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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESPINHOS DO TEMPO / Zibia Gasparetto
ESPINHOS DO TEMPO / Zibia Gasparetto

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESPINHOS DO TEMPO

 

       Viver é uma aventura. Estar na Terra, uma oportunidade de progresso e aprendizagem. Ë esquecer tudo. Apagar a lembrança do passado e permitir-se usufruir de novas experiências.

       A reencarnação nos permite reencontrar e, às vezes, conviver com pessoas com as quais privamos em vidas passadas. Em outros corpos, em situações diferentes, que nos possibilitam vê-las sob outros enfoques.

       Inimigos ou amigos, odiados ou amados, a vida nos une no palco do mundo para uma reavaliação de atitudes, uma nova visão dos fatos, uma reciclagem dos sentimentos, pretendendo acordar e amadurecer nossas almas, forçando-nos a enxergar uma cota maior da realidade.

       A conquista da felicidade está em nossas mãos. Deus nos criou para sermos felizes e a vida procura nos mostrar esta verdade.

       Iludidos pelo esquecimento temporário, nos desviamos, escolhendo mal as oportunidades e recolhemos infelicidade e dor. O cenário do mundo retrata esse desacerto na inversão dos valores, que a muitos aparecem como sendo verdade absoluta.

       É hora de acordar. Ë hora de perceber. Na ciranda das reencarnações, nos demoramos durante largo tempo. É imperioso mudar. A Nova Era já se aproxima e não há tempo a perder. O mundo está maduro. Novos tempos, novas conquistas, maiores conhecimentos.

       Nós somos os donos do mundo! Ao toque dos nossos pensamentos renovados, tudo se transformará! Encarando nossa herança divina de felicidade, prosperidade e amor, abriremos as portas à espiritualidade maior, baniremos o sofrimento da Terra.

       O mundo é da forma como nós o construímos! Quando mudarmos nossa maneira de pensar, ele mudará.

       Sinto-me feliz por poder contribuir com mais uma história verídica. Ela revela alguns aspectos que nos serão úteis conhecer e nos farão compreender melhor, aceitar e respeitar a sabedoria da vida, que tudo faz para nos ensinar a alegria de viver.

                                                                                                                               Lúcius

 

 

       O campo estava florido e alegre, banhado pelo sol, acariciado pela brisa suave que balançava com graça os ramos verdes das árvores.

       Os pássaros voejavam de galho em galho, ora procurando alimento, saltitantes pelas campinas em trinados festivos, ora empoleirados no cimo dos galhos, altivos, vitoriosos, a olhar a paisagem embaixo com curiosos e ágeis olhinhos.

       Na calma e bucólica paisagem tudo era harmonia, alegria e paz. Na fazenda, apesar da hora vespertina, as atividades prosseguiam rotineiras. As mucamas, com suas grossas pulseiras de latão, o ruge-ruge das saias engomadas, alvos panos ao redor da cabeça, iam e vinham dirigindo a limpeza, passando o dedo pelos móveis para verificar a poeira, correndo os olhos pelo assoalho lavado, buscando encontrar alguma mancha remanescente.

       O esforço era recompensado, porque na fazenda Santa Marina dava gosto ver o apuro e a limpeza refletindo a fidalguia de seus donos.

       Demerval Graciano Coutinho, o proprietário daquelas terras, moço fino, possuidor de grande fortuna, terminara seus estudos em Paris e de volta a São Paulo casara-se com Maria José, sua amiga de infância, filha de ricos comerciantes importadores, com a qual tivera três filhos, Ana, Rosa e Adalberto.

       Residiam em Itu, mas costumavam passar temporadas na fazenda, de tempos em tempos, sempre por ocasião da Páscoa, do mês de junho e pelo Natal. Por vezes iam também durante o mês de setembro para ver o desabrochar da primavera.

       Neste ano, ela despontara linda, generosa, colocando belo colorido nas árvores. Os ipês enfeitavam cada recanto com sua profusão de flores. Por toda parte havia beleza, verde, luz, cor, fartura, paz.

       Quebrando o harmonioso murmúrio do campo com suas vozes naturais, um vulto de mulher apareceu. Alta, esguia, cabelos castanhos presos na nuca em grossa trança, pele clara, suave. Nas mãos nervosas um lencinho amassado e molhado.

    Era Maria José, rosto contraído, olhos vermelhos, lábios apertados. Sem ver a beleza da paisagem nem o chilrear alegre dos pássaros, nem as flores coloridas, sentou-se sob uma árvore e deu largas ao pranto. Soluçou dolorosamente. Seu corpo tremia enquanto apertava o minúsculo e rendado lencinho por entre as mãos nervosas.

    Ficou assim durante longo tempo. Depois, aos poucos, foi se acalmando e os soluços cessaram.

    - Preciso disfarçar - pensou, um tanto aflita. Levantou-se, correu até o riacho que deslizava mais além e, abaixando-se, banhou as faces cuidadosamente.

    Ninguém podia perceber seu desgosto, sua desventura. Precisava controlar-se. Estendeu-se na relva macia procurando distender a fisionomia. Seu rosto jovem e bonito aos poucos foi se modificando. Maria José estava com 25 anos e tinha 10 de casamento.

    Demerval, apesar do temperamento discreto, sempre preso às convenções, não era mau. Cumpria zelosamente suas funções de chefe de família, de pai e de marido. Conservador ao extremo, era partidário de organização e método. Por isso, em sua casa tudo era planejado e, a rotina, sagrada. Havia dia e hora para tudo. Ele detestava qualquer acontecimento que viesse a alterar seus hábitos e afazeres.

    Conhecendo-lhe a maneira de ser, qualquer um, depois de certo tempo de convivência, poderia saber exatamente em cada dia, hora e minuto o que se passava na casa de Demerval, o que ele estaria fazendo, etc.

    Os filhos, desde a mais tenra idade, foram habituados a essa rotina. Vigiados e conduzidos pelas mucamas e pajens, jamais podiam fazer o que quisessem e até na hora destinada aos folguedos e jogos tinham que obedecer ao programa previamente estabelecido.

    Maria José levantou-se. Não podia atrasar-se para o lanche. Demerval já teria terminado a sesta e ela não podia estar ausente ao café com rosquinhas fritas ou bolo de fubá que ele não dispensava.

    Apressou o passo. Seu rosto corado era uma máscara. Estava calmo e tranqüilo. Vendo-a, ninguém imaginaria a cena de momentos antes.

    Demerval odiava queixas e mau humor. Queria que todos se mostrassem alegres e contentes ao seu redor. Tudo tinha que ser maravilhoso, principalmente na fazenda durante as férias da família.

       Por isso, tanto os servos como sua esposa e até seus filhos, sempre compunham a fisionomia ao se aproximar dele, porque temiam seu desagrado, comumente convertido em castigo severo e drástico.

       A passos rápidos, Maria José galgou os degraus da varanda onde a mucama a esperava ansiosa.

       - Sinhá, ele já levantou e o lanche está pronto. Depressa!

       Maria José apressou-se mais. Em poucos segundos deu entrada ao salão onde a mesa já estava posta e preparada.

       - É desagradável não a encontrar aqui na hora habitual -observou ele, em tom levemente contrariado.

       - Desculpe-me. A tarde estava tão linda que fui ao meu passeio costumeiro e calculei mal o tempo a gastar na volta. Não tornará a acontecer.

       - Por certo, querida. Aceito suas desculpas.

       Sentaram-se ao redor da mesa. As crianças em silêncio. Só podiam responder se fossem inquiridas. Beberam seu leite, comeram suas rosquinhas calmamente. Ana com 9 anos, Rosa com 8 e Adalberto com 7. O pai, embevecido, olhos emocionados, fixava a cena famíliar com carinho.

       Sua família era a mais fina e educada de toda a corte. Orgulhava-se dela. Ele a organizara com seu esforço, seus pontos de vista, seu modo de ser.

       - Está uma linda tarde. Realmente este lugar é maravilhoso. Não existe por estas bandas tão lindas paisagens quanto as nossas.

       - As terras do Coronel José Bento são também muito lindas.

       Ele franziu o cenho com certo ar de desagrado.

       - Não nego que possui uma boa nascente e pequena cascata. Mas, essas terras, eu acho que eram nossas. O seu tataravô, usando de um esbulho, tirou-as do meu bisavô e até hoje eu não esqueci aquela demanda; se eu cismar, ainda vou mandar reabrir. Aquelas terras são nossas. Fomos esbulhados.

       - O Coronel José Bento não tem culpa. Não tinha nem nascido naquele tempo.

       - É da família. Depois, você sabe que eu não sou de briga. Já me propus a comprar essas terras, ele não vende. Comprar o que era nosso... Não acha que sou bom demais?

       - Claro. Você é generoso. Sempre foi.

       - Então - concordou ele, satisfeito - se as terras dele são boas é porque eram nossas, que esta fazenda é a melhor do mundo!

    Maria José baixou os olhos enquanto dizia:

    -       Tem razão, como sempre.

    Com um gesto, ele tornou:

    -       Está na hora, levem as crianças. Já comeram bastante. Podem ir.

    Enquanto se afastavam, ele observou:

    -       Que linda família nós temos! Como são gentis! Mas agora estou vendo, você não comeu nada. Está doente?

    -       Não. É que tenho medo de comer demais. A esta hora não me sabem bem os doces.

    Ele olhou-a fixamente:

    -       Cuide da saúde. Se não está bem, dou-lhe algumas colheradas de óleo de rícino. Já sabe como faz bem.

    Ela sorriu, alegre:

    -       Estou muito bem. Vou até comer um pouco para que não me julgue doente.

    Maria José tomou uma xícara de café e comeu duas rosquinhas.

    -       Assim está melhor - volveu ele. - Sabe que me preocupo com a sua saúde. Agora, vamos à leitura.

    -       Vamos à leitura - tornou ela, com fingida alegria.

    Demerval acomodou-se numa gostosa poltrona e Maria José, apanhando um volume encadernado na estante, sentou-se em outra ao seu lado, entregando-lhe. Ele tomou-o, satisfeito.

    -       Como eu sempre digo: não é pelo fato de estarmos na roça que vamos nos privar da cultura.

    -       Concordo. Mas hoje nós podíamos ler algo em português...

    -       E privar-me destes versos magníficos? Depois, temos que manter nosso francês.

Só hoje! Gostaria de algo em nosso idioma.

    -       Programamos este livro e assim será. Até parece que não sei escolher nossas leituras!

    -       Está bem - suspirou ela, conformada.

    Enquanto ele lia os monótonos versos em francês, Maria José, pensamento distante, dava asas à imaginação. Estava farta daquela rotina, de ser obrigada a fazer isto ou aquilo, de ter que obedecer sempre como um boneco tudo quanto o gentil tirano de sua casa determinasse.

    Sentia-se como uma ave presa na gaiola a debater-se em suas estreitas paredes, numa constante tentativa de fuga, machucando as asas inutilmente de encontro aos obstáculos inflexíveis. Se ao menos o futuro lhe abrisse uma perspectiva! Se ao menos pudesse Sair daquilo tudo e respirar um pouco de liberdade! Como seria bom, poder fazer o que lhe desse na cabeça, sem prestar contas a ninguém. Dormir quando sentisse vontade, comer quando sentisse fome. Sair sem destino nem rotinas. conhecer pessoas alegres e interessantes, enfim, mudar.

    Como seria bom se acontecesse alguma coisa diferente. Irritava-a saber que precisamente as 17:30 Demerval techaria o livro dizendo:

    Por hoje basta, Foi uma ótima escolha. Estes versos são magistrais não acha?

    Ela diria que sim. Depois ele iria até a varanda passear os olhos pela paisagem e esperar pelo jantar que seria servido impreterivelmente às 18:30. Mais tarde, na sala de estar, as crianças seriam colocadas na sua frente e ele perguntaria como tinham passado o dia. Era-lhes permitido contar, educadamente e sem arroubos, os jogos, as aulas, o que tinham aprendido. Isso até às 20:00 quando se recolhiam para dormir.

    Às terças, quintas e sábados iam para o piano. Demerval escolhia as partituras e Maria José as executava; ele acompanhava ao violino.

    Maria José detestava particularmente esses saraus. Apreciava música, porém Demerval tinha um gosto diferente ao seu e escolhia sempre peças em que seu violino pudesse sobressair. A jovem senhora não sabia se as detestava por não gostar de violino ou porque o marido não era um bom instrumentista.

    Durante uma hora sentia-se entediada e até rancorosa. Sua angústia continuava mesmo depois de Demerval ter dado o concerto por encerrado.

    Recolhiam-se às 21:00 para dormir. Às segundas, quartas e sextas, conversavam na sala e Demerval relatava em todos os detalhes a vida em Paris, suas viagens, alegando não ser egoísta e desejar que a esposa compartilhasse dos seus conhecimentos, mesmo sem jamais ter ido à Europa.

    Maria José conhecia todos os casos, as minúcias e até podia descrever Paris como se tivesse estado lá. Não agüentava mais ouvir sempre a mesma coisa. Até quando suportaria esse estado de coisas? Sentia-se mal, porém não tinha coragem para reagir.

    - Estou errada - pensava aflita - tenho tudo o que uma mulher precisa. Dinheiro, proteção, filhos maravilhosos, tudo. Não sei o que está acontecendo, porque estou deste jeito. Deveria agradecer a Deus por ter um marido como ele. Um homem bom, que ama a família, que vive para nós e me trata com bondade. Eu éque estou errada. Preciso aprender a apreciar o que ele gosta. Ser educada e fina como ele.

    Era inútil. As emoções brotavam dentro do seu coração e, sem querer, surpreendeu-se várias vezes odiando o marido. Naquele momento, enquanto ele lia deliciado, embalado ao som do seu francês, procurando colocar entonações adequadas, Maria José sentia ímpetos de atirar-se sobre ele, arrancar-lhe o livro das mãos e fazê-lo em pedacinhos. Procurou controlar-se.

    - Estou ficando louca - pensou assustada. Fechou os olhos tentando fugir à cena.

    Demerval olhou-a e, interrompendo a leitura, inquiriu:

    - O que está acontecendo? Por acaso não está apreciando minha leitura?

    A jovem senhora ainda tentou dominar-se, mas não conseguiu. Gritou desesperada:

    - Não, não gosto. Odeio! Odeio! Odeio!

    Ele empalideceu. Maria José à sua frente, pálida, rosto contraído, olhos chamejantes, não parecia sua doce mulher. Ofendido, Demerval levantou-se; dirigindo-se a ela, tornou, irritado:

    - O que está dizendo? Por acaso enlouqueceu?

    Vendo a fisionomia apoplética do marido, assustada com o que tinha feito, tudo se confundiu em sua cabeça e ela desmaiou.

    Demerval apavorou-se. Levantou a esposa nos braços e carregou-a para a cama. Tirou-lhe os sapatos, afrouxou-lhe as vestes e tentou despertá-la, dando palmadinhas na face.

    Vendo que não conseguia acordá-la, chamou sua mucama e pediu os sais.

    - Pobre sinhá - choramingou ela, aflita. Tinha já presenciado muitos momentos de depressão de sua ama.

    - O que será? - tomou ele, preocupado, aproximando os sais do nariz da esposa.

    Tudo inútil. Maria José continuava desmaiada, o rosto abatido, pálido. Não fora as batidas do seu coração, poder-se-ia julgá-la morta.

    -       Meu Deus! - gemeu ele. Que desgraça! Por que ela teria adoecido?

    A mucama olhava triste, sem nada dizer. Tinha aprendido a ver e calar, durante toda sua vida. Esfregava as mãos de sua sinhá com força, tentando aquecê-las. Quase não se atrevia a sugerir providências, pois sabia que seu amo não as acataria. Mesmo assim, arriscou:

    -       As mãos da sinhá estão frias. Um saco de água quente pode ajudar.

    -       Acho que sim. Já vi médicos fazerem isso. Vá buscar. Depressa.

    A negra saiu correndo. Seu amo deveria estar muito assustado para ter aceitado sua opinião. Colocaram um saco de água quente nas mãos e outro próximo aos pés. Aos poucos, as cores começaram a voltar às faces de Maria José.

    A custo abriu os olhos. Vendo o rosto do marido inclinado sobre ela, ansioso, recordou-se do ocorrido. Uma onda de remorso a invadiu. Ele era homem bom. Por que ela o agredira? Por que não conseguia aceitar seu modo de ser? Ela era culpada!

    Fechou os olhos que lhe pareciam pesados como chumbo.

    -       E agora? - pensou. Como explicar-lhe sua atitude? Como?

    -       Maria José, acorde. Não vá dormir de novo. Acorde.

    Com voz fraca a jovem senhora perguntou:

    -       O que aconteceu?

    -       Eu é que pergunto - tornou ele, sério. - O que aconteceu?

    -       Não sei... Não me recordo... Você estava lendo um lindo verso, é o que me lembro. Depois, não sei mais nada... Acordei aqui.

    Ele não se deu por satisfeito.

    -       Não se recorda do que fez? Você gritou comigo. Disse que odiava, este foi o termo, odiava minha leitura. Quero saber por quê.

    -       Eu disse isso? - murmurou ela, com voz fatigada. - Não me lembro. Não acredito.

    Ele empertigou-se.

    -       Chama-me de mentiroso?

    -       Não - gemeu ela, aflita. - Só digo que não me lembro de nada. Por que teria dito tais palavras?

    Ele a olhou entre a desconfiança e o desgosto. Mas a fisionomia de Maria José, muito abatida, preocupava-o. Resolveu não insistir. Procuraria um médico para tratar dela.

    Há algum tempo vinha notando que a esposa não era a mesma. Apesar dela não se queixar, andava sem apetite, distraída e até um tanto nervosa. Por certo um bom médico resolveria tudo.

-           Está bem, deixemos esse assunto. Você precisa repousar.

    Ela suspirou aliviada. Ainda bem que ele não insistira. Maria José, apesar da docilidade do marido, não se acalmou. Temia o futuro. Sentia-se fraca e incapaz de acompanhá-lo. Funda depressão a abateu ainda mais.

    De que adiantava querer explicar-lhe se ele não a entenderia? Seria muito pior dizer-lhe a verdade. Demerval jamais aceitaria que ela discordasse de seus pontos de vista. Sentir-se-ia ofendido, irritado. Confundiria seus sentimentos.

    Para ele, amor era obediência, era não ter outra vontade senão a dele, era fazer o que ele achasse certo. Mas, ai dela, por mais que tentasse não conseguia gostar das coisas de que ele gostava. Amava o marido, apesar de ter se casado em obediência aos pais. A figura elegante de Demerval, que conhecia desde a infância, sua gentileza, suas atenções e sua posição social, tinham-na impressionado favoravelmente. Tinha aprendido a amá-lo. No entanto, detestava os versos em francês, a rotina obrigatória, a intransigência dele e ultimamente, até sua calma, sua delicadeza a irritavam. Foi tomada de profundo sentimento de culpa. Julgou-se leviana, ingrata, perversa.

    Que outra mulher não se sentiria feliz possuindo uma família como a sua? Que outra mulher não agradeceria a Deus um marido como o seu?

    Inútil tentar convencer-se. O tédio, a tristeza, o vazio, a irritabilidade, tiravam-lhe a calma e a alegria de viver. Fechou os olhos fingindo dormir. Em seu coração a depressão, o medo, a angústia vestiam-lhe o futuro de infelicidade e de tristeza. Deixou-se envolver por profundo abatimento.

    Permaneceu no leito o resto da tarde, olhos cerrados, pálida, sem forças para levantar-se.

    Mesmo preocupado com a esposa, Demerval não modificou os hábitos da família. Cumpriu a rotina religiosamente. Vendo que a esposa não conseguia levantar-se, jantou com as crianças, conversou com elas e cumpriu sua hora de música massacrando o violino como sempre.

    Maria José não tocou nos alimentos que lhe trouxeram. A custo bebeu o caldo que a mucama lhe ofereceu com insistência.

    Apesar de sua depressão, no fundo, no fundo, uma parte de Maria José sentia-se contente por ter, de alguma forma, escapado da rotina costumeira. Tinha conseguido ficar à parte do desagradável sarau da noite e da opressiva presença do marido.

    Maria José não compreendia por que sentia essa irritação e a presença dele a incomodava.

    No horário habitual, Demerval preparou-se para dormir.

    -       Está melhor? - indagou, com certa preocupação. Sua mulher não era dada a desmaios e dengos. Estaria realmente doente? Por outro lado, não acreditava em problemas nervosos. As doenças sempre eram físicas. Por isso, se sua mulher estava doente, deveria haver uma deficiência física. Se tal não houvesse, então tudo não passava de manha ou fingimento. Daria um tempo para verificar. Caso ela não estivesse melhor no dia seguinte, mandaria buscar o dr. Amarante, médico antigo de sua família, para examiná-la.

    Maria José abriu os olhos e procurou sorrir.

    -       Estou - respondeu.

    -       Pois não parece. Não se levantou e nem comeu no jantar.

    -       Não tenho fome. Sinto muita fraqueza. Tentei levantar-me mas fico tonta.

    Demerval colocou a mão direita sobre sua testa.

    -       Não tem febre. Por acaso comeu alguma coisa fora das refeições?

    -       Não - tornou ela.

    -       Pode ser problema digestivo. Se não tem fome, só pode ser isso.

    Maria José tentou conversar.

    -       Não sei o que é. Sinto uma tristeza como se fosse morrer.

    Ele cortou com voz firme:

    -       Deixe de bobagem. Não venha com fantasia. Amanhã chamarei o dr. Amarante. Por certo lhe dará um remédio e a porá boa. Os intestinos têm funcionado?

    -       Têm, até demais - tornou ela, apavorada. Sabia onde ele queria chegar.

- É mas uma boa colher de óleo de rícino é santo remédio.

     -      Por favor - gemeu ela - não é o meu caso. Hoje já fui várias vezes.

     Demerval olhou-a indeciso.

     -      Sabe que quero cuidar da sua saúde.

     -      Sei e agradeço - respondeu ela. - Estou com náuseas.

     -      Mais uma razão para tomar o purgante. Por certo vai aliviar.

     De nada valeram os rogos, os protestos da esposa. Demerval apanhou o detestável remédio e, colocando-o na colher, aproximou-a dos lábios de Maria José.

     -      Beba - ordenou com voz firme.

     Ela respirou fundo e procurou obedecer, porém, ante o cheiro odioso, a náusea sacudiu o corpo frágil da jovem senhora e, de repente, ela sentiu uma onda de revolta que não conseguiu dominar. Trincou os dentes e deu violento empurrão na mão do marido que, surpreendido, ficou sem ação.

     Não quero, entendeu? Não tomo. Saia daqui, deixe-me em paz.

     O    rosto de Maria José transformara-se. Não parecia a mesma pessoa. Seus olhos expeliam chispas e brilhavam rancorosos.

     -      Maria José, eu ordeno - gritou ele, tentando vencer a surpresa.

     Ao ouvi-lo, ela saltou do leito, parecendo ter perdido a razão. Seu corpo todo tremia enquanto ela gritava enlouquecida:

     -      Odeio você! Eu o odeio! Saia daqui senão eu o mato. Eu juro que mato.

     Assustado, ele tentou segurá-la. Ela empurrou-o com tanta violência que Demerval caiu de encontro a parede. Sua força estava multiplicada.

     Vendo-o no chão, tentando levantar-se, pálido e assustado, Maria José começou a rir, enquanto dizia:

     -      Eu sou livre, livre! Vou libertar-me do seu domínio, desta escravidão. Chega! Chega! Se você reagir, mato-o com minhas próprias mãos!

     Como ele já fizesse menção de aproximar-se ela começou a apanhar os objetos ao seu alcance e a atirá-los contra o marido.

     -      Maria José enlouqueceu - pensou ele, apavorado. Não encontrou outro recurso, saiu depressa fechando a porta por fora.

     Encostou-se nela, pálido, trêmulo, sem saber o que fazer, ouvindo lá dentro a mulher atirando tudo o que podia contra a porta.

     As servas correram assustadas e as crianças acordaram. A casa transformou-se em pandemônio, onde ninguém sabia o que fazer.

     Demerval, desesperado, tornou para as servas aflitas:

     -      A sinhá enlouqueceu! Que tragédia, meu Deus!

     Todos choravam em meio à confusão.

     -      Fechei-a dentro do quarto - continuou ele - vamos esperar para ver se se acalma.

     Ainda estavam ouvindo a voz dela gritando e rindo:

     -      Eu estou livre! Eu estou livre!

     Quando o médico chegou e conseguiu entrar, ela estava em meio aos destroços do quarto, vestida com roupas coloridas, cheia de jóias, uma flor nos cabelos soltos e ria feliz.

     O    dr. Amarante quis entrar só. Aqueles casos de loucura eram perigosos. Demerval, pálido, triste, assustado, ficou esperando do lado de fora.

     -      Dona Maria José - indagou o médico, vendo-a calma. - Vim ajudá-la. Confie em mim.

     Ela olhou-o com indiferença.

     -      Sou seu amigo. Vou curá-la.

     -      Estou feliz - tornou a jovem senhora - sou livre. Vou fazer o que quero.

     -      Por certo - concordou ele, conciliador. - Não quer sentar-se?

     -      Não - disse ela. Só faço o que quero. Você não manda em mim.

     -      Claro que não. É que sentados podemos conversar melhor.

     -      O que quer conversar?

     -      A senhora está doente. Quero ajudá-la.

     -      Estou muito bem.

     -      Vou dar-lhe um remédio.

     Ela enfureceu-se.

     -      Se se aproximar eu o mato. Não tomo nada, já disse.

     -      Está bem - fez ele. - Nesse caso, não vou insistir. Não quer deitar-se?

     -      Não. Estou bem. Agora saia daqui. Não vou com a sua cara. Deixe-me em paz.

     O    médico saiu. Em seu rosto refletia-se a apreensão.

     -      E então, doutor? - tornou Demerval, ansioso.

     O    médico balançou a cabeça.

     -      É grave. Precisamos tirá-la da crise.

        Crise'!

    -       Sua mulher teve uma crise de loucura. Não posso dizer até que ponto este estado a conduzirá. Não quero enganá-lo. Tanto pode ser leve - e nesse caso, com tratamento e certos cuidados ela passará - como pode piorar e ela não mais voltar ao normal. Nunca se sabe. Temos que lutar e esperar.

    Demerval sentiu-se arrasado.

    -       Nesse caso, doutor, o que fazer?

    -       Sua mulher nunca teve crises nervosas?

    -       Nunca Ela sempre foi meíga, cordata. Estamos casados há dez anos. Nunca a vi dizer uma palavra áspera.

    - Notou alguma mudança em seu comportamento nos últimos tempos?

    -       Notei. Estava sem apetite e um pouco fraca. Ainda ontem comportou-se de forma estranha.

    -       Conte-me como tudo começou.

    Demerval relatou o que sabia.

    -.      Pode ser uma crise nervosa passageira.

    -       Não creio - tornou Demerval - ela sempre foi pessoa calma, cordata e equilibrada. Não é mulher dengosa nem de xiliques.

    -       Conheço dona Maria José há tempos. importa-se em responder-me algumas perguntas?

    -       Estou às ordens - concordou ele, meio a contragosto. Detestava que lhe invadissem a intimidade.

    -       Vamos a um local sossegado - disse o médico. - A Zefa pode entrar no quarto sem medo. Ela está calma.

    -       Vamos ver - tornou Demerval preocupado. - Zefa. entre lá e veja se ela está bem.

    A negra, olhos marejados, obedeceu prontamente. Pobre sinhá. Ela entendia o que se passava. Tinha presenciado as crises de sua sinhá. Vendo o quarto depredado, a figura de Maria José frente ao espelho, cabelos soltos que o marido odiava, flor nos cabelos, a pintar o rosto com carmim, a mucama sentiu um aperto no coração.

    -       Sinhá - chamou, carinhosa.

    Ela pareceu nem ouvir. A negra, pouco mais nova do que sua sinhá, a adorava. Aproximou-se da jovem e repetiu.

    -       Sinhá, estou aqui. Num precisa ter medo. Sei o que se passa com vosmecê. Num vô contá pra ninguém. Acho que tem razão. Quero ajudá. Vem comigo. vamo descansá.

    Ela a olhou e sorriu.

    -       Eu estou livre - tornou, obcecada. - Estou feliz.

    -       Eu sei. Fique comigo. Se vosmecê quebrá mais coisas o médico a leva embora. Calma que eu vou ajudá. Dá sua mão.

    Olhava-a nos olhos com muito amor. Maria José estendeu a mão. Zef a segurou-a e continuando a olhá-la nos olhos, começou a rezar. Maria José fez menção de tirar a mão mas a negra segurou-a firme.

    -       Vai embora - disse com voz firme. - Nosso Senhô vai castigá ocê se num deixá ela em paz. Vai em nome de Deus.

    A negra rezava em voz alta. Um tremor violento sacudiu o corpo frágil de Maria José e ela teria caído se a Zefa não a tivesse amparado. Colocou-a no leito, sempre rezando. A moça chorava convulsivamente.

    -       Calma, sinhá. Agora tudo vai ficá bem. Fica calma. Num vai acontecê nada. Confia em Deus.

    Aos poucos o rosto dela foi serenando e seu pranto passando. Por fim, calou-se. A negra continuava rezando, confiante.

    Maria José Abriu os olhos como quem procura recordar-se de alguma coisa.

    -       Está tudo bem agora, sinhá. Eu tô aqui.

    Ela olhou-a ainda sem parecer entender o que se passava. Por fim murmurou com voz fraca:

     -      Zefa!

     -      Sou eu, sinhá. Tá tudo bem.

     -      O que aconteceu?

        Vosmecê num tava bem, agora já tá melhor.

     -      Estou fraca e parece que estou vazia por dentro.

     -      Isso passa. Vosmecê num comeu nada desde ontem. Gastou muito as força.

     -      Estou com fome.

     -      Isso é bom. Vou mandar trazê café com leite e umas broa quentinha que a sinhá tanto gosta.

     -      É. Preciso levantar-me. Que horas são?

     -      Passam das dez.

     -      Santo Deus! E Demerval? Não me lembro de ter tomado o café com ele.

     Foi aí que tentou levantar-se. Vendo a confusão do quarto, perguntou assustada:

    -       Deus meu! O que foi isso? O que aconteceu?

A negra ficou apreensiva.

    -       Quero a verdade já - exigiu Maria José segurando as mãos da negra com força.

    -       Foi a sinhá. Teve uma crise nervosa.

    -       Eu?

    -       Sim. Não se alembra?

    -       Não. Não me lembro.

- Pois foi. Quebrou tudo. Atirou tudo em cima do sinhozinho.

- É?

- É.

    -       E ele?

    -       Ficou assustado. Mandou buscá o dr. Amarante e agora tão lá no gabinete conversando.

    -       Estou com medo - tornou ela assustada. - Estarei enlouquecendo?

A negra deu de ombros.

    -       A sinhá num tá louca, não. Tá nervosa, num agüenta mais obedecê o marido e ficou possuída de espírito. Foi isso.

    -       Espíritos? Não acredito nessas histórias, nessas suas manias.

    -       É verdade, sinhá. Vosmecê só melhorô depois que eu rezei e pedi ajuda do meu santo. Só assim ele foi embora.

A moça ficou assustada.

    -       Acha que eles poderão voltar?

    -       Tem que rezá muito. Deus é grande.

Maria José estava apavorada.

    -       E agora Zefa, o que fazer? Como enfrentar Demerval? Ele não vai acreditar.

A negra abanou a cabeça preocupada.

    -       É, sinhozinho num vai acreditá. Nós vamo fazê nossas rezas. Se vosmecê não melhorá, o dotô leva vosmecê pro hospício.

Maria José agarrou as mãos da negra com força.

    -       Tenho medo!

    -       Calma. Vendo que vosmecê está boa, ele vai embora. Tem de tomá cuidado com as crises. Vamo vê se não acontece de novo.

    -       Como evitar? Não percebi bem como aconteceu. Meu Deus, como vou viver daqui por diante?

    -       Bem. Muito bem. Tenha fé. Meu santo vai ajudá. Sinhá tem que aprendê a rezá: quando se sentir nervosa, chama por Nagô. Ele é poderoso, tira o perigo do seu caminho.

    -       Quem é ele?

    -       É meu santo guia. É muito bom e tem me ajudado muito. Foi ele quem fez a sinhá ficá boa de novo.

    -       Ah! Deus meu, como vou fazer agora?

    -       É fácil, sinhá. Vosmecê não se alembra mesmo de nada. É só dizer isso. Acho que o sinhozinho vai ficá contente em saber que já está boa. Ele estava muito assustado. Num diga nada além disso. Tem seu doutô, ele que arranje explicação. Os médico sempre encontram uma e a sinhá num sabe de nada.

    -       É. Não lembro mesmo. Não sei o que aconteceu. Por isso, não tenho que explicar nada. Olha este quarto, que horror!

    -       Vou buscar o que comer, depois ajeito tudo.

    -       Não saia que sinto medo. Eles poderão voltar!

    -       Vou chamá a Joana. Calma. Eu num saio daqui.

    A negra tocou a sineta e logo a escrava entrou. Estava um pouco assustada.

    -       Vai buscá leite bem quentinho e algumas broas prá sinhá. Bem depressa. Ela já tá melhor.

    Joana saiu rápida. Enquanto esperavam a mucama, Zefa foi colocando o quarto em ordem.

    Demerval e o dr. Amarante conversavam no gabinete. Demerval, apreensivo, estava deprimido, preocupado. O médico dizia:

    -       O senhor diz que ela leva vida calma, sossegada. Porém, se ela começou a perder o apetite, ficar abatida, deve ter algum problema.

    -       Não tem, doutor. Nós vivemos muito bem. Ela tem sido obediente, dócil, boa mãe, boa esposa. Eu tenho zelado por nossa casa, feito tudo para que nossa vida seja sempre feliz.

    O     médico sacudiu a cabeça pensativo.

    -       Eu sei. Contudo, ela deve ter tido algum aborrecimento. Algum problema íntimo que talvez o senhor não saiba.

    Demerval levantou-se irritado.

    -       Não creio. Maria José não tem segredos para mim. Conheço-lhes os mais íntimos pensamentos.

    O médico calou-se pensativo enquanto lentamente fazia seu cigarrinho de palha. O dr. Amarante não era bem um fumante, mas, quando preocupado, costumava preparar seu cigarro, picando o fumo com atenção e enrolando-o lenta e caprichosamente; geralmente o acendia em silêncio e depois esquecia no cinzeiro, apagado e inútil.

    Apesar de inquieto e de detestar o fumo como qualquer outro vício, Demerval não teve outro remédio senão esperar o médico terminar seu cigarro, acendê-lo e colocá-lo sobre uma salva que havia na mesa. Feito isto, disse sério:

    -       Ninguém pode saber o que vai pelo coração de uma mulher.

    Demerval não se deu por achado:

    -       Eu sei. Conheço minha mulher. Posso saber até seus pensamentos.

    -       Então, deve saber o porquê dessa crise.

    -       Não tenho dúvida. Ela está doente. Seu cérebro está com alguma disfunção. E quem deve saber isso é o senhor que é o médico. Não posso entender de medicina. Se o chamei foi para descobrir a doença, dar o remédio e curar.

    O     médico olhou-o firme:

    -       Esses casos de loucura não são fáceis. Não temos meios de conhecer bem as doenças mentais, O que sabemos é que elas começam sempre por causa de problemas emocionais que acabam afetando os nervos e é quando acontece a crise.

    Demerval respondeu seguro:

    -       Não é o caso dela. Maria José sempre foi muito feliz. Não tem problemas e, se teve essa crise, deve ter alguma doença afetando seu cérebro.

    -       Um tumor? Um coágulo, uma obstrução?

    -       Claro. Por que não?

    -       Simplesmente porque essas doenças não ocasionam crises como as teve dona Maria José. Têm outros sintomas tais como febre, inconsciência, paralisia, afetam os membros na parte motora, cegueira, etc. Ela não tem nenhum desses sintomas.

    -       Está inconsciente.

    -       Saiu do presente, mas fala e responde como se fosse outra pessoa.

    Demerval sentou-se, passando a mão nervosa pelos cabelos.

    -       Então não sei. Estou perdido!

    O     médico olhou-o calmo.

    -       Pode ser que ela melhore. Vamos ver. Tem certeza mesmo que ela não tem nenhum problema íntimo?

    -       Tenho - respondeu Demerval, teimoso.

    -       Muito bem. Agora vou ver como ela está.

    Levantaram-se e dirigiram-se até o quarto do casal.

    -       Quero entrar sozinho - tornou o médico.

    Demerval concordou e o dr. abriu a porta, entrou, fechando-a atrás de si.

    A cena tinha se modificado. Com o quarto já em ordem, a jovem senhora, recostada nas almofadas, terminava sua refeição com bom apetite. Vendo-o, fixou-o um pouco assustada.

    O     médico aproximou-se e, colocando uma cadeira ao lado da cama, acomodou-se:

    -       Vejo que está melhor - disse ele com delicadeza.

    -       Sim - respondeu ela - agora estou bem.

    -       Estimo. Seu marido, seus filhos estão muito preocupados com a senhora.

    Ela fez um gesto vago.

    -       Eu sei, doutor. Não tive culpa do que aconteceu.

    -       Não a estou culpando de nada. Só quero dizer que eles vão gostar de saber que já está melhor.

    Ela sorriu um pouco triste.

    -       Sinto ter causado transtorno.

    -       Isso é o de menos. Estamos alegres com sua recuperação. Sente-se bem para conversarmos um pouco?

    -       Estou um tanto atordoada e muito cansada. Sinto muita fraqueza.

    -       É natural. Vou receitar-lhe um bom fortificante. Porém, o melhor tônico é a alegria.

    Fundo suspiro escapou do peito de Maria José, mas nada disse.

    -       Não tem sentido alegria ultimamente?

    A jovem senhora tentou sorrir.

    -       Preciso ser alegre. Não tenho nenhum motivo para ser triste. Tenho o melhor marido do mundo e uma família invejável. Por que deveria estar triste?

    -       Ainda assim a senhora não sente alegria, não é mesmo?

    -       É... - fez ela, titubeante. - Eu não sei o que acontece comigo. Ando nervosa, angustiada, sinto medo não sei de quê e muita irritação. Doutor, será que estou ficando louca?

    O     médico tomou-lhe a mão, segurando-a com força.

    -       Calma. Não é isso. A senhora está um pouco nervosa. Teve uma crise de nervos. Foi só isso. Não está louca coisa nenhuma.

    -       Acha mesmo?

    -       Acho. Acho ainda que a senhora tem algum desgosto íntimo que está provocando tudo isso.

Maria José angustiou-se.

    -       Não é verdade. Não tenho nada. Estou bem.

    -       Está bem. Se não pretende contar-me, não insistirei. Lembre-se que pretendo ajudá-la. Não confia em mim?

    -       Confio - disse ela - mas acredite, nada tenho a contar.

    -       Está bem. Virei vê-la amiúde. Quando quiser desabafar, estarei à sua disposição. Seu marido não vai saber. Tem certeza de que não quer contar?

    -       Não há nada a dizer, doutor.

    -       Está bem. Vou receitar-lhe e deve repousar. Amanhã voltarei para visitá-la.

    -       Obrigada, doutor.

    -       Até logo, dona Maria José. Alegria e repouso.

    -       Está bem, doutor.

    O     médico saiu. Demerval aguardava-o aflito.

    -       Doutor, disseram-me que ela já voltou a si e até comeu.

    -       É verdade. Ela agora está bem. Vou prescrever-lhe alguns medicamentos.

    -       Por certo, doutor. Quer ir ao gabinete?

    -       Na sala ao lado está bem.

Depois de escrever a fórmula do remédio, o médico recomendou:

    -       Todo cuidado é pouco. Ela está muito sensível e fraca. Não pode ser contrariada em nada.

    -       Acha que ficará boa?

    -       Vamos ver. No momento parece bem.

Demerval suspirou aliviado.

    -       Não sabe como me sinto! Parece que estou tendo um pesadelo!

    -       Acredito. Contudo, ela inspira cuidados. Não a contrarie. por favor.

Demerval respondeu magoado:

    -       Da forma como fala o doutor parece que eu sou o responsável pela sua doença!

    -       Não disse isso. Espero que se recorde do motivo que provocou a crise.

    -       Como assim?

    -       O sr. queria obrigá-la a tomar o óleo de rícino.

O         rosto de Demerval ficou rubro.

    -       Julguei que lhe fizesse bem!

    -       Mas ela não queria.

    -       Nunca pensei que fosse ter aquela crise. Queria ajudá-la.

    -       Eu sei. Mas como o sr. não é médico, não percebeu que não só ela não precisava do purgante, como a contrariedade iria fazer-lhe mal.

    Demerval estava furioso. Aquele médico atrevido!

    -       Eu sempre soube o que é melhor para minha família. O doutor fala como se eu fosse o culpado do que aconteceu. Espero que retire o que disse.

    O     médico abanou a cabeça, conciliador.

    -       Não o estou culpando nem criticando. Porém, como o sr. acha que dona Maria José não foi contrariada, procurei mostrar-lhe a verdade. Gostaria que percebesse o que aconteceu. Sua esposa está nervosa e debilitada e não gosta de óleo de rícino. O senhor procurou obrigá-la. Aí a crise veio, entende?

    Apesar de contrariado, Demerval sentiu que ele falava a verdade. Não quis dar a perceber.

    -       Quando ela recusou-se a tomar o remédio, já estava em crise. Caso contrário, teria obedecido, como sempre fez. Não foi por isso que ela ficou mal. Ela já estava.

    -       Está bem. Não vamos discutir por isso. Só quero que ela fique boa. Para isso, não pode contrariá-la.

    -       Terei que fazer-lhe todas as vontades, ainda que disparatadas?

    -       Ela pareceu-me bem. Não acredito que terá vontades disparatadas. Mas, se isso acontecer, deve obedecer. Pelo menos por enquanto. Amanhã, à tardinha, passarei para ver como estão as coisas.

    Demerval deu um suspiro resignado.

    -       Está bem, doutor. Farei esse sacrifício. Farei tudo para ver Maria José curada.

    -       Sei que fará. Ela precisa de alegria e paz. Passar bem, sr. Demerval.

    -       Passar bem, doutor.

    O     médico saiu e Demerval mandou um escravo à vila para preparar o remédio e depois, procurando dar à fisionomia um ar tranqüilo, entrou no quarto onde estava a esposa.

    Maria José, recostada nas almofadas, cochilava tranqüilamente enquanto a mucama, sentada ao lado, velava. Demerval aproximou-se e a negra levantou-se.

    -       Como está ela? - indagou ele, em voz baixa.

    - Vai bem, sinhô - respondeu a escrava, indo postar-se aos pés da cama, em silêncio.

    Demerval, com delicadeza, acercou-se. Maria José abriu os olhos e, vendo-o, sobressaltou-se:

-           É você?

    Ele alisou os longos cabelos com carinho.

    - Sim. Não se assuste. Sou eu. Estou aqui para protegê-la. Não vai acontecer nada. Você precisa descansar.

    Maria José sorriu aliviada. Afinal o marido estava calmo. Dentro em pouco esqueceria o acontecido. Tudo agora estava bem. Cerrou os olhos e adormeceu um sono tranqüilo e reparador.

 

     Nos dias que se seguiram. Maria José foi melhorando. A princípio, Demerval não insistia com ela para fazer nada e pela primeira Vez Maria José pôde ficar no quarto sem ter que participar da rotina da família. Pôde reler velhos livros aos quais tanto gostava, inventar bordados diferentes, conversar horas e horas com a Zefa e comer o que lhe apetecia. Foi se recuperando.

    Demerval, apesar de solícito, voltara a sua rotina, convidando a esposa a participar. Ela porém, com delicadeza. recusava-se, pretextando fraqueza e mal-estar.

    Depois de uma semana, o médico prescreveu-lhe sair todas as manhãs para caminhar pela fazenda, e Zefa a acompanhava nesses passeios, aos quais Maria José voltava corada e rejuvenescida. Parecia uma criança em férias, com seus olhos alegres e felizes. os teimosos cabelos, que por vezes escapavam aa trança costumeira, emoldurando-lhe o rosto bonito.

    Sentia-se livre e essa sensação tornava-a feliz. À tarde surpreendera os filhos, participando dos seus folguedos e jogos e eles, vendo-a corada, alegre. entusiasmavam-se, expandindo-se em risadas e ruídos que antes nunca tinham feito.

    Demerval sentia-se preocupado. Maria José parecia-lhe bem, porem, aquilo não era vida.

    Sua rotina prejudicada, ele sentia-se isolado. preterido, abandonado. Estava mal-humorado. Seus filhos nunca tinham feito tanta algazarra e, o que era pior, a esposa estava com eles. Estava tudo errado. Como discipliná-los se a própria mãe brincava com eles como criança? Onde o princípio de autoridade?

    Sua casa não era mais a mesma. Logo deveriam regressar àcidade. Até lá, queria resolver esse problema.

    Várias vezes tentou falar com a esposa convidando-a a retomar os antigos hábitos. Porém, ela dizia-se fraca, sem coragem, temerosa. Ele, recordando as recomendações do médico, não queria obrigá-la.

    Quando 15 dias depois o médico voltou, recebeu-o com alívio. Levou-o ao seu gabinete e desabafou:

    -       Doutor, não agüento mais. Isto não é vida.. Vivo só e triste. Tudo está mudado. Minha família não é a mesma. Por isso, pedi-lhe para conversarmos no meu gabinete.

    -       Dona Maria José não está bem?

    -       Acho que não. Parece outra pessoa. Está mais forte, corada, parece bem. Mas não pode estar! Faz coisas incompatíveis com sua posição!

    Dr. Amarante olhou-o tranqüilo. Ele prosseguiu.

            - Antes era boa mãe, boa esposa. Estava sempre interessada no meu bem-estar. Agora afasta-se de mim sem razão. Por mais que a convide para nossos hábitos e costumes dos quais tanto gostávamos, ela recusa-se. Alega cansaço, fraqueza, esquiva-se. Fecha-se no quarto com a Zefa, a fazer enfadonhos bordados, a ler livros desinteressantes.

            E o mais grave, está prejudicando a disciplina dos filhos.

    -       Como assim?

    -       Mistura-se a eles nos folguedos no jardim, joga com eles, rola com eles no gramado e outro dia até pulou corda! Uma vergonha! Doutor, estou seriamente preocupado. Temos que tomar alguma providência. Maria José não está boa da cabeça.

    O     médico ficou pensativo. Depois perguntou:

    -       Ela está se alimentando?

    -       Muito bem. Isso também é estranho. Não é de comer muito.

como eu disse. Parece outra pessoa. Não a reconheço.

    O     médico olhou-o por cima dos óculos, num gesto todo seu. Depois disse:

    -       Não me parece que esteja mal. Quando alguém está em crise, geralmente perde o apetite. Desejo vê-la. Depois conversaremos.

    -       Está bem. Ela está em seus aposentos. Venha comigo.

    O     médico bateu na porta e Zef a fê-lo entrar na ante-câmara de Maria José, acomodando-o em uma poltrona.

    -       Um momento, dotô. A sinhá já vem.

    Em poucos minutos Maria José entrou. Cumprimentou o médico com gentileza.

    -       Vejo que está melhor - tornou ele. - Vim para examiná-la.

    -       Está bem, doutor.

    O     médico tomou-lhe o pulso, ouviu seu coração, espiou seus olhos, sua língua e depois concluiu:

    -       Realmente a senhora está muito melhor.

    -       Sinto-me bem. Há muito que não me sentia assim.

    -       Vamos conversar um pouco. Vejo-a corada, bem disposta, parece até que ganhou um pouco de peso.

    -       É verdade. O senhor mandou-me cultivar a alegria e é o que tenho feito. Gosto de correr pelos campos sentindo o vento bater-me no rosto. De jogar com meus filhos, de beijá-los, de ver seus rostinhos alegres e corados. Gosto daqui, dos jardins, das flores, do riacho. Sinto-me reviver.

    -       Isso me alegra. Contudo, há um problema que não consigo entender. O sr. Demerval sente-se abandonado, sozinho, porque a senhora se recusa a compartilhar de sua vida como sempre fez.

    O     rosto de Maria José sombreou-se de preocupação. Não sabia o que responder. O médico continuou:

    -       Ele está preocupado. Acha que a senhora está doente, diferente, não sabe o que fazer.

    Pediu-me um remédio que resolva esse problema e faça tudo ficar como antes.

Maria José ficou séria, calada.

    -       O que me diz? - inquiriu ele, calmo.

    -       Não sei o que dizer. Não tenho ainda ânimo para começar tudo de novo.

Ele a olhou sério.

    -       É-lhe difícil viver com seu marido?

Ela sobressaltou-se.

    -       Não leve a mal, doutor. Demerval é um ótimo marido e ótimo pai. Mas, não sei o que se passa comigo, de uns tempos para cá tenho andado insatisfeita, preocupada, infeliz. Não sei por quê. Meu marido é um homem bom, educado. Não posso compreender. Eu devia agradecer a Deus tanta felicidade. No entanto, não consigo suportar a nossa vida, as coisas que lhe dão prazer. Tudo quanto ele faz ou diz, irrita-me. Sem motivo, sinto vontade de gritar e até de agredi-lo. Se não retomei à nossa vida de sempre, foi porque tenho medo.

Ela parou, indecisa. Ele pediu:

    -       Continue. De que tem medo?

    -       De ter outra crise. De não suportar a situação e acontecer o que aconteceu naquela noite.

    -       A senhora sabe que a medicina não tem remédio para isso...

Ela torceu as mãos, aflita.

    -       E eu? O que devo fazer?

Ele olhou-a firme.

    -       A senhora deve contar-lhe o que sente. Dizer que não gosta de obedecer ao que ele determina.

    -       Não posso. Ele não compreenderia. Por certo iria pensar que eu o estava ofendendo. Não posso falar-lhe sobre isso.

    -       Quem sabe se a senhora falasse com ele procurando entrar em acordo, cada um cedendo um pouco. Se a senhora tivesse liberdade de escolher como gastar seu tempo, talvez tudo se acomodasse.

    -       O doutor não conhece Demerval. Ele deseja o melhor para todos nós e não iria aceitar minha opinião. Nunca aceitou. Tenho receio que se ofenda.

    -       Precisa correr o risco. Não tem outro remédio. Seus nervos estão no limite da resistência. Ninguém pode viver toda a vida só fazendo tudo quanto os outros querem. Todos temos necessidade de desenvolver nossa própria capacidade de viver. Seu temperamento não é submisso, e por isso a senhora está cansada de fazer só o que ele quer.

    -       O senhor entende o meu drama.

    -       É natural. Não se recrimine por isso. Não. Não somos bonecos para ser comandados, ainda que por aqueles que amamos.

    -       Quer dizer que não estou errada?

    -       Claro que não. A senhora sente-se oprimida por fazer sempre apenas o que seu marido decide.

    -       Não agüento mais. Tenho ímpetos até de agredi-lo.

    -       Compreendo sua situação, mas devo dizer que não há outro recurso. Se voltar à antiga rotina, por certo novas crises virão quando não puder sufocar a revolta.

    -       Meu Deus - gemeu ela. - O que fazer?

    -       Converse com ele. Precisa enfrentar a situação. A verdade, nesses casos, é sempre melhor do que a mentira que não conseguirá sustentar por muito tempo. Procure com jeito e carinho, fazê-lo compreender que a senhora gosta mais do seu bordado do que dos saraus de música, ou que aprecia ler seus próprios livros em vez de ouvi-lo sempre em suas leituras usuais.

    -       O senhor está bem informado - tornou ela, olhando para a Zefa intencionalmente.

    -       Ela não me disse nada - esclareceu ele. - Foi o próprio Demerval quem relatou-me a vossa rotina. Eu também achei-a enfadonha.

Maria José aventou:

    -       Não é tanto assim. Demerval fica tão feliz!

       - O fato da senhora fazer o que gosta, não a impede de participar, de vez em quando, dos gostos de seu marido. Mas essa deve ser uma escolha livre e sua. Não pode ser uma obrigação sem opção.

       - É isso que me aborrece-ajuntou ela. -Mas não posso explicar-lhe. Ele não vai aceitar. Vai pensar que não o amo mais e talvez até me odeie.

       - É um risco que deve correr, O que não pode é ficar como está. A verdade cedo ou tarde aparece. Melhor agora. Talvez ele acabe cedendo um pouco, entendendo, deixando-a escolher como gastar seu tempo.

       - Não vou contar. ELe não vai aceitar. Vou pensar mais.

       - A senhora é quem decide. Já disse o que pensava. Vou receitar alguns remédios para fortalecê-la e acalmar-lhe os nervos. Porém, lembre-se do que eu disse. A alegria é o mais importante.

       - Está bem, doutor. Vou pensar.

       O médico despediu-se e saiu. DemervaL esperava-o impaciente. O dr. Amarante, novamente com ele no gabinete, depois de ter receitado, recomendou:

       - Continue com o mesmo tratamento. Ela ainda precisa.

       Ele fez um gesto de desalento.

       - Ainda? Até quando ela vai continuar a agir assim? Até quando deverei suportar essa confusão que reina por aqui?

       O médico olhou-o sério.

       - Afinal a situação não é tão grave assim. Examinei dona Maria José e encontrei-a muito melhor. Não esqueça que o estado dela era grave. A crise pode voltar e não se pode contrariá-la.

       Ele levantou-se nervoso.

       - Isso não é vida, doutor! Só eu tenho estado com a cabeça no lugar. As crianças estão ruidosas e indisciplinadas. A causa é o estado de Maria José. Precisamos resolver isso o quanto antes!

       O médico continuou a fixá-lo com seriedade.

       - Já que gosta de ler, vou trazer-lhe um livro sobre o assunto. Poderá julgar por si mesmo.

       - Não gosto de ler sobre assuntos de medicina. Essa parte compete ao senhor. O que lhe peço é para curar minha mulher e pronto.

       - Sr. Demerval, o que me pede é impossível. Essa cura não depende de mim nem dos recursos da medicina. Depende mais do seu comportamento, do dela e daquilo que escolherem fazer com as suas vidas.

    -       O que quer dizer?

    -       Que os nervos de dona Maria José estão assim porque ela não agüenta mais fazer só o que o senhor resolve e deseja ter o direito de gastar um pouco do seu tempo com o que gosta!

    Demerval ficou rubro.

    -       Não acredito! Não acredito! Se ela lhe disse isso, está louca mesmo! Fala como se eu fosse um carrasco para minha própria mulher.

    -      Sr. Demerval, tente compreender! Dona Maria José o ama muito, mas gosta de fazer outras coisas, pelo menos de vez em quando, e não seguir só a rotina rígida que lhe instituiu.

    Demerval estava furioso. Era muita impertinência daquele doutorzinho falar-lhe naquele tom. Era absurdo! O homem queria subverter-lhe a família!

