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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ESTRELA OCULTA / Robert Anson
ESTRELA OCULTA / Robert Anson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ESTRELA OCULTA

 

Se um homem chega vestido como um jeca e se comporta como se fosse o dono do lugar, pode crer, é um espaçonauta.

Isso constitui uma necessidade lógica. A profissão faz com que ele se sinta o próprio rei da criação; quando põe o pé em terra, é como se estivesse visitando um povoado de jecas. Quanto à sua deselegância no trajar, um homem que vive de uniforme dez nonos de seu tempo e está mais acostumado ao espaço profundo do que à civilização, dificilmente se pode esperar que saiba como se vestir de modo apropriado. É um otário para os pretensos alfaiates que enxameiam em volta de todos os espaçoportos, oferecendo "roupas de terra."

Era claro que esse indivíduo ossudo fora vestido por Ornar, o Barraqueiro: ombros acolchoados que, para começar, eram largos demais, bermudas cortadas de tal maneira que lhe subiam pelas pernas cabeludas quando ele se sentava, e uma camisa pregueada que teria ficado bem numa vaca.

Mas guardei essa opinião para mim mesmo e paguei-lhe um drinque com meu último meio-Imperial, considerando isso um investimento, sendo os espaçonautas o que são no que diz respeito a dinheiro.

— Jatos quentes! — disse eu, ao tocarmos os cálices. Ele me endereçou um rápido olhar.

Esse foi meu primeiro erro quando conheci Dak Broadbent. Em vez de responder "Espaço!" ou "Feliz Aterragem!", como deveria ter feito, ele me olhou de cima abaixo e disse em voz suave:

— Belos votos, mas dirigido ao cara errado. Eu nunca estive no espaço.

Aquele também era um bom lugar para eu me conservar de bico calado. Espaçonautas não vinham com freqüência a Casa Mañana; não era o tipo de hotel que freqüentam e fica a quilômetros do espaçoporto. Quando um deles aparece à paisana, procura um canto escuro no bar e recusa-se a ser chamado de espaçonauta, isso é assunto só dele. Eu mesmo havia escolhido um lugar como esse, de onde podia ver sem ser visto. O fato é que eu devia algum dinheiro por aí, nada de importante, mas embaraçoso. Devia ter presumido que ele também tinha suas razões e respeitá-las.

Minhas cordas vocais, porém, têm vida própria e são impetuosas e desbocadas.

— Não me venha com essa, cara — repliquei. — Se você' é uma marmota, então eu sou o Prefeito de Tycho City. Aposto que já bebeu mais em Marte — acrescentei, notando o modo cauteloso como ele erguia o copo, num indício claro de hábitos em ambientes de baixa gravidade — do que até hoje na Terra.

— Fale baixo! — interrompeu-me ele sem mover os lábios. — O que é que o faz pensar que eu sou um voyageur? Você não me conhece.

— Desculpe — disse eu. — Você pode ser o que quiser. Mas eu tenho bons olhos. Você se traiu no momento em que entrou.

Entre dentes, ele perguntou:

— Como?

— Não se preocupe com isso. Duvido que outra pessoa tenha notado. Mas eu vejo coisas que outros não vêem. — Entreguei-lhe meu cartão, num gesto talvez um pouco complacente demais. Afinal de contas, só há um Lorenzo Smythe, a Companhia de Repertório de um único Homem. Isso mesmo, eu sou o "Grande Lorenzo" — em estéreo, novela de televisão, teatro mesmo — "Mímico e Artista-Imitador Extraordinário."

Ele leu o cartão e enfiou-o no bolso da manga — o que me aborreceu; esses cartões haviam-me custado bom dinheiro — e era uma imitação autêntica do artigo gravado à mão.

— Entendo — disse ele tranqüilo — mas o que foi que houve de errado no modo como me comportei?

— Eu vou mostrar — respondi. — Vou até a porta como se fosse uma marmota e voltarei da maneira como você anda. Preste atenção.

Fiz isso e voltei numa versão ligeiramente exagerada de sua maneira de andar, levando em conta seu olho não treinado — pés deslizando suaves sobre o chão como se fosse um

tombadilho, peso levado para a frente e equilibrado a partir dos quadris, mãos adiantadas e afastadas do corpo, prontas para se segurar.

Há dezenas de outros detalhes que não podem ser postos em palavras; o importante é que o cara tem que ser um espaçonauta quando faz isso, com o corpo alerta e o equilíbrio inconsciente deles. O cara tem que viver seu papel. Um tipo da cidade comete erros crassos mesmo andando sobre superfícies planas toda a vida, pisos estáveis com a gravidade normal da Terra e tropeça num papel de cigarro. Não, um espaçonauta.

— Compreendeu o que eu quis dizer? — perguntei, recaindo na minha cadeira.

— Lamento dizer que sim — reconheceu, azedo. — Eu ando assim?

— Anda.

— Hummmm. Talvez eu deva tomar umas lições com você.

— Você podia fazer coisa pior do que isso — admiti. Ele me fitou por longo tempo, depois pareceu que ia falar, mudou de idéia e, com um gesto de dedo, pediu ao garçom do bar que enchesse de novo nossos copos. Quando as bebidas chegaram, pagou-as, bebeu a sua e levantou-se num único e suave movimento.

— Espere por mim — disse em voz baixa.

Tendo à frente o drinque pago por ele, eu não podia recusar. Nem queria; ele me interessava. Gostei dele, mesmo que só o conhecesse há uns dez minutos; era o tipo de homenzarrão por quem as mulheres gamam e de quem homens recebem ordens.

Graciosamente, ele abriu caminho pela sala e passou por uma mesa de canto, onde se abancavam quatro marcianos. Eu não gosto de marcianos. Não aprecio uma coisa que parece um tronco de árvore, coroado por um capacete de sol e que reivindica privilégios de homem. Não gosto da maneira como eles projetam pseudo-membros; isso me lembra cobras saindo de tocas. E não me agrada o fato de eles poderem olhar em todas as direções ao mesmo tempo e sem virar a cabeça — se tivessem cabeças, o que, claro, não possuem. E não posso lhes suportar o cheiro.

Ninguém podia me acusar de preconceitos raciais. Não me importavam a cor, raça ou religião de um cara. Mas os homens são homens, ao passo que os marcianos são coisas. No meu modo de pensar, nem mesmo animais são. Em qualquer ocasião, preferia a companhia de um javali. Achava chocante que pudessem entrar em restaurantes e bares freqüentados por seres humanos. Mas havia o Tratado, claro, de modo que o que é que se podia fazer?

Aqueles quatro não estavam lá quando entrei ou eu lhes teria sentido o mau cheiro. Por falar nisso, não podiam ter estado ali pouco tempo antes, quando eu fora até a porta e voltara. Naquele momento estavam ali, postados sobre seus pedestais, em volta da mesa, fingindo ser gente. Eu nem mesmo ouvira o condicionador de ar acelerar.

Não me atraía mais aquela bebida oferecida; queria apenas que aquele cara voltasse para que eu pudesse despedir-me dele com a necessária delicadeza. De súbito, ocorreu-me que ele lançara um rápido olhar naquela direção antes de sair com tanta pressa e me perguntei se os marcianos haviam tido alguma coisa com isso. Olhei para eles, tentando ver se prestavam alguma atenção à nossa mesa — mas como é que se pode saber para onde um marciano olha ou o que pensa? Isso era outro troço de que eu não gostava a respeito deles.

Fiquei ali por vários minutos, mexendo no meu drinque e me perguntando o que acontecera ao meu amigo espaço-nauta. Tivera a esperança de que sua hospitalidade se estendesse a um jantar e, se nos tornássemos suficientemente simpáticos, até mesmo a um pequeno empréstimo, por pouco tempo. Minhas demais possibilidades eram — reconheço — magras. Nas duas últimas vezes em que tentara conversar cem meu agente, sua secretária automática simplesmente gravara o recado e, a menos que eu depositasse moedas na porta, meu quarto não se abriria para mim naquela noite... Esse o ponto até onde caíra minha sorte: reduzido a dormir num cubículo operado a moeda.

Encontrava-me em meio a essas melancólicas elocubrações, quando um garçom me tocou o cotovelo.

— Telefone, senhor.

— Hein? Muito bem, amigo, pode fazer o favor de trazê-lo para a mesa?

— Sinto muito, senhor, mas não posso transferir a chamada. Cabine 12, na entrada.

— Oh, obrigado — respondi, dando à voz um tom tão cordial quanto possível, pois não tinha dinheiro para lhe dar uma gorjeta. Ao sair, passei bem ao largo dos marcianos.

Logo vi porque a chamada não pudera ser transferida: a cabine 12 era do tipo de segurança máxima, com misturador de imagens e som. A tela não mostrava imagem alguma e não se iluminou senão depois que fechei a porta.

E permaneceu leitosa até que me sentei e com o rosto de frente para a objetiva, ocasião em que as nuvens opalescentes se dissolveram e vi-me cara a cara com meu amigo espaçonauta.

— Desculpe tê-lo deixado daquele jeito no bar — disse ele em voz rápida — mas eu estava com pressa. Gostaria que viesse, agora mesmo, ao Quarto 2106, no Eisenhower.

Não deu explicação. O Eisenhower combina tão mal como hotel para espaçonautas como a Casa Mañana. Tive um pressentimento de que havia alguma encrenca à vista. Ninguém aborda um estranho no bar e, em seguida, insiste para que ele vá a um quarto de hotel — bem, não uma pessoa do mesmo sexo, pelo menos.

— Por quê? — perguntei.

O espaçonauta assumiu aquela expressão peculiar de homens que estão acostumados a ser obedecidos sem perguntas. Estudei-a com interesse profissional. Não é a mesma coisa que raiva. Parece-se mais com uma nuvem de trovoada, antes de cair o furacão. Mas ele se controlou e respondeu tranqüilo:

— Lorenzo, não há tempo para explicar. Está disposto a aceitar um trabalho?

— Você quer dizer, um trabalho profissional? — respondi devagar. Durante um horrível momento, desconfiei que ele me oferecia um... Bem, vocês sabem — um emprego. Até aquele momento eu mantivera intacto meu orgulho profissional, a despeito dos golpes de uma má sorte de doer.

— Oh, profissional, claro! — respondeu ele logo. — Este trabalho requer o melhor ator que possamos encontrar.

Não permiti que o alívio transparecesse em minha fisionomia. Era bem verdade que eu estava disposto a aceitar qualquer trabalho profissional — e com todo prazer teria representado o balcão em Romeu e Julieta — mas não valia a pena demonstrar interesse demais.

— Que tipo de papel? — perguntei. — Minha agenda anda um bocado cheia.

Ele ignorou essas palavras:

— Não posso explicar ao telefone. Talvez você não saiba, mas todo circuito misturador pode ser desmisturado ... com o equipamento apropriado. Venha pra cá, logo!

Ele estava ansioso e, por conseguinte, eu podia dar-me ao luxo de não demonstrar a mesma coisa.

— Ora, vamos — protestei — o que é que você pensa que eu sou? Moço de recados? Ou um rapazola sem experiência, ansioso pelo privilégio de carregar uma lança no palco? Eu sou Lorenzo! — Projetei o queixo para a frente e fiz cara de ofendido. — Qual é sua proposta?

— Ahan... Droga, eu não posso discutir isso ao telefone. Quanto é que você ganha?

— Como? Está perguntando qual o meu salário profissional?

— Isso mesmo.

— Por uma única representação? Ou por semana? Ou por uma opção de contrato?

— Hummm, isso não importa. Quanto é que você ganha por dia?

— Meus honorários mínimos de trabalho por noite são de cem Imperiais.

O que era pura verdade. Oh, bem, fui às vezes coagido a dar algumas comissões escandalosas, mas no recibo jamais apareceu menos que meus honorários corretos. Um homem tem seus padrões. Eu preferia morrer de fome a traí-los.

— Muito bem — respondeu ele, ainda falando rápido — cem Imperiais na mão, em dinheiro, no momento em que chegar aqui. Mas ande depressa!

— Hein? — Com súbito desalento, dei-me conta de que poderia, com igual facilidade, ter dito duzentos, ou mesmo duzentos e cinqüenta. — Mas eu não disse ainda se aceito o trabalho.

— Esqueça isso! Vamos discutir esse assunto quando você chegar aqui. Você recebe os cem, mesmo que recuse nossa oferta. Se aceitar ... bem, considere esse dinheiro como uma gratificação, à parte seu salário. Agora, quer desligar e vir até aqui?

Fiz uma mesura.

— Certamente, senhor. Seja paciente.

Por sorte o Eisenhower fica perto da Casa Mañana, pois eu não tinha nem mesmo um minum para pagar a passagem do trem subterrâneo. Contudo, embora a arte de passear esteja quase perdida, eu a aprecio — e o passeio me deu tempo para pôr em ordem os pensamentos. Eu não era nenhum idiota. Sabia que quando alguém se mostra ansioso demais para nos empurrar dinheiro, é tempo de examinar as cartas, pois quase com certeza há alguma coisa ilegal, perigosa, ou ambas as coisas, envolvidas no assunto. Eu não era tão escrupuloso assim sobre a legalidade qua legalidade. Concordava com o Bardo em que a Lei é, não raro, uma idiota. Mas de modo geral eu pisara no lado certo da rua.

Mas logo compreendi que não dispunha de todos os fatos, de modo que afastei o assunto da mente, lancei a pelerine sobre o ombro direito e comecei a andar, apreciando o tempo ameno do outono e os fortes e variados odores da metrópole. Ao chegar, resolvi ignorar a entrada principal e tomei o elevador de alta velocidade do subporão até o vigésimo primeiro andar, sentindo a vaga impressão de que aquele não era o lugar para deixar que meu público me reconhecesse. Meu amigo voyageur mandou-me entrar.

— Você demorou um bocado — disse ele, secamente.

— Mesmo?

Deixei passar suas palavras e olhei em volta. Era uma suíte cara, como esperara, mas cheia de lixo pelo chão. Havia pelo menos uma dúzia de copos usados e igual numere de xícaras de café espalhadas por ali. Não era preciso muito poder de observação para perceber que eu era apenas o último de um bom número de visitantes. Estirado num sofá, fazendo cara feia para mim, vi outro homem, que classifiquei à primeira vista também como espaçonauta. Olhei interrogativamente para ele mas nenhuma apresentação foi feita.

— Bem, você chegou, pelo menos. Vamos passar logo ao assunto.

— Certo. O que me lembra — acrescentei — que houve menção de uma gratificação ou sinal.

— Oh, sim. — Virou-se para o cara estirado no sofá. — Jock, dê o dinheiro a ele.

— Pelo quê?

— Pague-lhe!

Nesse momento eu sabia quem era o chefão — embora, como iria descobrir mais tarde, em geral houvesse pouca dúvida a esse respeito quando Dak Broadbent estava numa sala. O outro cara levantou-se, ainda de cara amarrada, e entregou-me uma de cinqüenta e cinco de dez. Indiferente, sem mesmo contar, enfiei o dinheiro no bolso e disse:

— Estou à sua disposição, cavalheiros. O grandalhão mordeu o lábio.

— Em primeiro lugar, quero seu juramento solene de que, nem mesmo dormindo, falará sobre este trabalho.

— Se minha simples palavra não basta, meu juramento será melhor? — Lancei um rápido olhar ao baixote, mais uma vez arriado no sofá. — Acho que não fomos apresentados. Eu sou Lorenzo.

Ele me olhou por um momento e depois desviou a vista. Meu conhecido do bar disse apressado:

— Nomes não importam neste assunto.

— Não? Antes de morrer, meu venerado pai fez-me prometer três coisas: em primeiro lugar, nunca misture uísque com outra coisa que não água; em segundo, ignore sempre cartas anônimas; e por último, jamais converse com um estranho que se recusa a lhe dar o nome. Bom dia, senhores.

Virei-me na direção da porta, os cem Imperiais dele no bolso.

— Espere um minuto. — Parei. Ele continuou: — Você tem toda razão. Meu nome é...

— Comandante!

— Acabe com isso, Jock. Eu sou Dak Broadbent. Esse aí que nos está olhando zangado é Jacques Dubois. Nós dois somos voyageurs — mestres-pilotos, todas as classes, quaisquer acelerações.

Fiz uma mesura.

— Lorenzo Smythe — disse, modesto — jongleur e artista, correspondência para The Lambs Club.

E tomei uma nota mental para pagar minhas mensalidades.

— Ótimo, Jock, para variar, veja se sorri um pouco. Lorenzo, concorda em manter em sigilo nosso negócio?

— Absoluto. A discussão vai ser entre cavalheiros.

— Quer aceite ou não o trabalho?

— Cheguemos ou não a um acordo. Sou humano, mas com exceção de métodos ilegais de interrogatório, sua confiança em mim será respeitada.

— Eu sei muito bem o que a neodexocaína pode fazer com o prosencéfalo de um homem, Lorenzo. Nós não esperamos o impossível.

— Dak — disse Dubois em tom urgente — estamos cometendo um erro. Devíamos, pelo menos...

— Cale a boca, Jock. Nesta altura, não quero saber de hipnotizadores. Lorenzo, queremos que você faça um trabalho de substituição. Tem que ser tão perfeito que ninguém — mas ninguém, mesmo — jamais saiba que isso ocorreu. Pode fazer isso?

Fechei a cara.

— A primeira pergunta não deve ser "Pode fazer?", mas "Quer fazer?". Em que circunstâncias?

— Hummm, entraremos em detalhes mais tarde. Em termos gerais é o trabalho comum de substituição de uma personalidade pública muito conhecida. A diferença é que a personificação terá que ser perfeita, de modo a enganar pessoas que a conhecem bem e que terão que vê-la de perto. Não será apenas passar em revista a uma tropa, de um palanque, ou distribuir medalhas a escoteiros. — Fitou-me, curioso. — Será trabalho para um verdadeiro artista.

— Não! — respondi no mesmo instante.

— Você não sabe ainda de coisa alguma sobre o trabalho. Se a sua consciência o incomoda, garanto-lhe que não vai trabalhar contra os interesses do homem que substituirá — nem contra os interesses legítimos de pessoa alguma. Mas é um trabalho que realmente precisa ser feito.

— Não.

— Mas pelo amor de Deus, por quê? Você nem mesmo sabe quanto vamos pagar.

— O pagamento não é o problema — disse com firmeza. — Eu sou um ator, não um imitador.

— Eu não compreendo você. Um bocado de atores ganha uns extras por aí aparecendo em público no lugar de celebridades.

— Eu os considero como prostitutos, não como colegas. E quero deixar uma coisa bem clara. Um escritor respeita um colega cujos trabalhos são assinados por outrem? O senhor respeitaria um pintor que concordasse que seus trabalhos fossem assinados por outra pessoa — isso por dinheiro? Possivelmente, o espírito do artista lhe é estranho, senhor, mas, ainda assim, talvez eu possa pôr isso em termos adequados à sua própria profissão. O senhor, simplesmente por dinheiro, aceitaria pilotar uma nave enquanto outro homem, desconhecedor de sua refinada arte, usaria o uniforme, receberia o crédito e seria publicamente aclamado como Mestre? Aceitaria?

— Por quanto? — rosnou Dubois. Broadbent fechou a cara para ele.

— Acho que compreendo sua objeção.

— Para o artista, senhor, a glória vem em primeiro lugar. O dinheiro é, apenas, o meio mundano através do qual ele cria sua arte.

— Hummmm... Muito bem, então você não vai fazer isso apenas por dinheiro. Faria por outras razões? Se julgasse que teria que ser feito e que é a única pessoa que poderia fazê-lo com sucesso?

— Admito essa possibilidade. Mas não posso imaginar as circunstâncias.

— Você não terá que imaginá-las. Nós lhe diremos quais são.

Dubois levantou-se, de chofre, do sofá.

— Agora, espere aí, Dak, você não pode...

— Cale a boca, Jock! Ele tem que saber.

— Mas não agora... e aqui. E você não tem o direito de pôr em risco outras pessoas, contando a ele. Você não sabe de coisa alguma a respeito dele.

— Trata-se de um risco calculado. Broadbent virou-se para mim.

Dubois agarrou-o por um braço e fê-lo dar uma volta.

— O risco calculado que se dane! Dak, eu o acompanhei em tudo no passado, mas, desta vez, antes de deixar que você faça uma besteira, bem, um de nós não vai ficar em forma para falar.

Broadbent pareceu espantado, depois sorriu frio e olhou Dubois de cima para baixo.

— Você acha que está à altura disso, Jock, filho?

Dubois fitou-o, furioso, mas não se acovardou. Broadbent era uma cabeça mais alto do que ele e pesava mais uns vinte quilos. Pela primeira vez, descobri que gostava de Dubois. Fico sempre comovido com a audácia valorosa de um gatinho, a coragem de um galo ou a disposição de um homenzinho de antes morrer de pé a se curvar... E embora não esperasse que Broadbent o matasse, achei que estava prestes a ver Dubois ser usado como pano de chão.

Não me passou pela cabeça interferir. Todo homem tem o direito de escolher a hora e o modo de sua destruição.

Vi que a tensão aumentava. De repente, Broadbent soltou uma risada e deu uma palmada no ombro de Dubois.

— Bom para você, Jock! — Voltou-se para mim e disse tranqüilo: — Pode desculpar-me por um momento? Meu amigo e eu temos que discutir algumas coisas.

A suíte possuía um recanto confidencial, onde se localizavam o autógrafo e o telefone. Broadbent levou Dubois pelo braço até lá e conversaram em tom premente.

Às vezes, essas instalações, em lugares públicos como hotéis, não são o que poderiam ser e as ondas sonoras não se cancelam de todo. O Eisenhower, porém, é um hotel de luxo e, neste caso pelo menos, o equipamento funcionava com perfeição. Podia ver-lhes os lábios se movendo mas não ouvia som algum.

Mas eu de fato via aqueles lábios se mexendo. A face de Broadbent estava virada para mim e a de Dubois eu podia vislumbrar num espelho de parede. Quando realizava meu famoso número de mentalista, descobri por que meu pai me surrara até que aprendi a linguagem silenciosa dos lábios —nesse número eu sempre representava num salão feericamente iluminado e usava óculos que ... bem, deixa pra lá. Eu conhecia leitura labial.

Nesse momento, Dubois dizia:

— Dak, seu ordinário, estúpido, safado e inacreditável calhorda, você quer que nós dois acabemos contando pedras em Titã? Esse presunçoso canastrão vai bater com a língua nos dentes.

Quase perdi a resposta de Broadbent. Presunçoso, realmente! À parte uma fria apreciação de meu próprio gênio, eu me julgava um homem modesto.

Broadbent:

— ... não importa se o jogo é desonesto quando é o único na cidade, Jock. Não há ninguém mais que possamos utilizar.

Dubois:

— Muito bem, então chame aqui o Dr. Scortia, hipnotize-o e injete-lhe o suco da felicidade. Mas não lhe diga qual é o placar — não, até que ele seja condicionado e não enquanto estivermos ainda em terra.

Broadbent:

— Uhmmm, o próprio Scortia me disse que não poderíamos depender de hipnotismo e drogas, não para o tipo de representação de que precisamos. Temos que ter a cooperação dele, a cooperação inteligente.

— Que inteligência? — rosnou Dubois. — Olhe só para ele. Já viu um galo se mostrando num galinheiro? Certo, ele tem a mesma altura e compleição, e o crânio dele parece-se um bocado com o do Chefe — mas não tem nada dentro. Ele vai perder a coragem, explodir, e botar toda a coisa a perder. Ele não pode desempenhar esse papel... Ele é apenas um canastrão!

Se houvesse sido acusado de cantar desafinado, o imortal Caruso não poderia ter-se sentido mais insultado do que eu. Mas tenho certeza de que justifiquei naquele momento minha reivindicação ao manto de Burbage e Booth. Continuei a polir as unhas e lhe ignorei as palavras — tomando apenas uma nota para, algum dia, fazer o amigo Dubois rir e chorar dentro do espaço de tempo de vinte segundos. Esperei mais alguns instantes, levantei-me e aproximei-me do reservado. Logo que eles notaram que minha intenção era entrar, calaram-se. Eu disse, tranqüilo:

— Não importa, cavalheiros. Mudei de idéia. Dubois pareceu aliviado.

— Não quer o trabalho?

— Quero dizer que o aceito. Não precisam me dar explicações. O amigo Broadbent garantiu-me que o trabalho não é do tipo que me incomode a consciência — e eu confio nele. Ele me assegurou que precisa de um ator. Os assuntos do produtor, porém, não me dizem respeito. Aceito.

Dubois pareceu ficar furioso, mas fechou a matraca. De Broadbent eu esperava satisfação e alívio. Em vez disso, vi preocupação:

— Muito bem — assentiu — vamos continuar. Lorenzo, não sei exatamente quanto tempo vamos precisar de você. Não mais do que alguns dias, tenho certeza — e você aparecerá apenas uma hora, mais ou menos, uma ou duas vezes, durante esse tempo.

— Isso não importa, desde que eu tenha tempo para estudar o papel — a personificação. Mas, aproximadamente, quantos dias os senhores vão precisar de mim? Preciso avisar meu agente.

— Oh, não! Não faça isso.

— Bem ... Quanto tempo? Uma semana?

— Menos do que isso ... ou estaremos fritos.

— Hummm?

— Não tem importância. Cem Imperiais por dia será uma soma suficiente?

Hesitei, lembrando com que facilidade ele aceitara meu mínimo apenas para uma entrevista — e resolvi que esse era o momento de mostrar-me magnânimo. Ignorei-lhe as palavras com um gesto de pouco caso.

— Não vamos falar nessas coisas. Sem dúvida, o senhor me pagará honorários compatíveis com o valor de meu desempenho.

— Muito bem, muito bem. — Broadbent virou-se, impaciente. — Jock, telefone para o campo. Depois, para Langston, e diga-lhe que estamos começando. Plano Mardi Gras. Sincronize com ele. Lorenzo... — Fez um gesto para que eu o seguisse e entrou no banheiro. Abriu uma pequena maleta e perguntou: — Pode fazer alguma coisa com este lixo?

"Lixo" era esse tipo de conjunto de maquilagem caro demais e nada profissional que é vendido no balcão para impressionar jovens fascinados pela ribalta. Examinei o material com leve repugnância.

— Devo compreender, senhor, que espera que eu comece a personificar alguém agora mesmo? Sem tempo de estudar o papel?

— Não, não, não! Quero que mude seu rosto... na possibilidade de que alguém possa reconhecê-lo quando sairmos daqui. Isso é possível, não?

Respondi secamente que ser reconhecido em público é um fardo que todas as celebridades são forçadas a carregar. Mas não acrescentei que era certo que um número incontável de pessoas reconheceriam o Grande Lorenzo em qualquer local público.

— Muito bem. Então mude a fisionomia para que você não se pareça mais com você.

E saiu abruptamente.

Suspirei e examinei aqueles brinquedos de crianças que ele me entregara, sem dúvida pensando que eram as ferramentas de minha profissão — pintura graxenta apropriada para palhaços, goma, e cabelos de crepe que pareciam ter sido retirados do carpete da sala de visitas de Tia Maggie. Nem uma grama de silicarne, nem escovas elétricas, nenhum instrumento moderno de qualquer tipo. Um verdadeiro artista, porém, pode fazer maravilhas com um fósforo queimado e as sobras que encontra na cozinha — e com seu gênio. Ajeitei as luzes e caí num devaneio criativo.

Há várias maneiras de evitar que se reconheça uma face bem conhecida. A primeira é desviar a atenção. Vista um uniforme num homem e, com toda probabilidade, sua face não será notada. Você se lembra do rosto do último policial que viu? Poderia identificá-lo se o visse depois à paisana? Baseado no mesmo princípio, temos os aspectos de como atrair a atenção. Coloque num homem um nariz enorme, desfigurado talvez pela acne rosacea e o comum das pessoas só olhará, fascinado, para o dito apêndice, os mais polidos desviarão a vista — e nenhum deles lhe notará a face.

Rejeitei essa solução primitiva porque julguei que meu empregador preferia que eu não fosse absolutamente notado, a ser lembrado por algum aspecto estranho, embora sem ser reconhecido. Isso é muito mais difícil. Qualquer pessoa pode dar na vista, mas é necessária uma especial habilidade para não ser notado. Precisava de um rosto tão comum, tão impossível de lembrar como o rosto verdadeiro do imortal Alec Guinness. Infelizmente, minhas feições aristocráticas são finas demais, belas demais — uma desvantagem lamentável para papéis dramáticos. Ou como meu pai costumava dizer: "Larry, você é danado de bonito! Se não acabar com essa leseira e aprender a profissão, vai passar quinze anos como ator juvenil, com a impressão errada de que é um artista — e acabar vendendo balas na sala de espera. "Estúpido" e "bonitinho" são os dois piores defeitos na carreira teatral — e você é ambas as coisas."

Em seguida, ele tirava o cinto e me estimulava o cérebro. Papai era um psicólogo prático e acreditava que aquecer os glutei maximi com uma correia drenava o excesso de sangue do cérebro de um garoto. Muito embora a teoria possa ter sido fraca, os resultados justificaram o método. Aos quinze anos, eu podia plantar bananeira num arame frouxo e recitar página após página de Shakespeare e Shaw — ou roubar uma cena apenas acendendo um cigarro.

Encontrava-me mergulhado bem no fundo do estado de espírito criativo quando Broadbent enfiou a cara pela fresta da porta.

— Droga! — disse com aspereza. — Não fez nada ainda?

Olhei-o friamente.

— Supus que o senhor queria meu melhor trabalho criativo — que não pode ser apressado. O senhor esperaria que um cordon bleu criasse um novo molho na garupa de um cavalo a galope?

-— Os cavalos que se danem! — Lançou um olhar ao relógio. — Você tem mais seis minutos. Se não puder fazer coisa alguma nesse espaço de tempo, vamos ter que nos arriscar.

Bem! É claro que prefiro dispor de um bocado de tempo — mas eu ensaiara o papel de meu pai, para uma eventual substituição, na sua criação de multipersonagens, O Assassinato de Huey Long, ou quinze papéis em sete minutos - e certa vez fizera isso nove segundos menos que ele.

— Fique onde está! — retruquei. — Vou-lhe mostrar agora mesmo.

Encarnei então "Benny Grey", o apagado faz-de-tudo que pratica os assassinatos em A Casa sem Portas — dois rápidos traços para abrir tristes rugas nas bochechas, do nariz aos cantos da boca, uma mera sugestão de olheiras, e uma palidez Factor's Nº 5 em toda a cara, não gastando mais de vinte segundos em tudo isso, o que poderia fazer até dormindo. A Casa foi levada noventa e duas vezes antes de ser gravada.

Quando me virei, Broadbent deixou cair o queixo.

— Meu Deus! Não posso acreditar!

Continuei representando "Benny Grey" e não sorri acusando o recebimento do elogio. O que Broadbent não compreendia era que a pintura graxenta não era de fato necessária, embora tornasse a coisa mais fácil, claro. Usara um pouco dela apenas porque ele o esperava. Sendo um caipira, ele naturalmente supunha que a maquilagem consiste em pintura e pó.

Continuou a me olhar fixamente.

— Escute aqui — disse em voz baixa — você podia fazer alguma coisa assim comigo? E depressa?

Eu ia dizer não quando me dei conta de que isso constituía um interessante desafio profissional. Senti a tentação de dizer que se meu pai houvesse começado a trabalhar nele aos cinco anos de idade, ele poderia estar pronto nesse instante para vender balas numa feira, mas pensei melhor.

— O senhor quer ter apenas certeza de que não será reconhecido? — perguntei.

— Isso mesmo, isso mesmo! Pode me pintar, arranjar um nariz falso, ou fazer qualquer coisa assim?

Sacudi a cabeça.

— O que quer que fizéssemos com a maquilagem, ela apenas faria com que o senhor parecesse um garoto fantasiado para uma festinha. O senhor não sabe representar e jamais aprenderá, na sua idade. Nada de tocar em seu rosto.

— Ahan? Mas com este meu nariz...

— Preste atenção ao que eu vou dizer. Tudo o que eu posso fazer com esse respeitável nariz apenas chamará a atenção para ele. Valeria a pena se um conhecido olhasse e dissesse: "Hei, aquele grandalhão me lembra Dak Broadbent. Não é Dak, claro, mas se parece um pouco com ele." Hein?

— Acho que sim. Enquanto ele tivesse certeza de que não era eu. Pensa-se que eu estou em... Bem, ninguém pensa que eu esteja na Terra neste exato instante.

— Ele terá absoluta certeza de que não é o senhor porque vamos mudar sua maneira de andar. Esse é o seu aspecto mais característico. Se sua maneira de andar estiver errada, então não pode, em hipótese alguma, ser o senhor ... de modo que deve ser outro homem de ossos grandes, ombros largos, que se parece um bocado com o senhor.

— Muito bem. Mostre-me como é que eu devo andar.

— Não, o senhor jamais aprenderia. Eu o obrigarei a andar do modo como quero que ande.

— Como?

— Colocando um bocado de seixos ou o equivalente no lugar dos dedos em suas botas. Isso o obrigará a pôr o peso aos calcanhares e o fará andar espigado. Será impossível ao senhor mover-se nesse agachamento leve de espaçonauta.

Hummm... Vou colar também esparadrapo entre suas omoplatas para se lembrar de conservar os ombros para trás. Ipso será suficiente.

— Acha que não vão me reconhecer apenas porque vou andar de modo diferente?

— Certamente. Um conhecido não saberá por que tem certeza de que não é o senhor, mas o próprio fato de que a convicção é subconsciente, e não analisada, o colocará acima de qualquer dúvida. Oh, vou fazer também alguma coisa com seu rosto, apenas para que o senhor se sinta mais à vontade ... Mas não é necessário.

Voltamos à sala de estar da suíte. Eu continuava a personificar "Benny Grey", claro. Logo que encarno um papel, preciso fazer esforço consciente para voltar a ser eu mesmo. Dubois falava ao telefone nesse momento. Ergueu a vista, viu-me e sua boca caiu. Saiu do reservado e perguntou:

— Quem é ele? E onde está aquele cara, o artista? Depois de um único olhar para mim, desviou a vista e não se importou mais comigo. "Benny Grey" é um homenzinho de aparência tão cansada, tão sem importância, que nem vale a pena perder tempo olhando para ele.

— Que cara? Que artista? — respondi no tom incolor, inexpressivo, de Benny. Essas palavras trouxeram os olhos de Dubois de volta para mim. Fitou-me, a vista começou a desviar-se, os olhos voltaram a mim com um salto e, depois, examinou-me a roupa. Broadbent soltou uma gargalhada e deu-lhe uma palmadinha no ombro.

— E você disse que ele não sabia representar? — Depois, rispidamente: — Falou com todos eles, Jock?

— Falei. — Dubois olhou-me outra vez, parecendo perplexo e desviou mais uma vez a vista.

— Muito bem. Vamos ter que sair daqui em cinco minutos. E vamos ver com que rapidez você pode me aprontar, Lorenzo.

Tirou uma bota, a jaqueta e puxou a camisa por sobre a cabeça, para que eu pudesse pregar um esparadrapo entre seus ombros, quando se acendeu a luz sobre a porta e soou a campainha. Ele endureceu-se.

— Jock? Estamos esperando alguém?

— Provavelmente, é Langston. Ele disse que ia ver se chegava aqui antes de sairmos.

E dirigiu-se para a porta.

— Talvez não seja ele. Talvez seja ...

Não consegui ouvir quem Broadbent pensava que podia ser, pois nesse momento Dubois abriu a porta. Emoldurado no portal, parecendo um cogumelo de pesadelo, vi um marciano.

Por um segundo que se arrastou numa agonia, coisa alguma consegui ver senão o marciano. Não vi o humano por trás dele nem o tubo que o marciano trazia aninhado num pseudo-membro.

O marciano rolou para dentro, o homem que o acompanhava entrou atrás dele e a porta voltou a fechar-se.

— Boa tarde, senhores. Vão a algum lugar? — guinchou o marciano.

Fiquei paralisado, atordoado, atacado de xenofobia aguda. Dak estava em situação desvantajosa em virtude de suas roupas desarrumadas. O pequeno Jock Dubois, porém, agiu com aquele heroísmo simples que o transformou em meu amado irmão no próprio instante em que morreu ... Lançou-se contra o tubo. Diretamente sobre ele — e nenhum esforço fez para evitá-lo.

Já devia estar morto, com um buraco aberto a fogo no ventre, pelo qual se podia enfiar um punho, antes de tocar o chão. Mas continuou agarrado, o pseudo-membro esticou-se como se fosse puxa-puxa — partiu-se em seguida a uns poucos centímetros do pescoço do monstro, e o pobre Jock continuou ainda com o tubo preso em seus braços mortos.

O humano que seguira aquela coisa malcheirosa, fedorenta, foi obrigado a dar um passo para o lado antes que pudesse assumir posição de tiro — e cometeu um erro. Devia ter atirado em primeiro lugar em Dak e depois em mim. Em vez disso, desperdiçou seu primeiro tiro em Jock e jamais disparou o segundo, pois Dak acertou-o bem no rosto. Eu nem sabia que Dak estava armado.

Privado de sua arma, o marciano nem mesmo tentou fugir. Dak levantou-se de um salto, deslizou até ele e disse:

— Ah, Rrringriil. Eu o vejo.

— Eu o vejo, Capitão Dak Broadbent — guinchou o marciano. E perguntou: — Comunicará a meu ninho?

— Eu comunicarei a seu ninho, Rrringriil.

— Eu lhe agradeço, Capitão Dak Broadbent.

Dak estendeu um longo e ossudo dedo e enfiou-o no olho mais perto, empurrando-o até que suas articulações chocaram-se com o crânio. Puxou-o em seguida e o dedo saiu coberto de um líquido verde. Os pseudo-membros da criatura contraíram-se para dentro do tronco num espasmo reflexo, embora aquela coisa morta continuasse de pé, firme sobre sua base. Dak correu para o banheiro. Ouvi o som de água enquanto ele lavava as mãos. Continuei ali, quase tão paralisado pelo choque quanto o falecido Rrringriil.

Dak voltou, enxugando as mãos na camisa, e disse:

— Vamos ter que limpar isto por aqui. Não temos muita tempo.

Pelo seu tom de voz, poderia estar falando de uma ninharia qualquer.

Fiz força para deixar claro numa única sentença nervosa que não queria nada com aquilo, que devíamos chamar a Polícia, que eu queria cair fora antes que os guardas chegassem, que ele sabia o que podia fazer com aquele papel maluco de personificar alguém e que eu tencionava criar asas e voar pela janela. Dak ignorou tudo isso.

— Nada de ficar nervoso, Lorenzo. Estamos agora em contagem regressiva. Ajude-me a levar esses corpos para o banheiro.

— Meu Deus, homem! Que tal simplesmente trancarmos a porta e fugirmos daqui? Talvez nunca nos liguem a este caso.

— Tudo indica que não — concordou — uma vez que ninguém sabe que estamos aqui. Mas a Polícia descobriria que Rrringriil matou Jock — e nós não podemos admitir isso. Não, agora. Não podemos.

— Como?

— Não podemos nos arriscar a uma notícia de jornal sobre um marciano que matou um humano. Assim, cale a boca e me ajude.

Calei e ajudei. Acalmou-me o fato de lembrar-me que "Benny Grey" fora o pior dos sádicos psicopatas e que se deliciara em esquartejar suas vítimas. Deixei que "Benny Grey" arrastasse os dois corpos humanos para o banheiro enquanto Dak encarregava-se do marciano e fatiava Rrringriil em pedaços suficientemente pequenos para serem manipulados. Teve o cuidado de fazer o primeiro corte abaixo do crânio, de modo que o trabalho não foi muito sujo, mas não pude ajudá-lo — parecendo-me que um marciano morto fedia ainda mais do que vivo.

O vaso sanitário encontrava-se oculto por um painel no banheiro, logo depois do bidê. Se não estivesse marcado o. painel com o trevo habitual de radiação, teria sido difícil encontrá-lo. Depois de termos enfiado por ele os pedaços de Rrringriil (consegui reunir coragem suficiente para ajudar), Dak passou ao problema mais desagradável de esquartejar e enfiar pela tubulação os corpos humanos, utilizando a arma do marciano e, naturalmente, trabalhando na banheira.

É espantosa a quantidade de sangue que temos. Conservamos a torneira aberta durante todo tempo. Apesar de tudo, foi feio. Mas quando Dak teve que passar aos restos mortais do pequeno Jock, faltou-lhe coragem. Seus olhos se encheram de lágrimas, cegando-o, de modo que o empurrei para o lado antes que ele cortasse os dedos dos próprios pés e deixei que "Benny Grey" se encarregasse do lúgubre trabalho.

Quando terminei e quando não havia mais nada a mostrar que houvera dois homens e um monstro naquela suíte, lavei com todo o cuidado a banheira e me levantei. Vi Dak à porta, parecendo tão calmo como sempre.

— Dei um jeito no assoalho — disse ele. — Acho que um criminologista, com o equipamento adequado, poderia reconstituir o fato — mas estamos contando que ninguém jamais suspeite. Assim, vamos cair fora daqui. De algum modo, temos que nos adiantar quase uns vinte minutos. Vamos!

Estava além de mim perguntar para onde ou por quê.

— Muito bem. Vamos dar um jeito nas suas botas. Ele sacudiu a cabeça.

— Isso me atrasaria. Neste exato momento, a velocidade é mais essencial do que não ser reconhecido.

— Estou em suas mãos.

Segui-o até a porta. Ele parou e disse:

— Pode haver outros deles por aí. Se houver, atire primeiro — nada mais há que você possa fazer. — Tinha a arma na mão, coberta pelo casaco.

— Marcianos?

— Ou homens. Ou ambos.

— Dak? Rrringriil era um daqueles quatro que estavam no Bar mañana?

— Com toda certeza. Por que é que você acha que fiz aquele rodeio todo para tirá-lo de lá e trazê-lo aqui? Ou eles o seguiram, como nós fizemos, ou me seguiram. Reconheceu-o?

— Céus, não! Para mim todos esses monstros são iguais.

— E eles dizem que todos nós parecemos iguais. Os quatro eram Rrringriil, seu irmão-conjugado, Rrringlath, e dois outros do ninho dele, de linhagens divergentes. Mas cale a boca. Se vir um marciano, atire. Está com a outra arma?

— Estou. Ouça, Dak, eu não sei o que é que está acontecendo. Mas enquanto esses animais estiverem contra você, eu estou com você. Eu desprezo os marcianos.

Dak pareceu chocado.

— Você não sabe o que está dizendo. Nós não estamos lutando contra os marcianos. Aqueles quatro são renegados.

— Como?

— Há um bocado de bons marcianos, quase todos eles. Bobagem! Mesmo Rrringriil não era um mau sujeito, na maioria dos aspectos... Joguei ótimas partidas de xadrez com ele.

— O quê? Nesse caso, eu ...

— Pare com isso. Você está enfiado nisto fundo demais para recuar. Agora, em acelerado, até o elevador expresso. Eu cobrirei nossa retaguarda.

Chegamos ao subporão e passamos imediatamente à plataforma do trem subterrâneo. Uma cápsula de dois passageiros esvaziava-se nesse instante. Dak empurrou-me para dentro dela com tal rapidez que nem o vi operar a combinação de controle. Mas em nada fiquei surpreso quando a pressão desapareceu de meu peito e vi o sinal piscando: ESPAÇOPORTO JEFFERSON — A toda velocidade.

