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ESTADO CRÍTICO / Robin Coock
ESTADO CRÍTICO / Robin Coock

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESTADO CRÍTICO

 

No decorrer de uma semana que ligou Março e Abril de 2007, um acontecimento grave e aziago para a saúde de três desconhecidos, dois dos quais perderam a vida, iria ter um impacto nas vidas de milhares, até mesmo centenas de milhares de pessoas numa complicada teia de causalidade. As vítimas não tiveram qualquer premonição das suas tragédias individuais. Embora fossem todos homens casados geralmente saudáveis, de idades semelhantes, eles tinham profissões totalmente diferentes e não se conheciam uns aos outros, nem socialmente, nem através do trabalho. Um era um médico caucasiano que sofrera uma dolorosa e debilitante lesão desportiva; o segundo era um programador informático afro-americano que contraíra uma infecção nosocomial pós-operatória fulminante e rapidamente fatal; e o terceiro era um contabilista asiático-americano que fora morto de uma forma implacável, semelhante a uma execução.

Tal como a maioria das pessoas, até à noite de 26 de Março de 2007 o Dr. Jack Stapleton nunca dera verdadeiramente valor à maravilha anatômica e fisiológica dos seus joelhos. Ele era patologista forense e estivera a trabalhar no Departamento do Medicina Legal, ou DML, desde manhã cedo. Ia todos os dias para o DML na sua amada bicicleta de montanha Cannondale e nunca reconhecera o papel importante que os seus joelhos desempenhavam. Durante o resto da manhã, fizera três autópsias, uma das quais tinha sido um caso complicado envolvendo a minuciosa dissecação da trajectória de ferimentos múltiplos causados por balas. Ao todo, estivera de pé na sala das autópsias, referida coloquialmente como "o fosso", durante mais de quatro horas, movendo-se por reflexo, o que o ajudava no seu trabalho. Nem uma única vez pensou nos joelhos e no esforço despendido não só pelos diversos ligamentos que mantinham fielmente a integridade das articulações apesar da considerável carga colocada sobre eles, como pelos meniscos, que almofadavam a substancial pressão exercida pelos extremos distais dos fêmures sobre os topos das tíbias.

Foi mais tarde, perto do fim de um dos jogos que Jack disputava quase todas as noites no campo de basquetebol iluminado, que o desastre aconteceu. Para tristeza de Jack, ele e alguns dos melhores jogadores com quem fizera equipe nessa noite, incluindo os seus amigos Walter e Flash, não tinham ganho um único jogo, o que os obrigara a ficar sentados durante períodos frustrantemente longos antes de voltarem a jogar.

À medida que a noite se arrastava, Jack não precisou que Walter lhe recordasse que ele tinha sido responsável pela perda de vários pontos ao falhar alguns cestos ou ao perder a bola, mas Walter continuava a repreendê-lo implacavelmente: Jack não podia dizer que não o merecesse: no final do jogo, com o resultado empatado, Jack tinha feito uma triste figura perdendo a bola e o jogo batendo com a bola no pé ao driblar.

A verdadeira calamidade ocorreu no final do último jogo, quando Jack recebeu a bola de Walter. Com o jogo novamente empatado e o desfecho a ser decidido pelo cesto seguinte, Jack estava empenhado em redimir-se. Aquela poderia ser a sua última jogada e ele viu, com satisfação, que só havia um homem entre ele e o cesto. O homem chamava-se Spit, em deferência para com um dos seus menos agradáveis hábitos, mas, muito mais importante do ponto de vista de Jack, ele era alto e magro e tinha dificuldade em acompanhar os movimentos rápidos de Jack.

— Força! — gritou Walter da extremidade do campo do adversário, contando que Jack enganasse facilmente Spit.

Após uma convincente finta com a cabeça para a esquerda acentuada por um rápido drible cruzado, Jack começou a correr para a direita. Primeiro, levantou a perna esquerda do chão, ao mesmo tempo que flectia rapidamente o joelho, estendendo-o logo a seguir. Assim que o pé bateu no chão e assentou no macadame, Jack torceu o tronco para a esquerda para dar a volta a Spit, que ainda estava a recuperar da finta com a cabeça e o drible cruzado. Agora com o pé esquerdo fora do chão, todo o seu peso foi transferido para o joelho direito parcialmente flectido, o qual também teve de lidar com a súbita torção no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

Se tivesse calculado as forças exercidas sobre o seu joelho de cinquenta e dois anos, Jack talvez tivesse pensado duas vezes no que estava a exigir à sua anatomia — que até agora lhe tinha sido fiel. Embora os seus ligamentos laterais se aguentassem, uma vez que distribuíram eficazmente as forças ao longo da sua largura comparativamente grande, o mesmo não aconteceu com o ligamento cruciforme anterior, que se tinha alongado ligeiramente ao longo dos anos à medida que Jack envelhecia. A faixa de tecido relativamente estreita a que a maior parte das pessoas se refere como cartilagem quando encontrada numa perna de borrego mas que Jack conhecia como colagénio, tentou em vão evitar que o fêmur se deslocasse para trás, para fora da tíbia. Infelizmente, as forças envolvidas esmagaram o ligamento e, com um estalo, este rasgou-se e permitiu que, durante algum tempo, o fêmur de Jack saísse da articulação, rasgando as delicadas orlas principais de ambos os meniscos.

A perna direita de Jack cedeu, atirando-o para o chão áspero, onde ele resvalou alguns metros, deixando uma quantidade significativa de pele para trás. Num momento, ele era uma massa coordenada de músculo e osso, no momento seguinte era uma pilha magoada e ferida caída no chão, crispado de dor, agarrado ao joelho. Jack não estava cem por cento certo do que acontecera, mas fazia uma ideia. A única coisa que podia fazer era ter esperança de estar enganado.

—Tu vais de mal a pior, meu — disse Walter depois de ter corrido para junto dele e de se ter assegurado de que Jack estava razoavelmente bem. O tom de Walter refletia em parte comiseração, em parte descontentamento. Ele endireitou-se, colocou as mãos sobre as ancas e olhou para o amigo lesionado. — Talvez estejas a ficar demasiado velho para isto, doutor, percebes o que eu estou a dizer?

— Desculpa — conseguiu Jack dizer. Sentia-se embaraçado, pois estavam todos a olhar para ele.

— Acabaste por esta noite? — perguntou Walter.

Jack encolheu os ombros. A dor tinha atingido um pico, depois diminuíra consideravelmente, dando-lhe uma falsa sensação de esperança. Ele pôs-se agilmente de pé e colocou gradualmente o peso sobre a articulação lesionada. Encolheu novamente os ombros e deu alguns passos hesitantes. — Não me parece grave — disse ele observando os raspões do cotovelo esquerdo e do joelho. Depois tentou dar mais alguns passos, o que foi fácil até se ter torcido um pouco para a esquerda. Nessa altura, a articulação voltou a deslocar-se um pouco, fazendo com que Jack caísse novamente ao chão. Com algum esforço, ele pôs-se de pé uma segunda vez. — Estou feito — comentou ele num tom que continha quantidades iguais de resignação e de pena. — Estou mesmo feito. É óbvio que isto não é uma simples entorse.

Tal como a maioria das pessoas, David Jeffries nunca se apercebera da maravilha molecular que as bactérias representavam, nem do facto de o controlo ou disseminação de uma infecção, uma vez desencadeada, depender do desfecho de uma épica batalha molecular travada entre os fatores de virulência da bactéria e os mecanismos de defesa do corpo humano. Ele nunca se tinha verdadeiramente dado conta da ameaça que as bactérias continuavam a constituir, apesar da ampla farmacopeia que os médicos modernos tinham à sua disposição. Sabia que as bactérias tinham sido responsáveis por flagelos terríveis no passado, incluindo a peste negra, mas isso tinha sido no passado. Ele seguramente que não se preocupava com as bactérias do mesmo modo que se preocupava com vírus como o H5N (gripe das aves), o Ébola ou o vírus que causa a SIDA, cuja ameaça era constantemente noticiada pela comunicação social. Além disso, David tinha uma noção vaga da existência das chamadas "bactérias boas" que ajudam a fazer coisas como o queijo e o iogurte. Assim, quando deu entrada no Hospital Ortopédico Angels no início de uma manhã de segunda-feira de 2007 para que o seu ligamento cruciforme anterior fosse reparado com um enxerto de um cadáver, as bactérias não faziam parte das suas preocupações. O que o preocupava era a anestesia e a possibilidade de não acordar depois da operação. Também se preocupara com a probabilidade de ser sujeito a todo aquele processo, que um amigo lhe confidenciara que era doloroso, e ele não resultar, o que significava que não poderia voltar para o tênis que ele adorava.

Como programador informático numa importante empresa de software sedeada em Manhattan, David tinha passado, como ele dizia, muitas horas em cima do rabo, acorrentado ao seu monitor. Sendo um indivíduo que gostava de desporto desde que se conseguia recordar, ele precisava de um exercício competitivo, e o tênis era o seu favorito. Até se ter lesionado, um mês antes da operação, jogava pelo menos quatro vezes por semana. Ele tentara, em vão, interessar os seus dois filhos pré-adolescentes no jogo.

Quanto à lesão, David não fazia a mínima ideia de como ela se dera. Ele sempre se mantivera em boa forma. A única coisa de que se recordava era de correr para a rede depois de ter feito o que ele pensava ter sido um bom serviço. Infelizmente, a sua batida não tinha sido tão boa como ele esperara e o adversário tinha devolvido a batida para a esquerda de David. Ao correr, David tinha assentado bem o pé da frente e torcido o corpo para a esquerda para chegar a bola. Mas não chegou a aproximar-se da bola. Em vez disso, deu consigo no chão, agarrado a um joelho que lhe doía e que começou imediatamente a inchar.

Tendo em conta o fulminante percurso pós-operatório de David, poder-se-ia seguramente dizer que ele devia ter tido mais respeito pelas bactérias. Poucas horas depois da cirurgia, números relativamente pequenos de staphylococcus, que tinham entrado no joelho de David e nos bronquíolos distais dos seus pulmões, deram início à sua magia molecular.

O staphylococcus é um tipo de bactéria bastante comum. Em qualquer momento, eles existem no interior das narinas e/ou em zonas húmidas da pele de dois mil milhões de pessoas, um terço da população mundial. Na realidade, David estava colonizado desse modo. Mas a espécie que entrou no corpo de David não proveio da sua flora, mas sim de uma determinada estirpe de staphylococcus aureus que se aproveitara da facilidade com que os staphylococcus trocam informação genética para acentuar a sua virulência e, por conseguinte, a sua vantagem competitiva. Não só esta subespécie resistiu aos antibióticos semelhantes à penicilina, como também transportou os genes para uma série de moléculas nocivas, algumas das quais ajudaram as bactérias invasoras a aderir as células que forravam os vasos capilares, enquanto outras destruíam as células defensivas que o corpo de David enviou para combater a infecção que se estava a desenvolver. Com as defesas celulares de David diminuídas, o aumento das bactérias invasoras depressa se tornou exponencial, atingindo a fase secretória ao fim de poucas horas. Nessa altura, um grupo de outros genes deste genoma específico de staphylococcus entrou em acção, permitindo aos microrganismos lançar uma biblioteca de moléculas ainda mais perniciosas chamadas toxinas. Estas toxinas começaram a criar um tumulto no interior do corpo de David, provocando, inclusive, aquilo a que geralmente se chama o "efeito de comer a carne", bem como sintomas e sinais referidos como síndroma do choque tóxico.

David foi alertado para a tempestade que se avizinhava por uma febre ligeira que surgiu seis horas depois da cirurgia, muito antes de as bactérias invasoras atingirem a fase secretória. David não se preocupou muito com a subida da temperatura, o mesmo acontecendo à auxiliar de enfermagem, que a registou no seu processo digital. Seguidamente, ele sentiu o que descreveu como um aperto no peito. Uma vez que tinha os medicamentos para as dores à mão, podendo ele próprio ajustar as doses, não se queixou. Até a sua respiração ficar ofegante e ele cuspir um muco ensanguentado, David Jeffries pensou que aqueles sintomas eram normais. Subitamente, foi como se não conseguisse respirar. Nessa altura, ele ficou seriamente preocupado.

A sua ansiedade aumentou quando chamou a atenção para a deterioração do seu estado e as enfermeiras reagiram irrompendo numa comoção de atividade ansiosa. Quando lhe tiraram sangue para análise, adicionaram antibióticos ao soro intravenoso e fizeram chamadas frenéticas sobre uma possível transferência de emergência para o hospital universitário, David perguntou hesitantemente se ia ficar bom.

— Vai ficar ótimo — disse uma das enfermeiras automaticamente. Mas, apesar dessa garantia, David morreu algumas horas mais tarde com uma septicemia e falência múltipla dos órgãos enquanto era transportado para um hospital geral.

 

Tal como a maioria das pessoas, Paul Yang nunca se preocupara verdadeiramente com o seu derradeiro destino, mas devia tê-lo feito, em especial por volta da altura em que David Jeffries estava a perder a sua batalha molecular contra as bactérias. De um modo semelhante ao de outros seres humanos que estão a ser amaldiçoados pelo conhecimento da sua condição de mortais, Paul não refletia sobre a dura realidade da morte, nem perante a recordação constante de que estava a envelhecer progressivamente a um ritmo cada vez mais acelerado. Aos cinquenta e um anos, ele tinha demasiadas preocupações mais imediatas, como a família, que incluía uma mulher gastadora que, do ponto de vista material, nunca estava satisfeita, dois filhos na universidade e outro prestes a lá chegar, e uma enorme casa suburbana com uma hipoteca a condizer e a necessitar constantemente de obras de vulto. Como se isso não bastasse, nos últimos três meses o seu emprego estava a dar com ele em louco.

Cinco anos antes, Paul tinha deixado um emprego confortável mas previsível e um tanto enfadonho numa firma antiga, listada na Fortune 500, para passar a ser o único contabilista de uma nova e prometedora empresa que se propunha construir hospitais de especialidade privados e lucrativos. Ele tinha sido agressivamente recrutado pelo seu antigo chefe, que fora antes recrutado como diretor financeiro da nova empresa por uma médica brilhante chamada Angela Dawson, que estava a terminar o MBA na Universidade de Columbia. A decisão de mudar de emprego tinha sido dolorosa para Paul, uma vez que ele não era por natureza um jogador, mas a sua necessidade crescente de dinheiro e a possibilidade de ficar rico na indústria dos cuidados de saúde — uma indústria milionária e em rápido crescimento — foram mais fortes do que as incertezas e os riscos associados.

Espantosamente, tudo correra de acordo com o plano para a Angels Healthcare LCC, graças ao sentido de negócio inato da Dra. Angela Dawson. Com o capital, as garantias e as opções que Paul controlava, ele estava a poucas semanas de ficar rico, juntamente com os outros fundadores, os investidores da Angels e, em menor medida, os mais de quinhentos médicos detentores de acções. O fecho de uma OFV aproximava-se e, devido ao extremamente bem sucedido road show recente que entusiasmara os investidores institucionais, o preço das acções estava colocado no limite superior das suas expectativas.

Sendo esperada a entrada de quinhentos milhões de dólares na primeira fase, Paul devia estar felicíssimo. Mas não estava. Ele sentia-se mais ansioso do que alguma vez se sentira na vida porque estava enredado num enorme dilema ético, exacerbado pela série de escândalos de contabilidade recentes, incluindo o da Enron, que tinha abalado o mundo financeiro nos últimos seis ou sete anos. O fato de ele não ter cozinhado os livros não lhe servia de consolo. Ele seguia religiosamente os PCGA — Procedimentos de Contabilidade Geralmente Aceites — e sentia-se confiante de que os seus livros eram exatos até ao último tostão. O problema era que ele não queria que ninguém para além dos fundadores visse os livros, justamente porque eles eram exatos e, por conseguinte, refletiam uma grave situação de fluxo de fundos negativo. O problema tinha começado três meses e meio antes, logo a seguir ao fim da auditoria independente com vista à OIV. Começara como um mero fio, mas depressa se tinha transformado numa torrente. O dilema de Paul era que ele tinha obrigação de comunicar a falta de fundos, não apenas ao seu diretor financeiro, mas também à CBT, a Comissão de Bolsas e Títulos. O problema era que, tal como o Diretor Financeiro lhe fizera notar, essa comunicação iria indubitavelmente provocar o fracasso da OFV, o que significava que todo o seu esforço de quase um ano iria por água abaixo, talvez juntamente com o futuro da empresa. O Diretor Financeiro e a própria Dra. Dawson tinham lembrado Paul que um inesperado volume de despesas superior às receitas era uma mera contingência e, obviamente, era temporária, uma vez que a causa estava a ser adequadamente corrigida. Embora reconhecesse que tudo o que lhe diziam talvez fosse verdade, Paul sabia que se não fizesse a comunicação estava decididamente a violar a lei. Obrigado a escolher entre o seu sentido de ética inato e uma combinação de ambição pessoal com a necessidade insaciável de dinheiro por parte da sua família, o conflito estava a enlouquecê-lo. De facto, este tinha-o levado a recomeçar a beber, um problema que ele ultrapassara anos atrás, mas que a situação actual despertara de novo. Porém, ele sentia-se confiante de que o hábito de beber não estava completamente fora de controlo, uma vez que se limitava a beber alguns cocktails antes de apanhar o comboio de regresso a casa, em New Jersey. Não ficara noites inteiras a beber e a divertir-se com damas da noite, o que tinha constituído um problema no passado.

Na noite de 2 de Abril de 2007, ele parou no seu bar habitual a caminho da estação do comboio e, enquanto bebia o seu terceiro vodka martini e se olhava ao espelho fumado atrás do bar, decidiu subitamente que faria a comunicação obrigatória no dia seguinte. Há dias que ele andava a hesitar mas, de repente, pensou que talvez conseguisse ter o melhor das duas situações. No seu estado ligeiramente inebriado, ele pensou que estavam tão perto do fecho da Oferta Inicial de Venda que talvez o relatório ficasse em cima de uma secretária da burocrática Comissão de Bolsas e Títulos e não chegasse aos investidores a tempo. Assim, ele teria aplacado a sua consciência e, esperava, não estragaria a OIV. Sentindo uma euforia súbita por ter tomado uma decisão, mesmo se mudasse completamente de opinião no dia seguinte, Paul recompensou-se com um quarto cocktail.

O último vodka de Paul pareceu-lhe mais agradável do que o anterior, e esse pode ter sido o motivo por que, uma hora depois, ele fez algo que normalmente não faria. Andando ligeiramente aos ziguezagues enquanto seguia a pé da estação do comboio para casa, a algumas portas de distância desta deixou-se abordar por dois homens bem vestidos mas vagamente inquietantes que emergiram de um enorme Cadillac antigo preto e meteram conversa com ele.

— Sr. Paul Yang? — perguntou um dos homens numa voz áspera. Paul parou e esse foi o seu primeiro erro.

— Sim — respondeu ele, e esse foi o seu segundo erro. Devia ter continuado a andar. Quando parou subitamente, teve de oscilar ligeiramente para manter o equilíbrio e pestanejou várias vezes para focar a vista levemente turva. Os dois homens pareciam ter a mesma idade e altura, e tinham rostos finos e compridos, olhos encovados e cabelo escuro cuidadosamente penteado para trás. Um dos homens tinha cicatrizes no rosto. Foi o outro que falou.

— Importa-se de nos conceder um momento do seu tempo? — perguntou o homem.

— Acho que sim — respondeu Paul, surpreendido com a incoerência entre a delicada sintaxe do pedido e o forte sotaque de Nova Iorque.

— Peço desculpa por o atrasar — prosseguiu o homem. — Tenho a certeza de que está ansioso por chegar a casa.

Paul virou a cabeça e olhou para a sua porta. Sentiu-se um tanto desconcertado por os desconhecidos saberem onde ele vivia.

— O meu nome é Franco Ponti — acrescentou o homem — e este cavalheiro é Angelo Facciolo.

Paul olhou por um momento para o homem das cicatrizes. Ele parecia não ter sobrancelhas, o que, à média-luz, lhe dava um ar de um ser de outro mundo.

— Nós trabalhamos para o Sr. Vinnie Dominick. Julgo que não o conhece.

Paul acenou com a cabeça em sinal afirmativo. Tanto quanto sabia, ele nunca conhecera um Sr. Vinnie Dominick.

— O Sr. Dominick autorizou-me a contar-lhe algo significativo do ponto de vista financeiro sobre a Angels Healthcare que ninguém na empresa sabe — prosseguiu Franco. — Em troca desta informação, que o Sr. Dominick tem a certeza que o senhor achará interessante, ele pede apenas que o senhor respeite a sua privacidade e não conte a mais ninguém. Aceita o acordo?

Paul tentou pensar, mas, dadas as circunstâncias, teve dificuldade em fazê-lo. No entanto, como contabilista principal da Angels Healthcare, sentia curiosidade a respeito de qualquer suposta informação financeira significativa. — Está bem — respondeu Paul, ao fim de algum tempo.

— Devo avisá-lo de que o Sr. Dominick confia na palavra das pessoas, e seria muito grave se o senhor não cumprisse a sua promessa. Compreende?

— Suponho que sim—disse Paul. Ele teve de dar um passo atrás para manter o equilíbrio.

— O Sr. Vinnie Dominick é o principal investidor da Angels Healthcare.

— Uau! — disse Paul. Como contabilista, ele sabia que havia alguém, cujo nome ninguém conhecia, que investira quinze milhões de dólares. Além disso, o mesmo indivíduo tinha concedido recentemente um empréstimo de duzentos e cinquenta mil dólares para cobrir a actual falta de fundos. Do ponto de vista da empresa, e também de Paul, o Sr. Dominick era um herói.

— O Sr. Dominick tem um favor a pedir-lhe. Ele gostaria de se encontrar consigo durante alguns momentos sem o conhecimento dos directores da Angels Healthcare. Ele pediu-me que lhe dissesse que está preocupado com o fato de os directores da empresa não estarem a cumprir a lei. Eu não sei bem o que isso significa, mas ele disse que o senhor saberia.

Paul acenou novamente com a cabeça, ao mesmo tempo que tentava desanuviar o cérebro entorpecido pelo álcool.

Ali estava a questão com que se debatera sozinho durante semanas, e, subitamente, estava a ser-lhe oferecido um apoio inesperado. Pigarreou para aclarar a garganta e perguntou:

— Quando é que ele gostaria que nos encontrássemos? — Paul inclinou-se para tentar ver o interior do carro preto, mas não conseguiu ver nada.

— Agora mesmo — respondeu Franco. — O Sr. Dominick tem um iate atracado em Hoboken. — Podemos levá-lo até lá em quinze minutos, vocês conversam e depois trazemo-lo de volta à sua casa. Demorará, no máximo, uma hora.

— Hoboken? — perguntou Paul, desejando não ter bebido os cocktails. Parecia ter cada vez mais dificuldade em pensar. Por um segundo, nem sequer se conseguiu recordar onde ficava Hoboken.

— Estaremos lá em menos de quinze minutos — repetiu Franco.

Paul não estava muito entusiasmado com a idéia e detestava tomar decisões rápidas. Ele era um contabilista que gostava de lidar com números, não com julgamentos de valor apressados, particularmente quando estava semi-embriagado. Em circunstâncias normais, Paul nunca entraria num carro com desconhecidos à noite para ser levado a um iate para um encontro noturno com um homem que não conhecia. Mas, no seu estado confuso actual, e com a perspectiva de uma personagem tão importante como Vinnie Dominick apoiar a sua decisão sobre a empresa, ele não conseguiu resistir. Com um último aceno de cabeça, ele deu um passo vacilante em direcção à porta do carro aberta. Angelo ajudou-o, pegando no computador portátil de Paul e devolvendo-lho quando ele já estava sentado.

Enquanto seguiam em direção a Nova Iorque, ninguém falou. Franco e Angelo iam sentados no banco da frente e, vistas do lugar de Paul no banco de trás, as suas cabeças eram escuros e imóveis recortes bidimensionais contra a luz dos carros vindos do sentido oposto. Paul olhou pela janela lateral e perguntou a si próprio se não deveria pelo menos ter entrado em casa para dizer à mulher o que ia fazer. Suspirou e tentou ver o lado positivo. Embora o interior do automóvel tresandasse a tabaco, nem Franco nem Angelo acenderam um cigarro. Paul sentiu-se grato por isso.

A marina estava escura e deserta. Franco entrou directamente no molhe principal, e saíram os três do carro. Uma vez que estavam fora de época, a maior parte dos barcos estavam em terra, em cima de blocos, e cobertos com capas de vinil brancas que pareciam mortalhas.

O grupo caminhou ao longo do molhe, sem conversar. O ar frio reanimou um pouco Paul. Ele observou a beleza da linha do horizonte da Cidade de Nova Iorque à noite, perturbada pelo facto de, em primeiro plano, o rio Hudson se parecer mais com crude do que com água. As ondas leves batiam, com um som suave, nos pilares e na costa salpicada de lixo. Um ligeiro odor a peixe morto flutuava na brisa. Paul interrogou-se sobre a racionalidade do que estava a fazer mas pensou que era demasiado tarde para mudar de idéia.

A meio do molhe, eles pararam junto da popa de mogno de um imponente iate com o nome Full SpeedAhead gravado a letras douradas. As luzes estavam acesas no salão principal, mas não se via ninguém. Uma fila de canas de pesca emergia dos suportes cilíndricos ao longo da amurada como pêlos de um inseto gigante.

Franco entrou no barco, subiu imediatamente por uma escada situada a estibordo e desapareceu de vista.

—Onde está o Sr. Dominick? — perguntou Paul a Angelo, sentindo-se cada vez menos à vontade por não ver o investidor.

— Dentro de dois minutos vai estar a conversar com ele — tranquilizou-o Angelo, indicando-lhe, com um gesto, que devia atravessar a estreita prancha de embarque como Franco fizera. Resignado, Paul obedeceu. Uma vez a bordo, Paul teve de se equilibrar enquanto o enorme barco subia e descia com a ondulação suave.

A surpresa seguinte foi que Franco pôs os motores a trabalhar com um potente rugido. Ao mesmo tempo, Angelo retirou rapidamente as amarras e puxou a prancha de embarque para dentro. Era óbvio que os dois homens estavam habituados a manejar o barco.

Paul sentia-se cada vez mais inquieto. Ele partira do princípio de que o seu supostamente breve encontro com Sr. Dominick teria lugar com o iate atracado. Enquanto o barco saía do seu ancoradouro, Paul contemplou por um instante a possibilidade de saltar do barco em movimento para a doca, mas a sua indecisão natural deixou a oportunidade passar. Depois de quatro martinis, duvidava que conseguisse fazê-lo mesmo que tentasse, especialmente com o computador portátil na mão.

Paul espreitou pelas janelas para o salão principal, na esperança de ver o seu anfitrião. Dirigiu-se para a porta e rodou a maçaneta. A porta abriu-se. Ele olhou para trás, para Angelo, que estava ocupado a enrolar as pesadas amarras ao lado de uma pilha de tijolos. Angelo fez-lhe sinal para que entrasse. O rugido cada vez mais alto dos motores a diesel dificultava a conversa.

Depois de fechar a porta atrás de si, Paul sentiu-se aliviado por a maior parte do barulho dos motores ter desaparecido, embora as vibrações se mantivessem. A decoração do iate era ostentosa e sem gosto. Havia uma grande televisão de ecrã plano, com algumas poltronas agrupadas à frente, uma mesa de jogo com cadeiras, um sofá grande em forma de I e um bar extremamente bem fornecido. Ele atravessou o salão e olhou para zona da cozinha situada alguns degraus abaixo, a seguir à qual havia um corredor com várias portas fechadas. Paul supôs que fossem camarotes.

— Sr. Dominick — chamou Paul. Não houve resposta.

Paul sentiu os motores a acelerar e o ângulo de elevação do barco a acentuar-se antes de diminuir novamente, e teve de se segurar para conseguir manter o equilíbrio. Olhou pela janela. O barco tinha aumentado de velocidade. Um rugido súbito fez Paul olhar para a porta que dava para o convés. Angelo tinha entrado e, depois de fechar a porta atrás de si, aproximou-se de Paul. À luz do salão bem iluminado, Paul ficou surpreendido com a quantidade de cicatrizes que o homem tinha na cara. Ele não só não tinha sobrancelhas, como nem sequer tinha pestanas e, o que era ainda mais surpreendente, os seus lábios invulgarmente finos estavam repuxados para trás de tal modo que davam a impressão de não conseguirem fechar-se completamente sobre os dentes amarelos.

— O Sr. Dominick — anunciou Angelo, estendendo um telemóvel aberto a Paul.

Reprimindo uma repentina sensação de ressentimento com o absurdo da situação, Paul tirou o telefone da mão de Angelo. Pousou o computador portátil em cima da mesa de jogo, sentou-se e levou o telefone ao ouvido enquanto via Angelo sentar-se atravessado numa das poltronas.

— Sr. Dominick — disse Paul num tom seco, com a intenção de exprimir a sua irritação e frustração por ter sido enganado e levado a falar a um telemóvel, algo que podia muito bem ter feito no banco de trás do carro. Tencionava ainda dizer que também não gostava de ter uma conversa confidencial que pudesse ser ouvida por Angelo, que não dava qualquer indicação de ir sair dali.

— Escute, meu bom amigo — interrompeu Vinnie. — Porque é que não me chama Vinnie, uma vez que possivelmente vamos trabalhar juntos para endireitar as coisas na Angels Healthcare? E, antes de falar mais sobre esse assunto, quero pedir desculpa por não estar aí pessoalmente. Era essa a minha intenção, mas tive um problema de negócios urgente que exigiu a minha atenção imediata. Espero que me perdoe.

— Suponho...—começou Paul a dizer, mas Vinnie interrompeu-o.

— Uma vez que não estou aí para o receber, espero que o Franco e o Angelo o estejam a tratar com a hospitalidade apropriada. O plano era eles apanharem-me no ancoradouro do Jacob Javits Center, mas estou preso aqui em Queens. Diga-me! Eles ofereceram-lhe uma bebida?

—Não, mas eu não preciso de uma bebida, — mentiu Paul. Estava morto por uma bebida forte. — O que eu gostaria era de ser levado de volta à marina. Podemos conversar no caminho.

— Eu já disse ao Franco e ao Angelo que o tragam de volta — disse Vinnie. — Entretanto, vamos tratar de negócios. Penso que já se apercebeu da dimensão do meu interesse na Angels Healthcare.

— Já, sim, e estou-lhe muito grato. Sem a sua generosidade, a Angels Healthcare não estaria onde está.

— A generosidade não tem nada a ver com o meu envolvimento. É estritamente uma questão de negócio... um negócio sério, devo acrescentar.

— Com certeza — disse Paul rapidamente.

— Como director através de um procurador, eu ouvi rumores de que existe um grave problema com o fluxo de fundos a curto prazo. Há alguma verdade nesses rumores?

— Antes de eu responder — retorquiu Paul olhando para Angelo enquanto este limpava descontraidamente as unhas — um dos seus homens está aqui sentado e consegue ouvir tudo. Isto é apropriado?

—Absolutamente — respondeu Vinnie sem hesitar. — O Franco e o Angelo são como família.

— Nesse caso, tenho de admitir que os rumores são verdadeiros. Existe um grave problema de fluxo de fundos. — A voz de Paul tinha um cicio pouco característico, como se tivesse a língua inchada.

— E também me disseram que a Comissão de Bolsas e Títulos exige que uma alteração deste tipo na situação fiscal da empresa seja comunicada dentro de um prazo estipulado.

— Isso também é verdade — admitiu Paul com uma sensação de culpa. — O impresso chama-se oito-K e tem de ser entregue num prazo de quatro dias.

—E também fui informado de que este impresso não foi entregue.

— Está novamente correcto — confessou Paul. — O impresso foi preenchido mas não foi entregue. O meu Director Financeiro disse-me que não o entregasse.

— Como é que ele é normalmente entregue?

— Electronicamente, online — respondeu Paul. Olhou pela janela, perguntando a si próprio porque é que não tinham mudado de rota. Sentia-se ligeiramente tonto e tinha o estômago às voltas.

— Deixe-me ver se eu estou a entender bem: uma vez que a comunicação não foi entregue, nós estamos a violar as regras da Comissão de Bolsas e Títulos.

— Estamos, sim — disse Paul com relutância. O fato de lhe ter sido dito que não a entregasse não o absolvia da responsabilidade. As novas regras da Lei Sarbanes-Oxley tornavam isso claro. Olhou para Angelo, cuja presença, apesar das garantias do Sr. Dominick, ainda o incomodava, dada a natureza da conversa.

— Também me foi dito que não entregar a comunicação dentro do prazo pode ser considerado um crime, o que me leva a perguntar se tenciona entregá-la de modo a que nenhum de nós seja considerado cúmplice.

— Eu vou conversar novamente com o meu chefe amanhã. Aconteça o que acontecer, eu assumirei a responsabilidade de a entregar. Por isso a resposta é sim.

— Bem, isso é um alívio — comentou Vinnie. — Onde está o impresso?

— Está aqui, no meu computador portátil.

— E está em mais algum lugar?

— Está numa pen. A minha secretária é que a tem — disse Paul. Sentiu as vibrações do motor a diminuir. Olhando pela janela, viu que tinham abrandado.

— Há alguma razão especial para que ela a tenha em sua posse?

— É só para haver um ficheiro de segurança. Obviamente que eu e o meu chefe não temos estado de acordo sobre esta questão, e o portátil pertence, de facto, à empresa.

—Ainda bem que tivemos esta conversa—disse Vinnie—porque parece que eu e o Paul estamos de acordo. Quero agradecer-lhe por ter princípios morais. Temos de fazer o que está correcto, mesmo que isso signifique adiar a OIV temporariamente. A propósito, como é que se chama a sua secretária?

— Amy Lucas.

— Ela é uma pessoa leal?

— Absolutamente.

— Onde é que a Amy vive?

— Algures em New Jersey.

— Como é que ela é?

Paul revirou os olhos. Teve de pensar.

— É pequenina, com uma cara de fada. Parece muito mais nova do que é. Suponho que o que ela tem de mais notável é o cabelo. Neste momento, é louro com madeixas verde-alface.

— Eu diria que isso é único. Ela sabe o que está na pen?

— Sabe — replicou Paul, reparando que os motores quase tinham parado. Através da janela, viu, pelas luzes distantes ao longo da costa, que estavam praticamente parados. Olhando na outra direção, conseguia ver a Estátua da Liberdade iluminada.

— Há mais alguém que tenha estado envolvido no preenchimento do impresso oito-K, ou que tenha conhecimento da sua existência? Eu não quero preocupar-me com um potencial delator que esteja prestes a entregar a comunicação antes de si para ganhar uns patacos, afirmando que ela não ia ser entregue.

— Que eu saiba, ninguém—disse Paul. — O Diretor Financeiro podia ter dito a alguém, mas eu duvido. Ele disse muito claramente que não queria que a informação viesse cá para fora.

— Esplêndido — comentou Vinnie.

— Sr. Dominick—disse Paul. — Eu acho que vai ter de falar com os seus homens sobre levarem-me de volta para a marina.

— O quê? — perguntou Vinnie num tom de exagerada incredulidade. — Deixe-me falar com um desses cabeças de abóbora.

Paul estava prestes a chamar Angelo e a passar-lhe o telefone quando Franco desceu ruidosamente da ponte do convés e se aproximou de Paul com a mão estendida. Paul ficou surpreendido com a precisão do momento. Parecia que Franco tinha estado a escutar a conversa.

Enquanto Franco se afastava para conversar, Angelo levantou-se. Não podia sentir-se mais satisfeito com a perspectiva de voltar para a marina. Embora tivesse feito viagens frequentes no Full Speed Ahead, nunca se habituara a estar no barco. As viagens eram sempre de noite, geralmente para ir buscar droga a barcos vindos do México ou da América do Sul. O problema era que ele não sabia nadar e estar na água, especialmente na escuridão, fazia-o sentir-se inquieto. O que ele precisava era de uma bebida forte.

No bar, Angelo pegou num copo e deitou-lhe uma boa dose de uísque. Ao fundo, ele ouvia Franco ao telefone a repetir "sim" e "okay" e "está bem" como se estivesse a falar com a sua mãe. Angelo bebeu o uísque de um só golo e deu meia-volta no momento em que Franco dizia "É para já", e fechava o telemóvel.

— São horas de irmos para casa — disse Franco a Paul.

— Já não era sem tempo — resmungou Paul.

— Até que enfim — balbuciou Angelo enquanto enfiava a mão debaixo da lapela do casaco e fechava os dedos à volta da Walther TPH.22 semi-automática que trazia no coldre junto ao ombro.

 

                   2 DE ABRIL DE 2007, 19.20

Nos trinta e sete anos, Angela Dawson conhecia bem a adversidade e a angústia, apesar de ter crescido no seio de uma família de classe média-alta no afluente subúrbio de Englewood, New Jersey, e usufruído de todas as vantagens materiais inerentes, incluindo estudos em universidades da Ivy League. Detentora de uma Licenciatura em Medicina e de um MBA, bem como de uma excelente saúde, naquela noite do início de Abril no meio da Cidade de Nova Iorque ela devia sentir-se relativamente despreocupada, tendo especialmente em conta que tinha todas as vantagens de um estilo de vida abastado na ponta dos dedos, incluindo um fabuloso apartamento na cidade e uma espantosa casa na praia, em Martha's Vineyard. Em vez disso, Angela estava a enfrentar o maior desafio da sua vida, o que lhe provocava uma enorme ansiedade e angústia. A Angels Healthcare LLC, que ela fundara e gerira durante os cinco anos anteriores, estava à beira de um enorme sucesso ou de um fracasso total, e o seu desfecho seria decidido durante as próximas semanas. O desfecho dependia totalmente dela. Como se um desafio tão grande não fosse suficiente, Michelle Calabrese, a filha de dez anos de Angela, estava a ter a sua própria crise. E enquanto o Diretor Financeiro, o Diretor Administrativo, os diretores dos três hospitais da Angels Healthcare e a nova especialista em controlo de infecções aguardavam impacientemente na sala de reuniões do conselho de administração ao fundo do corredor, Angela tinha de resolver a questão de Michelle, com quem estava a falar ao telefone há mais de quinze minutos.

— Desculpa, querida — disse Angela, esforçando-se por manter a voz calma mas firme. — A resposta é não! Já discutimos o assunto, já refleti, mas a resposta é não. N-ã-o.

— Mas, Mamã — lamentou-se Michelle. — Todas as raparigas têm.

— Isso é difícil de acreditar. Tu e as tuas amigas só têm dez anos e andam no quinto ano. Tenho a certeza de que muitos pais são da mesma opinião que eu.

— O papá disse que eu podia. Tu és tão má. Talvez seja melhor eu ir viver com ele.

Angela cerrou os dentes e resistiu à tentação de reagir ao comentário doloroso da filha. Em vez disso, ela rodou na cadeira e olhou pela janela do seu gabinete de canto. A Angels Healthcare estava situada no vigésimo segundo andar da Trump Tower, na Quinta Avenida. O seu gabinete privado ficava virado para sul e oeste, e a secretária estava orientada para norte. Naquele momento, ela olhava para sul, para a Quinta Avenida repleta de trânsito. As luzes dos faróis traseiros pareciam mil rubis a brilhar. Ela sabia que a filha estava a reagir à sua própria raiva contra a vida com pais divorciados, tentando manipular Angela para conseguir o que queria. Infelizmente, comentários daquele género sobre o seu ex-marido tinham funcionado várias vezes no passado e tinham enfurecido Angela, mas ela estava decidida a evitar que isso voltasse a acontecer. Especialmente sob a tensão em que estava, pois ela precisava de manter-se calma para a reunião. Ser mãe e gerir um negócio de muitos milhões de dólares estavam muitas vezes em conflito, e ela tinha de manter as duas coisas separadas.

— Mamã, ainda aí estás? — perguntou Michelle. Ela sabia que se tinha excedido e já se arrependera do comentário. Ela certamente que não queria viver com o pai e todas as suas namoradas malucas.

— Ainda aqui estou — respondeu Angela, rodando na cadeira de modo a ficar virada para o interior do seu gabinete moderno, esparsamente mobilado. — Mas não gostei nada do teu último comentário.

— Mas tu estás a ser injusta. Quero dizer, deixaste-me furar as orelhas.

—As orelhas são uma coisa, um piercing no umbigo é algo totalmente diferente. Mas eu não quero falar mais sobre isso, pelo menos neste momento. Já jantaste?

— Já — retorquiu Michelle num tom abatido. — A Haydee fez paella.

Graças a Deus que tenho a Haydee, pensou Angela. Haydee Figueiredo era uma simpática colombiana que Angela contratara como ama interna logo depois de se ter separado do marido, Michael Calabrese. Na altura, Michelle tinha apenas três anos, e Angela estava a seis meses de terminar o internato. Haydee fora uma dádiva do céu.

— Quando é que vens para casa? — perguntou Michelle.

— Só daqui a algumas horas — respondeu Angela. — Tenho uma reunião importante.

— Tu dizes sempre que as reuniões são importantes.

— Se calhar digo, mas esta é mais importante do que a maior parte delas. Tens trabalhos de casa?

— O céu é azul? — perguntou Michelle num tom arrogante. Angela não gostou da falta de respeito que o comentário e o tom da voz de Michelle sugeriam, mas deixou passar.

—Se precisares de ajuda em qualquer das disciplinas, quando chegar a casa, eu ajudo-te.

— Acho que já devo estar a dormir.

— A sério? Porquê tão cedo?

— Tenho de me levantar cedo para uma viagem de estudo aos Cloisters.

— Oh, tinha-me esquecido — disse Angela, fazendo uma careta exagerada. Detestava esquecer-se de acontecimentos que eram importantes para a filha. — Se estiveres a dormir quando eu chegar a casa, vou ao teu quarto dar-te um beijinho e vemo-nos amanhã de manhã.

— Está bem, mamã.

Apesar do tom anterior da conversa, mãe e filha trocaram palavras sinceras de carinho antes de desligarem. Durante alguns momentos, Angela permaneceu sentada à secretária. Mas a conversa ao telefone com a filha tinha-a recordado de uma altura e de um episódio que fora tão exigente e angustiante como a situação atual. Tinha sido quando ela tivera de tratar, ao mesmo tempo, do divórcio e da falência do seu consultório de cuidados primários no centro da cidade, e o facto de ter sobrevivido nessa altura dava-lhe confiança para enfrentar as circunstâncias actuais.

Ligeiramente mais optimista do que se sentira ao princípio da tarde, Angela afastou-se da secretária, pegou nos seus apontamentos e saiu do gabinete. Ficou surpreendida ao ver que a sua secretária, Loren Stasin, ainda estava no seu posto de trabalho. Nas últimas três horas, Angela não pensara nela uma única vez.

— Porque é que ainda aqui está? — perguntou Angela com uma leve sensação de culpa.

Loren encolheu os ombros estreitos.

— Pensei que talvez precisasse de mim.

— Deus do céu, não. Vá para casa. Até amanhã.

— Precisa que lhe lembre que tem uma reunião amanhã de manhã no Manhattan Bank and Trust, seguida da reunião com o Sr. Calabrese no escritório dele?

— Não, não é preciso — respondeu Angela. — Mas obrigada, de qualquer modo. Agora, vá-se embora!

— Obrigada, Dra. Dawson — disse Loren, metendo sub-repticiamente um romance na gaveta.

Angela percorreu o sóbrio corredor interior. Por muitos motivos, as reuniões do dia seguinte não lhe agradavam. Ela sempre considerara algo aviltante tentar angariar dinheiro e agora, numa situação tão desesperada, seria ainda mais humilhante. Pior ainda era o fato de uma das pessoas a quem iria pedir dinheiro ser o seu ex-marido. Sempre que se encontrava com ele, fosse qual fosse o motivo, ela não conseguia deixar de recordar o turbilhão emocional do divórcio, para não falar do vexame que sentia por ter sequer casado com ele. Devia ter sido mais inteligente. Houvera demasiadas sugestões subtis de que ele viria a ser como o pai dela, estimulado pelo êxito da filha ao ponto de encorajar um comportamento condenável.

Quando chegou à porta fechada da sala de reuniões, Angela parou, respirou fundo, depois entrou. Tal como o seu gabinete, o interior era assepticamente moderno e dominado por uma impressionante mesa central composta por um tampo de vidro de seis centímetros de espessura colocado sobre um capitel jónico de mármore branco. O chão era de mármore branco. Nas paredes à direita e à esquerda estavam incrustados ecrãs de televisão planos para apresentações em PowerPoint. A parede ao fundo era de vidro e dava para a Quinta Avenida. O topo dourado e iluminado do Crown Building, situado do outro lado da rua, enchia a sóbria sala moderna de uma luz quente reflectida.

A mesa redonda tinha sido ideia de Angela. O seu estilo de gestão dava ênfase ao trabalho de equipa em vez da hierarquia, e a mesa redonda era mais igualitária do que as mesas de reuniões habituais. Embora houvesse cadeiras para dezesseis pessoas, naquele momento só cinco estavam ocupadas. O Diretor Financeiro estava sozinho no outro extremo, com as costas para a janela. Os três diretores dos hospitais estavam à esquerda de Angela. O Diretor Administrativo estava sentado à direita de Angela, a algumas cadeiras do Diretor Financeiro. A profissional de controlo de infecções estava ao lado do Diretor Administrativo.

Nenhum dos directores de departamento da Angels Healthcare, tais como aprovisionamento, lavandaria, engenharia, economato, relações públicas, recursos humanos, serviços de laboratório, enfermagem, pessoal médico ou membros do conselho de administração externos estavam presentes. Na realidade, nenhum deles tinha sido informado sobre a realização da reunião, e muito menos convidado a estar presente.

Angela sorriu com cordialidade enquanto olhava rapidamente para os rostos individuais e os cumprimentava. As expressões eram levemente apreensivas, com excepção da do Director Financeiro, Bob Frampton, cujo rosto carnudo tinha sempre o ar de quem sofria de privação de sono, e do Diretor Administrativo Cari Palanco, que parecia estar num estado de surpresa contínua.

— Boa tarde a todos — disse Angela enquanto se sentava e olhava em redor da sala. — Em primeiro lugar, peço desculpa por tê-los feito esperar. Eu sei que é tarde e que estão ansiosos por voltar para casa para junto das vossas famílias, por isso vamos ser breves. A boa notícia é que ainda estamos a funcionar. —Angela olhou para os três diretores dos hospitais, que anuíram com um ar contido. — A má notícia é que o nosso problema de fluxo de fundos passou de preocupante a crítico. Claro, há um mês já pensávamos que a situação era crítica, mas ela ainda piorou.

Angela fez um gesto na direção de Bob Frampton, que abanou ligeiramente a cabeça como se estivesse a obrigar-se a si próprio a acordar. Ele inclinou-se para a frente, colocou os cotovelos em cima da mesa com as mãos juntas e os dedos entrelaçados.

— Nós estamos a aproximar-nos rapidamente, se não mesmo a ultrapassar, a nossa margem de oitenta por cento dos empréstimos ao Manhattan Bank and Trust. Tivemos de vender algumas acções para pagar ao nosso fornecedor de cateteres cardíacos. Eles ameaçavam deixar de nos fornecer.

— Tendo em consideração a falta de dinheiro, quero agradecer-lhe pessoalmente por tê-lo feito — disse a Dra. Niesha Patrick. Ela era uma afro-americana jovem com a pele clara e sardas espalhadas num padrão de borboleta no nariz e nas bochechas. Tal como Angela, ela tinha um MBA, para além da licenciatura em medicina. Angela recrutara-a de uma importante empresa de cuidados de saúde da Costa Ocidental para gerir o Hospital de Cardiologia Angels. — Com os blocos operatórios fechados intermitentemente, a nossa única fonte de receitas segura tem sido a angiografia invasiva e a cardioplastia. Sem os cateteres, até mesmo essas receitas diminuiriam consideravelmente.

— A angiografia invasiva e a Lasik têm sido provavelmente responsáveis por nos manterem à tona de água — comentou Angela, acenando, com um ar de gratidão, na direcção de Niesha e do Dr. Stewart Sullivan. Stewart era o director do Hospital de Cirurgia Cosmética e Oftalmologia Angels.

— Estamos a fazer tudo o que podemos — disse Stewart.

— Por muito que sejam uma mina de ouro no actual ambiente de reembolsos—comentou Angela — os hospitais de especialidade estão em particular desvantagem quando os blocos operatórios estão fechados.

— Mas os blocos operatórios já estão todos abertos—disse Cynthia Sarpoulus num tom defensivo. Cynthia tinha sido colega de Angela na universidade, tendo-se especializado em doenças infecciosas e epidemiologia. Angela tinha-a contratado quando o problema das infecções nosocomiais surgira três meses e meio antes. Cynthia era uma mulher morena, de cabelo preto, com algum mau génio. Angela mostrara-se disposta a suportar o seu estilo susceptível e por vezes cáustico devido à sua formação, dedicação, inteligência e reputação. Ela tinha sido considerada a salvadora de várias instituições com problemas de controle de infecções.

— Elas podem estar abertas, mas só são utilizadas por uma fracção do nosso pessoal médico — disse o Dr. Herman Straus. Angela fora buscar Straus a um hospital comunitário de Boston, onde ele fora um administrador-adjunto muito respeitado. Era um homem grande, atlético, com uma personalidade extrovertida, que gostava particularmente de lidar com cirurgiões ortopédicos. Essa qualidade, combinada com a formação em administração que recebera no Hospital Cornell, fazia dele o director ideal do Hospital Ortopédico Angels, e o seu currículo era prova disso.

— E porque é que isso acontece? — perguntou Angela. — Seguramente que eles sabem que estamos a tentar resolver o problema desde o início. Cynthia, recorda a todos o que já foi feito.

—Praticamente tudo o que é possível—retorquiu Cynthia num tom brusco, como se estivesse a ser posta em causa. — Todas as salas de operações foram limpas com hipocloreto de sódio e fumigadas pelo menos uma vez com um produto chamado NAV-CO2. Este é um vapor de álcool não inflamável em dióxido de carbono.

— O que acarretou uma despesa considerável — comentou Bob.

— E porquê esse agente específico? — perguntou Cari.

— Porque o staphylococcus aureus resistente a meticilina, ou a sua designação mais comum, MRSA, é altamente sensível a esse preparado específico — retorquiu secamente Cynthia, como se este fosse um facto que todos tivessem obrigação de saber.

— Não nos vamos irritar—disse Angela, desejando que a reunião se mantivesse amigável e, esperava, produtiva. — Nós estamos todos no mesmo barco. Ninguém está a criticar. Que mais foi feito?

—Todos os quartos dos hospitais em que se verificaram infecções foram alvo do mesmo tratamento — respondeu Cynthia. — Mais importante ainda é talvez, como todos sabem, o facto de todos os membros do pessoal médico e todos os funcionários dos hospitais fazerem regularmente uma cultura, e aqueles que obtêm um resultado positivo como portadores são tratados com mupirocina até os resultados serem negativos.

— Também com um enorme custo — acrescentou Bob.

— Por favor, Bob — disse Angela. — Todos nós temos noção das despesas que este desastre acarreta. Continua, Cynthia! Achas que é fundamental fazer culturas e medicar o pessoal médico e os funcionários?

—Absolutamente—respondeu Cynthia.—E talvez devêssemos pensar em fazer o mesmo aos doentes quando são admitidos. A Holanda e a Finlândia tiveram um problema particularmente grave com o MRSA e o modo como controlaram o seu problema foi tratar o pessoal e os doentes: toda a gente que deu um resultado positivo como portador. Estou a começar a pensar que talvez tenhamos de fazer o mesmo. Mas a minha verdadeira preocupação é o facto de o MRSA estar a ocorrer nos nossos três hospitais. O que é que isso nos diz? Diz que se o responsável for um portador, então esse portador deve visitar regularmente os três hospitais. Por conseguinte, eu dei hoje ordens para que sejam feitas análises a todos os funcionários mesmo daqui da sede que visitem regularmente os três hospitais, quer tenham contacto com os doentes quer não, e que os que derem positivo devem ser tratados.

— Mais alguma coisa? — perguntou Angela.

— Demos ordens para que as mãos sejam lavadas cuidadosamente depois do contacto com cada doente—disse Cynthia. — Isto aplica-se particularmente ao pessoal médico e de enfermagem. Também instituímos o isolamento para todos os doentes com MRSA e uma mudança mais frequente da roupa do pessoal médico, tais como batas brancas e batas cirúrgicas. Também exigimos que o equipamento de rotina, como as braçadeiras dos aparelhos de medição da pressão arterial, seja bem limpo com álcool cada vez que for usado. Fizemos até análises aos recipientes da água dos sistemas HVCA dos três hospitais. Todos eles deram resultados negativos para elementos patogénicos, especialmente a estirpe de staphylococcus que nos tem atormentado. Resumindo, estamos a fazer tudo o que é possível fazer.

— Então porque é que os médicos não têm estado a admitir doentes? —perguntou Bob. — Como todos eles são proprietários, devem saber que, ao não admitir doentes, estão a tirar dinheiro dos seus próprios bolsos, especialmente se falirmos.

— Eu não quero ouvir essa palavra — disse Angela, que já tinha passado por essa humilhante experiência.

— A razão por que eles não estão a admitir ninguém é óbvia — disse Stewart. — Eles têm medo de que, apesar de todas as estratégias de controlo de infecção, os seus doentes apanhem uma infecção pós-operatória. Sendo o reembolso baseado apenas em DRG, os doentes que apanham uma infecção pós-operatória fazem baixar directamente a produtividade, e é a produtividade que determina o seu rendimento. Além disso, há a preocupação com as acusações de negligência. Alguns dos nossos cirurgiões plásticos e até mesmo dois dos nossos oftalmologistas estão a ser processados por causa destas infecções recentes com staphylococcus. Por isso, é muito simples. Apesar de serem detentores de acções, do ponto de vista económico faz sentido eles voltarem para o Hospital Universitário ou para o Hospital Geral de Manhattan, pelo menos a breve prazo.

— Mas todos os hospitais estão a ter problemas com staphylococcus — disse Cari, — especialmente o staphylococcus resistente à meticilina. E isso inclui o Hospital Universitário e o Hospital Geral.

— É verdade, mas não nos últimos três meses nem ao ritmo que tem acontecido connosco — disse Herman. — E, apesar de todos os esforços que a Dra. Sarpoulus tem estado a levar a cabo, o problema ainda não está resolvido, uma vez que tivemos no Angels Ortopédico outro caso hoje ao fim da tarde. É um doente chamado David Jeffries.

— Oh, não — lamentou-se Angela. — Não ouvi dizer nada. Estou desolada. Há mais de uma semana que isso não acontecia.

— Tal como em todos os casos anteriores, estamos a tentar que não se saiba—disse Herman. — Como eu disse, aconteceu esta tarde.

Durante alguns momentos, fez-se silêncio.

Todos os olhos se viraram para Cynthia. As expressões variavam entre ira, desalento e curiosidade. Como podia aquilo acontecer depois de tudo o que Cynthia lhes dissera que estava a ser feito, com um considerável dispêndio do dinheiro que eles não tinham?

—Ainda não está confirmado se foi o staphylococcus resistente à meticilina—retorquiu Cynthia defensivamente. A presidente da comissão de controlo das infecções do hospital tinha-a chamado para a informar sobre o caso imediatamente antes de ter vindo para aquela reunião.

— Se queres dizer que não foram feitas análises, tens razão — comentou Herman. — Mas o resultado deu positivo no nosso sistema VITEK, e a minha directora do laboratório diz que nunca viu um falso positivo: falsos negativos, sim, mas não falsos positivos.

— Meu Deus — disse Angela, tentando manter a compostura. — O doente foi operado hoje?

— Esta manhã — respondeu Herman. — Mais uma reparação do ligamento cruciforme anterior.

— Como é que ele está, ou não devo perguntar?

— Ele morreu quando estava a ser transferido para o Hospital Universitário. Por razões óbvias, assim que se tornou claro que se tratava de um choque tóxico, ele teria sido mais bem tratado lá.

— Meu Deus — repetiu Angela. Estava devastada. — Espero que compreendas que essa foi uma má decisão. Enviar dois doentes em dois dias para um hospital regular aumenta o risco de a comunicação social deitar a mão à história. Estou mesmo a imaginar as parangonas: Hospital de especialidade envia doente em estado crítico para outro hospital. Isso seria um pesadelo de relações públicas para nós, e resultaria no que estamos a tentar desesperadamente evitar: afetar negativamente a OIV.

Herman encolheu os ombros:

—A decisão não foi minha. Foi uma decisão médica. Eu não pude fazer nada.

— Como é que a família Jeffries reagiu? — perguntou Angela.

— Do modo que se poderia esperar — respondeu Herman.

— Falaste com eles pessoalmente?

— Falei.

— O que é que achas, vão processar-nos? — perguntou Angela. Naquela altura, o controlo de danos tinha de ser uma prioridade.

—É demasiado cedo para se saber, mas fiz o que devia fazer. Assumi a responsabilidade em nome do hospital, pedi muitas desculpas e falei de tudo o que temos estado a fazer e continuaremos a fazer para evitar outra tragédia semelhante.

— Está certo, não podes fazer mais nada — disse Angela, mais para se tranquilizar a si própria do que para tranquilizar Herman. Ela tomou rapidamente um apontamento. — Vou informar o nosso advogado. Quanto mais cedo ele tiver conhecimento, melhor.

Bob falou:

— Se houver outra infecção pós-operatória, por mais trágico que isso seja para todos, é melhor que o doente seja transferido rapidamente. Os nossos custos serão consideravelmente inferiores, o que, nas nossas circunstâncias, pode ser crítico.

Angela virou-se para Cynthia.

— Descobre se a operação foi feita numa das salas que tinham acabado de ser limpas. Em todo o caso, limpa-a novamente, mas não feches todo o bloco operatório. E descobre quando é que o pessoal envolvido fez análises e se algum era portador.

Cynthia acenou afirmativamente a cabeça.

— Não existe nenhuma forma de conseguirmos que os nossos médicos acionistas aumentem o número de doentes? — perguntou Bob. — Seria uma enorme ajuda. Nós precisamos de receitas. Eu não me importo de faturar adiantadamente a Medicare se for apenas por algumas semanas.

Os diretores dos três hospitais olharam uns para os outros para verem quem iria falar. Foi Herman quem se adiantou:

— Eu acho que não existe qualquer forma de aumentar o número de doentes, especialmente com este novo caso de MRSA. Eu não sei o que os meus colegas pensam, mas os ortopedistas são muito adversos às infecções, já que as infecções dos ossos e das articulações têm uma tendência para durar muito tempo e ocupar muito tempo ao cirurgião, mesmo nas melhores circunstâncias. Eu discuti isto com o meu Director Clínico. Foi ele que me alertou para este facto.

— Eu falei com o meu Director Clínico — disse Niesha. — Recebi basicamente a mesma resposta.

—Eu também — acrescentou Stewart.—Quando se trata de infecções, todos os cirurgiões são adversos aos riscos.

— Em qualquer caso, provavelmente é demasiado tarde — disse Angela, tentando recompor-se desta rajada de más notícias. — Mas a pergunta do Bob vai direta ao motivo por que eu convoquei esta reunião. Em primeiro lugar, queria que todos soubessem tudo o que a Dra. Sarpoulus tem feito a respeito do problema do MRSA. Obviamente que eu não tinha conhecimento de que havia um caso novo. Esperava sinceramente que estivesse tudo bem. Seja como for, temos de conseguir ultrapassar as próximas semanas.

Angela virou-se seguidamente para Cynthia.

—Apesar dos acontecimentos de hoje, a Angels Healthcare agradece os teus esforços continuados. Agora, importas-te de nos deixar, que vamos ter a nossa enfadonha discussão financeira? A princípio, Cynthia não reagiu. Os seus olhos escuros fitaram Angela por um momento, depois varreram os outros. Sem uma palavra, ela afastou a cadeira da mesa e saiu da sala. A porta fechou-se com um baque surdo.

Por um momento, ninguém falou.

— Bastante teimosa — comentou Bob ao fim de algum tempo, quebrando o silêncio.

— Teimosa mas dedicada — disse Cari. — Ela está a levar este problema e a sua persistência muito a peito. Aposto que pensa que vamos fazer comentários negativos a seu respeito, em especial com este novo caso.

— Amanhã eu tranquilizá-la-ei — disse Angela. — Mas agora vamos ao cerne da questão. Como todos sabem, o fecho da nossa OIV é daqui a duas semanas. A questão é: como vamos lá chegar sem que algum investidor potencial ou funcionário da Comissão de Bolsas e Títulos descubra a nossa actual catástrofe de fluxo de fundos. Até agora temos tido sorte, apesar dos processos por negligência. Também temos a sorte de um problema como o staphylococcus ter ocorrido depois da auditoria externa, pelo que o seu impacto não se reflecte no prospecto da OIV. Eu sei que todos vocês fizeram imensos sacrifícios pessoais. Ninguém do escalão de topo, incluindo eu, recebeu salário nos últimos dois meses. Todos nós estendemos o nosso crédito pessoal até ao limite. Agradeço-vos por isso. Posso-vos garantir que temos pedido dinheiro emprestado aos nossos investidores até ao máximo possível, incluindo duzentos mil dólares ao nosso principal grupo financiador.

"A ironia desta situação desesperada é que, se a OIV correr conforme planeado, a entidade que garante a colocação de novos títulos garantiu-nos recentemente que obteremos quinhentos milhões de dólares, o que significa que ficaremos todos ricos e que a empresa estará a nadar em dinheiro. E, o que é igualmente importante, terá início a construção dos nossos três hospitais propostos para Miami, bem como dos três hospitais propostos para Los Angeles. Estamos prestes a ser a primeira empresa de hospitais de especialidade a entrar na bolsa depois do levantamento da moratória do Senado dos Estados Unidos sobre a construção de hospitais de especialidade, e estamos envolvidos nas especialidades mais lucrativas. A altura não podia ser mais perfeita. O céu é o limite. Só temos que lá chegar.

Angela fez uma pausa e fitou os olhos de cada uma das pessoas presentes na sala para se certificar de que não havia qualquer discordância. Ninguém se moveu nem falou. Angela olhou para os seus apontamentos.

— Ninguém tem culpa desta situação — garantiu Angela. — Nenhuma das folhas de cálculo que utilizámos para prever até mesmo o pior dos cenários previu uma catástrofe destas, o encerramento simultâneo dos nossos blocos operatórios. Com receitas próximas do zero e os custos fixos elevados, o ritmo a que o capital de emergência foi gasto era suficiente para nos deixar sem respiração aqui na sede. Mas vocês sabem tudo isto e, com a vossa ajuda, conseguimos sobreviver. Temos vindo a coxear, retendo o pagamento aos nossos fornecedores até a situação se tornar crítica. Continuamos a fazê-lo, mas, mesmo assim, isso talvez não seja suficiente. Bob, diz a todos de quanto capital precisamos para chegar à OIV.

— Eu sentir-me-ia confiante com duzentos mil dólares — disse Bob. — À medida que o capital desce para zero, o mesmo acontece à minha confiança.

— Duzentos mil — repetiu Angela com um suspiro. — Infelizmente, isso é muito dinheiro, e eu já não tenho mais ideias. O que eu quero saber é se vocês têm alguma sugestão. Da vossa perspectiva, o principal problema, claro, é que todos têm salários para pagar e, se o fluxo de fundos continuar negativo, isso torna-se cada vez mais difícil a não ser que nós vos ajudemos. O problema é que todas as nossas contas à ordem estão com pouco dinheiro.

— E se não pagarmos os impostos? — sugeriu Stewart. — São só duas semanas.

— É uma má ideia — disse Bob sem hesitar. — Os impostos sobre os vencimentos e os impostos retidos na fonte são pagos por transferência bancária. Se os suspendermos, o banco irá saber, porque temos de lhe dar instruções para o efeito. Dar instruções ao banco para suspender o pagamento dos impostos seria uma enorme bandeira vermelha.

— E que tal falarmos outra vez ao nosso principal financiador? — sugeriu Niesha.

— Eu vou tentar amanhã — disse Angela. — Estou otimista. O nosso agente de colocação de títulos, que foi quem inicialmente encontrou o financiador, já conseguiu duzentos e cinquenta mil dólares há um mês e, na altura, levou-me a acreditar que a fonte estava seca. Mas, mesmo assim, ainda vou tentar.

—E um empréstimo ao banco a curto prazo?—perguntou Stewart. — Eles sabem da OIV. Que diabo, são só duas semanas. Com os juros que temos pago sobre os nossos empréstimos, eles já fizeram uma fortuna conosco.

— Estás a esquecer-te do que eu disse no início — disse Bob. — Na sexta-feira, recebi uma chamada do banco, do gestor das contas do setor da saúde. Ele estava incomodado com o fato de termos vendido títulos para pagar ao nosso fornecedor de cateteres. Neste momento, o banco não está nada satisfeito connosco. Se ele exigisse o pagamento de parte do nosso empréstimo, seria o nosso fim.

Nessa altura, Angela olhou cada um dos presentes. Estavam todos a olhar para os pés através da mesa de vidro. — Muito bem — disse ela, quando se tornou óbvio que ninguém tinha outras ideias. —Amanhã vou falar com o banco e depois com o nosso agente de colocação de títulos. Farei o melhor que puder. Se alguém tiver quaisquer outras idéias, o meu telemóvel estará sempre ligado. Obrigada a todos por terem vindo.

Ouviu-se raspar o chão quando todas as cadeiras, excepto a de Angela, foram empurradas para trás nas suas pernas com ponta de Teflon. Ao sair da sala, a maior parte dos presentes apertou o ombro de Angela, num gesto tranquilizador. Durante alguns minutos ela ficou onde estava, a olhar para o telhado cónico do Crown Building, no outro lado da rua, e a pensar nos problemas da sua empresa. Não parecia justo que, depois de todo o seu trabalho e ansiedade, ela e o seu império nascente da Angels Healthcare pudessem ser derrotados por uma mísera bactéria. Ao mesmo tempo, não estava surpreendida. No mundo financeiro, quer envolvesse fabricar lâmpadas, quer tivesse a ver com o fornecimento de cuidados de saúde, a justiça era, na melhor das hipóteses, uma coisa que devia ser considerada a posteriori. O dinheiro era rei, e ela aprendera essa lição de uma forma dura, quando tentara em vão manter à tona o seu consultório de cuidados primários onde via mais do que a sua quota-parte de doentes da Medical. Mais do que qualquer outra coisa, tinha sido a dolorosa experiência da falência que a fizera ir para a Faculdade de Economia, onde, numa espécie de vingança, fora uma excelente aluna e se apercebera de que os cuidados de saúde, se abordados correctamente, podiam não apenas proporcionar um certo conforto do ponto de vista financeiro, como tornar uma pessoa verdadeiramente rica.

Com uma determinação renovada, Angela empurrou a cadeira para trás e pôs-se de pé. Foi buscar o casaco e o guarda-chuva, mas deixou propositadamente os apontamentos e a pasta em cima da secretária. Planeava ir buscá-los na manhã seguinte, antes de se dirigir ao Manhattan Bank and Trust para a primeira reunião do dia. Ela sabia que, para ter uma boa noite de sono e estar em forma no dia seguinte, quando necessitara de todas as suas capacidades mentais, tinha de fazer um esforço activo para desanuviar a mente. Sempre que o fizera no passado, quando se vira em circunstâncias semelhantes, ela não só se sentira melhor no dia seguinte como também muitas vezes passara a ver os problemas sob uma perspectiva diferente e tivera ideias novas. Era como se o seu subconsciente fosse um participante activo nas suas decisões.

Na esquina da Quinta com a 56 Street, Angela ficou parada na berma do passeio e levantou a mão para tentar mandar parar um táxi, ciente de que era difícil arranjar táxis às oito e vinte cinco da noite, especialmente numa noite chuvosa do início de Abril. Uma vez que, àquela hora, os motoristas de táxi da cidade estavam a terminar o seu turno, a maior parte dos táxis que viu tinham acesas as luzes de fora-de-serviço. Os outros estavam ocupados. Até ao mês anterior, Angela tinha utilizado regularmente um serviço de aluguer de automóveis, mas, com os pagamentos em atraso, ela estava agora reduzida a apanhar táxis. Precisamente quando estava prestes a começar a caminhar na direcção do seu apartamento na 70 Street, um táxi parou para largar um passageiro. Assim que o homem pagou e saiu, Angela entrou.

Enquanto o táxi se dirigia velozmente para o endereço de Angela, ela respirou fundo e suspirou. Foi então que se apercebeu de como estava tensa. Cruzados os braços à frente do peito, ela massajou os ombros, depois fez o mesmo com as têmporas. Lentamente, sentiu os músculos abdominais e as coxas a descontrair-se. Abrindo os olhos, olhou para as luzes da cidade reflectidas nas ruas brilhantes e molhadas. Havia muitos peões na rua, muitos de braço dado, a partilhar guarda-chuvas. Era em momentos como aquele, entre as exigências do dia de trabalho e as preocupações domésticas que envolviam a sua filha, que Angela se apercebia de que não tinha qualquer vida social, especialmente com membros do sexo oposto. A interacção com homens estava limitada a encontros relacionados com o trabalho, à rara noite dos pais na escola da filha ou, tristemente, com alguém na fila da caixa do supermercado. O fato de ser essa a sua escolha, como mulher ambiciosa e como mulher cujas experiências com homens a levavam a questionar a capacidade monogâmica deles, não diminuía o desejo ocasional.

 

Recusando-se a pensar mais no assunto, ela pegou no telemóvel e carregou na tecla de marcação rápida para casa. Esperava ouvir a voz da filha, pois esta atendia geralmente antes do fim do primeiro toque, mas Angela deu por si a falar com Haydee, a ama-mordomo. Com uma vida tão ocupada, Angela permitia que Haydee desempenhasse papéis múltiplos.

— Onde está o terror? — perguntou Angela. "Terror" era o nome por que Angela e Haydee se referiam por graça a Michelle quando esta não estava presente. O nome tinha graça porque era o oposto do que elas sentiam. Ambas as mulheres achavam Michelle ligeiramente teimosa, como era próprio da idade, e ocasionalmente conflituosa, como a questão do piercing do umbigo tinha demonstrado, mas, tirando isso, consideravam-na quase perfeita.

— Está deitada, e acho que já está a dormir. Quer que a acorde?

— Deus do céu, não — respondeu Angela, sentindo uma ponta de solidão. — Claro que não.

Após uma breve conversa sobre vários assuntos domésticos, Angela tomou repentinamente uma decisão. Terminou a conversa dizendo a Haydee que não esperasse por ela a pé, pois só estaria em casa daí a algumas horas.