    -       Olhe, doutor, se não sabe curar minha mulher, se não tem recursos e conhecimentos para isso, não mais o quero ver nesta casa. Pago-lhe os serviços e passe muito bem. Não admito que venha intrometer-se em nossos assuntos. Voltaremos para a cidade e lá, por certo, outro médico nos irá ajudar. Se aqui no Brasil não der jeito, levo-a para a Europa. Tenho meios. Não quero mais vê-lo em minha casa.

    O     médico levantou-se um pouco pálido. Olhou-o firme e disse-lhe, com voz calma:

    -       O senhor é orgulhoso e prepotente. Faça o que achar melhor, mas garanto que ninguém a vai curar se o senhor continuar tão intransigente. Cuidado, porqüanto as crises poderão repetir-se e não sei até onde isso poderá atirá-la à loucura. Vou-me embora. Passar bem.

    O     doutor saiu sem esperar que Demerval lhe pagasse pelo atendimento. Irritado, ele procurou acalmar-se. Aquele doutorzinho de província! Que ousadia! Era um homem de boa educação, senão o teria posto porta fora. Agora resolveria tudo a seu modo. A situação não podia mais continuar. Dali há dois dias voltariam para a cidade. As férias tinham-se acabado.

    Quem sabe, pensava ele, voltando para a cidade, tudo retornaria ao normal. Bebeu um pouco de água, procurou acalmar-se reafirmando para si mesmo: ele sempre tinha encontrado a melhor maneira para viver. Ninguém iria influenciá-lo a mudar. Havia muitos médicos na cidade e melhores do que aquele velho intrometido, doutorzinho de vilarejo.

    Olhou as horas e apressou-se. Ainda tinha que descansar na varanda sua meia hora antes do jantar. Não devia atrasar-se.

    Maria José, depois que o médico saiu, ficou pensativa. Ele teria razão? Seria melhor falar ao marido, tentando acertar as coisas? Afinal, Demerval ultimamente mostrava-se mais tolerante.

    Seria tão bom se ele a compreendesse! Ela gostaria de ser diferente, de gostar das mesmas coisas do que ele, de ter prazer em compartilhar de sua rotina, achava mesmo que uma boa esposa precisava fazer isso.

    Muitas vezes tinha ouvido a mãe repetir na sua adolescência:

"A mulher deve obedecer ao marido. Fazer-lhe as vontades, torná-lo feliz". Ou então "A boa esposa sabe agradar, sorrir sempre, ser carinhosa ainda mesmo quando o esposo não está bem-humorado". Ou ainda, "A obediência é a grande qualidade dos filhos para com os pais, da esposa para com o marido".

    Sempre aprendera que devia preparar-se para casar, ter muitos filhos e não ter outra vontade senão a do marido. Sua mãe tinha sido assim. As mulheres que conhecia eram todas submissas. Por que ela não conseguia? Por que ela tinha que ser diferente?

    Tinha sido obediente, casando com Demerval. Tinha se esforçado para amá-lo, obedecê-lo, mas agora não conseguia dominar-se. Como proceder? Se ele pudesse compreender e ajudá-la, certamente acabaria saindo do problema.

    O dr. Amarante teria razão? Seria melhor contar o que lhe ia no íntimo? Ficou pensando, pensando.

    Naquela noite, quando Demerval se recolheu pontualmente às 21 horas, vendo-a entretida com o bordado, disse-lhe taciturno:

    - Largue isso. Precisamos conversar.

    Ela obedeceu. Ele continuou:

    - Hoje despedi o dr. Amarante. Ë um incapaz. Veio com idéias disparatadas tentando justificar sua falta de capacidade para curar a sua doença. Isto aqui está muito conturbado. Nossa família não é mais a mesma. Assim, pensando em colocar as coisas nos devidos lugares, voltaremos à cidade depois de amanhã. Lá, tudo voltará a ser como antes. Temos médicos melhores e mais capazes. Você ficará boa.

    Maria José empalideceu. Detestava voltar à cidade. Adorava a vida na fazenda.

    - Eu estou melhor. Sinto-me mais calma, mais animada. Estou bem melhor! Os ares daqui fazem-me bem. Gostaria de ficar o resto das férias.

    Demerval abanou a cabeça.

    -       De modo algum. Você pensa que está boa mas ainda não está.

    -       As crianças estão alegres, coradas. Estão aproveitando muito a temporada.

    -       Estão indiciplinados, barulhentos. Adalberto chegou até a atirar uma pedra no vidro da cozinha. Chama a isso aproveitar?

    -       Foi sem querer. Eu vi. Ele estava atirando no alvo para ver quem tinha mais pontaria.

    Acho que ele calculou mal.

    -       É inacreditável! Você o defende! E o pior é que também estava lá como um moleque malcriado. É incrível!

    Maria José suspirou fundo. Não podia conversar com ele. Não a ouviria. Não tinha remédio. Sentiu um aperto no coração. Nada diria, O futuro, só Deus poderia prever. Fechou os olhos, acomodando-se no leito.

    -       Estou tão cansada! - murmurou para esquivar-se da discussão.

    -       Durma, se quiser. Amanhã vamos arrumar tudo. Regressaremos depois de amanhã, de qualquer forma.

    Profundo desânimo a acometeu. Demerval não cederia. Ela teria que submeter-se novamente à rotina odiosa e enfadonha.

    Fechou os olhos, tentou dormir, mas o sono custou a vir. E ouvindo o ressonar do marido sentia ímpetos de gritar sua irritação, sua impotência. Naquela hora chegou a odiá-lo.

    No dia seguinte, Demerval levantou-se e acordou a esposa.

    -       Levante-se, vamos preparar tudo. Não é bom que você fique na cama demais. A fraqueza pode fazê-la sentir-se mal durante a viagem.

    Maria José abriu os olhos. Seu rosto estava um pouco pálido e as olheiras haviam reaparecido.

    -       Não me sinto bem - tornou ela com voz cansada. - Não dormi muito esta noite.

    Ele olhou-a um pouco preocupado.

    -       Mais uma razão para voltarmos à cidade. Você necessita ser atendida por um médico competente.

    -       Quero dormir mais um pouco. Sinto-me fraca.

    Demerval, vendo-lhe a fisionomia abatida, não insistiu:

    -       Descanse mais uma hora. Depois, levante-se. Precisamos preparar o regresso. Amanhã bem cedo voltaremos à cidade.

    Ele estava preocupado. Desejava procurar outros médicos. Lutar contra a doença da esposa, defender sua casa, para que tudo pudesse voltar a ser como antes.

    Depois que Demerval saiu, Maria José sentiu-se triste, desanimada. Zefa, vendo-lhe a fisionomia angustiada, aproximou-se.

    Sentia verdadeira adoração pela sua sinhá. Ainda criança, havia sido dada à mãe de Maria José, senhora bondosa que sempre a tratara com justiça. Desde aquele tempo, fora encarregada de cuidar da sua sinhá e a negra amou-a desde o primeiro dia. Venerava seu rostinho branco e lindo, seus cabelos, seu sorriso, sua simpatia cativante.

    Maria José retribuía-lhe o afeto, fazendo-a sua confidente, sua irmã, sua amiga. Zef a havia chorado muito o casamento da sua sinhá. Não gostava da empáfia de Demerval, orgulhoso e intransigente. Receiava que fizesse sua ama sofrer. Agora, com o coração partido, via a tristeza, a dor de Maria José.

    -       Sinhá, tem calma. Deus vai ajudá.

    Ela abanou a cabeça, desalentada.

    -       Não creio. Não quero voltar a cidade. Sinto-me bem aqui. Adoro a natureza! Lá, tudo voltará a ser odioso.

    -       Vosmecê num qué í? - indagou a negra, séria.

    -       Não quero. Se eu pudesse, ficava.

    -       Então, deixa comigo. Vô dá um jeito. A sinhá num volta pra cidade tão cedo.

    -       É difícil. Quando Demerval toma uma decisão, jamais volta atrás. Nada vai demovê-lo.

    -       Eu vô tentá.

    -       O que vai fazer?

    -       A sinhá vai vê. Vou falá com o Bentinho. Ele faz umas rezas e pronto.

    -       Veja lá o que vai fazer...

    -       Bentinho entende dessas coisas. Garanto que vosmecê num volta pra cidade tão cedo. É só o santo ajudá.

    -       Tenho medo dessas bruxarias!

    -       Qual nada! Num tem perigo. Vamos só pedí pra ele ajudá ficá aqui mais algum tempo. Eles pode fazê o sinhô mudá de idéia.

    -       Acha possível?

    -       Acho. Ânimo, sinhá. Vô mandá a Maria trazê seu café. Vai ficá alegre, se levanta e é melhor não deixá o sinhozinho aborrecido. Enquanto isso, vou procurá o Bentinho. Vou levá prá ele uma camisa do sinhô prá ele prepará.

    - Cuidado, Zefa. Se Demerval descobre, não sei o que poderá acontecer. Não quero que ele nos separe.

    Os olhos da negra brilharam emotivos.

    - Ele nunca vai sabê. Afinal, num vamo fazê nenhum mal. É para a felicidade da família. Se ele num qué escutá nem fazê os gosto de vosmecê, isso num tá certo. Ele num pode sê feliz e fazê a vossa infelicidade. Ele vai entendê e tudo vai dá certo.

    - Espero que seja assim.

    A negra saiu e Maria José, embora se esforçasse, não conseguiu ser otimista, mesmo quando a Zefa voltou uma hora mais tarde dizendo que estava tudo acertado. O Bentinho já tinha começado a trabalhar. Disse a elas que tivessem fé.

    Demerval estava ativo. Tinha percorrido as plantações e dado as ordens necessárias. Os escravos preparavam já a bagagem, os doces, os queijos, as frutas, acondicionando tudo para o regresso.

    As crianças estavam tristes e chorosas, Maria José, nervosa e sem apetite. Demerval inquieto e aborrecido.

    Finalmente, no dia seguinte de madrugada, deixariam a fazenda de retorno ao lar.

    Embora pálida e sem entusiasmo, Maria José concordou em jantar na sala, esforçou-se em comer, mesmo sem vontade.

    Demerval procurou ser amável com ela que, resignada, submeteu-se à rotina habitual. As crianças se recolheram e depois da leitura que Maria José sequer ouviu, tal o seu alheamento, o casal recolheu-se.

    Demerval estava triste. Observando o rosto da esposa, temia pela sua saúde.

    Maria José deitou-se e quando Demerval preparava-se para acomodar-se, sentiu-se mal. Cambaleou, levando a mão ao peito. Maria José assustou-se:

    - O que foi? Demerval, o que aconteceu?

    - Não sei - balbuciou ele, com voz fraca. - Sinto-me mal, de repente tudo começou a rodar. Parece que as forças me fogem...

    Maria José levantou-se aflita e amparou o marido indagando:

    - Será uma congestão? Você abusou ao jantar?

    - Não - gemeu ele. - Não creio. Sinto-me mal, dói-me o peito. Acho que vou cair...

    Maria José conduziu-o até o leito onde ele deixou-se cair. Estava pálido, seu rosto cobrira-se de suor.

    - Zefa! - chamou a senhora aflita. - Zef a! Corra, mande buscar o doutor Amarante: Mande o Tico:

    Demerval queria dizer que não suportava o médico, mas não conseguiu. Sua cabeça rodava e ele fechou os olhos, exausto. A negra correu e voltou Logo depois para ajudar sua sinhá.

    -       Pronto. Ele já foi. Vamos abrí a camisa do sinhozinho pra ele respirá melhor. Assim.

    Agora vamo abrí as janela. Um pouco de ar fresco vai fazê bem.

    Maria José estava nervosa.

    -       Demerval nunca esteve doente. Santo Deus, o que será?

    -       Calma, sinhá. Vai passá logo, deve sê coisa passagera.

    Maria José colocou a mão na testa suada do esposo. Estava gelada. O que fazer?

    -       Demerval, como está? Já mandei chamar o médico. Dentro em pouco ele estará aqui. Sente-se melhor?

    Com voz sumida e com dificuldade ele respondeu:

    -       Estou mal!

    -       Calma. Não há de ser nada, você vai ver. Vai passar. E este médico que não chega?

    -       Calma, sinhá. Ele logo deverá estar aqui.

    As duas ficaram ao lado de Demerval que não melhorava. Só quase uma hora depois foi que o dr. Amarante chegou.

    Não mencionou a grosseira atitude de Demerval, expulsando-o da fazenda. Era homem de boa índole, e penalizado com o estado do paciente, procedeu a exame detalhado e atento.

    Preparou ele mesmo um medicamento com alguns frascos que trazia na maleta e deu-o a Demerval que, aos poucos, foi se sentindo melhor. Contudo, sentia-se fraco como se estivesse estado no leito durante vários dias.

    -       O que tenho? - perguntou ao médico com voz fraca.

    -      O senhor teve um problema de coração. Precisa guardar o Leito pelo menos durante uma semana.

    -       Eu queria voltar para a cidade ainda hoje.

    O     médico abanou a cabeça.

    -       Esqueça isso, por enquanto. Se fizer algum esforço, pode ter outra crise e aí eu não responderei pela sua vida.

    -       É tão grave assim? - indagou ele, arrasado.

    -       Nem tanto. Mas esse tipo de problema só se cura com o repouso. Fazendo tudo direitinho, acredito que ficará bom.

    -       Quando poderei regressar?

    -       Por agora não sei. Depois de mais alguns dias talvez eu possa dizer. Temos que aguardar.

    Maria José, preocupada, tomou nota das recomendações, esclarecendo:

    -       Pode deixar, doutor. Vamos fazer tudo. Demerval vai melhorar. Deus é grande.

    O     médico respondeu, sério:

    -       Naturalmente. Por agora dê-lhe uma colher de sopa desta poção a cada duas horas. Alimentos leves e não deve levantar-se. Amanhã cedo voltarei para ver como passa. Passar bem, senhor Demerval.

    -       Acompanho-o, doutor.

    O     médico, sobraçando a valise, retirou-se. Já na porta, longe das vistas do marido, ao despedir-se, Maria José perguntou:

    -       É grave, doutor?

    -       Ainda não sei bem. O sr. Demerval não tinha a aparência de ser um cardíaco.

    -       Nunca foi. Sempre gozou de muito boa saúde.

    -       A doença pode chegar de repente. Em todo caso, agora ele está melhor. Amanhã cedo voltarei para um exame detalhado. Neste momento o repouso é o melhor remédio. Dei-lhe um sonífero e por certo vai dormir por toda a noite. Teria ele tido algum desgosto?

    Maria José abanou a cabeça.

    -       Não, doutor. Ao contrário. Nada lhe disse sobre meus problemas e fiz tudo quanto ele pediu. Pretendia voltar à cidade amanhã cedo.

    -       Agora não poderá fazê-lo, pelo menos por enquanto.

    -       Demerval pode morrer? - indagou ela, preocupada.

    -       No momento, ele não está correndo esse risco. A crise passou, seu pulso está quase normal. Porém, nada posso dizer antes de exames mais detalhados. Por hoje pode dormir sossegada. Precisa descansar.

    -       Sinto-me angustiada, nervosa.

    -       É natural, assustou-se. Mas ele está melhor, posso afirmar. Descanse e amanhã cedo voltarei e então veremos.

    O     médico despediu-se e Maria José voltou ao quarto. Aproximou-se de Demerval que, exausto, olhos fechados, parecia dormir. Comovida, alisou a mão do marido, que abriu os olhos fitando-a assustado:

    -       Está melhor? - perguntou ela, ansiosa.

    -       Sinto-me fraco - respondeu ele, com voz cansada.

    -       Está tudo bem agora. Já passou. Foi uma indisposição passageira. Amanhã você já estará bom.

    -       Sinto-me cansado.

    -       É natural. O médico disse que agora tudo está bem, que seu pulso está normal. Evite falar. Amanhã cedo ele voltará e poderá dizer-lhe ao certo o que aconteceu. Durma e eu lhe darei o remédio na hora certa.

    -       Se a sinhá permiti eu posso fazê isso - tornou a Zef a, com ar humilde. - A sinhá precisa descansá.

    -       Vamos ver - respondeu ela. - Por agora, eu mesma quero cuidar dele.

    Demerval lançou-lhe um olhar agradecido. Estava sentindo-se pesado, com sono. Fechou os olhos e dentro em pouco começou a dormir.

    Maria José, preocupada, custou a conciliar o sono, embora Zefa lhe garantisse que a avisaria na hora de dar o remédio, que ela mesma insistia em ministrar.

    Estava tão preocupada que nem percebeu nos olhos da escrava um brilho singular.

    No dia seguinte, o dr. Amarante encontrou Demerval melhor, porém, inexplicavelmente, um cansaço muito forte o acometeu. Examinando-o detidamente, o médico nada encontrou que pudesse indicar uma doença mais séria. Seu pulso normal, sua respiração boa, sua temperatura também normal. Apesar disso, Demerval sentia-se tão fraco e cansado como se tivesse ficado longo período acamado.

    Dr. Amarante, preocupado, perguntou:

    -       O senhor está muito nervoso com o que aconteceu?

    -       Estou, claro. Preciso ir-me embora, voltar à cidade, cuidar de Maria José, e agora sinto-me amarrado aqui, sem forças para sair desta cama... Afinal, o que é que eu tenho?

    -       Nada grave, senhor Demerval. Seu estado geral é bom e não me parece que haja nenhuma doença séria. A princípio pensei em ataque do coração, mas agora não me parece que haja nada com ele. Tudo está bem.

    -       Então como explicar este cansaço? Por que não posso levantar-me?

    -       Provavelmente o senhor teve uma indisposição passageira. Assustou-se. Afinal nunca havia adoecido. Abateu-se. Com o repouso tudo passará e voltará a ser como antes.

    -       Quer dizer que é abalo nervoso?

    -       O senhor teve um mal súbito, sem gravidade, porém o susto o abateu. Faça alguns dias de repouso e tudo passará.

    Demerval suspirou:

    -       Sinto-me muito fraco.

    -       Vou receitar-lhe uma poção. À medida que for se sentindo melhor, levante-se, fique sentado, verá que aos poucos tudo passará.

    -       Assim espero. Quero voltar para a cidade o quanto antes.

    -       Voltará, sr. Demerval.

    Quando o médico se foi, Maria José mandou preparar o remédio e depois sentou-se ao lado do marido, preocupada.

    - É uma desgraça - reclamou ele, com voz fraca. - Você doente, precisando voltar à cidade e agora eu, deste jeito. Não émesmo uma desgraça?

    -       Não fale assim. Felizmente o mal não é grave. Logo mais você estará curado e tudo estará bem. Estou melhor e você não deve preocupar-se comigo.

    Mas os dias foram passando e Demerval, embora melhor, sentia-se cansado e sem forças.

    Não tinha fome nem disposição. Passava o tempo deitado. ou recostado em confortável poltrona. Maria José viu-se obrigada a assumir a direção das atividades da família.

    Sentia-se bem, apesar da preocupação com o marido, e- com excelente disposição.

    Cuidava da rotina da fazenda orientando o capataz, das atividades dos filhos e do tratamento do marido.

    Este parecia outro homem. Estava arrasado. Não demonstrava interesse pelos negócios nem disposição para determinar nenhuma providência.

    O     médico não conseguia entender o que estava acontecendo. Aquele homem estava fisicamente sadio. Por que não se recuperava?

    Ao fim de uma semana confidenciou a Maria José:

    -       Não sei o que acontece com ele. Físicamente não encontro nenhum mal. Guardará algum aborrecimento sério?

    -       Não creio, doutor. Demerval não tem segredos. Depois, tudo aconteceu de repente e nada houve que pudesse tê-lo contrariado.

    O     médico abanou a cabeça pensativo. Dirigindo-se ao quarto, aproximou-se de Demerval. Após cumprimentá-lo, tornou com seriedade:

    -       Sr. Demerval, o senhor precisa reagir. Não pode entregar-se assim ao desânimo, ao cansaço.

    -       Estou muito mal, doutor.

    O     médico olhou-o penalizado. Não parecia o homem resoluto que o enfrentara com tanta arrogância.

    -       O sr. não tem mais nada. Sua saúde está boa. Precisa reagir, levantar-se, tentar sair dessa cama.

    -       Não posso. Sinto-me sem forças. Dói-me o corpo todo. O senhor precisa dar-me um remédio que me levante. Os que tenho tomado, de nada valeram.

    O     médico olhou-o sem saber o que dizer. Receitara-lhe reconstituinte de eficácia comprovada. Doença não havia. Como curá-lo?

    O     dr. Amarante suspirou pensativo. Depois disse:

    -       Sr. Demerval, seu caso não se cura com remédios. Tem fundo nervoso. O sr. precisa reagir, lutar, sair dessa depressão que o acomete.

    Um lampejo de irritação passou pelos olhos mortiços do doente.

    -       Recuso-me a crer. Estou doente e o senhor não consegue curar-me. Preciso voltar à cidade. Lá, por certo, há médicos mais eficientes.

    O     dr. Amarante endureceu a fisionomia.

    -       Como queira. Se estou aqui é porque fui chamado.

    Demerval suspirou.

    -       Porque não há outro. Estamos neste fim de mundo. Mas sua medicina não consegue curar-me. Quer que o elogie por isso?

    -       Ninguém conseguirá tirá-lo dessa cama se se recusa a aceitar a verdade. Sua depressão, seu desânimo alimentavam seu desvalimento.

    Demerval, abatido, tornou:

    -       Não concordo. Ninguém mais do que eu deseja sair desta cama. Tenho família, esposa que precisa de mim. Como ficar inativo? É isso que me revolta. Sua medicina não me cura e ainda o doutor dá a entender que eu estou deprimido porque quero. O senhor não percebe o quanto esta fraqueza me arrasa?

    O     médico olhou-o penalizado. Reconhecia o caso inusitado. Conhecia Demerval o bastante para entendê-lo enérgico e até autoritário. Como pudera transformar-se em uma pessoa fraca e sem vontade própria? De onde lhe vinha a dolorosa fraqueza se não apresentava nenhum sintoma ou sinal indicativo de doença?

    O     dr. Amarante não sabia o que fazer. Se se tratasse de dona Maria José, por certo poderia entender, mas dele..

    Não querendo demonstrar sua perplexidade diante do paciente aflito, tornou com voz grave:

    -       Posso garantir-lhe, sr. Demerval, que o sr. não tem uma doença grave. Pense nisso e por certo o ajudará.

    Demerval impacientou-se:

    -       Não acredito. Se não estou com nada grave, por que estou assim?

    -       Já lhe disse. O senhor teve um mal-estar e assustou-se. Nunca tinha ficado doente antes. Agora receia que a crise volte. Ë isso. Deve acreditar que seu mal-estar não foi provocado por nenhuma doença séria. Foi coisa sem conseqüências. Por isso, pode levantar-se e reagir. A cama também agrava a fraqueza. Faça esforço, levante-se aos poucos e verá.

    -       Faça uma tentativa... - tomou Maria José, segurando carinhosa o braço do marido.

    -       Muito bem. Verei o que posso fazer. Mas, levantar-me parece impossível, tal o estado de fraqueza que sinto.

    -       Isso é assim mesmo - esclareceu o médico. - A princípio vai ser desagradável, inicie aos poucos e logo verá que tudo passou.

    Demerval suspirou, resignado. De qualquer forma aquele médico da roça não podia mesmo entender. O importante era sair da cama para poder regressar à cidade o quanto antes. Lá, com certeza, seria devidamente tratado. Os médicos da corte eram bons e eficientes. Haveriam de curar tanto Maria José quanto ele próprio.

    Maria José acompanhou o médico, que ao despedir-se desabafou:

    -       A doença dele é um mistério. Não encontro nada. Intriga-me essa fraqueza sem causa.

    -       A mim também. Demerval já não é o mesmo. Perdeu o gosto pela vida. Não se alimenta, quando sempre foi um amante da boa mesa. Parece outra pessoa. Mudou completamente.

    -       É por isso que acredito em problema nervoso.

    -       Como assim?

    -       A senhora pode perceber que ele não reage. Está deprimido, triste, desanimado. Essa tristeza é que lhe tira o gosto pela vida. Tem mesmo certeza de que o sr. Demerval não teve algum desgosto sério?

    -       Tenho, doutor - respondeu ela, sem hesitar. - Na noite em que ele adoeceu, estava bem disposto e alegre, preparando nosso regresso.

    O     médico sacudiu a cabeça preocupado:

    -       Tem certeza de que ele não recebeu nenhuma notícia desagradável?

    -       Tenho. Ele estava como de hábito e muito animado com a viagem do dia seguinte.

    -       Bem, de qualquer forma, o que ele precisa agora é de ânimo para sair daquela cama.

    Procure ajudá-lo encorajando-o a levantar-se, nem que seja alguns minutos por dia, aumentando sempre o tempo à medida que ele for melhorando.

     -      O sr. acha que ele ficará bom?

     -      Claro. Depende dele. Não encontro doença nenhuma. Reagindo, conseguirá melhorar. Continue com o reconstituinte e procure fazer os pratos que ele aprecia para despertar-lhe o apetite. Voltarei daqui a dois dias para vê-lo. Caso necessite da minha presença, mande-me avisar. A senhora melhorou, ganhou cores e parece-me bem.

     -      É verdade, doutor. Graças a Deus. O que seria da família se eu também estivesse mal?

     Quando o médico saiu, Maria José voltou ao Lado do esposo. Estava penalizada. Desejava ardentemente que ele melhorasse mas, apesar disso, sentia prazer por estar isenta das obrigações cotidianas e da rotina.

     Sentia-se livre, alegre e bem disposta. Surpreendia-se até com vontade de cantar. Continha-se. Pobre Demerval, o que pensaria vendo-a tão alegre?

     As crianças estavam contentes por terem que ficar na fazenda por mais algum tempo. Só Demerval impacientava-se, sem conseguir sair daquela triste situação.

     Na manhã seguinte, Maria José, depois de quase obrigar o marido a engolir um pouco de leite quente e uma côdea de pão, decidiu firme:

     -      Vamos levantar um pouco, Demerval.

     -      Levantar?

     -      Sim, O médico disse que é preciso. Vou ajudá-lo. Vai sentar-se e depois levantar nem que seja um minuto.

     -      Não posso - gemeu ele.

     -      Pode sim - disse, segurando-o pelas mãos. - Vamos, levante-se, é para o seu bem.

     Demerval segurou-se nas mãos dela e tentou erguer-se. Seu corpo pesava como chumbo. Sentou-se no leito a custo. Suava por todos os poros.

     -      Venha - pediu ela - levante-se.

     -      Não agüento. A cabeça está à roda.

     -      Isso é assim mesmo. No começo é assim. Venha, levante-se.

     Demerval fez um esforço. Porém sentia-se tonto e desconfortável. Sua cabeça girava, sentia-se mal.

     -      Mais um pouco. Vamos - pedia ela.

     Ele ergueu-se no leito, sentando-se com dificuldade. Maria José pediu à Zefa que lhe pusesse almofadões às costas. Demerval deixou-se cair nos almofadões.

     -      Muito bem. Viu como você pôde?

    Ele esboçou um sorriso para ela, tentando animá-la. Afinal, ela queria ajudá-lo. Contudo, sentia-se mal e sonolento. Parecia-lhe ter tomado um sonífero.

    - Quero dormir - murmurou com voz baixa. - Não agüento.

    Maria José concordou.

    - Está bem por hoje. Amanhã faremos de novo.

    Acomodou-o novamente no leito e, vendo que ele dormia, apanhou um livro e começou a ler.

    Nos dias que se seguiram, Maria José obrigava o marido a levantar-se um pouco e, devagar, ele começou a melhorar. Já tinha conseguido levantar-se durante alguns minutos, embora cansado e fraco. Maria José sentia-se mais animada. Ele mesmo foi ficando mais contente com as melhoras obtidas.

    Porém, Demerval estava um tanto mudado. Revelava-se extremamente sensível.

    Qualquer assunto o comovia, exagerava os cuidados com Maria José e com os filhos. Agradecia-lhes constantemente a dedicação e comovia-se até as lágrimas, vendo a esposa cuidar do seu bem-estar com tanto desvelo.

    Maria José repreendia-o, carinhosa:

    - Nada de tristezas. Por que se emociona? Você cuidou de nós por tantos anos. Por que não deveria eu fazer o mesmo?

    Demerval chorava desalentado:

    - Estou dando trabalho. Você é que está doente e precisa de tratamento!

    - Estou muito bem. Não preciso de nada. Tenho tudo. Nossos filhos estão muito bem. Você está melhor. Por que essa emoção? Pode fazer-lhe mal!

    Mas era inútil. Demerval conservava os olhos úmidos e o ar triste. Maria José mal reconhecia nele o homem que sempre fora. Como podia ter mudado tanto e tão de repente? Ele que era tão forte, decidido, auto-suficiente, tinha se transformado em um homem dependente, fraco e até cansativo.

    Um dia Maria José confidenciou com a Zef a:

    - Não posso entender. Demerval agora é outra pessoa. Como pode ter mudado tanto?

    A escrava ergueu os olhos vivos e encarou sua sinhá com adoração.

    - A sinhá tá melhor?

    - Eu? Estou. Sinto-me bem. Deus é bom. Permitiu que eu melhorasse. O que seria de nós se eu também adoecesse?

    -       É verdade. Mas o sinhô num tem mais deixado vosmicê apoquentada.

    -       Não fale assim, Zef a. Parece que você está contente com a doença dele.

    A negra baixou os olhos.

    -       Num é isso, sinhá. Ë que quando ele tá bom, apoquenta a cabeça de vosmicê. E as crianças também. Dá gosto vê como eles brincam. Tão alegres, corados.

    -       Eu não quero que fale assim. Até parece que Demerval era mau chefe de família.

    -       Cruz credo, sinhá. Eu num disse isso. Só disse que ele comandava tudo e a sinhá num gostava, num era feliz.

    -       Pode ser. Mas gosto muito dele e não estou feliz com ele doente. Quero que ele sare.

    A negra olhou-a com certo ar de desafio:

    -       Mesmo voltando a vida a ser como era?

    Maria José não se deu por achada:

    -       Demerval é um bom homem. Pensa sempre em nosso bem-estar.

    -       Pois então, quando ele ficá bom, a menina não me venha com tremeliques.

    -       Sua negra desarvorada! - ralhou Maria José. - Você anda muito confiada. Vou dar um jeito nisso.

    A Zefa saiu calada. Sabia que sua sinhá não ficava sem ela. Doía-Lhe, no entanto, sua repreensão. Afinal, se ela não tinha voltado pra cidade, era porque o Bentinho tinha dado jeito. E, apesar da ingratidão da sinhá, a Zefa estava disposta a trabalhar para que o sinhozinho continuasse na cama.

    Afinal, a casa estava mais alegre, as crianças felizes e a sinhá corada, bem disposta, fazendo recordar os tempos de menina, ralhando com ela como fazia naqueles tempos.

    Ia procurar o Bentinho para que ele continuasse fazendo o trabalho para que o sinhô continuasse na cama. Não fazia falta nenhuma tê-Lo andando pela casa, controlando tudo com aquela cara de mandão.

    Nunca tinha gostado dele, que tratava sua sinhá como se fosse dono, sem deixar a coitada fazer nada do que gostava. Por isso, ela não ia se arrepender. Estava fazendo o bem para todos. A alegria voltara a reinar. Os escravos gostavam muito mais da sinhá do que do patrão. Qualquer deles faria qualquer coisa para agradá-la enquanto que temiam Demerval que os castigava com acentuado rigor, embora procurasse ser justo.

    À noite, a negra procurou o Bentinho.

    - Ô de casa, Bentinho. Que Deus nosso Sinhô seja louvado!

    O     crioulo magro, menos de 40 anos, rosto ossudo, olhos fundos, com um grosso cigarro de palha entre os dedos, abriu a porta da choupana singela.

    -       Amém - tornou ele, serio. - O que suncê qué?

    -       Cunversá co cê.

    Ele tirou umas baforadas e convidou:

    -       Entra e senta. Como vão as coisa lá na casa-grande?

    -       Muito bem - esclareceu a Zefa sentando-se em um tronco de árvore que servia de banco. Vendo que ele esperava, continuou. - O sinhô tá lá. Deitado, fraco que faz dó! Num pode quase levantá.

    -       E a sinhá?

    -       Vai bem. Só que anda amolecida de dó. Por ela, ele ficava bom logo.

    -       Ela qué que ele fique bom?

    -       Qué. Mas eu acho bestera. Se ele ficá bom, vai começá tudo de novo. A primeira coisa que vai fazê é voltá pra cidade. Isso eu num quero.

    -       Por quê?

    -       Por que a sinhá gosta daqui. Dá gosto vê. Ela tá corada, forte, contente.

    -       Acha que tá melhor agora?

    -       Acho. Afinal ele é tão mandão e num é mal que receba uma lição. Ë bom pra ele aprendê. Acabá com a prepotência dele. Agora obedece ela como um cachorrinho. Ë assim que tem de sê.

    -       E eu, o que ganho nisso? Afinal, tô trabalhando, fazendo o que suncê qué. Sabe que faço tudo por sua causa.

    A negra riu divertida.

    -       Num bota feitiço em mim, num pega.

    -       Marvada. Hoje num deixo suncê saí daqui. Quero a paga de tudo, sinão num trabalho mais.

    -       Tá bem. Acha que vale a pena?

    Os olhos dele brilharam de cobiça. Agarrou a Zef a, abraçando-a com força.

    -       A paga é já. Se quê que eu continue, tem de sê agora.

    A Zefa olhou-o maliciosa, entregando-se ao abraço sem reagir. Quando saiu dali, algumas horas depois, estava alegre e bem disposta. Era-lhe fácil manejar o Bentinho, que sempre se tinha atraído por ela. E assim, ela contava ajudar sua sinhá a ficar ali mais tempo e se recuperar.

 

     Nos dias que se seguiram, tudo continuou na mesma. Maria José, solícita, procurava animar o marido, tentando tirá-lo do leito.

     Ele, porém, não melhorava o bastante para levantar-se definitivamente. Maria José estava desanimada. A cada dia mais sua indiferença se acentuava.

     Tentando ajudá-lo, ela procurava fazer o que ele gostava. Lia os odiados versos franceses. As complicadas e maçantes obras literárias das quais ele fazia tanto empenho em repetir. Mas era inútil, Demerval não prestava sequer atenção. Pálido, emagrecido, recostado nas almofadas do leito, dormitava acabrunhado.

     Maria José não sabia mais o que fazer. Começou a temer que o marido não mais se recuperasse. Fazia mais de um mês que as férias tinham acabado e nem sinal deles poderem retornar.

     Um dia, decidiu-se. Apanhou papel, escreveu longa carta explicando o que estava acontecendo. Arranjou um portador e enviou-a. Precisava de auxílio. Seu cunhado, por certo, haveria de socorrê-los.

     Menelau, tanto quanto o irmão, bacharelara-se em leis na França. Era mais jovem oito anos do que Demerval. Casara-se havia dois anos e ainda não possuía filhos. Era o oposto do irmão. Informal, alegre e bem-humorado, costumava escandalizar a família com suas idéias avançadas.

     Demerval tratava-o com certa condescendência autoritária, que ele ignorava ostensivamente. Apesar disso, relacionavam-se relativamente bem. Tinham tido pouca convivência, porqüanto Demerval afastara-se para estudar quando Menelau ainda era criança e, ao retornar, já tendo concluído seus estudos, Menelau, por sua vez, também seguiu para a Europa, a fim de consolidar sua educação.

     O pai, homem austero e rico, disciplinado e sóbrio, achava que á formação só se realizava com a esmerada educação européia. Fazia questão, por isso, que os dois filhos varões para lá fossem, enquanto que as três meninas eram educadas no recesso do próprio lar, preparando-se para suas tarefas de esposa e mãe convenientemente.

Maria José preferiu escrever para o cunhado porque o sogro, viúvo, velho e muito doente não podia sofrer emoções fortes. Sua cunhada Helena havia desposado rico comerciante e residia no Rio de Janeiro; Beatriz, apaixonada por um jovem traficante de escravos português que viera à Província a negócios, fora punida pelo pai que não aprovava o casamento e trancada no convento das Carmelitas. Restava Manuela, 15 anos apenas, que cuidava do velho pai com carinhoso desvelo. A quem recorrer, senão ao cunhado? Mal o conhecia, mas era a única pessoa. Seus pais tinham falecido e seus dois irmãos encontravam-se muito distantes para poder procurá-los.

     Menelau residia na capital do Império. Maria José entregou a missiva ao portador, recomendando que entregasse pessoalmente. Escolheu o negro Baru porque ele conhecia o caminho. Deu-lhe provisões, bom cavalo, recomendando-lhe resposta urgente.

     Depois de vê-lo afastar-se, sentiu-se mais calma. Estava preocupada com os negócios da fazenda. Havia assuntos a decidir e ela nunca cuidara desses detalhes. Desconhecia completamente o mundo dos negócios. Não sabia como proceder.

     Demerval, instado a opinar nas providências a serem tomadas, mostrara-se pouco interessado e nem sequer se dera ao trabalho de responder.

     O que fazer? Havia mercadoria para ser embarcada, não só para a capital da Província como até para outros países. O capataz precisava despachar, os negócios estavam parados, a colheita no celeiro com risco de criar mofo. Demerval sem interessar-se, Maria José indecisa, sem saber o que fazer.

     Ficou mais calma quando Baru partiu. Confiava que tudo se arranjaria. Contudo, duas semanas decorreram sem que nada se modificasse. O outono já tinha começado quando, numa tarde, chegou à fazenda uma carruagem acompanhada por três pessoas.

     Baru era um deles. Maria José, à porta principal, recebeu o cunhado e a jovem esposa, que desceram empoeirados.

     - Estas estradas são intoleráveis - foi logo dizendo a jovem senhora, sacudindo as saias rodadas.

     Maria José, que a tinha visto apenas uma vez, por ocasião do casamento, não gostou de sua expressão. Ela era loura e franzina, muito bem empoada e penteada, com um chapéu muito enfeitado e um broche de ouro no colarinho alto do vestido.

     Na angustiosa situação em que se encontrava, Maria José teve ímpetos de ser descortês. Conteve-se porém e, estendendo a mão à cunhada, deu-lhe as boas-vindas.

    Maria Antônia mal encostou os dedos na mão que lhe era oferecida. Menelau, contudo, aproximou-se com ar amável e beijou a mão de Maria José com delicadeza.

    - Estou feliz por revê-la, Maria José, apesar da triste circunstância.

    - Vamos entrar, por favor.

    Maria Antônia olhava tudo com ar irônico e Maria José sentiu desejo de bater-lhe. Decididamente não gostava da cunhada. Sua presença irritava-a. Menelau, entretanto, era o oposto. Fino, elegante, delicado, alto e magro, possuía belos cabelos castanhos, muito parecidos com os de Demerval, que ele deixava à vontade, ao contrário do marido que os alisava com um creme especial que mandava trazer de Paris.

    Seus olhos alegres e francos agradaram Maria José, que admirava-se de como um homem tão simpático escolhera para esposa pessoa tão desagradável.

    Menelau queria saber tudo sobre o irmão, porém Maria Antônia preferia acomodar-se e tomar um banho. Por isso, só depois de tomar providências e acomodá-la foi que puderam conversar.

    Maria José conduziu Menelau ao gabinete de Demerval, e, sentados um diante do outro, expôs a situação.

    Ele ouviu-a com atenção. Mal conhecia sua cunhada. Imaginara-a mais velha e mais feia. Surpreendia-se com sua beleza saudável, natural, o rosado de suas faces, a graça do seu porte, a beleza dos seus olhos castanhos e expressivos, que a emoção fazia brilhar.

    - Desculpe tê-los incomodado. Dona Maria Antônia pareceu-me contrariada. Porém, diante do que lhe contei, não sei a quem recorrer. Demerval é outra pessoa. Preciso de ajuda.

    Não sei o que fazer.

    Ele olhou-a com meiguice.

    - Fez muito bem. Maria Antônia insistiu em acompanhar-me. Logo, nada pode reclamar da viagem. Ao ler sua carta, achei melhor vir pessoalmente. Não se pode tomar providências de tão longe. Tenho tempo. Podemos ficar aqui o quanto for preciso.

    - Agradeço-lhe de coração.

    - Agora quero ver meu irmão. Disse-lhe que estou aqui?

    - Ainda não. Vou preveni-lo. Vamos.

    Ele acompanhou-a e ficou aguardando do lado de fora. Instantes depois Maria José abriu a porta com um sorriso, convidando-o a entrar.

    Menelau aproximou-se do leito onde Demerval, cansado, abatido e triste o aguardava. O moço abraçou-o com força procurando encorajá-lo, condoído de sua aparência física.

    -       Demerval, quanto tempo! Como está?

    -       Mal, muito mal - murmurou ele, com voz sumida.

    -       Estou aqui para cuidar de você. Mandarei buscar um médico na corte e logo você estará curado.

    Ele abanou a cabeça:

    -       Quem dera! Está difícil.

    -       Que nada! Vamos cuidar de tudo e logo você deixará esta cama. Vai ver!

    Demerval tentou sorrir. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito.

-           Quem dera, Menelau, quem dera!

    -       Quanto aos negócios, não se preocupe. Cuido de tudo. Em pouco tempo tudo estará em ordem.

    Demerval nada disse. Estava desinteressado, indiferente. Menelau alarmou-se. Conhecia o irmão, apesar do pouco convívio. Sabia-o preocupado com os bens, que para ele requeriam atenção em primeiro lugar.

    Conversou com ele procurando animá-lo, recordando fatos da casa paterna, tentando incentivá-lo à alegria. Mas Demerval, apesar do ar mais alegre, não vibrou com as lembranças nem com os feitos da sua juventude.

    Ao sair do quarto, Menelau estava realmente preocupado. Assim que viu-se a sós com a cunhada, comentou:

    -       Você tem razão. Não parece a mesma pessoa. Não se interessa por nada. Fiz o possível para animá-lo. Quero saber em detalhes de tudo quanto aconteceu aqui, desde sua chegada.

    Os dois foram até o gabinete de Demerval e lá Maria José contou novamente com detalhes o que tinha acontecido desde a noite em que se preparavam para o regresso.

    -       E o médico, o que diz?

    -       Que não consegue encontrar a doença. Que Demerval precisa reagir. Chega a sugerir que ele não deseja curar-se.

    -       Não acho provável. Se ele não se levanta é porque não pode. O mano nunca foi homem dengoso.

    -       Tem razão. Demerval era homem enérgico e bem disposto, de vontade férrea.

    Quando decidia uma coisa, ninguém o demovia.

    -       Eu sei. Esse médico por certo não entende nada.

Maria José sacudiu a cabeça.

     -      Não sei. O doutor Amarante é muito respeitado até em Itu, de onde vêm buscá-lo muitos senhores. Mora na roça porque gosta. Se quisesse podia viver na cidade. Ë homem simples e bondoso. A mim ajudou muito. Agora estou muito bem, graças a ele.

     -      Você também esteve doente?

     -      Estive. Mas já estou bem.

     -      Conte como foi.

     -      Tive crise nervosa. Coisa boba.

     -      Conte.

-           Não carece... Por favor!

Indecisa, Maria José balbuciou:

     -      Bobagem. Demerval sempre foi preocupado com a família e, por isso, tinha hábitos visando o nosso bem... você sabe... horário para tudo; e a vida, mesmo aqui na fazenda, tinha que obedecer ao programa que ele fez. Acontece que eu comecei a ficar nervosa, sem razão, claro, até que um dia tive uma crise. Fiquei fora de mim, recusei-me a ler os versos em francês que Demerval tanto gostava. E não ficou aí. Fiquei de cama e no outro dia tive outra crise, quebrei tudo quanto tinha no quarto. Acudiu-me a Zefa, o dr. Amarante veio, disse que não tinha sido acesso de loucura e procurou ajudar-me. Demerval deixou-me repousar no leito durante alguns dias, mas queria voltar para casa, pretendia levar-me a um médico da cidade. Porém, não conseguiu.

Menelau estava sério. Olhou-a fixamente e indagou:

-           Você nunca tinha tido essa crise antes?

-           Nunca.

-           Agora passou. Nunca mais deu?

-           Nunca mais. Tenho estado bem.

     -      Hum! - resmungou ele, pensativo. - Receio que se trate de mandinga.

     -      Cruz credo, Nosso Senhor nos ajude! - murmurou Maria José, assustada.

     -      Não sei ainda. Quando estive em Londres conheci algumas pessoas que estudavam esses casos. Fiquei admirado com o que vi. Gente séria e de confiança. Sem embuste.

     Disseram-se que no Brasil é caso comum. Você sabe, os negros, eles conhecem essas coisas.

    Maria José empalideceu. Embora a Zef a tivesse lhe falado sobre isso, recusava-se a crer que o Bentinho tivesse a ver com a doença de Demerval. Um negro ignorante, do mato, poder mais do que Deus, as orações, não podia aceitar.

    Seu marido era homem piedoso que rezava todas as noites. Absteve-se de falar ao cunhado sobre o assunto. Tinha certeza de que, se ele soubesse, castigaria o Bentinho, talvez até a Zefa, vendendo-a ou colocando-a a ferros.

    A negra tinha sido sua companheira de infância. Amava-a muito e sabia que ela daria a vida por sua causa.

    -       Não creio nessas coisas - disse ela com voz firme.

    -       Pois faz mal. Esses assuntos me fascinam. Tenho visto coisas de espantar. DemervaL na cama, sem doença nenhuma, naquele desânimo. O que pode ser? Conheço meu irmão. Ë orgulhoso e intolerante. Pode ser que algum negro tenha querido vingar-se dele.

    -       Demerval é bom e honesto. Ninguém pode ter raiva dele. Não acredito.

    Os olhos de Maria José estavam cheios de lágrimas e seu rosto ruborizado de emoção. Menelau levantou-se, aproximou-se dela segurando-a pelos ombros, olhando-a bem nos olhos:

    -       Maria José, você sabe que não é assim. DemervaL é pretencioso e prepotente, embora não seja mau. Vim para ajudar. Você ama seu marido, mas isso não deve impedi-la de perceber seus defeitos.

    Maria José o olhava com os olhos brilhantes tentando reter o pranto. Recusava-se a criticar o marido, vendo-o em tão triste condição. No fundo, sabia que o cunhado dizia a verdade. Porém, sentia remorsos por ter-se recusado a obedecê-lo. Sentia-se culpada, de certa forma, pela doença dele.

    -       Você sabe tanto quanto eu que, com o temperamento de Demerval, é bem possível que alguém o tivesse querido atingir. Não sei até que ponto isto pode ser verdade. Vou investigar.

    -       Tenho medo dessas coisas! Têm parte com o diabo.

    -       É por isso que eles sempre têm conseguido vantagens. Não há o que temer se você tem mesmo fé em Deus.

    -       O que pensa fazer?

    -       Ainda não sei. Pode confiar em mim.

    -       Acha que Demerval vai ficar bom?

    Menelau franziu o cenho, preocupado:

    -       Ainda não sei. Vamos confiar em Deus e fazer nossas orações. Todos precisamos muito delas.

    -       E se ele não melhorar, o que vai ser de nós? - indagou ela, aflita.

    -       Ainda não sabemos se ele vai continuar doente. Tudo pode mudar. Assim como começou, pode acabar. Porém, se ele demorar a sarar, acho que não tem remédio, você assume a direção dos negócios.

    -       Eu? Sou mulher! Nunca aprenderei.

    Ele olhou-a um pouco divertido.

    -       Por que se subestima? Enquanto Demerval estiver incapaz, o chefe da casa deve ser você. Precisa ser o pai e a mãe dos seus filhos. Vigiar o capataz, controlar os escravos, a plantação, as vendas e entregas das mercadorias.

    Maria José levantou-se aflita:

    -       Mas eu não sei! Nunca fiz nada disso!

    -      Estou aqui para ensinar. Tenho negócios, não posso ficar aqui para sempre. Posso ajudar, orientar, mas quando eu voltar àcapital, você é quem vai decidir e comandar sozinha.

    Se Demerval ainda estiver doente.

    -       Tenho medo - balbuciou ela, assustada.

    Menelau tomou entre as suas as mãos frias de Maria José.

    -       Eu sei. Também tenho medo. Você não foi educada para esses trabalhos. Contudo, apesar de ser mulher, pode fazer isso. Na Inglaterra, conheci mulheres que eram superiores aos homens em matéria de negócios. Você vai conseguir.

    Maria José, fitando os olhos do cunhado, sentiu brando calor invadir seu coração.

    -       Tenho medo, mas se você diz isso, tentarei. Demerval vai orgulhar-se de mim.

    Cuidarei dos negócios, da família, enquanto ele estiver doente. Quando sarar, terei a alegria de entregar-lhe tudo em perfeita ordem.

    -       Assim é que se fala. Sinto que posso confiar em você.

    Vendo o cunhado afastar-se, Maria José voltou para o lado do marido que, no leito, continuava entregue a completa fraqueza. A Zefa velava, solícita. Maria José chamou-a de lado e comentou em voz baixa:

    -       Acho bom deixar o Bentinho fora desta história. Conversei com Menelau que entende dessas coisas. Se ele descobrir que andam fazendo mandinga pro sinhô, manda os dois a ferros. Leva você embora daqui.

    -       A sinhá falou pra ele dos nosso acerto?

    -       Claro que não. Não quero que nada aconteça a você. Não acredito que isso tenha que ver com a doença de Demerval. Porém, meu cunhado não pensa assim. Se ele desconfiar, com certeza o Bentinho vai pagar caro. Por isso, você vá lá e fale com ele, que se tiver feito alguma coisa, parar e desfazer tudo.

    -       Vosmecê não acredita..

    -       Não acredito, sua negra desaforada, mas ele acredita e não quero ver os dois metidos em encrenca. Vá lá e fale com ele. Que acabe com essas bobagens aqui na fazenda. Senão, vendo ele ao primeiro que passar.

    A Zefa fez beiço comprido.

    -       A sinhá é ingrata! Tudo o que nós fazemos é pra seu bem.

    -       Pois eu proíbo. Não quero você metida nessas coisas do demônio. Deus Nosso Senhor pode até castigar.

    -       Tô fazendo o bem.

    -       Vá lá e fale com ele. Estou mandando.

    -       Tá bem sinhá. Vô esta noite.

    -       Muito bem. Estas coisas são proibidas aqui. Se eu souber de qualquer mandinga, castigo na certa.

    A Zefa olhou a sinhá e percebeu que ela estava muito zangada.

    -       Os branco são ingratos - pensou, sentida. Afinal, tinha feito tudo por ela. Agora ela estava esquecida, mas quando Demerval recomeçasse a mandar em tudo, queria ver se ela não ia se arrepender!

    Na calada da noite, procurou o Bentinho. Estava triste e desiludida.

    -       O que foi? perguntou ele, sério.

    -       A sinhá disse que num acredita no seu poder mas mandou suncê pará os trabaio. Num qué aqui na fazenda ninguém fazendo mandinga. Disse que vai castigá nóis.

    Ele riu.

    -       Ela disse isso? Num tá feliz e bem disposta?

    -       Tá. A ingrata. Tem pena do sinhô. Qué que ele fique

    Ele tirou algumas baforadas do grosso cigarro de palha que tinha entre os dedos. Ela prosseguiu:

    -       Chegô o sinhô Menelau e a sinhá disse que ele ficou descunfiado. Acredita nas mandiga e acha que o sinhô tá mandingado. Sinhá tá cum medo. Disse que, se ele descobre o que ocê tá fazendo, vai dá castigo. Ela mandou dizê prá desfazê tudo e pará com essas coisa.

    Ele ficou sério.

    -       Sei o que faço. Num carece ter medo.

    Num gesto ágil agarrou a Zefa, abraçando-a.

    -       E ocê, o que é que qué?

    -       Preciso obedecê a sinhá.

    -       Mas num é isso o que ocê quê.

    -       Não. Num é. Por mim tudo tá muito bem do jeito que tá.

O         sinhô num faz falta nenhuma. Mas, como a sinhá mandou, ocê

faz o que ela qué. Quero só vê quando ele tivé de novo mandando

em tudo, se ela vai me dá razão. Deixa ela.

    -       Ocê tem medo de branco?

    -       Eu? Tenho. Eles pode me separá da sinhá, me mandá prá longe daqui, castigá ocê.

    -       Qual! Tenho as costa quente. Tenho meu santo. Ninguém chega se ele num deixá. Posso dobrá esse Menelau como eu quizé. Qué vê?

    A Zefa sacudiu a cabeça.

    -       Melhor não. A sinhá pediu e eu faço o que minha sinhá qué. Gosto dela e obedeço.

    Ele riu, divertido.

    -       E o que eu quero, ocê num faz?

    -       Num sei...

    -       Pois eu gosto de ocê. Faço tudo que ocê qué. Fica aqui comigo hoje e eu faço tudo o que me pedi.

    -       Tá bem. Ocê anda me mandingando também, seu negro xerido.

    - Ocê que me mandingou. Tô louco pôr ocê. Zefa riu satisfeita. O Bentinho agradava-a muito. Seus poderes especiais a facinavam. Davam-lhe a sensação de ser importante, de valer alguma coisa, de se saber mais do que os brancos. O que ele tinha feito com o orgulhoso Demerval, fizera-a vibrar de satisfação.

    Durante anos suportara impotente a arrogância do sinhô e o sofrimento da sinhá. Agora, graças aos poderes do Bentinho, tudo tinha mudado. Lá estava ele, dependente, inseguro, indiferente. Tinha se transformado em um pobre branco, sem nenhuma influência no destino de todos.

    Entregou-se ao Bentinho feliz, sentindo-se valorizada. Perto dele, não temia nada, porqüanto ele tinha amplos poderes e conseguia até comandar o sinhozinho branco.

 

    Os dias que se seguiram foram de atividade intensa para Menelau e Maria José. A princípio, Menelau tentara convencer o irmão a orar e compreender que podia estar sendo subjugado por forças de magia. Porém Demerval recusava-se a ouvir o assunto. Não acreditava nessas coisas.

    Apesar disso, Menelau e Maria José oravam em voz alta todas as tardes no quarto do enfermo. Mas as melhoras não vinham.

    Havia os negócios para ser regularizados e Menelau saía logo cedo com o capataz a tratar da plantação e decidir o que fazer. Quase sempre levava Maria José, a quem procurava explicar tudo, o que irritava o capataz porqüanto achava que mulher não deveria misturar-se aos negócios. Calava em sua contrariedade. Menelau estava decidido a preparar a cunhada para assumir os negócios na ausência do marido.

    Maria José, a princípio tímida, aos poucos foi fazendo observações que irritavam o capataz, encantavam Menelau, pela perspicácia e pelo lado prático que apresentavam.

    Expressando ironicamente seu desagrado, o capataz comentou de forma desairosa a presença da sinhá em meio aos rudes labores dos homens, no que foi energicamente censurado por Menelau:

    -       A sinhá dona Maria José é a dona de tudo isto. Senhora da casa, da fazenda, dos escravos, de tudo. Manda como quiser. O sinhô Demerval está doente e ela agora é quem dá ás ordens. Se não quer obedecer com respeito, a porta da rua é serventia da casa. Pode ir-se embora.

