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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FANTASIA ESCURA J. C. Hendee
FANTASIA ESCURA J. C. Hendee

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

 

Magiere é a melhor caça-vampiros daquelas terras.

Os aldeãos lhe agradecem que os libere dos não-mortos, mas se vêem muito empobrecidos depois da salvação. Ela sabe que negocia com gente supersticiosa, e não vê nada mau em explorá-los em seu próprio benefício.

Cansados do jogo, Magiere e seu companheiro, o meio elfo Leesil, estão preparados para pendurar suas armas e fincar raízes em algum lugar ao que possam chamar lar. Mas Magiere chamou a atenção de um trio de perigosos vampiros que têm descoberto sua verdadeira identidade, e tratarão de evitar que ela leve a cabo a missão que o destino lhe tem reservada...

 

 

 

 

O povoado parecia estar totalmente deserto exceto pelos magros fios de fumaça que saíam das chaminés de argila que se elevavam e se dissolviam na escuridão. Todas as portas tinham trancas, todas as venezianas estavam fechadas com trincos, tão apertadas que apenas se escapavam pelas frestas ligeiros brilhos da luz das velas ou dos abajures de azeite. Não havia ninguém no enlameado caminho central do povoado para ver como o objeto coberto pelas sombras da noite revoava para uma cabana próxima ao bosque.

A sombra se deteve duvidosa junto à cabana. Devagar, trocou de forma e se expandiu de uma vez que deixava seu minucioso disfarce. Do nada apareceram uns pés revestidos em botas, uns braços que se alargavam para a cabana, um torso comprido e esbelto e uma cabeça que tinha dois pequenos buracos brilhantes por olhos. Escalou uma árvore com grande rapidez e se lançou sobre seu objetivo.

Posou-se sobre o telhado de palha e se deslizou sobre seu estômago para descer por uma parede com a cabeça por diante. Então se deteve e se colocou na parte superior de uma janela com a veneziana fechada. Estendeu a unha de um dedo com aspecto de garra e a passou por entre as venezianas. Fez alavanca e puxou até que o ferrolho cedeu com um som afiado. A figura se deteve a esperar qualquer som que lhe respondesse do interior da habitação. Quando não houve resposta alguma abriu as venezianas de par em par.

Na cama que havia dentro jazia uma pequena anciã. Sua larga cabeleira prateada descansava junto a ela recolhida em uma trança sobre um travesseiro de linho amarelado. Uma colcha de retalhos desbotada com quadros carmim e franjas a cobriam.

A criatura passou sua cabeça de barriga para baixo pela janela. Sua voz soou como um eco através de uma grande planície ao sussurrar:

—Posso entrar?

A anciã se moveu imperceptivelmente em seu sonho.

De novo, a voz lhe perguntou com um ligeiro deixe de desejo.

—Por favor, anciã mãe, posso passar?

A anciã gemeu e se deu a volta, de maneira que ficou olhando para a janela. Em sua face enrugada tinha uma cicatriz branca que as marcas do tempo tinham suavizado em parte. Com os olhos fechados pelo sonho tão só murmurou:

—Sim... Sim pode passar.

O visitante alargou um braço através da abertura e o dirigiu para cima de maneira que cravou as unhas na parede. Subiu pela parte superior da janela, deixou que seus pés se balançassem para dentro e finalmente se deixou cair sem ruído algum no chão do dormitório. Cruzou a estadia até onde se encontrava a cama e com rapidez alargou uma mão e lhe tampou a boca à anciã.

A mulher despertou, abriu de par em par os olhos cheios de terror. Só por uns segundos. Depois contemplou com o olhar vazio aos olhos que estavam sobre ela. O visitante noturno afrouxou a mão e baixou sua cabeça para a garganta da anciã. Toda a habitação ficou em silêncio e se reteve no tempo.

Depois disto levantou a cabeça para olhar pela janela aberta. Uma mancha escura cobria um lado da garganta da anciã. O visitante começou a baixar a cabeça sobre o pescoço da mulher de novo, mas esta vez se deteve. Com um gesto próprio de uma coruja olhou de novo pela janela e escutou com atenção.

Fora alguém andava pelo caminho do povoado. O visitante se aproximou da janela.

A que avançava pelo caminho do povoado era uma jovem que levava uma couraça de couro com pregas e botas de couro brando por cima do joelho sobre umas bombachas cor terrosa. Em uma mão levava uma pequena estaca e na outra uma adaga larga com a que amolava a ponta da estaca até convertê-la em uma áspera ponta. Tinha pendurada a um lado uma cimitarra, embainhada em uma bainha de pele já muito gasta. A noite era muito escura para a maioria dos olhos. Enquanto a mulher passava por entre as sombras que a lua criava entre as cabanas e as árvores, o visitante pôde distinguir seu cabelo negro com reflexos avermelhados que ressaltavam uma pele suave e jovem de não mais de duas décadas de idade.

A postura da mulher não mostrava medo ou cansaço algum enquanto atravessava o povoado de uma vez que dava forma à pequena lança.

—caçadora — sussurrou o visitante a si mesmo divertido.

O que tinha visto era muito ridículo para guardar-lhe para si mesmo, por isso saltou pela janela para depois subir como uma aranha até o telhado. A escura figura se encolheu e se desvaneceu na escuridão do bosque.

 

Bem depois do pôr-do-sol, Magiere entrou em outro povoado estraviniano sem reparar nele. Os habitantes dos distintos povoados viviam da mesma maneira em todas as zonas do país. Todas suas sombrias e disformes cabanas lhe começavam a desfocar na lembrança depois de seis anos; Magiere só as contava para calcular a população. Naquele povoado não viviam mais de cem pessoas, ou inclusive podia ser que fossem somente umas cinqüenta. Ninguém se deixava ver essas horas da noite, apesar de que podia ouvir o rangido das portas e venezianas a seu passo; talvez alguém que quereria bisbilhotar quando ela não olhasse. O único outro som era o chiado de sua adaga de caça ao cortar a madeira dura, enquanto afiava a ponta de uma estaca não mais larga que um braço.

A escuridão não lhe dava medo. Não lhe evocava nenhuma das ameaças conjuradas pelo medo que fazia que esses aldeãos se estremecessem atrás de suas portas fechadas de alvenaria. Provou a cimitarra que levava em sua capa, assegurou-se de poder desembainhá-la com rapidez em caso de que fora necessário e continuou seu passeio para o outro lado do povoado. Começou a garoar, o que logo fez que lhe emaranhasse o cabelo negro e apagou qualquer brilho avermelhado que poderia ter mostra-ser à luz. Com sua pele pálida, ela devia lhes parecer, aos habitantes daquela aldeia uma presença tão nefasta como às criaturas que tinha vindo a eliminar, contratada pelos aldeãos.

Não muito longe, nos subúrbios do povoado, deteve-se em um cemitério comunitário para observar os montículos de terra fresca, todos rodeados de abajures de metal para evitar que o mal se fizesse com os corpos dos mortos. Não havia nenhuma lápide nem nenhum outro sinal nestas tumbas novas; tinham-nos enterrado com pressa antes de poder fazer algum preparativo. Deu-se a volta através do povoado outra vez, estudou os edifícios com mais minuciosamente de uma vez que procurava aquele que reunisse mais possibilidades de ser a casa comum.

A maioria dos habitantes preferiam reunir-se em algum edifício comum amparando-se na segurança de estar com mais pessoas. Jogou uma olhada a seu redor em busca de qualquer construção de tamanho suficiente, mas todos os barracões pareciam iguais: sem graça, feito de madeira já gasta pelas intempéries, com telhados de palha e chaminés de argila. Eram tristes e silenciosas, como tudo naquelas terras que a esperança tinha abandonado. Em algumas janelas penduravam grinaldas de alhos secos. Os únicos sinais de vida eram os escassos fiozinhos de fumaça que se elevavam para o céu noturno. Ligeiros aromas a ferro e carvão perfumavam o úmido ambiente. Alguma forja abandonada devia estar ardendo nas proximidades. Em tempos como aqueles, a gente deixava tudo assim que anoitecia…

Algo se moveu e atraiu a atenção do Magiere. Duas figuras agitadas cruzavam a rua enlameada a grande velocidade. Os farrapos que levavam como vestimentas deixavam ver suas peles sujas. Magiere colocou sua adaga na capa sem lhe prestar atenção ao que fazia e se ateu sua singela e nobre capa. As figuras corriam para o cemitério, de uma vez que tentavam evitar que a brisa e a chuva apagassem seus faróis.

—Olá! —disse Magiere com suavidade. As duas figuras saltaram e se giraram para o som.

Suas caras magras se contorceram alarmadas. Uma delas retrocedeu e a outra levantou a forquilha de madeira que levava na mão. Magiere permaneceu imóvel e deixou que pudessem ver o que era embora agarrasse com pouco mais de força a estaca. Uma grande parte de seu trabalho consistia em entender a mentalidade daquelas pessoas. Muito devagar, sob sua capa, a mão que tinha livre se colocou sobre o punho de sua cimitarra, preparada para desembainhá-la. Teria que estar preparado para a possível reação dos populares assustados.

O homem que levava a forquilha de madeira olhava com expressão de dúvida através da chuva para sua couraça de couro com pregas e a estaca. O medo de seu rosto se transformou em uma ligeira expressão de esperança.

—É a caçadora? —perguntou-lhe.

Ela assentiu levemente.

