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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESPINHOS DO MAL / V. C. Andrews
ESPINHOS DO MAL / V. C. Andrews

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESPINHOS DO MAL

 

DAS CINZAS DO MAL, CHRIS E CATHY CONSTRUÍRAM UM LINDO LAR PARA SEUS ESPLÊNDIDOS FILHOS...

Jory, de quatorze anos, era tão bonito, tão delicado. E Bart possuía uma imaginação tão brilhante para um menino de nove anos.  Então, acenderam-se luzes na casa vizinha abandonada. E em breve a Velha Senhora de Negro passou a observá-los com olhos intrometidos, protegida por seu esquisito e velho mordomo. Logo a mulher de manto negro convidou Bart para tomar sorvete com bolinhos e lhe pediu para tratá-la por "Vovó".

E a transformação de Bart começou...

Uma transformação brotada do "livro de segredos" que o esquelético velho mordomo lhe deu... e alimentada pela insinuação de fatos terríveis relativos a seus pais... uma transformação que o levou a cometer atos chocantes de violência, autodestruição e perversidade. E agora, enquanto o menino estremece no limite entre a sanidade e a loucura, seus pais angustiados, seu irmão impotente, uma velha obcecada e vingativa, e o poderoso mordomo aguardam o clímax de um horror que floriu no sótão muitos anos atrás, um horror cujos espinhos ainda estão molhados de sangue e cujas pontas queimam como fogo...

 

No final da tarde, quando as sombras já eram compridas, sentei-me imóvel e silenciosa perto de uma das estátuas de mármore de Paul. Escutei estátuas que sussurravam para mim um passado que eu nunca conseguiria esquecer; faziam insinuações matreiras sobre o futuro que eu tentava ignorar. Cintilando fantasmagoricamente à luz pálida da lua que surgia, arrependimentos fugidios diziam-me que eu poderia e deveria ter agido de modo diferente. Mas sou o que sempre fui: uma pessoa governada por instintos. Parece-me que jamais conseguirei mudar.

Hoje encontrei um fio prateado em meus cabelos, lembrando-me de que em breve eu poderia ser avó, e estremeci. Que tipo de avó seria eu? Que tipo de mãe era eu? Na doçura do crepúsculo, esperei que Chris viesse juntar-se a mim para dizer-me com o azul verdadeiro de seus olhos que não estou esmaecendo, desbotando; que não sou apenas uma flor de papel, mas uma flor de verdade.

Ele passou o braço por cima de meus ombros e recostei a cabeça na posição que me pareceu mais cômoda, ambos sabendo que nossa história está quase terminando e que Bart e Jory nos darão o melhor ou o pior de tudo que ainda está por acontecer. Agora, é a história deles, de Bart e de Jory, e eles a relatarão como a conheceram.

 

JORY

Sempre que Papai não me ia buscar de carro na escola, um ônibus escolar amarelo deixava-me num local isolado e eu pegava minha bicicleta na ravina mais próxima, onde a escondia todas as manhãs antes de tomar o ônibus. Para chegar em casa, era obrigado a percorrer uma estrada estreita e sinuosa, onde não existiam casas, até passar pela enorme mansão abandonada que me atraía invariavelmente o olhar, fazendo-me imaginar quem teria residido ali e por que motivo a haviam abandonado? Ao avistar a mansão, eu diminuía automaticamente a velocidade, sabendo que logo estaria em casa.

A meio hectare daquela mansão ficava nosso lar, isolado e solitário numa estrada que tinha mais curvas que um labirinto de quebra-cabeças, daqueles que conduz o rato ao pedaço de queijo. Residíamos em Fairfax, no Condado Marin, cerca de trinta quilômetros ao norte de São Francisco. No outro lado das montanhas havia uma floresta de sequóias e, também, o oceano. Nossa casa era fria, às vezes lúgubre. O nevoeiro rolava em grandes ondas sopradas pelo vento e muitas vezes encobria o panorama durante o dia inteiro, tornando tudo frio e soturno. O nevoeiro era fantasmagórico, mas também romântico e misterioso.

Por mais que eu gostasse do meu lar, tinha visões vagas e perturbadoras de um jardim sulino cheio de gigantescas magnólias das quais pendiam parasitas barbas-de-velho. Lembrava-me de um homem alto, cujos cabelos escuros já se tornavam grisalhos; um homem que me chamava de filho. Não me recordava tão bem de seu rosto quanto me lembrava da gostosa sensação de calor e segurança que ele me proporcionava. Creio que uma das coisas mais tristes do crescimento e da idade é que ninguém tem tamanho ou força suficiente para pegar-nos no colo, abraçar-nos com força e dar-nos outra vez aquela sensação de segurança.

Chris era o terceiro marido de minha mãe. Meu verdadeiro pai morreu antes de eu nascer; chamava-se Julian Marquet e todos no mundo do balé o conheciam de nome. Quase ninguém fora de Clairmont, na Carolina do Sul, sabia a respeito do Dr. Paul Scott Sheffield, que fora o segundo marido de minha mãe. Naquele mesmo estado sulino, na cidade de Greenglenna, residia minha avó paterna, Madame Marisha. Era ela quem me escrevia uma carta por semana; e todos os anos íamos visitá-la no verão. Parece-me que ela desejava tanto quanto eu que me tornasse o bailarino mais famoso que o mundo já conhecera. E, dessa forma eu provaria a ela, bem como ao resto do mundo, que meu pai não vivera e morrera em vão.

Minha avó não era, absolutamente, uma velha senhora comum com setenta e quatro anos de idade. Outrora fora muito famosa e não permitia que ninguém se esquecesse disso por um segundo que fosse. Era uma regra que eu jamais a chamasse de vovó quando outras pessoas pudessem ouvir e, talvez, adivinhar-lhe a idade. Certa vez, segredou-me que eu poderia chamá-la de Mamãe, mas isso não me pareceu direito, pois eu já possuía uma mãe a quem amava muito. Portanto, chamava-a simplesmente de Madame Marisha, ou Madame M., como todo mundo costumava fazer.

Nossa visita anual à Carolina do Sul era longamente aguardada durante os invernos e rapidamente esquecida logo que estávamos de volta, confortavelmente acomodados em nosso pequeno vale, onde se aninhava nossa comprida casa de sequóia. "Seguros no vale onde o vento não sopra", dizia freqüentemente minha mãe. Na verdade, com demasiada freqüência, como se o sopro do vento a perturbasse profundamente.

Cheguei à alameda curva que dava acesso à nossa casa, estacionei a bicicleta e entrei. Nem sinal de Bart ou de Mamãe. Diabo! Corri à cozinha, onde Emma estava preparando o jantar. Ela passava a maior parte do tempo na cozinha, o que explicava sua silhueta "agradavelmente rechonchuda". Tinha um rosto comprido e azedo, a menos que estivesse sorrindo; felizmente, sorria quase o tempo todo. Era capaz de ordenar que a gente fizesse isto ou aquilo e, com seu sorriso, eliminar o incômodo da tarefa, coisa que meu irmão Bart se recusava a admitir. Eu desconfiava que Emma cuidava mais de Bart que de mim porque ele sempre entornava o leite quando se servia, ou largava o copo no chão. Não conseguia segurar coisa alguma com firmeza, nem evitar esbarrar em tudo, derrubando mesas e abajures. Se havia um fio de extensão em qualquer lugar da casa, Bart sem dúvida tropeçaria nele e cairia  ou derrubaria a batedeira, o liquidificador, o rádio ou qualquer outro aparelho.

— Cadê o Bart? — perguntei a Emma, que descascava batatas para servir com o rosbife que estava no forno.

— Vou-lhe dizer uma coisa, Jory: ficarei satisfeita quando aquele menino permanecer na escola o mesmo tempo que você. Detesto vê-lo entrar na cozinha. Sou obrigada a parar o que estou fazendo para vigiá-lo e adivinhar no que ele vai esbarrar ou tropeçar. Graças a Deus ele tem aquele muro para sentar-se. A propósito, que fazem vocês em cima daquele muro?

— Nada — respondi.

Não queria dizer a ela quantas vezes nos esgueirávamos até a mansão abandonada no terreno vizinho do outro lado do muro e brincávamos lá. Éramos proibidos de entrar na propriedade, mas nossos pais não podiam ver e saber tudo.

— Cadê Mamãe? — indaguei a seguir.

Emma informou que Mamãe voltara cedo para casa, após cancelar sua aula de balé, o que eu já sabia.

— Metade dos alunos estão resfriados — expliquei. — Mas onde está ela?

— Jory, não posso ficar de olho em todo mundo, e ainda saber o que eu estou fazendo. Há poucos minutos, ela disse algo a respeito de ir ao sótão procurar fotos antigas. Por que não sobe até lá para ajudá-la a procurar?

Era a maneira delicada de Emma dizer que eu a estava atrapalhando. Encaminhei-me para a escada do sótão, que ficava escondida na outra extremidade do amplo closet que servia para guardar roupas de cama e mesa, no corredor dos fundos. No momento em que atravessava nossa sala de estar íntima, ouvi a porta da frente abrir-se e fechar-se. Para minha surpresa, avistei Papai absolutamente imóvel no saguão, uma estranha expressão pensativa nos olhos azuis, fazendo-me relutar em chamá-lo e interromper-lhe as reflexões. Parei, indeciso.

Depois de largar a maleta negra de médico, ele se dirigiu a seu quarto. Teve que passar diante da rouparia, cuja porta estava entreaberta. Parou, escutando como eu o leve som da música de balé que descia do sótão. Por que minha mãe estava lá em cima? Dançando lá outra vez? Sempre que eu lhe perguntava por que dançava num lugar tão empoeirado, ela explicava que se sentia "compelida" a dançar lá em cima, a despeito do calor e da poeira. "Não conte nada disso a seu pai", advertira ela diversas vezes. Depois de minhas indagações, ela deixara de ir ao sótão, e agora lá estava novamente.

Desta vez, resolvi subir. Desta vez, ouviria as desculpas que ela apresentaria a ele. Pois Papai a apanharia de surpresa! Nas pontas dos pés, segui-o pela escada estreita e íngreme. Ele parou diretamente sob a lâmpada nua que pendia da cumeeira do sótão. Cravou os olhos em Mamãe, que continuou a dançar como se não o visse ali. Levava na mão um pano de pó e fingia limpar isto ou aquilo, imitando Cinderela e, certamente, não a Princesa Aurora da Bela Adormecida, que era a música que soava no antiquado toca-discos. Puxa! O coração de meu padrasto pareceu saltar-lhe aos olhos. Dava a impressão de estar assustado e pressenti que minha mãe o magoava pelo simples fato de dançar no sótão. Que esquisito! Não entendi o que se passava entre eles. Eu tinha quatorze anos, Bart nove, e estávamos ambos longe, muito longe de sermos adultos. O amor que eles nutriam um pelo outro parecia-me muito diferente do amor que eu via entre os pais dos poucos amigos que possuía. Parecia um amor mais intenso, mais tumultuoso, mais apaixonado. Sempre que julgavam que ninguém os observava, fitavam-se nos olhos e davam a impressão de terem necessidade de estender as mãos para se tocarem quando passavam um pelo outro.

Agora que me tornava adolescente, eu começava a prestar mais atenção ao que se passava entre os modelos mais significativos que possuía. Refleti freqüentemente a respeito das diferentes facetas que tinham meus pais. Uma para as vistas do público, outra para Bart e eu, e a terceira, mais ardorosa, que mostravam apenas um ao outro. (Como poderiam saber que seus dois filhos nem sempre eram bastante discretos para se virarem e saírem como deviam?). Talvez fosse o modo de ser de todos os adultos, especialmente os pais.

Papai continuou a observar fixamente enquanto Mamãe girava em rápidas piruetas que abriam em leque seus compridos cabelos louros, formando um semicírculo. Ela usava malha branca e sapatilhas da mesma cor; fiquei embevecido ao vê-la dançar, manipulando o pano de limpeza como uma espada que dardejava contra os velhos móveis de criança para os quais Bart e eu já crescêramos demais. Espalhados pelo chão e pelas prateleiras estavam brinquedos quebrados, carros e velocípedes, pratos que Mamãe ou Emma tinham partido e que ela pretendia colar algum dia. Com cada golpe do pano de limpeza, ela erguia zilhões de dourados grãos de poeira. Frenéticos e enlouquecidos, eles lutavam para pousar novamente antes que ela voltasse a atacar e os colocasse em debandada.

— Partam! — gritava ela, como uma rainha a seus escravos. — Sumam-se para sempre! Não me atormentem mais!

E continuava a girar, tão depressa que fui obrigado a me voltar para acompanhá-la com os olhos, ou ficaria tonto só de observar. Ela limpou a cabeça, a perna, fazendo fouttes com mais perícia que qualquer bailarina que eu já vira num palco. Selvagem e desvairada, girava cada vez mais rápido! Mais rápido! Seguia o ritmo da música, usando o pano de limpeza como parte da ação, tornando o trabalho caseiro tão dramático que tive ímpetos de tirar os sapatos, pular para o centro do sótão, juntar-me a ela e ser o parceiro que meu verdadeiro pai fora outrora. Entretanto, só consegui permanecer de pé nas sombras arroxeadas e difusas, assistindo a algo que eu pressentia não dever presenciar.

Papai engoliu o nó que se deve ter formado em sua garganta. Mamãe parecia tão linda, tão jovem e suave. Tinha trinta e sete anos, tão velha em idade, mas tão jovem em aparência, tão capaz de ferir-se facilmente por uma palavra menos bondosa! Exatamente como qualquer bailarina de dezesseis anos no seu curso de dança.

— Cathy! — exclamou Papai, arrancando a agulha do disco de modo que a música cessou repentinamente. — PARE! O que está fazendo?

Ela escutou e sacudiu os braços esguios e alvos numa imitação de medo, aproximando-se dele com os passinhos chamados bourrées. Mas apenas por um ou dois segundos, antes de recomeçar uma série de piruetas em torno dele, circundando-o e limpando-o com o pano de pó!

— PARE COM ISSO! — berrou ele, agarrando o pano e jogando-o para longe.

Segurou-a pela cintura, prendendo-lhe os braços ao longo do corpo, enquanto ela corava até ficar com o rosto muito vermelho. Ele afrouxou o abraço o suficiente para que os braços dela batessem como asas quebradas de um pássaro, até que ambas as mãos se ergueram até o pescoço. Acima das alvas mãos cruzadas, os olhos azuis de minha mãe se tornaram grandes e muito escuros. Seus lábios cheios começaram a tremer e devagar, muito devagar, com terrível relutância, ela foi obrigada a olhar na direção apontada pelo dedo de Papai. Também olhei e fiquei surpreso ao ver duas camas armadas na parte do sótão que em breve seria remodelada. Papai prometera a ela que teríamos um quarto de recreação lá em cima. Mas duas camas gêmeas no meio de todos aqueles trastes imprestáveis? Por que? Então, Mamãe disse em voz rouca e assustada:

— Chris? Está em casa? Não costuma chegar tão cedo...

Ele a pegara em flagrante e senti-me aliviado. Agora, ele poderia dar jeito nela, dizer-lhe que não voltasse a dançar naquele ambiente seco e poeirento capaz de fazê-la desmaiar. Até mesmo eu pude perceber que ela encontrava dificuldades para arranjar alguma desculpa.

— Cathy, eu trouxe aquelas camas para cá, mas como conseguiu armá-las? — quis saber Papai. — Onde arranjou colchões?

Então sobressaltou-se pela segunda vez, ao avistar a cesta de piquenique entre as duas camas.

— Cathy! — rugiu, olhando-a com fúria. — A história tem que se repetir? Não podemos aprender e nos beneficiarmos com os erros alheios? Precisamos fazer tudo novamente?

Novamente? De que ele estava falando?

— Catherine — prosseguiu Papai no mesmo tom frio e duro — não fique aí parada, fazendo-se de inocente, como uma criança má apanhada roubando. Por que aquelas duas camas estão armadas aqui, arrumadas com lençóis limpos e cobertores novos? Por que a cesta de piquenique? Já não vimos o bastante esse tipo de cesta pelo resto de nossas vidas?

E ali estava eu, pensando que ela arrumara as camas para que pudéssemos descansar depois de dançarmos, como fizéramos algumas vezes. E a cesta de piquenique era, afinal, apenas mais uma cesta como tantas outras. Aproximei-me um pouco deles e me ocultei atrás de um pilar que subia até uma das vigas. Havia algo triste e doloroso entre eles; algo novo, fresco, como uma ferida que se recusasse a cicatrizar. Minha mãe parecia envergonhada e repentinamente sem jeito. O homem que eu chamava de Papai estava confuso; pude perceber que desejava tomá-la nos braços, perdoá-la.

— Cathy, Cathy — implorou, angustiado. — Não seja como ela em tudo!

Mamãe ergueu bem a cabeça, jogou os ombros para trás e, com orgulho arrogante, encarou-o até que ele baixou os olhos. Afastou do rosto os cabelos compridos e sorriu para encantá-lo. Estaria fazendo tudo aquilo para obrigá-lo a parar de fazer perguntas que ela não desejava responder? Senti um frio estranho na obscuridade embolorada do sótão. Um arrepio percorreu-me a espinha, dando-me vontade de fugir e me esconder. E envergonhando-me de espionar; Bart gostava disso, mas eu não. Entretanto, como poderia eu fugir sem atrair a atenção deles? Tinha que permanecer no esconderijo.

— Olhe para mim, Cathy. Você já não é a ingênua jovem e delicada. E isto não é um brinquedo. Não existe motivo para aquelas camas estarem aqui. E a cesta de piquenique só serve para aumentar meus temores. Que diabo anda você planejando?

Ela abriu os braços como se fosse abraçá-lo, mas ele a empurrou para longe e continuou a falar:

— Não tente bancar a sedutora quando estou quase vomitando de nojo. Todos os dias eu me indago como sou capaz de voltar para casa e não me sentir farto de você; como continuo a sentir o que sinto há tantos anos, mesmo depois de tudo o que aconteceu. Não obstante, ano após ano continuo a amá-la, a precisar de você, a confiar em você. Não transforme meu amor em algo horrível!

A fisionomia de minha mãe toldou-se, confusa. Tenho certeza de que o mesmo ocorreu comigo. Ele não a amava de verdade? Era isso que queria dizer? Mamãe olhou outra vez para as camas, como se espantada por vê-las ali.

— Ajude-me, Chris! — exclamou, engasgada, aproximando-se dele e tornando a abrir os braços.

Ele a afastou, sacudindo a cabeça. Ela implorou:

— Por favor, não balance a cabeça, não se porte como se não compreendesse! Não me lembro de ter comprado aquela cesta, palavra de honra! Na outra noite, sonhei que vim aqui preparar aquelas camas, mas quando subi hoje e avistei ali, pensei que você fosse o responsável.

— CATHY! EU NÃO COLOQUEI AS CAMAS ALI!

— Saia das sombras. Não consigo vê-lo no lugar onde está.

Ela ergueu as mãos pequenas e brancas, parecendo afastar teia de aranha invisíveis. Em seguida fitou as mãos como se estas a houvessem traído; ou estaria mesmo vendo teias de aranha presas nos dedos. Assim como Papai, tornei a olhar em volta. Nunca antes o sótão estivera tão limpo. O assoalho fora varrido e encerado, as caixas de trastes velhos cuidadosamente empilhadas. Mamãe tentara tornar o ambiente acolhedor, pendurando nas paredes lindas fotografias de flores. Papai fitava Mamãe como se estivesse louca. Imaginei o que ele estaria pensando e por que motivo não conseguia atinar com o que a afligia, pois era o melhor médico do mundo. Estaria tentando decidir se ela apenas fingia ter-se esquecido? Ou aquela expressão vaga e perturbada nos aterrorizados olhos de Mamãe significava para ele algo diferente? Deve ter sido isto, pois ele disse baixinho, num tom bondoso:

— Cathy, não precisa parecer amedrontada. Você já não está mais nadando num oceano de falsidade, ou  irremediavelmente arrastada por um redemoinho. Não se está afogando. Não está afundando, Não está sofrendo um pesadelo. Não precisa agarrar-se a pedaços de palha quando me tem a seu lado.

Então tomou-a nos braços e ela se deixou cair de encontro a ele, arquejando como se quisesse evitar afogar-se.

— Você está bem, querida — disse Papai, afagando-lhe as costas, tocando-lhe o rosto, enxugando as lágrimas que começavam a correr.

Ergueu-lhe carinhosamente o queixo antes de baixar lentamente os lábios para os dela. O beijo durou uma eternidade, fazendo-me prender a respiração.

— A avó está morta. Foxworth Hall incendiou-se até os alicerces.

Foxworth Hall? O que era aquilo?

— Não, Chris. Escutei-a subindo a escada há pouco tempo. E você sabe que ela tem medo de lugares pequenos, confinados... como poderia subir a escada?

— Você estava dormindo quando a escutou?

Estremeci. De que diabo estavam falando? De que avó?

— Sim — murmurou Mamãe, os lábios movendo-se sobre o rosto de Papai. — Creio que tive pesadelos depois de tomar banho e deitar-me no pátio de nosso quarto. Nem mesmo me recordo de haver subido até aqui. Não sei por que vim, ou por que dancei aqui, a menos que esteja ficando louca. Às vezes, sinto que sou ela e me odeio por isso!

— Não, você não é ela. Mamãe está a muitos quilômetros de distância, onde jamais nos poderá magoar novamente. A Virgínia fica a cinco mil quilômetros daqui e o passado já passou, acabou. Sempre que estiver em dúvida, faça-se uma pergunta: se conseguimos sobreviver ao pior, não é razoável que consigamos suportar o melhor?

Tive, ao mesmo tempo, ímpetos de fugir e de ficar. Senti que eu também me afogava no mar de falsidade deles, apesar de não entender o que diziam. Vi duas pessoas, meus pais, como estranhos que eu não conhecia: mais jovens, menos fortes, menos confiáveis.

— Beije-me — murmurou Mamãe. — Acorde-me e coloque em fuga os fantasmas. Diga que me ama e sempre me amará, não importa o que eu fizer.

Papai fez tudo que ela pediu. Quando conseguiu convencê-la, ela quis dançar com ele. Recolocou a agulha no disco e a música voltou a encher o ambiente. Encolhido, sentindo-me rígido e  minúsculo, observei Papai tentar os difíceis passos de balé que teriam sido tão fáceis para mim. Ele não possuía suficiente perícia ou graça para fazer par com uma bailarina do quilate de Mamãe. Era embaraçoso até mesmo, vê-lo tentar. Logo ela trocou o disco, colocando uma música que ele era capaz de dançar.

Dançando no escuro,

Até a música acabar,

Estamos dançando no escuro...

Agora Papai estava confiante, segurando-a contra si, os rostos colados enquanto ambos deslizavam pelo sótão.

— Tenho saudade das flores de papel que costumavam balançar quando passávamos por elas dançando... — disse ela baixinho.

— E, lá embaixo, os gêmeos assistiam à pequena televisão em preto e branco no canto do quarto — replicou Papai, os olhos fechados, a voz suave e sonhadora. — Você tinha apenas quatorze anos e eu já a amava, para minha grande vergonha.

Vergonha? Por quê? Ele nem mesmo a conhecia quando ela tinha apenas quatorze anos. Franzi a testa,  procurando lembrar-me de onde e quando se haviam conhecido. Mamãe e sua irmã caçula, Carrie, tinham fugido de casa depois que os pais morreram num acidente de automóvel. Haviam tomado um ônibus para o sul e uma bondosa negra chamada Henny as levara à casa do patrão, o Dr. Paul Sheffield, que generosamente as acolhera e lhes dera um bom lar. Mamãe voltou a estudar balé e conheceu Julian Marquet, o homem que era meu pai. Nasci pouco depois que ele morreu. Então, Mamãe se casou com Papai Paul. E Papai Paul era o pai de Bart. Passou-se muito, muito tempo antes que ela conhecesse Chris, que era o irmão mais moço de Papai Paul. Portanto, como poderia ele amá-la quando ela tinha apenas quatorze anos? Haviam mentido para nós? Oh, diabo, oh, diabo...! Agora, porém, a dança terminou e a discussão recomeçou:

— Muito bem, sente-se melhor, voltou ao normal? — disse Papai. — Quero que prometa solenemente que se algo me acontecer, seja amanhã ou daqui a muitos anos, jure por Deus que jamais ocultará Bart e Jory no sótão a fim de ficar livre para arranjar outro casamento!

Atordoado, vi Mamãe erguer repentinamente a cabeça antes de dizer com voz engasgada:

— É isso que pensa de mim? Maldito seja por me julgar tão semelhante a ela! Talvez eu tenha armado as camas. Talvez tenha trazido a cesta para cá. Mas nunca me passou pela cabeça... Chris, você sabe que eu seria incapaz disso!

Isso o que? O que? Ele a obrigou a jurar. Forçou-a realmente a pronunciar as palavras enquanto os olhos azuis o encaravam acesos de raiva. Molhado de suor, com o corpo doendo, senti-me furioso e terrivelmente desiludido com Papai, que deveria pensar de outro modo. Mamãe não faria aquilo. Não podia fazer! Ela me amava. E amava Bart, também. Embora às vezes o fitasse com olhos toldados, nunca, jamais nos ocultaria no sótão.

Papai deixou-a no centro do sótão e avançou para pegar a cesta de piquenique. Em seguida, destrancou a janela, abriu a tela e atirou a cesta para longe. Observou-a cair no solo antes de virar-se para tornar a encarar raivosamente Mamãe:

— Talvez estejamos aumentando os pecados de nossos pais ao vivermos juntos como vivemos. Talvez, no final, tanto Jory como Bart venham a sofrer, portanto, esta noite, quando estivermos na cama, não me venha com aquela conversa de adotarmos outra criança. Simplesmente não temos o direito de envolver outra criança na embrulhada que criamos! Não entende, Cathy, que ao armar aquelas camas aqui em cima você planejava inconscientemente o que fazer, caso nosso segredo seja descoberto?

— Não — protestou ela, abrindo as mãos num gesto impotente. — Não faria isso. Seria incapaz de...

— Você precisa falar sério! — bradou ele. — Não importa o que acontecer, nós... ou melhor, você não colocará seus filhos no sótão para salvar-se ou para me salvar.

— Odeio você por julgar que eu o faria!

— Estou procurando ser paciente. Estou tentando acreditar em você. Sei que ainda tem pesadelos. Sei que ainda é atormentada por tudo que aconteceu quando éramos jovens e inocentes. Entretanto, precisa amadurecer o bastante para encarar e honestamente. Ainda não aprendeu que muitas vezes o subconsciente mostra o caminho da realidade?

Voltou para abraçá-la, reconfortá-la e beijá-la, amaciando a voz, enquanto ela se agarrava desesperadamente a ele. (Por que precisava sentir-se tão desesperada?)

— Cathy, meu coração, afaste de si os temores instilados pela cruel avó. Ela desejava que acreditássemos no inferno e nos eternos tormentos da vingança. Não existe inferno a não ser o que nós mesmos criamos para nós. Não existe céu senão o que construímos juntos. Não destrua minha crença, meu amor, com seus atos "inconscientes". Não sei viver sem você.

— Então, não vá visitar sua mãe neste verão.

Ele ergueu a cabeça e olhou por cima de Mamãe, a fisionomia cheia de sofrimento. Escorreguei-me silenciosamente para o chão, sentando-me para observá-los. O que se passava? Por que me sentia subitamente amedrontado?

 

BART

— "E, no sétimo dia, Deus descansou" — leu Jory enquanto terminei de alisar firmemente a terra sobre as sementes de amor-perfeito plantadas em homenagem ao aniversário de minha tia Carrie e meu tio Cory, no dia cinco de maio. Os pequenos tios que eu não chegara a conhecer. Ambos mortos há muito, muito tempo. Papai morreu antes que eu nascesse. Em nossa família as pessoas morrem com facilidade. (Imagino por que gostavam tanto de amores-perfeitos? Pequenas flores insignificantes, com caras de lua-cheia.) Gostaria que Mamãe não considerasse tão importante prestarmos homenagem às pessoas mortas, em suas datas natalícias.

— Sabe do que mais? — perguntou Jory, como se nove anos fosse uma idade imbecil e ele já fosse um grande adulto. — No começo, quando Deus criou Adão e Eva, eles viviam no Jardim do Éden sem usar qualquer tipo de roupas. Então, um dia, uma malvada serpente falante lhes disse que era pecado andarem nus, de modo que Adão colocou uma folha de parreira.

Puxa... gente nua que não sabia que nudez era pecado!

— O que colocou Eva? — perguntei, olhando em volta na esperança de avistar alguma folha de parreira.

Jory continuou a ler naquele tom cantante que me levava de volta aos velhos tempos em que Deus cuidava de todo mundo, até mesmo de pessoas nuas que conseguiam conversar com serpentes. Jory se afirmava capaz de colocar as histórias bíblicas em música "mental", o que me enraivecia e amedrontava; ele dançava ao som de música "mental" que eu não conseguia escutar! Fazia-me sentir estúpido, invisível, mais idiota que maluco.

— Jory, onde encontramos folhas de parreira?

— Por quê?

— Se eu tivesse uma, tiraria todas as roupas e usaria a folha.

Jory riu.

— Essa é boa, Bart! Só existe um modo de um menino usar uma folha de parreira e você ficaria encabulado.

— Não ficaria!

— Ficaria, sim!

— Nunca me encabulo!

— Então, como pode saber o que é? Além disso, alguma vez você viu Papai usar uma folha de parreira?

— Não... — mas refleti que, desde que jamais vira uma folha de parreira, como poderia saber se já vira ou não Papai usando uma? Comentei isso com meu irmão.

— Oh, você saberia! — respondeu ele, zombando de mim com outra gargalhada.

Depois sorriu, pulando para galgar todos os degraus de mármore num longo salto que não pude deixar de admirar. Fui obrigado a acompanhá-lo à distância. Gostaria de ser gracioso como ele. Gostaria de poder dançar e encantar todo mundo, para que gostassem de mim. Jory era maior, mais velho, mais esperto... mas... espere um momento! Talvez eu conseguisse tornar-me mais esperto, já que não podia ser maior que ele. Minha cabeça era grande. Tinha que haver um cérebro grande dentro dela. Com o tempo, eu ficaria mais alto, alcançaria Jory e o ultrapassaria. Ora, eu ficaria mais alto que Papai; mais alto que o gigante na história "João e o pé de feijão" e aquele gigante era mais alto que qualquer pessoa! Nove anos... eu gostaria de ter quatorze.

Lá estava Jory, sentado no último degrau, esperando que eu o alcançasse. Insultuoso. Detestável. Deus certamente não fora generoso comigo ao distribuir coordenação neuro-muscular. Lembrei-me de cinco anos antes, quando eu tinha apenas quatro, e Emma deu a cada um de nós um pintinho todo coberto de macia penugem amarela, que não parava de piar. Eu nunca sentira algo tão gostoso em toda a minha vida. Lá estava eu, amando o pintinho, segurando-o, farejando-lhe o cheiro de bebê antes de colocá-lo carinhosamente no chão e macacos me mordam se o pinto não caiu morto!

— Você apertou — disse Papai, que conhecia aqueles assuntos. — Preveni-o para não segurar com força. Pintinhos são frágeis e devemos segurá-los com cuidado. Têm o coração muito próximo à superfície... portanto, da próxima vez tome muito cuidado com as mãos, está bem?

Pensei que Deus fosse fulminar-me ali mesmo, embora, em última análise, a maior parte da culpa lhe coubesse. Não era minha culpa se ele não me fizera com as terminações nervosas chegando até a superfície da pele, como todo mundo. Não era minha culpa se eu não sentia dor como todo mundo; era dele! Então estremeci, com medo que ele me fizesse alguma coisa. Mas quando ele me perdoou, uma hora depois, fui ao pequeno cercado onde o pintinho de Jory andava de um lado para outro, solitário. Peguei-o, dizendo-lhe que agora ele tinha um amigo. Rapaz, como nos divertimos, um correndo atrás do outro. De repente, apenas duas horas de brincadeira... o segundo pinto também caiu morto! Detesto coisas rígidas e frias. Por que ele desistiu tão depressa?

— O que há com você? — gritei. — Não apertei! Minhas mãos não o seguraram! Tive cuidado... portanto, pare de fingir-se de morto e levante-se, ou Papai vai pensar que o matei de propósito!

Certa vez eu vira Papai tirar um homem do mar e salvar-lhe a vida bombeando a água para fora e soprando ar para dentro, de modo que fiz o mesmo com o pinto. Ele continuou morto. Em seguida, massageei-lhe o coração; depois, rezei. Ainda assim, ele permaneceu morto. Eu não prestava. Não servia para nada. Não conseguia permanecer limpo. Emma dizia que vestir-me com roupas limpas era desperdiçar seu precioso tempo. Eu não conseguia segurar um prato ao secá-lo. Brinquedos novos se partiam pouco depois de me chegarem às mãos. Sapatos novos ficavam parecendo velhos dez minutos depois de estarem em meus pés. Não era minha culpa se eles se arranhavam tão depressa. As pessoas simplesmente não sabiam fabricar sapatos bons, à prova de arranhões. Nunca houve dia em que meus joelhos não tivessem cascas de feridas ou estivessem cobertos de curativos. Quando jogava beisebol, eu tropeçava e caía entre as bases. Minhas mãos não sabiam como apanhar corretamente a bola no ar, de modo que meus dedos se dobravam para trás e cheguei a fraturar dois deles. Caí de árvores três vezes. Uma vez quebrei o braço direito, outra o esquerdo. Na terceira vez, sofri apenas arranhões. Jory nunca quebrou nada. Não era de espantar que Mamãe sempre nos dissesse para não irmos à propriedade vizinha, à imensa casa velha com tantas escadas, pois sabia que mais cedo ou mais tarde eu rolaria pelos degraus e partiria todos os ossos do corpo!

— Que pena que você não tenha muita coordenação — murmurava Jory, levantando-se em seguida para gritar: — Bart, pare de correr como uma menina! Incline o corpo para frente, use as pernas como êmbolos! Ponha todo o coração nisso e vá em frente! Esqueça esse negócio de cair! Se você me alcançar, dou-lhe minha bola super veloz!

Rapaz, a coisa que eu mais desejava no mundo era aquela bola! Jory sabia atirá-la em curva. Quando a jogava contra latas arrumadas em cima do muro, acertava-as uma após outra. Eu nunca atingia o alvo visado, mas acertava muita coisa que nem via, como vidraças e pessoas.

— Não quero mais sua velha bola super veloz — arquejei.

Mas eu a desejava. Era melhor que a minha; estavam sempre dando a ele coisas melhores que as minhas. Jory me olhou compadecido, dando-me vontade de chorar. Eu detestava comiseração!

— Pode ficar com ela, mesmo se não ganhar a corrida. Eu aceitarei a sua. Não pretendo ofender seus sentimentos. Desejo apenas que pare de ter medo de fazer tudo errado. Então talvez acerte... às vezes, ter raiva ajuda a vencer.

Ele sorriu e acho que se Mamãe estivesse por perto acharia que o brilho daqueles dentes alvos era encantador. Meu rosto fora feito para ficar carrancudo.

— Não quero sua bola velha — repeti, recusando-me a ser conquistado por alguém bonito, gracioso, décimo-quarto membro de uma longa linhagem de bailarinos russos que se casavam com bailarinas.

O que havia de tão especial nos bailarinos? Nada, nada! Deus sorrira para as pernas de Jory, fazendo-as bonitas, enquanto as minhas pareciam gravetos nodosos sempre prontos para sangrar.

— Você me detesta, não é? Quer que eu morra, não quer?

Ele me lançou um prolongado olhar esquisito.

— Não, não o detesto e não desejo que morra. Até gosto que seja meu irmão, embora desajeitado e dedo-duro.

— Muitíssimo obrigado.

— Sim... não há de que. Vamos olhar a casa.

Todos os dias depois da escola íamos ao alto muro branco e nos sentávamos nele; algumas vezes, entrávamos no casarão abandonado. Logo as aulas terminariam e nada teríamos a fazer o dia inteiro senão brincar. Era agradável saber que o casarão estava ali, à nossa espera. A velha casa assombrada, com muitos quartos, corredores, cheios de esquinas, baús abarrotados de tesouros escondidos, tetos altos, quartos de formatos esquisitos, emendados uns nos outros, às vezes uma série de aposentos que pareciam esconder-se uns após outros. Lá viviam aranhas que teciam teias nos lustres extravagantes. Camundongos corriam por toda parte, tendo centenas de filhotes para cuidar. Insetos de jardim invadiam a casa, trepavam pelas paredes e andavam pelo chão. Pássaros desciam pelas chaminés e batiam loucamente as asas ao procurarem uma saída. Às vezes, esbarravam nas paredes e vidraças e nós os encontrávamos mortos, coitadinhos. Ocasionalmente, Jory e eu chegávamos em cima da hora e abríamos portas e janelas, para que pudessem escapar.

Jory achava que alguém deveria ter abandonado o velho casarão às pressas. Metade da mobília ainda estava ali,  acumulando poeira e mofo, exalando odores desagradáveis que faziam Jory franzir o nariz. Eu farejava o ar, procurando adivinhar o significado daquele cheiro. Era capaz de permanecer imóvel e quase escutar os fantasmas conversarem; do teto desciam leves murmúrios, como se os fantasmas desejassem sussurrar segredos aos nossos ouvidos.

— Nunca diga a ninguém que os fantasmas falam com você, pois pensarão que está maluco — advertia Jory.

Já tínhamos uma pessoa louca na família: a mãe de Papai, que estava internada num hospital de loucos na Virgínia. Todo verão íamos ao Leste visitá-la e ver as velhas sepulturas da família. Mamãe não entrava no comprido prédio de tijolos onde pessoas bem vestidas passeavam pelos gramados verdejantes; ninguém suspeitaria de que eram loucas se os enfermeiros trajados de branco não se mantivessem por perto delas. Todo verão, quando Papai voltava de sua visita à mãe, Mamãe perguntava:

— Então, ela está melhor?

E Papai parecia triste ao responder:

 — Não, não houve grande progresso, mas haveria, se você a perdoasse.

Aquilo sempre abalava Mamãe, que agia como se desejasse ver aquela avó presa no hospício pelo resto da vida.

— Ouça-me bem, Christopher Doll! — replicava Mamãe em tom áspero. — É exatamente o contrário, lembra-se? Ela é quem deveria ajoelhar-se e implorar, deveria suplicar o nosso perdão!

No último verão, não fôramos ao Leste para as visitas de costume. Eu detestava as velhas sepulturas, a velha Madame Marisha com suas roupas negras e o coque de cabelos pretos e brancos e, mesmo agora, pouco me importava se duas velhas do Leste nunca mais recebessem visitas nossas. E quanto às pessoas que estavam naqueles túmulos, que lá ficassem, sem flores! Havia gente morta demais em nossa vida, complicando-a.

— Vamos, Bart! — chamou Jory.

Já trepara na árvore em nosso lado do muro e estava sentado num galho, à minha espera. Consegui subir na árvore e me acomodei ao lado dele, que insistiu para que eu me encostasse no tronco por precaução.

— Sabe de uma coisa? — indagou Jory, com ar sonhador. — Algum dia ainda comprarei para Mamãe uma casa grande como aquela. De vez em quando, ouço-a conversar com Papai a respeito de casas grandes, de modo que acho que ela deseja possuir uma casa maior que a nossa.

— Sim, eles conversam mesmo a respeito de casas grandes.

— Eu gosto mais da nossa — disse Jory, enquanto comecei a bater com os calcanhares contra o muro, que tinha tijolos sob o reboco branco descascado.

Mamãe comentara que os tijolos aparecendo sob o reboco acrescentavam ao muro "um interessante contraste de textura". E eu fazia o possível para tornar o muro mais interessante. Mas era verdade que numa casa grande, como aquela no terreno vizinho, as pessoas podiam perder-se no escuro e passar dias vagando pelos aposentos e corredores. Nenhum dos banheiros funcionava. Não havia água. Pias malucas sem água, um estúpido depósito de frutas sem frutas e uma adega sem garrafas.

— Ora, seria bom se uma grande família viesse morar ali, não é mesmo? — disse Jory, desejando, como eu, que pudéssemos ter muitos e muitos amigos com os quais brincarmos. Quando voltávamos da escola, tínhamos apenas um ao outro.

— Se tivessem dois meninos e duas meninas, seria perfeito — continuou Jory, sonhador. — Seria ótimo termos todas as garotas morando ao lado.

Ótimo, claro. Aposto que ele rezava para que Melodie Richarme se mudasse para o velho casarão. Então, poderia vê-la todos os dias, abraçá-la e beijá-la, como eu o vira fazer algumas vezes. Garotas! Elas me enojavam.

— Detesto garotas!... Quero meninos! — protestei, amuado.

Jory riu, respondendo que eu tinha apenas nove anos e que logo gostaria mais das garotas que dos meninos.

— Por que os braços de Melodie são ricos?[1]

— Não entende que está parecendo um idiota? O sobrenome dela não quer dizer nada.

Exatamente quando eu ia replicar que o idiota era ele, porque todos os sobrenomes deviam ter um significado; do contrário, para que usá-los? Dois caminhões chegaram à alameda de acesso à velha mansão. Puxa! Ninguém ia lá senão nós dois. Permanecemos sentados na árvore, observando os operários apontarem de um lado para outro, fazendo isto e aquilo. Um deles subiu no telhado cor-de-laranja que Mamãe dizia chamar-se "de telhas romanas" e começou a examiná-lo. Outros entraram na casa com escadas e latas que pareciam conter tinta. Alguns carregavam enormes rolos de papel de parede. Ainda outros examinavam as janelas e alguns verificavam os arbustos e árvores.

— Ei! — exclamou Jory, parecendo muito perturbado. — Alguém deve ter comprado a casa. Aposto que virão morar nela quando a reforma terminar.

Eu não queria vizinhos que perturbassem a privacidade de Mamãe e Papai. Eles sempre comentavam que era bom não ter vizinhos próximos para "perturbar nossa privacidade".

Ficamos sentados na árvore até o escurecer. Depois, voltamos à nossa casa e não comentamos o assunto com nossos pais, pois quando dizemos algo em voz alta significa que é verdade. Os pensamentos não contam.

O dia seguinte foi domingo e fomos fazer um piquenique em Stinson Beach. Então, chegou a tarde de segunda-feira, Jory e eu tornamos a subir no muro, observando toda a atividade na propriedade vizinha. O dia estava frio e havia nevoeiro, mas  conseguíamos enxergar o bastante para nos incomodarmos. Não mais poderíamos ir à velha casa e tê-la só para nós dois. Onde brincaríamos agora?

— Ei, vocês aí, garotos! — gritou, em outro dia, um homem corpulento, quando estávamos apenas observando. — O que fazem aí em cima?

— Nada! — berrou Jory.

(Eu nunca falava com desconhecidos. Jory sempre zombava de mim, comentando que eu nunca falava muito, exceto comigo mesmo).

— Não me digam que não estão fazendo nada, quando eu os vejo daqui! Esta casa é propriedade particular, portanto, mantenham-se fora do terreno ou terão que acertar contas comigo!

Era um homem de verdade, com aparência feroz; suas roupas de trabalho eram surradas e sujas. Quando se aproximou, vi os dois maiores pés de minha vida, e as botas mais sujas. Fiquei satisfeito pelo muro ter três metros de altura, colocando-nos em vantagem sobre ele.

— Claro que brincamos um pouco na casa — disse Jory, que não tinha medo de ninguém. — Mas não estragamos nada. Deixamos tudo como encontramos.

— Bem, de agora em diante, tratem de ficar longe! — rosnou o homem, olhando raivosamente para Jory e, depois, para mim. — Uma ricaça comprou a casa e não quer moleques por aqui. E não pensem que poderão abusar por ela ser uma velha e morar sozinha, pois vai trazer os criados!

Criados. Puxa!

— Os ricos podem ter tudo que querem — murmurou o gigante ao afastar-se.

Faça isto, faça aquilo, quero isso para ontem... Dinheiro... oh, meu Deus, o que eu não daria para ter dinheiro! Tínhamos apenas Emma e não éramos realmente ricos. Jory dizia que Emma era uma tia solteirona, não propriamente uma parenta, nem empregada. Para mim, ela era apenas alguém que eu conhecera a minha vida inteira, alguém que não gostava de mim tanto quanto gostava de Jory. Eu também não gostava dela, de modo que pouco me importava.

Semanas se passaram. As aulas  terminaram. Os operários continuavam no casarão. A essa altura, Mamãe e Papai já haviam percebido e não estavam muito satisfeitos com vizinhos que eles não pretendiam visitar, nem acolher em nossa casa. Tanto Jory como eu procurávamos adivinhar por que motivo nossos pais não desejavam receber amigos.

— Por amor — sussurrava Jory. — Ainda estão em lua-de-mel. Lembre-se de que Chris é o terceiro marido de Mamãe e eles ainda não se cansaram um do outro. Ainda estão florescendo.

Florescendo? Eu não via flor nenhuma. Jory passara para o penúltimo ano do ginásio com distinção e louvor. Eu passara para a quinta série aos trancos e barrancos. Detestava a escola. Detestava aquela velha mansão que, agora, parecia nova. Os bons tempos dos fantasmas tinham terminado para sempre; nunca mais nos divertiríamos lá.

— Trataremos de aguardar uma oportunidade de nos esgueirarmos até lá para ver a tal velha — disse Jory num sussurro, a fim de que os jardineiros que aparavam os arbustos e podavam as árvores não nos escutassem.

A velha mansão possuía uma extensa área de terra, dez ou mais hectares. Isto exigia muito trabalho de limpeza, uma vez que os operários no telhado estavam sempre deixando cair coisas. O quintal estava entulhado de papéis, pregos velhos, pedaços de madeira restantes da reforma, além dos detritos soprados pelo vento através do gradil de ferro que separava a alameda de acesso do trecho de estrada que Jory chamava de "recanto dos namorados".

O detestável mestre-de-obras catava latas de cerveja vazias ao se encaminhar para nós, carrancudo apenas por ver-nos, quando nada fazíamos de errado.

— Quantas vezes terei que preveni-los, garotos? — berrou ele. — Não me obriguem a repetir!

Apoiando os enormes punhos na cintura, fitou-nos raivosamente.

— Já lhes disse que não subam no muro... agora, fora daí!

Jory relutava em descer do muro quando não havia mal algum em apenas ficarmos sentados e observarmos.

— Estão surdos? — gritou o homem.

Num relance, o rosto de Jory se transformou de bonito em malvado.

— Não! Não estamos surdos! Moramos aqui. O muro fica na divisa das propriedades; portanto, é tão nosso quanto dela. É o que afirma Papai. Assim, ficaremos aqui sentados e olharemos pelo tempo que desejarmos. E não se atreva a nos mandar "fora daqui" outra vez!

— Atrevidinho, hem?

E o homem se afastou sem ao menos olhar para mim, que também era atrevido... por dentro.

 

APRESENTAÇÕES

Hora do café da manhã. Mamãe conversava com Papai a respeito de uma das suas bailarinas. Bart, sentado em frente a mim, carrancudo, remexia o cereal frio no prato. Não gostava muito de comer, exceto guloseimas que Papai dizia lhe fazerem mal.

— Chris, acho que Nicole não escapará desta — disse Mamãe, preocupada, franzindo a testa. — É terrível que os automóveis machuquem tanta gente. E ela tem uma filhinha com apenas dois anos de idade. Visitei-a a poucas semanas. Francamente, lembrou-me muito Carrie quando tinha essa idade.

Papai meneou distraidamente a cabeça, o olhar ainda fixo no jornal matutino. A cena entre eles no sótão ainda não me saía da cabeça, especialmente à noite, quando eu não conseguia dormir. Às vezes, sentava-me sozinho em meu quarto e tentava recordar-me do que permanecia oculto nos escuros recessos de minha mente. Algo importante, eu tinha certeza; mas não conseguia lembrar. Mesmo enquanto os ouvia falando de Nicole e sua filhinha, eu pensava naquela cena no sótão, tentando imaginar-lhe o significado e quem seria a avó de quem eles tinham medo. Além disso, como poderiam conhecer-se quando Mamãe tinha apenas quatorze anos?

— Chris! — implorou Mamãe, seu tom obrigando Papai a deixar de lado a seção de esportes do jornal. — Não me escuta quando estou falando. Nicole não tem parentes... Ouviu isto? Nem mesmo algum tio ou tia que cuide de Cindy se ela morrer. E você sabe que ela nunca se casou com aquele rapaz a quem amava.

— Hummm — respondeu Papai, antes de morder a torrada. — Não se esqueça de regar o gramado hoje.

Ela franziu a testa, realmente aborrecida. Papai não a escutava como eu.

— Acho que foi um grande erro vendermos a casa de Paul e nos mudarmos para cá. As estátuas dele simplesmente não parecem combinar com este cenário.

Aquilo chamou a atenção de Papai.

— Cathy, juramos não ter arrependimento de nada. E existem na vida coisas mais importantes que possuir um jardim tropical onde as plantas crescem à vontade.

— À vontade? Paul tinha o jardim mais bem cuidado que conheci!

— Você bem sabe o que quero dizer.

Silêncio por um instante. Mamãe voltou ao assunto de Nicole e da menina de dois anos que iria para um orfanato se a mãe morresse. Papai replicou que certamente alguém se apressaria em adotar a criança, caso Nicole morresse. Levantou-se para vestir o paletó esporte.

— Pare de olhar a coisa pelo lado mais negro. Nicole talvez se recobre. É jovem, forte, basicamente saudável. Mas, se está tão preocupada, passarei por lá e conversarei com os médicos que cuidam dela.

— Papai — disse Bart, que passara a manhã inteira carrancudo. — Ninguém aqui conseguirá me obrigar a ir ao Leste neste verão! Não vou e ninguém pode me obrigar!

— É verdade — respondeu Papai, dando um peteleco no queixo de Bart e remexendo-lhe brincalhonamente os cabelos escuros já despenteados. — Ninguém pode obrigar você a ir. Apenas espero que você prefira ir conosco a ficar em casa sozinho.

Inclinou-se para beijar Mamãe...

— Dirija com cuidado.

Todo dia Mamãe dizia a mesma coisa quando Papai saía de casa. Ele sorriu e prometeu que guiaria com cuidado. Seus olhos se encontraram, dizendo coisas que eu até certo ponto conseguia entender.

— Era uma vez uma velha que morava num chinelo — cantarolou Bart. – Tinha tantos filhos que já não sabia o que fazer...

— Bart, precisa ficar aí sentado, fazendo bagunça? Se não vai terminar de comer, peça licença e saia da mesa.

— Peter, Peter, Comedor de Abóboras, tinha uma esposa e não podia sustentá-la; colocou-a numa casca de abóbora e tratou dela muito bem...

Oh, Deus, quase dez anos de idade e ainda cantando versos infantis! Bart pegou seu velho suéter predileto, jogou-o por cima dos ombros e, ao fazê-lo, derrubou uma caixa de leite. O leite escorreu para o chão, onde Trevo logo começou a lambê-lo como um gato. Mamãe estava tão encantada com uma foto da filhinha de Nicole que nem notou o leite entornado. Foi Emma quem limpou tudo e olhou furiosamente para Bart, que lhe mostrou a língua e saiu com a maior calma.

— Com licença, Mamãe — disse eu, levantando-me de um salto para acompanhar Bart ao quintal.

Mais uma vez galgamos o muro, sentando-nos para observar, ambos desejosos que a velha ricaça se mudasse depressa. Quem sabe, talvez ela tivesse netos?

— Já sinto saudades da velha casa — reclamou Bart. — Detesto as pessoas que se mudarão para ela.

Passamos o dia matando o tempo, plantando novas sementes, arrancando mais ervas daninhas. Logo comecei a imaginar de que maneira passaríamos um verão inteiro sem entrar ao menos uma vez no velho casarão.

Ao jantar, Bart mostrou-se amuado, pois também ele sentia falta do casarão. Olhou raivosamente para o prato cheio.

— Alimente-se bem, Bart — disse Papai. — Do contrário, talvez não tenha energias para divertir-se na Disneylândia.

O queixo de Bart caiu.

— Disneylândia? — seus olhos escuros se dilataram de alegria. — Vamos lá, de verdade? Não vamos ao Leste visitar as velhas sepulturas?

— A Disneylândia é parte do seu presente de aniversário — explicou Papai. — Faremos a festa lá e, depois, voaremos para a Carolina do Sul. Agora, não reclame. Precisamos levar em consideração as necessidades das outras pessoas, assim como as suas. A avó de Jory gosta de vê-lo ao menos uma vez por ano e, já que não fomos no ano passado, ela estará aguardando com ansiedade redobrada a visita do neto. Além disso, há minha mãe, que também necessita de uma família.

Dei-me conta de olhar para minha mãe, que parecia em brasas. Todos os anos ela ficava assim quando se aproximava a época de visitarmos a mãe "dele". Refleti que era uma pena ela não compreender por que motivo as mães eram tão importantes. Fora órfã durante tanto tempo que talvez já houvesse esquecido, ou talvez sentisse ciúmes.

— Rapaz, eu prefiro ir à Disneylândia a ir para o Céu! — declarou Bart. — Nunca, nunca me cansarei da Disneylândia!

— Eu sei — replicou Papai em tom seco.

Mas logo que Bart se deu conta de que receberia o presente de seus sonhos, recomeçou a reclamar contra ter que ir ao Leste.

— Papai, Mamãe... eu não vou! Duas semanas é tempo demais para visitar velhas sepulturas e velhas avós!

— Bart — interpôs Mamãe severamente. — Não falte ao respeito com os mortos. Seu próprio pai é uma daquelas pessoas cuja sepultura você não quer visitar. E sua tia Carrie também está lá. Você vai visitar os túmulos e também Madame Marisha, quer queira quer não! E se tornar a abrir a boca, não irá à Disneylândia!

— Mamãe — disse um Bart obediente, agora desejoso de fazer as pazes. — Por que seu pai, que está morto em Gladstone, Pa...

— Diga Pensilvânia e não Pa.

— Por que a fotografia dele se parece tanto com o Papai que temos atualmente?

O sofrimento relampejou nos olhos de Mamãe. Falei, detestando a mania que Bart tinha de interrogar todo mundo:

— Puxa, Dollanganger é mesmo um nome e tanto! Aposto que você ficou satisfeita ao livrar-se dele.

Ela se voltou para fitar uma grande foto do Dr. Paul Sheffield e depois disse em voz baixa:

— Sim, foi um dia maravilhoso quando me tornei Sra. Sheffield.

Então Papai pareceu perturbado. Escorreguei-me mais fundo no forro de veludo da cadeira. Ao meu redor, no ar, arrastando-se no assoalho, ocultando-se nas sombras, estavam pedaços de um passado que eles recordavam e eu não conseguia lembrar. Quatorze anos e eu ainda não sabia o que era a vida. E não compreendia meus pais.

Afinal chegou o dia em que a reforma da mansão foi completada. Então vieram as faxineiras para limpar as janelas e o assoalho. E jardineiros para passar ancinhos, cortar a grama, aparar novamente os arbustos. E lá estávamos nós, o tempo todo, espiando pelas janelas e correndo de volta ao muro para subir numa árvore, esperando não sermos apanhados. Tornávamos a sentar-nos no topo do muro, bem comportados, como se jamais fôssemos capazes de desobedecer as regras impostas por nossos pais.

— Ela vem aí! — murmurou Bart, excitadíssimo. — A velha chegará a qualquer momento!

A mansão fora reformada de modo tão grandioso que esperávamos ver a qualquer momento uma famosa estrela do cinema, a esposa de um presidente, alguém muito importante.

Certo dia, quando Papai estava trabalhando e Mamãe saíra para fazer compras, deixando Emma na cozinha, como sempre, vimos uma enorme e comprida limusine negra entrar vagarosamente na alameda de acesso à mansão vizinha. Um carro mais antigo vinha logo atrás, mas, mesmo assim, era um automóvel luxuoso. Duas semanas atrás a alameda era de concreto velho e rachado; agora, era de asfalto negro e liso. Cutuquei Bart para diminuir-lhe a excitação. À nossa volta, as folhagens formavam um toldo que nos ocultava e, ainda assim, nos permitia ver tudo perfeitamente.

Devagar, bem devagar, o chauffeur parou o comprido e luxuoso automóvel. Então, saltou, rodeou o carro e abriu a porta para deixar sair os passageiros. Observamos, prendendo a respiração. Logo a veríamos, aquela mulher rica, tão rica que podia comprar tudo! O chofer era jovem e tinha um ar elegante e lampeiro. Mesmo à distância podíamos perceber que era bonito, mas o velho que desceu da limusine nada tinha de bonito. Pegou-me de surpresa. O mestre-de-obras não falara numa senhora e criados?

— Olhe — segredei para Bart. — Aquele deve ser o mordomo. Nunca imaginei que mordomos andassem no mesmo carro que os patrões.

O frágil e idoso mordomo estendeu a mão para ajudar uma velha a desembarcar do banco traseiro. Ela o ignorou e, em vez disso, tomou o braço do chofer. Estava toda de negro, coberta da cabeça às pontas dos pés, como uma mulher árabe. Seria uma viúva? Uma muçulmana? Parecia tão misteriosa.

— Detesto vestidos negros que se arrastam no chão. Detesto velhas que cobrem a cabeça com véus negros. Detesto fantasmas.

Eu só conseguia olhar, fascinado, refletindo que a mulher se movimentava graciosamente sob o manto negro. Mesmo de nosso esconderijo, notei que ela só sentia desprezo pelo velho e frágil mordomo. Puxa... intrigas! Ela olhou ao redor, para todos os lados. Passou longo tempo olhando em nossa direção, para o muro branco, para o telhado de nossa casa. Eu sabia que ela não podia ver muito. Inúmeras vezes, eu me postara onde ela estava agora e olhara para casa, vendo apenas a cumeeira de nosso telhado e a chaminé. Só quando ela subisse ao segundo andar da mansão, conseguiria ver o interior de alguns de nossos aposentos. Era melhor eu dizer a Mamãe para plantar mais algumas árvores grandes perto do muro branco. Ocorreu-me então o motivo pelo qual dois dos operários poderiam ter derrubado vários grandes eucaliptos que antes existiam no terreno da velha: talvez ela fosse bisbilhoteira e quisesse enxergar nossa casa. Por outro lado, era mais provável que não quisesse árvores tão grandes perto da mansão.

Agora, o segundo carro parou atrás do primeiro. Dele saltou uma empregada de uniforme preto com um elegante avental branco e uma touquinha ornada de renda branca. Atrás dela, vieram dois criados trajando uniformes cinzentos. Estes começaram a carregar para dentro da mansão inúmeras malas, caixas de chapéus, plantas em vasos e coisas semelhantes. Durante todo o tempo, a mulher coberta com o manto negro permaneceu imóvel, fitando nossa chaminé. Imagino o que ela estaria vendo.

Um imenso caminhão de mudanças amarelo chegou e começou a descarregar móveis elegantes. E a mulher ainda continuava lá fora, deixando que as empregadas decidissem onde colocar a mobília. Afinal, quando uma das criadas não parava de entrar e sair para lhe fazer perguntas, ela deu meia-volta e desapareceu no interior da mansão. Todos os criados a acompanharam.

— Bart, veja aquele sofá que os homens estão carregando para a casa! Já viu um sofá tão elegante?

Há muito tempo Bart perdera o interesse pela mudança. Agora, observava atentamente a lagarta preta e amarela que avançava, ondulante, ao longo de um galho fino pouco abaixo de seus sujos sapatos de tênis. Pássaros lindos cantavam por toda parte. O céu muito azul estava cheio de nuvens semelhantes a flocos de algodão. O ar era fresco, gostoso, perfumado pelos pinheiros e eucaliptos e Bart olhava para a única coisa feia ao alcance da vista: uma maldita lagarta chifruda!

— Detesto coisas feias que rastejam com chifres na cabeça — murmurou ele consigo mesmo.

Eu sabia que ele sempre detestava saber o que havia no interior das coisas.

— Aposto que tem uma gosma verde por baixo dessa bela penugem colorida. Maldito dragãozinho no galho, pare de vir na minha direção. Não se aproxime ou eu o mato!

— Pare com essa conversa idiota. Veja aquela mesa que os homens carregam agora. Rapaz, aposto que aquela cadeira veio de algum castelo na Europa!

— Mais dois centímetros e uma coisa feia vai morrer!

— Sabe de uma coisa? Aposto que aquela velha é boazinha. Qualquer pessoa que tenha tanto bom-gosto em móveis deve ser boa.

— Mais um centímetro... e você morre! — disse Bart à lagarta.

À medida que o sol se punha, o céu tornou-se cor-de-rosa e largas faixas violeta surgiram para dar maior beleza ao crepúsculo.

— Bart, veja o pôr do sol. Já viu cores mais lindas? Para mim as cores são como música. Consigo ouvi-las cantar. Aposto que se Deus me cegasse e ensurdecesse neste exato momento, eu continuaria a ouvir a música das cores e a vê-las mentalmente. E dançaria na escuridão, sem saber que não havia luz.

— Conversa de maluco — murmurou Bart, os olhos ainda pregados no verme peludo que se aproximava cada vez mais do tênis mortífero erguido acima dele. — Cego quer dizer negro como piche. Sem cores. Sem música. Sem nada. Morte é silêncio.

— Surdo... s-u-r-d-o, não morto.

Naquele momento, Bart esmagou a lagarta com o tênis. Depois pulou da árvore e limpou a gosma da sola no novo gramado da velha.

— Acaba de cometer uma maldade, Bart Winslow! As lagartas passam por uma etapa chamada metamorfose. A espécie que você acaba de esmagar transforma-se na mais linda de todas as borboletas. Portanto, você não matou um dragão, mas uma fada: a que mais ama as rosas.

— Conversa estúpida de bailarino — foi a opinião de meu irmão, embora ele conseguisse parecer ligeiramente assustado. — Posso compensar — acrescentou, embaraçado, olhando nervosamente em volta. — Vou preparar uma armadilha e pegar uma lagarta viva. Ficarei com ela como mascote e esperarei que se torne uma fada. Depois a libertarei.

— Ei, eu estava apenas brincando. De agora em diante, porém, não mate insetos que não estejam devorando as rosas.

— Se eu encontrar alguns nas rosas, posso matá-los todos?

Era curiosa a necessidade que Bart sentia de matar todos os insetos. Certa vez eu o pegara arrancando, uma por uma, as pernas de uma aranha, antes de esmagá-la entre o indicador e o polegar. Então o sangue negro lhe atraiu a atenção.

— Os insetos sentem dor?

— Sim, mas não se preocupe com isso — respondi. — Mais cedo ou mais tarde, você também sentirá dor. Portanto, não chore. Era apenas um verme cabeludo, não uma fada. Agora vamos para casa. Tive pena de Bart por que sabia que ele era sensível quanto ao fato de não sentir dor como eu, embora Deus saiba que devia alegrar-se por isso.

— NÃO! Não quero ir para casa. Quero ver o interior da casa da velha!

No mesmo instante, Emma saiu ao quintal para tocar a sineta anunciando o jantar e nós corremos para casa.

No dia seguinte, voltamos ao muro. Os carregadores tinham terminado a mudança depois de irmos para a cama. Não mais havia movimento de caminhões. Eu passara a maior parte da manhã e o início da tarde na aula de balé de Mamãe, enquanto Bart ficara em casa para brincar sozinho. E os dias de verão eram compridos. Ele sorriu, satisfeito por ter novamente minha companhia.

— Pronto? — indaguei.

— Pronto! — confirmou ele.

Tendo decidido previamente nosso curso de ação, subimos o muro e descemos no outro lado, utilizando-nos de uma árvore em crescimento. Estávamos em terreno onde fôramos proibidos de pisar, mas, certo ou errado, tratava-se de terreno que considerávamos nosso, pois nos pertencera em primeiro lugar. Esgueiramo-nos como duas sombras libertadas. Bart olhava para os arbustos aparados em forma de animais! Que esquisito! Um galo lampeiro ao lado de uma gorda galinha deitada no ninho. Bem feito, realmente bem feito. Quem poderia supor que aquele velho mexicano fosse tão habilidoso com a tesoura de podar?

— Não gosto de arbustos que parecem animais — queixou-se Bart. — Não gosto de olhos verdes. Os olhos verdes são maus, Jory... eles nos observam!

— Sssh, cale a boca. Olhe bem onde pisa. Coloque os pés onde eu pisar.

Olhei por cima do ombro e vi que o céu assumira uma coloração escura de ameixa, com faixas vermelhas que pareciam sangue derramado. Logo a noite cairia e a lua nem sempre era um rosto amistoso.

— Jory — veio o sussurro de Bart, que me puxou pela fralda da camisa. — Mamãe não disse que estivéssemos em casa ao anoitecer?

— Ainda não escureceu.

Mas quase. A mansão que era de um branco cremoso durante o dia estava azulada à luz do crepúsculo, assumindo uma aparência assustadora.

— Não gosto de casa velha que agora parece casa nova.

Bart e suas idéias.

— Deve ser mesmo hora de voltarmos para casa.

Resisti aos seus puxões. Desde que viéramos tão longe, podíamos perfeitamente ir até o fim. Colocando o dedo nos lábios, sussurrei:

— Fique onde está.

Esgueirei-me sozinho até a única janela acesa naquela enorme casa com tantas janelas. Em vez de fazer o que eu mandara, Bart viera em meus calcanhares. Tornei a adverti-lo e depois trepei num pequeno carvalho cuja resistência era apenas suficiente para suportar meu peso. Subi o bastante para olhar o interior da casa. A princípio, nada vi senão um enorme salão mal iluminado, cheio de caixotes ainda não esvaziados. Um abajur alto e gordo bloqueava-me a visão e fui obrigado a debruçar-me para longe do tronco a fim de enxergar melhor. Consegui distinguir um vulto difuso, trajando um manto negro, sentado numa cadeira de balanço de madeira nua que parecia bastante desconfortável em comparação com os macios e luxuosos sofás e poltronas que eu vira sendo levados para dentro da mansão. Seria uma mulher sob o manto negro?... A mesma que eu vira fora da casa? Os homens árabes também usam vestidos, de modo que poderia tratar-se do frágil mordomo. Todavia, quando avistei uma mão branca e esguia, usando muitos anéis faiscantes, compreendi que era a dona da mansão.

Alterando minha posição na árvore, procurei um posto de observação melhor. Então, o galho que sustentava meu peso estalou. A mulher lá dentro ergueu a cabeça e olhou na minha direção. Tinha os olhos muito abertos e assustados. Pensei com meus botões que pessoas numa sala iluminada não conseguiam olhar para o escuro e enxergar. Meu coração batia em ritmo triplicado e prendi a respiração. Pequenos insetos alados me zumbiam em volta da cabeça e começaram a picar-me a pele. Abaixo de mim, Bart se impacientava. Balançou a árvore frágil. Tentei segurar-me e, ao mesmo tempo, fazer sinal a Bart para que parasse com aquilo. Felizmente, naquele momento uma criada abriu a porta e entrou no salão com uma grande bandeja de prata carregada com muitas travessas cobertas com tampas.

— Depressa! — reclamou Bart como um gato assustado. — Quero voltar para casa!

De que ele tinha medo? Era eu que estava prestes a cair da árvore. O ruído de louça e talheres sendo retirados da bandeja e colocados sobre a mesa cobriu o barulho que Bart estava fazendo. Tão logo a criada saiu do salão, a mulher de negro retirou o véu. Começou a comer. Sozinha, beliscava a comida. Exatamente quando tive certeza de que ela não ouvira qualquer barulho que indicasse que alguém a espionava, o galho fraco da árvore fez o ruído de rachar-se. A mulher virou a cabeça. Era minha oportunidade de vê-la sem o véu. E eu a vi. Realmente a vi! Mas, na realidade, não lhe vi o nariz, os lábios, os olhos; vi apenas as séries de cicatrizes irregulares em cada lado do rosto. Um gato a teria arranhado e provocado aquelas cicatrizes? Senti-me repentinamente penalizado de uma velha que era obrigada a sentar-se sozinha à mesa, sem apetite para comer nada com prazer. Não me parecia justo alguém levar uma vida tão solitária e sem amor. Também não era justo que o destino mostrasse como a idade era capaz de roubar a beleza de alguém que poderia ter sido tão linda quanto minha mãe, algum dia.

— Jory...?

— Sssh...!

A mulher continuou a olhar e, de repente, baixou depressa o véu sobre o rosto.

— Quem está aí fora? — perguntou ela. — Vá embora, seja lá quem for! Se não for embora, chamarei a polícia!

Aquilo foi o bastante. Pulei para o solo, agarrei Bart pela mão e comecei a correr. Ele tropeçou e caiu, atrasando-me como sempre. Levantei-o com um puxão e continuei a correr, obrigando-o a correr mais do que seria capaz sem meu auxílio. Ele arquejou:

— Jory! Não corra tanto! O que você viu? Depressa, diga-me... viu um fantasma?

Pior que isso. Eu vira como minha mãe poderia ser daqui a trinta anos, se vivesse o suficiente para ser devastada pelo tempo.

— Onde estavam vocês dois?

Mamãe nos bloqueou a passagem quando tentamos esgueirar-nos até o banheiro para lavar-nos antes que ela tivesse oportunidade de ver nossas roupas sujas e amarrotadas.

— Viemos do jardim dos fundos — respondi, sentindo-me culpado.

Ela percebeu de imediato e ficou desconfiada.

— Diga a verdade. Onde estavam?

— Lá nos fundos...

— Jory, vai tornar-se evasivo como Bart?

Abracei-a e apertei o rosto de encontro à maciez do seio. Já era crescido demais para proceder assim, mas tive a repentina necessidade de sentir-me seguro e reconfortado.

— Jory, querido, o que há de errado?

Nada estava errado. Na verdade, eu não sabia o que me perturbava. Eu já vira velhice antes: minha avó Marisha, mas ela sempre fora velha.

Naquela noite sonhei com Mamãe: era um lindo anjo que lançou um encantamento sobre o mundo inteiro, para evitar que as pessoas envelhecessem. Vi senhoras de duzentos anos de idade parecendo tão jovens e bonitas quanto se tivessem vinte, todas menos uma velha de preto, sozinha numa cadeira de balanço.

Ao amanhecer, Bart esgueirou-se para a minha cama e se aninhou contra minhas costas, observando comigo o nevoeiro cinzento que escondia as árvores, fazia sumir a grama dourada, eliminava todos os sinais de vida e dava ao mundo lá fora uma aparência morta. Bart falava sozinho:

— A terra está cheia de gente morta. De animais e plantas mortos também. Produz todo aquele material que Papai chama de humo.

Morte. Meu meio-irmão Bart era obcecado pela morte e tive pena dele. Senti-o aconchegar-se mais a mim enquanto observávamos o nevoeiro que era parte tão integrante de nossa vida.

— Jory, ninguém nunca gosta de mim — queixou-se ele.

— Gostam, sim.

— Não, não gostam. Gostam mais de você.

— Isso é porque você não gosta deles e demonstra não gostar.

— Por que você gosta de todo mundo?

— Não gosto. Mas sou capaz de exibir um sorriso e fingir, mesmo quando não gosto. Talvez fosse melhor aprender a usar uma máscara de vez em quando.

— Por que? Não é Noite das Bruxas.

Ele me perturbava. Como aquelas duas camas no sótão me perturbavam. Como aquela coisa estranha surgia com tanta freqüência entre meus pais, lembrando-me que eles sabiam algo que eu não sabia. Fechei os olhos e decidi que tudo sempre se resolvia da melhor maneira.

 

SAIR À CAÇA

Eles olhavam para mim, mas não me viam. Não sabiam quem eu era. Para eles, eu era apenas uma coisa que se sentava à mesa e tentava engolir o que me colocavam no prato. Meus pensamentos giravam por toda parte, mas eles não me liam a mente, não me compreendiam, absolutamente. Eu ia à mansão vizinha, pois fora convidado. E quando fosse, lembrar-me-ia de pronunciar meus "s", estavam sempre me dizendo para pronunciar os "S". Eu faria tudo certo, tudo, para a velha senhora da mansão.

Precisava ir sozinho e não contar a Jory. De todo modo, Jory não precisava de amigos. Tinha suas aulas de balé, com garotas bonitas por todos os lados, o que era suficiente. Com Melodie, era mais que suficiente. Eu... eu não tinha ninguém, exceto pais que não me compreendiam. Tão logo tivesse licença para deixar a mesa, correria para o jardim enquanto Jory continuasse a comer sua pilha de panquecas cobertas com açúcar de bordo derretido. Porco, eis o que ele era... um maldito suíno!

Dia quente. Sol brilhante demais. Sombras compridas no solo. Muro branco tão malditamente alto; teria aquele muro sabido previamente que eu viria, que era desajeitado, que "eles" desejavam dificultar as coisas para mim? Não foi tão difícil subir na árvore. O terreno era tão extenso que cansou minhas pernas curtas. Gostaria de possuir pernas compridas e bonitas, como Jory. Sempre caindo, sempre me machucando, mas nunca sentindo dor. Papai ficou espantado logo que descobriu isso.

— Bart, você precisa tomar precauções contra infecções, porque suas terminações nervosas não chegam à pele. Pode machucar-se gravemente e nem perceber. Portanto, trate sempre de lavar os cortes e arranhões com água e sabão e depois conte a mim ou à sua mãe, para podermos aplicar desinfetantes.

Lavar com água e sabão afastava os germes. Para onde iriam eles? ...subiam ao céu ou desciam ao inferno?... Que aparência teria um germe? Monstros, afirmava Jory; monstros feios e muito pequenos. Um bilhão deles caberiam na cabeça de um alfinete. Eu gostaria de ter olhos como um microscópio.