    Ele empalideceu e disse com humildade:

    -       Não, isso não. Sempre obedeci a sinhá. Ë que eu achava que esses negócios são coisa de homem. Mulher só sabe mandar nos escravos da casa.

    -       Engana-se, Manoel. Enquanto o sinhô não puder voltar ao trabalho, ela é quem decide tudo. Se quer continuar, deve obedecê-la.

    -       Está bem. Se o sinhozinho Menelau acha, eu faço.

    -       Muito bem. A sinhá dá as ordens e você faz.

    Assim Maria José, aos poucos, foi se interessando pelos negócios, e apoiada pelo cunhado, foi conseguindo inteirar-se de tudo.

    Por causa disso, estavam sempre juntos e Maria Antônia, enfadada, aborrecida, demonstrava seu desagrado. Odiava a fazenda, a vida simples e até a rotina da casa. O ruído das crianças deixava-a nervosa. Não queria filhos. Tinha horror à gravidez e ao parto. Várias vezes discutira com o marido por causa disso. Ele esperava ansiosamente um herdeiro. Ela, sem que ele soubesse, submetia-se a vários tratamentos em cumplicidade com sua ama, a fim de não ter filhos. Havia uma erva que ela tomava que impedia a gravidez.

    Estava irritada. Desejava voltar à corte. Afinal, esse irmão nunca se tinha importado com eles. Por que agora deveriam sacrificar-se para ajudá-lo? Insistia com o marido para que voltassem para casa. Era inútil, Menelau estava irredutível. Um dia, cansada de tentar convencê-lo, muito irritada, observou:

    - Estou aqui, neste mato, entediada, enquanto você mistura-se aos negros o dia inteiro. Não acha que já fizemos o bastante por esse irmão que nunca sequer nos visitou?

    Menelau franziu o cenho com desagrado. Olhando a fisionomia carregada da esposa, perguntou-se pela milésima vez, por que tinha concordado em desposá-la. Apesar das vantagens daquela aliança que unira duas tradicionais e abastadas famílias, cujos pais tinham contratado o enlace desde a infância, Menelau casara-se com Maria Antônia porque a tinha julgado meiga e carinhosa. Supusera-a com os mesmos ideais que guardava no coração e partira para o casamento, com a disposição de constituir uma família honesta e feliz. Durante seus furtivos encontros no noivado, mal pudera sentir-lhe as idéias. Contudo, jamais tinha lhe passado pela cabeça que uma mulher jovem e bonita pudesse pensar de forma diferente. Sua mãe era extremamente bondosa e dedicada aos seis filhos que criara em um casamento feliz.

    Entretanto, durante os dois anos de vida em comum, Menelau assistira ao ruir de todas as suas esperanças. Maria Antônia, assim que se tinha visto livre da tutela paterna, demonstrara desusado interesse pela vida da corte, mergulhando fascinada nas futilidades dos salões, prevalecendo-se da liberalidade do marido que, cansado dessas atividades, muitas vezes não a acompanhava, deixando-a apenas com a dama de companhia.

    A princípio, atribuíra esse fascínio ao deslumbramento da menina que sempre vivera reclusa na severidade dos pais, mas com o correr do tempo, conhecendo-a melhor, percebeu sua aversão por filhos, a futilidade das atitudes e a aridez do seu caráter.

    Diante da frieza da esposa que jamais tivera para com ele um gesto de afeto, Menelau fora aos poucos reduzindo suas demonstrações afetivas, e apesar de cortês e delicado, educado e afável, tornara-se frio para com ela. Vendo-lhe a rigidez da fisionomia, sentiu que a presença de sua mulher começava a irritá-lo. Fez o possível para conter-se. Foi com voz educada que respondeu:

    -       O que Demerval fez ou faria, não me importa saber. Sempre agi de acordo com minha consciência. Ele é meu irmão e precisa de mim agora. E não é só ele. Tem uma família a zelar. Seus filhos estão ao abandono e Maria José não sabe o que fazer. Vou ficar aqui até que a situação esteja melhor e possamos levar Demerval à corte para tratamento. Você quis acompanhar-me. Não a obriguei.

    Ela deu de ombros e respondeu com voz que a raiva fazia trêmula:

    -       Pois você está se excedendo, fez mais do que podia. Chego até a pensar que sua presença aqui deve-se mais a Maria José do que a Demerval. Os dois não se largam. Já está dando o que falar e eu não estou aqui para ser ultrajada.

    Menelau ficou rubro. Tal situação jamais lhe passara pela cabeça. Era homem correto e a calúnia teve o dom de irritá-lo ainda mais. Aproximou-se da mulher com os olhos chispando de surpresa e de revolta.

    -       Uma infâmia destas só pode ser gerada em uma cabeça demente como a sua.

    -       Pois não há outra explicação para nossa permanência neste ermo. Estou decidida a partir o quanto antes. Não suporto mais esta situação. Amanhã volto para a capital da província e você deve decidir: ela ou eu!

    Menelau mal acreditava no que ouvia. Era injusto e torpe. E ele não ia submeter-se aos caprichos de sua mulher, abandonando o irmão e sua família naquela situação. Só regressaria quando pudesse deixar os negócios em ordem na fazenda e levar Demerval para a cidade.

    Estavam em plena colheita de café e deixar a fazenda entregue a incapacidade dos negros poderia pôr tudo a perder.

    -       Faça o que quiser. Você já decidiu.

    -       Não vem comigo?

    -       Não. Só voltarei quando tudo aqui estiver resolvido.

    -       É sua última palavra?

    -       Quer dizer que me troca por esta mulher e sua gentalha? Menelau procurou controlar seus ímpetos de bater-lhe. Estava no limite de sua tolerância.

    -       Não admito que fale assim dos meus parentes.

    -       Não esqueça que você escolheu. Parto amanhã. Regresso à nossa casa magoada e ferida. Meus pais vão saber disso e o seu também.

    Deu-lhe as costas e retirou-se de cabeça erguida. Menelau permaneceu pensativo procurando acalmar-se. Sentou-se colocando a cabeça entre as mãos. Sua consciência não o acusava de nada. Suas intenções eram puras e fraternas. Embora devesse respeito à sua mulher, não podia ceder aos seus caprichos e imposições.

    Ficou ali, largo tempo, cabeça entre as mãos, olhos perdidos no tempo. De repente, sentiu uma mãozinha quente segurando as suas tentando descobrir-lhe o rosto.

    -       Tio Lau, o senhor está chorando?

    Menelau olhou o rostinho delicado de Ana, em cujo olhar leu preocupação e afeto. Segurou-lhe as mãos com carinho.

    -       Não, minha filha. Não estou chorando.

    -       Mas está triste.

    -       Um pouco.

    -       Por quê?

    -       Por nada. Porque não tenho uma filha bonita como você.

    Ela chegou-se mais com os olhos brilhantes:

    -       Mas eu gosto muito do senhor. Não posso ficar no lugar dela até a hora dela chegar?

    Ele riu, divertido. A candura das crianças o encantava.

    -       Sou um tio muito severo. Não tem medo?

    Ela balançou a cabecinha aureolada por belos cabelos castanhos.

    -       Não. Tio Lau, conta aquela história do saci-pererê?

    -       Conto. Ele faz muitas diabruras.

    E Menelau, colocando a menina ao colo, contou-lhe histórias que a fizeram vibrar de admiração e alegria. Quando terminou, sua irritação tinha passado. Sua mulher havia escolhido livremente. Por certo, refletiria melhor sobre suas absurdas palavras. E se resolvesse partir, paciência. Ele só iria quando tudo estivesse em ordem.

    No entanto, Maria Antônia não se arrependeu. No dia seguinte, ao romper da alva, ladeada pelos dois cavalheiros, pela aia, pelo cocheiro e seu valete, partiu de volta para casa. Não se despediu de ninguém.

    Maria José, preocupada, tentou saber a causa do desagrado da cunhada, que tolerava com educação, apesar dela ser malcriada, molestar os escravos, em especial a Zef a com quem implicava visivelmente. Mesmo estando irritada, Maria José procurava tratá-la bem, em atenção ao cunhado a quem devia tantas obrigações. Vendo-a partir sozinha e visivelmente zangada, procurou-o aflita.

    -       Dona Maria Antônia partiu hoje sem despedir-se. Por acaso alguém aqui a ofendeu?

    Ele fez um gesto vago.

    -       Peço desculpas. Ela estava com saudades da família, resolveu regressar.

    -       Menelau, pareceu-me que ela não estava contente em nossa casa. Posso saber o que a desagradou?

    -       Para dizer a verdade, tudo quanto a afasta da corte e dos salões a desagrada - desabafou ele, magoado.

    -       Não está sendo muito severo com ela? É natural que em sua juventude ela aprecie a beleza e os jogos dos salões.

    Ele concordou.

    -       É natural, mas ela coloca isso acima de tudo o mais. Até dos filhos e do lar.

    -       Estou sendo indiscreta. Peço desculpas.

    Ele estava muito amargurado. Todo sentimento represado, toda sua desilusão veio à tona.

    -       Você é mãe e esposa dedicada. Pode compreender como me sinto. Minha mulher recusa-se a ser mãe e prefere as futilidades da corte à vida no lar.

    Maria José estava chocada. As confidências do cunhado tocavam-lhe fundo os sentimentos. Um homem tão afetuoso, tão amigo das crianças, tão delicado, casado com aquela megera. Porém, não queria ofendê-lo expressando sua antipatia por Maria Antônia.

    -       Ontem nos desentendemos. Ela queria voltar à corte e eu pretendo ficar aqui durante mais algum tempo. Nossos negócios lá no Rio vão bem. Meu procurador cuida de tudo como se fosse eu mesmo.

    - Não seria melhor regressar? Não gostaria de causar-lhe um problema famíliar.

    -       Agora, em meio à colheita? Mais alguns dias não vão me prejudicar. Além do que, pretendo levar Demerval para tratamento.

    -       Já lhe causamos muitos trabalhos e aborrecimentos. Fez muito por nós. Se quiser regressar com sua esposa, saberemos compreender. Não se acanhe por isso. Demerval entenderá.

    A voz dela tremia.

    -       E você? - indagou ele, fixando-a nos olhos. - Quer que eu parta?

    Maria José desejaria dizer-lhe que não. Que sua presença inspirava-lhe confiança e bem-estar. Que tinha horror de ficar sozinha de novo, com tantos problemas a resolver. Não teve coragem. Baixou os olhos e respondeu:

    -       O que eu quero não importa. Você tem se sacrificado por nós e não é justo retê-lo, ainda mais contra a vontade de sua mulher.

    -       Olhe para mim. Diga-me com sinceridade. Estou sendo de alguma valia aqui para você? Estou conseguindo ajudar?

    Nos olhos dela surgiu o brilho de uma lágrima.

    -       Ainda pergunta? Nem que vivamos cem anos poderemos pagar-lhe tanta dedicação e carinho.

    -       Muito bem. Se sou útil, é o suficiente. Esqueçamos a descortesia de dona Maria Antônia. Pensemos em cuidar das melhoras de Demerval que é o mais importante.

    Maria José comoveu-se. Tanta nobreza de alma, tanto desprendimento, tocavam-lhe fundo o coração. Jamais conhecera homem tão generoso. As crianças adoravam-no e ela sentia-se bem vendo-o com elas à volta, a pequena Ana ao colo, contando histórias que todos ouviam enternecidos, beijando-os, abraçando-os com carinho.

    Essa atitude a maravilhava. Demerval era pai extremoso, mas jamais permitira a seus filhos essas liberalidades. Nunca vira alguém agir assim e chegara até a temer que as crianças viessem a abusar de tanto agrado. Todavia, com surpresa, percebeu que era com prazer que atendiam a qualquer desejo do tio, obedecendo-o docilmente. Menelau conseguira deles muito mais atenção e obediência do que Demerval e ela com seus rigores e disciplinas.

    Menelau era bom e afetuoso, mas também homem severo e de brio. Inteligente e culto, não alardeava cultura como Demerval, porém surpreendia com seus conhecimentos sempre atuais e oportunos.

    Naqueles dois meses de convivência constante, Maria José aprendera a respeitar o cunhado e a acatar sua orientação.

    -       Está bem - concordou ela. - Mas, assim que a colheita acabar e tudo estiver em ordem, voltaremos para Itu e lá procuraremos médico para Demerval. Confio em Deus que ele ficará bom.

    Menelau baixou a cabeça, pensativo.

    -       Se ao menos ele concordasse em orar conosco! Se ele compreendesse e aceitasse a possibilidade de estar sendo vítima de magia!

    Maria José sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

    -       Você acredita mesmo nessas coisas? Custa-me aceitar!

    Ele olhou-a, sério.

    -       Há coisas que nós não sabemos explicar, mas que nem por isso deixam de acontecer. Que outra razão haveria para a situação de Demerval? Doença não é. O médico é da roça, mas bom. Depois, Demerval sempre foi homem de vontade e de brio. Para ficar reduzido ao que está, só mesmo por ação de alguma força que não podemos controlar.

    -       Demerval não é homem religioso, contudo sempre foi de cumprir seus deveres com Deus, como manda a igreja e rezava todas as noites. É homem bom e honesto. Deve ter proteção de Deus. É isso que não consigo compreender. Essa força do mal pode mais do que Deus? Se nós temos rezado, todos os dias, e ele não melhora é de crer que eles, os espíritos do mal sejam mais fortes. Neste caso, estamos à sua mercê?

    Menelau suspirou fundo.

    -       Como eu disse, há muitas coisas que não podemos explicar, ou entender, mas que acontecem. O caso do mano é um deles. Não sabemos que força é essa que o subjuga dessa forma, transformando-o de homem dinâmico e ativo, atuante e lúcido, nessa figura dependente e deprimida que estamos vendo. Porém, o fato de não sabermos a causa de uma coisa, não significa que ela seja invencível. Deus sempre pode mais. Não existe nada que seja igual ou maior do que ele. Se isso acontecesse, então, ele deixaria de ser Deus.

       O que quer dizer?

    -       Quero dizer que se esta força derrubou Demerval, foi porque Deus permitiu, houve alguma razão.

    -       Isso me confunde. Se Deus permitiu, então ele apoiou o mal?

       - De forma alguma. Mas o sofrimento, na vida, ajuda o homem a enxergar melhor a verdade, a aprender a respeitar o direito dos outros. sensibiliza. O que eu quero dizer é que Demerval pode estar sendo vítima de forças do mal que o colocaram na situação atual; contudo, embora Deus não tenha determinado isso, deixa-o experimentar essa situação, para que ele desenvolva mais a compreensão, a paciência e tenha por algum tempo a consciência de que não é onipotente, como alardeava nos tempos de boa saúde.

    Maria José ficou pensativa durante alguns segundos, depois perguntou:

    -       Quer dizer que ele vai ficar bom?

    -       Espero que sim. Mas quando? Isso só Deus sabe. Provavelmente quando tiver aprendido a lição que a vida quer ensinar-lhe.

    -       E se ele teimar? - tornou ela angustiada, recordando o temperamento difícil do marido.

    -       Será pior. Por isso tento fazê-lo compreender.

    -       Quer dizer então que as forças do mal estão fazendo um benefício. Nesse caso eles não são culpados?

    -       Eu não disse isso. Quem faz o mal é sempre culpado. Se existe alguém, como eu suspeito, que está fazendo mandinga para o mano, um dia por certo será castigado. Quem semeia ventos, colhe tempestade; é um ditado português muito verdadeiro. Quem estiver fazendo isso está unido aos espíritos atrasados e por isso algum dia ainda vão dar-se conta do erro e sofrer. Por outro lado, Demerval talvez estivesse muito insensível, distante da realidade. Então, estava sem defesa e foi atingido.

    -       Isso é muito complicado. Quem garante que seja assim?

    -       A vida. Se você observar, vai perceber.

    Maria José calou-se. Na verdade ele podia ter razão. Intimamente reconhecia que o marido era duro e obstinado. Todos deviam obedecê-lo cegamente e quando dispunha as coisas, não ouvia nenhum argumento ou ponderação. Apesar de penalizada, Maria José reconheceu no cunhado certa razão.

    Absteve-se de comentar. Tinha vergonha. Demerval lá, doente e fraco e ela recordando seus erros. Era covardia.

    -       Quando pensa que poderemos voltar à cidade? - indagou, ansiosa.

    -       Dentro de uma semana. Deixaremos tudo em ordem, o café ensacado, o celeiro cheio.

    Poderemos voltar.

    Maria José suspirou.

    -       Quem sabe saindo daqui, ele melhore.

    -       Pode ser. Ainda penso que deveriam ir para a província. Na corte tudo será mais fácil. Itu não tem recursos como Lá em São Paulo, onde há médicos de grande capacidade.

    -       E se o caso não for de médico?

    -       Tenho um amigo no Rio de Janeiro que entende dessas coisas. Posso mandar um correio chamando-o. Mas aqui, neste fim de mundo, tudo fica mais difícil.

    -       O melhor será sairmos daqui o quanto antes.

    -       Sairemos. Vamos trabalhar bastante e dentro de uma semana estaremos na cidade.

    Lá, decidiremos o que fazer, conforme estiverem as coisas. Tenho pensado muito.

    Talvez seja melhor irmos todos para o Rio de Janeiro.

Maria José sacudiu a cabeça negativamente.

     -      Espero que não. Não gostaria de incomodar dona Maria Antônia. Além disso, seria um transtorno ter que fechar a casa de novo, ir para tão longe...

     -      Se for preciso, o faremos. Não podemos deixar o mano sem socorro. A vila é tão pequena! Não creio que lá haja pessoa capacitada. para atender o caso de Demerval. Em minha casa, na capital, teremos mais recursos.

     -      E dona Maria Antônia? Não irá gostar, com certeza.

     Menelau fez gesto de enfado.

     -      Dona Maria Antônia por certo andará muito ocupada, às voltas com os salões e as modas, para incomodar-se. Depois, sempre faço o que acho direito, e nesse caso não dou atenção a ninguém.

     Maria José calou-se, mas no íntimo pediu a Deus para não ir. Ser hóspede de tão desagradável criatura, por certo seria doloroso. Ela não suportava crianças e não tinha nenhuma consideração com Demerval, sua doença nem com a cunhada.

     Ficou preocupada. A Zefa percebeu e perguntou solícita:

     -      A sinhá anda séria. Parece que viu assombração.

     -      Estou preocupada.

     -      Com o quê?

     -      Com tudo. Demerval não melhora. Agora, Menelau quer levar-nos todos para sua casa na capital da província. Acha que lá tem mais recursos para Demerval.

     -      Cruz credo, sinhá. Na casa daquela xerida.

     -      Não fale assim de dona Maria Antônia. É esposa do dr. Menelau e minha cunhada. Exijo respeito.

     -      Mas sinhá, ela é tão marvada! Eu num quero í prá casa dela!

    - Como se negro tivesse vontade!

    - Pois eu tenho, sinhá. Para lá nóis num vamo. Vosmicê vai vê.

    - Não inventa mandinga nenhuma que Deus castiga. Está proibida de fazer qualquer coisa.

    Ela deu de ombros.

    - Vosmicê num acredita nessas coisa!

    - Mas não quero você metida nessas tarantas. Se o dr. Menelau sabe, vende você. Não perdoa mesmo. E aí, não poderei fazer nada.

    A negra deu de ombros.

    - Vosmicê num fica sem sua negra. Ele num vai fazê ocê sofrê.

    Maria José levantou a mão, ameaçadora.

    - Some daqui, Zefa. Se me aborrece, vendo você eu mesma.

    Ela saiu derrubando o beiço com certa arrogância. Maria José fez força para não rir. A pretinha intrometida tinha razão. Sabia que era estimada. Maria José nada fazia sem ela. Não suportava ver Maria Antônia maltratar sua Zef a. Essa era uma das razões pelas quais não queria ir. Precisava rezar, pedir a Deus que a ajudasse. Se Demerval melhorasse, tudo voltaria ao normal.

    Sentiu um friozinho no estômago. Tudo seria como antes. Demerval decidindo, Demerval mandando, ela tendo que obedecer. Não poderia ser diferente? Quem sabe agora, depois de tanto sofrimento, ele estivesse mudado. Por que ele não era como Menelau? Amoroso com as crianças, apesar de enérgico, atencioso com ela, sem ser afetado, competente nos negócios, sem ser implicante e teimoso.

    Menelau tinha todas as qualidades. Além do mais era um homem bonito. Muito parecido com o irmão, nos cabelos, no riso e até de corpo. Mas como podiam ser tão diferentes? O riso franco, os olhos expressivos e até os cabelos revoltos, davam-lhe ares de menino. Era mais jovem, mas Demerval aparentava ser seu pai.

    Maria José sacudiu os ombros. Não queria pensar nessas coisas. Tinha pena do marido, tão indefeso e triste, reduzido àquela situação. Porém, era-lhe penoso pensar que chegaria o dia da partida de Menelau. Ele preenchia as horas com mil atividades. Pensava em tudo, mas fazia com que ela participasse. Exigia-lhe opiniões, acatava-as, valorizando as que julgava boas. Ensinava-lhe sempre o que fazer, não impunha nada, pelo contrário, explicava-lhe as causas e deixavalhe sempre a possibilidade de escolher.

    Na fazenda, a jovem senhora já sabia como agir e aprendera a lidar com os negócios muito bem. Porém, à noite, após o jantar, no salão, as reuniões tinham alegria especial. As crianças participavam. Dava gosto vê-los, com o tio a mostrar-lhes gravuras, ensinando-lhes história, arte, ciências, com carinho e amor.

    Era sempre a custo que eles concordavam em ir para cama no horário estabelecido. Geralmente, Maria José, ao levar as crianças para o quarto, não mais voltava no salão. Ia fazer companhia a Demerval, embora este pouco se importasse com sua presença. Ficava sempre dormindo, e quando instado a falar, só fazia lamentar-se indefinidamente.

    Menelau tentava arrancá-lo da situação inutilmente. Recusava-se a tudo que não fosse dormir e lamentar-se.

    Maria José considerava seu dever ficar áo lado do marido mesmo assim, e lá permanecia lendo, à luz do lampião, ou segurando-lhe a mão como a transmitir-lhe um pouco de coragem, de ânimo, de apoio.

    Naquela noite, Maria José quase não pôde dormir. Pensamentos contraditórios invadiam-lhe a cabeça preocupada. Era muito tarde quando conseguiu conciliar o sono.

    Acordou no dia seguinte, com o sol alto e levantou-se de um salto. Tinha que ter saído com o cunhado e perdera a hora. A Zef a, que velava acocorada a um canto do quarto, levantou-se.

    -       Está tarde. Preciso sair. Por que não me acordou?

    -       Calma, sinhá. Vosmicê teve sono agitado. Dormiu mal. Expliquei ao sinhô Menelau.

    Ele achou melhor vosmicê ficá descansando, por hoje.

    -       Mas eu não gosto. Tenho o que fazer. Devia ter me chamado. Venha, quero vestir-me.

    Minutos depois Maria José, já vestida, circulava pela casa, inteirando-se de tudo, dando as ordens do dia. Estava na cozinha, quando a Zefa chamou-a esbaforida.

    -       Sinhá... acode lá na sala... o dr. Menelau...

    -       O que foi Zefa?

    -       Num sei não. Mas o Zé e o Biro tão trazendo ele carregado.

    -       Valha-me Deus! gritou ela, empalidecendo.

    Trêmula, correu para a sala enquanto que Menelau, pálido e suando muito, era colocado no sofá.

    -       O que foi? O que aconteceu? - indagou Maria José, aflita.

    -       Sinhozinho caiu do cavalo.

    -       Vão buscar já o dr. Amarante. Corra, pelo amor de Deus.

    Enquanto o negro saiu rápido, Maria José aproximou-se do cunhado penalizada.

    -       Como se sente?

Ele abriu os olhos e tentou sorrir, sem muito sucesso.

    -       Dóem-me muito as costas e a perna esquerda. Acho que está quebrada.

    -       O dr. Amarante dará um jeito. Tenha calma. Zefa, vá buscar

    A negra saiu correndo e logo mais voltou com o remédio.

    -       Beba. É remédio da roça, mas fará bem.

    Menelau obedeceu. Maria José estava trêmula e aflita, O dr. Amarante chegou meia hora depois e examinou Menelau detidamente. Depois concluiu:

    -       Vou enfaixar o peito. Deve ter partido a costela. A perna também tem que ser encanada. Está doendo muito? - indagou, penalizado.

    -       Está - gemeu Menelau.

    -       Vai melhorar. Beba isto - ordenou o médico, depois de preparar rapidamente uma poção.

    Menelau obedeceu. O médico esperou alguns minutos e depois começou a trabalhar.

    -       Não será melhor transportá-lo para cama? - sugeriu Maria José.

    -       Só depois de devidamente tratado. Não convém removê-lo por causa das costas.

    Maria José estava pálida e trêmula. Apesar disso, ajudou no que pôde enquanto a Zef a providenciava o material caseiro de que o médico precisava. Só depois de muito bem enfaixado no tórax e com a perna devidamente canalizada foi que Menelau pôde ser cuidadosamente transportado para o leito.

    O     médico sentou-se ao seu lado dizendo-lhe que tudo estava bem agora. Que precisava repousar e permanecer tranqüilo. Menelau, apesar da poção calmante e do sonífero que o médico lhe dera, demorou a adormecer. Cochilava para, de repente, assustar-se e acordar. O dr. Amarante, com paciência e calma, permaneceu ali, velando, até que o visse finalmente render-se ao sono.

Na sala, Maria José indagou aflita:

    -       Então, doutor, ele ficará bom?

    -       Creio que sim. Já sabe, deverá tomar os dois medicamentos. Por certo terá febre, não se preocupe com isso. É natural. É só não deixar subir muito. Faça compressas frias na testa e saco de areia quente nos pés. A senhora sabe como é. Se sentir dores, dê-lhe o sedativo.

    Amanhã ainda será penoso. mas depois, tudo vai melhorar. Pela tardinha, volto por aqui para ver como tudo está passando.

    -       Estou aflita. Demerval continua na mesma. Agora Menelau. Parece mandinga!

    O     médico olhou-a sério.

    -       Por que diz isso?

    -       À toa. Nós íamos embora na semana que vem.

    Maria José calou-se, acanhada. Não queria mostrar falta de confiança no dr. Amarante. Apesar de tudo, considerava-o um excelente médico.

    -       Mesmo com o sr. Demerval assim?

    -       É... Ele não melhora mesmo. Nós não podemos pensar em ficar aqui para sempre. Meu cunhado tem negócios na capital e eu preciso ver como vão nossas coisas na vila. Temos esperança que, mudando de ares, voltando para casa, ele melhore.

    O     médico ficou pensativo, depois considerou, sério:

    -       Pode dizer. Com certeza querem buscar recursos na cidade. Afinal, o sr. Demerval continua doente. É justo que procurem pelos recursos, por outros médicos. Tenho pensado muito no caso de seu marido. Parece-me muito estranho. Por que falou em mandinga?

    -       Por nada. Bobagem. Meu cunhado acredita nessas coisas. Disse que Demerval parece vítima de um sortilégio. Não creio nisso. Sou católica. Porém, depois do que aconteceu hoje, surgiu-me a idéia de que algo não quer que deixemos a fazenda. Parece mentira, mas Demerval ficou doente na véspera de irmos embora. E agora Menelau, quando resolvemos sair daqui, pronto, aconteceu. Sei que pode ser uma coincidência, mas é muito estranho. Às vezes, sinto como uma barreira entre nós e nossa casa na vila. Parece-me que nunca mais sairemos daqui.

    O     médico passou a mão pelos cabelos, pensativo. Depois ajuntou:

    -       É... o caso é estranho.

    -       O senhor acredita nessas coisas?

    -       Hum... Tenho visto coisas neste mundo de admirar. Não posso deixar de dizer que o caso do sr. Demerval é muito especial. Fisicamente não encontro nada. Desgosto, ele não teve. Como explicar seu estado de depressão e fraqueza? Um homem dinâmico, cheio de disposição. Vontade de ferro, opinião firme. Eu diria que ele parece hipnotizado.

    -       Hipnotizado?

    -       É. Só a hipnose poderia explicar essa situação.

    -       Como é isso?

    -       Um agente, ou melhor, uma pessoa de vontade forte, domina a outra que fica dependente, fazendo tudo o que o agente ordena.

    -       Mas aqui não existe ninguém dominando Demerval.

    -       Pode ser alguém que não sabemos, que não está físicamente aqui.

    -       Isso é impossível!

    -       Não é, dona Maria José. A ciência prova que a força do pensamento pode atuar mesmo à distância. Se a senhora pensar muito em alguma pessoa, pode fazê-la recordar sua presença, mesmo que esteja do outro lado do mundo.

    -       Essa teoria é estranha. Além do mais, Demerval não é pessoa impressionável. Quem poderia estar fazendo isso?

    -       Os negros dizem que as almas dos mortos estão à vossa volta...

    -       Cruz credo, doutor! O senhor, tão instruído, falando essas coisas!

    -       Tenho visto coisas nesta vida, dona Maria José. Acredito que as almas dos mortos podem estar ao nosso lado. Acha que depois da morte não existe vida?

    -       Não gosto de pensar nisso. Estas histórias de assombração são fantasias criadas pelos negros para vingarem-se dos brancos.

    O     médico riu divertido.

    -       Mas a senhora tem medo.

    -       Não se deve brincar com essas coisas, que merecem respeito.

    -       Não estou brincando. O sr. Demerval era homem teimoso e de opinião. Dirigia os negócios com mão de ferro. Pode muito bem ter dado motivo a uma magia qualquer.

    -       Doutor Amarante! O senhor também? Menelau acha isso.

    -       Ah! Ele entende dessas coisas?

    -       Um pouco. Tem um amigo na capital que sabe como tratar desses assuntos. Pretendia procurá-lo para Demerval.

    -       Então foi isso! - exclamou o médico. - Olhe, dona Maria José, embora não acredite, não custa tentar. Arranje aí um bom mandingueiro e vamos ver o que acontece.

    -       Não posso. Demerval não aprovaria. Não queria sequer ouvir falar dessas coisas.

    -       Ele agora não está em condições de decidir. Além do mais, a situação é séria, O dr. Menelau está lá, todo quebrado. Esses casos podem complicar-se.

    -       Santo Deus! O que devo fazer? Chamar o padre?

    O     médico sacudiu a cabeça.

    -       Não acredito que eles entendam dessas coisas. O melhor seria mesmo alguém que conhecesse o assunto. Esse amigo do dr. Menelau, não viria?

    -       Não sei...

    -       Falarei com o dr. Menelau sobre o assunto. Veremos o que se pode fazer.

    -       Custa-me acreditar.

    -       É apenas uma hipótese. Tenho dado tratos à bola tentando explicar o caso do sr. Demerval. Tudo quanto tentei foi inútil. Ele não melhora. Por que não buscarmos esses recursos? A magia é praticada desde que o mundo é mundo. E, embora não tenhamos condições de entender, ela tem atingido as pessoas. Os negros, por sua religião, seus costumes, suas crenças, conhecem certas forças da natureza. Por que não as usariam contra os brancos que os dominam?

    -       Os negros devem amar seus senhores que lhes dão tudo.

    -       Mas lhes tiraram a liberdade, o direito de escolha.

    -       O senhor é contra a escravidão!

    -       Estou apenas imaginando como eles devem sentir-se.

    -       Bobagem. Negro é como cachorro. Tem que ser fiel ao dono. Afinal, o que seria deles sem o branco? Andariam por aí, sem eira nem beira, bebendo e vagabundeando. É o branco que os ajuda a viver. Ensina-lhes o que sabem, dá-lhes de comer, de beber.

Os olhos do médico brilharam emotivos.

    -       Bem se vê que a senhora não tem reparado o que vai por aí. Os negros com fome, magros, sofridos, dormindo como porcos, trabalhando de sol a sol, revoltados e infelizes.

Maria José deu de ombros.

    -       Pode ser. Porém, não aqui. Em nossa fazenda, eles têm comida farta e casa boa. Demerval odeia miséria. Pode ser enérgico, mas não judia de ninguém. Só pune os faltosos para exemplo.

    -       Ainda bem. Nunca lhe ocorreu que eles são seres humanos como nós?

    -       Eles não são como nós. Foram criados para serem escravos. Muitos nem isso sabem ser. Não aprendem o serviço mais simples e são peso morto. Nem para venda eles prestam.

    O     médico olhou-a, triste.

    -       O ser humano é muito influenciado pelo meio. Eles não têm muita chance nem condições. Mas a senhora não pode ignorar que a história mostra-nos alguns negros surpreendentemente inteligentes.

    -       O senhor fala dos mulatos. Misturaram-se aos brancos.

    -       Mesmo assim. Muitos deles superaram, em inteligência, muitos brancos.

    -       Estou admirada, doutor. Essas idéias nunca tinham me passado pela cabeça.

    -       Na verdade, dona Maria José, pouca gente pensa nelas, mas os negros sofrem e, sem poder defender-se, usam os recursos da magia, das mandingas, que conhecem muito bem.

    Tenho visto casos muito estranhos, que ninguém consegue explicar pelos meios normais.

    -       Isto não quer dizer que foi magia.

    -       Não obrigatoriamente. Mas, em sã consciência, o que mais poderia ser? Famílias abastadas, gente importante, fortunas sólidas, que de um dia para o outro são atingidas por uma série de desgraças que vão dizimando tudo, deixando, ao cabo de certo tempo, desolação, miséria, destruição.

    -       Isto é terrível. Se for verdade, eles não pensam que destruindo seus senhores estão destruindo a si mesmos? Não são os senhores que os sustentam e conduzem?

    -       A eles isso não importa. Querem mostrar que também têm força. Que, apesar de tudo, ainda podem fazer o que querem, que são mais fortes.

    -       Que barbaridade! Cuspiram no prato em que comeram!

    -       É só uma hipótese, lembre-se disso. Ainda assim, precisamos investigar.

    -       Custa-me crer!

    -       Apesar disso, precisamos estar alertas. Agora vou indo. Pela tardinha voltarei para ver o dr. Menelau. Passar bem.

    Depois que o médico se foi, Maria José ficou pensativa. Para ela, os negros voltarem-se contra os senhores era tremenda injustiça. Eles eram tratados com consideração em suas terras. O que mais podiam querer? Absurdo pensar em dar-lhes liberdade. Eram vagabundos e envolviam-se com facilidade em arruaças, bebidas. Sem o sinhô, o que seria deles? Por certo morreriam de fome.

    Procurou esquecer o assunto e dividiu o tempo entre o marido e o cunhado, que apesar dos remédios sentiu dores e febre, requisitando atenção maior. A Zefa desdobrou-se em carinhosa atenção. Apreciava muito o dr. Menelau, que apesar de não dispensar-lhe nenhuma atenção especial, era bondoso com as crianças e com sua sinhá.

    Menelau sentiu-se sensibilizado com a dedicação da escrava que excedia a tudo quanto ele conhecia. Era por isso que a cunhada a apreciava. Zef a valia bem esse afeto.

    Apesar das atenções e dos cuidados do médico, só dois dias depois foi que Menelau começou a melhorar. As dores passaram e a febre cedeu.

    O     médico, satisfeito, considerou:

    -       Felizmente o perigo passou. Agora é questão de tempo. O senhor vai ficar bom. Deus é grande!

    Maria José sorriu alegre:

    -       Graças ao doutor, que tem se dedicado.

    -       Todos têm sido muito bons comigo. Deste jeito, vou acostumar-me ao bom trato.

    -       Dr. Menelau, gostaria de conversar um pouco sobre um assunto muito sério que me ocorreu.

    -       Pode falar, doutor.

    -       Estivemos conversando, eu e dona Maria José e pareceu-me estranho o que vem acontecendo aqui.

    Vendo Menelau atento, continuou:

    -       O caso do dr. Demerval intriga-me muito. Agora, o seu... Pode parecer coincidência, mas não acha que há alguma força misteriosa querendo mantê-los aqui?

    -       A cada dia que passa, tenho mais suspeitas. Na verdade, foi só marcar a nossa volta para sofrer este acidente.

    -       Como aconteceu? Pode falar nisso sem molestar-se?

    -       Posso. Naquele dia, acordei meio indisposto. Sentia a cabeça um tanto atordoada, certo mal-estar no estômago. Mal tomei meu café. Mas, à medida que dispus-me a trabalhar, fui melhorando. Até que montei o Conde para ir à casa do Manoel verificar alguns arranjos e no caminho, o Conde assustou-se. Empinou. Apanhado de surpresa, não consegui sustentar-me na sela. Caí. Senti dor horrível nas costas e na perna, tonteei. Só acordei Lá na sala.

    -       O Conde é um cavalo manso. Nunca derrubou ninguém. Até as crianças montam nele - esclareceu Maria José.

    -       O cavalo relinchou. Parece ter visto alguma coisa que o assustou - concluiu Menelau.

    O     médico permaneceu pensativo por alguns minutos. Depois perguntou:

    -       Não lhes parece suspeito isso?

    -       Tenho pensado muito em Demerval. Pode estar sendo vítima de feitiçaria. Esses negros fazem coisas, o senhor sabe...

    -       Não posso crer - disse Maria José, sem poder conter-se. Não é possível! Estão fantasiando. Esses pobres negros, ignorantes, incapazes! Como teriam nas mãos tal poder? Seria descrer da existência de Deus.

    -       Há muitas coisas que ainda não sabemos - tornou Menelau, sério. - Deus não tem nada com isso. Eles são ignorantes, mas têm lá seus conhecimentos de magia. Não devemos esquecer que vieram da África. Assim como os índios sabem curar certas doenças e conhecem muitos segredos da mata, os negros conhecem a magia, os espíritos, etc.

    -       Por que Deus permite?

    -       Sou homem que acredita em Deus. Tenho percebido a Divina Providência atuando, aliviando o sofrimento humano. Contudo, não consigo ainda compreender certas coisas. A senhora desculpe, dona Maria José, mas eu acho que os padres complicam muito e não explicam nada. Por isso, não creio neles nem aceito o que dizem. Nesta vida, para mim, só têm valor os fatos reais, as coisas que estão acontecendo. Deus é bom, é Pai, como eu disse, dá para sentir sua bondade ajudando as pessoas. Porém, há os maus, os ambiciosos, os traidores, os mentirosos que abusam de tudo e de todos. Eles estão espalhados por toda parte. Padres, negros, políticos, senhores, enfim, estão à nossa volta. Praticam atos perversos a toda hora. Como Deus permite, não sei, mas tem sido assim desde que o mundo é mundo. Ele deve ter suas razões, há homens que merecem - concluiu o médico.

    -       E quando ferem pessoas inocentes? - perguntou Maria José.

    -       Inocentes? Quem pode saber? A justiça de Deus não age pelas nossas cabeças. Deve saber o que está fazendo. Se Deus está no leme de tudo, se ele é perfeito, logo sua justiça também o é.

    -       Não posso aceitar essa loucura. Jamais vou entender como um negro ignorante pode, com sua mandinga, atingir pessoas inocentes e bondosas, como Demerval e Menelau.

Maria José sacudiu a cabeça, irritada. Menelau interveio:

            -           À primeira vista, parece-nos assim. A religião nos tem ensinado isso. Porém, concordo com o doutor quando diz que os fatos não podem ser ignorados. Demerval é um homem bom e eu procuro não prejudicar ninguém, entretanto, estamos longe da santidade. Por que não poderíamos ser odiados por pessoas que se julgam injustiçadas?

    -       Isso eu até concordo - atalhou Maria José. - O que não aceito é que eles tenham poderes para deixar Demerval no estado em que está. O seu caso, foi um acidente, nada mais. Os cavalos assustam-se com facilidade, não carece dar maior importância a esse ponto.

    -       Dona Maria José, estamos só aventando hipóteses. Claro que não afirmamos nada.

    Mas, como eu disse, tenho visto casos que deixaram clara a influência de magia atingindo e destruindo famílias inteiras.

    -       O doutor é supersticioso!

    -       Ao contrário. Tenho horror à superstição. Falo de certos fatos que presenciei e não pude explicar pelos meios comuns, que deixaram bem viva a participação de coisas sobrenaturais.

    -       Se isso fosse verdade, estaríamos à mercê deles. Que crueldade! Deus não permitiria!

    -       Considerações filosóficas, senhora dona Maria José. Isso não resolve nada. O fato é que a medicina não pode explicar a doença do seu marido e não tem podido curá-lo, o que é pior. Por isso, estamos procurando outras causas. Ainda não temos certeza de nada.

    Maria José suspirou nervosa. Menelau concordou:

    -       Penso como o senhor. Não tenho certeza de nada. No entanto, a cada dia, mais desconfio e penso nessa possibilidade.

    Conversaram mais sobre o assunto e Menelau concordou em mandar um correio ao Rio de Janeiro, pedindo a seu amigo que viesse socorrê-lo com a urgência possível.

    O     dr. Amarante informou-o que somente um mês depois, se tudo corresse bem, ele poderia agüentar sem prejuízo a viagem de volta.

    Teriam portanto que permanecer na fazenda, pelo menos durante mais um mês.

 

    Os dias que se seguiram foram tranqüilos. Menelau recuperava-se a olhos vistos e o dr. Amarante, em sua visita diária, ia constatando a melhora.

    -       Se continuar assim, logo estará bom - disse um dia, muito satisfeito. - A propósito, aquele nosso caso...

    -       Já escrevi para meu amigo no Rio de Janeiro. Espero-o com a brevidade possível.

    Tenho a certeza de que nos ajudará muitíssimo. É um estudioso dessas coisas. Ademais, tem experiência. Esteve na Inglaterra, França, com estudiosos, pesquisa há vários anos.

    -       Estou ansioso para que ele chegue. Tenho presenciado fatos estranhos que a razão não consegue explicar. Gostaria de saber o que há por trás deles. Que força é essa que atua e quais os recursos para vencê-la.

    -       Acredito no poder da oração.

    - Eu também. Mas deve convir que isso não esclarece nada. recurso útil, nem sempre satisfatório. Suspeito que esses fatos

obedeçam a determinadas leis da vida, que os condiciona a certas circunstâncias, onde podem desenvolver-se.

 -          É interessante, tem lógica.

    -       Pelo estudo, pelo conhecimento, talvez possamos levar em conta esses fatores e aí sim, atuar com acerto. Não posso entender a bondade de Deus permitindo esses fatos. Há de haver uma razão justa e certa.

    -       E quando a descobrirmos...

    -       Estaremos aptos a intervir com acerto.

    Sempre que se encontravam, os dois conversavam interessados, querendo entender o que estaria ocorrendo ali, com eles.

    Dez dias depois do acidente, Menelau recebeu um portador com a missiva esperada. Seu amigo Eduardo recebera sua carta e pedia-lhe para aguardar mais alguns dias, enquanto desencumbia-se de atividade palaciana; assim que terminasse o trabalho, disporia de algumas semanas. Iria vê-los na fazenda. Menelau entusiasmou-se, dizendo a Maria José:

    -       Eduardo é a pessoa adequada. Você verá como é bom e inteligente. Somos amigos há longo tempo. Conheci-o em Paris, quando éramos estudantes. Ele é bacharel, como eu. Seu pai, legislador, homem de confiança do Imperador, era conselheiro da corte. Mandou o filho estudar e preparar-se nas melhores escolas, dizia que para servir o Brasil. O velho confiava na glória do nosso país.

    -       Ele é jovem? - indagou Maria José.

    -       Dois anos menos do que eu. Conhecemo-nos e logo nos afeiçoamos. Não só por estarmos no estrangeiro, mas por um laço de afinidade que imediatamente estabeleceu-se entre nós. Admiro-o muito. Sem querer escandalizar você, sinto-O mais meu irmão do que Demerval. Com ele, sou mais chegado, conto-lhe minhas dúvidas e meus problemas íntimos. Compreendemo-nos.

    -       Um homem fino, de alta educação. Teremos condições de hospedá-Lo? A fazenda não tem muito conforto.

    Menelau sorriu.

    -       Nem pense nisso. Eduardo é simples de maneiras. Dará mais atenção ao trato que lhe dispensaremos do que ao conforto material.

    -       Pensa mesmo que ele poderá ajudar-nos?

    -       Tenho certeza. Falava-me com entusiasmo desses assuntos. Como já disse, pesquisa há longos anos. Ë amigo de cientistas e estudiosos. Relatou-me casos de influência do sobrenatural que ouvi mas não quis aprofundar-me. Tenho um pouco de receio dessas coisas.

    Não queria envolver-me.

    -       E agora, por que quer mexer com esse assunto? - perguntou Maria José, temerosa.

    -       Não temos outro remédio. Estamos dentro de uma situação que não sabemos resolver.

    Ela deu de ombros.

    -       Quer saber? Estão exagerando. Você e o doutor Amarante estão vendo coisas onde não tem.

    -       Gostaria que fosse verdade. No entanto, sinceramente, não acredito. Sinto que em tudo isso existe algo estranho. É como se uma barreira tivesse se levantado entre nós e o mundo lá fora. Sinto isso e não encontro explicação.

    Maria José arrepiou-se. Não ousou confessar ao cunhado que sentia a mesma coisa.

    Parecia-lhe que nunca conseguiria sair da fazenda. Mudou de assunto:

    -       Vou preparar-lhe os aposentos. Espero que compreenda nossa vida simples.

    -       Não se preocupe. Ele é homem educado e muito bom.

    Nos dias subseqüentes, Eduardo era assunto obrigatório das conversas deles, e tardava a chegar. Cada ruído vindo de fora, deixava-os atentos. Havia mais de quinze dias que a carta chegara e nada de Eduardo.

    -       Com certeza desistiu de vir - aventou Maria José, um pouco decepcionada.

    -       Não, isso não - reagiu Menelau. - Por certo não pôde vir antes. Aguardemos com calma.

    Por fim, Eduardo chegou. Vinha coberto de poeira, barba por fazer, muito cansado. Maria José recebeu-o com alegria, embora um tanto preocupada com seu estado físico. Menelau, vendo-o, assustou-se:

    -       Eduardo! Venha esse abraço! Valha-me Deus, você parece que veio da guerra!

    Eduardo sorriu contente:

    -       E venho mesmo. Foi muito difícil achegar aqui. Parece impossível que, finalmente, consegui.

    -       Naturalmente, você deseja tomar um banho, refazer-se, alimentar-se. Vá, depois conversaremos. Estou aflito para isso.

    -       Está bem. Aceito, porque estou realmente precisando. Logo mais falaremos.

    Meia hora mais tarde foi que Eduardo voltou ao salão. Barbeado, limpo, muito elegante. Maria José simpatizou com ele. Alto, rosto moreno, tinha os cabelos de um castanho dourado, contrastando com seus olhos escuros e brilhantes, O sorriso, franco e alegre, era muito diferente do que Maria José imaginara. Tinha ares de menino quando sorria.

    No salão, saboreando o café com bolinhos que a Zefa preparara com carinho, Menelau tornou:

    -       Esperamos por você todos estes dias. Maria José chegou a pensar que não viesse.

    -       Tudo estava muito bem, até que decidi vir para cá. Aí começaram as dificuldades.

    -       Como assim?

    -       Assuntos que já estavam resolvidos na corte, complicaram-se e tive de demorar-me mais alguns dias. Até aí não dei muita atenção ao caso, porém, quando iniciei minha viagem para cá, foi que as coisas começaram a acontecer. Saí do Rio de Janeiro há uma semana!

    -       Uma semana?

    -       Sim. Uma semana. Aconteceu de tudo. Assalto na estrada. Cavalos dispararam quebrando a roda da carruagem. Ferreiro que não queria consertá-la. Lacaios que brigaram, chegando quase a matar-se. Tudo era para que eu desistisse. Mena, se eu não fosse tão teimoso, não estaria aqui.

    -       Estou pasmo! Por que tudo isso?

    - É o que desejo saber. Não tenho dúvida de que algo existe. Alguém queria impedir-me de chegar.

    -       Talvez os mesmos que querem impedir-nos de sair daqui.

    Maria José irritou-se:

    -       Estão fantasiando os fatos. Tudo não passa de coincidência. Pura coincidência. Qualquer um que viaje pelas nossas estradas pode ser vítima desses acontecimentos.

    Eduardo olhou-a sério. Ela pôde ver que ele não tinha nada de menino naquele momento.

    -       Se deixar o medo dominá-la, ou se entrar no jogo deles, nunca sairá daqui.

    Maria José arrepiou-se.

    -       Por que diz isso?

    -       Porque a força deles está justamente em nossa fraqueza e incredulidade. Acobertam-se fortalecendo nossas dúvidas e engrossando nossas fraquezas. Sem isso, eles por certo fracassariam.

    -       Como lutar com seres sobrenaturais? Como enfrentá-los sem medo? - Maria José tremia.

    -       Engana-se redondamente. Eles não são seres sobrenaturais. São homens. Homens como nós.

    Maria José abriu a boca, sem saber o que dizer.

    -       São homens que viveram na Terra e hoje se encontram em outro mundo, para o qual todos iremos um dia.

    -       Neste caso, por que nos atacam? O que lhes fizemos? -inquiriu Maria José admirada.

    - É o que pretendemos descobrir, se Deus permitir. Sabemos que, pelo fato de deixarem este mundo, eles não se modificam. São os mesmos, guardando seus afetos e suas mágoas, seus ódios e seus amores. Muitos, inconformados com a injustiças que lhes foram feitas no mundo, revoltam-se e pretendem vingar-se com as próprias mãos.

     -      Que horror! Deus permite isso?

     -      Deus não aprova a vingança nem a prática do mal. Jesus sempre ensinou o perdão das ofensas. Só Deus pode conhecer a verdade e agir com acerto. Contudo, muitos não querem ouvir. Deus deu-lhes o direito de escolher.

     -      Então estamos à mercê dos maus? - atalhou ela, nervosa.

     -      Não. Estamos a mercê dos nossos próprios atos. Podemos escolher ser bons ou maus, justos ou injustos com os outros, mas depois de termos escolhido, teremos que suportar a reação, as conseqüências da nossa escolha. Está claro que ninguém deseja vingar-se de alguém por ter recebido um bem. Todos os que escolhem a vingança, revelam falta de confiança em Deus e sua justiça, e por isso sofrerão. A senhora há de convir que eles têm seus motivos. Ninguém odeia sem provocação ou causa.

     -      Mas, veja nosso caso. Demerval é homem de princípios duros, porém, nunca fez injustiça.

     -      Acredito. Contudo, nem sempre nosso critério do que seja justiça é o mesmo do nosso adversário, ou o mesmo de Deus, o que é mais sério.

     -      Maria José, creia, Eduardo entende desses casos, não tenha medo - explicou Menelau com voz carinhosa. - Ele vai nos ajudar, estou certo. Por que teve tantas dificuldades em chegar? Por que eles se deram ao trabalho de tentar impedi-lo de vir aqui?

     Porque estão com medo. Compreende? Eles estão com medo de alguém que os possa descobrir e inutilizar-lhe as ações.

     Maria José olhou-os com admiração. Os olhos de Eduardo tinham um brilho especial, determinado e ela calou-se. A situação era difícil e ela sabia que não tinha condições de resolvê-la. Por isso, decidiu acatar o que eles diziam. Era a única porta de saída que tinha. Estava cansada, nervosa, irritada. Queria sair daquela situação, ver Demerval com saúde.

     Menelau contou ao amigo, com detalhes, o problema que os angustiava e Eduardo ouviu atencioso. Ao final, considerou:

    -       Tem razão. Há em tudo uma influência estranha conduzindo os acontecimentos. Não tenho dúvidas quanto a isso. Quero visitar Demerval, observar melhor.

    -       Muito bem. Maria José poderá conduzi-lo ao seu quarto. Definha a olhos vistos. Vive acovardado e sonolento, abandonou tudo. Não tem nenhum interesse pela vida.

    Eduardo considerou:

    -       É bem característico.

    -       Maria José o levará a ver Demerval agora.

    De repente, aconteceu. Maria José sentiu uma onda de revolta dentro de si. Tinha ímpetos de expulsar Eduardo dali, de atirar-se sobre ele para empurrá-lo para fora. Tentou dominar-se, não conseguiu. Disse com raiva:

    -       Não levo ninguém a lugar nenhum. Fora daqui! - gritou descontrolada. - Por que vem pertubar nossa vida? O que quer aqui?

    Menelau empalideceu e sentiu grande terror. Eduardo, porém, estava calmo como se nada houvesse acontecido. Fez um gesto para Menelau, que preparava-se para intervir, e respondeu seguro:

    -       Sou amigo da casa. Estou aqui porque fui convidado. E você, o que quer?

    -       Não é da sua conta! - respondeu Maria José com voz um tanto rouca.

    Estava em pé, olhos fixos, rosto diferenciado. Grande palidez transformava-lhe a fisionomia.

    -       Escute - tornou Eduardo conciliador - não estou contra você. Deve saber que eles são meus amigos, mas isso não impede de conhecer suas razões e ajudá-lo, se puder.

    -       Conversa fiada. Quem é amigo dos meus inimigos, meu inimigo é. Já estou perdendo muito tempo. O que desejo é preveni-lo. Afaste-se enquanto é tempo. Você não tem nada com isso. Não se meta onde não foi chamado. Estamos dispostos a tudo. Arrume suas coisas e dê o fora. Quanto antes, melhor. Verá que a viagem de volta será maravilhosa.

    -       E se eu não quiser ir? Afinal, acabo de chegar. Preciso descansar.

    -       Se não quiser, não diga que não foi avisado. Quem não está do nosso lado, é contra nós. Vá-se embora enquanto pode.

    Eduardo, sério e seguro de si, respondeu:

     -      Não irei. Deus é meu Senhor. A Ele obedeço. Não estou prejudicando você. O que tem contra esta família? O que desejam obter?

     Maria José riu nervosamente, respondendo com sarcasmo:

     -      Não é da sua conta. Saia do caminho, já disse.

     O    corpo de Maria José estremeceu e teria caído se Eduardo não a tivesse amparado, deitando-a no sofá. Menelau estava pálido, o medo estampado em sua face. A cunhada parecia dormir. Eduardo, olhando-o, disse:

            - Não tenha medo. Agora é hora da oração. Use toda sua força mental e todo seu sentimento. Peça por esses espíritos.

     Enquanto Menelau se esforçava para dominar as emoções e orar, Eduardo aproximou-se de Maria José colocando a mão em sua testa, cerrando os olhos por alguns minutos. Depois, disse com voz firme:

     - Dona Maria José, acorde. Dona Maria José, a senhora já está bem. Tudo passou.

     Ela estremeceu e foi acometida por soluços. Chorou durante alguns segundos. Eduardo silencioso, esperou. Quando ela serenou, disse:

     -      Está tudo bem agora. Não tenha medo. Já passou.

     Ela fixou-o assustada e ansiosa:

     -      Sr. Eduardo, o que aconteceu?

     -      Acalme-se. Tudo está bem agora.