—Têm mais mortos?

Ambos os homens deixaram escapar um lento suspiro de alívio e se aproximaram com estupidez.

—Não... Não temos mais mortos, mas ao filho do zupán falta pouco.

O segundo homem deu um grito afogado e lhe fez um gesto para que se aproximasse.

—Vêem rápido!

Os homens se deram à volta e correram pelo caminho cheio de barro.

Magiere os seguiu e se deteve quando eles o fizeram ante uma porta que tinha um pequeno símbolo em cima que o tempo se ocupou de deixar ilegível já fazia muito. Aquele tosco edifício tinha que ser a casa comum daquele lugar já que o povoado estava muito afastado para ter uma hospedaria que oferecesse comida e bebida aos viajantes. «Zupán» era como eles chamavam o chefe do povoado. Era ele o que junto com alguns dos habitantes do povoado lhe estaria esperando ali dentro.

Um suspiro de expectativa escapou dos lábios de Magiere enquanto se perguntava como seria este zupán; esperava que fora um tipo frio e agressivo. Os que o bajulavam, com a esperança de que não deixasse o povoado seco, eram os que lhe resultavam mais repulsivos. Era mais fácil quando resistiam, até que ela fazia que se dessem conta de que a única possibilidade razoável era pagar seu preço ou esperar a morrer. Os mais perigosos eram os que estavam de acordo à primeira. Uma vez terminado o trabalho, teria que estar atenta a possível companhia inesperada que se pudesse esconder entre as sombras quando caminhasse para sair do povoado e que queriam lhe reivindicar o valor do pagamento apontando facas de colheita ou de tosquiar.

—Abram! —gritou um de seus acompanhantes—. Trazemos a caçadora conosco.

A porta rangeu ao abrir-se para dentro. A luz amarelada e alaranjada do fogo se estendeu para fora junto com um forte fedor a alho e suor. Magiere baixou o olhar para uma anciã consumida pela idade que agarrava com força um xale cheio de manchas. Ao ver o Magiere, a expressão da anciã se transformou em um gesto de esperança cheio de desespero. Magiere já o tinha visto muitas vezes.

—Graças aos espíritos guardiões! —sussurrou a anciã—. Ouvimos que viria, mas não pensei que... —foi ficando calada—Entre, por favor. Por-te-ei algo quente de beber.

Magiere entrou no denso calor da pequena casa comum. Uma das coisas que mais odiava de sua vocação era ter que viajar com o frio. Na habitação se amontoavam oito homens e três mulheres. Em uma mesa que havia a um lado jazia um menino inconsciente. Ao menos duas pessoas permaneciam a seu lado em todo momento se por acaso o menino falecia.

Um bando de supersticiosos, isso eram aqueles aldeões que acreditavam que os espíritos malignos procuravam os corpos dos recém mortos para alimentar-se deles e do sangue dos vivos. As primeiras trinta e seis horas eram as mais críticas para que um espírito maligno se introduza no corpo. Magiere tinha ouvido todas as outras lendas e contos populares; este era somente um dos mais conhecidos. Alguns acreditavam que o vampirismo se estendia como uma enfermidade, ou que tais criaturas não eram mais que pessoas más, malditas pelo destino e condenadas a levar uma existência como não-mortos. Os detalhes variavam embora o resultado fosse sempre o mesmo: largas noites dedicadas a tremer de medo e não de frio enquanto esperavam a que um herói os salvasse.

Um enorme homem de cabelo escuro, como um velho urso pardo com uma barba cinzenta de três dias presidia a mesa e olhava os olhos fechados do menino. Passou um longo tempo até que o homem elevou a vista para olhar a Magiere e registrou sua presença. Suas roupas eram parecidas com as de outros, pode que tivessem uma ou duas capas menos de imundície, mas era seu porte o que o marcava como o zupán. Ele abriu passagem através da lotada habitação para ficar frente a ela.

—Sou Petre Evanko - disse com uma voz surpreendentemente suave. Assinalou para a mulher que tinha aberto a porta ao Magiere—. Minha mulher, Anna.

Magiere assentiu com a cabeça com educação, mas não se apresentou. O mistério era parte do jogo.

O zupán Petre ficou quieto um momento enquanto assimilava sua aparência, algo que Magiere se confeccionou a medida para seu trabalho fazia já muito tempo.

Sua armadura de couro com percevejos a mostrava como uma guerreira que se movia tanto que não poderia levar nada nem mais pesado nem mais volumoso. O volume de sua capa fazia que não estivesse muito claro o que pudesse haver debaixo.

Seu grosso cabelo negro com brilhos avermelhados estava recolhido em uma larga e singela trança, prudente e eficaz. Ao redor de seu pescoço penduravam dois amuletos estranhos que ninguém poderia identificar e que só deixava à vista quando trabalhava em um povoado. Levava um bastão curto e afiado de madeira com o punho coberta de couro.

Magiere baixou a bolsa que levava no ombro. A tampa se abriu quando o colocou a seus pés. O zupán Petre olhou para baixo para ver o variado conteúdo: frascos sem etiquetar, urnas, sacos, alguns dos quais estavam cheios de estranhas ervas e exóticos pós. Esta era a equipe que se esperava que levasse aquele que lutasse contra os não-mortos.

—Honra-me, zupán Petre, - disse Magiere—. Sua mensagem me chegou faz duas semanas. Lamento minha demora, mas há tão poucos caçadores e é tanta a demanda.

Sua expressão se converteu em gratidão.

—Não se desculpe. Venha ver o meu filho. Está morrendo.

—Não sou uma curadora—disse Magiere com rapidez—. Posso me desfazer dos não-mortos que tenham, mas não posso arrumar os danos que já tenham causado.

Anna alargou a mão para tocar sua capa.

—Por favor, somente olhe-o. Pode que consiga ver algo que nós não possamos.

Magiere olhou para onde se encontrava o menino e se aproximou. Outros habitantes do lugar se apartaram para lhe deixar passar. Sempre explicava com cuidado quais eram suas limitações e assim não deixava lugar algum a possíveis acusações de fazer falsas promessas. O menino estava muito pálido e mal respirava, entretanto Magiere se surpreendeu. Não tinha chagas, nem febre, não tinha nenhum sinal de lesões ou enfermidade.

—Quanto tempo leva assim? —Agora faz dois dias—sussurrou Anna—. É como outros.

—Eram todos meninos pequenos?

—Não, um homem maior e duas mulheres jovens.

Não havia norma. Magiere olhou fixamente ao menino que dormia e depois se voltou para a Anna.

—lhe tire a camisa.

Esperou em silêncio a que Anna terminasse antes de lhe examinar os braços e o peito ao menino. Depois lhe inspecionou as articulações das extremidades. Tinha a pele intacta, mas tão pálida que parecia quase azul, inclusive à luz âmbar do fogo da chaminé. Levantou-lhe a cabeça. Fechou um pouco os olhos ao ver dois buracos que gotejavam sangue debaixo de sua orelha esquerda, entretanto manteve sua expressão cautelosa.

Olhou rapidamente para o zupán Petre.

—Viu estes?

Povoada-las sobrancelhas do zupán se enrugaram ao franzir este o cenho.

—É obvio, não é assim como o fazem os vampiros para tirar sangue a suas vítimas pela garganta?

Magiere voltou a olhar para os buracos.

—Sim, mas...

Os buracos eram grandes, embora pudessem ter sido causados por uma serpente gigante ou de algum outro tipo. Um forte veneno podia ser o culpado da pele pálida e da respiração superficial.

—esteve alguém com ele em todo momento?

Petre cruzou os braços.

—Ou Anna ou eu mesmo. Não podemos deixá-lo só assim.

Magiere assentiu.

—Alguém mais?

—Não—sussurrou Anna—. Por que nos faz essas perguntas?

Magiere o comprovou por si mesmo e sossegou sua incerteza com prontidão.

—Não há dois não-mortos que matem da mesma maneira. Conhecer os detalhes me será de grande ajuda para me preparar.

A anciã se relaxou visivelmente, parecia até envergonhada e seu marido assentiu com aprovação.

Magiere retornou onde estava sua bolsa, perto da porta. Dois habitantes do povoado que tinham examinado com cuidado seu conteúdo deram um passo atrás com rapidez. Magiere deixou seu bastão no chão e tirou um recipiente de cobre de seu fardo. Tinha uma forma indefinida entre uma tigela e uma urna com uma tampa de couro ajustada. Tanto o recipiente como a tampa estavam cheios de arranhões e ganchos de ferro de símbolos ininteligíveis.

—Necessito isto para capturar o espírito do vampiro. Muitos não-mortos são criaturas espirituais.

Todos a observavam encantados e quando Magiere esteve segura de ter toda sua atenção, trocou de tema. Era hora de falar do preço.

—Sei que seu povo está sofrendo, zupán, mas o custo de quão materiais emprego é muito elevado.

Petre estava preparado e lhe fez um gesto para que o seguisse a uma habitação na parte de atrás.

—Minha família foi de porta em porta a semana passada para recolher donativos. Não somos ricos, mas todos colaboraram contribuindo algo.

O zupán abriu a porta e Magiere olhou os bens que se empilhavam sobre uma colcha de lona que estava estendida sobre a terra do chão.

Havia duas partes inteiras de porco defumado, quatro blocos de queijo branco, ao redor de vinte ovos, três peles de lobo e dois pequenos símbolos de prata, pode que de alguma divindade que não respondeu a suas preces. Em geral, era a típica primeira oferta.

