamais mencionou sua vergonha nem se referiu aos dois traidores. Ordens de Sergei.

     Mas nem sempre o grupo era tão pacato. Ficavam furiosos e perigosos quando alguém ameaçava a segurança do grupo ou feria um de seus membros. Eram muito unidos. A vingança de um era de todos. O sofrimento de um era de todos. Embora levassem vida livre, misturando-se ao povo e dele arrancando seus meios de subsistência, intimamente não gostavam de conviver com eles.

     Votavam aos homens de outras raças um desprezo enorme que levantava grandes barreiras e preconceitos. Na verdade, para sermos justos, tinham seus motivos. Olhados como seres inferiores, raros se aproximavam para entreter laços de amizade sincera. Suas mulheres, preparadas desde a infância para exercerem a arte de agradar, dançando, mascateando tachos de cobre, lendo a "buena dicha", eram motivo de grande atração para os homens de todas as classes. E muitos havia querendo corrompê-las ou usá-las ao capricho de suas paixões sórdidas. Muitos deles perderam a vida por isso. Apareciam mortos em locais ermos e se supunha que houvessem sido vítimas de assaltantes, coisa muito comum naqueles tempos.

     Contudo, eram afáveis com todos, desde que não transpusessem o limiar de seus preconceitos ou de sua intimidade. Não admitiam casamentos com homens de outra raça. Nos poucos casos que houvera, as ciganas tinham fugido e nunca mais voltado. Eram tidas por mortas e o caso encerrado. Nunca mais poderiam voltar ao clã.

     Uma a uma as carroças em fila indiana se puseram a caminho ganhando a estrada. Alguns cantavam, outros tocavam e o cortejo seguia tranqüilamente.

     Dois homens de confiança iam à frente, ao lado da carroça de Sergei, que puxava a caravana.

     Esmeralda, sentada na boléia, tagarelava alegre. A seu lado, conduzindo as rédeas, o cigano cujo chicote castigara a impaciência de Carlos.

     — Tu o feriste?

     — Um pouco na mão. Ia perturbar teu sono. Fiz mal?

     — Por certo que não. Fazia tempo que tinha chegado?

     — Logo que clareou o dia. Fiquei de olho. Não tirava os olhos de tua porta.

     — Não falou com ninguém?

     — Só com Zilma. Mas ela o mandou esperar. Parecia impaciente. Gostas dele?

     Esmeralda deu de ombros.

     — É um belo homem. Pode ser que ainda esteja com ele algumas vezes.

     — Cuidado. Pareceu-me arrogante e impetuoso.

     — Sei cuidar deles muito bem. Não queiras agora dar-me conselhos. O outro riu gostosamente.

     — Nunca precisaste deles. És livre como um pássaro.

     — É. Não gosto de nada que me aprisione. Posso gostar, mas amar, nunca!

     O cigano riu e pilheriou:

     — Cuidado, que podes cair.

     — Não, jamais. Esmeralda vai viver! Vai arrancar tudo da vida, mas vai ser protegida sempre. Amar, nunca!

     — Ele me pareceu de linhagem. É nobre?

     — Diz que não. Mas não acredito. Se é rico, não sei. Tem mãos finas e a pele delicada. É homem de trato. Uma coisa posso afirmar: nunca trabalhou.

     — Então só pode ser gentil-homem.

     — É. Quanto a ser rico, não sei, mas descobrirei. Ele me agrada por agora. Se tiver dinheiro, será ainda melhor.

     O cigano de repente tornou-se sério.

     — Deixa-o de lado.

     — Por quê? Nunca te intrometeste em minha vida!

     — Sou teu amigo, amo-te como filha. Quando ficaste órfã, eu te aceitei como se fosse teu pai.

     — Sim. Eu te amo mais que a um pai, embora sejas ainda moço. Mas nunca me pediste nada assim antes. Por que agora?

     O cigano abanou a cabeça indeciso:

     — Não sei, Esmeralda. Alguma coisa me diz que deves deixá-lo em paz. Há tantos moços ricos e belos que seriam felizes por verem teu sorriso.

     Esmeralda riu sonoramente.

     — Estás falando como um velho pai. És muito supersticioso. Acho... As carroças pararam uma após a outra e Miro puxou as rédeas.

     — Por que paramos?

     Um dos cavaleiros percorria as carroças avisando:

     — Dois homens no chão. Quase mortos. Foram assaltados.

     Miro desceu rápido e Esmeralda foi atrás. Chegou ao local onde já um grupo cercava os dois infelizes. Sergei curvado sobre um deles ajuntou:

     — Está mal. Se o deixarmos, morre; se o levarmos, não sei se agüenta a viagem. O que acham?

     Esmeralda aproximou-se abrindo caminho.

     — Sergei. Quero cuidar desse moço. Devemos levá-lo.

     — Acaso o conheces?

     — Sim. É um moço gentil e alegre que conheci nas festas.

     — Achas que podes ajudá-lo?

     — Acho. Se me autorizas, agradeço muito.

     Falava com doçura e sinceridade. Nem parecia a mesma de momentos antes.

     — Está bem. Como queiras. Os ladrões levaram tudo. Levem-no à carroça de Esmeralda. O outro não está tão ruim, Zilma cuida dele.

     Em poucos minutos colocaram Carlos nas almofadas coloridas da cigana. Ela tinha alguma água e começou logo a limpar-lhe o ferimento da testa enquanto o moço gemia, apesar de desacordado.

     Miro, conduzindo a carroça, ia absorto nos próprios pensamentos. A uma ordem de Sergei, as carroças puseram-se a caminho.

     Na carroça, Esmeralda limpara os ferimentos e, percebendo que o moço gemia, derramou-lhe nos lábios uma bebida forte. Em seguida, com cuidado, tirou-lhe a roupa empoeirada e salpicada de sangue, vestindo-o com algumas peças de Miro que estavam ali.

     Tinha grande estima pelo cigano, e sua carroça era como uma continuidade da dele. A cigana olhou bem o jovem e arrepiou-se toda. Rápida, correu as cortinas que protegiam a boléia e sentou-se ao lado de Miro.

     — Miro, precisas olhar para ele.

     — Por quê?

     — Acho que tem espíritos morando com ele.

     — Acha que tem feitiço?

     — Não sei. Talvez não. Mas ele não está sozinho lá dentro. Tem alguém com ele.

     Miro não se perturbou.

     — Acho que tem mesmo. Caiu em poder dos ladrões.

     — Achas que foi por isso?

     — Acho. Os espíritos do mal prepararam as ciladas, já que eles não têm corpo para atacar alguém. Se estivesse bem guardado, não teria acontecido.

     — Tens poderes. Podes dar um jeito. Se não expulsares os maus espíritos, ele pode morrer.

     — Isso faria Esmeralda triste? Ela deu de ombros.

     — Acho que sim. Ele é muito moço e alegre. Cheio de vida para morrer. Depois, sabes que não gosto de perder.

     — Às vezes é perdendo que se ganha — concluiu Miro, pensativo.

     — Não gostas dele?

     — Não se trata disso. Deixemos de lado o mau agouro, o que tem que ser tem força. Ninguém pode vencer o destino. Se te sentes feliz, posso afirmar que ele vai ficar bom. Não precisas temer.

     — Vais vê-lo?

     — Sim. Podes tomar as rédeas e deixar comigo.

     Esmeralda assumiu a direção e Miro entrou na carroça. Olhou a fisionomia inchada do moço e seus olhos anuviaram-se. Mas apesar do que sentia, aproximou-se de Carlos colocando uma das mãos em sua testa.

     Sua fisionomia enrijeceu e ligeiro tremor o sacudiu.

     — Eu te ordeno que o abandones — tornou o cigano com firmeza.

     Carlos estremeceu e contorceu-se como se estivesse sofrendo um ataque. Tentava, mesmo inconsciente, libertar-se da mão do cigano, que por sua vez parecia pregada em sua testa.

     — Eu te ordeno que deixes o moço — tornou ele enérgico. Carlos empalideceu, estremeceu mais violentamente e depois ficou imóvel.

     — Graças dou a nosso Deus.

     Em seguida, benzeu o corpo do jovem murmurando palavras estranhas. Depois tirou uma corrente do próprio pescoço e a colocou no pescoço de Carlos. Feito isso, observou satisfeito que o moço dormia tranqüilo. Tornou à boléia.

     — E então? — quis saber Esmeralda. — Como está ele?

     — Já te disse que ficará bom. Tinhas razão. Estava possuído. Agora está livre. Vamos ver até quando.

     — Ele tem o corpo aberto?

     — Tem. Se não se prevenir, pode entrar outro. Esmeralda sorriu:

     — Eles pensam que sabem tudo e não crêem nos espíritos. Acham que nós somos ignorantes só porque não vivemos como eles. Mas quando estão mal, vêm buscar nossa ajuda. A muitos desses empafiados prestaste serviços. Se quisesses, podias ganhar fortuna.

     Miro sorriu tranqüilo.

     — Tenho o que preciso e vivo muito bem. Se carregasse muito dinheiro, talvez os assaltantes me matassem em qualquer esquina.

     — Nem pareces cigano. Se não te conhecesse, duvidaria de ti.

     — Porque não quero arrancar dinheiro dos outros?

     — Sabes que, se eles pudessem, arrancavam não só nosso dinheiro, mas até nossa vida. Os homens não toleram os de nossa raça. Têm medo de nós e é por isso que nos respeitam. Pois eu, enquanto puder, hei de arrancar-lhes tudo que tiver chance.

     — Apesar disso, não tens muito mais do que eu. Não és rica. Ela deu de ombros.

     — Ainda. Mas vou ser. Quero ser feliz! Miro olhou-a com benevolência.

     — Isso, Esmeralda. Aproveita enquanto podes. Ser feliz é bom. Ela sorriu deliciada e confiante e não viu o travo de amargura nas palavras do, cigano.

     Chegaram a Madri ao entardecer. Já tinham o local onde costumavam acampar e assim que o encontraram foram instalando-se, de preferência perto de um riacho que cortava o bosque.

     Enquanto as mulheres cuidavam das roupas e dos utensílios, os homens faziam o fogo e cuidavam da carne.

     Durante o trajeto tinham parado para negociar com pequenos comerciantes e adquirir gêneros e carne em troca de suas panelas e tachos, canecas e colares que fabricavam durante os meses de inverno.

     Era fora de dúvida que valorizavam ao máximo cada peça, conseguindo preços muito além de seu real valor. Durante os meses de inverno montavam acampamento em Toledo e lá compunham seu trabalho artesanal e quando chegava a primavera já se organizavam para sair pelas cidades, acompanhando as festas tradicionais e tornando-as mais pitorescas.

     É claro que só se desfaziam de suas peças quando não tinham outros recursos, porque geralmente as mulheres, as ledoras de "buena dicha", os músicos, as danças, tudo lhes rendia dinheiro e gêneros, que eles arrepanhavam com presteza. Alguns também surrupiavam o que podiam, com astúcia e ligeireza.

     Viviam assim na fartura, dentro das limitações de povo nômade. Cobriam-se de jóias, de preferência ouro e prata, alguns mais caprichosos incrustando enfeites na madeira de suas carroças e nos arreios dos animais. Por isso, o movimentar dos ciganos, dos animais e de suas carroças era sempre acompanhado de muito ruído, do tilintar dos metais, das correntes e das esporas. Adoravam esporas e alguns havia que as colecionavam com orgulho e capricho.

     Depois de instalados, Esmeralda foi ver Carlos. O moço acordara, mas, ainda meio atordoado e vencido pela fraqueza, tinha dormido novamente. Seu rosto desinchara, mas sua fisionomia parecia pior. Estava pálido e com várias manchas arroxeadas, os lábios intumescidos e rachados. Perdera muito sangue.

     A cigana tentou fazê-lo ingerir um pouco de caldo que pedira a Zilma, quando, assustado e aflito, Inácio apareceu na carroça. Esmeralda olhou-o com um brilho alegre nos olhos.

     — Podes entrar.

     Inácio aproximou-se lívido.

     — Ele está mal. Precisamos de um médico. Achas que posso levá-lo? Esmeralda sacudiu a cabeça.

     — Não podes ainda. Melhor é descansar. Não precisa de médico. Miro cuidou dele. Não vai morrer.

     — Como sabes? — indagou Inácio assustado.

     — Miro sabe mais que médico. Se disse que ele vai sarar, é porque vai. Não precisas ficar com medo. Teu patrão não vai morrer — arriscou ela, astuta.

     Inácio pareceu aliviado.

     — Pobre moço! — suspirou a cigana com fingida tristeza. — Tão belo e tão rico, ser maltratado assim.

     Inácio, sem perceber o jogo dela, tornou convicto:

     — Nem diga! Se D. Fernando souber, me mata!

     — Levaram muitos haveres?

     — Claro — respondeu Inácio, animado pela súbita atenção da cigana. — Tinha até jóias para a família de D. Hernandez em Madri. Sacos de ouro. Levaram tudo, Deus meu! E quase nos mataram. Se D. Carlos me tivesse ouvido, não se teria metido nessa estrada no escuro da noite.

     — Podes ir agora que eu tomo conta dele. Vai, Zilma te dará o que comer.

     — Tens certeza de que ele vai sarar?

     — Tenho — ajuntou Esmeralda, e continuou com ar misterioso: — Miro é mago. Se ele disse que D. Carlos vai sarar, é porque vai. Podes acreditar.

     Inácio pareceu menos aflito. O ar alegre e descontraído da moça, sua beleza, sua atenção para com ele, seus cuidados para com seu patrão o tranqüilizaram em parte. Mas não via a hora de poder deixar aquele lugar estranho e aquela gente perigosa. Só se sentiria seguro quando voltassem para casa.

     A azáfama no acampamento era grande. Água para os animais, lavar roupas no rio, panelas, e banhar-se. Eles podiam viajar vários dias sem se preocupar com a higiene, mas quando paravam perto de um rio, principalmente no verão, não resistiam ao prazer do banho.

     Os homens eram terrivelmente ciumentos de suas mulheres e por isso convencionavam um lugar mais discreto para elas, onde nenhum cigano pudesse chegar, ao passo que eles podiam utilizar-se do rio à vontade.

     Na verdade, muitos havia que não apreciavam o banho. Mas Sergei, com sua autoridade, os obrigava, alegando que o mau cheiro incomodava a comunidade. Alguns havia que eram a contragosto atirados na água, com roupa e tudo, a fim de se lavarem.

     Esmeralda, contudo, adorava o banho. Para ela era verdadeiro ritual, onde permanecia horas inteiras, deliciando-se com a água. Mas ninguém no acampamento se atrevia a espiá-la. Sergei era enérgico e justo. Não tolerava a menor desobediência.

     Assim, depois que acamparam, enquanto Miro cuidava dos cavalos, Esmeralda procurou um lugar sossegado e tranqüilo, despiu-se e atirou-se no rio. Levara um sabão de banho que trocara por uma pulseira em Valença e carregara amarrado em um cordão em volta do pescoço.

     Depois do mergulho, sentou-se na margem e o esfregou pelo corpo todo, inclusive nos cabelos. Depois, atirou-se novamente à água, onde nadou com prazer, deliciando-se com o aroma particularmente perfumado das flores das margens e com o alegre cantar dos pássaros.

     Uma hora depois, a cigana deixou o rio, descansada e feliz, vestiu-se e secou os cabelos, deixando o sol quente da tarde bater em seu rosto.

     Estava com fome. Esmeralda não gostava de cozinhar. Quase sempre, servia-se da comida dos companheiros, que a mimavam oferecendo-lhe as coisas das quais gostava. Esmeralda era muito querida pelos ciganos. Orgulhosa e bela, voluntariosa e altiva, astuciosa e inteligente, era bem um símbolo da raça que os homens admiravam e que as mulheres gostariam de ser. Órfã, era filha de todos. Sergei a estimava como filha. Ninguém dançava e cantava tão bem quanto ela.

     Os homens morriam por ela e os ciganos tinham muito trabalho para protegê-la. Até tentativa de rapto já tinha sofrido. Porém ninguém a dominava. Livre e voluntariosa, tirava dos homens o que podia, sem importar-se com eles quando não mais estivesse com vontade de vê-los.

     Fora ameaçada de morte várias vezes por amantes desprezados, mas todo o bando a protegia, principalmente Miro, que jamais a deixava.

     Sempre que Esmeralda saía ou tinha contato com o povo, Miro ficava por perto. Quando ela dormia, vigiava seu sono. Às vezes chegava ao exagero, a ponto de os companheiros caçoarem dele. Mas Miro não se importava. Havia em seu olhar determinação e um certo receio que procurava não demonstrar.

     Esmeralda, andando de fogueira em fogueira, comeu carne, milho, bebeu chá. Depois, pegando com Zilma uma tigela de caldo, subiu na carroça.

     Carlos, ouvindo-a entrar, abriu os olhos:

     — É verdade! És tu! — murmurou enlevado.

     — Sou. Agora beba. Estiveste mal, mas vais ficar bom. Esmeralda cuidou de ti.

     Ele sorveu o caldo com prazer. Seu rosto cobriu-se de leve suor.

     — Estás enfraquecido. Perdeste muito sangue.

     — O que aconteceu? — indagou ele.

     — Foste assaltado. Roubaram-te tudo quanto levavas.

     — Lembro-me deles surgindo de repente. Lutamos e desfaleci.

     — Passamos pela estrada onde estavas semimorto e te recolhemos.

     — E Inácio?

     — Está muito bem. Carlos suspirou aliviado.

     — Onde estamos?

     — Em Madri. Não fales muito, que estás fraco.

     — Contigo aqui sinto-me muito bem. Ansiava por este momento, estar a teu lado tem sido meu maior desejo.

     — Não parecia. Deixaste o acampamento sem te importares comigo. Ele tomou-lhe o pulso, segurando-a com força.

     — Sabes que não é verdade. Vim a teu encontro conforme o combinado, mas tu fingiste nem me conhecer. Pensei que não quisesses estar comigo.

     Ela riu provocante.

     — Não te emociones, ainda estás fraco.

     — Esta é tua carroça?

     — É.

     — Estive aqui todo o tempo? Dormiste aqui?

     — Sim... a teu lado. Não te deixei um só momento. Ele suspirou contente:

     — E eu dormindo. Como pude?

     — Deliravas.

     — Vem mais perto, dá-me um beijo.

     A cigana curvou-se sobre ele, beijando-lhe delicadamente os lábios ressequidos. Os braços de Carlos envolveram Esmeralda apertando-a de encontro ao peito.

     — Esmeralda! Deste-me a vida! Renasci para ti. Serás minha, viverei para ti.

     Ela deixou-se ficar ali, abraçada, ouvindo as palavras loucas e amorosas que Carlos lhe sussurrava aos ouvidos. Naquele momento, estava submissa e tranqüila, como uma gatinha no colo do dono.

     Nos dias que se seguiram, Carlos foi melhorando rapidamente. A presença de Esmeralda era como um néctar que o chamava para a força da vida. Entretanto, as festas na cidade tiveram início e Carlos desesperado tentou dissuadir a cigana a participar. Seu amor por ela era imenso e exigia-lhe a presença todos os minutos. Juntos, na carroça dela, entregavam-se ao amor sem que ninguém do bando interferisse. Eram plenamente livres.

     Mas a cigana explicou a Carlos que precisava trabalhar na festa. Sua presença era indispensável para o bando. Carlos tentou inutilmente dissuadi-la. Esmeralda tornou-se fria e indiferente.

     — Carlos, vou dançar com os meus. Sem Esmeralda não tem festa. Esmeralda é livre. Não podes obrigar Esmeralda a nada. É bom que saibas. Se queres perder-me, tenta segurar-me. Ninguém diz o que Esmeralda deve fazer.

     — Então não me amas. Vais dançar para outros homens, e eu não vou deixar. És minha. Se outro homem olhar para ti, eu mato.

     Irritado, Carlos levantou-se segurando-a pelos ombros. Apesar de fraco, suas mãos pareciam de ferro.

     — Não gosto de homem ciumento. Se me atormentas, te deixo. Esmeralda é livre e é preciso que saibas. Vou dançar com os meus na festa hoje à noite. Se tentas me impedir, terás que te haver com nossos homens.

     Carlos recordou-se do chicote de Miro. Sabia que Esmeralda não estava brincando. Por outro lado, não tolerava ficar ali, ainda enfraquecido enquanto ela se exibia, toda tentação e beleza, aos outros homens.

     Seus olhos expeliam chispas. Aproximou-se dela, abraçando-a com violência.

     — Esmeralda! És minha! Se não posso obrigar-te pela força, fraco e indefeso, nem enfrentar a ira dos teus, posso dobrar-te com a força de meu amor. Sentirás o fogo que me consome, estarei tão dentro de ti como estás em mim, que nunca mais desejarás outros homens, nem poderás arrancar-me de teu coração. Verás como sei amar. Sei que me pertences, desde que te encontrei. Não me poderás esquecer. Verás.

     Começou a beijá-la com doçura e ao mesmo tempo arrebatamento. A cigana, tensa, fria, toda concentrada na defesa de sua liberdade, sentiu-se estremecer. As palavras ardentes de Carlos penetravam-lhe o íntimo vibrantes e fortes. Esmeralda lutava resistindo, procurando repeli-lo, mas os braços de Carlos pareciam de ferro e fogo queimando-lhe o corpo e um calor brando e irresistível banhou o coração de Esmeralda, derrubando o muro de sua resistência. Suas idéias se perderam nos beijos de Carlos, e suas emoções como uma avalanche irreprimível desabaram sobre seu ser e Esmeralda, pela primeira vez em sua vida, perdeu o domínio da situação, entregou-se deslumbrada e sem pensar ao enlevo daquele instante.

     Durante algumas horas, emocionados e trocando carícias, não conseguiram falar. Depois, deitados nas almofadas coloridas da carroça dela, Esmeralda, rosto encostado no peito moreno de Carlos, tornou submissa:

     — Carlos. Estar contigo é festa para Esmeralda. Se me amares sempre assim, fico contigo.

     Carlos olhou-a nos olhos sem poder falar. Jamais sentira tanta emoção por mulher alguma. Parecia-lhe vibrar a cada momento, só com a proximidade dela. Olhou-a nos olhos, querendo devassar-lhe o íntimo:

     — Esmeralda — disse num sussurro —, nenhuma mulher me fez sentir tanto amor. Digo-te que nenhum outro homem poderá dar-te o que te dei. Somos um do outro, concordas?

     Um lampejo de luta perpassou pelos olhos da cigana. Ela fechou os olhos, sentiu o calor de seus beijos, suas carícias, sua força e cedeu. Por agora deixaria de lutar. Queria estar com ele. Desejava isso com todas as forças de sua alma voluntariosa e livre.

     — Enquanto morares dentro de mim com essa força, estarei contigo. E os dois permaneceram abraçados, corações batendo descompassados frente à violência do sentimento impetuoso e forte que brotara neles.

     No acampamento, o movimento era grande. Os ciganos que iam à cidade participar das festas de rua aprontavam-se com suas roupas mais bonitas e seus adereços mais brilhantes.

     Duas carroças especialmente preparadas, cobertas de panos coloridos, com sua mercadoria pendurada para vender. As mulheres, alegres e falantes; e os homens, com seus cavalos enfeitados e bem cuidados.

     Levavam guitarras e pandeiros, e algumas pinhas secas e preparadas, pintadas com arte, que eles batiam umas nas outras no compasso do ritmo. Esse era um instrumento antigo que eles conservavam por tradição e sabiam preparar muito bem, ao qual davam o nome de "cascuri" ou "cascurra", como vulgarmente era conhecida entre eles.

     Miro estava pronto, com uma túnica bordada e as botas luzindo. Porém havia em seu olhar um brilho triste. Seus olhos não conseguiam distanciar-se da carroça de Esmeralda, que silenciosa parecia estar vazia.

     Entre os ciganos havia um tácito acordo de liberdade. Ninguém obrigava ninguém a nada, porém certos deveres da raça eram exigidos.

     Ganhar a vida, para eles, era dever. Assim como cuidar dos doentes e incapacitados pela idade, com carinho e dedicação.

     Estavam diante de uma novidade. Esmeralda jamais se esquivara da participação no trabalho do bando. Era um ponto forte de atração. Fosse qual fosse a situação, a cigana sempre participara com entusiasmo e alegria.

     Sergei passou uma vista de olhos no grupo preparado para sair.

     — E Esmeralda? — perguntou a Miro.

     — Não saiu ainda — respondeu ele procurando aparentar naturalidade.

     — Temos que ir. Vá saber o que há.

     A passos lentos, Miro aproximou-se da cortina, chamando-a.

     — Esmeralda!

     Sua voz era tímida. Não gostava de perturbá-la quando ela não desejava. O rosto corado da cigana apareceu entre os panos coloridos.

     — Miro — tornou baixinho —, diz a Sergei que não estou bem para trabalhar hoje. Sinto náuseas e arrepios.

     — Esmeralda! — exclamou o cigano com voz triste. — Cuidado! Não entregues teu coração assim. Não te deixes dominar! Tu és livre!

     Ela riu despreocupada:

     — Não te preocupes. Não tem perigo. Hoje não quero ir, é só. Amanhã será outro dia.

     Miro saiu procurando espantar os pensamentos sombrios que lhe ocorriam e dentro em pouco o bando alegre e barulhento se afastava rumo à cidade.

     Na carroça, Carlos, extasiado, não se cansava de cortejar a cigana, que, sem se dar conta, mais e mais se enlaçava nas chamas daquele sentimento de amor.

     Nos dias que se seguiram, o falatório e o descontentamento se alastraram pelo acampamento. Esmeralda, a flor da raça, a dançarina principal, o "mito" do grupo, se recusava a trabalhar.

     Não se importavam com sua vida amorosa, porém o trabalho era sagrado. A contribuição dos mais dotados era exigida como dever à comunidade.

     Carlos exigia, Esmeralda se entregava às emoções novas e alguns passaram a hostilizá-la. Esmeralda procurou Sergei em sua carroça.

     — Sergei, Esmeralda precisa falar.

     — Entra, Esmeralda. Também quero falar contigo. Faz muito tempo que não conversamos.

     — És como meu pai. És chefe de nosso povo. Esmeralda sofre, precisa tua ajuda.

     — O que aconteceu com Esmeralda?

     — Sergei. Estou amando! Amo com todas as minhas forças. Vivo e respiro com ele. Nunca passei isso antes! Podes me entender?

     — Ele não é um dos nossos. Não te fará feliz!

     — Por que dizes isso? Achas que não posso prendê-lo para sempre a meu lado?

     Sergei a olhou com firmeza:

     — Acho. Hoje ele está aqui, contente e bem-disposto. Mas, um dia, sentirá a força do sangue, quererá regressar aos seus. É nobre de estirpe. O que farás, então? Pretendes impedi-lo? Queres nos abandonar? Eles te aceitarão? Serás feliz, presa em um castelo sombrio, sem ver as belezas do céu ou viajar por nossos bosques?

     O rosto de Esmeralda sombreou-se de tristeza, porém esforçou-se por afastar esses pensamentos. Sorriu e ajuntou confiante:

     — Sergei, Carlos ama Esmeralda com muita força. Não vai embora. Quem sabe um dia aprenda a ser um dos nossos. Quero que aproves nossa vida. És nosso chefe.

     — Como chefe, tenho o dever de prevenir-te. Ser cigano é carregar toda a força de nossa raça no sangue. Ele não é dos nossos. Se quiser ficar para sempre, podemos ensinar-lhe nossos costumes, porém ele será feliz vivendo como nós? Pretendes aprisioná-lo fora dos seus por toda a vida?

     — Ele gosta daqui. É feliz ao meu lado. Os pais são severos e duros e Carlos ama a liberdade, a dança, o sol, a música. Será feliz aqui. Dançarei e ele estará também junto trabalhando pelos nossos nas festas. Se deres tua aprovação e teu consentimento, ficaremos felizes aqui, e tudo estará bem.

     Sergei olhou-a bem nos olhos.

     — É o que queres?

     — É. Hoje eu o quero. Amanhã, não sei. Mas é a primeira vez que quero um homem assim. Não posso perdê-lo. Tu me compreendes?

     A voz da cigana era doce e suave.

     — Se eu o perder agora, nunca mais poderei dançar, nem cantar, nem ser feliz.

     — Tu o amas tanto?

     — Amo. Acho que amo.

     — Pois seja, Esmeralda. Amo-te muito. Quero que sejas feliz enquanto podes. Vive tua vida com ele. Falarei a nosso povo para que o aceite. Porém peço-te que participes do grupo, que dances para o povo, mesmo que vivas para teu amor. Eles sentem muito tua falta e não gostam de trabalhar sozinhos. Acham que não foram muito felizes nesses dias porque não foste com eles. Precisas compreender.

     — Querem obrigar-me?

     — Não é por isso. Eles sentem tua falta e mostram-se enciumados do amor que sentes por Carlos. Se queres que eles o aceitem, trata de fazer as pazes com eles, afinal tens o dever de trabalhar com o grupo. Sabes bem que isto é verdade. Nunca te obriguei a nada, apesar de teu chefe e senhor, mas sabes que tenho razão.

     Sergei falava com calma e delicadeza. Esmeralda sentia por ele respeito e acatamento. O apoio que lhe dera, compreendendo seus sentimentos, a deixava grata e solícita.

     — Tens razão — concordou —, vou voltar ao trabalho. Não posso ficar parada para sempre. Esmeralda cumpre seu dever. Carlos tem que pensar como um dos nossos.

     — Isso, minha filha. Se fizeres isso, certamente ele será aceito por todos. Eles te amam. Não querem perder-te. Sabes como adoram ver-te dançar e cantar. Não podes tirar-lhes esse prazer.

     — Vou trabalhar, prometo. E te agradeço a bondade. És mesmo como um pai.

     Beijou a mão do cigano, que procurou esconder um brilho emotivo no olhar. Sergei tivera mulheres, mas vivia só. Tinha um filho de quinze anos que procurava educar dentro dos padrões puros da raça e que era seu orgulho. Esmeralda tocava-lhe o coração de forma especial.

     Amara profundamente sua mãe, Tânia, a linda cigana que um dia saíra do acampamento apaixonada, em companhia de um jovem nobre e belo. Sergei sofrera rude golpe com a fuga da cigana e, durante vários dias, fechou-se em sua carroça desesperado, bebendo sem parar. Porém Tânia se fora, feliz e descuidada.

     Cinco anos depois, foram encontrá-la no sul da Itália, sombra do que fora, doente e com a filha nos braços. Apareceu no acampamento ardendo em febre e desesperada.

     — Sergei, peço-te perdão. Se podes perdoar-me, não me escorraces. Sei que não mereço, mas sofri muito. Os outros não aceitam nossa raça e fui desprezada e infeliz. Não voltei de vergonha. Mas agora estou doente e peço-te que aceites minha filha. Em suas veias corre nosso sangue! É cigana! Não tem lugar para ela no mundo. Só entre os nossos será feliz. Ah! Como me arrependo do que fiz...

     Um acesso de tosse a acometeu, e o sangue colorindo sua boca mostrou a Sergei seu estado. Apesar de ter acariciado a vingança, de ter odiado, sofrido, chorado, Sergei não pôde ficar insensível à transformação daquela mulher. O espetáculo de sua desgraça feriu-lhe o coração e recordando a beleza daquele rosto que amara tanto, o sorriso alegre e contagiante, a frescura daquela pele morena e bela, sentiu forte emoção. O amor que sempre sentira ressurgiu sofrido e forte. Ela voltara! Sofrida e triste. Quem sabe haveria tempo para salvá-la? Quem sabe poderia fazê-la reviver? Agora era experiente, quem sabe ela o pudesse amar?

     Olhou-a curvada, com a criança nos braços e um pano comprimindo a boca contraída.

     — Tânia! Eu te perdôo. Não vais mais sofrer. Eu ainda te amo! Lágrimas grossas corriam pelas faces dela.

     — Como fui injusta contigo! Não mereço teu perdão! Mas posso dizer-te que, quando a ilusão passou, teu rosto não saía de minha frente. Sei o que vales. Como és bom e justo. Por isso quis ver-te antes de morrer. Apesar de tudo, quero confiar-te minha filha. Ela não tem culpa de nada. Quero que a eduques como os nossos para que ela seja feliz como eu era e poderia ter sido até hoje. Toma-a, é tua.

     Sergei segurou a criança nos braços com emoção.

     — Vê como é linda. Esmeralda tem três meses. Peço-te que a adotes. Preciso ir-me embora, não quero que ela apanhe minha doença!

     Sergei, assustado, colocou a criança adormecida sobre o leito e segurou Tânia apertando-a nos braços. Em sua voz havia dor e angústia.

     — Tânia, não te deixarei ir. Se voltaste, não te quero perder mais. Se te arrependes de teres partido, fica. Teu lugar é aqui, entre os de teu povo, que te ama e que nunca te esqueceu!

     Tânia soluçava.

     — Não posso. Fui ingrata, não mereço. Sergei, estou muito doente. Vou morrer! Não quero contaminar ninguém. Deixa-me morrer como mereço.

     — Não posso, Tânia. Quero que vivas. Vamos curar-te. Seremos felizes. Ainda criarás tua filha, que será nossa. Eu te amo, Tânia, com desespero. Não quero que morras.

     — A felicidade não é para mim, Sergei. Não soube apreciá-la. Agora é tarde.

     Sergei não quis ouvir. Entregou Esmeralda aos cuidados de Zilma e instalou Tânia em sua carroça, cuidando abnegadamente de sua saúde. Entretanto, a doença da cigana se adiantara muito e um mês depois Tânia veio a falecer. Mas os cuidados, o carinho, a dedicação do cigano estabeleceram no coração sofrido de Tânia um amor profundo, intenso, que ela procurou expressar de todas as formas e que deu a ele uma gratificação profunda.

     Esmeralda lembrava muito a figura da mãe. Sergei amava-a como filha. Vendo-a envolver-se tal como Tânia nas tramas de um amor perigoso, sofria e preocupava-se por ela. Contudo, não queria ser intolerante como fora com Tânia, que por isso fugira do acampamento. Queria proteger Esmeralda. Acreditava que, não sendo contrariada e podendo dar expansão a seus sentimentos, acabaria por compreender as diferenças da raça e, quando o ímpeto da paixão serenasse, acabaria por desinteressar-se do jovem aristocrata.

     Conhecia bem a cigana, sabia-a exigente e indócil. Não toleraria durante muito tempo o domínio de Carlos. Era livre como o vento. Nunca suportara nenhuma cadeia que não fosse a que seus sentimentos estabelecessem.

     O melhor mesmo era apoiar-lhe as resoluções para que ela se sentisse segura do afeto dos seus no acampamento. Só assim poderia evitar que ela, tal como Tânia, saísse rumo a uma vida tão diferente da sua e que lhe fecharia todas as portas.

     Suspirou fundo e mais uma vez a imagem delicada de Tânia passou-lhe pela mente saudosa.

     — Ah! Se estivesses comigo! Como eu seria feliz!

     Um arrepio inesperado percorreu-lhe o corpo ao mesmo tempo que profunda emoção lhe sacudiu o espírito. Teve a nítida impressão de ver um vulto envolto por uma luz suave deslizar em sua direção. Assustou-se.

     Tânia! Tânia! Parecia-lhe sentir sua presença. Estaria delirando? Teria seu desejo imenso de tê-la perto chamado seu espírito? Súbito receio o envolveu. Teria ela vindo como um agouro? Estaria para acontecer alguma desgraça? A tradição de sua raça rezava que os espíritos dos mortos só apareciam para avisar das desgraças ou para orientar os destinos do grupo quando houvesse necessidade urgente de mudar de rumo. Qual dos dois motivos teria trazido Tânia até ali?

     Aterrado, o cigano ajoelhou-se, murmurando:

     — Tânia, Tânia. Sinto que estás aqui. Por que vieste? O que queres? Aragem suave envolveu o espírito ansioso de Sergei e aos poucos ele foi se acalmando e o receio desvaneceu. Nada mais viu ou sentiu, talvez tudo tivesse sido fruto de sua mente apaixonada e ardente.

     Levantou-se. Estava mais calmo e sereno. Fosse o que fosse, procuraria fazer o melhor. Sua vida era dedicada ao bando e ao filho. Deus faria o resto.

     Esmeralda chegou na carroça pensativa. Precisava ter uma conversa séria com Carlos. Tudo quanto Sergei dissera tinha calado fundo no coração da cigana. Sabia da infelicidade de sua mãe. Não pretendia ser como ela. Além disso, adorava seu povo, sua vida, sua liberdade. Jamais poderia viver encerrada em um castelo enquanto o marido se consumia em viagens e em lutas a serviços de causas sem importância, até que a velhice o impedisse de combater ou a morte o impedisse de envelhecer. Essa era a vida triste das damas e dos nobres. Esmeralda detestava essas coisas. Queria amar, cantar, rir, dançar, viver a vida livremente, sem peias nem proibições.

     Carlos, sentado em um tosco banco de madeira, olhava o céu azul por entre as copas das árvores que a brisa levemente balançava. Aquela vida era boa, pensava, mas um pouco sem objetivos nem segurança. Não fosse pela presença fascinante da cigana, não teria se demorado tanto por ali. Sabia que precisava partir, mas ao mesmo tempo não queria deixar Esmeralda. Sentia pela cigana uma atração irresistível, e por mais que ponderasse voltar para casa, bastava Esmeralda aparecer para que ele se esquecesse de tudo.

     — Em que pensas? — indagou a cigana de chofre, arrancando-o da meditação.

     — Em ti — respondeu Carlos sem pestanejar.

     — Mentiroso. Tinhas o olhar perdido na distância e eu estou aqui bem perto.

     Ela sentou-se a seu lado graciosa.

     — É verdade. Pensava em ti. O quanto te amo.

     — Carlos, preciso falar-te seriamente.

     Ele a olhou preocupado. Sentia a animosidade dos ciganos e a vira conversando na barraca de Sergei. Temia que fosse obrigado a sair do acampamento.

     — Seja qual for o problema, eu não te deixarei. Ela sorriu.

     — Sabes que os nossos estão magoados comigo. É meu povo. Minha família. Aqui trabalhamos todos pelo bando. Não somos aceitos pelas outras raças. Unindo-nos, ficamos mais fortes. Trabalhando juntos, sobreviveremos. Entendes?

     — Acho que sim — resmungou ele preocupado.

     — Os fortes trabalham pelos fracos e cada um dá o que tem. Assim temos tudo. Esmeralda não está cooperando. Os meus estão revoltados e enciumados. Preciso voltar a trabalhar.

     — Queres dizer que vais dançar para os homens?

     — Vou dançar para meu povo! — fez ela irritada. — E, depois, é preciso, se queres permanecer aqui comigo. Se me recuso, é bem capaz de exigirem teu afastamento.

     — Te dizes livre! Não será isso uma imposição? Ela sacudiu a cabeça.

     — Os deveres da raça precisam ser respeitados para que possamos viver. Não entendes porque não és um dos nossos. Por outro lado, se eu cumprir com meu dever, eles não vão interferir em nossa vida. Poderemos estar em paz e serás aceito por todos como um dos nossos.

     — Não tolero que dances para os outros.

     — Todos os nossos homens teriam orgulho de que sua mulher dançasse e fosse aplaudida. Para nós é uma honra! Nem todas podem fazer isso com sucesso. Eu posso! Deves ter orgulho de me possuir. Admirada por todos, mas só vivendo para ti.

     A voz da cigana era doce e meiga. Nem sequer parecia a Esmeralda fria e indiferente. Carlos sentiu que não podia recusar. Não desejava afastar-se dela. Concordaria, mas iria sempre vê-la e acompanhá-la.

     — Está bem — concordou por fim —, se é assim que pensas, eu não posso recusar. Não quero perder-te. Mas estarei por perto e que nenhum homem ouse aproximar-se! Não permitirei.

     — Esmeralda não quer outros homens. Quem resolve isso é Esmeralda. Carlos puxou-a para si e beijou-lhe os lábios tentadores.

     — És minha, não te esqueças disso — murmurou com voz rouca.

     — Serei tua enquanto te amar — tornou ela provocante. — Lembra-te sempre disso. O único laço que nos une é meu amor.

     — Esmeralda — tornou ele com veemência —, dizes isso para atormentar-me. Sabes que nosso amor não vai acabar.

     Ela riu bem-humorada.

     — Não quero pensar no amanhã. Hoje eu te quero e isto basta. Amanhã Esmeralda vai dançar.

     Os olhos da cigana reluziam de satisfação.

    

Capítulo III

     A praça Mayor regurgitava de gente. Passava das nove e a noite descera calma e quente ao brilho delicado das primeiras estrelas.

     Pelo ar, o cheiro agradável dos assados e o vozerio popular. Carrocinhas de saltimbancos exibiam seus números alegres aos apupos do populacho e aos aplausos das crianças aqui e ali.

     Músicos tocavam e o povo dançava em plena praça cantando e sapateando no desafio do ritmo, ao grito dos olés e dos aplausos. Por toda parte, pipas de vinho e rum que o povo comprava e consumia deliciado.

     Os ciganos instalaram-se a um canto, as ledoras de "buena dicha" espalharam-se entre o povo, e os músicos tocavam alegremente.

     Esmeralda dançava! Descalça, os cabelos negros e sedosos soltos sobre os ombros, coberta de colares, os dedos cheios de anéis, parecia que nem pisava no chão. Lábios entreabertos, olhos semi-cerrados na volúpia da música, a cigana parecia irreal.

     Suas saias rodopiavam descobrindo nesse volteio pernas ágeis e bem torneadas e os gritos de entusiasmo do povo pareciam incentivá-la mais e mais aos caprichos improvisados e exóticos de sua dança.

     Respiração presa, Carlos fascinado não podia desviar o olhar do vulto da cigana. Tinha ciúme, mas mesmo assim pôde compreender por que os ciganos se orgulhavam dela. Possuí-la o envaidecia. Na verdade, não devia ser fácil prender o amor de Esmeralda. Pelo que sabia, amada por muitos, era a primeira vez que Esmeralda amava. Sentia-se orgulhoso e feliz. Parecia hipnotizado.

     — Carlos! Que surpresa!

     Arrancado de seu mundo íntimo, Carlos sobressaltou-se:

     — Álvaro!

     Trocaram um abraço entre exclamações de alegria e cumprimentos. Álvaro era sobrinho de D. Antônio Hernandez e amigo de infância de Carlos.

     Seus pais e D. Hernandez eram amigos e nas temporadas da corte costumavam visitar-se, chegando mesmo a se hospedarem por longas temporadas.

     — Com que então estás em Madri! Quando chegaste? Por que não foste à minha casa?

     — Tive alguns contratempos durante a viagem, mas agora estou bem.

     — Estiveste doente.

     — Pior, fui assaltado e ferido, roubaram-se todos os haveres. Inclusive os mimos que trazia para a família de D. Hernandez.

     — Que lástima! Não se pode andar sem escolta por essas estradas. Mas onde estás hospedado? Naturalmente irás para minha casa.

     Carlos abanou a cabeça.

     — Não posso. Estou com alguns amigos a quem devo a vida.

     — Não digas!

     — Pretendo ficar com eles mais algum tempo. E tu, o que contas de bom?

     — Nada. A vida na corte é sempre a mesma. As mulheres, o vinho, as peleas, as intrigas. Os salões estão perdendo seu encanto.

     Carlos sorriu malicioso.

     — Logo tu, a dizeres isso. É por ti que as damas suspiram quando cantas.

     — Não é bem assim... Em todo caso, faço o que posso. Mas, olha, Carlos, que mulher! Jamais vi outra igual.

     Carlos estremeceu. Álvaro, olhos brilhantes, lábios entreabertos, um sorriso alegre, fixara-se em Esmeralda, que sob os aplausos frenéticos encerrara sua dança. Afogueada, com os olhos brilhantes, a cigana sumira para dentro da carroça, enquanto o povo pedia sua volta e os músicos recomeçavam a tocar, concitando o povo a dançar. Mas eles exigiam a volta da cigana e para isso dispunham-se a pagar. As moedas começavam a chover e os ciganos as recolhiam com presteza. Quando Miro julgou oportuno, anunciou que após um pouco de descanso a cigana retornaria.

     Carlos sentiu-se preocupado. Não queria que Álvaro conhecesse a cigana. Queria despedir-se, mas o outro parecia muito à vontade.

     — Buena dicha, senõr? Passado, presente, futuro...

     Uma cigana passava por eles e Álvaro divertido estendeu a mão para ela.

     — Dize-me, o que tenho para o futuro?

     A cigana parou, olhou-o bem como se quisesse penetrar-lhe o íntimo. Depois, séria, tomou-lhe a mão, apalpando delicadamente sua palma.

     — Senhor, homem rico, sereis poderoso, tereis fortuna e poder. Saúde boa, amores fáceis. Há uma mulher que pode elevar-vos ao poder ou atirar-vos no pó das estradas.

     — Queres dizer que uma mulher pode fazer isso comigo? — gracejou Álvaro com ar incrédulo.

     — Fará, senhor. Estou vendo. Cuidado, porque aqui há uma encruzilhada. Não posso ver mais. Só sei que haverá dois caminhos, mas serão decisivos. Não sei qual ides escolher. Não consigo ver...

     — Como não? Não prevês o futuro?

     A cigana o olhou séria. Parecia pálida e um pouco trêmula.

     — Sim, vejo. Um caminho vos levará à glória e ao poder. O outro à destruição e à morte. Tudo por uma mulher! Deus!

     — O que foi? — indagou Álvaro meio agastado.

     — Não posso, senhor. Não posso! Não sei qual ides escolher. Vejo-vos parado em uma encruzilhada e os dois caminhos se estendem a vossa frente. Vejo os extremos onde eles vos levarão. Cuidado! Não sei qual ides escolher. Se for um, será feliz; se for o outro, a tragédia virá.

     — Ora, cigana! Queres assustar-me. Toma estas moedas e vai-te.

     — Mina não quer suas moedas. Guardai-as. Só quer que penseis bem quando chegar a hora da decisão.

     — Por que não queres meu dinheiro? — fez ele irritado. — Por acaso não o achas limpo?

     — Não é isso. Só sei que não devo aceitar vosso dinheiro. Não posso!

     A cigana afastou-se de repente e, antes que Álvaro pudesse segurá-la, sumiu por entre a multidão.

     — Maldita cigana! — fez ele irritado.

     Parecia impressionado. Carlos assistia à cena intrigado. Sabia que os ciganos jamais recusavam o dinheiro, e o comportamento da cigana o deixara muito surpreso.

     — Mulher estranha — murmurou Carlos admirado.

     — Conseguiu tirar-me o bom humor.

     — Bobagem, homem! O que ela disse é fantasia. Mas mesmo que seja verdade, não é tão ruim. Lembra-te que poderás escolher e certamente escolherás o melhor.

     Álvaro sorriu.

     — Tens razão. Deixemos esses ciganos repelentes. Onde vamos?

     — Sinto, mas preciso ir. Meus amigos esperam-me.

     — Sabes o que eu acho? Que andas metido com alguma mulher. Nem sequer me convidaste a conhecer teus amigos. Pela tua cara, que conheço bem, tramas alguma.

     — Se és meu amigo, deixa-me agir à vontade. Amanhã ou depois vou a tua casa.

     — Não negaste, hein, maroto? Bem, eu compreendo. Mas, pelo menos, conta-me alguma coisa a respeito dela. É bonita?

     — Alguma vez tive mau gosto?

     — Está bem. Está bem. Espero-te em casa.

     Abraçaram-se. Quando Álvaro desapareceu entre o povo, Carlos foi à procura de Esmeralda.

     — Onde estavas? — perguntou ela. — Não te vejo faz tempo. Quem era aquele fidalgo?

     — Um amigo meu de infância. Mora aqui em Madri. Estranhou por eu não o ter procurado.

     — E tu?

     — Não quis ofendê-lo. Não disse que estava em melhor companhia.

     — Ou será que tens vergonha de nós? — fez ela, um pouco irritada.

     — Por que dizes isso? Por acaso não te amo e te prefiro a tudo e a todos?

     — Pode ser.

     Esmeralda olhou-o como querendo penetrar-lhe o íntimo:

     — Farias isso publicamente? Serias capaz de dizer a teus amigos fidalgos que amas uma cigana, que vives em nossa carroça e que queres ser um dos nossos?

     Carlos pareceu um pouco embaraçado.

     — Que idéia, Esmeralda! Se estou aqui, é porque quero. Mas sabes que os outros não pensam como eu e certamente enfrentá-los nos traria aborrecimentos. Quero poupar-te.

     — Ah! Queres poupar-me! — fez ela irônica. — Pois se eu te disser que não quero ser poupada, se eu te disser que quero que grites que me amas a todos esses hipócritas decadentes que deitam com nossas mulheres, bebem nosso vinho e vão para casa fingindo respeito, escondendo a podridão e desprezando nossa raça?

     Os olhos dela faiscavam de raiva.

     — Esmeralda — fez ele em tom conciliador —, acalma-te. Sabes que não sou como eles. Eu te amo!

     — Dizes isso, mas no fundo pensas como eles! Não te afinas com os meus. Se pudesses, me levarias para longe dos meus, para um lugar qualquer, mas nunca para a casa de teus pais ou de teus amigos. Deixa-me, Carlos. Talvez seja melhor. Enquanto é tempo, deixa-me. Esmeralda quer viver, ser livre e feliz. Vai embora de minha vida!

     Carlos sobressaltou-se.

     — Não podes dizer isso, Esmeralda. És injusta. Jamais te deixarei! És minha.

     Agarrou-a, abraçando-a com força, beijando-lhe os lábios úmidos. O coração da cigana batia descompassado.

     — Esmeralda — sussurrou Carlos em seu ouvido —, se não te apresentei a Álvaro, foi por ciúme. Ele é um belo homem e estava entusiasmado com tua dança. Estou certo que te desejou. Não quero que o conheça.

     Esmeralda sorriu. Toda sua raiva desapareceu. Essa linguagem ela podia entender.

     — É um belo homem — disse provocante. Carlos apertou-lhe o braço com força.

     — Não me provoques. Se olhares para ele, te arrependerás, eu juro! Carlos estava pálido. Esmeralda olhou-o com doçura:

     — Sabes que te amo. Agora deixa-me. Vou dançar. O povo me chama.

     Realmente, as vozes lá fora chamavam pela cigana e a música convidava a dançar. Carlos saiu e recostou-se na carroça enquanto Esmeralda, espicaçada pela assistência, rodopiava envolvente. Mas o rapaz não estava tranqüilo. Seu amor por Esmeralda era violento. Aonde o levaria?

     Lembrou-se de Álvaro e do comportamento da cigana. Se fosse com ele, compreenderia porquanto ele sim estava numa encruzilhada por causa de uma mulher. Mas Álvaro, tão insensível às mulheres, usufruindo sem dar, despertando paixões sem corresponder, sempre senhor de si, era impossível. Fantasias da cigana, com certeza. Mas com que fim? Recusara o dinheiro dele. Por quê? Eles faziam tudo aquilo por dinheiro. Isto o intrigava realmente.

     Foi perdido em seus pensamentos que Carlos permaneceu o resto da noite. E quando de madrugada voltando ao acampamento, conduzindo a carroça de Esmeralda, vendo-a cansada e alegre sentar-se a seu lado, perguntou:

     — O que pensas da "buena dicha"?

     — "Buena dicha”?

     — Sim. Das profecias que os teus fazem às pessoas.

     — Por quê?

     — É só para ganhar dinheiro, não é?

     — Não crês nas predições? — perguntou ela admirada.

     — Ora, Esmeralda, tu mesma já falaste sobre alguns truques para arranjar dinheiro...

     — É verdade. O povo gosta de saber o futuro.

     — E os teus se aproveitam. Inventam histórias, mentiras.

     — Nem sempre. Eu acredito nas visões e nas profecias. Por que perguntas? Nunca te vi interessado nisso.

     — É que Mina teve um comportamento estranho com Álvaro, intrigou-nos muito.

     — Eu não duvidaria de Mina. Ela é iniciada nas forças do bem e do mal.

     Carlos sentiu um arrepio pelo tom da cigana e relatou-lhe a estranha predição.

     — E depois, o que é mais raro, recusou as moedas, não é estranho?

     — Não. Ela sabe que quando tem uma visão real e prediz alguma coisa, não deve receber dinheiro por isso, para não perder o poder.

     — Mas se ela tem esse poder, por que o dinheiro a faria perdê-lo?

     — Não sei. Não entendo dessas coisas. Não sou iniciada. Mas sei que quando Mina recusa o dinheiro, é porque fala a verdade.

     Carlos permaneceu pensativo.

     — Seria bom que teu amigo fidalgo a escutasse. Mas deixemos essas coisas, Esmeralda está cansada.

     — Estamos chegando.

     Naquela noite, Carlos custou muito a conciliar o sono. A figura do amigo de infância vinha-lhe à mente de quando em quando e nesses momentos não podia evitar uma apreensão, como um sobressalto que a custo procurava vencer.

     No dia imediato, o acampamento custou a acordar. Apenas as crianças e algumas mulheres que não tinham participado da festa estavam em atividade.

     Carlos despertou cansado e mal disposto. O sol ia alto e ele levantou-se. Procurou algo para comer. Mastigando um pedaço de pão, saiu da carroça e procurou algo para tomar. Miro estava perto de uma fogueira com uma caneca na mão.

     — Pela sua cara, acho que não está bem — fez bem-humorado. — Temos leite. Vi uma vaca e consegui um bom balde. Nada mau depois do vinho.

     Carlos aceitou a caneca automaticamente.

     — Mina já levantou? — indagou Carlos pensativo.

     — Que queres com Mina? — perguntou Miro curioso.

     — Falar-lhe. Ontem a vi prevendo o futuro e fiquei interessado.

     — Queres ler a "buena dicha"? Eu mesmo posso fazer isso. Não sabes que também sou iniciado?

     Miro falava em tom de brincadeira, mas Carlos sabia que dizia a verdade. Miro também fazia parte dos verdadeiros conhecedores desses poderes.

     — Não é propriamente para mim. Mas ontem ela predisse algo a um amigo meu. Fiquei preocupado.

     — Se queres, podes procurá-la naquela carroça, mas estou certo de que não te dirá nada.

     — Achas que se recusará?

     — Acho que já esqueceu. Não sabes, mas as visões surgem sem esperar e se vão da mesma forma. Não creio que te possa ajudar.

     — Ainda assim quero vê-la.

     — É ali. Podes chamá-la.

     Carlos engoliu o leite morno, depositou a caneca nas pedras da mesa improvisada e decidido foi à carroça de Mina.

     — Mina, posso entrar?

     A voz da cigana respondeu prontamente.

     — Espera um pouco.

     Segundos depois, sua mão morena arrepanhou as cortinas que serviam de porta da carroça, e ágil saltava ao chão ao lado de Carlos.

     — Melhor conversar fora. Gilka dorme. Não quero despertá-la. Carlos se esquecera da pequena filha de Mina.

     — Preciso falar-te.

     — O que queres? Nunca me procuraste.

     — Ontem na praça, tua visão. Quero que me esclareças. Estou preocupado com meu amigo.

     — Nada tens com ele. Deixa-o em paz. Não o procures. O rosto da cigana era sério.

     — Não posso evitar. É meu amigo de infância, nossas famílias se estimam e se visitam. O que viste com ele? Qual a visão que te fez dizer tudo aquilo?

     — Minha parte fiz. O recado já dei. A visão se apagou e não quero buscá-la de novo. Nem quero envolver-me com ela. Deves fazer o mesmo.

     — Não podes me dizer nada? Vais deixar-me tão intrigado?

     — De que te adiantaria conhecer cenas do futuro, pedaços de um acontecimento que virá?

     Carlos não se deu por satisfeito:

     — Mina, não me deixes sem resposta. O que queres dizer com isso? Não entendo dessas coisas, mas gostaria de apaziguar meu espírito. Sempre que penso no que disseste ontem, sinto um aperto no coração. Por acaso tua visão não se referia a mim? Não terias te equivocado atribuindo-a a ele?

     Mina olhou fixamente para o rosto expressivo de Carlos. Depois disse com voz firme:

     — Sei o que sentes, e o que se passa em teu coração. O amor cigano tem seu preço. E não sei se estarás disposto a pagar. Mas minha visão foi com ele. Isso posso afirmar. Jamais me engano nessas coisas. Não penses que conheço todo o futuro e que tenha entrevisto todos os acontecimentos. O poder da visão se manifesta de repente. Por um instante, sem que eu tenha pedido, sinto um frêmito, um tremor, e sei que ela vai acontecer. Todos os meus sentidos se aguçam na espera e então tenho diante dos olhos cenas rápidas de acontecimentos futuros. Elas desaparecem e eu as esqueço logo.

     — É curioso. Pensei que soubesses tudo! A cigana balançou a cabeça.

     — Te enganas. Pelas cenas que vejo, posso pressentir os perigos, ou sossegar os corações aflitos. Sei quando vão acontecer coisas boas ou más, mas por que ou quando ou como vão acontecer, isso não sei.

     — Estranho poder o teu. Mas de que te serve se não podes compreender tudo?

     — Não sabes o que dizes. Ele tem sido útil a minha gente. Consigo ver o essencial. E não quero saber demais. Como poderia viver conhecendo o futuro de todos e sem poder impedi-lo de consumar-se? Já é difícil e doloroso para mim prever o futuro.