Tampouco me importei com qual estação seria enquanto ficasse tão longe quanto possível do Hotel Eisenhower. Os poucos minutos em que passamos apertados no trem a vácuo foram suficientes para que eu arquitetasse um plano — vago, provisório, e sujeito a mudança sem aviso prévio, como sempre dizem as letrinhas pequenas nos contratos, mas um plano. E podia ser enunciado em duas palavras: Caia fora!

Apenas, naquela manhã, descobri que era muito difícil executá-lo. Em nossa cultura, um homem sem dinheiro é tão impotente como um bebê. Mas, com cem pratas no bolso, eu poderia ir longe e depressa. Não sentia obrigação alguma para com Dak Broadbent. Por questões só dele — não minhas — ele quase conseguira que me matassem, depois me obrigara a ocultar um crime, e me transformara num fugitivo da justiça. Mas conseguíramos evitar a Polícia, pelo menos por ora e, naquele instante, simplesmente me livrando de Broadbent eu poderia, sem dificuldade, esquecer tudo aquilo, arquivar os fatos como se tivessem sido um pesadelo. Parecia extremamente improvável que eu pudesse ser ligado ao caso, mesmo que ele fosse descoberto — por sorte, um cavalheiro sempre usa luvas e eu tirara as minhas apenas para fazer a maquilagem e, mais tarde, durante aquela macabra faxina.

À parte aquela cálida explosão de heroísmo adolescente, que sentira quando pensara que Dak estava combatendo marcianos, não tinha interesse algum nos planos dele — e mesmo esse grau de simpatia acabara quando descobri que ele gostava de marcianos em geral. Nesse instante, não tocaria no trabalho de personificação que ele me oferecera nem com a vara proverbial. O diabo o levasse! Tudo o que eu queria na vida era dinheiro suficiente para manter corpo e alma juntos e uma oportunidade para praticar minha arte. Essa história de tiras-e-ladrões não me interessava o mínimo — e era mau teatro, na melhor das hipóteses.

Jefferson parecia feito sob medida para executar meu plano. Congestionado e confuso, com trens expressos entrando e saindo, se apenas Dak tirasse os olhos de mim por meio segundo, eu estaria a caminho de Omaha. Ficaria na moita durante algumas semanas, depois entraria em contato com meu agente e verificaria se perguntas haviam sido feitas a meu respeito.

Dak providenciou para que saltássemos juntos da cápsula, do contrário eu teria fechado a porta com estrondo e ido embora a toda. Fingi não notar e fiquei junto dele como se fosse um cachorrinho quando subimos a escada rolante para o saguão principal, logo abaixo da superfície, saindo entre o balcão da PAN-AM e o da American Skylines, e dirigimo-nos diretamente pela sala de estar para o balcão da Diana, Ltd. Imaginei que ele ia comprar passagem na ponte aérea para a Lua. Como ele pensava em me pôr a bordo sem passaporte ou certificado de vacina eu não podia imaginar, mas sabia que ele era um homem fértil em recursos. Resolvi desaparecer entre os móveis quando ele tirasse a carteira do bolso. Quando um homem conta dinheiro, pelo menos durante alguns segundos seus olhos e atenção ficam inteiramente ocupados.

Mas passamos direto pelo balcão da Diana e atravessamos um arco encimado pela placa Ancoradouros Privados. A passagem adiante não estava congestionada nem nas paredes havia sinal algum. Dei-me conta, desanimado, de que deixara passar minha melhor oportunidade, lá atrás, no apinhado saguão principal. Parei.

— Dak? Vamos dar um salto?

— Naturalmente.

— Dak, você está maluco. Eu não tenho documentos, nem mesmo um cartão de turista para a Lua.

— Você não vai precisar deles.

— Vão me deter na "Emigração." Logo em seguida, um guarda grande e gordo vai começar a fazer perguntas.

Uma mão do tamanho de um gato fechou-se sobre meu braço.

— Nada de perder tempo. Por que é que você deve passar pela "Emigração" quando, oficialmente, não vai a parte alguma? E por que deveria eu quando, oficialmente, nem cheguei aqui? Vamos, em acelerado, marche, filho.

Eu sou bem musculoso e nada baixote, mas me senti como se um robô de trânsito me estivesse puxando para fora de uma zona de perigo. Vi uma placa, HOMENS, e fiz um esforço desesperado para me soltar.

— Dak, um minuto, por favor. Preciso falar com um cara a respeito de minha tubulação.

Ele sorriu alegre para mim.

— Oh, é mesmo? Você foi ao sanitário pouco antes de sairmos do hotel.

Não diminuiu a marcha nem me soltou.

— É um problema de rins...

— Lorenzo, meu filho, acho que você está com medo. Vou dizer o que vou fazer. Está vendo aquele guarda ali na frente? — Ao fim do corredor, na estação, na entrada dos ancoradouros privados, um defensor da lei descansava as patas debruçado sobre um balcão. — Acabo de descobrir que estou tendo uma inesperada crise de consciência. Sinto necessidade de confessar ... que você assassinou um marciano visitante e dois cidadãos locais ... direi que você me apontou uma arma e me obrigou a ajudá-lo a dar sumiço aos corpos. E que ...

— Você está doido!

— Quase fora de mim de angústia e remorso, companheiro.

— Mas ... você não tem coisa alguma contra mim.

— E daí? Acho que minha história vai parecer mais convincente do que a sua. Eu sei o que esta situação toda é e você não sabe. Por exemplo ... — E mencionou uns dois detalhes sobre meu passado que eu teria jurado que estavam enterrados e esquecidos. Muito bem, eu tinha uns dois bons números para espetáculos só de homens e não para o circuito familiar — afinal de contas, um cara tem que comer. Mas aquele assunto com Bebe. Isso não era justo, porque eu, de modo algum, soubera que ela era de menor. Quanto àquela conta de hotel, muito embora seja verdade que enganar um dono de hotel na Praia de Miami acarrete o mesmo castigo que assalto a mão armada em outros lugares, foi um pecadilho muito provinciano — e eu teria pago se tivesse dinheiro. E quanto àquele infeliz incidente em Seattle — bem, o que estou querendo dizer é que Dak conhecia um número espantoso de coisas sobre meu passado, mas que interpretava a maior parte daquilo de maneira errada. Ainda assim ...

— Assim — continuou ele — vamos direto até aquele gendarme para confessar tudo. Vamos apostar de sete a dois para ver qual de nós dois sai primeiro sob fiança.

Em vista disso, fomos até o guarda e passamos por ele. Ele conversava nessa ocasião com uma funcionária do outro lado do corrimão e nenhum dos dois levantou a vista. Dak tirou do bolso dois bilhetes com a inscrição "PASSE PARA O PORTÃO — PERMISSÃO PARA MANUTENÇÃO — Ancoradouro K—127," e enfiou-os num monitor. A máquina examinou-os, uma transparência instruiu-nos para tomar um carro no nível superior, código King 127; o portão deixou-nos entrar, fechou-se às nossas costas e uma voz gravada disse: "Cuidado onde pisam, por favor, e atenção para os avisos de radiação. A Companhia do Terminal não se responsabiliza por acidentes além do portão."

No pequeno carro, Dak dedilhou um código inteiramente diferente, o veículo fez a volta, escolheu uma pista e partimos por baixo do campo. Isso não me importou. Não podia importar mais.

Ao descermos, o pequeno carro voltou para seu ponto de partida. À minha frente vi uma escada que desaparecia no teto de aço. Dak deu-me uma cotovelada.

— Vamos subir.

Havia uma janela de alçapão na parte superior e uma placa: "PERIGO DE RADIAÇÃO — OPTIMAXIMO 13 SEGUNDOS." Os dados numéricos haviam sido escritos a giz. Parei. Não tenho interesse especial por descendentes, mas não sou idiota. Dak sorriu alegre e disse:

— Trouxe sua cueca de chumbo? Abra o alçapão, passe imediatamente e suba a escada até a nave. Se não parar para se cocar, chegará com três segundos de folga.

Acho que cheguei com cinco. Fiquei exposto à luz do sol por uma distância de uns dois metros e, em seguida, vi-me dentro de um longo tubo na nave. Subi os degraus de três em três.

A nave-foguete era aparentemente pequena. Pelo menos a cabine de controle pareceu-me muito apertada. Em nenhum momento consegui olhar para fora. As únicas espaçonaves onde eu estivera antes eram as da ponte aérea para a Lua, a Evangeline, e seu irmão, o Gabriel, tendo isso acontecido naquele ano em que imprudentemente aceitei um trabalho lunar em base cooperativa — nosso empresário achara que malabarismo, corda-bamba e um número acrobático fariam sucesso no sexto de gravidade da Lua, o que era correto neste particular, mas ele não previra tempo de ensaio para que nos acostumássemos à baixa gravidade. Tive que me valer da Lei do Artista em Dificuldades para voltar, e perdera o guarda-roupa.

Havia dois homens na cabine de controle. Um deles, deitado num dos três sofás de aceleração, mexia em mostra-dores e o outro fazia misteriosos movimentos com uma chave de fenda. O que estava deitado no sofá olhou para mim e continuou calado. O outro virou-se, pareceu preocupado e, depois, disse para alguém atrás de mim:

— O que foi que aconteceu com Jock?

Dak praticamente levitou para fora da escotilha às minhas costas.

— Não tenho tempo agora! — respondeu, seco. — Compensou para a massa dele?

— Compensei.

— Red, foi gravada a rotina de decolagem? A torre? O homem no sofá respondeu preguiçosamente:

— Estive recomputando a cada dois minutos. Você está liberado pela torre. Decolagem em menos quarenta, humm, sete segundos.

— Fora desse beliche! Caia fora! Vou largar na hora! Red deixou indolente o sofá enquanto Dak ocupava seu lugar. O outro homem empurrou-me para o sofá do co-piloto e amarrou um cinto de segurança em volta de meu peito. Virou-se e desceu por um tubo de escape. Red seguiu-o, mas parou por um instante, ficando com os ombros e a cabeça de fora.

— Passagens, por favor! — disse alegre.

— Bolas! — Dak afrouxou o cinto de segurança, enfiou a mão num bolso, tirou os dois passes do aeroporto que havíamos usado para entrar sorrateiros a bordo e entregou-os.

— Obrigado — disse Red. — Vejo vocês na igreja. Jatos quentes e o resto.

Desapareceu com descansada rapidez. Ouvi a câmara estanque fechar-se e meus tímpanos doeram. Dak não lhe respondeu as palavras de despedida. Tinha os olhos presos aos mostradores do computador. Fez um pequeno ajustamento.

— Vinte e um segundos — disse. — Não haverá pausa. Veja que seus braços fiquem junto do corpo e relaxe. O primeiro passo vai ser uma doçura.

Fiz o que ele mandou e depois esperei durante horas naquela tensão que precede o levantamento do pano de boca no teatro. Finalmente, disse:

— Dak?

— Cale a boca.

— Simplesmente uma coisa: para aonde vamos?

— Marte.

Vi quando ele apertou um botão e, em seguida, a escuridão desceu sobre mim.

 

O que é que há de tão engraçado num cara enjoado a ponto de cair? Aqueles beócios com estômago de ferro fundido sempre riem... Aposto que ririam se a vovó quebrasse ambas as pernas.

Fiquei mareado, claro, logo que a nave-foguete cortou o empuxo e entrou em estado de imponderabilidade. Saí desse estado com bastante rapidez, uma vez que meu estômago estava praticamente vazio — eu nada comera desde o café da manhã — e fiquei apenas lividamente doente durante a eternidade restante daquela horrenda viagem. Levamos uma hora e vinte e três minutos para chegar ao ponto de encontro, o que eqüivale a mais ou menos mil anos no purgatório para uma marmota como eu.

Direi, porém, o seguinte para crédito de Dak: ele não riu. Era um profissional e tratou minha reação normal com as boas maneiras impessoais de uma enfermeira de vôo — e não como aqueles asnos de cabeça chata e voz estentórea que encontramos na lista de passageiros da ponte aérea para a Lua. Se eu pudesse fazer o que queria, aqueles sadios criadores de pânico seriam lançados no espaço, em órbita, e deixados nela para rir no vácuo até morrerem.

A despeito da confusão em minha mente e das milhares de perguntas que me povoavam a mente, havíamos quase estabelecido contato com a nave espacial, que se encontrava em órbita de estacionamento em volta da Terra, antes de eu conseguir me interessar por alguma coisa. Desconfio

que se uma vítima de enjôo espacial fosse informada de que ia ser fuzilada ao amanhecer, sua resposta seria: "É mesmo? Quer fazer o favor de me passar aquele saco?"

Mas por fim me recuperei a ponto de, em vez de querer morrer logo, a balança inclinou-se de modo que surgiu um bruxoleante, hesitante interesse em continuar a viver. Dak esteve ocupado quase o tempo todo no comunicador da nave, aparentemente falando numa faixa muito estreita porque suas mãos ajustavam continuamente o controle direcional, como um artilheiro apontando um canhão com dificuldade. Não podia ouvir o que ele dizia ou mesmo ler-lhe os lábios, uma vez que ele tinha o rosto enterrado na objetiva do aparelho. Supus que estivesse falando com a nave estelar que íamos encontrar.

Mas quando ele empurrou para o lado o comunicador e acendeu um cigarro, reprimi o vômito que a mera vista da fumaça de cigarro me provoca e disse:

— Dak, já é tempo de você abrir o jogo comigo.

— Vai haver tempo bastante para isso em nossa viagem para Marte.

— Ahan? O diabo leve esse seu jeito arrogante — protestei debilmente. — Eu não quero ir para Marte. Nunca teria sequer considerado aquela sua proposta maluca, se tivesse sabido que o serviço era em Marte.

— Faça o que quiser. Você não é obrigado a ir.

— Como?

— A câmara estanque fica imediatamente atrás de você. Entre e vá embora. E não se esqueça de fechar a porta.

Não respondi a essa ridícula sugestão. Ele continuou:

— Mas se você não consegue respirar no espaço, a coisa mais fácil a fazer é seguir para Marte — e eu providenciarei para que você volte. O Can Do — isto é, esta lata aqui

— está prestes a encontrar-se com o Go For Broke, uma nave de alta aceleração. Cerca de dezessete segundos e o piscar de uma vespa depois de fazermos contato com o Go For Broke, partiremos para Marte — porque temos que estar lá na quarta-feira.

Respondi com a teimosia petulante de um doente:

— Eu não vou para Marte. Vou ficar aqui mesmo nesta nave. Alguém vai ter que levá-la de volta e descer na Terra. Você não pode me enganar.

— É verdade — admitiu Broadbent. — Mas você não vai estar nela. Os três paspalhos que supostamente viajarão nesta nave — segundo os registros lá no Jefferson Field — encontram-se neste exato momento no Go For Broke.

Esta nave aqui é para três pessoas, como você deve ter notado. Receio que você os ache mal-humorados nessa questão de lhe arranjar um lugar. E, além disso, de que modo você pode voltar, já que vai ter que passar pela "Imigração"?

— Não me importo! Eu estarei de volta à Terra.

— E na cadeia, acusado de tudo, de entrada ilegal a tráfico e uso de drogas nas rotas espaciais. No mínimo, terão certeza de que você estava fazendo contrabando, levarão você para uma sala tranqüila lá nos fundos, enfiarão uma agulha por trás de seus globos oculares e descobrirão exatamente o que pretendia fazer. Saberiam muito bem o que perguntar e você não seria capaz de resistir. Mas não conseguiria me incriminar, pois o velho e bom Dak Broadbent não vem à Terra há muito tempo e tem testemunhas fidedignas para provar isso.

Pensei enojado nisso, tanto por causa do medo que sentia como por causa da persistência dos efeitos do enjôo espacial.

— Então você daria a dica à Polícia? Seu sujo, seu nojento ...

Interrompi-me por falta de um adjetivo adequadamente insultuoso.

— Oh, não! Preste atenção, filho. Eu poderia pressionar um pouco e deixá-lo com a impressão de que eu chamaria os tiras — mas eu nunca faria isso. Mas o irmão-conjugado de Rrringriil, Rrringlath, certamente sabe que o velho "Griil" entrou por aquela porta e nunca mais voltou. Ele dará o alarma. Irmão-conjugado é um relacionamento tão íntimo que nós jamais o compreenderemos, isto porque não nos reproduzimos por fissão.

Eu não me importava absolutamente se os marcianos se reproduzem como coelhos ou se a cegonha os traz dentro de um pequeno saco preto. Da maneira como ele falava, eu jamais poderia voltar à Terra, e disse isso mesmo.

Ele negou com um movimento de cabeça.

— Em absoluto. Deixe isso comigo e nós o faremos entrar com tanta perfeição como o fizemos sair. No fim, você sairá daquele campo, ou de qualquer outro, munido com um passe de portão que mostrará que você é um mecânico que esteve fazendo ajustamentos de último minuto — e estará usando macacão coberto de graxa e levando uma caixa de ferramentas para confirmar tudo. Certamente, um ator de sua habilidade pode desempenhar por alguns minutos o papel de mecânico, não?

— Ora, certamente! Mas ...

— É isso aí! Fique em companhia do velho Dr. Dak. Ele tomará conta de você. Troquei de lugar oito vezes nesta viagem com companheiros da guilda para chegar à Terra e nós dois sairmos de lá. Podemos fazer a mesma coisa outra vez. Mas você não teria a menor possibilidade, sem voyageurs para ajudá-lo. — Sorriu alegremente. — No fundo do coração, todo voyageur é um livre-cambista. Sendo a arte de contrabando o que é, todos nós estamos sempre prontos para nos ajudar reciprocamente numa inocente trapaça, para passar para trás os guardas do espaçoporto. O cara que não faz parte da loja, porém, em geral não obtém essa cooperação.

Fiz um esforço para acalmar o estômago e pensar no caso.

— Dak, isto é um caso de contrabando? Porque...

— Oh, não! Exceto que estamos contrabandeando você.

— Eu ia dizer que não considero contrabando um crime.

— E quem é que considera? Exceto os que ganham dinheiro às nossas custas, restringindo o comércio. Não; trata-se de um trabalho autêntico de personificação, Lorenzo, 9 você é o homem para desempenhá-lo. Não foi por acidente que o encontrei naquele bar. Você estava sendo seguido nos dois últimos dias. Logo que desembarquei, fui procurá-lo. —- Fechou a cara nesse momento. — Eu gostaria de ter certeza de que nossos honrados antagonistas estiveram me seguindo, e não seguindo você.

— Por quê?

— Se eles estivessem me seguindo, estariam procurando descobrir o que era que eu estava querendo encontrar — tudo bem, uma vez que as cartas já estão na mesa. Sabemos que somos inimigos. Mas se eles estivessem seguindo você, então eles saberiam o que era que eu estava procurando — um ator que pudesse desempenhar um papel.

— Mas como é que eles podiam saber disso? A menos que você lhes dissesse.

— Lorenzo, este negócio é grande, muito maior do que você imagina. Eu mesmo não consigo vê-lo em seu todo — 2 quanto menos você souber sobre ele até que deva, melhor para você. Mas posso lhe dizer o seguinte: um conjunto de dados pessoais foi fornecido ao grande computador do Bureau do Censo do Sistema, em Haia, a máquina comparou-os com as características pessoais de todos os atores profissionais vivos. Isso foi feito com tanta discrição quanto possível, mas alguém pode ter desconfiado — e falado. As especificações importavam em encontrar para o personagem principal o ator que faria a dublagem dele como se fosse um sósia idêntico, uma vez que o trabalho tem que ser perfeito.

— Oh! E a máquina lhe disse que eu era o homem para o trabalho?

— Isso mesmo. Você ... e um outro.

Aí estava outra ocasião para eu conservar a boca fechada. Mas eu não podia ter feito isso mesmo que minha vida disso dependesse — o que de certo modo acontecia. Simplesmente, tinha que saber quem era o outro ator considerado competente para desempenhar um papel que requeria meus talentos excepcionais.

— Esse outro... Quem é ele?

Dak fitou-me de cima abaixo. Vi que ele hesitava.

— Hummm... um cara chamado Orson Trowbridge. Conhece-o?

— Aquele canastrão!

Durante um momento fiquei tão furioso que esqueci o enjôo.

— E daí? Ouvi dizer que ele é um ator muito competente.

Eu, simplesmente, não podia deixar de sentir-me indignado com a idéia de que alguém pudesse sequer pensar que aquele canastrão Trowbridge pudesse ser cogitado para um papel para o qual eu estava sendo convidado.

— Aquele gesticulador! Aquele mastigador de palavras! Parei, sabendo que seria mais nobre de minha parte ignorar tais colegas — se é que esta palavra se aplicava a ele. Mas aquele peralvilho era tão pretensioso que — se o papel previsse que ele devia beijar a mão de uma mulher, Trowbridge simularia a cena beijando, em vez disso, seu próprio polegar. Um narcisista, um poseur, um imitador duplamente fraudulento — como é que um homem desses poderia viver um papel?

Apesar de tudo, tal é a injustiça da sorte que suas canastrices lhe rendiam bom dinheiro, enquanto artistas autênticos passavam fome.

— Dak, simplesmente não compreendo como você pensou nele para esse papel.

— Bem, nós não o queríamos. Ele está preso por algum contrato de longa duração, o que tornaria visível e difícil de explicar sua ausência. Foi uma sorte para nós que você estivesse ... hummm ... "disponível". Logo que você concordou em aceitar, mandei Jock suspender o trabalho da equipe que estava procurando fazer negócio com Trowbridge.

— Sem dúvida!

— Mas... escute aqui, Lorenzo, e vou ser franco com você. Enquanto você estava protestando, eu me comuniquei com o Go For Broke e disse ao pessoal da nave para informar ao pessoal em terra que devia abordar Trowbridge outra vez.

— O quê?

— Foi você mesmo quem pediu isso, companheiro. Ouça aqui, um homem no meu ramo faz um contrato para levar um grupo para Ganimedes e isso significa que ele vai pilotar aquela nave até lá, ou morrer tentando. Ele não se acovarda nem tenta passar calote em ninguém enquanto a nave está sendo abastecida. Você me disse que aceitava o trabalho e, portanto, nada de "se", de "e" e de "porém" — você aceitou. Minutos depois disso, há uma briga. Você perde a coragem. Mais tarde, no campo, tenta fugir de mim. Há apenas dez minutos, berrava querendo voltar para a Terra. Talvez você seja melhor ator do que Trowbridge. Eu não saberia dizer se é ou não. Mas sei que precisamos de um homem em quem possamos confiar e que não vá perder a coragem quando chegar a ocasião. Ouvi dizer que Trowbridge é esse tipo de idiota. Assim, se conseguirmos contratá-lo, nós o usaremos, pagaremos a você e o despediremos, nada lhe diremos, e o mandaremos de volta. Compreendeu?

Compreendera bem demais. Dak não usou a palavra — duvido que a conhecesse — mas o que ele estava me dizendo era que eu não era um ator de verdade. O pior de tudo era que ele tinha razão no que dissera. Eu não podia me zangar, mas sentir apenas vergonha. Eu fora um idiota em aceitar o contrato sem saber mais coisas sobre o papel — mas concordara em desempenhá-lo, sem condições ou cláusulas que me facultassem uma escapatória. Naquele momento, eu estava tentando cair fora, como um amador nervoso diante da platéia.

"O espetáculo tem que continuar" é o dogma mais antigo do mundo teatral. Talvez não tenha veracidade filosófica, mas as coisas pelas quais vivem os homens raramente e?tão sujeitas a prova lógica. Meu pai acreditara naquele dogma — eu o vira representar dois atos com um| apêndice supurado e, depois, receber os aplausos antes de deixar que o levassem para um hospital. Naquele momento, podia ver-lhe o rosto, fitando-me com o desdém de um ator profissional por um pretenso ator que falha a seu público.

— Dak — disse eu com toda humildade. — Sinto muito. Eu estava enganado.

Ele me fitou atento.

— Você faz o trabalho?

— Faço. — E disse isso com toda a sinceridade. De repente, porém, lembrei-me de um fator que poderia tornar aquele papel tão impossível para mim como fazer o papel de Branca de Neve nos Sete Anões. — Isto é ... bem, eu quero desempenhá-lo.

— Mais o quê? — perguntou desdenhosamente. — Mais alguma coisa de seu maldito temperamento?

— Não, não! Mas você disse que íamos para Marte. Dak, vocês esperam que eu faça essa personificação com marcianos em volta de mim?

— Claro! De que outro modo, em Marte?

— Uhmmm... Mas, Dak, eu não posso suportar marcianos! Eles me dão calafrios. Eu não quereria — procuraria não fazer isso — mas eu poderia falhar inteiramente na caracterização.

— Oh, se isso é tudo o que o preocupa, esqueça.

— Mas eu não posso. Não posso evitar isso. Eu...

— Eu disse: "Esqueça". Filho, nós sabíamos que você é um jeca nessas coisas... Sabemos de tudo a seu respeito. Lorenzo, seu medo de marcianos é tão infantil como o medo de aranhas e de serpentes. Mas previmos isso e tudo será resolvido. Assim, esqueça.

— Bem... muito bem.

Ele não estava lá muito tranqüilo, mas ele me havia tocado onde doía. "Jeca"..., ora, "jeca" era a platéia! Assim, calei a boca.

Dak puxou para si o comunicador e não se importou mais em ocultar a mensagem com o mixador de sons:

— Dente-de-leão para Amaranto. Cancele o Plano Borrão de Tinta. Vamos completar o Mardi Gras.

— Dak... — disse eu quando ele desligou.

— Mais tarde — respondeu ele. — Agora vou sincronizar órbitas. O contato pode ser um pouco violento, uma vez que não vou perder tempo preocupando-me com pequenos arranhões. Assim, cale a boca e segure-se.

Foi violento. Quando entramos na nave espacial, fiquei satisfeito por estar confortavelmente de volta ao estado de imponderabilidade. A náusea de aceleração é ainda pior do que o enjôo provocado pela falta de peso. Mas não ficamos em órbita por mais de cinco minutos: os três homens que iam voltar no Can Do já enchiam a câmara de transferência no momento em que Dak e eu flutuávamos para cima e entrávamos na nave. Os poucos momentos seguintes foram muito confusos. Acho que, no fundo, sou uma marmota porque me desoriento com a maior facilidade quando não consigo distinguir o chão do teto. Alguém perguntou:

— Onde está ele? Dak respondeu:

— Aqui!

A mesma voz replicou:

— Ele? — como se não pudesse acreditar nos próprios olhos.

— Sim, sim! — respondeu Dak. — Está usando maquilagem. Não se preocupe, está tudo bem. Ajude-me a colocá-lo na prensa de sidra.

Uma mão agarrou-me o braço, rebocou-me por uma passagem estreita e enfiou-me num compartimento. Contra um dos tabiques e encostados nele havia dois beliches, ou "prensas de sidra," os tanques hidráulicos em forma de banheira, distribuidores da pressão, usados em grandes acelerações nas naves espaciais. Eu nunca os vira antes, isto é, o artigo autêntico, mas havíamos usado simulações bem convincentes deles na peça espacial The Earth Raiders.

Um aviso pregado na antepara atrás dos beliches dizia: "AVISOU! Não se Arrisque a Mais de Três Gravidades em um Trajo Antigravitacional." Girei devagar para fora do alcance da visão antes de terminar de ler e alguém me empurrou para a prensa. Dak e o outro indivíduo, apressados, prendiam-me nela quando uma buzina próxima prorrompeu em horrendos sons. Continuou assim por vários segundos e foi depois substituída por uma voz: "Alerta vermelho! Duas Gravidades! Três minutos! Alerta vermelho! Duas gravidades! Três minutos!" E logo depois os sons recomeçaram.

Em meio a toda barulheira, ouvi Dak falar em tons urgentes:

— O projetor está sincronizado? As fitas, prontas?

— Claro, claro!

— Trouxe a seringa? — Dak girou no ar e disse-me: — Preste atenção, companheiro. Vamos aplicar-lhe uma injeção. Tudo bem. Parte dela é Nulgrav, o resto é um estimulante — porque você vai ter que ficar acordado e estudar seu papel. No início, vai sentir calor nos globos oculares e, talvez, um pouco de coceira, mas isso não vai lhe fazer mal.

— Espere, Dak, eu ...

— Não tenho tempo agora. Tenho que ativar este monte de sucata.

Girou no ar e saiu pela porta antes que eu pudesse protestar. O segundo indivíduo enrolou a manga de minha camisa para cima, encostou a pistola de injeção na minha pele e recebi uma dose antes mesmo de me dar conta do que estava acontecendo. Depois, desapareceu. Os sons da buzina foram substituídos por: "Alerta vermelho! Duas gravidades! Dois minutos!"

Tentei olhar em volta mas o medicamento tornou-me ainda mais confuso. Meus globos oculares esquentaram paca, os dentes, também, e comecei a sentir uma coceira quase intolerável ao longo da espinha — embora o cinto de segurança me impedisse de cocar a área afetada — e, talvez, que eu quebrasse um braço durante a aceleração. A buzina parou e desta vez ribombou a confiante voz de barítono de Dak:

— Último alerta vermelho! Duas gravidades! Um minuto! Acabem com esses jogos de carta e espalhem suas gordas carcaças ... Vamos acelerar!

O som da buzina foi substituído por uma gravação de Ad Astra, Opus 61 em Dó maior. Era a controvertida versão da Sinfônica de Londres, com as notas de "pavor" de 14 ciclos a cargo dos pratos. Massacrado, confuso, drogado como estava, a música aparentemente não fez efeito sobre mim — pois quem pode molhar um rio?

Uma sereia entrou. Não com uma cauda de escamas, certo, mas uma sereia era o que ela parecia. Quando meus olhos se refocalizaram, observei que era uma jovem convenientemente mamífera, extremamente agradável à vista, de camiseta e calções, nadando de cabeça para a frente de uma maneira que deixava claro que o estado de imponderabilidade não constituía novidade para ela. Lançou-me um olhar, sem sorrir, encostou-se na outra prensa de sidra e agarrou-se a uma das braçadeiras — não se preocupando com os cintos de segurança. A música atingiu o final rolante e senti que estava ficando muito pesado.

Duas gravidades não são tão ruins assim quando o cara flutua numa cama d'água. A pele na parte superior da prensa pressionava-me por toda parte, sustentando-me centímetro por centímetro. Eu apenas me sentia pesado e com dificuldade para respirar. A gente ouve essas histórias sobre pilotos que viajaram a dez gravidades, arruinando para sempre a saúde, e não duvido que sejam verdadeiras —> mas duas gravidades, suportadas numa prensa de sidra, simplesmente fazem o indivíduo sentir-se lânguido, incapaz de se mover.

Passou algum tempo antes que eu percebesse que a buzina do teto dirigia-se a mim:

— Lorenzo? Como é que você está indo, companheiro?

— Muito bem. — O esforço fez-me arquejar. — Por quanto tempo vamos ter que tolerar isto?

— Mais ou menos dois dias. Devo ter gemido porque Dak riu.

— Deixe de choramingar, meu chapa! Minha primeira viagem a Marte levou trinta e sete semanas, cada minuto delas em estado de imponderabilidade, numa órbita elíptica. Você está tomando a rota de luxo, a umas simples duas gravidades, por uns dois dias — com um descanso de uma gravidade em mudança de posição, além do mais. Nós deveríamos cobrar-lhe por isso.

Comecei a lhe dizer em calão o que pensava de seu senso de humor, mas depois me lembrei que havia uma senhora presente. Meu pai me ensinara que uma mulher perdoa tudo, até tentativa de estupro com violência, mas que se ofende facilmente com uma linguagem chula. A metade mais encantadora de nossa raça é orientada por símbolos — o que é muito estranho, tendo em vista o fato de elas serem extremamente práticas. De qualquer modo, jamais permito que uma palavra profana me saia dos lábios quando pode ofender os ouvidos de uma senhora, isto desde a última vez em que recebi as costas da mão de meu pai bem plantada em minha boca... Papai poderia ter dado umas dicas ao Professor Pavlov sobre reflexos condicionados.

Dak, porém, voltara a falar:

— Penny! Você está aí, amorzinho?

— Sim, comandante — respondeu a jovem que se encontrava ali comigo.

— Muito bem. Bote-o para fazer os deveres de casa. Vou descer quando colocar na rota este risco de incêndio.

— Muito bem, comandante. — Voltou-se para mim e disse numa voz baixa, rouca, de contralto: — O Dr. Capek quer que o senhor simplesmente relaxe e olhe para os filmes durante algumas horas. Estou aqui para responder às perguntas que julgue necessárias.

Suspirei.

— Graças a Deus alguém vai, afinal, responder a perguntas!

Ela não respondeu, ergueu um braço com certa dificuldade e apertou um comutador. Apagaram-se as luzes do compartimento e som e imagens em estéreo tomaram forma diante de meus olhos e ouvidos. Reconheci a figura principal — da mesma forma que bilhões de cidadãos do Império a teriam reconhecido — e dei-me conta da maneira total e impiedosa como Dak Broadbent me enganara.

Era Bonforte.

O Bonforte, quero dizer — o Honorável John Joseph Bonforte, ex-Ministro Supremo, líder da leal Oposição e chefe da Coalizão Expansionista — o homem mais amado (e odiado!) de todo o Sistema Solar.

Minha mente atônita deu um salto em distância e pousou no que parecia uma certeza lógica. Bonforte sobrevivera a, pelo menos, três tentativas de assassinato — a se acreditar no que diziam os comunicados oficiais a esse respeito. Pelo menos em duas vezes, a maneira como escapara havia sido, aparentemente, quase milagrosa. Ou vocês acham que não foi bem assim? Acham talvez que todas as tentativas foram bem-sucedidas, mas apenas o velho e querido Tio Joe Bonforte sempre se encontrava em outro lugar na ocasião?

Dessa maneira, podia-se mesmo usar um bocado de atores.

 

Eu nunca me meti em política. Meu pai me alertara contra isso: "Fique fora dela, Larry," disse solenemente uma vez. "A publicidade que você consegue dessa maneira é má publicidade. Os jecas não gostam disso." Eu jamais votara — nem mesmo depois que a Emenda de 98 tornou fácil para a população flutuante (que inclui, claro, a maioria dos membros de minha profissão) exercer esse direito.

Não obstante, na medida em que tinha preferências políticas de qualquer tipo, elas decerto não se inclinavam para Bonforte. Considerava-o um indivíduo perigoso e, com toda probabilidade, um traidor da raça humana. A idéia de substituí-lo e morrer em seu lugar era — como direi? — desagradável para mim.

Mas ... quê papel!

Eu desempenhara certa vez o papel principal em L’Aiglon e encarnara César nas duas únicas peças sobre ele que merecem esse nome. Mas desempenhar esse papel na vida real — bem, para compreender, basta pensar num homem que vai para a guilhotina em lugar de outro, apenas pela opor-

Umidade de representar, mesmo por alguns momentos, o difícil papel final, a fim de criar a obra de arte suprema, perfeita.

Perguntei-me quem teriam sido esses meus colegas que foram incapazes de resistir das outras vezes. Haviam sido artistas, isso era certo — embora seu anonimato constituísse o único tributo ao sucesso de suas caracterizações. Fiz um esforço para me lembrar com precisão quando ocorreram os primeiros atentados contra a vida de Bonforte e que colegas que poderiam ter sido capazes de desempenhar o papel haviam morrido ou desaparecido naquelas ocasiões. Inútil. Não só eu não estava a par dos detalhes da história política atual, mas também porque os atores simplesmente desaparecem com entristecedora freqüência. É uma profissão arriscada mesmo para os melhores de nós.

Mas descobri que estivera estudando atentamente a caracterização.

Tive certeza de que poderia desempenhar aquele papel. Diabo, poderia fazê-lo com um pé nas costas e cheiro de fumaça nos bastidores. Para começar, não havia nenhum problema de físico: Bonforte e eu poderíamos trocar de roupa e nela não aparecer nem uma ruga. Aqueles conspiradores infantis que me haviam seqüestrado tinham superestimado a importância da semelhança física, pois ela nada significa se não se basear na arte — e a semelhança não precisa em absoluto ser muito grande se o ator é competente. Mas reconheço que ajuda e aquele jogo tolo deles com o computador resultará (inteiramente por acidente!) na seleção de um artista autêntico, bem como num ator que, em medidas e estrutura óssea, era gêmeo do político. O perfil dele assemelhava-se muito ao meu; até mesmo suas mãos eram tão longas, estreitas e aristocráticas como as minhas — e as mãos são mais difíceis de imitar do que o rosto.

Aquele seu claudicar, atribuído a um ferimento num atentado contra sua vida, nada tinha de complicado! Depois de observá-lo durante alguns minutos, sabia que podia levantar-me daquela cama (a uma gravidade, isto é) e andar exatamente da mesma maneira e nem pensar no caso. O jeito dele de cocar a clavícula e, depois, passar a mão pelo queixo, o tique quase imperceptível que lhe precedia cada frase — essas coisas não eram problemas. Embebiam-se em meu subconsciente como água em areia.

Para ser exato, ele era quinze ou vinte anos mais velho do que eu, mas é mais fácil desempenhar um papel de gente mais velha do que mais moça. De qualquer modo, idade pura o ator é apenas uma questão de atitude interior e nada tem a ver com a marcha ininterrupta do catabolismo.

Poderia tê-lo substituído num palco ou ler-lhe um discurso de um palanque em uns vinte minutos. Mas esse papel, da forma como o entendia, seria mais do que uma interpretação desse tipo. Dak insinuara que eu teria que convencer gente que o conhecia bem, talvez em circunstâncias íntimas. Isso é infinitamente mais difícil. Ele toma café com açúcar? Se assim, quantas colheres? Que mão usa para acender um cigarro e com que gesto? Obtive a resposta disso e plantei-a profundamente na mente no mesmo momento em que me fazia a pergunta. O simulacro à minha frente acendeu um cigarro de um modo que me convenceu que ele usara fósforo do velho tipo durante anos, antes de acompanhar a marcha do chamado progresso.

Pior que tudo, um homem não é uma complexidade única: é uma complexidade diferente para cada pessoa que o conhece — o que significa que, para ter sucesso, a encarnação de um papel deve mudar a cada "audiência" — para cada conhecido do homem que está sendo representado. Isto não é apenas difícil: estatisticamente é impossível. Essas pequeninas coisas podem derrubar a pessoa. Que experiências compartilhadas o personificado teve com um conhecido chamado John Jones? Com uma centena, com mil John Joneses? De que modo podia o personificador saber de tudo isso?

Representar per se, como toda arte, é um processo de abstrair, de conservar apenas o detalhe significativo. Mas num trabalho de personificação, qualquer detalhe pode ser importante. Com o tempo, uma coisa tão tola como não comer aipo pode botar tudo a perder.

Depois, lembrei-me com sombria convicção de que meu desempenho, com toda probabilidade, precisaria ser convincente apenas o tempo suficiente para que um pistoleiro me metesse uma pitomba no corpo.

Mas eu continuava a estudar o homem que devia substituir (o que mais eu podia fazer?) quando a porta se abriu e ouvi Dak chamar:

— Alguém em casa?

As luzes se acenderam, a visão tridimensional desapareceu e me senti como se houvesse sido arrancado de um sonho. Virei a cabeça. A jovem chamada Fenny esforçava-se para levantar a cabeça da outra cama hidráulica. Dak, de pé, segurava-se ao portal.

Fitei-o e perguntei curioso:

— Como é que você consegue ficar de pé?

Parte de minha mente, a parte profissional que trabalha independente de mim, estava notando o modo como ele se postava e arquivando-o numa nova gaveta, etiquetada: "Como um Homem Fica de Pé sob Duas Gravidades."

Ele sorriu alegremente.

— Isso não tem nada demais. Uso suporte para os arcos dos pés.

— Ahan!

— Pode levantar-se, se quiser. De modo geral, não aconselhamos os passageiros a deixar os tanques de apoio quando estamos acelerando a qualquer coisa a mais de uma e meia gravidade... Há perigo demais de que algum idiota caia sobre os próprios pés e quebre uma perna. Uma vez vi um halterofilista realmente forte sair da prensa e andar a cinco gravidades — mas ele nunca mais prestou para muita coisa depois disso. Mas a duas gravidades, tudo bem. É mais ou menos como levar outro cara nas costas. — Lançou um rápido olhar à moça. — Está dando a ele as respostas certas, Penny?

— Ele não me perguntou coisa alguma ainda.

— Mesmo? Lorenzo, eu pensei que você era o tal que queria todas as respostas.

Encolhi os ombros.

— Não consigo achar que tudo isso tenha importância, uma vez que é evidente que não vou viver o suficiente para as apreciar.

— Ei? O que foi que o fez ficar tão amargo assim, filho?

— Capitão Broadbent — respondi, azedo — sinto-me inibido para me expressar devido à presença dessa moça. Por conseguinte, não vou discutir, como devia, os seus pais, hábitos pessoais, moral e lugar para aonde deve ir. Mas quero que fique consignado que descobri aquilo que, por fraude, me levou a fazer, logo que me tornei consciente da identidade do homem que devo personificar. Contentar-me-ei com uma única pergunta: quem é que vai tentar assassinar Bonforte? Mesmo um pombo de barro deve ter o direito de saber quem vai atirar nele.

Pela primeira vez, vi Dak mostrar surpresa. Depois, soltou uma gargalhada tão estrondosa que a aceleração pareceu excessiva mesmo para ele. Deslizou pelo tombadilho e apoiou as costas numa antepara, ainda rindo.

— Não vejo graça nenhuma nisso — disse eu, furioso.

Ele parou e enxugou os olhos.

— Lorrie, filho meu, você honestamente pensa que eu o escolhi como um patinho a ser baleado?

— Isso é óbvio.

Contei-lhe minhas deduções sobre as anteriores tentativas de assassinato.

Ele teve o bom senso de não rir de novo.

— Compreendo. Você pensou que fosse um trabalho, como o daqueles provadores de alimentos dos reis na Idade Média. Bem, vamos ter que esclarecê-lo a respeito do caso. Acho que não vai ajudar a seu trabalho de ator pensar que está prestes a ser reduzido a cinzas no lugar onde se encontrar. Ouça aqui, venho acompanhando o Chefe há seis anos. Durante todo esse tempo, sei que ele nunca usou um duble ... Estive presente em duas ocasiões em que foram feitas tentativas contra a vida dele — e numa dessas ocasiões eu abati o pistoleiro. Penny, você está com o Chefe há mais tempo. Ele já usou duble alguma vez?

Ela me olhou friamente.

— Nunca. A própria idéia de que o Chefe deixaria alguém expor-se ao perigo em lugar dele é... bem, eu devia dar-lhe uma bofetada. Era isso o que eu devia fazer.

— Calma aí, Penny — disse Dak mansamente. — Vocês dois têm trabalho a fazer e você vai ter que ajudá-lo. Além disso, esse palpite errado não é tão tolo assim, sendo ele um estranho. Por falar nisso, Lorenzo, o nome dessa pequena é Penelope Russell, secretária particular do Chefe, o que a transforma na sua treinadora número um.

— É uma honra conhecê-la, mademoiselle.

— Eu gostaria de poder dizer o mesmo!