     Maria José insistiu. Estava envergonhada. Lembrava-se de tudo quanto se tinha passado, ouvira as palavras que dissera, compulsivamente, sem conseguir contê-las. Aliás, na hora em que as proferira, fora dominada por grande revolta e muito ódio. Ficou arrasada. Estaria enlouquecendo?

     Quando se acalmou um pouco tentou explicar:

     -      Peço-lhe perdão. Juro que esperava ansiosamente pela sua visita. Depois de Deus, o senhor é para nós a última esperança. Não posso compreender. O ódio que senti de repente, tive vontade de esmurrá-lo.

     -      Acredito - ajuntou Eduardo, calmo.

     -      Como pode ser isso? - indagou ela, aflita.

     -      Ela ficou possuída pelo espírito, não é? - indagou Menelau, assustado.

     - É verdade. Afirmo até que não foi a primeira vez, nem será a última. A senhora é uma sensitiva. É médium. Pelo que pude observar, já deve ter tido outras manifestações como esta.

    Maria José baixou a cabeça envergonhada.

    -       Quem lhe contou?

    -       Teve, não teve?

    -       Envergonho-me delas. Pensei que estivesse curada. Melhorei depois que Demerval adoeceu.

    -       Conte-nos como começou. Quando aconteceu pela primeira vez?

    Maria José ficou constrangida em revelar coisas de sua intimidade, mas estava muito assustada. Vendo-a interdita, Menelau interveio:

    -       Vamos, Maria José, conte-nos tudo por mais estranho que possa lhe parecer. Todo detalhe é importante num caso desses. Não omita nada.

    A jovem senhora sentia-se arrasada.

    -       Fale-me como se estivesse em um confessionário. Seja o que for, juro que nada diremos ou contaremos sobre o assunto. Só queremos encontrar solução - induziu Eduardo.

    Maria José engoliu em seco, tomou coragem e, com certa dificuldade, foi contando tudo quanto havia acontecido. Foi sincera. Descreveu a rotina, o tédio, a raiva de ser obrigada a fazer algo contra sua vontade. Suas crises, a ajuda do Dr. Amarante. E que a Zef a a tinha socorrido, com as rezas do Bentinho.

    -       Não me contou nada disso - reclamou Menelau, sentido.

    -       Como poderia? Não queria que pensasse mal de mim. Demerval é meu marido. Um bom marido por sinal. Tem seus defeitos, mas eu também tenho os meus. Pensei que isso não fosse importante.

    -       Mas é - esclareceu Eduardo. - Num caso destes, tudo é importante. A Zefa entende dessas rezas?

    -       Não muito. Ela é cria da casa e está comigo desde pequena. Nunca a vi metida nessas feitiçarias.

    -       Sei. Mas ela ajudou a senhora numa crise.

    -       É, ajudou. Disse que eu precisava de reza. Que tinha espírito. Eu acho que estou perdendo a razão. Tenho medo. Estarei enlouquecendo?

    Maria José estava angustiada. Eduardo sorriu com doçura.

    -       Não receie. A senhora está no gozo pleno da sua razão. Como eu disse, é uma sensitiva. É médium.

    -       O que é isso? - indagou ela, admirada.

    -       A senhora tem outros sentidos. Pode perceber a presença de seres do outro mundo. Entrar em comunicação com eles.

    -       Mas eu não quero! Tenho medo. Por favor, livre-me dessas coisas.

    -       Do que tem medo?

    -       De tudo. Se eu vir um fantasma, acho que morro.

    -       Não precisa ter medo - confortou Menelau. - Não vai acontecer nada de mal.

    -       Certamente. Acalme-se. Não verá fantasma algum. Se seu marido viajasse para outro país, muito distante, e depois de algum tempo quisesse escrever-lhe ou mandar notícias mas não houvesse mensageiro nem correio e ele ficasse tão preocupado que pensasse com muita força na senhora? E se pudesse tal empenho que, apesar de haver uma barreira entre os dois, de repente ele conseguisse mandar seu pensamento e a senhora o sentisse? Teria medo?

     -      Claro que não. Será Demerval e estará vivo.

     -      Pois os espíritos também. São homens que já viveram no mundo. Morreram seus corpos, mas eles continuam vivendo, com um corpo diferente, em outro mundo: Querem comunicar-se com os que ficaram. Como há uma barreira e não têm outro meio, eles procuram expressar-se pela força do pensamento.

    -       É difícil crer.

     -      Mas é verdade. Há pessoas que são capazes de sentir esse pensamento, suas idéias, seus desejos, de sentir-se como se fosse eles.

    -       São os sensitivos? - indagou Menelau, interessado.

    -       São. Eles possuem condições de perceber esses espíritos e chegam a expressar-se obedecendo ao desejo deles que assim podem manifestar-se no nosso mundo.

    -       Por que esse desejo do mal? Por que esse ódio? Não serão eles espíritos das trevas? - indagou Maria José, atemorizada.

    -       São homens, não se esqueça disso. Também entre nós há homens bons e maus, benfeitores e infelizes, revoltados e ignorantes. Quando morrem, deixam o corpo de carne, mas continuam sendo o que sempre foram. A morte não lhes muda o caráter. Só muda seu mundo, sua vida. Os afetos e os rancores permanecem. Alguns, que se julgam injustiçados, às vezes desejam vingar-se.

     -      E Deus, por que permite tal coisa? Não pune sempre o mal? - perguntou Maria José.

     -      Deus é Pai justo e amoroso. Respeita a escolha de cada um e espera que ele compreenda a verdade.

     -      E se ele insistir no mal?

     -      Nesse caso, dia virá em que pelas leis de Deus ele será compelido a perceber seus erros e arrepender-se.

     -      Acredita mesmo nisso?

     -      Acredito - tornou Eduardo com segurança. - Ainda tem medo?

     -      Um pouco - considerou ela. - Tudo me parece tão estranho!

     -      Com o tempo perceberá que estou dizendo a verdade.

     -      Ainda assim, gostaria de livrar-me dessas coisas. Não é possível dar um jeito nisso?

     Ele olhou-a sério e respondeu com voz firme:

     -      A senhora escolheu isso em vidas passadas. Ser sensitivo não é um mal, mas um bem. Ë perceber onde os outros estão indiferentes, é enxergar em meio aos cegos, é ouvir em meio aos surdos, é ter mais do que a maioria. Não acha que, ao invés de reclamar, deveria agradecer a Deus essa dádiva e colocá-la a serviço do bem?

    A Maria José essas palavras pareciam estranhas e não conseguiu entendê-las bem. Entretanto, alguma coisa, lá dentro do seu ser, acordou. Uma força nova, algo assim como uma sensação de confiança e ela sentiu uma onda de paz descer sobre o seu coração. Suspirou fundo.

     -      Está bem? - indagou Menelau.

     -      Muito bem - respondeu ela. - Parece que eu estava preocupada demais. Voltaremos a conversar sobre isso.

    -       Por certo - tornou Eduardo, com satisfação. - Agora, vamos ver Demerval.

    -       Ajude-me a levantar - pediu Menelau - também quero ir.

     Quando entraram no quarto, Demerval remexia-se no leito e a Zefa tentava acalmá-lo.

     -      A sinhá chegou.

     -      O que foi, Zefa? - inquiriu Maria José.

     -      O sinhozinho ficou agitado, chamava vosmecê. Eu tava dizendo que vosmecê já aí vinha.

     A negra deslizou pelo aposento olhando curiosa para o recémvindo. O Bentinho tinha garantido que ela estava bem cercada. Não havia o que temer. Ninguém ia descobrir. Tinha pedido pro Bentinho ajudar a sinhá e o doutor Menelau. O Bentinho dizia que tudo estava certo. Tudo era para o bem da sua sinhá. Ele sabia o que estava fazendo. Tudo quanto ele falava, dava certo. Por isso, estava tranqüila. Afinal o que queria mesmo era a felicidade da sua sinhá. Reconhecia que ela estava preocupada, porém muito mais livre e feliz.

     Apreciava sinhozinho Menelau. Bem que ele podia ser seu patrão. Tão educado, tão bom com as crianças, tão atencioso com a sinhá.

     Eduardo olhou para Maria José e disse:

     - Ela pode sair por agora, enquanto estamos aqui.

     A Zefa não gostou, mas Maria José ordenou:

     - Saia, Zefa. Se precisar eu chamo.

     A negra saiu, lábios esticados num muxoxo ofendido. Quando ela fechou a porta Maria José comentou:

     - Essa negra é impossível! Viram a cara dela?

     - Nosso assunto é melhor ser tratado sem a presença de ninguém. Ë preciso ser discreto.

     - Compreendo - respondeu ela - embora a Zefa seja insignificante. Sempre sabe de tudo o que se passa em meu redor.

     Eduardo objetou:

     - Neste caso, peço-lhe para não comentar nada com ela.

     - Não vejo por quê. A Zefa é-me muito fiel. É capaz de dar sua vida por mim. Disso tenho certeza. Já provou sua dedicação muitas vezes.

     - Não estou duvidando dela - esclareceu Eduardo, conciliador. - Só que, por favor, é muito importante que além de nós três, ninguém mais saiba o que se passa, ou o que pensamos fazer.

     Demerval remexeu-se no leito.

     - Maria José - gemeu ele, com voz baixa. - Onde estava? Senti-me mal ainda a pouco. Pensei morrer. Por que me abandonou? Está cansada de mim?

     A jovem senhora inclinou-se sobre o leito tomando entre as suas as mãos do marido.

     - Não diga isso. Você não me cansará nunca. Vamos, acalme-se. Estou aqui e não vou sair mais. Estava recebendo o sr. Eduardo. Veja, Demerval, ele veio para nos ajudar. Ë amigo de Menelau. Com a ajuda de Deus, você vai sarar.

    Ele abriu os olhos e fixou os dois homens com indiferença.

    -       Não me deixe, Maria José. Não saia daqui. Tenho medo.

    Antes que ela respondesse, Eduardo considerou:

    -       De que tem medo, sr. Demerval?

    Ele pareceu nem ouvir. Eduardo chegou mais perto e repetiu com voz enérgica:

    -       De que tem medo?

    Demerval olhou-o um pouco mais, fazendo esforço para entender o que ele dizia. Eduardo repetiu:

    -       De que tem medo?

    -       Não sei bem. Estou mal, acho que vou morrer. Tenho pouco tempo de vida. Não quero ficar sozinho.

    -       O senhor não está doente, não vai morrer tão cedo.

    Demerval parecia muito cansado, respondeu com voz fraca.

    -       O médico não consegue curar-me. Estou cada vez pior. Minha doença é grave. Talvez ele até já saiba disso e não queira dizer. Minhas forças estão indo embora. Estou cada vez pior.

    -       Vim para ajudá-lo. Sei o que se passa com o senhor. Se me ajudar, dentro de pouco tempo, estará curado.

    -       Ah! Quem dera! - respondeu Demerval, com voz fraca.

        - Se eu pudesse acreditar...

    -       Pois acredite. Vamos começar já.

    Eduardo pediu a Menelau que se sentasse em uma cadeira ao lado da cama e a Maria José que continuasse segurando as mãos do marido. Postou-se na cabeceira do enfermo e, com a mão direita espalmada sobre sua testa, pediu:

    -       Pense em Deus, senhor Demerval. Ele é nosso maior médico. Por certo irá nos ajudar nessa hora. Vamos, procure tirar da suà cabeça os pensamentos tristes. Lembra-se de quando estava com saúde e bem disposto. Ë assim que deve pensar, sempre, que está bem, que tem saúde. Ajude-me, sr. Demerval. O senhor pode.

    Eduardo, cuja voz parecia modificada, orou sentidamente, pedindo a ajuda para o enfermo que, de repente, começou a soluçar.

    Maria José, preocupada, quis intervir; porém, a um gesto de Eduardo, calou-se.

    -       Continue segurando suas mãos, dona Maria José. Ore, por favor.

    A jovem senhora obedeceu. Demerval soluçava sentidamente. Eduardo orava, passando as mãos sobre a cabeça dele com muito carinho.

    Aos poucos, ele foi serenando e adormeceu. Continuaram em prece por mais alguns segundos e depois Eduardo, com um gesto, chamou os dois para a saleta ao lado. Demerval continuava adormecido.

    Maria José comentou:

    - Desde que adoeceu, ele nunca dormiu sem soporífero. Passa as noites insone, gemendo na cama.

    - Agora está dormindo e garanto que este sono lhe fará muito bem.

        - E então? - perguntou Menelau, interessado. - O que acha?

    -       Estamos ainda no início. É claro que existe uma influência negativa, talvez de espíritos inimigos. Porém, conto despertar em Demerval o desejo de reagir e a confiança em sua recuperação. Isso é muito importante para a solução do caso. Conto com a ajuda de vocês. Quero otimismo, oração e fé. Ninguém pode mais do que Deus.

    -       Ele vai ficar bom? - inquiriu Maria José.

    -       Estamos tentando. Não depende só de nós. Depende dele também e da profundidade de suas ligações com esses espíritos.

    -       Ele está ligado com eles? Ele não sabe nada dessas coisas. Não acredita nelas!

    -       O que não impede coisa alguma. Sua ligação com esses espíritos deve ter origem em outras vidas, se é que não foi nesta mesmo.

    -       Outras vidas? Como?

    -       Antes dessa. Não acredita em. reencarnação? Não sabe que antes desta tivemos outras vidas na Terra?

    -       Acho tão difícil! Será possível?

    -       Claro. A desigualdade social, moral e até intelectual, revela essa verdade. Se todos fomos criados iguais, onde nos tornamos tão diferentes uns dos outros?

    -       Vivendo outras vidas - concordou Menelau, interessado.

    -       Isso mesmo.

    -       Para quê? - indagou Maria José.

    -       Para aprender mais, até nos tornarmos experientes, sábios, felizes para podermos viver no reino de Deus.

    -       Tudo me parece tão incrível!

    -       Pense e verá que não pode ser diferente. Há muita aparente injustiça no mundo, dando impressão de que alguns são mais favorecidos do que outros. Contudo, Deus é justo, todos devem ter as mesmas oportunidades, sem preferências.

    -       Pensando bem, o mundo é bem ingrato - fez Maria José, pensativa.

    -       Se pensar que nós vivemos apenas uma vez na Terra, fica impossível entender a justiça de Deus. Entretanto, se pensar que todos fomos criados iguais e que estagiamos na Terra, como numa escola, aprendendo a viver no bem, tantas vezes quantas forem necessárias ao nosso desenvolvimento espiritual, ficará mais fácil. Os que sabem menos, os mais atrasados, ainda sofrem porque são inexperientes. Os mais adiantados são melhores, viveram mais tempo. É questão de idade e de escolha. Nosso espírito é eterno e Deus nos dá tempo para aprender. Todos erramos por não saber ainda viver melhor; porém, a vida reage aos nossos atos, e assim vamos aprendendo a respeitar as leis de Deus. Elas cuidam do nosso bem.

    -       Nunca ouvi falar nisso! - tornou Maria José, admirada.

    -       Pois é verdade. Procure observar as pessoas, os fatos e perceberá que existem coisas que só a reencarnação pode explicar.

    -       O caso de Demerval pode ser um deles? - tornou Menelau, sério.

    -       Por certo - respondeu Eduardo.

    -       Nesse caso não se trata de bruxaria? continuou Me-nelau.

    -       Mesmo nos casos de mandinga, há sempre as ligações de vidas passadas. Elas podem evidenciar algo que estava ainda por vir a ser. Podem acordar os inimigos da pessoa visada e utilizá-los na conquista do seu objetivo.

    Maria José suspirou nervosa.

    -       Custa-me crer. Parece-me fantástico. Não será tudo fruto de imaginação? Ter vivido outras vidas, ter inimigos que querem vingar-se. Não é injusto isso? Se tivéssemos vivido outras vidas, por certo nos lembraríamos delas.

    -       Engana-se, dona Maria José. Deus nos abençoa com o esquecimento para que o perdão nos seja mais fácil. Às vezes, Ele coloca um inimigo de outras vidas dentro do mesmo lar, como filho, para que os dois aprendam a se gostar e o ódio desapareça. Nunca ouviu dizer de filhos que odeiam o pai ou até a mãe?

    -       Então é isso? - Menelau estava entusiasmado.

    -       Justamente. Esse ódio não se explica. A não ser pela existência de outras vidas, onde ele teria se originado?

    Maria José ficou muda. Seria verdade?

    -       Então o caso de Demerval... - disse ela.

    -       Deve haver inimigos de vidas passadas.

    -       O que faremos? Não lhe parece injustiça que agora quando ele não consegue lembrar-se daqueles tempos e não pode defender-se, eles venham subjugá-lo?

    -       À primeira vista, pode parecer. Mas garanto que se Demerval quiser, poderá lutar e resolver essa pendência. Deus permite que inimigos se reencontrem sempre para que o desentendimento possa ser resolvido. E ele só se resolverá se as partes interessadas quiserem.

    -       Demerval não entende nada disso. Como poderá ajudar?

    -       Não subestime a capacidade de seu marido. Ele é um espírito, antes de tudo, possui os recursos naturais de defesa. Quem lhe garante que, no íntimo, ele saiba da presença dos seus inimigos e que o medo seja justamente a consciência de sua culpa? Nesses casos, todavia, cumpre-nos ajudar sem julgar. Não temos meios para avaliar as origens do problema ou sua profundidade. Compete-nos ajudá-los como pudermos e se ele merecer, Deus faz o resto.

    -       Quer dizer que não tem certeza se ele vai sarar?

    -       Confio em Deus. Por certo nos uniu a todos nessa hora para uma tentativa de ajuda.

    Contudo, há o livre arbítrio dos envolvidos. Vamos tentar convencê-los ao bem, mas a escolha é deles. Digamos que Demerval tem muita chance de ficar curado, se quiser, se lutar, se perseverar.

    Maria José suspirou.

    -       Deus o ouça!

    -       Ajude-nos com suas orações.

    Maria José concordou e enquanto ela ia sentar-se ao lado de Demerval, na vigília cuidadosa, os dois amigos retiraram-se para conversar.

 

    Demerval dormiu durante horas. Ao acordar, estava melhor. Bebeu leite, comeu rosquinhas com mais disposição. Maria José, não cabia em si de contente e a Zefa olhava, dissimulando sua preocupação.

    -       Vejo que está melhor - comentou, olhando o marido.

    Demerval olhou-a; sentia-se mais calmo.

    -       Consegui dormir. Estava precisando. Porém, ainda estou muito fraco.

    -       É natural - atalhou ela, com satisfação. - Você está de cama há muito tempo. A melhora deve vir devagar.

    -       Não tomei remédio algum. Como posso melhorar?

    -       Deus é grande. Tanto que está ajudando.

    Demerval permaneceu indiferente.

    -       O sr. Eduardo, amigo de Menelau veio para curá-lo. Você vai ficar bom.

    -       Não creio. Estou muito mal - gemeu ele.

    -       Estava. Agora já começou a melhorar. Vamos, não se entregue tanto. Até parece que você não quer sarar!

    Demerval gemeu:

    -       Quem dera!

    -       Então ajude no tratamento. Confiança em Deus, oração, otimismo. Lembra-se de quando estava com saúde? Não existia homem mais forte do que você.

    -       Bons tempos, aqueles!

    -       Tudo voltará a ser como antes - disse ela, com voz firme.

    No fundo do seu coração não gostava de recordar-se daqueles tempos. Não se acostumaria de novo à rotina de Demerval. Entretanto, tinha que fazê-lo pensar na saúde. Eduardo a tinha orientado.

    A Zefa olhava, acocorada em um canto do quarto. Pensava:

            - Se depender de mim, o sinhozinho não volta mais a ser como era. Eduardo ficou satisfeito com a melhora de Demerval. Estabeleceu como tratamento, duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, uma reunião deles para orar por Demerval, como da primeira vez.

    A Zefa, sempre colocada para fora nessas horas, não se conformava em ser excluída dessas reuniões, sem saber o que se passava lá dentro.

    O Bentinho tinha lhe dito que eles rezavam pelo doente, mas que nem toda reza do mundo poderia livrar Demerval. Ela confiava nele. Não gostava do sr. Eduardo. Por causa dele sua sinhá a tinha colocado de lado. Ele precisava ir embora o quanto antes.

    Com essas preces, onde Maria José segurava as mãos do marido e os outros dois oravam, Eduardo com as mãos estendidas sobre Demerval, este estava melhorando.

    Para Maria José essas reuniões eram penosas porqüanto muitas vezes era acometida de sensações desagradáveis. Medo, pavor, vontade de sair correndo, mal-estar, ódio. Nem sempre conseguia dominar-se, e a uma ordem de Eduardo cedia aos impulsos, falando coisas, como se fosse outra pessoa, sofrendo, chorando. Eduardo conversava, esclarecia, apaziguava e, aos poucos, ela voltava ao natural.

    - O que é esquisito - comentava ela, depois - é que quando saímos daqui, sinto-me leve, muito bem disposta. Como se nada tivesse acontecido! Como pode ser? Há alguns instantes, eu estava a ponto de morrer!

    - É assim mesmo. A senhora está bem, nunca esteve mal. Nesses momentos, reflete apenas o que esses espíritos sofrem. Assim que eles se vão, tudo passa. Não há nada de mais.

    Ela sacudia a cabeça, admirada. Tinha que admitir que realmente havia uma influência estranha à sua vontade.

    Contudo, era-lhe difícil aceitar a presença de espíritos que, segundo Eduardo, não eram malignos. Simplesmente eram pessoas que, como eles, tinham vivido no mundo e agora, apesar de mortos, continuavam a sofrer e influenciar os vivos. E Deus, onde ficava nisso? Por que consentia?

    Eduardo, com paciência, esclarecia-lhe as dúvidas.

    - O fato deles terem partido do mundo não os torna muito diferentes do que eram. Se a senhora morresse amanhã, de repente, como se sentiria?

    Maria José arrepiou-se:

    - Cruz credo! Nem quero pensar.

    - Por certo continuaria a preocupar-se com a saúde do sr. Demerval, com a felicidade de seus filhos e teria saudades. Teria dificuldade de ir-se embora para uma vida nova, deixando aqui tantos interesses.

    -       É verdade - concordou ela - não tinha pensado nisso!

    -       Continuaria sendo a mesma pessoa. Com seus afetos e suas antipatias. Tal qual eles. Levando-se em conta que muitos escravos morrem odiando o cativeiro, o senhor, é de se esperar que alguns desejem desforra.

    -       Que horror! Não é justo! Ficamos à mercê desses ignorantes!

    -       São seres humanos - esclareceu Eduardo, com voz tranqüila - espíritos iguais a nós. Com os mesmos direitos diante de Deus.

    -       Isso não, rebateu ela. Deus os colocou em nosso caminho para servir. Há os que nascem para mandar e os que vieram para obedecer. Deus fez o mundo assim.

    -       Não foi Deus quem fez isso, mas o homem - interveio Menelau, com seriedade.

    -       É verdade. O homem é que sempre abusa do poder e escravizou esse povo - arrematou Eduardo.

    -       Não fomos nós quem fizemos isso. Desde que nascemos já era assim. Que culpa temos?

    -       Não se trata de culpa, mas de responsabilidade: se assumimos o papel de donos e condutores desses homens, temos o dever de transformá-los em homens de bem.

    Maria José deu de ombros.

    -       Isso é que não entendo. Esses ignorantes, sem inteligência nem nada, ingratos e rebeldes, que nos têm causado desgostos e preocupações, como fazer deles homens de bem?

    Eles não têm capacidade.

    -       Da maneira como estão sendo tratados, como animais, sem sentimentos ou inteligência, por certo se tornam limitados e incapazes, mas isso é ainda conseqüência do que os homens fizeram com eles. Onde são tratados com respeito, eles demonstram habilidade, inteligência, caráter, como qualquer de nós.

    Maria José baixou a cabeça, pensativa; depois disse:

    -       Demerval sempre foi severo, nunca mau. Só dava castigo justo e merecido.

    Eduardo respondeu:

       - Para a senhora. Mas, o que pensaria o que recebeu o castigo? Aceitaria? Não guardaria raiva, rancor? Não pense que por ser escravos, eles não tenham orgulho. Esse sentimento é muito forte em cada um de nós, independentemente da posição que possamos ocupar. O orgulho ferido é sempre um estopim perigoso.

    -       O que quer dizer?

    -       Que o espírito de um escravo que morreu revoltado com seu dono pode pensar em vingança. Tenho visto alguns casos muito dolorosos e com os quais nada pude fazer. Orar, orar muito e esperar que Deus decida, uma vez que sua justiça atua sempre e ninguém sofre sem necessidade. Ou é porque precisa aprender ou é porque, além disso, precisa expiar.

    Maria José ficou pensativa. Reconhecia que Demerval era irascível, teimoso, embora ela procurasse justificativas para seu comportamento. Tratava seus escravos com rudeza e altivez, e se o que Eduardo estava dizendo fosse verdade, haveria muitos deles querendo vingar-se. Aflita, perguntou:

    -       E se o caso de DemervaL for um desses? E se ele não puder curar-se?

    Eduardo sorriu calmo:

    -       Não nego que há influência de espíritos vingativos, porém, no caso dele, deve haver algo mais. Depois, sua melhora foi evidente. Acho até que poderia ficar completamente bom.

    -       O que pode haver mais?

    Eduardo demorou um pouco para responder:

    -       Por enquanto, estou observando. Mas, há uma força que me parece ser de pessoas vivas.

    -       Como assim? - indagou Menelau, interessado.

    -       Sim. Pessoas interessadas em mantê-lo na fazenda e na cama.

    -       Como pode ser isso? Quem lucraria com uma situação dessas?

    Maria José corou. Estaria prejudicando o marido? Sentia que não gostaria de voltar a antiga vida, embora desejasse a cura de Demerval.

    -       É isso que tento descobrir. Sinto uma força contrária muito forte quando mentalizo a cura de Demerval. Como se outras pessoas, assim como nós oramos pedindo a cura, orassem pedindo a morte.

    -       Como sabe que não são espíritos? - fez Menelau.

    -       A energia é diferente. Alguém de pensamento forte e firme, está dirigindo tudo e esse alguém está ainda na carne. Por isso éque peço segredo dos nossos trabalhos.

    Maria José levantou os olhos cheios de lágrimas:

    -       Poderia ser eu? - indagou, assustada.

    Eduardo fixou-a firme e Menelau, surpreendido, abraçou-a como querendo protegê-la.

    -       Por que diz isso? - perguntou Eduardo.

    -       Porque eu quero que ele se cure, mas odeio a vida que ele me fazia levar. Sua rotina, seu modo de ser, sempre rígido e formal. Quero que ele se cure, mas quero ser livre para escolher como gastar meu tempo.

    Maria José chorava desconsolada. Menelau abraçava-a preocupado, sem saber o que dizer.

    Eduardo esclareceu:

    -       Louvo sua honestidade, mas a senhora não deseja vê-lo doente. Seu caráter reto não aceitaria uma situação dessas. Se dependesse da senhora, ele já estaria bom.

    -       É verdade - gemeu ela. - Dói-me pensar que, mesmo sem querer, eu possa prejudicá-lo, pensando na sua rotina e no seu modo de ser.

    Eduardo abanou a cabeça.

    -       Não se torture com esses pensamentos. Seus sentimentos são bons e não tem culpa de nada. Tenho pensado nessa sua mucama.

    -       A Zefa?

    -       Sim. Ela parece-me voluntariosa o bastante para tramar alguma coisa.

    -       Não acredito. Ela fala muito, mas é bem dedicada. Tem sido incansável para cuidar de Demerval. Ela é muito fiel.

    -       Mas anda metida em rezas com aquele negro feiticeiro...

-           concluiu Menelau.

    -       É isso que pretendo averiguar. Ela pode estar sendo agente, na melhor intenção.

    -       Não creio - defendeu Maria José. - Coitada da Zefa! Em todo caso, vou proibi-la de ver aquele negro. Deixem comigo.

    - De modo algum. Peço-lhe para não lhe dizer nada, por favor! - pediu Eduardo, preocupado. - Se ela for inocente, como supõe, não deve sofrer essa injúria. Se for culpada, acabarei descobrindo. Não vamos criar outro problema. Esqueça o que eu disse, dona Maria José: pode ficar certa de que se eu descobrir alguma coisa, informarei primeiro à senhora.

    -       Verá que tenho razão. A Zefa é cria da casa, só faz o que eu quero ou falo.

    -       Melhor assim. Por favor, não lhe diga nada, por enquanto. Ë importante para o sucesso do meu trabalho.

    -       Está bem - concordou ela. - Quero ajudar. Farei o que me pede.

    -       É melhor assim.

    A Zefa, porém, não estava tranqüila. Não gostava de se ver alijada da intimidade da sua sinhá. Percebia que, a cada dia, o sinhozinho estava melhor. Precisava tomar uma providência mais séria, afastar o sr. Eduardo da fazenda. Só se sentiria bem quando ele tivesse ido embora.

    À noite, esperou que todos dormissem e dirigiu-se à casa do Bentinho. O negro a recebeu com agrado.

    -       Tava pensando em ocê. Sentindo sua falta.

    Ela nem ligou, foi logo ao assunto do seu interesse:

    -       Vim aqui porque ocê tem de fazê aquele seu Eduardo ir imbora o quanto antes. Ele tá disconfiado. Eu sinto. Fica lá no quarto com a sinhazinha e o sinhô Menelau e num deixa eu ficá. Fico no canto, pra vê se eles esquecem de mim, mas qual, ele sempre alembra de mandá eu saí. Depois, sua reza num tá boa, o sinhozinho tá bem melhor. Já come, já dorme e, se vai assim, logo vai ficá curado.

    Bentinho apertou os olhos onde luziu uma chama orgulhosa.

    -       Ocê tá sendo ingrata. Por enquanto, tudo vai indo bem. Não tem do que ficar com medo. Mas, se ocê qué, vô dá um arroxo neles. Ocê vai vê como o Bentinho pode e é mais forte do que eles. Ocê tem medo de reza de branco? Alguma vez isso deu resultado?

    Havia muito desprezo em sua voz. A Zef a fez um muxoxo dengoso:

    -       Isso eu num sei. Só sei que se ocê tem força, é hora de mostrá.

    Ele se aproximou e abraçou-a com força:

    -       Ocê vai vê. Por ocê eu faço tudo. Fica hoje cumigo aqui e amanhã ocê vai vê.

    -       Só se me garanti que sinhô Eduardo vai embora.

    -       Fica cumigo e deixa o resto por minha conta.

    Os olhos dele brilhavam de cobiça. A Zefa sentiu-se envaidecida. Um negro com tanto poder, fazia tudo por ela. Riu satisfeita e ficou. Só saiu de lá quando o dia ia amanhecer.

    -       Quero só vê se ocê é forte mesmo - desafiou ela.

    -       Só quero um ou dois dias pra mostrá...

    A negra riu, satisfeita. Sua sinhá nunca mais teria que obedecer ao marido. Estava salva!

    O     dia seguinte decorreu sem novidades e Demerval melhorava lenta mas seguramente. Maria José estava esperançosa e o próprio Menelau já estava bem melhor da perna, O clima da casa estava mais alegre. A Zefa aguardava, procurando disfarçar a impaciência.

    Três dias passaram sem que nada acontecesse. A negra estava preocupada. Foi na tarde do terceiro dia que um portador empoeirado, cansado, chegou à fazenda.

            -           Vim procurar sinhô Menelau. Da parte de dona Maria Antônia. Foi imediatamente conduzido à presença de Menelau, a quem entregou uma carta. Ele a abriu e à medida que lia, seu rosto ia empalidecendo. Preocupada, Maria José perguntou:

-           Más notícias?

    -       Sim. Maria Antônia está doente e muito mal. Pede meu regresso imediato. Quer ver-me pela última vez!

    -       Valha-me Deus! - balbuciou Maria José, assustada.

    Menelau voltou-se para o mensageiro, que era servo de sua casa:

    -       O que aconteceu?

    -       Dona Maria Antônia andava muito triste ultimamente. Foi acometida de uma febre e está mal.

    -       E o médico, o que disse?

    -       Que ela tem pouco tempo de vida. Portanto, senhor, se quer vê-la com vida, deve apressar-se!

    Menelau estava pálido. Tinha deveres a cumprir ao lado da esposa, precisava partir. Por outro lado, como deixar Demerval que apenas começava a melhorar? Eduardo olhava-o, pensativo.

    -       Preciso ir - murmurou Menelau, triste. - Minha perna ainda está na tala. Como fazer?

    -       Daremos um jeito - tornou Maria José. - Vai em nossa carruagem.

    -       Você pode precisar dela!

    -       Não importa. Vá e mande-a de volta com notícias.

    Menelau estava inquieto, queria partir imediatamente.. Porém o mensageiro estava cansado e com fome.

    -       Não convém ir durante a noite - aconselhou Eduardo. -Nada vai acontecer a dona Maria Antônia. Sinto isso.

    -       Não quero chegar tarde demais - gemeu ele, preocupado.

    Eduardo olhou-o sério:

    -       Tem tempo de dormir esta noite. Amanhã, ao raiar do dia, poderá partir. Garanto que vai chegar a tempo.

    -       Confio em você - tomou ele. - Faço o que me aconselha, apesar da minha ansiedade.

    Maria José arrumou os pertences do cunhado com o coração partido. Sentia por ele grande afeto. Sem seu apoio, o que teria sido de sua vida naqueles dias tristes? As crianças choravam não querendo que o tio partisse.

    À noite, no quarto de Demerval, a prece foi triste e chorosa. Maria José sentia-se angustiada, temerosa, não queria que ele fosse, mas reconhecia que não tinha o direito de abusar mais da sua bondade. Maria Antônia estava mal, chamava-o, ele precisava ir. Se ela morresse sem vê-lo, sentiria remorsos. Fora para socorrer Demerval e ela própria que ele se afastara da esposa. Contudo, sentia o coração apertado pensando na separação.

    Mais tarde, no leito, Maria José não conseguiu conciliar o sono. Embora Menelau houvesse prometido voltar assim que pudesse, temia que não fosse possível. Enquanto sua esposa estivesse doente, ele deveria ficar com ela. E se ela demorasse muito a sarar? Talvez ele nem voltasse mais. Olhou para Demerval, que dormia ressonando placidamente. Agitada, levantou-se. Sentia o coração pesado e os seus pensamentos estavam tumultuados.

    Menelau havia sido tão bom, tão amigo, tão dedicado! Agora ia embora. Como ficariam as coisas dali por diante? Teve vontade de chorar. Sentia-se infeliz e desamparada.

    Com medo que Demerval acordasse, saiu do quarto, aflita, inquieta, desesperada.

    A noite estava abafada, quente. Foi até a varanda, respirando fundo, encostou-se no parapeito e chorou sentidamente.

    -       Maria José!

    Menelau estava ali, apoiado nas muletas que haviam conseguido para ajudá-lo na viagem. Ela olhou-o por entre as lágrimas e, sem poder conter-se, correu para ele abraçando-o com força.

    Ele estremeceu e apertou-a de encontro ao peito, beijando-lhe as faces, desesperado.

    -       Não vá embora - pediu ela.

    -       Deus sabe como eu queria ficar - respondeu trêmulo, segurando a muleta com uma das mãos e com a outra apertando-a de encontro ao peito.

    -       Não posso ficar aqui sem vê-lo! Não suportaria esta vida sem você.

    Menelau foi dominado por forte emoção. Sentiu que amava Maria José como nunca tinha amado ninguém. Ele também não havia conseguido dormir, angustiado com a partida. Intimamente, tentara encobrir seus sentimentos até aquele instante, porém, vendo-a chorar suplicando que ele ficasse, teve certeza de que a amava. Certeza e dor ao mesmo tempo. Esse amor proibido era mais um motivo para partir.

    Maria José soluçava e estremecia em seus braços numa crise que não podia dominar.

    -       Menelau, fique comigo. Não posso ficar sem você!

    Fitando seus olhos úmidos, ele não resistiu. Beijou-lhe os lábios ardentemente.

    Entregaram-se a esse beijo esquecidos do mundo. Maria José sentiu-se morrer. Jamais sentira tanta emoção. Não queria que aquele momento acabasse.

    Foi ele quem reagiu primeiro. Com dificuldade afastou-a e, pegando a outra muleta, saiu o mais rápido que pôde, recolhendo-se em seus aposentos.

    Maria José esforçou-se para recobrar a calma. Sentia a cabeça escaldante. Que emoção era essa que tomava conta dela desse jeito? Estaria apaixonada pelo cunhado a esse ponto?

    Ele ia embora e talvez nem voltasse mais. Depois do que acontecera entre eles, por certo se afastaria para sempre. Tudo estaria mesmo acontecendo ou ela estava sonhando?

    Sentia-se confusa, infeliz. Desejou esclarecer tudo. Decidida, foi procurar Menelau. Bateu à porta. Quando ele abriu, vendo-a na soleira, não soube o que dizer.

    -       Posso entrar? Preciso conversar com você.

    -       Claro - respondeu ele, com voz insegura.

    -       O que está nos acontecendo? Estaremos enlouquecendo?

    Sem olhá-la nos olhos, ele respondeu:

    -       Nos queremos bem. A convivência, a afinidade, tudo despertou em nós esse afeto.

    -       Menelau, juro que não tinha percebido antes. Mas, agora que vai partir, talvez para sempre, fiquei desesperada. 

    -       Está confundindo seus sentimentos. Sabe que sou seu amigo que a estimo, confunde gratidão com amor. Depois que eu for embora, vai compreender melhor.

    Maria José sacudiu a cabeça em negativa e aproximou-se mais dele obrigando-o a olhá-la de frente.

    -       Diga-me que o que aconteceu há pouco foi ocasional. Que não me tem amor. Que qualquer mulher em meu lugar lhe despertaria a mesma emoção. Diga com franqueza.

    Fixando o rosto apaixonado tão próximo ao seu, vendo-a palpitãnte de emoção, Menelau não resistiu e abraçou-a com força dizendo desesperado ao seu ouvido:

    -       Eu a amo, Maria José. Você é a mulher com a qual eu sonhei minha vida inteira. Sei agora que esse sentimento é mais forte do que eu, do que tudo.

    Beijou-a com ardor e desespero. Esquecidos do mundo e de todos entregaram-se a aqueles instantes de amor e emoção. Foi a custo que Maria José separou-se dele uma hora depois.

    -       Isto não devia ter acontecido - recriminou-se ele.

    -       Agora você não vai mais voltar e eu vou morrer aqui de saudade.

    Ele abraçou-a comovido.

    -       Deus sabe como me sinto. Jamais esquecerei esta noite. Para mim, ela será eterna.

    -       Não vou suportar sua ausência.

    - Agora não suportaria minha presença.

    -       Não diga isso - fez ela, estremecendo.

    -       O amor não foi nossa culpa, aconteceu; porém, o dever, nós dois sabemos.

    Ela suspirou fundo.

    -       Tem razão. Eu sei. Apesar disso, nunca o esquecerei, aconteça o que acontecer. Depois do que houve, você não pensa em voltar aqui.

    -       Quero ter notícias de Demerval e das crianças: desejo-lhe toda a felicidade do mundo - murmurou ele, com dificuldade.

    Maria José abraçou-o em desespero.

    -       Não suporto a idéia de vê-lo partir - soluçou. - O que será de mim agora? Como viver ao lado de Demerval sem amor, carregando este doloroso segredo no coração?

    Menelau apertou-a contra o peito. Por alguns minutos ficaram assim, coração batendo forte, num misto de adoração e de dor. Delicadamente Menelau afastou-a de si, dizendo:

    -       Não se desespere. Precisamos ser fortes. Deus sabe como eu gostaria que as coisas não fossem como são. Contudo, não nos resta outro recurso senão a separação. Demerval precisa de nós e neste mundo, por vezes, a vida tem situações inesperadas. Estamos aqui, nos amamos, mas sabemos que esse amor é impossível. Aconteceu... precisamos esquecer. Se eu ficar perto de você, não terei forças para dominar-me, tal como nesta noite. Parto levando comigo estes momentos inesquecíveis que me alimentarão enquanto eu viver. Jamais a esquecerei. Jamais! Amo meu irmão; vendo-o doente e debilitado, confiante e fraco, sinto-me culpado de não ter-me controlado, evitado o que aconteceu. Daqui para frente, viverei entre o seu amor que não busquei mas que despontou forte dentro de mim e meu dever de irmão, de homem, de amigo. Pode compreender-me?

    -       Posso - respondeu ela, sacudindo a cabeça tristemente.

       - Jamais traí Demerval, nem em pensamento. Sinto a mesma coisa que você. Sei que precisamos nos separar. Porém, ah, como dói esta separação!

    Menelau suspirou fundo.

    -       Dói, dói muito!

    -       Adeus - disse ela, num soluço.

    -       Adeus!

    Maria José foi até a porta para sair, olhou para ele e num impulso abraçou-o com força, enquanto dizia:

    -       Eu o amo! Dê-me um último beijo. É o adeus!

    Menelau apertou-a nos braços beijando-lhe os lábios ardentes com alma e carinho. Quando se separaram, ela disse:

    -       Guarde este beijo como lembrança e, apesar de tudo, guarde-me em seu coração. Não o esquecerei nunca!

    -       Eu também. Será nosso segredo para sempre.

    -       Adeus - suspirou ela, afastando-se pesarosa.

    -       Adeus! - disse ele, com suavidade.

    Temendo fraquejar ela saiu quase correndo. A casa estava silenciosa. Foi até a varanda, respirou profundamente o ar fresco da madrugada. Depois, foi para o quarto. Apesar da tristeza que sentia, a sensação de solidão havia passado.

    Demerval dormia tranqüilo. Maria José deitou-se e, cansada, adormeceu.

    Menelau fechou a porta do quarto e sentou-se no leito, trêmulo de emoção. Que mulher! Sensível, linda, ardente e apaixonada! Não se pôde furtar ao confronto com a esposa, sempre fria, distante, fútil. Por que ela era mulher do seu irmão? Não fora esse detalhe e ele fugiria com ela, assumiria esse amor para o resto da vida, criaria os sobrinhos que adorava. Porém, sua cunhada deveria ser sagrada. Não queria trair o próprio irmão.

    Guardaria a lembrança daquela noite como a mais bela de sua vida. Dali para frente, procuraria encontrar forças para afastar-se dela, não vê-la nunca mais. Se ficasse a seu lado, sabia que não conseguiria resistir.

    Deitou-se mas não conseguiu conciliar o sono. Sentia na boca o gosto daqueles beijos, no coração o calor daqueles momentos inesquecíveis. Com o tempo conseguiria esquecer?

    Remexeu-se no leito agitado e pouco dormiu até o amanhecer. Levantou-se, chamou o criado e tudo já estava preparado para a viagem. Eduardo apareceu.

    - Não precisava levantar tão cedo! - considerou Menelau.

    - Queria abraçá-lo ainda uma vez. Deus o acompanhe. Ficarei aqui mais algum tempo. Quero ver se consigo levá-los de volta à vila.

    Menelau apertou a mão do amigo com vigor.

    - Confio em você. Sei que não poderei voltar por agora e deixo-os em suas mãos. Deus sabe como eu gostaria de ficar!

    Eduardo olhou-o sério.

    - Você não pode. Paciência. Deus faz tudo certo.

    - Tem razão - concordou Menelau. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. - Parto confortado porque você está aqui. Demerval vai ficar bom!

    - Se Deus quiser. Farei o que puder - disse, com um sorriso.

    - Agradeço-lhe de coração. Se um dia precisar de mim, terei gosto em servi-lo.

    Abraçaram-se com sinceridade. Menelau tinha lágrimas nos olhos quando, instalado na carruagem, acenou para o amigo, dando ordens ao cocheiro para seguir.

    Eduardo ficou parado, olhando pensativo, escutando o ruído dos cascos dos animais e das rodas na estrada, até a carruagem desaparecer. Depois, olhou o céu do novo dia que se avizinhava e, pensando no amigo, naquela família, sentiu vontade de orar.

    Sentou-se na varanda e, levantando os olhos para o céu que começava a clarear, levou seu pensamento a Deus e começou a rezar.

 

       Nos dias que se seguiram Eduardo continuou a assistir Demerval, junto com Maria José. Sem o concurso de Menelau, a luta requeria maior esforço. Todavia, confiava em Deus.

       Demerval sentia-se melhor. Dormia mais calmo, conversava mais e os períodos de prostração eram menos constantes e mais rápidos. Apesar disso, Eduardo percebia que a situação arrastava-se. Se fosse na Província, tudo seria mais fácil. Lá dispunha de amigos médiuns que o ajudariam. Ali, só podia dispor de Maria José que, apesar de sensível, desconhecia esses fenômenos. Sempre que se oferecia ocasião, orientava-a. Entretanto, sentia que precisava de mais. O que fazer? Não tinha outro recurso senão pedir. Orou e pediu a Deus que o conduzisse, inspirando-o e mostrando-lhe o que fazer para ajudar Demerval.

       Uma tarde, quando oravam no quarto de Demerval, enquanto ele recaía no sono costumeiro, Maria José estremeceu. Seu rosto transformou-se em expressão serena, os lábios abriram-se em doce sorriso. Olhos cerrados e com voz um pouco modificada, ela começou:

       - Deus vos guarde. Continuemos em oração. Nosso doente está sob a assistência de Jesus e seus mensageiros. Guardemos o coração em paz. Você tem indagado qual o melhor meio de ampliar os recursos de auxilio. Se quer aliados, deve conquistá-los com amor. Aprenda que só os laços da compreensão e da amizade, da simpatia, aconchegam novas forças, ampliando nossos recursos. Medite e encontrará a resposta que procura. Esteja atento e Deus mostrará o caminho. Jesus esteja com todos.

       O silêncio se fez enquanto o ambiente permanecia agradável e calmo. Maria José perguntou:

       - Por que hoje foi diferente?

       - Sente-se bem?

       - Muito bem. Parece que ainda estou flutuando. Não queria que esta sensação terminasse. Nunca me senti tão bem! O que mudou?

    -       Ao invés de se aproximarem de você espíritos infelizes, hoje veio um espírito iluminado.

    Ela estremeceu.

    -       Iluminado?

    -       Sim, um espírito bom. Um anjo da guarda.

    -       Será? Não tenho santidade para isso...

    Seu rosto coloriu-se de rubor, lembrando-se de Menelau.

    -       Nenhum de nós ainda tem. Acredita que, por isso, Deus nos deixaria órfãos? Sua misericórdia é tão grande que permite o auxílio deles sempre.

    Ela estava impressionada.

    -       Agradeçamos a Deus por essa ajuda - aconselhou ele, comovido.

    Maria José curvou a cabeça e começou a orar.

    Quando deixaram o quarto, a Zefa estava no corredor. A negra não o via com bons olhos. Naquele instante, Eduardo percebeu que ali poderia estar a causa da mensagem. Como não pensara nisso antes? Ela o odiava por exclui-la do convívio habitual com a sinhá, tinha isso como descaso. Para ele, era como se ela não existisse. Maria José exaltava-lhe as qualidades, por que não torná-la uma aliada?

    No dia imediato, na hora da prece no quarto, quando a negra já ia saindo, ele comentou:

    -       Hoje você fica. Como sinhozinho Menelau não está, precisamos de mais alguém. A Zefa fica. Vai nos ajudar a rezar pelo seu sinhô.

    A Zefa ficou de pernas bambas. Não esperava. Se por um lado se sentia valorizada e aceita, o que lhe alimentava a vaidade, por outro, teve medo. E se descobrissem tudo? O primeiro impulso foi de fugir.

    -       Não sou de valia... - murmurou humilde.

    -       Mas quer bem a sua sinhá - tornou Eduardo, com voz firme.

    -       Isso sim. A sinhá bem sabe.

    -       Então deve querer que seu sinhô fique bom, para que tudo volte a ficar em paz.

    A negra não pestanejou:

    -       Claro, sinhô Eduardo. Quero vê a sinhá feliz.

    -       Ela não pode ser feliz enquanto ele não estiver bem.

    A negra fez um muxoxo. Porém, disse cordata:

      - Sim, sinhô.

      - Venha sentar-se aqui nesta cadeira ao lado da cama.

    Apesar do medo, a negra estava agradavelmente surpreendida. Na cadeira, feito branco!

    Temerosa, acocorou-se aos pés da cama dizendo;

    - Sinhô Eduardo, me perdoe, mas eu num tenho jeito. Aqui mesmo tá bem.

    Eduardo olhou para Maria José, que estava admirada, e ela compreendeu:

    - Venha, Zefa. Sinhô Eduardo disse, obedeça.

    Ele tomou-lhe a mão e, com delicadeza, sentou-a na cadeira. A negra, tensa porém radiante, sentou-se na pontinha, olhos brilliantes, emocionada. Depois dos três acomodados, Eduardo fez uma prece e pediu pela saúde de Demerval.

    - Vamos Zefa - ordenou ele. - Pense em Deus e ore por ele.

    A Zefa fechou os olhos e mexia os lábios rezando. Maria José sentiu vontade de rir, porém dominou-se. A negra pensava: - Vou fingir que estou rezando. Não quero que o sinhô fique bom de novo. Vai judiá da minha sinhá.

    Eduardo estava um pouco pálido. Sentiu certo mal-estar. Demerval agitou-se no leito, abriu os olhos admirado com a cena que presenciava. Apesar de sentir-se indisposto, Eduardo orou sentidamente, pedindo a ajuda de Deus para o enfermo e também para todos eles. Em seguida, começou a falar em perdão, da justiça de Deus que responde a todos os nossos atos e conhece todos os nossos pensamentos.

    A Zefa estava séria, e seu rosto, impenetrável. Eduardo continuou:

    - Quantas vezes erramos pensando em fazer o bem e em ajudar alguém? Perdoa-nos, Senhor, pelos nossos enganos e ajuda-nos a encontrar o caminho certo.

    A partir daquele dia a Zefa era sempre convidada a participar da oração. Eduardo, aos poucos, foi mudando seu comportamento para com ela. Afinal, por que exigir dela uma compreensão maior? Era ignorante, porém muito dedicada a sua sinhá. Passou a tratá-la com mais atenção, elogiava-lhe a roupa sempre impecável, a maneira como cuidava das coisas da sua sinhá e, com o tempo, a negra foi perdendo a inibição.

    Quando se reuniam para orar, Eduardo falava longamente sobre o perdão, a responsabilidade sobre nossos atos, a justiça de Deus.

    Certa tarde, estavam no quarto como de costume. Demerval, calmo, humilde, sentia-se esperançoso. Apesar de ser homem pouco afeito a qualquer crença, além do cerimonial litúrgico a que comparecia socialmente quando na Província, tinha percebido o quanto aquelas orações o beneficiavam, acalmando-o, dando-lhe forças e ajudando-o.

    Todos oravam silenciosos. A Zef a, ao invés de orar pelo sinhô, a quem não apreciava, o fazia pela sua sinhá, pedindo a Deus pela sua felicidade. Essa oração a negra fazia com muita sinceridade. Foi então que, de repente, Maria José foi como que jogada ao chão com a rapidez de um raio. A Zefa estremeceu, ia gritar, enqüantto Demerval, assustado, tentava levantar-se para socorrer a esposa.

    -       Ninguém se mexe - tornou Eduardo, com voz autoritária.

       - Não tenham medo. Orem muito a Deus. Dou minha palavra de que nada de mal vai acontecer com dona Maria José.

    Os dois, trêmulos de medo, começaram a orar, chamando todos os santos da sua devoção. Eduardo aproximou-se da jovem senhora, que grunhia estirada no tapete.

    -       Preciso de pensamento firme em Deus agora - pediu Eduardo, enquanto espalmava a mão sobre a testa de Maria José.

    Esta remexeu-se soltando alguns grunhidos. Eduardo, um pouco pálido pelo esforço que fazia, ordenou com voz segura:

    -       O que você quer? Ë causador de tudo quanto tem acontecido aqui. Por que está agindo assim?

    Nenhuma resposta. Eduardo prosseguiu:

    -       Não teme a hora da justiça divina? Não sabe que Deus está vendo tudo quanto você faz e por certo não irá livrá-lo quando toda essa carga negativa voltar para você?

    Maria José, pálida, parecia estar passando mal, murmurou com raiva:

    -       Eu sou mais forte. Ninguém vai poder mais do que eu.

    -       Deus pode - respondeu Eduardo, enérgico. - Ele está nos socorrendo nesta hora.

    -       Ocês me prenderam - reclamou Maria José, com dificuldade.

    - Não fomos nós, mas os espíritos do Senhor. Chega de causar mal. Se não atender nossos avisos, por certo seus sofrimentos serão piores. Você está mexendo com as forças da vida, brincando com elas conforme seus caprichos. Agora, acabou. Ou ajuda sua vítima para que ele melhore de vez, ou será levado definitivamente.

    -       Não quero morrer! Pelo amor de Deus. Quero voltar ao meu corpo. Chega! Não me atormentem mais!

    -       Não o queremos mal. Mas o aviso de que se continuar agindo como até aqui, sua vida não valerá mais nada.

    -       Nunca ninguém me venceu.

    -       O bem e a justiça sempre vencem. Deus comanda. A vitória do mal é momentânea.

    Maria José chorava estirada no solo. Sua voz estava modificada. A Zef a estava apavorada. Nunca pensara em prejudicar a sinhá. Agora ela estava lá, no chão, estrebuchando.

    -       Vamos - pediu Eduardo. - Ajude nosso doente. Tire todas as energias doentias que você colocou nele. Acorde-o definitivamente. Pare de hipnotizá-lo.

    -       Não posso perder esta luta - gemeu Maria José, agoniada.

    -       Não vai perder, mas ganhar. A bondade de Deus permite, nesta hora, que você recomponha o que destruiu, antes que tudo volte pela reação natural e o faça sofrer muito. Vamos, ajude Demerval, agora.

    -       Vosmecê qué me destruí! Se ele ficá bom, vai embora, leva minha negra com eles. Eu quero ela. Se me deixarem ela, faço tudo.

    -       Não temos acordo a fazer. O melhor é você cuidar da sua própria vida. Se ama essa mulher e a quer, por que não procura consegui-la de forma mais decente?

    -       Ela nem me queria. Se eu não mostrá minha força, ela vai me deixá. Depois, a sinhá vai simbora e ela não deixa a sinhá nem morta.

    A Zefa, assustada, começou a tremer. Aquela era uma mandinga braba. Como? Olhava para sua sinhá e sem entender via a cara do Bentinho. Não se conteve. Deu para soluçar e gritar, aflita:

    -       Perdão, minha sinhá, perdão! Deus do céu, não me castigue! Cura minha sinhá e eu juro que nunca mais quero vê essas feitiçaria.

    -       Fique calada, Zefa. Se quer ajudar sua sinhá, ore por ela. Vamos. Já disse que ela ficará boa.

    A negra, beiço trêmulo e contendo os soluços, voltou a rezar. Eduardo pediu:

       - Limpe este lar e prometa que vai nos deixar em paz.

Maria José, com voz rouca respondeu:

       - Eu faço. Pelo amor de Deus! Não quero morrê, quero voltá pro meu corpo. Não quero morrê. Tá cheio de gente querendo me pegá.