—Sinto-o—disse Magiere—. Não o entendem. Admito a comida, mas a colcha não me serve de nada e o resto não cobre meus custos. Freqüentemente trabalho sem obter benefício algum, mas não posso trabalhar por perdas. Sem as moedas suficientes, ao menos necessito bens que possa vender para cobrir o que gasto em me preparar para a batalha. A maior parte de quão materiais emprego são difíceis de encontrar e muito custosos de adquirir e preparar.

Petre empalideceu, estava surpreso de verdade. Parecia que ele tinha acreditado que a oferta era muito generosa.

—Isto é tudo o que temos. Mandei a minha família a mendigar. Não pode deixar morrer. Ou acaso temos que regatear para salvar nossas vidas?

—E que bem lhe ia fazer ao seguinte povoado que eu saísse daqui sem poder me preparar para sua defesa? —respondeu ela.

Magiere estava acostumada a este intercâmbio de frases, embora o zupán Petre parecesse ser mais inteligente que os líderes de outros povoados com os que tinha tratado no passado. Manteve sua expressão compreensiva, mas firme. Os habitantes dos povoados quase sempre tinham um pequeno tesouro bem escondido longe dos coletores de impostos. Podia ser uma herança familiar, ou uma gema ou alguma peça de prata arrebatada a algum mercenário morto, mas sempre estava aí.

—A Feito todo este caminho para não fazer nada? —A pele de debaixo de seus olhos se estava voltando cinza.

Anna alargou a mão e lhe tocou a camisa a seu marido.

—lhe dê o dinheiro das sementes, Petre. —Sua voz era acalmada, mas o medo a quebrava.

—Não—respondeu ele com brutalidade.

Anna se voltou para outros, que até o momento não tinham feito mais que observar em silêncio.

—Do que nos vão servir as sementes se todos estivermos mortos antes que chegue a primavera?

Petre tomou ar com força.

—Quanto viveremos se não tivermos nada que comer o próximo ano? Quanto tempo poderemos viver nas masmorras do senhor quando não pudermos pagar os impostos?

Magiere se manteve a margem destas discussões previsível. Avançariam e retrocederiam e iriam a favor e em contra até que seus medos começassem a apoderar-se deles. Depois lhe seguiria a esperança de que se ao menos pudessem vencer a este terror, algo viria depois e lhes ajudaria a chegar o ano seguinte. Conhecia esses aldeãos muito bem. Eram todos iguais.

Seguiu-lhe uma curta rajada de discussões. Magiere se entreteve olhando o conteúdo de seu fardo enquanto fazia caso omisso da discussão, como se o resultado fora óbvio. Logo sossegaram aos que defendiam ficar com as moedas das sementes e arriscar-se com os vampiros. A discussão se foi apagando com tanta rapidez que Magiere teria se surpreendido a não ser porque já o tinha ouvido muitas vezes antes.

Ao princípio não falou ninguém. Então saiu de um canto da habitação um homem desajeitado de meia idade que ficou cara a cara com o líder. Pelas manchas de carvão de seu avental de couro passava facilmente pelo ferreiro de um povoado do tamanho daquele.

—lhe dê as moedas, Petre. Não temos escolha.

Petre abandonou o casebre e retornou em muito pouco tempo, ofegante. Olhou ao Magiere com fogo nos olhos, como se nesse momento ela fora a fonte de seus sofrimentos e não aquela a que mandaram chamar para salvá-los.

—Isto é o que fica depois de pagar os impostos deste ano. —O zupán lhe atirou a bolsa e ela a interceptou—. Pode que o ano que vem não haja colheita.

—São livres para olhar—respondeu ela e vários aldeãos se refugiaram nas sombras da habitação—. Eu controlarei aos não-mortos. Fiquem em suas casas e olhem pelas frestas das venezianas e portinhas para comprovar o bom uso de suas moedas.

O ódio dos olhos do Petre se converteu em derrota.

—Sim, olharemos como mata aos monstros.

A chuva tinha remetido ligeiramente. Magiere se ajoelhou no centro do caminho do povoado, iluminado por duas tochas, dois punhos cravados a cada lado do caminho. Colocou a urna de cobre na terra úmida com firmeza, girou-a um par de vezes para assegurar-se de que estava segura e de que não se derrubaria. Ao lado desta colocou um pequeno maço de madeiras.

Anna e dois aldeãos olhavam pelas estreitas frestas das portinhas da casa comum. Outros quantos olhos olhavam das venezianas e portinhas de outras cabanas e barracões do povoado. Entretanto o zupán não podia conformar-se sendo um mero espectador. Estava de pé, a distância suficiente como para que lhe disparassem, à porta do edifício no que lhe tinha rendido o futuro de seu povo a uma assassina de não-mortos.

Magiere tirou um frasco de sua bolsa e verteu um fino pó branco em uma de suas Palmas. Depois o polvilhou para diante e para trás entre suas mãos. Com uma abertura repentina atirou o punhado com força ao ar para cima e esperou. As diminutas partículas não caíram, mas sim ficaram suspensas no ar como uma nuvem vaporosa, criando um maravilhoso resplendor a seu redor quando as partículas captavam a luz das tochas. A seus ouvidos chegavam os gritos afogados dos aldeãos.

De outro frasco verteu um pó vermelho em sua mão e também o lançou, esta vez com uma abertura mais forte de seu braço. O pó vermelho dançava entre as partículas brancas, contrastava e se movia como vaga-lumes do tamanho de grãos de areia.

Magiere ficou ali de pé em silêncio e fechou os olhos um momento. Voltou-os a abrir sem olhar a nada em particular. Ente as partículas suspensas no ar, sua pálida pele e seu escuro cabelo faziam que parecesse um espectro de luz, algo sem vida, como se tivesse se transformado em algo semelhante às criaturas da noite que caçava. Cada vez que um redemoinho de pó vermelho passava perto de sua cabeça, seu brilhante reflexo da luz das tochas dava a sua longa cabeleira uns tons carmesins. Agachou-se, agarrou a estaca e segurou o punho de couro com força.

—O vermelho chama à besta, como o sangue—gritou—. Não o pode resistir. —agachou-se até ficar em cócoras, a trança lhe caía sobre o ombro esquerdo para diante, e olhou para cima pelo caminho pelo que sabia que viria a besta.

Um brilho pálido correu como uma flecha entre os edifícios.

Assinalou com o dedo para um barracão decrépito a uns dez passos mais abaixo do caminho.

—Ali! Vêem, aí vem!

Com os dedos da mão que ficava livre abriu a tampa da urna de cobre e agarrou outra garrafa de pó vermelho cujo conteúdo também lançou ao ar a seu redor.

Sem aviso algum, algo sólido se chocou contra suas costas e a fez cair para diante com tanta força que a deixou aturdida. A suas costas Anna gritou. Magiere cuspiu barro e se girou no chão para afastasse do caminho de seu atacante. Voltou a agachar-se e se girou em todas as direções para ver o que lhe tinha pegado. O caminho estava vazio.

Durante um momento comprido se girou de um lado a outro em busca de qualquer signo de movimento entre as cabanas do povoado. O zupán tinha retrocedido até ficar com as costas contra a porta da casa comum, com os olhos totalmente abertos, mas ficou fora, observando.

—O que...?

Deu-lhe outra vez, do lado, e empurrou suas costas para baixo. A água lhe empapava as meias e lhe caía pela armadura enquanto escorregava pelo barro até que seu ombro se chocou com a manga de uma das tochas cravadas no chão. A tocha se derrubou e se apagou.

Magiere ficou em pé de novo, procurava. As sombras que havia a seu redor se acentuaram ao estar iluminada somente por uma tocha.

Podia ouvir com total claridade como fechavam venezianas entre os gritos e soluços dos aldeãos que eram presas do pânico. Um rápido olhar enquanto girava lhe permitiu ver que inclusive Petre se colocou na soleira de sua porta e estava preparado para fechar a de uma portada se era necessário. O zupán gritou:

—Aí, a sua esquerda!

Uma massa imprecisa apareceu em uma esquina de seu campo visual e ela se agachou rapidamente de uma vez que movia um braço. Tentou agarrá-lo enquanto passava.

—Acabaram-se os jogos—disse entre dentes enquanto tentava recuperar a respiração.

Sua mão se fechou capturando uma malha de lã e atirou para trás.

Então se produziu um grande rasgo quando sua própria força colidiu com a de seu atacante, mas a malha agüentou. Incapaz de manter o equilíbrio, seu corpo se torceu para um lado enquanto ela e seu oponente giravam, porque a criatura se negou a soltar seu objeto. Caíram juntos, ambos tentavam afiançar seus pés na lama. Girou sobre um joelho para ficar frente à coisa e preparou a estaca. Seu atacante levantou a cabeça à luz da tocha.

Magro e sujo, sua pele brilhava tão branca como os primeiros pós que lançou Magiere ao ar. Um cabelo loiro platino se balançava em mechas cobertas de barro ao redor de uma cara estreita, coberta de terra, com olhos rasgadas cor âmbar e orelhas ligeiramente bicudas. A capa que ela tinha conseguido agarrar lhe pendurava em farrapos dos ombros.

Magiere se deslocou dois passos para trás, ainda com a estaca fortemente agarrada na mão e tentou assentar os pés sobre o barro sem deixar de olhar à figura branca.