Lancei outro prolongado olhar ao jardim da velha e depois saltei, fechando os olhos para não ver o solo bater em mim. Caí bem no centro de uma touceira de roseiras. Mais cortes e arranhões para acrescentar à minha coleção. Mais germes, também. Não me importava. Agachei-me bem, apertando os olhos contra o sol, e tentei focalizar todos os perigosos animais selvagens que se ocultavam em locais escuros e misteriosos como aquele. Olhe ali, atrás daquele arbusto grande... um tigre! Ergui a espingarda e apontei cuidadosamente. O tigre balançou o rabo comprido, faiscou os olhos amarelos e lambeu os beiços, pensando que logo me teria para o almoço. Apertei com força o gatilho. BANG! BANG! BANG! Te peguei! Morto como uma pedra! Pendurando a espingarda no ombro, avancei cautelosamente pelas perigosas trilhas da selva. Ignorando uma laranja e um gato branco que miava "lastimosamente". (Lastimosamente era uma das palavras novas que eu era obrigado a empregar. Uma palavra nova a cada dia e Papai nos dava uma lista de sete palavras por semana insistindo em que usássemos a palavra do dia ao menos cinco vezes em nossas conversas. Eu não precisava de um vocabulário maior. Já sabia muito bem como falar).

Uma canção me veio à cabeça. De um filme sobre a Academia militar de West Point, que eu assistira pela televisão na noite anterior. A canção estava certa:

Existe algo de bom, bom, bom.

Num soldado...

Marchando ao ritmo da canção em minha cabeça, levei a espingarda ao ombro com ar marcial, queixo erguido, peito estufado. Marchei até a porta principal da mansão da velha. Então, bati com força, usando a aldrava de bronze que era uma cabeça de leão com a boca escancarada. Minha atitude militar perfeita era tão admirável que eu tinha certeza de que a velha ficaria impressionada. Médicos nada tinham de especial. Nem bailarinos. Mas um general de cinco estrelas, isto era impressionante! Ninguém tinha um nome mais comprido que o meu: General Bartholomew Scott Winslow Sheffield. Nem mesmo Jory Janus Marquet Sheffield era tão comprido, tão retumbante. Esperamos até que o inimigo saiba quem está encarregado da guerra. Aquele velho mordomo cadavérico deveria ter atendido à porta, mas quem o fez foi a própria velha, em pessoa. Eu a avistara algumas vezes no jardim. Abriu uma fresta da porta e, como uma avarenta, permitiu que uma comprida cunha de sol incidisse sobre o assoalho.

— Bart...? — sussurrou, a um tempo surpresa e satisfeita.

Estaria realmente tão satisfeita por ver-me? Ora, ela ainda nem me conhecia.

— Que maravilha, Bart! Eu esperava que você viesse.

— Afaste-se, Madame! — ordenei. — Está cercada por minhas tropas.

Engrossei a voz num tom ríspido, a fim de deixá-la morta de susto.

— Não adianta resistir. É melhor desistir e erguer uma bandeira branca. Todas as probabilidades lhe são contrárias.

— Oh, Bart — disse ela com uma risadinha tola. — Foi muita delicadeza sua aceitar meu convite. Sente-se e converse comigo. Fale-me a respeito de você, de sua vida. Diga-me se é feliz, se seu irmão é feliz, se gostam do lugar onde moram, se amam seus pais. Quero saber tudo!

Usando o calcanhar, fechei com força a porta atrás de mim, como fazem todos os generais. BANG! Ver os olhos azuis da velha sorrirem quando seus lábios continuavam ocultos pelo maldito véu negro causou-me uma sensação esquisita. Minha empedernida compostura militar desapareceu por encanto. Por que ela usava aquele véu assustador?

— Senhora — repliquei com voz fraca, sentindo-me outra vez jovem e tímido. — Chamou-me ontem por cima do muro. Disse-me que desejava que eu viesse visitá-la quando me sentisse solitário. Vim às escondidas...

— Veio às escondidas? — indagou ela em tom estranho. — Precisa fugir de seus pais? Eles o castigam com freqüência?

— Não — respondi. — Não adiantaria. Não conseguiriam machucar-me com surras; não poderiam matar-me de fome, porque não gosto de comer.

Baixei a cabeça, acrescentando:

— Mamãe e Papai disseram-me para não incomodar velhas ricas que moram em casas assombradas nos terrenos vizinhos.

— Oh! — suspirou ela. — E vocês têm muitas casas assombradas nos terrenos vizinhos, abrigando velhas ricas?

— Claro que não, Madame — repliquei.

Em seguida, andei displicentemente até uma janela da bonita sala de estar, de onde podia olhar para fora e ver quem chegava ou saía. Recostei-me na parede e tirei do bolso os apetrechos para enrolar um cigarro de palha, enquanto a velha se sentava numa cadeira de balanço para observar-me. Viu-me soprar anéis de fumaça, sorrindo de leve quando eles lhe dançavam em torno da cabeça. O estúpido véu se inflava e murchava, acompanhando-lhe a respiração. Imaginei que talvez ela dormisse com aquele troço enrolado na cabeça e no rosto.

— Bart, costumo ouvir você e seu irmão conversando no quintal. Às vezes, uso uma escada para espiar por cima do muro... espero que não se importem.

Não respondi. Continuei a soprar anéis de fumaça na cara dela.

— Fale, por favor, Bart... Sente-se e relaxe-se, fique à vontade, sinta-se em casa. Quero que esta casa seja um lar para vocês, sempre aberta a você e Jory. Levo uma vida tão solitária; tudo que tenho é John Amos, meu mordomo, e eu mesma. Ter uma família de verdade residindo na propriedade vizinha é deveras reconfortante. Pode me dizer tudo o que tiver vontade, tudo.

Não havia nada a dizer, mas ali estava uma pessoa adulta disposta a escutar-me. Sobre que poderíamos conversar?

— As pessoas não deveriam espionar meu irmão e eu.

— Eu não estava espionando — disse ela depressa. — Apenas cuidando das roseiras que sobem pelo muro e precisam ser podadas... e não podia evitar escutá-los, não é mesmo?

Espiã. Eis o que ela era. Esmaguei a ponta do cigarro com o salto empoeirado de minha bota. O sol incidia-me novamente sobre os olhos, obrigando-me a baixar a aba do chapéu. O maldito sol provocava-me sede.

— Madame, pediu-me para vir e aqui estou... portanto, vamos ao que interessa.

— Bart, se você aceitar uma cadeira, logo tomaremos refrescos. Está vendo aquele cordão de campainha? A copeira trará sorvete e bolo. Ainda falta muito para a hora do almoço, de modo que você não perderá o apetite.

Bem poderia demorar-me mais um pouco. Deixei-me cair numa poltrona macia e fixei o olhar nos pés dela, que mal eram visíveis. Estaria usando saltos altos? Sandálias? Unhas pintadas? Então entrou pela porta uma bonita copeira mexicana carregando uma bandeja cheia de guloseimas. Puxa! A copeira sorriu para mim, inclinou a cabeça para a patroa e tornou a sair. Educadamente, aceitei o que ela me ofereceu, não o bastante de cada coisa, e comi. Não gostava da comida que me fazia bem; não tinha gosto. Tão logo terminei de comer as guloseimas, levantei-me para sair.

— Muito obrigado, dona, por conversar com um vaqueiro desacostumado a este tipo de hospitalidade. Agora, preciso ir andando...

— Está bem, se precisa mesmo ir — disse ela com ar tristonho.

Tive pena dela, vivendo sozinha com os criados, sem filhos como eu.

— Volte amanhã se quiser e traga Jory com você. Terei o que desejarem...

— Não quero trazer Jory!

— Por que não?

— Você é meu segredo! Ele faz tudo. Eu nunca faço nada! Ninguém gosta de mim.

— Eu gosto.

Puxa! Ela me fazia sentir bem. Estudei-lhe o rosto, mas só pude enxergar os olhos azuis.

— Por que gosta de mim? — indaguei, maravilhado. Ninguém mais gostava.

— Eu não apenas gosto de você, Bart Winslow — declarou ela de modo estranho. — Eu o amo.

— Por quê?

Não acreditei nela. As mulheres apaixonavam-se à primeira vista por Jory, nunca por mim.

— Outrora tive dois filhos, agora não tenho — disse ela com os olhos baixos, numa voz triste e tensa. — Então desejei ter outro filho com meu segundo marido, mas não pude.

Ergueu os olhos para encarar-me.

— Portanto, quero que você tome o lugar do terceiro filho que não pude ter. Sou muito rica, Bart. Posso dar-lhe tudo o que você desejar.

— O que eu desejo no fundo do coração, bem no fundo?

— Sim, poderei dar-lhe tudo o que se pode comprar com dinheiro.

— Nem tudo pode ser comprado?

— Infelizmente, não. Eu costumava pensar que sim, mas agora sei que o dinheiro não pode comprar as coisas mais importantes, coisas que eu costumava ter como certas e não levava a sério... oh, se eu pudesse recomeçar a vida, como seria diferente! Cometi tantos erros, Bart. Quero fazer tudo certo com você, para você, e se precisa manter-me como seu segredo, talvez algum dia... bem, vamos deixar isso para depois. Você voltará?

Soava tão digna de pena que me deixava nervoso. Arrastei os pés, embaraçado, e decidi que era melhor sair dali depressa, antes que ela tentasse beijar-me.

— Tenho que voltar ao acampamento, Madame. Meus homens estão pensando que me feri ou morri. Mas lembre-se bem: está cercada e não conseguirá ganhar esta guerra!

— Eu sei — respondeu ela numa voz tão tristonha... — Jamais ganhei qualquer jogo que tentei. Sempre fui derrotada quando julgava dispor de todos os trunfos.

Exatamente como eu! Senti muita pena dela.

— Madame, jogue suas cartas direito e virei visitá-la todos os dias. Talvez até mesmo duas ou três vezes por dia.

— Muito obrigada, Bart! Basta você dizer que cartas devo jogar e eu as colocarei sobre a mesa à sua espera.

Tive uma idéia, então. Muitas e muitas coisas eu desejava e jamais ganhava. Não queria livros, jogos, brinquedos ou outras coisas comuns. Precisava possuir uma coisa e olhei para a velha, esperançoso... talvez ela me desse o que eu queria.

— Como se chama?

— Volte e eu lhe direi.

Eu voltaria. Macacos me mordam se conseguisse manter-me afastado dali. Voltei para casa e ninguém chegou a notar minha presença. Mamãe continuava a falar sobre a menininha que ela adotaria se sua aluna predileta, Nicole, morresse. “Oh, Deus, não permita que Nicole morra”, rezei silenciosamente.

— Jory, vamos jogar bola.

— Não posso. Mamãe vai levar-me à aula da tarde. Os pais de Melodie me levarão para jantar esta noite e depois iremos ao cinema.

Ninguém me levava a lugar nenhum, exceto meus pais. Não tinha amigos. Nem animal de estimação. O maldito Trevo gostava mais de Jory, ganindo como se estivesse machucado quando eu lhe pisava no rabo por acidente ou tropeçava nele, que estava sempre em meu caminho.

Alguns dias mais tarde, dirigi-me outra vez à porta dos fundos.

— Aonde vai? — perguntou Mamãe, que estivera olhando a fotografia da menininha que desejava adotar.

Não lhe bastavam dois filhos, precisava também de uma filha. De uma garotinha tola e chata.

— Responda, Bart. Aonde vai?

— A lugar nenhum.

— Toda vez que lhe pergunto o que faz ou onde vai, você responde que não foi a lugar nenhum ou não fez nada. Agora quero escutar a verdade.

Jory riu e abraçou-a.

— Ora, Mamãe, a essa altura você já devia conhecer Bart. Quando ele sai pela porta dos fundos, está em toda parte. Nunca vi um garoto tão louco por fazer de conta. Ele é isto, aquilo, a única coisa que ele não é... é ele mesmo.

A força que empreguei em meus olhos maldosos e penetrantes deveria ter feito Jory calar-se, mas ele prosseguiu:

— Ele prefere a fantasia à realidade. Isso é tudo, Mamãe.

Não era verdade. Eu apenas me entediava, nada mais. Não conseguia tudo o que desejava da vida real e em minhas brincadeiras de faz-de-conta eu fazia tudo certo e conseguia tudo o que queria. Então Jory e Mamãe começaram a rir e fui deixado de fora outra vez. Furioso. Eles me faziam furioso. Malditos todos os que zombavam de mim! Todavia, odiar todo mundo fazia-me sentir mal e o faz-de-conta fazia-me feliz.

O que teria eu a perder se fosse à casa dela? Nada, absolutamente nada. Arriscando a vida nas profundezas mais escuras de selvas perigosas, abri caminho até a casa dela. Avancei bravamente, com esforço, encarando repetidamente a morte apenas para chegar até ela... escalando aquela árvore escorregadia que me queria fazer cair. Galgando o alto muro para chegar a ela. Através de vento e neve, de granizo e chuva, os pés congelando, quase cego, lutei denodadamente para avançar até ela. Tropecei até a casa pela quinta vez em três dias. E lá estava ela, sorrindo por detrás do véu, amando-me como nenhuma outra pessoa me amava. Senti-me feliz e quente por dentro quando ela me chamou, abrindo os braços para mim. Voei para ela, abraçando-a com força, ansioso por sentar-me em seu colo e ser acariciado, mimado. Ela precisava de mim. Queria amar-me como se eu lhe pertencesse. Seu colo não me queimava, como eu temera que acontecesse. Não era tão ruim ser beijado no rosto, mas causava uma sensação de secura. Maldito véu!

Porque ela me amava, e eu agora a amava também, reservara uma sala exclusivamente para mim, contendo todos os presentes que me dera: dois trens elétricos em miniatura, com todos os acessórios, carros e caminhões de brinquedos, os mais variados tipos de jogos. Tudo aquilo para eu brincar na casa dela, não na minha. O tempo passava. Eu começava a amá-la cada vez mais, dia a dia. Então, numa terça-feira, encontrei o furtivo mordomo velho, John Amos, na sala predileta dela, remexendo nas coisas e resmungando algo a respeito de uma tola que logo ficaria sem dinheiro. Não gostei de vê-lo mexendo nos objetos dela. Não gostei de ouvi-lo falar mal dela pelas costas.

— Caia fora daqui! — berrei com meu vozeirão de adulto. — Diga à senhora que estou aqui e informe o cozinheiro de que hoje vou querer sorvete de chocolate com bolinhos de baunilha e não de maizena.

Ele apresentava uma aparência horrível.

— Pode-se confiar em poucos durante algum tempo, mas nunca se pode confiar na maioria das pessoas. Sinta-se feliz se tiver ao menos uma pessoa em quem possa confiar o tempo todo.

O que significaria aquilo? Franzi a testa e tentei afastar-me. Não gostava da dentadura postiça que estava sempre escorregando, de modo que ele precisava empurrá-la de volta ao lugar; os dentes postiços estalavam uns contra os outros, como se não se ajustassem às gengivas.

— Você gosta dela, não é? — indagou ele, sorrindo matreiramente, sacudindo a cabeça na vertical e depois na horizontal, de modo a confundir-me. – Quando desejar saber toda a verdade sobre quem é você e quem é ela, venha procurar-me.

O som dos passos da senhora na escada colocou-o em fuga. Horripilante. Causava-me repulsa e medo. Eu sabia quem eu era, na maior parte do tempo. Sozinho agora. Nada para fazer. Sentei-me e cruzei as pernas, como Papai costumava fazer, recostando-me para acender um charuto, o que Papai nunca fazia. (Mamãe não gostava de homens que fumavam). Até onde eu conseguia ver, nada havia de errado com fumar, refleti com meus botões, soprando no ar quatro perfeitos anéis de fumaça... que flutuaram em direção ao Oceano Pacífico. Iriam parar no Japão, sobre o Monte Fuji.

— Bom-dia, Bart querido. Fico tão satisfeita por vê-lo.

Ela entrou e sentou-se na cadeira de balanço.

— Já conseguiu meu pônei?

Ela replicou em voz preocupada:

— Querido, sei que lhe prometi um pônei, como a coisa que mais deseja no fundo do coração, mas prometi sem saber quanta dificuldade um pônei pode causar.

— Você prometeu! — gritei.

Estaria depositando minha confiança na pessoa errada? Em alguém que deixava de cumprir suas promessas?

— Querido, um pônei precisa de cocheira e, além disso, faz a gente cheirar mal. Quando você voltasse para casa, seus pais e Jory logo perceberiam que teria uma mascote em minha casa.

Em lugar de responder, comecei a chorar.

— Toda a minha vida desejei um pônei — solucei. — Toda a minha vida... e agora ficarei velho sem possuir um...

Solucei mais e mais. Então, baixei a cabeça e me encaminhei à nossa casa para nunca mais voltar.

— Bart... existe um lindo cachorro, muito grande, que não tem mau cheiro e não trairá nosso segredo. Um São Bernardo, um cão tão grande que você poderá cavalgá-lo como se fosse um pônei. Se você o mantiver limpo e bem penteado, não o trairá com odores animais...

Virei-me lentamente para encará-la.

— Não existem cães do tamanho de pôneis!

— Não?

— NÃO! Está querendo zombar de mim. Não gosto mais de você! Vou para casa e nunca mais voltarei... até que você tenha um pônei que eu possa batizar de Maçã.

— Querido, pode batizar seu cachorro de Maçã, embora ele não coma maçãs e apenas imagine quanta inveja Jory sentiria se você tivesse um cão mais maravilhoso que o dele.

Voltei-me para a porta, desgostoso.

— Só os muito ricos podem dar-se ao luxo de sustentar um São Bernardo, Bart.

Como se eu fosse um alfinete e ela um imã, virei-me a contragosto. Ela me pegou no colo, acomodando-me ali. Não foi tão ruim, afinal.

— Pode me chamar de Vovó.

— Vovó.

Era gostoso ter, finalmente, uma avó. Aninhei-me melhor no colo dela e esperei que me chamasse de Neném, mas ela continuou a balançar a cadeira, cantando uma cantiga de ninar. Coloquei o polegar na boca. Era gostoso ser abraçado e beijado, sentir-me seguro e amado. E ela não cheirava a naftalina, afinal.

— Você é feia por detrás desse véu? — indaguei, sempre curioso a respeito de sua aparência. O véu era quase transparente, mas não o bastante.

— Acho que você pensaria assim, mas outrora já fui muito linda como sua mãe.

— Conhece minha mãe? — perguntei.

A porta se abriu e minha bela copeira predileta entrou com um prato de sorvete e biscoitos de maizena ainda quentes do forno.

— Agora coma um biscoito e apenas esse pouquinho de sorvete, a fim de poder voltar depois do almoço.

Acrescentou que eu não deveria enfiar bocados tão grandes na boca porque isso era contrário às boas maneiras e, além disso, fazia mal a meu aparelho digestivo. Eu tinha boas maneiras. Mamãe passava o tempo todo a me ensinar. Por algum motivo, senti-me bastante furioso para pular do colo dela, imaginando o que John Amos teria para me contar. Quando tropecei em direção à porta, John Amos surgiu repentinamente no corredor, sorrindo como uma assombração. Curvou-se um pouco e colocou-me nas mãos um livrinho com capa de couro vermelho.

— Sinto que não está muito confiante em si mesmo — murmurou ele, produzindo uma série de sons sibilantes, como uma cobra. — Já é tempo de saber exatamente quem você é. Aquela senhora que o mandou chamá-la de "vovó" é, realmente, sua avó de verdade!

Oh, meu Deus! Eu nem imaginava possuir uma avó de verdade. Julgava que minhas avós estavam mortas ou num manicômio.

— Sim, Bart, ela é sua avó e não apenas isso: foi casada com seu pai, seu verdadeiro pai.

Fiquei sem saber o que pensar, exceto que estava muito feliz por ter uma avó genuína só para mim, como Jory tinha a sua. E ela não estava morta nem era louca.

— Agora, escute-me bem, rapaz, e nunca mais voltará a sentir-se fraco ou ineficaz. Leia um pouco desse livro todos os dias e ele lhe ensinará a ser como seu bisavô, Malcolm Neal Foxworth. Nunca existiu neste mundo homem mais esperto que seu bisavô, o pai de sua avó, que fica sentada na cadeira de balanço e usa aquele véu negro.

— Ela é bonita por baixo do véu — repliquei, não gostando do que ele dizia nem da expressão de seu rosto. — Nunca vi o rosto, mas posso perceber pela voz que ela é bonita, mais bonita que você!

Ele fez uma carranca, mas logo disfarçou, sorrindo.

—  Muito bem, seja como você quiser. Mas depois de ler esse livro, escrito por seu falecido bisavô, compreenderá que não se deve confiar nas mulheres, especialmente nas mulheres bonitas. Elas possuem meios, meios astuciosos de induzir os homens a fazerem o que elas querem. Você logo descobrirá isso, quando se tornar adulto. Um homem tão bonito como foi seu verdadeiro pai, mas ela o agarrou e transformou num escravo, num cão de estimação, como está fazendo com você.

Eu não era um cão de estimação! Eu não!

— Ele foi o segundo marido dela, Bartholomew Winslow, e era oito anos mais moço que ela. Não teve juízo. Julgou que poderia usá-la, mas foi ela quem o usou. Quero salvar você dela, para que não termine como seu pai: morto.

Morto. Quase todo mundo em nossa família estava morto. Não me surpreendi com nada do que ele disse; só não sabia que as mulheres eram tão ruins. Sempre desconfiara disso, mas nunca tivera certeza. Deveria prevenir Jory.

— Agora se quiser salvar sua alma eterna do fogo eterno, do inferno, você lerá esse livro e se tornará forte e poderoso como seu bisavô. Então as mulheres nunca mais tornarão a dominá-lo. Você as dominará.

Olhei para seu rosto comprido e esquelético, para o bigodinho fino e os dentes amarelados, através dos quais ele não apenas sibilava como também, às vezes, assoviava. Era mais feio que qualquer outra pessoa que eu já vira antes. Mas escutara Emma dizer mais de uma vez que "quem ama o feio, bonito lhe parece". Portanto, julguei que não haveria mal em experimentar meu bisavô e ler o pequeno livro de couro vermelho, escrito em caligrafia antiquada.

Não sou muito dado à leitura. Não é, absolutamente, o meu tipo de diversão. Mas quando estava no celeiro, perto da cocheira que logo serviria de lar para o meu pônei, acomodei-me num monte de feno. Desejava tanto aquele pônei que chegava a doer. Não me importava realmente que ele cheirasse mal e causasse muitas dificuldades. Abri o livro, que parecia muito velho.

“Estou iniciando este diário no dia mais amargo de minha vida: o dia em que minha amada mãe fugiu de casa e me abandonou em troca de outro homem. Abandonou também meu pai. Lembro-me de como me senti quando ele me contou o que ela fez, do quanto chorei, do quanto me senti perdido sem ela. Que solidão ir para a cama sem ter mãe para beijar-me e escutar minhas orações. Eu tinha cinco anos. E até partir, ela sempre dizia que eu era a pessoa mais importante em sua vida. Como foi capaz de abandonar-me, seu único filho? Que coisa malvada a possuiu para que voltasse às costas ao filho que a amava?”

“Naquela época, eu era tão inocente, tão ingênuo. Quando li as palavras do Senhor, comecei a compreender que desde Eva as mulheres sempre traíram os homens, de um ou outro modo, até mesmo as mães. Corrine, Corrine, como comecei a detestar esse nome!”

Engraçado. Senti-me esquisito ao erguer os olhos daquele diário vermelho com sua caligrafia miúda e apertada que, às vezes, aumentava no final da página, como se ele quisesse utilizar todo o espaço disponível. Eu também sempre receara que minha mãe pudesse partir de uma hora para outra, sem qualquer motivo, exceto não querer mais ficar perto de mim. E eu ficaria sozinho com um padrasto que certamente não seria capaz de amar-me como se eu fosse realmente seu filho. Jory ficaria bem, pois tinha a sua dança e era tudo que lhe importava.

— Gostou do livro? — perguntou John Amos, que entrara furtivamente no celeiro e estava de pé nas sombras, observando-me com olhos miúdos e brilhantes.

— Claro, é um bom livro — consegui responder, embora me sentisse mal por dentro e temesse que Mamãe também pudesse fugir com um homem que não fosse médico. Ela passava o tempo todo desejando que Papai não fosse médico e pudesse ficar mais tempo em casa.

— Agora, leia um pouco do livro todos os dias — aconselhou John Amos, que talvez gostasse mesmo de mim, apesar do rosto malvado. — Aprenderá tudo sobre as mulheres e o modo de controlá-las.

Eu conseguia escutá-lo melhor quando não podia vê-lo bem.

— E aprenderá a controlar não apenas as mulheres, como todas as pessoas. Esse livrinho vermelho em suas mãos evitará que cometa os erros cometidos por tantos outros homens. Lembre-se disso quando se cansar de lê-lo. Lembre-se que o dever imposto por Deus aos homens é dominar as mulheres, que são basicamente fracas e estúpidas.

Puxa! Eu não imaginara que Mamãe fosse fraca ou estúpida. Julgava-a forte e maravilhosa. Exatamente como minha avó era boa e generosa... e, sob certos aspectos, muito melhor que minha própria mãe, que sempre parecia por demais ocupada para incomodar-se comigo.

— Malcolm era o tipo de homem que as pessoas tomam como exemplo, Bart, o tipo de homem que todo mundo respeitava e temia. Quando alguém consegue inspirar essa espécie de respeito, torna-se reverenciado como um deus. Não precisa falar com sua avó a respeito desse livro. Seria melhor nada dizer a respeito e continuar simplesmente fingindo que a ama tanto quanto antes. Nunca deixe as mulheres saberem o que você está pensando. Guarde seus pensamentos francos para você mesmo.

Talvez ele tivesse razão. Talvez se eu lesse o livro até o fim, terminasse mais esperto que Jory e o mundo inteiro me tomasse como exemplo. Naquela noite, sorri na cama, abraçando o diário de Malcolm de encontro ao coração. Ali estava o instrumento que eu poderia utilizar para tornar-me o homem mais rico do mundo, exatamente como Malcolm Neal Foxworth, que vivera num lugar longínquo chamado Foxworth Hall.

Agora eu possuía dois amigos: minha velha avó sempre vestida de negro e John Amos, que conversava comigo mais que o Papai jamais o fizera. Rapaz, era mesmo estranho como desconhecidos entraram em minha vida e começaram a dar-me mais que meus próprios pais!

 

AÇÚCAR E TEMPEROS

Mamãe comprara uma escola de balé que ainda trazia o nome da proprietária original. Mantivera o nome, Escola de Balé Marie DuBois, e levava os alunos a pensar que ela era Marie DuBois. Posteriormente explicou a Bart e a mim que era mais fácil que trocar o nome da escola, além de ser mais lucrativo. Papai parecia concordar. A escola situava-se no último pavimento de um prédio de dois andares em San Rafael, não muito distante do consultório médico de Papai. Eles freqüentemente almoçavam juntos ou passavam a noite em São Francisco, de modo a poderem ir ao teatro ou ao cinema sem precisarem fazer o trajeto de ida e volta. Emma estava conosco, de modo que não nos importávamos muito com a ausência deles, exceto ocasionalmente, quando eu me sentia deixado de lado ao vê-los chegar tão alegres e radiantes. Aquilo me fazia pensar que não éramos tão importantes para eles quanto gostávamos de crer.

Uma noite, inquieto e não conseguindo dormir, esgueirei-me silenciosamente para fora do quarto com a idéia de ir beliscar alguma coisa na cozinha. Nada mais que isso. No instante em que pisei no corredor, escutei o som das vozes de meus pais. Alto. Discutiam. E raramente falavam asperamente um com o outro. Fiquei sem saber o que fazer, se ficava ali ou retornava a meu quarto. Então lembrei-me da cena no sótão e senti que, para minha proteção, e de Bart também, precisava saber do que se tratava. Mamãe ainda usava o bonito vestido azul que usara para jantar fora com Papai.

— Não sei por que você insiste em fazer objeção! — esbravejou ela, andando de um lado para outro e lançando a Papai olhares furiosos. — Sabe tão bem quanto eu que Nicole não vai ficar boa. E se esperarmos até ela morrer, o estado terá a custódia de Cindy e seremos obrigados a lutar como loucos para adotá-la! Vamos agir agora. A posse representa nove décimos da lei e a senhoria de Nicole não quer mais ser incomodada pela criança. Chris, por favor, decida-se!

— Não! — replicou friamente Papai. — Temos dois filhos e isso é o bastante. Existem outros jovens casais que ficarão encantados por adotar Cindy. Casais que não têm tanto a perder como nós quando a agência de adoções começar a investigar...

Mamãe abriu os braços:

— Pois é exatamente isso que estou dizendo! Se tivermos a posse de Cindy antes de Nicole morrer, a agência não terá motivos para investigar. Irei esta noite e colocarei Nicole a par de nossos planos. Tenho certeza de que ela concordará e assinará todos os documentos legais que forem necessários.

— Catherine — interpôs meu padrasto em tom firme. — Você não pode ter tudo o que deseja. Nicole pode muito bem recuperar-se dentro de algumas semanas e, mesmo que fique permanentemente aleijada, ainda desejará ficar com a filha.

— Mas que tipo de mãe poderá ser ela?

— Não nos cabe decidir quanto a isso.

— Ela não pode ficar boa! Você sabe disso e eu também... além do mais, Christopher Doll, já fui ao hospital conversar com Nicole e ela quer que eu fique com a menina. Assinou os documentos que levei e Simon Daughtry me acompanhou. Ele é advogado e levou também a secretária. Portanto, o que pode fazer você, agora, para impedir-me?

Parecendo chocado, meu padrasto levou a mão ao rosto, enquanto Mamãe prosseguia:

— Christopher, pare de esconder-se por detrás da mão. Mostre o rosto e reconheça o que você me obrigou a fazer. Você estava lá na noite em que Bart nasceu, lá, com seus olhos suplicantes dizendo-me que Paul não seria suficiente e que, no final, seria você o vencedor. Se você não estivesse lá, implorando com esses malditos olhos azuis, eu não teria permitido que os médicos me convencessem a assinar aqueles documentos e autorizar minha esterilização! Eu teria gerado outro filho, mesmo que isso me matasse. Mas você estava lá e eu cedi por sua causa, diabo! Por sua causa!

Soluçando, deixou-se cair ao chão e ficou encolhida, de lado, os dedos enfiando-se no espesso pelo do tapete. Seus compridos cabelos louros se abriam num leque dourado, acolchoando-lhe o rosto, enquanto ela continuava a chorar, amaldiçoando Papai e a si mesma pelo que estavam fazendo. O que estavam fazendo? Rolou no tapete, deitando-se de costas, com os braços bem abertos. Papai descobriu o rosto e olhou para ela, parecendo profundamente magoado.

— Tem razão, Christopher! Você sempre tem razão! Houve apenas uma vez em que tive razão, mas aquela única vez poderia ter salvo a vida de Cory.

Soluçando, desviou o rosto violentamente para não encarar Papai, que se ajoelhara a seu lado e tentava abraçá-la. Bateu nele, fazendo-me prender a respiração, engasgado.

— Você também tinha razão quando me disse para não me casar com Julian! Aposto que ficou muito satisfeito quando nosso casamento resultou num miserável fracasso. Aposto que se deleitou quando Julian ficou parado e permitiu que Yolanda Lange destruísse tudo o que possuíamos. Tudo aconteceu exatamente como você previu, deixando-o tão satisfeito. Então, Bart morreu sufocado no incêndio que queimou Foxworth Hall até os alicerces. Você também riu por dentro naquela ocasião?... satisfeito por ver-se livre dele? Pensou que eu correria direto para seus braços, esquecendo-me de tudo o que devia a Paul? Duvidava que eu amasse Paul?

A voz dela se ergueu num grito agudo.

— Quando Paul e eu éramos amantes, nunca me passou pela cabeça considerá-lo velho demais para mim, até que você começou a fazer comentários sobre a idade dele. Talvez eu nunca tivesse dado a menor atenção a Amanda e ao que ela me contou, se você não me tivesse grilado tanto em relação a casar-me com um homem vinte e cinco anos mais velho que eu.

Encolhi-me ainda mais. Envergonhado de ficar e escutar; temeroso de levantar-me e ir embora, agora que já ouvira tanto. Mamãe estava tensa, como se tivesse guardado aquilo tudo durante muito tempo, pronta para jogar na cara de Papai à primeira oportunidade adequada, que surgira agora. Ele recuou ante a violência do ataque.

— Lembra-se da tarde em que me casei com Paul? — berrou ela. — Lembra-se? Pense no momento em que você me entregou a aliança que ele me colocou no dedo. Hesitou por tanto tempo que o pastor teve que apressá-lo em surdina. E, durante o tempo todo, você implorava com o olhar. Eu resisti naquela ocasião, como deveria ter resistido após a morte de Paul. Você desejava que ele morresse em breve, a fim de ter a SUA oportunidade? Um desejo auto-realizável, Christopher Doll! VOCÊ VENCEU! VOCÊ SEMPRE VENCE! SENTA-SE E ESPERA, ENQUANTO FAZ O POSSÍVEL PARA ESTRAGAR-ME A VIDA! BEM, AQUI ESTOU EU! EXATAMENTE ONDE VOCÊ ME DESEJAVA!... Na sua cama, portando-me como sua esposa! VOCÊ ESTÁ GOSTANDO? ESTÁ?

Soluçando, esbofeteou-o com força. Ele recuou sob a força do golpe, mas não disse uma palavra. Ainda assim, ela não terminara:

— Não entende que eu jamais teria procurado Bart se você não estivesse sempre por perto, intrometendo-se entre Paul e eu, envergonhando-me do que Mamãe fez a você e a mim? Fui obrigada a tomar Bart dela, era a única maneira de castigá-la pelo que fez a nós. E agora, depois de tudo que Paul fez por nós, você nem mesmo tem a decência e generosidade de acolher uma pobre menininha que em breve será órfã? Mesmo depois que abri o caminho legal, de modo que não haverá qualquer investigação por parte das autoridades? Você ainda me deseja só para si, achando que dois filhos são suficientes para atrapalhar nossa privacidade e que outra criança poderia fazer desmoronar nosso castelo de cartas roubadas.

— Cathy, por favor... — gemeu Papai.

Ela o esmurrou com os pequenos punhos cerrados e depois tornou a gritar:

— Talvez você tenha dito a Paul que poderia ter sexo só para que ele sofresse outro ataque cardíaco!

Então derreou-se, as lágrimas escorrendo pelo rosto, os úmidos olhos azuis fitando Papai. Este, porém, limitou-se a permanecer imóvel, agachado sobre os calcanhares, como se congelado por tudo o que ela dissera. Tive vontade de chorar, por ele, por ela, por Bart e por mim. Embora estivesse longe de compreender o bastante. Meu padrasto começou a tremer incontrolavelmente, como se o inverno tivesse entrado inesperadamente em nossa sala de visitas. Teria Mamãe dito a verdade? Era ele quem estava por trás de todas tantas mortes em nossa família? Fiquei também amedrontado, assustado, pois o amava.

— Meu Deus, Catherine! — disse ele afinal, levantando-se e tomando a direção de seu quarto. — Vou arrumar minhas malas e partir desta casa imediatamente, se é isso que você quer. E espero que esteja satisfeita. Desta vez, você venceu!

Num único salto gracioso, ela se pôs de pé e correu atrás dele. Segurou-lhe o braço, obrigando-o a virar-se, e o enlaçou com força pela cintura, agarrando-se a ele.

— Chris! — exclamou. — Desculpe-me! Sinto muito, muitíssimo. Não quis dizer uma só palavra do que disse. Foi crueldade, eu sei. Eu o amo; sempre o amei; minto, engano, digo qualquer coisa para conseguir o que desejo. Jogo a culpa em cima de qualquer pessoa. Não consigo admitir que ela me caiba. Não fique tão magoado, tão traído. Tem razão em negar-me a filha de Nicole, pois sempre acabo magoando todas as pessoas que amo. Eu destruo aquilo de que mais gosto. Se eu fosse o tipo certo de pessoa, teria encontrado as palavras adequadas para dizer a Carrie, mas nada de certo fiz por ela então, como também nada de certo fiz por Julian.

Continuou agarrada a ele, que permanecia imóvel como um tronco alto e ereto nos braços dela, nada fazendo para retribuir toda a paixão que ela derramava sobre ele através de palavras, beijos e abraços. Mamãe pegou-lhe uma das mãos inertes e tentou esbofetear o próprio rosto com ela. Não conseguindo, esbofeteou-se com a mão livre.

— Por que não me bate, Chris? Deus sabe que lhe dei bastante motivo para isso esta noite. E não preciso ter Cindy, não quando tenho você e meus filhos...

Pude perceber que meu padrasto se sentia impotente contra toda a angústia que Mamãe demonstrava. O comportamento dramático de Mamãe o encurralara a um canto da sala e ele desejava permanecer ali o tempo suficiente para raciocinar sobre sua posição. Mas ela insistia, exigindo dele uma reação, até que começou a gritar outra vez:

— O que há com você, agora, Christopher Doll? Fica aí parado, como um pedaço de pau, sem dizer uma palavra, tentando julgar-me segundo sua própria ética. Reconheça a verdade: eu não tenho ética nenhuma! Você quer convencer-se de que sou apenas uma atriz representando um papel, como nossa mãe representou o dela. Mesmo agora, após todos estes anos, você não sabe distinguir quando estou representando e quando não estou. Sabe por que?

Sua voz assumiu um tom cáustico, cínico:

— Desde que jamais se incomodou em analisar o meu patético caso, vou fazê-lo para você. Christopher, você tem medo de me encarar com honestidade. Não quer saber como realmente sou. Se eu não estiver representando e esta minha faceta que lhe estou mostrando agora, for verdadeira, então você é incapaz de se admitir um tolo. Então você descobriria que baseou seu amor imenso, altruísta, numa mulher impiedosa, exigente e totalmente egoísta. Vamos, veja a verdade! Não sou uma deusa, nunca fui e jamais serei! Chris, você tem sido um tolo toda a sua vida adulta, tentando transformar-me em algo que não sou, o que faz também de você um mentiroso. Não é mesmo?

Mamãe riu quando ele empalideceu.

— Olhe para mim, Christopher! De quem o faço lembrar-se?

Ela se afastou um pouco e o fitou em silêncio durante longo tempo, aguardando. Quando Papai se recusou a responder, Mamãe disse:

— Vamos logo, diga, sou como ela, não é mesmo? Era assim que ela estava naquela última noite em Foxworth Hall, quando os convidados se apinhavam em torno da árvore de Natal e, na biblioteca, ela gritava como estou gritando agora! Gritando que seu pai a espancara para forçá-la a fazer o que fez. Que pena você não estar lá! Portanto, grite comigo, Chris! Bata-me! Grite como estou gritando e mostre que é humano!

Devagar, muito devagar, Papai estava perdendo a calma. Tive muito medo do que poderia acontecer em seguida. Tive vontade de entrar correndo na sala e interromper o que se passava, pois se ele erguesse a mão para agredi-la, eu correria para defendê-la. Jamais permitiria que ele batesse em minha mãe. Será que ela escutou minhas preces silenciosas? Largou Papai e tornou a escorregar-se para o chão. Fiquei muito confuso por vê-los brigando, para valer. E por que o nome Foxworth Hall fazia ressurgir temores ocultos que eu não desejava que viessem à luz? E quem era a tal ela de quem Mamãe tanto gritava? E onde estivera Papai Paul naquela ocasião? Naquele tempo tão distante em que Mamãe ainda não conhecia o irmão mais moço dele? Ou, ao menos, era o que me diziam. Pais mentiam? Foxworth Hall, por que me soava familiar?

Ele se ajoelhou mais uma vez ao lado dela e, desta vez, tomou-a nos braços com grande ternura e ela não opôs resistência. Papai cobriu-lhe o rosto com beijos rápidos, os lábios tentando abafar as palavras que continuavam a brotar dela.

— Chris, como consegue continuar a me amar, quando sou uma megera? Como pode continuar a compreender por que sou tão má, com tanta freqüência? Sei que sou tão ruim quanto ela, mas daria minha vida para desmanchar o mal que ela nos fez.

Sem dizer uma palavra, ele a fitou nos olhos até que a respiração de ambos começou a ficar ofegante. Entre eles, aquela paixão que estava sempre pouco abaixo da superfície incendiou-se, inflamou-se, e algo elétrico percorreu-me a pele, também.

Temendo ver demais, esgueirei-me silenciosamente de volta ao meu quarto, tendo ainda na mente a visão de ambos rolando pelo chão. Rolando sem parar, virando-se, agarrando-se, ambos frenéticos e a última coisa que escutei foi um zíper sendo aberto. Não sei se dele ou dela. Não obstante, matutei a respeito. Alguma mulher abria, por livre e espontânea vontade, o zíper das calças de um homem, mesmo que fosse sua esposa?

Corri para o jardim. No escuro, perto do muro branco, junto a uma pálida estátua nua de mármore, caí de joelhos no solo e chorei. A primeira coisa que vi ao erguer os olhos foi a estátua "O Beijo", de Rodin. Apenas uma cópia, mas muito me disse a respeito dos adultos e seus sentimentos. Eu fora uma criança que acreditava que a integridade de meus pais era impecável, seu amor uma fita brilhante e macia de cetim imaculado. Agora, a fita estava manchada, rasgada e não mais brilhava. Teriam eles discutido muitas vezes e eu não me lembrava? Procurei recordar. Parecia-me que eles nunca tinham discutido tão terrivelmente; apenas pequenos conflitos que logo eram resolvidos.

— Você é grande demais para chorar. — disse com meus botões.

Quatorze anos era uma idade quase adulta. Alguns fios de cabelo já brotavam acima de meus lábios e em outros locais do corpo. Fungando, engasgando-me para conter os soluços, corri para o muro branco e trepei no carvalho. Uma vez em cima do muro, sentei-me no meu lugar predileto e olhei para a enorme mansão branca, que parecia fantasmagórica ao luar. Pensei, pensei muito a respeito de Bart e de quem seria o seu pai. Por que meu irmão não tinha o nome de Papai Paul? Naturalmente, um filho devia receber o mesmo nome que o pai. Por que Bart, em vez de Paul?

Enquanto eu observava e refletia, o nevoeiro vindo do mar começou a cobrir a paisagem, adensando-se e envolvendo a mansão até que não mais consegui avistá-la. Por toda parte a densa névoa cinzenta se estendia. Estranha, assustadora, misteriosa. Do terreno ao lado vinham esquisitos sons abafados. Estaria alguém chorando ali? Grandes soluços magoados, entremeados com gemidos e curtas preces que imploravam perdão. Oh, meu Deus! Estaria a pobre velha chorando exatamente como minha mãe? O que fizera ela? Todo mundo teria um passado vergonhoso a esconder? Eu me tornaria igual a eles, quando crescesse?

— Christopher! — soluçou a mulher.

Espantado, virei-me e tentei descobrir onde ela estava. Como sabia o nome de Papai? Ou possuía seu próprio Christopher?

De uma coisa eu tinha certeza: algo obscuro e ameaçador ingressara em nossas vidas. Bart se comportava de modo mais estranho do que o costume. Algo, ou alguém, tinha que o estar influenciando de uma maneira sutil, que eu não conseguia perceber direito. O que estava transformando Bart nada tinha a ver com Mamãe e Papai. Se eu não conseguia entendê-los, Bart muito menos poderia fazê-lo. Contudo, sem importar o que havia entre meus pais e o que se passaria com Bart, eu sentia o peso do mundo sobre os ombros, que ainda não tinham força suficiente para tanto.

Certa tarde apressei-me propositalmente a voltar cedo para casa depois da aula de balé. Queria descobrir o que Bart fazia sozinho quando não estava em casa. Ele não se achava em seu quarto, nem no jardim. Portanto, restava apenas um lugar onde meu irmão poderia estar: na propriedade vizinha. Não tive dificuldades para encontrá-lo. Para minha grande surpresa, Bart estava no interior da mansão, sentado no colo da velha que jamais usava roupas que não fossem negras. Prendi a respiração. O pequeno patife comodamente encolhido no colo coberto de preto. Aproximei-me furtivamente da janela da sala que a velha parecia preferir às demais. Ela cantava baixinho, Bart fitava o rosto encoberto pelo véu. Seus grandes olhos escuros estavam cheios de inocência antes de assumirem repentinamente uma expressão ladina e adulta.

— Você não me ama de verdade, não é mesmo? — indagou ele, com voz mais esquisita.

— Oh, amo, sim — respondeu a velha suavemente. — Amo você mais do que já amei alguém antes.

— Mais do que seria capaz de amar Jory?

Por que, diabo, ela me amaria?

A mulher hesitou, desviou o rosto e replicou:

— Sim... você é muito, muito especial para mim...

— Sempre me amará mais que aos outros?

— Sempre, sempre... Bart, meu querido amor, quando vier visitar-me outra vez, você encontrará à sua espera... aquilo que mais deseja neste mundo.

— Acho melhor eu encontrar mesmo! — retrucou Bart num tom duro que me surpreendeu.

De repente meu irmão parecia muitos anos mais velho. Todavia, estava sempre mudando o modo de falar, de andar. Representando, sempre fazendo de conta. Eu voltaria para casa e contaria tudo a Mamãe e Papai. Bart precisava realmente de amigos da sua idade, não de uma velha. Não era saudável para um menino não ter companheiros de sua idade para brincar. Por outro lado, porém, tentei imaginar por que razão meus pais nunca convidavam seus amigos a visitar-nos, como todos os outros pais costumavam fazer de vez em quando. Vivíamos sozinhos, isolados dos vizinhos, até que aquela velha muçulmana, ou seja lá o que ela fosse, viera roubar o afeto de meu irmão. Devia sentir-me satisfeito por ele; em vez disso, fiquei apreensivo. Afinal, Bart levantou-se e disse: “Até logo, Vovó” com sua voz normal de menino, mas que diabo quis ele dizer com "vovó"? Esperei pacientemente até ter certeza de que Bart estava em nosso quintal antes de circundar o velho casarão e bater com força à porta da frente. Esperava ver o velho mordomo aproximar-se a passos arrastados pelo comprido corredor que desembocava no saguão, mas foi a própria velha quem espiou pelo olho-mágico e perguntou quem batia.

— Jory Marquet Sheffield — respondi orgulhosamente, como faria meu pai.

— Jory — murmurou a velha, abrindo a porta logo em seguida. — Entre — convidou alegremente, afastando-se para dar-me passagem.

Tive a impressão de avistar nas sombras alguém que se escondeu rapidamente.

— Fico imensamente feliz por receber sua visita. Seu irmão esteve aqui e acabou com o nosso suprimento de sorvete, mas posso oferecer-lhe uma coca-cola e bolo, ou salgadinhos.

Não era de espantar que Bart não comesse a boa comida de Emma; aquela velha o empanturrava de porcarias.

— Quem é você? — perguntei raivosamente. — Não tem o direito de dar guloseimas a meu irmão!

Ela recuou, parecendo magoada e humilde.

— Tento convencê-lo a esperar até depois das refeições, mas ele insiste. E, por favor, não me julgue mal antes de dar-me uma oportunidade de me explicar.

Com um gesto, convidou-me a tomar assento em uma das elegantes salas de visitas. Embora eu desejasse recusar, tive a curiosidade despertada. Segui-a até o que deveria ser a sala mais grandiosa fora de um palácio francês! Um grande piano de cauda para concertos, sofás para duas pessoas, poltronas de brocado, uma escrivaninha, uma vasta lareira de mármore. Então, virei-me para examiná-la com atenção.

— Você tem nome?

Confusa, ela conseguiu responder em voz sumida:

— Bart me chama... de Vovó.

— Você não é avó dele — declarei. — Quando lhe diz que é, confunde-o. E Deus é testemunha, minha senhora, que se existe algo de que meu irmão não necessita é ainda mais confusão.

O rubor se espalhou lentamente pela testa da velha.

— Não possuo netos. Sou solitária, preciso de alguém... e Bart parece gostar de mim...

Fui dominado pela piedade, de modo que mal consegui dizer o que planejara previamente. Não obstante, repliquei:

— Não creio que vir aqui seja bom para Bart, senhora. No seu lugar, eu procuraria desencorajá-lo. Bart precisa de amigos da sua idade...

E nesse ponto minha voz sumiu, pois como poderia eu dizer-lhe que era velha demais? E que duas avós, uma na clínica para loucos e outra louca por balé, eram mais que o bastante?

No dia seguinte Bart e eu fomos informados de que Nicole morrera durante a noite e que dali em diante a filha dela, Cindy, seria nossa irmã. Meu olhar se cruzou com o de Bart. Papai fitava o prato, mas não comia. Virei a cabeça, espantado, quando escutei o choro de uma criança pequena.

— É Cindy — explicou Papai. — Sua mãe e eu estávamos junto de Nicole quando ela morreu. Suas últimas palavras foram um pedido para que tomássemos conta de sua filha. Quando pensei em vocês dois poderem ficar sozinhos no mundo, como Cindy, compreendi que eu poderia morrer sentindo-me mais em paz se soubesse que meus filhos teriam um bom lar... portanto, permiti que sua mãe dissesse o que vem desejando dizer desde que Nicole sofreu o acidente.

Mamãe entrou na cozinha. Carregava no colo uma menininha com cachos louros e grandes olhos azuis quase da mesma cor que os seus.

— Jory, Bart, ela não é adorável? — indagou, beijando o rostinho rechonchudo e rosado, enquanto os grandes olhos azuis da menina pulavam de Bart para mim e vice-versa.

— Cindy tem exatamente dois anos, dois meses e cinco dias de idade. A senhoria de Nicole ficou satisfeita por ver-se livre do que considerava uma pesada carga — disse Mamãe com um sorriso alegre. — Lembra-se de quando nos pediu uma irmãzinha, Jory? Na ocasião, eu lhe expliquei que não podia ter mais filhos. Bem, como pode ver, às vezes Deus age de forma misteriosa. Por dentro, choro por Nicole, que deveria viver até os oitenta. Mas quebrou a espinha e tinha ferimentos internos múltiplos.

Não terminou a frase. Eu sabia que era terrivelmente triste alguém tão jovem e bonita quanto Nicole Nickols, de dezenove anos, ter que morrer para que tivéssemos a irmã que eu mencionara apenas de passagem havia tanto tempo.

— Nicole era sua paciente, Papai? — indaguei.

— Não, filho, não era. Mas desde que era nossa amiga e aluna de sua mãe, fomos notificados de que não estava reagindo ao tratamento. Corremos ao hospital para estarmos com ela. Suponho que nenhum de vocês dois escutou o telefone tocar por volta de quatro horas desta madrugada.

Olhei para minha nova irmã. Estava muito bonita, num macacão que lhe cobria também os pés. Os cachos sedosos emolduravam-lhe o rosto. Agarrada à minha mãe, olhou para os desconhecidos antes de desviar a cabeça e ocultar-se de nossos olhares.

— Você costumava fazer isso, Bart — comentou Mamãe com um sorriso carinhoso. — Pensava que, escondendo o rosto, nós não conseguíamos vê-lo apenas porque você não conseguia nos ver.

— Leve-a daqui! — berrou Bart, o rosto transformado numa máscara vermelha de fúria. — Leve-a embora! Coloque-a no túmulo, com a mãe! Não quero irmã! Eu a odeio! Odeio!

Silêncio. Ninguém conseguiu falar após tal explosão. Então, enquanto Mamãe parecia chocada demais até mesmo para respirar, Papai estendeu o braço para controlar Bart, que se ergueu de um salto para agredir Cindy! A menina começou a chorar e Emma olhou furiosamente para Bart.

— Bart, jamais escutei algo tão feio e cruel — declarou Papai, erguendo Bart no ar e sentando-o em seu joelho. Bart lutou, contorceu-se, tentou fugir, mas não conseguiu escapar. — Vá para seu quarto e permaneça lá até aprender a ter um pouco de compaixão pelos outros. Sentir-se-ia muito feliz se estivesse na situação de Cindy.

Resmungando baixinho, Bart saiu pisando firme e bateu a porta do quarto. Virando-se, Papai pegou a maleta negra e se preparou para sair. Lançou um olhar de admoestação à Mamãe:

— Agora entende por que fui contra adotarmos Cindy? Você sabe tão bem quanto eu que Bart sempre foi muito ciumento. Uma criança tão bonita e jovem como Cindy não levaria dois dias no orfanato antes que algum casal felizardo a escolhesse.

— Sim, Chris; você tem razão, como sempre. Se Cindy fosse entregue à custódia das autoridades, seria adotada por outros e você e eu passaríamos o resto da vida sem uma filha. Como as coisas estão, tenho uma menininha que me parece muito semelhante a Carrie.

Papai fez uma careta, como se sentisse uma repentina pontada de dor. Mamãe foi deixada à mesa com Cindy no colo e, pela primeira vez desde que eu conseguia me lembrar, ele saiu sem se despedir dela com um beijo. E ela não recomendou: "Tome cuidado!"

Cindy encantou-me num piscar de olhos. Ia de um lado para outro, querendo tocar em tudo e depois sentir o gosto. Uma gostosa sensação de ternura me invadia ao ver a menininha tão bem cuidada, tão amada e mimada. As duas juntas pareciam mãe e filha. Ambas vestidas de rosa, com fitas cor-de-rosa nos cabelos louros. Só que Cindy usava meias brancas com rendas.

— Jory a ensinará a dançar quando você tiver idade para isso.

Sorri para Mamãe ao passar por ela a caminho da aula de balé. Mamãe levantou-se depressa para entregar Cindy a Emma e juntou-se a mim no seu carro, ainda estacionado em nossa ampla garagem.

— Jory, creio que Bart logo aprenderá a gostar um pouquinho de Cindy, você não acha?

Tive vontade de responder que não, que Bart jamais gostaria da menina, mas limitei-me a assentir com a cabeça, sem deixar Mamãe perceber o quanto eu estava preocupado com meu irmão.

Encrencas, encrencas, fervam e dobrem...

— Jory, o que você resmungou agora?

Puxa, nem percebi ter falado em voz alta.

— Nada, Mamãe. Apenas repeti algo que escutei Bart dizer para si mesmo ontem à noite. Ele chora dormindo, Mamãe. Chama por você, gritando porque fugiu com seu amante — sorri e me esforcei por parecer despreocupado. — E eu nem mesmo sabia que você tinha um amante...

Ela ignorou meu comentário jocoso.

— Jory, por que não me contou antes que Bart tem pesadelos?

Como poderia eu dizer-lhe a verdade? Que ela estava por demais encantada com Cindy para dar atenção a qualquer outra pessoa? E que nunca, jamais deveria dar mais atenção a alguém que não fosse Bart. Nem mesmo a mim.

— Mamãe! Mamãe! — escutei Bart gritar dormindo naquela noite. — Onde está você? Não me deixe sozinho! Mamãe, por favor, não me abandone! Não o ame mais que a mim. Não sou mau, não sou realmente mau... apenas não consigo evitar fazer o que faço às vezes... Mamãe... Mamãe...!

Só loucos não conseguem evitar fazer o que fazem. Uma pessoa louca em nossa família já era o suficiente. Não precisávamos de outra vivendo sob o nosso teto. Portanto... cabia-me salvar Bart de si próprio. Cabia-me endireitar algo errado que se iniciara muito tempo atrás. E nos recessos profundos e sombrios de minha mente existiam lembranças vagas e perturbadoras de algo que me afligira anos antes, quando eu era jovem demais para compreender. Jovem demais para juntar as peças do quebra-cabeça.

O problema era que vinha pensando tanto no passado que agora ele estava despertando e eu conseguia lembrar-me de um homem com cabelos escuros, um homem diferente de Papai Paul. Um homem que Mamãe costumava chamar de Bart Winslow e estes eram os dois primeiros nomes de meu meio-irmão.

 

O DESEJO DO MEU CORAÇÃO

Garotinha maliciosa, aquela Cindy. Não se importava com quem a visse nua. Não se importava com quem a sentava no "troninho". Não se importava com ser decente ou limpa. Pegava meus carrinhos de brinquedo e os mastigava. O verão já não era tão gostoso. Nada para fazer. Nenhum lugar para ir, exceto a mansão vizinha. A velha vive prometendo o pônei e este nunca aparece. Está me enganando, fazendo-me de bobo. Vou mostrar uma coisa a ela. Fazê-la ficar lá sentada, sozinha o tempo todo, sem visitá-la. Vou castigá-la. Ontem à noite, escutei Mamãe contando a Papai que viu a velha de preto trepada numa escada encostada no muro.

— E ela estava olhando para mim, Chris. Olhando de verdade!

Papai riu.

— Ora, Cathy, que mal podem fazer os olhares dela? É uma desconhecida em terra estranha. Não teria sido amistoso de sua parte acenar e dizer alô... ou, talvez, apresentar-se?

Ri comigo mesmo. Vovó não teria respondido. Era tímida diante de qualquer desconhecido, exceção feita a mim. Eu era o único em quem ela confiava. Mais um dia de ser malvado com Cindy trouxe-me como castigo a proibição de ir a qualquer lugar; não podia sair do meu quarto. Mas sou esperto e fugi às escondidas, correndo para a casa vizinha, onde as pessoas gostam de mim.

— Onde está meu pônei? — berrei quando vi o celeiro ainda vazio. — Você me prometeu um pônei, portanto, se não me der um, direi a Mamãe e Papai que você está tentando roubar-me deles!

Ela deu a impressão de encolher-se dentro do feio manto negro e as mãos pálidas e esguias subiram à garganta para torcerem um grosso colar de pérolas que ela costumava manter escondido.

— Amanhã, Bart. Amanhã você terá o desejo de seu coração.

Encontrei Amos no caminho de casa. Ele me conduziu a seu esconderijo secreto e sussurrou a respeito de "ações masculinas".

— Mulheres como ela nascem ricas e jamais têm necessidade de cérebro — disse John Amos, os olhos úmidos duros e apertados. — Ouça bem, rapaz, e jamais se apaixone por uma mulher estúpida. E todas as mulheres são estúpidas. Quando lidar com mulheres, você precisa fazê-las saber quem é o patrão desde o início e jamais deixá-las esquecer isso. Agora, vamos à sua lição de hoje. Quem é Malcolm Neal Foxworth?

— Meu bisavô, que morreu e se foi deste mundo, mas, não obstante, continua poderoso — respondi, não chegando a entender bem o que dizia.

— O que mais era Malcolm Neal Foxworth?

— Um santo. Um santo que merece um lugar de honra no céu.

— Correto. Mas diga tudo. Não omita nada.

— Nunca nasceu um homem mais esperto que Malcolm Neal Foxworth.

— Isso não é tudo o que lhe ensinei. Você devia saber mais a respeito dele, pela leitura do diário. Tem lido diariamente? Ele escreveu fielmente aquele livro durante toda a vida. Li-o uma dúzia de vezes, ou mais. Ler é aprender e crescer. Portanto, jamais deixe de ler o diário de seu bisavô até se tornar tão esperto e sabido quanto ele.

— Esperto e sabido não são a mesma coisa?

— Não, claro que não! Sabido é não permitir que as pessoas desconfiem do quanto somos espertos.

— Por que Malcolm não gostava da mãe dele? — perguntei, embora soubesse que ela fugira de casa. Mas isso me faria odiar minha mãe?

— Gostar da mãe dele? Deus do céu, menino! Malcolm era louco pela mãe até ela fugir com o amante e deixar Malcolm com o pai, que era ocupado demais para lhe dar atenção. Se continuar a ler o diário, rapaz, logo descobrirá o que voltou Malcolm contra as mulheres, todas as mulheres. Continue a ler e amplie seu conhecimento. A sabedoria de Malcolm será sua. Ele lhe ensinará a não confiar em que uma mulher esteja presente quando você necessitar dela.

— Mas Mamãe é uma boa mãe — defendi debilmente, já não tendo tanta certeza de que isso era verdade.

A vida era tão "tortuosa". (Nova palavra para hoje: tortuosa).

— Agora, Bart — dissera Papai de manhã cedo, escrevendo a palavra cuidadosamente em letras de forma e explicando-me seu exato significado — quero que você e Jory  encontrem um jeito de encaixar tortuosa pelo menos cinco vezes em suas conversas de hoje. Significa afastado do caminho reto; torto, errado, injusta: T-O-R-T-U-O-S-A.

Soletrou-a para mim. Deus do céu, eu certamente detestava viver num "mundo tortuoso". As malditas palavras do vocabulário novo ensinavam-me agora o quanto todo mundo era capaz de ser tortuoso.

— Agora vou deixá-lo sozinho para que possa ler um pouco mais as palavras de Malcolm — disse John Amos antes de retirar-se arrastando os pés, com o corpo ligeiramente inclinado para a frente e para um lado.

Abri o diário na página onde estava o marcador de couro.

“Hoje eu quis apenas experimentar um pouco do fumo de meu pai, de modo que enchi o cachimbo que encontrei no escritório, saí furtivamente para o quintal e fui fumar atrás da garagem. Não sei como ele descobriu, a menos que algum dos criados me tenha delatado, mas o fato é que soube. Seus olhos duros lançaram chispas e ele me mandou tirar toda a roupa e ficar nu. Encolhendo-me de medo, chorei quando ele me surrou com uma correia e depois me colocou de castigo no sótão até eu aprender os ensinamentos do Senhor e me redimir de meus pecados. Enquanto estava lá em cima, encontrei velhas fotos de minha mãe quando era apenas garota. Como era linda, de aparência tão delicada e inocente! Odiei-a! Quis que morresse naquele instante, onde quer que se encontrasse. Quis que sofresse como eu estava sofrendo, com cortes sangrando nas costas, quase sufocado naquele sótão quente e abafado.

Encontrei muitas coisas naquele sótão: espartilhos com rendas, de modo que uma mulher ficava protuberante na frente, induzindo os homens a acreditarem que ela possuía mais do que a natureza realmente lhe dera. Compreendi que jamais me deixaria iludir por qualquer mulher, por mais linda que fosse. Pois fora a beleza que me colocara no sótão, fora a beleza que me surrara as costas; na verdade, meu pai não tinha culpa do que fizera. Ele também sofria, como eu.

Agora, eu compreendia que tudo o que ele costumava dizer-me era verdade: não se pode confiar em nenhuma mulher. E, em especial, nas que possuem rostos bonitos e corpos sedutores.”

Erguendo os olhos, fitei o vácuo, não vendo o celeiro cheio de feno, mas a linda e doce face de minha mãe. Seria também ela tortuosa? Algum dia fugiria com seu "amante" e me abandonaria para lutar sozinho contra um padrasto que não gostava de mim tanto quanto gostava de Jory e Cindy? O que faria eu, então? Minha avó me acolheria? Perguntei a ela posteriormente.

— Sim, meu amor, eu o acolherei. Cuidarei de você, lutarei por você, pois é o verdadeiro filho de meu segundo marido, Bart Winslow. Já não lhe contei isso antes? Confie em mim, acredite em mim e mantenha-se afastado de John Amos. Ele não é o tipo de amigo adequado para você.

Filho do segundo marido dela. Significaria isso que Mamãe também fora casada com ele? Passava todo o tempo casando-se com alguém! Fechei os olhos e pensei em Malcolm, que há muitos anos jazia em sua cova. A cadeira de balanço da velha continuava a ranger. E a terra cai sobre meu caixão, na sepultura. Escuro, agora. Abafado. Confinado e frio. Céu... onde ficava o Céu?

— Bart, seus olhos estão vidrados.

— Estou cansado, Vovó. Tão cansado...

— Logo você terá o desejo de seu coração.

Dinheiro. Eu queria dinheiro, pilhas e mais pilhas de notas verdes. Naquele momento alguém bateu à porta da frente. Pulei do colo dela e me escondi. Jory entrou correndo, seguido por Amos, que lhe abrira a porta.

— Onde está meu irmão? — quis saber ele, correndo os olhos pela sala. — Não gosto do que está acontecendo com ele e acredito que tem alguma relação com a presença dele aqui...

— Jory — disse minha avó, estendendo a mão com os dedos cobertos de jóias faiscantes. — Não me olhe assim. Não faço mal a Bart. Apenas dou-lhe um pouco de sorvete após as refeições. Sente-se e vamos conversar um pouco. Mandarei trazerem refrescos.

Ignorando-a, Jory correu direto para mim com o faro de um cão de caça e me arrancou de trás das palmeiras plantadas em vasos.

— Não, muito obrigado, senhora — replicou ele friamente. — Minha mãe me dá tudo o que preciso comer e o que a senhora está fazendo aqui é transformar meu irmão. Portanto, faça o favor de não permitir que ele volte.

Os lábios quase invisíveis de minha avó se apertaram e vi lágrimas em seus olhos quando fui arrastado dali. Em nosso quintal, Jory sacudiu-me com força.

— Não se atreva a voltar lá, Bart Sheffield! Ela não é sua avó! Você a olha como se gostasse mais dela que de Mamãe!

Havia quem dissesse que Bart Winslow Scott Sheffield não era tão alto como os outros meninos de nove anos. Contudo, tão logo completei dez anos, compreendi que, no verão, cresceria com a rapidez de um pé de feijão. Quando voltasse à Disneylândia, teria inspiração suficiente para crescer até o tamanho de um gigante.

— Por que parece tão solene, querido? — indagou minha avó quando me aninhei novamente em seu colo no dia seguinte.

O pônei ainda não chegara.

— Não virei mais visitar você — repliquei amuado. — Papai me dará um pônei como presente de aniversário, quando eu lhe disser novamente que desejo um. Não precisarei mais do seu.

— Bart, você não falou com seus pais a meu respeito, falou?

— Não, senhora.

— Se mentir, Deus o castigará.

Claro, por que não? Todo mundo mentia.

— Nunca disse nada a ninguém — resmunguei. — Mamãe e Papai não gostam de mim. Têm Jory. E, agora, têm também Cindy. Isso é o bastante para eles.

Ela lançou um olhar em volta, prestando especial atenção às portas laterais, que estavam fechadas e trancadas. Então sussurrou:

— Bart, vi você conversando com John. Já lhe pedi que se mantivesse afastado dele. É um velho malvado, capaz de ser muito cruel. Não se esqueça disso.

Bolas, em quem poderia eu confiar? Ele dizia o mesmo a respeito dela. Antes eu julgava poder confiar em qualquer pessoa de nossa família. Agora, estava aprendendo que as pessoas nem sempre são o que aparentam ser superficialmente. Não amavam, não se importavam o bastante, em especial quando se tratava de mim. Talvez apenas Vovó realmente se importasse comigo, ela e John Amos. Então fiquei confuso outra vez. Seria John Amos meu amigo de verdade? Se ele fosse, minha avó não podia ser. Era preciso escolher. Qual deles? Como se tomavam decisões importantes como aquela? Então, quando vovó me abraçou e recostei a cabeça em seu seio macio, tive certeza de que era ela quem mais me amava. Era minha avó de verdade. Mas... se não fosse?

Eu vira minha avó uma dúzia de vezes, ou mais. John Amos era meu amigo apenas há poucos dias. Talvez se tivesse esperado por mim sete vezes consecutivas isso me mostrasse que ele me daria sorte e seria bom para mim. Sete vezes consecutivas de qualquer coisa significava boa sorte. Cinco vezes de conversar comigo em seu sinistro esconderijo já me haviam ensinado que as mulheres eram traiçoeiras e tortuosas.

— Bart, meu querido — murmurou minha vovó, pousando os lábios secos em meu rosto, perto da orelha. — Não precisa parecer tão assustado. Basta apenas afastar-se de John Amos e não acreditar em qualquer coisa que ele lhe diga.

Acariciou-me o rosto e senti-a sorrir.

— Agora, se você correr até o celeiro e der uma espiada lá dentro, encontrará uma coisa que qualquer menino adoraria possuir. E os que não possuem o invejarão.

Começou a dizer algo mais, mas eu lhe pulei do colo, corri através da sala e continuei a correr até chegar ao celeiro. Puxa vida! Todos os dias eu trazia uma maçã no bolso, alimentando a esperança. Todos os dias eu trazia cubos de açúcar de Mamãe, alimentando a esperança. Todas as noites eu rezava para possuir aquele pônei que tanto desejava. Aquele pônei me amaria mais que todo mundo! Corri até o celeiro sem tropeçar ou cair uma única vez. Então, estaquei e esbugalhei os olhos. AQUILO não era um pônei! Era apenas um cão. Um enorme cachorro peludo que sacudia o rabo, cujos olhos já me fitavam com adoração e eu não tinha nada para captar sua afeição. Tive vontade de chorar. O cão usava coleira e estava preso por uma corda a um toco no chão do celeiro. Balançava-se todo, como se feliz por ver-me, e eu o detestava.

Ela veio correndo atrás de mim, toda ofegante e ansiosa.

— Bart, querido, não fique desapontado. Eu realmente queria dar-lhe um pônei, mas como lhe expliquei, se o fizesse você voltaria para casa cheirando a cavalos; Jory e seus pais descobririam tudo e nunca mais permitiriam que você voltasse a visitar-me.

Deixei-me cair de joelhos e baixei a cabeça. Queria morrer. Comera todo aquele sorvete, suportara todos aqueles beijos e abraços... e nem assim ela me dera um pônei!

— Você mentiu para mim — engasguei-me, com lágrimas nos olhos. — Você me fez perder todos os meus dias visitando-a, quando poderia ter feito algo melhor.

E lá recomecei eu a não pronunciar os S. Não crescera tanto, afinal.

— Bart, querido, você nada compreende a respeito de cães São Bernardo! — exclamou ela, tomando-me nos braços. — Esse cão ainda é um filhote e repare como é grande. Crescerá até ficar do tamanho de um pônei. Então você poderá selá-lo e montá-lo no jardim. E sabe que nas montanhas utilizam essa raça de cães para salvar pessoas que se perdem na neve? Amarram um barrilete de conhaque no pescoço do cão e este, sozinho, é capaz de encontrar um homem perdido e salvar-lhe a vida. Um cão como esse. O São Bernardo é o cão mais heróico do mundo.

Não acreditei nela. Ainda assim, senti-me obrigado a observar o filhote com maior interesse. Seria mesmo um filhote? Ele forçou a trela, tentando alcançar-me e eu gostei um pouco mais dele por comportar-se assim.

— Ele crescerá mesmo até o tamanho de um pônei?

— Bart, ele tem apenas seis meses e já é quase tão grande como alguns pôneis!

Ela riu e me pegou pela mão, puxando-me para o interior do celeiro.

— Veja — disse, apontando para uma sela vermelha com cabeçada, freio e rédeas da mesma cor. Depois, indicou uma pequena charrete vermelha.

— Você pode montá-lo ou atrelá-lo à charrete... e terá um cão, ou pônei, para qualquer tipo de trabalho, como desejar. Só precisa usar a imaginação.

— Ele morde?

— Não, claro que não. Querido, olhe para ele, note como está feliz por ver um menino. Estenda a mão e deixe-o farejar a palma. Trate-o com bondade, alimente-o bem, mantenha-lhe o pêlo livre de embaraços e carrapichos, e possuirá não só o cão mais lindo do mundo como também o melhor amigo de sua vida.

Temerosamente, estendi devagar a mão e o filhote lambeu-a como se fosse sorvete. Beijos molhados. Ri, pois senti cócegas.

— Vá embora, Vovó — ordenei.

Ela recuou, relutante, enquanto me ajoelhei diante do pônei a fim de poder dizer-lhe o que ele era.

— Agora, escute aqui e não se esqueça do que vou dizer — declarei. — Você não é um cão, mas um pônei. Não está destinado a carregar barris de conhaque para pessoas perdidas na neve, está destinado a carregar só eu e mais ninguém! Meu pônei! E só meu!

Ele me fitou como se estivesse confuso, tombando a cabeça cabeluda para um lado e sentando-se nas patas traseiras.

— Não se sente assim! — berrei. — Cavalos não se sentam, só os cães!

— Bart — veio a voz suave de minha avó. — Lembre-se: seja bondoso.

Ignorei-a. Mulheres não contavam em ações masculinas como aquela. John Amos me ensinara isso. Os homens mandam no mundo e as mulheres têm que ficar quietas e caladas. Eu precisava lançar mão de um encantamento para transformar um filhote de cachorro num pônei. As bruxas malvadas no teatro sabiam como fazê-lo. Pensei muito em todas as bruxas que eu vira no teatro e nos balés e, afinal, julguei saber exatamente o que fazer. Precisava de um comprido nariz adunco e de um queixo comprido e pontudo, olhos encovados e longos dedos ossudos, com unhas negras de cinco centímetros de comprimento. A única coisa que eu possuía eram olhos negros, malvados e penetrantes; talvez isso bastasse. Eu sabia muito bem fazer olhares malvados. Ergui os braços acima da cabeça, crispei os dedos em garras, encurvei a espinha e lancei meu feitiço:

— Eu te batizo Maçã! Com esta poção mágica que te dou e com este feitiço que te lanço, faço de ti um pônei!

Dei-lhe a poção mágica, que era uma maçã.

— Agora tu és meu, todo meu! Nunca beberás ou comerás se não for eu quem te der água e comida! Nunca amarás ninguém exceto eu! Correrás para mim e morrerás quando eu morrer! MEU, MAÇÃ, MEU! AGORA E PARA SEMPRE... MEU!

O poder de minha magia fez Maçã farejar a fruta que eu lhe ofereci. Ganiu com ar infeliz e virou o focinho para um lado, mostrando-se mais interessado no açúcar que eu guardava para mais tarde.

— Agora, deixe de ganir e tente comer tudo — ralhei, dando uma dentada na maçã para ensinar a ele como fazer.

Mais uma vez, estendi a maçã para meu pônei comer. Mais uma vez ele virou de lado a gigantesca cabeça branca e dourada. Parte de seu pêlo tinha cor de ouro avermelhado e era bonito. Tornei a morder a maçã e mastiguei-a, mostrando-lhe que comida gostosa ele estava desprezando.

— Bart — chamou minha avó, meio engasgada. — Talvez eu tenha cometido um engano. Devolverei o cão à loja de animais e comprarei para você o pônei que desejava.

Olhei da velha para minha nova mascote e, depois, para nossa casa, refletindo bastante. Minha família certamente sentiria o cheiro de cavalos, se pôneis cheiram a cavalos. E cheiro de cachorro pareceria natural; convencer-se-iam de que Trevo finalmente aprendera a confiar em mim, quando, na verdade, jamais permitia que me aproximasse dele.

— Vovó, vou ficar com este pônei-filhote de cão e ensinar-lhe tudo a respeito de como se comportar como um cavalo. Se ele não aprender até eu ir para a Disneylândia, você poderá devolvê-lo e nunca mais poderei voltar a visitar você.

