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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EU SOU O NÚMERO QUATRO / Pittacus Lore
EU SOU O NÚMERO QUATRO / Pittacus Lore

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

EU SOU O NÚMERO QUATRO

 

A PORTA COMEÇA A TREMER. É FRACA, FEITA DE BAMBUS PRESOS POR PEDAÇOS de corda desfiada. O tremor é sutil e para quase imediatamente. Eles levantam a cabeça para ouvir, um garoto de quatorze anos e um ho­mem de cinquenta, que todos pensam ser pai dele, mas que nasceu perto de uma selva diferente em um planeta diferente a centenas de anos-luz dali. Os dois estão deitados sem camisa em lados opostos da cabana, cada catre coberto por um mosquiteiro. Ouvem um barulho distante, como se um animal quebrasse o galho de uma árvore — mas, nesse caso, era como se a árvore inteira estivesse sendo quebrada.

O que foi isso? — pergunta o garoto.

Shhh — o homem responde.

Eles ouvem o ruído de insetos, nada além. O homem começa a se levantar quando o tremor reinicia. Dessa vez é mais longo, mais firme, e há outro estrondo, mais próximo. O homem fica de pé e ca­minha lentamente até a porta. Silêncio. Ele respira fundo e estende a mão até o trinco. O garoto se senta.

—            Não — o homem cochicha, e nesse instante a lâmina longa e brilhante de uma espada feita de um metal branco e luminoso, que não é encontrado na Terra, atravessa a porta e penetra profundamen­te em seu peito. Quinze centímetros de lâmina projetam-se de suas costas e a espada logo é puxada de volta. O homem grunhe. O meni­no perde o fôlego. O homem respira fundo e diz uma única palavra: — Fuja.

Então cai sem vida no chão.

O garoto pula do catre e atravessa a parede dos fundos. Ele não se incomoda com a porta ou a janela: literalmente se arremessa con­tra a parede, que se rompe como se fosse de papel, embora seja de mogno-africano, sólido e resistente. Ele mergulha na noite do Con­go, salta por cima das árvores e corre a cerca de noventa quilômetros por hora. Sua visão e sua audição vão além do limite humano. Ele se desvia de árvores, atravessa entre os cipós entrelaçados e cru­za riachos com apenas um salto. Passadas pesadas soam atrás dele, mais perto a cada segundo. Os perseguidores também têm dons. E têm algo consigo. Algo de que ele só tinha ouvido falar, algo que ele nunca achou que veria na Terra.

O barulho está mais próximo. O garoto ouve um rugido grave e intenso. Ele sabe que aquilo que o persegue está ganhando velocida­de. E vê uma clareira mais à frente, na selva. Quando a alcança, nota um barranco enorme, um precipício de noventa metros de largura e noventa de profundidade, com um rio no fundo, em cuja margem há pedregulhos enormes, que o arrebentariam se caísse ali. A única opção é saltar o precipício. Ele vai ter pouco espaço para correr e ga­nhar impulso, e uma única chance. Uma chance para salvar a própria vida. Até mesmo para ele, ou para qualquer um dos outros na Terra que são como ele, o salto é quase impossível. Recuar, descer a encosta ou tentar enfrentá-los seria morte certa. Ele tem uma tentativa.

Um rugido ensurdecedor soa atrás dele. Os perseguidores estão de seis a nove metros de distância. Ele recua cinco passos, corre... e, pouco antes da beirada do precipício, salta e atravessa a garganta voando. São três ou quatro segundos no ar. Ele grita, os braços esten­didos para a frente, esperando pela segurança ou pelo fim. Chega ao chão e cai rolando, parando aos pés de uma árvore gigantesca. Ele sorri. Não acredita que conseguiu, que vai sobreviver. Para não ser visto pelos perseguidores, e ciente de que precisa se afastar ainda mais, o garoto se levanta. Deve continuar correndo.

Ele se vira para a selva. Ao fazer isso, sente a mão enorme se fechando em torno de seu pescoço. Ele é erguido do chão. Luta, se debate, esperneia, tenta se libertar, mas sabe que é inútil, que acabou. Deveria imaginar que eles estariam dos dois lados, que quando o localizassem não haveria chance de fuga. O mogadoriano o levanta para poder enxergar seu peito, para ver o amu­leto que pende do pescoço, o amuleto que só ele e os da mesma espécie podem usar. Ele o arranca e guarda em algum lugar sob o longo manto negro, e, quando sua mão emerge, já empunha a cintilante espada de metal branco. O garoto olha fixamente nos olhos profundos, grandes, negros e frios do mogadoriano e diz:

— Os Legados vivem. Eles vão se encontrar e, quando estiverem prontos, vão destruir vocês.

O mogadoriano ri, uma gargalhada debochada, cruel. Ele levanta a espada, única arma no universo capaz de quebrar o encantamento que até então protegia o garoto e que ainda protege os outros. A lâmina se acende numa chama prateada ao ser apontada para o céu, como se ga­nhasse vida, pressentisse sua missão e se alegrasse com a expectativa. E quando desce, formando um arco de luz que cruza a escuridão da selva, o menino ainda acredita que alguma parte sua vai sobreviver e voltar para casa. Ele fecha os olhos pouco antes de ser atingido pela espada. E então é o fim.

 

NO COMEÇO ÉRAMOS NOVE. PARTIMOS AINDA PEQUENOS, QUASE JOVENS DEMAIS para lembrar.

Quase.

Dizem-me que o chão tremeu, que os céus se encheram de luz e explosões. Vivíamos aquelas duas semanas no ano em que as duas luas pairam em lados opostos do horizonte. Era um tempo de cele­bração, e no início as explosões foram confundidas com fogos de artifício. Mas não eram. Fazia calor, e uma brisa suave soprava da água. Sempre me falam sobre o clima: fazia calor. Havia uma brisa suave. Nunca entendi por que isso importava.

O que lembro com mais clareza é como minha avó estava naque­le dia. Agitada, triste. Havia lágrimas em seus olhos. Meu avô se mantinha bem atrás do ombro dela. Lembro como os óculos dele re­fletiam a claridade do céu. Havia abraços. E palavras ditas por eles. Não lembro quais foram. E nada me atormenta mais do que isso.

Levei um ano para chegar aqui. Eu tinha cinco anos quando chegamos. A idéia era nos assimilarmos à cultura local antes de retornar a Lorien, quando fosse novamente possível haver vida por lá. Tive­mos de nos separar e seguir caminhos distintos. Por quanto tempo, ninguém sabia. Ainda não sabemos. Nenhum deles sabe onde estou, e eu não sei onde eles estão ou que aparência têm agora. É assim que nos protegemos, com o encantamento lançado quando partimos, um feitiço que garante que só podemos ser mortos na ordem de nossos números, desde que nos mantenhamos separados. Se nos juntarmos, o encantamento se desfaz.

Quando um de nós é encontrado e morto, uma cicatriz circular contorna o tornozelo direito daqueles que ainda sobrevivem. E no tornozelo esquerdo temos uma cicatriz idêntica ao amuleto que usa­mos, um desenho que se formou quando fomos protegidos pelo en­cantamento lórico. As cicatrizes circulares são outra parte do feitiço. Um sistema de alerta para sabermos onde estamos em relação uns aos outros e quando seremos o próximo na lista dos perseguidores. A primeira cicatriz surgiu quando eu tinha nove anos. Eu dormia, e acordei com a sensação do desenho queimando a pele. Morávamos no Arizona, em uma pequena cidade na fronteira com o México. Acordei gritando no meio da noite, em agonia, aterrorizado ao ver a cicatriz se desenhando. Foi o primeiro sinal de que os mogadorianos finalmente nos haviam encontrado na Terra, o primeiro sinal de que corríamos perigo. Até a cicatriz aparecer, eu quase me convencera de que minhas lembranças não eram realidade, de que o que Henri me dissera estava errado. Queria ser uma criança normal levando uma vida normal, mas então eu soube, sem margem para dúvidas ou discussão, que eu não era. Nós nos mudamos para Minnesota no dia seguinte.

A segunda cicatriz apareceu quando eu tinha doze anos. Estava na escola, no Colorado, participando de um concurso de soletração. Assim que a dor começou, eu soube o que estava acontecendo e o que havia acontecido com o Número Dois. A dor era lancinante, mas dessa vez suportável. Eu teria continuado no palco, mas o calor incendiou minha meia. O professor que conduzia a disputa me so­correu com um extintor de incêndio e me levou para o hospital. O médico no pronto-socorro encontrou a primeira cicatriz e chamou a polícia. Quando Henri chegou, os policiais ameaçaram prendê-lo por maus-tratos. Mas, como ele não estava nem perto de mim quan­do a segunda cicatriz apareceu, acabou sendo liberado. Entramos no carro e partimos, dessa vez para o Maine. Abandonamos tudo o que tínhamos, exceto a Arca Lórica que Henri leva conosco em todas as mudanças. Até agora, vinte e uma.

A terceira cicatriz surgiu há uma hora. Eu estava sentado em um barco. Os donos são os pais do garoto mais popular da escola, que dava uma festa sem que eles soubessem. Eu nunca havia sido convi­dado para festa alguma nessa escola. Como sabia que podíamos par­tir a qualquer momento, eu preferia ficar na minha. Mas tudo esteve calmo nos últimos dois anos. Henri não via nos jornais nada que pu­desse levar os mogadorianos até um de nós ou que nos alertasse da presença deles. Então, fiz alguns amigos. E um deles me apresentou ao garoto que dava a festa. Todo mundo se encontrou no píer. Havia três coolers, música e garotas que eu admirava de longe, mas com quem nunca havia falado, embora quisesse. Zarpamos e seguimos uns oitocentos metros Golfo do México adentro. Eu estava senta­do na beirada do barco com os pés na água, conversando com uma menina bonita, morena e de olhos azuis, chamada Tara. Foi quando senti que estava acontecendo. A água começou a ferver em volta da minha perna, que brilhava onde a cicatriz estava se formando. O terceiro símbolo de Lorien, o terceiro aviso. Tara começou a gritar e as pessoas se aglomeraram ao redor. Eu sabia que não tinha jeito de explicar aquilo. E sabia que precisávamos partir imediatamente.

Agora o risco era maior. Eles haviam encontrado o Número Três, e, onde quer que estivesse, ele ou ela já estava morto. Eu acalmei Tara, beijei seu rosto, disse que tinha sido legal conhecê-la e que esperava que ela tivesse uma vida longa e feliz. Depois, mergulhei do barco e comecei a nadar, sempre submerso, exceto por uma ida à tona para respirar mais ou menos na metade do caminho, na maior velocida­de possível até chegar à praia. Corri pela trilha paralela à estrada, sempre entre as árvores, na mesma velocidade dos carros. Quando cheguei em casa, Henri estava à frente dos escâneres e monitores que usava para pesquisar as notícias do mundo todo e a atividade policial em nossa região. Ele soube sem que eu dissesse uma única palavra, mas levantou minha calça ensopada para ver as cicatrizes.

 

No início éramos um grupo de nove.

Três se foram, morreram.

Agora restam seis.

Eles estão nos caçando e não vão parar enquanto não matarem todos.

Eu sou o Número Quatro.

Sei que sou o próximo.

 

ESTOU NO MEIO DA ENTRADA DA GARAGEM, OLHANDO PARA A CASA. É COR-DE-ROSA suave, quase como cobertura de bolo, e fica elevada uns três metros, sobre o pilotis de madeira. Há uma palmeira na frente. Na parte de trás há um píer que se estende pouco menos de vinte metros no Gol­fo do México. Se a casa fosse localizada um quilômetro e meio ao sul, o píer ficaria no Oceano Atlântico.

Henri sai carregando a última caixa. Algumas sequer foram desembaladas depois da última mudança. Ele tranca a porta e deixa as chaves na caixa de correio, ao lado. São duas horas da manhã. Henri veste short caqui e camisa pólo preta. Está muito bronzeado, e a barba por fazer dá a impressão de abatimento. Ele também está triste com a partida. Joga as caixas na parte de trás da caminhonete com o restante das coisas.

—            É isso — diz.

Eu faço que sim com a cabeça. Olhamos para a casa e ouvimos o ven­to batendo nas folhas da palmeira. Estou carregando um saco de aipo.

—            Vou sentir saudades daqui — comento. — Mais do que dos outros lugares.

Eu também.

Hora do fogo?

Sim. Quer cuidar disso ou prefere que eu faça?

Eu faço.

Henri pega sua carteira e a joga no chão. Eu pego a minha e faço o mesmo. Ele caminha até a caminhonete e volta trazendo passaportes, certidões de nascimento, cartões do seguro social, talões de cheque, cartões de crédito e do banco, e joga tudo no chão. Todos os documentos e tudo o que se relaciona a nossa identidade neste lugar, tudo forjado e fabricado. Pego no automóvel uma pequena lata de gasolina que mantemos para as emergências e despejo sobre a pilha reduzida. Meu nome atual é Daniel Jones. Minha história atual é que cresci na Califórnia e me mudei para cá por causa do tra­balho de meu pai, que é programador de sistemas. Daniel Jones está prestes a desaparecer. Risco um fósforo e jogo no meio da pilha, e o fogo começa imediatamente. Mais uma vida que se vai. Como sem­pre fazemos, Henri e eu ficamos para ver as chamas. Adeus, Daniel, eu penso, foi um prazer conhecer você. Quando o fogo se extingue, Henri olha para mim.

Temos que ir.

Eu sei.

—            Essas ilhas nunca foram seguras. É difícil sair delas rapidamente, difícil fugir. Foi tolice vir para cá.

Eu balanço a cabeça, indicando que concordo. Henri está certo, e eu sei disso. Mas ainda reluto em ir embora. Viemos para cá porque eu queria. Pela primeira vez Henri me deixara escolher nosso destino. Ficamos por nove meses, e esse foi o período mais longo que passamos em um lugar desde que deixamos Lorien. Vou sentir falta do sol e do calor. Vou sentir saudades da lagartixa que ficava me espiando da parede todas as manhãs enquanto eu tomava o café. Embora haja literalmente milhões de lagartixas no sul da Flórida, juro que aquela me seguia até a escola e parecia estar em todos os lugares. Vou sentir falta dos temporais que parecem chegar do nada, de como tudo é parado e silencioso no início da manhã, antes de as gaivotas chegarem. Vou sentir falta dos golfinhos que às vezes aparecem quando o sol se põe. Vou sentir saudades até do cheiro de enxofre das algas marinhas que apodrecem na praia, de como ele preenche a casa e invade nossos sonhos enquanto dormimos.

—            Livre-se do aipo, eu vou esperar na caminhonete — Henri diz. — Está na hora.

Eu entro em um bosque fechado à direita da caminhonete. Há três cervos esperando. Jogo o saco com aipos diante deles e me inclino para afagar um de cada vez. Os animais permitem, porque há muito venceram o medo. Um deles levanta a cabeça e olha para mim, os olhos negros e inexpressivos me encarando. Chega a parecer que ele está me dizendo algo. Sinto um calafrio na espinha. Ele abaixa a cabeça e continua comendo.

—            Boa sorte, amiguinhos — digo, depois ando até a caminhonete e me sento no banco do carona.

Observamos pelos retrovisores enquanto a casa fica cada vez menor, até que Henri entra na estrada principal e ela desaparece. É sábado. Imagino o que está acontecendo na festa, sem mim. O que estão falando sobre o modo como saí de lá e o que dirão na segunda-feira, quando eu não aparecer na escola. Gostaria de ter me despe­dido. Nunca mais verei ninguém que conheci ali. Nunca mais vou falar com nenhum deles. E nunca saberão o que sou ou por que par­ti. Depois de alguns meses, talvez semanas, é provável que ninguém pense mais em mim.

Antes de chegarmos à estrada estadual, Henri para a fim de abastecer a caminhonete. Enquanto mexe na bomba, eu examino um atlas que ele guarda entre os bancos. Nós o temos desde que chega­mos a este planeta. Traçamos linhas indo e vindo de todos os lugares onde já moramos. A esta altura elas já atravessam todos os Estados Unidos. Sabemos que devemos nos livrar do atlas, mas ele é o único objeto que conservamos e que retrata nossa vida. Pessoas comuns têm fotos, vídeos e diários; nós temos o atlas. Ao examiná-lo, per­cebo que Henri fez uma linha da Flórida até Ohio. Quando imagino Ohio, penso em vacas, milho e pessoas gentis. Sei que as placas dos carros de lá têm escrito "O coração de tudo". Não sei dizer o que é "tudo", mas acho que vou descobrir.

Henri volta à caminhonete. Ele comprou dois refrigerantes e um saco de batatas fritas. Partimos na direção da U.S. 1, que vai nos le­var ao norte. Ele estende a mão para pegar o atlas.

—            Acha que há vida em Ohio? — eu brinco.

Ele ri.

—            Imagino que haja algumas. E talvez até tenhamos a sorte de encontrar carros e televisão por lá.

Eu movo a cabeça, concordando. Talvez não seja tão ruim quanto imagino.

O que acha do nome "John Smith"? — pergunto.

Foi esse que escolheu?

Acho que sim — respondo. Nunca fui "John" antes, nem "Smith".

—            Não é possível encontrar nada mais comum. Eu diria que é um prazer conhecê-lo, Sr. Smith.

Eu sorrio.

É, acho que gosto de "John Smith".

Vou montar seus documentos quando pararmos.

Um quilômetro e meio depois estamos fora da ilha, cruzando a ponte. A água passa por baixo de nós, calma, e a luz da lua brilha, sal­picando de branco a crista das pequenas ondas. À direita está o ocea­no, à esquerda, o golfo; em essência, é a mesma água, mas com nomes diferentes. Tenho vontade de chorar, mas me contenho. Não que esteja triste por deixar a Flórida, mas estou cansado de fugir. Cansado de inventar um nome a cada seis meses. Cansado das novas casas, das novas escolas. Fico me perguntando se algum dia vamos poder parar.

 

PARAMOS PARA COMPRAR COMIDA, ABASTECER E PROVIDENCIAR NOVOS TELEFONES. Escolhemos uma parada de caminhoneiros, onde comemos bolo de carne e macarronada com queijo, uma das poucas coisas que Henri admite ser melhor que qualquer comida de Lorien. En­quanto fazemos a refeição, ele usa o laptop para fazer os novos documentos com nossos novos nomes. Vai imprimir tudo quando chegarmos e, para todos os efeitos, seremos quem estamos dizendo.

Tem certeza de que quer "John Smith"? ele pergunta.

Tenho.

Você nasceu em Tuscaloosa, no Alabama.

Eu dou risada.

De onde tirou isso?

Henri sorri e indica com o queixo duas mulheres sentadas algu­mas mesas adiante. As duas são lindas. Uma delas está usando uma camiseta com a inscrição "FAZEMOS MELHOR EM TUSCALOOSA".

—            É para lá que vamos em seguida ele revela.

—            Por mais estranho que possa parecer, espero ficar muito tempo em Ohio.

—            É mesmo? Gosta da ideia de viver lá?

—            Gosto da ideia de fazer alguns amigos, de ir à mesma escola por mais que alguns poucos meses, de, quem sabe, ter uma vida de verdade. Eu estava começando a fazer isso na Flórida. Foi muito legal, e pela primeira vez desde que chegamos à Terra eu me senti quase normal. Quero encontrar um lugar e nele ficar.

Henri parecia pensativo.

Já olhou suas cicatrizes hoje?

Não. Por quê?

Por que isso tudo não tem a ver com você. Trata-se da sobrevivência de nossa raça, quase inteiramente destruída, e de mantê-lo vivo. Cada vez que um de nós morre... cada vez que um de vocês, um dos Gardes, morre... nossas chances diminuem. Você é o Número Quatro, é o próximo da fila. Há uma raça inteira de as­sassinos cruéis à sua caça. Vamos nos mudar ao primeiro sinal de problemas, e isso não está aberto a discussão.

Henri dirige em todo o trajeto. Entre as paradas e a confecção dos novos documentos, a viagem dura trinta horas, mais ou menos. Eu passo a maior parte do tempo cochilando ou jogando videogame. Por causa de meus reflexos, consigo dominar a maioria dos jogos mui­to depressa. O máximo que demorei para virar um jogo foi cerca de um dia. Os que mais gosto são os de guerras alienígenas e espaciais. Finjo que estou novamente em Lorien, combatendo os mogadorianos, derrubando-os, transformando-os em pó. Henri acha isso esquisito e tenta não me encorajar. Diz que precisamos viver no mundo real, onde guerra e morte são de verdade, não uma encenação. Quando finalizo o último jogo, levanto o olhar. Estou cansado de ficar sentado na cami­nhonete. O relógio no painel marca 19h58. Bocejo, esfrego os olhos.

Falta muito?

Estamos quase chegando — responde Henri.

Já escureceu, mas ainda há uma claridade pálida a oeste. Passamos por fazendas de cavalos e de gado, depois por campos desertos e, fora isso, por árvores que vão até onde a vista pode alcançar. Exatamente o que Henri queria: um lugar pacato, para passarmos despercebidos. Uma vez por semana ele passa seis, sete, até oito horas na Internet, atuali­zando uma lista de casas desocupadas país afora que se enquadram em seus critérios: isoladas, fora da área urbana e com disponibilidade ime­diata. Ele me contou que teve de fazer quatro tentativas — um telefone­ma para Dakota do Sul, um para o Novo México e um para o Arkansas — até finalmente fechar o aluguel de onde vamos morar agora.

Após alguns minutos, vemos as luzes esparsas que indicam a ci­dade. Passamos por uma placa que anuncia:

 

BEM-VINDOS A PARADISE, OHIO

POPULAÇÃO: 5.243

 

—            Puxa! — eu comento. — Este lugar é ainda menor do que aque­le em Montana onde moramos.

Henri está sorrindo.

Acha que isto aqui é o paraíso de quem?

Das vacas, talvez? Dos espantalhos?

Passamos por um velho posto de gasolina, um lava rápido e um cemitério. Então surgem as casas, construções de madeira afastadas umas das outras por nove ou dez metros. Quase todas estão com as janelas decoradas para o Halloween. A calçada atravessa os peque­nos jardins e leva às portas. Uma rotatória marca o centro da cidade, e no meio dela há a estátua de um homem em um cavalo, empu­nhando uma espada. Henri para. Nós dois olhamos para a estátua e rimos, na esperança de que jamais apareça por ali mais alguém com espadas. Ele passa pela rotatória e o sistema de GPS do painel nos manda fazer uma curva. Seguimos para oeste, saindo da cidade.

Percorremos cerca de seis quilômetros antes de virar à esquerda numa alameda de cascalho, depois passamos por campos abertos, que provavelmente ficam repletos de milho no verão, e atravessa­mos mais ou menos um quilômetro e meio de floresta densa. Final­mente a encontramos, escondida no meio da vegetação não apara­da: uma caixa de correspondência de metal enferrujado com letras pretas pintadas na lateral: 17 old mill rd. Ali está o número 17 da estrada do velho moinho.

—            A casa mais próxima fica a três quilômetros — Henri diz, en­trando na propriedade.

O mato invade a estradinha de cascalho, cheia de buracos com água lamacenta. Henri para e desliga o motor da caminhonete.

—            De quem é aquele carro? pergunto, apontando para o SUV preto atrás do qual Henri acabou de estacionar.

—            Deve ser da corretora de imóveis.

A casa é emoldurada pelas árvores. Na escuridão ela tem um cer­to ar sombrio, como se o último morador tivesse ido embora por medo, por ter sido expulso ou fugido. Eu saio da caminhonete. O motor estala e posso sentir o calor que emana dele. Pego minha mala na carroceria e fico ali parado, segurando-a.

—            O que acha? Henri pergunta.

A casa tem um andar só. A fachada é de madeira. Boa parte da pintura branca já descascou. Uma das janelas da frente está danifi­cada. As telhas pretas parecem empenadas e prestes a quebrar. Três degraus de madeira levam a uma pequena varanda coberta e mobi­liada com cadeiras bambas. O quintal é comprido e maltratado. Há muito tempo a grama não é molhada.

—            Parece o paraíso respondo.

Começamos a caminhar juntos, e, neste instante, uma mulher loura e bem-vestida, mais ou menos da idade do Henri, aparece na porta da casa. Ela está de tailleur e segura uma prancheta e uma pas­ta. Tem um BlackBerry preso ao cós da saia. Ela sorri.

—            Sr. Smith?

Sim — Henri confirma.

Sou Annie Hart, corretora da Imobiliária Paradise. Conversamos ao telefone. Tentei ligar mais cedo, mas seu número parecia estar desligado.

Sim, sim. Infelizmente, a bateria acabou a caminho daqui.

Ah, eu odeio quando isso acontece — ela diz e se aproxima de nós para apertar a mão de Henri. Ela pergunta meu nome e eu res­pondo, apesar de me sentir tentado, como sempre, a dizer simples­mente "Quatro". Enquanto Henri assina o contrato, ela me pergunta minha idade e conta que tem uma filha mais ou menos da faixa etária, que estuda no colégio local. A mulher é muito simpática, amigável e nitidamente adora conversar. Henri devolve o contrato e nós três entramos na casa.

A maioria dos móveis está coberta por lençóis brancos. Os que ficaram de fora ganharam uma camada de poeira densa e insetos mortos. Parece que a tela nas janelas vai quebrar se a tocarmos, e as paredes são revestidas de compensado barato. Há dois dormitórios, uma cozinha modesta com piso de linóleo verde-limão e um banhei­ro. A sala de estar é grande e retangular, e fica na frente da casa. Há uma lareira no canto mais afastado. Eu entro e jogo minha mala na cama do quarto menor, que tem um pôster grande e desbotado de um jogador de futebol num uniforme laranja. Ele está no meio de um passe e parece que vai ser esmagado por um sujeito enorme de uni­forme preto e dourado. Os dizeres o identificam como bernie kosar, quarterback, do cleveland browns.

—            Venha se despedir da Sra. Hart — Henri grita da sala.

A Sra. Hart está na porta com Henri e me diz para procurar pela filha dela na escola, pois podemos ser amigos. Eu sorrio e respondo que sim, isso seria ótimo. Assim que ela vai embora começamos a descarregar a caminhonete. Dependendo da rapidez com que deixa­mos um lugar, podemos viajar com pouca bagagem, o que significa levar as roupas do corpo, o laptop de Henri e a Arca Lórica com entalhes intricados que nos acompanha a todos lugares. Ou carregar algo mais: normalmente os outros computadores e o equipamento que Henri usa para estabelecer um perímetro de segurança e pes­quisar na Internet notícias e eventos que possam ter a ver conosco. Desta vez estamos com a arca, dois bons computadores, quatro mo­nitores de tevê e quatro câmeras. Também temos algumas roupas, embora poucas peças que eu tenha usado na Flórida sirvam para a vida em Ohio. Henri leva a arca para o quarto dele e carregamos todo o equipamento para o porão, onde ele será instalado, de forma que nenhuma visita possa ver nada. Assim que levamos tudo para dentro, ele começa a conectar as câmeras e ligar os monitores.

Não teremos Internet até amanhã cedo. Mas, se quiser ir à escola, posso imprimir toda a sua nova documentação.

Se eu não for, vou ter que ajudar a limpar a casa e a terminar de instalar tudo?

Vai.

Eu vou para a escola — anuncio.

Então, é melhor ter uma boa noite de sono.

 

OUTRA NOVA IDENTIDADE, OUTRA NOVA ESCOLA. PERDI AS CONTAS DE QUANTAS foram ao longo dos anos. Quinze? Vinte? Sempre uma cidade peque­na, uma escola pequena, a mesma rotina. Alunos novos chamam atenção. Às vezes questiono nossa estratégia de nos limitarmos às cidades pequenas, porque é difícil, quase impossível não ser nota­do. Mas entendo a lógica de Henri: é igualmente impossível que eles não sejam notados.

A escola fica a cinco quilômetros de nossa casa. Henri me leva de carro pela manhã. É menor que a maioria que já frequentei e não é nada imponente: só um edifício térreo, comprido e baixo. Um mural com um pirata e uma faca entre os dentes cobre a parede ao lado da porta principal.

Então agora você é um pirata? Henri pergunta ao meu lado.

Parece que sim respondo.

Conhece as regras ele me lembra.

Esta não é minha primeira vez.

Não mostre sua inteligência. Eles vão se ressentir.

Eu nem sonho com isso.

Não se destaque nem chame muita atenção.

Serei só uma mosca na parede.

E não machuque ninguém. Você é muito mais forte do que eles.

Eu sei.

Mais importante, esteja sempre pronto. Pronto para ir embora sem aviso. O que tem em sua mochila?

Frutas secas e castanhas para cinco dias. Meias e cuecas térmicas. Capa de chuva. Um GPS de mão. Uma faca disfarçada de caneta.

Com você o tempo todo. — Ele respira fundo. — E fique atento aos sinais. Seus Legados vão aparecer a qualquer momento. Escon­da-os a todo custo e me chame imediatamente.

Eu sei, Henri.

A qualquer momento, John — ele repete. — Se seus dedos começarem a desaparecer, se você começar a flutuar ou a tremer violentamente, se perder o controle muscular, se começar a ouvir vozes sem que ninguém esteja falando ou algo parecido, me chame.

Dou um tapinha na mochila:

Meu telefone está bem aqui.

Vou esperar aqui depois da aula. Boa sorte, garoto.

Sorrio para ele. Henri tem cinquenta anos, o que significa que ele tinha quarenta quando chegamos. Isso tornou a transição mais difícil para ele. Henri ainda fala com forte sotaque lórico, frequen­temente confundido com o francês. Logo no início esse foi um bom álibi, por isso ele escolheu o nome Henri, que mantém até hoje, tro­cando apenas o sobrenome para combinar com o meu.

Lá vou eu dominar a escola — digo.

Seja bonzinho.

Eu caminho para o prédio. Como acontece em todo colégio do ensino médio, há rodinhas de alunos do lado de fora. Eles têm seus grupos: os atletas e as líderes de torcida; o pessoal da banda com seus instrumentos; os estudiosos com seus óculos, livros e Black-Berries; e os doidões, um pouco mais afastados e alheios a todos os outros. Um garoto alto e com óculos fundo de garrafa está sozinho.


 

Ele veste jeans e uma camiseta preta da Nasa, e não deve pesar mais do que quarenta e cinco quilos. Está com uma luneta, observando o céu quase totalmente encoberto. Noto uma menina tirando fotos, transitando com facilidade de um grupo a outro. Ela é linda, tem cabelos louros e lisos abaixo dos ombros, pele de marfim, maçãs do rosto altas e olhos azuis delicados. Todos parecem conhecê-la e cumprimentá-la, e ninguém se opõe a ser fotografado.

A garota me vê, sorri e acena. Acho isso estranho e me viro, para ver se há alguém atrás de mim. Vejo dois garotos discutindo a lição de matemática, e só. Olho novamente para ela. A garota vem em mi­nha direção, sorrindo. Nunca vi, muito menos falei, com uma me­nina tão linda, e, definitivamente, nenhuma jamais acenou e sorriu para mim como se fôssemos amigos. Fico nervoso e começo a corar. Mas também fico desconfiado, porque fui treinado para isso. Ela se aproxima, ergue a câmera e começa a tirar fotos. Levanto as mãos para esconder meu rosto. Ela baixa a câmera e sorri.

Não seja tímido.

Não sou. Só quero proteger sua lente. Meu rosto pode quebrá-la.

Ela riu.

Se continuar com essa cara feia, com certeza. Tente sorrir.

Eu sorrio, mas sem muito entusiasmo. Estou tão nervoso que tenho a sensação de que vou explodir. Posso sentir meu pescoço quei­mando, minhas mãos ficando quentes.

—            Isso não é um sorriso de verdade — ela diz, brincalhona. — Sorrir envolve mostrar os dentes.

Sorrio de verdade, e ela tira fotos. Normalmente não permito que ninguém me fotografe. Se um retrato desses cair na Internet ou em um jornal, vai ser muito mais fácil me encontrar. Nas duas vezes em que fui fotografado, Henri ficou furioso, conseguiu as fotos e as destruiu. Se ele souber o que estou fazendo agora, eu fi­carei realmente encrencado. Mas não posso evitar — a garota é tão bonita e tão charmosa... Enquanto ela está me fotografando, um cachorro corre em minha direção. E um beagle com orelhas com­pridas, patas e peito brancos e corpo preto e esguio. Está magro e sujo, como um cão sem dono. Ele se esfrega em minhas pernas, gane, tenta chamar minha atenção. A garota acha bonitinho e pede que eu me ajoelhe, para me fotografar com o cachorro. Assim que ela começa a clicar, o cãozinho se afasta. Cada vez que ela tenta, ele se afasta um pouco mais. Finalmente, ela desiste e faz mais algumas fotos minhas. O cão se senta a uns dez metros de nós e nos observa.

Conhece aquele cachorro? — ela pergunta.

Nunca o vi antes.

Ele gosta de você. Seu nome é John, certo?

Ela estende a mão.

Sim — confirmo. — Como sabe?

—            Sou Sarah Hart. Minha mãe é sua corretora de imóveis. Ela me contou que você provavelmente começaria hoje na escola e me disse para procurá-lo. E você é o único aluno novo por aqui hoje.

Eu rio.

É, eu conheci sua mãe. Ela é legal.

Não vai apertar minha mão?

Ela ainda está com o braço estendido. Eu sorrio e a cumprimento, e essa é literalmente uma das melhores sensações que já tive.

Uau! — ela exclama.

O quê?

—            Sua mão está quente. Muito quente, mesmo, como se estivesse com febre, ou alguma coisa assim...

Acho que não.

Ela solta minha mão.

Talvez você tenha o sangue quente, só isso.

É, talvez.

Ouço uma campainha soando ao longe, e Sarah diz que é o sinal: temos cinco minutos para chegar à sala de aula. Nós nos despedimos e fico olhando enquanto ela se afasta. Um momento depois, alguma coisa esbarra em meu cotovelo. Eu me viro, e um grupo de jogadores de futebol americano passa por mim, todos vestindo o agasalho do time. Um deles me encara, e percebo que foi ele quem acertou meu braço com a mochila. Duvido que tenha sido um acidente e começo a segui-los. Sei que não vou fazer nada, mesmo podendo. Mas não gosto de valentões. É quando o garoto com a camiseta da Nasa se aproxima e caminha ao meu lado.

—            Sei que é novo por aqui, por isso vou informá-lo de algumas coisas — ele fala.

—            O quê? — pergunto.

—            Aquele é Mark James. Ele é muito importante. O pai é o xerife da cidade, e ele é o astro do time de futebol. Namorava Sa­rah quando ela era líder de torcida, mas ela desistiu da torcida e dele. Mark ainda não superou. Se fosse você, eu não me meteria com ele.

—            Obrigado.

O garoto então se afasta, apressado. Eu me dirijo à sala do dire­tor para me inscrever nas disciplinas e começar a assistir às aulas. Viro-me para ver se o cachorro ainda está por ali — ele permanece sentado no lugar, me observando.

 

O nome do diretor é Sr. Harris. É gordo e quase careca, exceto por alguns fios compridos nas laterais e na parte de trás da cabeça. A barriga cai por cima do cinto. Os olhos são pequenos e saltados, muito juntos. Ele sorri para mim de sua cadeira, e o sorriso parece engolir os olhos.

—            Você é o aluno do segundo ano que veio de Santa Fé? — ele pergunta.

Movimento a cabeça em sentido afirmativo e digo que sim, embora nunca tenhamos ido a Santa Fé, ou ao Novo México, para dizer a ver­dade. Uma mentira simples para evitar que encontrem nosso rastro.

Isso explica o bronzeado. O que o traz a Ohio?

O trabalho do meu pai.

Henri não é meu pai, mas sempre digo que é, para não despertar suspeitas. Na verdade ele é meu Guardião, ou pelo menos é assim que o chamariam na Terra. Em Lorien havia dois tipos de cidadãos: os comuns e os que desenvolvem os Legados, ou poderes — que podem ser extremamente variados, qualquer habilidade mesmo, da invisibilidade à capacidade de ler mentes, voar ou manipular as forças da natureza, como o fogo, o vento ou os raios. Os que têm os Legados fazem parte da Garde, e os que não os têm são intitula­dos Cêpans, ou Guardiões. Eu sou membro da Garde. Henri é um Cêpan. Todo Garde é designado a um Cêpan quando pequeno, que o ajuda a entender a história do planeta e a desenvolver seus pode­res. Cêpan e Garde — um grupo para administrar o planeta, o outro para defendê-lo.

O Sr. Harris está assentindo.

—            E o que ele faz?

—            É escritor. Ele queria morar em uma cidade pequena e tran­quila para terminar o livro em que está trabalhando — respondo, porque esse é nosso disfarce padrão.

O Sr. Harris assente mais uma vez e estreita os olhos.

Você me parece um rapaz forte. Pretende praticar algum espor­te aqui no colégio?

Gostaria muito, mas tenho asma, senhor — explico, repetindo a desculpa de sempre para evitar situações que possam denunciar minha força e minha velocidade.

Lamento saber disso. Estamos sempre em busca de atletas habi­lidosos para o time de futebol. — Ele lança um olhar para a prateleira onde está um troféu com data do ano passado. — Vencemos o Pioneer Conference — diz, cheio de orgulho.

Depois o Sr. Harris estende a mão, retira do arquivo ao lado da mesa duas folhas de papel e me entrega. A primeira folha é meu horário, com alguns tempos em aberto. A segunda é uma lista de ma­térias eletivas disponíveis. Escolho as que me interessam, preencho os horários vagos e então devolvo toda a papelada. Ele me passa as orientações gerais num discurso que parece durar horas, detalhando cada página do manual do aluno de forma dolorosa. Um sinal soa lá fora, e depois outro. Quando ele finalmente termina e pergunta se tenho dúvidas, respondo que não.

—            Excelente. Ainda resta meia hora da segunda aula, e você esco­lheu astronomia, com a Sra. Burton. Ela é ótima professora, uma de nossas melhores. Já foi premiada pelo estado uma vez, e o próprio governador entregou o prêmio.

—            Isso é muito bom — digo.

O Sr. Harris consegue se levantar de sua cadeira com muito esforço, e nós deixamos a sala e percorremos o corredor. Seus sapatos fazem barulho no chão recém-encerado. O ar cheira a tinta fresca e produto de limpeza. Armários escondem as paredes. Muitos são cobertos por flâmulas do time de futebol. Não deve haver mais de vinte salas de aula no prédio inteiro. Eu conto enquanto passamos.

—            Chegamos — diz o Sr. Harris. Ele estende a mão. Eu o cumpri­mento. — Estamos felizes por tê-lo aqui. Gosto de pensar que somos uma família unida. É com alegria que o recebo nela.

—            Obrigado — respondo.

O Sr. Harris abre um pouco a porta, enfia a cabeça pela fresta e olha para dentro da sala. Só então percebo que estou um pouco ten­so, que uma leve tontura começa a me dominar. Minha perna direita está tremendo, sinto um nó no estômago. Não entendo por quê. Não pode ser por estar prestes a entrar na primeira aula. Já fiz isso tantas vezes que nem deveria mais ficar nervoso. Respiro fundo e tento me acalmar.

Sra. Burton, desculpe-me por interromper. Seu novo aluno está aqui.

Ah, ótimo! Mande-o entrar — ela diz com voz aguda e entusiasmada.

O Sr. Harris segura a porta aberta e eu entro. A sala é um quadra­do perfeito, com umas vinte e cinco pessoas sentadas em carteiras retangulares do tamanho de mesas de cozinha, três alunos em cada uma. Todos olham para mim. Olho de volta para eles antes de en­carar a Sra. Burton. Ela deve ter uns sessenta anos, veste suéter de lã cor-de-rosa e usa óculos com armação vermelha presos a uma correntinha no pescoço. Tem o sorriso largo e cabelos grisalhos e encaracolados. Minhas mãos estão suadas e sinto meu rosto quen­te, corado. Espero não estar vermelho. O Sr. Harris fecha a porta.

—            Como se chama? — ela pergunta.

Nervoso, quase digo "Daniel Jones", mas me contenho, respiro fundo e respondo:

John Smith.

Ótimo! E de onde você é?

Fl... — começo, mas me interrompo outra vez, antes de con­cluir a palavra. — Santa Fé.

Turma, vamos dar a ele as boas-vindas.

Todos aplaudem. A Sra. Burton faz um gesto me convidando a me sentar no lugar vago no centro da sala, entre dois outros alunos. Fico aliviado por ela não fazer mais perguntas. Ela se vira para voltar à mesa e eu começo a caminhar até meu lugar, na direção de Mark James, que está sentado com Sarah Hart. Quando passo, ele estica a perna e põe o pé na minha frente. Eu perco o equilíbrio, mas não caio. O barulho da sola do tênis ecoa na sala.

A Sra. Burton se vira rapidamente:

—            O que aconteceu?

Eu não respondo, mas fico encarando Mark. Toda escola tem alguém como ele, o valentão, encrenqueiro, seja qual for o nome que você queira dar, mas nenhum outro tinha se materializado tão de­pressa. O cabelo dele é preto, cheio de gel, arrumado com cuidado para ficar espetado em todas as direções. As costeletas estão cui­dadosamente aparadas, assim como a barba curta. As sobrancelhas são grossas, e os olhos, escuros. Pelo agasalho do time, vejo que ele é aluno antigo — seu nome está escrito em letras cursivas douradas acima do ano. Nós nos encaramos, e a sala toda parece deixar esca­par um gemido de apreensão.

Olho para meu lugar, três mesas atrás da dele, e volto a encará-lo. Posso quebrá-lo ao meio, literalmente, se eu quiser. Posso arremes­sá-lo para o país vizinho. Se ele tentasse fugir usando um carro, eu poderia ser mais rápido, e ainda colocar o automóvel em cima de uma árvore. Mas, além de saber que isso tudo seria uma reação extremamente exagerada, as palavras de Henri ecoam em minha mente: "Não se destaque nem chame muita atenção." Sei que devo seguir seu conselho e ignorar o que acabou de acontecer, como sem­pre fiz. Somos bons nisso, em nos mesclar ao ambiente e viver nas sombras. Mas estou meio deslocado, desconfortável, e antes que eu tenha a chance de pensar duas vezes, a pergunta está feita:

—            Queria alguma coisa?

Mark olha em volta, estudando o restante da turma, ergue os om­bros e volta a me encarar.

—            Do que está falando? — ele pergunta.

—            Pôs o pé na minha frente quando eu estava passando. E trom­bou em mim lá fora. Talvez esteja querendo alguma coisa.

O que está acontecendo? — a Sra. Burton pergunta atrás de mim.

Olho para ela por cima do ombro:

Nada — respondo. E me volto para Mark: — E então?

As mãos dele apertam a beirada da mesa, mas ele fica em silêncio. Nós nos encaramos até ele suspirar e desviar os olhos.

— Foi o que pensei — digo e continuo andando.

Os outros alunos não sabem ao certo como reagir, e muitos ainda olham para mim enquanto me sento entre uma garota ruiva e sar­denta e um menino gordo, que me encara boquiaberto.

A Sra. Burton está em pé na frente da sala. Ela parece um pouco agitada, mas dá de ombros e começa a explicar por que há anéis em torno de Saturno e que eles são feitos basicamente de partículas de gelo e de poeira. Depois de um tempo, deixo de ouvi-la e me con­centro nos alunos. Mais um grupo de pessoas que, novamente, vou tentar manter a distância. Há sempre uma linha tênue entre interagir só o suficiente, para manter a discrição, e interagir pouco demais e acabar me destacando por ser esquisito. Hoje já fiz uma besteira nesse sentido.

Respiro fundo e solto o ar devagar. Ainda sinto o nó no estômago, e minha perna continua tremendo um pouco. Minhas mãos estão um pouco mais quentes. Mark James está sentado três me­sas à minha frente. Ele se vira uma vez e olha para mim, depois cochicha no ouvido de Sarah. Ela se vira. Ela parece ser legal, mas o fato de sair com ele e de estar sentada ao lado dele me faz duvidar disso. Sarah sorri para mim de um jeito simpático. Quero retribuir, mas fico paralisado. Mark tenta cochichar de novo, e ela balança a cabeça e o empurra. Minha audição é muito melhor que a humana quando me concentro, mas estou tão perturbado por aquele sorriso que não escuto nada. Gostaria de ter conseguido ouvir o que disseram.

Abro e fecho as mãos. As palmas estão suadas e começam a arder. Respiro fundo mais uma vez. Minha visão está turva. Cinco minu­tos se passam, depois dez. A Sra. Burton ainda fala, mas não escuto o que ela diz. Cerro os punhos, depois volto a abri-los. Então o ar fica preso em minha garganta. Um brilho pálido surge no centro da palma da minha mão direita. Olho, perplexo, fascinando. Depois de alguns segundos, o brilho começa a ganhar intensidade.

Fecho as mãos. Primeiro, meu medo é de que algo tenha acontecido a um dos outros. Mas o que seria? Não podemos ser mortos fora da ordem. É assim que funciona o encantamento. Mas isso significa que nenhum outro mal pode atingi-los? A mão direita de alguém teria sido cortada? Não tenho como saber. Mas, se acontecesse algo, eu sentiria nas cicatrizes dos meus tornozelos. É só então que com­preendo. Meu primeiro Legado deve estar se formando.

Pego o telefone na mochila e mando uma mensagem de texto para Henri dizendo vnhea, embora tivesse a intenção de escrever venha. Estou tonto demais para tentar digitar mais alguma palavra. Cerro os punhos e os apoio nas pernas. Minhas mãos estão queimando e tremendo. Eu as abro. A palma esquerda está muito vermelha, a direita ainda brilha. Olho para o relógio na parede e vejo que a aula está chegando ao fim. Se conseguir sair da aula, poderei encontrar uma sala vazia, onde eu possa ligar para Henri e perguntar o que está acontecendo. Começo a contar os segundos: sessenta, cinquenta e nove... Agora sinto um ardor intenso, como se pequenas agulhas fossem espetadas em minhas mãos. Vinte e oito, vinte e sete. Abro os olhos e fico olhando para a frente, para Sarah, esperando que isso me distraia. Quinze, quatorze. Olhá-la piora a sensação. Agora as agulhas são como pregos. Pregos que foram deixados em uma forna­lha, aquecidos até ficarem em brasa. Oito, sete.

O sinal soa e, no mesmo instante, eu me levanto e saio da sala, passando apressado pelos outros alunos. Estou tonto, sem equilíbrio. Sigo pelo corredor, sem saber para onde ir. Sinto que alguém me segue. Pego meu horário no bolso de trás da calça e verifico o número de meu armário. Estou com sorte, porque ele fica à minha direita, ali mesmo. Paro e apóio a cabeça na porta de metal. Balanço a cabeça, percebendo que, na pressa de sair, deixei na sala a mochila com o telefone celular. E então alguém me empurra.

—            E aí, valentão?

Eu recuo alguns passos, me recupero e levanto a cabeça. Mark está parado, sorrindo para mim.

Algum problema? — ele pergunta.

Não — digo.

Minha cabeça está girando. Tenho a sensação de que vou desmaiar. E minhas mãos queimam. Não sei o que está acontecendo, mas não podia ser em pior hora. Ele me empurra de novo.

—            Não é tão valentão sem os professores por perto, não é?

Estou desequilibrado demais para conseguir ficar em pé, tropeço nos próprios pés e caio. Sarah se coloca na frente de Mark.

Deixe ele em paz — ela diz.

Você não tem nada a ver com isso.

—            É claro. Você vê um garoto novo conversando comigo e ime­diatamente tenta começar uma briga. Esse é só mais um exemplo de por que não estamos mais juntos.

Começo a me levantar. Sarah estende a mão para me ajudar, e, assim que ela me toca, a dor em minhas mãos aumenta e se espalha, tanto que parece que um raio atingiu minha cabeça. Eu me viro e co­meço a caminhar apressadamente, indo na direção oposta à da aula de astronomia. Sei que todos vão pensar que sou covarde por estar fugindo, mas tenho a sensação de que vou desmaiar a qualquer mo­mento. Mais tarde agradecerei a Sarah e cuidarei de Mark. Agora, só preciso encontrar uma sala com uma porta que eu possa trancar.

Chego ao final do corredor, que cruza com o caminho para a entrada principal da escola. Penso nas orientações do Sr. Harris, no que ele falou sobre os vários espaços da escola e sua localização. Se não me falha a memória, o auditório, as salas da banda e as salas de artes ficam no final deste corredor. Corro até elas o mais depressa que meu estado me permite. Posso ouvir Mark gritando atrás de mim e Sarah gritando com ele. Abro a primeira porta que encontro e a fecho de­pois de entrar. Felizmente, há uma fechadura, e eu a tranco.

Estou em uma sala escura. Há tiras de negativos secando pendura­das em varais. Caio no chão. Minha cabeça gira e minhas mãos quei­mam. Desde que vi o brilho pela primeira vez, mantive as mãos bem fechadas. Agora olho e noto que a mão direita continua brilhando, pulsando. Começo a entrar em pânico.

Sentado no chão, sinto o suor entrando nos olhos. As duas mãos doem terrivelmente. Eu sabia que deveria esperar meus Legados, mas não tinha ideia de que seria assim. Abro as mãos e vejo que a palma direita está brilhando intensamente, a luz começa a se con­centrar. A mão esquerda emite uma luz fraca, trêmula, e a sensação de ardor é quase insuportável. Queria que Henri estivesse comigo. Espero que ele esteja a caminho.

Fecho os olhos e cruzo os braços, balançando-me para a frente e para trás sentado no chão, sentindo tudo em mim doer. Não sei quanto tempo passo ali. Um minuto? Dez? O sinal soa no corredor, anunciando o começo da aula seguinte. Escuto pessoas falando do lado de fora. A porta é sacudida algumas vezes, mas está trancada, e ninguém vai conseguir entrar. Continuo me balançando, de olhos fechados. Ouço mais batidas na porta. Vozes abafadas que não com­preendo. Abro os olhos e noto que o brilho em minha mão iluminou a sala inteira. Cerro os punhos, tentando apagar a luz, mas ela esca­pa por entre os dedos. Então, a porta começa a sacudir de verdade. O que eles vão pensar da luz em minhas mãos? Não há como escondê-la. Como vou explicá-la?

— John? Abra a porta... sou eu — diz uma voz.

O alívio me invade. A voz de Henri, a única no mundo que eu quero ouvir.

 

ARRASTO-ME ATÉ A PORTA E A DESTRANCO. ELA SE ABRE. HENRI ESTÁ COM roupas de jardinagem, coberto de terra, como se estivesse trabalhan­do no quintal da casa. Fico tão feliz por vê-lo que sinto vontade de pular e abraçá-lo, o que até tento fazer, mas estou tonto demais para ficar em pé e caio novamente.

Tudo bem aí? pergunta o Sr. Harris, que está atrás de Henri.

Tudo bem, só precisamos de um minuto, por favor Henri responde.

Devo chamar uma ambulância?

Não!

A porta se fecha. Henri olha minhas mãos. A luz na direita brilha intensamente, mas a na esquerda tremula, fraca, como se tentasse adquirir confiança em si mesma. Henri sorri, e seu rosto se ilumina como um farol.

—            Ah, graças a Lorien! Ele suspira e tira do bolso traseiro um par de luvas de jardinagem. Sorte que eu estava trabalhando no jardim! Ponha as luvas.

Faço o que ele diz, e as luvas escondem completamente a luz. O Sr. Harris abre a porta e espia dentro da sala.

—            Sr. Smith? Está tudo bem?

—            Sim, tudo bem. Só precisamos de trinta segundos — Henri responde. Depois ele olha para mim. — Seu diretor é intrometido.

Respiro fundo.

Entendo o que está acontecendo, mas por que isso?

Seu primeiro Legado.

Eu sei, mas por que as luzes?

Falaremos sobre isso no carro. Pode andar?

Acho que sim.

Ele me ajuda a levantar. Estou cambaleante, ainda trêmulo, e me agarro ao braço dele para me apoiar.

—- Preciso pegar minha mochila antes de irmos — falo.

Onde está?

Deixei na sala de aula.

Que sala?

Dezessete.

Vou levá-lo para a caminhonete e volto para pegar a mochila.

Apóio o braço direito nos ombros de Henri, que me sustenta pas­sando o braço esquerdo por minha cintura. O segundo sinal já soou, mas ainda escuto a movimentação de pessoas no corredor.

—            Você precisa andar do jeito mais normal e ereto que conseguir.

Respiro fundo. Tento reunir toda a força que ainda me resta a fim de percorrer o longo caminho até a saída da escola.

—            Vamos lá — digo.

Limpo o suor da testa e acompanho Henri para fora da sala escura. O Sr. Harris ainda está no corredor.

—            É só uma crise forte de asma — Henri informa ao passar por ele.

Cerca de vinte pessoas, mais ou menos, continuam no corredor, a maioria delas com câmeras fotográficas penduradas no pescoço, esperando para entrar na sala onde são as aulas de fotografia. Felizmente, Sarah não está ali. Caminho tão ereto quanto posso, um pé à frente do outro. A saída da escola é a trinta metros. São muitos passos. As pessoas cochicham.

"Que cara esquisito."

"Ele estuda aqui?"

"Espero que sim, ele é bonitinho."

"O que acha que ele estava fazendo na sala escura para ficar com o rosto tão vermelho?"

Todos riem.

Da mesma forma que podemos apurar a audição, podemos desligá-la, o que ajuda muito quando você tenta se concentrar no meio de muito barulho e confusão. Eu isolo todo o ruído e acompanho Henri, logo atrás dele. Cada passo exige a força de dez, mas, finalmente, chegamos à porta. Henri a mantém aberta enquanto tento caminhar sozinho até a caminhonete, que está estacionada bem em frente. Nos últimos vinte passos, tenho de me apoiar novamente nos ombros dele. Henri abre a porta e eu entro.

Sala dezessete, você disse?

Sim.

—            Devia ter ficado com a mochila. São os pequenos deslizes que levam aos grandes erros. Você não pode errar.

—            Eu sei. Desculpe-me.

Ele bate a porta e volta ao edifício. Eu me curvo para a frente no assento, tentando respirar mais devagar. Ainda posso sentir o suor na testa. Ergo o corpo e baixo o para-sol para me olhar no espelho. Meu rosto está mais velho do que eu imaginava, e meus olhos lacrimejam um pouco. Mas, apesar da dor e da exaustão, eu sorrio. Finalmente, penso. Após anos de espera, anos contando apenas com o intelecto e a discrição como defesa contra os mogadorianos, meu primeiro Legado aparece. Henri sai da escola carregando minha mochila. Ele contorna a caminhonete, abre a porta do motorista e joga a mochila no banco.

—            Obrigado — digo.

—            Não foi nada.

Quando saímos do estacionamento, tiro as luvas e dou uma boa olhada nas mãos. A luz na mão direita começa a se concentrar em um feixe como uma lanterna, porém mais brilhante. A ardência di­minui. A mão esquerda ainda tem aquela luz fraca e tremulante.

—            Deveria ficar com as luvas até chegarmos em casa — Henri aconselha.

Eu as ponho de volta e olho para ele, que sorri orgulhoso.

Foi um longo saco de espera — ele diz.

Hmmm? — pergunto.

Ele me olha por um instante.

—            Um longo saco de espera — repete. — Pelos seus Legados.

Eu rio. Se há uma coisa que Henri não conseguiu dominar desde que chegou a Terra é a arte de xingar.

Uma longa droga de espera — sugiro.

Foi o que eu disse. Ele olha para a estrada.

—            Então, o que fazemos agora? Isso significa que vou poder dis­parar lasers com as mãos ou o quê?

Ele ri.

—            É bom pensar que seria assim, mas não.

Bem, mas o que vou fazer com a luz? Quando estiverem me ca­çando, eu me viro e ofusco meu perseguidor, apontando o raio para os olhos dele? É para deixá-los com medo de mim ou coisa do tipo?

Paciência — ele me aconselha. — Você não tem mesmo que entender isso agora. Vamos para casa.

Então, lembro algo que quase me faz pular no banco da caminhonete.

Quer dizer que vamos finalmente abrir a arca?

Ele assente e sorri.

Em breve.

Uau! — exclamo.

A arca de madeira com aqueles entalhes intricados sempre me intrigou. É uma caixa de aparência frágil com o símbolo lórico gra­vado na lateral, e Henri sempre a cercou de muito sigilo. Ele nunca me contou o que há lá dentro, e é impossível abri-la, eu sei, porque tentei mais vezes do que posso contar, sempre sem sucesso algum. É trancada por um cadeado sem abertura visível para a chave.

Quando chegamos em casa, percebo que Henri esteve trabalhando. Ele tirou as três cadeiras que havia na varanda da frente e todas as ja­nelas estão abertas. Lá dentro, os lençóis que cobriam a mobília foram removidos e alguns móveis já estão limpos. Apóio a mochila na mesa da sala de estar e a abro. Uma onda de frustração me invade.

Aquele filho da mãe — digo.

O que é?

Falta meu celular.

E onde está?

Tive uma discussão com um garoto chamado Mark James. Ele deve ter pegado o telefone.

John, você só passou uma hora e meia na escola. Como já conseguiu discutir com alguém? Você não é tão idiota.

—            É um colégio. Eu sou o aluno novo. Não foi difícil.

Henri tira o celular do bolso e liga para meu número. Então fecha o aparelho.

—            Está desligado — diz.

É claro que está.

Ele me encara.

O que aconteceu?

Reconheço o tom de sua voz: aquele de quando ele está pensando em nos mudarmos de novo.

—            Nada. Foi só uma discussão idiota. Talvez eu tenha deixado o telefone cair quando o joguei na mochila — sugiro, mesmo sabendo que não foi isso que aconteceu. — Eu não estava muito bem. Aposto que o celular vai estar esperando por mim na sala de achados e perdidos.

Ele olha em volta e suspira.

—            Alguém viu suas mãos?

Eu olho para Henri. Seus olhos estão vermelhos, ainda mais injetados do que quando ele me resgatou. O cabelo está desarrumado e ele parece esgotado, como se fosse cair de exaustão a qualquer momento. A última vez que ele dormiu foi na Flórida, há dois dias. Nem sei como ainda consegue ficar de pé.

—            Ninguém viu.

Você esteve na escola por uma hora e meia. Seu primeiro Legado se desenvolveu, você quase se meteu numa briga e deixou a mochila na sala de aula. Isso não é o que se pode chamar de passar despercebido.