Seu atacante investiu de novo, movia-se rápido. Uma mão com aparência de garra se meteu em sua guarda e lhe agarrou o extremo da trança. Os dois estavam encharcados e enlameados, o que fazia que todos seus movimentos fossem escorregadios e desesperados. Magiere caiu ao chão, esta vez de propósito, e rodou. Quando terminaram de rodar, Magiere ficou em cima e cravou a estaca para baixo enquanto a pressionava o mais fortemente que podia.

Do peito de seu atacante saiu um jorro de sangue para cima enquanto golpeava o chão e lançava um gemido de lamento. Magiere se mordeu a língua acidentalmente em seu esforço por empurrar a coisa para baixo com a estaca bem fincada em seu coração.

A criatura golpeava selvagemente. Arqueou o torso, meio levantou a Magiere do chão, e um grito gutural saiu das profundidades de sua garganta. Depois seu corpo se afrouxou e caiu salpicando barro.

Magiere seguiu segurando-o até que a criatura esteve totalmente imóvel e ato seguido se agachou com rapidez sobre a urna de cobre. Levantou-a, agarrou o maço e golpeou com força um lateral do recipiente.

Um tangido dilacerador reverberou no ar. Magiere correu para o extremo mais longínquo do corpo sem deixar de golpear o recipiente uma e outra vez. Na porta da casa comum o zupán se tampou os ouvidos com as mãos para evitar o doloroso clamor. Quando o último tangido teve desaparecido, Magiere fechou a tampa com força contra o recipiente de cobre e o deixou virtualmente selado. Ficou ali, todo o povoado estava em silencio à exceção de seus próprios ofegos.

O zupán Petre começou a correr para ela, pode que com a intenção de ver o monstro de perto ou para lhe oferecer sua ajuda, mas ela levantou uma mão para que não se aproximasse.

—Não—disse Magiere com a voz entrecortada enquanto movia a mão para diante e para trás, exausta—. Fique onde está. Embora estejam mortos podem seguir sendo perigosos.

—caçadora... —Petre procurava as palavras, sua expressão era uma mescla de emoções—. Viu antes alguma besta como esta?

Magiere negou com a cabeça de uma vez que olhava o corpo empapado em sangue que jazia no chão.

—Não zupán, nunca tinha visto algo assim.

Enquanto o zupán a observava atônito em silêncio, Magiere tirou uma corda e uma parte de lona poeirenta de sua bolsa. A lona tinha manchas escuras ressecadas e intrometidas na malha. Envolveu o corpo com a lona, e lhe atou a corda ao redor dos tornozelos. Depois rapidamente recolheu todo seu equipamento, meteu-o no embrulho e o jogou ao ombro. Levava o recipiente de cobre selado sob o braço.

—Então, já se terminou? —perguntou Petre.

—Não. —Magiere agarrou a corda—. Agora devo dispor corretamente dos restos e mandar a este espírito a seu descanso final. Pela manhã, já serão livres.

—Necessita ajuda? —Petre Evanko parecia inseguro ao perguntar, mas não ia permitir que seu medo o retivesse.

—Para isto tenho que estar sozinha—lhe respondeu tão secamente que sua resposta pareceu mais uma ordem que devia ser obedecida—. O espírito não se vai por sua própria vontade. Lutará por viver outra vez, com mais ferocidade do que viram aqui, ainda, e se por ali houvesse outro corpo que pudesse tomar em troca do dele, meus esforços não teriam servido de nada. Que ninguém entre no bosque até pela manhã ou não me faço responsável pelas conseqüências. Se tudo for bem não voltaremos a nos ver.

Petre assentiu para demonstrar que entendia o que Magiere lhe havia dito.

—Nosso agradecimento, caçadora.

Magiere não disse nada mais, dirigiu-se para o bosque enquanto arrastava o corpo detrás de si.

O barro se penetrou por todas as aberturas da couraça e a vestimenta de Magiere. A areia fina contra sua pele combinada com a larga caminhada enquanto atirava do corpo e seu equipamento até o coração do bosque a irritaram o bastante. Saiu de entre as árvores para uma pequena clareira e olhou para trás novamente. Seria uma pena ter que matar a um aldeão estúpido, mas não via nem rastro de ninguém e quão único era capaz de ouvir era o conversa natural das árvores com o vento. Deixou cair sua carga.

Um enorme grunhido surdo veio dos arbustos da zona mais longínqua da clareira do bosque e Magiere se esticou. As folhas se balançaram e saiu um enorme cão. Era um cão com aparência de lobo por sua constituição e sua cor, entretanto, seu cinza era muito azulado e seu branco mais brilhante que os de qualquer lobo. Uns estranhos olhos, azul prateado, brilharam em direção ao Magiere. Com um grunhido menos audível o animal olhou para o vulto que havia no chão detrás dela.

—Anda te cale, Chap—resmungou entre dentes—. Depois de todo este tempo já deveria conhecer meu som.

Magiere curvou as costas de repente ao sentir o golpe de dois pés nela. Abriu os olhos de par em par pela surpresa e se deslizou pelo húmus úmido do chão da clareira do bosque e se golpeou contra a base de uma árvore. Se pos em pé. Ao outro lado da clareira do bosque, uma figura branca com uma estaca cravada no peito saiu a golpes da apertada lona e ficou em pé.

—Maldita seja, Magiere. Isso doeu. —Baixou a mão para agarrar a manga da estaca—. Não a engordurou o suficiente, verdade?

Magiere correu ao outro lado da clareira e com um chute nos tornozelos o derrubou. A magra figura caiu de costas, grunhiu e ela ficou sobre ele de maneira que lhe imobilizava os braços ao chão com seus joelhos. Suas duas mãos rodeavam com força a manga da estaca.

A ira crescia em seu interior como a febre. Algumas mechas de cabelo molhados pela chuva e cheios de barro lhe pegavam à cara enquanto olhava à figura branca que tinha debaixo dela. Atirou da estaca para cima.

—Você, meio irritante lelé! —soltou-lhe—. Se houvesse seguido ao plano e não me tivesse mandado rodando pelo esterco, pode que a capa não se enche de terra.

Onde antes tinha havido uma ponta na estaca agora não havia nada. A estaca se deteve no fundo da capa de couro. Magiere jogou um olhar rápido ao extremo oco da estaca e a golpeou contra a raiz exposta de uma árvore. Então se ouviu um som rasgado e agudo quando o extremo afiado saiu do oco e se colocou em seu lugar.

—O que estava fazendo ali? —Agarrou-o pela parte dianteira da camisa—. Sabe fazê-lo melhor, Leesil. Fazemo-lo sempre da mesma maneira. Sem mudanças, sem enganos. Que problema tem?

Leesil baixou a cabeça ao chão outra vez. Olhou o dossel de árvores com um suspiro de melancolia muito exagerado para o gosto de Magiere.

—É o mesmo toda a vez—choramingou—. Aborreço-me!

—Anda, ponha de pé—lhe insulta enquanto puxava-lhe para que se levantasse. Atirou a estaca entre suas coisas e colocou a mão sob um arbusto de onde tirou uma segundo bolsa e uma lanterna feita com uma lata. A lanterna ainda estava acesa, Leesil a tinha acendido antes de ir ao povoado para sua atuação. Magiere abriu a tampa, girou a manivela para alargar a mecha e a luz aumentou um pouco.

Leesil se, pois de pé e começou a abrir a frente da camisa. Por debaixo do pescoço se viu a autêntica cor de sua pele, não era branco cadavérico, mas sim de um quente moreno. Esfregou-se o pó branco que tinha no pescoço. No peito levava fixo com correias uma bolsa de pele vazia que ainda gotejava tintura vermelho. Estava endurecida com uma pilha de cera que segurava a estaca sem ponta em seu lugar para que desse a impressão houvesse lhe cravado a estaca no peito. Fez uma careta de dor ao desatar a corda que fixava o conjunto em seu lugar.

—supõe-se que me tem que atacar de frente, onde possa verte. —Magiere levantou a voz levemente de uma vez que enrolava a lona manchada e a corda que tinha utilizado para tirar o Leesil do povoado—. E onde aprendeu a desaparecer dessa maneira? Ao princípio não podia verte.

—Olhe isto—lhe respondeu Leesil surpreso e enojado, de uma vez que se limpava a tintura com uma mão—. Tenho um vergão enorme e vermelho em metade do peito.

Chap, o enorme cão, aproximou-se a meio passo onde estava Leesil. Ele cheirou o pó branco em seu rosto e soltou um uivo chateado.

—Está-te bem lhe empregado respondeu Magiere. Meteu em sua bolsa a lona, a corda e a urna de cobre e depois o jogou ao ombro—. Agora recolhe a lanterna e vamos. Quero passar a curva do rio antes de acampar. Ainda estamos muito perto do povoado para passar a noite aqui.

Chap ladrou e começou a mover-se nervoso a quatro patas. Leesil lhe deu uns tapinhas.

—fique calado—acrescentou Magiere de uma vez que olhava ao cão.