Então, rindo e feliz, joguei-me no feno e brinquei com meu pônei-filhote de cão, o único pônei-filhote de cão no mundo inteiro. Seu corpo grande e quente era gostoso em meus braços, gostoso de verdade. Ao olhar para minha avó, compreendi que John Amos estava errado. As mulheres não eram más e tortuosas; senti-me feliz por ter descoberto, afinal, que o tortuoso era John Amos, que Mamãe e Vovó eram as melhores coisas de minha vida depois de Maçã.

— Vovó, você é mesmo minha avó de verdade e meu pai de verdade foi seu segundo marido?

— Sim, é verdade — disse ela de cabeça baixa. — Mas é segredo. Fica apenas entre nós dois. Prometa-me não contar a ninguém.

Deu a impressão de curvar-se, parecendo triste, mas eu estava tão feliz por dentro que sentia vontade de explodir. Um pônei-filhote de cão e uma avó de verdade que fora casada com meu verdadeiro pai. Puxa! Afinal eu começava a ter sorte.

E recomecei a pronunciar os “S”. O carinhoso Maçã e minha avó tinham-me feito aquilo, permitindo-me dizer corretamente as palavras no plural. Tinham conseguido em apenas um dia, enquanto Mamãe e Papai vinham tentando há anos. Logo descobri que comer tem muito a ver com amar. Quanto mais comida eu dava a Maçã, mais ele me amava. E sem precisar do auxílio de novos feitiços, ele era meu, só meu. Quando eu chegava de manhã, corria para mim, pulando, girando em círculos, sacudindo a cauda, lambendo-me o rosto. Quando o atrelei à nova charrete de pônei, ele corcoveou como um cavalo de verdade. E também tentou por todas as maneiras livrar-se da sela que lhe coloquei. Rapaz! Valia a pena esperar até que Jory recebesse uma carga do tipo de magia que eu era capaz de produzir.

— Logo farei onze anos — disse eu a Vovó certo dia, na esperança de dar-lhe algumas idéias.

— Dez — corrigiu ela. — Você completará dez anos.

— Onze! — berrei, insistindo. — Passei todo o ano completando dez anos. Agora, tem que ser onze.

— Bart, não desperdice a vida com fantasias vãs. O tempo passa bastante depressa. Agarre-se à juventude, continue como é agora.

Continuei a acariciar a cabeça de Maçã.

— Vovó, conte-me a respeito de seus filhos.

Ela pareceu entristecer-se outra vez, não pelo rosto, que eu não conseguia ver, mas pelo modo como curvou os ombros.

— Um foi para o céu — murmurou com voz rouca. — O outro fugiu.

— Para onde foi ele? — indaguei, pensando que talvez eu também fugisse para lá.

— Para o Sul — replicou ela simplesmente, curvando ainda mais os ombros.

— Também vou para o sul. Detesto aquele lugar!... cheio de velhas sepulturas e de velhas avós. Uma está trancada num hospital de malucos. A outra é uma velha bruxa de cara malvada. Você é minha melhor avó.

Pois a essa altura eu já sabia que ela não podia ser a mãe louca de Papai, mas a mãe de meu verdadeiro pai. E as mulheres trocam de nome quando trocam de marido, por isso... Só então me dei conta de que nem mesmo conhecia o nome ou o sobrenome dela.

— Corrine Winslow — disse ela, ainda cabisbaixa, quando indaguei.

Eu podia ver-lhe um pouco do rosto, onde o nariz afastava o véu negro das bochechas. Um pouco de cabelo também aparecia. Cabelos macios, grisalhos, com mechas de louro brilhante. Senti pena dela. Ia sofrer de verdade quando eu fosse embora.

— Vou à Disneylândia, Vovó. Ficarei lá uma semana e terei uma festa, com mais presentes de Mamãe, Papai, Jory e Emma. Depois voaremos todos juntos para o Leste e passaremos duas miseráveis semanas, apenas visitando...

— Já sei — interrompeu ela, com um sorriso na voz. — Duas semanas jogadas fora visitando velhas sepulturas e velhas avós. Mas divirta-se, de qualquer forma.

Debruçou-se para beijar-me e abraçar-me com força.

— Enquanto você estiver viajando, cuidarei bem de Maçã.

— NÃO! — berrei, aterrorizado ante a possibilidade de Maçã gostar mais dela que de mim quando eu voltasse. — Deixe minha mascote em paz. Ele é meu. Não dê comida a ele e não o faça mais seu que meu.

Ela concordou em proceder como eu desejava. Em seguida, contei-lhe que daria um jeito de ir à Disneylândia e depois fugir de volta para cuidar de Maçã. Ainda não sabia ao certo como conseguiria isso e, pelo jeito de vovó, ela também não sabia.

Mais tarde, fui brincar com Maçã no celeiro. John Amos postou-se ali perto, alto e esquelético, enquanto eu rolava no feno. Tornou a fazer um sermão sobre a maldade das mulheres e como elas induziam os homens ao "pecado".

— Ninguém faz nada de graça — declarou ele. — Nem por um segundo imagine que ela não tem planos maldosos para você, Bart Winslow.

— Por que me chama assim?

— É o seu nome, não é?

Sorri, muito orgulhoso por informar que eu tinha o nome mais comprido do mundo.

— Isso não importa — replicou ele, impaciente. — Preste atenção, menino. Ontem você me perguntou a respeito do pecado e quis que eu lhe explicasse exatamente o que era, mas precisei planejar os termos. Pecado é o que homens e mulheres fazem juntos quando trancam a porta do quarto.

— O que há de tão ruim no pecado?

Ele fez uma carranca, mostrando os dentes, e tornei a afundar-me no feno, desejando que ele se fosse e me deixasse sozinho com Maçã.

— Pecado é o que as mulheres usam para tornar o homem fraco. Você precisa encarar certos fatos. Dentro de cada homem há um toque de fraqueza, de falta de tutano, e as mulheres sabem como encontrá-lo tirando as roupas e utilizando os prazeres terrenos para minarem a força do homem através do desejo. Observe sua mãe, note como ela sorri para seu pai, como ela pinta o rosto e as mãos, como usa roupas sumárias, e perceba como os olhos de seu padrasto brilham quando você vir isso, saiba que eles estão a caminho de pecar.

Engoli em seco, um tanto magoado por dentro. Não queria que meus pais cometessem coisas ruins, que obrigassem Deus a castigá-los.

— Agora, escute novamente as palavras de Malcolm: "Chorei muito durante cinco anos depois que minha mãe se foi e me deixou sozinho com meu pai, que me odiava por ter sido gerado por ela. Ele me contou que, durante todo o tempo em que foi casado com minha mãe, esta foi infiel, enganando-o com muitos amantes. Então ele passou a ser incapaz de me amar. Não suportava minha proximidade. Portanto, senti muita solidão ao crescer trancado naquele casarão, sem alguém que gostasse de mim. Repetidamente, meu pai afirmava que jamais conseguiria casar-se outra vez, por minha causa. Nenhuma de suas amantes gostava de mim. Mas todas me temiam. Podem apostar que eu não lhes deixava dúvidas quanto à minha opinião. Eu sabia que elas queimariam no fogo eterno do inferno”.

— O que é uma amante? — perguntei.

Por vezes, Malcolm me entediava.

— Uma alma desamparada a caminho do inferno — replicou Amos, cujo olhar parecia queimar-me. — E não pense que pode fazer uma viagem de férias e deixar Maçã aos cuidados de outra pessoa. Quando aceitamos o amor de um animal, esse animal torna-se nossa responsabilidade pelo resto da vida. Nós lhe damos comida, água, trato e exercício ou Deus nos fará sofrer!

Estremeci e olhei para o meu pônei-filhote de cão, que corria atrás do próprio rabo.

— Existe força em seus olhos escuros, Bart. A mesma espécie de força que Malcolm possuía. Deus enviou você para completar uma missão inacabada. Malcolm jamais descansará na sepultura até que todos os filhos do Demônio sejam atirados ao fogo do inferno!

— Fogo do inferno — repeti devidamente.

— Dois já estão lá... ainda faltam três.

— Ainda faltam três.

— Sementes daninhas se reproduzem e multiplicam incessantemente.

— Incessantemente.

— E quando você cumprir seu dever, Malcolm descansará em paz.

— Descansarei em paz.

— O que você disse?

Fiquei confuso. Às vezes, eu fazia de conta que eu era Malcolm. John Amos sorriu por algum motivo e pareceu satisfeito. Então tive permissão para voltar à minha casa. Jory correu para interrogar-me.

— Onde esteve? O que foi fazer lá? Vi você conversando com o velho mordomo. O que lhe disse ele?

Jory fez-me sentir como um rato diante de um leão. Então lembrei-me do diário de Malcolm e de como ele enfrentava situações semelhantes. Afivelei no rosto uma máscara de frieza.

— John Amos e eu temos segredos que não são da sua conta.

Jory esbugalhou os olhos. Eu me afastei calmamente. Sob uma enorme árvore frondosa, Mamãe empurrava Cindy num balanço para bebês. Garotinhas novas tinham que ser amarradas para não caírem.

— Bart — chamou Mamãe. — Onde esteve?

— Em lugar nenhum! — repliquei, malcriado.

— Bart, não gosto desse tipo de resposta.

Parei e resolvi agir como Malcolm, obrigando-a a encolher-se ante meu olhar malvado. Ao invés disso, para minha surpresa, constatei que ela usava uma blusa sumária, tipo sutiã, que não lhe chegava à cintura e deixava à mostra o umbigo acima do short. Mostrava a pele nua! Pecado tinha relação com nudez. Na Bíblia, o Senhor ordenara a Adão e Eva que vestissem roupas e cobrissem a carne pecaminosa. Seria minha mãe tão pecadora como aquela malvada Corrine que fugira com o "amante"?

— Bart, não me olhe como se não soubesse quem eu sou.

Veio-me à mente uma das frases da Bíblia que John Amos estava sempre citando. Pouco a pouco, eu ia aprendendo o que Deus esperava das pessoas que criara.

— Previna-se, Mamãe. O Senhor a verá quando eu não a vejo. E castigará.

Mamãe quase deu um salto. Então, engoliu em seco e perguntou com voz engasgada:

— O que você disse?

Vejam só como treme, pensei comigo mesmo. Virei a cabeça para fitar raivosamente todas as estátuas nuas naquele amaldiçoado jardim do pecado. Gente maldosa e despida não deixava Malcolm descansar em paz na sua cova. Mas eu a amava; era minha mãe; às vezes, entrava para dar-me um beijo de boa-noite e ficava para ouvir minhas orações. Antes de Cindy chegar, ela era melhor e passava mais tempo comigo. Além disso, não parecia estar apaixonada por um "amante". Fiquei sem saber o que fazer.

— Estou com sono, Mamãe — declarei.

Afastei-me dali, sentindo-me insatisfeito comigo mesmo e com o resto do mundo. E se o que Malcolm escrevera e John Amos citava fosse verdade? Seria ela maldosa e pecadora, induzindo os homens a se comportarem como animais? Maçã não era mau nem pecaminoso. Nem mesmo Trevo, apesar de não gostar de mim.

No interior do quarto de Jory, parei diante do seu aquário de cento e vinte litros. O ar produzia uma corrente de pequenas bolhas que estouravam na superfície como o champanhe que Mamãe me deixara provar certa vez. Peixes bonitos morriam no meu aquário. Os peixes no aquário de Jory nunca morriam. Meu aquário vazio continha apenas água e um navio pirata de brinquedo que derramava jóias de imitação numa imitação do fundo do oceano. No aquário de Jory cresciam algas que entravam e saíam de um pequeno castelo. Os peixes de Jory nadavam entre recifes de coral. Jory fazia tudo melhor que eu. Não me agradava ser Bart. Bart precisava permanecer em casa e esquecer a Disneylândia, agora que tinha responsabilidades.

Um animal de estimação podia constituir uma carga pesada, muito pesada! Atirei-me na cama e olhei para o teto. Malcolm já não necessitava mais de sua força e poder, nem do cérebro esperto que também era sabido. Estava morto e seus talentos de nada serviam. Ninguém conseguiu obrigar Malcolm a fazer o que não queria, depois que ele cresceu. Eu não queria mais ser um menino. Desejava ser um homem, como Malcolm, o poderoso, o mago das finanças. Obrigaria as pessoas a pularem quando eu falasse. A tremerem quando eu olhasse. A se encolherem quando eu me movesse. O dia estava chegando. Eu sentia.

 

SOMBRAS

— Jory — disse Mamãe, quando pegamos nossas maletas de mão e as levamos para o carro. — Não consigo entender o que está acontecendo com Bart neste verão. Não é o mesmo menino. O que acha você que ele faz fora de casa, sozinho, o tempo todo?

Senti-me pouco à vontade. Desejava proteger Bart e deixá-lo ter como amiga a velha senhora da mansão vizinha; não podia revelar a Mamãe que a mulher se dizia avó de Bart.

— Não se preocupe com Bart, Mamãe — tranqüilizei. — Continue a divertir-se com Cindy. É uma garotinha linda, como você deve ter sido.

Ela sorriu e me beijou o rosto.

— Se meus olhos não me enganam, existe uma outra garotinha linda que você também admira.

Senti o rubor aquecer-me o rosto. Não conseguia despregar os olhos de Melodie Richarme. Era muito linda, com cabelos louros um pouco mais escuros que os de minha mãe, mas seus olhos azuis eram igualmente suaves e brilhantes. Refleti que jamais amaria uma pequena que não tivesse olhos azuis. Naquele instante, Melodie apareceu, correndo para o carro do pai, espantando-me com o modo pelo qual já se tornava uma mulher. Puxa! Parecia milagrosa a maneira pela qual garotinhas de peitos chatos surgiam, da noite para o dia, com seios arredondados, cinturas finas e quadris cheios; de repente, ficavam dez vezes mais interessantes. Mal chegamos em casa, Mamãe mandou-me procurar Bart.

— Você diz que ele está no quintal da vizinha. Não quero que vocês incomodem uma velha reclusa, embora eu gostasse muito que ela deixasse de subir na escada para me observar por cima do muro.

Trepando, pulando, chamando, procurei até encontrar Bart no velho celeiro que outrora fora o que costumavam chamar de "casa das carruagens". Agora havia baias vazias, onde antes ficavam os cavalos, e Bart estava numa delas, usando um ancinho para puxar o feno poeirento. Arregalei os olhos, não acreditando no que vi. Com Bart, estava um filhote de São Bernardo. O cão era quase do tamanho de meu irmão. Era bastante fácil perceber que se tratava de um filhote, pois era brincalhão, correndo, pulando e emitindo os sons característicos dos cães de pouca idade.

Bart largou o ancinho e ralhou com o cachorro:

— Pare de pular assim, Maçã! Os pôneis só pulam obstáculos... Agora, trate de comer esse feno, ou não lhe darei feno limpo amanhã.

— Bart — chamei baixinho, encostando-me na parede do celeiro e sorrindo ao ver que ele pulou de susto. — Cães não comem feno.

O rosto de meu irmão ficou muito vermelho.

— Vá embora! Saia daqui! Não tem o direito de entrar!

— Nem você.

— Trate de sair daqui — soluçou Bart, jogando longe o ancinho e abraçando o enorme filhote de cão. — Este cachorro é meu; devia ser um pônei, portanto, faço-o ao mesmo tempo de cão e de pônei. Não ria nem pense que sou maluco!

— Não penso que seja maluco — repliquei, com um nó na garganta por vê-lo tão perturbado.

Era realmente uma pena que eu tivesse mais afinidade que ele com animais. Os bichos pareciam adivinhar que Bart lhes pisaria no rabo ou tropeçaria neles. Na verdade, nem mesmo eu me sentia à vontade deitado no chão quando Bart estava por perto.

— Quem lhe deu o cachorro?

— Minha avó — respondeu Bart, com os olhos cheios de orgulho. — Ela me ama, Jory; na verdade, ela me ama mais que Mamãe. E me ama mais que sua velha Madame Marisha ama você!

Eis o problema com Bart: mal eu me sentia chegado a ele, esbofeteava-me o rosto, deixando-me arrependido de permitir-me ter alguma preocupação com ele. Não acariciei a cabeça do belo filhote de São Bernardo, embora ele me fizesse festas. Deixei Bart agir a seu modo; talvez desta feita ele arranjasse realmente um amigo. Bart sorriu para mim, feliz, quando tomamos o caminho de casa.

— Não está zangado comigo? — perguntou.

Claro que eu não estava.

— Não me delatará, Jory? É importante não contar à Mamãe ou Papai.

Não me agradava guardar segredos de meus pais, mas Bart foi insistente; além disso, que mal havia em uma senhora bondosa dar a Bart alguns presentes e um cachorro? Ela o fazia sentir-se amado e feliz.

Na cozinha, Emma enfiava colheradas de cereais na boca aberta de Cindy. Mamãe vestira Cindy com um novo macacão azul-claro e uma blusa branca bordada com coelhinhos cor-de-rosa. Mamãe fizera pessoalmente o trabalho de bordado. Os cabelos de Cindy tinham sido escovados até brilharem como ouro com tons prateados; uma fita de cetim azul atava o rabo-de-cavalo atrás da cabeça. Estava tão limpa e fresca que senti vontade de abraçá-la, mas limitei-me a sorrir. Tinha juízo bastante para não fazer demonstrações de carinho quando Bart estava por perto e sentia ciúmes. Por estranho que possa parecer, Cindy ficava muito mais fascinada por Bart que por mim. Talvez por ele não ser tão maior que ela. Meu irmão deixou-se cair numa cadeira da cozinha, que quase tombou para trás sob o impacto. Emma olhou para ele, carrancuda.

— Vá lavar as mãos e o rosto, Bart Winslow, se pretende comer à minha mesa.

— A mesa não é sua — resmungou ele ao encaminhar-se para o banheiro, passando as mãos sujas nas paredes e deixando compridas manchas escuras.

— Bart! — ralhou Emma, ríspida. — Tire essas mãos imundas das paredes!

— As paredes não são dela — resmungou Bart.

Levou uma eternidade para lavar as mãos e, quando voltou, tinha limpado apenas as palmas. Olhou com repugnância para a sopa e os sanduíches que Emma preparara.

— Coma, Bart, ou acabará sumindo — disse Emma.

Eu já estava no segundo sanduíche e no segundo prato de sopa de legumes feita em casa, preparando-me para atacar a sobremesa, enquanto Bart ainda mordiscava metade do seu primeiro sanduíche, sem ter tocado no prato de sopa.

— O que acham de sua nova irmãzinha? — perguntou Emma, limpando os lábios sujos de Cindy e retirando o babador manchado de comida. — Não é uma boneca viva?

— Sim, é mesmo engraçadinha — concordei.

— Cindy não é nossa irmã! — inflamou-se Bart. — Não passa de um bebê porcalhão que ninguém quis, exceto nossa mãe!

— Bartholomew Winslow... jamais permita que eu o escute falar assim novamente! — replicou Emma, lançando a Bart um prolongado olhar de reprovação. — Cindy é uma menina linda, tão parecida com sua mãe que bem poderia ser filha dela.

Bart continuou a fazer carranca para Cindy, para mim, para Emma e até mesmo para a parede.

— Detesto cabelo louro e lábios vermelhos que parecem molhados o tempo todo — resmungou ele baixinho, antes de botar a língua para Cindy, que riu e bateu palmas. — Se Mamãe não perdesse tanto tempo em mimá-la, enrolando-lhe o cabelo e comprando-lhe roupas novas, ela seria feia.

— Cindy nunca será feia — negou Emma, olhando para a menininha com óbvia admiração.

Então, debruçou-se para beijar-lhe o rostinho lindo. O beijo provocou outra das piores carrancas de Bart. Fiquei sentado, tenso, temeroso. Toda manhã, eu acordava sabendo que seria obrigado a encarar um irmão que se tornava cada vez mais esquisito. E eu o amava; eu amava meus pais e macacos me mordam se não estava começando a amar Cindy, também. De algum modo, eu precisava proteger todos eles; contra quê, eu não sabia, nem mesmo era capaz de imaginar.

 

CRIANÇA TROCADA

Ao diabo com Jory e Emma, pensei ao atravessar o quente deserto do Arizona. Ainda bem que eu tinha Maçã para me amar, assim como minha avó, do contrário, estaria numa situação triste. Lá estava a minha dama de negro, com os braços bem abertos para receber-me, e fui muito mais beijado e abraçado do que Cindy jamais seria. Ela me serviu uma tigela de sopa. Deliciosa, com queijo derretido por cima.

— Por que não posso contar a meus pais o quanto gosto de você e o quanto você me ama? Seria ótimo.

Não lhe revelei, porém, que eu pensava que ela não era realmente minha verdadeira avó e só dizia isso para me agradar. De certo modo, isso me fazia amá-la mais, pois os parentes devem amar-se uns aos outros. Os desconhecidos, não. Antes de responder minha indagação, ela colocou bem no centro de uma das mesas um grande caminhão basculante. Era estranho que parecesse tão triste, até mesmo amedrontada, quando um segundo antes dava a impressão de estar bastante feliz.

 — Hoje em dia, seus pais me detestam, Bart — murmurou com voz sumida. — Por favor, não lhes diga nada a meu respeito. Mantenha-me como o seu segredo.

Arregalei os olhos.

— Você já os conheceu?

— Sim, há muito, muito tempo, quando ainda eram muito jovens.

Puxa:

— O que você fez para eles a odiarem?

Todo mundo, ou quase todo mundo, odiava-me, de modo que não me surpreendeu que alguém fosse capaz de odiá-la. Ela me segurou a mão.

— Bart, às vezes até mesmo os adultos cometem erros. Eu cometi um erro terrível, pelo qual venho pagando muito caro. Todas as noites rezo a Deus que me perdoe; rezo para que meus filhos me perdoem. Não encontro paz quando me olho no espelho; assim, oculto meu rosto de mim mesma, dos outros, e faço questão de sentar-me em cadeiras de balanço incômodas, de modo a jamais esquecer, por um único segundo, todo o mal que causei àqueles a quem eu mais amava.

— Para onde foram seus filhos?

— Você já esqueceu? — soluçou ela, com lágrimas nos olhos. — Fugiram de mim. Isso me dói tanto, Bart! Nunca fuja de seus pais.

Ora, eu não pretendia fugir deles. O mundo lá fora era grande demais. Ameaçador demais. Seguro; eu precisava permanecer onde estivesse seguro. Corri para abraçá-la e depois fui brincar com o novo caminhão. Foi então que John Amos entrou mancando na sala, os olhos lacrimosos cheios de fúria.

— Madame! Não se desenvolve a força dos jovens satisfazendo-lhes todos os caprichos. A senhora já deveria ter aprendido isso.

— John — replicou ela, altiva — jamais torne a entrar nesta sala sem bater antes. Mantenha-se em seu lugar.

Dura. Minha avó era durona. Sorri para John Amos, que recuou resmungando baixinho a respeito de ela não lhe dar lugar nenhum, muito menos o que ele merecia. Esqueci-a no instante em que ele saiu da sala, deixando-me dominar pelo encanto de meu novo caminhão basculante e tentando descobrir seu  mecanismo de funcionamento. Não demoraria a descobrir e talvez minha curiosidade equivalesse à maldade, pois tudo que me davam acabava quebrado dentro de uma hora. Minha avó suspirou, parecendo infeliz, quando meu caminhão se desmontou em pedaços.

Os longos dias de verão passavam-se lentamente, com John Amos ensinando-me um bocado de coisas importantes a respeito de ser poderoso e temido como Malcolm, que tudo sabia sobre como ser ladino e esperto. A seu próprio modo, John Amos era fascinante, com seu esquisito andar arrastado, pernas finas mais nodosas que as minhas, respiração sibilante, fala assoviada, bigodinho ralo e uma calva onde só existia um fio de cabelo, branco. Algum dia, eu arrancaria aquele fio branco. Por que minha avó não gostava dele? Era a patroa, poderia despedi-lo, mas não o fazia. Existia algo duro e mau entre eles.

Eu era feliz vivendo entre eles, abençoado por um lado por minha avó, com todos os seus belos presentes, abraços e beijos, e por outro lado por John Amos, que me ensinava como ser um homem poderoso, capaz de fazer as mulheres cumprirem suas ordens. E agora que eu tinha alguém que me amava por mim mesmo, não importando o quanto eu fosse malvado ou desajeitado, comecei a sentir aquele tipo especial de magia compartilhado por Mamãe e Jory. Tive a impressão de que eu, também, conseguia ouvir a música das cores do poente, de que o limoeiro produzia o som de leves acordes de harpa. Eu tinha Maçã, meu pônei-filhote de cão. E, o melhor de tudo, a Disneylândia estava à minha espera e o dia de meu aniversário se aproximava.

Agora que me tornava brilhante como Malcolm, tentava imaginar uma maneira de conservar o amor de Maçã enquanto permanecesse afastado por três semanas. Aquilo me acordava durante a noite. Preocupava-me o dia inteiro. Quem alimentaria Maçã e me roubaria seu amor enquanto eu estivesse ausente? Quem? Voltei ao muro e examinei um caroço de pêssego que ainda não lançara raízes. Devia estar crescendo e não estava. Em seguida, verifiquei minhas sementes de ervilha-de-cheiro. As idiotas continuavam como antes. Não produziam nada. Maldito. Eu era amaldiçoado. Olhei raivosamente para a parte do jardim cuidada por Jory. Todas as suas plantas estavam em pleno florescimento. Não era justo que nem mesmo as plantas crescessem para mim.

Engatinhei até o local onde estavam plantados os gerânios de Jory. Meus joelhos esmagaram petúnias e portulacáceas. O que faria Malcolm, se fosse eu? Arrancaria todas as flores de Jory, cavaria buracos com os dedos em seu próprio jardim e ali plantaria os brotos? Um por um, enchi meus buracos com os gerânios de Jory. Os talos se recusavam a ficar verticais, mas arrumei-os de modo a se apoiarem uns nos outros e agora meu jardim também tinha plantas em flor. Esperteza. Tortuoso, furtivo, mas também esperto. Olhei para meus joelhos sujos de terra e vi que rasgara as calças novas na casa de cachorro que começara a construir para Trevo. Era minha maneira de desculpar-me por tropeçar nele com tanta freqüência. No momento, Trevo estava lá em cima, na "varanda", observando-me com atenção, com medo de dormir enquanto eu estivesse por perto. Eu não precisava dele. Precisara antes, mas agora tinha um cão de estimação muito melhor.

Os insetos mordiam-me o rosto. Esfreguei os olhos sem me importar se minhas mãos estavam cobertas de graxa por mexerem na oficina que Papai tinha na garagem. Emma não gostaria de ver que meu novo blusão estava todo manchado de graxa e até mesmo Mamãe notaria o rasgão da gola até a cintura. Mordi os lábios. Sábados eram dias de diversão e eu não estava divertido. Ao contrário de Jory, nada para fazer. Eu não nascera para dançar; apenas para me sujar e arranhar. Mamãe tinha Cindy. Papai tinha os pacientes. Emma tinha a cozinha e a limpeza da casa. Ninguém se incomodava se eu estava entediado. Lancei a Trevo um olhar cheio de ódio.

— Tenho um cão melhor que você! — berrei.

Ele recuou para perto da casa e se escondeu sob uma cadeira.

—  Você não sabe como salvar pessoas perdidas na neve! Também não sabe usar uma sela vermelha, ou comer feno!

Todo dia eu dava a Maçã um pouco mais de feno, misturado à ração para cães, de modo que ele se acostumasse a gostar mais de feno que de carne. Trevo parecia envergonhado. Esgueirou-se ainda mais para baixo da cadeira e lançou-me outro daqueles seus olhares tristonhos, que me faziam mal aos nervos. Maçã nunca fazia aquilo. Suspirei, levantei-me, esfreguei os joelhos e as mãos. Hora de visitar Maçã. No caminho tive a atenção distraída pelo muro branco, que precisava de mais textura. Pegando uma pedra, comecei a bater no muro para tirar mais reboco branco. Puxa! E se o muro continuasse para sempre? Poderia até mesmo acabar na China, contendo as hordas de mongóis. O que seriam os mongóis? Macacos? Sim, a palavra soava a macaco, uma espécie de macacos malvados e enormes, que devoravam pessoas que se encontrassem nos "paroxismos" de alguma coisa. Eu gostaria de ser enorme como King Kong, para poder pisar nas coisas que detestava. Primeiro, pisaria nos professores, depois nas escolas, e também evitaria esmagar as igrejas. Malcolm respeitava Deus e eu não queria que Deus se zangasse comigo. Eu pegaria estrelas no céu e as enfiaria nos dedos, como anéis de brilhantes iguais aos de minha avó. Usaria a lua como boina. Deixaria o sol em paz, pois ele era capaz de me queimar a mão... todavia, se pegasse o edifício Empire State, poderia usá-lo como porrete e enxotar o sol para fora de nosso universo! Então, tudo ficaria negro como breu. Não existiria mais dia e a noite reinaria para sempre. O negro era como a cegueira, ou a morte.

— Bart — chamou uma voz suave, sobressaltando-me.

— Vá embora! — ordenei.

Estava me divertindo sozinho. E o que fazia ela naquela escada, outra vez? Espionando-me? Tornei a sentar-me no chão, cutucando o solo com um graveto.

— Bart — chamou ela novamente. — Maçã está esperando que você lhe dê de comer e precisa de água fresca. Você prometeu ser um dono bondoso. Uma vez que fez um animal amá-lo e confiar em você, tem obrigações para com ele.

Hoje os olhos dela não estavam cobertos; o véu escondia o rosto apenas do nariz para baixo.

— Quero botas de cowboy, uma nova sela genuína de cowboy, feita de couro verdadeiro e não de imitação, um chapéu, uma jaqueta de couro de veado, perneiras de couro, esporas, e ervilhas para cozinhar na fogueira do acampamento.

— O que é isso que você acaba de desenterrar?

Ela estendeu a cabeça, para ver melhor. Era engraçada: uma cabeça acima do muro, sem corpo. Puxa!... Veja o que estava enterrado no solo: ossos. O que fora feito da pele? E das macias orelhas brancas? Comecei a tremer, com muito medo ao tentar explicar:

— Tigre. Eu estava aqui na outra noite, indefeso, usando apenas meu pijama, quando surgiu do escuro um tigre devorador de gente, com olhos verdes e maus. Rosnou e depois saltou sobre mim. Queria devorar-me. Mas peguei minha espingarda, bem em cima da hora, e dei-lhe um tiro no olho!

Silêncio. O silêncio indicava que ela não acreditava em mim. Quando falou, sua voz tinha um tom penalizado:

— Bart, isso não é um esqueleto de tigre. Estou vendo um pedaço do couro. Era a minha gatinha branca? A gatinha perdida que acolhi e tratei? Bart, por que matou minha gatinha?

— NÃOOO! — berrei. — Eu não mataria um gatinho! Jamais! Gosto de gatinhos. Isto era um tigre, não muito grande. Os ossos velhos estão aqui há muitos anos, desde antes de eu nascer.

Não obstante, pareciam realmente ossos de um gatinho. Esfreguei os olhos, para que ela não visse as lágrimas. Malcolm não choraria assim. Seria durão. Eu não sabia o que fazer. O velho John Amos, no outro lado do muro, vivia dizendo que eu deveria ser como Malcolm e odiar todas as mulheres. Decidi que era melhor comportar-me como Malcolm do que como eu, que não prestava para nada. Não adiantaria tentar ser King Kong, Tarzan ou mesmo o Super-Homem; ser Malcolm era muito melhor, pois eu tinha o seu livro de instruções a respeito de como imitá-lo corretamente.

— Bart, está ficando muito tarde. Maçã está faminto e espera por você.

Cansado, tão cansado.

— Já vou — respondi em tom fatigado.

Puxa, fingir-me de adulto era muito cansativo. Era ruim agir como um velho; melhor ser novamente menino. Velho significava não ter folga no trabalho e tentar ganhar dinheiro sem divertir-me. Levei um tempão para chegar lá, agora que obrigava minhas pernas a andarem devagar. Névoa por todo lado. O verão não era tão quente para os velhos. Mamãe. Mamãe, onde está você? Por que não vem quando preciso de você? Por que não responde quando chamo? Não me ama mais. Mamãe? Mamãe, por que não me ajuda? Prossegui tropeçando, tentando pensar. Então, encontrei a resposta: ninguém conseguia gostar de mim, pois meu lugar não era ali, nem lá. Eu não tinha lugar nenhum.

 

HISTÓRIAS DE MALDADE

Devorei meu toucinho, ovos mexidos com coalhada e cebolinha, e uma terceira fatia de torrada, enquanto Bart continuava a mordiscar como se não tivesse dentes. Sua torrada esfriou à espera de que Bart bebericasse o suco de laranja como se estivesse tomando veneno. Um velho moribundo em seu leito de morte talvez tivesse mais apetite que ele. Bart lançou-me um olhar hostil antes de fixar os olhos em Mamãe. Fiquei abalado. Sabia que ele amava Mamãe, como podia olhá-la daquela maneira?

Algo muito estranho se passava na cabeça de Bart. Onde estava o meu irmão tímido e introvertido? Gradativamente, transformava-se num menino agressivo, desconfiado, cruel. Agora, fitava Papai como se este houvesse cometido algum erro grave, mas era Mamãe o alvo de seus olhares mais fulminantes. Não sabia ele que possuía a melhor mãe do mundo? Tive ímpetos de gritar isso, de obrigá-lo a voltar a ser como antes, resmungando sozinho ao tropeçar em busca de caça grossa, travando batalhas, conduzindo manadas de gado. O que fora feito de todo o humor e admiração que ele tinha por Mamãe? Tão logo surgiu uma oportunidade, encurralei Bart contra o muro do jardim.

— O que há de errado com você, Bart? Por que olha tão feio para Mamãe?

— Não gosto mais dela.

Abaixou-se, abriu os braços na horizontal e transformou-se num avião humano. Isso era normal para Bart.

— Abram caminho! — ordenou. — Pista livre para o jato que decola rumo a lugares distantes!... temporada de caça aos cangurus na Austrália!

— Bart Sheffield, por que está sempre desejando matar alguma coisa?

As asas baixaram, o motor do avião entrou em pane; Bart fitou-me, confuso. O bom menino que ele fora no início do verão voltou a surgir em seus olhos escuros.

— Não vou matar cangurus de verdade. Apenas capturar um dos menores e guardá-lo no bolso para esperar que cresça.

Bobo! Bobo!

— Em primeiro lugar, você não tem uma bolsa com uma teta para o bichinho mamar.

Sentei-o com força num banco.

— Bart, já é tempo de termos uma conversa de homem para homem. O que o perturba, rapaz?

— Numa grande casa iluminada, situada no topo de um morro muito alto, enquanto a noite prosseguia e a neve continuava a cair, as chamas vermelhas e amarelas se elevavam cada vez mais! Os flocos de neve ficavam rosados. E dentro daquela enorme casa estava uma senhora muito velha, que não conseguia falar nem andar. E meu verdadeiro pai, que era advogado, correu para salvá-la. Não conseguiu!... E morreu queimado!... Queimado!... Queimado!

Fantástico. Louco. Tive pena dele.

— Bart — comecei cautelosamente — você sabe que não foi assim que Papai Paul morreu.

Por que coloquei as coisas naqueles termos? Bart nascera apenas alguns anos antes da morte de Papai Paul. Quantos anos? Eu quase me podia lembrar dos pensamentos que tive naquela época. Poderia perguntar a Mamãe, mas, de algum modo, não desejava perturbá-la ainda mais. Portanto, conduzi Bart de volta à nossa casa.

— Bart, seu verdadeiro pai morreu sentado na varanda da frente, enquanto lia o jornal. Não morreu num incêndio. Tinha uma doença cardíaca que resultou numa trombose das coronárias. Papai nos contou tudo isso, lembra-se?

Vi os olhos castanhos de Bart se abrirem muito, as pupilas dilatadas, antes que ele explodisse num terrível ataque de fúria:

— Não me refiro àquele pai! Falo de meu verdadeiro pai! Um pai advogado, alto e forte, que nunca sofreu do coração!

— Bart, quem lhe contou essa mentira?

— Queimado! — berrou ele, girando como um homem cego pela fumaça, tentando encontrar a saída. — John Amos me contou como foi. O mundo inteiro se incendiou, numa noite de Natal, quando a árvore pegou fogo. As pessoas gritavam e pisavam nas que caíam! E a maior, mais grandiosa de todas as mansões atraiu meu pai de verdade para uma cilada e ele morreu, morreu, morreu!

Rapaz, eu já escutara o bastante. Ia direto para dentro de casa, contar a meus pais.

— Ouça uma coisa, Bart: a menos que você pare de ir ao vizinho escutar mentiras e histórias malucas, contarei tudo a Mamãe e Papai sobre você e sobre o que acontece lá.

Ele fechara os olhos com força, como se tentasse ver uma cena gravada a fogo em sua mente. Parecia olhar para dentro de si mesmo enquanto descrevia tudo para mim com maiores detalhes. De repente, arregalou os olhos, numa expressão selvagem, louca.

— Cuide de seus próprios assuntos, Jory Marquet, se não quiser levar na cabeça!

Abaixou-se para pegar um taco de beisebol e desferiu um violento golpe, que certamente me teria estourado os miolos se eu não me esquivasse a tempo.

— Se delatar minha avó e eu, vou matá-lo quando estiver dormindo!

Fez a declaração em voz alta, fria e seca, desafiando-me com o olhar. Engolindo em seco, senti o medo arrepiar-me os cabelos da nuca. Sentir medo dele? Não. Era impossível. Enquanto eu o observava, ele perdeu repentinamente o ar de bravata e começou a respirar com dificuldade, levando a mão ao coração. Sorri, conhecendo-lhe o segredo: era sua maneira de evitar um confronto real.

— Muito bem, Bart — repliquei com frieza. — Agora, dar-lhe-ei o que merece. Vou direto ao vizinho, falar com aqueles velhos que lhe enchem a cabeça de lixo.

Sua representação de velho doente foi abandonada com rapidez. Seus lábios se entreabriram de ansiedade. Olhou para mim com ar de súplica, mas girei nos calcanhares e me afastei, jamais imaginando que ele fizesse alguma coisa. Bam! Caí de cara no chão, com um peso nas costas. Bart me atacara por trás. Antes que tivesse tempo de cumprimentá-lo por ser rápido e certeiro, para variar, ele começou a me esmurrar o rosto.

— Não ficará tão bonito quando eu terminar!

Afastei-o da melhor maneira possível, antes de perceber que ele desferia os golpes com os olhos cerrados, esmurrando cegamente, como uma criança, e soluçando ao fazê-lo. E juro que, por mais que desejasse, fui incapaz de bater em meu irmão menor.

— Ficou com medo, hem? — rosnou ele, encrespando o lábio superior, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. — Creio que agora já sabe quem manda aqui, não é? Você não tem nem uma parcela da coragem que pensei que tivesse, não é mesmo?

Empurrei-o com força e ele caiu de costas, mas macacos me mordam se fui capaz de brigar com um bebê como ele, que só tinha forças quando estava furioso.

— Você precisa de uma boa surra, Bart Sheffield, e talvez caiba a mim aplicá-la. A próxima vez que resolver agir assim comigo, é melhor pensar duas vezes ou talvez você acabe sem coragem.

— Você não é meu irmão — soluçou ele, perdendo toda a agressividade. — apenas meio-irmão e isso é o mesmo que nada.

Engasgou-se com as próprias emoções e esfregou os punhos nos olhos, chorando mais alto.

— Você verá! Aquela velha está enfiando maluquices na sua cabeça e isso é a coisa de que você menos necessita. Ela o está voltando contra sua própria família e vou lá dizer exatamente isso a ela!

— Não se atreva! — gritou ele, sem lágrimas, voltando a ficar furioso. — Farei algo terrível! Farei! Juro que farei! Se você for lá, vai se arrepender!

Sorri ironicamente.

— Você e mais quem me obrigarão a arrepender-me?

— Eu sei o que você quer — replicou ele, voltando a ser apenas uma criança. — Quer meu pônei-filhote de cão. Mas ele não gostará de você não! Você quer que minha avó goste mais de você que de mim, mas ela não gostará! Você quer tirar tudo de mim, mas não pode!

Senti pena dele, mas já negligenciara bastante meu dever.

— Ora, vá tomar sua mamadeira! — retruquei.

E, com isso, afastei-me. Bart correu gritando atrás de mim, berrando que me obrigaria a arrepender-me de magoar alguém que não podia revidar.

— E você vai chorar, Jory! — preveniu ele. — Você vai chorar mais do que já chorou em toda a sua vida!

A estrada estava malhada de sol e sombras. Logo Bart e sua fúria ficaram muito para trás de mim. O sol incidia com força sobre minha cabeça e ouvi às minhas costas o ruído de pequenas patas correndo. Voltei-me para ver que Trevo tentava alcançar-me. Esperando-o, ajoelhei-me para segurá-lo quando ele me pulou nos braços, lambendo-me o rosto com a mesma devotada adoração que me dedicava desde que eu tinha três anos de idade. Três anos de idade. Lembrava-me de onde Mamãe e eu morávamos naquela época, nas montanhas Blue Ridge da Virgínia, num pequeno chalé aninhado contra as encostas. Lembrei-me de um homem alto, de olhos escuros, que me dera não só Trevo como também um gato chamado Calico e um papagaio que batizamos de Botão de Ouro. Calico saiu uma noite e nunca mais voltou. E Botão de Ouro morrera quando eu tinha sete anos; "Você gostaria de ser meu filho?" A voz do homem me soou na memória. Aquele homem, que se chamava... como era mesmo o seu nome? Bart? Bart Winslow? Oh, meu Deus, estaria eu apenas começando a compreender algo que me escapara à lembrança até agora? Seria meu meio-irmão Bart filho daquele homem e não de Papai Paul? Por que motivo Mamãe batizaria o bebê com o nome do homem que não era seu marido?

— Agora você tem que voltar para casa, Trevo — disse eu e ele pareceu entender. — Já tem onze anos e não deve andar por aí no sol de meio-dia. Volte para seu lugar fresco predileto e espere por mim, está bem?

Sacudindo a cauda, ele se virou, obediente, e partiu de volta para casa, olhando freqüentemente para trás, a fim de verificar se eu me virava para poder vir novamente em meu encalço. Esperei até que ele sumiu de vista na curva da estrada. Então, tomei outra vez o caminho da enorme velha mansão. O passado distante me ecoava na cabeça como tambores abafados, recordando-me de eventos que eu havia esquecido. O balé na véspera de Natal e o homem bonito que me dera meu primeiro trem elétrico. Fechei a porta às lembranças, desejoso de manter minha mãe sagrada, meu amor por Papai Paul intacto e meu respeito por Chris também intocável. Não, não me permitiria recordar demais.

Amantes surgiam e sumiam na vida de todo mundo, disse comigo mesmo, se os balés fossem histórias verdadeiras apenas um pouco exageradas. E, como faria meu pai, caminhei ousadamente até o gradil de ferro e exigi, pelo interfone, que me deixassem entrar. Os portões se abriram silenciosamente, como grades de uma prisão, convidando-me a avançar. Quase corri pela curva alameda de acesso até parar diante da grande porta dupla da mansão, onde toquei a campainha e, depois, bati com força a aldrava de bronze. Esperei, impaciente, que aquele velho e trôpego mordomo mexeriqueiro aparecesse. Os portões de ferro se haviam fechado às minhas costas. Tive a impressão de estar entrando numa armadilha. Sim, exatamente como Bart e sua imaginação, que tanto o divertia, eu usara meu meio ambiente de balé para escrever aquele roteiro. Sentia-me como um príncipe miserável e indesejável, que não possuía a senha mágica. Só Bart a conhecia.

Confusão e arrependimento mesclavam-se para minar minha determinação. A mansão não parecia o castelo de alguma rainha malvada dos contos de fada, mas apenas a enorme residência antiquada de uma velha solitária que precisava tanto de Bart quanto ele necessitava dela. Mas não podia ser sua avó, simplesmente não podia. Aquela avó estava muito longe, na Virgínia, trancafiada por ter cometido algo terrível num passado longínquo. O silêncio me envolvia, sufocando-me, fazendo que me sentisse velho. Minha casa era cheia de ruídos da cozinha, música, os latidos de Trevo, o choro de Cindy, os berros de Bart, as ordens de Emma. Nem mesmo um pio emanava da mansão. Troquei nervosamente o peso do corpo de um pé para outro, pensando que talvez fosse melhor desistir da idéia de confrontar-me com a velha. Então, avistei de relance uma sombra escura por detrás de uma das janelas guarnecidas de finas cortinas. Estremeci. Quase bati em retirada. Mas, naquele instante, a porta se entreabriu o bastante para permitir que o mordomo colocasse um olho lacrimoso na fresta.

— Pode entrar, mas não se demore — disse ele em tom nada hospitaleiro. — A senhora é frágil e se cansa com facilidade.

Perguntei o nome dela, cansado de referir-me e pensar nela como "velha" ou "mulher de negro". Minha pergunta foi ignorada. O mordomo me intrigava, com aquele andar arrastado, uma leve sugestão de manqueira, a bengala de ébano que batia no assoalho duro e polido, a calva rosada e brilhante. Seu fino bigode branco caía em compridos fios em cada lado dos lábios severos. Contudo, por mais velho que fosse, por mais frágil que parecesse, ainda conseguia ter um ar sinistro, assustador. Fez sinal para que eu prosseguisse, mas hesitei. Então ele sorriu cinicamente, exibindo dentes grandes demais, regulares demais, amarelos demais. Empertiguei os ombros e o segui corajosamente, pensando que conseguiria colocar as coisas nos devidos lugares e nossas vidas voltariam a ser tão felizes quanto eram antes que eles viessem ocupar a mansão, que outrora era só nossa. Não sabia que existiam suspeitas em mente. Julguei que se tratasse apenas de curiosidade.

A sala que a velha sempre usava voltou a surpreender-me, embora eu não soubesse definir exatamente o motivo. Talvez fosse o fato de ela manter as cortinas fechadas num dia tão lindo de verão. As venezianas atrás das cortinas estavam fechadas, lançando barras de luz no tecido. As venezianas e cortinas isolavam o ambiente do calor reinante lá fora, tornando a sala inesperadamente fria. Não existia necessidade real de condicionamento de ar na região onde morávamos. A proximidade do Pacífico mantinha o clima fresco, transformando o uso de suéteres à noite numa necessidade irrefutável, mesmo em pleno verão. Aquela casa, porém, era desusadamente fria.

Mais uma vez a velha estava na cadeira de balanço de madeira nua, olhando para mim. Sua mão magra fez uma espécie de aceno de boas-vindas, a fim de atrair-me para mais perto dela. Compreendi instintivamente que ela constituía uma ameaça para meus pais, para a minha própria segurança e, acima de tudo, para a sanidade mental de Bart.

— Não precisa ter medo de mim, Jory — disse ela num tom suave. — Meu lar pertence a você tanto quanto a Bart. Você será sempre bem-vindo aqui. Sente-se, para conversarmos um pouco. Toma um pouco de chá comigo, e uma fatia de bolo?

Seduzido, nossa palavra de ontem para acrescentar ao nosso crescente vocabulário, no qual Papai tanto insistia. "O mundo pertence aos que sabem falar bem e as fortunas são ganhas pelos que sabem escrever bem", dizia ele. Confesso que ela me seduzia, aquela mulher na dura cadeira de pau, parecendo tão velha e, não obstante, tão altaneira.

— Por que não abre as venezianas, afasta as cortinas e deixa entrar um pouco de luz e ar? — indaguei.

Seus gestos nervosos colocaram em jogo os reflexos faiscantes das muitas jóias que usava. Rubis, esmeraldas e brilhantes nos seus dedos refratavam todas as cores do espectro. As jóias pareciam tão inadequadas quando ela usava o simples vestido negro e cobria a cabeça com várias camadas de véu negro de gaze. Hoje, porém, seus olhos estavam à mostra: azuis, muito azuis. Olhos azuis que me pareciam tão familiares.

— Luz demais incomoda-me os olhos — explicou ela num leve sussurro grave, enquanto eu continuava a fitá-la.

— Por quê?

— Por que a luz me incomoda os olhos?

— Sim.

Ela suspirou de leve.

— Vivi por longo tempo afastada do mundo, trancada num pequeno quarto e, ainda pior que isso, trancafiada dentro de mim mesma. Quando uma pessoa é obrigada a defrontar-se consigo mesma pela primeira vez na vida, encolhe-se ante o choque. Eu me encolhi quando olhei, pela primeira vez, para meu próprio âmago, ao fitar um espelho que havia em meu quarto. E senti medo. Portanto, hoje vivo em salas cheias de espelhos, mas cubro o rosto para não ver demais. Mantenho meus aposentos na  obscuridade a fim de não mais admirar o rosto que eu costumava adorar.

— Então, livre-se dos espelhos.

— Como você faz parecer fácil. Mas é jovem. Os jovens sempre julgam que tudo é fácil. Não quero livrar-me dos espelhos. Desejo-os onde estão, para me lembrarem constantemente do que eu fiz. As janelas fechadas, a atmosfera abafada, são um castigo para mim, não para você. Se quiser, Jory — prosseguiu ela, quando permaneci calado — abra as janelas, afaste as cortinas; deixe entrar a luz do sol e eu tirarei meus véus para que você veja o rosto do qual me escondo. Mas você não achará agradável. Minha beleza se foi, mas é uma perda insignificante em comparação com tudo o mais que possuí e perdi, com todas as coisas às quais eu deveria ter-me agarrado com valentia.

— Valentia? — repeti.

A palavra não me era muito familiar ou significativa; apenas um termo que sugeria bravura.

— Sim, Jory, eu deveria ter protegido com valentia o que me pertencia. Eu era tudo que eles tinham e os desamparei. Julguei que eu estava certa e eles errados. Convencia-me todos os dias de que estava certa. Resisti às suas penosas súplicas e, ainda pior, naquela ocasião eu nem mesmo julgava que fossem dignos de pena. Dizia a mim mesma que estava fazendo todo o possível porque lhes levava de tudo. Cresceram para desconfiarem de mim, para me detestarem, e isso doeu, doeu muito mais que qualquer dor que eu tenha sentido. Odeio-me por ser fraca, tão covarde, tão tolamente intimidável, quando deveria ter fincado o pé e resistido, revidado. Eu deveria ter pensado apenas neles e esquecido o que desejava para mim. Minha única desculpa é que, na época, eu era jovem; e os jovens são egoístas, mesmo em se tratando de seus próprios filhos. Pensei que minhas necessidades fossem maiores que as deles. Pensei que a hora deles chegaria e, então, poderiam agir como bem entendessem. Senti que era minha última oportunidade de ser feliz. Tinha que agarrá-la depressa, antes que a idade me roubasse os atrativos; e eu amava um homem mais moço que eu. Não lhe podia contar a respeito deles.

Eles? De quem ela estava falando?

— De quem? — perguntei com voz sumida, desejando, por algum motivo, que ela não me contasse nada, ou, pelo menos, não demais.

— De meus filhos, Jory. Meus quatro filhos do meu primeiro marido, com o qual me casei quando tinha apenas dezoito anos. Ele era proibido para mim, mas eu o quis, apesar de tudo. Julguei que nunca tornaria a encontrar um homem tão maravilhoso... mas encontrei.

Eu não queria escutar a história dela. Mas ela me implorou que ficasse. Sentei-me na beirada de uma das elegantes cadeiras.

— Portanto — prosseguiu ela — coloquei meu medo à frente de tudo, permitindo que meu amor por um homem me tornasse cega às necessidades deles. Ignorei o que desejavam, a liberdade, e agora, como resultado, choro todas as noites até conseguir adormecer.

O que podia eu dizer? Não entendia do que ela falava. Concluí que devia ser louca e não era de espantar que Bart tivesse um procedimento tão maluco. Ela se debruçou para ver-me melhor.

— Você é um rapaz excepcionalmente bonito. Suponho que já saiba disso.

Meneei afirmativamente a cabeça. Durante toda a minha vida ouvira comentários a respeito de minha beleza, meu talento, meu encanto. Mas o que importava era o talento, não a beleza. Na minha opinião, beleza sem talento era inútil. Eu sabia, também, que a beleza desbota com o passar dos anos; não obstante, amava a beleza. Olhando em volta, percebi que aquela mulher amava a beleza tanto quanto eu, mas, ainda assim...

— Que pena ela ficar sentada no escuro e recusar-se a aproveitar de tudo o que foi feito para tornar este lugar belo... — murmurei distraidamente, sem querer.

Ela escutou e respondeu sem entonação:

— Para me castigar ainda mais.

Não repliquei, limitando a ficar sentado enquanto ela continuava a falar interminavelmente de sua vida como uma pobre menina rica, que cometera o erro de casar-se com seu meio-tio, três anos mais velho que ela, e fora deserdada por isso. Por que me contava a história de sua vida? Pouco me interessava. O que tinha o seu passado a ver com Bart? Ele era o motivo de minha presença na mansão.

— Casei-me pela segunda vez. Meus quatro filhos me odiaram por fazer isso.

Fitou as mãos cruzadas no colo e depois começou a girar as jóias cintilantes, uma por uma.

— As crianças sempre pensam que a vida é fácil para os adultos. Isso nem sempre é verdade. Filhos pensam que uma mãe viúva precisa apenas deles.

Suspirou e prosseguiu:

— Acham que podem dar-lhe amor suficiente, porque não compreendem que existem todos os tipos de amor e é duro para uma mulher viver sem um homem após ter sido casada.

Então, quase como se tivesse esquecido minha presença, sobressaltou-se ao ver-me ali.

— Oh, fui péssima anfitriã. Jory, o que gostaria de beber e comer?

— Nada, obrigado. Vim apenas para lhe dizer que não deve encorajar Bart a voltar aqui. Não sei o que diz a ele, ou o que ele faz aqui, mas volta para casa com a cabeça cheia de idéias estranhas, parecendo muito desorientado.

— Desorientado? Você emprega palavras difíceis para um rapaz tão jovem.

— Meu pai insiste para que aprendamos uma palavra nova todos os dias.

As mãos nervosas da mulher subiram ao pescoço para torcerem um colar de grandes pérolas, com fecho de brilhantes em forma de borboleta.

— Jory, se eu lhe fizesse uma pergunta hipotética, você me daria resposta, uma resposta franca?

Levantei-me para sair.

— Na verdade, prefiro não responder perguntas...

— Se sua mãe ou seu pai algum dia o desapontassem, lhe falhassem de algum modo, até mesmo grave... você seria capaz de encontrar no coração um meio de perdoá-los?

“Claro, claro”, pensei bastante depressa, embora não conseguisse imaginar um deles falhando comigo, com Bart ou com Cindy. Recuei até a porta, o que me permitiria sair enquanto ela aguardava minha resposta.

— Sim, Madame, creio que seria capaz de perdoar-lhes qualquer coisa.

— Assassinato? — perguntou ela depressa, levantando-se também. — Seria capaz de perdoar-lhes isso? Não homicídio premeditado, mas acidental?

Ela era louca, exatamente como seu mordomo. Desejei sair dali e depressa! Adverti-a uma vez mais para mandar meu irmão de volta para casa:

— Se deseja que Bart permaneça mentalmente são, deixe-o em paz!

Os olhos dela se toldaram de lágrimas antes que ela assentisse e baixasse a cabeça. Eu a magoara e sabia disso. Precisei endurecer o coração para não pedir desculpas. Então, exatamente quando eu ia sair, um entregador bateu à porta. Abri-a e afastei-me para permitir que ele carregasse para o interior da casa um enorme caixote oblongo. Foram necessários dois homens para despregar a tampa do caixote.

— Não se vá, Jory — implorou a mulher. — Fique! Eu gostaria que você visse o conteúdo desse caixote.

Que diferença fazia? Mas fiquei, sentindo a mesma curiosidade que a maioria das pessoas em relação ao conteúdo de uma caixa fechada. O velho mordomo veio batendo a bengala pelo corredor, mas ela o mandou embora:

— John! Eu não o chamei. Por favor, permaneça em sua parte da casa até ser chamado.

Ele lhe lançou um fulminante olhar de ressentimento e regressou à sua toca, onde quer que fosse esta. A esta altura, o caixote já estava aberto e os dois homens removiam a palha que protegia o conteúdo. Então ergueram um enorme objeto, enrolado numa colcha cinzenta, de seu nicho no interior do caixote. Era como aguardar o lançamento de um navio. Fiquei um tanto ofegante de expectativa, ainda mais porque a mulher tinha uma certa expressão no rosto... como se mal conseguisse esperar que eu visse o conteúdo do caixote. Iria fazer-me um presente, como dava a Bart tudo que ele desejava? Bart era o menininho mais ambicioso do mundo, necessitando do dobro da afeição que a maior parte das pessoas exigia. Então engasguei-me e recuei.

Os homens tinham desembrulhado um quadro pintado a óleo. Lá estava minha linda mãe, num vestido branco formal, parada no penúltimo degrau, com a mão esbelta apoiada num magnífico pilar de corrimão. Formando uma cauda atrás dela, metros e metros de cintilante tecido branco. A escada curva subia graciosamente, desaparecendo em nuvens através das quais o artista conseguira habilmente criar a impressão de ouro e faiscantes pedras preciosas, sugerindo uma mansão palacial.

— Sabe de quem é esse retrato? — perguntou ela quando os homens terminaram de pendurá-lo no lugar, numa das salas que ela não parecia utilizar com freqüência.

Meneei a cabeça, confuso e incapaz de falar. O que estava ela fazendo com o retrato de minha mãe? Ela esperou que os dois homens saíssem. Eles sorriram, satisfeitos com a gorjeta que receberam. Eu ofegava, escutando minha própria respiração pesada e imaginando por que razão me sentia tão atordoado.

— Jory — disse a mulher, voltando-se novamente para mim — esse é um retrato de mim, encomendado por meu segundo marido pouco depois que nos casamos. Eu tinha trinta e sete anos quando posei para ele.

No retrato, a mulher se parecia exatamente com minha mãe na atualidade. Engoli em seco, desejando fugir, sentindo uma repentina vontade de ir ao banheiro, mas, ao mesmo tempo, querendo ficar. Desejava escutá-la explicar, embora estivesse paralisado de medo do que ela poderia dizer-me.

— Meu segundo marido, Bartholomew Winslow, era mais moço que eu, Jory — disse ela depressa, como se quisesse certificar-se de que eu a ouviria antes de levantar-me e fugir dali. — Mais tarde, quando minha filha tinha idade suficiente, seduziu-o e roubou de mim o amor de Bart, só para me castigar, magoando-me com o filho que teve dele. O filho que eu não podia gerar. Você bem pode adivinhar quem é esse filho, não pode?

Ergui-me de um salto e recuei, estendendo as mãos para afastar de mim outras informações que eu não desejava conhecer.

— Jory, Jory, Jory — entoou ela. — Não se lembra mais de mim? Recorde-se da época em que morava nas montanhas da Virgínia. Pense naquela pequena agência dos correios e na rica dama de casaco de peles. Na ocasião, você tinha cerca de três anos. Avistou-me e, sorrindo, veio alisar o casaco, dizendo-me que eu era linda... lembra-se?

— Não! — gritei, com mais energia do que sentia. — Eu nunca a vi antes em minha vida, até você vir morar aqui! E todas as louras de olhos azuis se parecem um pouco!

— Sim — concordou ela, desanimada. — Suponho que você tenha razão. Apenas julguei que seria divertido ver sua expressão. Não devia ter aplicado o truque em você. Sinto muito, Jory. Perdoe-me.

Eu não suportava fitar aqueles olhos azuis. Tinha que ir embora. Sentia-me infeliz ao caminhar lentamente de volta para casa. Se ao menos não tivesse ficado lá... Se o retrato não fosse entregue enquanto eu me encontrava com a mulher... Por que motivo tinha o pressentimento de que ela era uma ameaça maior para minha mãe que para meu padrasto?... o que conseguira eu, afinal?... Foi mesmo você, Mamãe, quem roubou o amor do segundo marido dela? Foi? Não fazia sentido, quando Bart tinha o mesmo nome que ele? Tudo que a velha dissera confirmava as suspeitas que se vinham insinuando em minha mente durante tantos anos. As portas começavam a abrir-se, deixando entrar lembranças frescas que quase me pareciam inimigas.

Subi os degraus da varanda que Mamãe costumava chamar, em tom de brincadeira, de "o tipo de varanda sulina de Paul". Certamente não se parecia com a espécie de pátio comum na Califórnia. Naquele dia, havia algo diferente no pátio. Se eu estivesse menos perturbado, talvez percebesse imediatamente o que estava faltando. Na verdade, demorei vários minutos para compreender que Trevo não estava ali. Olhei em volta, preocupado, chamando-o.

— Pelo amor de Deus, Jory — chamou Emma da janela da cozinha. — Não grite tão alto. Acabo de colocar Cindy na cama para um cochilo e você acabará acordando a menina. Vi Trevo há poucos minutos, correndo para o jardim atrás de uma borboleta.

Naturalmente. Fiquei aliviado. Se algo fazia meu velho poodle comportar-se como um filhote era o vôo de uma borboleta amarela. Juntei-me a Emma na cozinha e perguntei:

— Emma, há muito tempo estou para lhe fazer uma pergunta: em que ano Mamãe se casou com o Dr. Paul?

Ela estava debruçada, verificando o interior da geladeira e resmungando sozinha:

— Eu podia jurar que ainda havia aqui um pouco de galinha frita que sobrou do jantar de ontem. Já que vamos jantar hoje fígado acebolado, guardei o resto da galinha para Bart. Pensei que seu irmão cheio de frescuras talvez comesse as coxas que sobraram.

— Não se lembra do ano em que eles se casaram?

— Você tinha pouco mais de um ano, naquela época — respondeu ela, ainda remexendo na geladeira.

Emma era sempre vaga quanto a datas, incapaz de lembrar-se de seu próprio aniversário. Talvez propositalmente.

— Conte-me outra vez como Mamãe conheceu o irmão mais moço do Dr. Paul... você sabe, o padrasto que temos agora.

— Sim, lembro-me de Chris; era tão bonito, alto e queimado de sol. Mas não mais bonito que o Dr. Paul era a seu próprio jeito; um homem maravilhoso, seu padrasto Paul. Tão bondoso e cortês...

— Engraçado que Mamãe não tenha se apaixonado por um irmão mais moço, em vez do mais velho; você não acha esquisito?

Emma endireitou-se e levou a mão às costas, que, segundo ela, doíam o tempo todo. Em seguida, enxugou as mãos no imaculado avental branco.

— Certamente espero que seus pais não se atrasem esta noite. Agora, corra para chamar Bart, antes que seja tarde demais para ele tomar banho. Não gosto que sua mãe o veja tão sujo.

— Emma, você não respondeu minhas perguntas.

Dando-me as costas, ela começou a picar pimentões verdes.

— Jory, quando precisar de respostas, vá perguntar a seus pais. Não venha a mim. Talvez você me considere membro da família, mas sei que minha posição é de amiga. Portanto, vá buscar Bart e deixe-me terminar de preparar o jantar.

— Por favor, Emma, não só por minha causa, mas por Bart também. Preciso fazer alguma coisa para endireitar Bart e como posso fazê-lo sem conhecer todos os fatos?

— Jory — replicou ela com um sorriso carinhoso — trate apenas de sentir-se feliz por possuir pais tão maravilhosos. Você e Bart têm muita sorte. Espero que Cindy cresça para compreender o quanto foi abençoada no dia em que sua mãe resolveu que precisava de uma filha.

Lá fora o dia se aproximava do fim. Por mais que procurasse, não consegui encontrar Trevo. Sentei-me nos degraus dos fundos e olhei tristemente para o céu que assumia uma tonalidade rosada com brilhantes faixas alaranjadas e roxas. Sentia-me imensamente desolado e sobrecarregado, desejoso de que todo aquele mistério e confusão desaparecessem. Trevo, onde estava Trevo? Até aquele momento eu nunca percebera o quanto ele significava em minha vida, quanta falta eu sentiria dele quando se fosse para sempre. Por favor, Deus, não permita que ele se vá para sempre! Olhei uma vez mais para nosso quintal e depois decidi entrar e telefonar para os jornais, oferecendo uma recompensa por um cão perdido; uma recompensa tão grande que alguém traria Trevo de volta.

— Trevo! — gritei. — Hora da bóia!

Meu chamado trouxe Bart, tropeçando, da cerca viva, as roupas rasgadas e imundas. Seus olhos escuros pareciam estranhamente assustados.

— Por que está gritando?

— Não consigo encontrar Trevo — respondi. — E você sabe que ele nunca se afasta daqui. É um cão caseiro. Li no outro dia a respeito de gente que rouba cães para vendê-los como cobaias aos laboratórios científicos. Bart, eu desejaria morrer se alguém fizesse tamanha maldade a Trevo.

Ele me fitou com uma expressão chocada.

— Não fariam isso... fariam?

— Bart, preciso encontrar Trevo. Se ele não voltar logo, ficarei doente, o bastante para morrer. Suponha que tenha sido atropelado?

Vi meu irmão engolir em seco e começar a tremer.

— O que há de errado?

— Matei um lobo, ali atrás. Matei mesmo! Dei um tiro bem no olho vermelho de um grande lobo malvado. Ele avançou para mim, lambendo os beiços, mas fui mais esperto, agi depressa e o matei com um tiro.

— Ora, pare com isso, Bart! — retruquei, impaciente, começando a ficar realmente irritado com alguém que nunca dizia a verdade. — Não existem lobos nesta região e você sabe muito bem disso.

Procurei pelas vizinhanças até meia-noite, chamando por Trevo. As lágrimas embargavam-me a voz e toldavam-me a visão. Tinha a mais forte premonição de que Trevo nunca mais voltaria para casa.

— Jory — disse Papai, que me auxiliava na busca — vamos dormir e voltaremos a procurá-lo de manhã, se ele não voltar para casa durante a noite. E não fique acordado na cama, preocupando-se. Trevo pode ser um cachorro velho, mas até mesmo os velhos são capazes de se sentirem românticos numa noite de luar.

Oh, diabo! Aquilo não fazia muito sentido. Havia muito tempo que Trevo deixara de correr atrás de cadelas. Agora, tudo que ele desejava era deitar-se num lugar onde Bart não pudesse tropeçar nele nem pisar-lhe o rabo.

— Vá dormir, Papai, e deixe-me continuar a procurá-lo. Só tenho aula de balé às dez horas, de modo que não preciso dormir tanto quanto você.

Ele me abraçou rapidamente, desejou-me sorte e foi para seu quarto. Uma hora mais tarde, cheguei à conclusão de que se tratava de um esforço inútil. Trevo estava morto. Era a única coisa que poderia mantê-lo afastado de casa. Resolvi que devia contar a meus pais o que eu suspeitava. Parei ao lado da cama, olhando para eles. O luar entrava pela janela, incidindo em seus corpos. Mamãe estava meio virada de lado, de modo a poder aninhar-se perto de Papai, que estava deitado de costas. A cabeça de Mamãe repousava no peito nu de Papai, cujo braço esquerdo a enlaçava, com a mão pousada no quadril dela. As cobertas estavam puxadas apenas o suficiente para encobrir-lhes a nudez, o que me fez recuar, sentindo-me muito envergonhado. Eu não devia estar ali. O sono parecia torná-los vulneráveis, mais jovens, comovendo-me, mas causando-me também uma profunda sensação de vergonha. Há muito tempo, Papai me ensinara os fatos da vida, de modo que eu sabia o que homens e mulheres faziam para terem filhos, ou apenas por diversão. Solucei e virei-me para sair.

— É você, Chris? — perguntou Mamãe, meio adormecida, rolando para ficar deitada de costas.

— Estou aqui, querida. Durma — murmurou ele, sonolento. — A avó não nos pode pegar agora.

Imobilizei-me, espantado. Ambos pareciam crianças. E, mais uma vez, aquela "avó".

— Estou assustada, Chris, com muito medo. Se algum dia eles descobrirem, o que diremos? Como poderemos explicar?

— Shhh... — veio o sussurro dele. — De agora em diante, a vida será boa para nós. Apegue-se à sua fé em Deus. Já fomos ambos suficientemente castigados; Deus não nos punirá mais.

Correr, correr, tive que correr depressa para meu quarto e jogar-me na cama. Sentia-me oco por dentro, um vazio total em vez da confiança e amor que eu costumava sentir. Trevo se fora. Meu pequeno, querido, inofensivo poodle, que nunca fizera nada de mau. E Bart dera um tiro num lobo. O que faria Bart em seguida? Sabia o que eu sabia? Era por isso que se comportava tão estranhamente? Lançando olhares malvados a Mamãe, como se desejasse magoá-la? As lágrimas me voltaram aos olhos, pois a memória não pode ser reprimida para sempre. Eu sabia agora que Bart não era filho do Dr. Paul. Bart era filho do segundo marido da velha, que tinha o mesmo nome de meu meio-irmão; o homem alto e esbelto que às vezes me povoava os sonhos junto com o Dr. Paul e meu próprio pai, o qual eu só conhecia por fotografias.

Nossos pais haviam mentido para nós dois. Por que não nos disseram a verdade? Seria a verdade tão feia que eles não podiam revelá-la a nós? Tinham tão pouca fé em nosso amor por eles? Oh, Deus, o segredo deles devia ser tão terrível que jamais poderíamos perdoá-los! E Bart era capaz de ser perigoso. Eu sabia disso. Dia a dia, o fato se tornava cada vez mais evidente. De manhã, eu correria a procurar Mamãe ou Papai e contaria tudo. Mas a manhã chegou e fui incapaz de dizer uma só palavra sobre o assunto. Agora eu compreendia por que motivo Papai insistia para que aprendêssemos uma palavra nova por dia. Era necessário empregar palavras especiais para transmitir idéias sutis e eu ainda não possuía cultura suficiente para expressar meus conturbados pensamentos, que desejavam tranqüilizar meus pais. E como poderia eu tranqüilizá-los quando Bart estava diante de mim, os olhos escuros expressando dureza e maldade?

Oh, Deus, se está em algum lugar no céu, olhando para baixo, ouça minha prece. Permita que meus pais tenham a paz de que necessitam, a fim de não precisarem sonhar com avós malvadas. Certo ou errado, o que quer que tenham feito, sei que procederam da melhor maneira que puderam. Por que coloquei as coisas naqueles termos? Segurança era uma palavra que perdera toda a substância. Como pessoas mortas que não passavam de meras sombras em minha memória; nada tão concreto quanto o ódio de Bart, que crescia a cada dia.

 

LIÇÕES

Julho. O meu mês.

— Concebido no fogo, nascido no calor — disse John Amos quando lhe contei que em breve chegaria o meu décimo aniversário.

Não entendi o que ele quis dizer, nem me importei. Estaria na Disneylândia dentro de poucos dias. Hurra! Ao diabo com Jory por não parecer feliz, estragando minha alegria com aquela cara de tristeza só porque um tolo cãozinho velho não voltava para casa quando ele chamava. Eu fazia planos para que Maçã ficasse bem cuidado até eu poder fugir de volta para ele após visitar a Disneylândia. John Amos me agarrou quando fui ver Maçã e me levou para seu quarto em cima da garagem. Olhei em volta, achando que o ambiente tinha um cheiro azedo, velho, como remédio.

— Bart, sente-se naquela cadeira e leia para mim, em voz alta, o diário de Malcolm. Pois o Senhor o castigará se disser que está lendo o livro e não estiver.

Eu já não precisava de John Amos como antes, de modo que o encarei desdenhosamente. O tipo de desdém que Malcolm mostraria para com um velho encurvado e manco, que não conseguia falar sem sibilar, assoviar ou cuspir. Contudo, sentei-me e li o diário de capa vermelha de Malcolm.

“Minha juventude foi desperdiçada em prazeres terrenos e, ao aproximar-me dos trinta anos, compreendi que o que faltava em minha vida era outro objeto além do dinheiro. Religião. Eu precisava de religião e de redenção para todos os meus pecados, pois, a despeito dos juramentos feitos na infância, eu regredira a ponto de desejar mulheres e, quanto mais pecaminosas fossem, mais elas me pareciam agradar. Não existia visão que me causasse mais prazer que uma mulher altiva e bela humilhada e obrigada a fazer coisas obscenas que contrariavam as regras da decência. Eu sentia prazer em surrá-las, deixando-lhes vergões vermelhos na pele clara e imaculada. Via o sangue, sangue delas, e isso me excitava. Foi então que compreendi que precisava de Deus. Tinha que salvar minha alma eterna do inferno.”

Ergui os olhos, cansado de tentar adivinhar o significado de todas aquelas palavras complicadas que nada me diziam.

— Vê o que Malcolm lhe diz, menino? Ele lhe diz que, não importa o quanto você odeie as mulheres, ainda assim é possível extrair delas algum prazer, mas a um preço, menino, um preço muito, muito alto. Infelizmente, Deus instilou na humanidade os desejos sensuais; você deve tentar reprimir os seus quando se aproximar da idade adulta. Plante bem fundo em sua cabeça, de modo a jamais esquecer: no final, as mulheres serão sua ruína e destruição. Eu sei. Elas me destruíram, fazendo-me permanecer um servo quando poderia ter subido muito mais na vida.

Levantei-me e saí, enjoado de John Amos. Ia procurar minha avó, que me amava mais do que Deus jamais me amaria. Mais do que qualquer outra pessoa. Ela me amava por mim mesmo. Amava-me tanto que chegava a inventar mentiras, como eu, a ponto de me dizer que era minha avó de verdade, quando eu sabia que isso era impossível.

Sábado era o melhor dia da semana. Meu padrasto ficava em casa e fazia Mamãe feliz. Ela contratara alguma assistente idiota para ajudá-la aos sábados na escola de balé, agora que precisava gastar tanto tempo embonecando Cindy, como se alguém se importasse com a aparência da garotinha. Jory tinha que ir à aula de balé também aos sábados, para poder encontrar-se com sua estúpida namorada. Voltava ao meio-dia, para estragar todos os meus planos. Eu tinha muitos planos para me encher o tempo. Cuidar de Maçã. Sentar-me no colo de Vovó e deixar que ela cantasse para mim. Ora, as manhãs passavam rápidas como raios, com tudo o que eu tinha a fazer. John Amos dava-me mais lições a respeito de como ser igual a Malcolm e macacos me mordam se não estava dando resultado. Eu sentia o poder de Malcolm crescer cada vez mais.