— Acabe com isso, Penny, ou vou ter que dar umas palmadas nessa linda bundinha — a duas gravidades. Lorenzo, reconheço que fazer o papel de John Joseph Bonforte não é tão seguro como andar numa cadeira de rodas — bolas, como nós sabemos, várias tentativas foram feitas para lhe liquidar a apólice de seguro de vida. Mas, desta vez, não é isso o que tememos. Para dizer a verdade, desta vez, por motivos políticos que você logo vai compreender, os caras contra os quais estamos lutando não ousarão tentar matá-lo. Estão jogando bruto — como você sabe! — e me matariam, ou mesmo matariam Penny, se pudessem obter a menor vantagem. Matariam também você agora mesmo, se pudessem pegá-lo. Mas quando você fizer um aparecimento público como o Chefe estará em segurança. As circunstâncias serão tais que eles não poderão dar-se ao luxo de matá-lo. — Examinou-me com atenção o rosto. — Bem? Sacudi a cabeça.

— Não estou entendendo coisa alguma do que você está dizendo.

— Não, mas vai entender. É um assunto complicado, envolvendo a maneira marciana de encarar as coisas. Acredite no que lhe digo: você saberá de tudo antes de chegarmos lá.

Eu continuava a não gostar da coisa. Até aquele momento, Dak não me dissera, que eu soubesse, senão deslavadas mentiras — mas ele podia mentir com igual eficácia omitindo o que sabia, como eu descobrira para azar meu.

— Escute aqui — disse eu — não tenho motivo para confiar em você ou nessa moça — se me perdoa, senhorita. Mas embora não sinta qualquer amizade pelo Sr. Bonforte, ele tem a reputação de ser dolorosa e mesmo ofensivamente honesto. Quando é que eu vou conversar com ele? Logo que chegarmos a Marte?

O rosto feio e alegre de Dak anuviou-se de repente de tristeza.

— Lamento dizer que não. Penny não lhe contou?

— Contou o quê?

— Filho, esse é o motivo porque precisamos de um duble do Chefe. Ele foi seqüestrado.

Minha cabeça doía, possivelmente por efeito do duplo peso ou, talvez, do número excessivo de choques.

— Agora, você sabe — continuou Dak. — Você sabe por que Jock Dubois não queria confiar-lhe o segredo até que tivéssemos deixado o solo. Trata-se do maior furo de reportagem desde o primeiro desembarque do homem na Lua e o estamos escondendo, fazendo tudo o que é possível para que a notícia não se espalhe. Temos esperança de usá-lo até encontrá-lo e libertá-lo. Para dizer a verdade, você já começou a desempenhar esse papel. Esta nave não é a Go For Broke. É o iate particular e o escritório ambulante do Chefe, o Tom Paine. O Go For Broke está numa órbita de estacionamento em torno de Marte, com seu transpônder emitindo o sinal de reconhecimento desta nave, onde nós estamos — fato este sabido apenas de seu comandante e imediato — enquanto o Tommie levantava as saias e corria para a Terra a fim de buscar um substituto para o Chefe. Começou a compreender, filho?

Reconhecia que não.

— Sim, mas... Escute aqui, comandante, se os inimigos políticos do Sr. Bonforte o seqüestraram, por que conservar isso em sigilo? Eu esperaria que berrasse isso a plenos pulmões.

— Na Terra, faríamos isso. Em Nova Batávia, também. Em Vênus, igualmente. Mas neste caso estamos tratando de Marte. Conhece a lenda de Kkkahgral, o Moço?

— Hein? Lamento dizer que não.

— Pois deve estudá-la. Isso lhe dará uma introvisão do que faz um marciano funcionar. Em curtas palavras, esse rapaz, Kkkah, devia comparecer em certa ocasião e lugar para uma coisa assim como ser armado cavaleiro. Embora não por culpa sua (da maneira como encaramos a coisa) ele não conseguiu chegar a tempo. Obviamente, a única coisa a fazer era matá-lo... segundo os padrões marcianos. Mas devido à sua juventude e à sua excelente fé-de-ofício, alguns radicais presentes argumentaram que ele devia ter permissão para voltar e recomeçar tudo. Kkkahgral, porém, não queria nada disso. Insistiu em ser seu próprio promotor, a cargo da acusação, ganhou a causa, e foi executado. Isso o transformou na própria personificação, no padroeiro, do que q correto em Marte.

— Mas isso é loucura.

— É mesmo? Nós não somos marcianos. Eles constituem uma raça muito antiga e elaboraram um sistema de deveres e compromissos que abrange todas as situações possíveis e são os maiores formalistas que se pode imaginar. Comparados com eles, os antigos japoneses, com seus giri e gimu, eram simples anarquistas. Os marcianos não têm o "certo" e o "errado" — era vez disso têm o que é apropriado e não, elevado ao quadrado, ao cubo, e carregado de suco de gravidade. Mas onde tudo isso interessa ao problema é que o Chefe estava prestes a ser adotado no ninho do próprio Kkkahgral, o Moço.

Eu continuava sem entender. Na minha opinião, esse tal Kkkah era um dos personagens mais abomináveis do Grand Guignol. Broadbent continuou:

— É muito simples. O Chefe é, com toda probabilidade, o maior estudioso prático dos costumes e da psicologia dos marcianos. Trabalha nisso há anos. Ao nascer a lua local na quarta-feira sobre o Lacus Soli, terá lugar a cerimônia de adoção. Se ele não estiver lá — e não faz a mínima diferença em absoluto o motivo por que não estará — seu nome passará a ser lama em Marte, em todos os ninhos, de um pólo a outro — e entrará pelo cano a maior jogada política interplanetária e inter-racial. Pior do que isso, terá efeito contraproducente. Meu palpite é que o mínimo que acontecerá será a retirada de Marte da atual e frouxa associação com o Império. Com muito maior probabilidade, haverá represálias e seres humanos serão mortos — talvez todos os seres humanos em Marte. Em seguida, os Extremistas do Partido da Humanidade terão sua vez e Marte será incorporado pela força ao Império — mas só depois de mortos todos os marcianos. E tudo isso deflagrado simplesmente porque Bonforte não compareceu para a cerimônia de adoção... Os marcianos levam muito a sério essas coisas.

Dak foi-se com tanta subtaneidade como aparecera. Penelope Russell ligou outra vez o projetor de imagem. Aborrecido, ocorreu-me que devia ter-lhe perguntado o que ia impedir nossos inimigos de simplesmente me matar, se tudo de que necessitavam para botar a perder a jogada política era impedir que Bonforte (pessoalmente ou por intermédio de um substituto) comparecesse à bárbara cerimônia marciana. Mas eu esquecera de perguntar — talvez subconscientemente temeroso de receber uma resposta.

Pouco depois, no entanto, estudava mais uma vez o assunto Bonforte, observando-lhe os movimentos e gestos, sentindo-lhe as expressões, subvocalizando-lhe os tons de voz, enquanto flutuava no sonho desligado e cálido da criação artística. Eu, aliás, "já lhe usava a cabeça."

Mas dela saí impelido pelo pânico quando as imagens mudaram para outras nas quais aparecia Bonforte cercado de marcianos e era tocado por seus pseudo-membros. Estivera tão integrado na imagem que pude mesmo senti-los — e o mau cheiro era insuportável. Soltei um som estrangulado e agarrei o aparelho.

— Desligue isso!

As luzes se acenderam e a imagem desapareceu. A Srta. Russell fitava-me espantada.

— O que, em nome de Deus, está acontecendo a você?

Fiz um esforço para recuperar o fôlego e parar de tremer. — Srta. Russell, sinto muito, mas, por favor, não mostre aquilo de novo. Eu não posso suportar marcianos.

Ela olhou-me como se não pudesse acreditar no que via, mas que, de qualquer modo, desprezava.

— Eu disse a eles — opinou ela, devagar e desdenhosa — que este plano ridículo não ia funcionar.

— Sinto, muitíssimo. Mas não posso evitar isso.

Ela não respondeu. Em vez disso, desceu com esforço da prensa de sidra. Não andava com igual facilidade a duas gravidades como Dak, mas dava um jeito. Saiu sem pronunciar outra palavra, fechando a porta.

Não voltou. Em vez, dela, a porta foi aberta por um homem que parecia residir num gigantesco carrinho de bebê.

— Como vai você, meu jovem! — trovejou.

Andava pela casa dos sessenta, era talvez um pouco gordo demais e tinha uma expressão afável. Não precisei ver-lhe o diploma para saber que aquele era seu tom de médico de cabeceira.

— Como está, senhor ...?

— Mais ou menos. Melhor em aceleração mais baixa. — Olhou para a geringonça onde estava amarrado. — Que tal acha meu espartilho sobre rodas? Não na moda, talvez, mas tira um pouco de esforço do coração. Por falar nisto, e apenas para manter os registros atualizados, eu sou o Dr. Capek, terapeuta pessoal do Sr. Bonforte. Sei quem você é. Agora, que história é essa que ouvi a seu respeito e de marcianos?

Tentei explicar o caso de modo claro e sem emoção. O Dr. Capek inclinou a cabeça num gesto de concordância.

— O Capitão Broadbent devia ter-me dito. Eu teria mudado a ordem de seu programa de doutrinação. O comandante é um jovem competente à sua maneira, mas às vezes seus músculos correm à frente de seu cérebro. Ele é tão perfeitamente normal e extrovertido que me assusta. Mas nenhum prejuízo ocorreu, Sr. Smythe. Quero sua permissão para hipnotizá-lo. Tem a minha palavra de médico que o hipnotismo será usado apenas para ajudá-lo nesta questão e que eu, de modo algum, mexerei na sua integração pessoal.

Tirou do bolso um relógio de algibeira, modelo antigo, que constitui quase que um distintivo de sua profissão e tomou-me o pulso.

— O senhor tem toda permissão, senhor — disse eu — mas não vai adiantar.

Eu mesmo aprendera técnicas hipnóticas durante o tempo em que fazia meu número de mentalista, mas meus professores jamais tiveram sorte em me hipnotizar. Uma migalha de hipnotismo é muito útil num número desses, especialmente se a Polícia local não é exigente demais a respeito das leis que a Associação Médica nos impôs.

— Mesmo? Bem, neste caso, teremos que fazer o melhor que pudermos. Que tal relaxar, ficar confortável e conversarmos sobre seu problema?

Continuava com o relógio na mão, brincando com ele e torcendo-lhe a corrente, isso depois de ter acabado de me tomar a pulsação. Ia falar nisso, uma vez que o relógio estava refletindo a luz de leitura colocada bem em cima de minha cabeça, mas achei que aquilo era talvez um hábito nervoso, do qual ele não estava consciente e, na verdade, assunto banal demais para chamar para isso a atenção de um estranho.

— Estou relaxado — garanti. — Pergunte o que quiser. Ou associação livre, se preferir.

— Apenas, deixe-se flutuar — disse ele suavemente. — Duas gravidades fazem com que você se sinta pesado, não? Em geral, eu apenas durmo durante toda essa fase. Drena o sangue do cérebro, torna a pessoa sonolenta. Estão começando a acelerar outra vez ... Todos nós teremos que dormir ... Ficaremos pesados... Todos nós teremos que dormir ...

Comecei a dizer-lhe que era melhor que guardasse o relógio — ou ele simplesmente lhe cairia da mão. Em vez disso, caí no sono.

Ao acordar, notei que o Dr. Capek ocupava o outro beliche de aceleração.

— Como está se sentindo, irmãozinho? — quis saber ele. — Cansei daquele maldito carrinho de bebê e resolvi me estirar para distribuir o esforço.

— Hei, voltamos a duas gravidades outra vez?

— Hein? Oh, sim. Estamos a duas gravidades.

— Sinto muito ter dormido. Por quanto tempo?

— Oh, não muito. Como é que se sente?

— Ótimo. Maravilhosamente descansado, para dizer a verdade.

— Com freqüência, ela produz esse efeito. Alta aceleração, quero dizer. Gostaria de ver mais alguns filmes?

— Ora, certo, se quiser, doutor.

— Muito bem.

Estendeu a mão para cima e o quarto mergulhou mais uma vez na escuridão.

Eu estava preparado para a idéia de que ele me ia mostrar mais marcianos e resolvi não entrar em pânico. Afinal de contas, descobrira ser necessário, em numerosas ocasiões, fingir que eles não estavam presentes e, decerto, um filme mostrando-os não me afetaria. Antes, eu fora apenas tomado de surpresa.

Eram sem dúvida estéreos de marcianos, em companhia ou não do Sr. Bonforte. Verifiquei que era possível estudá-los com uma mente desligada, sem pavor ou nojo.

De súbito, descobri que estava gostando de olhá-los.

Soltei uma exclamação e Capek parou o filme.

— Problema?

— Doutor ... O senhor me hipnotizou!

— Você me disse que eu podia.

— Mas eu não consigo ser hipnotizado.

— Sinto muito ouvir isso.

— Hummmm... o senhor conseguiu. Não sou tão burro assim que não compreenda isso. — E acrescentei: — Que tal vermos aqueles filmes outra vez? Não posso realmente acreditar nisto.

Ele ligou o projetor, olhei e fiquei em dúvida. Os marcianos não eram repulsivos se os olhássemos sem preconceito: não eram nem mesmo feios. Na verdade, possuíam a mesma graça refinada de um pagode chinês. É bem verdade que não tinham forma humana, mas tampouco a tem uma ave-do-paraíso — e as aves-do-paraíso são as coisas vivas mais lindas de toda a Terra.

Comecei a compreender também que os pseudo-membros podiam ser muito expressivos e que os gestos desajeitados que faziam mostravam um pouco de amizade trapalhona de cachorrinhos. Naquele momento, tive certeza de que olhara para os marcianos durante toda a vida através dos óculos escuros do medo e do ódio.

Claro, pensei comigo mesmo, era preciso ainda acostumar-me ao mau cheiro deles — e de repente compreendi que os estava farejando, aquele odor inconfundível — e que não me importava nem um pouco. Gostava até.

— Doutor! — exclamei. — Essa máquina tem complemento de emissor de odores?

— Hein? Acho que não. Não, tenho certeza de que não tem — seria excesso de peso inútil para um iate.

— Mas tem que ter. Eu sinto o cheiro deles perfeitamente.

— Oh, sim. — Ele pareceu um tanto envergonhado. — Meu caro, fiz uma coisa com você que, espero, não lhe cause qualquer incômodo.

— Senhor?

— Enquanto estávamos sondando seu cérebro, tornou-se evidente que um bocado de sua orientação neurótica com respeito aos marcianos era deflagrada pelo odor corporal que eles emitem. Como não havia tempo para fazer um trabalho em profundidade, tive que compensar. Pedi a Penny — aquela moça que esteve aqui antes — que me emprestasse um pouco do perfume que ela usa. Receio que, daqui em diante, irmãozinho, os marcianos tenham para você o cheiro de um bordel parisiense. Se eu tivesse tido mais tempo, teria usado algum odor agradável, mais simples, tais como morangos maduros, bolos quentes, melado. Mas fui obrigado a improvisar.

Funguei. Sim, o odor era de um perfume forte e caro — mas, ainda assim, inequivocamente o cheiro dos marcianos.

— Gosto dele.

— Você não pode deixar de gostar.

— Mas o senhor deve ter derramado aqui o frasco inteiro. O lugar aqui está encharcado dele.

— Hummm? Não, em absoluto. Simplesmente passei a rolha de vidro sob seu nariz há uma meia hora, devolvi o frasco a Penny e ela levou-o. — Fungou, também. — O aroma desapareceu. "Desejo Selvagem" foi o nome que vi no frasco. Acho que nele há um bocado de almíscar. Acusei Penny de querer deixar a tripulação excitada, naquela base, e ela simplesmente riu pra mim. — Estendeu o braço para cima e desligou o estereovídeo. — Mas por ora basta. Quero que você se ocupe de coisa mais útil.

Quando as imagens desapareceram, o cheiro desapareceu com elas, exatamente como acontece com equipamento auxiliar de odores. Fui obrigado a confessar a mim mesmo que tudo ocorre na cabeça da gente. Mas, como ator, eu de qualquer modo estava intelectualmente consciente desse fato.

Ao voltar Penny minutos depois, ela cheirava exatamente igual a um marciano.

Adorei isso.

 

Minha educação continuou naquele quarto (o quarto de hóspedes do iate de Bonforte) até o giro da espaçonave. Não dormi, senão sob hipnose e parecia que eu não necessitava absolutamente de sono algum. O Dr. Capek ou Penny faziam-me companhia constante e ajudavam-me o tempo todo. Por sorte, o meu personagem fora tão exaustivamente fotografado e gravado como quem mais o tivesse sido na história e eu contava, ainda, com a cooperação bem informada de pessoas que o conheciam por dentro e por fora. O material era interminável e o problema consistia em saber o quanto eu poderia assimilar, tanto em vigília quanto sob hipnose.

Não sei em que altura deixei de antipatizar com Bonforte. Capek garantiu-me — e acredito nele — que não implantou sugestão hipnótica alguma no particular; eu não pedira isso e tenho certeza de que ele era meticuloso com as suas responsabilidades éticas de médico e hipnotizador. Mas acho que isso seria uma conseqüência inevitável»do que me cabia fazer — e penso mesmo que acabaria por gostar de Jack, o Estripador, se lhe estudasse o papel com vistas a representá-lo. Pensem no caso da seguinte maneira: a fim de aprender realmente um papel, o indivíduo deve por algum tempo assumir o próprio caráter do personificado. E o homem, ou gosta de si mesmo ou se suicida, qualquer que seja a maneira.

"Tudo compreender é tudo perdoar" — e eu começava a compreender Bonforte.

No giro da nave tivemos aquele descanso de uma gravidade que Dak nos prometera. Nunca estivemos em estado de imponderabilidade, nem mesmo por um instante; em vez de desligar os motores, o que acho que odeiam fazer quando em viagem, a nave descrevia o que Dak chamava de um giro oblíquo de 180 graus. A manobra deixava-a em aceleração o tempo todo e era feita com grande rapidez, mas ela exercia um efeito estranhamente perturbador sobre o senso de equilíbrio. Esse efeito tem um nome parecido com Coriolanus. Ou será Coriolis?

Tudo o que sei a respeito de espaçonaves é que as que operam a partir da superfície de um planeta são autênticos foguetes, embora os voyageurs as chamem de "chaleiras" devido ao jeito de vapor d'água ou hidrogênio com o qual aceleram. As naves para os grandes saltos, como a Tom Paine, são (segundo me disseram) as coisas reais, usando o E igual a MC elevado ao quadrado, ou é M que é igual a EC elevado ao quadrado? Vocês sabem... aquela coisa que Einstein inventou.

Dak fez o possível para me explicar isso e sem dúvida a coisa é fascinante para os que se interessam por isso. Mas não posso imaginar porque um cavalheiro deva importar-se com isso. Acho que todas as vezes em que esses moços cientistas mexem em suas réguas de cálculo a vida torna-se mais complicada. O que era que havia de errado com as coisas do jeito como estavam?

Durante as duas horas em que ficamos a uma gravidade fui transferido para o camarote do Sr. Bonforte. Comecei a usar-lhe as roupas e a face e todo mundo se esmerava em me chamar de "Sr. Bonforte" ou de "Chefe" ou (no caso do Dr. Capek), "Joseph," sendo a idéia, claro, ajudar-me a construir o papel.

Isto é, todos menos Penny... Ela simplesmente não queria chamar-me de "Sr. Bonforte". Fazia o que podia para ajudar, mas não conseguia chegar a tanto. Era claro como os Evangelhos que ela era a secretária que, silenciosa e de-&esperançadamente, amava o chefe e repudiava minha presença com uma amargura profunda, ilógica, mas natural. Esse fato tornava a situação difícil para nós dois, sobretudo porque eu a estava achando muito atraente. Nenhum homem pode realizar seu melhor trabalho tendo sempre em volta uma mulher que o despreza. Mas, de minha parte, não podia antipatizar com ela. Sentia uma grande pena, embora ficasse às vezes muito irritado.

Estávamos naquele momento na base da experimentação, uma vez que nem todos a bordo do Tom Paine sabiam que eu não era Bonforte. Eu não sabia bem quem conhecia a situação, mas tive permissão para relaxar e fazer perguntas apenas na presença de Dak, Penny e do Dr. Capek. Tinha quase certeza de que o assessor administrativo de Bonforte, o Sr. Washington, sabia, mas ele nunca deu a entender isso. Ele era um mulato magro e idoso, com a máscara de lábios cerrados de um santo. Havia dois outros que na certa sabiam, mas que não se encontravam a bordo: estavam de prontidão e dando-nos cobertura no Go For Broke, distribuindo notas à imprensa e despachos de rotina — Bill Corpsman, a ligação de Bonforte com os serviços de comunicação, e Roger Clifton. Não sei como descrever bem o trabalho de Clifton. Assessor político? Ele fora Ministro sem Pasta, talvez se lembrem disso, quando Bonforte era Ministro Supremo, mas isso nada diz. Vamos pôr as coisas em termos simbólicos: Bonforte encarregava-se da política e Clifton do eleitorado.

Esse pequeno grupo tinha que saber. Se outros sabiam, eles não julgaram necessário me dizer coisa alguma. Para ser exato, os demais membros do quadro de auxiliares de Bonforte e toda a tripulação do Tom Paine sabiam que alguma coisa estranha acontecia, mas não exatamente o quê. Numerosas pessoas me haviam visto entrar na espaçonave — mas como "Benny Grey." Quando me viram outra vez, eu já era "Bonforte."

Alguém tivera espírito de previsão para arranjar equipamento autêntico de maquilagem, mas quase não o usei. De perto, a maquilagem pode ser vista e nem mesmo à silicarne podemos dar a textura exata da pele. Contentei-me em escurecer um pouco a cor natural de minha pele com semiderme e usar o rosto dele, a partir de dentro. Fui obrigado a sacrificar um bocado de cabelo, mas o Dr. Capek lhe inibiu as raízes. Não me importei: um ator pode sempre usar peruca — e tinha certeza de que aquele trabalho me renderia honorários com os quais poderia, caso desejasse, aposentar-me pelo resto da vida.

Por outro lado, ficava às vezes constrangidamente consciente de que a "vida" talvez não durasse muito — há aquelas velhas histórias sobre o homem que sabia demais e aquela outra sobre homens mortos. Mas, para ser sincero, eu começava a confiar nessas pessoas. Todos eles eram tipos muito agradáveis — o que me ensinou tanto a respeito de Bonforte como o que aprendera ouvindo-lhe os discursos e vendo-lhe as fotos. A personalidade política não é um homem isolado, começava a descobrir, mas uma equipe que combina bem. Se o próprio Bonforte não houvesse sido um tipo decente, não teria em volta aquele pessoal.

A linguagem marciana era minha maior preocupação. Como a maioria dos atores, eu aprendera o suficiente de marciano, venusiano, jupiteriano exterior, etc, para ser capaz de fingir em frente a uma câmara ou no palco. Aquelas consoantes enroladas e vibrantes, porém, são difíceis pra caramba. As cordas vocais humanas não são tão versáteis como um diafragma marciano, acho eu, e de qualquer modo, a soletração semifonética daqueles sons em letras romanas, como, por exemplo, "jjj" ou "kkk" ou "rrr" tem tanto a ver com os sons verdadeiros como o g em "Gnu" com o estalido inalado com que os bântus pronunciam "Gnu". O "jjj", por exemplo, lembra muito um hurra de uma torcida do Bronx.

Por sorte, Bonforte não tinha grandes talentos para outras línguas — e eu sou um profissional: meus ouvidos realmente ouvem, posso imitar qualquer som, de uma serra de fita batendo num prego enfiado num pedaço de lenha a uma galinha em postura que é perturbada no ninho. Bastava que eu falasse um marciano tão medíocre como o de Bonforte. Ele fizera um grande esforço para superar a falta de talento lingüístico e todas as palavras e frases marcianas que ele conhecia haviam sido gravadas nos seus aspectos gráfico e sonoro, de modo que pudesse estudar seus erros.

Em vista disso, estudei-os também, com o projetor trazido para o gabinete dele e Penny ao meu lado para escolher os carretéis de que eu necessitava e para responder a perguntas.

As línguas humanas dividem-se em quatro grupos: as flexionadas como a anglo-americana, as posicionais, como a chinesa, as aglutinantes, como o turco antigo, e as polissintéticas (unidades frasais) como a esquimó — às quais, claro, temos agora que adicionar as estruturas alienígenas, tão estranhas e quase impossíveis para o cérebro humano compreender, como o venusiano não-repetitivo ou emergente. Por sorte, o marciano é análogo a formas orais humanas. O marciano básico, a língua do comércio, é posicionai e envolve apenas idéias concretas simples, como o cumprimento: "Eu vejo você." O marciano clássico é polissintético e bem estilizado, com uma expressão para cada nuança de seu complexo sistema de recompensas e castigos, obrigações e deveres. Aquilo fora quase demais para Bonforte. Penny disse-me que ele podia ler com grande facilidade aquele grande número de pontos que os marcianos usam para escrever, mas na forma falada do marciano clássico só podia dizer umas poucas centenas de palavras.

Irmão, como estudei aquelas poucas que ele conseguira dominar!

A tensão suportada por Penny era ainda maior do que aquela sob a qual eu me encontrava. Ela e Dak falavam um pouco de marciano mas o trabalho cansativo de me ensinar coube a ela, uma vez que Dak era obrigado a passar a maior parte do tempo na ponte de comando. A morte de Jock deixara-o desfalcado de pessoal. Caímos de duas para uma gravidade nos últimos poucos milhões de quilômetros da aproximação, período em que ele não desceu nem uma única vez para os níveis mais baixos da nave. Passei todo esse tempo, com ajuda de Penny, aprendendo o ritual que teria que decorar para a cerimônia da adoção.

Acabara de completar a leitura do discurso com o qual deveria aceitar a filiação no ninho de Kkkah — um discurso não diferente, no espírito, daquele com que um jovem judeu ortodoxo assume as responsabilidades da idade adulta, mas tão fixo e invariável como o solilóquio de Hamlet. Li-o todo. com os erros de pronuncia de Bonforte e seu tique facial, pinguei um ponto final e perguntei:

— Como é que fui?

— Esta vez foi ótima — respondeu ela com toda seriedade.

— Obrigado, Cabelinho Crespo.

Era uma frase que eu aprendera nos carretéis de treino de línguas nos arquivos de Bonforte e era a maneira como ele a chamava quando se sentia especialmente afetuoso — e ajustava-se perfeitamente à situação.

— Não ouse chamar-me assim!

Fitei-a com sincero espanto e respondi, ainda na linha do homem que eu personificava:

— Por que, Penny, minha filha?

— E também não me chame assim! Seu simulador! Seu impostor! Seu... ator!

Levantou-se de um salto, correu para tão longe de mim quanto possível — o que era apenas até a porta — e ficou lá, de costas para mim, o rosto enterrado nas mãos, soluços sacudindo-lhe os ombros.

Fiz um tremendo esforço e saí do personagem que encarnava nesse instante — puxei a barriga para dentro, deixei que minha face verdadeira viesse à superfície e falei com a minha própria voz:

— Srta. Russell!

Ela parou de chorar, girou sobre si mesma, olhou-me e ficou boquiaberta. Acrescentei no meu tom mais formal:

— Volte até aqui e sente-se.

Pensei que ela não ia atender-me, mas ela pareceu pensar duas vezes, voltou devagar e sentou-se, as mãos no colo, mas com o rosto de uma menininha que está juntando mais raiva para depois.

Deixei-a esperando sentada por alguns momentos e depois disse, calmo:

— Isso mesmo, Srta. Russell, sou um ator. Mas isso é razão suficiente para que me insulte?

Ela continuou simplesmente emburrada.

— Como ator, estou aqui para fazer um trabalho de ator. E você sabe por quê? Sabe também que só aceitei esse trabalho porque fui enganado? Não era o tipo de trabalho que eu teria aceito de olhos abertos, mesmo nos meus momentos mais desajuizados. Odeio muito mais fazer isso do que a senhorita odeia me ajudar, e isto porque, a despeito das joviais garantias do Capitão Broadbent, não tenho absoluta certeza de que vou sair disto com a pele intacta — e gosto imensamente dela. Aliás, é a única que eu tenho. Acho também que sei por que acha tão difícil me aceitar. Mas há alguma razão para tornar meu trabalho mais difícil do que já tem que ser?

Ela murmurou alguma coisa. Seco, eu disse:

— Fale alto!

— É desonesto! É indecente!

Suspirei.

— Claro que é. É mais do que isso, é impossível — sem a ajuda total dos demais membros do elenco. Assim, vamos chamar o Capitão Broadbent para vir até aqui e dizer-lhe isso. Vamos dar o trabalho por terminado.

Ela levantou de arranco o rosto e respondeu:

— Oh, não! Nós não podemos fazer isso.

— Por que não? É muito melhor desistir do papel do que levá-lo ao palco e ele fracassar. Eu não posso representar nestas condições. Vamos reconhecer isso.

— Mas ... mas ... temos que fazê-lo! É necessário!

— Por que é que é necessário, Srta. Russell? Razões políticas? Eu não sinto o menor interesse por política — e duvido que a senhorita tenha por ela qualquer interesse realmente profundo. Assim, por que é que temos que fazer isso?

— Porque ... porque ...

Interrompeu-se, incapaz de continuar, sufocada pelos soluços.

Levantei-me, fui até ela e coloquei uma mão sobre seu ombro.

— Eu sei. Porque se não fizermos isso, uma coisa pela qual ele lutou durante anos para construir, desmoronará. Por que ele mesmo não pode fazê-lo, seus amigos estão procurando resolver a situação e fazê-lo por ele. Porque esses amigos são leais a ele. Porque você é leal a ele. Não obstante, sente-se magoada em ver outra pessoa no lugar que, de direito, pertence a ele. Além disso, está quase louca de dor e preocupação com ele. Está ou não?

— Estou.

Falou em voz tão baixa que mal pude ouvi-la. Segurei-lhe o queixo e levantei-lhe o rosto.

— Eu sei porque para você é tão difícil ver-me aqui, no lugar dele. Você o ama. Mas estou fazendo para ele o melhor trabalho de que sou capaz. Diabos a levem, mulher! Tem que tornar meu trabalho seis vezes mais difícil, tratando-me como se eu fosse lixo?

Ela pareceu chocada. Por um momento, pensei que ia esbofetear-me. Depois, disse em voz fraca:

— Sinto muito, sinto muito, mesmo. Isso não vai acontecer outra vez.

Soltei-lhe o queixo e disse alegremente.

— Neste caso, vamos voltar ao trabalho. Ela não se moveu.

— Você me perdoa?

— Hein? Não há coisa alguma a perdoar, Penny. Você exagerou porque o ama e está preocupada. Agora, de volta ao trabalho. Meu desempenho tem que ser perfeito — e estamos a apenas horas da chegada.

Voltei no mesmo instante ao meu papel.

Ela apanhou um carretel e ligou outra vez o projetor. Observei-o através daquela rotina uma única vez e, em seguida, pronunciei o discurso de aceitação, com o som cortado mas o estéreo em funcionamento, ajustando minha voz — a voz dele — à imagem em movimento. Ela me observava, com uma expressão de espanto, seus olhos saltando da imagem na tela para meu rosto.

Terminamos, e eu mesmo desliguei a máquina.

— Como é que foi?

— Perfeito!

Sorri o sorriso dele.

— Obrigado, Cabelinho Crespo.

— Não há de quê... Sr. Bonforte.

Duas horas depois fizemos contato com o Go For Broke.

Dak trouxe Roger Clifton e Bill Corpsman ao meu camarote tão logo o Go For Broke pôde transferi-los. Eu os conhecia de fotos. Levantei-me e disse:

— Olá, Rog. Prazer em vê-lo, Bill.

Falei em voz afável mas casual; ao nível em que essa gente operava, uma viagem rápida de ida e volta à Terra era tão-somente uma separação de dias e nada mais. Fui coxeando até eles e lhes estendi a mão. A nave, nesse momento, estava em baixa aceleração enquanto se ajustava à órbita mais baixa em que estivera o Go For Broke.

Clifton lançou-me um rápido olhar e reagiu à altura. Tirou o charuto da boca, apertou-me a mão e disse em voz tranqüila:

— Prazer em vê-lo de volta, Chefe.

Ele era um homem alto, calvo, de meia-idade, parecendo um advogado e um bom jogador de pôquer.

— Alguma coisa especial enquanto estive fora?

— Não. Apenas rotina. Trouxe um bocado de coisas para Penny arquivar.

— ótimo.

Virei-me para Bill Corpsman e estendi outra vez a mão. Ele não a apertou. Em vez disso, pôs as mãos nos quadris, levantou os olhos para mim e assoviou:

— Espantoso! Acredito, mesmo, que temos uma chance de levar isso até o fim. — Olhou-me de cima abaixo e voltou a falar: — Vire-se, Smythe. Mova-se um pouco. Quero vê-lo andar.

Descobri que estava realmente sentindo o aborrecimento que Bonforte teria sentido com essa injustificável impertinência e, claro, isso apareceu no meu rosto. Dak tocou a manga de Corpsman e disse rápido:

— Acabe com isso, Bill. Lembra-se daquilo que combinamos?

— Bobagem! — respondeu Corpsman. — Esta sala é à prova de som. Eu quero simplesmente ter certeza de que ele está à altura do papel. Smythe, como é que está seu marciano? Pode engrolá-lo?

Respondi com um único guincho polissilábico em marciano clássico, uma sentença que significa mais ou menos: "A conduta correta exige que um de nós deixe esta sala!" — mas significa também muito mais do que isso, uma vez que constitui um desafio que, em geral, acaba com a notificação a um ninho da morte de alguém.

Acho que Corpsman não entendeu isso, pois sorriu alegremente e respondeu:

— Tenho que reconhecer, Smythe. Isso foi ótimo.

Dak, porém, compreendeu. Agarrou Corpsman pelo braço e disse:

— Bill, eu lhe disse para acabar com isso. Você está em minha nave e isto é uma ordem. A partir de agora, vamos jogar a partida como ela deve ser jogada... a cada segundo.

— Faça o que ele diz — acrescentou Clifton. — Você sabe que combinamos que essa é a maneira de levar adiante o trabalho. Do contrário, alguém pode cometer um deslize.

Corpsman lançou-lhe um rápido olhar e encolheu os ombros.

— Muito bem, muito bem. Eu estava apenas checando — e, afinal de contas, a idéia foi minha. — Deu-me um sorriso com o canto da boca e disse: — Como está, Sr. Bonforte? Prazer em vê-lo de volta.

Houve um ligeiro exagero no "senhor", mas respondi:

— É bom voltar, Bill. Alguma coisa de especial que eu precise saber antes de descermos?

— Acho que não. Entrevista à imprensa em Goddard City após a cerimônia.

Notei que ele me observava para ver como eu receberia aquilo.

Inclinei a cabeça.

— Muito bem.

— Hei, Rog, que história é essa? Isso é necessário? Você a autorizou? — perguntou Dak, apressadamente.

— Eu ia acrescentar — continuou Corpsman, voltando-se para Clifton — antes que o comandante aqui ficasse nervosinho, que posso cuidar da coisa e dizer aos rapazes que o Chefe ficou com a laringe seca devido à cerimônia — ou podemos limitar a entrevista a perguntas por escrito, entregues com antecipação. Providenciarei a resposta às perguntas enquanto estiver ocorrendo a cerimônia. Mas como ele parece e soa tão bem assim, de perto, eu diria para arriscar. Que acha disso, Sr. Bonforte? Acha que pode dar conta do recado?

— Não vejo problema algum nisso, Bill.

Estava pensando que se conseguisse passar sem falhas pelos marcianos, eu improvisaria uma entrevista para a turma de repórteres humanos e falaria enquanto eles quisessem ouvir. Dominava bem o estilo oral de Bonforte e tinha pelo menos uma idéia aproximada de sua política e de suas atitudes — e não precisaria ser específico.

Clifton, porém, parecia preocupado. Mas antes que pudesse falar, a buzina da nave zurrou:

— Comandante, queira vir por favor a ponte de comando. Menos quatro minutos.

Dak falou rápido:

— Vocês têm que resolver isso. Eu vou ter que pôr este trenó no sulco... e não tenho ninguém lá em cima senão o jovem Epstein.

E dirigiu-se apressadamente para a porta.

— Hei, comandante! — chamou Corpsman. — Eu queria lhe dizer que...

Cruzou a porta e seguiu atrás de Dak sem dar-se ao incômodo de despedir-se.

Roger Clifton fechou a porta, que ele deixara aberta, voltou e disse em voz lenta:

— Quer arriscar-se a essa entrevista à imprensa?

— Isso cabe a você decidir. Eu quero fazer meu trabalho.

— Hummmm. Neste caso, estou inclinado a arriscar — se usarmos o método de perguntas por escrito. Mas vou conferir pessoalmente as respostas de Bill antes de o senhor transmiti-las aos repórteres.

— Muito bem — disse, e acrescentei: — Se arranjar uma maneira para que eu as veja uns dez minutos antes da hora, não deverá haver dificuldade alguma. Eu aprendo com muita facilidade.

Ele me olhou atentamente.

— Não tenho a menor dúvida a esse respeito... Chefe. Muito bem. Vou mandar Penny passar-lhe as perguntas logo depois da cerimônia. Em seguida, pode desculpar-se, ir ao toalete e ficar lá até conhecê-las bem.

— Isso deve funcionar.

— Acho que sim. Hummm, devo dizer que me sinto agora muito melhor, depois que o conheci. Posso ser-lhe útil em alguma coisa?

— Acho que não, Rog. Sim, há. Alguma notícia ... dele?

— Bem, sim e não. Ele continua em Goddard City. Disso temos certeza. Não foi levado para longe de Marte ou mesmo para o interior. Nós os bloqueamos neste particular, se essa era a intenção deles.

— Goddard City não é grande, é? Mais de cem mil habitantes? Onde é que pega a coisa?

— O que pega é que não ousamos admitir que você — quero dizer, ele — está desaparecido. Logo que acabarmos esse negócio da adoção, poderemos escondê-lo e anunciar o seqüestro como se houvesse acabado de ocorrer — e levá-los a desmontar a cidade, rebite por rebite. As autoridades municipais, todas elas, foram indicadas pelo Partido da Humanidade, mas elas terão que cooperar — depois da cerimônia. Será a cooperação mais sincera que jamais se viu, pois elas ficarão mortalmente ansiosas para fazer com que ele apareça antes que todo o ninho Kkkahgral desça como um enxame sobre elas e arrase a cidade.

— Oh! Eu preciso aprender ainda muito sobre a psicologia e os costumes marcianos.

— E todos nós não precisamos!?

— Rog? Hummm... O que é que o leva a pensar que ele ainda está vivo? Os fins deles não seriam mais bem servidos — e com menos risco — simplesmente matando-o?

Eu estava pensando, nauseado, como era fácil dar sumiço a um corpo quando o indivíduo é suficientemente implacável.

— Entendo o que o senhor quer dizer. Mas isso também está vinculado às idéias marcianas sobre o que é "apropriado". — (Usou a palavra marciana correspondente.) — A morte é a única desculpa aceitável para não se cumprir uma obrigação. Se ele fosse simplesmente assassinado, eles o adotariam no ninho após sua morte — e, em seguida, todo o ninho e, talvez, todos os demais ninhos em Marte, iriam vingá-lo. Não se importariam no mínimo se toda a raça humana aqui morresse ou tivesse que ser eliminada — mas matar aquele ser humano para evitar que ele fosse adotado, isso é uma coisa inteiramente diferente. É uma questão de dever e de boas maneiras. De certa forma, a reação marciana a uma situação qualquer é tão automática que nos faz lembrar um instinto. Mas não é, claro, uma vez que eles são incrivelmente inteligentes. Mas eles fazem as coisas mais loucas. — Fez uma carranca e acrescentou: — As vezes, tenho vontade de nunca ter saído de Sussex.

A buzina de aviso interrompeu a conversa, obrigando-nos a correr para os beliches. Dak a interrompera de propósito: o ônibus especial de Goddard City já estava à nossa espera quando entramos em estado de imponderabilidade. Todos nós cinco descemos, o que acabou por ocupar todos os sofás reservados aos passageiros — novamente uma questão de planejamento, uma vez que o Comissário Residente manifestara a intenção de subir para me receber e fora dissuadido apenas pela mensagem de Dak, de que nosso grupo precisaria de todo espaço disponível.

Procurei ver se conseguia uma vista melhor do solo marciano enquanto descíamos, uma vez que apenas o vislumbrara da ponte de comando do Tom Paine — porquanto se supunha que eu estivera muitas vezes ali e não podia demonstrar a curiosidade normal do turista. Não vi muita coisa; o piloto do ônibus não nos girou para que pudéssemos ver alguma coisa até que nivelou para o planeio de aproximação e, nessa ocasião, eu estava ocupado colocando a máscara de oxigênio.

A desagradável máscara modelo marciano quase acaba comigo. Nunca tivera oportunidade de treinar com ela. Dak não pensara no caso e não se dera conta de que ela seria um problema. Eu usara trajos espaciais e aqualung em outras ocasiões e pensara que isso seria mais ou menos a mesma coisa. Não era. O modelo preferido por Bonforte era do tipo que deixa a boca livre, uma "Doces Brisas" da Mitsubushi, que faz pressão diretamente nas narinas — em torno do nariz, tampões de narinas, tubos entrando por cada uma delas e correndo para trás, sob as orelhas, até um supercarregador colocado sobre a nuca. Reconheço que é um bom aparelho, uma vez que o cara se acostume a ele, porque pode falar, comer, beber, etc, enquanto o usa. Mas eu preferiria que um dentista enfiasse ambas as mãos na minha boca.

O problema real é que a pessoa tem que exercer controle consciente dos músculos que fecham a parte posterior da boca ou então o cara chia como uma chaleira, porquanto a maldita coisa opera mediante diferença de pressão. Por sorte o piloto igualou imediatamente a pressão à da superfície de Marte logo que colocamos as máscaras, o que me deu vinte minutos para me acostumar a ela. Mas durante alguns momentos pensei que tudo estava perdido simplesmente por causa de uma coisa tão boba como esse aparelho. Lembrei a mim mesmo, porém, que usara o troço centenas de vezes e que estava tão acostumado a ele como à minha escova de cientes. Logo acreditei nisso.

Dak conseguira evitar que o Comissário Residente batesse papo comigo durante uma hora a caminho do pouso, mas não foi possível evitá-lo de todo. Ele estava à espera do ônibus no espaçoporto. A rigorosa programação impediu que eu tivesse que lidar com outros seres humanos, uma vez que devia seguir sem demora para a cidade marciana. Isso fazia sentido, mas era estranho que eu fosse ficar mais seguro entre eles do que entre os de minha própria espécie.

E pareceu-me ainda mais estranho estar em Marte.

 

O Comissário Boothroyd fora indicado pelo Partido da Humanidade, é claro, como todos os seus auxiliares, exceto os funcionários civis do serviço técnico. Dak, porém, disse-me que havia uma certeza de pelo menos sessenta contra quarenta de que Boothroyd não se envolvera na trama. Dak julgava-o honesto, mas estúpido. Por falar nisso, nem Dak nem Rog Clifton acreditavam que o Ministro Supremo, Quiroga, estivesse envolvido. Atribuíam a coisa ao grupo terrorista clandestino infiltrado no Partido da Humanidade, e que se autodenominava "Os Ativistas". Estes, por sua vez, deviam ser testas-de-ferro de uns rapazes altamente respeitáveis nos círculos das altas finanças, que tinham muito a lucrar.