Inclinando-se para a frente, Angela falou com o motorista através da divisória de Plexiglas. Em vez de ir para casa, para junto da filha que estava a dormir, decidiu ir ao ginásio. Com tudo o que se estava a passar, há meses que lá não ia, e certamente que precisava de fazer exercício, tanto por razões mentais como físicas. Além disso, pensou, haveria lá gente e, ainda por cima, podia comer qualquer coisa no restaurante/bar do clube, que era surpreendentemente bom.

O ginásio de Angela ficava na Columbus Avenue, a alguns quarteirões do seu apartamento. Procurou o cartão de sócio na carteira cheia de papéis e encontrou-o sem grande dificuldade. Passado pouco tempo, já tinha vestido a roupa da ginástica e começado a pedalar numa das bicicletas estacionárias enquanto via a CNN. Sentiu-se desanimada ao ver como estava em baixo de forma. Ao fim de cinco minutos, estava ofegante. Dez minutos depois, estava a transpirar tanto que achou que devia parecer um copo de chá gelado nos trópicos. Mas, com força de vontade, persistiu até ter atingido o seu objectivo de vinte minutos.

Quando saiu da bicicleta, Angela colocou as mãos nas ancas e deixou-se ficar parada, ofegante, a tentar recuperar o fôlego. Por um momento, foi necessária toda a sua concentração. Ainda por cima, estava alagada em suor. A fita do cabelo que, no passado, tinha sido mais um adereço do que necessidade, estava completamente ensopada. Imaginou que devia estar com um aspecto péssimo, com o rosto corado, a roupa pegada ao corpo e o cabelo parecido com uma esfregona. O mais embaraçoso era que todas as pessoas ao pé dela pedalavam com aparente facilidade. Ninguém parecia estar a transpirar, e muitos conseguiam concentrar-se na leitura enquanto pedalavam. Angela sabia que não teria conseguido ler nada durante o exercício, especialmente perto do fim.

Pegou na toalha e secou o rosto. Sentindo-se envergonhada da sua falta de resistência e do seu mau aspecto, olhou rapidamente para os rostos dos que estavam nas bicicletas enquanto se dirigia para a sala dos pesos. Felizmente para a sua auto-estima, ninguém lhe prestou atenção até os seus olhos se cruzarem com um homem louro que pedalava furiosamente, mas que ainda não começara a transpirar. A rapidez com que ele desviou o olhar confirmou as preocupações de Angela sobre o seu aspecto. Quando passou por trás dele, ela sorriu da sua paranóia; na realidade, estava-se nas tintas para o que o desconhecido pudesse pensar.

Angela deu a volta à sala dos pesos sem qualquer plano específico, usando as máquinas de um modo aleatório. Teve o cuidado de não usar demasiados pesos e de não fazer muitas repetições. A última coisa que queria era distender um músculo ou torcer uma articulação. Apesar da hora, a sala estava razoavelmente apinhada. Ela reparou como alguns homens olhavam para as mulheres enquanto fingiam olhar para outro lado, o que a fez pensar como eles podiam ser extremamente néscios.

Pegando num par de pesos leves, ela colocou-se em frente de um espelho e começou a alongar, mais do que a exercitar, os músculos da parte superior do corpo. Enquanto continuava, observou-se a si própria e tentou ser objetiva. O seu corpo ainda era bastante bom e não estava muito diferente do que tinha sido quando ela tinha vinte e tal anos. Obviamente que isso se devia mais aos genes do que ao esforço, tendo em conta as poucas vezes que ia ao ginásio desde que tomara conta da Angels Healthcare. Tinha a barriga lisa, apesar da gravidez. As pernas tinham uma boa definição, e o rabo era mais firme do que ela merecia. Tudo considerado, ela estava satisfeita com o seu aspecto, com excepção do cabelo.

Um mês depois do início da recente catástrofe da Angels Healthcare provocada pelo MRSA, ela descobrira alguns cabelos brancos. A sua mãe tinha ficado com os cabelos brancos bastante cedo, por isso ela não devia ter ficado surpreendida, mas isso tinha-a incomodado ao ponto de ter comprado um colorante numa farmácia local e de o ter usado várias vezes. Embora os cabelos brancos tivessem desaparecido, ela ficara preocupada com a possibilidade de o seu brilho natural se ter desvanecido juntamente com eles. E agora, ao olhar para o cabelo ao espelho da sala de pesos do ginásio, ficou convencida disso.

Angela fez subitamente uma breve mas exagerada expressão de horror total ao espelho, troçando de si própria. Em última análise, ela não era uma pessoa vaidosa. O que lhe interessava era a realização, não o aspecto.

— Está-se a sentir bem? — perguntou uma voz.

Angela virou-se e olhou para o rosto do homem louro cujos olhos se tinham cruzado com os seus por um instante na sala das bicicletas. Ele estava na casa dos quarenta e era razoavelmente atraente e, com toda a probabilidade, com uma inteligência equivalente. Tinha olhos azuis vivos, cabelo à escovinha e um cativante sorriso despreocupado. Vestia uma t-shirt que dizia "Make my day".

— Estou bastante bem — respondeu Angela depois da sua breve avaliação do desconhecido. — Porque é que pergunta?

— Por um momento, pensei que ia começar a chorar.

Angela soltou uma gargalhada. Quando fizera a expressão de troça ao espelho, esquecera-se momentaneamente de que estava numa sala com uma quantidade de homens secretamente atentos.

— Porque é que se está a rir? A sério! Há um minuto, quando estava a fazer os exercícios, parecia que estava prestes a desatar a chorar.

— Demoraria demasiado tempo a explicar.

— Para mim, o tempo não é problema. Que tal uma bebida depois do treino para me explicar? Depois disso, quem sabe?

Angela olhou para o homem que estava ao seu lado com um sorriso irónico. Há bastante tempo que ninguém se atirava a ela tão rápida e descaradamente. Em circunstâncias normais, ter-se-ia limitado a sorrir e a afastar-se. No seu estado de espírito actual, a perspectiva de ter alguém com quem conversar um pouco era invulgarmente atraente, pelo menos por uma ou duas horas. Afinal de contas, ela estava a tentar desanuviar a mente.

— Não sei o seu nome — disse Angela, sabendo perfeitamente que estava a abrir a proverbial porta.

— Chet McGovern. E o seu?

— Angela Dawson. Diga-me, engata mulheres com frequência aqui no clube?

— Constantemente — respondeu Chet. — Na verdade, esse é o motivo por que venho cá tantas vezes. O exercício propriamente dito parece-se demasiado com trabalho.

Angela deu outra gargalhada. Ela gostava da sinceridade e de um sentido de humor. Parecia que Chet tinha os dois.

— Pode beber enquanto eu como — disse Angela. — Estou esfomeada.

— Combinado, minha senhora.

Passados quarenta minutos, depois de os dois terem tomado duche, estavam sentados em frente um do outro no bar/restaurante. O bar estava cheio. Atrás do bar havia uma televisão de ecrã plano a transmitir um jogo de basebol a que ninguém prestava atenção. O ruído das conversas de fundo parecia uma quantidade de aves marinhas a comer. Angela era sensível ao barulho, e há anos que não estava num ambiente daqueles. Inclinou-se sobre a salada de salmão grelhado para conseguir ouvir.

— Perguntei-lhe que tipo de trabalho faz—repetiu Chet.—Parece uma modelo.

— Claro — troçou Angela. Com um comentário daqueles, ela teve a certeza de que estava com um indivíduo que se considerava um especialista em engates.

— A sério! — insistiu Chet. — Quantos anos tem, vinte e quatro ou vinte cinco?

— Na realidade, trinta e sete — respondeu Angela, resistindo à tentação de ser sarcástica.

— Nunca teria adivinhado. Não com um corpo como o seu. Angela limitou-se a sorrir. Era agradável ouvir comentários daqueles, mesmo que não fossem sinceros.

— Se não é modelo, que tipo de trabalho faz?

— Sou uma mulher de negócios — retorquiu Angela sem dar mais pormenores e, para afastar a conversa de si própria, acrescentou rapidamente. — E você, o que é que faz? Estrela de cinema?

Foi a vez de Chet se rir. Depois inclinou-se para a frente e disse:

— Sou doutor. — Ele recostou-se na cadeira. Na perspectiva de Angela, ele tinha assumido um sorriso de auto-satisfação, como se ela devesse ficar muito impressionada.

— Que tipo de doutor? — perguntou Angela após uma pausa. — Médico ou outra coisa?

— Médico.

— Ena! — pensou Angela com sarcasmo, mas não se manifestou.

— Como mulher de negócios, o que é que faz realmente?

— Suponho que tenho de admitir que passo a maior parte do tempo a tentar arranjar dinheiro, por mais desagradável que isso seja. As empresas, quando começam, são como as plantas: precisam constantemente de água, e por vezes é necessária muita água antes de elas darem fruto.

— Essa é uma expressão muito poética. Falta muito para a sua empresa dar fruto?

— Na verdade, falta muito pouco. Daqui a duas semanas devemos entrar na bolsa.

— Duas semanas! Deve ser muito excitante.

— Neste momento, é mais uma fonte de ansiedade do que de excitação. Preciso de arranjar duzentos mil dólares para garantir a nossa liquidez até à OIV.

Chet assobiou por entre os dentes. Estava muito impressionado, e concluiu que Angela devia ser uma executiva de um nível bastante elevado.

— A empresa vai conseguir fazê-lo?

— Eu tento ser optimista, especialmente porque os gurus do investimento prometem que a OIV vai ser um êxito. Talvez o senhor, sendo médico, queira investir. Seguramente que seria bem recompensado sob a forma juros, ações, ou as duas coisas. Temos muitos investidores médicos: mais de quinhentos, para ser exacta.

— A sério? — perguntou Chet. — Que tipo de empresa é?

— Chama-se Angels Healthcare. Construímos e gerimos hospitais de especialidade.

— Suponho que isso significa que sabe alguma coisa sobre médicos.

— Suponho que sim — concordou Angela.

— Infelizmente, neste momento, a minha liquidez não é o que eu desejaria — disse Chet. — Lamento muito.

— Não há problema. Se mudar de ideias, telefone-nos.

— Bem — disse Chet, desejando obviamente mudar de assunto. — É solteira, casada, ou algures no meio das duas coisas?

De volta ao engate, pensou Angela. Subitamente, deixou de estar interessada em conversar. Tinha-se divertido, mas, de repente, sentiu-se cansada, e esse tinha sido o objectivo. Apetecia-lhe ir para casa.

— Divorciada — disse ela, e depois acrescentou o que pensou que o faria desinteressar-se dela. — Sou divorciada e vivo com a minha filha de dez anos que está em casa a dormir.

— Suponho que isso exclui o seu apartamento — disse Chet. — Eu sou solteiro... na realidade, muito solteiro... e tenho um apartamento fantástico mesmo ao virar da esquina. Que tal irmos até lá tomar uma bebida?

— E ver os seus quadros, suponho. Lamento muito, mas tenho a minha filha e os duzentos mil dólares em que pensar. — Angela fez sinal a um dos empregados de mesa e pediu a conta.

— Eu pago— disse Chet num tom magnânimo.

— Não paga, não! — replicou Angela num tom que não admitia discordância. — De certo modo, eu usei-o. Como penitência, insisto em pagar.

— Usou-me? — perguntou Chet com uma expressão confusa. — O que quer dizer com isso?

— Demoraria demasiado tempo a explicar, e tenho de ir para casa. Chet fingiu-se um pouco desesperado enquanto Angela pagava a conta com o cartão das suas despesas de representação.

— Que tal jantarmos juntos amanhã? — sugeriu quando ela terminou.

— É muito generoso da sua parte, mas infelizmente não tenho tempo. Não sei bem o que me espera no escritório amanhã.

— Mas isso dar-lhe-ia a oportunidade de explicar como é que, cito, "me usou", — insistiu Chet.—Eu certamente que não me sinto usado, e gostei muito de a conhecer. Peço desculpa se a ofendi. Prometo não ser tão irreverente. É apenas fachada.

Ligeiramente surpreendida por Chet estar disposto a revelar o que parecia ser vulnerabilidade, Angela estendeu a mão enquanto se levantava. Enquanto apertavam as mãos, ela disse:

— Gostei muito da sua companhia. Estou a ser sincera. Talvez depois da OIV possamos tomar uma bebida ou até mesmo jantar juntos.

— Eu gostaria muito — disse Chet, recuperando o seu autodomínio. — E serei eu a pagar.

— Está combinado — replicou Angela, sabendo que agora era a sua vez de não ser sincera.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 7.15

- Escuta — disse o Dr. Jack Stapleton com uma irritação não disfarçada. — Eu tenho sorte por o Dr. Wendell Anderson me poder pôr na sua agenda. Que diabo, ele trata dos joelhos dos atletas mais bem pagos da cidade. Tem de haver uma razão para isso, e a razão é que ele é obviamente o melhor. Se eu cancelar a operação marcada para esta quinta-feira, posso ter de esperar meses. O homem é uma pessoa muito ocupada.

— Mas tu rasgaste o ligamento há apenas uma semana — disse a Dra. Laurie Montgomery com idêntica emoção. — É óbvio que eu não sou cirurgiã ortopédica, mas também é lógico que operar o joelho que foi lesionado há tão pouco tempo é correr um risco adicional. Por amor de Deus, ele ainda está com o dobro do tamanho normal e as escoriações ainda não sararam completamente.

— O inchaço baixou muito — disse Jack.

— O médico sugeriu que fizesses a operação tão rapidamente?

— Não exactamente. Eu disse-lhe que queria fazê-la assim que fosse possível, e ele mandou-me falar com a secretária que faz as marcações.

— Ótimo — comentou Laurie num tom trocista. — A data foi marcada por uma secretária.

— Ela deve saber o que está a fazer — argumentou Jack. — Há décadas que trabalha com o Anderson.

— Essa é uma suposição inteligente — disse Laurie com um sarcasmo idêntico.

— Outra razão por que não quero cancelar é que tive a sorte de ser a primeira operação do dia do Anderson. Se tenho de fazer uma operação, quero que a minha seja a primeira. O cirurgião está fresco, as enfermeiras estão frescas, toda a gente está fresca. Lembro-me de que quando eu praticava oftalmologia e fazia cirurgia, eu teria querido ser a minha primeira operação.

— E onde é que fica o Hospital Ortopédico Angels? — perguntou Laurie num tom irritado, ignorando a tentativa de humor de Jack. — Nunca ouvi falar nele.

— Fica na zona norte, não muito longe do Hospital Universitário, no Upper East Side. É relativamente novo... não sei exatamente quando abriu, mas foi há menos de cinco anos. O Anderson disse-me que, para os doentes, é como dar entrada no Ritz, que é algo que não se pode dizer a respeito do Hospital Universitário ou do Hospital Geral de Manhattan. Ele gosta desse hospital porque é gerido pelos médicos, não por um administrador burocrático. Eles conseguem fazer o dobro das operações no mesmo espaço de tempo.

— Que diabo, Jack!—queixou-se Laurie, virando a cara e olhando, pela janela do táxi para as ruas de Nova Iorque varridas pela chuva. Dizer que Jack era teimoso era pouco e, quando estava irritada, ela achava que "cabeça de mula" estava muito mais próximo da verdade. Quando tinham começado a trabalhar juntos como patologistas forenses no Departamento de Medicina Legal da Cidade de Nova Iorque, ela achara que a sua louca viagem de bicicleta para o trabalho e os duros jogos de basquetebol de rua com miúdos com metade da idade dele tinham um certo encanto. Mas agora, doze anos depois e casada com ele há menos de um ano, ela achava que um comportamento de risco daquele género por parte de um homem de cinquenta e dois anos era infantil, até mesmo irresponsável, agora que ele tinha mulher e a esperança de ter um filho. Para dizer a verdade, ela queria adiar a operação não só para reduzir os riscos cirúrgicos, mas também porque não podia deixar de acreditar que, quanto mais tempo ele estivesse sem ir para o trabalho de bicicleta e sem jogar basquetebol de rua, mais possibilidade havia de deixar totalmente de o fazer.

— Eu quero ser operado na quinta-feira — disse Jack, como se estivesse a ler a mente dela. — Preciso de voltar para a minha rotina de exercício normal.

—E eu quero um marido intacto. Se continuares assim, podes morrer.

— Há muitas maneiras de morrer — respondeu Jack. — Como médicos legistas, nós os dois sabemos isso melhor do que a maior parte das pessoas.

— Adia a operação por um mês — pediu Laurie.

— Eu vou ser operado — disse Jack. — É o meu joelho.

— É o teu joelho, mas supostamente agora somos uma equipa.

— Nós somos uma equipa — concordou Jack. — Vamos mudar de assunto. Podemos conversar sobre isso logo à noite, se insistires.

Jack apertou a mão de Laurie, e ela apertou a dele. Conhecendo Jack como o conhecia, ela considerou que o fato de ele estar disposto a sugerir que conversassem novamente sobre o assunto era uma pequena vitória.

Quando o semáforo mudou na esquina da 30 Street com a Quinta Avenida, o motorista do táxi virou para a esquerda e parou em frente de um antigo edifício azul de seis andares, com tijolos vitrificados e janelas com pinázios de alumínio, encaixado entre o Hospital de Nova Iorque de um lado e o Bellevue Complex do outro. Tinham chegado ao Departamento de Medicina Legal ou DML, onde Laurie trabalhava há dezesseis anos e Jack há doze. Embora Jack fosse mais velho, a patologia forense tinha sido para ele uma segunda carreira médica, depois de um enorme HMO ter engolido o seu consultório privado, no tempo em que os HMOs estavam no seu auge.

— Passa-se alguma coisa — comentou Jack. À frente deles estavam várias carrinhas de televisão estacionadas junto do passeio. — As mortes interessantes atraem repórteres como o mel atrai as moscas. O que se passará?

—Eu vejo os repórteres mais como abutres — disse Laurie, saindo para o passeio e estendendo seguidamente o braço para o interior do táxi para pegar nas incômodas canadianas compridas de Jack. — Eles alimentam-se de carne morta, destroem as provas e podem ser umas pestes.

Jack pagou ao motorista enquanto reconhecia a oportunidade e a inteligência da comparação de Laurie. Na rua, pegou nas canadianas, depois encaixou-as nas axilas e começou a dirigir-se para as escadas.

— Detesto táxis — murmurou ele. — Fazem-me sentir muito vulnerável.

— Essa é boa—troçou Laurie, — vindo de alguém que considera apropriado vir trabalhar de bicicleta, desafiando o trânsito da cidade.

Tal como esperavam, na área de recepção do DML havia meia dúzia de repórteres ocupados a conversar e a comer donuts. Empoleiradas na mesinha, em cima de revistas antigas, havia câmaras de televisão. Os repórteres olharam por um momento para Laurie e para Jack enquanto eles atravessavam a sala. Jack conseguia mover-se rapidamente com as canadianas. Ele conseguia colocar o peso sobre o joelho magoado sem que lhe doesse muito, pelo que poderia passar sem as canadianas, mas não queria arriscar-se a voltar a lesionar-se. Marlene Wilson, a recepcionista, abriu a porta da sala de identificação para Laurie e Jack entrarem antes que qualquer dos repórteres os reconhecesse.

No interior da sala de identificação havia dois grupos que ocupavam lados opostos. Um grupo era formado por seis indivíduos de aspecto hispânico de várias idades. Eram suficientemente parecidos para serem membros da mesma família. Entre eles estavam duas crianças que olhavam com os olhos muito abertos para o ambiente estranho e assustador. Três adultos estavam a falar em murmúrios com uma mulher com ar de matrona que levava intermitentemente um lenço de papel aos olhos.

O segundo grupo era um casal que podia ser marido e mulher e que, tal como as crianças hispânicas, pareciam veados apanhados por faróis.

Laurie e Jack passaram uma terceira porta e entraram numa sala separada onde estava o bule de café comunitário do DML Era ali que o médico legista de serviço nessa semana via os processos que tinham dado entrada durante a noite e decidia que casos deviam ser autopsiados e qual dos onze médicos do quadro do pessoal faria a autópsia. Laurie e Jack chegavam quase sempre cedo, a maior parte das vezes por insistência de Jack, uma vez que Laurie era uma pessoa nocturna e tinha geralmente dificuldade em levantar-se de manhã. Jack gostava de chegar cedo para passar os olhos pelos casos e para poder pedir para ficar com os mais interessantes. Os outros médicos não se importavam, porque Jack, como compensação, fazia sempre mais do que a sua quota-parte.

A Dra. Riva Mehta, que partilhava o gabinete com Laurie e que começara a trabalhar no DLM no mesmo ano que ela, estava sentada à secretária da sala de identificação atrás de várias pilhas de envelopes pardos, cada um deles representando um caso diferente. Ela cumprimentou Jack e Laurie com um aceno de cabeça e um sorriso. Havia mais dois indivíduos na sala, ambos sentados em cadeiras de vinil e escondidos atrás de jornais, com canecas de café fumegante ao alcance do braço. Laurie e Jack sabiam quem estava atrás do Daily News. Tinha de ser Vinnie Amendola, o técnico mortuário que tinha chegado antes dos outros técnicos para ajudar na transição do turno da noite para o turno do dia. Ele trabalhava frequentemente com Jack porque também gostava de começar o dia cedo.

Nem Jack nem Laurie sabiam quem estava por trás do The New York Times, mas depressa ficaram a saber, quando as canadianas de Jack caíram, com estrondo, no chão de madeira quando ele tentava encostá-las a outra cadeira da sala. O barulho foi seco, não muito diferente de som de um tiro. O The New York Times desceu e revelou o rosto surpreendido, tenso e cronicamente privado de sono do Dectective Lou Soldano. Por reflexo, a mão direita do detective dirigiu-se rapidamente para o interior da lapela do seu casaco amarrotado. A gravata solta, cheia de nódoas, e o botão superior da camisa amarrotada desapertado davam-lhe um ar decididamente desleixado.

— Não dispares! — disse Jack, erguendo as mãos a fingir que se rendia.

— Deus do céu—queixou-se Lou, descontraindo-se visivelmente. Como acontecia com frequência, ele tinha a barba por fazer. Era óbvio que não se deitara nessa noite.

— Tendo em conta os repórteres que estão na recepção, suponho que não devíamos estar surpreendidos por te ver — disse Jack. — Como estás, Lou?

— Tão bem como seria de esperar depois de ter passado a maior parte da noite no cais. Não é algo que eu recomende.

Lou fora inicialmente amigo de Laurie. Laurie e Lou tinham até namorado durante algum tempo, depois de terem solucionado um caso juntos, mas o seu breve romance não funcionara. Quando Jack apareceu em cena e começou a namorar com Laurie, Lou apoiara fortemente a relação. Ele até estivera presente no casamento deles, em Junho do ano anterior. Eram todos bons amigos.

Laurie aproximou-se de Lou e beijou-o ao de leve no rosto antes de se dirigir para o bule de café.

Jack sentou-se numa cadeira ao lado de Lou e apoiou a sua perna inútil no canto da mesa. Laurie perguntou se Jack queria café. Ele respondeu afirmativamente, fazendo sinal com o polegar para cima.

— O que se passa? — perguntou Jack a Lou. Este tinha-se tornado um forte defensor da contribuição da medicina forense para a resolução de casos de homicídio, pelo que visitava frequentemente a morgue, embora não fosse lá há mais de um mês. Jack sabia que, quando ele aparecia, havia uma grande probabilidade de se tratar de um caso interessante. No dia anterior, Jack tivera três autópsias de rotina, duas mortes naturais e uma acidental. O desafio não fora grande. A presença de Lou augurava que, naquele dia, as coisas iriam ser diferentes.

— Foi uma noite agitada — disse Lou. — Há três homicídios para os quais preciso de ajuda. Da minha perspectiva, o mais importante é o de um sujeito que retiramos do rio Hudson.

— A vítima foi identificada? — perguntou Jack. Laurie aproximou-se e pousou a caneca de café de Jack na mesinha. Ele agradeceu-lhe em voz baixa.

— Nada, nem uma pista, até agora.

— Tens a certeza de que foi um homicídio?

— Absoluta. Foi alvejado à queima-roupa na nuca com uma bala de pequeno calibre.

— Do ponto de vista da medicina forense, parece-me muito simples — disse Jack, um tanto desiludido.

— Mas não do meu — disse Lou. — O corpo é de um homem asiático bem vestido, não um vagabundo. O que me assusta é a possibilidade de esta morte estar relacionada com o crime organizado. Nós sabemos que tem havido alguma fricção entre os grupos de crime organizado estabelecidos e alguns gangs asiáticos, russos e hispânicos formados recentemente, em particular no que diz respeito a drogas recreativas. Se houver uma guerra do crime devido a questões territoriais, muita gente inocente poderá morrer. Espero que tu ou a Laurie consigam encontrar qualquer coisa, uma pista que nos possibilite cortar isto pela raiz, antes que haja uma escalada de violência.

— Farei o possível — disse Jack. — Quem mais?

— O caso a seguir é uma história triste. Um detective da Brigada Especial de Fraudes, um bom sujeito, tem uma filha que foi presa, acusada de ter morto o traste do namorado com um bastão de basebol ontem à noite. Ele chama-se Satan Thomas, imagina. Ela tem sido um problema para o detective desde a pré-adolescência, arranjando sempre namorados indesejáveis, metendo-se na droga e outros problemas. De qualquer modo, ela nega ter matado o sujeito e diz que o namorado estava a utilizar o bastão de basebol para dar cabo do apartamento. Ela afirma que ele até tentou agredi-la, algo que já fizera antes. A propósito, a encantadora família do Satan está acampada na sala de espera.

— Queres dizer que ele a agredia fisicamente.

— Aparentemente. Ela diz que, quando fugiu, ele ainda estava a dar cabo do apartamento.

—Ele parece ter morrido de uma lesão provocada por uma pancada?

— Oh, sim! Parece que apanhou com o bastão na testa.

Jack revirou os olhos.

—As coisas parecem más para o teu amigo detective, e ainda mais para a filha. — Jack sentiu-se deprimido. Duas das três autópsias iam ser simples. Com relutância, pediu pormenores sobre o terceiro caso.

— Este é semelhante ao último, mas foi a rapariga que foi morta. De acordo com os pais, os Barlows, que ainda estão na sala de espera, ela também era vítima de violência doméstica. Aparentemente, Sara Barlow e o namorado tiveram uma discussão por causa de ela não limpar o apartamento a contento dele. Ele admite que lhe bateu mas diz que, quando saiu para se acalmar, ela estava bem, apenas a chorar e a dizer que ia fazer melhor. Ele diz que, quando voltou, ela estava deitada atravessada na cama com a cara e as mãos roxas.

— Manchas roxas em todo o rosto?

—Um dos polícias que acorreram ao local insistiu que o namorado disse que ela tinha o rosto todo roxo mas, quando o polícia viu o corpo, a única coisa que viu foi o que ele descreveu como nódoas negras.

— E as mãos?

— Ele não disse.

— Viste o corpo?

— Vi. Eu estava naquela zona por causa do caso da filha do detective, por isso fui até lá.

— E? — perguntou Jack.

—Também me pareceram nódoas negras. Fiquei convencido que ele lhe deu uma grande tareia.

— E as mãos?

— Suponho que podiam estar um tanto azuis. O que é que estás a pensar?

—Estou a pensar que este caso pode ser interessante—respondeu Jack, pegando nas canadianas e pondo-se de pé.—Que tal se o fizéssemos primeiro?

— Estou mais interessado no homem do rio — disse Lou. — Eu talvez não consiga manter-me acordado para os três, por isso agradecia que o homem do rio fosse o primeiro.

Jack aproximou-se da secretária. Riva ainda estava a passar os olhos pelos processos, o que sugeriu que ia ser um dia muito atarefado. Laurie tinha dois envelopes em cima do colo. Ainda estava sentada na cadeira ao lado de Vinnie, que continuava atrás do seu jornal.

Lembrando-se dos repórteres na recepção, Jack chamou Lou, perguntando qual dos três casos tinha trazido os repórteres tão cedo ao DML. Tirando possivelmente o homem do rio, Jack teve dificuldade em imaginar que qualquer dos três fosse particularmente mediático. Numa cidade do tamanho de Nova Iorque, tristes eventos violentos eram demasiado comuns.

— Nenhum daqueles sobre os quais falámos — respondeu Lou. —A comunicação social está a salivar por causa de uma morte ocorrida sob custódia policial no Bronx. Vai ser uma daquelas acusações de força excessiva. O que me disseram foi que o sujeito se tinha passado com uma overdose de cocaína.

Jack limitou-se a acenar com a cabeça, grato por Lou não estar a encorajá-lo a tomar conta do caso. Casos de custódia policial eram invariavelmente desastres políticos, e eram penosos para Jack. Nunca ninguém ficava satisfeito com o relatório e havia sempre acusações de encobrimento.

— Eu vou ter contigo lá a baixo — disse Lou erguendo-se com algum esforço.—Vou passar primeiro pelo cubículo do Sargento Murphy para ver se alguém participou o desaparecimento do desconhecido.

—Já encontraste o homem do rio do Lou?—perguntou Jack a Riva. Riva colocou imediatamente o dedo em cima do processo, que estava no topo da pilha de prováveis homicídios.

— E dois casos de ferimentos por agressão? — perguntou Jack. — Os nomes são Thomas e Barlow.

Riva teve de procurar os casos na pilha, que era invulgarmente grande.

— Uma noite feia na Grande Maçã — comentou Jack. — Julgar-se-ia que as pessoas conseguiriam resolver as suas diferenças de uma forma mais amigável.

Riva sorriu delicadamente da fraca tentativa de Jack de fazer humor. Era demasiado cedo para responder. Ela encontrou os processos e entregou-lhos também.

— Importas-te que fique com estes casos? — perguntou Jack.

— Absolutamente nada — respondeu Riva na sua voz suave e sedosa. Era uma índia americana baixinha e meiga com a pele escura e olhos ainda mais escuros.

—Quem vai tratar do caso de custódia policial?—perguntou Jack.

— O chefe telefonou e disse que queria ser ele a fazer a autópsia — respondeu Riva. — Uma vez que eu estava de serviço, suponho que serei eu a assisti-lo.

—As minhas condolências—comentou Jack. Embora o Dr. Harold Bingham tivesse um conhecimento enciclopédico sobre medicina forense, ajudá-lo num caso era sempre um exercício de controlo de frustração. Nada do que se fizesse como seu assistente estava certo e, invariavelmente, o caso arrastava-se durante um tempo interminável.

Jack estava prestes a acordar Vinnie do seu transe provocado pelas estatísticas desportivas quando Laurie ergueu os olhos do que estava a ler. Ao contrário de Jack, que se limitava a passar os olhos pela documentação dos casos antes da autópsia, ela gostava de a ler por menorizadamente. Jack achava que prestar demasiada atenção aos pormenores no início prejudicava a sua capacidade de manter uma mente aberta, ao passo que Laurie era da opinião de que não ler a história aumentava as probabilidades de não reparar em qualquer coisa. Eles tinham discutido o assunto, mas tinham acabado por concordar em discordar.

— Eu acho que devias ler isto — disse Laurie num tom sério, estendendo um processo na direcção de Jack. — Acho que vais achá-lo pessoalmente inquietante.

— Sim?—perguntou Jack lendo o nome da vítima, David Jeffries, que não reconheceu. Enquanto tirava os papéis de dentro do envelope, as suas sobrancelhas franziram-se, numa expressão de perplexidade com o tom de Laurie. — O que é que queres dizer com "pessoalmente inquietante"?

— Lê o comentário do MA — sugeriu Laurie. Os MA eram os médicos assistentes que trabalhavam como investigadores forenses.

 

A política do DML era que fossem os MA, e não os patologistas forenses, a visitar os locais em que ocorriam as mortes. O diretor do DML, o Dr. Harold Bingham, achava que essa não era uma utilização eficiente do tempo do médico, apesar de reconhecer que, nalguns casos, uma visita ao local era crucial para determinar o mecanismo e a forma como a morte ocorrera.

Foram necessárias apenas algumas frases para Jack compreender que David Jeffries tinha morrido depois de uma reparação do ligamento cruzado anterior devido a uma infecção pós-operatória fulminante causada por staphylococcus, nomeadamente um tipo de staphylococcus particularmente maléfico chamado staphylococcus aureus resistente à meticilina, ou MRSA. Tendo em conta a actual discussão entre eles sobre a operação a que Jack ia ser sujeito, o caso parecia relevante, mesmo que envolvesse outro hospital.

— Eu sei o que te está a passar pela cabeça — disse Jack, — mas esquece! Eu já pensei no risco de uma infecção pós-operatória. Espalhar o medo não vai funcionar.

— Mas esta coincidência tem de te obrigar a parar para pensar— disse Laurie. Ela sabia que, se a situação fosse inversa e ela é que estivesse prestes a fazer uma operação, seguramente que este caso faria mais do que obrigá-la a parar para pensar.

— Com toda a franqueza, não obriga — retorquiu Jack. — Em primeiro lugar, eu não sou supersticioso e, em segundo, eu perguntei especificamente ao Dr. Anderson qual era a sua taxa de infecções pós-operatórias. Ele disse-me que as únicas infecções pós-operatórias que tivera em toda a sua carreira envolviam a reparação de fraturas compostas, o que é uma situação totalmente diferente. Além disso, este caso que me estás a mostrar envolveu o Hospital Universitário.

— Se leres mais um pouco, vais ver que essa não é a história toda.

— O que queres dizer com isso? — perguntou Jack, sentindo-se a ficar novamente irritado com a questão da operação. Laurie podia ser como um cão com um osso, o que por vezes ele achava frustrante, embora soubesse que era muitas vezes acusado de possuir a mesma característica.

— O doente foi operado onze horas antes no Hospital Ortopédico Angels, não no Hospital Universitário. O motivo por que acabou por ir para o Hospital Universitário foi para tratar o choque tóxico e a pneumonia estafilocócica fulminante.

—A sério?—Os olhos de Jack voltaram a ler o comentário do MA. Embora confiasse que Laurie nunca inventaria uma coisa daquelas, ele teve de ler com seus próprios olhos.

— Isso tem forçosamente de te preocupar — disse Laurie. — O facto de eles terem de transferir um doente em estado crítico para outro hospital não abona muito a favor do Hospital Ortopédico Angels. Que espécie de hospital envia a roupa suja para outro local? Ao que parece, o doente morreu na ambulância. É uma loucura!

— Os novos tratamentos do choque tóxico requerem pessoal especializado — disse Jack, perturbado com o que estava a ler. A rapidez com que a infecção do doente progredira era chocante. Jack, como o suposto guru de doenças infecciosas do DML, por ter feito vários diagnósticos, que ele dizia terem sido por sorte, de casos de doenças infecciosas dez anos antes, não pôde deixar de se sentir impressionado. Na realidade, ele começou a perguntar a si próprio se o Sr. Jeffries teria tido uma doença verdadeiramente infecciosa como a febre maculosa das Montanhas Rochosas.

— Ficou inequivocamente provado que o agente infeccioso foi o staphylococcus aureus? — perguntou Jack, tentando recordar que outras doenças conhecidas provocavam uma morte tão fulminante.

— Não através de cultura, mas através de um sistema de diagnóstico baseado em anticorpos monoclonais. Mas o local da incisão e os pulmões testaram positivo para o staphylococcus resistente à meticilina e, o que é bastante interessante, era uma estirpe associada ao que eles chamam "staphylococcus adquirido na comunidade", não o tipo de staphylococcus resistente aos antibióticos que tem atormentado os hospitais nos últimos dez ou quinze anos.

— O que significa que é provável que o doente tivesse trazido a infecção com ele, e não a tenha contraído no hospital.

— É possível — concordou Laurie. — Mas não existe forma de o saber. Isto não te incomoda? Quero dizer, a vítima tinha aproximadamente a tua idade, teve a mesma lesão e fez a mesma operação no mesmo hospital. Certamente que me faria pensar duas vezes. É a única coisa que eu posso dizer.

— Para ser sincero, uma das minhas preocupações tem sido uma infecção pós-operatória — disse Jack. — Talvez a maior, e foi por isso que eu perguntei ao Dr. Anderson sobre o número de infecções que ele já teve, e é por isso que, desde o acidente, eu uso sabão anti-bacteriano. Vou certificar-me de que não levo nenhuma bactéria à boleia para o hospital, se o puder evitar.

Jack virou a última página do jornal de Vinnie com força suficiente para o sobressaltar.

— Pára com isso! — resmungou Vinnie depois de ter recuperado do choque e visto quem era o culpado. — Por favor, meu Deus não permitas que este auto-proclamado superdetective forense insista em violar as regras começando cedo — acrescentou Vinnie num tom sarcástico, com uma aparente falta de respeito. Na realidade, entre Vinnie e Jack existia respeito mútuo suficiente para permitir brincadeiras daquele tipo, e tecnicamente eles estavam a violar as regras. Por ordem do Chefe Bingham, as autópsias deviam começar às sete e meia em ponto, embora isso nunca acontecesse. Jack chegava sempre cedo, graças em parte ao facto de Vinnie não se importar de encurtar o seu intervalo para o café, ao passo que todos os outros médicos legistas, incluindo Laurie, chegavam sempre tarde porque Bingham e o vice-diretor, Calvin Washington, raramente lá estavam para fazer cumprir a ordem.

— O super detetive quer o super técnico mortuário na sala de autópsias — disse Jack para o jornal de Vinnie. Num gesto de desafio, Vinnie retomara a leitura do jornal.

Laurie perguntou a Riva se podia fazer a autópsia de David Jeffries.

— Com certeza — respondeu Riva. — Mas vai ser um dia muito ocupado. Vais ter de fazer pelo menos mais uma. Tens alguma preferência?

— Claro — disse Laurie num tom distraído. Regressara à leitura da história de David Jeffries.

— Vamos, Vinnie—chamou Jack, inclinando-se sobre as canadianas já à porta que dava para a sala das comunicações. Vinnie estava novamente absorto no jornal.

— Já cá estou! — disse uma voz. — O dia pode começar oficialmente.

Todos os olhos se viraram para a porta que dava para a sala de identificação. Até mesmo Vinnie, que estava a evitar Jack com uma atitude passivo-agressiva, baixou o jornal para ver quem tinha chegado. Era Chet McGovern, o companheiro de gabinete de Jack.

— Deixaram alguma coisa interessante? Que diabo, seria preciso acampar aqui uma noite inteira para evitar ficar com o que vocês rejeitaram. — Depois de pousar o casaco numa cadeira vazia, colocou-se atrás de Riva para mexer nalguns processos. Riva, na brincadeira, bateu-lhe na mão com uma régua de madeira de trinta centímetros como se fosse uma mestre-escola.

—Estás muito bem disposto—comentou Jack.—O que se passa? A que propósito é que chegaste tão cedo?

— Não consegui dormir. Conheci uma mulher ontem à noite no ginásio que é uma mulher de negócios impressionante. Tive a sensação de que é Diretora Executiva, ou qualquer coisa do género. Esta amanhã acordei cedo, a tentar descobrir como é que hei-de convencê-la a sair comigo.

— Convida-a — sugeriu Laurie.

— Oh, claro, como se eu não tivesse pensado nisso.

— E ela disse que não?

— Mais ou menos — respondeu Chet.

— Então convida-a outra vez — disse Laurie. — E sê direto. Às vezes, vocês, os homens, conseguem ser um pouco vagos, para protegerem os vossos frágeis egos.

Chet fez uma saudação, como se Laurie fosse o seu oficial superior.

— Vamos, meu traste preguiçoso — disse Jack, regressando ao lugar onde Vinnie estava sentado e tirando-lhe o jornal das mãos. Vinnie correu atrás de Jack, que conseguiu manter o jornal afastado do colega até chegarem à sala que se seguia à sala das comunicações. Deu-se uma breve zaragata amigável no meio de gargalhadas.

 

Terminada a batalha pelo jornal, Jack deu a Vinnie o processo do homem desconhecido e pediu-lhe que preparasse o corpo para a autópsia. Entretanto, Jack enfiou a cabeça no cubículo que era o gabinete da NYPD, onde estava o sargento Murphy. O simpático polícia de meia-idade levantou os olhos do ecrã do computador. Há séculos que ele tinha sido colocado no DML. Jack gostava do homem, tal como toda a gente. Murphy era um daqueles indivíduos que conseguiam dar-se bem com todos. Jack admirava essa característica e desejava que ela se transmitisse um pouco à sua pessoa. Ao longo dos anos, ele tinha-se tornado progressivamente intolerante em relação aos burocratas com medíocres capacidades administrativas ou profissionais e, por mais que tentasse, não conseguia esconder os seus sentimentos. Na sua opinião, havia demasiada gente dessa escondida no DML.

— Viu o Detective Solano? — perguntou Jack.

— Ele já aqui esteve, mas foi para a morgue — respondeu o sargento Murphy.

— Ele falou-lhe do homem não identificado que foi encontrado a flutuar no rio e deu entrada ontem à noite?

— Falou, e eu disse-lhe que a única participação de desaparecimento feita esta noite foi de uma mulher.

Jack agradeceu ao sargento e conseguiu apanhar Vinnie, que tinha chamado o elevador. Lá em baixo, Jack encontrou Lou no vestiário, já vestido com um macacão Tyvek que, com excepção dos casos particularmente infecciosos, tinha substituído os fatos protectores lunares, muito mais volumosos.

Enquanto Jack vestia rapidamente a bata cirúrgica, Lou não pôde deixar de reparar no inchaço e na descoloração do joelho lesionado de Jack.

— Isso não está com muito bom aspecto — comentou Lou. — Tens a certeza de que devias estar a fazer estas autópsias?

— Por acaso, o joelho está melhor — disse Jack. — Só tenho de o tratar bem até quinta-feira, que é quando tenho a operação marcada. É por isso que estou a usar as canadianas. Eu podia passar sem elas, mas o facto de as usar serve para me lembrar constantemente.

— Vais fazer uma operação ao joelho tão cedo? — perguntou Lou. — O meu ex-cunhado fez uma ruptura do LCA e teve de esperar seis meses para o reparar.

— Para mim, quanto mais cedo fizer a operação, melhor — disse Jack vestindo o macacão Tyvek. — Quanto mais depressa voltar a andar de bicicleta e, espero, a jogar o meu basquetebol, melhor será a minha sanidade mental. A competição e o exercício físico afastam os meus demônios.

— Agora que voltaste a casar, ainda te sentes atormentado pelo que aconteceu à tua família?

Jack parou e olhou para Lou como se não conseguisse acreditar que ele tivesse feito uma pergunta daquelas.

— Eu hei-de sempre sentir-me atormentado. É só uma questão de grau. — Jack tinha perdido a mulher, com quem estivera casado dez anos, e duas filhas, com dez e onze anos, num desastre de aviação ocorrido quinze anos antes.

— O que é que a Laurie pensa de seres operado tão cedo? O maxilar inferior de Jack descaiu.

— O que é isto? — perguntou ele num tom irritado. — Alguma espécie de conspiração? A Laurie falou contigo sobre isto nas minhas costas?

— Ei! — disse Lou, erguendo as mãos como se estivesse a defender-se de um ataque. —Acalma-te! Não sejas tão paranóico! Só estou a perguntar, a tentar ser amigo.

Jack recomeçou a equipar-se.

— Desculpa. É só que, desde que a cirurgia foi marcada, a Laurie tem andado a insistir comigo para a adiar. Eu estou um pouco irritável porque quero o maldito joelho reparado.

— Compreendo — disse Lou.

Depois de colocarem as máscaras com viseiras e pequenas ventoinhas a pilhas que faziam circular o ar através de filtros HEPA, os dois homens entraram na sala das autópsias, uma sala sem janelas que não era remodelada há quase cinquenta anos. As oito mesas de autópsias em aço testemunhavam os cerca de quinhentos mil corpos que tinham sido meticulosamente desmontados de modo a revelarem os seus segredos forenses. Por cima de cada mesa estava pendurada uma balança de molas antiga e um microfone para o ditado. Ao longo de uma parede havia bancadas de fórmica e lavatórios de pedra para lavar intestinos e, ao longo de outra parede havia armários de vidros até ao tecto contendo instrumentos que pareciam tirados de uma casa de horrores. Ao lado deles estavam caixas para ver radiografias, iluminadas por trás. Toda a cena era banhada por uma luz branca azulada oriunda de uma bateria de lâmpadas fluorescentes fixadas ao tecto. A iluminação parecia sugar a luz de tudo o que estava na sala, especialmente do cadáver fantasmagoricamente pálido em cima da mesa mais próxima.

Enquanto Vinnie prosseguia com os preparativos tirando instrumentos, frascos de espécimes, conservantes, rótulos, seringas e etiquetas dos armários, Jack e Lou foram ver as radiografias de corpo inteiro que Vinnie tinha colocado na caixa. Uma era anterior-posterior; a outra era lateral.

Depois de verificar o número de inscrição, Jack olhou para as radiografias. Depois disse:

— Acho que tens razão.

— Tenho razão a respeito de quê? — perguntou Lou.

— De ser um calibre pequeno — respondeu Jack, apontando para uma mancha cilíndrica translúcida com meio centímetro de comprimento na parte inferior da imagem do crânio. As balas são feitas de metal, por isso absorvem totalmente os raios-X e, uma vez que os raios-X são vistos como negativos, a imagem aparece com a cor da iluminação de fundo.

— Eu diria calibre vinte e dois — disse Lou aproximando o rosto da película.

— Eu acho que também tens razão a respeito de se tratar de uma espécie de execução — disse Jack. — Pela posição da bala nas radiografias, não há dúvida de que ela está alojada no tronco do cérebro, que é para onde um assassino profissional apontaria. Vamos ver a entrada do ferimento.

Com a ajuda de Vinnie, Jack rolou o cadáver de lado. Primeiro, Jack tirou uma fotografia digital. Depois, com a mão enluvada, desviou o cabelo que cobria o ponto onde a bala entrava na cabeça da vítima. Uma vez que a vítima tinha andado a boiar no rio Hudson, a água lavara a maior parte do sangue.

— É um ferimento de quase-contato — disse Jack. — Mas seguramente que não houve contato, pois é uma mancha circular, não estrelada. — Ele tirou outra fotografia.

— A que distância? — perguntou Lou.

Jack encolheu os ombros.

— Pelas marcas, eu diria cerca de trinta e cinco centímetros. Pela posição da ferida de entrada em relação à posição da bala na radiografia, eu diria que o atirador estava atrás e a um plano superior ao da vítima, talvez com a vítima sentada. Isto parece ser confirmado pelo facto de haver ligeiramente mais marcas por baixo da ferida da entrada do que por cima.

— O que dá mais peso à teoria de se tratar de uma execução.

— Tenho de concordar.

Jack tirou algumas medidas da posição da ferida, e outra fotografia com uma régua muito próxima dela. Depois, com um bisturi, retirou alguma da fuligem incrustada perto das marcas. Colocou o material num tubo. Por fim, tirou mais algumas fotografias antes de fazer sinal a Vinnie para que deixasse o corpo rolar até ficar de barriga para cima.

— O que pensas destes cortes profundos na coxa? — perguntou Lou, apontando para dois cortes paralelos na face anterior da coxa direita.

Jack tirou uma fotografia antes de inspeccionar e apalpar as feridas.

— Foram feitas com um objecto cortante — disse ele olhando para as orlas lisas. — São cortes regulares. Eu diria que foram provocadas por uma hélice e apostava que foram post mortem. Não vejo qualquer sangue extravasado no interior dos tecidos.

—Achas que a vítima pode ter sido atropelada depois de ser atirada de um barco?

Jack acenou afirmativamente com a cabeça, mas algo mais subtil atraiu a sua atenção. Deslocando-se até aos tornozelos, ele apontou para umas escoriações com formas estranhas.

— O que é? — perguntou Lou.

— Não tenho a certeza — respondeu Jack dirigindo-se à bancada e pegando num microscópio de dissecação que se separava da base. Apoiando os cotovelos na beira da mesa, ele examinou as escoriações subtis.

— Então? — perguntou Lou.

— É apenas suposição minha — admitiu Jack —, mas parece que as pernas podem ter sido atadas com correntes. Não só há escoriações como marcas com uma forma suspeita.

— Que ocorreram antes ou depois de ele estar morto?

— O que quer que tenha sido, ocorreu depois de ele estar morto. Também não vejo sangue extravasado nos tecidos.

— Ele podia ter sido acorrentado a um peso e, supostamente, deveria afundar-se e permanecer afundado. Alguém pode ter feito asneira.

— É possível — disse Jack. — Vou tirar uma fotografia, embora seja pouco provável que isso se veja na fotografia.

— Se foi uma asneira, pode ser importante manter segredo—disse Lou.

— Porquê?

— Se for uma guerra do crime organizado, vai haver mais corpos. Eu gostava que aparecessem todos à superfície.

— Não vamos dizer nada — disse Jack.

— Ei, não nos podemos despachar? — queixou-se Vinnie. — A este ritmo, com vocês os dois a conversar, vamos ficar aqui o dia inteiro.

Jack deixou cair os braços ao lado do corpo e olhou para Vinnie como se estivesse chocado.

— Estamos a impedir que o nosso supertécnico mortuário se dedique a algo mais importante? — perguntou ele.

— Estão, sim, ao intervalo para café. Jack olhou novamente para Lou e disse:

— Estás a ver o que eu tenho de aturar aqui? Este lugar está uma desgraça. — Seguidamente, ele estendeu o braço, ajustou o microfone e começou a ditar o exame externo.

Laurie voltou a colocar o processo de David Jeffries dentro do envelope. Ele incluía uma folha com o resumo do caso, a certidão de óbito parcialmente preenchida, o inventário de registos médico-legais do caso, duas folhas para os apontamentos da autópsia, a comunicação telefónica da morte tal como fora recebida pelo serviço de comunicações, a sua folha de identificação completa, o relatório de investigação do MA, o resultado do laboratório de um teste à SIDA, e papéis indicando que o corpo tinha sido pesado, fotografado e radiografado, e que lhe tinham sido tiradas as impressões digitais. Ela lera o material várias vezes, tal como fizera com o segundo caso que lhe fora atribuído, Juan Rodriguez, mas era em Jeffries que ela estava interessada.

Sentindo-se devidamente preparada, ela levantou-se da secretária e dirigiu-se para o elevador do fundo. Quinze minutos antes, tinha telefonado para o escritório da morgue e tivera a sorte de o telefone ser atendido por Marvin Fletcher. Ficou satisfeita ao reconhecer imediatamente a voz dele, pois era o seu técnico mortuário preferido. Ele era eficiente, inteligente, experiente, interessado e sempre bem disposto. Laurie tinha uma aversão aos técnicos com um temperamento instável, como Miguel Sanchez, ou aos que pareciam mover-se sempre a meia-velocidade, como Sal D'Ambrosio. Também não gostava dos comentários sarcásticos, de humor negro, de alguns técnicos. Quando ela descreveu sumariamente o caso de David Jeffries, avisando que envolvia uma infecção e pedindo que o corpo fosse levado para mesa da autópsia, a resposta de Martin tinha sido simplesmente:

— Tudo bem. Dê-me quinze minutos, que ele fica pronto.

Enquanto descia do quinto andar para a cave, onde ficava a morgue, Laurie pensou no que ia descobrir a respeito de Jeffries. De acordo com o relatório do MA, o homem tinha todos os sintomas de uma síndroma semelhante ao choque tóxico: febre alta, uma infecção na ferida nos dois locais de incisão, diarreia com dores abdominais, vómitos, prostração grave, tensão arterial baixa, ausência de reação à medicação, baixa produção de urina, pulsações elevadas e dificuldade em respirar com algum muco tingido de sangue. Laurie estremeceu ao pensar como o homem tinha sucumbido tão rapidamente e como a bactéria devia ser virulenta. Ela não podia deixar de pensar que aquele caso era um presságio negativo envolvendo exactamente a mesma cirurgia a que Jack ia ser sujeito, até no mesmo joelho. Jack tinha ignorado alegremente a coincidência, mas ela não conseguia fazer o mesmo. Sentia-se ainda mais empenhada em convencer Jack a adiar a operação. Ela até via um lado positivo na tragédia de David Jeffries. Se encontrasse algo diferente ou inesperado na autópsia, talvez isso a ajudasse a fazer Jack mudar de ideias, e fora esse o motivo por que pedira o caso. De um modo geral, ela tentava evitar casos que envolviam infecções fatais, pois, embora não fosse capaz de o confessar a ninguém, eles inquietavam-na. Mas, quando se aproximou do vestiário, ela reconheceu que se sentia mais desejosa e interessada em fazer aquela autópsia do que alguma vez se sentira em relação a outra.

Laurie mudou rapidamente de roupa, vestindo primeiro uma bata cirúrgica e depois a roupa de proteção descartável. Embora a nova roupa fosse menos pesada e incômoda do que os velhos fatos lunares, ela, como toda a gente, queixava-se por vezes do equipamento mas, naquela ocasião, estando prestes a lidar com uma infecção fatal, sentiu-se satisfeita por tê-lo. Limpou cuidadosamente a máscara — até mesmo as pequenas manchas a incomodavam — e ligou a ventoinha antes de colocar a engenhoca por cima da cabeça. A seguir, preparada, entrou na sala de autópsias.

Depois de entrar, parou e olhou em volta. Havia quatro mesas a ser utilizadas. A mais próxima continha o cadáver de um homem caucasiano extremamente pálido. Três pessoas estavam reunidas à volta da cabeça; o escalpe tinha sido dobrado para a frente, e a tampa do crânio tinha sido retirada. O cérebro ensanguentado brilhava na luz fria. Embora Laurie não conseguisse ver os rostos através das máscaras plásticas, ela supôs que fossem Jack, Lou e Vinnie, pois eles tinham começado primeiro.

Na mesa seguinte também havia três pessoas a trabalhar e, quando olhou para elas, o seu rosto corou. Tinha-se esquecido que o chefe, o Dr. Harold Bingham, era esperado ali. Ele raramente ia à sala de autópsias, pois a maior parte do seu tempo era passado em tarefas administrativas ou a testemunhar em julgamentos importantes. Foi fácil identificá-lo, não só devido à sua silhueta quase quadrada, mas também porque a sua voz dura de barítono ecoou subitamente por toda a sala revestida de azulejos. Ele estava a dar uma das suas aulas improvisadas sobre como o seu caso actual lhe fazia lembrar um dos seus inúmeros casos anteriores. Enquanto ele falava, uma figura franzina sentada num banco em frente dele, que Laurie supôs ser Riva, a sua colega de gabinete, estava a fazer o trabalho. Como recompensa, Bingham interrompia intermitentemente o seu monólogo para fazer comentários negativos sobre a técnica dela.

Em cada uma das duas mesas seguintes havia duas pessoas a trabalhar. Laurie não fazia a mínima ideia de quem fossem. A quinta mesa continha o cadáver de um homem afro-americano. À cabeça da mesa, uma figura que ela supôs que fosse Martin acenou na direcção dela e, por cima da voz roufenha de Bingham, ele chamou:

— Estamos prontos na mesa cinco, Dra. Montgomery.

A cabeça de Bingham virou-se na direção de Laurie, fazendo-a desejar poder desaparecer. A luz de cima reflectia-se na protecção de plástico do rosto, não a deixando ver-lhe a cara, pelo que ela não podia imaginar qual seria o seu estado de espírito.

— Dra. Montgomery, está meia hora atrasada!

— Tenho estado a ler os processos dos meus casos desta manhã, doutor — disse Laurie rapidamente, com tanta deferência quanto possível. Sentia as pulsações a aumentar. Desde a infância que ela tinha lutado contra figuras de autoridade. — Também precisei de falar com a Cheryl Myers para obter alguns dados que faltavam. — Cheryl Myers era uma MA com quem Laurie tinha ido falar no gabinete de investigação depois de sair da sala de identificação. Embora Cheryl tivesse escrito um bom relatório sobre a morte num edifício em construção, Laurie reparara que a distância do edifício a que o cadáver ficara depois da queda fatal não tinha sido incluída. Tal como Laurie supunha, Cheryl tinha obtido esse dado mas, por lapso, não o pusera no relatório.

—Tudo isso deve ser feito antes das sete e meia — disse Bingham num tom brusco.

— Tem razão, doutor — replicou Laurie, nada interessada em discutir. Ao contrário de Jack, Laurie, de um modo geral, seguia fielmente as regras. Mas ignorava habitualmente a ordem para que as autópsias começassem às sete e meia em ponto, uma vez que esta entrava em conflito com a sua convicção de que era mais importante conhecer o processo antes de fazer a autópsia. Numa tentativa de evitar qualquer conversa sobre o assunto, Laurie dirigiu-se directamente à mesa de Jack e perguntou como estava a decorrer a autópsia dele.

—Esplendidamente — gracejou Jack —, com excepção do inconveniente facto de o paciente estar morto. O único ponto negativo é que está a demorar demasiado tempo. Se tivéssemos uma ajuda decente, teríamos avançado muito mais.

— Vai-te lixar! — disse Vinnie. — Se vocês os dois não se pusessem a conversar, já estaríamos a tomar café.

— Cavalheiros — ouviu-se a voz de Bingham —, não permito faltas de respeito nem blasfêmias na sala de autópsias.

Para não encorajar mais comentários por parte de Jack e subsequentes respostas de Bingham, Laurie dirigiu-se rapidamente para Marvin e para o seu próprio caso. Quando passou pela mesa de Bingham, receou que este a chamasse, mas, felizmente, quando ela passou, Bingham estava distraído com o que ele chamou um "erro catastrófico" por parte de Riva enquanto esta dissecava o pescoço.

—Vai precisar de alguma coisa em especial?—perguntou Marvin quando Laurie chegou à quinta mesa. Bem preparada como estava, de um modo geral ela sabia antecipadamente quais eram as necessidades especiais de cada caso.

— Bastantes tubos de cultura—disse Laurie enquanto observava o corpo de David Jeffries. Para cinquenta e um anos, o homem parecia estar em boa forma física antes de morrer. Não havia excesso de gordura. Na realidade, os seus músculos, particularmente os peitorais e os quadrícepes, tinham a definição de um homem muito mais novo.

Laurie fez uma careta atrás da viseira de plástico. Para além da infecção óbvia nos locais da cirurgia em ambos os lados do joelho direito, havia pequenas pústulas em todo o corpo, as quais, com o tempo, se teriam transformado em abcessos ou furúnculos. Ainda mais impressionante eram as zonas de descamação, especialmente no pélvis, com a pele a soltar-se em extensões relativamente grandes.

— Está a olhar para as mãos dele? — perguntou Marvin. Laurie anuiu.

— Porque é que a pele ficou assim solta?

— O staphylococcus fabrica uma grande quantidade de toxinas. Uma delas faz com que as células da pele se separem das células vizinhas.

— Uf! — soltou Marvin.

Laurie acenou novamente com a cabeça. Ela já vira infecções de staphylococcus, mas aquela era a pior de todas.

—De qualquer modo, quanto à sua pergunta sobre tubos de cultura — disse Marvin. — Tenho muitos.

— Trouxe também bastantes seringas?

— Trouxe.

— Muito bem, vamos a isto — disse Laurie, puxando o microfone suspenso para baixo.

— Quer verificar a radiografia? Eu coloquei-a na caixa, para o caso de querer.

Laurie foi até à caixa e olhou para a radiografia. Marvin seguiu-a e olhou por cima do ombro dela.

— As nossas radiografias são sobretudo para corpos estranhos e fraturas — disse Laurie. — Mesmo assim, podemos ver a pneumonia e como ela era difusa. Parece que os pulmões estão cheios de fluido.

— Hmmm—disse Marvin. As radiografias eram um mistério para ele. Não conseguia compreender como é que os médicos conseguiam ver o que viam naquela imagem difusa.

Laurie voltou para junto do corpo e terminou a observação externa. Depois de se certificar de que o tubo endotraqueal estava onde devia estar na traqueia, retirou-o. O tubo tinha sido colocado pelos médicos para ventilarem o doente quando este começara a ter dificuldade em respirar. Ela fez a cultura do muco sanguinolento agarrado ao tubo. Virando-se para os múltiplos tubos intravenosos, certificou-se novamente de que eles estavam correctamente colocados e, de seguida, tirou-os e fez também uma cultura. Os médicos legistas insistiam em que os tubos ficassem no seu lugar para terem a certeza de que eles não tinham tido qualquer papel na morte do paciente. Ela também fez a cultura do pus oriundo do local da incisão cirúrgica.

Depois de ditar a observação externa, Laurie deu início ao exame interno com as incisões padrão em forma de Y, começando nos dois ombros, encontrando-se na cintura e estendendo-se seguidamente até ao púbis. Ela trabalhou em silêncio, evitando as conversas animadas que tinha normalmente com Marvin, que estava sempre ansioso por aprender.

Durante algum tempo, Marvin também ficou calado, pressentindo corretamente o respeito de Laurie pela virulência do micróbio que tinha devastado o corpo de David Jeffries. Só quando Laurie levantou o coração e os pulmões e os colocou na bacia que ele tinha na mão é que ele quebrou o silêncio.

— Bolas — exclamou ele. — Isto pesa uma tonelada.

— Eu reparei — disse Laurie. —Acho que vamos descobrir que os pulmões estão cheios de líquido. — Depois de remover os pulmões e de os pesar separadamente, fez neles cortes múltiplos. Como esponjas completamente ensopadas, emergiu uma mistura de fluido de edema, sangue, tecido necrótico e pus.

— Meu Deus — disse Marvin. — Isso é horrível.

— Já ouviu o termo "bactérias que comem carne"!

— Já, mas pensei que as pessoas só as apanhavam nos músculos.

— Este é um processo semelhante, mas ocorre nos pulmões e é muito mais mortífero. O nome oficial é pneumonia necrosante. Pode-se até ver os abcessos a começarem a formar-se. — Com a ponta da faca, Laurie apontou para as pequenas cavidades.

— Vocês parecem estar muito divertidos — disse Jack, surgindo silenciosamente ao lado de Laurie.

Laurie soltou uma pequena gargalhada sarcástica que foi suficiente para embaciar a viseira por um instante. Lançou um olhar rápido a Jack antes de pegar na superfície exposta pelos cortes do pulmão para ele ver.

— Se chamas divertimento a ver o pior caso de pneumonia necrosante que já nos apareceu, então eu e o Marvin estamos realmente a divertir-nos.

Jack usou o seu dedo mindinho enluvado para avaliar a turgidez do pulmão.

— Tenho de reconhecer que é muito mau. Mostra o que pode acontecer a quem fuma demasiados charutos cubanos.

— Jack — disse Laurie, ignorando a tentativa de humor de Jack —, porque é que não ficas aqui ao pé de nós durante uns minutos? Acho que devias ver a dimensão desta infecção pós-operatória. Este pobre homem foi literal e rapidamente digerido de dentro para fora. Este pode ser o pior ou o melhor anúncio que eu já vi para que não se façam operações que não são essenciais.

—Obrigado pelo convite, mas tenho mais duas autópsias para fazer antes de o Lou cair para o lado — disse Jack. — Além disso, eu sei como é que a tua mente funciona, especialmente com o teu comentário muito pouco subtil de que a vítima fez uma operação, o que significa que, tendo em vista os meus planos de quinta-feira, o teu convite tem segundas intenções. Por isso vou deixar todo o divertimento para vocês — acrescentou ele começando a afastar-se.

— E a tua primeira autópsia? — perguntou Laurie, recordando o interesse de Lou. — O que é que descobriste?

— Pouca coisa. Recuperámos a bala de calibre vinte e dois. O Lou diz que é uma Remington high velocity hollow-point, mas ele pode estar só a tentar impressionar-me. A bala está um pouco amachucada por ter penetrado no crânio do sujeito. Havia também algumas escoriações e feridas nas pernas, o que sugere que ele tinha estado acorrentado, talvez atado a um peso. Penso que ele devia supostamente ter-se afundado, o que sugere que foi atirado borda fora de um barco, não atirado à água na praia. O Lou pensa que isso é importante. De resto, o sujeito era saudável, com excepção de uma ligeira cirrose do fígado. Depois de Jack se ter afastado a coxear, Marvin perguntou o que quisera Jack dizer com segundas intenções.

— Nós estamos em discordância a respeito de quando ele deve reparar o joelho — respondeu Laurie, sem dar mais pormenores. — Agora, vamos voltar ao trabalho.

— O que é que tens aí? — perguntou Arnold Besserman, que estava a trabalhar na mesa ao lado e ouvira a conversa de Laurie com Jack. Arnold trabalhava no DML há mais tempo do que qualquer outro médico legista. Embora Jack o considerasse velho, antiquado e pouco metódico, Laurie tratava-o com cordialidade, como fazia com a maior parte das pessoas. — Importas-te que interrompa?

—Absolutamente nada — respondeu Laurie com sinceridade. O facto de ele vir à mesa dela era o que tornava o trabalho na sala de autópsias conjunta agradável e estimulante.

—É um caso espantoso — disse Laurie. — Olha só para o pulmão. Eu nunca vi uma pneumonia nosocomial necrosante tão violenta e, ao que parece, desenvolveu-se em menos de doze horas.

— Impressionante—concordou Arnold, olhando para a superfície cortada da perna de David Jeffries. — Deixa-me adivinhar. É uma infecção estafilocócica. Estou certo?

— Acertaste em cheio. — Laurie estava impressionada.

— Tive três casos nosocomiais semelhantes em igual número de meses. O último foi há cerca de duas semanas — disse Arnold. — Talvez não tão maus, pelo menos todos, mas bastante maus. Os meus eram de uma estirpe resistente à meticilina oriunda do exterior do hospital, mas aparentemente tinha hibridizado com bactérias vindas de dentro do hospital.

—Isso é exatamente o que o meu caso parece ser—disse Laurie, ainda mais impressionada.

— A estirpe chama-se MRSA adquirido na comunidade, ou MRSA-AC, para o distinguir da MRSA nosocomial adquirido no hospital, ou MRSA-AH.

— Lembro-me de ler qualquer coisa sobre isso — disse Laurie. — Houve alguém que teve um caso há cinco ou seis meses, um jogador de futebol que o apanhou no balneário e teve uma infecção que lhe comeu parte da coxa.

— Esse foi o caso do Kevin — disse Arnold. Kevin Southgate era outro médico legista sénior que tinha entrado para o DML um ano depois de Arnold. Arnold e Kevin formavam a velha guarda e mantinham-se juntos como uma equipe, embora tivessem opiniões políticas diferentes. Eram ambos famosos no departamento por conspirarem constantemente para ficarem com o menor número de autópsias possível. Era como se trabalhassem sempre a tempo parcial.

— Eu recordo-me de ele ter apresentado o caso na reunião das quintas-feiras — disse Laurie. Para além da informal mas eficaz troca de opiniões que tinha lugar na sala de autópsias, a reunião formal das quintas-feiras, a que todos eram obrigados a comparecer, era a única outra oportunidade de os dezenove médicos legistas da cidade poderem partilhar as suas experiências. Laurie lamentava aquela situação porque ela limitava a capacidade do DML de reconhecer tendências. Ela tinha-se queixado disso mas, como não propusera uma solução, a questão tinha morrido ali. Com o DML a fazer mais de dez mil autópsias por ano, não havia tempo para mais interacção, e não havia fundos para contratar mais patologistas forenses do que o que tinham contratado nesse ano.

— O vírus MRSA-AC é assustador, como este teu caso bem demonstra — disse Arnold. — Tem sido uma mini-epidemia fora dos hospitais, como o jogador de futebol do Kevin e até mesmo, tragicamente, algumas crianças pequenas saudáveis que se esfolam no parque infantil. Agora parece estar a voltar para os hospitais. Esse é o lado mau. O lado bom é que é sensível a mais antibióticos, mas os antibióticos têm de ser iniciados imediatamente porque, imagina só, o facto de ser mais sensível aos antibióticos deu à estirpe uma maior virulência. Sem formarem a linha completa de moléculas defensivas para antibióticos como as estirpes MRSA-AH, estas estirpes adquiridas na comunidade conseguem despender mais tempo e esforço a fazer uma sopa de poderosas toxinas para acentuar a sua virulência. Uma delas chama-se PVL, que tenho a certeza que desempenhou um papel importante neste teu caso. A toxina PVL come as defesas celulares do doente, particularmente nos pulmões, e desencadeia uma poderosa e perversa libertação de citocinas, que normalmente ajudam o corpo a lutar contra a infecção. Sabes que praticamente metade da destruição que estás a ver nas secções do pulmão provém do sistema de imunidade excessivamente estimulado da própria vítima?

— Como a tempestade de citocinas que ocorre em pessoas que morrem com a gripe das aves H5N1 ? — perguntou Laurie. O pensamento de que ela teria de sugerir a Jack que ele devia repensar a opinião que tinha daquele homem perpassou-lhe a mente. Estava a sentir-se envergonhada com o facto de ele saber muito mais sobre o MRSA do que ela.

— Exactamente — respondeu Arnold.

— Acho que vou ter de ler bastante sobre tudo isto — admitiu Laurie. — Obrigada por toda a informação. Como é que sabes tanto?

Arnold riu-se.

— Estás a atribuir-me demasiado mérito. Mas, há cerca de um mês, os vários casos que eu e o Kevin tivemos fizeram com que nos interessássemos sobre o assunto. Desafiamo-nos um ao outro para ficarmos a saber mais sobre ele. É um bom exemplo da versatilidade genética das bactérias e da rapidez com que elas podem evoluir.

Laurie esforçou-se por disciplinar a mente que estava a saltar de um tópico para outro. Olhou para a fatia de pulmão túrgida, quase sólida, que tinha na mão. Ela sabia que as bactérias patológicas estavam de volta, mas o que tinha à sua frente em termos de patogenicidade parecia estar para além de todos os limites.

— Então os casos que já referiste eram de pneumonia necrosante? — perguntou ela. — Tal como este caso parece ser.

— Essa seria a minha suposição, mas teria ainda mais a certeza se visse a secção ao microscópio. Posso espreitar?

Laurie acenou com a cabeça em sinal afirmativo.

— E os casos do Kevin foram iguais aos teus?

— Muito parecidos.

— Os dele também foram infecções nosocomiais?

— Claro. Foram nosocomiais mas também envolveram a estirpe adquirida na comunidade, tal como os meus.

— Porque é que não falaste nisto na reunião das quintas-feiras?

— Bem, com toda a franqueza, não foram assim tantos casos, e toda a gente tem consciência do crescente problema do staphylococcus, especialmente o staphylococcus resistente aos antibióticos.

— Os hospitais envolvidos estavam distribuídos igualmente pela cidade?