     — Álvaro não acreditou muito no que disseste. É desconfiado e descrente.

     — Lembrar-se-á de mim quando chegar a hora da decisão.

     — E não podes prever o que ele vai escolher?

     — Pude ver o fim dos dois caminhos. Um leva à felicidade, o outro à tragédia, mas a escolha é decisão dele.

     Carlos suspirou um pouco decepcionado. Esperava maiores esclarecimentos.

     — Se queres um conselho: evita-o. Não o procures nem te ligues a ele.

     — Não posso ajudar?

     — Não terás condições para isso.

     — E quanto a mim, meu futuro e o de Esmeralda, não sabes de nada?

     — Já te disse que a visão ocorre sem que eu queira. Não tenho poder de produzi-la à vontade. Mas és muito invejado. Toma cuidado com isso. Não te descuides.

     — Como assim? A cigana sorriu:

     — Não és cristão? Teu Deus não tem força para te proteger?

     — Achas que devo ir à igreja?

     Ela riu gostosamente. Seu rosto magro e ossudo tornava-se mais suave quando ria.

     — Se acreditas que Deus está encerrado entre as paredes tristes e frias de uma casa de pedra e que de lá pode ajudar-te, realmente tenho pena de ti.

     — Porquê? — fez Carlos picado.

     — Porque teu Deus é muito pobre. Não te poderá ajudar muito. Nosso Deus é muito mais poderoso!

     — Falas como herege. Deus é um só para todos.

     O rosto da cigana distendeu-se. Seus olhos pareciam perdidos no horizonte infinito:

     — Os brancos não sabem enxergar o verdadeiro Deus. Ele é grande e poderoso. Está em tudo. Podemos sentir sua presença no céu, nas estrelas, no sol, nas árvores, nas flores e nos rios, ele é a força da vida.

     A voz de Mina era firme e adquirira modelações suaves. Carlos a olhava admirado. Ela prosseguiu:

     — Se queres ajuda, conversa com ele em teu coração. Ele te dará proteção e força. Agora esquece tudo. Deixa teu amigo em paz.

     Carlos se afastou impressionado. Miro continuava assando carne no fogo, absorto em seus pensamentos. Carlos aproximou-se.

     — Estranha essa mulher. Diz coisas que nunca ouvi. Acho que não é muito certa da cabeça.

     Miro soltou uma risada.

     — Mina te perturbou? Carlos deu de ombros.

     — A mim, não. Mas ela é diferente, sobrenatural. Diz coisas, muda a voz de repente, parece possuída. Se os inquisidores a virem, está perdida.

     — Eles não se metem conosco. Nossos punhais são tão afiados quanto suas máquinas de tortura. Podemos sumir com eles antes que a malta de seus asseclas dê pela coisa. Por que os mencionaste? Por acaso os conheces?

     — Não me honraria conhecê-los. Não sou afeito às coisas da religião. Tenho-os visto entrando e saindo na corte, ou na casa de meu pai. Levando nosso ouro, e sei até que têm imposto sua vontade a El-rei. Acho-os intrigantes e falsos. Usam sotaina, mas surpreendi alguns em trajes falsos nas tabernas onde as mulheres e as bebidas jorram em abundância. Se pudesse, desmascarava-os a todos. Miro estava sério.

     — É prudente não te meteres com eles. Nunca se sabe até onde chega sua maldade. Não terias poder para lhes fazer oposição. Parecem donos do mundo. Trazem as pessoas escravas a seus ardis, manietadas e subjugadas. Fazem isso porque houve os que se submeteram, mas nós somos livres. Eles nos temem.

     — Nunca procuraram aproximar-se?

     — Várias vezes tentaram subjugar-nos. Pela força, pela perseguição e até pelo ouro. Mas Sergei sabe como enfrentá-los. Não confia na hipocrisia. Fez sentir o peso do poder cigano. Até que eles resolveram nos deixar em paz, desde que não nos metamos com eles. Assim, temos vivido há já algum tempo.

     Carlos estava interessado. Enfrentar os inquisidores e vencê-los fora um dos sonhos heróicos de sua adolescência. Detestava aqueles vultos negros circulando pelo castelo de seu pai, delatando suas traquinices, levando o dinheiro paterno, interferindo nas decisões de família, revelando uma cupidez insaciável e um fanatismo que o irritava.

     Por que seu pai, tão austero, tão senhor de si, tão honesto, se submetia? Sempre se revoltara quanto a isso, mas o assunto era intocável. E toda vez que o mencionava era punido severamente. Seu pai recusava-se a lhe dar alguma razão ou explicação para aquela subserviência, tão em desacordo com sua altivez e sua honra de fidalgo honesto e valente.

     As histórias que circulavam entre os jovens de sua idade sobre os inquisidores eram de estarrecer. Sempre a injustiça vencendo, a mentira, o embuste, a maldade derrotando os bons, os humildes, os honestos.

     Impossibilitado de fazer algo, de poder vencer essa força arrasadora, Carlos procurara omitir-se desses assuntos, evitando-os para que sua revolta não o fizesse tomar atitudes perigosas e inúteis.

     Nunca conversara sobre isso com os ciganos. Saber que tiveram a coragem imensa de enfrentá-los era glorioso. Carlos vibrava só de pensar.

     — Queres dizer que houve época em que se combateram?

     — Houve. O sangue jorrou de parte a parte. Mas cigano não ataca ninguém. Cigano toma alimentos e dinheiro para poder viver. Não vivemos fincados na terra. Nossa casa muda-se com a estação, não plantamos a terra, não temos como comer. Levamos ao povo nossa alegria, nossa música, nossos tachos e objetos de adorno; em troca, queremos alimentos, roupas, paz. Jamais agredimos alguém. Mas precisamos nos defender, não toleramos agressão.

     Miro sentou-se no chão e Carlos sentou-se a seu lado. Permaneceu silencioso alguns instantes. Carlos perguntou:

     — Miro, não seria melhor que teu povo fundasse uma vila ou cidade e procurasse cultivar a terra, criar animais para viver? .

     Miro o olhou pensativo.

     — Impossível. A alma de nosso povo pereceria em pouco tempo. Nossa natureza é livre e não suportaríamos a monotonia de um só lugar.

     — Os nossos acham que tomar o que não lhes pertence é roubar. Tu e os teus acham isso natural.

     Miro riu despreocupado.

     — Também pensas como eles?

     — Bem... Eu não tomaria nada a ninguém.

     — Pois morrerias de fome. Posso te garantir. Nós ciganos temos vida simples. Queremos comida e bebida farta, alguns panos para cobrir o corpo, alguns enfeites para alegrar nossos animais, nossas carroças e tornar mais belas nossas mulheres. Vivemos com pouco. Todos somos iguais no bando. E até nosso chefe ouve nossas dificuldades e procura resolver nossos problemas. Somos fortes porque somos unidos. Mas os fidalgos, como tu, ficam escravos do ouro. Apodrecem nesses castelos cheios de mofo, cobertos das maldições de seus feudos que trabalham de sol a sol, plantando a terra para encher vossos celeiros, levando vida miserável de fome, de doença, sem alegria de viver. O senhor de tudo, fidalgo do castelo, sacrifica a mulher, trancada em suas paredes de pedra como numa masmorra, prende seus filhos, dando as filhas em casamento a velhos ricos e desapiedados e os filhos nas batalhas inglórias das guerras sem sentido. E ajuntando tudo para dividir com os padres, que usufruem, dominam e arrasam tudo. Quem é mais feliz: nós ou eles?

     Carlos estava admirado. Por estranho que pudesse parecer, o cigano tinha razão. Entre a vida monótona e pesada de seu castelo, mil vezes o acampamento cigano. Pela mente de Carlos passaram cenas de sua infância, a resignação da mãe sempre cerrada em suas salas e sem acesso às decisões familiares. Uma onda de tristeza o acometeu. Amava a mãe. Certamente sua prolongada ausência iria preocupá-la.

     Sacudiu a cabeça tentando afastar as idéias tristes.

     — Acho que tens razão, Miro. Aqui se vive feliz e livremente. Eu prefiro esta vida à que levava na casa de meu pai.

     — É. Preferes esta vida, mas não sei se com o tempo continuarás pensando assim.

     — Amo Esmeralda. Gosto daqui. Ficarei para sempre. Miro o olhou com um brilho indefinível nos olhos.

     — Vamos ver. O chamamento familiar é muito forte. E a ambição é traço marcante entre os fidalgos. Muitos crimes temos visto por causa de heranças e ouro. Conseguirás resistir?

     A voz do cigano penetrou fundo o coração de Carlos. Essa pergunta ele se recusava a formular no próprio íntimo. Temia o conflito, receava a hora da opção definitiva e absoluta. Pressentia que a força das coisas a colocaria em seu caminho, recusava-se a pensar nisso. Queria retardar o mais possível.

     — Estamos falando de assuntos muito sérios. Mas eu gosto de Esmeralda, gosto daqui, gosto muito. Gosto desta vida. Gostaria imensamente de ser um dos vossos.

     — Seria melhor para ti e para Esmeralda. Mas não tens sangue cigano. Não pensas como nós. E um dia o apelo de teu povo te chamará a outros caminhos. Então, não sei o que decidirás. É a força das coisas. É a luta. Amar Esmeralda e ela te amar foi fatalidade. Desejo que ela não sofra. Se a ferires, podes ter certeza de que ferirás a mim também. Eu a defenderei contra tudo e contra todos.

     O olhar de Miro fuzilava de emoção. Carlos sentiu um arrepio desagradável. Procurou sorrir.

     — Podes estar tranqüilo. Jamais magoarei Esmeralda. Eu a quero muito. Agora vou ter com ela. Apreciei conversar contigo. Gostaria de ser teu amigo. Falo com sinceridade. Faz-me falta alguém para trocar idéias, e como és amigo de Esmeralda, eu te admiro e respeito.

     Miro sorriu descontraído. Carlos falava com sinceridade e Miro observou:

     — Eu também te admiro. Conquistar o coração de Esmeralda foi tua maior vitória. És sincero e simples. Podemos ser amigos.

     Apertaram as mãos.

     — Talvez possas ensinar-me alguns de teus truques de montaria. Miro deu uma piscada maliciosa:

     — Posso, desde que me ensines a conquistar as mulheres. Deves ser mestre nesses assuntos.

     Carlos saiu alegre e bem-disposto. Conversar com o cigano o fizera esquecer um pouco os problemas de Álvaro. O mau presságio se esvaíra. Miro era um homem muito interessante. Poderia contar-lhe coisas e aspectos da vida daquele povo, que julgara tão atrasado mas que se revelava mais feliz e mais sábio do que os pretensiosos fidalgos que tanto alarde faziam de seus poderes e não passavam de escravos enfatuados e tristes de uma sociedade corrompida e devassa.

     Viver ali, livre e com o amor de Esmeralda, não era uma felicidade?

     Entrou na carroça onde a cigana ainda dormia e abraçou-a com carinho. Olhando seu rosto delicado e adormecido, aconchegando a seu peito, pensou comovido:

     — Está decidido. Ficarei para sempre contigo, Esmeralda. Nunca te deixarei.

     E cansado pela noite mal dormida, sentindo o brando calor de Esmeralda junto a si, suavemente adormeceu.

    

Capítulo IV

     A tarde morria no acampamento, mas o movimento ainda era grande. Preparavam-se para partir. O outono ia em meio e havia movimento na cidade, onde a maioria cuidava de se abastecer para o inverno.

     As donas de casa cuidavam de suas conservas e de suas carnes, que deveriam sustentá-los nos dias difíceis de inverno. Os ciganos não tinham celeiros nem gêneros para armazenar, mas tudo quanto puderam obter nas festas de verão, e ainda durante o outono, procuravam acomodar nas pitorescas carroças onde viviam.

     Para eles o outono era mais curto, porquanto o verão se alongava ao máximo. Profundos conhecedores da natureza, com a qual viviam em constante contato, estabeleceram um roteiro que lhes permitia acompanhar a estação quente viajando com ela. Observavam atentamente as árvores e as aves, cuja migração e ciclo conheciam perfeitamente e, de acordo com seus sinais, resolviam também a viagem e o rumo.

     Tinham saído de Madri rumo a Contrera, Córdoba e Cáceres. Seguiram pelo litoral parando em S. Eleutério e El Príncipe. Barcelona e Alcântara. Agora rumavam para Toledo, onde deveriam permanecer mais tempo.

     Sergei marcara a saída para a madrugada seguinte e as atividades eram muitas. Durante o verão, acondicionavam as roupas de inverno no fundo da carroça e colocavam as almofadas ou o colchão de penas de ganso por cima. Agora tinham que fazer o contrário. Tirar a roupa quente, os acolchoados e os agasalhos e guardar as roupas de verão. Deveriam ainda acomodar os objetos e víveres que tinham conseguido para consumir durante o inverno. Os tachos, os arreios e enfeites tinham sido vendidos e levavam dinheiro, com o qual pretendiam adquirir o que precisassem.

     Carlos, curioso, observava o movimento e seu criado aproximou-se. Durante todos aqueles meses, Inácio permanecera no acampamento com a vida que pedira a Deus. Fizera amizade com vários ciganos que a princípio riam-se dele, mas que depois percebendo-lhe a humilde dedicação e a limitada inteligência se acostumaram com sua presença.

     Perdendo o medo dos primeiros tempos, e sem coragem de ir-se embora abandonando o patrão, mostrou-se prestativo e útil, e acabou tornando-se aceito e até querido, principalmente das mulheres, cujos afazeres mais pesados aliviava, cooperando. Ia buscar água, acendia o fogo, cortava lenha, apanhava frutas, brincava com as crianças, cuidava dos doentes.

     Com isso, granjeara a simpatia e era solicitado por elas, que lhe ofereciam guloseimas e até roupas. Ele sentia-se livre e querido. Aproximou-se de Carlos, olhando-o com curiosidade.

     — Senhor, vamos com eles?

     — Certamente.

     — Não vamos voltar ao castelo de D. Fernando?

     Carlos franziu a testa preocupado. A figura delicada da mãe surgiu-lhe na mente e sentiu funda saudade. Mas reagiu:

     — Não penso em voltar por agora. Estamos bem aqui. Por acaso queres ir embora?

     — Oh! Não. Gosto daqui.

     — Então deixemos esse assunto. Vamos ajudar Esmeralda.

     Mas Carlos não conseguia esquecer. As saudades do lar eram fortes e pungentes. Esmeralda observou pensativa:

     — Estás triste. Por quê?

     — Não gosto do inverno. Sempre me põe triste. Amo o sol, a luz, o calor.

     A cigana deu de ombros.

     — Não se pode mudar a natureza.

     — É. Se eu pudesse, mudava. Ela riu.

     — Falas como criança.

     Carlos procurou sorrir, mas sentiu o coração apertado. Tratou de reagir. Abraçou a cigana com força.

     — Esmeralda, deixa isso e fica comigo. Ela riu distraída.

     — Espera. Deixa-me acabar.

     Mas Carlos não podia esperar, estreitou-a ainda mais, mergulhando nas emoções que Esmeralda lhe provocava, beijou-lhe os lábios com ardor. A cigana retribuiu e Carlos, naquele instante tendo a mulher amada entre os braços, esqueceu sua preocupação, sua saudade. Esmeralda era sua força, sua vida, seu alento. Ficaria a seu lado para sempre.

     Os dias que se seguiram foram monótonos e tristes. Tinham partido de madrugada. Uma chuva persistente e fria caía sem cessar, dificultando a marcha pelas estradas, transformadas em lodaçal, e um vento frio soprava prenunciando o inverno.

     Carlos não conseguia dissimular o tédio. Presos na carroça pelo mau tempo, o rapaz se sentia abafado e inútil. Esmeralda, sentindo-lhe a má disposição esforçava-se por tornar a habitação mais confortável. Tinham lenha seca e a cigana acendera branda fogueira no aquecedor. Chegara até a preparar milho para ele, assando-o com cuidado no curioso e primitivo aquecedor que conforme a necessidade também podia esquentar o chá ou assar o milho e até, se a chuva fosse muito demorada, assar um pedaço de carne. Era feito de ferro e consistia numa caixa com pequena abertura lateral e uma grelha por cima; atrás, um grosso cano de latão fazia as vezes de chaminé, conduzindo a fumaça para o alto da carroça e jogando-a para fora.

     Esmeralda não gostava de cozinhar e sempre comia com os companheiros, mas agora cuidava de seu homem com amor. A viagem se arrastava, morosa, e as crianças em grande parte estavam doentes e irritadiças. Parecia que o humor dos ciganos mudara. A maioria adorava o sol, as flores, o verão. O inverno era-lhes penoso sacrifício que tinham aprendido a suportar com coragem, mas que lhes roubava a alegria de viver. O vinho era usado com insistência e muitos tornavam-se belicosos e irascíveis. Brigavam com as mulheres e disputavam com os amigos por questões insignificantes.

     Os velhos viviam medrosos porque a cada inverno sempre os mais enfraquecidos morriam. Sergei precisava manter a vigilância a fim de conseguir preservar a paz e a saúde de todos. Com dificuldades e sacrifício, carroças quebradas e consertadas com paciência, chegaram a Toledo, onde se instalaram, perto da cidade.

     Puseram as carroças em círculo, para protegerem-se do vento frio, e no centro armaram algumas barracas.

     No dia seguinte os homens foram à cidade para adquirir o material que precisavam para trabalhar, porquanto em Toledo, embora extraíssem a matéria-prima e a ligassem preparando-a para uso, não se dedicavam a labor artesanal. E os trabalhos originais e pacientes dos ciganos eram muito bem recebidos pelos nobres e viajantes da cidade. Havia, nas montanhas, várias forjas onde se podia negociar o cobre, o estanho e o latão.

     Tinham já os conhecidos dos quais obtinham a matéria-prima pagando ou negociando seus arreios e objetos artesanais, inclusive de metal. Os comerciantes dedicavam-se mais à ferração dos animais do que aos objetos de adorno ou utilidades domésticas.

     Carregando sacos com os pedaços de metal, os ciganos, de volta ao acampamento, montavam um tripé na frente da barraca e sobre ele o fogareiro, o malho, a bigorna, todos os seus instrumentos de trabalho.

     Enquanto as mulheres cuidavam de conseguir comida, lendo a "buena dicha" pelas vizinhanças, eles começavam a trabalhar. Eram tempos duros e difíceis. As ciganas faziam verdadeiros milagres conseguindo guloseimas nos castelos da redondeza, predizendo o futuro, vendendo amuletos e ervas para as doenças, e o que era mais importante: filtros do amor, de várias graduações e para todos os casos.

     Havia-os para ser atraente, para conquistar um jovem da nobreza ou velho fidalgo. Para manter a beleza e a mocidade, para o fidalgo conquistar o poder, o dinheiro, a mulher do outro ou a jovem amada. Para manter a saúde, contra a impotência e até ervas abortivas. Nada faltava nos bolsos ocultos e na roda das saias das ciganas.

     O povo as temia não só pelos roubos e embustes que praticavam, mas principalmente pelas maldições que lançavam sem dó nem piedade sobre quem se furtasse a atendê-las ou dar-lhes algo.

     Assim, fascinando alguns, atemorizando outros, agradando a muitos, pelas predições felizes e sugestões para o futuro, conseguiam arrecadar de tudo. Roupas, adereços, guloseimas, frutas, jóias, tudo servia, tudo levavam. Chegavam ao acampamento e com Sergei dividiam o produto do dia. Podiam ficar com o que gostassem de enfeites ou roupas, mas tinham que dividir igualmente a comida.

     As pessoas velhas e as crianças tinham que ser vestidas por elas. As que tinham família cuidavam dos seus; as que não, davam uma parte para as outras. Estavam tão habituados a este sistema que raramente discutiam pela posse das coisas. Tudo era de todos, mas se houvesse alguma dúvida, Sergei decidia, e como era o chefe, justo e estimado, a disputa cessava aí.

     Esmeralda saía com as mulheres, o que irritava Carlos. Não gostava de vê-la esmolando nas cozinhas dos palácios ou ludibriando os outros. Sabia o desprezo que os fidalgos nutriam em relação aos ciganos e não desejava expô-la a esse vexame.

     Havia também o receio de que alguns se interessassem por ela, tão linda e insinuante. Sabia com que facilidade os homens vencem os preconceitos quando se trata do amor de uma bela mulher. Socialmente consideravam os ciganos seres desprezíveis, mas não hesitavam em conquistar suas mulheres para satisfação de suas paixões e de seus vícios pessoais.

     Carlos estava irritado e nervoso. Se durante aqueles tempos se sentira pouco aceito pelos ciganos, isso não o afetara muito porquanto tudo era alegria, sol, luz, música e festa. A natureza perfumada, alegre e o acampamento era um agrupamento fascinante, festivo, onde os sons das guitarras e o crepitar do fogo se misturavam ao luar safiríneo e à brisa perfumada. Tudo era beleza, cor, dança, luz, perfume, amor.

     Agora, o que restava? Frio, céu cinzento, rostos vermelhos pelo vinho, crestados pelo vento e pelo calor do fogo. Irritados e praguejantes, meio bêbados e mal-humorados. As mulheres ausentes o dia inteiro, como mendigas de porta em porta, suportando os maus tratos e distribuindo mentiras, ilusões, por entre maldições e desregramento. Carlos estava deslocado e só. À noite, tinha o aconchego do corpo cheiroso de Esmeralda, mas ele queria mais, queria viver, sair daquela miséria, daquela sujeira e daquele mundo.

     Dia a dia, tornava-se mais triste e irritadiço. Esmeralda vibrava de ódio, percebendo a modificação de Carlos. As discussões se repetiam, tornando a situação insustentável. Até que, um dia, Carlos explodiu. Tinha bebido e estava muito nervoso. Esmeralda se demorara na cidade e ele vira exasperado as outras regressarem sem que a cigana voltasse.

     A noite já tinha caído quando ela chegou. Carlos olhou-a com raiva:

     — Esmeralda, isto tem que acabar. Não podes fazer o que queres. Não vais mais sair por aí feito mendiga. Não vou permitir.

     A cigana enrubesceu de raiva. Não entendia Carlos. Qualquer homem do bando estaria grato por seu esforço em conseguir o máximo, mas ele não, criticava-a e, o que era pior, queria mandar nela.

     Uma onda de rancor inundou o coração de Esmeralda.

     — Como te atreves a falar assim comigo? Esmeralda é livre. Não tem dono, a única coisa que prende é o amor.

     — Ora deixa de fita. Queres andar por aí, ver outros homens, enquanto eu fico aqui, nesta pocilga infecta, ouvindo o praguejar dos teus e o malho na bigorna. Não agüento mais. Ou deixas essa vida de mendiga ou eu vou-me embora.

     De rubra, Esmeralda empalideceu. Seu orgulho estava ferido, mas apesar disso ainda considerou:

     — Então é isso. Cedo cansaste de nosso amor e queres partir. Pois escolhe agora, já: ou ficas para sempre, ou vais e, então, nunca mais voltes a procurar-me. Eu te amo, mas isso não importa. Não quero que fiques contrariado. Não vou mudar minha vida. Eu sou cigana. Se me amas, fica comigo, mas se não, parte e que seja para sempre.

     Havia tal expressão no olhar da cigana que Carlos teve medo. Abrandou e tentou conciliar as coisas.

     — Esmeralda! Eu te amo. Sabes que és tudo para mim. Dói ver-te sair por aí, do jeito que vais.

     — Sabes que tenho deveres com os de minha raça. Se eu não saísse, não terias como comer. És um ingrato. Tudo quanto faço é por ti, para teu bem. Mas se não estás feliz, vai-te. Ultimamente andas triste e inquieto. Não dormes tranqüilo. Tens emagrecido e perdido a cor. É hora de saber o que tens. Fala, Esmeralda quer saber.

     — Está bem — tornou Carlos conciliador —, tenho saudades dos meus.

     — Agora já não te sou suficiente. Já não me amas mais.

     — Não se trata disso, Esmeralda. Eu te amo como sempre. Mas minha mãe sempre foi muito boa e me quer muito. Deve estar sofrendo sem saber de mim, estar pensando que eu morri, ou que estou doente em alguma parte. Deve estar desesperada. Tenho sonhado com ela e seu rosto apreensivo não me sai do pensamento.

     — Não acredito. Antes meu amor era o bastante. Agora já não basta. Disseste que ficarias comigo para sempre, agora já queres ir embora.

     — Olha, Esmeralda. Tenho pensado muito. Acho que vou viajar. Vou até a casa de meu pai. Quero ver minha mãe, dizer que estou bem. Apanhar alguns haveres e voltar para cá. Até lá o inverno já terá ido e poderemos viajar novamente pelos campos em flor. Cantar e dançar como nos primeiros tempos.

     A cigana o olhou com tristeza.

     — Não me enganes, Carlos. Se voltas para os teus, não mais nos veremos. Sei que no conforto da casa de teu pai, Esmeralda será esquecida.

     — Nunca te esquecerei. És minha vida!

     — Não te acredito. Queres Esmeralda com paixão, mas o amor exige muito mais, e não queres pagar o preço. Se fores embora, nunca mais nos veremos!

     — Enganas-te. Vou viajar, mas voltarei breve. Não suporto ficar longe de ti por muito tempo. Estou com remorsos por causa de minha mãe. Acalmo seu coração e volto para teus braços. Trarei para ti as jóias mais lindas e os vestidos mais ricos. Compreende meu coração, eu te peço!

     A cigana abanou a cabeça, desalentada.

     — Não me amas. Não tanto quanto eu te amo. Não te reparto com nenhuma mulher, mesmo que seja tua mãe. Ou ficas para sempre, ou nunca mais quero ver-te.

     Carlos tentou demovê-la dessas idéias sem conseguir. Esmeralda não aceitava a idéia de sua partida, ainda que fosse por pouco tempo.

     Ele estava sendo sincero. As saudades do lar, da mãe e de seu ambiente lhe amarguravam as horas e ele sentia desejo incontrolável de ir até lá. Não pretendia abandonar a cigana. Amava-a muito. Tencionava voltar na primavera. Confiava que a viagem lhe fizesse espairecer e iria reforçar os laços de amor entre ambos. Pretendia trazer dinheiro para não depender dos ciganos. Pouparia Esmeralda impedindo-a de exercer essas detestáveis atividades que eles chamavam de trabalho. Voltaria o mais breve possível.

     Em vão tentou convencer a cigana de seus bons propósitos. Ela se recusava a aceitar. Entretanto, a cada momento mais e mais essa idéia tomava conta de Carlos.

     Uma noite procurou Miro e, à luz do fogo, expôs a ele seus desejos.

     — Tenho notado que não estais felizes. Miro não gosta disso. Esmeralda triste. Agora sei por quê. Desejas ir embora.

     — Quero viajar. Voltarei logo. Preciso ver minha mãe.

     O cigano olhou-o nos olhos procurando examinar o que lhe ia na alma.

     — És sincero. Pretendes voltar. Mas lá, longe de Esmeralda e no conforto dos teus, pensarás assim?

     — Claro, Miro. Não tenho dúvida. Amo Esmeralda e não posso ficar longe dela. Verás que voltarei breve.

     — Esmeralda vai sofrer. Sabes que não permitirei isso. Carlos sorriu confiante:

     — Sossega teu coração. Eu seria muito infeliz sem ela. Voltarei na primavera. Eu juro. Quero que me ajudes a convencê-la de que digo a verdade. És meu amigo. Sabes que a amo. Vais ajudar-me?

     Miro estava sério:

     — Sei que irás de qualquer forma. Sinto que estás determinado. Nada te fará mudar. Sei que amas Esmeralda, mas sei também que a voz do sangue e da raça é muito forte. Porém lembra-te de uma coisa: estou esperando-te. Se não voltares e Esmeralda sofrer, hei de procurar-te até os confins da Terra e juro que te farei pagar. Já tinha te avisado. Se Esmeralda sofrer por tua causa, por teu abandono, passe o tempo que passar, haja o que houver, ajustaremos contas.

     Os olhos do cigano expeliam chispas, seus lábios comprimiam-se com força, dando ênfase a cada palavra. Carlos não se furtou a um arrepio de medo. Depois sorriu confiante:

     — Não temo tua ameaça. A felicidade de Esmeralda é a minha. Voltarei para ela, para sempre. Enquanto eu estiver fora, não a deixes ficar triste, dize-lhe que eu jurei voltar e que me espere. — Hesitou um pouco e concluiu: — E, por favor, não a deixes sair com outros homens. Não suportaria uma traição.

     Miro o olhou admirado:

     — És ingênuo, rapaz. Esmeralda é muito bela. Se a abandonas, não sei o que fará. Sabes que é livre e não aceita ordens de ninguém. É altiva e orgulhosa. Se me ouvisse, não se teria envolvido contigo.

     — Não me aprecias? — reclamou ele agastado.

     — Não é por isso. Sabes quais meus motivos. Sou teu amigo, mas não és um dos nossos. Teus apelos são outros. Não farás Esmeralda feliz. Ainda agora vais deixá-la. Fazê-la sofrer.

     — Sabes que será apenas uma viagem. Voltarei cheio de presentes e amor para ela. Verás como seremos felizes!

     Miro olhou-o sério.

     — Assim espero para teu bem. Se não cumprires o prometido, e ela não sofrer e deixar de te amar, poderás viver em paz; mas se ela for infeliz, podes esperar por minha vingança. Eu juro.

     Carlos não se preocupou. Tratou de procurar Inácio e combinar a viagem. Estava eufórico. Ver sua mãe, sua casa, seus amigos. Levaria dois cavalos emprestados e alguns víveres. Quando voltasse, pagaria regiamente o empréstimo.

     Naquela noite amou Esmeralda como nunca. Entre um beijo e outro, jurou amor para sempre, mas não mencionou a viagem que tencionava empreender no dia imediato. Queria evitar discussões inúteis.

     Carlos levantou-se cedo e procurou Sergei para despedir-se. Recebido com atenção, expôs ao cigano seu desejo de afastar-se por algumas semanas, levando dois animais e alguns víveres que devolveria em dobro no regresso.

     O cigano ouviu-o em silêncio e respondeu calmo:

     — Foi bom teres-me informado. Esmeralda não vai gostar. Seria melhor que contasses a ela.

     — Já tentei, mas ela não quer concordar. Acha que vou abandoná-la. Mas não é verdade. Voltarei logo. Dize isso a ela em meu nome. Preciso dar notícias a minha mãe, que sofre sem saber onde estou. Apanhar minhas roupas, meus haveres. Voltarei muito breve. Então, Esmeralda verá que não a enganei. Mas preciso ir. Sergei abanou a cabeça:

     — Não obrigamos ninguém a ficar aqui, és livre para fazeres o que quiseres. Mas lembra que os desejos de Esmeralda serão respeitados. Ela tem seus direitos; e nós, nossas leis. Se quando regressares ela não te quiser mais, não poderás ficar aqui. Dependerá dela, só dela.

     — Eu sei. Agradeço tua tolerância permitindo que eu viva aqui com ela e teu povo. Podes crer que te respeito e admiro muito. Só quero que digas a Esmeralda que a amo e que voltarei na primavera.

     O dia ia em meio quando Carlos, aproveitando a ausência de Esmeralda, acompanhado de seu criado, montados em dois cavalos a cuja sela amarraram um saco com algumas provisões, deixaram o acampamento.

     Carlos seguia despreocupado e contente, pensando no rosto amoroso da mãe, a quem não via a hora de abraçar. Estivera ausente de ante seis meses e certamente estariam apreensivos quanto a seu destino.

     Realizaram a viagem sem incidentes e no dia imediato chegaram a Valença. Divisando o castelo de seu pai, Carlos não pôde furtar à emoção. Nunca lhe pareceu tão belo e suntuoso.

     O guarda que se aproximara da entrada quando os viu chegar, reconhecendo-os, soltou uma exclamação alegre:

     — D. Carlos! Bendita seja a Virgem! Estais de volta!

     Carlos sorriu contente. Sim. Estava de volta e se sentia em casa. No pátio, foi um alvoroço. Os serviçais reconhecendo-o davam-lhe as boas-vindas. Carlos sempre fora estimado pelos servos de sua casa, por sua simplicidade e também por sua bondade. A todos tratava com brandura, e muitas vezes durante sua infância e adolescência permanecera entre eles conversando, brincando com seus filhos, despreocupadamente.

     Embora advertido pelo pai, Carlos continuava a tratar a todos com certo carinho e por isso era estimado e querido. Seu belo rosto travesso, sua galanteria, suas conquistas, eram comentadas com orgulho por todos quanto o viram crescer. Sua chegada consistiu-se em um acontecimento vibrante e feliz.

     Ouvindo o alarido, D. Encarnação aproximou-se e vendo Carlos abraçou-o com arroubo.

     — Filho meu, finalmente! Carlos apertou-a com força:

     — Mãe! Que saudade! Estou de volta. Não suportava mais ficar longe de ti.

     Passados os primeiros arroubos, ainda abraçados foram sentar-se no salão. O pai estava percorrendo a plantação, mas a mãe estava ansiosa por saber o que acontecera.

     — Um mês depois que partiste, nós recebemos um portador da parte de D. Hernandez repetindo o convite que nos fizera e insistindo por tua presença nas festividades que já se estavam processando. Ficamos preocupados. Desde então debalde mandamos nossos emissários a tua procura e não conseguiram saber de nada. Teu pai temia pelo pior, mas eu pressentia que voltarias. Sabia que ainda te teria em meus braços, como agora. Conta-me tudo. O que aconteceu?

     Naquele instante, observando o rosto emotivo de sua mãe se transtornando, olhos angustiados, suas mãos trêmulas, sentiu-se egoísta e mau. Pensara só em si, sem se importar com os sentimentos de sua querida mãe.

     — Quando saí daqui, pretendia ir à casa de Álvaro, para irmos juntos à casa de D. Hernandez, mas fomos assaltados na estrada por alguns bandidos que nos roubaram tudo, deixando-nos meio mortos no chão.

     — Valha-me Deus!

     — E Deus valeu-me mesmo. Fomos recolhidos por um bando de ciganos que, apiedados de nossa infelicidade, trataram de minhas feridas.

     Virgem Santíssima! Ciganos! Que perigo! Não tiveste medo deles?

     — Eu estava desacordado. Eles me trataram com muito cuidado. Cuidaram de mim com muito amor. Estava muito doente e fraco. Tinha perdido muito sangue. Demorei muito a recuperar a saúde.

     — Durante todo este tempo ficaste com eles?

     — Sim. Foram muito bons para mim.

     — Eu não confio. Vai ver que esperam explorar-te mais tarde. Cigano é raça maldita!

     Carlos se entristeceu:

     — Não fales assim, mãe. Salvaram-me a vida. Nem sabiam quem eu era. Encontraram-me atirado na estrada, ferido e despojado de todos os meus haveres. Jamais lhes paguei pelo benefício que prestaram.

     D. Encarnação ficou muito aflita:

     — Filho, promete-me que te afastarás deles! Que nunca mais irás vê-los! Por Deus!...

     Carlos admirou-se.

     — E esta agora! Por quê?

     — São perigosos. Terríveis! Por favor, dize-me que não mais os verás. Vendo o rosto crispado de sua mãe, sentindo o tremor de suas mãos em seu braço apertando-o nervosamente, Carlos sentiu penosa impressão.

     — Acalma-te. Vem. Senta-te aqui comigo. Quero dizer-te que não posso ser ingrato. A roupa que me cobre, os cavalos que me trouxeram, os alimentos que me sustentam foram dados por eles. Estás enganada. São gente como nós. Lutam, sofrem, amam, se defendem.

     D. Encarnação não se acalmava. Sentada ao lado do filho, estava trêmula e angustiada. Ele continuou:

     — Há lendas sobre eles, fantasias, histórias. Tudo falso.

     — Não penso assim. São poderosos e terríveis. Têm parte com o demônio. Pobre filho. Vejo que estás fascinado por eles! Preciso pedir a Deus que te liberte.

     Carlos sentiu-se triste. Esperava encontrar na mãe a confidente, a aliada que o ajudaria a transformar Esmeralda na mulher que ele desejaria. Em seus sonhos, ele tinha imaginado transformá-la em dama misteriosa, tão ao gosto da época, casando-se com ela, sem apresentá-la na corte a pretexto de ciúme. Pretendia que a cigana pudesse manter com ele uma vida dupla. No verão, ambos seriam ciganos, viajando com o bando, participando das festas e das alegrias, e no inverno iriam viver em um castelo, que ele faria construir, ou, quem sabe, no castelo dos pais.

     Sabia que D. Fernando era rigoroso, certamente nunca aceitaria seu casamento, mas talvez pudesse enganá-lo de alguma forma. Agora, a mãe com sua superstição parecia derrubar seus projetos de um só golpe.

     É verdade que nunca falara a Esmeralda sobre esse assunto. Mas era justo que se ele participasse da vida dela, com os seus, ela também pelo menos alguns meses por ano deveria participar da dele.

     Depois, o inverno no acampamento era-lhe insuportável. Por que não viverem em um castelo durante esse tempo?

     Se Esmeralda alegasse a necessidade de "trabalhar" para arranjar os viveres para os seus, ele poderia mandar-lhe uma quantidade de víveres que cobriria de muito a irrisória parcela que Esmeralda arrecadava. Afinal, ele era rico. Devia sua vida àquela gente. Nada mais justo que retribuísse sustentando-os durante a rudeza do inverno. Mas a atitude da mãe, inesperada, o colocava de chofre ao contato com a realidade, bem diferente daquilo que imaginara. Resolveu contemporizar:

     — Bem, mãe, tem calma. Depois falaremos a esse respeito. Mas ela parecia frenética. Carlos nunca a vira tão aflita.

     — Meu filho, promete que nunca-mais irás ter com eles!

     — A que vem isso agora?

     — Vamos, promete. Ele desconversou:

     — Sabes que não desejo causar-te problemas. Mas deixemos esse assunto sem importância. Conta-me como vão as coisas por aqui! Estive tanto tempo fora, estou ansioso!

     Procurando conter-se, ela começou a falar dos problemas da casa, dos familiares, e Carlos escutava procurando demonstrar um interesse que não sentia. Seu coração estava oprimido. Teria feito bem em regressar?

     Procurou dissipar esses pensamentos desagradáveis. Mas, à noite, remexendo-se no leito, teve muita dificuldade em conciliar o sono. O rosto aflito da mãe sobrepunha-se à fisionomia crispada de Esmeralda, onde o ódio e a revolta estampavam-se. Pareceu-lhe até, a certa altura, ouvir a voz da cigana dizendo rancorosa:

     — Se não voltares, eu me vingarei!

     O dia já despontava quando Carlos, cansado e deprimido, adormeceu.

 

Capítulo V

     Era já dia alto quando Carlos foi despertado pela voz de Inácio.

     — D. Carlos, acordai. Já se faz tarde e D. Fernando vos chama. Mal-humorado, Carlos resmungou:

     — Para quê? Falamo-nos ontem, já esmiucei tudo quanto ele quis saber. Agora deixa-me em paz.

     — Sabeis que ele manda e exige. Foi categórico. Está esperando-vos em seu gabinete. Depois, o sol já está quase a pôr-se.

     — Está bem. Está bem. Dize-lhe que já vou.

     — Deixai-me ajudar-vos.

     Carlos não teve remédio senão levantar-se. Seu pai o esperava com a austera fisionomia mais séria do que de costume.

     — Deus vos salve, meu pai.

     — Amém. E a ti que te bendiga. Agora senta-te. Precisamos conversar. — Vendo-o acomodado, continuou: — És já homem feito. Essa viagem desastrosa, acredito que te tenha amadurecido o bastante para que possas pensar com mais seriedade em tuas responsabilidades como único herdeiro de nossa casa e de nosso nome de família. Sabes que o marido de minha irmã Leonor, homem sem caráter, dissoluto e irresponsável, deseja a todo custo açambarcar nossos bens. Sei até que, tendo dissipado a parte de dote de Leonor, pretende pôr as mãos em nossos haveres e já organiza um contingente de homens armados com os quais pretende tomar este castelo pela força. Meus informantes descobriram que ele conta com elementos dentro de nossa casa e não vai titubear em me destruir. Por isso, tenho um servo que prova nossa comida, que pode estar envenenada.

     Carlos ouvia assustado. Uma sensação desagradável o envolveu.

     — Que audácia de D. Fabrício! Indignado ouvia o pai esclarecendo:

     — Tenho procurado defender nossa casa. Temos homens bem armados e treinados em vigilância constante, mas, se algo me acontecer, quero que estejas ao par de tudo para que te defendas e defendas os nossos desse patife. És meu único filho. Meu herdeiro. Quero que assumas já a posição que te compete. De amanhã em diante, sairás comigo para aprender tudo e estares preparado, se me acontecer algo, para enfrentar essa luta. Até agora te recusaste a assumir tua posição. Eras um menino e eu queria que amadurecesses. Mas não posso mais esperar. Por isso, agora mesmo, vou depositar em tuas mãos nossos haveres e conhecerás nossos negócios. Carlos estava emocionado. Pela primeira vez o pai o tratava como um adulto. Sua confiança o honrava e ele de repente começou a amar seu castelo, sua gente, seu nome, a dignidade de sua família honrada e laboriosa. Foi em tom solene e sincero que respondeu:

     — Sou grato por vossa confiança. Farei o possível para corresponder. Pela fisionomia de D. Fernando passou um rasgo de emoção que ele tratou de controlar para não parecer fraco.

     — Espero que seja assim. Lembra-te que o dever exige, às vezes, muito de nós, mas a honra deve vir em primeiro lugar. Antes morrer com honra do que viver desonrado! Esse é o lema de nossos antepassados.

     Carlos não se deteve para pensar. Estava empolgado. Respondeu com entusiasmo:

     — Podeis contar comigo.

     — Receei que não mais voltasses. Temi por tua vida. Julguei terem caído por terra meus planos mais caros. Se tivesses morrido, não seria difícil a Fabrício tramar nossa destruição e morte, porém, contigo aqui, jovem e forte, ele não nos poderá destruir. Amanhã D. Gervásio rezará uma missa em nossa capela às seis horas. E em ação de graças por tua volta. Não podes faltar.

     Carlos procurou encobrir a contrariedade. Que maçada! Logo às seis horas no inverno!

     — Certamente, meu pai! Não queria contrariar-vos.

     Pela primeira vez se aproximava dele, e essa atitude o lisonjeava muito. Talvez fosse melhor não irritá-lo. Assumindo os negócios de sua casa, poderia usufruir de maior liberdade e formular planos para seu futuro, com Esmeralda, naturalmente.

     Carlos não cogitava sequer em separar-se da cigana, cujo amor continuava a aquecer-lhe o coração.

     Nesse instante, o criado anunciou a presença de D. Gervásio. Carlos fez menção de retirar-se, mas o pai objetou:

     — É preciso que fiques. Se vais conhecer os negócios, não te podes afastar.

     Procurando dominar a contrariedade, Carlos permaneceu na sala, levantando-se quando a figura do jesuíta apareceu no limiar.

     Era um homem alto, forte, quarenta anos presumíveis, sorriso amável nos lábios, olhos penetrantes e ágeis. Carlos o vira algumas vezes circulando pelos salões de seu castelo, mas sempre se esquivara de sua proximidade.

     — Louvado seja Deus — tornou o padre.

     — Para sempre seja louvado. A vossa bênção, senhor cura. D. Fernando tomou a mão do padre e a levou aos lábios.

     — Deus vos abençoe, meu filho.

     Carlos estava profundamente irritado. Repugnava-o a proximidade daquele homem, cujo sorriso um tanto formal o incomodava, mas sentindo o olhar imperativo do pai aproximou-se por sua vez tomando com repugnância a mão do padre:

     — A bênção, senhor.

     — Deus vos abençoe, meu filho.

     Quando ele fosse o chefe da família, aquele homem não pisaria em sua casa, pensou ele. Não gostava de seu ar maneiroso, nem de seu sorriso que parecia falso. Porém, no momento, precisava contemporizar com o pai.

     — Estai a gosto, D. Gervásio. Deixai-me servir-vos de um excelente vinho que reservei para esta ocasião tão especial.

     A fisionomia do padre distendeu-se enquanto se acomodava na poltrona. Enquanto saboreava o delicioso vinho com agrado, D. Fernando foi dizendo:

     — Foi muita bondade de Vossa Reverendíssima ter vindo pessoalmente para este ofício. Desejo dizer-vos que a volta de meu filho tem para mim um sentido especial. Não só a alegria de um pai, mas a própria segurança de nossa casa.

     — Sabeis, D. Fernando, que os interesses de vossa família são nossos também. Ficamos felizes com a presença de vosso filho.

     — Sabeis — continuou D. Fernando — o quanto preciso de um braço forte que cuide dos interesses de minha casa. Tendes acompanhado nossos problemas e até nos oferecido vossa ajuda prestimosa. Agora, preciso de vosso apoio para o que pretendo fazer.

     Carlos sentiu náuseas. Não confiava naquele homem. Por que seu pai, sempre tão seguro de si, precisava dele? O padre sorriu, baixando o olhar.

     — Podeis contar com meus humildes préstimos.

     — Vou dividir com Carlos a tarefa de dirigir nossos bens. Ele é jovem e se algo me acontecer precisa estar preparado.

     O padre suspirou triste:

     — Tendes razão. Tenho tentado convencer D. Fabrício a desistir de sua ambição, mas até agora tem sido inútil. Está arruinado e pensa como única solução açambarcar vossa fortuna. Estava certo da morte de D. Carlos. Tão certo que até fiquei desconfiado.

     — Carlos foi vítima de salteadores na estrada. Acha que ele poderia...

     — Deus nos livre de julgar o próximo — fez ele compungido. — Mas que ele está disposto a tudo, lá isso está.

     Carlos interveio:

     — Não creio que ele tivesse algo com isso. Fui assaltado por ladrões na estrada. Há muitos deles por aí nos dias de hoje.

     — Não nego, meu filho, mas por acaso viste esses homens? — tornou o padre insinuante.

     — Não. Estava escuro e fui atacado de surpresa com golpes na cabeça. Não lhes vi a fisionomia.

     — Neste caso, torna-se difícil saber... — continuou ele reticencioso.

     — Patife — fez D. Fernando, irritado. — Pode bem ter sido ele. Vede, D. Gervásio, como tenho razão. Dão-me ganas de ir atacá-lo com meus homens em seu reduto, antes que ele traiçoeiramente nos mate.

     — Deus está de vosso lado, D. Fernando. Vossa luta será abençoada. É justo defenderes vossa casa.

     Carlos preocupou-se. Seu pai sempre fora justo e não gostava de disputas nem de desavenças. Sempre primara pela austeridade, pela justiça e nunca saíra de sua casa para atacar ninguém. Sempre fora muito respeitado pela lisura e honradez com que se atinha em seus negócios e pendências, de tal sorte que era chamado por vezes como mediador de disputas dos fidalgos e até de seus servos.

     Carlos admirava-se ao perceber a paixão e o olhar de ódio que lhe surpreendera. Teria ele se modificado ou só agora se revelava?

     O moço sentiu-se inquieto:

     — Talvez nos estejamos precipitando — tornou conciliador. — Afinal é só uma suposição. Ninguém sabia de minha viagem, que foi um tanto imprevista. Como ele poderia ter planejado isso?

     — Quanto a isso, não lhe seria difícil. Sei de boa fonte que ele possui vários espiões por toda parte.

     — É... tendes razão. Morto Carlos, ele teria mais facilidade em me destruir. Acho que precisamos resolver este assunto o quanto antes. Tomar a iniciativa antes que ele nos mate pelas costas.

     — É — tornou o padre. — Bem pensado. Vou rezar para que a solução apareça.

     Carlos olhou-o com revolta procurando dissimular seu mal-estar. Sentiu a animosidade do padre para com seu tio Fabrício. Por quê?

     Algum interesse ele tem, pensou Carlos preocupado, e o pior é que seu pai parecia muito influenciado por ele. Haveria de investigar e descobrir. Já que seu pai o convocara para participar da direção dos negócios, estava disposto a dar o melhor de si em favor da família.

     Durante o jantar, conversaram sobre vários assuntos e Carlos cada vez sentia mais antipatia pelo padre. Sua mãe pouco falou, mas quando a sós com ela, Carlos perguntou sobre D. Gervásio. Ela esclareceu:

     — Conheço-o muito pouco. Faz menos de dois anos que ele veio aqui trazer seus ofícios. Seu pai o trata com deferência. Parece que ele é muito importante na ordem dos jesuítas. É muito considerado e todos acatam suas decisões. Há até quem diga que ele está para ser designado Prior, e embora ainda não o seja, já é considerado e havido como tal.

     — E tu, o que pensas dele? O que aprecias?

     — Se teu pai o aprecia, eu acho que é homem justo.

     Carlos não se deu por satisfeito. Pobre mãe, sem opinião ou vontade. Lembrou-se de Esmeralda. Que mulher! Certamente com um olhar teria percebido a tibieza daquele homem.

     A convivência com ela e com os seus desenvolvera muito seu senso de observação e o tornara arguto. Em outros tempos talvez a figura do padre não lhe chamasse a atenção, mas agora, depois da vivência no acampamento, não se pudera furtar a isso. Com habilidade, Carlos tornou:

     — Mãe, que achas de D. Fabrício?

     — Como sabes, ele não freqüenta nossa casa. Mesmo Leonor, depois de casada, raramente veio por aqui. Teu pai nunca aprovou esse casamento e demonstrou desgosto de tal forma que eles agastados se afastaram, pouco depois do casamento.

     — Que te parece ele?

     D. Encarnação olhou-o admirada:

     — Por que te interessas em saber? Ele a abraçou com carinho:

     — Porque D. Fernando quer que eu o ajude na direção da família e conheça tudo. São nossos parentes, quero conhecê-los.

     — Sabes que teu pai não fala comigo sobre os negócios. Nem nunca me contou o porquê de sua antipatia com D. Fabrício.

     — Mãe — objetou Carlos com seriedade —, não perguntei o que D. Fernando acha, mas o que tu achas. Não o conheces?

     — Sim. Mas como sabes nunca vivemos na corte. Ao que sei, D. Fabrício sempre foi homem galante com as damas, mas muito conhecido pelas festas que dava, onde havia sempre muito vinho e muito desperdício.

     Me iludo a beber e contam-se suas aventuras com mulheres, mesmo depois de casado.

     D. Encarnação estava um pouco corada de emitir sua opinião e principalmente sobre esse assunto. Fingindo ignorar a timidez da mãe, Carlos riu com gosto.

     — Sabes de alguma aventura dele?

     — Conta-se que certa vez subiu ao balcão de uma jovem dama cujo marido batalhava em defesa do rei, e sabendo que o guerreiro regressaria naquela noite, colocou-a em seu cavalo e a levou para seu próprio castelo. Quando chegou o marido traído, encontrou em sua cama dois homens disfarçados que o mataram.

     Carlos ficou sério:

     — Acreditas nisso?                                   

     Ela deu de ombros.

     — Pode ser. Os criados falam muito. Mas ele de fato foi achado morto na própria cama no dia de seu regresso e sua linda mulher nunca mais foi encontrada.

     — Ele era querido das damas?

     — Não sei. Não o achava um belo homem, mas era violento e também quando queria uma mulher comprava-a com jóias e dinheiro.

     — Muito esperto tio Fabrício!

     — Acho que, por causa dessa fama, teu pai não o queria na família. Antes do casamento, por pouco não duelaram. Quase nos mataram de medo. Foi um mês depois de nosso casamento. Teu avô era vivo ainda. Acho que morreu de desgosto.

     — Ele consentiu no casamento?

     — A princípio não queria, mas os padres vieram e tudo fizeram para isso. Depois, o dote que ele oferecia em jóias a esta casa, os presentes, as gentilezas que fazia convenceram o velho D. Augusto, que aos poucos chegou até apreciar Fabrício. Jogavam partidas de xadrez e conversavam muito, pareciam amigos. Quando casei com D. Fernando e vim para cá, já encontrei as coisas assim. Leonor não parecia apreciar muito a D. Fabrício, mas, quando o pai decidiu, teve que aceitar. Algumas vezes a vi chorando. Pediu a D. Fernando que não deixasse o casamento realizar-se e ele tentou impedir. Uma noite, no salão, ouvi o ruído de uma discussão muito acalorada entre ele e o pai. Quando chegou D. Fabrício, Fernando quis desfazer o compromisso da irmã, mas Fabrício não aceitou e discutiram. Não fosse Leonor intervir, o duelo teria saído.

     Afinal, casaram. Só vieram a esta casa quando D. Augusto ficou doente, e em sua morte. Depois, nunca mais. Carlos ficou pensativo.

     — Será que tia Leonor foi feliz? D. Encarnação sorriu resignada:

     — Felicidade é coisa que não existe. É ilusão. Afinal, estão juntos até hoje.

     Carlos olhou a mãe, tão bonita, tão triste. Teria amado um dia? Nesse ponto as ciganas eram mais felizes. Escolhiam o homem que queriam e embora suas leis fossem severas para os casos de infidelidade conjugal e rigorosamente observadas, gozavam de liberdade para fazer o que gostassem, e se não queriam um homem para marido, sua decisão era respeitada. Uma vez escolhido, entretanto, deviam-lhe respeito e fidelidade. A traição era punida com o abandono e até com a morte. Se, porém ele se revelasse mau companheiro, desrespeitando o lar e maltratando-a, era também repreendido severamente pelos chefes e muitas vezes punido com a separação, caso a mulher desejasse. Carlos achava isso justo. Era cruel impor-se aos sentimentos de uma mulher como dono absoluto sem que ela o escolhesse, amasse ou mesmo aceitasse.

     Ele pretendia unir-se pelo casamento quando aceito pelo coração de sua companheira.

     — Mãe, tu amavas D. Fernando ao casar? D. Encarnação surpreendeu-se:

     — Que pergunta, Carlos. Teu pai é um homem bom e honesto. Fidalgo respeitado e temido. Casar com ele foi uma honra a que muitas damas aspirariam.

     — Mas tu o amavas? Ela sorriu:

     — Estás hoje muito curioso. Sempre o admirei e o estimo muito. Jamais o contrariei nas menores coisas. Tenho procurado ser boa esposa.

     — Não respondeste minha pergunta.

     — Não gosto de falar sobre essas coisas — tornou ela embaraçada. — Mudemos de assunto. Já que vais assumir os negócios, é bom conheceres os problemas e as necessidades de nossa casa, que são muitos. Nossos servidores estão velhos e cansados. Acho que não agüentam o trabalho duro. Pensava falar a D. Fernando, mas receava intervir indevidamente. Contigo é diferente.

     Carlos abraçou-a com carinho:

     — Teus desejos são ordens que sempre cumprirei. Vou averiguar as coisas, para saber como atender o que desejas. Podes ficar descansada.

     Ela sorriu alegre.

     — Foi Deus que te trouxe de volta — suspirou, e Carlos viu uma onda de profunda emoção brilhar em seus olhos castanhos.

    

Capítulo VI

     Naquela manhã, Esmeralda acordou cedo. Apesar do frio que fazia, não conseguiu ficar deitada. Sobressaltada, olhou ao redor. Estava só. Onde Carlos teria ido?

     Levantou-se e, agasalhando-se o mais que pôde, saiu da carroça. A poucos metros de distância, Miro tomava sua primeira refeição. Vendo Esmeralda aproximar-se, ofereceu-lhe uma caneca de chá.

     — Toma que está muito frio.

     A cigana bebeu alguns goles e depois perguntou:

     — Viste Carlos?

     Ele serviu-se de pão, demorando a responder. Ela renovou a pergunta:

     — E Carlos, onde está?

     — Não sei — respondeu ele.

     — Não o viste?

     — Vi. Ele e seu valete. Estavam a cavalo.

     Esmeralda empalideceu, agarrando o braço do cigano com força.

     — O que sabes? Ele foi embora?

     — Acalma-te, Esmeralda. Quem sabe ao certo é Sergei. Hoje ficaram conversando durante muito tempo. Melhor ires a ele.

     — O que me ocultas?

     — Nada — tornou ele sério. — Não sei ao certo, mas acho que foi fazer uma pequena viagem. Prometeu voltar em breve.

     Os olhos da cigana expeliam chispas. Seu rosto estava contraído pela ansiedade. Saiu correndo até a carroça de Sergei. O chefe cigano fê-la entrar.

     — Senta-te, Esmeralda, precisamos conversar.

     — Ele foi embora! — tornou ela com voz que a raiva abafava.

     — Foi — tornou o cigano calmo. — Mas antes esteve comigo. Deu-me satisfações como se eu fosse o chefe dele também. Disse que te ama muito. Foi buscar roupas e haveres, ver a mãe. Pretende voltar na primavera. Pediu-me que te falasse porque não querias consentir nessa viagem.

     — Ele foi embora, Sergei. Não volta mais. Trocou o amor de Esmeralda pela vida na corte.

     Sergei olhou sério o rosto contraído da cigana.

     — Esmeralda! Sei o quanto queres a esse homem. É a primeira vez que amas! Avalio tua dor. Mas deves entender que ele não é um dos nossos. Sente-se humilhado em ver-te trabalhar para ele. Os fidalgos acham o trabalho desonroso. Muitas vezes eu o vi revoltado quando ias em busca de recursos.

     — Ele odiava que eu trabalhasse.