Naquela tarde, Cindy estava numa piscina de plástico novinha em folha. A velha não era suficientemente boa para ela. A fedelha precisava ter tudo novo, até mesmo um maiô com listras vermelhas e brancas, e duas alças vermelhas para segurá-lo no lugar. E lacinhos que ela tentava desfazer! Jory se ergueu de um pulo e correu à casa para pegar sua máquina fotográfica. Depois, voltou correndo para fotografar Cindy. Após tirar várias fotos, jogou a máquina para Mamãe e disse:

— Tire minha fotografia com Cindy.

Claro, ela ficou feliz de tirar a fotografia dele com Cindy. Não se deram o incômodo de me convidar. Talvez eu tivesse exagerado um pouco em fazer caretas, desviar a cabeça ou botar a língua para fora. Todo mundo estava sempre comentando que Bart certamente sabia como estragar uma fotografia perfeita. Os malditos arbustos me cercavam por todos os lados, arranhando-me as pernas e braços. Insetos rastejavam em mim. Eu detestava insetos! Matava-os com tapas enquanto apertava os olhos para ver a garotinha mimada espadanar água, divertindo-se muito mais do que eu jamais conseguira numa piscina. Quando tentassem levar-me para o Leste, da Disneylândia, eu fugiria sorrateiramente e pegaria uma carona para voltar para casa e cuidar de Maçã; era o que Malcolm faria. Os mortos não sentiriam minha falta. Não se importariam se eu não estivesse lá para colocar flores em seus túmulos. A horrível avó de Jory ficaria satisfeita com minha ausência. Corri para onde podia trepar numa árvore, pular o muro e correr ao celeiro para visitar Maçã, que estava ficando enorme. Enfiei um biscoito para cães na boca de Maçã. Desapareceu numa fração de segundo. Maçã pulou e me derrubou.

— Agora, coma esta cenoura, servirá como escova para limpar seus dentes!

Maçã farejou a cenoura. Sacudiu o rabo. Pulou e bateu com a pata na cenoura. Maçã ainda não sabia brincar como pônei. Logo atrelei Maçã à minha nova charrete de pônei e corremos por toda parte.

— Upa! — berrei. — Vamos pegar aqueles ladrões de gado! Mais depressa, cavalo malandro, se queremos chegar em casa antes da bóia!

Avistei um movimento nas colinas. Virei-me e vi índios que se aproximavam a todo galope, índios escalpeladores! Os índios nos perseguiram loucamente até conseguirmos despistá-los nas colinas, que logo se transformaram num deserto. Cansados e sedentos, meu cavalo e eu procuramos um oásis. Vi uma miragem. Lá estava ela, a mulher da miragem do oásis. Usando esvoaçantes trapos negros, os pés descalços sujos de areia, feliz por acolher-nos de volta ao mundo dos vivos...

— Água — arquejei. — Preciso água fresca, limpa...

Afundei-me numa cadeira elegante e estendi as pernas finas e compridas, calçadas com botas poeirentas e surradas. Bati nas perneiras de couro para tirar a areia.

— Traga cerveja — ordenei à garçonete do bar.

Ela me trouxe uma cerveja espumante e escura, gelada, muito gelada. A cerveja me bateu no estômago como uma cascavel, fazendo-me dobrar em dois e olhar furiosamente para a moça.

— O que faz uma moça boazinha como você numa espelunca como esta?

— Sou a professora local, Sam Malcriado. Não se lembra?

Por detrás do véu, ela pestanejou e baixou as pálpebras.

— Na época das vacas magras, uma dama tem que fazer o possível para sobreviver.

Ela fazia o meu jogo. Ninguém gostava de jogar comigo. Era bom encontrar uma parceira. Sorri, muito amistoso.

— Cuide bem de Maçã. Ele está tão limpo que não pode morrer.

— Você joga muito duro, querido. E não é saudável pensar tanto em morte. Venha sentar-se no meu colo e lhe cantarei uma canção.

Gosto. Como se fosse tratado como um bebê. Aninhado em seu colo macio, a cabeça encostada em seu peito, ela me cantando ao ouvido. Cada balanço da cadeira mergulhava-me num transe mais profundo. Olhei para cima e tentei enxergar através do véu. Estaria eu começando a gostar mais dela que de Mamãe? Percebi, então, que os véus estavam presos a pequenas travessas enfiadas em seus cabelos, pois hoje ela deixara a cabeça descoberta. Tinha cabelos cor de prata, com mechas douradas. Não queria que Mamãe envelhecesse e ficasse com cabelos grisalhos. Ela já me abandonava cada dia que cuidava de Cindy; abandonado-me para que outros me tomassem o lugar. Por que Cindy tivera que surgir e estragar minha vida?

— Mais, por favor — murmurei quando ela parou de balançar. — Você gosta de mim mais que Madame M. gosta de Jory? — perguntei.

Se ela respondesse que sim, muito, muito mais, eu poderia ir em frente.

— A avó de Jory gosta muito dele?

Seria inveja na voz dela? Senti raiva; ela percebeu e começou a cobrir-me o rosto de beijos. Beijos secos, por causa daquele véu.

— Vovó, preciso contar-lhe uma coisa.

— Ótimo... mas lembre-se de pronunciar os "S". Conte-me tudo, tenho o resto da vida para escutar.

Afastou-me o cabelo do rosto e tentou arrumá-lo. Não conseguiu.

— Dois dias antes de meu aniversário, partiremos para a Disneylândia. Passaremos uma semana lá e depois voaremos para onde estão os túmulos. Temos que visitar cemitérios, comprar flores e colocá-las ao sol, onde podem morrer. Detesto sepulturas. Detesto a avó de Jory, que não gosta de mim porque não sei dançar.

Ela me beijou outra vez.

— Bart, diga a seus pais que já houve sepulturas demais em sua vida. Diga-lhes novamente o quanto isso lhe causa infelicidade.

— Eles não me escutam — respondi desanimado. — Não me perguntam o que desejo, como você. Dizem simplesmente o que tenho que fazer.

— Tenho certeza de que o escutariam se você lhes contasse a respeito de seus sonhos com a morte. Então, compreenderão que já o levaram com demasiada freqüência a cemitérios. Diga-lhes apenas a verdade.

— Mas... mas... — gaguejei, infeliz. — Quero ir à Disneylândia!

— Conte a eles, como eu disse, e cuidarei de Maçã.

Fiquei frenético. Uma vez que entregasse Maçã aos cuidados de outra pessoa, ele nunca mais tornaria a ser meu, totalmente meu. Solucei porque a vida era tão impossível. E meu plano para fugir tinha que dar certo, tinha que dar... Continuamos balançando na cadeira. Ela disse que estávamos num veleiro, singrando mar revolto rumo a uma linda ilha chamada paz. Perdi o costume de andar em terra  firme, de modo que ao chegarmos à ilha não consegui ficar de pé ou equilibrar-me. Ela desapareceu. Fiquei sozinho, totalmente sozinho. Como se estivesse em Marte e, lá na Terra, Maçã esperava por mim. Pobre Maçã! No final, ele teria que morrer.

Creio que acordei... Onde estava? Por que todo mundo era tão velho? Mamãe... por que cobriu o rosto de preto?

— Acorde, querido. Acho melhor voltar para casa antes que seus pais fiquem alarmados. Tirou um bom cochilo, de modo que deve sentir-se melhor agora.

Na manhã seguinte eu estava no quintal, tentando terminar a casa de cachorro que começara a construir para Trevo. O pobre Trevo, sempre deveria ter possuído sua própria casa; então não teria fugido à procura de uma. Peguei na oficina de Papai um martelo, pregos, serrote, madeira, e levei tudo comigo para o quintal. Comecei a trabalhar. O maldito serrote não sabia cortar reto. A casa vai ficar torta. Se Trevo reclamar, dou-lhe um pontapé. Peguei o pedaço de madeira com beiradas tortas e o coloquei no telhado. Maldito prego! Não ficou parado e me fez dar uma martelada no dedo. O estúpido martelo não viu meus dedos! Continuei a martelar. Era ótimo eu não sentir pequenas dores, do contrário estaria chorando. Então acertei para valer o polegar e doeu. Puxa, eu estava sentindo dor, como qualquer menino normal! Jory saiu correndo de casa, gritando para mim:

— Por que está fazendo uma casa para Trevo, quando ele sumiu há duas semanas? Ninguém respondeu nossos anúncios. Sem dúvida, a esta altura ele já morreu e, mesmo que volte para casa, dormirá aos pés de minha cama, lembra-se?

Bobo. Eis o que ele queria dizer de mim: bobo. E Trevo poderia voltar... Pobre Trevo. Arrisquei um olhar de esguelha e vi Jory enxugar as lágrimas nos olhos.

— Depois de amanhã, partiremos para a Disneylândia e você deve estar muito feliz — disse ele com voz rouca.

Estaria eu muito feliz? Meu polegar inchado começou a doer um pouco. Maçã morreria de solidão. Então tive uma idéia. John Amos me dissera que as preces operam milagres e Deus estava lá em cima, no céu, zelando pelos animais idiotas na terra e pelas pessoas também. Mamãe e Papai sempre recomendavam que eu não fizesse pedidos em minhas orações, só bênçãos para as outras pessoas, não para mim. Portanto, assim que Jory se afastou, larguei o martelo e corri para um lugar onde pude ajoelhar-me e rezar pelo meu pônei-filhote de cão e por Trevo. Em seguida, fui visitar Maçã, rolando com ele sobre a grama dourada, eu rindo e ele tentando relinchar e latir ao mesmo tempo. Lambia-me o rosto com beijos molhados. Retribuí os beijos. Quando ele levantou a pata traseira e fez pontaria nas rosas, tirei as calças e também urinei. Fazíamos tudo juntos. Naquele momento, veio-me à cabeça exatamente o que fazer.

— Não se preocupe, Maçã. Passarei apenas uma semana na Disneylândia, antes de voltar para perto de você. Esconderei seus biscoitos de pônei-cão embaixo do feno e deixarei a torneira pingando no seu balde. Mas não se atreva a comer ou beber qualquer coisa que John Amos lhe der. Ou minha avó, também. Não permita que ninguém o suborne com guloseimas.

Maçã sacudiu o rabo, dizendo-me que seria bonzinho e obedeceria minhas ordens. Ele fizera uma grande pilha de cocô. Peguei-a e amassei-a com os dedos, deixando-o saber que eu agora era parte dele e ele era realmente meu. Limpei as mãos na grama; vi as formigas virem correndo e as moscas começarem a trabalhar. Não era de espantar que nada durasse muito.

— Hora das lições, Bart — chamou John Amos do celeiro, a cabeça calva brilhando ao sol.

Senti-me capturado, deitado no feno e olhando para ele em pé junto de mim. Tinha cheiro de velho e azedo.

— Tem lido fielmente o diário de Malcolm? — quis saber ele.

— Sim, senhor.

— Está aprendendo o caminho do Senhor e fazendo devidamente suas orações?

— Sim, senhor.

— Aqueles que seguem os passos do Senhor serão julgados com justiça, da mesma forma que aqueles que não os seguem. Deixe-me dar um exemplo: Era uma vez uma linda menina, que nasceu com uma colher de prata na boca e tinha tudo que o dinheiro pode comprar, mas dava ela valor a tudo que possuía? Não, não dava! Quando cresceu, passou a tentar os homens com sua beleza. Exibia sua semi-nudez aos olhos deles. Era alta e poderosa, mas o Senhor a viu e castigou-a, embora tenha levado algum tempo para isso. O Senhor, por intermédio de Malcolm, obrigou-a a rastejar e suplicar por alívio; e, no final, Malcolm venceu-a. Malcolm sempre vencia todo mundo no final e você também deve vencer!

Puxa, ele certamente era capaz de contar histórias chatas! Tínhamos gente nua no jardim e eu não me sentia tentado. Suspirei, desejando que ele tivesse outros assuntos além de Deus e Malcolm... e uma maldita menina linda.

— Previna-se contra a beleza das mulheres, Bart! Cuide-se contra a mulher que lhe mostrar o corpo sem roupas. Acautele-se de todas as mulheres que estão à espreita para destruí-lo e seja como Malcolm: esperto!

Afinal ele me liberou. Fiquei satisfeito de haver terminado de me fingir de Malcolm. Tudo o que precisei fazer para sentir-me realmente bem foi rastejar sorrateiramente pelo solo, escutando os ruídos da selva na densa folhagem onde se ocultavam os animais selvagens. Animais perigosos, prontos para devorar-me. Sobressaltei-me. Ergui-me de um pulo. Não! Não podia ser o que eu estava pensando. Simplesmente não era justo que Deus enviasse um dinossauro. Mais alto que um arranha-céu. Mais comprido que um trem. Precisava fugir dali depressa, encontrar Jory e contar-lhe o que havia em nosso quintal. Um ruído na selva, à minha frente! Estaquei, sem fôlego.  Vozes. Cobras falantes?

— Chris, não me importa o que você diz. Não é necessário você visitá-la outra vez neste verão. Bastante é bastante. Você já fez o possível para ajudá-la e não conseguiu. Portanto, trate de esquecê-la e concentre-se em nós, na sua família.

Dei uma espiada por detrás de um arbusto. Meus pais estavam na parte mais bonita do jardim, onde cresciam as árvores maiores. Mamãe, ajoelhada, calcava o humo em volta das roseiras. Tinha o polegar verde. Ele também.

— Cathy, será que você tem que ser uma criança para sempre? – perguntou ele. — Será que nunca vai conseguir aprender a perdoar e esquecer? Talvez você possa fazer de conta que ela não existe, mas eu não posso. Fico pensando que somos a única família que lhe resta.

Puxou Mamãe para ajudá-la a levantar-se e cobriu-lhe os lábios com a mão quando ela abriu a boca para interrompê-lo.

— Muito bem, continue a alimentar seu ódio. Eu, porém, sou médico; jurei solenemente fazer o possível pelos que sofrem. As doenças mentais podem ser mais devastadoras que as moléstias físicas. Quero vê-la curada. Quero que ela saia daquele lugar, portanto, não me olhe com raiva nem me venha dizer mais uma vez que ela nunca foi louca, que está apenas fingindo. Tinha que ser louca, para fazer o que fez. E, ao que sabemos, os gêmeos talvez nunca chegassem a ser altos. Como Bart. Ele não tem a altura normal de um menino com a sua idade.

Oh, eu não tinha?

— Cathy, como poderei me sentir bem comigo mesmo, ou com qualquer coisa, se negligenciar minha própria mãe?

— Muito bem! — esbravejou Mamãe. — Vá visitá-la! Jory, Bart, Cindy e eu ficaremos com Madame Marisha. Ou podemos voar até Nova York, onde visitarei velhos amigos até que você esteja pronto para tornar a reunir-se a nós.

Com um sorriso torto, acrescentou:

— Isto é, se ainda deseja reunir-se a nós.

— Para onde mais eu poderia ir senão para você? Quem se importa que eu viva ou morra, a não ser você e nossos filhos? Cathy, pense bem nisso: no dia em que eu der as costas à minha mãe, estarei também dando as costas a todas as mulheres, inclusive você.

Então ela caiu nos braços dele e fizeram todo aquele negócio meloso de amor que eu detestava. Recuei, ainda de gatinhas, pensando no que Mamãe dissera e tentando adivinhar por que ela odiava tanto a própria mãe. Senti um pouco de enjôo no estômago. E se minha avó da mansão vizinha fosse mesmo a mãe de meu padrasto, realmente louca, amando-me só porque era obrigada? E se John Amos dizia mesmo a verdade? Era tão difícil entender. Corrine era realmente filha de Malcolm, como me dissera John Amos? Seria ela quem "tentara" John Amos? Ou seria que Malcolm odiava alguém linda e seminua? Às vezes, eu ficava confuso após ler o diário de Malcolm; ele voltava repentinamente à infância e escrevia sobre suas lembranças mesmo depois de ser adulto, como se a infância fosse mais importante que a idade adulta. Que esquisito. Eu mal podia esperar para crescer.

Escutei-os novamente, vindo na minha direção. Rastejei depressa para baixo da sebe mais próxima.

— Eu o amo, Chris. Tanto quanto você me ama. Às vezes, penso que ambos amamos demais. Acordo à noite se você não estiver ao meu lado. Não quero que você seja médico, mas um homem que fique em casa todas as noites. Quero que meus filhos cresçam, mas cada dia que passa os aproxima mais de nosso segredo e tenho muito medo que nos odeiem e não compreendam.

— Compreenderão — disse ele.

Como podia ter tanta certeza de que eu compreenderia, se não conseguia entender mesmo as coisas mais simples, muito menos algo tão ruim que fazia Mamãe acordar durante a noite?

— Cathy, temos sido maus pais? Não temos feito o melhor que podemos? Depois de viverem conosco desde a infância, como poderão deixar de compreender? Explicar-lhes-emos como foi, daremos a eles todos os fatos, de modo que verão a coisa como nós a vivemos. Ao fazê-lo, ficarão maravilhados, como às vezes eu fico, de termos sobrevivido sem perdermos o juízo.

John Amos tinha razão. Eles tinham que estar pecando, ou não teriam tanto medo de que não compreendêssemos. E qual era o segredo? O que eles ocultavam? Permaneci sob a sebe até muito depois que meus pais entraram em casa. Possuía tocas prediletas, que cavara profundamente nas sebes, e quando me achava dentro delas sentia-me como um animalzinho do mato, com medo de tudo que fosse humano e que me mataria, se possível.

Malcolm povoava minha mente; ele e seu cérebro tão sábio e ladino. Pensei em John Amos, que me ensinava a respeito de Deus, da Bíblia e do pecado. Só quando pensei em Maçã e em minha avó comecei a sentir-me bem. Não muito bem, só um pouco. Colei-me ao solo e passei a farejar em volta, procurando algo que enterrara ali na semana anterior, ou um mês atrás. Olhei também no pequeno lago de peixes que Papai fazia questão que tivéssemos, a fim de podermos ver como nasciam os peixinhos. Eu vira peixes minúsculos saírem dos ovos e os pais nadarem como loucos, querendo devorar os próprios filhos! Fitei a água. Lá estava meu rosto, parecendo muito engraçado, contornos irregulares, cabelos levantados em pontas, não encaracolados e bonitos como os de Jory. Havia algo vermelho escuro em minha cara, uma cara feia, que não combinava com o belo jardim onde os pássaros vinham banhar-se num elegante chafariz. Eu sangrava lágrimas. Molhei a mão na água dos peixes e lavei o rosto. Depois, sentei-me para pensar.

Foi então que vi o sangue em minhas pernas, muito sangue, que secava num grande coágulo escuro em meu joelho. Na verdade, não importava muito, pois não doía. Como foi que me feri? Relembrei meu rastejar e segui o trajeto com o olhar. Aquela tábua com o prego enferrujado; teria cravado o prego no joelho? Engatinhei até a tábua e senti o sangue pegajoso na beirada. Papai chamava buracos de pregos na pele de “orifícios” e creio que eu tinha um.

— Ora, é muito importante que um orifício, uma ferida penetrante, sangue livremente — explicara ele.

Minha ferida não sangrava livremente. Coloquei o dedo na ferida e esfreguei o sangue, para que escorresse. Gente esquisita e diferente, como eu, podia fazer coisas horríveis como aquela, ao passo que gente fresca como Mamãe ficaria enojada. O sangue em minha ferida era quente e grosso, exatamente como aquele cocô parecido com um pudim que Maçã costumava fazer e que eu esmagara com os dedos para torná-lo unicamente meu; mas causava uma sensação gostosa. Talvez eu não fosse tão esquisito, afinal, pois de repente comecei a sentir dor de verdade. Dor forte.

— BART! — berrou Papai da varanda dos fundos. — Venha imediatamente para casa! A menos que deseje levar uma surra!

Quando estavam na sala de jantar, não podiam ver-me entrar sorrateiramente pela porta de correr da sala de estar íntima, e foi exatamente o que fiz. No banheiro, lavei as mãos e vesti o pijama, para esconder o joelho ferido. Depois, quieto e obediente, juntei-me ao resto da família à mesa.

— Bem, já era tempo — disse Mamãe, que estava muito bonita.

— Bart, por que insiste em criar encrencas toda vez que nos sentamos para comer? — perguntou Papai.

Baixei a cabeça, sem arrependimento, apenas não me sentindo bem. O joelho estava mesmo latejando de dor e o que John Amos dissera a respeito de Deus castigar os desobedientes devia estar certo. Eu fora julgado e meu fogo do inferno era um orifício de prego no joelho.

No dia seguinte, voltei ao jardim, escondendo-me num de meus lugares especiais. Passei o dia inteiro sentado lá, satisfeito com minha dor, que significava que eu não era excepcional, mas um menino normal. Estava sendo castigado como todos os pecadores, que sempre sentiam dores. Não queria jantar. Precisava visitar Maçã. Não me lembrava se já estivera ou não no celeiro. Bebi um pouco de água do lago dos peixes, lambendo a superfície como um gato. Mamãe passara o dia inteiro arrumando as bagagens, sorrindo até mesmo de manhã cedo, quando arrumou minhas roupas numa mala, em primeiro lugar.

— Bart, tente comportar-se bem hoje, para variar. Venha fazer as refeições no horário e Papai não precisará bater em você antes da hora de ir para a cama. Ele não gosta de castigá-lo, mas precisa dar um jeito de lhe incutir disciplina. E tente comer melhor. Não aproveitará a Disneylândia se estiver doente.

O pôr do sol tingiu o céu azul de cores lindas. Jory correu para o quintal a fim de observar as cores que ele dizia serem como música. Jory era também capaz de "sentir" as cores, que o tornavam alegre, triste, solitário e "místico". Mamãe era outra que conseguia "sentir" as cores. Agora, que eu estava conhecendo a capacidade de sentir dor, talvez logo aprendesse a sentir também as cores. A noite começou a cair de verdade. O escuro podia trazer os fantasmas. Emma tocou a campainha a fim de me chamar para o jantar. Eu desejava muito ir, mas não pude.

Algo podre estava no oco da árvore atrás de mim. Virei-me e engatinhei para fora da toca, olhando para o escuro buraco na árvore. Ovos podres lá dentro! Ufa! Enfiei a mão devagar, tateando à procura do que não conseguia enxergar. Algo rígido, frio, coberto de pêlos! A coisa morta tinha no pescoço uma coleira com pontas que me arranharam a mão, seria arame farpado? Aquela coisa podre seria Trevo? Solucei, transido de medo. Eles pensariam que eu matara Trevo. Sempre pensavam que eu fazia tudo que era mau. E eu amava Trevo, no duro. Sempre desejei que ele gostasse mais de mim que de Jory. Agora, o pobre Trevo jamais moraria naquela bela casa de cachorro que eu terminaria algum dia. Jory veio pela alameda principal do jardim, chamando-me e procurando por mim.

— Saia de onde está, Bart! Não crie encrencas, agora que estamos de partida.

Encontrei uma nova cova, que ele ainda não conhecia, e deitei-me de bruços.

Jory se foi. Em seguida, veio Mamãe.

— Bart! — chamou ela. — Se não vier logo... Por favor, Bart. Estou arrependida do tapa que lhe dei esta manhã.

Funguei, procurando conter as lágrimas de autocomiseração. Por mero acidente, eu derramara uma caixa inteira de detergente na lavadora de pratos, querendo ajudar. Como poderia adivinhar que uma caixinha pequena era capaz de produzir um verdadeiro oceano de espuma? As bolhas de sabão encheram a cozinha.

Desta vez, veio Papai:

— Bart, entre para jantar — disse num tom de voz normal. — Não precisa ficar amuado. Sabemos que foi um acidente. Está perdoado. Compreendemos que você quis apenas ajudar Emma. Portanto, entre.

Continuei sentado, com remorso de fazê-los sofrer ainda mais. A voz de Mamãe demonstrara pânico, como se ela me amasse, mas como poderia ela me amar, se eu fazia tudo errado? Não merecia o seu amor. A dor no joelho estava muito pior. Talvez eu tivesse tétano. Os colegas na escola tinham-me contado tudo sobre a maneira pela qual o tétano faz as pessoas trincarem os dentes, de modo que não podem comer e os médicos têm que arrancar os dentes da frente para enfiarem pelo buraco um tubo através do qual o doente chupa sopa. Em breve a ambulância chegaria ruidosamente à nossa casa e, comigo lá dentro, tocaria a sirene até o hospital de Papai. Levar-me-iam para a sala de emergências e um cirurgião mascarado gritaria: "Vamos cortar essa perna podre e fedorenta!" Amputariam a perna acima do joelho e eu ficaria com um toco cheio de veneno que acabaria me levando para o caixão. Seria enterrado naquele cemitério em Clairmont, na Carolina do Sul. Tia Carrie estaria a meu lado e, afinal, teria alguém pequeno como ela para lhe fazer companhia. Mas eu não seria Cory. Eu era eu mesmo, a ovelha negra da família, ou assim John Amos me chamara certa vez, quando se zangou comigo por brincar com a sua dentadura.

Deitado de costas, os braços cruzados sobre o peito, fiquei exatamente como Malcolm Neal Foxworth, olhando para cima à espera da chegada do inverno e, depois, do verão, que traria consigo Mamãe, Papai, Jory, Cindy e Emma de visita à minha sepultura. Dentro da cova, eu sorriria rigidamente, não permitindo que eles soubessem que eu gostava muito mais da mortífera parasita barba-de-velho que das fedorentas rosas com espinhos agudos. Minha família se retiraria. Eu ficaria preso dentro da terra, no escuro, para o resto da eternidade. Quando, afinal, eu estivesse na terra fria, sob a neve, não seria obrigado a fazer de conta que era Malcolm Neal Foxworth. Imaginei Malcolm quando era velho. Frágil, cabelos ralos, manco como John Amos, e só um pouco menos feio que John Amos, que era muito feio. Em cima da hora, eu resolveria todos os problemas de Mamãe; e Cindy poderia viver em paz para sempre. Agora, que eu estava morto.

 

FERIMENTOS DE GUERRA

A hora do jantar chegou e passou. A hora de dormir se aproximava e Bart ainda não aparecera. Tínhamos todos procurado por ele, mas fui eu quem mais persistiu na busca. Era eu quem o conhecia melhor.

— Jory — disse Mamãe — se você não o encontrar dentro de dez minutos, chamarei a polícia.

— Eu o encontrarei — afirmei, soando muito mais confiante do que realmente me sentia.

Não gostava do que Bart estava fazendo a nossos pais. Estes faziam o melhor possível por nós. Não se divertiriam muito visitando a Disneylândia pela quarta vez. Era um presente para Bart e este era por demais idiota para entender isso. Além disso, era mau. Mamãe e Papai deviam castigá-lo severamente e não fazer-lhe a vontade, como costumavam. Ele aprenderia, afinal, que eles se importavam o bastante para castigá-lo pelas maldades cometidas. Não obstante, quando eu lhes mencionara o assunto uma ou duas vezes, ambos haviam explicado que tinham aprendido da pior maneira possível a respeito de pais rigorosos e cruéis. Na ocasião, achei estranho que ambos tivessem o mesmo tipo de pais desalmados, mas minha professora costumava dizer que era mais comum os pólos iguais se atraírem, em vez dos opostos. E bastava-me olhar para eles para perceber que isso era verdade. Ambos tinham o mesmo tom de cabelos louros, a mesma cor nos olhos azuis, as mesmas sobrancelhas escuras e cílios compridos, negros e curvos, embora Mamãe usasse maquilagem e Papai brincasse com ela, pois achava que isso não era necessário.

Não, eles não castigariam Bart severamente, nem mesmo quando ele era malvado, pois tinham aprendido por experiência própria o mal que isso poderia causar.  Puxa, como Bart gostava de falar em maldade e pecado! Um novo tipo de conversa, como se ele andasse lendo a Bíblia e tirando dela a mesma espécie de idéias que alguns pregadores berravam dos púlpitos. Era até mesmo capaz de citar trechos da Bíblia, algo do Cântico dos Cânticos de Salomão, sobre o amor de um irmão pela irmã cujos seios eram... Ora, eu nem gostava de pensar naquele tipo de coisa. Deixava-me nervoso, ainda mais nervoso que quando Bart dizia o quanto odiava túmulos, velhas, cemitérios e quase tudo o mais. Ódio era uma emoção que ele tinha com freqüência, pobre menino.

Procurei-o em sua cova nos arbustos e vi um pedaço rasgado de sua camisa. Mas ele não estava ali agora. Peguei uma tábua destinada à casa de cachorro que Bart estava  construindo e olhei para a  ponta do prego, enferrujada e suja de sangue. Teria ele se ferido no prego e se arrastado para morrer em algum lugar? Morte era o único assunto no qual ele falava ultimamente, excluindo menção aos que já estavam mortos. Bart estava sempre rastejando e engatinhando, farejando o solo como um cão, até mesmo urinando como um cão. Puxa, era mesmo um garotinho confuso!

— Bart, aqui é Jory. Se quer passar a noite aqui fora, eu permitirei e não contarei a nossos pais... mas faça ao menos algum ruído para eu saber que está vivo.

Nada. Nosso quintal era grande, cheio de arbustos, árvores e sebes floridas que Mamãe e Papai tinham plantado. Circundei um arbusto de camélia. Oh, Deus... seria aquilo o pé descalço de Bart? Lá estava ele, meio escondido debaixo da sebe, com apenas as pernas estendidas para fora. Eu não o vira antes porque aquele não era o local onde costumava esconder-se. Agora estava escuro de verdade e o nevoeiro dificultava ainda mais a visão. Puxei-o delicadamente de baixo da sebe, imaginando por que motivo ele não reclamava. Olhei para o rosto corado e febril, os olhos toldados fitando-me inexpressivamente.

— Não me toque — gemeu ele. — Estou quase morto... quase.

Peguei-o no colo e corri. Ele chorava, dizendo que a perna doía...

— Jory, não quero morrer. No duro.

Quando Papai o pegou no colo e colocou no carro, Bart estava inconsciente.

— Não posso acreditar — disse Papai. — A perna está inchada, o triplo do tamanho normal. Só rezo para que não tenha gangrena.

Eu sabia a respeito da gangrena, era capaz de matar as pessoas! No hospital, Bart foi levado imediatamente para a cama e outros médicos vieram examinar-lhe a perna. Tentaram obrigar Papai a sair do quarto, pois era contra a ética médicos tratarem de pessoas da família. Demasiado envolvimento emocional, presumi.

— Não! — protestou violentamente Papai. — Ele é meu filho e vou ficar para ver o que fazem por ele!

Mamãe chorava o tempo todo, ajoelhada e segurando a mão inerte de Bart. Eu me sentia doente por dentro, também, pensando que não fizera o suficiente para ajudar meu irmão.

— Maçã, Maçã — choramingava Bart sempre que entreabria os olhos. – Preciso de Maçã.

— Chris — perguntou Mamãe — ele não pode comer uma maçã?

— Não. Não pode comer nessas condições.

Em que terrível estado se encontrava Bart. O suor lhe banhava a testa, o corpo pequeno e magro ensopava os lençóis. Mamãe começou a soluçar de verdade.

— Tire sua mãe deste quarto — ordenou-me Papai. — Não quero que ela assista a tudo isto.

Enquanto Mamãe chorava na sala de espera na extremidade do corredor, voltei furtivamente ao quarto particular onde Bart estava e vi Papai injetar-lhe penicilina no braço. Prendi a respiração.

— Ele é alérgico à penicilina? — indagou um médico.

— Não sei — respondeu Papai com seu jeito calmo. — Nunca teve antes uma infecção grave. A esta altura, não há muito que possamos fazer exceto correr o risco. Aprontem tudo para o caso de haver alguma reação.

Virou-se e viu-me encolhido no canto, tentando manter-me fora do caminho dos outros.

— Filho, fique perto de sua mãe. Nada pode fazer aqui para ajudar.

Não consegui mover um músculo. Por algum motivo, talvez remorso por negligenciar meu irmão, tinha que ficar e vê-lo vencer a doença. Logo Bart piorou ainda mais. Papai franziu a testa, fez sinal para uma enfermeira e dois outros médicos entraram no quarto. Um deles inseriu um tubo na narina de Bart. Em seguida, ocorreu algo tão horrível que nem consegui acreditar: vergões vermelhos e salientes brotaram por todo o corpo de Bart. Vermelhos como fogo. E coçavam, pois os dedos dele se moviam de um vergão para outro. Então Papai ergueu Bart e o colocou numa maca, para que dois serventes pudessem levá-lo do quarto.

— Papai! — exclamei. — Para onde vai essa maca? Eles não vão cortar a perna de Bart, vão?

— Não, filho — respondeu ele calmamente. — Seu irmão está sofrendo uma violenta reação alérgica. Temos que agir depressa e fazer uma traqueotomia antes que os tecidos da garganta se inflamem e cortem a passagem do ar.

— Chris — chamou o médico que empurrava um dos lados da maca. — Tudo bem. Tom abriu uma passagem de ar. Não há necessidade de traqueotomia.

Passou-se um dia e Bart não melhorou. Parecia provável que se coçaria até ficar com o corpo todo ferido e morreria de um outro tipo de infecção. Com um horror fascinado, permaneci lá até muito tarde, observando os dedos curtos e inchados de meu irmão se mexerem convulsivamente no esforço inútil de aliviar o tormento da coceira. O corpo inteiro estava cor de escarlate. Pude perceber que o estado de Bart era muito grave pela expressão no rosto de Papai e pelas atitudes dos outros médicos que rodeavam a cama. Então as mãos de Bart foram amarradas com ataduras, a fim de não poderem coçar. Em seguida, seus olhos se inflamaram tanto que pareciam dois enormes ovos de gansos, só que vermelhos. Os lábios incharam, projetando-se sete centímetros além da posição normal.

Não consegui acreditar que tudo aquilo pudesse ocorrer devido apenas a uma reação alérgica.

— Oh! — exclamou Mamãe, agarrando-se com força a Papai, os olhos grudados em Bart.

Tive a impressão de que ele estava doente há uma eternidade. Passou-se o segundo dia e Bart ainda não melhorou. Passou seu décimo aniversário num leito de hospital, delirante e desvairado, sua quarta viagem à Disneylândia cancelada, nossa viagem de volta à Carolina do Sul adiada por mais um ano.

— Vejam — disse Papai, apontando, uma expressão de esperança surgindo no rosto fatigado. — Os vergões estão diminuindo.

O segundo obstáculo fora ultrapassado. Julguei que, agora, Bart melhoraria depressa. Não foi assim. Sua perna inchou ainda mais e logo se constatou que ele era alérgico a todos os antibióticos disponíveis no hospital.

— O que vamos fazer? — chorava Mamãe, com tamanha ansiedade que comecei a temer pela saúde dela.

— Estamos fazendo tudo o que é possível — foi tudo que Papai disse.

— Oh, Senhor, por que me abandonaste? — murmurou Bart em seu delírio.

As lágrimas me escorriam pelo rosto, pingando como gotas de chuva na camisa.

— O Senhor não o abandonou — disse Papai.

Ajoelhou-se ao lado da cama de Bart e rezou, segurando com força a mãozinha de meu irmão, enquanto Mamãe dormia numa cama colocada no quarto para seu uso. Ela não sabia que os comprimidos que Papai lhe dera eram tranqüilizantes, e não aspirina para sua dor de cabeça. Estava por demais perturbada para sequer reparar na cor do remédio. Papai pousou a mão em minha cabeça.

— Vá para casa dormir, filho. Já fez tudo o que era possível aqui.

Levantei-me devagar, rígido por ter permanecido tanto tempo na mesma posição, e me encaminhei para a porta. Quanto lancei a Bart um último e prolongado olhar, Papai se acomodava na cama, atrás e minha mãe. No dia seguinte, Mamãe teve que correr da aula de balé para o hospital, deixando-me sozinho para aquecer os músculos à música de piano.

— A vida continua, Jory. Esqueça um pouco os problemas de seu irmão, se puder. Junte-se a nós mais tarde.

Mal ela saiu, algo me veio à cabeça. Maçã! Claro! Bart não queria uma maçã... queria o seu cão, o seu pônei-filhote de cão!

Em menos de dez minutos, tirei a malha de dança e fui a uma cabine telefônica ligar para Papai.

— Como está Bart? — indaguei.

— Não muito bem, Jory. Não sei como contar à sua mãe, mas o especialista que está cuidando de Bart deseja amputar-lhe a perna antes que a infecção possa enfraquecê-lo ainda mais. Não posso permitir isso... mas, ainda assim, não queremos perder Bart.

— Não deixe que amputem! — quase berrei. — Diga a Bart... obrigue-o a escutar... que vou para casa cuidar de Maçã. Por favor, não cortem a perna de Bart!

Só Deus sabia o quanto Bart se sentiria ainda mais inferior se perdesse a perna.

— Jory, seu irmão jaz na cama e se recusa a cooperar. Não procura melhorar. Parece que deseja morrer. Não podemos aplicar-lhe qualquer antibiótico e a febre está aumentando. Mas concordo com você. Deve existir algo que possamos fazer para baixar a febre.

Pela primeira vez na vida, peguei uma carona para casa. Uma delicada senhora deixou-me no sopé da colina e corri o resto do caminho. Quando Bart soubesse que Maçã estava bem, ficaria bom. Procurava castigar-se, da mesma forma que esmurrava um tronco de árvore quando quebrava alguma coisa. Solucei, compreendendo que meu irmão menor era mais importante para mim do que eu julgava. O garotinho biruta que não gostava muito de si mesmo... Escondendo-se em suas brincadeiras de "faz-de-conta", contando histórias inventadas para impressionar todo mundo. Havia muito tempo, Papai me dissera: "... finja acreditar nas histórias dele, Jory". Talvez tivéssemos fingido demais.

Prendi a respiração ao ver Maçã no celeiro da mansão. Estava acorrentado a uma estaca cravada no solo, com uma tigela de ração para cães fora de seu alcance. O pêlo espesso e embaraçado contava a história de sua fome. O pobre cão estava arquejante e sujo, olhando-me com ar de súplica. Quem fizera aquilo? Maçã arranhara o chão com as patas em seus esforços para chegar à comida e agora, ainda não passando de um filhote crescido demais, ofegava, deitado no chão do celeiro, cuja porta fora trancada cruelmente.

— Tudo bem, rapaz — disse eu, tranqüilizando-o, ao pegar água fresca para ele.

Maçã bebeu com tanta avidez que fui obrigado a fazê-lo parar. Eu conhecia um pouco de primeiros socorros. Os animais, como as pessoas, deviam beber aos poucos após um prolongado período de sede. Em seguida soltei Maçã e fui à prateleira de suprimentos, pegando o que me pareceu melhor em meio a uma comprida fila de latas. Maçã morria de fome cercado por abundância. Quando passei a mão pelo flanco coberto de pêlos emaranhados e sem lustro, pude sentir as costelas. O cão, antes tão bonito, estava magro e sujo. Depois que ele comeu e bebeu bastante, escovei-lhe o espesso manto de pêlos. Então, sentei-me no chão de terra e segurei-lhe a grande cabeça no colo.

— Bart voltará para você, Maçã. E prometo-lhe que virá com as duas pernas. Não sei quem lhe fez isto, mas pode apostar que vou descobrir.

O que mais me preocupava era a terrível suspeita de que a própria pessoa que mais amava Maçã fosse quem o castigara e deixara faminto. Bart tinha um modo deveras estranho de raciocinar. A seu ver, se Maçã realmente sofresse durante sua ausência, ficaria dez vezes mais satisfeito e grato ao vê-lo de volta. Seria Bart capaz de tamanha crueldade?

Lá fora, o dia de julho estava moderadamente quente. Ao me aproximar da mansão, escutei as vozes baixas de duas pessoas. A velha vestida de negro e o sinistro velho mordomo, ambos sentados num pátio verdejante de belas palmeiras plantadas em vasos e samambaias em grandes urnas de pedra.

— John, creio que devemos ir mais uma vez verificar o cachorro de Bart. Ficou tão satisfeito por ver-me hoje de manhã que não consegui entender por que estava tão faminto. Precisa mesmo mantê-lo acorrentado daquela maneira? Parece-me uma crueldade, num dia tão bonito como hoje.

— Madame, não é um dia bonito — replicou o mordomo de aparência malvada, bebericando uma cerveja, escarrapachado numa espreguiçadeira. — Como a senhora insiste em usar roupas pretas, é natural que sinta mais calor que as outras pessoas.

— Não pedi sua opinião sobre minhas roupas. Quero saber por que motivo mantém Maçã acorrentado.

— Por que ele poderia fugir à procura do jovem dono — replicou o mordomo, sarcástico. — Creio que a senhora não pensou nisso.

— Você podia trancar a porta do celeiro. Vou ver Maçã novamente. Pareceu-me tão magro, tão desesperado.

— Madame, se quer preocupar-se, faça-o com algo mais importante. Preocupe-se com seu neto, que está prestes a perder a perna.

Ela começara a levantar-se da cadeira, mas, ao ouvir aquilo, afundou-se outra vez nas almofadas.

— Oh... Ele piorou? Emma e Martha tornaram a conversar hoje de manhã?

Suspirei, sabendo que Emma gostava de trocar mexericos e não devia fazê-lo. Todavia, não acreditei que ela realmente dissesse coisas importantes. Nunca me revelara segredos. E Mamãe nunca tinha tempo para escutá-la.

— Claro que conversaram — resmungou o velho mordomo. — Já ouviu falar em alguma mulher que não goste de conversar? Aquelas duas usam as escadas todos os dias para trocarem mexericos. Não obstante, quem ouve Emma falar julga que o médico e a mulher são perfeitos.

— John, o que descobriu Martha a respeito de Bart? Diga-me!

— Bem, Madame, parece que o garoto conseguiu espetar um prego enferrujado no joelho e agora está com gangrena, o tipo que exige a amputação do membro, ou o paciente morre.

Do meu esconderijo olhei para os dois que conversavam sentados, uma muito perturbada e o outro totalmente despreocupado, quase divertido com a reação da patroa.

— É mentira! — gritou a mulher, erguendo-se de um pulo. — John, você mente para me torturar ainda mais. Sei que Bart ficará bom. O pai dele saberá o que fazer para curá-lo. Sei que saberá. Tem que saber...

Então começou a chorar. Tirou o véu e enxugou as lágrimas. Vi-lhe o rosto de relance, não notando tanto as cicatrizes, desta vez, mas apenas a expressão de sofrimento. Gostaria realmente tanto de Bart? Por que haveria de gostar? Seria realmente avó de Bart?... Não, não podia ser. A avó dele estava internada num manicômio da Virgínia.

Avancei a fim de que minha presença fosse notada. A mulher pareceu surpresa por ver-me. Então, lembrou-se do rosto descoberto e recolocou depressa o véu.

— Bom dia — disse eu, dirigindo-me unicamente à mulher e ignorando o mordomo, ao qual não conseguia deixar de detestar. — Escutei o que disse seu mordomo, Madame, e ele só tem razão até certo ponto. Meu irmão está muito doente, mas não tem gangrena. E não perderá a perna. Meu pai é muito bom médico para permitir que isso aconteça.

— Jory, tem certeza de que Bart ficará bom? — indagou ela, muito preocupada. — Ele me é muito querido... nem consigo explicar o quanto...

Engasgou-se e baixou a cabeça, torcendo convulsivamente as mãos magras cheias de anéis.

— Sim, Madame — respondi. — Se Bart não fosse alérgico à maioria dos remédios que os médicos lhe ministraram, a infecção já estaria debelada, mas, a longo prazo, isso não fará diferença, pois meu pai saberá o que fazer para curá-lo. Meu pai sempre sabe o que fazer.

Virei-me para o mordomo e tentei assumir uma atitude de autoridade adulta:

— E quanto a Maçã, não precisa ficar acorrentado num celeiro quente, com todas as janelas fechadas. E não precisa que a água e a comida sejam colocadas fora de seu  alcance. Não sei o que se passa aqui, nem por que motivo você gosta de fazer um cachorro bom como aquele sofrer, mas acho melhor tratar bem dele se não quer que eu o denuncie à Sociedade Protetora dos Animais!

Girei nos calcanhares e comecei a me afastar.

— Jory! — chamou a mulher de negro. — Fique! Não saia agora. Quero saber mais a respeito de Bart.

Virei-me para encará-la.

— Se deseja ajudar meu irmão, só há uma coisa que pode fazer: deixe-o em paz! Quando ele voltar, invente alguma boa desculpa e diga-lhe que não pode ser incomodada, mas não o magoe.

Ela tornou a falar, pedindo-me para ficar e falar, mas segui meu caminho, pensando que fizera algo para proteger Bart, embora não soubesse contra o que. Naquela mesma noite, a febre de Bart subiu muito. Os médicos mandaram que ele fosse enrolado numa coberta térmica que funcionava como refrigerador. Observei meu pai e minha mãe, vendo-os trocando olhares, tocando-se, fortalecendo-se mutuamente. Por estranho que pareça, ambos se voltaram para pegar cubos de gelo e esfregá-los nos membros e no peito de Bart. Agiam como se fossem uma só pessoa, sem necessidade de palavras. Engasguei-me e baixei a cabeça, comovido por aquele tipo de amor e compreensão. Tive ímpetos de tomar a palavra e contar-lhes a respeito da mulher da mansão, mas prometera a Bart guardar segredo. Meu irmão encontrara a primeira pessoa amiga em sua vida, bem como o primeiro animal capaz de tolerá-lo; não obstante, quanto mais tempo eu ocultasse o que sabia, mais meus pais poderiam magoar-se, a longo prazo. Por que eu tinha que pensar isso? Como podia saber que a velha magoaria meus pais? Não sei como, tinha certeza de que ela o faria. Sabia que algum dia ela os feriria. Desejei ser adulto, capaz de tomar as decisões adequadas.

À medida que ficava mais sonolento, lembrei-me da expressão que Papai costumava usar: "Deus age de maneiras estranhas para realizar suas maravilhas". A próxima coisa de que me dei conta foi que Papai me sacudia para me acordar.

— Bart está melhor! — exclamou ele. — Bart ficará bom e não perderá a perna!

Devagar, dia a dia, aquela hedionda perna inchada diminuía de tamanho. Gradativamente, retornou à coloração normal, embora Bart parecesse abatido e indiferente, fitando o vácuo, sem falar com ninguém.

Certa manhã, estávamos à mesa do café, quando Papai esfregou os olhos fatigados e nos informou algo incrível:

— Cathy, você não vai acreditar, mas os técnicos do laboratório encontraram uma coisa estranha na cultura que retiraram da perna de Bart. Desconfiávamos de ferrugem; eles encontraram ferrugem, que causou o tétano, mas descobriram também a exata espécie de estafilococos geralmente associada a fezes frescas de animais. É um verdadeiro milagre que Bart não tenha perdido a perna.

Mamãe, parecendo pálida e cansada o bastante para estar doente, meneou levemente a cabeça antes de recostá-la no ombro dele.

— Se Trevo ainda estivesse aqui, eu compreenderia facilmente de que modo Bart poderia...

— Você sabe como é o nosso Bart. Se houver algo imundo num raio de dois quilômetros, será ele quem pisará, se arrastará na coisa, ou a pegará para examiná-la. Sabe de uma coisa? Ontem à noite, quando ele não parava de falar em maçãs, dei-lhe a que levei comigo e ele a deixou cair no chão, não demonstrando o menor interesse.

Mamãe fechou os olhos, enquanto ele prosseguiu:

— Quando anunciei que não iríamos ao Leste, percebi que ele ficou satisfeito.

Então, olhou para mim:

— Jory, espero que não esteja muito desapontado. Teremos que esperar até o próximo verão para visitarmos sua avó. Ou talvez possamos ir no Natal, se eu conseguir folga para viajar.

Eu alimentava pensamentos malvados. Bart sempre conseguia o que desejava. Imaginara um meio seguro de evitar visitar "velhas sepulturas e velhas avós". Até mesmo abrira mão da Disneylândia. E não era do feitio de Bart abrir mão de coisa alguma.

Naquela noite, fiquei sozinho com Bart, enquanto Papai e Mamãe conversavam com amigos no corredor. Contei a Bart a conversa que eu escutara entre a velha e o mordomo.

— Lá estavam eles, Bart, ambos sentados no terraço. Ela estava muito preocupada com você.

— Ela me ama — declarou ele, orgulhoso, a voz muito sumida. — Ela me ama mais que qualquer outra pessoa... — fez uma leve pausa, parecendo em dúvida, e logo acrescentou: — com exceção, talvez, de Maçã.

Bart, disse eu com meus botões, não pense assim. Contudo, não tive coragem de falar e estragar seu orgulho por ter encontrado amor fora de nossa família. Com emoções confusas, observei-lhe o rosto expressivo, meus sentimentos embaralhados de incerteza. Que tipo de irmão mais moço possuía eu? Certamente, ele tinha que saber que seus pais o amavam mais que qualquer outra pessoa.

— Vovó tem medo daquele velho mordomo, mas eu sei lidar com ele — afirmou Bart. — Possuo poderes ocultos, realmente fortes.

— Bart, por que continua indo àquela casa?

Ele sacudiu os ombros, fitando a parede.

— Não sei. Apenas tenho vontade.

— Bem sabe que Papai lhe daria um cachorro, de qualquer raça que você desejasse. Só precisa pedir e ele lhe dará um filhote de São Bernardo igualzinho a Maçã.

Seu feroz olhar de raiva me trespassou.

— Não existe outro cachorro igual ao meu pônei-filhote de cão! Maçã é especial.

Mudei de assunto.

— Como sabe que aquela velha tem medo do mordomo? Ela lhe contou?

— Não precisa contar. Posso perceber. Ele a olha com maldade. Ela o olha com medo.

Com medo; exatamente da maneira como eu estava começando a olhar para tudo.

 

DE VOLTA AO LAR

Era ótimo como Mamãe se preocupava comigo. Não duraria muito. Ela mudaria logo que eu ficasse curado. Duas longas semanas neste fedorento hospital onde queriam cortar minha perna e queimá-la na fornalha. Sentia-me feliz ao olhar para baixo e ver a perna ainda no mesmo lugar. Puxa! Eu mal podia esperar para voltar à escola e contar a todos que minha perna quase fora "amputada". Ficariam impressionados. Eu era feito de material excelente, que se recusava a apodrecer ou morrer. E não chorara. Era valente, também. Lembrei-me de como Papai ficara perto de mim, parecendo triste e preocupado. Talvez ele realmente me amasse, embora eu não fosse seu filho de verdade.

— Papai! — exclamei ao vê-lo. — Posso perceber que tem boas notícias.

— É ótimo ver você tão animado e com aparência tão feliz — disse ele, sentando-se na beirada da cama e abraçando-me antes de me beijar. Embaraçoso. — Bart, tenho grandes notícias. Sua temperatura está normal. O joelho vem cicatrizando muito bem. Contudo, ser filho de um médico tem suas vantagens. Vou tirá-lo do hospital ainda hoje. Se não o fizer, temo que você definhe e acabe sumindo. Uma vez em casa, sei que a deliciosa comida de Emma logo cobrirá de músculos esse esqueleto.

Olhou-me com ar bondoso, como se eu lhe importasse tanto quanto Jory; tive vontade de chorar.

— Onde está Mamãe? — perguntei.

— Tive que sair cedo, de modo que ela ficou em casa preparando uma festa especial para comemorar seu retorno, portanto você não pode reclamar, não é?

Claro que podia! Eu a queria aqui comigo! Aposto que ela não veio porque teve que mimar aquela tal Cindy, colocando-lhe lacinhos nos cabelos. Permaneci calado e deixei que Papai me carregasse até o carro. Era gostoso sair ao sol, voltando para casa.

No vestíbulo, Papai colocou-me de pé sobre as pernas vacilantes. Olhei para Mamãe, que se dirigiu primeiro a Papai e beijou-lhe o rosto, quando eu estava ali, desejando ser beijado em primeiro lugar. Eu sabia por que ela agia assim: agora, tinha medo de mim. Via meu corpo magro, o rosto ossudo e feio. Esforçava-se por sorrir quando olhava para mim. Encolhi-me quando ela se aproximou para cumprir seu dever para com o filho que não morrera. Quanta  felicidade fingida! Eu sabia que ela não me amava, que não me queria mais. E lá estava Jory, também, sorridente e fingindo estar feliz por ver-me de volta ao lar, quando eu sabia que todos eles gostariam de me ver morto. Senti-me como Malcolm quando era menino, indesejável e abandonado, tão malditamente infeliz.

— Bart, meu querido! — exclamou Mamãe. — Por que parece tão tristonho? Não se alegra por estar de volta?

Tomou-me nos braços e tentou beijar-me, mas libertei-me com um safanão. Vi-lhe o rosto magoado, mas isso não importava. Ela estava apenas fingindo, como eu era obrigado a fingir o tempo todo.

— É tão bom ter você de volta em casa, querido — continuou ela com suas mentiras. — Emma e eu passamos a manhã inteira ocupadas em planejar o que poderemos fazer para torná-lo feliz. Desde que reclamou tanto da comida horrível do hospital, preparamos todos os seus pratos preferidos.

Ela tornou a sorrir e, mais uma vez, estendeu os braços para me pegar, mas eu não permitira que se insinuasse com as "manhas femininas" de que me falava John Amos. Boa comida, sorrisos e beijos faziam parte das "manhas femininas".

— Bart, não seja tão cético. Emma e eu preparamos todos os seus pratos prediletos.

Limitei-me a encará-la. Ela ficou vermelha, depois disse com esforço:

— Sabe, os que você aprecia mais.

Continuou obrigando-se a ser delicada, enquanto Papai veio trazer-me uma bengala.

— Apóie a maior parte do peso na bengala até seu joelho ficar mais forte.

Era um tanto divertido mancar pela casa como um velho, como Malcolm Foxworth. Gostava de que eles me mimassem, ficando preocupados quando eu não comia. Nenhum dos presentes que me deram poderia comparar-se aos que me daria minha avó, na mansão vizinha.

— Bolas, Bart! — sussurrou Jory durante o jantar. — Precisa mostrar-se tão ingrato? Todo mundo se esforçou muito para agradá-lo.

— Detesto torta de maçã.

— Você disse que torta de maçã era seu doce preferido.

— Nunca disse isso! Também detesto galinha... e purê de batatas... e salada de verdura; detesto tudo!

— Acredito — disse um irmão desgostoso, que me deu as costas e ignorou alguém tão exigente quanto eu.

Então, ele estendeu a mão para pegar uma coxa de galinha no meu prato.

— Bem, já que você não quer comer, não devemos deixar que estrague...

Comeu a galinha toda. Agora eu não poderia entrar sorrateiramente na cozinha durante a noite e empanturrar-me quando eles não estivessem observando. Pois que se preocupassem com o fato de eu definhar até ser apenas pele e ossos, indo terminar numa cova úmida e fria. Descobririam o quanto sentiriam falta de mim.

— Bart, por favor, tente comer um pouquinho — implorou Mamãe. — O que há de errado com a torta?

Fiz uma carranca e dei um tapa na mão de Jory quando ele tentou pegar uma fatia de torta no meu prato.

— Não consigo comer torta sem sorvete por cima.

Ela me lançou um sorriso animado e chamou:

— Emma, traga o sorvete!

Empurrei o prato para longe de mim e me afundei na cadeira.

— Não me sinto bem. Quero ficar sozinho. Não gosto de ser mimado. Estraga-me o apetite.

Papai olhou-me como se estivesse perdendo a paciência comigo. Também não ralhou com Jory por tentar roubar-me um pedaço de torta. Foi o suficiente: apenas uma hora e já se haviam cansado de mim, desejando que eu estivesse morto.

— Cathy, pare de implorar a Bart — disse Papai. — Se ele não quiser comer, pode retirar-se da mesa. Comerá quando tiver fome.

Meu estômago já roncava naquele momento. Eu não podia comer o que estava à minha frente, agora que Jory já levara minha comida predileta. Fiquei sentado, morrendo de fome, enquanto todos me esqueceram e começaram a conversar, rir e agir como se eu ainda continuasse no hospital. Levantei-me da mesa e manquei na direção do meu quarto. Papai chamou:

— Bart! Não quero você brincando lá fora até que essa perna tenha tempo suficiente para cicatrizar por completo. Tire um cochilo com a perna para cima. Depois poderá assistir à televisão.

TV. Que tipo de comemoração era aquela? Fingindo-me obediente, entrei no quarto e parei perto da porta, a fim de poder gritar para a sala de jantar:

— Não perturbem meu repouso!

Mantiveram-me duas semanas no hospital e agora, que eu estava em casa, desejavam prender-me por ainda mais tempo. Eu lhes mostraria! Ninguém me prenderia dentro de casa por mais uma maldita semana! Todavia, alguém se manteve de olho em mim dia e noite antes que, afinal, eu conseguisse fugir pela janela, após passar seis dias inteiros preso dentro de casa. Eu já perdera uma parcela grande demais do verão, bem como minha viagem à Disneylândia. Não ia perder mais nada.

A grande árvore velha perto do muro não foi amistosa, dificultando-me a subida. Quando chegasse ao terreno vizinho, minha perna doeria. A dor não era tão gostosa quanto eu imaginara. Ser "normal" não era lá essas coisas. Certa vez Jory torcera o tornozelo e continuara a dançar, ignorando a dor. Eu também era capaz de ignorar a dor. No topo do muro, olhei para trás, a fim de verificar se alguém me seguia. Ninguém. Ninguém se importava com o que eu fizesse para me machucar. Comecei a farejar. Que cheiro de podre era aquele, saindo do oco do carvalho? Ah, consegui lembrar-me vagamente. O que era? Já não conseguia lembrar-me tão bem. Tinha a mente confusa, cheia de névoa que ondulava como o nevoeiro soprado pelo vento do oceano.

Maçã. Era melhor pensar em Maçã. Esquecer o joelho rígido e dolorido, fingindo que ele pertencia a algum velho frágil, como se tornara Malcolm no final. Minha perna jovem queria correr, mas a perna velha assumiu o controle de todo o meu corpo, obrigando-me a apoiar o peso na bengala. Ohhh! Que visão dolorosa seria deparar-me com o pobre Maçã morto no celeiro. Um miserável saco de pele, couro e ossos. Eu choraria, gritaria, detestaria aqueles que haviam tentado obrigar-me a voar para o Leste e abandonar o melhor amigo que possuía. Só os animais sabiam amar de verdade, com devoção. Um século se passara desde que eu percorrera aquele caminho pela última vez. E tive a impressão de que mais alguns anos se passaram antes que eu mancasse até a porta do celeiro. Controle-se, pensei. Reforce a espinha com aço, como fez Malcolm. Prepare os olhos para uma visão terrível, pois Maçã o amou demais e agora teve que pagar o preço disso, morrendo. Nunca, nunca mais eu encontraria um amigo tão verdadeiro quanto o pônei-filhote de cão que fora o meu Maçã.

Meu equilíbrio, que jamais fora bom, balançou-me de um lado para outro, da frente para trás, fazendo sentir-me atordoado e louco. Senti que havia algo atrás de mim. Olhei por cima do ombro e não vi ninguém. Nada exceto aquelas amedrontadoras formas animais que não passavam de arbustos podados. Os estúpidos jardineiros deveriam encontrar algo mais útil que perderem tempo podando arbustos, enquanto o dinheiro de verdade estava à espera de alguém realmente esperto para ganhá-lo. Agora eu pensava exatamente como Malcolm; John Amos ficaria satisfeito. Precisava procurar John Amos, a fim de que ele me tornasse ainda mais esperto.

Suspeitando do pior, aproximei-me do local preferido por Maçã. Agora não conseguia enxergar. Ficara cego! A bengala tateava o chão à minha frente. Escuro. Por que tudo estava escuro? Avancei com vagar e cautela, tentando enxergar no escuro. Todas as janelas do sótão estavam fechadas. Pobre Maçã, abandonado para morrer de fome na escuridão. Senti um nó na garganta, chorando por dentro, lamentando um animal de estimação que me amara mais que à própria vida. Precisei obrigar-me a avançar mais um passo. Ver Maçã morto me deixaria uma cicatriz na alma, na minha alma eterna, que John Amos afirmava precisar permanecer limpa e pura se eu desejasse chegar aos portais do céu, os quais Malcolm alcançara. Mais um passo. Estaquei. Lá estava o meu Maçã, e não estava morto! Achava-se numa baia com a janela aberta e corria atrás de uma bola vermelha, pisando-a com as enormes patas semelhantes às de um pônei, e havia bastante comida em sua tigela. E água fresca também. Fiquei parado, tremendo da cabeça aos pés, enquanto Maçã me ignorava e continuava a brincar como se eu nem estivesse ali. Ora, ele nem sentira falta de mim!

— VOCÊ! VOCÊ! — berrei. — Esteve comendo, bebendo e brincando! Durante todo este tempo, eu às portas da morte e você nem se importou! E julguei que me amava. Pensei que fosse sentir muito a minha falta. E agora nem mesmo late para me dizer que está feliz por ver-me de volta! EU O ODEIO, MAÇÃ! EU O ODEIO POR NÃO SE IMPORTAR COMIGO!

Então Maçã me avistou e correu para mim, pulando para colocar-me nos ombros as patas enormes e lamber-me o rosto. Sacudia furiosamente o rabo, mas não conseguiu me enganar. Encontrara alguém que o tratasse melhor que eu, macacos me mordam se eu lhe fazia o pêlo ficar tão bonito.

— Por que não morreu de solidão?! — gritei.

Fitei-o com ódio, desejando que murchasse até sumir. Ele pressentiu minha raiva e retomou à posição normal, enfiando o rabo entre as pernas e baixando a cabeça para me olhar de esguelha.

— AFASTE-SE DE MIM! PRECISA SOFRER COMO EU SOFRI; ENTÃO FICARÁ FELIZ POR TER-ME DE VOLTA!

Peguei toda a sua comida e água, jogando-as num velho barril. Apanhei a bola vermelha e atirei-a tão longe que nunca mais ele conseguiria encontrá-la. Durante todo o tempo, Maçã permaneceu no mesmo lugar, sem sacudir o rabo. Queria-me de volta, mas agora era tarde demais.

— Fique no escuro e morra de fome! Agora, sentirá minha falta — solucei, tropeçando ao afastar-me, trancando-o no celeiro com todas as janelas fechadas.

— Fique no escuro e morra de fome! Nunca mais voltarei! Nunca!

Tão logo cheguei à luz do sol, lembrei-me de todo o feno macio que ele tinha para deitar-se. Voltei ao celeiro, agarrei um ancinho e puxei para fora todo o feno. Maçã gania, tentando fazer-me festas com o focinho. Não permiti.

— Deite-se no chão duro e frio! Terá dor em todos os ossos, mas não me importo, pois agora não o amo mais!

Furioso enxuguei as lágrimas e arranhei o rosto. Durante toda a minha vida, eu fizera apenas três amigos: Maçã, minha avó e John Amos. Maçã matara meu amor e um dos outros dois me traíra, alimentando Maçã e roubando-me seu amor. John Amos não se daria o trabalho, portanto, tinha que ser minha avó. Voltei para casa atordoado. Naquela noite, minha perna doeu tanto que Papai veio a meu quarto e deu-me um comprimido. Sentou-se na beirada da cama e me tomou nos braços, fazendo-me sentir seguro ao ouvi-lo falar baixinho em adormecer e ter sonhos gostosos.

Mergulhei na feiúra. Esqueletos por todos os lados. Sangue correndo em grandes rios, carregando pedaços de seres humanos para um oceano de fogo. Morto. Eu estava morto. Flores, coroas de flores no altar. Pessoas que nem me conheciam enviavam-me flores, dizendo-me que estavam satisfeitas por ver-me morto. Escutei o mar de fogo tocar música demoníaca, fazendo-me odiar ainda mais música e dança.

O sol entrou pela janela e me incidiu no rosto, roubando-me do abraço do demônio. Quando abri os olhos, aterrorizado com o que poderia ver, avistei apenas Jory em pé junto à cama, fitando-me com piedade. Eu não precisava de piedade.

— Bart, você chorou durante a noite. Sinto muito que sua perna ainda doa.

— Minha perna não dói nada! — berrei.

Levantei-me para mancar até a cozinha, onde Mamãe estava dando comida a Cindy. Maldita Cindy. Emma fritava toucinho para meu café da manhã.

— Quero apenas café e torradas! — gritei. — Só isso!

Mamãe fez uma careta dolorida e depois me olhou, muito pálida. Estranho...

— Não grite, por favor, Bart. E você não toma café. Por que pediu café?

— Já é tempo de agir como uma pessoa da minha idade! — rosnei.

Sentei-me cautelosamente na cadeira de braços de Papai. Ele chegou e viu-me sentado em sua cadeira, mas não ordenou que me levantasse. Limitou-se a usar uma cadeira sem braços e encher até a metade uma xícara de café. Completou a xícara com dois centímetros de creme de leite e entregou-a a mim.

— Detesto creme no café!

— Como pode ter tanta certeza se nunca experimentou?

— Eu sei.

Recusei-me a tomar o café que ele estragara. (Malcolm gostava de café puro; eu também gostaria, a partir de agora). Só me restava à frente uma torrada pura e se eu precisava ser como Malcolm e tornar-me esperto, não podia espalhar manteiga e geléia de morangos na torrada. Indigestão. Como Malcolm, devia preocupar-me com indigestão.

— Papai, o que é indigestão?

— Algo que você não precisa ter.

Era realmente difícil tentar ser como Malcolm o tempo todo. Segundos depois, Papai estava ajoelhado, examinando-me a perna doente.

— Parece pior hoje que ontem — comentou, erguendo a cabeça para encarar-me com ar desconfiado. — Bart, você não andou engatinhando nesse joelho machucado, andou?

— Não! — gritei. — Não sou maluco! As cobertas arranharam um pouco a pele. Lençóis ásperos. Detesto lençóis de algodão. Gosto mais dos lençóis de seda.

Malcolm só dormia em roupas de cama de seda.

— Como sabe? — indagou Papai. — Você nunca teve lençóis de seda.

Continuou a tratar meu joelho, lavando-o e cobrindo-o com um pó branco, antes de aplicar um tampão de gaze e prendê-lo com esparadrapo.

— Agora, Bart, estou falando sério. Não quero que se apóie no joelho. Fique em casa, longe do jardim, ou sente-se na varanda dos fundos. Nada de engatinhar na terra.

— Não é uma varanda, é um pátio — repliquei carrancudo, para lhe mostrar que ele não sabia tudo.

— Muito bem, é um pátio; isto o deixa satisfeito?

Não. Eu nunca estava satisfeito. Então pensei melhor. Sim, eu às vezes me sentia satisfeito quando fingia ser Malcolm, o todo-poderoso, o mais rico, o mais esperto. Representar o papel de Malcolm era fácil e melhor que qualquer outra coisa ou pessoa. De algum modo, eu tinha certeza de que, se continuasse a representá-lo, acabaria exatamente como Malcolm: rico, poderoso, amado.

O tipo mais comprido e chato de dia se arrastou interminavelmente, com todos de olho atento em mim. O crepúsculo chegou e Mamãe ocupou-se em embelezar-se para Papai, que deveria chegar a qualquer momento. Emma preparava o jantar. Jory estava na aula de balé. E eu fugi do pátio às escondidas. Apressei-me em atravessar o jardim antes que alguém me detivesse. O cair da tarde estava fantasmagórico, com sombras compridas e ameaçadoras. Todas as pequenas criaturas noturnas que voavam e zumbiam tinham saído das tocas para rodear-me a cabeça, Tentei espantá-las com tapas. Ia procurar John Amos. Ele estava sentado sozinho em seu quarto, lendo uma revista que se apressou em esconder quando entrei sem bater.

— Não devia fazer isso — declarou num tom azedo, nem mesmo sorrindo para mostrar-se satisfeito porque eu ainda estava vivo e com as duas pernas.

Era fácil assumir a expressão sombria de Malcolm e assustá-lo.

— Você deu comida e água a Maçã enquanto estive fora?

— Claro que não — replicou ele ansiosamente. — Foi sua avó quem alimentou e deu de beber ao cachorro. E tratou dele. Eu já lhe disse que jamais se deve confiar em que as mulheres cumpram a palavra. Corrine Foxworth não é melhor que qualquer outra mulher, com suas manhas para induzir os homens a se transformarem em escravos delas.

— Corrine Foxworth... é esse o nome dela?

— Naturalmente. Eu já lhe disse antes. É filha de Malcolm. Ele a batizou com o nome da mãe dele, a fim de lembrar-se sempre do quanto as mulheres são falsas, de que até mesmo uma filha seria capaz de traí-lo, embora ele a amasse muito. Demais, na minha opinião.

Eu já começava a me cansar de histórias sobre as mulheres e suas "manhas".

— Por que não manda ajeitar a dentadura? — perguntei.

Não gostava da maneira como ele sibilava e assoviava por entre os dentes postiços soltos demais.

— Ótimo! Falou exatamente como Malcolm. Está aprendendo. A doença lhe fez bem à alma, como aconteceu com ele. Agora, escute com atenção, Bart: Corrine é sua verdadeira avó e foi casada com seu verdadeiro pai. Era a filha mais amada por Malcolm e traiu-o ao fazer algo tão pecaminoso que precisa ser castigada.

— Precisa ser castigada?

— Sim, severamente castigada; mas você não deve permitir que ela perceba que seus sentimentos mudaram. Finja que ainda a ama, que ainda a admira. E, dessa maneira, ela se tornará vulnerável.

Eu sabia o que significava vulnerável. Mais uma daquelas palavras que fora obrigado a aprender. Fraco; é ruim ser fraco. John Amos foi buscar sua Bíblia e colocou minha mão sobre a surrada capa preta, toda rachada e descascando.

— A Bíblia do próprio Malcolm — disse ele. — Legou-a a mim em seu testamento... embora pudesse ter legado mais alguma coisa...

Compreendi que John Amos era a única pessoa no mundo que ainda não me desapontara. Ali estava o verdadeiro amigo de que eu necessitava. Velho, mas eu também era capaz de ser velho, quando desejava. Embora não pudesse retirar os dentes da boca e colocá-los numa xícara cor de marfim.

Olhei para a Bíblia, desejando retirar a mão, mas sentindo medo do que poderia acontecer se o fizesse.

— Jure sobre esta Bíblia que agirá como Malcolm desejaria que seu bisneto agisse: exercendo vingança sobre aqueles que mais fizeram mal a ele.

Como podia eu jurar o que ele exigia, quando uma pequena parte de mim continuava a amá-la? Talvez John Amos estivesse mentindo. Talvez Jory tivesse alimentado e cuidado de Maçã.

— Por que hesita, Bart? É um fraco? Não tem tutano? Olhe novamente para sua mãe, veja como usa o corpo, o rosto bonito, os beijos e abraços, para induzir seu pai a fazer tudo que ela quer. Repare como ele trabalha até tarde, como está cansado ao voltar para casa. Pergunte a si mesmo o motivo. Ele faz isso por si próprio ou para ela comprar roupas novas, casacos de pele, jóias, e morar numa casa grande e bonita? É assim que as mulheres usam os homens, fazendo-os trabalhar enquanto elas se divertem.

Engoli em seco. Mamãe trabalhava. Ensinava balé. Contudo, isso era mais diversão que trabalho, não é mesmo? Ela alguma vez comprava alguma coisa com seu próprio dinheiro? Eu não me lembrava.

— Agora entre para visitar sua avó e comporte-se como antes. Logo descobrirá quem o traiu. Não fui eu. Entre e seja como Malcolm. Chame-a de Corrine, observe os olhos dela mostrarem medo e saberá quem de nós dois é leal e digno de confiança.

Eu jurara castigar os que haviam traído Malcolm, mas não estava satisfeito comigo mesmo ao entrar, mancando, na sala que ela preferia usar. Parei na porta e a encarei, o coração batendo com força, tamanho era meu desejo de correr para seus braços e sentar-me em seu colo. Era certo comportar-me como Malcolm, sem lhe dar uma oportunidade de explicar-se?

— Corrine — chamei com voz ríspida.

Oh, a brincadeira era tão boa que eu simplesmente não conseguia ser Bart e sentir-me seguro. Quando era Malcolm, sentia-me tão forte e cheio de razão.

— Bart! — exclamou ela, feliz, levantando-se para estender os braços. — Finalmente veio visitar-me! Estou tão contente por vê-lo bem e forte outra vez!

Então, hesitou e indagou:

— Quem lhe disse meu nome?

— John Amos — repliquei, carrancudo. — Ele me contou que você alimentou Maçã e lhe deu água enquanto estive fora. É verdade?

— Sim, querido, é claro que fiz tudo por Maçã. Ele sentiu tanto a sua falta que fiquei com pena. Naturalmente, você não está zangado.

—  Você o roubou de mim — declarei, chorando como um bebê. — Ele era o único amigo que tive na vida, o único que realmente me amava e você o roubou. Agora ele gosta mais de você que de mim.

— Não, não gosta, Bart. Ele pode gostar de mim, mas ama você.

Agora ela já não sorria nem parecia satisfeita. Exatamente como dissera John Amos, percebi que estava aplicando suas manhas. Ia dizer-me mais mentiras.

— Não fale tão asperamente comigo — pediu. — Não é adequado a um menino de dez anos. Querido, esteve longe tanto tempo e senti tanto a sua falta! Não pode demonstrar nem um pouco de afeição?

De repente, a despeito de meu juramento, corri para os braços dela e me pendurei em seu pescoço.

— Vovó! Machuquei o joelho para valer! Suei tanto que a cama ficou molhada. Enrolaram-me num cobertor frio; Papai e Mamãe me esfregaram com gelo. Havia um médico malvado que desejava cortar minha perna, mas Papai não permitiu. Aquele médico disse estar satisfeito por eu não ser filho dele.

Parei para tomar fôlego, esquecendo-me totalmente de Malcolm.

— Vovó, descobri que Papai me ama, apesar de tudo, senão gostaria que aquele médico cortasse minha perna.

Ela pareceu chocada.