— Não, eram todos em Manhattan. Quero dizer, pode ter havido casos em Queens ou em Brooklyn, pois eles teriam sido enviados para as morgues das suas áreas.

— Que hospitais aqui em Manhattan?

— Não me recordo de quantos casos foram em cada uma das instituições, mas todos os seis vieram de três hospitais de especialidade: o Hospital de Cardiologia Angels, Hospital de Cirurgia Cosmética e Oftalmologia Angels e o Hospital Ortopédico Angels.

Laurie ficou rígida. Era como se Arnold lhe tivesse dado uma bofetada.

— Nem um do Hospital Geral de Manhattan, do Hospital Universitário ou de qualquer dos outros grandes hospitais da cidade?

— Não. Isso surpreende-te?

— Sim e não — respondeu Laurie, surpreendida por uma coincidência tão grande. Havia muitos hospitais na Cidade de Nova Iorque: porquê apenas três?

—Contactaste os hospitais ou investigaste a situação? Quero dizer, porque é que só aconteceu naqueles três hospitais?

— Eu e o Kevin pensamos que era uma coincidência, por isso investigamos até certo ponto. Também pedi a ajuda da Cheryl Myers.

Telefonei ao Hospital Ortopédico Angels e falei com uma mulher muito simpática cujo nome me escapa neste momento. O administrador do hospital tinha-me dado o nome dela. A pessoa com quem falei era presidente da Comissão Interdepartamental de Controlo de Infecções.

— Ela foi prestável?

— Muito. Disse que o hospital estava consciente do problema e que tinha contratado uma profissional de controlo de infecções, ou pelo menos a empresa proprietária do hospital contratou-a. Assim, eu telefonei à pessoa cujo nome não consigo esquecer, a Dra. Cynthia Sarpoulus.

— Ela foi prestável?

— Bem, suponho que sim, pelo menos até certo ponto.

— O que queres dizer com isso?

— Ela não foi muito cooperante, embora eu suponha que, dadas as circunstâncias, ela estivesse tensa e na defensiva. Eu parti do princípio de que a sua entidade patronal, a Angels Healthcare, tinha colocado toda a responsabilidade sobre ela. De qualquer modo, o que ela me disse foi que não me intrometesse, que a situação estava sob controlo, muito obrigada. Certamente que conheces esse tipo de atitude. Justiça lhe seja feita, pareceu-me que ela estava a controlar a situação. Contra as decisões dos gestores, de acordo com ela, tinha insistido em encerrar os blocos operatórios de todos os hospitais, o que, ainda segundo o que disse, fez com que toda a gente ficasse irritada com ela. Depois ela mandou fumigar todas as salas de operações com um agente cuja base é o álcool. Eu tinha ouvido falar nisso. Ela também instigara um regime rigoroso de lavagem das mãos. Além disso, mandou fazer análises a todo o pessoal para identificar potenciais portadores, e aqueles cujo resultado foi positivo foram medicados. Devo dizer que fiquei muito bem impressionado. Eles certamente que não ficaram quietos a torcer as mãos.

— Obrigada pela informação. Desculpa tomar-te tanto tempo — disse Laurie.

— O prazer é todo meu — retorquiu Arnold.

— Importas-te que eu passe pelo teu gabinete mais tarde para ir buscar os nomes dos casos que mencionaste?

— Absolutamente nada! Sou capaz de ainda ter alguns dos processos. Posso também emprestar-te os apontamentos que tirei sobre o MRSA-AC, se quiseres. E podes conversar com o Kevin. Quando estávamos a trabalhar nisto, eu acho que ele também telefonou para um dos hospitais envolvidos, não me recordo se ele me disse o que ficou a saber.

Depois de Arnold voltar para a sua mesa, Laurie olhou para Marvin, que tinha ficado pacientemente à espera enquanto eles falavam.

— Aquilo foi incrível — disse ela.

— O quê, ficar a saber que ele tem um fraco por si? — perguntou Marvin.

— Não, tonto! O que ele disse. Ele não tem um fraco por mim! —Não é o que consta na morgue. Diz-se por aí que tanto Southgate

como Besserman se atirariam para debaixo de um comboio por sua causa.

— Que disparate — disse Laurie, embora ouvir dizer que poderia remotamente ser uma fonte de mexericos a deixasse pouco à vontade. Ela nunca gostara de ser o centro das atenções, e era por isso que tinha tanta dificuldade em falar à frente de um grupo.

Quando Laurie terminou com Jeffries, ela tinha encontrado muito mais patologia do que esperara. Todos os órgãos tinham uma infecção destrutiva óbvia ou, pelo menos, um inchaço inflamatório. No coração, ela encontrou princípios de vegetações infecciosas nas válvulas. No fígado, bem como no cérebro e nos rins, havia abcessos incipientes, sugerindo que a vítima tinha tido uma bacteremia maciça. Havia até úlceras nos intestinos, confirmando a facilidade como as bactérias se espalham.

— Quanto tempo temos até à próxima autópsia? — perguntou Laurie quando ela e Marvin acabaram de suturar a enorme incisão que abrangia o peito e o abdomen de David Jeffries.

— O tempo que quiser—respondeu Marvin. — Se quiser ir tomar café, eu alongo-o um pouco.

— Na realidade, se não se importa, quando eu quiser fazer a autópsia, telefono-lhe. Entre outras coisas, quero ir ver se a Cheryl Myers está cá e apanhá-la antes que ela saia para investigar outro caso.

—Então vou fazer as coisas com calma—disse Marvin.—Quando quiser começar, telefone-me.

— Não se esqueça de deixar um bilhete a quem libertar o corpo de Jeffries para que se informe a funerária de que há uma infecção grave e de que devem tomar precauções.

No caminho para a saída da sala de autópsias, Laurie parou por um momento junto da mesa de Jack.

— Ah! A profetisa do Juízo Final — gracejou Jack quando a reconheceu. —A sério, Vinnie! Estou-te a avisar! Ela de certeza que nos vai aterrorizar com os terríveis horrores de um caso de infecção nosocomial no local de uma operação.

Apesar da máscara refletora de Vinnie, ela viu-o revirar os olhos. Ela sentia o mesmo. O seu humor negro nem sempre tinha graça. Depois de estar casada com ele durante mais de um ano, ela via agora esse comportamento como uma defesa e uma forma de evitar o que ele estava realmente a pensar.

— De facto, eu preciso de falar contigo sobre o meu caso — admitiu Laurie. — Existem factos adicionais de que deves tomar conhecimento.

— Como é que eu consegui adivinhar? — perguntou Jack num tom trocista.

— Mas isso pode esperar até estares mais receptivo.

— Louvado seja o Senhor.

— Onde está o Lou?

— Adormeceu profundamente encostado à mesa no intervalo de duas autópsias. Pensei que era melhor ele ir para casa antes que o técnico mortuário se enganasse e o tomasse por um cadáver.

— Qual das autópsias estás a fazer?

— A da Sara Barlow, e é muito mais interessante do que o desconhecido do rio.

— Como assim?

— Olha para as nódoas negras na cara e nos antebraços. É óbvio que foi muito espancada, mas achas que qualquer dessas lesões podia ter sido fatal, como a polícia supôs?

— Provavelmente não, mas há algumas no peito? — perguntou Laurie, reparando que as paredes do peito estavam abertas. De um caso que tivera quando começara a trabalhar no DML, ela sabia que ferimentos causados por objetos cortantes que não se esperava que fossem mortais podiam sê-lo se ocorressem no peito. — Há algum motivo para suspeitar de commotio cordis?

— Não! O peito estava limpo. E se eu te disser que havia um extenso edema pulmonar rosado, olhos injectados e uma descaída do epitélio da traquéia?

— Qual é o teu diagnóstico presumível? — perguntou Laurie com um suspiro.

— E se eu te disser que a Janice Jaeger, a nossa inteligente MA, encontrou vários produtos de limpeza bastante fortes abertos dentro da cabine do chuveiro com um balde de água e um pano molhado? Quando examinara o corpo, ela já tinha reparado que os joelhos das calças de ganga da mulher estavam molhados e que a vítima não tinha meias nem sapatos calçados.

— Eu teria de saber se os produtos de limpeza tinham hipocloreto, como muitos têm, e se havia outros contendo ácido, como muitos contêm, e se ela tinha ignorado o aviso para não os misturar, e misturou.

— Bingo! — disse Jack. — O que a matou foi o gás do cloro, o primeiro agente de guerra química utilizado na Segunda Guerra Mundial, não o namorado. É espantoso como tanta gente ignora com tanta ligeireza os avisos que vêm nos produtos. — De qualquer modo, o Lou vai ficar satisfeito por não ter de se preocupar com mais um homicídio.

—A não ser que o namorado tivesse insistido para que ela usasse os produtos mortíferos, e os usasse juntos.

— Essa é uma hipótese em que nem sequer tinha pensado — admitiu Jack.

— Bem, rapazes, divirtam-se — disse Laurie dirigindo-se para a saída. Não sentia qualquer prazer em ter adivinhado a resposta certa às perguntas de Jack. Ter-se-ia sentido muito mais feliz se o seu estado de espírito, real ou fingido, não fosse tão brincalhão. O modo como ele não se apercebia ou ignorava propositadamente o corolário entre o caso dela e a operação que se propunha fazer espantava-a e irritava-a. Em vez de deixar as amostras de Jeffries para que um funcionário os levasse aos laboratórios apropriados, que era o procedimento normal, Laurie foi levá-las pessoalmente. Queria falar com a directora da microbiologia, Agnes Finn, e com a directora da histologia, Maureen

O'Connor, para tentar apressar as coisas. Mas passou primeiro pelo primeiro andar para ir ao gabinete dos MA. Sabendo que eles estavam muitas vezes ausentes em serviço, Laurie ficou satisfeita por encontrar Cheryl Myers ainda sentada à sua secretária.

— Posso ajudar-te nalguma coisa? — perguntou Cheryl. Era uma atraente afro-americana que usava o cabelo penteado em trancinhas apertadas, incrustadas de missangas. Fazia parte da velha escola do DML. Na realidade, ela trabalhava lá há tempo suficiente para os dois filhos terem terminado a Universidade.

— Espero que sim — disse Laurie. — Eu estive a falar com o Dr. Besserman sobre uns casos de infecção em três hospitais geridos por uma empresa chamada Angels Healthcare. Ele disse que tinhas investigado o assunto. Recordas-te?

— Estás a falar dos casos de MRSA nos pulmões?

— Exatamente! Foste visitar os hospitais?

— Não! O que ele me pediu especificamente foi que pedisse os processos dos doentes aos hospitais, por isso eu limitei-me a telefonar e falei com o setor de arquivo dos processos de cada um dos hospitais. Foi fácil obter as fichas porque os hospitais Angels têm os processos dos doentes em computador. O material foi-me enviado por correio eletrônico. Não precisei de lá ir.

— Os hospitais cooperaram facilmente?

—Muito. Até recebi uma chamada de uma mulher muito prestável chamada Loraine Newman. Quem é ela?

— É a presidente da comissão de controlo de infecções do hospital de ortopedia.

— O Dr. Besserman falou-me nela — disse Laurie. — Também comentou como ela tinha sido amável. Porque é que ela te telefonou?

— Foi só para deixar o nome e o número de telefone directo para o caso de eu precisar de mais alguma coisa. Ela disse que estava muito preocupada com o problema. Disse-me que, antes do surto do MRSA, não tinha havido praticamente problemas nosocomiais. Ela disse que a situação não a deixava dormir. Para dizer a verdade, parecia um pouco desesperada.

— Ela falou-te numa Cynthia Sarpoulus?

— Que eu me lembre, não. Quem é?

— Eu acabei de fazer uma autópsia a outro caso de MRSA que veio do Hospital Ortopédico Angels — disse Laurie, ignorando a pergunta de Cheryl. — Podes dar-me o número da Loraine Newman?

— Com certeza — respondeu Cheryl. Com alguns cliques do rato, o número apareceu no monitor.

— Preciso de mais alguns números — disse Laurie. — O CCD de Atlanta tem um programa de MRSA como parte da sua Rede Nacional de Segurança dos Serviços de Saúde. Gostava que me arranjasses o nome e o número de telefone de um dos seus epidemiologistas. Também gostava de falar com a Comissão Conjunta para a Acreditação das Organizações dos Serviços de Saúde, e arranja-me um nome e o número de alguém da fiscalização dos programas obrigatórios de controlo de infecções dos hospitais.

— Vou fazer o que puder — disse Cheryl.

— O nome do meu caso é David Jeffries — prosseguiu Laurie. — Eu gostava de ter a sua ficha hospitalar.

— Isso vai ser fácil — comentou Cheryl. — Mas não percebi bem com quem é que queres falar na comissão conjunta. Podes dar-me uma ideia melhor?

— Para a acreditação, a comissão conjunta exige que os hospitais tenham comissões de controlo de infecções. O que eu quero saber é se existe alguma fiscalização por parte dessas comissões e se é obrigatória a comunicação de surtos ocorridos no intervalo das inspecções formais. Eu sei que isto é um pouco invulgar—disse Laurie —, mas tenho pouco tempo.

— Tenho todo o prazer em ajudar — disse Cheryl num tom bem disposto.

Laurie saiu do gabinete da investigadora forense e dirigiu-se para as escadas, evitando o elevador do fundo. Tinha começado o dia com um desejo egoísta de convencer Jack a não fazer a operação tão cedo. Agora estava preocupada com o seu bem-estar, talvez até com a sua vida. Entre ela, Besserman e Southwork, havia sete casos fatais de pneumonia necrosante causados pelo MRSA, ocorridos num espaço de três meses em três hospitais, num dos quais Jack tinha a operação marcada, e todos eles geridos pela mesma empresa. E, pior ainda, esses casos estavam a acontecer apesar do que Besserman tinha descrito como medidas agressivas de controlo da infecção. Embora Laurie fosse a primeira a admitir que não sabia muito sobre epidemiologia, ela sabia o suficiente para se perguntar a si própria se poderia haver na organização Angels Healthcare um portador do MRSA involuntário e mortífero, uma espécie de Maria Tifóide que estava a espalhar inadvertidamente o MRSA ao ir de um hospital para outro no decurso do seu trabalho. Laurie precisava de muita informação e, dada a teimosia de Jack, precisava dela com urgência, para poder ter esperança de o demover.

A paragem seguinte foi a microbiologia, que fazia parte do complexo laboratorial situado no quarto andar. Laurie encontrou a taciturna e dura microbióloga Agnes Finn no seu pequeno gabinete sem janelas. O aspecto de Agnes era, entre todos os funcionários do DML, o mais próximo do estereótipo de alguém que trabalhava numa morgue.

A sua cor amarela-acinzentada contribuía para isso; era como se ela nunca visse a luz do dia. No entanto, de todas as supervisoras, Laurie considerava Agnes a mais prestável, sempre disposta a fazer um esforço para ajudar. Era como se ela não tivesse qualquer vida fora do DML.

Laurie sentou-se e explicou a situação, o que deu azo a uma minipalestra de Agnes sobre o MRSA, incluindo tudo o que Besserman dissera e ainda mais. Ela explicou pormenorizadamente que o staphylococcus era um micróbio pluripotente e talvez o mais adaptável e bem sucedido micróbio patogénico humano.

— Se pensarmos nele do ponto de vista da bactéria—disse Agnes — ele é verdadeiramente um supermicróbio, capaz de matar alguém num assustador espaço de tempo reduzido, ao passo que a mesma estirpe poderá apenas colonizar um indivíduo, geralmente no interior das narinas. Este é um local conveniente para a bactéria porque, todas as vezes que o portador leva a mão ao nariz, os seus dedos ficam contaminados, e daí ela pode espalhar-se para outra pessoa.

— Existe alguma estimativa de quantas pessoas estão colonizadas desse modo?

— Existe. Em qualquer dado momento, um terço da população mundial é portadora do staphylococcus; são cerca de dois mil milhões de pessoas.

—Meu Deus—disse Laurie.—Existem muitas estirpes de MRSA para além da adquirida no hospital e da adquirida na comunidade?

— Muitas — respondeu Agnes. — E elas estão constantemente a evoluir no nariz das pessoas e noutros locais, como a superfície úmida da pele, onde trocam material genético.

— Como é que as estirpes são diferenciadas no laboratório? — De muitas formas — disse Agnes. — A resistência aos antibióticos é uma delas.

— Mas isso não é muito exacto, tendo em conta tudo o que me disseste.

— Tens razão. Os métodos mais exactos são todos baseados na genética: o mais simples e o que é usado com mais frequência é o da eletroforese em gel de campo pulsado, e o mais completo é a genotipagem total. No meio, existem várias outras técnicas de tipagem por sequenciação, todas baseadas em PCR.

— O que é que podes fazer aqui na microbiologia?

— Apenas a mais simples: a resistência aos antibióticos.

— Se for necessário, onde é que as mais complicadas podem ser feitas?

— O laboratório de referência estatal consegue fazer a eletroforese em campo pulsado. Para uma tipagem mais específica, o melhor sítio é o CCD. Eles estão a fazer uma biblioteca nacional de estirpes do MRS A, por isso podem dar-te muita informação. Eles encorajam o envio de isolados, e conseguem fazê-los todos. Claro que o Dr. Lynch, do nosso laboratório de AND, consegue fazer diversas tipagens genéticas, mas não somos capazes de dizer muito sobre a estirpe específica.

— Qual é o teste genético mais rápido? Estou com uma limitação de tempo.

— Para dizer a verdade, não sei. O que eu sei é que a nossa cultura padrão e os sensíveis aos antibióticos levam vinte e quatro a quarenta e oito horas. Os hospitais conseguem fazê-lo muito mais depressa usando métodos baseados em anticorpos monoclonais. O que é interessante é que essas máquinas resultaram de trabalhos para a NASA.

Laurie abanou a cabeça. Sentia-se pequenina. —Até hoje, eu pensava que sabia bastante sobre staphylococcus. Mas estava muito enganada.

— Todos nós temos muito que aprender—comentou Agnes filosoficamente. — O que queres fazer com as amostras que trouxeste?

— Vou levar uma ao Ted Lynch, do laboratório de ADN. Gostava que fizesses a cultura de outro, e os restantes podem ir para o laboratório de referência. Também vou querer algumas amostras congeladas dos casos do Dr. Besserman e do Dr. Southgate para comparação. Gostava de saber se são da mesma estirpe. Estou preocupada com a possibilidade de haver um portador involuntário, especialmente depois do que me disseste.

— Tens de me dizer quais são os casos em que estás interessada, que eu tentarei acelerar o processo. Quando ao Ted Lynch, vais ter de deixar as coisas a meu cargo, pois tenho de lhe fornecer uma cultura para a análise do ADN.

Com a cabeça num turbilhão, Laurie saiu apressadamente do laboratório em direcção ao elevador da frente, mais rápido. Enquanto carregava repetidamente no botão, na esperança vã de apressar a chegada do elevador, tentou planear o resto da manhã. A primeira paragem seria para falar com Maureen O'Connor, do laboratório de histologia, para lhe pedir que secções dos pulmões de David Jeffries fossem processadas em lâminas o mais rapidamente possível. De momento, Laurie não estava interessada nas restantes lâminas, apenas nas dos pulmões, pois, se a patologia fosse tão grave como esperava, ela tencionava tirar fotomicrografias grandes. Ela achou que fariam uma excelente apresentação em PowerPoint para apoiar os argumentos que tencionava utilizar contra Jack, a fim de o levar a cancelar a operação ao LCA.

Laurie entrou no elevador e carregou no botão para o quinto andar. Olhou para o relógio. Eram quase dez horas. Quando saiu do elevador, correu literalmente ao longo do corredor até à histologia e chegou lá ligeiramente ofegante.

— Oh-oh! Minhas senhoras — troçou Maureen no seu forte sotaque irlandês. — Acho que estou a pressentir mais uma emergência grave da parte da menina Montgomery. Eeh... senhora Montgomery-Stapleton. Quem é que se vai oferecer como voluntária para lhe dizer que o seu paciente já morreu?

As mulheres que trabalhavam na histologia soltaram uma gargalhada geral. Graças ao bom humor de Maureen, era um ambiente de trabalho alegre. Apesar da sua ansiedade, até mesmo Laurie deu por si a sorrir. Tal como a maior parte do humor, o comentário de Maureen continha alguma verdade. Laurie e Jack eram os únicos patologistas do pessoal médico legista que, de vez em quando, pensavam que precisavam urgentemente de lâminas de microscópio. Nenhum dos outros se importava de esperar o tempo que fosse necessário.

Maureen escutou o pedido e a explicação de Laurie e prometeu fazê-las pessoalmente. Ao fim de alguns minutos, Laurie estava novamente no corredor a dirigir-se apressadamente para o gabinete ocupado por Arnold Besserman e Kevin Southgate. Quando bateu, a porta abriu-se sozinha e Laurie espreitou para dentro.

O interior do gabinete recordou a Laurie as tendências políticas dos dois homens. Arnold era arqui-conservador, e a sua secretária era um exemplo perfeito de arrumação, com um único tabuleiro de lâminas junto de um dos lados do microscópio e um bloco novo ao pé do outro. O tabuleiro e o bloco estavam perfeitamente alinhados, paralelos um ao outro, bem como a um lápis bem afiado. O lado do gabinete ocupado por Southgate era o oposto, com tabuleiros de lâminas, processos de casos não terminados, relatórios do laboratório e todo o tipo de documentos empilhados na secretária e no arquivador, deixando apenas um pequeno espaço horizontal livre em frente da cadeira. Havia uma enorme quantidade de Post-its pendurados do candeeiro na secretária como barbas-de-velho. Laurie ficava admirada com o modo como os dois homens se davam tão bem há tanto tempo.

Depois de ter deixado um bilhete para que um deles lhe telefonasse, Laurie percorreu o corredor, batendo às portas dos outros médicos legistas para lhes perguntar se tinham tido alguma experiência recente com o MRSA. Não estava ninguém nos gabinetes, o que era inteiramente compreensível, pois as manhãs eram a altura do dia em que trabalhavam na sala de autópsias, embora ela não tivesse visto George Fontworth, Paul Plodget ou Edward Gonzalez, o novo companheiro de gabinete de Paul, contratado há pouco tempo. Edward, um brilhante patologista forense, era um produto do programa do próprio DLM e da Universidade de Nova Iorque.

Não tendo conseguido descobrir mais casos de MRSA, Laurie foi para o seu gabinete. Subitamente, pensou que a sua conclusão de que não houvera casos de MRSA fatais em nenhum dos outros hospitais da cidade nos últimos três meses talvez não tivesse tido em conta os hospitais de Queens, Brooklyn, ou Staten Island. Todos esses bairros tinham os seus próprios departamentos de medicina legal.

Com a agenda telefônica aberta, Laurie telefonou primeiro para Dick Katzenburg, o chefe do departamento de Queens. Ele ajudara Laurie no passado, encontrando casos semelhantes às duas séries de casos em que ela estivera profundamente envolvida. Enquanto a ligação era estabelecida, Laurie recordou que essas suas duas séries anteriores tinham, surpreendentemente, acabado por ser homicídios, algo de que ninguém, nem mesmo ela própria, suspeitara. A recordação estimulou, durante breves instantes, o pensamento de que, tendo em conta sobretudo que um terço da população era colonizada com staphylococcus, as mortes da sua série actual talvez não fossem acidentais.

O departamento de ML de Queens atendeu e Laurie pediu para falar com Dick. Enquanto esperava, bateu nervosamente com os dedos na secretária. Fez votos para que ele estivesse disponível, o que ela pensou que fosse uma expectativa razoável. No seu papel de director de um departamento satélite, as tarefas administrativas mantinham-no muitas vezes sentado à secretária e fora da sala de autópsias. Enquanto o tempo se arrastava, ela pegou num bloco de apontamentos novo e, com o telefone junto ao pescoço, desenhou múltiplas linhas verticais paralelas, criando uma matriz de xadrez em que planeava introduzir informações sobre o MRSA à medida que fosse tomando conhecimento delas. Nas suas duas investigações anteriores, tinham sido as matrizes que lhe tinham dado a perspicácia de que precisara. Na esperança de vir a ter um desfecho semelhante, escreveu David Jeffries na fila de cima, à esquerda da linha da margem.

Dick apareceu em linha e pediu-lhe desculpa por a ter feito esperar. Após alguma conversa social, Laurie perguntou se, nos últimos três ou mesmo quatro meses, os médicos legistas do departamento de Queens tinham visto alguma infecção nosocomial com MRSA.

— Vimos, sim! — respondeu Dick sem hesitação. Não foram casos meus, foram do Thomas Asher. Lembro-me deles porque eram bastante feios.

— Em que sentido?

— Pneumonia necrosante. As vítimas, que eram todas pessoas saudáveis, não tiveram hipótese. As suas histórias fizeram-me lembrar as histórias da pneumônica de 1918.

Impulsivamente, Laurie teve uma sensação de desapontamento egoísta. O fato de outros hospitais terem o mesmo problema que as instituições da Angels Healthcare iria certamente diminuir o impacto que os casos pudessem ter em Jack.

— Sabes se eles ocorreram num hospital ou em vários? — perguntou Laurie.

— Só num. Foi num hospital de ortopedia. Porque é que perguntas? Laurie endireitou-se na cadeira.

— Que hospital era esse?

—Angels qualquer coisa. Acho que eram Hospital Ortopédico Angels. Era todos casos de ortopedia.

Um leve sorriso revirou os cantos da boca de Laurie para cima. Em vez de perder força, a probabilidade de êxito do seu argumento junto de Jack aumentara.

—Também tem havido alguns casos aqui — disse Laurie —, entre os quais um que eu autopsiei hoje. Eu vou investigar, embora me tivessem dito que o hospital tem sido agressivamente proactivo a lidar com o problema.

— Se eu puder ajudar, diz-me.

— Podes dar-me os nomes?

Laurie ouviu o som familiar do teclado de Dick. Um minuto depois, ele disse:

— Philip Moore, Jonathan Knox e Eileen Dimalanta. Laurie acrescentou-os rapidamente à sua matriz.

— Os três casos já estão encerrados?

— Já, por isso podes ter acesso a eles na base de dados.

— Mesmo assim, eu gostava de ver os processos. E os processos do hospital, se os tiveres, bem como uma amostra de tecido, para poder classificar correctamente a estirpe, se isso não foi já feito.

— Eu levo o que tenho para a reunião de quinta-feira.

— Eu preferia que me enviasses por um mensageiro hoje. Estou com limitações de tempo.

— Como assim?

— Um compromisso pessoal — disse Laurie, sem querer entrar em detalhes.

A seguir, Laurie telefonou a Jim Bennett, em Brooklyn, e a Margaret Hauptman, em Staten Island. Margaret não tinha tido quaisquer casos de MRS A, Jim tivera três, tal como Dick. Dois tinham sido pneumonia necrosante como os outros e tinham vindo do mesmo hospital, mas o outro era uma síndrome de choque tóxico fatal causado pelo MRSA a seguir a uma endoftalmite fulminante ocorrida pouco depois de uma operação de rotina a uma catarata. Quando desligou o telefone, Laurie acrescentou Carlos Suarez, Matt Collord e Kayla Westover à sua matriz, que ia aumentando rapidamente. Laurie estava agora convencida de que algo errado se passava — algo muito errado.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 10.20

Rodger Naughton vem já — disse a pretensiosa secretária. — Não se quer sentar? — Da perspectiva de Angela, a mulher parecia mais um robô do que uma pessoa real. Angela já estivera muitas vezes no gabinete de Rodger, pelo que esperava um pequeno gesto de familiaridade em vez de fria indiferença e, embora tivesse antecipado a forma como ia ser recebida pela sua experiência no passado, a atitude da secretária fê-la sentir-se ainda menos à vontade.

Desde que se recordava que Angela tinha sido uma pessoa independente, detestando pedir favores, sempre decidida a fazer tudo sozinha. Quando cresceu, esta característica alargou-se à recusa de pedir dinheiro. No entanto, ali estava ela, sentada no esplendor do Manhattan Bank and Trust com a sua metafórica mão estendida, obrigada a suplicar um empréstimo.

O único lado positivo era que a personalidade de Rodger era muito diferente da da menina Darton. Desde o seu primeiro encontro que Angela o achara cordial, prestável e simpático. Em circunstâncias diferentes, ela teria tido muito prazer em vê-lo, mas não nesse dia. Desde que acordara, enquanto despachava Michelle para ir para a escola no meio da continuação do debate sobre o piercing do umbigo, falava com os advogados sobre a morte por MRS A ocorrida no dia anterior, e garantia a Cynthia Sarpoulus que ninguém a culpava pelo problema recorrente das infecções, Angela tinha tentado pensar numa estratégia para convencer Rodger a conceder-lhe um empréstimo pessoal avultado, ou a fazer um empréstimo comercial à Angels Healthcare.

Infelizmente, não lhe tinham surgido quaisquer idéias a não ser pôr-se de joelhos e suplicar. A situação estava tão má que, se achasse que isso ajudava, ela fá-lo-ia.

— O Sr. Naughton vai recebê-la agora — disse a menina Darton. A única alteração na sua expressão foi uma sobrancelha ligeiramente erguida e um leve estremecimento das pestanas.

Sentindo-se como se estivesse a caminho do gabinete do director da escola depois de ter estado a fumar um cigarro, Angela dirigiu-se para o gabinete de Rodger.

—Angela! — disse Rodger com vivacidade enquanto saía de detrás da secretária com a mão estendida. — Que prazer ver-te. Isto é um privilégio. Normalmente, trato das coisas com o teu Director Financeiro. Não que eu não goste do Bob Frampton. Ele é um cavalheiro mas, se a escolha fosse minha, preferia tratar directamente contigo. Só não lhe digas isso! — Ele riu-se enquanto apertava a mão de Angela e a conduzia para uma cadeira em frente da secretária.

Angela sentou-se e observou Rodger enquanto ele voltava para a sua cadeira de cabedal de costas altas. Era um homem atraente, com um ar de rapaz e cuidadosamente vestido. Tinha um bonito cabelo louro cortado muito curto e olhos azuis-claros. Ele era um dos vários gestores do banco encarregados das contas dos serviços de saúde. Sendo um negócio cujo crescimento não tinha um tecto discernível, os serviços de saúde eram de grande interesse para os bancos em geral e para o Manhattan Bank and Trust em particular. Quando Angela viera ao banco cinco anos antes para tratar do primeiro empréstimo da Angels Healthcare para a construção dos hospitais, ela tinha sido entregue a Rodger. Ao longo dos anos seguintes, Rodger trabalhara com a empresa como elo de ligação desta com o banco, que ganhara uma quantia considerável no processo. Durante esse tempo, a Angels Healthcare construíra três hospitais de muitos milhões de dólares, que tinham sido máquinas de fazer dinheiro até ao recente surto de MRSA. Era esta a realidade que Angela tencionava realçar e, esperava, explorar.

— Como está a tua filha? — perguntou Rodger com sinceridade, e não para fazer conversa.

— Para além das questões existenciais da pré-adolescência, está bem — respondeu Angela, enquanto a sua mente se esforçava por pensar como é que ia começar o pedido de mais um empréstimo. — E a tua? — Ela sabia que Rodger tinha uma filha um ano mais velha que Michelle, mas isso era tudo o que sabia sobre a vida privada dele.

— Está a debater-se com os mesmos problemas. Eu começo a aprender que as filhas adolescentes podem ser uma dor de cabeça.

Angela lembrava-se muito bem dos seus próprios problemas de adolescente. Fora durante esse período tenso a meio do liceu que os problemas com o seu pai se agudizaram, e eles nunca se tinham verdadeiramente reconciliado.

— Angela — disse Rodger. — Suponho que estás aqui por causa do telefonema que eu fiz ao Bob, o teu director financeiro. Quero garantir-te que foi um procedimento de rotina do banco. Os empréstimos da Angels Healthcare são automaticamente alvo da minha atenção quando a sua margem se aproxima de um ponto específico. O problema é, obviamente, o empréstimo a curto prazo que fizemos há pouco mais de mês, combinado com a venda recente de títulos da conta de gestão da tua empresa. De acordo com a política do banco, eu, como gestor da vossa conta, tive de fazer a chamada. Podes estar descansada, não vou exigir o pagamento de qualquer dos empréstimos da empresa.

— Agradeço-te — disse Angela, gemendo interiormente. Os comentários dele, embora tencionassem tranquilizá-la, tinham o efeito oposto. Rodger estava, de facto, a dizer-lhe que a Angels Healthcare já não tinha crédito. Apesar disso, Angela pigarreou para aclarar a garganta e acrescentou: — Mas a razão para a minha visita não foi a tua chamada para o Bob.

— Oh. — Rodger recostou-se na cadeira. — Então em que te posso ser útil?

— Eu sei que tens conhecimento da nossa próxima OIV — começou Angela a dizer. — Ela deverá fechar daqui a pouco mais de duas semanas, por isso estamos a atravessar um período de silêncio, o que significa que não posso divulgar pormenores. Digamos apenas que nos garantiram que a OIV será bem sucedida.

— Sinto-me feliz por ti — disse Rodger. — Têm um contrato de garantia? Uau!

—As felicitações talvez sejam um pouco prematuras. O problema imediato que nos obrigou a pedir um empréstimo a curto prazo há um mês tem custado mais a solucionar do que prevíamos. Precisamos de outro empréstimo a curto prazo, mas apenas por três semanas. Não interessa os juros, podemos pagá-los à cabeça.

Rodger inclinou-se para a frente. A sua cadeira rangeu. Ele esfregou a cabeça e expirou através das bochechas cheias de ar. Depois olhou para Angela. Subitamente, pareceu muito cansado e até mesmo um pouco triste.

— De que quantia estás a falar?

— Nós gostaríamos de duzentos mil, mas aceitamos o que nos puderes arranjar.

— Estás a pedir o impossível — disse Rodger, respirando fundo. — Quando eu disse que a tua empresa estava perto da margem, eu não fui totalmente exato. Ela está na margem. Infelizmente, vocês atingiram o limite do crédito.

— Não podes fazer uma excepção? — perguntou Angela. Ela detestava suplicar, mas não tinha outra alternativa. — Tu trabalhas connosco há cinco anos. Tu compreendes a economia médica actual. Sabes como estamos bem posicionados. Vamos ser o primeiro hospital de especialidade a entrar na bolsa depois de a moratória do Senado ter sido levantada em Outubro passado. Sabes que teremos receitas garantidas quase ilimitadas devido ao modo como os reembolsos de saúde favorecem as cirurgias. Também sabes que a Angels Healthcare se vai multiplicar e tornar uma empresa muito grande, e sabes que o Manhattan Bank and Trust continuará a ser o nosso banco e tu serás o nosso gestor de conta. Eu até posso pôr isso por escrito.

— E os teus bens pessoais? — perguntou Rodger. — Posso arranjar-te um empréstimo sobre a tua casa. Eu próprio posso tratar disso. Posso ter o dinheiro para ti...

— Isso não vai resultar — disse Angela, interrompendo-o. — Já hipotequei ao máximo todos os meus bens pessoais, incluindo as minhas jóias. Tudo!

Durante alguns minutos, o silêncio reinou no gabinete de Rodger. O único som que se ouvia era o tiquetaque do relógio Tiffany de secretária. Um raio de sol fino penetrou no gabinete. Um milhão de partículas de pó dançou silenciosamente na luz.

Rodger recostou-se na cadeira e abriu as mãos no ar, abanando a cabeça.

— Lamento muito. Não posso autorizar um empréstimo sem garantia. Não que eu não queira fazê-lo, simplesmente eu não tenho poder para o fazer. Desculpa, Angela. Eu admiro-te muito como médica, como mulher de negócios, como ser humano, mas não posso fazê-lo.

— E alguém que esteja acima de ti na cadeia hierárquica? Certamente que alguém pode autorizar esse empréstimo, tendo especialmente em conta o dinheiro que o banco ganhou a curto prazo e ganhará a longo prazo.

—Vou tentar—disse Rodger, sem grande entusiasmo.—Vou enviar o pedido para cima, para os meus superiores.

— Vais recomendá-lo? — perguntou Angela.

— Eu vou recomendar que o considerem—disse Rodger, contornando a pergunta.

— Obrigada—disse Angela. Ela pôs-se de pé, conseguiu esboçar um meio-sorriso e apertou a mão de Rodger sobre a secretária imaculada dele. Foi então que reparou que a única fotografia emoldurada em cima da secretária era de uma menina. Não havia qualquer fotografia de família, nem de uma mulher.

— Devo dizer-te que, mesmo que o empréstimo seja aprovado, o processo demorará várias semanas. Lamento muito, Angela. Por favor, não leves isto como uma coisa pessoal. Se dependesse de mim, eu aprová-lo-ia num segundo.

Angela dirigiu-se para a porta. Cinco minutos depois, estava na rua, a tentar mandar parar um táxi para ir para o centro. Embora o desfecho da reunião fosse o que ela esperava, sentiu-se deprimida. Das duas reuniões que tinha marcadas para essa manhã, pelo menos a que acabara de ter com Rodger fora cordial. A que ia ter a seguir com o seu ex-marido, Michael Calabrese, provavelmente não seria; quase nunca era. Embora Angela adorasse a filha, muitas vezes lamentava que esta a prendesse a um contacto continuado e constante com um homem que ela preferia nunca ter conhecido e com quem desejava não ter casado. Claro que ela piorara a situação ao permitir, contra o seu próprio discernimento, que ele servisse de agente de colocação de títulos para a sua empresa quando fundara a Angels Healthcare.

A colaboração não tinha sido premeditada. A partilha da custódia exigia um contacto contínuo e, quando Angela tirara o MBA, Michael tinha aproveitado a oportunidade para lhe fazer perguntas sobre as suas experiências. Desde que acabara o curso na Columbia, onde conhecera Angela, Michael trabalhava no negócio de títulos, na Morgan Stanley, mas nunca fizera o mestrado. A sua curiosidade sobre o MBA de Angela tinha sido uma combinação de interesse genuíno com uma espécie de ciúme. Tal como o pai dela, Michael sentia-se inferiorizado pelo curso de medicina de Angela, especialmente quando os amigos gracejavam dizendo que ela tinha os miolos e ele os músculos. Embora estivessem divorciados, o fato de Angela estar em vias de obter um grau avançado em gestão fizera renascer os sentimentos negativos de insegurança que os estudos dela tinham provocado. As discussões transformavam-se invariavelmente em irritação mútua até ao dia em que Angela descrevera um plano de negócio que estava a desenvolver como exercício para uma das suas disciplinas. Quando terminara a descrição, Michael estava tão impressionado que a encorajou a pô-lo em prática como uma empresa real. Ele disse que conseguiria obter o capital do que ele chamou os seus clientes "únicos". Ele nunca lhe explicara o que queria dizer com clientes "únicos", mas Angela tinha motivos para acreditar que ele não estava apenas a gabar-se. Nessa altura, Michael saíra da Morgan Stanley para formar a sua própria firma de colocação de títulos. Nessa capacidade, ele trabalhava muitas vezes com o seu antigo patrão, a Morgan Stanley, em OIVs, e estava a sair-se muito bem.

Encorajada por Michael, Angela tinha ido falar com alguns dos seus professores, que também acharam o seu plano de negócio interessante, e ela utilizou os contatos deles para fundar a Angels Healthcare. Cumprindo a sua palavra, Michael conseguira que parte do capital inicial viesse dos seus clientes, e até encontrara um financiador sob a forma de um grupo desses clientes, o qual investiu quinze milhões de dólares, mais o recente empréstimo a curto prazo convertível em ações, se quisesse. No entanto, o verdadeiro êxito proveio dos esforços de Angela, que conseguiu arranjar o resto do capital inicial. Durante o MBA, ela tinha trabalhado também no hospital e, como uma vendedora inata, conseguira um número de investidores, médicos universitários, que despertaram o interesse de um número de colegas, que despertaram o interesse de mais médicos de outras instituições, num processo que rapidamente se levou a cabo a si próprio. Não só todos os médicos investidores entraram com dinheiro, como, quando os hospitais foram construídos, trouxeram com eles um grande número de doentes, o que era, na sua essência, o factor crítico do plano do negócio.

Angela saiu do táxi em frente de um enorme edifício de escritórios de vidro e mármore não muito longe do Ground Zero. Michael partilhava o espaço com vários negociantes financeiros independentes. Cada um deles tinha o seu gabinete privado, mas partilhavam as áreas comuns e os serviços de secretariado. Era uma relação conveniente para todos, pois tinham instalações e serviços melhores do que se estivessem sozinhos.

O gabinete de Michael tinha uma vista magnífica sobre o Hudson, com a Estátua da Liberdade no meio do rio, em cima da sua ilha do tamanho de um selo do correio. Do outro lado do rio viam-se os blocos de apartamentos de New Jersey.

A porta de Michael estava aberta e, uma vez que a secretária partilhada se encontrava a uma distância considerável, Angela simplesmente entrou. O seu ex-marido estava ao telefone, recostado na cadeira com as pernas cruzadas e os pés apoiados no canto da secretária. Tinha o casaco pendurado das costas da cadeira, a gravata solta e o botão do colarinho da camisa desabotoado. Era a imagem do à-vontade casual. Sem interromper a conversa, ele fez sinal a Angela para que se sentasse no sofá.

Angela despiu o casaco, colocou-o sobre o braço do sofá, pousou a pasta no chão e sentou-se. Em cima da mesinha à sua frente estavam os apetrechos masculinos habituais, incluindo uma garrafa de cristal cheia de líquido âmbar, vários copos de cristal antiquados, e uma caixa de humidificação de mogno envernizado com um indicador de humidade embutido. Na parede havia uma televisão de ecrã plano com os valores da bolsa na parte inferior do ecrã e cabeças silenciosas a falar na parte superior.

Só de ver o ex-marido as suas pulsações aumentaram, mas não certamente devido à atracção, embora fosse forçada a admitir que ele era bastante atraente. As suas feições eram angulares e duras, e o cabelo cor de antracite estava penteado para trás. Uma mão segurava o telefone; a outra gesticulava freneticamente no ar à medida que a conversa progredia. Era óbvio que ele estava a tentar convencer alguém de alguma coisa.

Angela conhecera-o na Universidade de Columbia, andava ela no penúltimo ano e ele no último, e apaixonara-se loucamente. Ela pensava que ele era exatamente o que procurava. Ele era inegavelmente masculino, um bom aluno, um tanto rebelde, franco, aparentemente sincero, popular junto dos seus amigos, tanto novos como velhos, apaixonado e direto a respeito da sua atração por ela, romântico e dado a pequenos gestos como oferecer-lhe flores em ocasiões especiais e, particularmente importante para ela, não tinha medo de mostrar as suas emoções. Resumidamente, ele era o oposto do pai dela, um perfil de personalidade que Angela exigia em alguém que pudesse considerar para uma relação a longo prazo. Ela até gostava do facto de ele ser oriundo de um meio operário, e da sua fidelidade para com os amigos do liceu, poucos dos quais tinham ido para a universidade. Isso sugeria que ele tinha bons valores. O único senão no quadro era que uma noite Michael tinha admitido que o seu pai dominador não tinha poupado o cinto no seu maníaco objectivo de ver os filhos na Ivy League. Uma vez que essa forma de agir tinha funcionado com Michael, mas não com o seu irmão mais velho, Angela não tinha prestado atenção ao velho provérbio de que "os fins não justificam os meios", embora devesse tê-lo feito. Isso revelar-se-ia profético, de uma forma extremamente desagradável.

— Está bem, está bem! — disse finalmente Michael, acenando a mão livre no ar como se estivesse a afastar um insecto irritante. — Telefona-me depois! — Ele colocou o auscultador alguns centímetros acima do telefone e deixou-o cair. — Meu Deus, algumas pessoas são tão imbecis!

Angela ficou sensatamente calada.

— Então — disse Michael, erguendo-se. — O que se passa? — perguntou ele, dando a volta à secretária, agarrando numa cadeira, levando-a até à mesinha e sentando-se nela de trás para a frente. Com os braços cruzados e apoiados nas costas da cadeira, ele olhou para Angela com um sorriso de desafio irônico que teve o condão de evocar recordações desagradáveis suficientes para que Angela esquecesse o seu plano inicial de limitar a conversa à necessidade desesperada de dinheiro por parte da empresa e seguidamente ir-se embora. Em vez disso, ela disse — Primeiro, vamos esclarecer algumas questões menores.

— Muito bem. O que são para ti questões menores?

— Por que diabo deste autorização à nossa filha de dez anos para fazer um piercing no umbigo antes de falares comigo sobre isso?

— A miúda quer. Porque não?

— E isso é razão suficiente para o fazer? — perguntou Angela sem disfarçar a incredulidade. — Só porque ela quer?

— Ela disse que todas as suas amigas têm um.

— E tu acreditaste nela?

— Porque é que não havia de acreditar? Está na moda.

Angela soube instintivamente que prosseguir com a conversa era uma perda de tempo para todos. Michael nunca tinha sido grande coisa como pai — muito menos como marido. Só depois de se terem casado é que Angela se apercebeu de que Michael fazia uma ideia "muito operária" dos seus deveres matrimoniais. Na sua opinião, o seu papel era chegar a casa, sentar-se em frente da televisão e manter a família actualizada sobre o que estava a acontecer, especialmente no mundo do desporto. E isso era nas noites em que não tinha de se encontrar com os amigos na baixa de Manhattan, supostamente para jantares relacionados com o trabalho. Angela ficou grávida e suportou a relação na esperança vã de que o nascimento da criança, supostamente desejada, transformasse Michael na pessoa que fora antes de se casar. Mas o nascimento de Michelle só tornou a vida de Angela mais difícil, com ela a tentar desesperadamente equilibrar a formação em medicina interna com as dificuldades de tratar de uma criança recém-nascida. Michael recusara-se a ajudá-la, excepto em aspectos muito superficiais. Ele até se orgulhava de nunca ter mudado uma fralda. Essas tarefas ficavam simplesmente abaixo da dignidade de um jovem de sucesso, um banqueiro de investimentos em rápida ascensão.

— Escuta — disse Angela, tentando manter-se tão calma quanto possível —, não vamos discutir, mas deixa-me garantir-te que não é verdade que todas as amigas delas tenham piercings. E há sempre o risco de infecção.

— Elas podem ter problemas de infecção?

—Podem, sim! Mas a questão é que, quando uma coisa destas vier à baila e existir uma probabilidade de eu ser contra, deves falar comigo antes de tomares uma decisão.

— Ótimo — disse Michael revirando os olhos. — Está bem, já deste a tua opinião sobre a questão do piercing. Que mais?

— Bem — disse Angela, tentando encontrar as palavras certas. — Quero que saibas que é inaceitável dizeres a Michelle que eu sou a culpada de estarmos divorciados. Não está certo tentares levar Michelle a tomar partido num problema que é entre nós os dois. Tens de parar com isso.

— Ei, não fui eu que meti os papéis para o divórcio, foste tu — retorquiu Michael. — Eu não queria divorciar-me.

— Quem mete os papéis para o divórcio não tem nada a ver com a causa — disse Angela num tom seco. — Foi o teu comportamento que causou o divórcio.

— Eu embriaguei-me e bati-te, e depois? Pedi desculpa. E tu, és perfeita?

— Não fui eu que fui infiel. E tu embriagaste-te e bateste-me mais de uma vez.

— Eu não fui infiel. Estava só a desanuviar. Muitos tipos fazem o mesmo, especialmente quando as mulheres vão passar o Verão aos Hamptons. Não significa nada. São só copos e divertimento.

— Nós vivemos em planetas diferentes — disse Angela. — Mas eu não vim aqui para discutir isso. Para nós, o passado é passado, com exceção de Michelle e da Angels Healthcare. Para bem de Michelle, não fales sobre quem teve culpa do divórcio. Tu podes pensar de uma forma, e eu de outra. Não lhe confundas a cabeça apontando dedos. A única coisa que eu lhe digo é que não funcionou. Eu não tento influenciar a relação dela contigo. Isso é totalmente entre tu e ela.

— Está bem — disse Michael, revirando novamente os olhos. Ao fim e ao cabo, não era importante. Na sua perspectiva, a sua vida actual era muito melhor do que a vida que tinha quando eram casados. Nessa altura, ele ficara incomodado por Angela ter tido o descaramento de meter os papéis para o divórcio. Ele não estava à espera que isso acontecesse. Nenhum dos seus amigos se tinha divorciado. Que diabo, alguns até tinham namoradas e apareciam com elas em público.

— O que realmente precisamos de conversar é sobre a Angels Healthcare — disse Angela.

— Espero que não estejas aqui para me dizer que o teu contabilista entregou o malfadado oito-K.

— Não, não é por isso que estou aqui — disse Angela abanando a cabeça. — Eu hoje não o vi. Estive pouco tempo no escritório antes de ir ao banco, e depois vim para cá. Mas porque é que me estás a perguntar se ele o entregou? Tu garantiste-me que conhecias uma pessoa que podia falar com o Paul Yang e que não haveria problemas.

— É verdade — retorquiu simplesmente Michael. — Então de que é que me queres falar?

— Preciso de arranjar mais dinheiro. Se não o fizer, com o nosso fluxo de fundos atual, não tenho a certeza se nos vamos conseguir aguentar até à OIV. Tens de nos ajudar!

— Não estás a falar a sério.

— Estou a falar muito a sério.

— Que diabo aconteceu aos duzentos e cinquenta mil que vos arranjei o mês passado?

— Já foi há mais de um mês.

— Isso é um ritmo de gastos incrível.

— Não gastámos tudo, mas sim, o dinheiro tem-se gasto muito rapidamente. Uma parte considerável foi para os fornecedores. Mas o grande problema é manter os três hospitais abertos com muito poucas receitas.

— Mas na última vez tu disseste-me que tinham um problema de infecções que em breve estaria sob controlo. Disseste que as receitas voltariam rapidamente a aumentar.

— Isso não aconteceu.

— Porque não? — quis saber Michael.

— Na última vez que aqui estive, os nossos blocos operatórios estavam fechados. Além de perdermos receitas, o custo de conter a infecção foi quatro vezes superior ao estimado; mas as coisas estão a melhorar. Os blocos operatórios estão abertos, mas o número de intervenções cirúrgicas é baixo. Com excepção de alguns indivíduos corajosos, os nossos médicos estão com algum receio. A situação vai melhorar rapidamente, mas não com a rapidez suficiente.

Michael passou uma mão nervosa pela testa e olhou para a plácida vastidão do rio Hudson.

Angela estava a observá-lo, e conhecia-o suficientemente bem para reconhecer a sua enorme ansiedade. Ele não gostava do que estava a ouvir. Um mês antes, tinha ficado perturbado quando ela viera contar-lhe os seus problemas, e agora sentia-se ainda mais perturbado. Ele não só tinha investido muito dinheiro do seu cliente na Angels Healthcare como também investira muito do seu próprio dinheiro, para não falar na relação de trabalho com a Morgan Stanley, que ele convencera a fazer um contrato de garantia para os títulos para a OIV.

Michael olhou novamente para Angela, molhando os lábios com nervosismo.

— Que tipo de quantia tens em mente?

— O meu director financeiro diz que duzentos mil nos colocariam numa situação confortável.

—Grande merda! — exclamou Michael, saltando da cadeira e começando a andar de um lado para o outro. — Diz-me que estás a brincar — disse ele, parando subitamente e olhando para Angela com uma expressão de expectativa. — Diz-me. Isto é um jogo psicológico.

— Estou a falar a sério. A situação é demasiado grave para brincadeiras ou para jogos.

— Que diabo anda o inteligente do teu director financeiro a fazer com todo o dinheiro?

— Michael, gerir três hospitais é caro. Tu viste as nossas contas. Só os salários são enormes, e os custos não param só porque as receitas não entram. Os hospitais de oftalmologia e de cardiologia estão a dar algum dinheiro, mas o hospital de ortopedia não está a facturar quase nada. Despedimos algumas pessoas, mas não podemos despedir muitas mais, a não ser que queiramos chamar a atenção para o nosso problema de falta de fundos, e não queremos que isso aconteça. Há muita gente que não recebe salário há meses.

—Não estou a gostar nada disto. Ontem, telefonaste-me por causa do problema com o contabilista. Hoje apareces a pedir-me que arranje duzentos mil dólares. Amanhã o que é que vai ser?

— Espera aí! — disse Angela. — Foste tu que te ofereceste para ajudar com o contabilista quando a questão surgiu a semana passada. Disseste que tinhas pessoas que podiam convencê-lo de que não era necessário entregar a oito-K.

Angela aguardou um momento antes de prosseguir.

— Só precisamos do dinheiro para três semanas, no máximo. Nessa altura, a Angels Healthcare estará a nadarem dinheiro, mesmo tendo em conta a quantia obscena que temos que pagar à Morgan Stanley.

— Não te queixes da fatia da Morgan Stanley. São eles que estão a assumir a maior parte do risco e, pelo que me estás a dizer, o risco é ainda maior que eles julgam.

— Volta a falar com os teus clientes! Oferece-lhes o que tiveres que oferecer. Eu já tentei o banco e supliquei ao Rodger, mas não consegui nada.

— Eu não posso voltar a falar com o meu cliente — disse Michael, sugerindo decididamente que não havia discussão possível.

—Cliente? Eu pensei que fossem vários clientes... — disse Angela, sentindo-se confusa. Ele sempre falara em clientes. Ela tinha a certeza.

—É, de fato, apenas um cliente—admitiu Michael com relutância.

—Porque é que não podes voltar a falar com ele? Com tantas acções e opções que ele controla, seguramente que não quer pôr em risco o seu generoso retorno.

— Foi isso que eu lhe disse quando lhe pedi os duzentos e cinquenta mil dólares.

— Diz-lhe outra vez. Suponho que ele seja um homem inteligente. Diz-lhe exactamente o que eu te disse, que os blocos operatórios estão a funcionar.

— Ele é um homem inteligente, sobretudo no que diz respeito ao dinheiro. Se voltar a pedir-lhe dinheiro agora, ele ficará a saber que estamos desesperados.

— Nós estamos desesperados.

— Quer seja verdade quer não, é uma má posição para se negociar. Ele poderá exigir assumir o controlo.

Foi a vez de Angela olhar pela janela para o rio. Depois de todo o seu esforço, a ideia de perder o controlo da sua empresa era um anátema. No entanto, que outras opções tinha ela? Por um breve momento, pensou em voltar para a prática de Medicina e abandonar o estilo de vida de empresária. Mas o pensamento foi de pouca dura. Ela era suficientemente realista para saber que estava dependente da liberdade que o seu estilo de vida actual lhe proporcionava, pelo menos antes do atual problema de fluxo de fundos. Não podia deixar de recordar a sua experiência desastrosa com o consultório de cuidados primários e as realidades do actual sistema de reembolso dos serviços de saúde, que estava totalmente fora do seu controlo. Além disso, recordou a si própria, ela era persistente. Agora que estava a cinquenta metros da meta, após uma corrida de dezesseis quilômetros, não ia desistir.

— Deixa-me falar directamente com o teu cliente — disse Angela, quebrando o silêncio. Ela tinha redirecionado a sua atenção para Michael, que se recostara na cadeira. Na sua testa tinham surgido algumas gotas de suor.

— Sim, claro — troçou Michael, como se fosse a mais ridícula sugestão que ela podia fazer.

— Porque não? Se ele tiver alguma pergunta, pode fazer-me diretamente, em vez de te usar como intermediário. Eu posso tranquilizá-lo. Com toda a experiência que tenho adquirido, estou a ficar muito boa a convencer investidores.

— O meu cliente já tornou bastante claro que só quer falar sobre investimentos comigo.

— Oh, por favor, Michael, eu não vou roubar o teu cliente. Não sejas tão paranóico.

— Não sou eu que sou paranóico, é ele. Só para compreenderes a situação, entre ele e a sua posição na Angels Healthcare existem várias empresas fictícias, bem como outros negócios pendentes.

— Porquê tanto segredo? Há alguma coisa aqui que não me estás a dizer?

— Eu só estou a seguir as ordens dele.

— Ele é o teu principal cliente na maior parte dos teus negócios de colocação de títulos?

— Digamos que ele é um cliente importante. Não posso ser mais específico.

Angela observou o ex-marido. Esta necessidade de segredo aumentava o seu mal-estar. Embora não soubesse realmente porquê, era óbvio que Michael não tinha qualquer intenção de lhe dizer mais. Em vez de o pressionar, ela perguntou:

— Porque é que não pedes o dinheiro a outra pessoa? Faz um bom negócio para um dos teus outros clientes.

— Há demasiado pouco tempo para isso. Não conheço ninguém a quem me possa dirigir.

— E tu próprio? Eu já hipotequei tudo até ao máximo.

— Eu também.

— E o teu avião a jato?

— Está hipotecado até ao máximo. Além disso, está alugado a cem por cento.

Angela levantou as mãos e pôs-se de pé.

— Bem, já não há muito que eu possa dizer ou fazer. O nosso destino está nas tuas mãos, Michael. Para melhor ou para pior, tu és o nosso agente de colocação de títulos.

Michael expirou ruidosamente.

— Eu talvez consiga arranjar cinquenta mil — disse ele com relutância. Depois de tudo o que praticamente prometera, se aquela OIV emperrasse, ele teria problemas graves, e não apenas financeiros.

— É um começo — disse Angela. — Não posso dizer que garantam o êxito, mas serão muito apreciados. O que queres como compensação?

— Doze por cento como empréstimo, mas convertível em cem mil dólares de acções preferenciais, à minha discrição.

— Deus do céu — murmurou Angela, acrescentando seguidamente numa voz normal: —Assim que voltar para o escritório, vou dizer ao Bob Frampton que te telefone. Quando é que podemos contar ter o dinheiro?

— Dentro de um ou dois dias — disse Michael distraidamente. Ele já estava a tentar pensar em como ia conseguir arranjar o dinheiro. Quando dissera a Angela que estava hipotecado até ao máximo, não estava a brincar, embora ainda tivesse algumas reservas que guardara para a eventualidade de uma catástrofe. Refletiu que aquela talvez fosse a catástrofe.

— Eu estarei no meu gabinete a apagar fogos, se tiveres alguma ideia brilhante — disse Angela pegando no casaco e na pasta. Antes de sair, olhou para Michael. Ele estava a olhar outra vez pela janela.

Enquanto se dirigia ao elevador, pensou vagamente que Michael era o pior inimigo de si próprio. Também pensou no provérbio segundo o qual se pode tirar o rapaz do campo ou, neste caso, do seu antigo bairro, mas não se pode tirar o campo do rapaz, especialmente porque Michael, depois do divórcio, voltara a viver no seu antigo bairro.

Para Angela, a história de Michael lembrava-lhe uma tragédia grega. Michael era um indivíduo inteligente, instruído, atraente e muitas vezes encantador que tinha o potencial para ser bem sucedido em muitas frentes, no entanto tinha uma imperfeição trágica: era prisioneiro do passado em que, inconscientemente, tinha absorvido atitudes e valores indeléveis que acabavam por ser perniciosos.

Pensando sobre Michael nesta veia, Angela não pôde deixar de reflectir por um momento sobre si própria. Como pessoa realista, ela sabia que também carregava consigo algum lixo emocional do passado e que a sua vida atual estava longe de ser serena. Enquanto entrava no elevador, perguntou-se se também ela tinha uma imperfeição trágica que pudesse explicar a forma como tinha passado de aluna idealista do primeiro ano de medicina para a situação em que actualmente se encontrava: a pedir dinheiro a um homem que desprezava, a fim de escorar um império financeiro nascente.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 11.25

Laurie não se recordava da última vez que se sentira tão excitada. Movendo-se rapidamente, saiu do gabinete de Paul Plodget depois de ter falado com ele e com Edward Gonzalez. Pela segunda vez em pouco tempo, obtivera informações preciosas. A primeira vez tinha sido meia hora antes com George Southwork, um MA que trabalhava no DML há quase tanto tempo como Arnold e Kevin. Ele dera-lhe quatro casos de MRSA que tivera nos últimos três anos. E agora ela ficara a saber que Paul também vira quatro casos de MRSA no mesmo período, e Edward um. Embora um dos casos de Paul tivesse ocorrido no Hospital Geral de Manhattan, um caso trágico de uma menina de cinco anos que desenvolvera uma pneumonia necrosante rapidamente fatal, resultante de uma lesão semelhante a um furúnculo feita num parque infantil local, todos os outros eram oriundos de um hospital da Angels Healthcare. O primeiro caso tinha sido o de Jonathan Wilkinson, que morrera de pneumonia necrosante depois de um by-pass coronário triplo; o segundo, Judith Astor, que morrera com a síndroma de choque tóxico depois de uma operação plástica; e o terceiro era Gordon Stanek, que tinha morrido de pneumonia necrosante depois uma operação à rótula. O caso de Edward era Leroy Robison, que morrera de pneumonia necrosante depois de uma operação a uma fractura exposta do pulso.

Caminhando suficientemente depressa para escorregar, por um momento, no chão de vinil muito encerado, Laurie entrou de rompante no seu gabinete. Depois de se sentar, empurrou a cadeira para junto da secretária e pegou na sua matriz para acrescentar os casos de Paul e de Edward.

— Lembra-me, se alguma vez me pedirem, para não voltar a fazer uma autópsia com o nosso querido chefe — disse Riva, virando-se para Laurie. Era comum os médicos do DLM fazerem comentários jocosos daquele gênero depois de trabalharem com Bingham. Riva tinha vindo ao gabinete no meio de duas autópsias para fazer algumas chamadas de serviço. Por um momento, ela olhou Laurie trabalhar diligentemente, perguntando a si própria por que motivo a sua companheira de gabinete não a tinha sequer cumprimentado.

— Ei! — chamou Riva ao fim de alguns minutos. — O que é que estás a fazer?

Laurie levantou a cabeça e pediu desculpa, apercebendo-se tardiamente da sua indelicadeza.

— Deparei-me com uma coisa bastante extraordinária.

— O quê? — perguntou Riva num tom de dúvida. Ela sabia que Laurie era uma mulher impulsiva que adorava o seu trabalho e que ficava frequentemente entusiasmada com casos problemáticos. Por vezes o seu entusiasmo era justificado, outras não.

— Existe uma mini-epidemia de MRSA nosocomial que tem passado despercebida.

— Eu não diria que tem passado despercebida — disse Riva. — Há uma década ou mais que ela existe, não apenas neste país, mas também a nível internacional. Não começou na Grã-Bretanha?

— Deixa-me colocar as coisas de uma forma diferente. Mais ou menos nos últimos três meses, tem havido uma série de infecções com MRSA que resultaram em mortes rápidas, todas elas ocorridas em hospitais da Angels Healthcare.

— Só nesses hospitais?

— Exatamente! Com exceção de um que eu descobri há cinco minutos que aconteceu no Hospital Geral de Manhattan, todos os outros foram nesses três hospitais.

— Estás a falar de quantos casos?

Laurie olhou novamente para a sua matriz e contou silenciosamente o que tinha registado.

— Até agora tenho vinte e um, mas ainda tenho de falar com o Chet, o nosso vice-director, e com o Jack.

— Todos estes casos de pneumonia necrosante envolvem a estirpe mais recente deste MRSA adquirido na comunidade?

— A maior parte — respondeu Laurie. — Alguns dos outros são descritos como síndroma do choque tóxico. Nesses casos, existem extensos danos inflamatórios nos pulmões causados pelas toxinas bacterianas e pela excessiva produção de citoquinas por parte do falecido, mas a infecção propriamente dita está noutro local. Quando à estirpe envolvida, nos processos que eu vi, tem sido o MRSA adquirido na comunidade. O problema é que me falta ver demasiados processos.

— Então tu tens vinte e três casos, e não vinte e um.

— Como assim? — perguntou Laurie, olhando novamente para matriz e começando a contar.

— Porque eu tive dois — disse Riva. — Foi há três meses, e talvez com a diferença de cerca de uma semana um do outro. — Rodando na cadeira, Riva tirou um pequeno bloco de apontamentos da estante por cima da secretária. Riva mantinha um diário cronológico, escrito à mão, de todos os seus casos. Em várias ocasiões, Laurie desejara ter pensado em fazer a mesma coisa. Nele, Riva acrescentava observações e sentimentos pessoais que não eram apropriados para o relatório oficial. Era mais como um diário do que um mero compêndio caso-a-caso. Depois de o ter folheado rapidamente, Riva chegou aos registos em causa. Ela leu-os rapidamente antes de erguer os olhos e fitar Laurie. — Decididamente, tens vinte e três; um dos meus foi do Hospital Ortopédico Angels, e o outro foi do Hospital de Cirurgia Cosmética e Oftalmologia Angels.

— Posso ver? — perguntou Laurie num tom ansioso.

Riva passou-lhe o diário e apontou para os dois registos.

Laurie leu rapidamente. Sendo uma patologista extremamente minuciosa, Riva tinha registado o nome do hospital e até mesmo a estirpe específica de MRSA. Ela tinha-o escrito como: MRSA-AC, USA400, MW2, SCCmecIV, PVL.

Laurie olhou para Riva.

— Nos poucos processos que eu vi, a bactéria não tinha uma tipagem tão específica. Nos teus casos, houve algum motivo para isso acontecer?

— Mandei sub-classificá-la — explicou Riva. — Tal como tu, eu fiquei muito impressionada com a patologia dos pulmões. Mais por interesse geral, enviei um isolado de cada caso ao CCD porque eles estavam a tentar obter amostras de MRSA para a sua biblioteca de MRSA.

— Fazes alguma ideia do que todas estas siglas alfanuméricas significam?

— Não faço a mínima ideia — admitiu Riva. — Se leres um pouco mais adiante, vais ver que eu tinha prometido a mim própria procurar saber mas, infelizmente, como acontece com muitas boas intenções, nunca o fiz.

— O CCD ficou surpreendido com o facto de as estirpes serem as mesmas embora tivessem vindo de hospitais diferentes?

— Acho que eu não mencionei que vinham de dois hospitais. " Laurie acenou a cabeça em sinal de compreensão, mas o fato de as duas estirpes serem exactamente as mesmas incomodava-a, tendo em conta o que Agnes lhe dissera sobre a facilidade com que o staphylococcus trocava material genético. Ficou satisfeita por ter pedido a Cheryl que lhe arranjasse o contacto de alguém do CCD que trabalhasse com o MRSA, pois isso dar-lhe-ia a oportunidade de fazer a pergunta diretamente a alguém particularmente competente.

— Escreveste no teu diário que obtiveste os registos hospitalares — disse Laurie. — Ainda os tens?

— Provavelmente — respondeu Riva. — Vieram como anexos ao correio electrónico. Eu geralmente guardo-os para este tipo de situação.

Riva virou-se para o seu computador e começou a digitar.

Laurie pegou no telefone e ligou a Cheryl Myers. Felizmente, esta não tinha saído em serviço e ainda estava no gabinete. Laurie pediu antecipadamente desculpas antes de lhe dizer que precisava de bastantes mais registos médicos dos Hospitais Angelcare.

— Não há problema—respondeu Cheryl.—Manda-me os nomes por correio eletrônico.

— Eu guardei mesmo os registos hospitalares—disse Riva quando Laurie desligou.

Laurie levantou-se e olhou por cima do ombro de Riva.

— Fantástico! — exclamou. — Suponho que posso aceder a eles do meu computador. Qual é o nome do ficheiro?

Ao fim de alguns minutos, Laurie tinha os registos médicos de Longstrome e Lucente no seu próprio ecrã. De todos os casos de MRS A que tinham entrado para serem autopsiados nos últimos quatro meses, estes eram os primeiros registos hospitalares que lhe chegavam às mãos. Arnold Besserman tinha-lhe dado alguns processos do DML que ainda tinha no gabinete, mas não encontrara os registos hospitalares.

— Bem, tenho de ir lá para baixo fazer outra autópsia—disse Riva. Laurie acenou-lhe por cima do ombro, preocupada em imprimir os documentos.

— Não tens também outra autópsia? — perguntou Riva.

— Oh! Merda! — exclamou Laurie. Estava tão interessada nos casos de MRSA que se tinha esquecido. Era embaraçoso pensar que Marvin estava pacientemente à espera.

—Tu estás preocupada—disse Riva.—Tenho a certeza que consigo arranjar outra pessoa para a fazer.

— Eu vou fazê-la — replicou Laurie. Embora não quisesse interromper o trabalho no seu projeto atual, sentia-se culpada por não fazer a sua quota-parte. — Se vires o Marvin, diz-lhe que eu já lhe telefono.

Com um último aceno de cabeça, Riva desapareceu, deixando a porta aberta.

Laurie voltou para o computador e fez o último clique para mandar o segundo documento para a fila da impressora. Sabendo que teria de esperar cinco ou dez minutos pelos dois documentos, voltou para a sua matriz e acrescentou os casos de Riva. Quando terminou, recostou-se na cadeira. Era uma lista considerável, certamente maior do que as duas matrizes que fizera no passado. Agora tinha de decidir o que pôr no cabeçalho das colunas. Alguma da informação que ela considerava apropriada era intuitiva, tal como idade, sexo, raça, médico, data, hospital, diagnóstico, tipo de cirurgia, factores de propensão, anestesia e tipo de staphylococcus. Laurie desenhou seguidamente mais linhas verticais ao lado das que já desenhara. Sabia que precisava de pouco espaço para coisas como idade e sexo, e mais para fatores de propensão e diagnóstico. Quando terminou, certificou-se de que havia espaço para mais colunas. E foi por esse motivo que ficou satisfeita por ter os registos hospitalares. Sabia que, quando os lesse, ir-lhe-iam surgir mais categorias.

Satisfeita com os seus progressos, Laurie levantou-se apressadamente da secretária, chocando com Jack, que tinha aparecido à porta. Tiveram ambos um sobressalto, especialmente Laurie, que deu, involuntariamente, um pequeno grito. Quando agarrou Laurie pelos antebraços, Jack deixou cair os processos e as canadianas que trazia na mão.

—Meu Deus! — gracejou Jack. — O que é que se passa, há fogo aqui?

Laurie premiu uma mão contra o peito. Teve de respirar várias vezes antes de conseguir.

— Desculpa — conseguiu ela dizer. — Estou preocupada e com pressa.

— Já ouvi falar da parte preocupada — disse Jack. — Encontrei a Riva quando ela saiu do elevador. Ela disse que tu tinhas encontrado uma coisa que achaste particularmente interessante, mas não disse o que era. O que se passa?

— Nos últimos três ou quatro meses, tiveste algum caso de MRSA que tivesse afetado os pulmões?

— Tens de me dar mais pistas sobre o que estás a perguntar. Tu sabes que não sou muito bom com siglas.

—Staphylococcus aureus resistente à meticilina—explicou Laurie.