    -       Ouça meu conselho. Não seja mandingueiro. Use suas rezas só para curar e ajudar os que sofrem e Deus o abençoará.

    -       Pronto. Já chamei meus homens e tudo tá desfeito. Deixe eu ir, pelo amor de Deus.

    -       Prometa que não voltará a prejudicar ninguém.

    -       Prometo. Prometo. Num quero morrê!

    -       Deus o ajude - disse Eduardo. - Vamos rezar por ele, sem mágoa ou rancor - pediu aos presentes.

    Maria José estremeceu violentamente e depois serenou, parecendo adormecida. Eduardo agradeceu a Deus a ajuda daquela hora - depois, aproximando-se da jovem senhora, chamou:

    -       Dona Maria José, acorde! Tudo passou.

    Fundo suspiro saiu-lhe dos lábios.

    -       Está tudo bem agora, acorde.

    Ela abriu os olhos e começou a soluçar. Eduardo ajudou-a a levantar-se e colocou-a numa cadeira. A Zefa arrastou-se a seus pés, chorando em desespero.

    -       Perdão, sinhá, perdão! Juro que não mexo mais com essas coisa. Se a sinhá morrê, quero morrê também.

    -       Calma - pediu Eduardo. - Ninguém vai morrer. Tudo está bem agora. Tudo vai dar certo. Senhor Demerval vai ficar bom, com a graça de Deus.

    Demerval olhava-os assustado.

    -       O que aconteceu aqui? indagou com voz enérgica.

    -       Por agora deve bastar-lhe sua melhora, senhor Demerval - respondeu Eduardo, com energia. Acalme-se, dona Maria José. Tudo já passou.

    -       O que foi? Vi o que aconteceu, mas não podia evitar. vi caras de negros, cenas de bruxaria, tudo. Pensei que fosse morrer, sentia medo de não voltar ao corpo.

    -       Esqueça isso agora. Agradeçamos a ajuda de Deus.

    -       Por que me pede perdão? - inquiriu ela, fixando a negra que ainda soluçava. - O que foi que você fez?

    -       Deixe isso por ora - pediu Eduardo. Não chore, Zef a. Acredito em você. Penso que ganhou lição. Agradeça também a Deus e, daqui para frente, procure cumprir o que disse.

    Demerval estava inquieto. Queria levantar-se. Por que continuar deitado ali, com tanto serviço a fazer?

    Eduardo considerou:

    -       O senhor estava doente. Agora melhorou, mas não convém abusar. Levante-se por meia hora, fique sentado em uma poltrona. É só o que aconselho a fazer por hoje.

    - O senhor é médico? - indagou ele, sério.

    - Não. Mas da sua doença, eu entendo. Maria José mais calma, esclareceu.

    - O senhor Eduardo é amigo do Menelau e veio da Província para tratar de você. Não se lembra?

    - Certo, por certo. Agradeço-lhe - respondeu ele, com cortesia. - Pode explicar-me o que presenciei aqui?

    - Certamente, senhor Demerval. Mas não agora. Todos precisamos de refazimento. Voltaremos ao assunto.

    A Zefa soluçava sentidamente. Eduardo, condoído, alisou-lhe a carapinha com carinho.

    - Acalme-se. Vamos sair daqui. Precisamos conversar. Por entre lágrimas, a Zef a olhou para sua sinhá, que consentiu.

      - Vá, Zefa. Acompanhe o sr. Eduardo. Quando saíam, ainda ouviram Demerval:

            Por que chora esta negra? Você pode explicar-me? Maria José fixou o marido. Sem dúvida, ele estava melhor.

      O mesmo olhar de outros tempos, a mesma maneira de falar. Parecia-lhe nunca haver adoecido. Contudo, ela havia mudado. Não era mais submissa. Desejava vê-lo curado, mas não que tudo voltasse a ser como antes. Enérgica, respondeu:

    -       O senhor Eduardo nos explicará, depois. Você deve levantar-se para ficar sentado na cadeira durante meia hora. Não foi o que ele disse?

Ele olhou-a como se a estivesse vendo pela primeira vez.

- Por que me trata como a uma criança?

    -       Você esteve doente durante muito tempo. Aprendi a resolver os problemas da família. Devemos seguir as instruções do sr. Eduardo, que tanto tem feito em nosso favor. É só isso.

    Fundo suspiro escapou do peito de Demerval. Sentia-se ainda fraco, não queria discutir. Sequer percebeu que, dali para frente, sua vida em família iria se modificar.

    Eduardo foi para seu quarto seguido pela Zef a, chorosa. Uma vez lá, olhou-a sério e convidou:

    - Agora pode contar tudo.

    A negra recomeçou a soluçar.

    - Tô arrependida. Sempre quis o bem da minha sinhá!

    - O que você fez?

    - Sinhozinho Demerval era muito ruim pra ela. Sinhazinha sofria, vivia chorando escondido. Aí, fui falá com o Bentinho. Ele me disse que tinha muito poder. E tinha mesmo. Levei uma camisa do sinhô e ele mandingou ela.

    A negra parou, trêmula de medo.

    - Tô contando tudinho porque num quero vê a sinhá sofrê daquele jeito. Juro que eu não sabia que isso ia acontecer.

    - Continue, e depois?

    A negra contou tudo quanto sabia e, ao término, atirou-se aos pés de Eduardo, chorando.

    - Sinhô Eduardo, tô arrependida. Num quero vê mais aquele negro feiticeiro. Vossa magia é mais forte do que a dele. Cruz credo! Me ajuda. Se sinhozinho sabe, me mata! Pode até mandá matá o Bentinho - ela soluçava. - Tem piedade. Minha sinhá num vai mais querê sabê de mim. Sem ela, eu morro. Se num pudé segui com minha sinhá, me mato. Me ajude sinhozinho. Juro que num faço mais! Eu esconjuro. Nunca mais quero me metê nessas coisas.

    Eduardo olhou-a com energia.

    - Pare de chorar e escute. Pare, vamos!

    Ela esforçou-se e parou de chorar, os beiços tremendo.

    - Levante-se daí, olhe para mim.

    A negra obedeceu. Levantou para ele os olhos úmidos e assustados. Eduardo disse, com voz firme:

    - Você sabe que agiu mal e que nunca devemos prejudicar ninguém?

    A negra tremia, apavorada. Baixou os olhos. Eduardo exigiu:

    - Olhe para mim. Você sabe o que fez?

    - Sei - gemeu ela. - Mas eu num sabia o que a mandinga podia fazê. Pensei até que nem pegasse.

    -       Mas pegou. Quero que saiba que podia ter matado seu sinhô! Se isso houvesse acontecido, você seria uma assassina diante de Deus. Sua sinhá não ia querer ficar com você depois disso.

    -       Eu num queria matá ninguém - gemeu ela.

    -       Muitos dizem isso, mas não hesitam em mexer com certas forças e certos espíritos ainda primitivos para conseguir impor sua vontade aos outros. Depois, diante das conseqüências dolorosas, declaram-se ignorantes. Aprenda, Zef a, que não se deve mexer com coisas que não se conhece, nem querer conduzir a vida dos outros, utilizando-as.

    A negra voltou a soluçar.

    -       Sinhô, tô arrependida. Juro. Se minha sinhá não me quisé mais, eu me mato! Me ajude pelo amor de Deus!

Eduardo olhou-a fixamente:

    -       Está dizendo a verdade? Arrependeu-se mesmo do que fez? Sabe o perigo que todos correram com essas mandingas?

    -       Sei. Cruz credo! Não mexo com isso nunca mais. Num quero que a sinhá, me mande embora.

Eduardo adoçou um pouco a voz.

    -       Vou ver o que posso fazer. Você traiu a confiança de sua sinhá. Agora ela pode não querer mais você.

A negra torcia as mãos, em desespero.

    -       Sinhozinho, pelo amor de Deus, me ajuda! Juro que nunca mais desobedeço a sinhá. Nunca mais quero vê o Bentinho.

Eduardo considerou:

       - Acalme-se. Vou tentar ajudar. Volte aos seus afazeres.

    -       Num consigo fazê nada antes da sinhá me perdoá - gemeu ela.

    -       Você é quem sabe. Vou conversar com dona Maria José. Só à noite foi que Maria José deixou o quarto do marido.

       - Como está ele? - perguntou Eduardo, assim que a viu.

    -  Melhor do que eu esperava. Apesar de um pouco fraco, está voltando ao seu natural.

    -       Isso a irrita?

       - Só um pouco... - ela corou.

       - Compreendo - fez ele, com suavidade.

    -       Estou contente com a melhora dele mas, ao mesmo tempo, não posso aceitar que ele volte a ser como antigamente. Eu mudei muito, senhor Eduardo.

    -       Diga-lhe isso, dona Maria José, sem medo. É um direito seu.

     -      É o que pretendo fazer - afirmou ela, decidida.

     Eduardo relatou-lhe toda a história e a jovem senhora estava boquiaberta. A Zef a! Como a enganara! Eduardo concluiu:

        A senhora pense o que quer fazer com ela. Essa pobre criatura a quer acima de tudo no mundo.

     -      Não posso entender. Se me é dedicada, por que fez tudo isso?

     -      A senhora sofria; ela, em sua forma de ver, em sua ignorância, quis fazer alguma coisa para ajudar.

     - E causou tantos sofrimentos! Não quero mais ver essa negra traidora.

     -      Pense bem, dona Maria José. Ela fez tudo porque a quer muito.

     -      Não posso mais confiar nela. Quem me garante que amanhã ela não venha a fazer coisa pior?

     -      A lição foi boa, eu acredito.

     -      Vejo que não aprova minha atitude. Sou justa.

     - Não lhe nego o direito a indignação. O que ela fez foi injustificável. Porém, é uma pessoa ignorante. Pensava até estar lhe fazendo um bem.

     -      Isso não impede que eu não confie mais nela.

     -      É um direito seu. Contudo, todos nós somos passíveis de erros. Quem de nós pode atirar a primeira pedra?

     Maria José enrubesceu. Eduardo teria desconfiado dela com Menelau? Ele, porém, prosseguiu sereno:

     -      Deus sempre nos ajuda, apesar disso.

     Vencida, Maria José perguntou:

     -      O que me aconselha?

     -      Que a perdoe. A Zef a a estima muito. A senhora pode ajudá-la a enxergar melhor as coisas, ensinando-lhe a respeitar os sentimentos alheios. Não devemos esquecer que os escravos são seres humanos e que se nos servem no dia a dia, temos o dever de ensinar-lhes o que não sabem. Creio que, depois de hoje, nunca mais ela se atreverá a fazer nada escondido.

     Maria José sorriu. A raiva tinha passado.

     -      Faço idéia do susto daquela safada quando aconteceu aquilo. Pode explicar-me o que houve?

     -      Deus nos ajudou. Nossas preces movimentaram os espíritos do bem. A princípio envolveram o Bentinho, inspirando-lhe bons pensamentos. Como ele persistisse, resolveram dar-lhe uma lição.

        - Como assim?

     -      Tiraram seu espírito do corpo e o ligaram à senhora.

     -      Como pode ser isso?

     -      A única diferença que existe entre nós e os espíritos desencarnados é que eles já não têm o corpo de carne. No mais, somos iguais.

     -      E então...

     -      Afastaram o espírito do Bentinho do corpo e pudemos conversar com ele, fazendo-o compreender que agia errado.

     -      Não seria mais simples se fôssemos falar com ele pessoal-mente?

     -      Não. Primeiro, não sabíamos o que estava acontecendo. Depois, se ele nos ouviria, O susto foi grande, nessas circunstâncias o espírito acredita que pode morrer. Sente-se preso e teme ser impedido de voltar ao corpo.

     -      Que estranho! Por isso senti tanto medo de morrer! Era ele?

     -      Por certo. Mancomunado com espíritos iguais a ele, acreditava-se dono da situação.

     Porém, ao perceber que estava sob ação de forças superiores a pedir-lhe contas de seus atos, compreendeu o quanto estivera iludido.

     -      O que faremos com ele?

     -      Lembre-se do que disse sabiamente aquele orientador que veio nos confortar. Que era preciso somar forças, conquistar simpatias, não fazer inimigos. O perdão é bênção que podemos dispensar com segurança.

     -      E se ele voltar a mexer com as bruxarias?

     -      Se me permite, gostaria de sugerir que, ao invés de castigá-lo, procure trazê-lo para mais perto.

     -      Como?

     -      Está claro que ele conhece os segredos da magia e tem mediunidade acentuada. É próprio do seu espírito. Para termos a certeza de que ele não mais prejudicará ninguém, o melhor será ensiná-lo a ajudar os outros.

     -      Não entendo.

     -      Que ele use seu magnetismo para ajudar de verdade. Para curar doenças, aliviar o sofrimento humano.

     -      Acha isso possível? Como confiar nele?

    -       Valorizando o que ele apresenta de bom. Amanhã irei ter com ele. Vou conhecê-lo. Conversaremos. Depois, lhe direi exatamente o que seria indicado.

    Maria José considerou:

    -       E Demerval? Não vai concordar. Vai querer bani-los para sempre.

    -       Dona Maria José, a vingança não é indicada. A punição pertence a Deus. Conversarei com o sr. Demerval. A ele deve bastar a cura, para que não lhe aconteça coisa pior.

    -       Ele pode voltar a piorar?

        - Claro. Se a mandinga da Zefa e do Bentinho "pegou" nele foi porque seu padrão emocional, mental, espiritual permitiu. Se cada bruxaria que fosse feita nas senzalas pegasse, não haveria mais branco que tivesse saúde.

    -       Quer dizer que a culpa não é só deles?

    -       Não se trata de culpa, mas da posição de cada um diante das leis da Justiça Divina.

    Todos nós temos contas a acertar com ela, sejam atuais ou de vidas passadas. E, às vezes, uma mandinga como a que fizeram pode acionar o processo.

    -       É complicado - considerou ela.

    -       E é por isso que não devemos julgar. Corremos o risco de errar ainda mais. O perdão é sempre mais acertado. Depois, se fazemos dos nossos inimigos amigos, nunca mais nos farão mal.

    -       Não tinha pensado nisso!

    -       Deixe o sr. Demerval comigo. Só lhe peço que perdõe os dois faltosos. Ajudará a consolidação da cura do sr. Demerval. Falarei ao Bentinho e veremos o que fazer.

    -       Está bem, sr. Eduardo. Farei como diz. Não sei como agradecer o que tem feito por nós.

    Eduardo abanou a cabeça.

    -       Gosto quando posso ser útil. Não deve agradecer senão a Deus. Devemos convir que ele dispôs tudo para nós. Quero apenas a sua amizade e a da sua família.. Sinto-me feliz assim.

    -       Por isso Menelau o estima tanto. Deus o abençõe.

    Eduardo sorriu contente.

    No dia imediato levantou-se cedo e saiu à procura do Bentinho. A Zefa conduziu-o à cabana e disse, amuada:

    - É ali, sinhô Eduardo. Num quero vê a cara daquele nego feiticeiro.

    -       Pode voltar, eu falo com ele.

       Aproximando-se da cabana, Eduardo chamou:

       - Bentinho! Bentinho!

    Estava tudo fechado. A porta, a pequena janela. Eduardo bateu palmas:

- Ô de casa! Sei que você está aí. Abra a porta.

    Devagar, a porta da tapera humilde se abriu e a cara assustada do Bentinho apontou. Vendo Eduardo, abriu e saiu em atitude humilde.

- Você é o Bentinho.

       - Sim, sinhô.

       - Precisamos conversar.

    O negro olhou-o temeroso. Com certeza a Zef a tinha dado com a língua nos dentes. Fez-se de desentendido.

    - O que deseja de mim, sinhô?

    - Conversar. Sei que você não tem passado muito bem esses dias. Para dizer melhor, de ontem para cá.

    O negro olhou-o admirado.

       - Quem disse essas mintira?

       - Você mesmo disse. Não se lembra?

       O outro olhou-o assustado.

       - Nunca conversei com sinhozinho.

    - Você nem me viu, estava com medo de morrer. Sabe que isso podia ter acontecido?

    Se você não voltasse para o corpo, ele morreria e você iria ajustar as contas com todos seus inimigos, que o esperam lá, do outro lado, além da morte.

    O negro começou a tremer. Olhou Eduardo com olhos arregalados. Que feiticeiro era aquele que tinha tanto poder? Como ele podia saber daquele pesadelo horrível que o estava atormentando e do medo de morrer que ele tinha? Das vozes dos seus inimigos que ouvia ao seu redor? A Zef a não poderia ter lhe contado isso. Ela não sabia.

    Depois daquele pesadelo terrível em que tinha sido julgado em um tribunal onde lhe pediam contas de seus atos e onde ele temeu estar morto, não tinha mais conseguido dormir. Todas as vezes que, vencido pelo sono, fechava os olhos, via as caras das pessoas que tinha envolvido em suas bruxarias, algumas exigindo-lhe contas, outras ameaçando-o. Apavorado, fechara-se em sua cabana sem querer sair.

- Sei o que está acontecendo com você - tornou Eduardo.

      - Vim para ajudar.

    O     negro olhou-o, admirado. A troco de quê? Desconfiado, retrucou:

    -       Sinhozinho nem me conhece. Ajudá o quê?

    -       Vamos nos sentar. Ande.

    Bentinho pegou dois caixotes que serviam de banco na tosca tapera e colocou-os sob uma árvore, conforme Eduardo pediu. Acomodados, este começou:

    -       Sei o que lhe aconteceu ontem e sei o que está acontecendo agora. Não adianta disfarçar. Sei de tudo.

    - Tudo o quê? - fez o Bentinho, tentando ganhar tempo.

    -       Vim conversar com você porque, apesar do que tem feito, das mandingas que fez para o senhor Demerval adoecer, não gostaria de ir embora sem acabar o que comecei.

    -       A Zefa é mintirosa. Eu num fiz nada.

    -       Não foi a Zefa quem contou, foi você mesmo.

    -       Eu?

    -       Você. Não se lembra do seu sonho?

    O     negro ficou desfigurado.

    -       Sinhozinho. Eu num fiz nada. Se sinhô DemervaL soubé dessa história, manda me matá!

    -       Você sabe bem o que fez?

    -       Eu só queria a Zefa prá mim. Vivo sozinho e sou louco por causa daquela marvada.

    -       Não teria sido melhor pedir ela para dona Maria José? Sabe que sua sinhá a quer muito bem.

    -       Ela num ia deixá, sô negro ignorante. Se eu fosse letrado, como o Tomé, eu podia trabalhá na casa-grande e a Zefa ia me querê. Mas eu nunca fui aprendê as letra e só sei mexê com as erva do mato. Minha mãe me ensinô.

    -       Você não mexe só com as ervas. Você mexe com os espíritos dos que morreram.

    O     negro começou a tremer novamente.

    -       É mentira.

    -       Bentinho, vim como amigo. Quero ajudar você. Se quer mentir, enganar, então deixo você aí, para se entender com sinhô Demerval.

    -       Por favô, sinhô Eduardo. Perdão. Sei que a sua magia é maior do que a minha. Me ajude. Tô perdido. Se sinhozinho descobre me mata, se eu morrê tem aqueles espíritos querendo me pegá. Me ajude, por favô!

    -       Agora você começa a falar de coração. Sabe que sinhô Demerval podia ter morrido?

    -       Eu num queria matá. Era só pra ele ficá na cama e a sinhá se livrá dele. Depois, ele queria 1º simbora e eu queria a Zefa aqui cumigo. Por causa da magia, ela me admirava. Ficô cumigo e eu tô cada vez mais loco por ela!

    -       Você está mesmo muito atrapalhado.

    -       Tô. Tô perdido. Pensei até em fugi daqui, de 1º pro quilombo do Tombo, mas a diaba da Zefa me enfeitiçô. Aquela negra marvada.

    -       Fugir não vai ajudar você a encontrar paz. Você nem consegue dormir. Onde estiver, esses perseguidores vão atrás.

    -       Que Nosso Sinhô me ajude! Tô cansado de verdade. Duas noite sem pregá os óio. Foi sua magia. É mais forte do que a minha.

    -       Sabe por quê?

    -       Não. Num conheço essa.

    -       É a magia do bem. E não fazer mal a ninguém. E ajudar com amor aos que sofrem e precisam, sem querer nada em troca.

    -       Só isso?

    -       Tudo isso. É a mais forte magia que existe. E Deus que manda seus servos para nos ajudar, sempre que queremos o bem das pessoas.

    -       Isso é muito demorado. Nunca deu resultado pra mim.

    -       Porque você nunca desejou de verdade as coisas boas. Nem sempre o que queremos e nos parece ser bom é bom aos olhos de Deus. Só quando ele aprova nossos atos é que vem em nosso auxílio.

    O     negro abanou a cabeça, admirado. Diante de Eduardo sentia-se respeitoso, humilde. Ele tinha demonstrado conhecer mais sobre magia do que ele próprio. Sentia a força da magia branca pela primeira vez e estava assustado. Ela não só havia anulado todos seus esforços, como lhe mostrara muitas coisas novas que o atemorizavam.

    - Você achou mais fácil misturar-se aos espíritos ainda muito presos à vida na Terra, utilizando-os para conseguir arranjos e favores, sem pensar que, acima de tudo, existe a justiça de Deus que um dia vai pedir-lhe contas de tudo isso. Você ajudou-os a manterem-se ignorantes, deu-lhes oferendas macabras, pinga, fumo, e não percebeu que os carrega a seu lado, tirando suas energias e explorando também suas forças. Você fez pacto com eles e agora esse compromisso vai ser pesado em sua vida.

    -       Eu deixo eles em paz. Não mexo mais com essas coisa. Minha mãe me ensinou pra eu me defendê dos sinhozinho branco. Bentinho nunca foi pro tronco. Quando sinhô tá bravo, mesmo que eu teja perto, ele num consegue me vê. Esses espírito me protege.

    -       Protegem, mas usam suas energias. Comem, bebem, dormem, tudo côm você. Não sabe disso?

    -       Sei, mas acho que me protege.

    -       Isso afasta os espíritos bons do seu caminho. Você faz o que eles querem; eles, os espíritos atrasados, fazem o que você quer. Tudo vai assim até quando Deus permite. Chega sempre uma hora em que Deus determina que isso precisa mudar. Vocês precisam melhorar, então acontece o que aconteceu. Levaram seu espírito para perceber o mal que estava fazendo.

    -       Foi isso? - perguntou o Bentinho, arrepiado.

    -       Foi, Bentinho. Tudo o que nós fazemos, mesmo que seja contra os desígnios de Deus, está sendo visto pelos espíritos superiores. Condoídos da sua situação eles quiseram mostrar-lhe a verdade, e ajudar o sinhô Demerval, que mereceu essa cura. Foi um aviso de que o seu tempo acabou. Ou você muda, deixa de fazer mal e passa a fazer o bem, ou sua situação vai ficar cada vez pior. Você vai ter de aprender a lição.

    O     Bentinho suava.

    -       Sinhozinho me ajude. Tô cum medo. Num quero fazê nada de mal. Mas ainda num sei o que fazê. Nunca mais mexo cum essas coisa.

    -       Você tem o dom da mediunidade, Bentinho. Conhece as forças da natureza, sabe como mexer com os espíritos, parar agora você não saberia. Por que não usa isso tudo só para o bem? Por que não alivia as dores dos que sofrem, curando as doenças com a ajuda de Deus?

    -       Sinhozinho acha que eu posso? Deus vai ajudá um pobre negro ignorante e marvado como eu?

    -       Se você quiser ser bom, ajudar os que estão em sofrimento sem querer nenhuma paga, garanto que Deus vai ajudar. Você pode.

Os olhos do negro brilharam.

    -       Sinhozinho Eduardo me ensina suas magia branca?

    -       Ensino - tornou Eduardo, com ar bondoso.

 

    -       Mas num adianta, pobre de mim, sinhô Demerval vai me mandá matá. Se ele descobre o que eu fiz! Melhor eu fugi daqui o quanto antes.

    -       Gostaria que ficasse. Não quer o amor da Zefa?

Bentinho suspirou.

    -       Quem dera! Ela num vai mais querê sabê de mim.

    -       Não sei, não. Confia em mim?

    O     negro olhou-o nos olhos. Eduardo sustentou o olhar.

    -       Confio, disse. De hoje em diante, o que o sinhô dissé, eu faço.

    -       Muito bem. Então não faça nada por enquanto. Vim para ajudar. Amanhã cedo, virei aqui e decidiremos. Não quero que lhe aconteça nada de mal.

    O     negro apanhou as mãos de Eduardo e tentou beijá-las. Eduardo procurou retirá-las.

    -       Não faça isso - pediu.

    O     negro atirou-se a seus pés. Lágrimas vieram-lhe aos olhos. Soluçando, disse com voz entrecortada:

    -       Sinhô Eduardo é um santo. Eu sô peste ruim, num mereço. Sô negro pestiado, marvado, mereço sê castigado.

    Eduardo, comovido, alisou-lhe a cabeça.

    -       É, de fato, você não merece nada de bom. O que fez foi muito grave. Porém, se está arrependido, se quer se modificar, eu estou aqui para dar-lhe a mão.

    O     negro soluçou ainda mais. Nunca ninguém havia lhe falado assim, alisado sua cabeça, nem sua mãe, mulher dura e sofrida. Toda sua emotividade veio à tona.

    -       Sinhô, sô seu escravo daqui pra frente. Tô muito arrependido do que fiz, tô disposto a fazê o que me mandá.

Eduardo forçou-o a levantar-se.

    -       Sente-se aqui - disse, indicando o tosco banco de caixote. Bentinho sentou-se e o senhor, por sua vez, continuou: - Vamos orar. Agradecer a Deus o início da nossa amizade, Bentinho.

    Comovido e trêmulo o Bentinho repetiu palavra por palavra o que Eduardo dizia, com voz comovida, e começou a aprender verdadeiramente a orar.

 

    Eduardo regressou à casa grande pensativo. Aquele escravo, apesar do que fizera, tocara-lhe o coração. Se estivesse no lugar dele, sem cultura, sem ninguém, pressionado, condenado ao cativeiro, não teria agido da mesma forma?

    Chegando na casa, notou desusado movimento. Não havia a costumeira calma. A Zefa passou nervosa e Eduardo indagou:

    -       O que está havendo?

    -       Nada não, sinhô. Só sinhozinho Demerval que tá igualzinho era antes.

    -       Como assim?

    -       Está brabo e deu uma briga comigo por causa do almoço que atrasou meia hora.

    Eduardo disse, calmo:

    -       Vou falar com ele.

    A negra tremia.

    -       Sinhozinho, se ele descobre tudo, tô perdida. É melhor morrê.

    -       Não dramatize, Zefa. Vou falar com ele. Não acha melhor rezar?

    -       Rezar?

    -       Claro. O que seu sinhô precisa é de ajuda, de reza, não de raiva e de medo.

    -       Cruz credo, sinhô! Eu num tava pensando nisso.

    -       Estava sim. Está com medo do que fez, sabe que foi errado, mas está com muita raiva dele. Se quer ganhar essa luta, viver melhor e em paz, aprenda a rezar por ele. Não vê que é quem mais precisa?

    -       Sim, sinhô.

    -       Confie em Deus! O Bentinho está arrependido e disposto a mudar.

    -       Num quero mais sabê daquele traste.

    Eduardo sorriu.

            - Você é quem sabe. Ele está sofrendo por sua causa.

    Ela sacudiu os ombros.

    -       Vai ficá lá, eu num vô mais vê ele.

    -       Dona Maria José está no quarto do sinhô?

    -       Tá sim. Pobrezinha, vai sofrê tudo de novo.

    -       Não diga isso. Não acha que sinhô Demerval pode mudar?

    -       Não. Ele tá lá que só Deus sabe. Igualzinho era. Num adiantou nada.

    Eduardo dirigiu-se ao quarto de Demerval e bateu na porta. Uma escrava veio abrir. Maria José aproximou-se.

    -       Pode entrar, sr. Eduardo. Veio em boa hora.

    -       Posso ver o sr. Demerval?

    -       Claro. Vamos entrar.

    Demerval estava sentado em uma poltrona confortável tendo à sua frente um banquinho onde descansava os pés, com muito boa aparência. Vendo-o entrar, olhou-o curioso, dizendo polidamente:

    -       Acomode-se, sr. Eduardo, por favor.

    Eduardo sentou-se, acomodou-se em outra poltrona ao lado do enfermo.

    -       Está com ótima aparência - disse, bem-humorado.

    -       Quase bom, sr. Eduardo. Não fora esses pequenos dissabores caseiros, talvez estivesse melhor.

    -       Dissabores caseiros?

    -       Sim. O senhor sabe, quando adoeci, tudo aqui ficou abandonado. As coisas se conturbaram, relaxaram, e agora preciso recolocar tudo nos devidos lugares. Vai dar-me trabalho, mas, o que fazer? É preciso assumir a família.

    -       O senhor não precisa preocupar-se - garantiu Eduardo.

       - Por aqui tudo vai muito bem.

    -       O senhor é muito amável! Vê-se em tudo a diferença.

    Eduardo fez um gesto para Maria José, que adiantou-se:

    -       Vou dar algumas providências, aproveitando a bondade do sr. Eduardo fazendo-lhe companhia.

    -       O que vai fazer? Espero que hoje nada mais atrase e que as coisas melhorem.

    A expressão do rosto de Maria José endureceu.

    -       O que vou fazer eu sei. Tenho feito tudo sozinha e tudo está indo muito bem. Nada tem faltado a você, a não ser calma e boa vontade.

    Ela saiu apressada e Demerval desabafou:

    -       Veja, sr. Eduardo, como ela me trata. Não é mais a esposa dócil e obediente. Recusa-se a atender ao que digo. Não vejo a hora de levantar-me para tomar as rédeas de tudo.

    -       Para quê? - indagou Eduardo, calmo.

    -       Para quê? Para pôr tudo na devida ordem. Para manter nossa rotina, para dirigir tudo.

    -       O senhor não deve fazer isso assim.

    O     outro admirou-se:

    -       Por quê?

    -       Porque senão corre o risco de piorar.

    -       De novo? - indagou ele apavorado.

    - O que lhe digo. Seu caso precisa ser examinado. O senhor sempre impôs sua vontade.

    -       É verdade. Sempre mandei e fui obedecido.

    -       Mas, a que preço?

    -       Não estou entendendo. O que faço é sempre visando o benefício da minha família. É para o bem deles que eu exijo esta ou aquela disciplina. Para ensiná-los a viver bem.

    -       Permita que lhe diga que sua imposição tem feito infelizes todos os que estão à sua volta.

    Demerval enrubesceu. Não admitia ser advertido. Conteve-se, porém. Eduardo inspirava-lhe certo receio, ele parecia ser dotado de poderes sobrenaturais. Contudo, não podia deixar de reagir. Disse com voz lamentosa:

    -       O senhor me acusa? Eu, torná-los infelizes? Eu, que não tenho feito outra coisa na vida senão viver para eles?

    Eduardo olhou-o firme nos olhos enquanto dizia:

    -       Será que foi unicamente por isso que sempre exigiu deles um comportamento acima de suas forças?

    -       Não exigi nada que não fosse possível fazer. Eu também me incluo.

    -       Certo, porém impõe sua vontade. Dona Maria José sequer pode escolher como gastar seu tempo. Acha justo isso? Agindo assim pensa realmente na felicidade deles ou na sua? No orgulho de dirigir e de mandar, de fazer apenas o que o senhor quer sem pensar que os outros podem querer agir de forma diferente?

    Demerval ficou furioso, todavia não queria indispor-se com Eduardo.

    -       Ofende-me - disse, com ar sentido.

    -       Não tenho essa intenção, sr. Demerval. Quero apenas que recupere sua saúde sem que lhe aconteça coisa pior.

    -       Como assim? - indagou ele, assustado.

    -       Criar inimigos não é de bom alvitre. Os ditadores acabam odiados. O senhor pode piorar de novo.

    -       Afinal, sr. Eduardo, que doença eu tenho? Até agora não consegui descobrir.

    -       O senhor foi acometido de um ataque de bruxaria.

    Em outros tempos Demerval teria rido, agora estava muito assustado para isso. Um frio correu-lhe pela espinha.

    -       Não acredito nessas coisas - disse, irritado.

    -       O que não adiantou nada. Pegaram-no assim mesmo. E sabe por quê?

    Demerval abanou a cabeça. Eduardo prosseguiu:

    -       Porque o senhor deu chance. Sua maneira de ser, de agir, criou um círculo de antipatia ao seu redor e isso permitiu que eles o agarrassem.

    -       Não é possível! Deus não permitiria!

    -       Foi o que aconteceu. O senhor deve lembrar-se de que só melhorou depois que dona Maria José foi envolvida pelo espírito que o estava atingindo e ele foi convencido a desistir. Não a viu estendida no chão?

    Demerval estava boquiaberto.

    -       O que Maria José tem a ver com isso? Por acaso ela me odeia?

    Eduardo abanou a cabeça.

    -       Não diga isso! Ë uma injustiça. Dona Maria José é uma mulher extraordinária. Tem sido muito dedicada. Quase não saiu da sua cabeceira, rezando pelo senhor. E é inteligente também, há que ver a fazenda que linda está, tem comandado tudo com muito zelo e todos a respeitam e amam. O senhor tem uma esposa admirável!

    Demerval corou de prazer, porém objetou:

    -       Ela está diferente. Responde-me. Recusa-se a obedecer.

    -       Claro. O senhor está sendo injusto com ela. Durante estes meses ela foi competente para dirigir tudo, não vai aceitar mais suas ordens como antes. Por que não experimenta trocar idéias com ela, sem ordenar nada?

    -       E minha autoridade de marido?

    -       De que lhe serve ela? Tem lhe trazido alguma alegria?

    Demerval sentia-se aturdido.

    -       O senhor a defende. Está do seu lado - reclamou ele.

    -       Estou do lado dos dois. Gostaria de vê-los felizes. Isso só acontecerá se o senhor modificar seu modo de agir.

    -       E se eu não quiser? - indagou ele, teimoso.

    -       Então não respondo pela sua cura. Como pode estar bem espiritualmente, se mergulha em energias negativas irritando os outros para satisfazer seus desejos?

    -       Acha que gosto de contrariá-los? E a disciplina?

    -       Não deve ser imposta pela força. Verá que tudo irá muito melhor com compreensão e tolerância.

    -       O trabalho ficará prejudicado. Não posso deixar todo pessoal à vontade.

    -       Está claro que a organização da fazenda precisa ser mantida. Mas, com atitudes adultas, onde não falte o entendimento na hora certa.

    -       Não posso concordar.

    -       É pena, sr. Demerval. Isso o deixa muito vulnerável ao ataque de espíritos perturbados e doentes.

Demerval sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

    -       Custa-me crer numa coisa destas. Se não fosse dita pelo senhor, a quem considero muito e a quem tanto devemos, nem ouviria.

    -       Deve acreditar. Quando fazemos inimigos, nos cercamos de forças destrutivas e favorecemos o envolvimento deles.

    -       O senhor falou em bruxaria. Quem fez?

    -       Isso não é importante. Quando estamos irritados e queixosos, quando exigimos muito e damos pouco, somos um ímã natural para esses espíritos. Embora possa não acreditar, os espíritos estão ao nosso redor, vivendo e convivendo conosco. Não os iluminados, claro, que vêm aqui apenas para nos ajudar, mas os que viveram neste mundo descrentes e apegados às coisas terrenas, às paixões e que não querem afastar-se. Utilizam-se de nós para suprir suas necessidades.

    -       O que me diz é assombroso! Assombroso e desagradável. Por que Deus permite tanta injustiça?

    -       Injustiça por quê? Eles são gente e guardam seus anseios e suas paixões tanto quanto nós. Querem ficar por aqui, recusam-se a sair, mesmo sabendo que seus corpos já morreram. Unem-se de acordo com suas antipatias ou simpatias e representam uma força da própria vida.

    -       Como podemos nos defender deles?

    -       Unindo-nos com Deus, não só pela prece como principalmente pelo sentimento. Ë conquistando a simpatia dos espíritos superiores que estaremos mais protegidos. Só conseguiremos isso pelo nosso comportamento. Fazendo todo bem possível, procurando ser justos, sinceros.

    - Isso eu sou. Jamais cometi uma injustiça - sentenciou Demerval, orgulhoso.

    -       Tem certeza? Não é o que tenho ouvido contar aí fora, nem o que pude perceber.

    -       Novamente me ofende.

    -       Não tenho essa intenção. Sei que é um homem honesto, sincero e pretende o melhor.

    Contudo, seus métodos são inadequados e, por isso, é obedecido pelo pavor, pelo medo.

    Como as pessoas não podem perceber sua intenção, é odiado.

    Demerval sentia-se magoado, sua vaidade ferida.

    -       Queixaram-se de mim. Quem? Minha mulher? Meus filhos? Meus escravos?

    -       Não se trata disso. O que desejo que perceba é que, embora pensando ser justo, tem cometido injustiças. Apesar da boa intenção, tem arranjado inimigos entre os escravos, feito sua família sentir-se infeliz. Não foram eles que se queixaram, mas eu que notei.

    Demerval abaixou a cabeça, desanimado. Doía-lhe ouvir isso. Eduardo continuou:

    -       Vai dizer-me que nunca percebeu o quanto sua esposa odiava ler versos em francês?

    -       Sei que ela não os apreciava, mas estava velando pela cultura familiar.

    -       E criando antipatia, sofrimento nos outros. Acha justo?

    -       O que tem isso de ver com a bruxaria? Por acaso minha mulher foi capaz de fazer isso?

    -       Não cometa a injustiça de, sequer, pensar nisso. Ela seria incapaz!

    -       Então?

    -       O senhor com suas exigências, criou ambiente de hostilidade, enquanto dona Maria José, dedicada, boa mãe e esposa é adorada por todos. Acha que se tivessem que escolher entre os dois, ficariam do seu lado?

    -       Sempre tratei muito bem minha mulher. Bem demais, eu acho.

     -      Digamos que bem a seu modo, impondo-lhe suas vontades a ponto de fazê-la adoecer.

     -      A doença de Maria José não tem nada a ver com isso.

     -      Só tem. Ela não agüentava mais a rotina e a vida que levavam. Está claro que os escravos que a estimavam doeram-se por ela.

     -      Foram eles que me fizeram a bruxaria.

     -      Pode ser - concordou Eduardo. - Há de convir que, como seres humanos, eles reagem como qualquer de nós. Ou pensa que eles não são gente?

     -      São gente, mas sem inteligência e direção. Precisam de comando.

     -      São seres humanos, repito, como nós. Precisam de comando porque estão reduzidos a homens sem vontade ou escolha.

     -      O senhor é abolicionista!

     -      Sou. Não é isso o que importa agora. Quero que perceba que, feridos e magoados, muitos se defendem apelando para a magia. Isso é comum nas crenças africanas.

     -      Mal-agradecidos. Cuspindo no prato onde comeram.

     -      Defesa, senhor Demerval, simples defesa. Já que não podem vencer uma luta frente a frente, chamam seus santos e seus espíritos amigos para os ajudar. Se estivéssemos no lugar deles, talvez fizéssemos o mesmo.

     -      Ingratos! Traidores!

     -      Mas se o senhor não acredita...

     -      Acreditar, não acredito. O que eu tive foi muito esquisito. Pode mesmo ter sido bruxaria?

     -      Só foi, sr. Demerval.

     -      Ah! Se eu pego o malvado! Mando matar à vista de todos.

Eduardo sacudiu a cabeça.

     -      E aí vai conquistar mais raiva e mais ódio. Não entende que essa é a força deles? Não pode impedi-los.

Demerval recostou-se na cadeira, preocupado.

     -      Devo ficar à mercê deles? Como Deus pode permitir?

     -      Lembre-se de que Jesus, quando curava, aconselhava as pessoas a se modificarem para que não lhes acontecesse coisa pior.

     -      Estou arrasado. Desse jeito, estou perdido.

     -      A sua defesa é um direito sagrado.

     -      Como?

     -      O mais seguro é criar um ambiente amigo a seu redor.

    -       Vão dizer que estou com medo - disse Demerval, irritado.

    -      Não. O senhor não vai perder sua dignidade, nem descer do seu lugar de chefe desta casa. Porém, pode ser um chefe compreensivo, que aprenda a conviver com os outros e possa dar-lhes um pouco mais de paz. Verá como eles trabalharão melhor e sua vida voltará ao equilíbrio.

    Demerval sério, pensativo, depois perguntou:

    -       E se eu não quiser?

    -       Nesse caso, só Deus sabe o que pode lhe acontecer.

    Demerval olhou-o desesperado.

    -       Sinto-me acuado. Pelo visto agora estou sendo pressionado. Tenho que mudar, fingir o que não sou.

    -       Se isso lhe é tão desagradável, por que o exige dos outros?

    Demerval abriu a boca mas não conseguiu responder. Sentia-se irritado, nervoso, sem saber o que dizer.

    -       Pense no que eu disse. Pode crer que falo com sinceridade. Estou realmente interessado não apenas na sua melhora, mas na sua cura completa. Tudo está em suas mãos.

    A verdade às vezes dói, mas sempre ajuda a viver melhor.

    Demerval abaixou a cabeça. Subitamente sentiu-se deprimido.

    -       Não sabia que estava fazendo mal aos meus. Custa-me crer. Como vamos viver sem organização?

    -       Não se posicione como uma vítima, que o senhor nunca foi e não é, nem seja radical.

    Se falei em transigir, ser tolerante, não foi para largar tudo. Contudo, nestes meses que o senhor esteve afastado da direção, dona Maria José lutou muito, aprendeu. Menelau ensinou-a a conhecer os negócios. Ela fez tudo muito bem. As coisas estão indo otimamente na fazenda. Sua mulher tem pulso, isso tem, precisa vê-la vistoriando a plantação, cuidando de tudo. Conquistou o respeito e a estima de todos, que trabalham felizes para ela. Na verdade, ninguém poderia prever quando o senhor iria melhorar. Agora, seria justo que a tratasse com igualdade, ao invés de dar-lhe ordens, como a uma criada.

    Demerval enrubesceu:

    -       Não é bem assim. Claro que ela é minha mulher.

    -       Quando entrei aqui, o senhor falava com ela como a uma serva. Dava-lhe ordens.

    -       Não tenho culpa dela ser mulher. A mulher deve obedecer ao marido.

    -       Esse tempo está passando, felizmente. A mulher é igual a nós. Em muitos casos, é superior em dedicação, abnegação, fidelidade.

    -       O senhor pretende me ferir.

    -       Em absoluto. Ficarei feliz se perceber a verdade. Sua esposa é sua companheira. Deve-lhe muito esforço, abnegação.

    -       Sei o quanto é dedicada.

    -       Peço-lhe que seja justo com ela. Pense nisso.

    Demerval baixou a cabeça, triste. Eduardo retirou-se. Naquele dia, quase não tocou nos alimentos porém, não reclamou de nada. Preocupada, Maria José falou com Eduardo, que respondeu:

    -       Deixe-o. Está querendo provocar piedade. Enquanto isso. vai pensando no que eu disse. Não esqueça a prece e proceda com ele como se nada notasse.

    -       Está bem - concordou Maria José.

    Estava exausta, triste. Não podia evitar de comparar Demerval com Menelau. A diferença era enorme. Por que não tinha conhecido Menelau antes do marido? Lembrando-se do cunhado, seu coração batia mais forte e a saudade doía. Vendo o marido tão irascível, não sentia remorso pelo que tinha acontecido. Não haviam planejado nada. Acontecera. Fora uma atração tão forte que eles não resistiram.

    Agora, nunca mais veria Menelau. Sabia que ele não se aproximaria deles depois do que acontecera. Maria José sentia vontade de chorar. Só a presença dos filhos a confortava. Sua paciência com o marido se limitara. Nunca mais se sujeitaria à sua tirania.

 

    Menelau deixou a fazenda com o coração partido. Sentia que amava Maria José e esse amor o enchia de remorsos. Jamais pensara em tirar proveito da situação. Seu irmão no leito, indefeso, ele se arrependia de haver cedido ao afeto que a cunhada lhe inspirara.

    Que mulher! Aqueles meses de estreita convivência o fizeram admirá-la profundamente.

    Bela, inteligente, digna. Por que não a conhecera antes de Demerval? Teriam sido muito felizes juntos. Lembrou-se de Maria Antônia, suspirou fundo. Que diferença! Sua mulher era fútil, pretensiosa, dura, exigente, áspera. Não possuía nenhuma das qualidades que ele desejava numa mulher. Triste destino o deles: viverem juntos sem se apreciarem. O entusiasmo dos primeiros tempos passara depressa. Contudo, reconhecia seus deveres para com ela. Era sua esposa, estava doente. Por outro lado, não poderia ficar na fazenda depois do que acontecera. Tinha medo de não resistir aos encantos de Maria José, ela era mulher de seu irmão.

    Se tivesse ficado, a situação seria insustentável. Eles não haviam premeditado nada, isso atenuava-lhe os remorsos; todavia, conviver com ela depois disso, controlando as emoções, seria forte demais para ele.

    Gostaria de ter deixado a fazenda quando o irmão estivesse melhor, mas isso também era problemático. Ninguém sabia quando ele melhoraria. Eduardo estava lá, confiava nele. Sabia que faria tudo para ajudá-los.

    Por outro lado, sentia que cumprira seu dever orientando a cunhada na direção dos negócios. Estava satisfeito, ela realmente revelara-se excelente administradora. Este detalhe aumentava a admiração de Menelau, contrastando com Maria Antônia, incapaz de ver além das futilidades de salão.

    Apesar do seu propósito de não voltar a vê-la, Menelau não conseguia esquecer aquela noite. O desejo de rever a cunhada, o gosto de seus lábios queimavam-no e ele sentia o quanto a amava. Esse segredo, ninguém além dela saberia. As lembranças morreriam com ele, porém a recordação doce daqueles momentos lhe daria força para suportar a vida sem ela.

     Foi cansado e abatido que chegou a sua casa no Rio de Janeiro. Uma bela e solarenga casa, com cavalariças, senzala e lindo jardim, situada em aristocrático bairro. Saltou da carruagem na entrada principal e foi logo perguntando pela esposa.

     Informado de que ela estava em seus aposentos, dirigiu-se para lá com certa ansiedade.

     Bateu delicadamente e entrou. Sentada em um divã, cheia de laços e fitas, em seu négligé, Maria Antônia escolhia algumas flores com jóias que deveria usar num próximo sarau, discutindo os detalhes com o joalheiro. Vendo-o, despediu o homem.

     -      Agora pode ir. Amanhã cedo quero ver as provas.

     O    homem recolheu seus pertences rapidamente e, curvando-se, retirou-se. Menelau mal continha a irritação. A esposa parecia-lhe melhor do que nunca. Ela levantou-se, dirigindo-se a ele com voz amável:

     -      Que bom ver você, meu querido! Finalmente resolveu retornar às suas obrigações!

     Menelau fingindo não ver a mão que ela lhe estendia para o beijo de praxe, disse mal-humorado:

     -      Recebi um recado que você estava mal. Por isso vim.

     -      É verdade. Estive à morte, mas já me recuperei. Não está contente?

     Ela mentia, claro. Menelau percebia com raiva que ela lhe armara uma cilada. Vendo-lhe a fisionomia séria, ela continuou com certa ironia:

     -      Preferia que eu estivesse mal, com certeza. Não o alegra eu haver melhorado?

     -      Claro - disse ele, mal-humorado. - Se eu acreditasse na sua enfermidade. Não precisava enganar-me.

     Ela deu de ombros.

     -      Cansei-me de parecer viúva. De ir só a toda parte, de explicar que meu marido abandonou o lar por causa dos seus parentes.

     -      Está sendo injusta. Viu o estado de Demerval.

     -      Ele tem mulher que cuide dele. Você não pode deixar nossos negócios por causa deles.

    -       Nossos negócios vão muito bem nas mãos do doutor Afonso. Não há com o que preocupar-se.

    -       Cansei-me. Cansei-me de parecer viúva. Você me fazia falta. Para isso me casei.

    Se ela houvesse dito que sentia saudades ou lhe demonstrasse alguma afeição, Menelau teria sido mais atencioso. Mas ela deixara claro que desejava apenas a presença do marido como um complemento social. Ele fez silêncio para não ter que ser desagradável. Ela prosseguiu:

        Se eu tivesse deixado, talvez você ficasse por lá para sempre. Eles se vão arranjar muito bem sem você, verá.

    -       Sei cuidar dos meus deveres sem sua interferência - respondeu, contendo a irritação.

    -       Não parece. Amanhã teremos uma recepção em casa do Visconde de Maricá e espero que você me acompanhe.

    Menelau estava cansado e aborrecido. Não querendo alongar a discussão, respondeu:

    -       Vou pensar. Agora, preciso banhar-me e descansar.

    Ela olhou-o com um brilho vitorioso no olhar. Menelau, resignado, dirigiu-se aos seus aposentados. Sua mulher era sua cruz, o que fazer? Não encontrava nenhum prazer nessas reuniões em sociedade, onde havia muitos mexericos, muita falsidade e muita ostentação. Ao mesmo tempo, reconhecia que Maria Antônia era jovem e gostava desses lugares. Não estaria sendo rigoroso demais com ela?

    Já que precisava viver em sua companhia e resolvera esforçar-me para melhorar seu relacionamento com ela, esquecer Maria José, talvez fosse melhor não contrariá-la. Acompanhando-a às festas das quais tanto gostava, talvez pudessem viver em paz. Sentia-se culpado pelo amor que nutria pela cunhada. Queria aproximar-se de Maria Antônia, ela era sua esposa e embora fosse fútil, vaidosa, pretensiosa, merecia toda sua atenção pela moral inatacável. Decidiu ir à festa; poderia, quem sabe, rever alguns amigos.

    Na noite seguinte, Menelau, em traje de gala, acompanhou a esposa à casa do Visconde de Maricá. Maria Antônia estava muito bem vestida, empoada, ostentando lindas jóias. Menelau, vendo-a sorrir com galanteria aos cumprimentos que recebia pensou:

    -       É como uma criança. Preciso ter paciência com ela.

A recepção estava como sempre. Animada, discutia-se as notícias palacianas, os problemas políticos, as peças dos teatros e a vida alheia. Menelau conversou com amigos e fez o possível para distrair-se, porém, aborrecia-se. Ao contrário de Maria Antônia que, como sempre, monopolizava atenções conservando uma roda de pessoas conversando animadamente.

     Menelau queria retirar-se, mas vendo a esposa tão satisfeita, resolveu dar-lhe mais tempo. Sentou-se na varanda, saboreando um cálice de licor de amora. Seu pensamento fugiu para a fazenda, as crianças que ele amava muito e Maria José. Suspirou fundo. Saudade imensa o acometeu. Quando colocou a mão no bolso, percebeu que havia algo dentro dele. Intrigado, verificou que era uma carta. Não estava ali quando se vestira. Quem a teria colocado? Abriu e leu. À medida que lia, seu rosto foi se avermelhando. Dizia o seguinte:

     "Senhor Menelau. Enquanto o gato não está em casa os ratos passeiam e vivem à larga. Quem tem mulher moça, é bom vigiar! Quem será o homem que tem sido visto sair às escuras dos aposentos de sua mulher? Não acredito que seja o senhor, tão oculto e tão a medo. Cuidado. O marido é sempre o último a saber!"

     Menelau amassou a carta com raiva atirando-a longe. Tanta maledicência enojava-o. O covarde não tivera a corgem de assinar ou de dizer-lhe o insulto cara a cara. Pusera-lhe no bolso, disfarçadamente, a carta anônima.

     Não julgava Maria Antônia capaz de tanta baixeza. Ou seria? Pálido, inquieto, Menelau ficou sem vontade de permanecer ali. E se fosse verdade? E se estivesse fazendo papel de imbecil?

     Nervoso, irritado, lutou para acalmar-se pensando que não devia dar crédito àquela carta vergonhosa. Entretanto, uma suspeita nasceu dentro dele. E se fosse mesmo verdade? E se Maria Antônia tivesse um amante? Não a sabia muito ardente, porém o despeito, a raiva eram nela muito fortes. E se quisesse vingar-se dele pelo descaso e pela ausência?

     Isso ele não se sentia com forças para tolerar. A traição, não. Se fosse verdade, tomaria providências. De todas as maneiras, precisava ir embora dali. De repente pareceu-lhe que todos sabiam e só ele desconhecia.

     Aproximou-se de Maria Antônia, tão à vontade no meio de uma roda de amigos, e reparou, indignado, que ali não havia nenhuma mulher. Disfarçadamente disse-lhe, com raiva:

     - Chega agora. Vamos embora. Não suporto mais esta comédia.

    Vendo-lhe a fisionomia perturbada, ela percebeu seu descontrole. Pediu licença, despediu-se dos donos da casa, porém ficou muito contrariada. Na carruagem de volta perguntou, com raiva:

    - Por que tivemos que sair assim, tão de repente, de um local tão agradável? Eu estava adorando. Esperei por esta recepção muito tempo. Preparei-me, estava em pleno sucesso. Por certo é isso que o desagrada. Por acaso você deseja que eu esteja sempre triste?

    Menelau, ainda preocupado, olhou-a e respondeu simplesmente:

    -       Não gostei de lá. E você, por incrível que pareça, só tem amigos entre os cavalheiros!

    Ela irritou-se ainda mais.

    - O que quer insinuar? Por acaso deverei faltar com os deveres da boa educação? Aqueles senhores conversavam e havia outras mulheres. Elas foram-se afastando e acabei ficando só. Não o sabia ciumento!

    - E não o sou! - eschweceu Menelau com raiva. - É meu desejo preveni-la de que, se a apanho em adultério, vai arrepender-se por toda a vida!

    Ela empalideceu e seus olhos faiscavam de raiva.

    Isso é desculpa para você recusar-me os prazeres da corte! Mas não vai conseguir afastar-me dos salões. Nunca!

    Menelau calou-se. Não tinha certeza de nada. A lembrança da carta queimava-lhe os pensamentos. Que fazer? E se fosse calúnia? E se Maria Antônia fosse inocente? Sabia que sua mulher não era apreciada pelas outras mulheres, que não lhe toleravam o temperamento irascível e exigente. Reconhecia que a carta poderia ter sido escrita por uma das suas inimigas. Alguém que não a suportasse e tivesse querido vingar-se. Por outro lado, não lhe agradara observar que Maria Antônia gostava da companhia masculina. Não possuía nenhuma amiga.

    Menelau sentiu-se atormentado pela dúvida. Se estava disposto a tolerar as futilidades de sua mulher, não queria transigir com a moral. Lembrou-se de Maria José e estremeceu. Ele tinha traído, mas sem premeditar. Não enganara a mulher deliberadamente. Acontecera e pronto. Sentiu saudades de Maria José.

    Por outro lado, ele havia deixado a jovem esposa sozinha durante muito tempo. Não teria contribuído para que ela procurasse afeto ou fosse envolvida por alguém?

    Menelau acusava-se ao mesmo tempo que reconhecia em Maria Antônia o amor às futilidades, às ilusões e às aparências.