Não foi nada. Quer dizer, não foi nada grave o bastante que justifique irmos para Idaho, para Kansas, ou seja, lá qual for nosso próximo destino.

Henri estreita os olhos, refletindo sobre o que acabou de testemu­nhar e tentando decidir se é o suficiente para partirmos.

—            Não é hora de sermos descuidados — declara.

—            Há discussões em todas as escolas todos os dias. Garanto que ninguém vai nos encontrar só porque um garoto metido a valentão implicou com o aluno novo.

—            As mãos do aluno novo não brilham em todas as escolas. Eu inspiro longa e profundamente.

—            Henri, você está com cara de quem vai cair morto. Durma um pouco. Podemos decidir depois que você descansar.

—            Temos muito o que conversar.

—            Nunca o vi tão cansado antes. Durma por algumas horas. Con­versamos depois.

Ele assente.

—            Um cochilo deve mesmo me fazer bem.

 

Henri vai para o quarto e fecha a porta. Eu saio, vou caminhar um pouco pelo quintal. O sol brilha atrás das árvores e eu sinto o vento frio. As lu­vas continuam em minhas mãos. Eu as tiro e guardo no bolso de trás da calça. As mãos estão como antes. Para ser franco, parte de mim se ani­ma com o surgimento de meu primeiro Legado, depois de tantos anos de ansiosa espera. A outra está devastada. As mudanças constantes me esgotaram, e agora vai ser impossível passar despercebido ou ficar em um lugar por algum tempo. Vai ser impossível fazer amigos ou me sen­tir parte de algo. Cansei dos nomes falsos e das mentiras. Estou farto de viver olhando por cima do ombro para ver se há alguém me seguindo.

Eu me abaixo e encosto nas cicatrizes no tornozelo direito. Três círculos, que representam os três mortos. Estamos ligados uns aos ou­tros mais do que pela raça, simplesmente. Enquanto toco as cicatrizes, tento imaginar quem eles eram, se eram garotos ou garotas, onde vi­viam, quantos anos tinham quando morreram. Tento me lembrar das outras crianças que vieram na nave e dar números a cada uma delas. Penso em como seria encontrá-las, conviver com elas. Como teria sido se ainda estivéssemos em Lorien. Como seria se o destino de toda a nossa raça não dependesse da sobrevivência de tão poucos. Como se­ríamos se não estivéssemos enfrentando a perspectiva da morte pelas mãos de nossos inimigos.

É aterrorizante saber que eu sou o próximo. Mas temos nos mantido à frente deles com as constantes mudanças, fugindo. Estou cansado de fugir, mas sei que é isso que nos mantém vivos. Se pararmos, eles nos encontrarão. E, agora que sou o próximo da fila, devem ter inten­sificado a procura, sem dúvida. Certamente sabem que estamos nos fortalecendo, desenvolvendo nossos Legados.

E no outro tornozelo há a outra cicatriz, o sinal que se formou quan­do o feitiço lórico foi lançado em nós, naqueles últimos e preciosos mo­mentos antes de deixarmos nosso mundo. É a marca que nos une.

 

ENTRO E ME DEITO NO COLCHÃO DO MEU QUARTO, SEM LENÇOL. A MANHÃ ME esgotou, e fecho os olhos. Quando volto a abri-los, o sol já está acima da copa das árvores. Saio do quarto. Henri está na cozinha, sentado à mesa, olhando para o laptop aberto, e sei que ele está vasculhando os noticiários, como sempre faz, tentando encontrar histórias ou in­formações que possam nos dizer onde estão os outros.

—            Você dormiu? pergunto.

—            Não muito. Agora temos Internet, e não verifico as notícias desde que saímos da Flórida. Isso estava me incomodando.

—            Alguma coisa importante? quero saber.

Ele dá de ombros.

—            Um garoto de quatorze anos caiu de uma janela do quarto an­dar na África e escapou sem arranhão. E outro, de quinze anos, em Bangladesh, está dizendo que é o Messias.

Eu rio.

Sei que o garoto de quinze anos não é um de nós. O que você acha do outro?

Não. Sobreviver a uma queda do quarto andar não é nenhum grande feito. Além do mais, se fosse um de nós, teria sido mais cui­dadoso ele completa, piscando para mim.

Eu sorrio e me sento diante dele. Henri fecha o computador e coloca as mãos na mesa. Seu relógio marca 11h36. Estamos em Ohio há pouco mais da metade de um dia, e já aconteceu tudo isso. Levanto as mãos abertas. Brilham menos do que na última vez que olhei.

Sabe o que tem aí? — Henri me pergunta.

Tenho luzes nas mãos.

Ele ri.

O nome disso é Lúmen. Com o tempo você vai ser capaz de controlar a luz.

Espero que sim, porque nosso disfarce vai ser bem prejudicado se isso não se apagar logo. E ainda não entendo para que serve.

Há mais no Lúmen que simplesmente luz. Garanto.

O que mais?

Ele vai até o quarto e volta com um isqueiro na mão.

—            Você se lembra bem de seus avós? — ele me questiona.

Os avós são as pessoas que nos criam. Vemos pouco nossos pais até completarmos vinte e cinco anos, quando temos nossos filhos. A expectativa de vida de um lorieno é de cerca de duzentos anos, mui­to maior que a dos humanos, e quando os filhos nascem, enquanto os adultos têm entre vinte e cinco e trinta e cinco anos, são os mais velhos que os criam, período em que os pais continuam desenvol­vendo seus Legados.

Um pouco? Por quê?

Porque seu avô tinha o mesmo dom.

Não me lembro de ter visto as mãos dele brilhando. Nunca.

Henri dá de ombros.

Talvez ele nunca tenha tido motivo para usar o poder.

—            Maravilhoso — reajo. — Parece realmente um grande dom, ter algo que nunca vou usar...

Ele balança a cabeça.

—            Dê-me sua mão.

Estendo a mão direita, e ele acende o isqueiro, depois encosta a chama na ponta de meu dedo. Eu puxo meu braço.

O que está fazendo?

Confie em mim — ele diz.

Deixo que ele segure minha mão novamente. Ele acende o isquei­ro outra vez. E olha em meus olhos. Depois sorri. Olho para minha mão e percebo que ele encostou a chama do isqueiro na ponta do meu dedo médio. Não sinto nada. Mesmo assim, o instinto me faz puxar a mão. Esfrego meu dedo. Não parece diferente.

Sentiu isso? — ele pergunta.

Não.

—            Deixe-me segurar sua mão — ele pede. — E me avise quando sentir algo.

Ele começa novamente por meu dedo, depois move a chama devagar até o dorso da mão. Há uma sensação leve de formigamento onde o fogo toca a pele, nada mais. Só quando a chama chega ao pulso eu começo a sentir o calor. E recolho o braço.

—            Ai.

—            Lúmen — ele diz. — Você vai se tornar resistente ao fogo e ao calor. As mãos adquirem essa resistência naturalmente, mas vamos precisar treinar com o restante do corpo.

Um sorriso se espalha em meu rosto.

—            Resistente ao fogo e ao calor — digo. — Nunca mais vou me queimar?

Exatamente. E o que vai acontecer com o tempo.

Incrível!

Não é um Legado tão ruim, afinal. É?

Não é nada mau! Mas e essas luzes? Vão se apagar?

—            Sim, provavelmente depois de uma boa noite de sono, quando sua mente esquecer que elas se acenderam. Mas você vai ter que tomar cuidado por um tempo. Não pode ficar agitado. O desequilíbrio emocional as trará de volta. Se ficar muito nervoso, bravo, triste...

Por quanto tempo?

Até aprender a controlá-las. — Ele fecha os olhos e esfrega o rosto com as mãos. — Vou tentar dormir novamente. Falaremos so­bre seu treinamento em algumas horas.

Henri vai para o quarto, e eu fico sentado à mesa da cozinha, abrindo e fechando as mãos, respirando fundo e tentando acalmar tudo dentro de mim, fazer as luzes se apagarem.

É claro que não funciona.

Tudo na casa continua uma bagunça, exceto pelo pouco que Hen­ri conseguiu fazer enquanto eu estava na escola. Sei que ele está pensando em partir, mas não a ponto de eu não conseguir fazê-lo mudar de idéia. Se acordar e encontrar a casa limpa e em ordem, talvez ele possa ser persuadido com mais facilidade.

Começo por meu quarto. Tiro o pó, limpo as janelas, varro o chão. Quando tudo está limpo, arrumo a cama com lençóis e cobertores, penduro e dobro minhas roupas. A cômoda é velha e sem firmeza, mas guardo tudo nela e, em cima, arrumo os poucos livros que te­nho. Pronto: um quarto limpo, com todos os meus pertences guar­dados e organizados.

Vou para a cozinha, guardo a louça e limpo as bancadas. Assim me ocupo e paro de pensar em minhas mãos, embora continue re­fletindo sobre Mark James. Pela primeira vez na vida eu enfrentei alguém. Sempre quis fazer isso, mas resistia porque queria seguir o conselho de Henri sobre não chamar a atenção. Tentava adiar ao máximo a próxima mudança. Mas hoje foi diferente. Senti certa sa­tisfação em ser desafiado por alguém e responder à altura. E agora há o problema do celular, que foi roubado. Sim, podemos conseguir outro sem dificuldade, mas onde estaria a justiça?

 

ACORDO ANTES DO DESPERTADOR TOCAR. A CASA ESTÁ AREJADA E SILENCIOSA. TIRO minhas mãos de debaixo da coberta. Estão normais, sem luz, sem brilho. Levanto-me da cama e vou até a sala de estar. Henri está na cozinha, sentado à mesa, lendo o jornal local e bebendo café.

Bom dia — ele diz. — Como se sente?

Melhor impossível — respondo.

Sirvo-me de cereal em uma tigela e me sento em frente a ele.

—            O que vai fazer hoje? — pergunto.

—            Resolver coisas, basicamente. Estamos ficando sem dinheiro. Estou pensando em fazer uma transferência bancária.

Lorien é (ou era, dependendo de como se examina a questão) um planeta rico em recursos naturais. Alguns desses recursos são metais e pedras preciosas. Quando partimos, cada Cêpan recebeu um saco cheio de diamantes, esmeraldas e rubis para vender quando chegasse à Terra.

Henri vendeu tudo e depositou o dinheiro em uma conta bancária no exterior. Não sei e nunca pergunto quanto temos lá. Mas sei que é suficiente para umas dez vidas, se não mais. Henri faz retira­das dessa conta uma vez por ano, mais ou menos.

—            Mas não sei... — prossegue ele. — Não quero me afastar muito, caso aconteça alguma coisa hoje.

Não quero supervalorizar o dia de ontem, então faço um gesto de desdém.

—            Vá buscar o dinheiro. Eu vou ficar bem.

Olho pela janela. A manhã se aproxima, banhando tudo com uma luz pálida. A caminhonete está coberta de orvalho. Há muito tempo não vivemos um inverno. Eu nem tenho casaco e quase todos os meus suéteres agora estão pequenos.

—            Parece que está frio lá fora — comento. — Depois poderíamos ir comprar algumas roupas...

Ele assente.

Estive pensando nisso ontem à noite, por isso preciso ir ao banco.

Então vá — eu digo. — Nada vai acontecer hoje.

Termino de comer meu cereal, deixo a vasilha suja na pia e vou tomar banho. Dez minutos depois estou vestido com jeans e camiseta térmica preta, as mangas arregaçadas até o cotovelo. Eu me olho no espelho, depois confiro minhas mãos. Estou calmo. Preciso continuar calmo.

No caminho para a escola Henri me dá um par de luvas.

Não se esqueça de carregá-las o tempo todo. Nunca se sabe. Eu as guardo no bolso de trás da calça.

Acho que não vou precisar, estou me sentindo muito bem.

Os ônibus estão enfileirados em frente à escola. Henri pára na lateral do prédio.

—            Não é bom que fique sem telefone — ele diz. — Muitas coisas podem acontecer.

Não se preocupe. Logo eu o terei de volta.

Ele suspira e balança a cabeça.

Não faça nenhuma burrada. Eu volto no final do dia.

Não vou fazer nada — digo, já saindo da caminhonete.

Ele vai embora.

Lá dentro, os corredores estão movimentados, os alunos abrindo e fechando armários, conversando, rindo. Alguns olham para mim e cochicham. Não sei se é por causa do confronto ou porque me tranquei na sala escura. É bem provável que estejam cochichando sobre os dois fatos. A escola é pequena, e em colégios pequenos todo mundo fica sabendo de quase tudo imediatamente.

Quando chego à entrada principal, viro à direita e encontro meu armário. Está vazio. Tenho quinze minutos antes que a aula de reda­ção para o segundo ano comece. Passo pela sala só para ter certeza de que sei onde fica e depois continuo até a secretaria. A funcionária sorri ao me ver entrar.

—            Oi — eu digo. — Perdi meu celular ontem e imaginei que alguém possa tê-lo entregado ao setor de achados e perdidos.

Ela balança a cabeça.

Não. Lamento, mas não recebemos nenhum telefone.

Obrigado.

Saio da secretaria e não vejo Mark em lugar nenhum. Escolho uma direção e começo a andar. As pessoas ainda me olham e cochicham, mas isso não me incomoda. Eu o vejo uns quinze metros à minha frente. A descarga de adrenalina é imediata. Olho para minhas mãos. Estão normais. Fico preocupado com a possibilidade de elas se acenderem, e é justamente essa inquietação que pode causar isso.

Mark está de braços cruzados, encostado em um armário, no meio de um grupo de cinco caras e duas meninas, todos conversando e rindo. Sarah está sentada no parapeito de uma janela a uns cinco metros dali. Hoje, de novo, ela está linda, com os cabelos louros presos num rabo de cavalo, vestida com saia e suéter cinza. Ela está lendo um livro, mas levanta a cabeça quando caminho na direção do grupo.

Paro bem perto da rodinha, olho para Mark e espero. Ele percebe minha presença depois de uns cinco segundos.

—            O que você quer? — pergunta.

—            Você sabe o que eu quero.

Nós nos encaramos. O grupo à nossa volta aumenta. Agora são dez pessoas, e logo vinte alunos nos observam. Sarah se levanta e se aproxima da roda. Mark veste o agasalho do time, e os cabelos pretos estão ajeitados cuidadosamente para dar a impressão de que ele saiu da cama diretamente para dentro da roupa.

Ele se afasta do armário e caminha em minha direção. Para a pou­cos centímetros de mim. Meu peito e o dele quase se tocam, e o perfume forte de sua colônia invade minhas narinas. Ele deve medir um metro e oitenta e cinco, alguns centímetros a mais do que eu. Te­mos o mesmo porte. Mas ele não sabe que sou feito de uma matéria diferente da dele. Sou mais rápido e muito mais forte. Pensar nisso desenha um sorriso confiante em meu rosto.

—            Acha que consegue ficar na escola por mais tempo hoje? Ou vai fugir correndo de novo, como uma mulherzinha?

Os risos se espalham.

Acho que vamos ver, não é?

Sim, vamos ver — ele responde, chegando um pouco mais perto.

Quero meu celular de volta — anuncio.

Não estou com seu celular.

Eu balanço a cabeça sem desviar os olhos dos dele.

—            Duas pessoas viram você pegar o telefone — minto.

Ele hesita por uma fração de segundo, o suficiente para eu ter certeza de que deduzi corretamente.

—            Ah, é? E se fui eu? O que vai fazer?

Agora deve haver uns trinta alunos à nossa volta. Não tenho dúvida de que dez minutos depois que a primeira aula começar toda a escola já vai estar sabendo do que aconteceu ali.

Estou avisando — eu falo. — Você tem até o final do dia.

Viro as costas e saio.

Ou você vai fazer o quê? — ele grita atrás de mim.

Não me dou o trabalho de aceitar a provocação. Ele que imagine a resposta. Meus punhos estão cerrados, e percebo que confundi adrenalina com nervosismo. Por que eu estava tão nervoso? Pela imprevisibilidade da situação? Por ser a primeira vez que enfrento alguém? Pela possibilidade de minhas mãos começarem a brilhar? Provavelmente, pelos três motivos.

Vou ao banheiro, entro em um reservado vazio e tranco a por­ta. Abro as mãos. Percebo um brilho sutil na palma direita. Fe­cho os olhos, suspiro e me concentro em respirar profundamen­te. Um minuto depois o brilho ainda está ali. Balanço a cabeça. Não pensei que o Legado fosse tão sensível. Continuo no reserva­do. Uma camada fina de suor frio cobre minha testa, minhas mãos estão quentes, mas, felizmente, a esquerda ainda parece normal. As pessoas entram e saem do banheiro, e eu permaneço no reservado, esperando. A luz ainda brilha. Finalmente, ouço o sinal anunciando o início do primeiro tempo de aula, e o banheiro fica vazio.

Balanço a cabeça, chateado, e aceito o inevitável. Estou sem celu­lar e Henri está a caminho do banco. Somos apenas minha estupidez e eu, não posso culpar ninguém. Pego as luvas no bolso de trás da calça e as calço. Luvas de couro para jardinagem. Eu pareceria me­nos idiota se estivesse usando sapatos de palhaço e calça amarela. Vou mesmo passar despercebido... Chego à conclusão de que devo deixar Mark para lá. Ele vence. Pode ficar com o celular. À noite Henri e eu compraremos outro.

Saio do banheiro e percorro o corredor vazio até minha sala de aula. Todos olham para mim quando entro, e depois para as luvas. É inútil tentar escondê-las. Pareço um idiota. Sou um alien, tenho poderes extraordinários, com outros ainda por vir, e posso fazer coisas com que um humano jamais sonharia, e ainda assim pareço um idiota.

Eu me sento no meio da sala. Ninguém fala comigo, e estou agitado demais para ouvir o que o professor está dizendo. Quando o sinal toca, junto minhas coisas, guardo-as na mochila e penduro as alças no ombro. Ainda estou com as luvas. Ao sair da sala, levanto um pouco a luva direita para espiar a palma da mão. Continua brilhando.

Percorro o corredor com passos firmes. Respiro devagar. Tento não pensar em nada, mas não funciona. Quando entro na sala da aula seguinte, Mark está sentado no mesmo lugar de ontem, com Sarah a seu lado. Ele me olha com sarcasmo. Tenta se fazer de valente e nem nota minhas luvas.

—            Qual é, fujão? Soube que a equipe de corrida está precisando de gente nova.

—            Deixe de ser idiota — diz Sarah.

Olho para ela ao passar, para os olhos azuis que fazem eu me sentir tímido e constrangido, que fazem meu rosto queimar. O lu­gar onde me sentei ontem está ocupado, por isso vou para o fundo da sala. A sala fica lotada, e o garoto da véspera, aquele que me preveniu sobre Mark, senta-se a meu lado. Ele está usando outra camiseta preta com o logotipo da Nasa no meio, calça camuflada e tênis Nike. Tem cabelo louro-claro, despenteado, e os óculos fazem seus olhos castanho-claros parecerem enormes. Ele pega um bloco de anotações cheio de diagramas de constelações e planetas. Olha para mim sem sequer tentar esconder que está me encarando.

E aí? — pergunto.

Ele dá de ombros.

Por que está usando luvas?

Abro a boca para responder, mas a Sra. Burton começa a aula. Durante boa parte dela, o garoto à meu lado desenha imagens que parecem ser sua interpretação da aparência dos marcianos. Corpos pequenos; cabeça, mãos e olhos grandes. As mesmas representações estereotipadas que às vezes são mostradas nos filmes. Abaixo de cada desenho, ele escreve seu nome em letras pequenas: Sam Goode. Ele percebe que estou olhando, e desvio o olhar.

Enquanto a Sra. Burton fala sobre as sessenta e uma luas de Satur­no, eu olho para a nuca de Mark. Ele está debruçado sobre a mesa, escrevendo. Depois levanta os ombros e passa um bilhete para Sarah. Ela o devolve sem ler. Isso me faz sorrir. A Sra. Burton apaga as luzes para exibir um vídeo. Os planetas projetados na tela na frente da sala me levam a pensar em Lorien. Ele é um dos dezoito planetas habita­dos do universo. A Terra é outro. Mogadore, infelizmente, é mais um.

Lorien. Fecho os olhos e me permito lembrar. Um planeta velho, cem vezes mais velho do que a Terra. Cada problema que a Terra en­frenta hoje — poluição, superpopulação, aquecimento global, falta de alimento —, tudo isso Lorien já enfrentou. Em dado momento, vinte e cinco mil anos atrás, o planeta começou a morrer. Isso aconteceu muito antes da habilidade de viajar pelo universo, e o povo de Lorien foi forçado a agir para sobreviver. Lentamente, mas de maneira firme, eles assumiram o compromisso de garantir que o planeta se tornasse para sempre autossustentável, mudando sua maneira de viver, dis­pensando tudo o que era prejudicial — armas e bombas, substâncias químicas tóxicas, poluentes —, e com o tempo o dano começou a ser revertido. Com o benefício da evolução, ao longo de milhares de anos, certos cidadãos — a Garde — desenvolveram poderes a fim de proteger e ajudar o planeta. Era como se Lorien houvesse recompensado meus ancestrais pela previdência, pelo respeito.

A Sra. Burton acende as luzes. Eu abro os olhos e olho para o relógio. A aula está quase acabando. Sinto-me calmo outra vez, e havia esquecido completamente minhas mãos. Respiro fundo e abro o punho da luva da mão direita. A luz se apagou! Eu sorrio e removo as luvas. De volta ao normal. Ainda tenho seis aulas hoje. Preciso permanecer em paz até a última.

A primeira metade do dia transcorre sem qualquer incidente. Continuo calmo e não tenho outros encontros com Mark. No al­moço me sirvo do básico, depois encontro uma mesa vazia no fundo do refeitório. Quando estou na metade de um pedaço de pizza, Sam Goode, o garoto da aula de astronomia, senta-se na minha frente.

Vai mesmo brigar com Mark depois da aula? — ele pergunta.

Eu balanço a cabeça.

Não.

É o que as pessoas estão dizendo.

Estão enganados.

Ele dá de ombros e continua comendo. Um minuto depois, pergunta:

Onde foram parar as luvas?

Tirei. Minhas mãos não estão mais frias.

Ele abre a boca para falar alguma coisa, mas uma almôndega gi­gante, que tenho certeza de que foi arremessada em minha direção, acerta-o na nuca. Seus cabelos e ombros ficam cobertos de pedaços de carne e de molho de espaguete. Um pouco disso tudo respin­ga em mim. Estou começando a me limpar quando uma segunda almôndega voadora me acerta no rosto. Ohs ecoam pelo refeitório.

Eu me levanto e limpo o rosto com um guardanapo, sentindo a raiva tomar conta de mim. Nesse instante eu nem me importo com minhas mãos. Elas podem brilhar como o sol, e Henri e eu pode­mos ir embora antes do final do dia, se for necessário. Mas não vou deixar passar mais essa. Não mesmo! Achei que houvesse acabado depois do confronto do início do dia, mas agora...

—            Não — Sam me aconselha. — Se lutar contra eles, nunca mais terá paz.

Começo a andar. O silêncio que domina o refeitório é impressionante. Cem pares de olhos estão fixos em mim. Meu rosto é uma máscara de fúria. Há sete pessoas na mesa de Mark, todos rapazes. Os sete se levantam quando me aproximo.

Algum problema? — um deles me pergunta. O garoto é grande, e tem o porte de um atacante. Tufos de cabelos vermelhos crescem em seu rosto e no queixo, como se ele tentasse cultivar uma barba. O efeito é uma aparência meio suja. Como todos os outros, ele também veste um agasalho do time. De braços cruzados, ele se coloca à minha frente.

Você não tem nada a ver com isso — digo.

Vai ter que passar por cima de mim para chegar nele.

Vou passar, se não sair da minha frente.

Não acredito que consiga — ele me desafia.

Empurro o joelho diretamente entre suas pernas. O ar fica preso na garganta do grandalhão, e ele se dobra para a frente. Todos no refeitório emitem exclamações de choque e pavor.

Eu avisei — digo, passando por cima dele para chegar em Mark. Quando estou quase na frente dele, sou agarrado por trás. Viro-me com a mão fechada para dar o primeiro soco, mas, no último segun­do, reconheço o funcionário do refeitório.

Já chega, garotos.

Veja o que ele fez com Kevin, Sr. Johnson — Mark se queixa. Kevin ainda está no chão, segurando as partes ofendidas. Seu rosto está vermelho como uma beterraba. — Mande-o para a diretoria.

Cale a boca, James. Os quatro, fora daqui. Não pense que não vi quando arremessou aquelas almôndegas. — Ele olha para Kevin no chão. — Levante-se.

Sam aparece do nada. Ele tentou limpar a sujeira dos ombros e do cabelo. Os pedaços maiores de carne desapareceram, mas o mo­lho só se espalhou. Não sei bem o que ele faz ali. Examino minhas mãos, pronto para fugir ao primeiro sinal de luz, mas, para minha surpresa, está apagada. Por causa da urgência da situação, eu me comportei sem o nervosismo prévio? Não sei.

Kevin se levanta e olha para mim. Ele está tremendo, ainda com dificuldades para respirar. E agarra os ombros do garoto ao lado dele para se apoiar.

Você vai se arrepender — ele me ameaça.

Duvido — respondo. Ainda estou carrancudo e continuo coberto de comida. Nem penso em me limpar.

Nós todos nos dirigimos à diretoria. O Sr. Harris está sentado atrás de sua mesa, almoçando alguma comida de micro-ondas, com um guardanapo preso no colarinho para proteger a camisa.

—            Lamento interromper, mas tivemos um problema durante o almoço. Tenho certeza de que os rapazes aqui vão gostar de dar as explicações — resume o funcionário do refeitório.

O Sr. Harris suspira, retira o guardanapo do colarinho e o joga na lata de lixo. Com a outra mão, empurra o almoço para um canto da mesa.

—            Obrigado, Sr. Johnson.

O Sr. Johnson se retira, fechando a porta da sala ao sair, e nós quatro nos sentamos.

—            Então, quem quer começar? — o diretor pergunta em tom irritado.

Eu permaneço em silêncio. Os músculos na mandíbula do Sr.

Harris estão tensos. Olho para minhas mãos. Ainda apagadas. Mes­mo assim, apóio as palmas na calça jeans, só por precaução. Após dez segundos de silêncio, Mark começa.

Alguém atirou uma almôndega nele. Ele pensa que fui eu, por isso deu uma joelhada nas bolas de Kevin.

Modere a linguagem — o Sr. Harris o previne. Depois olha para Kevin. — Está tudo bem?

Kevin move a cabeça em sentido afirmativo, com o rosto ainda vermelho.

—            Então, quem jogou a almôndega? — o Sr. Harris me pergunta.

Eu nada digo, ainda furioso, irritado com todo o episódio. Respiro fundo tentando me acalmar.

—            Não sei — respondo. Minha raiva atinge novos níveis. Não quero lidar com Mark por intermédio do Sr. Harris. Prefiro resolver a situação sozinho, longe da sala do diretor.

Sam me olha surpreso. O Sr. Harris levanta as mãos num gesto frustrado.

Muito bem, então, por que diabos estão aqui?

Essa é uma boa pergunta — diz Mark. — Estávamos apenas almoçando.

Sam se manifesta.

—            Mark jogou a almôndega. Eu vi, e o Sr. Johnson também viu.

Eu olho para Sam. Sei que ele não viu nada, porque estava de costas para os garotos quando a primeira almôndega foi arremessa­da, e na segunda ele estava ocupado, tentando se limpar. Mas fico impressionado com o que ele disse, por tomar partido e ficar à meu lado, mesmo sabendo que isso o põe em risco com Mark e os amigos dele. Mark já o encara com ar ameaçador.

—            Por favor, Sr. Harris — Mark suplica. — Amanhã tenho a entre­vista para o Gazette, e o jogo na sexta-feira. Não tenho tempo para me preocupar com essas bobagens. Estou sendo acusado de algo que não fiz. É difícil me manter focado com essa merda toda acontecendo.

Olhe a boca! — grita o Sr. Harris.

É verdade.

—            Acredito em você — o diretor declara e suspira profundamen­te. Ele olha para Kevin, que ainda tenta recuperar o fôlego. — Preci­sa ir à enfermaria?

—            Eu vou ficar bem — diz Kevin.

O Sr. Harris assente.

—            Vocês dois, esqueçam o incidente da hora do almoço, e Mark, foco. Já faz algum tempo que estamos tentando conseguir essa maté­ria. Talvez até nos ponham na primeira página. Imagine, a primeira página do Gazette — ele diz sorridente.

Obrigado — Mark responde. — Estou muito animado com isso.

Ótimo. Agora, vocês dois podem ir.

Eles saem, e o Sr. Harris olha para Sam com ar de reprovação. Sam sustenta seu olhar.

—            Diga-me, Sam, e eu quero a verdade: você viu Mark arremessar a almôndega?

Sam estreita os olhos, mas não os desvia.

—            Sim.

O Sr. Harris balança a cabeça.

Não acredito em você, Sam. E por isso vou lhe dizer o que farei. — Ele olha para mim. — Então, uma almôndega foi arremessada...

Duas — Sam o interrompe.

O quê? — O Sr. Harris olha para Sam com ar muito irritado.

—            Duas almôndegas foram arremessadas, não uma. O Sr. Harris dá um soco na mesa.

—            Que diferença faz quantas foram? John, você agrediu Kevin. Olho por olho. Vamos deixar tudo como está. Entende o que eu quero dizer?

Ele está muito vermelho, e sei que neste momento é inútil discutir.

Sim — respondo.

Não quero ver vocês dois aqui de novo — ele avisa. — Podem ir.

Saímos da sala do diretor.

Por que não contou a ele sobre seu telefone? — Sam me pergunta.

—            Porque ele não se importa. Só queria voltar para o almoço — respondo. — E tome cuidado. Agora você estará na mira de Mark.

 

Tenho aula de economia doméstica depois do almoço — não necessa­riamente por gostar de cozinhar, mas porque era isso ou coral. E, embo­ra eu tenha muitos poderes e habilidades considerados excepcionais na Terra, cantar não é um deles. Por isso vou para a aula de economia doméstica e me sento. A sala é pequena, e pouco antes do sinal soar, anunciando o início da aula, Sarah entra e se senta a meu lado.

Oi — ela diz.

Oi.

Meu rosto esquenta e meus ombros ficam tensos. Pego uma caneta e começo a girá-la entre os dedos da mão direita, enquanto com a esquerda dobro os cantos de meu caderno. Meu coração dispara. Por favor, mãos, não brilhem. Olho para elas e suspiro aliviado por estarem normais. Mantenha a calma, penso. Ela é só uma garota.

Sarah está olhando para mim. Tenho a sensação de que tudo den­tro de meu corpo começa a derreter. Ela talvez seja a garota mais linda que já conheci.

Lamento por Mark ser tão cretino com você — ela diz.

Eu dou de ombros.

Não é culpa sua.

Vocês não vão brigar, vão?

Eu não quero — digo.

Ela move a cabeça em sentido afirmativo.

—            Ele pode ser um cretino, mesmo. Sempre tentando mostrar quem é que manda.

É um sinal de insegurança — respondo.

Ele não é inseguro. É só um cretino.

É claro que ele é. Mas não quero discutir com Sarah. Além do mais, ela fala com tanta certeza, que quase duvido de mim mesmo.

Sarah olha para as manchas de molho de espaguete que secaram em minha camisa, depois estende a mão e tira um pedaço de macar­rão endurecido de meu cabelo.

—            Obrigado.

Ela suspira.

—            Lamento pelo que aconteceu. — Sarah olha em meus olhos. — Não estamos juntos, sabe?

—            Não?

Ela balança a cabeça. Estou intrigado por ela ter sentido necessidade de deixar isso claro para mim. Após dez minutos de instru­ções sobre como fazer panquecas — sem que eu tenha ouvido um minuto sequer —, a professora, Sra. Benshoff, nos põe para traba­lhar juntos, Sarah e eu. Passamos por uma porta no fundo da sala e chegamos a uma cozinha três vezes maior que a sala de aula. Ela contém dez unidades, cada uma delas com refrigerador, armários, pia, fogão. Sarah entra em uma das unidades, pega um avental na gaveta e o coloca.

—            Pode amarrar para mim? — ela pede.

Deixo escapar o laço e preciso amarrar de novo. Sinto os contor­nos da parte inferior das costas dela sob meus dedos. Quando termi­no de amarrar o avental de Sarah, coloco o meu e tento amarrá-lo.

É assim, bobo — ela diz e depois pega as tiras e as amarra para mim.

Obrigado.

Tento quebrar o primeiro ovo, mas exagero na força e não consigo salvar nada dele para pôr na tigela. Sarah ri. Ela coloca outro ovo em minha mão e a segura, mostrando-me como quebrar o ovo na borda da vasilha. A mão dela permanece sobre a minha por um segundo além do necessário. Ela me encara e sorri.

—            É assim.

Sarah mistura a massa, e mechas de cabelo caem sobre seu ros­to enquanto ela trabalha. Quero muito ajeitá-las atrás da orelha delicada, mas contenho esse desejo. A Sra. Benshoff visita nossa cozinha para verificar nosso progresso. Até então, tudo bem, graças a Sarah, é claro, porque eu não tenho a menor idéia do que estou fazendo.

—            O que está achando de Ohio? — Sarah me pergunta.

—            Legal. Mas meu primeiro dia na escola podia ter sido melhor.

Ela sorri.

Afinal, o que aconteceu? Fiquei preocupada com você.

Acreditaria se eu dissesse que sou um alien?

Ah, cale a boca — ela responde brincando. — O que aconteceu realmente?

Eu rio.

Tenho asma. Por alguma razão, ontem tive uma crise — digo, lamentando ter de mentir. Não quero que ela veja fraqueza alguma em mim, especialmente fraquezas que nem são reais.

Bem, fico feliz por se sentir melhor.

Fazemos nossas panquecas. Sarah as empilha em um prato. Ela acrescenta uma porção absurda de calda e depois me oferece um garfo. Olho para os outros alunos. A maioria das duplas está comen­do o que preparou, mas em dois pratos. Eu pego um pedaço.

—            Nada mau — comento enquanto mastigo.

Não estou com um pingo de fome, mas ajudo Sarah a devorar todas as panquecas. Vamos nos servindo alternadamente até o prato ficar vazio. Quando terminamos, estou com dor de estômago. De­pois, ela lava os pratos e utensílios, e eu os enxugo. Quando o sinal soa no corredor, saímos juntos da sala.

Sabe, você não é ruim para um aluno do segundo ano — ela diz, cutucando-me com o cotovelo. — Não me incomodo com o que dizem.

Obrigado. Você também é legal para uma... seja lá o que for.

Sou caloura.

Caminhamos em silêncio por alguns instantes.

Não vai realmente brigar com Mark no final do dia, vai?

Preciso do meu celular de volta. Além do mais, olhe para mim — digo, apontando para minha camiseta.

Ela dá de ombros. Eu paro na frente do meu armário. Ela registra o número.

—            Bem, não deveria brigar — opina.

Não quero brigar. Ela revira os olhos.

Os garotos e suas brigas. Bem, vejo você amanhã.

Tenha um bom restante de dia — respondo.

 

Depois de minha última aula, história americana, caminho lentamente até meu armário. Penso em simplesmente deixar a escola sem chamar a atenção, sem procurar por Mark. Mas percebo que, se agir assim, serei rotulado eternamente como um covarde.

Paro na frente do meu armário e guardo todos os livros de que não vou precisar. Depois, fico ali parado, sentindo o nervosismo que come­ça a me invadir. Minhas mãos ainda estão normais. Penso em calçar as luvas por precaução, mas não é o que faço. Respiro profundamente e fecho a porta do armário.

—            Oi.

A voz me assusta. É Sarah, e ela olha para trás antes de me fitar novamente.

Trouxe algo para você.

Não é mais panqueca, é? Ainda estou me sentindo como se fosse explodir.

Ela ri, nervosa.

—            Não é panqueca. Mas, se eu lhe der o que tenho aqui, vai ter que me prometer que não vai brigar.

—            Tudo bem — concordo.

Ela olha para trás novamente e, depressa, enfia a mão em um compartimento externo da bolsa, de onde tira meu celular. Sarah me entrega o aparelho.

Como conseguiu recuperá-lo?

Ela encolhe os ombros.

Mark sabe?

Não. Ainda vai bancar o valentão? — ela insiste.

Acho que não.

Que bom.

Obrigado. — Não posso acreditar que ela fez algo tão arriscado por mim, eu, alguém que ela nem conhece. Mas não estou reclamando.

Não foi nada — ela responde, antes de se virar e se afastar apressadamente pelo corredor. Eu a observo o tempo todo, sem con­seguir conter um sorriso. Quando estou saindo da escola, Mark Ja­mes e oito de seus amigos estão me esperando na porta.

Ora, ora, ora — diz Mark. — Conseguiu ficar até o fim do dia, então?

Com certeza. E veja só o que eu encontrei — digo, exibindo meu telefone celular. Seu queixo cai. Passo por ele sem pressa e saio do prédio.

 

HENRI ME ESPERA EXATAMENTE ONDE DISSE QUE ESTARIA. EU ENTRO NA caminhonete ainda sorrindo.

Dia bom? — ele me pergunta.

Nada mau. Recuperei meu celular.

Sem brigar?

Sem nada muito importante.

Ele me estuda desconfiado.

Acha que vou querer saber o que isso significa?

Provavelmente não.

Suas mãos brilharam alguma vez?

Não — minto. — Como foi seu dia?

Ele segue pelo caminho que contorna a escola.

Foi bom. Depois de deixá-lo na escola, dirigi por uma hora e meia até Columbus.

Por que Columbus?

Porque há bancos grandes lá. Não queria despertar suspeitas com uma solicitação de transferência de um valor maior do que o saldo da cidade inteira.

Eu concordo, movendo a cabeça.

—            Sensato.

Ele pega a estrada.

E, então, não vai me dizer o nome dela?

O quê?

Deve haver uma razão para esse seu sorriso ridículo. E a razão mais óbvia é uma garota.

Como sabe?

—John, meu amigo, em Lorien este velho Cêpan era um conquistador.

Está brincando — respondo. — Isso não existe em Lorien.

Ele assente com ar de aprovação.

Ah, esteve prestando atenção.

O povo lórico é monogâmico. Quando nos apaixonamos, é para sempre. O casamento costuma acontecer por volta dos vinte e cinco anos e não tem nada a ver com lei. É mais baseado em promessa e compromisso do que em qualquer outra coisa. Henri era casado ha­via vinte anos quando partiu comigo. Dez anos se passaram, mas sei que ele ainda sente falta da esposa todos os dias.

—            Então, quem é ela? — Henri pergunta.

—            O nome dela é Sarah Hart. Ela é filha da corretora de imóveis de quem você comprou a casa. Faz duas aulas comigo. É caloura.

Ele move a cabeça em sentido afirmativo.

Bonita?

Muito. E inteligente.

Sim — ele responde devagar. — Estou esperando por isso há algum tempo. Só não esqueça que podemos ter de partir de uma hora para outra.

Eu sei — digo. E o restante do trajeto até em casa é percorrido em silêncio.

 

Quando chegamos em casa, a Arca Lórica está sobre a mesa da cozi­nha. Ela tem o tamanho de um micro-ondas, é quase perfeitamente quadrada, meio metro por meio metro. Uma onda de entusiasmo me invade. Eu me aproximo dela e seguro o cadeado.

Acho que estou mais animado com a possibilidade de descobrir como isto é destrancado do que com o que há dentro dela — confesso.

É mesmo? Bem, posso mostrar como abrir o cadeado, e depois voltamos a fechá-lo e esquecemos o que há dentro da arca.

Eu sorrio para ele.

Não seja tão radical. Vamos lá, o que tem aqui dentro?

É sua Herança.

Como assim, minha Herança? O que quer dizer com isso?

Aquilo que é dado a cada Garde na hora de seu nascimento para ser usado por seu Guardião quando o Garde começa a desen­volver seu Legado.

Escuto com grande entusiasmo.

Sim, e o que há dentro dela?

Sua Herança.

A resposta evasiva me deixa frustrado. Pego o cadeado e tento abri-lo à força, como fiz tantas outras vezes. É claro que nada consigo.

Não pode abri-lo sem mim, e eu não posso abri-lo sem você — Henri explica.

Bem, e como vamos abri-lo? Não vejo um buraco para chave.

Usamos a vontade.

—            Ah, por favor, Henri. Acabe com o segredinho.

Ele pega o cadeado.

—            Ele só se abre quando estamos juntos, e só depois da formação de seu primeiro Legado.

Henri caminha até a porta da frente e olha para fora, depois a fecha e tranca. E volta para perto de mim.

Pressione a palma da mão contra a lateral do cadeado — diz.

Eu sigo a orientação.

É quente — comento.

Ótimo. Isso significa que você está pronto.

—            E agora?

Ele pressiona a própria mão contra o outro lado do cadeado e en­trelaça os dedos nos meus. Um segundo depois, ouvimos um estalo. A fechadura se abriu.

—            Incrível! — exclamo.

—            A arca é protegida por um feitiço lórico, como você. O cadea­do não pode ser quebrado. Pode passar por cima dele com um rolo compressor e não vai conseguir nem amassá-lo. Só nós dois pode­mos abri-lo, e juntos. A menos que eu morra; então você poderá abri-lo sozinho.

—            Bem, espero que isso não aconteça — declaro.

Tento levantar a tampa da arca, mas Henri segura minha mão e me impede.

—            Ainda não — ele diz. — Há coisas aqui que você não está pre­parado para ver. Vá se sentar no sofá.

Henri, por favor.

Confie em mim — ele diz.

Balanço a cabeça e me sento. Ele abre a arca e pega dali uma pedra que deve ter uns quinze centímetros de comprimento e cinco centí­metros de espessura. Depois, fecha a caixa e a tranca com o cadeado, e só então traz a pedra até mim. Ela é perfeitamente lisa e oblonga, clara na parte externa, mas opaca no centro.

O que é isso? — pergunto.

Um cristal lórico.

Para que serve?

—            Segure-o — ele diz, entregando-me a pedra. No segundo em que minhas mãos tocam nela, as luzes se acendem em minhas pal­mas. E agora são ainda mais brilhantes que no dia anterior. A pedra começa a aquecer. Eu a levanto para estudá-la melhor. A massa fosca no centro está girando, movendo-se em torno dela mesma como uma onda. Sinto o pingente em meu pescoço aquecendo também. Estou eufórico com tudo isso. Passei toda a minha vida esperando impa­cientemente pela chegada de meus poderes. Sim, é claro que houve momentos em que tive esperança de que eles nunca aparecessem, principalmente para que pudéssemos enfim nos instalar em algum lugar e levar uma vida normal; mas agora, quando seguro o cristal que contém em seu centro o que parece ser uma bola de fumaça, ciente de que minhas mãos são resistentes ao fogo e ao calor, que mais Legados estão por vir e que serão seguidos por meu maior po­der (o poder que vai me permitir lutar) — bem, agora tudo fica muito legal e excitante. Não consigo parar de sorrir.

—            O que está acontecendo com o cristal?

—            Ele está ligado ao seu Legado. Seu toque o ativa. Se você não estivesse desenvolvendo o Lúmen, o cristal se acenderia como acon­tece com suas mãos. Mas, em seu caso, é o contrário.

Olho para o cristal e vejo a fumaça girar e cintilar.

—            Podemos começar? — Henri pergunta.

Eu movo a cabeça em sentido afirmativo, sem esconder minha ansiedade.

—            Sim, sim.

 

O dia ficou frio. A casa está silenciosa, exceto por uma ou outra rajada de vento estremecendo as janelas. Estou deitado de costas sobre a mesinha de madeira. Minhas mãos pendem das laterais da mesa. Em algum momento, Henri vai acender um fogo embaixo de­las. Mantenho minha respiração estável e lenta, conforme as instru­ções de Henri.

—            Precisa manter os olhos fechados — ele diz. — Ouça o vento. Talvez sinta alguma queimação nos braços quando eu passar o cris­tal por eles. Ignore a sensação tanto quanto puder.

Escuto o vento soprando entre as árvores lá fora. De alguma forma, consigo senti-las se dobrando, balançando.

Henri começa por minha mão direita. Ele pressiona o cristal contra o dorso, depois o desliza até meu pulso e sobe pelo braço. Sinto certo ardor, como ele previu, mas não é suficiente para tentar afastar o braço.

— Deixe sua mente vagar, John. Vá para onde precisa ir.

Não sei do que ele está falando, mas tento esvaziar a mente e res­pirar bem devagar. Imediatamente, sinto que estou me afastando. O sol surge de algum lugar e aquece meu rosto, e o vento agora é bem mais quente do que aquele que sopra além das paredes de nossa casa. Quando abro os olhos, não estou mais em Ohio.

Estou sobre uma vasta área arborizada, acima das copas, e nada posso ver além de uma imensa floresta. Céu azul, sol forte, um sol cujo tamanho é quase o dobro daquele que aquece a Terra. Um ven­to suave e morno brinca com meu cabelo. Lá embaixo, rios cavam sulcos que cortam a vegetação. Flutuo sobre um deles. Animais de todas as formas e tamanhos — alguns longos e finos, outros com braços curtos e corpos roliços, alguns com pelos e outros com pele escura que parece ser áspera ao toque —, todos bebem a água fresca à margem do rio. Há uma curva na linha do horizonte muito longe dali, e sei que estou em Lorien. É um planeta dez vezes menor que a Terra, e é possível ver a curva de sua superfície quando se olha para ela de uma distância suficientemente grande.

De alguma forma, posso voar. Movimento-me e giro no ar, depois mergulho e deslizo velozmente em sentido paralelo ao curso do rio, bem perto dele. Os animais levantam a cabeça e olham para mim, curiosos, mas sem medo. Lorien em seu auge, coberto de vegetação, habitado por animais. De certo modo, é parecido com o que imagino que tenha sido a Terra milhões de anos atrás, quando o planeta rei­nava soberano sobre a vida de suas criaturas, antes de os humanos chegarem e dominarem tudo. Lorien em seu apogeu; sei que hoje não é mais assim. Devo estar vivendo uma lembrança. Mas não é minha, certamente.

O dia se adianta até mergulhar na escuridão. Começa ao longe uma grande exibição de fogos de artifício, com luzes que se erguem para o céu e explodem na forma de animais e de árvores, com o céu escuro, as luas e um milhão de estrelas como um radiante cenário.

—            Posso sentir o desespero deles — ouço em algum lugar. Eu me viro e olho em volta. Não há ninguém perto de mim. — Eles sabem onde está um dos outros, mas o feitiço se mantém. Não podem toca­da, a menos que matem você antes. Mas continuam atrás dela.

Eu vôo alto, depois mergulho, procurando pela origem da voz. De onde ela vem?

Sigo adiante, na direção dos fogos de artifício. A voz me enerva. Talvez as explosões poderosas soem mais altas que a voz.

—            Eles tinham esperança de matar todos nós antes de seus Lega­dos se desenvolverem. Mas nos mantivemos escondidos. Precisa­mos manter a calma. Os três primeiros entraram em pânico. Os três primeiros estão mortos. Precisamos ser cautelosos e astutos. Quan­do entramos em pânico, cometemos erros. Eles sabem que o desen­volvimento de vocês dificulta tudo para eles, e, quando todos vocês estiverem plenamente desenvolvidos, a guerra será travada. Vamos reagir e nos vingar, e eles sabem disso.

Vejo bombas caindo de algum lugar muitos quilômetros acima da superfície de Lorien. Explosões sacodem o chão e o ar, gritos viajam no vento, labaredas lambem a terra e as árvores. A floresta queima. Deve haver mil aeronaves diferentes, todas descendo e aterrissando em solo lórico. Soldados mogadorianos brotam delas, portando armas e granadas cujo poder é muito maior do que aquele utilizado na guerra ali. Eles são mais altos que nós, mas ainda se parecem conosco, exceto pelo rosto. Eles não têm pupilas, e as íris são cor de maravilha, magenta. Alguns têm as íris pretas. Círcu­los escuros e pesados emolduram seus olhos, e há uma palidez na pele — quase como se fosse descolorida. Seus dentes brilham entre lábios que nunca se aproximam e são tão pontiagudos que parecem ter sido lixados.

As bestas de Mogadore saem dos aviões logo depois, e há em seus olhos a mesma expressão fria. Alguns são grandes como casas, exibem os dentes afiados e rugem tão alto que chegam a ferir meus ouvidos.

—            Fomos descuidados, John. Por isso nos derrotaram com tanta facilidade — ele diz. Agora sei que a voz que estou ouvindo é de Henri. Mas não posso vê-lo, e não consigo desviar os olhos da ma­tança e da destruição que acontece lá embaixo, por isso não posso procurá-lo. As pessoas estão correndo em todas as direções, lutan­do. Mogadorianos e lorienos são mortos na mesma medida. Mas os lorienos estão perdendo a batalha contra as bestas, que matam nosso povo às dúzias: sopram fogo, rasgam com os dentes, atacam ferozmente com braços e caudas. O tempo passa depressa, muito mais do que o normal. Quanto já passou? Uma hora? Duas?

A Garde lidera a luta, exibindo claramente seus Legados. Alguns voam, outros correm com tal velocidade que mais parecem borrões, e outros desaparecem completamente. Raios brotam de suas mãos, corpos são envolvidos em chamas, nuvens de tempestade se formam associadas a ventos fortes sobre aqueles que conseguem controlar o clima. Mas, mesmo assim, eles estão perdendo. Estão em menor número, e a proporção é de quinhentos para um. Seus poderes não são suficientes.

—            Nossa guarda relaxou. Os mogadorianos planejaram bem, esco­lhendo o momento exato em que sabiam que estávamos mais vulne­ráveis, quando os Anciões do planeta não estavam mais presentes. Pittacus Lore, o maior deles, o líder, os havia reunido antes do ata­que. Ninguém sabe o que aconteceu a eles, ou para onde foram, ou se ainda estão vivos. Talvez os mogadorianos os tenham destruído primeiro e atacado somente depois de terem tirado os Anciões do caminho. Tudo o que sabemos realmente é que havia uma coluna de luz branca e cintilante que subia ao céu, até onde os olhos podiam al­cançar, naquele dia em que os Anciões se reuniram. Essa luz brilhou o dia todo, depois desapareceu. Como um povo, nós deveríamos ter reconhecido a manifestação como um sinal de que havia algo errado, mas não percebemos nada. Não podemos culpar ninguém além de nós mesmos pelo que aconteceu. Tivemos sorte de tirar alguns do planeta, especialmente por serem nove jovens Gardes que um dia podem continuar a luta e manter viva nossa raça.

Ao longe, uma nave corta o céu muito alto e em velocidade espan­tosa, deixando atrás dela um rastro azul. Do meu ponto de observação, acompanho-a até que ela desaparece. Há algo familiar naquela nave. Então compreendo: eu estou nela, e Henri também. É a nave que nos leva para a Terra. Os lorienos deviam ter percebido que haviam sido vencidos. Por que mais nos mandariam para longe?

Matança desnecessária. É essa a impressão que tenho do que vejo. Piso no chão e caminho através de uma bola de fogo. Estou furioso. Homens e mulheres estão morrendo. Gardes e Cêpans, e também crianças indefesas. Como isso pode ser tolerado? Como o coração dos mogadorianos pode ser tão duro? E por que eu fui poupado?

Atiro-me contra um soldado próximo, mas passo através dele e caio. Tudo o que estou testemunhando já aconteceu. Sou espectador de nossa extinção, e não há nada que eu possa fazer.

Eu me viro e vejo uma besta que deve ter uns doze metros de altura, com ombros muito largos, olhos vermelhos, e chifres de seis metros de comprimento. Vejo a baba pingando de seus dentes longos e afiados. Ele ruge e em seguida ataca.

Ele passa direto através de mim, mas dizima uma dúzia de lorienos à minha volta. Devora-os. Em um segundo, todos desaparecem. E a besta segue seu caminho engolindo mais lorienos.

Enquanto vejo a cena de destruição, escuto um ruído estridente, algo não relacionado com a carnificina em Lorien. Estou me afastan­do dali, voltando. Duas mãos seguram meus ombros, pressionando-os para baixo. Meus olhos se abrem e estou novamente em casa, em Ohio. Meus braços continuam pendendo da mesa de café. Centíme­tros abaixo há dois fogareiros, e minhas mãos e meus pulsos estão completamente mergulhados nas chamas. Não sinto nada. Nenhum efeito. Henri se debruça sobre mim. O ruído que ouvi um minuto atrás vem da varanda.

O que é isso? — sussurro, sentando-me na mesa.

Não sei — ele diz.

Ficamos em silêncio, tentando ouvir. O barulho se repete mais três vezes, como se alguma coisa arranhasse a porta. Henri olha para mim.

—            Tem alguém lá fora — ele diz.

Olho para o relógio na parede. Quase uma hora se passou. Estou suando, ofegante, perturbado com as cenas de morte que acabei de testemunhar. Pela primeira vez, entendo realmente o que aconteceu em Lorien. Antes desta noite os eventos eram apenas parte de mais uma história, não muito diferente de tantas outras que li nos livros. Mas agora vi o sangue, as lágrimas, os mortos. Vi a destruição. Ela é parte de quem eu sou.

Lá fora, a escuridão já envolveu o mundo. A porta é arranhada mais três vezes, e depois ouvimos um gemido baixo. Nós dois pula­mos. Penso imediatamente nos rugidos baixos que ouvi das bestas.

Henri corre até a cozinha e pega uma faca na gaveta sob a pia.

Vá para trás do sofá.

O que, por quê?

Porque estou mandando.

Acha que essa faquinha vai derrubar um mogadoriano?

Sim, se eu acertar o coração. Agora, faça o que eu mandei.

Eu desço da mesinha e rastejo até o sofá, encolhendo-me atrás dele. Os dois fogareiros continuam acesos, e visões fracas de Lorien ainda circulam por minha cabeça. Um grunhido impaciente soa do outro lado da porta. Não há como negar: alguém ou alguma coisa está parado ali, em frente à entrada. Meu coração dispara. — Fique abaixado — diz Henri.

Levanto a cabeça para poder espiar por cima do encosto do sofá. Todo aquele sangue, eu penso. Com certeza eles sabiam que esta­vam em menor número, derrotados, mas lutaram até o fim, morre­ram para salvar uns aos outros, morreram para salvar Lorien. Henri segura a faca com força. Devagar, ele aproxima a mão da maçaneta metálica. A raiva cresce dentro de mim. Espero que seja um deles. Queria que um mogadoriano passasse por aquela porta. Ele encon­traria alguém à sua altura.

Não vou ficar atrás do sofá. Não mesmo. Estendo o braço e agarro um dos fogareiros, enfio a mão nele e retiro de lá um pedaço de ma­deira incandescente com uma ponta afiada. Ela é fria ao toque, mas o fogo continua ardendo, envolvendo minha mão. Seguro o pedaço de madeira como uma lança. Que venham, eu penso. Ninguém aqui vai fugir. Henri olha para mim, respira fundo e abre a porta.

 

TODOS OS MÚSCULOS DO MEU CORPO ESTÃO FLEXIONADOS, TENSOS. HENRI SALTA através do batente e eu estou pronto para segui-lo. Posso sentir o tum-tum-tum no peito. As articulações de meus dedos estão brancas pela força com que seguro a estaca em chamas. Uma rajada de vento entra pela porta e o fogo dança em minha mão, subindo até o pulso. Não há ninguém ali. Henri relaxa e ri, olhando para o chão perto de seus pés. Lá, fitando Henri com ar suplicante, vejo o mesmo beagle que vi ontem na escola. O cachorro balança a cauda e bate com uma das patas no chão. Henri se abaixa e o afaga; então, o cão passa por ele e entra em casa com a língua pendendo da boca.

O que ele está fazendo aqui? pergunto.

Conhece esse cachorro?

—            Eu o vi na escola. Ele me seguiu por um bom tempo ontem, depois de você ter me deixado lá.

Solto a estaca e limpo a mão na calça jeans, deixando nela um ras­tro de fuligem e cinzas. O cachorro se senta aos meus pés e olha para mim cheio de expectativa, o rabo batendo barulhento no piso de madeira. Eu me sento no sofá e olho para os dois fogareiros. Agora que o excitamento da situação passou, minha mente retorna à visão e às cenas que testemunhei. Ainda posso ouvir os gritos, ainda vejo como o sangue brilhava sobre a relva banhada pelo luar, ainda vejo os corpos e as árvores caídas, o brilho vermelho nos olhos das bestas de Mogadore, o terror nos olhos dos lorienos. Olho para Henri.

Eu vi o que aconteceu. Pelo menos o início de tudo.

Ele move a cabeça em sentido afirmativo.

Pensei que poderia ver.

E ouvi sua voz. Estava falando comigo?

Sim.

—            Não entendo — eu disse. — Foi um massacre. Era muito ódio que justificasse interesse apenas em nossos recursos. Devia haver mais do que isso.

Henri suspira e se senta na mesinha de centro, à minha frente. O cachorro pula em meu colo. Eu o afago. Ele está imundo, com o pelo engordurado e duro. Há uma medalha em forma de bola de futebol americano presa à sua coleira, mas boa parte da tinta marrom des­botou. Eu a seguro entre os dedos e consigo ler o número 19 de um lado, o nome Bernie Kosar do outro.

—            Bernie Kosar — digo, e o cão abana a cauda com mais vigor. — Acho que é esse o nome dele, como aquele cara do pôster na minha parede. Deve ser alguém popular por aqui, acho. — Deslizo a mão pelas costas do animal. — Ele não parece ter casa — digo. — E está com fome. — Consigo perceber de algum jeito.

Henri assente. Ele olha para Bernie Kosar. O cachorro se estica, apóia o queixo nas patas e fecha os olhos. Eu abro o isqueiro, acen­do a chama e a seguro sob meus dedos, depois sob a palma, depois a deslizo pela parte inferior do braço. Só sinto o ardor quando a chama está a dois ou três centímetros do cotovelo. Não sei o que Henri fez, mas funcionou. Minha resistência aumentou. Fico me perguntando quanto tempo vai levar até eu me tornar inteiramente resistente.

Então, o que aconteceu? — pergunto.

Henri inspira profundamente.

Tive aquelas visões também. Tão reais quanto se eu estivesse lá.

Nunca havia me dado conta de quanto tudo foi terrível. Quero dizer, sei que você me contou, mas não entendia realmente a exten­são dos acontecimentos, até vê-los com meus próprios olhos.