Quanto a mim, não teria diferençado um '"ativista" de um acionista.

Mas, no minuto em que pousamos, aconteceu uma coisa que me fez duvidar de que o amigo Boothroyd fosse tão honesto e estúpido como Dak imaginava. Foi uma coisa banal, mas uma dessas bagatelas que podem abrir um buraco no mais perfeito trabalho de dublagem física. Uma vez que eu era um Visitante Muito Importante, o Comissário estava ali para me receber; como eu, porém, não exercia outro cargo público que não o de membro da Grande Assembléia e viajava em caráter particular, nenhuma honra oficial me seria prestada. Ele estava sozinho, com exceção de seu ajudante-de-ordens e de uma mocinha de uns quinze anos de idade.

Conhecia-o de fotografias e um bocado de coisas mais sobre ele: Rog e Penny haviam-me instruído com todo o cuidado. Apertei-lhe a mão e perguntei-lhe pela sinusite, agradeci-lhe pelos momentos agradáveis que tivera na minha última visita e conversei com seu ajudante-de-ordens naquele jeito homem-a-homem em que Bonforte era tão hábil. Depois, voltei-me para a mocinha. Sabia que Boothroyd tinha filhos e que um deles era mais ou menos dessa idade e sexo. Mas não sabia — e talvez nem Rog nem Penny soubessem — se eu a conhecia ou não.

O próprio Boothroyd me salvou.

— Você não conhece minha filha, Deirdre, penso eu. Ela insistiu em vir comigo.

Coisa alguma nos filmes que eu estudara mostrara Bonforte em contato com mocinhas — de modo que eu simplesmente tive que ser ele: um viúvo a meio da casa dos cinqüenta, sem filhos, nenhuma sobrinha e, talvez, pouca experiência com adolescentes, mas com experiência à beca em fazer contato com estranhos de todos os tipos. Assim, tratei-a como se ela tivesse duas vezes sua idade. Mas não cheguei a ponto de beijar-lhe a mão. Ela enrubesceu e pareceu satisfeita.

Boothroyd olhou-nos indulgentemente e disse:

— Bem, peça-lhe, minha querida. Você talvez não tenha outra oportunidade.

Ela corou ainda mais e disse:

— Senhor, pode me dar seu autógrafo? As moças na minha escola fazem coleções de autógrafos. Eu tenho o do Sr. Quiroga... E preciso do seu.

E estendeu-me um caderninho, que estivera escondendo às costas.

Senti-me como um piloto de helicóptero a quem se pede a licença — que ficou em casa, no bolso da outra calça. Eu estudara duramente, mas não esperara ter que forjar a assinatura de Bonforte. Droga, não se pode fazer tudo em dois dias e meio.

Mas era simplesmente impossível para Bonforte recusar um pedido desses — e eu era Bonforte. Sorri jovialmente e disse:

— Você já tem o de Quiroga?

— Sim, senhor.

— Apenas o autógrafo dele?

— Sim. Bem, ele escreveu ainda: "Com os melhores votos."

Pisquei o olho para Boothroyd.

— Apenas "Com os melhores votos," hein? Para mocinhas nunca escrevo menos do que "Com amor." Vou-lhe dizer o que vou fazer ... — Tomei-lhe o caderninho e folheei-o.

— Chefe — disse em tom urgente Dak — nós não temos muito tempo.

— Calma — disse eu, sem levantar a vista. — A nação marciana inteira bem pode esperar, se necessário, por causa de uma mocinha. — Entreguei o caderninho a Penny. — Quer tomar nota das dimensões deste caderno, Penny? E lembrar-me para enviar a ela uma foto do tamanho certo para ser colada aqui — e devidamente autografada, claro?

— Sim, Sr. Bonforte.

— Isso será bastante, Srta. Deirdre?

— Poxa!

— ótimo. Obrigado por ter-me pedido. , Podemos ir agora, Capitão. Sr. Comissário, nosso carro é aquele?

— Sim, Sr. Bonforte. — E sacudiu ironicamente a cabeça. — Receio que o senhor tenha convertido um membro de minha própria família às suas heresias expansionistas. Isso não é lá muito leal, hein? Alvos fáceis, e assim por diante, hein?

— Isto deve ensinar-lhe a não a expor às más companhias, não é, Srta. Deirdre? — Apertamos mais uma vez as mãos. — Obrigado por ter vindo receber-me, Sr. Comissário. Lamento, mas temos que nos apressar agora.

— Certamente. Foi um prazer.

— Obrigado, Sr. Bonforte!

— Obrigado a você, minha querida.

Virei-me devagar para não parecer abrupto ou nervoso no estéreo. Havia fotógrafos em volta, free-lancers, de noticiário cinematográfico, de estéreo, e assim por diante, bem como numerosos repórteres. Bill conservava estes últimos à distância. Quando nos viramos para ir embora, ele acenou e disse:

— Até mais tarde, Chefe — e voltou-se para falar com um deles.

Rog, Dak e Penny seguiram-me e entraram no carro. Havia por ali a multidão habitual dos espaçoportos, não tão numerosa como num porto terrestre, mas bastante gente. Não me preocupava com eles desde que Boothroyd aceitara o trabalho de personificação — embora ali houvesse na certa pessoas que sabiam que eu não era Bonforte.

Mas recusei-me a permitir que esses indivíduos me enervassem. Eles não poderiam causar-nos problemas sem se incriminarem.

O carro era um Rolls Outlander, pressurizado, mas conservei a máscara de oxigênio porque os outros fizeram o mesmo. Tomei o assento da direita, Rog a meu lado e Penny ao lado dele, enquanto Dak prendia as longas pernas em (orno de um dos assentos dobradiços. O motorista lançou um olhar rápido pelo tabique e deu partida.

— Lá, eu fiquei preocupado por um momento — falou Rog.

— Não houve motivo para isso. Agora, vamos ficar calados, por favor. Quero passar em revista o meu discurso.

Na verdade, eu queria contemplar a paisagem marciana. Sabia o discurso de cor e salteado. O motorista levou-nos pela margem leste do campo, passando por numerosos cartazes, entre eles os da Verwijs Trading Company, Diana Outlines, Ltd., Three Planets e I. G. Farbenindustrie. Havia por ali tantos marcianos quanto humanos. Nós, marmotas, temos a impressão de que os marcianos são tão lentos como caracóis — e são, em nosso planeta relativamente pesado. No mundo deles, podem raspar a superfície sob suas bases como se fossem pedras deslizando sobre a água.

À direita, ao sul de onde estávamos e além do campo plano, o Grande Canal mergulhava no horizonte bem próximo, sem que se visse à distância uma linha de praia. Diretamente à frente de nós, encontrava-se o Ninho de Kkkah, uma cidade de contos de fadas. Olhei-a fixamente, meu coração saltando ante aquela beleza frágil, quando Dak moveu-se de súbito.

Estávamos muito além do tráfego em volta dos cartazes, mas vimos um carro à frente, vindo em nossa direção. Eu o vira, sem notá-lo. Dak, porém, devia ter estado nervosamente alerta, à espera de problemas. Quando o outro carro se aproximou o bastante, ele, de súbito, baixou com ruído o tabique que nos separava do motorista, passou por cima dele e agarrou o volante. Derrapamos para a direita, deixando por pouco de ser atingido pelo outro carro e mal conseguimos permanecer na estrada. Foi por pouco, porque estávamos além do campo e naquele ponto a estrada costeava o canal.

Eu não fora de grande utilidade para Dak uns dois dias antes no Eisenhower, mas naquela ocasião estivera desarmado e não esperara problemas. Naquele dia eu continuava desarmado, não levando comigo nem mesmo uma presa envenenada, mas comportei-me um pouco melhor. Dak estava mais do que ocupado procurando dirigir o carro enquanto, do banco de trás, debruçava-se para a frente. O motorista, no início desarvorado, tentava naquele momento tomar-lhe o volante.

Mergulhei para a frente, passei o braço esquerdo em volta do pescoço dele e enfiei o polegar direito nas suas costelas.

— Faça um movimento só e morre!

A voz pertencia ao herói-vilão de O Cavalheiro do Segundo Andar. A linha do diálogo era dele, também. Meu prisioneiro ficou quietinho.

— Rog, o que é que eles estão fazendo? — perguntou Dak.

Clifton olhou para trás e respondeu:

— Estão fazendo a volta.

— Muito bem. Chefe, mantenha a arma em cima desse cara enquanto eu passo para a frente. — Fez isso ao mesmo tempo em que falava, uma coisa desajeitada tendo em vista suas pernas compridas e o carro cheio. Acomodou-se no assento e disse contente: — Duvido que alguma coisa sobre rodas possa pegar um Rolls numa reta. — Apertou o acelerador e o grande carro arremeteu como uma bala. — Como é que estou indo?

— Eles acabaram de completar a volta.

— Muito bem. O que é que vamos fazer com este cara aqui? Lançá-lo para fora do carro?

Minha vítima contorceu-se toda e disse:

— Eu não fiz nada!

Enfiei nele com mais força ainda o dedo e ele se acalmou.

— Oh, nada — concordou Dak, conservando os olhos na estrada. — Tudo o que você fez foi tentar causar um pequeno acidente — apenas o suficiente para fazer com que o Sr. Bonforte chegasse atrasado ao encontro. Se eu não tivesse notado que estava reduzindo a velocidade, para tornar a coisa menos perigosa para você, poderia ter escapado impune. Medroso, hein? — Fez uma ligeira curva, os pneumáticos chiando e os giroscópios lutando para nos manter aprumados. — Qual é a situação, Rog?

— Eles desistiram.

— Então, é assim. — Mas não reduziu a velocidade; devíamos estar desenvolvendo uns trezentos quilômetros. — Eu gostaria de saber se eles nos bombardeariam, tendo um de seus rapazes a bordo. O que é que diz disso, irmãozinho? Será que eles o consideram descartável?

— Eu não sei o que é que o senhor está falando! O senhor vai meter-se numa fria por causa disso!

— Vou mesmo? A palavra de quatro pessoas respeitáveis contra sua folha de antecedentes de criminoso inveterado? Ou será, que você não é um degredado? De qualquer modo, o Sr. Bonforte prefere que eu guie para ele — de modo que você naturalmente vai ficar feliz em fazer um favor a ele.

Atingimos alguma coisa mais ou menos tão grande como um verme naquela estrada vítrea e meu prisioneiro e eu quase subimos através do teto do carro.

— Sr. Bonforte!

Da maneira como minha vítima falou, parecia que meu nome era um palavrão.

Dak ficou em silêncio durante alguns minutos. Por fim, disse:

— Acho que não devemos lançar este sujeito porta afora, Chefe. Acho que devemos deixar o senhor descer e, depois, levá-lo para um lugar bem tranqüilo. Acho que ele fala se a gente insistir um pouco.

O motorista forcejou para escapar. Aumentei a pressão em seu pescoço e cutuquei-o outra vez com o nó do polegar. Um nó de dedo talvez não se pareça muito com a boca de uma pistola — mas quem é que vai querer descobrir isso? Ele relaxou e disse mal-humorado:

— Você não teria coragem de me aplicar a agulha.

— Céus, não — respondeu Dak, chocado. — Isso é ilegal. Penny, menina, você tem aí por acaso um alfinete de cabelo?

— Ora, claro, Dak.

Ela parecia perplexa. Eu estava. Ele, o motorista, não deu a impressão de estar amedrontado, mas eu certamente estava.

— Ótimo, irmãozinho, você já sentiu um alfinete de cabelo enfiado embaixo das unhas das mãos? Dizem por aí que isso quebra mesmo um comando hipnótico para não falar. Atua direto no subconsciente ou num outro troço qualquer. O único problema é que o paciente solta uns sons bastante desagradáveis. Assim, vamos levá-lo lá para as dunas, onde você não vai incomodar ninguém, salvo os escorpiões de areia. Depois que você houver falado, nós vamos soltá-lo, não vamos fazer mais nada, vamos apenas deixar que você volte andando para a cidade. Mas — ouça agora com toda atenção! — se você for realmente bonzinho e prestimoso, você ganha um prêmio. Deixaremos que leve sua máscara no passeio.

Calou-se. Durante um momento não se ouviu som algum salvo o assovio do rarefeito ar marciano passando pela capota do carro. Um ser humano pode talvez andar uns duzentos metros em Marte sem máscara de oxigênio, se estiver em boa forma física. Acho que li a respeito dê um homem que andou oitocentos metros antes de morrer. Lancei um olhar ao medidor de distância e vi que estávamos a vinte e três quilômetros de Goddard City.

Baixinho, o prisioneiro respondeu:

— Honestamente, não sei de nada sobre isso. Eles me pagaram apenas para provocar um acidente com o carro.

— Bem, nós vamos estimular sua memória. — Os portões da cidade marciana estavam imediatamente à nossa frente. Dak começou a reduzir a velocidade. — É aqui que o senhor desce, Chefe. Rog, é melhor apanhar sua arma e substituir o Chefe junto ao nosso convidado.

— Certo, Dak.

Rog passou por mim e cotucou o cara nas costelas — mais uma vez apenas com os nós dos dedos. Recuei. Dak freou, parando exatamente em frente aos portões.

— Quatro minutos de sobra — disse ele, feliz. — Este carro é bom paca. Queria que fosse meu. Rog, afrouxe um pouco a pressão e me dê um espaço.

Clifton fez o que ele pedia. Dak acutelou habilmente o motorista no pescoço com um lado da mão. O homem amoleceu.

— Isto vai conservá-lo calminho enquanto vocês descem. Não podemos tolerar a menor perturbação inconveniente sob os olhos do ninho. Vamos conferir a hora.

Conferimos. Faltavam três minutos e meio para o prazo fatal.

— O senhor tem que entrar justo na hora certa, compreendeu? Nem adiantado nem atrasado. Exatamente na hora certa.

— Exatamente — Clifton e eu respondemos em coro.

— Trinta segundos para subir a rampa, talvez. O que é que vai fazer com os três minutos que sobram?

Suspirei.

— Apenas recuperar a coragem.

— Sua coragem está ótima. Não esqueceu macete algum lá no campo. Alegre-se, filho. Dentro de duas horas, a partir de agora, você poderá voltar para casa, com seus honorários queimando buracos nos bolsos. Estamos na última etapa.

— Tomara que sim. Tem sido uma grande tensão. Hei. Dak?

— O quê?

— Venha aqui por um segundo. — Desci do carro, fiz um gesto para que ele me acompanhasse por alguns passos. — O que é que vai acontecer lá dentro se eu cometer um erro?

— Hein? — Dak pareceu surpreso, depois riu, talvez um pouco alegre demais. — Você não vai cometer erro algum. Penny disse que você conhece seu papel de cima para baixo e de um lado para outro, perfeitamente.

— Sim, mas suponhamos que eu cometa um deslize?

— Não vai cometer. Eu sei como você se sente. Eu senti a mesma coisa na minha primeira aterragem solo. Mas quando a coisa começou, fiquei tão ocupado fazendo-a que não tive tempo para fazê-la errada.

Clifton chamou nesse instante, a voz fina no ar rarefeito.

— Dak! Está prestando atenção à hora?

— Tempo à beca. Mais de um minuto.

— Sr. Bonforte! — Era a voz de Penny. Virei-me e voltei para o carro. Ela desceu e estendeu-me a mão. — Boa sorte, Sr. Bonforte.

— Obrigado, Penny.

Rog também me apertou a mão e Dak deu-me uma palmadinha no ombro.

Menos trinta segundos. Era melhor começar.

Inclinei a cabeça e comecei a subir a rampa. Devo ter estado a um ou dois segundos do tempo exato quando cheguei ao alto, uma vez que os majestosos portões rolaram para trás quando cheguei a eles. Tomei uma profunda respiração e amaldiçoei aquela droga de máscara.

Depois, subi ao meu palco.

Não faz a mínima diferença quantas vezes isso acontece, o primeiro passo quando a cortina sobe na primeira noite de qualquer temporada dá para paralisar a respiração e parar o coração. Certo, a gente conhece o lugar. Certo, pedimos ao gerente para verificar se a casa está cheia. Certo, fez-se tudo isso antes. Mas não importa — quando se dá o primeiro passo no palco e se sabe que todos aqueles olhos estão pregados na gente, à espera de que a gente fale, à espera de que faça alguma coisa — talvez à espera de que a gente se atrapalhe nas falas, irmão, a gente sente. É por isso que usamos o ponto no teatro.

Olhei para a frente, vi minha platéia e tive vontade de fugir. Pela primeira vez em trinta anos senti o chamado nervosismo do ator.

Os irmãos do ninho estendiam-se à minha volta até onde eu podia enxergar. Havia à minha frente uma alameda aberta, com milhares deles de cada lado, tão juntos uns dos outros como se fossem aspargos em lata. Eu sabia que a primeira coisa que tinha que fazer era descer em marcha lenta o centro da alameda, chegar ao fim dela e subir a rampa que, em seguida, descia para o ninho interno.

Mas não pude mover-me.

Disse a mim mesmo: "Escute aqui, rapaz, você é John Joseph Bonforte. Esteve aqui dezenas de vezes antes. Essa gente é sua amiga. Você está aqui porque quer estar aqui — e porque eles querem que você esteja aqui. Assim, desça essa coxia. Tum, tum, tum! Lá vem o noivo!"

Comecei mais uma vez a me sentir como Bonforte. Eu era o Tio Joe Bonforte, resolvido a fazer aquela coisa com perfeição — para honra e bem-estar de meu próprio povo e meu próprio planeta — e pelos meus amigos marcianos. Tomei uma profunda respiração e dei o primeiro passo.

Aquela respiração profunda salvou-me: trouxe-me aquela fragrância celestial. Milhares e milhares de marcianos ombro a ombro — parecendo que alguém deixara cair e quebrara uma caixa cheia de "Desejo Selvagem." A convicção de que sentia esse odor era tão forte que, sem querer, olhei para trás para ver se Penny me seguira. Senti sua mão quente apertando a minha.

Comecei descer coxeando a alameda, tentando fazer com que se assemelhasse mais ou menos à velocidade com que um marciano se move em seu próprio planeta. A multidão fechou-se atrás de mim. Vez por outra, crianças soltavam-se de seus pais e faziam cabriolas à minha frente. Por "crianças" refiro-me a marcianos pós-fissão, com meia massa e não mais do que a metade da altura de um adulto. Eles nunca saem do ninho e inclinamo-nos a esquecer que pode haver pequenos marcianos. São precisos quase cinco anos após a fissão para que um marciano recupere todo seu tamanho, seu cérebro fique inteiramente restaurado e lhe volte toda a memória. Durante esse período de transição, ele é um idiota completo, estudando para ser promovido a débil mental. O rearranjo dos genes e a regeneração subseqüente à conjugação e à fissão põem-no fora de serviço durante longo tempo. Um dos carretéis de Bonforte era uma palestra sobre esse assunto, acompanhado de algumas fotos, não muito boas em estéreo, tiradas por um amador.

As crianças, sendo alegres idiotas, estão isentas do requisito do que é correto e de tudo o que isso implica. Mas são grandemente amadas.

Duas delas, do mesmo tamanhozinho e parecendo exatamente iguais para mim, adiantaram-se e pararam exatamente à minha frente, como cachorrinhos bobos no meio do trânsito. Ou eu parava ou os atropelava.

Parei, em vista disso. Elas se aproximaram ainda mais, bloqueando-me de todo e começaram a projetar pseudo-membros enquanto tagarelavam entre si. Não pude entendê-las absolutamente. Com grande rapidez, puxavam minhas roupas e enfiavam suas patinhas dentro dos meus bolsos.

A multidão era tão compacta que eu nem sequer podia fazer a volta em torno delas. Estava dilacerado entre duas necessidades. Em primeiro lugar, elas eram tão engraçadinhas que tive vontade de ver se não tinha por acaso escondido em alguma parte da roupa uma gulodice para elas — mas ainda em primeiro lugar havia a certeza de que a cerimônia de adoção estava sincronizada como se fosse um bale. Se eu não descesse aquela rua, ia cometer o pecado clássico contra o decoro público, que tornara famoso o próprio Kkkahgral, o Moço.

Mas as crianças não queriam sair de meu caminho. Uma delas encontrara meu relógio.

Suspirei e quase fui esmagado pelo perfume. Depois fiz uma aposta comigo mesmo. Apostei em que essa de beijar bebês é uma Lei Universal na Galáxia e que tem precedência mesmo sobre as regras marcianas. Agachei-me sobre um joelho, dando-me mais ou menos a altura delas e acariciei-as por alguns momentos, dando-lhes palmadinhas e passando a mão sobre suas escamas.

Depois, levantei-me e disse:

— Agora, basta. Tenho que ir — o que gastou grande parte de meu repertório de marciano básico.

As crianças agarraram-se a mim mas afastei-as com todo cuidado e suavemente para o lado e continuei a descer o caminho entre as alas, apressando-me para compensar o tempo perdido. Nenhum cospe-fogo abriu um buraco em minhas costas. Arrisquei a esperança de que a violação que cometera da decência não houvesse alcançado ainda o nível de crime capital. Cheguei à rampa que descia para o ninho interno e iniciei minha caminhada.

 

Essa linha de asteriscos representa a cerimônia de adoção. Por quê? Porque a cerimônia é restrita aos membros do ninho Kkkah. Trata-se de uma questão familiar.

Ou vamos dizer assim: um mórmon pode ter amigos íntimos entre os gentios — mas essa amizade põe o gentio dentro do Templo, em Salt Lake City? Jamais o colocou lá nem jamais o colocará. Os marcianos vão e vêm livremente entre os ninhos, mas, em matéria de ninho interno, só entravam no de sua família. Nem mesmo seus esposos-conjugados têm esse privilégio. Não tenho mais direito de contar os detalhes da cerimônia de adoção do que um irmão de loja tem de ser específico, fora dela, sobre o ritual.

Oh, os aspectos aproximados não importam, uma vez que são os mesmos para todos os ninhos, da mesma forma que meu papel era o mesmo para todos os candidatos. Meu patrocinador — o mais antigo amigo marciano de Bonforte — Kkkahrrreash — foi receber-me à porta e ameaçou-me com sua arma. Exigi que me matasse imediatamente se eu fosse culpado de qualquer infração. Para dizer a verdade, não o reconheci, embora lhe houvesse estudado a foto. Mas tinha que ser ele porque assim exigia o ritual.

Tendo assim deixado claro que estava perfeito para a Maternidade, o Lar, a Virtude Cívica e que nunca perdia a Escola Dominical, tive permissão para entrar. 'Rrreash conduziu-me por todas as estações. Fui interrogado e respondi. Todas as palavras, todos os gestos, eram tão estilizados como numa peça clássica chinesa; do contrário, eu não teria tido a menor chance. Na maior parte do tempo, não sabia o que eles diziam e na outra metade não compreendia minhas próprias respostas. Sabia apenas quais as minhas deixas e as reações apropriadas. E isso não era facilitado pelo baixo nível de iluminação que os marcianos preferem. Andava às apalpadelas por ali como se fosse uma toupeira.

Representei certa vez com Hawk Mantell pouco antes de sua morte e quando ele já era surdo como uma porta. Aquilo

é que era um ator de verdade! Não podia nem mesmo usar um audifone porque estava morto seu oitavo nervo. Parte das vezes, usava os lábios dos interlocutores como deixas, mas isso nem sempre é possível. Dirigia pessoalmente a produção e programa, sem um erro. Eu o vi certa vez dizer uma frase, afastar-se — e depois girar sobre si mesmo e responder seco a uma frase que jamais ouvira, e no momento exato.

A cerimônia foi parecida com isso, Conhecia meu papel e desempenhei-o. Se eles botassem a coisa a perder, o problema era deles.

Mas não ajudou minha moral o fato de nunca haver menos de meia dúzia de armas apontadas para mim o tempo todo. Continuava a me dizer que eles não me reduziriam a cinzas se cometesse um pequeno deslize. Afinal de contas, tu era apenas um pobre e estúpido ser humano e, pelo menos, eles me dariam, pelo esforço, notas para passar. Mas eu não acreditava nisso.

Depois do que me pareceram longos dias — mas não foram porque toda a cerimônia ajusta-se exatamente a um nono da rotação de Marte — após um tempo interminável, comemos. Não sei o quê e talvez seja bom que eu não saiba. Não me envenenou.

Depois disso, os anciãos fizeram seus discursos. Pronunciei em resposta meu discurso de aceitação e eles me deram um nome e uma arma. Eu era um marciano.

Não sabia como usar aquela arma e meu nome lembrava uma torneira pingando, mas, daquele momento em diante, era meu nome legal em Marte e eu era legalmente irmão de sangue da família mais aristocrática do planeta — exatamente cinqüenta e duas horas depois que uma marmota azarada gastara seu último meio-Imperial pagando um drinque pura um estranho no bar da Casa mañana.

Acho que isso prova que nunca se deve confiar em estranhos.

Caí fora logo que possível... Dak fizera um discurso para mim no qual eu alegava a respeitosa necessidade de partir imediatamente e eles concordaram. Sentia-me tão nervoso como um homem num clube só de mulheres, pois não havia mais ritual para me orientar. Quero dizer, até mesmo o comportamento social despreocupado estava limitado por costumes perigosos e à prova de enganos e eu não sabia o que fazer. Assim, recitei minhas desculpas e tomei a direção da porta. 'Rrreash e outro ancião me acompanharam e arrisquei-me a brincar com mais um par de crianças quando chegamos ao lado de fora — ou talvez fosse o mesmo par. Logo que cheguei aos portões, os dois anciãos disseram adeus em inglês guinchado e deixaram que eu saísse sozinho. Os portões se fecharam às minhas costas e meu coração voltou para o lugar.

O Rolls estava à espera no mesmo lugar onde me havia deixado. Dirigi-me apressado para o carro, a porta foi aberta e, surpreso, vi apenas Penny. Mas não fiquei em absoluto aborrecido. Gritei:

— Hei, Cabelinho Crespo! Eu passei!

— Eu sabia que você ia passar.

Fiz para ela uma saudação de espadachim brandindo a arma marciana, e falei:

— Simplesmente, chame-me de "Kkkahjjjerr" — como se tivesse aspergindo as primeiras filas com a segunda sílaba.

— Cuidado com essa coisa! — disse ela, nervosa. Deslizei para o lado dela no assento da frente e perguntei:

— Você sabe como é que se usa isto?

A reação estava fazendo-se sentir e eu me sentia exausto, mas alegre. Queria três drinques e um bife bem grosso e, em seguida, esperar pela crítica dos críticos.

— Não. Mas tenha cuidado.

— Acho que a única coisa que tenho que fazer é apertar aqui.

Foi o que fiz, e o resultado foi um buraco redondinho de uns sete centímetros de diâmetro, no pára-brisas. O carro deixou de ser pressurizado.

Penny sobressaltou-se.

— Poxa — disse eu — sinto muito. Vou guardar isto até que Dak possa me ensinar.

Ela engoliu em seco.

— Tudo bem. Apenas tenha cuidado quando apontar isso.

Começou a dar a volta ao carro e descobri que Dak não era o único capaz de pisar fundo ao acelerador. O vento assoviava pelo buraco que eu abrira.

— Por que esta pressa toda? — perguntei. — Preciso de um pouco de tempo para estudar as linhas que vou dizer na entrevista à imprensa. Trouxe-as? E onde estão os outros?

Esquecera de todo o motorista que agarráramos. Não pensara nele desde o momento em que se haviam aberto os portões do ninho.

— Não puderam vir.

— Penny, o que é que está havendo? O que foi que aconteceu?

Eu me perguntava nesse instante se podia enfrentar uma entrevista à imprensa sem receber orientação prévia. Talvez pudesse contar aos rapazes algumas coisas sobre a adoção. E não teria que simular.

— O Sr. Bonforte... Eles o encontraram.

 

Eu não notara até então que ela, nem uma única vez, me chamara de "Sr. Bonforte." Não podia, claro, pois eu não-era mais ele. Mais uma vez, era Lorrie Smythe, aquele cara ator que haviam contratado para fazer o papel dele.

Reclinei-me, suspirei e relaxei.

— Então, afinal acabou, e conseguimos nos safar. — Senti que um grande peso era retirado de cima de mim; não soubera como era pesado até aquele momento. Até mesmo minha perna "aleijada" deixou de doer. Estendi a mão e bati na de Penny, sobre o volante, e disse em minha própria voz: — Estou satisfeito porque isto acabou. Vou sentir falta de você, companheira. Você é uma profissional. Mas até mesmo a melhor temporada acaba e a companhia se dissolve. Espero voltar a vê-la algum dia.

— Tomara que sim.

— Acho que Dak aprontou alguma tapeação para me manter escondido até que eu volte ao Tom Paine, não?

— Não.

A voz dela soou estranha. Enderecei-lhe um rápido olhar. Vi que ela chorava. Meu coração saltou uma batida. Penny, chorando? Sobre nossa separação? Não podia acreditar nisso, por mais que quisesse. Alguém poderia pensar que, com minhas belas feições e maneiras refinadas, as mulheres me achariam irresistível, mas é um fato deplorável que um número excessivo delas achou fácil resistir aos meus encantos. No caso de Penny, isso não parecera, em absoluto, esforço algum.

— Penny — disse eu, preocupado — por que todas essas lágrimas, querida? Você vai acabar batendo com o carro.

— Não posso evitar.

— Bem... então conte o que foi que aconteceu. O que é que está errado? Você me disse que conseguiram trazê-lo d s volta. E não me disse mais coisa alguma. — Senti uma súbita, horrível mas lógica suspeita. — Ele está vivo, não?

— Sim... está... mas, oh, como o machucaram! Voltou a soluçar e eu tive que segurar o volante. Ela se endireitou rápido e disse:

— Desculpe.

— Quer que eu guie?

— Eu estou bem. Além disso, você não sabe como... Quero dizer, ninguém supõe que você saiba guiar.

— Ahan! Não seja boba. Eu sei guiar e não importa mais que... — Interrompi-me, de súbito, compreendendo que podia ainda importar. Se haviam massacrado Bonforte ao ponto de aparecer, ele não poderia andar em público dessa forma — pelo menos não quinze minutos apenas depois de ter sido adotado pelo ninho Kkkah. Talvez eu tivesse que comparecer àquela entrevista à imprensa e de lá sair publicamente, enquanto Bonforte seria a pessoa que, às escondidas, levariam para bordo. Muito bem, certo — pouco mais do que outra chamada ao palco para agradecer os aplausos. — Penny, Dak e Rog querem que eu continue por mais um pouco a personificação? Devo representar para os repórteres, ou não?

— Não sei. Não houve tempo.

Já nos aproximávamos de um trecho de cartazes ao lado do campo e estavam à vista os gigantescos domos em forma de bolha de Goddard City.

— Penny, pare este carro e fale coisa com coisa. Eu preciso de minhas deixas.

 

O motorista falara. Esqueci de perguntar se o tratamento com o alfinete de cabelo fora ou não usado. Em seguida, soltaram-no para voltar andando, mas não fora privado da máscara. Os demais haviam corrido para Goddard City, Dak ao volante. Senti-me contente por ter sido deixado atrás; não se devia permitir que voyageurs dirigissem coisa alguma salvo espaçonaves.

Foram ao endereço dado pelo motorista, na Cidade Velha, sob a primeira bolha. Concluí que o local era o tipo de selva que todo porto possui desde que os fenícios navegaram pelas costas da África, um lugar de degredados soltos, prostitutas, trapaceiros, e outros tipos de escória — um bairro onde os policiais só andam em duplas.

Fora correta a informação que haviam extraído do motorista, mas uns poucos minutos desatualizada. O quarto fora ocupado pelo prisioneiro, isso era certo, pois havia uma camisa que parecia ter sido usada continuamente pelo menos durante uma semana, um bule de café ainda quente — e embrulhada numa toalha, numa prateleira, uma dentadura móvel de estilo antigo que Clifton identificou como pertencente a Bonforte. O próprio Bonforte, porém, não estava ali. nem seus seqüestradores.

Haviam saído com a intenção de executar o plano inicial, o de alegar que o seqüestro ocorrera imediatamente após a adoção, desta maneira aplicando pressão sobre Boothroyd, com a ameaça de apelar para o ninho Kkkah. Mas encontraram-no, haviam-no simplesmente encontrado por acaso na rua antes de saírem da Cidade Velha — uma pobre e velha ruína humana, andando aos tropeços, com uma barba de uma semana, sujo e apalermado. Os homens não o haviam reconhecido, mas, Penny, sim, e os fez parar.

Prorrompeu outra vez em soluços quando me contou esse lance e quase nos chocamos com um comboio puxado por um caminhão, que se dirigia para um dos armazéns.

Uma reconstrução aceitável do caso era que os rapazes que estiveram no segundo carro — aquele que devia chocar-se conosco — haviam voltado para a cidade e os líderes desconhecidos de nossos adversários chegaram à conclusão de que o seqüestro não mais servia a seus fins. A despeito dos argumentos que ouvi sobre o caso, fiquei surpreso porque simplesmente não o mataram. Só mais tarde compreendi que o que haviam feito fora mais sutil, mais conforme suas intenções e muito mais cruel do que um mero assassinato.

— Onde é que ele está agora? — perguntei.

— Dak levou-o para a estalagem dos voyageurs, no Domo 3.

— É para lá que nós vamos?

— Não sei. Rog me disse apenas para vir buscar você e depois disso, eles desapareceram pela porta de serviço da hospedaria. Oh, não, acho que seria perigoso ir até lá. E eu não sei o que fazer.

— Penny, pare o carro.

— Hein?

— Este carro na certa tem telefone. Não vamos nos mover nem mais um centímetro até descobrir — ou planejar — o que é que devemos fazer. Mas estou certo de uma coisa: tenho que continuar esta personificação até que Dak ou Rog decidam que eu deva desaparecer. Alguém tem que conversar com os jornalistas. Alguém tem que fazer uma partida pública para o Tom Paine. Tem certeza de que o Sr. Bonforte não pode ser preparado para, ele mesmo, fazer isso?

— O quê? Oh, ele não pode, de maneira alguma. Você não o viu.

— Não vi, mesmo. Aceito sua palavra a respeito. Muito bem, Penny eu sou outra vez o "Sr. Bonforte," e você é minha secretária. É melhor começar.

— Sim... Sr. Bonforte.

— Agora veja se consegue falar ao telefone com o Capitão Broadbent, sim? Por favor.

Não encontramos uma lista telefônica no carro e ela teve que recorrer a "Informações", mas finalmente conseguiu ligar para o clube dos voyageurs. Ouvi ambos os interlocutores.

— Clube dos Pilotos. Falando a Sra. Kelly. Penny cobriu o microfone.

— Devo dar o meu nome?

— Jogue a descoberto. Não temos nada a esconder.

— Fala aqui a Secretária do Sr. Bonforte — disse ela em voz grave. — O piloto dele está aí? O Capitão Broadbent?

— Eu o conheço, queridinha. — Ouvimos um berro: — Hei! Algum de vocês, fumaceiros, sabe para onde foi Dak? — Depois de uma pausa: — Está no quarto dele. Vou chamar.

Pouco depois, Penny outra vez:

— Comandante? O Chefe quer falar-lhe — e me entregou o microfone.

— Aqui o Chefe, Dak.

— Oh, onde está... o senhor?

— Ainda no carro. Penny foi buscar-me. Dak, Bill marcou uma entrevista à imprensa, acho. Onde é que vai ser?

Ele hesitou durante um momento.

— Que bom que telefonou, senhor. Bill cancelou-a. Houve uma... uma ligeira mudança na situação.

— Foi isso mesmo o que Penny me disse. Estou também satisfeito. Sinto-me um pouco cansado, Dak. Resolvi não ficar em terra hoje à noite. Minha perna doente está me incomodando e estou ansioso por um verdadeiro descanso em imponderabilidade. — Eu odiava isso, mas não Bonforte. — Você ou Rog poderão apresentar minhas desculpas ao Comissário e fazer o que mais for necessário?

— Cuidaremos de tudo, senhor.

— ótimo. Quando é que você pode conseguir-me um ônibus aéreo?

— O Pixie ainda está à sua espera, senhor. Se for até o Portão 3, eu telefonarei daqui e um carro de campo o apanhará.

— Muito bem. Desligando.

— Desligando, senhor.

— Cabelinho Crespo, não sei se esta freqüência do tele fone está "grampeada" ou não — ou se este carro todo está. Se for qualquer um destes casos, eles podem ter descoberto duas coisas — onde se encontra Dak e através desse fato onde ele está e, em segundo lugar, o que eu vou fazer em seguida. Isso lhe sugere alguma coisa?

Ela ficou pensativa por um instante, tirou o bloco de secretária e escreveu: Vamos nos livrar do carro.

Assenti com um movimento de cabeça, tomei-lhe o bloco e, por minha vez, escrevi: Qual a distância até o Portão 3?

Ela respondeu: Dá para andar.

Em silêncio descemos do carro e nos afastamos. Ela parará num espaço reservado a executivos, do lado de fora de um dos armazéns. Sem dúvida, mais tarde o veículo seria devolvido a quem de direito e essas minúcias não mais importavam.

Andamos uns cinqüenta metros quando parei. Havia alguma coisa de errado. Não o dia, isso era certo. Fazia um dia quase balsâmico, com o céu brilhando, o céu marciano claro e púrpura. O trânsito sobre rodas e de pedestres aparentemente não nos dava atenção ou pelo menos os olhares se dirigiam para a bonita jovem e não para mim. Apesar de tudo, sentia-me pouco à vontade.

— O que é que há, Chefe?

— Hein? Sim, é isso!

— Isso o quê, Senhor?

— Eu não estou sendo o "Chefe". Não combina comigo esconder-me desta maneira. Vamos voltar, Penny.

Ela não discutiu e acompanhou-me de volta ao carro. Desta vez, sentei-me no assento traseiro e, parecendo uma figura muito respeitável, deixei que ela me conduzisse até o Portão 3.

Não era o portão por onde havíamos entrado. Acho que Dak o escolhera porque era usado menos para passageiros e mais para carga. Penny nenhuma atenção deu às placas e dirigiu o grande Rolls diretamente para o portão. Um guarda do terminal tentou detê-la, mas, friamente ela apenas disse:

— Este é o carro do Sr. Bonforte. E pode, por gentileza, telefonar para o gabinete do Comissário, dizendo para mandar vir buscá-lo aqui?

Ele pareceu confuso, lançou um olhar rápido para o compartimento traseiro, aparentemente me reconheceu, prestou continência e deixou-nos ficar ali. Respondi com um aceno cordial e ele me abriu a porta.

— O tenente quer a todo custo deixar livre o espaço por trás da cerca, Sr. Bonforte — desculpou-se — mas acho que está tudo bem.

— Você pode, imediatamente, tirar o carro daqui — respondi. — Minha secretária e eu estamos de partida. Meu carro de campo já chegou?

— Vou verificar no portão, senhor.

Afastou-se. Era justamente o volume de audiência que eu queria, suficiente para coonestar o fato de que o "Sr. Bonforte" chegara num carro oficial e que subira para seu iate particular. Coloquei a arma marciana sob o braço como se fosse o bastão de comando de Napoleão e claudiquei atrás dele, enquanto Penny seguia ao meu lado. O guarda falou com o encarregado do portão e depois veio para nosso lado, sorrindo.

— O carro de campo está à espera, senhor.

— Muito, muito obrigado.

Eu me congratulava nesse momento pela perfeição da entrada no palco.

— Hummm. — Muito vermelho, o guarda acrescentou em voz rápida e baixa: — Eu também sou Expansionista, senhor. O senhor fez um bom trabalho hoje.

E lançou um olhar meio apavorado para minha arma. Eu sabia exatamente o que Bonforte faria neste número.

— Ora, muito obrigado. Espero que tenha um bocado de filhos. Precisamos construir uma sólida maioria.

Ele gargalhou mais do que o justificavam minhas palavras.

— Essa é boa! Humm, o senhor se importa se eu contar isso?

— Em absoluto.

Continuamos a andar e eu cruzei o portão. O encarregado tocou-me o braço.

— Eh... O seu passaporte, Sr. Bonforte.

Tive esperança de não ter mudado de expressão.

— Os passaportes, Penny.

Ela deitou um olhar gelado para o oficial.

— O Capitão Broadbent cuida de todos esses detalhes. Ele me olhou e desviou a vista.

— Acho que está bem. Mas é minha obrigação examiná-los e adotar o número de série deles.

— Claro. Bem, acho que vou precisar pedir ao Capitão Broadbent que venha até aqui. Já foi marcada a hora de decolagem de meu ônibus? Talvez seja melhor que o senhor avise a torre para "esperar".

Penny, no entanto, tomou-se de fúria felina:

— Sr. Bonforte, isto é ridículo. Nós nunca enfrentamos antes essa burocracia... E, certamente, nunca em Marte.

O guarda respondeu apressadamente:

— Claro. Está tudo bem, Hans. Afinal de contas, ele é c Sr. Bonforte.

— Certamente, mas... Interrompi-o com um sorriso afável.

— Há um meio mais simples de resolver isso. Se o penhor ... qual é o seu nome, senhor?

— Halswanter. Hans Halswanter — respondeu ele, hesitante.

— Sr. Halswanter, se telefonar para o Sr. Comissário Boothroyd, falarei com ele e podemos evitar a vinda de meu piloto até este campo — e economizar uma hora ou mais.

— Humm, eu preferia não fazer isso, senhor. Posso telefonar para o gabinete do Capitão do Porto? — sugeriu, esperançoso.

— Simplesmente, dê-me o número do Sr. Boothroyd. Eu telefono para ele.

Desta vez introduzi uma nota gelada na voz, a atitude de um homem ocupado e importante que quer ser democrático, mas que já suportou até o limite de tolerância todas as dificuldades criadas por subalternos.

Isso resolveu. Apressadamente ele disse:

— Tenho certeza de que está tudo bem, Sr. Bonforte. São apenas... apenas regulamentos, como o senhor sabe.

— Sim, eu sei. Muito obrigado.

— Um momento, Sr. Bonforte! Por favor, vire-se para aqui.

Olhei em volta. Aquele funcionário imbecil havia-nos. detido o tempo suficiente para que a imprensa nos alcançasse. Um dos repórteres já caíra sobre o joelho e me apontava uma câmara estéreo. Ergueu a vista e disse:

— Segure a arma de modo que possamos vê-la.

Numerosos outros, portando vários tipos de equipamento, reuniram-se à nossa volta. Um deles subiu na capota do Rolls. Alguém empurrou um microfone para minha cara e outro um ditafone direcional como se fosse uma arma.

Fiquei tão furioso como uma grande estrela cujo nome aparece em letrinhas pequenas no programa, mas lembrei-me de quem supostamente eu era. Sorri e andei devagar. Bonforte conhecia bem o fato de que os movimentos parecem mais rápidos nos filmes. E eu podia dar-me ao luxo de fazer isso como devia ser feito.

— Sr. Bonforte, por que foi que o senhor cancelou a entrevista?

— Sr. Bonforte, dizem por aí que o senhor tenciona exigir da Grande Assembléia que confira cidadania plena no Império aos marcianos. Quer comentar isso?