     — Precisas compreendê-lo, já que o amas. Ele pensa diferente dos nossos. Qualquer cigano ficaria feliz com tua dedicação ao trabalho, ele sente-se aviltado. Foi por isso que quis ir buscar seus haveres. Não gosta de ser sustentado pelos nossos, condena nossos costumes.

     Esmeralda caiu em pranto.

     — Sergei! Que sofrimento! Longe de mim, ele me esquecerá. Sergei abraçou-a com carinho:

     — Se ele te esquecer, é porque não merece teu amor. És o tesouro mais caro de nossa raça. Sempre tiveste os homens a teus pés. Mas Carlos estava sendo sincero. Sabes que não sou capaz de enganar-te. Acho que te  ama muito.

     — É a primeira vez que choro por um homem e te garanto que será a última. Vou arrancá-lo de meu coração ainda que para isso tenha que mergulhar no inferno. Depois, ele me pagará. Ninguém despreza Esmeralda.

     — Precipitas-te. Aconselho-te a esperar pela primavera. Ela o trará de volta para sempre!

     Esmeralda permaneceu calada, olhos perdidos na distância. Sergei continuou:

     — Se queres viver para sempre com ele, deves aprender a compreender como pensam os fidalgos. Mesmo que ele viva aqui, tem outros costumes. Seus pais o ensinaram de outra forma, e ele, apesar de te querer, ainda não consegue mudar.

     — Nos últimos tempos ele não era mais como antes, parecia infeliz e nervoso. Brigava quando eu ia para a vila trabalhar, o ingrato.

     — Vês que tenho razão. Precisas entender o que ele sente. Se queres viver com ele, tens que conhecer suas idéias. Ninguém muda de repente. Ele, por ser fidalgo, até que viveu bem entre nós!

     — Sergei — tornou ela com voz triste —, acho que meu amor não foi o bastante para retê-lo aqui. A força do sangue foi mais forte. Nunca mais voltará!

     — Apesar de tudo quanto dizes, eu acho que ele te ama e há de voltar. Levou cavalos emprestados e garantiu que os devolverá na primavera. Sempre me pareceu homem de palavra.

     A fisionomia de Esmeralda estava sombria quando disse:

     — Seja. Esperarei até a primavera. Mas se ele não voltar, então será melhor nunca mais cruzar meu caminho, porque conhecerá toda a força de meu ódio.

     Foi com o coração opresso que Sergei abraçou a cigana, tentando confortá-la.

     Carlos, entretanto, após comparecer à missa na capela, sonolento e contrariado, tratou de dissimular seus sentimentos. Não queria aborrecer o pai. Terminado o ofício, D. Fernando, após o desjejum, levou Carlos para percorrer a propriedade.

     Vendo a fisionomia do pai transformada ao fixar os campos, o moinho de trigo, o pomar, Carlos ficou emocionado. D. Fernando parecia outro homem. Sem perder seu aprumo e a sobriedade de fidalgo, revelava-se profundo conhecedor dos problemas agropecuários e o quanto era importante para ele aquela propriedade.

     O moço sentiu-se orgulhoso, verificando o quanto eram belas suas terras. Quanta gente vivia nelas, tirando seu sustento e o de suas famílias. O carinho que todos tinham por D. Fernando, sempre tão enérgico, mas reconhecidamente um homem honesto e justo.

     Interessou-se por tudo aquilo, que também lhe pertencia mas que lhe parecia estar vendo pela primeira vez. D. Fernando parara diante de uma pequena estrada, ladeada por árvores e que conduzia ao lago.

     Apesar do inverno, a paisagem era de rara beleza, as árvores, crestadas pelo frio, pareciam de prata e o lago tinha reflexos multicoloridos, que se modificavam conforme o vento balançava os galhos das árvores.

     — Vê, Carlos: estas árvores foram plantadas por teu avô. Cada filho que nascia, plantava uma. Continuei a plantar. No dia em que me casei foi plantada esta aqui. A outra ao lado, foi quando nasceste; e aquela ali, foi no dia em que nasceu tua infeliz irmã.

     Carlos estava comovido. Jamais soubera detalhes do temperamento paterno. Sua irmã nascera antes dele, mas morrera aos dois anos de idade. Olhou sua árvore. Sentiu-se tocado de viva alegria.

     — Espero que continues nossa tradição. Ao casares, plantaremos outra a teu gosto, e a cada filho mandarás plantar mais uma. Dizia meu avô que isso dá boa saúde e força às pessoas. Que todos deveriam ter uma árvore ao nascer, que cuidassem e a ela se ligassem durante toda a vida.

     — Mas eu não cuidei da minha, nunca me falaram dela.

     — Fiquei contrariado com a morte de Maria e achei tolice essa crença.

     — Pode ser. Mas fez-me bem saber que ela existe e nasceu ao mesmo tempo que eu.

     — Carlos, a força da terra é muito forte. É preciso amar o chão que é nosso. Alegra-me saber que te sentes assim. Logo agora que precisamos lutar para conservá-la. Fabrício não conseguirá seus intentos.

     — Pai, posso indagar algo?

     — Fala.

     — Por que não gostais de D. Fabrício? Ou melhor, por que começastes a desentender-vos? Ele vos ofendeu?

     — Fabrício não presta. Isso é o suficiente.

     — Já que vou entrar nessa luta, quero saber de tudo. Preciso preparar-me para poder defender nossos interesses.

     Depois de pensar um pouco, D. Fernando concordou:

     — Acho justo. Se me acontecer algo, quero que conheças tudo. Voltemos para casa. Lá conversaremos.

     No calor agradável do gabinete, onde o fogo crepitava na enorme lareira, Carlos tomou assento e aguardou que seu pai falasse sobre o assunto:

     — Já estás homem feito. Por isso podemos falar livremente. D. Fabrício, apesar de pertencer a família ilustre, sempre foi desmiolado. Desde muito moço nos jogos ou nas disputas sempre se revelava desonesto e leviano. Vivia na taberna, onde pagava vinho e mulheres, para ele e seus amigos, dando inúmeros desgostos a seu honrado e infeliz pai. Certa vez esteve desaparecido durante muito tempo. Um dia soube por um amigo que ele se tinha juntado a um grupo de saltimbancos e andava gazeteando por aí, feito cigano, cantando e dançando, tocando guitarra. Perdeu-se de amores por uma mulher que lhe gastou tudo quanto levava. Voltou para casa coberto de dívidas. O pai pensou logo em bem casá-lo para ver se o acomodava. E escolheu Leonor, moça prendada e bela, muito bem dotada. Fiquei revoltado. Preveni a meu pai do perigo de unir nossa família à daquele patife. Ele concordou, mas parece que Fabrício, vendo Leonor, por desgraça interessou-se. Então, fez o que pôde para conseguir casar-se com ela. Procurou mudar de vida, para agradar ao pai e a nós. Iniciou amizade com teu avô, que, lamento dizer, era muito condescendente. Tentei evitar o desastre. Mas o malvado vinha a nossa casa em minha ausência e envolvia meu pai, a quem conseguiu convencer que era outro homem. Demonstrava retidão e caráter. Conseguiu conquistar a confiança de meu pai. Até que pediu a mão de Leonor. Ela não queria, e eu também não. Fiz o que pude para evitar, mas não consegui. Hoje vejo como tinha razão. Assim que se viu casado, com o dote dela entre as mãos, tratou de voltar à vida antiga de devassidão. Apesar de gostar muito de Leonor, nada posso fazer. Ela é casada com ele. Pertence-lhe de direito. Envolveu-se em vários escândalos, está arruinado. Agora, quer o que é nosso. No começo disse estar arrependido, querer nossa amizade. Mas a mim não consegue enganar. Não é digno de nossa confiança: padre Gervásio sabe tudo, conhece-o bem, é seu confessor e tem-me aconselhado a fugir dele. Tem-me prevenido de suas idéias vis. Carlos ficou pensativo.

     — Pai, conheceis bem D. Gervásio?

     — É homem poderoso na igreja. Sua proteção nos tem ajudado e tem-se mostrado sempre nosso amigo.

     — Não vos parece um homem perigoso?

     — Perigoso? Porquê?

     — A mim me pareceu hipócrita e interesseiro. Se me permitísseis, gostaria de dizer mais...

     — Fala.

     — Pareceu-me muito interessado em fomentar as intrigas entre nossa casa e D. Fabrício.

     — Exageras teu zelo. D. Gervásio é astuto, um pouco vaidoso e amante do ouro, mas quanto a ser intrigante acho que não. Que interesse teria?

     — Isso é o que eu gostaria de saber. Quem não nos garante que em casa de D. Fabrício não faça o que faz aqui?

     — É... Talvez. Um padre deve viver bem com todos, ainda que com homens como Fabrício. Faz parte de seu ministério. Se tomar abertamente partido, não será recebido lá. Apesar disso, temos interesse em tratá-lo bem.

     — Por quê?

     — Ignoras que todos pagamos dízimos de nossas terras à Igreja?

     — Não sabia. Sei que eles levam nosso ouro, mas não sei como ou quando.

     — Sempre. Já vi que és ainda muito ignorante, mas a culpa é minha, que nunca te coloquei ao par dos negócios. Parecias tão indiferente. — Vendo-o atento, continuou: — A Igreja é dona espiritual do mundo. Logo, todos nós que temos terras e somos donos devemos a ela uma parte. Administradora dos bens de Deus, precisa viver na Terra, alimentar seus sacerdotes, vesti-los, e por isso cada proprietário deve-lhe uma parte de suas terras, que em última análise são deles, porque são de Deus.

     Carlos estava admirado:

     — Todos os fidalgos aceitam isso?

     — Certamente. Até o rei paga o dízimo à Igreja e seus príncipes. Eles são os donos do mundo.

     — Por quê? São homens como nós e aproveitam-se de nossos bens. D. Fernando assustou-se:

     — Cala-te, Carlos! Se alguém te ouvir! Pode parecer heresia! Precisas aceitar essas condições. Sabes que eles detêm nas mãos poderes de vida e morte sobre todos nós. Que nunca mais penses sequer em pronunciar essas palavras. Se D. Gervásio souber, tem poderes para nos denunciar e prender, confiscar nossos bens e até tirar-nos a vida.

     Carlos levantou-se irritado:

     — Parece incrível que tenhamos chegado a esse ponto. Tantos fidalgos comandando tantos homens! Unidos, poderíamos acabar com eles de uma vez!

     D. Fernando fez-se pálido e aproximou-se do filho segurando-lhe os braços com força:

     — Carlos! Promete-me que jamais tentarás pensar no assunto. Exijo que esqueças isso, se não queres destruir-nos e pôr a perder tudo quanto temos!

     Apesar de agastado, Carlos assustou-se ante a fisionomia alterada do pai.

     — Tendes tanto temor assim? — murmurou desalentado.

     — Promete o que te peço. Não te envolverás nesses assuntos e concordarás com eles, sempre, mantendo nossas boas relações.

     — Está bem. Prometo. Se é o que desejais. Mas revoltam-me tantas injustiças. Sabeis como eles têm sido cruéis e interesseiros. Como pactuar com eles?

     — Meu filho, o povo fala muito e há muito exagero nessas histórias. Eles têm também ajudado muita gente. Depois, reagir seria loucura, são ministros de Deus, podem excomungar-nos. A maior parte dos fidalgos não teria essa coragem. Quanto a ti, deves aprender desde já que, se pretendes viver em paz e administrar nossa casa, deves fugir de desagradá-los, por mais difícil que isso te pareça. Enquanto os receberes na qualidade «de amigos, tudo nos será facilitado. A vontade deles está acima do próprio rei.

     Carlos sentiu-se arrasado. Não era muito dado aos rituais da «religião e a considerava injusta e opressiva. Tinha aversão profunda pelos padres, a quem considerava hipócritas e cruéis. Como aceitar a imposição deles?

     Saiu do gabinete irritado, muito embora tivesse procurado tranqüilizar o pai, prometendo atendê-lo em sua orientação. Mas, no íntimo, o moço sentia-se humilhado com o servilismo a que seu pai se submetia e não aceitava de forma alguma. Pensou nos ciganos que se tinham libertado de sua danosa influência. Como eram fortes! Haveria povo mais inteligente?

     Sentiu saudades de Esmeralda. Como teria recebido a notícia de sua partida? Revoltara-se, certamente, mas confiava que seu amor a tornaria dócil e quando regressasse a encontraria submissa e amorosa como sempre.

     Pensou em D. Gervásio. Se ele era astuto, hipócrita e interesseiro, Carlos também usaria os mesmos recursos para combatê-lo. Não podia medir forças com ele, francamente. Estava sozinho diante de um poder quase absoluto. Temia prejudicar sua família. Mas não ia desistir de lutar com todas as suas forças. Dissimularia, tramaria às ocultas e quando pudesse ou tivesse condições de derrotá-lo o faria com prazer. Quando voltasse ao acampamento, haveria de buscar ajuda entre eles. Sabia que conseguiria.

     Nos dias que se seguiram, Carlos pareceu esquecer o delicado assunto e D. Fernando, preocupado com problemas da propriedade, deu-se por satisfeito. O súbito interesse do filho pelos problemas domésticos enchia D. Fernando de orgulho. Nunca pudera supor que ele se revelasse tão atento e decidido a seguir-lhe os conselhos e atender seus desejos.

     Não queria desgostá-lo com assuntos desagradáveis. Precisava dele e queria mantê-lo interessado. Sempre temera seu caráter impulsivo. Receava que ele fosse correr mundo, desinteressando-se dos problemas familiares. Mas, mercê de Deus, ele estava mudado. D. Fernando sentia-se feliz. Seu maior sonho concretizava-se.

     Assim, animava-se em melhorar a propriedade para que Carlos com sua mocidade e entusiasmo pudesse sentir-se orgulhoso e rico.

     Foi com facilidade que Carlos atendeu o pedido de sua mãe, melhorando o serviço do castelo, conseguindo novos servidores, mais jovens, e aliviando as tarefas dos velhos e antigos trabalhadores da casa.

     Os dias corriam céleres e Carlos absorvia-se nessas atividades. Tornara-se inseparável do pai e procurava secundá-lo em seus esforços. Nunca D. Fernando se sentira tão alegre. Contar com o filho era-lhe sumamente agradável.

     A propriedade como que adquirira novo impulso, e ao influxo das generosas idéias do moço, transformava-se. Por toda parte havia renovação, trabalho, progresso e esperança. Se D. Fernando era respeitado, Carlos era amado, por sua beleza, por sua mocidade, por sua alegria e, principalmente, por sua maneira afável; interessava-se pelos colonos, procurando melhorar-lhes as condições de vida e a disposição para o trabalho.

     D. Fernando, preocupado, por vezes considerava:

     — Acho que és muito condescendente. Eles vão abusar de tua autoridade.

     Mas Carlos retrucava:

     — Pai, eles precisam gostar da terra e de nossa casa. Nós necessitamos de servos leais que se for preciso empunhem o mosquete para defender nossos interesses. Vistes como trabalham com afinco e alegria? Não achais que são nossos amigos?

     — Nunca vi ninguém fazer o que fazes. Deus permita que estejas certo.

     — A violência cria ódio e a repressão forma traidores. Quando um homem se sente mais fraco e é obrigado a fazer as coisas pela força, quase sempre trama na sombra e se torna alvo fácil para os inimigos. Não, meu pai, enquanto eles forem nossos amigos pelo coração, serão leais e fiéis.

     D. Fernando considerou:

     — Pode ser que estejas certo, mas tuas idéias são revolucionárias. Não sei de onde as tiraste.

     Carlos calava-se para não aludir aos ciganos. Fora com eles que aprendera tanto sobre o comportamento humano, mas o pai tinha-lhes horror, tanto quanto a mãe. Carlos, porém, reconhecia que eles eram sábios em muitos aspectos.

     Embora estranhando os métodos do filho, D. Fernando era homem suficientemente inteligente para compreender e observar os resultados. Estava satisfeito com o que via: a alegria nos rostos dos camponeses, que trabalhavam mais, apesar do inverno, e com alegria.

     Quando passavam para ver a propriedade e a plantação, os rostos eram distendidos, e quando Carlos aparecia, D. Fernando observava que eles o olhavam com enlevo. Muitos, vendo-o aproximar-se de suas casas, traziam-lhe pequenos agrados, oferecendo-lhe guloseimas, mimos e ficando emocionados quando o moço os aceitava contente e agradecido.

     Certo dia D. Fernando comentou:

     — Não sei o que tens, mas eles te admiram tanto que tudo quanto disseres farão.

     Carlos sorriu alegre.

     — Não vos esqueçais, meu pai, de que são gente boa e simples. São nossos amigos. Se precisarmos lutar, eles o farão com gana. A um gesto meu, sei que obedecerão sem pensar.

     — Fico admirado. Nunca vi tal coisa. És condescendente, mas eles não abusam de tua autoridade. É mais fácil comandá-los assim. Muito mais suave.

     — E mais seguro. Sei que não vão nos trair. D. Fernando comoveu-se:

     — Foi Deus quem te trouxe de volta para nossa casa. Sem teu apoio, tudo pereceria.

     — Exageras, certamente. Tudo sempre andou muito bem em vossas mãos. Os servidores sempre te respeitaram e serviram com lealdade.

     — Minhas forças estão se acabando. O desgosto, a desilusão, a vida tem-se desgastado. Agora tudo é diferente, posso contar contigo.

     Carlos não tinha como argumentar. Seu pai colocara a salvação de sua casa em suas mãos e ele tinha o dever de aceitar a incumbência. Por outro lado, o tempo ia passando e o inverno logo estaria terminado. A primavera viria e ele deveria ir ao encontro de Esmeralda, a quem continuava a amar. Noites havia em que a saudade o acometia deixando-o insone e angustiado. O que fazer?

     Sentia-se preso aos encantos da cigana e, ao mesmo tempo, não podia negligenciar os deveres de sua casa. Como conciliar coisas tão opostas? Não sabia ainda como, mas precisava conseguir as duas. Não se sentia com forças para renunciar a nenhuma delas.

     Quando chegasse a primavera, os ciganos iriam a Madri, e Carlos sabia que seria esperado no acampamento. Precisava ir para que a cigana tão ciumenta e temperamental não se julgasse esquecida e abandonada. Ansiava por vê-la, mas como sair, largar os compromissos de sua casa?

     Carlos recusava-se a pensar muito. Quando chegasse o momento haveria de encontrar a solução adequada. Se Esmeralda fosse mais humilde, tudo se resolveria melhor, mas ela era voluntariosa e difícil. Contudo, ele a queria e não desejava perdê-la.

     A tarde era fria e o inverno estava em pleno rigor. O fogo crepitando na enorme lareira. D. Encarnação trabalhava delicada peça de tapeçaria enquanto Carlos cismava, olhando as chamas do fogo, pensando, perdido na distância. D. Fernando, a um canto, sobre a escrivaninha artisticamente lavrada ocupava-se em consultar alguns mapas. Apreciava imensamente estudá-los e conhecia todos os acidentes geográficos da Europa, principalmente da Espanha, clima e mormente a agricultura, que muito apreciava.

     Foi quando pancadas fizeram-se ouvir na porta principal, arrancando-os das profundezas de seus pensamentos. Tiritando de frio, D. Gervásio entrou no aposento tão logo o servo abriu a porta. D. Fernando levantou-se surpreso.

     — D. Gervásio, com um tempo destes! Louvado seja Deus!

     — Louvado seja! Que dia frio! Quase morri gelado.

     Carlos levantou-se para saudar o padre. D. Encarnação, depois de beijar-lhe a mão e pedir-lhe a bênção, retirou-se discretamente para seus aposentos. Jamais recebia com o marido. Só ficava quando chamada ou convidada por ele.

     O padre aproximou-se do fogo procurando aquecer-se enquanto D. Fernando lhe servia um cálice de conhaque.

     — Arre! Finalmente cheguei e tudo está melhor.

     — Sair com um tempo destes é temeridade. Presumo que o assunto de vossa visita seja muito importante.

     — Certamente, D. Fernando. É da máxima gravidade, nem quis mandar um portador. Eu não podia esperar para não pôr em risco a segurança de vossa casa.

     — Por Deus, D. Gervásio. O que houve?

     — Podemos falar a sós? — inquiriu ele lançando olhares desconfiados ao redor.

     — Vou dar algumas ordens e ninguém nos interromperá. Carlos fez menção de retirar-se. D. Fernando o deteve:

     — Fica. Não há segredos entre nós. Quero que estejas ao par de tudo.

     Carlos sentou-se novamente. Teria preferido sair, embora a curiosidade o incomodasse. Não gostava do jesuíta. D. Fernando saiu, voltou logo e sentou-se em frente do padre. Este, que se sentia muito à vontade, graças ao calor da bebida e do fogo, estava mais calmo.

     — E então? — perguntou o fidalgo.

     — Aconteceram coisas terríveis e preciso colocar-vos ao par de tudo. Venho do castelo de D. Fabrício. Graves ocorrências tenho a relatar.

     — O que foi?

     — Como sabeis, D. Fabrício, infelizmente, desde que casou voltou a sua vida devassa, mas embora tenha aventuras com outras damas, sua paixão por D. Leonor atinge as raias da loucura.

     D. Fernando suspirou triste:

     — Pobre Leonor! Que triste sorte!

     — Tem-lhe o marido um ciúme mortal. A pobre senhora muito tem sofrido e eu que sou seu confessor conheço a profundidade de seus padecimentos. Ela tem-lhe verdadeiro horror e tem-se recusado a aceitar suas extravagâncias e caprichos. Ele, sentindo seu desamor, torna-se cruel, agravando-lhe os padecimentos.

     D. Fernando tornou tristemente:

     — E pensar que tudo podia ter sido evitado se meu pai me tivesse escutado.

     — Agora está feito — comentou o padre, e continuou: — Devo dizer que ela não se importa com o comportamento dele, que leva as amantes para o próprio castelo, e até acha bom que ele procure as outras a fim de deixá-la em paz. Mas ele não aceita ver-se recusado. Agride-a. Quer obrigá-la a uma série de baixezas que ela prefere morrer a aceitar. Então, ele perde a cabeça e a agride pela força. Esta manhã, fui chamado ao castelo de D. Fabrício por uma aia de D. Leonor. Ele a prendeu em uma ala do castelo e recusa-se a deixar sequer os servos entrarem. Disse que não lhe vai dar de comer ou beber até que ela fique mais humilde. Tentei falar com ele. Parecia louco. Não me deixou vê-la. Garantiu-me que cuidará bem dela. Quase me mandou embora de lá. Era impossível convencê-lo. Então, como sabeis, tenho lá nossos informantes. Há algum tempo que, zeloso por vossos interesses, procuro ficar ao par de tudo. Fui informado que após uma cena terrível, que ninguém viu, mas cujos gritos foram ouvidos pelo lado de fora, ele a colocou incomunicável e parece que D. Leonor perdeu sangue e está muito fraca. Ele, ao sair, tinha sangue nas vestes. A pobre senhora está precisando de nossa ajuda. Ele vai matá-la!

     D. Fernando levantou-se indignado:

     — Isto é demais! Fera, atrever-se a tanto com uma Avelar da casa de Avis.

     O padre fez uma pausa e continuou:

     — Ainda há mais! O furor de D. Fabrício não parou aí. Arrancou todas as jóias de D. Leonor e mandou chamar D. Ortega. Assim que o viu, contratou a ele e a seus homens para "defender seus direitos". Disse que foi espoliado por vosso nobre pai e que precisa apossar-se de tudo quanto lhe pertence de direito.

     — Miserável! — tornou D. Fernando roxo de cólera. — Achais que ousará?

     — Por isso vim. Acho que o fará e muito breve. D. Ortega mantém muitos homens a seu serviço e por dinheiro é capaz de tudo. Se vim aqui com um tempo destes, é porque não duvido que ele seja capaz de vos atacar. Vim para prevenir-vos.

     Carlos sentiu um frio no estômago. Não temia a luta. Abominava-a. Pelo exposto, a situação era muito grave. Por mais que não gostasse do padre, devia reconhecer que não podia arriscar duvidando de sua palavra. Precisavam defender-se.

     Era provável que assim que a tempestade cessasse e o tempo melhorasse um pouco eles partissem para o ataque e tanto ele como o pai precisavam defender a vida de sua gente e de todos de sua casa.

     — Pai, não temos tempo a perder. Quando achais que virão? — indagou.

     — Logo que o tempo melhorar. Os homens de D. Ortega são habituados às intempéries. Estão curtidos de vinho e para eles nada importa.

     — Precisamos estar prevenidos. Pode ser que nem esperem o tempo melhorar. Precisamos ajudar tia Leonor. Achais que temos chance?

     D. Gervásio balançou a cabeça pensativo:

     — Não sei como ela está agora. Tenho medo de que não resista. Apesar de temente a Deus, não tem vontade de viver. Já me disse que a morte lhe será alívio. Deveis pensar que D. Fabrício deseja surpreender-vos. Não sabe que vim prevenir-vos. Isto vos dará vantagem.

     — É verdade — tornou D. Fernando com seriedade. — Vamos planejar primeiro a defesa e, se houver tempo, partiremos para o ataque. Estou decidido. Precisamos acabar de uma vez com esta ameaça. Chega de tolerância para com ele! Agora nosso destino está selado. Será uma luta de morte. Ou ele ou nós. Ou nossa casa ou a dele. Fiz o possível para evitar, mas agora precisamos enfrentar a realidade! Veremos quem é o mais forte.

     — Que Deus abençoe vossos propósitos. Deus está do vosso lado! Carlos, olhando o rosto corado do padre, o brilho de prazer de seus olhos astutos, pensou agastado:

     — Deus está do nosso lado! E se os do outro também recorrerem a Ele, como será? Não terão também um padre que os abençoe?

     Apesar da preocupação, não podia deixar de perceber o prazer do jesuíta pela guerra entre as duas famílias, que se refletia em seus olhos vivos.

     D. Fernando, porém, nem sequer notou esse detalhe e tornou com voz comovida:

     — Vossa dedicação comove-nos muito. Jamais nos esqueceremos dessa hora. Crede que saberemos ser gratos a tanta amizade. Assim que vencermos essa batalha, recompensar-vos-emos devidamente.

     O rosto do padre iluminou-se. Baixou o olhar e aduziu:

     — Sabeis que não me move nenhum interesse temporal. Apenas o dever, a justiça e o direito.

     Embora Carlos preferisse ficar a sós com o pai para traçarem os planos de defesa, não pôde evitar que eles fossem elaborados ali mesmo diante do jesuíta, que atento seguia todos os detalhes, aprovando ou objetando, a cada projeto.

     Carlos estava inquieto e pouco à vontade. Não confiava nele e, por isso, não desejava que ele estivesse ao par de tudo. Mas D. Fernando parecia pouco inclinado a deixá-lo de fora.

     Resolvidos a não perder tempo, Carlos chamou Inácio e o incumbiu de convocar todos os homens, chefes de família, para imediatamente agruparem-se no salão do castelo. O assunto era urgente.

     Ao mesmo tempo, D. Fernando mandou alguns servos descerem na ala subterrânea da casa, onde se armazenavam as armas bem como a munição, dando ordens para que se inventariasse e revisasse tudo, preparando para uso imediato.

     Vendo o movimento inusitado, D. Encarnação preocupada abordou o filho:

     — Carlos, o que está acontecendo?

     — Estamos na iminência de sofrer um ataque pelos homens de D. Fabrício. Preparamos a defesa. Já mandamos reunir os homens e quando chegarem peço-te que permaneças em teus aposentos com as mulheres.

     — Estou com medo!

     — Acalma-te. Por enquanto é só uma hipótese. Pode ser que ele não venha. Não queremos ser surpreendidos. É só isso.

     — Temo por ti!

     — Sei cuidar-me. Sabes que não me exponho. Guarda calma e recolhe-te. Irei colocar-te ao par de tudo, prometo.

     D. Encarnação abraçou o filho com ternura.

     — És meu tesouro! Estarei rezando por ti!

     Um brilho de emoção refletiu-se nos olhos do jovem fidalgo. Abraçou-a e afastou-se já preocupado com o momento que estavam vivendo. Enquanto a tempestade continuava lá fora, dentro do castelo a azáfama aumentava.

     A cada momento chegava mais um camponês que, convocado, se dispunha a defender a propriedade. Quando os viu em bom número no salão de entrada, D. Fernando solene dirigiu-lhes a palavra.

     — Estamos em perigo. Nossos lares ameaçados. Soubemos que D. Fabrício se prepara com os homens de D. Ortega para tomarem esta casa. Só o farão sobre meu cadáver. Estou disposto a defender nossos direitos, e conto convosco nessa luta que é de todos nós.

     Um clamor de aprovação e de indignação levantou-se, espontâneo. Eram cerca de trinta homens afeitos à luta com a terra, mas dispostos a defenderem a propriedade com garra. Sabiam que os homens de D. Ortega não respeitavam os vencidos, matando os homens, violentando as mulheres, carregando os haveres. Eram verdadeiros bandidos, odiados e temidos por todos. Vendo-os decididos, Carlos tomou a palavra para colocá-los ao par do plano de defesa. Foram escolhidos os que iam revezar-se nos pontos estratégicos das terras para vigiar e dar o sinal a qualquer movimentação estranha. Enquanto alguns permaneceriam no castelo preparando as armas e munições, os outros fariam em sua própria casa um pequeno arsenal para defesa, no caso de os opositores invadirem e passarem a barreira formada por alguns homens decididos e bem armados.

     Tudo disposto e organizado, teve início a terrível espera.

     As horas começaram a transcorrer lentas. D. Gervásio recolhera-se, esclarecendo que dormiria vestido, para qualquer eventualidade. Carlos e D. Fernando recostaram-se nos bancos, acordando de quando em vez assustados e atentos ao mais ligeiro ruído.

     Foi uma longa noite e já às primeiras horas da manhã a guarda rendeu-se, vindo os camponeses relatar que tudo parecia em ordem. Durante a fria madrugada nada tinham percebido de diferente.

     D. Fernando despediu-os aliviado, ordenando que se apresentassem depois do almoço para troca com os vigias que deveriam manter ininterrupta a guarda. Mandou que lhes servissem uma refeição. Estava com fome e Carlos também. A tensão cedera ao cansaço e ao amolecimento pelo sono.

     Um servo depôs na mesa do salão nacos de carne assada, pão e um jarro de vinho. Quando os dois tomaram o assento para comer, surgiu D. Gervásio:

     — Deus vos salve — tornou ele amável.

     — E a vós, vos bendiga — retrucou D. Fernando, e continuou: — Chegais a propósito para abençoardes nossa refeição.

     O jesuíta concordou e abençoou as iguarias rapidamente, sentando-se ao lado de Carlos.

     — Parece que Deus ouviu minhas preces. Não houve sangue — tornou ele, servindo-se de um pedaço muito bem escolhido de carne.

     — Terão desistido — considerou Carlos, como que falando consigo mesmo.

     — Quem dera que assim fosse — lamentou o padre com ar compungido. Mas pelo que ouvi e vi no castelo, D. Fabrício está decidido e não vai desistir, a não ser que algo lhe aconteça, algum impedimento. Talvez a vontade de Deus.

     — É — considerou D. Fernando —, se bem o conheço, não é homem que volte atrás em uma decisão. Se convocou D. Ortega, não vai desistir. É só questão de tempo. Afinal ele pensa que ignoramos tudo.

     — Isso é verdade — anuiu Carlos —, mas não importa. Vamos manter a casa preparada para qualquer ataque.

     O padre sorveu um gole de vinho, limpou a boca com as costas da mão e permaneceu silencioso. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. Os dois homens o olharam admirados.

     — Estou pensando em D. Leonor. Pobre dama! Nem sei se estará viva a estas horas. Suplicou-me que a ajudasse! Infelizmente nada posso fazer.

     D. Fernando estremeceu. Por um instante seu rosto sombreou-se e seus olhos brilharam rancorosos.

     — Pobre irmã! Quisera arrancá-la desse patife!

     — Calma, pai. Não nos devemos precipitar.

     Carlos, embora revoltado com o sofrimento da tia, não confiava no padre, e sua atitude não lhe parecia sincera. O que pretendia ele? Tinha a impressão de que ele procurava incitá-los à luta. Estaria dizendo a verdade?

     — Tens razão, Carlos. Leonor tem suportado todos estes anos, certamente agüentará um pouco mais. É melhor guardar a calma.

     Passados alguns instantes em que o padre esteve imerso em seus pensamentos, ele tornou:

     — D. Fernando, como sabeis mantenho as boas graças com D. Fabrício. Tenho corajosamente suportado suas injustiças, para poder aliviar o sofrimento daquela pobre senhora cuja fé em Deus é admirável. Ele me tolera e até distingue com alguma amizade. Naturalmente não quer indispor-se com nossa congregação. De qualquer forma tenho livre trânsito no castelo. Se desejardes, posso ir até lá ver o que está-se passando. De volta trar-vos-ei as notícias de vosso interesse.

     — Não seria perigoso para vós? — indagou D. Fernando.

     — Naturalmente, procurarei não me expor. Agirei com cuidado. Ele não saberá.

     Carlos levantou-se:

     — Qual vosso interesse em prestar-nos semelhantes serviços?

     Seu pai olhou-o admirado, mas o moço olhava fixamente os olhos do padre, que baixaram em atitude humilde.

     — Por favor, D. Carlos, D. Leonor é uma pobre vítima da maldade desse homem que quero defender. E se isso não fosse motivo suficiente, laços de amizade me unem a esta casa, os quais tenho preservado e protegido.

     — Peço-vos perdão, Carlos está nervoso. Passou a noite velando e além do mais esteve ausente durante muito tempo. Ignora o quanto devemos a Vossa Reverendíssima.

     D. Gervásio fez um gesto largo com a mão dizendo:

     — Por favor, D. Fernando, os moços são curiosos e certamente merecem resposta. D. Carlos preocupa-se pelos negócios de sua casa e louvo-lhe o zelo. Sabei, D. Carlos, que vossa atitude assumindo os negócios de vossa família muito vos honra como filho e como fidalgo. Estou feliz com vossa atitude e vos admiro com sinceridade.

     Carlos desviou o olhar para que os dois homens não lessem neles a repulsa que o jesuíta lhe causava. Sua hipocrisia o incomodava. Que fazer? Seu pai o temia e talvez tivesse suas razões. O melhor era não provocá-lo inutilmente. Se conseguisse vencer a repulsa, poderia pelo menos fingir-se crédulo para descobrir o que ele pretendia. Tinha certeza de que ele pouco se importava com o destino de sua infeliz tia, mas parecia interessado em levar a discórdia entre as duas famílias. Por quê?

     — D. Fernando, renovo o convite. Sabeis que não posso pegar em armas, mas não posso prestar esse serviço se Vossa Senhoria aceitar.

     Levantou-se, curvando-se. D. Fernando colocou a mão em seu braço.

     — Vossa atitude comove-me e não posso recusar. Não nego que me impaciento por notícias.

     — Nesse caso, parto agora mesmo. A tempestade passou, e se eu for agora, voltarei com mais brevidade. Minha carruagem já deve estar preparada, portanto parto imediatamente.

     — Só Deus vos poderá pagar por mais estes serviços que tão dedicadamente nos prestais. Ser-vos-ei eternamente grato.

     — Chama-me o dever cristão. Nada me deveis.

     Curvando-se novamente, afastou-se, depois de D. Fernando ter-lhe beijado a mão. Foi com repulsa que Carlos, ao império do olhar do pai, fez o mesmo.

     — Foste impertinente com D. Gervásio — tornou ele quando se viram a sós. — Não sabes que é um representante do Santo Ofício?

     — Sei. E é por isso mesmo. Diz-se cristão e presta-se ao vil papel de intrigante e de espião — desabafou Carlos com raiva.

     — Está fazendo isso para nos prestar um favor.

     — Pai, não acredito nisso. Não confio nele.

     — Podes não gostar dele. Acho até que é um pouco falso, mas por isso também não vamos julgá-lo tão mal. Quis fazer-nos um favor. E não deves esquecer que, se não fosse por ele, estaríamos sem defesa, à mercê daquele patife.

     — É verdade. Não creio que faça isso tudo só para nos ser útil. Deve ter alguma coisa mais em jogo. Parece muito interessado nessa briga de família. Faz o que pode para fomentá-la.

     — Não digas isso. És muito maldoso. Exageras, com certeza. Fez muito bem em prevenir-nos. Afinal, freqüenta nossa casa.

     — Faço votos de que seja só isso. Agora, acho melhor dar uma olhada, para saber como vão as coisas lá fora.

     — Vou contigo.

     Juntos saíram a inspecionar a propriedade.

     Apesar dos cuidados constantes na manutenção do esquema de defesa e prontidão dos homens, três dias decorreram sem que a situação sofresse alteração. Os homens começaram a duvidar de que o ataque se consumasse.

    

Capítulo VII

     Sentado na carruagem rumo ao castelo de D. Fabrício, D. Gervásio tinha a fisionomia endurecida e séria. As coisas se objetivavam de acordo com seus desejos e dentro em pouco sua vingança estaria consumada. D. Fabrício pagaria por seus crimes e se afastaria completamente de seu caminho. Então, Leonor seria sua para sempre. Ninguém conseguiria afastá-la de seus braços.

     D. Gervásio, ao pensar nela, sentiu uma onda forte de calor aquecer-lhe o peito. Seus olhos tristes e chorosos, sua palidez, sua beleza e principalmente sua dignidade tinham acendido em seu peito uma paixão avassaladora e irreprimível.

     D. Gervásio, dono de temperamento fogoso, jamais conseguira observar a castidade que lhe era exigida. Tivera paixões correspondidas, ligações amorosas dissimuladas pelos preconceitos sociais, facilitadas por sua profissão e pelo prestígio que gozava na intimidade das famílias, numa época em que as mulheres eram confinadas e relegadas a uma subserviência escravocrata e abusiva.

     Explorando o espírito rebelde de algumas, cuja dedicação ao lar e ao esposo era apenas aparente, lograva alcançar seus dúbios objetivos, chegando por vezes, em seus pensamentos mais íntimos, a julgar-se benfeitor daquelas infelizes criaturas cujo matrimônio imposto representava dolorosa cadeia, fazendo-as conhecer a paixão e os prazeres dos jogos amorosos.

     Mas com Leonor fora diferente desde o princípio. Desde que a viu, deslumbrou-se com sua beleza e acariciou intimamente o desejo de conquistá-la. Para isso, envolveu D. Fabrício com atenções, aparentemente concordando com sua maneira de ser e de pensar. Freqüentou-lhe a casa, e manhosamente foi ganhando sua confiança.

     Certa ocasião, foi ao castelo aparentando preocupação e tristeza. D. Fabrício o recebeu admirado diante do inusitado da hora.

     — Venho prevenir-vos de algo muito grave — tornou sério.

     — De que se trata?

     — De uma denúncia ao Santo Ofício. Fostes denunciado, e pelo que ouvi de meus superiores, trata-se de algo muito grave.

     D. Fabrício empalideceu.

     — Como assim?

     — Há aqui em seu castelo encontros de bruxaria. Pessoalmente, eu não sabia de nada, mas alguém deu a denúncia, e como somos amigos, vos previno. O caso é muito sério.

     — É uma infâmia!

     — Acredito, mas parece que há testemunhas. Hospedastes aqui um homem que ouve vozes e se diz profeta e com ele fizestes uma sessão de magia proibida por lei.

     — Não foi isso. Ele passou por aqui, pediu pousada, e agradecido quis vaticinar sobre meu futuro. Aliás quase o pus para fora a pontapés porque disse coisas amargas e fez duras previsões. Acabou por querer que eu fizesse algumas coisas e abandonasse tudo que eu gosto. Falou de desgraças e eu por pouco não o matei aqui mesmo. Atirei-o fora, se quer saber.

     — Não é isso o que consta no Santo Ofício. Por causa disso pode haver intervenção em vossas terras.

     — Isso é uma calúnia. Nada fiz de mal! Sou católico e obediente à Igreja. É uma injustiça!

     — Acalmai-vos. Somos amigos e vou procurar defender vossos interesses. Podeis confiar em mim. Intercederei junto aos superiores.

     — Fazei isso. Eu doarei um pedaço de minhas melhores terras à Igreja.

     D. Gervásio sorriu magnânimo:

     —- Não. Isso não. Mas a Congregação aceitará metade da safra deste ano e algumas jóias para nossos pobres. Verei o que posso fazer, embora o problema seja grave.

     E o padre se retirara, voltando três dias depois para dizer ao fidalgo que finalmente afastara o perigo, conseguira impedir a prisão dele e obtivera o arquivamento do processo. D. Fabrício respirou aliviado.

     Sabia que eles eram todo-poderosos e que estavam sempre atentos para, sob qualquer pretexto, confiscar os bens e apoderar-se das terras. Para isso valia tudo. A amizade de D. Gervásio tornara-se-lhe preciosa, e devia conservá-la a todo custo.

     Cumulou o padre de gentilezas, hospedando-o com fidalguia. Até que um dia ele presenciou um ataque de mau humor de D. Fabrício. Finalmente ele o tomara por confessor. Crendo-o amigo, desabafou-se com ele:

     — Sou infeliz, padre!

     — Por quê, meu filho? Sois rico fidalgo a quem não faltam belas mulheres e poder.

     — Se tenho a todas, não tenho Leonor. Ela me odeia.

     Gervásio exultou. Aparentando tristeza, tornou:

     — É vossa esposa e vos deve obediência. Por acaso não estará cumprindo com seus deveres sagrados?

     — Quer levar-me à loucura. É fria e distante. Não cede aos agrados nem aos castigos. E se cobro meus direitos, parece que estou possuindo um cadáver. E o pior é que isso me exaspera e a quero cada dia mais. É um fogo que me está matando.

     Seu rosto, de traços voluntariosos e firmes, se contraía em rictos de revolta e paixão. Lágrimas saltavam de seus olhos congestionados. D. Fabrício fora homem requestado pelas mulheres, iludidas com seu físico forte, seu porte elegante, seu rosto sensual e seu temperamento ardente. Jamais sofrera derrota amorosa. Não entendia a repulsa da esposa, a qual nunca conseguira vencer.

     Ela o tratava com respeito e obediência, mas jamais correspondera a seu amor. Caráter honesto, desde antes do casamento suplicara liberdade, alegando que não o amava e que não desejava casar-se com ele. Mas, obstinado e envaidecido, D. Fabrício acreditava poder fazer-se amar por Leonor com o tempo. Contudo, mulher delicada e sensível, cujo sentimento ele estava muito longe de alcançar, sentia-se cada dia mais chocada com o comportamento do marido, sensual e voltado aos instintos mais animalizados do homem.

     Leonor sofria só com a proximidade dele, com sua paixão doentia e insaciável. Ele fez tudo quanto entendia possível para conquistá-la. Usou carinho, exigiu, obrigou, desprezou, arranjou outras mulheres que levava no próprio lar e com as quais se exibia diante dela. Mas Leonor era indiferente. Percebeu, até, que, quando ele tinha outras, ela parecia aliviada.

     D. Gervásio encontrou sua oportunidade.

     — Sois meu amigo. Se me permitirdes, falarei com ela. Tornar-me-ei seu confessor e assim poderei aos poucos ganhar sua confiança e a ensinarei a vos amar como é o dever de uma boa esposa. Tenho certeza de que conseguirei.

     — Ela já tem seu confessor: D. Alberto, que vem sempre ouvi-la. Desde sua infância ele a orienta. Foi algo que me pediu e que concedi.

     D. Gervásio não se deu por achado:

     — Quem sabe é por isso que ela não vos aceita. Ele é vosso amigo?

     — Não. Acho até que me evita, embora me trate com respeito. Pensando melhor, acho até que não me aprecia.

     D. Gervásio fez um gesto largo.

     — Aí está. Vai ver que descobrimos a causa do descontentamento de D. Leonor. Não está sendo bem orientada por seu confessor.

     D. Fabrício teve um brilho maldoso no olhar.

     — Nesse caso, eu não mais permitirei sua presença aqui. Como não pensei nisso antes?

     — Não acho prudente essa proibição. Se quiserdes conquistar sua estima, não deveis contrariá-la.

     D. Fabrício impacientou-se:

     — E então?

     — Deixai comigo. Hoje mesmo intercederei para que ele seja mandado para longe, talvez até fora do país. Não poderá recusar, e ela nunca saberá de nossa interferência.

     D. Fabrício sorriu aliviado.

     — D. Gervásio. Que seria de mim sem vossa proteção? Vamos comemorar. Abrirei o vinho mais velho de minha adega. Com um aliado assim, a vitória será fácil.

     Enquanto a carruagem corria renovando a paisagem, vencendo a distância rumo ao castelo de D. Fabrício, D. Gervásio rememorava cenas do passado.

     Foi um mês depois que obteve a primeira entrevista com D. Leonor a sós. Embora estivesse emocionado, jubiloso, procurou aparentar calma e dignidade. Sempre agia de acordo com a pessoa a quem se dirigia e era sensível o bastante para perceber a maneira de ser de seu interlocutor.

     Sabia que, para conquistar a confiança daquela dama, devia aparentar virtudes, honestidade, bondade e caráter. Foi investido desse papel que entrou em cena.

     D. Leonor, apesar de seus 36 anos, era mulher de beleza invulgar. Tez clara, de uma alvura que a vida de clausura a que era obrigada acentuara, parecia de louça, tal a delicadeza. Os cabelos castanhos, vastos e brilhantes, emolduravam seu rosto de traços delicados. Embora despida da vaidade comum às mulheres, seus olhos expressivos e luminosos, escuros e aveludados, traduziam sensibilidade e emoção. Vestia-se com simplicidade, sem jóias ou adereços, cabelos presos em coque na nuca.

     — Sou padre Gervásio, senhora D. Leonor. Tenho a honra de substituir o estimado D. Alberto, que em tão má hora foi obrigado a nos deixar.

     — Também pensais assim?

     — Claro. E um verdadeiro servo da Igreja e de Deus. Ele é insubstituível. Quando me designaram para vir aqui, confesso que fiquei muito preocupado.

     — Por quê?

     — Porque é uma empresa difícil essa. Espero contar com vossa compreensão.

     Ela deu de ombros.

     — A princípio me revoltei, acreditei tratar-se de mais uma de D. Fabrício. Agora começo a duvidar.

     — Cometeis séria injustiça com D. Fabrício. Por ter prestado serviços, D. Alberto fez jus a uma promoção.

     — Mas ele não queria ir...

     D. Gervásio fez um gesto vago.

     — Quem somos nós pobres servos da Igreja para discutirmos ordens superiores? Naturalmente será bom para ele e para os interesses de nossa Igreja.

     Ela suspirou triste:

     — Acredito. D. Alberto é um dos raros homens de bem que conheci. Mas não é a primeira vez que vindes ao castelo. Já vos tenho visto com D. Fabrício em boas relações.

     — Sempre a serviço da Igreja. Vós bem o sabeis que são os pecadores os mais necessitados de ajuda. A sagrada escritura diz que não são os sãos que precisam de médico.

     — Falais com sabedoria.

     Ele baixou o olhar com humildade:

     — Não sou eu, D. Leonor. Foi Deus quem disse isso. Ela suspirou triste:

     — Ainda bem que pensais assim. Temi que me fosse faltar o conforto da religião. Estava triste e angustiada.

     Seus olhos brilhavam emotivos e seus lábios tremiam dolorosamente. D. Gervásio estava perturbado. A proximidade daquela mulher que lhe povoara os pensamentos durante os últimos meses, sua beleza, sua emoção faziam-no vacilar. Tinha ímpetos de abraçá-la, apertando-a contra o peito, beijar-lhe os lábios delicados e puros.

     A onda de paixão que o acometeu era como uma dor física e ele precisou lutar muito para contê-la. O esforço foi doloroso e seu rosto contorceu-se em ricto involuntário. Sabia que, se traísse, poria tudo a perder.

     Tocada pela fisionomia sofrida do padre, ela comoveu-se:

     — Vejo que sois sensível. Estais emocionado. Mas podeis crer que não vos darei trabalho. Já aceitei minha condição e sei que, nesta vida, não tenho direito à felicidade. Confio em Deus. Espero alcançar o paraíso.

     — Certamente — tornou ele com voz trêmula. — Há algum tempo tenho sido testemunha de vossos sofrimentos. E quero dizer-vos que estou aqui para ajudar. Venho para vos servir com toda a dedicação, deixar-me matar se for preciso, para vos ser fiel. Tendes mais do que um amigo, um servo obediente e atento.

     Leonor colocou a mão delicada no braço do padre.

     — Foi Deus quem vos mandou aqui — tornou comovida. — Agradeço vossa dedicação do fundo de meu coração.

     Os olhos de D. Gervásio brilharam de alegria. Estava indo muito bem. Sabia que a primeira impressão é muito importante. Agora, era questão de tempo. Tudo sairia conforme seus desejos.

     Com ar compungido ouvira o desabafo de Leonor, que lhe contou seu passado, ouvira seus pecados, que se resumiam a não conseguir amar a seu marido, e saíra dali exultante, depois de mostrar-se compreensivo e digno até o fim.

     D. Leonor acalmou-se e de boa-fé, em sua inexperiência, nem sequer suspeitou de sua sinceridade. Nos dias que se seguiram, D. Gervásio continuou fazendo seu jogo. De um lado D. Fabrício confidenciava sua paixão, pressionando-o a que forçasse Leonor a aceitá-lo. De outro lado, ela, confiante, preocupada com seus problemas de consciência, por não conseguir submeter-se aos caprichos do marido.

     Ele ganhava tempo com D. Fabrício, iludindo-o e obrigando-o a esperar, e procurava a cada dia tornar-se indispensável a ela, envolvendo-a com carinho, apoiando-a em seu desamor com o marido.

     Parecia-lhe até que ela o esperava com ansiedade e que se emocionava com sua presença. Estava conseguindo seu intento. Dentro em pouco ele começaria a representar o papel sofredor por um amor impossível e certamente ela, sensível e dominada já por um novo sentimento, lhe cairia nos braços. Ah! O encanto desse instante! Ele o imaginava de mil modos, culminando no beijo ardente e revelador e na vivência de um amor pleno e maravilhoso. Mal podia esperar.

     Tinha que ser discreto. Leonor não era como as outras. Um gesto impensado poria tudo a perder.

     Houve um dia em que, chegando ao castelo, D. Fabrício o esperava impaciente e colérico. Arrancado de seus devaneios, D. Gervásio preocupou-se. Conhecia bem aquela expressão do fidalgo. Algo muito grave estaria passando.

     — Ainda bem que chegastes — resmungou impaciente. — Precisamos falar. Acomodai-vos.

     — Estais aflito. Ocorre algo?

     — Más novas, que sempre chegam muito depressa. É uma infâmia o que me está sendo exigido.

     — De que se trata?

     — De uma dívida. D. Álvarez e Arreda exige este castelo como pagamento, sob pena de tomá-lo pela força. Como se isso não bastasse para me atormentar, tive uma cena com Leonor, que me pôs louco.

     D. Gervásio empalideceu:

     — O que aconteceu?

     — Vossa intercessão nada adiantou. A princípio ela parecia mais calma e até me olhava sem rancor e eu, a noite passada, amargurado e abatido, fui à sua alcova e ela me repeliu. Compreende? Ela me repeliu. Estava linda, cabelos soltos, camisa de dormir, parecia uma visão, e, quando a abracei com paixão, ficou pálida, desmaiou. Assustado, dei-lhe sais o não posso negar que, mesmo ela desacordada e fria, tirei-lhe as vestes e contemplei seu corpo. Ah! padre, que loucura! Quase perdi a razão! Esqueci de tudo até que ela acordou em meus braços.

     O padre sentia a boca seca e o suor começava a brotar em sua testa. Ele ousara, ele a possuíra. Nem sequer pensou que, como marido, ela lhe pertencia. Um ódio mortal encheu-lhe o coração. Ao mesmo tempo, vê-la conforme ele a descreveu era o que sempre povoava seus devaneios: ela desmaiada de amor em seus braços!

     Lutou com o ciúme feroz e fez-se pálido. Não se conteve:

     — Isso foi um abuso!

     — Como?! — tornou ele assustado. — Por acaso não sou seu marido? D. Gervásio cerrou os olhos com força, procurando controlar-se:

     — Quero dizer que ela é uma bela dama delicada e é imprópria vossa atitude. Pusestes todo meu trabalho a perder. Tenho lutado para demonstrar a D. Leonor que sois homem bom e digno. Que a respeitais e amais muito. Vossa atitude só deve tê-la revoltado.

     — Pois foi. Ela, de repente, quando acordou, pareceu-me tomada de horror. Nunca a vi assim. Parecia fora de si. Cobriu-se e, enrolada no lençol, gritou que eu era um animal, que me odiava, que ia acabar com a vida para ver-se livre de mim. Confesso que perdi a cabeça. Chamou-me de perverso e sem caráter. Foi a primeira vez que tal aconteceu. Não suportei. Avancei contra ela, dei-lhe alguns safanões e deixei-a estirada no leito. Aos gritos de sua aia, saí como louco. Mais uma cena destas e a mato. Nenhuma mulher jamais teve coragem para dizer-me isso cara a cara.

     D. Gervásio tinha ímpetos de matá-lo, tal o ódio que sentia. A brutalidade daquele homem o enojava, ao mesmo tempo que exultava com a atitude dela. Se ousara enfrentá-lo, era porque agora tinha coragem. Talvez até o amor já envolvesse seu coração. Ele podia ter sido a causa de tudo.

     — D. Fabrício, deixai-me falar com D. Leonor. Preciso apagar a penosa impressão que lhe deixastes no coração, caso contrário ela principiará a vos odiar.

     — E como se não bastasse — resmungou ele —, a ameaça da tomada do castelo! Mas isso não vai ficar assim, preciso dar um jeito. Isso não pode esperar. Quanto a Leonor, deixo-a a vossos cuidados, mas acho que nem todo vosso esforço conseguirá vencer sua obstinação.

     — Apesar de tudo, é dever de um padre tentar unir um casal. É difícil quando as pessoas se obstinam — suspirou angustiado. — Verei o que posso fazer.

     Conduzido à alcova de Leonor, D. Gervásio a custo reprimiu uma onda de indignação. Emocionado ao penetrar ali, vendo-a estirada no leito, a sensação excitante foi substituída pelo rancor.

     Pálida, Leonor parecia morta, mas seu rosto inchado e as marcas arroxeadas em sua pela branca atestavam a brutalidade de que fora vítima.

     D. Gervásio, revoltado, tentou dominar o rancor. D. Fabrício não perdia por esperar. A aia esclareceu:

     — Senhor, ela está muito debilitada. Perdeu muito sangue pelo nariz. — A serva chorava aflita. — Por favor! O senhor, que é ministro de Deus, ajudai minha pobre ama. Aquela fera fechou a porta e não pude entrar. Ouvi os gritos de minha pobre ama e não pude socorrê-la. Perdoai-me, Vossa Reverendíssima, mas tive ganas de matá-lo. Tanta maldade com a pobre senhora, tão bondosa e santa!

     Algumas lágrimas brilhavam nos olhos do padre.

     — Acalma-te. És uma serva fiel. Sei que és devotada. Podes crer que tudo farei para salvar tua ama das garras desse mau servo de Deus. A justiça deve ser feita!

     — Ah! Senhor padre, como sois bondoso! — A pobre mulher tomou a mão do padre e a beijou com arroubo. — De hoje em diante serei vossa serva obediente. Se puder ajudar, darei a vida para salvá-la.

     D. Gervásio exultou. Era uma aliada poderosa. Aproximou-se do leito e murmurou carinhoso:

     — D. Leonor, sou eu, vosso confessor. Por favor, falai comigo, que estou ralado de angústia por vossa dor.

     Ela abriu os olhos devagar e, vendo-o, seu peito explodiu em soluços:

     — Ah! Meu bom amigo! Como sou infeliz!

     — Preciso conversar com tua ama, ministrar-lhe o conforto da religião. Vigia a porta para que ninguém nos interrompa.

     A serva obedeceu diligente, saiu e ficou guardando a porta do lado de fora. D. Gervásio sentou-se em uma banqueta ao lado do leito. Procurou a mão de D. Leonor e a segurou comovido:

     — Senhora, vim para vos confortar. Gostaria que me recebêsseis não só como amigo e confessor, mas como um irmão muito querido que está sofrendo muito por vossa causa.

     Ela suspirou e fixou o rosto aflito do padre: havia sinceridade em sua voz. De suas mãos fortes vinha um calor agradável e reconfortante.

     — Ah! Que seria de mim sem vossa presença! Não fora vossa amizade e fé em Deus, não mais encontraria razão para viver.

     D. Gervásio assustou-se. Apertou-lhe a mão com força.

     — Por favor, D. Leonor. Que nunca mais tal pensamento passe de leve por vossa cabeça. Para tudo se dá jeito neste mundo.

     — Para mim, não há solução. Se ao menos eu tivesse alguém para me defender!

     — Tendes a mim — tornou ele com arroubo. — Tendes minha vida, se preciso for.

     — Por quê? — perguntou ela assustada tentando retirar a mão. Por um instante vislumbrara uma chama violenta no olhar do padre.

     Percebendo que se traíra e que o momento ainda não lhe era favorável, largou a mão que prendia e baixou a cabeça com humildade. Algumas lágrimas rolaram de seus olhos cerrados. Era-lhe sumamente difícil o papel de irmão quando desejava apertá-la de encontro ao peito e confortá-la cobrindo de beijos seus cabelos macios.