— Bart, pelo amor de Deus! Como pode ter a menor dúvida que seu pai o ame? Naturalmente que ama. Teria que amá-lo. Christopher sempre foi um menino bondoso, carinhoso...

Como sabia ela que meu pai se chamava Christopher? Apertei as pálpebras. Ela levara as mãos aos lábios, como se acabasse de revelar involuntariamente algum segredo. Depois começou a chorar. Lágrimas. Um dos truques que as mulheres aplicavam nos homens. Virei-me para outro lado. Detestava lágrimas. Detestava pessoas fracas. Pousei a mão no peito da camisa e senti a capa dura do diário de Malcolm contra a pele. Aquele livro me dava a força de Malcolm, transferindo-a das páginas para meu sangue. O que importava se eu tinha o corpo imperfeito e fraco de uma criança? Que diferença fazia isso, quando ela logo aprenderia quem mandava ali?

Minha casa. Precisava voltar para casa antes que dessem por minha falta.

— Boa noite, Corrine.

Deixei-a a chorar, ainda matutando a respeito de como ela podia saber o nome de Papai. Em meu jardim, tornei a verificar o caroço de pêssego. Nada de raízes, ainda. Tornei a cavar as ervilhas-de-cheiro. Ainda não brotavam. Eu não tinha sorte com flores, com caroços de pêssego, com nada. Com nada a não ser fazer o papel de Malcolm, o poderoso. E nisso, eu estava ficando cada vez melhor. Sorridente e satisfeito, fui para a cama.

 

OS CHIFRES DO DILEMA

Bart nunca estava em nosso jardim, onde deveria estar. Subi na árvore e me sentei no muro. Então avistei Bart no quintal da velha, de joelhos, engatinhando. Farejando o solo como um cão.

— Bart! — berrei. — Trevo se foi e você não pode substituí-lo!

Eu sabia o que ele estava fazendo: enterrando um osso e depois farejando ao redor até encontrá-lo. Ele ergueu a cabeça, os olhos vidrados e desorientados... e então começou a latir. Gritei com ele, para chamá-lo à realidade, mas Bart continuou representando o cãozinho travesso antes de transformar-se, repentinamente, num velho que arrastava a perna. E nem mesmo era a sua perna machucada. Que garoto maluco!

— Ande direito, Bart! Você tem apenas dez anos, não cem. Se continuar andando torto, crescerá assim.

— Dias tortos levam a caminhos tortos.

— Isso não faz sentido.

— E o Senhor disse: "Faça aos outros o que lhe fizeram".

— Errado. O certo é: "Faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem".

Estendi a mão para ajudar o que parecia ser um velho. Bart. Carrancudo, levou a mão ao peito, ofegou e gritou que sofria do coração, que não agüentaria subir numa árvore.

— Estou farto de você, Bart. Só faz criar casos. Tenha um pouco de consideração para com Mamãe e Papai... e comigo também. Será embaraçoso tê-lo como irmão ao voltarmos à escola.

Ele mancou atrás de mim a caminho de casa, ainda ofegante, murmurando entre gemidos que já era um mestre das finanças.

— Jamais existiu um cérebro mais esperto que o meu — resmungou.

Será que desta vez ele ficou biruta de verdade? Foi a única coisa que consegui pensar ao escutá-lo. Prendi a respiração, espantado, quando ele esfregou as mãos com uma escova, como se desejasse realmente limpá-las. Aquilo não era mesmo coisa de Bart. Ele continuava fingindo ser outra pessoa. Logo escovou os dentes e foi deitar-se. Apressei-me a procurar um local de onde poderia escutar o que diziam meus pais, que estavam na sala de estar, dançando ao ritmo de uma música lenta.

Como sempre, algo terno, suave e romântico invadiu-me ao vê-los assim. O modo carinhoso como ela o fitava; a maneira delicada como ele a tocava. Pigarreei antes que fizessem algo íntimo demais. Sem mudarem de posição, ambos me lançaram olhares indagadores.

— Sim, Jory? — disse Mamãe, com uma expressão sonhadora nos olhos.

— Quero conversar com vocês a respeito de Bart — declarei. — Acho que devem tomar conhecimento de certas coisas.

Papai pareceu aliviado. Mamãe deu a impressão de murchar ao sentar-se, calada, ao lado dele no sofá.

— Esperávamos que você nos procurasse com um segredo de Bart.

Nada daquilo foi fácil de dizer.

— Bem — comecei devagar, esperando encontrar as palavras adequadas. – Em primeiro lugar, creio que devem saber que Bart tem muitos pesadelos, dos quais acorda chorando. Finge demais, tal como caçar animais ferozes e outros passatempos normais numa criança. Todavia, julgo que ultrapassa os limites quando o surpreendo engatinhando e farejando o solo, depois desenterrando um osso velho e sujo para carregá-lo nos dentes e enterrá-lo noutro lugar.

Fiz uma pausa e aguardei que dissessem alguma coisa. Mamãe mantinha a cabeça virada, como se procurasse escutar o vento. Papai inclinara-se para a frente, fitando-me com grande atenção.

— Prossiga, Jory — incitou. — Não se interrompa agora. Não somos cegos. Vemos como Bart está mudando.

Temendo contar mais, baixei a cabeça e falei em voz muito baixa:

— Tentei falar-lhes antes, várias vezes. Mas tive medo, então. Vocês pareciam, ambos, tão preocupados com Bart que não tive coragem de falar.

— Por favor, não omita nada — disse Papai.

Olhei para ele, sentindo-me incapaz de enfrentar o olhar temeroso de Mamãe.

— A velha da casa vizinha dá a Bart todos os tipos de presentes caros. Deu-lhe um filhote de São Bernardo que ele batizou de Maçã, dois trens elétricos em miniatura, completos com uma aldeia, montanhas, pontes... enfim, todos os acessórios. Transformou um enorme salão da mansão numa sala de brinquedos exclusivamente para Bart. E daria presentes a mim, também, mas Bart não permite.

Atordoados, eles se entreolharam. Afinal, Papai perguntou:

— O que mais?

Engoli em seco e escutei minha voz, rouca e esquisita. Esta era a pior parte, a que realmente magoava:

— Ontem, estive no quintal dos fundos, perto do muro... vocês sabem, onde existe aquela árvore oca. Levei a tesoura de podar e estava trabalhando como você me ensinou, Papai, quando senti o cheiro de alguma coisa apodrecida. Quando fui examinar... encontrei... — tive que engolir em seco mais uma vez, antes de conseguir continuar: — Encontrei Trevo. Estava morto e apodrecendo. Cavei uma sepultura para ele.

Virei às costas para enxugar as lágrimas e depois contei-lhes o resto:

— Achei um arame farpado torcido no pescoço dele. Alguém matou deliberadamente o meu cachorro!

Eles continuaram sentados no sofá, parecendo chocados e amedrontados. Mamãe piscou para conter as lágrimas; ela também gostava de Trevo. Suas mãos tremiam ao pegar um lenço. Em seguida, ela cruzou nervosamente os dedos, mantendo-os sobre o colo. Nem ela nem Papai perguntaram quem matara Trevo. Creio que pensavam o mesmo que eu.

Antes de deitar-se, Papai veio ao meu quarto e conversou comigo durante uma hora, fazendo todo tipo de perguntas a respeito de Bart, o que fizera ele esta vez, aonde fora; e também sobre a mulher da mansão vizinha, bem como o mordomo. Sentia-me melhor agora que os prevenira. Podiam planejar o que fazerem com Bart. E naquela noite chorei pela última vez por Trevo, que fora meu primeiro e único animal de estimação. Eu ia completar quinze anos, quase a idade de um homem, e lágrimas eram apenas para garotinhos, não para um rapaz com um metro e oitenta de altura.

— Deixe-me em paz! — berrou Bart quando lhe pedi que não fosse mais à mansão da velha. — Pare de me delatar ou há de arrepender-se!

Cada dia nos aproximava mais de setembro e do reinício das aulas. Até onde me era possível perceber, Bart não reagia aos carinhosos cuidados que lhe dispensavam meus pais. Na minha opinião, mostravam-se compreensivos demais para com ele.

— Ouça-me bem, Bart, e pare de fingir que é Malcolm Neal Foxworth, seja ele quem for!

Não obstante, Bart não deixava de lado o fingimento, a manqueira, o coração fraco que o fazia arquejar e gemer.

— Ninguém está à espera de sua morte para lhe herdar a fortuna. Meu caro irmãozinho, você não tem fortuna nenhuma!

— Tenho vinte bilhões, dez milhões, cinqüenta e cinco mil, seiscentos e quarenta e dois dólares e trinta centavos! — replicou ele, enumerando nos dedos. — Mas não consigo lembrar-me do quanto possuo em debêntures e ações, de modo que acho que você pode triplicar esse montante. Um homem que consegue dizer o quanto possui não é rico de verdade.

Eu nem sabia que ele era capaz de dizer um número como aquele. No exato momento em que eu ia responder algo sarcástico, Bart soltou um grito e dobrou-se em dois. Caiu ao chão, respirando com dificuldade.

— Depressa... minhas pílulas... Estou morrendo! Meu braço esquerdo está dormente! Salve-me! Chame os médicos!

Foi quando saí de casa para o jardim. Sentei-me numa cadeira no gramado e comecei a ler um romance de bolso. Bart estava realmente enchendo-me as medidas. Era como viver com o Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro. Se ele precisava representar, por que diabo não escolhia algum papel melhor que o de um velho manco e cardíaco?

— Jory, não se importa se eu morrer? — Bart saiu de casa para me perguntar.

— Não.

— Você nunca gostou de mim!

— Gostava mais de você quando se comportava como alguém da sua idade.

— Acreditaria se eu lhe dissesse que Malcolm Neal Foxworth é o pai de nossa vizinha e ela é realmente minha avó, de verdade?

— Ela lhe disse isso?

— Não. John Amos contou-me parte, ela conta o resto. John Amos conta-me muita coisa. Disse-me que Papai Chris e Papai Paul não eram irmãos; que minha mãe só diz isso para não descobrirmos seu pecado. Amos diz que meu verdadeiro pai era um homem chamado Bart Winslow, que morreu num incêndio. Nossa mãe o seduziu.

Seduziu? Lancei-lhe um prolongado olhar indagador.

— Sabe o que significa essa palavra?

— Não... mas sei que é ruim, muito ruim!

— Ama nossa mãe?

A preocupação atormentou-lhe os olhos escuros. Sentou-se pesadamente no chão e contemplou os sapatos de tênis. Deveria ter respondido depressa, espontaneamente.

— Bart, faça-me um grande favor, e a você mesmo, também: entre em casa e conte a Mamãe e Papai o que o preocupa. Eles compreenderão tudo. Sei que você julga que Mamãe gosta mais de mim, mas não é verdade. Ela tem lugar no coração para dez filhos.

— Dez? — gritou ele. — Quer dizer que Mamãe vai adotar outros?

Levantou-se de um pulo e correu, mancando, como se o fingimento de velho lhe tivesse roubado a pouca agilidade que possuía. Na minha opinião, aquela estadia no hospital lhe roubara muitas coisas.

Foi bisbilhotice de minha parte e, também, não muito honroso, mas tive que escutar o que Bart disse a Mamãe quando ficaram a sós. Ela estava na varanda dos fundos, com Cindy no colo, lendo um livro enquanto a menina cochilava. Quando Bart se aproximou correndo, Mamãe largou o livro e passou Cindy para uma cadeira próxima. Bart ficou de pé a encará-la com uma súplica muda nos olhos. Então, dentre todas as coisas possíveis, ele perguntou:

— Qual é o seu nome?

— Você sabe o meu nome — respondeu ela.

— Começa com C?

— Sim, claro que começa com C.

Agora, ela parecia perturbada.

— Mas... mas... — titubeou ele. — Conheço alguém que chora quando você vai embora. Alguém pequeno como eu, que é trancado em armários e outros lugares horríveis pelo pai, que não gosta mais dele. Uma vez, o pai o colocou de castigo no sótão. Um sótão grande, escuro, amedrontador, com camundongos, aranhas e sombras fantásticas por toda parte.

Mamãe deu a impressão de congelar-se.

— Quem lhe contou tudo isso?

— A madrasta dele tinha cabelos ruivos, até que ele descobriu que ela não passava de amante do seu pai.

Mesmo de onde estava escondido, escutei Mamãe respirar forte e depressa, como se aquele garotinho que ela costumava pegar no colo se tornasse repentinamente perigoso e ameaçador.

— Querido, você não sabe o que é uma amante, sabe?

Bart fitou o espaço.

— Havia uma dama esbelta e alva, com tons vermelhos nos cabelos escuros. E nem mesmo era casada com o pai dele, que não se importava com o que ele fazia, se chorava ou até mesmo se morria.

Os lábios de Mamãe tremeram, mas ela forçou um sorriso.

— Bart, creio que você tem alma de poeta. Tudo isso tem cadência, ritmo.

Ele fez uma carranca, voltando para ela os olhos escuros e ardentes.

— Desprezo poetas, artistas, músicos e bailarinos!

Ela estremeceu e não posso dizer que a censurei. Ele também me causou medo.

— Bart, preciso fazer-lhe uma pergunta e você deve responder com franqueza. Lembre-se: não importa o que responder, não sofrerá castigo. Você machucou Trevo?

— Trevo foi embora. Nunca mais voltará, agora, para morar na minha casa de cachorro.

Mamãe o afastou de si com um safanão e se ergueu depressa para deixar a varanda. Então, lembrou-se de Cindy e voltou correndo para pegá-la no colo. Nada do que ela fez me tranqüilizou quando observei o olhar de Bart. Como sempre, logo após um de seus "ataques" de maldade, Bart ficou cansado e sonolento, indo deitar-se sem jantar. Minha mãe sorriu, depois riu e vestiu-se para comparecer a uma festa formal em homenagem a meu pai, que fora eleito chefe da equipe médica do hospital onde trabalhava. Postei-me à janela e observei Papai conduzi-la orgulhosamente ao carro. Tarde, muito depois das duas, ouvi-os chegarem. Eu ainda não adormecera e pude escutá-los conversando na sala de estar.

— Chris, não consigo entender Bart, o modo como fala, a forma como se movimenta, nem mesmo sua aparência. Tenho medo de meu próprio filho e isso é doentio.

— Ora, querida — disse Papai, passando o braço pelos ombros dela. — Creio que está exagerando. Se continuar assim, Bart crescerá para ser um grande ator.

— Chris, sei que às vezes febre muito alta pode causar danos ao cérebro de uma criança. A febre afetou parte do cérebro de Bart?

— Ouça Cathy: os exames de Bart deram ótimos resultados. Não meta idéias na cabeça só porque o submetemos aos testes. Todos os pacientes que têm febre alta são obrigados a fazer exames desse tipo.

— Mas encontraram algo anormal? — insistiu ela.

— Não — disse Papai em tom firme. — Ele é apenas um garotinho comum, com muitos problemas emocionais. E se alguém pode compreender o que ele está passando, somos nós.

O que significaria aquilo?

— Mas Bart tem de tudo! Não está crescendo como nós crescemos. Devia sentir-se feliz. Não fazemos todo o possível para isso?

— Sim, mas às vezes nem isso é o bastante. Cada criança é diferente, tem necessidades diferentes. Obviamente, não estamos dando a Bart o que ele necessita.

Mamãe era dada a respostas rápidas e acaloradas. Não obstante, permaneceu sentada, calada e imóvel, enquanto eu esperava obter maiores informações. Papai queria que ela fosse imediatamente para a cama, o que era fácil perceber pelo modo como ele lhe beijou o pescoço. Contudo, ela estava imersa em reflexões profundas. Manteve o olhar fixo nas sandálias prateadas ao falar de como Trevo morrera.

— Não poderia ter sido Bart — declarou devagar, como se tentasse convencer-se, e a Papai também. — Tinha que ser algum sádico que tortura animais; você se lembra de como lemos que os animais do zôo estavam sendo mutilados? Um desses homens deve ter avistado Trevo...

E não completou a frase, pois raramente víamos algum desconhecido na estrada de nossa casa.

— Chris — acrescentou, enquanto aquela horrível expressão de medo permanecia em seu rosto. — Hoje Bart me pegou inteiramente de surpresa. Falou-me a respeito de um garotinho que era trancado pelo pai em armários e no sótão. Mais tarde, disse-me que o menino se chamava Malcolm. Como poderia ter conhecimento dele? Quem poderia ter-lhe contado esse nome? Chris, julga que Bart descobriu algo a respeito de nós?

Tive um sobressalto. O que havia a respeito deles que eu ainda não sabia? Compreendi que tinham algum terrível segredo. Afastei-me furtivamente e corri de volta a meu quarto, jogando-me na cama. Algo horrível estava errado em nossas vidas. Eu o sentia nos ossos e Bart devia senti-lo nos dele, também.

 

A SERPENTE

O sol e o nevoeiro brincavam, fazendo-se mutuamente companhia. Eu era obrigado a ficar sentado sozinho em nosso jardim. Para divertir-me, olhava as grossas cascas que se haviam formado sobre as feridas em meu joelho. Fora prevenido por Papai para não arrancá-las, a fim de não ficar com cicatrizes, mas quem se importava com cicatrizes? Comecei a levantar cuidadosamente as beiradas da camada de casca, só para ver o que havia por baixo delas. Não vi coisa alguma a não ser pele tenra e avermelhada, pronta para sangrar novamente.

O sol ganhou a brincadeira no céu e brilhou, quente, sobre minha cabeça. Quase consegui escutar meus miolos fritando. Não me agradava a idéia de miolos fritos, de modo que procurei uma sombra. Agora a cabeça me doía. Mordi o lábio inferior com força suficiente para arrancar sangue. Não doeu, mas incharia tanto posteriormente que Mamãe teria que ficar preocupada. Isso era ótimo. Ela devia preocupar-se com o que se passava comigo.

Eu costumava ser o menininho da Mamãe, que recebia montes de afeição, até que surgiu aquela maldita garotinha para tomar-me o lugar! Em breve, Mamãe e Jory voltariam da aula de balé. Era tudo com que se importavam: a dança e Cindy. Eu conhecia as coisas mais importantes da vida, o que mais contava: dinheiro. Quando se possuía muito dinheiro, não era preciso pensar em ter necessidade dele ou num meio de consegui-lo. John Amos e o diário de Malcolm me haviam ensinado isso.

— Bart — disse Emma, que se aproximara silenciosamente por trás de mim. — Sinto muitíssimo que você tenha perdido a viagem à Disneylândia. Para compensar, preparei um pequeno bolo de aniversário exclusivamente para você.

Trazia nas mãos um pequeno bolo, com uma única vela enfiada na cobertura de chocolate. Eu não tinha apenas um ano de idade! Dei um tapa no bolo, que escapou das mãos de Emma e caiu ao chão. Ela soltou um grito, parecendo magoada o bastante para chorar, e recuou.

— Não foi uma atitude muito grata ou bondosa — declarou, engasgada. — Bart, por que precisa comportar-se tão mal? Todos nós tentamos o melhor possível para agradá-lo.

Mostrei-lhe a língua. Ela suspirou e me deixou em paz. Mais tarde, Emma tornou a sair, desta vez com aquela garotinha nojenta no colo. Não era minha irmã. Eu não queria irmãs. Escondi-me atrás de uma árvore e olhei em volta. Emma colocou Cindy na piscina de plástico. A garota bateu os pés e as mãos na água rasa. Idiota, idiota, idiota... nem mesmo sabia nadar! Veja só como Emma ri e gosta daquelas palhaçadas de bebê, quando eu sou capaz até de plantar bananeira. Se eu me sentasse na piscina e batesse os pés e as mãos, ela não me acharia tão engraçadinho... Esperei que Emma fosse embora, mas ela puxou uma cadeira, sentou-se e começou a descascar ervilha. Plop, plop, plop... as ervilhas verdes caíam na tigela azul.

— Isso mesmo, queridinha — disse Emma, encorajando Cindy. — Bata na água, mexa as pernas bonitas, sacuda os braços lindos, fortaleça os membros e dentro em breve estará nadando.

Observei e esperei, cada ervilha que caía na tigela indicando que logo Emma seria obrigada a levantar-se e voltar à cozinha. Cindy ficaria sozinha. Totalmente sozinha. E não sabia nadar. Os gatos se abaixavam como eu, quando queriam pegar um passarinho. Gostaria de ter um rabo para abanar. A última ervilha verde caiu na tigela. Emma se levantou para sair. Retesei os músculos. Naquele instante, Mamãe chegou em seu brilhante carro vermelho e parou perto da garagem. Emma foi cumprimentá-la. O primeiro a sair do carro foi Jory, saltando pelo gramado.

— Olá, Emma! — disse ele. — O que temos para o jantar?

— Você gostará do meu jantar, não interessa o que seja — respondeu Emma, derretendo-se em sorrisos para ele, o seu querido bonitão. Não era assim que ela tratava a mim, o moleque!

— Quanto a Bart — prosseguiu ela — sei que detestará as ervilhas, o ensopado de legumes, as costeletas de carneiro e a sobremesa. Só Deus sabe como é difícil agradar aquele menino.

Mamãe parou para conversar com Emma como se esta não fosse uma empregada, depois correu para brincar com Cindy, abraçando-a e beijando-a como se não visse a molequinha há dez anos.

— Mamãe! — chamou Jory. — Por que não nos trocamos e entramos na piscina com Cindy?

— Aposto uma corrida com você até em casa, Jory! — concordou Mamãe.

Os dois saíram correndo como crianças.

— Agora seja boazinha e continue a brincar com o patinho de borracha e o barquinho — disse Emma a Cindy. — Emma voltará logo.

Levantei a cabeça antes de começar a esfregar a barriga no chão. A molequinha na piscina se levantou e tirou o maiô. Totalmente nua e atrevida, jogou o maiô contra mim e depois tentou-me, riu e atormentou-me com sua carne nua. Então, como se chateada com minha reação, tornou a sentar-se na água rasa e mirou o próprio corpo com um leve sorriso secreto. Pecaminosa! Desavergonhada! Imaginem! Mostrando-me suas partes privadas! As mães deviam ensinar suas filhas a se comportarem com decência, recato e modéstia. Minha mãe era exatamente como Corrine, que John Amos afirmava ser fraca e nunca punira devidamente os filhos: "Sim, Bart, sua avó estragou os filhos e agora eles vivem em pecado, zombando de Deus e das normas da moral!"

Acho que cabia a mim ensinar à Cindy uma lição de vergonha e recato. Rastejei para diante. Agora, ela me dava atenção. Seus olhos azuis se arregalaram, os lábios rosados e cheios se entreabriram. A princípio pareceu contente porque eu, afinal, ia brincar com ela. Então algum instinto de sabedoria lhe trouxe medo ao olhar. Ficou imóvel e lembrou-me um tímido coelho com medo de uma cobra malvada. Serpente. Muito melhor ser uma serpente que um gato. Uma serpente no Jardim do Éden, fazendo a Eva o que deveria ter sido feito no início do mundo. “Fora”, disse o Senhor ao ver Eva em sua nudez, “saiam do Éden e deixem que o mundo lhes atire pedras”!

Sibilando e movimentando rapidamente a língua, aproximei-me devagar. Era o Senhor quem mandava e eu quem obedecia. Mãe pecadora que deixava de castigar-me e me transformara no que eu era, uma serpente malvada querendo cumprir as ordens do Senhor, mesmo que não me agradassem. Tentei empregar toda a minha força de vontade para achatar a cabeça e torná-la pequena, chata, semelhante à de uma cobra. Lágrimas brotaram nos grandes olhos medrosos de Cindy e ela começou a chorar alto, procurando passar por cima da beirada arredondada da piscina rasa. A água não era suficientemente profunda para afogar uma garotinha, ou Emma não a teria deixado sozinha. Mas... se uma boa constrictor, uma jibóia do Brasil estivesse por ali, que possibilidades teria uma menina de dois anos? Ultrapassei a borda da piscina e rastejei na água. Cindy gritou:

— Barr-tie! Vá embora, Barr-tie!

— Sssss... ssss... — prossegui eu, com sibilos mais prolongados que os de John Amos.

Enrolei o corpo no pequeno corpo despido de Cindy, prendendo minhas pernas sob seu pescoço, arrastando-a para a água. Não podia realmente afogá-la, mas o Senhor, lá em cima, tinha que advertir todos aqueles que pecavam. Eu vira serpentes das selvas desarticular os maxilares, na TV. Tentei desarticular os meus. Então poderia engolir Cindy inteira. De repente outra cobra me pegou! Gritei, larguei Cindy para não me afogar... nem ser devorado vivo! Senhor, por que me esqueceste?

— Que diabo você pensa que está fazendo? — berrou Jory, rubro de raiva, sacudindo-me até fazer-me a cabeça rolar. — Observei-o rastejar até aqui, só para ver o que tinha em mente. Bart... você tentou afogar Cindy?

— Não! — repliquei, sufocado. — Apenas castiguei-a um pouquinho, não muito.

— Sim — rosnou ele. — Como castigou um pouquinho Trevo.

— Nunca fiz nada a Trevo. Cuido bem de Maçã. Não sou um menino mau... não sou, não, não...

— Se é tão inocente, por que está chorando? Você matou Trevo! Estou lendo em seus olhos!

Olhei duro para Jory, sentindo-me invadir por uma onda de fúria.

— Você me odeia! Sei que me odeia!

Joguei-me para diante, tentando esmurrá-lo. Não consegui. Baixei a cabeça, recuei e depois corri para a frente, a fim de acertar-lhe uma cabeçada no estômago. Ele caiu, dobrado em dois, gritando de dor. Antes que ele me matasse, dei-lhe um pontapé, mas não imaginava acertar onde o atingi. Minha pontaria nunca foi boa. Puxa... deve ter doído um bocado!

— É sujeira bater na virilha — gemeu ele, tão pálido que parecia à beira de um desmaio. — Isso é sujeira, Bart. Covardia, também.

Nesse ínterim, Cindy se recobrara o bastante para sair da piscina. Correu para casa a passos vacilantes, gritando a plenos pulmões.

— Garotinha má e pecaminosa! — berrei. — Tudo isto é culpa dela! Culpa dela!

Emma saiu correndo pela porta dos fundos, o avental branco esvoaçando, as mãos cobertas de farinha de trigo. Foi seguida de perto por Mamãe, que usava um sumário biquíni azul.

— Bart, o que você fez? — gritou Mamãe.

Pegou Cindy no colo e depois abaixou-se para pegar uma toalha largada por Emma.

— Mamãe... — soluçava Cindy. — Cobra grande veio... cobra grande!

Ora, imaginem só! Ela sabia o que eu era. Afinal, Cindy não era tão idiota. Mamãe a enrolou na toalha e a colocou em pé no gramado. Olhou furiosamente para mim no momento em que tornei a erguer o pé para dar outro pontapé em Jory, que arquejava de dor.

— Bart, se ousar dar outro pontapé em Jory, vai arrepender-se!

Emma me fitava com ódio. Olhei de uma para outra. Todo mundo me odiava, gostaria de ver-me numa cova. Zangado e cheio de dor, Jory tentou levantar-se. Já não era tão gracioso, agora. Tão desajeitado quanto eu. E já não era tão bonito, também. Não obstante, conseguiu gritar:

— Você está louco, Bart! Completamente louco!

— Bart, não se atreva a jogar essa pedra em seu irmão! — gritou Mamãe, quando me abaixei para pegar uma.

— Menino medonho! — berrou Emma. — Não jogue isso!

Girei nos calcanhares e corri para esmurrar Emma.

— Pare de me insultar! — berrei. — Não sou medonho! Não sou ruim!

Mamãe correu para mim, agarrou-me e jogou-me ao chão.

— Nunca mais jogue uma pedra em sua vida, nem use os punhos contra uma mulher! — berrou ela, prendendo-me os ombros de encontro ao chão.

Uma raiva rubra dominou-me o cérebro, fazendo-me vê-la como todas as mulheres cheias de manhas e curvas "sedutoras". Malcolm sabia tudo a respeito delas, escrevera tudo sobre seu desejo de esmagar-lhes os seios até ficarem chatos. Enchi os olhos com o ódio malicioso de Malcolm e isso deu resultado. Mamãe começou a tremer enquanto me segurava.

— O que há de errado com você, Bart? Não sabe o que está dizendo ou fazendo. Nem mesmo parece a mesma pessoa.

Exibi os dentes como se quisesse mordê-la e, depois, tentei. Ela me esbofeteou, com força, repetidamente, até que comecei a chorar.

— Suba para o sótão e fique lá, Bart Sheffield, até eu subir para verificar o que precisa ser feito para endireitá-lo!

O sótão causava medo. Sentei-me na beirada de uma das pequenas camas e esperei que ela viesse. Nunca me espancara antes; todo o castigo que eu sofrera foram alguns tapas, além dos que levara hoje... e agora ela me fazia exatamente o que fora feito a Malcolm. Eu era exatamente como ele. A porta do sótão se abriu e escutei os passos dela nos degraus estreitos e íngremes. Seus lábios estavam apertados numa linha severa quando ela se postou diante de mim, como uma torre, olhando para baixo, dando a impressão de que era um esforço fitar-me. Nunca antes eu a vira com a aparência tão severa.

— Baixe as calças, Bart.

— Não!

— Faça o que estou mandando ou o castigo será muito pior.

— Não! Não pode me bater. Encoste a mão em mim e esperarei até você estar na aula de balé; pegarei Cindy e Emma, não conseguirá me impedir! Posso estar em mil lugares antes que ela chegue ao primeiro e a polícia não me porá na cadeia Porque sou menor!

— Bart, estou perdendo a paciência com você.

— Não perderá só a paciência, se me bater! — berrei.

Ela parou a um metro de onde eu estava sentado na cama. Suas mãos pequenas e alvas se ergueram até a garganta e ela disse baixinho:

— Oh, Deus...! — foi apenas um sussurro rouco. — Eu deveria saber que um filho concebido em tais circunstâncias resultaria nisto. Bart, sinto muitíssimo que seu filho seja um monstro.

Um monstro? Eu era um monstro? Não... o monstro era ela! Estava me fazendo exatamente o que a mãe de Malcolm fizera: a causa dele ser trancado no sótão e castigado. Odiei-a, então, tanto quanto a amara antes... E gritei:

— Eu a odeio, Mamãe! Quero que caía morta!

Foi então que ela recuou, com lágrimas nos olhos. Depois virou-se e correu. Todavia, antes de descer a escada, trancou a porta a fim de manter-me preso naquele miserável sótão abafado que eu tanto detestava e temia. Ela me transformaria num homem forte como Malcolm, e malvado, também. Algum dia, haveria de pagar-me. Eu a obrigaria a pagar por me fazer aquilo, quando eu queria ser bom e desejava apenas que ela gostasse de mim um pouquinho mais que de Jory ou Cindy. Nunca nada acontecia como eu queria que acontecesse. Foi Papai quem surrou minhas nádegas nuas, depois que chegou em casa e escutou tudo o que tinham a lhe contar a meu respeito. Admirei-o pelo modo como ignorou minhas súplicas e explicações.

— Sentiu alguma coisa? — perguntou ele quando terminou e eu levantei as calças.

Sorri.

— Não. Para me machucar, você teria que me quebrar os ossos. Então a polícia o prenderia por abusar de uma criança.

Ele me estudou com severos olhos azuis.

— Acha que nos derrotou, não é mesmo? — perguntou ele do modo calmo e racional que lhe era peculiar. — Julga que por ser menor não existe lei que possa tocá-lo; mas está enganado, Bart. Vivemos numa sociedade civilizada, na qual se espera que as pessoas ajam de acordo com as regras. Ninguém está fora do controle da lei, nem mesmo o Presidente. E o pior dos castigos para uma criança é permanecer trancada, impedida de movimentar-se para onde quiser.

Parecendo tristonho, acrescentou:

— Isso pode constituir uma experiência deveras traumática.

Permaneci calado. Ele retomou a palavra:

— Sua mãe e eu decidimos que não é mais possível tolerarmos seu comportamento. Tão logo eu conseguir acertar os detalhes, você passará a ir diariamente a um psiquiatra. Se formos obrigados, caso você insista em desafiar-nos, nós o entregaremos aos cuidados de médicos que podem ajudá-lo a aprender como comportar-se normalmente.

— Não podem obrigar-me! — protestei, engasgado, temendo que um médico de loucos me trancasse atrás de grades pelo resto da vida. — Se tentarem, eu me matarei!

Papai me encarou severamente.

— Não se matará, Bart. Portanto, não fique aí sentado, julgando-se capaz de ser mais esperto que sua mãe e eu. Nós já enfrentamos gente maior e mais sagaz que um menino de dez anos. Não se esqueça disso.

Mais tarde, naquela mesma noite, quando eu estava deitado, escutei Mamãe e Papai realmente berrando um com o outro, discutindo como eu nunca ouvira antes.

— Por que mandou Bart para o sótão, Catherine? Precisava fazer isso? Não podia apenas mandá-lo ficar no quarto e esperar até que eu voltasse para casa?

— Não! Ele gosta de ficar no quarto. Lá dispõe de tudo para tornar o local agradável. Fiz o que era necessário.

— O que era necessário fazer, Cathy? Será que não percebe quem você está parecendo?

— Bem — replicou ela num tom gelado — não é o que sempre venho dizendo que sou: uma megera que só se importa consigo mesma?

Levaram-me a um médico de loucos no dia seguinte, empurraram-me para uma cadeira e mandaram-me ficar quieto. Ficaram sentados perto de mim até que uma porta se abriu e fomos chamados a entrar. Uma médica estava sentada numa grande mesa de trabalho. Poderiam, ao menos, ter escolhido um homem. Detestei a médica porque tinha os cabelos lisos e pretos como os de Madame Marisha quando era jovem e posava para fotografias. Sua blusa branca era estufada na frente, de modo que precisei desviar os olhos.

— Dr. Sheffield, o senhor e sua esposa podem aguardar lá fora. Conversaremos mais tarde.

Vi meus pais se retirarem da sala. Nunca me sentira tão sozinho como quando aquela mulher se voltou para mim e me fitou com olhos bondosos, que ocultavam pensamentos malvados.

— Não lhe agrada estar aqui, não é mesmo? — perguntou ela.

Não lhe dei a satisfação de saber que eu a escutara.

— Sou a Dra. Mary Oberman.

E daí?

— Há brinquedos sobre a mesa. Fique à vontade.

Brinquedos... Eu não era um bebê. Encarei-a raivosamente. Ela virou a cabeça e percebi que se sentia pouco à vontade, embora tentasse não demonstrar.

— Seus pais me contaram que você gosta de brincar de "faz-de-conta". É por isso que não tem muitos companheiros de brincadeiras?

Eu não tinha nenhum, mas não confessaria o fato àquela mulher idiota. Seria tolice contar a ela que John Amos era meu melhor amigo. Antes fora a minha avó, mas esta me traíra.

— Bart, pode ficar aí sentado e permanecer calado, mas só consegue magoar aqueles que mais o amam e você é quem sai mais magoado, no final. Seus pais desejam ajudá-lo. Foi por isso que o trouxeram aqui. Você precisa cooperar e tentar. Diga-me se é feliz. Diga-me se está frustrado e se gosta do modo que sua vida está transcorrendo.

Eu não diria que sim, nem que não. Não diria nada e ela não poderia obrigar-me a falar. Então, ela começou a falar sobre pessoas que se mantinham fechadas e como isso era capaz de arruiná-las emocionalmente. Todas as suas palavras foram como pingos de chuva na vidraça por detrás da qual eu me abrigara.

— Você odeia sua mãe e seu pai?

Não respondi.

— E seu irmão Jory, você gosta dele?

Jory era legal. Seria melhor se fosse mais desajeitado e mais feio que eu.

— E sua irmã adotiva, Cindy... o que acha dela?

Talvez meu olhar tenha revelado alguma coisa, pois ela fez anotações no bloco de papel.

— Bart — começou ela ao deixar a caneta de lado, o rosto procurando parecer maternal e bondoso — caso se recuse a colaborar, não teremos outra escolha senão interná-lo num hospital, onde muitos médicos poderão tentar ajudá-lo a recuperar o controle sobre suas emoções. Não será maltratado, mas não será tão gostoso quanto estar em casa. Não terá seu próprio quarto, seus objetos pessoais, seus pais, a não ser uma vez por semana, durante apenas uma hora. Portanto, não acha que seria muito melhor tentar ajudar-se a si mesmo, antes que esta situação progrida? O que o transformou tanto em relação ao menino que você era no verão passado?

Não desejava ser trancado numa casa de doidos, com malucos que talvez fossem maiores e mais malvados que eu, sem poder visitar John Amos e Maçã. O que poderia fazer? Lembrei-me de trechos do diário de Malcolm, do modo como ele deixava as pessoas pensarem que estava cedendo, quando, na verdade, prosseguia em seu próprio caminho. Choraria, pediria desculpas e, quando o fazia, até mesmo eu julgava estar sendo sincero. Assim sendo, respondi:

— É Mamãe... ela gosta mais de Jory que de mim. E gosta mais de Cindy, também. Não tenho ninguém. Detesto não ter ninguém.

E continuei, interminavelmente. Mesmo depois que tagarelei de verdade, ela disse a meus pais que eu precisava continuar as sessões durante um ano, ou mais.

— Ele é um menino muito confuso — disse, sorrindo e tocando o ombro de minha mãe. — Não se considere culpada. Bart parece estar programado para detestar-se e, muito embora possa aparentar que a odeia por não amá-lo o suficiente, ele não gosta de si mesmo. Portanto, acredita que todas as pessoas que o amam são tolas. É realmente uma doença. Tão real como qualquer doença física e, sob certos aspectos, ainda pior, pois Bart não consegue encontrar-se.

Eu estava escondido, escutando o que diziam, surpreso por ouvi-la dizer aquilo.

— Ele a ama, Sra. Sheffield, com um amor quase religioso. Conseqüentemente, espera que a senhora seja perfeita e, ao mesmo tempo, sabe que não é digno de sua atenção; ainda assim, paradoxalmente, quer que a senhora o veja e o considere o melhor filho que possui.

— Mas eu não entendo — disse Mamãe, recostando a cabeça no ombro de Papai. — Como pode ele me amar e, ao mesmo tempo, desejar tanto magoar-me?

— A natureza humana é deveras complexa. Seu filho é muito complexo. O bem e o mal lutam para dominar-lhe a personalidade. Inconscientemente, ele tem conhecimento dessa batalha e encontrou uma solução realmente intrigante. Identifica seu lado mau com um velho que ele chama de Malcolm. Apenas um dentre os muitos personagens que lhe permitem gostar mais de si mesmo.

Meus pais ficaram totalmente imóveis, de olhos arregalados, parecendo um tanto indefesos.

Horas depois, antes de fazer minhas preces noturnas, esgueirei-me pelo comprido corredor e fiquei escutando à porta do quarto deles. Mamãe estava dizendo:

—... como se estivéssemos sempre trancados naquele sótão e nunca, nunca mais sejamos libertados.

Que relação tinha o sótão com Malcolm e eu? Seria apenas porque ambos fôramos mandados para lá, de castigo? De gatinhas, afastei-me silenciosamente pelo corredor, voltei à cama e fiquei deitado em silêncio, com medo de mim mesmo e do meu "subconsciente". Embaixo do travesseiro estava o diário de Malcolm, que eu ia absorvendo dia a dia, noite após noite. Tornando-me mais forte, mais esperto.

 

A ESCURIDÃO AUMENTAVA

Na sala de estar, na noite seguinte, Mamãe e Papai acomodados diante do fogo que eu acendera. Esquecido por eles, pois falava tão pouco, agachei-me no chão perto da porta, esperando que não me vissem ali e pensassem que eu me fora, como devia. Não me agradava iludi-los deliberadamente, mas, às vezes, era melhor saber com certeza do que ficar conjeturando. A princípio, Mamãe ficou calada. Então, abordou o assunto da visita à Dra. Oberman.

— Bart me odeia, Chris. Odeia também você, Jory e Cindy. Creio que Emma também faz parte da lista, mas, acima de tudo, é a mim que ele detesta. Ressente-se porque não o amo com exclusividade.

Papai puxou-a com mais força contra o peito e manteve-a ali, enquanto continuavam a conversar. Quando mencionaram a idéia de irem ao quarto de Bart para verificar se este lá se encontrava, escondi-me apressadamente num armário embutido no corredor e esperei que passassem a caminho do quarto de Bart.

— Ele jantou? — indagou Papai.

— Não.

Mamãe disse isso como se desejasse que Bart continuasse adormecido, de modo a poder evitar o problema que ele constituía quando acordado. Mas o simples fato de entrarem no quarto e pararem perto da cama, olhando para Bart, foi o bastante para despertá-lo do cochilo. Sem uma palavra de resposta às afetuosas saudações, Bart os acompanhou à sala de jantar. Era necessário fazer as refeições, mesmo quando um menino de dez anos sentava-se à mesa, calado e carrancudo, recusando-se a encarar qualquer pessoa.

Foi um jantar extremamente desagradável, com ninguém à vontade. Todos tinham pouco apetite e até mesmo Cindy mostrou-se irritada. Emma também não falou, limitando-se a cumprir seus deveres em silêncio. Até mesmo o vento, que soprava incessantemente, amainou e as árvores se imobilizaram, com as folhas pendentes como se estivessem congeladas. De repente, senti muito frio e lembrei-me das sepulturas sobre as quais Bart estava sempre falando. Tentei imaginar de que maneira Mamãe e Papai poderiam obrigar Bart a comparecer às sessões com a Dra. Oberman. Como seria possível forçá-lo a falar, quando ele era capaz de mostrar-se tão malditamente teimoso? E Papai já era bastante ocupado sem roubar tempo a seus clientes, o que, por si, deveria mostrar a Bart quem se importava realmente com ele.

— Vou para a cama — declarou Bart friamente, levantando-se sem pedir permissão para deixar a mesa.

Saiu da sala. Permanecemos sentados, presos por algum feitiço lançado por Bart. Papai quebrou o silêncio:

— Bart está fora de si. Obviamente, algo o preocupa tanto que ele nem consegue comer. Precisamos descobrir o que é.

— Mamãe — interpus eu — creio que se você fosse primeiro ao quarto de Bart, sentasse na beira da cama e ficasse bastante tempo com ele, deixando de ir ao meu quarto e ao de Cindy, isso adiantaria muito.

Mamãe olhou-me de maneira estranha e demorada, como se não acreditasse que a solução pudesse ser tão simples. Papai concordou comigo, acrescentando que, pelo menos, não faria mal algum. Era fácil ver que Bart simulava dormir. Recuei e postei-me perto de Papai, no corredor, em meio às sombras, onde Bart não nos poderia ver. Mantive-me pronto para saltar e salvar Mamãe, caso Bart se mostrasse violento. Papai colocou a mão no meu ombro, contendo-me, e sussurrou bem baixinho:

— Ele não passa de um menino, Jory, um menino muito perturbado. Um pouco menor que os meninos de dez anos, e também um pouco mais magro. Isso talvez seja parte do problema. Bart está encontrando mais dificuldades para crescer que a maioria dos meninos.

Tenso, esperei que ele continuasse.

— É espantoso como ele pôde nascer tão desprovido de graça, quando sua mãe é tão graciosa.

Olhei para onde Mamãe estava em pé, fitando Bart, que parecia sombrio e amuado até mesmo no sono, se estivesse realmente adormecido. Então ela saiu correndo do quarto, lançando um olhar desvairado e confuso a Papai.

— Chris, tenho medo dele! Entre você. Se ele acordar e gritar comigo como gritou antes, vou esbofeteá-lo. Tenho vontade de trancá-lo num armário, ou no sótão!

Levou ambas as mãos aos lábios.

— Eu não quis dizer isso — murmurou com voz fraca.

— Claro que não. Espero que ele não tenha escutado. Cathy, acho melhor você tomar duas aspirinas e ir para a cama. Ajeitarei Bart e Jory para dormirem.

Lançou-me um largo sorriso brincalhão e eu correspondi. Nossas conversas à hora de dormir eram o tipo de jeito que ele me dava: conselhos sobre como lidar com situações difíceis. Conversas de homem para homem, das quais uma mulher não tinha que tomar conhecimento. Foi Papai quem teve coragem para se aproximar de Bart e sentar-se calmamente na beira da cama. Eu sabia que Bart tinha um sono muito leve. Quando Papai se sentou, a depressão causada por seu peso fez o vulto magro de Bart rolar de lado, o que seria suficiente para acordar até mesmo eu, que costumava dormir pesada e profundamente. Aproximei-me cautelosamente, desejando verificar pessoalmente se Bart estava fingindo. Por detrás das pálpebras cerradas, os globos oculares movimentavam-se espasmodicamente, como se assistissem a uma partida de tênis, ou algo mais aterrorizante.

— Bart... acorde.

Bart despertou sobressaltado, como se Papai tivesse disparado as palavras de um gigantesco canhão colocado ao seu ouvido. Sentou-se de um pulo, os olhos escuros esbugalhados e cheios de terror. Olhou para Papai.

— Ainda não são oito horas, filho. Emma preparou uma torta de limão para a sobremesa e a deixou na geladeira. Não me diga que não quer um pedaço. A noite está linda. Quando eu tinha a sua idade, costumava pensar que o crepúsculo era a melhor hora para brincar lá fora. Brincadeira de esconder, chicotinho queimado, ou...

Bart fitava Papai como se este falasse num idioma desconhecido.

— Vamos, Bart, não se isole assim, amuado. Eu o amo, sua mãe o ama. Não importa se às vezes você se movimenta menos graciosamente. Existem coisas muito mais importantes, como honra e respeito. Pare de tentar ser aquilo que você não é. Não precisa ser alguém super-especial; aos nossos olhos, você já é super-especial.

Bart limitou-se a ficar sentado na cama, fitando Papai com hostilidade. Por que Papai não conseguia vê-lo como eu o via? Poderia um homem esperto como Papai tornar-se cego quando se tratava de encarar honestamente seu filho? Teria Bart aberto os olhos quando Mamãe estava no quarto, deixando que ela percebesse o ódio neles contido? Ela era sempre capaz de enxergar melhor que Papai, embora este fosse médico.

— O verão está quase terminando, Bart. As tortas de limão serão comidas por outras pessoas. O que você não aproveita hoje pode não existir mais amanhã.

Por que Papai estava sendo tão delicado com aquele menino, cujo olhar parecia um par de punhais prontos para matá-lo? Quando Papai se virou para sair do quarto, Bart, obediente, acompanhou-lhe os passos. E eu os segui como uma sombra de Bart. De repente, Bart correu à frente de Papai, que se encontrava agora na varanda dos fundos, e escorregou para trás até quase cair rolando pelos degraus.

— Você não é meu pai — rosnou ele. — Não consegue enganar-me. Você me odeia e deseja que eu morra!

Papai sentou-se pesadamente numa cadeira perto da que Mamãe ocupava com Cindy no colo. Bart foi sentar-se no balanço, sem dar impulso com os pés, mas simplesmente sentando-se e agarrando bem as cordas, como se pudesse cair do assento de madeira.

Todos nós comemos da deliciosa torta de limão feita por Emma; todos exceto Bart, que permaneceu sentado onde estava e se recusou a fazer o menor movimento. Então Papai se ergueu e disse que precisava visitar um doente no hospital. Lançou a Bart um olhar preocupado e disse baixinho à Mamãe:

— Calma, querida. Não fique tão preocupada. Logo estarei de volta. Talvez Mary Oberman não seja a melhor psiquiatra para Bart, que parece nutrir grande hostilidade contra as mulheres. Encontrarei outro psiquiatra; um homem.

Inclinou-se para beijar o rosto erguido de Mamãe. Escutei o som suave e úmido de seus lábios se encontrando. Então, fitaram-se profundamente nos olhos e tentei adivinhar o que viam um no outro.

— Eu a amo, Cathy. Por favor, pare de preocupar-se. Tudo dará certo. Todos nós sobreviveremos.

— Sim — disse ela, inexpressivamente, lançando um olhar duvidoso na direção de Bart. — Mas não consigo deixar de me preocupar com Bart... ele me parece tão confuso.

Empertigando-se, Papai enviou a Bart um olhar demorado, severo, observador.

— Sim — replicou ele, sem vestígios de dúvida. — Bart também é um sobrevivente. Veja com que força ele se agarra às cordas, embora esteja apenas a meio metro do solo. Simplesmente não confia nem acredita em si mesmo. Creio que busca forças em fingir-se de mais velho e sábio; a segurança está em algo fora dele mesmo. Como um menino de dez anos, está perdido. Portanto, cabe-nos encontrar a pessoa certa para ajudá-lo, embora isso nos pareça impossível.

— Dirija com cuidado — disse ela, como sempre, observando-o partir com o coração no olhar.

Muito decidido a me manter acordado para proteger Mamãe e Cindy, ainda assim comecei a ter sono. Cada vez que verificava, via Bart ainda sentado no balanço, os olhos escuros fitando o espaço, movimentando-se apenas alguns centímetros, não mais do que o vento conseguia empurrar-lhe o peso do corpo.

— Jory, vou colocar Cindy na cama — disse-me Mamãe, voltando-se depois para Bart. — Hora de dormir... Irei ver você dentro de alguns minutos. Escove os dentes, lave as mãos e o rosto. Guardamos um pedaço de torta de limão para você comer antes de escovar os dentes.

Não veio resposta do balanço. Todavia, Bart levantou-se desajeitadamente, fazendo uma pausa para fitar os pés descalços, parando para examinar as mãos, passar os dedos no pijama, olhar o céu e as montanhas distantes. Dentro de casa, Bart vagou sem destino, indo de objeto em objeto, pegando um deles e virando-o para examinar a parte de baixo antes de recolocá-lo no lugar. Um pequeno veleiro de cristal veneziano atraiu-lhe momentaneamente a atenção e, depois, ele deu a impressão de congelar-se ao avistar uma linda bailarina de porcelana na posição de arabesco. Era uma estatueta que Mamãe dera ao Dr. Paul após casar-se com meu pai; sob muitos aspectos, a bailarina era como Mamãe deve ter sido quando muito jovem. Bart pegou cuidadosamente a delicada estatueta, com o saiote de gaze parecendo espuma congelada, os membros alvos e graciosos. Virou-o e examinou a informação impressa no fundo: Limoges. Eu sabia, pois também a examinara. Em seguida, Bart tocou de leve os cabelos louros, repartidos ao meio e puxado suavemente para trás em ondas presas com minúsculas rosas de porcelana. Então, deliberadamente, ele deixou que a estatueta lhe escapasse das mãos. A bailarina caiu no assoalho e partiu-se em vários pedaços. Corri, pensando que talvez fosse possível colá-los de volta sem que Mamãe percebesse, mas Bart colocou o pé descalço sobre a cabeça da bailarina e a esmagou ferozmente contra a madeira do piso.

— Bart! — exclamei. — Que maldade! Você sabe que Mamãe adora essa bailarina! Não devia ter feito isso!

— Não me venha dizer o que devo ou não devo fazer! Deixe-me em paz e não diga uma palavra sobre o que acaba de ver. Foi um acidente, menino, um acidente.

De quem era aquela voz? Certamente, não de Bart. Ele fingia novamente ser o tal velho. Corri para pegar uma vassoura e uma pá, a fim de juntar os cacos do que fora uma linda bailarina, esperando que Mamãe não notasse sua falta na prateleira. Quando me lembrei outra vez de Bart, apressei-me em procurá-lo. Encontrei-o observando Mamãe com ar hipócrita. Mamãe segurava Cindy no colo, escovando-lhe os cabelos. Ela ergueu a cabeça e, por acaso, notou que Bart a observava. Vi-a empalidecer e tentar sorrir, mas algo que viu no rosto dele fez o sorriso sumir antes mesmo de se concretizar. Num movimento fulminante, Bart correu e empurrou Cindy do colo de Mamãe. Cindy soltou um grito ao cair no chão, depois levantou-se para chorar aos berros. Correu de volta a Mamãe, que tornou a pegá-la no colo e se levantou, postando-se ameaçadoramente diante de Bart.

— Por que fez isso, Bart?

Ele abriu as pernas e a encarou desdenhosamente. Então, saiu do quarto sem olhar para trás.

— Mamãe — disse eu, enquanto ela acalmava Cindy e a colocava na cama.  — Bart está muito doente da cabeça. Deixe Papai levá-lo ao psiquiatra que ele quiser, mas faça-o permanecer lá até ficar bom.

Escutei-a soluçar, mas só mais tarde ela se deixou abater e começou a chorar de verdade. Desta feita, fui eu quem a amparou; abracei-a para reconfortá-la. Sentia me muito adulto e responsável.

— Jory, Jory — soluçava ela, agarrando-se a mim. — Por que Bart me odeia? O que fiz para isso?

O que poderia eu responder? Não conhecia nenhuma das respostas.

— Talvez você devesse tentar descobrir por que motivo Bart é tão diferente de mim, pois eu preferiria morrer a fazê-la infeliz.

Ela me abraçou e depois fitou o espaço.

— Jory, minha vida tem sido uma série de obstáculos. Pressinto que se acontecer mais alguma coisa terrível, sou capaz de estourar... e não posso permitir isso. As pessoas são tão complicadas, Jory, especialmente os adultos. Quando eu tinha dez anos, costumava pensar que tudo era muito fácil para os adultos, com todo o poder e direitos de fazerem o que bem entendiam. Jamais imaginei que ser mãe fosse tão difícil! Mas não com você, querido, não com você...

Eu sabia que sua vida fora semeada de tristezas, tendo perdido os pais, depois Cory, Carrie, meu pai e, afinal, seu segundo marido.

— O filho de minha vingança — murmurou, falando sozinha. — E durante todo o tempo em que carreguei Bart dentro de mim, sofri com o remorso que sentia. Eu amava tanto o pai dele... e, de certo modo, ajudei a matá-lo.

— Mamãe — disse eu, com uma repentina percepção. — Talvez Bart pressinta o seu remorso quando você olha para ele, não será isso?

 

A FÚRIA DE MALCOLM

O sol incidiu em meu rosto e me acordou. Quando me vesti, deixei repentinamente de sentir-me tão velho quanto Malcolm e, de certo modo, alegrei-me com isso. Por outro lado, fiquei triste, pois Malcolm era tão confiável! Por que eu não tinha amigos da minha idade, como os outros meninos? Por que só gente velha gostava de mim? Agora, não importava que minha avó afirmasse que me amava, agora que ela me roubara Maçã. Eu era obrigado a encarar o fato de que apenas John Amos era meu verdadeiro amigo.

Saí e engatinhei pelo jardim antes do café da manhã, farejando o solo, sentindo o cheiro dos bichos selvagens que me temiam à luz do dia. Um coelhinho fugiu como louco e eu seria incapaz de lhe fazer mal; incapaz? À mesa do café, vigiaram-me como se esperassem que eu fizesse algo horrível. Notei que Papai não perguntou a Jory como estava passando hoje; perguntou apenas a mim. Amarrei a cara para o prato de cereais; estava frio. Eu detestava passas! Pareciam pequenos insetos mortos.

— Bart, eu lhe fiz uma pergunta.

Eu já sabia.

— Estou bem — respondi, sem olhar para Papai, que sempre acordava bem disposto e nunca parecia mal-humorado como eu e Mamãe.

— Eu só gostaria que vocês contratassem uma boa cozinheira. Boa de verdade. Ou, melhor ainda, que Mamãe ficasse em casa e preparasse nossas refeições, como fazem as outras mães. A comida de Emma não serve para homens nem animais.

Jory olhou feio para mim e chutou-me por baixo da mesa, prevenindo-me para manter a boca fechada.

— Não foi Emma quem preparou seus cereais, Bart — disse Papai. — Já vem assim numa caixa. E até hoje você sempre gostou muito de passas. Costumava desejar também as de Jory. Todavia, se esta manhã as passas o ofendem de alguma maneira, não as coma. E por que seu lábio inferior está sangrando?

Estava? Os médicos andavam sempre vendo sangue, porque sempre estavam cortando as pessoas. Jory assumiu o encargo de responder:

— Ele estava brincando de lobo esta manhã, Papai. Só isso. Creio que se mordeu ao pular sobre o coelho e tentar arrancar-lhe a cabeça com uma dentada.

Sorriu para mim, parecendo satisfeito com minha estupidez. Havia algo no ar. Tive certeza, pois ninguém perguntou por que eu brincava de lobo. Apenas me olhavam como se esperassem que eu agisse como um maluco. Escutei Mamãe e Papai sussurrando fora da copa; falando a meu respeito. Ouvi-os mencionar médicos, novos psiquiatras. Eu não iria! Não podiam obrigar-me! Então Mamãe voltou à cozinha, conversando com Jory enquanto Papai foi à garagem ligar o motor do seu carro.

— Mamãe, vamos mesmo apresentar o espetáculo esta noite?

Ela me lançou um olhar perturbado e depois forçou um sorriso, respondendo:

— Naturalmente. Não posso decepcionar meus alunos, seus pais e os outros convidados que já compraram ingressos.

Os tolos são logo separados de seu dinheiro.

Jory disse:

— Creio que vou telefonar para Melodie. Ontem, disse-lhe que talvez o espetáculo fosse cancelado.

— Jory, por que lhe disse tal coisa?

Ele olhou para mim, como se eu fosse o culpado de tudo, até mesmo de espetáculos que não eram cancelados; e eu não compareceria. Nem que se lembrassem de convidar-me. Não queria assistir a um balé bobo e fresco, onde todo mundo dançava e não dizia nada. Nem mesmo dançariam O Lago dos Cisnes, mas o mais idiota e mais chato de todos os balés: Copélia.

Então Papai tornou a entrar em casa, tendo esquecido alguma coisa, como sempre.

— Creio que você será o príncipe — disse ele a Jory, que se voltou para fitá-lo desdenhosamente.

— Ora, Papai, será que você nunca aprende? Não há um príncipe em Copélia! Na maior parte do tempo, ficarei apenas no corpo de baile, mas Mamãe estará magnífica no seu papel. Foi ela quem coreografou a peça.

— O que estão dizendo? — rugiu Papai, virando-se para encarar severamente Mamãe. — Cathy, sabe que não deve dançar com esse joelho problemático! Você me prometeu que nunca mais voltaria a dançar profissionalmente. A qualquer momento o joelho pode ceder e você levará um tombo. Mais uma queda e acabará aleijada para o resto da vida.

— Só mais uma vez — implorou ela, como se sua vida inteira dependesse de dançar mais uma vez. — Serei apenas a boneca mecânica, sentada numa cadeira. Não faça tempestade num copo d'água.

— Não! — esbravejou outra vez Papai. — Se você dançar esta noite e não cair, pensará que o joelho está bom. Desejará repetir o sucesso e bastará mais um tombo para deixar o joelho permanentemente danificado. Mais uma queda grave e você poderá fraturar a perna, a bacia, a espinha... Já aconteceu antes e você bem sabe!

— Pode enumerar todos os ossos de meu corpo! — gritou ela em tom agudo, enquanto eu pensava, pensava, pensava: se ela quebrasse os ossos e não pudesse voltar a dançar, teria que ficar em casa comigo, o tempo todo.

— Francamente, Chris, às vezes age como se eu fosse sua escrava. Olhe para mim: tenho trinta e sete anos e em breve estarei velha demais para dançar. Deixe que eu me sinta útil, como você se sente. Preciso dançar apenas mais uma vez!

— Não — repetiu ele, mas com menos firmeza. — Se eu ceder, não será a última vez. Você dançará de novo...

— Chris, eu não vou suplicar. Não tenho uma só aluna capaz de fazer o papel, e dançarei, quer você goste ou não!

Olhou-me de esguelha, como se estivesse mais preocupada com o que eu pensava do que com a opinião dele. E eu me sentia feliz, muito feliz... porque ela ia cair! Bem no fundo, eu tinha certeza de que poderia fazê-la cair, com a força do meu desejo. Sentar-me-ia na platéia e lhe lançaria um mau-olhado; então ela passaria a ser minha companheira de brincadeiras. Eu a ensinaria a rastejar pelo jardim e farejar o solo como um cão ou um índio; e ela se espantaria com o que era possível descobrir farejando a terra.

— Não me refiro a uma contusão de menor importância, Catherine — insistiu aquele detestável marido. — Durante toda a sua vida, submeteu suas juntas a um enorme esforço e não deu atenção à dor. Já é tempo de começar a entender que o bem-estar de sua família depende de sua boa saúde.

Fechei a cara para Papai, aborrecido por ele ter esquecido alguma coisa e voltado a tempo de ouvir demais. Mamãe nem mesmo parecia surpresa com o fato dele haver esquecido mais uma vez sua carteira, embora fosse médico e devesse ter boa memória. Entregou-lhe a carteira, que ficara sobre a mesa, ao lado do prato, e enviou-lhe um sorriso retorcido.

— Você faz isso todo dia. Vai para a garagem, liga o motor do carro e, então, lembra-se de que não levou a carteira.

O sorriso de Papai foi tão retorcido quanto o dela.

— Sim, claro que faço. Dá-me a oportunidade de voltar e escutar todas as coisas que vocês não me contam — disse ele, enfiando a carteira no bolso traseiro das calças.

— Chris, não me agrada contrariar sua vontade, mas não posso permitir um espetáculo de segunda categoria. E é a grande oportunidade de Jory aparecer num solo...

— Pelo menos uma vez na vida, Catherine, ouça o que digo. Seu joelho foi radiografado, você sabe que a cartilagem está rompida e ainda se queixa de dores crônicas. Não se apresenta no palco há anos. Dor crônica é uma coisa; dor aguda é outra, muito diferente. É isso que você deseja?

— Oh, vocês, médicos! — zombou ela. — Todos vocês têm uma noção tão desalentadora da fragilidade do corpo humano. Meu joelho dói, e daí? Quando eu estava na Carolina do Sul, os bailarinos se queixavam; em Nova Iorque também se queixavam; em Londres... ora, o que é dor, para um bailarino? Nada, doutor, absolutamente nada que não consiga suportar!

— Cathy!

— Meu joelho não dói de verdade, há mais de dois anos. Já me escutou reclamar de dor? Não, não escutou!

Com isso, Papai saiu da cozinha, atravessou a área de serviço e entrou na garagem. Numa fração de segundo, ela correu atrás dele e eu atrás dela, esperando escutar o resto da discussão e desejando que ela vencesse. Então, eu a teria só para mim.

— Chris! — gritou ela, abrindo a porta do lado direito e entrando no carro, onde o abraçou pelo pescoço. — Não vá embora zangado. Eu o amo, eu o respeito, e dou-lhe minha palavra de honra que esta será minha última apresentação num palco. Juro que jamais, nunca mais, voltarei a dançar em público. Sei que devia ficar em casa... eu sei...

Beijaram-se. Nunca vi duas pessoas que gostassem tanto de se beijarem. Então, ela se afastou um pouco, fitando-o docemente nos olhos, acariciando-lhe o rosto ao murmurar:

— Querido, esta é minha primeira oportunidade de dançar profissionalmente com o filho de Julian. Olhe para Jory, repare o quanto ele se parece com Julian. Coreografei um pas de deux especial, no qual sou a boneca mecânica e Jory um soldado mecânico. É a melhor coisa que já realizei. Quero você na platéia, assistindo, sentindo-se orgulhoso de sua esposa e filho. Não quero que se preocupe com meu joelho. Sinceramente, já ensaiei e não doeu!

Acariciou-o e beijou-o ainda mais. Pude perceber que ele a amava acima de tudo, mais do que a nós, mais do que a si próprio. Tolo! Maldito tolo por amar tanto uma mulher!

— Está certo — disse ele, afinal. — Mas terá que ser a última vez. Seu joelho não pode suportar anos e anos de treinamento. Até mesmo ao ensinar você o utiliza demais, tanto que as outras juntas podem ficar prejudicadas.

Vi Mamãe afastar-se dele e saltar do carro, dizendo com voz tristonha:

— Há muitos anos, Madame Marisha disse que, para mim, não existiria vida sem a dança; e eu neguei que assim fosse. Agora terei oportunidade de verificar.

Ótimo! Eram exatamente as palavras que ele precisava escutar para apresentar uma nova idéia. Debruçou-se no banco e chamou:

— Cathy! E a respeito daquele livro que você disse tencionar escrever? Eis uma boa oportunidade para começar...

Em seguida, fitou-me demoradamente e me senti como uma vidraça limpa e transparente.

— Bart, lembre-se de que é muito amado. Caso se ressinta contra alguém, ou alguma coisa, basta me contar, ou à sua mãe. Estamos dispostos a escutar e fazer o possível para torná-lo feliz.

Feliz? Eu só me sentiria feliz quando ele sumisse da vida dela. Só seria feliz quando a tivesse exclusivamente para mim. Então, lembrei-me daquele velho... daqueles dois velhos. Nenhum deles desejava que ela permanecesse viva... nenhum dos dois. Eu desejava ser como eles, especialmente como Malcolm, de modo que fingi que ele estava na garagem, esperando que Papai fosse embora, para ficar sozinho. Ele gostava quando eu ficava sozinho, quando me sentia triste, solitário, malvado, furioso... e, no momento, ele sorria.

Tão logo Mamãe e Jory saíram, pouco depois de Papai, Emma caiu novamente sobre mim, implicando comigo, detestando-me.

— Bart, será que não pode limpar esse sangue do lábio? Precisa continuar a mordê-lo? As pessoas geralmente evitam machucar-se deliberadamente.

O que sabia ela a respeito de ser como eu? Eu não sentia dor quando mordia o lábio. Gostava do sabor de sangue.

— Vou-lhe dizer uma coisa, Bartholomew Scott Winslow Sheffield: se você fosse meu filho, sentiria no traseiro o peso da minha mão! Creio que gosta de atormentar as pessoas e faz todas as maldades possíveis só para atrair a atenção delas. Não é preciso ser psiquiatra com dez diplomas para perceber isso!

— CALE A BOCA! — berrei.

— Não se atreva a gritar e me mandar calar a boca. Já aturei o bastante de você! É o responsável por todas as coisas ruins que estão acontecendo nesta casa. Quebrou aquela estatueta caríssima de que sua mãe tanto gostava. Encontrei-a na lata do lixo, embrulhada em jornal. Pode ficar aí sentado, de cara amarrada, mirando-me com esses feios olhos pretos, pois não tenho medo. Foi você quem enrolou o arame farpado no pescoço de Trevo e matou o cão de estimação de seu irmão. Devia envergonhar-se! É um garotinho mesquinho, malvado e detestável, Bart Sheffield, e não é de espantar que não tenha amigos! Absolutamente, não é de espantar! E vou economizar milhares de dólares para seus pais quando o virar de bunda para cima e lhe der uma sova de deixar-lhe o traseiro roxo! Ficará quinze dias sem poder sentar!

Parecia uma torre ameaçadora diante de mim, fazendo-me sentir pequeno e indefeso. Desejei ser qualquer pessoa, menos eu; qualquer pessoa forte.

— Se tocar em mim, eu a mato! — declarei com voz fria.

Ergui-me rigidamente, afastei bem os pés e apoiei as palmas das mãos sobre a mesa, para manter o equilíbrio. Por dentro fervia de raiva. Agora, sabia como transformar-me em Malcolm e ser bastante impiedoso para conseguir o que queria, quando queria. Olhem para ela agora: está com medo. Agora é ela quem tem os olhos esbugalhados e cheios de medo. Franzi o lábio superior e exibi os dentes. Depois arreganhei ambos os lábios numa careta de fúria:

— Mulher, suma-se da minha frente antes que eu me descontrole!

Emma recuou, calada. Depois correu para a sala de jantar, dirigindo-se ao corredor a fim de proteger Cindy.

Esperei o dia inteiro. Emma julgou que eu estivesse escondido em minha toca na sebe, de modo que deixou Cindy sozinha na caixa de areia, à sombra de um enorme carvalho. Tinha um toldo bonito, também. Nada era bom demais para Cindy; e ela era apenas filha adotiva. A nojentinha riu quando me viu mancando, como se eu parecesse engraçado e estivesse apenas fingindo-me de velho. Vejam como sorri e tenta encantar-me. Sentada ali, seminua, usando apenas pequenos shorts verde e branco. Cresceria, ficaria mais bonita e seria como todas as mulheres, pecaminosa e seduzindo os homens a se comportarem da pior maneira possível. Trairia o homem que a amasse e seus filhos, também. Mas... mas... e se fosse feia? Que homem a desejaria? Se fosse feia, não teria filhos. Não conseguiria seduzir os homens. Eu salvaria todos os seus filhos do que ela lhes faria mais tarde. Salvar os filhos; isso era importante.

— Barr-tie — disse ela, sorrindo para mim, sentada de pernas cruzadas para que eu pudesse ver as calcinhas rendadas que usava por baixo dos shorts. — Brinca, Barr-tie? Brinca com Cindy...?

As mãozinhas gorduchas se estenderam para mim. Ela tentava "seduzir-me"! Apenas dois anos e alguns meses de idade e já conhecia todas as manhas pecaminosas das mulheres!

— Cindy! — chamou Emma da cozinha.

Mas eu estava abaixado e ela não me podia ver atrás dos arbustos.

— Você está bem?

— Cindy brinca de castelo de areia! — respondeu a nojentinha, como se pretendesse proteger-me.

Então pegou seu balde vermelho predileto e o ofereceu a mim junto com a pá vermelha e amarela. Segurei com mais força o cabo do canivete.

— Linda Cindy... — cantei baixinho, rastejando para perto dela, colocando no rosto um sorriso que lhe provocou risadinhas. — A linda Cindy quer brincar de salão de beleza...

Ela bateu palmas.

— Ohhh! — exclamou,encantada. — Bom...

O cabelo louro em minha mão era sedoso e limpo. Cindy riu quando lhe repuxei o cabelo e soltei a fita do rabo-de-cavalo.

— Não vou machucá-la — disse eu, mostrando-lhe meu canivete com cabo de madrepérola. — Portanto, não grite... fique sentadinha no salão de beleza até eu terminar.

No meu quarto, encontrei a lista de palavras novas. Tinha que aprender a pronunciá-las, treinar soletrá-las e usá-las pelo menos cinco vezes no primeiro dia e dali por diante. Precisava conhecer palavras complicadas, a fim de impressionar as pessoas e fazê-las saberem que eu era mais esperto. Intimidar. Já aprendi: significava fazer as pessoas terem medo da gente. Finalmente. Também já aprendi: significava que, mais cedo ou mais tarde, minha vez chegaria. Sensual. Palavra má. Significava o prazer que a gente sente ao tocar nas garotas. Era preciso eliminar as coisas sensuais. Logo me cansei das palavras complicadas que tinha de aprender para me fazer respeitar. Cansei-me de fingir ser Malcolm. Todavia, o problema era que eu estava perdendo minha personalidade verdadeira. Agora, eu já não era totalmente Bart. E agora que me escapava, Bart, de uma hora para outra, não me parecia tão estúpido e digno de piedade como eu julgava antes. Reli uma determinada página do diário de Malcolm, quando ele tinha exatamente a mesma idade que eu. Ele detestava cabelos louros como os de sua mãe e sua filha, mas nem sonhava com sua pequena "Corrine" quando escreveu:

“Chamava-se Violet Blue e seus cabelos me lembravam os de minha mãe. Detestei seus cabelos. Freqüentávamos a mesma escola dominical e eu me sentava atrás dela, olhando para aquele cabelo que, algum dia, seduziria um homem e o induziria a desejá-la, como aquele amante desejara minha mãe.

Um dia, ela sorriu para mim, esperando um elogio. Mas eu a enganei, dizendo que seu cabelo era feio. Para minha surpresa, ela riu, respondendo: "Mas é da mesma cor que o seu."

Naquele dia, raspei todo o meu cabelo e, no dia seguinte, agarrei Violet Blue e a joguei ao chão. Quando ela voltou para casa, chorando, estava tão careca quanto eu.”

Todo aquele lindo cabelo louro de Cindy voava ao vento. Ela chorava na cozinha. Não porque eu a tivesse machucado ou amedrontado. Foi o berro de Emma que lhe revelou que algo estava errado. Agora, o cabelo de Cindy parecia com o meu: curto, arrepiado, feio.

 

A ÚLTIMA DANÇA

— Jory — chamou Mamãe, aliviada quando me viu entrar. — Graças a Deus você voltou. Gostou do almoço?

“Claro”, respondi, “ótimo almoço”; e ela não deu muita atenção quando não entrei em detalhes, pois estava por demais ocupada com os preparativos de última hora. Era assim que acontecia nos dias de espetáculo: aula de manhã, ensaio à tarde e espetáculo à noite. Correria, correria, correria, fazendo de conta o tempo todo que o mundo cessaria de girar se a gente não se apresentasse no palco com o máximo de nossa capacidade. Quando, na verdade, o mundo não parava de girar...

— Sabe, Jory — tagarelou Mamãe, muito feliz, no camarim que compartilhávamos. Ela falava de trás de um biombo e não nos víamos — o balé sempre me emocionou, durante toda a minha vida. Mas esta noite será a mais grandiosa de todas, porque dançarei com meu próprio filho! Sei que você e eu já dançamos juntos muitas vezes, mas esta noite é especial. Agora, você é suficientemente bom para apresentar-se num solo. Por favor, por favor, esforce-se ao máximo para que Julian, lá no céu, possa orgulhar-se de seu único filho.

Claro que me esforçaria ao máximo; sempre me esforçava. As gambiarras se acenderam, a overture terminou, o pano subiu. Houve um momento de silêncio antes do início da música do primeiro ato. Era o nosso tipo de música, de Mamãe e meu, levando-nos ao mundo encantado onde tudo podia acontecer, até mesmo finais felizes.

— Mamãe, você está maravilhosa... mais linda que qualquer das outras bailarinas!

E era verdade. Ela riu, alegre, replicando que eu certamente sabia como agradar as mulheres e, se continuasse assim, acabaria sendo o Don Juan do século vinte.

— Agora, Jory, ouça a música com atenção. Não se absorva na contagem a ponto de esquecer a música. É a melhor maneira de captar a magia: sentir a música!

Eu estava tão tenso que me sentia prestes a estourar.

— Mamãe, espero que o pai que eu mais amo esteja sentado no centro da primeira fila.

Foi então que ela correu para um ponto de onde podia ver a platéia. Em determinados lugares, as gambiarras não me feriam os olhos.