    Sua cabeça escaldava e mal conseguiu dormir. Pretendia observar a esposa. Estremecia ao pensar que ela o pudesse estar traindo.

    Nos dias que se seguiram, a situação não se modificou. Por mais que a observasse, Menelau nada descobriu, além da sua vaidosa futilidade, do seu orgulho. Maria Antônia só se preocupava em brilhar e em ofuscar as outras mulheres com o sucesso de sua presença.

    Em vão Menelau tentava conversar com ela sobre outros interesses, entretê-la de outra forma, manter com ela assuntos mais sérios. Maria Antônia não respondia nem participava a não ser quando se falasse sobre moda, intrigas sociais ou as novidades dos teatros. Quanto a filhos, detestava que se lhe falasse sobre isso. Era desagradável deformar o corpo e ter que suportar crianças, que lhe tirariam o sossego.

    Menelau, triste, recordava-se mais de Maria José, dos sobrinhos e da família do irmão, que gostaria que fosse a sua. Desta forma, por mais que tentasse aproximar-se de sua mulher, não conseguia afinar-se com ela. Ele que tinha, a princípio, o desejo de viver bem com a esposa, passou sem perceber a distanciar-se dela cada vez mais.

    Notou que ela se abalava pouco com suas ausências, tendo sempre uma recepção, um sarau, um teatro para ir. Fazia-se acompanhar de uma senhora da nobreza que empobrecera e a quem ela pagava regiamente. Contava assim tapar a boca aos maldizentes. Assim, ia a toda parte com Adelaide, que gozava de reputação ilibada e era muito bem vista na corte.

    Menelau via com bons olhos essa dama de companhia que lhe oferecia a oportunidade de não acompanhar a esposa, só comparecendo a lugares e ocasiões onde não podia absolutamente esquivar-se.

    Entretinha-se com os livros, gostava de andar a pé pelos campos, assistir a concertos, onde Maria Antônia não ia e, aos poucos, passou a viver completamente à parte da esposa. Três meses depois de ter regressado foi que recebeu a visita de Eduardo.

    Emocionado, fê-lo entrar em seu gabinete e depois de abraçá-lo quis saber de tudo.

    - As coisas estão melhores - declarou ele, satisfeito. - Seu irmão e a família já retornaram à província e eu achei que era tempo de deixá-los sozinhos.

    -       Você conseguiu! Conta-me, como está Demerval?

    -       Melhor, embora seja muito teimoso.

    -       Quero saber de tudo. Como conseguiu a melhora? Descobriu a causa do problema?

    -       Em parte. Seu irmão foi mandingado e muito bem.

Eduardo relatou sua experiência com a Zefa e o Bentinho.

    -       Bem que eu desconfiava daquela negra! Maria José a vendeu?

            Eduardo fez ligeira pausa, depois esclareceu:

            - Não sejamos injustos. Há que considerar seus motivos. Ela

agiu assim impulsionada pelo apego que tem à sua sinhá. Acreditava estar lhe fazendo um bem.

    -       Você a defende?

    -       É mulher ignorante, mas boa e fiel à sua dona. Todos podemos nos enganar e ela se enganou. Demerval tem a sua parcela de responsabilidade. Era intolerante ao extremo. Ela desejou apenas que ele mudasse.

    -       E o Bentinho?

    -       Fez isso por amor. Gosta da Zef a e queria ser importante diante dela. Usou seus conhecimentos, seus dons de mediunidade para conquistá-la. A ele só interessava o amor da Zef a.

    -       Negro safado. Quase matou meu irmão!

    -       Menelau, as coisas não são bem assim. Você acredita que Deus permitiria que uma pessoa tão ignorante tivesse tal poder?

    -       Então não entendo.

    -       Ele só conseguiu derrubar e atingir Demerval porque este estava dando chance com seu comportamento. Mostrava-se intolerante, exigente, tornou-se antipático até aos seus famíliares. Isso o enfraqueceu, permitindo que espíritos perturbadores o envolvessem. Se ele procedesse diferentemente, nenhuma mandinga o teria prejudicado. Não defendo o Bentinho, que abusou de sua capacidade de lidar com as forças da vida, mas, ao mesmo tempo, reconheço que ele só foi bem sucedido porque Demerval permitiu.

    -       O assunto é mais complexo do que parece.

    -       Claro.

    -       E como ficou?

    -       Ficou que expliquei tudo a Demerval. Ele precisava saber. Assim que se sentiu melhor, voltou a agir como antes.

    -       O mal-agradecido...

    -       Queria mandar em tudo, exigir, coordenar, e fui obrigado a ser duro com ele.

    -       No que fez muito bem.

    -       Se ele não modificasse seu modo de agir, por certo ficaria doente de novo. Aí, ninguém sabe o que aconteceria. A custo fi-lo entender que a melhor maneira de eliminar um inimigo é fazer dele um amigo.

    -       Demerval aceitou isso?

    -       A princípio não. Depois acabou compreendendo. Tratou de ser melhor com a esposa. Ela também mudou muito e já não aceita voltar a situação antiga. Agora, ele a respeita, depois de ter visto como ela administrou a fazenda durante sua doença.

    -       Ele já está bem?

    -       Não de todo. Compreendo isso. Se ele vier a sarar logo, por certo esquecerá o que passou e voltará ao procedimento anterior. Enquanto que se ele, de vez em quando, sentir-se indisposto, isso o fará lembrar-se do que aconteceu e procurará moderar-se. Ninguém muda de um dia para outro. O processo é lento. Sua cura definitiva está dependendo dessa mudança.

    -       É incrível!

    -       É. A vida ensina o que é preciso.

    -       Quer dizer que a Zefa continuou lá?

    -       Sim. Dei-lhe um bom susto, mostrei-lhe que estava errada, ela se arrependeu. Vendo que seu patrão trata melhor sua sinhá, está calma.

    -       E o Bentinho?

    -       O Bentinho, eu ainda não consegui o que pretendia. Gostaria que ele pudesse morar com a Zefa, de quem é apaixonado. Queria voltar a província a todo custo por causa dela. Demerval foi intransigente. Não quis atender-me, mas Maria José prometeu ajudar-me. O melhor seria levar o negro junto para a província e ensiná-lo boas coisas. É inteligente e pela Zefa fará qualquer coisa. Se Demerval permitir que ele viva com ela na casa da província, por certo terá ganho sua amizade para sempre. Depois, ele tem percepções, é médium curador. Bem apoiado, ele poderá fazer muito bem às pessoas.

    -       Acredita isso?

    -       Acredito. A Zefa já o perdoou e estava com os olhos vermelhos de tanto chorar no dia da partida. O Bentinho pediu perdão

a Maria José, e ela implorou para levá-lo junto. Demerval não deixou. Ela garantiu-lhe que tudo fará para buscá-lo antes das crianças nascerem.

       - Crianças?

       - Esqueci de dizer que a Zef a também está grávida.

       - Também?

       - Sim. Maria José espera um filho.

Menelau abalou-se.

       - Ela está bem?

    - É uma mulher forte. Está firme no posto. Agora que sentiu o prazer da liberdade não será mais tão submissa às implicâncias do marido.

    O     coração de Menelau batia forte. Um filho! Seria de Demerval ou...

    -       Para quando será a criança?

    -       Não sei bem. O curioso é que as duas estão grávidas ao mesmo tempo. Demerval melhor faria se deixasse o Bentinho ir junto, o pobre diabo estava desesperado.

    -       É uma crueldade separar o pai do filho - reconheceu Menelau. Deixara uma semente em Maria José. Teria germinado? Desejou estar perto dela, perguntar-lhe a verdade. Como saber? O filho poderia ser de Demerval.

    -       Você se emocionou - disse Eduardo.

    -       As notícias de nascimento sempre me emocionam. Seria o homem mais feliz se tivesse um filho. Maria Antônia não aceita a idéia. Odeia crianças. Estou condenado a viver em solidão toda minha vida.

Eduardo olhou-o firme nos olhos e respondeu:

    -       Quando fazemos o melhor, quando nos esforçamos para ser honestos e cumprimos nosso dever, Deus faz o resto.

    -       O que quer dizer?

    -       Que confie nos desígnios de Deus. Ele nunca erra. Se não lhe deu filhos até agora, alguma razão deve haver. Um dia, quando for possível, por certo esse desejo será realidade. Tudo quanto Deus faz é bom. Ele sempre faz o melhor.

    -       Quer dizer que eu não ter filhos é um bem?

            - Não. Quero dizer que se ainda não os tem, é porque não é o melhor momento para isso. As coisas vêm na hora certa. Por isso é bom sermos pacientes e entendermos o que a vida quer de nós.

    -       Talvez eu ainda não mereça. Você pode ter razão. O jeito é saber esperar.

    Entretanto, no coração de Menelau cantava uma esperança, na qual ele não ousava acreditar, mas que era suficiente para embalar-lhe o sonho e aquecer-lhe o coração.

    Maria José deu à luz em setembro a um belo menino e Demerval sentiu-se muito orgulhoso. Ter mais um filho significava que ele estava forte e bem de saúde apesar dos achaques que o acometiam de vez em quando. Acercando-se do leito, olhando o pequeno ser que dormia ao lado de Maria José, disse, embevecido:

    -       Estou feliz, Maria José. Você me deu mais um filho. Escolha um presente que eu darei. Uma jóia, algo que fique na lembrança deste dia feliz de nossas vidas.

    Maria José olhou-o com olhos brilhantes e pediu:

    -       Você sabe que a Zef a espera um filho por estes dias. Quero que ela seja feliz. A coitada vive chorando.

    -       Chora porque é teimosa. Precisa esquecer aquele negro atrevido.

    -       Depois que você adoeceu, sofri muito. Dói-me pensar que eu podia agora estar só, se sua doença piorasse. Se posso pedir algo a você que me dê alegria, quero que mande buscar o Bentinho para viver com a Zef a. Ele é pai e quer ver o filho nascer.

    Demerval abanou a cabeça:

    -       O que me pede é difícil. Não posso esquecer que aquele

negro é mandingueiro. Deve dar graças a Deus de eu não tê-lo posto

a ferros. Estou sendo bom com ele até demais em atenção a você

e ao senhor Eduardo.

    -       Quero que o mande buscar. Tê-lo como inimigo é pior. Não sei o que ele poderá fazer em seu desespero. Se você quer me dar algo, que seja isso. Tenho o direito de pedir. Quero o Bentinho aqui quando o filho da Zef a nascer.

    Demerval resmungou, discutiu e por fim acabou concordando. Não queria negar o desejo da mulher naquela hora. Mandou buscar o Bentinho.

    O     negro chegou dois dias depois e, assim que viu Maria José, atirou-se a seus pés, beijando-lhe a barra da saia.

    -       Sinhá! De hoje em diante sou vosso servidor até morrê!

    A Zefa estava radiante.

    -       Levante-se, Bentinho - disse Maria José, tentando sorrir, emocionada. - Deixe disso. Quero que cuide bem da obrigação. Vai aprender serviço aqui dentro de casa, comer com a Zef a na cozinha. Vou dar para vocês um quarto para morar sozinhos. Já mandei uma cama e uns arranjos. Estou fazendo isso porque gosto da Zef a e essa peste gosta de você. Mas quero tudo bem limpo e serviço bem feito. Tem de ir no mercado, cuidar dos cavalos, a Zefa ensina tudo. Vão morar juntos e você vai cuidar muito bem dela e do filho que vai chegar.

    O     Bentinho chorava de emoção. Tinha se levantado, mas atirou-se de novo ao chão.

    -       Perdão, sinhá! Nego foi muito marvado e sinhá é uma santa!

    -       Quero ver como você vai se portar. Se fizer tudo direito, vai ter família e mulher, eu prometo.

    Foi com imensa alegria que Maria José os viu afastarem-se. A Zefa estava feliz, ocupada em ajeitar o pequeno quarto ao lado das cavalariças em que iriam morar.

    Demerval, vendo a alegria da esposa, tornou:

       -   Espero nunca me arrepender desta concessão.

    -       Eles estão felizes e serão fiéis pelo resto da vida! Afinal, são gente. Amam, choram, sofrem, como nós.

    -       Você está sentimental. Eles não são como nós, são como animais, precisam de pulso e de orientação.

    -       Pode ser. Mas a Zef a é como da família. Quero vê-la contente.

    Demerval deu de ombros.

    -       Se é assim, está bem. Espero nunca arrepender-me desta fraqueza.

    Nos dias que se seguiram, Maria José comprovou a boa vontade do Bentinho. Estava feliz e tudo fazia para agradar. A criança da Zefa nasceu três semanas depois. Uma linda menina, forte e gulosa, que fez o Bentinho se emocionar. Maria José tomou-se logo de amores pela criança, dando-lhe roupas e zelando pelo seu bem-estar. A Zefa sentia-se muito feliz.

    Demerval, apesar de não aprovar essas intimidades, gostava de ver Maria José contente. Tinha notado que ela, às vezes, ficava triste e pensativa. Receava adoecer novamente. Sua saúde nunca mais havia sido a mesma. Acreditava que, a despeito do que lhe haviam dito, ele era portador de moléstia difícil, que de vez em quando o enfraquecia, deprimia e assustava.

    Nessas horas, procurava pela esposa e apoiava-se nela, que durante a sua doença se mostrara tão forte e conduzira tudo sozinha. Não queria aborrecê-la. Se ela adoecesse também, o que seria deles? Por essa razão, vê-la contente o alegrava, pouco lhe importando os escravos.

    Foi com prazer que receberam a visita de Eduardo. Ele ficou satisfeito vendo o Bentinho muito diferente do que fora, falando da sinhá com respeito e adoração.

    Eduardo conversava com eles alegremente e Maria José, embora ansiosa por saber de Menelau, não se animava a perguntar. Até que arriscou:

    -       Dona Maria Antônia já recuperou a saúde?

    -       Está tão bem que nem parece haver estado doente.

    -       Antes assim - considerou Demerval, educadamente.

    -       E Menelau?

    -       Passa bem. Tem trabalhado muito.

    -       Esse meu irmão está se revelando. Ë mais jovem do que eu e eu temia pelas suas idéias de modernismo. Não concordo com sua maneira de ser.

    -       Não diga isso, Demerval - disse Maria José, a custo contendo a irritação. - Ele é muito capaz. Foi de uma dedicação muito grande. Devemo-lhe favores que nada poderá pagar.

    -       Quanto a isso, reconheço. Veio e tentou ajudar-me. Entretanto, não concordo com suas idéias.

    -       Ele ensinou-me tudo quanto sei. Sou-lhe muito grata. Jamais esquecerei o que fez por nós. Chegou a desentender-se com

a esposa para ficar aqui, em detrimento de seus próprios interesses

e negócios na capital da província. Você teria feito isso por ele?

    Apanhado de surpresa, Demerval não soube o que responder. Depois de alguns instantes disse:

    -       Não sou ingrato. Sei o que ele fez por mim. Mas ele édiferente e eu não aceito sua forma de pensar. Ele me surpreendeu, é inteligente, porém desperdiça seus talentos.

    Maria José a custo dominou-se. Decidiu mudar de assunto. Teve vontade de gritar que preferia Menelau e gostaria que o marido fosse igual a ele. Contudo, nada disse.

Naquela tarde, a saudade de Menelau, de seu sorriso amigo, seu ar alegre, sua voz serena, surgiu forte. Maria José lutou para esquecer esses pensamentos, porém, a lembrança daquela noite de amor não lhe saía da mente e ela procurava conter-se para não dar a perceber o que lhe ia na alma. Ah, se ele soubesse! Se ele soubesse que o pequeno Romualdo era seu filho! Esse era o seu segredo, que deveria levar até a hora da morte. Ninguém jamais saberia. Criá-lo seria para ela uma alegria. Saber que ele deixara nela sua marca, um pedaço do seu amor!

    Eduardo, entretanto, conversava longamente com Demerval, interessado em informar-se sobre sua saúde. À tarde, a sós na varanda, Demerval confidenciou-lhe:

    -       Apesar de melhor, nunca mais fiquei bom como antes.

    -       O que sente?

    -       Há momentos em que estou muito bem, porém, de repente, sinto depressão, tristeza, medo e então a fraqueza volta. Nessa hora, tenho receio de adoecer outra vez. Sinto-me sem energia e em minha casa não tenho conseguido impor mais minha autoridade.

    -       Gostaria que tudo voltasse a ser como antigamente?

    -       Gostaria. Tudo andava em ordem e a rotina era perfeita.

    -       Mesmo que sua família não se sentisse feliz?

    -       Está enganado. Minha família era feliz - disse ele, com orgulho.

    -       Menos do que agora. Seus filhos estão alegres, falantes, dona Maria José muito mais feliz. E pelo que pude perceber, as coisas nesta casa estão na mais perfeita ordem. É uma casa bem administrada.

    -       Não como deveria. Maria José tem momentos de tristeza em que me parece muito sofredora.

    -       Todas as pessoas têm seus momentos de humor. Quem não se sente triste de vez em quando? Agora ela é mais firme, mais atuante. É mulher de fibra, sr. Demerval.

    -       Eu sei. Mas há momentos em que me sinto incapaz de conduzir as coisas e isso me preocupa. Sempre fui homem de vontade forte. Agora não consigo melhorar definitivamente.

    -       Mas o senhor está muito melhor! A cada dia aprende mais.

    -       Não é isso o que eu sinto.

    -       É porque não está percebendo. Note que, hoje, o senhor está mais sensível, mais humano.

    -       Estou mais fraco.

-           Engano seu. A imposição jamais representou a verdadeira força. É apenas o forte subjugando o fraco. Somos todos iguais em direitos perante Deus. A vida exige isso de nós, que respeitemos os direitos dos outros e sua liberdade.

    -       Deus é autoritário. Impõe suas determinações contra nossa vontade.

    -       Engano seu. Deus nos permite sempre optar. Ë claro que cada ato nosso, cada ação que resultou da nossa atitude, da nossa escolha, provoca uma reação e essa é determinada pelos nossos atos, não por Deus.

    -       Estranha filosofia.

    -       Não é filosofia. Ë verdade.

    -       No meu caso...

    -       No seu caso a doença veio para modificar sua maneira de ser. Para mostrar-lhe que tudo pode ser diferente. Que não há necessidade de impor rotinas aos outros porque eles podem conduzir-se sozinhos. Diante de Deus, cada um é responsável pelo que faz.

    -       Isso é o abuso da liberdade! Como deixar a esposa e os filhos sem apoio?

    -       Isso não significa deixar sem apoio mas também não nos autoriza a querer conduzi-los pela mão, fazendo tudo por eles, da nossa maneira, impondo-lhes nosso modo de ser.

    -       E a autoridade do chefe, como fica?

    -       Por conta dõ exemplo e da dignidade. O bom exemplo e a dignidade são os melhores meios de indução ao bom comportamento. Muitos de nós esquecemos as palavras que ouvimos dos outros mas nos lembramos inúmeras vezes dos fatos e das atitudes que tiveram.

    -       Recuso-me a concordar com esse excesso de liberdade! Desse jeito, aonde irão nossos valores?

    -       Nossos valores serão enriquecidos. Se o senhor, ao invés de impor suas idéias, antes as expusesse a dona Maria José, ouvindo-lhe um parecer, perceberia ângulos em que jamais pensou e elas ganhariam força, realismo. Se seus filhos, já mais adultos, fossem também ouvidos, veria como o resultado seria maravilhoso. Cada cabeça, cada pessoa, vê as coisas por um ângulo particular; juntos, por certo, perceberiam melhor e agiriam dentro da mais objetiva realidade.

    -       E minha autoridade? E minha condição de pai de família com a obrigação de decidir as questões?

        - Ficariam em sua verdadeira posição, na maturidade e no bom senso para, de todas as idéias, extrair a melhor, a mais prudente, a mais útil, a mais acertada. Não pode negar que, depois de todos opinarem livremente, o senhor teria uma visão maior do assunto. Não subestime sua mulher nem seus filhos, apesar de crianças. Todos sempre poderão contribuir para enriquecer sua experiência. São pessoas e cada um tem sua maneira particular de ver.

       - O que diz é assombroso! O que tem tudo isso a ver com minha doença?

       - Seu estado doentio vem da necessidade que a vida tem de romper seus preconceitos e mostrar-lhe a realidade. Sempre que quiser voltar à situação antiga de autoridade, a vida vai lhe cobrar, a doença aparece, como a dizer-lhe da precariedade da saúde e que a verdadeira força não se encontra na imposição. iË o orgulho que nos cega, e a esse ponto, e a vida sempre fere os orgulhos para fazê-los enxergar a verdade, O senhor está muito melhor. Antigamente sequer discutiria este assunto comigo.

       - É verdade. Reconheço isso.

       - Pois então. Tenha coragem para mudar e perceberá que sua esposa é pessoa capaz e inteligente e tem feito muito pela família.

       - Eu sei. Jamais pensei que ela pudesse. Era tão dócil, jamais discordava de uma opinião minha. Agora, está diferente. Faz tudo sem consultar-me.

       - Habituou-se quando da sua doença. No entanto, se ela faz tudo bem, melhor para o senhor. Pode descansar mais, refazer-se.

       - Sinto-me humilhado.

       - Para que tanto orgulho? De que lhe serve? Se dona Maria José fosse incapaz, como estariam as coisas?

       - É verdade. Porém, sinto-me inútil.

       - Procure cooperar. Estou certo de que, se deixar de lado a imposição, tudo será mais fácil.

       Demerval suspirou fundo.

       - Sentir-me-ei envergonhado.

       - Estou certo que não. Sua experiência, sua capacidade serão

apreciadas. Dona Maria José as aceitará de bom grado.

       - A que ponto cheguei! - disse ele, amargurado.

       - Não se lamente. Deus faz tudo certo. Se fizer o digo, garanto que se sentirá melhor.

       - Não sei, vou pensar. Não sei fazer o que me diz.

    -       Claro que sabe. Vai melhorar muito se fizer isso.

    -       Vou tentar.

    E realmente, ele tentou. A custo sofreava seus ímpetos de autoridade procurando não impor nada. Era-lhe muito difícil. Maria José, instruída por Eduardo, procurava ajudá-lo, dando-lhe chance de opinar, embora nem sempre fizesse o que ele dizia. Era uma luta em que eles submetiam-se em favor da harmonia doméstica.

    Eduardo preparou-se para partir. Ia satisfeito. A situação daquele lar ia melhorando. Na véspera da sua partida, Maria José procurou-o, comovida.

    -       Sr. Eduardo! Muito obrigada por tudo quanto tem feito por nós.

    -       A luta é de cada um. Apenas lhes mostrei isso.

    -       Gostaria que agradecesse a Menelau em nome de todos nós e lhe entregasse esse retrato como lembrança e nossa saudade.

    Maria José desembrulhou o pacote que trazia, mostrando a família reunida, pintada delicadamente sobre uma madeira oval. O pequeno Romualdo ao colo de Maria José.

    -       É um lindo trabalho. Ele vai apreciar muito.

    -       Desejamos mostrar nossa gratidão.

    -       Estou certo que lhe agradará. Sentia-se muito saudoso de todos. Ele adora família, crianças, mas até agora dona Maria Antônia não deseja ter filhos.

    -       É pena. Diga-lhe que todos sentimos muito sua falta.

    -       Direi, dona Maria José.

    Maria José a custo dominava a emoção. Sentia ímpetos de escrever-lhe, vontade de contar-lhe seu segredo. Dominou-se. De que lhe adiantaria? Menelau era um sonho impossível e devia procurar apagá-lo do seu coração.

    Eduardo despediu-se de todos com alegria. A Zef a preparou ela mesma uma galinha bem gorda para ele comer em viagem e o Bentinho beijou-lhe as mãos com devotamento na hora da partida. Maria José tinha lágrimas nos olhos.

       Deus o abençoe - disse, comovida.

    A carruagem partiu e ela ficou na varanda, olhando a poeira e com o coração partido. O retrato da família e de Romualdo diria alguma coisa a Menelau? Por certo ele se recordaria daquela noite. Compreenderia? Para ela esse segredo, esse amor, representavam sua força, sua alegria, de onde tirava energias para as lutas do dia a dia. Ela nunca haveria de esquecer.

 

    A tarde estava quente e o mormaço incomodava. Menelau, sentado em seu escritório, escrivaninha aberta e muitos papéis à sua frente, lia pálido e contrafeito. Amassou o papel com raiva e arremessou-o ao cesto. Essa situação não poderia continuar. Era a terceira carta anônima que recebia e isso irritava-o intensamente.

    Levantou-se e encaminhou-se até o console que guarnecia um dos cantos da sala; olhou o retrato de Demerval e família que Eduardo lhe entregara como lembrança de Maria José. Fundo suspiro escapou-lhe do peito. A saudade doía-lhe. Olhou, como de costume, o bebê no colo de Maria José e seu coração bateu forte. Seria seu filho? Esta pergunta queimava-lhe o peito, mas, apesar disso, não tivera coragem para voltar a vê-los. Partira da fazenda há dois anos, porém considerava aqueles tempos como os melhores de sua vida.

    O amor dos sobrinhos, a vida em família, a presença da cunhada era tudo quanto sônhava ter obtido na vida. Contudo, apesar disso, não pretendia perturbar a felicidade do irmão a quem desejava, sinceramente, pudesse viver bem com a família.

    No entanto, sua situação com Maria Antônia piorava dia a dia. Eles mal se toleravam. Menelau esforçava-se para compreender a esposa, porém esta mostrava-se mais fútil a cada dia e seus caprichos tinham o dom de irritá-lo. Negava-se a alimentá-los. Quanto a ter filhos, ela conservava-se irredutível. Não queria sequer pensar no assunto e quando Menelau tentava falar-lhe de seu velho sonho e da necessidade de um herdeiro, ela encolerizava-se dizendo que em hipótese alguma iria deformar seu corpo.

    Menelau procurava conformar-se, porém um tédio imenso tomava conta dele. Estava perdendo o gosto pela vida, tornando-se indiferente e triste. Já não sorria como antes e evitava a esposa sempre que podia. Eram como dois estranhos vivendo juntos. O pouco tempo que desfrutavam em comum transformava-se sempre em um amontoado de queixas recíprocas das quais Maria Antônia saía mais irritada e Menelau mais triste.

    Preocupado com o amigo, Eduardo visitava-o amiúde tentando fazê-lo interessar-se por outros assuntos, percebendo que, no momento, nada podia fazer para ajudá-lo. A princípio ele demonstrava pouco interesse, mas aos poucos foi tomando gosto pela leitura dos assuntos psíquicos e pelas pesquisas de Eduardo realizadas em sessões espíritas, na residência de um amigo, as quais passou a freqüentar.

    Apesar de sua situação famíliar ser a mesma, Menelau agora já podia comprender melhor os problemas de sua mulher, evitando agravá-los ainda mais. Porém, quando tudo estava calmo, eis que uma nova carta anônima o desequilibrava. Percebia as futilidades de Maria Antônia, contudo não a julgava leviana a esse ponto.

    Nas intrigas da corte, onde ela era figura assídua e destacada, havia sempre muita inveja, muita maldade e até rivalidade. Conhecia mulheres que disputavam seriamente um lugar de destaque com a família imperial, usando para esse fim de todas as armas. Era possível que Maria Antônia estivesse sendo vítima dessas intrigas de salão. Mas, ao mesmo tempo, uma dúvida, um receio, uma indagação: e se fosse verdade? E se Maria Antônia se apaixonasse por um daqueles peralvilhos empoados dos salões? Ela era jovem e fútil, isso poderia estar acontecendo.

    Irritado, Menelau caminhou nervoso pela sala. Não conseguira trabalhar. Nos últimos tempos abrira o escritório para negociar exportando seus produtos, vendendo-os ou trocando-os com os estrangeiros, sempre com muito sucesso. Progredira financeiramente. Dedicava-se ao trabalho para ocupar-se ao máximo. Naquele dia não se sentia em condições de fazer nada.

    Resolveu sair. Não suportava mais. Precisava ver Eduardo, desabafar. Procurou o amigo, que o recebeu com deferência. Observando-lhe o ar preocupado, perguntou atencioso:

    - Não está bem. Aqui, a esta hora... aconteceu alguma coisa?

    - Aconteceu.

    E Menelau, sentado em frente ao amigo, abriu seu coração

    - Sei que não se deve dar crédito a cartas anônimas, mas por outro lado sinto-me desconfiado e triste. O que fazer? E se for verdade mesmo? E se Maria Antônia for culpada?

    - Calma, Menelau. Não perca a cabeça. O desespero não solucionará o assunto. Infelizmente você não tem afinidades com dona Maria Antônia. Na verdade o que não é bom é estarem sempre tão distantes um do outro. IË claro que quem escreve conta com

isso. Deve saber que vocês não se dão bem. Por que não tenta aproximar-se mais de dona Maria Antônia? Poderia ajudá-la a que viesse a interessar-se também por outros assuntos.

    Menelau suspirou:

    -       Eu tentei. Deus sabe que tentei. Mas ela recusa-se a ouvirme. Ou faço-lhe todos os caprichos e vontades ou não me dá ouvidos.

    -       Você deve ser paciente. Dona Maria Antônia é pessoa fascinada com o barulho dos salões. Vai desiludir-se, fatalmente. Um dia compreenderá a verdade.

    -       Tento ajudar, mas é difícil. Parece-me vê-la caminhar para o abismo com alegria e obstinação. Sei que um dia se desiludirá pois o que é falso sempre acaba, mas quando? Sinceramente, não me agrada essa suspeita vil.

    -       O que pensa fazer?

    -       Ainda não sei. Posso impor-me como marido proibindo-a de sair sem ser em minha companhia. Isso me obrigaria a acompanhá-la por toda parte, o que é para mim um grande sacrifício.

    Eduardo levantou-se e, aproximando-se do amigo, pediu:

    -       Venha comigo esta noite à casa do sr. Sampaio. Você fica desde já, janta comigo, depois iremos até lá.

    Menelau levantou-se indeciso.

    -       Não sei. Afinal o problema é meu e de Maria Antônia. Ninguém poderá mudar as coisas, isto é, não há ajuda espiritual capaz de nos fazer diferentes do que somos.

    -       É verdade. Contudo, a prece, a ajuda dos espíritos bons, poderão sempre nos acalmar, aclarando-nos as idéias e ajudando-nos a ver melhor. Está decidido. Você fica e vamos juntos.

    Menelau concordou. Se fosse para casa, irritado como estava, poderia ter uma cena com a mulher e não queria isso. Precisava mesmo acalmar-se.

    Eduardo procurou ajudar o amigo tentando fazê-lo interessar-se por outras coisas.

    -       Tem recebido notícias de Demerval? - indagou, amável.

    -       Poucas. Já faz algum tempo que ele não me escreve. Aliás, Demerval nunca foi muito comunicativo comigo.

    -       Eu tenho boas notícias. De quando em quando dona Maria José me escreve para contar como estão. Respondo com alegria. Mulher extraordinária, a sua cunhada. Admiro-a muito.

    Menelau corou de prazer. Maria José era sua deusa. Sua mulher ideal.

    -       Eu também a admiro. Como vão eles?

    Vendo-o interessado, Eduardo foi até sua escrivaninha e voltou com uma carta entre os dedos.

    -       Leia-a. Chegou ontem.

    Menelau apanhou o papel, emocionado. Conhecia muito bem aquela letra. Maria José informava sobre Demerval, relatando suas lutas. Era-lhe difícil aceitar novamente a direção do marido, mesmo nos negócios, porqüanto havia muitos pontos com que ela não concordava. Achava suas idéias fora de propósito. Reconhecia estar certo que ele voltasse a dirigir os negócios, a fazenda, já que estava melhor. Pedia a Eduardo que a aconselhasse e dizia: "Lamento que ele não seja como Menelau. Nós quase nunca discordávamos, mas quando isso ocorria, ele sempre me explicava o porquê. Demerval irrita-se e não aceita sequer minha opinião. Está sendo difícil para mim. Já não suporto mais ser apenas a mulher, dona de casa, cujos serviços os escravos fazem muito bem. Estarei sendo considerada igual a eles? Ajude-me, sr. Eduardo, por favor. Está muito difícil suportar isso e só a presença de meus filhos me trazem alegria e conforto. Romualdo é meu enlevo. Cada dia que passa mais me apego a ele como razão maior da minha vida".

    E terminava agradecendo a ajuda e pedindo resposta breve. Menelau tinha lágrimas nos olhos.

    -       Você os quer muito, não?

Muito. Gostaria de conhecer o pequenino.

- É um belo menino.

    Eduardo dirigiu-se a outra sala e voltou com um pequeno quadro oval que entregou a Menelau.

    -       Veja. Recebi essa pintura junto com a carta.

    Emocionado, Menelau segurou o pequeno quadro onde havia pintado o rosto de uma criança. Suas mãos tremiam enquanto fixava o rostinho redondo e corado do menino.

    -       Gostaria de possuir uma. Pena que eles não me mandaram.

    -       Pode guardar esta. Sei que dona Maria José não se ofenderá.

    Menelau não podia desviar os olhos do retrato. Mil pensamentos passavam-lhe pela mente. Seria seu filho? Sentia-se sufocar. Ardia de desejo de perguntar isso a cunhada. Mas, como?

    -       Você está emocionado! Gostaria de ter um filho.

- É um grande sonho que jamais realizarei.

    Os dois continuaram conversando e Menelau sentia-se mais calmo. Seu rosto guardava mais paz e, de quando em vez, fixava o rostinho delicado do menino.

    À noite dirigiram-se à casa do sr. Sampaio para a sessão. Eram cinco pessoas: o casal, a jovem filha, que era a médium, e os dois visitantes.

    No momento da reunião, sentados ao redor da mesa, Menelau sentiu-se tomado de intensa emoção. Toda dor, angústia, tristeza que o amarguravam e que durante tanto tempo reprimira, reapareceram, tomaram corpo, sufocando-o. Na obscuridade da sala, lágrimas lhe fluíram dos olhos qual catadupas desordenadas. Deixou-as correr livremente, e quando serenou um pouco, murmurou ardente prece. Sentia necessidade de conforto, de força, de esperança.

    Nessa hora a jovem médium foi sacudida por um frêmito que lhe acelerou a respiração. A atmosfera era diferente, como que modificada por uma aragem fresca, agradável.

    Menelau não saberia dizer o que se passava dentro dele. Um misto de alegria e dor, serenidade e ânsia, fazendo-o pressentir que ia acontecer alguma coisa.

    A jovem suspirou e disse com emoção:

       - Menelau, meu filho.

Admirado ele colocou toda atenção em escutar. Ela prosseguiu:

    - Vim abraçá-lo. Finalmente posso falar de novo com voce. Sei que me atenderá.

    Menelau tremia emocionado. Sua mãe! Seria mesmo ela? A jovem médium continuou:

    - Quanta saudade, meu querido Lelo! Quanto esperei por este dia!

    Menelau não teve mais dúvida. Era ela! Só ela o chamava por esse apelido, que há muitos anos não ouvia.

    - Mãe! - disse ele, com emoção. - Quisera ser menino de novo para correr para os seus braços! Que saudade!

    - Vim para dizer-lhe que não desanime. Na Terra, todos temos nossos deveres a cumprir. Procure cumprir os seus até o fim. Sei o que lhe custará.

    - Sabe? Por acaso conhece o que vai ser de mim?

    - Posso ler seu coração como um livro aberto. Compreendo sua dor. Contudo, você tem um trabalho a executar, um compromisso a cumprir. Não se deixe abater. Lembre-se sempre de que Deus não nos abandona nunca. Ore com fé. Tenho seguido de perto

sua vida. Não se faça de fraco na hora de ser provada sua força. Siga confiante. Você há de vencer!

    Menelau pensou em Maria Antônia e nas cartas infamantes. Não se sentiu com coragem de perguntar. A jovem médium contudo, depois de ligeira tosse, continuou:

    - Lelo, não se atormente. Deixe a infâmia por conta de quem a pratica, não desça até ela. Deus tudo vê. Guarda seu coração em paz.

    - O que deverei fazer?

    - Orar, confiar e esperar, sejam quais forem os acontecimentos. Cultive a fé e a coragem e deixe a Deus o julgamento e a ação. Lembre-se também de que eu estarei sempre com você. Ligue-se comigo pela prece e farei tudo para ajudá-lo. Coragem. Agora preciso ir.

    Menelau sentiu-se agradecido.

    - Deus a abençoe - disse.

    - Obrigada, meu filho. Não se esqueça do que eu disse. Coragem. O dever acima de tudo. Deus o guarde.

    Fundo suspiro escapou do peito da jovem e depois ela calou-se. Menelau sentia-se emocionado. O espírito de sua mãe estivera ali, falara com ele! Não alimentava nenhuma dúvida. Além do apelido já esquecido, a tosse um tanto seca que a acompanhara durante sua doença até a morte. Como duvidar? Sentia-se calmo. Ela infundira-lhe esperança e serenidade. Recordara-lhe o dever para com a esposa e o exortara a esquecer a calúnia.

    Outro espírito ainda trouxe orientação e palavras consoladoras aos presentes, e depois de mais meia hora foi encerrada a sessão.

    Menelau, mais animado, não pôde sopitar o entusiasmo. Sua querida mãe estivera ali. Não estava mais sozinho. Dali para frente, encontraria disposição para lutar.

    A partir daquela noite, Menelau tornou-se um assíduo freqüentador das sessões na casa do sr. Sampaio e um estudioso de "O Livro dos Espíritos". Eduardo recebera da França o original e se comprazia em traduzi-lo para os estudos com os amigos.

    Menelau foi, aos poucos, se sentindo mais sereno. O espírito de dona Agnes, sua mãe, várias vezes se comunicara pedindo-lhe paciência para com Maria Antônia. Certa vez, lhe dissera:

    - Pense nela como em uma filha muito querida que você, com seu amor, precisa conduzir, orientar e despertar para os verdadeiros valores da vida. Que ela seja a filha que você não teve.

    Menelau aceitava e procurava olhar a esposa como uma mulher inexperiente. Tentava aproximar-se mais, procurando despertar-lhe o gosto por outras coisas, pela arte, pela boa música, pela leitura. Inútil, porém. Maria Antônia só tinha olhos para as atividades sociais, achando maçantes outras atividades que não as palacianas.

    Uma noite, os dois estavam sentados na sala quando a sineta da porta se fez ouvir. Logo um cavalheiro, pedindo licença, foi introduzido pela mucama.

    -       Tem uma mensagem urgente para meu sinhô.

    Maria Antônia, curiosa, olhou para o mensageiro enquanto que Menelau, já em pé, perguntou:

    -       De onde vem? O que o traz?

    -       Mensagem do Imperador.

    Menelau admirou-se:

    -       De Sua Majestade? Deixe-me ver.

    Apanhou o envelope que lhe era estendido com surpresa. Não mantinha laços de ligação com a corte, além dos protocolares.

    Maria Antônia olhava com o rosto corado de emoção.

    -       Sua Majestade deseja resposta urgente.

    Menelau abriu o envelope e leu. Era um chamado a que se apresentasse em palácio na manhã seguinte, às 9 horas, para uma audiência direta com o Imperador.

    Intrigado, Menelau curvou-se e respondeu:

    -       Diga a Sua Majestade que estou honrado com o convite. Estarei lá na hora certa. Quer por escrito?

    -       Não é necessário. Vossa resposta será dada. Boas-noites.

    -       Boas-noites - respondeu Menelau.

    Assim que ele se foi, Maria Antônia, olhos brilhantes de emoção, aproximou-se do marido.

    -       O Imperador o chama! Ë sua grande chance! Se conseguir agradá-lo, nossa posição pode melhorar! Será a glória.

    -       Não espere muito. Não sabemos ao que me chama.

    -       Claro que para algum encargo de responsabilidade.

    -       Gostaria de servir ao meu país. Entretanto, não sei se poderei aceitar... Afinal, temos os nossos negócios.

    -       Que poderão ficar nas mãos dos seus auxiliares.

    -       Sequer sei ao que me chama Sua Majestade.

    -       Prometa que você aceitará o que ele quiser.

    -       Não sei. Como posso prometer?

-           Em todo caso, é emocionante.

    Menelau riu do entusiasmo da mulher. Não pôde evitar a curiosidade. Afinal, o que o Imperador poderia querer?

    No dia imediato, um quarto antes da hora marcada Menelau estava presente na ante-sala do palácio. Dom Pedro 2º era rigoroso no horário. Levantava-se muito cedo e não tolerava atrasos. Foi introduzido na antecâmara, e um minuto antes de bater as nove horas. Menelau já estava diante da mesa lindamente lavrada do Imperador.

    Emocionado, fitando-lhe o rosto sério e a barba grisalha, curvou-se reverente, saudando-o e colocando-se à sua disposição.

    DONA        Pedro olhou-o bem de frente apertando um pouco os olhos. num jeito muito seu. Menelau sustentou o olhar e esperou. Ele começou:

    -       O senhor é o dr. Menelau Graciano Coutinho?

    -       Sim, Majestade.

    -       Muito bem. Fui informado de que o senhor é bacharel e estudou na Sorbonne.

    -       Sim, Majestade.

    -       Preciso de um homem de confiança para uma tarefa de responsabilidade. O senhor não ignora que tenho no reino muitos cavalheiros que se sentiriam honrados com meu convite. No entanto, eu preciso de alguém que não seja conhecido nos meios diplomáticos. Indicaram-me seu nome. O Visconde de Abaeté garantiu-me que o senhor preenche todas as condições.

    Menelau curvou-se, agradecendo. O imperador cofiou a barba pensativo, depois disse:

    -       O senhor fala outros idiomas além do francês?

    -       Espanhol e inglês, Majestade.

    -       Ótimo. A missão que desejo confiar-lhe é sigilosa e de grande interesse para o Brasil. Estaria disposto a deixar seus negócios e sair do país por algum tempo?

    Menelau olhou-o, curioso. Sua figura nobre impressionava e mais ainda o que ele representava como chefe supremo do país. Não pensara em deixar seus negócios, que iam muito bem, mas olhando aquele homem sério, que o encarava e solicitava sua opinião quando dispunha de poderes para ordenar, respondeu:

    -       Vossa Majestade acredita que eu possa desempenhar a missão que deseja?

    DONA        Pedro olhou-o firme:

    -       Penso que sim.

    -       Então, aceito. Se puder servir Vossa Majestade e o Brasil. ficarei satisfeito.

    -       Muito bem. Não se arrependerá de sua dedicação.

    DONA        Pedro agitou a sineta e logo seu oficial de gabinete apareceu solícito.

    -       Vá à sala nobre e diga ao Visconde de Grajaú que venha até aqui.

    Dentro de alguns instantes o Visconde deu entrada na sala. Era um homem alto, forte, de meia idade, suíças e um pouco calvo. Fisionomia séria e interessada. Fechada a porta, Dom Pedro foi logo dizendo:

    -       Eis aqui o senhor Menelau. Está disposto a aceitar a incumbência. Podemos tentar.

    Menelau curvou-se atencioso ao cumprimento do Visconde. Ele era um homem muito respeitado que privava da intimidade do Imperador. Possuía cultura invulgar e era um dos conselheiros do Império. Menelau sentiu-se honrado em conhecê-lo e ainda mais daquela forma.

    -       Podem sair agora - disse Dom Pedro. - Coloque-o a par de tudo. Quero vê-lo novamente antes de partir e acertar com ele alguns detalhes.

    O     Visconde concordou e Menelau curvou-se em despedida, dizendo:

    -       Majestade, farei tudo para corresponder à confiança que deposita em mim. Deus salve vossa Majestade.

    DONA        Pedro assentiu com a cabeça e em seus olhos lúcidos havia um brilho de emoção. Menelau afastou-se, cativado. Dom Pedro acabava de conquistar-lhe a amizade e o respeito para sempre.

    O     Visconde levou-o para pequena sala onde fechou as portas e convidou-o a sentar-se. Menelau sentia-se curioso.

    -       O senhor tem muitos amigos que o estimam e respeitam -disse ele. - Fale-me um pouco sobre sua estada no exterior. O senhor bacharelou-se na França, pois não?

    Menelau percebeu que ele desejava conhecê-lo melhor. Achou natural. Por isso, falou de sua vida com sinceridade, de suas aspirações e de suas ocupações atuais. Conversaram durante meia hora e o Visconde trocou idéias com ele sobre vários assuntos, principalmente sobre política. Menelau, apesar de curioso, entregou-se ao prazer daquela palestra inteligente e agradável, O Visconde era objetivo, arguto, franco. A certa altura, disse:

    -       O senhor é abolicionista?

    Menelau sustentou-lhe o olhar, que parecia querer devassar-lhe o íntimo do ser. Alçou a cabeça e respondeu:

    -       Sou. Não há neste país homem livre e de consciência que não reconheça a necessidade da abolição.

    -       Hum... - fez ele, pensativo. - Está participando de alguns dos movimentos de classe para este fim?

    -       Não, confesso que não. Tenho acompanhado os debates com simpatia pela abolição, mas não tive chance senão de alforriar alguns negros de nossa propriedade.

    -       O que vou lhe dizer deve ser guardado entre nós. É segredo de Estado. Aliás, quero sua palavra de que nada do que dissermos aqui vai transpirar. É condição do nosso acordo.

    -       Tem minha palavra - disse Menelau, sério.

    -       Muito bem. Há muito que o Imperador deseja acabar com a escravidão no Brasil. Entretanto, estamos informados pelo serviço secreto que, assim que ele assinar essa lei, será esmagado pela força republicana.

            - Não é justo - disse Menelau, a quem a figura do Imperador inspirava respeito e gratidão.

- O que Dom Pedro tem feito pelo Brasil, nenhum governo republicano conseguirá fazer.

    -       Folgo em saber que defende a monarquia.

    -       Acredito mais adequado confiar em um homem que por toda sua vida aprendeu a governar a aceitar o governo de alguém sem experiência, que governará por um período curto. Depois, temos o Parlamento, onde o povo tem seus representantes e participa do governo.

    -       Concordo plenamente. Contudo, estamos informados que há um grupo de republicanos, sustentado por uma potência estrangeira, interessado em derrubar o império. O ouro tem corrido a soldo dos inimigos do trono e Sua Majestade já sabe que há uma infiltração de idéias republicanas que corrompem a mocidade nas universidades. Sua Majestade acredita que, na França, reúne-se um grupo poderoso que comanda a agitação, interessado no Brasil. Se não podem dominar pelas armas, querem o domínio econômico, explorando nossas riquezas. O Império tem se empenhado em desenvolver nossas próprias forças, lutando para evitar, na medida do possível, o domínio do poderio econômico estrangeiro. Sua Majestade acredita ser melhor para o Brasil caminhar devagar do que sofrer a exploração de suas riquezas por países interessados apenas em satisfazer seus próprios interesses.

    -       O senhor acredita que a França seja esse país?

    -       Não sabemos. Temos quase certeza de que o movimento parte de lá. Mas quais os países ou o país que está financiando, não sabemos.

    -       Em que isso impede a abolição?

    -       Não compreende? A escravidão tornou-se a base econômica do nosso país, essencialmente agrícola. Fortunas encontram-se concentradas no braço escravo. As modificações vão remexer a fundo os costumes e modificar a estrutura da nossa base econômica. Essa mudança vem sendo lenta e o Imperador gostaria já de ter abolido a mancha da escravidão que obscurece o país. Dom Pedro há muito tempo vem recebendo apelos nesse sentido de todos seus amigos do outro lado do mundo. Homens de ciência, de cultura, humanistas e ele gostaria realmente de responder à altura. Porém, guarda a certeza de que, se atender a esse apelo, seu trono cairá.

    -       Não é possível!

    -       É verdade. Contudo, acreditamos que se conseguirmos descobrir a sede do inimigo, que se oculta na espionagem e age na sombra, poderemos atravessar esta crise, decretar a abolição e o trono sairá fortalecido. É para isso que precisamos do senhor.

    -       Pensa que poderei ajudar?

    -       Confiamos que sim. O senhor viajará para a França, como se fosse reativar seus estudos, e lá verificará se nossas desconfianças se concretizam. Ninguém deverá saber ao que vai, sob hipótese alguma. Daremos endereços e nomes que servirão como base para suas investigações. Teremos um código para nossas comunicações. Tudo já está preparado. Temos pessoas que irão ajudá-lo em suas dificuldades. Não se esqueça que nos deu sua palavra de que ninguém saberá o que conversamos aqui. Nem sua família poderá saber.

    Menelau concordou, excitado. Era uma nova aventura e ele não queria recusar. Depois, como dizer não ao Imperador que o convocara a servir o país, em um gesto de confiança e de seriedade?

    Menelau saiu dali preocupado. O navio sairia dentro de dois dias e ele deveria embarcar nele rumo a Paris. Tinha que ultimar negócios, cuidar de sua casa, porque não sabia quando iria voltar.

    Foi decepcionada que Maria Antônia ouviu do marido que o Imperador o convidara interessado em um carregamento de cana que deveria seguir para a Europa.

    - Ele olhou-me e encaminhou-me para o Ministro das Finanças, com o qual fizemos um negócio. Foi só - explicou Menelau para a esposa.

    Não lhe contou a próxima viagem para que ela não desconfiasse. Naquela noite procurou Eduardo em quem confiava seriamente. Não pôde ocultar-lhe a verdade.

    - Vou para uma empresa que poderá tornar-se perigosa. Se algo me acontecer, se eu não voltar, quero que cuide de Maria Antônia. Vou institui-lo meu representante legal. Já redigi este documento onde disponho os meus bens. Tenho a certeza de que, se eu não voltar, você velará pelos meus.

    Emocionado, Eduardo abraçou o amigo e, no aconchego da sala, Menelau confidenciou a ele seu amor pela cunhada e a suspeita de que Romualdo fosse seu filho. Eduardo comoveu-se e prometeu solenemente que zelaria sempre por eles.

    Depois disso, Menelau sentiu-se aliviado. Dividir seus segredos com o amigo fizera-lhe grande bem. No dia seguinte, comunicou àesposa que um grande carregamento de produtos que mandara para Havre estava em dificuldade de prosseguir viagem e ele teria que ir pessoalmente para salvá-lo. O navio partiria no dia seguinte.

    Maria Antônia esbravejou mas não pôde fazer nada. À noite havia a sessão espírita em casa do Sampaio e Menelau acompanhou Eduardo. Ficou comovido. Sentiria falta daqueles encontros.

    Durante a sessão, compareceu o espírito de sua mãe, confortando-o. Ao final, disse-lhe:

    - Vá, filho. Deus o abençoe. Não se esqueça da prece. Aceite com alegria os desígnios de Deus. Estaremos sempre a seu lado. Não tema.

    Assim, encorajado e esperançoso, no dia seguinte, MeneLau embarcou no navio com destino à França. Além das indicações e dos códigos, das recomendações e dos compromissos, levava muita vontade de servir ao país e acertar.

 

    Foi dois meses depois que Menelau finalmente chegou ao Havre. A viagem fora um tanto acidentada e ele sentiu-se satisfeito e aliviado ao desembarcar e providenciar sua ida para Paris. Lá chegando, instalou-se em modesta habitação para estudantes, um pequeno quarto no Quartier Latin. Em seguida procurou pelo seu contato, que deveria dar-lhe instruções. Tratava-se do sr. Ildefonso Vilela, diplomata brasileiro, membro da chancelaria do Brasil. O encontro com Menelau foi secreto, em local periférico.

    Ildefonso orientou-o a que se inscrevesse em um curso para estrangeiros na Sorbonne. Era preciso que Menelau alardeasse o fato de ser republicano e só desejar voltar ao Brasil quando a república se concretizasse. Era esse o ponto importante e ele deveria procurar fazer muitas relações com os outros estudantes, granjear-lhes a amizade. Convencionaram a maneira de se comunicarem discreta e secretamente, o que deveria ocorrer só quando um deles tivesse algo importante a relatar.

    No dia imediato, começou vida nova para Menelau. O ambiente da famosa universidade passara por grande modificação desde que Menelau lhe freqüentara as disciplinas nos tempos da juventude. A austeridade estava sendo substituída pelos debates e vivia-se intensamente o regime republicano.

    Foi fácil, para Menelau, o papel de um homem inconformado com o regime do seu país. Exaltava-se a república como uma conquista de liberdade e não havia entre os estudantes quem defendesse a monarquia, considerada por todos um regime de excessão.

    Tanto interesse dos seus colegas pelo regime republicano, pelas eleições, pelos líderes políticos atuantes preocupou Menelau, fazendo-o sentir-se quase impotente para cumprir sua missão.

    Se a república era a força do progresso, quem conseguiria impedi-la de chegar ao Brasil? Entretanto, ele estava ali para descobrir uma conspiração. Existiria ela? Chegava a duvidar. Seus mandatários não estariam enganados?

    Os dias foram passando e Menelau, atento ao trabalho que lhe havia sido pedido, era habitual freqüentador dos cafés e das atividades dos seus colegas. Fora o prazer de estudar preparando tese para o doutoramento, tese que deveria durar o máximo de tempo possível. Menelau sentia saudades do Brasil, de Maria José, de Eduardo. Confortava-o pensar que pelo menos estava distante de Maria Antônia, a quem comunicara em carta sua decisão de. retomar os estudos, já que estava em Paris e não sabia quando voltaria.

    Recebeu da esposa uma carta zangada, ameaçadora, porém em breve a esqueceu. Sua vida passou a ser agitada e as noitadas repetiam-se. Aos poucos, foi fazendo amigos aos quais sempre se colocava como um revolucionário e inimigo da monarquia. Contudo, não conseguiu descobrir nada de especial, além dó entusiasmo franco e idéias republicanas generalizadas.

    O     tempo foi passando e Menelau já duvidava das informações que trazia. Uma noite em que conversava com seu amigo Jean-Paul, este notou:

    -       Você está triste esta noite, O que há, saudades da pátria?

    -       Saudades de uma mulher e, não posso negar, saudades do Brasil.

    -       Desse jeito você nem acabará os estudos.

    -       Não penso em voltar enquanto não cair o trono e a vergonha da escravidão. Vou confiar-lhe uma coisa. Saí do Brasil para não ser preso. Se pode guardar um segredo, eu fazia parte de uma conspiração.

    O     outro sorriu malicioso.

    -       Contra o regime?

    -       Claro. Revoltavam-me os desmandos e o elemento servil.

    -       Pelo que sei o seu imperador é tido como um grande homem e muito estimado pelo povo.

    -       Não nego, ele é respeitado, mas no governo precisamos ver o bem do povo. Nosso imperador está velho, até adoentado. É preciso sangue novo. Se ele morrer teremos uma mulher e um estrangeiro, seu marido, para ocupar o trono. Não posso aceitar isso. É preciso o próprio povo governar. A república é uma necessidade. Por essas idéias fui perseguido e resolvi partir para não ser morto. Gostaria de lutar para libertar meu país. Infelizmente, não possuo os meios. Meus amigos não são influentes. Por essa razão, não sei quando voltarei e isso me entristece.

    Jean-Paul olhou-o fixamente.