     — Chorais? Por acaso vos magoei?

     — Não. Mas, pobre de mim, homem solitário e triste, sem família e sem ninguém! Perdoai-me, senhora — sua voz irrompeu em soluços —, perdoai-me.

     Ela de fato assustou-se. Aquele homem forte, corajoso, que sempre a encorajara, parecia uma folha batida pelo vento. Compadeceu-se:

     — O que acontece ?

     — Senhora, em minha vida de solitário, sem família nem amor, surgiu uma força nova que me alimenta e aquece.

     Ela parecia não entender. Ele prosseguiu:

     — Perdoai-me. Juro-vos que nunca mais voltarei ao assunto, não tenho esse direito! Sou um pobre homem sofrido e só!

     O rosto dela contraiu-se dolorosamente. Estaria entendendo bem? Sentou-se no leito com dificuldade. Apesar de lhe doer a cabeça, condoeu-se do padre e chegou até a esquecer seu próprio drama. Colocou a mão delicada sobre a mão dele.

     — Por favor, D. Gervásio. Quero saber.

     — Temo vosso julgamento. Sou um padre e confundido pecador! Jamais me perdoarei...

     — Contai-me tudo, peço-vos. Somos todos humanos.

     Ele suspirou, tentando conter as lágrimas que bordejavam, tanta fora a tensão, e que agora se transformavam numa catadupa emotiva que não tinha interesse em conter.

     — Senhora, convivendo de perto com vosso elevado espírito, cheio de virtudes e de dignidade, a princípio não pude conter a admiração. Tanta abnegação, tanta renúncia me faziam comparar-vos a Santa Margarida e outras damas de minha veneração. Tanto admiro vossas virtudes que aos poucos, em minha vida solitária, passastes a ser o sol e a esperança, a luz e a alegria. — Baixou os olhos e continuou: — Perdoai se vos ofendo com meu afeto. Mas ele é puro e nada pede a não ser vosso bem-estar e vossa felicidade. Ah! Pobre de mim, que deverei carregar essa cruz pelo resto da vida! Infeliz que nada pode para vos salvar e que daria sua pobre vida para vos ver feliz.

     As palavras do padre, apesar de envolverem uma declaração de amor, foram um bálsamo ao dorido coração de Leonor, violentada de corpo e espírito pela grosseria do marido. Ela pensava que havia ainda no mundo homens delicados como aquele capazes de um amor espiritual e grande, doando tudo sem nada pedir.

     Romântica e inexperiente, Leonor deixou-se envolver por agradável sensação de proteção e de confiança. Segurando a mão dele, tornou com voz doce:

     — Sois um homem bom. Vosso amor me conforta e balsamiza a ferida de uma vida triste e vazia. Mesmo sem esperança, impossível e triste, foi a coisa mais bela que já ouvi, embora sofra por vos ter causado tanta dor.

     Ele exultou. Estava indo muito bem. Custava-lhe muito o domínio para representar seu papel. Mas amava ardentemente aquela mulher e tudo faria para possuí-la de corpo e alma. Não queria só seu corpo, mas seus pensamentos, seu amor. Conhecia-lhe a índole e sabia que para conquistá-la era o único caminho. Lutou com o desejo de beijar-lhe a boca delicada. Segurou a mão dela enquanto dizia:

     — Permita agradecer vossa compreensão. Isso diminui meu sofrimento. — Delicadamente depôs um beijo na mão que segurava e sentiu que Leonor estremecia, enrubescendo-lhe o rosto.

     Afastando-se um pouco e largando a mão, disse com voz que tentou tornar natural:

     — Agora, estudemos vosso caso. O que desejais fazer?

     Ela pareceu mais calma. Era-lhe extremamente agradável a dedicação incondicional daquele homem, na penosa situação em que se encontrava. Era horrível sentir-se aviltada pelo marido, agredida e subjugada sem ninguém que a pudesse defender ou orientar. Ele era todo-poderoso; ela, a escrava, o objeto de uso, e ninguém teria a coragem de criticá-lo, porque a mulher lhe pertencia. O marido era o dono absoluto, tinha o poder de vida e morte sobre a mulher. Nem seu irmão, homem correto e seguidor dos costumes, ousava interferir.

     A coragem do padre, único amigo, disposto a dar sua vida por ela, animava-a e parecia providencial. Seu amor era puro e desinteressado, por que não utilizá-lo? Não seria ele um emissário da Providência divina para salvá-la?

     Animada, tornou:

     — Surgiu-me agora uma idéia. Vossa presença é providencial.

     — Podeis falar.

     — Pretendo sair do castelo. Fugir daqui para sempre. Ele exultou:

     — É uma idéia boa.

     — Jamais pensei nisso antes. Mas, agora, depois de ontem... Pensei morrer. Ele me agrediu, parecia um louco, mil vezes a morte do que suportar de novo sua intimidade!

     Ele concordou. Não suportava mais o ciúme. Pensar que D. Fabrício podia, a qualquer momento, possuir sua mulher sem que ninguém pudesse impedir era uma idéia insuportável.

     — Pensei em meu irmão. Ele talvez me possa socorrer. Se fordes ao castelo de Fernando e pedirdes ajuda, certamente ele não vai negar.

     — Claro. Conheço D. Fernando, é homem de bem.

     Mas a D. Gervásio não agradava a solução. Uma vez em casa do irmão, ela não precisaria mais dele e lhe seria difícil conseguir seus objetivos. Por isso tornou:

     — Apesar de que D. Fabrício não se conformaria. Vossa presença lá despertaria uma guerra entre as duas armas. E se D. Fernando perdesse?

     — Valha-me Deus! Fabrício é capaz de tudo. Não quero que mate meu irmão. Então, o que fazer?

     — Deixai comigo. Vou preparar vossa fuga. Vossa aia é de confiança?

     — Certamente. Dará a vida por mim.

     — Então podemos contar com ela. Traçarei os planos e depois ireis com ela para um lugar seguro, onde jamais ele vos encontrará. Quando tudo estiver esquecido, podereis retornar ao castelo de D. Fernando em paz.

     Ela suspirou:

     — Quando chegará esse dia?

     — Tende calma e esperai. Havemos de vencer!

     — O que seria de mim sem vosso apoio?

     — Mais recebo de vós. Sois a luz que brilha em minha cela solitária. A santa que me conduz mais perto de Deus!

     Tomou a mão dela e a levou aos lábios.

     — Tende coragem. Cuidarei de tudo. Enquanto isso, procurai ganhar tempo com D. Fabrício. Não o irriteis inutilmente. Que Deus vos abençoe.

     Quando a serva entrou, admirou-se vendo o rosto corado e tranqüilo de sua ama.

     — É um santo homem! — tornou ela com alegria. — Que bem lhe fez sua presença!

     — É sim, Maria. É um santo homem! Vai dar sua vida se preciso for para nos ajudar. Resolvemos fugir.

     — Louvado seja Deus! — tornou a ama com entusiasmo. — Finalmente, senhora, sereis libertada de tanto sofrimento. Vou agora buscar um caldo quente. Deveis recuperar vossas forças. A fuga exige preparação.

     — Tens razão. Estou com fome. Tomarei o caldo.

     A aia sorriu feliz. Até que enfim sua ama saía da prostração e demonstrava vontade de viver.

     D. Gervásio, a partir desse dia, começara a planejar a fuga. Mas Fabrício, temeroso de ser surpreendido por seu credor, transformara o castelo em praça de guerra, colocando vigias em toda parte e tornando a fuga praticamente impossível. Precisava esperar a oportunidade. Afastá-lo do castelo, uma luta ou uma guerra seria bom, porquanto ele sairia com seus homens e tudo se arranjaria. Tinha já um local, longe dali, onde pretendia escondê-la. Uma pequena casa de campo, que conservava secretamente, onde já realizara encontros amorosos clandestinos e reservava para esconder-se em caso de necessidade. Lá, Leonor ficaria com a aia e ninguém a encontraria. Então ele teria ocasião para conquistar seu amor.

     Tremia só em pensar nisso! O dia em que ela finalmente o amasse. Para conseguir o que pretendia, ai de quem se opusesse em seu caminho! Tinha o objetivo, e os meios não importavam. Lutaria com todas as armas até conquistá-lo.

     Foi naquele dia que traçou seu plano. Se o castelo fosse atacado por Arreda, ele aproveitaria a confusão para promover a fuga, quem sabe até com a ajuda do próprio D. Fabrício. Esperou exultante.

     Mas Fabrício não era homem disposto a esperar. Mandou chamar D. Ortega e entreteve com ele um acordo. O aventureiro comprometeu-se a exigir de Arreda satisfações e invadir-lhe o castelo pela força.

     D. Gervásio tentou dissuadi-lo, mas em vão. Sob a promessa de ouro e prata, D. Ortega juntou os homens e na calada da noite atacou a casa de Arreda, matando-o. Seus homens, surpreendidos, não tiveram tempo de defender-se e durante três dias D. Ortega foi hóspede de D. Fabrício, festejando a vitória brutal sobre o inimigo. Não tomara o castelo, porquanto D. Álvarez e Arreda era muito estimado na região. Assim que soubessem, certamente o atacariam. Não lhe interessava lutar inutilmente. Tinham carregado tudo quanto puderam e liquidado D. Álvarez. Resolvido o problema, D. Fabrício pagaria uma boa soma. Comemoraram regiamente. Entretanto, na hora do pagamento, D. Fabrício não possuía a quantia que a ambição de Ortega pretendia. Insatisfeito, rugiu algumas ameaças. Mas a D. Fabrício não interessava perder tão grande aliado. Por isso, dominou o orgulho e, com malícia, procurando aparentar calma, convenceu-o a esperar. Garantiu que sua situação era temporária e que logo teria uma herança e poderia quitar sua dívida, prometendo compensá-lo regiamente.

     D. Ortega, cujos olhos luziam ambiciosos, concordou, dando-lhe alguns meses de prazo. Quando partiram, D. Fabrício começou a pensar no problema. Preocupado, desabafou com D. Gervásio:

     — Preciso arranjar um meio de contentar Ortega. Caso contrário, teremos que lutar com ele, no que levaríamos desvantagem. Seus homens são treinados, enquanto os meus não iam agüentar muito tempo. Preciso pensar!

     D. Gervásio teve uma idéia. Sugeriu:

     — E a herança de vossa esposa? Acaso a recebestes?

     — Miseráveis. D. Fernando, tenho certeza, não deixou que nos chegasse às mãos. Não creio que D. Augusto fosse tão cruel a ponto de nada deixar para sua única filha. Acho que ele ficou com tudo.

     — Eu também acho — tornou o padre, pensativo. — Se fósseis cobrar vossos direitos, talvez pudésseis solucionar a questão.

     — É — fez ele satisfeito. — Tendes razão. Mas tenho certeza de que D. Fernando não me vai atender. É orgulhoso e me odeia. Sempre foi contra meu casamento com Leonor. Tudo fez para impedir. Não vai me dar o que me pertence por direito!

     — Nesse caso... tereis que enfrentar D. Ortega. Fabrício deu um murro na mesa.

     — Nem penseis nisso! Ele nos mataria como cães.

     — Nesse caso, deveis ir e exigir vossos direitos. Quem sabe uma entrevista. Sem brigas.

     — Sois um ingênuo. Acaso ele me receberia?

     — Bem, neste caso não há solução.

     — A não ser...

     — A não ser?

     — A não ser que eu a tome pela força! Se fizer um ataque de surpresa, poderei apanhar tudo quanto me pertence, até o castelo!

     Seus olhos brilhavam de cobiça!

     — Por que não pensei nisso antes? Orgulhoso e impertinente D. Fernando!

     O padre aconselhou:

     — Cuidado, D. Fabrício. É uma violência. Achais necessário?

     — Claro. Eles nem sonham. Faremos uma surpresa! Tudo será fácil.

     D. Gervásio exultou. Se ele saísse com os homens do castelo, não seria difícil promover a fuga enquanto todos estivessem preocupados com o combate e o castelo, desguarnecido.

     Preparou tudo, conversou com a aia, com Leonor, sem contar a verdade, mas dizendo que tudo estava indo bem. Até que, dias depois, regressando ao castelo, soube a novidade. D. Fabrício não iria em pessoa atacar o castelo de D. Fernando. Contratara Ortega, que interessado nos lucros se propusera a ajudá-lo na empresa.

     D. Gervásio ficou furioso. Seus planos caíram por terra. Foi então que resolveu intervir diretamente. Preveniu D. Fernando das intenções do cunhado. Apesar de saber que o fidalgo era de paz e que não gostaria de tomar a iniciativa na luta, tentaria levá-los ao ataque. Se ele pegasse D. Fabrício desprevenido, poderia acabar com ele. Enquanto isso, ele levaria D. Leonor para longe antes que descobrisse a presença do irmão no castelo. Enquanto Ortega se preparava, D. Fernando teria chance de ataque desbaratando os inimigos.

     D. Gervásio ia ansioso. Quando a carruagem chegou ao castelo de D. Fabrício, o ambiente lhe pareceu calmo. Nada que evidenciasse preparação bélica. Encontrou o fidalgo examinando algumas armas. Dissimulando, saudou-o com respeito. Convidado a sentar-se e a tomar um copo de vinho, perguntou aparentando zeloso interesse:

     — Parece que tudo está calmo e resolvido. Por acaso já solucionastes vosso problema?

     Fabrício deu de ombros:

     — Claro. Ortega vai reunir os homens que estão espalhados. Sabeis que depois de uma bravura destas, como a que fizeram a D. Arreda, se espalham para gozar os haveres e fugir à vingança do povo e da família ferida. Quando ficam sem nada, voltam a Ortega e "trabalham" de novo. Mas se ele necessita dos homens, tem uma senha e um lugar para os reunir. É um gênio, nosso Ortega. Por isso não posso perder sua amizade. Enquanto for meu amigo, vai defender meus interesses e podemos ficar em paz.

     O padre concordou, perguntando a seguir:

     — Neste caso, ele vos vai ajudar?

     — Claro. Pediu-me tempo porque quer que os homens descansem, e o povo está revoltado por causa de D. Arreda. Ele não quer aparecer por agora. Depois, não temos pressa. Se ele quer esperar, melhor. O que vou fazer é por causa dele. Assim, está tudo calmo. Quando ele achar conveniente, atacaremos.

     D. Gervásio procurou ocultar a preocupação. Afinal, se D. Ortega assaltasse D. Fernando e o matasse, de nada lhe valeria. O que precisava era um jeito de tirar dali D. Leonor. Enquanto D. Fabrício estivesse por perto, colocava homens em vigilância, pois temia a todo momento que alguém o matasse. O que seria um alívio, pensou o padre, irritado.

     — Padre, não sei como, mas operastes um milagre com minha mulher. Desde vossa visita está mais calma.

     — Sabeis que D. Leonor é alma religiosa — tornou ele com ar compungido. — Fiz ela compreender que precisa submeter-se à vontade de Deus, amar e honrar seu senhor e marido.

     — Isso mesmo. Para isso vos tenho recebido. Agora, ide vê-la e vamos ver se a convenceis a me receber melhor.

     Outra coisa não queria o padre, que, olhos baixos, foi ter à saleta de Leonor. Encontrou-a melhor e mais disposta. As manchas arroxeadas tinham desaparecido e ela lhe pareceu calma e mais forte.

     Não passou despercebido à perspicácia do padre que ela estava mais galante. Penteara-se com mais cuidado e trazia algumas jóias delicadas.

     O padre exultou. Para quem teria ela se enfeitado? Não seria para o marido, certamente. Com o coração batendo forte, pediu à aia que ficasse na porta, do lado de fora. Ia ouvi-la em confissão.

     Uma vez a sós, tomou a mão de Leonor e levou-a aos lábios com delicadeza e ao mesmo tempo com ardor.

     — Roguei a Deus por vossa saúde e ele me atendeu — ajuntou, fitando-a com paixão.

     Ela ruborizou-se e baixou o olhar. D. Gervásio sentia o corpo formigando de desejo, a proximidade dela o atordoava, tirando-lhe o raciocínio. Apesar de habituado a conter-se, era-lhe difícil, naquele momento.

     — Por Deus, padre — murmurou ela tímida —, aguardava ansiosamente vossa presença para saber o que fazer.

     — D. Leonor — murmurou ele, sentindo o coração descompassado —, não tenho pensado noutra coisa. É mais forte do que eu. Não terei sossego enquanto não vos tiver libertado dessas cadeias. — Tomou as mãos dela. — Sabeis que farei tudo para vos ajudar! Tenho perdido o sono, procurando um meio para vos tirar desta prisão. Mas confiai em mim que vos servirei fielmente até a morte.

     Ela estremeceu. A dedicação fervorosa daquele homem que todos consideravam poderoso e forte era-lhe confortadora. Jamais Leonor conhecera um sentimento de amor. A servidão daquele homem a comovia, e a chama ardente de seus olhos despertara uma inquietude e uma emoção que ela não saberia definir.

     Era um padre! Que pecado! Certamente, ele deveria ser apenas um amigo dedicado. Mas não teve forças para tirar as mãos quando ele as segurou com ardor e sentiu um frêmito diferente ouvindo sua respiração ofegante, sentindo o fogo de sua emoção a lhe envolver o coração.

     Leonor estava perturbada. Apesar da exaltação, Gervásio conseguiu controlar-se. Temia precipitar-se, apesar de sentir a emoção que despertara nela. Homem experimentado, sabia-a despreparada para que ele extravasasse sua paixão. Contudo, não pôde evitar um impulso ardente e pousou os lábios quentes nos dela de leve, beijando-a docemente, para afastar-se em seguida, caindo de joelhos a seus pés:

     — Perdão, senhora, perdão. Sou um pobre pecador! Sonhei com essa hora, embora tenha lutado. Não tornará a acontecer, eu juro!

     Leonor estava atordoada. Aquele beijo fora diferente de tudo quanto já sentira. Uma onda de emoção a acometeu com tal violência que ela assustada afastou-se, procurando serenar a avalanche.

     — Por favor — murmurou ela sem saber o que dizer. Ele tornou com voz triste:

     — Depois do que fiz não devo mais voltar aqui. Certamente não me perdoareis. Vou me penitenciar! Por favor, D. Leonor, não há malícia em meu coração. Sois tão bela, tão pura, que eu não resisti, beijei-vos como a uma santa! Sois a santa de meu altar! Mas se não posso me conter, não mais virei aqui perturbar vosso sossego. Nunca mais me vereis.

     Ela sentiu-se tomada de desespero, foi até ele e procurou erguê-lo do chão:

     — Por favor, padre. Sois meu único amigo e única esperança. Se me abandonais, a vida não terá mais razão de ser. Por favor! Não deveis fazer isso. Posso compreender vosso deslize.

     D. Gervásio lentamente levantou-se e passou a mão sobre os olhos para enxugar as lágrimas. A aflição dela o encheu de esperança. Seu coração exultava de felicidade.

     — Senhora! Mandai e eu obedecerei. Sou vosso escravo. Se quiserdes, tudo eu farei por vós, por vosso amor e por vossa felicidade.

     Leonor não continha as lágrimas, presa de grande emoção.

     — Só vos peço que não me abandoneis. Eu não teria mais forças para viver!

     Gervásio segurou a mão dela e olhou-a nos olhos com todo o ardor de seus sentimentos represados.

     — Seja, D. Leonor. Ainda que me custe a morte, farei vossa vontade. Mas como lutar contra esse amor que me enlouquece? Como estar a vosso lado sem me ajoelhar a vossos pés e beijar a fímbria de vossos vestidos? Eu que gostaria de ter o paraíso para vos oferecer e que nada tenho senão um coração dorido e despedaçado?

     Leonor tremia como folha açoitada pelo vento. A força daqueles olhos a magnetizava, despertando-lhe emoções violentas das quais nunca se julgara capaz. Tomada de incontida emoção, Leonor apertou com força a mão que segurava a sua, enquanto dizia:

     — Agradeço-vos e aceito o sacrifício. Vossa presença trouxe novo alento a minha pobre vida. Nunca tive ninguém que me amasse com essa dedicação e essa pureza. Ajudai-me. Não me abandoneis!

     — Podeis confiar em mim. Estou trabalhando para vossa libertação. Se tudo der certo, dentro em pouco estareis livre de vosso cativeiro. Por enquanto, tende paciência com D. Fabrício.

     Leonor estremeceu:

     — A paixão dele me arrasa. Tenho-lhe nojo. Não suporto sua presença.

     O padre exultou:

     — Tendes razão. Será por pouco tempo.

     — Não posso ser tolerante com ele porque cada vez que faço isso ele se apossa de mim com uma loucura que me mata. Não posso suportar seu contato!

     Violenta onda de ciúme invadiu o coração do padre:

     — Não deveis permitir que ele cometa esse pecado. O amor é sagrado e não deve ser enxovalhado dessa forma. O amor é um sentimento delicado e profundo, que coloca o coração em um simples beijo, quando a alma se funde no mesmo abraço! Ah! Se eu pudesse, Leonor!... Se eu pudesse ensinar-te o que é o amor!

     Ele falava perto dela, esquecido do tratamento cerimonioso, ardente e apaixonado.

     Leonor, olhos semi-cerrados, sonhava com emoções novas e inesperadas que brotavam em seu peito com violência.

     — Conheceste já o amor? — indagou ele com ingênua timidez, baixando os olhos para que ela não lhe visse a malícia. — Eu o conheci agora, ao estar a teu lado! Perdoa-me, agora devo ir-me. Não resisto ao fascínio de tua presença!

     — Volta breve! — pediu ela, e ajuntou apressada: — Estou ansiosa para fugir daqui.

     — Farei tudo para tirar-te daqui o mais rápido possível.

     Num arroubo, beijou-lhe as mãos com ardor e afastou-se rapidamente como para espantar uma tentação maior. Na verdade, ele a custo resistira ao desejo de tomá-la nos braços. Sentiu que ela não mais resistiria a seu afeto. Porém convinha-lhe que ela pensasse no assunto, que desejasse conscientemente estar com ele, que o amasse.

     Nunca sentira por nenhuma mulher aquela paixão tão violenta. Queria-a para sempre. Estava exultante. Ela estava aceitando seu amor! Se a tivesse ao lado com freqüência, dentro em breve teria alcançado seus objetivos.

     Esse pensamento enlouquecia-o, imaginando o ardor que vira nos olhos dela, ao mesmo tempo que o envaidecia. Ela não havia ainda amado a ninguém. Ele seria absoluto!

     Saiu do castelo disposto a tudo. Sem ao menos repousar, alegando afazeres inadiáveis, retornou a casa de D. Fernando. Pelo caminho foi imaginando como fazer.

     Ao chegar, era já noite fechada, e apesar de já se ter recolhido, D. Fernando foi recebê-lo pessoalmente. O padre estava pálido e cansado. As emoções, o esforço, a viagem davam-lhe aspecto abatido que ele acentuou procurando dar à fisionomia ar de preocupação.

     — E então? — perguntou D. Fernando assim que o viu acomodado com um copo de vinho entre os dedos.

     O padre suspirou:

     — Infelizmente, as novas não são boas. D. Fabrício meteu-se em apuros com D. Ortega e como já vos disse pretende atacar vosso castelo para pegar vossos bens, porquanto alega que com certeza metade do que possuis pertence a sua mulher.

     — Então, ele insiste!

     — Insiste. E ainda não atacou porque os homens de Ortega espalharam-se depois do que fizeram a D. Álvarez, para gastar em farras o ouro que roubaram. Mas Ortega já foi reunir os homens, e assim que os tiver, partirão para o ataque. Ah! D. Fernando, são bandidos cruéis! Precisamos evitar essa chacina contra os vossos!

     D. Fernando estava pálido. A sanha daqueles desordeiros era conhecida. Ele temia pelos seus.

     — Ainda há mais! Vossa irmã D. Leonor está sofrendo muito. Consegui convencê-la e ela suplicou-me que a ajude. Pediu que vós suplicasse auxílio. Quer fugir.

     — Leonor? — tornou ele com doloroso acento.

     — Sim. Ela não suporta mais. Tinha o corpo cheio de manchas roxas. Aquele homem é uma fera. D. Leonor garantiu-me que, se não conseguir fugir, mata-se. Prefere a morte à violência a que está sendo submetida. Contou-me entre soluços que ele a tem submetido a práticas degradantes, espancando-a quando, revoltada, ela quer fugir a seu assédio. D. Fernando, trata-se de um homem anormal! Infelizmente não ouso tocar neste assunto, que minha castidade se recusa a aceitar, mas eu a ouvi em confissão! Confesso que foi horrível! Precisamos salvar a pobre senhora. È um ato de Deus!

     D. Fernando, à medida que o ouvia, sentia crescer dentro de seu íntimo o rancor que sempre tivera pelo cunhado.

     — Porco! — gritou enfurecido. — Irei até o castelo. Vai ajustar contas comigo!

     O padre exultou, mas procurou dominar-se.

     — Tenho receio. D. Fabrício é homem violento. Não vai aceitar vossa intromissão. Precisamos agir depressa, antes de Ortega reunir os homens. Posso ajudar-vos. Mas o prudente seria um encontro com ele em algum lugar, já que seria perigoso vossa presença no castelo dele e ele certamente teria receio de vir até aqui. Poderíamos arranjar esse encontro e simular negociações com a herança. Ele sairia do castelo para esse encontro e eu poderia ajudar D. Leonor a fugir. Levá-la-ia para um convento onde ele não a acharia e onde ela poderia viver em paz até que tudo fosse esquecido. E, quem sabe, nesse encontro vossos problemas seriam resolvidos.

     — Não quero conversar com aquele patife! — tornou D. Fernando colérico. — Se o vejo, mato-o como a um cão!

     — Deveis ponderar! Deus determinou que não se deve matar. Sois cristão. Só deveis fazê-lo em defesa própria.

     — Não teria calma para falar com ele. Não teria nada a propor-lhe. A voz do padre era persuasiva:

     — Podeis ouvir o que ele disser. Contemporizar para que eu possa libertar D. Leonor. O drama da pobre senhora me aflige muito. Já pensastes se ela realmente vier a matar-se? Como ficarão nossas consciências?

     Um arrepio passou pelo corpo de D. Fernando. O rosto aflito e ingênuo da irmã não lhe saía do pensamento.

     — Fazei isto por ela, que me mandou aqui suplicar vossa ajuda!

     — Seja — concordou o fidalgo. — Mas como entrar em contato com ele? Certamente vai desconfiar.

     — Deixai comigo. Arranjarei tudo sem que ele desconfie.

     — Quanto trabalho estamos dando a Vossa Reverendíssima.

     — É obrigação, D. Fernando. É dever ajudar aquela pobre senhora! Naquela noite, o padre dormiu tranqüilamente. Tudo ia muito bem e a conquista de Leonor era uma questão de tempo.

    

Capítulo VIII

     Carlos estava intranqüilo e nervoso. Não concordava com a idéia de o pai sair ao encontro de D. Fabrício. Apesar de preocupado com a sorte da tia, contava encontrar outra saída para libertá-la, sem colocar em risco a segurança do pai.

     D. Gervásio partira no dia seguinte e três dias depois retornara, com um recado de D. Fabrício pedindo-lhe um encontro em local a ser combinado para discutir assuntos de família. D. Fernando concordou e mandou dizer que estaria dali a dois dias a sua espera na taberna do Leão Dourado, para ouvi-lo. Carlos tentou dissuadir o pai.

     — Pode ser uma cilada. Não confio naquele padre.

     — Que idéia! O pobre homem só quer ajudar Leonor. Vai expor-se por nossa causa. Depois, levo alguns homens e nada me acontecerá.

     — Por que um local tão distante?

     — É melhor. Não o queria por perto do castelo.

     Carlos sentiu um aperto no coração.

     — Deixai-me ir em vosso lugar.

     — Não posso. O assunto tem que ser tratado por mim.

     — Nesse caso, escolheremos homens de nossa confiança.

     — Concordo.

     — Eu irei convosco e permanecerei oculto se assim o desejais.

     — Não. Fícarás para defender o castelo. Pode ser que Fabrício intente afastar-nos daqui para Ortega atacar.

     — Tendes razão. Não tinha pensado nisso.

     — Por isso não pretendo levar muita gente comigo. Tomarei precauções, podes estar certo de que saberei defender-me. Tu deves estar alerta. Fabrício é traiçoeiro e mau.

     — Ficai tranqüilo. Estarei de olhos bem abertos.

     Juntos então traçaram planos de defesa, pensando numa maneira de fazer Fabrício compreender de uma vez por todas que a nada tinha direito. D. Fernando sabia a empresa difícil, mas seu objetivo era o de ajudar a salvar a irmã. Assim, queria ganhar tempo para que o padre pudesse ajudá-la a fugir.

     — O melhor será não irritá-lo — tornou Carlos, lembrando-se da astúcia dos ciganos, que sempre conseguiam o que queriam.

     — Sabes que não sou homem de rodeios. O que tenho a dizer digo logo.

     — Assim podeis irritá-lo ainda mais sem tirar nenhum proveito.

     — Queres que eu seja falso?

     — Não, pai. Sugiro que sejais esperto. Ele é maneiroso e fingido, se abrirdes logo o jogo, vos colocais em situação desfavorável que ele aproveitará certamente. Usai as mesmas armas, e assim podereis derrotá-lo.

     — Jamais poderia ser covarde com ele!

     — Não precisais chegar a tanto. Basta conservardes vossa posição com dignidade e não vos irritardes com ele, diga o que disser. Já pensastes com que alegria ele vos veria perder a calma e até quem sabe dar-lhe ocasião para vos matar? Não será isso o que ele pretende? Já pensastes que depois ele se atiraria sobre esta casa, tentando apossar-se de tudo?

     D. Fernando baixou a cabeça pensativo. Depois de alguns instantes tornou:

     — Tens razão. Vai ser difícil dominar o desprezo e a raiva que ele me causa. Todavia, procurarei não fazer seu jogo sujo. Conservarei a cabeça fria e os olhos no objetivo.

     — Depois — tornou Carlos com tranqüilidade —, quem sabe isso o acalme. É ambicioso, e se vir que não o repelimos com violência talvez espere uma reconciliação e isso nos livre do problema temporariamente. Com tia Leonor a salvo, poderemos pensar algo melhor.

     D. Fernando trincou os dentes com raiva.

     — Meu desejo era matá-lo como a um cão. Assim livraríamos Leonor para sempre de sua odiosa presença.

     Carlos concordou pensativo.

     — Tendes razão. Mas precisamos ser prudentes e esperar o momento oportuno.

     Quando D. Gervásio radiante deu a notícia a Fabrício, seu rosto distendeu-se em largo sorriso.

     — Padre, isso merece comemoração! Bebamos juntos. Enquanto bebiam, tornou com voz amável:

     — Saberei vos recompensar por vossa dedicação. Não sei como, mas tendes conseguido coisas admiráveis. Fernando é duro e me odeia. Concordar com o encontro é um feito único.

     — Sei argumentar, D. Fabrício. Não falei muito de vós, mas de D. Leonor. Comovi o coração de D. Fernando, dizendo que vossa esposa sofre muito.

     — Como assim? — tornou Fabrício meio irritado.

     — Disse-lhe que ela vos ama muito e que deseja ver essa desavença familiar esquecida. Que gostaria de voltar a visitar a casa em que nasceu e rever a família. E que vós estais querendo fazer-lhe a vontade, pois que muito a amais. Disse-lhe ainda que vossos negócios estão indo mal e que D. Leonor gostaria de tratar dos haveres de sua herança.

     — D. Gervásio! Não é à toa que sois padre. Soubestes tecer o enredo. Que idéia!

     — Por acaso terei agido mal?

     — De modo algum! Me agradaria quebrar o orgulho de D. Fernando e voltar àquele castelo, que um dia ainda será meu.

     — Por isso pensei que vosso encontro com ele talvez possa ser o começo de uma nova vida. Sabeis que, como padre, agrada-me pacificar as famílias.

     D. Fabrício sorriu maneiroso. A boa-fé do padre era-lhe providencial. Se contemporizasse com o cunhado, poderia conhecer-lhe os domínios e os hábitos de tal forma que facilitaria tudo quando chegasse o momento de Ortega atacar. E ainda salvaria sua reputação diante de El-rei, frente ao qual D. Fernando era respeitado e tido com amizade.

     D. Gervásio sorvia os goles de vinho pensando em Leonor. Precisava vê-la, ultimar preparativos. D. Fabrício foi-lhe de encontro aos pensamentos:

     — Preciso que useis vossos argumentos com Leonor. Parece melhor, está mais linda — seus olhos brilhavam cobiçosos —, mas não quer ver-me. Foge de mim. Até agora contive-me, mas hoje quero vê-la! Antes de partir amanhã cedo. Deveis convencê-la a aceitar-me, senão nem sei o que farei. Hoje irei a seu quarto. Padre, preparei-a porque não respondo por mim.

     O rosto de Fabrício se contraía em ricto angustiado, seus olhos brilhantes refletiam determinação e paixão.

     O padre procurou dissimular o rancor. Tinha ímpetos de matá-lo ali mesmo. Conteve-se a custo e procurou dar à voz um tom natural e indiferente:

     — Por favor. D. Fabrício. A violência mais a fará temer vossa presença. D. Leonor é mulher delicada. Tem medo de sentimentos fortes. Há que ser paciente com ela, se de fato desejais seu amor.

     — Não suporto mais essa situação. É minha mulher. Terá que me obedecer.

     — Isso não basta. Se desejais seu amor, há que conquistá-lo.

     — Não importa. Ide vê-la e avisai-a que hoje cobrarei meus direitos, e que ela não se recuse!

     Com o coração aos saltos o padre adentrou a saleta de Leonor pedindo à aia que tomasse conta da porta do lado de fora. Correu o ferrolho. Leonor o esperava, olhar ansioso, mãos estendidas.

     — Padre, finalmente!

     — D. Leonor! — tornou ele beijando-lhe as mãos com ardor. Sentaram-se no pequeno sofá, lado a lado.

     — Esperava-vos com impaciência!

     — Eu cuidava de vossa libertação — tornou ele com enlevo. Olhava-a embevecido, esquecido de tudo. Ela estava linda! Seus olhos negros e aveludados brilhavam de emoção. Sua pele alva e delicada coloria-se revelando o que lhe ia na alma.

     — Leonor! Ah! Se eu pudesse! Se eu pudesse... Colocaria o mundo a teus pés! Traria as estrelas do céu para beijar-te os cabelos, viveria toda minha vida beijando o chão onde pisas!

     — Por favor, Gervásio. Não digas estas coisas! Não posso resistir. Tenho pensado na grandeza de teu amor. Eu que nunca tinha conhecido essa emoção! Eu que não acreditava que esse sentimento pudesse existir, vejo que estava enganada! Sinto que tua presença me enche de alegria, me aquece o coração. Eu que nunca senti o coração bater por ninguém, eu que sempre vivi encerrada em minha solidão, agora sinto dentro de mim tanta emoção! Tanto afeto! Deus, és um padre. Que pecado! Serei castigada por isso.

     Gervásio parecia ter adentrado o paraíso. Sem conter-se, apertou-a nos braços com força beijando-a repetidas vezes com loucura.

     — Leonor — tornou com voz rouca —, o amor não é pecado. Foi Deus quem o criou. Fujamos daqui. Juntos encontraremos a solução. Se for preciso, deixo a batina. Não poderei mais viver sem ti.

     Ela permanecia atordoada e confusa. Sentimentos contraditórios sacudiam-na com violência. Amava aquele homem com uma força que nunca se julgava capaz. Odiava o marido. Agora mais do que nunca não suportaria seu convívio. Por outro lado, estava pecando contra Deus: além de ser casada e estar se tornando adúltera, estava desviando do caminho de Deus um de seus ministros. Apesar do conflito, ela não o pôde repelir. Sua fome de amor, sua sede de carinho, de apoio, de compreensão era tão grande, e a dedicação dele a única alternativa, que ela se apegou, procurando calcar a consciência, tentando justificar-se intimamente.

     Gervásio acariciava-a com delicado carinho. Homem experiente e sentimental, sabia agradar a uma mulher fazendo-a sentir-se amada e feliz.

     Ela esqueceu seus receios e não repeliu o padre. Dócil e apaixonada, entregou-se a ele, deslumbrada com a própria emoção que ele cultivou com delicadeza.

     Foi um deslumbramento. De repente o padre lembrou-se de que precisava ir e sobre eles pesava a ameaça de Fabrício. Agora, mais do que nunca, o desejo dele era-lhes odioso.

     — Precisamos evitar isso! — tornou o padre pensativo. — Acho que tenho uma idéia! Vou dizer a D. Fabrício que estás muito doente. Se ele acreditar, tudo estará resolvido. Amanhã cedo deverá partir para o encontro com D. Fernando, e ao regressar, estaremos longe.

     Gervásio tranqüilizara Leonor sobre esse encontro que preparara para pacificá-los.

     — Ele não acreditará! Virá ver-me e então tudo será inútil.

     — Meu amor — tornou ele com arroubo —, é preciso mais um sacrifício! Achas que tua aia nos ajudará?

     — Certamente.

     — Chama-a.

     Leonor abriu a porta e a um sinal a aia entrou:

     — Chegou a hora da fuga! — tornou Gervásio em voz baixa. Precisamos de tua ajuda!

     — Farei tudo que vós me ordenardes — tornou ela atenta.

     — Conheces uma erva miúda, do mato, que quando a tomamos nos faz inchar e cocar? Não sei o nome.

     — Sei qual é. Minha mãe me ensinou a separá-la das outras.

     — Ouve bem: D. Fabrício vai partir amanhã cedo e estará ausente por dois dias. Vamos aproveitar para fugir. Vai levar alguns homens e poderemos burlar a vigilância. Mas ameaça D. Leonor esta noite. Quer vir ter com ela!

     — Valha-me Deus! — tornou a aia, assustada. Ficava apavorada cada vez que D. Fabrício ia ver a esposa.

     — Vou impedi-lo. Dizer-lhe que ela adoeceu. Tu colhes essa erva, fazes um chá e ela toma. Assim, à noite estará com aparência de doente. Certamente ele a deixará em paz. Conheço-o, tem medo de adoecer.

     — Bem pensado, senhor padre! — tornou a aia, feliz. — Voltarei em poucos instantes e certamente pregaremos boa peça a D. Fabrício.

     — Agora me vou — tornou o padre quando se viu a sós com Leonor. — Vou passar a noite aqui e estarei pensando em ti. Amanhã cedo partirei com D. Fabrício para que não desconfie. Quando nos separarmos, como se eu fora para minha casa, regressarei e, então, tudo pronto, partiremos rumo à felicidade!

     — Parece impossível! — tornou ela ansiosa. — Mal posso esperar! D. Gervásio compôs a fisionomia e saiu. Tentou recolher-se para os aposentos que lhe estavam reservados sem ser visto, mas de propósito Fabrício esperava na sala.

     — E então? — tornou ele ríspido. — Levastes lá tanto tempo! Pensei que não fósseis mais sair.

     — Quando esperamos com ansiedade, o tempo nos parece muito longo — justificou ele. Estaria D. Fabrício desconfiado? Com voz natural continuou: — Foi trabalho árduo. D. Leonor é difícil e se mostrava irredutível.

     D. Fabrício fez um gesto irritado:

     — Tantas atenções a uma mulher! Sou um tolo. O melhor é acabar com isto de uma vez. Terá que aceitar-me quer queira quer não.

     D. Gervásio tornou com voz tranqüila:

     — Tende calma. Tudo se arranjará da melhor forma. Tentei convencer D. Leonor de que precisa ser dócil a vosso carinho. Que uma mulher cristã precisa amar o marido e ser boa esposa.

     — E ela?

     — Ela dizia que não era possível porque vós a maltratais e eu mostrei-lhe que ela era a culpada. Que vosso amor se sentia ofendido, vossa dignidade ultrajada porque ela não vos dá o amor que vos é devido. Que ela mudasse, e correspondesse a vosso amor, haveria de sentir que eu dizia a verdade e que serieis muito bom para com ela.

     Fabrício sorriu satisfeito. O padre tocara-lhe o ponto fraco.

     — Isso mesmo. É isso que eu tenho tentado dizer-lhe. Seu desprezo me exaspera, sua frieza aumenta meu ardor e minha paixão. E então?

     — Custou, D. Fabrício. Demorou, mas afinal ela pareceu compreender. Hoje à noite, quando fordes a seu quarto, ela não vos vai repelir. Vai tentar novamente, vai procurar vos amar. Agora, depende de vós.

     Fabrício levantou-se da cadeira exultante.

     — Finalmente! Conseguistes. Hei de mostrar-lhe como sei amar! O padre baixou o olhar para encobrir o brilho de rancor.

     — Se me permitirdes, gostaria de repousar um pouco. Estas viagens são cansativas. Mal dormi a noite passada.

     — Naturalmente, D. Gervásio. Tendes o direito. Podeis crer que vos recompensarei regiamente.

     O padre fez um gesto largo.

     — Só quero fazer o bem — tornou com voz humilde. E retirou-se em seguida, enquanto em seu coração cantava a alegria do amor correspondido e de seus mais ardentes sonhos que em breve se tornariam realidade.

     Enquanto isso, a aia já preparara o chá e o levara a Leonor, que de boa vontade o ingeriu. Meia hora mais tarde, sentia a cabeça rodar, enquanto seu corpo se cobria de vermelhidão. Tornou-se febril. Deitou-se tranqüilamente, enquanto a ama saiu à procura do padre, colocando-o ao par do acontecido. Imediatamente este foi procurar D. Fabrício, informando-o da doença da esposa.

     — D. Fabrício, a aia de D. Leonor procurou-me para acudir vossa esposa, que adoeceu. Antes de vê-la, quero vossa permissão.

     Fabrício resmungou:

     — Doente, ela? Não estava bem horas atrás quando lá estivestes?

     — Estava. Mas a aia foi agora pedir ajuda, que ela se sente mal.

     — Vamos ver isso!

     Com semblante fechado, irritado, Fabrício foi à frente e os outros dois o seguiram. No leito, Leonor realmente parecia mal. Seu rosto inchara e uma vermelhidão o cobria, seus olhos brilhavam parecendo ter febre. A respiração acelerada e difícil dava-lhe desagradável aspecto. Nem parecia a mesma mulher.

     Fabrício não se aproximou muito do leito. D. Gervásio com ar preocupado tomou o pulso da enferma e perguntou:

     — O que sentis, D. Leonor?

     — Mal, senhor padre. Tenho a tontura e estou enjoada. Arde-me a pele e a língua está grossa e seca. O que achais que tenho?

     O padre ficou sério e respondeu com voz um pouco preocupada.

     — Não é nada. Vamos ver o que temos no castelo, e prepararei um remédio. Não deveis temer. Logo mais tudo vai passar.

     Fabrício estava pálido. O padre saiu para buscar o remédio, recomendando à aia que não saísse de perto da ama. Fabrício o acompanhou. Lá fora, inquiriu temeroso:

     — É grave, D. Gervásio? Parece-me mal. O padre abanou a cabeça:

     — Estou preocupado, D. Fabrício. A peste está dando muito este ano na Galícia. Pode bem começar por aqui.

     Fabrício empalideceu.

     — E esta agora! Ainda bem que parto amanhã. Dá-me vontade de seguir hoje mesmo. Acho que farei isso. Irei agora mesmo. Afinal, quanto antes melhor.

     — Se me autorizásseis, gostaria de tratar D. Leonor. Sabeis que detenho conhecimentos de medicina.

     — Claro, claro — fez ele distraído —, tendes minha autorização. Fazei o que vos parecer melhor. Se ela estiver pesteada, devereis tomar os devidos cuidados. Mandai avisar-me sobre a doença de Leonor. Quero saber. Disso dependerá meu regresso.

     O padre exultava. Por que não pensara nisso antes? Teria o tempo disponível para a fuga e toda a liberdade em prepará-la.

     A notícia da doença de Leonor correu logo e muitos, assustados, queriam acompanhar D. Fabrício. No meio da tarde daquele mesmo dia Fabrício partiu, acompanhado de dez homens bem armados. Não se despediu da mulher. Estava mais interessado em livrar-se de um possível contágio.

     Foi exultando que Gervásio adentrou o quarto de Leonor. Fechou a porta e tomou-lhe a mão com entusiasmo:

     — Tudo vai como planejamos! D. Fabrício antecipou a partida. Autorizou-me a cuidar de tua saúde! Estamos livres!

     Leonor sorriu:

     — Só acredito quando estivermos longe daqui.

     — Partiremos o quanto antes. Como te sentes?

     — Tonta, mas já estive pior.

     — Isto vai passar. Amanhã já não terás mais nada. Deixa comigo. — Chamou a aia: — Maria, começa a arrumar as coisas de D. Leonor. Partiremos ao alvorecer.

     — E os homens de Fabrício? — perguntou Leonor preocupada. Sabia que quando se ausentava o marido os encarregava de vigiá-la severamente, não lhe permitindo sair do castelo sequer.

     — Sei como fazer as coisas. Partiremos tranqüilamente. Não devemos levar muita bagagem. Não quero despertar suspeitas.

      — Concordo. Depois, tudo aqui me desagrada, lembra-me a presença odiosa de Fabrício. Levarei minhas jóias de família, que mantenho escondidas da ambição dele, alguns vestidos.

     A aia sorria embalada pela alegria de sua ama. Sair daquele lugar representava o paraíso. Até ela pensava em fugir dali, mas como abandonar D. Leonor tão indefesa e só? Agora com a ajuda do padre tudo seria realidade.

     D. Gervásio queria abraçar Leonor, mas diante da serva mantinha-se discreto. Não queria precipitar as coisas. O resto da tarde passou entre os planos do futuro e a alegria da liberdade.

     A noite desceu e ia alta quando o padre saiu dos aposentos de D. Leonor para tomar algum alimento. Com ar preocupado e compungido fez a refeição.

     — D. Gervásio, permiti-me? — inquiriu o servo com respeito.

     — Fala.

     — Como vai nossa ama?

     Gervásio baixou a cabeça com ar triste:

     — Mal, meu caro, muito mal. — Olhando para os lados, continuou em voz baixa: — Temo pelo pior. Guarda segredo, não digas a ninguém, mas acho que ela está pesteada!

     O servo estremeceu:

     — Que horror!

     — Não contes nada a ninguém. Está muito mal, irreconhecível.

     — Valha-nos Deus!

     — Vai valer, meu caro. Não te preocupes. Sei de um lugar onde as freiras cuidam dos pesteados. Estou pensando em levar D. Leonor. Se ao menos D. Fabrício estivesse aqui!...

     — Mas ele vos autorizou a cuidar dela. Eu o ouvi! — tornou o servo apressado.

     — Lá isso é verdade! Mas numa hora dessas, resolver isso, é muito grave! Por outro lado, não posso abandonar D. Leonor nesse estado!

     — Por favor, senhor padre! Tenho mulher e filhos. Tende piedade de nós. Se a doença se alastra!

     O padre suspirou pensativo.

     — Está bem. Vou correr o risco. É preciso salvar todas as famílias do castelo. Levarei D. Leonor ao hospital da Ajuda, onde as bondosas irmãs cuidam dos doentes. É retirado, no meio da mata, mas não faz mal. Se Deus me colocou aqui, foi para vos salvar! Farei o que puder.

     O servo estava quase chorando. Mandou preparar a carruagem do padre.

     — Partiremos pela madrugada. Não quero que a vejam pelas estradas, seria perigoso. Coloca uma caixa com víveres, a viagem será longa e penosa.

     — Ficai tranqüilo — tornou ele. — Cuidarei de tudo. Colocarei o bom vinho de que Vossa Reverendíssima tanto gosta.

     — És um bom homem, José. Que Deus te abençoe.

     O padre estava radiante. Quando estava tudo pronto e Leonor vestida, depois de levarem a bagagem que a serva colocara na porta do quarto para a carruagem, Leonor saiu apoiada na aia, gemendo e andando com dificuldade.

     Os homens a olharam de longe, receosos. Viram o suficiente para se assustar. O rosto manchado e vermelho de sua ama nem parecia ser da bela mulher que tanto gostavam. Foi com alívio, embora com lágrimas nos olhos, que viram a carruagem se afastar.

     — Assim que puder, trarei notícias — tornou o padre ao despedir-se. — Avisai a D. Fabrício que fiz o possível para evitar isso. Mas diante da vontade de Deus nada podemos.

     Assim que estavam longe, José ordenou que queimassem as roupas da cama, de uso de D. Leonor. Era preciso preservar a todos.

     Assim que a carruagem ganhou a estrada, Leonor suspirou aliviada.

     — Nem acredito! Parece um sonho!

     — Eu disse que te libertaria. Estamos livres! Iremos para um lugar onde D. Fabrício nunca nos há de encontrar. Lá tudo será diferente. Serás a rainha e a dona. Verás que linda casa e que maravilhoso lugar!

     A aia olhou-os um pouco surpreendida. Teria percebido bem? D. Gervásio e D. Leonor tinham mais do que amizade? Mas a ela isso não importava. D. Gervásio fora o amigo, o salvador, o herói. Estavam felizes. Iam viver!

    

Capítulo IX

     Ao sair do castelo, Fabrício ia preocupado. A doença inesperada de Leonor abatera-lhe os nervos. A entrevista com o cunhado o irritava e o colocava em tensão. Ia disposto a tentar uma aproximação. Não lhe agradava brigar frente a frente. Não queria arriscar-se a perder. Jogava sempre na certa. Por isso, tramava. Não queria irritar o cunhado, que sabia teimoso e duro. Brigar naquela hora não lhe convinha. Se ao menos Leonor não tivesse adoecido! Se pudesse contar com seu apoio, certamente Fernando se abrandaria. Logo agora que Leonor parecia resolvida a recomeçar!

     Esporeou o cavalo com raiva. O animal gemeu e arrancou com força. Fabrício o dominou. Era madrugada quando chegaram a uma hospedagem e Fabrício resolveu parar para dormir. No dia seguinte, seguiria viagem. Tudo precisava sair bem.

     Enquanto isso, Carlos, preocupado, vendo o pai preparar-se para partir, tornou pensativo:

     — Pai, deixai-me seguir em vosso lugar!

     — De modo algum. Para tratar com Fabrício é preciso que eu vá. Nós temos que resolver nossos problemas.

     — Cuidado com ele. Sabes que é covarde e traiçoeiro.

     — Por isso te quero por aqui, vigiando os nossos. Não vou com intenção de brigar, embora isso me custe muito. Vendo-lhe a cara, tenho ganas de acabar com tudo de uma vez. Quero evitar manchar minhas mãos com sangue. Leonor é minha irmã. Só farei isso em último caso.

     — Preparei dez homens para irem convosco.

     — Bastam cinco. Prefiro que fiquem aqui. Sei me cuidar. Levo cinco dos bons e chega.

     Carlos não conseguiu convencê-lo. Quando afirmava uma coisa, não voltava atrás. A madrugada estava começando a raiar quando D. Fernando saiu acompanhado de seus cinco homens de confiança. Carlos ficou preocupado. Porém nada podia fazer.

     Quando D. Fernando chegou à estalagem do Leão Dourado, D. Fabrício já estava lá. Apesar de não ser ainda a hora combinada, encontraram-se: Fabrício comendo em uma mesa no canto da sala e Fernando ainda coberto pela poeira da estrada, acabando de chegar. Olharam-se por alguns instantes e Fernando procurou o dono para pedir pousada e comida. Fabrício, vencendo a irritação, querendo ignorar o brilho de rancor nos olhos do cunhado, levantou-se com seriedade:

     — Bem-vindo, D. Fernando. Aqui estou para vos falar. D. Fernando olhou-o de frente lutando para dominar-se:

     — Aqui vim para isto. Mas ainda não é a hora marcada e eu estou cansado da viagem. Falaremos à noite. Pretendo lavar-me e repousar um pouco.

     — Certamente — tornou Fabrício cerimonioso. — Aguardarei o momento. Acho que poderemos jantar juntos. Há uma sala reservada onde teremos toda a liberdade.

     D. Fernando pareceu hesitar, mas por fim concordou:

     — Seja. Jantaremos juntos.

     Enquanto D. Fernando acompanhava o dono da taberna, Fabrício sentou-se de novo, e tomando o copo de vinho, bebeu com prazer. As coisas pareciam andar bem. D. Fernando não vinha para brigar. Isso pudera perceber. Conhecia-o bastante para saber que não sabia fingir. Não o suportava, isso lera em seu olhar, mas por algum motivo viera em missão de paz. Caso contrário não teria aceito o jantar.

     Fabrício começou a acariciar seus planos ambiciosos. Toda a fortuna do cunhado ainda lhe passaria às mãos! Por um instante assaltou-lhe o terror: e se Leonor morresse? Isso dificultaria muito as coisas. Ele não precisa saber que ela ia mal. Talvez nem tivesse tempo de descobrir, se tudo corresse como planejara. Chamou a moça que servia o vinho.

     — Enche meu copo. Sabes onde está o fidalgo que chegou há pouco?

     — Recolheu-se ao quarto, senhor. Ele sorriu, olhando-a com cobiça.

     — Então também vou para meu quarto, se concordares em fazer-me companhia.

     Ela riu bem-humorada:

     — Irei preparar-vos a cama — tornou envaidecida.

     Fabrício concordou. Sorveu mais alguns goles de vinho e levantou-se. Afinal, encontrara um entretenimento até a hora do jantar. O lugar era aborrecido e o tempo custava a passar.

     D. Fernando, depois de lavar-se, estirou-se no leito. Estava cansado mas apesar disso teve dificuldade em conciliar o sono. A situação desagradável em que se encontrava o irritava, e se não fora a vontade de ajudar Leonor, dificilmente teria concordado com aquele encontro. Afinal, viera para contemporizar, dar tempo a que Leonor fugisse. Não concordava com o abandono do lar. Era extremamente conservador, mas o caso de Leonor, casada contra sua vontade com um homem perverso e de baixa moral, justificava sua participação na fuga.

     Apesar de não dormir, ficou deitado até a hora do encontro, queria retardar ao máximo o momento da odiosa entrevista.

     Quando procurou a sala reservada, Fabrício já estava lá, fisionomia descansada, esperando. Vendo o cunhado, levantou-se com gentileza:

     — Espero que tenha aproveitado o repouso.

     — Estou menos cansado, obrigado.

     — Sentemo-nos — tornou Fabrício servindo uma caneca de vinho e oferecendo-a a D. Fernando. — Tomei a liberdade de encomendar o jantar. Espero que seja de teu gosto.

     D. Fernando fez um gesto evasivo. Era-lhe penoso suportar semelhante situação. Homem rude, pouco afeito à hipocrisia dos salões, naquele momento se sentia desagradável e indesejado. Sentou-se e embora desejasse terminar a entrevista o mais rápido possível, sabia que para seus interesses o quanto mais demorasse melhor. Por isso, vencendo a repulsa, tornou com voz calma:

     — Fui informado por D. Gervásio de que querias falar-me. Assunto urgente e de meu interesse.

     O outro, sorvendo um gole de vinho, concordou:

     — Sim. Tenho estado preocupado por causa de Leonor. Não tem estado bem ultimamente.

     D. Fernando teve um impulso de indignação. Controlou-se, contudo.

     — O que se passa com minha irmã? Está doente?

     — Não propriamente. Devo usar de franqueza e peço que me perdoes. Não pretendo ofender-te.

     — Fala sem rodeios — tornou D. Fernando um pouco exasperado.

     — Ela está muito triste e saudosa da família. Tem chorado. E por mais que eu faça por torná-la feliz, está sempre triste suspirando pelos seus. Sabes que não temos filhos, e ela se ressente. Sei que não foste a favor de nosso casamento e por isso não queres manter relações com nossa casa.

     Fabrício falava em tom humilde e D. Fernando, apesar de tudo quanto sabia sobre o cunhado, não se pôde furtar a uma onda de emoção lembrando-se da irmã querida, abandonada à própria sorte, suportando o peso de uma união cruel e indesejada. Suspirando, Fabrício continuou:

     — Sei que estou me deixando levar pelo sentimento! Mas pensei que se Leonor pudesse viver em paz com a família, ver em teus filhos nossos filhos, na amizade dos teus um apoio, talvez se tomasse mais feliz. Sei que não me aceitas, e meu orgulho manda-me voltar-te as costas diante de tanta injustiça. Porém tudo coloco de lado quando sinto a tristeza de Leonor, suas saudades, sua dor. Pedi este encontro para interceder por ela. Para que o passado seja esquecido e possamos nos tornar amigos, como deveria ter sido desde o início.

     D. Fernando estava comovido, não por aceitar as palavras do cunhado, por sabê-las falsas e acobertando sua tremenda ambição, mas pela primeira vez analisava o sofrimento da irmã, lutando sozinha contra aquele covarde, relegada ao abandono pela própria família. Teria agido bem não interferindo? Teria sido justo abandoná-la quando mais necessitada era ela? Se tivesse mantido seu relacionamento com o cunhado, não teria tido melhores oportunidades para ajudá-la?

     Sentiu-se envergonhado por seu procedimento, que julgava justo mas que agora reconhecia egoísta e irrefletido. Sentiu enorme alívio ao pensar que, embora tarde, estava contribuindo para a libertação da irmã, ainda que lhe fosse difícil.

     Fabrício sentiu a emoção do cunhado e exultou. A conquista de seu objetivo era questão de tempo!

     — De minha parte — enfatizou ele —, prometo fazer tudo para ser-te agradável.