— Eles não estão lá — disse ela, desalentada. — Nem Bart...

Não houve tempo para responder. Ouvi minha deixa musical e entrei dançando no palco com o resto do corpo de baile. Tudo corria perfeitamente, com Mamãe na sacada, fazendo o papel da linda boneca Copélia, parecendo bastante real para inspirar amor à distância. Todavia, quando o primeiro ato terminou, ela ofegava, sem fôlego. Não contara a Papai que dançaria também o papel da moça da aldeia, Swanhilda, que amava Franze apesar dele se apaixonar bobamente por uma boneca mecânica. Dois papéis para Mamãe; papéis difíceis, pois ela os coreografara. Papai certamente a proibiria de dançar se conhecesse toda a verdade sobre a última dança de Mamãe. Teria eu cometido um erro ao contribuir para enganá-lo?

— Mamãe, como está seu joelho? — perguntei quando a vi fazer uma ou duas caretas de dor durante o intervalo entre os atos.

— Jory, meu joelho está ótimo! — replicou ela com aspereza, tentando mais uma vez avistar Papai e Bart em suas poltronas. — Por que não vieram? Se Chris não aparecer para me assistir dançar pela última vez, jamais o perdoarei!

Vi Papai e Bart logo antes do início do segundo ato. Estavam na segunda fila e percebi que Bart fora trazido à força. Seu lábio inferior projetava-se numa careta de amuo e ele fitava raivosamente a cortina que subiria para revelar beleza e graça. Então ele ficaria ainda mais carrancudo. Beleza e graça não iluminavam a vida de Bart como iluminavam a minha.

Hora do terceiro ato. Mamãe e eu dançamos juntos, bonecos movidos a corda, acionados por enormes chaves que nos saíam às costas. Começamos rigidamente, movimentando as juntas emperradas. O enorme salão onde o Dr. Copélius guardava suas invenções era misteriosamente obscuro, tornado ainda mais dramático por lâmpadas azuis. Notei que Mamãe estava em dificuldades, mas, mesmo assim, não perdeu um único passo enquanto acompanhamos o ritmo da música e ligamos todos os outros bonecos mecânicos, que se movimentaram e começaram a dançar conosco.

— Você está bem, Mamãe? — indaguei num sussurro, quando ficamos bastante próximos um do outro.

— Claro — disse ela, ainda sorrindo.

Não parava de sorrir, pois, supostamente, o sorriso era pintado na cara da boneca. Temi por ela, mesmo enquanto lhe admirava a coragem. Sabia que, na platéia, Bart nos observava, julgando-nos estúpidos e idiotas, sentindo ciúmes de nossa graça e agilidade. De repente percebi, pelo sorriso tenso de Mamãe, que ela sentia uma dor terrível. Tentei dançar mais perto dela, mas um dos bonecos vestidos de palhaço me atrapalhava o caminho. Ia acontecer. Eu sabia que ia acontecer exatamente o que Papai temia. Em seguida, viria uma série de piruetas que levariam Mamãe a descrever um círculo em torno do palco. Para fazer tais piruetas, ela precisava conhecer a localização exata de todos os bailarinos e, também, dos adereços do cenário. Quando ela girou perto de mim, estendi a mão para ajudá-la a manter o equilíbrio antes de prosseguir nas piruetas. Oh, Deus, eu nem tinha coragem de olhar! Então, vi que ela conseguiria; com dor ou sem dor, ela dançaria sem cair. Alegre, agora, dei um grande salto e caí sobre um joelho, propondo casamento à boneca de meus sonhos. Então, meu coração quase parou. Uma das fitas de sua sapatilha se soltara!

— Suas fitas, Mamãe, cuidado com a fita do pé esquerdo!

Gritei acima da música, mas ela não me escutou. Outra bailarina pisou na fita. Mamãe perdeu o equilíbrio. Estendeu os braços para firmar-se e talvez tivesse conseguido, mas vi o sorriso transformar-se num mudo grito de dor quando o joelho cedeu e ela caiu. Bem no centro do palco. Pessoas gritavam na platéia. Algumas se levantavam para verem melhor. Nós, no palco, continuamos dançando enquanto o contra-regra entrou e carregou Mamãe para os bastidores. Sua substituta entrou em cena e o balé continuou. Quando o pano baixou pela última vez, não esperei para receber os aplausos. Corri para perto de minha mãe. Invadido por um medo horrível, aproximei-me do local onde Papai a carregava nos braços, enquanto os homens da ambulância, uniformizados de branco, apalpavam as pernas de Mamãe para verificar se uma delas, ou ambas, estavam quebradas.

— Dancei bem, Chris? — perguntava ela, embora a dor lhe tornasse o rosto muito pálido. — Não estraguei o espetáculo, estraguei? Viu Jory e eu fazermos nosso pas de deux?

— Sim, sim — respondia ele, beijando-lhe o rosto e parecendo muito carinhoso ao ajudar a colocá-la numa maca. — Você e Jory estiveram magníficos. Nunca vi você dançar melhor... e Jory foi brilhante.

— E, desta vez, não precisei sangrar pernas abaixo — sussurrou ela, fechando os olhos com ar fatigado. — Tive apenas que quebrar uma perna...

O que ela disse não fazia muito sentido para mim. Voltei meus pensamentos para a expressão no rosto de Bart ao fitá-la. Parecia estar satisfeito, quase zombeteiro. Estaria eu sendo injusto para com ele? Ou seria culpa o que eu lhe via nos olhos? Solucei enquanto Mamãe foi levada na maca e colocada na ambulância que os conduziria, ela e Papai, ao hospital. O pai de Melodie prometeu deixar-me no hospital e depois levar Bart para casa em segurança. Apesar de ter certeza de que Melodie preferiria que Jory fosse para casa e Bart insistisse em ficar com a mãe no hospital.

Muito mais tarde, Mamãe acordou dos sedativos que lhe haviam ministrado e olhou para as flores que enchiam o quarto.

— Ora, parece um jardim — comentou.

Sorriu debilmente para Papai, estendendo os braços para ele e depois, para mim.

— Chris, sei que você vai dizer que me preveniu. Mas dancei bem até cair, não foi?

— Por causa da fita da sapatilha — declarei, ansioso por protegê-la da raiva de Papai. — Se não houvesse soltado, você não cairia.

— Minha perna não está quebrada, está? — perguntou ela a Papai.

— Não querida, apenas alguns ligamentos rompidos e cartilagens partidas, que foram consertadas durante a operação.

Então Papai se sentou na beira da cama e forneceu todos os detalhes da contusão, que não era tão insignificante quanto ela queria acreditar.

Mamãe refletiu em voz alta:

— Não consigo entender, realmente, como aquela fita se soltou. Sempre costuro pessoalmente as fitas, com todo cuidado, sem confiar em ninguém...

Fez uma pausa, fitando o espaço.

— Onde sente dor, agora?

— Em lugar nenhum — replicou ela num tom ríspido, como se aborrecida. — Onde está Bart? Por que não veio com vocês?

— Você sabe onde está Bart. Detesta hospitais e gente doente, tanto quanto detesta tudo o mais. Emma está tomando conta dele e de Cindy. Mas queremos que você volte logo para casa. Portanto, faça o que o médico e as enfermeiras mandarem e não seja tão malditamente teimosa a ponto de não escutar nem obedecer.

— O que há de errado comigo? — perguntou ela, alertando-se, como eu.

Empertiguei-me na cadeira, pressentindo que algo estava por desabar sobre nós.

— Seu joelho está em péssimo estado, Cathy. Sem entrarmos em detalhes específicos, você terá que usar uma cadeira de rodas até que alguns ligamentos rompidos cicatrizem.

— Uma cadeira de rodas?

Parecendo atordoada, ela disse aquilo como se estivesse mencionando a cadeira elétrica.

— O que há realmente de errado? Você está omitindo alguma coisa. Tenta proteger-me!

— Quando os médicos tiverem certeza, você saberá. Mas uma coisa é certa: nunca mais poderá dançar. E eles também disseram que nem mesmo pode fazer demonstrações para os alunos. Nenhum tipo de dança, nem mesmo valsa.

Ele falou em tom firme, mas com os olhos cheios de compaixão e sofrimento. Ela pareceu atônita, não acreditando que uma queda tão insignificante pudesse causar danos tão graves.

— Nenhuma dança...? Absolutamente nenhuma?

— Absolutamente nenhuma — repetiu Papai. — Sinto muito, Cathy, mas eu a preveni. Relembre e conte as vezes em que caiu e machucou esse joelho. Quanto dano você julga que ele seja capaz de suportar? Até mesmo andar não será tão fácil para você como era antes. Portanto trate de chorar agora. Desabafe logo de uma vez.

Ela chorou nos braços dele e, eu sentado na cadeira, solucei por dentro, sentindo-me tão desolado quanto se fosse eu quem perdesse o uso das pernas para dançar.

— Tudo bem, Jory — disse ela, após enxugar as lágrimas e exibir um sorriso trêmulo. — Se eu não puder dançar, arranjarei algo melhor para fazer, embora só Deus saiba o que seja.

 

OUTRA AVÓ

Dentro de poucos dias, Mamãe se sentia muito melhor. Foi então que Papa levou para o hospital uma máquina de escrever portátil, uma grossa pilha de papel amarelo tamanho ofício e outros objetos para escrita. Arrumou tudo na mesinha que podia ser rolada acima da cama de Mamãe e mostrou um de seus largos e encantadores sorrisos.

— É uma ótima ocasião para você terminar aquele livro que começou há tanto tempo, — disse ele. — Consulte seus diários e bote tudo pra fora. Ao diabo com quem possa ofender-se! Magoe todos eles como foi magoada, como eu fui magoado. Dê também algumas facadas por Cory e Carrie. E, já que está com a mão na massa, acrescente alguns murros por mim, Jory e Bart, pois eles também foram afetados.

De que falava ele? Fitaram-se por longo tempo. Depois, com ar infeliz, ela tomou das mãos dele um velho diário. Abriu-o e eu pude ver a caligrafia grande, feminina, juvenil.

— Não sei se devo — murmurou com estranha expressão no olhar. — Seria como reviver aquilo tudo. Todo o sofrimento voltaria.

Papai sacudiu a cabeça.

— Cathy, faça o que achar que deve fazer. Em primeiro lugar, deve ter existido um bom motivo para você escrever esses diários. Quem sabe? Talvez você esteja a caminho de uma nova carreira, mais gratificante que a primeira.

Não me parecia possível que escrever fosse capaz de substituir o balé. Todavia, quando fui visitar Mamãe no hospital, no dia seguinte, ela estava escrevendo como louca. Percebi-lhe no rosto uma estranha expressão de concentração e, de certo modo, senti inveja.

— Mais quanto tempo? — perguntou ela a Papai, que me levara até lá.

Estávamos todos à espera, Emma com Cindy no colo e eu segurando com força a mão de Bart. Papai ergueu Mamãe do banco dianteiro do carro e a colocou na cadeira de rodas dobrável que ele alugara. Bart olhava com repulsa para a cadeira de rodas e Cindy chamava: "Mamãe, Mamãe!", pouco se importando com a maneira pela qual Mamãe retornasse, desde que voltasse para casa. Bart, porém, manteve-se afastado, mirando Mamãe de cima abaixo, como se fitasse uma desconhecida com a qual antipatizava. Depois, Bart girou nos calcanhares e se encaminhou para casa. Nem mesmo disse "alô" a Mamãe. Uma expressão de mágoa passou pelo semblante de Mamãe e ela chamou:

— Bart! Não vá embora antes de eu ter uma oportunidade para dizer alô. Não está satisfeito por ver-me? Não imagina o quanto senti sua falta. Sei que não gosta de hospitais; mesmo assim, gostaria que você tivesse ido até lá. Sei, também, que você não gosta desta cadeira, mas não a usarei para sempre. Uma senhora na aula de fisioterapia mostrou-me o quanto é possível a gente fazer sentada neste tipo de cadeira...

Interrompeu-se porque o olhar sombrio e duro de Bart não a encorajava a prosseguir.

— Você parece engraçada nessa cadeira — disse ele, com a testa franzida. — Não gosto de você nessa cadeira!

Mamãe riu, nervosa.

— Bem, para falar a verdade, também não é o meu trono predileto, mas lembre-se de que não fará parte permanente de minha vida; só até meu joelho ficar bom. Venha, Bart, seja amistoso com sua mãe. Eu o perdôo por não me visitar no hospital, mas não o perdoarei se não me mostrar um pouco de afeição.

Ainda carrancudo, Bart recuou quando ela rolou a cadeira na direção dele.

— Não! Não me toque! — exclamou ele, em voz muito alta. — Não precisava dançar e cair! Caiu porque não queria voltar para casa e ver-me outra vez! Odeia-me porque cortei o cabelo de Cindy! E agora quer castigar-me, ficando sentada nessa cadeira quando não tem necessidade disso!

Virando-se, correu para o quintal, usando o caminho de pedras. Logo tropeçou e caiu. Levantando-se, continuou a correr, esbarrando numa árvore e soltando um grito. Pude ver que seu nariz sangrava. Puxa, que sujeitinho desajeitado!

Papai ignorou a rebelião de Bart e empurrou Mamãe para dentro de casa, com Cindy deleitada por viajar no colo dela.

— Não se preocupe com Bart... ele voltará, arrependido... sentiu muito sua falta, Cathy. Ouvi-o chorar de noite. E o novo psiquiatra, Dr. Hermes, acha que ele está melhorando, desabafando parte da hostilidade.

Mamãe ficou calada, passando a mão nos cabelos curtos e macios de Cindy, que mais parecia um menino naquele macacão, embora Emma tivesse atado um laço de fita num curto tufo de seus cabelos. Creio que Papai contara a Mamãe o que Bart fizera a Cindy, pois ela não fez perguntas a respeito.

Mais tarde, quando Bart já estava deitado, corri para apanhar um livro que esquecera na sala de estar íntima e escutei a voz de Mamãe vindo do quarto "dela".

— Chris, o que farei em relação a Bart? Tentei mostrar-lhe amor e carinho, mas ele me rejeitou. E veja o que fez a Cindy, uma criança indefesa, que acha que ninguém será capaz de lhe fazer mal. Você deu uma surra nele? Fez alguma coisa para castigá-lo? Ele demonstra respeito para com algum de nós? Algumas semanas no sótão, talvez lhe ensinassem algo a respeito de obediência.

Ouvir Mamãe falar daquele modo deixou-me deprimido. Tão triste que fui obrigado a afastar-me depressa e jogar-me na cama, fitando as paredes com os pôsteres de Julian Marquet dançando com Catherine Dahl. Não era a primeira vez que eu tentava imaginar como teria sido realmente meu verdadeiro pai. Amara muito minha mãe? E ela o amara? Minha vida teria sido mais feliz se ele não morresse antes de eu nascer? Então, houve Papai Paul, que veio depois daquele homem alto com cabelos e olhos escuros. Seria Bart realmente filho do Dr. Paul, ou...? Nem pude completar a pergunta, sentindo-me desleal por alimentar dúvidas. Fechei os olhos, sentindo uma  assustadora tensão na atmosfera que me cercava, como se uma espada invisível pairasse sobre nós, pronta para ceifar-nos todos.

No início da noite seguinte, encurralei Papai em seu escritório e desabafei tudo o que vinha contendo até aquele momento.

— Papai você tem que fazer algo a respeito de Bart. Ele me causa medo. Não sei como podemos continuar vivendo com ele dentro de casa, pois tudo indica que está ficando louco, se já não enlouqueceu.

Papai baixou a cabeça, apoiando-a nas mãos.

— Não sei o que fazer, Jory. Sua mãe morreria se tivéssemos que mandar Bart para longe. Você nem imagina o quanto ela já suportou. Não creio que possa agüentar muito mais... a perda de outra criança a destruiria.

— Nós a salvaremos! — exclamei ardorosamente. — Mas temos que evitar que Bart visite aquelas pessoas na casa vizinha, que lhe contam mentiras. Ele vive lá o tempo todo, Papai; aquela velha o pega no colo e conta-lhe histórias que o fazem voltar para casa com um comportamento esquisito, como se fosse um velho, como se odiasse as mulheres. Tudo é culpa dela, Papai, daquela mulher de preto. Quando a velha deixar Bart em paz, ele voltará a ser o que era antes de conhecê-la.

Papai me fitou da maneira mais estranha, como se algo em minhas palavras tivesse acionado novas idéias em sua mente. Como sempre, ele precisava sair, visitar pacientes; desta vez, porém, telefonou para o hospital e informou que tinha uma emergência em casa. E tinha mesmo, podem apostar!

Eu olhava freqüentemente para o terceiro marido de minha mãe e desejava que ele fosse meu verdadeiro pai, mas no momento em que ele cancelou todos os seus compromissos, a fim de salvar Bart e Mamãe compreendi que, sob todos os aspectos que realmente importavam, ele era meu pai de verdade.

Naquela noite, pouco depois do jantar, Mamãe foi para o quarto, trabalhar em seu livro. Cindy estava deitada e Bart se achava no quintal. Papai e eu vestimos pesados suéteres e nos esgueiramos furtivamente pela porta da frente. A noite estava escura de nevoeiro, fria de umidade, quando caminhamos, lado a lado, em direção à enorme e sombria mansão com impressionantes portões de ferro pintados de preto.

— Sou o Dr. Christopher Sheffield — disse Papai junto à caixinha negra embutida no pilar dos portões. — Quero falar com a dona da casa.

Enquanto os portões se abriam silenciosamente, ele me perguntou por que eu nunca descobrira o nome da mulher. Dei de ombros, como se ela não tivesse nome e, no que me dizia respeito, não precisasse de um. Bart jamais a chamara de outra maneira senão de "Vovó".

À porta principal, Papai bateu com a aldrava de bronze. Finalmente, escutamos o ruído de passos arrastados e John Amos Jackson nos abriu a porta.

— Senhoras idosas se cansam com facilidade — disse John Amos Jackson, o rosto fino, comprido, esquelético, os olhos encovados, as mãos trêmulas, as costas magras arqueadas. — Não digam nada para perturbá-la.

Percebi a maneira como Papai o fitava, carrancudo e perplexo. O mordomo calvo afastou-se arrastando os pés, deixando-nos entrar numa sala cuja porta ele abrira. A velha de negro estava sentada na cadeira de balanço.

— Desculpe-me incomodá-la — disse Papai, olhando-a com grande atenção. — Meu nome é Dr. Christopher Sheffield e moro na casa ao lado. Este é meu filho mais velho, Jory, que a senhora já conhece.

A velha parecia excitada e nervosa ao gesticular para que entrássemos, indicando as cadeiras que devíamos usar. Sentamo-nos na beirada das poltronas, não tencionando permanecer por muito tempo. Passaram-se segundos que mais pareceram horas, antes que Papai se inclinasse para dizer:

— A senhora possui uma bela casa.

Tornou a olhar em volta, vendo as poltronas elegantes e todos os outros móveis finos, olhando também para os quadros.

— Tenho a mais estranha sensação de dejà vu — murmurou consigo mesmo.

A cabeça velada da mulher se inclinou profundamente. Suas mãos se abriram de modo expansivo, suplicantes, dando a impressão de implorarem que ele compreendesse o seu silêncio. Eu sabia que ela falava perfeitamente o inglês. Por que fingia? Excetuando aquelas mãos aristocráticas com tantos anéis cintilantes, a velha permaneceu absolutamente imóvel. Mas as mãos nervosas torciam o colar de pérolas que eu sabia que ela usava sob o manto negro. Papai lhe lançou um olhar penetrante e ela se apressou em sentar sobre as mãos.

— Não fala inglês? — indagou Papai em voz tensa.

Ela meneou vigorosamente a cabeça, indicando que podia entender inglês. Papai franziu a testa. Parecia intrigado, outra vez.

— Bem, para abordarmos o motivo de nossa visita, meu filho Jory disse-me que a senhora e Bart, meu filho caçula, se conhecem muito bem. Jory informou que a senhora dá a Bart presentes caros e o faz comer doces entre as refeições. Sinto muito, Sra. ... Sra....?

Fez uma pausa, esperando que ela dissesse o nome. Quando isso não aconteceu, prosseguiu:

— Quando Bart vier aqui outra vez, quero que a senhora o mande de volta para casa e não lhe dê coisa alguma. Ele cometeu uma série de coisas feias, que merecem castigo. A mãe dele e eu não podemos admitir que uma pessoa desconhecida se interponha entre Bart e nossa autoridade sobre ele. Quando a senhora lhe faz as vontades aqui, nós sofremos as conseqüências.

Durante todo esse tempo, Papai se esforçava por ver as mãos da velha, que fazia igual esforço para mantê-las escondidas. O que se passava, afinal? Por que Papai desejava ver as mãos dela? Estaria fascinado por todos aqueles anéis fabulosos? Eu nunca imaginara que ele gostasse de coisas assim, pois Mamãe tinha aversão por qualquer tipo de jóias, à exceção de brincos. Então, quando Papai parecia observar outra das telas a óleo, as mãos da velha tornaram a aparecer, subindo-lhe ao pescoço, atraídas pelo colar de pérolas, que parecia agir sobre elas como um imã. Papai virou repentinamente a cabeça. Falou fora de propósito, assustando a velha e a mim, também.

— Esses anéis que a senhora está usando... eu já os vi antes!

Quando ela, de modo por demais evidente, ocultou as mãos nas mangas largas do vestido, Papai ergueu-se de um salto, como se atingido por um raio. Olhou para ela, girou mais uma vez para observar a suntuosa sala e voltou a encará-la. Seus olhos pareciam trespassá-la. Ela se encolheu.

— O... melhor... que... se... pode... comprar... com... dinheiro... — disse Papai, pausadamente, separando cada palavra.

Percebi sua amargura, embora não conseguisse entendê-la. Tive a impressão de que, ultimamente, eu não conseguia entender nada.

— Nada é bom demais para a elegante e aristocrática Sra. Bartholomew Winslow — disse ele. — Esses anéis, Sra. Winslow... por que não teve o bom senso de escondê-los? Então talvez seu disfarce desse resultado, embora eu não acredite. Conheço bem demais sua voz e seus gestos. Usa trapos negros, mas seus dedos brilham com os seus símbolos de status. Esquece-se do que esses símbolos nos causaram? Acredita que eu tenha esquecido aqueles dias intermináveis de sofrimento com o frio ou o calor, com a solidão; toda a nossa dor simbolizada por um colar de pérolas e esses anéis nos seus dedos?

Fiquei chocado e confuso. Nunca antes vira Papai tão perturbado. Não se deixava provocar com facilidade. E quem era aquela mulher que ele conhecia e eu não? Por que a chamara de Sra. Bartholomew Winslow; o exato nome de meu meio-irmão? Seria verdade que a velha era mesmo avó de Bart e que Bart não era filho de Papai Paul?

Papai continuou:

— Por que, Sra. Winslow, por que? Julgou que conseguiria esconder-se aqui sem que nós descobríssemos? Como espera iludir alguém, se o próprio modo de sentar e manter a cabeça traem sua verdadeira identidade? Já não fez o suficiente para ferir Cathy e eu? Tem que voltar para fazer mais? Eu deveria ter adivinhado que você estava por trás da confusão de Bart, por trás de seu comportamento esquisito. O que andou fazendo ao nosso filho?

— Nosso filho? — repetiu ela. — Não quer dizer, mais corretamente, filho dela?

— Mamãe! — explodiu ele, antes de olhar para mim com ar culposo.

Olhando de um para outro, refleti que era maravilhoso e, ao mesmo tempo, muito estranho. Afinal, a mãe dele estava livre do manicômio e era, realmente, avó de Bart. Contudo, por que ele a chamava de Sra. Winslow? Se era mãe dele e do Dr. Paul, teria que ser Sra. Sheffield... ou não? Enquanto eu pensava tudo isso, ela estava dizendo:

— Senhor, meus anéis não são tão excepcionais. Bart me disse que o senhor não é o seu verdadeiro pai. Portanto, faça o favor de retirar-se da minha casa. Prometo não permitir que Bart torne a entrar aqui. Não vim para fazer mal a ele, ou a qualquer outra pessoa.

Tive a impressão de que ela lançou a meu pai um olhar de advertência. Creio que lhe oferecia uma escapatória, por minha causa.

— Minha querida mãe, o brinquedo terminou.

Ela começou a soluçar, cobrindo o rosto velado com as mãos. Sem dar importância às suas lágrimas, Papai perguntou:

— Quando os médicos lhe deram alta?

— No verão passado — sussurrou ela, baixando as mãos de modo a poder usar melhor a voz para implorar. — Mesmo antes de mudar-me para cá, mandei que meus advogados fizessem o possível para ajudar Cathy e você a comprarem o terreno que escolhessem. Ordenei-lhes que me mantivessem anônima, pois sabia que vocês não desejariam meu auxílio.

Papai deixou-se cair numa poltrona, dobrando-se para apoiar pesadamente os cotovelos nos joelhos. Por que não estava feliz em ver a mãe livre daquele lugar horrível? Agora, ela morava ao lado e ele sempre fizera questão de visitá-la no manicômio. Não amava a própria mãe? Ou temia que ela ficasse louca a qualquer momento? Julgava que Bart poderia ter herdado a loucura dela? Ou que a insanidade da avó pudesse contaminar Bart, como uma doença física infecciosa? E por que minha mãe não gostava dela? Olhei de um para outro, esperando respostas para minhas perguntas silenciosas, temendo descobrir que, afinal, Paul não era o pai de Bart. Quando Papai levantou a cabeça, pude ver-lhe o rosto abatido, as profundas rugas que desciam do nariz aos cantos da boca. Rugas que eu nunca vira antes.

— Não posso, em sã consciência, voltar a chamá-la de Mamãe — disse ele num tom desprovido de expressão. — Se me ajudou a comprar o terreno no qual se situa  atualmente minha casa, eu lhe agradeço. Amanhã verá o letreiro indicando que está à venda e nós nos mudaremos daqui se você se recusar a mudar-se primeiro. Não permitirei que você afaste meus filhos dos pais.

— Da mãe — corrigiu ela.

— Dos únicos pais que eles possuem — replicou ele. — Eu deveria saber que você viria para cá. Telefonei para seu médico e ele me informou que lhe dera alta, mas não disse quando, nem para onde você foi.

— Que outro lugar tinha eu para ir? — exclamou ela dolorosamente, retorcendo como dois trapos desbotados e inertes as mãos cobertas de jóias.

Foi como se estendesse as mãos e tocasse Papai, muito embora evitasse fazer qualquer movimento na direção dele. Cada palavra que pronunciava, cada olhar que lhe lançava dizia que ela o amava até eu podia perceber.

— Christopher — suplicou ela. — Não tenho amigos, família ou lar... e lugar nenhum para ir, exceto perto de você e dos seus. Tudo que me resta são você, Cathy e os filhos que ela gerou: meus netos. Você seria capaz de tomá-los de mim, também? Todas as noites rezo de joelhos para que você e Cathy me perdoem, recebam-me de volta, me amem como amavam antes.

Papai parecia feito de aço, inatingível. Eu, porém, estava à beira das lágrimas.

— Meu filho, meu amado filho, aceite-me de volta e diga que me ama novamente. E se for incapaz disso, permita-me ao menos viver onde posso ver ocasionalmente os meus netos.

Fez uma pausa, esperando pela reação dele. Quando Papai permaneceu calado, ela prosseguiu:

— Eu tinha esperança de que você fosse tolerante se eu permanecesse aqui e jamais permitisse que ela conhecesse minha identidade. Mas eu a vi, escutei-lhe a voz; ouvi a sua, também. Escondendo-me atrás do muro para escutá-los. Meu coração palpita. Meu peito dói de saudade. As lágrimas me inundam os olhos quando contenho minha voz, que deseja gritar para fazê-los saber que estou arrependida! Tão terrivelmente arrependida!

Papai continuou em silêncio. Assumira sua atitude distante, profissional.

— Christopher, eu daria com prazer dez anos de minha vida para desfazer os males que causei! E daria mais dez anos só para sentar-me à sua mesa e sentir-me bem acolhida por meus netos!

Tinha lágrimas nos olhos; eu também. Meu coração chorava pela mãe de meu pai, mesmo enquanto eu tentava adivinhar por que motivo ele e Mamãe a odiavam.

— Christopher, Christopher, não entende por que uso estes trapos? Cubro o rosto, o cabelo, o corpo, para que ela não saiba! Mas, durante todo o tempo, fico alimentando a esperança, rezando para que mais cedo ou mais tarde vocês dois me perdoem o suficiente e permitam que eu me torne novamente membro de sua família! Por favor, por favor, aceite-me outra vez como sua mãe! Se você aceitar, talvez ela também consiga!

Como podia ele ficar ali, sentado, e não sentir por ela a mesma piedade que eu sentia? Por que ele não chorava como eu?

— Cathy jamais a perdoará — declarou ele, sem entonação.

Por estranho que pareça, ela exclamou alegremente:

— Então, você aceita? Diga, por favor... você me perdoa!

Estremeci, aguardando que ele falasse.

— Mamãe, como posso dizer que a perdôo? Ao dizer isso, eu trairia Cathy e jamais serei capaz de traí-la. Juntos estamos de pé e juntos cairemos, ainda acreditando que procedemos corretamente, enquanto você fica sozinha e cheia de remorso. Nada que você diga ou faça pode desfazer a morte. E cada dia que você permanece aqui mais aumenta a perturbação mental de Bart. Sabe que ele está ameaçando nossa filha adotiva, Cindy?

— Não! — exclamou ela, sacudindo a cabeça com tanta veemência que os véus balançaram violentamente. — Bart seria incapaz de machucar a irmã!

— Seria mesmo? Cortou-lhe os cabelos com uma faca, Senhora Winslow. E ameaçou também a própria mãe.

— NÃO! — gritou ela, ainda mais apaixonadamente que antes. — Bart ama a mãe! Faço agrados e dou presentes a Bart porque você se ocupa demais com sua vida profissional para dar-lhe toda atenção que ele merece e necessita. Da mesma maneira que a mãe dele se ocupa demais com a própria vida para se importar em saber se ele recebe amor suficiente. Mas eu cuido das necessidades dele. Tento substituir os colegas que ele não tem. Faço tudo que me é possível para torná-lo feliz. E se dar-lhe guloseimas e presentes faz com que ele se sinta melhor, que mal estou fazendo? Além disso, quando uma criança tem à disposição todos os doces que é capaz de comer, logo enjoa deles. Eu sei. Já fui como Bart, adorando sorvetes, doces, balas, bolinhos e outras guloseimas... e hoje em dia não consigo suportá-las.

Papai se pôs de pé e fez um gesto para mim. Levantei-me e fui para perto dele, que fitou sua mãe com piedade.

— É mesmo uma pena que você tenha vindo tarde demais para tentar redimir-se de seus atos. Outrora, eu ficaria comovido por qualquer palavra de ternura que você pronunciasse. Agora, sua simples presença mostra quão pouco você se importa que sejamos profundamente magoados outra vez, como seremos se você permanecer aqui.

— Por favor, Christopher — implorou ela. — Não tenho outra família, nem outras pessoas que se incomodem em saber se estou viva ou morta. Não me negue seu amor, pois isso matará a sua melhor parte, a parte que faz de você aquilo que é. Você nunca foi como Cathy. Sempre conseguiu apegar-se a uma parcela de seu amor. Agora, agarre-se a ela com força, Christopher. Agarre-se bem e talvez, eventualmente, consiga ajudar Cathy a encontrar também um pouco de amor por mim!

Soluçou, fraquejando.

— Ou, se não amor, ajude-a a encontrar clemência, pois confesso que poderia ter servido melhor a meus filhos.

Então, Papai se comoveu, mas não por muito tempo.

— Em primeiro lugar, tenho que pensar na saúde de Bart. Ele nunca teve muita confiança em si mesmo. Suas histórias o  perturbaram tanto que ele passou a sofrer de pesadelos. Deixe-o em paz! Deixe-nos em paz! Vá embora, fique longe de nós, não lhe pertencemos mais. Há muitos anos, nós lhe demos muitas oportunidades de provar que nos amava. Mesmo quando fugimos, você poderia ter acatado a intimação do juiz e nos poupado a dor de sabermos que não éramos suficientemente amados para que você ao menos se apresentasse e mostrasse algum interesse por nosso futuro.

Tomou fôlego e acrescentou:

— Portanto, saia de nossas vidas! Construa uma vida nova para você mesma, com a riqueza que nos sacrificou para conseguir. Deixe que Cathy e eu vivamos a vida que conseguimos à custa de tanto trabalho e esforço.

Fiquei pasmo... Do que ele estava falando? O que sua mãe fizera aos dois filhos, Christopher e Paul? E o que tinha minha mãe a ver com a vida deles na juventude?

Ela também se levantou, alta e esbelta. Então, vagarosamente, removeu o véu que lhe cobria a cabeça e o rosto. Prendi a respiração. Papai também. Nunca antes eu vira uma mulher capaz de ser, ao mesmo tempo, tão feia e tão bonita. As cicatrizes davam a impressão de que um gato lhe arranhara o rosto. As bochechas estavam flácidas pela idade; o bonito cabelo louro mesclado com mechas grisalhas. Eu me sentira imensamente curioso por ver de perto o que ela ocultava sob o véu. Agora desejava não ter visto. Papai baixou a cabeça.

— Precisava fazer isso?

— Sim — disse ela. — Queria que você visse o que fiz para não mais me parecer com Cathy.

Apontou para a cadeira de balanço.

— Vê essa cadeira? Tenho uma igual em cada aposento desta casa.

Indicou todas as confortáveis poltronas, forradas com almofadas espessas e macias.

— Sento-me em duras cadeiras de pau, a fim de castigar-me. Uso os mesmos trapos negros todos os dias. Mantenho espelhos nas paredes, para poder ver como sou velha e feia atualmente. Quero sofrer pelos pecados que cometi contra meus filhos. Detesto este véu, mas faço questão de usá-lo. Não consigo enxergar direito através dele, mas mereço isso, também. Faço o possível a fim de criar para mim mesma o mesmo tipo de inferno que criei para o sangue do meu sangue. E continuo a acreditar que ainda chegará o dia em que Cathy e você reconhecerão que estou procurando pagar meus pecados, de modo que possam perdoar-me e voltar para mim, transformando-nos outra vez numa família. E, quando você e Cathy conseguirem isso, poderei ir em paz para meu túmulo. Então, quando eu me reunir a seu pai, talvez ele não me julgue com demasiada severidade.

— Oh! — exclamei espontaneamente. — Eu a perdôo por qualquer coisa que tenha feito! Sinto que tenha que se vestir de negro o tempo todo, com um véu cobrindo o rosto!

Virei-me para Papai, puxando-lhe a manga.

— Diga que a perdoa, Papai. Por favor, não a faça sofrer mais! Ela é sua mãe e eu seria sempre capaz de perdoar minha mãe, não importa o que ela faça.

Ele falou com minha avó como se nem me tivesse escutado:

— Você sempre soube convencer-nos a fazer o que você queria.

Eu nunca o ouvira falar com tamanha frieza.

— Mas já não sou um menino — prosseguiu. — Agora sei como resistir à sua tentação, pois tenho uma mulher que jamais me decepcionou em coisas importantes. Ela me ensinou a não ser tão crédulo como antes. Você quer Bart porque julga que ele devia ter sido seu. Mas não pode tê-lo. Bart nos pertence. Eu costumava pensar que Cathy errou ao procurar vingança e roubar Bart Winslow de você. Mas ela não errou; fez o que tinha que fazer. E assim temos dois filhos em vez de apenas um.

— Christopher! — bradou ela, desesperada. — Você não quer que o mundo tome conhecimento de sua indiscrição! Claro que não quer.

— E da sua, também — replicou ele friamente. — Se você nos delatar, estará também delatando a si mesma. E lembre-se de que éramos apenas crianças. Acha que o juiz e o júri seriam favoráveis a nós ou a você.

— Para o bem de vocês! — gritou ela quando saímos da sala e nos encaminhamos à porta principal da mansão (Papai foi obrigado a empurrar-me à sua frente, pois eu queria ficar, com pena dela). — Ame-me outra vez, Christopher! Por favor, permita que eu me redima!

Papai girou nos calcanhares, rubro de raiva:

— Não posso perdoá-la! Você só pensa em si mesma. Como sempre só pensou em si mesma. Eu não a conheço, Sra. Winslow. Quem me dera jamais tê-la conhecido!

“Oh, Papai”, pensei eu, “você se arrependerá. Perdoe-a, por favor.”

— Christopher — chamou ela mais uma vez, a voz tão sumida e fina que chegava a soar velha e áspera. — Quando você e Cathy conseguirem amar-me novamente, encontrarão vidas melhores para vocês e seus filhos. Existe tanta coisa que eu poderia fazer para ajudá-los, se ao menos vocês permitissem.

— Dinheiro? — retrucou ele desdenhosamente. — Vai usar chantagem? Temos bastante dinheiro. Temos bastante felicidade. Conseguimos sobreviver, conseguimos amar e não matamos ninguém para conseguir o que temos.

Matamos? Ela matara alguém?

Papai puxou-me pela mão ao andar furiosamente para a porta. No caminho da mansão à nossa casa, eu disse:

— Papai, tenho a impressão de que senti o cheiro de Bart naquela sala. Ele podia estar escondido, escutando. Ele estava lá, tenho certeza.

— Muito bem — disse ele, num tom fatigado. — Volte e procure por ele.

— Papai, por que não a perdoa? Acredito que ela esteja realmente arrependida do que fez para que você a odiasse e é sua mãe.

Sorri e puxei-lhe o braço, querendo que ele voltasse comigo e dissesse a ela que a amava.

— Não seria bom termos ambas as minhas avós em casa, no Natal?

Ele sacudiu a cabeça e seguiu em frente, deixando-me sozinho para correr de volta à mansão. Deu apenas alguns passos, antes de voltar-se para mim:

— Jory, prometa não contar nada a sua mãe a respeito desta noite.

Prometi, mas fiquei insatisfeito. Estava insatisfeito com tudo o que escutara. Não sabia se ouvira toda a verdade a respeito de meu pai e sua mãe, ou apenas parte de uma comprida história secreta que nunca me haviam contado. Tive ímpetos de correr atrás de Papai e perguntar por que ele odiava tanto a própria mãe, mas compreendi, por sua expressão facial, que ele não me diria. De certo modo esquisito, alegrei-me por não saber demais.

— Se Bart estiver lá, traga-o para casa e leve-o às escondidas para o quarto, Jory. Por favor, pelo amor de Deus, não torne a mencionar à sua mãe qualquer coisa a respeito daquela mulher. Eu cuidarei dela. Irá embora e tudo voltará a ser como antes.

Sendo como eu era, acreditei, embora sentisse pena da mãe dele. Não devia a ela a mesma lealdade que devia a ele, mas não pude reprimir a pergunta mais importante:

— Papai, o que fez sua mãe para que você a odeie tanto? E se a odeia, por que sempre insistia em visitá-la, quando Mamãe não queria?

Ele fitou o espaço e, como se de muito longe, sua voz me chegou aos ouvidos:

— Jory, temo que você venha a conhecer toda a verdade dentro de muito pouco tempo. Dê-me tempo para encontrar as palavras adequadas, a verdadeira explicação que satisfará sua necessidade de saber. Mas acredite: sua mãe e eu sempre tencionamos contar-lhe tudo. Estávamos apenas esperando que você e Bart crescessem o suficiente. E, quando ouvir nossa história, creio que você compreenderá como posso, ao mesmo tempo, amar e odiar minha mãe. É triste dizer, mas existem muitos filhos que se sentem ambiguamente em relação aos pais.

Abracei-o, embora não fosse uma atitude adulta. Eu o amava e se isso também não fosse coisa de adulto, não valia a pena a gente crescer.

— Não se preocupe com Bart, Papai — disse eu. — Vou levá-lo para casa em segurança.

Consegui esgueirar-me bem a tempo por entre os portões, que se fecharam atrás de mim com um leve ruído metálico. Então... silêncio. Se existia no mundo algum local mais silencioso que aquele enorme terreno, eu nunca lá estivera. Dei um pulo e escondi-me depressa atrás de uma árvore. John Amos Jackson segurava Bart pela mão e o afastava da mansão.

— Agora, você sabe o que precisa fazer, não sabe?

— Sim, senhor — entoou Bart, como em transe.

— Sabe o que acontecerá se não fizer o que eu mandar, não sabe?

— Sim, senhor. Coisas ruins acontecem a todo mundo, inclusive a mim.

— Sssim, coisasss ruinsss, que você lamentará.

— Coisas ruins que eu lamentarei — repetiu meu irmão.

— O homem nasce da mulher para o pecado...

— E aqueles que causam o pecado...

— Devem sofrer.

— E como devem eles sofrer?

— De todos os modos, por todos os modos. Serão redimidos pela morte.

Congelei-me onde estava agachado, não acreditando em meus ouvidos. O que fazia aquele homem a Bart?

Saíram do alcance de minha audição e espiei bem a tempo de ver Bart desaparecer por cima do muro, a caminho de casa. Esperei até que John Amos Jackson retornasse à mansão com seu andar arrastado e apagasse todas as luzes. Então, de repente, dei-me conta de que não ouvira os latidos de Maçã. Um cão do tamanho e idade de Maçã não deveria latir para avisar aos de casa que havia um intruso no terreno? Esgueirei-me até o celeiro e chamei Maçã pelo nome. Ele não apareceu correndo para me lamber o rosto e sacudir o rabo.

— Maçã — tornei a chamar, mais alto.

Acendi um lampião de querosene que estava pendurado perto da porta e iluminei a baia que servia de lar para Maçã. Prendi a respiração !Oh, não! NÃO! Quem seria tão cruel a ponto de matar um cão de fome, daquela maneira? Quem seria capaz, depois disso, de cravar um forcado naquele pobre monte de ossos coberto por lindo pêlo? Agora ele estava todo ensangüentado. Escuro, com sangue velho, que se coagulara numa cor de ferrugem.

Corri para fora do celeiro e vomitei. Uma hora mais tarde, Papai e eu estávamos cavando um túmulo e enterrando um enorme cão que não tivera oportunidade de chegar à maturidade. Ambos sabíamos que Bart seria internado para sempre, se a notícia se espalhasse.

— Talvez não tenha sido ele — disse Papai quando voltamos para casa. — Não consigo acreditar que ele fosse capaz.

A essa altura eu conseguia acreditar em qualquer coisa. Havia uma velha que morava ao lado. Usava trapos pretos e cobria o rosto de negro. Era duas vezes sogra de Mamãe, duplamente odiada, e muito mais. Tudo que eu podia fazer era imaginar, imaginar o que ela fizera a meus pais. Papai ainda não explicara toda a verdade, como havia prometido. Embora eu tivesse um vislumbre de uma vaga solução deixara-me dominar pela emoção e, por um momento,  pensei que ela era também minha avó, pois Chris, no fundo de meu coração, era meu verdadeiro pai. Mas, na verdade, o filho de Paul era Bart e eu sabia por que motivo sua avó o queria tanto, e não a mim. Eu pertencia a Madame Marisha, assim como Bart pertencia a ela. Era o parentesco de sangue que os levava a se amarem. E eu suspirava, porque era apenas neto torto de uma mulher tão misteriosa e comovente, que se julgava obrigada a sofrer para redimir seus erros. Refleti que precisava cuidar melhor de Bart; protegê-lo, orientá-lo, mantê-lo na linha.

Imediatamente, tive um impulso repentino que me levou a correr ao quarto de Bart, que estava deitado de lado na cama, com o polegar na boca. Parecia um bebê, apenas um menininho que sempre vivera à minha sombra, sempre tentando igualar o que eu fizera na sua idade, jamais conseguindo atingir o ponto que eu alcançara. Não falara mais cedo, não andara com menos idade nem sorrira até quase completar um ano de idade. Era como se ele soubesse, desde o berço, que sempre seria o número dois, jamais o número um. Agora encontrara a única pessoa no mundo que o colocava em primeiro lugar. Alegrei-me por Bart possuir uma avó de verdade, só para ele. Embora ela só se vestisse de negro, eu podia perceber que, outrora, fora muito bonita. Mais bonita que minha Avó Marisha jamais poderia esperar ser quando jovem. Ainda assim... ainda assim... estavam faltando algumas peças do quebra-cabeça.

John Amos Jackson... onde se ajustava ele no quadro? Por que uma avó carinhosa, uma mãe que desejava unir-se ao filho, esposa e neto... por que traria ela consigo aquele velho detestável?

 

HONRA TUA MÃE

Ele nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Pensou que eu estava adormecido em segurança, naquela caminha onde gostavam de manter-me. Mas vi Papai sair de casa. Iria falar com minha avó? Eu gostaria que todos a deixassem em paz, de modo que pudesse tê-la de volta como ela era antes, exclusivamente minha.

Maçã se fora para onde iam os pôneis e filhotes de cão.

— Aquela grande pastagem no céu — dissera John Amos, os olhos desbotados observando-me cuidadosamente, como se julgasse que fora eu quem enfiara o forcado.

— Você viu Maçã morto? Realmente o viu morto?

— Mais morto que uma pedra.

Esgueirei-me pelas sinuosas trilhas da selva, que me conduziam diretamente ao inferno. Descendo, descendo, descendo. Grutas, ravinas, fendas profundas, mais cedo ou mais tarde encontraríamos a porta vermelha. A porta do inferno devia ser vermelha ou, talvez preta. Portões pretos. Portões mágicos se abriram para Papai passar. Ela queria vê-lo. Ótimo filho era ele, colocando a própria mãe num manicômio; em seguida, ele me enviaria a uma daquelas estranhas fazendas onde metiam as pessoas em camisas-de-força (o que seria isso?). Seja lá o que fosse, era terrível, de qualquer maneira. Os portões se fecharam. Eu sabia que Mamãe voltara ao quarto, onde datilografava aquelas páginas como se realmente pensasse que escrever era tão importante quanto o balé. Não parecia importar-se em usar aquela cadeira de rodas, a não ser quando Jory tocava discos de balé. Então, ela levantava a cabeça, fitava o espaço e começava a marcar o compasso com os pés.

— O que quer dizer intrincado, Mamãe? — perguntei, quando ela comentou que Jory possuía a concentração necessária para aprender depressa passos intrincados.

— Complicado — respondeu ela, exatamente como um dicionário.

Tinha dicionários espalhados pelo quarto inteiro: pequenos, médios, grandes, além de um enorme, que girava numa estante especial. Eu precisava fazer meus pés darem passos intrincados. Experimentei enquanto acompanhava o itinerário de Papai, que nem lançava um olhar para trás. Eu andava sempre espiando por cima do ombro, olhando para os lados, sempre à espreita. Maldito cordão do sapato... ai! Caí mais uma vez. Se ele me escutou gemer, não olhou para trás. Ótimo... eu tinha que fazer todo aquele negócio secreto, como um bom espião. Ou um ladrão, um ladrão de jóias. Mulheres ricas possuíam montes e montes de jóias. Eu bem podia treinar um pouco enquanto ela conversava com seu filho médico, chorando e insistindo em pedir a ele que a perdoasse, tivesse piedade, recebesse de volta e a amasse novamente.

Chato. Eu não gostava muito de Papai; voltara a me sentir como antes que ele me salvasse a perna de ser "amputada". O maldito estava querendo afastar a única avó que eu possuía. Que outro tipo de menino tinha uma avó tão rica, que lhe podia dar tudo?

— Onde vai, Bart?

John Amos surgiu do nada, os olhos brilhando na escuridão.

— Não é da sua conta! — repliquei, ríspido como Malcolm teria sido.

Eu trazia o diário de Malcolm colado ao peito, sob a camisa. A capa vermelha de couro colava-se à minha pele. Eu estava aprendendo a ganhar dinheiro à custa da raiva.

— Seu pai está na casa, conversando com sua avó. Agora, entre lá e faça seu serviço. Venha contar-me cada palavra que disserem. Ouviu?

Ouvir? Quem precisava de um aparelho de audição era ele, não eu. Do contrário, faria sua própria espionagem, pelo buraco da fechadura. Mas tudo o que podia fazer era espiar, pois não escutava bem. E também não conseguia curvar-se muito; era incapaz de apanhar um objeto que caísse ao chão.

— Bart... você me ouviu? Que diabo está fazendo, indo para a porta dos fundos?

Voltei-me para encará-lo. No quinto degrau, era mais alto que ele.

— Quantos anos você tem, John Amos?

Ele deu de ombros, carrancudo.

— Por que quer saber?

— Apenas porque ninguém já viu um homem tão velho quanto você.

— O Senhor castiga aqueles que não respeitam os mais velhos — replicou ele, trincando os dentes.

O barulho era semelhante ao de pratos batendo na cozinha de minha casa.

— Agora sou mais alto que você.

— Tenho um metro e oitenta... ou, pelo menos, tinha. Menino, você jamais alcançará essa altura, a menos que esteja sempre trepado em escadas.

Apertei as pálpebras, assumindo um olhar malvado como o de Malcolm.

— Chegará o dia, John Amos, em que você mal me chegará aos ombros. E se ajoelhará diante de mim, para pedir, implorar, suplicar, dizendo: "Senhor, senhor, deixe que me livre daqueles camundongos do sótão, por favor". E eu responderei: "Como posso saber se você é digno de minha confiança?" E você dirá: "Seguirei seus passos, mesmo quando o senhor estiver morto".

Minhas palavras provocaram-lhe um sorriso ladino.

— Bart, você está mesmo aprendendo a ser tão esperto quanto seu bisavô Malcolm. Agora adie o que pretende fazer. Volte para seu pai, que, neste momento, está com sua avó. Guarde na memória cada palavra que escutar e venha contar-me.

Como um espião, rastejei através do criado-mudo, que ficava escondido atrás de uma bela cortina oriental. Dali, pude esgueirar-me para um esconderijo atrás das palmeiras plantadas em vasos. Lá estavam eles, fazendo o mesmo de sempre: Vovó implorando, Papai negando. Sentei-me e acomodei-me antes de pegar o fumo e a palha. Cigarros ajudavam quando a vida ficava chata, como agora. Nada a fazer, exceto escutar. Os espiões nunca diziam nada e eu precisava de ação. Papai estava elegante em seu terno cinza-claro. Era bonito como eu desejava ser quando crescesse, mas nunca seria, pois não tinha as feições perfeitas como as dele. Suspirei, desejando ser seu filho de verdade.

— Sra. Winslow, prometeu mudar-se desta casa, mas olho em volta e verifico que não empacotou coisa alguma. Pela sanidade mental de Bart, pelo bem de Jory, a quem a senhora afirma que também ama e, acima de tudo, por Cathy, vá embora daqui. Mude-se para São Francisco. Não é muito longe. Prometo visitá-la sempre que puder. Conseguirei arranjar oportunidades de vê-la e Cathy nem tomará conhecimento.

Chato. Por que ele não arranjava algo diferente para dizer? Por que se importava tanto com o que Mamãe tinha a dizer sobre sua mãe? Se algum dia eu caísse na infelicidade de ter uma esposa, eu lhe diria para aceitar minha mãe ou tratar de dar o fora. Suma-se daqui, como diria Malcolm.

— Oh, Christopher — soluçou ela, pegando outro daqueles lencinhos rendados para enxugar as lágrimas. — Desejo que Cathy me perdoe, para que eu possa ter um lugarzinho em suas vidas. Permaneço aqui porque continuo a nutrir a esperança de que, eventualmente, ela compreenda que não vim causar mal a qualquer um de vocês... Estou aqui apenas para dar o que posso.

Papai exibiu um sorriso amargo.

— Suponho que se refere, mais uma vez, a bens materiais; mas não é disso que uma criança precisa. Cathy e eu fizemos todo o possível para que Bart se sentisse amado, querido, necessário, mas ele não parece entender seu relacionamento comigo. Inseguro quanto àquilo que é, sobre quem é, em relação ao caminho a seguir. Ao contrário de Jory, não tem uma carreira de bailarino para orientar-lhe o futuro. Agora procura agarrar-se a alguma coisa, tenta encontrar-se, e você não está ajudando. Ele mantém seu íntimo muito trancado, em segredo. Adora a mãe, mas não confia nela. Desconfia que ela gosta mais de Jory do que dele. Sabe que Jory é bonito, talentoso e, acima de tudo, ágil, desembaraçado. Bart só é ágil e desembaraçado em fazer de conta. Se ele conseguisse confiar em nós, ou no psiquiatra, poderia ser ajudado, mas não confia, não se abre.

Fui obrigado a enxugar uma lágrima. Era duro escutar a respeito de mim mesmo, do que eu era e, ainda pior, do que eu não era. Como se me conhecessem pelo avesso e não conheciam. Não podiam conhecer. Eram incapazes disso.

— Ouviu algo do que acabo de dizer, Sra. Winslow? — berrou Papai. — Bart não gosta da sua imagem que só reflete fraquezas, nenhum talento, nenhuma graça, nenhuma autoridade. Portanto, toma emprestado de todos os livros que leu, de todos os filmes a que assistiu pela TV e, às vezes, até mesmo dos animais, fazendo de conta que é um lobo, um cão, um gato.

— Por quê? — gemeu ela. — Por quê?

Ele revelava todos os meus segredos. E um segredo revelado perdia todo o valor. Todo.

— É incapaz de adivinhar o motivo? Jory possui milhares de fotografias do pai; Bart não, não tem nenhuma. Nenhuma.

Aquilo fez com que ela se empertigasse. Replicou raivosamente:

— E por que teria ele fotografias do pai? A culpa é minha, se meu segundo marido não deu à amante uma só fotografia?

Fiquei aturdido. O que era aquilo? Claro, John Amos me contara histórias malucas, mas julguei que ele as inventasse, da mesma forma que eu inventava histórias para afugentar o tédio. Seria mesmo verdade que minha própria mãe era a mulher malvada que seduzira o segundo marido de minha própria avó? Seria eu realmente filho do tal advogado chamado Bartholomew Winslow? Oh, Mamãe, como poderei deixar de odiá-la, agora?

Papai exibia outra vez aquele sorriso esquisito.

— Talvez o seu amado Bart julgasse que não era necessário dar-lhe fotografias, já que ela tinha o homem vivo em sua casa e em sua cama, como seu legítimo marido. Antes de Bart morrer, ela lhe contou que estava esperando um filho dele e Bart ia divorciar-se de você para ser pai da criança e, também, para ter Cathy como esposa. Não tenha a mínima dúvida quanto a isso.

Encolhi-me, rígido, agoniado por tudo que escutara. Meu pobre, pobre pai, que morrera no incêndio de Foxworth Hall. John Amos era um amigo de verdade, o único que me tratara como adulto e me contara toda a verdade. E Papai Paul, cuja fotografia estava sobre minha mesinha de cabeceira, fora apenas mais um padrasto, como Christopher. Eu chorava por dentro a perda de mais um pai. Meus olhos saltavam de Papai para Vovó, enquanto eu me esforçava muito por saber o que sentir a respeito deles e de Mamãe. Não era correto os pais estragarem as vidas de filhos que ainda nem haviam nascido, complicando-as de tal maneira que eu nem mesmo sabia realmente quem eu era. Esperançoso, olhei para minha avó, que parecia muito magoada pelo que lhe dissera o filho. As mãos alvas subiram-lhe à testa, que brilhava de suor, tocando-a como se tivesse dor de cabeça. Oh, se ela podia sentir dor com tanta facilidade, por que não acontecia o mesmo comigo?

— Muito bem, Christopher — disse ela, quando eu já pensava que não conseguiria encontrar as palavras. — Você disse o que tinha a dizer; agora, deixe-me falar. Quando se chegasse a um ultimato, Cathy e a criança ainda por nascer, ou eu e minha fortuna, Bart ficaria comigo, sua esposa. Poderia mantê-la como amante até cansar-se dela; então, encontraria um meio legal de assumir a posse do filho. E meu marido sairia da vida de Cathy, levando o filho consigo. Sei que ele continuaria comigo, mesmo que vivesse procurando rostos bonitos e corpos mais jovens.

Meu próprio pai. Meu pai de verdade não ia querer minha mãe, afinal. As lágrimas me pendiam dos cílios. A garganta doía, provando que eu era humano e não a criatura excepcional que acreditava ser. Era capaz de sentir uma espécie diferente de dor. Ainda assim, não conseguia sentir-me feliz. Por que não me podia sentir feliz e real? Então lembrei-me de algumas das palavras de minha avó... meu pai de verdade encontraria algum "meio legal de assumir a minha posse”. Isso significaria que ele me tomaria de minha própria mãe? A idéia também não me causou felicidade. A avó continuava sentada, imóvel. Encolhi-me ainda mais, com medo, com muito medo do que poderia ouvir em seguida. Papai, não revele outros segredos ruins, que me obriguem a agir. John Amos me forçaria a agir. Olhei para trás, desconfiando de que ele pudesse estar escutando com um copo encostado à parede, a fim de ouvir melhor.

— Bem — disse meu pai, agora muito tenso. — O psiquiatra de Bart demonstra um incrível interesse por você, que ele acredita ser apenas minha mãe. Eu gostaria de saber por que motivo ele volta sempre a falar em você, fazendo perguntas. Parece julgar que você seja a pista para a vida interior secreta de Bart. Acha que você também teve uma vida interior secreta; é verdade, Mamãe? Quando seu pai a fez sentir-se menos que humana, você ficou pensando, sozinha, e planejou um modo de vingar-se à sua própria maneira, fazendo-o sofrer?

O que era aquilo?

— Não! — disse ela. — Por favor, não! Tenha piedade de mim, Christopher! Fiz o melhor possível, nas circunstâncias. Juro que fiz o melhor possível!

— O melhor que lhe foi possível? — Papai riu, parecendo Mamãe quando fazia ironia. — Quando o meio-irmão mais moço de seu pai surgiu em Foxworth Hall, com dezessete anos de idade, você teve imediatamente uma inspiração? Vislumbrou a maneira suprema de castigar seu pai por fazê-la não gostar de si mesma? Decidiu fazer nosso pai apaixonar-se por você? Foi isso? Odiava-o, também, até certo ponto, por parecer-se com Malcolm? Acho que sim. Creio que você tramou e planejou ferir seu pai da maneira que mais lhe estraçalharia o ego, a ponto de jamais recobrar-se. E acredito que conseguiu! Fugiu de casa para casar-se com o meio-irmão mais moço, que ele desprezava. Pensou que venceu de duas maneiras: atingiu-o no ponto mais sensível e, agora, podia apossar-se de sua imensa fortuna através de nosso pai! Mas não deu certo, não é mesmo? Não me esqueci da época em que morávamos em Gladstone, quando eu ouvia você implorando a meu pai que movesse uma ação judicial para receber o que lhe cabia por direito.  Contudo nosso pai se recusou a colaborar. Ele a amava e se casara com você por aquilo que pensava que você fosse, não pelo dinheiro com o qual você não conseguia parar de sonhar.

Aturdido outra vez, fitei minha avó. Ela chorava, o corpo frágil estremecendo; até mesmo a cadeira de balanço parecia tremer. Eu também tremia e chorava por dentro.

— Está enganado, tão enganado, Christopher! — soluçou ela, o peito arfante. — Eu amava seu pai! Você sabe que eu o amava! Dei-lhe quatro filhos e os melhores anos de minha vida; o melhor que eu tinha em mim para dar a alguém.

— O seu melhor é tão pouco, Sra. Winslow, tão muito, muito pouco.

— Christopher! — gritou ela, levantando-se dolorosamente.

Abriu as mãos num gesto impotente, aproximando-se para olhá-lo melhor. O manto negro sacudia quando ela tremia. Lançou um olhar temeroso ao redor, obrigando-me a ficar ainda mais encolhido no canto sombrio. Então, baixou a voz:

— Muito bem, já falamos bastante do passado. Viva com Cathy, mas aceitem-me em suas vidas. Deixem-me ficar com Bart como se fosse meu próprio filho. Vocês têm Jory e aquela garotinha que adotaram. Deixem-me levar Bart e ir-me embora para tão longe que vocês nunca mais me verão ou ouvirão falar de mim. Juro que jamais revelarei a alguém a verdade sobre Cathy e você. Farei o possível para proteger seu segredo, mas deixem-me ficar com Bart, por favor, por favor!

Caiu de joelhos e agarrou as mãos dele. Quando Papai se apressou em retirar as mãos, ela se agarrou ao seu paletó.

— Não me embarace mais, Mamãe — disse ele, pouco à vontade; percebi que estava comovido. — Cathy e eu não damos nossos filhos de presente. No momento, Bart não é nosso orgulho e prazer, mas nós o amamos, precisamos dele, e faremos o que for necessário para que recupere a saúde mental.

— Diga-me o que fazer e eu farei — suplicou ela, as lágrimas escorrendo pelo rosto, e, afinal, conseguiu agarrar as mãos evasivas de Papai, apertando-as de encontro ao seio. — Diga-me o que fazer, qualquer coisa menos partir daqui! Tenho necessidade de ver Bart, de observá-lo e admirá-lo fazer de conta. É maravilhosamente talentoso.

Começou a beijar as mãos que Papai tentava retirar, embora provavelmente não tentasse muito, pois ela conseguiu segurá-las apesar de sua debilidade física.

— Mamãe, por favor... — pediu ele, desviando o olhar antes de sentar-se e esconder o rosto.

— Bart precisa de mim, Christopher, mais do que qualquer de meus filhos jamais precisou. Ele também me ama... sei que ama. Senta no meu colo, eu o acalento e vejo uma expressão de contentamento em seu rosto. Ele é tão jovem, tão vulnerável, tão confuso diante de coisas que não consegue compreender. E eu posso ajudar. Sei que posso ajudá-lo. Algo dentro de mim diz que não estarei aqui durante muito mais tempo — sussurrou ela, em voz tão baixa que precisei fazer um esforço para escutar. — Deixem-me tê-lo até então... por favor... como um último presente à mãe que vocês tanto amavam... a mãe de sua juventude, Christopher... a mãe que tratou de você quando teve sarampo, catapora e todos aqueles resfriados por ficar muito tempo lá fora, brincando na neve. Lembra-se? Eu me lembro. Sem minhas lembranças dos bons tempos, eu jamais teria sobrevivido aos maus...

Ela o conquistava. Papai a fitava com olhos ternos.

— Você disse a pouco que seduzi seu pai e planejei deliberadamente magoar meu pai ao casar-me com ele. Está enganado. Amei seu pai desde o primeiro instante em que o vi. Não me seria possível evitar amá-lo, como não foi possível você evitar amar Cathy. Nada me resta do meu passado, Chris. Perdi tudo. John é o único que pertence ao meu passado — disse ela em voz muito baixa, como se tivesse medo. — É o único que restou dos tempos de Foxworth Hall.

— Então, ele deve saber quem sou! E quem é Bart!

Debruçando-se, ela esticou o braço para pousar a mão cheia de anéis no joelho dele; vi-o estremecer ao toque.

— Não sei o que John sabe. Ele pensa que todos os meus filhos fugiram e se perderam em algum lugar do mundo. Ao que me consta, não sabe que o primeiro sobrenome de Bart é Winslow... mas, por outro lado, é tão ladino e furtivo que bem pode saber de tudo.

Estremeceu e retirou a mão, como se soubesse que o toque ofendia Papai.

— Toda a terra ao redor daqui pertencia a meu pai. Portanto John pensa que é muito natural eu vir para cá e instalar-me numa propriedade que está há muitos anos com nossa família.

Papai sacudiu a cabeça.

— E você providenciou para que eu comprasse meu terreno abaixo do preço?

— Christopher, meu pai possuía terras em toda parte. Agora elas me pertencem. Mas eu trocaria tudo por ter Cathy e você de volta como minha família. Ninguém, exceto eu, sabe a respeito de você e Cathy. E eu nunca direi a ninguém quem vocês são. Prometo não envergonhá-los ou magoá-los; apenas, deixem-me ficar! Deixem-me ser sua mãe outra vez!

— Livre-se de John!

Primeiro, ela suspirou, depois baixou a cabeça.

— Gostaria de poder.

— O que quer dizer?

— Não é capaz de adivinhar? — perguntou ela, erguendo a cabeça grisalha para fitá-lo nos olhos.

— Chantagem?

— Sim. Ele também não tem parentes. Simula nada saber a respeito de Cathy e você, mas não posso ter certeza. Jurou ajudar-me a manter meu paradeiro em segredo, pois os repórteres estariam em meus calcanhares se descobrissem onde estou. Portanto, dou-lhe uma boa casa e bastante dinheiro, em troca de minha segurança.

— Bart não está em segurança. Jory viu John Amos segredando algo a ele. Creio que ele sabe quem nós somos.

— Mas não fará nada — afirmou ela. — Conversarei com ele, farei com que compreenda. Não falará... eu lhe pagarei bom dinheiro.

Papai se levantou para sair. Por um instante pousou levemente a mão na cabeça dela. Então, como se tivesse um sentimento de culpa, retirou-a depressa.

— Muito bem. Converse com John, ordene-lhe que deixe Bart em paz. Jory sabe que você é minha mãe... mas... bem, você sabe. Além disso, quem pode adivinhar quando Cathy decidirá mostrar-se amistosa e virá visitar nossa nova vizinha? Antes, ela estava ocupada com as aulas de balé. Agora, que tem mais tempo livre, precisará ter contato com as pessoas. Isso foi uma das coisas mais difíceis que ela precisou suportar quando jovem... permanecer trancada pelo que lhe pareceram séculos, tendo apenas a mãe e avó... Só serviu para aumentar a necessidade de contato humano.

Ela baixou novamente a cabeça.

— Eu sei. Pequei e me arrependo. Rezo para que o tempo volte atrás, mas sempre acordo para um novo dia solitário e só tenho Bart para me dar esperança.

Oh, puxa vida! Eles sabiam tanto antes de eu nascer!

— Preciso perguntar uma coisa — disse ela num leve sussurro. — Você a ama como um homem ama... uma esposa?

Ele se virou, de modo que ela só lhe podia ver as costas.

— Isso não é da sua conta.

— Mas eu compreenderia. Pergunto a Bart, mas ele não sabe a que me refiro. Contudo, disse-me que vocês dormem no mesmo quarto.

Furioso, ele a encarou e explodiu:

— E na mesma cama! Está satisfeita, agora?

Tornou a virar as costas e, desta vez, saiu.

Intrigante, malditamente intrigante. Por que Mamãe odiava a mãe de Papai? E por que Vovó perguntava a respeito de quartos e camas? Voltei correndo para casa. Não parei para relatar a conversa a John Amos. Mamãe estava à maldita barra, tentando levantar-se da horrível cadeira de rodas. Escondi-me e observei. Era esquisito vê-la desajeitada como eu. Apesar de desajeitada como eu, ela conseguiu colocar-se de pé e ficou imóvel, tremendo da cabeça aos pés. No espelho, seu rosto era pálido e o cabelo uma moldura de ouro. Ouro derretido, quente como o inferno, queimando como lava fervente.

— É você, Bart? — chamou ela. — Por que me olha tão esquisito? Não cairei, se é isso que está pensando. A cada dia me sinto melhor, mais forte. Venha sentar-se e conversar comigo. Conte-me aonde vai durante todo esse tempo que passo sem o ver. O que faz? Ensine-me sua brincadeira de faz-de-conta. Quando eu era de sua idade, também gostava de fazer de conta. Ora, eu costumava sonhar que era a prima ballerina mais famosa do mundo e fazia disso a coisa mais importante de minha vida. Agora, sei que nunca foi tão importante. Agora, sei que o mais importante é fazermos felizes as pessoas que amamos. Quero fazer você feliz, Bart...

Eu a odiava por ter "seduzido" meu verdadeiro pai, roubando-o de minha pobre e solitária avó, que era sua sogra. E, na ocasião, ela devia ser casada com o Dr. Paul Sheffield, que era irmão de Chris, mas não meu pai de verdade. Vejam só: tentando fazer as pazes comigo, depois de tanto negligenciar-me! Tarde demais! Tive vontade de correr e empurrá-la, derrubá-la. De ouvir seus ossos se partirem, todos eles. Era infiel para todos os maridos! Todavia, eu não podia dizer nada disso. Minhas pernas fraquejaram, moles como borracha, obrigando-me a escorregar para o chão enquanto todos os gritos silenciosos me ecoavam na cabeça. Mulher má, pecadora! Mais cedo ou mais tarde, fugiria com algum amante, como fizera a mãe de Malcolm. Como faziam todas as mães.

E por que minha avó não fora franca e me contara quem ela era? Por que mantinha segredo? Sabia que eu necessitava de uma avó de verdade? Até mesmo me mentira a respeito de quem era Papai! Só John Amos me dizia a verdade.

— Bart... o que há de errado?

Alarme no rosto dela. Devia mesmo ficar alarmado. Nunca, nunca me dissera senão mentiras. Eu não tinha em quem confiar, exceto John Amos. Durante todo o tempo em que andava arrastando os pés, parecendo velho e esquisito, ele era honesto e fazia o possível para consertar o mundo.

— Bart, o que é? Não quer me contar? À sua própria mãe?

Encarei-a. Vi naquela massa de cabelos uma armadilha dourada para levar os homens à ruína. Ela fazia todos os homens sofrerem. Culpa dela. Tudo culpa dela. Roubou meu verdadeiro pai de minha avó e o "seduziu".

— Bart, não se arraste pelo chão. Fique em pé e ande direito. Você não é um animal.

Joguei a cabeça para trás e uivei. Uivei toda a fúria e ódio que sentia. Não era justo que Deus me desse como mãe uma mulher assim. Não era justo, pois ele matara meu verdadeiro pai, queimado num incêndio. Eu precisava fazer alguma coisa. Tinha que corrigir a injustiça.

— Bart, por favor, diga-me o que há de errado.

Eu mal conseguia vê-la. Ela tentou afastar-se alguns passos da barra e suas mãos se estenderam para mim, como se fossem abraçar-me. Eu jamais permitiria que me tocasse outra vez. Nunca, nunca, nunca!

— Eu odeio você! — berrei, levantando-me de um salto, a fim de recuar. — Espero que nunca mais você volte a andar! Espero que caia e morra! Espero que esta casa pegue fogo e você morra queimada! E Cindy também!

Corri... corri, corri até que os flancos me doeram e minha mente ficou vazia. Caí na baia de Maçã, para descansar. Mantinha o diário de Malcolm escondido ali, debaixo do feno velho. Peguei-o para ler mais. Rapaz! Ele realmente detestava as mulheres, especialmente quando eram bonitas. Parecia nem notar as feias. Ergui a cabeça e fitei o espaço. Alícia. Belo nome... tentei imaginar: por que ele gostava mais de Alícia que de Olívia? Por que ela tinha apenas dezesseis anos quando se casou com o velho pai dele, que tinha cinqüenta e cinco? Alícia o esbofeteou quando ele tentou beijá-la. Talvez Malcolm não soubesse beijar tão bem quanto o pai.

Quanto mais eu lia, mais aprendia como Malcolm obtinha sucesso em tudo que fazia, exceto em fazer que as mulheres o amassem. Isso me provava que era melhor manter-me afastado das mulheres, pois eu era muito semelhante a Malcolm. Eu lia e relia o diário, de modo a poder tornar-me todo-poderoso, como ele.

Nomes começados com C. Por que as mulheres gostavam tanto de nomes começados por C? Catherine, Corrine, Carrie e Cindy; o mundo estava cheio de nomes começados por C. Eu gostaria de gostar de minha avó como antes. Agora que tinha certeza de que ela era mesmo minha avó, não adiantava. Deveria ter-me contado antes. Não passava de outra mulher mentirosa, sorrateira, ardilosa. Exatamente como John Amos me havia prevenido. Eu sentia levemente o cheiro de Maçã. Meus ouvidos o escutavam mastigando a comida; senti o focinho frio farejar minha mão e chorei. Chorei tanto que desejei morrer e juntar-me a ele. Contudo, Maçã devia ter sentido mais falta de mim. Ele me obrigara a agir daquela forma. Devia ter sofrido quanto eu sofri e não sofrera. Era meu, mas permitira que vovó o alimentasse e lhe desse de beber, portanto, a culpa fora dele. E Trevo também estava morto. Estrangulado e escondido no carvalho oco.

Puxa! Eu era mau. Pensar em minha maldade causava-me sono. Sonhei com Maçã, que me amava. Quando acordei já estava quase escuro. John Amos sorria para mim, com ar zombeteiro.

— Olá, Bart. Sente-se solitário na baia de Maçã?

De pé junto a mim, como uma torre, John Amos não notou o feno que caíra do depósito, em cima, e se prendera em seu bigode, dando-lhe uma aparência repelente.

— John Amos, como Malcolm conseguiu ganhar tanto dinheiro? — perguntei, só para ver se o feno lhe cairia do bigode quando ele falasse.

— Sendo mais esperto que aqueles que o deteriam.

— Deteriam por quê?

O feno não caíra.

— Impediriam que ele conseguisse o que desejava.

— O que desejava ele?

— Tudo. Desejava tudo o que não lhe pertencia e, para desejar e conseguir tudo que pertence aos outros, um homem tem que ser impiedoso e decidido.

— O que é impiedoso?

— É fazer o que for preciso para conseguir o que deseja.

— Fazer qualquer coisa?

— Qualquer coisa — repetiu ele, curvando-se com esforço para fitar-me nos olhos. — E não hesitar em pisar naqueles que se intrometam no caminho, mesmo que sejam membros da família. Porque eles fariam o mesmo se você estivesse no caminho deles — acrescentou com um leve sorriso maldoso. — Você sabe, naturalmente, que o médico que está dissecando pouco a pouco sua  personalidade, mais cedo ou mais tarde o trancará num hospital para loucos. É isso que seus pais estão fazendo: preparando-se para removerem de suas vidas um garotinho que se constitui num problema grave demais.

Lágrimas de bebê me encheram os olhos. John Amos fez uma carranca.

— Não demonstre fraqueza, com lágrimas que só ficam bem numa mulher. Seja duro, como era seu bisavô Malcolm.

Fez uma pausa para olhá-lo de cima a baixo.

— Sim, você realmente herdou muitos dos genes dele. Algum dia, se continuar assim, será tão poderoso quanto Malcolm.