— Oh! Isto é uma armadilha? O MRSA não é o que tinha o teu caso do LCA desta manhã?

— É — admitiu Laurie, começando a baixar-se para apanhar os processos e as canadianas de Jack.

Jack, que ainda estava a segurar os antebraços de Laurie, deteve-a e depois baixou-se para apanhar as suas coisas.

— Não me recordo de alguma vez ter tido um MRSA — disse ele, endireitando-se.

— E o Chet?

— É possível. Acho que o ouvi falar ao telefone sobre staphylococcus com a Miss Sorriso, Agnes Finn. Não faço a mínima ideia se era o MRSA ou não.

— Obrigada pela informação. Vou ter de lhe perguntar.

— Então é obviamente por causa do MRSA que estás tão preocupada e com pressa.

— A parte da preocupação é com certeza por causa dele, mas a razão por que estou com pressa é porque me esqueci que tenho outra autópsia para fazer. O pobre do Marvin está à espera há várias horas.

—A Riva também me falou nisso. Ela disse que se ofereceu para arranjar uma pessoa para te substituir e que não aceitaste a oferta, embora ela pressentisse que tinhas vontade de o fazer.

Laurie soltou uma pequena gargalhada.

— Isso é suficientemente perspicaz da parte dela para ser assustador.

— Então deixa-me fazer a autópsia — disse Jack. — Já terminei as minhas e, pelo que a Riva me disse, a autópsia em si deve ser simples. Quero dizer, com o pobre do homem a cair dez andares para o cimento, vai ser simplesmente um traumatismo.

— Não te importas? — perguntou Laurie.—Talvez devas pensar melhor. A Riva disse-me antes que estão três pessoas muito interessadas neste caso. Todas elas querem uma forma de morte diferente. Encontres o que encontrares, há duas pessoas que vão ficar decepcionadas. Este não é o teu tipo de caso preferido.

— Acho que posso resolver o assunto.

— Bem, então aceito a tua oferta. Mas há um facto importante que não vem no relatório do MA e que eu obtive da Cheryl, e que talvez seja significativo. É a distância do edifício a que o corpo aterrou. Foi de sete metros.

— Se calhar eu vou ter de fazer uma revisão da minha química do liceu — disse Jack. — Agora que isso está decidido, porque é que estás tão preocupada com o MRSA? Não é uma coisa nova; há algum tempo que é um problema grave nos hospitais. Ou será que eu não devo perguntar?

— Não deves perguntar — concordou Laurie. — Só quando eu tiver mais informação. Depois vou-te obrigar a ver uma convincente apresentação em Power Point.

—Porque é que eu tenho um mau pressentimento sobre o objetivo dessa suposta apresentação?

— Porque estás preocupado com a possibilidade de eu te fazer mudar de idéias.

—Nem penses, Laurie, eu vou fazer a operação ao joelho na quinta-feira.

— Vamos ver — disse Laurie num tom confiante. — Vamos! Eu desço no elevador contigo. Preciso de ir buscar uns documentos que acabei de mandar imprimir.

Enquanto percorriam o corredor em direção ao elevador, Laurie. fez perguntas a Jack sobre o seu caso anterior, o último dos três homicídios em que Lou estava interessado. Ela ouvira as descrições de Lou nessa manhã sobre a filha do detetive e o bastão de basebol.

— Esse foi um bom caso—disse Jack, manobrando as canadianas como um profissional — Foi mais uma oportunidade para os nossos MA brilharem. Steve Mariott reparou que não havia pegadas na enorme quantidade de sangue que havia no chão. Isso, por si só, não significa grande coisa, mas fê-lo olhar mais atentamente para a cena do crime do que, de outro modo, teria feito, e isso foi a chave do problema. A testa da vítima estava metida para dentro e havia até um pouco de tecido dos miolos cá fora, mas a forma da ferida não era côncava, conforme se esperaria se tivesse sido causada por um bastão. Fiz um molde da ferida e do seu trilho.

— Queres dizer que tinha mais o aspecto de ter sido causada por um instrumento cortante? — perguntou Laurie enquanto entravam no elevador.

— Exatamente — disse Jack, agarrando nas duas canadianas com uma mão para poder carregar no botão para a cave. Laurie inclinou-se e carregou no botão para o primeiro andar. A impressora do DML estava na sala de informática, que fazia parte da área da administração.

— Steve reparou que havia um pouco de sangue na orla de ferro forjado de uma mesinha de granito. Ele até lhe tirara uma fotografia, bem como ao bar. Eu acho que o Satan Thomas, num estupor de embriaguez e drogas, caiu quando estava a dar cabo do apartamento e bateu com a testa da orla da mesinha. Mandei um dos MA ao apartamento buscar um molde da orla da mesa.

— Isso é fantástico — comentou Laurie. — O Lou vai ficar satisfeito.

— Acho que quem vai ficar realmente satisfeita é a namorada. A porta do elevador abriu-se. Laurie deu um abraço rápido a Jack

e agradeceu-lhe por se ter oferecido para fazer a autópsia dela.

— Eu vou pensar numa forma de me retribuíres — disse Jack sorrindo e piscando o olho.

Depois de a porta do elevador se ter fechado, Laurie seguiu apressadamente ao longo do corredor em direcção à impressora da sala de informática. Estava decidida a aproveitar bem aquele tempo livre inesperado. Com os registos hospitalares dos dois casos de Riva na sua posse, ela planeava trabalhar mais na sua matriz criando mais categorias e preenchendo todas as células que pudesse. Aquilo em que Laurie estava interessada era encontrar algo menos óbvio que os casos tivessem em comum e que pudesse explicar o elevado número de casos surgidos nos mesmos hospitais.

Laurie também queria contactar Cheryl Myers, se Cheryl ainda não lhe tivesse telefonado, para obter os contactos telefônicos que lhe pedira. Queria telefonar ao CCD e à comissão conjunta, mas queria, sobretudo, telefonar a Loraine Newman. No fundo da sua mente, Laurie começara a pensar que era importante visitar o Hospital Ortopédico Angels, ou talvez até mesmo a Angels Healthcare, ainda que o seu chefe desencorajasse esse tipo de visita. Dez anos antes, Laurie tinha sido chamada ao gabinete do chefe e repreendida por ter feito uma visita semelhante; Bingham era da opinião de que as visitas aos locais onde ocorriam mortes eram tarefa dos MA, não dos MLs. Mas, dadas as circunstâncias, ela achava que a visita se justificava e sentia-se mesmo impelida a fazê-la, e não apenas para fortalecer o seu argumento contra a operação cirúrgica de Jack. A sua intuição dizia-lhe que havia algo inquietante naquela série de casos de MRSA que ia para além da teoria da Maria Tifóide.

Os resultados das duas autópsias que Jack fizera nessa manhã tinham aumentado a sua inquietação, na medida em que as causas das mortes tinham sido o oposto do que se esperava — acidentes e não homicídios. As surpresas desse género faziam-na lembrar que era sempre importante manter uma mente aberta sobre as causas da morte. Até mesmo os melhores patologistas forenses podiam ser levados a enganar-se.

Laurie começou a interrogar-se se a atual série de casos de MRSA envolveria algo mais sinistro do que a suposta causa de morte, isto é, complicações terapêuticas, uma designação relativamente recente, recomendada por Bingham, para substituir o termo "acidental" quando a morte ocorria num hospital. Tendo em mente as suas duas investigações anteriores, uma quinze anos antes e a segunda há dois anos, cujas causas das mortes tinham sido consideradas respectivamente acidentais e naturais mas que se verificara terem sido homicídios, Laurie não podia ignorar a possibilidade de o mesmo acontecer com a série atual. Sabendo que seria ridicularizada se falasse na sua intuição, Laurie tinha consciência de que precisava de ver se havia alguma prova que apoiasse as suas suspeitas, e precisava de o fazer rapidamente.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 11.55

Angela despiu o casaco e colocou-o dobrado sobre o braço, enquanto saía do elevador do vigésimo segundo andar da Trump Tower e caminhava rapidamente na direcção da Angels Healthcare. Durante a viagem de carro do escritório de Michael até ali, tinha conseguido usar o seu BlackBerry para responder a todas as mensagens de correio electrónico, e estava razoavelmente segura de que, quando chegasse ao gabinete, não iria ficar submersa de trabalho. Perguntou a si própria como é que as pessoas tinham funcionado antes da existência da Internet.

Cumprimentou a secretária, Loren, que estava ao telefone quando Angela passou por ela. No gabinete, estava prestes a pendurar o casaco quando estacou. Empoleirada no canto da secretária havia uma grande jarra de vidro com luxuriantes rosas vermelhas. Elas sobressaíam ousadamente na esparsa decoração branca. Depois de ter pendurado o casaco, procurou, curiosa, um bilhete que lhe desse alguma indicação sobre quem teria enviado as flores. Não havia nenhum. Mais curiosa ainda, inclinou-se para o exterior da porta. Teve de acenar para atrair a atenção de Loren.

— Que flores são estas? — fez ela silenciosamente com a boca. Loren ainda estava ao telefone. Ouvindo bocados da conversa, Angela sabia que era o representante do sindicato que tentava insistentemente organizar os hospitais da Angels Healthcare. Angela não queria, de modo algum, a integração num sindicato, mas, com tudo o que se estava a passar, ela não tinha tempo nem paciência para tratar do assunto, por isso cabia a Loren lidar com ele.

Loren tapou o bocal com a mão.

— Desculpe. Vieram com um cartão. Está aqui no canto da minha secretária—disse ela, acenando com a cabeça na direcção do envelope.

Angela pegou no envelope e enfiou um dedo debaixo da dobra. Quando o envelope se abriu, ela retirou o cartão. Dizia simplesmente: Cumprimentos do usado.

— Que diabo? — murmurou Angela. Virou o cartão, mas o verso estava em branco. Curiosa, mas preocupada com tudo o que tinha de fazer, voltou simplesmente a meter o cartão dentro do envelope. Pensaria no assunto mais tarde.

Batendo levemente no ombro de Loren, Angela fez-lhe sinal para que tapasse novamente o bocal com a mão, e depois disse:

—Diga-lhe que o recebo daqui a três semanas. Marque uma reunião. Isso deve satisfazê-lo. Depois chame o Bob Frampton e o Cari Palanco. Diga-lhes que venham ao meu gabinete o mais depressa possível. E onde está a agenda da tarde?

Loren arrancou a folha da agenda com as reuniões marcadas para a tarde e entregou-lhe.

Angela voltou para o gabinete e fechou a porta. Quando estava novamente sentada à secretária, olhou para a agenda. A maior parte das questões rotineiras da gestão de cada um dos hospitais tinha sido delegada nos directores de departamento dos hospitais, mas eles despachavam com os directores do hospital respectivo, bem como com o director de departamento da sede da Angels Healthcare, e estes indivíduos, por seu lado, despachavam com Cari Palanco como Director Administrativo e, em última instância, com Angela como Directora Executiva. Ao olhar para a agenda, Laurie podia calcular como iria ser o resto do dia. Estava marcada uma reunião com o advogado, provavelmente sobre como evitar um processo judicial na sequência da morte causada pelo MRS A ocorrida no dia anterior; com a comissão de gestão de riscos pelo mesmo motivo; e com a comissão de segurança dos doentes. Depois disso, ia deslocar-se ao Hospital Ortopédico Angels para participar na reunião do pessoal médico do hospital. A última reunião que estava marcada era no seu gabinete com Cynthia Sarpoulus, para que a profissional de doenças infecciosas informasse Angela sobre o que tinha ficado a saber e o que pensava fazer a respeito da morte provocada pelo MRSA no dia anterior.

De todos os compromissos, a reunião com o pessoal médico era o mais importante. Ela proporcionaria a Angela a oportunidade, pelo menos no hospital de ortopedia, de fazer ver aos médicos a importância vital de aumentar o número dos seus doentes, apesar do pequeno revés que o caso de Jeffries representava. A única maneira de o fluxo de receitas se recompor era os cirurgiões fazerem cirurgias. Mais do que ninguém, Angela tinha consciência de que o êxito do hospital de especialidade dependia de os médicos proprietários admitirem doentes pagantes, o que significava doentes com seguro, privado ou da Medicare. O negócio dos hospitais de especialidade, de acordo com o plano de negócio de Angela, não estava interessado em casos da Medicare ou de organizações de beneficência ou, bem vistas as coisas, casos cujos custos pudessem exceder as receitas.

O telefone de Angela vibrou debaixo do seu braço. Era Loren a informar a chefe que o Director Financeiro e o Diretor Administrativo tinham chegado.

— Mande-os entrar — disse Angela pondo a agenda de lado.

Os dois homens, totalmente opostos no aspecto exterior e nos modos, entraram no gabinete. Cari Palanco deu um passo rápido, agarrou numa das quatro cadeiras modernas, de costas direitas, que estavam encostadas à parede do fundo, colocou-a em frente de Angela e sentou-se. A sua expressão e o modo como estava constantemente em movimento sugeriam que ele bebera já oito chávenas de café. Em contraste, Bob Frampton movia-se como se estivesse dentro de óleo, e tudo no seu rosto sugeria uma necessidade desesperada de uma boa noite de sono. No entanto, apesar do seu aspecto contrastante, Laurie sabia que eles eram igualmente inteligentes e expeditos, e era por isso que os tinha recrutado no início como seus empregados-chave.

Bob levou tanto tempo a deslocar uma cadeira para junto da de Cari que Angela se sentiu tentada a levantar-se e fazê-lo pessoalmente. Mas permaneceu sentada e o pensamento fê-la aperceber-se do seu estado de agitação. Perguntou a si própria se tinha um ar tão tenso como Cari.

— Aconteceu alguma coisa esta manhã que eu deva saber, para além das mensagens de correio electrónico que vocês os dois me enviaram? — perguntou ela, para começar a reunião.

Cari olhou para Bob. Ambos os homens abanaram a cabeça.

— Eu tive uma reunião com os directores dos serviços de aprovisionamento, enfermagem, lavandaria, engenharia, economato e laboratório para falar sobre um corte maior nas despesas ao longo das próximas semanas — disse Cari. — Obtive algumas ideias criativas.

— É uma iniciativa louvável — disse Bob —, mas, nesta altura, quaisquer esforços nesse sentido são demasiado pequenos e demasiado tardios, no que diz respeito à OIV.

— Receio que o Bob tenha razão — disse Angela.

— Eu tinha de fazer qualquer coisa — explicou Cari. — Não podia limitar-me a ficar sentado no meu gabinete sem fazer nada. E, aconteça o que acontecer, qualquer ênfase no controlo de custos é um bom princípio para os directores dos departamentos centrais terem em mente no futuro. Quero dizer, não é exactamente uma perda de tempo.

Angela acenou com a cabeça. O controlo das despesas era um fator chave para a rentabilidade de um hospital, como as holdings de cadeias de hospitais tinham aprendido ao longo das últimas décadas. Grande parte da rentabilidade da Angels Healthcare, pelo menos antes do problema do MRSA, devia-se ao plano de negócios de Angela de construir três hospitais de especialidade ao mesmo tempo e centralizar coisas como lavandaria, aprovisionamento, engenharia, serviços de laboratório e até mesmo anestesia. Cada um dos hospitais tinha um director, ou chefe, desses vários serviços, mas todos eles eram responsáveis perante o director de departamento da sede da empresa.

— E a tua manhã? — perguntou Bob a Angela. —Alguma sorte?

— Marginal — admitiu Angela. — Conforme referiste ontem à noite, o nosso crédito no banco desceu muito depois de termos vendido os títulos. A boa notícia é que Rodger Naughton me garantiu que não vai exigir o pagamento de nenhum dos nossos empréstimos. A má notícia é que ele não pode autorizar um empréstimo sem uma garantia, que é aquilo com que eu já contava. Por outro lado, ele vai enviar um pedido de empréstimo adicional aos seus superiores, mas, pela sua atitude, penso que temos de partir do princípio de que é uma causa perdida.

— E o teu ex-marido? — perguntou Bob. Tal como sucedia com todos os funcionários-chave, Bob sabia que o agente de colocação de títulos tinha sido casado com Angela e que eles se tinham divorciado um ano antes de ela fundar a Angels Healthcare. Embora, no início, se sentisse hesitante a respeito da relação, Bob acabara por aceitá-la. Ele expressara uma preferência por uma relação mais directa com um banco de investimentos conceituado, mas deixara-se convencer pelo facto de Michael Calabrese ter arranjado um extraordinário financiador durante a fase de angariação de capital.

— Eu consegui convencê-lo a investir mais cinquenta mil dólares do seu próprio dinheiro — disse Angela. Não contou como a reunião tinha sido humilhante.

— Bravo! — comentou Cari.

— É um pouco inferior à quantia com que eu me sentiria à vontade — disse Bob.

— Eu fiz o possível. Conseguir que ele avançasse com o dinheiro foi como espremer água de uma pedra.

— Falaram sobre as condições? — perguntou Bob.

— Falamos, sim! Não estás a pensar que o Michael ia oferecer uma quantia dessas sem lucrar com isso.

— O que é que lhe propuseste?

— Eu não propus; ele disse-me — respondeu Angela, explicando seguidamente as condições.

— Uau! — comentou Bob. — Ele está a ser generoso com a sua pessoa.

— Nestas circunstâncias, não é possível evitá-lo — disse Angela. —Telefona-lhe e prepara os documentos. Quero o dinheiro na nossa conta antes que ele mude de ideias. Eu sei como ele pode ser inconstante.

— Vou já tratar disso — disse Bob, digitando uma anotação no seu BlackBerry.

— Muito bem, é tudo — disse Angela, colocando as palmas das mãos sobre a mesa como se estivesse prestes a levantar-se. — Excepto que eu quero ter a certeza de que toda a gente que teve conhecimento da morte de ontem causada pelo MRSA compreende que, quando menos se falar nisso, melhor. Eu gostaria que o assunto fosse mantido o mais longe possível do pessoal médico.

— Já lembrei isso a todos os directores executivos dos hospitais — disse Cari. — Também falei com a Pamela Carson, das relações públicas.

— Óptimo — disse Angela. — Mais alguma coisa?

—Acabei de me lembrar de uma coisa—disse Bob, endireitando-se na cadeira. — O Paul Yang não veio trabalhar hoje.

— Ele telefonou a dizer que estava doente? — perguntou Angela, sentindo a sua ansiedade geral a aumentar um pouco.

—Não. Deixei uma mensagem no telemóvel dele e enviei-lhe outra por correio electrónico, mas ele ainda não respondeu. Não sei onde está.

— Isso não é estranho? — perguntou Angela, enquanto debatia consigo própria se deveria falar no possível papel de Michael.

— Claro que é estranho! Ele é geralmente muito metódico. Até telefonei à mulher dele. Ela disse que ele não passou a noite em casa nem telefonou.

— Meu Deus! — exclamou Angela. — Ela já telefonou à polícia?

— Não, não telefonou. Ele já fez isto antes, embora a última vez tenha sido há alguns anos. Ele tinha um problema com a bebida, o que o levava a ter comportamentos estranhos. A mulher disse-me que ele não tem andado bem ultimamente, e que passara a beber um ou dois cocktails no caminho para casa.

— Eu nunca soube que ele tinha um problema com a bebida — disse Angela. Ela não gostava que lhe escondessem coisas sobre os funcionários da Angels Healthcare, particularmente funcionários-chave.

— Eu não pus isso no processo dele — disse Bob. — Devia ter-te dito quando o recrutei, mas eu trabalhava com ele há seis anos, e nessa altura ele já não bebia.

— Meu Deus! — repetiu Angela, erguendo os olhos para o céu por um momento. —Agora temos de nos preocupar com uma bebedeira do nosso contabilista que nos anda a ameaçar a todos com a entrega de um oito-K. Que mais pode correr mal? — Ela respirou fundo antes de olhar novamente para Bob.

— Eu sei que ele estava a lutar com a sua consciência — disse Bob. — Foi por isso que te falei ontem a esse respeito, para te manter informada. Até essa altura, há mais de uma semana que ele não falava no assunto. Eu pensei que não tinha importância. Parece que ele lera uma notícia sobre a condenação do pessoal da Enron e da WorldCom. Eu disse-lhe o que já lhe tinha dito antes, nomeadamente, que é perfeitamente justificável não entregar a oito-K. Não estamos a perpetrar uma fraude, espoliando as pessoas das suas poupanças ou dos seus fundos de pensões, que é a razão da lei da CBT. Na realidade, estamos a fazer exactamente o oposto! Estamos a criar capital para as pessoas!

— Depois de me teres telefonado ontem, eu liguei ao Michael porque, na primeira vez que tinhas referido o assunto, eu discuti-o com ele. Eu pensei que, com a sua experiência em OIVs, ele poderia ter uma sugestão para lidar com o problema, e ele tinha. Disse que conhecia uma pessoa que poderia falar com ele e tranquilizá-lo, convencendo-o de que, na nossa situação, não era necessário entregar a oito-K.

— Era um advogado de direito das sociedades?

— Não faço idéia. Não perguntei, mas estou a pensar se a conversa com o conhecido do Michael terá alguma coisa a ver com o fato de o Paul não ter vindo trabalhar hoje.

— É possível, mas aposto que a razão por que ele está incomunicável é mais prosaica. Provavelmente apanhou uma bebedeira e está a dormir numa espelunca qualquer.

— Há alguma forma de sabermos se ele entregou a oito-K? — perguntou Angela num tom hesitante.

— Que eu saiba, não — respondeu Bob. — Temos de esperar para ver se a merda bate na ventoinha — acrescentou ele rindo-se sem humor.

— Se pensares nalguma forma, diz-me — disse Angela. — Seria melhor sabermos mais cedo do que mais tarde, para podermos informar os nossos advogados. Vamos ser obrigados a arranjar uma explicação racional para o fato de o impresso não ter sido entregue antes. Talvez devas começar a pensar nisso, Bob.

Bob anuiu.

— E a secretária do Paul?—perguntou Cari. — Não teve notícias dele?

— Que eu saiba, não — respondeu Bob.

— Talvez lhe devêssemos perguntar — disse Angela pegando no telefone. — Como é que ela se chama?

— Amy Lucas — retorquiu Cari.

Angela pediu a Loren que telefonasse a Amy Lucas e lhe pedisse que viesse ao seu gabinete o mais depressa possível. Angela olhou para o relógio. Eram doze e vinte, o que significava que havia uma probabilidade de Amy Lucas estar a almoçar.

—A que se devem as flores? — perguntou Cari. — Quando as vi, pensei que tinham a ver com a tua tentativa desta manhã de arranjares dinheiro.

— Quem me dera — disse Angela. — Para te dizer a verdade, não faço a mínima ideia de quem as mandou, nem porquê.

— Não traziam um cartão? — perguntou Bob.

—Traziam um cartão — respondeu Angela —, mas não foi muito útil. — Ela pegou no envelope, tirou de lá o cartão e estendeu a mão por cima da secretária. Cari pegou no cartão e os dois homens olharam para ele.

— A que é que "o usado" se refere? — perguntou Cari.

— Não faço a mínima ideia — admitiu Angela. — Não pensam que poderá ter alguma coisa a ver com o Paul Yang, pois não?

Os dois homens abanaram a cabeça. Cari devolveu o cartão. Angela reflectiu sobre ele durante um segundo, depois o telefone tocou. Era Loren, a dizer que a menina Lucas tinha chegado.

— Mande-a entrar — disse Angela, pondo de lado o cartão misterioso.

Loren abriu a porta para a secretária entrar, depois fechou a porta.

Amy Lucas era uma mulher de cerca de vinte e cinco anos, com um ar de criança abandonada. Tinha um rosto delicado, uma pele clara, manchada por salpicos de acne nas faces. O cabelo louro frisado com madeixas verde-alface estava puxado para trás, apanhado com uma mola grande de concha de tartaruga. O seu aspecto juvenil, quase de pré-adolescente, era acentuado pelo vestido camiseiro simples abotoado até ao pescoço. Tinha as mãos cruzadas à sua frente, o que evidenciava o seu nervosismo.

Angela apresentou-se, pois nunca conhecera a jovem, e agradeceu-lhe por ter vindo tão depressa.

— Não há problema — disse Amy. — Eu sei quem a doutora é.

— Óptimo. E claro que conhece estes cavalheiros.

Amy acenou afirmativamente com a cabeça, mas não disse nada.

— Esteja à vontade, chamámo-la aqui para lhe fazermos algumas perguntas sobre o seu chefe, Paul Yang.

Ansiosa como estava, pareceu a Angela, embora não tivesse a certeza, que a sua tentativa de pôr Amy à vontade tinha falhado. As mãos da mulher, que tinham estado cruzadas, estavam agora a torcer-se. A possibilidade de Paul e Amy terem tido ou terem actualmente um caso amoroso veio-lhe involuntariamente à cabeça, por causa do que Bob dissera sobre o passado de Paul.

— Que espécie de perguntas? — perguntou Amy. Os seus olhos percorreram várias vezes os três indivíduos no gabinete.

— Já o viu hoje?

— Não! — disse Amy, demasiado rapidamente, na opinião de Angela.

— Ele telefonou-lhe ou contatou consigo? Amy abanou a cabeça.

— Ele disse alguma coisa ontem à noite sobre não vir trabalhar esta manhã?

— Não.

Angela olhou para Bob e Cari e fez uma pausa para a eventualidade de eles quererem fazer uma pergunta. Quando eles ficaram calados, Angela virou-se novamente para Amy.

— Sabe o que é o impresso oito-K da Comissão de Bolsas e Títulos?

— Acho que sim.

— O Paul Yang preencheu algum recentemente?

— Preencheu, há cerca de dez dias.

— O impresso foi entregue?

— Não sei. Eu não o enviei. Ele disse-me especificamente que não o enviasse.

— Preencheu-o no seu computador?

— Não, ele só o queria no computador portátil.

— Compreendo — disse Angela. — O computador portátil está no gabinete dele?

— Não, ele leva-o sempre consigo.

— Então, ontem à noite ele levou-o.

— Sim, como todas as noites.

Angela olhou novamente para os homens, mas estes não fizeram quaisquer perguntas.

— Obrigada por ter cá vindo, Amy.

— Não tem de quê — respondeu Amy. Após um momento de hesitação, ela virou-se e dirigiu-se para a porta.

— Amy—chamou Angela.—Quando tiver notícias de Paul Yang, por favor, comunique-o a um de nós.

— Com certeza — disse Amy, desaparecendo seguidamente.

— Bem — disse Angela. — Aquilo foi um pouco estranho.

— Como assim? — perguntou Cari.

— Ela parecia muito nervosa.

— Eu também ficaria nervoso se fosse chamado ao gabinete da presidente — sugeriu Cari.

— Talvez — disse Angela. — O que mais me preocupa é o fato de haver um impresso oito-K preenchido no computador de Paul Yang, que o homem desaparecido tem provavelmente consigo.

— Isso não me surpreende — disse Bob. — Só mostra como ele é metódico. Só porque o impresso está no computador portátil dele, não significa que o vá entregar.

— Bem, espero que apareça em breve — disse Angela. — Suponho que, por agora, é tudo.

Os dois homens ergueram-se e voltaram a colocar as cadeiras na sua posição original junto da parede.

— Não te esqueças de telefonar ao nosso intrépido agente de colocação de títulos para conseguirmos o empréstimo o mais depressa possível — disse Angela enquanto eles saíam do gabinete.

Bob acenou por cima do ombro para indicar que tinha ouvido.

— E informem-me assim que virem ou entrarem em contato com o Paul Yang.

—Certo—disseram os dois homens, ao mesmo tempo que a porta se fechava atrás deles.

Angela suspirou e olhou pela janela. Desejou não ter bebido café nessa manhã. Com tudo o mais que estava a acontecer, a sua agitação, geralmente agradável, era ampliada cem vezes. De repente, o telefone tocou e ela deu um salto. Respirou fundo para se acalmar. Quando atendeu, Loren disse-lhe que Rodger estava em linha. As pulsações de Angela tornaram-se mais rápidas. Uma chamada de Rodger era uma notícia muito boa ou muito má, significando que ele estava a telefonar-lhe para dizer que o banco lhes ia conceder o empréstimo a curto prazo de que precisavam tão desesperadamente, o que seria fantástico, ou a telefonar para dizer que o banco exigia o pagamento imediato de um ou mais dos seus empréstimos actuais, o que seria uma catástrofe. Angela pensou que as probabilidades de ser a segunda hipótese eram mais elevadas. Com uma ansiedade significativa, ela carregou no botão debaixo da luz a piscar e cumprimentou-o no tom mais otimista que conseguiu.

— Desculpa incomodar-te — disse Rodger.

—Não incomodas nada—garantiu-lhe Angela. Teve de se dominar para não lhe perguntar imediatamente se ele estava a telefonar para dar boas ou más notícias.

— Eu só te telefonei para dizer que gostei muito de te ver esta manhã.

— Bem, também gostei de te ver — retorquiu Angela, confusa. Era uma forma estranha de começar a conversa.

— E também queria dizer-te que lamento muito não poder ser mais receptivo às vossas necessidades de dinheiro a curto prazo.

— Eu compreendo — disse Angela, cada vez mais confusa.

—Tal como prometi, enviei o pedido através dos canais habituais.

— É a única coisa que eu peço.

Houve uma pausa. Angela cerrou os dentes, à espera de ouvir o pior.

— Eu tenho um pedido — disse Rodger. — Isto poderá ser inconveniente, por isso peço desde já desculpa. Mas estava a pensar se gostarias de ir tomar uma bebida comigo depois do trabalho. Podíamos ir ao Modern, que eu acho particularmente agradável.

— É um convite de negócios ou social? — perguntou Angela, surpreendida.

— Puramente social — respondeu Rodger.

O convite inesperado apanhou Angela completamente de surpresa. Com excepção de uma breve e pouco típica reflexão sobre a sua falta de vida social na noite anterior, Angela andava demasiado ocupada para pensar nessas coisas.

— Isso é muito lisonjeiro — foi a resposta de Angela ao fim de algum tempo, vinda do lado mais crédulo da sua personalidade. Mas, vinda do lado mais cínico, baseado na experiência, acrescentou: — E o que iria a tua mulher pensar desse encontro?

— Eu não sou casado.

— Não? — respondeu Angela com um leve sentimento de culpa. Veio-lhe à mente a fotografia da filha dele em cima da secretária.

— A minha ex-mulher decidiu que ter um banqueiro enfadonho por marido e uma filha exigente eram um obstáculo ao seu estilo de vida preferido, por isso foi-se embora com metade dos meus bens.

Há cinco anos que me divorciei e fiquei com a custódia plena da minha filha.

A situação de Rodger despertou de imediato a solidariedade de Angela, e ela sentiu-se ainda mais culpada pelo seu cinismo a respeito dos motivos dele. A história do casamento dele pareceu-lhe estranhamente semelhante à sua própria história, tirando a questão da custódia. Angela só podia desejar ter também a custódia plena.

— Peço desculpa pela minha reacção — disse Angela. — Parti do princípio que eras apenas mais um homem com a crise da meia-idade.

— Isso é compreensível. Tenho a certeza de que és atacada regularmente.

— Nem por isso, mas aprendi a ser cética.

— Então posso contar encontrar-me contigo quando estiveres livre? Podia até ser esta noite, onde quiseres.

— Conforme podes imaginar pela minha visita ao teu escritório esta manhã, esta não é uma boa altura, e lamento não poder aceitar. Mas agradeço teres pensado em mim, e talvez depois da OFV, se ainda estiveres interessado, terei muito gosto em ir tomar uma bebida, e o Modern seria óptimo. Eu não tenho saído muito ao longo dos anos. Suponho que posso ser classificada como uma mulher de negócios workaólica, activa e tacanha, a perseguir o todo-poderoso dólar e a ser perseguida por ele.

— Eu não acho que seja esse o caso — disse Rodger. — Com uma filha pré-adolescente e sem marido é difícil. Mas havemos de nos manter em contacto, e boa sorte com a Angels Healthcare.

— Obrigada. Um pouco de sorte certamente que ajudaria.

Angela desligou. Conseguira ouvir o tom de decepção na voz de Rodger, o que, por um lado, a lisonjeou e, por outro, a entristeceu, especialmente ao ouvir a descrição que fizera de si própria. Por um breve momento, tentou perceber como é que a pessoa que era quando entrara para a faculdade de medicina se transformara na pessoa actual. Algures ao longo do caminho ela desviara-se do altruísmo para o empreendedorismo.

Os pensamentos de Angela foram interrompidos pelo som insistente do telefone. O seu ruído dissonante trouxe-a abruptamente de volta às exigências dos problemas da sua empresa. Com mais do que um leve ressentimento, agarrou no telefone. Loren disse-lhe que estava em linha um Dr. Chet McGovern que queria falar com ela.

— Sobre o quê?—perguntou Angela, enquanto tentava lembrar-se em qual dos três hospitais Angels o médico trabalhava.

— Ele recusou-se a dizer-me — respondeu Loren.

Por um segundo, Angela alimentou a ideia de dizer a Loren que perguntasse novamente ao homem o que queria e, se ele se recusasse a responder, que lhe dissesse... Angela dominou-se e recusou-se a terminar sequer o pensamento. A irreverência tinha feito parte da sua rebeldia na universidade, mas isso passara-lhe, sobretudo porque Michael a usara com um excesso tão irritante.

Com mais de quinhentos médicos investidores, Angela não podia, de forma alguma, recordar-se de todos os seus nomes. Essa realidade, e a necessidade de os médicos serem encorajados a admitir mais doentes, significava que Angela tinha de engolir a sua irritação e atender a chamada. Partiu do princípio de que seria sobre a morte por MRSA do dia anterior e preparou-se mentalmente para descrever tudo o que estava a ser feito para evitar mais infecções no futuro.

— Em primeiro lugar, eu queria certificar-me de que as flores chegaram — disse a voz do outro lado.

O olhar de Angela desviou-se para as rosas e o mistério que elas encerravam. Subitamente, ocorreu-lhe. Estava a falar com o Chet McGovern com quem tomara uma bebida na noite anterior no ginásio e a quem tinha "usado" para aclarar a mente e talvez satisfazer a sua necessidade passageira de alguma forma de contacto social, especialmente com um membro do sexo oposto.

— As flores chegaram, sim — disse Angela. — Obrigada. Não estava nada à espera. Espero que elas signifiquem que me perdoou.

— Claro que sim — retorquiu Chet —, o que me traz ao motivo desta chamada. Estive a pensar no assunto e, depois de encontrar duzentos mil dólares de reserva na minha mesinha de cabeceira, decidi investir na Angels Healthcare.

Houve uma pequena pausa.

—A sério?—perguntou Angela, com a mente momentaneamente suspensa entre o que ela sabia que era a realidade e o que ela desejava que fosse a realidade.

Chet soltou uma gargalhada.

— Ei! Eu estou a brincar! Eu bem gostava de ter duzentos mil de reserva, mas não é o caso.

— Oh — disse Angela, sem se rir.

— Tenho a sensação de que não achou graça.

— Qual foi o verdadeiro motivo da sua chamada? — perguntou Angela, com uma leve irritação na voz.

— Eu estive a conversar com duas colegas minhas, uma das quais é uma mulher muito sábia. Contei-lhes que a tinha conhecido ontem à noite e que o meu convite para jantar esta noite tinha sido recusado. Ela disse-me que voltasse a convidá-la e que fosse directo, mesmo que isso significasse sujeitar o meu frágil ego a uma humilhação.

Angela sorriu involuntariamente.

— Então está a admitir que tem um ego frágil?

— Absolutamente. Às vezes levo dias a recuperar. Dito isso, e a fim de evitar uma depressão, estou a convidá-la novamente para jantar.

Angela não conseguiu evitar uma gargalhada.

— É uma pessoa muito persistente.

— Acho que essa não é uma descrição exacta. Telefonar assim e sujeitar-me a ser outra vez maltratado não é o meu estilo.

— Bem, a sua honestidade e o seu humor intrigam-me, embora eu não tivesse gostado da sua brincadeira dos duzentos mil dólares. Foi como se estivesse a troçar de mim.

— Não foi absolutamente nada disso — replicou Chet.

— Eu não estava a brincar sobre a necessidade de capital a breve prazo, e é por isso que não posso aceitar a sua amável oferta. Eu estou realmente muito ocupada. Mesmo que tivesse tempo, eu não seria boa companhia.

— Bem, estou decepcionado, mas, graças à sua diplomacia, o meu ego continua intacto. Deixe-me dizer-lhe uma coisa: se, de repente, conseguir arranjar o dinheiro ou estiver deprimida por não o conseguir, telefone-me. Eu estarei disponível a qualquer momento.

Depois de desligar, Angela rodou a cadeira e ficou a olhar para a Quinta Avenida entupida de trânsito. Dois convites para jantar vindos de dois homens diferentes era algo extremamente invulgar. E também perturbador, pela forma como a fazia pôr em causa as suas escolhas e o seu estilo de vida, levando-a a perguntar-se novamente como é que o caminho da sua vida tomara um desvio. A combinação das regras de reembolso do governo que tinham levado a sua clínica de cuidados primários à falência com a desmoralização provocada pelo divórcio de Michael tinha contribuído para minar o seu sistema de valores. Ela perdera a inocência. O êxito nos negócios, medido pela riqueza e pelo que esta proporcionava, triunfara sobre as noções de altruísmo e caridade.

Angela rodou novamente a cadeira, ficando de frente para a secretária, e pensou nos problemas que a Angels Healthcare enfrentava. Um momento depois, Loren trouxe-lhe uma sanduíche e uma Coca-Cola. Enquanto comia, Angela concentrou-se mais uma vez no novo problema do paradeiro de Paul Yang e do computador portátil com o ficheiro do 8-K. Era como ter perdido uma granada com a cavilha meio tirada.

Com esse pensamento em mente, Angela pegou no BlackBerry para enviar uma mensagem de correio electrónico a Michael a perguntar-lhe se ele sabia alguma coisa sobre o motivo por que Paul não aparecera no trabalho. Enquanto os seus polegares dançavam através do teclado em miniatura, ela aplaudiu a capacidade que o instrumento lhe dava de comunicar sem ter de falar com o homem. Significava que ela conseguia obter a informação que queria sem o agastamento que de outro modo teria de suportar.

Uma vez redigida a mensagem, estava prestes a enviá-la quando reconsiderou. Ela conhecia bem o meio em que Michael vivera e a sua infância e, por vezes, tinha perguntas inquietantes sobre alguns dos seus amigos e os seus estilos de vida atuais, incluindo os seus chamados clientes, mas nunca as fizera porque não queria saber.

Agora, quando estava prestes a enviar a mensagem a Michael, teve uma sensação semelhante e perguntou a si própria se queria saber a resposta ao que estava a perguntar. Pressentindo vagamente que não queria, guardou a mensagem como rascunho e pôs o BlackBerry de lado. Trataria do assunto mais tarde.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 13.05

Michael Calabrese estava mal disposto com uma amálgama de medo e ansiedade quando parou o seu jipe Mercedes preto ao lado de uma fila de carros estacionados e depois fez marcha-atrás para um espaço vazio. De onde estava estacionado, conseguia ver a entrada do Neapolitan Restaurant, na Corona Avenue, em Corona, Long Island, a cidade a seguir àquela em que ele crescera num bairro maioritariamente italiano de Rego Park. Muita gente pensava que todos os italianos viviam na Little Italy, em Manhattan, mas não era verdade. Tinham-se todos mudado para Long Island, incluindo Ziggy, o avô de Michael, que começara um negócio de material de construção em Rego Park.

 

Michael olhou para a entrada do restaurante e tentou pensar numa estratégia. A fama do restaurante remontava aos anos 30, quando era o local nocturno preferido da organização Lúcia. Essa associação dúbia tinha continuado ao longo dos anos, até o mayor Rudolph Giuliani conseguir desencorajar muitos chefes da máfia de nível médio de frequentarem Manhattan à noite e, nessa altura, o restaurante conhecera um ressurgimento notável. O renascimento prosseguira ao passar a ter como cliente habitual Vinnie Dominick, quando este fora seleccionado para capo local da Lúcia. Como sinal dos tempos, o local de encontro escolhido pelos Vaccarro, a família do crime que era rival da Lúcia, tinha sido o Vesuvio, um estabelecimento mais novo situado a dois quarteirões de distância. Ambas as organizações acreditavam que fazia sentido abrir um canal de comunicação com os asiáticos, russos e hispânicos que chegavam e desejavam agarrar um pouco da ação. O único problema, claro, era que Paulie Cerino, o chefe titular da Vaccarro, ainda estava na cadeia, pelo que a comunicação não era o que devia ser.

Num ataque de raiva desenfreada, Michael bateu repetidas vezes no volante gritando continuamente "merda." Desde criança que tinha acessos de mau génio, e nessa altura eles tinham ocasionado muitas brigas e várias sovas do pai. Eles tinham, porém, um lado positivo. Uma vez esgotada a energia, ele acalmava e conseguia resolver o assunto em questão. À medida que crescera, aprendera a controlar os seus acessos até se encontrar sozinho, excepto quando estivera casado com Angela.

Tão subitamente como começara a bater no volante, ele parou. "Cabra mimada", resmungou ele, pensando em Angela. Ela tinha sido a sua desgraça desde que se tinham casado. Até essa altura, ela fora um amor, mas, poucas semanas depois da cerimónia na Igreja de Santa Maria, ele já não era suficientemente bom. Ela queria que ele fizesse isto, exigia que fizesse aquilo e não gostava que ele saísse, nem sequer para jantares de negócios. Resumindo, ela queria que ele mudasse, e ele não tinha qualquer intenção de mudar por causa de uma rapariga mimada da classe média alta de Jersey a quem sempre tinha bastado estalar os dedos para ter tudo o que queria. Quanto aos termos do divórcio, no seu estado de espírito atual, ele não queria sequer pensar nisso. Quando o fazia, ficava furioso. Depois de só o ter feito sofrer, ela tinha ficado com o apartamento triplex de West Side e uma pensão de alimentos ridícula para a filha.

E agora, como torção final da faca, ela tinha-o sugado para o negócio da Angels Healthcare que podia pôr a sua vida em risco. Claro que a culpa não era dele. Como plano de negócios, era fantástico. Tal como ela lhe explicara, o governo, na sua infinita sabedoria, tinha criado, através da Medicare, um sistema que fora essencialmente adoptado por todas as companhias de seguros de saúde que pagava aos médicos muito mais dinheiro por fazerem operações do que por tratarem as pessoas em geral. O truque era, por conseguinte, recrutar uma grande quantidade de investidores médicos que financiassem a construção de hospitais privados que fizessem apenas intervenções cirúrgicas e evitassem tudo aquilo em que se perdesse dinheiro, como serviços de urgência e tratar de doentes crónicos ou de doentes que não tivessem seguro. Esse cenário aproveitava um buraco na lei que, de um modo geral, impedia que os médicos enviassem doentes para serviços de que eram proprietários, tais como laboratórios ou centros de imagiologia, mas que não se aplicava a hospitais porque se pensava que quando os médicos possuíam uma cota num hospital, eles eram apenas pequenos peões numa engrenagem muito grande. O que tudo isto significava era que, para os médicos, funcionava quase como um suborno que os encorajava a fazer as intervenções cirúrgicas dos seus doentes pagantes naquele hospital, pois eram pagos por fazer a intervenção e depois eram pagos novamente pelo hospital de acordo com a percentagem da sua pequena cota. Para os verdadeiros proprietários, que detinham a maioria das acções, era uma mina de ouro incrível. Fora por isso que Michael tinha investido uma quantia tão grande, tanto sua como do seu cliente, e que convencera a Morgan Stanley a subscrever a OIV.

Tudo correra de acordo com o plano, ao ponto de Michael, apenas seis meses antes, ter reunido a maior parte dos bens que lhe restavam e investido o capital na Angels Healthcare para fortalecer a sua posição antes do início do processo da OIV. Tal como qualquer analista financeiro sabe, a diversificação é a chave de uma estratégia de investimento, mas Michael estava tão seguro a respeito da Angels Healthcare que se permitira violar essa regra cardinal e agora estava a pagar um preço elevado em termos de ansiedade. O problema era que ele não tinha compreendido os dados científicos ou as potenciais consequências econômicas do problema da infecção que tinha tido início três meses e meio antes nos hospitais Angels. Agora já compreendia. Também sabia demasiado bem como Vinnie Dominick detestava perder dinheiro.

Michael olhou novamente para a entrada do Neapolitan. Era enganadoramente serena, com flores de plástico nas floreiras de janela fingidas. Até mesmo a fachada de tijolo era falsa. Na verdade era feita de chapas de fibra de vidro. Não havia clientes a entrar e a sair porque o restaurante não estava aberto à hora do almoço, exceto para Vinnie e para os seus capangas próximos. Para o dono, esse era um pequeno preço a pagar pelo direito de se manter aberto, e à noite ele fazia um próspero negócio, com exceção dos domingos, quando estava fechado e todos os mafiosos passavam o dia obrigatório com as mulheres e os filhos.

Michael olhou-se ao espelho retrovisor e passou a mão pelo cabelo, que tinha propositadamente o mesmo penteado que Vinnie Dominick. Eles conheciam-se desde a escola primária, onde Vinnie andara um ano adiantado em relação a Michael. Já no quarto ano, Vinnie dominava o recreio da P.S. 157 devido à posição do seu pai na organização Lúcia. Até os alunos do sexto ano batiam em retirada. A partir dessa altura, Michael tinha tentado imitar Vinnie, até mesmo durante os anos do liceu na Saint Mary's.

Uma vez que não lhe tinha ocorrido qualquer estratégia para a conversa com Vinnie, Michael decidiu, com relutância, que teria simplesmente que ir ao sabor da maré porque, em última instância, tudo dependia da disposição de Vinnie. Se ele estivesse bem disposto, a provação talvez fosse canja. Se não estivesse, tudo podia acontecer.

Michael desceu do jipe e teve de esperar que o semáforo mudasse para atravessar a rua. Quando Angela saíra do seu gabinete uma hora antes, depois de dar a deprimente notícia da falta de liquidez da Angels Healthcare, Michael tinha decidido, com relutância, que tinha de falar com Vinnie. Se acontecesse o pior e Vinnie ficasse furioso com a potencial perda do dinheiro da organização, Michael teria literalmente de desaparecer, e, sem dinheiro, isso não seria fácil. Embora soubesse que Vinnie não ia gostar do que Michael tinha para lhe dizer, ele estava convencido de que, na pior das hipóteses, apanharia uma descompostura seguida de alguma forma de ameaça. Com esse pensamento ligeiramente tranquilizante, Michael telefonara a Vinnie a marcar uma reunião, e este convidara-o a vir ao restaurante.

Ao entrar no restaurante, Michael teve de empurrar para o lado um cortinado pesado que protegia as mesas próximas da corrente de ar causada pela porta aberta. Depois esperou que os olhos se adaptassem ao interior escuro. À esquerda havia um bar comprido e uma zona com poltronas e uma lareira fingida. No meio da sala havia um mar de mesas de vários tamanhos. Todas as cadeiras estavam de pernas para o ar em cima das mesas para facilitar as actividades da equipa de limpeza. À direita havia uma série de seis reservados forrados de veludo que eram considerados os lugares mais apetecíveis. Dois deles estavam ocupados. No primeiro estavam Franco Ponti, Angelo Facciolo, Freddie Capuso e Richie Herns. Michael conhecia-os a todos da Saint Mary s. De todos eles, Franco Ponti era o que mais assustava Michael. Era do conhecimento geral que ele era o principal homem-de-mão de Vinnie. Michael não conhecia Angelo tão bem, pois na escola ele fizera parte de outro grupo de amigos, mas o seu aspecto era suficiente para Michael sentir calafrios. Freddie era o mais familiar e Richie o menos, sendo ambos mais lacaios do que verdadeiros soldados.

Vinnie estava sentado à mesa seguinte e fez sinal a Michael para que se aproximasse. Sentada com ele estava Carol Cirone, namorada de Vinnie há vários anos. Com o seu cabelo louro oxigenado armado, camisola branca muito justa ao corpo e colar de pérolas, ela parecia uma caricatura saída de West Side Story, mas ninguém brincava com ela sobre isso, pelo menos à frente de Vinnie.

— Mikey — chamou Vinnie. — Anda cá! Já comeste? Michael passou pela mesa dos homens contratados.

— Olá, rapazes — disse ele para mostrar respeito. Todos eles fizeram um aceno com a cabeça, mas não falaram.

Vinnie tirou o guardanapo do colarinho, saiu do assento, pôs-se de pé e abraçou Michael. Michael retribuiu o abraço mas sentiu-se embaraçado, sabendo que as notícias que trazia não iam fazer Vinnie feliz.

Com uma mão apoiada no ombro de Michael, Vinnie fez um gesto na direção da sua companheira de almoço.

— Já conheces a Carol, claro.

— Claro — respondeu Michael, pegando na mão afetadamente recatada que lhe foi estendida e apertando-a com igual pudor.

— Senta-te, senta-te — repetiu Vinnie, voltando para o seu lugar. A sua voz era mais educada do que se esperaria tendo em conta o seu ramo de negócio e, quando ficava zangado, o que não era raro, ela não se alterava, uma característica que Michael achava inquietante.

Michael deslizou para o lado oposto, imobilizando Carol entre ele e Vinnie.

— Que tal um pouco de espaguete à bolonhesa? — sugeriu Vinnie. — E um copo de Barolo? É de noventa e sete, e é divinal.

Michael concordou com tudo para não começar mal. Vinnie não mudara muito desde o liceu, onde namoriscava todas as raparigas. A sua alcunha era "O Príncipe", Tinha um rosto cheio e bem delineado. Tal como Michael, ele gostava de andar de fato e vestia fato e gravata todos os dias. E, também como Michael, ele orgulhava-se de pesar o mesmo que pesava no liceu, e fazia exercício regularmente para se manter em forma.

— Então, como é que vão os nossos investimentos? — perguntou Vinnie. Quando se tratava de negócios, Vinnie não perdia tempo. Michael tinha negócios com Vinnie há mais de uma década. Começara, numa escala pequena, quando Michael começara a trabalhar na Morgan Stanley e fora ter com Vinnie com a idéia de lavar o dinheiro da organização Lúcia proveniente da droga, agiotagem, clubes de jogo, receptação de objetos roubados, extorsão, carros roubados e assaltos, a maior parte destes levados a cabo no Aeroporto Kennedy. Michael tinha sugerido que o dinheiro fosse utilizado como capital de risco para OIVs através de uma série de empresas fictícias, e a relação fora extremamente lucrativa para ambas as partes. Michael não só lavara o dinheiro como o duplicara muitas vezes, ao passo que, até aí, Vinnie tinha de pagar por esse serviço. Com um capital sempre a aumentar à medida que Vinnie se tornava cada vez mais abastado, Michael conseguira deixar amigavelmente a Morgan Stanley e estabelecer a sua própria empresa de banco de investimento.

— Para dizer a verdade — disse Michael em resposta à pergunta direta de Vinnie — há um problema sobre o qual preciso de falar contigo.

—A sério?—perguntou Vinnie com a voz deliberadamente calma e suave que fazia arrepiar Michael.

— Infelizmente — replicou Michael. A sua voz continha uma leve tremura, e ele fez votos para que só ele a conseguisse ouvir.

— Carol, querida — disse Vinnie. — Importas-te de nos deixar a sós? Eu e o Mikey precisamos de conversar.

— Ainda não acabei o meu espaguete — lamuriou ela.

—Carol!—disse Vinnie num tom ligeiramente mais baixo, olhando para ela de lado.

— Oh, está bem — respondeu Carol atirando o guardanapo para cima do prato. — Mas para onde é que eu vou?

— Para onde quiseres, querida. O Freddie ou o Richie podem levar-te.

Michael fitou novamente Vinnie, que lhe retribuiu o olhar, obrigando-o a desviar os olhos. Michael estremeceu interiormente.

—Espero que este problema não tenha a ver com a Angels Healthcare porque, se tiver, não vou gostar de ouvir — comentou Vinnie.

Michael aclarou a garganta e estava prestes a falar quando o empregado de mesa surgiu ao lado da mesa com um prato fumegante de espaguete, um copo e talheres. Sentindo a tensão, ele colocou rapidamente tudo em cima da mesa, deitou vinho no copo e desapareceu.

— É, de fato, sobre a Angels Healthcare — admitiu Michael. — A Angels Healthcare precisa de mais dinheiro para manter as portas abertas. O problema tem sido livrarem-se da bactéria. A bactéria obrigou ao encerramento dos blocos operatórios, o que fechou a torneira das receitas.

— Essa é a mesma história que eu ouvi há um mês — disse Vinnie. Embora a voz se mantivesse calma, os seus olhos revelavam a sua ira crescente. — O meu empréstimo deveria supostamente cobrir as despesas até à OIV.

— Era também o que eu pensava, até que, há uma hora, a minha ex-mulher me disse o contrário — disse Michael, com a ideia de transferir a responsabilidade para ela.

— Porque é que isso não aconteceu?

— Os blocos operatórios estiveram encerrados mais tempo do que se esperava, mantendo as receitas a um nível baixo, e os custos da desinfecção foram mais elevados do que se contava.

— E os blocos operatórios já estão abertos?

— Já, mas vai levar algumas semanas até os médicos se sentirem seguros de que o problema está resolvido.

— E está resolvido?

— Penso que está.

—Tu enganaste-te no cálculo da quantia que era necessária. O que te leva a pensar que o que pensas sobre o problema da infecção é mais exato?

—Não sei—disse Michael encolhendo os ombros. — Eu só posso relatar o que me dizem.

— Quanto dinheiro é necessário para chegar até à OIV?

— Disseram-me duzentos mil.

Vinnie voltou a perfurar Michael com os olhos. Michael pestanejou e baixou os olhos para a comida. Dadas as circunstâncias, ele não sabia o que era menos respeitoso: comer ou não comer. A última coisa que ele queria era irritar Vinnie por causa de uma questão de boas maneiras. Vinnie podia ser muito susceptível a respeito de questões dessas.

— Come! — disse Vinnie, quebrando o silêncio.

Michael não tinha fome, mas pegou num garfo e fez um esforço para enrolar uma garfada de espaguete.

— Eu não estou nada satisfeito com todo este assunto — disse Vinnie, inclinando-se seguidamente para a frente numa atitude ameaçadora. — Estou a começar a sentir-me como se fosse teu lacaio. Primeiro, vens-me pedir dinheiro, a seguir vens ter comigo por causa de um contabilista que quer comunicar o fluxo de fundos negativo às autoridades federais, e agora é mais dinheiro. Onde é que isto vai acabar?

— Eu não estava à espera de nada disto — disse Michael em sua defesa. — Mas é um excelente investimento. Eu não teria investido o teu dinheiro se não fosse. E hipotequei praticamente tudo o que tenho para maximizar a minha própria posição.

— Eu não quero saber do teu dinheiro — disse Vinnie, com toda a sinceridade. — Eu quero saber do dinheiro por que sou responsável. Não quero que ele se perca. Teria muitas explicações a dar.

— O dinheiro não se vai perder — disse Michael num tom decidido, embora não estivesse tão seguro como soava. — Na pior das hipóteses, a OIV será adiada.

— Eu não quero que isso aconteça, e estou a fazer a minha parte. Já investi duzentos mil extra. Também estou a tratar da questão do contabilista.

— Não falaste com ele? — perguntou Michael, alarmado.

— Oh, sim, falei com ele. Até o Franco e o Angelo falaram com ele.

— Ele não está a colaborar?

— Eu não diria isso. Tenho a certeza absoluta de que ele não vai entregar o impresso. É só que a secretária dele é uma incógnita que, infelizmente, tem uma cópia do relatório potencialmente incômodo. Parece que também vamos ter de falar com ela.

— Não tinha pensado nisso — admitiu Michael. — Boa idéia! — Sentia-se aliviado. A última coisa de que precisava era do ressurgimento de um problema que ele achava que estava resolvido. Embora gostasse de fazer negócio com Vinnie, ele não queria saber de onde vinha o dinheiro nem pormenores das operações de Vinnie. A imaginação de Michael era suficiente, e era por isso que esta embrulhada o punha tão nervoso.

— Por conseguinte, Mikey, eu estou a fazer a minha parte — prosseguiu Vinnie — e gostaria que fizesses a tua. Se for necessário mais dinheiro para a Angels Healthcare chegar à OIV, esse dinheiro deve sair do teu bolso.

— Mas... — começou Michael a dizer.

— Não há mas nem mas, Mikey — disse Vinnie calmamente, interrompendo Michael. — Nós conhecemo-nos há muitos anos, mas isto é negócio. Eu quero que esta OIV vá adiante. Tu tens sido um bom vendedor e elevaste as minhas expectativas. Se a OIV não acontecer conforme descreveste, vou atribuir-te as culpas e deixaremos de ser amigos. Nessa altura, vais lidar exclusivamente com o Franco.

Michael tentou engolir mas não conseguiu. A garganta tinha secado. Em vez disso, pegou no copo de vinho intacto e bebeu um enorme golo.

O detetive Lou Soldano olhou para o relógio. Já era quase uma e meia da tarde, o que explicava o motivo por que tinha o estômago a dar horas. Depois de ter saído do departamento de medicina legal nessa manhã às oito, ele fora para o seu apartamento na Prince Street, no Soho, e adormecera em cima do sofá. Estava tão exausto que nem sequer conseguira chegar ao quarto.

Ao acordar ao meio-dia, só bebera um café enquanto tomava banho e fazia a barba. Nessa altura, telefonara para o DML. Estava curioso de saber o que descobrira Jack sobre os dois homicídios cujas autópsias tinha perdido. Jack ainda estava na sala de autópsias e não pôde atender, pelo que Lou pediu para o passarem ao Sargento Murphy, o oficial de ligação com o NYPD. A maior preocupação de Lou era o homem não identificado que aparecera a flutuar no rio, aparentemente executado por um gang, O que ele queria saber era se Murphy tinha alguma pista sobre a identidade do homem através do departamento de pessoas desaparecidas. Não houvera quaisquer chamadas sobre um homem de ascendência asiática desaparecido, o que despertou ainda mais a curiosidade de Lou. De uma forma ou doutra, Lou estava cada vez mais interessado no caso, e queria evitar que surgissem mais corpos. Para além do modo como o indivíduo fora morto, o facto de ele ter sido atirado ao rio longe do cais aumentava a convicção de Lou de que o homicídio estava relacionado com o crime organizado. Na Primavera, no Verão e no Outono, os corpos eram geralmente enterrados nos bosques da zona norte do estado. No Inverno, quando a terra estava congelada, eram atirados ao rio ou, se os criminosos fossem mais engenhosos, para o interior do cais ou até mesmo para além da Ponte Verrazano.

Com o estômago a dar horas, Lou começou a procurar um posto de venda defast-food. Estava num Chevy-Caprice que lhe fora atribuído pela polícia. Ele tinha um laço afectivo com o carro, que constituía a única ligação com a sua vida anterior, uma vez que ele era divorciado e os seus dois filhos estavam longe, na universidade.

— Deus do céu! O Johnny's Sub ainda cá está! — disse Lou em voz alta, ao ver o café à esquerda. Fez o pisca-pisca e abrandou rapidamente, ouvindo de imediato a buzina de um carro a dezoito centímetros das traseiras do seu automóvel. Mantendo a compostura, Lou abriu a janela e fez sinal ao irado motorista para que o ultrapassasse. Ao fim de algum tempo, o sujeito percebeu e, ainda a buzinar, ultrapassou Lou. Quando o fez, mostrou um dedo a Lou.

— Algumas coisas nunca mudam — murmurou Lou filosoficamente. Ele virou para o parque de estacionamento do restaurante e fez a sua encomenda à janela. Quinze minutos depois, Lou comia, feliz, a sua sanduíche preferida, uma Johnny s Meatball Extravaganza. Soube-lhe bem recordar o tempo em que andava no último ano do liceu e vinha ao Johnny's Club à noite, com Gina Pantanella. Ele estacionava nas traseiras, comia aquela mesma sanduíche e depois faziam amor.

A outra razão por que Lou estava satisfeito era o fato de o Johnny's ficar mesmo em frente do Neapolitan. Pelos anos que trabalhara no Crime Organizado, ele sabia que o restaurante era, de fato, o escritório de Vinnie Dominick, que geria a zona de Queens para a família Lúcia. Lou sabia também que o frágil equilíbrio entre as potências do crime tradicionalmente rivais, nomeadamente os Lúcia e os Vaccarro, estavam a ser desafiadas sobretudo por novos gangs asiáticos que surgiam atualmente em Flushing e Woodside. Lou queria descobrir se essa situação tinha alguma coisa a ver com o indivíduo que aparecera a flutuar, e concentrou-se em Vinnie Dominick porque o congênere de Vinnie na organização Vaccarro, Paulie Cerino, estava na cadeia. Mas Lou não ia falar com Vinnie, mas sim com um dos seus lacaios, Freddie Capuso. Quando ainda trabalhava no crime organizado, Lou tinha recrutado Freddie como informador, e possuía ainda um ascendente sobre o miúdo. Por um feliz acaso, Lou descobrira que o rapaz tinha uma perigosa vida dupla como uma espécie de agente duplo.

Embora trabalhasse aparentemente para Vinnie, ele estava a passar informações a Paulie, informações essas que às vezes eram verdadeiras e outras falsas. Na altura, Lou tinha perguntado a si próprio como é que o miúdo conseguia dormir à noite porque, se qualquer dos lados soubesse o que ele estava a fazer, ele teria simplesmente desaparecido, indo com toda a probabilidade alimentar os peixes para além da Ponte Verrazano.

Lou não tinha a certeza se Freddie ainda trabalhava para Vinnie ou se ainda estava vivo, mas tencionava descobrir. Ele supôs que Vinnie estivesse lá porque havia um Cadillac preto estacionado em segunda fila em frente do restaurante. O único problema é que era um modelo vintage, que Lou duvidava que fosse o estilo de Vinnie.

Subitamente, Lou parou de mastigar. Alguém emergiu sozinho do restaurante. Por um segundo, Lou pensou que fosse Vinnie, por causa do penteado e da roupa. Lou ficou confuso, porque Vinnie nunca sairia sozinho para a rua. Mas, nesse momento, quando o homem atravessou a rua a correr em direcção a Lou, este viu que não era Vinnie. Era alguém que Lou não reconheceu mas que agia de uma forma suspeita. Estava nervoso ou com medo enquanto mexia no controlo remoto, ao mesmo tempo que olhava de um lado para o outro da rua e novamente para o restaurante. Um segundo depois, estava dentro do carro e arrancou, acelerando com um chiar de travões em direcção a Manhattan. Lou tentou apanhar o número da matrícula, mas não foi suficientemente rápido. A única coisa que conseguiu registar foi um 5V e o fato de ser uma matrícula de Nova Iorque.

Lou olhou novamente para o restaurante, quase à espera de ver um dos homens de Vinnie a irromper em perseguição, mas isso não aconteceu. Estava tudo sereno. Lou recostou-se no banco e deu outra dentada na sua sanduíche. Enquanto mastigava, perguntou a si próprio o que se passara na reunião entre Vinnie e o sósia de Vinnie que pusera o desconhecido tão nervoso como ele parecera estar. Lou supôs que fosse algo a ver com dinheiro e, tendo em conta a roupa do sujeito e o fato de ele conduzir um jipe, Lou desconfiou que tivesse a ver com jogo. Se assim fosse, e o sujeito devesse muito dinheiro a Vinnie, então ele tinha problemas graves. Vinnie e os seus congêneres não toleravam que as pessoas lhes devessem dinheiro durante muito tempo. Se o fizessem, todo o baralho de cartas ruiria. Ao pensar nisso, Lou perguntou a si próprio se seria essa a história do indivíduo a flutuar no rio. Talvez não fosse indicativo de uma guerra do crime incipiente, mas apenas a eliminação de um caloteiro.

Subitamente, Lou parou de mastigar. Um Cadillac preto novo com vidros fumados escuros apareceu pela direita e parou atrás do modelo mais antigo. No instante seguinte, Lou atirou a sua sanduíche para o lado, espalhando pequenas almôndegas no banco do passageiro da frente. Saiu rapidamente do carro e atravessou a rua enquanto o motorista do Cadillac dava a volta às traseiras do automóvel. Desta vez, a sorte esteve do lado de Lou, pois o motorista era Freddie Capuso, e este estava sozinho.

— Freddie, meu amigo — chamou Lou.

Freddie parou e virou-se enquanto Lou se aproximava. Assim que reconheceu Lou, o seu rosto empalideceu. Nervoso, olhou em volta, especialmente para a porta do restaurante.

— Olá! — disse Lou, num tom efusivo. — Há quanto tempo não nos víamos, Freddie, meu rapaz! —A última vez que Lou vira Freddie, este era um miúdo escanzelado que mantinha os braços artificialmente afastados do corpo como se fosse muito musculoso. Agora era um homem. Bem, mais ou menos.

— Bolas, tenente! Que diabo está a fazer aqui?

— Apenas a comer uma sanduíche que comprei ali em frente, para recordar os velhos tempos. Eu costumava lá ir quando andava no liceu, e depois vi-te estacionar. Que grande coincidência!

— Tive muito prazer em vê-lo — disse Freddie rapidamente. — Mas tenho de me ir embora.

— Não tão depressa — disse Lou, colocando uma mão no antebraço de Freddie para o deter, enquanto a outra mão de Lou segurava a arma que ele trazia no coldre. Lou sabia que aquela gente era pérfida e imprevisível.

— Pode fazer com que me matem se me virem consigo! — disse Freddie.

- É

— Posso fazer com que te matem com uma única chamada telefônica, meu amigo. Eu só quero falar contigo durante dois minutos. O meu carro está do outro lado da rua, no parque de estacionamento do Johnny's. Vamos rapidamente até lá, para podermos conversar sem sermos vistos.

Freddie olhou em volta de Lou na direção do Johnny's, como se não acreditasse em Lou, e depois novamente para a porta do Neapolitan.

— Quando mais tempo demorares, mais riscos corres — comentou Lou, dando um puxão no braço de Freddie na direcção do seu Caprice.

Freddie não demorou muito a compreender que não tinha outra hipótese. Acenou afirmativamente com a cabeça e atravessou rapidamente a rua. Lou seguiu Freddie até à porta do passageiro da frente. Freddie abriu-a rapidamente mas deu uma olhadela às pequenas almôndegas e às rodelas de tomate e de cebola espalhadas no banco e disse:

— Não me vou sentar em cima daquele lixo!

Lou olhou à volta de Freddie para ver a que é que ele se referia.

— Compreendo a tua relutância — disse Lou, fechando a porta da frente e abrindo a de trás. Fez sinal a Freddie para que entrasse, depois sentou-se ao lado dele.

— Seja rápido — ordenou Freddie, como se tivesse alguma voz na matéria.

— Vou tentar — disse Lou, ignorando a fanfarronice de Freddie. — Em primeiro lugar, quem é o actual capo local dos Vaccarro? Eu tenho estado longe do meio.

— Chama-se Louie Barbera, mas é apenas temporário, porque o Paulie Cerino deve sair em liberdade condicional.

—A sério?—comentou Lou. Ele não ouvira esse rumor a respeito de Cerino.

— Por que diabo me está a chatear com este tipo de pergunta? — resmungou Freddie. — Qualquer pessoa lhe pode dizer isso.

— Como é que o Vinnie e o Louie se dão? Freddie limitou-se a dar uma gargalhada.

— A relação é assim tão má?

— Quando o Paulie foi preso, o Vinnie aproveitou a oportunidade, especialmente no negócio da droga. Os Vaccarro querem o seu velho território de volta.

— E os asiáticos, os hispânicos e os russos?

— Esses estão a arranjar problemas para toda a gente.

— Os três grupos.

— Especialmente os asiáticos que trazem droga do leste em vez da América do Sul.

— Ouvi dizer que mataram alguém ontem à noite — disse Lou, indo finalmente direto ao assunto. — Sabes alguma coisa sobre isso? — Propositadamente, não deu quaisquer pormenores.

Os olhos de Freddie desviaram-se com nervosismo na direcção do restaurante, o que, para Lou, o denunciou. Pelos seus anos de experiência, calculou que o escanzelado Freddie soubesse qualquer coisa.

— Eu não sei nada sobre qualquer morte — disse Freddie num tom pouco convincente.

—Vamos lá, não me obrigues a ameaçar-te e não me faças telefonar ao Vinnie a recordar os velhos tempos.

— Está bem, eu sei que houve uma morte ontem à noite, mas isso é a única coisa que sei.

— Por favor! Não arrastes esta conversa.

— Eu não sei quem foi, a sério. A única coisa que sei é que era um sujeito que ia fazer uma denúncia.

— O que é que a vítima ia denunciar e a quem?

— Quem sabe?

— Estás a brincar comigo ou quê?

—A sério, estou a dizer-lhe tudo o que eu sei, que é praticamente zero. O Vinnie está aborrecido com qualquer coisa, mas eu não faço a mínima ideia do que seja. Ele não fala sobre essas coisas, excepto com o Franco Ponti.

Lou observou o miúdo sem perspectivas que se tornara um homem. Em certo sentido, tinha pena dele, porque Lou tinha a certeza de que, um dia, ia acabar num contentor do lixo. Ele tinha andado a jogar duas extremidades contra o centro, mas não era suficientemente inteligente para o fazer a longo prazo. Por outro lado, Lou estava zangado com ele porque, como todos os inadaptados, o imbecil estava a ajudar um grupo de pessoas que dava um mau nome a todos ítalo-americanos.

— Muito bem — disse Lou após uma pausa. — Quero que descubras quem é esse sujeito que foi morto. Eu não quero uma guerra entre as facções dos Lúcia e dos Vaccarro, que é o que me preocupa.

— Eu não vou conseguir descobrir uma coisa dessas. O Vinnie fala pouco. Se lhe perguntasse qualquer coisa, ele saberia que se passava alguma coisa estranha.

— Não perguntes ao Vinnie, pergunta ao Franco.

— Isso seria pior do que perguntar ao Vinnie. O tenente sabe que o gajo é maluco.

— Descobre uma maneira — disse Lou, estendendo o braço e abrindo a porta.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 14.20

Os olhos de Laurie ficaram vítreos enquanto ela olhava inexpressivamente pela janela do táxi que percorria a toda a velocidade a Segunda Avenida em direcção a norte. Ela estava extremamente preocupada com a sua investigação sobre o MRSA, que tinha começado como uma forma de convencer Jack a adiar a intervenção cirúrgica ao joelho, mas que se transformara em algo totalmente diferente. Ainda tencionava abordar o assunto com Jack, mas agora pressentia que havia um significado mais amplo, e essa possibilidade excitava-a. A sua concepção do papel do médico legista era falar em nome dos mortos para ajudar os vivos. Subitamente, ela viu a investigação actual como um meio de o fazer. Se conseguisse descobrir o motivo por que aquelas mortes causadas por MRSA estavam a ocorrer num cluster, ela poderia possivelmente salvar vidas.