Ergui a mão que segurava a arma marciana e abri-me num grande sorriso.

— Uma pergunta de cada vez, por favor! Bem, qual foi a primeira?

Todos eles responderam na mesma ocasião, claro. Quando afinal conseguiram classificar a precedência, eu ganhara vários minutos sem ter que responder a coisa alguma. Nessa altura, Bill Corpsman apareceu às pressas.

— Tenham dó, rapazes. O Chefe teve um dia muito cansativo. Eu dei a vocês tudo que vocês queriam.

Abri a palma da mão na direção dele.

— Eu posso dispor de um ou dois minutos, Bill. Cavalheiros, estou de partida, mas vou tentar cobrir os pontos essenciais do que me perguntaram. Tanto quanto sei, o atual governo não pensa em fazer qualquer reexame do relaciona mento entre Marte e o Império. Uma vez que não estou no cargo, minhas opiniões dificilmente serão pertinentes. Sugiro que perguntem isso ao Sr. Quiroga. Quanto à questão de quando a Oposição vai exigir um voto de confiança, tudo o que posso dizer é que não o solicitaremos a menos que tenhamos certeza de obtê-lo — e vocês sabem disso tanto como eu.

— Isso não responde a muita coisa, não? — disse alguém.

— Nem era minha intenção dizer muito — repliquei, adoçando as palavras com um sorriso. — Façam-me perguntas a que eu possa legitimamente responder, e responderei.

Façam perguntas venenosas do tipo "O senhor deixou de bater em sua esposa?" e eu darei respostas combinando. — Hesitei por um momento, sabendo que Bonforte tinha reputação de falar franco e honestamente, em especial com a imprensa. — Mas não estou tentando embromá-los. Todos vocês sabem por que estou aqui. Eu quero dizer o seguinte sobre esta visita... e podem me citar, se quiserem. — Sondei a mente e puxei um trecho apropriado dos discursos de Bonforte que eu estudara: — O significado real do que aconteceu hoje não é o de uma honraria conferida a um homem. Isto — e gesticulei com a arma marciana — é a prova de que duas grandes raças podem, compreendendo-se, preencher o vácuo da desconfiança. Nossa própria raça está-se espalhando pelas estrelas. Descobriremos — e estamos já descobrindo — que somos vastamente superados em número. Fará termos êxito em nossa expansão pelas estrelas, teremos que agir com honestidade, humildade, de coração aberto. Ouvi dizer que nossos vizinhos marcianos devastariam a Terra se tivessem oportunidade. Isso é um absurdo. A Terra não é apropriada para os marcianos. Devemos proteger nossa própria gente... mas não devemos ser levados pelo medo e pelo ódio a cometer atos insensatos. As estrelas jamais serão conquistadas por mentes estreitas. Temos que ser tão grandes como o próprio espaço.

O repórter franziu uma sobrancelha.

— Sr. Bonforte, acho que ouvi o senhor fazer esse discurso em fevereiro último.

— E vai ouvi-lo também em fevereiro próximo. E também em janeiro, março e em todos os meses. Não se pode repetir a verdade o suficiente. — Lancei um olhar ao encarregado do portão e acrescentei: — Sinto muito, mas tenho que ir agora... ou vamos perder a hora da decolagem.

Virei-me e cruzei o portão, acompanhado de Penny.

Subimos para o pequeno carro de campo, com sua blindagem de chumbo e a porta se fechou. O carro era automatizado e não precisava de motorista. Reclinei-me e relaxei.

— Poxa!

— Eu acho que você se saiu maravilhosamente bem — disse Penny, com toda a sinceridade.

— Eu fiquei meio atrapalhado quando ele se lembrou que eu estava repetindo aquele discurso.

— Mas você conseguiu safar-se sem problema. Foi uma inspiração. Você... você parecia ele.

— Havia ali alguém que eu devesse ter chamado pelo primeiro nome?

— Na verdade, não. Um ou dois, talvez, mas eles não esperariam isso quando você estava com tanta pressa.

— Eu fiquei num sufoco. Aquele chato do encarregado do portão e seus passaportes! Penny, eu pensava que era você que os levava, em vez de Dak.

— Dak não os leva. Todos nós trazemos os nossos. — Enfiou a mão na bolsa e tirou um livreto. — Eu tinha o meu... mas não tive coragem de dizer isso.

— Hein?

— Ele levava o dele quando foi seqüestrado. Não ousamos pedir uma segunda via... não, nesta ocasião.

Senti-me de repente muito cansado.

Não tendo instruções de Dak ou Rog, continuei a desempenhar meu papel durante a viagem do ônibus e ao entrar no Tom Paine. Não foi difícil: simplesmente fui direto para o camarote do dono e passei longas e sofredoras horas em estado de imponderabilidade, roendo as unhas e perguntando-me o que era que estava acontecendo lá embaixo, na superfície do planeta. Com ajuda de comprimidos anti-enjôo, consegui afinal flutuar para um sono inquieto — o que foi um erro, pois tive uma série de pesadelos, com os repórteres apontando-me o dedo, guardas me tocando o ombro e marcianos visando-me com suas armas esquisitas. Todos eles sabiam que eu era um impostor e simplesmente discutiam sobre quem teria o privilégio de me esquartejar, colocar-me no vaso e dar descarga.

Fui despertado pela buzina do alarma de aceleração. Ribombava nesse momento a voz de barítono de Dak:

— Primeiro e último alerta vermelho! Um terço de gravidade! Um minuto!

Rápido, saltei do beliche e me segurei. Senti-me muito melhor quando começou a aceleração. Um terço de gravidade não é muita coisa, mais ou menos o mesmo que na superfície de Marte, acho, mas o suficiente para segurar o estômago e transformar o piso em algo real.

Uns cinco minutos depois, Dak bateu à porta e entrou no momento em que me dirigia para ela.

— Como vai, Chefe?

— Olá, Dak. Estou realmente satisfeito em vê-lo de volta.

— Não tanto quanto eu de estar de volta — respondeu, cansado. Olhou para meu beliche. — Importa-se se eu me deitar ali?

— Sirva-se.

Ele estirou-se na cama e suspirou.

— Poxa, estou arrasado. Podia dormir uma semana inteira... E acho que vou.

— Vamos os dois dormir. Hummmm... Conseguiu trazê-lo para bordo?

— Consegui. Mas que gincana foi!

— Acho que foi mesmo. Ainda assim, deve ter sido mais fácil fazer um trabalho desses em um porto pequeno e informal como este do que aquilo que você fez em Jefferson.

— Hummm? Não, aqui foi muito mais difícil.

— Hein?

— Claro. Aqui todo mundo conhece todo mundo — e as pessoas falam. — Sorriu irônico. — Trouxemo-lo para bordo como se fosse uma caixa de camarões congelados do canal. E tivemos que pagar direitos de exportação, também.

— Dak, como está ele?

— Bem... — Dak tornou-se carrancudo. — O Dr. Capek diz que ele terá uma recuperação completa... que isso é apenas uma questão de tempo. — E acrescentou explosivamente: — Se eu apenas pudesse pôr as mãos naqueles ratos! Você não agüentaria e choraria se visse o que fizeram com ele. Mas, ainda assim, tivemos que deixar que eles escapassem ... por causa dele.

O próprio Dak estava quase a ponto de chorar. Suavemente, disse-lhe:

— Pelo que Penny me falou, acho que o machucaram muito. Qual é a gravidade do caso?

— Você deve tê-la entendido mal. À parte estar imundo e precisar fazer a barba, ele não foi fisicamente machucado, em absoluto.

Com ar estúpido olhei para ele.

— Eu pensei que o tinham espancado. Mais ou menos como surrado com um bastão de beisebol.

— Eu preferia que tivessem feito isso! Quem é que se importa com uns poucos ossos quebrados? Não, não; foi o que fizeram com o cérebro dele.

— Oh... — Senti-me doente. — Lavagem cerebral?

— Sim. Sim e não. Não podiam estar tentando fazer com que ele falasse porque ele não tinha segredo algum de importância política. Ele sempre agiu a descoberto e todo mundo sabe disso. Devem ter usado esses métodos simplesmente para mantê-lo sob controle, para evitar que ele fugisse. — Interrompeu-se por um momento e continuou: — O médico diz que acha que usaram uma dose mínima diária, o suficiente para conservá-lo dócil, até pouco antes de libertá-lo. Nessa ocasião, aplicaram uma dose capaz de transformar um elefante num idiota completo. Os lobos frontais do cérebro dele devem estar encharcados como uma esponja.

Senti-me tão mal que fiquei satisfeito por não ter comido coisa alguma. Certa vez, eu lera sobre esse assunto e odeio-o tanto que ele me fascina. Na minha opinião, há algo de imoral e degradante, no sentido cósmico absoluto, em mexer na personalidade de uma pessoa. Em comparação, o assassinato é um crime limpo, um mero pecadilho. "Lavagem cerebral" é uma expressão que herdamos do movimento comunista da última Idade Média. Foi inicialmente aplicada para quebrar a vontade de um homem e alterar-lhe a personalidade mediante emprego de indignidades físicas e torturas sutis. Mas isso podia levar meses. Mais tarde, descobriram um "meio melhor", um meio que transformava um homem num escravo incoerente em questão de segundos — bastando injetar um daqueles derivados de cocaína nos lobos frontais de seu cérebro.

Essa prática vil fora inicialmente desenvolvida para uma finalidade legítima, para tranqüilizar pacientes furiosos e torná-los acessíveis à psicoterapia. Como tal, era um progresso humanitário, usado em lugar da lobotomia. "Lobotomia", aliás, é uma palavra quase tão obsoleta como "cinto de castidade", mas significa mexer no cérebro de uma pessoa com um bisturi, de modo a destruir-lhe a personalidade sem matá-la. Sim, faziam isso da mesma forma como se costumava, outrora, bater no indivíduo "para expulsar os maus espíritos".

Os comunistas fizeram da lavagem cerebral com drogas uma técnica eficiente, depois desapareceram e os Bandos dos Irmãos refinaram ainda mais a técnica, até poderem dosar um homem tão levemente que ele apenas se tornava receptivo à liderança — ou o dosavam de tal modo que ele se transformava numa massa descerebrada de protoplasma — tudo isso sob o doce nome da fraternidade. Afinal de contas, não se pode ter "fraternidade" se um cara é bastante teimoso para querer guardar segredos, pode-se? E que melhor meio há para termos certeza de que ele não nos esconde nada do que enfiar uma agulha por trás de seus globos oculares e injetar no seu cérebro uma dose de suco de idiotia? "Não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos." Os sofismas dos vilões... bah!

Naturalmente, isso era ilegal há muito, muito tempo, exceto para fins de terapia e com a autorização expressa de um tribunal. Mas os criminosos o utilizam e os policiais nem sempre são puros como os lírios, pois isso faz o prisioneiro falar e não deixa marca nenhuma. Pode-se mesmo dizer à vítima que esqueça tudo o que foi feito.

Eu sabia quase tudo isso quando Dak me contou o que fora feito com Bonforte e o resto aprendi na Enciclopédia Batávia de bordo. Vejam o verbete sobre "Integração Psíquica" e outro sobre "Tortura".

Sacudi a cabeça e fiz um esforço para expulsar da mente aquele pesadelo.

— Mas ele vai ficar bom, não?

— O doutor diz que a droga não altera a estrutura do cérebro. Apenas a paralisa. Disse que, no fim, a corrente sangüínea retoma seu curso normal e expulsa a droga, que chega aos rins e é eliminada pelo corpo. Mas isso leva tempo. — Ergueu a vista para mim. — Chefe?

— Hein? Já não é tempo de acabar com esse negócio de "Chefe"? Afinal, ele voltou.

— Era sobre isso que eu queria lhe falar. Seria muito problema continuar por mais algum tempo o trabalho de representação?

— Mas por quê? Não há ninguém aqui, salvo nós.

— Isso não é exatamente a verdade, Lorenzo. Nós conseguimos manter este segredo com absoluta segurança. Ele só é conhecido por mim. Por você. — Começou a contar na ponta dos dedos. — Pelo doutor, por Rog e por Bill. E por Penny, claro. E há um homem na Terra, chamado Langston, que você não conhece. Acho que Jimmie Washington desconfia, mas ele não diria nem à mãe dele que horas são. Não sabemos quantas pessoas tomaram parte no seqüestro, mas não foram muitas, disso pode ter certeza. De qualquer modo, eles não ousarão falar — e a piada disto tudo é que eles não podem mais provar, se quiserem, que Bonforte andou desaparecido. Mas o meu argumento é o seguinte: aqui no Tommie estão a tripulação e as demais pessoas que não conhecem a situação. Agora, filho, que tal ficar nesse papel e deixar-se ver todos os dias pelos tripulantes e pelas pequenas de Jimmie Washington e tal e tal... enquanto ele não fica bom? Hein?

— Hummm... Não vejo por que não. Quanto tempo isso vai demorar?

— Apenas a viagem de volta. Vamos fazê-la devagar, numa aceleração fácil. Você vai apreciá-la.

— Muito bem, Dak, e não precisa incluir isso .em meus honorários. Vou fazer esse trabalho apenas porque odeio lavagem cerebral.

Dak levantou-se de um salto e deu-me uma palmadinha no ombro.

— Você é dos meus, Lorenzo. Não se preocupe com seus honorários. Nós cuidaremos de você. — Suas maneiras mudaram nesse instante. — Muito bem, Chefe. Até amanhã, senhor.

 

Mas uma coisa leva à outra. A aceleração que havíamos iniciado quando da chegada de Dak fora uma mera mudança de órbita, para outra mais distante, na qual haveria pouca oportunidade de que uma agência de notícias enviasse um ônibus para um follow-up da reportagem. Acordei em estado de imponderabilidade, tomei um comprimido e consegui engolir o desjejum. Penny apareceu logo depois.

— Bom dia, Sr. Bonforte.

— Bom dia, Penny. — Inclinei a cabeça na direção do quarto de hóspedes. — Alguma novidade?

— Não, senhor. Mais ou menos na mesma. Cumprimentos do comandante e o senhor poderia fazer a gentileza de ir até o camarote dele?

— Claro.

Penny seguiu-me. Encontrei Dak com as pernas enganchadas numa cadeira, para continuar no mesmo lugar; Rog e Bill estavam amarrados aos divas.

Dak olhou em volta e disse:

— Obrigado por ter vindo aqui, Chefe. Precisamos de um pouco de ajuda.

Clifton respondeu ao meu cumprimento com sua habitual e séria deferência e me chamou de Chefe; Corpsman apenas inclinou a cabeça. Dak continuou:

— Para acabar com isto em grande estilo, o senhor precisa fazer outro aparecimento público.

— Hein? Eu pensei...

— Apenas um segundo. As redes foram levadas a esperar do senhor, hoje, um discurso importante, comentando os fatos de ontem. Pensei que Rog queria cancelá-lo, mas Bill preparou o discurso. A questão é: está disposto a fazê-lo?

O problema de adotar uma gata é que elas sempre têm gatinhos.

— Onde? Em Goddard City?

— Oh, não. Aqui mesmo, em seu camarote. Nós o transmitiremos para Phobos, eles o gravam para Marte e o retransmitem no Grande Circuito para Nova Batávia, onde as redes da Terra o captarão e de onde será redirecionado para Vênus, Ganimedes et cetera. Dentro de quatro horas, o discurso será ouvido em todo o sistema, mas o senhor não terá que sair de seu camarote.

Há algo de grandemente tentador numa grande rede. Só estive numa delas uma única vez e, nessa ocasião, o número foi tão cortado que meu rosto apareceu por apenas vinte e sete segundos. Mas ter um programa todo para mim ...

Dak pensou que eu hesitava e acrescentou:

— Não será difícil, uma vez que aqui no Tommie estamos equipados para gravá-lo. Podemos, em seguida, projetá-lo e cortar o que quisermos, se necessário.

— Bem... está certo. Você tem o texto, Bill?

— Tenho.

— Deixe-me vê-lo.

— O que é que você quer dizer com isso? Você terá tempo de sobra.

— Não é isso que está aí com você?

— Bem, é.

— Então, deixe-me vê-lo. Corpsman pareceu aborrecido.

— Você o receberá uma hora antes de gravarmos. Essas coisas saem melhor quando parecem espontâneas.

— Parecer espontâneo é um caso de preparação cuidadosa. Afinal, esse é o meu ramo, como você sabe.

— Você se saiu muito bem ontem no campo, e sem ensaio. Este discurso é apenas outro na mesma linha. Quero que o pronuncie da mesma forma.

A personalidade de Bonforte estava subindo irresistivelmente à tona, quanto mais Corpsman prosseguia nessas evasivas. Acho que Clifton viu que eu estava prestes a me irritar e explodir, porque disse:

— Oh, pelo amor de Deus, Bill! Entregue-lhe o discurso. Corpsman resmungou e lançou as páginas para mim. Em

estado de imponderabilidade elas vieram em minha direção mas o ar espalhou-as por toda parte. Penny reuniu-as, colocou-as em ordem e entregou-as a mim. Agradeci-lhe, nada mais disse, e comecei a ler.

Passei a vista pelo texto numa fração do tempo que será necessário para lê-lo. Terminei por fim e ergui a vista.

— Bem...? — disse Rog.

— Uns cinco minutos do texto diz respeito à adoção. O resto é uma defesa da política do Partido Expansionista. Mais ou menos a mesma coisa que ouvi nos discursos que me fizeram estudar.

— Isso mesmo — concordou Clifton. — A adoção é o gancho onde vamos pendurar o resto. Como você sabe, esperamos provocar um voto de confiança dentro de pouco tempo.

— Compreendo. Vocês não podem perder esta oportunidade para fazer propaganda. Tudo bem, mas...

— Mas o quê? Õ que é que o preocupa?

— Bem... a caracterização. Em vários trechos o fraseado deve ser mudado. Não é a maneira como ele o diria.

Corpsman explodiu com uma palavra dispensável em frente a uma senhora. Olhei-o friamente.

— Agora, preste atenção aqui, Smythe •— disse ele — quem é que sabe qual o modo como Bonforte diria isso? Você? Ou o homem que vem escrevendo os discursos dele nos últimos quatro anos?

Fiz um esforço para conservar o controle. Ele tinha aí um argumento.

— Apesar disso, é como eu falei — respondi. — Uma linha que parece certa no papel pode não parecer bem quando pronunciada em voz alta. O Sr. Bonforte é um grande orador, isso eu descobri. Ele faz parte da estirpe de Webster, Churchill e Demóstenes — uma grandiosidade encachoeirada, expressa em palavras simples. Veja por exemplo essa palavra "intransigente", que você usou duas vezes. Eu podia dizer isso porque tenho uma queda por polissílabos. Gosto de exibir minha erudição literária. Bonforte, porém, diria 'teimoso" ou "cabeçudo." A razão por que as usaria é sem dúvida porque estas palavras transmitem a emoção de maneira muito mais direta.

— Pois providencie para pronunciar o discurso dessa maneira! Eu me preocupo com as palavras.

— Você não compreende, Bill. Não me importo se o discurso funciona politicamente ou não. Meu trabalho é levar até o fim uma caracterização. Não posso fazê-lo pondo na boca do personagem palavras que ele nunca usaria. Isso soaria tão forçado e falso como um bode falando grego. Mas se eu ler o discurso com as palavras que ele usaria, será automaticamente funcional. Ele é um grande orador.

— Escute aqui, Smythe, você não foi contratado para escrever discursos. Foi contratado para...

— Espere aí, Bill! — cortou Dak. — E vamos parar com esse troço de "Smythe", também. Bem, Rog? O que é que me diz?

— Da forma como entendo a coisa, Chefe, sua única objeção é à parte do fraseado?

— Bem, sim. E eu sugeriria também retirar aquele ataque pessoal ao Sr. Quiroga, bem como a insinuação sobre seus patrocinadores financeiros. Para mim isso não parece coisa do verdadeiro Bonforte.

Rog pareceu ficar envergonhado.

— Essa parte fui eu mesmo que incluí. Mas o senhor pode ter razão. Ele sempre dá às pessoas o benefício da dúvida. — Permaneceu calado por alguns instantes. — Faça as mudanças que achar que deve. Nós gravaremos o discurso e estudaremos a reprodução. Poderemos sempre cortá-lo ... ou mesmo cancelá-lo inteiramente "devido a problemas técnicos." — Sorriu, sombriamente. — É isso o que vamos fazer, Bill.

— Droga, isto é um exemplo ridículo de...

— É assim que vai ser, Bill.

Corpsman saiu abruptamente do camarote. Clifton suspirou.

— Bill sempre abominou a idéia de qualquer pessoa, com exceção do Sr. B., poder dar-lhe instruções. Mas ele é um homem capaz. Hummm, Chefe, em quanto tempo ficará pronto para gravar? Entraremos em circuito às quatro horas.

— Não sei. Mas estarei pronto a tempo.

Penny acompanhou-me de volta ao gabinete. Logo que ela fechou a porta, eu disse:

— Não vou precisar de você antes de uma hora, mais ou menos, Penny, minha filha. Mas poderia pedir ao doutor um pouco mais daqueles comprimidos? Eu posso precisar deles.

— Sim, senhor. — E flutuou, indo de costas para a porta. — Chefe?

— Sim, Penny?

— Eu queria apenas dizer que não acredite naquilo que Bill disse, de escrever os discursos dele!

— Não acreditei. Eu lhe ouvi os discursos ... e li este aqui.

— Oh, Bill de fato submete esboços preliminares, um bocado de vezes. O mesmo faz Rog. Eu mesmo fiz isso. Ele... ele usa as idéias de qualquer procedência, se julga que são boas. Mas quando faz um discurso, é o discurso dele cada palavra.

— Acredito. Gostaria que ele houvesse escrito este com antecedência.

— Simplesmente, faça o melhor que puder!

E foi o que fiz. Comecei apenas substituindo sinônimos, colocando as guturais germânicas em lugar de vocábulos latinos que nos quebram os queixos. Depois, tomei gosto, li-o em voz alta e rasguei-o em pedaços. É um bocado divertido para um ator mexer nas falas. Raramente ele tem essa oportunidade.

Não usei senão Penny como platéia e certifiquei-me com Dak de que eu não estava sendo gravado em parte alguma da nave — embora eu desconfie que aquele cara desengonçado me enganou e escutou. Nos primeiros três minutos, fiz Penny chorar; ao terminar (vinte e oito minutos e meio depois, exatamente em tempo para o anúncio da estação, ela estava conquistada). Não tomei liberdades com as doutrinas expansionistas, da forma proclamada por seu profeta oficial, o Honorável John Joseph Bonforte. Apenas lhe reconstruí a mensagem e a sua maneira de enunciá-la, usando sobretudo frases tiradas de outros discursos.

E no particular aconteceu uma coisa estranha: acreditei em cada uma daquelas palavras enquanto falava.

Mas, irmão, que discurso eu fiz!

Mais tarde, todos escutamos a reprodução, completada com imagens de corpo inteiro de minha pessoa. Jimmie Washington estava presente e isso manteve Bill Corpsman calado. Quando terminou, perguntei:

— O que é que me diz do discurso, Rog? Precisamos cortar alguma coisa?

Ele tirou o charuto da boca e respondeu:

— Não. Se quer meu conselho, deixe-o ficar como está Chefe.

Corpsman mais uma vez deixou o camarote, enquanto o Sr. Washington aproximava-se de mim com lágrimas nos olhos — e lágrimas são aquele incômodo em estado de imponderabilidade porque não há lugar para aonde elas possam ir.

— Sr. Bonforte, aquilo foi belo.

— Obrigado, Jimmie.

Penny não conseguiu absolutamente articular palavra.

Fui dormir depois daquilo; um desempenho de alto calibre deixa-me esgotado. Dormi mais de oito horas e fui acordado pela buzina. Havia-me amarrado no beliche — odeio flutuar ao léu quando durmo em imponderabilidade — de modo que não tive que me mover. Mas não sabia que estávamos começando a viajar, e assim liguei para a ponte de comando entre o primeiro e o segundo aviso.

— Capitão Broadbent?

— Apenas um momento, senhor — ouvi Epstein responder.

Em seguida, escutei a voz de Broadbent:

— Sim, Chefe? Estamos partindo no horário, de acordo com suas ordens.

— Hein? Oh, sim, claro.

— Acho que o Sr. Clifton está indo agora para seu camarote.

— Muito bem, capitão.

Recostei-me e esperei.

Logo que começamos a acelerar a uma gravidade, Rog Clifton entrou; trazia uma expressão preocupada no rosto, que não consegui interpretar — partes iguais de triunfo, preocupação e perplexidade.

— O que foi, Rog?

— Chefe! Eles se anteciparam a nós! O Governo Quiroga acaba de renunciar.

Ainda grogue de sono, sacudi a cabeça para clareá-la.

— Por que é que você está tão nervoso assim, Rog? Não era isso o que vocês estavam querendo?

— Bem, sim, claro. Mas... — Calou-se.

— Mas o quê? Não estou entendendo. Vocês, caras, estiveram trabalhando e planejando durante anos para conseguir justamente esse resultado. Agora que o conseguiram... parecem-se com a noiva que não sabe mais se quer subir no altar. Por quê? Os bandidos saíram e agora os caras bonzinhos têm sua vez. Ou não?

— Oh! Vê-se que não está na política há muito tempo.

— Você sabe muito bem que não. Fui derrotado quando me candidatei a líder de patrulha na minha tropa de escoteiros. Isso me curou.

— Bem, como vê, a oportunidade é tudo.

— Era isso mesmo o que meu pai me dizia. Escute aqui, Rog, será que posso concluir que, se você pudesse fazer o que quer, Quiroga ainda continuaria no cargo? Você disse que "ele se antecipou a nós."

— Vou explicar. O que nós queríamos de fato era provocar um voto de desconfiança e ganhá-lo e, dessa maneira, obrigá-lo a aceitar uma eleição geral — mas no tempo em que escolhêssemos, quando calculássemos que poderíamos vencer.

— Oh! E agora, acha que não pode? Acha que Quiroga voltará ao poder por mais cinco anos... ou, pelo menos, o Partido da Humanidade?

Clifton ficou pensativo.

— Não, acho que são muito boas nossas chances de ganhar.

— Talvez eu não esteja ainda bem acordado. Você não quer ganhar?

— Claro que quero. Mas será que não compreende em que situação essa renúncia nos colocou?

— Não, acho que não compreendo.

— Bem, o governo no poder pode convocar eleições gerais em qualquer tempo até um limite constitucional de cinco anos. Em geral, consulta o povo quando a ocasião lhe parece mais favorável. Mas não renuncia entre a convocação da eleição e a eleição, a menos que seja forçado a isso. Está-me entendendo?

Dei-me conta de que a coisa parecia de fato estranha, embora eu pouco entendesse de política.

— Acho que sim.

— Mas, neste caso, o Governo Quiroga marcou uma eleição geral e, em seguida, renunciou em peso, deixando o Império acéfalo. O Soberano, em vista disso, terá que chamar alguém para formar um governo de "transição", que permanecerá no poder até a eleição. De acordo com a letra da lei, ele pode convidar qualquer membro da Grande Assembléia, mas por questão de rigoroso precedente constitucional, não tem opção. Quando um governo renuncia em peso — não uma simples reorganização de pastas, mas renuncia todo ele — então o Soberano tem que convidar o líder da Oposição para formar esse dito governo "de transição". Isso é indispensável ao nosso sistema e evita que a renúncia se transforme num mero gesto. Numerosos outros métodos foram experimentados no passado. Com alguns deles, os governos mudavam com tanta freqüência como a gente muda de cueca. Nosso atual sistema, porém, assegura governos responsáveis. — Eu estava tão atento procurando compreender as implicações dessas palavras que quase lhe perdi a observação seguinte: — Assim, naturalmente, o Imperador convocou o Sr. Bonforte a Nova Batávia.

— Hein? Nova Batávia? — Estava lembrando-me nesse momento que não conhecia a capital imperial. Na única vez em que estivera na Lua, as vicissitudes da minha profissão haviam-me deixado sem tempo ou dinheiro para a viagem complementar. — Então foi por isso que partimos? Bem, o fato é que não me importo. Acho que vocês poderão, de algum modo, mandar-me para casa se o Tommie não for logo para a Terra.

— O quê? Céus, não se preocupe com isso agora. Quando chegar a ocasião, o Capitão Broadbent descobrirá um bom número de maneiras de mandá-lo de volta.

— Desculpe. Esqueci que você está pensando em coisas mais importantes, Rog. Certo, estou doido para voltar, agora que o trabalho terminou. Mais alguns dias, ou mesmo um mês, em Luna não importam muito. Não tenho agora trabalho urgente para fazer. Mas obrigado por ter-se dado ao trabalho de me trazer a notícia. — Olhei-o curioso. — Rog, você parece preocupado como o diabo.

— Não está compreendendo? O Imperador convocou o Sr. Bonforte. O Imperador, homem! E o Sr. Bonforte não está em condições de comparecer a uma audiência. Quiroga arriscou um gambito... e talvez nos tenha dado um xeque-mate.

— Espere aí um minuto. Vamos devagar. Estou entendendo o que você está insinuando... mas, ouça aqui, amigo, nós não estamos em Nova Batávia. Estamos cem ou duzentos milhões de quilômetros de distância ou o que quer que seja. Na ocasião oportuna, o Dr. Capek o terá consertado e aprontado para desempenhar o papel dele, não?

— Bem, tomara que sim.

— Mas você não está certo?

— Nós não podemos estar. Capek diz que são poucos os dados clínicos sobre doses maciças como as que ele recebeu. Tudo depende da química corporal do indivíduo e da droga exata que foi usada.

De súbito, lembrei-me da ocasião em que um substituto eventual de um papel meu, pouco antes de uma recita, enganou-me e me fez tomar um violento purgativo. (Mas eu representei, de qualquer modo, o que prova a superioridade da mente sobre a matéria — e depois consegui que ele fosse despedido.)

— Rog, eles aplicaram aquela última e desnecessária grande dose não por simples sadismo... mas para criar esta situação!

— Eu também penso assim. E também Capek.

— Hei! Nesse caso, isso significa que o próprio Quiroga é o homem que esteve por trás do seqüestro — e que tivemos um bandido governando o Império!

Rog sacudiu a cabeça.

— Não, necessariamente. Não, nem mesmo provavelmente. Mas significa que as mesmas forças que controlam os Ativistas controlam também a máquina do Partido da Humanidade. Mas ninguém conseguirá jamais culpá-las de coisa alguma. Elas são inabordáveis, ultra-respeitáveis. Apesar de tudo, poderiam avisar a Quiroga de que chegara o momento de se encolher ou bancar o morto, e obrigá-lo a fazer isso. Quase com certeza — acrescentou — sem dar-lhe a menor pista da razão por que o momento é oportuno.

— Essa, não! Você está querendo me dizer que o homem mais importante do Império se fecharia em copas e renunciaria, simplesmente, assim, sem mais nada? Por que alguém nos bastidores lhe deu ordens nesse sentido?

— Lamento dizer que isso é justamente o que penso Sacudi a cabeça.

— A política é um jogo sujo!

— Não — retrucou Clifton, sério. — Não é um jogo sujo. Mas, às vezes, a gente topa com jogadores sujos.

— Eu não vejo a diferença.

— Há um mundo inteiro de diferença. Quiroga é um indivíduo de terceira classe e um subalterno — em minha opinião, um testa-de-ferro de vilões. Mas coisa alguma há de terceira classe no que diz respeito a John Joseph Bonforte e ele nunca, mas nunca, serviu de fachada para ninguém Como seguidor, acreditava na causa; como líder, liderava 1 or convicção!

— Aceito a reprimenda — respondi humildemente. — Bem, o que é que nós vamos fazer? Mande Dak atrasar-se, de modo que o Tommie só chegue a Nova Batávia quando ele estiver de novo em forma.

— Não podemos prorrogar a data. Não precisamos acelerar a mais de uma gravidade, uma vez que ninguém esperaria que um homem da idade dele impusesse um esforço desnecessário a seu coração. Mas não podemos demorar mais do que isso. Quando o Imperador chama, a gente vai.

— Neste caso, o quê?

Rog fitou-me, calado. Comecei a ficar nervoso.

— Hei, Rog, não comece a imaginar besteiras! Esse troço todo nada tem a ver comigo. Fiz minha parte, exceto por ter que dar ainda uma circulada ou outra pela nave. Suja ou não, a política não é a minha arte — simplesmente pague o que me deve, mande-me para casa e garanto-lhe que nem mesmo me alisto para votar!

— Com toda probabilidade, você não terá que fazer coisa alguma. O Dr. Capek quase com certeza o colocará em forma para a missão. Mas não é nada muito difícil — nada parecido com a cerimônia de adoção — apenas uma audiência com o Imperador e...

— O Imperador! — Eu quase gritei essas palavras. Como a maioria dos americanos, eu não entendia a realeza, no fundo do coração não aprovava realmente essa instituição — e tinha um pavor oculto, não confessado, de reis. Afinal de contas, nós americanos entramos pela porta dos fundos. Quando aceitamos o status. de associados nos termos de um tratado, pelas vantagens de voz plena nos negócios do Império, concordou-se explicitamente que nossas instituições locais, nossa Constituição e o resto não seriam afetados — e tacitamente acordou-se que nenhum membro da Família Real jamais visitaria a América. Talvez, se estivéssemos acostumados à realeza, ela não nos impressionasse tanto. Mas de qualquer modo, é fato notório que as "democráticas" mulheres americanas ficam mais agitadas e ansiosas para serem apresentadas na corte do que quaisquer outras.

— Agora, acalme-se — respondeu Rog. — Com toda probabilidade, você não terá em absoluto de representar esse papel. Queremos apenas que fique de sobreaviso. O que eu quero dizer é que um governo de "transição" não constitui problema. Não promulga leis, não introduz novas políticas. Eu cuidarei de tudo. Tudo o que você vai ter que fazer — se tiver que fazer alguma coisa — é apresentar-se oficialmente ao Imperador Willem — e possivelmente dar uma ou duas entrevistas à imprensa, sob controle, dependendo do tempo que vamos precisar antes que ele fique bom. O que você já fez foi muito mais difícil — e receberá seus honorários quer necessitemos de seus serviços ou não.

— Droga, os honorários coisa alguma têm a ver com isso! É o... Bem, nas palavras de uma famosa figura da história teatral, incluam-me entre os de fora.

Antes que pudesse responder, Bill Corpsman entrou como uma bala no camarote, sem bater antes, olhou para nós dois e perguntou secamente a Clifton:

— Contou a ele?

— Contei — respondeu Clifton. — Ele recusou.

— Como? Não pode ser!

— Não é nada de bobagem — respondi — e por falar nisso, Bill, aquela porta por onde você acaba de entrar tem um belo lugar para nela se bater. Na minha profissão, o costume é bater e perguntar: "Você está vestido?" Gostaria que se lembrasse disso.

— Oh, merda. Estamos com pressa. Que besteira é essa de você recusar?

— Não é besteira nenhuma. Esse não é o trabalho para o qual fui contratado.

— Bolas! Talvez você seja estúpido demais para compreender, Smythe, mas você está metido nisto fundo demais para recuar. Não seria conveniente para você.

Fui até ele e agarrei-o pelo braço.

— Você está me ameaçando? Se está, vamos lá fora discutir isso.

Ele se soltou com um repelão.

— Numa espaçonave? Você é mesmo ingênuo, não? Mas será que não penetrou nessa cabeça dura que foi você mesmo quem causou esta confusão toda?

— O que é que você quer dizer com isso?

— Ele quer dizer — respondeu Clifton — que está convencido de que a queda do Governo Quiroga foi conseqüência direta do discurso que você fez hoje cedo. É mesmo possível que ele tenha razão Mas isso não vem ao caso. Bill, procure ser razoavelmente polido, sim? Não vamos chegar a parte alguma com essa guerra de palavras.

Fiquei tão surpreso com a sugestão de que eu causara a renúncia de Quiroga que esqueci tudo sobre o desejo de afrouxar os dentes de Corpsman. Estavam falando sério? Certo, fora um discurso danado de bom, mas teria tal resultado sido possível?

Bem, se foi, foi também um serviço bem rápido.

Em dúvida, perguntei:

— Bill, devo entender que você está se queixando de que o discurso que fiz hoje foi eficiente demais para seu gosto?

— Hummmm? Diabo, não! Foi um discurso abaixo de, medíocre.

— Mesmo? Você não pode ter as duas coisas ao mesmo tempo. Você está dizendo que um discurso medíocre tornou-se tão importante que levou o Partido da Humanidade, apavorado, a renunciar? É isso o que você quer dizer?

Corpsman pareceu aborrecido, ia responder, vislumbrou o sorriso disfarçado de Clifton, fechou a cara, deu a impressão de que ia começar a responder, encolheu os ombros e finalmente disse:

— Muito bem, cara, você provou seu argumento: o discurso não pode ter tido coisa alguma com a queda do Governo Quiroga. Apesar disso, temos trabalho a fazer. Assim, que história é essa de não querer carregar sua parte da carga?

Fitei-o e consegui controlar meu temperamento — mais uma vez, a influência de Bonforte: representar o papel de um tipo de temperamento calmo tende a nos fazer calmos por dentro.

— Bill, mais uma vez você não pode ter as duas coisas ao mesmo tempo. Você deixou enfaticamente claro que me considera apenas um cara alugado. Por conseguinte, não tenho obrigações além do que fui contratado para fazer, trabalho este terminado. Você não pode me contratar outra vez para outro trabalho, a menos que ele me agrade. E não me agrada. — Ele começou a falar, mas eu o interrompi. — Isso é tudo. Agora, caia fora. Você é demais aqui.

Ele pareceu atônito.

— Quem, diabo, você pensa que é para dar ordens aqui?

— Ninguém. Ninguém, absolutamente, conforme você observou. Mas este é meu quarto particular, que me foi designado pelo comandante. Agora, caia fora ou eu o botarei para fora. Eu não gosto de suas maneiras.

— Caia fora, Bill — disse calmamente Clifton. — A despeito de qualquer outra coisa, neste momento este é o camarote dele. Assim, é melhor você ir embora. — Hesitou por um instante e depois acrescentou: — Acho que nós dois bem que podemos ir. Parece que não estamos conseguindo coisa alguma. Se nos der licença... Chefe?

— Certamente.

Sentei-me e fiquei pensando por vários minutos. Lamentava ter deixado Corpsman atrair-me para essa pequena troca de palavras. A situação toda carecera de dignidade. Mas passei-a em revista mentalmente e garanti a mim mesmo que minhas divergências pessoais com Corpsman não me haviam afetado a decisão. Eu já tomara a decisão antes de ele entrar.

Ouvi uma batida seca à porta.

— Quem é?

— O Capitão Broadbent.

— Entre, Dak.

Ele entrou, sentou-se e durante alguns minutos pareceu interessado apenas em escavacar as radículas das unhas. Penalmente, ergueu a vista e disse:

— Você mudaria de idéia se eu metesse aquele salafra no calabouço?

— Hein? Você tem um calabouço nesta nave?

— Não. Mas não seria difícil improvisar um. Olhei-o atentamente, tentando imaginar o que estava se passando dentro daquela cabeça ossuda.

— Você poria mesmo Bill no calabouço se eu pedisse?

Ele ergueu os olhos para mim, franziu as sobrancelhas e sorriu.

— Não. Um homem não chega a comandante operando numa base como essa. Eu não aceitaria uma ordem desse tipo vinda dele. — Inclinou a cabeça na direção do quarto onde Bonforte estava recolhido. — Há certas decisões que um homem tem que tomar sozinho.

— Exatamente.

— Hummm! Ouvi dizer que você tomou uma decisão dessas.

— Isso mesmo.

— Bem, eu vim a sentir um bocado de respeito por você, filho. Logo que o conheci, pensei que você fosse um simples canastrão, sem nada por dentro. Enganei-me.

— Obrigado.

— Assim, não vou implorar. Simplesmente me diga uma coisa: valerá a pena discutir os fatores envolvidos? Já pensou o bastante no caso?

— Eu já resolvi, Dak. Essa não é a minha linha.

— Bem, talvez você tenha razão. Lamento muito. Acho que agora temos apenas que alimentar a esperança de que ele fique bom a tempo. — Levantou-se. — A propósito, Penny gostaria de falar-lhe, se você não for dormir agora.

Ri sem prazer algum.

— Simplesmente "a propósito," hein? Será essa a seqüência adequada? Não será a vez do Dr. Capek tentar torcer-me o braço?

— Ele desistiu da vez dele. Está ocupado com o Sr. B. Mas, apesar disso, enviou-lhe um recado.

— Sim?

— Disse que você podia ir para o inferno. Um pouco atenuado, mas no fundo o recado foi esse.

— Ele disse isso? Bem, diga-lhe que vou reservar um lugar para ele junto ao braseiro.

— Penny pode entrar?

— Oh, claro! Mas pode dizer a ela que vai perder tempo. A resposta continua a ser "Não".

Bem, mudei de idéia. Diabos me levem, por que um argumento tem que parecer tão mais lógico quando enfatizado por um leve aroma de "Desejo Selvagem?" Não que Penny tenha usado meios desleais. Ela nem mesmo chorou — nem que eu a houvesse tocado sequer com um dedo — mas quando dei por mim estava aceitando os argumentos dela e, logo depois, nada mais havia para aceitar. Não posso ocultar o fato: Penny é do tipo salvador do mundo e tem uma sinceridade contagiosa.

A dura aprendizagem que fiz na viagem a Marte nada foi em comparação com o estudo a que me entreguei na viagem a Nova Batávia. Já construíra o personagem básico; nesse instante, era necessário preencher os claros, preparar-me para ser Bonforte em praticamente todas as circunstâncias. Conquanto fosse para uma audiência real que eu me preparava, uma vez que estivéssemos em Nova Batávia poderia ter que entrar em contato com centenas ou| milhares de pessoas. Rog planejava me dar uma proteção em profundidade, do tipo que é rotina para qualquer personalidade pública, se esta quer ter tempo para fazer alguma coisa. Apesar de tudo, eu teria que receber pessoas, uma personalidade pública é uma personalidade pública, não há meio de evitá-lo.

O número de equilíbrio que eu ia fazer na corda-bamba só se tornava possível graças ao "Arquivo Farley" de Bonforte, talvez o melhor jamais compilado. Farley foi um chefe de máquina política do século XX, acho que do partido de Eisenhower, e o método que inventou para tratar de relações pessoais na política foi tão revolucionário como a invenção alemã do Estado-Maior foi para a guerra. Ainda assim, coisa alguma ouvira falar dele até que Penny me mostrou o de Bonforte.

Nada mais era ele do que um arquivo de pessoas. Contudo, a arte da política "nada mais é" do que tratar com "pessoas". Esse arquivo continha todas ou quase todas as milhares e milhares de pessoas que Bonforte conhecera no curso de sua longa vida pública, consistindo cada dossier do que ele sabia sobre a pessoa na base do contato pessoal que com ela mantivera. Praticamente tudo, por mais trivial fosse — na verdade, as trivialidades constituíam as primeiras anotações: nomes e apelidos de esposas, filhos e bichinhos de estimação, hobbies, gostos em comidas e bebidas, preconceitos, excentricidades. Em seguida a isso, eram relacionados a data, local e comentários feitos em todas as ocasiões em que Bonforte falara com a tal pessoa.