     D. Fernando passou a mão pela testa, pensativo:

     — A tristeza de Leonor me aflige. Pensei que ela nos houvesse esquecido. Sabes que a quero muito e que se ela não nos procurou foi porque não pôde ou não quis. Nossa casa jamais se fechou para ela.

     Fabrício fez um gesto largo.

     — Sabes como é. Ela não gostaria de ir a uma casa onde seu esposo não fosse recebido.

     D. Fernando sabia que fora ele quem a proibira de ir ao lar paterno em represália a seu orgulho ofendido. Porém não estava interessado em brigar.

     — Gostaria que pensasses no assunto e me desses uma resposta — completou Fabrício com voz calma.

     D. Fernando permaneceu pensativo alguns instantes, depois tornou:

     — Já que usastes de franqueza, posso falar sem rodeios. Sabes que não aprovei o casamento de minha irmã e por isso nos desentendemos. Achei prudente, naqueles tempos, afastar-me de vossa casa para que minha forma de pensar não interferisse na vida dela a teu lado. Leonor era muito amiga minha e sempre me consultava ao tomar suas decisões. Não aprovando o casamento eu não estava em condições de dar um conselho justo se ela me pedisse. Receei perturbar vossa paz familiar. Por isso quis cortar nossas relações. Espero que compreendas. Não gostaria de ter contribuído para tornar minha irmã infeliz.

     Fabrício procurou não demonstrar a raiva que sentia. Certamente, apesar da distância, a influência de D. Fernando sobre Leonor era grande e ele achou que fora essa recusa dele em apoiar o casamento que a fizera odiá-lo e repeli-lo. Contudo, ele não perdia por esperar.

     D. Fernando prosseguia calmo, analisando seu proceder com sinceridade mais para si mesmo do que para o cunhado.

     — Se eu soubesse que ela ia sofrer tanto, teria evitado isso. Nós pensamos de modo diferente. Sou homem rude do campo e não me interesso pela corte. És diferente e levas vida muito diversa da nossa. Uma amizade entre nós pode acabar mal. Não pensamos da mesma forma! Se hoje voltarmos atrás, certamente amanhã nos desentenderemos de novo. Não vês que temos modo diferente de pensar?

     — Sei disso. Sou homem da corte e considero obrigação a vida social, mas mudei muito nesses anos e me dedico só ao lar. Por Leonor, estou disposto a mudar ainda mais. Não desejaria destruir novamente nossa amizade e desmerecer tua confiança, que aliás nunca me honrou. Gostaria de ter essa oportunidade.

     D. Fernando tornou com voz firme:

     — Que seja! Mas vamos combinar como proceder. Amanhã retorno a meu castelo e dentro em pouco teremos a primavera. Mandarei um portador a tua casa para um convite a que venham passar alguns dias conosco. Leonor poderá rever os que ama e aí teremos ocasião de falar sobre esses assuntos. Desta forma prepararei os meus para vos receber.

     Fabrício exultou. Jamais esperara conseguir tanto em tão pouco tempo.

     — Não sabes como me comoves! Leonor vai ficar feliz!

     O jantar fora servido e D. Fernando comeu um tanto apressado e depois despediu-se cerimonioso. Se tudo desse certo, não tinha a intenção de mandar o convite e jamais esperara ver Fabrício em sua casa. Desejava que Leonor tivesse conseguido fugir. Estava tranqüilo quanto a isso. Sua consciência não o acusava por ter colaborado com sua libertação.

     Dormiu bem naquela noite, aliviado pela missão já cumprida que lhe fora muito penosa, e na madrugada do dia imediato reiniciou a viagem de volta.

     Quanto a Fabrício, estava alegre demais para dormir. Mandou chamar a garçonete para fazer-lhe companhia e alegremente bebeu e comeu até altas horas para comemorar. Era dia alto quando acordou e resolveu ficar por ali mais alguns dias esperando notícias de Leonor. Estava cansado. Esperava que seu mal houvesse sido passageiro. Ela era agora a peça mais importante para a conquista da fortuna que ambicionava. Quanto a isso, sentia-se calmo e confiante. Tudo sairia conforme seus desejos. Esperaria notícias de D. Gervásio para poder voltar.

     Três dias decorreram sem que Fabrício recebesse qualquer mensageiro. Deduziu que certamente Leonor estava melhor e por isso não havia motivos para preocupações. Sentiu-se contrariado porquanto pedira a D. Gervásio para mandar notícias. Não podia esperar mais. Resolveu regressar.

     Ordenou aos homens que preparassem tudo e reiniciou a viagem. Ia tranqüilo e alegre. A fortuna de D. Fernando era questão de tempo. Prepararia tudo e Ortega faria o mais importante. De posse dos bens que ambicionava, sua vida voltaria ao antigo esplendor. Seria respeitado e recebido nas melhores casas de Espanha. O ouro sempre lhe abriria todas as portas. E, depois, Leonor certamente esqueceria o passado. Vendo sua amizade com D. Fernando, naturalmente deixaria de lado suas idéias, seu rancor. Quando todo seu plano se consumasse, ela veria nele o herói, o salvador de sua casa, o homem em quem podia confiar. Certamente Fernando já teria ido para um lugar onde jamais voltaria para desmenti-lo.

     Fabrício sorria feliz, concatenando seus planos, sem que nem por um momento pensasse nas conseqüências do mal que ia praticar.

     Entardecia quando divisou as torres do castelo. Ardia por chegar mas, por precaução, mandou um homem na frente informar-se sobre a saúde da mulher.

     Sentaram-se na relva para repousar um pouco enquanto isso. Meia hora depois o homem voltou apressado:

     — D. Fabrício! As novas que vos trago não são boas. De um salto o fidalgo pôs-se em pé.

     — Fala, homem, o que houve?

     — D. Leonor...

     — Fala! Eu ordeno.

     — Está pesteada.

     Fabrício fez um gesto de contrariedade. Isso inutilizava-lhe todos os planos e lhe infundia imenso terror.

     — Temos que nos afastar daqui — tornou pensativo.

     — Podeis entrar sem receio. D. Leonor não está mais no castelo.

     — Morreu? — indagou com voz sumida.

     — Não, senhor. Soube que, depois de nossa partida, que o estado de D. Leonor piorou e que D. Gervásio com a ama cuidaram dela durante toda a noite. Reconhecendo a gravidade do mal, D. Gervásio decidiu transportar nossa ama ao convento da Ajuda, onde as freiras cuidam dos pesteados. José viu quando eles saíram. D. Leonor estava mal e seu rosto inchado, vermelho, nem parecia a mesma pessoa. Foi uma tragédia, senhor. Todos choraram. Os pesteados costumam não mais voltar! Pobre D. Leonor.

     Fabrício estava pálido. Seus planos ruíram por terra! Sentiu-se impotente para vencer aquele obstáculo.

     — José manda-vos dizer que não há perigo. Ele fez tudo que D. Gervásio mandou, queimou todas as roupas de D. Leonor e cuidou de tudo. Podeis entrar sem receio.

     Fabrício continuava pálido. A raiva sufocava-o. Estava aliviado de certa forma por não ter estado ali exposto ao contágio. Mas, ao mesmo tempo, perder Leonor o arrasava. Foi como um derrotado que adentrou o castelo. José o aguardava nos pórticos. Fabrício entrou e o servo o acompanhou.

     — Conta-me tudo, José. Quero saber fato por fato.

     O servo, com voz compungida, relatou o ocorrido exagerando os detalhes.

     — Ah! Pobre D. Gervásio. Não dormiu, não se alimentou, estava triste e preocupado. Chegou a me falar que receava o pior. Não queria chegar a esse extremo sem vosso consentimento. Mas D. Leonor estava muito mal e ele por fim resolveu levá-la às freiras. O que fazer? Se ela morresse aqui, nossa pobre ama, o mal se alastraria e todos nós podíamos morrer! Sabeis que a peste não tem cura!

     — Eu sei, eu sei... — resmungou Fabrício nervoso. — E ele não mandou nenhum portador para trazer notícias ?

     — Ainda não. Disse que o convento era muito longe e que voltaria quando pudesse contar tudo.

     — Ainda não voltou — tornou Fabrício nervoso.

     — É... — fez o servo, pensativo. — Se não tiver ficado pesteado... Fabrício sentiu um arrepio de medo.

     — Que ele não venha trazer a doença de volta. Que fique por lá até que tudo tenha passado.

     Despediu o servo e deixou-se cair em um banco, desanimado. Esperaria algum tempo. Caso D. Gervásio não voltasse, iria informar-se com seus superiores. Certamente dariam notícias do convento e de sua mulher. Mas no momento não havia nada a fazer. Era preciso esperar.

     Enquanto isso, D. Fernando, para alívio de Carlos, regressara são e salvo ao lar. Contara-lhe a entrevista que tivera com o cunhado e terminou:

     — Carlos, estou arrependido. Abandonei Leonor a triste sorte sem apoio nem carinho. Não agi bem largando-a indefesa nas mãos daquele patife.

     — Agora está feito, meu pai. Depois, esperemos que tudo tenha dado certo e que a estas horas tia Leonor já esteja a salvo e bem longe, quem sabe, além de nossas fronteiras. D. Gervásio vai deixá-la num convento onde ela deve ficar por muito tempo a fim de que Fabrício não a encontre.

     — Pelo menos viverá em paz!

     — Assim espero. E aqui?

     — Tudo como sempre, papai. Nada de novo.

     — Precisamos preparar tudo, a primavera está chegando e não podemos descuidar das vinhas e do trigo.

     Quando o pai se retirou para descansar, Carlos permaneceu pensativo. A primavera ia chegar, precisava rever Esmeralda. A presença da cigana era constante em sua mente. A saudade era grande. Mas, por outro lado, seu pai precisava de sua ajuda. Tencionava deixar tudo da melhor forma que pudesse e pedir licença ao pai para ausentar-se durante algum tempo.

     Afinal, tudo estava correndo bem no castelo e agora com o caso de Leonor resolvido não havia motivo para preocupação. Poderia partir sossegado. Feliz, arquitetava planos para retornar ao acampamento. Levaria presentes para Esmeralda, Sergei, Miro, entre outros. Tudo daria certo e ele seria feliz. Naquele instante, não havia nenhum motivo para Carlos pensar que isso não pudesse tornar-se realidade.

    

Capítulo X

     Por entre folhas úmidas do caminho, Esmeralda andava distraída, semblante contraído, revelando tensão. Não via a beleza da manhã prenunciando a volta do sol nem as folhinhas verdes que já começavam a brotar nos galhos secos das árvores. Era o início da primavera.

     Esmeralda renascia em cada primavera. Amava o verde das plantas, o calor do sol, o céu azul. Mas, naqueles dias, nada disso lhe importava. Ensimesmada, aflita, só via o rosto de Carlos diante de si. Emagrecera e, embora fizesse tudo para demonstrar a alegria costumeira, todos perceberam sua infelicidade. Miro desdobrara suas atenções e todos procuravam entretê-la com agrados e delicadezas. Tudo inútil. A medida que se aproximava a primavera, acentuava-se sua preocupação. Carlos voltaria?

     Esmeralda estugou o passo. Tudo estava pronto e dentro de alguns minutos partiriam para Valença, onde sempre iniciavam suas andanças. Iria rever Carlos. Pensativa, subiu na carroça.

     Durante o trajeto, Esmeralda seguia calada. A carroça sacudia-se levantando a poeira da estrada, e a cigana, absorta, recordava seu amor, a figura de Carlos, seu romance, com enlevo. Foi lutando com a impaciência que ao cair da tarde desceu da carroça para acampar. Custava esperar pelo dia seguinte, quando alcançariam Valença. Carlos a estaria esperando?

     Naquela noite, Esmeralda não conseguiu conciliar o sono. A expectativa era grande e ela não conseguia isentar-se da preocupação. E se ele a houvesse esquecido? E se ele não fosse vê-la?

     Nesses momentos sentia-se morrer. A vida sem Carlos parecia-lhe sem graça e sem objetivos. Era com preocupação que Miro observava atentamente todos os seus movimentos. Sabia-a arrebatada e passional. Se Carlos não voltasse, Esmeralda não suportaria. Quando o dia amanheceu, viu Esmeralda sair da carroça e foi ter com ela:

     — Vou fazer fogo. Deves estar com frio.

     Ela sacudiu os ombros pensativa. Miro tentou animá-la:

     — Alegra-te, Esmeralda. A primavera está de volta! Em breve todas as flores estarão abertas. O sol estará brilhando. Esmeralda vai dançar e cantar!

     Ela sentou-se sobre uma pedra, perdida nos próprios pensamentos. Miro continuou:

     — Não te preocupes, Carlos virá!

     Ela ergueu-se de um salto e agarrou nervosa o braço de Miro. Seus olhos ansiosos expeliam chispas de paixão.

     — Receio que ele não venha, Miro. Que me tenha esquecido... Miro riu, tentando demonstrar otimismo:

     — Que idéia! Carlos te ama. Depois, que homem já teve força para te esquecer? Todos os que te conheceram mais de perto ficaram presos a teus encantos. Por que ele, a quem deste o coração, vai te esquecer? Prepara-te pois para recebê-lo de volta e tudo será como antes!

     Os olhos de Esmeralda brilharam de emoção. Se fosse verdade!!... Era bem possível que Carlos fosse a seu encontro. Afinal, ele vivia em Valença. Talvez a procurasse e não a houvesse esquecido. Talvez esperasse sua chegada. De repente a cigana sentiu um frêmito de entusiasmo.

     — Tens razão. Carlos me ama! Vou preparar meu mais lindo vestido para dançar em Valença. Ele vai estar lá!

     Entusiasmada, não recusou a caneca de leite quente que Miro lhe ofereceu e comeu o pão com voracidade. As cores voltaram a suas faces e Miro, animado, vendo-a feliz, cantarolava sua canção predileta. Esmeralda estava contente. Ele lutaria para conservar sua alegria. Se Carlos não aparecesse, ele mesmo o iria procurar para pedir-lhe contas de seu proceder e, se fosse preciso, obrigá-lo a voltar para Esmeralda.

     Daquele instante em diante a moça parecia ter voltado a ser como antes. Animada, ajudou os preparativos para viagem e cantarolando alegre subiu na carroça para partir. Ia rever seu amado. Estava feliz.

     Viajaram durante o dia inteiro e à tardinha chegaram a Valença fazendo alarido e propaganda de sua chegada, convidando o povo para a festa do dia seguinte na praça principal.

     O coração de Esmeralda batia descompassado olhando os fidalgos que, curiosos, paravam para vê-los passar, esperando a cada instante reconhecer entre eles seu amado. Mas o rosto de Carlos não apareceu. Um pouco receosa, a cigana tentou afastar os maus pensamentos. Carlos não sabia que estavam chegando. Como poderia estar ali?

     Como todos os anos, acamparam fora da cidade. No dia seguinte um grupo se preparou, como de costume, para sair à rua convidando o povo para as danças da noite. A cidade estava animada e os preparativos, em andamento. As pipas de vinho já estavam sendo colocadas nos lugares costumeiros e as barracas para as festas da primavera, levantadas. Tudo era alegria e entusiasmo. Toda vibração represada nos difíceis meses de inverno como que procurava a maneira de se expandir.

     Esmeralda não foi com o grupo, apesar de o desejar intensamente. Não queria encontrar Carlos nessa hora. Preferia esperar pela noite, então sim, tudo seria oportuno. A não ser que ele a procurasse no acampamento. Até quando teria que esperar?

     Entretanto, Carlos adentrava o castelo, depois de ter percorrido a plantação em companhia do pai. Este lhe falara de seu anseios, de suas aspirações, feliz com a mudança do filho, cuja ausência o fizera sentir-se só e sem apoio. D. Fernando, agora, arrependido de suas atitudes mais duras, sentia-se velho e o interesse de Carlos em assumir os negócios da família o deixava calmo e realizado. Ele se revelara digno de sua confiança. Por isso tornaram-se inseparáveis. Desejava colocá-lo ao par dos negócios para que ele aprendesse a cuidar de tudo a seu gosto quando fosse preciso. Esperava que o filho viesse a casar e encher a casa de netos. Estava pensando em falar com ele quanto a isso. Queria convidar D. Hernandez e a família para a temporada de verão logo mais e resolver o assunto, firmando a aliança entre as duas famílias.

     Inácio aguardava o amo na entrada do gabinete.

     — Senhor, preciso falar-vos. Trago novidades.

     — O que é, Inácio? — perguntou Carlos distraído. O servo baixou a voz:

     — Tem que ser a sós. Trago notícias de Esmeralda! Carlos sobressaltou-se.

     — Preciso trocar de roupa. Vem comigo, Inácio. Uma vez a sós no quarto, Carlos tornou:

     — O que aconteceu? O que sabes?

     — Os ciganos chegaram, senhor! José chegou da vila e disse que os viu anunciando a festa desta noite.

     Carlos exultou. Esmeralda tinha chegado! Radiante, tornou:

     — Vamos até lá.

     — Agora?

     — Agora. Não vês que estou morrendo de saudades?

     — E D. Fernando?

     — Não precisa saber. Prepara os cavalos. Vamos até lá.

     Seu coração batia descompassado. Finalmente ia rever Esmeralda! Procurou o pai para dizer-lhe que um amigo chegara a Valença e ele precisava encontrá-lo. Só voltaria tarde da noite. Pegou um saco de moedas de ouro e saiu. Inácio o acompanhou. Iam felizes rever os amigos. Carlos levou os dois cavalos para devolver e ainda comprou vários presentes. Para Esmeralda escolheu um traje magnífico, todo bordado a ouro e digno de uma rainha. Linda saia rodada de tecido leve e colorido, túnica recamada em tons de verde escuro e ouro. Queria vê-la dançar com aquele vestido!

     Foi como uma criança feliz que Carlos chegou ao acampamento. Dirigiu-se a Sergei, a quem saudou e devolveu os animais, deu presentes e declarou que estava com pressa para rever Esmeralda. Inácio, enquanto isso, era rodeado pelos ciganos, seus amigos a quem abraçava com prazer.

     Esmeralda, entretanto, na carroça, soubera da chegada de Carlos e não se atrevera a sair. A emoção a fazia tremer e o sangue lhe fugiu das faces. Receava desmaiar. Respirou fundo e, logo passado o primeiro momento, ganhou forças. Carlos voltara! Carlos estava ali. E agora, certamente, nunca mais a deixaria!

     Tratou de fazer-se bela o quanto sabia e sentada nas almofadas, coração como a sair-lhe pela boca, esperou. De repente, uma mão forte afastou a cortina da carroça e rapidamente Carlos entrou:

     — Esmeralda! — murmurou ele enternecido. Abraçou-a com ardor e ela não conseguiu articular palavra. Seus beijos falavam com eloqüência, contando a história de sua saudade, de seu amor, de seu ciúme, de sua dor, de sua alegria, de sua esperança.

     Aquele foi o momento doce do reencontro, onde toda ansiedade foi esquecida; toda mágoa, apagada; todo receio, diluído. Estavam juntos de novo. Que importava o mundo, o tempo, a vida, a morte, tudo o mais?

     Passados os primeiros arroubos, adentraram o terreno das confidencias, falando do imenso amor que os unia. Não falaram do futuro. Tacitamente temiam os problemas e por isso os evitaram. Estavam juntos e isso bastava.

     A guitarra de Miro executava perto da carroça suave melodia, onde vibrava toda sua alegria envolvendo o amoroso par na magia fascinante de sua música, para embelezar ainda mais aquele momento tão esperado.

     Sufocada de emoção, Esmeralda olhando Carlos nos olhos murmurou com voz apaixonada:

     — Se eu morresse agora, seria feliz! Nada pode ser mais belo do que este momento.

     Carlos apertou-a nos braços.

     — Não digas isso. Estamos juntos para viver! A vida nos espera. A cigana deixou-se embalar pelas palavras doces que Carlos lhe murmurava aos ouvidos e sentia-se profundamente feliz.

     Enquanto isso, D. Fabrício, irritado e pensativo, andava de um lado a outro de seu gabinete. Estava sem sorte e parecia que tudo conspirava contra ele. Fazia quase um mês que voltara à casa e não tinha notícias de Leonor. Despachara um emissário a fim de encontrar o convento da Ajuda e este tardava a regressar. Precisava saber notícias da mulher. Se tivesse morrido, o que era provável, como dar a notícia a D. Fernando?

     Este, se soubesse, negar-se-ia até a recebê-lo. Leonor era o único laço que o prendia à fortuna do cunhado.

     Como se não bastasse, D. Ortega chegara ao castelo em busca do que lhe devia. Instalara-o regiamente, bem como a seus homens, mas como pagar? Temia que ele o matasse para ficar com tudo quanto possuía. Precisava oferecer-lhe mais, despertar sua cobiça, senão estaria perdido. Não pensava em livrar-se dele, porque certamente seus homens vingar-se-iam. O que fazer?

     Reunidos no salão para a ceia, Ortega abordou o assunto de sua visita:

     — D. Fabrício, busquei vossa hospitalidade porque estou enfrentando vários problemas. Meus homens estão necessitados e eu preciso atender vários compromissos. Quero a parte que me cabe e que combinamos naquele caso que resolvemos.

     Fabrício sorriu tentando demonstrar calma.

     — Muito certo. O que é vosso tenho que pagar.

     — Assim se fala. Por isso gosto de trabalhar convosco. Sabeis entender muito bem as coisas.

     — Contudo... — aventurou Fabrício.

     — Contudo...

     — Eu estou sendo injustiçado pela má sorte. Minha mulher está doente...

     — Soube que ela estava pesteada e que, como não voltou da Ajuda, deve ter morrido. É lamentável!

     Fabrício engoliu em seco. Gostaria que ele não soubesse a verdade. Mas Ortega era muito bem informado e seria perigoso mentir-lhe. O fidalgo suspirou com tristeza:

     — De fato! Tenho me consumido de dor. Pobre Leonor, nem sei se está viva ou morta.

     Ortega não se abalou com o tom compungido de Fabrício.

     — Sem ela, não tem herança, nem fortuna — sibilou com voz firme. — Como pensais pagar?

     Fabrício mostrou-se indignado:

     — D. Ortega! Duvidais de minha honra! Nunca deixei sem paga dívida alguma. Certamente vos pagarei.

     — Quando? — tornou ele com rudeza.

     — Assim que puder. Agora sou amigo de D. Fernando. Estivemos juntos e vou passar algum tempo em seu castelo no verão. Arranjei um jeito. É só questão de tempo.

     — Mas eu não posso esperar! Quero agora! A morte de D. Arreda foi um desastre em nossa vida. Nossas cabeças estão a prêmio, e se nos pegam, morreremos como cães. Não podemos agir por enquanto e precisamos viver. Fizemos o serviço combinado, queremos o que é nosso.

     — Tendes razão. O que vos é devido certamente vos pagarei e o farei regiamente. Podeis estar certo de que vos recompensarei pela espera. Aumentarei vossa parte.

     O outro o olhou com firmeza:

     — Acredito em vossa honestidade. Não duvido que pretendeis cumprir o prometido. O que me preocupa é: como? Sinto dizer, mas conheço vossa situação. Sei que vossos haveres já se foram, e com a morte de D. Leonor a fortuna de D. Fernando também está perdida. Talvez possamos fazer um acordo.

     Fabrício sobressaltou-se:

     — Que espécie de acordo?

     — Vossas terras. Valem muito. Podeis negociá-las. Sei que D. Alvarado há muito tenciona ampliar seus haveres e podeis vender-lhe vosso castelo.

     Fabrício empalideceu. D. Alvarado era seu vizinho, homem conhecido por sua ambição e por várias vezes intentara comprar-lhe as terras. Como Ortega pudera descobrir? Aparentando calma, respondeu:

     — Deveis convir que se vendo minhas terras e meu castelo e vos entrego tudo, como ficarei? Estarei arruinado, sem sequer ter onde morar. Precisamos encontrar outra solução.

     — Gostaria de achar. Mas parece que não encontro. Preciso receber o que me deveis.

     — Não poderíeis esperar mais um pouco?

     — Não. Meus homens se recusam a esperar mais. Temos que resolver já.

     Fabrício, então, baixando a voz, tornou:

     — Ouvi, Ortega. Se me ajudar, poderemos conseguir mais do que pretendeis e eu não ficarei arruinado.

     — O que propondes?

      — Alguns homens decididos e tomaremos o castelo de D. Fernando. Sei que ele possui só em jóias precioso tesouro que herdou de seus avós. Já vi essa arca e pude presenciar o brilho de suas gemas. Lá há o suficiente para nós dois sermos muito ricos. Está guardada no subterrâneo. Eu sei onde fica, pude observar o lugar e o segredo. Sempre sonhei um dia chegar lá. Esperava reatar a amizade com ele para poder fazer isso. Agora, com a ausência de Leonor, será muito difícil. Porém, se tivermos alguns homens, poderemos ir até lá e apanhar a arca.

     O outro permaneceu pensativo. A cobiça brilhava em seus olhos escuros. Contudo objetou:

     — O castelo é bem guardado. Acho difícil entrarmos.

     — À vossa perícia nada é difícil. Poderemos surpreendê-los e silenciá-los. Uma vez dentro do castelo, tudo será fácil. Se for preciso lutar, lutaremos.

     — D. Fernando é respeitado. Se o matarmos, levantaremos a ira da corte, seremos perseguidos.

     Fabrício, querendo convencê-lo, objetou:

     — Por outro lado, de posse daquele tesouro, podereis sair de Espanha para sempre e ir viver ricamente em outro lugar, onde ninguém vos conheça. Comprar um castelo, onde vos tomareis fidalgo e senhor.

     Fabrício tocou o ponto sensível de Ortega, seu sonho de tornar-se um fidalgo, o que na Espanha era impossível. Ao cabo de alguns minutos, tornou:

     — Tendes certeza de que lá existe mesmo tal tesouro?

     — Claro. Eu o vi algumas vezes e fiquei maravilhado.

     — Cuidado, se estiverdes enganado! Cuidado!

     — Podeis confiar em mim.

     — Vou propor aos homens, mas desde já vos digo que nessa empreitada devereis ir conosco. Não vamos nos aventurar sozinhos. Conheceis o castelo e podereis nos indicar o caminho.

     Fabrício vacilou. Não lhe agradava expor-se ao perigo. Entretanto, Ortega era perigoso. Se recuasse, por certo o mataria. Reconhecia por outro lado que sem sua presença ser-lhes-ia difícil encontrar o subterrâneo e obter êxito na empreitada. Apesar de contrariado, respondeu:

     — Está certo. Irei convosco e vos conduzirei ao local exato. Vereis que beleza. Jamais vossos olhos viram riqueza igual!

     Ortega sorriu, refletindo a chama da ambição e da cobiça nos olhos.

     — Falarei com meus homens e traçaremos nossos planos.

     Quando Ortega saiu, Fabrício respirou aliviado. Durante algum tempo não teria nada a temer.

     No castelo de D. Fernando, tudo era tranqüilidade. D. Encarnação no salão tecia silenciosa seu interminável bordado, enquanto o marido, sentado em frente a sua mesa de trabalho, permanecia absorto e imerso em fundos pensamentos.

     De repente, levantou-se e aproximando-se da esposa tornou com seriedade:

     — Precisamos conversar.

     A mulher ergueu o olhar do bordado e imediatamente o colocou no cavalete. Seu rosto iluminou-se:

     — Podes falar. O que se passa?

     — Passa que precisamos cuidar do futuro de Carlos. Já está em idade de assumir seu lugar de fidalgo e ter sua própria família. Precisamos de um herdeiro que perpetue nosso nome e a quem deixaremos tudo quanto temos.

     D. Encarnação sorriu contente:

     — Esse é também meu pensamento. Uma criança viria trazer mais alegria a nossa casa. Depois, Carlos anda mudando, tem-se revelado mais amadurecido e interessado em suas obrigações. Já pode casar.

     D. Fernando abanou a cabeça satisfeito.

     — Para isso temos que abrir as portas de nosso castelo e convidar D. Antônio com a família a passar alguns dias aqui.

     D. Encarnação concordou, objetando:

     — Por certo. Porém pela importância do assunto a ser discutido, esse convite tem que ser feito pessoalmente.

     D. Fernando cofiou a barba pensativo:

     — E... Podemos fazer-lhes uma visita. Poderia mandar um emissário, mas isso não seria tão cortês. Iremos passar com eles alguns dias neste verão. Amanhã mesmo mandarei um mensageiro notificar-lhe, aceitando velho convite que nos fez. Iremos visitá-los. Parece-me bem. Uma vez lá, cuidaremos de nosso assunto.

     — Assim será melhor.

     D. Encarnação exultava. Viajar, sair por alguns dias, ver gente, amigos, era-lhe excitante perspectiva. Por sua cabeça já começaram a circular idéias novas para preparar um guarda roupa à altura. Poderia usar suas jóias e teria ocasião de ver a corte.

     — Carlos ainda não chegou — comentou ele. — Deveria já ter voltado.

     D. Encarnação deu de ombros:

     — Ele é jovem. Hoje começaram as festas. Deve estar se divertindo com os amigos.

     — Espero que não se exceda. Há gente de todo tipo metida nessas festas.

     — Inácio foi com ele. Está seguro.

     — Quando chegar, trataremos do assunto.

     Entretanto, Carlos, alegre e descuidado, caneca de vinho na mão, esperava ansioso. O povo comprimia-se ao redor do local onde os ciganos festivamente vestidos executavam sua música e as mulheres com suas vestes coloridas e o tilintar de seus adereços infiltravam-se no meio do povo para a "buena dicha".

     De repente, uma mão nervosa de mulher levantou a cortina da carroça colocada ao lado do palco improvisado e um grito de entusiasmo e admiração sacudiu os assistentes. Esmeralda pulou para o chão e iniciou a dança, deixando-se conduzir ao ritmo alegre das guitarras tocadas com rara sensibilidade. Estava maravilhosa. Vestia o vestido que Carlos lhe dera e o brilho de seus olhos, a beleza de seus cabelos, a perfeição de seu corpo casavam-se muito bem com a magia de sua dança exótica e sensual.

     O povo gritava com entusiasmo, e Carlos perdeu a respiração vendo-a tão bela, preso à cena que o emocionava, fazendo-o esquecer-se de tudo que não fosse aquela mulher.

     Esmeralda dançava feliz. Dançava para Carlos. Para ela, ali só havia o jovem fidalgo. Seu rosto refletia o êxtase e o encanto do amor e ela mergulhava na música que traduzia tudo quanto sentia e a alegria que lhe ia no coração. Carlos a amava! Como o mundo era belo e a vida extraordinária!

     O moço, preso à cena, fascinado, caneca na mão, vibrava apaixonado e nem sequer percebeu quando um fidalgo aproximou-se, postando-se a seu lado, intentando falar-lhe, mas que estacou embevecido frente ao maravilhoso espetáculo. Quando a cigana parou, o povo exigiu mais e as moedas choviam, sendo apanhadas rapidamente por alguns ciganos.

     Esmeralda se fazia esperar e eles exigiam. Carlos a fitava, aplaudindo contente.

     — Que mulher! Perdi a respiração!

     Irritado, Carlos voltou-se e logo seu rosto distendeu-se:

     — Álvaro! Em Valença?

     — Carlos! Em meio à turba te vi. E ao me aproximar compreendi por que não me viste. Que mulher! Jamais vi coisa tão bela. Não é a mesma do ano passado em Madri?

     Carlos um pouco perturbado esclareceu:

     — É.

     — Tu a conheces?

     — Conheço e muito de perto. O outro riu admirado.

     — Continuas o mesmo, sempre chegando a minha frente. Tens muita sorte. Faz tempo que não nos vemos e se me recordo hoje se cumpre um ano.

     — Tenho andado ocupado. Negócios de família. O outro riu admirado.

     — Tu?! Andas cuidando dos negócios?

     — Do que te admiras? Meu pai precisa de mim, e afinal sou seu único herdeiro. Preciso cuidar do que é meu.

     — Deixaste a vida de aventuras?

     — Tudo tem seu tempo.

     Álvaro deu-lhe palmadinhas nas costas enquanto dizia:

     — Fazes bem. Porém para isto não precisas esquecer os amigos. Prezo tua amizade.

     Carlos retrucou:

     — Eu também. Entretanto, tenho trabalhado muito.

     — Trabalhado?! Andas te ocupando do ofício de teus servos?

     — Não brinques. Cuidar das terras requer canseiras e tenho andado ocupado. Temos a melhor vinha da região. Há que zelar para que os servos não entornem o caldo.

     — Com certeza vais longe. Mas, olha: a cigana volta a dançar. Carlos olhou mas irritava-o a expressão maliciosa de Álvaro, olhos fixos na cigana, com admiração. Segurou o braço do amigo e tornou com voz rouca:

     — Álvaro. Não te atrevas a desejá-la. Esmeralda é minha e se algum homem se aproximar dela, eu o mato!

     Álvaro, assustado, olhou o amigo. Pelo jeito o caso era mais sério do que imaginava. Carlos apaixonado, enciumado! Era inacreditável!

     — Não precisas zangar-te. Eu a admirava apenas. Não podes negar que é bela e dança com muita arte. Não pensei em nada mais. Estás apaixonado, quem diria!

     — Ela é minha. Amamo-nos desde o ano passado.

     — Ora, ora. Agora entendo por que não te vi mais. Por que não disseste logo?

     — Eu disse a verdade, mas Esmeralda é minha e não abro mão dela.

     — Isso me alegra. É uma linda mulher. Além do gosto, uma  sorte

     — Isso é. Mas falemos de outras coisas. Ainda moras em Madri?

     — Sim, como sempre. Aqui vim para os festejos, mas volto logo em seguida. Não tenho, como tu, terras a cuidar nem amor para entreter. Porém a vida da corte me atrai e não quero me afastar por muito tempo.

     Carlos riu malicioso:

     — Quem é ela?

     — Ela?

     — Não me enganas. Não deixarias os festejos se não fora por uma mulher.

     O outro riu desarmado:

     — É. Isso é verdade. Estou amando de verdade.

     Carlos sentiu-se aliviado. Seu amigo não representava um possível rival. Estava fora do jogo. Tornou alegre:

     — O amor é a melhor coisa da vida. Eu amo e sou feliz. O mundo me sorri e a alegria toma meu coração! Folgo saber que também sentes essa alegria. Eu a conheço?

     — Conheces. Eu estava disposto a guardar comigo esse sentimento pelo resto da vida.

     — Por quê, ela não te ama?

     — Não sei. Minha lealdade impedia de fazer-lhe a corte.

     — É casada?

     — Não, isso não. Mas sempre pensei... Bem... Agora sei que não há motivos para isso.

     — Estás misterioso. Conta-me tudo.

     — Primeiro responde: amas sinceramente esta mulher?

     — Esmeralda? É o grande amor de minha vida.

     — Não temes o futuro? És um fidalgo e ela, cigana. Um dia tereis que vos separar.

     — Tenho pensado muito nisso. Mas não posso deixá-la. É mais forte do que eu. Quero-a para sempre.

     — É impossível! D. Fernando jamais aceitaria!

     — Eu sei. Mas com certeza encontrarei solução. Não penso deixar Esmeralda. Nenhuma mulher conseguirá substituí-la em meu coração.

     Carlos expressava-se ardorosamente e havia um acento de sinceridade em sua voz.

     — Nesse caso, preciso confessar-te que estou apaixonado por D. Maria, filha de D. Hernandez.

     Carlos surpreendeu-se:

     — Maria?!

     — Sim. Amo-a de todo o meu coração.. Sempre pensei que a quisesses e que um dia ainda te casarias com ela, guardei meu amor e estava disposto a renunciar.

     — És muito nobre. Não sei se eu seria capaz de fazer isso!

     — Serias, por certo. És meu amigo. O rosto de Maria, seu sorriso doce, sua voz não saem de meu pensamento. Se não tens intenções de te casares com ela, se não a queres, então irei ter com ela e tentar a sorte. O que dizes?

     Carlos estava um pouco sem jeito. Maria era sua prometida de infância e suas famílias falavam do futuro de ambos com naturalidade, mas nada havia de acertado entre eles. Carlos sempre procurara esquivar-se. Sorriu meio sem graça e tornou:

     — Não pretendo desposá-la e se ela te aceitar ficarei livre de qualquer pretensão de nossas famílias e poderei acertar minha vida com Esmeralda!

     — Nesse caso estaria te prestando um favor?

     — É, uma vez que amo outra mulher. Ficaria embaraçoso dizer que não desejo casar-me com ela. D. Antônio se sentiria ofendido e meu pai, zangado. Porém, se a conquistas e consegues, estarei desobrigado. Achas que podes conseguir?

     Álvaro sorriu contente:

     — Eu a amo muito. Lutarei com todas as forças. Hei de vencer!

     — Haveremos de vencer! Eu com Esmeralda e tu com Maria. Bebamos ao futuro e ao amor!

     Alegres, os moços beberam o vinho e mergulharam avidamente no saboroso espetáculo que a cigana oferecia voltando ao ritmo louco das guitarras.

     Nos dias que se seguiram, Carlos tornou-se assíduo no acampamento. Dividia suas atividades com o pai, ia para lá ao meio da tarde e só regressava alta madrugada do dia seguinte. Em sua cabeça havia a decisão de conservar o amor de Esmeralda, renovado e alimentado pelo reencontro, mas ao mesmo tempo o desejo de assumir sua posição de fidalgo rico e conceituado. Era-lhe indispensável o prestígio, e embora pudesse isolar-se da corte, cuja hipocrisia o incomodava, não podia abdicar de sua posição, habituado a mandar, a ser distinguido onde aparecesse, a ser servido e valorizado.

     Se podia passar por cima das convenções sociais, dos preconceitos de casta, amando uma mulher que além de plebéia ainda era considerada de má vida, amaldiçoada pela religião, herege, não se sentia com forças para abandonar sua posição, seus bens, sua situação e transformar-se em um andarilho miserável, às expensas de sua mulher, em meio àquele desconforto e promiscuidade do acampamento.

     Esmeralda o amava e com o tempo haveria de compreender que ela que precisaria abdicar de sua gente, tornando-se sua para sempre. Enquanto o pai vivesse, não achava possível casar-se com ela. Aliás, mesmo sem o pai, talvez não se dispusesse ao casamento, porquanto além da oposição da Igreja, que certamente se negaria a realizá-lo, seria hostilizado pelos outros fidalgos e malvisto por isso. Não que lhe importasse o juízo que pudessem fazer dele, mas conhecia-lhes a vida dupla, mantendo no lar e na corte aparência de austeridade e assumindo vida desregrada nas tabernas, mantendo amantes, levando uma vida onde se permitiam todas as falcatruas, desde que ficassem ocultas no anonimato.

     Assumindo os negócios, o que já estava acontecendo, Carlos pensava comprar uma pequena vila, cheia de flores, para fazer ali seu refúgio de amor. Daria a Esmeralda uma vida de rainha! Colocaria o mundo a seus pés! Jóias, dinheiro, fortuna, amor! Qual a mulher que haveria de resistir?

     Antegozava a ventura de tê-la para sempre todas as noites, passando-as juntos, nas alegrias do amor correspondido. O que poderia ser melhor?

     Agitado, Carlos começou a procurar uma pequena propriedade, em local aprazível e afastado, onde a natureza tivesse construído um esplêndido cenário para presenciar sua felicidade.

     Quando seu pai lhe falou de sua viagem a Madri, de suas intenções de vê-lo casado com Maria, Carlos tentou escapar:

     — Pai, reconheço vossa preocupação, mas não estou ainda preparado para o casamento. Gostaria de esperar mais um pouco.

     — Eu não penso assim. Está na hora de que tu e Maria comeceis a vida juntos e acho até que D. Hernandez deve estar ressentido porque ainda não o procuramos para resolver o assunto. Na próxima semana, eu e D. Encarnação iremos lá e cuidaremos disso.

     — Pai, eu preferia esperar. D. Fernando impacientou-se:

     — Dar-se-á o caso que não queres atender a um desejo meu, que penso em tua felicidade e em teu futuro?

     — Não é isso pai. Agora estou aprendendo a cuidar dos negócios, ainda não estou seguro. Mais tarde, quando eu já estiver mais preparado, então poderei assumir.

     — Não importa. Iremos a Madri. Pretendo convidar D. Hernandez e a família para passarem algum tempo conosco. Então voltaremos ao assunto. Até lá, terás muito tempo para te preparares. Afinal estás muito bem. O que te falta?

     Carlos cocou a cabeça e procurou sorrir querendo parecer despreocupado:

     — É, tem tempo. Deixemos o tempo correr. Para quando pretendeis a presença de D. Hernandez?

     — Para meados de setembro. Convidarei outras pessoas para entreter os convidados.

     — Permiti-me convidar D. Álvaro. É sobrinho de D. Hernandez e muito meu amigo.

     — Por certo, podes convidar quem quiseres — respondeu D. Fernando, com um gesto largo. Queria agradar o filho e vê-lo feliz, apesar de pretendê-lo a seu modo.

     Carlos exultou. Com Álvaro, haveria de estabelecer um plano para que esse casamento malograsse. Tudo faria para que ele conseguisse o amor de Maria, o que vinha ao encontro de seus interesses. Tinha medo de perder Esmeralda. A cigana era ciumenta e não concordaria em dividi-lo com outra mulher, mesmo sabendo que ele não a amava. Se Esmeralda soubesse das intenções paternas, por certo exigiria uma definição que ele não estava desejando dar.

     De acordo com os maneios sociais, as coisas deveriam obedecer determinadas regras que por certo lhe dariam o tempo que precisava para realizar o que pretendia. Álvaro regressara a Madri, mas Carlos tencionava mandar um portador convidando-o para uma temporada em casa, pedindo-lhe ajuda.

     Por isso, estava despreocupado, e enquanto o pai tratava dos preparativos da viagem, Carlos saiu à procura de uma pessoa que ficara de arranjar-lhe a propriedade. Já por duas vezes fora em busca da vila de seus sonhos, sem que a propriedade oferecida lhe agradasse. Desta vez, porém, ao descer do cavalo depois do atalho em meio a frondosas árvores, Carlos parou extasiado. Em gracioso parque, emoldurada por gracioso jardim, coberto de flores, encontrava-se pequena mas luxuosa vivenda com suas paredes rústicas pintadas de branco e por onde graciosas trepadeiras floridas, colocadas com arte, subiam emoldurando-lhe a fachada simples e de bom gosto.

     Carlos, alegre, penetrou os arcos de seus pórticos enquanto seu cicerone dizia:

     — Foi construída pelo Barão de Alcadiz para colocar a mulher amada e por isso tudo foi feito como num conto de fadas. Vede, senhor, que rica é!

     De fato, percorrendo seus aposentos por onde o sol entrava fartamente através das grandes janelas, Carlos encantou-se com tudo que viu. O cenário era ideal! Ali seria seu ninho com Esmeralda. Nada havia a mudar. Tudo fora planejado. Podia trazê-la ali no dia seguinte.

     Carlos sorriu. Entre a carroça cigana e a bela propriedade havia enorme contraste. Esmeralda era antes de tudo mulher. Não poderia resistir.

     Foi sem regatear que combinou o preço e com a chave da porta na algibeira Carlos sonhava como uma criança que adquire um brinquedo há longo tempo desejado. Jamais ele poderia pensar no que ainda estava para acontecer.

     Naquela noite Carlos preparou tudo. Durante o dia levara uma mulher que contratara para tomar conta dos afazeres da nova casa, orientando-a como comportar-se. Tratava-se de pobre viúva a quem Carlos sempre atendera em suas necessidades e cujos dois filhos já adultos tinham deixado o lar em busca de fortuna, deixando-a só. D. Luísa vira-o crescer e tinha por ele desvelos de mãe. Quando ele a contratou, ela sentiu-se muito feliz não só por servi-lo como por encontrar um lar e poder trabalhar. Foi com alegria que acatou as determinações do moço, que sabia poder confiar em seu coração amigo e em sua experiência.

     Era noite quando Carlos procurou Esmeralda na praça. Ela o aguardava amuada, temerosa. A moça sentia aproximar-se o dia de sua partida e não sentia no moço disposição de deixar o lar, e isso a atormentava. E se Carlos não fosse com ela? Tentara inutilmente esclarecer o assunto, mas o moço pedia-lhe para não se preocupar e ela não conseguia que ele falasse com clareza. Naquela noite ela se decidira. Ele tardava. Não a procurara na hora habitual. Esmeralda via nisso desinteresse. Isso irritava-a. Apesar de morrer por ele, não estava disposta a suportar-lhe a indiferença. Queria-o com o mesmo amor dos primeiros dias. Se esse amor se acabasse, não tinha outro recurso senão a separação.

     Naquela noite Carlos estava feliz. Seus sonhos estavam prestes a se tornar realidade. Abraçou a cigana com tanto amor, parecia tão apaixonado que Esmeralda sentiu seus receios diluírem-se. Aquela realmente foi uma noite feliz. Depois da exibição costumeira, Carlos tomou Esmeralda nos braços e disse-lhe ao ouvido:

     — Esta noite quero dançar! Vamos dançar como nunca!

     A cigana sentiu o sangue ferver nas veias ao som da música e seus pés pareciam ter asas, tal a leveza de seus passos.

     O mundo estava muito distante. Somente existia o momento. A magia da noite estrelada, o ruído da festa e a música. Só os dois existiam, só os dois tinham noção de um mundo maravilhoso onde estavam juntos.

     Já pela madrugada, Carlos abraçou Esmeralda, dizendo-lhe ao ouvido:

     — Vem. Quero que esta noite seja diferente. Vem comigo.

     A cigana estava fascinada. Deixou-se conduzir abraçada a ele, na garupa do cavalo. Nem perguntou para onde eles estavam indo. Sentia o calor de seu corpo, o pulsar de seu coração, a força de seu amor, e isso era o bastante.

     Chegando na vivenda de Carlos, desceram. Ele, disposto a conquistá-la a seu modo; ela, fascinada pelo inesperado. Puxou-a pela mão.

     — Vem. Quero que vejas o que preparei para ti.

     Ao entrar, acendeu o lampião e a cigana não pode se furtar à admiração. Nunca tinha visto tanta beleza. Olhou para Carlos admirada, ia indagar, mas o moço puxou-a para si abraçando-a forte.

     — Vem, quero que conheças o resto.

     Conduziu-a para o quarto onde o luxo se casava ao ambiente rústico do local. Esmeralda sentia o perfume dos jasmins que cresciam sob a sacada da janela. Carlos murmurou-lhe ao ouvido:

     — Sempre te amei na simplicidade do campo ou nas almofadas de tua carroça. Hoje, quero amar-te como uma rainha, porque és a senhora de meu coração. Esmeralda, não posso viver sem ti! Fica comigo.

     A cigana sentiu um abalo no coração. Teria entendido bem? Carlos queria que ela deixasse os seus? Mas o moço não lhe deu tempo para refletir. Sentindo-lhe o abalo, esclareceu:

     — Eu te segui durante muito tempo e agora te peço que fiques aqui comigo alguns dias. Será pedir muito?

     Esmeralda sorriu. Por que não? Aquela noite era única e ela não se dispunha a estragá-la. Apertou Carlos nos braços e o moço inebriado compreendeu que ela ia ficar.

     Nos dias que se seguiram, eles foram felizes. Esmeralda procurara Sergei e lhe pedira permissão para uma ausência de alguns dias. Embora o bando viajasse naqueles dias, ela iria depois ter com eles, mais à frente. Parecia uma criança feliz e descuidada. Miro olhava-a preocupado enquanto ela alegre lhe dizia:

     — É só por alguns dias. Não posso negar isso a ele depois de ter ficado comigo quase um ano. Depois, é engraçado viver numa casa. Se visses quantas flores e como é bela!

     — És feliz?

     — Muito. Nunca pensei que pudesse ser tanto. Miro sorriu, mas seu olhar não era tranqüilo.

     — Esmeralda, não vai! Pressinto sofrimento. Recusa! Ela riu:

     — Tens medo de me perder. Não te preocupes. É só por alguns dias. Sou cigana e jamais deixarei nossa gente. Tenho direito ao amor. A vida me oferece e eu não posso recusar. Se mais tarde for infeliz, o futuro dirá. Agora quero viver. Quero amar! Quero estar com ele. Compreendes?

     — Sim. Compreendo. Porém lembra que sou teu irmão. Te defenderei sempre contra tudo e contra todos. Se alguma coisa te preocupar, chama por mim.

     A cigana beijou-lhe a face morena com carinho.

     — Eu sei. És tudo para mim. Pai, mãe, irmão, amigo. Sei que me defenderás. Agora, eu me vou, só por alguns dias. Breve estarei de volta... e com Carlos! Cuida de minhas coisas. Não vou levar nada.

     Realmente ela não precisava. Carlos colocara em seu quarto uma quantidade enorme de vestidos, adereços, tudo quanto uma mulher bonita pudesse desejar. Camisas de seda pura, perfumes, sandálias, tudo escolhido com carinho, não ao rigor da fidalguia mas ao gosto espetacular da cigana, com suas saias brilhantes e coloridas.

     A moça, em meio a tantas coisas e acariciada, acumulada de atenções pelo homem amado, sentia-se fascinada. Apreciava a beleza dos jardins. A comida deliciosa de Luísa, sua bondade e admiração diante de sua beleza faziam-na sentir-se muito bem. Não sentia saudades dos seus e estava disposta a aproveitar a felicidade que Carlos lhe dava, fazia tudo por torná-lo feliz.  .

     O moço passava ali o tempo todo. Seus pais tinham saído de viagem e ele aproveitava a ausência deles. Havia dois meses que desfrutava de seu paraíso. Inácio, como sempre, velava por seu amo, tomando conta dos afazeres do castelo, e Carlos ia verificar cada dois dias se tudo estava em ordem.

     O tempo era pouco para a felicidade. Esmeralda lhe pertencia exclusivamente. Dançava para ele, enfeitava-se para ele, e parecia esquecida do acampamento.

     Uma noite em que ambos gozavam a beleza do luar nos jardins, Inácio os procurou.

     — D. Carlos, D. Carlos... — chamou aflito. Vendo-o chegar assustado, perguntou:

     — O que passa?

     — Senhor! Vamos depressa. O castelo está sendo assaltado. Homens de D. Ortega.

     Carlos deu um salto e Esmeralda apavorou-se.

     — São criminosos! Carlos, não vás!

     — Tenho que ir. Preciso defender minha casa.

     De um salto, entrou na casa enquanto Esmeralda o seguia aflita, vestiu-se colocando a arma no gibão.

     — Vamos Inácio. Pelo caminho contas o que ocorre. Não percamos tempo.

     Beijou Esmeralda, que o tentava reter enquanto dizia:

     — Não temas. Terei cuidado. Espera que breve voltarei. Não saias daqui, aconteça o que acontecer. Fica com este saco. Tem ouro.

     Esmeralda estava pálida.

     — Carlos, não te exponhas. Tem cuidado. Ele a beijou apressado.

     — Não temas. Eu voltarei.

     Montou o cavalo e Inácio o seguiu. Enquanto partiam, Inácio tornou:

     — Hoje chegou um portador de D. Fernando. Ele já partiu de Madri e amanhã por certo chegará aqui. Dispus tudo no castelo para o regresso do amo. Quando acabei, resolvi dar-vos as novas. Ao sair do castelo, vi vultos que se escondiam. Assustado, fingi nada ter visto e achei melhor dar a perceber que estava mareado. Comecei a cantar como se tivesse tomado muito vinho e segui meu caminho. Observei que eram muitos homens. Assim que me vi mais longe, passei pela casa dos nossos e os acordei e juntos voltamos perto do castelo. Pudemos perceber que se preparavam para atacar. Reconheci D. Ortega dando ordens. Dei ordem aos nossos para agüentar o que pudessem e vim vos avisar.

     Carlos esporeou o animal e dentro em pouco estavam no bosque que rodeava o castelo.

     — Espera, Inácio, vamos devagar. Quero surpreendê-los.

     Quando se aproximaram do portão principal, verificaram que o mesmo fora arrombado e dois homens montavam guarda. Os outros por certo estavam dentro. No chão, o corpo do vigia inerte. Carlos sentiu uma onda de rancor. Pegou uma pedra e a atirou do lado oposto, e quando os dois olharam para lá, voltando-se atraídos pelo ruído, Carlos e Inácio se atiraram sobre eles golpeando-os com a faca.

     Não emitiram nenhum som. Caíram inertes, começando a gemer fracamente, e o sangue jorrava. Sem se preocupar, os dois entraram no parque e puderam ver que havia vestígios de luta. Alguns homens empunhando armas chegaram e juntaram-se a eles. Estavam em oito.

     Cautelosamente foram se aproximando. Encontraram mais três corpos dos companheiros aparentemente mortos. Tudo estava em silêncio.

     — Eu sei onde estão! — murmurou Carlos entre dentes.

     O subterrâneo certamente era o local onde estavam as jóias e os bens da família. Enquanto os homens esquadrinhavam o castelo com cautela e cuidavam dos servos acovardados, obrigando-os a tomar da arma para proteger as mulheres, Carlos chegava à sala que dava acesso ao subterrâneo.

     A porta secreta estava aberta! Eles a haviam descoberto. Aproximou-se devagar. Ouviu vozes:

     — Veja que fortuna. Não te disse?

     Pálido de revolta Carlos continuou na escuta:

     —  Com esta fortuna, saldaremos nossas dívidas, meu caro D. Fabrício!

     A voz de Ortega soou como um martelo na cabeça do moço. Ele compreendeu. Pressionado pelas dívidas, o tio os levara ao assalto do castelo!

     — Vamos carregar isso — ordenou Ortega aos homens que o acompanhavam.

     Temendo ser apanhado, Carlos saiu para pedir ajuda aos amigos. Não os vendo perto, esperou escondido em um reposteiro. Viu quando os homens trouxeram uma arca pesada para o salão e voltaram para buscar mais. Foi então que aconteceu o imprevisto: D. Fabrício saiu rápido e num segundo fechou a porta secreta prendendo D. Ortega e seus homens dentro.

     Carlos, sustendo a respiração, observava. Com um riso nervoso, Fabrício abriu a arca e como louco remexeu as jóias e as moedas de ouro, colocando o mais possível em um saco que tirou de um dos bolsos.

     Carlos não se conteve, saiu de trás do reposteiro indignado:

     — Jamais pensei que um fidalgo pudesse tornar-se reles salteador! Um raio não teria fulminado Fabrício com tanta violência. Vendo o sobrinho, de um salto tirou um punhal e gritou:

     — Ladrão és tu, que me roubaste a parte da fortuna que de direito me pertence. Vou dar cabo de ti como de um cão.

     Atirou-se a Carlos e rolaram pelo chão em luta de vida ou morte. Inácio chegou nessa hora e atirou-se sobre eles, tentando ajudar o amo. Mas Fabrício estava como louco. Tinha força multiplicada.

     Os outros homens acorreram e Inácio mergulhou a faca nas costas de Fabrício, que urrou blasfemando:

     — Assassinos! Me acertaram, mas eu me vingarei. Das profundezas do inferno eu juro que me vingarei!

     Sentindo o sangue empapar suas vestes, Carlos teve náuseas e sentiu-se perder os sentidos. Foi um segundo, mas foi o bastante. Com mão trêmula, Fabrício enfiou a faca em seu peito e Carlos, sentindo a vista toldar-se, perdeu os sentidos. Inácio, tomado de fúria, enfiou sua faca várias vezes no corpo inerte de Fabrício enquanto os homens socorriam Carlos, apertando o ferimento para sustar a hemorragia.

     Imediatamente levaram-no ao leito e correram em busca de um médico. Inácio chorava desalentado enquanto Carlos, pálido, parecia morto. Mas seu coração batia e os homens aflitos aguardavam que o socorro chegasse.

     Amanhecia quando o médico chegou e procedeu ao exame de Carlos. O moço, inerte, respirava fracamente.

     — Perdeu muito sangue — explicou ele aos homens aflitos que rodeavam o leito. — Se sabem rezar, chegou a hora.

     As mulheres choravam e os homens, de cenho cerrado, sombrios, tinham vontade de ter alguém em que se vingar. Contudo, Fabrício estava morto. E ninguém conseguiu encontrar Ortega. Inácio jurava que o vira no castelo, mas ninguém sabia dele.

     Servos fiéis colocaram a pesada arca no gabinete de D. Fernando e se revezavam na guarda, receosos de que, espicaçado pela cobiça, D. Ortega voltasse ao ataque. Ninguém conhecia o segredo do subterrâneo, nem o segredo de sua entrada, engenhosamente dissimulado, e só Carlos e D. Fernando estavam ao par desse segredo.

     Resolveram mandar um portador a D. Fernando, que com certeza regressava ao castelo. Inácio se recusava a deixar o amo naquelas condições e outro tomou seu lugar. E começou então a longa espera.

     Haviam transportado os cadáveres para fora e limpado o sangue. Aguardavam as ordens, esperando a chegada do amo.

     Entretanto, mais uma surpresa os esperava. D. Fernando, com sua comitiva, chegou no dia imediato. Contudo, o choque e a preocupação afetaram-lhe a saúde, tendo sido acometido de um ataque cardíaco. Foi quase carregado pelos camponeses que deu entrada no castelo, querendo ir para o lado do filho.