O pensamento ao longo daquelas linhas tinha um aspecto desanimador. Porque é que o DML não identificara o problema antes? Laurie reflectiu sobre esta pergunta por um momento antes de adivinhar o motivo: um baixo índice de suspeita, que Laurie supôs que a teria também influenciado no que dizia respeito a David Jeffries, se o aspecto pessoal não tivesse intervindo. Laurie sabia que dez por cento de todos os pacientes que dão entrada num hospital saem de lá com uma infecção adquirida no hospital, o que dava cerca de dois milhões de doentes, resultando em quase noventa mil mortes por ano só nos Estados Unidos. Dessas infecções, cerca de vinte e cinco por cento eram staphylococcus, muitos dos quais eram MRSA. Resumindo, o problema era demasiado comum para causar grande alvoroço, especialmente com o aumento constante do número de bactérias.

Um impacto súbito arrancou-a aos seus pensamentos. Se não tivesse o cinto de segurança, teria batido no teto.

— Desculpe! — disse o motorista do táxi, olhando para Laurie pelo espelho retrovisor para ver se ela estava bem. — Buracos resultantes do Inverno.

Laurie acenou afirmativamente com a cabeça. Agradecia a explicação, inesperada como era, mas não o estilo de condução.

— Talvez se fosse mais devagar... — sugeriu ela.

— Tempo é dinheiro — respondeu o motorista de turbante.

Reconhecendo a inutilidade de tentar influenciar as ideias do motorista de táxi, Laurie concentrou-se nas suas reflexões. Estava a caminho do Hospital Ortopédico Angels, que ficava situado na Quinta Avenida, no Upper East Side, e, surpreendentemente, quase em frente de onde ela e Jack viviam, atravessando o Central Park. Durante as duas horas anteriores, tinha estado muito ocupada e, apesar de recear vagamente pela sua vida no táxi, sabia-lhe bem o intervalo forçado e o tempo para organizar os pensamentos que a viagem lhe proporcionava. Conseguira finalmente encontrar-se com Arnold Besserman e Kevin Southgate, e obtivera os nomes dos seis casos deles e quatro dos processos e registos hospitalares. Arnold até lhe dera a monografia pessoal que escrevera sobre o MRSA, que Laurie lera rapidamente.

Agora Laurie sabia mais sobre a bactéria do que alguma vez soubera, ainda mais do que imediatamente antes de fazer o exame de admissão para patologista forense, para o qual marrara ao estilo de aluna universitária, com todo o tipo de fatos esotéricos, incluindo alguns sobre o MRSA e outros organismos staphylococcus. Tal como Agnes dissera, o staphylococcus aureus era um microrganismo patogênico extraordinário e versátil.

Uma vez na posse dos números de acesso dos casos de Arnold e de Kevin, bem como dos de George Fontworth, Laurie tinha-os passado todos a Agnes Finn. Laurie queria que Agnes recuperasse as amostras congeladas para cultura e subtipagem tal como já estava a fazer com o caso de Laurie dessa manhã e com os casos da Riva. Laurie pensava que era importante ver até que ponto todos eles eram semelhantes.

Seguidamente, Laurie fizera algumas chamadas telefónicas importantes para os números que Cheryl lhe arranjara. Primeiro, tinha telefonado a Loraine Newman, do Hospital Ortopédico Angels. Laurie achou-a tão colaborante como Arnold e Cheryl a tinham descrito. A mulher tinha concordado amavelmente em encontrar-se com ela nessa mesma tarde às duas e meia.

Seguidamente, Laurie telefonara a uma mulher do CCD chamada Dra. Silvia Salerno, associada à biblioteca nacional de estirpes de MRSA do CCD, que tinha sido criada para identificar padrões genéticos no subtipo, na esperança de influenciar estratégias de prevenção e controle. Além disso, ela estava associada à Rede Electrónica Nacional de Segurança na Saúde do CCD e tinha sido a pessoa com quem Riva falara. Era ela que tinha feito a subtipagem dos isolados de Riva.

— Se não estou enganada, era um MRSA adquirido na comunidade, ou aquilo a que nós chamamos MRSA-AC — dissera Silvia quando Laurie lhe perguntou se se recordava dos casos. — Deixe-me consultar o processo. Muito bem, aqui está ele. MRSA-AC, USA quatrocentos, MWdois, SCCmecIV, PVL. Agora já me recordo muito claramente. Este é um organismo muito virulento, talvez um dos mais virulentos que eu já vi, particularmente com a toxina PVL.

— Recorda-se de a Dra. Mehta mencionar que os dois casos vinham de dois hospitais diferentes?

— Não, não me recordo. Eu parti do princípio de que provinham da mesma instituição.

— Eram decididamente de dois hospitais. Isso surpreende-a?

— Sugere que os dois indivíduos se conheciam ou que conheciam uma terceira pessoa.

— Quer dizer que acha que não era uma infecção nosocomial?

—Tecnicamente, para que uma infecção seja considerada nosocomial, o paciente tem de ter estado no hospital mais de quarenta e oito horas.

— Mas essa é apenas uma definição técnica. Quero dizer, os doentes podiam tê-la apanhado no hospital.

— Claro. A definição é mais por motivos estatísticos do que científicos, mas apanhar uma infecção dessas em menos de quarenta e oito horas sugere que ela fazia parte da flora do próprio doente.

Laurie descreveu a sua série de casos — todas as vítimas tinham morrido de MRSA em menos de vinte e quatro horas e aqueles cuja subtipagem estava disponível tinham morrido de MRSA adquirido na comunidade, o que, segundo Sílvia, reforçava a sua opinião de que as bactérias tinham sido muito provavelmente trazidas pelos próprios doentes. Apesar disso, Silvia tinha dito especificamente que estava interessada nos casos e tinha ficado surpreendida por não ter ouvido falar no cluster. Oferecendo-se para ajudar naquilo que pudesse, ela anotou o número direto do gabinete de Laurie e prometeu telefonar-lhe depois averiguar se alguém no CCD tinha ouvido falar no surto. Também prometeu olhar outra vez para as amostras de Riva para determinar se eram exactamente da mesma estirpe ou apenas próximas.

Por fim, Laurie telefonou para a Comissão Conjunta de Acreditação de Serviços de Saúde. Cheryl não tinha conseguido indicar-lhe uma pessoa específica com quem falar, e, depois de a chamada ter sido transferida inúmeras vezes e, em cada uma delas, lhe ter sido dado o nome de alguém que supostamente a poderia ajudar, Laurie desistiu, derrotada, de momento, pela burocracia.

Quando chegou ao destino, o táxi parou junto do passeio, e Laurie deu o dinheiro e a gorjeta ao motorista. Enquanto descia do táxi, olhou para o impressionante e moderno arranha-céus de vidro verde suportado por vigas de granito verde. O nome, Hospital Ortopédico Angels, estava gravado num lintel de mármore em forma de frontão por cima das portas de entrada. No passeio estava um porteiro de librê. Uma entrada em declive para carros ia dar a uma recepção, uma entrada de serviço e um parque de estacionamento de vários andares nas traseiras.

O interior era ainda mais imponente. Era mais como entrar num Ritz-Carlton do que num hospital, exactamente como Jack tinha descrito nessa manhã. O chão era uma mistura de madeira e mármore e o balcão das informações parecia o de uma recepção de hotel, com dois homens de fato e gravata sentados lado a lado. Não havia azáfama como num hospital normal. Para além dos dois homens no balcão das informações, na enorme área da recepção só havia duas pessoas sentadas em frente uma da outra em elegantes sofás opostos.

Laurie dirigiu-se ao balcão das informações e recebeu a atenção total dos dois cavalheiros. Perguntou por Loraine Newman, dando o seu nome e dizendo que tinha uma reunião com ela.

— Certamente, minha senhora—disse um dos homens, pegando no telefone e, após uma breve troca de palavras, indicando a Laurie as portas interiores que iam dar aos elevadores. —A senhora Newman está à sua espera na administração.

Laurie seguiu as instruções e empurrou as portas indicadas. A zona da administração era mais utilitária do que a recepção mas, mesmo assim, em comparação com qualquer hospital em que Laurie já tinha estado, era sumptuosa. Era uma sala larga, comprida, com gabinetes com divisórias de vidro de ambos os lados, cada um deles com uma mesa para uma secretária à frente. A maior parte das mesas estava ocupada, mas não parecia haver muito trabalho. Apenas algumas secretárias estavam a escrever nos seus computadores, enquanto a maioria conversava em voz baixa.

Uma das secretárias viu Laurie e perguntou-lhe se podia ajudar mas, antes que Laurie pudesse responder, uma porta de vidro de um gabinete abriu-se e uma mulher com um ar enérgico e uma bata branca por cima de uma camisola de gola alta castanha chamou-a. Ela apresentou-se como Loraine Newman antes de a conduzir ao seu gabinete.

— Dê-me o seu casaco! — disse Loraine. Ela tinha a mesma estatura que Laurie e aproximadamente a mesma idade, mas a cor da sua pele era diferente da pele clara de Laurie. — Sente-se, por favor — disse ela enquanto colocava o casaco de Laurie num cabide e o pendurava dentro de um pequeno armário.

Laurie sentou-se e Loraine deu a volta à secretária e fez o mesmo.

— Eu nunca conheci um médico legista — disse Loraine com um sorriso. — É espantoso o que vocês fazem.

— Nós não andamos muito cá por fora — disse Laurie. — A maior parte do trabalho no local é feito pelos nossos investigadores forenses —prosseguiu ela, e estremeceu interiormente ao reconhecer que Bingham não gostaria nada do que ela estava a fazer.

—Em que é que posso ajudá-la?—perguntou Loraine. — Suponho que veio cá por causa da infeliz morte de ontem causada pelo MRSA.

— Isso e não só — respondeu Laurie. — Eu fiz a autópsia do Sr. Jeffries esta manhã. A dimensão da infecção era dramática, para dizer o mínimo, e a rapidez com que o consumiu foi extraordinária.

— Não imagina como estamos aborrecidos, não só devido ao facto de um homem saudável ter perdido a vida, mas também por a morte ter ocorrido apesar de todos os nossos esforços para a evitar.

— Um dos meus colegas falou-me dos esforços que têm feito. Eu imagino que deve ser muito decepcionante, especialmente porque, ao que parece, tiveram onze casos semelhantes.

—Decepcionante não é uma palavra suficientemente forte. Encontrou alguma coisa na autópsia que nos possa ajudar? Quando me telefonou, eu tive esperança de que fosse esse o caso.

— Infelizmente, não — admitiu Laurie.

— Então porque é que cá veio?

Laurie contorceu-se na cadeira. Embora o tom da pergunta estivesse longe de ser hostil, Laurie deu por si a interrogar-se exatamente por que motivo se sentira impelida a fazer a visita e, por um momento, sentiu-se uma idiota.

—Eu não queria colocá-la numa situação difícil — disse Loraine, pressentindo o embaraço de Laurie.

— Não faz mal — disse Laurie. — Depois de ter feito a autópsia esta manhã, eu fiquei a saber, por acaso, de todos os outros casos que ocorreram nos últimos três meses e meio. Achei que tinha de fazer qualquer coisa. Ao não se ter apercebido do surto, o DML não cumpriu o seu dever em relação a vocês e à cidade. Faz parte do meu trabalho não permitir que uma coisa destas seja ignorada.

— Eu agradeço o seu sentido de responsabilidade mas, neste caso, julgo que isso não tem importância. Nós sabíamos que o problema existia e pode acreditar que temos feito tudo o que é possível. E quando digo tudo, quero dizer mesmo tudo, incluindo a contratação a tempo inteiro de uma profissional de controlo de infecções. E, como presidente da comissão interdepartamental de controlo de infecções deste hospital, eu tenho estado em cima do problema desde o primeiro dia. Tivemos a colaboração de toda a gente, incluindo o pessoal médico e de enfermagem, bem como o pessoal de engenharia e dos laboratórios. Desde o primeiro caso de MRSA que a nossa comissão se tem reunido praticamente de quinze em quinze dias. Até encerrámos temporariamente os nossos blocos operatórios e paramos com todas as intervenções cirúrgicas.

— Eu ouvi dizer isso — disse Laurie. — Não tenho muita formação em epidemiologia, mas há várias coisas neste surto que me estão a incomodar.

— Tais como?

Laurie demorou um momento a organizar os seus pensamentos. Tinha receio de parecer ingênua, uma vez que só tinha realmente conhecimentos básicos de epidemiologia. — Por um lado, apesar de todos os vossos esforços para o controlar, ele continuou a ocorrer; em segundo lugar, muitos dos casos são, como o de Jeffries, pneumonias primárias, o que penso que é singular para o staphylococcus; em terceiro lugar, ao que parece, os casos têm ocorrido apenas em hospitais da Angels Healthcare. Sabe certamente que também estão a ocorrer casos nos outros hospitais Angels?

— Claro que sei. Eu tenho tido muitas reuniões e estou frequentemente em contacto com os meus congêneres no nosso hospital de cardiologia e no de cirurgia cosmética e oftalmologia. Também fui eu que encorajei a Diretora Executiva da Angels Healthcare, a Dra. Angela Dawson, a contratar a profissional de controlo de infecções para coordenar os nossos esforços, especificamente porque o problema estava a ocorrer nas nossas três instituições.

— Está a falar da Dra. Cynthia Sarpoulus?

— Exatamente. Porque é que pergunta?

— Recordo-me de um dos meus colegas de medicina legal ter referido o nome dela. Ele falou com ela há cerca de um mês.

— Ela é uma figura cimeira na nossa área, e é co-autora de um texto importante sobre programas de controlo de infecções em hospitais. Quando soube que a tinham contratado, eu tive a certeza de que o problema se resolveria rapidamente.

— Mas isso não aconteceu.

— Não, não aconteceu — concordou Loraine.

— Bem, estamos de volta às minhas preocupações de amadora — disse Laurie.

— Eu não lhe chamaria exatamente amadora, doutora — retorquiu Loraine com um sorriso. — Por favor, continue.

— Há cerca de uma hora, eu conversei com uma médica do CCD. Ela tinha tido a oportunidade de subclassificar o staphylococcus de dois dos casos que ocorreram há mais de um mês em diferentes hospitais vossos. Utilizando uma tipagem genética bastante sofisticada, verificou-se que eles eram do mesmo subtipo. Ela prometeu confirmar isso com testes ainda mais específicos e telefonar-me. Para a minha mente apenas informalmente treinada em epidemiologia, e ao contrário do que ela pensa, isso sugere que um portador visita os dois hospitais. Há membros da Angels Healthcare que visitem regularmente todos os vossos hospitais?

—Uau!—comentou Loraine, rindo-se de uma forma que indicava que se sentia impressionada. — Quando diz que não tem formação em epidemiologia, está a brincar?

— Apenas a necessária para o meu internato de patologia — respondeu Laurie.

— Nós já pensámos que um portador poderá estar na origem do problema. De facto, temos feito culturas de toda a gente: pessoal médico, funcionários dos serviços e particularmente os indivíduos que vão aos três hospitais. Uma das formas que a nossa Directora Executiva e fundadora concebeu para reduzir as despesas foi ter serviços centralizados, como lavandaria, engenharia, laboratórios, enfermagem e alimentação. Cada um desses serviços tem um diretor de departamento com gabinete na sede da Angels Healthcare mas que visita regularmente os três hospitais. Essas pessoas têm feito análises repetidas vezes exatamente pelo motivo que sugeriu.

— Alguém deu positivo?

— Com certeza. Cerca de vinte por cento, que é o resultado esperado na população normal. De facto, a percentagem foi ligeiramente mais elevada no pessoal médico. E todos aqueles cuja análise foi positiva foram tratados com mupirocina até darem resultados negativos.

— Algum deles deu positivo para o MRSA adquirido na comunidade?

— Sim, bastantes.

— Sabe se o subtipo foi o mesmo que matou os vossos doentes?

— A nossa subtipagem foi feita com um sistema Vitek e apenas para resistência aos antibióticos, e sim, nalguns casos era o mesmo.

— A resistência aos antibióticos não é particularmente sensível em termos de diferenciação de sub-estirpes.

— Eu tenho consciência disso mas, uma vez que medicámos todos os que deram positivo para o staphylococcus, achámos que não era importante.

—Talvez—disse Laurie.—Mandaram alguns isolados para o CCD, para tipagem?

— Não, não mandamos.

— Porquê?

— Essa foi uma decisão tomada pela sede. Suponho que, uma vez que, como eu disse, estávamos a tratar todos aqueles cujas análises foram positivas, não havia necessidade de fazer uma maior caracterização. Além disso, já estávamos a implementar todos os procedimentos de controlo de infecções conhecidos.

— Informaram o CCD de que estavam a ter este surto de MRSA?

— Não.

— E a Comissão Conjunta de Acreditação de Organizações de Serviços de Saúde? Notificaram-na?

— Não, não notificamos. A Comissão Conjunta só precisa de ser notificada se a nossa percentagem geral de infecções for superior a quatro por cento durante o período de vigilância designado.

— Que é?

Laurie viu Loraine hesitar como se ela tivesse feito uma pergunta sobre um segredo de estado.

—Se não se sente à vontade, não precisa de me dizer—disse Laurie, acrescentando — Nem sequer sei porque é que estou a perguntar.

— E não sei porque é que estou a hesitar. De qualquer modo, é um intervalo de um ano.

— Mas se considerassem os últimos três meses, a vossa percentagem poderia ser superior a quatro por cento.

— É possível — concordou Loraine. — Mas não pensamos nisso.

— E o Delegado de Saúde da Cidade de Nova Iorque? — perguntou Laurie. — Suponho que o informaram.

—Claro—disse Loraine. — E também o epidemiologista municipal, o Dr. Clint Abelard, que nos fez várias visitas. Ele ficou muito bem impressionado com tudo o que estamos a fazer e não fez quaisquer sugestões adicionais, o que não é surpreendente, uma vez que nós tentámos tudo.

— Muito interessante — comentou Laurie. Sentia-se melhor em relação a ter feito a visita, pois Loraine não tinha ridicularizado nenhuma das suas ideias. Ao mesmo tempo, sentia-se relutante em mencionar mais algumas das suas estranhas idéias. — Seria possível dar uma volta pelo hospital? É verdadeiramente elegante, não se parece com nenhum dos que eu conheço.

— Com certeza—respondeu Loraine sem hesitar. — Temos todos muito orgulho dele, especialmente porque somos todos donos.

— A sério? — perguntou Laurie. — Como assim?

—A nossa Diretora Executiva, a Dra. Dawson, deu algumas acções a todos os funcionários quando fomos contratados. Não é muito, mas tem um certo valor simbólico. Na realidade, isso pode mudar para melhor no futuro próximo. A empresa deve entrar na bolsa dentro de algumas semanas. Se tudo correr bem, a nossa meia dúzia de acções poderá passar a valer alguma coisa.

— Bem, vou rezar uma pequena oração pela OIV.

—Obrigada — disse Loraine. — Segundo se diz, vai correr muito bem.

— Podemos ir visitar o hospital agora? — perguntou Laurie.

— Certamente — respondeu Loraine, levantando-se e abrindo a porta para a zona ocupada pelas secretárias. Laurie seguiu-a.

—O que é que gostaria de ver?—perguntou Loraine quando deixaram a zona administrativa e entraram na sala principal. — É mais luxuoso que os outros hospitais, mas, tirando isso, é basicamente a mesma coisa.

— Mas não tem urgências.

— Exactamente. Somos um hospital cirúrgico. Não queremos as camas ocupadas com outros doentes.

— É uma unidade de cuidados intensivos?

— Uma unidade de cuidados intensivos propriamente dita, não. Se esse tipo de cuidados for necessário, podemos isolar parte da unidade de recobro. Se a UR estiver demasiado cheia, enviamos os doentes para o Hospital Universitário. Poupa-nos muito dinheiro.

— Tenho a certeza que sim — concordou Laurie, mas a ideia de um hospital de cirurgia não ter uma UCI a funcionar em pleno incomodava-a.

Fizeram uma pausa no átrio, em frente dos elevadores.

— Não posso deixar de notar que parece muito tranquilo — disse Laurie. — Há muito poucas pessoas.

— Isso é porque o número de doentes é muito baixo, tem vindo a baixar desde que o problema do MRSA começou. Claro que o pior foi quando os blocos operatórios fecharam completamente. Durante esse período, mandamos todo o pessoal do hospital, incluindo o presidente, desinfectar tudo.

— Mas os blocos operatórios já estão abertos?

— Estão, com exceção da sala de operações em que Sr. Jeffries foi operado.

— A operação dele foi a única que foi feita na sala ontem?

— Não, não foi. Houve mais duas depois do Sr. Jeffries.

— E os doentes estão bem.

— Perfeitamente — disse Loraine. — Eu sei o que está a pensar. Nós também ficamos intrigados.

— Uma vez que fazem tão poucas intervenções, isso significa que os vossos médicos estão a fazer as suas operações noutros hospitais?

— É isso, infelizmente.

— E o Dr. Wendell Anderson?

—Ele é um dos corajosos, ou diria antes, leal. Ainda opera regularmente aqui.

Laurie acenou com a cabeça e imaginou-se a atar Jack à cama na quarta-feira à noite, enquanto ele dormia. Mais do que nunca, ela não queria que ele fizesse a operação.

— O que gostaria de ver?

— Que tal começarmos pelo vosso HVAC? Loraine olhou-a com um ar de espanto.

— Está a brincar?

— Estou a falar a sério — disse Laurie. —As salas de operações e a Unidade de Recobro têm um sistema separado do resto do hospital?

—Com certeza—disse Loraine.—Este é um hospital com tecnologia moderna. O HVAC das salas de operações está programado para mudar o ar de cada uma das salas de operações de seis em seis minutos. Não há necessidade que isso aconteça em todo o hospital. Até mesmo a zona do laboratório tem o seu próprio sistema, embora não com esse tipo de fluxo de ar.

— Mesmo assim, eu gostaria de o ver — disse Laurie. — Especialmente o das salas de operações.

— Bem, então vamos até lá—disse Loraine, carregando no botão para o quarto andar. Ela explicou que o segundo andar era para consultas externas, o terceiro para os blocos operatórios e Unidade de Recobro, bem como para o aprovisionamento central, e o quarto era para o laboratório e engenharia. A engenharia incluía o HVAC e o fornecimento de vários gases para as salas de operações e para os quartos dos doentes. Nos andares acima do quarto estavam os quartos de doentes. No último andar havia uma zona VIP especial que tinha quartos ligeiramente maiores e uma decoração mais luxuosa. O serviço, insistiu ela, era o mesmo.

— Todos os hospitais da Angels Healthcare são semelhantes? — perguntou Laurie.

— São essencialmente idênticos, tal como serão os seis hospitais cuja construção está prevista para breve: três em Miami e três em Los Angeles.

— Excelente — limitou-se a comentar Laurie. Ela estava impressionada com o edifício, mas lamentava o fato de o seu luxo representar a enorme quantidade de dinheiro que estava a ser roubada aos hospitais gerais como o Universitário ou até mesmo o Hospital Geral de Manhattan, que se viam constantemente a braços com dificuldades financeiras. A Angels Healthcare, tal como outros hospitais de especialidade, só estava interessada em doentes pagantes com problemas pontuais, não nos que não tinham seguro ou doentes crónicos. Além disso, as fortunas ganhas pelos donos, que eram homens de negócios, estavam também a ser sugadas ao sistema de saúde, ficando indisponíveis para o tratamento de doentes.

—Aqui estamos nós — disse Loraine quando a porta do elevador se abriu. — A engenharia fica à esquerda.

Em contraste com a elegante decoração de hotel de cinco estrelas do átrio, o quarto andar era o epítome do design minimalista de alta-tecnologia. Tudo cintilava num branco brilhante e o corredor estava imaculado. O som dos sapatos das mulheres fazia eco nas paredes nuas. Não havia quadros, nem placards, apenas portas brancas fechadas. A única cor vinha das obrigatórias tabuletas institucionais com letras vermelhas a assinalar as saídas nos dois extremos do comprido corredor.

— Eu acho que sei porque é que está interessada no nosso sistema de HVAC — disse Loraine enquanto percorriam o corredor.

— A sério? — perguntou Laurie. Ela própria não estava inteiramente segura. O que ela sabia sobre sistemas de HVAC era o pouco que tinha absorvido quando ela e Jack tinham feito obras na casa.

— Se está a pensar numa infecção transmitida através do ar, que é outra sugestão, na minha opinião, a doutora não é a amadora em epidemiologia que diz ser. Mas posso-lhe garantir que também já pensámos nisso, e temos feito inúmeras análises à água dos recipientes do sistema à procura do staphylococcus aureus. Já fizemos, inclusive, análises esta manhã, depois da tragédia de ontem.

— Alguma das análises deu um resultado positivo?

— Não, nenhuma! — disse Loraine enfaticamente.—O staphylococcus não é considerado uma bactéria patogénica transportada pelo ar, mas isso não nos impediu de considerar essa possibilidade e, embora os testes fossem negativos, despejámos todos os recipientes de água e tratámo-los.

— Eu também acho que o staphylococcus não se espalhou através do ar — disse Laurie. — Mas o facto de vários casos parecerem ter sido pneumonias primárias sugeriu que a infecção teve de vir através doar.

— Não posso contestar isso — disse Loraine —, pelo menos de uma perspectiva académica, mas posso fazê-lo de uma perspectiva prática. Eu sou presidente de uma comissão interdepartamental de controlo de infecções, que é exatamente o que o nome sugere: interdepartamental. Temos gente de todos os departamentos, tais como enfermagem, alimentação, engenharia, etc. Actualmente, o nosso representante do pessoal médico é um cirurgião e, quando estávamos a discutir a possibilidade de o staphylococcus se espalhar por via aérea, e pensando que o HVAC estaria envolvido, ele esclareceu-nos, fazendo-nos notar um facto importante. Os doentes sujeitos a uma anestesia endotraqueal ou a uma anestesia por inalação com máscara laríngea, o que acontece em todos os nossos hospitais quando há uma anestesia geral, nunca respiram o ar da sala de operações. O ar que eles respiram vem sempre através de tubos.

— Eles nunca respiram o ar ambiente? — perguntou Laurie. Lá se ia a sua única teoria sobre como as vítimas de MRSA estavam a adoecer.

— Nunca! — confirmou Loraine.

Loraine parou junto de uma das portas fechadas. Uma placa branca com letras pretas colocada ao nível dos olhos dizia: Engenharia.

— Vai ser um pouco barulhento aqui dentro — avisou ela. Laurie acenou com a cabeça enquanto Loraine empurrava a porta

pesada. Uma vez no interior, Laurie observou a enorme sala utilitária de teto alto. As paredes e o tecto eram de cimento. Uma teia de tubos, alguns deles isolados, outros não, serpenteavam para o exterior de vários tanques multicores e estavam pendurados do tecto. Tubos muito maiores faziam o mesmo depois de saírem ou entrarem das ventoinhas do tamanho de automóveis pequenos, cada uma delas montada em amortecedores de borracha.

— Há alguma coisa em particular que gostaria de ver? — gritou Loraine.

— Quais são as ventoinhas das salas de operações? — perguntou Laurie, também aos gritos.

Loraine conduziu Laurie ao longo de uma passagem relativamente estreita no meio do equipamento meticulosamente cuidado. A meio caminho da parede oposta, Loraine parou e tocou numa das ventoinhas.

— É esta. O refrigerador vem dos condensadores que estão no telhado, e a água quente vem das caldeiras da cave.

— Como é que têm acesso aos recipientes da água?

— Por esta porta de acesso — gritou Loraine, agarrando na maçaneta e puxando com força para impedir a sucção. Quando a porta se abriu, elas ouviram um assobio.

Laurie enfiou a cabeça na abertura e o vento despenteou-lhe o cabelo, fazendo-o esvoaçar em todas as direcções. Teve de o segurar para evitar que lhe tapasse a cara.

— O recipiente da água está ali — gritou Loraine apontando por cima do ombro de Laurie para a base das peças no interior da máquina.

Laurie anuiu. Estava interessada porque sabia que os recipientes de água do ar condicionado eram uma fonte frequente de surtos transmitidos através do ar, como a doença dos Legionários. Virou a cabeça para a boca das condutas eferentes, onde conseguia ver a rede de um filtro.

— Aquilo é um filtro? — gritou Laurie.

— Há dois filtros — respondeu Loraine, fechando a porta com um estalido. Loraine deu alguns passos em frente. Havia duas aberturas verticais semelhantes a ranhuras. Ela apontou para ambas com os dedos mindinhos. — O primeiro é um filtro normal para partículas relativamente grandes. O segundo é um filtro HEPA, para partículas até ao tamanho de vírus. E, antecipando a sua pergunta, nós já fizemos muitas vezes análises aos filtros HEPA à procura de staphylococcus. Só por duas vezes tivemos resultados positivos.

— Era o MRSA-AC? — perguntou Laurie.

— Era, mas não era significativo.

— Porquê?

— Porque o filtro HEPA impediu que ele se espalhasse.

— O que é aquela porta depois do filtro HEPA?

— É a porta de limpeza da conduta eferente. Nós limpamos todas as condutas uma vez por ano.

A cerca de um metro e oitenta de altura, a conduta eferente dividia-se, como um polvo, em múltiplas condutas mais pequenas, cada uma das quais ia para uma sala de operações diferente, para a Unidade de Recobro, e para a sala de espera do bloco operatório. Laurie conseguia distingui-las porque todas elas tinham uma placa de fórmica. Tal como a conduta principal, cada uma delas tinha uma porta de limpeza.

— Quando foi a última vez que as condutas foram limpas?

— Quando os blocos operatórios foram encerrados.

Laurie fez um aceno com a cabeça. Quando olhou ao longo do corredor no meio do equipamento, viu outra porta.

— Aonde é que aquela porta vai dar?

—A outra sala HVAC, muito semelhante a esta, mas que também tem geradores eléctricos. A seguir há uma porta que dá para dois elevadores de serviço e uma escada.

Laurie anuiu novamente, depois voltou para o outro lado da ventoinha das salas de operações. Tal como no lado eferente, havia uma porta para limpeza da conduta de retorno. Seguidamente, olhou para Loraine e encolheu os ombros.

— Não me ocorrem mais perguntas. É um sistema muito impressionante. E obrigada pela aula sobre ventoinhas. A Dra. parece conhecer tudo muito bem.

— Fazia parte da nossa formação em controlo de infecções em hospitais aprender mais sobre aquecimento e ventilação do que queríamos saber — gritou Loraine, apontando seguidamente para o caminho por onde tinham vindo.

Assim que a pesada porta de isolamento se fechou atrás das mulheres, o silêncio do hospital aparentemente vazio envolveu-a como um cobertor invisível. Laurie tentou ajeitar o cabelo, que, naquele momento, lhe dava o ar de ter andado a passear de descapotável.

— Gostava de ver um quarto dos doentes — disse Laurie. — Se a doutora tiver tempo. Eu não quero monopolizar a sua tarde.

— Com tão poucos doentes como temos atualmente, certamente que tenho tempo.

— Que tal o quarto do David Jeffries?

— Eu acho que está a ser limpo de alto a baixo. Podemos espreitar, mas tenho a certeza de que o pessoal da limpeza está lá.

— Então pode ser outro quarto.

Cinco minutos depois, Laurie estava num dos quartos normais. A mobília e a decoração estavam de acordo com a decoração de hotel de cinco estrelas da área da recepção. A cama e o resto da mobília não se assemelhavam nada ao que se encontra habitualmente nos hospitais. A televisão era um modelo de ecrã plano, preparado para ter televisão por cabo e acesso à Internet sem custos adicionais. Havia até um sofá estofado que se abria e transformava numa cama se um membro da família quisesse lá dormir. Mas o que mais impressionou Laurie foi a casa de banho.

— Meu Deus — disse ela quando espreitou para o interior. Era de mármore e tinha uma segunda televisão de ecrã plano.—Têm problemas em conseguir que alguns doentes vão para casa?

— É muito melhor que a minha casa de banho, posso garantir-lhe. Sem qualquer motivo específico para ver o quarto, Laurie fez de conta que estava a inspecionar a posição das saídas do sistema HVAC. Havia algumas em cima, perto do tecto, e algumas em baixo, perto do rodapé. O mesmo acontecia na casa de banho.

— Suponho que é tudo — disse Laurie.

— Há mais alguma zona do hospital que gostaria de ver?

— Bem... — respondeu Laurie, hesitante. Depois de ter visto a sua teoria preferida de que as vítimas do MRSA estavam a ser infectadas na sala de operações deitada abaixo pela presença de um filtro HEPA, e ainda mais por ter ficado a saber que os doentes que recebiam anestesia geral nunca respiravam o ar ambiente, Laurie estava convencida de que, sob o ponto de vista de resolução do mistério do surto do MRSA, a sua visita ao local era um fracasso completo. Ela certamente que não queria fazer Loraine perder mais tempo, embora a mulher fosse muito amável, ao ponto de parecer ter gostado de lhe mostrar o hospital. Laurie viu que ela se sentia orgulhosa da instituição.

— Não está a impedir-me de trabalhar — disse Loraine, adivinhando o motivo da hesitação de Laurie.

—Nesse caso, não me importaria de ver a zona das salas de operações, se fosse possível.

— Vamos ter de vestir batas cirúrgicas.

— Eu faço isso todos os dias.

Elas voltaram para trás em direcção aos elevadores, e Laurie reparou que os quadros nas paredes eram óleos verdadeiros e não cópias. Enquanto esperavam por um elevador, Laurie olhou para a sala das enfermeiras que ficava próxima. Atrás da sala havia uma bateria de monitores de ecrã plano de alta tecnologia, suficientes para monitorizar todos os quartos. Estavam todos apagados. Quatro enfermeiras e uma auxiliar estavam sentadas na sala, três delas em cadeiras e as outras duas em cima da secretária. Ouviam-se gargalhadas intermitentes.

— Estão a comportar-se como se não houvesse doentes neste andar — comentou Laurie.

— E não há — respondeu Loraine. — Foi por isso que a trouxe cá.

— Sabendo como é caro gerir hospitais, imagino que o Diretor Financeiro, quem quer que seja, deve andar preocupadíssimo.

— Isso eu não sei. Felizmente, não é minha responsabilidade, e eu não falo muitas vezes com os manda-chuvas.

— Já foi alguém despedido?

— Acho que não. Houve várias pessoas que tiraram voluntariamente licença sem vencimento, mas a administração está a contar que o número de doentes aumente imediatamente. Todas as nossas salas de operações estão a funcionar.

— Excepto aquela em que David Jeffries foi operado.

— Não foi aberta hoje porque está a ser limpa de cima a baixo, mas amanhã estará aberta.

Laurie sentiu-se tentada a perguntar se os doentes do dia seguinte marcados para aquela sala de operações específica seriam informados da experiência fatal de David Jeffries, mas não o fez. Teria sido uma pergunta provocatória à qual Laurie já sabia a resposta. Com demasiada frequência, era negada aos doentes informação que eles tinham o direito de conhecer para que o conceito de consentimento informado fosse realmente honesto.

Como exceção da sala dos médico, a decoração do andar do bloco operatório, ou do bloco operatório propriamente dito, pareceu a Laurie igual ao que ela esperaria encontrar num edifício da NASA: assepticamente funcional. Era também igual ao corredor do andar superior: tudo branco, com o mesmo tipo de chão. As paredes, porém, estavam revestidas de azulejos. Em contraste, na sala dos médicos predominava um verde suave e, também em contraste com o resto do hospital, havia muita actividade na zona do bloco operatório porque o pessoal do turno de dia estava a sair e o do turno da noite estava a chegar.

O vestiário das mulheres estava igualmente animado. Loraine deu uma bata cirúrgica a Laurie e indicou-lhe um cacifo. Enquanto as duas mulheres mudavam de roupa, Laurie ouviu uma conversa de Loraine com uma conhecida que estava a terminar o turno. Loraine perguntou-lhe se tinha havido muitas intervenções cirúrgicas nessa manhã.

— Poucas — respondeu a mulher. —Acho que toda a gente está a ficar um pouco farta de não fazer nada. Só duas das cinco salas é que estão ocupadas.

Cinco minutos depois, Laurie e Loraine entraram no bloco operatório e as portas duplas fecharam-se atrás deles, abafando o ruído das conversas na sala dos médicos.

A esquerda de Laurie havia um quadro negro para a marcação de cirurgias. O quadro estava em branco, o que sugeria que não havia quaisquer cirurgias em curso. A direita de Laurie estava a secretária do BO, com um balcão até ao peito, atrás do qual Laurie conseguia ver duas cabeças cobertas com toucas. Para além da secretária do bloco, havia uma porta aberta que dava para a UR. O corredor central estendia-se ao longo de aproximadamente trinta metros até uma parede ao fundo.

Loraine aproximou-se da secretária e as duas mulheres sentadas atrás dela ergueram a vista.

— Dra. Sarpoulus! — disse Loraine, surpreendida por ver a sua superior de controlo de infecções. — Não sabia que estava aqui.

— Existe alguma razão para que tivesse de saber? — perguntou Cynthia num leve tom de irritação.

— Bem, não, suponho que não—respondeu Loraine, transferindo a sua atenção para a outra mulher, cujo crachá dizia: Fran Gonzales, Supervisora BO. — Fran, tenho aqui uma visita que gostaria de dar uma espreitadadela ao nosso bloco operatório. — Loraine fez sinal a Laurie para que se aproximasse do balcão e apresentou-a como médica legista da Cidade de Nova Iorque.

Antes de Fran poder responder, Cynthia levantou novamente a cabeça. Já tinha recomeçado a ler as marcações do bloco operatório com que ela e Fran estavam ocupadas antes de Laurie e Loraine aparecerem.

—É médica legista?—perguntou ela num tom ainda mais irritado do que quando falara com Loraine.

— Sou — confirmou Laurie.

— Que diabo está a fazer aqui?

— Eu estou a... — começou Laurie a dizer, mas hesitou. Estava surpreendida com o tom e o olhar de desafio de Cynthia. Laurie não pôde deixar de se lembrar que Arnold lhe dissera que a mulher não tinha sido muito cooperante e se colocara na defensiva, dizendo-lhe que não se metesse onde não era chamado. A última coisa que Laurie queria era uma confrontação, sabendo que, ao visitar o hospital, estava, até certa medida, a exceder as suas competências. Steve Mariott, o MA da noite, tinha visitado o hospital na noite anterior, depois de a morte de Jeffries ter sido comunicada ao DML.

— Então? — perguntou Cynthia num tom impaciente.

— Eu fiz uma autópsia esta manhã a um doente que tinha sido operado ontem aqui, no Hospital Ortopédico Angels, e que morreu de uma infecção com um MRSA excepcionalmente agressivo.

— Nós sabemos isso perfeitamente, muito obrigada — retorquiu bruscamente Cynthia.

Laurie olhou de relance para Loraine, que parecia estar tão surpreendida como Laurie.

— Quando falei com os meus colegas, descobri que vocês tiveram vários casos semelhantes. Achei que era apropriado vir até cá, para ver se podia ajudar.

Cynthia riu-se com cinismo.

—E como é que pensou que podia ajudar? Tem formação em epidemiologia, controlo de infecções ou mesmo doenças infecciosas?

—A minha formação é em patologia forense — disse Laurie num tom defensivo. — A minha exposição à epidemiologia não tem sido muito ampla mas penso que, num surto deste tipo, uma das primeiras coisas que deve ser feita é subtipar os organismos com exactidão.

— Eu sou membro da ordem dos médicos como médica de medicina interna com uma sub-especialidade em doenças infecciosas, e tenho um doutoramento em epidemiologia. Quanto ao seu comentário sobre a subtipagem, a doutora tem razão, mas apenas se essa informação for necessária para a escolha de um método de controle. Na nossa situação, ela não foi necessária, pois a nossa Directora Executiva insistiu em que usássemos uma estratégia de controlo global. O nosso objectivo não foi poupar dinheiro, limitando-nos a uma abordagem parcial. Eu falei com um dos seus colegas há algumas semanas depois de ele ter autopsiado um dos nossos casos de MRSA. Garanti-lhe que tínhamos consciência do problema e que estávamos muito empenhados em resolvê-lo. E agradeci-lhe o telefonema.

— Isso está tudo muito bem—disse Laurie, sentindo a sua própria irritação a aumentar. — Tendo tido a dúbia honra de autopsiar o infeliz indivíduo esta manhã, posso dizer com alguma convicção que os vossos esforços para controlar o problema não têm sido bem sucedidos.

— Poderá ser esse o caso, mas certamente que não precisamos da sua interferência. O seu trabalho é dizer-nos qual foi a causa da morte e qualquer aspecto patológico que nós possamos não saber. A questão essencial é que nós sabemos perfeitamente qual foi a causa e o mecanismo da morte, e estamos a fazer tudo o que é humanamente possível para controlar este infeliz surto. O que pretende conseguir com uma visita à sala de operações? O que é que quer ver?

— Para ser totalmente sincera, não sei — respondeu Laurie. — Mas posso garantir-lhe que tem havido milhares de vezes em que as visitas ao local ajudam ou foram cruciais numa investigação forense. O Sr. Jeffries é oficialmente um caso do médico legista, e eu tenho obrigação de o investigar totalmente, o que neste caso significa ver o local da causa da sua morte. O mais certo é a exposição às bactérias que causaram a sua morte ter ocorrido na sala de operações em que fez a cirurgia.

— Já vamos ver — disse Cynthia pondo-se de pé. — Tenho de falar com alguém com mais autoridade que eu. Agradeço que aguarde na sala de espera da cirurgia. Volto já.

Sem mais uma palavra, nem sequer um olhar por cima do ombro, Cynthia dirigiu-se rapidamente para as portas duplas e saiu da sala.

Laurie e Loraine olharam uma para a outra com um ar surpreendido e confuso.

— Desculpe — disse Loraine. — Não sei o que é que lhe deu.

— Claro que a culpa não é sua.

—Ela está sob muita pressão — disse Fran, a supervisora do bloco operatório. — Desde o início que anda muito tensa, e só tem piorado. Ela está a levar todo este problema muito a peito, por isso tente não fazer o mesmo, Dra. Montgomery. Às vezes até se zanga comigo.

—Quem é que ela foi buscar?—perguntou Loraine.—O Sr. Straus, o director do hospital?

— Não faço a mínima ideia — respondeu Fran.

— Vamos voltar para a sala de espera—sugeriu Loraine a Laurie. —Acho que talvez seja uma boa ideia — disse Laurie. O surto de adrenalina provocado pela inesperada confrontação e pelas suas possíveis consequências fazia-a sentir-se ansiosa.

Enquanto se dirigiam para a sala de espera, Loraine acrescentou:

— Tal como a Fran disse, a Dra. Sarpoulus sempre foi muito nervosa. Tem a certeza de que quer ficar? Ela foi muito mal educada.

— Eu fico — disse Laurie, com algumas dúvidas. O que a motivava era a esperança de resolver a situação a bem com alguém mais racional do que Cynthia Sarpoulus. Sair dali com a desagradável situação por resolver não seria muito útil se tivesse perguntas adicionais e se fizessem queixa da sua visita. Laurie queria especificamente evitar essa possibilidade.

Na sala de espera da cirurgia, Laurie aceitou o café e as bolachas de água e sal que Loraine lhe ofereceu. Tinha andado tão ocupada que não almoçara e estava esfomeada.

— Então foi a Directora Executiva que decidiu não caracterizar mais minuciosamente as estirpes de staphylococcus envolvido no surto.

— Acho que sim — disse Loraine. — Eu pensava que tinha sido uma decisão da Cynthia, mas estou a ver que não.

Laurie tinha mais perguntas a fazer, mas os seus pensamentos foram interrompidos pela reaparição de Cynthia. Pela sua expressão, não estava mais bem disposta. Os seus lábios cheios, bem definidos, estavam premidos com firmeza um contra o outro, e ela caminhava com uma determinação óbvia. Atrás dela vinham um homem e uma mulher. A mulher era de altura média, tinha uma pele clara imaculada, traços aristocráticos e um capacete de cabelo curto e grosso. Vestia um elegante fato de saia e casaco e andava com uma firmeza decididamente autoritária, ao mesmo tempo que conseguia exalar uma feminilidade clássica.

O homem era a sua antítese, não apenas no gênero mas também no aspecto e na forma como se movia. Vestia um casaco de lã de xadrez amarrotado com cotovelos de cabedal, do género que Laurie sempre associara a professores universitários. Em vez de firmeza, ele projectava um ar de hesitação, e os seus olhos moviam-se constantemente, como se estivesse num ambiente potencialmente hostil.

— Dra. Montgomery — disse Cynthia com um ar triunfante. — Deixe-me apresentar-lhe a Dra. Angela Dawson, a directora executiva da Angels Healthcare, e o Dr. Walter Osgood, director de patologia clínica. Acho que é a eles que deve dirigir os seus comentários.

—Qual é o problema?—perguntou Angela. Pelo seu tom, era óbvio que a presença de Laurie não lhe agradava.

— Receio não fazer a mínima ideia — disse Laurie pondo-se de pé. Uma vez que eram quase da mesma altura, os seus olhos e os de Angela ficavam ao mesmo nível. Loraine levantou-se.

— Se alguém tem culpa da presença da Dra. Montgomery, sou eu — disse ela. — A doutora telefonou-me depois de ter autopsiado Sr. David Jeffries. Ela mostrou vontade de fazer uma visita ao hospital, como parte da sua investigação, e eu convidei-a. Ela só pediu para ver o nosso sistema HVAC do bloco operatório na área da engenharia, um quarto típico de um doente e o bloco operatório. Não vi qualquer problema nisso. Suponho que devia ter pedido autorização ao Sr. Straus antes.

— Uma vez que ele é o director do hospital, isso teria sido sensato — concordou Angela.—Ter-nos-ia poupado este embaraço. — Seguidamente, voltando-se para Laurie, acrescentou: — A doutora compreende certamente que esta é uma propriedade privada.

— Compreendo — disse Laurie. — David Jeffries é um caso do departamento de medicina legal, e eu tenho o poder de solicitar documentos e tudo o mais, bem como de visitar o local para investigarminuciosamente a causa e a forma da morte.

— Existem sem dúvida recursos legais que lhe permitem cumprir o seu dever, mas entrar por aí de rompante não é um deles. Já tivemos a visita de uma pessoa do vosso departamento na noite passada, e ela foi recebida com a hospitalidade apropriada. Eu terei todo o gosto em discutir isto com o diretor do DML, o Dr. Bingham, com quem já tive o prazer de me encontrar várias vezes.

Laurie sentiu um arrepio a percorrer-lhe a espinha. Embora soubesse que tinha o direito legal de fazer a visita, a última coisa que queria era que Bingham fosse arrastado para esta agitação ridícula, especialmente porque sabia, por experiência anterior, que ele provavelmente se colocaria do lado do hospital.

— Obrigada pela sua diligência — prosseguiu Angela. — Tenho a certeza de que o seu objectivo foi ajudar-nos mas, como bem pode imaginar, este problema tem afectado bastante não só os nossos doentes como também a nossa instituição e, com toda a franqueza, somos extremamente sensíveis à crise. Quando telefonar ao Dr. Bingham, vou-lhe dizer que não nos opomos a que a doutora ou qualquer outra pessoa do DML visite o nosso bloco operatório, mas exigiremos um mandato e que essa pessoa faça a análise de portador do MRSA. Como parte da nossa tentativa de resolver este problema, insistimos em que todos os que entrem no bloco operatório estejam limpos.

— Eu não tinha pensado nisso — disse Laurie, com uma ponta de culpa. Nunca lhe ocorrera que ela própria podia ser portadora, especialmente devido ao fato de ter autopsiado um indivíduo nessa manhã que estava cheio de bactérias.

— Nós, por outro lado, temos grande consciência desse facto. Mas a questão é que não estamos a tentar limitar a sua investigação. Ao mesmo tempo, temos a certeza de que uma visita ao nosso bloco operatório não seria nada esclarecedora. O epidemiologista da Delegacia de Saúde da Cidade de Nova Iorque, o Dr. Clint Abelard, que é um funcionário público como a doutora, inspeccionou o nosso bloco operatório em duas ocasiões e não encontrou nada. Claro que ele só foi autorizado a lá entrar depois de nos certificarmos de que não era portador do MRSA.

— Eu só soube que já cá tinha estado um epidemiologista depois de cá chegar — disse Laurie. — Obviamente que ele sabe muito mais do que eu. Desculpe se houve alguma má interpretação. Espero não lhe ter causado um grande incómodo.

— Não causou. Eu, a Dra. Sarpoulus e o Dr. Osgood estávamos aqui no hospital de ortopedia para a reunião mensal do pessoal médico. Não é como se tivéssemos vindo propositadamente da sede.

— Ainda bem.

— Há outra coisa que eu lhe quero dizer. A Dra. pôs em causa a nossa decisão de não subclassificar com exactidão as estirpes específicas do MRSA que está a causar tantos estragos. Eu pedi ao Dr. Osgood que me acompanhasse a este encontro consigo para lhe explicar. Eu sei que a Dra. Sarpoulus já referiu as razões, mas o Dr. Osgood pode explicá-las melhor, uma vez que é diplomado em Patologia Clínica e Microbiologia. É importante que compreenda que temos feito tudo o que estava ao nosso alcance para nos libertarmos deste problema. Qualquer outra coisa seria irresponsável.

Quinze minutos depois, Angela e Cynthia estavam num táxi que seguia para sul ao longo da Quinta Avenida. Walter tinha ficado para trás para se encontrar com o supervisor do laboratório do hospital. Angela e Cynthia iam em silêncio. Angela olhava pela janela do táxi e reparou que as árvores do Central Park mostravam os primeiros indícios de que a Primavera estava prestes a chegar.

Mas Angela estava a pensar menos na natureza e mais nos problemas da Angels Healthcare, que pareciam aumentar a cada dia que passava. A última coisa de que ela estava à espera naquela altura era de um problema com o departamento de medicina legal. O que a preocupava era a publicidade, algo que lhe causara apreensão desde o início. Quando os primeiros casos de MRS A surgiram, ela fizera questão de contactar o director do departamento de medicina legal para o convencer de que estavam atentos ao problema, ao ponto de o terem comunicado ao Departamento de Saúde da Cidade de Nova Iorque, encorajando o epidemiologista a ir ao hospital.

Angela virou-se para Cynthia.

— O que achaste daquela médica legista? Pareceu-te que ela é o tipo de pessoa independente?

— Absolutamente. Por que outro motivo viria ela visitar o nosso hospital quando não havia qualquer mistério sobre a causa da morte? Não gostei que ela lá fosse quando estamos a tentar manter o assunto secreto. Foi por isso que fui chamar-te. Pensei que fosse algo de que tu devesses tratar.

—Ainda bem que o fizeste. Desde o momento em que pus os olhos nela que a considerei uma ameaça. Não sei exactamente porquê, mas pareceu-me muito persistente e enérgica e, ainda por cima, muito inteligente. Reparaste como ela me fitou nos olhos? Amaior parte das pessoas apanhadas numa circunstância semelhante teria ficado embaraçada.

— Ela fez o mesmo comigo — disse Cynthia. — Eu confrontei-a logo assim que soube que era médica legista.

—Ela deixa-me preocupada—admitiu Angela. — Se ela conseguir que este problema do MRSA chegue à comunicação social, certamente que chamará a atenção dos investidores institucionais como parte das suas diligências. Se isso acontecer, o mais provável é que a OIV seja adiada ou, se não for, será seguramente um fracasso.

— Eu acho que foste fantástica a falar com ela.

— Achas? A sério?

— Acho. Em primeiro lugar, misturaste condenação e louvor, ameaça e elogios em quantidade suficiente para a desestabilizares. Em segundo lugar, foi óbvio que o teu aviso sobre telefonares ao chefe dela a afectou negativamente; eu acho que ela não vai fazer mais visitas, anunciadas ou não. E, por fim, fizeste-a compreender que há várias pessoas com muito mais formação em epidemiologia do que ela que estão a tentar resolver o problema. Tenho a certeza de que ela acha que cumpriu o seu dever.

— Espero que tenhas razão — disse Angela, não totalmente convencida.

—Tenho a certeza que sim. Fiquei impressionada. Foste brilhante. Tocaste-a como um violino.

Angela encolheu os ombros. Não estava assim tão segura. A sua intuição dizia-lhe o contrário, e que a Dra. Laurie Montgomery ia ser um problema. Angela perguntou a si própria se devia falar dela a Michael. Mas logo a seguir, depois de ter olhado pela janela durante algum tempo, Angela tirou subitamente o telemóvel da sua mala Louis Vuitton, abriu-o e carregou no botão para ligar à sua secretária.

—Loren? Arranja-me o número do telefone do Dr. Harold Bingham. — Para Cynthia, ela disse: — Quero ter a certeza absoluta de que a Dra. Laurie Montgomery se porta bem.

O Dr. Walter Osgood estava nervoso. Durante o tempo em que estivera a falar com Simon Friedlander, o supervisor do laboratório clínico do Hospital Ortopédico Angels, não conseguira deixar de pensar na visita surpresa da médica legista. Ele explicara-lhe o motivo por que aconselhara a não se darem ao trabalho de analisar o MRSA para determinar o seu subtipo específico. A mulher tinha acenado com a cabeça repetidas vezes como se tivesse compreendido, mas ele sentira que ela não estava de acordo. Era uma sensação subtil mas definitiva, e isso preocupava-o.

Quando terminou a reunião com Simon, que tinha sido tensa devido à preocupação e ao nervosismo provocados pela visita da Dra. Laurie Montgomery, Walter perguntou se podia usar o gabinete de Simon para fazer uma chamada particular. Quando estava sentado à secretária, reparou numa fotografia de família. Um dos filhos de Simon era da mesma idade que o único filho de Walter. Antes de fazer a chamada, Walter pegou na fotografia emoldurada de modo a poder ver a imagem do rapaz mais claramente. Era obviamente uma criança saudável, com uma enorme cabeleira despenteada e uma expressão propositadamente idiota mas feliz. Walter lutou contra uma súbita sensação de tristeza, raiva e inveja. Voltou a pousar a fotografia, fechou os olhos e respirou fundo para controlar as suas emoções perante a injustiça da vida. Naquele momento, o seu filho estava longe de ser saudável. Tinha-lhe sido diagnosticada uma forma rara e grave de doença de Hodgkin que exigia um tratamento que o seu seguro de saúde considerava "experimental". Naquele momento, o filho de Walter não tinha cabelo e perdera um quarto do seu peso.

Abrindo os olhos, Walter tirou a carteira do bolso e extraiu de lá um pedaço de papel com um único número de telefone com indicativo de zona de Washington, DC. Supostamente, era apenas para emergências, e ele perguntou a si próprio se aquela questão podia ser considerada uma emergência. Na realidade, não havia maneira de o saber. Tomando uma decisão súbita, pegou no auscultador e marcou um número.

Na outra extremidade, o telefone tocou várias vezes e Walter interrogou-se sobre o que diria se fosse atendido pelo voicemail. Mas quando pensou que ninguém ia atender o telefone, atenderam. Uma voz baixa e cansada disse:

— O que é? — Não houve sequer um "Está?"

—Aqui fala Walter Osgood... — começou Walter a dizer, mas foi imediatamente interrompido.

— Está a falar de um telefone fixo?

— Estou.

— Desligue e ligue para este número — disse a voz, ditando apressadamente um número e desligando.

Walter escreveu rapidamente o número na orla de um envelope dirigido a Simon. Depois marcou o número. A mesma voz atendeu imediatamente.

— Supostamente, não me deve telefonar a não ser que se trate de uma emergência. É esse o caso?

— Como é que eu sei o que é uma emergência? — respondeu Walter secamente. — Tanto quanto eu saiba, se não é agora, há-de ser.

— O que é?

—Uma médica legista de Nova Iorque chamada Laurie Montgomery veio ao Hospital Ortopédico Angels fazer perguntas.

— Porque é que isto é uma emergência?

— Ela tinha feito a autópsia a um doente que morreu ontem de um MRSA. Ela queria entrar na sala de operações, e esteve até na zona da engenharia.

— E depois?

— Para si, é fácil falar. Mas eu não gosto da situação. A seguir, pode vir nos jornais.

— Como é que ela se chama?

— Dra. Laurie Montgomery, do Departamento de Medicina Legal. O que é que vai fazer?

— Não sei. Mas mantê-lo-ei informado, e agradeço que faça o mesmo.

O telefone desligou-se. Walter olhou para o auscultador como se ele conseguisse responder à sua pergunta. Depois pousou-o. A parte mais estranha era que ele nem sequer sabia o nome do homem.

Antes de sair do laboratório, Walter apagou cuidadosamente o número de telefone que escrevera no envelope que estava em cima da secretária de Simon.

O táxi de Laurie estava agora a seguir velozmente para sul ao longo da Segunda Avenida, em direção ao DML. Mas, em vez de estar preocupada com a sua segurança, para além de se certificar de que o cinto de segurança estava bem colocado, Laurie estava obcecada com a sua surpreendente visita ao Hospital Angels. Nada fora como ela estivera à espera.

O edifício era mais luxuoso do que ela imaginara. E tinha havido toda uma gama de personagens, desde as simpáticas às mal educadas, e a Diretora Executiva, Angela Dawson, que não estivera à espera de conhecer, fazia decididamente parte da segunda categoria. Laurie perguntou a si própria se a mulher iria cumprir a ameaça velada de telefonar a Bingham. De acordo com a lei da Cidade de Nova Iorque, um médico legista tinha definitivamente o direito, quando investigava um caso, de fazer tudo o que fosse necessário para proteger o público, e a visita a um bloco operatório onde tinham ocorrido onze mortes por infecção em três meses seguramente que se encaixava nessa categoria.

Quando muito, a visita só intensificara a sua vontade de convencer Jack a não fazer a cirurgia, pelo menos até que o mistério do MRSA tivesse sido solucionado. Embora Angela Dawson tivesse expressado remorsos pelo mal que o surto tinha causado aos seus doentes, ela parecia igualmente preocupada com a instituição. Era como se os dois factores fossem equivalentes, o que chocou Laurie. Ela não conseguia acreditar que, naquelas circunstâncias, o hospital continuasse a efectuar intervenções cirúrgicas, que a diminuição de receitas fosse equivalente a vidas perdidas. A Directora Executiva tinha sido apresentada a Laurie como doutora, e Laurie partira do princípio que ela era médica, mas agora pensou que não devia ter formação em medicina. Não parecia possível que fosse doutro modo.

Ela tentou concentrar-se no surto, mas as contradições eram confusas. Embora soubesse que a transmissão do staphylococcus através do ar era possível, isso não era vulgar, sobretudo porque o staphylococcus não podia ser vaporizado como o antraz e outras ameaças de bactérias transportadas pelo ar. O staphylococcus permanece viável durante um espaço de tempo muito breve no exterior de um ambiente quente, húmido e rico em nutrientes e, quando algumas moléculas errantes aterravam no nariz ou na boca de alguém, ele comportava-se de uma forma admirável e nunca causava problemas. No entanto, na sua série de pneumonias que eram sobretudo primárias, ele tinha de ter sido transmitido pelo ar, e numa dose muito elevada. Mas isso significava que os doentes tinham de ter estado expostos na sala de operações a uma quantidade relativamente grande da bactéria patogénica. O problema com esse cenário era que o sistema HVAC tinha filtros HEPA que apanhavam vírus cem vezes mais pequenos que bactérias e, mesmo que alguns conseguissem passar, o ar do bloco operatório mudava de seis em seis minutos. Além disso, os pacientes a quem fosse administrada uma anestesia geral nunca respiravam o ar ambiente. Resumidamente, Laurie disse a si própria que era uma situação impossível. A sua série de casos não podia ocorrer nem natural, nem propositadamente.

—Já chegamos ao seu destino, minha senhora—disse o motorista de táxi através da divisória de Plexiglas.

Laurie pagou, ainda num semi-transe por causa do problema do staphylococcus, desceu do táxi e subiu as escadas do DML. Uma vez no interior, ficou surpreendida ao ver Marlene, que ainda estava no seu posto de trabalho.

— Não devia sair de serviço às três? — perguntou Laurie.

— A colega que me vinha substituir disse que ia chegar uns minutos atrasada — respondeu Marlene com o seu suave sotaque do sul.

Laurie acenou com a cabeça e dirigiu-se para a porta da sala de identificação.

— Desculpe, Dra. Montgomery. Tive ordens para lhe dizer, quando chegasse, que o Dr. Bingham quer que vá imediatamente ao gabinete dele.

Laurie sentiu-se corar. Intuitivamente, soube que Angela Dawson já devia ter telefonado a fazer queixa da sua visita. Com a sua aversão às confrontações com superiores, Laurie não estava interessada em ser chamada à pedra, se era isso que estava prestes a acontecer. Não que sentisse alguma culpa. Era apenas o receio de perder o controlo das suas emoções. Essa reação reflexa tinha começado ainda ela não era adolescente, e nunca desaparecera totalmente. Nessa altura, ela tivera uma confrontação horrível com o seu autocrático pai, que a tinha culpado injustamente da morte por overdose do irmão mais velho. Desde esse terrível episódio, era como se a sua reacção à confrontação tivesse vida própria e estivesse para além do seu controlo. Enquanto se aproximava da secretária de Bingham, a senhora Sanford, ela sentia as sinapses envolvidas a disparar, e preparou-se para a queda.

— Pode entrar — disse a senhora Sanford.

Ao passar pela secretária, Laurie olhou para a cara dela, na esperança de ter uma pista sobre o que a esperava, mas a senhora Sanford pareceu evitar os seus olhos.

— Feche a porta, Dra. Montgomery — gritou Bingham de detrás da enorme secretária cheia de livros e papéis. Laurie obedeceu. A utilização dessa formalidade por parte do chefe sugeria o pior.

— Sente-se! — disse ele, no mesmo tom.

Laurie sentou-se. Ela sabia que estava corada, mas não fazia a mínima ideia se isso era óbvio. Fez votos para que não fosse. O que mais a incomodava nas suas emoções reflexas era a preocupação de que as pessoas as interpretassem como um sinal de fraqueza. Laurie sabia que não era uma pessoa fraca. Demorara algum tempo a ter a certeza disso, mas agora tinha, e o facto de não conseguir controlar um comportamento que sugeria o contrário irritava-a.

— Estou decepcionado consigo, Laurie — disse Bingham num tom ligeiramente mais suave.

— Lamento muito — disse Laurie. Embora a sua voz tremesse um pouco, ela sentiu-se encorajada. Conseguiu conter as embaraçosas lágrimas.

— Ultimamente podia-se confiar em si. O que é que aconteceu?

— Não estou a perceber bem a sua pergunta.

— Acabei de falar ao telefone com uma Dra. Angela Dawson. Ela ficou furiosa quando apareceu sem avisar num dos seus hospitais privados, exigindo que lhe fosse facultada a entrada em zonas não autorizadas. Ela até ameaçou telefonar ao mayor.

Tendo, de momento, controlado as suas emoções, Laurie permitiu-se sentir uma irritação mais apropriada. Na sua opinião, Bingham devia tê-la apoiado e elogiado pelo seu espírito de iniciativa, em vez de se pôr ao lado de uma pessoa de negócios que estava obviamente mais preocupada com a sua instituição do que com os seus doentes.

— Então? — perguntou Bingham num tom impaciente. Apercebendo-se de que era importante controlar não só as lágrimas como a ira, Laurie explicou calmamente o motivo por que tinha ido ao hospital, bem como o que ficara a saber sobre as mortes causadas por um MRSA que estavam a ocorrer nos hospitais da Angels Healthcare, apesar dos louváveis esforços de controlo de infecção. Ela disse a Bingham que não tinha aparecido sem avisar, mas que tinha sido convidada pela presidente da comissão de controlo de infecções, que fora muito amável e se disponibilizara para mostrar o hospital a Laurie. Bingham resmungou para um punho parcialmente fechado e observou Laurie. Ele ficara, pensou Laurie, parcialmente apaziguado por ter ouvido o outro lado da história.

— Quantas vezes eu ou o Dr. Washington já lhe dissemos que a política do DML é que o trabalho de campo seja feito pelos MA e que a doutora, como médica legista, fica aqui a fazer o resto?

— Várias vezes — admitiu Laurie.

— Ah! — gritou Bingham. — Sem exagero, deve ter sido mais de meia dúzia de vezes. Nós temos investigadores forenses de nível mundial! Têm de os utilizar! Eles que percorram os hospitais da cidade e os locais onde ocorrem os crimes. Se não tiver trabalho suficiente, eu posso rectificar isso.

— Eu tenho bastante trabalho — asseverou Laurie, pensando em todos os casos que tinha pendentes à espera de informações adicionais.

— Então volte para o trabalho e despache mais casos! — disse Bingham num tom de fim de conversa. — E mantenha-se longe dos hospitais da Angels Healthcare. — Com o assunto resolvido, meteu a mão no seu cesto e pegou numa mão-cheia de cartas para assinar. Laurie permaneceu sentada. Bingham ignorou-a e começou a ler a primeira carta.

— Doutor—começou Laurie a dizer. — Posso fazer-lhe algumas perguntas?

Bingham ergueu os olhos. O seu rosto manifestou surpresa por Laurie ainda estar sentada à sua frente.

— Pergunte depressa!

— Eu não pude deixar de ficar surpreendida por não ter ficado chocado com o número de casos de MRSA que eu mencionei, nem com o fato de não ter sido ainda determinado como e porque eles ocorreram. Para ser franca, estou intrigada e preocupada.

— É óbvio que existem complicações terapêuticas — disse Bingham. — O como, eu não faço a mínima ideia, embora conheça alguns epidemiologistas que estão a trabalhar nisso. E, quanto ao número, bem, eu sabia que eram alguns, mas não tinha noção de terem chegado aos vinte.

— Como é que ouviu falar neles?

— De duas fontes, a primeira das quais foi a Dra. Dawson, há alguns meses. Ela informou-me que tinha contactado o Ministério da Saúde e o epidemiologista municipal a respeito do caso. A segunda foi um cirurgião meu amigo. Ele é um dos investidores da empresa e médico do Hospital Ortopédico Angels. De facto, antes deste problema do MRSA, era lá que ele fazia a maior parte das operações dos seus doentes abastados. Ele tem-me mantido a par da situação porque, há cerca de um ano, convenceu-me, bem como ao Calvin, a comprar algumas acções destinadas aos fundadores.

— O quê? — perguntou Laurie. — O doutor investiu na Angels Healthcare?

— Não investi muito — disse Bingham. — Quando o meu amigo Jason recomendou que o fizesse porque soubera que ela ia entrar na bolsa, pedi ao meu corretor que verificasse. Ele achou que parecia promissor. Na realidade, ele até comprou mais acções do que eu.

Laurie ficou de boca aberta a olhar para Bingham com um ar de espanto.

— O que é que lhe deu? — perguntou Bingham. — Porque é que está tão espantada? Os hospitais de especialidade satisfazem uma necessidade.

— Estou chocada — admitiu Laurie. — O doutor conhece esta Angela Dawson?

— Não posso dizer que a conheça. Falei com ela, tal como já lhe disse, e até a conheci numa recepção do major. É uma mulher impressionante. Porque é que pergunta?

— Ela é médica ou formou-se noutra área?

— É médica. Fez a especialidade em medicina interna. Laurie ficou ainda mais espantada.

— Está com uma expressão estranha. Em que é que está a pensar?

— Estou a pensar que é um pouco estranho o doutor estar a ordenar-me que me mantenha afastada dos hospitais da Angels Healthcare quando é investidor e existe um problema.

Os pêlos do nariz de Bingham ficaram dilatados.

— Eu não gosto dessa insinuação — disse ele em voz alta.

— Eu não quero parecer indisciplinada — acrescentou Laurie rapidamente. — Estou, de fato, a pensar em si. Talvez seja melhor não se envolver nesta questão.

— É melhor ter cuidado, jovem — disse Bingham num tom condescendente enquanto apontava um dos seus dedos gordos a Laurie. — Vamos esclarecer as coisas. Eu não estou, de forma alguma, a limitar a sua investigação do caso, e certamente que não estou a fazê-lo por causa do meu investimento. Eu só estou a dizer-lhe que não vá pessoalmente a esses hospitais, provocando a ira de pessoas com boas ligações políticas e colocando-me numa posição delicada. A única coisa que estou a dizer é que use os investigadores forenses para fazerem o trabalho de campo, como ando a dizer-lhe há anos. Percebeu?

— Perfeitamente — respondeu Laurie. — Mas gostava que soubesse que a minha intuição me diz que algo estranho se passa.

— É possível — concordou Bingham com relutância. Era óbvio que ele estava agora mais irritado do que quando Laurie entrara no gabinete. — Agora volte para o seu trabalho, para eu poder voltar para o meu.

Laurie obedeceu mas, antes de abrir a porta, ouviu Bingham dizer:

— Na realidade, segundo me recordo, a sua intuição teve sempre razão, por isso mantenha-me informado e, por amor de Deus, fique longe da comunicação social.

— Farei isso — prometeu Laurie. Tinha havido algumas ocasiões no passado em que ela, involuntariamente, dera informações confidenciais à comunicação social.

Enquanto subia de elevador para o quinto andar, Laurie não conseguia decidir se estava satisfeita por ter contido as lágrimas zangada por ter provocado Bingham. Inclinava-se para a segunda hipótese. Não tinha servido de nada acusá-lo de falta de ética; ela própria não acreditava nisso. A sua reacção devera-se ao choque de saber que o próprio chefe estava a apoiar uma organização cuja ética lhe parecia, no mínimo, questionável.

Com o seu cérebro num turbilhão, tanto emocional como racional, Laurie passou pelo seu gabinete e dirigiu-se ao de Jack. Depois de ter sido maltratada por Bingham e pela poderosa e bem relacionada Angela Dawson, precisava que lhe dessem um pouco de ânimo. Mas, para seu desapontamento, a cadeira de Jack estava vazia.

— Onde está o Jack? — perguntou ela a Chet, que tinha os olhos colados ao seu microscópio. Ele não a ouvira entrar.

— Foi fazer uma das suas viagens de campo—disse Chet, erguendo os olhos do trabalho.

— Ou seja?

— Tu sabes como é o Jack. Quando mais controvérsia, melhor! Ele autopsiou um caso em que os três interessados envolvidos estão a atacar-se uns aos outros devido à causa da morte. Era um trabalhador da construção civil que estava num arranha-céus e caiu do décimo andar.