— Onde esteve, Bart? — perguntou rispidamente Emma, que me olhava todo o tempo como se tivesse nojo de mim, mesmo quando eu estava limpo. — Nunca na vida vi um garoto capaz de ficar imundo tão depressa como você! Olhe sua camisa, calças, rosto e mãos! Imundos, é isso aí! O que deseja? Fazer poças de lama e chafurdar nelas?

Não respondi. Segui pelo corredor, na direção do banheiro. Mamãe ergueu os olhos da mesa de trabalho, em seu quarto.

— Bart, eu estava imaginando onde você estaria. Desapareceu há horas.

Era da minha conta, não dela.

— Bart... responda-me.

— Estava lá fora.

— Sei disso. Lá fora, onde?

— Perto do muro.

— O que fazia lá?

— Cavava.

— Cavava à procura de que?

— Minhocas.

— Para que precisa de minhocas?

— Vou pescar.

Ela suspirou.

— É tarde demais para pescar e você sabe que não quero que saia por aí desacompanhado. Peça a seu pai que o leve para pescar no sábado.

— Ele não vai.

— Como pode ter tanta certeza?

— Ele nunca tem tempo.

— Arranjará tempo.

— Não, não arranjará. Nunca arranjou, nunca arranjará.

Ela suspirou outra vez.

— Bart, procure ser compreensivo. Seu pai é médico e tem muitos clientes doentes. Você não desejaria que os pacientes dele ficassem sem atenção, não é?

Não me importava. Preferia ir pescar. De todo modo, existia gente demais no mundo... especialmente mulheres. Corri para esconder o rosto no colo dela.

— Mamãe, por favor, fique boa depressa. VOCÊ me levará para pescar! Agora, que não precisa dançar, pode fazer as coisas que Papai nunca tem tempo de fazer comigo. Pode passar o tempo todo comigo, como costumava passar dançando com Jory. Mamãe, Mamãe, estou arrependido do que lhe disse — solucei. — Eu não odeio você! Não quero que caia e morra. Apenas me sinto malvado, às vezes, e não consigo evitar. Mamãe, por favor, não me deteste pelo que eu disse!

As mãos dela eram macias e reconfortantes em meu cabelo, tentando alisá-lo e colocá-lo no lugar. Escovas de cabelo e laquê nunca davam resultado. Como as mãos dela poderiam dar? Enterrei o rosto mais fundo em seu colo, pensando em como John Amos me censuraria se visse aquilo, embora eu já lhe tivesse contado o que dissera a ela. John Amos sorrira, muito satisfeito por saber que eu me comportava e falava como Malcolm.

— Você não devia ter agido assim, Bart — dissera ele, procurando confundir-me. — Tem que ser esperto, deixar que ela pense estar conseguindo o que deseja. Se permitir que ela perceba seu objetivo, dar-lhe-á oportunidade de encontrar meios para derrotá-lo. E precisamos salvá-la do Demônio, não é mesmo?

Ergui a cabeça para fitar o rosto bonito de minha mãe, fazendo as lágrimas me escorrerem pelo rosto por causa da mentira personificada que ela era. Casara-se três vezes, dissera-me John Amos. Eu realmente não me incomodava em saber se ela era boa ou má, desde que a tivesse toda para mim. Eu lhe ensinaria a afastar-se de todos os homens, menos de mim. Para vencer, precisava jogar minhas cartas com exatidão e usar os trunfos um a um, como John Amos me dissera. Iludi-la, iludir Papai, fazê-los pensar que eu não estava louco. Mas confundia-me. Eu não era louco; apenas fingia ser Malcolm.

— O que está pensando, Bart? — indagou ela, ainda alisando-me o cabelo.

— Não tenho companheiros de brincadeiras. Só os que eu invento. Não tenho nada, exceto genes ruins por causa do cruzamento consangüíneo. E, quanto ao meu meio-ambiente, bem... também não é bom. Você e Papai não merecem filhos. Só merecem o inferno que criaram para vocês mesmos!

Deixei-a atordoada. Satisfeito por fazê-la infeliz, como ela sempre me fazia. Contudo, por que a felicidade não chegava para me fazer rir? Por que corri ao meu quarto, atirei-me na cama e chorei? Então, lembrei-me da única pessoa que não precisava de ninguém: Malcolm. Ele sabia que era forte. Malcolm jamais hesitava em tomar decisões, mesmo erradas, pois sabia como torcê-las e torná-las certas. Portanto, amarrei a cara, empertiguei os ombros e saí arrastando os pés pelo corredor, querendo o que Malcolm queria. Vi Jory dançando com Melodie e entrei no quarto de Mamãe para contar.

— Pare o que está fazendo! — berrei. — Jory e Melodie estão pecando! Beijando-se... fazendo um bebê!

Os dedos ágeis pararam acima do teclado da máquina de escrever. Mamãe sorriu.

— Bart, é preciso mais que abraços e beijos para fazer um bebê. Jory é um cavalheiro e não se aproveitará de uma moça inocente, que é bastante decente e esperta para lhe dizer quando parar.

Ela não se importava. Só queria saber daquele maldito livro que estava escrevendo. Agora, eu não tinha maior oportunidade com ela do que no tempo em que era bailarina. Sempre, sempre ela encontrava algo melhor para fazer do que brincar comigo. Cerrei os punhos e esmurrei a porta. Chegaria a ocasião em que eu seria o patrão e ela me escutaria. Saberia com quem era melhor ela brincar. Fora melhor mãe quando dava aulas de balé. Agora, só fazia escrever, ESCREVER! Montanhas e montanhas de papel. Mais uma vez, ela parou de me dar atenção e recarregou a máquina de escrever como se fosse uma espingarda para matar o mundo. Nem mesmo notou quando apanhei uma caixa cheia de laudas datilografadas que ela deixara de lado ao começar a encher outra.

John Amos estaria interessado em saber o que ela escrevia. Todavia, antes que ele lesse uma só palavra, eu leria primeiro. Mesmo que precisasse utilizar um dicionário a cada minuto, lutando para entender as palavras mais complicadas que ela empregara. Apropriado... eu sabia o que significava aquilo. Ou achava que sabia.

— Boa noite, Mamãe.

Ela nem me escutou. Continuou a escrever como se eu nem estivesse ali. Ninguém ignorava Malcolm, nunca. Quando ele falava, todos corriam para fazer-lhe a vontade. Eu me transformaria em Malcolm.

Uma semana depois, eu espionava Mamãe e Jory. Estavam diante do comprido espelho no "quarto de recreação" e Jory ajudava Mamãe a usar a perna machucada.

— Agora, nem pense em cair. Estou logo atrás, para ampará-la se o joelho ceder. Vamos com calma, Mamãe, e logo você estará andando perfeitamente.

Ela não andou perfeitamente. Parecia sentir dor a cada passo. Jory a segurava pela cintura, para evitar que vacilasse. E, de algum modo, ela conseguiu chegar à extremidade da barra sem cair. Esgotada, esperou que Jory empurrasse a cadeira de rodas até lá, a fim de poder sentar-se outra vez. Jory ajustou os descansos para os pés, enquanto ela mantinha as pernas levantadas.

— Você está cada dia mais forte, Mamãe.

— Mas demora tanto.

— Você fica sentada tempo demais para escrever. Lembre-se: o médico disse que precisa levantar-se com mais freqüência, passar menos tempo sentada...

Ela meneou a cabeça, parecendo exausta.

— De quem foi aquele chamado interurbano? Por que não quiseram falar comigo?

Com o rosto se abrindo num sorriso, Jory explicou:

— Era minha avó Marisha. Escrevi-lhe contando a respeito de sua queda e agora ela vem para o Oeste, a fim de substituir você na escola. Não é ótimo, Mamãe?

Ela não pareceu nem um pouco satisfeita. Quanto a mim, detestava aquela puta velha!

— Você devia ter-me contado antes, Jory.

— Mas, Mamãe, ela queria fazer-lhe uma surpresa. Eu nem ia contar hoje, mas não é muito cortês as pessoas surgirem na casa da gente de uma hora para outra, sem aviso prévio. Eu sabia que você ia querer aprontar-se, ficar bonita, arrumar a casa...

Ela o olhou de modo engraçado.

— Em outras palavras: não estou bonita, agora, e minha casa é uma bagunça?

Jory sorriu com todo aquele encanto que eu detestava.

— Mamãe, você sabe que sempre é bonita, embora esteja magra e pálida demais. Precisa comer melhor e sair um pouco mais ao ar livre, todos os dias. Afinal, os grandes romances não são escritos em apenas poucas semanas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, segui Jory até o quintal e fui para meu esconderijo predileto, a fim de espionar Mamãe e ele se revezarem em empurrar a detestável Cindy no balanço para bebês. Ninguém me deixava empurrar Cindy. Ninguém confiava em mim. O psiquiatra não conseguia resultados; portanto, por que todo mundo não desistia e me deixava em paz?

— Jory, é um tormento ouvir sua música de balé e não poder dançar para expressar todas as minhas emoções. Agora, quando escuto o início de uma overture, fico tensa, remoída por dentro. Anseio por dançar e quanto mais anseio, mais tenho necessidade de escrever. A escrita me salva, mas parece que Bart se ressente contra ela tanto quanto se ressentia contra a minha dança. Tenho a impressão de que jamais terei a capacidade de agradar meu filho mais moço.

— Ora bolas, Mamãe! — disse Jory, com os olhos azul-escuro também refletindo tristeza e preocupação. — Ele é apenas um garotinho que não sabe o que quer. Sei que algo esquisito se passa em sua mente.

Não era esquisito. Esquisitos eram eles, pensando que balé e estúpidos contos de fada eram importantes, quando qualquer pessoa sensata sabia que o dinheiro era rei, rainha, Deus onipotente.

— Jory, dou-me ao Bart o máximo possível. Tento mostrar-lhe afeto e ele se retrai. Depois foge de mim, ou corre para mim e coloca a cabeça em meu colo para chorar. O psiquiatra diz que ele se debate entre me amar e me odiar. E, confidencialmente, vou-lhe dizer uma coisa: o comportamento de Bart não está contribuindo para que eu me recobre do acidente.

Afastei-me. Já escutara o bastante. Era uma boa hora para ir furtivamente ao quarto dela e roubar mais algumas páginas do livro. Enfiadas na minha gaveta, estavam as que John Amos lera e devolvera. Portanto, recoloquei-as no lugar e retirei uma nova remessa. Sentei-me em minha pequena caverna verde cavada na sebe, a fim de ler o que Mamãe escrevera. A estúpida Cindy ria e soltava gritinhos, enquanto seus dois escravos adoradores a empurravam no balanço. Rapaz, se eu tivesse uma oportunidade de empurrá-la! Empurraria com tanta força que ela voaria por cima do muro branco e iria cair na piscina da propriedade vizinha. A piscina que estava sempre vazia...

Ler o livro de Mamãe era deveras interessante. "O Caminho da Fortuna", era o título de um dos capítulos. Aquela garota era realmente a minha mãe? Ela, os dois irmãos e uma irmã seriam realmente trancados num quarto? Li até o final do dia, quando o nevoeiro chegou para me envolver. Levantei-me e fui para casa, pensando no título de outro capítulo do livro de Mamãe: "O Sótão". Que lugar maravilhoso para esconder coisas. Olhei para Mamãe, que beijava os lábios de Papai, brincando com ele, indagando a respeito das lindas enfermeiras e querendo saber se ele já arranjara alguém para substituí-la.

— Uma bela loura, com uns vinte anos de idade?

Ele pareceu ofendido.

— Eu gostaria que não transformasse minha devoção por você num motivo de pilhéria, Cathy. Não me provoque com comentários desse tipo. Dou-lhe tudo que posso por que a amo com uma paixão que reconheço ser idiota.

— Idiota? — repetiu ela.

— Sim, é idiota, porque você não corresponde tão apaixonadamente quanto eu! Preciso de você, Cathy. Não permita que escrever esse livro se interponha entre nós.

— Não compreendo.

— Você compreende! Nosso passado está revivendo. Você o está vivendo outra vez enquanto escreve. Dê uma espiada e veja seu rosto, observe as lágrimas que escorrem e pingam no papel. Escuto você rir e repetir em voz alta, palavras que foram ditas por Cory e Carrie. Você não está apenas escrevendo, Cathy... está revivendo as situações.

Ela baixou a cabeça; os cabelos soltos caíram, ocultando-lhe o rosto.

— Sim, o que você diz é verdade. Sentada à mesa de trabalho, vivo tudo aquilo novamente. Revejo a escuridão do sótão, o imenso espaço empoeirado; escuto o silêncio mais aterrorizador que o trovão. Então, a solidão que tão bem conheci vem pesar-me nos ombros, de modo que ergo a cabeça e me sobressalto ao ver onde estou, espantada de não ver as janelas fechadas com pesadas cortinas e imaginando quando a avó entrará e nos pegará com as janelas abertas. Às vezes, assusto-me ao levantar os olhos e ver Bart de pé junto à porta, olhando fixamente para mim. A princípio, julgo que seja Cory; depois, não sei como explicar os cabelos escuros e os olhos castanhos. Olho para Cindy e acho que ela devia ser mais crescida, da mesma idade que o Cory de cabelos escuros. Então fico confusa, não sabendo distinguir o passado do presente.

— Cathy — disse ele, em tom preocupado. — Tem que desistir desse livro.

“Sim, sim, Papai... obrigue-a a desistir!”

Ela soluçou ao deixar-se cair nos braços dele, que a estreitou com força contra o peito, murmurando-lhe aos ouvidos doces palavras de amor que eu não consegui escutar. Balançavam-se para a frente e para trás, como verdadeiros amantes pecadores. Pareciam com os casais que eu às vezes espionava, os que "transavam" na alameda dos namorados, que não ficava distante da mansão de minha avó.

— Deixe o livro de lado, espere que as crianças cresçam e se casem em segurança...

— Não posso! — até mesmo eu consegui perceber a agonia na voz dela; gostaria de fazer aquilo, se pudesse. — A história está em minha cabeça, gritando para sair, para revelar a todos como certas mães são capazes de agir. Alguma intuição sábia me diz que quando eu escrever tudo e vender os direitos autorais a um editor, transformando a história num livro que todos possam ler, só então ficarei livre de todo o ódio que sinto por Mamãe!

Papai perdeu a fala. Só pôde continuar a abraçá-la, balançando; seus olhos azuis, que fitavam o espaço por cima da cabeça loura apoiada em seu peito, pareciam atormentados. Retirei-me às escondidas e fui brincar sozinho no jardim. A velha avó de Jory ia chegar. Eu nunca mais queria vê-la. Mamãe também não gostava dela; eu podia perceber isso na maneira como minha mãe ficava tensa e cautelosa quando a velha estava perto, como se temesse que a língua ferina a traísse.

— Bart, meu querido — chamou baixinho minha própria avó, do outro lado do muro. — Passei o dia inteiro esperando que você viesse. Quando você não vem fico preocupada e, depois, infeliz. Querido, não fique aí sentado, sozinho e amuado. Lembre-se de que estou aqui, disposta a fazer tudo para que você seja feliz.

Corri. O mais depressa que me permitiram as pernas. Trepei na árvore e vovó tinha uma escada à minha espera, para que eu pudesse chegar ao solo em segurança. Era a mesma escada que ela usava para nos espionar.

— Vou deixar a escada aqui, para seu uso — sussurrou ela, abraçando-me e cobrindo-me o rosto de beijos.

Por sorte minha, retirou antes aquele véu seco.

— Não quero que você caia e se machuque. Eu o amo muito, Bart. Olho para você e penso no quanto seu pai se orgulharia. Oh, se ele ao menos pudesse ver o filho! Seu filho belo e brilhante!

Belo? Brilhante? Puxa... eu não sabia que era nada disso. Era gostoso alguém me chamar de maravilhoso. Ela me fazia acreditar que era tão bonito quanto Jory, e tão talentoso, também. Isso era uma avó. O tipo que eu sempre desejara. Uma avó que me amava; só eu, mais ninguém. Talvez John Amos estivesse enganado a respeito dela, afinal. Tornei a sentar-me em seu colo e permitir que ela me enfiasse na boca colheradas de sorvete. Deu-me um docinho e uma fatia de bolo de chocolate. Então, segurou o copo de leite para que eu bebesse. Com o estômago cheio, aconcheguei-me mais confortavelmente em seu colo e descansei a cabeça na maciez de seus seios volumosos, que cheiravam a alfazema.

— Corrine costumava usar perfume de alfazema — murmurei sonolento, com o polegar na boca. — Cante para mim uma cantiga de ninar... Nunca ninguém cantou para me ninar, como Mamãe canta para Cindy...

 "Dorme, neném..."

Engraçado. Enquanto ela cantava baixinho, tive a impressão de que tinha apenas dois anos de idade e há muito tempo, sentara-me exatamente assim, no colo de minha mãe, e a escutara cantar aquela mesma cantiga.

— Acorde, querido — disse ela, fazendo-me cócegas no rosto com a orla da manga. — Hora de voltar para casa, agora. Seus pais devem estar preocupados e já sofreram bastante para se angustiarem ainda mais com o seu paradeiro.

Oh! Lá no canto, John Amos a escutara falar. Estava evidente em seus olhos desbotados, que brilhavam ameaçadoramente. Ele não gostava de minha avó, de meus pais, de Jory e de Cindy. Não gostava de ninguém, exceto de mim e de Malcolm Foxworth.

— Vovó — murmurei, escondendo o rosto para que ele não pudesse ver o movimento de meus lábios. — Não deixe John Amos ouvir você dizer que tem pena de meus pais. Ontem, ele me disse que eles não merecem compaixão.

Sentia-a estremecer, tentando não o deixar perceber que tinha conhecimento de sua presença.

— O que quer dizer, exatamente, compaixão?

Suspirando, ela me abraçou com mais força.

— É a emoção que sentimos quando compreendemos o sofrimento dos outros. Quando queremos ajudar, mas nada podemos fazer.

— Então, para que serve a compaixão?

— Não serve para muita coisa, em termos concretos — disse ela, com olhar tristonho. — Seu único bem é permitir sabermos que ainda somos suficientemente humanos para senti-la. O melhor tipo de compaixão impulsiona a pessoa a agir para solucionar problemas.

Quando me esgueirei para as sombras da noite, John Amos sussurrou:

— O Senhor ajuda quem se ajuda a si mesmo. Lembre-se disso, Bart!

Com ar solene, devolveu-me as laudas datilografadas por Mamãe, que eu lhe emprestara.

— Recoloque-as exatamente onde as encontrou. Não as suje, nem amarrote. E quando ela escrever mais, traga para mim e, então, estará capacitado para solucionar todos os seus problemas. O livro dela lhe ensinará de que maneira. Será que você não compreende? É para isso que ela está escrevendo.

 

DESDE EVA

Ela ia chegar, vindo de Greenglenna, na Carolina do Sul, onde as sepulturas brotavam como mato. Eu podia esperar deparar-me, a qualquer momento, com sua cara feia e malvada. Minha própria avó era dez mil vezes melhor. Ultimamente, retirava vez por outra o véu, deixando o rosto à mostra. Usava um pouco de maquilagem para me agradar, e agradava. Às vezes, até mesmo usava um vestido bonito, mas nunca, jamais, permitia que John Amos a visse com qualquer outra roupa senão aquele manto negro e o véu que lhe ocultava o rosto. Só se fazia bonita para mim, exclusivamente.

— Bart, por favor, não passe muito tempo com John.

Ele me prevenira muitas vezes de que ela não gostaria.

— Não, madame. John Amos e eu não nos damos bem.

— Fico satisfeita. Ele é um homem malvado, Bart: frio, cruel e desalmado.

— Sim, madame. Não gosta muito de mulheres.

— Ele lhe disse isso?

— Sim. Disse-me que se sente solitário. Que a senhora o trata como lixo e recusa-se a falar com ele durante dias a fio.

— Afaste-se de John. Evite-o ao máximo possível, mas continue a vir visitar-me. Agora, você é tudo que tenho.

Deu palmadinhas na almofada do sofá, convidando-me a sentar ao seu lado. A essa altura, eu já sabia que ela usava poltronas confortáveis sempre que John Amos ia à cidade.

— O que faz ele em São Francisco? — indaguei.

John Amos ia freqüentemente à cidade. Franzindo a testa, ela me puxou para seus braços, estreitando-me contra a seda macia do vestido cor-de-rosa.

— John é velho, mas ainda tem muitos apetites que precisam ser satisfeitos.

— O que ele gosta de comer? — perguntei, curioso a respeito de um velho que usava dentaduras postiças e tinha grande dificuldade para mastigar até mesmo galinha, quanto mais um bife. Sopas, geléias, pão molhado em leite, eis o que John Amos costumava comer.

Ela deu uma risadinha e beijou-me o topo da cabeça.

— Como vai sua mãe? Já está andando bem, agora?

Queria mudar de assunto. Preferia não me dizer o que John Amos gostava de comer. Afastei-me.

— Ela está melhorando aos pouquinhos; pelo menos, é o que diz a meu pai. Mas não está tão bem assim. Às vezes, quando ele não está em casa, ela usa uma bengala, mas não quer que Papai saiba.

— Por que não?

— Não sei. Tudo que ela quer fazer agora é brincar com Cindy, ou escrever. Não faz outra coisa, juro! Para ela, escrever livros é tão excitante quanto dançar... às vezes, ela fica febril e parece aborrecida...

— Oh! — murmurou debilmente minha avó. — Eu esperava que ela desistisse.

Eu também. Mas não parecia provável.

— A avó de Jory chegará em breve, muito em breve. Acho que sou capaz de fugir se ela vier morar conosco.

Ela tornou a dizer "Oh!", como se as surpresas lhe roubassem a língua.

— Tudo bem, Vovó — declarei. — Não gosto dela como gosto de você.

Voltei para casa na hora do almoço, empanturrado de sorvete e bolo. (Na verdade, já estava começando a detestar doces.) Mamãe estava à barra, fazendo exercícios diante do comprido espelho; tive que tomar cuidado para que ela não me visse quando me esgueirei para trás de uma cadeira. Acho que éramos a única família que tinha uma sala de recreação com uma barra de ginástica presa a um espelho de três metros.

— Bart, foi você quem se escondeu atrás da cadeira?

— Não, Mamãe, foi Henry Lee Jones...

— É mesmo. Faz algum tempo que ando à procura de Henry Lee. Alegro-me por você ter sido encontrado, afinal, depois da esquina, no mato... sempre procurando por Henry Lee.

Fui obrigado a soltar uma risadinha. Era a brincadeira que costumávamos fazer quando eu era pequeno, muito pequeno, de verdade.

— Mamãe, pode me levar hoje para pescar?

— Sinto muito. Já tenho o dia inteiro planejado. Talvez amanhã.

Amanhã. Sempre amanhã.

Escondi-me num canto escuro, encolhendo-me tanto que tive a impressão de que ninguém conseguiria ver-me. Às vezes, quando seguia Mamãe em sua cadeira, andava nas pontas dos pés com as costas encurvadas, assumindo a postura que John Amos dizia que Malcolm passara a ter quando velho, quando atingira o ponto máximo de seu poder. Eu fitava Mamãe, de manhã, de tarde, de noite, sempre tentando descobrir se ela era mesmo tão má quanto afirmava John Amos.

— Bart — Jory sempre conseguia encontrar-me, por melhor que eu me escondesse. — O que está fazendo, agora? — quis saber ele. — Costumávamos divertir-nos juntos. Você conversava comigo. Agora não fala com ninguém.

Falava. Com minha avó, com John Amos. Dei um sorriso retorcido, franzindo os lábios como John Amos costumava fazer, e voltei-me para observar Mamãe, que agora andava tão desajeitadamente quanto eu. Jory se afastou, deixando-me para divertir-me sozinho, coisa que já não sabia mais fazer, exceto quando representava o papel de Malcolm. Seria Mamãe realmente tão pecadora? Como poderia eu conversar com Jory como antes, se ele não acreditava que Mamãe nos mentia a respeito da verdadeira identidade de meu pai? Jory ainda pensava que fosse o Dr. Paul, mas não era... não era.

Mais tarde, durante o jantar, enquanto Mamãe e Papai trocavam olhares e comentários tolos que os faziam rir, e Jory também, eu olhava furiosamente para a toalha amarela. Por que Papai queria que Mamãe usasse uma toalha amarela pelo menos uma vez por semana? Por que vivia dizendo que ela precisava aprender a perdoar e esquecer? Então Jory disse:

— Mamãe, Melodie e eu marcamos encontro para esta noite. Vou levá-la a um cinema e, depois, a um restaurante onde não servem bebidas alcoólicas. Será correto eu lhe dar um beijo de boa-noite?

— Uma pergunta deveras importante — comentou ela, rindo, enquanto eu permanecia amuado. — Sim, dê-lhe um beijo de boa-noite e diga-lhe o quanto apreciou o programa... e nada mais.

— Sim, Mamãe — disse ele em tom zombeteiro, rindo. — Já sei de cor sua lição. Melodie é uma boa moça, delicada e inocente, que se ofenderá se eu tentar aproveitar-me dela; portanto, vou ofendê-la por não tentar aproveitar-me.

Ela fez uma careta para Jory, que se limitou a sorrir.

— Como vai o livro? — perguntou meu irmão, antes de voltar ao seu quarto para ficar sonhando diante do retrato de Melodie que ficava sobre a mesinha de cabeceira.

Pergunta estúpida. Mamãe já lhe dissera que escrever ocupava cada momento que ela passava acordada. Às vezes, acordava durante a noite com novas idéias. Papai reclamava que ela o mantinha acordado com a luz acesa. Quanto a mim, mal podia esperar para ler o que aconteceria em seguida. Às vezes, pensava que ela estava inventando aquilo tudo, que a história não se passara com ela. Estava fazendo de conta, como eu.

— Jory — quis saber ela — você anda mexendo no original? Não consigo encontrar alguns capítulos.

— Ora, Mamãe, você sabe que eu não leria o que escreve sem ter antes sua permissão. Você me dá permissão?

Ela riu.

— Algum dia, quando você for adulto, insistirei para que leia meu livro... ou livros. Está crescendo tanto que é bem capaz de ocupar dois volumes.

— Onde consegue tantas idéias?

Abaixando-se, ela pegou um velho caderno espiral.

— Deste caderno e da minha memória — respondeu, folheando rapidamente as páginas. — Reparou como minha letra era grande quando eu tinha doze anos? À medida que envelheci, a caligrafia se tornou mais regular e muito menor.

De repente, Jory arrancou-lhe das mãos o caderno espiral e correu para uma janela, onde conseguiu ler algumas linhas antes que ela pegasse o caderno de volta.

— Errou a ortografia de algumas palavras, Mamãe — provocou ele.

Eu odiava o relacionamento entre eles; eram mais como amigos que como mãe e filho. Eu detestava a maneira pela qual ela estava sempre escrevendo à mão, em papel pautado, antes de datilografar o texto. Detestava todo aquele lixo: lápis, canetas, borrachas e os livros novos que ela comprava para auxiliarem-na no projeto. Eu não tinha mais mãe; não tinha pai. Nunca tive um pai de verdade. Não tinha ninguém, nem mesmo um animal de estimação.

O verão envelhecia, como eu. Meus ossos se sentiam velhos e quebradiços, meu cérebro sábio e cínico. E eu pensava, como Malcolm escrevera em seu diário, que nada era tão bom quanto antes; nenhum brinquedo me dava o prazer que eu imaginava antes de possuí-lo. Até mesmo a mansão de minha avó já não parecia tão imensa quanto antes. Na baia de Maçã, que era meu lugar especial para ler o diário de Malcolm, deixei-me cair no feno e tentei ler as dez páginas diárias que John Amos estabelecera como meta. Ao começar a ler, mastiguei um talo de feno, encontrando o lugar assinalado com um dos pequenos marcadores de livro de couro de Mamãe.

“Lembro-me tão bem do dia em que fiz vinte e oito anos e voltei para casa, verificando que meu pai viúvo finalmente se casara outra vez. Atônito, olhei para a noiva, que posteriormente descobri ter apenas dezesseis anos. Compreendi imediatamente que uma moça tão jovem e bonita só se casara com ele por dinheiro.

Minha esposa, Olívia, nunca fora o que alguém pudesse chamar de bela, mas possuía alguns aspectos atraentes quando eu me casara com ela e seu pai era muito rico. De repente, verifiquei que depois de me dar dois filhos, ela não tinha mais o menor atrativo para mim. Parecia tão sinistra em comparação com Alicia, minha madrasta de dezesseis anos...”

Eu já lera antes aquelas baboseiras referentes ao amor. Diabo! Perdi a página. Mas adquirira o hábito de virar depressa as páginas, lendo um trecho aqui e outro ali, especialmente quando um assunto maçante como beijar entrava na história de Malcolm. Parecia-me tão esquisito: por mais que ele detestasse as mulheres, estava sempre querendo beijá-las. Agora, eis o ponto em que me encontrava:

“Alicia ia dar à luz seu primeiro filho, que eu esperava desesperadamente fosse uma menina. Mas não: tinha que ser outro filho, para competir comigo pela fortuna de meu pai. Lembro-me de ficar olhando para ela, e para o filho que segurava ao peito na grande cama de cisne. Odiei ambos.

Quando ela sorriu para mim, inocente, tão orgulhosa do filho, como se julgasse que eu acolheria tão bem como meu pai o fizera, declarei: “Minha cara madrasta, seu filho jamais viverá o bastante para herdar a fortuna de seu marido, pois estou vivo para evitar que isso aconteça”.

Então, ela me aborreceu tanto que quase lhe esbofeteei o rosto bonito e ladino. ‘Não quero o dinheiro de seu pai, Malcolm. Meu filho também não quererá. Meu filho ganhará seu próprio sustento, sem precisar herdar dinheiro que foi ganho por outros homens. Eu lhe ensinarei os verdadeiros valores na vida; os valores sobre os quais você nada sabe”.

De que estaria falando ela? O que eram valores, afinal? Preços de venda? Voltei mais uma vez minha atenção para o diário de Malcolm. Pulou quinze anos antes de tornar a escrever.

“Minha filha, Corrine, parecia-se cada vez mais com a mãe que me abandonara quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Vi-a mudar, transformando-se numa mulher; e eu fitava os jovens seios em flor que logo seduziriam algum homem. Uma vez ela me surpreendeu olhando e corou. Gostei disso, pelo menos, era recatada. “Corrine, prometa-me que nunca se casará e abandonará seu pai quando ele estiver velho e doente. Jure que nunca me deixará”. Ela ficou muito pálida, como se temesse que eu a mandasse de volta para o sótão se recusasse meu modesto pedido. Terá toda a minha fortuna, Corrine, se prometer, eu lhe legarei cada centavo, se você nunca me abandonar.

“Mas, Pai”, disse ela, inclinando a cabeça e parecendo infeliz, “quero me casar e ter filhos”. Jurou que me amava, mas pude ver em seus olhos que me abandonaria na primeira oportunidade. Eu tomaria providencias para que ela não tivesse rapazes ou homens na vida. Freqüentaria uma escola exclusivamente para moças, uma severa escola religiosa, que não permitiria namoros.”

Fechei o livro e voltei para casa. Na minha opinião, Malcolm nunca deveria ter-se casado com Olívia e tido filhos; por outro lado, pensando melhor, eu nunca teria conhecido minha avó. E, embora ela fosse mentirosa e me tivesse traído, eu ainda desejava voltar a amá-la e a confiar nela.

Outro dia eu estava no celeiro, lendo a respeito de Malcolm quando ele tinha cinqüenta anos. Agora, já não escrevia o diário com tanta regularidade.

“Existe algo pecaminoso ocorrendo entre meu meio-irmão mais moço e minha filha. Tenho feito o possível para pegá-los tocando-se ou olhando-se de modo significativo, mas são ambos muito espertos. Olívia afirma que meus temores são infundados, que Corrine seria incapaz de sentir alguma coisa por seu meio-tio, mas, na verdade, Olívia não passa de uma mulher, fiel ao seu maldoso sexo. Maldito seja o dia em que ela me convenceu a acolher aquele rapaz em nossa casa! Foi um erro; talvez tenha sido o mais grave erro de toda a minha vida.”

Portanto, até mesmo Malcolm cometia alguns erros, mas só com pessoas que pertencessem à sua família. Por que não admitia que seus filhos fossem músicos? Nem que sua filha se casasse? Se eu fosse Malcolm, ficaria satisfeito por me ver livre dela, da mesma forma que, dia após dias, eu desejava que Cindy desaparecesse. Joguei o diário de Malcolm no chão e o cobri de feno. Em seguida, encaminhei-me furiosamente à mansão, desejando que Malcolm escrevesse a respeito de poder e como consegui-lo, de dinheiro e como ganhá-lo, de influência e como exercê-la. Tudo que ele fazia era escrever a respeito do quanto seus dois filhos, sua esposa e sua filha o faziam infeliz, para não falar do jovem meio-irmão que gostava de Corrine.

— Olá, querido! — exclamou minha avó quando entrei, mancando, na sala. — Onde esteve? Como vai o joelho de sua mãe?

— Mal — respondi. — Os médicos dizem que Mamãe nunca mais voltará a dançar.

— Oh! — suspirou ela. — Que pena! Sinto muitíssimo!

— Estou contente por ela nunca mais dançar — asseverei. — Ela e Papai nem mesmo podem dançar valsa. E costumavam fazer isso com freqüência na sala de visitas que não querem que nós usemos.

Minha avó pareceu muito tristonha. Por que estava tão triste?

— Vovó, Mamãe não gosta de você.

— Deve cuidar melhor de sua gramática, Bart — disse ela, engasgada, enxugando as lágrimas. — Às vezes, você fala muito errado. A propósito, como pode dizer que sua mãe não gosta de mim, se ela nem sabe que estou aqui?

— Às vezes, você soa exatamente como ela.

— Estou muito triste por nunca mais poder vê-la dançando no palco. Ela era tão maravilhosamente leve e graciosa que parecia fazer parte da música. Sua mãe nasceu para ser bailarina, Bart. Sei que ela deve sentir-se perdida e vazia sem o balé.

— Não, nada disso! — repliquei depressa. — Mamãe arranjou aquela máquina de escrever e trabalha no livro o dia inteiro, e maior parte da noite, também. É tudo que ela precisa. Ela e Papai ficam deitados na cama durante horas e horas, especialmente quando chove, e conversam a respeito de uma imensa casa velha nas montanhas, e de uma avó velha e grandalhona que só usava roupas cinzentas. Fico escondido no armário, escutando, e acho que tudo não passa de uma idiota história de fadas.

Ela pareceu chocada.

— Você espiona seus pais? Não é muito bonito, Bart. Os adultos necessitam de privacidade; todo mundo precisa de privacidade.

Sorri, sentindo-me bem ao lhe dizer que espionava todo mundo, até mesmo ela, às vezes. Seus olhos azuis se arregalaram e ela me fitou por muito tempo, antes de sorrir.

— Está brincando comigo, não é? Tenho certeza de que seu pai lhe ensinou a não fazer isso, Bart. Se deseja que as pessoas gostem de você e o respeitem, precisa tratá-las como gosta de ser tratado. Gostaria que eu o espionasse?

— NÃO! — rugi em resposta.

Outro dia, mais uma viagem ao consultório daquele velho médico de cabelos grisalhos que me fazia deitar e fechar os olhos para que ele pudesse sentar-se atrás de mim e fazer perguntas idiotas.

— Hoje você é Bart Sheffield ou Malcolm?

Não respondi.

— Qual é o sobrenome de Malcolm?

Não era da conta dele.

— Como se sente, agora, a respeito de sua mãe, já que ela não pode mais dançar balé?

— Alegre.

Peguei-o de surpresa. Ocupou-se em fazer anotações, ficando tão excitado que sua cara estava vermelha quando abri os olhos e arrisquei uma espiada. Resolvi dar-lhe mais motivos para excitar-se:

— Eu gostaria que Jory caísse e fraturasse ambas as rótulas. Então eu poderia andar melhor que ele, correr mais depressa, fazer tudo melhor que ele. Então, quando eu entrar numa sala, todos olharão para mim, não para ele.

Ele esperou por mais. Quando fiquei calado, replicou suavemente:

— Compreendo, Bart. Teme que sua mãe e seu pai não gostem tanto de você quanto gostam de Jory.

A raiva me dominou.

— Sim, é verdade! Ela gosta mais dele! Mas não sei dançar. É a dança que a faz rir quando está com Jory e franzir a testa quando está comigo. Eu ia ser médico, quando crescesse, mas agora não quero mais. Porque meu verdadeiro pai não era médico, como eles me disseram. Era advogado.

— Como sabe disso? — indagou ele.

Não contei. Não era da conta dele. John Amos contara. Eu escutara vovó dizendo a Papai, também. Advogados eram espertos, espertos de verdade. Aquilo também me tornaria esperto. Bailarinos não tinham cérebro bom, mas apenas boas pernas.

— Há mais alguma coisa que você deseje contar-me, Bart?

— Sim! — respondi com aspereza, pulando do sofá e pegando o abridor de cartas. — Ontem à noite, a lua estava cheia. Olhei pela janela e a ouvi chamar-me. Tive vontade de uivar. Então, senti necessidade de provar sangue. Corri como um louco para o mato, subindo as montanhas. Então, da escuridão da noite surgiu uma mulher linda, com longos cabelos louros.

— E o que fez você? — indagou o médico, quando parei de falar.

— Eu a matei, depois a comi.

Ele fez mais anotações e eu peguei vários dos pirulitos que ele tinha no consultório para os clientes mais jovens. Depois peguei mais seis, refletindo que minha avó talvez quisesse ao menos um.

Voltando para casa, corri à baia de Maçã e folheei as páginas do diário de Malcolm que eu já lera. Precisava descobrir uma coisa e pulara as páginas cheias de baboseiras sobre o amor. Agora, queria saber o que o atraía para as mulheres que tanto desprezava.

“O outono chegara mais uma vez e todas as árvores tinham um colorido brilhante. Segui Alícia pelos bosques, enquanto ela cavalgava seu cavalo com admirável perícia. Fui obrigado a esporear meu cavalo para que galopasse e ganhasse terreno. Ela estava tão encantada com a beleza da estação que não pareceu escutar o barulho das patas de meu cavalo. Por um breve instante, perdi-a de vista quando ela desapareceu numa touceira. Foi então que desconfiei que talvez ela estivesse a caminho do lago onde eu nadava quando era criança. Um último mergulho antes que o verão se fosse e o inverno gelasse a água.”

Pirulitos com sabor de cereja eram os meus preferidos. Lambi, lambi até poder esticar a língua e vê-la vermelha como sangue. Era bom ler e comer coisas doces. Passei os olhos pelas revoltantes palavras melosas que enchiam página após página. Puxa! Malcolm deve ter começado a ganhar dinheiro e adquirir poder quando era muito mais velho.

“Exatamente como eu suspeitara, ela estava no lago, o corpo glorioso tão imaculado como eu imaginara que fosse. E pensar que meu pai se aproveitava de tudo aquilo, enquanto eu era obrigado a aturar o corpo frígido de uma mulher que só era capaz de submeter-se, jamais de gozar. Molhada e cintilante, ela saiu do lago para a margem gramada, onde as roupas a aguardavam. Fiquei sem fôlego ao vê-la à luz do sol. Seus maravilhosos cabelos tinham reflexos vermelhos e dourados, com sombras âmbar escuras, e os pêlos entre suas coxas eram crespos, molhados e escuros. Então, ela me avistou e prendeu a respiração. Eu nem percebera que saíra das sombras.”

Graças a Deus, ela o esbofeteou e mandou embora. Agora, agora, ele se transformava no Malcolm que eu conhecia: malvado, duro, impiedoso e rico.

“Você pagará por isto, Alícia. Tanto você como seu filho pagarão caro, muito caro. Ninguém me rejeita após me tentar e levar-me a acreditar que...”

Fechei o livro e bocejei.

 

MADAME M.

Chegou outra carta de minha avó Marisha, informando que ela já estava a caminho, a fim de substituir Mamãe nas aulas de balé.

“Assim, terei oportunidade de ver meu neto com mais freqüência e dar-lhe o benefício de minha experiência”.

Mamãe não estava muito feliz com a situação, pois ela e Madame M. não mantinham um relacionamento estreito ou caloroso, o que sempre me incomodara. Eu amava as duas e gostaria que se amassem.

Estávamos todos à espera de Madame M., todos quase mortos de fome porque ela já estava com uma hora de atraso. Telefonara dizendo que não queria que ninguém fosse buscá-la no aeroporto, pois era independente e não lhe agradava ser ajudada. Não obstante, Mamãe auxiliara Emma na preparação de uma refeição digna de um gourmet, que agora esfriava à espera da homenageada.

— Oh, Deus, aquela mulher sabe ter falta de consideração! — reclamou Papai, após consultar o relógio pela décima vez. — Se ela permitisse que eu fosse esperá-la no aeroporto, já estaria aqui a esta hora.

— É estranho — comentou Mamãe com um sorriso de mofa. — Ela sempre fez questão de absoluta pontualidade por parte dos alunos.

Finalmente, uma hora depois que Papai comeu sozinho e saiu às pressas para fazer a ronda dos doentes no hospital, Mamãe retirou-se para o quarto, a fim de trabalhar no livro até que minha avó chegasse.

— Bart — chamei eu. — Venha jogar alguma coisa comigo. Que tal uma partida de damas?

— Não! — gritou ele, mantendo-se em seu canto escuro, encolhido, os olhos negros e ameaçadores, quase sem piscar. — Quero que aquela velha caia do céu e morra.

— Isso é maldade, Bart. Por que sempre diz coisas tão detestáveis?

Ele se recusou a replicar, continuando a olhar-me fixamente. A campainha tocou. Levantei-me de um pulo e corri para abrir a porta. Lá estava minha avó, sorridente e parecendo um tanto descabelada. Tinha pelo menos setenta e quatro anos, isso eu sabia ao certo, velha, enrugada, grisalha. Às vezes, tinha o cabelo negro como piche; outras vezes os fios eram brancos perto do couro cabeludo. Com aquela faixa de cabelos brancos com cinco centímetros de altura, ela ficava parecendo, segundo Bart, um gambá listrado ou uma velha foca negra. Madame M. tinha cabelos tão lisos que Bart julgava que ela usasse algum óleo para mantê-los assim. Eu, porém, achei-a maravilhosa quando ela me abraçou com força, as lágrimas escorrendo pelas bochechas cobertas por espessa camada de carmim. Nem se dignou a lançar um olhar a Bart.

— Jory, Jory, como você está lindo! — disse ela; o coque de cabelos preso à nuca era tão grande que me deu a impressão de postiço.

— Posso chamá-la de Vovó quando não estivermos na escola de balé?

— Claro que sim — replicou ela, meneando a cabeça como um passarinho. — Mas só quando não houver ninguém por perto, entendeu?

— Ali está Bart — disse eu, lembrando-a de ser cortês, coisa que ela raramente era.

Madame M. não gostava de Bart e este não gostava dela. Fez um leve aceno de cabeça para ele e depois voltou a ignorá-lo como se ele não existisse.

— Estou muito feliz por dispor de alguns momentos a sós com você — declarou, tornando a abraçar-me.

Puxou-me para o sofá e sentamos lado a lado, enquanto Bart permanecia no canto mal iluminado.

— Vou-lhe contar uma coisa, Jory: quando você me escreveu para informar que não iria ao Leste neste verão, fiquei doente, doente de verdade. Naquele mesmo instante, resolvi que já estava farta daquele negócio de só ver meu neto uma vez por ano, de modo que venderia minha escola de balé e viria para cá, ajudar sua mãe. Naturalmente, eu sabia que ela não me queria aqui. Mas, e daí? Não posso suportar dois longos anos de saudades do meu neto. Meu único neto.

— O vôo para cá foi horrível — prosseguiu. — Turbulência durante a viagem inteira. Além disso, revistaram-me antes do embarque, como se eu fosse uma criminosa. Então tivemos que ficar sobrevoando o aeroporto, aguardando nossa vez de pousar. Fiquei enjoada a ponto de vomitar. Afinal, pouco antes de terminar o combustível do avião, pousamos; o pouso mais sacudido que já fiz: tive a impressão de que ia quebrar o pescoço. Meu Deus do céu! Você devia escutar o que aquele homem me pediu para alugar um carro! Já que vim para ficar, decidi ali mesmo comprar um. Não zero quilômetro, mas um belo carro antigo, que Julian teria adorado. Já lhe contei antes que seu pai gostava de consertar carros velhos, fazê-los funcionar novamente?

Claro que ela já me contara aquilo.

— Portanto, paguei àqueles ladrões o preço exorbitante de oitocentos dólares, entrei no meu carro vermelho e parti para cá, usando um mapa, enquanto o velho carro tossia pelo caminho. Senti-me tão feliz de estar vindo encontrar-me com você, meu adorado neto, o único herdeiro de George. Ora, foi exatamente igual à época em que seu pai era adolescente e corria para casa, tão orgulhoso de levar-me a passear em seu novo carro, construído com peças que ele conseguia apanhar na sucata da prefeitura.

Seus brilhantes olhos negros pareciam jovens e ele voltou a conquistar-me com sua afeição e elogios.

—... e, como acontece com as velhas em toda parte, você precisa compreender, uma vez que começa a pensar no passado, todos os tipos de lembranças me vêm à mente. Seu avô ficou tão feliz no dia em que Julian nasceu. Segurei seu pai no colo e fitei meu marido, que era muito bonito, como Julian, como você, e quase explodi com o orgulho de, na minha idade, ter o primeiro filho com tão pouca dificuldade. E seu pai era um bebê perfeito, maravilhoso desde que nasceu.

Desejei ter a ousadia de lhe perguntar que idade tinha quando meu pai nasceu, mas não me atrevi. De algum modo, porém, ela me leu a pergunta nos olhos.

— Minha idade não é de sua conta! — ralhou ela, debruçando-se, em seguida, para beijar-me mais uma vez. — Meu Deus! Você é ainda mais bonito que seu pai quando tinha a mesma idade e sempre julguei que isso fosse impossível. Eu sempre disse a Julian que ficaria mais bonito se tivesse um bronzeado de sol, mas ele faria qualquer coisa para desafiar-me. Qualquer coisa, inclusive manter-se com uma palidez pouco natural.

A tristeza toldou-lhe o olhar. Para minha surpresa, ela lançou um olhar a Bart, que escutava a conversa e tive outra surpresa: ele parecia interessado no assunto. Ela ainda usava o mesmo vestido negro que parecia rígido de velhice; sobre ele, um velho e surrado colete de pele de leopardo que, obviamente, já vira melhores dias.

— Ninguém conheceu realmente seu pai, Jory, assim como ninguém realmente o possuiu. Isto é, ninguém à exceção de sua mãe.

Suspirou e prosseguiu, como se precisasse dizer tudo antes que minha mãe aparecesse na sala:

— Portanto, resolvi conhecer o filho do meu Julian melhor do que o conheci. Resolvi, também, que você tem que me amar, porque nunca tive certeza de que Julian o fizesse. Sempre digo a mim mesma que o filho nascido da união de meu filho com sua mãe teria que ser o melhor bailarino do mundo, sem nenhum dos problemas psicológicos de Julian. Gosto muito, muito mesmo, de sua mãe, Jory, embora ela se recuse a acreditar nisso. Confesso que, às vezes, fui indelicada com ela. E Catherine tomou isso por meus sentimentos reais, mas eu só me zangava porque ela jamais aparentava apreciar verdadeiramente meu filho.

Nervoso com aquele tipo de conversa, afastei-me de minha avó. Minha primeira lealdade era para com minha mãe, não para com ela. Madame M. percebeu minha atitude, mas, mesmo assim, continuou:

— Sinto-me solitária, Jory; preciso estar perto de você, perto de sua mãe, também.

Como as sombras da noite, o remorso veio emprestar-lhe ao olhar uma expressão sombria, que lhe acrescentou anos de idade à fisionomia.

— A pior coisa da velhice é a solidão; sentir-se tão só, tão inútil, tão gasta.

— Oh, Vovó! — exclamei, abraçando-a. — Nunca mais precisará sentir-se solitária ou inútil. Você nos tem.

Abracei-a com mais força e tornei a beijá-la.

— Esta não é a casa mais linda? Pode morar aqui, conosco. Já lhe contei antes que a casa foi projetada por Mamãe?

Madame M. correu o olhar pela sala, demonstrando grande curiosidade.

— Sim, é um belo lar, muito semelhante à Catherine. Onde está ela?

— Em seu quarto, escrevendo.

— Escrevendo cartas?

Pareceu magoada, como se Mamãe devesse estar fazendo o papel de anfitriã e não se ocupando com trivialidades.

— Vovó, Mamãe está escrevendo um livro.

— Um livro? Bailarinas não sabem escrever livros!

Sorrindo, levantei-me de um salto e, por hábito, ensaiei alguns passos de aquecimento.

— Madame Vovó, os bailarinos são capazes de fazer tudo o que lhes der na cabeça.  Afinal, se somos capazes de suportar o tipo de dor que sofremos, o que temos a temer?

— Rejeições — replicou asperamente Madame M. — Os bailarinos possuem egos altos como arranha-céus. Bastará uma rejeição além da conta e Mamãe desmoronará.

Sorri, pensando que aquela era uma boa piada; Mamãe jamais desmoronaria, mesmo que o carteiro lhe trouxesse mil cartas de rejeição.

— Onde está seu pai? — indagou ela em seguida.

— Fazendo a ronda noturna dos pacientes no hospital. Pediu-me para apresentar suas desculpas. Queria estar aqui e dar-lhe as boas-vindas à nossa casa, mas você não apareceu na hora prevista.

Ela fungou, como se aquilo fosse, de algum modo, culpa de Papai.

— Bem — declarou, levantando-se e olhando para a sala com um ar mais crítico. — Creio que já é tempo de eu entrar e dizer alô a Catherine, embora ela certamente já deva ter escutado minha voz.

Certamente que teria; era uma voz bastante estridente.

— Mamãe fica muito absorvida, Vovó. Às vezes, não escuta uma palavra pronunciada a meio metro de distância.

Ela fungou e pigarreou. Então me acompanhou ao longo do corredor. Bati de leve à porta fechada do quarto de Mamãe e abri-a cautelosamente quando ela respondeu algo como... "Sim?"...

— Você tem companhia, Mamãe.

Por um segundo, vi o desânimo no olhar de Mamãe antes que Madame M. entrasse arrogantemente no quarto. Sem esperar convite para sentar-se, minha avó se deixou cair na espreguiçadeira forrada de veludo.

— Madame M.! — exclamou Mamãe. — Como é maravilhoso revê-la! Afinal, resolveu aparecer para visitar-nos, em vez do contrário!

Por que estava tão nervosa? Por que não parava de lançar olhares aos retratos na mesinha de cabeceira. Os mesmos velhos retratos de Papai e do Dr. Paul. Até mesmo meu verdadeiro pai estava lá, mas num pequeno porta-retratos oval, não num dos maiores, de prata.

Madame M. também olhou para a mesinha de cabeceira e franziu a testa.

— Tenho muitos retratos de Julian em molduras maravilhosas – explicou apressadamente Mamãe. — Mas Jory gosta de tê-los em seu quarto.

Madame M. tornou a fungar.

— Você está com boa aparência, Catherine.

— Sinto-me bem, obrigada. A senhora também me parece muito bem.

As mãos de Mamãe moviam-se nervosamente no colo e seus pés mantinham a cadeira giratória em constante movimento.

— E seu marido, como vai?

— Bem, muito bem. Está fazendo a ronda no hospital. Esperou, mas como a senhora não apareceu...

— Compreendo. Sinto muito o atraso, mas as pessoas deste estado são assaltantes. Tive que pagar oitocentos dólares por um monte de sucata, que vazou óleo durante todo o trajeto para cá.

Mamãe baixou a cabeça. Percebi que prendia o riso.

— O que mais a senhora esperava, por oitocentos dólares? — conseguiu, afinal, perguntar.

— Francamente, Catherine. Julian nunca pagou caro por qualquer um dos carros que possuiu. Você bem sabe — disse minha avó, cuja voz estridente assumiu um tom pensativo. — Por outro lado, ele sabia trabalhar com ferro-velho; eu não sei. Acho que permiti que o sentimento sobrepujasse meu bom senso. Deveria ter comprado um carro melhor, por mil dólares. Mas sou avarenta, também.

Em seguida, veio a indagação sobre o joelho de Mamãe. Estava curado? Dentro de quanto tempo ela voltaria a dançar?

— Está bom — disse Mamãe, um tanto irritada. (Detestava que indagassem a respeito do joelho). — Só percebo um pouco a dor quando chove.

— E como está Paul? Já faz tanto tempo que o vi pela última vez. Lembro-me de que fiquei tão zangada quando você se casou com ele, que desejei nunca mais voltar a vê-la. Até deixei de ensinar balé durante alguns anos.

Olhou mais uma vez para a fotografia de Papai.

— E seu irmão ainda mora com você?

O silêncio tornou o ar carregado. Mamãe estudou o retrato de meu padrasto Chris. A que irmão minha avó se referia? Mamãe não tinha mais irmãos. Por que Madame M. olhava o retrato de Papai, ao perguntar a respeito de Cory?

— Sim, sim, é claro — disse Mamãe, intrigando-me quanto ao significado da resposta. — Agora, conte-me tudo a respeito de Greenglenna e Clairmont. Quero saber notícias de todos. Como está Lorraine Du Val? Casou-se com quem? Ou foi para Nova Iorque?

— Ele nunca se casou, não é mesmo? — insistiu Vovó, com as pálpebras apertadas.

— Quem?

— Seu irmão.

— Não, ainda não se casou — respondeu Mamãe, irritando-se, novamente. Em seguida, sorriu: — Agora, Madame, tenho uma grande surpresa para a senhora. Temos uma filha, que se chama Cindy.

— Ah! — fungou Madame M. — Já sei a respeito de Cindy — declarou, com um estranho brilho no olhar. — Ainda assim, gostaria de ver e ouvir mais a respeito desse exemplo extraordinário de menininha. Jory me escreveu que talvez ela possua algum talento para a dança.

— Oh, possui, sim! Gostaria que a senhora a visse de malha cor-de-rosa, tentando imitar Jory ou eu... isto é, quando eu podia dançar.

— Seu marido deve estar bastante idoso, a esta altura — comentou Madame M. ignorando os retratos de Cindy que Mamãe tentava mostrar-lhe.

Minha irmã adotiva já estava dormindo.

— Jory lhe contou que estou escrevendo um livro? É realmente fascinante. Não acreditei que fosse, quando comecei, mas surpreendi-me deveras depois que ultrapassei a fase de transição e, agora, escrever é mais divertido que trabalhar. Tão satisfatório quanto dançar.

Sorriu, movimentando as mãos, retirando um fiapo das calças azuis, puxando o suéter branco, ajeitando o cabelo, mexendo nos papéis para arrumar a mesa de trabalho.

— Meu quarto está uma bagunça. Peço-lhe desculpas. Preciso de um escritório, mas não temos lugar nesta casa para...

— Seu irmão também está fazendo a ronda nos hospitais?

Continuei sentado, silencioso, sem entender quem era o tal irmão. Cory morrera há muitos anos, embora seu túmulo estivesse vazio. Não havia ninguém lá dentro. Uma pequena lápide ao lado de Tia Carrie, mas ninguém na sepultura...

— Deve estar faminta. Vamos para a sala de jantar e Emma esquentará o espaguete. A segunda vez é sempre melhor...

— Espaguete? — repetiu rispidamente Madame M. — Quer dizer que vocês comem essa porcaria? Permite que meu neto coma massa? Há muitos anos, eu a preveni para que não comesse massas! Francamente, Catherine, será que você nunca aprende?

Espaguete era um de meus pratos prediletos, mas, naquela noite, comeríamos pernil de carneiro em homenagem a Madame M., preparado da maneira que Mamãe julgava que minha avó gostasse mais. Por que ela falara em espaguete? Lancei um olhar penetrante à minha mãe e notei que estava nervosa, a respiração em suspenso, parecendo tão jovem quanto Melodie, como se tivesse muito medo que alguma coisa desse errado; e o que poderia dar errado? Madame M. declarou que não comeria em nossa casa e também não dormiria lá, pois não queria causar-nos "incômodos". Já encontrara um quarto na cidade, perto da escola de balé de Mamãe.

— Embora você não me tenha pedido, Catherine, será um prazer ficar aqui e substituí-la. Vendi minha escola no momento em que Jory me escreveu a respeito de seu acidente.

Mamãe só conseguiu menear a cabeça, com a fisionomia estranhamente inexpressiva.

Poucos dias mais tarde, Madame M. olhou em volta, no escritório que fora de Mamãe.

— Ela mantém tudo tão bem arrumado, completamente diferente de mim. Logo este escritório estará parecido com o meu.

Eu a amava de um modo esquisito, como a gente ama o inverno durante um verão quente; logo o inverno surge para nos congelar até a medula e a gente reza para que se vá embora logo. Minha avó se movimentava de modo tão juvenil e, ao mesmo tempo, parecia tão velha. Quando dançava, dava a impressão de ter apenas dezoito anos. Seus cabelos pretos apareciam e sumiam de acordo com os dias da semana. A essa altura, eu já sabia que ela usava uma certa tintura, em forma de xampu, que logo saía e manchava os dentes do seu pente branco. Eu gostava mais quando seu cabelo estava branco, lançando reflexos prateados sob as luzes.

— Você é tudo que meu Julian era! — exclamou ela, sufocando-me com uma afeição exagerada. Já despedira a jovem professora contratada por Mamãe.

— Contudo, por que é tão arrogante, hem? Sua mãe lhe diz que você é sensacional? Sua mãe sempre pensou que o mais importante na dança é a música; mas não é, não é! A essência do balé é a exibição do corpo belo. Eu vim salvar você, Vim para ensiná-lo a fazer tudo com perfeição. Quando eu terminar, você possuirá uma técnica irrepreensível.

Sua voz estridente subiu uma ou duas oitavas.

— Vim também porque sou velha, posso morrer a qualquer momento e não conheço meu neto. Vim cumprir meu dever e ser não apenas sua avó, mas também seu avô e seu pai. Catherine foi uma grande tola ao dançar, quando sabia que o joelho podia fraquejar a qualquer instante. Mas sua mãe sempre foi uma grande tola, portanto, onde está a novidade?

Ela me deixava furioso.

— Não fale assim a respeito de minha mãe. Ela não é tola. Nunca foi uma tola. Faz o que sente que deve fazer. Portanto, vou-lhe contar a verdade e trate de deixá-la em paz. Ela dançou aquela última vez porque eu supliquei, implorei que dançasse profissionalmente comigo, pelo menos uma única vez. Ela o fez por mim, Vovó, por mim, não por ela!

Seus olhos miúdos assumiram uma expressão ladina.

— Jory, aprenda a primeira lição do meu curso de filosofia: "Ninguém nunca faz nada pelos outros, a menos que ganhe ainda mais que eles com isso".

Madame jogou na cesta de papéis velhos todas as pequenas lembranças que Mamãe guardava com carinho, tratando-as como se não passassem de trastes velhos e imprestáveis. Em seguida, pegou uma enorme sacola surrada e, em poucos minutos, a mesa estava mais coberta de trastes que antes. Ajoelhei-me imediatamente, a fim de retirar da cesta de papéis todas as coisas que Mamãe adorava.

— Você não gosta de mim como gosta dela — queixou-se Madame M., num áspero tom de autocomiseração que soava fraco e velho.

Espantado com o sofrimento em sua voz, ergui a cabeça e vi-a como nunca a vira antes: uma mulher velha, solitária, digna de pena, agarrando-se desesperadamente ao único elo significativo que ainda a ligava à vida: eu. Senti-me invadido por uma onda de piedade.

— Alegro-me por você estar aqui, Vovó, e é claro que a amo. Não me pergunte se a amo mais do que qualquer outra pessoa. Contente-se em ser feliz porque simplesmente a amo, como estou feliz porque você me ama, não importa o motivo.

Beijei-lhe o rosto enrugado, acrescentando:

— Logo nos conheceremos melhor. E eu serei o tipo de filho que você desejava que meu pai fosse, sob certos aspectos.  Portanto, não chore nem se sinta sozinha. Minha família é a sua família.

Não obstante, ela chorou, as lágrimas escorrendo pelo rosto, os lábios trêmulos, agarrando-se desesperadamente a mim. Sua voz soou velha e engasgada:

— Nunca Julian correu a mim como você acaba de fazer. Não gostava de tocar ou ser tocado. Muito obrigada, Jory, por amar-me um pouquinho.

Até então, ela fora apenas um acontecimento de verão em minha vida, bajulando-me com elogios exagerados, fazendo-me sentir especial. Agora, eu ficava pouco à vontade por saber que ela ficaria conosco para sempre, talvez lançando uma sombra em nossas vidas. Tudo em nossa vida estava dando errado. Talvez eu pudesse atribuir a culpa à velha da mansão vizinha. Não obstante, aqui estava outra velha trajada de negro, dez vezes mais irritante que a avó de Bart e mais dominadora, também. Bart era um menino que precisava de algum controle, mas eu já era quase um homem e não necessitava de mais alguém para fazer o papel de minha mãe. Com uma certa dose de ressentimento, libertei-me das mãos dela, que pareciam garras aduncas a segurar-me, e perguntei:

— Vovó, por que todas as avós gostam de usar roupas pretas?

— Ridículo! — replicou ela, ríspida. — Nem todas!

Seus olhos negros brilhavam como pedras preciosas pretas.

— Mas nunca vi você vestida de outra cor.

— E nunca me verá vestida de outra cor, exceto preto.

— Não compreendo. Ouvi minha mãe dizer que você já se trajava de preto antes de meu avô e meu pai morrerem. Vive em luto perpétuo?

Ela franziu os lábios numa expressão de escárnio.

— Ah, entendo. Não se sente à vontade diante de roupas pretas, hem? Sente-se triste, não é? Pois eu me sinto alegre. A roupa preta me faz diferente. Qualquer pessoa pode usar cores bonitas. É preciso ser uma pessoa especial para satisfazer-se apenas com roupas pretas. E, além disso, é mais econômico.

Ri e afastei-me ainda mais dela. Tive certeza de que ela usava preto mais por economia que por qualquer outro motivo.

— Que outra avó você conhece que só veste roupas negras? — quis saber ela, os olhos muito apertados e cheios de desconfiança.

Sorri e recuei mais ainda. Ela franziu a testa, aproximando-se. Abri um sorriso mais largo ao me aproximar da porta.

— É ótimo tê-la aqui conosco, Avó Madame. Seja especialmente boazinha para Melodie Richarme. Casar-me-ei com ela algum dia.

— Jory! — berrou ela. — Volte aqui! Acha que voei através de metade do mundo apenas para substituir sua mãe? Vim por um único motivo: estou aqui para certificar-me de que o filho de Julian dançará em Nova Iorque e todas as outras grandes metrópoles do mundo, alcançando toda a fama e glória que cabiam ao seu pai. Por causa de Catherine, ele foi roubado, roubado!

Aquilo me fez ficar furioso, querendo magoá-la tanto quanto suas palavras me feriam, embora um segundo antes eu a amasse.

— Em que minha fama e glória poderão ajudar um pai que jaz na sepultura, morto e enterrado? — berrei em resposta.

Eu não era massa de modelar, que ela pudesse manipular à vontade. Já era um grande bailarino e devia isso a minha mãe. Não precisava que Madame M. me ensinasse a dançar; precisava que ela me ensinasse a amar uma velha detestável e amargurada.

— Já sei dançar, Madame; minha mãe me ensinou muito bem.

Seu olhar desdenhoso fez-me empalidecer. Contudo, ela me surpreendeu ao levantar-se da cadeira, deixar-se cair de joelhos no chão e colocar as mãos abaixo do queixo, numa postura de oração. Jogou a cabeça para trás erguendo o rosto magro e dando a impressão de fitar Deus cara-a-cara.

— Julian! — exclamou apaixonadamente. — Se está aí em cima, olhando aqui para baixo, veja e ouça a arrogância de seu filho de quatorze anos! Faço, hoje, um pacto com você. Antes de morrer, verei seu filho tornar-se o bailarino mais aclamado do mundo. Farei dele o que você poderia ter sido se não gostasse tanto de carro, de mulheres, sem mencionar seus outros vícios. Seu filho, Julian, através dele, você reviverá para dançar novamente!

Atônito, observei-a deixar-se cair, exausta, de volta na cadeira, estendendo diante de si as pernas musculosas.

— Maldita seja Catherine por casar-se com um médico tantos anos mais velho que ela. Para onde foi o seu bom-senso? E o dele? Embora, para fazer-se o devido crédito a quem o merece, há alguns anos ele ainda fosse bonito e bastante atraente. Todavia, Catherine deveria saber que ele ficaria velho antes mesmo que ela atingisse a maturidade sexual. Deveria ter-se casado com um homem de idade mais próxima à dela.

Fiquei parado diante dela, confuso, trêmulo, começando a sentir portas de armários se abrirem em minha mente, portas emperradas, que se abriam rangendo com relutância. “Não, não, Madame, cale a boca”, dizia meu cérebro. Vi-a empertigar-se repentinamente, os olhos negros e penetrantes imobilizando-me no lugar, de modo que não consegui me mover quando meu maior desejo era fugir correndo dali, depressa.

— Por que está tremendo? — quis saber ela. — Por que parece tão esquisito?

— Pareço esquisito?

— Não me responda com perguntas! — bradou ela. — Conte-me a respeito de Paul, seu padrasto; como vai ele, o que faz. Era vinte e cinco anos mais velho que sua mãe. E ela tem agora trinta e sete. Quer dizer que tem sessenta e dois, não é?

Engoli apesar do doloroso nó que se formara em minha garganta.

— Com sessenta e dois anos, não é tão velho assim — repliquei timidamente, refletindo que ela devia saber disso, pois tinha mais de setenta anos.

— Para um homem, isso é velhice; para uma mulher, a vida apenas começa a estender-se.

— Isso é crueldade — repliquei, começando a não gostar dela, mais uma vez.

— A vida é cruel, Jory, muito cruel. Trate de tirar da vida tudo o que puder enquanto ainda é jovem, pois se esperar que tempos melhores venham no futuro, estará esperando em vão. Eu sempre dizia a Julian para viver sua vida e esquecer Catherine, que amava aquele homem mais velho, mas ele se recusava a acreditar que qualquer garota pudesse preferir um homem maduro a um jovem tão bonito e vibrante como ele. E agora, está morto e sepultado, como você disse há pouco. O Dr. Paul Sheffield goza do amor que, por direito, pertencia a meu filho, o seu pai.

Eu chorava lágrimas que ela não podia ver. Lágrimas quentes, escaldantes de incredulidade. Teria Mamãe mentido para Madame M., fazendo-a crer que Papai Paul ainda continuava vivo? Por que mentiria? O que havia de errado em casar-se com Christopher, irmão mais moço do Dr. Paul?

— Parece doente, Jory. Por quê?

— Sinto-me ótimo, Madame.

— Não minta para mim, Jory. Sou capaz de farejar uma mentira a quilômetros de distância. Por que o Dr. Paul Sheffield jamais acompanha a família nas visitas à sua cidade natal? Por que é sempre sua mãe que leva os filhos e aquele irmão, Christopher?

Meu coração estava aos saltos. O suor me grudava a camisa à pele.

— Madame, já foi apresentada ao irmão mais moço de Papai Paul?

— Irmão mais moço? De que está falando? — quis saber ela, debruçando-se para me fitar nos olhos. — Nunca ouvi falar de nenhum irmão, mesmo naquela terrível ocasião em que a primeira mulher de Paul afogou o filho deles. A notícia se espalhou por todos os jornais e ninguém mencionou um irmão mais moço. Paul Sheffield tinha apenas uma irmã, nenhum irmão, mais moço ou mais velho.

Senti-me doente, prestes a vomitar. Pronto para gritar, correr, fazer algo violento ou doloroso a mim mesmo, como Bart costumava fazer quando estava magoado ou perturbado. Pois, pela primeira vez, estava sentindo na carne o que era ser como Bart. Pisava em terreno traiçoeiro, com medo que tudo desmoronasse se eu me atrevesse a fazer um movimento. Por minha mente corria o fluxo constante da idade, anos e anos de diferença de idade e Papai não era muito mais velho que Mamãe; apenas dois anos e alguns meses. Ela nascera em abril e ele em novembro. E eram tão semelhantes na cor da pele, olhos e cabelos, na educação, entendiam-se sem dizer uma palavra, bastando-lhes apenas um olhar.

Madame estava sentada como uma cobra enrolada, pronta para o bote. Dava a impressão de estar prestes a atacar-me... ou atacaria Mamãe? As rugas ao redor de seus olhos apertados e nos cantos dos lábios severos pareciam mais profundas. Comprimindo os lábios, enfiou a mão num bolso secreto do vestido surrado para pegar o maço de cigarros.

— Agora — disse ela, como se falasse sozinha, aparentemente esquecida de minha presença — qual foi a desculpa apresentada por Catherine na última vez que Paul não a acompanhou? Vejamos... primeiro ela fez uma ligação interurbana, explicando que Chris viria com ela por que Paul estava impedido de viajar por causa do problema cardíaco. Ela o deixaria aos cuidados da enfermeira. Na ocasião, achei estranho que ela o deixasse sozinho, quando ele necessitava dos cuidados de uma enfermeira, e viajasse com Chris.

Mordeu o lábio inferior, mascando-o num gesto inconsciente.

— E, no último verão, não houve visita porque Bart detestava velhas avós e velhas sepulturas e, desconfio, eu em especial. Moleque mimado! Neste verão, também não puderam vir porque Bart enfiou um prego enferrujado no joelho e teve um envenenamento no sangue, ou algo semelhante. O maldito fedelho causa mais encrencas do que vale! É bem feito para ela, por ter começado a namorar tão cedo após a morte de meu filho. E Paul tem problemas cardíacos, interminavelmente, mas nunca sofreu um ataque grave. Todo verão ela apresenta sempre a mesma velha desculpa esfarrapada: Paul não pode viajar por causa do coração, mas Chris sempre pode viajar, com ou sem coração.

Parou bruscamente de falar, pois movi-me em direção à porta. Tentei tornar os olhos inexpressivos e apagar deles as crescentes desconfianças que eu não queria que ela notasse. Nunca me sentira tão amedrontado como naquele momento, só de observar-lhe o olhar calculista, as engrenagens funcionando-lhe no cérebro, planejando algo que eu sabia. Então, ela se ergueu agilmente de um pulo.

— Vista o casaco. Vou para casa com você, para ter uma longa conversa com sua mãe.

 

A TERRÍVEL VERDADE

— Jory — começou Madame M., quando seguíamos para casa em seu velho e sacolejante calhambeque. — Seus pais não lhe fazem muitas confidências sobre o passado, não é mesmo?

— Falam conosco sobre o assunto — repliquei rigidamente, ressentindo-me contra a maneira pela qual ela insistia em fazer perguntas sobre coisas que não tinham importância, realmente não tinham. — Sabem escutar muito bem e todo mundo diz que são o melhor tipo de pessoas com quem conversar.

Ela fungou.

— Saber escutar bem é o método perfeito de evitar responder perguntas que se prefere ignorar.

— Ora, escute uma coisa, vovó: meus pais prezam sua privacidade. Pedem que tanto eu como Bart evitemos conversar sobre nossa vida particular com os colegas. Afinal, faz sentido que uma família seja unida.

— É mesmo...?

— Claro que é! — gritei. — Eu também gosto de privacidade!

— Você está numa idade que necessita de privacidade; eles não.

— Madame, minha mãe foi uma espécie de celebridade e meu pai é médico; Mamãe casou-se três vezes. Não creio que ela deseje que sua ex-cunhada, Amanda, saiba onde moramos.

— Por que não?

— Minha tia Amanda não é uma pessoa muito agradável. Só isso.

— Jory, você confia em mim?

— Sim — respondi, embora não confiasse.

— Então, conte-me tudo a respeito de Paul. Diga-me se ele está mesmo tão doente quanto ela alega, ou se ainda está vivo, pelo menos. Diga-me por que motivo Christopher mora com vocês e é quem faz o papel de pai para você e Bart.

Oh, eu não sabia o que dizer e me esforçava para ser um bom ouvinte, de modo que ela continuasse a falar e eu pudesse juntar as peças do quebra-cabeça. Certamente, eu não desejava que ela visse o quadro completo antes de mim. Fez um prolongado silêncio e, finalmente, ela falou.

— Você sabe, depois que Julian morreu, sua mãe morou com você na casa de Paul e, depois, levou você e Carrie, a irmã caçula, para as montanhas da Virgínia. A mãe dela morava lá, numa bela casa. Parece-me que Catherine estava resolvida a estragar o segundo casamento da mãe. O marido da mãe de sua mãe era um homem chamado Bartholomew Winslow.

Aquele maldito nó me voltou à garganta e ficou doendo ali. Eu não diria a ela que Bart era filho de outro homem que não o Dr. Paul; eu não diria!

— Vovó, se deseja que eu continue a amá-la, faça o favor de não me contar coisas desagradáveis a respeito de minha mãe.

Madame M. estendeu a mão magra para apertar a minha.

— Muito bem, admiro-o por tanta lealdade. Só quero que tome conhecimento dos fatos.

A essa altura, quase saiu da estrada e jogou o carro numa vala.

— Vovó, sei dirigir. Se estiver cansada e não conseguir enxergar bem as placas de sinalização, posso tomar o volante. Então, você descansaria.

— Permitir que um menino de quatorze anos me sirva de motorista? Ficou maluco? Quer dizer que não se sente seguro comigo ao volante? Toda a minha vida, sempre tive quem guiasse para mim. Primeiro carroças de feno, depois carruagens, táxis, limusines... Então, três semanas antes de vir para cá, logo depois que recebi sua carta relatando o acidente com sua mãe, tomei aulas de direção aos setenta e quatro anos de idade... e agora você está vendo como aprendi bem.

Finalmente, após escaparmos por milagre de quatro desastres, chegamos à nossa alameda circular de acesso à casa. E lá, no jardim da frente, estava Bart, à espreita de algum animal invisível, empunhando o canivete como um punhal, pronto para golpear e matar. Madame M. ignorou-o ao estacionar o carro. Pulei depressa e corri para abrir a porta do lado dela, mas minha avó já estava fora do carro antes que eu lá chegasse. E, logo atrás dela, Bart feria o ar com o punhal.