Leesil recolheu sua mochila e a lanterna e começou a caminhar detrás do Magiere, Chap ia a seu lado fazendo seu próprio caminho entre os arbustos e os ramos. Parecia lhe levar pouco tempo cobrir a distância e Magiere se sentiu aliviada quando se aproximaram da curva do rio Vudrask. Já estavam o suficientemente longe do povoado para poder acampar e acender um fogo com segurança. Girou-se para dentro, para dar as costas à borda do rio e escolheu uma clareira do bosque que estava muito bem escondido pelos arbustos. Leesil se dirigiu imediatamente para a borda do rio para lavar-se, Chap o seguiu e Magiere ficou para acender uma pequena fogueira. Quando Leesil retornou já havia quase havia recuperado sua aparência habitual, o que não quer dizer que tivesse um aspecto normal segundo a maioria das regras. Seu aspecto era algo ao que Magiere se acostumou, inclusive antes que lhe falasse da herança de sua mãe.

Em realidade sua pele tinha um tom moreno, não tão branco como os pós faziam acreditar, e isso fazia que Magiere se sentisse pálida a seu lado. Mas seu cabelo era algo totalmente distinto, tão loiro que parecia branco imaculado na escuridão. Não havia muitas razões para ter que empoeirar-lhe para suas atuações nos povoados. Uma cabeleira com brilho esbranquiçado e amarelado até os ombros. E logo estava a forma ligeiramente oblonga de suas orelhas, não muito bicuda ao final, assim como o leve toque de lagrimas em seus olhos ambarinos, emoldurado por umas sobrancelhas altas e finas do mesmo tom que seu cabelo.

Mais de uma vez Magiere se deu conta de que o homem era como um negativo de sua própria aparência. A maior parte do tempo Leesil levava o cabelo recolhido e seguro por um lenço, de maneira que também ocultava a parte superior de suas orelhas. A raça de sua mãe era tão pouco freqüente naquelas terras que Magiere acreditava que sua aparência podia atrair uma atenção não desejada, coisa que não seria nada boa tendo em conta qual era seu papel na profissão a que ambos se dedicavam.

Uma vez que se sentou ao redor de uma agradável fogueira e enrolada em uma manta, Leesil colocou a mão em sua mochila e tirou uma garrafa.

Magiere lhe lançou um olhar.

—Acreditava que o tinha deixado.

Leesil sorriu.

—Agarrei um par de coisas indispensáveis naquele povoado que passamos faz um dia.

—Espero que use seu próprio dinheiro.

—É obvio—Leesil se calou um momento—. Falando de dinheiro, que tal nos deu este último povoado?

Magiere abriu a pequena bolsa e ficou a contar as moedas. Passou-dois quintos do espólio a Leesil e fico com a melhor parte da partilha. Leesil não se queixava nunca, já que Magiere era a que tinha que tratar diretamente com todos os povoados. Colocou as moedas em uma bolsa que levava no cinturão, jogou a cabeça para trás para dar um gole comprido e apertou o saco enquanto tragava.

—Não se embebede-advertiu Magiere—. Não falta muito para que amanheça e não quero que fique dormindo até o meio-dia quando deveríamos estar a caminho.

Leesil a olhou, franziu o cenho e arrotou.

—acalme-se. Esta é a melhor parte, dinheiro no bolso e tempo para relaxarmos. —afastou-se a toda pressa do fogo para recostar-se contra os restos de uma árvore caída e fechou os olhos.

O fogo crepitava. Chap se deitou perto de Leesil. Magiere se recostou e deixou que se aliviasse parte da tensão de seus ombros. Em momentos como aquele não era capaz de recordar quantas noites tinham passado desde a primeira como aquela. Se de verdade se colocava a contar não podia ter estado nesse negócio mais de três anos. Esfregou-se um músculo que lhe doía na nuca. Aquela vida era melhor que a que lhe destinava em seu nascimento, que tivesse consistido em envelhecer com rapidez por ser explorada até a morte no sitio. De todas as maneiras, as «brincadeiras» de Leesil daquela noite e sua inesperada mudança de estratégia pareciam uma profecia e a deixavam algo temerosa a respeito de seu meticulosamente e planejado futuro. Um futuro que ainda não lhe tinha mencionado a ele. Ocorreu-lhe que estava sendo tão tola e supersticiosa como os aldeãos aos que castigava, mas a intranqüilidade não lhe passava. Pode que só fora a maneira em que a criaram.

Tinha nascido no país vizinho da Droevinka. Magiere não tinha conhecido a seu pai, mas ao longo de sua infância conseguiu averiguar algumas coisas a respeito dele. Como vassalo de nobre, dirigia aos aldeãos para o senhor e recolhia os impostos e aluguéis das terras, por isso ficava no mesmo lugar durante meses ou às vezes anos, mas, ao final, sempre se mudava a onde quer que o senhor o mandasse. Muito poucos o tinham visto a não ser que fora de noite antes das arrecadações, depois de que se foi à luz do dia e se pudesse encontrar a toda a gente em suas cabanas e barracos, fora do trabalho diurno. Sua mãe era tão somente uma jovem de um povoado próximo à casa da baronesa. O nobre tomou como amante e esteve quase retirada um ano. Circularam rumores sobre o destino de sua mãe por todo o povoado, mas a verdade mais singela e que menos se contava resultava muito mundana. Algumas lendas falam de que a tinham visto de noite nas terras do feudo, pálida e fraca. Foi durante o final de sua estadia na casa da baronesa quando alguns se deram conta de que estava grávida. Morreu no parto ao dar a luz a uma menina e ao nobre o mandaram a outro feudo novo. Como o nobre não queria carregar com uma filha ilegítima lhe deu o bebê à irmã de sua mãe e desapareceu. Foi sua tia a que lhe deu o nome do Magiere por sua mãe, Magelia. A maioria dos habitantes do povoado nem sequer conhecia o nome do pai de Magiere. O abismo que mediava entre classes era muito profundo. Ele tinha poder. Eles não. Isso era o que qualquer precisava saber.

A tia Bieja tentava ser amável e tratá-la como se fora da família, mas o resto dos aldeãos não sentiam tal inclinação. O fato de que seu pai fora nobre e que simplesmente tivesse tomado a uma das formosas jovens do povoado, só porque podia fazê-lo, era razão suficiente para que a gente quisesse ter a alguém, quem fora, a quem castigar. Ele se tinha ido e Magiere seguia ali. Mas ainda havia algo mais, não era simples ressentimento.

Sussurros, olhadas cheias de medo, e chamadas nada educadas eram freqüentes cada vez que se cruzava com outros habitantes. Não permitiam que seus filhos se relacionassem com ela. O único que o tinha tentado, Geshan, um filho de pastor de cabras, terminou espancado, como aviso para que se afastasse da menina produzida pela escuridão. Havia algo de seu pai que os tinha assustado algo mais que sua posição de decisão sobre a vida e a morte legal. Ao princípio Magiere queria sabê-lo tudo, queria saber o que era o que tinha sido tão aterrador nele e por que a fugiam por isso.

A tia Bieja uma vez lhe disse com compaixão:

—Têm medo de que seu pai fora algo antinatural—mas isso era o máximo que lhe dizia.

Por fim, Magiere terminou por apenas se sentir curiosidade a respeito de seus pais e começou a odiar aos aldeãos por suas superstições e ignorância. Com o passar dos anos os aldeãos apenas se ilustraram e a hostilidade para ela aumentou. Ao final, seu passado acabou por não lhe importar nada e sua atitude para os que a rodeavam se endureceu.

Quando fez dezesseis anos, a tia Bieja a levou à parte, tirou uma caixa de madeira com ferrolho de debaixo de sua cama e a mostrou. No interior da caixa havia uma trouxa amarrada, envolto em um oleado para evitar a umidade. Dentro deste havia uma cimitarra, dois amuletos de estranha aparência e uma couraça de couro com rebites, adequada para um jovem cavalheiro. Um dos amuletos era uma pedra de topázio colocada em um estanho que pendurado com simplicidade de um cordão de couro. O outro amuleto era um pequeno meio ovulado com um encosto de lata que continha o que parecia uma lasca de osso com uma escritura impossível de reconhecer gravada cuidadosamente. A diferença do outro, este pendurava por uma corrente que passava pelo lado quadrado do amuleto, de maneira que a metade ovulada pendurava para baixo deixando sempre o lado de osso para fora.

—Suponho que esperaria ter um filho varão—disse a tia Bieja ao Magiere referindo-se seu misterioso pai—. Pode que pelo menos os consiga vender por algo.

Magiere levantou a cimitarra. Era excepcionalmente leviana para a aparência que tinha e a lamina brilhava apesar da escassa luz de velas que iluminava a habitação. Um pequeno hieróglifo que parecia uma letra tinha sido gravado na base do punho. O metal brilhante sugeria que a tia Bieja o tinha mantido limpo durante anos, mas a caixa estava coberta por uma grosa capa de pó, o que indicava que não a haviam mexido em muito tempo. Pela lamina podia tirar um bom preço no mercado, mas os pensamentos de Magiere começaram a correr em outra direção a partir dessa noite. Uma noite da primavera, já bem entrada a escuridão, Magiere partiu do povoado sem fazer ruído nem alertar a ninguém, e sem olhar atrás.

Tinha que haver algo melhor no mundo... Algo melhor que sair cada dia a ver caras cheias de ódio ou gente que fazia como se não a visse. Não lhe importava nada nem seu desconhecido passado nem nenhum futuro com gente tão horrível. A solidão seria muito mais suportável se de verdade estava sozinha.

Os anos que seguiram foram duros, de povoado em povoado, trabalhando no que fora para manter-se com vida e aprendendo todo aquilo que desejava aprender: como lutar, onde ir caçar comida e como lhe tirar uma moeda dos tolos e pouco precavidos. Não havia muito trabalho para uma moça que fora daqui para lá e esteve a ponto de morrer por inanição em duas ocasiões. Mas não ia voltar para casa. Nunca ia voltar para casa.