Quando havia possibilidade, existia uma foto. Poderia ou não haver dados "suplementares", isto é, informações mais pesquisadas por outrem do que recolhidas diretamente por Bonforte. Isso dependia da importância política do indivíduo. Em alguns casos, a parte "suplementar" era uma biografia oficial, estendendo-se por dezenas de páginas.

Penny e Bonforte usavam minigravadores acionados pelo calor corporal. Se estava a sós, Bonforte ditava para o gravador quando havia oportunidade — em toaletes, enquanto viajava num veículo de um lugar para outro, etc; se Penny o acompanhava, ela fazia a gravação no seu, que fora disfarçado sob a forma de um relógio de pulso. Penny não podia, é claro, fazer gravações e microfilmagens ao mesmo tempo; duas das pequenas de Jimmie Washington pouco mais faziam do que isso.

Quando Penny me mostrou o volumoso "Arquivo Farley,;' e era volumoso, mesmo a dez mil palavras ou mais por carretel, e me disse que representava informações pessoais sobre conhecidos de Bonforte, eu grigemi (o que é uma mistura de grito e gemido juntos, carregada com forte dose de sinceridade) .

— Deus todo misericordioso, menina! Eu tentei lhe dizer que este trabalho não pode ser feito. Como é que uma pessoa pode decorar tudo isso?

— Ora, você não pode, claro.

— Você acabou de dizer que isso era o que ele se lembrava a respeito de amigos e desconhecidos.

— Não, inteiramente. Eu disse que isso era o que ele gostaria de lembrar. Mas desde que não podia, em hipótese alguma, ele fazia como vou explicar. Mas não se preocupe. Você não vai ter que decorar coisa simples. Simplesmente, quero que saiba que o arquivo existe e que está à disposição. Cabia a mim, antes, fazer com que ele tivesse pelo menos um minuto ou dois para estudar o arquivo apropriado antes que alguém entrasse para falar com ele. Se surgir a necessidade, posso protegê-lo com o mesmo serviço.

Olhei para um arquivo típico, que ela projetou na leitora de mesa. Acho que era de um tal Sr. Saunders, de Pretória, África do Sul. Ele era dono de um bulldog chamado Snuffles Bullyboy, vários e chatos filhos e gostava de uma gota de limão em seu uísque com água.

— Penny, você quer dizer que o Sr. Bonforte finge lembrar-se de minúcias como essas? Isso me parece, um embuste.

Em vez de ficar indignada com a crítica feita ao seu ídolo, Penny inclinou a cabeça:

— Eu também pensava assim antes. Mas o senhor não examinou devidamente o arquivo, Chefe. O senhor toma nota do número do telefone de um amigo?

— Claro.

— Isso é desonesto? Desculpa-se com o amigo por se importar tão pouco com ele que simplesmente não lhe pode lembrar o número?

— Muito bem. Desisto. Você me convenceu.

— Estas são as coisas que ele gostaria de lembrar se sua memória fosse perfeita. Como não é, não há mais embuste em fazer isto assim do que usar um arquivo de cursor e mola para não esquecer o aniversário de um amigo — e é justamente isso o que o arquivo é: um gigantesco arquivo de cursor e mola, abrangendo tudo. Mas nele há mais do que isso. O senhor conheceu alguma vez uma pessoa realmente importante?

Fiz um esforço para pensar. Ela não se referia aos grandes da ribalta; mal sabia que eles existiam.

— Uma vez falei com o Presidente Warfield. Eu era um garoto de uns dez ou onze anos.

— Lembra-se dos detalhes?

— Ora, claro. Ele disse: "Como foi que você quebrou esse braço, filho?" Eu respondi: "Andando de bicicleta, senhor." E ele: "A mesma coisa me aconteceu, só que foi na clavícula".

— O senhor acha que ele ainda se lembraria disso se ainda estivesse vivo?

— Ora, não.

— Ele poderia... poderia ter tido um arquivo a seu respeito. Este arquivo inclui garotos dessa idade porque os garotos crescem e se tornam homens. O ponto é que os indivíduos de grande importância como o Presidente Warfield conhecem muito mais pessoas do que podem lembrar. Todos os componentes dessa massa anônima lembram-se de seu próprio encontro com os famosos, e lembram-se disso com detalhes. Mas a pessoa supremamente importante na vida de qualquer pessoa é ela mesma — e um político jamais deve esquecer isso. Assim, é polido, gentil e útil para um político ter uma maneira de lembrar-se, sobre outras pessoas, do tipo de pequenas coisas que elas provavelmente se lembrarão em relação a ele. É também essencial... em política.

Pedi a Penny que me mostrasse o arquivo do Imperador Willem. Era bem resumido, o que me desanimou no princípio, até que concluí que Bonforte não o conhecia bem e que só tivera contato com ele numas poucas ocasiões oficiais — o primeiro período de Bonforte como Ministro Supremo ocorrera antes da morte do velho Imperador Frederick. Não havia biografia suplementar mas apenas uma anotação: Ver "Casa de Orange". O que não fiz — apenas não havia tempo suficiente para ler alguns milhões de palavras sobre o Império e a época antes do Império e, de qualquer modo, eu tirara notas de boas para excelentes em História quando estive na escola. O que eu queria saber sobre o Imperador era o que Bonforte sabia sobre ele e que outras pessoas não sabiam.

Ocorreu-me que o "Arquivo Farley" devia incluir todo mundo a bordo da nave, uma vez que, a) eram pessoas e, b) Bonforte conhecia-as. Pedi a Penny para ver esses arquivos. Ela pareceu um pouco surpresa.

Logo depois eu é que fiquei surpreso. O Tom Paine transportava seis membros da Grande Assembléia. Rog Clifton e o Sr. Bonforte, claro — mas o primeiro item no carretel de Dak dizia: "Broadbent, Darius K., o Honorável G.A. da Liga dos Viajantes Livres, Divisão Superior". Informava também que ele tinha um Ph.D. em Física, fora campeão da reserva com pistola nos Jogos Imperiais de nove anos atrás e publicara três livros de poesia sob o pseudônimo "Acey Wheelwright." Resolvi que nunca mais julgaria um homem pela aparência.

Havia ainda uma anotação na caligrafia desleixada de Bonforte: "Quase irresistível para as mulheres — e vice-versa!"

Penny e o Dr. Capek também eram membros da Grande Assembléia. O próprio Jimmie Washington também, por um distrito "seguro", descobri depois — e representava os lapões, incluindo todas as renas, e Papai Noel, sem dúvida. Era também ordenado na Primeira Igreja da Bíblia Verdadeira do Espírito Santo, da qual eu nunca ouvira falar, mas que sem dúvida lhe explicava a expressão de diácono discreto.

Gostei especialmente de ler a respeito de Penny — a Honorável Penelope Taliaferro Russell. Ela tinha um B.A. em Administração Pública, concedido pela Georgetown, e um

B.A. conferido por Wellesley, o que de certa forma não me surpreendeu. Representava mulheres de formação universitária, outro eleitorado seguro (descobri), uma vez que são, de cinco a um, membros do Partido Expansionista.

Abaixo, o tamanho dela de luvas, outras medidas, suas preferências em cores (eu podia ensinar a ela alguma coisa sobre como vestir), preferências em perfumes ("Desejo Selvagem", claro) e numerosos outros detalhes, a maioria bastante inócua. Mas havia um "comentário":

"Neuroticamente honesta — não merece confiança em aritmética — orgulha-se de seu senso de humor, do qual nada tem — cuida da dieta mas é uma glutona no que se refere a cerejas confeitadas — mãezinha de todo o complexo vivo — incapaz de resistir à leitura da palavra impressa em qualquer de suas formas."

Por baixo, outro adendo na caligrafia de Bonforte: "Ah, Cabelinho Crespo! Espionando outra vez, pelo que vejo."

Ao devolvê-los, perguntei a Penny se ela já lera seu próprio "Arquivo Farley." Rispidamente, ela me disse para cuidar da minha própria vida! Depois, enrubesceu e pediu desculpa.

Passei a maior parte da viagem estudando, mas reservei tempo para reexaminar e revisar com todo cuidado a semelhança física, verificando com um colorímetro a tonalidade da semiderme, realizando um trabalho muito minucioso com a.s rugas, acrescentando dois sinais congênitos e dando acabamento a tudo aquilo com uma escova elétrica. Isso ia me custar um "peeling" antes de eu conseguir recuperar minha própria face, mas era um pequeno preço a pagar por um trabalho de maquilagem que não podia ser estragado ou esfregado com acetona e que era à prova de acidentes, como guardanapos. Acrescentei mesmo uma cicatriz na perna "doente", utilizando uma fotografia que Capek conservara na história clínica de Bonforte. Se Bonforte tivesse esposa ou amante, ela teria dificuldade em distinguir o impostor do artigo original, baseando-se apenas na aparência física. Isso me deu um bocado de trabalho mas deixou-me a mente livre para preocupar-me com a parte realmente difícil da caracterização.

Mas o grande esforço durante a viagem foi embeber-me do que Bonforte pensava e daquilo em que acreditava, em suma, da política do Partido Expansionista. De certa maneira, ele era o Partido, não só seu líder mais expressivo, mas também seu filósofo político e seu maior estadista. O expansionismo fora pouco mais do que um movimento do tipo "Destino Manifesto" ao ser fundado, uma coalizão popular de grupos que tinham uma única coisa em comum: a crença em que as fronteiras dos céus constituíam a questão mais importante no futuro imediato da raça humana. Bonforte dera ao partido fundamentos lógicos e uma ética, o tema de que a liberdade e os direitos iguais deveriam acompanhar a bandeira imperial. Continuava a bater na tecla de que a raça humana jamais deveria cometer os erros que a sub-raça branca perpetrara na África e na Ásia.

Mas confundiu-me o fato — e eu não tinha preparo algum nesses assuntos — de que a história antiga do Partido Expansionista se parecesse tanto com a atual do Partido da Humanidade. Não sabia que os partidos políticos amiúde mudam tanto, enquanto crescem, como as pessoas. Soubera vagamente que o Partido da Humanidade começara como uma ala do Movimento Expansionista, mas jamais dedicara a isso um segundo pensamento. Na verdade, a cisão fora inevitável. Uma vez que os políticos que não tinham os olhos nos céus murcharam por força dos imperativos da História e deixaram de eleger candidatos, o único partido que estivera no caminho certo obrigatoriamente teria que dividir-se em duas facções.

Mas estou-me adiantando aos fatos; minha educação política não se desenvolveu de modo assim tão lógico. No início, apenas encharquei-me dos pronunciamentos públicos de Bonforte. É bem verdade que fizera isso na viagem da Terra a Marte, mas naquela ocasião estudara a maneira como ele falava; nesse momento, o que ele dizia.

Bonforte era um orador dentro da grande tradição, mas podia ser vitriólico num debate, como, por exemplo, no discurso que fizera em Nova Batávia durante o debate sobre o tratado com os ninhos marcianos, o Acordo de Tycho. Fora esse tratado que lhe custara o cargo; conseguira fazê-lo aprovar mas a tensão imposta à coalizão fê-lo perder o voto de confiança seguinte. Não obstante, Quiroga não ousara denunciar o Tratado. Escutei esse discurso com especial interesse, uma vez que eu mesmo não gostara do tratado; a idéia de que os marcianos deveriam ter na Terra os mesmos privilégios que os humanos desfrutam em Marte havia sido abominável para mim — até que visitei o ninho de Kkkah.

"Meu opositor," dissera Bonforte com uma nota áspera na voz, "gostaria que os senhores acreditassem que o lema do Partido da Humanidade, Governo de seres humanos, por

seres humanos, para seres humanos, nada mais é do que uma versão atual das palavras imortais de Lincoln, mas enquanto a voz é de Abraham, a mão é a da Ku Klux Klan. O verdadeiro sentido desse lema aparentemente inocente é: Governo de todas as raças, em toda parte, apenas por seres humanos, para o proveito de uns poucos privilegiados".

"Mas, protesta meu opositor, temos um mandado de Deus para disseminar o esclarecimento pelas estrelas, impondo nossa própria marca de Civilização aos selvagens. Essa é a escola de sociologia do Preto Velho — os bons negrinhos cantando músicas de fundo religioso e o Velho Senhor explorando cada um deles! O quadro é belo mas a moldura ó estreita e não mostra o chicote, o pelourinho — e o mercado de escravos!"

Descobri que me estava tornando, se não um expansionista, pelo menos um bonfortista. Não tenho certeza se fui convencido pela lógica de suas palavras — na verdade, nem certeza tinha de que fossem lógicas. Mas eu me encontrava num estado de espírito receptivo. Queria compreender tão profundamente o que ele dizia para que pudesse dizê-lo por ele, se houvesse necessidade.

Não obstante, ele era um homem que sabia o que queria e (o que é muito mais raro!) por que queria. Não podia deixar de ficar impressionado e isso me forçou a examinar minhas próprias convicções. Por quais princípios vivia eu?

Minha profissão, sem dúvida! Fora criado nela, gostava dela e tinha uma convicção profunda, embora ilógica, de que a arte valia o esforço — e, além disso, era a única maneira que eu conhecia de ganhar a vida. Mas, o quê mais?

Nunca me impressionaram as escolas formais de Ética. Havia feito amostragens delas — as bibliotecas públicas constituem fontes de recreação à disposição do ator curto de dinheiro — mas julgara-as tão carentes de vitaminas como um beijo de madrasta. Com tempo e um bocado de papel, um filósofo pode provar qualquer coisa.

Sentia o mesmo desprezo pelas instruções morais ensinadas à maioria das crianças. A maior parte delas é tagarelice e as partes que, na realidade, parecem significar alguma coisa são dedicadas à proposição de que a criança "boa" é aquela que não perturba o cochilo da mamãe e que o homem "bom" é aquele que consegue uma conta bancária musculosa sem ser preso pela polícia. Não, obrigado!

Mas mesmo um cão tem suas regras de conduta. Quais eram as minhas? De que modo me comportava — ou, pelo menos, de que modo gostaria de pensar que me comportava?

"O espetáculo tem que continuar". Sempre acreditei nisso e vivi de acordo com isso. Mas por que o espetáculo tem que continuar, uma vez que alguns deles são apenas horrendos? Bem, porque o cara concordou em representar, porque há uma audiência, que pagou, e que tem o direito de receber em troca o melhor que lhe possamos dar. Você lhe deve isso. Deve o mesmo também aos auxiliares de bastidores, ao diretor, ao produtor e aos demais membros da companhia — àqueles que lhe ensinaram o ofício e a outros que retroagem na história aos teatros ao ar livre e assentos de pedra e mesmo aos contadores de lendas que trabalhavam de cócoras nos mercados. Noblesse oblige.

Concluí que a idéia podia ser generalizada para qualquer ocupação. "Valor por valor." Construir com honestidade. O juramento hipocrático. Não os abandone. Trabalho honesto por pagamento honesto. Essas coisas não precisavam ser provadas; eram partes essenciais da vida — verdadeiras desde toda a eternidade, verdadeiras nos confins mais remotos da galáxia.

De repente, tive um vislumbre do lugar aonde Bonforte queria chegar. Se havia uma ética básica que transcendia espaço e tempo, então ela era verdadeira para marcianos e seres humanos. Era verdadeira em qualquer planeta a girar em volta de qualquer estrela — e se a raça humana não se comportasse nessa conformidade, jamais conquistaria as estrelas, porque alguma raça melhor a esbofetearia, castigan-do-a por seu comportamento dúplice.

O preço da expansão era a virtude. "Jamais dê a um bobo uma oportunidade justa" era uma filosofia estreita demais para ajustar-se às vastidões do espaço.

Bonforte, porém, não pregava só doçura e luz. "Eu não sou um pacifista. O pacifismo é uma doutrina matreira, sob a qual um homem aceita os benefícios do grupo social sem estar disposto a pagar por eles — e reivindica um halo para sua desonestidade. Sr. Presidente, a vida pertence àqueles que não temem perdê-la. Este projeto de lei precisa ser aprovado!" Com essas palavras, ele se levantara e cruzara o corredor para o outro lado, em apoio às verbas militares que seu próprio partido recusara a apoiar numa reunião fechada dos líderes.

Ou, mais uma vez: "Decida-se! Decida-se sempre! Algumas vezes você errará — mas o homem que se recusa a decidir-se tem, sempre, que estar errado! Que os céus nos salvem dos poltrões que temem fazer uma opção. Levantemo-nos para sermos contados." (Isso fora dito numa reunião fechada do partido, mas Penny a captara em seu minigravador e Bonforte conservara a gravação — pois ele tinha o senso da História; era um colecionador de registros. Se não houvesse sido, eu não teria muito com que trabalhar.)

Cheguei à conclusão de que Bonforte era meu tipo de homem. Ou, pelo menos, o tipo que eu gostava de pensar que era. A persona dele era daquelas que eu me sentia orgulhoso de encarnar.

Tanto quanto posso lembrar-me, não dormi naquela viagem depois que prometi a Penny que iria à audiência real se Bonforte não estivesse em condições. Era minha intenção dormir — nada justificaria entrar no palco com olhos caídos como as orelhas de um cocker spaniel — mas fiquei interessado demais no que estudava e havia um suprimento abundante de comprimidos estimulantes na mesa de Bonforte. É espantoso quanto terreno podemos cobrir trabalhando vinte e quatro horas por dia, livre de interrupções e com toda a ajuda de que possamos necessitar.

Mas pouco antes de chegarmos a Nova Batávia, o Dr. Capek entrou e disse:

— Levante a manga da camisa do braço esquerdo.

— Por quê? — perguntei.

— Porque quando você se apresentar ao Imperador não queremos que caia de bruços, de pura fadiga. Isso o fará dormir até pousarmos. Nessa ocasião, eu lhe darei um antídoto.

— Quer isso dizer que ele não vai estar em condições? Capek não respondeu. Mas a injeção, ele me aplicou.

Tentei acabar de ouvir o discurso que rodava na máquina, mas devo ter adormecido em questão de segundos. A coisa seguinte que vi foi Dak, dizendo com toda a deferência:

— Acorde, senhor. Por favor, acorde. Estamos pousados no Lippershey Field.

Como a nossa Lua é um planetóide sem atmosfera, uma nave estelar pode pousar nela. Mas o Tom Paine, sendo uma nave estelar, fora na verdade construído para permanecer no espaço e receber assistência mecânica apenas em estações espaciais em órbita e só podia pousar num berço. Gostaria de ter estado acordado para ver aquilo porque dizem que, em comparação, é mais fácil apanhar um ovo no ar com um prato. Dak era um entre meia dúzia de pilotos que podiam fazer isso.

Mas nem mesmo vi o Tommie em seu berço. Tudo que vi foi o interior do fole de desembarque que ligaram à câmara de pressão da nave e o tubo de passageiros para Nova Batávia — e aqueles tubos são tão bem acoplados que, na baixa gravidade da Lua a pessoa mais uma vez entra em estado de imponderabilidade na metade do caminho.

Dirigimo-nos em primeiro lugar para os apartamentos destinados ao líder da leal Oposição, a residência oficial de Bonforte até que (e se) ele voltasse ao poder depois da próxima eleição. A magnificência desses apartamentos fez-me pensar no que seriam os do Ministro Supremo. Suponho que Nova Batávia é, disparada, a capital mais palaciana de toda a História e é uma pena que mal possa ser vista de fora — mas essa pequena deficiência é mais do que compensada pelo fato de ser a única cidade do Sistema Solar realmente à prova de bombas de fusão. Ou talvez eu deva dizer "praticamente impenetrável", uma vez que há umas poucas estruturas na superfície que poderiam ser destruídas. Os apartamentos de Bonforte compreendiam uma sala de estar no nível superior da encosta de um penhasco que dava, através de um balcão em forma de bolha, para as estrelas e para a própria Mãe Terra — embora seu quarto de dormir e escritório estivessem uns trezentos metros abaixo na sólida rocha, ligados por elevador.

Não tive tempo de conhecer os apartamentos; vestiram-me logo para a audiência. Bonforte não tinha criado de quarto, mesmo em terra, mas Rog insistiu em me "ajudar" (e foi um incômodo) enquanto eu passava em revista os detalhes de última hora. O trajo era uma vestimenta de corte, antiga e formal: calças tubulares informes, uma jaqueta idiota, com uma cauda que se parecia com uma pata de caranguejo, ambas pretas, uma camisa que consistia de um duro peitilho branco, colarinho de "pontas viradas" e gravata branca. A camisa de Bonforte era feita de uma peça só porque (acho) ele não usava os serviços de um criado. Da forma correta, devia ser montada peça por peça e o laço da gravata ser mal dado o suficiente para transmitir a impressão de que fora feito à mão, mas é um pouco demais esperar que um homem entenda de política e também de vestuário antigo.

É um trajo horrendo, mas constituía um bom pano-de-fundo para a espalhafatosa Ordem de Wilhelmina, que cruzava em diagonal o meu peito. Olhei-me no espelho de corpo inteiro e fiquei satisfeito com o que vi; o destaque da cor da condecoração contra o preto opaco e o branco era bom teatro. A vestimenta tradicional podia ser feia mas tinha de fato dignidade, algo como a fria imponência de um maître d'hotel. Cheguei à conclusão de que estava vestido a caráter para contar com a satisfação de um Soberano.

Rog Clifton entregou-me o pergaminho que teoricamente continha a lista de meus indicados para os ministérios e enfiou num bolso interno de minha fantasia uma cópia datilografada — o original fora levado em mãos por Jimmie Washington ao Secretário de Estado do Imperador logo depois de termos pousado. A formalidade da audiência era para o Imperador me comunicar que lhe agradaria que eu formasse um governo e para eu, humildemente, submeter-lhe sugestões; minhas indicações eram, oficialmente, secretas até que o Imperador graciosamente as aprovasse.

Na verdade, as escolhas já tinham sido feitas; Rog e Bill haviam passado a maior parte da viagem compondo o Gabinete e certificando-se de que os indicados aceitariam e utilizando mixadores de mensagens oficiais para as transmissões de rádio. De minha parte, estudara os "Arquivos Farley" de cada indicado e de cada alternativa para eles. A lista, porém, era realmente secreta no sentido de que as agências de notícias só a receberiam após a audiência imperial.

Peguei o pergaminho e apanhei a arma marciana. Rog ficou horrorizado.

— Meu Deus, homem, você não pode levar essa coisa à presença do Imperador!

— Por que não?

— Não vê? É uma armai

— É uma arma cerimonial. Rog, todos os duques e barõezinhos de merda vão usar suas espadas cerimoniais. De modo que vou usar isto.

Rog sacudiu a cabeça.

— Mas eles são obrigados a usá-las. Será que não compreende a velha tradição jurídica por trás disso? As espadas simbolizam o dever de vassalagem para com os senhores feudais, de apoiá-los e defendê-los pela força das armas. Você, porém, é um plebeu. Por tradição, você comparece desarmado perante ele.

— Não, Rog. Oh, eu farei o que você quer, mas você está perdendo uma oportunidade maravilhosa de pegar a maré na cheia. Isto é bom teatro, isto é o certo.

— Lamento dizer que não estou entendendo.

— Bem, olhe aqui. Marte saberá se eu levar este símbolo hoje? Quero dizer, a notícia chegará aos ninhos?

— Acho que sim. Sim.

— Claro. Acho que todos os ninhos têm receptores de estéreo. Eu mesmo notei um bocado deles no ninho de Kkkah. Eles acompanham com tanta atenção como nós as notícias do Império, ou não?

— Sim. Pelo menos os anciãos acompanham.

— Se eu levar a arma que me deram, eles vão saber; se não levar, vão saber também. Isso importa para eles e está vinculado ao conceito de decência. Nenhum marciano adulto deixaria o ninho sem levar a arma ou compareceria a uma cerimônia num recinto fechado sem ela. Os marcianos já compareceram perante o Imperador no passado e trouxeram suas armas, não? Aposto minha vida nisso.

— Trouxeram, sim, mas você...

— Você se esquece que eu sou um marciano.

A face de Rog esvaziou-se de repente. Continuei:

— Eu não sou apenas "John Joseph Bonforte." Sou também Kkkahjjjerrr, do ninho de Kkkah. Se não levar o símbolo, cometerei uma grande impropriedade — e francamente, não sei o que acontecerá quando a notícia chegar lá. Não conheço o suficiente os costumes marcianos. Agora vire a coisa pelo avesso e olhe-a do outro lado. Quando eu descer a coxia carregando esta arma, sou um cidadão marciano prestes a ser nomeado Primeiro-Ministro de Sua Majestade Imperial. Como é que isso vai afetar os ninhos?

— Acho que eu não havia pensado o suficiente nisso — respondeu ele, devagar.

— Nem eu, se não tivesse que decidir se levava ou não a arma. Mas você não acha que o Sr. B. pensou nisso tudo, antes de concordar em aceitar ser adotado? Rog, estamos segurando um tigre pela cauda; a única coisa a fazer é montar nele e ir em frente. Não podemos soltá-lo.

Dak chegou nesse momento, confirmou minha opinião e pareceu surpreso de que Clifton esperasse outra coisa.

— Certo, estamos estabelecendo um novo precedente, Rog, mas vamos estabelecer um bocado de outros antes de acabarmos. — Mas quando viu o modo como eu segurava a arma, soltou um berro: — Poxa, homem! Está querendo matar alguém? Ou apenas abrir um buraco na parede?

— Eu não estava pressionando o botão.

— Graças a Deus por isso! Você nem mesmo pôs a trava em posição. — Tomou-me a arma com todo o cuidado e disse: — Você torce este anel e empurra-o para esta ranhura, e ele se transforma apenas num maçarico! Poxa!

— Oh, desculpe.

Levaram-me até a ante-sala cerimonial do palácio e entregaram-me ao escudeiro do Rei Willem, Coronel Pateel, um indiano de rosto impassível, maneiras perfeitas e um uniforme estonteante das forças espaciais imperiais. A curvatura que me fez deve ter sido calculada milimetricamente. Sugeria que eu estava prestes a tornar-me Ministro Supremo, mas não chegara lá ainda, que eu era seu superior, mas apesar de tudo, um civil — e em seguida subtraía cinco pontos para o fato de que ele usava as agulhetas do Imperador no ombro direito.

Lançou um rápido olhar à arma e disse em voz suave: — Isso aí é um disparador marciano, não, senhor? Interessante. Suponho que queira deixá-lo aqui... Ficará em segurança.

— Vou levá-lo comigo — respondi.

— Senhor?

Suas sobrancelhas se ergueram de súbito e ele esperou que eu corrigisse o óbvio erro que cometera.

Recorri a um dos clichês favoritos de Bonforte e escolhi aquele que usava para reprovar a arrogância:

— Filho, que tal você cuidar de seu tricô enquanto eu cuido do meu?

O rosto dele perdeu toda a expressão.

— Muito bem, senhor. Poderia fazer o favor de me acompanhar por aqui?

Paramos à entrada da sala do trono. Muito longe, sobre uma plataforma, o trono, vazio. De ambos os lados de toda a extensão da grande caverna, a nobreza e a realeza da corte encontravam-se de pé, à espera. Acho que Pateel fez algum sinal, pois subiram ao ar os acordes do hino imperial e todos nós ficamos imóveis, Pateel em posição de sentido, como se fosse um robô, eu numa postura cansada, apropriada a um homem de meia-idade esgotado pelo trabalho, que tinha que passar por isso porque tinha que passar, e toda a corte parecendo figuras numa vitrina. Tomara que jamais dispensemos inteiramente a pompa numa corte; todos aqueles trajos cerimoniais e os portadores de alabardas constituem um belo espetáculo.

Aos últimos acordes, ele entrou vindo de trás do trono e sentou-se — Willem, Príncipe de Orange, Duque de Nassau, Grã-Duque do Luxemburgo, Cavaleiro Comandante do Sacro Império Romano, Almirante-General das Forças Imperiais, Conselheiro dos Ninhos Marcianos, Protetor dos Pobres e, pela Graça de Deus, Rei dos Países Baixos e Imperador dos Planetas e do Espaço Intermediário.

Não podia ver-lhe a face mas o simbolismo despertou em mim uma quente sensação de empatia. Não me sentia mais hostil à idéia da realeza.

No momento em que o Rei Willem se sentou, o hino chegou ao fim. Com uma inclinação de cabeça respondeu à saudação e uma onda de leve relaxação espraiou-se pelas fileiras dos cortesãos. Pateel deu um passo atrás e, com a arma marciana sob o braço, iniciei a longa marcha, coxeando um pouco a despeito da baixa gravidade. A caminhada parecia-se notavelmente com a que eu fizera para o Ninho Interno de Kkkah, exceto que não sentia medo, mas apenas um calor agradável e um leve comichão; seguia-me com os olhos a nobreza do Império, enquanto a música passava de Kong Christian para a Marselhesa e desta para The Star-Spangled Banner e todas as outras.

Parei na primeira linha cerimonial e fiz uma curvatura; outra vez na segunda e, finalmente, na terceira uma profunda mesura, exatamente antes dos degraus. Não me ajoelhei; os nobres têm que fazê-lo, mas os plebeus compartilham da soberania com o Soberano. Às vezes, em estéreo e no teatro, vemos essa parte incorretamente representada, mas Rog providenciara para que eu soubesse o que fazer.

— Ave, Imperator!

Se eu fosse holandês, teria dito também "Rex", mas era americano. Trocamos frases decoradas de escola primária, em latim, ele me perguntando o que eu queria, eu lhe lembrando que ele me convocara, etc. e tal. Ele passou em seguida ao anglo-americano com um leve sotaque.

— Vós servistes bem ao nosso pai. Agora, pensamos que podeis servir-nos. Que pensais?

— O desejo de meu soberano é meu desejo, Majestade.

— Aproximai-vos.

Talvez eu tenha representado a cena bem demais, mas o fato é que os degraus da plataforma eram altos e minha perna me doía mesmo — e uma dor psicossomática dói tanto como outra qualquer. Quase tropecei — e Willem levantou-se como uma bala do trono e pegou-me pelo braço para que eu não caísse. Ouvi um arquejo em toda a sala. Ele sorriu e disse sotto você:

— Acalme-se, velho amigo. Vamos fazer disto uma cerimônia curta.

Ajudou-me a ir até a banqueta em frente ao trono e me fez sentar, o que fiz num movimento desajeitado, antes de tomar seu lugar. Estendeu a mão para o pergaminho, que lhe entreguei. Desenrolou-o e fingiu estudar a folha em branco.

Nesse momento, tocava-se música de câmara e a corte fazia uma exibição de estar divertindo-se, as senhoras rindo, os nobres dizendo galanterias, leques gesticulando. Ninguém se afastou muito de seu lugar, ninguém permaneceu imóvel. Pequenos pajens, parecendo querubins de Miguel Ângelo, circulavam entre eles com bandejas de doces. Um deles ajoelhou-se em frente a Willem e ele se serviu, sem tirar os olhos da lista inexistente. A criança, em seguida, ofereceu-me a bandeja e tirei um doce, sem saber se isso era correto ou não. Era um desses chocolates maravilhosos, sem iguais no mundo, fabricados apenas na Holanda.

Descobri que, de fotos, conhecia certo número de faces ali na corte. A maior parte da realeza desempregada da Terra estava ali escondida sob seus títulos secundários de duques ou condes. Diziam algumas pessoas que Willem os sustentava como pensionistas para alegrar a corte; outras, que ele queria mantê-los de olho e fora da política e de outras tra-vessuras. Talvez fosse um pouco de ambas as coisas. Estava ali também presente a nobeza não-real de uma dúzia de nações; alguns deles trabalhavam mesmo para viver.

Por fim, Willem pôs de lado o pergaminho. A música e a conversação pararam no mesmo instante. Em meio ao silêncio sepulcral, ele disse:

— É uma valorosa companhia a que nos propõe. Temos vontade de confirmá-la.

— Vossa Majestade é sumamente generosa.

— Ponderaremos o assunto e o informaremos. — Inclinou-se e disse baixinho, só para mim. — Não tente descer de costas esses malditos degraus. Simplesmente, levante-se. Vou embora logo.

Respondi num sussurro:

— Oh, obrigado, Majestade.

Levantou-se, ao que, rápido, fiz o mesmo e ele desapareceu numa ondulação de mantos. Virei-me e notei algumas expressões de espanto. A música, porém, recomeçou nesse instante e eu tomei o caminho de volta, enquanto os nobres e os extras reais entretinham-se em polida conversação.

Pateel surgiu ao meu lado logo que cruzei o distante arco.

— Por aqui, senhor, se me faz o favor.

O cerimonial acabara; nesse instante íamos ter a audiência autêntica.

Levou-me por uma pequena porta, por um corredor vazio, por outra pequena porta e até um escritório absolutamente comum. A única coisa de real que havia ali era uma placa de parede, entalhada, com o brasão da Casa de Orange, e seu lema imortal: "Eu sustento!" Vi uma grande escrivaninha, cheia de papéis. No centro dela, sob um par de sapatinhos de criança, metalizados, encontrava-se o original da lista datilografada que eu levava no bolso. Numa moldura de cobre, num grupo familiar, a falecida Imperatriz e os filhos do casal me olhavam. Encostado à parede, um diva um tanto surrado e mais além um pequeno bar. Havia também umas duas poltronas e uma cadeira giratória por trás da escrivaninha. Os demais móveis teriam sido apropriados para o consultório de um médico de família, ocupado e não muito exigente.

Pateel deixou-me ali, sozinho, e fechou a porta. Não tive tempo de pensar se seria correto sentar-me ou não, uma vez que o Imperador entrou em passos rápidos pela porta à minha frente.

— Como vai, Joseph? — disse ele em voz alta. — Espere só um momento. — Cruzou rápido a sala, seguido de perto por dois escudeiros, que o despiam enquanto ele caminhava, e foi até uma terceira porta. Voltou quase no mesmo instante e entrou fechando o zíper de um macacão. — Você veio pelo caminho curto. Eu tive que dar uma volta comprida. Vou insistir em que o engenheiro do palácio corte outro túnel a partir de trás da sala do trono, o diabo me leve se não vou fazer isso. Tenho que percorrer três lados de uma praça — ou aquela ou a de parada, através de corredores semipúblicos, vestido como um cavalo de circo. — E acrescentou meditativo: — Nunca uso coisa alguma senão cueca sob aqueles mantos idiotas.

— Duvido que sejam tão incômodos como esta jaqueta de macaco que estou usando, Majestade.

Ele encolheu os ombros.

— Oh, bem, todos nós temos que agüentar os inconvenientes de nossos cargos. Você não se serviu ainda de um drinque? — Apanhou a lista das indicações para os ministros do Gabinete. — Sirva-se e prepare um para mim.

— O que é que vai querer, Majestade?

— Hein? — Ergueu os olhos e fitou-me curioso. — O de sempre. Uísque com gelo, claro.

Eu nada disse e servi as bebidas, acrescentando água à minha. Sentira um pequeno calafrio; se Bonforte sabia que o Imperador tomava sempre uísque com gelo, isso devia ter constado do "Arquivo Farley." Não constava.

Willem, porém, aceitou o drinque sem comentário algum e murmurou:

— Jatos quentes! — e continuou a examinar a lista. Logo em seguida, ergueu a vista e disse: — O que é que me diz destes rapazes, Joseph?

— Majestade! É um Gabinete muito reduzido, claro. Havíamos destinado mais de uma pasta a cada ministro

e Bonforte ocuparia as da Defesa e Tesouro, bem como o cargo de Ministro Supremo. Em três casos, déramos cargos temporários a vice-ministros de carreira — Pesquisa, Administração da População e Negócios Exteriores. Os homens que ocupariam os cargos no governo permanente eram necessários para a campanha política.

— Sim, sim, é o seu segundo time. Hummm! O que é que me diz deste tal Braun?

Fiquei espantado. Pensara que Willem aprovaria a lista sem comentários, mas que gostaria de prosar um pouco sobre outras coisas. Não sentira receio de dois dedos de prosa; um homem pode construir uma reputação de conversador brilhante apenas deixando que o outro fale o tempo todo.

Lothar Braun era o que se conhece como "um jovem estadista em ascensão." O que sabia sobre ele respigara no "Arquivo Farley", suplementado por informações de Rog e Bill. Surgira após a dispensa de Bonforte do cargo e, em conseqüência, jamais exercera qualquer posto no Gabinete, mas servira como sublíder nas reuniões do partido. Bill insistira em que Bonforte pensara em promovê-lo logo que possível, desde que ele devia experimentar suas asas no Gabinete de transição e indicou-o para Ministro das Comunicações Externas.

Rog Clifton ficara em dúvida. Inicialmente, indicara o nome de Angel Jesus de Ia Torre y Perez, o subministro de carreira. Bill, porém, observara que se Braun fracassasse, esta seria uma boa ocasião para verificar e que não haveria prejuízo. Clifton acedera.

— Braun? — respondi. — Ele é um jovem de futuro. Muito brilhante.

Willem nenhum comentário fez e recomeçou a ler a lista. Fiz um esforço para lembrar-me exatamente do que Bonforte escrevera a respeito dele no "Arquivo Farley". Brilhante... muito trabalhador ... possuidor de mente analítica. Dissera alguma coisa contra ele? Não — bem, talvez — "um pouco afável demais". Isso não condena um homem. Mas Bonforte coisa alguma escrevera sobre virtudes positivas como lealdade e honestidade, o que talvez nada significasse, uma vez que o Farley não era uma série de estudos sobre o caráter, mas um arquivo de dados.

O Imperador pôs a lista de lado:

— Joseph, você está pensando em incorporar logo os ninhos marcianos ao Império?

— Como? Certamente não antes da eleição, Majestade.

— Ora, vamos, você sabe que eu estava pensando em depois da eleição. E esqueceu como dizer "Willem"? "Majestade" vindo de um homem seis anos mais velho do que eu, nestas circunstâncias, é uma tolice.

— Muito bem, Willem.

— Nós dois sabemos que não se espera que eu me interesse por política. Mas sabemos também que essa suposição é falsa. Joseph, você passou anos fora do cargo. Criando uma situação na qual os ninhos gostariam de incorporar-se integralmente ao Império. — Apontou para a arma. — Acho que você conseguiu fazer isso. Agora, se ganhar a eleição, deve poder conseguir que a Grande Assembléia me conceda permissão para proclamá-la. Bem?

Pensei um pouco no caso.

— Willem — disse eu devagar — você sabe que isso é exatamente o que planejamos fazer. Você tem que ter alguma razão para trazer esse assunto à baila.

Ele emborcou o copo e me olhou fixamente, conseguindo parecer um dono de armazém da Nova Inglaterra que está prestes a mandar embora um turista de verão.

— Está pedindo meu conselho? A Constituição requer que você me aconselhe, e não o contrário.

— Gostaria de receber seu conselho, Willem, mas não prometo segui-lo.

Ele soltou uma gargalhada.

— Você raramente promete coisa alguma. Muito bem, vamos supor que você vença a eleição e volte ao cargo — mas com uma maioria tão pequena que possa ter dificuldade numa votação para conceder cidadania plena aos ninhos.

Nesse caso, eu não o aconselharia a transformar o caso em voto de confiança. Mas se perder, agüente a derrota e continue no cargo, até o fim do mandato.

— Por que, Willem?

— Porque você e eu somos homens pacientes. Está vendo aquilo ali? — Apontou para o brasão de sua Casa. — "Eu sustento!" Não é vistoso, mas não é negócio de rei ser vistoso; seu negócio é conservar, agüentar, rolar ao receber o golpe. Bem, constitucionalmente falando, não deve importar-me se você continua no cargo ou não. Mas me importa se o Império se mantém coeso ou não. Penso que se você perder na questão marciana logo depois da eleição, pode dar-se ao luxo de esperar — porque suas outras posições políticas vão ser muito populares. Você ganhará votos em eleições suplementares e, no fim, virá e me dirá: "Posso acrescentar Imperador de Marte à lista?" Assim, não se apresse.

— Vou pensar nisso — disse, sem me comprometer.

— Faça isso. E o que me diz agora do sistema de degredo?

— Vamos aboli-lo logo depois da eleição e suspendê-lo imediatamente.

Eu podia responder à pergunta dele com toda firmeza. Bonforte odiava o sistema.

— Vão atacá-lo por isso.

— Vão, mesmo. Que ataquem. Nós ganharemos os votos.

— É um prazer ver que você ainda tem a força de suas convicções, Joseph. Eu nunca suportei uma bandeira de Orange hasteada numa nave de degredados. Livre-câmbio?

— Após a eleição, sim.

— O que é que você vai usar para aumentar a receita?

— É nossa tese que o comércio e a produção vão expandir-se com tal rapidez que as demais fontes de receita compensarão a perda dos direitos alfandegários.

— E supondo que isso não aconteça?

Eu não fora abastecido com uma resposta pronta para isso — e a Economia é, na maior parte, um mistério para mim. Sorri alegremente.

— Willem, vou precisar de tempo para responder a essa pergunta. Mas todo o programa do Partido Expansionista baseia-se na idéia de que o livre-câmbio, as viagens livres, a cidadania comum, a moeda comum e um mínimo de leis e restrições imperiais são boas não só para os cidadãos do Império mas para o próprio Império. Se precisarmos de dinheiro, vamos arranjá-lo — mas não dividindo o Império em minúsculos condados.

Tudo aqui, menos a primeira frase, era puro Bonforte, embora ligeiramente adaptado.

— Guarde seus discursos para a campanha — grunhiu ele. — Eu fiz apenas uma pergunta. — Apanhou outra vez a lista. — Você tem absoluta certeza de que esta lista foi feita da maneira como quer?

Estendi a mão e ele me entregou a lista. Era claro que o Imperador me dizia, de modo tão enfático como a Constituição permitia, que, em sua opinião, Braun era a pessoa errada. Mas, pela melhor antracita do inferno, eu não tinha nada que mudar na lista feita por Bill e Rog.

Por outro lado, não era a lista de Bonforte, mas apenas o que eles pensavam que Bonforte teria feito se estivesse compôs mentis.

Tive uma vontade súbita de dispor de tempo para perguntar a Penny o que ela pensava de Braun.

Em vez disso, peguei uma caneta na escrivaninha de Willem, risquei "Braun" e escrevi "de Ia Torre" em letra de forma — uma vez que não podia arriscar-me ainda a imitar o cursivo de Bonforte. O Imperador disse apenas:

— Isso aí me parece uma equipe muito boa. Boa sorte, Joseph. Você vai precisar dela.

Isso punha fim à audiência. Estava ansioso para ir embora, mas ninguém dá as costas a um rei; esta é uma das prerrogativas que eles conservam. Ele queria mostrar-me a oficina e seus novos modelos de trem. Acho que ele fez mais do que qualquer outra pessoa para ressuscitar aquele antigo hobby; pessoalmente, não posso considerá-lo como ocupação para um homem feito. Emiti, porém, delicados ruídos sobre sua nova locomotiva de brinquedo, que devia puxar o "Escocês Real".

— Se tivesse tido oportunidade — disse ele, pondo-se de quatro e olhando para o interior do motor de brinquedo — eu teria sido um excelente gerente de oficina, acho... talvez um mestre-maquinista. O acidente do nascimento, porém, agiu contra mim.

— Você pensa, mesmo, que teria preferido isso, Willem?