Os mogadorianos são diferentes de nós, sigilosos e manipuladores, desconfiados de quase tudo. Eles têm certos poderes, mas não são como os nossos. Eles são sociáveis e vivem bem nas cidades movimentadas. Quanto maior a população, melhor. Por isso você e eu ficamos longe das grandes cidades agora, mesmo que viver em uma delas possa ser melhor para quem quer se perder na multidão. Eles também se perderiam e desapareceriam na multidão com gran­de facilidade.

Eu escuto com interesse e atenção.

Henri continua falando:

—            Há cerca de um século, Mogadore começou a morrer, como aconteceu com Lorien vinte e cinco mil anos antes. Eles não reagiram como nós, porém, não entenderam o que acontecia, como a população humana começa a entender agora. Eles ignoraram o processo. Mataram seus oceanos e encheram rios e lagos com lixo, aterrando-os para aumentar a área de suas cidades. A vegetação co­meçou a morrer, o que causou a morte dos herbívoros, e depois dos carnívoros. Eles sabiam que precisavam tomar uma medida drástica.

Henri fechou os olhos, mantendo-se em silêncio por um minuto.

—            Sabe qual é o planeta habitado mais próximo de Mogadore? — ele pergunta finalmente.

—            Sim, é Lorien. Ou era, pelo menos.

Henri assente.

—            Sim, é Lorien. E tenho certeza de que agora você sabe que eram nossos recursos que eles queriam.

Eu concordo movendo a cabeça. Bernie Kosar levanta a dele e boceja, preguiçoso. Henri aquece no micro-ondas um peito de fran­go cozido, corta-o em tiras e leva o prato para o sofá, colocando-o à frente do cachorro. O animal come com ferocidade, como se não comesse há dias.

—            Há um grande número de mogadorianos na Terra — Henri con­tinua. — Não sei quantos são, mas posso senti-los quando durmo. Às vezes posso vê-los em meus sonhos. Nunca sei dizer onde estão ou o que estão dizendo. Mas eu os vejo. E não acredito que seis de vocês sejam a única razão que os traga aqui em tão grande número.

—            O que quer dizer? Que outro motivo haveria para estarem aqui?

Henri me encara.

Sabe qual é o segundo planeta habitado mais próximo de Mogadore?

É a Terra, não é?

Mogadore tem o dobro do tamanho de Lorien, mas a Terra é cinco vezes maior que Mogadore. Em termos de defesa, a Terra é mais bem preparada para uma ofensiva por causa de seu tamanho. Os mo­gadorianos precisam entender melhor o planeta antes de poderem atacá-lo. Não posso lhe dizer como exatamente fomos derrotados com tanta facilidade, porque ainda há muito que não consigo en­tender nisso tudo. Mas posso dizer, com certeza, que parte disso foi uma combinação do conhecimento deles sobre nosso planeta e nosso povo, e de não termos outra defesa além de nossa inteligência e dos Legados da Garde. Você pode dizer o que quiser sobre os mogadoria­nos, mas eles são estrategistas brilhantes em uma guerra.

Continuamos sentados em silêncio por alguns instantes, ouvindo o vento lá fora.

—            Não creio que eles estejam interessados nos recursos da Terra — Henri opina.

Eu suspiro e olho para ele.

—            Por que não?

—            Mogadore ainda está morrendo. Embora eles tenham resolvido os problemas mais prementes, a morte do planeta é inevitável, e eles sabem disso. Acho que planejam matar os humanos. Eles querem fazer da Terra seu lar permanente.

 

Depois do jantar, dou um banho em Bernie Kosar usando xampu e condicionador. Eu o penteio com uma escova velha que encontrei em uma das gavetas, provavelmente esquecida pelo inquilino ante­rior. Ele tem aparência e cheiro muito melhores agora, mas a coleira ainda tem odor horroroso. Eu a removo e jogo fora. Antes de ir para cama, abro a porta da frente para ele, mas o cachorro não está inte­ressado em sair. Em vez disso, ele se deita no chão e apóia o queixo nas patas dianteiras. Posso sentir seu desejo de ficar em casa conos­co. Gostaria de saber se ele pode sentir o mesmo desejo em mim.

—            Acho que temos um novo bichinho de estimação — Henri diz.

Eu sorrio. Assim que o vi, tive esperança de que Henri me deixas­se ficar com ele.

—            É, parece que sim — respondo.

Meia hora mais tarde, quando vou para cama, Bernie Kosar pula em cima dela e se deita encolhido aos meus pés. Em poucos minu­tos ele começa a roncar. Eu passo algum tempo deitado de costas, olhando para a escuridão, com a cabeça ocupada com um milhão de pensamentos. Imagens da guerra: a expressão de ganância e fúria dos mogadorianos; o olhar furioso e duro das bestas; a morte e o sangue. Penso na beleza de Lorien. Haverá novamente vida naquele planeta, ou Henri e eu ficaremos esperando para sempre aqui na Terra?

Tento banir pensamentos e imagens de minha cabeça, mas eles não ficam longe por muito tempo. Eu me levanto e ando pelo quarto por alguns minutos. Bernie Kosar levanta a cabeça e olha para mim, mas logo volta a dormir. Eu suspiro, pego meu celular no criado-mudo e o examino para ter certeza de que Mark James não mexeu em nada. O número de Henri ainda está na agenda, mas não é mais o único. Outro foi adicionado. O de Sarah Hart. Depois do final da última aula, e antes de ir me encontrar na frente dos armários, Sarah salvou o número dela em meu celular.

Fecho o telefone, deixo-o sobre o criado-mudo e sorrio. Dois mi­nutos depois, pego-o outra vez e verifico a agenda, para ter certeza de que não estava enxergando coisas que não existem. Eu não es­tava. Fecho o aparelho e o deixo no mesmo lugar, só para pegá-lo cinco minutos depois e olhar novamente para o número dela. Não sei quanto tempo levo para dormir, mas, finalmente, consigo pegar no sono. Quando acordo de manhã, o telefone ainda está em minha mão, apoiado no peito.

 

BERNIE KOSAR ESTÁ ARRANHANDO A PORTA DE MEU QUARTO QUANDO ACORDO. Eu o deixo sair. Ele ronda o quintal, correndo com o focinho bem perto do chão. Satisfeito depois de cobrir os quatro cantos do espa­ço cercado, ele corre para o meio das árvores e desaparece. Fecho a porta e vou tomar banho. Saio dez minutos mais tarde, e ele está novamente dentro de casa, sentado no sofá. O cachorro balança o rabo ao me ver.

—            Você o deixou entrar? — pergunto a Henri, que está sentado à mesa da cozinha com seu laptop aberto e quatro jornais empilhados diante dele.

—            Sim.

Saímos depois de um café da manhã rápido. Bernie Kosar corre à nossa frente, depois para e se senta, olhando para a porta da cami­nhonete no lado do passageiro.

Isso é meio esquisito, não acha? — eu comento.

Henri dá de ombros.

Parece que ele está acostumado a andar de carro. Deixe-o entrar.

Abro a porta, e o cão salta para dentro da caminhonete. Ele se

senta no meio do banco da frente, com a língua para fora da boca. Quando passamos pelo portão, ele se muda para meu colo e bate com a pata na janela. Eu a abro, e ele inclina metade do corpo para fora, ainda de boca aberta, com o vento balançando suas orelhas. Cinco quilômetros depois, Henri pára na frente da escola. Eu abro a porta e Bernie Kosar salta para fora na minha frente. Eu o coloco de volta na caminhonete, mas ele sai novamente. Devolvo-o ao interior da caminhonete e preciso segurá-lo para impedir que saia antes que eu consiga fechar a porta. Ele fica equilibrado nas patas traseiras, com as dianteiras apoiadas na janela aberta, e eu afago sua cabeça.

Trouxe as luvas? — Henri pergunta.

Sim.

O celular?

Sim.

Como se sente?

Bem — respondo.

Tudo bem. Telefone para mim se tiver algum problema.

Ele vai embora, e Bernie Kosar me observa pela janela até a cami­nhonete desaparecer além de uma curva.

Sinto um nervosismo semelhante ao que experimentei ontem, mas por motivos diferentes. Em parte, quero ver Sarah imediatamente, mas, em parte, espero não vê-la. Não sei o que vou dizer a ela. E se não conseguir pensar em nada e ficar parado com cara de idiota? E se ela estiver com Mark quando eu a vir? Devo cumprimen­tá-la e correr o risco de provocar outro confronto ou simplesmente passar direto e fingir que não vi nenhum dos dois? E eu sei que os verei na segunda aula. Não há como evitar.

Caminho para meu armário. Minha mochila está cheia de livros que eu devia ter lido na noite passada, mas que nem abri. Havia muitos pensamentos e imagens ocupando minha cabeça. Eles não foram embora, e é difícil imaginar que algum dia irão. Tudo é muito diferente do que eu imaginava. A morte não é como mostram os fil­mes. Os sons, as imagens, os cheiros... Tudo é muito diferente.

Quando paro diante de meu armário, percebo imediatamente que há algo errado. O puxador de metal está coberto de terra, ou algo que parece terra. Não sei ao certo se devo abri-lo, mas respiro fundo e abro. O armário está cheio de esterco, e, quando puxo a porta, boa parte dele cai, uma porção em meus sapatos. O cheiro é horrível. Eu fecho a porta com força. Sam Goode está parado atrás dela, e sua apa­rição repentina me assusta. Ele parece desamparado, e está vestindo uma camiseta da Nasa pouco diferente daquela que usava ontem.

—            Oi, Sam — cumprimento.

Ele olha para a pilha de esterco no chão, depois para mim.

Você também?

Ele assente.

Vou à diretoria. Quer vir comigo?

Ele balança a cabeça, depois se vira e vai embora sem dizer nada. Eu vou até a sala do Sr. Harris, bato na porta e entro sem esperar por uma autorização. Ele está sentado atrás de sua mesa, usando uma gravata com a estampa da mascote da escola, nada menos que vinte pequenas cabe­ças de pirata espalhadas por ela. O diretor sorri orgulhoso ao me ver.

—            Hoje é um grande dia, John — diz. Não sei do que ele está fa­lando. — Os repórteres do Gazette devem chegar aqui em até uma hora. Primeira página!

Então eu lembro, a grande entrevista de Mark para o jornal local.

—            Deve estar muito orgulhoso — digo.

Estou orgulhoso de todos e de cada um dos alunos de Paradise. — O sorriso não desaparece de seu rosto. Ele se reclina na cadeira, entrela­ça os dedos e apóia a mão sobre a barriga. — O que posso fazer por você?

Só queria informar que meu armário estava cheio de esterco esta manhã.

Como assim, "cheio"?

Cheio, Sr. Harris. Alguém encheu o armário de esterco.

Esterco? — ele repetiu, confuso.

—            Sim.

Ele ri. Fico chocado com sua falta de consideração e sou tomado pela raiva. Meu rosto fica quente.

—            Vim até aqui informá-lo para que o armário seja limpo. O armá­rio de Sam Goode também foi recheado de esterco.

Ele suspira e balança a cabeça.

—            Vou mandar o Sr. Hobbs, o zelador, limpar seu armário agora mesmo. E farei uma investigação completa.

Nós dois sabemos quem foi, Sr. Harris.

Ele olha para mim com um sorriso paternal.

Eu vou cuidar da investigação, Sr. Smith.

É inútil argumentar, por isso saio da diretoria e vou ao banheiro lavar as mãos e o rosto com água fria. Preciso me acalmar. Não quero usar as luvas hoje de novo. Talvez eu não deva fazer nada a respeito, simplesmente esquecer o episódio. Isso vai pôr fim à provocação? Além do mais, que alternativas eu tenho? Estou em minoria, e meu único aliado é um aluno do segundo ano que tem quarenta e cinco quilos e obsessão por extraterrestres. Bem, talvez não seja verdade... Talvez eu tenha outra aliada em Sarah Hart.

Olho para baixo. Minhas mãos estão normais, não brilham. Saio do banheiro. O zelador já está removendo o esterco de meu armário, retiran­do os livros e os jogando no lixo. Passo por ele, entro na sala e espero pelo começo da aula. A professora discute regras gramaticais, sendo o princi­pal tópico a diferença entre tempos verbais e o uso do gerúndio. Presto mais atenção do que ontem, mas com a aproximação do final da aula vou ficando nervoso com a seguinte. Não porque posso encontrar Mark... Mas porque posso ver Sarah. Ela vai sorrir para mim hoje, outra vez? Acho que vai ser melhor chegar antes dela, de forma que eu possa me sentar e observá-la entrando. Assim saberei se ela vai dizer "oi" para mim antes.

Quando ouço o sinal, saio da sala apressadamente e ando depres­sa pelo corredor. Sou o primeiro a entrar para a aula de astronomia.

A sala se enche e Sam se senta ao meu lado outra vez. Pouco antes de o sinal soar, Sarah e Mark entram juntos. Ela veste camisa branca e calça preta. E sorri para mim antes de se sentar. Eu sorrio para ela. Mark nem olha em minha direção. Ainda posso sentir o cheiro de esterco em meus sapatos, ou talvez o odor venha de Sam.

Ele retira da mochila um panfleto com o título Eles Estão entre Nós na capa. Parece que foi impresso no porão da casa de alguém. Sam abre o panfleto na página central e começa a ler atentamente.

Olho para Sarah quatro carteiras à minha frente, para seus cabelos presos num rabo de cavalo. Posso ver o formato de seu pescoço delgado. Ela cruza as pernas e se senta ereta na cadeira. Gostaria de estar sentado à seu lado, de poder segurar sua mão. Gostaria de estar na oitava aula. Fico pensando se serei parceiro dela novamente na aula de economia doméstica.

A Sra. Burton começa a falar. Ela ainda está desenvolvendo o tópico sobre Saturno. Sam pega uma folha de papel e começa a escrever frene­ticamente, parando de vez em quando para consultar um artigo na re­vista que mantém aberta a seu lado. Olho por cima de seu ombro e leio o título da matéria: "Cidade inteira de Montana abduzida por alien".

Antes da noite passada eu nunca teria considerado tal teoria. Mas Henri acredita que os mogadorianos tramam para dominar a Terra, e devo admitir que, embora a matéria na revista de Sam seja ridícula, deve haver algum fundo de verdade nela. Sei que os lorienos visitaram a Terra muitas vezes ao longo da vida deste planeta. Vimos a Terra se desenvolver, a observamos em tempos de crescimento e abundância, quando tudo se movia, e em tempos de gelo e neve quando nada se mexia. Ajudamos os humanos, os ensinamos a fazer fogo, demos a eles as ferramentas para o desenvolvimento da fala e da linguagem, por isso nossa linguagem é tão semelhante à da Terra. E, embora nunca tenhamos abduzido humanos, não significa que isso nunca tenha sido feito. Olho para Sam. Nunca conheci ninguém com uma fascinação tão grande por extraterrestres a ponto de fazer anotações e estudar teo­rias de conspiração.

A porta da sala se abre e o rosto sorridente do Sr. Harris aparece.

—            Desculpe interromper, Sra. Burton, mas vou ter de tirar Mark da sala. Os repórteres do Gazette chegaram para entrevistá-lo — ele avisa em tom suficientemente alto para todos na sala ouvirem.

Mark se levanta, pega a mochila e sai da sala com passos tranquilos, casuais. Vejo o Sr. Harris dar uns tapinhas nas costas dele quan­do os dois saem juntos. Depois olho para Sarah, desejando poder me sentar na cadeira vazia ao lado dela.

 

A quarta aula é educação física. Sam está em minha turma. Troca­mos de roupa e nos sentamos lado a lado no chão do ginásio. Ele calça tênis e veste short e uma camiseta dois ou três números maior que o dele. Sam parece uma cegonha, todo joelhos e cotovelos, de certa forma esguio, embora seja baixo.

O professor de ginástica, Sr. Wallace, está em pé na frente do grupo, os pés afastados na largura dos ombros, as mãos cerradas e apoiadas nos quadris.

—            Tudo bem, rapazes, escutem. Esta é provavelmente a última chance que teremos de trabalhar ao ar livre, por isso façam valer a pena. Corrida de um quilômetro e meio, dando o máximo possível. Seus tempos serão anotados e guardados para quando voltarmos a correr a mesma distância na primavera. Por isso, tratem de se esforçar!

A pista do lado de fora é feita de borracha sintética. Ela contorna o campo de futebol, e, além dela, há um bosque por onde, imagino, é possível chegar a nossa casa, mas não tenho certeza. O vento é frio, e noto que o braço de Sam está arrepiado. Ele tenta se aquecer esfregando a pele.

—            Já fez essa corrida antes? — pergunto.

Sam move a cabeça em sentido afirmativo.

Corremos um quilômetro e meio na segunda semana de aula.

Qual foi seu tempo?

Nove minutos e cinquenta e quatro segundos.

Olho para ele.

Sempre pensei que pessoas magras fossem muito rápidas.

Cale a boca — ele diz.

Corro ao lado de Sam para o fundo do grupo. Quatro voltas. É esse o número de vezes que temos de percorrer a pista para completar um quilômetro e meio. Na metade do caminho eu começo a me distan­ciar de Sam. Em que velocidade eu poderia percorrer um quilômetro e meio se realmente me esforçasse? Dois minutos, talvez? Ou menos?

O exercício me anima e, sem prestar muita atenção, eu passo o líder do grupo. Depois reduzo a velocidade, fingindo exaustão. E é então que vejo uma mancha marrom e branca saindo do meio dos arbustos, transpondo a entrada da arquibancada e correndo em mi­nha direção. Minha mente está me pregando peças, eu penso. Desvio o olhar e continuo correndo. Passo pelo professor. Ele está seguran­do um cronômetro. Ele grita palavras de incentivo, mas está olhando para algum ponto atrás de mim, fora da pista. Sigo a direção de seu olhar. Estão fixos na mancha marrom e branca. E a mancha continua correndo em minha direção, e imediatamente as imagens do dia an­terior voltam. As bestas mogadorianas. Havia as pequenas, também, com dentes que brilhavam como lâminas afiadas, criaturas rápidas cuja principal intenção era matar. Aumento a velocidade.

Percorro metade da pista num tiro de velocidade antes de olhar para trás. Não há nada atrás de mim. Deixei para trás o que me perse­guia. Vinte segundos se passam. Eu me viro para olhar para a frente, e a coisa está bem ali, diante de mim. Deve ter atravessado o campo. Eu paro de repente, e minha visão se corrige. É Bernie Kosar! Ele está sentado no meio da pista com a língua para fora, a cauda balançando.

—            Bernie Kosar! — eu grito. — Você quase me matou de susto!

Volto a correr em velocidade baixa, e o cachorro corre comigo. Es­pero que ninguém tenha notado como fui veloz. Eu paro e me dobro ao meio, como se tivesse cãibras e dificuldade em respirar. Caminho durante algum tempo. Depois corro sem me esforçar. Antes de ter­minar a segunda volta, duas pessoas me ultrapassaram.

—            Smith! O que aconteceu? Estava na frente de todo mundo! — o Sr. Wallace grita quando passo por ele.

Respiro com dificuldade, dando credibilidade à encenação.

—            Eu... tenho... asma... — digo.

Ele balança a cabeça num gesto desaprovador.

—            E eu pensando que tinha o campeão estadual deste ano na minha turma!

Dou de ombros e continuo correndo, parando de vez em quando para caminhar. Bernie Kosar continua comigo, às vezes andando, às vezes trotando. Quando começo a última volta, Sam me alcança e nós corremos juntos. Seu rosto está muito vermelho.

—            Então, o que estava lendo hoje na aula de astronomia? — per­gunto. — Uma cidade inteira de Montana abduzida por aliens?

Ele sorri para mim.

—            Sim, essa é a teoria — responde com certa timidez, como se estivesse constrangido.

E por que uma cidade inteira seria abduzida?

Sam encolhe os ombros, não responde.

Não, é sério — insisto.

Quer mesmo saber?

Sim, é claro!

—            Bem, a teoria é que o governo vem permitindo as abduções em troca de tecnologia.

—            É mesmo? Que tipo de tecnologia?

—            Coisas como chips para supercomputadores, fórmulas para mais bombas e tecnologia verde.

—            Tecnologia verde para espécies vivas? Estranho. E por que os alienígenas querem abduzir humanos?

Para nos estudar.      

Sim, mas para quê? Quero dizer, que motivo eles poderiam ter?

—            Quando o Armagedon chegar, eles conhecerão nossas fraquezas e poderão nos derrotar com facilidade, expondo-as.

Fico um pouco surpreso com a resposta, mas só por causa das cenas que ainda desfilam por minha cabeça desde a noite passada, da lem­brança das armas usadas pelos mogadorianos e das bestas gigantescas.

Não seria fácil para eles, se já têm bombas e tecnologias tão superiores às nossas?

Bem, algumas pessoas parecem acreditar que eles esperam que nós nos matemos antes.

Olho para Sam. Ele está sorrindo para mim, tentando decidir se estou levando a conversa a sério ou não.

—            E por que eles iam querer que nos matássemos antes? Qual é o estímulo deles?

—            Inveja.

Inveja de nós? Da nossa beleza rústica?

Sam ri.

É mais ou menos isso.

Eu concordo movendo a cabeça. Corremos em silêncio por um minuto e percebo que Sam está enfrentando dificuldades, porque sua respiração é pesada.

—            Como se interessou por tudo isso? Ele dá de ombros.

—            É só um hobby — diz, embora eu tenha a nítida sensação de que ele está escondendo alguma informação de mim.

Completamos o percurso em oito minutos e cinquenta e nove segun­dos, melhor que o último tempo de Sam. Bernie Kosar segue a turma de volta à escola. Todos o acariciam, e quando voltamos ao prédio ele tenta entrar conosco. Não sei como me encontrou. É possível que ele tenha decorado o caminho até a escola hoje cedo? A ideia me parece ridícula.

Ele fica na porta. Caminho até o armário com Sam, que, assim que recupera o fôlego, começa a recitar uma tonelada de outras teorias de conspiração, uma depois da outra, a maioria delas hilárias. Gosto dele, o acho divertido, mas às vezes quero que ele pare de falar.

 

Quando começa a aula de economia doméstica, Sarah não está na sala. A Sra. Benshoff dá instruções para os primeiros dez minutos e nós vamos para a cozinha. Entro sozinho na unidade, conformado com a ideia de cozinhar sem companhia hoje, e, assim que conside­ro essa possibilidade, Sarah aparece.

Perdi alguma coisa interessante? — ela pergunta.

Uns dez minutos de tempo valioso comigo — respondo sorrindo.

Ela ri.

—Já soube o que aconteceu com seu armário hoje cedo. Sinto muito.

—            Foi você que encheu o armário de esterco? — pergunto.

Ela ri novamente.

Não, é claro que não. Mas sei que está sendo perseguido por minha causa.

Eles têm sorte em eu não ter usado meus super poderes para jogá-los em outro país.

Ela aperta meu bíceps com ar brincalhão.

—            É claro, com esses músculos todos, e ainda com super poderes... Cara, eles têm sorte.

Nosso projeto do dia é fazer cupcakes de blueberry. Começamos a misturar a massa, e, enquanto trabalhamos, Sarah me conta sua his­tória com Mark. Eles namoraram por dois anos, porém, quanto mais tempo passava com ele, mais ela se afastava da família e dos amigos. Ela era a namorada de Mark, mais nada. Sabia que havia começa­do a mudar, adotando algumas das atitudes dele com as pessoas: era cruel e crítica, julgava-se melhor do que os outros. Ela também começou a beber e suas notas caíram. No final do último ano leti­vo, os pais a mandaram passar o verão na casa da tia no Colorado. Quando chegou lá, Sarah começou a fazer longas caminhadas pelas montanhas, fotografando as paisagens com a câmera da tia. Ela se apaixonou pela fotografia e viveu o melhor verão de sua vida, então percebeu que a vida era muito mais que ser líder de torcida e namo­rar o quarterback do time de futebol. Sarah voltou para casa, rompeu com Mark, deixou a equipe de torcida e prometeu a si mesma ser boa e gentil com todas as pessoas. Mark não superou o rompimento. Ela relata que ele ainda a considera sua garota e acredita que um dia ela vai voltar para ele. Sarah diz que só sente falta dos cachorros de Mark, com quem ela se divertia sempre que ia visitá-lo. Conto a ela sobre Bernie Kosar, e como ele apareceu na porta de nossa casa ines­peradamente depois daquela primeira manhã na escola.

Trabalhamos enquanto conversamos. Em um dado momento eu abro o forno e retiro dali as formas de bolinho sem usar luvas térmi­cas. Ela percebe e pergunta se estou bem, e finjo ter me queimado, sa­cudindo as mãos como se ardessem, embora não sinta absolutamente nada. Vamos até a pia, e Sarah coloca minhas mãos em água mor­na, para ajudar a aliviar o ardor da queimadura inexistente. Quando ela olha minha mão, eu me limito a encolher os ombros. Enquanto estamos confeitando os bolinhos, ela me pergunta sobre o celular e comenta que notou que só havia um número na agenda. Digo que é o número de Henri, que perdi meu telefone antigo com todos os meus contatos. Ela me questiona se deixei uma namorada no lugar de onde vim. Respondo que não, e ela sorri, o que praticamente acaba comigo. Antes do final da aula, ela me fala sobre o festival que vai acontecer na cidade no dia do Halloween e diz que espera me ver lá, que talvez possamos nos encontrar e passar algum tempo juntos. Eu digo que sim, seria ótimo, e finjo estar tranquilo, mesmo flutuando por dentro.

 

IMAGENS ME TOMAM DE ASSALTO, EM MOMENTOS ALEATÓRIOS, NORMALMENTE quando menos espero por elas. Às vezes são pequenas e rápidas: minha avó segurando um copo de água e abrindo a boca para dizer alguma coisa; mas nunca sei quais são suas palavras, porque a cena desaparece tão depressa quanto surgiu. Às vezes são mais demo­radas, mais vivas: meu avô me empurrando em um balanço. Posso sentir a força em seus braços quando ele me impulsiona, as borbole­tas no estômago quando vou cada vez mais alto. O vento leva minha risada. Então, a imagem desaparece. Às vezes lembro explicitamen­te as imagens de meu passado, lembro-me de ter feito parte delas. Mas, outras vezes, elas são tão novas para mim que é como se nunca houvessem acontecido.

Na sala de estar, enquanto Henri esfrega o cristal lórico em meus braços e eu mantenho as mãos suspensas sobre o fogo, vejo o seguinte: sou pequeno — tenho uns três anos, talvez quatro — e estou correndo pelo jardim de grama recém-aparada. Do meu lado vejo um animal, uma criatura parecida com um cachorro, mas com o pelo igual ao de um tigre. Sua cabeça ó redonda, seu corpo se equilibra sobre pernas curtas. É diferente de qualquer outro animal que já vi. Ele se abaixa, preparando-se para pular em mim. Não consigo parar de rir. Então ele pula, eu tento pegá-lo, mas sou muito pequeno, e nós dois caímos na grama. Nós lutamos. Ele é mais forte do que eu. Ele salta no ar, e em vez de cair de volta no chão, como é esperado que aconteça, ele se transforma em uma ave e voa em torno de mim, acima de mim, mantendo-se fora de meu alcance. Ele descreve círcu­los, depois mergulha, passa entre minhas pernas, aterrissa uns seis metros distante de mim. Ele se transforma em um animal que parece um macaco sem cauda. E, novamente, abaixa-se e pula sobre mim.

Nesse momento, um homem aparece no jardim. Ele é jovem e veste um traje de borracha azul e prata que se ajusta ao corpo, uma roupa que já vi em mergulhadores. Ele fala comigo em um idioma que não enten­do. Diz o nome "Hadley" e aponta para o animal. Hadley corre para ele, mudando de forma mais uma vez, de macaco para algo maior, uma espécie de urso com juba de leão. Os dois têm agora a mesma altura, e o homem coça a parte inferior do queixo de Hadley. Meu avô sai da casa. Ele parece jovem, mas sei que deve ter cinquenta anos, pelo menos.

Ele troca um aperto de mãos com o homem. Os dois conversam, mas não consigo entender o que estão dizendo. Então o homem olha para mim, sorri, levanta a mão, e de repente estou fora do chão, voando. Hadley me segue em sua forma de pássaro. Tenho total con­trole de meu corpo, mas o homem controla a direção em que sigo, movendo a mão para a direita ou para a esquerda. Hadley e eu brin­camos no ar, ele me cutuca com seu bico, eu tento agarrá-lo. E de repente meus olhos se abrem, e a imagem desaparece.

— Seu avô podia ficar invisível quando decidia — ouço Henri dizer e fecho os olhos novamente. O cristal continua subindo por meu braço, espalhando o repelente ao fogo pelo restante do corpo. — Um dos Le­gados mais raros, um poder que só se desenvolve em um por cento de nosso povo, e ele era uma dessas pessoas. Podia ficar invisível e tornar invisível tudo o que tocasse. Certa vez ele quis fazer uma brincadeira comigo, antes de eu saber quais eram os Legados dele. Você tinha três anos, e eu estava começando a trabalhar com sua família. Havia ido a sua casa pela primeira vez no dia anterior, e quando subi a colina para meu segundo dia de trabalho, a casa não estava lá. Havia uma entrada, e um carro, e a árvore, mas não havia casa. Cheguei a pensar que estava ficando maluco. Continuei andando e passei pelo local. Depois, quando tive certeza de que havia ido muito longe, voltei e vi, a certa distância de onde eu estava, a casa que eu jurava que não estava lá antes. Então caminhei de volta, mas quando cheguei bem perto a casa desapareceu novamente. Fiquei ali parado, olhando para o local onde sabia que ela deveria estar, vendo apenas as árvores que existiam atrás dela. Segui adiante. Só quando passei pela terceira vez diante da casa, seu avô fez a casa reaparecer definitivamente. Ele não conseguia parar de rir. Passa­mos um ano e meio rindo sempre que lembrávamos aquele dia e conti­nuamos rindo disso até o fim.

Quando abro os olhos, estou de volta ao campo de batalha. Mais explosões, fogo, morte.

—            Seu avô era um bom homem — Henri diz. — Ele adorava fazer as pessoas rirem, amava contar piadas. Não creio que jamais tenha existido um dia em que eu tenha saído de sua casa sem sentir a bar­riga doendo de tanto rir.

O céu se tingiu de vermelho. Uma árvore ó arrancada do chão e corta o ar, arremessada pelo homem no macacão azul e prata, aquele que vi em nossa casa. Ele derrota dois mogadorianos, e sinto von­tade de vibrar com a vitória. Mas de que adianta comemorar? Por maior que seja o número de mogadorianos que vejo morrer, o desfe­cho do dia ainda será o mesmo. Os lorienos serão derrotados, todos serão mortos. Eu serei enviado à Terra.

—            Nunca vi o homem perder a calma. Quando todos ficavam ner­vosos, quando o estresse dominava todo mundo, seu avô mantinha a calma. E era normalmente nesses momentos que ele contava as melhores piadas e, de uma hora para outra, todos voltavam a rir.

As bestas menores atacam as crianças. Elas são indefesas, algu­mas segurando nas mãos as estrelinhas para a celebração. É assim que estamos perdendo — só alguns poucos lorienos lutam contra as feras, e o restante está tentando salvar as crianças.

—            Sua avó era diferente. Era quieta e reservada, muito inteligen­te. Seus avós se complementavam dessa maneira, seu avô era o re­laxado e brincalhão, e sua avó trabalhava nos bastidores para tudo transcorrer sempre conforme o planejado.

Ainda posso ver no céu o rastro azul de fumaça da nave que nos leva à Terra, os Nove e seus Guardiões. A presença da nave perturba os mogadorianos.

—            E havia Julianne, minha esposa.

Ao longe acontece uma explosão, um som parecido com o de um foguete, como os que são lançados da Terra. Outra nave surge no ar, deixando atrás dela um rastro de fogo. Lentamente no início, depois ganha velocidade. Estou confuso. Nossas naves não usam fogo para o lançamento; não usam gasolina ou óleo. Elas emitem uma peque­na descarga de fumaça azul, que se forma a partir dos cristais usados como combustível. Nunca desprendem fogo como a que acabei de ver. A segunda nave é lenta e desajeitada comparada à primeira, mas con­segue ganhar altitude e velocidade. Henri nunca mencionou uma se­gunda nave. Quem está dentro dela? Para onde ela vai? Os mogadorianos gritam e apontam em sua direção. Novamente, percebo que estão nervosos, e por um momento os lorienos atacam.

—            Ela possuía os olhos mais verdes que jamais vi, brilhantes como esmeraldas, e um coração que era tão grande quanto o próprio planeta. Estava sempre ajudando outras pessoas, constantemente adotava animais, que mantinha como bichinhos de estimação. Nun­ca vou entender o que ela viu em mim.

A besta maior voltou, aquela com os olhos vermelhos e os chifres enormes. Baba misturada com sangue pinga de seus dentes afiados, tão grandes que nem cabem na boca. O homem no macacão azul e prata está em pé diante da criatura. Ele tenta erguer a besta com seus poderes, e a levanta alguns metros do chão, mas, mesmo com todo o esforço que faz, não vai além disso. A fera ruge, treme e cai. Ela tenta combater os poderes do homem, mas não é capaz de superá-los. O homem a levanta novamente. Suor e sangue brilham, iluminados pelo luar que banha seu rosto. Ele faz um movimento com as mãos, e a besta cai de lado. O chão treme. Trovões e raios enchem o céu, mas não há chuva.

—            Ela dormia tarde, e eu sempre acordava antes dela. Ia me sentar na sala e lia o jornal, fazia o café, saía para caminhar. Algumas vezes quando eu voltava ela ainda estava dormindo. Eu ficava impacien­te, não conseguia esperar para começar o dia juntos. Ela me fazia sentir bem simplesmente por estar por perto. Eu tentava acordá-la. Ela puxava as cobertas sobre a cabeça e resmungava. Quase todas as manhãs, a mesma rotina.

A besta se debate, mas o homem está no controle. Outros Gardes juntam-se a ele, e todos usam seus poderes contra a criatura desco­munal, fogo e raio caindo sobre ela, raios laser vindo de todas as di­reções. Alguns Gardes estão causando danos invisíveis, mantendo-se afastados e de mãos dadas em total concentração. E de repente se forma uma tempestade, uma nuvem imensa que cresce e brilha num céu limpo, e há nela algum tipo de energia. Todos os Gardes se de­dicam a essa tarefa, todos ajudam a criar essa nuvem de cataclismo. E então um último, intenso raio de luz desce do céu e atinge a fera caída no chão. E ali ela morre.

—            O que eu poderia fazer? O que alguém poderia fazer?

Éramos dezenove naquela nave. Vocês, nove crianças, nós, os nove Cêpans, escolhidos simplesmente por estarmos em um determinado lugar naquela noite, e o piloto que nos trouxe até aqui. Nós, Cêpans, não podíamos lutar, e não teria feito nenhuma diferença se pudéssemos.

Os Cêpans são burocratas, são treinados para administrar o planeta e mantê-lo funcionando, ensinar, treinar os novos Gardes e capacita­dos para entender e manipular seus poderes. Nunca fomos prepara­dos para a guerra. Teríamos sido inúteis ali. Teríamos morrido como os outros. Tudo o que nos restava fazer era partir. Ir embora com vo­cês e sobreviver para um dia restaurar a glória do mais lindo planeta em todo o universo.

Fecho os olhos, e, quando os abro novamente, a batalha acabou. Fumaça se ergue do chão coberto por mortos e feridos em agonia. Árvores arrancadas, florestas queimadas, tudo destruído. Não há nada em pé, exceto os poucos mogadorianos que viveram para con­tar a história. O sol se ergue ao sul e um brilho pálido começa a ba­nhar a terra mergulhada em sangue. São pilhas de corpos, nem todos intactos, nem todos inteiros. Sobre um dos montes está o homem de prata e azul, morto como os outros. Não há marcas discerníveis em seu corpo, mas ele está morto mesmo assim.

Meus olhos se abrem repentinamente. Não consigo respirar, e mi­nha boca está seca, áspera.

Aqui — diz Henri. Ele me ajuda a levantar da mesinha de cen­tro, leva-me até a cozinha e puxa uma cadeira para mim. Lágrimas inundam meus olhos, embora eu tente piscar para mandá-las em­bora. Henri me dá um copo de água, e eu bebo tudo sem parar para respirar. Devolvo o copo vazio, e ele o enche com mais água. Estou de cabeça baixa, ainda respirando com dificuldade. Bebo o segundo copo de água e só então olho para Henri.

Por que nunca me falou sobre uma segunda nave? — pergunto.

Do que está falando?

Havia uma segunda nave.

Onde?

Em Lorien, no dia em que partimos. Uma segunda nave deco­lou logo depois da nossa.

Impossível — ele diz.

Por que é impossível?

Porque as outras naves foram destruídas. Eu vi com meus próprios olhos. Quando os mogadorianos chegaram, a primeira coisa que fizeram foi atacar nossos portos. Viajamos na única nave que sobreviveu à ofensiva. Foi um milagre termos conseguido sair de lá.

Eu vi uma segunda nave. Estou dizendo que vi. E não era como as outras. O combustível que a movia deixava uma trilha de fogo.

Henri me observa com atenção. Ele está pensativo, com a testa marcada por uma ruga.

Tem certeza, John?

Sim.

Ele se reclina na cadeira, olha pela janela. Bernie Kosar está no chão, olhando para nós dois.

Ela saiu de Lorien — acrescento. — Eu a vi desaparecer no céu.

Isso não faz sentido — Henri comenta. — Não vejo como pode ser possível. Não havia sobrado nada.

Havia restado uma segunda nave.

Ficamos sentados por um bom tempo, os dois em silêncio.

Henri?

Sim?

O que havia naquela nave?

Ele me encara.

Não sei. Realmente não sei.

 

Estamos sentados na sala de estar, olhando para o fogo na lareira. Bernie Kosar está em meu colo. Um crepitar ocasional da lenha queimando rompe o silêncio.

—            Ligar! — eu digo e estalo os dedos. Minha mão direita se acen­de, não tão brilhante quanto antes, mas perto disso. No pouco tem­po desde o início do treinamento, já aprendi a controlar o brilho.

Posso concentrá-lo, torná-lo mais amplo e difuso, como a luz de uma casa, ou torná-lo um feixe dirigido, como a luz de uma lanter­na. Minha capacidade de manipular a luz aumenta mais depressa do que eu esperava. A mão esquerda ainda brilha menos do que a direita, mas a está alcançando. Estalo os dedos e digo "ligar" só para me exibir, mas não preciso de nada disso para controlar ou acender a luz. Acontece dentro de mim, simplesmente, e é tão fácil quanto mover um dedo ou piscar um olho. Não requer esforço.

—            Quando acha que os outros Legados vão se desenvolver? — pergunto.

Henri ergue os olhos do jornal.

—            Logo — responde. — O próximo deve começar em até um mês, seja qual for. Você precisa ficar atento. Nem todos os poderes serão óbvios como o que surgiu em suas mãos.

—            Quanto tempo vai levar para todos aparecerem?

Ele dá de ombros.

—            Às vezes tudo se completa em dois meses, às vezes leva até um ano. Varia de Garde para Garde. Mas, leve quanto tempo levar, seu maior Legado será o último a se desenvolver.

Fecho os olhos e me recosto no sofá. Penso em meu maior Legado, aquele que me permitirá lutar. Não tenho certeza de qual quero que seja. Lasers? Controle da mente? Capacidade de controlar o cli­ma, como fazia o homem no macacão azul e prata? Ou eu quero algo mais sombrio, sinistro, como o poder de matar sem tocar?

Deslizo a mão pelas costas de Bernie Kosar. Olho para Henri. Ele está usando uma touca de dormir e um par de óculos que fica pen­durado na ponta de seu nariz, lembrando um rato de livro infantil.

Por que estávamos na pista de pouso naquele dia? — eu quero saber.

Estávamos lá para uma apresentação, um show aéreo. Quando acabou, fomos visitar algumas aeronaves.

—            Só por isso?

Ele olha para mim e afirma com um movimento de cabeça. Mas engole em seco, e isso me faz pensar que está escondendo alguma informação de mim.

Bem, como foi decidido que nós partiríamos? — pergunto. — Quero dizer, um plano como esse não pode ter sido criado em pou­cos minutos, não é?

Só decolamos três horas depois do início da invasão. Não lem­bra nada do que aconteceu?

Muito pouco.

Encontramos seu avô na estátua de Pittacus. Ele me entregou você e me disse para levá-lo à pista de pouso, porque lá estava nossa única chance. Havia um espaço subterrâneo à pista. Ele contou que sempre existira um plano de emergência, caso ocorresse alguma si­tuação como a que estava acontecendo, mas o plano nunca fora leva­do a sério, porque a ameaça de um ataque sempre parecera ridícula. Como seria ridículo pensar nisso aqui, na Terra. Se você dissesse a qualquer humano agora que há uma ameaça de ataque alienígena, ele riria de você. Em Lorien não foi diferente. Perguntei como ele sa­bia sobre o plano, e ele não respondeu, apenas sorriu e se despediu. Faz sentido que ninguém soubesse sobre o plano, ou que só alguns poucos soubessem.

Eu movimento a cabeça numa resposta afirmativa.

Então, do nada, vocês criaram um plano para vir à Terra?

É claro que não. Um dos Anciões do planeta nos encontrou na pista de pouso. Foi ele quem fez o feitiço lórico que marcou seus tornozelos e os uniu, e quem deu a cada um de vocês um amuleto. Ele disse que vocês eram crianças especiais, abençoadas, e daí de­duzi que ele queria dizer que vocês tinham uma chance de escapar. Originalmente, planejamos decolar com a nave e esperar no espaço aéreo pela invasão, esperar nosso povo reagir e vencer. Mas isso não aconteceu... — Ele faz uma pausa e suspira. Depois continua: — Fi­camos em órbita durante uma semana. Foi o tempo necessário para os mogadorianos roubarem tudo de Lorien. Depois disso, ficou claro que não havia mais qualquer possibilidade de reverter a situação, e então seguimos para a Terra.

Por que ele não criou um feitiço para nenhum de nós poder ser morto, independentemente dos números?

Há sempre um limite para o que pode ser feito, John. Você está falando sobre invencibilidade. E isso é impossível.

Eu concordo com um movimento de cabeça. O feitiço tem suas limitações. Se um dos mogadorianos tentar nos matar fora da ordem numérica, a lesão será causada nele. Se alguém tentasse me matar com um tiro na cabeça, a bala atingiria a cabeça do próprio atirador. Mas agora tudo mudou. Agora, se me pegarem, eu morro.

Fico em silêncio por um momento, pensando nisso tudo. A pista de pouso. O único Ancião remanescente em Lorien, Loridas, aquele que criou o feitiço que nos protege, agora morto. Os Anciões foram os primeiros habitantes de Lorien, aqueles que fizeram do planeta o que ele foi. Havia dez deles no início, e eles continham todos os Legados no grupo. Tão antigos, há tanto tempo que mais parecem um mito do que algo baseado em realidade. Com exceção de Loridas, ninguém sabe o que aconteceu aos outros, se foram mortos.

Tento lembrar como foi ficar em órbita em torno do planeta, es­perando para ver se poderíamos voltar, mas não me lembro de nada disso. Recordo fragmentos da viagem. O interior da nave em que viajamos era redondo e aberto, exceto pelos dois banheiros, que ti­nham portas. Havia camas em um lado; o outro era reservado para a prática de exercícios e jogos, para não ficarmos muito entediados. Não me lembro de corno eram os outros. Não me lembro de que brincávamos. Lembro-me de sentir enfado, um ano inteiro trancado em uma nave com outros dezessete e o piloto. Havia um bicho de pelúcia com que eu dormia à noite, e, mesmo sabendo que essa lembrança não deve corresponder à realidade, eu me recordo de que o bicho brincava comigo.

Henri?

Sim?

Eu vejo imagens de um homem vestindo um macacão azul e prata. Eu o vejo em nossa casa e no campo de batalha. Ele era capaz de controlar o clima. E depois eu o vi morto.

Henri faz um movimento afirmativo com a cabeça.

Toda vez que você viaja de volta, só vê as cenas que são relevantes para você.

Ele era meu pai, não era?

Sim. Ele não devia ir vê-lo com muita frequência, mas ia. Estava sempre por perto.

Eu suspiro. Meu pai lutou com coragem, matou a besta e muitos soldados. Mas, no final, não foi suficiente.

Temos realmente alguma chance de vencer?

Como assim?

Fomos derrotados com muita facilidade. Que esperança existe para um final diferente, se formos encontrados? Mesmo quando to­dos nós tivermos desenvolvido nossos poderes, e quando finalmen­te estivermos juntos e pudermos lutar, que esperança teremos contra coisas como aquelas?

Esperança? — ele diz. — Sempre há esperança, John. Novos acontecimentos ainda são aguardados. Nem toda informação já foi divulgada. Não. Não perca a esperança, ainda. Ela é a última coisa que se vai. Quando você a perde, já perdeu tudo. E quando você pensa que tudo está perdido, quando tudo é sinistro e sombrio, sem­pre há esperança.

 

HENRI E EU VAMOS À CIDADE NO SÁBADO PARA O DESFILE DE HALLOWEEN, quase duas semanas após termos chegado em Paradise. Acho que a solidão começa a nos incomodar. Não que não estejamos habituados a ela. Estamos. Mas a solidão em Ohio é diferente da solidão na maioria dos outros lugares. Há certo silêncio nela, certo isolamento.

É um dia frio, com o sol espiando intermitentemente por entre nuvens brancas que deslizam no céu. A cidade está muito agitada. Todas as crianças estão fantasiadas. Compramos uma coleira para Bernie Kosar, que está usando uma capa de Super-homem e tem um "S" grande no peito. Ele não parece impressionado com sua fanta­sia. E nem é o único cachorro vestido de super-herói.

Henri e eu paramos na calçada na frente do Hungry Bear, o restaurante que fica bem no centro da cidade, para assistirmos ao desfile. Na janela da frente alguém prendeu um recorte do jornal Gazette com o artigo sobre Mark James. Na foto ele aparece em pé no campo de futebol americano, usando seu agasalho do time, com os braços cruzados, o pé direito apoiado na bola, um sorriso confiante e irônico no rosto. Até eu tenho de admitir que ele é impressionante.

Henri percebe que estou olhando para o retrato.

—            É seu amigo, não é? — ele pergunta sorrindo. Henri ago­ra conhece a história, desde a quase briga por causa do armário cheio de esterco, até minha paixão repentina pela ex-namorada de Mark. Desde que soube de tudo isso, ele só se refere a Mark como meu "amigo".

—            Meu melhor amigo — ou o corrijo.

A banda começa a tocar. Ela está na frente do desfile, seguida por vários carros com temas de Halloween. Um deles transporta Mark e alguns outros jogadores de futebol. Alguns eu reconheço das aulas, outros, não. Eles jogam punhados de doces para as crianças. Então, Mark me vê e cutuca o garoto ao lado dele — Kevin, aquele que acertei com uma joelhada no refeitório. Mark aponta para mim e diz alguma coisa. Os dois riem.

É ele? — quer saber Henri.

Sim, é ele.

Parece um valentão idiota.

Eu disse.

Atrás deles vêm as líderes de torcida, todas à pé e uniformizadas, com os cabelos presos, sorrindo e acenando para a multidão. Sarah caminha ao lado delas, tira fotos. Ela as captura em ação, enquanto pulam e realizam suas coreografias. Apesar de vestir jeans e não usar maquiagem, ela é muito mais bonita do que qualquer uma delas. Temos conversado cada vez mais na escola, e não consigo parar de pensar nela. Henri percebe que a sigo com os olhos.

É ela, não é?

É ela.

Sarah me vê e acena, depois aponta para a câmera, como se dis­sesse que gostaria de se aproximar, mas que quer tirar fotos. Eu sor­rio e respondo com um movimento afirmativo de cabeça.

—            Bem — diz Henri —, eu certamente vejo onde está o encanto. Assistimos ao desfile. O prefeito de Paradise passa por nós sentado no banco traseiro de um conversível vermelho. Ele joga mais doces para as crianças. Acho que hoje elas vão ficar muito agitadas. Sinto um toque em meu ombro e me viro.

Sam Goode. Qual é a nova?

Ele encolhe os ombros.

Não tenho nenhuma novidade. E você?

—         Também não. Estou aqui assistindo ao desfile. Este é meu pai, Henri.

Eles trocam um aperto de mão. Henri diz:

John me falou muito sobre você.

É mesmo? — Sam sorri, sem muito entusiasmo.

Sim, é verdade. — Henri faz uma pausa breve, e um sorriso surge em seu rosto. — Sabe, estive lendo. Talvez você também tenha lido isso, mas... Sabia que os aliens são o motivo pelo qual temos tempestades? Eles as criam para entrar no planeta sem serem nota­dos. A tempestade é uma distração, e as luzes que vemos, na verda­de, são das espaçonaves que entram na atmosfera da Terra.

Sam sorri e coça a cabeça.

Não brinque — ele responde. Henri dá de ombros.

Bem, foi o que eu ouvi.

—         É claro — Sam confirma, muito inclinado a concordar com Henri. — Bem, e você, sabia que os dinossauros não foram realmen­te extintos? Os alienígenas ficaram tão fascinados por eles que os reuniram e os levaram para outro planeta.

Henri balança a cabeça.

—         Eu não sabia disso — responde. — Sabia que o monstro do Lago Ness era, na verdade, um animal do planeta Trafalgra? Eles o puseram no lago para fazer um experimento, ver se ele sobreviveria, e ele conseguiu. Mas quando ele foi descoberto, os aliens tiveram de levá-lo de volta, e por isso ele nunca mais foi visto.

Eu rio, não da teoria, mas do nome Trafalgra. Não existe nenhum planeta chamado Trafalgra, e eu gostaria de saber se Henri inventou o nome na hora.

Sabia que as pirâmides do Egito foram construídas por aliens?

Isso eu ouvi, sim — Henri reconhece sorridente. Ele se diverte, é claro, porque, embora não tenham sido construídas por aliens, as pirâ­mides do Egito foram feitas com a ajuda e o conhecimento de Lorien.

Sabia que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012?

Sim, isso eu também ouvi. É o suposto prazo de validade da Terra, o fim do calendário maia.

Prazo de validade? — interfiro. — Como aquele "melhor con­sumir até" impresso nas embalagens de leite? A Terra vai azedar?

Eu rio da minha piada, mas Sam e Henri nem prestam atenção. Então, Sam diz:

—         Sabia que os círculos nas plantações eram originalmente usa­dos como ferramenta de navegação para a raça alienígena agharian? Mas isso foi há milhares de anos. Hoje eles são só criações de fazendeiros entediados.

Eu rio outra vez. Tenho vontade de perguntar que tipo de pessoa inventa teorias de conspiração alienígena, se não fazendeiros ente­diados que criam os círculos nas plantações, mas me contenho.

—         E os centuris? — Henri indaga. — Sabe alguma coisa sobre eles? Sam balança a cabeça.

É uma raça de alienígenas que vive no centro da Terra. São be­ligerantes, estão em constante discórdia interna, e quando eles estão em guerra civil a Terra é afetada. É então que ocorrem coisas como terremotos e erupções vulcânicas. O tsunami de 2004? Tudo porque a filha do rei centuri havia desaparecido.

Eles a encontraram? — eu pergunto.

Henri balança a cabeça, olha para mim, depois para Sam, que continua sorrindo com a brincadeira.

—         Não, nunca. Teóricos acreditam que ela pode mudar de forma, e que está vivendo em algum lugar da América do Sul.

A teoria de Henri é tão boa, que não acredito que ele a inventou em poucos momentos. Fico ali parado, pensando nela, embora eu nunca tenha ouvido falar em aliens chamados centuris, mesmo sa­bendo com certeza que ninguém vive no centro da Terra.

—         Você sabia... — Sam para.

Acho que Henri o confundiu, e assim que essa ideia aparece do nada em minha cabeça, Sam diz algo tão assustador que uma onda de terror me invade.

—         Sabia que os mogadorianos buscam o domínio universal. E que eles já destruíram um planeta e planejam destruir a Terra agora? Eles estão aqui, procurando as fraquezas humanas para usá-las contra nós quando a guerra começar.

Estou boquiaberto, e Henri olha para Sam em silêncio, perple­xo. Ele prende a respiração. Sua mão segura a xícara de café com força, e tenho medo de que ele a quebre. Sam olha para Henri, depois para mim.

O que é? Parece que viram um fantasma! Isso significa que eu venci?

Onde você ouviu isso? — pergunto. Henri me olha com tanta intensidade que lamento não ter ficado em silêncio.

—         Eu li em Eles Estão entre Nós.

Henri ainda não consegue pensar em uma resposta. Ele abre a boca para falar, mas não diz nada. Então, somos interrompidos por uma mulher pequena parada atrás de Sam.

Sam — ela o chama. Ele se vira. — Onde esteve?

Ele responde com descaso.

Estava bem aqui.

A mulher suspira, depois olha para Henri.

—         Oi, eu sou a mãe de Sam.

—         Henri — ele se apresenta, apertando a mão dela. — É um pra­zer conhecê-la.

Ela arregala os olhos numa reação surpresa. Alguma coisa na voz ou no sotaque de Henri a entusiasma.

—            Ah bon! Vous parlez français? C'est super! J'ai personne avec qui je peux parler français depuis longtemps.

Henri sorri.

Desculpe. Lamento, mas não falo francês. Sei que meu sotaque dá essa impressão.

Não? — Ela fica decepcionada. — Ora, ora, e eu pensando que a cidade finalmente recebia um pouco de dignidade.

Sam olha para mim e revira os olhos.

Muito bem, Sam, agora vamos — ela anuncia.

Ele olha para nós.

Vocês vão ao parque e à corrida de carroças?

Eu olho para Henri, depois para Sam.

Sim, é claro — respondo. — E você?

Ele dá de ombros.

Bem, tente nos encontrar lá, se puder — sugiro.

Ele sorri e assente.

Tudo bem. Legal.

—         É hora de ir, Sam. E talvez você não possa ir à corrida. Preciso de sua ajuda em casa — diz a mãe.

Sam até ameaça dizer algo, mas ela se vira e começa a se afastar. Sam a segue.

—         Mulher agradável — Henri comenta com sarcasmo.

— Como inventou tudo aquilo? — quero saber.

A multidão começa a se mover pela rua principal, afastando-se da praça. Henri e eu seguimos para o parque, onde servem cidra e comida.

—         Quando se mente por muito tempo, a coisa vai ficando natural.

Concordo com a cabeça.

—         Então, o que você acha?

Ele respira fundo e exala. A temperatura está suficientemente bai­xa para eu poder ver a nuvem formada por seu hálito.

Não tenho idéia. Não sei mais o que pensar. Ele me pegou desprevenido.

Ele nos pegou desprevenido.

Vamos ter de dar uma olhada nesse material de onde ele obtém as informações, descobrir quem o escreve e onde é escrito.

Ele olha para mim com grande expectativa.

O que é?

Você vai ter que conseguir um exemplar — Henri me avisa.

Eu consigo. — Mesmo assim, isso não faz sentido. Como al­guém pode saber disso?

Os dados estão sendo fornecidos por alguém.

Acha que pode ser um de nós?

Não.

Um deles, então?

Pode ser. Nunca pensei em verificar essas porcarias que pu­blicam teorias da conspiração. Talvez eles pensem que lemos tudo isso e acreditem que podem nos fazer aparecer, vazando esse tipo de informação. Quero dizer... — Ele para e pensa por um instante. — Droga, John. Não sei. Mas precisamos dar uma olhada nisso. Não é coincidência, disso eu tenho certeza.

Caminhamos em silêncio, ainda um pouco chocados, pensando em possíveis explicações. Bernie Kosar nos segue num trote anima­do, a língua para fora da boca, sua capa caída para um lado arrastando na calçada. Ele faz sucesso com as crianças, e muitas nos fazem parar para brincar com o cachorro.

O parque fica no extremo sul da cidade. Em sua área mais afas­tada há dois lagos adjacentes separados por uma faixa estreita de terra que leva à floresta além deles. O parque propriamente dito é composto por três campos de beisebol, um parquinho infantil e um grande pavilhão onde voluntários servem cidras e fatias de torta de abóbora. Três carroças de feno estão paradas ao lado da trilha de cas­calho, com uma grande placa onde se lê a inscrição:

 

MORRA DE MEDO!

CORRIDAS ASSOMBRADAS DE HALLOWEEN

INÍCIO AO PÔR DO SOL

$5 POR PESSOA

 

A trilha passa de cascalho a terra antes de chegar à floresta, cuja entrada foi decorada com recortes de papelão com formas de fantas­mas e de gnomos. Parece que o trajeto da corrida assombrada inclui a floresta. Olho em volta procurando por Sarah, mas não a vejo ali. Gostaria de saber se ela vai participar da corrida.

Henri e eu entramos no pavilhão. As líderes de torcida estão todas ali, algumas fazendo pinturas com temas de Halloween no rosto das crianças, outras vendendo rifas para o sorteio que será realizado às seis da tarde.

—         Oi, John — alguém diz atrás de mim. Eu me viro, e lá está Sa­rah segurando sua câmera. — O que achou do desfile?

Sorrio para ela e ponho as mãos nos bolsos. Há um fantasmiriha branco pintado em seu rosto.

—         Oi — respondo. — Eu gostei. Acho que estou me acostumando com esse charme de cidade pequena de Ohio.

Charme? Você quer dizer tédio, não é? Dou de ombros.

Não sei, não é ruim.

—         Ei, é o amiguinho da escola. Eu me lembro de você — ela diz, abaixando-se para afagar a cabeça de Bernie Kosar. Ele sacode o rabo freneticamente, pula, tenta lamber o rosto de Sarah. Ela ri. Olho por cima do meu ombro. Henri está uns seis metros afastado, conversando com a mãe de Sarah em uma das mesas de piquenique. Fico curioso para saber sobre o que eles estão falando.

—         Acho que ele gosta de você. O nome dele é Bernie Kosar.

Bernie Kosar? Isso não é nome para um cachorro adorável. Olhe só para essa capa! Que coisa mais fofa!

Sabe, se não parar com isso, vou acabar sentindo ciúme do meu próprio cachorro — digo.

Ela sorri e se levanta.