Seu ódio para as superstições nunca desapareceu. Inclusive se precaveu ainda mais de qual era a natureza das superstições dos aldeãos e como de freqüentes entre um lugar e outro. Ao final era fácil decidir que coisas explorar. O que a gente mais temia eram a escuridão e a morte, e ainda mais algo relacionada com estas. A idéia do joguete não foi algo que lhe ocorresse de repente assim sem mais. Foi desenvolvendo por etapas conforme se foi dando conta de que podia ganhá-la vida aproveitando do medo, esse mesmo medo que anos atrás a tinha condenado ao ostracismo.

Ao princípio trabalhava em solitário, convencia aos camponeses de que os vampiros freqüentemente eram criaturas espirituais às que se podia apanhar e destruir. O elaborado desdobramento de pós voadores, os encantos e feitiços de pega faziam que os camponeses se acreditassem de verdade que ela podia apanhar em sua urna de cobre aos não-mortos. Até lhe tinha ocorrido o truque do tintura no odre para poder assim aterrorizar a seus clientes com feridas repentinas que sangravam enquanto lutava com seus atacantes invisíveis. Nas zonas às que viajava estava acostumado a selecionar um lugar de um povoado para que lhe mandassem as mensagens, normalmente um botequim bem levado e cheia de fofocas, onde suas façanhas pudessem acontecer rápido em uma onda de sussurros. Fora de um desses lugares foi onde conheceu o Leesil. Ele era muito bom no seu. Tão bom que nunca deveria havê-lo apanhado.

Enquanto se afastava do botequim uma noite, notou um picor tremente na zona lombar que lhe subia pelas costas e lhe chegava até a cabeça. Toda a noite que a rodeava parecia cobrar vida ao ampliar seus sentidos, e em realidade foi capaz de ouvir mais que de sentir a mão que procurava no saco de tecido que lhe pendurava do ombro. Quando se deu a volta e lhe agarrou com força o pulso, totalmente preparada para ocupar-se daquele ladrão, topou-se com algo surpreendente: uma cara estranha, moréia, com brilhantes olhos cor âmbar, sob umas sobrancelhas loiras muito finas.

Magiere não era capaz de recordar as palavras exatas que se disseram para tentar suavizar o momento de tensão. Pode que fora um mútuo reconhecimento dos especiais talentos de ambos. A pouco habitual aparência do Leesil confundia os pensamentos de Magiere. A verdade era que ela nunca antes tinha visto um elfo, sabia-se que não viajavam e que viviam muito ao norte. A mescla de sangue humano e sangue de elfo lhe davam uma aparência muito exótica tanto a sua cara como a seu físico. Durante a noite banhada em vinho que passaram conversando, Leesil chegou a tirar o lenço da cabeça para lhe mostrar suas orelhas. À manhã seguinte abandonaram o povoado juntos, acompanhados por um cão de estranho parecido com os lobos que Leesil levava consigo. Disso fazia já quatro anos.

O fogo crepitou de novo. Chap levantou a cabeça e uivou de uma vez que olhava dentro da escuridão.

—Para já-disse Leesil arrastando as palavras pelos efeitos do álcool. Já se tinha bebido a metade do conteúdo de sua cigarreira—. Aí fora não há nada. —Arranhou-lhe a parte de atrás do pescoço ao cão e Chap se deu à volta para lhe chupar a cara até que Leesil se viu obrigado a apartar o focinho do animal.

Magiere se inclinou para diante e olhou ao interior do bosque. Chap não estava acostumado a inquietar-se por nada que não fora importante, mas, de todas as maneiras, não deixava de ser um cão. Era mais que provável que não se tratasse mais que de um esquilo ou uma lebre.

—Eu não vejo nada-disse Magiere enquanto voltava junto ao fogo. À luz vermelha da fogueira recordou a pouco iluminada casa comum e os dois inexplicáveis buracos sangrando que tinha no pescoço o filho do zupán Petre. Começou-lhe a doer à cabeça. Dava-lhe pavor pensar na conversação que tinha planejado ter com o Leesil. Passou-se um mês adiando-a, sempre esperava encontrar um momento melhor. Entretanto, este último trabalho lhe fez perguntar-se quanto tempo mais ia poder agüentar. Já se estava cansando de todo aquilo e Leesil se estava voltando descuidado. As coisas se estavam voltando um pouquinho imprevisíveis.

—antes que tenha bebido excessivamente, temos que falar-disse com toda tranqüilidade.

—Eu nunca bebo excessivamente, sempre bebo o justo. —Deu outro grande gole a seu odre. Estava a ponto de dar outro quando o tom da voz do Magiere fez que se parasse a meio caminho. Baixou o odre—. Do que?

Magiere alargou o braço até sua bolsa e tirou um pergaminho dobrado, um pouco enrugado.

—Há um banco no Belaski no que vou colocando dinheiro quando passamos e onde me deixam as mensagens até minha seguinte visita.

Leesil ficou atônito.

—Mensagens? Do que está falando?

Aproximou-lhe o pergaminho dobrado.

—Isto é de um vendedor de terras.

Leesil agarrou o pergaminho com a boca aberta da surpresa.

—estiveste juntando dinheiro?

—esteve procurando um tipo específico de botequim para mim, em algum lugar da costa... Parece que me encontrou um. —Fez uma pausa—. Vou comprar um botequim em um povoado de Belaski chamado Miiska.

Leesil não fazia mais que piscar como se não entendesse nenhuma palavra.

—O que?

—Não lhe queria contar isso até que encontrasse o local adequado. Não tinha pensado seguir fingindo à caçadora para sempre jamais, e, além disso, estou cansada.

—economizaste dinheiro? —Leesil negou com a cabeça—. Não me posso acreditar isso. Tudo o que eu tenho é o que há no bolso de meu cinturão.

Magiere pôs os olhos em branco.

—Isso é porque lhe bebe isso tudo, ou lhe deixa isso em uma mesa de cartas.

Então viu como Leesil tomava ar e as palavras começaram a fluir de sua boca.

— É simples assim? —O elfo quase gritava, não fazia caso de sua resposta—. Nem um aviso. Nem sequer um: «Por certo, Leesil, estou economizando para comprar um botequim». E ainda por cima nunca mencionou nada. Quanto estiveste metendo em...? Não, deixa-o, dá igual. Estamos juntos nisto. O que eu digo é que nos façamos quatro ou cinco povoados mais e então falemos de deixá-lo.

—Eu já terminei-respondeu Magiere com suavidade—. Quero ter algo meu.

—E acontece comigo?

—Você gostará do povoado. Apressou-se a dizer—. Somente temos que nos dirigir à costa e girar ao sul. Está a dez léguas ao sul da capital, Bela, pela costa. Eu me ocuparei das bebidas. Você pode levar o jogo. Ouvi-te falar mil vezes de que você gostaria de levar uma mesa de farol... Cada vez que perde sua última moeda em uma.

Leesil fez um gesto de apartá-la com a mão e franziu o cenho contrariado.

—Chap pode vigiar as coisas—continuou Magiere enquanto o cão levantou a cabeça para ouvir seu nome—. Dormiremos a cobertos cada noite e deixaremos de correr todos estes riscos.

—Não! Eu não estou preparado para deixá-lo.

—Será o que se ocupe das cartas...

—É muito rápido.

—... Uma cama aquecida, quantidade de cerveja e hidromel...

—Não quero ouvir mais.

—... E ponche caseiro quente, de vinho e especiarias de nossa própria chaminé.

Leesil ficou calado. Magiere podia ver como se movia a engrenagem de seus pensamentos, como ia examinando as diferentes possibilidades. Leesil não era tolo, mas bem justamente o contrário. Por fim deixou escapar um grunhido exasperado, ou pode que fora um arroto.

—esta bem, se quiser.

E com isso, Leesil se deu a volta para ficar de costas ao fogo. Magiere se inclinou para diante, agarrou o pergaminho que Leesil nem se incomodou em olhar e o voltou a guardar dentro de suas vestimentas. Enquanto se sentava, Leesil se incorporou tão de repente que até o Chap, que estava convexo a seus pés, sobressaltou-se e ficou em pé.

—Como pode ter economizado tanto dinheiro? —espetou-lhe, confundido e exasperado.

—Anda, cala e dorme—disse bruscamente Magiere.

Leesil se deu a volta outra vez enquanto grunhia em voz baixa.

Magiere não se podia dormir, sentia-se inquieta e ansiosa. Leesil não ia se render com facilidade ante esta mudança de planos tão repentinos. Até aí o esperava, mas pelo menos agora já o estava pensando. Esperava que não fora muito difícil empurrá-lo ao resto, embora possa que lhe levasse um tempo. Esperar a que tivesse moedas no bolso era a melhor opção. Com a carteira vazio haveria oposto muita mais resistência e teria querido esperar a que lhe voltasse a chover dinheiro do céu.

Magiere observou como dançavam as chamas ante ela. Deu-se conta de que Chap não se havia aquietado ao lado do Leesil como tinha por costume, mas sim estava sentado um pouco separado de seu amo e olhava fixamente para as árvores. Finalmente, cansada de olhar como o cão não olhava nada, fechou os olhos. Não viu como Chap trocava de lugar e se sentava ao lado do fogo à mesma distância do Leesil que dela.