     D. Encarnação chorava sem parar. Vendo o rosto pálido e desfeito do moço, ainda em estado grave, sentiam-se arrasados. D. Fernando mal podia falar. Ordenou que colocassem um leito ao lado do moço para ele, o que foi feito imediatamente. D. Encarnação dividia seus cuidados entre o marido e o filho, com o coração cheio de dor.

     Enquanto isso, os homens montavam guarda com receio de novo ataque de D. Ortega. D. Fernando sentiu ódio mortal de D. Fabrício e ficou satisfeito ao saber que Inácio o matara. Não sabia que Fabrício conhecia o segredo do subterrâneo. O fato é que ele o conhecia. O que não podia entender era como ninguém mais vira o subterrâneo, pois os homens não o mencionaram e não sabiam explicar de onde a arca viera.

     Só Carlos poderia com certeza esclarecer o assunto quando melhorasse. O moço estava muito fraco e ainda não se sabia se ia melhorar.

    

Capítulo XI

     Os dias foram se arrastando entre os cuidados médicos aos dois homens. D. Fernando melhor, mas guardando o leito ainda, dava ordens sem contudo referir-se ao subterrâneo. Quando pudesse se levantar, iria até lá para ver como estavam as coisas. Ao que lhe parecia, Fabrício não conseguira levar nada. Os homens montavam guarda e um deles foi ter com D. Fernando.

     — Senhor, prendemos uma mulher cigana que rondava a casa. Acho que espionava. Disse que queria notícias de D. Carlos.

     — Cigana? Por acaso Fabrício andava metido com eles?

     — Acho estranho, porque os ciganos já se foram da cidade há muitos dias. Essa mulher ficou por aqui. Deve estar metida nesta história.

     — Pelo que sei, Ortega não se mete com ciganos. Mas, dize lá, ela é bonita?

     — A mais linda mulher que eu já vi.

     — Então se explica. Deve ser algum caso dele.

     — Que fazemos com ela?

     — Gostaria de interrogá-la. Pode ser que possa dizer onde Ortega está. Ajude-me a levantar e ir até a sala ao lado.

     — Cuidado, D. Fernando — pediu D. Encarnação aflita. — Os ciganos são feiticeiros!

     — Ora, mulher. Sei o que faço. Ajuda-me, quero ver se descubro algo. A custo levantou-se e apoiado no servo foi sentar-se na antecâmara.

     — Agora, trazei-a aqui.

     Pouco depois dois homens entraram conduzindo Esmeralda.

     A moça aguardara ansiosamente o regresso de Carlos, inutilmente. No dia seguinte as notícias foram circulando e ela pode saber da tragédia. A vila revoltada comentava a traição de D. Fabrício e a façanha de Ortega, dizendo que Carlos estava à morte. Desesperada, a moça tentara saber notícias, mas a situação não se modificava. Carlos estava mal!

     Uma semana depois, sem poder suportar mais, foi ao castelo, tendo sido presa pelos guardas. Frente a frente com D. Fernando, Esmeralda esperou.

     — O que queres? — indagou ele com severidade. — Por que espionavas nosso castelo?

     — Senhor — tornou a moça com voz angustiada —, quero notícias de D. Carlos. Saber de sua saúde!

     — Por que te interessas por ele?

     — Somos amigos, senhor. Estou atormentada! Por favor, deixai-me vê-lo! Ainda que seja por um instante.

     — Quem me garante que não estás aqui a mando de D. Ortega?

     — Nem sequer o conheço! Por favor! Eu vos peço. Deixai-me vê-lo! Já o arranquei da morte uma vez, posso fazê-lo de novo!

     D. Fernando olhou-a admirado. Lembrou-se de que Carlos fora recolhido num acampamento cigano quando vítima de assalto na estrada. Estaria ela dizendo a verdade? Entretanto murmurou:

     — Como posso saber se o que dizes é verdade? Como confiar em alguém depois de ser traído pelo próprio cunhado?

     — É verdade, senhor. Somos amigos. Preciso salvá-lo! Deixai-me vê-lo! Com a força de meu amor, saberei devolver-lhe a vida!

     D. Fernando olhou-a boquiaberto. Podia ser verdade. Seu filho era muito amado pelas mulheres.

     — O que podes fazer além do que estamos fazendo?

     Esmeralda aproximou-se dele refletindo no rosto a tremenda emoção que a acometia:

     — Ele me ama! Eu posso chamá-lo à vida com a força de meu amor. D. Fernando assustado tornou:

     — Ama-te? Como podes afirmá-lo? Sabes que esse amor é impossível! Seu rosto orgulhoso refletia o horror dessa ligação. Esmeralda entretanto estava disposta a obter o que queria e respondeu firme:

     — Eu sei. Nada pretendo. Amo os meus e voltarei para eles assim que o vir fora de perigo. Porém quero que me deixem salvá-lo! Por favor, antes que seja tarde demais!

     D. Fernando estava indeciso. O que fazer? Afinal, nada como uma bela mulher para chamar um homem à vida. Mandou buscar Inácio. Este, vendo Esmeralda, estacou surpreso.

     — Conheces esta mulher? — inquiriu D. Fernando com voz firme.

     — Sim — balbuciou ele sem jeito.

     — De onde a conheces?

     — Do acampamento. Ela salvou a vida de D. Carlos. Tratou dele com muitos cuidados.

     A fisionomia de D. Fernando abrandou-se.

     — Então é verdade.

     — Sim. Devemos muitos favores a Esmeralda e a seu chefe. Eles nos trataram muito bem.

     D. Fernando decidiu-se:

     — Seja. Consinto que tentes ajudá-lo. Mas quero tua promessa de que quando ele melhorar irás embora da vida dele.

     Esmeralda olhou-o com um brilho indefinido nos olhos.

     — Prometo que quando ele melhorar irei embora ao encontro dos meus! Permiti-me vê-lo, por favor!

     — Vem comigo.

     Amparado pelos servos, ele dirigiu-se ao quarto onde D. Encarnação os olhou assustada. Porém, habituada a obedecer ao marido, calou-se, limitando-se a olhá-los receosa.

     Esmeralda correu à cabeceira do moço e vendo-lhe o rosto macerado estremeceu de terror. Ele parecia morto.

     — Carlos, meu amor! — chamou angustiada. — O que te fizeram! Enquanto D. Encarnação apavorada pedia ao marido que a tirasse dali,

     a cigana aproximou seu rosto do dele e começou a falar a seu ouvido com imenso carinho.

     D. Fernando, ordenando à esposa que se calasse, observava atento. Lágrimas corriam pelas faces da cigana.

     — Carlos — dizia —, não vás embora. Vem para a vida! Eu te espero! Não me deixes!

     Fundo suspiro saiu do peito do moço. Ele tinha reagido! Ela levantou os olhos e pediu súplice:

     — Senhor! Ele está mal. Sei de uma pessoa que tem mais poderes do que a medicina. Ele pode nos ajudar a salvá-lo! Mandai buscá-lo. E nós vamos trazê-lo à vida.

     Como D. Fernando a olhasse interdito, ela dirigiu-se a Inácio:

     — Fala a teu amo que te deixe ir em busca de Miro no acampamento. Ele pode salvá-lo. Vai e chama-o. Diz que Esmeralda precisa dele. Conta-lhe tudo.

     — Tu o conheces? — indagou D. Fernando. Inácio respondeu:

     — Sim, senhor. Ele ajudou D. Carlos. E é nosso amigo!

     — Então vai e chama-o com urgência. Carlos está mal.

     D. Encarnação estava aterrorizada. Não sabia se de medo dos ciganos ou da morte do filho.

     Começou para eles a espera ansiosa. Esmeralda permanecia ao lado da cama do moço, olhos pregados em seu rosto como que querendo impedir a morte de passar por ali. D. Fernando, olhando sua bela fisionomia,começava a entender que Carlos podia realmente ter se apaixonado por aquela mulher. Havia tanta força em seus olhos e tanto amor que apesar do orgulho ele podia compreender que eles tivessem tido ligação amorosa. Seu filho ficara muitos meses nesse acampamento e isso certamente o fizera ser influenciado pela insinuante presença da cigana. Mas não estava preocupado com isso. Jamais lhe passara pela cabeça que Carlos pudesse pensar com seriedade em manter essas relações.

     O importante era salvá-lo. Depois, certamente, tudo se normalizaria.

     Esmeralda, contudo, permanecia atenta, pálida, sem se alimentar nem dormir, o que assustava D. Encarnação e a fazia imaginar que a cigana tivesse poderes sobrenaturais. Benzia-se e rezava sem parar e apesar de sua imensa aflição não podia prescindir do alimento, por sentir-se muito desgastada.

     Somente dois dias depois foi que Inácio regressou, trazendo Miro, cujo olhar preocupado se deteve na figura pálida e emagrecida da cigana.

     — Miro! — murmurou ela correndo para ele, — salva-o! Sei que podes fazê-lo! Não o deixes morrer.

     O rosto sério de Miro enterneceu-se enquanto abria os braços para Esmeralda.

     — Se tu me pedes, farei o que puder.

     Um pouco sem jeito mas curioso, D. Fernando os olhava esperançoso. Começava a rezar pedindo a Deus que ajudasse o cigano a salvar o filho. Se ele detinha poderes sobrenaturais, talvez pudesse ajudá-lo.

     Miro, sério, aproximou-se de Carlos ainda perdido na inconsciência. Colocou a mão direita levemente sobre o local do ferimento e cerrou os olhos, permanecendo assim durante algum tempo que pareceu eterno aos demais. Depois abriu os olhos e tornou:

     — Ele está mal. Por duas vezes foi ferido em decorrência de suas vidas passadas. Vejo seu espírito flutuando sobre o corpo e não sei se poderá voltar à vida. Vou tentar fortalecê-lo para que possa esperar mais e dar algum tempo a que seu corpo se refaça. Espero que o Deus da vida o ajude.

     Esmeralda tornou:

     — Eu ajudo se precisares de mim. Darei a vida para ele se for preciso!

     — Acalma-te. Não temos em nossas mãos o poder de dar vida a ninguém. Se te afliges, não vais ajudar. Acalma-te. — Olhando os demais que esperavam ansiosos, aduziu: — Se sabem rezar, rezem. Mas não quero pensamentos contrários. Quem não estiver disposto a ajudar, que saia agora.

     Seu olhar era penetrante e enérgico. D. Encarnação encostou-se ao marido, medrosa, mas corajosamente apanhou o terço e começou a rezar em silêncio. D. Fernando ajoelhou-se ao lado da esposa e Inácio fez o mesmo.

     O cigano sentou-se à beira da cama e, segurando as mãos de Carlos entre as suas, fechou os olhos, permanecendo assim algum tempo. O silêncio era completo e só o corpo de Miro estremecia de quando em vez. Quando ele largou as mãos de Carlos, Esmeralda perguntou:

     — E então?

     — Ainda não posso afirmar. Talvez esteja um pouco melhor. Vamos esperar mais.

     De fato, Carlos parecia respirar com mais naturalidade e seu sono, mais tranqüilo. O rosto da cigana iluminou-se:

     — Eu sabia que podias salvá-lo! Sei que ele não vai morrer!

     D. Fernando sentiu uma onda de calor invadir seu coração combalido. Deus ouvira suas preces! Para ele todos os meios eram úteis, mesmo usando um herege como instrumento. Entretanto, D. Encarnação não estava tão certa. Tinha medo daquela gente. Deles nada poderia vir de bom.

     D. Fernando aproximou-se de Miro com respeito.

     — Sou muito grato por tudo. Carlos é meu único filho. Vou cuidar de vossa hospedagem. Naturalmente ficareis conosco alguns dias.

     Miro curvou-se sério.

     — Ficarei apenas o necessário às melhoras de D. Carlos. Assim que o vir fora de perigo, regressarei ao acampamento. Porém gostaria de ficar aqui mesmo, enquanto D. Carlos precisar de mim. Estou acostumado à vida simples. Não há necessidade de nada mais. Agradeço vossa augusta hospitalidade.

     D. Fernando estava surpreendido. Jamais esperara tanta fidalguia de um reles cigano. Sentiu-se aliviado e considerou com naturalidade:

     — Saberei recompensar tanta dedicação devidamente. Miro fixou-o com um brilho orgulhoso no olhar.

     — Estou aqui atendendo Esmeralda. Se quereis demonstrar vossa gratidão, fazei-o a ela! Eu nada pretendo.

     D. Fernando sentiu-se embaraçado. A ambição dos ciganos era conhecida. Por que Miro se mostrava diferente? Temeroso de exasperar o cigano, de quem esperava ajuda e colocara toda sua esperança, o fidalgo calou-se, limitando-se a continuar suas orações em favor do filho querido.

     Mais tarde, espicaçado pela curiosidade, chamou Inácio na ante-sala e perguntou ansioso:

     — Conheces bem esses ciganos?

     — Um pouco — considerou o servo sem saber até que ponto podia contar ao amo a verdade.

     — Conta-me tudo que aconteceu quando Carlos foi assaltado e socorrido pelos ciganos.

     Inácio relatou com minúcias a viagem, sem contar contudo que a ida a Madri tinha sido pretexto para Carlos rever Esmeralda. Contou o assalto, o socorro dos ciganos que os tinham recolhido na estrada e como Carlos estava mal.

     — Ao que sei, os ciganos não costumam recolher os feridos.

     — Mas D. Fernando não conhece Sergei. É o chefe deles, homem sério e respeitado, bom e justo.

     — Como pode ser bom vivendo do jeito que vive? Deixa isso e conta o resto.

     — A cigana Esmeralda tinha dançado na festa e D. Carlos tinha dançado com ela. Reconhecendo meu amo ferido, ela pediu a seu chefe para recolhê-lo em sua carroça e tratou dele.

     — Agora começo a entender.

     Inácio falou da dedicação da cigana dias e dias tratando do moço e da bondade com que os ciganos os trataram.

     — Exigiram pagamento?

     — Não. Pelo contrário. Davam-nos comida e até roupas, porque os ladrões tinham levado tudo que era nosso, até os cavalos.

     D. Fernando cocou a cabeça encabulado.

     — Não posso entender! Por que homens como eles fariam isso? Será que esperavam lucrar mais tarde? Afinal Carlos é fidalgo rico.

     — Se me permitis falar, senhor, posso dizer que se eles quisessem alguma coisa já teriam pedido porque D. Carlos voltou para casa e eles nunca nos vieram pedir nada.

     — Isso é verdade.

     — E ainda D. Carlos pediu cavalos e provisões emprestados para voltar para casa e Sergei nos deu. Viemos com conforto e muitas provisões. As mulheres ciganas nos deram comida para a viagem.

     — É estranho! Jamais pensei que isso pudesse passar.

     — Esmeralda é muito querida por todos e o que ela quer todos respeitam. Ela gosta do amo e por isso todos gostam dele.

     — É... assim parece... — D. Fernando nada mais disse, mas não pôde deixar de pensar na singularidade de um mundo onde seu próprio cunhado, homem de estirpe e berço fidalgo, se colocara como assaltante vulgar e assassino e ao mesmo tempo homens marginalizados e parias, hereges e estranhos, pudessem demonstrar tanto desinteresse e tanta dignidade.

     Foi com respeito que D. Fernando voltou ao quarto do filho e com muita energia que repreendeu a esposa apreensiva com a presença dos ciganos.

     — Deves agradecer a Deus e a eles terem salvo Carlos da morte e ainda hoje deixarem seus negócios e ficarem aqui para o ajudar. Não devemos ser ingratos. Se não queres ajudar, recolhe-te a teus aposentos e deixa-nos a sós.

     D. Encarnação calou-se. Seu marido sempre sabia o que estava fazendo. Embora com medo, não queria sair. Queria acalmar a grande ansiedade pelo destino do filho.

     As horas foram passando e aos poucos foi-lhes parecendo natural a presença daqueles dois ao lado do leito, numa dedicação sem limites. Esmeralda a custo conseguira tomar um pouco de leite e D. Encarnação já se com doía da figura pálida da cigana, vendo-lhe no rosto o amor e a ansiedade estampados.

     Fazia três dias que Miro chegara e revezava-se com Esmeralda, repousando no leito de Inácio, colocado ao lado da cama de Carlos. D. Fernando também repousava em seu leito no mesmo aposento.

     A cigana adormecia vencida pelo cansaço, mas quase sempre acordava pressionada por pesadelos. Carlos dormia mais sossegado. Uma noite abriu os olhos com dificuldade. Esmeralda não se conteve:

     — Carlos! Voltaste à vida. O amor é mais forte do que a própria morte.

     O moço parecia um pouco fora de si, mas murmurou com voz muito fraca:

     — Esmeralda! Esmeralda! Estás aqui... Está tudo escuro... confuso... A cigana tomou as mãos do moço com muito carinho:

     — Sou eu! Estou a teu lado! Volta à vida, que eu te espero! Eu te amo! Carlos apertou a mão da cigana e sorriu:

     — És meu tesouro. Não me deixes. Fica comigo.

     D. Fernando aproximou-se o bastante para ouvir o final da frase. Então era verdade. Carlos a queria! Não se admirava. A beleza da cigana deixava-o admirado. Por vezes não conseguia desviar o olhar de seu rosto, surpreso com a força de suas expressões apaixonadas, a beleza de sua pele, a luminosidade de seus olhos e o brilho de seus cabelos sedosos e limpos, diferente das mulheres fidalgas, que de hábito os mantinham presos e malcheirosos. Reconhecia jamais ter visto mulher tão bela. Compreendia o fascínio de Carlos, mas ao mesmo tempo confiava em seus brios de fidalgo. A aventura fazia parte da vida e dos costumes daqueles tempos, sem contudo afastarem o fidalgo de seus deveres para com o nome e a família.

     A cigana lhe afirmara que iria embora quando ele estivesse fora de perigo. Se ela o deixara uma vez, certamente o deixaria de novo. Ele ignorava que os dois estivessem mantendo vida em comum.

     Naquela noite, Carlos começou a melhorar. Maravilhado com Esmeralda a seu lado em seu castelo, a princípio Carlos recusou-se a pensar em qual o milagre que teria ocorrido. Sentia-se fraco e sabia que fora ferido pelo tio, mas Inácio lhe garantia que o traidor estava morto e que Esmeralda e Miro tinham vindo para salvar-lhe a vida.

     Carlos, admirado, sentia-se grato pela compreensão paterna aceitando a presença dos ciganos e o demonstrou assim que D. Fernando comovido se acercou do leito:

     — Pai, agradeço-vos teres trazido Esmeralda. Pensei ter morrido. Estava em meio a fumaça, sangue e dor. Sentia muito frio, e quando eu estava caindo dentro de um buraco escuro, encontrava Esmeralda, que me estendia a mão e me chamava à vida. Sem ela eu teria morrido.

     — Deus ouviu nossas preces. Esmeralda cuidou de ti com muita dedicação.

     Carlos apertou a mão da cigana com força.

     — Devo-te a vida, Esmeralda. A cigana murmurou com doçura:

     — Se tu morresses, eu não iria sobreviver.

     — Mas eu estou vivo! Agora não mais te deixarei!

     D. Fernando sentiu um aperto no coração. Certamente Carlos estava fraco e dependente, fascinado pelo amor daquela bela mulher, cuja dedicação tinha que reconhecer. Porém, quando voltasse ao normal, com certeza haveria de libertar-se dessa atração.

     Nos dias que se seguiram, Carlos apresentou melhoras, e embora muito fraco ainda, Miro reconheceu que ele estava salvo. Assim, despediu-se disposto a regressar. Chamou Esmeralda e disse triste:

     — Não quero perturbar tua alegria, mas preciso ir e aconselho-te que me acompanhes.

     Esmeralda teve um gesto de susto:

     — Deixar Carlos agora?

     — Sim. Ele está fora de perigo e acho que deves voltar ao acampamento.

     — Gostaria de ficar mais ao lado dele. Minha presença faz-lhe bem.

     — Eu sei. Mas se tens que deixá-lo, é melhor que seja agora. D. Fernando nos aceita só porque ajudamos ao filho. Se quiseres ficar para sempre aqui, sei que ele não vai concordar. E, depois, como irias viver, encerrada dentro desta prisão? Tu que amas a liberdade, o sol, a luz, a noite, a alegria. Já sentiste o peso destas paredes? A tristeza que há em cada canto? Os antepassados gemendo em cada sala? Eu morreria se tivesse que ficar aqui e tu também não vais suportar. Por isso Carlos te ama. Porque lhe destes a vida que ele sonhou. Não suportarás isto muito tempo. Eu sei!

     Esmeralda suspirou triste. Era verdade. Sentia-se sufocar dentro da pesada atmosfera daquele castelo. Sua única alegria era Carlos. Miro tornou súplice:

     — Volta comigo. Quando ele melhorar, irá ter contigo no acampamento. Então, tudo estará bem. Ele te ama. Irá a teu encontro longe destas tristes paredes. Esta casa está escura, eu não vejo nada de bom. Muito ódio, muita vingança e Deus sabe o que vem ainda sobre eles.

     — Miro, o que vai acontecer? Por acaso sabes? Viste alguma coisa? O cigano desviou o olhar com um sorriso.

     — Nada. Só sinto tristeza neste lugar. Aqui não serás feliz. Vem comigo, Esmeralda, eu te peço!

     A cigana olhou triste para Miro:

     — Não sei se terei forças.

     — É preciso. Não será por muito tempo. Quando Carlos melhorar, irá a teu encontro.

     — Quando pensas partir?

     — Ainda hoje.

     — Fica até amanhã e te darei uma resposta.

     — Seja. Esperarei. Dói-me deixar-te aqui só.

     — Pensativa, Esmeralda aproximou-se de Carlos, que tomou de sua mão com imenso carinho.

     — Por que me deixaste só? Proíbo-te que saias daqui nem que seja por um minuto.

     Esmeralda sorriu.

     — Bobo! Sabes que agora já estás bom e eu preciso ir embora. Miro vai amanhã e eu pretendo partir com ele.

     Carlos assustou-se:

     — Queres deixar-me?

     — Só vim porque precisavas de mim. Agora preciso voltar aos meus. Sabes que esse é meu dever.

     Carlos apertou-lhe a mão com força:

     — Não. Não quero que vás. És minha e teu dever é ficar junto comigo. Não posso ir contigo. Por isso, deves ficar.

     Esmeralda respondeu com voz fraca:

     — Daria tudo para poder ficar, mas sabes que é impossível.

     — Então não me amas.

     — Sabes que te amo muito. Não posso ficar aqui. Não é meu lugar. D. Fernando deixou-me ficar só até ficares curado. Prometi' ir embora quando estivesses melhor.

     Carlos indignou-se.

     — Não concordo. És minha e nada nos há de separar. Falarei com ele. Há de compreender.

     Esmeralda estava trêmula. Carlos a amava e lutaria por seu amor. Isso a comovia. Esqueceu seus sofrimentos naquele lugar onde parecia sufocar entre aquelas paredes e murmurou humilde:

     — Farei o que quiseres.

     Miro os olhava com profunda tristeza, embora tentasse dissimular. Quando D. Fernando aproximou-se, Carlos tornou:

     — Pai, Esmeralda quer ir embora, mas eu quero que ela fique. Quero pedir vosso consentimento para que ela seja minha mulher!

     D. Fernando sentiu uma onda de pavor. Casar! Com uma cigana! Que horror! Sem poder conter-se, tornou irritado:

     — Certamente tua fraqueza não te faz enxergar bem as coisas.

     — Ao contrário. Estou voltando da morte. Quando se passa o que passei, pode-se avaliar o que tem valor. Para mim, o amor de Esmeralda é mais importante do que tudo.

     D. Fernando estava pálido. Certamente esse era o golpe daquela cigana! Ela não queria uma recompensa. Ela queria tudo!

     Fulminou-a com o olhar e a custo dominou sua ira. Miro aproximou-se e disse sério:

     — Esmeralda acaba de dizer a D. Carlos que vai comigo para o acampamento. Partimos amanhã.

     Carlos empalideceu.

     — Não vais fazer isso comigo. Esmeralda fica. Não quero que ela vá. Se for embora, juro que jamais vos perdoarei.

     D. Fernando, olhando a fisionomia pálida e contraída do filho, assustou-se e resolver contemporizar. Afinal ele podia estar enganado. Se Esmeralda pretendia ir embora, por que se irritar? Com o tempo tudo se arranjaria.

     — Calma, Carlos. Não falemos disso agora. Se queres que ela fique, não me oponho. Não te irrites. Pode fazer-te mal.

     Carlos apertou a mão de Esmeralda com força.

     — Fica comigo — murmurou com voz fraca.

     — Farei o que quiseres — murmurou a cigana com dificuldade.

     D. Fernando queria muito conversar com o filho sobre a tragédia. Havia muitas dúvidas sobre o ocorrido, contudo esperava uma ocasião em que Carlos estivesse só. Era um segredo de família que não queria ver revelado nem aos criados. O subterrâneo permanecia fechado. Sem forças para repor a arca no lugar, guardara-a em aposento vigiado por homens de confiança. Quando Carlos sarasse, poderiam devolvê-la ao devido lugar. Não se arriscava a comentar sobre o assunto diante de ninguém. Mesmo assim, Fabrício descobrira. Como tinha acontecido? Aguardava a partida dos ciganos para falar do assunto com Carlos, que, por várias vezes, quisera mencionar os fatos, mas D. Fernando o fizera calar, alegando que tudo estava bem e oportunamente voltariam ao assunto. Apesar de sentir-se ainda enfraquecido, D. Fernando reassumira suas atividades na direção de suas terras e procurava colocar tudo nos devidos lugares. Pensava em Leonor, que agora podia retornar a casa, livre para sempre do marido. Entretanto, não tivera notícias de D. Gervásio. Onde estaria?

     Precisava assumir o castelo e as terras que ainda restavam ao cunhado para evitar que caíssem nas mãos de algum aventureiro, já que Fabrício estava morto e não deixara descendência. Leonor era a dona de tudo. Assim que Carlos melhorasse, iria até lá para vistoriar a propriedade. Temia que os homens de D. Ortega tivessem ido primeiro e saqueado tudo. Por certo, eles sabiam que Fabrício estava morto.

     Entretanto, os camponeses andavam assustados. Alguns afirmavam ter visto homens de D. Ortega escondidos no mato rondando a casa e pensando em novos ataques.

     D. Fernando reuniu os camponeses e dobrou a guarda. Naturalmente, pensava D. Fernando, eles sabiam das jóias e pretendiam voltar ao ataque. Os servos estavam nervosos, por certo, em razão dos últimos acontecimentos. Recusavam-se a entrar na sala onde Fabrício tinha morrido e alguns até afirmavam ver seu fantasma ensangüentado rondando o local.

     D. Fernando não acreditava que os mortos voltassem. Certamente, aqueles servos, campônios ignorantes e cheios de crendices, estavam fantasiando coisas.

     Repreendeu-os com severidade e os ameaçou até de prisão caso comentassem o assunto. Contudo, eles estavam apavorados. D. Fernando, querendo desmistiticar a coisa, rumou para a sala onde se dera a tragédia e ordenou a alguns que o acompanhassem. Uma serva chorava afirmando ter visto o fantasma encostado na parede da sala.

     — É absurdo. Não há nada lá. Os mortos não voltam. Venham comigo.

     A mulher continuava a chorar e recusava-se a ir. D. Fernando ordenou:

     — Vamos. Estou mandando.

     Trêmula e pálida, ela os acompanhou. Preso aos últimos acontecimentos desde sua chegada, D. Fernando não ia àquela parte da casa, onde esperava ir com Carlos para verificarem tudo no subterrâneo. Abriu a porta calmo, e entrou. Os servos pararam à porta medrosos. D. Fernando ordenou:

     — Corram as cortinas. Vamos abrir as janelas. Verão que as sombras se dissolvem.

     Assustados, dois criados correram a janela, abrindo-as de par em par. Apesar disso, o ar era pesado e desagradável. A serva de repente começou a gritar:

     — Ele está aí! E não está só, Deus meu! Tem homens com ele. Querem vingança!

     Apesar de sua firmeza, D. Fernando sentiu penoso arrepio.

     — Esta mulher está louca! Podem ver que nesta sala não há ninguém.

     — Eles dizem que o cheiro ficará aqui para sempre. Ninguém conseguirá apagá-lo — dizia ela em pranto. — Pelo amor de Deus, vamos rezar!

     D. Fernando lutava com o inesperado, esforçando-se por manter a calma. Mas foi forçado a reconhecer que a sala exalava um forte odor de putrefação que a princípio era fraco mas que apesar das janelas abertas parecia acentuar-se, tornando-se insuportável.

     — Vamos embora daqui — tornou ele. — Estão muito medrosos vendo coisas onde não existe nada. Não estou vendo ninguém. Mande essa mulher embora e arranjem outra que não seja medrosa.

     A mulher saiu chorando e eles se afastaram comentando sobre o mau cheiro que se espalhara pela sala e que todos haviam sentido. Lá fora, comentavam com os companheiros e os boatos começaram a correr. Acreditavam que Fabrício se unira ao próprio satanás para vingar-se. O mau cheiro era do tinhoso, que estava ali no castelo. D. Fernando precisava chamar um padre urgente para afugentá-lo. D. Fernando estava preocupado. Carlos ainda estava muito fraco e necessitando de cuidados. Por outro lado, havia os ciganos que ele insistia em manter ali. Agora essas idéias dos camponeses cheios de crendices. As coisas estavam se complicando e ele não se sentia com forças para assumir o comando de tudo, enfraquecido e doente.

     Naquele mesmo dia escreveu uma carta a D. Antônio, relatando os fatos e pedindo que antecipasse a visita que tinham combinado. Durante sua estadia em Madri, tinham acariciado planos de união entre Maria e Carlos e pretendiam cuidar do assunto quando a família fosse a Valença passar uma temporada no castelo de D. Fernando. Contudo, angustiado e nervoso, D. Fernando pedia a antecipação dessa viagem, colocando a necessidade de apoio e amizade que sentia em D. Antônio, homem rígido, de princípios e digno como fidalgo.

     Pensava que o amigo e futuro sogro do filho pudesse ajudá-lo a resolver aqueles problemas intrincados de Fabrício, ajudar a saber o paradeiro de Leonor e cuidar do futuro dos dois jovens. Não mencionou os ciganos. Esse capricho do filho certamente passaria. Esmeralda lhe disse que iria embora e ele confiava que tudo desse certo. Arranjou portador e o despachou com a missiva. Agora, tinha apenas que esperar.

     Mandou preparar aposentos para os hóspedes. Deu ordens para que despedissem todos os que estivessem com medo e acreditassem em fantasmas e arranjassem outros que se diziam corajosos e sem crendices. Mas para não desagradar os camponeses mandou chamar um padre que desde que D. Gervásio desaparecera vinha ao castelo para rezar as missas e oficiar os atos de religião. Encomendou missa solene para agradecer a Deus a saúde do filho. O padre o convenceu de que devia primeiro rezar pela alma do assassinado e exorcizar o castelo e depois então fariam a missa em ação de graças. D. Fernando continuava odiando Fabrício mais do que nunca, mas se isso comprasse a paz de sua casa e sossegasse seus camponeses, ele concordaria.

     Assim, tudo foi marcado. D. Fernando entrou nos aposentos de Carlos meio contrariado. O moço o olhou perguntando com voz fraca:

     — O que passa? Pareces aborrecido. Há algo errado?

     — Não te preocupes. Sabes que nossos homens são ignorantes e cheios de superstições. Acham que o fantasma de Fabrício ronda a casa e por isso querem um padre. Não acredito nessas baboseiras, mas se isto os tranqüiliza, tenho que aceitar, embora me aborreça. O padre Anselmo deseja exorcizar a alma daquele miserável e quer que rezemos por ele. Eu não perdôo o que ele fez. Quase te roubou a vida! Rezar por sua alma! Se eu acreditasse nela, não me importaria que estivesse no inferno! Mas tive que concordar. Sabes que esses padres dirigem tudo e não devemos contrariá-los.

     Esmeralda os olhava um pouco pálida e Miro procurava manter-se afastado do assunto. Carlos tornou com voz baixa:

     — Pouco me importam as missas. Que as rezem. Mas há algo que preciso contar-te.

     — O que é?

     — O que aconteceu naquele dia. Como surpreendi o patife e os homens de Ortega. Há uma dúvida que me preocupa muito. Onde estão D. Ortega e seus homens?

     — Fugiram, com certeza. Alguns deles foram vistos rondando a casa e redobrei a guarda. Se alguém tentar entrar no castelo, saberemos em alguns instantes. Fica tranqüilo. Depois falaremos sobre isso. Agora terei que ir rezar pela alma daquele patife que lamento não ter matado com minhas próprias mãos. Aquele cachorro!

     O rosto de D. Fernando foi se congestionando e de repente ele levou a mão ao peito exclamando com dificuldade:

     — Ai! Falta-me o ar. Estou mal!

     Miro de um salto aproximou-se e amparou D. Fernando colocando-o no leito, afrouxando suas vestes enquanto dizia com voz enérgica:

     — Cuidado, D. Fernando. Não vos ligueis ao fantasma que cheio de ódio clama por vingança! Se sabeis rezar, se tendes fé, é chegada a hora de pedir. Vejo grandes nuvens negras sobre vossa cabeça. O sangue de muitos homens que pedem vingança. Não é hora de rancor nem de desafios. É hora de rezar e esquecer os erros passados.

     D. Fernando, pálido, respirando com dificuldade, olhava assustado sem atinar com o que lhe estava acontecendo. Carlos queria levantar-se para socorrer o pai, mas Esmeralda o detinha afirmando segura:

     — Deixa Miro trabalhar. Ele sabe o que está fazendo.

     — Meu pai está mal. Preciso ajudar!

     — Não podes. Estás muito fraco. Miro trata dele.

     O cigano colocara a mão espalmada sobre a testa de D. Fernando, que gotejava de suor. Em vão ele procurava falar, sua voz não saía. Miro continuou:

     — Acho que é chegada a hora de acreditardes na sobrevivência da alma! Não desafieis pobres criaturas enlouquecidas e cegas pelo ódio. Procurai antes orar por elas e pedi a Deus que as leve desta casa. Lembrai-vos disso. O ódio só traz a revolta e a dor. Deveis aprender a esquecer as ofensas, como a religião vos ensina. Não estais a vos persignar todos os dias na igreja? Por que não seguis os ensinamentos de vossa religião, que manda perdoar os inimigos? Fazei isso e talvez vos possais salvar!

     D. Fernando estava pasmo. Um cigano pregando sermão? Como podia ser isso? O mal-estar foi passando e aos poucos ele voltou ao normal. Sentou-se na cama e olhou Miro com seriedade. Perguntou:

     — Podeis dizer-me o que passou aqui? Não entendi.

     O cigano olhou-o calmo. Em sua voz havia um pouco de tristeza:

     — Quereis saber? Estais preparado para ouvir a verdade? D. Fernando empertigou-se:

     — Por certo. Podeis falar.

     — Quando começastes a falar de D. Fabrício, ele apareceu e vos agarrou pela garganta querendo vos matar.

     D. Fernando deu um pulo.

     — Não creio. Os mortos não voltam. Isto não é verdade.

     — Neste caso, fiquemos por aqui. Não vos posso dizer mais nada. D. Fernando estava inconformado:

     — Não pode ser! Fabrício está morto. Como poderia agredir-me? Miro conservou-se calado. Carlos assustado perguntou:

     — Sei que falas a verdade, Miro. Acredito em tua palavra. Porém como sabes que era Fabrício? Não o conheceste.

     Miro sorriu ligeiramente.

     — O homem que entrou aqui era de alta estatura, forte, cabelos escuros e camisa fina cor de palha, no cinto de couro cru havia uma fivela com um brasão. Duas armas entrelaçadas com ramos de oliveira. O que chamou-me a atenção foi um medalhão que ele trazia ao peito, no qual havia um retrato de uma bela mulher, de negros cabelos e pele de louça delicada. Trazia um colete de couro com duas algibeiras.

     D. Fernando estava pasmo. Quando Miro chegara ao castelo, Fabrício já tinha sido enterrado há dias. Como podia descrevê-lo com tanta perfeição? Carlos estava arrepiado:

     — É ele! Tu o viste! Assim estava vestido no dia do roubo. Eu o vi e Inácio também. Era ele. Tu não podias saber! Pai, a alma dele esteve aqui! Estou certo disso.

     D. Fernando estava assustado.

     — Como pode ser? Deus iria permitir tanta injustiça? Ele nos arruinou, assaltou e quase destruiu tua vida, e agora ainda volta para nos perseguir? Deus é tão injusto?

     Miro tornou calmo:

     — Não contesto a justiça de Deus. Nem posso explicar. Mas ele vos agrediu e bradava vingança. Tinha as mãos crispadas, cheias de sangue e no pescoço e no peito chagas horríveis que sangravam. Fazia dó. Estava em grande sofrimento, beirando a loucura. Só posso dizer que rezem por ele e pelos outros. Todos estão sofrendo muito.

     — Outros? Que outros? — perguntou D. Fernando.

     — Os que morreram com ele. Carlos sentiu um arrepio de pavor.

     — Pai, precisamos esclarecer uma coisa! Não posso esperar mais.

     — Naquela noite outros homens morreram, havia dois corpos na entrada do castelo — tornou D. Fernando.

     — São mais. Vejo oito pessoas que querem vingança! Precisam orar muito e talvez deixar este castelo, o lugar está maldito.

     — Pai — disse Carlos —, precisamos ir lá. Sabeis onde me refiro.

     — Sei. Depois falaremos.

     — Não. Tem que ser agora. Eu vi. Fabrício os prendeu lá! Alguém por acaso os libertou? Eles teriam encontrado a saída?

     D. Fernando empalideceu. Teria a tragédia sido maior?

     — O mau cheiro — pensou apavorado. Teriam eles ficado lá dentro? Precisava verificar, mas como? Quem poderia ir até lá naquelas circunstâncias? Carlos estava lívido:

     — Pai, ninguém os tirou de lá? D. Fernando suspirou a dizer:

     — Ninguém conhecia esse segredo. Só tu viste prendê-los lá?

     — Só. Estava preocupado com o que sabes. Enquanto os outros davam busca pela casa, fui até lá e vi a porta aberta. Eles, lá dentro, conversavam. Vi também quando dois trouxeram a arca para fora e Fabrício os mandou voltar em busca do resto. Assim que os viu entrar, cerrou a porta e rindo maldosamente começou a colocar as jóias em um saco. Foi quando eu saí de trás da cortina e o interpelei. Ele me agrediu, rolamos, então Inácio apareceu. Quando ele o feriu, julguei-me a salvo, mas o malvado ainda teve forças para ferir-me. Ninguém os viu sair?

     — Ninguém — tornou D. Fernando assustado. — Meu Deus! Que castigo morrer ali sem ar nem água!

     — Como sabeis que ficaram lá? Que não encontraram a saída?

     — Se tivessem saído, alguém os teria visto, teriam deixado rastro de sua passagem. Sabes quantos eram?

     — Não, ouvi vozes, mas não posso precisar o número deles.

     — O que me deixa certo de que morreram ali foi o cheiro de putrefação. Seus corpos estão em decomposição, por isso o odor desagradável naquela sala e que os campônios julgaram ser o demônio.

     — Pai, precisamos saber.

     — Por ora, nada podemos fazer. Eu doente, tu estás fraco ainda de cama. Quando estivermos melhor, iremos verificar. Se estiverem lá, sepultaremos os despojos. Nada mais podemos fazer. Mandarei rezar a missa. Não me julgo culpado por essas mortes. Foi Fabrício quem os trouxe aqui e deliberadamente os prendeu lá. Certamente tinha a intenção de matá-los, livrar-se deles para ficar sozinho com o produto do roubo. Acho até que a mão de Deus foi providencial, deixando-os presos naquele local. Eram salteadores e assassinos. A justiça se cumpriu.

     Miro olhava-o admirado:

     — Se me permites, gostaria de vos dizer que deveis deixar o castelo. Vai ser muito difícil tirá-los daqui e, por isso, melhor faríeis se fósseis para outro lugar, porque essas almas atormentadas não vos darão trégua.

     Carlos estava pálido. Confiava em Miro.

     — Pai, eu posso arranjar um lugar para nós até conseguirmos construir novo castelo. É uma casa linda e cheia de sol. Ficaremos lá até que uma nova ala possa ser levantada em outro local em nossas terras e quanto a este lado cerraremos suas paredes para sempre.

     D. Fernando sacudiu a cabeça.

     — Loucura! Não me sujeito a essas crendices. Se eles morreram, não nos cabe culpa alguma. Com algumas missas acalmaremos tudo e com o tempo, depois de os enterrarmos devidamente, tudo será sanado. Jamais deixarei a casa que tanto amo e que nos pertence há tantos séculos guardando nossos antepassados.

     Miro olhou Esmeralda preocupado. A cigana estava lívida. Carlos inconformado ardia por saber se de fato os saqueadores tinham permanecido fechados ali. Por outro lado, sentia que o pai estava certo. Fora Fabrício quem os prendera intencionalmente. Se ele, Carlos, não estivesse tão ferido, por certo os teria libertado, embora o fizesse para prendê-los ou justiçá-los. Eram malfeitores. Por certo não os teria deixado morrer ali. Sua consciência estava em paz. Apesar disso, não conseguia acalmar-se. Teve vontade de ir para sua casa com Esmeralda. Porém o pai parecia determinado. Ele não contou que tinha um refúgio.

     Entretanto Miro estava decidido. No dia seguinte retornaria ao acampamento e levaria Esmeralda. Precisava salvá-la, ainda que contra sua vontade. À noite, quando Carlos adormeceu, Miro chamou a cigana para a sala ao lado:

     — Esmeralda, pela manhã nós retornaremos ao acampamento. A cigana estremeceu:

     — Não posso deixá-lo agora.

     — Irás comigo. Se ficares, prevejo grandes desgraças. Precisamos sair daqui. Este castelo está maldito. Não desafies certos poderes que te podem destruir.

     A cigana estava apavorada. Jamais Miro lhe falara com tanta seriedade. Conhecia-o muito para perceber que ele não brincava.

     — Como posso ir? Carlos vai piorar.

     — Se ficares, ambos serão tragados pela força das coisas. Mas se fores, ele por certo te seguirá e então poderás salvá-lo e estar a salvo também. Entendes?

     — E se ele não me seguir?

     — Que homem já resistiu a teu amor? Ele te ama. Não vive sem ti. Tratará de melhorar para ir a teu encontro. Não temas.

     Esmeralda acalmou-se. Miro podia estar certo. Longe daquele castelo horrível, por certo seriam felizes. Carlos a seguiria.

     — D. Fernando não concorda que fiques. Está calmo porque eu lhe disse que vamos partir. Se ficares, por certo será teu inimigo. O que poderias fazer aqui só e indefesa?

     Esmeralda suspirou:

     — Tens razão. Irei contigo. Mas Carlos não pode saber. Falarei com Inácio e o espero no acampamento. Lá seremos livres e felizes.

     Esmeralda sorria com esforço e Miro a olhou num misto de alegria e compaixão. Levando-a consigo, tinha esperança de salvá-la.

     Chamou Inácio, que dormia aos pés do amo e disse em voz baixa:

     — Inácio. Vou embora com Miro antes que o sol apareça. Quero que fales a Carlos sem que D. Fernando saiba.

     Inácio concordou de pronto:

     — O amo vai sofrer muito.

     — Eu também. Quero que lhe digas que eu o amo mais do que minha vida e que é para salvá-lo que parto. Aqui neste lugar, onde o sangue de assassinos foi derramado, jamais poderá haver felicidade. Este lugar é maldito. Eu fico esperando no acampamento. Quando ele sarar, deve me buscar e eu vou com ele para onde ele quiser. Compreendes?

     — Sim.

     — Darás o recado?

     — Podes esperar.

     — Diz a ele que estou com o coração despedaçado e que parti chorando.

     — Eu digo.

     — Agora vamos. Diz a D. Fernando que agradecemos a hospitalidade — tornou Miro. — Preferimos partir assim e ele vai entender por quê.

     — Vou preparar provisões para a viagem e cavalos.

     — Te agradeço. Sabes que somos amigos. Quando Carlos voltar ao acampamento, te esperamos com ele.

     Inácio sorriu:

     — Quem dera! Aquilo sim é vida! Se meu amo deixar, eu vou mesmo. Vou preparar tudo e quando estiver pronto vos chamo.

     Esmeralda voltou ao lado do leito onde Carlos dormia. Fitou-lhe o rosto com adoração. Quisera levá-lo consigo. Como era difícil separar-se dele!

     Beijou-lhe a face de leve e o moço num gesto carinhoso atraiu-a para si num abraço do qual ela jamais desejaria sair. Deixou-se ficar, ajoelhada ao lado do leito, cabeça em seu peito, sentindo seu braço envolvendo-a com carinho.

     Quando Miro fez-lhe um sinal de que era chegada a hora, a cigana sentiu um aperto no coração. Era difícil a separação. Sentindo as lágrimas rolarem, ela com gesto suave saiu dos braços de Carlos, que se agitou um pouco sem acordar. Olhando-o com desespero, a cigana saiu quase correndo da sala, tentando impedir o pranto. Miro seguiu-a em silêncio e no pátio já os esperavam dois cavalos com as provisões para a viagem. Nenhum dos dois conseguia falar. Inácio tornou humilde:

     — Que Deus vos bendiga. E a Virgem vos acompanhe.

     — Gracias, Inácio. Saludos a D. Fernando e a D. Carlos. Esmeralda em pranto abraçou Inácio com força e montou o animal com um salto. Miro apertou a mão do criado e montou por sua vez, e, em silêncio, logo se perderam na curva da estrada.

     Inácio entrou um pouco triste. Gostaria de ter, com seu amo, partido dali, onde tudo estava tão mudado e tantos acontecimentos dolorosos estavam ocorrendo. Fechou os portões do castelo e com pesar retornou a seu lugar.

    

Capítulo XII

     Era dia claro quando Carlos acordou. Esperou calmo que Esmeralda entrasse no quarto, e como ela se demorasse, tornou:

     — Inácio, chama Esmeralda.

     Inácio aproximou-se pesaroso. Carlos ergueu-se preocupado. Conhecia o criado muito bem.

     — Onde está ela? Por que não está aqui?

     — Tenho um recado dela.

     — Fala. Não vês que estou aflito?

     — Esmeralda e Miro partiram. A pobre foi chorando.

     — Não é possível. Meu pai com certeza exigiu. Ele vai ver comigo.

     — Não. Isso não. Ela disse que vos ama com alma e vos espera no acampamento. Disse ainda que este castelo está cheio de sangue e que aqui não sereis felizes. Pediu ao amo para ir a seu encontro. Ela irá para onde quiserdes. Vos espera sem falta quando estiverdes melhor.

     Carlos deixou-se cair abatido. Ela tivera a coragem de deixá-lo! Agora que ele alimentava a esperança de retê-la para sempre no castelo! Por certo ela se assustara. Os ciganos eram muito supersticiosos. Não devia ter contado os fatos diante deles. Fora isso. Sentiu-se abatido, mas tentou levantar-se. Tinha que melhorar para ir até o acampamento e trazê-la de volta.

     Sentou-se e tentou ficar em pé. Mas tudo rodou a sua volta e ele pálido caiu no leito, a ponto de quase perder os sentidos.

     Inácio gritou e D. Fernando, que estava na sala ao lado, entrou assustado.

     — Que passa?

     — D. Carlos quis levantar-se, sentiu-se mal.

     — Não pode ainda. Por que fez isso? Onde está Esmeralda?

     — Eles foram embora.

     — Às escondidas?

     — Não. Deixaram saludos para vós. Preferiram sair sem falar a D. Carlos.

     — Compreendo — fez D. Fernando, enquanto procurava socorrer o filho. Não pôde ocultar no olhar o brilho de satisfação. Felizmente as coisas voltavam à normalidade. Com o tempo, Carlos esqueceria aquela ilusão.

     O moço estava inconformado. Queria que Inácio os fosse trazer de volta e a custo conseguiram acalmá-lo um pouco.

     — Vá, Inácio. Traz Esmeralda. Diz que estou morrendo. Assim ela volta.

     — Meu filho, não podes forçá-la, se ela prefere estar com sua gente. Ela foi porque quis. Depois, os ciganos têm muito medo dos mortos. Viste como se apavoraram ao saber que aqueles assassinos tinham morrido aqui? Com essas crendices, não podes exigir que fiquem no castelo. Depois, eles pertencem a outro meio. Não gostam de sair nem de se misturar.

     Carlos calou-se. Quando melhorasse, iria ver Esmeralda e resolveriam quanto ao futuro. Queria melhorar depressa. Apesar disso, naquele dia não conseguiu comer, insensível aos carinhos da mãe e ao interesse do pai.

     No dia imediato Carlos acordou dia alto. A noite fora cheia de pesadelos e por isso só conseguira adormecer dia claro. Revivera a cena da morte do tio e lhe parecera sentir novamente a ferida sangrando e seu sangue todo esvaindo-se, chamava por Esmeralda mas a cigana não vinha. Sentia-se debilitado e sem apetite.

     Inácio tentou dar-lhe uma caneca de leite, que o moço recusou enojado.

     — Bebei, D. Carlos. Se não vos alimentardes, não podereis levantar logo dessa cama. Se quereis ir ao encontro de Esmeralda, deveis alimentar-vos.

     Carlos queria melhorar. Vencendo a náusea, concordou em sorver um pouco do leite, que o deixou acalorado dada sua fraqueza. Tentando animá-lo, Inácio tornou:

     — Hoje tudo aqui está engalanado. Vosso pai recebe hóspedes! Chegaram há meia hora.

     — Hóspedes? Quem?

     — D. Hernandez com a família. Precisais ver D. Maria. Que galante é!

     Carlos admirou-se:

     — Por que teriam chegado agora?

     — D. Fernando os chamou quando as coisas estavam sérias. Vosso pai receava morrer e deixar a família sem proteção. Vossa saúde preocupava-o.

     — Sei... — tornou Carlos em indiferença.

     Pouco depois, D. Fernando achegou-se ao leito do filho. Estava alegre como há muito não acontecia.

     — Filho, D. Hernandez chegou com a família e desejam fazer-te uma visita. Logo mais à tarde os trarei aqui.

     — Está bem — tornou Carlos com indiferença. — Por que vieram antes do combinado?

     — Eu participei o que se passava aqui e D. Antônio imediatamente ofereceu seus préstimos. É nosso melhor amigo e vê-lo aqui dá-me tranqüilidade.

     D. Fernando estava sério. Sua voz refletia contida emoção. Continuou:

     — Quando fiquei doente, senti-me morrer e vendo-te também tão fraco receei o pior. Por isso senti necessidade de avisá-los. Te recuperas devagar. Eu não sei se amanhã terei outra crise. Essas coisas de meu coração. Por isso, pensando no futuro, quero colocar D. Antônio ao par de tudo. Se algo me acontecer, ele cuidará de ti e de nossas terras até que estejas bem.

     — Se isso vos acalma, eu concordo. Estais bem, por certo vivereis ainda por muitos anos. Quanto a mim, logo estarei bom e poderei reassumir os negócios.

     — Deus te bendiga, meu filho. Mesmo assim não posso deixar de agradecer a D. Antônio tanta atenção. É mesmo nosso amigo.

     — Está certo. Eu os aprecio muito. Quanto tempo ficarão?

     — Ainda não sei. Pretendo ir com ele ao castelo de Fabrício. Precisamos zelar de tudo. Pertence a Leonor, eles não tinham filhos. Preciso também procurá-la. Agora já pode voltar sossegada. Está livre.

     — Pobre tia. Onde estará?

     — D. Gervásio é bondoso. Interessou-se por ela. Deve tê-la guardado em algum convento, conforme combinamos. Preciso encontrá-lo. Tenho vontade de combinar logo essa viagem. O castelo sem os donos pode ser presa fácil de malfeitores. Antes eu temia deixar o castelo por causa dos homens de D. Ortega. Agora que estão mortos, estamos livres. Ninguém mais atacará esta casa.

     — Será mesmo que eles morreram?

     — Pelo cheiro do salão que vem lá de baixo, não tenho a menor dúvida. Ninguém agüentaria tanto tempo preso lá dentro, sem ar, água e comida.

     — Por que será que não acharam a saída?

     — Porque ela é secreta e tem uma trava do lado de fora. Uma vez baixada, não abre por dentro.

     — Eu não sabia...

     — Fabrício devia saber. Caso contrário não os teria deixado lá. Era covarde e os temia. Sabia que se saíssem o matariam sem piedade.

     — Isso explica tudo.

     — É o que eu penso. Mas ainda não resolvi o que fazer.

     — Ainda acho que não devemos mais mexer ali. Deus assim o quis. Vamos deixá-los lá. Isolar aquela ala da casa e construir no outro lado.

     — Não sei... Vou pensar. Agora estou mais tranqüilo. D. Henrique é homem sério e ponderado. Vai ajudar-nos nesta hora tão incerta.

     Carlos concordou, embora sem muito interesse. Seu pensamento estava com Esmeralda. Sua presença fazia-lhe muita falta. Como suportar a monotonia da convalescência sem ela? Estava enfarado e sem ânimo. Apesar disso, alimentou-se regularmente.  Urgia deixar o leito, sair daquele quarto, respirar o ar livre do campo, reintegrar-se à vida cotidiana.

     Cochilava quando pela tarde D. Fernando adentrou o quarto anunciando a presença dos visitantes. Em seguida, estes entraram. D. Hernandez era homem forte e robusto, ereto apesar dos quase cinqüenta anos, cabelos vastos e encanecidos, pele morena, olhar enérgico. D. Engrácia, vestida de negro, o que não encobria sua robustez, tinha os cabelos negros e ondulados, esticados e presos em coque no alto da cabeça, a contrastar com a brancura da tez muito delicada, revelando vida sedentária, sempre dentro de casa.

     Carlos sentou-se no leito e cumprimentou-os com delicadeza. Há muito não os via e eles pareceram-lhe pouco mudados, mais robustos talvez. Vinham acompanhados por Maria. A moça era quase o oposto dos pais. Embora sua tez fosse clara como a da mãe e seus cabelos negros como os dela, seu talhe era delicado e muito bem torneado.

     — Miúda sem ser magra — pensou Carlos.

     Mas o que era bonito em Maria eram os olhos escuros, redondos e grandes em contraste com os traços delicados de seu rosto jovem; a boca pequena porém carnuda, sem ser vulgar, ao contrário, com traços de finura emprestando-lhe à fisionomia ares de grande dama.

     Carlos olhou-a com curiosidade. Afinal, a menina magra e franzina, de tranças ao alto da cabeça, se transformara! O que faz a vida com as pessoas!

     Maria aproximou-se e estendeu-lhe a mão com naturalidade. Parecia ter estado sempre ali.

     — Estás melhor? — indagou com voz tranqüila.

     — Sim — tornou Carlos lutando para sair da sonolência.

     — Tua aparência não é das melhores. Pareces cansado. Se te molestamos, nós vamos.

     Carlos olhou-a admirado. As mulheres que conhecia não costumavam expor suas idéias, nem falar com tanto desembaraço, principalmente em presença dos pais.

     — Por certo que não! — tornou ele, tentando interessar-se pelos visitantes.

     — Carlos está se refazendo aos poucos. Se está cansado, é por estar retido no leito, só e sem poder ver o sol.

     — Realmente é difícil — concordou D. Hernandez. — O pior da convalescência é a cama. Tudo nos aborrece por causa disso.

     Os hóspedes sentaram-se ao redor do leito e durante meia hora palestraram sobre vários assuntos, da corte, da política, dos negócios. Carlos pode observar Maria, calada porém serena, e pareceu-lhe que a moça se transformara em uma fina e delicada criatura. Lembrou-se de Álvaro, que estava apaixonado por ela. Ao que lhe dissera, era correspondido. Estariam comprometidos? Sentiu certo alívio. Isso tranqüilizava-o. Gostando do primo, com certeza Maria o ajudaria a dissuadir os pais da idéia de um casamento entre eles. Olhou a moça com simpatia. Com certeza, era uma aliada.

     — Estás te sentindo muito só? — perguntou ela com delicadeza.

     — Muito — tornou Carlos com certa amargura.

     — Queres que eu venha fazer-te companhia depois do jantar? Se aprecias, posso ler um pouco. Tenho livros muito interessantes que por certo te irão distrair.

     — Apreciaria muito, Maria. Obrigado.

     Carlos tinha intenção de conhecer melhor a moça e poder, de alguma forma, suavizar sua convalescência. Ela não oferecia perigo, uma vez que estava apaixonada por outro homem. Fazia-lhe falta a presença de alguém jovem com quem conversar.

     Quando os visitantes saíram, Carlos adormeceu tranqüilo. Acordou horas mais tarde e comeu com certo prazer, o que fez Inácio sorrir satisfeito. Meia hora depois, Maria foi anunciada. Vinha com sua aia, que discretamente sentou-se a um canto do aposento. Trazia nas mãos delicadas pequeno volume ricamente encadernado. Aproximou-se do leito, onde Carlos, sentado, a recebeu com prazer.

     — Estás melhor?

     — Estou. Dentro em breve estarei fora deste leito. Senta-te, por favor.

     A moça acomodou-se na poltrona ao lado da cama. Olhou-o com certa curiosidade e perguntou:

     — Tens certeza de que não incomodo?

     — Claro. Se me conhecesses melhor, saberias que dificilmente consigo esconder o que penso. O que nem sempre é agradável. Garanto que tua presença me dá prazer.