Então, vai comprar minha rifa ou não? O dinheiro vai ser usa­do para reconstruir um abrigo de animais. O lugar foi destruído por um incêndio no mês passado. É uma instituição sem fins lucrativos e fica no Colorado.

É mesmo? E como uma garota de Paradise, Ohio, fica sabendo sobre um abrigo de animais no Colorado?

Minha tia cuida do local. Eu convenci todas as garotas da equi­pe de torcida a participar. Vamos viajar até lá e ajudar na construção. Vamos ajudar os animais e ficar longe da escola e de Ohio por uma semana. Todos saímos ganhando.

Imagino Sarah usando um capacete, empunhando um martelo. A imagem me faz sorrir.

—         Então, está dizendo que vou ter que cuidar da cozinha sozinho por uma semana? — Enceno um suspiro exagerado e balanço a ca­beça. — Não sei se posso apoiar essa viagem agora, mesmo que seja pelos animais.

Ela ri e bate em meu braço. Eu pego a carteira e dou a ela cinco dólares por seis rifas.

Estas seis são as da sorte — ela diz.

São?

É claro. Você as comprou de mim, bobinho.

Neste momento, olhando por cima do ombro de Sarah, vejo Mark e sua turma entrando no pavilhão.

Vai à corrida assombrada? — Sarah pergunta.

Sim, eu estava pensando nisso.

—         Deveria ir, é divertido. Todo mundo vai. E é bem assustador, mesmo.

Mark nos vê conversando e assume uma expressão carrancuda. Ele vem em nossa direção. A roupa é a mesma de sempre — agasa­lho do time, jeans, cabelo cheio de gel.

—         Então, você vai? — pergunto a Sarah.

Mark nos interrompe antes que ela possa responder.

O que achou do desfile, Johnny? — ele pergunta.

Sarah se vira e olha para ele com ar reprovador.

Gostei muito — respondo.

Vai participar da corrida assombrada ou tem muito medo? Eu sorrio para ele.

Para dizer a verdade, eu vou participar.

—         Vai ter um ataque como aquele do primeiro dia de aula e sair correndo da floresta, gritando e chorando como um bebê?

—         Não seja idiota, Mark — Sarah interfere.

Ele olha para mim furiosamente. Estamos cercados por muita gente, e não há nada que ele possa fazer sem causar uma cena — e nem acredito que ele faria alguma coisa, mesmo que fosse diferente.

Tudo a seu tempo — diz Mark.

Você acha?

O seu está chegando — ele diz.

Pode ser — eu falo. — Mas ele não virá por você.

—         Chega! — grita Sarah. Ela se coloca entre nós, empurrando-nos para longe um do outro. As pessoas estão observando. Ela olha em volta, como se estivesse constrangida com toda aquela atenção, de­pois olha feio para Mark primeiro, em seguida para mim.

Muito bem, então. Briguem, se é isso que querem fazer. Boa sorte — Sarah diz e se vira para ir embora. Eu a vejo se afastar. Mark nem olha para ela.

Sarah — eu chamo, mas ela continua andando e desaparece no pavilhão.

Em breve — Mark resmunga. Eu o encaro.

Duvido.

Ele volta para perto de seu grupo de amigos. Henri se aproxima de mim.

Não creio que ele tenha vindo perguntar sobre a lição de casa de matemática, não é?

Não exatamente — confirmo.

Eu não me preocuparia com ele — diz Henri. — Ele parece falar mais do que faz.

Mas eu não — retruco, olhando para o lugar onde Sarah desa­pareceu. — Devo ir atrás dela? — pergunto e olho para ele, apelando para aquela sua porção de homem casado e apaixonado, aquela par­te que ainda sente falta da esposa todos os dias, não aquela parte que quer me ver seguro e protegido.

Ele assente.

—         Sim — ele responde, suspirando. — Por mais que eu odeie admitir, você provavelmente deve ir atrás dela.

 

CRIANÇAS CORRENDO, GRITANDO,   EM ESCORREGADORES E BALANÇOS.   TODAS com um saco de doces na mão, a boca cheia deles. Crianças vestidas como personagens de desenho animado, monstros, gnomos e fantas­mas. Cada morador de Paradise devia estar no parque neste momen­to. E no meio de toda essa loucura, vejo Sarah sentada sozinha, no balanço, movendo-se suavemente.

Atravesso o mar de crianças gritando e rindo. Quando me vê, Sa­rah sorri, seus grandes olhos azuis cintilantes como faróis.

—         Precisa de alguém para empurrá-la? pergunto.

Ela aponta para o balanço vago a seu lado, e eu me sento nele.

—         Tudo bem? pergunto.

—         Sim, estou bem. Ele só me cansa. Sempre que está com os ami­gos ele tenta parecer durão, cruel.

Ela gira o balanço até a corda ficar tensa, então levanta os pés, e o brinquedo gira para o outro lado, primeiro lentamente, depois ganhando velocidade. Ela ri o tempo todo, o cabelo louro voando atrás dela. Faço igual. Quando o balanço finalmente para, o mundo continua rodando.

Onde está Bernie Kosar?

Eu o deixei com Henri respondo.

Seu pai?

—         Sim, meu pai. — Sempre cometo esse erro, chamar Henri pelo nome, quando devia chamá-lo de "pai".

A temperatura está caindo rapidamente, e os nódulos de meus de­dos estão brancos na corda do balanço, esfriando cada vez mais. Vemos as crianças correndo como loucas à nossa volta. Sarah olha para mim, e seus olhos parecem mais azuis do que nunca na escuridão que se aproxima. Nós nos olhamos em silêncio, sem nenhum dos dois dizer nada, mas transmitindo muitas coisas. As crianças parecem desapare­cer no fundo da cena. Então, ela sorri de modo tímido e desvia o olhar.

Então, o que vai fazer? — pergunto.

Sobre o quê?

Mark.

Ela encolhe os ombros.

—         O que posso fazer? Já terminei tudo com ele. E vivo dizendo que não tenho nenhum interesse em voltar.

Eu faço que sim com a cabeça. Não sei bem como responder.

Bem, acho melhor tentar vender as rifas. Falta só uma hora para o sorteio.

Quer ajuda?

Não, tudo bem. Vá se divertir. Bernie Kosar deve estar sentin­do sua falta. Mas não vá embora antes da corrida. Talvez possamos participar juntos?

É claro — respondo. A felicidade cresce dentro de mim como uma flor desabrochando, mas tento escondê-la.

Vejo você daqui a pouco, então.

Boa sorte com as rifas.

Ela segura minha mão por uns três segundos. Depois a solta, pula do balanço e se afasta apressadamente. Fico ali sentando, me balan­çando lentamente, apreciando o vento que não sentia há muito tem­po, porque passamos o último inverno na Flórida, e o anterior no sul do Texas. Quando volto ao pavilhão, Henri está sentado a uma mesa de piquenique, comendo uma fatia de torta, com Bernie Kosar deitado no chão a seus pés.

Como foi?

Bem — respondo, com um sorriso.

De algum lugar surge o brilho alaranjado e azul de fogos de arti­fício, e a luz explode no céu. Isso me faz pensar nos fogos que vi no dia da invasão.

—         Voltou a pensar naquela segunda nave que eu vi?

Henri olha em volta para ter certeza de que ninguém nos ouve. Temos a mesa de piquenique só para nós, e ela está posicionada em um canto afastado do movimento.

Pensei um pouco nisso, mas ainda não sei o que significa.

Acha que ela pode ter vindo para cá?

—         Não. Seria impossível. Se a nave era movida a combustível co­mum, como você diz, não poderia ter percorrido essa distância sem parar para abastecer.

Fico sentado e quieto por um momento.

Queria que fosse possível.

O quê?

Queria que a nave tivesse vindo para cá, com a gente.

É uma idéia agradável — Henri concorda.

 

Uma hora depois eu vejo os jogadores de futebol, Mark na frente do grupo, atravessando o gramado. Eles estão vestidos de múmias, zum­bis, fantasmas, vinte e cinco deles no total. Sentam-se nos bancos do campo de beisebol mais próximo, e as líderes de torcida que estavam pintando o rosto das crianças aplicam a maquiagem para completar a fantasia de Mark e seus amigos. Só então compreendo que o time de futebol é responsável por tornar a corrida de carroças bem assustado­ra. Eles estarão esperando por nós no meio da floresta.

—         Está vendo aquilo? — pergunto a Henri.

Henri olha para o grupo e movimenta a cabeça em sentido afirma­tivo, depois pega seu café e bebe um grande gole.

Ainda acha que deve participar da corrida? — ele pergunta.

Não — respondo. — Mas vou assim mesmo.

Eu já imaginava.

Mark está vestido como um zumbi, usando roupas pretas e rasga­das, com maquiagem preta e cinza no rosto e manchas vermelhas es­palhadas pelo corpo para simular sangue. Quando a fantasia está com­pleta, Sarah se aproxima dele e diz alguma coisa. Mark ergue a voz ao responder, mas não consigo entender o que ele diz. Seus movimentos são animados, e ele fala tão depressa que percebo que está atropelan­do as palavras. Sarah cruza os braços e balança a cabeça para ele. Seu corpo fica tenso. Eu ameaço me levantar, mas Henri segura meu braço.

—         Não — ele diz. — Ele só a está afastando ainda mais.

Olho para eles e desejo muito ouvir o que dizem, mas há mui­tas crianças gritando, e é impossível decifrar as palavras. Quando os gritos param, os dois estão frente a frente, olhando-se, e há uma expressão carrancuda e magoada no rosto de Mark, enquanto Sarah dá um meio-sorriso, incrédula. Então ela balança a cabeça e se afasta.

Eu olho para Henri.

O que devo fazer agora?

Nada — ele diz. — Absolutamente nada.

Mark volta para perto dos amigos. Ele está sério, de cabeça baixa. Alguns deles olham em minha direção. Surgem sorrisos sarcásti­cos. Segundos depois eles começam a caminhar para a floresta. Uma marcha metódica, lenta, vinte e cinco garotos fantasiados desapare­cendo entre as árvores.

 

Para passar o tempo, volto ao centro da cidade com Henri, e vamos jantar no Hungry Bear. Quando caminhamos de volta ao pavilhão, o sol se pôs e a primeira carroça cheia de feno é puxada para a floresta por um trator verde. A multidão diminuiu bem, e os que ainda res­tam são, basicamente, colegiais e adultos animados, um total de cem pessoas, mais ou menos. Procuro por Sarah entre elas, mas não a vejo. A segunda carroça parte dez minutos depois. De acordo com o panfleto, a corrida toda leva meia hora, o trator percorre a floresta bem devagar, alimentando a expectativa, e, quando ele para, os par­ticipantes devem saltar das carroças e percorrer trilhas diferentes a pé, e aí é quando começam os sustos.

Henri e eu estamos parados diante do pavilhão, e mais uma vez eu olho para a fila de pessoas que esperam por sua vez. Ainda não vi Sarah. Meu celular vibra no bolso da calça. Não me lembro da última vez em que meu telefone tocou sem que fosse Henri. O identificador de chamadas mostra Sarah Hart. O entusiasmo me invade. Ela deve ter registrado meu número em seu aparelho no mesmo dia em que deixou o dela no meu.

Alô? — atendo.

John?

Sim, sou eu.

Oi, é Sarah. Ainda está no parque? — ela pergunta.

Sua voz soa tranquila, como se ela telefonar para mim fosse nor­mal e eu não devesse estranhar por ela ter meu número, apesar de eu nunca tê-lo divulgado.

Sim.

Ótimo! Chego aí em cinco minutos. A corrida já começou?

Sim, há uns poucos minutos.

Você ainda não foi, não é?

Não.

Ótimo! Então podemos ir juntos.

—         Sim, com certeza — eu digo. — A segunda carroça está se pre­parando para sair agora.

—         Perfeito. Eu chego em tempo de ver a terceira saindo.

—         Estou esperando, então.

Eu desligo com um sorriso largo no rosto.

Tome cuidado nessa corrida — Henri me aconselha.

Serei cuidadoso. — Paro e tento dar alguma leveza à minha voz. — Não precisa esperar. Tenho certeza de que consigo uma caro­na para voltar para casa.

Estou disposto a ficar e morar nesta cidade, John. Mesmo cien­te de que, provavelmente, é mais sensato partirmos, considerando o que já aconteceu aqui. Mas você precisa colaborar comigo, e esta é uma situação em que conto com sua cooperação. Não gostei nada de como aqueles garotos olharam para você agora há pouco.

Eu vou ficar bem — digo.

Eu sei que vai. Mas, só por precaução, prefiro ficar aqui esperando.

Suspiro, resignado.

Tudo bem.

Sarah chega cinco minutos depois com uma amiga muito bonita que já vi antes, mas a quem nunca fui apresentado. Ela agora veste jeans, suéter de lã e jaqueta preta. O fantasma branco desapareceu de sua face direita, e o cabelo está solto, caindo sobre os ombros.

Ei, você — ela diz.

Oi.

Sarah me abraça um pouco hesitante. Sinto o perfume que emana de seu pescoço antes de ela se afastar.

Oi, pai do John — ela cumprimenta Henri. — Esta é minha amiga Emily.

É um prazer conhecer vocês duas — Henri responde. — Então, vão mesmo enfrentar o terror desconhecido?

Pode apostar que sim — diz Sarah. — Acha que o mocinho aqui vai aguentar? Não quero que ele fique muito assustado por mi­nha causa. — Ela aponta para mim, sorrindo.

Henri também sorri, e posso dizer que ele já gosta de Sarah.

—         É melhor ficar perto dele, só por precaução.

Ela olha por cima do ombro. A terceira carroça já está com um quarto de sua ocupação.

Eu vou cuidar dele — diz. — É melhor nos apressarmos.

Divirtam-se — diz Henri.

Sarah segura minha mão e nós três corremos para a carroça de feno, uns cinquenta metros distante do pavilhão. Há uma fila de cerca de trinta pessoas. Nós entramos no final dela e começamos a conversar, embora eu me sinta um pouco tímido e só escute a conversa das duas garotas. Enquanto esperamos, vejo Sam parado a alguns passos de nós. como se não conseguisse decidir se deve ou não se aproximar.

—         Sam! — eu grito com entusiasmo maior do que pretendia. Ele tropeça. — Vai participar da corrida conosco?

Ele dá de ombros.

—         Se não se incomodarem...

—         É claro que não! — Sarah responde, fazendo um gesto para con­vidá-lo a entrar na fila. Sam fica ao lado de Emily, que sorri para ele. A resposta de Sam é um rubor imediato e intenso, e fico feliz por ele estar ali conosco. De repente, um garoto se aproxima com um rádio comuni­cador. Eu o reconheço do time de futebol.

—         Oi, Tommy — Sarah o cumprimenta.

—         Oi — ele responde. — Ainda há quatro lugares nesta carroça. Querem embarcar?

Está falando sério?

Sim.

Passamos na frente da fila e pulamos na carroça, onde nos senta­mos juntos sobre um fardo de feno. Acho estranho Tommy não pe­dir nossos bilhetes. Estou curioso sobre o motivo que o levou a nos passar na frente de todos que já esperavam na fila. Algumas pessoas olham para nós com evidente indignação. Não posso dizer que não entendo a reação delas.

—         Divirtam-se — Tommy diz com um sorriso gelado, como aque­les que as pessoas exibem quando sabem que algo de ruim aconte­ceu com alguém de quem não gostam.

Isso foi bem esquisito — comento.

Sarah não dá muita importância ao ocorrido.

Ele deve ter algum interesse em Emily.

Meu Deus, espero que não — Emily responde, fingindo ânsia.

Eu olho para Tommy. A carroça parte com metade de sua lotação, outro fato que me intriga, considerando o tamanho da fila de espera.

O trator reboca o veículo, que vai sacudindo pela trilha de casca­lho e terra, aproximando-se da entrada da floresta, onde sons fantas­magóricos são transmitidos por alto-falantes escondidos. A floresta é densa e não há luz alguma ali, exceto a dos faróis do trator. Quan­do forem desligados, eu penso, só haverá a escuridão. Sarah segura minha mão outra vez. Ela é fria ao toque, mas uma onda de calor me invade. Ela se inclina para mim e cochicha:

—         Estou com um pouco de medo.

Figuras de fantasmas penduradas nos galhos baixos pairam so­bre nós, e fora da trilha recortes de zumbis foram deixados apoia­dos nas árvores. O trator para e apaga os faróis. Então, estrobos­cópios intermitentes piscam por dez segundos. Não há nada de assustador neles, e só quando param eu entendo qual é o efeito: os olhos levam alguns segundos para se ajustar e não conseguimos enxergar nada. Um grito corta a noite, e Sarah fica tensa do meu lado. Figuras passam por nós. Estreito os olhos, para tentar enxer­gar alguma coisa, e noto que Emily se aproximou de Sam, que sorri muito satisfeito. Eu, na verdade, sinto um pouco de medo. Passo um braço cuidadosamente em torno de Sarah. Somos tocados nas costas, e ela se agarra à minha perna. Alguns gritam. Com um sola­vanco, o trator retoma a jornada, e não há nada além de árvores na faixa iluminada pelos faróis.

Seguimos em frente por mais três ou quatro minutos. A expecta­tiva cresce, como o medo do mau presságio de ter de percorrer a pé a distância que até então cobrimos no trator. Então, o veículo entra em uma clareira circular e para.

—         Fim da linha — grita o condutor.

Quando a última pessoa desce, o trator vai embora. Sua luz desa­parece na distância, deixando-nos na companhia da noite e dos sons que nós mesmos fazemos.

—         Merda — alguém resmunga, e todos nós rimos.

Somos onze no total. Um caminho de luzes se acende, mos­trando por onde devemos seguir, e depois tudo se apaga. Fecho os olhos e me concentro na sensação dos dedos de Sarah entrelaça­dos nos meus.

—         Não consigo entender por que faço isso todos os anos — Emily anuncia nervosa, cruzando os braços como se quisesse se proteger.

As outras pessoas começam a percorrer a trilha, e nós as segui­mos. As luzes às vezes se acendem e se apagam em seguida para nos orientar. Os outros estão à nossa frente, a uma distância que não nos possibilita vê-los. Mal consigo ver o chão em que piso. Três ou quatro gritos cortam o ar.

—         Ah, não — Sarah murmura, apertando minha mão. — Parece que já vamos ter problemas.

Algum objeto pesado cai sobre nós. As duas garotas gritam. Sam também. Eu tropeço e caio, ralo o joelho, me enrosco nessa coisa que não consigo identificar. Segundos depois percebo que é uma rede!

—         Que diabo é isso! — Sam pergunta.

Rasgo a malha de cordas, mas, no instante em que me liberto, sou empurrado com força por trás. Alguém me agarra e me arrasta para longe das garotas e de Sam. Eu me livro e fico em pó, mas sou imediatamente atingido pelas costas novamente. Isso não faz parte da corrida.

—         Solte-me! — uma das meninas grita. A resposta é uma garga­lhada masculina. Não consigo enxergar nada. As vozes das garotas se afastam de mim.

—         John? — Sarah me chama.

—         Onde você está, John? — É a voz de Sam, gritando.

Levanto-me para ir atrás deles, mas sou atingido novamente. Não, isso não está certo. Sou abordado. Sou jogado no chão, e o impacto me deixa sem ar. Levanto depressa e tento recuperar o fôlego, apoiando a mão em uma árvore para me sustentar. Há terra e folhas em minha boca.

Fico ali parado por alguns segundos e não ouço nada além de minha respiração ofegante. Quando já começo a pensar que estou sozinho, alguém me empurra e me joga contra uma árvore próxima. Bato com a cabeça no tronco e, por um instante, vejo estrelas. Fico surpreso com a força dessa pessoa. Toco minha testa e sinto o san­gue em meus dedos. Olho em volto novamente, mas não consigo ver nada além da silhueta das árvores.

Escuto um grito de uma das garotas, depois o som de uma luta. Ranjo os dentes. Estou tremendo. Tem alguém entre as árvores à mi­nha volta? Não sei. Mas sinto que olhos me espreitam de algum lugar.

Tire as mãos de mim! — Sarah grita.

Percebo que ela está sen­do arrastada para longe.

Tudo bem — digo para a escuridão, para as árvores.

A raiva está me dominando. — Você quer brincar? — pergunto, desta vez mais alto.

Alguém ri perto de mim.

Dou um passo na direção do som. Sou empurrado por trás, mas consigo recuperar o equilíbrio antes de cair. Dou um soco aleatório no ar, e esfolo a mão em um tronco. Não há mais nada a fazer. De que me adianta ter Legados se eles não são usados quando é neces­sário? Mesmo que Henri e eu tenhamos de carregar a caminhonete esta noite e partir para outra cidade, pelo menos terei feito o que tinha de fazer.

— Quer brincar? — grito novamente. — Eu também sei brincar!

Um fio de sangue escorre pela lateral de meu rosto. Sim, eu pen­so, é isso mesmo. Eles podem fazer tudo o que quiserem, mas não vão tocar em um fio de cabelo de Sarah. Ou de Sam ou de Emily.

Respiro profundamente e sinto a descarga de adrenalina. Um sorriso gelado se forma e meu corpo parece ficar maior, mais forte. Minhas mãos se acendem e emitem uma luz intensa que se espalha pela noite, iluminando o mundo repentinamente.

Olho para cima. Uso as mãos como lanternas na direção das árvo­res e corro a toda velocidade pela noite.

 

KEVIN SAI DO MEIO DAS ÁRVORES FANTASIADO DE MÚMIA.   ERA ELE QUEM estava me atacando. A luz o ofusca e ele parece atordoado, tentan­do identificar de onde ela vem. Ele usa óculos de visão noturna. Então, é assim que eles conseguem nos enxergar, eu penso. Onde os conseguiram?

Ele me ataca, e no último instante me esquivo e o derrubo.

— Solte-me! — A voz vem da trilha. Olho para cima e direciono minha luz para as árvores, mas nada se move. Não consigo determinar se a voz é de Emily ou de Sarah. Ouço uma risada masculina.

Kevin tenta se levantar, mas eu chuto suas costelas antes de ele ficar em pé. Ele cai com um gemido abafado. Arranco os óculos de seu rosto e os jogo o mais longe possível, sabendo que vão cair pelo menos dois quilômetros e meio longe de nós, talvez quatro ou cinco, porque estou com tanta raiva que perco o controle de minha força. Então, corro pela floresta antes que Kevin consiga se levantar.

A trilha segue pela esquerda, depois vai para a direita. Minhas mãos brilham somente quando preciso enxergar. Sinto que estou perto. Então, vejo Sam na minha frente, imobilizado pelos braços de um zumbi. Há outros três por perto.

O zumbi o solta.

—         Calma, é só uma brincadeira. Se não resistir, não vai se machu­car — ele diz a Sam. — Sente-se e fique quieto.

Acendo minhas mãos e direciono as luzes para os olhos dele. A pessoa mais próxima tenta me atacar, e eu a derrubo com um soco. Ela fica imóvel no chão. Seus óculos voam para o meio dos arbustos e desaparecem. O segundo sujeito tenta me imobilizar com os bra­ços, mas eu escapo e o levanto do chão.

—         Que diabo é isso? — ele pergunta, confuso.

Eu o arremesso, e ele se choca contra o tronco de uma árvore uns seis metros adiante. O terceiro deles vê e foge. Agora resta o quarto, o que estava segurando Sam. Ele levanta as mãos diante do rosto, como se eu tivesse uma arma apontada em sua direção.

A ideia não foi minha — diz.

O que ele planejava fazer?

—         Nada, cara. Só queríamos fazer uma brincadeira com vocês, dar um susto.

Onde eles estão?

Já soltaram Emily. Sarah está lá na frente.

Quero seus óculos — aviso.

—         De jeito nenhum, cara. São da polícia, só pegamos empresta­dos. Vai me complicar.

Dou um passo em sua direção.

—         Tudo bem — o garoto diz e me entrega os óculos. Eu os jogo ainda mais longe do que arremessei o último par. Espero que caiam na cidade vizinha. Eles que se expliquem perante a polícia.

Agarro a camisa de Sam com a mão direita. Não consigo ver nada sem acender minha luz, e só então percebo que devia ter mantido os dois pares de óculos para enxergarmos na escuridão. Mas não os tenho, então respiro fundo e faço minha mão esquerda brilhar, e começo a nos guiar pelo caminho. Se Sam acha tudo isso estranho, ele nada diz.

Eu paro para ouvir. Nada. Seguimos adiante, caminhando por entre as árvores. Apago a luz.

—            Sarah! — eu grito.

Paro de novo para ouvir, mas só identifico o vento passando por entre os galhos e a respiração ofegante de Sam.

Quantas pessoas estão com Mark? — pergunto.

Cinco, mais ou menos.

Sabe para onde eles foram?

Não vi.

Continuamos andando, mesmo sem saber em que direção seguimos. Ouço ao longe o ruído do motor do trator. A quarta turma está chegando. Estou agitado, quero correr, mas sei que Sam não pode me acompanhar. Ele já está arfante, e até eu estou suando, apesar de a temperatura ser de somente sete graus. Ou talvez eu esteja confun­dindo sangue com suor. Não posso dizer.

Passamos por uma árvore de tronco grosso e cheio de nós, e eu sou atacado pelas costas. Sam grita quando um punho acerta a parte de trás de minha cabeça, deixando-me momentaneamente atordoado, mas me recupero depressa, viro e agarro o garoto pelo pescoço e acendo a luz em seu rosto. Ele tenta remover meus dedos, mas não consegue.

O que Mark está planejando?

Nada — ele diz.

Resposta errada.

Eu o jogo contra a árvore mais próxima, cinco metros adiante, depois o levanto do chão, segurando-o novamente pelo pescoço. Ele esperneia, tentando me acertar com as pernas, mas enrijeço os mús­culos, e os chutes não me machucam.

—            O que ele está planejando?

Eu o abaixo até seus pés tocarem o chão e afrouxo os dedos para deixá-lo falar. Sinto Sam me observando, registrando tudo o que vê, mas não há nada que eu possa fazer a respeito.

Só queríamos assustar vocês — diz o garoto, apavorado.

Juro que vou quebrar você ao meio se não me disser a verdade.

—         Ele pensa que os outros estão arrastando vocês dois para Shepherd Falis. E levou Sarah para lá. Mark queria que ela o visse es­pancando você, e depois ia soltá-los.

—         Você vai me levar até lá — digo.

Ele começa a caminhar, e eu apago minha luz. Sam agarra mi­nha camisa e me segue. Quando atravessamos uma pequena cla­reira iluminada pelo luar, percebo que ele está olhando para mi­nhas mãos.

—         São luvas — digo. — Kevin Miller estava com elas. Deviam fazer parte da fantasia de Halloween.

Ele assente, mas noto que está assustado. Caminhamos por quase um minuto até ouvirmos o som de água corrente à nossa frente.

—         Dê-me seus óculos — eu digo para o garoto que está nos guiando. Ele hesita, e eu torço seu braço. O cara estremece, com dor, e rapi­damente arranca os óculos do rosto.

—         Pode ficar, pode ficar — ele grita.

Quando os ponho, o mundo se pinta de verde. Eu o empurro com força, e ele cai.

—         Vamos — digo para Sam, e nós continuamos andando, deixan­do-o para trás.

Há um grupo adiante. Conto oito garotos e Sarah.

Agora posso vê-los. Quer esperar aqui ou vem comigo? Isso pode ficar feio.

Quero ir — diz Sam. E evidente que ele está com medo, mas não sei se é pelo que me viu fazer ou por causa dos jogadores de futebol à nossa frente.

Percorro o restante do caminho tão silencioso quanto posso, e Sam me segue, andando na ponta dos pés. Quando estamos a pou­cos metros de distância, um galho se parte sob o pé de Sam.

—         John? — Sarah pergunta. Ela está sentada em uma pedra, abra­çando os joelhos. Não usa os óculos de visão noturna, por isso es­treita os olhos e se vira em nossa direção, tentando nos identificar.

Sim — respondo. — E Sam. Ela sorri.

Eu disse.

Presumo que ela esteja falando com Mark.

O barulho da água vem de um córrego muito estreito. Mark dá um passo à frente.

Ora, ora, ora — ele diz.

Cale a boca, Mark — reajo. — Encher meu armário de esterco foi ridículo, mas agora você foi longe demais.

—         Você acha? São oito contra dois.

—         Sam não tem nada a ver com isso. Tem medo de me enfrentar sozinho? O que espera que aconteça? Você tentou raptar duas pes­soas. Acha mesmo que elas vão ficar caladas?

—         Sim, eu acho. Depois que me virem acabando com você.

—         Não se iluda — aviso, antes de me virar para os outros. — Os que não quiserem dar um mergulho no rio, sugiro que saiam agora. Mark vai mergulhar, querendo ou não. Ele perdeu a chance de sair dessa inteiro. Agora vocês estão diante da última oportunidade.

Todos continuam onde estão.

—         Muito bem, vocês escolheram.

Uma excitação nervosa provoca um efeito estranho em meu es­tômago. Dou um passo à frente. Mark recua um passo e tropeça no próprio pé, caindo sozinho. Dois amigos dele me atacam, ambos maiores do que eu. Um deles tenta me acertar um soco, mas eu me esquivo e acerto um murro bem no meio de sua barriga. Ele se dobra ao meio, segurando o local com as mãos. O segundo garoto sai do chão quando meu soco encontra seu queixo. Ele aterrissa com um baque surdo quase dois metros adiante, e o impulso o joga dentro da água. Ele se debate e fica em pé. Os outros estão paralisados, chocados. Sinto Sam se aproximando de Sarah. Agarro o garoto que está mais perto de mim e o arrasto pelo chão. Seus chutes aleatórios cortam o ar sem acertar nada. Quando estamos na margem do ria­cho, eu o levanto pela cintura do jeans e o jogo na água. Outro deles me ataca. Eu só me esquivo, e ele vai sozinho para dentro do riacho. Três já foram, faltam quatro. Fico me perguntando quanto do que está acontecendo Sarah e Sam conseguem ver sem os óculos.

—         Estão facilitando as coisas para mim — provoco. — Quem é o próximo?

O maior do grupo solta um soco que não passa nem perto de me atingir, e eu reajo tão depressa que o cotovelo dele acerta meu rosto, quebrando a armação dos óculos. Os óculos caem no chão. Agora só vejo sombras. Mesmo assim, meu soco encontra o queixo dele, que cai como um saco de batatas. Ele parece inerte, e sinto medo de ter exa­gerado na força. Arranco os óculos de seu rosto e os ponho no meu.

—         Algum voluntário?

Dois deles levantam as mãos num gesto de rendição; o terceiro fica parado e com a boca aberta, como um idiota.

—         Bem, só resta você, Mark.

Mark se vira, como se tivesse a intenção de fugir, mas eu sou mais rápido e o agarro antes que ele consiga escapar, puxo seus braços para trás e o imobilizo. Ele geme de dor.

—         Isso acaba aqui, entendeu?

Aperto seus braços com mais força, e ele geme.

—         Não sei o que tem contra mim, mas vai parar de me perseguir agora. E também não vai mais incomodar Sam e Sarah. Entendeu?

Aperto um pouco mais. Receio que, se aplicar um pouco mais de força, seus braços se desprendam dos ombros.

Perguntei se você entendeu!

Sim!

Eu o arrasto para perto de Sarah. Agora Sam está sentado na pe­dra ao lado dela.

Peça desculpas.

Vamos lá, cara. Já expressou seu ponto de vista.

Eu aperto.

Desculpe — ele grita.

Fale com mais sinceridade. Como se realmente lamentasse.

Ele respira fundo.

Eu sinto muito — diz.

—         Você é um idiota, Mark! Sarah finalmente se manifesta, esbofeteando-o no rosto com toda a sua força. Ele fica tenso, mas eu ainda o seguro, e não há nada que Mark possa fazer.

Eu o arrasto para a água. Os outros ficam parados, assistindo à cena, em choque. O que eu derrubei com um soco está agora senta­do, coçando a cabeça como se tentasse entender o que aconteceu. Suspiro aliviado por ele não estar gravemente ferido.

Você não vai dizer nada a ninguém sobre isso, ouviu bem? — aviso, falando tão baixo que só Mark pode me ouvir. — Tudo o que aconteceu nesta noite vai morrer aqui. Juro, se ouvir uma palavra sobre isso na escola na semana que vem, o que você está vivendo agora nada será comparado ao que vai acontecer. Entendeu? Nem uma palavra.

Acha mesmo que eu diria alguma coisa? — ele pergunta.

Avise seus amigos. Se eles contarem para alguém, eu vou atrás de você.

Não vamos dizer nada.

Eu o solto, planto meu pé em seu traseiro e o empurro para o ria­cho. Sarah está em pé sobre a pedra, ao lado de Sam. Ela me abraça com força quando me aproximo.

Você luta kung fu ou algo parecido? — pergunta.

Minha risada é nervosa.

Você viu muita coisa?

Não muito, mas deu para perceber o que estava acontecendo. Passou a vida toda treinando nas montanhas? Não entendo como fez aquilo.

Só tive medo de que acontecesse alguma coisa com você, acho. E sim, conto com os últimos doze anos de treinamento em artes mar­ciais no topo do Himalaia.

—         Você é incrível. — Sarah ri. — Vamos sair daqui.

Nenhum dos amigos de Mark diz nada. Depois de uns três me­tros, percebo que não tenho a menor ideia de que direção tomar e entrego os óculos a Sarah, para que ela nos guie.

Não consigo acreditar nisso — ela comenta. — Que idiota! Es­perem só até ele ter que explicar isso para a polícia. Não vou deixar isso barato.

Tem certeza de que vai até a polícia? O pai de Mark é o xerife! — eu lembro.

E por que eu não iria, depois do que ele fez? Foi ridículo. E o trabalho do pai de Mark é aplicar a lei, mesmo quando o filho dele é o infrator.

Eu dou de ombros na escuridão.

—         Acho que eles já tiveram o castigo que mereciam.

Mordo o lábio, morrendo de medo de que a polícia se envolva. Se isso acontecer, terei de ir embora, não haverá outra saída. Estaremos de malas prontas e saindo da cidade uma hora depois de Henri to­mar conhecimento da história. Eu suspiro.

—         Não acha...? — começo. — Quero dizer, eles já perderam vários óculos de visão noturna. Vão ter que se explicar por isso. Isso sem mencionar a água fria.

Sarah não diz nada. Caminhamos em silêncio, e eu torço para que ela esteja refletindo sobre as vantagens de deixar a história acabar aqui.

Finalmente saímos da floresta. Vemos as luzes do parque. Quando eu paro, Sarah e Sam olham para mim. Sam passou todo o tempo em silêncio, e espero que tenha sido por ele não ter conseguido enxer­gar o que aconteceu, o que faria da escuridão uma ajuda inesperada, ou por estar um tanto abalado por tudo o que acabou de vivenciar.

—         Vocês decidem — eu digo —, mas acho mesmo que devemos encerrar isso tudo aqui. Não quero ter que ir à polícia falar sobre o que aconteceu.

A luz ilumina o rosto cético de Sarah. Ela balança a cabeça.

—         Acho que ele está certo — Sam se manifesta. — Não quero ter que passar a próxima meia hora prestando depoimento. Vou acabar me metendo em confusão; minha mãe acha que fui para cama há uma hora.

—         Você mora perto daqui? — pergunto.

Ele assente.

—         Sim, e preciso ir para casa antes que ela vá ao meu quarto. A gente se vê.

Sem dizer mais nada, Sam se afasta correndo. Ele está visivelmente abalado. É bem provável que nunca tenha estado numa briga, e com certeza nunca foi sequestrado e atacado na floresta. Amanhã vou tentar conversar com ele. Se ele viu algo que não devia ter visto, eu o conven­cerei de que se enganou, ou de que seus olhos o iludiram na escuridão.

Sarah segura meu rosto e traça a linha do corte com o polegar, deslizando-o suavemente até minha testa. Depois ela acompanha o desenho das duas sobrancelhas, olhando em meus olhos.

Obrigada por esta noite. Eu sabia que você viria.

Não ia deixar que ele amedrontasse você.

Ela sorri, e eu vejo seus olhos brilhando ao luar. Ela se aproxi­ma, e, quando percebo o que vai acontecer, sinto que o ar fica preso em minha garganta. Ela pressiona os lábios contra os meus, e tudo dentro de mim parece derreter. É um beijo suave, demorado. Meu primeiro. Ela se afasta, e seus olhos mergulham nos meus. Não sei o que dizer. Um milhão de pensamentos invadem minha cabeça. Mi­nhas pernas tremem, e eu mal consigo me manter em pé.

Soube que você era especial na primeira vez que o vi — ela diz.

Senti o mesmo quando vi você.

Ela me beija outra vez, pousando a mão em meu rosto. Nos pri­meiros segundos eu me perco na sensação de seus lábios sobre os meus, na ideia de estar com esta garota linda.

Ela se afasta e nós sorrimos um para o outro sem dizer nada, tro­cando um olhar intenso e cheio de significados.

Bem, acho melhor ir ver se Emily ainda está no parque — ela diz depois de uns dez segundos. — Ou não terei como ir embora.

Tenho certeza de que ela está por aí — respondo.

Voltamos ao pavilhão de mãos dadas. Não consigo parar de pen­sar em nosso beijo. O quinto trator se dirige à floresta pela trilha de cascalho. Ele está lotado, e ainda há uma fila de mais ou menos dez pessoas esperando a vez. E depois de tudo o que aconteceu na flores­ta, com a mão quente de Sarah na minha, não consigo parar de sorrir.

 

A NEVE CAI PELA PRIMEIRA VEZ DUAS SEMANAS MAIS TARDE, UMA NEVE FINA e leve, apenas o suficiente para cobrir a caminhonete com uma cama­da delicada. Logo depois do Halloween, quando o cristal espalhou o Lúmen por todo o meu corpo, Henri começou realmente meu treina­mento. Temos trabalhado todos os dias, sem exceção, com frio, com chuva, e agora com neve. Embora ele não diga isso, acredito que Henri está impaciente para me ver pronto. Tudo começou com olhares desconcertados, com uma ruga em sua testa enquanto ele mordia o lábio inferior, e depois foram os suspiros profundos e algumas noites de insónia, quando as tábuas rangiam sob os pés dele enquanto eu ficava acordado em meu quarto, e progrediu até o ponto em que es­tamos agora, quando há aquele desespero inerente na voz de Henri.

Estamos no quintal, afastados por uns cinco metros, de frente um para o outro.

Hoje não estou disposto, realmente — digo.

Eu sei que não, mas temos que praticar assim mesmo. Eu suspiro e olho para o relógio. São quatro horas da tarde.

Sarah vai chegar às seis.

Eu sei — Henri responde. — Por isso precisamos nos apressar. Ele segura uma bola de tênis em cada mão.

- Está pronto? — pergunta.

Nunca estive mais.

Ele arremessa a primeira bola no ar, e, quando ela alcança seu ponto mais alto, tento conjurar dentro de mim um poder que a im­peça de cair. Não sei como fazer, só sei que com o tempo e prática devo ser capaz de conseguir, diz Henri. Todo Garde desenvolve a capacidade de mover objetos com a mente. Telecinesia. E em vez de me deixar descobrir sozinho essa habilidade — como aconteceu com o brilho em minhas mãos —, Henri está determinado a arrancar esse poder do esconderijo onde ele hiberna dentro de mim.

A bola cai, como caíram outras milhares antes dela, sem uma única interrupção, quica duas vezes, depois para na grama coberta de neve.

Eu deixo escapar um suspiro.

Hoje não estou sentindo minha força

Mais uma vez — Henri insiste.

Ele joga a segunda bola. Tento movê-la, ou pará-la, enfim, tudo em mim se esforça para movimentá-la um único milímetro para a direita ou para a esquerda, mas é inútil. Ela também cai. Bernie Kosar, que nos observava, aproxima-se, pega a bola entre os dentes e se afasta.

—         Vai acontecer quando for a hora — digo.

Henri balança a cabeça. Os músculos em sua mandíbula estão ten­sos. Sua impaciência e seu mau humor me incomodam. Ele observa Bernie Kosar se afastando com a bola e suspira.

—         O que é? — pergunto.

Ele balança a cabeça novamente.

—         Vamos continuar tentando.

Henri pega outra bola. Ele a joga bem alto, eu tento detê-la, mas, é claro, a bola simplesmente cai.

—         Talvez amanhã — sugiro.

Henri assente e olha para o chão.

— Talvez amanhã.

 

Estou coberto de suor, lama e neve derretida depois da prática. Hoje Henri exigiu mais de mim do que habitualmente, e me tratou com uma agressividade que só pode ser atribuída ao pânico. Além da prática de telecinesia, a maior parte do tempo foi dedicada ao aperfeiçoamento da técnica de luta — combate direto, imobiliza­ção, artes marciais — e de elementos de autocontrole — elegância sob pressão, controle da mente, como identificar medo no olhar de um oponente, e como o expor da melhor maneira. Não foi a rigidez do treinamento de Henri que me abalou, mas a expressão em seus olhos. Um olhar perturbado, cheio de medo, desespero, decepção. Não sei se ele está preocupado apenas com o progresso ou se existe algum motivo mais profundo, mas essas sessões têm se tornado mui­to exaustivas — emocional e fisicamente.

 

Sarah chega pontualmente na hora combinada. Vou recebê-la lá fora e a beijo quando ela está subindo a escada da varanda. Quando en­tramos, ela tira o casaco e eu o penduro. Nossa prova de econo­mia doméstica vai acontecer em uma semana, e é dela a idéia de tentarmos preparar a refeição antes de termos de fazê-la na escola. Assim que começamos a cozinhar, Henri pega sua jaqueta e sai para caminhar. Ele leva Bernie Kosar, e eu me sinto grato pela privaci­dade. Preparamos peito de frango assado com batatas e legumes no vapor, e o resultado é melhor do que eu esperava. Quando a refeição fica pronta, nós três nos sentamos e comemos juntos. Henri fica em silêncio na maior parte do tempo. Sarah e eu quebramos esse silên­cio desconfortável falando sobre amenidades, sobre a escola, sobre irmos ao cinema no próximo sábado. Henri raramente levanta os olhos do prato, exceto para elogiar a refeição maravilhosa.

Terminamos de comer, Sarah e eu lavamos os pratos e nos sen­tamos no sofá. Sarah trouxe um filme, e nós o assistimos em nossa pequena tevê, mas Henri olha com frequência para a janela. Depois de um tempo, ele suspira, levanta-se e vai lá para fora. Sarah e eu o vemos sair. Ficamos de mãos dadas, e ela apóia a cabeça em meu ombro. Bernie Kosar se deita ao lado dela, com a cabeça em seu colo, os dois cobertos pela mesma manta.

Lá fora o frio é intenso e o clima é inóspito, mas ali na sala a atmos­fera é quente e aconchegante.

Seu pai está bem? — Sarah pergunta.

Não sei. Ele tem agido de um jeito estranho.

Ele ficou muito quieto durante o jantar.

—         Sim, vou ver como ele está. Já volto — eu digo e vou atrás de Henri lá fora. Ele está em pé na varanda, olhando para a escuridão.

O que está havendo? — pergunto.

Ele contempla as estrelas.

Alguma coisa não está bem — diz.

Como assim?

Você não vai gostar disso.

Tudo bem, fale de uma vez.

—         Não sei quanto tempo podemos permanecer aqui. Não sinto segurança.

Meu coração fica apertado e eu me calo.

—         Eles estão agitados, e acho que se aproximam. Posso sentir. Não acho que estejamos seguros aqui.

Não quero ir embora.

Eu sabia que não ia querer.

Temos nos escondido.

Henri olha para mim com uma sobrancelha erguida.

—         Sem ofensa, John, mas não acho que tenha se mantido nas sombras.

Eu me mantenho, quando realmente é importante. Ele move a cabeça em sentido afirmativo.

Bem, vamos ver.

Ele caminha até a entrada da varanda e apóia as mãos na balaus­trada. Eu me coloco ao lado dele. Mais flocos de neve começam a cair, girando no ar, centelhas brancas brilhando em uma noite escura.

Não é só isso — diz Henri.

Não achei que fosse. Ele suspira.

—         Você já devia ter desenvolvido a telecinesia. Quase sempre ela chega com o primeiro Legado. Muito raramente aparece depois, e quando isso acontece, nunca demora mais de uma semana.

Eu olho para ele. Seus olhos estão cheios de preocupação, e rugas apreensivas marcam sua testa.

Seus Legados vêm de Lorien. Sempre vieram.

O que está me dizendo?

—         Não sei quanto podemos esperar de agora em diante — ele diz e faz uma pausa. — Como não estamos mais no planeta, não sei se seus demais Legados vão se desenvolver. E se isso acontecer, não teremos nenhuma chance de lutar contra os mogadorianos, muito menos de derrotá-los. E, se não pudermos derrotá-los, nunca poderemos voltar.

Vejo a neve cair, incapaz de decidir se devo me sentir preocupado ou aliviado, já que isso porá um fim em nossas mudanças e finalmente poderemos nos instalar em algum lugar. Henri aponta para as estrelas.

—         Bem ali — ele diz. — É onde está Lorien.

É claro que sei muito bem onde está Lorien sem que me digam. Há certa atração, um jeito pelo qual meus olhos gravitam para o local onde, milhões de quilômetros distante, está Lorien. Tento pegar um floco de neve com a ponta da língua, depois fecho os olhos e respiro o ar frio. Quando os abro, eu me viro e olho para Sarah através da janela. Ela está sentada sobre as pernas, ainda com a cabeça de Bernie Kosar em seu colo.

Já pensou em simplesmente ficar aqui, mandar para o inferno tudo o que se relaciona a Lorien e construir uma vida aqui na Terra? — pergunto a Henri.

Partimos quando você era muito pequeno. Imagino que não lembre muita coisa, não é?

Não — respondo. — De vez em quando surgem recordações fragmentadas. Porém, não posso dizer se são realmente lembranças ou visões que tive durante nosso treinamento.

Não teria essa sensação se você conseguisse lembrar.

Mas eu não lembro. É esse o ponto?

Talvez — ele diz. — Mas queira você voltar ou não, isso não significa que os mogadorianos vão parar de procurá-lo. E, se deixar­mos de ser cuidadosos e nos acomodarmos, pode ter certeza de que eles nos encontrarão. E assim que nos encontrarem, eles nos mata­rão. Não há como mudar tudo isso. De jeito nenhum.

Eu sei que ele está certo. De alguma forma, como Henri, tenho a mesma sensação, sinto tudo isso na calada da noite, quando os pe­los de meu braço se eriçam e um arrepio leve percorre minha pele, embora eu não sinta frio.

Você lamenta ter ficado comigo tanto tempo?

Lamento? Por que acha que eu lamentaria?

Porque não temos para onde voltar. Sua família está morta. A minha também. Em Lorien só há uma vida de reconstrução. Se não fosse por mim, você poderia criar facilmente uma identidade aqui e passar o restante da vida fazendo parte de algum lugar. Poderia ter amigos, talvez até se apaixonar outra vez.

Henri ri.

—         Já estou apaixonado. E estarei até o dia de minha morte. Não espero que entenda isso. Lorien é diferente da Terra.

Eu suspiro, irritado.

—         Mesmo assim, você poderia fazer parte de algum lugar.

—         Já sou parte de algum lugar. Sou parte de Paradise, em Ohio, neste momento, com você.

Balanço a cabeça.

Você sabe o que quero dizer, Henri.

O que acha que estou perdendo?

Uma vida.

Você é minha vida, garoto. Você e minhas lembranças são meus únicos laços com o passado. Sem você, nada tenho. Essa é a verdade.

A porta se abre atrás de nós. Bernie Kosar sai trotando na frente de Sarah, que está parada na soleira, nem para dentro, nem para fora.

Vão mesmo me fazer assistir ao filme sozinha? — ela pergunta.

Henri sorri para ela.

Eu nem pensaria nisso — ele diz.

Depois do filme, Henri e eu levamos Sarah para casa. Quando che­gamos lá, eu a acompanho até a porta da frente e nós ficamos frente a frente, sorrindo um para o outro. Seguro as mãos dela e a beijo, um beijo demorado de boa-noite.

Até amanhã — ela diz, afagando minhas mãos.

Bons sonhos.

Volto para a caminhonete. Henri segue para casa. Não consigo deixar de sentir certo medo quando lembro as palavras de Henri no dia em que ele foi me buscar na escola, depois de meu primeiro dia inteiro de aula: "Não esqueça que podemos ter de partir de uma hora para outra." Ele está certo, e eu sei disso, mas nunca senti nada parecido por ninguém antes. Quando estamos juntos é como se eu flutuasse no ar, e detesto os momentos em que estamos separados, como agora, apesar de ter passado as últimas duas horas com ela. Sarah dá certo propósito à nossa fuga, uma razão que transcende a mera sobrevivência. Uma razão para vencer. E saber que posso estar colocando a vida dela em perigo simplesmente por estar com ela — bem, isso me aterroriza.

Quando voltamos, Henri entra no quarto dele e sai de lá carregan­do a arca. Ele a deposita sobre a mesa da cozinha.

É sério? — pergunto. Ele assente.

Há algo aqui que quero lhe mostrar há anos.

Mal posso esperar para ver o que mais há na arca. Abrimos o ca­deado juntos, e ele levanta a tampa de um jeito que não me permite espiar lá dentro. Henri remove dali uma bolsa de veludo, fecha a arca e a tranca novamente.

—         Não é parte de seu Legado, mas na última vez que a abrimos eu guardei isto lá dentro por causa desse mau pressentimento que tem me atormentado. Se os mogadorianos nos pegarem, nunca poderão abrir a arca — ele explica.

O que há na bolsa?

O sistema solar.

Se não é parte de meu Legado, porque não me mostrou isso antes?

—         Porque você precisava desenvolver um Legado para ativá-los.

Ele limpa a mesa da cozinha e se senta à minha frente com a bolsa entre as mãos. Henri sorri para mim, sentindo meu entusiasmo. De­pois, pega da bolsa sete globos de vidro de tamanhos variados. Ele os segura entre as mãos diante do rosto e sopra as esferas. Pequenas fagulhas de luz brotam delas, ele as joga para cima, no ar, e os globos ganham vida imediatamente, suspensos sobre a mesa da cozinha. As bolas de vidro são réplicas de nosso sistema solar. A maior delas tem o tamanho de uma laranja — o sol de Lorien — e paira no meio do conjunto, emitindo a mesma quantidade de luz que uma lâmpada, com uma aparência que lembra uma esfera de lava. As outras bolas giram em torno dela. Aquelas que estão mais próximas do sol se movem em velocidade maior, enquanto as mais afastadas parecem se arrastar lentamente. Todas elas giram, e dias e noites começam e terminam numa velocidade incrível. O quarto globo a partir do sol é Lorien. Nós observamos seu movimento, vemos sua superfície começando a se formar. Ele tem o tamanho de uma bola de tênis. A réplica não respeita a escala, porque, na verdade, Lorien é muito menor do que nosso sol.

O que está acontecendo? — pergunto.

A bola está tomando a forma exata que Lorien tem neste momento.

Como isso é possível?

—         É um lugar especial, John. E a magia existe em sua essência. É de lá que vêm seus Legados. É o que dá vida e realidade aos objeti­vos contidos em sua Herança.

Mas você acabou de dizer que isso não faz parte de meu Legado.

Não, mas tudo vem do mesmo lugar.

Surgem depressões, montanhas crescem, brechas profundas ris­cam a superfície onde sei que rios correram um dia. E então tudo para. Procuro cores, movimento, um vento que possa cortar a terra. Mas não há nada. Toda a paisagem é uma pintura em preto e cinza. Não sei o que esperava ver. Algum tipo de movimento, um indício de fertilidade. Sou tomado pelo desânimo. A superfície se torna tão fina, que podemos enxergar através dela e ver o centro do globo, onde um brilho pálido começa a surgir. Ele ganha força, em seguida perde intensidade, depois brilha novamente, como se replicasse os batimentos do coração de um animal adormecido.

—         O que é isso? — pergunto.

—         O planeta ainda vive e respira. Ele se recolheu para a parte mais profunda de si mesmo, ganhando tempo. Hibernando, se pre­ferir. Mas um dia desses, ele vai acordar.

—         O que o faz ter tanta certeza?

—         Aquele brilho pálido bem ali — ele diz. — Aquilo é esperança, John.

Eu olho para o brilho. Sinto um prazer estranho em vê-lo. Ten­taram banir nossa civilização, o próprio planeta, mas ele ainda respira. Sim, eu penso, sempre há esperança, como Henri afirmou o tempo todo.

—         Não é só isso.

Henri se levanta e estala os dedos, e o planeta para de se mover. Ele aproxima o rosto de Lorien, une as mãos em torno da boca e sopra o globo. Tonalidades de verde e azul percorrem a bola e come­çam a desaparecer quase imediatamente quando o vapor formado pelo sopro de Henri desaparece.

O que você fez?

Acenda as luzes de suas mãos sobre o globo — ele diz.

Eu faço cintilarem as luzes em minhas palmas, e, quando as man­tenho sobre a bola, o verde e o azul retornam, mas dessa vez perma­necem enquanto minhas mãos brilham sobre a esfera.

—         Essa era a aparência de Lorien um dia antes da invasão. Não é lindo? Às vezes até eu esqueço.

É lindo. Tudo verde e azul, fértil e próspero. A vegetação é exube­rante sob as rajadas de vento que, de alguma forma, consigo sentir. Ondas suaves surgem na água. O planeta está realmente vivo, flores­cendo. Mas quando apago as luzes em minhas mãos tudo desaparece, tudo mergulha novamente nos tons de cinza.

Henri aponta um ponto na superfície do globo.

—         Aqui — ele diz. — Foi daqui que partimos no dia da invasão. — Ele move o dedo meio centímetro para longe do ponto. — E bem aqui ficava o Museu Lórico de Exploração.

Assinto e olho para o lugar que ele está indicando. Mais cinza.

—         O que o museu tem a ver com isso? — pergunto. Sento-me novamente na cadeira. É difícil olhar para tudo aquilo sem sen­tir tristeza.

Ele me encara.

Tenho pensado muito no que você viu.

E...? — tento incentivá-lo a prosseguir.

Era um grande museu, totalmente dedicado à evolução da via­gem espacial. Uma das alas do edifício expunha foguetes de milhares de anos. Foguetes movidos por um tipo de combustível conhecido apenas em Lorien — ele fala, fazendo uma pausa para olhar para o pequeno globo de vidro pairando meio metro acima da mesa da cozi­nha. — Agora, se o que você viu realmente aconteceu, se uma segun­da nave conseguiu escapar de Lorien no auge da batalha, ela só pode ter partido do museu. Não há outra explicação para isso. Ainda tenho dificuldade para acreditar que pode ter acontecido, e, mesmo que seja verdade, é difícil imaginar que o foguete conseguiu ir tão longe.

Se o foguete não pode ter ido tão longe, por que ainda está pensando nele?

Henri balança a cabeça.

—         Não sei bem. Talvez por já ter me enganado antes. Talvez por ter esperança de estar errado agora. E, bem, se o foguete chegou em algum lugar, só pode ter sido aqui, o planeta habitado mais próximo, exceto Mogadore. E isso presumindo que houvesse alguém nele, que não tenha sido apenas uma nave cheia de artefatos, ou vazia, um truque para confundir os mogadorianos. Mas acho que devia haver pelo menos um lorieno tripulando a aeronave, porque, bem, você deve saber que veículos desse tipo não se dirigem sozinhos.

 

Outra noite de insônia. Fico parado diante do espelho, sem camisa, olhando para as luzes brilhando nas mãos. "Não sei quanto pode­mos esperar de agora em diante", Henri disse hoje. A luz no cen­tro de Lorien ainda brilha, e os objetos que trouxemos de lá ainda funcionam, então, por que a magia terminaria por lá? E os outros? Estão enfrentando os mesmos problemas agora? Também ficaram sem seus Legados?

Flexiono os braços na frente do espelho, depois soco o ar, espe­rando ver o espelho se quebrando ou ouvir um baque na porta. Mas nada acontece. Sou só eu parecendo um idiota ali em pé, sem ca­misa, lutando boxe com o nada enquanto Bernie Kosar me olha da cama. É quase meia-noite e não estou cansado. Bernie Kosar pula da cama, senta-se a meu lado e observa meu reflexo. Sorrio para ele e o vejo abanar a cauda.

—         E você? — pergunto a Bernie Kosar. — Tem poderes especiais? É um super cachorro? Devo vesti-lo novamente com sua capa para que você possa sair voando?

Ele continua balançando a cauda, batendo a pata no chão como se quisesse cavar um buraco e levantando os olhos para me olhar. Eu o levanto e o faço voar pelo quarto, segurando-o sobre minha cabeça.

—         Veja! É Bernie Kosar, o magnífico super cachorro!

Ele se contorce em minhas mãos, por isso o ponho no chão. Ele se joga de lado com o rabo balançando.

—         Bem, amigão, um de nós deve ter super poderes. E parece que não serei eu. A menos que voltemos à Idade das Trevas e eu possa iluminar o mundo com as mãos. Caso contrário, receio ser inútil.

Bernie Kosar rola de costas e olha para mim com seus olhos gran­des, esperando que eu coce sua barriga.

 

SAM ESTÁ ME EVITANDO. NA ESCOLA ELE PARECE DESAPARECER QUANDO ME vê, ou sempre se certifica de estar em um grupo. Seguindo a insis­tência de Henri que está desesperado para pôr as mãos na revista de Sam, depois de varrer tudo o que existia disponível na Internet e não encontrar nada parecido com o que havia na tal revista —, decidi simplesmente ir à casa dele sem avisar. Henri me leva até lá depois de concluirmos a sessão de treinamento. Sam mora na peri­feria de Paradise, em uma casa pequena, modesta. Ninguém atende quando eu bato, por isso tento bater à outra porta. Ela está destran­cada, e eu entro.

O carpete marrom no chão é velho, e as paredes revestidas de madeira exibem fotos de família de quando Sam era bem pequeno. Ele, a mãe e um homem que imagino ser seu pai, cujos óculos têm lentes tão grossas quanto as de Sam. Então, aproximo-me para olhar melhor. Parece ser o mesmo par de óculos.