 

Fora, na espessura do bosque, algo se moveu. De um tronco de uma árvore, a um arbusto, a um ramo caído, a outro tronco de árvore, algo ziguezagueava, de uma vez que se ia aproximando das volutas do fogo. Ficou detrás de um carvalho velho que tinha escamas de cogumelos aos flancos e olhou às escondidas às duas figuras que dormiam tranqüilamente. Entre ambas havia um cão, seu corpo brilhava muito à luz da fogueira para tratar um cão normal, ou isso lhe parecia com o observador. Mas o observador escondido não lhe deu maior importância ao cão quando seus olhos de luz minúscula se fixaram na mulher que jazia sob uma manta de lã.

Sua pálida pele brilhava a luz do fogo e seu escuro cabelo estava salpicado de brilhos vermelhos como o sangue.

—caçadora—sussurrou o observador para si mesmo de uma vez que reprimia a risada e tamborilava com suas unhas como garras na parte de atrás do tronco do carvalho.

 

Chap estava deitado com a larga cabeça apoiada sobre seus quartos dianteiros, seu nariz apenas se roçava a ponta de suas patas. Tinha os olhos meio abertos e quase não pestanejava enquanto olhava sem descanso tudo o que os rodeava no acampamento. Sobre o sussurro das folhas e da grama se podia ouvir a suave respiração do Magiere e os ligeiros roncos do Leesil provocados pela bebida.

O fogo ardia abaixo da escuridão da noite, mas quando crepitava saíam despedidas milhares de brasas multicoloridos. O acampamento estava bem flanqueado por árvores em uma escura parede do bosque. Não muito longe, estalavam os sons do rio Vudrask, plena graças às chuvas primaveris; a água se chocava contra as rochas em seu curso constante e negligenciado. Magiere se deu a volta na manta com um ligeiro murmúrio. Algumas mechas de seu cabelo se soltaram de sua trança e ficaram apanhados pelos restos de barro que tinha na cara. Chap há olhou uns segundos e depois seguiu com sua vigilância.

Vários movimentos cintilaram entre duas árvores a uma meia dúzia de saltos mais à frente do acampamento.

Chap levantou a cabeça e grunhiu pela primeira vez desde que seus companheiros se dormiram. Seu pelo cinza e azul prateado se arrepiou no pescoço e franziu o focinho até que mostrou todos os dentes entre os lábios. O grunhido se converteu em um rugido. Magiere se remexeu em seu sonho, mas não despertou.

Outra nuvem se moveu na escuridão.

Estenderam-lhe as ancas, os ombros e as patas. Chap baixou a cabeça de novo, ficou em silêncio e se inclinou diante no chão.

Uma cara branca com uns olhos que pareciam pedras brilhantes apareceu a dois saltos sobre um arbusto. Olhava a Magiere.

Chap se equilibrou para diante com um grunhido agudo. Em um abrir e fechar de olhos se desvaneceu na espessura do bosque.

Magiere despertou rapidamente em pânico e tirou a manta de cima a tempo de ver como o rápido corpo do Chap desaparecia no bosque. Confusa, tirou sua cimitarra da capa. Ainda estava dormitada e se perguntava o que seria o ruído que lhe tinha perturbado o descanso.

—Leesil, acorda—disse com rapidez—. Chap se foi... Atrás de algo.

O cão logo que ladrava, a não ser que se sentisse ameaçado. Nunca atacava a não ser que Leesil o ordenasse, e nos anos que Magiere levava com eles, o cão nunca tinha abandonado um acampamento.

Um assustador grito de ódio sobrevoou o bosque desde algum lugar próximo ao rio. Não era algo que se pudesse imaginar saindo da garganta de um cão.

—Leesil... Ouviste-me? —Magiere ficou em pé—. Há algo aí fora. —Seus amuletos roçaram o ombro de seu companheiro quando se inclinou sobre ele e lhe gritou—: se Levante!

Leesil murmurou algo e se deu a volta, lhe dando as costas. A garrafa estava vazia a seu lado.

—Bêbado—disse frustrada.

Outro uivo cheio de ira reverberou entre as árvores. Esta vez Magiere sabia que era Chap. Duvidou um momento enquanto pensava em se devia ou não deixar ao Leesil ali sozinho. Depois se inclinou para o bosque e o som.

Algo tinha assustado tanto ao cão que este tinha atacado sem que lhe desse a ordem e sem que se incomodasse em despertá-los. Magiere se moveu com rapidez ao ver em sua cabeça cenas de lobos estravinianos despedaçando ao pobre animal. Atravessou entre ramos baixos e arbustos, o som do rio era cada vez mais forte.

O cão nem sequer era dela, mas havia interposto seu corpo entre o dela e o perigo às vezes suficientes como para que o pensar que lhe pudessem fazer mal a incomodasse mais do que tivesse acreditado. O estranho e assustador uivo que tinha ouvido antes se mesclava em sua cabeça com os latidos normais de Chap, mas quanto mais se aproximava do rio, mais difícil se o fazia localizar a procedência do uivo.

Magiere o chamava de uma vez que corria:

—Chap! Onde está?

Não levava tocha, mas a lua, que estava quase cheia, dava-lhe a suficiente luz para poder distinguir passagens pelo bosque. Tropeçou-se duas vezes, se segurou com a mão que tinha livre enquanto com a outra agarrava com força a cimitarra. A anterior luta com o Leesil lhe tinha deixado os músculos doloridos. Amaldiçoou ao cão muito entusiasta, tanto pela frustração como pela preocupação que sentia. Através das árvores pôde ver o reflexo da lua na água que corria.

—Chap! —gritou outra vez enquanto corria para diante.

Uma sombra branca passou pelo lado esquerdo de seu campo visual e se deteve. Do mesmo lugar vinha o som dos latidos entrecortados de Chap. Magiere correu para o som para que se movesse para a direita, de novo para o rio. O bosque se abriu em uma pequena clareira ao lado do rio. O que viu fez que lhe congelassem as pernas. Inclusive desde detrás de Chap, podia ver as manchas escuras em seu pescoço e seus ombros. Moveu-se para sua esquerda para evitar sobressaltá-lo.

Tinha o focinho manchado e lhe gotejava, e apesar de que estava muito escuro para ver a cor, estava segura de que era sangue. O pelo que não tinha nem emaranhado nem molhado estava arrepiado, o que fazia que parecesse ainda maior do que era em realidade. Tinha os lábios retraídos e mostrava os dentes em um grunhido arrepiante. Magiere olhou lentamente para o adversário do cão, que estava apanhado a margem do rio.

Tinha forma humana, estava agachado, em cócoras no barro, e as pedras, com as mãos no chão, como se pudesse andar a quatro patas se quisesse. Do torso lhe penduravam farrapos que antes tinham sido uma camisa até que Chap a tinha esmigalhado. Fios de sangue corriam desde as feridas fazendo caminhos pelos braços e o peito do homem da cor da lua. O comprido cabelo escuro que lhe chegava pelos ombros parecia estar fora do lugar, como se o tivessem esculpido em madeira clara e lhe tivessem colocado um montão de seda tinta de negro na cabeça depois de havê-lo pensado. O cabelo fibroso o fazia sombras à cara, mas seus olhos brilhavam como se refletissem uma luz que não existia. Levantou uma mão magra para poder ver os profundos cortes que lhe tinham deixado às marcas das dentadas nos pulsos. De cada um de seus dedos se estendiam umas unhas cheias de nós, como garras malformadas.

—Não... É possível... Só cão... Mas encostar queima. —A voz do homem estava cheia de surpresa—. Vira-lata asqueroso... —assobiou cheio de ira—, não pode ferir a Parko, não desta maneira.

Os olhos brilhantes se separaram de suas feridas e se precaveu da presença de Magiere. Enquanto olhava a Magiere a cabeça do homem começou a inclinar-se para um lado, e mais e mais ainda, até que quase a tinha apoiada sobre seu ombro como um mocho. O cabelo lhe retirou da cara alargada e Magiere apertou com força sua cimitarra.

Os olhos e as maçãs do rosto afundado lhe faziam sombras escuras na pele branca como uma larva de caverna. Alguma enfermidade devia havê-lo consumido até deixá-lo nos ossos, com aqueles músculos finos e escassos.

—caçadora? —disse de uma vez que agarrava ar de repente e mantinha a voz doce e melódica. Inclinou a cabeça mais ainda e depois uma risada espectral como a de um corvo saiu de sua garganta—. Caçadora!

Magiere sentiu frio e medo para ouvir aquela palavra. O homem a conhecia, ou ao menos sabia por que tinha ido a aquele lugar, embora ela não o tivesse visto nunca.

Inclinou-se para a esquerda e pulou de quatro.

—Chap, quieto—lhe ordenou Magiere, mas não foi o suficientemente rápida.

Chap imitou o movimento do homem, mas antes de aterrissar, a figura branca trocou de direção e saltou frontalmente para a direita. As patas dianteiras de Chap cederam no cascalho solto enquanto tentava girar para trás. Perdeu o equilíbrio e derrapou fazendo ruído na pedregosa margem do rio. Magiere viu o movimento do homem, à direita e logo à esquerda, e depois seus olhos se tornaram para o Chap quando o cão caía. Piscou.

O homem estava no ar e ia cair em parafuso sobre ela.