     A moça olhou-o séria.

     — Não gosto de me impor a ninguém. Sou contra a hipocrisia dos salões. Podes crer que vim porque tenho prazer em conversar contigo e em conhecer-te melhor. Podemos ser amigos?

     Carlos apreciou o tom objetivo e seguro da moça e respondeu com sinceridade:

     — Por certo. Vamos nos dar muito bem.

     Carlos sentiu-se à vontade para conversar com a moça como o faria com uma irmã e, meia hora depois, riam-se e entretinham-se tanto que o livro ficou esquecido.

     Maria era moça muito instruída e apreciava a leitura, que fazia em vários idiomas. Porém, apesar disso, qualidade rara em uma mulher, era muito simples e conversava com naturalidade sobre todos os assuntos, inclusive aqueles que não eram abordados pelas mulheres, como os negócios e a política. Carlos apreciou muito surpreender na moça uma personalidade espirituosa, alegre, séria e ao mesmo tempo objetiva. Irritavam-no muito as mulheres preconceituosas e demasiadamente ingênuas, ignorantes e limitadas de seu tempo. Maria parecia muito segura de si, muito serena e muito inteligente, sem por isso perder sua feminilidade.

     As horas escoaram-se com rapidez e quando a moça levantou-se Carlos admirou-se:

     — Já? Aonde vais?

     — Preciso ir. Deves descansar.

     — Eu dormi a tarde inteira. Fica mais um pouco. Agora não poderei dormir. É cedo.

     — Só mais um pouquinho. E para que te desperte o sono vou ler um capítulo deste livro.

     — Preferia conversar.

     — Sabes que com minhas histórias acabei por perturbar-te o sono. É melhor algo mais repousante. A moça abriu o volume e começou a ler. Era a história de um menino que, como filho único, tinha sido educado rigidamente para ser chefe de um império, soldado e lutador. Porém sua personalidade sensível e amante da arte, abafada pelo ambiente, sufocada, fazia-o criar um mundo imaginário onde ele vivia sua vida íntima e integral.

     A voz de Maria era agradável e pausada. Carlos, que não gostava de leitura e a princípio cedera para não contrariá-la, começou a interessar-se pelo problema do personagem e pela descrição dos fatos, com os quais por vezes identificava-se.

     A moça parou e disse:

     — Chega por hoje. Qual é tua opinião sobre o que li?

     Carlos pensou e começou a falar o que sentia. E, dentro de pouco, parecia-lhes que o personagem existia e estava ali em carne e osso.

     Isso era novo para Carlos. Detestava estudar e a custo aprendera a ler e escrever. Mas era interessante analisar o personagem, que lhe parecia esmagado pelo meio e pela educação. Quando Maria se foi, Carlos ficou pensando na própria história. Ele também estava dividido. Ele também amava Esmeralda, a liberdade, a vida livre e tinha que se submeter ao pai, à rotina dos negócios e às imposições da corte, com os padres e tudo o mais. Só muito tarde conseguiu adormecer.

     Maria conseguira inspirar-lhe confiança e amizade. Nos dias que se seguiram, a moça passou a ser esperada com ansiedade. Dentro de sua solidão e de seu sofrimento com a partida de Esmeralda, ela representava a possibilidade de entretenimento agradável.

     Para Carlos, as mulheres representavam apenas atração para seus jogos amorosos. Mas Maria era diferente. Ele não conhecera nenhuma mulher como ela. Tão instruída, tão equilibrada, parecendo guardar dentro de si toda a sabedoria do mundo.

     Surpreendia-se Carlos com a inteligência da moça, que opinava sobre todos os assuntos, sem a reserva normal das mulheres que conhecia, sempre caladas, jamais emitindo opinião, a não ser sobre os afazeres do lar, as notícias da moda ou as intrigas da corte.

     Maria não se interessava por esses assuntos, preocupando-se com outros problemas mais sérios, sem perder a delicadeza feminina e a correção da boa educação.

     Carlos jamais conhecera alguém assim. As mulheres grosseiras e incultas, mesmo pertencendo às mais nobres famílias, eram uma constante, e o moço encontrou na jovem visitante uma boa companheira com quem podia entreter-se conversando, como jamais o fizera com ninguém.

     Carlos sentiu despertar dentro de si novo interesse pelas coisas, pelas pessoas e aprendeu com Maria a começar a observar seus próprios atos, analisando-os melhor à luz de novos raciocínios.

     O amor de Maria pela leitura, que seus pais toleravam, o que também não era costume naqueles tempos, tinha desenvolvido seu grau de cultura e enriquecido seus conhecimentos de tal sorte que Carlos se sentia encantado com suas narrativas sobre história, sobre política e até sobre botânica. Maria adorava a natureza e por isso estudara os ciclos das plantas, dos animais e mostrava tudo ao moço de forma atraente, estimulando-o a procurar dentro de si mesmo qual desses assuntos lhe despertava o desejo de estudar e aprender.

     Além de tudo, Maria era muito bonita. Seu sorriso franco, sua risada sonora e musical, sua voz firme e agradavelmente modulada fascinavam o moço, amante da beleza e da graça.

     Mas apesar de sentir-se distraído e bem-disposto na companhia da moça, Carlos pensava muito em Esmeralda, guardando ressentimento.

     Por que ela o abandonara? Logo na hora em que pensava vencer a resistência do pai e conseguir permissão para o casamento? Seria mais importante para a cigana viver com o bando do que estar com ele para sempre? O que ela esperava? Que ele abandonasse o pai doente e velho, precisando de seu braço forte, para viver com ela na sujeira do acampamento?

     Amava Esmeralda, mas, agora, começava a raciocinar um pouco mais, analisando sua vida passada. Vira a morte de perto e isso o despertara um pouco sobre a transitoriedade da vida.

     Falou sobre isso com Maria no dia em que se levantou e pôde apanhar um pouco do sol da manhã sentado no pátio. O dia estava lindo e o jardim, cheio de flores.

     — Sinto-me alegre, como se tivesse voltado à vida. Depois de ver a morte de perto, chega a ser emocionante.

     — É verdade. Estiveste mal, mas agora, graças a Deus, podes ver as belezas do mundo outra vez.

     — Achas mesmo o mundo bonito?

     — Por acaso queres coisa mais linda do que este céu azul e a luz do sol que nos ilumina e agasalha?

     — É, acho que posso entender — tornou ele pensativo. — Depois do que passei!

     — A moça sorriu!

     — Deus salvou tua vida para que faças dela algo muito importante.

     — Eu?! Nem sequer gosto de padres! Nada quero com a religião. Por que Deus se ocuparia comigo? Às vezes acho até que ele não existe.

     — Nesse caso, quem teria feito todas essas belezas? E com tal perfeição?

     A moça com gesto largo designou o céu, o sol, as flores, tudo. Carlos não soube responder. Ela prosseguiu:

     — Falo de Deus com amor, não falo dos padres nem da religião.

     — Não te entendo.

     — Os padres são homens e a religião eles a fizeram ser como é. Se queres conhecer Deus, tens que aprender a olhar suas obras. Ver o que ele criou, e então poderás conhecê-lo, respeitá-lo e amá-lo.

     Carlos ficou pensativo.

     — Dizes cada uma!

     Maria puxou o galho da trepadeira que crescia luxuriante ao lado da janela, onde pendia uma linda rosa vermelha.

     — Vê, Carlos, que beleza, toca de leve suas pétalas de veludo, sente seu delicioso perfume, vê como é bela. Nenhum homem, por mais sábio, jamais pôde fazer uma delas!

     O moço, admirado, passou os dedos sobre as pétalas delicadas, aspirou o perfume, admirou a beleza e sorriu porque realmente o que ela dizia era verdade. A lógica de Maria apanhava-o de surpresa, obrigando-o a enxergar pequenas coisas que nunca tinha observado antes, fazendo-o pensar.

     — São coisas da natureza — argumentou ele.

     — Tens razão. São coisas da natureza, são coisas de Deus.

     — Quem nos garante que Deus está nisso?

     — A própria vida. A força das coisas, a perfeição da natureza que só uma inteligência superior poderia ter criado.

     — Deus inteligente! jamais ouvi tal afirmativa. Se os padres te escutam, vão chamar-te de herege!

     Maria deu de ombros e sorriu:

     — Talvez, mas eles não têm uma idéia melhor. Dizem que Deus é o criador de tudo, mas fazem dele um senhor malvado, que assusta até as crianças, ameaçador e insensível, querendo obrigar-nos a entrar no céu, caso contrário aponta-nos o dedo em riste empurrando-nos sem apelação para o inferno.

     Carlos riu divertido.

     — Não sabia que eras contra a religião. Teus pais sabem disso?

     — Se queres saber, tenho minhas idéias sobre Deus, a religião e os padres, e meus pais escandalizam-se com elas, mas quando lhes falo sobre o que penso não encontram argumentos. Julgam-me excêntrica. Por outro lado, não lhes dou motivos de queixa. Procuro ser filha amorosa e alegre. Damo-nos bem.

     — Tenho observado isso. Tens um jeito especial de tratá-los que os deixa felizes.

     — Amo-os muito. E o amor é muito importante em nossas vidas. Carlos suspirou.

     — Assim é. Sem amor a vida perde o sabor.

     O moço pensava em Esmeralda. Uma onda de tristeza o acometeu.

     — Falávamos do amor de Deus, não dos homens. Carlos interessou-se:

     — Como assim?

     — Da natureza, de como Deus, por nos amar muito, fez um mundo tão lindo para nos servir de morada.

     — Pensas mesmo assim? Sempre vejo os padres dizerem que isto aqui é um vale de lágrimas. Que fomos expulsos do paraíso e que a Terra é castigo de Deus.

     — Eles são homens, têm idéias imperfeitas. Há pouco vimos a beleza da rosa, estamos sob o céu azul tão lindo, iluminado, claro, sem fim. Olha para o chão e vê essa grama verde, como um tapete precioso que tem vida, de um verde repousante, para que nossos pés possam pisar. Olha as árvores, os frutos, os pássaros, as borboletas. Podes duvidar do amor de Deus, fazendo tudo isso para nós, cegos de alma, que ainda nem sequer conseguimos enxergar essas belezas, que ateamos fogo aos campos, matamos sem piedade os animais, aprisionamos os pássaros, derrubamos as árvores e ainda colocamos na boca de Deus palavras que ele nunca disse?

     Carlos estava boquiaberto. Nos olhos de Maria havia um brilho tão intenso que dava vida a seu rosto jovem, tornando-o ainda mais lindo.

     — Não pareces uma mulher — murmurou ele fascinado. A risada cristalina da moça cascateou no ar:

     — Isso me deixa preocupada, porque gosto de ser mulher!

     — Dizes cada coisa! Ela riu com gosto.

     — Só alguém como tu poderia trazer alegria a minha vida triste. A moça franziu o cenho com energia.

     — Estás saindo da morte. A alegria deveria ser natural. A gratidão a Deus por ter poupado tua vida é um sentimento de justiça. Depois, és jovem, belo, rico e forte. Não achas que tens bons motivos para ser um homem feliz?

     Carlos fechou os olhos pensativo. No fundo reconhecia que a moça tinha razão. Mas seu amor por Esmeralda trazia-o angustiado.

     — Estou ainda muito fraco. Gostaria de poder levantar-me de vez, cuidar de nossos negócios. A saúde de meu pai é delicada, anseio por retomar o ritmo de minha vida. Isso me traz inquieto e preocupado — justificou ele. Seu rosto estava pálido e contraído.

     Maria levantou-se e chegando perto, num gesto natural, alisou-lhe a testa e os cabelos com meiguice e delicadeza.

     — Aprende a ter paciência com as coisas que não podes mudar. Essa é a sabedoria da vida. Cada vez que colocas teus pensamentos nessa angústia e abraças a impaciência, jogas veneno em teu próprio sangue. Se pudesses ver teu rosto, compreenderias o que digo. Estás pálido. Ao passo que, quando te alegras, teu rosto se transforma, ficas corado e já pareces totalmente recuperado. Assim, além de não ajudares tua cura, a retardas. A alegria é precioso remédio tanto para as feridas do corpo como para as da alma. Por que não ajudas tua própria cura, já que queres sarar depressa?

     — É que nem sempre podemos estar contentes com as coisas que nos acontecem.

     — Isso é verdade. Mas em teu caso há muito mais motivos para a alegria do que para a tristeza. Afinal já estás quase bom. Não é uma felicidade?

     Carlos sentiu uma onda de gratidão. Apanhou a mão dela e a segurou com força.

     — És uma enfermeira ideal. Uma coisa é certa: sem tua presença, tudo teria sido muito pior.

     — Pois então vamos sorrir. Sabes qual é um dos segredos da sabedoria da vida?

     Ele sacudiu a cabeça divertido e ela continuou:

     — É que não sabemos o que vai acontecer daqui a segundos e as coisas acontecem de tal forma que, de repente, tudo pode mudar. Não é excitante e maravilhoso?

     Carlos ficou sério, pensando. Era verdade. Logo ele estaria curado e de um momento para outro tudo poderia modificar-se. Riu com gosto. Uma sensação de bem-estar o invadiu, e pensando no futuro, em Esmeralda, pela primeira vez, desde que a jovem cigana partira, sentiu-se realmente feliz.

    

Capítulo XIII

     De volta ao acampamento, Esmeralda sentia-se triste e desanimada. Um vago pressentimento a emudecia, fazendo-a permanecer calada. Miro observava-a penalizado mas sem ter o que dizer.

     Apesar da alegria dos amigos festejando sua volta, a moça não se sentia bem. Fundas olheiras marcavam-lhe as faces. Recolheu-se a sua carroça sem dar importância aos companheiros que cantavam em sua homenagem, convidando-a a dançar. Tudo inútil.

     Miro procurou Sergei para desabafar, contando-lhe o que tinha acontecido, e terminou:

     — As coisas não estão bem. Nuvens negras cobrem o destino e estão sobre Esmeralda. Tenho me esforçado para ajudar, mas não consigo fazer nada. A força das coisas é mais forte do que eu.

     — Pobre Esmeralda! — murmurou Sergei. — Vamos lutar, Miro. Vamos trazer alegria para ela. Vamos ver se consegue esquecer o fidalgo. Esse amor pode ser-lhe fatal.

     — Ah! Se eu pudesse! Arrancá-lo-ia do coração dela. Mas ele a ama e isso deu força. Nada posso fazer!

     — Amanhã, quando ela descansar, irei falar-lhe. Sempre me escutou. Vou tentar ajudá-la.

     — Isso, Sergei. Vamos lutar. Esmeralda precisa esquecer!

     Mas a moça estava arrasada. Sergei foi vê-la, conversaram muito, e ele tentou mostrar-lhe seu ponto de vista, a diferença de costumes, de raça, de vida, entre o mundo de Carlos e o deles.

     Mas Esmeralda estava determinada.

     — Ele me ama. Vai voltar. Virá buscar-me e juntos seremos felizes. Debalde Sergei tentou fazê-la compreender que ela jamais seria feliz vivendo no palácio dele entre os fidalgos, arrogantes e cheios de preconceitos, e que ele por sua vez estava acostumado a seu meio e não agüentaria a vida do acampamento para sempre. Mas foi inútil: a cigana apegava-se a sua esperança com obstinação.

     Vendo que não conseguiam fazê-la entender, resolveram alimentar-lhe a ilusão a fim de contemporizar e obrigá-la a sair da tristeza em que estava imersa. Se ela tomasse gosto pela vida, ainda que apegada a essa esperança, quem sabe o tempo a fizesse esquecer e retornar à sua antiga alegria.

     Assim, aos poucos, Esmeralda foi retomando seus hábitos e mostrando-se menos triste.

     Uma tarde em que Miro entretinha-se tratando seus cavalos, a cigana aproximou-se:

     — Preciso falar-te. É sério.

     O cigano amarrou as rédeas do animal e aproximou-se.

     — O que é?

     — Preciso de tua ajuda.

     — Sabes que sempre podes contar com ela.

     — É que aconteceu o pior. Estou esperando um filho dele. Miro ficou sério.

     — Tem certeza?

     — Tenho. Quando fui para a casa dele, descuidei-me. Estava tão feliz! Agora, aconteceu. Quero teu conselho. Sabes que não faço nada sem te falar. Conheces as coisas do futuro. Pensei em falar com Mirka para que me dê uma beberagem que arranque de meu ventre esse filho que eu não quero.

     Miro olhou-a firme. Em seu rosto havia um traço de preocupação.

     — Esmeralda! Ainda não estás bem. Nuvens negras cobrem o castelo de Carlos, e estás envolta com ele. Não abuses das forças da vida! Se esse filho foi concebido, deixa-o vir!

     — Mas, Miro, vou ficar feia, disforme, não fui preparada para ser mãe. Depois, Carlos vai voltar, e se vier na primavera, eu estarei presa a esse filho que vai interpor-se entre mim e ele!

     O cigano olhou-a com firmeza.

     — Teus receios são infundados. Se lhe deres um filho, Carlos te amará ainda mais. Devias ser grata a Deus que te fez mulher e te permitiu conceber.

     Tomou a mão da cigana e seus olhos estavam fixos em um ponto distante; seu rosto, pálido e contraído. Foi com temor e angústia que Esmeralda esperou suas palavras.

     — Esmeralda! Tudo na vida tem seu preço. Se amas Carlos, recebe esse filho com amor. Ele te será apoio e consolo no futuro.

     — Não quero! Carlos voltará e viveremos juntos, só nós dois. Não preciso de mais ninguém!

     — Não conheces o futuro! Não alimentes tua fantasia!

     A cigana deu um salto e agarrou com força o braço de Miro:

     — Sabes de alguma coisa? Carlos não vai voltar?

     — Carlos está passando por uma prova de fogo. Vejo dois caminhos em sua vida, ele terá que escolher. Um será de lutas, mas melhor para ele. O outro também será de lutas, mas levará à derrocada! Dois caminhos, duas mulheres em sua vida!

     Esmeralda estava pálida. Outra mulher na vida de Carlos? Uma onda de ódio a acometeu:

     — Então ele já tem outra mulher?

     — Não. Ainda não. Mas a força da vida leva cada um para onde deve ir e ele a encontrará. E terá que escolher.

     — A felicidade dele está comigo. A outra o levará à derrocada.

     — Não saberia dizer-te. Contudo, Esmeralda, não atires fora a ajuda que recebes, banindo esse filho de teu caminho. Recebe-o com alegria, dá-lhe todo teu amor, e o futuro te será mais feliz. É só o que posso te dizer.

     Miro deu profundo suspiro e dentro de segundos sua fisionomia voltou ao normal. Esmeralda estava apavorada. Agarrou as mãos do cigano com força.

     — Miro, nunca me falaste assim como hoje. Conta-me. O que viste? Sei que os espíritos te mostram o futuro. Estou com medo! Carlos pode me deixar! E se ele o fizer, será destruído!

     Miro tentou acalmá-la.

     — Não sejas pessimista. Não sabemos o futuro, nem se as predições vão se realizar.

     — Eu sei que sempre acertas. Carlos pode gostar de outra mulher. Arrependo-me de ter vindo embora.

     — Não sejas criança. Não podíamos ficar mais naquela casa. Está cheia de maus espíritos. Por que te preocupas com outra mulher? Por acaso não confias mais em teu poder de atração? Achas que Carlos poderá esquecer-te?

     Esmeralda ficou pensativa. Sabia o quanto era atraente. Carlos jamais soubera resistir-lhe.

     — Depois — continuou Miro —, ele terá que escolher. Achas que ele não te escolherá?

     Embora sentindo funda tristeza, Miro pretendia poupar a cigana.

     — É — tornou ela mais refeita —, tens razão. Pode aparecer outra, mas ele não me deixará. Eu sei!

     — Isso. Agora, o melhor a fazer é cuidar de tua saúde. Por algum tempo, ficarás em repouso.

     A cigana sacudiu a cabeça.

     — Por enquanto ainda não sei o que vou fazer.

     — Pensa no que te disse e não atraias a desgraça sobre tua cabeça.

     — Vamos ver...

     Vendo-a afastar-se pensativa, Miro sentiu um aperto no coração.

     Nos dias que se seguiram, Esmeralda continuou retraída e distante. Nada conseguia alegrá-la. Esse filho, a seu ver, era um empecilho em seu caminho. Mas, por outro lado, supersticiosa ao extremo, temia a desgraça. O que fazer?

     Miro procurava ajudá-la, mas a cigana parecia indiferente a tudo que não fosse sua luta íntima. Não se alimentava, emagrecia a olhos vistos. Era vista durante a noite andando pelo acampamento, como fantasma inquieto e insone.

     Até que um dia, vendo-a desfalecer, Miro, preocupado, levou-a para a carroça e tratou de socorrê-la. Estava sério e havia medo em seus olhos. Quando a cigana abriu os olhos, disse-lhe com energia:

     — Vou cuidar de ti. Vais obedecer-me. Ficarei aqui. Terás que comer, dormir e viver! Não te deixarei morrer desta forma.

     — Deixa-me. Não tens nada com minha vida!

     — Não sejas ingrata. Já disse que agora vais me obedecer. Toma este chá que preparei. Vamos.

     — Não quero. Estou bem.

     — Não estás e não me desmintas. Vamos, toma, estou mandando. Levantou a cabeça dela e colocou a caneca em seus lábios. Sem forças para reagir, Esmeralda bebeu tudo.

     — Muito bem. Agora ouve. Não és uma mulher fraca. Sempre te vi forte. Não será agora que te vais deixar vencer. Se queres agarrar tua felicidade, tens que estar forte e de posse de toda tua beleza. Estás feia e descorada. Nem pareces a Esmeralda que todos conhecem. Queres que Carlos te encontre desse jeito?

     A cigana pareceu animar-se.

     — Em meu ventre está um intruso. Quisera arrancá-lo agora mesmo. Aí sim eu voltaria a ser a mesma.

     — Não te permitirei essa loucura. Não és obrigada a ficar com ele. Se não o quiseres, encarrego-me dele ao nascer. Levo-o para bem longe e nunca mais o verás, mas não cortes o fio da vida. Se o fizeres, não poderei salvar-te.

     — Mas Carlos pode voltar e encontrar-me deformada!

     — Isso não vai acontecer. Carlos não virá antes da primavera. Sabes que estava ainda muito fraco e ademais não gosta de passar o inverno no acampamento. E na primavera teu filho já terá nascido e tudo estará bem.

     A cigana suspirou.

     — Está certo. Vou seguir teus conselhos. Deixarei que ele nasça, mas não o quero. Assim que me livrar dele, tu o levas para onde quiseres. Não quero nem saber. Promete que vais ajudar-me!

     O cigano olhou-a nos olhos.

     — Melhor seria que o criasses e lhe desses teu amor. Mas se te recusas, nada posso fazer, concordo em levá-lo para longe. Podes contar comigo.

     A cigana pareceu aquietar-se e, com a mão carinhosamente segura por Miro, adormeceu.

     Entretanto, Carlos ia se recuperando e D. Fernando notava que o filho parecia alegre e descontraído. A presença dos amigos trouxera ao castelo um aconchego agradável, num momento doloroso e incerto. D. Encarnação tomara-se de amores pela jovem Maria, a quem admirava não só pela dedicação a Carlos mas por sua personalidade diferente, sua cultura, sua maneira de ser incomum às mulheres de seu tempo.

     Perto dela, sentia-se bem e apreciava-lhe os pontos de vista, habituando-se com facilidade a pedir-lhe opiniões e às vezes até conselhos.

     O marido via com bons olhos a atitude da esposa. Afinal, ela não pudera ter mais filhos e Maria podia ser a filha que ela sempre desejara. A cada dia Carlos parecia-lhe melhor. Ele e Maria haviam se tornado inseparáveis. A moça logo pela manhã cuidava do desjejum levando-lhe um gostoso repasto, depois esperava-o na varanda para um passeio.

     O outono já estava quase ao meio, mas apesar do frio eles caminhavam alegres, conversando sempre sobre os mais variados assuntos. Depois, sentavam-se no pátio ou no salão. Carlos sempre pedia que a moça lesse para ele. Gostava de ouvir o som de sua voz e comentar com ela o assunto da leitura.

     Num desses momentos foi que Álvaro entrou no salão. Carlos alegrou-se e abraçou o amigo com prazer. Depois o moço beijou a fronte da prima com delicadeza.

     — Que bom teres vindo! — tornou Carlos com sinceridade. — Juntos poderemos passar horas maravilhosas!

     — Assim espero. Pensei encontrar-te com o pé no túmulo e vejo que estás muito bem!

     Nos olhos do moço havia um brilho indefinível. A cena de intimidade que surpreendera ao chegar causara-lhe desagradável impressão. Os dois tão perto, ela lendo, ele olhando-a com prazer...

     Conhecia Carlos. Jamais o vira interessar-se por qualquer leitura. Talvez estivesse gostando de Maria. Sentiu um peso no coração. Amava a moça com loucura. Seria capaz de tudo por causa dela. Fez um esforço sobre-humano para tentar acalmar-se e dissimular.

     — Agora — tornou Carlos com ênfase. — Estive mal, mas graças a tua prima vou indo melhor.

     — Já estás bem — tornou ela com simplicidade.

     — Tu não disseste que estás feliz com minha chegada — disse Álvaro olhando-a ansioso.

     — Álvaro, sabes que és meu primo muito querido. É sempre um prazer estar contigo.

     Carlos olhou um pouco surpreendido. Tinha se esquecido de que Álvaro amava a prima e lhe pedira ajuda a fim de poder casar-se com ela.

     Olhou-a com curiosidade. Álvaro tinha-lhe dito que era correspondido. Seria mesmo verdade? Maria estaria apaixonada pelo primo?

     Naquele momento achou isso quase impossível. Agora que a conhecia bem podia perceber que eles eram muito diferentes. Apreciava Álvaro, mas ele era um fidalgo preocupado com a corte, com sua aparência, com seu bem-estar, com vida social. Não se casava bem a alegria de Maria, sua delicadeza de espírito, sua argúcia e sua maneira de ser. Mas sabia que o amor não raciocina. Também ele não estava amando uma cigana? Esmeralda! Pensou nela e nunca lhe pareceu tão distante. O mundo dela era tão diferente do seu! Seria feliz ao lado dela?

     Agora que conhecera outras coisas, que estava aprendendo a apreciar a conversa inteligente ao pé do fogo, no aconchego do lar, pensando na responsabilidade de viver bem, como deixar tudo, obrigações, lar, pai velho e doente, mãe extremosa, amigos, gente que precisava dele nas terras, para viver sem eira nem beira no acampamento cigano e quase às custas de uma mulher?

     Era a primeira vez que pensava nisso dessa forma. Álvaro cortou-lhe o fio do raciocínio.

     — Carlos, estás tão distante! Será minha chegada que te emudeceu? Carlos riu gostosamente. Álvaro estava com ciúme de Maria, que bobagem!

     — Claro que não. Mas tua presença fez-me recordar amigos que não vejo há muito tempo, recluso, nesta casa. Pensava neles com saudade.

     Álvaro olhou-o querendo penetrar-lhe fundo nos pensamentos. Carlos dissera amar a cigana, seria verdade? Sabia que ele tinha vivido com ela na casa que comprara e que o romance fora bruscamente interrompido pelos acontecimentos. Se ele pudesse saber!

     — Não vais continuar a leitura? Sinto ter interrompido.

     — Não. Passávamos o tempo. Gostaria de ouvir-te. O que há de novo pela corte?

     Vendo-se prestigiado, Álvaro começou a falar animadamente contando as novidades e ambos as ouviram com ar de interesse. Mas, naquele momento, Carlos desejou que o moço não tivesse chegado para quebrar o encantamento agradável da voz de Maria. Estaria ela interessada nas intrigas palacianas? Jamais a vira mencionar tal assunto. Contudo, Maria escutava atenciosamente e em sua fisionomia não havia traço de pesar.

     Nos dias que se seguiram, Carlos começou a perceber que a presença do amigo irritava-o. Desde que chegara ao castelo não se afastara um momento sequer de seu lado, não o deixando usufruir da companhia de Maria como de hábito.

     Lutava para controlar essa irritação. Afinal o moço procurava tornar agradáveis todos os momentos. Tocava guitarra com maestria, cantava, arrancando aplausos de todos. Mas Carlos sentia falta daqueles momentos de calma e de tranqüilidade conversando com Maria. Ela fora a única pessoa que lhe abrira o espírito para o outro lado da vida, fora das paixões e do materialismo a que estava habituado. Falara a seu espírito, mostrando-lhe as belezas da natureza, a sabedoria de Deus, levantara o véu do conhecimento das coisas, das pessoas, e Carlos agora sentia necessidade desses momentos que tanto bem-estar lhe proporcionaram.

     Jamais conhecera alguém como Maria. Irritava-o profundamente o amor de Álvaro por ela. Ele não era o homem indicado para fazê-la feliz.

     Certa tarde em que os dois amigos encontravam-se sozinhos no salão, Álvaro procurou falar sobre o assunto.

     — Desde que cheguei esperava momento propício para falar-te. Acho que agora podemos conversar.

     — Claro — tornou Carlos procurando ser atencioso.

     — Sabes que amo Maria e que pretendemos nos casar. Contudo, não vejo aprovação de D. Hernandez. É contigo que ele a quer casar. Prometeste ajudar-me, já que amas a cigana e é a ela que queres. Acho que chegou o momento de demonstrares tua amizade. Pretendo pedir Maria em casamento.                                   

     Carlos sentiu-se irritado.

     — Tu me disseste que ela te ama, contudo parece-me que ela apenas te dedica amizade. Ela concorda em ser tua esposa?

     — Por que me fazes esta pergunta? Acaso estás interessando-te por ela? A voz de Álvaro era ríspida e agressiva. Carlos sorriu.

     — Acalma-te. Gosto de Maria como de uma irmã. Depois do que tem feito por mim, interesso-me por sua felicidade. Se ela te ama, se deseja ser tua esposa, eu te ajudarei. Mas se ela não te quiser para marido, não farei nada em teu favor.

     Álvaro empalideceu. A custo conseguiu dominar seu rancor. Não acreditava que o afeto de Carlos fosse de irmão. Jamais o vira demonstrar tal sentimento diante de uma jovem e bela mulher. Conhecia-o muito bem. Mas não lhe convinha demonstrar sua desconfiança.

     Retrucou com voz que se esforçou por tornar calma:

     — Louvo teu interesse. Garanto que ela me corresponde. Antes de vir para cá nos entendemos muito bem. A não ser que agora ela tenha mudado de idéia!

     — Pois então não há o que temer. Se ela te amava, continua amando-te, porque Maria não é mulher volúvel. Parece-me segura e deve saber o que quer.

     — Hoje mesmo falarei com ela. Espero que nos deixes a sós.

     Carlos sentiu-se impaciente. Por que Álvaro não resolvia seu problema fora de sua casa? O que tinha ele a ver com seus amores? Arrependia-se de ter-lhe prometido ajuda e de tê-lo convidado a ir a sua casa.

     — Pois fala quando quiseres. Aliás, esse assunto não me pertence. Só que não me privarei da leitura costumeira.

     Álvaro olhou-o procurando ocultar sua raiva.

     — É estranho teu repentino amor pela leitura! Já que a aprecias, por que não lês tu mesmo? Ao que eu sei, és letrado.

     — Olha, Álvaro, só te dou explicações porque estás em minha casa e és meu amigo. Não gosto de ler, mas tenho apreciado a leitura de Maria. Ela o faz com prazer e não vejo razão para nos privarmos dessa alegria. Terás muito tempo para resolveres teus amores com ela.

     Álvaro pareceu acalmar-se.

     — Não quis ofender-te. É que desde que cheguei não pudemos estar a sós e estou ansioso por lhe falar. Mas se queres ter a leitura, que seja. Falaremos depois.

     Quando Maria entrou na sala com o livro nas mãos, os dois estavam calados e sérios. A moça procurou delicadamente alegrar o ambiente e vendo que estava difícil passou logo à leitura.

     Álvaro não prestava atenção alguma ao que a moça dizia, porém Carlos bebia-lhe as palavras, por vezes fazendo-a deter-se para discutirem o assunto. Estava escurecendo quando terminaram e Carlos imediatamente reclamou o chá. Estava excitado e alegre. Álvaro impacientava-se, mas Carlos fingia não perceber.

     Assim o tempo passou e a moça recolheu-se sem que o primo pudesse falar-lhe a sós. Ao recolher-se, o moço parecia uma criança feliz. Inácio sorria. Há muito não via seu amo tão alegre.

     — Consegui atrapalhar os planos de Álvaro!

     — Ele morre de amores por D. Maria. Não me agrada o modo como olha para meu senhor.

     — Ele quer casar-se com ela. Achas que a merece?

     — D. Maria é uma santa.

     — É boa demais para um fidalgo como ele.

     — Cuidado, meu senhor. Um homem ciumento pode ser perigoso.

     — Bobagem. Gosto de Maria como irmã.

     — Mas ele pode não pensar assim se perceber que meu amo é contra esse casamento.

     — Ora, Álvaro não me assusta. Se ela o quiser, então tudo estará bem, mas caso contrário não o deixarei importuná-la.

     No dia seguinte, Álvaro levantou muito cedo e aguardou pacientemente que a prima se levantasse.

     Irritava-o sobremaneira a solicitude da moça levando o desjejum a Carlos, que já lhe parecia suficientemente recuperado para tomá-lo no salão com todos.

     Vendo-a passar para preparar a bandeja, chamou-a com delicadeza.

     — Maria, há dias aguardo um momento para falar-te a sós. A moça olhou-o atenciosa.

     — Não agora. Vou preparar o desjejum de Carlos.

     — Não achas que ele já está bom e pode vir tomá-lo aqui no salão? A moça deu de ombros.

     — Não me custa essa atenção. Somos hóspedes desta casa e amigos de infância. Ademais, ele ainda precisa de cuidados. Tem crises de tristeza, não podemos deixá-lo muito sozinho.

     — E eu, não te preocupa minha tristeza e minha solidão? O moço segurava o braço de Maria e a olhava com paixão.

     — Ora, Álvaro, tens estado conosco todo o tempo. Estás com saúde, de que te queixas?

     — De ti, que me esqueceste por causa de Carlos. A moça olhou-o com delicadeza.

     — Não digas isso. Sabes que te estimo muito.

     — Mas eu quero teu amor! Maria, eu te quero, não posso mais ver-te ao lado de Carlos. Casa-te comigo e eu juro que viverei para fazer-te feliz.

     Álvaro tentava abraçá-la pousando os lábios no rosto corado de Maria e procurando seus lábios.

     A moça desvencilhou-se dele empurrando-o com força. Estava indignada.

     — Álvaro! Desta vez foste longe demais. Não tens o direito de agarrar-me desse jeito!

     — Perdoa-me, Maria, mas eu estou louco por ti. Dize que me aceitas e me farás o homem mais feliz do mundo.

     — Acalma-te, Álvaro. Por favor. Sabes que te quero muito. Porém não quero casar-me. Não estou preparada para o casamento. Sabes que eu penso diferente das outras moças. Não posso casar-me contigo.

     Ele não se conformava.

     — Não creio. Deste-me esperanças. Disseste-me que a mulher que eu amasse seria ditosa. Pensei que desejasses ser minha esposa.

     — Álvaro, sinto que tenhas alimentado ilusões. Mas agora já sabes. Não desejo casar-me. Procura esquecer-me. Isso passará. Há muitas moças que suspiram por ti e te podem tornar feliz.

     — É por causa dele? — tornou Álvaro com voz rouca.

     — Claro que não. Entre mim e Carlos só existe uma boa amizade, nada mais.

     — Carlos não é homem que dedique apenas amizade a uma jovem e bela mulher. Foi ele quem te seduziu e te induziu a esquecer-me.

     — Estás enganado. Mesmo antes de vir para cá eu já pensava como agora.

     — Não acredito. Estás iludida. Carlos é um conquistador volúvel. Arrepender-te-ás se te ligares a ele. — Olhou-a com ar de desafio e ajuntou: — Sabes a causa de sua tristeza? É o amor de Esmeralda, a cigana com a qual vive e que quando o viu ferido foi embora. Esteve aqui, tratando dele, como pude saber, e ele não vê hora de estar bem para procurá-la. Uma reles cigana. Por um homem desses me desprezas?

     Maria estava pálida. Olhou o primo com energia.

     — Não me interessam os amores de Carlos. Devias ter vergonha de falares desse jeito de teu melhor amigo. Ele é livre para amar a quem quiser e não temos nada com isso. Espero que esta cena desagradável não se repita. Tira essa idéia louca de tua cabeça. Não me casarei contigo. Deixa-me em paz, para não destruir todo o carinho e afeto que te dedico.

     Álvaro apavorou-se pelo tom frio da prima.

     — Maria, não sei o que digo. Perdoa-me.

     — Está certo. Vamos esquecer este desagradável assunto. Mas não voltarei a ele de forma alguma. Quero deixar bem claro. Agora dá-me licença. Vou à cozinha.

     Afastou-se a passos rápidos, deixando Álvaro, que lutava por dominar-se. Sentia ímpetos de agarrá-la, de obrigá-la de alguma forma a fazer-lhe a vontade. Naquele instante, um surdo rancor começou a brotar em seu coração contra Carlos. Ele sempre fora o melhor em tudo. Sua fortuna era maior, as mulheres sempre o preferiam nos jogos da mocidade em que juntos compartilhavam. Seus tios, é claro que também o queriam para genro. Bem sentia que eles não o apreciavam para marido da filha e certamente se Maria o escolhesse teriam que lutar para obter permissão.

     Tudo isso ele havia suportado sem queixas, mas agora era demais. A própria Maria, que nunca demonstrara interesse por Carlos, agora parecia caída, cheia de atenções e mimos para com ele. E ele era seu amigo e tinha-lhe prometido ajuda! Agora certamente zombava de seus sentimentos e pretendia roubar-lhe o amor de Maria.

     Sentindo-se sufocar de ódio, Álvaro saiu para caminhar um pouco. Ver se o ar frio da manhã lhe devolvia a calma desejada. Porém seus pensamentos apaixonados afogueavam-lhe a mente. Não lhe convinha expor seus sentimentos mas procurar mostrar-se conformado para ganhar tempo e tentar lutar para conseguir seus objetivos.

     Naquela tarde, quem o visse participar da leitura, do chá e dos assuntos discutidos, certamente não poderia imaginar o que lhe ia na alma. Maria, observando-lhe a atitude tranqüila, sentiu-se aliviada. Por certo o primo compreendera a inutilidade de suas pretensões e resolvera esquecer. Assim, ela, também, alegre pela atitude do moço, foi atenciosa com ele, tratando-o com carinho especial.

     — Foi um ato irrefletido — pensou ela —, agora tudo passou — E não pensou mais no assunto.

     Carlos não sabia da cena desagradável da manhã, mas, vendo que o amigo parecia menos interessado em Maria, concluiu que ele resolvera esperar para manifestar seus sentimentos.

     Teria percebido que a moça não o queria para marido? Álvaro era orgulhoso e por certo não queria expor-se a uma recusa. Sentiu certo alívio. Não podia imaginar Maria, tão inteligente, tão bonita, tão culta, mulher excepcional, casada com Álvaro, homem sem brilho nem fortuna, vulgar e mal-amado das mulheres.

     Os dias foram passando e Carlos sentia-se cada vez melhor. Depois de estar entre a vida e a morte, tinha mudado um pouco seus conceitos habituais. Era bom sentir-se vivo, jovem, ter a segurança dos pais, que se tinham desdobrado para prestar-lhe assistência. Começou a sentir o amor pela terra que lhe pertencia e por seus vassalos, que ao vê-lo passar, ainda enfraquecido e convalescente, sempre encontravam um gesto de carinho, um copo de leite especial e quentinho, uma flor, um filhote de animal para oferecer-lhe e, em sua humildade, rezavam por sua saúde.

     Era bom estar vivo, poder respirar o ar delicioso do outono, ver-se cercado pelo respeito e pelo amor de todos. E, depois, havia Maria, que lhe abrira os olhos para uma série de coisas antes despercebidas, chamando-o com sutileza para sua responsabilidade como filho, como senhor daquela gente, como fidalgo.

     Os conceitos elevados da moça, suas idéias, suas leituras de filósofos humanistas, numa época em que a barbárie era uma constante, tinham enriquecido o intelecto do moço sempre afeito à galanteria, ao bem e à justiça.

     Pouco a pouco, a lembrança de Esmeralda foi se apagando. E quando pensava nela, era com saudade misturada às lembranças do acampamento, do qual agora sentia certa repugnância.

     Por isso, quando seu pai o procurou em seu quarto certa manhã, ouviu-o com respeito. Sentado a uma poltrona, o velho fidalgo considerou:

     — Meu filho, hoje fui informado que D. Hernandez deseja regressar ao lar. Na próxima semana, iniciamos o inverno e ele deseja chegar a suas terras antes do frio intenso.

     Carlos surpreendeu-se:

     — Já? Pensei que só partissem na primavera. O inverno não requer muita atividade. Por que querem ir?

     — Eu também gostaria que ficassem, mas não acho justo abusar de sua bondade. Eles atenderam a um apelo desesperado quando precisamos de ajuda. Deixaram todos os seus negócios, sua casa, seus interesses e estão conosco já há quase quatro meses. D. Hernandez considera bom teu estado e eu também estou bem. Assim, partirão dentro de dois dias.

     — Mas com isso eu não contava! Passar todo esse inverno sozinho, sem Maria! Vai ser insuportável.

     Pelos olhos de D. Fernando passou um brilho de alegria.

     — Ainda bem que tocaste nesse assunto. Eu e tua mãe temos trocado idéias sobre Maria. Ela apegou-se muito a essa jovem e vai sofrer com sua ausência. Sabes o quanto ela gostaria de ter uma filha, mas agora Maria ocupa em seu coração este lugar. É moça boa, linda e cheia de virtudes.

     — É, meu pai. Também acho Maria preciosa.

     — Sabes que seria muito de nosso gosto que te casasses com ela. D. Hernandez e D. Engrácia deram-me a entender que fariam muito gosto.

     Carlos assustou-se. Casar? Nunca tinha pensado em fazê-lo a não ser com Esmeralda. Esmeralda! A cigana agora lhe parecia muito distante. Em outra ocasião Carlos teria respondido rispidamente, mas, agora, ser o esposo de Maria não lhe parecia tão impossível.

     — Não é assim, pai. Entre mim e Maria não há nada mais que o afeto de irmãos. Ela é mulher decidida, pode ser que nem me aceite.

     — Filho, me parece que a boa filha deve obedecer a seus pais. Maria não se atreverá a recusar.

     — Maria é mulher que pensa, não é como as outras. E se um dia eu me casasse com ela, seria só com sua aprovação. Repugna-me obrigar alguém a me aceitar, principalmente Maria.

     — Isso é tolice. Mulher não sabe o que quer. Deve obedecer aos pais, que sabem o que melhor lhe convém. Depois, ela me parece que te estima muito. Tem-se mostrado muito atenciosa contigo. E quem sabe se já não te tem amor?

     Carlos sorriu. Afinal a perspectiva do amor de Maria não lhe desagradava. Além de muito bonita, ela era diferente de qualquer outra que conhecera.

     — Pois se queres que ela fique conosco, o melhor que tens a fazer é pedi-la em casamento. Com a oficialização do compromisso, não nos será difícil arranjar motivos para que ela não parta.

     — Vou pensar, meu pai. Vou pensar.

     — Tens apenas dois dias. Não percas tempo.

     Quando D. Fernando se foi, Carlos ficou pensando. O casamento com Maria convinha-lhe por vários aspectos. A companhia da moça era muito agradável e a seu lado sentia-se muito bem, admirava-lhe a inteligência, o caráter, a instrução e ainda — por que não?  o corpo bonito, bem torneado, o rosto expressivo e belo, os cabelos negros e sedosos, a pele suave e delicada.

     Maria sua esposa! Que idéia! Uma onda de carinho o invadiu recordando-lhe o olhar lúcido e brilhante. Ao mesmo tempo foi acometido de um susto: e se ela o recusasse?

     Esse pensamento deu-lhe uma sensação de desconforto. Jamais fora recusado em toda sua vida por nenhuma mulher. Mas nenhuma era como ela.

     Sentiu-se inseguro, angustiado. A figura da cigana estava bem distante nessa hora.

     Naquela tarde, enquanto Maria lia como de costume, Carlos a observou de forma diferente. Ela realmente era maravilhosa. A seu lado poderia assumir sua posição nos negócios, constituir família, ter um lar. Afinal, ele já não era o mesmo. A aventura não mais o atraía. Sentia que a vida deveria ser algo mais do que correr pelo mundo em busca de emoções. Estivera com um pé no túmulo. O choque fora forte demais.

     Além de tudo havia Álvaro. Os olhares que o moço lançava à prima o irritavam. Vencê-lo nessa disputa lhe acirrava a vaidade. Por certo Maria não o queria, caso contrário eles já se teriam entendido.

     Queria ficar a sós com ela para conversar, mas Álvaro não lhe dava trégua. O que fazer?

     A noite desceu. Após a ceia, a reunião costumeira do salão, e Carlos já impaciente desejava mais do que nunca falar com ela. Disfarçadamente, apanhou um papel e escreveu:

     "Preciso falar-te a sós. Quando todos se recolherem, procura-me em meu quarto. É urgente."

     Não assinou. Quando a moça passou por ele para recolher-se, colocou-lhe o papel no bolso do vestido. Sentiu o olhar curioso de Maria fixo nele e sorriu. Álvaro não tinha notado nada. Melhor assim.

     Foi com muita ansiedade que esperou até que o silêncio reinasse em todo o castelo e todos estivessem recolhidos.

     Sentado na ante-sala, Carlos esperava com impaciência. Maria sobraçando uma vela entrou silenciosa. Estava séria.

     — Fecha a porta — recomendou Carlos emocionado.

     — Estás muito misterioso. O que aconteceu?

     — Precisamos conversar e Álvaro não me deu chance o dia inteiro.

     — Do que se trata?

     — Senta-te aqui, a meu lado.

     A moça, colocando a luz sobre o velador, acomodou-se no sofá ao lado dele. Carlos olhou-a e ela estava linda. Tomou-lhe a mão com delicadeza:

     — Maria, preciso fazer-te uma pergunta. Álvaro procurou-me para dizer que te ama e que é correspondido. Quer que eu interceda junto a D. Hernandez para que consinta no casamento.

     Maria estremeceu, retirando a mão que Carlos segurava. Olhou-o de frente:

     — E então?

     Um pouco desconcertado, Carlos perdeu o jeito. Esperava veemente negativa, mas a pergunta dela o assustava. Iria ela aceitar o amor de Álvaro?

     Ele suspirou.

     — Bem. Eu preciso saber o que desejas. Quais teus sentimentos. Amas a Álvaro?

     — E se eu o amasse?

     Carlos sentiu um frio dentro do peito. Não se conteve:

     — Se o amasses? Eu teria que respeitar seus sentimentos por ele. Apesar de achar que ele não é o homem que mereces.

     — Não o aprecias? — havia um brilho divertido nos olhos dela.

     — Não. É vaidoso, arrogante e me irrita muito. Acho que não serias feliz com ele.

     — Mas ele é teu amigo de infância. Por que não o aprecias ? Eu sempre achei o contrário.

     — Pois não o aprecio mesmo. Desde que chegou não nos deixou um só instante e vive a me incomodar com seu ciúme. Por mim já o teria mandado embora. Lamento tua sorte se realmente desejas casar com ele.

     — É, parece que ele não deveria ter-te pedido ajuda.

     — É. Não me agrada esse casamento.

     — Porquê? — indagou ela com suavidade. Carlos não se conteve:

     — Porque eu te quero para mim. — Tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios. — Maria, quero que te cases comigo. A idéia de tua partida é insuportável. Eu te amo!

     Vendo que a moça olhava-o com emoção, abraçou-a com carinho, beijando-lhe os lábios repetidas vezes. Carlos, tomado de funda emoção, suplicou:

     — Dize que me amas e que te casarás comigo, sendo a dama desta casa e de meu coração.

     A moça, olhando-o nos olhos com amor infinito, respondeu:

     — Sim. Eu te amo. Desejo ser tua esposa.

     — Amanhã mesmo falarei com teus pais. Não posso deixar-te partir. Marcaremos essas núpcias para breve. Mal posso esperar.

     Carlos com ardor apertava a moça em seus braços. Foi a custo que ela conseguiu contê-lo.

     — Não, Carlos. Contenha-se.

     — Estamos sós e vais ser minha esposa. Por que não ficas aqui agora comigo?

     — Vim a teu quarto, em confiança a tua nobreza de fidalgo. Não me desapontes.

     Carlos conteve-se a custo.

     — Está bem. Não quero que penses que me estou aproveitando da situação. Quero-te como esposa e companheira, saberei esperar. Espero que não seja muito.

     — Eu também.

     E beijando-o com doçura nos lábios, saiu rapidamente antes que ele pudesse detê-la.

     Carlos estava exultante, apesar da emoção que a custo lutava para dominar. Desejava aquela mulher que ao mesmo tempo conseguia tocar-lhe as mais fundas fibras do coração. E naquela noite apenas a figura de Maria ocupou-lhe o pensamento.

     No dia seguinte, Carlos reuniu-se aos pais no gabinete e comunicou-lhes seu desejo de desposar Maria. Estava feliz, e a alegria dos seus deixou-o ainda mais. E após o almoço, ainda à mesa, D. Fernando levantou-se e solenemente pediu a D. Hernandez a mão de Maria para seu filho Carlos.

     O velho fidalgo levantou-se retratando a alegria no rosto rugoso e aceitou comovido o pedido. Em meio à alegria geral, D. Fernando mandou buscar um vinho especial para o brinde de noivado. Mas o vinho rico e delicioso teve, na boca seca e contraída de Álvaro, o gosto de fel.

     O moço, lívido e mudo, mal conseguia disfarçar seu despeito e sua raiva. O próprio D. Hernandez, preocupado, aproximou-se do sobrinho dizendo-lhe em voz baixa:

     — Álvaro, não te irrites. Maria não te ama e não era para ti. Foi ela quem escolheu. Aceita tua derrota como homem e vai felicitar os noivos.

     Álvaro olhou-o com rancor:

     — Não posso, tio. Agora não. Peço licença, vou-me embora.

     E apressadamente deixou a sala. D. Hernandez com um gesto largo disse em tom confidencial:

     — Pobre Álvaro. Sempre alimentou ilusões sobre Maria, apesar de nunca ter sido encorajado nem por mim nem por ela. Mas ele esquecerá.

     — E — comentou D. Fernando —, o tempo é o melhor remédio!

      Ele estava feliz e pensava em Esmeralda. Afinal, seu filho encontrara o melhor caminho. Álvaro também faria o mesmo. Recolheu-se em seu gabinete com D. Hernandez para tratar dos interesses das duas famílias.

     Vendo-os afastarem-se, Carlos pediu-lhes que permitissem a Maria permanecer no castelo mais algum tempo, pois lhe seria muito penoso separar-se dela. Também D. Fernando temia que Carlos, sozinho, longe da influência salutar de Maria, voltasse à vida aventurosa e procurasse rever a cigana.

     Por isso pediu com veemência ao amigo que permitisse a presença da moça mais algum tempo.

     Acertadas as formalidades legais e dote, marcou-se a cerimônia para a primavera no castelo de D. Hernandez. Ele regressaria sozinho deixando a esposa e a filha mais algum tempo ao lado do noivo, voltando todos para Madri, para as bodas, no início da primavera.

     Carlos exultou. Podiam ficar juntos e tudo estava bem.

     Era noite já quando Álvaro entrou no salão. Seu rosto estava calmo. Dirigiu-se aos noivos.

     — Espero que me perdoeis. Hoje sofri rude golpe. Invejo-te, Carlos, mas sei que perdi. Desejo que sejais muito felizes. De hoje em diante vou esquecer. Espero que compreendam e aceitem minha amizade.

     Apesar do tom de sinceridade, Carlos não gostou da atitude dele. Mas Maria abraçou-o com afetuoso carinho:

     — Álvaro, sabes que te quero muito. Hás de encontrar alguém que te ame como mereces. Também um dia serás feliz!

     — Claro — tornou ele procurando sorrir. Tudo está bem agora. Passou. Estendeu a mão para Carlos. Venceste. Cuida bem do tesouro que te escolheu. Parabéns.

     Carlos apertou a mão que Álvaro lhe estendia, guardando intimamente certa desconfiança. Esperava que o moço anunciasse a partida, porém ele nem sequer falou nisso. Entretanto, sua atitude, o tempo todo, foi discreta e gentil.

     Quem não soubesse dos sentimentos que ele nutria pela prima não perceberia nada do que lhe ia na alma. Porém Carlos não se sentia bem na presença dele. Queria cortejar a noiva e sentia-se tolhido, imaginando a raiva e o despeito que Álvaro deveria sentir.

     Procurou pelo pai, a quem confidenciou suas preocupações. D. Fernando procurou D. Antônio, que decidiu levar o sobrinho em sua companhia para Madri, no dia seguinte.

     Embora relutando, Álvaro não se pôde recusar a acompanhar o tio, que seguia sozinho e dizia precisar de seus préstimos, mas sentiu em seu coração aumentar o rancor contra Carlos. Ele por certo o queria bem longe dali, receoso de que se vingasse da traição que lhe fizera. Por certo pedira a D. Antônio que o tirasse do caminho. Mas Carlos não perdia por esperar. Sempre fora seu amigo e apesar disso, sem consideração, roubara-lhe o amor de Maria. Carlos sabia o quanto ele a amava. Confidenciara seu amor várias vezes. E enquanto fingia ser seu amigo e ajudá-lo a concretizar seu sonho de amor, conquistara-a. Jamais a moça o olhara como olhava a Carlos. E o amor que lia em seus olhos, quando fixava o rival, era como punhal ferindo seu coração apaixonado.

     Ia-se embora com o tio, mas daquele dia em diante só teria uma proposta: a vingança.

     Foi com alívio que Carlos viu no dia seguinte Álvaro despedir-se e partir com o tio rumo a Madri. Finalmente ele e Maria poderiam conversar livremente sem seu olhar inquisidor.

     E a vida tornou-se para eles calma e feliz, em meio aos preparativos para o casamento e a viagem a Madri no início da primavera.

    

Capitulo XIV

     A chuva caía fina e constante no acampamento. O inverno acabara, a primavera se avizinhava e os primeiros brotos já começavam a surgir nas árvores. Estavam em Toledo, onde tinham permanecido os dois últimos meses e, por certo, logo teriam que partir, tendo renovado seus tachos, canecas e quinquilharias para vender.

     Deitada em meio às almofadas em sua carroça, Esmeralda olhava a chuva com olhos tristes. Pensava em Carlos. Arrependia-se de ter deixado aquele filho nascer. Estava feia, gorda e desanimada. Sentia-se pesada e inútil. Entediava-se dentro do acampamento, sem poder dançar, nem sair com as outras mulheres.

     Depois, era primavera. Com certeza Carlos, já refeito, a buscaria no acampamento. Ele a amava. Não tinha dúvidas quanto a isso. E ela desesperava-se porque ele a encontraria daquele jeito, sem poder dançar para ele. Odiava aquele filho que se interpunha entre ela e Carlos. Era um intruso que vinha atrapalhar sua vida. Não via a hora de livrar-se dele, para que Miro o levasse embora.

     Levantou-se com certa dificuldade, saiu da carroça indiferente à chuva que lhe molhava os cabelos e o vestido. Foi ter com Miro. O cigano, sob uma lona estendida ao lado da carroça, cuidava dos arreios com atenção. Vendo Esmeralda, objetou:

     — Saia da chuva. Pode não lhe fazer bem.

     — Preciso falar-te. Não suporto mais ficar lá, sozinha, vendo a chuva cair.

     — Vem, senta-te aqui.

     Acomodou-a com cuidado em um banco tosco sob a lona.

     — Calma, Esmeralda. Desse jeito arruinarás tua saúde.

     — Que me importa? — fez a cigana, mal-humorada.

     — Não digas isso. Tem paciência. Logo estarás em liberdade de novo. Mais duas ou três semanas no máximo, teu filho vai nascer e tudo será como antes.

     — Não vejo a hora. Estou arrependida de ter-te ouvido. Sem isso eu agora poderia esperar Carlos como sempre.

     Miro olhou-a preocupado.

     — Não digas isso. Não se renega um filho sem atrair o mal sobre a própria cabeça. Se tivesses juízo, ficarias com ele e cuidarias dele com amor.

     A cigana irritou-se:

     — Por que insistes? Por acaso não queres fazer o que prometeste? Não sabes o que fazer com ele e queres que eu te liberte do compromisso?

     — Não é isso, Esmeralda. Falo para teu bem. Sei que será bom para ti criá-lo. É teu sangue e do homem que amas. Não te comove isso?

     A cigana deu de ombros.

     — Não. Ele é um intruso entre mim e Carlos. Não o quero. Se não me tivesses convencido, eu não estaria agora nesta situação. Tens que dar um jeito. Prometeste.

     — Sim. Eu sei. Quanto a isso, não te preocupes. Prometi e cumpro. Mas se ficasses com ele te seria melhor.

     — Não quero. Se pudesse, arrancava-o agora mesmo de dentro de mim.

     — Não digas asneiras. A chuva acalmou e vou ajudar-te a arrumar tudo. Amanhã partiremos cedo se a chuva parar. Vamos ver tua carroça.