Sigo pelo corredor até encontrar a porta que deve ser do quarto de Sam, porque há ali um prego de onde pende uma placa com a mensagem: entre por sua conta e risco. A porta está entreaberta, e espio para dentro do quarto. Tudo é muito limpo, tudo está em seu devido lugar. A cama está feita, coberta com um edredom preto com estampas do planeta Saturno. As fronhas têm o mesmo padrão. As paredes são cobertas de pôsteres. Há dois da Nasa, o pôster do filme Alien, outro do filme Guerra nas Estrelas e um pôster da cabeça de um alienígena verde cercada por feltro preto. No centro do quar­to, pendurado em fios transparentes, um móbile retrata o sistema solar, nove planetas e o sol. A imagem me faz pensar no que Henri me mostrou no início da semana. Acho que Sam ficaria maluco se visse a mesma coisa. Então, eu vejo Sam debruçado sobre uma pequena escrivaninha com os fones de ouvido. Empurro a porta, e ele olha por cima do ombro. Sam não está usando os óculos, e sem eles seus olhos parecem muito pequenos e redondos, quase como uma caricatura.

—         E aí? — pergunto casualmente, como se fosse à casa dele todos os dias.

Ele parece chocado e assustado, e tira os fones com aflição evi­dente enquanto enfia a mão em uma das gavetas. Olho para a escri­vaninha e vejo que ele está lendo Eles Estão entre Nós. Quando o encaro novamente, ele está apontando uma arma para mim.

—         Ei. — Reajo instintivamente, levantando as mãos abertas num gesto de rendição. — O que é isso?

Ele se levanta. Suas mãos estão tremendo. A arma está apontada para meu peito. Penso que ele perdeu a razão.

Diga logo o que você é — ele exige.

Do que está falando?

Eu vi o que você fez na floresta. Não é humano.

Era o que eu temia, que ele tivesse visto mais do que podia.

Isso é loucura, Sam! Eu me envolvi numa briga. Pratico artes marciais há anos.

Suas mãos se acenderam como lanternas. E você jogava as pessoas longe, como se não tivessem peso nenhum. Isso não é normal.

Não seja estúpido — eu insisto, ainda com as mãos erguidas na minha frente. — Olhe para elas. Está vendo alguma luz? Já disse, eu peguei as luvas que Kevin estava usando.

Perguntei a Kevin! Ele me disse que não usava luvas!

Acha mesmo que ele ia dizer a verdade, depois do que aconte­ceu? Abaixe a arma.

—         Fale de uma vez! O que você é?

Eu reviro os olhos.

—         Sim, eu sou um alien, Sam. Sou de um planeta centenas de mi­lhões de quilômetros distante daqui. Tenho super poderes. Era isso que queria ouvir?

Ele me encara, e suas mãos ainda tremem.

—         Percebe como isso soa estúpido? Deixe de ser louco e abaixe essa arma.

—         O que você acabou de dizer é verdade?

—         Que você é estúpido? Sim, é verdade. Está obcecado por essa coisa toda. Vê extraterrestres e conspirações alienígenas em todas as esferas de sua vida, inclusive em seu único amigo. Pare de apontar essa droga de arma para mim.

Ele me encara, e posso perceber que está pensando no que eu disse. Abaixo as mãos. Ele suspira e abaixa a arma.

—         Desculpe — diz.

Respiro fundo com certo nervosismo.

Deve mesmo se desculpar. Onde estava com a cabeça?

A arma não estava carregada, na verdade.

—         Podia ter dito isso antes. Sam, por que quer tanto acreditar nessas histórias?

Ele balança a cabeça e guarda a arma na gaveta. Eu levo um mi­nuto para me acalmar e tento agir de um jeito casual, como se o que aconteceu não fosse tão importante.

—         O que está lendo? — pergunto.

Ele dá de ombros.

Só mais coisas sobre aliens. Acho melhor parar um pouco.

Ou leia esse material como ficção, não como um relato de fatos reais — sugiro. — Mas o texto deve ser bem convincente. Posso ver?

Ele me entrega a última edição de Eles Estão entre Nós, e eu me sento meio hesitante na beirada da cama. Acho que ele se acalmou um pouco, pelo menos o suficiente para não apontar uma arma para mim. Novamente, a revista é uma fotocópia ruim, uma impressão ligeiramente torta. Não é um volume muito grosso — apenas oito páginas, doze, no máximo, impressas em folhas comuns de papel ofício. A data no topo das folhas mostra que é de dezembro. Deve ser a última edição.

Isso é esquisito, Sam Goode. Ele ri do meu comentário.

Gente esquisita gosta de coisas esquisitas.

Onde consegue isso?

Sou assinante.

Eu sei, mas como? Sam dá de ombros.

Não sei. Um dia o material começou a chegar, e foi isso.

Você assina alguma outra revista? Talvez eles tenham usado o contato...

Certa vez fui a uma convenção. Acho que me inscrevi em al­gum torneio ou coisa do tipo enquanto estava lá. Não lembro. Sem­pre achei que foi assim que eles tinham conseguido meu endereço.

Dou uma olhada na capa. Não há nenhum site impresso ali ou na primeira página, e eu nem esperava que houvesse, considerando que Henri revirou a Internet de cabo a rabo e não achou nada. Eu leio a manchete da matéria de capa:

 

Seu vizinho é um alien?

dez maneiras infalíveis de descobrir!

 

No meio do artigo há uma foto de um homem segurando um saco de lixo em uma das mãos e a tampa de uma lata de lixo na outra. Ele está em pé na entrada de uma casa, e presume-se que esteja jogando o saco dentro da lata. A publicação é inteira em preto e branco, mas há um brilho distinto nos olhos do homem. É uma imagem horrível — como se alguém houvesse fotografado um vizinho sem que ele percebesse e depois desenhasse seus olhos com lápis. Eu rio.

O que é? — Sam quer saber.

Essa foto é terrível. Parece alguém de Godzilla.

Sam olha para a foto e, novamente, dá de ombros.

Não sei — diz. — Pode ser real. Como você disse, vejo aliens em todos os lugares e em tudo.

Mas eu pensei que aliens fossem daquele jeito. — E aponto para o pôster na parede, o do alienígena de cabeça verde.

Acho que nem todos são assim — ele retruca. — Como você mesmo disse, é um alien com super poderes, e não parece.

Nós dois rimos, e eu me pergunto como vou sair dessa. Espero que Sam nunca descubra que eu estava dizendo a verdade. Porém, parte de mim quer contar tudo a ele: sobre mim. sobre Henri, sobre Lorien, e tento imaginar qual seria sua reação. Ele acreditaria em mim?

Procuro na publicação aquela página que todos os jornais e re­vistas têm contendo os dados da edição. Não há nada ali, só mais histórias e teorias.

Não tem a página de informações do editorial.

O que quer dizer?

—         Sabe aquela página que todos os jornais e revistas têm conten­do o nome do editor, do revisor e de todos os colaboradores? Onde fornecem as informações sobre a editora, a gráfica, enfim, tudo? Onde são fornecidos o endereço, o telefone e todos os dados para contato? Todas as publicações têm isso, mas esta aqui... não.

—         Eles precisam proteger seu anonimato — Sam responde.

Por quê? Do que estão se escondendo?

Aliens — ele anuncia. E sorri, como se reconhecesse o absurdo do que acabou de dizer.

Tem a edição do mês passado?

Ele pega a revista no armário. Eu a folheio rapidamente, esperan­do encontrar nela o artigo sobre Mogadore. E o localizo na página 4.

 

A Raça Mogadoriana Pretende Dominar a Terra

 


A raça alienígena mogadoriana do planeta Mogadere, da Nona Galáxia, está na Terra há mais de dez anos. Trata-se de uma raça violenta, que pretende dominar o universo. Há boatos de que já dizimaram outro planeta semelhante e de que planejam expor as fraquezas da Terra com a intenção de, em seguida, ocupar o planeta.

(mais no próximo número)


 

Leio o artigo três vezes. Esperava encontrar nele mais do que Sam já havia dito, mas não há nada. E não existe uma Nona Galáxia. Queria saber de onde tiraram isso. Folheio o número seguinte duas vezes. Não há menção aos mogadorianos. Meu primeiro pensamento é que não havia mais nada a publicar, por isso não há mais notícias. Mas não acredito. Então, imagino que os mogadorianos leram o arti­go e resolveram o problema, qualquer que fosse.

—         Pode me emprestar esta aqui? — pergunto, mostrando a revista do mês passado.

—         Sim, mas tome cuidado com ela.

 

Três horas mais tarde, às oito da noite, a mãe de Sam ainda não está em casa. Pergunto a Sam onde ela está, e ele encolhe os ombros para dizer que não sabe, como se a ausência não fosse novidade.

Basicamente, jogamos videogame, assistimos à televisão e jantamos comida de micro-ondas. Durante o tempo que passo lá ele não usa os óculos, o que é bastante estranho, considerando que nunca o vi sem eles antes. Mesmo quando fizemos a tomada de tempo da cor­rida na escola, ele os manteve no rosto. Eu os pego sobre a cômoda e os ponho na frente dos meus olhos. O mundo fica imediatamente nublado, e eu sinto dor de cabeça instantaneamente.

Olho para Sam. Ele está sentado no chão de pernas cruzadas, com as costas apoiadas contra a cama, e um livro sobre extraterrestres aberto sobre os joelhos.

Jesus, sua visão é mesmo tão ruim assim? — pergunto.

Ele olha para mim.

Os óculos eram do meu pai.

Eu os tiro.

Você precisa mesmo de óculos, Sam?

Não realmente.

Então, por que os usa?

Eram do meu pai.

Eu os ponho de novo.

Uau, não sei nem como consegue andar em linha reta com isto!

Meus olhos estão acostumados.

—         Sabe que vai prejudicar sua visão se continuar usando estes óculos, não sabe?

—         Então, vou poder ver o que meu pai via.

Eu os tiro e devolvo ao lugar onde os encontrei. Não consigo en­tender por que Sam usa os óculos. Por razões sentimentais? Ele acre­dita mesmo que vale a pena?

Onde está seu pai, Sam? Ele olha para mim.

Não sei — diz.

Como assim, não sabe?

Ele desapareceu quando eu tinha sete anos.

Não sabe para onde ele foi?

Ele suspira, abaixa a cabeça e volta à leitura. É evidente que não quer falar sobre isso.

—         Acredita em alguma coisa disso? — ele me pergunta depois de alguns minutos de silêncio.

Aliens?

Sim.

Sim, acredito em aliens.

E acha mesmo que eles abduzem as pessoas?

—         Não tenho a menor idéia. Acho que não podemos eliminar essa possibilidade. Você acredita que sim?

Sam assente.

—         Sim, quase todos os dias, mas às vezes a idéia me parece estúpida.

Não consigo entender por quê.

Ele me encara.

Acho que meu pai foi abduzido.

Sam fica tenso no instante em que as palavras saem de sua boca, e uma expressão de vulnerabilidade surge em seu rosto. Isso me faz crer que ele já discutiu sua teoria antes com alguém cuja resposta não foi exatamente gentil.

—         De onde vem essa sua suspeita?

—         Ele simplesmente desapareceu. Saiu para comprar leite e pão e nunca voltou. Sua caminhonete estava estacionada na frente da padaria, mas ninguém o viu por lá. Ele sumiu, e seus óculos estavam na calçada, ao lado da caminhonete. — Ele faz uma pausa rápida. — Tive medo de que você estivesse aqui para me abduzir.

É uma teoria difícil de acreditar. Se o pai dele realmente foi abduzido no centro da cidade, alguém teria visto. Talvez o homem tivesse motivos para se afastar e encenou esse desaparecimento.

Não é difícil sumir sem deixar pistas: Henri e eu temos feito exa­tamente isso há dez anos. Mas, de repente, o interesse de Sam em aliens faz sentido. Talvez Sam só queira ver o mundo como o pai dele o via, no entanto também é possível que parte dele acredite realmente que a última imagem vista pelo pai foi capturada pelos óculos e está, de alguma forma, gravada nas lentes. Talvez acredite que, com persistência, um dia também a verá, e assim a última vi­são do pai confirmará o que já existe em sua cabeça. Ou talvez ele acredite que, se procurar por tempo suficiente, finalmente encon­trará um artigo que provará que o pai foi abduzido. E não só isso: que pode ser salvo.

E quem sou eu para dizer que um dia ele não encontrará essa prova?

— Acredito em você — digo. — Acho que abduções alienígenas são bem possíveis.

 

NO DIA SEGUINTE ACORDO MAIS CEDO DO QUE O NORMAL, SAIO DA CAMA COM dificuldade e, quando deixo meu quarto, encontro Henri sentado à mesa, examinando alguns papéis diante do laptop aberto. O sol ainda está escondido, e a casa está escura, sendo a luz da tela do computador a única ali.

Alguma novidade?

Não, nada, na verdade.

Acendo a luz da cozinha. Bernie Kosar arranha a porta da frente. Eu a abro e ele corre para o quintal, como faz todas as manhãs, de cabeça erguida, trotando em torno do perímetro como se procurasse algo suspeito. Ele fareja em pontos aleatórios. Satisfeito e certo de que tudo é como deve ser, ele corre para a floresta e desaparece.

Dois exemplares de Eles Estão entre Nós permanecem abertos so­bre a mesa da cozinha, o original e a cópia que Henri fez para guar­dar. Entre eles há uma lente de aumento.

Alguma coisa singular no original?

Não.

Então, e agora? pergunto.

—         Bem, eu tive sorte. Cruzei alguns artigos no mesmo número e con­segui algumas pistas, e uma delas me levou a um site. Mandei um e-mail.

Eu fico olhando para Henri.

Não se preocupe — ele diz. — Eles não podem rastrear e-mails. Não como eu enviei, pelo menos.

Como os enviou?

Usei como roteadores vários servidores em cidades do mundo todo, de forma que a localização original se perdeu pelo caminho.

Impressionante.

Bernie Kosar arranha a porta e eu o deixo entrar. O relógio no micro-ondas marca 5:59 horas. Tenho mais duas horas antes do co­meço das aulas.

—         Acha mesmo que vamos gostar de vasculhar tudo isso? — per­gunto. — Quero dizer, e se for uma armadilha? E se eles estiverem tentando nos tirar do esconderijo?

Henri assente.

Sabe, se o artigo houvesse feito alguma menção sobre nós, tal­vez eu hesitasse. Mas não fomos citados. A matéria fala sobre mogadorianos invadirem a Terra, como fizeram com Lorien. Há muita coisa nisso que eu não entendo. Você estava certo há algumas sema­nas, quando disse que fomos derrotados com muita facilidade. Nós fomos. Não faz sentido. Toda a situação com o desaparecimento dos Anciões também não faz sentido. Até o fato de termos tirado de lá você e as outras crianças de Lorien, algo que nunca questionei, pa­rece estranho. E, embora você tenha visto o que aconteceu — e eu também tive essas visões —, ainda falta alguma coisa na equação. Se pretendemos voltar um dia, considero imperativo descobrirmos o que aconteceu, para impedirmos que tudo se repita. Conhece o ditado: aquele que não conhece a história está fadado a repeti-la. E quando a história é repetida, os riscos são dobrados.

Tudo bem. Mas, de acordo com o que você disse no sábado à noite, a chance de voltarmos parece menor a cada dia. Então, tendo em vista essa possibilidade reduzida, acha que o esforço vale a pena?

Henri dá de ombros.

Ainda há mais cinco por aí. Talvez eles tenham recebido seus Legados. Talvez os seus estejam simplesmente atrasados. Acho que é melhor planejarmos todas as possibilidades.

Bem, e o que está planejando fazer?

Dar um telefonema, apenas. Estou curioso para ouvir o que esse cara sabe. Fico me perguntando por que ele não seguiu adiante. Existem duas possibilidades: ou ele não encontrou mais informa­ções e perdeu o interesse na história, ou alguém o pegou depois da publicação.

Eu suspiro.

—         Bem, tome cuidado — alerto.

 

Visto calça e blusa de moletom sobre duas camisetas, amarro os tê­nis e começo o alongamento. Jogo na mochila as roupas que pre­tendo vestir na escola, mais uma toalha, um sabonete e um frasco pequeno de xampu, para tomar banho lá. Agora corro até a escola todas as manhãs. Henri acredita que o exercício adicional vai ajudar em meu treinamento, mas a razão verdadeira é que ele espera que isso contribua em minha transição física e arranque meus Legados do torpor, se é que eles estão mesmo adormecidos. Olho para Bernie Kosar.

Preparado para correr, garoto? Quer dar uma corrida? Ele balança a cauda e anda em círculos.

Vejo você depois da aula.

Boa corrida — diz Henri. — Cuidado na estrada.

Caminhamos até a porta, e o ar frio nos recebe. Bernie Kosar late com entusiasmo algumas vezes. Começo com um trote leve pela en­trada da garagem, saio para a trilha de cascalho e noto que o cachor­ro me acompanha como se realmente pretendesse correr comigo. Preciso de uns quatrocentos metros até me aquecer.

—         Pronto para acelerar, garoto?

Ele não me dá atenção, apenas continua trotando à meu lado, olhando para a frente com a língua de fora, aparentemente feliz.

—         Muito bem, vamos lá.

Começo a correr de verdade, e pouco depois dou o primeiro tiro de velocidade, atingindo meu ponto máximo. Bernie Kosar fica para trás. Olho por cima do ombro e o vejo correndo tanto quanto pode, mas estou à frente dele. O vento brinca com meu cabelo, as árvores passam num rastro confuso. Tudo é maravilhoso. Então, Bernie Ko­sar mergulha entre as árvores e some de vista. Não sei se devo parar e esperar por ele. Então, quando me viro, ele surge do meio do bos­que três metros à minha frente.

Olho para ele, e ele olha para mim com a língua no canto da boca, os olhos iluminados por um brilho alegre.

—         Você é um cachorro estranho, sabe?

Depois de cinco minutos a escola aparece diante de mim. Per­corro a distância restante correndo, quase um quilômetro, exercitando-me, fazendo o esforço máximo, porque é muito cedo e não há ninguém ali para me ver. Depois paro, levanto os braços, cruzo os dedos acima da cabeça, recupero o fôlego. Bernie Kosar chega trinta segundos depois e fica me observando. Eu me ajoelho para afagá-lo.

—         Bom trabalho, amigão. Acho que temos um novo ritual matinal.

Tiro a mochila das costas, abro o zíper e removo dela um pacote com algumas fatias de bacon, que dou ao animal. Ele as devora.

—         Muito bem, agora vou entrar. Vá para casa. Henri está esperando.

Ele me observa por um segundo e depois começa a caminhar, animado, na direção de casa. Sua capacidade de compreensão me espanta. Eu entro no prédio e vou tomar uma ducha.

 

Sou a segunda pessoa a entrar na aula de astronomia. Sam é o primeiro a chegar e já está sentado em seu lugar de costume, no fundo da sala.

—            Ei, não está de óculos. O que aconteceu? — digo, estranhando.

—            Pensei no que você disse. É idiotice continuar usando os óculos.

Eu me sento ao lado dele e sorrio. É difícil imaginar que um dia vá me acostumar àqueles olhinhos miúdos. Devolvo a ele o exemplar de Eles Estão entre Nós. Sam guarda a revista na mochila. Levanto os dedos, imitando o formato de uma arma, e o cutuco.

—            Bang! — brinco.

Ele começa a rir. Eu também rio. Nenhum de nós consegue parar. Cada vez que um de nós está perto de controlar as gargalhadas, o ou­tro ri ainda mais, e as gargalhadas recomeçam. As pessoas vão che­gando e olham para nós. Então, Sarah aparece. Ela chega sozinha, aproxima-se de nós com expressão confusa e se senta ao meu lado.

Do que estão rindo?

Não sei exatamente — confesso e rio um pouco mais.

Mark é a última pessoa a entrar. Ele se senta em seu lugar de cos­tume, mas hoje, em vez de Sarah, há outra garota ao lado dele. Deve ser uma formanda. Sarah segura minha mão sob a mesa.

Preciso conversar com você — diz.

Sobre o quê?

Sei que está em cima da hora, mas meus pais convidaram você e seu pai para o jantar de Ação de Graças amanhã.

Ei, isso seria incrível! Preciso falar com ele, mas sei que não temos planos, por isso imagino que a resposta será sim.

Ela sorri.

Ótimo!

Como somos só nós dois, normalmente nem celebramos o dia.

—            Ah, nós comemoramos. E meus irmãos virão da faculdade. Eles querem conhecer você.

E como eles sabem sobre mim?

Como acha que sabem?

O professor entra na sala, Sarah pisca para mim, e a aula começa. Nós prestamos atenção.

 

Henri está esperando por mim como sempre, Bernie Kosar no assen­to do passageiro, abanando a cauda, apóia as patas na janela aberta assim que me vê. Eu entro.

Athens — diz Henri.

Athens?

Athens, Ohio.

Por quê?

—         É lá que as matérias de Eles Estão entre Nós são escritas e im­pressas. É lá que eles recebem a correspondência.

—         Como descobriu?

—         Tenho meus meios. Olho para ele.

—         Está bem, eu conto. Precisei mandar três e-mails e fazer cinco telefonemas, mas agora tenho o número. Ou seja, não foi difícil lo­calizar. Só foi necessário um pequeno esforço.

Eu concordo movendo a cabeça. Sei o que ele está me dizendo. Os mogadorianos teriam nos encontrado com a mesma facilidade. O que significa, é claro, que agora a balança pende em favor da segun­da possibilidade citada por Henri: a de que alguém encontrou quem publicava as matérias antes de a história poder ser desenvolvida.

Onde fica Athens? Longe daqui?

Duas horas de carro.

Você vai até lá?

Espero que não. Primeiro vou telefonar.

Quando chegamos em casa Henri, pega o telefone e se senta à mesa da cozinha. Eu me sento diante dele e escuto.

—         Sim, estou ligando para perguntar sobre um artigo na edição do último mês de Eles Estão entre Nós.

Uma voz grave responde do outro lado. Não consigo ouvir o que é dito.

Henri sorri.

—         Sim — ele diz e faz uma pausa. — Não, não sou assinante. Mas tenho um amigo que é.

Outra pausa.

Ele assente.

—         Bem, estou curioso pelo artigo escrito sobre os mogadorianos. Não houve a continuação da matéria no número deste mês, como era esperado.

Eu me debruço sobre a mesa e tento ouvir, meu corpo tenso e rígi­do. Quando ouço a resposta, a voz soa trêmula, perturbada. Depois, o telefone fica mudo.

—         Alô?

Henri afasta o fone, olha para ele, e o encosta novamente na orelha.

—         Alô? — repete.

Resignado, ele fecha o aparelho e o deixa na mesa. E olha para mim.

—         Ele disse: "Não ligue mais para cá." E desligou.

 

DEPOIS DE DEBATER A QUESTÃO POR VÁRIAS HORAS, HENRI ACORDA NA MANHÃ seguinte e imprime uma rota porta a porta, de casa até Athens. Ele me diz que estará em casa cedo, para que possamos ir ao jantar de Ação de Graças na casa de Sarah, e me dá um pedaço de papel com o endereço e o número do telefone do local aonde vai.

Tem certeza de que vale a pena? — pergunto.

Precisamos descobrir o que está acontecendo.

Eu suspiro.

Acho que nós dois sabemos o que está acontecendo.

Talvez — ele diz, mas com plena autoridade e nenhum sinal da incerteza que normalmente acompanha a palavra.

Sabe o que me diria se nossas posições fossem invertidas, não sabe?

Henri sorri.

—         Sim, John. Eu sei o que diria. Mas acho que isso vai nos ajudar. Quero saber o que eles fizeram que deixou esse homem tão assus­tado. Quero saber se nos mencionaram, se estão à nossa procura usando meios nos quais ainda não pensamos. Isso vai nos ajudar a continuar escondidos, a nos manter à frente deles. E, se esse homem os viu, vamos saber que aparência eles têm.

Já sabemos como eles são.

Sabemos como eram quando nos atacaram, há mais de dez anos, mas eles podem ter mudado. Estão na Terra há um bom tempo. Quero saber como estão se misturando à população.

Mesmo que saibamos que aparência eles têm, quando os vir­mos na rua provavelmente será tarde demais.

Talvez sim, talvez não. Se eu vir um deles, vou tentar matá-lo. Nada garante que ele vá conseguir me matar — Henri opina, desta vez em dúvida e sem qualquer autoridade.

Desisto. Não gosto nada dessa história de Henri ir de carro até Athens enquanto eu fico em casa. Mas sei que minhas objeções não o farão mudar de idéia.

Tem certeza de que volta a tempo? — pergunto.

Estou saindo agora, o que significa que chegarei lá às nove. Du­vido que permaneça por mais de uma hora, duas, no máximo. Devo estar de volta à uma da tarde.

Então, por que me deu isto? — pergunto mostrando o pedaço de papel com o endereço e o número de telefone.

Bem, nunca se sabe.

Sim, e é exatamente por isso que eu acho que você não deve ir.

Touché — ele responde, encerrando a discussão. Henri pega seus papéis, levanta-se e empurra a cadeira.

Vejo você mais tarde.

Tudo bem — digo.

Ele sai de casa e entra na caminhonete. Bernie Kosar e eu vamos até a varanda e o vemos partindo. Não sei por que, mas tenho um mau pressentimento. Espero que ele volte.

 

É um longo dia. Um daqueles em que o tempo passa devagar e cada minuto parece dez, cada hora parece vinte. Jogo videogame e nave­go na Internet. Procuro por notícias que podem estar relacionadas a uma das outras crianças. Não encontro nada, o que me deixa feliz. Isso significa que estamos nos mantendo fora do radar. Evitando nossos inimigos.

Verifico meu telefone de tempos em tempos. Ao meio-dia en­vio uma mensagem de texto para Henri. Ele não responde. Almoço e alimento Bernie, e depois mando outra mensagem. De novo, não obtenho resposta. Estou ficando nervoso, agitado. Henri nunca deixa de me responder imediatamente. Talvez seu telefone esteja desligado. Talvez ele tenha ficado sem bateria. Tento me convencer dessas pos­sibilidades, mas sei que nenhuma é verdadeira.

As duas horas eu começo a ficar realmente preocupado. Devería­mos chegar na casa dos Hart dentro de uma hora. Henri sabe que a ocasião é importante para mim. E não a arruinaria. Vou tomar ba­nho, esperando sair do chuveiro e encontrá-lo sentado à mesa da cozinha, bebendo uma xícara de café. Ligo a água quente e nem me lembro da torneira da água fria. Não sinto nada. Todo o meu corpo é indiferente ao calor. A sensação é de que estou me banhando em água morna, e chego a sentir falta do calor de um banho muito quen­te. Eu adorava banhos quentes. Ficar sob a água por muito tempo. Fechar os olhos e senti-la em minha cabeça, descendo pelo corpo. O banho me fazia não pensar em minha vida. No banho esqueço por algum tempo quem e o que sou.

Quando saio do chuveiro, abro meu armário e procuro minhas melhores roupas, que não são nada especiais: calça caqui, camisa de botões, suéter. Como vivemos sempre fugindo, só tenho tênis de corrida, o que é ridículo e me faz rir. É a primeira vez que rio hoje. Vou ao quarto de Henri e estudo o conteúdo de seu guarda-roupa. Ele tem um par de sapatos que serve em mim. Ver suas roupas me deixa ainda mais preocupado, perturbado. Quero acreditar que ele só está demorando mais do que deveria, mas ele teria entrado em contato comigo. Alguma coisa está errada.

Caminho até a porta da frente, onde Bernie está sentado, olhando pela janela. Ele olha para mim e gane. Afago sua cabeça e volto para o quarto. Olho para o relógio. Passa um pouco das três horas. Veri­fico meu telefone. Nenhuma mensagem. Decido ir à casa de Sarah, e se não tiver notícias de Henri até as cinco, pensarei num plano. Talvez diga aos Hart que Henri está doente e que eu também não me sinto bem. Talvez diga que a caminhonete de Henri quebrou e eu preciso ir ajudá-lo. Espero que ele apareça, para que possamos ter um agradável jantar de Ação de Graças. Será o primeiro, nunca tive­mos um. Se não, contarei alguma história aos Hart. Será necessário.

Sem a caminhonete, decido ir correndo. Provavelmente nem vou transpirar, e chegarei ainda mais depressa do que se fosse de carro. E, por causa do feriado, a estrada deve estar vazia. Digo até logo a Bernie, prometo que estarei em casa mais tarde e saio. Corro pelos campos, mantendo-me nas partes mais afastadas, perto da floresta. É bom gastar um pouco de energia. Reduz minha ansiedade. Algumas vezes chego bem perto de minha velocidade máxima, que deve ser entre uns noventa a cento e dez quilômetros por hora. O ar frio em meu rosto traz uma sensação deliciosa. O som do vento também é incrível, o mesmo que escuto ao pôr a cabeça para fora da janela da caminhonete quando estamos percorrendo uma estrada. Gostaria de saber que velocidade poderei atingir quando tiver uns vinte ou vinte e cinco anos.

Paro de correr uns noventa metros antes da casa de Sarah. Não estou nem mesmo ofegante. Quando passo pelo portão, vejo Sarah na janela, olhando para fora. Ela sorri, acena e abre a porta da frente no instante em que piso na varanda.

— Oi, bonitão — ela diz.

Eu me viro e olho por cima do ombro, fingindo conferir se ela está falando com outra pessoa. Depois a encaro e pergunto se está falando comigo. Ela ri.

Bobo — diz e bate em meu braço antes de me puxar para beijar meus lábios. Respiro fundo, e só então sinto cheiro de comida: peru recheado, batatas-doces, couve-de-bruxelas, torta de abóbora.

Que cheiro delicioso — elogio.

Minha mãe passou o dia cozinhando.

Mal posso esperar pelo jantar.

Onde está seu pai?

Ele ficou preso. Mas deve chegar a qualquer momento.

Está tudo bem?

Sim, não é nada grave.

Nós entramos, e ela me leva para conhecer a casa. É grande, linda. Uma casa de família clássica, com quartos no segundo andar, um sótão, onde fica o quarto de um dos irmãos, e todos os espaços de convivência no primeiro andar: sala de estar, sala de jantar, cozinha e sala da família. Quando chegamos ao quarto dela, Sarah fecha a porta e me beija. Fico surpreso, mas eufórico.

Passei o dia todo esperando por isso — ela diz com a voz suave ao se afastar. Quando caminha para a porta, eu a puxo de volta e a beijo novamente.

E eu vou ficar esperando para beijá-la outra vez mais tarde — sussurro.

Ela sorri e bate em meu braço outra vez.

Descemos a escada, e ela me leva à sala da família, onde seus dois irmãos mais velhos, que voltaram da faculdade para uma vi­sita neste fim de semana, estão assistindo a uma partida de futebol americano com o pai. Eu me sento com eles, enquanto Sarah vai à cozinha ajudar a mãe e a irmã mais nova com o jantar. Nunca gostei muito de futebol. Acho que, por causa da maneira como Henri e eu vivemos, nunca me interessei muito por nada fora de nossa vida. Minha preocupação era sempre tentar me adaptar ao local onde es­távamos e me preparar para estar em outro lugar. Os irmãos e o pai de Sarah jogaram futebol americano no colégio. Eles adoram o esporte. E, no jogo de hoje, um dos irmãos e o pai torcem para um time, enquanto o outro irmão é torcedor do time adversário. Eles discutem, trocam provocações, aplaudem e vaiam, dependendo do que acontece no jogo. E evidente que esse padrão de comportamento se repete há anos, provavelmente por toda a vida dos dois irmãos, e eles se divertem muito. Isso me faz desejar ter alguma relação desse tipo com Henri, qualquer coisa além de meu treinamento e de nossa eterna fuga, da necessidade de vivermos escondidos. Algo que nós dois apreciássemos e que pudéssemos viver juntos, dividir. Sinto vontade de ter um pai e irmãos de verdade.

No intervalo do jogo, a mãe de Sarah nos chama para comer. Eu verifico meu telefone, e ainda não há nenhuma mensagem. Antes de nos sentarmos, vou ao banheiro e tento telefonar para Henri, mas a ligação vai direto para a caixa postal. São quase cinco da tarde, e estou começando a entrar em pânico. Volto para a sala de jantar e me sento à mesa, onde todos já estão reunidos. A mesa é fantástica. Há flores no centro, com jogos americanos e talheres dispostos meticu­losamente diante de cada cadeira. As travessas com a comida estão espalhadas pelo centro da mesa, com o peru bem na frente do lugar do Sr. Hart. Assim que me sento, a Sra. Hart entra na sala. Ela tirou o avental e está vestindo um belo conjunto de saia e suéter.

—         Teve notícias de seu pai? — ela pergunta.

—         Acabei de ligar para ele. Está muito atrasado e pediu para não esperarmos por ele. E me pediu também que o desculpassem pelo inconveniente.

O Sr. Hart começa a cortar o peru. Sarah sorri para mim do outro lado da mesa, o que faz eu me sentir melhor por meio segundo. A comida é servida, e eu pego pequenas porções de tudo. Não acredito que eu vá conseguir comer muito. Mantenho meu telefone fora do bolso, sobre minhas pernas, e o programei para vibrar em caso de chamada ou de mensagem de texto. Porém, a cada minuto que passa, cresce minha dúvida de que receberei um ou outro, ou de que vol­tarei a ver Henri. A ideia de viver sozinho — com meus Legados se desenvolvendo e sem alguém para explicá-los ou para me treinar —, de fugir sozinho, de me esconder sozinho, de encontrar meu cami­nho, de lutar contra os mogadorianos, enfrentá-los até derrotá-los ou morrer... Bem, tudo isso me aterroriza.

O jantar parece durar para sempre. O tempo volta a passar deva­gar. Todos os membros da família de Sarah me enchem de pergun­tas. Nunca antes estive em uma situação na qual tive de dar tantas respostas a tantas pessoas em um período tão curto de tempo. Eles me perguntam sobre meu passado, os lugares em que vivi, sobre Henri, sobre minha mãe — que, como sempre, eu digo ter morrido quando eu era ainda muito pequeno. E essa é a única resposta que contém um fundo de verdade. Não sei se minhas respostas fazem sentido. O telefone parece pesar toneladas sobre minhas pernas. Ele não vibra. É um peso morto.

Depois do jantar, e antes da sobremesa, Sarah convida todo mun­do para ir ao quintal, porque ela quer tirar algumas fotos. Quando saímos, ela me pergunta se está tudo bem. Digo que estou preocupa­do com Henri. Ela tenta me acalmar e diz que vai dar tudo certo, mas é inútil. Na verdade, só me sinto ainda pior. Tento imaginar onde ele está e o que está fazendo, e a única cena que consigo imaginar é a de Henri diante de um mogadoriano, aparentemente apavorado, ciente de que está prestes a morrer.

Quando nos reunimos para as fotos, começo a entrar em pânico. Como poderia chegar em Athens? Posso ir correndo, mas seria difícil encontrar o caminho, especialmente porque teria de evitar o tráfego e me manter fora das grandes rodovias. Poderia pegar um ônibus, mas assim levaria muito tempo. Poderia pedir ajuda a Sarah, mas isso exigiria muitas explicações e revelações, inclusive de que sou um alien e temo que Henri tenha sido capturado ou morto por aliens hostis que estão me procurando para me matar. Não é a melhor idéia.

Posamos para a foto, e sou tomado por uma urgência desesperada de ir embora, mas preciso sair de um jeito que não desperte ressenti­mentos de Sarah ou de sua família por mim. Concentro-me na câme­ra, olho diretamente para a lente, mas continuo tentando pensar em uma desculpa que provoque o mínimo de questionamento. Agora estou completamente dominado pelo pânico. Minhas mãos come­çam a tremer. Estão quentes. Examino-as para ter certeza de que não brilham. Estão apagadas, mas quando levanto o olhar percebo que a camera está tremendo nas mãos de Sarah. Sei que, de alguma forma, eu estou causando essa reação, mas não sei como nem o que fazer para detê-la. Um arrepio percorre minha espinha. Minha respiração fica presa na garganta e, ao mesmo tempo, a lente da câmera estala e se quebra. Sarah grita, abaixa a câmera e olha para ela, confusa. Ela está boquiaberta, com os olhos cheios de lágrimas.

Os pais correm até ela, preocupados. Eu fico parado, tomado pelo choque. Não sei o que fazer. Estou intrigado com a câmera, com o nervosismo causado em Sarah, mas também estou eufórico, por­que compreendo que minha telecinesia finalmente despertou. Serei capaz de controlar esse poder? Henri vai ficar muito feliz quando souber. Henri. O pânico retorna. Cerro os punhos. Preciso sair dali. Preciso encontrá-lo. Se os mogadorianos o capturaram, o que espero que não tenha acontecido, matarei todos eles para resgatá-lo.

Pensando depressa, eu me aproximo de Sarah e a tiro de perto dos pais, que estão examinando a câmera e tentando entender o que aconteceu.

—         Acabei de receber uma mensagem de Henri. Sinto muito, de verdade, mas preciso ir.

Sarah está distraída, olhando para mim e para os pais.

—         Está tudo bem com ele?

—         Sim, mas eu preciso ir. Henri precisa de mim. — Ela concorda, e nós nos beijamos rapidamente. Espero que não seja a última vez.

Agradeço aos pais e aos irmãos dela e saio antes que possam me fazer muitas perguntas. Caminho até o portão e, assim que passo por ele, começo a correr. Volto pelo mesmo caminho que usei para che­gar à casa de Sarah. Mantenho-me afastado das principais rodovias, preferindo correr entre as árvores. Em poucos minutos estou em casa. Ouço Bernie Kosar arranhando a porta quando me aproximo da va­randa. Ele está ansioso, como se também pressentisse algo de errado.

Vou direto para meu quarto. Retiro da mochila o pedaço de papel com o número de telefone e o endereço que Henri anotou antes de sair. Disco aquele número. Uma gravação informa: "Lamento, o nú­mero que você chamou foi desligado ou está fora de serviço." Olho para o pedaço de papel e disco novamente. A mesma gravação.

—         Merda! — eu grito. Chuto uma cadeira, e ela atravessa a cozi­nha e vai parar na sala de estar.

Volto para meu quarto. Saio. E volto mais uma vez. Olho para o espelho. Meus olhos estão vermelhos: lágrimas afloram, mas nenhu­ma cai. Minhas mãos tremem. Sou consumido pela raiva, pelo ódio e por um medo horrível de que Henri esteja morto. Fecho os olhos com força e expulso toda a fúria do peito. Numa explosão repentina, eu grito e abro os olhos e estendo as mãos para o espelho, que se parte em vários pedaços, embora eu esteja muitos metros longe dele. Paro e olho. Boa parte do espelho ainda está presa à parede. O que aconteceu na casa de Sarah não foi um acaso feliz.

Olho para os cacos no chão. Estendo a mão, concentro-me em um dos cacos e tento movê-lo. Minha respiração está controlada, mas medo e raiva persistem dentro de mim. Medo é uma palavra simples demais. Terror. É isso que sinto.

No início o caco não sai do lugar, mas depois de quinze segundos ele começa a tremer. Lentamente no início, depois mais depressa.

E então eu lembro. Henri disse que normalmente são as emoções que desencadeiam os Legados. Com certeza é isso que está aconte­cendo agora. Esforço-me para tirar o caco do chão. Gotas de suor brotam em minha testa. Eu me concentro com tudo o que tenho e tudo o que sou, apesar de tudo o que está acontecendo. Respirar é uma dificuldade. Lentamente, o pedaço de espelho começa a se erguer. Um milímetro. Dois centímetros. Ele está uns vinte centí­metros do chão, continua subindo, meu braço direito estendido e se movendo com ele até o caco de vidro estar na altura dos meus olhos. Eu o mantenho ali. Se Henri puder ver isso, penso. E num flash, em meio à excitação da minha felicidade recém-descoberta, pânico e medo retornam. Olho para o caco, para como ele reflete a parede revestida de madeira que parece velha e gasta no espelho. Madeira. Velha e gasta. Então meus olhos se abrem mais do que jamais pensei que pudesse abri-los. A arca!

Henri me disse, referindo-se ao cadeado: "Só nós dois podemos abri-lo, e juntos. A menos que eu morra; então você poderá abri-lo sozinho."

Deixo cair o caco de espelho e saio correndo de meu quarto para o de Henri. A arca está no chão ao lado da cama dele. Eu a pego, corro para a cozinha e a jogo na mesa. O cadeado na forma do emblema lórico está voltado para mim.

Eu me sento à mesa e olho para o cadeado. Meu lábio está tremendo. Tento respirar mais devagar, mas é inútil; meu peito está arfando, como se eu houvesse corrido quinze quilômetros em velocidade máxima. Tenho medo de sentir um clique sob meus dedos. Respiro fundo e fecho os olhos.

— Por favor, não abra — digo.

Agarro o cadeado. Prendendo a respiração, eu o seguro com for­ça, minha visão se turva, os músculos em meus braços se contraem. Espero pelo clique. Seguro o cadeado e espero pelo clique.

Mas não acontece clique nenhum.

Solto o cadeado, reclino a cabeça e a seguro entre as mãos. Ainda há esperança. Deslizo as mãos pelo cabelo e me levanto. Vejo uma colher suja na bancada. Concentro-me nela e movimento a mão, e a colher sai voando. Henri ficaria muito feliz. Henri, onde você está? Em algum lugar, e vivo. E eu vou huscá-lo.

Disco o número do telefone de Sam, único amigo que fiz em Paradise além de Sarah, único amigo que já tive, para ser bem honesto. Ele atende no segundo toque.

—         Alô?

Fecho os olhos e aperto a ponte do nariz. Respiro fundo. O tremor retornou, se é que ele desapareceu em algum momento.

Alô? — ele repete.

Sam.

Ei, sua voz está horrível! Tudo bem?

Não. Preciso de sua ajuda.

O que aconteceu?

Sua mãe pode trazê-lo aqui?

—         Ela não está em casa. Foi dar plantão no hospital, porque ga­nha hora extra em dobro nos feriados. O que está acontecendo?

As coisas vão mal, Sam. E preciso de ajuda.

Um breve silêncio, e então ele diz:

Vou para aí o mais depressa que puder.

Tem certeza?

Vejo você daqui a pouco.

Desligo o telefono e apoio a cabeça na mesa. Athens, em Ohio. É lá que Henri está. De alguma forma, de alguma maneira, é para lá que tenho de ir.

É preciso chegar lá bem depressa.


 

ENQUANTO ESPERO POR SAM, ANDO PELA CASA ELEVANDO OBJETOS INANIMADOS sem tocá-los: uma maçã da bancada da cozinha, um garfo na pia, um vaso com uma planta ao lado da janela da frente. Só consigo levantar objetos pequenos, e eles se erguem no ar de um jeito meio tímido. Quando tento mover algo mais pesado uma cadeira, uma mesa —, nada acontece.

As três bolas de tênis que Henri e eu usamos nos treinamentos estão em uma cesta do outro lado da sala de estar. Trago uma delas até mim, e, quando ela passa pelo campo de visão de Bernie Kosar, ele a segue atentamente com os olhos. Depois a arremesso sem tocá-la e Bernie corre atrás. Antes que ele consiga pegá-la eu a puxo de volta ou, quando ele consegue, eu a tiro de sua boca, tudo isso sem me levantar da cadeira na sala de estar. Isso me distrai, afasta meus pensamentos de Henri, de tudo o que pode estar acontecendo com ele e da culpa pelas mentiras que vou ter de contar a Sam.

Ele leva vinte e cinco minutos para percorrer de bicicleta os seis quilômetros da casa dele até a minha. Escuto quando ele chega peda­lando pela entrada de cascalho. Ele pula da bicicleta, deixando-a cair no chão, e entra correndo pela porta da frente sem bater, ofegante. Seu rosto está coberto de suor. Ele olha em volta, estudando o cenário.

O que foi? — pergunta.

Isso vai soar absurdo para você — começo —, mas precisa pro­meter que vai me levar a sério.

Do que está falando?

Do que estou falando? Estou falando sobre Henri. Ele desapareceu por descuido, o mesmo descuido que sempre pregou con­tra. Estou falando sobre o fato de ter contado a verdade quando você apontou aquela arma para mim. Eu sou um alien. Henri e eu chegamos na Terra há dez anos, e somos perseguidos por uma raça violenta de alienígenas. Estou falando sobre Henri pensar que pode escapar deles de alguma forma, se tiver um pouco mais de conhecimento. E agora ele desapareceu. É disso que estou fa­lando, Sam. Você me entende? Mas não, não posso dizer essas coisas a ele.

—         Meu pai foi capturado, Sam. Não sei dizer com certeza por quem, ou o que foi feito dele. Mas algo aconteceu, e acredito que ele foi feito prisioneiro. Ou pior.

Um sorriso gelado se forma no rosto dele.

—         Pare com isso — Sam diz.

Eu balanço a cabeça e fecho os olhos. A gravidade da situação di­ficulta novamente o simples ato de respirar. Eu me viro e olho para Sam com ar suplicante. Lágrimas brotam em meus olhos.

—         Não estou brincando.

O rosto de Sam empalidece.

Como assim, não está? Quem o capturou? Onde ele está?

Ele localizou o autor de um dos artigos daquela sua revista em Athens, Ohio, e foi até lá hoje. E não voltou. O telefone está desligado. Aconteceu alguma coisa com ele. Algo ruim.

Sam fica ainda mais confuso.

—         O quê? Por que ele se incomodaria com isso? Tem algo nessa história que eu não entendo. É só um artigo idiota!

Não sei, Sam. Ele é como você: adora aliens, teorias de conspi­ração e todas essas coisas. — Eu penso depressa. — Sempre foi um hobby para ele. Um dos artigos despertou seu interesse, e acho que ele quis saber mais, então foi até lá.

Foi o artigo sobre os mogadorianos?

Sim. Como você sabe?

Porque ele reagiu como se tivesse visto um fantasma quando falei sobre esse artigo no dia de Halloween. Mas por que alguém ia se importar se ele fizesse perguntas sobre um artigo estúpido?

Não sei. Quero dizer, imagino que essas pessoas não sejam as mais equilibradas do mundo. Devem ser paranóicas, delirantes. Talvez tenham pensado que ele é um alien. Você apontou uma arma para mim pelo mesmo motivo, lembra? Ele devia estar em casa à uma da tarde, e seu celular está desligado. Isso é tudo o que posso lhe dizer.

Eu me levanto e vou até a mesa da cozinha. Pego o pedaço de papel com o endereço e o número de telefone de onde Henri deve estar.

—         Ele foi para esse lugar hoje — digo. — Tem alguma ideia de onde fica?

Ele olha para o papel, depois para mim.

Quer ir até lá?

Não sei o que mais posso fazer.

Por que não vai à polícia e conta o que aconteceu?

Eu me sento no sofá, pensando na melhor maneira de responder. Gostaria de poder dizer a verdade, explicar que o envolvimento da polícia no caso nos obrigaria a ir embora de Paradise. Isso, na me­lhor das hipóteses. Na pior, Henri seria interrogado, talvez fichado, obrigado a enfrentar uma burocracia lenta e complexa de reconhe­cimento, o que daria aos mogadorianos muito tempo para agir. E, quando eles nos encontrassem, a morte seria iminente.

—         Que polícia? A de Paradise? O que acha que fariam se eu con­tasse a verdade? Levariam dias para me ouvir com um mínimo de seriedade, e não tenho esse tempo.

Sam encolhe os ombros.

Talvez eles o levem a sério. Além do mais, e se ele só se atrasou, ou se o celular quebrou? Pode estar a caminho de casa neste momento...

Talvez, mas não acredito nisso. Alguma coisa aconteceu, e preciso ir atrás dele o mais depressa possível. Ele devia estar em casa há horas.

—         Talvez tenha se envolvido em um acidente.

Balanço a cabeça.

—         Talvez, mas acho que não. E, se ele estiver em perigo, nós esta­mos perdendo tempo.

Sam olha para o pedaço de papel. Ele morde o lábio e fica em silêncio por uns quinze segundos.

Bem, eu sei vagamente como chegar em Athens. Mas não tenho a menor idéia de como encontrar esse endereço quando estivermos lá.

Posso imprimir um mapa da Internet. Não é isso que me preo­cupa. Estou aflito com o transporte. Tenho cento e vinte dólares em meu quarto. Posso pagar alguém para nos levar até lá, mas não sei quem. Não há muitos táxis em Paradise.

Podemos usar nossa caminhonete.

Que caminhonete?

A que era do meu pai. Nós ainda a temos. Está na garagem. Não tocamos nela desde que ele desapareceu.

Está falando sério?

Ele move a cabeça em sentido afirmativo.

Há quanto tempo o motor não é ligado? Acha que ainda funciona?

Oito anos. Por que não funcionaria? Era quase nova quando ele a comprou.

Espere, deixe-me ver se entendi direito. Está sugerindo que façamos sozinhos a viagem de duas horas até Athens? Dirigindo?

O sorriso que surge no rosto de Sam é evasivo.

—         É exatamente o que estou sugerindo.

Eu me inclino para a frente no sofá. Sei que meu sorriso reflete o dele.

Sabe que vamos ter problemas sérios se formos pegos, não é? Não temos carteira de motorista.

Sim, eu sei. Minha mãe vai me matar, e talvez mate você tam­bém. E ainda temos de pensar na questão legal. Mas, sim, se você acredita realmente que seu pai está com problemas, o que mais po­demos fazer? Se os papéis fossem invertidos, se fosse meu pai que estivesse encrencado, eu não pensaria duas vezes.

Olho para Sam. Não há nenhuma hesitação em seu rosto quando ele sugere a viagem de duas horas, e ainda nem discutimos outro detalhe: nenhum de nós dois sabe dirigir, e não fazemos ideia do que esperar ao chegarmos lá. Mas Sam está comigo. O plano foi dele.

—         Tudo bem, vamos dirigir até Athens — decido.

 

Jogo meu celular na mochila, certifico-me de que tudo está fechado e em ordem. Depois percorro a casa e olho tudo como se fosse a última vez. É um pensamento bobo, e sei que estou simplesmente sendo sentimental, mas estou nervoso, e traz certa sensação de calma fazer isso. Toco os objetos, mas os deixo no lugar. Depois de cinco minu­tos, sinto que estou pronto.

Vamos — digo a Sam.

Quer ir na bicicleta comigo?

Não. Pode ir pedalando. Eu vou correndo ao seu lado.

E sua asma?

Acho que vou ficar bem.

Partimos. Ele monta na bicicleta. Tenta pedalar o mais depressa possível, mas não está em sua melhor forma. Eu corro alguns metros atrás dele e finjo estar cansado. Bernie nos segue. Quando chegamos à casa de Sam, ele está pingando suor. Sam corre até o quarto e volta com uma mochila. Ele a coloca sobre a bancada da cozinha e começa a trocar de roupa. Dou uma olhada dentro dela. Um crucifixo, alguns dentes de alho, uma estaca de madeira, um martelo, uma bola de massinha e um canivete.

Percebe que essas pessoas não são vampiros, não é? — eu per­gunto quando Sam retorna.

Sim, mas nunca se sabe. Eles são malucos, provavelmente, como você disse.

E mesmo que estivéssemos caçando vampiros, para que usaria massinha de modelar?

—         Não custa se preparar. — Ele dá de ombros.

Sirvo uma vasilha com água para Bernie Kosar, e ele bebe com von­tade. Troco de roupas no banheiro e retiro de minha mochila o mapa com as instruções. Depois atravesso a casa e vou até a garagem, que é escura e tem cheiro de gasolina e de grama cortada. Sam acende a luz. Várias ferramentas enferrujaram pela falta de uso e estão penduradas em ganchos apropriados. A caminhonete está no meio da garagem, sob uma grande lona azul coberta por uma espessa camada de poeira.

Quanto tempo faz que essa lona não é removida?

Desde que meu pai desapareceu.

Levanto uma beirada. Sam ergue a outra, e juntos nós removemos a lona e a deixamos em um canto. Sam olha para a caminhonete com os olhos arregalados e um sorriso nos lábios.

O veículo é pequeno, azul-escuro, e só há espaço para duas pes­soas — ou três, se uma delas não se incomodar com o desconforto de viajar no meio das outras. Vai ser perfeito para Bernie Kosar. A poeira dos últimos oito anos não chegou ao interior do veículo, que brilha como se tivesse sido encerado recentemente. Jogo minha mo­chila na carrocería.

—         A caminhonete de meu pai — Sam diz, orgulhoso. — Tantos anos, e ela ainda é exatamente a mesma.

—         Nossa carruagem dourada — eu digo. — Tem as chaves?

Ele caminha até a parede e pega um molho de chaves de um gan­cho ali. Destranco a porta da garagem e a abro.

Quer resolver quem vai dirigir com "pedra, papel e tesoura"? — pergunto.

Não! — Sam responde. Ele abre a porta do lado do motorista e se senta ao volante. O motor tosse, falha, mas finalmente pega. Ele abaixa a janela. — Acho que meu pai ficaria orgulhoso se me visse dirigindo a caminhonete.

Também acho. — Eu sorrio. — Tire o carro da garagem, e eu fecho a porta.

Ele respira fundo, engata a primeira marcha e devagar, com certa timidez, vai saindo da garagem. Sam pisa no freio com força exage­rada, cedo demais, e a caminhonete para bruscamente.

—         Você ainda não saiu completamente — grito.

Ele tira o pé do pedal e termina de sair bem devagar. Eu fecho a por­ta da garagem. Bernie Kosar salta para dentro da caminhonete sem que eu precise incentivá-lo, e eu me sento ao lado dele. As mãos de Sam seguram o volante com tanta força que os nós dos dedos estão brancos.

Nervoso? — pergunto.

Apavorado.

Vai dar tudo certo — digo. — Nós dois vimos outras pessoas dirigindo milhares de vezes.

Ele assente.

Tudo bem. Para que lado devo ir?

Vamos mesmo seguir adiante com este plano?

Sim — ele insiste.

Para a direita, então. Vamos sair da cidade.

Afivelamos o cinto de segurança. Eu abro a janela apenas o sufi­ciente para Bernie Kosar pôr a cabeça para o lado de fora, o que ele faz imediatamente, apoiando-se nas patas traseiras, em meu colo.

Estou completamente apavorado — confessa Sam.

Eu também.

Ele respira fundo, prende o ar nos pulmões e depois exala lentamente.

E... lá... vamos... nós — diz, tirando o pé do freio quando ter­mina a última palavra. O caminhão desce a entrada da garagem aos trancos. Ele pisa no breque uma vez e nós paramos. Então ele solta o pé aos poucos e o carro volta a andar, seguindo lentamente até a saída da propriedade. Sam olha para os dois lados e entra na estra­da, primeiro bem devagar, depois ganha velocidade. Ele está tenso, debruçado sobre o volante, e depois de um quilômetro e meio um sorriso começa a se formar em seu rosto, e ele se recosta no banco.

Não é tão difícil.

Você nasceu para isso.

Ele mantém a caminhonete perto da faixa pintada no lado direito da estrada. Sam fica tenso cada vez que um carro passa em sentido contrário, mas depois de um tempo ele relaxa e presta menos aten­ção aos outros automóveis. Ele faz uma curva, e outra, e em vinte e cinco minutos entramos na interestadual.

Não acredito que estamos mesmo fazendo isso — Sam final­mente comenta. — Nunca fiz loucura maior.

Nem eu.

Tem algum plano para quando chegarmos lá?

Nenhum. Espero ser capaz de encontrar o lugar, e então pen­sarei em algo. Não sei se é uma casa, um prédio comercial ou outra coisa. Nem sei se ele está mesmo lá.

Sam assente.

Acha que ele está bem?

Não tenho idéia — respondo.

Respiro fundo. Temos uma hora e meia pela frente até chegarmos em Athens.

Então, encontraremos Henri.

 

DIRIGIMOS RUMO AO SUL, ATÉ ATHENS APARECER ANINHADA AOS PÉS DAS Montanhas Apalaches: uma cidade pequenina que brota no meio das árvores. Em meio à penumbra, vejo um rio sinuoso, que parece contornar a cidade, servindo de fronteira a leste, sul e oeste, enquan­to ao norte estão as árvores e as montanhas. A temperatura é relati­vamente quente para novembro. Passamos pelo estádio de futebol da faculdade. Um pouco além dele está o domo branco de uma arena.

—         Vamos pegar a próxima saída — eu digo.

Sam dirige a caminhonete pela interestadual e vira à direita na Richland Avenue. Nós dois estamos eufóricos por conseguir chegar ali inteiros, sem sermos pegos.

Então esta é a aparência de uma cidade universitária...

Acho que sim — respondo.

Há edifícios e alojamentos nos dois lados da avenida. A grama é verde, meticulosamente aparada, mesmo em novembro. Subimos uma colina íngreme.

Lá no alto fica a Court Street. Vamos virar à esquerda.

Quanto falta? — Sam quer saber.

Um quilômetro, mais ou menos.

Quer passar em frente antes de pararmos?

—            Não. Acho melhor estacionar na primeira vaga que encontrar­mos, depois seguimos a pé.

Dirigimos pela Court Street, que é a via principal do centro da ci­dade. Tudo está fechado neste feriado — livrarias, cafeterias, bares. Mas vejo algo que se destaca como um brilhante.

—            Pare!

Sam pisa no freio.

—            O que é?

Um carro buzina atrás de nós.

—            Nada, nada. Continue. Vamos estacionar.

Percorremos mais um quarteirão até encontrar uma vaga. Pelos meus cálculos, estamos a cinco minutos de caminhada do endereço, no máximo.

O que foi aquilo? Você quase me matou de susto!

Vi a caminhonete de Henri.

Ah... Por que você às vezes o chama de Henri?

Não sei. Simplesmente sai. É uma espécie de brincadeira nos­sa — digo e olho para Bernie Kosar. — Acha que devemos levá-lo?

Sam encolhe os ombros.

—            Ele pode atrapalhar.

Dou algumas guloseimas a Bernie Kosar e o deixo no carro, com a janela entreaberta. Ele não fica feliz e começa a ganir e a arranhar o vidro, mas não creio que vamos demorar. Sam e eu voltamos a pé pela Court Street. Levo minha mochila nas costas, Sam prefere car­regar a dele na mão. Ele pegou a massinha de modelar e a está aper­tando, como as pessoas fazem com aquelas bolas de espuma quando estão estressadas. Chegamos à caminhonete de Henri. As portas es­tão travadas. Não há nada importante nos bancos ou no painel.

—            Bem, isso significa duas coisas — digo. — Henri ainda está aqui e quem o pegou ainda não encontrou a caminhonete, o que quer dizer que ele não falou nada.