— Eu conheço o caso — disse Laurie. — O que anda ele a fazer? — Depois de ter irritado Bingham, Laurie fazia votos para que Jack fosse discreto, uma qualidade que ele muitas vezes ignorava.

— Como é que eu hei-de saber? Ele disse qualquer coisa sobre reconstituir o crime mas, tirando saltar ele próprio do prédio, não faço idéia do que ele queria dizer.

— Quando ele voltar, diz-lhe que vim à procura dele.

— Com certeza — respondeu Chet num tom amável.

Laurie estava prestes a sair do gabinete quando se lembrou de perguntar a Chet sobre o seu caso de MRSA.

— Pois é — respondeu Chet. — Jack tinha-me dito que estavas interessada, por isso fui buscar o processo. — Ele empurrou a cadeira ao longo da secretária, e as rodas chiaram tanto que Laurie estremeceu. Tirou um processo de cima do arquivador e entregou-lho. — Chamava-se Julia Francova.

— Excelente — exclamou Laurie. — Fico contente por ainda o teres — prosseguiu ela, verificando o conteúdo para se certificar que era outro caso da Angels Healthcare.

— Porque é que estás tão interessada?

— Tive um caso semelhante esta manhã — explicou Laurie. — Tem havido bastantes casos nos últimos três meses: vinte e quatro, para ser exacta. Isso não apareceu no ecrã de radar de ninguém porque os casos foram distribuídos pelo pessoal, incluindo casos em Queens e Brooklyn.

— Eu não sabia dos outros — admitiu Chet.

— Ninguém soube. Eu ando a investigar e estou a ficar obcecada. Há algo estranho nestes casos, e eu vou descobrir o que é, mesmo que isso me mate. Já consegui provocar o nosso intrépido líder.

— Se eu puder ajudar, diz. O motivo por que eu ainda tenho o processo é que eu estou à espera que o CCD me dê uma informação antes de o encerrar.

— Não me digas que enviaste um isolado para subtipagem — perguntou Laurie, tentando controlar o entusiasmo.

— Enviei. Mandei uma amostra a um Dr. Ralph Percy. Obtive o nome dele através da central telefônica do CCD.

— Isso é mais do que fantástico. Eu telefono ao Dr. Percy por ti e ponho os resultados no processo. Assim, poupa-se um passo.

Ansiosa por acrescentar mais um nome à sua matriz, Laurie fez novamente menção de se ir embora. Desta vez, Chet chamou-a.

— Segui o conselho que me deste esta manhã e telefonei à minha nova amiga esta tarde — disse Chet.

— E depois? O que é que aconteceu?

— Perdi a cabeça e fui tão directo como sugeriste. Coloquei o meu ego em cima da mesa, mas ela mandou-me passear. Até lhe mandei flores, mas não tive sorte nenhuma.

— Ela foi malcriada?

— Não. Na realidade, eu estou a exagerar. Ela foi bastante simpática, embora eu tenha metido a pata na poça com a minha frase de abertura. Na véspera à noite, ela tinha-me dito que estava a tentar desesperadamente arranjar duzentos mil dólares para a empresa onde trabalha. Eu comecei a conversa dizendo que tinha encontrado o dinheiro na minha mesinha de cabeceira e que queria investir.

— Má estratégia.

— Obviamente. Ela disse que achou que eu estava a troçar dela.

— Eu penso que teria sentido o mesmo — concordou Laurie.:— Como é que as coisas ficaram?

— Em aberto. Eu dei-lhe o meu número do telemóvel.

— Ela não vai telefonar — disse Laurie com uma pequena risada. — Isso é pedir demasiado. Estás a fazê-la sentir-se como se fosse ela a agressora. Tens de voltar a telefonar-lhe a pedir desculpa pela piada.

— Queres dizer que eu devo voltar a telefonar-lhe depois de ela me ter mandado passear duas vezes.

— Se queres sair com ela, tens de telefonar. Se ela não quisesse que telefonasses, tê-lo-ia dito.

— Quando é que achas que devia fazê-lo?

— Quando a quiseres ver. Isso é contigo.

— Achas que devia telefonar-lhe outra vez hoje? Quero dizer, não estarei a ser demasiado insistente?

— Eu não ouvi a vossa conversa — comentou Laurie. — Mas tu disseste que as coisas ficaram em aberto. Há um ligeiro risco de ela se sentir incomodada, mas é mais provável que se sinta lisonjeada.

- Telefona-lhe! Arrisca! — disse Laurie, recuando para o corredor. — É óbvio que a queres ver. O que é que tens a perder?

— O resto da minha auto-estima.

— Disparate! — disse Laurie dirigindo-se para o seu gabinete. Chet pôs as mãos atrás da cabeça e recostou-se na cadeira, a olhar para o tecto. Sentia-se indeciso, mas confiava no conselho de Laurie. Ela era inteligente, intuitiva e, acima de tudo, mulher. Com uma determinação súbita, inclinou-se para a frente, pegou no Post-it em que escrevera o número da Angels Healthcare e fez a chamada.

Tal como no telefonema anterior, teve de passar pela telefonista para chegar à secretária de Angela. Seguidamente, depois de se ter identificado, ficou à espera. Enquanto aguardava, refletiu sobre se deveria ser jocoso ou sério, e decidiu ser simplesmente directo. Disse-lhe que estivera a pensar nela, que acabara de falar novamente com a colega, que o encorajara a telefonar outra vez.

— Espero não estar a aborrecê-la — acrescentou Chet. — Garantiram-me que isso não ia acontecer. Ela disse que havia um pequeno risco mas que, com toda a probabilidade, se sentiria lisonjeada. Quando lhe disse que lhe tinha dado o meu número do telemóvel, ela riu-se e disse que não ia telefonar.

— A sua colega parece-me socialmente astuta.

— Estou a contar com isso — disse Chet. — De qualquer modo, estou a telefonar por dois motivos: o primeiro é para pedir desculpa pela minha insensível tentativa de fazer humor.

— Obrigada, mas não é preciso pedir desculpa. Na realidade, eu reagi mal porque estou um pouco desesperada e preocupada. As suas desculpas estão aceites. Qual é o segundo motivo do telefonema?

— Pensei em convidá-la outra vez para jantar. Prometo que será a última vez, mas tem de comer, e talvez uma quebra de rotina lhe dê uma nova inspiração sobre onde poderá encontrar o capital de que precisa.

— A sua persistência é realmente lisonjeira — disse Angela com uma pequena gargalhada. — Mas eu estou, de facto, extremamente ocupada. Mas agradeço o telefonema, especialmente porque imagino que, como médico, deve ter uma sala de espera cheia de doentes.

— É possível que seja verdade — replicou Chet, refugiando-se no seu humor defensivo — mas eles estão todos mortos.

—A sério? — perguntou Angela, supondo que fosse um comentário jocoso mas sem perceber. — Não estou a entender.

— Eu sou médico legista—respondeu Chet. — Era para ter graça. Na realidade, eu estou livre esta noite a qualquer hora, a partir de agora. O que me falta terminar, posso sempre voltar mais tarde para o fazer.

— Trabalha aqui em Manhattan?

—Trabalho. Há doze anos. Eu sei que não é tão sensual como ser neurocirurgião mas, na minha opinião, é um desafio intelectual maior. Todos os dias aprendemos algo e vimos coisas que nunca tínhamos visto. Os neurocirurgiões fazem praticamente a mesma coisa todos os dias. Para dizer a verdade, se fizesse craniotomias todos os dias dava em maluco. Suponho que a empresa para a qual trabalha tem patologistas clínicos. — Chet calou-se, sem ter a certeza de como Angela estava a reagir ao seu tipo de trabalho. Na sua experiência, a reacção das mulheres era de fascinação ou de repugnância. Havia pouco meio-termo. Infelizmente, Angela não respondeu à sua última frase, que era propositadamente uma semi-pergunta. Por um momento, houve uma pausa, que fez Chet sentir-se progressivamente pouco à vontade, preocupado com a possibilidade de ter cometido uma gafe ao referir a sua especialidade médica.

— Está aí, Angela? — perguntou Chet.

— Sim, estou aqui — respondeu Angela. — Então trabalha no DML, com o Dr. Harold Bingham?

— Exactamente. Conhece-o?

— Até certo ponto. Também trabalha com uma tal Dra. Laurie Montgomery?

— Trabalho. De facto, ela acabou de sair do meu gabinete. É engraçado ter perguntado. Ela é também a minha assessora social.

— Sabe, acabei de me lembrar de uma coisa — disse Angela, para mudar de assunto — Alguns minutos antes de telefonar, recebi uma chamada da minha filha. Ela telefonou-me da casa de uma amiga.

Tinha sido convidada para jantar e queria perguntar-me se podia aceitar. Eu disse-lhe que sim.

— Isso significa que talvez esteja a repensar os seus planos para esta noite?—perguntou Chet, tentando não ter demasiada esperança.

— Significa — disse Angela. — Talvez tenha razão a respeito de uma mudança de rotina, e claro que eu preciso de comer. Hoje só consegui comer uma sanduíche à pressa.

— Isso significa que vem jantar comigo?

— Porque não — respondeu Angela num tom de afirmação, não de pergunta.

Durante os minutos seguintes discutiram a hora e o local. Por sugestão de Angela, decidiram ir ao San Pietro na 54 Street, situado entre a Madison e a Quinta Avenida. Chet nunca ouvira falar nele, mas Angela disse-lhe que era um dos segredos mais bem guardados de Nova Iorque. Ela acrescentou que faria uma reserva para as sete e um quarto e Chet concordou com entusiasmo.

 

                   3 De ABRIL DE 2007, 16.05

Não tinha sido um bom dia para Ramona Torres, de trinta e sete anos, mãe de três filhos com idades compreendidas entre os cinco e os onze anos. O marido acordara-a ao nascer do dia para a levar ao Hospital de Cirurgia Cosmética e Oftalmologia Angels para fazer a intervenção cirúrgica. Uma vez no hospital, ele tivera de a deixar na luxuosa entrada, onde o porteiro lhe tinha pegado na mala de fim-de-semana. Ela tinha acenado enquanto ele arrancava de regresso à casa no Bronx para dar o pequeno-almoço aos filhos antes de eles irem para a escola. Teria realmente preferido que ele tivesse entrado com ela para lhe dar apoio moral.

Ramona sempre tivera medo de hospitais mas, na última vez que estivera hospitalizada, por ocasião do parto do seu filho mais novo, os seus receios tinham aumentado significativamente com o parto. Após o parto difícil, ela tivera de ser operada de emergência e quase tinha morrido. Embora lhe tivessem explicado cuidadosamente que a embolia que sofrera não tinha sido culpa de ninguém e que tinha sido feito tudo para evitar uma complicação daquele gênero, Ramona continuava a culpar o hospital. Nem mesmo o marido de Ramona, um advogado, tinha conseguido fazê-la mudar de ideias, pelo que, quando entrou no hospital naquela manhã, o seu coração batia mais depressa do que era habitual, e o suor que lhe salpicava a testa não se devia ao calor.

Quando mudou de roupa e vestiu a bata tradicional do hospital na zona reservada para as cirurgias no próprio dia, Ramona sentia-se tensa e esforçou-se por não deixar que as enfermeiras e as auxiliares vissem que estava a tremer. Se lhe tivessem perguntado de que é que tinha medo, ela não teria sido capaz de lhes dizer, embora a possibilidade de sofrer outra embolia ocupasse um dos primeiros lugares da lista. Levar anestesia também estava na lista. A ideia de a sua vida ou morte estar dependente de outra pessoa, por mais prática que esta tivesse, era profundamente inquietante. Os erros aconteciam, e Ramona não queria ser outro erro. Como secretária de um médico, ela tinha conhecimentos mais do que suficientes sobre tudo o que podia correr mal.

Enquanto aguardava deitada na maca na zona de espera do bloco operatório, Ramona quase mudara de ideias sobre a intervenção cirúrgica. Mas a sua vaidade tinha prevalecido. Na última gravidez, ela aumentara muito de peso e nunca mais o perdera, como devia ter acontecido; na realidade, ele tinha aumentado ao ponto de a própria Ramona admitir que era obesa. Embora Ricardo, o marido, nunca lhe tivesse dito nada, ela sabia que isso não lhe agradava. Ela própria não gostava, especialmente desde que o filho mais velho, Javier, dissera que se sentia envergonhado. Tendo sido totalmente incapaz de restringir a ingestão de calorias, Ramona acabara por decidir fazer uma lipoaspiração; uma amiga fizera uma com grande êxito. Na esperança de obter um resultado semelhante, Ramona tinha ido ao cirurgião plástico da amiga e a operação fora marcada.

Após uma operação de três horas e meia, Ramona tinha acordado a vomitar e, embora isso já fosse desagradável, as coisas foram piorando progressivamente. O único ponto alto tinha sido uma rápida visita de Ricardo, que fizera uma pausa no trabalho para visitar Ramona quando ela foi transferida da unidade de recobro para o luxuoso quarto. Ele não pudera ficar muito tempo, e Ramona não se importou porque se sentia extremamente desconfortável. Não conseguia arranjar uma posição que não lhe agravasse as dores, e os analgésicos, que podia ministrar a si própria, pareciam não fazer qualquer efeito.

Meia hora depois de Ricardo sair, começou a tremer, cheia de frio, algo que nunca lhe acontecera antes. O frio começou no centro do seu corpo, depois espalhou-se até às pontas dos dedos. Alarmada, chamou imediatamente a enfermeira, que lhe trouxe rapidamente um cobertor. A enfermeira também viu a febre de Ramona e registou-a como 38,8, uma febre respeitável.

— Não é invulgar — dissera a enfermeira. — Com uma lipoaspiração extensa como a sua, é como se tivesse uma ferida muito grande, mesmo que só se consigam ver pequenas incisões na pele.

Ramona tinha-se contentado com essa explicação até terem surgido sintomas mais inquietantes. Ao mesmo tempo que sentia um peso no peito, teve um ataque de tosse e a sensação de que não conseguia respirar bem. Se Ramona não tivesse tido a embolia após o último parto, talvez não tivesse entrado em pânico como entrou. Estendeu a mão para a campainha e carregou repetidas vezes no botão.

— Senhora Torres, basta tocar uma vez — admoestou-a a enfermeira entrando rapidamente no quarto e aproximando-se da cama de Ramona.

Ramona explicou-lhe os sintomas que tinha e o medo de ter uma embolia pulmonar. A enfermeira viu-lhe novamente a febre, que tinha subido um grau, depois voltou a medir a tensão arterial, que estava ligeiramente mais baixa.

—Estou a ter uma embolia? — perguntou ansiosamente Ramona.

— Acho que não — respondeu a enfermeira. — Mas, mesmo assim, vou chamar o médico assistente e o seu cirurgião.

Nesse momento, Ramona tossiu, o que tinha tentado evitar, porque qualquer movimento agravava a dor pós-operatória. Quando tossiu e expectorou para um lenço de papel, viu algo que a alarmou ainda mais. E alarmou também a enfermeira. A quantidade considerável de muco não estava apenas raiada de sangue, era só sangue.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 16.15

Tinha sido um daqueles dias frustrantes para o Detective Lou Soldano. A única coisa positiva que tinha acontecido fora ficar a saber por Jack que a filha do seu amigo detetive não iria ser acusada de homicídio, o mesmo acontecendo, no outro caso, ao namorado da rapariga que morrera. Mas no que dizia respeito ao caso em que Lou estava realmente interessado, não chegara a lado nenhum. Mesmo após um enorme esforço, ele continuava sem fazer a mínima idéia de quem era o homem asiático que aparecera no rio. Nem sequer tinha a certeza se o homem era americano.

Depois da sua conversa com Freddie Capuso, em que ficara a saber que a vítima tinha sido morta porque estava prestes a denunciar qualquer coisa, Lou tinha voltado para a sede e ido à procura do Detective Ronnie Malden, no Crime Organizado. Ronnie não tinha ouvido falar no homicídio, por isso não pôde acrescentar nada. Em vez disso, ele dera algumas informações sobre Louie Barbera, incluindo o facto de que, como cobertura, ele geria um restaurante em Elmhurst chamado Venetian. Ronnie confirmou a opinião de Freddie de que as relações entre as organizações Lúcia e Vaccarro estavam longe de ser excelentes, mas não estava iminente uma guerra.

Lou foi então ao departamento de Pessoas Desaparecidas para ver se tinham feito alguns progressos na identificação da vítima. Não tinham, e Lou ficou com a impressão de que estavam à espera que uma participação de um desaparecimento aparecesse e fizesse o trabalho por eles. Lou tentou sugerir que talvez fosse importante ser um pouco mais pró-activo, mas isso não o levou a parte nenhuma.

Lou tinha-se até obrigado a si próprio a ir ao FBI. Ele detestava o seu ar de superioridade, como se pensassem que eram aristocratas e os polícias uma cambada de plebeus ignorantes. Ao contrário do Departamento de Pessoas Desaparecidas, eles ainda não tinham sido alertados para o caso. Lou fez o possível por fazer exactamente isso, mas eles disseram que preferiam ser informados através dos canais oficiais, o que significava "Deixem-nos em paz porque estamos demasiado ocupados para nos preocuparmos com o vosso insignificante projeto."

Foi nessa altura que Lou teve a ideia de ir a Queens visitar Louie Barbera. Enquanto atravessava a ponte de Queensboro, admitiu a si próprio que se fixara num único caso em detrimento de todos os outros que tinha pendentes, mas essa era a sua maneira de ser. Quando passou a ponte e entrou em Queens, estava totalmente empenhado em descobrir a história do homem asiático, acontecesse o que acontecesse.

Lou não teve qualquer dificuldade em encontrar o Venetian na Elmhurst Avenue. Fazia parte de um centro comercial relativamente novo encaixado entre a Fred's DVD e uma loja de bebidas alcoólicas. Lou deixou o carro no pequeno parque de estacionamento em frente do centro comercial. Dois automóveis mais adiante estava o tradicional Cadillac preto que fez Lou sorrir. Os mafiosos de nível médio faziam um esforço para passar despercebidos, e depois conduziam todos a mesma marca de carro. Não fazia sentido, embora, naquela ocasião específica, isso proporcionasse a Lou a indicação de que Louie Barbera se encontrava lá e estava disponível.

A primeira coisa em que Lou reparou quando entrou foi nos quadros de veludo preto de Veneza. Ele recordava-se de ver quadros daqueles em restaurantes italianos quando era jovem, mas há algum tempo que não os via. Também reparou que todas as mesas tinham toalhas aos quadrados brancos e encarnados, o que o levou de novo de volta ao passado. As únicas coisas que faltavam no Venetian eram as velhas garrafas de Chianti com velas e pingos de cera de vários anos agarrados aos lados.

— Estamos fechados — disse uma voz saída das sombras. Havia muito pouca iluminação e, tendo vindo da luz do dia, os olhos de Lou demoraram algum tempo a adaptar-se. Quando o fizeram, ele conseguiu distinguir cinco homens a jogar às cartas numa mesa redonda. A mesa estava salpicada de chávenas de café. Os cinzeiros transbordavam de cigarros.

— Eu calculei que estivessem — disse Lou. — Estou à procura de Louie Barbera. Disseram-me que o poderia encontrar aqui.

Por um momento, as cinco pessoas permaneceram sentadas como estátuas. Ao fim de algum tempo, um dos que estavam mesmo em frente de Lou disse:

— Quem é o senhor?

—Detective Lou Soldano, do NYPD. Sou um velho amigo de Paulie Cerino. — Lou pensou ver o grupo ficar tenso ao ouvir isto, mas podia ter sido imaginação sua.

— Nunca ouvi falar nele — disse o mesmo homem.

—Bem, não tem importância—disse Lou.—É o Louie Barbera?

— Talvez seja.

— Gostaria que me concedesse um minuto do seu tempo.

A um simples aceno de cabeça de Louie, os quatro homens sentados com ele à mesa levantaram-se. Dois foram para o bar deserto. Os outros dois dirigiram-se para a parede em frente do bar. Levaram todos as suas cartas. Louie fez um gesto na direcção da cadeira à sua frente e Lou sentou-se.

— Desculpe ter interrompido o vosso jogo — disse Lou observando a roupa vulgar e o corpo obeso do homem. Era óbvio que ele não estava ao mesmo nível que Vinnie Dominick.

— Não tem importância. Porque é que anda à procura de Louie Barbera?

— Eu quero fazer-lhe uma pergunta.

— E o que é que lhe quer perguntar?

— Se existe mais do que a animosidade habitual entre a gente da Lúcia e a da Vaccarro.

— E porque é que quer saber?

— Há por aí um rumor de que alguém foi morto ontem à noite.

Agora, quando uma coisa dessas acontece e a vítima está ligada a uma das duas famílias, os sentimentos de hostilidade podem transbordar, resultando numa briga grande. Nós, no NYPD, não nos importamos que os profissionais se matem uns aos outros, mas ficamos zangados quando pessoas inocentes ficam feridas. Numa eventualidade dessas, teríamos de vir até cá fazer uma limpeza. O que eu estou a dizer faz sentido?

— Faz — concordou Louie. — Mas eu não sei nada sobre uma morte.

— Tem a certeza? Quero dizer, eu estou a pensar nos seus interesses. Para o seu verdadeiro ramo de trabalho, e também para o meu, é sempre melhor manter a paz.

— Eu sou profissional da restauração. O que quer dizer com "verdadeiro ramo de trabalho"?

Lou reflectiu por um momento. Sentiu-se tentado a dizer ao palhaço que estava à sua frente que um jogo de identidade era um desperdício de tempo, mas pensou melhor e não o fez. Tossiu para o punho fechado e depois disse:

— Então deixe-me colocar as coisas deste modo: tem a certeza de que todos os seus empregados de mesa, ajudantes e cozinheiros vieram trabalhar hoje, particularmente os de ascendência asiática?

Louie encostou-se para trás e gritou para os homens sentados nos bancos do bar:

— Ei, Carlo, o pessoal veio todo hoje?

— Está cá toda a gente — respondeu Carlo.

— Aí tem, Tenente — disse Louie.

Lou levantou-se, tirou um cartão de visita da carteira e colocou-o em cima da mesa.

— Se, de repente, ouvir dizer alguma coisa sobre esta morte, dê-me uma apitadela — disse ele, dirigindo-se seguidamente para a porta. Depois de ter dado alguns passos, virou-se para trás. — Também ouvi um rumor de que o Paulie Cerino vai sair em liberdade condicional. Dê-lhe os meus cumprimentos. Nós conhecemo-nos há muito tempo.

— Serão entregues — disse Louie.

Assim que a porta se fechou, os quatro rufias voltaram para a mesa, sentando-se nas cadeiras que tinham ocupado antes. Carlo Paparo estava sentado à direita de Louie. Era um homem musculoso com orelhas grandes e o nariz achatado. Vestia uma camisola de gola alta preta debaixo de um casaco desportivo cinzento de seda e calças pretas.

— Conhecias aquele palhaço? — perguntou Carlo.

— Ouvi Cerino falar nele, mas não o conhecia pessoalmente. O Paulie detestava-o tanto que até gostava dele. Parece que eles andaram às turras durante tanto tempo que acabaram por se respeitar um ao outro.

— Ele tem tomates, aparecer aqui assim sem mais nem menos. Nenhum dos polícias de New Jersey faria uma coisa dessas sem um parceiro e uma equipa de apoio do SWAT à espera lá fora.

Louie tinha sido recrutado de Bayonne, New Jersey, para substituir o chefe da Vaccarro em Queens. Em Bayonne ele gerira um empreendimento semelhante, mas mais pequeno. Quando fizera a transição, trouxera consigo os seus subordinados de maior confiança, entre os quais se contava Carlo Paparo, que estava com ele há mais tempo, Brennan Monaghan, Arthur MacEwan e Ted Polowski. Às terças e quintas à tarde jogavam às cartas, a não ser que houvesse alguma operação importante em curso.

— Algum de vocês ouviu alguma coisa de Vinnie Dominick e o seu bando de cretinos terem limpo o sebo a alguém?

Abanaram todos a cabeça.

— Acho que é melhor verificar — disse Louie. — O detetive tem razão. Não queremos que a polícia ande por aí a cheirar e a arranjar-nos problemas mesmo quando estamos à beira de alargar as operações, principalmente a polícia da baixa. Com os tipos locais conseguimos lidar, mas mesmo isso pode mudar se os chefões arranjarem problemas.

— Como é que achas que podemos tentar saber?

— Podíamos contactar o fininho do Freddie Capuso — sugeriu Brennan.—Pode custar-nos alguns dólares, mas talvez ele saiba quem é que foi despachado.

— Ele sabe uma merda — disse Carlo. — Metade das vezes que o usamos, só nos deu lixo. Ele não passa dum moço de recados.

— Eu acho que devíamos seguir o Franco Ponti durante alguns dias — disse Louie. — Quando o Vinnie precisa de despachar alguém, ele usa sempre o Franco e, se houver mais mortes, prefiro saber logo quem é que foi apagado. Os Lúcia já estão a causar problemas suficientes. Não queremos que eles estraguem os nossos planos de expansão.

— Com aquela velha banheira que o Franco conduz, vai ser fácil segui-lo — disse Arthur MacEwan, provocando uma gargalhada geral. O carro de Franco era famoso no bairro, com os seus dados de espuma de borracha pretos e brancos e uma fotografia dele e da namorada da altura, Maria Provolone, no baile de finalistas, pendurados no espelho retrovisor.

— O que dá cabo de mim são as barbatanas — comentou Ted Polowski. — Aquilo é de quando, dos anos cinquenta?

— Sabem, eu estou a gostar cada vez mais da ideia de seguir o Ponti — disse Louie reflectindo sobre a sua própria sugestão. — Lembram-se de quando demos voltas à cabeça no ano passado para tentar descobrir como é que eles traziam a droga para a cidade, e nunca conseguimos saber?

—Nunca pensamos em seguir o Ponti! — exclamou Carlo batendo com a palma da mão na testa. — Como pudemos ser tão estúpidos? Quero dizer, tentámos tudo o resto.

—Talvez este pequeno episódio nos traga uma recompensa inesperada — disse Louie, sem saber que o seu comentário acabaria por ser profético.

— Quando é que havemos de começar? — perguntou Carlo. —Aminha mãe, Deus tenha a sua alma em descanso, dizia sempre:

"Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje."

— Pois, pois — acrescentou Carlo. — Porque hoje é o ontem de amanhã.

Brennan, Arthur e Ted esboçaram um sorriso descorado. Tal como sucedia com a maior parte dos ditos preferidos de Louie, eles já estavam fartos de ouvir os dois provérbios.

—Tempo é dinheiro — disse Louie erguendo as sobrancelhas com um ar trocista. Ele sabia que os seus soldados consideravam os seus adágios idiotas.

— Muito bem — disse Carlo.—Vamos ter de fazer isto por turnos. Começo eu. Quem quer vir comigo?

— Eu vou — respondeu Brennan.

— Mantenham-me informado — disse Louie.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 16.45

Alarmada com mais um caso de MRSA de Chet, Laurie retirou-se para o seu gabinete, ainda espantada com o fato de a série de infecções estar a ocorrer apesar de isso ser impossível, e desejando ter estudado mais epidemiologia durante o curso de medicina. Silenciosamente, reiterou para si própria a razão primária por que a infecção não devia continuar a ocorrer. Em primeiro lugar, os doentes eram todos aparentemente saudáveis e as pessoas saudáveis conseguiam geralmente reagir a um pequeno número de staphylococcus introduzidos no nariz ou na boca. Logo, para que uma pneumonia primária ocorresse, teria de ter sido introduzida uma dose de staphylococcus suficientemente grande num espaço de tempo relativamente pequeno, de modo a vencer as defesas naturais dos doentes. Mas, tal como Laurie tinha ficado a saber nesse mesmo dia, os sistemas HVAC dos hospitais da Angels Healthcare tinham sido concebidos de modo a que esse cenário não acontecesse. Para além do facto de o staphylococcus não poder ser vaporizado, era impossível existir uma súbita vaga de bactérias transportadas pelo ar numa sala em que o ar entrava através de um filtro HEPA cujo ar era mudado de seis em seis minutos, e cujos ocupantes tinham dado resultados negativos para MRSA e usavam máscaras cirúrgicas.

De uma perspectiva epidemiológica e científica, Laurie estava cada vez mais preocupada com a possibilidade de o problema do MRSA não ter causas naturais, e essa ideia conduziu-a ao pensamento mais inquietante de que o surto tinha de ser deliberado. Depois Laurie teve uma ideia. Havia uma pessoa na Sala de Operações que conseguiria provocar a pneumonia, e essa pessoa era a que dava a anestesia. Detendo o controlo da passagem do ar e muitas vezes ignorado, o anestesista podia, por qualquer meio diabólico, introduzir secretamente no aparelho respiratório staphylococcuss suficientes para causarem uma pneumonia fatal.

Com uma sensação de urgência, Laurie pegou na sua matriz e sentiu-se imediatamente aliviada. A matriz estava numa fase inicial mas, até mesmo com um pequeno número de registos, ela viu que havia anestesistas e anestesiologistas diferentes. Mas depois teve outro pensamento. E se não fosse uma pessoa só, mas sim um conluio de anestesistas e anestesiologistas envolvidos numa vingativa disputa laboral com a Angels Healthcare? Mas assim que imaginou a teoria da conspiração, pô-la logo de parte como produto do seu desespero em encontrar uma explicação. Até troçou de si própria por lhe ter ocorrido uma hipótese tão ridícula e paranóica, e jurou imediatamente não confessar a ninguém, especialmente a Jack, que tinha pensado numa coisa dessas. E, depois de ter regressado à racionalidade, apercebeu-se de que os maus não podiam ser anestesistas porque, nalguns casos, não se tratava de uma pneumonia necrosante primária, mas sim de infecções fulminantes adquiridas no local da incisão que tinham resultado na síndroma de choque tóxico.

Esgotadas as ideias, Laurie voltou para a matriz para ampliar e preencher os espaços vazios. Quando entrara no gabinete vira um bilhete de Cheryl colado ao ecrã do monitor a informá-la de que a maior parte dos registos que Laurie tinha pedido aos vários hospitais da Angels estava na sua caixa de correio electrónico e que os restantes chegariam no dia seguinte. Laurie também encontrou as encomendas enviadas pelos departamentos de medicina legal de Brooklyn e Queens com os processos dos seis casos que lá tinham dado entrada, bem como os processos dos dois casos em falta de Besserman e Southgate, que não estavam no gabinete deles quando Laurie trouxera os outros quatro.

Laurie abriu o correio electrónico e passou os olhos por todos os registos hospitalares que Cheryl lhe tinha enviado. Um a um, mandou-os para a fila da impressora que estava na administração. Por uma questão de facilidade de leitura, ela queria cópias em papel. A seguir, organizou os casos por hospital. Com os processos dos casos e os registos hospitalares, ela tinha muita informação, o que a fez perguntar a si própria se devia introduzir a sua matriz no computador. Embora a ideia tivesse mérito, ela decidiu que, por enquanto, iria continuar a usar o bloco de papel.

Quando pensou que deixara passar tempo suficiente, desceu à sala de informática para ir buscar a pilha de registos hospitalares impressos.

Enquanto subia novamente no elevador, reparou que eram perto das cinco e perguntou a si própria se Jack ainda voltaria, e quando. Quando saiu no quarto andar para ir ao laboratório de microbiologia falar com Agnes, tirou o telemóvel do bolso para se certificar de que estava ligado, para o caso de Jack telefonar. Era possível que, na sua viagem de campo, como Chet lhe chamara, ele estivesse mais perto de casa do que do DML e fosse directamente para casa em vez de voltar para o departamento.

— Estamos a fazer progressos — disse Agnes. Laurie tinha-a apanhado no processo de vestir o casaco para ir para casa. Fora mais um dos seus dias de dez horas. Agnes disse-lhe tudo o que tinha feito, o que incluíra confirmar que todos os casos da série de Laurie eram definitivamente o staphylococcus aureus resistente à penicilina. Ela assinalou seguidamente os locais para onde enviara as amostras de David Jeffries para uma subtipagem mais definitiva: o Laboratório de Referência do Estado, o CCD, e Ted Lynch do laboratório de ADN do DML, e avisou Laurie que o CCD seria mais eficiente do que o laboratório de referência do estado e que Laurie podia contar ter resultados deles dentro de dois ou três dias — quatro no máximo.

O comentário de Agnes sobre o CCD lembrou a Laurie que tencionara telefonar ao Dr. Ralph Percy a respeito do caso de Chet, mas um olhar rápido ao relógio sugeriu-lhe que talvez fosse demasiado tarde. Depois de agradecer rapidamente a Agnes por tudo que esta estava a fazer, Laurie subiu pelas escadas para ganhar tempo. Uma vez que não pedira o número de telefone ao Chet, teve de ligar para a telefonista do CCD. Quando esta a transferiu para a linha do médico, Laurie foi atendida pelo voicemail.

— Bolas! — murmurou ela antes de a mensagem do Dr. Percy ter terminado. O médico já tinha saído, e Laurie ficou irritada consigo própria por não ter telefonado assim que chegara do gabinete de Chet. Depois do bip, Laurie deu o seu nome, o número de telefone direto, o nome do doente, e disse que estava interessada na tipagem MRSA que ele fizera para o Dr. Chet McGovern. Acrescentou ainda que era médica legista e colega do Dr. McGovern.

— O que é que se passa?—perguntou Riva, que tinha voltado para o gabinete enquanto Laurie fora buscar os documentos à impressora.

—Tem sido um dia muito ocupado—queixou-se Laurie.—Queria falar com uma pessoa do CCD, mas já saiu.

— Há sempre amanhã — disse Riva.

— Espera que não estejas a tentar irritar-me — disse Laurie. Um comentário condescendente como aquele fazia-lhe lembrar a sua mãe.

— Oh, não. Quando muito, estava a tentar acalmar-te. Pareces exausta. Eu sei que tens andado preocupada a maior parte do dia.

— Isso é dizer pouco — disse Laurie, contando seguidamente a Riva o que fizera todo o dia e o motivo por que queria falar com o médico do CCD.

— E a mulher do CCD com quem eu falei? — sugeriu Riva. — Ligaste-lhe?

— Liguei. Ela foi muito prestável e disse que me telefonaria.

— Porque é que não tentas falar com ela? Tenho a certeza de que ela há-de ter acesso ao caso do Chet.

— Boa ideia — concordou Laurie. Ela tinha o número de Silvia Salerno num Post-it colado à orla do monitor. Enquanto a ligação era estabelecida, olhou para o relógio. Já passava muito das cinco. Foi novamente atendida pelo voicemail. Desta vez, não deixou mensagem, pois Silvia já concordara em ligar-lhe. Laurie desligou e abanou a cabeça.

— Dois em dois! — disse Riva num tom alegre. — No CCD deve haver recolher obrigatório.

Laurie deu uma gargalhada. O comentário de Riva sobre o mundialmente famoso CCD divertiu-a e, por mais improvável que isso fosse, e o fato de se rir possivelmente pela primeira vez em todo o dia fê-la aperceber-se de como estava tensa.

Riva pôs-se de pé e tirou o casaco de detrás da porta.

— Acho que vou seguir o exemplo do CCD e vou para casa. O trabalho com o Bingham esta manhã no caso da custódia policial esgotou-me.

— É verdade! — comentou Laurie.—Tenho andado tão ocupada que me esqueci de perguntar qual tinha sido o desfecho.

— Nada bom para a polícia, nem para a cidade — disse Riva — embora isso possa representar uma sorte inesperada para a família. O osso hióide estava fracturado em vários sítios, por isso houve obviamente um uso excessivo de força.

—Aúnica parte boa é que o Bingham tomará conta das inevitáveis repercussões políticas e legais.

— É verdade — disse Riva. — Nós, patologistas, só podemos dizer que foi um homicídio. Compete ao júri decidir se foi justificado.

Depois de vestir o casaco, Riva despediu-se mas, antes de ela sair, Laurie perguntou:

— Na próxima semana, quando estiveres a distribuir as autópsias pelos médicos, se houver mais casos de MRSA, dás-mos?

— Com certeza — respondeu Riva antes de se ir embora. Laurie voltou para a sua secretária com as três pilhas de processos

dos três hospitais da Angels Healthcare e a pilha de registos hospitalares impressos. Durante os três minutos seguintes, ela juntou os processos aos registos hospitalares respectivos. Tal como Cheryl dissera, ainda faltavam alguns registos.

Colocando a matriz à sua frente, Laurie pegou no registo hospitalar de David Jeffries e começou a ler. Enquanto lia, ia preenchendo os espaços que não conseguira preencher sem o registo hospitalar. Uma vez que continuava a pensar que ele tinha sido infectado na sala de operações, leu atentamente o relatório da anestesia, prestando atenção aos pormenores. Quando o fez, surgiram-lhe categorias adicionais em que não tinha pensado antes, nomeadamente o número da sala de operações, quanto tempo a operação tinha demorado, o tempo passado na UR e que fármacos lhe tinham sido dados na UR. Ao ler os apontamentos das enfermeiras, encontrou o nome da enfermeira instrumentista e o da enfermeira circulante. Com uma régua, fez linhas verticais para criar caixas para esta informação adicional.

Quando acabou de ler o registo hospitalar de David Jeffries, pegou noutro. Era um dos pacientes de Paul Plodget, um homem de quarenta e oito anos chamado Gordon Stanek. Tal como Jeffries, era um doente do Hospital Ortopédico Angels. E, tal como fizera com Jeffries, ela utilizou o registo hospitalar para preencher as caixas da sua matriz. Como já antes reparara nos dois casos de Riva, os anestesiologistas eram diferentes. Ela registou que as outras pessoas envolvidas com o doente, incluindo o cirurgião e as enfermeiras, também eram diferentes, tal como a própria sala de operações. Embora os dois doentes tivessem recebido anestesia geral, os agentes utilizados tinham sido diferentes. Também havia uma diferença na forma como o anestésico tinha sido administrado. Jeffries tivera um tubo endotraqueal, ao passo que Stanek tinha sido anestesiado por inalação com uma máscara laríngea.

Laurie recostou-se na cadeira e olhou primeiro para a matriz, depois para todos os processos e registos hospitalares. Ia ser um longo trabalho. No fim, o que ela esperava encontrar era algo comum a todos eles.

Laurie estava prestes a pegar noutro registo hospitalar quando um som de rítmicas pancadas surdas vindo do corredor lhe chamou a atenção. O ruído era baixo e distante e, se o edifício não estivesse tão silencioso, uma vez que já passava das cinco, Laurie talvez não o tivesse ouvido. Endireitando-se na cadeira, Laurie inclinou a cabeça para tentar ouvir melhor. Embora o ritmo se mantivesse, o volume do som foi aumentando. Era como se houvesse alguém, cada vez mais perto, a bater no chão com um martelo de borracha.

Um medo irracional percorreu Laurie como uma descarga elétrica.

A idéia de se levantar e trancar à porta perpassou-lhe a mente, mas ela estava petrificada, sem se conseguir mexer.

— Olá, querida — disse Jack, entrando no gabinete de Laurie apoiado nas canadianas. Inclinando-se, beijou Laurie na testa. — Nem vais imaginar o que eu tenho andado a fazer.

Jack encostou as canadianas ao arquivador de Riva e sentou-se na cadeira dela.

— Tenho andado a divertir-me imenso — disse ele, começando a explicar mas parando a meio da frase quando olhou melhor para Laurie. Inclinando-se para a frente e acenando a mão em frente do rosto de Laurie, perguntou: — Ei? Olá? Está alguém em casa?

Laurie afastou a mão.

— Estava tudo tão silencioso aqui, que tu e as tuas canadianas me assustaram — disse ela sem ter a certeza, por um momento, se se sentia mais aliviada ou zangada.

— Como é que fiz isso? — perguntou Jack, confuso.

—Porque... — começou Laurie a dizer, mas apercebeu-se de imediato de que era ridículo ter ficado assustada com o som das canadianas de Jack no chão de vinil do corredor. Também supôs que aquele fosse mais um sintoma de como estava exausta.

— Desculpa — disse Jack.

Laurie estendeu a mão e fez-lhe uma festa no joelho.

— Não tens de pedir desculpa. Se alguém teve culpa, fui eu. Tive um dia infernal.

— Não tem importância — disse Jack, recuperando a excitação com que entrara. — Queria contar-te o que estive a fazer nas últimas duas horas.

— Eu gostava muito de saber — replicou Laurie. — Mas estás a ver todos estes processos e impressões de registos hospitalares em cima da minha secretária?

— Claro que estou a ver — interrompeu Jack. — É difícil ver a tua secretária por baixo deles. Mas primeiro deixa-me falar-te sobre o caso que não quiseste.

— Eu acho que devíamos falar sobre os casos que estão em cima da minha secretária — disse Laurie.

— Dentro de um minuto — disse Jack num tom brusco. Seguidamente, num tom mais normal, acrescentou:—Meu Deus, que obstinada que tu és!

Não me fales em ser obstinada, pensou Laurie, mas ficou calada. Por vezes Jack podia ser uma lição de controlo de paciência.

— O visitante sou eu. Fui eu que vim ter contigo, por isso a minha história é a primeira. Está bem?

— Ótimo — respondeu Laurie num tom de frustração.

— De qualquer modo, obrigada por não teres querido o caso Rodriguez.

— Não tens de quê — disse Laurie, com pouca sinceridade.

—A causa da morte foi simples, como tenho a certeza que pensaste que seria. A vítima, um trabalhador da construção civil, caiu do décimo andar de um prédio em construção.

— Importas-te de ir direito ao assunto? — queixou-se Laurie. Jack fitou Laurie.

— Estás muito rabugenta.

— Não, só estou um pouco impaciente e desejosa de falar sobre algo que, com todo o respeito, acho que é mais importante.

— Está bem, está bem — disse Jack. — Então, para eu não ter de ouvir falar nisto durante uma semana, conta-me a tua história!

— Não, eu concordei que fosses tu o primeiro a falar, por isso acaba! Mas acelera um pouco.

Jack sorriu antes de prosseguir.

—O exame interno mostrou todos os tipos de traumatismos, incluindo o coração solto, rotura do fígado e fracturas expostas dos fémures. Mas eu sabia que isso não ia ajudar a identificar a forma da morte, por isso fui fazer uma visita ao local.

— Espero que não tenhas provocado a tua própria cena — comentou Laurie. — Porque eu também fui fazer uma visita ao local e, inadvertidamente, provoquei uma cena que fez Bingham cuspir fogo.

— Não, eu sou muito diplomático! — disse Jack. — Na verdade, divertimo-nos todos muito. O que eu fiz foi encher um saco de plástico com areia, oferecido pelo empreiteiro, com o mesmo peso da vítima. Depois, subi até ao décimo andar...

— Espero que não tenhas subido dez andares com o teu joelho lesionado — interrompeu Laurie.

— Não! — retorquiu Jack como se isso estivesse totalmente fora de questão. — Levaram-me no elevador das obras. Lá em cima, verifiquei onde é que o sujeito estava a trabalhar quando caiu. Por ironia, ele estava a colocar um corrimão de protecção temporário. Com um sujeito lá em baixo com um cronômetro, na primeira vez rolamos o saco para fora do parapeito como teria acontecido se o Sr. Rodriguez tivesse caído acidentalmente. E sabes a que distância do prédio o saco caiu?

— Não consigo imaginar.

— Um metro e oitenta, e demorou dois segundos e meio. Quando atiramos o saco como se o tivessem empurrado ou se ele tivesse saltado de livre vontade, adivinha onde é que ele aterrou em dois segundos ponto seis?

— Por favor, limita-te a contar a tua história.

— Sete metros, exactamente. Interessante, não é? Não foi um acidente.

— E se ele estivesse de pé na beira do prédio, fechasse os olhos e desse um passo em frente?

— Ele não faria isso. Ele não ia querer magoar-se batendo no prédio durante a queda.

— Tens a certeza?

— Tenho. Eu próprio pensei nisso uma vez, alguns meses depois da queda do avião.

— Oh — disse simplesmente Laurie. Era uma área que ela não queria revisitar naquele momento. De vez em quando, Jack ainda ficava deprimido.

— Vou considerar o caso um suicídio. Sabes porquê?

— Não faço a mínima idéia — respondeu Laurie. Apesar da sua irritação inicial, estava interessada.

— Porque um exame externo revelou que ele tinha cicatrizes em ambos os pulsos. Ele tinha tentado suicidar-se antes. Desta vez, utilizou um método mais eficaz e garantido.

—Muito interessante — disse Laurie com uma sinceridade duvidosa. — Agora, posso falar?

—Claro—respondeu Jack.—Mas eu acho que sei o que vais dizer.

— Sabes? — perguntou Laurie num leve tom de superioridade.

— Vais dizer-me que, pelo aspecto de todos estes casos, houve um surto de infecções pós-operatórias MRSA no Hospital Ortopédico Angels, e que tenho de cancelar a minha operação ou pelo menos adiá-la para uma data posterior indeterminada. Estou perto?

— Acertaste em cheio — disse Laurie —, mas acho que deves ouvir os pormenores.

— Não podemos fazer isso enquanto comemos qualquer coisa na Columbus Avenue?

— Quero dizer-te agora — confessou Laurie. — Estes casos de MRSA são verdadeiramente um mistério. Na minha opinião, o que está a acontecer não pode, na verdade, estar a acontecer, quer natural, quer intencionalmente.

As sobrancelhas de Jack ergueram-se quando Laurie mencionou a possibilidade de o MRSA estar a ser espalhado intencionalmente. Ele perguntou-lhe se achava que isso era realmente possível. Quando ela respondeu afirmativamente, ele não pôs a ideia de parte. Alguns anos antes, Laurie, após cuidadosa investigação, descobrira circunstâncias igualmente bizarras que toda a gente tinha ignorado.

— Muito bem. Conta-me então a versão integral, que eu prometo não interromper.

Primeiro, Laurie passou-lhe a sua matriz incompleta, seguidamente contou a Jack tudo o que fizera naquele dia, tudo o que aprendera e tudo o que estava pendente. Terminou com a frase: "Não há sequer discussão sobre se deves ou não fazer a operação. Não deves e pronto."

— Bem, lamento muito que o fanfarrão do Bingham te tenha dado um raspanete. Eu acho que a tua visita ao Hospital Ortopédico Angels devia ser um motivo para louvor, certamente não o oposto. Eu próprio me sinto intrigado com tudo o que me contaste, excepto com a tua conclusão final. Agora, por favor, não discutas comigo.

Laurie tinha tentado queixar-se.

— Eu deixei-te falar sem te interromper, por isso tem a mesma gentileza para comigo. Eu tentei ser pró-ativo hoje antecipando a tua tentativa de me fazeres mudar de ideias. Em primeiro lugar, essas infecções MRSA da tua série não são tecnicamente nosocomiais, uma vez que não ocorreram no espaço de quarenta e oito horas.

— É verdade — concordou Laurie —, mas essa definição é mais para fins estatísticos.

— O limite de quarenta e oito horas deve-se ao facto de as infecções ocorridas nesse espaço de tempo serem muitas vezes causadas por organismos de que o próprio doente é portador. E isso deve ser, sem qualquer dúvida, o que se passa nas tuas investigações, e eu acredito nisso por duas razões: uma é pelo que ficaste a saber na tua investigação, nomeadamente, que a contaminação não pode ocorrer natural ou intencionalmente, logo, é trazida pelos doentes; em segundo lugar, todos os casos parecem ser MRSA adquirido na comunidade, o que, por definição, é oriundo da comunidade ou, por outras palavras, do exterior do hospital.

— Posso dizer uma coisa agora? — perguntou Laurie.

— Se quiseres.

— O MRSA-AC, ou MRSA adquirido na comunidade, tem sido decididamente um problema nos hospitais, e tem-no sido há vários anos a um ritmo cada vez maior.

— Isso poderá ser verdade, mas eu acredito que o facto de o vírus ser exclusivamente MRSA-AC dá mais crédito à minha teoria. Mas, seja como for, também telefonei para o consultório do Dr. Wendell Anderson e falei com a enfermeira que faz as marcações. Pensando em ti, perguntei-lhe se seria possível, se eu adiasse a intervenção, ser marcado outra vez para as sete e meia. Ela disse que isso dependeria do médico, porque ele começa sempre às oito e meia ou nove, e que me estava a fazer um favor vindo mais cedo na quinta-feira.

— Então vamos adiá-la — disse Laurie.

— Eu não quero adiá-la. A questão é essa. Eu quis perguntar para o caso de mudar de ideias, mas não mudei.

— Porque não? — perguntou Laurie, obviamente irritada.

— Porque, quando mais depressa a fizer — rosnou Jack — mais depressa estarei em cima da bicicleta e no campo de basquetebol.

— Deus do céu! — exclamou Laurie, erguendo as mãos num gesto de frustração.

— Escuta! Depois eu pedi à secretária que dissesse ao médico para me telefonar, e ele fê-lo menos de uma hora depois. Primeiro, perguntei-lhe se tinha conhecimento do surto de MRS A nos Hospitais Angels. Ele respondeu que tinha e admitiu que para ele era um grande mistério, por causa de todos os mecanismos de controlo que o hospital tinha instituído, com enormes custos. As infecções tinham diminuído, mas ainda ocorriam, a um ritmo muito menor. Também me disse que ele próprio tinha instituído algumas medidas de controlo para além das que o hospital instituíra.

— Ele teve alguma infecção pós-operatória recente? — perguntou Laurie num tom incisivo.

—Ainda bem que fizeste essa pergunta — disse Jack, cheio de si. — Embora eu saiba que é uma questão sensível para os médicos, fiz-lhe directamente a pergunta. Para minha surpresa, ele disse que só tinha tido duas infecções pós-operatórias em toda a sua carreira, e todas três tinham sido operações a fracturas expostas, o que significa casos que, para começar, eram problemáticos. Além disso, todos os três tinham ocorrido no Hospital Universitário, não no Angels Ortopédico.

— Então ele não teve nenhum caso de MRS A.

— Bem, eu não sei que bactéria estava envolvida nos seus casos do Hospital Universitário, mas a questão é que ele não teve problemas com infecções no Angels.

Laurie desviou o olhar. Sentiu que estava a perder a discussão.

— Eu até fui mais longe — disse Jack. — Perguntei-lhe, de um médico para outro, se, se fosse ele, faria a operação tão pouco tempo depois da lesão, tendo particularmente em conta o problema de MRSA com que os hospitais Angels se debatem. — Jack fez uma pausa para obter o máximo impacto.

— E? — foi Laurie obrigada a perguntar.

— Ele disse imediatamente que a faria. E, além disso, disse que não operaria no Angels se não se sentisse tão confiante. Ele disse que a única coisa que faria pessoalmente era utilizar um sabão antibiótico durante vários dias antes da intervenção. Quando lhe disse que já estava a fazê-lo, ele disse que iria correr tudo bem comigo. Também disse que, quando eu fosse amanhã fazer as análises pré-operatórias ao sangue, ele mandaria fazer também a despistagem do MRSA e que, se eu fosse portador, insistiria em que fosse tratado e que a operação fosse adiada. A última coisa que ele disse foi que me veria na quinta-feira de manhã às sete e meia, e que eu estaria novamente a andar de bicicleta dentro de três meses e a jogar basquete dentro de seis.

Laurie olhou para pilha de casos e registos hospitalares. Sentia um misto de frustração, raiva e desânimo. Jack tinha tido argumentos bastante convincentes, nomeadamente a conversa com o seu cirurgião, que era muito respeitado e bastante famoso por operar atletas célebres. Mesmo assim, Laurie não podia deixar de sentir que, naquelas circunstâncias, ir avante com a cirurgia era uma decisão errada. Estaria bem se fosse uma urgência mas, neste caso, parecia-lhe uma loucura.

— Vamos! — disse Jack, erguendo-se e tocando-lhe no ombro. Laurie levantou-se, insegura.

Jack devolveu-lhe a matriz.

— Mesmo assim, eu acho que deves prosseguir com a tua investigação. Tem de haver uma explicação, e eu seguramente que gostava de saber qual é.

Laurie acenou com a cabeça, pegou na matriz e atirou-a descuidadamente para cima dos papéis que tinha sobre a secretária. Jack envolveu-a com os braços e apertou-a contra si.

— Obrigada por te preocupares — disse ele. Laurie retribuiu-lhe o abraço.

— Amo-te — disse Jack.

— Eu também te amo — disse Laurie.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 17.25

Então, como é que vamos fazer isto? — perguntou Angelo a Franco.

Os dois homens estavam no carro de Franco, parados no lado esquerdo da Quinta Avenida, entre as ruas 56 e 57. Havia uma fila de enormes urnas de cimento no passeio, presumivelmente para proteger a Trump Towers de veículos caprichosos. A entrada comercial do edifício estava por trás, obrigando a que um deles estivesse sempre a olhar por cima do ombro para manter a zona sob observação.

— Essa é uma boa pergunta — respondeu Franco. — Este não é o trabalho mais fácil que já me foi dado. Onde está essa descrição?

Angelo entregou-lhe um pedaço de papel.

— É a tua vez de ficares de vigia — disse Franco. Olhando para a frente, ele releu rapidamente a descrição. — Suponho que temos de nos basear no cabelo. Não consigo imaginar como será louro com madeixas verde-alface, mas parece quase assustador.

—Eu penso que a estatura vai-nos dar uma pista, pelo menos inicialmente — disse Angelo. Era mais fácil para ele olhar para trás quando estava sentado no banco do passageiro da frente. —Agora que o sol já se pôs e há muito mais gente a sair, é difícil ver a cor do cabelo. Suponho que é a hora de saída do trabalho.

— Se não a virmos dentro de pouco tempo, vou começar a ficar preocupado, a pensar que ela já passou e não a vimos.

— Não é isso que me preocupa — disse Angelo. — Tenho um mau pressentimento a respeito deste trabalho.

— Oh, vá lá, meu pessimista — comentou Franco. — Aprecia o desafio. A propósito, onde é que estão os easy-date e o gás que o velho Doutor Trevino te deu?

— Os comprimidos estão no meu bolso, e o etileno está no chão do banco de trás, juntamente com os sacos plásticos. É incrível como aquela coisa funciona depressa. Dois segundos e a pessoa apaga.

— Bem, não podemos usar o gás aqui em plena luz do dia. Bem, talvez já não seja tão plena.

— Claro que não, mas pode vir a ser útil se ela começar a fazer barulho quando a metermos no carro. Não quero ser obrigado a dar-lhe um tiro aqui dentro.

— Que diabo, não — disse Franco. — Não em cima dos meus estofos. Deixa-me ver os comprimidos.

Angelo meteu a mão no bolso do casaco e tirou de lá um envelope, que entregou a Franco. Franco juntou as pontas do envelope e olhou para o seu conteúdo. Eram dez pequenos comprimidos brancos aninhados no vinco do fundo.

— Quantas destas coisas é preciso usar? — perguntou Franco.

— O Doutor disse que basta um. A única coisa que é preciso fazer é deitá-lo num cocktail e, vinte minutos depois, podes enfiar-te nela.

— Porque é que ele te deu tantos?

— Sei lá. Talvez pensasse que nos podíamos divertir com os outros. Franco inclinou o envelope e despejou metade dos comprimidos para a mão. Depois meteu-os no bolso do casaco e devolveu o envelope a Angelo.

— Se usarmos um esta noite e funcionar, talvez experimente.

— Parece que vai ser uma bela noite — disse Angelo. — Viagra para ti e Rohypnol para a tua querida.

Recusando morder o isco, Franco disse:

— Acho que um de nós devia ir até ali adiante olhar bem para todas as pessoas que saem. Assim haveria menos probabilidades de não a vermos.

— Não é má idéia.

— E o que é que vamos fazer quando a virmos? — perguntou

Angelo. — Com esta gente toda por aí, não podemos agarrar nela à força.

— E o teu crachá da polícia de Ozone Park? Sempre disseste que faz maravilhas.

— Faz, mas não no meio de uma multidão. As pessoas ficam ousadas quando há gente por perto. Ela podia começar aos gritos, e há muitos polícias por aí.

— Já reparei nisso. Estou admirado por ainda não nos terem obrigado a sair daqui.

— Falaste cedo demais. Aí vem um agora.

Franco olhou por cima do ombro. Um polícia corpulento com uma barriga surpreendentemente grande vinha em direcção a eles, com um bloco de multas de trânsito na mão.

Franco olhou para Angelo e depois para o polícia. Em menos de dez segundos, ele estaria ao pé da porta do carro.

— Eu saio. Tu vais dar uma volta ao quarteirão.

— Porque é que não saio eu?

— Porque quem está a comandar as operações sou eu — disse Franco. — Vê lá se tens o telemóvel ligado. E, o que é mais importante, não estampes o meu carro.

Franco desceu do automóvel.

— Boa noite, senhor agente — disse ele. O polícia chegou no momento em que Franco tinha acabado de sair do carro.

—Aqui é proibido parar e estacionar—disse o polícia observando Franco e inclinando-se seguidamente para o interior do carro para olhar para Angelo.

— Ele só parou para eu sair, senhor agente — retorquiu Franco, inclinando-se também para fazer um aceno de despedida a Angelo. Angelo tinha deslizado ao longo do banco e já estava atrás do volante. Franco fechou cuidadosamente a porta.

— Ei! — chamou o polícia subitamente quando Angelo começava a afastar-se. Angelo parou, com o coração a bater aceleradamente. — O cinto de segurança! — gritou o polícia.

— Obrigado—disse Angelo com a voz tensa depois de ter descido a janela até meio.

O coração de Franco também tinha batido desordenadamente. Aliviado, ele sorriu ao polícia, depois começou a andar em direcção à entrada comercial da Trump Tower.

Amy Lucas olhou para o relógio na parede em frente da sua secretária. Viu, com enorme alívio, que eram finalmente cinco e meia, a hora a que normalmente saía. O dia tinha sido uma mistura de ansiedade e tédio. A ansiedade devera-se a ter sido chamada ao gabinete da Presidente Executiva e interrogada a respeito de Paul. Ela não conhecia a Presidente Executiva nem tinha sido alguma vez chamada ao seu gabinete. Embora desconfiasse que seria por causa de Paul, não tinha a certeza absoluta. Havia sempre a preocupação de ser despedida, não que tivesse feito nada para o merecer, mas sobretudo porque não se podia dar ao luxo de ser despedida. As necessidades financeiras evocavam nela uma espécie de paranóia, e as suas finanças já estavam a ser esticadas até ao limite pela despesa de manter a mãe num lar. Todos os meses representavam um esforço para manter o seu saldo bancário positivo.

A ausência de Paul também fora uma fonte de ansiedade. Há dez anos que trabalhava para ele e, cinco anos antes, tinha-o acompanhado na mudança para a Angels Healthcare. Quando, às dez horas da manhã, ele ainda não tinha aparecido, Amy temeu que algo errado se passasse, porque Paul Yang, como a maior parte dos contabilistas, era geralmente muito preciso e metódico, a não ser que tivesse estado a beber. Essa era a sua preocupação. À medida que o dia passava e ele não aparecia nem telefonava, Amy começou a pensar que ele tinha apanhado uma das suas bebedeiras, como acontecia antes de ter vindo trabalhar para a Angels Healthcare, e isso entristeceu-a. Nessa época, a situação fora difícil, porque ela tinha regularmente de arranjar desculpas para a sua ausência e, numa ocasião, tivera até de o ir buscar a um motel barato.

Depois do incidente do motel, ele apercebera-se do perigo da situação e, de um dia para o outro, ficara motivado para se manter longe do álcool. Só a Amy sabia que ele tinha ido a reuniões dos A A, tendo-o feito durante quase um ano. Ela tivera esperança de que ele se mantivesse longe do álcool para sempre, mas agora, às cinco e meia da tarde, estava certa de que ele tinha tido uma recaída.

Se fosse realmente verdade que ele voltara a beber, como pensava que acontecera, a culpa era da tensão sob a qual ele tinha estado por causa do estúpido do impresso 8-K e da agitação sobre se o devia entregar ou não. Ela sabia que Paul andava perturbado com o assunto porque ele lhe dissera especificamente, mas não lhe explicara porque é que andava tão agitado. Amy não era contabilista e nem sequer tinha um curso de secretariado. Era em grande parte uma auto-didata, embora tivesse tido as disciplinas apropriadas no liceu e fosse particularmente boa com o computador.

Algum tempo depois de ela ter preenchido o 8-K no computador portátil de Paul, ele chamara-a ao seu gabinete e depois, como se houvesse uma enorme conspiração no ar, dera-lhe uma pen que continha o ficheiro do 8-K.

— Quero que guardes isto — murmurou ele.—Põe-na num lugar seguro. Num ficheiro separado está o site da Comissão de Bolsas e Títulos na Internet.

— Mas porquê? — perguntara ela.

— Não faças perguntas! Simplesmente guarda-a, a não ser que me aconteça qualquer coisa.

Amy lembrava-se de o fitar nos olhos. Ele estava a ser tão melodramático que ela pensou que estivesse a brincar, porque ele tinha sentido de humor. Mas, ao que parecia, ele não estava a brincar, porque lhe disse que se podia ir embora e nunca mais voltara a falar na pen.

Agora, quando estava pronta para ir para casa, ela abriu a mala, tirou de lá a pen e olhou-a como se estivesse à espera que ela lhe dissesse qualquer coisa. Não pôde deixar de se interrogar se a ausência de Paul significava que ela devia entregar o 8-K. Quando lha dera, ele nunca explicitara o que queria dizer com "a não ser que me aconteça qualquer coisa". Seguramente que apanhar uma bebedeira se podia considerar como acontecer-lhe algo, mas Amy não tinha a certeza. Voltou a colocar a pen no bolso lateral e fechou a mala. O seu último pensamento antes de sair foi se devia telefonar para casa dele. Pensara nisso de vez em quando ao longo de todo o dia, mas não tinha a certeza se deveria fazê-lo. Pensou até em telefonar a uma das suas antigas namoradas, cujo número ainda tinha, mas decidiu não o fazer porque, tanto quanto sabia, há cinco anos que ele não contactava com ela. Suspirou, sentindo-se tão indecisa que achou melhor não fazer nada que piorasse a situação. Com esse pensamento, desligou o seu candeeiro de secretária e saiu do gabinete.

— Que raio se está a passar?—perguntou Carlo abanando a cabeça. Ele estava perplexo.

— Não faço a mínima ideia — disse Brennan.

Carlo e Brennan estavam no GMCDenali de Carlo, parado no lado direito da Quinta Avenida, na Grand Army Plaza. À direita estava a fonte Pulitzer com a estátua nua da Abundância em toda a sua glória.

Carlo e Brennan tinham começado a seguir Franco e Angelo assim que estes emergiram do Neapolitan. No parque de estacionamento do Johnny's, a uma distância segura, eles puderam gracejar sobre os dois soldados da Lúcia, tentando decidir qual deles tinha um aspecto mais estranho. Para eles, Franco parecia um falcão, com o seu nariz estreito parecido com uma machadinha e olhos salientes, enquanto Angelo parecia alguém saído de um filme de horror com o rosto cheio de cicatrizes.

— Que par! — tinha comentado Carlo pousando a sua sanduíche em cima do tablier e metendo as mudanças.

Tinha sido fácil segui-los, pois o carro de Franco distinguia-se na multidão com as suas barbatanas eretas e os pneus com faixas muito brancas. O único local problemático fora à entrada da ponte de Queensboro, pois tinham apanhado um semáforo vermelho e deixado de ver o carro de Franco. Após um breve período de ansiedade, tinham conseguido encontrar as suas presas, graças a um semáforo no lado de Manhattan. A partir daí, tinham seguido para a Quinta Avenida sem qualquer problema até Franco parar subitamente pouco depois da entrada comercial da Trump Tower.

Franco estacionara tão precipitadamente que Carlo teve que virar para a direita na 55th Street e dar a volta ao quarteirão. Esta manobra causou-lhes alguma apreensão, pois recearam perdê-los mas, quando regressaram à Quinta Avenida, viram que o carro de Franco ainda estava parado no mesmo sítio.

Durante os trinta e cinco minutos seguintes, Carlo e Brennan tinham ficado onde estavam, ao lado da Abundância nua, a observar alternadamente o carro de Franco com uns binóculos que Brennan tinha tido a boa ideia de trazer. Não conseguiam ver grande coisa, apenas duas silhuetas que, a julgar pelos gestos intermitentes, conversavam animadamente. Enquanto aguardavam, acabaram as sanduíches que tinham comprado no Johnny's. Sem saberem para onde iam nem quanto tempo demorariam, eles tinham aproveitado para comprar comida.

A vigilância tornou-se gradualmente mais enfadonha até ao momento em que o polícia do NYPD apareceu e se aproximou do carro. Os dois homens sentaram-se um pouco mais direitos.

— O que é que se passa? — perguntara Carlo. Brennan tinha agora os binóculos.

— Não sei. Eles estão só a falar.

— Deixa-me ver! — disse Carlo, tirando os binóculos ao colega, que estava abaixo dele na hierarquia da organização. Carlo e Brennan conheciam-se há muitos anos, pois tinham andado no mesmo liceu, embora Carlo fosse dois anos mais velho. Além disso, tinham vivido no mesmo bairro.

— O Franco está a vir na nossa direcção—disse Carlo continuando a olhar através dos binóculos.

—Oh-oh! — exclamou Brennan num tom de urgência.—O Angelo está a arrancar com o carro! O que é que vamos fazer?

— Vamos continuar com o Franco — disse Carlo. — Ele parou à entrada da Trump Tower. Acho que está à espera que saia alguém do edifício.

— E o Angelo? Eu podia sair e ficar com o Franco enquanto tu vais atrás do Angelo.

Carlo abanou a cabeça.

—Aposto que o Angelo só foi dar uma volta ao quarteirão. Vamos ficar onde estamos. Estou a começar a pensar que eles planeiam raptar alguém.

— Isso é uma loucura, com tanta gente à volta, já para não falar nos polícias.

—Acho que tens razão—disse Carlo, acrescentando rapidamente: — Penso que ele já viu a pessoa que pretende. Acabou de atirar o cigarro para a sarjeta.

— Quem é, é homem ou mulher?—perguntou Brennan, olhando para os binóculos e resistindo ao impulso de os arrancar da mão de Carlo. Afinal de contas, ele é que tinha tido o bom senso de os trazer.

—Acho que deve ser a rapariga do casaco verde. Ela está a tentar apanhar um táxi, e ele também. Aposto que está danado por não ver o Angelo.

Carlo atirou os binóculos para o colo de Brennan e engatou o Denali.

— O que é que vamos fazer? — perguntou Brennan enquanto procurava Franco e a rapariga. — Meu Deus, a rapariga parece ter doze anos. Porque é que o Franco e o Angelo andarão atrás dela?

— Não faz muito sentido.

— Oh-oh! A rapariga entrou no táxi e está prestes a deixar o Franco encalhado. Vamos segui-la, ou ficamos com o Franco?

— Ficamos com o Franco, idiota.

Brennan desviou os olhos dos binóculos e lançou um olhar irado a Carlo. Não gostava que lhe chamassem idiota.

— Bem, o Franco está com sorte. Também conseguiu apanhar um táxi. Agarra-te! Vamos às corridas.

— Deve estar a brincar — disse o motorista de táxi, virando-se para olhar para Franco, sentado no banco de trás. — Siga aquele táxi! É a primeira vez que ouço isso sem ser no cinema. Está a falar a sério, meu, ou é uma piada?

— Não é brincadeira nenhuma — respondeu Franco. — Se não perder aquele táxi de vista, recebe vinte dólares de gorjeta.

O motorista encolheu os ombros e concentrou-se na condução. Uma gorjeta de vinte dólares merecia bem um pouco de esforço extra.

Franco andava aos solavancos no banco de trás e teve dificuldade em manejar o seu telemóvel. Desistiu por um momento e tentou pôr o cinto de segurança. Quando conseguiu colocá-lo, deixou de ser atirado de um lado para o outro com tanta frequência, especialmente porque o carro, depois de ter atingido alguma velocidade, deixara de balouçar tanto. Ainda assim, foi relativamente difícil marcar o número, porque o motorista mudava frequentemente de faixa.

— Onde estás? — perguntou Franco assim que Angelo atendeu.

— Estou preso no trânsito, na Sexta Avenida, no sentido norte. Onde estás tu?

— Num táxi em direcção a sul, na Quinta. O pássaro voou.

— Certo. Assim que puder, sigo para sul.

Franco fechou o telemóvel. Estava irritado consigo próprio por dois motivos: devia ter tido um plano para quando a rapariga ou mulher, o que quer que fosse, aparecesse. Mais importante ainda, devia ter insistido para que levassem o Lincoln utilitário de Angelo, em vez do seu querido Cadillac. A idéia de Angelo estampar o carro ou até mesmo de o amolgar no trânsito da hora de ponta da Cidade de Nova Iorque punha-o doente.

— Estamos a aproximar-nos do táxi em causa—disse o motorista num tom de orgulho. — Quer que pare ao lado dele?

— Não! — respondeu rapidamente Franco. — Mantenha-se atrás dele.

Os dois táxis desceram a Quinta Avenida a uma boa velocidade, apanhando os semáforos verdes. Franco começou a perguntar a si próprio se a informação que Paul Yang lhes dera sobre ela viver em New Jersey estaria errada, ou, se estava correcta, se ela iria a algum lugar da cidade nessa noite, o que complicaria as coisas.

Os receios de Franco desvaneceram-se perto da Biblioteca Pública de Nova Iorque, quando o táxi de Amy travou e virou à direita. Franco descontraiu-se um pouco, pressentindo que iam em direcção ao Terminal de Autocarros da Autoridade Portuária.

Abrindo o telemóvel, Franco telefonou a Angelo.

— Onde estás? — perguntou ele, tal como fizera antes.

— Estou a virar para sul na Sétima Avenida—respondeu Angelo. — Onde estás tu?

— Estamos a ir para oeste. Tenho praticamente a certeza de que vamos para o terminal dos autocarros mas, quando chegarmos à Oitava Avenida, ficarei a saber melhor.

— O que é que vais fazer?

— Não sei, especialmente porque não sei se vais lá estar. Suponho que tenho de a seguir até dentro do terminal e apanhar o mesmo autocarro que ela.

— Sortudo.

— Vai-te lixar — disse Franco, lamentando não ter pensado mais rapidamente quando o polícia se aproximara do carro. Em vez de ter saído, devia ter mandado Angelo sair.

— Se não me disseres nada antes, quando chegar à estação dos autocarros eu telefono-te.

— Está bem.

— Espero que valha a pena.

— Vale a pena—disse Franco. — Há milhões de dólares em jogo.