— Não sei. Este emprego que tenho não é mau. O expediente é curto e bom o salário, e a previdência social é de primeira — à parte a possibilidade remota de uma revolução, e minha linhagem sempre teve sorte nesse particular. Mas a maior parte do trabalho é tediosa e poderia muito bem ser feita por um ator de segunda classe. — Ergueu os olhos para mim. — Eu alivio seu cargo de um bocado de cansativos lançamentos de pedras fundamentais e revista de tropas, como você sabe.

— Sei, sim, e sou-lhe grato por isso.

— Uma ou outra rara vez tenho oportunidade de dar um pequeno empurrão na direção certa — ou no que penso que é a direção certa. Reinar é uma profissão muito estranha, Joseph. Jamais a aceite.

— Receio que seja tarde demais, mesmo que eu quisesse. Ele fez um pequenino ajustamento no brinquedo.

— Minha verdadeira função é evitar que você enlouqueça.

— Como?

— Claro. A psicose situacional é a doença profissional dos chefes de estado. Meus antecessores no negócio de ser rei, aqueles que de fato reinaram, foram todos eles um pouco birutas. E veja só seus presidentes americanos; o cargo costumava matá-los quando estavam na flor da vida. Mas eu, eu não tenho que dirigir as coisas. Tenho um profissional como você para fazer isso por mim. E você tampouco sofre a pressão assassina. Você ou outro em seu lugar podem sempre se exonerar se as coisas ficarem difíceis demais. E o velho Imperador — é quase sempre o "velho Imperador", geralmente subimos ao trono na idade em que os demais se aposentam — o Imperador está sempre ali, mantendo a continuidade, preservando o símbolo do Estado, enquanto vocês, profissionais, elaboram um novo plano. — Piscou, solenemente. — Meu trabalho não é brilhante, mas é útil.

Pouco depois, abandonou os trenzinhos e voltamos ao seu gabinete. Pensei que estava prestes a ser dispensado. Na verdade, ele disse:

— Eu devia deixá-lo voltar ao trabalho. Teve uma viagem cansativa?

— Não tanto. Passei o tempo todo trabalhando.

— Acho que sim. A propósito, quem é você?

Há o toque do policial no ombro, o choque do degrau superior que não está lá, a queda da cama e o marido dela chegando inesperadamente em casa — e eu teria preferido qualquer combinação de todas essas situações àquela pergunta. Envelheci por dentro para ajustar-me à minha aparência.

— Majestade?

— Ora, vamos — disse ele, impacientemente — meu cargo sem dúvida possui alguns privilégios. Simplesmente me diga a verdade. Eu sei desde a última meia hora que você não é Joseph Bonforte — embora você pudesse enganar a própria mãe dele. Até mesmo os maneirismos dele você tem. Quem é você?

— Meu nome é Lawrence Smythe, Majestade — respondi em voz débil.

— Tome coragem, homem! Eu poderia ter chamado os guardas há muito.tempo, se essa fosse minha intenção. Você foi enviado aqui para me assassinar?

— Não, Majestade. Eu sou... eu sou leal à Vossa Majestade.

— Você tem uma maneira um bocado estranha de demonstrar isso. Venha, sirva-se de outro drinque, sente-se, e conte-me tudo.

Contei, detalhe por detalhe. Foi preciso mais de um drinque e, logo depois, senti-me melhor. Pareceu zangado quando lhe contei o seqüestro, mas quando lhe disse o que haviam feito com a mente de Bonforte, seu rosto enfarrascou-se com uma fúria jupiteriana.

No fim, disse em voz calma:

— É então apenas uma questão de dias antes que ele esteja de novo em forma?

— Pelo menos é isso o que diz o Dr. Capek

— Não deixe que ele volte a trabalhar até que esteja inteiramente recuperado. Ele é um homem valioso. Você sabe disso, não? Vale seis de você e de mim. Assim, continue com o trabalho de substituição até ele ficar bom. O Império precisa dele.

— Sim, Majestade.

— Acabe com esse "Majestade." Uma vez que está fazendo o papel dele, chame-me de "Willem," como ele faz. Sabia que foi por isso que eu o desmascarei?

— Não, Ma... Willem.

— Ele me chamou de Willem durante vinte anos. Achei decididamente estranho que ele não o fizesse num encontro privado, simplesmente porque me visitava sobre uma questão de Estado. Mas não suspeitei de fato; não, realmente. Mas, notável como tenha sido seu desempenho, ele me pôs uma pulga atrás da orelha. Depois, quando fomos ver os trens de brinquedo, tive certeza.

— Desculpe-me, mas como?

— Você foi polido, homem! Eu lhe mostrei meus trens antes — e ele sempre se vingava, sendo tão rude quanto possível sobre essa maneira de um homem feito botar fora seu tempo. Era um pequeno ato que sempre encenávamos. Nós dois apreciávamos essa brincadeira.

— Oh, eu não sabia.

— Como é que você podia ter sabido?

Eu estava pensando que devia ter sabido, que aquele maldito "Arquivo Farley" devia ter-me dito... Só mais tarde compreendi que o arquivo não era falho, tendo em vista a teoria em que se baseia, isto é, destina-se a lembrar a um homem famoso de detalhes sobre os menos famosos. Naturalmente, Bonforte não precisava de notas para recordar-se de detalhes pessoais sobre Willem! Nem consideraria correto anotar assuntos pessoais a respeito do Soberano num arquivo que era manuseado por escriturários.

Eu errara no óbvio, embora não visse naquele momento como podia tê-lo evitado, mesmo que houvesse compreendido que o arquivo estava incompleto.

O Imperador, porém, continuava a falar:

— Você fez um trabalho magnífico. Depois de arriscar a vida num ninho marciano, não me surpreende que estivesse disposto a me enfrentar. Diga-me uma coisa, já se viu em estéreo ou em qualquer outro veículo?

Eu dera meu nome civil, claro, quando o Imperador o exigira. Naquele momento, tímido, dei-lhe meu nome artístico. Ele me fitou, lançou os braços para o ar e soltou uma gargalhada. Fiquei um pouco magoado.

— Já ouviu falar em mim?

— Se ouvi? Eu sou um de seus fãs mais fiéis. — Examinou-me com toda atenção. — Mas você ainda se parece com Joe Bonforte. Não posso acreditar que seja Lorenzo.

— Mas eu sou.

— Oh, acredito, acredito. Lembra-se daquele número em que você é um vagabundo? Em primeiro lugar, tenta ordenhar uma vaca, e não consegue. E termina comendo no prato de um gato, mas até mesmo o gato o expulsa, lembra-se?

Admiti que me lembrava.

— Eu quase gastei todo o carretel que traz aquele número. Eu rio e choro ao mesmo tempo.

— É essa a idéia. — Hesitei e depois confessei que a seqüência do celeiro de "Willie Cansado" fora copiada de um grande artista de outro século. — Mas eu prefiro papéis dramáticos.

— Como este agora?

— Bem ... não, exatamente. Para este papel, uma vez só é suficiente. Eu não gostaria de uma temporada longa.

— Acho que não. Bem, diga a Roger Clifton ... Não, não aiga coisa alguma a ele. Lorenzo, não vejo coisa alguma a ganhar dizendo à pessoa alguma o que conversamos nesta última hora. Se contar a Clifton, mesmo que lhe diga que eu lhe disse para não se preocupar, isso apenas o fará ficar nervoso. E ele tem trabalho a fazer. Assim, vamos conservar isso entre nós, sim?

— Como meu Imperador desejar.

— Nada disso, por favor. Vamos manter isso em sigilo porque é melhor assim. É uma pena que eu não possa fazer uma visita de doente ao Tio Joe. Não que eu pudesse ajudá-lo — embora, antigamente, se pensasse que o "Toque do Rei" obrava maravilhas. Assim, vamos ficar calados e fingir que eu nunca descobri coisa alguma.

— Sim ... Willem.

— Acho que é melhor você ir agora. Tomei muito de seu tempo.

— Se é esse seu desejo.

— Vou mandar Pateel acompanhá-lo ... ou você conhece o caminho por aqui? Mas, apenas um momento... — Procurou alguma coisa na escrivaninha, falando baixo consigo mesmo: — Aquela pequena deve ter andado fazendo arrumação por aqui outra vez. Não... aqui está. — Puxou de baixo de uma pilha um caderninho. — É provável que não o veja outra vez... e, assim, você se importaria de me dar seu autógrafo antes de sair?

Rog e Bill roíam as unhas na sala de estar do nível superior dos apartamentos de Bonfort. No mesmo instante em que entrei, Corpsman aproximou-se de mim.

— Onde, diabo, esteve você?

—- Com o Imperador — respondi friamente.

— Você demorou seis vezes mais do que devia.

Não me dei ao trabalho de responder. Desde a discussão sobre o discurso, havíamo-nos dado mais ou menos e trabalhado juntos, mas num estrito casamento de conveniência, sem amor. Cooperávamos, mas não enterramos de fato a machadinha — a menos que fosse entre minhas espáduas. Não fiz esforço especial algum para apaziguá-lo e não vi razão para fazê-lo — na minha opinião os pais dele haviam-se encontrado apenas por um curto instante num baile à fantasia.

Eu não acredito em brigas com outros membros da companhia, mas o único comportamento que Corpsman queria aceitar de bom grado de minha parte era o de empregado doméstico, chapéu na mão, muito muito humilde, sim, senhor. Eu não lhe daria esse gosto nem mesmo para manter a paz. Eu era um profissional, conservado para fazer um trabalho profissional muito difícil e os profissionais não usam a porta dos fundos. São tratados com respeito.

Ignorei-o, em vista disso, e perguntei a Rog:

— Onde está Penny?

— Com ele. E também Dak e o doutor, neste momento.

— Então ele está aqui?

— Está. — Clifton hesitou por um instante. — Nós o levamos para o quarto reservado à esposa na suíte. É o único local onde podemos conservá-lo em total privacidade e ainda dar-lhe todo o cuidado de que ele precisa. Espero que não se importe.

— Em absoluto.

— Não vai causar-lhe incômodo algum. Os dois quartos são ligados, como deve ter notado, pelos quartos de vestir, e fechamos aquela porta. É à prova de som.

— Parece um bom arranjo. Como está ele? Clifton tornou-se carrancudo.

— Melhor, muito melhor... de modo geral. Permanece lúcido a maior parte do tempo. — Hesitou. — Pode ir vê-lo, se quiser.

Eu hesitei ainda mais do que ele.

— Quando é que o Dr. Capek pensa que ele estará em condições de fazer aparecimentos públicos?

— É difícil dizer. Talvez daqui a bastante tempo.

— Quanto tempo? Três ou quatro dias? Um prazo bem curto para cancelar todos os encontros e simplesmente me colocar fora de vista? Rog, eu não sei como deixar isto bem claro, mas, por mais que eu gostasse de ir visitá-lo e apresentar-lhe meus respeitos, acho que não será bom que eu o veja até que tenha feito meu último aparecimento. Isso bem que pode arruinar minha caracterização. — Eu cometera o erro terrível de ir ao enterro de meu pai; durante anos depois disso, quando pensava nele, via-o sempre deitado no caixão. Só aos poucos consegui recuperar sua verdadeira imagem — o homem viril, dominador, que me criara com mão firme e me ensinara a arte. Receava que alguma coisa semelhante acontecesse no caso de Bonforte. Eu estava personificando um homem sadio, no auge de seus poderes, da maneira como o vira e ouvira em um sem-número de gravações em estéreo. Tinha grande receio de que, se o visse doente, a recordação desse estado me prejudicasse o desempenho.

— Eu não estava insistindo — respondeu Clifton. — Você sabe o que é melhor fazer. É possível que possamos evitar que você volte a reaparecer em público, mas gostaria que ficasse de sobreaviso até que ele esteja plenamente recuperado.

Quase lhe disse que o Imperador queria que fosse assim. Mas me contive a tempo — o choque de o Imperador ter-me reconhecido havia-me abalado um tanto a caracterização. Mas esse pensamento lembrou-me de um trabalho ainda por fazer. Tirei do bolso a lista revisada do Gabinete e entreguei-a a. Corpsman.

— Aqui está a lista aprovada para entrega às agências de notícias, Bill. Você vai notar que há uma mudança nela — De Ia Torre no lugar de Braun.

— O quê!

— Jesus de Ia Torre no lugar de Lothar Braun. Foi assim que o Imperador quis.

Clifton pareceu atônito; Corpsman, atônito e furioso.

— Que diferença faz isso? Ele não tem droga de direito algum de manifestar opiniões!

Devagar, Clifton disse:

— Bill tem razão, Chefe. Como advogado especializado em Direito Constitucional, garanto-lhe que a confirmação pelo Soberano é puramente formal. Não devia ter deixado que ele fizesse qualquer mudança.

Senti vontade de berrar com eles, e só a personalidade calma, implantada, de Bonforte evitou que eu fizesse isso. Eu tivera um dia cansativo e, a despeito do desempenho brilhante, o desastre inevitável me ocorrera. Queria dizer a Rog que se Willen não fosse na verdade o grande homem que era, rei no melhor sentido da palavra, todos nós estaríamos metidos numa fria — apenas porque eu não fora adequadamente preparado para o papel.

— Isso foi feito e isso é tudo.

— Isso é o que você pensa! — rugiu Corpsman. — Há duas horas eu dei a lista correta aos repórteres. Agora, você tem que voltar e corrigir essa trapalhada. Rog, é melhor você telefonar agora mesmo para o palácio e ...

— Cale a boca! — berrei.

Corpsman calou-se. Eu continuei em tom mais calmo:

— Rog, do ponto de vista constitucional, você pode ter razão. Eu não sei. Tudo o que sei é que o Imperador achou que podia questionar a indicação de Braun. Bem, se qualquer um de vocês quiser ir procurá-lo e discutir com ele, isso cabe a vocês decidir. Mas eu não vou a parte alguma. Vou tirar esta anacrônica camisa-de-força, chutar para longe os sapatos e tomar um grande drinque. Depois, vou dormir.

— Espere um momento, Chefe — objetou Clifton. — O senhor tem que aparecer por cinco minutos numa grande rede a fim de anunciar o novo Gabinete.

— Você faz isso. Você é o Vice-Primeiro-Ministro deste Gabinete.

Ele pestanejou e disse:

— Muito bem.

— E Braun? — insistiu Corpsman. — Nós lhe prometemos o cargo.

Clifton olhou-o pensativo:

— Não, em qualquer dos despachos que eu tenha visto, Bill. Ele foi simplesmente perguntado se estava disposto a servir, como todos os demais. É isso o que você quer dizer?

Corpsman hesitou como um ator não muito seguro de suas falas.

— Claro. Mas isso eqüivale a uma promessa.

— Não, até que se faça uma declaração pública.

— Mas a divulgação já foi feita, eu lhe digo. Há duas horas.

— Hummm... Bill, receio que você tenha que chamar de volta os rapazes e dizer que cometeu um erro. Ou eu os chamarei e lhes direi que, devido a um erro, foi entregue a eles uma lista preliminar, antes que o Sr. Bonforte a houvesse aprovado. Mas temos que corrigir isso antes do pronunciamento na grande rede.

— Você vai me dizer que permitirá que ele se safe com isso?

Por "ele" Bill referia-se a mim, e não a Willem, embora a resposta de Rog presumisse o contrário:

— Sim, Bill, esta não é a ocasião para provocar uma crise constitucional. O problema não vale isso. Assim, quer fazer o favor de escrever a retificação? Ou eu a farei?

A expressão de Corpsman lembrou-me a maneira como um gato se submete ao inevitável — "apenas por pouco". Sombrio, encolheu os ombros e disse:

— Eu faço isso. Quero ter uma droga de certeza de que a nota vai ser escrita corretamente, de modo que possamos salvar o que for possível dos destroços.

— Obrigado, Bill — disse Rog, suavemente.

Corpsman virou-se para sair. Chamei-o:

— Bill! Já que você vai falar com as agências de notícias, eu tenho outro pronunciamento para elas.

— Hein? O que é que você está pretendendo fazer agora?

— Nada de mais. — O fato é que eu me senti subitamente dominado pelo cansaço do papel e da tensão que ele criava. — Simplesmente diga a eles que o Sr. Bonforte está resfriado e que o médico mandou que ele guardasse repouso, na cama. Estou com o saco cheio.

— Acho que vou dizer "pneumonia" — rosnou Corpsman.

— Faça o que quiser.

Logo que ele saiu, Rog virou-se para mim e disse:

— Não deixe que isso lhe dê nos nervos, Chefe. Neste negócio, alguns dias são melhores do que outros.

— Rog, eu vou entrar realmente na lista dos doentes e nela ficar. Pode mencionar isso no estéreo hoje à tarde.

— E depois?

— Vou para a cama e ficar nela. Não há motivo algum para Bonforte não "ter um resfriado" até que possa voltar ao trabalho. Todas as vezes que faço um aparecimento, isso aumenta as probabilidades de que alguém descubra algo de errado — e todas as vezes que apareço em público, aquele ressentido Corpsman descobre alguma coisa para criticar. Um artista não pode realizar seu melhor trabalho com alguém rosnando para ele o tempo todo. Assim, vamos parar por aqui e deixar o pano descer.

— Acalme-se, Chefe. A partir de agora, vou conservar Corpsman longe do senhor. Aqui não vamos ficar um no colo do outro, como na espaçonave.

— Não, mesmo, Rog. Eu já me decidi. Oh, não vou fugir de vocês. Ficarei até que o Sr. B. possa receber visitas, no caso de haver alguma emergência — e lembrei-me, pouco à vontade, que o Imperador me dissera para agüentar e que supusera que eu faria isso — mas é realmente melhor que eu me conserve fora de circulação. No momento, conseguimos nos safar sem problemas, não? Oh, eles sabem — alguém sabe que Bonforte não foi o homem que passou pela cerimônia de adoção, mas não ousam levantar a questão nem podem prová-la, se a levantassem. As mesmas pessoas podem desconfiar que um substituto foi usado hoje, mas não sabem, não podem ter certeza — porque é sempre possível que Bonforte se tenha recuperado com rapidez suficiente para ter dado conta do recado. Certo?

Clifton assumiu uma expressão estranha, meio tímida.

— Receio que eles estejam mais ou menos convencidos de que o senhor era um substituto, Chefe.

— Como?

— Nós retocamos a verdade um pouco para evitar que o senhor ficasse nervoso. O Dr. Capek convenceu-se, desde a primeira vez que o examinou, de que só um milagre poderia colocá-lo em forma para a audiência de hoje. As pessoas que o drogaram saberiam disso também.

Fechei a cara.

— Então você me enganou quando disse que ele ia bem? Como é que está ele, Rog? Conte a verdade.

— Eu estava dizendo-lhe a verdade daquela vez, Chefe. Foi por isso que sugeri que o fosse ver, quando anteriormente ficara feliz com sua relutância em vê-lo. — Interrompeu-se e depois acrescentou: — Talvez seja melhor ir vê-lo, conversar com ele.

— Hummmm.

Aplicavam-se ainda as razões para não ir vê-lo; se eu fosse fazer outro aparecimento, não queria que o subconsciente fizesse truques comigo. O papel exigia um homem em perfeito estado de saúde.

— Mas, Rog, tudo o que eu disse aplica-se ainda mais em vista do que você acaba de dizer. Se eles estiverem mesmo bastante convencidos de que hoje foi usado um substituto, então não devemos arriscar-nos a outra aparição pública. Hoje eles foram tomados de surpresa, ou talvez fosse impossível para eles desmascarar-me, nas circunstâncias. Mas não será assim mais tarde. Podem arquitetar alguma armadilha, algum teste no qual eu não possa passar, e então, vai tudo pelos ares! E era uma vez o jogo! — Pensei por um momento no caso. — É melhor que eu fique "doente" por tanto tempo quanto necessário. Bill tinha razão. É melhor que seja "pneumonia".

Tal é o poder da sugestão que acordei na manhã seguinte com o nariz entupido e a garganta ardendo. O Dr. Capek medicou-me com todo cuidado e à hora da ceia eu me sentia quase humano. Não obstante, ele expediu boletins informando que "O Sr. Bonforte se encontra acometido de uma virose". Sendo o que são as cidades hermeticamente fechadas e arcondicionadas da Lua, ninguém sentiu maior interesse em se expor a uma doença transmitida pelo ar e nenhum grande esforço foi feito para cruzar a barreira de meus acompanhantes. Durante quatro dias cocei o saco e li na biblioteca de Bonforte, tanto seus documentos pessoais completos como os numerosos livros de sua autoria... Descobri que Política e Economia podem constituir leituras fascinantes; antes, esses assuntos jamais haviam entrado nas minhas cogitações. O Imperador enviou-me flores da estufa real — ou elas eram destinadas a mim mesmo?

Não importava. Deitei e rolei, no luxo de ser outra vez Lorenzo ou mesmo o simples Lawrence Smithe. Descobri, no entanto, que automaticamente voltava a personificar Bonforte se entrava alguém, mas não podia evitar isso. Mas não era necessário: não via ninguém, senão Penny e Capek, exceto uma única visita de Dak.

Mas descobri que mesmo os comedores de lótus podem enfarar-se. No quarto dia estava tão cansado daquele quarto como jamais estivera da sala de espera de um produtor e me sentia solitário. Ninguém jamais se importava comigo; as visitas de Capek haviam sido curtas e profissionais e as de Penny breves e poucas. Deixaram de me chamar de "Sr. Bonforte".

No momento em que Dak apareceu, fiquei deliciado em vê-lo.

— Dak? Quais as novidades?

— Nada de mais. Estou tentando fazer uma revisão no Tommie com uma das mãos enquanto com a outra ajudo Rog na rotina política. Organizar esta campanha vai dar úlceras nele, aposto oito contra três. — Sentou-se. — Política!

— Hummm... Dak como foi que você se meteu nisso? Sem pensar duas vezes, eu diria que os voyageurs são tão apolíticos como os atores. E você, em particular.

— Eles são e não são. Na maioria das vezes, não se importam se a escola está aberta ou não, enquanto puderem continuar a andar pelos céus. Mas para fazer isso é preciso haver carga, carga significa comércio, comércio lucrativo significa comércio livre, com naves livres para ir e vir de qualquer lugar, nada de besteira de alfândega e nenhuma área restrita. Liberdade! E lá está você, metido em política. Quanto a mim, cheguei aqui pela primeira vez para fazer parte de um grupo de pressão em prol da norma de "viagem contínua", de modo que as mercadorias num comércio triangular não tivessem que pagar duas tarifas. Era um projeto do Sr. Bonforte, claro. Uma coisa levou à outra e aqui estou eu, comandante do iate dele nos últimos seis anos e representante de meus irmãos de guilda desde a última eleição geral. — Suspirou. — Eu mesmo quase não sei como foi que isso aconteceu.

— Acho que você está doido para cair fora disso. Vai candidatar-se à reeleição?

Ele me olhou atento.

— Como? Irmão, antes de entrar na política, ninguém pode dizer que está vivo.

— Mas você disse ...

— Eu sei o que foi que eu disse. É dura, às vezes suja e sempre trabalhosa e cheia de detalhes tediosos. Mas é o único esporte para adultos. Todos os demais são jogos para crianças. Todos eles. — Levantou-se. — Tenho que correr.

— Oh, fique mais um pouco.

— Não posso. Com a reunião da Grande Assembléia amanhã, tenho que dar uma mão a Rog. Eu não devia ter parado absolutamente aqui.

— Ah, é? Eu não sabia. — Eu sabia que a G.A., a G.A. que ora se reunia, isto é, teria que reunir-se mais uma vez para aprovar o Gabinete de transição. Mas não havia pensado nisso. Era uma questão de rotina, tão dispensável como a apresentação da lista ao Imperador. — Ele vai poder comparecer?

— Não. Mas não se preocupe com isso. Rog se desculpará com a Casa pela sua — quero dizer — a ausência dele. Em seguida, lera o discurso do Ministro Supremo Designado — e Bill está trabalhando nele neste momento. Em seguida, falando por si mesmo, apresentará uma moção pedindo que o governo seja confirmado. Apoio. Nenhum debate. Aprovado. Os trabalhos são suspensos sine die, todo mundo corre para casa e começa a prometer aos eleitores duas mulheres em cada cama e cem imperiais todas as manhãs de segunda-feira. Rotina. — E acrescentou: — Oh, sim! Algum membro do Partido da Humanidade apresentará uma resolução de simpatia e enviará uma cesta de flores, o que será um lindo gesto de hipocrisia. Eles prefeririam enviar flores ao enterro de Bonforte.

E fechou a cara.

— É mesmo tão simples assim? O que aconteceria se a regra de voto por procuração fosse contestada? Eu pensava que a Grande Assembléia não aceitava procurações.

— E não aceita, no que diz respeito a procedimentos comuns. Ou dois parlamentares de facções opostas fazem um acordo para se absterem de votar, ou comparecem e votam. Mas isso é apenas a roda livre girando na maquinaria parlamentar Se não deixarem que ele compareça por procuração amanhã, então vão ter que esperar até que ele esteja bom, antes de suspender os trabalhos sine die e iniciar o negócio sério de hipnotizar os eleitores. Da forma como são as coisas, um quorum falso vem-se reunindo diariamente e suspendendo a sessão desde a resignação de Quiroga. A Assembléia está tão morta como o fantasma de César, mas tem que ser enterrada constitucionalmente.

— Sim... mas suponhamos que algum idiota de jato seja contra?

— Ninguém vai fazer isso. Oh, poderia provocar uma crise constitucional. Mas isso não vai acontecer.

Nenhum de nós dois disse coisa alguma durante algum tempo. E Dak nenhum movimento fez para ir embora.

— Dak, melhoraria as coisas se eu fosse lá e fizesse aquele discurso?

— Como? Bobagem. Eu pensei que isso já estava resolvido. Você mesmo chegou à conclusão de que não era seguro fazer outro aparecimento, a não ser em caso de emergência do tipo "salvem-o-bebê". De modo geral, concordo com você.

— Sim, mas isso será apenas um passeio, não? Falas tão fixas como numa peça? Haveria alguma possibilidade de alguém me fazer uma surpresa da qual eu não pudesse me safar?

— Bem, não. De modo geral, seria de esperar que, depois, você falasse à imprensa, mas sua doença recente serve de desculpa. Poderíamos tirá-lo de lá pelo túnel de segurança e evitar inteiramente a imprensa. — Sorriu, sombriamente. — Claro, há sempre a possibilidade de que algum psicopata, na galeria dos visitantes, tenha conseguido entrar com unia arma... O Sr. B. sempre se referia a ela como "a galeria de tiro ao alvo" depois que lhe acertaram a perna atirando de lá.

Minha perna contraiu-se de repente.

— Você está querendo me fazer medo para que eu desista?

— Não.

— Você escolhe uma maneira muito engraçada de me encorajar. Dak, seja honesto comigo. Você quer que eu faça esse trabalho amanhã? Ou não?

—- Claro que eu quero! Por que, diabo, você pensa que eu parei aqui, no meio de um dia tão ocupado? Apenas para bater papo?

O Presidente pro tempore bateu com o martelo, o capelão engrolou uma invocação que evitava, com o máximo cuidado, quaisquer diferenças entre uma religião e outra, e todos caíram em silêncio. As poltronas dos representantes estavam vazias pela metade mas a galeria mal podia conter os turistas.

Ouvimos as batidas cerimoniais, amplificadas pelo sistema de alto-falantes; o Sargento-de-Armas correu para bater com a maça na porta. Três vezes o Imperador exigiu ser admitido no recinto e três vezes lhe foi recusada permissão. Em seguida, ele solicitou o privilégio, que lhe foi concedido por aclamação. Ficamos de pé enquanto Willem entrava e tomava seu lugar atrás da mesa do Presidente. Usava o uniforme de Almirante e não trazia séquito, como era do protocolo, salvo pela escolta do Presidente e do Sargento-de-Armas.

Em seguida, sobracei a arma marciana, levantei-me de meu lugar na bancada do governo e, dirigindo-me ao Presidente como se o Soberano não estivesse presente, pronunciei meu discurso. Não era o que Corpsman escrevera: aquele descera pela latrina logo que o li. Bill lhe dera a forma de um discurso claro e direto de campanha e aquele era o lugar e o tempo errados para isso.

O meu foi curto, apartidário e recheado de citações diretas das obras completas de Bonforte, uma paráfrase daquele que ele proferira quando formara um governo de transição. Defendia com sinceridade boas estradas e bom tempo e desejava que todo mundo amasse todo mundo, da mesma maneira que nós, bons democratas, amávamos nosso Soberano e ele nos amava. Era um poema lírico em versos brancos de algumas laudas, e quando se desviava do discurso anterior de Bonforte, era simplesmente para encaixar meus versos.

O Presidente teve que pedir silêncio às galerias.

Rog levantou-se e apresentou uma moção no sentido de que os nomes que eu mencionara rapidamente fossem confirmados — apoiado, nenhuma objeção e o secretário anotou a aprovação da moção. Ao tomar a direção da mesa, acompanhado por um membro de meu próprio partido e por outro da Oposição, vi representantes consultando seus relógios e se perguntando se ainda podiam pegar a ponte aérea do meio-dia.

Em seguida, jurei lealdade ao meu soberano, sob e sujeita a todas as limitações constitucionais, prometendo continuar a manter os direitos e privilégios da Grande Assembléia e a proteger as liberdades dos cidadãos do Império onde quer que estivessem, e de passagem, cumprir os deveres de

Ministro Supremo de Sua Majestade. O capelão confundiu-se uma vez no palavreado, mas eu o corrigi.

Pensei que estava me saindo com tanta facilidade como num discurso de agradecimento após descer a cortina no palco, quando descobri que chorava tanto que mal podia ver. Quando terminei, Willem disse baixinho para mim:

— Bom desempenho, Joseph.

Não sei se ele pensava estar falando comigo ou com seu bom amigo, e não me importei. Não enxuguei as lágrimas; deixei que continuassem a rolar quando me voltei para a Assembléia. Esperei que Willem saísse e, em seguida, suspendi os trabalhos.

A Diana, Ltd., pôs em serviço quatro ônibus espaciais extras naquela tarde. Nova Batávia ficou deserta, quero dizer, nela ficaram apenas a corte e um milhão, mais ou menos, de açougueiros, padeiros, fabricantes de velas e servidores públicos que sobraram do êxodo — e um Gabinete de transição.

Tendo ficado bom do "resfriado" e aparecido em público, na Grande Assembléia, não fazia mais sentido continuar escondido. Como presumido Ministro Supremo eu não podia, sem provocar comentários, não mais ser visto; como chefe nominal de um partido político prestes a iniciar campanha para uma eleição geral, tinha que receber pessoas, pelo menos algumas. Assim, fiz o que tinha a fazer e passei a receber um boletim diário do progresso de Bonforte para a recuperação completa. O progresso era bom, embora lento; Capek comunicou que era possível, se absolutamente necessário, deixá-lo aparecer em público a qualquer momento, mas que era contra isso; ele perdera quase dez quilos e sua coordenação motora continuava ruim.

Rog fez todo o possível para nos proteger, aos dois. O Sr. Bonforte sabia agora que um substituto seu estava sendo usado e, após a explosão inicial de indignação, curvara-se à necessidade e aprovara a medida. Rog dirigia a campanha, consultando-o apenas em questões de alta política e, em seguida, passando-me as respostas para divulgação pública, quando necessário.

A proteção que me era dada, porém, continuava tão rigorosa como a que ele recebia. Era tão difícil alguém me ver como ver um agente secreto de alta classe. Meu escritório penetrava na montanha, do lado oposto aos apartamentos do líder da Oposição (não nos mudamos para as acomodações mais palacianas do Ministro Supremo; embora isso tivesse sido oficial, simplesmente "não era feito" durante um regime de transição); não podia ser alcançado por trás, vindo alguém diretamente da sala de estar do nível mais baixo. Para chegar a mim vindo pela entrada pública, o indivíduo teria que passar por cinco pontos de controle, exceto os poucos privilegiados, que eram conduzidos diretamente através de um túnel secundário para o escritório de Penny e dele para o meu.

Graças a essa organização, eu podia estudar o "Arquivo Farley" antes que alguém entrasse para me visitar. Podia mesmo conservá-lo à minha frente enquanto o visitante estivesse comigo, pois a escrivaninha possuía um visor rebaixado que o visitante não podia ver, mas que eu podia desativar imediatamente se ele fosse desses de andar de um lado para outro. O visor tinha outros usos: Rog podia dar ao visitante o tratamento especial, trazendo-o logo para me ver, deixá-lo comigo, e parar no escritório de Penny e me mandar um bilhete, que era projetado no visor, com avisos como: "Agrade-o à vontade mas não lhe prometa coisa alguma", ou: "Tudo o que ele realmente quer é que a mulher dele seja apresentada à corte. Prometa-lhe isso e livre-se dele", ou mesmo: "Calma com esse aí. É de um distrito decisivo e mais sabido do que parece. Mande-o para mim e eu trato dele".

Não sei quem dirigia o governo. Os servidores graduados de carreira, provavelmente. Todas as manhãs havia uma pilha de documentos em minha mesa. Desenhava neles a assinatura descuidada de Bonforte e Penny os levava. O próprio tamanho da maquinaria imperial me desanimava. Certa vez, quando tivemos que comparecer a uma reunião fora do gabinete, Penny levou-me pelo que chamou de atalho, passando pelos Arquivos Públicos — quilômetros e mais quilômetros de arquivos, todos eles abarrotados de microfilmes e todos eles se movendo sobre correias transportadoras rápidas, de modo que o funcionário não tivesse que passar o dia inteiro para consultar um deles.

Penny, porém, disse-me que me levara apenas através de uma das alas. O arquivo dos arquivos, disse, ocupava uma caverna do tamanho da Grande Assembléia. Fiquei satisfeito porque governo não era carreira para mim, mas apenas um hobby passageiro, por assim dizer.

Receber pessoas era um trabalho maçante mas inevitável, na maior parte inútil, uma vez que Rog, ou Bonforte por intermédio de Rog, tomava as decisões. Meu verdadeiro trabalho consistia em fazer discursos eleitorais. Fora espalhado um discreto boato de que meu médico receava que meu coração houvesse sido forçado pela "virose" e que me aconselhara a permanecer na baixa gravidade da Lua durante toda a campanha. Eu não ousava levar a personificação a uma excursão pela Terra, e muito menos a uma viagem a Vênus; o sistema Farley desmoronaria se eu tentasse misturar-me com multidões, para nada dizer dos perigos desconhecidos dos pelotões de brutamontes dos Ativistas — e o que eu falaria com uma dose mínima de neodexocaína no prosencéfalo nenhum de nós gostava de pensar, e eu menos que todos.

Quiroga andava visitando todos os continentes da Terra, transformando seus aparecimentos no estéreo em compare-cimento pessoal a palanques, frente a frente com as multidões. Isso, porém, não preocupava Roger Clifton. Encolheu os ombros e disse:

— Deixe-o. Não há novos votos a serem ganhos com aparecimentos pessoais em comícios. Tudo o que isso faz é cansar o orador. A esses comícios comparecem apenas correligionários.

Tive esperança de que ele soubesse o que dizia. A campanha foi curta, apenas seis semanas desde a renúncia de Quiroga até o dia em que ele marcara para a eleição, antes de renunciar, e eu falava quase todos os dias, ou numa grande rede, ou em discursos gravados e enviados para liberação posterior perante platéias selecionadas. Havíamos estabelecido uma rotina: entregavam-me um esboço, talvez escrito por Bill Corpsman, embora eu nunca o visse, e eu o reescrevia. Rog levava o texto revisado. Em geral, voltava aprovado — e uma vez por outra havia correções feitas no cursivo de Bonforte, nesse instante tão desleixado a ponto de ser quase ilegível.

Eu jamais improvisava nas partes que ele corrigia, embora o fizesse no tocante ao resto, quando se começa a rolar há com freqüência uma maneira melhor e mais viva de dizer a coisa. Comecei a notar a natureza de suas correções: eram quase sempre eliminações de qualificativos — faça isso mais direto, faça-os gostar ou não.

Após algum tempo, diminuíram as correções. Eu estava pegando o jeito da coisa.

Mas continuava sem vê-lo, nunca. Achava que não "podia usar-lhe a cabeça" se o visse em seu leito de doente. Mas eu não era o único de sua família mais íntima que não o via. Capek cortara a presença de Penny, para o próprio bem dela. Eu não sabia disso na ocasião. Na verdade, sabia que ela se tornara irritável, distraída e macambúzia depois que chegáramos a Nova Batávia. Tinha olheiras que pareciam as de um quati, isso eu não podia deixar de ver, mas atribuía-o às pressões da campanha, além da sua preocupação com a saúde de Bonforte. Mas eu estava apenas parcialmente certo. Capek notou esses sintomas e agiu, colocou-a sob leve hipnose e interrogou-a, e depois proibiu-a terminantemente de visitar outra vez Bonforte até que eu tivesse terminado meu trabalho e fosse mandado embora.

A pobre moça estava ficando quase louca com as visitas ao leito de doente do homem que amava sem esperanças, e depois ter que ir trabalhar com um homem que parecia, falava e emitia sons iguais aos dele, mas em boa saúde. Com toda probabilidade, ela estava começando a me odiar.

O bom velho Dr. Capek chegou à raiz de seu problema, deu-lhe algumas úteis e tranqüilizadoras sugestões pós-hipnóticas e depois disso conservou-a longe do quarto do enfermo. Naturalmente, na ocasião não me contaram coisa alguma a esse respeito. Eu não tinha nada a ver com isso. Penny, porém, animou-se e mais uma vez voltou a ser aquela pessoa agradável e incrivelmente eficiente.

Mas isso fez um bocado de diferença para mim. Vamos reconhecer: pelo menos duas vezes eu teria caído fora daquela incrível luta de vida ou morte se não houvesse sido por causa de Penny.

Havia um tipo de reunião à qual eu tinha que comparecer, a da comissão executiva do partido. Uma vez que o Partido Expansionista era minoritário, sendo apenas a parte mais numerosa de uma coalizão de vários partidos mantidos juntos apenas pela liderança e personalidade de John Joseph Bonforte, eu tinha que fazer as vezes dele e servir xarope calmante àquelas primas donnas. Para elas fui instruído com penoso cuidado. Rog sentava-se ao meu lado, de onde podia dar-me orientação correta, se eu hesitasse. Mas a tarefa não podia ser delegada.

Menos de duas semanas antes da eleição, devíamos comparecer a uma reunião em que seriam distribuídos os distritos seguros. A organização dispunha sempre de trinta ou quarenta distritos que podiam ser usados para tornar alguém elegível para um cargo no Gabinete ou fornecer uma secretária política (uma pessoa como Penny era mais valiosa se ele ou ela estivessem plenamente qualificados, capazes de apresentar moções e falar no plenário da Assembléia, tivesse o direito de estar presentes a reuniões privativas, e assim por diante) ou por outras razões partidárias. O próprio Bonforte representava um distrito "seguro", o que o dispensava da necessidade de fazer campanha. Clifton, outro. Dak poderia ter tido um deles, se necessitasse, mas na verdade tinha o apoio de seus irmãos de guilda. Rog insinuou-me mesmo certa vez que, se eu quisesse voltar, na minha verdadeira identidade, poderia dizer e meu nome constaria na lista seguinte.

Alguns dos cargos eram sempre reservados aos burros-de-carga do Partido, homens dispostos a renunciar e, destarte, dar ao Partido uma vaga através de uma eleição suplementar, se fosse necessário qualificar um indivíduo para um cargo no Gabinete ou qualquer outra coisa.

O sistema inteiro, no entanto, tinha um certo sabor de favorecimento político e, sendo a coalizão o que era, fazia-se necessário que Bonforte conciliasse reivindicações conflitantes e submetesse uma linha de ação à comissão executiva da campanha. Era um trabalho de última hora, a ser feito pouco antes da preparação das chapas, para levar em conta mudanças de último minuto.

No momento em que Rog e Dak entraram, eu me encontrava trabalhando num discurso e dissera a Penny para suspender tudo, salvo no caso de um incêndio de cinco alarmes. Quiroga fizera uma declaração violenta em Sydney, Austrália, na noite anterior, e de tal maneira que lhe poderíamos denunciar a mentira e fazê-lo estrebuchar. No momento eu experimentava redigir um discurso de resposta, sem esperar que me fosse submetido um esboço e eram grandes minhas esperanças de que minha versão fosse aprovada.

Logo que eles entraram, eu disse:

— Ouçam só isto — e li o parágrafo principal. — Gostam ou não?

— Isso deve pregar o couro dele na porta — concordou Rog. — Eis aqui a lista "segura", Chefe. Quer dar uma olhada nela? Devemos começar a reunião dentro de vinte minutos.

— Oh, aquela droga de reunião. Não vejo por que tenho que examinar a lista. Querem me dizer alguma coisa a respeito dela? — Não obstante, peguei-a e desci os olhos por ela. Conhecia todos eles dos "Arquivos Farley" e alguns de contatos pessoais. Sabia por que era preciso cuidar de cada um deles.

Nessa ocasião vi o nome: Corpsman, William J. Lutei para controlar o que achava que era um justificável aborrecimento e disse em voz calma:

— Estou vendo que Bill está na lista, Rog.

— Oh, está. Eu queria lhe falar sobre isso. O senhor compreende, Chefe, todos nós sabemos que tem havido certo mal-estar entre o senhor e Bill. Bem, eu não o estou censurando. Tem sido culpa de Bill. Mas há sempre dois lados em tudo. O que talvez o senhor não compreenda é que Bill vem carregando um tremendo sentimento de inferioridade, o que o torna briguento. Esta indicação deve endireitar as coisas.

— Mesmo?

— Mesmo. Isso é o que ele sempre quis. O senhor vê, todos nós temos status oficial, somos membros da G.A., quero dizer. Estou falando dos que trabalham em íntimo contato com... o senhor. Ouvi-o dizer, depois do terceiro drinque, que ele era apenas um cara alugado. Está amargurado por isso. O senhor não se importa, importa? O partido pode agüentar isso e é um preço barato pela eliminação de atritos na cúpula.

Por essa altura eu estava inteiramente sob controle.

— Esse assunto não me interessa. Por que devo preocupar-me se isso é o que o Sr. Bonforte quer?

Percebi apenas um pequeno lampejo no olhar de Dak para Clifton. Acrescentei:

— Isso é o que o Sr. B. quer, não, Rog?

— Diga a ele, Rog — falou Dak. Lentamente, disse Rog:

— Dak e eu preparamos nós mesmos esta lista. Achamos que é o melhor que pudemos fazer.

— Então o Sr. Bonforte não a aprovou? Perguntou a ele, certamente?

— Não, não perguntamos.

— Por que não?

— Chefe, este não é o tipo de coisa com que ele deva preocupar-se. Ele é um homem velho, cansado, doente. Não o aborreço com nada mais do que grandes decisões de política — o que não é o caso. E um distrito que dominamos, qualquer que seja a pessoa que venha a representá-lo.

— Neste caso, por que me pedem opinião?

— Bem, achamos que o senhor devia saber, e saber por quê. Achamos que o senhor deve aprovar essa indicação.

— Eu? Você está me pedindo uma decisão como se eu fosse o Sr. Bonforte. Bem, eu não sou. — Bati na escrivaninha à maneira nervosa dele. — Ou esta decisão é ao nível dele ou devem perguntar a ele, ou não é e nunca deviam ter perguntado a mim.

Rog mastigou o charuto e depois disse:

— Muito bem. Eu não lhe estou perguntando.