—            E o que ele poderia ter falado?

Por um momento esqueci que Sam não sabe as verdadeiras razões de Henri estar ali. Já cometi um deslize e chamei Henri pelo nome. Preciso tomar cuidado para não revelar mais nada.

—            Não sei — digo. — Quem pode imaginar que tipo de perguntas esses malucos esquisitos estão fazendo?

—            Tudo bem. E agora, o que vamos fazer?

Estudo o mapa do endereço que Henri me deu naquela manhã.

—            Vamos andar — decido.

Voltamos pelo mesmo caminho. Começamos a ver casas e edifícios. Todos sujos e mal-conservados. Em pouco tempo chegamos ao endereço e paramos.

Olho para o pedaço de papel, depois para a casa. Respiro fundo.

—            Aqui estamos — anuncio.

Ficamos observando a construção de dois andares com fachada cinza, de revestimento vinílico. A entrada leva a uma varanda sem pintura onde há um balanço quebrado pendendo para um lado. A grama é alta e malcuidada. O lugar parece desabitado, mas há um carro nos fundos. Não sei o que fazer. Pego meu celular. São 23h12. Telefono para Henri, mesmo sabendo que ele não vai atender. É uma tentativa de colocar as idéias em ordem, pensar em um plano. Não tinha programado o que fazer quando encontrasse o endereço e, ago­ra que a realidade estava ali, bem na minha frente, me deu um bran­co. A chamada cai direto na caixa postal.

Vou bater à porta — diz Sam.

E dizer o quê?

Não sei, o que me vier à cabeça.

Mas ele não tem essa oportunidade, porque no mesmo instante um homem sai pela porta da frente. Ele é grande, tem pelo menos um metro e noventa e cinco de altura e mais de cem quilos. Usa cavanhaque e a cabeça é raspada. Veste botas de caminhada, jeans e moletom preto com as mangas arregaçadas. Ele tem uma tatuagem no antebraço direito, mas estou longe demais para ver o que é. O homem cospe no quintal, depois se vira e tranca a porta, atravessa a varanda e caminha em nossa direção. Fico tenso quan­do ele se aproxima. A tatuagem é de um alien com um buquê de tulipas em uma das mãos, como se oferecesse as flores para uma entidade invisível. O homem passa por nós sem dizer nada. Sam e eu nos viramos e o vemos se afastar.

—         Viu aquela tatuagem? — pergunto.

—         Vi. Quem disse que só nerds magrelos curtem alienígenas, hem? Aquele homem é enorme e parece ser bastante mau.

Pegue meu celular, Sam.

O quê? Por quê?

—         Você precisa ir atrás dele. Leve meu telefone. Vou entrar na casa. E óbvio que não tem ninguém lá dentro, ou ele não teria tran­cado a porta. Henri pode estar lá. Ligo para você assim que puder.

—         E como vai me ligar?

Não sei. Mas vou encontrar um jeito. Pegue.

Ele aceita o telefone com relutância.

E se Henri não estiver lá dentro?

—         Por isso quero que siga aquele sujeito. Ele pode estar a cami­nho de onde Henri está.

—         E se ele voltar?

—         Vamos pensar em algum plano. Mas agora você precisa ir. Pro­meto telefonar assim que conseguir, está bem?

Sam se vira e fita o homem, que agora está a uns vinte e cinco metros. Então olha para mim.

—         Tudo bem, eu vou. Mas tome cuidado aqui.

—         Você também, seja cuidadoso. Não o perca de vista. E não dei­xe que ele o veja.

—         De jeito nenhum.

Ele se vira e corre atrás do homem. Eu os observo e, quando eles desaparecem de vista, aproximo-me da casa. As janelas estão escuras, cobertas com cortinas brancas. Não consigo ver lá dentro. Caminho até a parte de trás, onde há um pequeno pátio de concreto que leva a uma porta trancada. Percorro o restante do caminho contornando a casa. A vegetação crescida ficou ali abandonada desde o verão. Ten­to abrir uma janela. Trancada. Todas estão trancadas. Devo arrombar uma delas? Quebrar? Procuro pedras entre os arbustos, e, no instante em que encontro uma e a suspendo com a mente, uma idéia me passa pela cabeça. É tão maluca que pode dar certo.

Deixo a pedra cair e caminho até a porta dos fundos. A fechadura é simples, sem tranca. Respiro fundo, fecho os olhos, concentrado, e seguro a maçaneta. Tento girá-la uma vez. Meus pensamentos vagam da cabeça para o coração e o estômago. Tudo está reunido ali. Seguro a maçaneta com mais força e prendo o ar, ansioso, enquanto tento vi­sualizar o funcionamento daquele mecanismo. Então, ouço e sinto um clique na mão apoiada na maçaneta. O sorriso ilumina meu rosto. Giro a maçaneta e a porta se abre. Não acredito que sou capaz de destrancar portas imaginando o que há dentro delas.

A cozinha é surpreendentemente limpa, não há sujeira nas ban­cadas nem louça na pia. Vejo pão fresco no aparador. Ando por um corredor estreito e chego a uma sala de estar cujas paredes são deco­radas com flâmulas e pôsteres de esportes. Há uma televisão grande em um dos cantos. À esquerda fica a porta de um quarto. Dou uma espiada lá dentro. O lugar está uma bagunça, a cama desarrumada e muitos objetos amontoados em uma cômoda. O ar tem o cheiro aze­do de roupa suja e impregnada de suor que nunca secou.

Na frente da casa, ao lado da porta, um lance de escada leva ao se­gundo andar. Começo a subir. O terceiro degrau range sob meus pés.

— Olá? — chama uma voz do alto da escada.

Eu paro, prendo a respiração.

—         Frank, é você?

Fico em silêncio. Escuto alguém se levantando de uma cadeira, pas­sos no piso de madeira. Passos que se aproximam. Um homem surge no topo da escada. Cabelo escuro e sujo, costeletas, barba por fazer. Não é tão grande quanto aquele que saiu, mas também não é pequeno.

Quem é você? — ele pergunta.

Estou procurando um amigo — respondo.

Seu rosto se transforma numa máscara hostil. Ele desaparece e volta segundos depois, segurando um taco de beisebol.

Como entrou aqui? — indaga.

Em seu lugar, eu abaixaria esse taco.

Como entrou aqui?

Sou mais rápido que você. E muito mais forte.

Ah, é claro que é.

—         Estou procurando um amigo. Ele veio aqui hoje de manhã. Quero saber onde ele está.

Você é um deles, não é?

Não sei do que está falando.

—         Você é um deles! — o homem grita. Ele segura o bastão como um jogador, as duas mãos na base e o corpo pronto para uma reba­tida. Há medo autêntico em seus olhos. Sua mandíbula está tensa, comprimida. — É um deles! Por que não nos deixam em paz?

Não sou um deles. Vim procurar meu amigo. Diga onde ele está.

Seu amigo é um deles!

Não, não é.

Então sabe de quem estou falando?

Sim.

Ele desce um degrau.

—         Estou avisando — repito. — Largue o bastão e diga onde ele está.

Minhas mãos tremem pela incerteza da situação, por ele ter um bastão nas mãos e eu contar apenas com minhas habilidades. Fico nervoso com o medo que vejo em seus olhos. Ele desce mais um degrau. Agora restam apenas seis entre nós dois.

Vou arrancar sua cabeça. Isso vai mandar um recado aos seus amigos.

Não são meus amigos. E posso garantir que estaria fazendo um favor a eles se me machucasse.

—         É o que vamos ver.

Ele desce a escada correndo. Não há nada que eu possa fazer além de reagir. Ele me ataca com o bastão. Eu me abaixo e ele acerta a pa­rede com um baque, deixando um buraco no revestimento de madei­ra. Eu me aproximo dele pelas costas e o levanto no ar, segurando-o pelo pescoço, com uma das mãos e apoiando a outra em sua axila, carregando-o de volta escada acima. Ele esperneia, acertando chutes em minhas pernas e um na virilha. O bastão cai, rola pela escada, e escuto uma janela se quebrando atrás de mim.

O segundo andar é um loft amplo e aberto. Está escuro. As paredes são cobertas de exemplares de Eles Estão entre Nós, e, onde acabam as revistas, começa uma coleção variada de parafernália alienígena. Porém, diferentemente do material acumulado por Sam, aquelas fo­tos são reais, tiradas ao longo de anos e ampliadas de forma que é difícil identificar o panorama, vêem-se apenas pontos brancos ou fundos negros. Em um canto há um alienígena de borracha com uma corda no pescoço. Alguém pôs um chapéu mexicano na cabeça do boneco. Estrelas que brilham no escuro foram coladas no teto. Elas parecem fora de lugar, mais apropriadas para a decoração do quarto de uma menina de dez anos.

Jogo o homem no chão. Ele se afasta de mim e fica em pé. Quando se levanta, concentro todo o meu poder no estômago e o lanço em sua direção com um movimento firme, como se empurrasse alguém, e ele voa para trás e se choca contra a parede.

—         Onde ele está? — pergunto.

Jamais direi. Ele é um de vocês.

Não sou quem você está pensando.

Nunca vão conseguir! Deixem a Terra em paz!

Levanto a mão e o esgano. Posso sentir os tendões sob meus de­dos, embora nem esteja tocando nele. O homem não consegue respi­rar e o rosto fica vermelho. Eu o solto.

Vou perguntar mais uma vez.

Não.

Volto a esganá-lo, e, desta vez, quando vejo o rosto vermelho, aperto com mais força. Quando o solto, ele começa a chorar e me sinto mal por ele, pelo que acabei de fazer. Mas esse homem sabe onde está Henri, fez alguma coisa com ele, e minha piedade termina quase tão depressa quanto começou.

Depois de recuperar o fôlego, e entre soluços desesperados, ele diz:

Lá embaixo.

Onde? Não o vi.

—         No porão. A porta fica atrás da flâmula dos Steelers, na sala de estar.

Uso o telefone fixo que encontro no loft para discar para meu celular. Sam não atende. Arranco o telefone da parede e o quebro ao meio.

Quero seu celular — digo.

Não tenho.

Vou até onde está o boneco e removo a corda do pescoço.

—         Por favor — o homem suplica.

—         Quieto. Você sequestrou meu amigo. E o está mantendo preso aqui. Tem sorte por eu me contentar em amarrá-lo.

Puxo seus braços para trás das costas e o amarro com força, en­volvendo o corpo com a corda, depois o amarro a uma das cadeiras. Não acredito que isso o reterá por muito tempo. Fecho sua boca com fita adesiva, para impedi-lo de gritar e, só então, desço a escada para procurar a porta do porão. Arranco a flâmula dos Steelers da parede e a encontro. Mas está trancada. Eu a destranco como fiz com a ou­tra. A escada de madeira conduz à total escuridão lá embaixo.

Sinto cheiro de mofo. Acendo a luz e começo a descer devagar, temendo o que posso encontrar. As vigas estão cobertas de teias de aranha. Chego ao porão e sinto imediatamente a presença de alguém, tem mais alguém ali comigo. Respiro fundo e me viro.

Ali, sentado no meio do porão, está Henri.

Henri!

Ele pisca os olhos se ajustando à repentina luminosidade. Sua boca está coberta com um pedaço de fita adesiva. As mãos estão pre­sas sob o corpo, os tornozelos foram amarrados aos pés da cadeira na qual ele está sentado. O cabelo está em desalinho, e no lado direito de seu rosto há um fio de sangue seco e escuro. A cena me enfurece.

Aproximo-me dele e removo a fita adesiva de sua boca. Ele inspi­ra profundamente.

Graças a Deus — diz. Sua voz soa fraca. — Você tinha razão, John. Foi tolice vir aqui. Sinto muito, devia tê-lo escutado.

Shhh...

Eu me abaixo e começo a desamarrar seus tornozelos. Ele cheira a urina.

Fui vítima de uma emboscada.

Quantos eram? — quero saber.

Três.

Um deles está amarrado lá em cima.

Solto suas pernas. Ele as estende e suspira aliviado.

Passei o dia todo nesta maldita cadeira.

Começo a soltar suas mãos.

Como conseguiu chegar aqui? — Henri pergunta.

Sam e eu viemos juntos. Dirigimos até aqui.

Está brincando?

Não havia outra saída.

Dirigiram o quê?

A velha caminhonete do pai dele.

Henri fica em silêncio por um instante, refletindo sobre o significado do que ouviu.

—            Ele não sabe de nada — explico. — Disse a ele que aliens são um hobby para você, só isso.

Ele assente.

Bem, fico feliz por terem conseguido chegar. Onde ele está agora?

Seguindo um deles. Não sei para onde foram.

Ouvimos uma tábua estalar sobre nós. Eu me levanto, deixando as mãos de Henri quase desamarradas.

—            Ouviu isso? — sussurro.

Ficamos olhando para a porta, quase sem respirar. Um passo soa na escada, depois outro, e de repente o grandalhão pelo qual passa­mos antes, aquele que Sam devia estar seguindo, aparece.

—            A festa acabou, amigos — ele diz, segurando uma arma apon­tada para meu rosto. — Afaste-se.

Levanto as mãos e dou um passo para trás. Penso em usar meus po­deres para desarmá-lo, mas e se fizer a arma disparar por acidente? Ain­da não confio plenamente em minhas habilidades. É arriscado demais.

Eles disseram que vocês poderiam aparecer por aqui. E que tinham aparência humana. E que vocês eram os verdadeiros inimi­gos — ele afirma.

Do que está falando? — pergunto.

Estão delirando — Henri me explica. — Acham que nós somos os verdadeiros inimigos.

Cale a boca! — o homem grita.

Ele dá três passos em minha direção. Depois move a arma, apontando-a para Henri.

Um movimento em falso, e ele leva bala. Entendeu?

Sim — respondo depressa.

Agora, segure isto — ele ordena, pegando um rolo de fita ade­siva da prateleira ao alcance de sua mão e o jogando em minha di­reção. Enquanto ele se move pelo ar, eu o faço parar, suspenso uns dois metros do chão, no meio do caminho entre ele e nós. Começo a girá-lo muito rapidamente. O homem olha para o rolo de fita com ar confuso.

Mas o quê...

Enquanto ele está distraído, movo meu braço na direção dele como se o empurrasse. O rolo de fita voa de volta e o acerta no nariz. O sangue começa a escorrer, e ele deixa cair a arma para levar as mãos ao rosto. A arma dispara ao cair no chão. Estendo minha mão para a bala e a faço parar, e ouço Henri rindo atrás de mim. Movo o projétil até deixá-lo elevado na frente do rosto do homem.

—         Ei, fortinho — digo.

Ele abre os olhos e vê a bala no ar, diante do próprio rosto.

—         Vai precisar de mais do que isso.

Deixo a bala cair aos pés dele, no chão. Ele se vira para correr, mas eu o trago de volta e o arremesso contra uma grande e sólida coluna de sustentação. O homem cai desacordado. Uso a fita para prendê-lo à coluna. Quando me asseguro de que o imobilizei, termi­no de soltar Henri.

—         John, acho que essa é a melhor surpresa que tive em toda a minha vida — ele cochicha, e há um alívio tão intenso em sua voz, que chego a pensar que o verei chorando, emocionado.

Sorrio, orgulhoso.

Obrigado. Surgiu durante o jantar.

Lamento não ter conseguido ir.

—         Eu disse a eles que você havia ficado preso.

Ele sorri.

Graças a Deus o Legado despertou — ele diz, e percebo que o estresse do desenvolvimento de meus Legados, ou o medo de não se formarem, causou sobre Henri um impacto muito maior do que eu havia imaginado.

O que aconteceu, afinal? — quero saber.

Eu bati à porta. Os três estavam em casa. Quando entrei, um deles me acertou na nuca. Ao acordar, já estava nesta cadeira. — Ele balança a cabeça e diz no idioma lórico uma longa série de palavras, que reconheço como palavrões. Termino de desamarrá-lo, e ele se levanta alongando os músculos.

Precisamos sair daqui — Henri anuncia.

Temos de encontrar Sam. E é então que o ouvimos.

John. Está aí embaixo?

 

TUDO FICA MAIS LENTO. VEJO UMA SEGUNDA PESSOA NO TOPO DA ESCADA. SAM grita, surpreso, e eu me viro para ele, sentindo que minha audição é invadida por aquele silêncio típico que acompanha uma cena em câmera lenta. O homem atrás dele o empurra. O golpe é tão forte que o tira do chão, e noto que Sam vai cair ao pé da escada, no piso de concreto. Eu o vejo cortando o ar, girando os braços com uma expressão desesperada no rosto. Sem pensar em nada, sou impelido pelo instinto e ergo a mão no último segundo, detendo-o quando sua cabeça está a menos de um centímetro do chão do porão. Eu o assento no piso com toda a delicadeza.

—            Merda Henri resmunga.

Sam se senta e rasteja para trás como um caranguejo, até suas costas encontrarem a parede de tijolos de concreto. Seus olhos estão arregalados, olhando para a escada, a boca se movendo sem emitir som algum. O homem que o empurrou do alto da escada continua no lugar, tentando entender, como Sam, o que acabou de acontecer. Deve ser o terceiro.

—            Sam, eu tentei... digo.

O homem no alto da escada se vira e tenta correr, mas eu o forço a descer dois degraus. Sam olha para o sujeito desconhecido, dominado por uma força invisível, depois olha para meu braço es­tendido na direção dele. O choque é suficiente para deixá-lo sem fala.

Pego a fita adesiva, suspendo o homem no ar e o levo até o se­gundo andar, mantendo-o suspenso por todo o trajeto. Ele grita obs­cenidades enquanto o prendo a uma cadeira usando a fita, mas não escuto nada, porque minha mente está ocupada demais tentando decidir o que vamos dizer a Sam sobre os acontecimentos.

—         Cale a boca — resmungo.

Ele grita outra sequência de palavrões. Decido que já ouvi o su­ficiente e cubro sua boca com fita adesiva antes de voltar ao porão. Henri está em pé ao lado de Sam, que permanece sentado no mesmo lugar, com a mesma expressão chocada.

—         Não entendo — ele balbucia. — O que aconteceu? Henri e eu trocamos um olhar. Eu dou de ombros.

—         Quero saber o que aconteceu — Sam insiste com voz suplican­te, desesperado para saber a verdade, para ter certeza de que não é louco e de que não imaginou o que acabou de ver.

Henri suspira e balança a cabeça. Depois diz:

De que adianta?

O quê? — pergunto.

Ele me ignora, porque está olhando para Sam. Com os lábios com­primidos, ele estuda rapidamente o homem amarrado à cadeira, para ter certeza de que ainda está inconsciente, e depois se volta para Sam.

—         Não somos quem você está pensando — diz e faz uma pausa.

Sam fica em silêncio, encarando Henri. Não consigo ler sua expres­são, nem imagino o que Henri pretende dizer, se vai inventar mais uma história elaborada ou se, pelo menos uma vez, vai dizer a verdade. Espero sinceramente que ele escolha a verdade. Ele olha para mim, e movo a cabeça em sentido afirmativo, indicando que estou de acordo.

—         Chegamos à Terra há dez anos, vindos de um planeta chamado Lorien. Viemos para cá porque nosso planeta foi destruído pelos habitantes de outro, chamado Mogadore. Eles destruíram Lorien por seus recursos, porque haviam transformado o planeta deles em um poço de destruição e morte. Viemos nos esconder aqui até podermos voltar a Lorien, o que faremos um dia. Mas fomos seguidos pelos mogadorianos. Eles estão nos caçando. E acredito que estão aqui para dominar a Terra, e foi por isso que vim aqui hoje, para descobrir um pouco mais.

Sam não diz nada. Se eu houvesse contado essa história, ele não teria acreditado em mim, teria ficado nervoso, mas é Henri quem a está contando, e há certa integridade nele que eu sempre senti, e não tenho dúvida de que Sam também a sente. Ele olha para mim.

—         Eu tinha razão: você é um alienígena. Não estava brincando quando admitiu — diz.

—         Sim, você estava certo.

Ele olha novamente para Henri.

—         E aquelas histórias que me contou no dia de Halloween?

Não, aquelas eram só histórias — Henri revela. — Histórias ri­dículas que me fazem rir quando as encontro na Internet, nada mais. Mas o que acabei de lhe dizer é a mais pura verdade.

Bem... — Sam para e respira fundo, como se procurasse as pa­lavras. — O que acabou de acontecer aqui?

Henri move a cabeça em minha direção.

—         John está desenvolvendo certos poderes: telecinesia, entre ou­tros. Quando você foi empurrado, ele o salvou.

Sam ainda sorri a meu lado, observando-me. Quando o encaro, ele assente.

—         Sabia que vocês eram diferentes — ele diz.

—         Nem preciso dizer que vai ter de guardar segredo sobre tudo isso — Henri diz a Sam. Depois, olha para mim. — Precisamos de informação e precisamos sair daqui. Eles já devem estar por perto.

O cara lá em cima ainda pode estar consciente.

Vamos falar com ele.

Henri pega a arma do chão e a examina. Está carregada. Ele remove todas as balas e as deixa sobre uma prateleira, depois guarda o revól­ver no cós da calça. Ajudo Sam a se levantar, e vamos juntos ao se­gundo andar. O homem que levei até ali por meio da telecinesia ainda se debate. O outro está sentado e quieto. Henri se aproxima dele.

—         Você foi avisado — diz.

O homem concorda com a cabeça.

—         Agora vai falar — Henri continua, retirando a fita adesiva da boca do cara. — E se não falar... — Ele pega a arma e a aproxima do peito do desconhecido. — Quem veio visitá-lo?

Havia três deles — ele diz.

Bem, nós também somos três. E daí? Continue falando.

—         Eles me disseram que, se você aparecesse e eu dissesse alguma coisa, me matariam. Não vou lhe dizer mais nada.

Henri pressiona o cano da arma contra a testa do homem. Por alguma razão, isso me incomoda. Estendo a mão e movo a arma, apontando-a para o chão. Henri olha para mim com curiosidade.

Há outras maneiras — digo.

Henri se conforma e abaixa a arma.

O palco é todo seu — diz.

Eu me mantenho afastado do homem. Ele olha para mim com medo. É pesado, mas, depois de amparar Sam no meio do voo esca­da abaixo, acredito que posso levantá-lo. Estendo os braços, e todo o meu corpo se enrijece como resultado da concentração. No início nada acontece, depois, muito lentamente, ele começa a se erguer do chão. O homem se debate, mas está preso à cadeira e não pode es­capar. Eu me concentro com toda a força que possuo, e minha visão periférica registra o sorriso orgulhoso de Henri e depois o de Sam. Ontem não conseguia levantar uma bola de tênis; agora ergo uma ca­deira com um homem de mais de cem quilos sentada nela. O Legado se desenvolveu rápido.

Quando o elevo à altura dos olhos, viro a cadeira, e ele fica pen­durado de cabeça para baixo.

Pare com isso! — o homem grita.

Comece a falar.

Não! Eles disseram que me matariam!

Solto a cadeira e ele despenca. O homem grita, mas eu o detenho antes de atingir o chão. E o levanto e devolvo à posição normal.

Eram três! — ele grita, falando rapidamente. — Apareceram no mesmo dia em que distribuímos as revistas. Naquela noite.

Como eles eram? — Henri pergunta.

Como fantasmas. Quase tão pálidos quanto albinos. E usa­vam óculos de sol, mas, quando nos recusamos a falar, um deles os tirou. Tinha olhos negros e dentes pontiagudos, só que não pa­reciam ser naturalmente afiados, como os de um animal. Tive a impressão de que haviam sido quebrados e lixados. Todos usavam sobretudos e chapéus, como num filme antigo de espionagem. O que mais quer saber?

Por que eles vieram?

Queriam saber qual havia sido nossa fonte para aquela matéria. Nós dissemos. Um homem telefonou afirmando ter um furo para nós e começou a falar sobre um grupo de aliens que queria destruir nossa civilização. Mas ele telefonou no dia em que estávamos imprimindo a revista, por isso, em vez de publicarmos a história toda, adian­tamos apenas uma chamada pequena e prometemos a continuação para o número seguinte. Ele falava tão rápido que mal conseguíamos entender o que dizia. Planejávamos telefonar para ele na noite se­guinte, mas os mogadorianos chegaram antes.

Como soube que eram mogadorianos?

O que mais poderiam ser? Escrevemos uma matéria sobre os mogadorianos, e um grupo de aliens aparece aqui no mesmo dia, querendo saber de onde tiramos a história. Não foi difícil deduzir.

O homem é pesado, e tenho dificuldades para sustentá-lo. Minha testa está coberta de suor e respiro com grande dificuldade. Eu o viro novamente, desviro, começo abaixá-lo, e, quando está bem perto do chão, solto-o, e a cadeira aterrissa com um baque surdo. Curvo-me com as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego.

—         Que diabos, cara? Estou respondendo às suas perguntas — ele reclama.

Desculpe. Você é muito pesado.

E essa foi a única vez que eles vieram? — pergunta Henri.

O homem balança a cabeça.

Eles voltaram.

Por quê?

—         Para ter certeza de que não publicamos mais nada. Acho que não confiam em nós, mas o homem que ligou não atendeu mais nos­sos telefonemas, então, não tínhamos mais nada para publicar.

—         O que aconteceu com ele?

O que acha que aconteceu? — o homem devolve a pergunta. Henri concorda, movendo a cabeça.

Eles sabem onde ele mora, então?

—         Tinham o número do telefone para o qual deveríamos ligar. Não deve ter sido difícil localizá-lo.

—         Eles ameaçaram você?

—Ah, sim. Reviraram nosso escritório. Confundiram minha men­te. Desde então não sou mais o mesmo.

—         O que fizeram com sua mente?

Ele fecha os olhos e respira fundo mais uma vez.

—         Eles nem pareciam reais. Quero dizer, eram três homens falando conosco com voz rouca, grave, todos usando sobretudos, chapéus e ócu­los de sol, embora fosse noite. Era como se estivessem arrumados para uma festa de Halloween ou algo assim. Pareciam engraçados e desloca­dos, por isso ri deles no início... — A voz do homem parece perder força.

Henri permanece imóvel, Sam e eu também.

Ele continua.

Mas no instante em que ri, soube que havia cometido um erro. Os outros dois mogadorianos se aproximaram de mim retirando os óculos. Tentei desviar o olhar, mas não consegui. Aqueles olhos. Eu tinha que olhar, como se algo me atraísse para dentro deles. Era como ver a mor­te. Minha própria morte, e a morte de todas as pessoas que conheço e amo. A situação deixou de ser engraçada. Não só tive que testemunhar as mortes, mas pude senti-las também. A incerteza. A dor. O completo e total terror. Eu não estava mais naquela sala. E depois veio tudo aqui­lo de que eu tinha medo na infância. Imagens de bichinhos de pelúcia que ganhavam vida, com dentes afiados, unhas que eram como lâmi­nas. Aquelas coisas de que todas as crianças têm medo. Lobisomens. Palhaços demoníacos. Aranhas gigantes. Eu via tudo pelos olhos de uma criança, e as coisas me aterrorizavam. E cada vez que um me mor­dia, eu podia sentir os dentes rasgando minha carne, meu corpo. Sentia o sangue jorrando das feridas. Não conseguia conter os gritos.

Tentou reagir, lutar contra isso?

Eles tinham duas daquelas coisas que lembram doninhas, gordas, de pernas curtas. Não eram maiores do que um cachorro. E espumavam pela boca. Um dos homens as segurava por uma coleira, mas era fácil perceber que estavam famintas, e nós éramos a refeição. Eles disseram que as soltariam, se resistíssemos. Estou dizendo, cara, aquelas criaturas não eram da Terra. Se fossem cães, tudo bem, eu os teria enfrentado. Mas acho que aqueles bichos nos teriam devorado vivos, apesar de nos­so tamanho. E eles forçavam a coleira, grunhiam, tentavam nos alcançar.

Então, você falou?

Sim.

E quando eles voltaram?

—         Na noite anterior à publicação da última revista, há pouco mais de uma semana.

Henri olha para mim, preocupado. Há uma semana os mogadorianos estiveram em um local perto de onde moramos? Podiam estar ali ainda, em algum lugar, talvez monitorando a revista. Talvez por isso Henri sinta a presença deles ultimamente. Sam está a meu lado, atento a tudo.

Por que eles não mataram vocês, como fizeram com sua fonte?

Como posso saber? Talvez por publicarmos um material de respeito.

E como o homem que telefonou para cá sabia dos mogadorianos?

Ele disse ter capturado e torturado um deles.

Onde?

Não sei. O número de telefone dele tinha o código de área de Columbus. Uns noventa, cento e vinte quilômetros ao norte daqui.

Você falou com ele?

Sim. E não tive certeza de se ele era maluco ou não, mas já havíamos escutado boatos parecidos com isso antes. Ele começou a falar sobre os alienígenas desejarem banir a civilização como a conhecemos, e às vezes falava tão depressa que era difícil entender o que dizia. Uma frase que ele repetia muito era que os tais aliens estavam caçando alguma coisa ou alguém. Depois, ele começou a recitar números.

Meus olhos se arregalaram.

Que números? O que significavam?

Não tenho ideia. Como eu disse, ele falava tão depressa que já era difícil conseguir anotar o que dizia.

Você anotou enquanto ele falava? — Henri perguntou.

É claro que nós anotamos tudo. Somos jornalistas — ele reage, incrédulo. — Acha que inventamos as histórias que escrevemos?

Sim, eu acho — diz Henri.

—         Ainda tem essas anotações? — eu quero saber.

Ele olha para mim e assente.

—         Estou dizendo, elas são inúteis. A maior parte é só bobagem, rabiscos sobre um plano para destruir a raça humana.

Preciso vê-las — digo aflito. — Onde estão?

Ele aponta uma mesa perto de uma das paredes.

Sobre a mesa. Nos post-its.

Caminho até a mesa, que está coberta de folhas, e começo a pro­curar entre os papéis. Encontro anotações muito vagas sobre a espe­rança dos mogadorianos de conquistar a Terra. Nada concreto, ne­nhum plano ou detalhe, só algumas palavras comuns.

"Superpopulação."

"Recursos da Terra."

"Guerra biológica?"

"Planeta Mogadore."

Chego à anotação que estou procurando. Leio com cuidado, três ou quatro vezes.

 

Planeta Lorien? O Lorieno?

1-3 mortos

4?

7 Rastreada na Espanha

9 em fuga na AS

 

(Do que ele está falando? O que esses números têm a ver com invadir a Terra?)

 

—         Por que há um ponto de interrogação depois do número 4? — pergunto.

Porque ele falava muito depressa, e não consegui entender.

Você só pode estar brincando!

Ele balança a cabeça. Eu suspiro. Que sorte a minha, penso. O que foi dito a meu respeito é justamente o que não foi anotado.

O que significa AS? — pergunto.

América do Sul.

Ele disse em que lugar da América do Sul?

Não.

Olho para o papel. Gostaria de ter ouvido essa conversa, de ter feito perguntas. Os mogadorianos realmente sabem onde está a Nú­mero Sete? Eles a seguem? Nesse caso, o feitiço lórico ainda pre­valece. Dobro a folha com as anotações e a guardo no bolso de trás da calça.

Sabe o que significam os números? — ele pergunta.

Balanço a cabeça.

Não tenho idéia.

Não acredito em você.

—            Cale a boca — Sam se manifesta, cutucando a barriga dele com o taco de beisebol.

—            Tem mais alguma informação que possa me dizer? — pergunto.

Ele pensa por um instante, depois diz:

—            Acho que luzes brilhantes os incomodam. Parece que sentem dor quando têm que olhar para elas sem os óculos escuros.

Ouvimos um barulho lá embaixo. Como se alguém tentasse abrir uma porta bem lentamente. Nós nos entreolhamos. Fito o homem na cadeira.

Quem é? — pergunto em voz baixa.

São eles.

O quê?

—            Eles disseram que ficariam observando. Sabiam que alguém se aproximava.

Ouvimos passos abafados no primeiro andar. Henri e Sam se olham, apavorados.

Por que não nos avisou?

Eles disseram que nos matariam. E matariam minha família.

Corro até a janela, olho para o quintal. Estamos no segundo an­dar. A queda até o chão é de seis metros. Há uma cerca em torno do quintal. São dois metros e meio de estacas de madeira. Volto cor­rendo para a escada e olho para baixo. Vejo três silhuetas grandes usando sobretudos, chapéus e óculos escuros. Eles carregam longas espadas brilhantes. Não podemos descer pela escada. Meus Legados se fortalecem, mas ainda não são suficientes para enfrentar três mogadorianos. A única saída é pular uma das janelas ou escapar pela varanda no fundo do andar. As janelas são menores, mas pelo quin­tal podemos fugir sem sermos vistos. Se sairmos pela frente, eles provavelmente nos verão. Ouço ruído vindo do porão e os mogadorianos conversando num idioma feio, gutural. Dois deles se dirigem ao porão enquanto um terceiro começa a caminhar para a escada, que o trará até onde estamos.

Tenho um ou dois segundos para agir. As janelas se quebrarão se sairmos por elas. Nossa única chance são as portas que levam à va­randa do segundo andar. Eu as abro usando telecinesia. Está escuro lá fora. Ouço passos subindo a escada. Trago Sam e Henri para perto de mim e os jogo sobre os ombros, como se fossem sacos de batatas.

O que está fazendo? — Henri cochicha.

Não faço a menor ideia — respondo. — Mas espero que funcione.

Quando vejo o topo do chapéu do primeiro mogadoriano, corro para a porta e, a um passo do patamar da varanda, eu salto. Voamos pelo céu escuro. Por dois ou três segundos, estamos flutuando. Vejo os carros passando na rua lá embaixo. Vejo pessoas na calçada. Não sei onde vamos aterrissar, ou se meu corpo vai sustentar todo o peso que estou carregando. Quando tocamos o telhado de uma casa do outro lado da rua, caio com Sam e Henri por cima de mim. Fico sem ar e tenho a sensação de que minhas pernas estão quebradas. Sam começa a se levantar, mas Henri o mantém abaixado. Ele me puxa ató a beirada do telhado e pergunta se posso usar telecinesia para levar Sam e ele ao chão. Eu posso e os transporto. Ele me diz que preciso pular. Levanto-me sobre pernas trêmulas e ainda doloridas e, pouco antes de pular, eu me viro e vejo os três mogadorianos na varanda do outro lado da rua, confusos. Suas espadas brilham. Sem um segundo a perder, nós escapamos sem que eles nos vejam.

 

Chegamos à caminhonete de Sam. Ele e Henri precisam me ajudar a andar. Bernie está lá, esperando por nós. Decidimos deixar a ca­minhonete de Henri, porque eles provavelmente vão reconhecê-la e rastreá-la. Deixamos Athens, e Henri dirige de volta a Paradise, que talvez faça jus ao nome depois da noite que tivemos.

Henri conta tudo a Sam, desde o início. Ele não para até entramos em casa. Ainda está escuro. Sam olha para mim.

Incrível — ele diz e sorri. — Nunca ouvi nada mais legal. — Olho para ele e vejo a confirmação que ele sempre procurou na vida, uma afir­mativa de que o tempo que ele passou com o nariz nas teorias de conspiração, procurando pistas do desaparecimento do pai, não foi em vão.

Você é mesmo resistente ao fogo? — ele pergunta.

Sim — confirmo.

Deus, isso é incrível.

Obrigado, Sam.

Pode voar?

No início penso que a pergunta é uma piada, mas logo percebo que ele não está brincando.

Não. Sou resistente ao fogo e posso acender luzes nas mãos. Tenho a habilidade da telecinesia, que só aprendi a usar ontem. Mais Legados devem se formar em breve. Quero dizer, é o que pensamos. Mas nem imagino quais serão, até que eles se desenvolvam.

Espero que aprenda a ficar invisível — diz Sam.

Meu avô conseguia. E tudo o que ele tocava também ficava invisível.

É sério?

Sim.

Ele começa a rir.

Ainda não acredito que vocês dois foram até Athens sozinhos, dirigindo — diz Henri. — Vocês são inacreditáveis. Quando paramos para abastecer, notei que o licenciamento está vencido há dois anos. Não sei como conseguiram chegar sem serem parados.

Bem, a partir de agora vocês podem contar comigo — diz Sam. — Farei tudo o que puder para ajudar a detê-los. Principalmente porque posso apostar que foram eles que levaram meu pai.

Obrigado, Sam Henri responde. — A coisa mais importante que você pode fazer é guardar nosso segredo. Se mais alguém souber disso, podemos morrer.

Não se preocupem, nunca direi nada a ninguém. Não quero que John use os poderes dele contra mim.

Nós rimos, agradecemos por tudo que Sam fez por nós, e ele vai embora. Henri e eu entramos. Dormi no caminho de volta, mas ain­da estou exausto. Eu me deito no sofá. Henri se senta em uma cadei­ra à minha frente.

Sam não vai contar nada — eu digo.

Ele não responde, apenas olha para o chão.

Eles não sabem que estamos aqui — continuo.

Ele olha para mim.

—         Não sabem — insisto. — Se soubessem, estariam nos seguin­do agora.

Ele fica em silêncio. Não consigo suportar.

—         Não vou deixar Ohio por causa de uma mera especulação.

Henri se levanta.

—         Estou feliz por ter feito um amigo. E acho Sarah ótima. Mas não podemos ficar. Vou começar a arrumar as malas — ele anuncia.

—         Não.

—         Quando tudo estiver pronto, irei à cidade para comprar uma caminhonete nova. Precisamos sair daqui. Talvez eles não nos te­nham seguido, mas sabem que estão muito perto de nos pegar e que ainda podemos estar próximos. Acredito que o homem que telefo­nou para a revista tenha realmente capturado um deles. Foi essa a história: ele capturou e torturou um dos mogadorianos até que falas­se e depois o matou. Não sabemos que tipo de tecnologia de rastreamento eles têm, mas não creio que vão levar muito tempo para nos encontrar. E, quando isso acontecer, nós morreremos. Seus Legados estão emergindo, e sua força está crescendo, mas você não chegou nem perto de estar preparado para lutar contra eles.

Ele sai da sala. Eu me sento. Não quero ir embora. Pela primeira vez na vida tenho um amigo de verdade. Um amigo que sabe o que eu sou e não tem medo, e que não pensa que sou maluco. Um amigo que está disposto a lutar por mim, correr perigo por mim. E tenho uma namorada. Alguém que deseja estar comigo, mesmo sem saber quem eu sou. Alguém que me faz feliz, alguém por quem eu luta­ria ou que eu protegeria mesmo se tivesse de me expor ao perigo. Meus Legados ainda não emergiram completamente. Derrubei três homens adultos. Eles não tiveram a menor chance. Foi como lutar contra crianças pequenas. Eu poderia ter feito o que quisesse com eles. Também sabemos agora que os humanos são capazes de enfren­tar, capturar, ferir e matar mogadorianos. Se eles podem, eu também posso, definitivamente. Não quero partir. Tenho um amigo, uma na­morada. Não vou embora.

Henri volta à sala. Ele tem nas mãos a Arca Lórica, que é nosso bem mais precioso.

Henri... — eu começo.

Sim?

Não vamos embora.

Sim, nós vamos.

Você pode ir, se quiser. Eu fico e vou morar com Sam. Não sairei daqui.

Não pode decidir.

Não? Sempre pensei que eu fosse o procurado. Que eu esti­vesse em perigo. Você pode ir agora, e os mogadorianos nunca vão buscá-lo. Pode levar uma vida longa, boa e normal. Pode fazer o que quiser. Eu não posso. Eles sempre estarão atrás de mim. Sempre estarão tentando me encontrar e me matar. Tenho quinze anos. Não sou mais uma criança. A decisão é minha, sim.

Ele me encara por um minuto.

—         Ótimo discurso, mas não muda nada. Pegue suas coisas. Esta­mos indo embora.

Levanto minha mão, aponto para ele e o ergo do chão. Henri fica tão chocado que nada diz. Eu me levanto e o movo para um canto da sala, perto do teto.

Vamos ficar — insisto.

Ponha-me no chão, John.

Vou pôr, quando você concordar comigo.

É perigoso demais.

Não sabemos. Eles não estão em Paradise. Talvez nem imagi­nem que nós estamos aqui.

Ponha-me no chão.

Não até você concordar em ficar.

ponha-me no chão.

Não respondo. Apenas o mantenho suspenso. Ele se debate, tenta empurrar a parede e o teto, mas não pode se mover. Meu poder o mantém onde eu quero. E eu me sinto forte assim. Mais forte do que jamais me senti em toda a minha vida. Não vou partir. Amo a vida que tenho em Paradise. Amo ter um amigo de verdade e amo minha namorada. Estou preparado para lutar por aquilo que amo, seja con­tra os mogadorianos, seja contra Henri.

Você sabe que não vai descer até eu colocá-lo no chão.

Você está agindo como uma criança.

Não. Estou agindo como alguém que começa a compreender quem é e o que pode fazer.

E vai mesmo me manter aqui em cima?

Até eu dormir ou me cansar, mas depois, quando estiver des­cansado, eu o colocarei de volta aí no alto.

Tudo bem, podemos ficar. Sob certas condições.

Quais?

Ponha-me no chão e vamos conversar.

Eu o deixo descer, coloco-o no chão. Ele me abraça. Estou surpre­so, esperava que ele ficasse zangado. Ele me solta e nós nos senta­mos no sofá.

Estou orgulhoso de seu progresso. Passei muitos anos queren­do e preparando o terreno para tudo o que está acontecendo, para a chegada de seus Legados. Você sabe que toda a minha vida se resume em mantê-lo seguro, em torná-lo forte. Jamais me perdoaria se algo acontecesse a você. Se morresse sob minha vigilância, não sei como eu poderia continuar vivendo. Com o tempo os mogadorianos vão nos encontrar. Quero estar preparado para quando isso acontecer e acho que você ainda não está, embora você se sinta pronto. Ainda tem um longo caminho a percorrer. Podemos ficar aqui, por enquan­to, se aceitar que o treinamento vem em primeiro lugar. Antes de Sarah, antes de Sam, antes de tudo. E, ao primeiro sinal de que eles se aproximam, de que encontraram nosso rastro, nós partimos, sem discussão, sem relutância, sem me fazer levitar.

- Combinado. — Aceito, sorrindo.

 

O INVERNO CHEGA CEDO E COM GRANDE RIGOR EM PARADISE, OHIO. PRIMEIRO o vento, depois o frio, em seguida a neve. No início uma poeira fina e gelada, depois uma nevasca que cobre tudo, e o som das máquinas que removem a neve se torna tão constante quanto o do vento, deixando em tudo uma camada de sal. As aulas são suspensas por dois dias. A neve perto das estradas passa do branco ao marrom e acaba se derretendo em poças pegajosas que nunca secam. Henri e eu nos dedicamos ao treina­mento dentro e fora de casa. Agora já consigo equilibrar no ar três bolas sem tocá-las, o que também significa que sou capaz de erguer mais de um objeto por vez. E os objetos são cada vez maiores, mais pesados. A mesa da cozinha, a máquina de remover neve que Henri comprou há uma semana ou nossa nova caminhonete, que é parecida com a velha e com milhões de outras nos Estados Unidos. Se posso levantar esses objetos fisicamente, usando meu corpo, também posso erguê-los usan­do apenas a mente. Henri acredita que a força de minha mente um dia vai transcender minha força física.

As árvores no quintal são como sentinelas à nossa volta, os galhos congelados lembram peças de vidro oco, com alguns centímetros de fino pó branco sobre cada um deles. A neve acumulada alcança a al­tura do joelho, exceto pelo caminho estreito que Henri abriu. Bernie Kosar está sentado na varanda dos fundos, assistindo a tudo. Nem ele quer sair e enfrentar o cenário gelado.

—         Tem certeza disso? — pergunto.

—         Você precisa aprender a lidar com isso — Henri insiste. Atrás dele, observando tudo com curiosidade mórbida, está Sam.

É a primeira vez que ele assiste a nosso treino.

—         Por quanto tempo isso vai queimar? — pergunto.

—         Não sei.

Estou vestindo um macacão altamente combustível feito de fibras naturais encharcadas em óleos, alguns de combustão lenta, outros nem tanto. Quero botar fogo logo em tudo só para me livrar do cheiro que me faz lacrimejar. Respiro profundamente.

—         Pronto? — ele pergunta.

—         Como nunca.

—         Não respire. Você não é imune à fumaça ou aos vapores, e seus órgãos internos podem se queimar.

—         Isso me parece uma tolice — argumento.

—         Faz parte de seu treinamento. Resistência sob pressão. Precisa aprender a realizar múltiplas tarefas enquanto é consumido pelo fogo.

—         Mas por quê?

—         Porque, quando chegar a hora da batalha, estaremos em minoria. O fogo vai ser um de seus grandes aliados na guerra. Precisa aprender a lutar enquanto se queima.

—         Ai...

—         Se perceber algum problema, jogue-se na neve e role.

Olho para Sam, que está sorrindo. Ele segura um grande extintor de incêndio, caso eu precise de ajuda.

—         Eu sei — respondo.

Todos ficam em silêncio enquanto Henri lida com os fósforos.

—         Você parece o Pé Grande com esse macacão — Sam comenta.

—         Cale a boca, Sam — respondo.

—         Lá vamos nós — Henri anuncia.

Inspiro fundo antes de a chama do fósforo tocar o macacão. O fogo envolve meu corpo. Não é natural, para mim, manter os olhos abertos, mas evito fechá-los. Olho para cima. As labaredas ultrapassam minha altura em mais de dois metros. O mundo todo se cobre de tons de laranja, vermelho e amarelo. Posso sentir o calor, mas só moderadamente, como os raios de sol em um dia de verão. Nada além disso.

—         Agora! — grita Henri.

Abro os braços, mantenho os olhos bem abertos, prendo a respiração. Sinto-me flutuando. Penetro na neve profunda e ela começa a derreter, e meus passos provocam a formação de uma nuvem de vapor. Estendo a mão direita e levanto um tijolo de concreto, mas tenho a sensação de que ele é mais pesado do que o normal. Porque não estou respirando? Pelo estresse de estar em chamas?

—         Não perca tempo! — Henri grita.

Arremesso o tijolo com toda a força que possuo contra uma árvore morta quinze metros adiante. A força do impacto o destroça em milhões de pequenos pedaços e abre um buraco na madeira. Depois ergo três bolas de tênis ensopadas de gasolina. Eu as equilibro no ar, uma sobre a outra, como um malabarista. E as trago para perto do meu corpo. Elas se incendeiam, e ainda as equilibro — e enquanto isso, ergo um cabo de vassoura fino e comprido. Fecho os olhos. Meu corpo está quente. Talvez eu esteja suando. Se estiver, o suor deve evaporar no segundo em que brota na superfície da pele.

Ranjo os dentes, abro os olhos, impulsiono o corpo e direciono todo o meu poder para o núcleo do cabo de vassoura. Ele explode em pequenos fragmentos. Não os deixo cair no chão: mantenho-os suspensos, como se formassem uma nuvem de poeira pairando no ar. Eu os trago para mim e os deixo queimar. A madeira estala em meio ao zumbido das chamas. Reúno os fragmentos, formando uma massa compacta de fogo que parece ter brotado da profundeza do inferno.

—         Perfeito! — grita Henri.

Um minuto se passou. Meus pulmões começam a arder por causa do fogo, porque ainda não estou respirando. Concentro toda a minha força na massa incandescente e a arremesso com tanta violência, que ela corta o ar como uma bala e se choca contra a árvore, espalhando centenas de pequeninos pontos de fogo em todas as direções e se extinguindo quase imediatamente. Imaginei que a madeira morta fosse pegar fogo, mas não é o que acontece. E derrubei as bolas de tênis. Elas caem na neve perto de mim, e ouço um chiado.

—         Esqueça as bolas — Henri me orienta. — A árvore. Concentre-se na árvore.

A madeira morta parece fantasmagórica, com seus galhos retorcidos recortados contra o mundo branco além dela. Fecho os olhos. Não consigo mais ficar sem respirar. Frustração e raiva começam a surgir, alimentadas pelo fogo, pelo desconforto do macacão e pelas tarefas que não consegui cumprir. Escolho um dos galhos maiores e tento quebrado, mas ele continua preso ao tronco. Aperto os dentes e franzo a testa, e finalmente um estalo corta o ar como um tiro, e o galho vem voando em minha direção. Eu o pego com as mãos e o seguro à minha frente. Deixe-o queimar, penso. Deve ter uns seis metros de comprimento. Finalmente, ele se incendeia, e eu o levanto acima da cabeça e, sem tocá-lo, o cravo no chão, como se estabelecesse meu domínio, do mesmo modo que um espadachim do velho mundo se apoderando do topo da colina depois de vencer a guerra. O galho se retorce, fumegante, as chamas dançando sobre sua metade superior. Abro a boca e respiro num ato instintivo, e as chamas invadem meu corpo; um ardor instantâneo se espalha. Fico absolutamente chocado, e aquilo dói tanto que não sei o que fazer.

—         A neve! A neve! — grita Henri.

Mergulho de cabeça e começo a rolar. O fogo se extingue quase imediatamente, mas continuo rolando, ouvindo o chiado sempre que a neve toca o macacão em frangalhos. Fumaça e vapor se desprendem de mim. Finalmente Sam remove o clipe de segurança do extintor e descarrega em mim o pó branco que torna ainda mais difícil o simples ato de respirar.

—         Não — eu grito.

Ele para. Fico ali deitado, tentando recuperar o fôlego, mas cada inspiração provoca uma dor nos pulmões que reverbera por todo o meu corpo.

—         Não devia respirar, John — Henri comenta quando se debruça sobre mim.

—         Não consegui evitar.

—         Tudo bem? — Sam pergunta.

—         Meus pulmões ardem.

Tudo é nebuloso, mas aos poucos o mundo volta ao normal. Permaneço deitado, olhando para o céu cinzento e baixo, e flocos de neve começam a cair sobre nós.

—         E então, como me saí?

—         Nada mal para a primeira tentativa.

—         Vamos fazer isso de novo, não vamos?

—         Com o tempo, sim.

—         Foi muito legal — Sam opina.

Eu suspiro, depois respiro profundamente e bem devagar, testando meus pulmões.

—         Foi horrível.

—         Você foi muito bem para a primeira vez — Henri repete. — Não pode esperar que tudo seja fácil.

Concordo movendo a cabeça. Continuo ali, deitado, por um ou dois minutos, até Henri estender a mão e me ajudar a levantar, encerrando mais um dia de treinamento.

Acordo no meio da noite dois dias mais tarde. O relógio marca 2:57. Ouço Henri trabalhando na cozinha. Saio da cama e vou até lá. Ele está debruçado sobre um documento, usando os bifocais e segurando uma espécie de selo com uma pinça. Ele ergue os olhos ao perceber minha presença.

—         O que está fazendo? — pergunto.

—         Criando documentos para você.

—         Para quê?

—         Não consigo parar de pensar em você e Sam dirigindo pela estrada para me buscar. Acho que é tolice seguirmos usando sua verdadeira idade, se podemos simplesmente alterá-la de acordo com nossas necessidades.

Pego uma certidão de nascimento que ele acabou de fazer. O nome escrito no documento é James Hughes. A data de nascimento me faz um ano mais velho. De acordo com essa certidão, tenho dezesseis anos e posso dirigir. Eu me aproximo para estudar a certidão que ele ainda está criando. O nome agora é Jobie Frey, dezoito anos. A maioridade legal.

—         Por que não pensamos nisso antes? — questiono.

—         Porque nunca tivemos motivo.

Papéis de diferentes formatos, tamanhos e texturas estão espalhados pela mesa, ao lado de uma grande impressora. Frascos de tinta, carimbos de madeira, selos de cartório, coisas que lembram placas de metal, várias ferramentas que parecem ter saído do consultório de um dentista. O processo da criação de documentos sempre me pareceu estranho.

—         Vamos mudar minha idade agora?

Henri balança a cabeça.

—         É tarde demais para trocar sua idade em Paradise. Os documentos são para o futuro. Quem sabe o que pode acontecer, o que tornará necessário usá-los?

A idéia de me mudar no futuro me causa náuseas. Prefiro continuar com quinze anos e nunca poder dirigir a me mudar para um lugar novo.

 

Sarah volta do Colorado uma semana antes do Natal. Passei oito dias sem vê-la. Tenho a sensação de que foi um mês. A van deixa todas as garotas na escola, e uma delas a deixa de carro em minha casa, em vez de levá-la para a casa dela. Quando ouço o som dos pneus na entrada de cascalho, vou recebê-la com um abraço e um beijo, tirando-a do chão e a girando no ar. Ela acabou de passar dez horas viajando de avião e de carro, veste moletom, não usa maquiagem e tem os cabelos presos num rabo de cavalo, mas é a garota mais linda que eu já vi, e não quero soltá-la. Nós nos olhamos sob a luz da lua e tudo o que conseguimos fazer é sorrir.

—         Sentiu minha falta? — ela pergunta.

—         Cada segundo de cada dia.

Ela beija a ponta de meu nariz.

—         Também senti sua falta.

—         Então, os animais têm um novo abrigo?

—         Ah, John, foi maravilhoso! Gostaria que pudesse ter estado lá comigo. Contamos com a ajuda de umas trinta pessoas, o tempo todo. O prédio subiu tão depressa! E ficou muito melhor do que era. Construímos uma árvore para os gatos em um canto, e, durante todo o tempo que passamos lá, havia gatos brincando nela.

Eu sorrio.

—         Deve ter sido incrível. Queria ter estado lá também. Pego sua mochila e entramos juntos em casa.

—         Onde está Henri? — ela pergunta.

—         No supermercado. Ele saiu há uns dez minutos.

Ela atravessa a sala e deixa o casaco nas costas de uma cadeira a caminho de meu quarto. Sarah se senta na beirada de minha cama e tira os sapatos.

—         O que vamos fazer? — ela me pergunta.

Fico ali parado, olhando para ela. O moletom vermelho tem capuz e zíper na frente, mas está fechado apenas até a metade. Ela sorri e me olha de baixo.

—         Venha aqui — Sarah diz, estendendo as mãos para mim.

Eu me aproximo e ela segura minhas mãos. Quando me encara, estreita os olhos para protegê-los do brilho da lâmpada no teto. Estalo os dedos da mão livre, e a luz se apaga.

—         Como fez isso?

—         Mágica — respondo.

Eu me sento ao lado dela. Sarah ajeita os cabelos atrás da orelha, depois se inclina e me beija no rosto. Em seguida, ela segura meu queixo, aproxima meu rosto do dela e me beija novamente, dessa vez mais devagar, delicadamente. Todo o meu corpo desperta, respondendo ao beijo. Ela se afasta, mas mantém a mão em meu rosto, traçando o dedo de minha sobrancelha com o polegar.

—         Senti saudades de você, de verdade — ela diz.

—         Eu também.

Ficamos em silêncio. Sarah morde o lábio.

—         Mal podia esperar para chegar aqui — ela fala. — Todo o tempo que passei no Colorado, não consegui tirar você da cabeça. Mesmo quando estava brincando com os animais, queria que você estivesse lá comigo. E hoje de manhã, quando finalmente viemos embora, a viagem foi um inferno, mesmo sabendo que cada quilômetro percorrido era um quilômetro a menos separada de você.

Ela sorri, principalmente com os olhos, os lábios formando uma meia-lua fina que esconde os dentes. Sarah me beija outra vez, um beijo que começa lento e suave e progride. Estamos sentados na beirada da cama, as mãos dela tocam meu rosto, as minhas encontram a curva de suas costas. Posso sentir os contornos firmes sob meus dedos, sentir o sabor de frutas do brilho labial. Eu a puxo para mim.

É como se o contato não fosse suficiente, embora nosso corpo esteja pressionado e colado. Minha mão desliza por suas costas, sentindo a textura de porcelana da pele macia. Afago seus cabelos, e nós dois respiramos com dificuldade. Caímos deitados de lado na cama. Estamos de olhos fechados. Eu abro os meus repetidamente para vê-la. O quarto está escuro, exceto pelo luar que penetra as janelas. Ela me surpreende olhando seu rosto, e nós paramos de nos beijar. Sarah encosta a testa na minha e olha para mim.

Ela segura minha nuca e me puxa, e imediatamente voltamos a nos beijar. Abraçados. Enroscados. Colados. Minha mente está livre dos tormentos que costumam visitá-la e de todos os pensamentos sobre outros planetas, livre da caçada dos mogadorianos. Sarah e eu na cama nos beijando, um sobre o outro. Nada mais tem importância. Nada.

Então, a porta da sala se abre. Nós dois pulamos.

—         Henri chegou — eu digo.

Nós nos levantamos e nos ajeitamos apressadamente as roupas amarrotadas, sorrindo, compartilhando um segredo que nos faz rir quando saímos do quarto de mãos dadas. Henri está colocando a sacola de compras na bancada da cozinha.

—         Oi, Henri — Sarah o cumprimenta.

Ele sorri para ela. Sarah solta minha mão e vai abraçá-lo, e os dois começam a conversar sobre a viagem dela ao Colorado. Vou lá fora buscar o restante das compras. Respiro o ar frio, tento tirar do corpo a tensão pelo que acabou de acontecer, superar a decepção provocada pela chegada de Henri. Ainda estou ofegante quando volto à cozinha carregando as compras. Sarah está contando a Henri sobre os gatos no abrigo.

—         Não trouxe nenhum para nós?

—         Se tivesse falado antes, Henri, eu teria trazido com o maior prazer — ela responde, cruzando os braços sobre o peito e se apoiando com o quadril na bancada.

Henri sorri para ela.

—         Eu sei que teria.

Ele fica guardando as compras, e Sarah e eu saímos para caminhar um pouco ao ar frio enquanto esperamos pela mãe dela. Bernie Kosar passeia conosco. Ele corre na nossa frente. Sarah e eu atravessamos o quintal de mãos dadas, apesar de a temperatura ser quase zero. A neve está derretendo, o solo molhado é escorregadio. Bernie Kosar desaparece por um tempo no meio das árvores e volta correndo. Sua metade inferior está imunda.

—         Que horas sua mãe vem? — pergunto.

Ela olha para o relógio.

—         Em vinte minutos.

Assinto.

—         Estou muito feliz por ter voltado.

—         Eu também.