Franco fechou o telemóvel no momento que chegavam ao semáforo na Oitava Avenida. Conforme calculara, viraram à direita. Cerca de um minuto depois, ele atirou o dinheiro da corrida mais uns trocos e os vinte dólares extra através da abertura da divisória de Plexiglas e saltou do táxi antes de este estar completamente parado. Amy já estava a entrar no terminal.

Conforme seria de esperar, à hora de ponta o terminal era um mar de gente. Seguir Amy era fácil por um lado e difícil por outro. A parte fácil era a cor estranha do seu cabelo, que era como uma luz fluorescente. A parte difícil era a sua altura. Se não estivesse constantemente atento, Franco deixaria de a ver em poucos segundos.

Subitamente, surgiu um problema que Franco não antecipara. Amy colocou-se numa fila para comprar um bilhete, mas Franco não fazia a mínima ideia de qual seria o seu destino. A medida que a fila andava rapidamente, Franco entrou em pânico. Pensou em ir mais para a frente e colocar-se ao seu lado quando ela pedisse o bilhete, para poder ouvir para onde ela ia. Mas pôs a ideia imediatamente de parte. Não queria chamar a atenção para si próprio, pois não queria que ela o reconhecesse mais tarde. Apenas mais um rosto na multidão não era problema, mas fazer qualquer coisa invulgar mesmo ao lado dela era outra história.

Franco era a quarta pessoa atrás de Amy e, quando ela chegou ao guichet, ele inclinou-se para a frente numa tentativa de ouvir o que ela dizia, mas não serviu de nada. Quando ela se afastou do guichet, levava o bilhete na mão, e passou perto dele.

Foi então que Franco se apercebeu de que havia mais um problema. Amy estava a afastar-se e havia três pessoas à sua frente. Entrando novamente em pânico, tentando não perder Amy de vista, ele avançou, dizendo:

— Desculpem, vou perder o meu autocarro, importam-se?—Com alguma relutância, várias pessoas deixaram-no passar. A terceira, um homem, porém, não se mexeu.

— Eu também não quero perder o meu autocarro, amigo — disse o homem. O seu rosto estava coberto com um pó branco fino, o que sugeria que era estucador ou pintor.

Pouco habituado a ser contrariado e preocupado com a possibilidade de perder Amy, Franco sentiu uma onda de ira a invadi-lo. Dominando-se com alguma dificuldade, disse:

— Eu não posso perder o meu autocarro. A minha mulher vai ter um bebê.

Sem dizer uma palavra e claramente irritado, o pintor deu um passo ao lado e fez sinal a Franco para que passasse à sua frente.

— Para onde é que vai, papá? — perguntou o funcionário da bilheteira, que tinha ouvido a afirmação de Franco.

Por um segundo, Franco ficou imóvel. Com tudo o que se estava a passar, ele não pensara que ia precisar de um destino. A sua mente tentou freneticamente lembrar-se de um lugar qualquer de New Jersey e, por sorte, veio-lhe à mente Hackensack. Não soube porque é que se lembrou de Hackensack mas, mesmo assim, sentiu-se grato. Disse o nome da cidade ao funcionário e, enquanto tirava vinte dólares da carteira, olhou por cima do ombro. Amy estava a alguma distância, a ser engolida por uma multidão ao fundo de uma escada rolante. Ela desapareceu rapidamente.

Franco pagou, depois correu para a escada rolante. Quando lá chegou, foi avançando usando a mesma desculpa que tinha funcionado tão bem na bilheteira. Quando chegou ao topo, olhou freneticamente em volta, sentindo-se imediatamente aliviado ao ver Amy à espera numa fila ao lado de um autocarro número 166, com o rosto pequeno enfiado num exemplar do New York Daily News.

Com uma sensação de alívio por um lado e uma nova preocupação por outro, Franco dirigiu-se para o fim da fila. O novo problema era que o seu bilhete não era para o autocarro número 166.

Apesar de estar ofegante, Franco telefonou a Angelo e ficou a saber que este estava no exterior do terminal dos autocarros.

— Eu estou num autocarro número cento e sessenta e seis — disse Franco, tentando tapar o telefone com a mão. — Descobre o percurso do autocarro quando sair do túnel Lincoln, porque eu não faço a mínima ideia. Depois vai até Jersey. Eu mantenho-te informado sobre onde eu e a Amy estamos e claro que te digo quando saírmos. Tenta manter-te o mais perto possível para podermos acabar com este circo assim que descermos.

— Vou fazer o possível. Entretanto, tens mais alguma fotografia da Maria Provolone nesta tua campanha para me fazer companhia?

— Vai à merda — disse Franco fechando o telefone. Ele não gostava que Angelo troçasse dele por causa de Maria, o seu único amor, que fora morta no último ano do liceu por um gang rival.

A fila começou finalmente a andar. Franco não estava tão preocupado com a discrepância do bilhete como estivera com o facto de não ter bilhete, e teve razão. O enfadado motorista, que fazia a sua enésima viagem, limitou-se a pegar no bilhete sem o verificar, como fez com todos os passageiros. Franco começou a percorrer o corredor. Viu Amy quase imediatamente. Ela sentara-se num lugar à janela no meio do autocarro e estava novamente a ler o jornal. Por coincidência, o lugar ao seu lado estava vago. Por um segundo, ele pensou em sentar-se ali e meter conversa com ela, mas mudou rapidamente de ideias. No seu tipo de trabalho, a surpresa era um factor crítico. Por isso, sentou-se num lugar da coxia algumas filas atrás dela.

O autocarro só partia daí a quinze minutos, e Franco desejou ter tido a oportunidade de comprar um jornal, ou qualquer coisa. Assim, tinha de ficar ali sentado sem fazer nada. Pelo menos tinha a oportunidade de planear o resto da noite. Não era fácil, porque o que ia acontecer dependia do que Amy Lucas fizesse quando chegasse ao fim da viagem. Ele sabia que a pior das hipóteses era que alguém estivesse à espera dela quando saísse do autocarro. Em última instância, isso poderia significar que ele e Angelo teriam de matar duas pessoas, o que duplicava a possibilidade de haver problemas.

Quando a porta finalmente se fechou, o autocarro arrancou e percorreu o terminal até sair para uma rampa com a altura de vários andares que descia directamente para o Túnel Lincoln. O lado positivo era que essa rampa evitava as ruas da cidade entupidas de trânsito; o lado negativo era que ele ia estar significativamente à frente de Angelo.

Graças ao balanço suave, ao ruído monótono do motor e ao interior sobre-aquecido do autocarro, Franco estava praticamente a dormir quando o autocarro irrompeu na glória do crepúsculo de New Jersey. Obrigando-se a si próprio a acordar, perguntou ao seu companheiro de viagem para onde é que o autocarro ia. O homem lançou um olhar confuso a Franco antes de perguntar:

— Quer dizer o fim da linha?

— Quero — respondeu Franco.

— Eu sei que vai para Renafly porque é lá que a minha irmã vive. Para onde vai a partir daí, não sei.

— Quanto tempo demora a chegar a Tenafly?

— Julgo que pouco mais de uma hora.

Franco agradeceu ao homem. Ele tinha esperança de que Amy não fosse para Tenafly ou para mais longe ainda. A idéia de passar tanto tempo no autocarro com umas cinquenta pessoas aparentemente deprimidas a cheirar a lã molhada era assustadora. Para se manter ocupado, começou a pensar no que iria acontecer quando Amy saísse do autocarro. Ele teria de se aproximar e meter conversa, referindo-se provavelmente ao chefe dela. Uma vez que não tinha vindo nada nos jornais, o seu desaparecimento passara essencialmente despercebido e não fora, aparentemente, comunicado a ninguém exceto, claro, aos peixes. Embora não tivesse o crachá de polícia de Angelo, ele podia fazer-se passar por uma autoridade, talvez até alguém da CBT. Ele não sabia se a CBT tinha investigadores como a polícia, mas partiu do princípio de que tinha. Pelo menos isso era um plano. O fato de ele e Angelo estarem vestidos a rigor tornava o plano mais credível. Ambos gostavam de roupa elegante, chegando quase a entrar em competição um com o outro. Ambos tinham uma preferência por Brioni e, nessa noite, estavam ambos vestidos, como habitualmente, com todo o esplendor Brioni. Franco não podia deixar de acreditar que esse cuidado com o aspecto lhes dava uma aura de credibilidade.

A reflexão sobre o confronto com Amy fê-lo pensar em telefonar a Angelo, mas decidiu aguardar. Não tinha nada para dizer, e Angelo estava certamente prestes a entrar no túnel, ou já tinha entrado nele.

Voltando a Amy, pensou que a melhor coisa que ele podia fazer era convencê-la a entrar num local público para poderem conversar mais facilmente e esperar por Angelo, e um bar encaixava-se nessa descrição, com o benefício adicional de ele poder tomar uma bebida. Como reflexo, Franco enfiou a mão no bolso e assegurou-se de que os comprimidos de easy-date estavam ele onde os tinha posto. Perguntou-se então se deveria colocar um na bebida de Amy antes ou depois de Angelo chegar. Não havia qualquer dúvida na sua mente de que a escolha do momento certo era fundamental.

Olhando pela janela, Franco reparou que tinham deixado a auto-estrada principal que saía do túnel Lincoln e estava agora a seguir para norte ao longo das ruas da cidade. Franco levou a mão ao telemóvel.

— Onde é que estás?

— No Twenty-one Club, a comer um belo jantar — disse Angelo com sarcasmo. — Estou preso no trânsito. Ainda nem sequer entrei no túnel.

— Bom trabalho!—disse Franco, igualmente sarcástico. — Descobriste para onde é que vai o autocarro cento e sessenta e seis?

— Não exactamente. Vai para algures em Bergen County. Isso fica à volta da ponte George Washington e um pouco mais além.

— Quando tiveres saído do túnel, telefona-me.

Franco voltou a meter o telemóvel no bolso interior do casaco e depois tentou recostar-se novamente no banco e descontrair-se. Assim que o fez, o autocarro fez a sua primeira paragem. Várias pessoas saíram, mas não Amy.

Franco endireitou-se, preocupado com a possibilidade de adormecer e não ver Amy sair, inutilizando todos os seus esforços. Franco conseguia imaginar a reacção de Vinnie se isso acontecesse.

Vinte minutos depois, o telemóvel de Franco acordou-o com um sobressalto — estava no bolso interior do casaco junto ao peito, em modo de vibração. Era Angelo, que tinha conseguido finalmente entrar no túnel e sair do outro lado.

— Saio na primeira saída? — perguntou Angelo num tom frenético, o que sugeria que ele estava a aproximar-se rapidamente da saída.

— Olhaste para o maldito mapa?

— Claro.

— Então sai na primeira saída e vem para norte, por amor de Deus. Espera aí! — Franco inclinou-se para o banco do homem que ia ao seu lado e perguntou se ele sabia em que cidade estavam, após o que voltou a encostar o telemóvel ao ouvido. — O cavalheiro que está sentado ao meu lado diz que acabamos de entrar em Cliffside Park, por isso vê se vens até cá.

O vizinho de Franco sorriu cordialmente quando Franco olhou de relance na sua direcção, o que o fez sentir-se nervoso. Quando estava a trabalhar, gostava de manter a sua interacção com as pessoas no mínimo. Quando o homem tentou iniciar uma conversa amigável, Franco foi vago e pôs-lhe delicadamente termo assim que pôde.

Dez minutos depois, o vizinho de Franco tocou-lhe no ombro.

—A minha paragem é já a próxima — disse ele, fazendo menção de se levantar.

Franco pôs-se de pé para deixar o homem passar. Quando o homem chegou ao corredor, Franco perguntou que cidade era.

— Ridgefield — respondeu o homem com indiferença. Franco sentou-se e telefonou a Angelo para lhe dizer onde estava.

— Isso significa que estou entre quinze a vinte minutos atrás de ti.

Como se em resposta a uma oração, dez minutos depois Amy levantou-se e o autocarro começou a afrouxar. Franco tirou rapidamente o telemóvel do bolso, inclinou-se para o corredor e perguntou à passageira do outro lado se sabia em que cidade iam parar. Ela disse que não sabia, mas o homem ao seu lado disse que era Palisades Park.

Franco telefonou apressadamente a Angelo.

— É Palisades Park. — O autocarro estava a chegar a uma paragem, e ele baixou-se e viu uma placa. — Broad Avenue, Palisades Park.

— Certo — replicou Angelo.

Franco começou a avançar ao longo do autocarro. Houve mais pessoas a levantar-se impedindo Franco de se aproximar de Amy. Quando desceu para a rua, teve um momento de pânico porque não viu Amy em lado nenhum. Momentaneamente confuso, correu para a outra extremidade do autocarro e viu-a no outro lado da rua, dirigindo-se para sul. Era uma zona comercial com uma mistura de lojas iluminadas e pessoas a caminhar apressadamente em várias direcções. Franco atravessou rapidamente a rua e aproximou-se de Amy. Depois do calor úmido do autocarro, parecia estar excessivamente frio, e ele levantou as lapelas do casaco.

—Amy Lucas — chamou Franco quando estava a alguns passos da jovem. Segundo os seus cálculos, havia a quantidade exacta de gente na rua para que Amy se sentisse à vontade.

Amy parou e olhou para o rosto de Franco. Quando este estava a um braço de distância, ela deu um passo atrás.

— Minha senhora, desculpe incomodá-la — disse Franco, imitando um programa de televisão antigo de que gostara.—Mas preciso de lhe fazer algumas perguntas.

— Sobre o quê? — perguntou Amy, olhando com nervosismo de um lado para outro.

— Sobre o seu chefe, Paul Yang.

A postura de Amy passou de cautelosa a solícita num abrir e fechar de olhos.

— Ele está bem? Onde está ele?

— Ele está sob custódia federal, minha senhora. E pediu-nos que contactássemos consigo.

A expressão de Amy alterou-se novamente, transformando-se de solícita em preocupada.

— Porque é que ele está sob custódia, e porque é que vos pediu que contactassem comigo? Eu não sei de nada.

— Desculpe, minha senhora — disse Franco em voz baixa, num tom de autoridade. — Eu penso que sabe. Há o problema muito grave do oito-K, do qual eu julgo que tem uma cópia na sua posse, em casa, consigo ou na sua secretária no trabalho.

A expressão de Amy transformou-se em algo semelhante a um coelho assustado, mas, para seu mal, não fugiu.

— Eu sou investigador da CBT, por isso penso que compreende que precisamos de conversar.

— Suponho que sim — disse ela sem entusiasmo.

— Está um pouco frio. Talvez haja um lugar público em que possamos conversar, e em que se sinta confortável a conversar com um desconhecido.

Amy olhou em volta, para a área imediatamente em redor.

— Que tal um bar? É um local onde as pessoas podem conversar mais em privado do que a maior parte dos outros locais. Temos esperança de que a senhora não se veja envolvida neste grave problema legal.

— Há o Pete's do outro lado da rua — disse Amy, apontando.

— Vai lá muitas vezes? — perguntou Franco. De onde estavam, parecia um bar local, tal como ele queria, mas não se ela fosse uma cliente conhecida.

— Eu nunca lá vou. É considerado um sítio frequentado por pessoas pouco recomendáveis.

—Acho que serve perfeitamente. Deixe-me chamar o meu parceiro, o investigador Facciolo.

Franco tirou o telemóvel do bolso e ligou a Angelo.

—Agente Facciolo — disse ele, tentando reprimir um sorriso. — Tenho a testemunha aqui à minha frente. Ela está a colaborar. Vamos entrar num bar para conversarmos. O nome do bar é o Pete's, na Broad Avenue, Palisades Park. O cruzamento mais próximo é... — Franco afastou o telemóvel do ouvido e perguntou a Amy qual era o cruzamento mais próximo.

Amy apontou para um quarteirão mais adiante.

—Aquelas seis balaustradas de ambos os lados da estrada? Aquela é a estrada quarenta e seis.

Franco repetiu a informação a Angelo e seguidamente desligou. Apontou para o bar, e ele e Amy atravessaram a estrada a correr.

Do ponto de vista de Franco, o bar era perfeito, apesar do cheiro a cerveja choca. Era pouco iluminado e a música, que era sobretudo rap, estava bastante alta. Não tinha muita gente, havendo apenas cinco pessoas sentadas ao bar a beber e cerca de uma dúzia ao fundo a jogar snooker. À direita havia uma série de reservados de madeira. Franco conduziu Amy para um deles, tendo o cuidado de não lhe tocar. Estava satisfeito e admirado por ela estar a ser tão cooperante. Não pôde deixar de pensar que basear a conversa no chefe desaparecido tinha sido um golpe de génio.

Uma vez sentados em frente um do outro, Franco baixou as lapelas do casaco e esfregou energicamente as mãos.

— Parece frio para esta altura do ano.

Amy limitou-se a acenar a cabeça em sinal de concordância. Estava aterrorizada com a possibilidade de ser presa, e zangada com Paul por a ter colocado naquela situação.

— Tenho a certeza de que não nos vão deixar ficar aqui sentados sem beber qualquer coisa. O que é que quer tomar? E digo-lhe uma coisa. Eu não devo beber quando estou de serviço, mas adorava tomar um cocktail.

Amy não bebia muito mas, de vez em quando, sabia-lhe bem uma vodka. A bebida acalmava-a e, se havia uma altura em que precisava de se acalmar, era aquele momento.

—Acho que vou beber um vodka martini—disse ela timidamente.

— Boa ideia — comentou Franco, ainda a esfregar as mãos para se aquecer.—Acho que tem de se ir pedir ao bar. Parece que não têm empregados de mesa, por isso eu volto já.

No bar, Franco pediu o martini, depois um bourbon simples para si próprio. O corpulento barman, com a barba por fazer e cheio de tatuagens, olhou bem para Franco.

—Belo fato—disse ele antes de preparar a bebida de Amy, pegando seguidamente na garrafa de bourbon para a deitar num copo para Franco. Enquanto o barman estava ocupado com a bebida dele, Franco deitou sub-repticiamente um dos comprimidos de easy-date na bebida de Amy. Fê-lo colocando o pequeno comprimido na palma da mão e soltando-o enquanto pegava no copo pela borda.

Depois de ter enchido o copo de Franco, o barman perguntou-lhe se devia tomar nota da despesa. Franco respondeu colocando a nota de vinte dólares que tinha na outra mão em cima do bar.

— Pode ficar com o troco — disse ele.

Quando voltou para mesa, fez deslizar a bebida de Amy na direcção dela e olhou para o relógio. Queria ver quanto tempo o comprimido demorava a fazer efeito. Apesar da música, eles conseguiam conversar razoavelmente bem, pois os lados do reservado chegavam até aos ombros e protegiam-nos do barulho. O problema de Franco agora era pensar em coisas suficientes para conversar e, ao mesmo tempo, reforçar a sua história de que Paul Yang tinha sido preso e estava incomunicável.

Ao fim de cerca de dez minutos, Franco estava a esgotar as perguntas inócuas. Pelo lado positivo, começou a reparar que Amy estava a começar a arrastar a fala, e os seus movimentos, quando pegou no copo, estavam a ficar vacilantes. As pestanas estavam cada vez mais pesadas, obrigando-a a fazer um esforço extra para as manter abertas.

— E o oito-K? — perguntou Franco. Na realidade, apesar de ter ouvido Vinnie falar com Paul na noite anterior, ele não fazia a mínima ideia do que fosse um oito-K.

— O que é que tem o oito-K? — perguntou Amy, bebendo outro golo do cocktail a que estava certamente a fazer justiça. Depois de pousar a bebida, Franco reparou que o seu tronco estava agora a oscilar ligeiramente, mesmo quando não mexia as extremidades. Para todos os efeitos práticos, ela estava a começar a agir como se já tivesse bebido dois ou três copos.

— Onde está ele? — insistiu Franco.

—Aqui mesmo na minha mala—disse Amy, batendo suavemente na mala repetidas vezes.

— Porque é que não me dá?

— Com certeza, porque não? — disse Amy. A sua mão vagueou pelo ar antes de conseguir agarrar na mala. Com alguma dificuldade, ela conseguiu abrir o fecho do compartimento interior e entregou a pen a Franco.

Franco virou a pen na mão e abriu-a. Nunca tinha visto uma.

Pelo canto do olho, viu Angelo entrar no bar. Algumas pessoas sentadas ao bar viraram-se e ficaram a olhar para ele de boca aberta. Angelo retribuiu os olhares com uma expressão que Franco pensou ser de fúria crescente. Angelo aprendera a aceitar a sua deformidade facial e a reacção que ela provocava, mas não com pessoas que ele considerava ser a escória da sociedade, tal como uma meia dúzia de bêbados numa espelunca.

Franco pôs-se de pé e enfiou a pen no bolso.

— Agente Facciolo, estamos aqui. — Por um segundo, Franco receou ter de ir ter com ele e arrastá-lo para mesa, mas, ao fim de algum tempo, Angelo aproximou-se da mesa sozinho.

— Sacanas de merda—disse Angelo, olhando por cima do ombro.

— Eles têm inveja do teu casaco Brioni.

— É isso mesmo — rosnou Angelo.

— Esta é Amy Lucas — disse Franco, fazendo um gesto na direcção de Amy e pondo seguidamente os braços à volta dos ombros de Angelo. — E este é o agente Facciolo, de que lhe falei.

— Oh, meu Deus! — disse Amy franzindo a testa quando olhou para Angelo. — Tenho muita pena que tenha queimado o rosto.

— Ela já tomou um dos especiais do Dr. Trevino?

— Só um, e há pouco mais de dez minutos.

— Ótimo — disse Angelo. — Vamos dar-lhe outro. Parece que ela já acabou a bebida.

— Se lhe dermos outro, ela pode apagar.

— Ei! Não te lembras, a ideia era essa. O que é que ela está a beber? Eu vou buscar outro e depois podemo-nos ir embora desta espelunca. Quero acabar este trabalho, que já me está a irritar.

— Espera! — disse Franco, detendo Angelo. — Eu vou buscá-lo. Não quero que comeces aos tiros por causa daqueles bêbedos que estão no bar.

—Está bem—disse Angelo.—Eu fico aqui com esta bela jovem. Franco afastou Angelo um pouco da mesa e, tapando a boca com as mãos em concha, murmurou.

— Nós somos agentes da CBT, por isso comporta-te de acordo com isso.

— Claro — retorquiu Angelo, sentando-se ao lado de Amy, que se moveu para lhe dar espaço.

 

Só quinze minutos depois é que se tornou evidente para Franco que Amy tinha bebido o suficiente e que estava a divertir-se, talvez até um pouco demais. Franco tinha visto o barman olhar para eles em várias ocasiões quando ela se riu à gargalhada. O riso era um guincho agudo.

Franco olhou para Angelo e acenou com a cabeça na direcção da porta, e Angelo acenou a dele em sinal de concordância.

— Onde está a Beleza Negra? — perguntou Franco.

— Mesmo ao virar da esquina — respondeu Angelo. — Depois, para Amy, ele disse: — Eu volto já, minha querida.

Franco ficou a ver Amy beber.

— Porque é que fizeste isso ao cabelo? Amy encolheu os ombros e depois riu-se.

— É divertido. Antes de o fazer, ninguém reparava em mim. Franco observou-a. Amy estava agora a fazer leves movimentos

intermitentes só para se manter direita.

Alguns minutos depois, Angelo regressou.

— O carro está mesmo à porta.

— Vamos, Amy — disse Franco, puxando-a pelo braço.

—Ainda não acabei a minha bebida—disse Amy com uma expressão de tristeza exagerada. Ela deu uma gargalhada.

—Acho que já bebeste o suficiente — respondeu Franco. Fez sinal a Angelo e juntos puseram-na de pé. Com os dois homens a segurá-la, ela saiu a cambalear do bar. Com alguma dificuldade, puseram-na no banco de trás.

— Senta-te com ela aí atrás — disse Franco. — Se te parecer que ela vai vomitar, põe-lhe a cabeça para fora da janela.

Enquanto posicionavam Amy no banco de trás com a cabeça encostada ao canto do fundo e o vidro aberto, não repararam no homem que saiu do bar. Ele estava vestido à hip-hop casual com uma sweatshirt comprida e larga e um boné de basebol dos Yankees. Sem parar para ver o que Franco e Angelo estavam a fazer, ele seguiu em direcção a norte ao longo da Broad Avenue.

— Estás pronto? — perguntou Franco, olhando pelo espelho retrovisor.

—Tudo pronto — respondeu Angelo. Amy tinha agora o cinto de segurança colocado e o rosto praticamente fora da janela. Angelo estava a apoiar-lhe a cabeça com uma mão estendida. Amy estava inconsciente.

Depois de procurarem no mapa o caminho mais curto de regresso a Hoboken, Franco inverteu a marcha no meio da Broad Avenue e acelerou em direcção a sul.

Durante algum tempo, seguiram em silêncio. Foi Angelo que falou primeiro.

— Eu espero que o Vinnie reconheça todo este esforço. Conduzir na cidade na hora de ponta foi suficientemente mau, mas não foi nada em comparação com o problema de entrar no túnel e depois aqui em New Jersey. Quero dizer, foi um horror.

— Eu teria trocado de lugar contigo num instante — disse Franco. — Ir e vir para o trabalho todos os dias num autocarro assim é um pesadelo.

Não voltaram a falar até chegarem à marina. Franco dirigiu-se para o mesmo local da noite anterior, estacionou na base do molhe principal e desligou os faróis. Tal como na noite anterior, estava totalmente escuro. Os dois homens saíram do carro e dirigiram-se para a porta do banco de trás, do lado do condutor. Quando a abriram, a cabeça de Amy descaiu para a esquerda.

— Pronto, menina! — disse Angelo. — São horas de acordar. — Ele enfiou a cabeça no veículo e soltou o cinto de segurança. Feito isso, tiraram Amy do carro.

— Ela não pesa muito, pois não? — comentou Franco.

— O chefe dela não estava a brincar ontem à noite quando disse que ela era pequena.

Os homens levaram Amy até ao molhe com relativa facilidade. O ar frio do rio reanimou-a um pouco e ela até os ajudou de modo a não terem de suportar o seu peso todo. A única parte relativamente difícil foi fazê-la atravessar a estreita prancha de embarque para a popa do barco.

— O que vamos fazer com ela até nos pormos a caminho? — perguntou Angelo.

— Bem, ela não vomitou, por isso vamos pô-la numa das cabines da frente. Não quero que se levante e caia borda fora. Espera aqui com ela um pouco enquanto eu acendo as luzes do salão principal e lá de baixo.

Foi um pouco mais difícil mover Amy no barco do que tinha sido no cais, mas eles conseguiram levá-la para uma cabine e deixá-la cair em cima de uma cama com os pés ainda no chão. Para o caso de ela vomitar, espalharam-lhe toalhas debaixo da cabeça. Quando terminaram, endireitaram-se e olharam para a mulher.

Subitamente, Franco agarrou nas lapelas do casaco de Amy e abriu-o abruptamente. Os botões voaram em todas as direcções e caíram com estrépito no chão.

— Sabes uma coisa?—disse ele. — Se não olharmos para o cabelo e ignorarmos as borbulhas, não é má. O que dizes?

— Nós demos-lhe o easy-date — disse Angelo, com o rosto cheio de cicatrizes contorcido num meio sorriso. — Não se deve desperdiçar nada.

— É, seria como a história da célula estaminal e do embrião congelado. Quero dizer, se é para serem deitados pela sanita abaixo, porque é que não havemos de os utilizar?

Franco e Angelo olharam um para o outro. Os seus respectivos sorrisos foram-se alargando até se transformarem em gargalhadas.

— Okay—disse Franco. — Quando estivermos a andar, atiramos a moeda ao ar para ver quem é o primeiro.

— Está combinado, meu.

Com mais alacridade do que tinham manifestado toda a noite, Franco e Angelo voltaram para o convés. Franco dirigiu-se para o convés da ponte enquanto Angelo desembarcava para tratar das amarras. Quando Angelo conseguiu soltar a primeira e atirá-la para a proa, já Franco tinha o motor diesel a ronronar como um gato feliz. Angelo correu e soltou a amarra da popa do seu enorme cunho na doca. No momento em que estava prestes a atirá-la para a popa, os seus olhos viram um clarão de luz brilhar subitamente ao longo do cais, na zona da bomba de combustível. Quando o clarão não se repetiu, ele partiu do princípio que era um breve reflexo da luz do Full SpeedAhead na cobertura de vidro da bomba de combustível.

Angelo atirou a amarra para o barco, atravessou a prancha de embarque e puxou-a para bordo.

— Tudo a postos — gritou ele para o convés da ponte. Quando o iate começou a afastar-se do seu ancoradouro, Angelo deu a volta e puxou as defensas grossas e brancas para dentro. Enquanto o fazia, foi apanhado pelo brilho avermelhado das luzes que Franco acabara de acender.

Brennan deixou-se ficar atrás da bomba de combustível mais tempo do que julgou necessário. Não queria correr riscos adicionais. Estava preocupado com a possibilidade de atrair a atenção de Angelo enquanto tentava ver o nome do iate. No seu campo de visão, Angelo tinha-se endireitado subitamente e, por um instante, olhara directamente para ele. Depois disso, Brennan apercebeu-se de que era possível a luz do iate reflectir-se nas lentes dos seus grandes binóculos.

Quando o som dos motores do iate se afastou o suficiente para ele ter a certeza de que não tinha sido visto, Brennan olhou à volta da bomba de combustível e viu as luzes do Full Speed Ahead perto de duzentos metros depois do fim do molhe. Acreditando que não seria possível ser visto a uma distância tão grande, ele correu ao longo do cais, passando pelo carro de Franco, depois até às traseiras do parque de estacionamento da marina. Só viu o Denali preto de Carlo quando estava quase ao pé dele. Subiu rapidamente para o banco do passageiro. Estava ofegante.

— Então? — perguntou Carlo.

Brennan levantou a mão a indicar que precisava de recuperar o fôlego.

— Levaram-na para um iate — conseguiu Brennan dizer ao fim de algum tempo.

— Uma vez que vieram a uma marina, isso não é muito esclarecedor, especialmente uma vez que tu pensaste que eles a tinham drogado no bar.

—Tenho a certeza de que a drogaram! — respondeu bruscamente Brennan. Ele não gostava que Carlo lhe desse ordens.

— Está bem, está bem! Não fiques ofendido.

— Se não confias em mim, devias fazer algum do trabalho.

— Eu disse está bem, eles drogaram-na — disse Carlo. — Achas que esta encenação ridícula foi só para ter sexo com ela? Quero dizer, isto deu muito trabalho. Certamente que há gajas suficientes em Queens para eles não terem de vir tão longe.

— Não pode ser só por causa do sexo — disse Brennan. — O que é que se passa contigo? És estúpido ou quê?

Por um momento, os dois homens ficaram em silêncio. A tensão da actividade da noite estava a levar a melhor. Ao fim de algum tempo, Carlo falou:

— Nós não devíamos estar a atacar-nos um ao outro. Isto não foi o passeio que eu pensei que ia ser. Dito isso, temos de arranjar qualquer coisa para dizer ao chefe.

— Eles levaram o iate para o mar. Eu acho que, se planeassem apenas ter sexo, não se dariam a esse trabalho, nem se esforçariam tanto com uma miúda que também não era nada de especial. Há uma informação importante que nos falta.

— Tu não ouviste mesmo nada no bar? Brennan lançou um olhar furioso a Carlo.

— Está bem, está bem, já disseste que não. Mas é pena. Era a oportunidade perfeita.

— A música estava demasiado alta. Era bum, bum, bum — disse Brennan batendo com o punho na palma da mão aberta.

— Talvez tivessem saído com o barco para a atirarem à água quando acabarem com ela.

— Essa parece-me uma explicação fraca — disse Brennan, reprimindo o impulso de fazer um juízo de valor mais forte. Ele sabia que um dos benefícios do easy-date era que a mulher não se recordava de nada.

— Bem, esta noite não podemos segui-los mais, a não ser que eles voltem.

Por amor de Deus, pensou Brennan, mas não falou. Em vez disso, ele disse:

— Graças aos meus binóculos, que trouxe comigo, acho que sei qual é o nome do barco. Quero dizer, não o via muito bem, e ele estava a balançar muito, mas parecia Full Speed Ahead.

Carlo virou-se para Brennan.

— Ei, isso é uma coisa que o Barbera talvez goste de saber. Oh, a sério? perguntou Brennan silenciosa e sarcasticamente. Às vezes perguntava a si próprio como é que Carlo chegara aonde estava na organização.

Carlo pegou no telemóvel e telefonou a Louie Barbera.

Quando Barbera atendeu, Carlo deu-lhe uma descrição rápida da noite deles até essa altura. Louie ficou imediatamente surpreendido. A sua primeira pergunta foi o nome da empresa em que a rapariga trabalhava mas, infelizmente, Carlo e Brennan não faziam a mínima ideia. Louie perguntou seguidamente se, por acaso, sabiam o nome do barco.

— Pensamos que é Full Speed Ahead. Estava escuro e era difícil ver, mas o Brennan trouxe binóculos, e o nome parecia ser esse.

Brennan acenou com a cabeça num gesto de satisfação por Carlo lhe ter reconhecido o mérito.

— Vocês estão a fazer um bom trabalho — disse Louie. — Essa pode ser uma informação muito interessante. Tanto quanto eu saiba, ninguém sabe que o Vinnie Dominick tem um iate escondido em New Jersey. Pode ser essa a solução para o enigma de como é que ele obtém a droga hoje em dia.

— O que é que queres que a gente faça?

— Deixem-se ficar por aí para verem quando é que eles voltam e se a rapariga está com eles ou não. Se for suficientemente cedo, voltem à Trump Tower. Quero uma lista das empresas que têm lá escritórios. Passa-se alguma coisa com uma dessas empresas, e eu gostaria de saber o que é.

Carlo desligou e virou-se para Brennan.

— Ouviste? Temos de ficar à espera.

— Obrigado por dizeres que fui eu que vi o nome do barco.

— Ei, tu mereceste. Que dizes a irmos ver se encontramos um sítio para beber um café? Quem sabe quanto tempo o cruzeiro romântico destes cretinos vai demorar.

— Essa é a melhor ideia que tiveste hoje — disse Brennan.

— Então? — perguntou Franco quando Angelo subiu à ponte. Franco tinha imprimido ao barco grande uma velocidade razoável, pelo que este estava apenas a planar. Podia ir muito mais depressa, mas não havia necessidade, e os motores faziam um rugido horrível quando eram forçados a acelerar muito mais.

— Ela disse que gostava mais de mim porque a tua pila é muito pequena.

Franco deu um soco a brincar a Angelo, e este desviou-se facilmente. Eles tinham atirado a moeda ao ar e Franco ganhara. Enquanto Angelo pilotava o barco, ele descera para abusar de Amy, que continuava inconsciente. Agora tinha sido a vez de Angelo.

— Até onde é que vamos? — perguntou Angelo, olhando para a cidade de Nova Iorque recortada no céu à esquerda e para a linha da costa de Jersey à direita. Um pouco à frente estava a Estátua da Liberdade iluminada.

— Mais ou menos ao mesmo sítio de ontem. Já foste buscar a corrente?

— Ainda não.

Seguiram em silêncio durante algum tempo, até que Angelo disse:

— O que é que vamos fazer?

— Porque é que perguntas? Vamos fazer o que fizemos ontem à noite. Dar-lhe um tiro e atirá-la borda fora.

— Porque é que nos havemos de dar ao trabalho de lhe dar um tiro? Franco tirou os olhos da água à sua frente e fitou Angelo à média-luz da ponte.

— Ela ainda estaria viva quando a atirássemos à água.

— E depois?

Franco encolheu os ombros.

— Não parece certo atirá-la à água viva. Não é humano.

— Então tu pensas que és humano. É isso, Franco?

Franco voltou a olhar para a água à sua frente. Viu as luzes de um barco vindo do lado de estibordo cuja rota passava pela frente da sua proa. Reduziu os motores e o barco afrouxou rapidamente.

— Que diabo queres tu dizer?—perguntou Franco num tom irado. — Estás a tentar brincar com a minha cabeça?

— Não, que raio! —exclamou Angelo.—Ei, acalma-te! Só estou a perguntar porque, de facto, eu acho a mesma coisa. Não está correcto atirá-la à água sem a matar primeiro. Mas isso faz-me pensar se nós não seremos dois velhos moles.

— Ei, fala por ti.

— Franco, isto é uma conversa, não é uma discussão. Em comparação com tipos de outros tempos, principalmente os soldados como nós, nós somos uns gatinhos mansos.

— De que raio estás tu a falar?

— Uma vez vi um filme sobre o que se passava quando havia verdadeiros chefes. Quando um dos capangas dessa época levava alguém para ser despachado como nós estamos a fazer, eles atavam a pessoa a uma cadeira e metiam-lhe os pés em cimento, e, enquanto o cimento secava, a pessoa que ia ser morta podia pensar no que estava prestes a acontecer. Esses tipos é que eram os verdadeiros maus, e não nós.

— Tu estás doido.

— Talvez, mas um dia gostava de ter oportunidade de o fazer. Além disso, hoje em dia seria mais fácil e mais rápido, com o material de secagem rápida e coisas do género que há no mercado.

— Bem, uma coisa posso dizer-te com toda a certeza. Nós não vamos à Home Depot esta noite para tu te poderes divertir.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 19.17

Angela saiu pela entrada comercial da Trump Tower e caminhou apressadamente ao longo da Quinta Avenida, misturando-se com a multidão de peões que seguia para sul Enquanto esperava por uma luz verde no semáforo na 56 Street, olhou para o relógio. Já estava atrasada para o jantar com Chet McGovern, que estava marcado para as sete e quinze. Parecia que ultimamente andava sempre a correr e estava sempre atrasada. A pressão era implacável. Ela sabia que não devia tirar tempo para um jantar formal, mas a coincidência de ter tido uma espécie de confronto com a Dra. Laurie Montgomery e de ser insistentemente convidada para jantar por um dos seus colegas no mesmo dia era demasiado grande para não a aproveitar. Angela estava preocupada com a possibilidade de Laurie ser atualmente a maior ameaça ao segredo que a Angels Healthcare tinha conseguido manter em relação ao problema do MRSA e às suas consequências em termos de fluxo de fundos. Angela precisava de conhecer a dimensão dessa ameaça.

Quando o semáforo mudou, os pensamentos de Angela concentraram-se novamente nos seus outros problemas. Paul Yang ainda não tinha aparecido e, pouco antes de sair, Angela telefonara a Bob para saber notícias. Ela pensava que, se o contabilista o contactasse, ele ter-lhe-ia telefonado, mas quis ter a certeza. Seria bom eliminar uma das suas preocupações. Quando falou com Bob sobre Paul Yang, Angela aproveitou para lhe perguntar se tinha combinado com Michael a entrega dos cinquenta mil dólares extra. Bob disse que estava tudo tratado excepto o dinheiro em si, que ele esperava que fosse transferido na manhã seguinte.

A última coisa de que Angela tratara antes de sair do escritório tinha sido uma discussão de Cynthia Sarpoulus com Herman Straus, o Diretor do Hospital Ortopédico Angels. Cynthia queria manter a sala de operações de David Jeffries fechada durante mais vinte e quatro horas, enquanto Herman queria que ela estivesse disponível. O argumento dele era que tinha havido quatro operações depois da de Jeffries, e não se tinham verificado infecções em nenhuma delas. Além disso, a sala de operações tinha sido cuidadosamente limpa. Cynthia, por outro lado, queria esperar um dia para voltar a verificá-la antes de lhe dar luz verde. Em circunstâncias normais, o Diretor Administrativo, Cari Palanco, teria resolvido o problema, mas a mercurial Cynthia ameaçava ir-se embora, o que significou que Angela teve de intervir como mediadora. Angela não queria perder a especialista de controlo de infecções numa altura em que o MRSA era uma ameaça potencial.

Na 54 Street, Angela virou à esquerda e apressou o passo. Apesar de todos os problemas e pressões, ela resignou-se a, pelo menos, apreciar a refeição, mesmo que esta, tal como tudo o que ela fazia, tivesse a ver com o trabalho. Afinal de contas, era um dos seus restaurantes preferidos.

Quando passou a porta principal e depois a porta interior, ela despiu o casaco e entregou-o à empregada do bengaleiro. Quando se aproximou do balcão da recepção, estava à espera de ver um dos donos, que ela sabia serem dois. Embora não tivesse a certeza, desconfiava que eram irmãos. O que ela esperava ver, uma vez que ele fazia de chefe de mesa, era o elegante italiano com o omnipresente fato italiano de belíssimo corte, camisa branca engomada, uma arrojada gravata de seda italiana com um lenço de bolso a condizer e uma bela cabeleira castanha comprida. O outro era o italiano terra-a-terra duro, a exalar testosterona, que poderia perfeitamente desempenhar o papel de um membro da Máfia. Ele usava uma roupa mais casual, mas impunha respeito, tingido com um laivo de medo. Ele estava geralmente atrás do pequeno bar e Angela, quando chegou ao centro da sala, viu-o, e, do seu lugar habitual, ele também a viu. Ele acenou e chamou-a pelo nome. Antes do desastroso problema do MRSA, Angela ia todas as semanas àquele restaurante, mas era para almoçar, não para jantar. Ela apercebeu-se de que, à noite, os irmãos trabalhavam provavelmente à vez, pois o seu forte era o almoço.

Um dos empregados de mesa reconheceu-a também. Era um italiano sorridente de ar jovem que também a cumprimentou pelo nome. Com um gesto largo, ele apontou na direcção da mesa do canto da frente e disse:

— O seu convidado já chegou.

De pé atrás da mesa, Chet acenou-lhe e sorriu.

Enquanto se aproximava, ela observou-o bem. Tinha-se esquecido do seu atraente sorriso descontraído, bem como do seu encanto juvenil. Nunca desconfiaria que fosse médico, muito menos médico legista. Durante o curso de medicina, a patologia não tinha sido a sua cadeira preferida. Não podia deixar de se interrogar porque é que alguém decidia fazer dela a sua carreira.

Quando chegou à mesa, Chet surpreendeu-a ao aproximar-se dela e abraçá-la. Ela retribuiu o abraço sem grande convicção. Afinal de contas, aquilo era trabalho, mesmo que ele não o soubesse.

— Obrigado por ter vindo, eu sei como anda ocupada.

— Obrigada por me ter convidado. Tenho a certeza de que, se não fosse tão persistente, eu não jantaria grande coisa.

— Tal como eu disse, tem de comer. Sentaram-se.

— Esclareçamos as coisas primeiro — disse Chet. — Hoje sou eu que pago.

— Acho que vou ficar a ganhar com esta troca — disse Angela. Ela sabia que o preço estava de acordo com a qualidade, pelo que o San Pietro não era barato.

Conversaram sobre coisas superficiais durante algum tempo, após o que Angela fez sinal ao empregado. Estava empenhada em não se demorar muito.

O empregado jovem, sorridente, aproximou-se e desbobinou uma impressionante descrição de mais de uma dúzia de entradas especiais e mais de uma dúzia de pratos principais especiais. Depois entregou-lhes as ementas.

— Aquilo foi incrível — murmurou Chet para Angela. — Como é que ele consegue lembrar-se de tudo?

Depois de terem feito as suas escolhas, incluindo uma garrafa de Brunello de 1995, retomaram a conversa. Tal como acontecera na noite anterior, Angela viu que Chet era um bom conversador, e não pôde deixar de se divertir com o seu humor e refrescante franqueza. Ele era, tal como admitira, um sedutor irreprimível. No entanto, ao admiti-lo tão livremente parecia eliminar a habitual frivolidade de mau gosto. Mais uma vez, tal como sucedera na noite anterior, e apesar da pressão sob a qual se encontrava, ela começou a divertir-se. Claro que o vinho ajudou bastante, pois era verdadeiramente delicioso, ao ponto de a fazer sentir-se um pouco culpada: ela imaginou que a garrafa fosse bastante cara.

Com o prosseguimento da conversa e não querendo ser malcriada mergulhando logo no verdadeiro motivo por que aceitara o convite para jantar, ou seja, para descobrir informações sobre Laurie Montgomery, ela aproveitou a abertura de Chet para lhe perguntar por que razão escolhera medicina e porquê a medicina forense.

— Quer a versão expurgada ou a verdade?—perguntou Chet, com um dos seus sorrisos brincalhões.

— A verdade! — respondeu Angela com um vigor exagerado, bebendo mais um golo do vinho divinal.

— A maior parte das pessoas, cerca de noventa e oito por cento, vão para medicina porque se sentem verdadeiramente motivadas para ajudar os outros. Eu não. Até ao oitavo ano, eu não fazia a mínima ideia do que queria ser.

— O que aconteceu?

— Um dos meus amigos, que eu considerava um grande cromo... quero dizer, ele era presidente do clube de xadrez... decidiu subitamente que queria ser médico, e pela razão habitual. E sabe o que aconteceu?

— Estou ansiosa por saber.

— De um dia para o outro, ele tornou-se muito popular entre as raparigas. Eu não conseguia acreditar. Foi como se tivesse havido uma metamorfose. Até mesmo a rapariga com quem estava a tentar sair, Stacy Cockburn, quis de repente sair com o Herbie Dick. A sério, chamavam-se mesmo assim. Não estou a brincar.

Angela reprimiu uma gargalhada.

— Por isso, subitamente, eu quis ser médico — prosseguiu Chet. — E funcionou. Duas semanas depois, levei a Stacy a dançar no sábado à noite.

— Mas a motivação foi suficiente para o fazer realmente estudar medicina?

— Para mim, foi. Eu sempre tinha gostado de biologia, por isso a medicina não era, de um modo geral, contrária aos meus interesses. E ter um verdadeiro objetivo com aquela idade foi tranquilizador. E os meus pais e as minhas irmãs ficaram radiantes com a ideia de eu ser médico porque, numa cidade pequena do midwest, o médico ainda é considerado um indivíduo bastante respeitável.

— Muito bem — comentou Angela. — E medicina forense?

— Suponho que eu gosto de enigmas e gosto de aprender coisas novas. Para mim, a medicina forense é isso. Além disso, quando andava na faculdade, achei que não era muito bom com doentes, especialmente quando estavam vivos.

Angela sorriu e acenou a cabeça. Até certo ponto, ela conseguia compreender filosoficamente o que ele estava a dizer, mas não a parte sobre ter de fazer a própria autópsia.

— Pronto, é a sua vez — disse Chet. — Porque é que escolheu o mundo dos negócios?

Por um momento, Angela hesitou, pensando como é que queria responder. A sua primeira reacção foi ignorar a pergunta dando uma resposta maquinal, mas a combinação da sinceridade de Chet com as suas próprias dúvidas recentes sobre as suas motivações, e talvez até o vinho, fizeram-na querer ser franca.

— Suponho que lhe devia fazer a mesma pergunta que me fez — disse ela. — Quer a versão estereotipada ou a sincera?

— A sincera, claro.

— Na verdade, eu nunca quis ser uma mulher de negócios, pelo menos até há cinco anos.

— O que é que queria ser?

— Eu queria ser médica.

— A sério? — perguntou Chet com um pequeno sorriso.

— A sério — repetiu Angela. — E eu fazia parte da manada. Eu fazia parte dos noventa e oito por cento que referiu. Eu queria verdadeiramente tratar e curar pessoas. Pode parecer demasiado simplório, mas eu até tinha a ideia de levar a medicina para o centro da cidade, como uma Dr. Livingstone dos nossos dias.

— E porque é que não o fez?

— Eu fiz — respondeu Angela. — Fiz tudo isso. Fiz um internato em medicina interna, fui admitida na Ordem e abri um consultório no Harlem.

Chet recostou-se na cadeira e pousou o garfo. Por um momento, não soube o que dizer. A partir do momento em que começara a falar com Angela no ginásio, ele pressentira que havia algo de especial nela, mas nunca teria adivinhado que ela era médica. Esta notícia chocante era um desafio para a sua auto-estima, uma vez que ser médica e mulher de negócios de alto nível era certamente superior a ser apenas médico. Mas, ao mesmo tempo, a notícia fez aumentar o seu interesse por Angela.

—Está surpreendido?—perguntou Angela. Pelo ar de Chet, parecia que tinha sido disparado um canhão ao pé dele.

— Estou espantado.

— Porquê?

— Nem sei — gaguejou Chet.

— Eu própria estou surpreendida—admitiu Angela.—Mas talvez as minhas motivações para ser médica não fossem tão altruístas como eu sempre acreditei.

— Não?—perguntou Chet inclinando-se para a frente. — Porque não?

— Parte do motivo por que eu queria estudar medicina e, suponho, tratar pessoas, porque isso é o que geralmente se faz depois de terminar o curso, era para me vingar do meu pai.

— A sério?

—A sério! — repetiu Angela. Na realidade, a sua afirmação sobre o seu pai surpreendera-a tanto como surpreendera Chet. Não que a idéia não lhe tivesse ocorrido vagamente em raros momentos ao longo dos anos, mas, de facto, ela nunca pensara realmente no assunto.

— Perdoe-me se estou a ser demasiado indiscreto — disse Chet, mexendo-se na cadeira. — Porque é que havia de querer vingar-se da sua família? Ontem à noite, no ginásio, pelo menos pela sua descrição, pareceu-me que tinha tido uma infância idílica.

— Aparentemente, era — disse Angela, sentindo-se novamente surpreendida consigo própria. Ela era uma pessoa reservada, mas estava a confessar coisas que só confessara a algumas amigas íntimas na universidade. — E era importante para o meu pai que as coisas parecessem ser assim. Mas a nossa pequena família perfeita tinha os seus segredos. — Angela fez uma pausa, sem saber bem se queria continuar. — Espero não o estar a aborrecer. Tem a certeza de que quer ouvir isto?

— Oh, não pare agora. — queixou-se Chet. — Estou fascinado. Se isso a preocupa, dou-lhe a minha palavra de que o que quer que diga fica entre nós.

— Agradeço-lhe — disse Angela. Ela bebeu um golo de vinho, pensou por um momento, e depois disse: — Infelizmente, o meu pai abusou de mim, não na acepção sexual, mas na emocional. Claro que, quando era pequena, eu não me apercebia disso. Só quando cresci. Quando era muito pequena, eu era a menina dos olhos do meu pai. Lembro-me muito bem, e eu adorava-o. Mas com as emoções reservadas do meu pai e a sua preocupação com as aparências, o preço que eu e a minha mãe pagávamos era uma sujeição absoluta, como a de um animal doméstico. Enquanto eu fui a sua bonequinha robô, tudo era perfeito. O problema era que eu estava a crescer lentamente e, assim que expressava qualquer autonomia como pessoa por direito próprio, ele virava-me as costas e fazia pequenos comentários sobre eu o ter abandonado, o que me fazia sentir terrivelmente culpada. Durante algum tempo, tentei desesperadamente agradar-lhe, mas, à medida que os meus interesses se afastavam progressivamente de casa e se viravam cada vez mais para os meus amigos e para a escola, acabei invariavelmente por decepcioná-lo. A minha pobre mãe, que tinha permanecido totalmente subserviente, foi talvez quem mais sofreu, porque ele parecia estar a ficar enfadado com ela e teve a típica crise da meia-idade, durante a qual teve casos com outras mulheres e bebia muito. Claro que ele nunca assumiu a responsabilidade. Culpava a minha mãe e culpava-me a mim pelo seu comportamento, dizendo que ninguém queria saber dele. Por qualquer razão que eu nunca hei-de compreender, a minha pobre mãe ficou com ele até ele se ter divorciado dela para ir viver com uma mulher mais nova.

— Lamento muito — disse Chet. — É trágico que pessoas como o seu pai possam ser os seus piores inimigos. É óbvio que ele devia sentir-se orgulhoso dos seus êxitos, e não sentir-se ameaçado por eles. Mas como é que isso influenciou a sua ida para a faculdade de medicina?

— O meu pai era dentista, por sinal bastante bom e com muito êxito mas, num dos seus raros momentos de sinceridade, ele admitiu que tinha querido ser médico mas não conseguira entrar para a faculdade de medicina. Para lhe agradar, quando eu tinha dez ou onze anos, disse-lhe que iria para a faculdade de medicina, o que não era inteiramente uma surpresa, pois uma das minhas brincadeiras preferidas era ser enfermeira ou médica, que na altura eu pensava que era a mesma coisa.

— Estava apenas a ser clarividente. Cada ano que passa os dois campos estão a aproximar-se mais. A principal diferença atualmente é que as enfermeiras trabalham mais e os médicos ganham mais.

Angela sorriu, mas estava preocupada com a sua própria história. Nunca a tinha expressado, nem mesmo a si própria, de uma forma tão sucinta.

— Por conseguinte, parte da sua motivação para ir para a faculdade de medicina foi vexar o seu pai? — perguntou Chet.

—Acho que isso foi uma parte. Era uma forma de vingança pessoalmente compensadora. O facto de eu me licenciar foi uma provocação tão grande para ele que não foi à minha cerimónia de fim de curso.

— Não sei se concordo inteiramente com essa teoria — comentou Chet.

— Porquê?

— O facto de ter subsequentemente feito o internato em medicina interna, um dos mais exigentes, obrigou a um grande empenho.

— Já não pratico.

— Porquê?

— Na verdade, o meu consultório faliu literalmente. Contraí muitas dívidas porque os reembolsos da Medicare eram lentos ou não existentes e a Medicare era demasiado lenta para cobrir o défice.

— Uau — disse Chet. — A minha vida, comparada com a sua, tem sido um passeio no parque. Quando era criança, o meu momento mais esgotante do ponto de vista emocional foi quando uns miúdos mais velhos deram um pontapé na cara da minha abóbora do Halloween. Os meus pais ainda estão juntos e desde o jardim-de-infância que o meu pai assistiu sempre a todas as minhas provas de atletismo e cerimónias fim de curso.

— Com uma família assim, como é que se tornou um Casanova? Espero que a pergunta não o aborreça, especialmente porque não sei se é verdade. Quando se dirigiu a mim ontem à noite, parecia muito à vontade, e as suas respostas espirituosas pareciam muito polidas.

Chet deu uma gargalhada.

— É tudo teatro. Por dentro, eu estou sempre nervoso e preocupado com a possibilidade de ser rejeitado. Chamar-me Casanova atribui-me mais mérito do que mereço. O Casanova era bem sucedido; eu geralmente não sou, embora quando saio com uma mulher cerca de meia dúzia de vezes, eu dê por mim a ficar ansioso pela caça. Se isso é um problema ou não, não sei. Quando entrei para a faculdade, além de estudar, tinha de trabalhar. Não tinha tempo para uma verdadeira relação porque uma relação exige tempo. — Chet encolheu os ombros. — Assim, parece que as sementes foram plantadas há muito tempo.

— Bem, isso parece sincero.

— Sincero, sim; admirável, provavelmente não. Eu gostaria de dizer que ainda não conheci a mulher certa, mas não posso, porque geralmente não fico por perto o tempo suficiente para descobrir.

— Nunca teve uma relação que durasse muito tempo?

— Já! Tive uma namorada durante vários anos. Fizemos planos para ela ir comigo para Chicago, onde frequentei a faculdade de medicina mas, à última hora, ela trocou-me por alguém aqui em Nova Iorque.

— Lamento muito.

— No amor e na guerra vale tudo.

—Talvez esse episódio o tenha afectado mais do que quer admitir.

— Talvez — disse Chet. Depois mudou de assunto: — Disse que era divorciada. Quer falar sobre isso?

Angela hesitou. Normalmente, evitava falar sobre o seu divórcio, não só por ser por natureza uma pessoa reservada, mas porque, mesmo ao fim de seis anos, aquele triste assunto ainda a enfurecia. No entanto, como Chet tinha sido tão franco e ela própria já falara sobre assuntos ainda mais íntimos, reprimiu a sua reticência habitual e disse:

— No fim da faculdade de medicina, eu apaixonei-me como uma adolescente por um homem que eu pensava que era a antítese do meu pai. Infelizmente, não era. Ele sentiu-se ameaçado pelo meu curso de medicina. Também era infiel e gostava de me bater.

— Au. Violência doméstica é intolerável e imperdoável — disse Chet. — Infelizmente, na morgue vimos mais violência doméstica do que as pessoas se apercebem.

O empregado apareceu subitamente e tirou os pratos, depois perguntou se queriam sobremesa. Chet olhou para Angela.

— Eu não sou uma grande amante de sobremesas — confessou ela. —Eu também não—disse Chet.—Mas um capuccino cairia muito bem.

—Eu vou acabar o vinho — disse Angela apontando para a garrafa. O empregado deitou o vinho no copo e levou a garrafa vazia.

— Muito bem—prosseguiu Chet recostando-se na cadeira. — O seu consultório na cidade foi à falência. Quando foi isso?

— 2001 — respondeu Angela. — Esse ano foi o meu nadir, quero dizer, não podia ser pior. O meu consultório faliu e eu divorciei-me, duas desagradáveis experiências que não recomendo a ninguém. É o único ano que eu não gostaria de voltar a viver.

— Posso bem imaginar. Então como é que fez a transição do consultório privado para executiva de uma empresa? A propósito, qual é o seu cargo, uma espécie de consultora médica?

— Sou a fundadora e Diretora Executiva.

O sorriso amarelo de Chet reapareceu, e ele abanou a cabeça numa expressão de incredulidade.

— É incrível! Fundadora e Diretora Executiva! Estou estarrecido. Como é que isso aconteceu?

—A falência foi um desastre humilhante, mas teve uma vantagem. Fez-me ver o poder pernicioso da economia na medicina. Isto é, antes da falência eu já fazia uma pequena ideia, mas não da mesma forma em que passei a aperceber-me depois. De qualquer modo, eu tinha a ideia de fazer alguma coisa a esse respeito, mas a faculdade de medicina não me ensinou nada sobre economia médica. De facto, eu não sabia nada sobre economia nem sobre negócios, que é aquilo em que os cuidados de saúde infelizmente se tornaram, por isso voltei a estudar e fiz um MBA na Columbia.

Chet inclinou a cabeça para trás e bateu com a palma da mão na testa.

— Basta! — suplicou ele.—Já não suporto mais. Está a fazer-me sentir demasiado inadequado.

— Está a brincar, claro?

—Acho que sim — admitiu ele. — Mas tem um curriculum vitae dos diabos.

O empregado veio trazer o capuccino de Chet.

—Tenho uma pergunta para lhe fazer—disse Angela, apercebendo-se subitamente de que estivera tão embrenhada na conversa que ainda não tocara no assunto que a levara a ir jantar com Chet.

— Força — respondeu Chet.

— Queria perguntar-lhe sobre a Dra. Laurie Montgomery.

— O que é que quer saber?

—Classificá-la-ia como uma pessoa persistente, que não descansa enquanto não acaba o trabalho que tem em mãos, ou acha que é uma pessoa descontraída?

—A primeira, de certeza. De fato, eu caracterizá-la-ia como uma das pessoas mais persistentes que eu conheço, tanto ela como o marido. Alguns dos outros médicos legistas acham que eles são uns trabalhadores tão compulsivos que fazem com que os outros pareçam preguiçosos.

Angela sentiu os músculos do estômago a ficarem contraídos. Tinha a esperança de que Chet dissesse algo que mitigasse as suas preocupações, não que as avivasse.

— Eu conheci-a hoje. Não foi nas melhores circunstâncias. Nós tivemos um surto de staphylococcus resistente à meticilina pós-operatório que nos tem atormentado ao longo do último mês e que tem exigido um enorme esforço para o controlarmos, ao ponto de termos contratado uma epidemiologista a tempo inteiro e uma especialista em controlo de infecções.

— A Laurie falou-me nesse problema — disse Chet. — Também me lembrou que eu tinha autopsiado um dos vossos casos.

— A sério?

— Sim. Ela foi ao meu gabinete buscar o processo. Eu fiz a autópsia há algumas semanas e ainda estava à espera dos resultados do laboratório. Ela teve um caso semelhante esta manhã. Acho que ambos os casos vieram de um dos seus hospitais.

— Ela disse o que ia fazer com ele, ou se ia fazer alguma coisa? Quero dizer, nós já estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance. Eu dei pessoalmente carta branca à nossa especialista de controlo de infecções.

— Bem, pode ficar descansada, porque a Laurie disse especificamente que ia resolver o problema, nem que isso a matasse.

A garganta de Angela ficou seca. Bebeu um golo de vinho.

— Ela usou essas palavras exatas?

— Exatamente.

Subitamente, Angela desejou que a noite chegasse ao fim. Embora, antes de ter falado de Laurie Montgomery, se tivesse divertido mais do que imaginara, tinha agora um problema que não podia esperar. Sem se preocupar com a possibilidade de parecer excessivamente apressada, pousou o copo, dobrou o guardanapo e colocou-o em cima da mesa. Depois olhou deliberadamente para o relógio.

— Porque é que eu tenho o pressentimento de que a nossa deliciosa noite acabou? — perguntou Chet, com um toque de melancolia. — Eu tinha esperança de que estivesse disposta a andar um quarteirão para norte, para tomar uma bebida no elegante Saint Regis.

— Esta noite, não. O dever chama — replicou Angela. — Vamos pedir a conta, e que tal dividi-la a meias?

— Oh, não! — disse Chet. — Sou eu que pago.

— Já que insiste, tudo bem, e, se me desculpar, eu tenho de voltar para o escritório. Preciso de fazer uma chamada. — Angela empurrou a cadeira para trás e pôs-se de pé. Chet fez o mesmo. O fim súbito da noite confundiu-o.

— Havemos de falar em breve — disse Angela estendendo a mão, que Chet apertou.

— Espero que sim — disse Chet.

Com um último sorriso, Angela atravessou a sala, foi buscar o casaco ao bengaleiro e, depois de olhar mais uma vez e de acenar para Chet, saiu apressadamente do restaurante.

Chet sentou-se lentamente. Os seus olhos cruzaram-se com os do empregado, que encolheu os ombros em sinal de solidariedade.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 21.05

Michael fechou o telemóvel e cerrou os dentes. Estava na casa de banho da mezzanine do Downtown Cipriano, no SoHo. Antes de se refugiar na casa de banho do íntimo clube privado no segundo andar para escapar à música disco alta, estivera com dois dos seus amigos a entreter três miúdas de New Jersey. O seu telefone tinha tocado e, uma vez que era Angela, ele atendera, mas não tinha conseguido ouvir nada, por isso fugira para a casa de banho. Agora desejava não o ter feito.

Com grande contenção, Michael resistiu à tentação de bater na parede coberta de graffíti, o que foi sensato, porque a parede era de madeira e estuque, não de contraplacado.

— Merda! — gritou Michael o mais alto que conseguiu. Dentro da pequena casa de banho, o expletivo percorreu as paredes numa explosão de energia acústica, fazendo os ouvidos de Michael zumbir em protesto. Ele agarrou nos lados do único lavatório e contraiu os músculos como se estivesse prestes a arrancá-lo da parede. Lentamente, ergueu os olhos e viu-se ao espelho. Estava com um ar horrível. O cabelo coberto de gel estava todo no ar como se dez mil volts de electricidade lhe tivessem percorrido o corpo, e os seus olhos pareciam os olhos de Drácula.

Depois expirou. Estava furioso, mas sob controlo. A cabra da ex-mulher tinha-lhe atirado outro problema para cima, como se ele fosse um lacaio. Se não estivesse já metido naquilo até ao pescoço ter-lhe-ia simplesmente dito, com satisfação, que se fosse foder, mas isso não era possível. Tinha de tratar do assunto, e a única forma era ir a Queens e rastejar aos pés bem engraxados de Vinnie.

Subitamente, cedendo ao impulso, bateu na parede, mas teve o bom senso de usar a palma da mão, não o punho, pelo que a força da pancada ficou distribuída por uma área maior. Mesmo assim, quando retirou a mão, esta ardia-lhe.

Mais calmo depois da pancada, abriu o telefone. Com dedos trêmulos, marcou o número do telemóvel privado de Vinnie. Era o telefone que Vinnie tinha sempre consigo, dia e noite.

— Diz-me que me telefonaste a dar boas notícias, para variar — disse Vinnie com a voz excessivamente calma que Michael temia. Michael recordava-se da ocasião em que Vinnie utilizara aquele tom de voz para pôr termo à conversa com um sujeito e mandá-lo embora. Depois, assim que o sujeito virara as costas, Vinnie fizera sinal a Franco com a cabeça, que também saíra. E esse fora o fim do sujeito, que nunca mais fora visto.

— Preciso de falar contigo — disse Michael, com toda a serenidade que conseguiu.

—Esta noite?—perguntou Vinnie calmamente. Ao fundo, Michael ouvia o ruído de conversas animadas e a voz de Frank Sinatra a cantar, uma indicação segura de que Vinnie ainda estava no Neapolitan.

— Quanto mais cedo melhor — disse Michael. — Desculpa incomodar-te, mas eu não o faria se não fosse importante.

— Muito bem, Mikey, mas não te demores. Quanto mais tarde é, menos tolerante eu sou em relação às asneiras, se é disso que me vens falar.

Michael meteu a primeira. Correu para o clube, que estava praticamente vazio, com exceção dos seus dois amigos e das três raparigas de Jersey, e disse-lhes que tinha uma reunião importante mas que voltaria. Depois desceu apressadamente as escadas exteriores que eram usadas como entrada do clube, saltou para o seu Mercedes estacionado no outro lado da rua e arrancou. Uma vez que estava no centro, atravessou a Williamsburg Bridge e depois seguiu pela via rápida até à 108 Street, em Corona. Em pouco menos de vinte minutos, tinha o Neapolitan à vista.

Michael tinha-se acalmado bastante durante a breve viagem. Ele até refletira sobre qual seria o plano B se Vinnie simplesmente se recusasse a ajudar como fizera nessa manhã. Michael não conseguia pensar em alternativas viáveis, o que significava que tinha de convencer Vinnie que ele tinha mesmo de ajudar. Aquele raciocínio podia ter funcionado muito bem enquanto Michael estava no carro, mas, agora que estava a atravessar a rua e prestes a enfrentar Vinnie, os seus temores regressaram, mais fortes do que nunca.

À entrada, ele parou, tentando pensar numa introdução apropriada. Pensou vagamente em apelar para a vaidade de Vinnie, que, pelo menos, era um alvo de grandes dimensões. Com esse pensamento em mente, Michael passou a porta e esgueirou-se através das cortinas.

O restaurante estava repleto de gente a celebrar um aniversário. O teto estava cheio de balões e havia serpentinas por todo o lado. O chão da pequena pista de dança estava coberto de confeti, e atrás do bar estava pendurada uma enorme faixa com as palavras PARABÉNS VICTORIO. Vinnie estava sentado à mesma mesa da tarde, com Carol ao seu lado. Michael não reconheceu os outros amigos. Frank Sinatra ainda estava a cantar.

Quando olhou para Vinnie, Michael ficou surpreendido e não pôde deixar de se sentir animado. Vinnie estava a rir-se tanto que parecia que tinha lágrimas nos olhos. Michael ficou parado onde estava na esperança de que Vinnie reparasse nele mas, ao fim de cinco minutos, tornou-se óbvio que isso não ia acontecer. Com alguma relutância, começou a dirigir-se a Vinnie. Ele reconheceu algumas pessoas, mas a maior parte dos outros eram desconhecidos. Michael não pôde deixar de reparar que nem Franco nem Angelo pareciam estar presentes, embora ele visse Freddie e Richie junto do bar.

Enquanto se aproximava da mesa, Vinnie viu-o finalmente, e Michael ficou satisfeito por o sorriso de Vinnie não se ter desvanecido. Vinnie apresentou toda a gente e Michael apertou mãos à volta da mesa. Depois Vinnie pediu licença, fez sinal a Michael para que o seguisse e atravessou o restaurante, acenando a alguns convidados e apertando as mãos de outros. Em seguida, atravessaram rapidamente a cozinha, na qual a urgência de fazer sair o prato principal estava a provocar um ligeiro pânico. Ao fundo da cozinha havia uma porta para um escritório. Vinnie entrou sem hesitar. Paolo Savato, o dono, ergueu os olhos, surpreendido.

— Paolo, meu amigo — disse Vinnie. — Seria um abuso da nossa parte utilizarmos o teu gabinete por alguns minutos?

Paolo pôs-se de pé.

—Absolutamente nada. — respondeu ele, levantando-se de detrás da secretária e desaparecendo na cozinha, fechando a porta do escritório atrás de si.

— Muito bem, Mikey — disse Vinnie virando-se para Michael. — Qual é o novo problema que não podia esperar até amanhã?

Michael começou por dizer que era o tipo de problema que apenas Vinnie conseguia resolver. Essa foi a tentativa de satisfazer o ego de Vinnie. Michael resumiu o que Angela lhe dissera, nomeadamente que havia uma médica — uma médica legista, para ser exacto — que subitamente se empenhara em resolver o problema da bactéria que estava a causar os problemas dos hospitais Angels. Michael acrescentou que este era um desenvolvimento muito desagradável, na medida em que a médica podia ir para a comunicação social, e isso seria o fim da OIV. Ele acabou dizendo que alguém singularmente persuasivo tinha de falar com ela e convencê-la de que era do seu interesse parar e desistir.

Para alívio de Michael, enquanto ele fazia o seu rápido resumo, Vinnie não reagiu, nem a sua expressão se alterou. Mas, quando Michael terminou, Vinnie inclinou a cabeça para o lado de uma forma completamente inesperada e, com um impenetrável sorriso irónico, perguntou:

— O nome da médica é, por acaso, Laurie Montgomery?

— É — respondeu Michael, espantado e bastante confuso.

— Oh, que tragédia—disse Vinnie, batendo alegremente as mãos.

— Conheces esta mulher?

— Conheço, sim. — respondeu calmamente Vinnie. — Eu e a senhora Montgomery temos uma história. Ela fez-me ter uma enorme zanga com a minha mulher por causa da funerária do irmão dela e também conseguiu que eu fosse preso e atirado para a cadeia durante dois anos. Eu diria que isso significa que nos conhecemos. Mas sabes quem teve ainda mais problemas com esta cabra do que eu?

— Não faço ideia — respondeu Michael. Ele estava espantado e grato por aquela situação inesperada mas fortuita.

—O Angelo! Há quinze anos, ela foi responsável por ele ter ficado com a cara tão queimada que quase morreu.

Vinnie meteu a mão no bolso lateral do casaco para tentar tirar o telemóvel. O telemóvel pareceu oferecer resistência à sua pressa. Quando finalmente o soltou, ele fez rapidamente uma chamada. Vinnie pôs o telefone em alta voz.

—O que é que vocês dois estão a fazer? Estão a gostar do cruzeiro?

— Estamos a divertir-nos imenso — disse Franco. — A primeira parte da noite foi uma chatice, mas a segunda parte compensou a primeira. Os peixes já comeram.