    -       Sabe que sou seu amigo. Tenho algumas amizades, são influentes. Republicanos, trabalham na libertação dos povos oprimidos e fracos. Talvez o possam ajudar. 

    O     coração de Menelau bateu forte. Seria a primeira pista? Respondeu emocionado:

    -       Estou disposto a dar até a última gota de sangue pela liberdade do meu país.

    O     outro sorriu satisfeito.

    -       Verei o que posso fazer.

    Menelau exultou. Dois dias depois, Jean-Paul convidou-o a uma reunião em casa de um amigo. Foi com o coração batendo forte que Menelau o acompanhou.

    Ia disposto a observar tudo quanto pudesse. Foram recebidos por um homem de meia idade, educado e sério, cujos olhos penetrantes pareciam querer devassar-lhe o íntimo. Menelau sustentou-lhe o olhar.

    -       Apresento-lhe o doutor Levin - disse Jean-Paul. Menelau curvou-se atencioso, apertando a mão que lhe era estendida. Convidado a sentar-se, o olhar de Levin não o abandonava um só instante. Um frio percorreu a espinha de Menelau. Apesar disso, não desviou o olhar.

    -       Estejam à vontade - disse ele, polidamente. - Seu amigo Jean-Paul disse-me que o senhor sentia-se triste e precisava de ajuda. Em que lhe posso ser útil?

    Apanhado de surpresa, Menelau, a princípio, não soube responder. Procurou controlar-se e, depois de alguns segundos de hesitação, disse:

    -       Meu mal é de difícil solução. Aqui neste país, onde já se conquistou a liberdade, talvez não possam compreender minha revolta com o regime do meu país, onde ainda pesa a mancha dolorosa da escravidão.

    Um lampejo brilhante passou pelos olhos de Levin.

    -       Engana-se, sr. Menelau. Nós podemos compreender, tanto que lutamos para defender e libertar os países escravos.

    -       Quisera também poder lutar - disse Menelau, com convicção. - Porém, só e distante, o que poderei fazer?

    Levin levantou-se dizendo:

    -       Junte-se a nós. Temos observado sua conduta desde que chegou a Paris e verificamos que possui as condições necessárias para ingressar em nosso grupo.

    Radiante, Menelau respondeu:

    -       Vejo que pensa como eu.

    - Todo nosso grupo pensa. Há muitos anos que nosso ideal de luta republicana nos irmana com amigos de outros países e, no mo mento, temos intenso movimento no Brasil, onde esperamos concretizar brevemente os ideais de liberdade.

    Menelau procurou deixar transparecer alegria. Não lhe foi difícil. porqüanto finalmente começava a trabalhar em sua missão.

    Dali, foi introduzido em um salão onde havia muitas pessoas quc palestravam animadamente. Vendo-os chegar, fizeram silêncio. Levin encaminhou-se para a mesa lavrada que havia a um lado, de frente para o largo grupo de cadeiras onde as pessoas acomodaram-se.

    Tomando a palavra, Levin apresentou Menelau como candidato a membro do grupo, desejoso de trabalhar pela libertação do Brasil. Foi saudado alegremente e logo percebeu alguns brasileiros que o convidaram a tomar assento entre eles. Procurando calar a surpresa. Menelau reconheceu pelo menos dois que militavam no Brasil. dentro do império, como homens de confiança da coroa.

    Durante a reunião, Menelau percebeu que se tinha metido em algo muito sério e perigoso, que colocava em risco sua própria vida Eles trabalhavam decididos e conspirava-se contra o regime da Inglaterra, da Espanha, do Brasil, de Portugal, do czar da Rússia e da Alemanha. Faziam reuniões semanais onde davam conta das tarefas e traçavam novos planos.

    Menelau começou a freqüentar essas reuniões e notou que o dinheiro corria e a organização era bastante poderosa, tendo se infiltrado em todos esses países. No Brasil, o grupo era bastante grande e havia políticos de nome engajados ao movimento. Até dentro do exército grassava o trabalho de politização republicano. A imprensa, abolicionista e republicana, apoiada pelo movimento, várias vezes socorreu-se da ajuda financeira da organização para poder sobreviver.

    O entusiasmo era geral e Menelau, que a princípio se havia colocado intimamente como salvador da pátria, começou, depois de certo tempo, a se sentir dividido.

    Através de bem urdida rede de espionagem. os membros do grupo que se reunia em casa de Levin, tomavam conhecimento de casos dolorosos que causavam revolta e alimentavam o desejo de liberdade.

    Aos poucos, Menelau começou a contagiar-se de revolta. Seus impulsos abolicionistas brotaram fortes, sinceros, fazendo-o esquecer que havia se tornado membro do governo do país cujos atos execrava.

     Seus chefes sabiam das reuniões em casa de Levin, aliás realizadas sem muitas reservas. Esperavam que Menelau descobrisse quem pagava e quais os membros que participavam no Brasil, traindo a coroa. Queriam os nomes dos conspiradores brasileiros e Menelau esquivou-se. Ë que começava a duvidar da justiça da sua missão, apesar do respeito e da amizade que sentia pelo Imperador.

     Começava também a perceber que os republicanos tinham acesos ideais de liberdade para os quais empenhavam-se com esforço e dedicação.

Arrependeu-se de haver se metido naquela situação. Colocara-se entre dois poderes que poderiam esmagá-lo. Agora que estava fora do país, podia ver o outro lado da situação. As notícias dolorosas sobre o elemento servil, o apoio dos escravocratas ao trono para negociar com ele a continuidade da escravidão, ameaçando-o com o poderio econômico e o prestígio dentro das classes abastadas, revoltava-o. fazendo-o perguntar-se intimamente se ele estaria agindo bem.

     Sua consciência o incomodava. O homem que o Imperador era, sua bondade, sua honestidade, sua dedicação seriam mais importantes do que o bem-estar de um povo? Do que a liberdade de uma raça escravizada e sofrida, a gemer na miséria e na dor seu triste destino? Por outro lado, não seria a república melhor do que a monarquia? Não daria ao povo a oportunidade de escolher e de participar do governo?

     Menelau, a cada dia, sentia-se mais impressionado. Dava-se conta do imenso progresso que grassava na França com efetivação republicana e só a lealdade com sua palavra empenhada ao Imperador o faziam continuar na missão. Porém, não tinha coragem de delatar os companheiros.

     Diante de tanto entusiasmo e idealismo, ele se sentia contagiado e a traição o abalava. Por que se envolvera?

     Às vezes, sentia impulsos de voltar ao Brasil alegando nada haver descoberto. Mas não seria também uma traição?

     Sabia que os dias da monarquia estavam contados. Tinha essa certeza pelo entusiasmo e pelas adesões com que o movimento contava no Brasil. Depois, na França, ninguém duvidava de que a República viria, e na América do Norte o regime se mostrava poderoso e forte. Seria fatal.

Menelau desejava voltar. Seus contatos o pressionavam, sabendo-o participante das reuniões de Levin. Ele contemporizava. Não tinha o estofo de um delator. Por outro lado, reconhecia que o Imperador confiava e esperava. O que fazer?

    Foi ficando preocupado, triste. Em meio a essa tristeza, só uma carta de Eduardo tivera o dom de alegrá-lo. Contara-lhe que visitara Maria José e conseguira dela a confissão esperada. Romualdo era seu filho! Pedia-lhe para queimar a carta depois de lê-la. Depois dessa notícia, ele sentiu uma nova força aquecer-lhe o coração. Enquanto as chamas destruíam a carta de Eduardo, lágrimas comovidas corriam-lhe pelas faces.

    Dominada a primeira emoção, Menelau escreveu a Eduardo agradecendo as notícias e recomendando continuasse a olhar pela sua família. As notícias do Brasil não eram boas. O Imperador, doente, afastara-se do governo e fora substituído por sua filha. Esse fato fez aumentar a pressão no Parlamento brasileiro e novas adesões ao movimento republicano de nomes importantes do Império confirmavam para Menelau a mudança próxima do regime.

    As idéias republicanas começavam já a entusiasmá-lo. Ele também já se perguntava até que ponto seria válido apoiar-se um homem bom em desfavor do progresso e do bem do país.

    Entretanto, sua honra de cavalheiro o impulsionava a não trair o compromisso assumido. Chegando a esse ponto, Menelau decidiu voltar ao Brasil. Procurou seu contato e alegou que sabia o bastante e desejava regressar. Havia um ano que estava fora e não podia demorar-se mais. Daria contas de sua missão ao próprio Imperador. Obteve a permissão.

    Aos companheiros republicanos, Menelau declarou que problemas famíliares o obrigavam a regressar. Marcada a viagem de volta. foi chamado por Levin.

    - Queremos incumbi-lo de um trabalho especial no Brasil.

    Menelau estremeceu. Como dizer-lhe que não podia fazer isso? Como dizer-lhe que estava ali como espião? Sua honestidade não aceitava esse papel. Segurou o braço de Levin e disse triste:

    - Sr. Levin, a bem da verdade devo dizer-lhe que pretendo não me envolver mais com política no Brasil. Não tenho condições de assumir o que me pede. Para regressar fui forçado a prometer que não tomarei parte em nada contra o Império. Sabe que fui banido. Temo pela segurança da minha família. Foram elês que conseguiram permissão para meu regresso. Por isso, peço-lhe que me desobrigue de qualquer tarefa.

    Os olhos de Levin apertaram-se fixando-o, firmes.

    -       O senhor parecia-me muito ardoroso, até aqui. O que o fez mudar de idéia?

    -       Continuo com o mesmo ideal - mentiu Menelau. - Problemas particulares me obrigam a voltar e para isso preciso retirar-me da vida pública, ater-me unicamente aos meus negócios. Assim sendo, não gostaria de assumir nenhum compromisso.

    -       Não deve desistir agora. Está envolvido demais. Sabe muito sobre os nossos negócios.

    -       Quanto a isto, pode estar seguro. Jamais contarei a ninguém o que presenciei aqui.

    Ele continuou a fitá-lo sério e indagou:

    -       Tem certeza de que é isto o que deseja?

    Menelau sentiu um arrepio pela espinha mas respondeu, sem pestanejar:

    -       É. Quero deixar tudo isso, viver com minha família, esquecer a política.

    -       Seja como deseja - respondeu Levin.

    Quando se viu na rua, Menelau respirou com gosto. Estava livre! Agora, só lhe restava regressar ao Brasil e dizer ao Imperador nada haver descoberto. Seria sua libertação definitiva daqueles compromissos que nunca deveria ter aceito.

    Entusiasmado, ultimou os preparativos para a volta. Estava feliz. Comprou presentes para a esposa, para o amigo, para o irmão, para Maria José e as crianças, escolheu com especial carinho o de Romualdo. Seu coração bateu forte. Ele era seu filho! Quando chegasse ao Brasil, iria visitá-los. Mesmo que rapidamente, queria conhecer o filho, mesmo que depois nunca mais os procurasse.

    Menelau preparou tudo com o coração cantando de alegria. Com euforia despediu-se dos amigos partindo para o Havre onde deveria tomar o vapor dali a dois dias. Sentia-se impaciente e saudoso, contava as horas que faltavam para estar em casa.

    Mandou a bagagem para o navio e, quando se dirigia para o embarque, dois homens tomaram-lhe o braço, um de cada lado, enquanto um deles lhe dizia:

    -       Continue andando. Um gesto em falso e eu o mato.

    Menelau sentiu a ponta aguda da faca embaixo da sua costela.

    -       O que querem? - murmurou, assustado. - Se é dinheiro, posso dar-lhes o que tenho. Deixem-me em paz.

    -       Não queremos seu dinheiro, mas temos algo para os traidores como você.

    Menelau empalideceu. Não se tratava de ladrões vulgares, mas de homens de Levin.

    -       Enganam-se, por certo - disse corajosamente. - Não traí ninguém.

    -       Cale essa boca e vamos andando.

    Menelau, assustado, obedeceu. Estava em apuros, sabia disso. Estavam no cais. Levaram-no a uma barcaça aparentando ser de transporte de pescado pelo cheiro forte que revoltou o estômago de Menelau. Trancaram-no em apertada cabine. Sentiu-se desesperado. Eram os homens de Levin, tinha certeza. Ele não os traira nem pensava em fazê-lo e isso era injusto. Bateu, gritou, chamou, até que um marinheiro entreabriu a porta dizendo:

    -       Se não se calar, quebro-lhe o pescoço. Tenho ordens para isso.

    Ele cheirava a álcool e Menelau percebeu que falava sério. Calou-se. Os outros dois teriam ido embora? Aflito, ele pensava no navio que partiria na manhã do dia seguinte e sentia um frio no coração. Precisava fugir e alcançá-lo de qualquer forma.

    O     marinheiro fechou a porta com raiva. Menelau sentou-se no banco tosco que deveria servir de cama e estava coberto por pequeno e sujo colchão, lutou contra o desânimo e o desespero que o acometeram. Precisava conservar o sangue frio. O descontrole não o ajudaria em nada. Foi aí que começou a pensar em sua ingenuidade. Havia procurado seu contato e conversado. Teria sido seguido? Levin por certo teria tomado suas precauções. Menelau passou a mão pelos cabelos, num gesto desesperado. Por que confiara nele? Ingenuamente fornecera-lhe as provas de sua posição dúbia. Necessitava falar com ele, contar-lhe que não os traíra. Contudo, ele acreditaria? Seu olhar duro, penetrante voltava-lhe agora à mente e ele reconhecia que fora ingênuo pretendendo sair de seu reduto. Sua vida corria perigo. Reconhecia que fora longe demais para recuar. Conhecia todos os envolvidos na conspiração que atuavam no Brasil. Se falasse, muitos deles seriam presos, abrindo larga brecha no movimento.

    Menelau arrependeu-se novamente de haver-se metido nisso. Logo ele, que não se interessava por política. Agora estava enterrado até as orelhas. O que fazer?

    O     tempo passava e ele não sabia se era dia ou noite. Notou que o barco começou a jogar mais e sua angústia aumentou. Eles estavam

zarpando. Aflito, sem saber o que fazer, lembrou de Eduardo e resolveu orar. Os bons espíritos poderiam ajudá-lo. Sentando no banco estreito do cubículo, Menelau suplicou a ajuda de Deus. Lágrimas corriam-lhe pelas faces e ele orava sentidamente, reconhecendo-se inocente. Não atraiçoara ninguém. Se Deus o ajudasse naquela hora difícil, dali para frente haveria de dedicar-se de corpo e alma à ajuda do próximo, e nunca mais meter-se em política. Depois disso, sentiu-se um pouco mais calmo. Lembrou-se das palavras do espírito de sua mãe, na última sessão em casa do Sampaio. Que ele tivesse fé, fossem quais fossem as lutas que tivesse que enfrentar. Suspirou fundo. Deus estava no leme de tudo. Naquele momento entregava-lhe seu destino.

    O     tempo foi passando e Menelau apenas sentia o enjôo, o mal-estar, a ansiedade. Pelo movimento sabia que o barco estava andando. Para onde o levariam?

    Quando o marinheiro abriu a porta, Menelau tentou conversar:

    -       Onde estamos? Que barco é este?

    O     homem olhou-o carrancudo e nada respondeu. Menelau insistiu:

    -       Houve um engano. Posso explicar tudo - disse.

Cale-se - respondeu ele. - Não tenho ordem de dizer-lhe.

    -       Para onde me levam?

    -       Trouxe-lhe essa garrafa com água e pão.

    -       Estou enjoado, não posso comer.

    O     homem deu de ombros. Apesar de não parecer embriagado, cheirava a álcool, aumentando o mal-estar de Menelau.

    -       Trate de comer, porque a viagem é longa - disse com indiferença.

    -       Eu gostaria de respirar um pouco de ar fresco.

    -       Contente-se com o pão. Ë só o que posso fazer.

    Saiu fechando a porta. Menelau sentiu o estômago revoltar-se. Estirou-se no banco que lhe servia de leito, desanimado. Queria sair, ver o barco, as pessoas; respirar. O cheiro de mofo que havia ali enjoava-o ainda mais. Deixou-se ficar estirado no banco entre o desânimo e a ansiedade. Apesar de tudo, sentia muita vontade de viver e não queria perder as forças. Por isso, devagar e lentamente ingeriu pequenos pedaços de pão. Sentiu-se ligeiramente melhor depois disso.

    Tentou analisar os fatos. Se planejassem matá-lo, fácil lhes teria sido fazê-lo. Estivera e ainda estava à mercê deles. Se ao menos pudesse respirar um pouco de ar fresco! Exasperar-se não lhe traria nenhum benefício. Fez um esforço sobre-humano para acalmar-se um

pouco. Foi assim que conseguiu dormir durante algumas horas. Quando acordou, sentiu-se melhor. Comeu mais um pedaço de pão e tomou a água.

    O     tempo foi passando e Menelau não sabia se era dia ou noite. Tinha conseguido do seu carcereiro, além de mais pão, pedaços de peixe e de queijo. Zelava pela sua saúde porque queria estar menos mal para aproveitar a chance de fugir. Guardava essa esperança.

    Havia perdido a noção do tempo. Até que, finalmente, o carcereiro apareceu e, amarrando-lhe os pulsos, disse com voz forte:

    -       Vamos embora. Chegamos ao seu destino.

    Menelau sentiu o coração bater mais forte. Levantou-se. Sua cabeça rodava, as pernas tremiam.

    -       Vamos - insistiu o homem, empurrando-o com brutalidade. Menelau fez um esforço enorme para andar. Os ouvidos zumbiam e ele sentia tonturas, mas o anseio de respirar o ar de fora ajudou-o a seguir para frente. Saíram no convés. A tripulação movimentava-se de um lado a outro e ele, surpreendido, notou que havia mais prisioneiros iguais a ele, sendo conduzidos para fora do barco. Eram mais de dez e todos com as mãos amarradas.

    Ansioso, Menelau tentava perceber onde estavam, sem resultado. O ancoradouro era tosco e o local parecia uma ilha deserta. Colocaram os prisioneiros, dividindo-os em dois botes conduzidos por dois homens fortes. Enquanto remavam, havia um outro marujo apontando uma arma. Olhou seus companheiros de infortúnio: todos estavam como ele, sujos, abatidos, e mareados. Obedeceram docilmente às ordens.

    Chegaram à terra e, dentro em pouco, alguns homens armados apareceram. Os marujos os entregaram àqueles homens e um deles comentou:

    -       Desta vez a carga não foi muito grande.

    -       Não é de se jogar fora - respondeu o outro.

    -       Está bem. Vamos andando.

    Apesar da ansiedade, Menelau respirava gostosamente o ar puro, procurando recompor as forças. O grupo pôs-se a caminho. Mesmo sendo final de tarde, o sol ainda estava muito quente, e a maioria dos prisioneiros, muito abatidos. À medida em que se distanciavam da praia, foram aparecendo pequenas habitações de pescadores, rudes, toscas.

    Finalmente chegaram. Menelau olhou para a enorme construção, rodeada por um muro alto e cheia de pontiagudos cacos de vidros no

topo, com um aperto no coração. Por certo era uma prisão. Uma enorme prisão, muito bem guardada e da qual ser-lhe-ia muito difícil sair. Os prisioneiros olharam-se com tristeza e angústia.

    - Adiante - berrou o enérgico comandante do grupo.

    Quando o enorme portão de madeira, empurrado por dois homens armados até os dentes, se abriu, Menelau sentiu aumentar seu receio. Entraram no pátio enorme.

    O entardecer, aos poucos, se transformava e a noite já começara a estender seu manto sobre os homens. O chefe do grupo desmontou e, fixando os prisioneiros com energia, disse-lhes:

    - De hoje em diante, viverão aqui para sempre. Ninguém pense em fugir, porque será inútil. Estamos em uma ilha distante e mesmo que alguém conseguisse sair daqui, o que duvido, morreria no mar pois os tubarões rodeiam a ilha e estão sempre com fome. Jamais alguém conseguiu escapar. Por isso, o melhor que têm a fazer é aceitar seu destino. Há muito trabalho a fazer. Poderão descansar amanhã e depois começarão a trabalhar. Saberemos reconhecer os que souberem obedecer, mas quem se revoltar será colocado a ferros e morto como exemplo. Podem ir.

    Ninguém disse nada. O desânimo, a fraqueza e a certeza da própria inutilidade os impediu de falar. Baixaram a cabeça e deixaram-se conduzir por um corredor sombrio através do qual foram sendo distribuídos em duas celas diferentes.

    Menelau percorreu com o olhar a sala estreita, escura, malcheirosa. Um calafrio percorreu-lhe o corpo e um sentimento ainda mais angustioso envolveu-Lhe o coração.

    Deixou-se cair sobre um dos colchões que havia no chão. Sua cabeça rodava e de seus olhos cansados algumas lágrimas tristes começaram a rolar. Sentia-se impotente para lutar, nada podia fazer senão entregar-se ao seu doloroso destino.

 

    A tarde ia-se em meio e o calor era intenso. Sentada na varanda, Maria José sentia-se triste e pensativa. Recordava Menelau com acentuada saudade. Apesar de amá-lo, continuava a ser a esposa dedicada e diligente de sempre, muito embora os problemas de seu relacionamento com Demerval estivessem cada vez mais difíceis.

    O marido havia se modificado bastante. Já não era mais o tirano dos primeiros tempos mas, se transigira em alguns pontos, mostrava-se irredutível em outros e muito teimoso.

    Nunca mais conseguira ser o mesmo de antes. Contudo, era-lhe ainda difícil ouvir e acatar as idéias da mulher, cujo bom senso e simplicidade eram acentuados.

    Maria José estava cansada daquela vida. Raros eram os momentos em que podia desfrutar de paz e de satisfação íntima. Às vezes, sentia vontade de sair dali, largar tudo e ir viver em outro lugar, mas o que fazer? Reconhecia ser impossível.

    Passavam grande parte do tempo na fazenda, porque Demerval sentia-se melhor lá. Mas agora estava na Província, onde procediam à venda do café, da cana e compravam o necessário. Possuíam em Itu bela casa. Era construída no centro de lindo jardim, rodeada de belas árvores. Apesar da linda paisagem que a circundava, Maria José não conseguia sentir-se feliz.

    Naquele instante, teve sua atenção voltada para Romualdo que abraçava-lhe as pernas deitando a cabecinha delicada em seus joelhos.

    - Mamãe, vem - pediu ele, segurando-lhe a mão, querendo puxá-la.

    Os olhos de Maria José o fixaram com imenso carinho. Levantou-se e deixou que o menino a arrastasse pelo jardim. Ele estava bonito e grande, observou ela. Completara cinco anos. O que pensaria Menelau se o pudesse ver? Era um garoto vivo e inteligente.

Menelau! Nunca mais tivera notícias. Teria morrido? Sentiu o coração bater descompassado a esse pensamento. Romualdo a conduzia, alegre. A Zita apareceu juntando-se a ele. Romualdo adorava brincar no jardim e a Zita era sua companheira de brinquedos. Tinham a mesma idade, tendo ela nascido três semanas depois do que ele. Maria José afeiçoara-se a Zita tanto quanto gostava de seus pais. Levava-os sempre para a cidade. Claro que a Zefa era insubstituível mas Maria José gostava também do Bentinho. Era homem de opinião e adorava Maria José. Era capaz de tudo para agradá-la. O amor e a deferência que ela tinha pela Zefa e pela sua filha Zita, mais faziam aumentar o amor do Bentinho, conquistado quando ela lhe deu chance de viver com a Zefa e trabalhar na casa-grande. Bentinho tinha se revelado trabalhador dedicado.

    Se antes era arredio e só fazia o indispensável, agora era diligente e pronto esforçando-se para agradar sua sinhá. Maria José, por sua vez, aprendera a apreciar o Bentinho e a recorrer a ele nos casos de doenças da família. O negro era um benzedor de primeira. Muitos doentes haviam sido curados com suas benzeduras. Às vezes, ele via o futuro e fazia algumas premonições que se realizavam e isso o colocara como um curandeiro de prestígio não só entre os outros escravos como entre os brancos.

    Apesar de gostar de exercer essas atividades, Bentinho só fazia o que sua sinhá permitia. Não queria que ela se aborrecesse.

    -       Mamã, olha o Nequinho! Ele vai fugir, vamos atrás dele.

    Romualdo saiu correndo com a Zita atrás do Nequinho, um leitãozinho que estavam criando para as festas. Mesmo na cidade, eles tinham sempre um no cercado do fundo do quintal. Nequinho escapara e as crianças pretendiam pegá-lo.

    Maria José parou, olhando-os pensativa. Lembrou-se de Menelau Funda tristeza a acometeu.

    -       Sinhô Menelau tá vivo!.

    Maria José assustou-se. Bentinho estava na sua frente, segurando a enxada com a qual arrumava o jardim.

    -       Por que diz isso? - inquiriu ela, num fio de voz.

    -       Num sei, sinhá. Tive vontade de dízê. Sinto dentro do meu coração que sinhô Menelau num morreu.

    Preocupada, Maria José perguntou:

    -       Que mais você vê? Por que ele não manda notícias?

    O     Bentinho fechou os olhos durante alguns instantes, depois disse:

    -       Vejo ele longe, muito triste e magro, com muita saudade. Parece que num pode voltá. Num sei pru quê. Mas ele tá vivo. Isso eu sei.

-           Deve ter acontecido alguma coisa grave. Bentinho, faça sua reza. Estou muito triste. Sinto que algo ruim aconteceu com ele. Faça sua reza. Ele precisa voltar. Aqui é sua terra, sua gente. Ele pode estar doente.

    Maria José sentia-se muito aflita. O negro olhou-a com firmeza.

    - Sinhá manda, Bentinho obedece. Esta noite mesmo vou chamá meus amigos e rezá. Vô fazê de coração.

    - Deus lhe pague, Bentinho. Confio na sua reza.

    Maria José afastou-se e Bentinho a seguiu com olhos de adoração. Naquela noite mesmo atenderia o pedido da sua sinhá.

    Os dois dias que se seguiram foram calmos e sem novidades. Maria José estava irritada, nervosa. Demerval mostrava-se intransigente na efetivação de alguns negócios. Haviam realizado boas vendas e recebido bom dinheiro com a exportação de café. Ela desejava empregar parte desse dinheiro na melhoria da fazenda, modernizando seu mecanismo de trabalho, saneando e melhorando as habitações dos escravos e peões.

    Demerval era contra. Por que teria que gastar seu dinheiro com aquela corja? Se atendesse sua mulher, logo escravos e colonos teriam comida e casa de branco. Ela era uma perdulária.

    Maria José não se conformava. Discutiram e Demerval, que esperava ser obedecido, foi forçado a admitir que sua mulher não mais o atendia. Ela mostrou-se irredutível. Argumentou que, melhorando a vida dos escravos e dos colonos, melhoraria a produção e que eles eram responsáveis pelas doenças e mortes que acontecessem lá por causa da má alimentação e da falta de higiene.

    Demerval ficou furioso. Não podia acreditar. Sua mulher! Devia-lhe obediência e apreço, ousava enfrentá-lo. Irritado, gritou:

    - Farei como eu quero. Comprarei terras e ouro. Acho melhor não intrometer-se em negócios de homens e cuidar de suas mucamas na cozinha.

    Maria José levantou-se, furiosa.

    - Pois eu não aceito isso. Sou sua mulher. Não quero que você faça isso. Se insistir, não olho mais na sua cara e não falo mais com você.

    Demerval ficou vermelho de raiva. A audácia da mulher, enfrentando-o, tirava-lhe a fala. Fez um esforço para reagir mas de repente, sentiu-se muito mal. Um zumbido na cabeça, uma tontura, o estômago enjoado. Estaria doente de novo? Assustou-se. De vermelho fez-se pálido e sentou-se em uma cadeira. Maria José nada disse, olhando-o séria. Ao cabo de alguns minutos, ele disse com voz sumida:

    - Estou passando mal! 

    -       Acalme-se - respondeu ela. - Você não deve irritar-se tanto.

    -       Se sabe disso, por que faz tudo para contrariar-me? Está se aproveitando por causa da minha doença!

    -       Acalme-se - repetiu Maria José, procurando controlar a raiva. - Se não fosse tão teimoso, veria que tenho razão

    Demerval passou a mão pela testa molhada de suor.

    -       Não posso discutir - disse, com voz fraca. - Ai, Deus meu, a que ponto fiquei reduzido!

    -       Não acho justo você se queixar. Deveria agradecer a Deus sua saúde. Tem passado muito bem. Seu mal-estar sempre aparece quando você quer impor sua vontade e brigar.

    -       Quando sou contrariado e desautorizado em minha própria casa, por minha própria mulher - murmurou ele, com voz trêmula.

    -       Vou mandar a Zefa fazer um chá.

    Demerval assentiu com a cabeça e Maria José embarafustou para a cozinha. Ele tomava seu chá com olhos tristes quando Eduardo entrou na sala. Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito.

    -       Foi Deus quem o trouxe por aqui.

    Demerval nutria por Eduardo admiração e respeito. Embora nem sempre entendesse bem o que ele dizia, sempre melhorava quando ele aparecia e, no fundo, pensava que ele possuía um dom de cura, graças ao qual se tinha recuperado da difícil moléstia que o acometera.

    Eduardo abraçou-o com cordialidade.

    -       As saudades trouxeram-me a esta casa. Pelo que vejo, o amigo está muito bem.

    -       Nem tanto, senhor Eduardo, nem tanto. Tenho sofrido muito...

    Eduardo fixou-lhe os olhos com energia, enquanto dizia com leve sorriso:

    -       Vamos cultivar a alegria, sr. Demerval. Só ela pode nos ajudar na conquista do equilíbrio e da saúde. A queixa apenas piora o quadro das nossas necessidades. É preciso reconhecer que o senhor goza de otima aparência e parece-me que tudo por aqui vai indo muito bem. Não será ingratidão manter o desânimo depois de receber tantas bênçãos?

    Demerval olhou-o, surpreendido.

    -       Pensa mesmo que estou bem? Ainda agora, com o desgosto que minha mulher me deu, quase desfaleci.

    -       Por que não cede um pouquinho aos desejos de dona Maria José? Afinal, ela é uma mulher admirável, de rara inteligência e que o tem cercado de atenções e carinho.

    -       Sou um homem! Como posso ser conduzido pela mulher? Ao marido cabe cuidar dos negócios da família. Mas ela não cede. Quer fazer tudo a seu modo.

    -       Dona Maria José tem muito jeito para administrar. O que fez na fazenda foi maravilhoso. Não concorda?

    Demerval balançou a cabeça.

    -       Devo admitir que ela trabalhou bem. Mas agora, que estou bom, sou eu quem deve resolver esses assuntos. Foi Menelau quem a destrambelhou. Deu-lhe asas. Agora, ela não quer ceder.

    Maria José entrou e, sorrindo, dirigiu-se a Eduardo.

    -       Senhor Eduardo, que alegria!

    Eduardo curvou-se, beijando-lhe a mão delicada. A conversa continuou amável e o coração de Maria José batia descompassado. A presença dele recordava-lhe mais Menelau.

    Demerval sentiu-se mais calmo e já as cores haviam voltado a suas faces, enquanto, sentados, os três conversavam.

    -       Além das saudades, outro assunto me traz aqui.

    -       Qual é? - indagou Maria José, com o coração aos saltos.

    -       O desaparecimento de Menelau. Nunca me conformei.

       Morreu, com certeza - ajuntou Demerval. - Morreu ou sumiu para fugir da mulher. Ela é intratável!

    -       Não diga isso, Demerval. Não vamos pensar no pior. Claro que ele deve estar vivo! Quem sabe impossibilitado de voltar!

    -       Pode ser - tornou Eduardo, pensativo. - Também não creio que tenha morrido. Se isso tivesse acontecido, teríamos tido notícias de um modo ou de outro.

    -       O que pode ter acontecido? - indagou Maria José.

    -       Aconteceu um fato novo. Um amigo meu tem investigado seu desaparecimento e conseguiu descobrir que Menelau comprou passagem de volta no dia 9 de junho de 1885, despediu-se dos amigos em Paris e viajou para o Havre. Conseguir ainda saber que Menelau despachou sua bagagem no navio Britânia é foi aí que a pista se perdeu. Se ele comprou passagem e embarcou a bagagem, por que não foi para bordo?

    -       Teria morrido em viagem? - aventou Demerval.

    -       Não creio. Se ele tivesse embarcado, seu nome teria sido anotado a bordo. Eles sempre fazem isso. Têm o de todos os passageiros. O nome dele não consta.

    -       Não seria um engano? Ele teria comprado mesmo essa passagem?

    -       Quanto a isto, não tenho dúvida. Meu amigo esteve lá, reconstituiu todos os passos de Menelau. Seu nome consta como tendo comprado passagem. Depois que descobri isso, fui aos armazéns do porto e localizei a bagagem. Realmente, lá estava.

    Maria José levantou-se um tanto pálida.

    -       Encontrou mesmo?

    -       Sim. E como era meu dever, procurei dona Maria Antônia para retirá-la. Ela surpreendeu-se muito e acompanhou-me ao porto.

    -       Como está ela? - indagou Demerval, curioso.

    -       Parece muito bem. Disse-me que acredita que Menelau esteja morto. Já vestiu luto, espera apenas que sua morte seja oficialmente reconhecida. Não lhe agrada a situação indefinida em que se encontra. Concordou em acompanhar-me para ver se descobria alguma pista que lhe confirmasse a morte do marido. Lá mesmo, pediu aos homens do depósito que abrissem os baús e rapidamente vistoriou tudo, remexendo. Encontrou um pacote onde estava escrito "A dona Maria Antônia", abriu-o e encontrou alguns objetos de adorno, cortes de seda.

    -       "Levarei apenas isto - disse-me, calma. - O resto, jogue fora, faça o que quiser. Não vou levar para casa essas tranqueiras.

    -       Posso levar para minha casa? - indaguei. - Ela balançou a cabeça afirmativamente:

    -       Faça o que quiser.

    -       Há outros pacotes para o resto da família.

    -       Não tenho contato com eles. Não mantemos relações.

    -       Muito bem. Então providenciarei tudo." Assim fiz. Mandei a bagagem para minha casa. Lá estão suas roupas, seus objetos de uso. Tomei a liberdade de trazer os pacotes que lhes pertencem. Estão em minha bagagem. Se quiserem o resto, poderei mandar. Se preferirem, posso guardar. Tenho certeza de que Menelau ainda vai regressar.

    Maria José estava excitada. Depois de tantos anos, eis que, de repente, as notícias começavam a aparecer.

    -       Estou curiosa - disse ela, procurando dominar a impaciência.

    -       Vou apanhar tudo. Com licença.

    Maria José o acompanhou.

    -       Sua bagagem já está no quarto de hóspedes. Venha comigo - disse.

    Assim que se viu longe de Demerval, ela continuou, emocionada:

    -       Rezo todas as noites por Menelau. O que lhe teria acontecido? Por que não embarcou naquele navio?

    -       Tenho suspeitas, porém nada posso afirmar, O que sei é o que ele me escreveu em sua última carta. Queria voltar, não suportava mais as saudades.

    Foi com lágrimas nos olhos que Maria José segurou o pacote caprichosamente embrulhado em lindo papel colorido e amarrado com um laço de fita. Seu nome estava escrito delicadamente a um canto e ela reconheceu a letra bem feita e inesquecível do cunhado.

    Eduardo colocou outros pacotes sobre a mesinha. Não esquecera ninguém. Para Ana, Rosa, Adalberto e Romualdo. Havia um para Demerval e até para a Zita e a Zefa. Só Menelau pensaria nos escravos de estima de casa. Os olhos de Maria José encheram-se de lágrimas.

    -       Desculpe-me, sr. Eduardo. Não posso conter-me.

    -       Eu também senti a mesma coisa quando apanhei estas coisas e vistoriei sua bagagem. Não devemos desanimar, dona Maria José. Deus é bom. Ele está vivo em algum lugar e, por certo, algum dia voltará.

    -       A reza do Bentinho! Foi a reza do Bentinho!

    -       O que foi?

    -       Foi ele. Me garantiu que Menelau está vivo. Prometeu fazer uma reza daquelas para trazê-lo de volta.

    -       Quando foi isso?

    -       Há dois ou três dias.

    -       É, o Bentinho tem muita força. Eu estou com essas notícias já há uma semana, mas não podia vir aqui agora, mas faz dois dias que não conseguia pensar senão na senhora. Eu pretendia vir daqui a duas semanas, porém não consegui resistir. Senti forte impulso de vir aqui. Sequer pensei no Bentinho. Então, foi ele!

    -       Ele?

    -       Sim. Ele que apressou minha viagem. Depois quero falar com ele. Juntos talvez cheguemos à verdade.

    Maria José ficou radiante.

    -       Claro. Por certo chegaremos!

    -       Meu amigo continua investigando. Tem pessoas de confiança na França que continuam a busca.

    Maria José suspirou fundo.

    -       Deus queira que possamos encontrá-lo.

    Demerval já se sentia refeito quando eles retornaram à varanda. Maria José, mais animada pela presença de Eduardo, estava falante e atenciosa. As crianças fizeram tanto alarido com os presentes do tio que Demerval as mandou sair dali, para poderem continuar a conversar. À tarde, enquanto DemervaL descansava, Eduardo procurou pelo Bentinho. O negro alegrou-se ao vê-lo.

    -       Deus abençõe sinhozinho - disse, contente.

    -       Obrigado Bentinho. Como vai você?

    -       Bem, sinhô.

    Eduardo foi direto ao assunto.

    -       Você acha que sinhô Menelau está vivo?

    -       Acho sim, sinhô.

    -       Por quê?

    -       Num sei. Só sei que ele tá vivo. Isso eu posso inté jurá.

    -       Dona Maria José pediu que você rezasse para ele voltar. Você rezou?

    -       Rezei muito sim, sinhô. Mas a única coisa que pude sabê éque ele tá vivo. Como e onde num sei. vi ele magro, muito triste, num lugá pequeno, vi mar, vi um grande castelo, diferente dos da província. Parece que ele num pode saí.

    -       Estará preso? Essa idéia já me ocorreu.

    -       Penso que é isso sim, sinhô.

    -       Bentinho, precisamos ajudar Menelau com nossas orações. Vamos pedir aos bons espíritos que o ajudem a sair.

    -       Vamo sim. Hoje de noite vô fazê uma reza especiá.

    -       Vamos fazer juntos. Posso ajudar.

    -       Sim, sinhô. Vamo consegui.

    -       Com a ajuda de Deus.

    -       Tenho esperança.

    Os dois combinaram encontrar-se quando todos estivessem recolhidos para fazer a prece; convidariam Maria José também.

    Eram nove horas e a casa toda dormia quando os três se reuniram em pequena sala da casa. Demerval dormia e sequer notou a saída de Maria José. Os três sentaram-se e Eduardo fez sentida prece pedindo ajuda de Deus para Menelau enquanto que o negro caía em sono solto, cabeça pendida sobre o peito.

De repente, Maria José sentiu vontade de sair dali, de correr, de gritar, conteve-se a custo. Precisava rezar por Menelau e procurou estorçar-se para isso. Porém a emoção de terror e de revolta brotou forte dentro dela. Eduardo levantou-se e disse-lhe, calmo:

    -       Não tema. Se sentir vontade de falar, não segure. Seja o que for, fale. A senhora está sob ação de um espírito.

    Maria José não mais se conteve:

    -       Deixem-me sair - disse com voz irritada. - Você não pode prender-me aqui.

    -       Só quero alguns esclarecimentos.

    -       Não os darei. Sei de tudo, mas eles vão penar mais do que eu penei. Assim eu quero. Estarei vingada!

    -       O ódio é doença perigosa. Fere mais a quem o sente.

    -       Como se eu não estivesse ferida! Não vê como me encontro?

        - A voz de Maria José era amargurada e rancorosa. - Por acaso sabe o que eles fizeram comigo? Meu ódio há de persegui-los para sempre.

    -       Eu gostaria de ajudar você. A quem se refere?

    -       A todos eles. Ao esposo traidor e infiel e a mulher sem alma que mo roubou! Eu os vi juntos! Apesar de tudo, eles ainda se amam. Mas hei de separá-los para sempre. Nunca mais hão de ver-se, nunca mais!

    -       Se eles se amam por que não os deixa em paz? Você está no mundo dos espíritos e não deve interferir na vida de pessoas que, na Terra, lutam para vencer suas provas.

    -       Quando eles reencarnaram fiquei vigilante. Tudo ia bem. Ela casou com Ulisses, a quem tinha abandonado por causa dele.

    -       Quem é Ulisses?

    -       É Demerval, não sabe? Ulisses é Demerval agora, mas continua o mesmo prepotente de sempre. Eles casaram e eu fiquei sossegada. Embora ele fosse irmão de Raul, não se davam bem.

    -       Quem é Raul?

    -       Não sabe que é Menelau? Meu Raul, esposo traidor e cruel, agora é Menelau. E ela, a mulher pecadora e leviana, Isabel que eu odeio, é Maria José. Você não sabe! Eles fugiram juntos, abandonaram tudo. Eu tinha cinco filhos e ela o tirou de mim. Passamos fome, privações. Eu adoeci, não vê meus pulmões como estão? Meus filhos ficaram órfãos por causa deles. vi o sofrimento deles, sem pai ou mãe nesse mundo cruel! Como pede que não odeie? Enquanto ficaram separados, eu suportei, mas quando os vi juntos, todo meu ódio reapareceu, ganhou força!

    -       Procure compreender! A atração deles foi forte, mas eles reagiram. ela cumpre seus deveres de esposa e mãe, ele também.

    - Não suportei os pensamentos deles. Amam-se, apesar de tudo. Antes de voltar à Terra ele parecia tão arrependido! Nossa filha, Antonieta estava muito mal. Pobrezinha, órfã havia se apegado ao dinheiro, ao poder, conquistara homens poderosos, cometeu desatinos, mergulhou no erro e nos vícios. Ele se propôs a ajudá-la a recuperar sua paz.

Quem é Antonieta?

    -       É Maria Antônia não vê? Ele casou com ela e fiquei sossegada. Estava cumprindo sua promessa. Haveria de reconduzi-la ao bom caminho. Mas qual! Quando encontrou-se com Isabel. perdeu a cabeça.

    Eduardo, emocionado, orava comovidamente. Aquela sofrida criatura precisava perdoar. Pediu a Deus que o inspirasse.

    -       Sabe o que foi para mim vê-los juntos de novo? Eu tinha acreditado nela. Havia perdoado Isabel quando ela prometeu ajudar meus filhos e recebê-los como seus, dando-lhes amor e se dedicando a que eles pudessem ter tudo quanto lhes havia sido tirado. Acreditei nessa mentirosa até que os vi juntos de novo, aos beijos, sem se lembrarem dos compromissos. Sei que, se eles se encontrarem, farão tudo de novo! Por isso, quero ele longe. Nunca mais ele voltará. Não deixarei.

    -       Você não confia em Deus?

    Maria José pareceu hesitar.

    -       Confio, um pouco.

    -       Não acha que ele faz tudo certo?

    -       Acho, mas no meu caso, as pessoas são fracas. Deus não tem nada com isso. Deixe-me ir embora, agora que eu já disse tudo.

    -       Espere um pouco mais. Ë verdade que eles fraquejaram, mas depois, eles lutaram, reagiram. Não abandonaram seus compromissos. Quem pode saber se eles iriam mesmo fracassar? Agora, estão mudados. Embora se amem, não largaram as obrigações. Você está sendo precipitada.

    -       Não quero correr o risco. Preciso defender meus filhos. Eu ainda não pude renascer. Não obtive permissão. Porém, estou vigilante!

    -       Perdoe e tudo será melhor. Ninguém pode ajudar conservando ódio no coração. Maria José cria seus filhos com todo amor. Agora são dela também. Menelau procurou ser bom para Maria Antônia. Deixe-os seguir seu próprio caminho. Perdoe e assim poderá ajudar de verdade. Liberte Menelau. Deixe-o voltar. Eu falarei com ele, lembrarei os compromissos. ajudarei no que for possível.

    -       Sei que é sincero. Porém, a liberdade dele não depende de mim. Tem um chefe que tem poderes sobre ele. Eu posso dar um tempo. Mas, se ele não cumprir o que prometeu, voltarei.

    -       Ajude-me a libertá-lo. Você pode.

    -       Falarei com o chefe. Esse caso não sou eu quem decide. Minha parte eu concordo em esperar. Ele, não sei.

    -       Agradeço sua boa vontade. Deus a recompensará.

    -       Verei o que posso fazer. Agora eu já posso ir. Adeus!

    Fundo suspiro escapou do peito de Maria José que pendeu a cabeça sobre o peito e, com os olhos fechados, parecia dormir. De repente, seu rosto foi se modificando. Abriu os olhos olhando fixa-mente para frente, disse com voz grave:

    -       Quem teve a petulância de trazer-me aqui? Quem me arrancou da minha caverna?

    -       Somos amigos, queremos conversar - disse Eduardo, com voz calma.

    -       Conversar sobre o quê? Nada tenho com você!

    -       É sobre Menelau...

    -       Aquele cachorro malvado? Sobre ele não desejo falar. Tem o que merece, O que ele passa ainda é pouco.

    -       Por que o odeia?

    -       Não sabe? Você não estava lá quando ele me condenou. Por maldade! Eu era inocente. Ele mandou-me para a masmorra. Fiquei preso lá até a morte. Sabe o que é isso, sabe? Agora quer defendê-lo, a troco de quê? Acha que tem perdão o que ele fez comigo? Pensa que posso esquecer? Sabe o que sofri dia a dia, hora a hora naquele pestilento lugar? Agora é sua vez. Está apenas começando a pagar! Cobrarei até o fim. Há de morrer à míngua e quero estar lá para me alegrar com sua dor.

    -       Não lhe ocorreu que sua própria situação não vai melhorar nada com isso? Que há muito você poderia estar vivendo uma vida melhor, mais feliz, ter esquecido esse sofrimento, seguir para frente enquanto permanece aí, infeliz e sofredor, preso às lembranças infelizes?

    -       Como eu poderia esquecer? Deixá-lo na impunidade?

    -       Deus dá a cada um as lições de que precisa para aprender e corrigir-se.

    -       Não a ele. Como vê-lo rico, feliz, sem lembrar-se de que eu existo e sofro minha dor? Não. Eles hão de pagar. Eu jurei.

    Foi quando o Bentinho disse, com voz rouca:

    -       Se quer cobrar dele eu posso cobrar o meu de vosmicê!

    Maria José estremeceu:

    -       Quem me fala? Por que me recorda coisas passadas?

    -       Porque foi a mim que vosmicê matou naquela noite escura. Não se lembra? Como se diz inocente?

    -       Seu espectro me tem perseguido. Mas sou inocente do crime para o qual fui condenado!

    -       Mas não da minha morte! Eu gostava da vida. Era jovem, feliz. Você me matou para roubar. Por acaso esqueceu?

    Eduardo orava em silêncio. Bentinho prosseguiu:

    -       Já o odiei muito. Agora, estou cansado. Quero esquecer. De que me adianta ficar sempre relembrando minha dor? Quero uma nova vida na Terra, quando poderei recomeçar a viver. Reconheço que mereci o que me aconteceu. Aprendi muito com essa dor. Não quero vingança. Quero melhorar e voltar a nascer. Vim só para dizer que você não é inocente como se diz.

    -       Não me acusa? - tornou Maria José, com voz comovida.

    -       Não.

    -       Eu poderia esquecer e voltar a nascer?

    -       Poderia, se perdoasse. Ninguém deve recomeçar a vida com ódio no coração.

    -       Não posso perdoar, mas quero esquecer.

    -       Comece ajudando a libertar Menelau. Isso o auxiliará -disse Eduardo, convicto.

    -       Está bem. Farei isso. Depois, quero esquecer. Quero voltar! Viver outra vida melhor!

    -       Deus o ajudará. Vamos orar por você.

    -       Verei o que posso fazer.

    Maria José suspirou fundo e se calou, parecendo adormecida. Bentinho e Eduardo oravam em silêncio. Por fim, ela acordou um pouco preocupada.

    -       O que aconteceu? - indagou.

    -       Nada de mais. Não se lembra?

    -      Lembro-me de haver sentido emoções estranhas. Mal-estar. Depois falava coisas sem poder parar. Sabia que era minha voz mas sentia-me como se fosse outra pessoa, estou com medo!

    -       Não se preocupe. Hoje levantamos a ponta do véu que cobre o seu passado. Pudemos entender muitas coisas. Vamos agradecer a Deus por isso.

    Quando Eduardo acabou a ligeira prece, Bentinho foi logo dizendo:

    -       Fui vê o sinhô Menelau. Tá preso e num pode saí. É uma ilha longe, muito longe. Na porta da cela dele tava de guarda essa alma que queria vingança. Com a ajuda dos espírito meus amigo, trouxemos ele. Agora a porta tá livre. Logo sinhô Menelau vai podê saí.

    Maria José sorriu, animada.

    -       Acha mesmo?

    -       Acho. Mas amanhã vamo rezá de novo.

    -       Deus nos ajudará - disse Eduardo, pensativo.

    Agora que sabia a verdade, compreendia os sérios laços que prendiam aquelas criaturas. Compreendia também porque lhes havia sido permitido ajudar. Agora, guardava certeza de que Menelau voltaria. Não porque eles quisessem apenas, mas porque ele ainda tinha, para com aquelas pessoas que eram sua família, responsabilidades que deveriam continuar.

    Naquela noite, sentindo a grandeza de Deus, a bondade da Providência Divina, os sagrados impositivos da vida, Eduardo não conteve as duas lágrimas que lhe rolaram dos olhos.

 

    Estirado na dura enxerga que lhe servia de leito, Menelau pensava. Não sabia há quanto tempo estava prisioneiro, sentia que precisava conservár toda lucidez se quisesse um dia sair dali com vida. A empreitada era difícil mas ele não perdia as esperanças. Tratou de alimentar-se o melhor possível e tomar certos cuidados para não apanhar as doenças que, de tempos em tempos, grassavam ali, ceifando vidas.

    Ao raiar do dia levantavam-se e, após receberem pão e água, eram colocados em carroças e levados ao local de trabalho. Lá, enquanto alguns cavavam uma montanha à procura do veio do minério de ferro, outros desciam às profundezas da terra à procura de carvão. O ar era escasso e insuportável o cheiro do lampião.

    Menelau já trabalhara nos dois setores e eles se revezavam porqüanto ninguém agüentaria um trabalho constante dentro da mina sem adoecer. Ele procurava fazer exercícios respiratórios para limpar os pulmões daquele ar e daquele pó que existia em toda parte. Mesmo não gostando da comida, esforçava-se por engoli-la, tendo antes o cuidado de verificar se não estava estragada.

    Lutava para conservar-se bem físicamente para poder fugir. Em sua cela, marcava cada dia com pequeno traço na parede. Assim percebeu que a cada quinze dias novos prisioneiros chegavam e eles carregavam o barco de volta com o produto do trabalho. Para onde iriam? Quem comandava aqueles homens? Qual a bandeira que acobertava tanta desumanidade?

    Apurando o ouvido, Menelau pôde, através da conversa de alguns carcereiros, saber que eles não se filiavam a nenhum país em particular. Eram homens de negócios vendendo sua mercadoria a quem pagasse mais. Trocavam-na também por mais braços para o trabalho, negociando vidas humanas friamente.

    Sozinho, Menelau sentiu que nada poderia fazer, por isso tratou de escolher alguns homens de coragem e que estivessem dispostos a preparar-se e lutar para fugir. Aos poucos, uniu-se a alguns companheiros e trataram de observar todos os hábitos e vigiar constantemente os carcereiros, para manterem-se informados. Empresa difícil, porque não lhes era permitido conversar durante o trabalho sendo de lá conduzidos às celas, cubículos escuros e desagradáveis, agrupados de quatro em quatro. A necessidade cria meios e os olhos falavam mais do que a boca.

    Deitado no escuro, Menelau pensava. Orava todos os dias pedindo a ajuda de Deus e confortava-o pensar que nada acontece sem que Ele permita. Haveria de encontrar a maneira de sair dali. Confiava que a ajuda viria. Estava sempre pronto a observar e sabia que, por mais que seus carcereiros fossem homens rudes sem instrução e fiéis ao patrão, eram humanos e teriam seus momentos de distração, de descuido. Contava em aproveitá-los. Conseguira juntar-se a quatro homens decididos tanto quanto ele mesmo. Eram poucos, mas melhor do que nada. Procuravam trabalhar sempre juntos, sem que os demais percebessem.

    Naquela noite, ao orar, Menelau sentiu que uma energia suave e agradável o envolveu. Seu coração encheu-se de esperanças. Assim, adormeceu.

    No dia imediato, enquanto aguardavam no pátio para se aboletarem na carroça rumo ao trabalho, o capitão-da-guarda chegou e conversou com o capataz. Este concordou e depois, fixando-os, ordenou:

    - Vocês, formem ao lado do capitão. Apontou para Menelau e escolheu mais nove homens, entre os quais os quatro amigos que dissimularam a alegria que sentiram.

    O capitão necessitava de dez homens fortes e eles eram os que estavam em melhor forma física. Enquanto os outros foram para o trabalho, eles aguardaram ordens. Esperaram. Dois homens armados formaram ao lado deles e os levaram ao armazém perto do cais, onde a mercadoria era guardada, esperando a hora de embarque.

    Receberam ordem de carregar os sacos de minério ao porão de um barco que estava ancorado. Normalmente, esse trabalho não era feito pelos prisioneiros. A tripulação dos barcos é que fazia isso. Eles não compreendiam o porquê dessa modificação. Enquanto trabalhavam, coração batendo descompassado, esperavam o momento oportuno para escapar.

    Os dois guardas, com as armas apontadas, vigiavam em terra e no barco; o capitão mais seu ajudante também tinham armas nas mãos. E a tripulação, onde estaria?

    O capitão, irritado, queria a todo custo apressar o carregamento. Menelau o ouviu dizer ao ajudante:

    -       Quero ir-me embora desta ilha maldita o mais rápido possível. Saindo daqui, os homens vão melhorar, com certeza.

    Uma idéia louca passou pela cabeça de Menelau. Corajosamente chegou perto do guarda que vigiava o carregamento e disse, com voz súplice:

    -       Senhor! Tenha piedade de nós e permita-nos não voltar mais àquele barco.

    -       Que é isso? Se insurge contra nossas ordens?

    -       É que descobri um segredo terrível! Nossas vidas correm perigo. Bebemos daquela água, comemos do seu pão!

    -       O que quer dizer? - gritou o homem, assustado. - O que pretende?

    -       A peste senhor! A tripulação está pestada. Nós todos vamos morrer! Tenha piedade, não nos mande voltar lá!

    Os olhos do homem se abriram assustados.

    -       Como sabe? Os homens estão doentes de desinteria, só isso!

    -       É mentira. Ouvi o capitão falar em peste.

    -       Voltem para lá. Não toquem em nada. Vou já falar ao capitão. Se for verdade, tocaremos fogo no barco. A peste tem que ser isolada. Voltem todos já a bordo.