Vamos até a entrada da floresta, mas a escuridão nos impede de seguir adiante. Então, caminhamos pelo perímetro do quintal de casa, de mãos dadas, parando de vez em quando para trocar um beijo sob a lua e as estrelas. Nenhum de nós fala sobre o que acabou de acontecer, mas é óbvio que nós dois pensamos a respeito. A mãe de Sarah chega dez minutos antes do combinado. Sarah corre para abraçá-la. Eu entro para buscar a mochila dela na sala. Nós nos despedimos, e eu fico observando a luz dos faróis do automóvel desaparecer na estrada. Fico ali fora por mais alguns minutos e depois entro na companhia de Bernie Kosar. Henri está preparando o jantar. Vou dar banho no cachorro, e, quando volto, a comida está pronta.

Nós nos sentamos à mesa e comemos sem conversar. Não consigo parar de pensar nela. Olho para meu prato sem realmente vê-lo. Não sinto fome, mas tento comer. Consigo engolir alguma porção, mas logo empurro o prato e fico ali sentado em silêncio.

—         Vai me contar? — Henri pergunta.

—         Contar o quê?

—         Em que está pensando.

—         Não sei.

Ele assente e volta a comer. Eu fecho os olhos. Ainda posso sentir o cheiro de Sarah na gola da camisa, a pressão da mão dela em meu rosto. Seus lábios nos meus, a textura dos cabelos quando os afaguei. E não consigo parar de pensar nela, no que está fazendo e em como gostaria de que ainda estivesse aqui.

—         Acha que é possível sermos amados? — pergunto.

—         Do que está falando?

—         Humanos. Acha que eles podem sentir amor por nós? Quero dizer, amor de verdade.

—         Acho que eles podem nos amar como amam uns aos outros, especialmente se não sabem o que somos, mas não creio que seja possível amar uma humana como você amaria uma loriena.

—         Por quê?

—         Porque somos diferentes deles. E amamos de maneira diferente. Um dos dons dos seres de nosso planeta é amar completamente. Sem ciúme, insegurança ou medo. Sem mesquinhez. Sem raiva. Você pode ter sentimentos intensos por Sarah, mas não são os mesmos sentimentos que você teria por uma garota loriena.

—         Não há muitas delas disponíveis no momento.

—         Mais uma razão para ter cuidado com Sarah. Em algum momento, se continuarmos vivos por tempo suficiente, vamos ter que restaurar nossa raça e repovoar nosso planeta. E óbvio que você ainda está muito longe de precisar se preocupar com isso, mas eu não contaria com Sarah como sua parceira.

—         O que acontece se tentarmos ter filhos com humanos?

—         Aconteceu muitas vezes antes. Normalmente, o resultado é um humano excepcionalmente talentoso e com muitas habilidades. Algumas das grandes figuras da história da Terra eram filhos de humanos e lorienos, como Buda, Aristóteles, Júlio César, Alexandre, o Grande, Gêngis Khan, Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Thomas Jefferson e Albert Einstein. Muitos dos antigos deuses gregos, que muitas pessoas acreditam serem apenas seres mitológicos, eram, na verdade, filhos de humanos e lorienos, especialmente porque naquela época era muito mais comum a presença de nosso povo neste planeta, e nós ajudávamos no desenvolvimento da civilização humana. Afrodite, Apolo, Hermes e Zeus eram reais, e filhos de lorienos e humanos.

—         Então é possível.

—         Era. Em nossa atual situação, é incauto e impraticável. Na verdade, embora não saiba seu número nem sua localização, uma das crianças que veio conosco para a Terra é filha dos melhores amigos de seus pais. Eles costumavam brincar, diziam que vocês dois estavam destinados a ficarem juntos. Talvez seja verdade.

—         Então, o que eu faço?

—         Aproveite seu tempo com Sarah, mas não se apegue demais a ela e não permita que ela se apegue demais a você.

—         Está falando sério?

—         Confie em mim, John. Se não acredita em mais nada do que eu digo, acredite nisso, pelo menos.

—         Acredito em tudo o que você diz, mesmo não querendo acreditar.

Henri pisca para mim.

—         Ótimo — ele diz.

Mais tarde eu ligo para Sarah de meu quarto. Penso no que Henri me disse, mas não consigo me conter. Gosto dela. Acho que estou apaixonado por ela. Conversamos por duas horas. É meia-noite quando desligamos. Eu me deito na cama e fico sorrindo na escuridão.

 

O DIA FICOU ESCURO. A NOITE QUENTE TRAZ UM VENTO SUAVE E O CÉU ESTÁ salpicado por luzes que piscam sem parar, nuvens que se tornam azuis, vermelhas e verdes. Fogos de artifício. Fogos que se transformam em algo mais, algo mais estrondoso, mais ameaçador, os ohs e ahs se transformando em gritos e choro. Eu, no meio de tudo aquilo, observo sem poder fazer algo para ajudar. Soldados e bestas entram em cena e se espalham em todas as direções, como já vi antes, bombas caem e explodem continuamente com um estrondo que fere os ouvidos, e eu sinto as reverberações no estômago. O barulho é tão ensurdecedor, que meus dentes rangem. Os lorienos reagem com tanta intensidade, tanta coragem, que me orgulho de estar entre eles, de ser um deles.

Então desapareço, sou transportado pelo ar numa velocidade que faz o mundo lá embaixo passar por mim como um raio, impedindo-me de focar qualquer coisa. Quando paro, estou em pé na pista de um aeroporto. Há uma aeronave prateada adiante, e cerca de qua¬renta pessoas se preparam para embarcar nela. Duas já entraram e estão na porta com os olhos voltados para o céu, uma menina muito nova e uma mulher da idade de Henri. Então eu me vejo, aos quatro anos, chorando, com os ombros caídos. A meu lado noto uma versão muito mais jovem de Henri. Ele também está olhando para o céu. Ajoelhada à minha frente está minha avó, segurando-me pelos ombros. Meu avô está em pé atrás dela, o rosto endurecido, distraído, as lentes de seus óculos refletindo a luz do céu.

—         Volte para nós, está ouvindo? Volte para nós — diz minha avó. Queria ter ouvido as palavras que ela falou antes dessas. Até agora, não tinha lembrado de nada do que haviam me dito naquela noite. Mas agora recordo parte. Meu eu de quatro anos de idade não responde. Está assustado demais. Ele não entende o que está acontecendo, por que tanta urgência e tanto medo nos olhos de todos que o cercam. Minha avó me abraça rapidamente e depois me solta, levanta-se, e se vira para não me deixar ver que está chorando. Meu eu de quatro anos sabe que ela chora, mas não sabe por quê.

Depois é a vez de meu avô, que está coberto de suor, cinzas e sangue. Ele esteve lutando, e seu rosto tenso dá a impressão de que continua compenetrado, pronto para lutar mais, pronto para fazer tudo o que puder no esforço pela sobrevivência. Dele e do planeta. Ele se ajoelha à minha frente como minha avó fez. Pela primeira vez eu olho em volta. Pedaços de metal retorcido, blocos de concreto, grandes buracos no chão, onde as bombas caíram. Fogo em vários pontos, vidro quebrado, sujeira, árvores derrubadas. E, no meio de tudo isso, uma pista de pouso, inteira, aquela de onde vamos partir.

—         Devemos ir! — alguém grita. Um homem de olhos e cabelos escuros. Não sei quem ele é. Henri o encara e move a cabeça em sentido afirmativo. As crianças sobem a rampa. Meu avô olha para mim com ar muito sério. Ele abre a boca para falar. Mas, antes que as palavras saiam de sua boca, sou novamente levado para longe, arremessado no ar, e mais uma vez o mundo lá embaixo passa por mim como um filme acelerado. Tento decifrá-lo, mas estou viajando depressa demais. As únicas imagens discerníveis são as das bombas caindo continuamente, grandes explosões de fogo e cores inundando o céu noturno.

Paro novamente.

Estou dentro de um edifício muito grande e aberto, um lugar que nunca vi. Silêncio. O teto é arredondado. O piso é uma grande placa de concreto do tamanho de um campo de futebol. Não há janelas, mas os sons das bombas ainda penetram no local, ecoando nas paredes que me cercam. Parado no meio deste espaço, altivo e orgulhoso, vejo um foguete branco cuja altura se iguala à do ponto mais alto do teto.

Uma porta se abre com estrondo no canto mais afastado. Eu me viro na direção do som. Dois homens entram, apressados, nervosos, falando alto e rápido. Imediatamente, um rebanho de animais os segue. Quinze, mais ou menos, mudando de forma continuamente. Alguns voam, outros correm sobre duas patas, depois sobre quatro. Atrás do rebanho, um terceiro homem aparece e fecha a porta. O primeiro cara chega à espaçonave, abre um pequeno alçapão no fundo do foguete e começa a tocar os animais para dentro.

— Vão! Vão! Para dentro e para cima — ele grita.

Os animais obedecem, todos eles mudando de forma para entrar no foguete. Depois que o último passa pelo alçapão, um dos homens os segue. Os outros dois começam a jogar caixas e sacolas para ele. São necessários cerca de dez minutos para embarcar toda a bagagem. Todos estão suados, movendo-se freneticamente até que tudo fique pronto. Pouco antes de os três embarcarem ali, alguém aparece correndo com um embrulho que parece ser um bebê, embora eu não possa enxergar de onde estou. Eles pegam o pacote, seja o que for, e o levam para dentro. Em seguida as portas se fecham atrás deles e são lacradas. Minutos passam sem que nada aconteça. As bombas agora devem explodir bem ao lado das paredes. E, de repente, do nada, uma explosão acontece dentro do prédio, e eu vejo o fogo sob a aeronave, chamas que crescem rapidamente e consomem tudo no edifício. Um fogo que consome inclusive a mim.

Meus olhos se abrem. Estou em casa, em Ohio, deitado na cama. O quarto está escuro, mas sinto que não estou sozinho. Uma figura se move, uma sombra passa por cima da cama. Fico tenso, preparo-me para acender minhas luzes e arremessar o intruso contra a parede.

—         Estava falando — diz Henri. — Você falou enquanto dormia.

Acendo minhas luzes. Ele está em pé ao lado da cama, vestindo calça de pijama e camiseta branca. Seu cabelo está desalinhado, os olhos estão vermelhos de sono.

—         O que eu disse?

—         Alguma coisa como "para dentro e para cima". O que aconteceu?

—         Estive em Lorien.

—         Sonhou que esteve lá?

—         Acho que não. Estive lá, como antes.

—         E o que você viu?

Eu me sento e apóio as costas na parede.

—         Os animais — conto.

—         Que animais?

—         No foguete que vi decolar. O velho, aquele do museu. O foguete que partiu logo depois de nós. Vi animais sendo levados para dentro dele. Não muitos. Quinze, talvez. Com três outros lorienos. Não creio que fossem Gardes. E mais alguma coisa, um... pacote. Parecia um bebê, mas não posso afirmar.

—         Por que acha que não eram Gardes?

—         Eles carregaram o foguete com suprimentos, cerca de cinquenta caixas e sacolas. Não usaram telecinesia.

—         Tudo isso no foguete dentro do museu?

—         Acho que era o museu. Estive no interior de um edifício amplo e aberto, com teto arredondado, sem nada lá dentro além do foguete. Presumi que fosse o museu.

Henri move a cabeça em sentido afirmativo.

—         Se trabalhavam no museu, deviam ser Cêpans.

—         Eles transportavam animais — repito. — Animais que podiam mudar de forma.

—         Chimsera. Animais em Lorien que podiam mudar de forma. O nome deles era Chimaera.

—         Hadley era isso? — pergunto, lembrando a visão que tive há semanas, quando me vi brincando no quintal da casa de meus avós e fui levantado no ar por um homem vestindo macacão azul e prata.

Henri sorri.

—         Você se lembra de Hadley?

Respondo com um movimento afirmativo de cabeça.

—         Eu o vi do exato modo que vejo todas as outras coisas.

—         Tem tido as visões mesmo quando não está treinando?

—         As vezes.

—         Com que frequência?

—         Henri, quem liga para as visões? Por que eles estavam levando animais para dentro do foguete? E o que um bebê fazia com eles, se é que era mesmo um bebê? Para onde eles foram? Qual era o propósito deles?

Henri pensa em tudo isso por um momento. Ele apóia o peso do corpo na perna direita.

—         Provavelmente, o mesmo propósito que nós. Pense nisto, John. De que outra forma os animais poderiam repovoar Lorien? Eles devem ter sido levados para algum tipo de santuário. Tudo foi dizimado. Não só o povo, mas também os animais e toda a vida vegetal. O embrulho a que você se refere podia ser mais um animal. Alguma criatura frágil ou muito jovem.

—         Bem, e para onde eles foram? Que outro santuário existe além da Terra?

—         Creio que eles foram para uma das estações espaciais. Um foguete com combustível lórico pode ter percorrido uma distância bem grande. Talvez pensassem que a invasão seria breve e pretendiam esperar pelo fim dela para voltar. Quero dizer, eles poderiam viver na estação espacial pelo tempo que durassem seus suprimentos.

—         Existem estações espaciais perto de Lorien?

—         Sim, duas delas. Bem, havia duas. Sei, com certeza, que a maior foi destruída no mesmo momento da invasão. Perdemos contato com ela menos de dois minutos depois da primeira bomba cair.

—         Por que não mencionou isso antes, quando falei sobre o foguete pela primeira vez?

—         Presumi que estivesse vazio, que houvesse decolado como um chamariz. E acho que, se uma estação espacial foi destruída, a outra também deve ter sido. A viagem desse grupo, infelizmente, foi em vão, qualquer que tenha sido o objetivo.

—         Mas e se eles voltaram quando os suprimentos acabaram? Acha que poderiam sobreviver em Lorien? — pergunto, desesperado. Já conheço a resposta, sei o que Henri vai dizer, mas pergunto para me apegar a algum tipo de esperança de que não estamos sozinhos nisso. De que talvez, em algum lugar distante, haja outros como nós, esperando, monitorando o planeta para que também possam voltar um dia, e não estaremos sozinhos quando retornarmos.

—         Não. Não há mais água por lá. Você mesmo viu. Nada além de terra estéril e deserta. E nada sobrevive sem água.

Suspiro e me deito novamente na cama. De que adianta discutir? Henri está certo, e eu sei disso. Vi com meus próprios olhos. Se os globos que ele tirou da arca merecem credibilidade, Lorien nada mais é que um lugar deserto, uma vasta extensão de nada. O planeta ainda vive, mas nada há na superfície. Não há água. Não há plantas. Não há vida. Nada além de terra e pedras e os destroços da civilização que um dia existiu.

—         Viu mais alguma coisa? — Henri me pergunta.

—         Eu nos vi no dia em que partimos. Todos estávamos na pista pouco antes da decolagem.

—         Foi um dia triste.

Eu assinto. Henri cruza os braços e olha pela janela, perdido em pensamentos. Respiro fundo.

—         Onde estava sua família durante isso tudo? — pergunto. Minhas luzes se apagaram há cerca de dois ou três minutos, mas

noto que os olhos de Henri agora estão fixos em mim.

—         Não estavam comigo. Não naquele dia — ele responde. Ficamos em silêncio por um tempo, até Henri se mexer.

—         Bem, vou voltar para cama — ele anuncia, encerrando nossa conversa. — Tente dormir.

Ele sai, e eu fico ali, deitado, pensando nos animais, no foguete, na família de Henri, e em como tenho certeza de que ele não teve sequer a oportunidade de se despedir dela. Sei que não vou conseguir voltar a dormir. Nunca consigo quando essas imagens me visitam, ou quando sinto a tristeza de Henri. Deve ser um pensamento constante para ele, como seria para qualquer um que partisse nas mesmas circunstâncias, deixando para trás a única casa que conheceu e sabendo que nunca mais veria as pessoas que ama.

Pego meu celular e mando uma mensagem para Sarah. Sempre envio torpedos para ela quando não consigo dormir, ou ela escreve para mim quando é ela a vítima da insônia. Falamos pelo tempo necessário para que o insone fique cansado. Ela me liga vinte segundos depois de eu enviar a mensagem.

—         Oi — atendo.

—         Não consegue dormir?

—         Não.

—         O que houve? — ela pergunta, bocejando do outro lado da linha.

—         Acho que foi só saudades de você. Passei pelo menos uma hora deitado, olhando para o teto.

—         Bobo. Você me viu há menos de seis horas.

—         Queria que você estivesse aqui — digo.

Ela geme baixinho. Posso vislumbrar seu sorriso na escuridão. Deito de lado e prendo o telefone entre a orelha e o travesseiro. — Eu também queria estar aí.

Conversamos por vinte minutos. Na última metade da chamada simplesmente ficamos ouvindo a respiração um do outro. Eu me sinto melhor depois de falar com Sarah, mas descubro que tenho uma dificuldade ainda maior para dormir.

 

PELA PRIMEIRA VEZ DESDE QUE CHEGAMOS A OHIO, AS COISAS PARECEM MAIS calmas por um tempo. O semestre termina tranquilamente, vamos ter onze dias de folga no intervalo de inverno. Sam e a mãe passam a maior parte desse tempo visitando a tia dele em Illinois. Sarah fica em casa. Passamos o Natal juntos. E nos beijamos na meia-noite do ano-novo. Apesar da neve e do frio, ou talvez em retaliação a eles, saímos para longas caminhadas pela floresta atrás de casa, sempre de mãos dadas, nos beijando, inspirando o ar gelado sob o céu cinzento e baixo do inverno. Passamos cada vez mais tempo juntos. Não há um único dia desse período de férias em que não nos vejamos pelo menos uma vez.

Andamos de mãos dadas sob o toldo branco da neve nos galhos das árvores. Ela traz sua câmera fotográfica, e às vezes para e tira algumas fotos. Boa parte da neve no chão é intocada, exceto pelas pegadas que deixamos. Nós as seguimos de volta, Bernie Kosar corre na frente, de um lado para o outro, perseguindo coelhos escondidos nos pequenos arbustos, tentando subir nas árvores para importunar os esquilos. Sarah tem um par de protetores de orelhas. Seu nariz e bochechas ficam rosados por causa do frio, acentuando o azul de seus olhos. Eu olho para ela.

—         O que é? — ela me pergunta, sorrindo.

—         Nada. Estou só admirando a paisagem.

Ela revira os olhos. A floresta é densa, exceto pelas clareiras esporádicas que encontramos regularmente. Não sei qual é a distância que a floresta se estende, mas nunca conseguimos chegar à extremidade oposta daquela por onde entramos.

—         Aposto que isto aqui é lindo no verão — Sarah comenta. — Vamos fazer piqueniques nas clareiras.

Uma dor surge em meu peito. Faltam ainda cinco meses para o verão, e, se Henri e eu ainda estivermos aqui em maio, estaremos somando sete meses em Ohio. Isso é bem perto do maior período de tempo que já passamos em um lugar.

—         Sim — concordo. Sarah olha para mim.

—         O que é?

Eu a encaro sem entender.

—         O que é... o quê?

—         Não foi muito convincente — ela diz. Um bando de corvos barulhentos levanta vôo.

—         Só queria que já fosse verão.

—         Eu também. Não acredito que já temos de voltar à escola amanhã.

—         Ah, nem me lembre disso.

Entramos em outra clareira, maior do que as outras, um círculo quase perfeito de uns trinta metros de diâmetro. Sarah solta minha mão, corre para o meio do espaço e se joga na neve, rindo. Ela deita de costas e começa a mover braços e pernas, fazendo um anjo na neve. Eu me deito ao lado dela e faço o mesmo. As pontas de nossos dedos mal se tocam enquanto fazemos as asas. Nós nos levantamos.

—         É como se tivéssemos asas imóveis — ela diz.

—         Isso é possível? Quero dizer, como voaríamos, se as asas fossem imóveis?

—         É claro que é possível. Anjos podem fazer tudo.

Ela se vira e se aninha em meus braços. Seu rosto frio em meu pescoço me faz recuar.

—         Ahhh! Seu rosto parece uma pedra de gelo!

Ela ri.

—         Venha me esquentar.

Eu a abraço e beijo sob o céu aberto, com as árvores à nossa volta. Não há sons, exceto pelos pássaros e um outro baque abafado de neve caindo dos galhos mais próximos. Dois rostos frios colados. Bernie Kosar se aproxima de nós com a língua para fora, ofegante, balançando a cauda. Ele late e se senta na neve olhando para nós, a cabeça inclinada para o lado.

—         Bernie Kosar! Estava perseguindo coelhos? — Sarah pergunta.

Ele late duas vezes e corre para ela, pulando, como se quisesse se aninhar em seus braços. Depois late novamente e espera, sentado no chão com um ar cheio de expectativa. Sarah pega um pedaço de galho no chão, sacode a neve acumulada nele e o arremessa no meio das árvores. Ele corre para procurá-lo e desaparece de vista. Dez segundos mais tarde Bernie retorna, mas, em vez de voltar à clareira pelo mesmo caminho, ele aparece do outro lado. Sarah e eu nos viramos para vê-lo.

—         Como ele faz isso? — Sarah pergunta.

—         Não sei — confesso. — Ele é um cachorro peculiar.

—         Ouviu isso, Bernie Kosar? Ele acabou de dizer que você é peculiar! Ele solta o galho aos pés dela. Voltamos para casa de mãos dadas,

e o dia começa a se despedir, mudando de cores. Bernie Kosar trota a nosso lado durante todo o caminho, a cabeça erguida como se quisesse nos guiar, protegendo-nos do que podia ou não estar escondido na penumbra crescente além de nosso campo de visão.

 

Há cinco jornais empilhados na mesa da cozinha. Henri está diante do laptop, e a luz está acesa.

—         Alguma novidade? — pergunto por força do hábito, mas sem esperança. Não há uma história promissora há meses, o que é bom, mas nem por isso deixo de esperar alguma notícia cada vez que repito essa pergunta.

—         Na verdade, sim, acho que sim.

Eu me aproximo da mesa e olho por cima do ombro dele para a tela do computador.

—         O que é?

—         Ontem à noite houve um terremoto na Argentina. Uma menina de dezesseis anos salvou um homem dos escombros em uma cidadezinha perto do litoral.

—         Número Nove?

—         Bem, penso que ela é certamente uma de nós. Se é ou não a Número Nove, isso não posso afirmar.

—         Por quê? Não há nada de realmente extraordinário em retirar um homem dos escombros.

—         Veja — Henri me convida, rolando a tela até determinado trecho do artigo. Há uma foto de uma placa de concreto de pelo menos trinta centímetros de espessura e dois metros e meio de largura e de altura. — A placa que ela levantou para salvar o homem. Deve pesar umas cinco toneladas. E veja isso — ele continua, rolando novamente para a parte inferior da página, destacando a última frase: — "Sofia Garcia não foi encontrada para comentar seu gesto".

Leio a frase três vezes.

—         Ela não foi encontrada — digo.

—         Exatamente. Ela não se negou a dar entrevista; simplesmente não foi encontrada.

—         E como sabem que é esse o nome dela?

—         A cidade é pequena, tem menos de um terço do tamanho de Paradise. Quase todos devem saber o nome dela por lá.

—         E ela partiu, não é?

Henri assente.

—         Acho que sim. Provavelmente, antes mesmo de o jornal ser publicado. Esse é o aspecto negativo das cidades pequenas; é impossível não ser notado.

Eu suspiro.

—         Também é difícil para os mogadorianos passarem despercebidos.

—         Exatamente.

—         Lamento por ela — digo, erguendo os ombros. — Quem sabe o que teve que deixar para trás?

Henri olha para mim de um jeito cético, abre a boca para dizer algo, mas pensa melhor e volta ao computador. Eu vou para meu quarto. Arrumo a mochila com roupas limpas e os livros de que vou precisar naquele dia. Hora de voltar às aulas. Não estou ansioso por isso, mas vai ser bom rever Sam. Não o vejo há quase duas semanas.

—         Estou saindo — digo.

—         Tenha um bom dia. E tome cuidado.

—         Até mais tarde.

Bernie Kosar sai de casa correndo na minha frente. Ele é uma verdadeira bola de energia nesta manhã. Acho que passou a apreciar nossas corridas matinais, e o fato de não termos corrido na última semana e meia o deixou aflito para voltar à rotina. Ele me acompanha na maior parte do trajeto. Quando nos despedimos, eu afago sua cabeça e coço suas orelhas.

—         Muito bem, garoto, agora vá para casa — digo. Ele se vira e começa a trotar de volta.

Não tenho pressa no chuveiro. Quando termino, outros alunos estão começando a chegar. Vou ao corredor, passo por meu armário e caminho até o de Sam. Bato nas costas dele. Ele se assusta, mas sorri ao se virar e me ver.

—         Por um minuto pensei que teria que socar a cara de alguém — diz.

—         Sou só eu, amigo. Como foi em Illinois?

—         Nem me pergunte — ele responde, revirando os olhos. — Minha tia me fez beber chá e assistir às reprises de Os Pioneiros quase todos os dias.

Eu rio.

—         Deve ter sido horrível.

—         Foi, acredite — ele responde e enfia a mão na mochila. — Isso estava no meio da correspondência quando voltamos para casa.

Ele me entrega o último exemplar de Eles Estão entre Nós, e eu começo a folhear a revista.

—         Nada sobre nós ou os mogadorianos — ele comenta.

—         Ótimo. Eles devem ter ficado com medo depois de nossa visita.

—         Sim, é claro.

Sarah se aproxima de nós. Mark James a aborda no meio do corredor e lhe entrega um maço de folhas de papel de cor laranja. Ela continua caminhando em nossa direção.

—         Oi, gatona — eu digo quando ela nos alcança.

Sarah fica na ponta dos pés para me beijar. Seus lábios têm sabor de brilho sabor morango.

—         Oi, Sam. Como vai?

—         Bem. E você? — ele pergunta.

Ele agora parece se sentir à vontade com ela. Antes do incidente com Henri, que aconteceu há um mês e meio, estar na presença de Sarah causava nele evidente desconforto, e ele não conseguia encará-la e não sabia o que fazer com as mãos. Mas agora ele a encara e sorri, e fala com confiança.

—         Muito bem — ela diz. — Tenho que dar uma cópia para cada um de vocês.

Ela nos passa uma folha de papel daquelas que Mark acabou de entregar a ela. É um convite para uma festa na casa dele no próximo sábado.

—         Eu fui convidado? — Sam pergunta.

—         Sim, nós três fomos — Sarah confirma.

—         Você quer ir? — eu pergunto.

—         Bem, acho que deveríamos tentar. Concordo, movendo a cabeça.

—         E você, Sam? Quer ir também?

Ele fita além de mim e de Sarah. Eu me viro e vejo para onde ele está olhando, ou melhor, para quem. Emily está parada diante de um armário do outro lado do corredor. É a garota que participou da corrida de carroça conosco no dia de Halloween, e desde então Sam tem suspirado por ela. Quando passa por nós, ela percebe que Sam a observa e sorri com educação.

—         Emily? — eu pergunto a Sam.

—         Emily o quê? — ele reage, olhando para mim. Eu olho para Sarah.

—         Acho que Sam gosta de Emily Knapp.

—         Não gosto — ele diz.

—         Posso convidada para ir à festa conosco — Sarah sugere.

—         Acha que ela iria? — Sam duvida.

Sarah olha para mim.

—         Bem, talvez eu não deva convidá-la, já que Sam nem gosta dela.

Sam sorri.

—         Ah, tudo bem, é que... Sei lá, eu não sei.

—         Ela sempre me pergunta por que você não telefonou para ela depois da corrida. Emily gosta de você.

—         É verdade — confirmo. — Eu já ouvi Emily dizendo isso.

—         Por que não me contou? — Sam quer saber.

—         Você nunca questionou. Sam olha para o convite.

—         Então, a festa é no sábado?

—         Sim.

Ele olha para mim.

—         Eu acho que devemos ir.

Encolho os ombros.

—         Por mim, podemos ir.

 

Henri está esperando por mim quando o sinal anuncia o final da última aula. Como sempre, Bernie Kosar está no banco do passageiro, e, quando me vê, abana a cauda com entusiasmo. Entro na caminhonete, e nós partimos imediatamente.

—         Saiu outra matéria sobre a menina na Argentina — Henri conta.

—         E?

—         Só um artigo breve, dizendo que ela desapareceu. O prefeito da cidade está oferecendo uma modesta recompensa por qualquer informação sobre o paradeiro dela. Parece que eles acreditam que ela foi sequestrada.

—         Tem medo de que os mogadorianos a tenham pegado antes?

—         Se ela é a Nove, como sugerem as anotações que encontramos, e se eles a estavam seguindo, é bom que ela tenha desaparecido. E, se foi capturada, eles não podem matá-la — não podem nem machucá-la. Isso nos dá esperança. A parte boa, exceto pela notícia propriamente dita, é que imagino que todos os mogadorianos da Terra tenham ido para a Argentina.

—         Falando nisso, Sam levou à escola o último número de Eles Estão entre Nós.

—         Havia alguma coisa nela?

—         Nada.

—         Não esperava que houvesse. Seu truque de levitação causou profunda impressão naquele sujeito.

Quando chegamos em casa, mudo de roupa e encontro Henri no quintal para mais uma sessão de treinamento. Trabalhar enquanto sou consumido pelo fogo agora é mais fácil. Não fico tão agitado quanto naquele primeiro dia. Posso prender a respiração por mais tempo, quase quatro minutos. Tenho mais controle sobre os objetos que faço levitar e posso erguer vários deles ao mesmo tempo. Pouco a pouco, a preocupação que vi nos olhos de Henri durante aqueles primeiros dias vai desaparecendo. Ele me elogia mais. Sorri mais. Nos dias em que o resultado é realmente bom, vejo em seu rosto uma expressão meio maluca, e ele levanta os braços e grita um "Sim!" satisfeito. Assim vou ganhando confiança em meus Legados. O restante ainda está por vir, mas não creio que vá demorar. E o maior de todos, seja ele qual for, também virá. A ansiedade me mantém acordado várias noites. Quero lutar. Sonho com um mogadoriano aparecendo no quintal para que eu possa finalmente me vingar.

O dia hoje é fácil. Não há fogo. Apenas levanto coisas e as manipulo enquanto as mantenho suspensas. Os últimos vinte minutos passam com Henri arremessando objetos em minha direção — às vezes os deixo simplesmente cair, outras vezes os arremesso como bumerangues, de volta para Henri. Em dado momento, um pedaço de pau retorna com tanta força que Henri se joga no chão, com o rosto na neve, para não ser atingido por ele. Bernie Kosar passa o tempo todo deitado, olhando o treinamento, como se nos incentivasse com o olhar. Quando terminamos, eu tomo um banho, faço os deveres de casa e me sento à mesa da cozinha para jantar.

—         Vai haver uma festa no próximo sábado, e eu fui convidado. Ele olha para mim e para de mastigar.

—         Festa de quem?

—         Mark James. Henri parece surpreso.

—         Aquilo tudo acabou — eu digo antes que ele possa protestar.

—         Bem, você é quem sabe, eu acho. Só não esqueça o que está em jogo.

 

E O TEMPO ESQUENTA. VENTOS FORTES,   GELADOS E NEVE CONSTANTE SÃO substituídos por céu azul e temperaturas amenas. A neve derrete. No início há poças na entrada de casa e no quintal, a estrada fica molhada, mas depois de um dia tudo seca e evapora, e os carros passam normalmente como em outro dia qualquer. Um intervalo, um breve descanso antes de o velho inverno assumir o comando novamente.

Eu me sento à varanda e espero por Sarah, olhando para o céu cheio de estrelas cintilantes e com lua cheia. Uma nuvem muito fina corta a lua ao meio e desaparece rapidamente. Ouço o ruído dos pneus no cascalho, vejo as luzes dos faróis se aproximando e segundos depois enxergo o automóvel. Sarah desce pelo lado do motorista. Ela veste calça de flanela cinza e cardigã azul-marinho sob uma jaqueta bege. Seus olhos são acentuados pelo azul que se pode ver sob as extremidades da jaqueta. O cabelo louro cai sobre os ombros. Ela sorri e olha para mim, piscando ao se aproximar. Parece que tenho borboletas no estômago. Quase três meses juntos, e ainda fico nervoso quando a vejo. Um nervosismo que não acredito que o tempo poderá diminuir.

—         Você está linda — digo.

—         Ah, obrigada — ela responde, curvando-se. — Você não está nada mal.

Beijo Sarah no rosto. Henri sai de casa e acena para a mãe dela, que está sentada no banco do passageiro do automóvel.

—         Então, vai telefonar quando for hora de ir buscá-lo, não é? — Henri me pergunta.

—         Sim — confirmo.

Vamos para o carro, e Sarah se senta ao volante. Eu me sento no banco traseiro. Ela tem sua licença de aprendiz há alguns meses, o que significa que pode dirigir desde que um motorista licenciado esteja sentado no banco do passageiro, ao lado dela. O exame de direção está marcado para segunda-feira, em dois dias. Ela está ansiosa com isso desde que marcou a data, durante as férias de inverno. Sarah põe o carro em movimento e vamos para a estrada. Depois de um tempo ela ajeita o retrovisor para sorrir para mim. Eu sorrio de volta.

—         Como foi seu dia, John? — A mãe dela se vira para mim.

Nós conversamos. Ela me fala sobre a ida delas duas ao shopping à tarde, e de como Sarah foi dirigindo até lá. Conto que brinquei com Bernie Kosar no quintal, e como corremos um atrás do outro. Não falo sobre a sessão de treinamento que durou três horas e aconteceu no quintal depois da corrida. Não digo a ela que rachei o tronco da árvore morta usando apenas telecinesia, ou que Henri arremessou facas em minha direção e eu as desviei para um saco de areia a quinze metros. Não falo sobre ficar em chamas, nem sobre os objetos que levantei, esmaguei e quebrei. Outro segredo. Outra meia verdade que eu sinto como mentira. Gostaria de dizer a Sarah. Sinto que de alguma forma a estou traindo ao manter escondida minha identidade, e, ao longo das últimas semanas, esse fardo começou a realmente pesar sobre mim. Mas também sei que não tenho alternativa. Não neste momento, pelo menos.

—         É aqui? — Sarah pergunta.

—         Sim — confirmo.

Ela para o carro na entrada da garagem de Sam. Ele está esperando na porta e veste jeans e suéter de lã. Quando levanta a cabeça, seu olhar para nós me lembra o de um cervo ofuscado pelos faróis de um carro. Ele tem gel no cabelo. Juro que nunca o vi usar gel antes. Sam se aproxima, abre a porta do carro e se senta ao meu lado.

—         Oi, Sam — Sarah o cumprimenta e depois o apresenta à mãe.

Voltamos para a estrada. As duas mãos de Sam estão plantadas no assento com firmeza, sinal evidente de nervosismo. Sarah segue por um caminho que nunca percorri antes e vira à direita para subir uma alameda sinuosa que já faz parte da casa de Mark. Há cerca de trinta carros estacionados ali. No final da rua, cercada por árvores, vejo um imóvel grande de dois andares. Podemos ouvir a música muito antes de chegarmos à residência.

—         Caramba, que casa! — Sam comenta.

—         Comportem-se — diz a mãe de Sarah. — E tomem cuidado. Telefonem se precisarem de algo, ou se não conseguirem falar com seu pai, John — ela diz olhando para mim.

—         Sim, Sra. Hart — respondo.

Descemos do carro e começamos a caminhar para a porta da frente. Dois cachorros surgem da lateral da casa e correm em nossa direção, um golden retriever e um buldogue. Eles abanam a cauda e farejam minha calça, certamente sentindo o cheiro de Bernie Ko-sar. O buldogue carrega na boca um graveto. Eu pego a vareta, jogo do outro lado do gramado do jardim, e os dois cães saem correndo para ir buscá-la.

—         Dozer e Abby — diz Sarah.

—         Imagino que Dolzer seja o buldogue — arrisco.

Ela assente e sorri para mim como se pedisse desculpas. Sou obrigado a lembrar que ela conhece bem aquela casa. E me pergunto se não é estranho para ela voltar agora comigo.

—         Essa foi uma péssima ideia — Sam resmunga a meu lado. — Só agora estou percebendo.

—         Por quê?

—         Porque há três meses o cara que mora aqui encheu seu armário e o meu de esterco e jogou uma almôndega em minha cabeça na hora do almoço. E nós estamos aqui.

—         Aposto que Emily já chegou — comento, dando uma leve cotovelada em suas costelas.

A porta da frente se abre para um hall. Os cães se aproximam correndo, passam por nós e desaparecem na cozinha, que fica bem em frente à entrada. Percebo que agora é Abby que segura o graveto entre os dentes. A música é tão alta que temos de gritar para sermos ouvidos. Pessoas dançam na sala. Há latas de cerveja em quase todas as mãos, mas alguns poucos bebem água mineral ou refrigerante. Aparentemente, os pais de Mark viajaram. Todo o time de futebol está na cozinha, metade deles usando aqueles agasalhos do uniforme. Mark se aproxima e abraça Sarah. Depois ele aperta minha mão. Ele me encara por um segundo e desvia o olhar. Mark não aperta a mão de Sam. Na verdade, nem olha para ele. Talvez Sam tenha razão. Aceitar o convite para a festa pode ter sido um engano.

—         Que bom que puderam vir. Venham, entrem. A cerveja está na cozinha.

Emily está em um canto da sala conversando com algumas pessoas. Sam olha para lá e pergunta a Mark onde fica o banheiro. Ele aponta o caminho.

—         Volto já — Sam me avisa.

A maioria dos garotos está em pé em torno da bancada que forma uma ilha no meio da cozinha. Eles olham para mim quando entro com Sarah. Encaro cada um deles e depois pego uma garrafa de água mineral de um balde com gelo. Mark abre uma lata de cerveja e a coloca na mão de Sarah. A maneira como ele a encara me faz perceber mais uma vez que não confio nele. Nem um pouco. E percebo também o quanto toda essa situação é bizarra. Estou na casa de Mark com Sarah, ex-namorada dele. Fico feliz por Sam ter vindo comigo.

Abaixo-me para brincar com os cachorros até Sam sair do banheiro. Quando isso acontece, Sarah está falando com Emily do outro lado da sala. Sam fica tenso quando percebe que não nos resta nada a fazer além de ir até lá e cumprimentá-la. Ele respira fundo. Na cozinha, dois garotos puseram fogo na beirada de uma folha de jornal por nenhuma outra razão se não ver o papel queimar.

—         Cumprimente Emily — digo a Sam enquanto caminhamos até lá. Ele responde com um movimento afirmativo de cabeça.

—         Aí estão vocês — diz Sarah. — Pensei que tivessem me abandonado.

—         Eu nem sonharia com isso — digo. — Oi, Emily. Como vai?

—         Bem — ela diz. E para Sam: — Gostei de seu cabelo. Sam a encara. Eu o acerto com uma cotovelada. Ele sorri.

—         Obrigado — diz. — Você está ótima.

Sarah olha para mim e sorri. Eu dou de ombros e a beijo no rosto. A música está ainda mais alta. Sam conversa com Emily e aparenta um pouco de nervosismo, mas ela ri, e depois de um tempo ele relaxa.

—         Então, está tudo bem? — Sarah me pergunta.

—         E claro. Estou com a garota mais linda da festa. Como poderia estar melhor?

—         Ah, por favor. — Ela ri e bate de leve em minha barriga.

Nós quatro dançamos por cerca de uma hora. Os jogadores de futebol continuam bebendo. Alguém aparece com uma garrafa de vodca, e não muito depois disso um deles — não sei qual — vomita no banheiro, e o cheiro se espalha por todo o primeiro andar da casa. Outro desmaia no sofá da sala de estar e alguns desenham em seu rosto com caneta hidrocor. As pessoas continuam indo e voltando, passando pela porta do porão. Não sei o que está acontecendo lá embaixo. Não vejo Sarah há dez minutos. Deixo Sam na sala, vou até a cozinha e depois subo a escada. O carpete é branco e espesso, e há fotos de família e quadros adornando as paredes. Algumas portas dos quartos estão abertas, outras fechadas. Não vejo Sarah em nenhum lugar. Sam está sozinho em um canto da sala, e eu me aproximo dele.

—         Por que o desânimo? — pergunto.

Ele balança a cabeça.

—         Não me faça suspendê-lo no ar e virá-lo de cabeça para baixo como fiz com o cara em Athens.

Eu sorrio. Sam continua emburrado.

—         Acabei de ser abordado por Alex Davis — ele conta.

Alex Davis é do grupo de Mark James e também faz parte do time de futebol. Ele é calouro, alto e magro. Nunca conversei com ele e, por isso, não sei muito sobre sua vida.

—         Como assim, "abordado"?

—         Ele veio falar comigo. Acho que me viu com Emily, e parece que eles saíram no verão passado.

—         E daí? Por que está incomodado com isso?

—         Porque estou. Não é legal, está bem?

—         Sam, sabe por quanto tempo Sarah e Mark namoraram?

—         Muito tempo.

—         Dois anos — eu digo.

—         Isso o incomoda?

—         Não, nem um pouco. Quem liga para o passado? Além do mais, olhe para Alex — digo, mostrando o garoto no canto da cozinha. Ele está desmoronando em cima da bancada, com os olhos quase fechados, suor cobrindo a testa dele. — Acha mesmo que ela sente falta daquilo?

Sam olha para o rapaz e dá de ombros.

—         Você é um cara legal, Sam Goode. Não se subestime.

—         Não estou me subestimando.

—         Então, não se preocupe com o passado de Emily. Não precisamos ser definidos pelas ações que fizemos ou que deixamos de fazer no passado. Algumas pessoas se deixam controlar pelo arrependimento. Talvez seja um arrependimento justo, talvez não. É só alguma coisa que aconteceu. Supere. Sam suspira. Ele ainda está aborrecido.

—         Ah, pare com isso. Ela gosta de você. Não tem com que se preocupar — insisto.

—         Mas estou preocupado.

—         A melhor maneira de lidar com o medo é enfrentá-lo. Aproxime-se dela e a beije. Aposto que ela vai corresponder.

Sam olha para mim e assente, depois vai até o porão, onde sabe que encontrará Emily. Os dois cachorros entram correndo na sala. Ambos estão com a língua de fora e abanam os rabos. Dozer deita no chão e espera que Abby se aproxime, para saltar sobre ela. Abby se esquiva. Eu os observo até desaparecerem no alto da escada, para onde levam o brinquedo de borracha que é alvo da disputa. Faltam quinze minutos para meia-noite. Um casal troca carícias no sofá do outro lado da sala. Os jogadores de futebol continuam bebendo na cozinha. Começo a sentir sono, mas não consigo encontrar Sarah.

Neste momento, um jogador de futebol sobe correndo a escada do porão, e há em seu rosto uma expressão transtornada, frenética. Ele corre até a pia da cozinha, abre a torneira no máximo e começa a abrir todas as portas dos armários.

—         Fogo — ele diz para os rapazes que estão perto. — Lá embaixo!

Todos começam a encher panelas e vasilhas com água e, um a um, eles correm para a escada.

Emily e Sam sobem. Sam parece abalado.

—         O que aconteceu? — pergunto.

—         A casa está pegando fogo!

—         É grave?

—         Algum incêndio não é grave? E acho que nós o provocamos. Nós... Bem, derrubamos uma vela perto de uma cortina.

Sam e Emily parecem agitados, desarrumados. Percebo que eles estavam namorando. Digo a mim mesmo que não posso me esquecer de dar os parabéns a Sam mais tarde.

—         Vocês viram Sarah? — pergunto a Emily. Ela balança a cabeça.

Mais garotos sobem a escada, e Mark James está com eles. Vejo o medo em seus olhos. Pela primeira vez sinto o cheiro de fumaça. Olho para Sam.

—         Vá lá para fora — digo.

Ele concorda com um movimento de cabeça, segura a mão de Emily, e os dois saem juntos. Outros os seguem, mas alguns permanecem onde estão, assistindo a tudo com curiosidade embriagada. Algumas pessoas permanecem paradas e batem nas costas dos jogadores de futebol, que correm ao porão com as vasilhas com água, incentivando-os como se tudo fosse uma brincadeira.

Vou até a cozinha e pego o maior recipiente que encontro, uma panela de tamanho médio. Encho a panela com água e desço. Todos já deixaram o local, exceto nós, enfrentando o incêndio, que é maior do que eu imaginava. Metade do porão é consumida pelas chamas. Apagar o fogo com a quantidade de água que tenho é impossível. Nem tento. Em vez disso, abandono a panela e recuo. Mark desce a escada correndo. Eu o detenho no meio dos degraus. Seus olhos estão vermelhos pelo excesso de álcool, mas posso ver o terror e o desespero em sua expressão.

—         Esqueça — digo. — O incêndio é grande demais. Precisamos tirar todo mundo daqui.

Ele olha para o fogo no porão. Sabe que o que eu disse é verdade. A fachada do garoto valentão desapareceu. A farsa acabou.

—         Mark! — eu grito.

Ele solta a panela com água, assente, e nós voltamos juntos.

—         Todos para fora! Agora! — eu grito do alto da escada.

Os que estão mais bêbados nem se movem. Alguns riem. Uma pessoa diz:

—         Onde estão os marshmallows?

Mark responde com um tapa no rosto do colega.

—         Saia! — ele grita.

Arranco o telefone sem fio da base na parede e o coloco na mão de Mark.

—         Ligue para os bombeiros — grito, temendo não ser ouvido com toda aquela gritaria e a música alta que ainda vem de algum lugar. É como uma trilha sonora para o pandemônio que se forma. O chão está ficando quente. A fumaça começa a subir do porão para o primeiro andar. Só então as pessoas percebem que o assunto é sério. Começo a empurrar todo mundo para a porta.

Passo depressa por Mark quando ele está ligando para os bombeiros e continuo correndo pela casa. Subo a escada principal saltando os degraus, três de cada vez, e vou abrindo as portas com chutes violentos. Um casal está namorando em um dos quartos, na cama. Eu grito, mandando os dois saírem. Não encontro Sarah. Desço novamente a escada e saio para a noite escura, fria. Há muita gente do lado de fora olhando para a casa. Percebo que algumas estão agitadas com a possibilidade de a casa queimar até virar cinzas. Outras riem. Eu começo a sentir os primeiros sinais de pânico em mim. Onde está Sarah? Sam está atrás do grupo, que deve ter umas cem pessoas. Corro até ele.

—         Você viu Sarah? — pergunto.

—         Não — ele diz.

Olho para a casa. As pessoas continuam saindo. As janelas do porão brilham com uma tonalidade forte de vermelho, as chamas lambem as vidraças. Uma das janelas está aberta. Por ali sai uma fumaça escura que sobe rapidamente colorindo o ar, tornando-o mais denso. Eu me movimento por entre as pessoas. De repente, uma explosão sacode a casa. Todas as janelas do porão se quebram. Algumas pessoas aplaudem. As chamas atingiram o primeiro andar e estão se movendo depressa. Mark James está em pé na frente do grupo, sem conseguir desviar os olhos da casa em chamas. Seu rosto é iluminado pelo brilho alaranjado. Há lágrimas em seus olhos, um ar de desespero, a mesma expressão que vi nos olhos dos lorienos no dia da invasão. Deve ser estranho assistir a tudo o que você tinha sendo destruído. O fogo se espalha com hostilidade, de maneira irregular. E Mark nada pode fazer além de olhar. As chamas começam a ultrapassar as janelas do primeiro andar. De onde estamos já é possível sentir o calor do fogo no rosto.

—         Onde está Sarah? — pergunto a ele.

Ele não me ouve. Eu o sacudo, segurando seus ombros. Ele se vira e olha para mim aturdido, como se ainda não acreditasse no que seus olhos estão vendo.

—         Onde está Sarah? — pergunto novamente.

—         Não sei — ele diz.

Começo a me mover pelo grupo, procurando por ela, cada vez mais desesperado. Todos olham para o fogo. A cobertura de vinil começa a borbulhar e derreter. As cortinas das janelas já foram queimadas. A porta da frente está aberta, e a fumaça que brota dela lembra uma cachoeira de cabeça para baixo. É possível enxergar até a cozinha, que se transformou em um inferno. No lado esquerdo da casa o fogo já atingiu o segundo andar. E é então que escuto.

Um grito longo, terrível. E cachorros latindo. Meu coração para. Todas as pessoas ali tentam identificar o que ouviram, ao mesmo tempo em que esperam não ter ouvido o que todos sabem que escutaram. O grito se repete. Inconfundível. Uma sequência ininterrupta de gritos. As pessoas reagem, desesperadas.

—         Oh, não — Emily geme. — Não, meu Deus, por favor, não!

 

NINGUÉM FALA. TODOS ESTÃO DE OLHOS BASTANTE ABERTOS, OLHANDO PARA CIMA, em choque. Sarah e os cachorros devem estar em algum lugar na parte de trás da casa. Fecho os olhos e abaixo a cabeça. Só consigo sentir o cheiro da fumaça. "Só não esqueça o que está em jogo", Henri me disse. Sei bem o que está em jogo, mas a voz dele ainda ecoa em minha cabeça. Minha vida, e agora a de Sarah. Ouço outro grito. Aterrorizado. Desesperado.

Sinto os olhos de Sam em mim. Ele já viu minha resistência ao fogo. Mas ele também sabe que sou caçado. Olho em volta. Mark caiu de joelhos e se balança para a frente e para trás. Ele quer que aquilo acabe. Quer que os cães parem de latir. Mas eles não param, e cada latido é para ele como uma facada no peito.

—         Sam — digo —, eu vou entrar.

Ele fecha os olhos, respira fundo e depois me encara.

—         Vá buscá-la — ele me diz.

Entrego a ele meu celular e peço para ligar para Henri, caso eu não consiga sair de lá por algum motivo. Ele assente. Começo a me mover para a parte de trás do grupo, contornando entre as pessoas espremidas. Ninguém presta atenção em mim. Quando finalmente chego lá atrás, dou impulso e corro como um louco contornando o quintal, até os fundos da casa pois assim posso entrar sem ser visto. A cozinha está completamente dominada pelas chamas. Observo o cenário de horror por um momento. Ouço Sarah e os cachorros. Eles soam mais próximos agora. Respiro fundo, e nessa inspiração levo outras coisas para dentro de mim. Raiva. Determinação. Esperança e medo. Eu os deixo entrar, sinto cada um deles. Depois tomo impulso, corro e entro na casa. Sou imediatamente engolido pelas chamas e não escuto mais nada além do crepitar e do zumbido do fogo. Minhas roupas se incendeiam. O mar de chamas não tem fim. Eu sigo para a frente da casa e descubro que metade da escada foi queimada. O que sobrou está em chamas, aparentemente instável, mas não tenho tempo para testar a segurança dos degraus. Corro para cima, mas a escada desaba sob meu peso quando chego na metade do caminho. Eu desmorono com os escombros, e o fogo cresce como se alguém houvesse atiçado as chamas. Alguma coisa parece perfurar minhas costas. Ranjo os dentes, ainda sem respirar. Eu me levanto e escuto um grito de Sarah. Ela está gritando por medo de morrer, por temer uma morte horrível, que será inevitável se eu não encontrá-la logo. O tempo é curto. Vou ter de saltar para o segundo andar.

Eu pulo, agarro-me ao piso e ergo o peso de meu corpo. O fogo se espalhou para o outro lado da casa. Ela e os cachorros estão em algum lugar à minha direita. Percorro apressadamente o corredor e vou verificando o interior dos quartos. Os quadros queimaram em suas molduras, transformados em silhuetas negras coladas às paredes. De repente meu pé atravessa o chão, e a surpresa me faz respirar. Sou invadido por fumaça e fogo. Começo a tossir. Cubro a boca com um braço, mas é inútil. Fumaça e fogo queimam meus pulmões. Caio de joelho, tossindo, ofegante. Uma fúria cega me invade e me levanto, sigo em frente, caminho com o corpo inclinado, rangendo os dentes com determinação.

Finalmente os encontro no último quarto à esquerda. Sarah está gritando "SOCORRO!". Os cachorros estão ganindo e latindo. A porta está fechada, e eu a abro com um chute, arrancando-a das dobradiças. Os três estão juntos, encolhidos no canto oposto à porta. Sarah me vê, grita meu nome e começa a se levantar. Faço um sinal indicando que ela deve ficar onde está, e, quando entro no quarto, uma enorme viga de sustentação cai entre nós. Levanto a mão e a jogo longe, para cima, e a viga atravessa o que resta do telhado. Sarah parece confusa com o que acabou de ver. Eu salto para ela, percorro seis metros com um único pulo, atravessando as chamas sem ser afetado por elas. Os cachorros estão ao lado dela. Ponho o buldogue nos braços de Sarah e pego o retriever. Com meu outro braço, eu a ajudo a permanecer em pé.

—         Você veio — ela diz.

—         Enquanto eu estiver vivo, nada, ninguém vai machucar você — digo.

Outra viga cai e destrói parte do piso, indo parar na cozinha, no primeiro andar. Precisamos sair pelos fundos da casa para que ninguém me veja, porque não quero testemunhas para o que vou ter de fazer. Seguro Sarah contra a lateral de meu corpo, e o cachorro contra o peito. Damos dois passos, depois saltamos sobre o abismo de fogo criado pela viga que desabou. Quando começo a percorrer o corredor, uma enorme explosão no andar de baixo destrói a maior parte dele. Não há mais corredor. No lugar dele restam uma parede e uma janela, que também são rapidamente consumidas pelas chamas. Nossa única chance é sair pela janela. Sarah está gritando outra vez, agarrando meu braço, e sinto as unhas do cachorro enterradas em meu peito. Levanto a mão para a janela, olho para ela e me concentro — e ela explode, criando a abertura de que precisamos. Olho para Sarah e a mantenho segura e ancorada ao meu corpo.

—         Segure-se bem firme — digo.

Dou três passos e salto. As chamas nos engolem, mas estamos voando como uma bala, cortando o ar, seguindo diretamente para a fresta. Receio não conseguir atravessá-la. Passamos por ela com pouco espaço de sobra, tanto que sinto as extremidades da armação destruída rasgando meus braços e parte de minhas pernas. Seguro Sarah e o cachorro da melhor maneira possível e giro o corpo no ar para cair de costas, com todos por cima de mim. Chegamos ao chão com um baque. Dozer rola pela grama. Abby gane alto. Escuto o ar sendo expulso do corpo de Sarah. Estamos uns dez metros atrás da casa. Sinto um corte no topo da cabeça, provavelmente causado pelos vidros quebrados que ficaram presos à moldura da janela. Dozer é o primeiro a se levantar. Ele parece bem. Abby demora um pouco mais. Ela manca, parece ter machucado uma pata dianteira, mas não creio que seja sério. Fico deitado de costas, segurando Sarah. Ela começa a chorar. Sinto o cheiro de cabelo queimado. O sangue escorre por meu rosto e forma uma poça na orelha.

Sento-me na grama para tentar recuperar o fôlego. Sarah está em meus braços. As solas de meus sapatos derreteram. Minha camisa queimou completamente, como boa parte da calça jeans. Pequenos cortes atravessam todo o comprimento dos dois braços. Mas não estou queimado. Dozer se aproxima e lambe minha mão. Eu o afago.

— Bom menino — digo, ouvindo os soluços de Sarah. — Agora vá, leve Abby lá para a frente.

Ouço ao longe as sirenes, que anunciam a aproximação de viaturas. Eles devem estar ali em dois, três minutos, no máximo. A entrada da floresta está a uns cinquenta metros dos fundos da casa. Aponto para a frente enquanto me levanto, e os animais começam a se mover para lá como se me entendessem perfeitamente. Sarah ainda está em meus braços. Eu a giro, para aninhá-la entre eles, e sigo para a floresta carregando-a, enquanto ela chora com o rosto em meu ombro. Quando entro no bosque, a multidão na frente da casa explode em gritos e aplausos. Dozer e Abby foram vistos.

A floresta é densa. A lua cheia ainda brilha, mas a luz que penetra entre as árvores é pouca. Acendo minhas mãos para que possamos enxergar. Começo a tremer. O pânico me invade. Como vou explicar isso a Henri? Estou vestindo o que parece ser uma bermuda queimada. Minha cabeça sangra. Assim como minhas costas e vários cortes nos braços e nas pernas. Meus pulmões parecem estar em chamas cada vez que respiro. E Sarah está em meus braços. Ela agora deve saber o que posso fazer, do que sou capaz, ou pelo menos parte disso. Vou ter de explicar tudo a ela. E vou ter de contar a Henri que ela sabe. Os riscos são cada vez maiores. Ele vai dizer que, em algum momento, alguém pode deixar escapar alguma coisa. Vai insistir para irmos embora. Não vou poder evitar.

Ponho Sarah no chão. Ela parou de chorar. Olha para mim confusa, amedrontada, espantada. Sei que preciso vestir alguma roupa e voltar para perto dos convidados de Mark, ou as pessoas vão desconfiar. Preciso levar Sarah de volta, ou vão pensar que ela está morta.

—         Você consegue andar? — pergunto.

—         Acho que sim.

—         Venha comigo.

—         Para onde vamos?

—         Preciso pôr alguma roupa. Espero que um dos jogadores de futebol tenha roupas para vestir depois do treino.

Começamos a andar por entre as árvores. Pretendo espiar dentro dos carros dos convidados para ver se encontro alguma vestimenta.

—         O que aconteceu, John? O que está acontecendo?

—         Você estava presa na casa em chamas, e eu tirei você de lá.

—         O que você fez é impossível.

—         Não para mim.

—         O que isso significa?

Olho para ela. Esperava nunca ter de revelar o que vou dizer agora. Sei que minha expectativa provavelmente era irreal, mas pretendia me manter escondido em Paradise. Henri sempre me disse para nunca me aproximar muito de ninguém. Porque se eu me aproximasse, em algum momento as pessoas perceberiam que sou diferente, e isso exigira explicações. E nos obrigaria a partir. Meu coração dispara, minhas mãos tremem, mas não porque estou com frio. Se tenho alguma esperança de ficar, ou de não sofrer as piores consequências pelo que fiz nesta noite, preciso contar a verdade a ela.

—         Não sou o que você pensa que sou.

—         Quem é você?

—         Eu sou o Número Quatro.

—         E o que isso significa?

—         Sarah, o que vou dizer vai soar maluco e idiota, no entanto é a mais pura verdade. Você precisa acreditar em mim.

Ela toca meu rosto.

—         Se vai dizer a verdade, é claro que acredito em você.

—         É verdade.

—         Então fale.