— Ótimo — disse Vinnie. — O Angelo está aí?

— Está mesmo aqui.

— Chama-o ao telefone.

A voz única de Angelo surgiu através do altifalante. Uma vez que ele mal conseguia unir os lábios, os seus bs, ds, ms e ps tinham uma distinta qualidade muda.

—Angelo — disse Vinnie. — E se eu te dissesse que a Dra. Laurie Montgomery... Tu recordas-te dela, não recordas?

Em vez de responder, Angelo limitou-se a rir sarcasticamente.

— E se eu te dissesse que a Dra. Laurie Montgomery está a pôr em perigo um importante negócio e que tu e o Franco têm de lhe meter algum juízo na cabeça como fizeram ontem com o senhor Yang?

Angelo riu-se novamente, mas desta vez com uma satisfação óbvia.

— Eu diria que nem sequer teria de me pagar. Eu fá-lo-ia de graça, desde que o pudesse fazer à minha maneira.

— Sabes uma coisa? O Frankie acabou de cantar My way há alguns minutos aqui no Neapolitan. Parece que vais ter o que desejas.

Vinnie desligou, pôs o braço à volta dos ombros de Michael e conduziu-o novamente através da cozinha.

— Parece que este também é o teu dia de sorte. O problema do oito-K ficou resolvido, e podes deixar de te preocupar com a Dra. Laurie Montgomery. Nada mau, para uma noite de trabalho.

Michael apenas acenou com a cabeça para indicar que tinha ouvido. Estava sem palavras. Vinte minutos mais tarde, depois de beber um copo de vinho na mesa de Vinnie, ele estava sentado no seu carro, ainda espantado com a imprevisibilidade da vida.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 17.25

Adam Williamson estava aninhado no seu Range Rover como uma mão numa perfeita luva de cabedal forrada de caxemira. A notável Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven estivera a tocar ao longo dos últimos cento e tal quilômetros, e o espantoso coro final estava prestes a começar. Adam tinha o volume quase no máximo, pelo que o som era como se ele estivesse sentado no meio da Orquestra Filarmônica de Berlim. Quando o coro começou subitamente, Adam cantou com ele em alemão, e a sua voz abafou a dos cantores profissionais. Era tão emocionante que Adam sentiu a pele ficar arrepiada, começando nas costas e espalhando-se até às extremidades. Era quase orgásmico.

Os últimos acordes da sinfonia deixaram de se ouvir quase no momento exacto em que Adam completou uma curva de trezentos e sessenta graus para a direita que culminou numa fila de cabines de portagem que bloqueavam a entrada do túnel Lincoln, que ligava New Jersey a Nova Iorque. Depois de pagar a portagem, ele entrou no túnel.

Um CD de Bach foi a escolha seguinte, os sons dos delicados violinos e do cravo fazendo o contraste perfeito com a intensidade dramática de Beethoven, e os dedos de Adam começaram a dedilhar suavemente o volante, acompanhando a música.

Tinha sido uma viagem agradável desde Washington, D.C., até Nova Iorque, mas Adam estava agora ansioso por chegar e cumprir a sua missão. Ele sabia muito pouco sobre o seu alvo, e era assim que ele gostava, um facto que os patrões reconheciam. No seu ramo de trabalho actual, demasiada informação só servia para complicar a questão. A única coisa de que ele precisava era um nome, um endereço do emprego ou de casa, e algumas fotografias. Se não havia uma fotografia, uma descrição bastava. Nas missões em que não havia fotografias, apenas uma descrição, ele permitia-se a si próprio mais tempo. Adam não era o tipo de pessoa que cometia erros, pelo que a preparação demorava inevitavelmente mais tempo. E a sua missão actual era daquelas em que não havia fotografias, pelo que ele tinha reservado três dias inteiros para a levar a cabo, para a eventualidade de ter dificuldades com a identificação.

O Range Rover emergiu do túnel e seguiu directamente para o coração da Midtown de Manhattan. Adam não estivera em Nova Iorque desde que regressara do Iraque. Enquanto se dirigia para norte ao longo da Oitava Avenida, observou a cidade com um ar impassível, o que não era estranho, pois a sua personalidade actual observava tudo com um ar impassível. Quando era jovem, mesmo quando andava na universidade, nas numerosas ocasiões em que viera à cidade, primeiro com a família e depois sozinho, e até mesmo ocasionalmente com a sua noiva, ele sentira sempre um enorme entusiasmo, mas agora, enquanto conduzia para norte ao longo da Oitava Avenida com as suas lojas de mau gosto, parecia que tudo isso tinha ocorrido numa vida anterior e, nalguns aspectos, assim era. Nessa altura, Adam era uma pessoa totalmente diferente. De facto, ele classificava as etapas da sua vida como AI e BI, o que queria dizer antes do Iraque e depois do Iraque.

O Adam Williamson AI tinha sido um jovem atraente um tanto reservado, bem-educado, tranquilamente inteligente, que se encaixava de um modo exemplar na sua vida de classe alta de Nova Inglaterra. Fora aluno num conceituado colégio interno, tinha aprendido boas maneiras e respeitava-as, andara em Harvard, tal como o pai, o avô e numerosos ascendentes desde que o Mayflower aportara à costa de Plymouth, Massachusetts.

O início do espaço intermédio entre AI e DI não tinha sido um nascimento, mas sim o horrível acontecimento do 11 de Setembro, que tinha abalado o confortável e previsível mundo de Adam de um modo semelhante ao de um planeta a ser atirado para fora da sua órbita. No momento em que o primeiro avião embatera na torre norte do World Trade Center, Adam estava a lavar os dentes no dormitório da Harvard Business School, onde estava a aprender os meandros do mundo dos negócios como preparação para assumir o controle da empresa financeira de que a família era proprietária.

Contra a vontade dos pais, bem como da sua namorada, que era aluna de Direito, Adam insistira em alistar-se no exército como voluntário, numa súbita manifestação do zelo messiânico para cumprir a sua parte na defesa da América e da democracia. Como um atleta dotado, tendo sido jogador de lacrosse bem como fã de pólo, e possuindo uma personalidade que o levava a empenhar-se a cem por cento em tudo o que fazia, uma vez no exército, de que ele não sabia nada antes, ficara obcecado por entrar para as Forças Especiais. E, de acordo com a sua personalidade, nem mesmo isso era suficiente, e ele não ficara satisfeito enquanto não se tornara membro da Delta Force.

Adam tinha gostado do treino e adorara a sua dificuldade, como se o treino em si estivesse a ajudar a causa da democracia. Mas a realidade, o combate propriamente dito, foi um choque para Adam porque era mais cerebral do que físico. Na segunda noite da sua missão no Iraque, ele foi obrigado a matar outro ser humano com uma faca, e a sua reação fê-lo sentir-se chocado e envergonhado. A experiência tinha desencadeado uma sensação de culpa e tristeza transcendental que ele escondeu dos seus camaradas. Para ultrapassar o que considerou uma fraqueza e um defeito, em missões subsequentes ele fez o possível por matar. Ao longo do tempo, e com igual quantidade de horror e alívio, ele passou a aceitar não só o que fazia como o facto de se ter transformado numa verdadeira máquina de matar com pouca ou nenhuma reacção emocional. Não era algo que o fizesse sentir-se feliz ou orgulhoso. Era exactamente o que pensava que esperavam dele.

Adam virou à direita no Columbus Circle, e os Concertos de Brandenburg de Bach pareceram-lhe muito apropriados à aparição súbita do Central Park, com as suas rendilhadas árvores em flor a proporcionarem um agradável oásis na cidade dura, angular e quase toda de cimento. O percurso de Adam iria levá-lo ao longo do Central Park Sul até à Madison Avenue, onde viraria para norte. Nessa altura, bastar-lhe-ia dar a volta ao quarteirão para chegar ao seu destino, o Hotel Pierre, um marco da cidade de Nova Iorque da Era Dourada.

O Pierre era o hotel onde Adam se hospedava sempre que vinha à cidade, quer em criança, quer quando frequentava a faculdade de economia. Nesta viagem, para desgosto do seu patrão, insistira em lá ficar. O seu principal patrão, em particular, tinha tentado convencê-lo a hospedar-se num local com menos segurança e onde tivesse o Range Rover imediatamente à sua disposição. Mas Adam insistira. Ele tinha curiosidade em ver se iria sentir qualquer nostalgia. Pensava que não. Era como se a sua experiência no Iraque, particularmente as missões secretas, em que ele testemunhara e participara em todo o tipo de atrocidades que, antes do Iraque, AI, nunca teria imaginado, lhe tivesse sugado todas as emoções. E, o que era ainda mais inquietante, ele começara a gostar do que fazia, até mesmo de matar.

A sua experiência no Iraque tivera um desfecho desastroso. Tudo acontecera durante uma malograda acção secreta que correu terrivelmente mal. Ele e o resto da equipa acabaram por ser dizimados por fogo amigo mal dirigido que ele e os seus companheiros tinham mandado chamar. Embora não tivesse morrido, como acontecera aos seus camaradas, Adam tinha partido uma perna e ficara inconsciente. Num estado tão vulnerável, ele tinha sido feito refém pelos que ele e a sua equipa tinham sido enviados para matar ou capturar.

Apesar do treino preparatório que recebera para a eventualidade de ser feito prisioneiro de guerra, Adam não estava preparado para o sofrimento como preso. A sua perna nunca fora devidamente tratada e doía-lhe constantemente. Mas pior ainda fora ter sido torturado em frequentes ocasiões, durante as quais ele tinha a certeza de que ia ser morto a tiro ou decapitado.

Embora a situação lhe tivesse sido explicada com uma reação psicológica chamada síndroma de Estocolmo, ele ficou chocado com o que lhe aconteceu. Ao fim de vários meses, ele começou a identificar-se com os seus captores e a sua retorcida ideologia. Até chegou a gravar uma cassete que foi transmitida pela estação de televisão Al Jazeera, na qual ele louvava a causa dos rebeldes e lançava calúnias sobre os motivos da intervenção dos Estados Unidos no Iraque. A sua mente ficara tão distorcida que, quando a sua libertação foi negociada por um mediador do FBI em troca de vários rebeldes presos, ele não soube se devia regozijar-se ou lamentar a sua libertação e subsequente repatriação. Mas ele soubera instintivamente que nunca poderia voltar à sua vida anterior: isso estava simplesmente fora de questão.

Adam virou na 61 st Street e, a meio do quarteirão, parou junto do toldo da entrada do Pierre. O porteiro levou a mão ao chapéu e abriu a porta do Range Rover.

— Vai registrar-se, senhor?

Adam limitou-se a acenar a cabeça em sinal afirmativo. Seguiu o porteiro até à parte de trás do carro e, assim que ele abriu a porta traseira, Adam insistiu em levar o saco de ténis que continha as suas ferramentas de trabalho, permitindo-lhe apenas que levasse a pequena mala de fim-de-semana.

— Vai precisar do veículo esta noite? — perguntou o porteiro enquanto abria a porta do hotel para Adam passar.

Adam voltou a acenar afirmativamente a cabeça.

— Muito bem, eu vou deixá-lo aqui mesmo à porta — disse o porteiro fazendo um gesto na direcção do balcão da recepção.

Adam não precisava de direcções, pois o átrio mal se alterara durante os cerca de vinte anos em que ele se hospedara no hotel. Parando por um instante junto da mesa central adornada com flores que estava no meio da carpete, Adam deixou que os seus olhos percorressem o ambiente familiar, incluindo a zona de estar elevada à direita, com mobiliário inglês do século dezenove. Tal como ele esperara, não sentiu nada. A cena não evocou qualquer emoção. Era como se as suas recordações fossem da vida de outra pessoa.

O registo foi feito com uma rapidez louvável, após o que o recepcionista chamou um empregado, dizendo:

— Hector, este é Sr. Bramford, de Connecticut. Leva-o ao quarto, por favor. A propósito, Sr. Bamford, demos-lhe um quarto com uma bela vista para o parque.

Bamford era uma das várias identidades que Adam usava nesta missão, juntamente com toda a documentação associada. Os seus patrões em Washington tinham uma empresa de segurança/gestão de riscos com sucursais nas principais cidades do mundo, e Adam trabalhava para eles em operações especiais como free-lancer. Os clientes desta missão, todos eles ex-advogados e políticos, tinham contatos no governo ao mais alto nível, pelo que tinha sido relativamente fácil obter as identidades.

— Por aqui, Sr. Bamford — disse Hector, apontando para os elevadores.

O interior do elevador era único no seu estilo francês, e Adam lembrou-se dele assim que entrou. A frivolidade e a limpeza do elevador formavam um contraste tão grande com a sua experiência de guerra que ele se admirou que ele pudesse existir no mesmo planeta que o Iraque. Enquanto subia rodeado pela espalhafatosa decoração do elevador, o contraste de toda aquela situação fê-lo recordar a sua libertação do cativeiro. Nessa altura, tinham-no ido buscar ao deserto cheio de marcas de guerra, vestido apenas com umas boxers sujas e a coxear sobre uma perna deformada.

Algumas horas depois, fora evacuado para a Alemanha, onde a sua perna fora novamente partida e colocada no lugar, e iniciara o tratamento para aquilo a que chamaram uma variante do stress pós-traumático. Sob orientação da psiquiatra, Adam fez consideráveis progressos em lidar com a sua ansiedade, a sua incapacidade de se concentrar, a sua falta de alegria e a sua dificuldade em dormir. Teve menos êxito em manifestar qualquer interesse por regressar à sua vida anterior, o que incluía a ressurreição das relações com a sua família, os negócios da família, a namorada, ou a Harvard Business School. Também não conseguiu adaptar-se à perda da camaradagem dos seus colegas da Delta Force e do risco único e viciante de matar.

A psiquiatra de Adam tinha ficado frustrada com o que considerava ser a falta de progressos de Adam, até ter sugerido uma nova estratégia: nomeadamente, que Adam aproveitasse aquilo em que a sua experiência no exército o transformara, em vez de o tentar reprimir ou ignorar. Foi até ela que, vivendo em Alexandria, Virgínia, apresentara Adam ao fundador e director executivo da Soluções de Controlo de Riscos e Segurança, que foi extremamente receptivo à combinação do seu treino nas Forças Especiais com a experiência de prisioneiro de guerra. Para proteger a sua identidade, eles criaram uma relação laboral que não aparecia nos seus livros de contabilidade. Em troca, pagavam-lhe extremamente bem.

O elevador do Pierre chegou ao andar certo. Hector deixou que Adam saísse primeiro, depois passou-lhe à frente para abrir a porta do quarto de Adam. Seguidamente, ele fez uma breve visita guiada ao quarto, incluindo indicações sobre como navegar os sistemas simples de entretenimento do hotel, e a localização do mini-bar. Depois, recuou para a porta do quarto, segurando servilmente na mão a gorjeta de Adam.

Durante alguns minutos, Adam deixou-se ficar à janela que dava para o Central Park. O objecto mais óbvio era o rinque de patinagem, bem iluminado no meio da imensidão escura do parque. Depois ele virou-se para o interior do quarto. Tirou o saco de ténis do ombro e abriu-o. Lá dentro estava uma selecção das suas armas preferidas, cuidadosamente embrulhadas em toalhas e fita-cola. Tirou-as do saco, desembrulhou-as e verificou se estavam todas a funcionar como quando as embrulhara. Quando se certificou de que o seu arsenal não ficara danificado na viagem, tirou uma única folha de papel de um bolso interior com fecho. Nela estava o nome do alvo, uma descrição breve e provavelmente inútil e o estranho endereço do Departamento de Medicina Legal da Cidade de Nova Iorque.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 22.15

- Não está com bom aspecto — disse o Dr. Tom Flanagan. — Não está nada com bom aspecto.

O Dr. Tom Flanagan era um dos oito médicos de cuidados intensivos que tinham sido contratados, com um enorme custo, para supervisionar a unidade de cuidados intensivos, ou UCI. Durante vinte e quatro horas, sete dias por semana, ele estava na unidade ou disponível para ser chamado. Estava a falar com a Dra. Marlene Ravelo, que tinha a especialidade de medicina interna e doenças infecciosas e que geria o Departamento de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário.

— Infelizmente, eu concordo — disse a Dra. Ravelo. Estavam ao fundo da cama de Ramona Torres, num cubículo de isolamento especial junto da sala principal da UCI.

À direita da cama estava o Dr. Raymond Grady, um pulmonologista. Ele estava ocupado a ajustar o ventilador de pressão positiva numa tentativa de obter o volume adequado. Estava a ser difícil. Leu a impressão da pressão venosa central e a da pressão pulmonar em cunha.

—Não estamos a ventilá-la muito bem—disse ele para a Dra. Phyllis Bohrman, a cardiologista que ele chamara e que estava do outro lado da cama a observar o eletrocardiograma noutro monitor. Ao lado dela encontrava-se o director da medicina interna, Marvin Poole.

— A razão é muito clara — disse o Dr. Bohrman. — Olha para esta última radiografia do tórax. Os pulmões estão cheios de líquido.

— Vamos olhar para o lado positivo — disse o Dr. Flanagan. — Com estes doentes da Angels Healthcare, estamos a ganhar mais prática de lidar com septicemias com choque séptico.

— Isso é verdade — concordou a Dra. Ravelo. — Mas seria agradável salvar um deles de vez em quando.

— A culpa não é nossa. Depois da lipoaspiração, a infecção cirúrgica desta doente cobriu uma percentagem significativa da superfície do seu corpo.

— Não nos esqueçamos daquilo que eu acredito ser uma pneumonia necrosante — disse a Dra. Ravelo.

—Achas que a pneumonia resulta da infecção da zona da cirurgia, ou pensas que é primária... quero dizer, a pneumonia primária causada pelo staphylococcus não é bastante rara?

— É, mas o intervalo temporal parece estranho. Não nos disseram que os sintomas pulmonares precederam os sintomas da celulite?

— É o que está no registro.

— É muito estranho, especialmente tendo em conta que o caso de ontem à noite foi muito semelhante, embora o local da infecção cirúrgica fosse muito mais pequeno.

— Muito bem, meninos e meninas — chamou o Dr. Flanagan. — A infecção pulmonar está a ir para a Antártida, a função cardíaca vai na mesma direcção, pelo que a pressão arterial está muito baixa. Já não existe produção de urina, o que nos diz o que está a acontecer nos rins, e o fígado não está a fazer o que devia. Obrigado a todos pelo vosso trabalho, mas é óbvio que perdemos a batalha.

O Dr. Flanagan e a Dra. Ravelo deram meia volta e voltaram para a secretária central, onde pegaram no registo de Ramona Torres para fazerem as suas últimas anotações.

— Achas que podíamos ter feito alguma coisa de um modo diferente? — perguntou a Dra. Ravelo enquanto se sentavam ao lado um do outro.

O Dr. Flanagan abanou a cabeça.

— Nós seguimos o protocolo mais recente, por isso acho que não. Que diabo, nós demos-lhe tudo o que temos, incluindo a proteína C ativada, corticosteróides, e tu mudaste de antibiótico no momento em que soubeste que estávamos novamente a lidar com o MRSA, por isso nós sabíamos que tínhamos o cocktail certo. E lembra-te que a contagem APACHE II dela estava altíssima quando ela chegou, por isso não tínhamos muito com que trabalhar.

— Porque é que não conseguimos que os hospitais Angels nos enviem os seus doentes mais cedo?

— Essa é uma boa pergunta. O que eu penso é que as infecções destes doentes se desenvolvem demasiado depressa depois da cirurgia. Quero dizer, esta mulher foi operada esta manhã às sete e meia. No seu registo diz que os primeiros sintomas não específicos começaram pouco depois das quatro da tarde. Isso é muitíssimo rápido.

— Com todas as toxinas más potencialmente à disposição do staphylococcus, é compreensível. Eu aposto que a bactéria desta doente tem o gene da leucocidina, ou PVL.

— Surpreende-te que os hospitais Angels tenham tantos casos de MRSA?

— Sim e não. O staphylococcus é o micróbio patogénico mais comum nos locais de cirurgia e se bem que o MRSA compreendesse apenas dois por cento na década de mil novecentos e setenta, hoje em dia a percentagem é de sessenta por cento, e continua a aumentar.

— Na realidade, o que mais me preocupa nestes casos é o dilema dos hospitais de especialidade. Eles não têm os recursos necessários para lidar com este tipo de casos e têm de mandar os doentes para outros hospitais. De fato, num hospital de especialidade, julgo que foi um hospital ortopédico, um doente teve um ataque cardíaco. E sabes como é que eles resolveram o assunto?

— Não.

— Ligaram para o cento e doze.

— Estás a brincar! — exclamou a Dra. Ravelo num tom de incredulidade total.

— Não havia nenhum médico de serviço. Dá para acreditar numa coisa dessas?

— O doente sobreviveu?

— Julgo que não.

— Isso é caricato.

— Eu concordo, mas o que é que se há-de fazer? Estás a par do debate sobre os hospitais de especialidade em geral?

— Eu sei um pouco sobre isso. É uma das vantagens de trabalhar num hospital universitário. Não temos de nos envolver nas querelas do sector privado.

— Eu não teria tanta certeza. Isso pode acabar por ter influência nos nossos salários. O maior problema que as pessoas vêm nestes hospitais de especialidade privados é que eles só estão interessados na nata dos doentes, isto é, os saudáveis, com um bom seguro de saúde, que só vão fazer uma cirurgia rápida e se vão logo embora. É, de fato, uma máquina de fazer dinheiro porque recebem o mesmo que uma universidade mas, porque não têm Unidades de Cuidados Intensivos como a nossa, nem uma Urgência como a nossa, que não fazem dinheiro, os custos deles são significativamente menores.

— Ouvi dizer que o governo teve uma moratória contra eles durante algum tempo. A razão era essa?

— Não — respondeu o Dr. Flanagan. — O governo esteve contra eles durante algum tempo, desde finais de 2003 até ao fim de 2006 porque nos hospitais de especialidade é necessário que os médicos sejam, até certo ponto, proprietários, para garantir um fluxo contínuo de doentes. A lei da Medicare proíbe que os médicos enviem doentes para organizações de serviços de saúde de que eles sejam proprietários, tais como centros de imagiologia, laboratórios clínicos, etc. Mas existe um buraco que se refere a um hospital inteiro. Nessa situação, a propriedade por parte dos médicos não foi proibida porque se pensou que, num hospital completo, haveria pouco risco de existir um conflito de interesses.

— Mas um hospital de especialidade não é um hospital completo! — disse a Dra. Ravelo com indignação. — Eles só prestam um número limitado de serviços.

— Exatamente! No entanto, ao afirmarem que são um hospital completo, eles estão a aproveitar o buraco da lei.

— Então porque é que a moratória foi levantada?

—Não faço a mínima ideia. Houve várias audições sobre o assunto durante as quais todas essas questões foram levantadas. A maior parte das pessoas que está a par do debate, que assistiu às audições ou leu sobre elas, tinha a certeza de que a moratória devia ser mantida e, na verdade, reforçada, porque a moratória existente apenas se opunha a que os novos hospitais de especialidade obtivessem números de fornecedores da Medicare, os quais são necessários para o reembolso.

— O que é que aconteceu?

— Subitamente, a moratória foi levantada sem grandes explicações. Eu acho que houve uma rivalidade entre lóbis nos bastidores, com lobistas da AMA contra os lobistas da AHA, ou American Hospital Association e a FAH, ou Federation of American Hospitais. Suponho que os médicos gastaram mais dinheiro do que os grupos de administração dos hospitais.

— Isso é horrível. Vai tudo dar ao dinheiro. Sinto vergonha pela nossa profissão.

— Bem, nem tudo é mau. De um modo geral, os doentes gostam dos hospitais de especialidade e, para cirurgias de rotina, eles ficam certamente mais bem instalados.

—Talvez devêssemos perguntar a Ramona Torres — disse a Dra. Ravelo. — Talvez ela tenha uma opinião sobre o que é melhor: um hospital de especialidade e as suas comodidades ou um hospital verdadeiramente completo. Se ela estivesse cá desde o início, de acordo com as nossas estatísticas, teria uma probabilidade muito maior de sobreviver à infecção.

— Bem visto — disse o Dr. Flanagan. — Muito bem visto.

 

                   3 DE ABRIL DE 2007, 23.05

- Ei, imbecil! — chamou Carlo dando um abanão violento ao ombro de Brennan.

Brennan, que adormecera e tinha deslizado lentamente no banco até os joelhos ficarem premidos contra o tablier, reagiu violentamente ao ser acordado tão bruscamente e sentou-se muito direito, procurando freneticamente um animal ou um inimigo na área imediata do outro lado do pára-brisas. Assim que ouviu Carlo rir-se baixinho na escuridão do interior do carro, adquiriu a noção do tempo, do espaço e da pessoa. E quando estava prestes a dizer que, por essa noite, já estava farto de Carlo, este apontou para algo para além do pára-brisas.

—Acho que os nossos meninos estão a voltar para o porto — disse Carlo. — Frente e centro! — Ele tinha passado um ano nas forças armadas antes de ter sido expulso. Detestara a experiência arregimentada, mas, de vez em quando, ainda usava a linguagem dessa altura.

Brennan teve de semicerrar os olhos para conseguir ver ao longe, para lá do molhe. A lua tinha-se erguido acima da silhueta da cidade de Nova Iorque, lançando uma linha límpida de reflexos sobre o Hudson, em direcção a eles. Brennan e Carlo ainda estavam no Denali deste último, estacionado no cimo da colina nas traseiras do parque de estacionamento, à espera que Angelo e Franco regressassem.

— Não estou a vê-los — disse Brennan. Mal as palavras lhe saíram dos lábios, um iate de dimensões razoáveis atravessou o reflexo da lua. — Certo, estou a ver um barco. Mas como é que sabes que são eles?

— Quantos barcos vimos entrar e sair esta noite?

— Mesmo assim, não sabemos se são eles — disse Brennan, erguendo os binóculos. Com a ampliação, o barco parecia um fantasma a passar por entre a neblina suspensa sobre a superfície da água. — Eles não deviam ter algumas luzes acesas?

— Como é que eu hei-de saber? — O que é que vamos fazer?

— Vamos ficar aqui a vê-los, para verificar se ainda estão acompanhados pela jovem. Depois damos uma vista de olhos ao barco.

Pareceu decorrer uma eternidade até o barco fazer marcha atrás para o seu ancoradouro e Franco e Angelo o prenderem bem. Feito isso, os dois homens atravessaram o molhe em direcção à terra firme.

Carlo baixou o vidro da janela. Mesmo ao longe, Carlo e Brennan conseguiam ver que Franco e Angelo estavam a comportar-se como se estivessem estado numa festa. Ainda se riam quando entraram no Cadillac de Franco, bateram com as portas e arrancaram.

— Deve ter sido um belo passeio de barco.

— À custa da rapariga — comentou Carlo pondo o carro a trabalhar. — Que dupla de porcos.

— Não faz muito sentido. Gostava de saber quem ela era. Porquê tanto trabalho? Ela não era nada de especial.

—Não faz sentido para nós, mas talvez faça para o Louie—comentou Carlo, virando-se seguidamente para Brennan e perguntando: — Trouxeste as tuas ferramentas de serralheiro?

— Trago-as sempre comigo.

— Se conseguires abrir a porta e desactivar o sistema de alarme, vamos dar uma vista de olhos ao interior do Full Speed Ahead.

— Eu consigo — disse Brennan, num tom confiante. Dois dos talentos de Brennan eram abrir fechaduras com uma gazua e compreender o funcionamento dos equipamentos eletrônicos, incluindo alarmes e computadores. Quando fora expulso do liceu normal, ele frequentara uma escola profissional de eletrônica.

Carlo estacionou aproximadamente no mesmo lugar em que Franco estivera. Tirou uma lanterna do tablier antes de ele e Brennan saírem para o molhe. Caminharam em silêncio, ouvindo as ondas a lamber as estacas. Quando chegaram à prancha de embarque do Full Speed Ahead, Carlo hesitou e olhou ao longo do molhe. — Espero que eles não se tenham esquecido de qualquer coisa e voltem cá.

— Queres que eu vá rapidamente pôr o carro noutro sítio? Carlo abanou a cabeça.

— Vamos só estar atentos à aproximação de faróis. Isso dar-nos-á tempo suficiente. Não é como se este fosse o único barco no molhe.

Entraram rapidamente no iate.

— Começa a trabalhar na porta — disse o Carlo. — Eu fico a olhar lá para fora.

—Um barco todo finório—disse Brennan, parando seguidamente. — Para que é que achas que serve esta pilha de tijolos de cimento?

—Podes tentar adivinhar três vezes, e as primeiras duas não contam, cabeça de abóbora.

Brennan olhou para os tijolos de cimento e reprimiu um arrepio. Aproximou-se das portas de vidro duplo que davam para o interior do barco e pegou nas suas ferramentas de serralheiro. Não tinha muita luz, mas ele também não precisava. Abrir fechaduras com uma gazua era algo que era feito sobretudo com o tato.

— O que é que achas? — perguntou Carlo. Ele estava sentado na borda da popa, onde tinha uma boa visão da entrada da marina, bem como de todo o parque de estacionamento.

— É canja — respondeu Brennan. Dois minutos depois, tinha a fechadura aberta, mas ainda teve de desligar o primitivo sistema de alarme. Feito isto, chamou Carlo.

Carlo utilizou a lanterna para observar o interior do salão principal. Apontou para os copos em cima no bar.

— Então estiveram a beber. Isso explica a sua boa disposição.

— E se encontrarmos a rapariga? O que fazemos?

— Teremos de improvisar. — A luz da lanterna encontrou as escadas e a passagem da popa para a proa. Depois de ter lançado outro olhar para a entrada da marina, que ele mal conseguia ver por causa de um barco que estava perto, Carlo desceu as escadas à frente de Brennan e entrou na zona da cozinha e da área das refeições. Movendo-se apressadamente para evitarem ser vistos de terra, atravessaram a cozinha e chegaram a um corredor. Carlo tentou abrir as portas uma a uma, mas todos os camarotes estavam vazios e arrumados até terem chegado ao último. Neste, a colcha da cama de casal estava amarrotada, o mesmo acontecendo a uma toalha que estava em cima dela.

—Eu diria que este foi o local do crime—disse Carlo, percorrendo o camarote com a lanterna. Tirando a cama, o camarote estava impecável. —A rapariga desapareceu. Foi o que viemos cá saber, por isso agora vamo-nos embora.

Voltaram rapidamente para trás. Carlo só se sentiu à vontade quando teve uma visão razoável da marina e do parque de estacionamento junto da popa. Estava tudo sereno. Ele virou-se para Brennan. — Tive uma ideia. Seria fácil esconder um instrumento de detecção neste iate?

— Muito fácil — respondeu Brennan. — Em que tipo de equipamento estás a pensar: um que regista exactamente onde é que o barco esteve, ou um que o segue em tempo real e nós podemos saber onde é que o barco está?

— O segundo — disse Carlo, entusiasmando-se com a idéia.

— É canja. Podemos pôr uma coisa com o tamanho de um baralho de cartas algures aqui no barco, e depois programar uma situação em que o podemos seguir através da Internet.

— Ótimo. Vamos falar com o Louie primeiro.

— Oh, vamos até lá — suplicou Angelo. — Não fica assim tão fora de caminho.

— Mas é quase meia-noite e eu estou exausto—contrapôs Franco. Estavam no túnel Lincoln de regresso a Nova Iorque, onde Franco tencionava atravessar directamente Manhattan para ir para o túnel Queens Midtown.

— Eu ainda quero passar pelo Neapolitan — prosseguiu Franco. — A festa deve estar a acabar, e eu gostaria de ter a oportunidade de dizer ao Vinnie que a secretária passou à história.

— É só um desvio de vinte quarteirões. Eu só quero saber se ela ainda vive no mesmo sítio porque, se assim é, o trabalho vai ser canja. Não imaginas como estou ansioso por me vingar. Estive duas vezes na cadeia por causa daquela cabra, fui apanhado pelo maldito do namorado, e ela é responsável pelo aspecto da minha cara.

Franco olhou para Angelo na semi-obscuridade do carro. Ele tinha-se habituado às horríveis cicatrizes da cara de Angelo, mas perguntou a si próprio se alguma vez se habituaria, se fosse a sua própria cara.

—Quanto tempo demoraria?—perguntou Angelo. — Dez, quinze minutos no máximo.

— Está bem, está bem — respondeu Franco.

Vinte minutos mais tarde, o enorme carro preto de Franco estava a seguir lentamente ao longo da 19 Street, com Angelo inclinado para a frente para ver as fachadas dos edifícios. A última vez que ali estivera tinha sido dez anos antes, mas a experiência tinha ficado gravada a fogo na sua memória. Ele tinha a certeza de que se recordaria do prédio, mas isso não estava a acontecer.

— Qual é, por amor de Deus? — perguntou Franco. Ele tomara a decisão de sacrificar algum tempo porque sentira momentaneamente pena de Angelo, mas a sua paciência estava a esgotar-se porque Angelo estava a levar demasiado tempo a identificar o edifício certo. Angelo tinha-lhe garantido que não teria problema nenhum em fazê-lo.

—Ali está ele! — exclamou Angelo subitamente, apontando para um prédio.

— Tens a certeza? — perguntou Franco, olhando para o edifício de tijolo ligeiramente degradado, tal como os prédios de ambos os lados. — Como é que sabes?

— Confia em mim! Eu sei!

Quando Angelo saiu do carro, Franco chamou-o para lhe lembrar que a visita era apenas para fazer um rápido reconhecimento. Angelo acenou com a mão por cima do ombro para indicar que tinha ouvido.

Angelo olhou para o topo do edifício. Havia luzes no apartamento do quinto andar. A Dra. Laurie Montgomery vivia no apartamento de trás: 5°B. Angelo abriu a porta e entrou no átrio. Assim que o fez, lembrou-se do seu parceiro doido, Tony Ruggerio, a disparar naquele átrio específico sobre uma mulher que ambos julgavam ser Laurie Montgomery mas que era, afinal, outra pessoa. Ter Tony por parceiro tinha sido uma frustrante desvantagem para Angelo, mas ele não tivera qualquer voto na matéria até a imprudência do sujeito o matar.

Esperando ter sorte, Angelo verificou os nomes ao lado das campainhas. Para sua grande desilusão, o nome que estava na campainha do 5°B era Martin Soloway.

Angelo estivera tão excitado que, por um momento, sentiu uma decepção paralisante. Mas depois recordou-se de que sabia onde ela trabalhava, e o seu estado de espírito alterou-se rapidamente, sendo apenas tolhido pela possibilidade real de, doze anos depois, ela ter mudado de emprego e de ter ido viver noutra cidade, tal como se mudara do seu antigo apartamento. Num estado de espírito suspenso entre a antecipação descontrolada e uma espécie de depressão, Angelo voltou para o carro e entrou.

Embora as cicatrizes do rosto de Angelo limitassem a sua gama de expressões faciais, Franco tinha aprendido a interpretar pequenas alterações subtis. Apercebeu-se imediatamente de que Angelo estava perturbado.

— Ela já lá não vive? — perguntou Franco.

— Não, já lá não vive — confirmou Angelo, revelando seguidamente a Franco as suas preocupações com a possibilidade de ela ter ido viver para outra cidade.

— Ei, anima-te! Ela tem de estar cá. Se não estivesse, não estaria a causar problemas.

Embora não houvesse muitos movimentos faciais, Franco soube que Angelo estava a sorrir.

 

                   4 DE ABRIL DE 2007, 4.15

Angela tinha tido dificuldade em adormecer. Tentara ler mas, ao fim de várias horas, desistira. Experimentou a televisão, que geralmente a punha a dormir em menos de dez minutos mas, desta vez, ela não funcionou melhor do que o livro. Enquanto se esforçava por prestar atenção ao talk show, a sua mente voltava continuamente para as suas principais preocupações: a falta de capital, a aparente bebedeira de Paul Yang que tinha um oito-K preenchido no seu computador portátil, a um mero clique da entrega à CBT, e a possibilidade de a Dra. Laurie Montgomery transformar o problema do MRSA num desastre de relações públicas, quer desencorajando médicos e doentes de utilizarem os hospitais Angels, quer alertando a CBT para um problema sério, o que teria forçosamente importantes consequências financeiras.

Angela acabou por ceder e tomou um Ambien. Ela sabia que tinha recorrido à muleta de um fármaco hipnótico com demasiada frequência ao longo dos últimos meses, mas sentiu que se justificava. De todas as pessoas da Angels Healthcare, ela era a única em que se podia confiar para, na crise actual, levar a OIV a bom porto. Para fazer isso, ela precisava de todas as suas faculdades mentais, o que exigia certamente uma boa noite de sono.

 

Tal como acontecera no passado recente, o pequeno comprimido branco com a forma de uma pista de corridas operou as suas maravilhas, e Angela adormeceu profundamente num sono um tanto drogado, com sonhos inquietantes. No pior sonho, ela tinha sido obrigada a caminhar ao longo de uma saliência estreita por cima de um penhasco horrivelmente alto e perfeitamente perpendicular. Embora não soubesse exactamente porquê, tinha de chegar ao outro lado do penhasco, caso contrário haveria uma catástrofe. A saliência foi-se tornando cada vez mais estreita e, quando ela tinha o seu objetivo à vista, o pé escorregou da beira da saliência. Embora conseguisse agarrar-se à berma com as duas mãos, ela não conseguiu içar-se para a saliência estreita. Gradualmente, os seus dedos e braços cansaram-se e ela deslizou e caiu para o abismo.

Angela acordou com o coração a bater com força, aliviada por estar viva. Embora conseguisse compreender a origem do sonho, perguntou a si própria de onde teria vindo a ideia de estar em cima de um penhasco.

Embora não lhe agradasse a ideia de pisar o frio chão de mármore da casa de banho, não tinha outra opção, por isso saiu cuidadosamente de debaixo dos cobertores para manter o seu lugar na cama o mais quente possível. Tentou ser rápida, do mesmo modo que tentava manter a cabeça livre de pensamentos. O que a preocupava era não conseguir voltar a adormecer. Calculou que só dormira cerca de cinco horas.

Infelizmente, os receios de Angela tornaram-se realidade. Embora continuasse a sentir-se exausta e até mesmo drogada, ela não conseguiu apaziguar a mente, que ignorou as suas ordens e entrou em alta velocidade. Ia ser um dia muito ocupado. Primeiro, tinha de se certificar de que os cinquenta mil de Michael tinham sido transferidos para a conta da empresa. Seguidamente, precisava de perguntar a Bob se Paul tinha aparecido e, mais importante, se ele tinha entregue o impresso ou não.

Às quatro e meia, Angela reconheceu que, por muito que precisasse de dormir mais, não ia conseguir fazê-lo. Com relutância, levantou-se e, no caminho para a cozinha, passou pelo quarto da filha. Depois de se perguntar por um instante se valia a pena acordá-la, Angela abriu a porta do quarto da criança. A iluminação proveniente da luz de presença do corredor era suficiente para ela conseguir ver a forma familiar da filha, com o luxuriante cabelo escuro afastado do seu rosto angélico. À luz fraca, a sua pele imaculada parecia irradiar do interior, de uma forma sobrenatural.

Por um momento, Angela ficou a olhar para a filha como só uma mãe ou um pai consegue fazer. Sentiu-se inundada por uma onda de amor que eclipsou todo o sofrimento e veneno associados a Michael, a ignomínia da falência e a ansiedade de todos os problemas actuais com a Angels Healthcare. Era uma forma de Angela reorganizar as suas prioridades, enquanto considerava o que era realmente importante. E, enquanto o fazia, pensou sobre o início da noite. Depois do jantar com Chet McGovern, mais do que durante o próprio jantar, ela apercebera-se de que se tinha divertido de uma forma que não imaginara. Embora tivesse concordado em ir jantar por motivos utilitários — nomeadamente, para descobrir se Laurie Montgomery era uma verdadeira ameaça — ela reaprendera que ter uma conversa sincera e interagir com um homem aparentemente saudável podia ser auto-reveladora. Nunca tivera uma discussão tão franca sobre os seus motivos com ninguém, incluindo consigo própria.

Tão silenciosamente como entrara no quarto de Michelle, voltou a sair, deixando a porta encostada mas não fechada, exactamente como a encontrara. Michelle sempre tinha querido um pouco de luz a quebrar a escuridão do quarto.

Quando entrou na cozinha, Angela preparou rapidamente a máquina de café. O quarto e a casa de banho de Haydee ficavam junto da cozinha, e Angela não queria incomodá-la.

Enquanto esperava que a luz indicasse que a temperatura e a pressão tinham atingido o nível correto, Angela recomeçou a pensar no jantar com Chet McGovern. A sua confissão de que tinha ido para a faculdade de medicina em parte para se vingar do pai não era particularmente lisonjeira. O que ela não lhe dissera tinha sido o quanto ela gostara da faculdade, particularmente da parte prática e, ainda mais, quanto adorara o internato. Embora a maior parte dos seus colegas tivesse achado o internato longo e difícil, ela recordava-o como a experiência mais gratificante da sua vida: uma combinação perfeita de serviço e aprendizagem.

A luz da máquina de café indicou que estava pronta. Angela introduziu uma das cápsulas seladas, apertou o manípulo e carregou no botão. No silêncio do apartamento, o barulho provocou-lhe uma careta.

Enquanto o café corria para a chávena, Angela recordou os episódios individuais que tivera com doentes e as suas famílias durante o ano em que tivera o seu consultório. Eles variavam entre extraordinariamente alegres e extraordinariamente tristes, mas eram sempre humanos. Depois deu por si a comparar como se sentira ao fim de um dia a praticar medicina com o que sentia ao fim de um dia a trabalhar na Angels Healthcare e reconheceu que a recompensa era fundamentalmente diferente. A prática da medicina era algo profundamente pessoal; no final do dia, ela conseguia quase sempre sentir-se satisfeita com o fato de ter ajudado pelo menos algumas pessoas na forma mais directa possível. Com o negócio, a satisfação era mais vaga e tinha a ver com conseguir qualquer coisa, mesmo que fosse difícil definir exactamente o quê, embora tivesse invariavelmente a ver com dinheiro. Angela levou o café consigo para o escritório. Era a sua divisão preferida do apartamento, com uma parede inteira revestida de estantes do chão até ao tecto e uma escada presa a uma calha que ia de uma ponta à outra das estantes. Em criança, Angela adorava livros e orgulhava-se de nunca ter deitado nenhum fora.

Quando se sentou à secretária, Angela pegou num bloco e começou a anotar os problemas que atualmente enfrentava e o que tentaria fazer a respeito deles nesse dia. Quando escreveu o nome do Paul, pensou que ele tinha um problema com o álcool que ela desconhecia. Do ponto de vista de Directora Executiva, sentiu-se zangada por essa informação não lhe ter sido comunicada, e ficou surpreendida por Bob não lhe ter dito nada. Mas depois, graças à sua recente reflexão sobre a sua formação em medicina, pensou no problema do ponto de vista de um médico e lembrou-se de como todas as dependências podiam ser difíceis. Angela perguntou a si própria se a empresa deveria pagar o tratamento de desintoxicação dele numa clínica, o que talvez fosse importante se ele tivesse tido, de fato, uma recaída. Ela anotou a ideia. Era uma questão que podia ser considerada depois da OIV.

Quando escreveu o nome da Dra. Laurie Montgomery, Angela fez uma pausa. Pouco podia fazer a respeito desse problema. Ele estava agora nas mãos de Michael. Quando lhe telefonara, na noite anterior, para lhe dar a inquietante notícia sobre a personalidade de Laurie e lhe contar que ela comentara que ia resolver o problema da Angels Healthcare com o MRSA mesmo que isso a matasse, ele dissera que ia tratar imediatamente do assunto. Conhecendo-o tão bem como o conhecia, ela não fazia a mínima idéia se ele estava a dizer a verdade ou se estava apenas a acalmá-la. Com a sua intuição a dizer-lhe em alto e bom som que Laurie Montgomery era, desde que o problema da infecção começara, a maior ameaça para a manutenção do assunto longe da comunicação social, não havia tempo a perder. Com todas as dificuldades que estavam a ter com o problema do fluxo de fundos, seria trágico se a OIV falhasse devido ao trabalho de uma médica legista excessivamente entusiástica.

Os olhos de Angela pousaram no telefone e depois no relógio de secretária Tiffany. Eram quatro e meia da manhã, não exactamente uma hora adequada para fazer chamadas pessoais. No entanto, ela estava tão segura do potencial da ameaça de Laurie que pensou seriamente em telefonar. Ela sabia, por experiência própria, pois acontecera muitas vezes quando estavam casados, que Michael ficava a divertir-se com os amigos até essa hora, por vezes mesmo até às cinco da manhã.

Convencendo-se a si própria a fazer a chamada, Angela justificou-a com a importância de dar início a alguma espécie de ofensiva contra Laurie e também com o facto de Michael o merecer. Por todas as vezes que ele chegara a casa, embriagado, àquela hora e a acordara. Por vezes até acordara Michelle.

Com uma certa satisfação por se poder vingar, Angela marcou o número. Enquanto o telefone tocava, ela estava à espera de ouvir o voicemail, especialmente porque ele podia identificar quem lhe telefonava.

Para sua surpresa, ele atendeu, com uma voz ligeiramente embriagada.

—É bom que isto seja importante—disse ele arrastando as palavras.

— Michael, é a Angela.

Houve uma pausa. Ao fundo, Angela ouvia a voz de uma mulher com um forte sotaque de New Jersey a queixar-se e a querer saber quem estava a telefonar a meio da noite.

— Ouviste? — perguntou Angela. Agora que o acordara, sentiu uma leve sensação de culpa, mas estava decidida a não o mostrar.

— Por amor de Deus, são quatro e meia da manhã.

— Quatro e trinta e cinco, para ser exacta. Estou preocupada com o problema da Dra. Laurie Montgomery de que te falei ontem à noite.

— Eu disse que tratava dele.

— Trataste?

— Eu disse-te que tratava dele e tratei. Acabou, está feito, por isso vai dormir.

— Como é que tens a certeza? Tal como eu te disse, ela tem fama de ser muito persistente.

—A persistência dela não tem importância, o meu cliente conhece-a pessoalmente. Ele disse que vai conversar com ela e tem a certeza de que ela vai compreender a posição dele. O que eu percebi foi que a médica tem uma enorme dívida para com o meu cliente.

A explicação de Michael não fazia muito sentido, mas a sua certeza fazia. Angela agradeceu-lhe e disse-lhe que fosse dormir.

 

                     4 DE ABRIL DE 2007, 4.45

Laurie estava acordada há bastante tempo; quando olhou para o relógio, não sabia exactamente há quanto. Nesse momento era um quarto para as cinco, meia hora antes de Jack se levantar e uma hora e quinze minutos antes de ele voltar para a tirar da cama. Aquela era a rotina habitual, e o fato de já estar acordada dizia muito sobre o seu estado mental. Laurie era uma pessoa nocturna. Por volta das dez da noite, quando Jack tinha dificuldade em manter os olhos abertos, Laurie estava geralmente cheia de energia. Adorava ler à noite e, mais vezes do que gostava de o admitir, ficava acordada até depois da meia-noite absorta num romance. Na manhã seguinte, zangava-se consigo própria e jurava não voltar a fazê-lo.

Agora ali deitada, completamente desperta, a olhar para o teto escuro, ela sabia exatamente qual era o problema; estava deprimida. Não era uma depressão grande, incapacitante, que nunca tivera mas que conseguia imaginar como seria, mas sim uma melancolia persistente que a fazia sentir que ia ter uma enorme desilusão. Desde que se lembrava que ela queria ter um filho e, durante a sua longa formação como médica, a que atribuíra as culpas de não ter tempo para procurar um cônjuge, ela pensara sempre em si própria como uma futura mãe. Depois apaixonara-se por Jack e tivera de lidar com a sensação de culpa dele por ter perdido a família e com a sua indecisão quanto a constituir outra ou não. Mas agora isso já ficara para trás, e eles estavam a tentar ter um filho. Ao longo do ano anterior, porém, apesar dos gráficos de temperatura e da monitorização atenta dos períodos, isso não acontecera. O problema, na opinião dela, era a sua idade, agora que tinha passado os quarenta. Todos os meses que passavam ela ficava aterrorizada com a ideia de as probabilidade de conceber estarem naturalmente a diminuir, e agora Jack insistia em fazer a operação, o que o tiraria de campo durante imenso tempo e, não apenas isso, decidira fazê-la numa altura em que estava a correr um risco significativo.

Laurie virou-se para Jack e reclinou-se sobre um cotovelo. Olhou para o perfil dele, a imagem da tranquilidade, deitado de costas com um braço atrás da cabeça, em cima da almofada. Ela amava-o muito, mas a teimosia dele conseguia enlouquecê-la, como sucedia no caso da cirurgia. Ela não conseguia compreender como é que ele podia ignorar os dados e acreditar que era prudente fazer a operação.

Reconhecendo que não ia conseguir voltar a adormecer, Laurie saiu da cama. Vestindo o roupão turco e calçando os chinelos de quarto, foi até ao escritório que dava para a 106 Street. Estava a clarear. Olhou para baixo, para o campo de basquetebol de que Jack tanto gostava, e desejou que ele desaparecesse subitamente. Depois voltou-se para a secretária do companheiro. A dela estava cheia com a pilha de processos de MRSA e registos hospitalares dos vinte e cinco casos, juntamente com a sua matriz incompleta. Ela tinha trazido todo o material para casa com a intenção de trabalhar nele na noite anterior, mas não o fizera. E agora que acordara cedo, pensou que podia aproveitar o tempo mas, mesmo antes de se sentar, reconheceu que sentia o mesmo que na noite anterior. O seu desânimo continuava a dizer-lhe que os seus esforços eram em vão. Jack ia fazer o que queria.

Na cozinha, Laurie fez café. Sentada à mesa do pequeno-almoço, começou a pensar no processo de fertilização in vitro e como Jack reagiria à idéia. Embora fosse o passo seguinte natural, eles não tinham falado sobre isso. Na realidade, Laurie tinha medo. Ela sabia que a concordância de Jack em ter filhos era mais para lhe agradar do que algo que ele quisesse intrinsecamente fazer.

Para surpresa de Laurie e apesar de não ter conseguido adormecer na cama, adormeceu à mesa da cozinha, o que demonstrava como estava cansada. O que a acordou foi Jack à porta, completamente nu, com as mãos nas ancas e uma expressão exagerada de perplexidade no rosto.

— Que diabo andas a fazer, a dormir na cozinha?—perguntou ele. —Não conseguia dormir—respondeu Laurie, consciente da ironia. Jack entrou na cozinha e colocou uma mão no ombro dela.

— Se ainda estás preocupada com a operação, prometo-te que vai correr tudo bem.

— Oh, sim, claro — disse Laurie com sarcasmo. — Porque é que és tão teimoso?

— Olha quem fala!

— Bem, se fosse ao contrário, eu de certeza que não ia correr o risco que estás disposto a correr.

— Ei — disse Jack. — Já discutimos isto, lembras-te? Vamos concordar em discordar. Eu tenho de ir ao hospital esta manhã no caminho para o trabalho para fazer uma análise rápida pré-operatória ao sangue e à urina, fazer os esfregaços MRSA de que falei e ter uma conversa rápida com o anestesiologista. Foi por isso que me levantei tão cedo. Porque é que não vens comigo? Com todos estes preparativos, tenho a certeza de que te vais sentir melhor.

Laurie reflectiu por um momento sobre a sugestão. No início, pensou que, como forma de protesto, não queria estar associada aos planos de Jack para ir avante com a cirurgia, mas, pensando melhor, não queria prejudicar os seus interesses num momento de mau humor. Nessa visita, ela estaria a ser convidada como cônjuge de um doente, por isso não poderia ser acusada de fazer uma visita oficial como médica legista. Laurie não conseguia deixar de pensar que, se os casos de MRSA não fossem intencionais, tinha de haver um erro no sistema envolvendo os três hospitais e, para ter a possibilidade de descobrir esse erro, ela precisava de oportunidade para lá ir. Jack estava a proporcionar-lhe essa oportunidade.

— Está bem, eu vou — disse Laurie num tom tão decidido que Jack ficou ligeiramente surpreendido.

— Óptimo — disse ele. — Vamos tomar um duche para nos pormos a caminho.

Franco acordou mas abriu apenas um olho. O seu telemóvel estava a tocar mas, antes de atender, olhou para o rádio despertador para ver as horas. Eram cinco e quarenta e cinco. Acompanhado por uma longa fiada de blasfêmias e expletivos, ele tirou uma mão de debaixo dos cobertores e levou o telefone ao ouvido.

— Sim? — disse ele num tom que informaria quem estava a telefonar que não gostava de ser incomodado àquela hora. Só atendera porque podia ser o Vinnie.

— Temos de ir — disse Angelo. — Mas não vamos levar a tua banheira. Vamos levar uma carrinha.

Com mais alguns expletivos cuidadosamente seleccionados, Franco recordou a Angelo que horas eram.

— Eu sei que é cedo — admitiu Angelo. — Mas, quando voltei para o meu apartamento ontem à noite, telefonei para o Departamento de Medicina Legal. Perguntei pela Dra. Laurie Montgomery e disseram-me que ela ainda trabalha lá. Também perguntei a que horas ela chega, para o caso de conseguirmos agarrá-la. Eu sei que esta gente trabalha muitas horas.

— Estás demasiado ansioso — queixou-se Franco.

— O Vinnie queria que resolvêssemos o assunto ontem, não te lembras?

— Sim, lembro-me — respondeu Franco com relutância.

— Pronto, encontramo-nos no Neapolitan. Eu levo a carrinha.

— O Neapolitan não vai estar aberto.

— Oh, tens razão.

—Angelo, estás demasiado empenhado nisto. Acalma-te! É quando se está muito excitado que se cometem erros, como esquecer que não há ninguém no maldito restaurante antes das dez.

—Tens razão. Eu estou excitado mas, se estivesses no meu lugar, também estarias. Olha! Eu vou-te buscar ao teu apartamento às seis e meia. Está bem?

— Podes ir buscar-me ao restaurante — disse Franco. Ele não queria ficar sem o carro o resto do dia. —Assim tão cedo, há sempre lugar para estacionar na frente. — Desligando, ele tirou os pés de debaixo dos cobertores. Pressentiu que ia ser um longo dia a tentar a pôr um travão no zelo de Angelo, especialmente porque matar uma funcionária pública que trabalhava num local razoavelmente seguro não ia ser um propriamente canja.

Adam Williamson atendeu o telefone ao primeiro toque. Sobretudo quando estava numa missão, ele dormia como um gato nervoso, sempre preparado para saltar à primeira provocação.

— Sr. Bamford, são seis horas, conforme solicitou. O dia deve ser nublado com a possibilidade de aguaceiros e uma temperatura máxima de 17 graus.

Adam agradeceu e ligou imediatamente para o serviço de quartos a pedir um pequeno-almoço completo, com sumo de fruta, ovos, bacon, batatas fritas e café. Em missões como aquela, ele nunca sabia quando teria oportunidade para voltar a comer enquanto estivesse a vigiar a casa ou o local de trabalho do alvo. Para o ajudar, os seus patrões arranjavam sempre matrículas comerciais do estado em que a operação ia ter lugar, bem como inscrições para as portas do Range Rover. Nesta ocasião, era uma loja de decoração de interiores e de antiguidades chamada Biedermeier Heaven, situada na 10 Street.

Com uma sensação de satisfação por ter tudo em ordem, Adam meteu-se debaixo do chuveiro. Desde que regressara do Iraque, era só em ocasiões como aquela que ele se sentia completo: estava numa missão e tudo corria de acordo com o plano. A única forma de poder estar melhor era se ele o fizesse com alguns dos seus companheiros da Delta Force, que tinham estado com ele na última e fatídica missão militar. Claro que o apogeu ainda estava para vir. Isso era quando ele matava.

Quando entraram no Hospital Ortopédico Angels, Laurie permaneceu alguns passos atrás de Jack. Havia bastante mais movimento às seis e quinze da manhã do que houvera às duas e trinta da tarde anterior. Enquanto Jack se dirigia ao guichet das informações, Laurie manteve-se perto dele. Embora tivesse um motivo legítimo para estar ali, ela não estava interessada em provocar qualquer tipo de confronto, como poderia acontecer se tivesse o azar de se encontrar com Angela Dawson ou Cynthia Sarpoulus. Com Loraine Newman, a situação seria provavelmente diferente, mas talvez até mesmo ela, se visse Laurie, se sentisse na obrigação de chamar as outras. Afinal de contas, eram as suas chefes.

Jack recebeu instruções para se dirigir ao segundo andar. Enquanto esperavam pelo elevador, Jack reparou no comportamento vigilante de Laurie.

— Que bicho te mordeu? — perguntou ele. — Pareces um esquilo com medo que haja um cão por perto.

— Eu contei-te que não fui tratada com muita hospitalidade ontem. Preferia evitar encontrar-me com a CEO da organização ou com a especialista em controle de infecções.

— Não sejas tão paranóica. Tens todo o direito de aqui estar. —Talvez tenha, mas prefiro não ter de discutir sobre esse assunto. No segundo andar, encontraram facilmente a zona de espera pré-operatória. O espaço estava decorado mais como uma sala de estar de uma mansão particular do que como parte de um hospital. Apesar do nome, não houve praticamente espera. Embora houvesse vários outros doentes que seriam operados no dia seguinte, havia pessoal suficiente. Jack e Laurie nem sequer chegaram a sentar-se antes de Jack ser levado para uma sala de análises para tirar sangue.

— Tens o teu telemóvel? — perguntou Laurie a Jack.

— Claro que tenho. Porquê?

— Eu também tenho o meu. Eu vou num instante ao quarto andar visitar o laboratório de patologia clínica. Se não estiver de volta quando estiveres pronto para te ires embora, telefona-me.

Jack piscou o olho.

— Então vais fazer uma utilização construtiva do teu tempo.

— Qualquer coisa do género — admitiu Laurie.

Embora, de início, Laurie não quisesse ser reconhecida enquanto estivesse no hospital, tinha agora mudado de ideias. Pensou que teria a oportunidade de ver se Walter Osgood estava lá. Recordando-se de que ia telefonar ao CCD algures durante o dia, ela queria saber se Walter Osgood gostaria de saber que o MRS A que estava infectar os hospitais, pelo menos em três doentes, era exactamente do mesmo subtipo, o que significava que tinham todos a mesma origem. Ela tinha ficado irritada na tarde anterior quando ele tentara justificar não ter feito a subtipagem da bactéria em todos os casos. Do ponto de vista epidemiológico, era obrigatório, especialmente numa situação em que se desconhecia a origem e o método de disseminação.

No quarto andar, Laurie entrou no laboratório e perguntou à primeira técnica que encontrou se o Dr. Osgood estava lá.

— Não faço ideia — admitiu a técnica. — Tem de perguntar ao Dr. Friedlander, o supervisor do laboratório clínico. O gabinete dele fica encostado à parede do fundo. Não há que enganar — prosseguiu a técnica apontando para o outro lado do laboratório.

— Eu já ouvi isso antes — murmurou Laurie para si própria caminhando na direcção que lhe fora indicada. Apesar da sua apreensão, encontrou imediatamente o gabinete, tal como a técnica dissera. Ao aproximar-se da porta aberta, Laurie viu um homem magro, de barba, com uma comprida bata branca imaculada, bem passada, ocupado com os papéis que tinha em cima da secretária.

— Com licença — disse Laurie.

— Precisa de alguma coisa?

— Estou à procura do Dr. Osgood. Pode dizer-me se ele está cá esta manhã?

— Não, hoje não está. Hoje ele está... — Simon rodou na cadeira e olhou para o placard atrás de si. — Está no Hospital de Cardiologia Angels. Ele só vem às segundas e quintas.

— Obrigada — disse Laurie.

— Posso ajudá-la nalguma coisa? Eu sou o supervisor do laboratório de patologia clínica.

— Eu penso que preciso de falar directamente com o Dr. Osgood — disse Laurie, embora, por um momento, pensasse em pedir ao Dr. Friedlander que transmitisse a mensagem.

— É urgente? Podíamos telefonar-lhe. Ele está geralmente contactável por telemóvel.

— Tem a ver com o surto de MRSA.

— Eu diria que isso é bastante importante. Exatamente quem é a senhora?

Depois de Laurie se ter identificado, o Dr. Friedlander fez a chamada. Assim que Osgood atendeu, ele disse-lhe que uma Dra. Laurie Montgomery estava no seu gabinete e queria falar com ele. Laurie estendeu a mão para o telefone, mas o Dr. Friedlander ergueu a mão, pedindo-lhe que esperasse. Laurie não conseguia ouvir o que o Dr. Osgood estava a dizer, mas o Dr. Friedlander fitou-a nos olhos enquanto dizia intermitentemente "sim" ao telefone, com um "compreendo" final. Seguidamente, ele pousou o auscultador antes de se virar de novo para Laurie e dizer:

— Lamento muito, mas o Dr. Osgood está extremamente ocupado. Ele pediu que lhe telefonasse mais tarde para a sede. Posso dar-lhe o número. — Pegando num dos seus próprios cartões de visita, ele desenhou um círculo à volta do número da Angels Healthcare e, inclinando-se sobre a secretária, deu-o a Laurie.

Ligeiramente mortificada por ter sido rejeitada de uma forma tão impessoal quando pensava que estava a fazer um favor ao homem, Laurie deu meia-volta e saiu do gabinete sem janelas.

Agora Walter Osgood tinha a certeza de que se tratava de uma emergência. A primeira vez tinha sido uma intuição vaga, baseada sobretudo na resistência por parte da Dra. Laurie Montgomery em aceitar as suas razões para não se ter dado ao trabalho de caracterizar completamente o MRSA. Mas agora era diferente. Ela estava de volta ao Hospital Ortopédico Angels, apesar de a Diretora Executiva praticamente lhe ter dito que não voltasse lá, e, nesta ocasião, tinha pedido para falar com ele.

Tirando o número de emergência da carteira, Walter ligou para Washington.

Desta vez o telefone tocou ainda mais vezes do que no dia anterior, mas acabou por ser atendido. Nesta ocasião, a voz profunda, cautelosa, parecia sonolenta.

— O que é desta vez?

— O mesmo problema.

— Está num telefone fixo?

— Estou.

— Telefone-me para este número. — O homem deu o número a Walter, depois desligou.

Walter aguardou alguns minutos antes de ligar. O mesmo homem atendeu, embora a leve rouquidão da sua voz tivesse desaparecido.

— Está a falar da médica legista?

— Sim, ela voltou cá esta manhã, aparentemente para investigar, embora lhe tivesse sido dito que não o fizesse. Ela preocupa-me. Se não se fizer nada a respeito dela, não tenho a certeza de querer continuar

— Claro que o assunto está a ser tratado. Tem de ter paciência.

— O que é que está a ser feito? — quis saber Walter. Ele detestava tanto segredo, especialmente por ser ele que estava a ser mantido na ignorância.

— Nós temos neste momento um indivíduo na cidade cuja especialidade é resolver este tipo de problema.

— Vai ter de ser mais específico.

— Quando menos souber, melhor.

— Está a dizer que há alguém em Nova Iorque neste momento?

— É exactamente o que eu estou a dizer.

— Não me quer dar o seu nome e número de telefone?

— Desculpe, não posso fazer isso.

— Não tenho a certeza se quero prosseguir com tudo isto.

— Receio que, nesta altura, não tenha qualquer possibilidade de escolha. A opção de começar foi sua, mas parar já não é opção sua. A pressão tem de ser mantida durante mais alguns dias.

Walter sentiu um misto de raiva e medo, mas o medo venceu, e ele não respondeu.

— Espero que o seu silêncio signifique que compreende a realidade da sua situação.

— Se ela aparecer novamente nos próximos dias, posso telefonar-lhe para lhe dizer que quem quer que tenha sido enviado até cá não a convenceu a parar de interferir?

— Pode, sim, mas pode estar tranquilo, pois nós enviámos o nosso melhor negociador.

— Mais uma questão. Eu não sei o seu nome.

— Não há necessidade de saber o meu nome.

Tal como sucedera no dia anterior, a linha foi cortada subitamente, e Walter deu por si a ouvir o som de uma chamada desligada. Lentamente, pousou o auscultador. Apesar das garantias que lhe tinham sido dadas, Walter entrou em pânico e perguntou até que ponto a decisão de se envolver teria sido uma má decisão. A sua única consolação era que o seu filho parecia ter estabilizado, e os médicos que lhe estavam a administrar o tratamento supostamente experimental estavam moderadamente optimistas.

Laurie mal tivera tempo para ler algumas notícias do Times quando Jack apareceu, acompanhado por um médico com um ar muito jovem vestido com uma bata cirúrgica coberta por uma bata branca comprida, tão limpa e bem passada como a do Dr. Fiedlander. Ao que parecia, aquele aspecto elegante era política do hospital. Laurie teve de admitir que era uma aparência muito melhor do que a de alguns dos médicos do Hospital Universitário, que pareciam gostar de ter as batas extremamente sujas, como se isso demonstrasse que trabalhavam muito.

Jack apresentou o homem como o Dr. Jeff Anderson. Laurie achou que ele tinha os olhos mais azuis que jamais vira.

— Eu estou com sorte — prosseguiu Jack. — O Dr. Anderson concordou em dar-me a anestesia amanhã. Eu disse-lhe que estavas preocupada com o MRSA e com a minha operação, e ele, simpaticamente, ofereceu-se para te vir dar uma palavrinha.

Laurie apertou a mão do anestesiologista e, ao reparar no seu ar tão jovem, sentiu-se velha. Também se sentiu embaraçada com o modo como Jack a apresentara, como se ela fosse uma mãe demasiado solícita. Jeff deu a sua garantia estereotipada e disse que Jack tinha a saúde de um touro, fazendo Laurie interrogar-se se os touros seriam muito saudáveis. Quando Jeff terminou o seu discurso ensaiado, Laurie perguntou-lhe quantas operações fizera depois das quais o doente tivera uma infecção MRSA.

Os olhos dele foram de Laurie para Jack com algum nervosismo. Aparentemente, Jack não fizera uma pergunta tão específica.

— Uma—admitiu ele finalmente. — Foi há alguns meses, depois de uma operação à articulação do ombro. Tal como as outras, foi totalmente inesperada e, infelizmente, fatal.

— Como se chamava o doente? — perguntou Laurie.

— Não posso divulgar o nome do doente — respondeu Jeff.

Laurie sabia que tinha o direito de perguntar, uma vez que se tratava, sem dúvida, de um caso que exigira a intervenção de um médico legista, mas não insistiu. O nome não era importante, a não ser para ter a certeza de que não falhara caso nenhum. Ela estava mais interessada na cirurgia de Jack.

— Consegue recordar-se de alguma coisa invulgar acerca desse caso?

Jeff abanou a cabeça.

— Correu tudo muito bem. Bem, houve uma coisa. Os membros do pessoal têm feito semanalmente análises de despistagem do MRSA. Na semana em que a morte ocorreu, a minha análise foi positiva. Se foi desse doente, não sei. Mas posso dizer, com toda a segurança, que agora estou livre do MRSA. Fiz uma análise ontem.

— Também tenho o prazer de informar que estou livre desses filhos da mãe — disse Jack.

— O Dr. foi o anestesiologista de David Jeffries na segunda-feira? — perguntou Laurie.

— Não, não fui. Foi a Dra. Dolores Suarez.

—Obrigada por ter falado comigo—disse Laurie, com um pequeno sorriso. Os esforços de Jeff não a faziam sentir mais confiante.

— Nós tomaremos bem cuidado do seu marido — prometeu Jeff. Seguidamente, despediu-se e desapareceu na sala de análises.

— Muito bem—disse Jack.—Tens de admitir que este é um local agradável. Só o facto de não ser preciso esperar torna-o único.

— Está bem arranjado, é limpo, é agradável — admitiu Laurie. — Mas, apesar da aparente limpeza, há um problema aqui.

— Não me digas que não ficaste tranquila.

— O MRSA seguramente que não está manifestar grande respeito pelo local luxuoso.

— Tu és impossível — disse Jack com um suspiro. — Todos os outros hospitais têm o MRSA.

—Mas os outros hospitais não estão com pneumonias necrosantes provocadas pelo MRSA a matar gente como se fosse uma febre hemorrágica como o Ébola.

— Vamos — disse Jack. — Vamos trabalhar.

— Isto é uma merda—queixou-se Franco. — Foi para isto que me fizeste sair da cama? — Ele fez um gesto na direcção do pára-brisas. Em frente do departamento de medicina legal havia uma indisciplinada multidão de cinquenta ou sessenta pessoas a fazer uma manifestação de protesto não autorizada contra o relatório inicial do médico legista sobre Concepcion Lopez. Hispânicos, na sua maior parte. E a maior parte tinha cartazes amadores colados ou agrafados a cabos de vassouras denunciando um suposto encobrimento e queixando-se da violência policial contra a comunidade hispânica.

— O que eu não consigo imaginar é o que estão a fazer aqui tão cedo — disse Angelo.

— Suponho que é para aparecerem no noticiário da manhã — disse Franco—Além disso, têm mais efeito se bloquearem o trânsito da hora de ponta, que é o que estão obviamente a fazer.

Muitos dos manifestantes estavam a deslocar-se para a Primeira Avenida. Polícias com equipamento anti-motim aguardavam no autocarro estacionado na 30 Street, à espera de ser chamados. Por enquanto, a polícia regular estava a tentar manter a multidão fora da estrada e confinada à zona directamente em frente do DML, mas com muito pouco êxito.

Franco e Angelo estavam sentados na carrinha da organização Lúcia que era utilizada sobretudo para assaltos e outras formas de roubo no Aeroporto Kennedy. Estavam estacionados junto do passeio entre as ruas 29 e 30, na frente de um dos edifícios originais do Hospital Bellevue, uma zona em que era proibido parar e estacionar. Eles tinham uma boa visão da entrada do DML, só prejudicada por um Range Rover estacionado à sua frente.

— O que se passa com aquele jipe? — queixou-se Angelo. — É proibido estacionar nesta zona, por amor de Deus. É espantoso como as pessoas ignoram a lei.

— Acalma-te! — respondeu Franco.

Angelo bateu várias vezes no volante com uma raiva frustrada.

— Porque é que eles haviam de vir protestar logo hoje?

— Estás a ficar muito agitado — avisou Franco. — Porque é que não nos vamos embora? Com todos estes polícias por aí e ainda mais todos estes malucos aos gritos, não vamos conseguir agarrá-la.

— Pelo menos quero vê-la—resmungou Angelo.—Depois quero ir ao Home Depot.