— Não!

O que é que o senhor quer dizer com isso?

— Quero dizer: Não! Você de fato me perguntou: por conseguinte, você tem dúvidas. Assim, se espera que eu apresente esse nome à comissão, como se eu fosse Bonforte, então vá lá dentro e pergunte a ele.

Eles continuaram sentados e calados. Finalmente, Dak suspirou e disse:

— Conte o resto, Rog, ou eu contarei.

Esperei. Clifton tirou o charuto da boca e disse:

— Chefe, o Sr. Bonforte teve um derrame cerebral há quatro dias. Não está em condições de ser perturbado.

Permaneci imóvel e recitei para mim uma poesia inteira de Edgar Allan Poe. Quando recuperei a forma, disse:

— Como é que está a mente dele?

— Aparentemente, bastante clara, mas ele está terrivelmente cansado. Aquela semana como prisioneiro foi uma provação muito maior do que pensamos. O derrame deixou-o em coma durante vinte e quatro horas. Passou essa fase, mas ele tem o lado esquerdo do rosto paralisado e todo o lado esquerdo do corpo está parcialmente atingido.

— O que é que o Dr. Capek diz?

— Ele acha que quando o coágulo se dissolver, ninguém vai notar a diferença. Mas ele vai ter que levar uma vida mais controlada do que aquela a que ele estava acostumado. Mas, Chefe, neste instante ele está doente. Vamos ter simplesmente que continuar sem ele no que resta da campanha.

Senti uma pontada daquele mesmo sentimento de perda que senti quando meu pai morreu. Eu nunca vira Bonforte em minha vida, nada recebera da parte dele além de algumas correções rabiscadas num texto datilografado. Mas, de outras maneiras, eu dependia dele. O fato de ele estar naquele quarto ao lado tornara toda esta coisa possível.

Tomei uma profunda respiração, soltei-a e disse:

— Muito bem, Rog. Vamos ter que fazer isso.

— Sim, Chefe. — Levantou-se. — Temos que ir àquela reunião. Que me diz disso?

Com a cabeça indicou a lista dos distritos seguros.

— Oh. — Fiz um esforço para pensar. Talvez fosse possível que Bonforte recompensasse Bill com o privilégio de chamar a si mesmo de "o Honorável", apenas para fazê-lo feliz. Ele não era mesquinho a respeito dessas coisas: não amarrava a boca das vacas que moíam o grão. Em um de seus ensaios políticos ele escreveu: "Eu não sou um intelectual. Se tenho algum talento especial, consiste ele em escolher homens capazes e deixar que eles trabalhem". — Há quanto tempo Bill está com ele? — perguntei.

— Há uns quatro anos. Um pouco mais. Bonforte evidentemente lhe apreciara o trabalho.

— Isso significa depois de uma eleição geral, não? Por que, depois dela, não o fez representante numa eleição suplementar?

— Bem, não sei. Esse assunto nunca foi discutido.

— Quando foi que Penny foi incluída?

— Mais ou menos há três anos. Numa eleição suplementar.

— Aí você tem sua resposta, Rog.

— Não estou entendendo.

— Bonforte poderia ter feito Bill representante na Grande Assembléia em qualquer ocasião que quisesse. Mas resolveu não fazer isso. Mude essa designação para um "renunciante". Em seguida, se o Sr. Bonforte quiser que Bill seja premiado, ele pode providenciar uma eleição suplementar para ele mais tarde, quando ele estiver de plena posse de suas faculdades.

Na fisionomia de Clifton não transpareceu expressão alguma. Meramente recolheu a lista e disse:

— Muito bem, Chefe.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Bill exonerou-se. Acho que Rog teve que dizer-lhe que sua grosseria não dera certo. Mas quando Rog me contou, senti-me doente, compreendendo que minha atitude inflexível nos colocara a todos em grave perigo.

— Mas ele sabe de tudo! Desde o início, foi plano dele. Lembre-se só do volume de lixo que ele pode levar para o campo do Partido da Humanidade.

— Esqueça isso, Chefe. Bill pode ser um cara ordinário, e não me serve um homem que desiste no meio de uma campanha. Apenas, não se faz isso, nunca. Mas ele não é um rato. Na profissão dele, não se revelam segredos das fontes, mesmo que se brigue com elas.

— Tomara que você tenha razão.

— O senhor vai ver. Não se preocupe com isso. Simplesmente, dê prosseguimento ao trabalho.

Passados alguns dias, cheguei à conclusão de que Rog conhecia Bill mais do que eu. Nada ouvimos da parte dele ou sobre ele e a campanha continuou como antes, tomando-se mais violenta a cada instante, mas sem o menor indício de que nossa imensa fraude corria perigo. Comecei a sentir-me melhor e dediquei-me a preparar os melhores discursos de Bonforte de que era capaz, às vezes com a ajuda de Rog; outras apenas com sua anuência. O Sr. Bonforte começava mais uma vez a melhorar sem recaídas, mas Capek conservava-o em repouso absoluto.

Rog tivera que ir à Terra na última semana; há tipos de trabalho de conciliação que simplesmente não podem ser feitos por controle remoto. Afinal de contas, os votos vinham de distritos e os cabos eleitorais querem mais do que oradores. Mas os discursos ainda precisavam ser feitos e a imprensa recebida para entrevistas. Continuei a trabalhar, com a ajuda de Dak e Penny, e naturalmente eu estava muito mais integrado no papel. Podia responder à maioria das perguntas sem ter que parar para pensar.

Houve a habitual conferência bi-semanal no escritório, no dia em que Rog devia voltar. Estivera alimentando a esperança de que ele chegasse a tempo, embora não houvesse razão para que eu não me desincumbisse de tudo sozinho. Penny entrou à minha frente levando seu equipamento. Ouvi-a arquejar.

Olhei em volta da sala, como sempre, e disse:

— Bom dia, cavalheiros.

— Bom dia, Sr. Ministro — respondeu a maioria.

—- Bom dia, Bill — acrescentei. — Não sabia que você estava aqui. Quem é que você está representando?

Os jornalistas presentes concederam-lhe um silêncio sepulcral para que ele respondesse. Todos ali sabiam que Bill nos deixara — ou fora demitido. Ele sorriu alegremente para mim e respondeu:

— Bom dia, Senhor Bonforte. Estou trabalhando para o Krein Syndicate.

Tive certeza nesse momento de que a coisa ia explodir, mas esforcei-me para não lhe dar a satisfação de mostrar que eu sabia.

— Uma excelente organização. Tomara que eles lhe estejam pagando o que você merece. Agora, ao que interessa ... As perguntas escritas, em primeiro lugar. Você as tem, Penny?

Passei rápido pelas perguntas, dando as respostas que já tivera tempo de elaborar, depois recostei-me, como sempre, e disse:

— Temos ainda tempo para conversar um pouco, cavalheiros. Mais alguma pergunta?

Houve diversas. Fui obrigado a responder "Sem comentários" apenas uma vez, resposta essa que Bonforte preferia a uma resposta ambígua. Finalmente, lancei um olhar ao relógio e disse:

— Isto será tudo por esta manhã, senhores — e comecei a levantar-me.

— Smythe! — zurrou Bill.

Continuei a me levantar e nem olhei para ele.

— Estou-me referindo a você, Sr. Falso Bonforte-Smythe! — continuou ele furioso, elevando ainda mais a voz.

Desta vez fitei-o, espantado, justamente no grau apropriado, acho, a um dignitário importante que é submetido a tratamento rude em circunstâncias inaceitáveis. Bill apontava-me o dedo e tinha o rosto vermelho.

— Seu impostor! Seu atorzinho de meia tigela! Seu embusteiro!

O representante do Times de Londres, à minha direita, disse em voz tranqüila:

— Quer que eu chame o guarda, senhor?

— Não — respondi. — Ele é inofensivo.

Bill gargalhou.

— Então eu sou inofensivo, hein? Você vai ver se sou.

— Eu realmente acho que devia chamar o guarda, senhor — insistiu o homem do Times.

— Não. — E, em seguida, secamente: — Isso basta, Bill. Seria melhor que você fosse embora tranqüilamente.

— Mas não é isso mesmo o que você deseja?

E começou a vomitar as partes principais da história, falando em voz muito rápida. Não fez menção alguma do seqüestro nem citou sua parte na fraude, mas insinuou que nos deixara, de preferência a envolver-se numa tramóia como essa. A substituição foi atribuída, corretamente até aonde ele quis ir, à doença de Bonforte, com uma forte insinuação de que nós poderíamos tê-lo drogado.

Escutei com toda paciência. A maior parte dos repórteres simplesmente escutou no princípio aquela tirada, com a expressão atordoada de estranhos que assistem, sem querer, a uma feia briga de família. Em seguida, alguns deles começaram a rabiscar notas ou a ditar aos microfones.

Quando ele terminou, perguntei:

— Acabou, Bill?

— Isso foi suficiente, não?

— Mais do que suficiente. Sinto muito, Bill. Isto é tudo, senhores. Preciso voltar ao trabalho.

— Apenas um momento, Sr. Ministro! — gritou alguém. — O senhor deseja fazer uma refutação? — E alguém acrescentou: — O senhor vai processá-lo?

Respondi à última pergunta:

— Não, não vou processá-lo. Ninguém processa um homem doente.

— Doente, eu? — urrou Bill.

— Acalme-se, Bill. Quanto a fazer uma refutação, não penso que isso se justifique em absoluto. Contudo, vi que alguns dos senhores andaram tomando notas. Conquanto eu duvide que seus editores publiquem essa matéria, se o fizerem, a anedota seguinte poderá acrescentar a ela alguma coisa. Já ouviram a história do professor que passou quarenta anos de vida provando que a Odisséia não foi escrita por Homero, mas por outro grego que tinha o mesmo nome?

Consegui provocar um riso polido. Sorri e comecei mais uma vez a me virar para sair. Bill veio correndo até a mesa e agarrou-me o braço.

— Você não vai sair desta com uma risada!

O representante do Times, Sr. Ackroyd, era esse o nome dele, puxou-o para longe de mim.

— Obrigado, senhor — disse eu. E para Corpsman acrescentei: — O que é que você quer que eu faça, Bill? Tentei evitar que você fosse preso.

— Chame os guardas se quiser, seu impostor! Veremos quem fica mais tempo na cadeia! Espere só até que tirem suas impressões digitais!

Suspirei e disse o eufemismo de minha vida:

— Isto está deixando de ser uma brincadeira. Cavalheiros, acho melhor eu pôr um fim a isto. Penny, minha querida, quer por favor pedir a alguém que traga aqui equipamento para tirar impressões digitais?

Eu sabia que estava liquidado, droga, mas se a gente é flagrado, pelo menos deve a si mesmo ficar em posição de sentido enquanto o navio afunda. Até mesmo um vilão deve fazer uma boa saída de cena.

Bill não esperou. Agarrou o copo d'água que estivera à minha frente na mesa. Eu bebera nele várias vezes.

— O diabo que leve esse equipamento! Isto aqui serve.

— Eu lhe disse antes, Bill, para policiar sua linguagem em frente de senhoras. Mas pode ficar com o copo.

— E você não tenha mesmo a mínima dúvida de que vou ficar com ele.

— Muito bem. Por favor, vá, agora. Senão, serei obrigado a chamar um guarda.

Ele saiu. Ninguém pronunciou palavra.

— Algum dos senhores deseja minhas impressões digitais?

Ackroyd respondeu rapidamente: — Oh, claro que não, Sr. Ministro.

— Oh, em absoluto! Se há alguma matéria jornalística nisto que aconteceu, os senhores não vão querer ser "furados".

Insisti, porque estava de acordo com o caráter que eu representava, e em segundo e terceiro lugar, ninguém pode estar apenas um pouco grávida ou ser ligeiramente desmascarado; e não queria que meus amigos presentes fossem "furados" por Bill. Isto era a última coisa que eu podia fazer por eles.

Não tivemos que mandar buscar o equipamento. Penny trouxera papel carbono e alguém possuía uma dessas cadernetas de notas para toda vida, com folhas de plástico. Elas aceitavam muito bem as impressões digitais. Em seguida, disse bom-dia a todos e saí.

Conseguimos chegar até o escritório particular de Penny. Logo que entramos, ela desmaiou e ficou como morta. Levei-a para meu gabinete, deitei-a no sofá, sentei-me à escrivaninha e simplesmente tremi durante vários minutos.

Nenhum de nós valeu muita coisa durante o resto do dia. Continuamos como sempre, com a exceção de que Penny despachou todos os visitantes, dando alguma desculpa. Eu devia fazer um discurso naquela noite e pensei seriamente em cancelá-lo. Mas deixei o comunicador ligado o dia todo e não ouvi uma única palavra sobre o incidente daquela manhã. Compreendi que estavam conferindo as impressões digitais antes de se arriscarem a publicar alguma coisa — afinal de contas, eu para todos os efeitos era o Primeiro-Ministro de Sua Majestade Imperial e a imprensa quereria uma prova. Assim, resolvi fazer o discurso já preparado e na hora marcada. Não podia nem mesmo consultar Dak; ele se encontrava longe, em Tycho City.

Era o melhor que eu até então preparara. Incluía nele o mesmo material que um cômico usa para combater o pânico num teatro em chamas. Depois de concluída a gravação, simplesmente enterrei o rosto nas mãos e chorei, enquanto Penny me dava palmadinhas no ombro. Não havíamos discutido em absoluto aquela horrível confusão.

Rog chegou às vinte horas de Greenwich, quando eu estava mais ou menos terminando e veio logo me ver. Em voz Monótona, contei-lhe toda a suja história. Ele escutou, mascando o charuto apagado, sua face um vazio total.

No fim, eu disse quase em tom de súplica:

— Eu tive que dar as impressões digitais, Rog. Você compreende, não? Recusar não teria sido de acordo com o caráter de Bonforte.

— Não se preocupe — disse Rog.

— Hein?

— Eu disse: "Não se preocupe". Quando os relatórios sobre aquelas impressões digitais chegarem do Bureau de Identificação, em Haia, você vai ter uma pequena mas excelente surpresa, e o nosso ex-amigo Bill uma surpresa muito maior, mas não agradável. Se ele recebeu antecipadamente algum dinheiro da traição, é provável que lhe esfolem o couro para retomá-lo. E tomara que façam isso mesmo.

Eu não podia deixar de entender o que ele estava dizendo. Mas...

— Oh! Mas, Rog... elas não vão parar aí. Há outras dezenas de lugares. Previdência Social... Hummm, um bocado de lugares.

— Você pensa, talvez, que nisso não fomos tão eficientes e exaustivos como devíamos? Chefe, eu sabia que isso podia acontecer, por este ou aquele motivo. Desde o momento em que Dak nos avisou para completar o Plano Mardi Gras, começou o necessário trabalho de cobertura. Mas não achei que fosse necessário contar isso a Bill. — Sugou o charuto apagado, tirou-o da boca, olhou-o e disse: — Pobre Bill!

Penny suspirou de leve e desmaiou outra vez.

Aos trancos e barrancos, chegamos ao dia final. Não ouvimos mais notícias de Bill e uma lista de passageiros informou que ele viajara para a Terra dois dias depois de seu fiasco. Se algum serviço noticioso divulgou alguma coisa, não soube, nem os discursos de Quiroga insinuaram coisa alguma.

O Sr. Bonforte continuou a melhorar cada vez mais até que se pôde apostar, sem medo de perder, que ele poderia assumir seus deveres após a eleição. A paralisia continuava, porém até isso fora levado em conta; ele partiria de férias depois da eleição, um costume de rotina a que se entregavam quase todos os políticos. As férias seriam a bordo do Tommie, protegido contra tudo e contra todos. Numa ocasião qualquer durante a viagem, eu seria transferido para outra nave e contrabandeado de volta para casa, e o Chefe teria um pequeno derrame provocado pela tensão da campanha.

Rog teria que reembaralhar algumas impressões digitais, mas poderia sem perigo esperar um ano ou mais para fazer isso.

No dia da eleição, senti-me tão feliz como um cachorrinho num armário de calçados. A personificação acabara, embora eu tivesse que fazer ainda um curto aparecimento. Já gravara dois discursos de cinco minutos cada para uma grande rede, o primeiro aceitando, magnânimo, a vitória e o segundo admitindo com elegância a derrota. Meu trabalho terminara. Acabada a gravação do último, agarrei Penny e beijei-a. Ela nem mesmo pareceu se importar.

A curta seqüência restante foi um desempenho obrigatório: o Sr. Bonforte quis falar comigo — como ele — antes de me deixar abandonar a personificação. Agora que passara a tensão, o encontro não me preocupava; representar a pessoa dele para distraí-lo seria como um número de comédia, exceto que eu o faria a sério. O que é que estou dizendo? Representar a sério constitui a própria essência da comédia.

A família inteira se reuniria na sala de estar do nível superior — lá, porque o Sr. Bonforte não vira o céu durante semanas e queria voltar a vê-lo — e de lá acompanharia os resultados da eleição e ou beberia à vitória ou afogaria nossas mágoas e juraria fazer melhor da próxima vez. Mas me tirem desta última parte: eu tivera minha primeira e última campanha e nada mais queria com política. Nem mesmo tinha certeza de que desejava representar outra vez. Representar durante cada minuto, durante mais de seis semanas, totaliza cerca de quinhentas representações. E isso é uma temporada um bocado comprida.

Trouxeram-no no elevador, sentado numa cadeira de rodas. Fiquei escondido, à espera de que o acomodassem num sofá, antes de fazer minha entrada. Um homem tem o direito de não ter sua fraqueza revelada a estranhos. Além disso, eu queria fazer uma entrada triunfal.

Meu espanto foi quase tanto que quase saí do papel. Ele se parecia com meu pai! Oh, era apenas uma semelhança “familiar”. Ele e eu parecíamos muito mais um com o outro do que qualquer um de nós com meu pai, mas a semelhança estava ali — e a idade era a certa, porquanto ele parecia velho. Não imaginara o quanto ele envelhecera. Estava magro e de cabelos brancos.

Tomei uma imediata nota mental de que, durante as próximas férias no espaço, eu teria que ajudá-los a preparar Bonforte para a transição ou re-substituição. Sem dúvida, Capek poderia fazê-lo engordar de novo; se não, havia meios de fazer um homem parecer mais encorpado sem enchimentos, que dão demais na vista. Eu mesmo lhe pintaria o cabelo. O anúncio retardado do derrame que sofrerá cobriria as inevitáveis discrepâncias. Afinal de contas, ele tinha mudado muito em umas poucas semanas. O essencial era impedir que esse fato chamasse a atenção para a personificação.

Esses detalhes práticos, todavia, arrumavam-se por si mesmos num canto de minha mente e meu próprio ser dilatava-se de emoção. Doente como estivesse, dele emanava uma força ao mesmo tempo espiritual e viril. Senti aquele choque cálido, quase sagrado, que acomete a pessoa quando ela vê pela primeira vez a grande Estátua de Lincoln. Lembrei-me também de outra estátua ao vê-lo ali, com as pernas e o lado esquerdo inúteis, cobertos por um xale: a estátua do Leão Ferido de Lucerna. Ela tinha aquela mesma força maciça., e a dignidade, mesmo que estivesse impotente: "A guarda morre, mas não se rende".

Ele ergueu a vista quando entrei e sorriu aquele cordial e tolerante sorriso que eu aprendera a reproduzir e, com um gesto da mão sadia, pediu-me que me aproximasse. Sorri o mesmo sorriso e dirigi-me para ele. Apertou-me a mão com uma força inteiramente inesperada e disse afável:

— Estou contente em conhecê-lo, finalmente.

Falava em voz levemente engrolada. Eu não podia ver a frouxidão de sua face no lado que me ocultava.

— Sinto-me honrado e feliz em conhecê-lo, senhor. — Tive que pensar na frase que pronunciava para evitar a imitação automática da indistinção da paralisia. Examinei-me de alto abaixo e disse: — Eu fiz o possível, senhor.

— O possível? Você fez tudo! É uma coisa estranha ver o nosso próprio eu.

Dei-me conta, numa súbita e dolorosa empatia, de que ele não estava emocionalmente consciente de sua própria aparência; minha atual aparência era a "dele", e qualquer mudança em si mesmo era apenas incidental à doença, temporária, para não ser notada. Ele continuou:

— Importa-se em virar-se um pouco para que eu possa vê-lo, senhor. Eu quero me ver — o senhor — nós. Pelo menos por uma vez, quero sentir o que sente a audiência.

Espiguei-me, andei pela sala, falei com Penny (a pobre criança olhava de um para o outro de nós com uma expressão confusa), apanhei um jornal, cocei a clavícula, passei a mão pelo queixo, tirei a arma marciana de baixo do braço, segurei-a e brinquei com ela.

Ele me observava, deliciado. Em vista disso, voltei ao palco. Ocupando o centro do tapete, fiz a peroração de um de seus melhores discursos, não o reproduzindo palavra por palavra, mas interpretando-o, deixando que as palavras rolassem e trovejassem como ele teria feito, e terminando com as palavras finais exatas: "Um escravo não pode ser libertado, a não ser por si mesmo. Nem podem os senhores escravizar um homem livre; o máximo que podem fazer é matá-lo!"

Caiu um maravilhoso, total silêncio e, em seguida, uma salva de palmas, enquanto o próprio Bonforte batia no sofá com a mão sadia e gritava:

— Bravo!

Foi o único aplauso que jamais recebi no papel. E foi suficiente.

Fez com que eu puxasse uma cadeira e sentasse ao seu lado. Vi-o lançar um olhar à arma, entreguei-a a ele e disse:

— A trava de segurança está em posição, senhor.

— Eu sei como usá-la.

Examinou-a com atenção e depois me devolveu. Pensei que ele talvez quisesse conservá-la. Uma vez que não o fez, resolvi entregá-la a Dak para devolvê-la a ele mais tarde. Ele me fez perguntas sobre minha pessoa e me disse que não se recordava de ter-me visto trabalhar, mas que vira o Cy-rano, interpretado por meu pai. Fazia um grande esforço para controlar os músculos doentes do rosto e sua fala era clara, embora articulasse as palavras com dificuldade.

Perguntou-me em seguida o que eu tencionava fazer depois de tudo aquilo. Respondi que não traçara ainda planos. Ele inclinou a cabeça e disse:

— Veremos isso. Há um lugar para você. Há serviços a fazer.

Não mencionou pagamento, o que me deixou orgulhoso.

Os resultados da eleição começavam a chegar e ele voltou a atenção para o estéreo. Já vinham chegando, naturalmente, nas últimas quarenta e oito horas, uma vez que os mundos externos e os distritos sem colégios eleitorais votam antes da Terra e mesmo na Terra um "dia" de eleição demora mais de trinta horas. Mas naquele momento começávamos a receber os resultados dos distritos importantes das grandes massas continentais da Terra. Tínhamos tomado uma grande dianteira no dia anterior na contagem dos resultados externos e Rog sentira-se obrigado a dizer-me que eles nada significavam: os expansionistas sempre venciam nos mundos externos. Mas o que dizer dos bilhões de pessoas na Terra que jamais a haviam deixado e nunca pensavam em fazê-lo? Isso era o que importava.

Mas precisávamos de todos os votos dos mundos externos que pudéssemos conseguir. O Partido Agrário, em Ganimedes, ganhara, fácil, cinco dos seis distritos; eles faziam parte de nossa coalizão e o Partido Expansionista, por isso, não apresentara nem mesmo candidatos simbólicos. A situação em Vênus era mais delicada, com os venusianos divididos em dezenas de partidos dissidentes, separados por sutis pontos de Teologia que um ser humano jamais poderia compreender. Não obstante, esperávamos a maioria dos votos nativos, fosse diretamente, fosse através da coalizão mais tarde, e deveríamos conseguir praticamente todos os votos humanos nesse planeta. A restrição imperial, de que os nativos tinham que escolher seres humanos para representá-los em Nova Batávia, era algo que Bonforte prometera eliminar e isso nos dava votos em Vênus, mas não sabíamos quanto isso nos custaria na Terra.

Uma vez que os ninhos enviavam apenas observadores à Assembléia, os únicos votos que nos preocupavam em Marte eram os humanos. Tínhamos a preferência popular; eles tinham a máquina distribuidora de favores. Mas com uma contagem honesta poderíamos esperar uma disputa equilibrada.

Ao lado de Rog, Dak curvava-se sobre uma régua de cálculo; Rog, por sua vez, trabalhava com uma grande folha de papel, organizada de acordo com alguma forma própria de avaliação. Uma dúzia ou mais dos gigantescos cérebros de metal em todo o Sistema Solar faziam o mesmo naquela noite, mas Rog preferia seus próprios palpites. Dissera-me certa vez que podia passear por um distrito, "farejando-o", e chegar a uma margem de acerto de noventa e oito por cento. Acho que ele podia, mesmo.

O Dr. Capek estava sentado mais atrás, as mãos cruzadas sobre a pança, tão relaxado como uma minhoca. Penny movia-se de um lado para outro, endireitando coisas tortas e entortando coisas direitas e servindo bebidas. Ao que parecia, ela jamais olhava diretamente para mim ou para o Sr. Bonforte.

Eu jamais tivera antes a experiência de um membro de partido numa noite de eleição e nada havia que com isso se assemelhasse. Há o agradável e cálido espírito de comunicação, da emoção consumida. Não importa realmente muito como as pessoas decidem; o indivíduo fez o que pode, está em companhia de amigos e camaradas e, durante algum tempo, não há pressões nem preocupações, a despeito da agitação geral com os resultados que chegam.

Eu não me lembrava de ter tido momentos tão felizes.

Rog ergueu a vista, fitou-me e falou em seguida ao Sr. Bonforte:

— O continente está equilibrado. Os americanos estão experimentando a água com os pés, antes de passar para nosso lado. A única questão é: até que profundidade irão?

— Você não pode fazer uma projeção, Rog?

— Ainda não. Oh, temos o voto popular, mas na G.A. ele pode pender para um ou outro lado por uma meia dúzia de cadeiras. — Levantou-se. — Acho que é melhor eu dar uma volta pela cidade.

Na verdade, eu é que devia ter ido, como o "Sr. Bonforte". O líder do Partido devia sem dúvida visitar a sede durante alguns momentos na noite da eleição. Eu jamais estivera lá, sendo ela um lugar perigoso, onde minha personificação poderia facilmente ser rachada. Minha "doença" me excusara desse dever durante a campanha e naquela noite não se justificava o risco, de modo que Rog iria em meu lugar, apertaria mãos, riria e deixaria que as nervosas moças que haviam feito o duro e interminável trabalho burocrático lançassem os braços em volta dele e chorassem.

— Volto dentro de uma hora.

Mesmo nosso pequeno grupo deveria ter descido para o nível inferior, de modo a incluir todo o nosso quadro de pessoal, especialmente Jimmie Washington. Mas isso não funcionaria, não sem excluir o Sr. Bonforte da reunião. Eles, naturalmente, estavam em meio à sua própria festinha. Levantei-me.

— Rog, vou descer com você e dizer olá ao harém de Jimmie.

— Você não tem que fazer isso, você sabe.

— É a coisa certa a fazer, não? E realmente não há problema algum, nenhum risco. — Virei-me para o Sr. Bonforte: — O que me diz, senhor?

— Eu apreciaria muito isso.

Descemos no elevador e atravessamos os aposentos privados, vazios e silenciosos, passamos pelo meu escritório e o de Penny e, do outro lado, encontramos um verdadeiro asilo de loucos. Um receptor de estéreo, trazido para a ocasião, berrava a toda força, o chão estava que era uma imundície e todo mundo bebia ou fumava. O próprio Jimmie Washington tinha um drinque na mão enquanto escutava os resultados. Não estava bebendo; não bebia nem fumava. Sem dúvida alguém lhe entregara o copo e ele simplesmente o segurava. Jimmie tinha um belo sentido de boas maneiras.

Fiz a ronda do local, tendo Rog ao meu lado, agradeci calorosa e muito sinceramente a Jimmie e desculpei-me por me sentir tão cansado.

— Vou subir e estirar os ossos, Jimmie. Apresente minhas desculpas ao pessoal, sim?

— Sim, senhor. O senhor tem que cuidar-se, Sr. Ministro.

Voltei para o nível superior enquanto Rog tomava a direção dos túneis públicos.

Com um dedo nos lábios, Penny disse-me para não fazer barulho logo que cheguei à sala de estar do nível superior. Parecia que Bonforte adormecera e o i receptor tivera o volume abaixado. Dak continuava sentado em frente ao aparelho, enchendo de números a grande folha de papel, à espera da volta de Rog. Capek não se movera. Inclinou a cabeça e ergueu o copo na minha direção.

Esperei que Penny me preparasse um uísque com água e saí para o balcão coberto pela bolha. Era noite tanto pelo relógio como pelo fato de a Terra apresentar-se quase cheia, estonteante, num colar de estrelas. Procurei a América do Norte e tentei localizar o pequeno ponto que eu deixara semanas antes. Fiz um esforço para controlar a emoção.

Depois de algum tempo, voltei à sala; a noite na Lua é esmagadora. Rog voltou pouco depois e sentou-se à frente de suas folhas de anotações, sem pronunciar palavra. Notei que Bonforte acordara.

Os resultados decisivos começavam a chegar nesse instante e todos permanecemos em silêncio, dando tranqüilidade a Rog com seu lápis e Dak com a régua de cálculo. Depois de muito, muito tempo, Rog empurrou a cadeira para trás.

— É isso aí, Chefe — disse, sem erguer os olhos. — Vencemos. Uma maioria de não menos de sete cadeiras, provavelmente dezenove e possivelmente mais de trinta.

Após uma pausa, Bonforte perguntou tranqüilo:

— Tem certeza?

— Positivo. Penny, tente outro canal e vamos ver o que conseguimos.

Aproximei-me de Bonforte e sentei-me a seu lado. Não podia falar. Ele estendeu a mão e deu uma palmadinha na minha, de um jeito paternal. Ambos pregamos os olhos no receptor. A primeira estação que Penny sintonizou dizia nesse momento: "...nenhuma dúvida, pessoal; oito dos cérebros-robôs dizem sim, Curiac diz que talvez. O Partido Expansionista ganhou uma decisiva..." — Ela mudou para outra estação.

"... confirmado em seu cargo temporário por mais cinco anos. O Sr. Quiroga não pôde ser encontrado para fazer uma declaração, mas o chefe geral de sua campanha, em Nova Chicago, reconheceu que a atual tendência não pode ser..."                       llllll

Rog levantou-se e foi até o telefone; Penny baixou o volume do noticiário até não podermos ouvir mais nada. O locutor continuou a mexer os lábios; em outras palavras, dizia simplesmente o que já sabíamos.

Rog voltou. Penny aumentou o volume. O locutor continuou por um momento, interrompeu-se, leu alguma coisa que lhe foi entregue e virou-se para a câmara com um grande sorriso.

— Amigos e cidadãos, vamos transmitir agora um pronunciamento do Ministro Supremo.

A imagem mudou para meu discurso de vitória.

Fiquei ali, gozando tudo aquilo, com sentimentos tão confusos quanto possível, mas todos bons, dolorosamente bons. Eu fizera um bom trabalho naquele discurso e sabia disso. Eu parecia cansado, suado e calmamente triunfante. E parecia uma coisa feita de improviso.

Eu chegara justamente a "Vamos juntos à frente, com liberdade para todos..." quando ouvi um ruído às minhas costas.

— Sr. Bonforte! — disse eu. — Doutor! Doutor! Venha aqui, depressa!

O Sr. Bonforte parecia querer agarrar-me com a desajeitada mão direita e querer dizer-me com urgência alguma coisa. Mas não adiantou. A pobre boca lhe faltou e sua poderosa e indomável vontade não conseguiu fazer com que lhe obedecesse a frágil carne.

Tomei-o nos braços. Ele entrou em respiração pré-agônica e rapidamente chegou ao fim.

Levaram-lhe o corpo no elevador até o nível inferior, Dak e o Dr. Capek. Eu nada podia fazer para ajudá-los. Rog aproximou-se e deu-me uma palmadinha no ombro e, depois, afastou-se. Penny descera com os outros. Mais uma vez, dirigi-me para o balcão. Precisava de "ar fresco", embora ali só houvesse o mesmo ar bombeado por máquinas que na sala de estar. Mas parecia mais fresco.

Haviam-no assassinado. Seus inimigos haviam-no assassinado com tanta certeza como se houvessem enfiado uma faca em suas costelas. A despeito de tudo que fizéramos, de todos os riscos que havíamos corrido, no fim eles o haviam assassinado. "Um assassinato extremamente vil!"

Senti-me também morto por dentro, anestesiado pelo choque. Eu "me" vira morrer, vira outra vez meu pai morrer. Compreendi então porque só raramente se consegue salvar um gêmeo de irmãos siameses. Eu estava vazio.

Não sei quanto tempo fiquei ali fora. Por fim, ouvi a voz de Rog as minhas costas:

— Chefe? Virei-me.

— Rog — disse incisivo — não me chame mais assim. For favor!

— Chefe — insistiu ele, — o senhor sabe o que tem que fazer agora, não? Não?

Senti-me tonto e sua face tornou-se borrada. Eu não sabia o que era que ele estava dizendo, eu não queria saber o que ele estava dizendo.

— O que é que você quer dizer com isso?

— Chefe, um homem morre, mas o espetáculo continua. O senhor não pode desistir agora!

A cabeça me doía e eu tinha os olhos fora de foco. Ele como que se aproximava e se afastava de mim enquanto sua voz continuava:

— "... roubaram-lhe a oportunidade de concluir sua obra. E por isso, o senhor tem que fazer isso por ele. O senhor tem que fazer com que ele volte a viver!"

Sacudi a cabeça, fiz um grande esforço para me controlai e respondi:

— Rog, você não sabe o que está dizendo. Isso é absurdo... ridículo! Eu não sou um estadista. Sou simplesmente uma droga de ator! Faço caretas e as pessoas riem. Eu só sirvo para isso.

Para horror meu, ouvi-me dizer isso na voz de Bonforte.. Rog fitou-me e respondeu:

— Eu acho que o senhor se saiu muito bem até agora. Tentei mudar a voz, tentei ganhar o controle da situação.

— Rog, você está nervoso. Quando você se acalmar, verá como tudo isto é ridículo. Você tem razão num ponto: o espetáculo continua. Mas não dessa maneira. A coisa acertada a fazer, a única coisa a fazer, é você mesmo subir a escada. A eleição foi ganha, você tem sua maioria, e agora deve assumir o cargo e executar o programa.

Ele me fitou e sacudiu tristemente a cabeça.

— Eu faria isso, se pudesse. Reconheço isso. Mas não posso. Chefe, lembra-se daquelas drogas de reuniões da comissão executiva? O senhor os manteve na linha. A coalizão inteira foi mantida como um todo pela força pessoal e liderança de um único homem. Se não continuar agora, tudo aquilo pelo qual ele viveu — e morreu — desmoronará.

Eu não tinha um argumento para refutá-lo. Ele poderia ter razão. No último mês e meio, eu vira como funcionava a política.

— Rog, mesmo que isso que você diz seja verdade, a solução que propõe é impossível. Nós mal conseguimos manter essa farsa, ainda que eu só aparecesse em condições teatrais cuidadosamente controladas, e mesmo assim quase fomos flagrados. Mas fazer com que este fingimento continue semana após semana, mês após mês, mesmo ano após ano, se é que eu o compreendo... não, isso não pode ser feito. É impossível. Eu não posso fazer isso!

— O senhor pode! — Inclinou-se para mim e falou em tom decidido: — Nós todos conversamos sobre isso e conhecemos tanto os perigos como o senhor. Mas o senhor terá uma oportunidade de crescer e colocar-se à altura do cargo. Duas semanas no espaço para começar — diabo, um mês, se quiser! Estudará o tempo todo, os diários dele, os diários da infância dele, seus livros de notas, o senhor se embeberá deles. E nós todos ajudaremos.

Não respondi. Ele continuou:

— Ouça, Chefe, o senhor aprendeu que uma personalidade política não é um único homem. É uma equipe, é uma equipe vinculada por finalidades e convicções comuns. Perdemos o capitão de nossa equipe e precisamos de outro. Mas o time continua a existir.

Capek encontrava-se nesse instante lá fora, no balcão. Não o vira entrar. Virei-me para ele.

— O senhor também é favorável a isto?

— Sou.

— É o seu dever — acrescentou Rog. Capek falou em voz lenta:

— Eu não vou tão longe assim. Tomara que aceite. Mas, droga, eu não vou ser sua consciência. Acredito no livre arbítrio, frívolo como isso possa parecer, dito por um médico. — Voltou-se para Clifton. — Será melhor deixá-lo sozinho, Rog. Agora, cabe a ele decidir.

Mas embora tivesse saído, eu não ia ainda ficar a sós comigo mesmo. Dak passou do balcão para a sala. Para meu alívio, não me chamou de "Chefe."

— Olá, Dak.

— Como está? — Ficou calado durante um momento, fumando e olhando para as estrelas lá no alto. Depois, voltou-se para mim: — Filho, nós passamos por um bocado de coisas juntos. Conheço-o agora e estarei a seu lado com uma arma, com dinheiro, com os punhos, em qualquer ocasião e nunca perguntarei por que. Se resolver desistir agora, não direi uma palavra de censura e não o considerarei menos por isso. Você fez o seu mais nobre e grandioso trabalho.

— Humm, obrigado, Dak.

— Mais uma palavra, ligo os jatos e vou embora. Simplesmente, lembre-se do seguinte: se resolver que não pode fazer isso, a escória vil que lhe lavou o cérebro vencerá. A despeito de tudo, vencerá.

E saiu.

Em minha mente, eu me sentia dilacerado. Depois, entreguei-me à pura autocomiseração. Aquilo não era justo! Eu tinha minha própria vida para viver. Encontrava-me no auge de meus poderes, com meus maiores triunfos artísticos ainda à frente. Não era justo esperar que eu me sepultasse, talvez durante anos, no anonimato do papel de outro homem, enquanto o público me esquecia, os produtores e agentes me esqueciam, e provavelmente pensariam que eu morrera.

Não era justo. Era pedir demais.

Mas logo saí desse estado e durante algum tempo não pensei em coisa alguma. A Mãe Terra continuava serena, bela e imutável no céu; perguntei-me como seriam ali as celebrações da noite de eleição. Marte, Júpiter e Vênus estavam à vista, pregadas como prêmios no zodíaco. Não podia ver Ganimedes, claro, nem a solitária colônia no longínquo Plutão.

"Mundos de Esperança" fora assim que Bonforte os chamara.

Mas ele estava morto. Extinto. Haviam-lhe roubado o seu direito natural no seu instante de mais perfeito amadurecimento. Ele estava morto.

E haviam-me proposto recriá-lo, fazê-lo viver outra vez.

Estaria eu à altura disso? Poderia eu equiparar-me a seus nobres padrões? O que quereria ele que eu fizesse? Se ele estivesse em meu lugar, o que faria Bonforte? Muitas e muitas vezes durante a campanha eu me perguntara: "O que faria Bonforte?"

Alguém moveu-se às minhas costas. Virei-me e vi que era Penny. Fitei-a e disse:

— Eles a mandaram aqui? Veio para argumentar comigo?

— Não.

Nada acrescentou, não pareceu esperar que eu respondesse e nem mesmo nos olhamos. O silêncio continuou. Finalmente, eu disse:

— Penny? Se eu tentar realizar esse trabalho... você me ajuda?

Ela voltou-se de súbito para mim.

— Ajudo, oh, ajudo, Chefe! Eu ajudo!

— Então eu vou tentar — disse eu, humildemente.

Escrevi as palavras acima há vinte e cinco anos, numa tentativa de sair da confusão em que me encontrava. Tentei dizer a verdade e não me poupar porque essas palavras não se destinavam a ser lidas por ninguém, com exceção de mim mesmo e de meu terapeuta, Dr. Capek. É estranho, após um quarto de século, reler as palavras tolas e emotivas daquele jovem. Lembro-me dele, mas, ainda assim, tenho dificuldade em compreender que, um dia, eu fui ele. Minha esposa, Penelope, alega que se lembra mais dele do que eu — e que jamais amou outra pessoa. Assim o tempo nos muda.

Sei que posso "lembrar" melhor o começo de vida de Bonforte, melhor do que a minha própria vida real como aquela pessoa tão patética, Lawrence Smythe, ou — como ele gostava de apresentar-se — "O Grande Lorenzo". Isso por acaso me torna um louco? Esquizofrênico, talvez? Se assim, é uma loucura necessária para o papel que me cumpre desempenhar, pois, para que Bonforte vivesse outra vez, aquele velho ator teve que ser suprimido.

Louco ou não, sei que ele existiu e que eu era ele. Ele nunca foi um sucesso como ator; não, realmente, embora eu pense que, às vezes, ele era tocado pela loucura do gênio. Fez sua saída final bem de acordo com seu estilo. Tenho um recorte amarelado de jornal, guardado em alguma parte, que diz que ele foi "encontrado morto" num quarto de hotel em Jersey City devido a uma dose excessiva de soporíferos, aparentemente tomados numa crise de melancolia, pois seu agente declarou que ele há vários meses não obtinha papel algum. Pessoalmente, acho que não precisavam ter mencionado o fato de que estava sem trabalho. Se não foi uma afirmação caluniosa, pelo menos de generosa nada teve. A data do recorte prova, de passagem, que ele não teria estado em Nova Batávia, ou em qualquer outro lugar, durante a campanha de 15.

Acho que devo queimar esse recorte.

Mas não há mais pessoa viva hoje que saiba a verdade, cem exceção de Dak e Penelope — e com exceção dos homens que assassinaram o corpo de Bonforte.

Estive dentro e fora do governo três vezes e talvez este mandato seja o último. Fui derrubado pela primeira vez quando por fim trouxe os alienígenas — os venusianos, os marcianos e os jupiterianos dos satélites — para a Grande Assembléia. Os povos não-humanos, porém, nela continuam e eu voltei. O povo aceita certo volume de reformas, mas precisa de um descanso. Mas as reformas ficam. O povo não quer realmente mudança, qualquer mudança, e a xenofobia tem raízes profundas. Mas progredimos, como temos que progredir, se queremos chegar às estrelas.

Repetidas vezes tenho perguntado a mim mesmo: "O que faria Bonforte?" Não tenho certeza de que minhas respostas tenham sido sempre certas (embora tenha certeza de que sou o estudioso mais familiarizado com os trabalhos dele em todo o Sistema Solar). Mas tentei permanecer fiel ao papel. Há muito tempo, um homem — Voltaire? — ou algum outro, disse: "Se Satanás um dia substituir Deus, ele achará necessário assumir os atributos da Divindade".

Jamais lamentei a profissão perdida. De certo modo, não a perdi; Willem tinha razão. Há outros aplausos além de salvas de palmas e há sempre a cálida satisfação de um bom desempenho. Tentei, acho, criar uma obra de arte perfeita. Talvez não tenha logrado sucesso total, mas penso que meu pai a consideraria "um bom trabalho".

Não, não lamento, ainda que fosse mais feliz naquele tempo, pelo menos eu dormia melhor. Mas há uma solene satisfação em fazer o melhor que podemos por oito bilhões de seres.

Talvez a vida deles não tenha significação cósmica, mas eles têm sentimentos. E podem sentir-se magoados.

 

                                                                                            Robert Anson  

 

                      

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