    Assustados, os homens voltaram a bordo. Menelau exultava, enquanto seus quatro amigos, olhos brilhantes, haviam compreendido. Enquanto os homens andavam rumo ao barco, Menelau disse-lhes, com alegria:

    -       Ajudem-me. Agora temos que convencer o capitão do barco do perigo que corremos.

    Aparentando pavor, eles subiram a bordo e o capitão berrou irritado:

    -       O que é isto? E a carga? Deste jeito nunca sairemos daqui.

    Menelau aproximou-se sério:

    -       Senhor, se quiser salvar seu barco, partamos o quanto antes.

    -       Não sem antes falar ao seu capitão. É um motim?

    -       Não, senhor capitão - disse Menelau, com voz firme. - Eles pensam que o barco é pestoso e vão nos queimar a todos para acabar com a peste.

    -       Quem disse isso? Ë mentira! Não há peste neste barco.

    -       Eles não vão acreditar. O melhor será sair, antes que seja tarde!

    -       Paguei pela carga e não saio sem ela - teimou o capitão.

    -       Em todo caso senhor - sugeriu Menelau - é melhor se fazer ao largo, eu ouvi o guarda falar em nos queimar a todos.

    O     capitão resolveu.

    -       Vou investigar, mas a precaução é boa medida. Se estiverem me enganando, pagarão por isso.

    -       Capitão, os homens estão mal, como movimentar as má-quinas?

    -       Senhor, estamos aqui - tornou Menelau. - Temos ânsia de liberdade. Podemos trabalhar, com todo respeito, às suas ordens; aprenderemos depressa e tocaremos o barco!

    -       Sim! - gritaram todos com entusiasmo.

    O     capitão coçou a cabeça; depois disse:

    -       Está bem. Vamos tentar. Nos poremos a largo. Verificarei a verdade.

    Os homens tremiam de alegria e dispuseram-se ao trabalho. Às instruções do capitão, içaram a passarela e levantaram âncora, movimentaram as máquinas, enquanto o capitão, no leme, e o imediato orientavam os homens. O capitão conservou o barco afastado e com uma luneta observava a movimentação dos homens no cais. De fato, havia um movimento desusado. E de repente rugiu o canhão e o obus explodiu bem perto do barco, fazendo a água subir ao convés.

    O     capitão não quis saber mais. Os homens estavam certos. Se conseguisse sair dessa, jamais voltaria àquele lugar. Ordenou a partida e Menelau, trabalhando duro, sentia a alegria cantando no coração. Reuniu os nove companheiros e disse, enérgico:

    -       Vamos trabalhar duro. Vamos ser gratos ao capitão que nos está libertando. Trabalharemos como nunca. Obedeceremos até o fim.

    -       Não sou bandido - respondeu um deles. - Estou tão grato quanto você.

    Os outros concordaram e com dobrada energia e muita disciplina obedeceram as ordens. Dentre eles havia um que entendia de ervas e pediu ao capitão para cuidar da tripulação acamada. Foi à cozinha e cuidou da alimentação, ferveu a água, escolheu alimentos e dentro em pouco os homens começaram a melhorar.

    O     capitão, satisfeito, conversou com Menelau, em quem reconhecia o líder do grupo. Surpreendeu-se com sua cultura e posição. No fim esclareceu:

            - Eu aceitava a carga de homens julgando que eram desclassificados e vagabundos.

Acreditava limpar a cidade de maus elementos. Desconhecia que dentre eles havia homens de bem. Essa doença dos homens foi castigo de Deus. Nunca mais farei isso. Jamais voltarei àquela ilha. Há outras formas de comércio mais dignas e sem esse risco. Sou homem de fé!

    -       Faz muito bem. Deus o abençoará por isso.

    De todos, Menelau era o único brasileiro. Na ilha falava-se o francês, mas havia gente de várias partes do mundo. Menelau, con- tudo, só tinha um desejo: voltar ao Brasil. Tinha receios de voltar à França e preferia desembarcar em outro lugar.

    O     capitão, impressionado com a disciplina e boa vontade daqueles homens, ofereceu:

    -       Aquele que quiser, pode ficar na minha tripulação. Sou bom para meus homens. Como sabem, há fartura na cozinha e pago a todos de acordo com nosso rendimento.

    -       Qual é nosso destino? - perguntou Menelau.

    -       Marselha. Preciso deixar lá o carregamento que temos. Não é completo, mas renderá o suficiente para nos mantermos até outra carga.'

    -       Não gostaria de ficar em Marselha - disse Menelau.

    -       Compreendo. Mas lá há outros barcos. Poderá engajar-se na tripulação e assim fazer até chegar ao seu país.

    Menelau aceitou.

    -       Que dia é hoje? - indagou, feliz.

    -       Dez de junho de 1888.

    Menelau suspirou fundo. Havia cinco anos que se ausentara do Brasil. Seu filho estaria crescido; e Maria Antônia. como estaria? Pensou nela e sentiu um aperto no coração. Se pudesse, correria para os braços de Maria José. Não pretendia perturbar-lhe a vida famíliar. Respeitava o irmão. Porém, o coração doía de saudades e os poucos momentos de amor que haviam vivido não lhe saíam do pensamento. Não amava a esposa, porém devia-the proteção e respeito. Pensava regressar ao lar. O que mais poderia fazer?

    Embora desejasse correr para casa, Menelau precisou submeter-se aos caprichos do tempo. Não tinha dinheiro nem roupas. Trabalhou duro e finalmente, meses depois, embarcou em um navio que aportaria no Rio de Janeiro. Não levava presentes nem bagagem, mas tinha muita alegria no coração.

    Dirigiu-se imediatamente à sua casa. Sentia grande emoção. Eram dez horas de uma quente manhã de dezembro. Naturalmente Maria Antônia ainda não se tinha levantado. Ansioso, tocou a sineta do portão e logo o velho Amâncio, tão rápido quanto lhe permitiam suas velhas pernas, veio abrir, levando um susto, O velho escravo estremeceu e gritou:

    -       Sinhô Menelau! É o sinhozinho Menelau!

    Ele transpôs o portão, enquanto dizia:

    -       Sou eu, Amâncio. Finalmente pude voltar para casa. Não vejo aqui os outros escravos, o que houve?

    -       Sinhozinho num sabe? Quase todos se foram. Sinhá dona Isabé libertô os negro.

    -       Finalmente aconteceu. Você não foi embora?

    -       Tô véio. Num tenho famía nem nada. Num posso trabaiá. Pra onde pudia í? Pedi a sinhá e ela me deixô ficá.

    -       Quem mais ficou?

    -       Só a Joana e Terênço.

    Menelau entrou na casa e foi à cozinha onde a velha Joana, à beira do fogão, cuidava da comida. Ele sentiu vontade de beijá-la, tal a sua alegria sentindo o cheiro gostoso de iguarias, que há muito não experimentava.

    -       Joana - disse, alegre - que cheiro bom!

    A velha voltou-se, assustada:

    -       Sinhô Menelau! Valha-me Nossa Senhora! Ë o sinhô mesmo!

    -       Sou eu, Joana.

    Num transporte de alegria Menelau a abraçou. A velha, emocionada, chorava. Menelau, alisando-lhe a carapinha grisalha, brincou:

    -       Não está contente em me ver? Chora?

    -       Sim, meu sinhô. A sinhá pensava que vosmicê tivesse morrido. Mas eu não. Eu esperava sua volta.

    -       Você foi libertada da escravidão. Não quis partir?

    -       Minha filha Janda veio me buscá, mas eu num quis. lava aqui, tomando conta da sinhá. Eu queria cuidá dela até o sinhô voltá.

    Menelau disse, comovido:

    -       Obrigado, Joana. Ë bondosa e fiel. Hei de recompensar sua generosidade. A sinhá, como está?

    -       Bem, sinhô. Ela vai tê um susto grande. Acreditava que vosmicê tivesse morrido.

    -       Faltou pouco, Joana. Sofri muito. Mas agora tudo vai ficar bem.

    -       Vosmicê tá queimado de sol e mais forte.

    -       E mais velho. Olhe os cabelos brancos.

    -       Uns pôco, eu vi. Num carece mais preocupá. Tudo vai ficá bem agora.

    -       Vá acordar Maria Antônia e conte-lhe que eu voltei. Não quero assustá-la.

    Joana concordou e, limpando as lágrimas com a ponta do avental, entrou no quarto onde Maria Antônia dormia. Chegando-se ao leito disse, respeitosa.

    -       Sinhá Maria Antônia, acorde! Tenho notícias do sinhô Menelau!

    Maria Antônia remexeu-se no leito e após reiterados chamados, abriu os olhos visivelmente mal-humorada.

    -       O que aconteceu para que me desperte com tanta insistência a esta hora? Quantas vezes devo dizer que detesto ser acordada?

    -       É que tenho notícias do sinhô Menelau.

    Maria Antônia acordou de vez. Fixou a serva e disse:

    -       Algum boato! A corte vive cheia deles.

    -       Não, sinhá. Sinhozinho tá vivo, com saúde e perto de vosmece.

    -       Não acredito. Depois de tantos anos! Menelau está morto.

    -       Estou aqui, Maria Antônia - disse Menelau, aproximando-se do leito.

    Maria Antônia sentou-se na cama, como movida por uma mola.

    -       Está vivo e aqui! Estarei sonhando?

    -       Não, Maria Antônia, sou eu mesmo.

    Menelau aproximou-se mais, abraçando-a. Durante alguns segundos ela ficou calada, depois libertou-se do seu abraço e fixou-o, firme. De um salto saiu do leito e olhou-o profundamente irritada.

    -       Então está vivo e com saúde! Durante anos desapareceu de casa, sem notícias ou qualquer consideração e agora retorna com essa desfaçatez, como se nada houvesse?

    -       Posso explicar o que me aconteceu - disse ele calmo, esforçando-se para não empanar a alegria do regresso.

    -       Ah! Você explica! Mas eu fiquei aqui todo esse tempo, sem saber se estava casada ou viúva. Amarrada a você, sem poder decidir minha vida.

    -       Eu não podia escrever. Estava preso.

    -       Preso?

            - Sim. Se não escrevi ou dei notícias foi porque não pude. Se não voltei foi porque estava

preso.

    -       O que aconteceu?

    -       Agora você começa a perceber as coisas. Vou contar-lhe tudo. Mesmo não tendo sido recebido como esperava, estou feliz por haver regressado.

    -       Seu amigo, o sr. Eduardo, veio procurar-me e descobriu sua bagagem no armazém do cais.

    -       Descobriu? Então as malas não se perderam?

    -       Não. Um amigo do sr. Eduardo descobriu sua bagagem e fomos para retirá-la.

    -       Então estão aqui - disse Menelau, com alegria.

    -       Não... Eu não sabia o que fazer com ela. O sr. Eduardo disse que a guardaria. Só fiquei com o que me pertencia.

    -       E os mimos para Demerval e a família?

    -       Não sei. Você sabe que não me dou com aquela gente. Pergunte ao sr. Eduardo. Falemos da sua ausência. Aquela viagem sua, eu nunca entendi. Percebo agora que você entrou em uma encrenca. Por acaso conseguiu dinheiro, poder? O que foi?

    -       Há um segredo que não posso contar. Por causa dele fui preso e levado a uma ilha onde fiquei em trabalhos forçados e só a custo e com a ajuda de Deus consegui escapar. Isso eu posso relatar em todos os detalhes. Foi no dia em que eu ia embarcar no navio que me traria de volta ao Brasil.

    Menelau relatou seu drama à mulher, que o ouvia pensativa. Não se sentia muito interessada em saber os detalhes ou o sofrimento do marido. Preocupava-a sua volta, porque certamente ele pretendia continuar exercendo sobre ela a tutela de marido, com a qual se tinha desabituado.

    Apesar da incerteza da sua situação civil, ela gostava de ser livre e de manter relações amorosas a que não se proibia mas que poderiam tornar-se públicas ou comprometedoras porqüanto era ainda tida como casada. Era cômodo e excitante. Havia sempre muitos homens interessados em consolá-la da "dolorosa" ausência do marido.

    Isso era o que a irritava. Menelau não lhe fazia nenhuma falta e não sentia amor por ele. Agora, para ela, havia se tornado figura incômoda e inoportuna. Pensou em expulsá-lo do lar sob alegação de abandono, mas seria uma mulher separada e seu nome ficaria comprometido. A separação sempre denegria o nome da mulher, mesmo que ela tivesse razões justas. A idéia de que "homem é homem, nada pega" era norma acatada por todos.

    O     que faria? Precisava aceitá-lo de volta, pelo menos por enquanto. Contudo, não o deixaria mandar em sua vida como antes.

    -       As coisas mudaram por aqui. Os escravos se foram -tornou ele.

    -       Uma loucura - respondeu ela, com raiva. - Não se pode sequer andar pelas ruas. Esses vagabundos estão por toda parte. Alguns assaltam os antigos donos, matam e roubam. Uma malta horrível!

    -       Essa fase vai passar. A escravidão precisava acabar.

    -       Você fala sem saber. Largaram seus donos, saíram, sem ter para onde ir nem o que comer. Esmolam nas ruas ou roubam. O que mais poderiam fazer? Que são eles senão seres inferiores e ignorantes que precisam da orientação dos donos para sobreviver?

    -       São seres humanos, como nós. Poderão trabalhar. Os antigos donos, agora seus patrões, terão que pagar pelos seus serviços.

    -       Uma exploração. Onde já se viu? Casa, comida e ainda dinheiro?

    -       Por que não? Aqui em casa não teremos mais nenhum braço escravo. Os que ficaram serão pagos pelo seu trabalho. Contrataremos outros também. O serviço deve ser feito.

    -       Isso é loucura! Nos levará, à ruína.

    -       Na Europa todos recebem pelo seu trabalho e estão cada vez mais prósperos. Assumirei os negócios e tudo irá bem.

    -       Você cuida dos negócios, mas da minha vida cuido eu.

    -       Deseja a separação? - indagou ele, sério.

    Se ela desejasse separar-se ele se sentiria livre para viver sua vida, embora jamais alimentasse a minima esperança de realizar seus anseios de amor.

    -       Não, querido - disse ela, calma. - O que eu não quero é que dirija minha vida. Sei conduzir-me muito bem.

    -       Desde que respeite o limites do bom senso, não penso em guiar seus passos como os de uma criança.

    -       Agora, deixe-me descansar mais um pouco. Estou morta. Essas emoções me cansam.

Foi com alivio que Menelau saiu do quarto da mulher. Pretendia fazer ainda muitas coisas naquele dia. Depois de comer a saborosa refeição que Joana amorosamente lhe preparara, Menelau foi procurar Eduardo. Desejava notícias e aproveitaria para buscar seus pertences. As últimas palavras de Maria Antônia o fizeram tomar uma decisão. A casa era suficientemente ampla. Ele não se instalaria no quarto do casal. No Brasil, dormir em quartos separados era ainda motivo de escândalo. Ele não se preocupava com isso. Ficaria na outra ala da casa que possuía várias salas e assim a esposa teria sua liberdade e ele também. Talvez isso até melhorasse o relacionamento deles. Enquanto ele dormia cedo e gostava de cedo levantar-se, ela era o oposto. Por que não havia pensado nisso antes?

     Eduardo, ao abrir a porta de sua casa, deu um grito de alegria. O abraço apertado, as palavras de boas-vindas, a espontaneidade do amigo encantaram Menelau que, emocionado, considerou:

     -      Agora sinto que valeu a pena voltar. Pensei muito em você e em nossas conversas.

     -      Temos muito o que conversar, Menelau.

     -      Estou ansioso por notícias! Demerval, Maria José, as crianças, estão bem?

     Sua voz tremia.

     -      Sim. Estão muito bem. Seu irmão continua com altos e baixos. Mas, com a graça de Deus, vai aprendendo suas lições. Maria José, dedicada como sempre, e as crianças vão indo bem. Romualdo já completou seis anos. É um belo menino, inteligente, sensível e bom!

     Menelau estava engasgado sem saber o que dizer. Quando pôde falar, disse, com voz trêmula:

     -      Sinto uma vontade louca de correr para os seus braços e matar a saudade! Não posso. Devo acalmar-me primeiro.

     -      Sim. Sente-se aqui, a meu lado, quero contar-lhe tudo que tem acontecido por aqui desde que partiu.

     -      Estou ansioso.

     À medida que Eduardo contava as dúvidas, as incertezas, os receios que eles viveram naqueles dias, lágrimas deslizavam pelos seus olhos. Quando Eduardo contou sua viagem a Itu, as palavras do Bentinho, ele não se conteve:

     -      Ele viu mesmo. Eu estava em uma ilha preso. Tudo foi verdade.

     -      Depois você me contará tudo. Quero falar primeiro para que sinta a verdade das minhas palavras.

     -      Eu creio. Sei que fui libertado por mãos divinas. Por uma força maior do que a minha e dos meus inimigos.

     -      Falta o mais importante. A prece que fizemos e o que aconteceu. 

    Com os olhos molhados Menelau ouviu a narrativa, sentindo enorme emoção a cada palavra do amigo. Quando ele terminou, soluços sacudiam o corpo forte de Menelau, numa torrente inesperada, porém natural. Tantas lutas, tantas dúvidas, tanta dor, enfim se explicavam no amor de Deus que tinha para tudo uma causa justa.

    Eduardo orava em silêncio compreendendo os sentimentos do amigo. Quando serenou, Menelau disse, sério:

    -       Quero agradecer a Deus ter-me permitido conhecer a verdade. Poder compreender a causa de tantos sofrimentos.

    -       Vamos orar - disse Eduardo, comovido.

    Menelau, com os olhos cheios de lágrimas, pronunciou sentida prece agradecendo a Deus haver-lhe permitido regressar e dando-lhe outra oportunidade para cumprir sua tarefa. Depois, permaneceu alguns minutos pensativo; em seguida, disse:

    -       Cumprirei meu dever até o fim. Sei que Maria José também o fará. Posso realmente ver Maria Antônia como filha, não consigo vê-la como esposa. De hoje em diante me esforçarei para ajudá-la a ver a vida de maneira mais realista. Contudo, Eduardo, não sei bem como fazer. Ela é fútil, vaidosa, interesseira. Temo até que não seja fiel. Não se alegrou ao ver-me. Pareceu-me contrariada.

    Eduardo sabia algumas coisas desagradáveis sobre o comportamento dela, mas nada disse. Estava resolvido a ajudar e respondeu:

    -       Sugiro a você que estude as leis espirituais que regem a vida. São verdadeiras e perfeitas. Quando não souber como resolver um assunto, entregue-o nas mãos de Deus e espere. A inspiração virá, com certeza. O importante será sempre o desejo de fazer o melhor e a humildade suficiente para perceber o caminho a seguir ainda mesmo quando ele seja diferente do que desejamos. O dever só pesa quando pretendemos impor nossa vontade à vida. Felizmente, a nossa consciência, quando está acordada, sempre percebe o melhor a fazer. O orgulho atrapalha e nos desvia. É preciso ter humildade para entregar-se a Deus e perceber-lhe os desígnios.

-           Hei de aprender. Durante estes anos em que fui prisioneiro, submetido ao arbítrio e à intolerância, perdi muitas ilusões. Vejo a vida agora de forma diferente. Senti a força de Deus atuando em nossos destinos. Não quero ser um rebelde. Sei que tudo quanto Deus faz ou permite é bom. Quero ser humilde, ouvir-lhe as diretrizes, cumprir bem as tarefas que a vida me colocou nas mãos. Pretendo continuar a merecer a proteção dos bons espíritos. Sei que um dia, quando for possível, estarei livre para amar Maria José e ela também estará. Confio no futuro.

    -       Assim se fala - disse Eduardo, comovido.

    -       Quero fazer algo de bom. Nossa pátria sofre o clima difícil das mudanças sociais. A república virá, tenho certeza, e os negros foram cativos durante tantos anos que agora necessitam reaprender a usarem a liberdade com responsabilidade. Vou trabalhar. Desejo empregar bem meu tempo. Fazer algo por eles, não sei ainda como, ajudá-los de alguma forma.

    Eduardo abraçou-o com entusiasmo.

    -       Estou tentando fazer isso mesmo. Admito que não é fácil, mas juntos havemos de melhorar este país.

    Os dois amigos conversaram durante horas tecendo planos, trocando idéias que lhes possibilitassem trabalhar em benefício de todos. Era já noite quando Menelau despediu-se. Apesar de cansado, sentia que nova esperança despontara em seu coração. Agora, sua vida tinha um objetivo: educar o espírito de Maria Antônia. Não sabia como, mas essa era sua missão e confiava que Deus o haveria de ajudar.

 

    Menelau arrumava-se com apuro. Pedira uma audiência com o Imperador e ia ao Paço às 14 horas. Havia uma semana que chegara e gastara esse tempo trabalhando duramente. Seus negócios estavam mal e ele descobriu que o seu notário enriquecera enquanto que ele havia empobrecido. Energicamente exigiu um acerto de contas no qual, a custo, conseguiu desfazer alguns "enganos" e reaver parte do seu dinheiro, tendo perdido uma boa soma. Maria Antônia contentava-se em exigir boa mesada e não se interessava pelos negócios.

    Com esforço e trabalho, Menelau contava poder novamente prosperar. Pretendia trabalhar com Eduardo. Tinham planos para dar trabalho aos braços dos negros, preparando-os para seu novo estado.

    Tendo tomado essas decisões, Menelau sentira-se mais forte e desejava falar ao seu Imperador. Havia lhe dado uma missão. Sua consciência sentia-se no dever de desobrigar-se dela.

      Muitas coisas haviam mudado no Rio de Janeiro. Falava-se da república como de um fato consumado e, apesar da figura veneranda de Dom Pedro 2º, havia sede de progresso. O povo desejava novas diretrizes, novos caminhos. O privilégio da nobreza irritava e os mestiços, dentre os quais havia grande número de homens cultos, inteligentes e atuantes nas letras e nos jornais mais lidos da cidade, lutavam pelo direito de participação na política e no legislativo. Por vaidade alguns, pela ânsia de poder outros, mas a maioria desejosa de melhorar o nível social do povo e dar-lhe oportunidades de progresso. Mesmo aqueles que idolatravam o Imperador, já o consideravam velho e desatualizado, sem a virilidade necessária para conduzir a nação naquela hora de transição.

    De um lado, os negros famintos e mendigando, embriagando-se e entregando-se a atos vexatórios; de outro, os escravocratas, dizendo-se lesados e protestando contra o Império.

    Foram eles quem mais tramaram contra o Imperador, muito embora apenas desejassem substitui-lo sem mudar a forma de governo. Em sua maioria, consideravam a república um caos social. Falavam do morticínio na França e temiam que o mesmo acontecesse no Brasil.

    Foi com respeito e deferência que Menelau adentrou o gabinete onde Dom Pedro 2º o esperava, ladeado pelo Visconde de Grajaú. Menelau curvou-se, atencioso. Dom Pedro olhou-o com curiosidade.

    -       Meus respeitos, Majestade - disse Menelau, sério.

    Dom Pedro curvou ligeiramente a cabeça, retribuindo o cumprimento.

    -       Faz muitos anos que o senhor saiu em missão para a Europa - disse ele, olhando-o fixamente nos olhos. - Tivemos notícias suas até junho de 1885. Depois, o senhor desapareceu. Julgamos que estivesse morto.

    -       Se me permitir, contarei o que me aconteceu.

    A um gesto do Imperador, Menelau contou tudo, embora omitisse os nomes dos brasileiros envolvidos na trama. Dom Pedro o ouvia cofiando a barba, pensativo. Ao término, disse, sério:

    -      O senhor deve saber que os inimigos do Império tramam a sua queda. Muitos desejam a república, eu sei. Esquecem-se que, durante meu Império, o país progrediu, cresceu, aprendeu muitas coisas. Amo minha terra e gostaria ainda de poder fazer muito mais. Temo não haver tempo. Não pela idade, mas porque minha gente não mais confia no seu Imperador.

    Seu tom era dorido e seu rosto estava triste. Menelau não soube o que dizer. Ele prosseguiu:

    -       Agora mesmo tenho planos para educar a massa de negros e prepará-los para o trabalho remunerado no comércio e mesmo na lavoura. Terei tempo?

    -       Vossa Majestade sabe que o progresso deseja mudanças.

    Dom Pedro olhou-o firme:

    -       O senhor também está contra mim? Foi em busca de nomes e os omitiu. Por quê?

    Menelau não se conteve:

    -       Quando saí daqui estava decidido a lutar pela monarquia e descobrir os traidores. Contudo, na França, conheci melhor os ideais republicanos e reconheci o direito que todos os homens têm de lutar e conquistar seu lugar no meio social, fazendo valer seus dotes de honestidade, inteligência, trabalho, sem privilégios de berço. Desculpe, Vossa Majestade, minha sinceridade. Apesar de perceber isso, jamais traí vossa confiança. Arrependi-me de haver aceito tal missão. Procurei permanecer neutro e foi por isso que fui preso, porque me recusei a participar da conspiração contra vosso governo.

    Dom Pedro olhou-o com severidade.

    -       Não acha que me devia lealdade, que me tinha dado sua palavra? Que posso prendê-lo como traidor?

    Menelau sustentou o olhar corajosamente.

    -       Vossa Majestade sabe que sou sincero. Podia mentir aqui, agora. Estou abrindo meu coração. Nunca fiz política. Não entendia nada disso quando aceitei a missão. Pensava estar fazendo um bem e descobri que devia respeitar nossos adversários porque eles também tinham suas razões. Fiquei dividido. Minha consciência falou e eu não consegui desempenhar a missão com êxito. Lamento. Sei que Vossa Majestade pode prender-me ou mandar matar-me. Porém, não quero mais sujeitar-me à mentira e ao remorso.

    -       Então agora é um republicano? - indagou ele, com doloroso acento.

    -       Acredito que a república virá naturalmente. Nota-se um clamor muito forte no povo. Não sei se será o melhor caminho. Confesso que tremo ao pensar no que acontecerá para implantá-la. Venero e respeito meu Imperador. Gostaria de vos servir sempre. Lamento que numa hora dessas vosso coração esteja entre um estado e outro, entre a monarquia e a república, porque pelo muito que o Brasil deve a Vossa Majestade, penso até que a República deveria esperar o término do vosso Império, quando Deus vos chamasse.

    Menelau tinha lágrimas nos olhos e nos olhos do Imperador luziu, por alguns segundos, um brilho emotivo. Levantou-se e, estendendo a mão para Menelau, disse:

    - É um homem de coragem. Disse-me coisas que nenhum dos meus amigos teve coragem de dizer. Reconheço que me estima, desejo apertar-lhe a mão.

    Menelau não encontrou o que dizer. Apertou forte a mão daquele homem que admirava.

    -       Ao despedir-me, devo dizer a Vossa Majestade que não levantei um dedo para o advento republicano e continuarei assim.

    -       Acredito, meu amigo. Agradeço e aprecio sua solidariedade. Sei, entretanto, que me resta pouco tempo de governo. Só espero que me deixem ficar em minha querida terra.

    -       Por certo, Majestade.

    -       O que pensa em fazer agora?

    -       Cuidar de minha esposa e dos meus negócios. Penso em ajudar a orientar os negros, ocupando-os no trabalho remunerado.

        - Isso mesmo - disse ele, sério. - Gostaria de poder fazer o mesmo.

     Menelau curvou-se e afastou-se lentamente para trás, olhando o rosto do velho Imperador e pareceu-lhe ver o brilho de uma lágrima em seus olhos.

     Apesar de haver sido uma dolorosa entrevista, Menelau sentiu-se fortalecido por ter usado de sinceridade e dito a verdade. Entristecia-se ao pensar que Dom Pedro seria sacrificado pela força do progresso. Ele não merecia isso, por tudo o que fizera pelo Brasil.

     Ao mesmo tempo percebia que havia uma nova força no ar, buscando a mudança que nada nem ninguém conseguiria deter.

     Nos dias que se seguiram, Menelau procurou dar novo rumo à sua vida. Havia muito por fazer e ele estava disposto a não envolver-se com política, embora houvesse sido procurado por alguns amigos. Depois da experiência desastrosa, pretendia dedicar-se ao progresso social, ajudando de maneira efetiva e simples. Não pretendia deixar a advocacia, mas ao mesmo tempo continuaria com sua firma de importação e comércio, incrementando os negócios para que prosperassem como antes.

     A princípio, Maria Antônia irritou-se vendo-o instalar-se em separado, na outra ala da casa. Depois, aceitou a idéia e até a achou acertada. Ela temia os comentários e as más línguas. Sentir-se rejeitada pelo marido não satisfazia sua vaidade mas, por outro lado, essa situação deixava-a à vontade para agir como lhe aprouvesse, sem a importuna presença de Menelau. Acabou por gostar da idéia, explicando aos amigos que era moda na Europa.

     Menelau reuniu os escravos fiéis que haviam ficado na casa e agradecendo-lhes a generosidade e a confiança, participou-lhes que a partir daquele dia passariam a receber pelo seu trabalho e teriam toda liberdade para trabalhar em outro lugar, se assim quisessem.

     Apesar da insignificância da quantia que se dispôs a pagar-lhes, comoveu-os até as lágrimas e Joana, olhos brilhantes considerou:

     - Sinhô Menelau num precisa pagá esta nega. Num sei o que fazê cum dinhero.

     Menelau Sorriu:

     - Você vai aprender. Sabe fazer as compras da casa muito bem. Vai usar seu dinheiro no que quiser. Todo trabalho deve ser pago.

     A negra beijou-lhe a mão com carinho.

     - Sinhô Menelau num vai me mandá embora...

    - Claro, Joana, eu nem saberia o que fazer sem você.

    Com ar sério, continuou:

    - Também quero capricho no serviço. Vou pagar e exigir mais. Não pensem que vai ser fácil. Quem recebe pelo seu trabalho, deve fazê-lo com amor e vontade.

    Os negros olharam para Menelau pensativos.

    - Sei que alguns deixaram a casa e por isso nós vamos arranjar mais alguns servos, a quem pagaremos também. Agora são livres e devem aprender a usar essa liberdade com responsabilidade e honestidade. Agora, vão ao trabalho.

    Eles se retiraram e Menelau sentiu-se bem ao observar que eles saíram com um brilho novo no olhar e muita dignidade na postura.

    - Não existe maior satisfação do que viver com dignidade -pensou, convicto.

    Maria Antônia não participava dessa opinião. Porém, não gostava de envolver-se com os afazeres e cansaços domésticos. Para ela, ver tudo voltar à antiga ordem, com novos empregados, era ótimo. Pouco lhe importava se o marido pagava ou não por esses serviços. Sua mesada continuava a mesma e isso é que lhe interessava. Com o tempo, achou oportuno o regresso de Menelau, uma vez que ele não interferia em sua vida e até lhe poupara aborrecimentos, assumindo os deveres cansativos do lar.

    Ela continuava a freqüentar os salões da moda e, apesar da volta do marido, estava sempre rodeada de admiradores. Isso lhe valia alguns comentários maldosos das outras mulheres, mesmo estando sempre acompanhada por sua dama de honra, matrona de ar sério e muito respeitada. Maria Antônia jamais era vista com um admirador em particular. Flertava nos salões, mas jamais as más línguas puderam imputar-lhe algum deslize ou escândalo. Por isso, ela não se importava com essas insinuações maldosas que qualificava de invejosas.

    Menelau, trabalhando muito, desejava participar mais da vida da esposa. Se quisesse despertar novos valores em seu coração, deveria aproximar-se dela, do seu mundo, embora ele fosse distante do seu. Preocupava-se com ela e nutria sincero desejo de vê-la feliz.

As palavras de Eduardo sobre o passado calaram fundo, fazendo-o compreender o motivo pelo qual a vida os tinha unido. Se conseguisse despertar nela a consciência da realidade, se pudesse fazê-la perceber os verdadeiros valores da vida e abandonar as futilidades, a ambição desmedida, por certo estaria livre para escolher seu próprio caminho. Entendia que aquele vínculo só existiria enquanto houvesse entre eles a necessidade de aprender determinadas coisas.

    Assumira seu trabalho e movimentara os escritórios de sua firma dando emprego a dois ex-escravos, cultos e letrados. Uniram-se a Menelau e aceitaram o emprego, principalmente porque ele lhes adiantara seu desejo de orientar os negros libertos ajudando-os a encontrarem ocupação e conscientizando-os da necessidade do trabalho para o próprio sustento.

    Eduardo juntou-se a eles com entusiasmo e o escritório de Menelau passou a ser ponto de reunião dos negros interessados em reorganizar a própria vida.

    O curioso é que muitos deles não se consideravam com dever de trabalhar. Acreditavam que a alforria e a liberdade os isentasse dessa obrigação, desejando viver livremente pelas ruas, vagabundeando e tomando pela força as coisas que desejassem. O trabalho para orientá-los era árduo e havia necessidade de usar muita energia.

    Era comum ver-se pelas ruas do Rio de Janeiro os dois negros que trabalhavam para Menelau a conscientizar seus irmãos de cor da necessidade do trabalho como meio de sobrevivência.

    Por outro lado, havia os donos da terra, os líderes do comércio que, revoltados pela perda de seus escravos e o prejuízo que isso lhes acarretara, ficavam satisfeitos com os atos desatinados dos ex-escravos, julgando com isso poder pressionar o Congresso e o Imperador a que voltassem atrás na sua resolução.

    Enquanto isso, os abolicionistas lutavam para educar os negros fazendo-os compreender seus direitos mas também seus deveres como homens livres e dignos. Não era tarefa fácil. Para os escravos instruídos e habituados ao trabalho mais intelectual, não havia problemas. Eles eram muito solicitados e logo foram bem assalariados. O problema maior era em relação aos mais embrutecidos e ignorantes, que haviam vivido dominados pela força física e que, uma vez livres, não queriam, mesmo à custa de algum dinheiro do qual eles sequer conheciam o valor, voltar a trabalhar para os antigos donos ou para outros brancos.

    Essa atitude era-lhes intolerável e muitos deles, embriagados pela ânsia da liberdade tão desejada, queriam ficar à toa, espreguiçando-se ao sol, roubando frutas dos pomares e comida nas cozinhas, nadando no rio ou nas ondas quentes do mar.

    O     mundo era deles! Nada de deveres, canga, trabalho duro, dependência! A esses não havia argumento que os dobrasse e alguns já começavam a roubar bebidas e a embebedarem-se, promovendo desordens, assaltando os brancos que porventura lhes cruzassem o caminho.

Comentando com Eduardo essas dificuldades, Menelau aduziu:

    -       Eles sequer nos ouvem. Não sei o que fazer para mostrar-lhes a realidade. Promovendo arruaças vão acabar mortos pelos soldados ou atirados nos calabouços do Engenho Grande. Disseram-me que lá já há centenas deles a apodrecer e a sofrer toda sorte de sevícias.

Eduardo sacudiu a cabeça:

    -       Infelizmente torna-se difícil fazer alguma coisa. Eles realmente atacam as pessoas e tornam-se perigosos. A Polícia tem que manter a ordem e evitar os excessos. Alguns até atacaram as donzelas, que agora receiam sair à rua. A estes sei que mataram a tiros. Se a onda pega, vamos ter muitas mortes. Todos se revoltarão, porque um negro levantar os olhos para uma moça branca ninguém suportará.

    -       Os brancos, durante anos, invadiram as senzalas e não respeitaram as negras. O número sempre crescente de mulatos prova isso. Agora eles sentem-se no direito de fazer o mesmo. Seguem o exemplo dos brancos.

    -       É verdade. Em todo caso, torna-se necessário pôr cobro a essas loucuras. Há sempre vítimas inocentes nessa história.

    -       Tem razão. Estamos lutando para mudar este estado de coisas. Se pelo menos os brancos entendessem e cooperassem!

    -       Concordo. Devemos continuar com nosso esforço. Às vezes, penso que esta geração paga o preço dos anos e anos de escravidão e de arbítrio. A hora é de luta, não de cobrança. Ë de mudança e progresso. Tudo seria mais fácil se os homens entendessem que todos somos espíritos, iguais em valor diante de Deus, não importa a cor da pele ou a raça a que pertençamos. Se eles pudessem perceber que as desigualdades sociais são frutos das nossas fases evolutivas e das nossas necessidades de amadurecimento, então teriam como meta o auxílio uns aos outros e a compreensão seria constante, evitando os choques mais dolorosos.

    -       O que fazer para ajudar? - indagou Menelau, sério.

-           Continuar a trabalhar como der e como pudermos. Vamos procurar fazer o melhor, Deus por certo nos ajudará. Quando trabalhamos em harmonia com seus desígnios, ganhamos imensa força. Não devemos ser pretenciosos querendo consertar este estado de coisas. Se ele existe, terá por certo sua função. Porém, vamos ajudar a quem quiser nos ouvir e por certo estaremos fazendo o máximo. Os desordeiros que estão sendo recolhidos aos calabouços do Engenho Grande escolheram essa reação, não nos cabe nenhuma culpa; mas aqueles que nos quiseram escutar, conduziremos ao caminho do trabalho digno e à construção de uma vida útil, no aconchego do lar e na participação social. Tenho observado que, apesar da resistência dos mais renitentes escravocratas, não faltam ocupações aos mais dignos e humildes que se conformam em aprender o trabalho ou desempenhá-lo com dedicação. Afinal, muitas casas ficaram sem braços para o trabalho e as mulheres protestam e querem ver a rotina doméstica restabelecida. As lavouras paradas pedem braços que as conduzam. O que nós devemos fazer é que, enquanto o Antero e o Juca cuidam de esclarecer os negros, nós vamos falar aos patrões. Sei de várias casas que estão em crise de braços e vamos convencê-los a dar emprego aos nossos protegidos.

    - Isso mesmo - fez Menelau, com entusiasmo. - Não vamos nos importar com os renitentes e ignorantes. Vamos ajudar os que podem e querem se adaptar.

    Com disposição e entusiasmo, Menelau dedicava suas horas livres a esse esforço de estabilização social e, apesar dos problemas que surgiam onde ele e Eduardo eram chamados a opinar, muitos se beneficiaram. Uma vez integrados socialmente, procuravam, por sua vez, ajudar seus irmãos desgarrados.

    Menelau ocupara-se tanto com essas atividades que quase não via a esposa. Saía sempre muito cedo e regressava muito tarde, quando ela já se recolhera ou encontrava-se em alguma atividade de salão.

    Uma tarde recebeu uma carta anônima. Falava infâmias sobre Maria Antônia. Havia se esquecido dessas cartas. Lendo-a, foi sacudido por grande temor. A futilidade dela teria chegado a esse ponto? Seria apenas uma intriga de salão?

    Ele não sabia. Mal via a mulher. Sentiu uma ponta de remorso. Abandonara-a totalmente. Não se interessava por nada que lhe dissesse respeito. Sua indiferença não a estaria empurrando novamente para o abismo? Ficou inquieto e perturbado. Enquanto tentava ajudar os outros, não estaria deixando de lado seu dever maior?

    Naquela tarde, resolveu ir mais cedo para casa. Pretendia dividir seu tempo para que pudesse oferecer mais atenção à mulher. Às cinco horas já estava em casa. Maria Antônia surpreendeu-se vendo-o.

    -       Vim tomar um café com bolinhos com você. Joana já está preparando.

    Ela olhou-o como a querer descobrir o que ia em seu pensamento. Depois disse:

    -       Os milagres acontecem de vez em quando.

    -       Senti saudades de casa - respondeu ele, gentil.

    -       Custa-me acreditar. Ultimamente você prefere os negros à nossa vida famíliar.

    -       Tenho descuidado um pouco. Tem razão. De agora em diante estarei mais em casa, como agora.

    Ela pareceu um pouco inquieta.

    -       Não o esperava. Tenho um compromisso às sete, no salão da Viscondessa de Abrantes. Sinto muito não poder ficar com você.

    -       Nesse caso, acompanho-a. Faz muito tempo que não visito o Visconde.

    Ela apanhou o leque, abrindo-o e fechando-o com certo nervosismo.

    -       Por quê? Você não gosta de freqüentar os salões.

    -       Deu-me vontade. Quero dedicar-me mais ao lar.

    -       Parece um pouco tardia essa dedicação - fez ela, com voz fria.

    -       Tem razão para dizer isso. Estou sendo sincero. Somos marido e mulher. Não desejo faltar aos meus deveres.

    -       Seu interesse é estranho. Você comporta-se como se fôssemos dois desconhecidos. Não me queixo. Sei que entre nós não há amor, não estou ressentida com isso. Só acho desnecessário esse seu ineresse.

    -       Não aprecia minha companhia?

    Ela sacudiu os ombros com indiferença.

    -       Você não aprecia a corte, não cultiva as amizades e sequer ouve quando falo sobre os assuntos que aprecio.

    Menelau baixou a cabeça, pensativo. Era verdade. Porém, como suportar as banalidades e a maledicência social tão a gosto de Maria Antônia? Nada disse sobre isso. Sabia que, se quisesse chegar até ela e tentar modificar-lhe a maneira de ser, teria que sujeitar-se e tentar compreender seus pontos de vista.

     -      Também você não se interessa pelos meus assuntos - disse ele, sério.

     Ela olhou-o, admirada.

            - Por que uma mulher deveria interessar-se pelos escravos ou pelo mesquinho mundo dos negócios? Esses são seus assuntos prediletos. Para você sequer existo. Jamais repara nos meus arranjos, nos cabelos ou nos meus trajes. Uma mulher precisa ser admirada. É como uma flor delicada. Não foi feita para preocupar-se por essas coisas grosseiras do dia a dia. Você sequer percebe que sou mulher.

     Menelau compreendeu. Era verdade. Ele não a amava como mulher. Não a procurava como marido. Não sentia por ela atração física. Reconhecia que ela era uma mulher bonita, jovem, queria-lhe bem, mas esquecia-se dela com facilidade. Não a amava. Jamais deveria ter se casado com ela. Agora, não pretendia abandoná-la. Havia um compromisso espiritual. E esse compromisso encontrara enorme ressonância em seu coração. Não havia se impressionado pela revelação do seu passado, mas no fundo do seu ser sentia a grande necessidade de ficar ao lado da esposa para ajudá-la a compreender melhor os valores da vida.

     Aproximou-se dela, tomou-lhe a mão com delicadeza:

     -      Maria Antônia, somos casados, precisamos conviver mais e eu desejo sinceramente compreender você. Não tenho sido um marido afetuoso. Perdoe-me. Fique em casa esta noite. Vamos conversar. Jantaremos juntos, passaremos as horas conversando.

     Ela olhou-o, admirada:

     -      Não posso. Já me comprometi. Irei ao salão da Viscondessa. Não costumo faltar aos meus compromissos. Ademais, sobre o que poderíamos conversar? Você se aborreceria, eu também. Depois, poderemos conversar em outra hora.

     -      Está bem - disse ele, um tanto decepcionado. - De qualquer forma, irei com você.

     -      Não precisa. Tenho tudo combinado como sempre. A sr.a Cerqueira me acompanha.

     Menelau irritou-se um pouco, mas procurou dominar-se. Por que ela não queria que ele fosse? Decidiu sério.

     -      Mande um portador à sr.a Cerqueira. Irei com você a esse salão. Pode dispensa-la esta noite.

     Maria Antônia irritou-se.

     - Você não tem o direito de mandar em minha vida. Não gosto que me dê ordens!

     - Não vim para brigar. Ao contrário, desejo melhorar nosso relacionamento. Dediquei esta noite a você e se não quer passá-la em casa comigo, a acompanharei onde for. A não ser que você tenha outras companhias mais atraentes do que a minha.

     Menelau encarou-a firme e Maria Antônia estremeceu, desviou o olhar. Ficou pensativa durante alguns segundos, depois disse:

     - Muito bem. Você é um excêntrico. Vamos ver quanto tempo dura esse seu interesse. Iremos juntos ao salão esta noite.

     - Assim é melhor. Vamos ao nosso café com bolinhos. Já devem estar prontos.

     Menelau observou que, apesar do ar de naturalidade, as mãos de Maria Antônia tremiam. Inquietou-se. O que haveria por trás daquela carta? Seria tarde demais para interessar-se por Maria Antônia? Estava decidido a descobrir.

     O salão da Viscondessa de Abrantes era dos mais bem freqüentados do Rio de Janeiro. Mulher de fino trato, ela sempre entretinha seus convidados com jogos de salão, músicas bem escolhidas e danças da moda.

     A par desses relacionamentos meramente sociais, desenvolviam-se as intrigas palacianas e até políticas. O Visconde, homem ligado ao Império, manejava ali, através desses encontros, muitos dos seus interesses. Menelau todavia, não se interessava nem pelas intrigas e muito menos pela política. A amarga experiência em que ingenuamente se envolvera fora o bastante.

     Ele não esperava encontrar lá muitos amigos nem entreter-se agradavelmente. Queria aconchegar-se à esposa. Percebia que o nervosismo dela beirava a irritação. Por quê? Seria verdade o que dizia a carta? Maria Antônia teria um amante?

     Fundo sentimento de raiva o acometeu. Embora não a amasse, respeitava-a. Não toleraria uma traição. Seu nome deveria ser poupado.

     Chegando ao sarau, Maria Antônia, mulher habituada à vida social, imprimiu ar alegre e jovial à fisionomia e só Menelau que sabia da sua contrariedade, percebia-lhe esporadicamente nos olhos um brilho de rancor e, de quando em quando, pequeno tremor nas mãos.

     Menelau decidiu dissimular também o que lhe ia no coração e a grande suspeita que o invadia. Procurou ser natural, não ver o ar de admiração das pessoas ao lhe serem apresentadas, deixando-o inseguro quanto ao papel que estaria representando diante delas.

Saberiam mais do que ele sobre a vida de Maria Antônia? A custo conseguiu dominar o desejo de sair correndo dali e exigir dela a verdade, fosse qual fosse.

    Assistiu ao programa musical onde a soprano cantou amadoristicamente canções, lindas e até, heroicamente, uma ária de "La Traviata" que o piano acompanhava, sofrível. Quando acabou, passaram ao salão onde havia lauta mesa ricamente decorada com iguarias estrangeiras, servidas por mucamas luxuosamente adornadas com suas roupas de linho engomado, braços enfeitados por grossas pulseiras de ouro maciço e colos cheio de correntes.

    Esta ceia, onde serviam-se iguarias leves e vinhos delicados, era coroada pelos doces muito bem preparados e servidos com champanhe, arrematada com licores dos mais finos, colocados em maravilhosas garrafas lavradas.

    Enquanto isso, preparava-se o salão do recital para as danças e a outra sala para as brincadeiras de salão. Nessa hora é que os homens reuniam-se em outra sala para saborear um charuto e conversar.

    Maria Antônia preferia dançar e disse ao marido:

    -       Vou distrair-me nas danças. Você pode optar por outra coisa, sei que não as aprecia.

Disposto a vigiar a esposa, Menelau respondeu:

    -       Esta noite farei o que você gostar. Reserve-me uma dança.

    Ela olhou-o friamente.

    -       Por que isto?

    -       Vim disposto a agradá-la.

Ela suspirou, resignada.

    -       Vejo que não gosta de dançar comigo.

    -       Gosto de dançar pelo prazer que me proporciona. Prefiro dançar com um cavalheiro que dance bem.

    Menelau sorriu.

            - Acha que não sei dançar?

            - Pelo menos nunca o vi fazer isso.

    -       Está bem. Digamos que eu não seja exímio. Conceda-me a primeira valsa e verá.

-           Está bem - disse ela, tentando sorrir para disfarçar a irritação. Tomou seu carnê e anotou. Depois, decidida, passou para o salão onde os cavalheiros aproximavam-se das damas para reservar as danças.

    Menelau ficou indeciso. Aquele não era o seu ambiente. Sentia-se entediado, constrangido e até um pouco arrependido de ter comparecido.

    Podia ter usado de sua autoridade de marido e simplesmente impedido Maria Antônia de sair. Contudo, se queria descobrir a verdade e tentar ajudá-la, teria que sujeitar-se. O que o irritava era

o          fato de pensar que, se a esposa o estivesse traindo, muitos dos presentes já poderiam saber e ele estaria fazendo papel de bobo. Aparecer como marido traído não era fácil, mesmo que não amasse sua mulher.

    Seu casamento com Maria Antônia fora errado e prematuro. Por que cometera tal tolice? Encostado a um canto, Menelau olhava o jardim que se estendia ao redor da grande varanda, através da porta por onde alguns casais entravam e saíam conversando.

    -       Sr. Menelau, sinto-me honrado com sua presença nesta casa. Ë a primeira vez.

    Menelau olhou o Visconde, cujos cabelos brancos lhe inspiravam respeito.

    -       Tenho estado ausente do país. Dediquei-me muito aos negócios, mas sempre é tempo, sr. Visconde.

    -       Claro. Alegro-me que tenha vindo à minha casa. Soube do seu esforço em colaborar com nosso Imperador. O Visconde de Grajaú teceu muitos elogios à sua pessoa. O amigo não pensa em dedicar-se a política?

    -       Não, sr. Visconde. Para a política devem ir os homens experientes, preparados. Eu não possuo esses predicados.

    -       Mas é homem digno e goza da estima do próprio Imperador. Sua Majestade referiu-se ao senhor com muito interesse.

    -       Generosidade do nosso Imperador.

    O     Visconde sorriu e, tomando Menelau pelo braço, retrucou:

    -       A modéstia é um dos belos atributos dos homens públicos. Venha comigo. Vamos conversar um pouco.

    O     Visconde conduziu-o ao salão dos fumantes onde alguns homens mais idosos conversavam discretamente. Instalaram-se em duas poltronas onde o Visconde ofereceu um charuto que Menelau agradeceu delicadamente, mas não aceitou. O Visconde, tranqüilamente, acendeu um, aspirou gostosamente e depois, colocando-o no cinzeiro de cristal sobre a mesinha, disse sério:

    -       Sr. Menelau, sua presença aqui foi providencial.

    -       Por que, sr. Visconde?

    -       Sei que é homem da confiança do nosso Imperador. Trama-se contra ele. Sei de fonte segura que nossos inimigos pretendem a queda do governo e preparam uma trama terrível para o próximo mês.

    Menelau sentiu-se constrangido. Não pretendia envolver-se mais com nenhum problema do governo.

    -       Lamento. Respeito e estimo a pessoa do nosso Imperador. Porém não vejo como poderia impedir semelhante acontecimento. Não tenho prestígio pessoal, sequer sei o que tem acontecido ultimamente nesse campo.

    -       Os republicanos ganham terreno. Os jornais abertamente falam no seu afastamento. Tripudiam sobre a sua cabeça branca, sua experiência de uma vida inteira na condução dos destinos do nosso país. Pretendem ignorar todos os benefícios e o progresso que este governo magnificamente ofereceu ao Brasil. Além dessa ingratidão imperdoável, desejam substituí-lo por um homem qualquer, sem o trato com a responsabilidade da causa pública, favorecendo a ambição de poder e o assalto aos cofres públicos.

    -       Vejo que o senhor não aceita a república.

    -       Será o descalabro. Como substituir o certo pelo duvidoso? Nosso Imperador não foi colocado no poder por homem algum. Foi Deus quem o colocou lá. Fê-lo nascer na casa imperial para isto.

    Menelau olhou-o, admirado. Não havia pensado nisso. O Visconde prosseguiu:

    -       Tendo sido investido no cargo por Deus, teve tempo de preparar-se para governar. Aprendeu desde que nasceu. A experiência tem demonstrado que o fez com muita honestidade e sabedoria. Por que mudar? Por que dar ouvidos a aventureiros despreparados para o poder, que certamente abusarão dele?

    -       Contudo a república tem vencido em outros países e trazido grande surto de progresso.

    O     Visconde olhou Menelau admirado e perguntou:

    -       O senhor é republicano?

    -       Pessoalmente não participo desses movimentos. Estive na França e lá observei que eles têm progredido muito. A república é uma força que ninguém conseguirá deter.

    O     Visconde fez um gesto desalentado.

    -       O senhor diz que estima o Imperador.

    -       Estimo e respeito. Penso que sua pessoa é intocável. Qualquer modificação de governo só deveria vir depois da sua morte.

    -       Mas recusa-se a ajudá-lo!

    -       Não sei como o poderia fazer.

    -       O senhor obteve informações lá fora que não revelou.

    Menelau sustentou seu olhar com seriedade.

    -       Este é um ponto de honra entre sua Majestade e eu. Ele compreendeu.

    -       Eu ainda acho que suas revelações poderiam nos fazer eliminar os focos republicanos e dizimar, de uma vez por todas, seus asseclas.

    Menelau levantou-se:

    -       Sr. Visconde, há um lamentável engano da sua parte. As informações que eventualmente eu pudesse dar são já do domínio público. Deixaram de ser secretas. Os jornais falam abertamente e no Parlamento conhece-se a posição de todos os seus membros. Há muito não tenho mais nada a dizer.

    -       Perdoe-me a irreverência, abordando assunto tão doloroso. O senhor é meu convidado. Não o fiz com intenção de ser desagradável. Acontece que estou muito preocupado. Nosso Imperador está doente de tristeza. Dói-me vê-lo assim depois de toda uma vida dedicada à coisa pública e ao bem-estar do nosso povo. Esta terrível ingratidão, fere-me os sentimentos. Não quero aborrecê-lo. Sente-se, por favor.

    Menelau viu o brilho de uma lágrima nos olhos do Visconde e comoveu-se profundamente. Estava diante de um homem sincero e muito dedicado ao Imperador.

    -       Lamento sinceramente o que está acontecendo. Sou admirador do nosso Imperador e reconheço que ele está sendo uma vítima nesse estado de coisas.

    -       Vai nos ajudar?

    -       Julgar-me-ia ingênuo se eu dissesse que vou rezar por ele? Acredito que, diante dos fatos que não posso mudar, é só o que me resta fazer.

    O     Visconde olhou-o de frente. Sentiu a emoção de Menelau, sua sinceridade. Por isso respondeu com voz firme:

    -       O senhor parece-me homem de fé. Reze e reze muito. Por que eu talvez nem isso saiba fazer.

    Menelau sentiu-se triste. Queria ir-se dali, esquecer aquela situação que não podia modificar. Pediu licença e foi ao salão onde, ao sabor da música, os pares rodopiavam alegremente. Queria ir embora. Maria Antônia volteava ao som de uma mazurca, corada e alegre. Precisava esperar que a dança acabasse. Arrependia-se de ter vindo. Sua tarefa com a esposa não lhe parecia fácil. Teria condições de executá-la? Inquieto, a custo dominava-se para não arrancar Maria Antônia dali e irem para casa.

    Quando a música acabou, a esposa sentou-se e Menelau aproximou-se:

    -       Sua valsa ainda não tocou.

    -       Maria Antônia, gostaria de ir para casa.

    -       Agora? Sinto muito, mas meus compromissos não permitem. Tenho várias danças marcadas.

    -       Basta, por uma noite. Vamos embora.

    -       Não devia ter dispensado Adelaide. Você não agüenta o sarau. Ainda falta mais de uma hora para terminar.

    -       Não vamos ficar. Sinto muito.

    -       Não posso rompe