—         Sou um alien. Sou o quarto de nove crianças enviadas à Terra depois de nosso planeta ter sido destruído. Tenho poderes, habilidades diferentes das de qualquer ser humano, poderes que me permitem fazer coisas como as que fiz há pouco, na casa. E há outros aliens aqui na Terra que estão me caçando, os mesmos que atacaram meu planeta. E, se me encontrarem, eles me matarão.

Espero que ela me esbofeteie, ria de mim, grite ou saia correndo. Mas ela fica parada, olhando-me nos olhos.

—         Está dizendo a verdade — ela afirma.

—         Sim, estou. — Sustento seu olhar, esperando convencê-la a acreditar em mim.

Ela me encara por mais um instante, depois move a cabeça em sentido afirmativo.

—         Obrigada por salvar minha vida. Não me interessa de onde você veio. Para mim você é só John, o garoto que eu amo.

—         O quê?

—         Eu amo você, John, e você salvou minha vida, e isso é tudo o que importa.

—         Também amo você. E vou amar sempre.

Eu a abraço e beijo. Depois de um minuto, mais ou menos, ela se afasta.

—         Vamos ver se encontramos roupas para você. Precisamos voltar, para as pessoas saberem que estamos bem.

 

Sarah encontra roupas limpas no quarto carro que verificamos. São bastante parecidas com as que eu vestia, jeans e camisa, e acho que ninguém vai notar a diferença. Quando voltamos para perto da casa, nos mantemos o mais longe possível, mas em um ponto de onde podemos ver o que está acontecendo. A casa desabou e agora é só uma pilha de destroços fumegantes e encharcados de água. Colunas de fumaça ainda brotam dos escombros, criando uma imagem fantasmagórica contra o céu escuro. Há três caminhões dos bombeiros. Conto seis viaturas da polícia. Nove conjuntos de luzes que piscam, mas nenhum som para acompanhá-las. Poucas pessoas foram embora, se é que alguém saiu dali. Todas foram forçadas a recuar, e a casa foi isolada com fita amarela. Os policiais estão conversando com alguns dos convidados. Cinco bombeiros estão no meio das ruínas, vasculhando os escombros.

Alguém grita "Lá estão eles!". A voz soa atrás de mim. Todos se viram em minha direção. Preciso de pelo menos cinco segundos para perceber que as pessoas se referem a mim.

Quatro policiais caminham até nós. Atrás deles há um homem segurando um bloco de anotações e um gravador. Enquanto procurávamos pelas roupas, Sarah e eu combinamos uma versão dos fatos. Cheguei à parte de trás da casa e a encontrei lá, observando as chamas. Ela havia pulado pela janela do segundo andar com os cachorros, que conseguiram fugir. Ficamos assistindo a tudo dali, longe dos outros, mas depois de um tempo fomos nos juntar ao grupo. Expliquei a ela que não poderíamos contar a ninguém o que havia realmente acontecido, nem mesmo a Sam e a Henri, porque, se alguém descobrisse a verdade, eu teria de ir embora imediatamente. Combinamos que eu responderia a todas as perguntas, e ela concordaria com tudo que eu dissesse.

—         Você é John Smith? — pergunta um dos policiais. E ura homem de estatura mediana, e ele para à nossa frente com os ombros meio caídos. Não é gordo, mas está longe do que se pode chamar de estar em boa forma, porque tem uma barriga saliente e uma flacidez generalizada.

—         Sim, sou eu. Por quê?

—         Duas pessoas disseram ter visto você entrar correndo naquela casa e depois sair de lá voando como o Super-homem, com os cachorros e a garota nos braços.

—         Sério? — pergunto, com ar incrédulo.

Sarah está a meu lado.

—         Foi o que disseram.

Forço um riso.

—         A casa estava pegando fogo. Pareço ter estado em uma casa em chamas?

Ele me lança um olhar sério, intrigado, e põe as mãos na cintura.

—         Está me dizendo que não entrou lá?

—         Fui até o quintal nos fundos para procurar Sarah — digo. — Ela havia desaparecido com os cachorros. Ficamos lá por um tempo, vendo o fogo, e depois viemos para cá.

O policial olha para Sarah.

—         Isso é verdade?

—         Sim.

—         Bem, quem entrou correndo na casa. então? — quer saber um repórter parado ao lado dele.

É a primeira vez que o homem fala, e ele me observa de um jeito mais cético. como se me avaliasse. Percebo que não acredita em minha história.

—         Como posso saber? — pergunto.

Ele assente e escreve algo no bloco. Não consigo ler a anotação.

—         O que está dizendo é que essas duas testemunhas são mentirosas? — pergunta o repórter.

—         Barnes — o policial interfere, balançando a cabeça ao olhar para ele.

—         Eu não entrei na casa para salvar Sarah e os cachorros — repito. — Eles estavam do lado de fora.

—         Quem disse alguma coisa sobre salvar a garota e os cachorros? — Baines pergunta.

Dou de ombros.

—         Pensei que fosse essa a insinuação.

—         Não fiz nenhuma insinuação.

Sam se aproxima com meu celular. Olho para ele, tentando avisado que o momento não é oportuno, mas ele me entrega o telefone mesmo assim.

—         Obrigado — digo.

—         Fico feliz por estar bem — ele me diz.

Os policiais olham para ele com ar duro, e Sam se afasta. Baines observa com interesse. Ele está mascando chiclete, procurando costurar as informações. E assente para si mesmo.

—         Deixou o celular com seu amigo antes de sair para dar uma volta? — ele pergunta.

—         Dei o celular a ele durante a festa. Estava incomodando no bolso.

—         Posso imaginar — Baines responde. — E aonde você foi?

—         Chega, Baines. Já fez perguntas demais — diz um policial.

—         Posso ir agora? — pergunto.

O policial concorda com um movimento de cabeça. Eu me afasto com o celular na mão, já discando o número de Henri, com Sarah a meu lado.

—         Alô — Henri diz ao atender.

—         Pode vir nos buscar agora?

—         Sim. Estou indo.

—         Como explica o corte na cabeça? — Baines pergunta atrás de mim. Ele estava me seguindo e ouviu meu telefonema para Henri.

—         Eu me cortei em um galho na floresta.

—         Conveniente — ele comenta e escreve mais no bloco. — Sabe que posso perceber quando alguém mente para mim, não é?

Eu o ignoro e continuo andando de mãos dadas com Sarah. Nós nos aproximamos de Sam.

—         Vou descobrir a verdade, Sr. Smith. Sempre descubro — Baines grita atrás de mim.

—         Henri está a caminho — informo Sam e Sarah.

—         O que foi aquilo? — Sam me pergunta.

—         Sei lá! Alguém acha que me viu entrar correndo na casa, provavelmente alguém que bebeu demais — digo, mais para Baines do que para Sam.

Ficamos esperando por Henri na entrada do terreno. Quando chega, ele para a caminhonete, desce dela e fica olhando, perplexo, para a casa consumida pelo fogo.

—         Ah, não. Jure que não tem nada a ver com isso — ele resmunga.

—         Não tenho — respondo.

Entramos na caminhonete. Ele engata a marcha e olha uma última vez para os escombros fumegantes.

—         Vocês estão com cheiro de fumaça — Henri comenta.

Ninguém responde. A viagem é feita em silêncio. Sarah está sentada em meu colo. Deixamos Sam primeiro, depois Henri segue na direção da casa de Sarah.

—         Não quero ficar sem você esta noite — Sarah me diz.

—         Também não quero me afastar de você.

Quando chegamos à casa dela, eu saio da caminhonete e a acompanho até a porta. Ela não me solta quando a abraço e desejo boa noite.

—         Vai telefonar para mim quando chegar em casa?

—         Sim, é claro.

—         Amo você. Sorrio para ela.

—         Também amo você.

Ela entra. Eu volto à caminhonete, onde Henri me espera. Tenho de pensar em um jeito de impedi-lo de descobrir a verdade sobre o que aconteceu nesta noite e de nos tirar de Paradise. Henri dirige para casa.

—         O que aconteceu com sua jaqueta? — ele pergunta.

—         Estava na casa de Mark.

—         E com sua cabeça, o que aconteceu?

—         Bati em algum lugar quando tentava sair da casa no princípio do incêndio.

Ele me olha, desconfiado.

—         É você que está cheirando a fumaça.

Eu dou de ombros.

—         Era o que mais havia por lá.

—         Como o incêndio começou?

—         Acho que foi um acidente. Todo mundo bebia demais.

Henri assente e entra em nossa garagem.

—         Bem — ele diz —, vai ser interessante ler o que os jornais vão publicar na segunda-feira. — Ele se vira para estudar minha reação.

Fico em silêncio.

Sim, penso, com certeza vai ser interessante.

 

NÃO CONSIGO DORMIR, FICO DEITADO NA CAMA, OLHANDO PARA A ESCURIDÃO, PARA o teto. Telefono para Sarah e conversamos até as três da manhã; desligo e continuo ali deitado, de olhos abertos. Às quatro saio da cama e do quarto. Henri está sentado à mesa da cozinha, bebendo café. Ele olha para mim com ar cansado, os olhos vermelhos e os cabelos despenteados.

—         O que está fazendo? — pergunto.

—         Também não consegui dormir. Estava lendo as notícias.

—         Encontrou alguma coisa?

—         Sim, mas ainda não sei ao certo o que significa para nós. Os homens que escreviam e publicavam Eles Estão entre Nós, aqueles que conhecemos, foram torturados e mortos.

Eu me sento diante dele.

—         O quê?

—         A polícia os encontrou depois de os vizinhos telefonarem dizendo ter ouvido gritos na casa.

—         Eles não sabiam onde moramos.

—         Não, não sabiam. Felizmente. Mas isso significa que os mogadorianos estão ficando mais ousados e que estão próximos. Se ouvirmos ou virmos mais alguma coisa fora do comum, teremos de partir imediatamente, sem perguntas, sem discussão.

—         Tudo bem.

—         Como está sua cabeça?

—         Doendo — respondo. Levei sete pontos para fechar o corte. Henri fez a sutura. Estou vestindo um moletom largo. Tenho certeza de que os ferimentos nas costas também precisam de pontos, mas para isso eu teria de tirar a camisa, e como explicaria todos os outros arranhões e hematomas? Ele saberia o que aconteceu. Meus pulmões ainda ardem. Na verdade, a dor só piorou.

—         O incêndio começou no porão, então?

—         Sim.

—         E você estava na sala de estar?

—         Sim.

—         Como sabe que começou no porão?

—         Porque todo mundo subiu correndo.

—         E sabia que todos estavam fora da casa quando você saiu?

—         Sim, sabia.

—         Como?

Ele está tentando me fazer cair em contradição, não acredita em minha história. Tenho certeza de que Henri não acredita que me limitei a ficar olhando o que acontecia, como todo mundo.

—         Eu não entrei — digo sem rodeios. É horrível precisar mentir, mas olho nos olhos de Henri e minto.

—         Acredito em você — ele responde.

 

É quase meio-dia quando acordo. Os pássaros cantam além da janela, e a luz do sol penetra pelas frestas. Respiro aliviado. O fato de ter conseguido dormir até tão tarde significa que não foi divulgada nenhuma notícia que me incrimine. Caso contrário, eu teria sido arrancado da cama para fazer as malas.

Rolo na cama para me deitar de costas e sinto dor imediatamente. É como se alguém empurrasse meu peito para baixo, me espremesse.

Não consigo respirar direito. Quando tento, sinto uma dor aguda. Isso me assusta.

Bernie Kosar está dormindo a meu lado. Eu o acordo lutando com ele. No início ele parece atordoado, mas depois entra na brincadeira. Nosso dia sempre começa desse jeito. Eu acordo o cachorro que ronca perto de mim. Ele abana a cauda, e sua língua para fora da boca me faz sentir imediatamente melhor. Esqueço a dor no peito. Não penso no que o dia pode trazer.

A caminhonete de Henri desapareceu. Sobre a mesa encontro um bilhete com a mensagem: "Fui ao mercado. Volto logo." Vou até lá fora. Minha cabeça dói, e meus braços estão vermelhos e cheios de manchas, marcados por cortes ligeiramente inchados, como se eu houvesse sido atacado por muitos gatos. Não me incomodo com os cortes, nem com a dor de cabeça, ou com o ardor no peito. O que importa é que ainda estou em Ohio, amanhã voltarei à mesma escola que frequento há três meses e esta noite verei Sarah.

 

Henri chega em casa à uma da tarde. Noto sua expressão exausta e deduzo que ele ainda não dormiu. Depois de guardar as compras, ele vai para o quarto e fecha a porta. Bernie Kosar e eu saímos para uma caminhada pela floresta. Tento correr e, por algum tempo, até consigo, mas depois de um quilômetro a dor é insuportável e tenho de parar. Caminhamos uns oito quilômetros, mais ou menos. A floresta termina em uma estrada semelhante àquela que leva à nossa casa. Eu me viro e volto. Henri ainda está no quarto, com a porta fechada, quando entro em casa. Eu me sento na varanda. Fico tenso cada vez que um carro passa na estrada. Sempre estou esperando um deles aparecer, mas não vejo ninguém.

A confiança que eu sentia ao acordar vai desaparecendo com o transcorrer do dia. O Paradise Gazette não circula aos domingos. Eles vão publicar alguma coisa amanhã? Suponho que estou esperando por um telefonema, ou pela visita daquele repórter, ou pelas perguntas de outros policiais. Não sei por que estou tão preocupado com um repórter de jornal pequeno de cidade do interior, mas ele foi persistente — persistente demais. E sei que ele não acreditou na história que contei.

Mas ninguém aparece em nossa casa. Ninguém telefona. Espero alguma coisa e, quando nada acontece, começo a sentir medo de estar prestes a ser exposto. "Vou descobrir a verdade, Sr. Smith. Sempre descubro", Baines disse. Considero a ideia de correr até a cidade, procurá-lo e tentar dissuadi-lo de ir atrás dessa verdade, mas sei que isso só vai alimentar suas suspeitas. Tudo o que posso fazer é esperar e torcer pelo melhor.

Eu não estava naquela casa.

Não tenho nada a esconder.

 

Naquela noite Sarah vai me visitar. Vamos a meu quarto e eu a seguro nos braços, deitado de costas na cama. Sua cabeça está apoiada em meu peito, e uma das pernas repousa sobre as minhas. Ela me faz perguntas sobre quem sou, meu passado, sobre Lorien, sobre os mogadorianos. Ainda estou surpreso com a rapidez e a facilidade com que Sarah acreditou em tudo, e como ela aceitou a realidade. Respondo a todas as perguntas com sinceridade, o que faz eu me sentir muito bem, depois de todas as mentiras que contei nos últimos dias. Mas, quando falamos sobre os mogadorianos, começo a ficar assustado. Estou preocupado com a possibilidade de eles nos encontrarem. Tenho medo de nos ter exposto com minhas últimas atitudes. Faria tudo de novo, porque, se não, Sarah estaria morta, mas tenho medo. Também temo pelo que Henri vai fazer se descobrir tudo. Embora não seja meu pai biológico, para todos os efeitos ele é meu responsável legal. Eu o amo, ele me ama, e não quero desapontá-lo. E, enquanto ficamos ali deitados, meu medo começa a atingir novos níveis. Não suporto não saber o que o novo dia trará. A incerteza está acabando comigo. O quarto está escuro. Uma vela tremula no parapeito da janela. Respiro fundo, ou melhor, tanto quanto é possível em meu estado.

—         Está tudo bem? — Sarah pergunta.

Eu a abraço com mais força.

—         Sinto sua falta — digo.

—         Sente? Mas eu estou aqui.

 

—         Essa é a pior maneira de sentir falta de alguém. Quando a pessoa está a seu lado e ainda assim você sente falta dela.

—         Não faz sentido. — Ela segura meu rosto, puxa-me para perto e beija meus lábios. Não quero que ela pare. Não quero que ela pare nunca mais de me beijar. Enquanto Sarah me beija, tudo está bem. Eu ficaria neste quarto para sempre, se pudesse. O mundo pode seguir sem mim, sem nós. Desde que possamos ficar ali juntos, nos braços um do outro.

—         Amanhã — eu digo.

Ela olha para mim.

—         Amanhã o quê?

Balanço a cabeça.

—         Não sei realmente. Acho que só estou com medo. Ela me estuda com ar confuso.

—         Medo do quê?

—         Não sei. Estou com medo. Só isso.

 

Quando Henri e eu voltamos para casa depois de levá-la, vou para o quarto e me deito no mesmo lugar onde Sarah esteve. Ainda posso sentir seu cheiro na cama. Esta noite não vou dormir. Não vou nem tentar. Ando pelo quarto. Quando Henri vai para cama, eu saio e vou até a cozinha e escrevo à luz de uma vela. Escrevo sobre Lorien, sobre a Flórida, sobre aquilo que vi quando nosso treinamento começou — a guerra, os animais, imagens da infância. Espero por algum tipo de catarse, algum alívio, mas não sinto nada. Tudo isso só me deixa ainda mais triste.

Minha mão começa a doer, e eu saio e vou até a varanda. O ar frio ajuda a amenizar a dor ao respirar. A lua está quase cheia, com uma pequena porção ainda oculta. Em duas horas o sol vai nascer, e com ele virá um novo dia e as notícias do fim de semana. Os jornais são deixados em nossa porta às seis da manhã, às vezes às seis e meia. Já terei saído para a escola quando chegarem, e, se houver alguma notícia sobre mim, eu me recusarei a partir antes de ver Sarah mais uma vez, antes de me despedir de Sam.

Eu entro em casa, mudo de roupa e preparo minha mochila. Saio na ponta dos pés e em silêncio e fecho a porta com cuidado. Dei apenas três passos na varanda quando escuto alguma coisa arranhando a porta. Eu me viro para abri-la, e Bernie Kosar sai trotando satisfeito. Tudo bem, vamos juntos, eu penso.

Caminhamos e paramos frequentemente, ouvindo o silêncio. A noite ainda é escura, mas depois de um tempo uma luminosidade começa a ganhar força no céu, ao leste. Estamos chegando à escola. Não há carros no estacionamento e todas as luzes lá dentro estão apagadas. Na frente do prédio, diante do mural do pirata, há uma grande pedra que foi pintada pelas turmas anteriores de formandos. Eu me sento nela. Bernie Kosar se deita na grama alguns metros afastado de mim. Fico ali sentado por meia hora antes de o primeiro veículo aparecer, uma van, e presumo que seja Hobbs, o zelador, chegando cedo para deixar tudo em ordem na escola. Mas estou enganado. A van é parada bem à frente da porta. O motorista desce e deixa o motor ligado. Ele está carregando uma pilha de jornais presos por um arame. Nós nos cumprimentamos com um aceno, e ele deixa os jornais ao lado da porta. Depois vai embora. Continuo sentado na pedra. Olho com aparente desinteresse para os jornais.

Mentalmente, eu estou praguejando-os, desafiando-os a divulgar as más notícias das quais tenho tanto medo.

—         Eu não entrei naquela casa sábado — digo em voz alta e me sinto estúpido por isso.

Depois desvio o olhar, suspiro e pulo de cima da pedra.

—         Bem — digo a Bernie Kosar. — Chegou a hora da verdade. Ele abre os olhos por um instante, depois os fecha e volta a cochilar no gramado frio.

Removo o arame que prende os jornais e pego o primeiro da pilha. A história está na primeira página. No alto há uma foto dos escombros, um retrato feito na manhã seguinte ao incêndio. Traz uma impressão lúgubre, de mau presságio. Cinzas negras recobrem as árvores sem folhas e a grama coberta de espuma. Eu leio a manchete:

 

QUEIMANDO TUDO NA CASA DOS JAMES

 

Prendo a respiração, tomado por um sentimento horrível que se concentra no meio de minhas entranhas, como se estivesse a um passo de uma notícia horrenda. Passo os olhos pelo artigo. Não leio realmente, apenas procuro meu nome. Chego ao final. Pisco e balanço a cabeça para livrá-la da confusão. Um sorriso cauteloso se forma. Depois eu leio tudo de novo.

—         Não acredito — digo. — Bernie Kosar, meu nome não está aqui!

Ele não presta atenção em mim. Corro pelo gramado e pulo sobre a rocha.

—         Meu nome não está aqui! — grito novamente, desta vez com toda a força que tenho.

Eu me sento e leio a história. A manchete é um trocadilho com o nome do filme de Cheech e Chong, Queimando Tudo, cujo tema principal parece ser uso de drogas. A polícia acredita que o incêndio foi provocado por um baseado fumado no porão. Nem imagino como essa informação chegou ao jornal, especialmente porque é errada. O artigo é cruel e pejorativo, quase um ataque à família James. Não gostei daquele repórter. Fica claro que ele não gosta dos James. Por quê?

Continuo sentado na pedra e leio o artigo três vezes antes de a primeira pessoa chegar e destrancar as portas. Não consigo parar de sorrir. Vou ficar em Ohio, em Paradise. O nome da cidade não me parece mais tolo. Em meu entusiasmo, tenho a sensação de estar esquecendo alguma coisa, um componente fundamental. Mas estou tão feliz que não me importo. Que mal pode me atingir agora? Meu nome não está no artigo. Eu não corri para dentro daquela casa. A prova está bem ali, em minhas mãos. Ninguém pode dizer o contrário.

— Por que está tão feliz? — Sam me pergunta na aula de astronomia.

Eu ainda não parei de sorrir.

—         Leu o jornal de hoje?

Ele assente.

—         Sam, eu não fui citado! Não preciso ir embora.

—         E por que eles o mencionariam no jornal?

Fico aturdido. Abro a boca para explicar, argumentar, mas vejo Sarah entrando na sala. Ela se aproxima de nós, sorridente.

—         Oi, gatão — diz.

Ela se inclina e me beija no rosto, situação que nunca deixa de me afetar.

—         Parece que alguém está feliz hoje — diz.

—         Feliz por ver você — eu digo. — Nervosa com o exame de motorista?

—         Um pouco. Na verdade, estou ansiosa para acabar logo.

Ela se senta a meu lado. Hoje é meu dia, penso. Este é o lugar onde quero estar, e é onde estou. Sarah de um lado, Sam do outro.

Assisto às aulas como faço todos os dias. Almoço com Sam. Não falamos sobre o incêndio. Devemos ser os únicos na escola que não comentam sobre o fogo. A mesma história, muitas e muitas vezes. Nunca ouço meu nome. Em nenhuma das versões. Como eu já esperava, Mark não está na escola. Espalha-se um boato de que ele e muitos outros serão suspensos por causa da teoria publicada pelo jornal local. Não sei se é verdade ou não. Não sei se estou interessado em saber.

Quando Sarah e eu entramos na cozinha, na aula de economia doméstica, sinto-me completamente seguro e confiante. É uma certeza tão forte que penso novamente que devo estar enganado, que deixei escapar algum detalhe. A dúvida me acompanha durante o dia todo, mas eu sempre a reprimo no fundo da mente.

Preparamos pudim de tapioca. É um dia fácil. No meio da aula, a porta da cozinha é aberta. É o monitor do corredor. Olho para ele e sei imediatamente o que faz ali. Ele é o mensageiro da má notícia. O mensageiro da morte. Ele se aproxima de mim e me entrega um pedaço de papel.

—         O Sr. Harris deseja vê-lo — diz.

—         Agora?

Ele assente.

Olho para Sarah e dou de ombros. Não quero que ela perceba meu medo. Sorrio para ela antes de me dirigir à porta. E, antes de sair, eu me viro e olho para ela mais uma vez. Sarah está inclinada sobre a mesa, misturando nossos ingredientes, usando aquele mesmo avental verde que amarrei para ela em meu primeiro dia de aula, quando preparamos panquecas e as comemos no mesmo prato. Seu cabelo está preso num rabo de cavalo, e algumas mechas se soltam, emoldurando o rosto. Ela as prende atrás da orelha, e é então que me vê parado na porta. Continuo olhando para ela, tentando registrar cada detalhe deste momento, a maneira como ela segura a colher de pau, a aparência de marfim da pele iluminada pela luz que entra pelas janelas, a ternura nos olhos. Sua camisa tem um botão aberto no colarinho. Será que ela percebeu? O monitor fala alguma coisa atrás de mim. Eu aceno para Sarah, fecho a porta e sigo pelo corredor. Caminho devagar, tentando me convencer de que é só uma formalidade, algum documento que esqueci de assinar, alguma pergunta sobre a transferência. Mas sei que não é só isso.

O Sr. Harris está sentado atrás da mesa quando entro em sua sala. Ele sorri de um jeito que me aterroriza, aquele mesmo sorriso orgulhoso que exibia no dia em que tirou Mark da sala para ir dar a entrevista.

—         Sente-se — ele diz. — Então ó verdade? — Ele olha para a tela do computador e depois para mim.

—         O quê?

Na mesa dele há um envelope com meu nome escrito com caneta preta. O Sr. Harris percebe que já notei o envelope.

—         Ah, sim, isso chegou para você por fax há cerca de meia hora.

Ele pega o envelope e o joga em minha direção. Eu o seguro.

—         O que é? — pergunto.

—         Não sei. Minha secretária lacrou o envelope assim que recebeu o documento.

Várias coisas acontecem ao mesmo tempo. Abro o envelope e removo seu conteúdo. Duas folhas de papel. A de cima é uma capa com meu nome e a palavra CONFIDENCIAL em grandes letras negras. Eu a coloco atrás da segunda folha, na qual leio uma única frase escrita em letras maiúsculas. Nenhum nome. Apenas cinco palavras pretas em fundo branco.

—         Então, Sr. Smith, é verdade? Entrou correndo naquela casa em chamas para salvar Sarah Hart e os cachorros? — o Sr. Harris pergunta.

O sangue invade meu rosto. Ergo o olhar. Ele vira o monitor do computador para mim, a fim de que eu possa ler o que está na tela. É o blog afiliado ao Paradise Gazette. Não preciso ver o nome do autor para saber quem escreveu o texto. O título é mais do que suficiente.

 

O INCÊNDIO NA CASA DOS JAMES: A HISTÓRIA NÃO CONTADA

 

Sinto que o ar fica preso na garganta. Meu coração dispara. O mundo para, ou pelo menos parece parar. Eu me sinto morto por dentro. Olho para a folha de papel que estou segurando. Papel branco, liso, suave entre meus dedos. Lá está escrito:

 

VOCÊ É O NÚMERO QUATRO?

 

As duas folhas caem de minhas mãos, flutuam até o chão, onde ficam imóveis. Não entendo, eu penso. Como é possível?

— Então é isso? — insiste o Sr. Harris.

Estou boquiaberto. Sr. Harris sorri orgulhoso, feliz. Mas não é ele que vejo. É o que está atrás dele, além das janelas da sala da diretoria. Um lampejo vermelho vindo da esquina, movendo-se mais rápido do que pode ser normal, do que é seguro. Os pneus cantam no asfalto do estacionamento. A caminhonete espalha o cascalho do calçamento ao fazer uma segunda curva. Henri está debruçado sobre o volante como um doido. Ele freia com tanta violência que seu corpo é impulsionado para a frente. A caminhonete estanca com um barulho assustador.

Eu fecho os olhos.

Apóio a cabeça nas mãos.

Ouço a porta da caminhonete se abrir lá fora. Ouço quando ela é fechada.

Mais um minuto e Henri estará na sala.

 

— SENTE-SE BEM, SR. SMITH? — O DIRETOR PERGUNTA. OLHO PARA ELE. VEJO em seu rosto o esforço que faz para parecer preocupado, um olhar que só dura um segundo antes de o sorriso largo voltar.

—         Não, Sr. Harris — respondo. — Não me sinto bem.

Pego do chão a folha e a leio novamente. De onde veio isto? Agora eles só mexem com nosso equilíbrio? Não há número de telefone ou endereço, nenhum nome. Nada além de cinco palavras e um ponto de interrogação. Olho pela janela. A caminhonete de Henri está estacionada, e o escapamento ainda libera uma fumaça clara. Ele vai entrar e sair tão rápido quanto puder. Olho novamente para a tela do computador. O artigo foi postado às 11h59 da manhã, quase duas horas atrás. Surpreendo-me por Henri ter demorado todo esse tempo para chegar. Uma vertigem se apodera de mim. Sinto que estou oscilando.

—         Precisa da enfermeira? — o Sr. Harris pergunta.

A enfermeira, eu penso. Não, eu não preciso da enfermeira. O ambulatório fica ao lado da cozinha onde temos aula de economia doméstica. Preciso voltar lá, Sr. Harris, voltar no tempo quinze minutos, antes de ser chamado pelo monitor do meu corredor. Sarah já deve estar assando o pudim. Talvez já esteja borbulhando. Ela está olhando para a porta, esperando eu voltar?

O eco distante das portas das salas se abrindo e fechando alcança a sala da diretoria. Quinze segundos até Henri chegar. Depois para a caminhonete. Para casa. E depois, para onde? Maine? Missouri? Canadá? Uma escola diferente, outro começo, outro nome.

Não durmo há quase trinta horas, e só agora sinto a exaustão. Mas há algo mais, outro sentimento, e nessa fração de segundo entre instinto e ação, a realidade de que vou embora para sempre sem ter sequer a chance de me despedir se torna intolerável. Meus olhos se estreitam, meu rosto se contorce em agonia, e — sem pensar, sem realmente saber o que estou fazendo — salto por cima do Sr. Harris e atravesso a vidraça da janela, que se parte em milhões de pedaços pequeninos. Ouço um grito chocado.

Meus pés aterrissam na grama do lado de fora. Viro para a direita e atravesso correndo o pátio da escola, as salas passando num lampejo à minha direita. Corro para o bosque atrás da quadra de futebol. Tenho cortes na testa e no cotovelo esquerdo, resultado do contato com os cacos de vidro da janela. Meus pulmões queimam. Para o inferno com a dor. Sigo em frente, o papel ainda em minha mão direita. Eu o enfio no bolso. Por que os mogadorianos enviariam um fax? Eles não apareceriam ali, simplesmente? Essa era a principal vantagem que tinham, chegar de forma inesperada, sem aviso prévio. O benefício da surpresa.

Viro à esquerda no meio da floresta, correndo entre as árvores até sair do outro lado, em um campo. As vacas mastigam o capim e me olham inexpressivas, e eu continuo correndo. Chego em casa antes de Henri. Bernie Kosar não está ali. Passo pela porta e paro de repente. A respiração parece ficar presa no peito. Na cozinha, sentada à mesa diante do laptop de Henri, vejo uma pessoa que penso ser um deles. Eles me venceram, agiram de forma a garantir que eu estivesse sozinho, sem Henri. A pessoa se vira, e eu cerro os punhos me preparando para lutar.

Mas é Mark James.

—         O que está fazendo aqui? — pergunto.

—         Tentando entender o que significa tudo isso que está acontecendo — ele responde com um ar apavorado. — O que diabos é você?

—         Do que está falando?

—         Veja — ele diz, apontando para o computador.

Eu me aproximo, mas não olho para a tela, porque antes meu olhar para na folha sobre a mesa, ao lado do laptop. É uma réplica daquela que tenho no bolso, exceto pelo papel em que foi impressa a mensagem, um tipo mais encorpado do que aquele utilizado para fax. Então eu noto algo mais. No pé da página enviada para Henri, numa letra bem pequena, há um número de telefone. Eles não podem estar pensando que vamos telefonar! "Alô? Ah, sim, sou eu, o Número Quatro, estou aqui esperando por vocês. Passamos dez anos fugindo, mas, por favor, podem vir nos pegar agora; não vamos resistir." Isso não faz sentido algum.

—         Isso é seu? — pergunto.

—         Não — Mark responde. — Mas foi entregue por um portador quando cheguei aqui. Seu pai leu enquanto eu mostrava a ele o vídeo e depois saiu correndo.

—         Que vídeo?

—         Veja — ele diz.

Olho para a tela e vejo que ele acessou o YouTube. Ele clica em play. É um vídeo de imagem pouco nítida, com qualidade ruim, como se houvesse sido feito a partir de um celular. Reconheço imediatamente a casa, cuja fachada está em chamas. A câmera treme, mas é possível ouvir os cães latindo e as exclamações de terror e choque da multidão. A pessoa que está gravando começa a recuar, afasta-se, vai para a lateral da casa e depois para os fundos. A câmera focaliza uma janela de trás, de onde vêm os latidos. Os latidos cessam, e eu fecho os olhos porque sei o quo está por vir. Vinte segundos depois, eu apareço voando pela janela com Sarah e os cachorros nos braços, e Mark clica no botão de pausa do vídeo. Quem está filmando aciona o zoom da câmera, e meu rosto e o de Sarah surgem, inconfundíveis.

—         Quem é você? — Mark pergunta.

Ignoro a pergunta e faço outra:

—         Quem fez esse filme?

—         Não sei.

O cascalho range sob os pneus da caminhonete na frente da casa. Henri voltou. Ergo o corpo, e meu primeiro instinto é correr, sair da casa e voltar à escola, onde sei que Sarah vai ficar até tarde revelando fotos — até o horário de seu exame de motorista, às quatro e meia da tarde. O rosto dela é tão nítido quanto o meu naquele vídeo, o que a coloca em igual perigo. Mas alguma coisa me impede de fugir e fico esperando ali mesmo, na cozinha, ao lado da mesa. Ouço a porta da caminhonete se fechando. Henri entra em casa cinco segundos depois, com Bernie Kosar correndo na frente dele.

—         Mentiu para mim — ele fala da porta, o rosto dominado pela tensão.

—         Eu minto para todo mundo — respondo. — Você me ensinou.

—         Não mentimos um para o outro! — ele grita.

Nós trocamos um olhar demorado.

—         O que está acontecendo? — Mark pergunta.

—         Não vou sair daqui sem falar com Sarah — aviso. — Ela corre perigo, Henri!

Ele balança a cabeça para mim.

—         Este não é momento para sentimentalismo, John. Não vê o que está acontecendo? — ele pergunta e atravessa a cozinha brandindo a folha de papel. — De onde acha que veio isto?

—         Que diabo está acontecendo aqui? — Mark praticamente berra.

Ignoro a folha e Mark, mantendo os olhos fixos em Henri.

—         Também já vi isso e, por esse motivo, preciso voltar à escola. Eles a verão e irão atrás dela.

Henri começa a se aproximar de mim. Depois do segundo passo, ergo a mão e o detenho onde está, alguns metros longe. Ele tenta prosseguir, mas não consegue.

—         Precisamos sair daqui. John — ele avisa com um tom suplicante, magoado.

Enquanto o mantenho afastado, começo a andar de costas na direção da porta, para meu quarto. Henri desiste de tentar se mover. Ele não diz nada, fica ali parado me observando com ar sofrido, um olhar que faz eu me sentir pior do que já me sentia. Tenho de desviar os olhos dos dele. Quando chego à porta, volto a encará-lo. Seus ombros estão caídos, os braços ao longo do corpo, como se ele não soubesse o que fazer com as mãos. Henri simplesmente olha para mim, e de repente tenho a impressão de que ele talvez comece a chorar.

—         Sinto muito — digo, usando a vantagem da distância para conseguir escapar. Eu me viro e corro para o quarto, pego na gaveta da cômoda uma faca que usava para tirar escamas de peixe quando ainda vivíamos na Flórida e pulo pela janela. Corro para a floresta. Os latidos de Bernie Kosar me seguem, mas é só isso. Mais nada. Corro por pouco mais de um quilômetro e paro na grande clareira onde Sarah e eu fizemos anjos na neve. Nossa clareira, ela a havia chamado. A clareira onde faríamos nossos piqueniques de verão. Sinto dor no peito quando penso que não estarei ali no verão, uma dor tão forte que me curvo e ranjo os dentes. Se ao menos pudesse ligar para ela e preveni-la, dizer para sair da escola. Mas meu telefone está no armário, junto com tudo o que levo na mochila da escola. Vou protegê-la do perigo iminente, depois voltarei para ir embora com Henri.

Eu me viro e corro para a escola, corro tanto quanto meus pulmões permitem. Chego quando os ônibus já começam a deixar o estacionamento. Eu os vejo de onde estou, na entrada da floresta. Hobbs está na porta, do lado de fora, medindo um grande painel de madeira para cobrir a janela que quebrei. Controlo a respiração, faço o possível para limpar a mente de todos os pensamentos. Vejo os carros deixarem o local até restarem só alguns poucos. Hobbs cobre o buraco, depois desaparece no interior do prédio. Gostaria de saber se ele foi prevenido sobre mim, se foi orientado a chamar a polícia caso me visse. Olho para o relógio no pulso. São apenas 15h30, mas a penumbra parece estar mais intensa, tornando-se uma escuridão pesada e envolvente. As luzes no estacionamento foram acesas, mas elas também parecem pálidas e insuficientes.

Saio da floresta, atravesso o campo de beisebol e me aproximo do prédio. Ainda há cerca de dez carros no estacionamento. A porta da escola já foi trancada. Eu seguro a maçaneta, fecho os olhos, concentro-me, e a tranca estala. Entro no edifício e não vejo ninguém. As luzes no corredor estão acesas. O ar é quieto, como se não se movesse. Em algum lugar, a enceradeira já foi ligada para polir o chão. Caminho pelo corredor até ver a porta da sala de revelação. Sarah. Ela planejava revelar algumas fotos hoje, antes do exame de motorista. Vou até meu armário e abro a porta. Meu telefone não está lá; o armário está completamente vazio. Alguém, Henri, espero, o pegou. Chego à sala de revelação sem ver ninguém pelo caminho. Onde estão os atletas, os membros da banda, os professores que sempre ficam até mais tarde corrigindo trabalhos e preparando aulas? Um mau pressentimento me invade, e tenho medo de que algo terrível tenha acontecido a Sarah. Pressiono a orelha contra a porta da sala de revelação, tentando ouvir algum som do outro lado, mas tudo o que consigo identificar é o ronco abafado da enceradeira em algum ponto do corredor. Respiro fundo e tento abrir a porta. Está trancada. Colo a orelha nela novamente e bato com delicadeza. Não há resposta, mas ouço algum ruído do outro lado. Respiro fundo, preparo-me para o que posso encontrar e destranco a porta.

A sala está escura. Acendo minhas mãos e faço uma varredura. Não vejo nada e penso que o lugar está vazio, mas percebo um leve movimento em um canto. Eu me abaixo para olhar, e ali, encolhida sob o balcão, tentando se esconder, encontro Sarah. Reduzo a intensidade das luzes para que ela possa ver que sou eu. Ela olha para mim, sorri e respira aliviadamente.

—         Eles estão aqui, não é?

—         Se não estiverem, logo estarão.

Eu a ajudo a se levantar, e Sarah me abraça com força, tanto que tenho a impressão de que nunca mais me soltará.

—         Vim para cá logo depois da oitava aula, e assim que a última aula terminou, comecei a ouvir barulhos estranhos nos corredores. Ficou muito escuro, por isso me tranquei aqui e fiquei embaixo do balcão, apavorada demais para me mover. Sabia que algo estava errado, especialmente depois que ouvi os boatos sobre como você pulou pela janela. E você não atendia ao telefone.

—         Você foi muito esperta, mas agora devemos sair daqui, e depressa.

Deixamos a sala de mãos dadas. As luzes do corredor se apagam, e toda a escola está neste instante mergulhada na escuridão, embora o anoitecer ainda seja daqui a pelo menos uma hora. Dez segundos depois, as luzes se acendem novamente.

—         O que está acontecendo? — Sarah sussurra.

—         Não sei.

Seguimos em frente sem fazer barulho, e os menores ruídos que fazemos parecem abafados, amortecidos. A saída mais próxima é a porta dos fundos, que se abre para o estacionamento dos professores, e, enquanto caminhamos para lá, o som da enceradeira vai se tornando mais próximo. Deduzo que encontraremos Hobbs. Presumo que ele saiba que quebrei a janela. Ele vai me atacar com um cabo de vassoura e chamar a polícia? Acho que, a esta altura, isso não importa.

Quando chegamos ao corredor no fundo do prédio, as luzes se apagam mais uma vez. Paramos e esperamos que voltem a se acender, mas nada muda. A enceradeira continua, um som contínuo e abafado. Não posso veda, mas sei que está a uns cinco ou seis metros de nós na escuridão impenetrável. Acho estranho que a máquina continue funcionando, que Hobbs continue polindo o chão no escuro. Acendo minhas luzes. Sarah solta minhas mãos e fica atrás de mim, segurando minha cintura. Encontro a tomada na parede, depois o fio, depois a máquina. Ela está parada, batendo na parede, sem ninguém para manejá-la, funcionando sozinha. O pânico me invade. Sarah e eu temos de sair logo da escola.

Arranco o fio da tomada e a enceradeira para. No lugar do ronco anterior, resta agora apenas o silêncio. Apago minhas luzes. Em algum lugar, uma porta se abre com cuidado, apenas uma fresta. Eu me abaixo, mantenho as costas voltadas para a parede, Sarah segurando meu braço. Estamos ambos apavorados demais para falar. O instinto me fez puxar o fio para deter a enceradeira, e tenho um impulso de ligá-la novamente, mas sei que isso vai nos delatar, se eles realmente estiverem ali. Fecho os olhos e tento ouvir algo. A porta não faz mais nenhum ruído. Um vento suave parece surgir do nada. Certamente, não há janela alguma aberta. Penso que talvez o vento esteja entrando pela janela que quebrei. Então, a porta é batida com violência, e vidros se quebram e caem no chão.

Sarah grita. Alguma coisa passa por nós, mas não sei o que é e nem tento descobrir. Seguro a mão de Sarah e corro, abro a porta com o ombro e continuo correndo para o estacionamento. Sarah sufoca um grito, e nós paramos. Minha respiração fica presa na garganta, e um arrepio gelado sobe pelas costas. As luzes estão acesas, mas fracas, fantasmagóricas na escuridão densa. Sob a lâmpada mais próxima, nós dois vemos a figura no sobretudo e com um chapéu afundado que nos impede de ver seus olhos. Ela levanta a cabeça e ri para mim.

Sarah aperta minha mão. Nós dois recuamos um passo e, na pressa de fugir, tropeçamos. Nós nos deslocamos de volta como caranguejos, até esbarrarmos na porta.

—         Vamos — eu grito enquanto me levanto. Sar ah também fica em pé. Experimento a maçaneta, mas a porta se trancou automaticamente quando saímos. — Merda!

Vejo outra figura pelo canto dos olhos, e no início ela fica parada, imóvel. Percebo quando dá o primeiro passo em minha direção. Há outra atrás dela. Os mogadorianos. Depois de tantos anos, eles finalmente estão ali. Tento me concentrar, mas minhas mãos tremem demais para que eu consiga abrir a porta. Percebo que eles se aproximam. Sarah cola o corpo ao meu e sinto que ela está tremendo.

Não consigo me concentrar para destrancar a porta. O que aconteceu com minha capacidade de funcionar sob pressão, com todos aqueles dias de treinamento no quintal de casa? Não quero morrer, eu penso. Não quero morrer.

—         John — Sarah murmura, e há tanto medo na voz dela que meus olhos se abrem. Sou tomado por uma determinação renovada.

A fechadura estala. A porta se abre. Sarah e eu entramos e a fechamos. Ouvimos um baque do outro lado, como se alguém houvesse chutado a porta. Aceleramos pelo corredor adentro. Os barulhos nos seguem. Não sei se há algum mogadoriano dentro do edifício. Outra janela se quebra em algum lugar, e Sarah grita.

—         Precisamos ficar quietos — digo.

Tentamos abrir as portas das salas de aula, mas todas estão trancadas. Não creio que haja tempo suficiente para destrancar uma delas. Em algum lugar uma porta bate, e não consigo dizer se é na frente ou atrás de nós. Os barulhos nos seguem de perto, aproximam-se, invadem nossa audição. Sarah segura minha mão e corremos ainda mais. e eu tento lembrar a planta do prédio para poder manter minhas luzes apagadas, impedir que nos vejam. Finalmente, uma porta se abre, e passamos por ela caindo do outro lado. É a sala de história, à esquerda do corredor. Pela janela dali é possível ver uma encosta suave lá fora, e, por causa da altura de cinco ou seis metros, há grades nas janelas. A escuridão é total do outro lado da vidraça. Nenhuma luz penetra por ela. Fecho a porta silenciosamente e espero que eles não tenham nos visto. Direciono minhas luzes por toda a área da sala e as apago depressa. Estamos sozinhos e vamos nos esconder sob a mesa do professor. Tento respirar. O suor escorre pelas laterais de meu rosto e arde em meus olhos. Quantos deles estão ali? Vi três, pelo menos. E eles não eram os únicos lá fora, é claro. Será que trouxeram as bestas, os bichos dos quais os redatores em Athens tinham tanto medo? Queria que Henri estivesse ali. Ou Bernie Kosar.

A porta se abre lentamente. Prendo a respiração e escuto. Sarah se apoia em mim e nós nos abraçamos. A porta se fecha e ouvimos o estalo da maçaneta. Não escuto passos. Eles só abriram a porta e espiaram pela fresta para ver se havia alguém ali? Foram embora sem entrar? Eles me encontraram depois de muito tempo, não podem ser tão relaxados.

—         O que vamos fazer? — Sarah pergunta depois de trinta segundos.

—         Não sei — cochicho de volta.

A sala está silenciosa. Não imagino quem ou o que abriu a porta, mas, seja o que for, deve ter ido embora ou está esperando por nós no corredor. Mas sei que, quanto mais tempo ficarmos ali esperando, mais deles chegarão. Vamos ter de correr o risco. Respiro fundo.

—         Precisamos ir — eu digo. — Não estamos seguros aqui.

—         Mas eles estão lá fora.

—         Eu compreendo, e não vão desistir. Henri está em casa, correndo o mesmo perigo que nós.

—         Mas como vamos sair?

Não faço ideia, não sei o que dizer. Só existe uma saída, e o caminho é o mesmo por onde entramos. Os braços de Sarah ainda me enlaçam.

—         Somos alvos fáceis aqui, Sarah. Eles nos encontrarão e, quando isso acontecer, todos virão nos pegar. Se sairmos agora, ainda teremos a nosso lado o elemento surpresa. Se conseguirmos sair do prédio, acho que podemos ligar um carro. Se não, vamos ter que lutar para fugir. Ela assente.

Respiro profundamente e saio de baixo da mesa. Estendo a mão, e Sarah também se levanta. Juntos, vamos caminhando passo a passo, em silêncio. Levamos um minuto inteiro para atravessar a sala e não encontramos nada na escuridão. Um brilho muito brando brota de minhas mãos, emitindo uma luz muito fraca, o suficiente apenas para não tropeçarmos em nada. Olho para a porta. Abro. Depois, faço Sarah pular em minhas costas e corro, corro com todas as minhas forças, com as luzes acesas, percorro o corredor, para sair da escola e atravessar o estacionamento, planejando correr para a floresta, caso não consiga ligar um carro. Conheço a floresta e o caminho para casa. Há mais deles, mas Sarah e eu temos a vantagem de conhecer o terreno.

Quando nos aproximamos da porta, meu coração está batendo tão forte e acelerado, que os mogadorianos devem poder ouvi-lo. Fecho os olhos e estendo a mão para a maçaneta bem devagar. Sarah fica tensa. Quando minha mão está suficientemente próxima da maçaneta, tanto que posso sentir o frio que emana do metal, somos agarrados por trás e puxados para o chão.

Tento gritar, mas a mão cobre minha boca. O medo me invade. Sinto Sarah se debatendo sob os braços que a imobilizam e faço o mesmo, mas o adversário é muito mais forte. Nunca pensei que os mogadorianos seriam mais fortes do que eu. Eu os subestimei. Agora não há mais esperança. Fracassei. Falhei com Sarah, com Henri, e sinto muito por isso. Henri, espero que lute melhor do que eu.

Sarah está ofegante, e concentro todas as minhas forças na tentativa de me libertar, mas não consigo.

— Shhhh, pare de se debater — a voz sussurra em meu ouvido. Uma voz feminina. — Eles estão esperando lá fora. Vocês dois precisam ficar quietos.

É uma garota, mas ela é tão forte quanto eu. Talvez mais forte do que eu. Nós nos estudamos. Uso a luz de minhas mãos para iluminar o rosto que, descubro, é pouco mais velho do que o meu. Olhos castanhos, faces elevadas, cabelos escuros e longos presos num rabo de cavalo, boca larga e nariz forte, pele azeitonada.

—         Quem é você? — pergunto.

Ela olha para a porta e permanece em silêncio. Uma aliada, penso. Alguém além dos mogadorianos sabe de minha existência. Alguém está ali para ajudar.

—         Eu sou a Número Seis — ela diz. — Tentei chegar aqui antes deles.

 

- COMO SOUBE QUEM EU ERA? - PERGUNTO.

Ela olha para a porta.

—         Estou tentando encontrado desde que Três foi morto. Mas eu explico tudo mais tarde. Primeiro, temos que sair daqui.

—         Como entrou sem ser vista por eles?

—         Posso me tornar invisível.

Eu sorrio. O mesmo Legado que meu avô tinha. Invisibilidade. E a capacidade de tornar invisível tudo aquilo em que ele tocava, como a casa no segundo dia de trabalho de Henri.

—         Mora muito longe daqui? — ela pergunta.

—         Cinco quilômetros.

Sinto que ela move a cabeça em sentido afirmativo na escuridão.

—         Você tem um Cêpan? — ela pergunta.

—         Sim, é claro. Você não tem?

Ela transfere o peso do corpo de uma perna para a outra e faz uma pausa antes de responder, como se buscasse forças em alguma entidade invisível.

—         Eu tinha — ela revela. — Ela morreu há três anos. Desde então, tenho estado sozinha.

—         Sinto muito — eu digo.

—         É uma guerra, as pessoas vão morrer. E neste momento nós devemos sair daqui, ou morreremos também. Eles estão na área, então já sabem onde você mora, o que significa que já estão lá, por isso é inútil tentar ser discreto para sairmos daqui. Os que estão lá fora são só mensageiros. Os soldados estão a caminho. Eles têm espadas. As bestas não demorarão a segui-los. O tempo é curto. Um dia, no máximo. Se eles já não estiverem por aqui.

Meu primeiro pensamento: Eles já sabem onde eu moro. Entro em pânico. Henri está em casa, com Bemie Kosar, e os soldados e as bestas podem estar com eles. Meu segundo pensamento: a Cêpan da Número Seis morreu há três anos. Desde então. Seis tem estado sozinha em um planeta estranho. Desde os treze, quatorze anos.

—         Ele está em casa — digo.

—         Quem?

—         Henri. Meu Cêpan.

—         Tenho certeza de que ele está bem. Não tocarão nele enquanto você estiver livre. É você que eles querem, e vão usá-lo para atraí-lo — diz Seis. Depois, ela olha para a janela com grades. Nós também olhamos para lá. As luzes fracas dos faróis de um carro aproximam-se da escola, passam pela saída, fazem uma curva e desaparecem rapidamente. Seis olha para nós.

—         Todas as portas estão bloqueadas. Como vamos sair?

Eu penso um pouco e imagino que uma das janelas sem grades em outra sala de aula seja nossa melhor chance.

—         Podemos sair pelo ginásio — diz Sarah. — Há uma passagem sob o palco que se abre como um alçapão e leva à parte de trás do prédio.

— É mesmo? — pergunto.

Ela assente, e sinto orgulho dela.

—         Segurem minhas mãos — diz Seis. Eu pego a direita, Sarah segura a esquerda. — Fiquem quietos. Enquanto segurarem minhas mãos. vocês estarão invisíveis. Eles não poderão nos ver, mas conseguem nos ouvir. Quando estivermos do lado de fora, vamos correr como loucos. Depois que nos virem não poderemos escapar deles. Nossa única chance é matados, matar cada um deles, antes de os outros chegarem.

—         Tudo bem — concordo.

—         Sabe o que isso significa? — Seis me pergunta.

Balanço a cabeça. Não sei nem o que ela está me perguntando.

—         Não há como fugir deles agora — ela diz. — Significa que você vai ter que lutar.

Pretendo responder, mas o ruído abafado que ouvi antes para do outro lado da porta. Silêncio. Alguém gira a maçaneta. Número Seis respira fundo e solta minha mão.

—         Esqueça a fuga — ela avisa. — A guerra começa agora.

Ela corre com as mãos estendidas para a frente, e a porta é repentinamente arrancada das dobradiças e jogada longe. O corredor fica coberto de fragmentos de madeira e cacos de vidro.

—         Acenda suas luzes! — ela grita.

Eu obedeço. Há um mogadoriano parado no meio dos destroços da porta. Ele sorri, e percebo um fio de sangue escorrendo pelo canto de sua boca, onde a porta o atingiu. Olhos negros, pele pálida como se nunca tivesse sido tocada pelo sol. Uma espécie de criatura das cavernas, um ser das sombras que se ergueu dos mortos. Ele arremessa algum objeto que não consigo ver, e ouço Seis gemer a meu lado. Fito os olhos dele e uma dor me toma de assalto, paralisando-me. Não consigo me mover. A escuridão cai. Tristeza. Meu corpo está enrijecido. Imagens do dia da invasão desfilam por minha mente: a morte de mulheres e de crianças, de meus avós; lágrimas, gritos, sangue, pilhas de corpos queimando. Seis quebra o encanto quando ergue o mogadoriano no ar e o arremessa contra a parede. Ele tenta ficar de pé, e Seis o levanta novamente, desta vez jogando-o com toda a força contra uma parede, em seguida contra outra. O mensageiro cai retorcido e quebrado, seu peito se eleva, depois fica paralisado. Um ou dois segundos passam. Todo o corpo desmorona numa pilha de cinzas, e o som é parecido com o de areia caindo no chão.

—         Que diabos? — pergunto, imaginando como é possível o corpo se desintegrar completamente, como acabei de ver.

—         Não olhe nos olhos dele! — ela grita, ignorando minha confusão.

Penso no redator de Eles Estão entre Nós. Agora entendo o que ele passou quando olhou nos olhos deles. Talvez tenha recebido a morte com alívio e alegria quando ela finalmente chegou, feliz por poder se livrar das imagens que desfilavam constantemente por seus pensamentos. Só posso imaginar a intensidade com que eles teriam surgido para mim se Seis não houvesse quebrado o encanto.

Dois outros mensageiros surgem no final do corredor e caminham em nossa direção. Um manto de escuridão os cerca, como se consumissem tudo em torno deles, pintando o mundo de preto. Seis está à minha frente, firme, de queixo erguido. Ela é cinco centímetros menor do que eu, mas sua atitude a faz parecer cinco centímetros mais alta. Sarah está atrás de mim. Os dois mogadorianos param no cruzamento de dois corredores, seus dentes visíveis numa careta. Meu corpo fica tenso, os músculos queimam de exaustão. Eles respiram fundo, de um jeito ruidoso, e percebo que era esse ruído que ouvíamos do outro lado da porta. A respiração deles, não os passos. Eles nos observam. Um barulho diferente soa no corredor, e os mogadorianos se voltam na direção dele. Uma porta treme, como se alguém tentasse arrombá-la. Do nada, ouvimos o som de tiros, uma rajada deles, e a porta da escola é aberta com um chute. Os dois parecem surpresos, e, quando se viram para fugir, mais duas rajadas ecoam, e eles são jogados para trás. Ouvimos passos se aproximando, dois pares de pés, e o barulhinho de unhas de cachorro no chão. Seis fica tensa a meu lado, pronta para o que se aproxima de nós. Henri! Foram as luzes dos faróis da caminhonete dele que vimos passar. Ele deve ter entrado pelos fundos. Nunca antes eu havia visto a arma de cano duplo que agora está em suas mãos. Bemie Kosar caminha ao lado dele e corre para mim ao me ver. Eu me abaixo e o pego nos braços. Ele lambe meu rosto, e fico tão feliz por vedo que quase me esqueço de dizer a Seis quem é o homem com a arma.

—         Henri — digo apressado. — Meu Cêpan.

Ele se aproxima de nós com olhar atento, examinando as portas das salas ao passar por elas, e atrás dele, carregando a Arca Lórica, eu vejo Mark. Não sei por que Henri o trouxe. Percebo uma expressão transtornada no olhar de Henri, uma exaustão que se mistura a terror e preocupação. Espero o pior, depois de ter saído de casa daquele modo, algum tipo de reprimenda, talvez até um tapa no rosto, mas, em vez disso, ele passa a arma para a mão esquerda e me abraça com força. Eu o abraço de volta.

—         Sinto muito, Henri. Eu não sabia que isso ia acontecer.

—         Eu sei que não. Estou feliz por você estar bem — ele responde. — Vamos, temos que sair daqui. A escola está cercada.

Sarah nos leva à sala mais segura que ela consegue lembrar, que é a cozinha das aulas de economia doméstica no final do corredor. Trancamos a porta atrás de nós. Seis empurra as geladeiras para a frente dela, de forma a impedir que alguém entre, e Henri corre até as janelas e baixa as persianas. Sarah se dirige à cozinha que normalmente usamos, abre a gaveta e retira dela a maior faca que encontra. Mark a observa. Quando vê o que ela fez, ele deixa a arca no chão e vai buscar uma faca também. Mark vasculha outras gavetas e encontra um martelo de bater carne, e o prende na cintura da calça.

—         Todos estão bem? — Henri pergunta.

—         Sim — respondo.

—         Com exceção da faca em meu braço, sim, tudo bem — diz Seis.

Acendo as luzes das mãos, tomando o cuidado de mantê-las bem fracas, só o suficiente para examinar o braço dela. Seis não está brincando. No local onde o bíceps encontra o ombro, vejo uma pequena adaga cravada na carne. Por isso eu a ouvi gemer antes de matar o mensageiro. Ele havia arremessado uma faca contra ela. Henri estende a mão e remove a faca. Ela grunhe.

—         Felizmente é só uma adaga — Seis comenta, olhando para mim. — Os soldados virão com espadas brilhantes que têm poderes variados.

Quero perguntar que tipo de poderes, mas Henri interrompe.

—         Pegue — ele diz, oferecendo a arma a Mark.

Ele a aceita com a mão livre sem protestar, olhando espantado para tudo o que está acontecendo à sua volta. Não sei o quanto Henri contou a ele. Gostaria de saber por que Henri o trouxe. Olho para Seis. Henri pressiona um pedaço de pano contra o braço dela, e Seis o segura. Ele pega a arca do chão e a coloca na mesa mais próxima.

—         Aqui, John — ele diz.

Sem nenhuma explicação ou pergunta, eu o ajudo a abrir a arca. Ele levanta a tampa, enfia a mão lá dentro e retira dali uma pedra plana t&ati