— Morte ao inimigo! Morte a todas as velhas que usam trapos negros e surrados! Morte, morte, morte!

Calmamente, como se não visse nem escutasse, Madame M. caminhou em direção à casa. Empurrei Bart para um lado e murmurei:

— Se quer passar o dia inteiro trancado no quarto, continue a comportar-se assim.

— Negro... detesto negro... preciso eliminar todos os demônios vestidos de negro!

Mas, depois de fechar cuidadosamente o canivete, guardou-o no bolso, após acariciar o cabo de madrepérola que ele tanto admirava. E não era para menos, pois eu gastara sete dólares para lhe dar aquele canivete de presente. Sem esperar que viessem atender seu impaciente toque de campainha, Madame M. entrou na casa e jogou a bolsa no pequeno sofá do vestíbulo. O martelar da máquina de escrever chegava-nos levemente aos ouvidos.

— Escrevendo — comentou Madame M. — Aposto que ela se dedica a isso com tanta paixão quanto se entregava à dança...

Não respondi, mas tive vontade de correr à frente dela e prevenir Mamãe. Vovó não permitiu. Mamãe ergueu os olhos, muito espantada por deparar-se repentinamente com Madame Marisha em seu quarto.

— Catherine! Por que não me contou que o Dr. Paul Sheffield morreu?

O rosto de Mamãe ficou muito vermelho e, depois, perdeu a cor. Ela baixou a cabeça e levantou as mãos para cobrir o rosto. Recuperando quase imediatamente a compostura, tornou a erguer a cabeça, lançou um olhar raivoso a Madame Marisha e, então, começou a arrumar os papéis numa pilha.

— É um prazer revê-la, Madame Marisha. Seria melhor se a senhora tivesse telefonado antes. Entretanto, tenho certeza de que Emma pode arranjar uma nova distribuição das costeletas de carneiro e reservar duas para a senhora...

— Não fuja de minha pergunta com essa conversa fiada sobre comida. Pensa mesmo que eu poluiria meu corpo com suas estúpidas costeletas de carneiro? Só como comida natural, que é saudável, e mais nada.

— Jory — disse Mamãe — caso Emma tenha visto Madame chegar, corra até lá e diga-lhe para não botar outro lugar à mesa.

— Para que toda esta tagarelice idiota a respeito de costeletas de carneiro? Vim aqui para lhe fazer uma pergunta importante e você fica falando de comida! Catherine, responda minha pergunta: Paul Sheffield morreu?

Mamãe olhou para mim e fez-me um gesto para desaparecer dali, mas não pude. Finquei pé, desafiando-a. Ela empalideceu ainda mais e pareceu mais abismada que eu, o seu querido, me recusasse a obedecer. Então, como se resignada, murmurou de modo indistinto:

— A senhora nunca me perguntou a respeito de mim mesma ou de meu marido, de modo que julguei que só se interessasse por Jory.

— Catherine!

— Jory, faça o favor de sair imediatamente deste quarto. Ou precisarei levantar-me e empurrá-lo pela porta?

Recuei e saí uma fração de segundo antes que ela chegasse à porta e a fechasse com estrondo. Eu mal conseguia escutar o que era dito no outro lado da porta, mas colei o ouvido a ela e prestei atenção.

— Madame, a senhora nem pode imaginar o quanto preciso de alguém com quem eu possa desabafar. Todavia, sempre se mostrou tão fria, tão distante, que eu julguei que não conseguiria compreender-me.

Silêncio. Alguém fungou.

— Sim, Paul morreu, anos atrás. Tento não pensar nele como morto, mas como ainda vivo, embora invisível. Trouxemos para cá suas estátuas de mármore e seus bancos de jardim, tentando fazer com que nosso jardim se tornasse igual ao dele. Fracassamos. Não obstante, quando estou no jardim à hora do crepúsculo, parece que consigo senti-lo junto a mim, ainda me amando. Fomos casados por tão pouco tempo. E ele nunca teve realmente boa saúde... de modo que, quando morreu, restou-me uma sensação de não me ter realizado, continuando a querer dar-lhe os anos de vida matrimonial feliz que eu lhe devia. De algum modo, desejava compensá-lo por Julia, sua primeira mulher.

— Catherine — disse Madame M. baixinho — quem é esse homem que seus filhos chamam de Papai?

— Madame, o que eu faço não é da sua conta — pude sentir a raiva crescendo na voz de minha mãe. — Não vivemos no mesmo tipo de mundo em que a senhora foi criada. A senhora não viveu minha vida nem esteve dentro de mim. Não conheceu a espécie de privações que sofri quando era jovem e mais necessitava de amor. Não fique aí sentada, condenando-me com seus malvados olhos negros, pois é incapaz de compreender.

— Oh, Catherine, quão pouco crédito você dá à minha inteligência! Julga-me imbecil, cega e insensível? Sei muito bem quem é o homem que meu neto chama de Papai. E não é de espantar que você jamais tenha conseguido amar Julian o suficiente. Eu costumava pensar que era Paul, mas agora vejo que não era Paul quem você realmente amava; também não foi aquele tal Bartholomew Winslow... era Christopher, seu irmão. Pouco me importa o que façam você e seu irmão. Se você dorme na cama dele e julga que ali encontra a felicidade que lhe foi roubada há tanto tempo, sou capaz de racionalizar e dizer que todos os dias acontecem coisas muito piores que um irmão e uma irmã se comportarem como marido e mulher. Mas preciso proteger meu neto. Ele está em primeiro lugar. Você não tem o direito de fazer seus filhos pagarem por seu relacionamento ilegal.

Oh! ... O que dizia ela? “Mamãe, faça alguma coisa, diga alguma coisa, faça que eu me sinta bem outra vez! Faça que eu volte a me sentir seguro e real... faça sumir tudo isto, esta conversa de um irmão que você jamais mencionou.” Agachei-me ainda mais, escondendo o rosto nas mãos, não querendo escutar, mas não me atrevendo a sair dali. A voz de Mamãe soou forçada e muito rouca, como se ela tivesse dificuldade para conter as lágrimas:

— Não sei como a senhora descobriu... Por favor, tente compreender...

— Como eu disse antes, pouco me importa... e creio que compreendo. Você não pôde amar meu filho, assim como não pôde amar qualquer outro homem, mais do que ama seu irmão. Isso me causa amargura. Choro por dentro por causa de Julian, que a considerava um anjo de perfeição, a sua Catherine, a sua Clara, a sua bela adormecida que ele jamais conseguiu despertar. Eis o que você era para ele, Catherine: a personificação de todas as heroínas do balé, virgem e pura, doce e casta e, no final, você não é melhor que o resto de nós.

— Por favor! — exclamou Mamãe. — Tentei fugir de Chris. Tentei amar mais Julian. Tentei, de verdade!

— Não, você não tentou. Se tivesse tentado, teria conseguido.

— A senhora não pode saber! — veio o brado desesperado de Mamãe.

— Catherine, você e eu trilhamos a mesma estrada durante muitos anos. E você deixou cair pelo caminho pequenos pedaços de informação. Além disso, existe Jory, que faz o possível para protegê-la...

— Ele não sabe! Por favor, diga que ele não sabe!

— Ele não sabe — acalmou-a Madame M. num tom suave, para ela. — Mas ele fala e revela mais do que sabe. Os jovens são assim mesmo: julgam que os velhos são senis e incapazes de somar dois com dois. Pensam que os velhos podem chegar aos setenta anos e ainda não saberem mais que eles aos quatorze. Acham que possuem o monopólio da experiência, porque não nos vêem fazer muito, enquanto cada minuto de suas vidas está tomado, esquecendo-se de que também já fomos jovens. Não sabem que transformamos todos os nossos espelhos em janelas... e que eles ainda continuam diante de espelhos, nos quais só vêem a si mesmos.

— Madame, por favor, não fale tão alto. Bart tem mania de esconder-se para escutar.

Vovó baixou a voz estridente, dificultando-me ouvir.

— Muito bem, vou falar o que tenho a dizer e irei embora. Não creio que sua casa seja o lugar adequado para o crescimento de um rapaz que possua a sensibilidade de Jory. A atmosfera aqui é tensa, como se uma bomba pudesse explodir a qualquer momento. Obviamente, seu filho mais moço está necessitado de assistência psicológica... ora, tentou até apunhalar-me quando me aproximei da casa.

— Bart está sempre brincando... — disse Mamãe num tom débil.

— Ah! Belas brincadeiras, ele tem! Sua faca quase me cortou o casaco. E este casaco é quase novo. Será o meu último casaco, o que usarei até morrer.

— Por favor, Madame, não me encontro em estado de falar sobre morte.

— Por acaso eu lhe pedi piedade? Se interpretou dessa maneira, inverterei a posição: este é o casaco que usarei enquanto viver. E, antes de morrer, tenho que ver Jory alcançar a fama que deveria ser de Julian.

— Estou fazendo o possível — disse Mamãe em tom cansado, parecendo terrivelmente fatigada.

— E o que pode você fazer? Com todos os diabos! Vive aqui com seu irmão, arriscando-se à humilhação pública, e sua bolha de sabão estourará mais cedo ou mais tarde. Jory sofrerá. Os colegas de escola o escarnecerão. Os repórteres perseguirão você; ele, todos os que vivem nesta casa. A lei lhe tomará os filhos.

— Sente-se, por favor. Pare de andar de um lado para outro.

— Maldita seja, Catherine, por não me escutar. Há muito tempo, adivinhei que você sucumbiria à adoração de seu irmão. Até mesmo quando se casou com o seu Dr. Paul, julguei que você e seu irmão... bem, não importa o que julguei, mas você se casou com um homem praticamente moribundo. Por consciência pesada?

— Não sei. Costumava pensar que foi porque o amava e lhe devia muito. Tive mil e um motivos para casar-me com ele, o mais importante dos quais era ele me querer. Para mim, isso foi suficiente.

— Muito bem, você teve motivos suficientes. Mas feriu meu filho. Não lhe deu o que ele necessitava e jamais entendi como você pôde resistir. Ele costumava chorar, alegando que você não o amava bastante. Sempre afirmou que existia um homem misterioso a quem você amava mais do que a ele e, na época, eu não acreditei. Tola, não é mesmo? Ambos tolos: ele e eu. Mas éramos todos tolos, em se tratando de você, Catherine. Era tão bela, tão jovem, aparentemente tão inocente. Já nasceu velha e sabida! Como conhecia tão bem, com tão pouca idade, todos os segredos para fazer um homem amá-la a ponto de perder a razão?

— Às vezes, o amor não é suficiente — disse minha mãe, com uma voz inexpressiva.

Eu estava quase paralisado pelas terríveis informações que escutava. Momento a momento, pulsação a pulsação, eu ia perdendo a mãe que amava. E perdia também o único pai que possuíra por tempo suficiente para amar.

— Como descobriu a respeito de Chris e eu? — indagou Mamãe, fazendo-me estremecer ainda mais.

— Que diferença faz? — gritou Madame M.

Eu depositava nela minhas esperanças, rezando para que ela, também, não me traísse.

— Como eu já disse, Catherine, não sou imbecil. Fiz algumas perguntas. Escutei as respostas de Jory. E somei os fatos. Há muitos anos não vejo Paul, mas Chris sempre estava com você. Pelo que Jory deixou escapar inocentemente, Bart está à beira da insanidade mental. Jory nunca fala intencionalmente ou sem cautela, porque ama você. Acha que posso ficar quieta, apenas observando, e permitir que você e seu irmão destruam também a vida de meu neto? Recuso-me a deixar que arruínem sua carreira e sua saúde mental. Entregue-me Jory, deixe-me levá-lo comigo de volta ao Leste, onde estará seguro e distante da bomba que explodirá para estampar suas vidas na primeira página de todos os jornais do país!

Senti-me doente. Eu entreabrira a porta, o bastante para ver que minha mãe estava mais pálida que a morte. Começara a tremer como eu tremia, mas não tinha lágrimas nos olhos como eu tinha nos meus. Mamãe, como pode viver com seu irmão, quando todo mundo sabe que isso é errado? Como pôde iludir Bart e eu? Como pôde Chris fazer isso conosco? E, durante todo esse tempo, eu o julgava tão perfeito, tão certo para você e para nós. Pecado, pecado. Não era de espantar que Bart perambulasse entoando cânticos a respeito de pecado e dos eternos tormentos do inferno. De algum modo, Bart descobrira tudo antes de mim.

Deixei-me cair de joelhos e encostei a cabeça na porta, fechando os olhos e tentando respirar fundo, para fazer o estômago parar de roncar e conter as ameaças de vômito. Mamãe tornou a falar. Era evidente que se esforçava muito para manter-se calma.

— Perder Bart para uma instituição, embora por poucos meses, está quase me levando à loucura. Todavia, perder Jory também, me deixaria louca. Amo meus filhos, Madame; ambos. Embora a senhora jamais me tenha dado crédito de ter sido piedosa para com Julian, fiz o possível por ele. Não era um homem fácil de se conviver. A senhora e seu marido fizeram de Julian o que ele era, não eu. Eu não o obriguei a dançar quando ele teria preferido jogar bola. Eu não o castiguei, forçando-o a praticar balé todos os fins-de-semana, de modo que não lhe sobrava tempo para divertir-se. A senhora e Georges fizeram isso. Mas fui eu quem pagou o preço. Julian queria devorar-me viva, proibindo-me de ter amigos à exceção dele próprio. Tinha ciúmes de todos os homens que me olhavam, de qualquer homem para o qual eu olhasse. Tem idéia do que seja viver com um homem que suspeita de que o traímos sempre que ele vira as costas? E não era eu quem traía, era ele. Fui fiel a Julian. Nunca permiti que outro homem me tocasse, mas ele não poderia dizer o mesmo. Desejava toda garota bonita que avistava. Queria usá-las, descartá-las e depois voltar para mim, a fim de que eu o abraçasse e lhe dissesse o quanto ele era maravilhoso... e eu não conseguia dizer que ele era maravilhoso quando o seu corpo inteiro fedia com o perfume de outra mulher. Então, ele me espancava... a senhora sabia disso? Tinha que provar algo a si mesmo. Na época, eu não sabia o que ele tinha que provar, mas agora sei: ele precisava encontrar o amor que a senhora lhe negara.

Senti-me ainda mais fraco e doente quando vi minha avó empalidecer. Agora, eu perdia também meu verdadeiro pai, que eu adorava como a um santo.

— Você exprime muito bem seus pontos de vista, Catherine, e eles me ferem. Agora, porém, permita-me exprimir os meus. Admito que Georges e eu cometemos erros com Julian e que meu filho e você pagaram o preço disso. Pretende punir Jory da mesma maneira? Deixe-me levá-lo de volta a Greenglenna. Uma vez lá, providenciarei um teste para ele em Nova Iorque. Tenho ligações importantes. Consegui projetar dois bailarinos brilhantes, que se chamavam Julian e Catherine. Não fui totalmente má. Nem Georges. Talvez tenhamos permitido que nossos sonhos nos cegassem em relação ao que os outros desejavam; talvez tenhamos exagerado na tentativa de viver através de nosso filho. Era isso que desejávamos, Catherine: viver através de Julian. Agora, Julian está morto e deixou um filho, apenas um: o seu filho, Catherine. Sem Jory, não tenho motivo para permanecer viva. Com Jory, tenho todos os motivos para continuar. Pelo menos uma vez em sua vida, dê, não tire!

NÃO, NÃO! Eu não queria ir com Madame M. Vi Mamãe baixar a cabeça até que seus cabelos caíram em duas macias ondas douradas. Sua mão trêmula se ergueu para tocar a testa, como se outra daquelas terríveis dores de cabeça a atacassem. Pecadora ou não, eu não queria deixá-la. Esta era a minha casa, meu lar, meu mundo; ela ainda era minha mãe e Chris ainda era meu padrasto; além disso, havia Bart, Cindy e Emma, também. Éramos uma família; certo ou errado, éramos uma família.

Afinal, Mamãe pareceu encontrar uma solução. A esperança me brotou no coração.

— Madame, entrego-me à sua clemência e espero em Deus que a senhora tenha alguma. Entendo que a senhora bem poderia ter razão, mas não posso abrir mão de meu filho mais velho. Jory é a única coisa boa que restou de meu casamento com Julian. Se a senhora o levar, levará parte de mim, uma parte muito importante de mim, da qual não poderei abrir mão sem morrer. Jory me ama. E ama Chris tanto quanto seria capaz de amar seu próprio pai. Mesmo que tenha que arriscar sua carreira, não posso arriscar perder o seu amor, permitindo que ele se vá com a senhora... portanto, não me peça o impossível, Madame. Não posso deixar Jory partir.

Madame M. fitou Mamãe, dura e prolongadamente, enquanto meu coração pulsava com tanto ruído que tive a impressão de que elas poderiam escutá-lo. Então, minha avó se levantou, pronta para sair.

— Ah! — fungou ela. — Agora, vou-lhe falar com franqueza, Catherine, e talvez pela primeira vez dir-lhe-ei toda a verdade. Desde o primeiro dia em que a vi, invejei-lhe a juventude, a beleza e, sobretudo, o genial talento para a dança. Sei que você transmitiu a Jory a sua extraordinária perícia e capacidade. Foi uma soberba professora. Vejo em Jory muito de você. Também vejo nele muito de seu irmão Chris. A paciência, o alegre otimismo, a energia e dedicação de Jory são oriundas da sua família, não de Julian. Mas ele também possui algo de Julian. Jory se parece fisicamente com meu filho. Tem o fogo, o ardor de meu filho e também seus desejos carnais em relação às mulheres. Contudo, se eu tiver que magoar você para salvar Jory, é o que farei. Não pouparei seu irmão, nem seu filho mais moço, também. Se você não me entregar Jory, farei tudo que estiver ao meu alcance para destruir seu lar. A lei me dará a custódia de Jory e você nada poderá fazer para deter-me depois que eu apresentar os fatos às autoridades competentes. E se você me obrigar a proceder dessa maneira, que não é a que eu preferiria, levarei Jory para o Leste e ele nunca mais voltará a vê-la.

Mamãe se pôs de pé, mais alta que minha avó. Eu nunca a vira parecer tão alta, orgulhosa e forte.

— Vamos, faça o que quiser. Não cederei um milímetro, nem permitirei que roube de mim o que me pertence. Jamais abrirei mão de um filho meu. Jory é meu. Dei-o à luz após dezoito horas de trabalho de parto. Se tiver que enfrentar o mundo inteiro e sua condenação, manter-me-ei de cabeça erguida e me agarrarei a meus filhos. Não existe força neste mundo, nem a senhora, nem a lei, nem coisa nenhuma, que possa obrigar-me a abrir mão de meus filhos!

Virando-se para sair, Madame M. correu o olhar pelo quarto, demorando-se mais a contemplar a grossa pilha de papéis sobre a mesinha de trabalho de Mamãe.

— Você verá as coisas a meu modo — declarou, ronronando maciamente como uma gata. — Tenho pena de você, Catherine, e de seu irmão. Também tenho pena de Bart, por mais selvagem que seja aquele monstrinho. Tenho pena de todos os que vivem nesta casa, pois todos serão feridos. Mas não permitirei que minha compaixão por você, nem minha compreensão do que fez de você aquilo que é, detenha minha mão. Jory estará seguro comigo, usando o meu nome e não o seu.

— SAIA DAQUI! — gritou Mamãe, completamente descontrolada, pegando uma jarra de flores e atirando-a na cabeça de Madame M.! — VOCÊ ESTRAGOU A VIDA DE SEU FILHO E AGORA QUER ARRUINAR A DE JORY! QUER FAZÊ-LO ACREDITAR QUE SÓ EXISTE VIDA NO BALÉ, NA DANÇA, EM DANÇAR... MAS EU CONTINUO VIVA! FUI BAILARINA, MAS CONTINUO A SOBREVIVER!

Madame M. tornou a correr os olhos pelo quarto, como se ela, também, desejasse jogar algum objeto contra minha mãe. Então, abaixou-se vagarosamente para pegar a jarra quebrada a seus pés.

— Fui eu quem lhe deu isto. Que ironia você atirá-la contra mim.

Algo duro e quebradiço deu a impressão de partir-se quando ela olhou com ar suave para Mamãe e disse com rara humildade:

— Quando Julian era menino, tentei fazer por ele o que era melhor, assim como você tenta fazer o que é melhor para os seus... e se meu julgamento foi errôneo, também foi feito com a melhor das intenções.

— Tudo não é feito assim? — replicou Mamãe com amargura. — As intenções são sempre tão certas, tão razoáveis... e, no final, até mesmo as desculpas flutuam nas ondas de indignação, como a famosa palha que todos tentam agarrar para não se afogarem. Parece que passei a vida inteira agarrando-me a pedaços de palha que não existem. Todas as noites, antes de deitar-me com meu irmão, digo a mim mesma que esse é o motivo pelo qual nasci, e para cada erro que cometi consolei-me dizendo que equilibrei a balança com decisões corretas. Finalmente, dei a meu irmão a única pessoa que ele é capaz de amar, a esposa que ele necessitava tão desesperadamente. Eu o fiz feliz e se isso é errado aos olhos da senhora, aos olhos do mundo inteiro, pouco me importa. Pouco me importa o que o mundo pensa!

Minha avó permaneceu de pé no mesmo lugar, com emoções conflitantes torturando-lhe o rosto envelhecido. Pude perceber que ela também estava sofrendo. Observei-lhe a mão magra e cheia de veias grossas pronta para acariciar os cabelos de Mamãe. Contudo, ela recuou, mantendo o rosto inexpressivo e a voz controlada:

— Repito, Catherine, que sinto pena de você. Tenho pena de todos vocês, mas, acima de tudo, tenho pena de Jory, pois ele é quem tem mais a perder.

Recuei depressa e me escondi quando ela saiu violentamente do quarto de Mamãe e percorreu o corredor a passadas enérgicas, passando por Bart, que a ameaçou com o canivete aberto.

— Bruxa, velha bruxa negra! — rosnou ele, franzindo o lábio superior numa careta medonha. — Espero que nunca mais volte aqui, nunca, nunca!

Eu me sentia bastante infeliz para desejar encontrar um buraco no qual me enfiar para morrer. Minha mãe vivia com o irmão. A mulher que eu amara e respeitara durante toda a minha vida era pior do que qualquer mãe de quem eu já ouvira falar. Nenhum de meus amigos me acreditaria; todavia, quando se convencessem de que era verdade, eu seria tão envergonhado e ridicularizado que nunca mais me atreveria a encará-los. Então levei um choque. Papai era meu tio. Não só de Bart, mas meu também. Oh, Deus, que faria eu, agora? Para onde fugiria? Não se tratava de um relacionamento platônico entre irmãos, de um casamento simulado para salvar aparências, mas de incesto. Eles eram amantes. Eu sabia! Eu vira!

De repente tudo se tornou por demais sórdido, sujo, chocante. Por que tinham permitido que aquele amor se iniciasse? Por que não tinham evitado? Tive ímpetos de levantar-me e ir perguntar, mas não suportava a idéia de encarar Mamãe, nem Papai, quando este voltasse para casa. No meu quarto, atirei-me na cama, a porta trancada fazendo-me sentir um pouco mais seguro. Quando me chamaram para jantar, gritei que não tinha fome. Eu, que estava sempre faminto. Mamãe veio à porta trancada e implorou:

— Jory, você escutou alguma coisa do que sua avó me disse?

— Não, Mamãe — respondi, rígido. — Acho que estou começando a ficar gripado. Só isso. Amanhã estarei ótimo. Ótimo.

Eu precisava dar alguma desculpa para minha rouquidão. Em algum lugar de todas as lágrimas que derramei, perdi o menino que eu fora naquela manhã. Agora, precisava tornar-me adulto. Sentia-me velho, frio, como se nada mais me importasse. Pela primeira vez, compreendi por que Bart estava tão confuso e se comportava de modo esquisito: ele também devia saber.

Esgueirei-me para observar Mamãe escrevendo em seu diário com fina capa de couro azul. Na primeira oportunidade, entrei no quarto às escondidas, a fim de ler o que ela escrevera, por mais desonesto que fosse tal procedimento. Eu estava ficando exatamente como Bart. Mas precisava saber.

“Madame Marisha veio visitar-me hoje, trazendo consigo todos os pesadelos que me perturbam constantemente a vida, durante o dia. Tenho outro tipo de pesadelos para as horas de sono. Quando ela se foi, senti o pânico pulsar tão alto que meu coração parecia um tambor selvagem batendo o ritmo da última batalha. Desejei fugir e me esconder, como costumávamos fazer quando vivíamos trancados em Foxworth Hall. Quando Chris chegou em casa, corri e me agarrei a ele, desesperada, incapaz de lhe dizer qualquer coisa. Ele não notou meu desespero. Estava cansado depois de um dia longo e exaustivo. Então, beijou-me e saiu para a ronda noturna. Fiquei sozinha em meu quarto, ambos os meus filhos silenciosos e trancados nos seus. Já saberão que nosso mundo terminará em breve?

Deveria eu permitir que Madame M. levasse Jory e o mantivesse a salvo do escândalo e da humilhação? Fui egoísta ao apegar-me a ele? E Bart? E quanto a Bart? E o que será de Cindy se nosso segredo for revelado? De repente, senti-me de volta em Charlottesville, com Chris e Carrie, novamente a caminho de Sarasota. Minha memória parecia um filme, quando aquela enorme mulher negra lutou para embarcar no lento ônibus com todas as suas sacolas e trouxas. Henrietta Beech. Querida, amada Henny. Faz tanto tempo que eu não me lembrava dela. Só de recordar seu largo sorriso animado, seus olhos bondosos, suas mãos carinhosas, sinto-me invadida por uma certa paz, como se ela me estivesse levando outra vez para Paul, que nos salvaria todos. Mas quem nos salvará agora?”

Eu tinha lágrimas nos olhos ao guardar novamente o diário. Fui ao quarto de Bart e encontrei meu irmão sentado no chão, no escuro encurvado como um velho.

— Vá para a cama, Bart — ordenei.

Mas ele nem se moveu, parecendo nem me escutar.

 

AS PORTAS DO INFERNO

Eu sabia, simplesmente tinha certeza. Jory precisava espionar para saber que diabrura eu estava aprontando. Fingi não notar. Tão logo a luz do quarto dele se apagou, peguei as últimas páginas da história de Mamãe. Percebi que era o final, pois ela escrevera suas iniciais e endereço junto à margem inferior da folha. Eu não sabia por que motivo estava chorando. Malcolm não teria pena dela, nem de Papai. Agora, eu precisava tornar-me durão, malvado, fazendo de conta que nada poderia ferir-me tanto quanto magoava os outros.

Amanheceu e fui para a cozinha, onde Mamãe ajudava Emma nos pequenos serviços domésticos, preparando massa de biscoitos conversando a respeito de bolos. Aquela mulher pensava que o pecado podia permanecer em segredo para sempre. Impune para sempre. Devia ser mais esperta.

Sentei-me no meu canto, encolhido no chão, os joelhos puxados para baixo do queixo, enlaçando as canelas com os braços. Braços esqueléticos. Eu emagrecia dia a dia. Olhei para Mamãe, para Papai, esperando penetrar-lhes as mentes e descobrir o que realmente pensavam de mim, de si mesmos, do que estavam fazendo. Fechei os olhos. Através das pálpebras, vi Mamãe dançar como costumava fazer antes de machucar o joelho. No verão passado, não fazia muito tempo, eu voltara do hospital e tinha dificuldade para dormir. Aos tropeções, fui à cozinha para assaltar a geladeira enquanto ninguém podia ver. Queria que todos se preocupassem, pensando que eu ia morrer de fome. Entretanto, antes que eu pudesse devorar todas as coxas de galinha, Mamãe entrara, dançando, na sala de recreação, usando um saiote de bailarina, com quase nada acima da cintura. Papai vinha atrás dela. Nem mesmo me viu. Não conseguia ver nada senão ela. Mamãe estava muito bonita naqueles trajes, rodopiando pela sala, sempre sorrindo e flertando com o homem que a observava das sombras. Provocava-o, puxando-lhe a gravata, empurrando-o para o centro da sala, obrigando-o a girar e tentando fazê-lo dançar aqueles passos de balé. Mas ele a tomou nos braços e colou os lábios nos dela. Ouvi o barulho, úmido e meloso. Então ela o enlaçou pelo pescoço. Arregalei os olhos ao vê-lo desabotoar aqueles ganchinhos escuros que prendiam o saiote no lugar! O saiote caiu no chão, aos pés de Mamãe, que ficou apenas com a malha branca, que ele logo retirou. Nua! Ele a deixou nua. Em seguida, ergueu-a nos braços e os lábios de ambos ainda colados, carregou-a para o quarto. E, durante todo aquele tempo, eram irmãos!

Oh, não era de espantar que John Amos afirmasse que precisavam ser punidos. Não era de espantar. Marafona! Puta! Pecadores com o meu próprio sangue! Não conseguiriam escapar ao castigo. Tinham que queimar, queimar; queimar como meu pai, meu verdadeiro pai, chamado Bartholomew Winslow. Li toda a história dela. Sei como certas mães podem ser perversas e cruéis, escondendo os quatro filhos, obrigando-os a permanecerem num único quarto trancado, forçando-os a brincarem num sótão quente e miserável, que se transformava em geladeira durante o inverno. Trancados durante todos aqueles anos, surrados, quase mortos de fome; e piche derretido nos lindos cabelos dourados de Mamãe! Eu odiava Malcolm, que fizera tantas coisas ruins a seus próprios netos. Odiava aquela velha da mansão vizinha, que colocara arsênico nas rosquinhas dos próprios filhos. Que tipo de louca era ela? Será que também colocava arsênico no meu sorvete, no meu bolo, nos meus docinhos? Estremeci, sentindo um enjôo no estômago. Por que a polícia não a mantivera trancafiada até que a arrastassem para a cadeira elétrica, a fim de queimá-la... queimá-la?

“Não”, sussurrou-me na cabeça uma voz ladina, “eles não deixam mulheres morrerem na cadeira elétrica, quando advogados espertos alegam que assassinos são insanos. Trancam-nas em belos palácios ocultos entre colinas verdejantes.” Aquela mulher maluca era a mesma que Papai precisava visitar todos os verões. A mãe de Mamãe, também. Oh, os pecados de Mamãe e Papai formavam uma pilha que atingia o céu. Deus certamente os castigaria agora; se Deus não o fizesse, Malcolm providenciaria para que eu os punisse.

Naquela noite fui para a cama e tentei dormir. Mas continuei a pensar. Papai era, na realidade, irmão de Mamãe, o que fazia dele meu tio e tio de Jory, também. Oh, Mamãe, você não é a santa ou o anjo que Jory a considera. Você vive dizendo a ele que não faça isto ou aquilo com Melodie; não obstante, passa o tempo todo indo para o quarto com seu irmão e trancando a porta. Dizendo-nos para nunca entrarmos naquele quarto sem bater antes, quando a porta estiver fechada. Vergonha, vergonha! Privacidade, sempre precisando de privacidade para fazer o que irmão e irmã jamais deveriam pensar em fazer. Incesto! Pecadores, ambos; tão maus quanto eu era às vezes. Tão pecadores quanto Jory desejava ser com Melodie e com outras garotas, fazendo todas as coisas vergonhosas que Eva fez com Adão depois de ter mordido a maçã. Fazendo aquelas coisas horríveis que os meninos comentavam aos sussurros nos banheiros da escola. Eu não queria mais morar com eles. Não queria mais amar Mamãe ou seu irmão.

Jory também sabia. Eu tinha certeza de que Jory também sabia; ele ia ficar maluco, como Mamãe julgava que eu estava. Mas eu estava, afinal, adquirindo senso, bom senso, como o de Malcolm. Os filhos de pais incestuosos mereciam sofrer como eu era obrigado a sofrer, como Jory também sofria. Cindy também tinha que sofrer, embora ainda fosse muito jovem e idiota para conhecer palavras importantes como "incesto". Não obstante... não obstante, por que eu rezava a Deus que não deixasse raiar o dia de amanhã? O que faria eu amanhã? Por que eu queria morrer esta noite, salvando-me de cometer algo ainda pior que "incesto"?

Outro café da manhã para tomar. Detestava comida com aquele gosto. Fitei a toalha, que logo estaria manchada com algo que eu derramaria acidentalmente. Jory parecia tão perdido quanto eu me sentia. Os dias chegavam e passavam, mas ninguém estava feliz. Papai parecia doente. Creio que sabia que nós conhecíamos a verdade; Mamãe também. Agora, nenhum dos dois conseguia enfrentar nossos olhares ou responder as perguntas de Jory. Eu jamais fazia perguntas. Um dia, escutei Mamãe batendo à porta trancada do quarto de Jory.

— Jory, deixe-me entrar, por favor. Sei que você escutou quando Madame M. esteve aqui... deixe-me tentar explicar como foi. Quando você entender, não nos detestará.

Ele detestaria, sim. Eu lera aquele maldito livro. Não era justo que a vida nos trapaceasse, não nos dando pais honrados.

Dia de Ação de Graças. A velha, detestável e feia Madame M. apareceu em nossa casa, quando nunca deveria ter o atrevimento de aceitar qualquer convite. E Mamãe não a deveria ter convidado. Tive a impressão de que ela zombava ao observar Papai trinchar o peru. A velha não sorriu uma só vez. Depois fitou Mamãe, cujos olhos estavam vermelhos e inchados. Chorando; ela estivera chorando. Bem feito. De todo modo, eu não gostava de peru; nem se comparava a galinha. Papai me perguntou que tipo de carne eu preferia, branca ou escura. Fiz uma carranca, não respondendo. Refleti que sua voz estava tão rouca que ele deveria estar gripado; todavia, não tossia nem espirrava, e seus olhos não pareciam abatidos como os meus quando ficava gripado. Além disso, Papai nunca ficava doente. Só Emma estava feliz. E Cindy, a detestável Cindy.

— Vamos, vamos — disse Emma, com um largo sorriso de satisfação que de nada adiantava. — Hora de alegria! De agradecermos as muitas bênçãos recebidas, inclusive de termos uma nova filha, sentada à nossa mesa.

Foi revoltante escutar aquilo. Calado, Papai tornou a pegar o garfo e a faca de trinchar. Sem sorrisos. Até mesmo eu olhei fixamente para ele, por não me haver servido a coxa do peru. Lancei um olhar a Mamãe, que parecia perturbada, embora eu pudesse perceber que ela tentava fingir que tudo estava bem. Comeu apenas uma ou duas garfadas; então levantou-se de repente e saiu correndo da sala de jantar. Escutei a porta de seu quarto se fechar com estrondo no corredor dos fundos. Papai pediu licença, alegando que precisava verificar como ela estava.

— Oh, Senhor, o que há de errado com todo mundo? — quis saber Emma.

A velha Madame Marisha permaneceu calada, também parecendo muito sombria. Ela era parte de tudo aquilo. Fitei-a raivosamente, odiando-a e odiando ainda mais minha própria avó; odiando todo mundo e Cindy também, refletindo que talvez Emma também tivesse contribuído com sua parcela de pecado ao manter a boca fechada e permitir que toda aquela atividade pecaminosa se desenvolvesse diante do seu nariz comprido. Jory tentou rir e mostrar alegria, provocando Cindy para fazê-la rir e comer. Mas eu sabia que, no fundo do coração, ele sangrava exatamente como eu, que chorava por meu verdadeiro pai, morto naquele incêndio. E talvez Jory chorasse por seu verdadeiro pai, que Mamãe não amara o suficiente porque, durante o tempo todo, tinha um irmão que amava demais. Eu preferia não ter sabido. Por que Mamãe tivera que escrever aquele livro? Eu nunca acreditaria realmente em qualquer coisa que John Amos me contasse a respeito dela, pois julgava-o um mentiroso, um fingido como eu. Agora, porém, eu sabia que ele era a única pessoa no mundo que dizia a verdade, a única que me respeitava o bastante para contar-me a verdade.

Soluçando, levantei-me e saí da mesa, lançando um olhar de esguelha a Cindy, que, sentada no colo de Jory, ria ao brincar com alguma coisa que ele lhe dera. Nunca ninguém me dava nada. Ninguém senão uma avó bruxa e mentirosa, vestida de preto, que pouco me importava, dava-me presentes... Ninguém!

Então chegou um domingo em que Mamãe parecia não sentir-se tão "desolada", talvez porque pensasse que Madame M. nos deixaria em paz e até mesmo voltasse para o Leste, onde era seu lugar. A essa altura, eu sabia que Mamãe também era capaz de fingir, como eu, como ela e Papai fingiam aquele jogo de casamento. Escondi-me nas sombras, perto da porta aberta de seu quarto, e observei-a ajoelhar-se para rezar. Tentei adivinhar se Deus lhe escutava as preces. Preces silenciosas.

Voltando à sala de recreação, agachei-me em meu canto e comecei a riscar fósforos, um a um, segurando a chama tão perto do rosto que podia sentir o calor do fogo. Como seria horrível purificar-se e redimir-se pelo fogo! Como fora horrível, quando a alma de meu verdadeiro pai subiu ao céu envolta em fumaça negra! Então eu era uma coisinha minúscula, escondida no útero de minha mãe, uma coisinha chamada "embrião" e não Bart. E, pior de tudo, talvez eu fosse até mesmo uma menina. Gostaria que Papai não me falasse tanto a respeito de coisas que eu não queria compreender.

Minha cabeça começou a doer, fazendo a mão que segurava o fósforo tremer tanto que ele caiu ao chão. Fui obrigado a apagá-lo depressa, antes que alguém sentisse o cheiro do tapete chamuscado. Culpar-me-iam, como sempre me culpavam, nem mesmo sabendo que Jory estava lá fora, fazendo algo talvez tão errado. O que John Amos sempre costumava dizer?

“Sua mãe fez todas as coisas ruins acontecerem. Cada uma das coisas ruins foi culpa dela; as mulheres são assim, em especial as mulheres bonitas. Totalmente ruins, ardilosas, pecadoras, dispostas a roubar dos homens.”

Sim, refleti, minha mãe, minha avó, todas elas mulheres ardilosas, belas e pecadoras. Mentindo para mim, escondendo-me sua verdadeira identidade, mostrando-me seu retrato quando era jovem e bonita, seduzindo meu verdadeiro pai, que era moço demais para ela. Minha cabeça doía ainda mais. E minha maldita mãe fizera o mesmo a ele, meu verdadeiro pai.

Suspirei, pensando que era melhor prosseguir no meu papel de anjo do Senhor, enviado para agir em lugar de Malcolm. Afinal, eu era bisneto dele e já estava ficando quase tão esperto quanto ele. Representava cada vez mais o papel de Malcolm, fazendo meus ossos se sentirem cansados, os músculos doloridos e rígidos, experimentando a verdadeira sensação de ser velho como Malcolm quando atingiu o auge da sabedoria. Muito embora fosse doloroso obrigar o coração a pulsar tão depressa. Sentindo repulsa por todas as mulheres, todas elas. Tinha que dar um jeito nelas, em cada uma delas. Mamãe pensava que eu não sabia, acreditava que só Jory sabia... mas eu também estivera lá quando a velha Madame Marisha falara com voz suficientemente esganiçada e alta para que todos escutassem. E lera o livro  dela.

A cabeça doía mais. Já não sabia quem eu era. Malcolm? Bart? Sim, agora eu era Malcolm, sofrendo do coração, pernas fracas, cabelos ralos, mas tão malditamente esperto e sábio. Filha estúpida, ocultando os quatro filhos no último andar e pensando que eu não descobriria, mais cedo ou mais tarde! Idiota! Ela deveria saber que John me contaria tudo. Devia saber muitas coisas que ignorava ou esquecia. Portanto, ela pensa que morrerei em breve e jamais subirei as escadas; mas por que precisaria subir, quando John o faria para mim? “Espione”, disse eu a John, “espione minha filha, verifique o que ela faz quando não está perto de mim. Ela pensa que eu morrerei logo, John, e que mudarei meu testamento, voltando a incluí-la como herdeira. Mas eu rirei por último e quem ri por último, ri melhor. Ela não herdará o dinheiro que tanto me esforcei para ganhar. Tilintar de moedas... escuto-o nos meus bolsos, como música, a melhor música que existe. Nunca serei velho demais para passá-los todos para trás, nunca serei velho demais, e vencerei, como sempre costumo vencer no final.”

Arrastando os pés, encaminhei-me ao quarto deles, que cheirava aos atos de amor pecaminosos que lá praticavam. Parei junto à porta fechada. Por dentro, sentia-me como um menininho que soluçava em silêncio, mas precisava ser Malcolm, a minha parte mais forte, mais velha, mais sábia. Onde estavam as montanhas cobertas de névoa azulada? Esta casa não era uma grande mansão aninhada no alto da encosta. Onde estavam os criados, o grandioso salão de bailes, as escadarias curvas? Confuso, tão confuso. A dor de cabeça piorava. O joelho começava a latejar. As costas doíam. O coração ia sofrer um ataque.

— Endireite-se, Bart — disse o homem que, na realidade, era meu tio.

Assustei-me. Sobressaltei-me e fiquei ainda mais confuso.

— Você é muito moço para andar por aí encurvado como um velho, Bart. E não precisa mancar, porque seu joelho já está bom.

Deu-me uma palmadinha amistosa na cabeça e abriu a porta do quarto. Pude ver que minha mãe o aguardava na cama, os olhos muito abertos fitando o teto. Estaria ela chorando? Teria ele acabado de chegar daqueles detestáveis hospitais cheios de germes?

— Eu o odeio! — sussurrei ferozmente, tentando apunhalá-lo com meu olhar penetrante e raivoso. — Acha que está seguro, não é mesmo? Acredita que um médico não pode ser punido, mas Deus enviou o anjo negro de sua ira para providenciar que você e sua irmã sejam castigados pelos pecados que cometeram!

Ele se imobilizou onde estava e fitou-me como se nunca me tivesse visto antes. Encarei-o desafiadoramente. Ele fechou a porta do quarto e me puxou pelo corredor, para que ela não conseguisse escutar.

— Bart, você vai visitar sua avó todos os dias, não vai? — indagou, com o rosto parecendo perturbado, mas mantendo a voz baixa e bondosa. — Precisa aprender a não acreditar em tudo que lhe dizem. Às vezes, as pessoas mentem.

— Filhos do Demônio! — sibilei. — Sementes plantadas no solo errado produzem filhos do Demônio.

Desta vez, ele me agarrou o braço com tanta força que doeu. Sacudiu-me.

— Nunca me permita voltar a ouvir isso! E não deve mencionar o assunto a sua mãe. Se o fizer, eu lhe espancarei o traseiro com tanta força que você talvez nunca mais consiga sentar-se outra vez. E na próxima vez que se encontrar com aquela mulher da casa vizinha, lembre-a de que foi ela quem plantou todas as sementes e fez as flores começarem a crescer. Observe-lhe bem o rosto quando disser isso... e depois adivinhe quem é a pecadora.

Recuei, não querendo ouvir o que ele tinha a dizer. Fugi correndo, esbarrando numa mesinha do corredor e derrubando um dispendioso abajur, que caiu ao chão. Em meu quarto, joguei-me na cama, tremendo da cabeça aos pés, engasgado e sem fôlego. Sentia no peito aquela terrível dor latejante que fazia tiras de aço se apertarem em torno de mim, espremendo-me, ameaçando cortar-me a respiração. Sentia-me como pasta de dentes sendo espremida do fundo da bisnaga. Então enrolei-me, rígido como uma bobina. Dolorosamente, rolei de costas e fitei o teto ao começar a chorar. Enormes lágrimas me escorriam pelo rosto para molharem o travesseiro. Se eu molhasse a cama por qualquer outro motivo, seria espancado, pois dez anos era idade avançada demais para essas coisas de bebê. Eu queria ter dez anos, ou oitenta? Quem me tornava tão velho? Deus? Ou aquelas crianças escondidas no sótão, brincando, rindo, fazendo o melhor do pior, que me compelia a provar que Malcolm era mais esperto e que elas jamais conseguiriam escapar, mesmo depois que ele fosse sepultado?

Mamãe foi embora e me abandonou. Deixou-me para sempre, desta vez. Mamãe foi embora e me abandonou, Agora sei como terminar o que comecei... Caí no sono, debatendo-me na cama. O menininho continuou a chorar, enquanto o velho o atirou na lata do lixo. Portanto, em breve eu seria jogado no depósito de lixo fora dos limites da cidade, servindo apenas para ser queimado. Pois os pecadores dos pecadores, os nascidos do incesto, também tinham que ser castigados; até mesmo eu, até mesmo eu que agonizava na lata de lixo.

 

A IRA DOS JUSTOS

A chuva caía como tiros disparados por Deus. De pé junto às janelas dos fundos, eu observava a chuva castigar os rostos das estátuas de mármore, punindo-as por serem nuas e pecaminosas. Esperei que Jory voltasse para casa e me procurasse. Maus. Éramos ambos maus, por vivermos com pais que não deviam ser pais. Por trás de mim, Mamãe chegou das compras, toda rosada e risonha, sacudindo a chuva dos cabelos, cumprimentando Emma como se tudo estivesse bem. Jogou os pacotes numa cadeira, tirou o casaco e disse que tinha a impressão de estar ficando gripada.

— Detesto quando chove, Emma. Olá, Bart... não o tinha visto aí até agora. Como passou? Com saudades de mim?

Não respondi. Agora não era obrigado a falar com ela. Não precisava ser delicado, cortês, nem mesmo limpo. Podia fazer o que bem entendia. Eles faziam. Os mandamentos de Deus nada significavam para eles. Agora também nada significavam para mim.

— Bart, este Natal será ótimo — disse Mamãe, não olhando para mim, mas para Cindy, que precisava de mais roupas novas. — Será nosso primeiro Natal com Cindy. Os melhores tipos de família sempre têm crianças de ambos os sexos e, desse modo, os meninos podem aprender a respeito das meninas, e vice-versa.

Abraçou Cindy com mais força.

— Cindy, você não sabe o quanto é felizarda por ter dois irmãos mais velhos maravilhosos, que absolutamente adorarão você quando crescer e se transformar numa verdadeira beleza... se ainda não adoram.

Rapaz, se ela ao menos soubesse! Mas, como afirmava Malcolm, mulheres bonitas eram imbecis. Olhei para a cozinha, na direção de Emma, que não era bonita e nunca poderia ter sido. Seria ela mais esperta? Conseguiria enxergar através de mim? Os olhos de Emma se ergueram e encontraram os meus. Estremeci. Sim, mulheres feias eram mais espertas. Sabiam que o mundo não era belo só porque desejavam ser belas durante algum tempo.

— Bart, você ainda não me disse o que deseja que Papai Noel lhe traga.

Encarei-a com olhar duro. Ela sabia o que eu mais desejava.

— Um pônei — respondi.

Peguei o canivete que Jory me dera e comecei a aparar as unhas. Aquilo fez Mamãe olhar para mim. Depois, seus olhos procuraram os cabelos curtos de Cindy, que apenas começava a parecer bonito novamente.

— Bart, guarde essa faca. Deixa-me nervosa. Pode cortar-se acidentalmente.

Então ela espirrou. Várias vezes. Seus espirros sempre vêm em grupos de três. Tirou da bolsa papel absorvente para limpar o nariz e, depois, assoá-lo. Contaminando o meu ar puro e limpo com seus imundos micróbios de gripe.

Jory só chegou em casa muito depois do escurecer, encharcado de chuva e parecendo infeliz ao dirigir-se a seu quarto e bater a porta. Sorri ao ver Mamãe franzir a testa. Portanto, agora também o seu queridinho não gostava mais dela. Eis o resultado de proceder errado. A chuva continuava a cair. Mamãe olhou para mim, os olhos muito abertos, o rosto pálido, o cabelo emaranhado em torno do rosto e compreendi que alguns homens a considerariam bonita. Arranquei um fio do meu cabelo, prendi uma ponta entre os dentes e o estiquei com uma das mãos. Meu canivete cortou-o facilmente em dois pedaços.

— Boa faca — comentei. — Afiada como uma navalha de barbear. Boa para amputar pernas, braços, cortar cabelos...

Sorri quando ela pareceu amedrontada. Poderoso. Senti-me poderoso. John Amos tinha razão: as mulheres não passavam de imitações tímidas e amedrontadas dos homens. Chovia mais forte. O vento soprava a chuva em volta da casa, produzindo sons uivantes. Frio lá fora, escuro e frio. Choveu a noite inteira e, na manhã seguinte, continuava a chover. Emma se foi em seu carro só porque era quinta-feira e ela não podia deixar de visitar uma amiga.

— Fique quieta, agora, madame — disse ela a Mamãe, na garagem. — Só porque não tem febre, não quer dizer que não esteja doente. Não me parece muito bem. Bart... comporte-se e não crie dificuldades para sua mãe.

Saí da garagem e fui para a cozinha. De algum modo, meu braço, que na verdade era a asa de um avião, derrubou ao chão vários pratos da mesa posta para o café da manhã. Vi minha tigela de cereais com passas: pequenos insetos num mar cremoso...

— Bart, você fez isso de propósito!

— Sim, Mamãe, você sempre diz que faço tudo de propósito. Desta vez, vou-lhe mostrar como tem razão.

Peguei meu copo de leite, no qual eu mal tocara, e o joguei no rosto dela. Errei por centímetros, pois ela foi rápida em esquivar-se.

— Bart, como se atreve a fazer isso? Quando seu pai voltar para casa, contarei a ele e você será severamente castigado!

Sim, eu já sabia o que ele faria: espancar-me-ia o traseiro, faria um sermão a respeito de obediência e respeito à minha mãe. A surra não doeria. O sermão não seria escutado. Eu podia desligar Papai e ligar Malcolm.

— Por que não me dá uma surra, Mamãe? Vamos... deixe-me ver o que você é capaz de fazer para me causar dor.

Empunhei a faca em posição, pronto para golpear se ela ousasse aproximar se de mim. Será que ela ia desmaiar?

— Bart, como pode comportar-se tão mal quando sabe que não me sinto bem hoje? Prometeu a seu pai que se comportaria bem. O que fiz para que você me deteste tanto?

Sorri, significativamente.

— Onde arranjou essa faca? Não é o canivete que Jory lhe deu.

— A velha da mansão vizinha me deu de presente. Ela me dá tudo que peço. Se eu lhe dissesse que quero um revólver, ou uma espada, ela me daria, pois é exatamente como você, fraca, tão ansiosa por agradar-me, quando não existe no mundo mulher que algum dia consiga me agradar.

Agora os olhos dela exprimiam verdadeiro terror. Aproximou-se de Cindy, que estava sentada na cadeira alta de criança, fazendo uma grossa porcaria com biscoitos e um copo de leite, molhando biscoitos no leite até amolecê-los e depois tentando enfiá-los depressa na boca, antes que a parte amolecida caísse. E ninguém ralhava com ela.

— Bart, vá imediatamente para seu quarto. Feche a porta; eu a trancarei por fora. Não quero vê-lo outra vez até seu pai voltar para casa. E já que não considera seu café da manhã suficientemente bom para tomá-lo, também não merece almoçar.

— Não pode dizer o que devo ou não fazer. Se ousar fazer isso, contarei ao mundo inteiro o que você e seu "marido" estão fazendo: irmão e irmã vivendo juntos. Vivendo em pecado. Fornicando!

(Um belo termo de "Malcolm").

Cambaleando, ela levou as mãos ao rosto, tornou a limpar o nariz, enfiou os lenços de papel no bolso das calças e pegou Cindy no colo.

— O que vai fazer, prostituta? Utilizar-se de Cindy como escudo? Não adianta, não adianta, pegarei ambas... E a polícia não pode encostar em mim. Tenho apenas dez anos, apenas dez anos, apenas dez anos, apenas dez anos...

E continuei repetindo aquilo, como um disco quebrado. Em meus ouvidos, a voz de John Amos dizia-me como proceder. Falei como num sonho:

— Era uma vez, há muito tempo, um homem chamado Jack, o Estripador, que vivia em Londres e matava prostitutas. Eu também mato marafonas e irmãs pecadoras que não sabem distinguir o certo do errado. Mamãe, vou-lhe mostrar como Deus deseja que você seja castigada por cometer incesto.

Trêmula, parecendo frágil como um coelho branco, amedrontada demais para mover-se, ela segurou Cindy no colo enquanto eu me aproximei... mais, cada vez mais, golpeando com a faca.

— Bart, — disse ela, com voz mais forte, mais controlada — não sei quem andou lhe contando histórias, mas se você fizer algum mal a mim ou a Cindy, Deus se vingará de você, mesmo que a polícia não possa prendê-lo ou mandá-lo para a cadeira elétrica.

Ameaças. Ameaças vãs. John Amos já me dissera que um menino da minha idade podia fazer o que bem entendesse e a polícia nada podia fazer para detê-lo ou puni-lo.

— O homem com quem você vive é seu irmão? É? — berrei. — Diga uma mentira e vocês duas morrerão!

— Acalme-se, Bart. Não sabe que em breve será Natal? Não quer ser internado num sanatório e perder todos os presentes que Papai Noel colocará na árvore, para você.

— Papai Noel não existe! — gritei, ainda mais furioso, ela pensava que eu acreditava naquelas baboseiras?

— Você me amava. Durante toda a sua vida, evitou confessar isso por meio de palavras, mas eu podia ler nos seus olhos. Bart, o que transformou você? O que fiz para que me odeie tanto? Diga-me, a fim de que eu possa mudar e ser melhor para você.

Vejam só! Tentando conquistar-me momentos antes de sua morte... e redenção! Deus se apiedaria dela quando fosse esquartejada, humilhada de todas as maneiras possíveis. Apertei as pálpebras e ergui a lâmina afiada com a navalha, que não fora presente de minha avó, fora um presente dado por John Amos, pouco depois que a velha bruxa Marisha aparecera.

— Sou o anjo negro do Senhor — declarei em minha trêmula voz de velho. — Estou aqui para fazer justiça, pois a humanidade ainda não tomou conhecimento de seus pecados.

Mamãe movimentou rapidamente Cindy e virou o corpo, de modo que a garotinha não se machucasse quando eu golpeasse. Então, enquanto eu a observava, sua perna direita se ergueu violentamente e acertou um pontapé doloroso em meu pulso. A faca voou pelos ares. Corri para apanhá-la, mas Mamãe foi mais rápida e chutou a faca para baixo do balcão. Atirei-me ao chão para tatear em busca da arma e, desta feita, Mamãe deve ter colocado Cindy no chão, pois senti-a repentinamente em cima de mim, torcendo-me o braço para trás. Segurando um punhado de meus cabelos na outra mão, obrigou-me a ficar em pé.

— Agora, veremos quem manda aqui e quem será castigado — declarou.

Empurrou-me e arrastou-me, sem largar-me o braço ou os cabelos, forçando-me a entrar no meu quarto e atirando-me no chão. Mais depressa do que consegui levantar-me, ela bateu a porta e escutei a chave girar na fechadura. Estava trancado no quarto.

— Deixe-me sair, sua puta! Deixe-me sair ou incendiarei a casa! E morreremos todos queimados, queimados, queimados!

Escutei-lhe a respiração ruidosa enquanto ela ofegava, encostada à porta trancada. Tentei encontrar o estoque de fósforos e velas que escondera em meu quarto. Tinham sumido. Todos os meus fósforos, todas as minhas velas, até mesmo o isqueiro que eu roubara de John Amos!

— Ladra! — rugi. — Não existe nada nesta casa senão ladrões, trapaceiros, mentirosos e putas! E todos vocês querem meu dinheiro! Pensam que morrerei hoje, amanhã, na semana que vem ou no outro mês, mas viverei o bastante para vê-los todos mortos, Mamãe! Viverei até o último camundongo de sótão morto!

Ela correu pelo corredor. Ouvi o ruído dos saltos de suas chinelas de cetim. Eu me amedrontara; agora não sabia o que fazer. John Amos não me mandara aguardar até a noite de Natal, de modo que tudo coincidisse com o outro incêndio, em Foxworth Hall? Para fazer da mesma forma, só que diferente?

— Mamãe — murmurei, ajoelhado e chorando. — Eu não fiz aquelas maldades a sério. Mamãe, por favor, não vá embora, não me abandone sozinho. Não gosto de ficar sozinho. Não gosto do que está acontecendo comigo, Mamãe. Por que precisava fingir que se casou com seu irmão? Por que não pôde apenas viver com ele e conosco, sendo decente?

Solucei, com medo do que era capaz de fazer quando me tornava mau. Ela não precisava trancar minha porta quando estava com Cindy, precisava? Nunca confiava em que eu procedesse corretamente. Contudo, talvez fosse porque também não podia confiar em si mesma, como eu. Nascera bela e malvada; só através da morte Deus poderia redimir-lhe a alma pecadora. Suspirei e levantei-me para fazer o que precisava, a fim de salvá-la da confusão em que ela transformara sua vida... e as nossas.

— Mamãe! — berrei. — Destranque esta porta! Eu me matarei, se você não me obedecer! Sei tudo a seu respeito; sei tudo que você e seu irmão estão fazendo, o pessoal da casa vizinha me contou tudo a respeito da infância de vocês. E o seu livro me contou o resto. Destranque a porta, se não me deseja ver morto!

Ela veio destrancar a porta e me encarou, limpando o nariz e passando a mão nos cabelos.

— Que quer dizer? Como o pessoal da casa vizinha lhe contou tudo? Quem é o pessoal da casa vizinha?

— Saberá quando a encontrar — repliquei, cheio de confiança em mim mesmo.

De repente, voltei a me sentir malvado. Ela precisava carregar aquela maldita Cindy no colo, o tempo todo. Fora a mim que ela parira, não a Cindy.

— Lá também existe um velho que sabe tudo a respeito de você e do tempo que passou trancada no sótão. Vá até lá e converse com eles, Mamãe. Então, não se sentirá tão feliz por ter uma filha.

Ela ficou boquiaberta e uma terrível expressão de pavor fez seus olhos azuis ficarem muito escuros.

— Bart, por favor, não diga mentiras.

— Nunca digo mentiras; não sou como você — repliquei, observando-a com atenção.

Ela começou a tremer tanto que quase deixou Cindy cair do colo. Pena que não tenha deixado. Mas não faria mal se a molequinha caísse no chão atapetado.

— Agora, espere por mim aqui — disse ela, encaminhando-se para o armário dos casacos. — Pelo menos uma vez na vida, faça o que digo. Sente-se e assista à televisão... coma todos os doces que quiser... mas fique em casa e não tome chuva.

Ela ia à mansão vizinha. Senti-me invadido pelo pânico, temendo que ela não voltasse. Temendo que não fosse salva; temendo que talvez, no final das contas, John Amos não estivesse fazendo uma brincadeira. Mas nada pude dizer, pois Deus estava do lado de John Amos; teria que estar, pois ele não vivia em pecado.

Usando seu mais quente casaco branco de inverno e botas brancas, Mamãe pegou Cindy, que também estava muito bem agasalhada.

— Seja bonzinho, Bart, e lembre-se sempre de que eu o amo. Voltarei em menos de dez minutos, embora só Deus saiba o que aquela mulher de preto pode saber a meu respeito.

Lancei um rápido olhar envergonhado ao seu rosto pálido e preocupado. Mamãe ia desmoronar quando encontrasse minha avó, que era a sua própria mãe. Mamãe terminaria enfiada numa camisa-de-força e eu nunca mais voltaria a vê-la. Por que eu não me senti alegre por Deus já a estar castigando, iniciando sua redenção? Minha cabeça doía novamente. Meu estômago estava esquisito. As pernas não queriam obedecer, mas, pesadas como chumbo, pareciam movidas por vontade própria. Puxaram-me até o armário dos casacos no momento em que Mamãe saiu e bateu a porta da frente. Minha alma chorava: “Mamãe, não vá embora e me abandone sozinho! Não gosto de ficar sozinho. Ninguém me amará, exceto você, Mamãe. Ninguém! Por favor, não vá até lá; não permita que John Amos a veja.” Ela não deveria ter dito coisa alguma. Deveria saber que você não permaneceria em casa, onde estaria seguro. Vesti meu casaco e corri até as janelas da frente, para observar Mamãe carregando Cindy no colo, sob o vento e a chuva fria. Como se ela, uma simples mulher, pudesse encarar Deus e sua ira negra.

Tão logo ela sumiu de vista, esgueirei-me para fora de casa e segui-lhe os passos. Este novo casaco significava realmente que ela me amava? “Não”, respondeu o sábio velho em meu cérebro, “não significava coisa alguma”. Presentes, brinquedos, jogos e roupas eram coisas fáceis de dar coisas que todos os pais davam aos filhos, mesmo quando estavam dispostos a servir-lhes arsênico misturado nas rosquinhas. Os pais se recusavam a dar o que era mais  importante: segurança. Lá fora o vento soprava o impermeável contra meu corpo, fazendo a chuva fustigar-me o rosto. Pude perceber que Mamãe, dez metros à minha frente, encontrava dificuldade para tentar segurar Cindy, que procurava libertar-se e voltar correndo para casa, enquanto gritava:

— Não gosto de chuva! Me leve pra casa! Não quero ir, Mamãe!

Tentando acalmá-la enquanto mantinha o equilíbrio e, ao mesmo tempo, procurava conservar o capuz sobre a cabeça, Mamãe finalmente desistiu dos esforços para não se molhar e tratou de manter Cindy seca. Logo seu cabelo estava emplastrado contra o couro cabeludo, tão liso como o meu naquele momento, pois eu nunca colocava um capuz na cabeça; dava-me medo de me olhar no espelho. Mamãe escorregou na lama que escorria das montanhas e quase perdeu o equilíbrio. Mas conseguiu permanecer em pé. Cindy gritava e esmurrava-lhe o rosto com os punhos minúsculos:

— CASA! QUERO IR PRA CASA!

Corri, depressa, pois ela não olhava para trás. Toda sua atenção se concentrava na estrada à frente.

— Pare com isso, Cindy!

Muros altos. Grades de ferro. Portões fortes. Caixinhas mágicas para a gente falar. Uma voz sumida respondendo. E o barulho do vento soprando... A privacidade nada significava para Deus e para o vento. Absolutamente nada. Escutei a voz de Mamãe gritando para se fazer ouvir acima do rugido do vento e da chuva:

— Sou Catherine Sheffield! Moro na casa ao lado e Bart é meu filho! Quero entrar e falar com a dona da casa!

Silêncio. Só o barulho do vento. Então Mamãe falou novamente:

— Quero falar com ela! Se for preciso, pularei esta grade! Vou entrar, de qualquer maneira, portanto, abram os portões e poupem-me o incômodo!

Mantive-me afastado, aguardando, arquejando como se meu coração realmente doesse. Devagar, muito devagar, os grandes portões pretos de ferro se abriram. Por um instante, tive vontade de gritar: NÃO! Não caia numa armadilha, Mamãe! Mas, na verdade, eu não sabia se era realmente uma armadilha. Apenas temia que entre John Amos e o Malcolm que existia dentro de mim, nada de bom resultasse da aventura de Mamãe na casa de minha avó. Esgueirei-me depressa pelos portões, antes que se fechassem. Pareceram-me portas de uma prisão. Ela continuava a avançar com dificuldade, enquanto Cindy não cessava de gritar e chorar. Quando chegaram à porta da frente, pareciam ambas encharcadas até os ossos, pois eu assim estava, apesar de dispor das duas mãos livres para segurar o casaco. Mamãe tropeçou pelos degraus, agarrando Cindy, que ainda se debatia para libertar-se. Erguendo a mandíbula solta do leão da aldrava, bateu com força à porta. John Amos estava à espera, pois abriu imediatamente uma das folhas da porta dupla e fez uma profunda reverência, como se recebesse uma rainha.

Então eu corri, o mais depressa que me foi possível, pois não queria perder um só instante da cena. Entrei pela porta lateral, percorri o corredor e atravessei o criado-mudo, esperando que ela se achasse naquela sala, pois não era muito seguro esconder-me atrás de uma palmeira plantada num vaso. Após largar meu casaco no chão, entreabri a porta do criado-mudo. Apenas uma fresta pela qual eu podia espiar. Era provável que Mamãe ainda estivesse no vestíbulo, despindo o casaco molhado e livrando-se das botas brancas sujas de lama. Então ela surgiu à porta, sem o casaco e as botas. Eu nem tivera tempo de verificar se minha avó estava na cadeira de balanço, mas lá estava ela, realmente.

Levantou-se rigidamente, de frente para Mamãe, escondendo as mãos trêmulas atrás das costas, o véu ocultando-lhe a maior parte do rosto e a totalidade do cabelo. Algo pequeno, frágil e jovem dentro de mim quis chorar quando vi Mamãe entrar na sala "dela", ainda carregando Cindy, cujos agasalhos também tinham sido despidos. A garotinha estava completamente seca, ao passo que os cabelos de minha mãe se grudavam a seu rosto em mechas molhadas semelhantes a cordas. O rosto corado estava tão febril que, mais uma vez, senti vontade de chorar. E se Deus a fulminasse naquele instante? E se a morte nas fogueiras do inferno fosse o castigo que ele realmente desejava dar a ela?

— Sinto incomodá-la intempestivamente, desta forma — disse Mamãe.

Eu imaginara que ela se atiraria de imediato contra minha avó.

— Contudo, preciso obter algumas respostas para minhas perguntas. Quem é a senhora? O que conta a meu filho caçula? Ele me disse coisas terríveis, que alega terem sido contadas pela senhora. Não a conheço e a senhora não me conhece; portanto, o que pode contar a ele, senão mentiras?

Até ali minha avó não pronunciara uma só palavra. Olhava para Mamãe e depois para Cindy. Minha avó indicou uma cadeira e depois inclinou profundamente a cabeça, como se pedisse desculpas. Por que não falava?

— Que bela sala! — comentou Mamãe, lançando um olhar a todos aqueles móveis finos e bonitos.

Seus olhos tinham uma expressão perturbada e até mesmo seu sorriso parecia forçado. Colocou Cindy em pé no chão e tentou segurar-lhe a mão, mas Cindy desejava explorar o ambiente e ver todas aquelas coisas lindas.

— Não me demorarei mais que o necessário — prosseguiu Mamãe, mantendo um olho em Cindy, que queria tocar em tudo. — Estou gripada e gostaria de estar em casa, na cama, mas tenho necessidade de descobrir exatamente o que a senhora tem contado a meu filho para que ele volte para casa e me diga coisas tão horríveis. E não me respeite como sua mãe. Quando a senhora puder explicar, Cindy e eu nos iremos daqui.

Minha avó meneou a cabeça, mantendo os olhos baixos, como se fosse mesmo uma mulher muçulmana. Pelo modo esquisito como Mamãe a fitava, percebi que julgava tratar-se de alguma estrangeira que não entendesse bem o nosso inglês. Sem ser convidada, Mamãe sentou-se perto da lareira acesa e Cindy veio acomodar-se a seus pés, no degrau da lareira.

— Moramos numa área isolada. Portanto, quando Bart apareceu em casa dizendo que a senhora da casa vizinha lhe contou isto e aquilo, compreendi que só poderia ser a senhora. Quem é a senhora? Por que tenta voltar meu filho contra mim? Que mal lhe fiz eu?

E as perguntas se repetiram, porque a mulher de preto se recusava a falar. Mamãe se inclinou para a frente, a fim de olhar minha avó de mais perto. Já estaria desconfiada? Seria tão esperta a ponto de perceber, a despeito do véu e do comprido e largo vestido preto, a verdadeira identidade da dona da mansão?

— Ora, vamos, eu lhe disse meu nome. Seja cortês o bastante para me dizer o seu.

Nenhuma resposta; apenas um tímido aceno da cabeça coberta pelo véu negro.

— Oh, creio que entendo — disse Mamãe, franzindo a testa perplexa. – A senhora não deve falar inglês.

A mulher sacudiu novamente a cabeça. A testa de Mamãe se franziu ainda mais.

— Na verdade, não entendo. A senhora parece compreender o que digo e, apesar disso, não responde. Não pode ser muda, ou não conseguiria contar a meu filho tantas mentiras.

O tempo se passava depressa. Eu nunca ouvira o relógio sobre o aparador de mármore da lareira funcionar tão ruidosamente. Minha avó se limitava a balançar-se na cadeira, como se nunca falasse ou erguesse a cabeça. Mamãe começava a aborrecer-se. De repente Cindy deu um pulo e correu para pegar uma gatinha de porcelana.

— Largue isso, Cindy.

Com óbvia relutância, Cindy obedeceu e recolocou cautelosamente o objeto na mesinha com tampo de mármore. Olhando para o arco que servia como separação da sala vizinha, correu naquela direção. Levantando-se depressa, Mamãe correu para impedir Cindy de vagar pela casa. Assim como eu, Cindy tinha a mania de querer examinar tudo, embora não derrubasse os objetos com tanta freqüência quanto eu.

— Não entrem aí! — exclamou minha avó, erguendo-se também.

Como se atordoada, minha mãe fez meia-volta, esquecendo Cindy. Seus olhos azuis se abriram muito e o rosto perdeu toda a cor quando ela fitou a mulher de negro, que não conseguiu evitar que as mãos nervosas subissem à gola do vestido preto. Logo ela pegou o colar de pérolas e começou a torcê-lo entre os dedos.

— Sua voz... eu já a escutei antes.

Vovó não respondeu.

— Esses anéis em seus dedos... eu já os vi antes. Onde conseguiu esses anéis?

Impotente, minha avó sacudiu os ombros e soltou depressa o colar de pérolas, que desapareceu sob o manto negro.

— Casa de penhores — disse ela de um modo esquisito, áspero, estrangeiro. — Bom preço.

Os olhos de Mamãe se apertaram e ela continuou a fitar aquela mulher que não lhe era desconhecida. Prendi o fôlego, imaginando o que aconteceria quando ela soubesse. Oh, Mamãe descobriria! Eu sabia que não era fácil enganar Mamãe. Como se os joelhos fraquejassem, Mamãe se afundou na poltrona mais próxima, sem se dar conta de que suas roupas estavam molhadas ou de que Cindy passara para a outra sala.

— Vejo que fala um pouco de inglês — disse em voz baixa e pausada. — Logo que entrei nesta sala, foi como se o tempo recuasse e eu voltasse a ser criança. Minha mãe tinha o mesmo gosto em questão de móveis, preferia as mesmas cores. Olho para suas cadeiras de brocado, para as de veludo, para o relógio no aparador da lareira... e só consigo pensar que minha mãe aprovaria esta sala. Até mesmo os anéis em seus dedos se parecem com os que ela costumava usar. Encontrou-os numa loja de penhores?

— Muitas mulheres gostam deste tipo de sala... e jóias — disse a mulher de preto.

— Tem uma voz estranha... Sra. ...?

Outro sacudir de ombros da figura negra. Mamãe tornou a levantar-se e foi à sala vizinha, buscar Cindy. Tornei a prender a respiração. O retrato estava lá. Ela o veria. Mas creio que não olhou em volta, pois voltou num segundo, puxando Cindy pela mão, e postou-se perto da lareira, segurando com firmeza a mão da garotinha.

— Que casa notável a senhora possui. Se eu fechasse os olhos, seria capaz de jurar que estava olhando para Foxworth Hall, como a via do balcão.

Escuros, muito escuros, estavam os olhos de minha avó.

— Está usando um colar de pérolas? Julguei ver pérolas quando a senhora levou as mãos ao pescoço, há pouco. Os anéis são lindos. Se exibe os anéis, por que oculta as pérolas?

E, mais uma vez, Vovó sacudiu os ombros.

Arrastando Cindy consigo, Mamãe se aproximou da mulher que eu não mais desejava considerar minha avó.

— Enquanto estou aqui, todos os tipos de lembranças me voltam à mente — disse Mamãe. — Lembro-me de uma noite de Natal, quando Foxworth Hall queimou-se até os alicerces num incêndio. A noite era fria, nevava, mas a cena estava iluminada como numa comemoração do Dia da Independência. Arranquei todos os anéis dos dedos e joguei as jóias de brilhantes e esmeraldas na neve, onde elas afundaram. Julguei que ninguém voltaria a encontrá-las... entretanto, Madame, a senhora está usando o anel de esmeralda que eu joguei na neve! Mais tarde, Chris foi apanhar todas aquelas jóias, porque pertenciam à mãe dele! A preciosa mãe dele!

— Também estou doente. Vá embora — murmurou a desolada figura vestida de negro, parada no meio da sala, evitando a cadeira de balanço que poderia prendê-la como uma armadilha.

Mas já estava presa.

— VOCÊ! — gritou Mamãe. — Eu devia ter adivinhado! Não existe no mundo um colar de pérolas com fecho em forma de borboleta de brilhantes igual ao seu! É claro que você está doente! — prosseguiu ela, aos berros. — Que outra coisa você poderia estar, senão doente! Sei quem você é. Agora tudo faz sentido. Como se atreve a aparecer na minha vida outra vez? Depois de tudo que nos fez, volta para fazer ainda mais, quando eu ainda nem tive tempo de fazê-la pagar por tudo! Roubar-lhe Bart não foi o suficiente. Agora, tenho a oportunidade de fazer mais que isso!

Largando a mão de Cindy, deu um bote para a frente e agarrou minha avó, que tentou recuar e libertar-se. Mas minha mãe era mais forte. Excitado e sem fôlego, vi as duas mulheres se puxarem mutuamente. Minha avó se encolheu ante a ferocidade do ataque. Parecia não saber o que fazer. Então Cindy soltou um berro de medo e começou a chorar.

— Mamãe, vamos para casa!

A porta se abriu e John Amos entrou na sala com seu andar arrastado. Quando minha mãe preparava um novo ataque, ele estendeu o braço para pousar a mão ossuda no ombro de minha avó. Nunca antes eu o vira tocá-la.

— Sra. Sheffield — começou ele com sua voz lamuriosa e sibilante. – Foi graciosamente recebida nesta casa e, agora, tenta aproveitar-se de minha esposa, que não passa bem de saúde há vários anos. Sou John Amos Jackson e essa é minha esposa, Sra. Jackson.

Aturdida, minha mãe só conseguiu arregalar os olhos.

— John Amos Jackson — repetiu ela devagar, pr