     Ir embora significava a primavera, e a primavera significava a volta de Carlos. Embora nervosa com seu estado, a cigana sentiu o ânimo voltar. Levantou-se e acompanhou Miro de boa vontade.

     Somente três dias depois o acampamento pôs-se em marcha rumo a Valença. Apesar de sua angústia, Esmeralda sentia uma onda de alegria invadir seu coração.

     Enquanto isso, Carlos se recuperara completamente e, dispostos os preparativos, partiram rumo a Madri para a realização do casamento.

     Durante aqueles meses de convívio, Carlos sentira aumentar seu afeto por Maria e estava feliz. A moça revelava-se a cada dia, alma nobre e dedicação sem limites, mas o que mais atraía Carlos era sua inteligência fina, sua meiguice natural e sua lucidez.

     Habituara-se a nada fazer sem antes ouvir-lhe o parecer sempre sensato, certo e objetivo. Não só Carlos valorizava a sabedoria da moça mas D. Encarnação e até D. Fernando lhe pediam opinião sobre tudo quanto desejavam fazer. Mas a moça não se envaidecia por isso. Mantinha sua dignidade com simplicidade natural. Foi com alegria que viajaram para Madri, onde o velho castelo de D. Antônio Hernandez já estava preparado para recebê-los.

     Tudo era alegria. Apenas num coração o ódio, o ciúme, o rancor. Álvaro estava lá e não podia evitar o desgosto assistindo aos preparativos para o enlace e à alegria dos noivos, cujas manifestações de amor o apunhalavam. Ele precisava impedir esse casamento. Mas não queria que suspeitassem dele. Há dias acariciava a idéia de procurar Esmeralda. Por certo a cigana o ajudaria a realizar seu intento. Tinha procurado por ela mas não sabia onde os ciganos estavam.

     Por outro lado, seu tio dera-lhe várias incumbências e não o liberava para que pudesse viajar à procura dos ciganos. Mas agora chegara ao limite de sua resistência. Se ficasse mais, talvez não pudesse esconder o que lhe ia na alma. Por isso falou com o tio, pedindo-lhe que o dispensasse alguns dias a fim de viajar para ver seus negócios. O velho concordou, mas lembrou-lhe de que o casamento se realizaria dentro de uma semana. Álvaro prometeu voltar a tempo e assim, no dia imediato bem cedo, partiu rumo a Valença. Sabia que Carlos sempre via Esmeralda na primavera e em Valença.

     Chegou ao acampamento dois dias depois. Teve alguma dificuldade em encontrá-los. Aproximou-se deixando o cavalo à sombra de frondosa árvore.

     — O que desejais? — inquiriu um cigano olhando-o com firmeza.

     — Falar a Esmeralda.

     — Esmeralda não fala com ninguém.

     — Mas eu preciso falar-lhe. Dizei-lhe que é sobre Carlos.

     — Ah! Nesse caso é melhor falar com Miro. Vinde comigo. Álvaro seguiu-o curioso. Nunca entrara em um acampamento cigano. Miro recebeu-o sério.

     — O que quereis de Esmeralda?

     — Falar com ela. É sobre Carlos.

     — Ele já sarou?

     — Já. Está completamente bom. Mas eu preciso falar com Esmeralda. Trata-se de um assunto urgente e do interesse dela.

     — Quem sois ?

     — Sou Álvaro. Amigo de Carlos.

     — Ele mandou algum recado ?

     — Não. Mas tenho que avisá-la do que se passa.

     — E o que é?

     — Ele não virá mais. Vai casar com minha prima dentro de quatro dias.

     Miro empalideceu.

     — Nesse caso, o que quereis dela?

     — Quero avisá-la. Afinal acho que ela tem o direito e pode impedir esse casamento.

     — Esmeralda não vai fazer isso.

     — Quem decide sou eu!

     Lívida, trêmula, a cigana estava em pé ao lado de Álvaro. Miro tentou impedi-lo de falar.

     — Esmeralda! Deixa comigo. Eu resolvo.

     — Não. Vinde a minha carroça, quero saber de tudo. Contrariado, Miro seguiu-os. A palidez da cigana o atemorizava.

     Álvaro estava radiante. Afinal as coisas iam melhor do que podia esperar. A gravidez da cigana não lhe deixava dúvidas quanto à paternidade da criança. Carlos ia ser pai! Que escândalo! Se Maria soubesse, por certo não mais se casaria com ele.

     Álvaro, sentado ao lado da cigana, na carroça, sob o olhar furioso de Miro, relatou o que acontecera depois que eles tinham saído do castelo. Caprichou na descrição, exagerando as atitudes de Carlos e não se esqueceu de relatar a traição de que fora vítima e seu amor por Maria.

     Esmeralda aparentava uma calma que estava longe de sentir. Por dentro, sua dor imensa, sua revolta, sua mágoa, o arrependimento de tê-lo deixado só e o ódio por sentir-se traída e subestimada.

     Pela primeira vez a cigana experimentou a dor do ciúme feroz, o gosto amargo da derrota, a desilusão da traição.

     — Vim porque desejo impedir esse casamento. Podeis fazer isso. Se meus tios ou Maria souberem o que o canalha fez contigo, o filho que vai nascer, por certo não permitirão essa união.

     Esmeralda estava lívida. Seus olhos fulgiam de rancor e em seu rosto transparecia a angústia que lhe ia na alma.

     — Maldito — tornou ela com voz que a raiva sufocava —, mil vezes maldito! Não perde por esperar. Ninguém vai desprezar Esmeralda! Ninguém!

     Miro, preocupado, interveio:

     — Calma, Esmeralda. Não adianta querer impedir. Ele escolheu e o melhor é deixá-lo seguir seu caminho. Sabes que não é um dos nossos. Tua união com ele não ia dar certo. Sabias desde o começo. Eu te preveni. Por que não aceitas o que o destino dispôs?

     — Para o inferno com o destino! Ele jurou-me amor eterno. Traiu-me assim que outra mulher apareceu em seu caminho. Jamais o perdoarei. Ele vai me pagar!

     — Isso mesmo — tornou Álvaro com ênfase. — Fomos traídos! E o traidor não pode ficar impune. Eles estão lá, felizes, rindo-se de nossa dor.

     Vamos, Esmeralda, vem comigo e juntos vamos impedir que esse casamento se realize.

     — Esmeralda não vai — tornou Miro em tom decidido. — Eu não permitirei. Não pode viajar a cavalo nesse estado. Depois, tanta emoção pode fazer-lhe mal.

     — Acho que vou — tornou ela com raiva. — Não podes impedir-me.

     — Não há perigo —-sugeriu Álvaro. — Temos quatro dias ainda, podemos ir bem devagar.

     Miro tomou as mãos frias da cigana, segurando-as com força.

     — Esmeralda, deixa a vingança! Não envenenes tua vida com o ódio. Aceita a situação, será melhor para ti. Agora é difícil, mas amanhã o esquecimento virá e um novo amor poderá florescer em teu caminho. Escuta, deixa Carlos em paz, sabes que a força das coisas vai dar-lhe o castigo que merecer. Não queiras mudar o destino!

     A cigana retirou as mãos com força.

     — Não adianta, Miro. Não posso aceitar. Jamais aceitarei. A traição tem seu preço e Carlos vai pagar. Eu vou tentar impedir esse casamento.

     — Carlos vai te odiar por isso. Achas que ele voltará para ti depois disso? Pois podes saber que, se fizeres o que pretendes, ele te odiará. Jamais te perdoará. Ele está perdido para ti. Deixa-o conservar tua lembrança com saudade. Não o tornes teu inimigo!

     Esmeralda estava irredutível.

     — Ele não vai ser feliz com ela! Eu juro! Não me importa seu ódio. O meu ele já tem. — E voltando-se para Álvaro: — Podes esperar, eu irei contigo.

     Álvaro esboçou um sorriso de vitória. Carlos não perdia por esperar. Enquanto Álvaro esperava do lado de fora, Esmeralda com mãos trêmulas começou a arrumar seus pertences.

     Miro, inconformado, entrou na carroça.

     — Esmeralda, não podes seguir esse homem que nem sequer conhecemos. E se ele estiver mentindo?

     A cigana fixou-o com olhos que a cólera escurecia e respondeu com voz que a custo tentava controlar:

     — Não creio. Fala a verdade, por certo. Carlos vai arrepender-se da traição. Verás!

     — Espera até amanhã, logo a noite vai cair, e as estradas são perigosas. E se esse homem for um malfeitor?

     — Não tentes enganar-me. Vê-se que é fidalgo. E, depois, sei defender-me. Não temo os ladrões de estrada. Vou com ele, agora.

     Miro deu fundo suspiro.

     — Nesse caso, vou contigo. Não posso deixar-te só nessa loucura. Esmeralda deu de ombros.

     — Nada me importa. Se queres vir, pouco se me dá, mas fica sabendo que não vais impedir-me de fazer o que pretendo.

     Miro jogou seu último recurso:

     — E não te importa aparecer diante dele assim, como estás agora? A cigana fez um gesto de desespero.

     — Tu és o culpado por eu estar nessa situação. Se eu me tivesse livrado deste fardo, agora não estaria tão feia. Mas, apesar de tudo, eu vou.

     — E o que pretendes fazer?

     — Deixa comigo. Eles vão ter o maior escândalo do mundo.

     — Podem mandar-te prender.

     — Não me importa. Eu estou com tudo e por tudo. Carlos não vai casar-se com aquela mulher.

     — E se ele apesar de tudo o fizer? Esmeralda trincou os dentes com rancor.

     — Eu o mato! Ele não será de outra, eu juro! Miro estremeceu. Jamais a vira naquele estado.

     — Por que não repousas um pouco? Esta excitação pode fazer-te mal.

     — Não posso. Tenho na boca o gosto amargo do ódio e da traição. Miro saiu apressado e procurou Sergei, colocando-o ao par de tudo.

     O chefe dos ciganos, rosto vincado pela preocupação, procurou a cigana, tentando dissuadi-la de seus propósitos. Tudo inútil. Esmeralda estava determinada.

     — Eu vou com ela — tornou Miro.

     — Acho que não deveriam ir a cavalo, mas, por outro lado, uma só carroça pode ser perigoso.

     — Terei que arriscar. Deitada ela correrá menos perigo.

     Álvaro, inquieto, continuava esperando, observando com ar preocupado a movimentação em torno da carroça de Esmeralda. Contava com o rancor da cigana e esperava que ela permanecesse firme em seus propósitos. Estava escurecendo quando Esmeralda saiu da carroça e chamou por Álvaro.

     — Estou pronta. Podemos partir.

     — Iremos na carroça — tornou Miro, que vinha mais atrás. — Vamos, Esmeralda. Está tudo pronto, podemos partir.

     Álvaro olhou o cigano, procurando ocultar o descontentamento. Temia que ele lhe atrapalhasse os planos, mas não podia recusar sua presença sem despertar maiores desconfianças. Afinal, o importante mesmo era a presença dela na cerimônia.

     — Se queres ir, não me oponho — tornou Esmeralda —, mas não permitirei que interfiras em minhas decisões.

     Miro suspirou e disse:

     — Está bem. Vou contigo apenas para cuidar de tua saúde, de teu bem-estar. Farás como quiseres. Se temos que ir, vamos.

     A carroça já estava preparada e Esmeralda, rosto fechado, fisionomia endurecida pelo ódio, subiu e acomodou-se ao lado de Miro. Álvaro, montado, preparou-se para segui-los. Puseram-se em movimento e aos poucos o acampamento foi se distanciando, sob o olhar preocupado de Sergei, que os seguia.

     Enquanto isto, no castelo de D. Hernandez os preparativos para o casamento estavam no auge. O velho castelo tinha sido restaurado, seu mobiliário reformado e tudo reluzia prenunciando a grandiosidade da festa.

     D. Antônio estava feliz. Seu mais caro desejo iria realizar-se. Essa aliança sonhada, acalentada durante tantos anos, por fim se tornaria realidade. Unir as duas famílias, tão amigas, tão ricas, consolidar os laços de tão grande amizade era motivo de grande alegria. E, depois, os noivos, apaixonados e felizes, constituíam o enlevo das duas famílias, coroando-lhes os anseios.

     D. Fernando sentia-se duplamente feliz. O filho aventureiro, o filho desinteressado dos negócios da família e, o que era pior, o filho apaixonado pela cigana sem eira nem beira tornara-se um homem sensato, interessado nas terras e nos negócios, e escolhera Maria para esposa. O que mais poderia desejar?

     A felicidade transparecia em seu rosto em todos os instantes e Carlos, observando-lhe o ar satisfeito, sentia-se mais feliz.

     Esmeralda estava muito distante de seu pensamento. Maria, com sua graça, sua beleza, sua inteligência e principalmente com seu espírito vivo, o conquistara de todo.

     Quanto mais a conhecia, mais a admirava e mais a amava. Com ela, pensava, haveria de transformar sua vida, formariam uma família feliz e haveriam de estender essa felicidade aos velhos pais e a todo o pessoal de suas terras. Sua gente também seria feliz.

     A primavera colocara flores nas árvores e nos jardins, beleza no céu e perfume no ar. O dia do casamento amanheceu belo e cheio de sol.

     No castelo, a movimentação era grande e incomum. Tudo preparado para a grande festa e muitos hóspedes já estavam desde a véspera no custeio. A noiva, linda em seu vestido de fina renda francesa, branco como a neve, estava radiante. Carlos, elegante em seu traje de veludo negro, com seus cabelos castanhos, revoltos e sedosos, porte altivo de fidalgo e olhos brilhantes de felicidade, despertava olhos de admiração e sua mãe olhava-o embevecida.

     Ao subir na carruagem negra e toda enfeitada, puxada por seis cavalos, caprichosamente adornados com pomposos penachos e enfeites de prata, despertou a admiração dos convivas, que também se preparavam para seguir para a igreja de San José, onde a cerimônia se realizaria.

     Eram dez horas e a nave encontrava-se rodeada por verdadeira multidão. Como era de praxe, o povo não poderia entrar na igreja. O casamento de fidalgos não permitia. Eram colocados cordões de isolamento e só os convivas podiam acomodar-se e assistir ao ato.

     A chegada do noivo despertou aplausos no populacho e ele adentrou a igreja acompanhado pelos pais, seguidos pelos amigos e parentes.

     Pouco depois, quando todos estavam acomodados, a nave cheia de convivas e de flores, houve um minuto de suspense e um murmúrio de admiração encheu o ar.

     O órgão começou a tocar. A noiva, linda e perfumada, elegante e radiosa, adentrava, conduzida pelo braço forte de D. Antônio.

     Silêncio e expectativa. O sacerdote aguardava no altar, rodeado pelos coroinhas, e Carlos, olhos marejados pela emoção, contemplava Maria embevecido.

     Juntos em frente ao altar, teve início a cerimônia.

     Enquanto isso, Miro, conduzindo a carroça devagar, conservava o ar preocupado. Em vão procurara convencer a cigana a desistir de seu intento. Por fim, percebendo-lhe a surda determinação, calara-se. De que lhe adiantaria continuar?

     Por outro lado, Álvaro tinha pressa. Faltavam dois dias para o casamento e ele ardia por chegar. Já estavam viajando há dois dias e ele percebia que Miro retardava o mais que podia. Isso irritava-o, mas o olhar decidido e forte do cigano o intimidava. Poderiam já ter chegado, mas ele insistia em descansar e fazer a cigana deitar-se, o que o deixava contrariado. O que ele queria era chegar logo.

     Afinal, estavam chegando. Madri estava quase à vista e agora era questão de pouco. Miro parou a carroça e olhando o rosto pálido da cigana tornou decidido:

     — Agora vais repousar um pouco.

     — Não preciso — replicou ela teimosa —, sabes que desde que saímos do acampamento recosto-me, mas não consigo dormir. Não descansarei enquanto não concretizar minha vingança! Vais ver. Vamos, tenho pressa em chegar.

     — Não. Estás trêmula e nervosa. Há tempo de sobra. Faltam dois dias para a cerimônia. Repousa. Refaz tuas energias e, depois, farás o que quiseres. Só não quero que prejudiques tua saúde. Vais comer um pouco e depois repousar. Vamos, ninguém vai impedir-te de fazer o que pretendes. Acalma-te.

     Esmeralda suspirou fundo. Sentia arrepios pelo corpo e um frio incomum. A cabeça andava à roda e só a sustinha o pensamento de rancor e a mágoa imensa que guardava. Resolveu concordar. Afinal estavam chegando. Melhor seria mesmo refazer-se.

     — Está bem. Repousarei um pouco e depois continuaremos. Miro retirou a carroça da estrada e desceu. Álvaro, contrariado, aproximou-se.

     — Estamos chegando. Não seria melhor entrarmos logo na cidade?

     — Esmeralda não está bem. Vê-se isso em seu rosto. Precisa de descanso. Depois, melhor será que fiquemos fora da cidade, se querem surpreender Carlos.

     Álvaro ficou pensativo e concordou:

     — Está bem. Precaução é bom.

     Ele não queria ser visto com os ciganos. Depois, precisava buscar roupas para Esmeralda. Com seus trajes ela não conseguiria entrar na igreja. Expulsá-la-iam por certo. Miro e ela teriam que se vestir de fidalgos e entrar antes do início do casamento.

     — Nesse caso, vou adiante. Preciso ultimar alguns detalhes e volto assim que puder. Vou aproveitar o escurecer para tomar algumas providências. Descansaremos hoje e, amanhã pela manhã, faremos nosso plano definitivo. Vou falar a Esmeralda.

     Álvaro desceu do cavalo e adentrou a carroça onde a cigana, olhos fixos, rosto pálido, recostada nas almofadas, parecia distante e indiferente.

     — Esmeralda — chamou —, vou seguir rumo à cidade e preparar tudo. Não te preocupes. Temos muito tempo. O importante é arranjar as coisas de maneira que estejas dentro da igreja na hora do casamento para impedi-lo.

     Uma chispa de rancor passou pelos olhos de Esmeralda.

     — Sim. Eu estarei lá de qualquer forma. Ninguém poderá impedir-me.

     — Muito bem. Mas se te vêem com teus trajes ciganos, não te permitirão a entrada. Vou providenciar outras roupas, aproveitar a noite e, depois, pela madrugada, voltarei. Não te preocupes. Miro tem razão. Descansa, prepara-te para estares bem e desmascarares aquele traidor.

     — Está certo. Não sinto cansaço. Não vejo a hora de cumprir minha vingança. Mas sei esperar. Vou tentar repousar. Podes ir.

     Álvaro saiu, subiu no cavalo e partiu a galope. Miro soltou os animais e procurou galhos secos. Dentro em breve o fogo crepitava. Ele preparava a refeição. Seu rosto preocupado não escondia o receio que lhe inundava o coração.

     Tinha horror a vingança. Sabia que ela sempre destrói aqueles que a cultuam e temia pelo futuro de Esmeralda. Além disso, triste pressentimento invadia-lhe o espírito desde que ele travara relações com Carlos. Ele não podia furtar-se a essa sensação de medo. Não sabia bem do quê, mas sentia que entre os dois nada de bom poderia resultar. Desejava proteger a cigana, evitar-lhe desgostos, impedi-la de executar aquele plano malfazejo. Estava claro que Álvaro apenas a estava usando para realizar seus mesquinhos desejos.

     Afinal, a união de Carlos com Esmeralda jamais poderia resultar em felicidade. Carlos jamais se conformaria em viver para sempre no acampamento. Era um fidalgo, cheio de arrogância e de posses. Como abandonar tudo isso pela vida dura e sem horizontes que eles levavam? Por isso não odiava Carlos. Compreendia sua forma de ser e de pensar. Contava com o tempo para a cigana esquecer e voltar a ser o que sempre fora. Mas Álvaro instigara-a e agora tudo se tinha complicado.

     O rosto pálido e desfigurado de Esmeralda, sem pregar olho desde que Álvaro a procurara, afligia-lhe o coração.

     Esquentou o pedaço de carne assada, pegou pão e uma caneca de leite e levou para a carroça, procurando dar à sua fisionomia um ar de alegria.

     Imóvel, a cigana estendia-se no colchão, olhos perdidos sem ver, rosto pálido e emagrecido. Vendo-lhe a figura, Miro sentiu um aperto no coração. Colocou as vasilhas na pequena mesa e aproximou-se tomando-lhe as mãos frias.

     — Esmeralda. Come um pouco. Não te tens alimentado. Estás trêmula. O que tens?

     O corpo da cigana estremecia de quando em vez. Miro, assustado, colocou a mão sobre sua testa gelada. A cigana olhou-o de forma impessoal. Miro ajuntou alguns panos e os aqueceu ao fogo e depois envolveu o corpo da cigana com eles.

     — Carlos me pagará — tornou ela com determinação.

     — Está bem — concordou Miro —, ele pagará. Agora olha para mim, Esmeralda, não fiques assim. Vamos, olha para mim.

     Mas a cigana continuava distante, como se não o visse. Aflito, Miro tomou as mãos de Esmeralda entre as suas e concentrou-se procurando transmitir-lhe forças. Seu rosto cobriu-se de suor pelo esforço e seu coração aflito orava a Deus pela cigana que tanto amava.

     Ela pareceu acalmar-se e seus olhos fecharam-se como que pressionados por sono irresistível.

     Miro colocou a mão sobre sua testa e disse-lhe carinhoso:

     — Dorme, Esmeralda. Deus guardará teu sono. Esquece a vingança e o ódio, para que eles não te destruam.

     A cabeça de Esmeralda pendeu e ela adormeceu. Miro, porém, permaneceu ali, velando. Seu coração fiel e amoroso, dedicado e amigo, lutava para afastar de Esmeralda a sombra escura do ódio e da vingança.

     O dia amanheceu e os primeiros raios de sol vieram encontrá-lo na mesma posição de vigília e de amor. A cigana dormia ainda, mas seu sono era agitado e seu corpo às vezes estremecia como que açoitado por vento frio e forte.

     Álvaro encontrou-os nessa postura e, preocupado, olhando o rosto empalidecido da cigana, assustou-se:

     — O que aconteceu?

     — Esmeralda está mal. Ficou fora de si e consegui fazê-la adormecer, mas seu sonho é povoado de maus pensamentos e de dor.

     — Acorde-a. Não temos muito tempo. O casamento é amanhã. Precisamos tratar de tudo com detalhes.

     Miro fulminou o moço com o olhar.

     — Esmeralda é mais importante do que tua sórdida vingança! Se me atormentas, mato-te sem piedade. És o culpado por ela estar desta forma.

     Álvaro empalideceu, sem saber o que dizer. Não podia conceber a idéia de que tudo ruísse por terra. Resolveu contemporizar. Quando a cigana acordasse, por certo ela iria até o fim e o cigano não conseguiria impedir.

     — Não precisas ficar assim — tornou conciliador —, não pretendo prejudicar ninguém. Esmeralda merece toda nossa atenção. Aguardemos que ela acorde e então decidiremos o que fazer.

     — Sai daqui. Deixa-a em paz.

     Álvaro saiu da carroça e acomodou-se perto do fogo. Trouxera provisões e procurou preparar comida. Se pretendia executar seu plano, precisava de Miro para isso.

     Mas as horas passavam e Esmeralda continuava na mesma. Por vezes abria os olhos e não parecia ver a realidade. Depois, caía novamente em prostração, balbuciando palavras ininteligíveis.

     Miro, rosto pálido e preocupado, vigiava, aquecendo-lhe o corpo de quando em vez, colocando um saco de areia quente em seus pés gelados e envolvendo-a com panos que esquentava ao redor do fogo.

     À medida que o tempo passava, mais aumentava a raiva e a preocupação de Álvaro. Em seu desespero, chegou a suspeitar que Miro tivesse dado algo à cigana a fim de impedi-la de realizar o que pretendia. Mas o temor ao cigano, cuja força manifesta temia, impedia-o de falar.

     Anoitecia e Esmeralda continuava na mesma. Enquanto Miro procurava ministrar-lhe algumas beberagens procurando reanimá-la, Álvaro, irritado, ora caminhava de um lado a outro ao redor da carroça, ora entrava para indagar do estado da cigana.

     Mas o tempo passava e ela não melhorava. A madrugada raiava e a situação permanecia inalterável.

     — Faça alguma coisa! — gritou o fidalgo sem conseguir encobrir seu desespero.

     — Cala essa boca. Não vês que ela está mal? Estou fazendo o que sei, mas tem sido inútil.

     Álvaro não se conteve:

     — Por certo estás satisfeito. Vieste para atrapalhar nossos planos. Talvez até a tenhas colocado nesse estado para impedi-la de cumprir o que combinamos!

     Miro olhou-o firme. Levantou-se de um salto e agarrou-o pelo peito enquanto dizia colérico:

     — Cala essa boca imunda. Essa idéia só podia brotar numa cabeça porca como a tua. Esmeralda é o que mais prezo no mundo, e se há um culpado, és tu. Atenta para o que te vou dizer. Ela está muito mal e se morrer arranco-te a pele. Sou contra vingança, mas juro: se Esmeralda morrer, acabo com tua vida.

     Álvaro arrependeu-se de ter falado. Os olhos magnéticos de Miro expeliam chispas e, nas mãos fortes do cigano, seu corpo parecia frágil galho sacudido pelo vento.

     — Agora sai daqui. E não adianta fugir. Reza para ela melhorar, porque senão irei buscar-te nos confins do inferno.

     Álvaro, apavorado, reconheceu que o cigano falava sério e assim que se viu no chão saiu depressa da carroça. Fora, o dia começava a amanhecer e pela primeira vez o fidalgo começava a arrepender-se da aventura. Deprimido e agoniado, permaneceu ali, sem saber o que fazer.

     A vida da cigana pouco lhe importava. O que lhe doía era não poder executar sua vingança. Se a cigana não melhorasse, tudo teria sido inútil. Carlos estaria casado com Maria. Esse pensamento acendia a revolta em seu peito oprimido. Fora traído, Carlos sabia o quanto amava a prima. Mesmo assim, não titubeara em fazer-lhe a corte e em casar-se com ela.

     E naquele momento, com rancor, firmou o propósito de não desistir da vingança. Ainda que seus planos fossem frustrados e eles se casassem, encontraria outra maneira de tirar a desforra. O espetáculo doloroso da felicidade deles que tivera ocasião de presenciar lhe daria forças para prosseguir.

     Afinal, se Esmeralda vivesse e seu filho se salvasse, por certo o escândalo em qualquer época lhe convinha. Conhecia o caráter reto da prima. Contava com o ódio de Esmeralda. Estava decidido. Teria forças para esperar.

     O dia amanheceu e Álvaro tinha tomado sua decisão. Não lhe convinha brigar com o cigano. Preferia conquistar-lhe a amizade. Entrou na carroça, procurando dar à fisionomia um ar de humildade.

     — Como está ela? — perguntou conciliador.

     Miro fixou-o sério. Vendo-lhe o rosto triste, respondeu:

     — Na mesma. Álvaro aproximou-se.

     — Miro, sinto muito. Ontem perdi a cabeça. Quando procurei Esmeralda, não pensei em fazer-lhe mal. Eu mesmo sofro a traição que Carlos me fez e compreendo o que ela sente. Quero dizer-te que desisto da vingança. A saúde de Esmeralda é mais importante. Depois, há a criança. Receio por ela. Achas que está bem?

     O cigano acalmou-se um pouco. Afinal, era melhor assim. Desistindo da vingança, as nuvens negras por certo se afastariam de Esmeralda. Suspirou fundo.

     — A criança acho que está, mas Esmeralda, não sei... Se sabes rezar, reza.

     Álvaro procurou disfarçar seu desprezo. Rezar por uma herege? Ele não era tão ingênuo assim. Mas conteve-se.

     — Não tenho feito outra coisa. Agora vou embora. Dentro de algumas horas terá início a cerimônia. Preciso estar lá. Meu tio não me perdoaria se eu faltasse. Depois, quero ver se casam mesmo. Acredita-me, voltarei assim que puder. Trouxe comida e vou deixar tudo aqui. Lamento o que aconteceu e se eu puder ajudar o farei.

     — Está bem — tornou Miro um pouco aliviado. — Afasta essa idéia de vingança. Foi ela quem atraiu a desgraça. Vingança é faca de dois gumes. Lembra-te disso sempre. A justiça pertence a Deus.

     Álvaro concordou com a cabeça.

     — Tens razão. Volto mais tarde para saber de Esmeralda. Só vou ter sossego quando ela melhorar.

     O cigano não respondeu. Depois que Álvaro se afastou, olhando o rosto pálido da cigana, pensou comovido:

     — Foi a mão de Deus que não permitiu a vingança, porque a desgraça seria maior. Agora, preciso implorar perdão para ela, para que Deus lhe devolva a saúde.

     E levantando o pensamento a Deus, fechou os olhos e começou a orar.

 

Capítulo XV

     No castelo de D. Hernandez a festa corria animada. Após a cerimônia, o lauto banquete; e após a pausa da siesta, o baile.

     Carlos estava feliz. Só tinha olhos para Maria e a cada minuto, observando-lhe a finura, sentia-se privilegiado por ter sido escolhido por ela. Fixando-lhe o rosto claro e delicado, a boca bem-feita, os olhos de veludo, mal podia esperar pelo momento de estar a sós com ela. Tudo era felicidade em seu coração. Nem um pensamento sequer para Esmeralda. A figura da cigana como que se apagara de sua lembrança. Só tinha olhos para a esposa. Reconhecia nela algo especial, uma superioridade de sentimentos, dotes de inteligência, que nunca pensara encontrar em uma mulher e que tinham tocado fundo seu coração. Estava feliz.

     Maria, graciosa, requisitada por todos, dominava a festa com sua graça, e vendo-os enlaçados e venturosos, seus pais sentiam-se tranqüilos e felizes.

     Afinal, as duas famílias tinham-se unido, realizando um sonho longamente acariciado. E essa união tinha acontecido espontânea, com amor, e isso os alegrava ainda mais.

     Por certo, uma era de alegria e de felicidade viria abençoar as duas famílias. Eles confiavam no futuro.

     Alguém, entretanto, destoava da alegria geral: Álvaro, que procurava esconder seu despeito, seu ódio, seu desapontamento. Apesar de estar habituado, difícil lhe era dissimular, tal a avalanche de sentimentos que lhe invadia o coração. Ninguém, no entanto, percebeu seu mal-estar. Abraçou os noivos e o fez com tal perícia que eles felizes e descuidados não notaram o que lhe ia no coração. Tanto Carlos quanto Maria acreditavam que Álvaro já se tivesse curado daquela paixão de infância.

     Mas ele sofria. Como podia suportar assistir à felicidade deles? Pensar que, logo mais, Maria estaria nos braços do marido consumando o casamento quase o enlouquecia. À noite, quando o baile estava animado, Álvaro não resistiu. Fugiu desesperado e embrenhando-se no parque chorou como criança.

     Um pouco mais calmo, tomou o cavalo e procurou a carroça do cigano. Tinha os olhos vermelhos e injetados, o rosto marcado por rictos de amargura, estava curvado como se tivesse de repente envelhecido.

     Miro velava. Tinha repousado um pouco, e vendo a figura atormentada de Álvaro, compreendeu-lhe o drama. Não disse nada.

     — Como está ela? — perguntou o fidalgo com interesse.

     — Parece-me um pouco mais calma — respondeu Miro um tanto animado. — Ainda não voltou à lucidez, mas respira melhor e confio que ficará boa.

     — Ainda bem — tornou Álvaro com certo alívio.

     Esmeralda era sua última esperança para acabar com aquele casamento.

     — As coisas não vão bem para ti. Imagino que Carlos se casou.

     — Sim — disse o moço com amargura —, casaram-se. Estão felizes! Ele a tem em seus braços. Maldito! Mil vezes maldito! — desabafou ele com raiva.

     — Imagino o que sentes. Não é fácil ser preterido. Nós ciganos temos um remédio salutar nessa hora. Acho que te pode ajudar.

     — O que é? — perguntou Álvaro sem muito interesse.

     — Vem comigo.

     Miro saiu da carroça e Álvaro o seguiu de perto. O cigano apanhou um machado que estava sob o assento da boléia e o entregou ao fidalgo admirado, dizendo:

     — Nós fazemos assim para curar contrariedade. Toma este machado, vai até o mato em frente, escolhe uma árvore bem grossa e derruba-a. Garanto que te vai fazer bem.

     Álvaro olhou a figura forte do cigano e percebeu que ele não estava brincando. Ele detestava esforço físico. Estava cansado e desanimado. Sacudiu a cabeça determinado.

     — Não adianta. Eu não sou cigano. Não gosto de esforço físico. Já estou melhor. Agora, só quero mesmo é dormir.

     Miro guardou o machado, dizendo:

     — Quando o doente recusa o remédio, jamais chega a curar-se — deu de ombros. — Vou voltar para a carroça.

     — Vou dormir por aqui mesmo. Não suportaria ficar em casa nesta noite.

     Escolheu um local, estendeu a manta e deitou-se, mas, apesar de cansado e esforçar-se para pegar no sono, só horas depois foi que conseguiu.

     O dia seguinte amanheceu belo e ensolarado. A primavera chegara em todo seu esplendor. Ao lado do leito, na carroça, Miro velava.

     Esmeralda abrira os olhos durante a madrugada, revelando alguma lucidez. Quis levantar-se mas não conseguiu.

     — Preciso sair daqui — balbuciou com voz sumida. Miro acalmou-a.

     — Temos tempo. Tudo está bem. Repousa e logo estarás boa. Deu-lhe a beber uma mistura que preparara e ela adormeceu novamente. Um sono calmo e normal.

     Por isso naquela manhã o cigano estava feliz. Tinha preparado um caldo e esperava que Esmeralda acordasse.

     O sol já estava alto quando a cigana abriu os olhos fixando a fisionomia de Miro um tanto preocupada.

     — Ainda bem que acordaste. Vou buscar um caldo quente. Precisas de alimento.

     A cigana olhava ainda um tanto alheia ao que se passava. Ele saiu e voltou logo com uma caneca fumegante.

     — Bebe, Esmeralda. Te fará bem.

     A cigana sentia-se muito enfraquecida. Miro levantou-lhe a cabeça e aproximou a caneca de seus lábios. Esmeralda sorveu alguns goles.

     — Bebe tudo. Logo estarás de pé.

     Ela obedeceu maquinalmente. Sentia a cabeça rodar e enorme fraqueza. Depois, o cigano colocou uma almofada para mantê-la mais confortável.

     — Miro — balbuciou ela em voz baixa —, o que aconteceu?

     — Tiveste alguma febre e um pouco de fraqueza. Mas já passou. Agora tudo está bem.

     Ela franziu a testa como querendo lembrar-se.

     — Onde estamos?

     — Perto de Madri.

     De repente ela angustiou-se.

     — O casamento. Preciso ficar boa para ir até lá. Ajuda-me, preciso levantar-me.

     Miro olhou-a penalizado.

     — Acalma-te. Estiveste mal e se queres levantar e recobrar tuas forças, não te agites inutilmente.

     Ela fixou-o angustiada.

     — Quanto tempo faz que estou aqui?

     — Há três dias e noites, estavas inconsciente. Ardias em febre. Ainda estás muito fraca. Não te podes agitar para não recair.

     — Miro, e o casamento?

     — Foi a mão de Deus. O destino te desviou da vingança. Deves aceitar para que não te aconteça coisa pior.

     Esmeralda estava sem forças, mas em seus olhos refletiam-se a dor e a tristeza.

     — Queres dizer que Carlos já casou?

     — Sim — esclareceu Miro. — Foi o destino. Tuas melhoras só começaram depois que Álvaro desistiu da vingança.

     A cigana fechou os olhos demonstrando exaustão. Miro insistiu:

     — Luta, Esmeralda, para viver! Nem sempre a vida nos dá o que desejamos. Precisamos compreender que nada somos diante do destino! Esquece Carlos e por certo tua vida aos poucos se irá transformando.

     A cigana estava muito enfraquecida para discutir o assunto, porém, em seu coração ferido, o ciúme, o ódio, o desespero ainda faziam-na estremecer. Estava sem forças. Sentia-se doente, fraca, derrotada, mas Carlos não perdia por esperar. Não pensava em nada mais do que em vingar-se. Miro continuou:

     — Ficaremos mais alguns dias por aqui. Não estás em condições de viajar. Assim que estiveres mais fortalecida, regressaremos ao acampamento.

     Os olhos de Esmeralda brilharam, mas ela não disse nada. Miro estava aliviado. A cigana, parecia-lhe, tinha aceitado a situação. Tanto melhor. Não via a hora de regressar ao acampamento, libertando-se da influência de Álvaro, que acreditava perigosa para Esmeralda.

     Mas o fidalgo não se decidia a ir embora definitivamente, alegando que se sentia responsável pela viagem dos dois e desejava prestar-lhes assistência.

     Na verdade, não queria perder a cigana de vista. Assim que pôde falar com ela, desejou reiterar seus propósitos de vingança. Porém Miro não saía do lado dela, não dando oportunidade de falar-lhe a sós.

     Sabia que o cigano o atiraria fora da carroça se mencionasse o assunto. Não queria que ele desconfiasse de suas intenções. Afinal, ele também desejava a recuperação da cigana e não queria que a criança se perdesse. Era-lhe preciosa para a concretização de seus objetivos.

     Por isso, fingiu-se de desinteressado e despreocupado, aguardando um momento favorável para falar a sós com Esmeralda.

     Ela começou a melhorar. Seus pensamentos de vingança galvanizavam-lhe as energias e intimamente procurava restabelecer-se para poder planejar como se vingaria. Por isso, três dias depois já se encontrava bem melhor. Mas, naquela noite de primavera, sentada fora da carroça, respirando deliciada o cheiro agradável das flores do campo, a cigana foi acometida de violenta dor.

     Praguejando contra Carlos, contra a vida, contra todos, obedeceu a Miro, deitando-se na carroça. Estava amanhecendo quando sua filha nasceu. Miro, acostumado com esses casos no acampamento, atendeu Esmeralda com precisão e presteza. A cigana chorava de raiva e de dor. Dizia:

     — Enquanto eu aqui grito e sofro, o miserável, nos braços de outra, diverte-se. Que mundo injusto! Maldito seja ele e sua esposa, seu pai e sua mãe!

     Miro intervinha:

     — Não digas isso. Tua filha não tem culpa dos erros do pai. Queres vê-la? É uma linda menina! Tem teu sangue, Esmeralda. O sangue de nossa gente!

     — Não quero. Tu me prometeste que a levarias para longe. Não a quero! Cada vez que olhasse para ela estaria recordando Carlos. Em pouco eu a estaria odiando tanto quanto ao pai!

     Miro intercedeu:

     — Pensa, Esmeralda. É tua filha, como abandoná-la? Com quem deixá-la? O que fazer?

     — Não quero saber. Tu me prometeste. Eu queria livrar-me logo e não a deixar nascer. Tu me convenceste a esperar. És o culpado por ela ter nascido. Agora, ela é tua. Eu não quero vê-la nunca mais.

     Miro sentiu uma onda de tristeza.

     — Não a quero no acampamento a recordar-me aquele patife. Miro, com a criança nos braços, saiu da carroça. Álvaro, olhos brilhantes, interveio.

     — Ela não quer a filha. O que pretendes fazer?

     — Não sei — respondeu Miro penalizado.

     — Eu a quero — tornou Álvaro com voz firme. — Posso levá-la e acredite que a educarei como a uma filha.

     Miro fixou-o desconfiado.

     — E não pensarás em vingança?

     — Claro que não. Já te disse que desisti. Penaliza-me a situação. Afinal, eu vos trouxe para esta aventura. Vivo só. Ela me será companhia.

     — Está bem — decidiu Miro. — Podes levá-la. É tua. Mas atenta para o que te digo: trata-a bem, ela não tem culpa de nada. E se por acaso atentares contra ela ou guardares propósitos de vingança, a maldição cairá sobre tua cabeça.

     Apesar de não crer nos ciganos, Álvaro não pôde deixar de sentir um arrepio de medo. Os olhos de Miro brilhavam estranhamente. Vencendo o receio, Álvaro respondeu:

     — Ficai sossegado. Cuidarei bem dela. Nada lhe acontecerá. Miro entregou-lhe a criança com tristeza.

     — Leva-a para uma ama. Precisa de cuidados.

     — Certo. Podes confiar. Deixa-me falar a Esmeralda um momento. Vou despedir-me.

     Entregou novamente o bebê a Miro e entrou rápido na carroça onde a cigana repousava.

     — Esmeralda!

     Ela abriu os olhos e fixou-o com firmeza. Ele continuou:

     — Vou embora. Levo tua filha. Cuidarei bem dela. Nunca mais a verás. Porém quero dizer-te que não esquecerei meus propósitos de vingança.

     Falava baixo, com medo de que Miro entrasse de repente. A cigana respondeu:

     — Eu também. Essa criança não existe para mim. Não a quero. Mas se algum dia puderes ou tiveres meios de destruir Carlos, procura-me que eu quero ajudar!

     — Agora Miro me vigia. Ele não pode saber. Aguarde notícias minhas. Voltarei ao acampamento. Irei procurar-te às escondidas, podes esperar.

     — Está bem. Estarei esperando. Miro não poderá impedir-me. Álvaro saiu rápido e, tomando nos braços o pequeno fardo, montou e dentro em pouco seu vulto desaparecia em uma curva da estrada.

     Miro deu um suspiro de alívio. Afinal, tudo parecia resolvido. A criança seria educada e Esmeralda regressaria ao acampamento. Acreditava que ela logo estaria recuperada, reiniciando sua vida de sempre.

     No dia seguinte, devagar, conduzindo a carroça com cuidado, Miro tomou o caminho de volta.

     Álvaro chegou a Madri aos primeiros alvores da manhã. Ia preocupado. Precisava arranjar alguém que cuidasse da criança. Não queria que nada lhe acontecesse. Não sabia ainda como, mas entendia que ela era-lhe preciosa. Afinal, o fruto da ligação de Carlos com a cigana era peça importante para desmascará-lo frente a Maria. O traidor não perdia por esperar.

     O que fazer com a criança? Conhecia um casal de servos do castelo de D. Hernandez que, não possuindo filhos, sentiam-se muito infelizes. Por certo cuidariam da menina muito bem. Decidido, foi procurá-los.

     Eles preparavam-se já para iniciar a jornada de trabalho e ao ver Álvaro sobraçando a criança embrulhada em uma manta, comoveram-se muito.

     — Por Deus! D. Álvaro! — exclamou a serva assustada. — Uma criança! O que se passa?

     — Preciso de ajuda. Saberei recompensá-los regiamente.

     — Podeis confiar em nosso zelo — tornou o servo com deferência.

     — Eu sabia. Por isso vim procurá-los. Esta pobre criança foi abandonada pela mãe. O pai, no entanto, é meu amigo e nem sabe de sua existência. Por isso, resolvi protegê-la. É só o que vos posso dizer.

     — Vosso gesto, senhor, vos honra como fidalgo — observou Miguel com delicadeza.

     — Eu não posso cuidar dela, mas espero que tu, Consuelo, a recebas em tua casa com cuidados de mãe. E tu, Miguel, a protejas velando por ela.

     — Que linda é, senhor! Mas é tão nova!

     — Acaba de nascer — esclareceu Álvaro, mais preocupado em acomodar as coisas do que com a criança, que lhe era indiferente. — Acho que sabes como assisti-la. Arranja-lhe uma ama, se quiseres, eu pago.

     Tirou da algibeira um pequeno saco e colocou um punhado de moedas sobre a mesa tosca.

     — Por certo, senhor — ajuntou Miguel satisfeito.

     — É só por algum tempo. Depois verei o que fazer.

     — Podeis estar descansado, senhor. Cuidarei dela como de uma filha.

     — Por isso a trouxe aqui. Mas lembra-te que ela não é tua e que eu virei buscá-la quando for oportuno. Que ninguém saiba que fui eu quem a trouxe. Podes dizer que a encontraste à porta ou algo assim, mas que meu nome não apareça!

     — Podeis estar descansado — respondeu Miguel atencioso.

     — Não quero comentários entre os campônios. Meu tio pode não gostar, entendes?

     — Claro, senhor. Podeis confiar em nós. Sabeis que somos servos fiéis e honestos.

     — Muito bem. Fazei o que eu vos digo e não vos arrependereis. Sei recompensar muito bem os que me servem com fidelidade. De vez em quando voltarei para saber como andam as coisas.

     — Só uma coisa senhor — disse Consuelo, com a criança nos braços. — Como é o nome dela?

     Álvaro parou interdito. Não tinha pensado nisso.

     — Ela ainda não tem nome... — murmurou indeciso.

     — Todos precisam de nome — tornou a serva admirada.

     — Estou cansado. Depois veremos.

     — Temos que batizá-la — ajuntou a serva.

     — Voltarei outro dia e veremos isso. Agora preciso ir. Álvaro saiu e Consuelo levou a criança até o leito pobre.

     — Pobrezinha, está molhada. Vamos, homem, não fiques aí parado. Vai ver um pouco de leite.

     — Não é melhor buscar uma ama?

     — Não. Deixa que eu sei o que faço. Já cuidei de crianças. Sei como se faz isso. Agora preciso arranjar-lhe roupas. Podes ir para o campo. Eu agora só irei quando a possamos levar junto.

     E enquanto o marido, depois de buscar o leite, seguia para o trabalho, Consuelo com alegria e cuidado tomava providências envolvendo a filha de Esmeralda e de Carlos com seu carinho de mãe.

     Em casa de D. Hernandez tudo era alegria e contentamento. Após as festas da cerimônia, os noivos tinham seguido para uma propriedade no campo, onde descansariam por uma semana, finda a qual deveriam voltar ao castelo dos pais de Maria para juntar-se à comitiva de D. Fernando, que regressava a seu castelo em Valença.

     Quando os recém-casados chegaram, irradiando felicidade e boa disposição, Álvaro estava lá. A custo dominou o rancor e o desespero. O espetáculo daquela felicidade o feria fundo. Foi a custo que conseguiu disfarçar seus sentimentos e demonstrar uma alegria que estava longe de sentir.

     Maria, corada e bem-disposta, nunca pareceu-lhe tão bela, e Carlos, cujo entusiasmo era evidente, despertava-lhe ciúme terrível.

     Entretanto, o jovem casal, em meio a sua felicidade, não percebeu a raiva e o despeito do moço. Ao contrário, julgando-o amigo, procuraram demonstrar-lhe atenção e carinho, generosamente esquecendo seu interesse por Maria.

     Permaneceram no castelo mais três dias, e depois a família de D. Fernando e sua comitiva regressou a suas terras.

     Voltando ao lar com a esposa, Carlos ia firmemente decidido a assumir suas responsabilidades de família, a cuidar dos negócios de sua casa, auxiliando o pai cansado e doente na administração de tudo.

     Estava feliz. Maria, encantadora e inteligente, culta e sincera, era a esposa ideal. Amava-a sinceramente, e a figura da cigana como que se apagara de sua lembrança. E se casualmente algo a recordasse, considerava sua ligação com ela como um desvario da juventude, sem conseqüências.

     Maria sabia manter a atenção do jovem esposo e revelara-se interessada em ajudá-lo nos negócios de sua casa, o que não era comum nas mulheres de sua época.

     Uma vez de volta ao castelo, a princípio tanto D. Fernando como Carlos estranharam essa atitude de Maria e procuraram afastá-la desses assuntos, alegando que só os homens deviam preocupar-se com tais problemas. Mas Maria não se deu por achada e recusou-se a sair quando eles discutiam sobre negócios. Para não desgostá-la, julgando ser interesse passageiro, aceitaram sua presença, a princípio calada e atenta, mas aos poucos emitindo sugestões, expondo idéias, interpretando fatos com tanta sensatez e inteligência, delicadeza e sutileza, que com o correr do tempo ambos passaram a confiar plenamente em suas opiniões. De tal forma ela procedeu, dando-lhes a impressão de que eram eles quem decidiam, que passaram a nada fazer sem que Maria estivesse ao par e emitisse seu parecer.

     Isso contribuiu para que mais se solidificasse a união entre eles, e a jovem era muito estimada pelos sogros, que viam nela a filha que não tiveram. D. Encarnação não compreendia a nora, dentro de seu mundo estreito de mulher habituada a obedecer e a não sair dos acanhados padrões para os quais fora educada. Mas admirava-a por sua coragem e por sua maneira de ser.

     Assim, a vida no castelo seguia feliz e despreocupada. Carlos era outro homem. Sério, responsável, preocupado com a família. Na mente de todos, o passado estava esquecido.

    

Capítulo XVI

     Onze anos se passaram dos últimos acontecimentos e agora a vida no castelo de D. Fernando estava movimentada e alegre. Dois filhos enriqueciam a vida de Maria e Carlos. Um menino já com dez anos e uma menina com seis. Eram lindos e saudáveis. Distribuíam suas risadas pelo castelo, quebrando a sobriedade de suas vetustas paredes.

     Tudo era calma e prosperidade. Os negócios iam bem e a situação da propriedade não poderia ser melhor. Carlos revelara-se ótimo administrador e D. Fernando orgulhava-se do filho.

     Era uma tarde de primavera de 1826. Acompanhados por uma serva, José e Matilde brincavam alegres.

     — Vinde, crianças. Não podeis entrar aí — tornou a serva com energia.

     — Eu quero — respondeu o menino com arrogância. — Não podes impedir-me.

     — Está fechado. Teu pai proibiu. Vamos, vamos para outro lugar. O menino não se deu por achado.

     — Por quê? O que há aí dentro? Tem um tesouro?

     — Não sei. Que bobagem! D. Carlos fechou porque esta ala do castelo é perigosa.

     — Perigosa por quê?

     — Não sei. Ele não disse. Agora vamos. O lanche vai ser servido. Não podemos deixar D. Maria esperar.

     Tomando a mão do menino, forçou-o a afastar-se. Tinha medo daquela ala abandonada. Tinha ouvido contar muitas histórias sobre ela. A tragédia, a morte de D. Fabrício, e o que era pior, os estranhos ruídos que alguns já tinham ouvido durante a noite. Pranto, risadas, lutas, gemidos.

     Tanto D. Carlos quanto D. Maria riam-se dessas histórias. Mas ela tinha medo. Achava que as almas dos mortos podiam voltar e as temia. Sentia arrepios de terror sempre que se acercava daquela área.

     Conduziu as crianças para a casa, deu-lhes a merenda.

     — Mamãe — pediu José —, posso ficar fora mais um pouco com Tilde? Está tão bom.

     Saíram de novo. Josefa os acompanhou solícita. Levou-os para o parque, onde árvores floridas alegravam a paisagem. Sentou-se sob uma árvore e tomou seu trabalho de agulha. Mas a brisa agradável, o canto dos pássaros a envolveram e a serva recostou-se no tronco e adormeceu. José tomou a mão da irmã dizendo-lhe baixinho:

     — Vem, Tilde. Vamos entrar lá, ver o que há. Vamos descobrir o tesouro!

     A menina perguntou:

     — O que é tesouro?

     — Jóias, ouro, pedras preciosas! Vais ver que beleza!

     — Tem colar?

     — Tem, claro. Tem braceletes, anéis, tudo. Vamos.

     Alegres, dirigiram-se à ala proibida. José entrou pelo portão de ferro que dava acesso ao local e logo dois metros além pararam frente à porta de madeira trabalhada. O menino largou a mão da irmã e tentou abri-la. Não conseguiu.

     — Está fechada. Vamos ver se há outra entrada.

     Deu a volta por fora, mas a outra porta também estava fechada! Havia uma janela de ferro, com vidros empoeirados, mas estava um pouco alta para ele.

     — Eu quero ir embora — pediu a menina, um pouco assustada.

     — Nós já vamos. Espera um pouco. Vem cá. Vou te levantar e vais espiar o que há lá dentro. Sobe aqui.

     Abaixou-se e a menina aboletou-se em seu ombro.

     — Segura firme que eu pego tuas pernas. Limpa o vidro e olha lá dentro.

     — E se houver o tesouro?

     — Aí voltamos outro dia quando eu encontrar a chave da porta. Equilibrando-se, Matilde, com a mãozinha, esfregou o vidro e espiou.

     — Olha direito! Eu queria ver. Mas não me agüentas. És mulher!

     — Não te agüento porque sou pequena — tornou a menina com seriedade.

     — O que vês?

     — Algumas cadeiras cobertas com pano, teias de aranha. Está muito escuro. Estou com medo! Quero descer!

     — Só mais um pouco. Olha se não há uma arca, mesmo fechada.

     — Não vejo.

     Aconteceu num segundo. Diante dos olhos apavorados da menina, apareceu, de repente, a figura de um homem com sangue a escorrer-lhe por vários ferimentos, olhos brilhando como fogo, cabelos eriçados e desgrenhados.

     A menina gritou desesperada, todo seu corpo tremia qual galho agitado pelo vento. Estava pálida. Assustado, José não sabia o que fazer. Desceu a irmã que gritava sem conseguir sair de onde estava.

     — Vamos, Tilde. Vem, não foi nada, vamos.

     Mas a menina parecia fora de si. Continuava a gritar. Ele tentou arrastá-la para fora. Nessa hora, Josefa chegou esbaforida.

     — Santo Deus! O que aconteceu? Por que me desobedecestes? Virgem Santíssima! O que se passou?

     A menina pálida, trêmula, chorava convulsivamente, ainda aos gritos. A serva tomou-a nos braços aflita.

     — Estou aqui. Não há perigo. Acalma-te. O que aconteceu? José estava muito assustado.

     — Não sei. Fomos lá, eu a pus no ombro para espiar lá dentro. De repente, ela começou a gritar.

     — Que loucura! Logo aí, santo Deus!

     — Eu queria ver o tesouro.

     — Não há tesouro nenhum lá dentro. Achas que D. Carlos ia deixar lá uma fortuna? O que fizeste foi assustar tua irmã. Acalma-te, querida. Tudo passou.

     Mas a menina tremia apavorada. Aflita, Josefa levou-a para casa. Maria preocupou-se. Tentou acalmá-la. Quando a viu mais serena, perguntou:

     — O que aconteceu? Por que estás assim?

     — Mamãe — soluçou ela trêmula —, lá dentro há um homem muito feio.

     — Um homem?

     — Sim. Tem cara de mau, olhos de fogo e estava cheio de sangue.

     — Foi impressão tua, querida. Lá não há ninguém. Todas as portas estão fechadas e uma parede separa as outras alas da casa. Ninguém poderia entrar lá.

     A menina abanou a cabeça.

     — Mas ele estava. Eu vi. Apareceu de repente. Tive medo. Parecia que ia me pegar! Tenho medo, mamãe. Ele é homem mau!

     — Não há ninguém lá, eu garanto. O José não viu ninguém. Tu estavas com medo e tiveste uma alucinação. Viste alguma coisa, José?

     — Não, mamãe. Não vi nada.

     — Estás vendo? Foi impressão tua.

     Mas a menina não se acalmava. Continuava afirmando que o homem estava lá. Carlos preocupou-se. À noite Matilde estava febril e não conseguia dormir. Carlos achegou-se ao leito da filha procurando acalmá-la.

     — Tenho medo dele, papai — tornou a menina, chorosa. — Tira ele de lá, manda ele embora.

     Impressionado, Carlos tornou:

     — Por certo. Podes ficar descansada. Já mandei vários homens lá para expulsá-lo. Não mais te assustará.

     — Ainda bem, papai. Assim é melhor. Não foi mentira. Ele está lá!

     — Lembra-te de como era ele?

     — Era grande, feio. Cabelos arrepiados, olhos de fogo.

     — E a roupa, como era?

     — Era de veludo marrom. Tinha botas. Estava de colete. Tinha uma faca na mão. Tive medo.

     Carlos empalideceu. A menina acabava de descrever seu tio Fabrício. Pela lembrança de Carlos, surgiu a noite fatídica em que o surpreendera roubando o castelo. Ele não acreditava em fantasmas.

     Várias vezes os camponeses o tinham alertado sobre acontecimentos estranhos naquela ala da casa. Ele, porém, jamais tinha acreditado. Agora, o que pensar?

     Matilde não conhecera o tio e nunca lhe vira o retrato sequer. Eles o tinham destruído. Não queriam nenhuma recordação daquele patife. Agora a menina o tinha visto.

     Carlos passou a mão pelos cabelos, assustado.

     — Dorme sossegada, filha. Papai, já o expulsou de lá. Não há ninguém, eu garanto.

     Vendo-se compreendida e amparada, finalmente a menina acalmou-se e pegou no sono. José dormia, depois de ter ouvido séria reprimenda da mãe por ter desobedecido à serva.

     Carlos não podia negar que estava abalado. Maria tentou confortá-lo.

     — Não foi nada. A menina é muito sensível. Logo se acalma.

     — O que me preocupa é tio Fabrício.

     — Bobagem. A menina teve uma alucinação. Estava com medo.

     — Ela descreveu a roupa com que ele estava no dia de sua morte. Como podia saber?

     Maria ficou séria.

     — Então ela viu mesmo?

     — Custa a crer, mas só pode ser isso. Como explicar? O tipo físico ainda podia deixar dúvidas, não ficou claro, mas a roupa... Lembro-me muito bem. Era tal qual ela disse.

     Maria olhou o marido um tanto preocupada.

     — Então o fantasma dele está mesmo no castelo.

     — O que vamos fazer?

     — O melhor &eacut