Magiere se agachou, rodou para diante com o passar do chão e passou por debaixo do arco que fazia o homem no ar. Não havia tempo para ponderar como se movia tão rápido ou saltava tanto aquele homem. Girou e se levantou de costas ao rio, bem a tempo para ver como seu atacante girava no ar e estava frente a ela de novo. Seus pés logo que haviam meio tocado o chão quando voltou a saltar para ela.

Magiere oscilou sua cimitarra dando um golpe curto e rápido entre seu corpo e o de seu atacante. Era um ataque muito débil, mas tampouco era sua intenção acertar. Quão único queria era assustá-lo para que se afastasse. Não seria nada bom para ela matar a um aldeão naquele momento, depois de seu grande êxito ao tirar o Leesil de sua atuação improvisada.

O homem esbranquiçado se agachou e saltou a um lado, esquivando a lamina da espada. Magiere se aproveitou e trocou ao lado oposto para poder afastar suas costas do rio. A inquietante risada do homem ressonou entre as árvores que os rodeavam.

—Pobre caçadora—choramingou brincalhão de uma vez que levantava uns dedos com unhas manchadas e se incorporava.

Magiere deu um passo atrás.

—Só quero o cão. Não quero te fazer dano.

O homem riu de novo, com os olhos meio fechados de modo que por seu brilho pareciam cortes cintilantes em sua cara.

—É obvio que não quer me fazer dano—disse o homem com uma voz tão profunda como suas maçãs do rosto.

Depois saltou.

 

Tratava-se do mesmo sonho, mas esta vez nem sequer o atordoamento causado pelo vinho podia eliminá-lo.

Leesil, com só doze anos, estava em cócoras no chão da habitação escura que havia debaixo da casa de seus pais, escutando atentamente a lição de seu pai.

—Aqui... —seu pai assinalava à base de um crânio humano que tinha na mão—... É onde se pode aplicar uma lamina fina e afiada quando o sujeito esteja distraído. Isto causa uma morte instantânea e silenciosa na maioria dos humanóides de crânio grande.

Pai lhe deu a volta ao crânio para deixar à vista a abertura onde deveria ter ido à coluna vertebral.

—É um golpe muito difícil. Se não se executar com precisão —franziu o cenho ao olhar a Leesil —um golpe lateral forte em retirada pode te salvar antes que o objetivo possa fazer algum ruído. Terá que usar sempre o estilete ou alguma lamina similar fina e forte, nunca uma adaga ou uma faca. As laminas largas se enredariam na base do crânio ou poderiam desviar-se com a vértebra superior.

O homem olhava a seu filho. Uma grosa barba grisalha escondia a parte inferir de seu anguloso e magro rosto. Sustentou o crânio em alto. O jovem Leesil o olhou, mas no que mais se fixou foi nas finas e quase delicadas que eram as mãos de seu pai, tão agraciadas para tudo o que fazia, sem importar quão mau fora.

—Entende-o? —perguntou-lhe seu pai.

Leesil olhou para cima, com o estilete em sua própria mão, um pouco muito grande para um menino. Quando estava acordado, recordava ter assentido em silêncio como resposta a seu pai, mas os sonhos sempre eram diferentes a suas lembranças. Estava a ponto de agarrar o crânio, mas duvidou.

—Não, pai—respondeu o jovem Leesil—, não o entendo.

De entre as sombras saiu outra figura, como se florescesse do escuro chão do canto da habitação. Ela era alta, ligeiramente mais que seu pai, delicadamente magra e tinha a pele da mesma cor mel da de Leesil, embora suave e mais perfeita que a pele de qualquer pessoa que ele tivesse visto em sua vida. Tinha o cabelo comprido e as sobrancelhas finas como brilhantes plumas de ouro, reluzentes qual fios de uma teia de aranha iluminados pelo sol. As pontas de suas orelhas quase nunca lhe viam debaixo de seus brilhantes cabelos. Seus enormes olhos cor âmbar estavam rasgados para cima, no mesmo ângulo que suas sobrancelhas.

—A resposta correta é sim, Leesil—disse ela com sua doce voz, a admoestação de uma mãe para um mau comportamento.

Seus olhos olhavam fazia ele, para baixo, com calma, e lhe fizeram ter tantas vontades por agradá-la que lhe doía, apesar de que lhe adoecia fazer o que lhe pedia.

—Sim, mãe... Sim, pai—sussurrou—. O entendo.

Leesil se deu a volta em seu sonho e gemeu, despertou de repente, mas não estava seguro do que tinha sido o que tinha interrompido seu sonho. Por um momento, sentiu-se agradecido para o que fora que o tivesse despertado. Doía-lhe a cabeça, do cansaço e do excesso de vinho. Não tinha bebido o suficiente para bloquear o sonho aquela noite e apenas o necessário para cair em um sonho mais profundo. Com a vista imprecisa lhe levo mais de um momento dar-se conta de que o acampamento que o rodeava estava vazio.

—Magiere? —chamou—. Chap?

Não houve resposta. O medo começou a eliminar os efeitos do álcool de seus pensamentos.

Da distância veio um uivo que não pôde distinguir como humano ou animal. Leesil se obrigou a ficar em pé, meteu-se um par de estiletes nas mangas, nas capas que levava nos pulsos, e se cambaleou através do bosque para o som.

 

Magiere se moveu a um lado de novo, mantinha a seu atacante a raia com os movimentos de sua espada, que não rompia sua guarda. Sua respiração se fazia mais e mais pesada pelo cansaço, mas todas suas ameaças e manobras não tinham desalentado a seu adversário. Agachou-se e esquivou todos os golpes, em um momento sorria e em outro deixava escapar uma risada maliciosa e curta enquanto saltava e dançava. Os pés do Magiere varreram algo de escassa altura sobre o chão, um arbusto ou um ramo caído, então se deu conta de que ele a tinha levado de volta para as árvores.

O pânico se apoderou de sua garganta. Quase não conseguia mantê-lo a raia, não apartava os olhos dele por medo de que saltasse de novo e não pudesse pará-lo. Se tiver que concentrar-se em não perder seu apoio sobre o bosque, ia ou a tropeçar e cair, ou algo pior, a distrair-se e perder o guarda.

—caçadora ,caçadora—cantava o homem esbranquiçado enquanto saltava para a direita e aterrissava em cócoras, com as quatro patas colocadas juntas—. Vêem caçar sua presa!

O pânico se mesclou com a ira.

Seguir-lhe o jogo era perder a batalha, e começou a temer-se que aquele aldeão enlouquecido pela febre, de algum jeito sabia mais de suas atividades do que deveria. De todas as maneiras, preferia evitar ter que matá-lo, se era possível. Um louco que vá por aí tagarelando a respeito de uma caçadora de mortos charlatona seria um acusador bastante questionável. Um corpo com cortes de espada na noite em que ela passou por ali levantaria suspeitas, o suficientes como para que os aldeãos convencessem ao senhor de que a buscasse. Magiere ficou quieta e esperou a que ele se movesse outra vez; seu objetivo era procurar alguma possibilidade para deixá-lo inconsciente com um golpe da lamina de sua espada.

Um terrível gemido veio do rio e Magiere se lembrou da enorme queda que tinha sofrido Chap. De maneira instintiva tanto Magiere como o homem olharam para o lado, e depois voltaram a olhar-se com a suficiente rapidez para ver os enganos do outro. Ele se lançou sobre ela, com as mãos como ganchos de ferro dirigidos a seu pescoço. Magiere não teve tempo para reagir e atuou instintivamente. Baixou a cimitarra de um golpe seco. A mão-garra não deu em seu objetivo, mas sim no peito. A lamina da espada lhe deu na clavícula. As unhas lhe arranharam a couraça de couro. O afiado aço cortou o tecido maltratado e mordeu a branca pele.

Magiere notou como o chão lhe movia sob os pés e a atiravam para trás. Bateu com um tronco na cabeça e nas costas, caiu enjoada para um lado e aterrissou com força no chão. Seu coração pulsou uma vez enquanto esperava a que lhe caísse em cima o peso de seu adversário, mas não chegou. Magiere olhou para cima enquanto tentava obrigar a sua vista a que se esclarecesse.

O homem esbranquiçado estava sobre ela. Seus enormes olhos olhavam para baixo, a pouco profunda ferida que tinha no peito, como se o pensamento de que a lamina lhe pudesse fazer mal nunca lhe tivesse passado pela cabeça até aquele momento. Seu doentio senso de humor se desvaneceu e se converteu em uma máscara de ira.

—Não é possível... —murmurou.

Já não ficavam esperanças de não ter que matar a aquele homem. Magiere agarrou sua cimitarra com mais força e tentou levantá-la para proteger-se. Antes que pudesse terminar, o homem saiu de seu estupor e se atirou sobre ela. Uma mão ossuda lhe tinha agarrado a garganta e lhe estava sujeitando o pescoço contra o chão. Tentou lhe dar um golpe com a cimitarra na cabeça, mas lhe agarrou o pulso e o bateu contra o chão.

—Não me pode fazer isto—lhe disse em um grunhido—. Não é possível!

Ao Magiere lhe voltou a nublar a vista enquanto ele apertava mais a mão ao redor de sua garganta.

—Não pode fazer mal ao Parko. —Era uma negação mais que outra coisa.

Magiere começava a sentir-se enjoada pela falta de ar. Quando o bosque lhe começou a dar voltas também sentiu como o frio lhe atravessava a pele. Os dedos que lhe apertavam a garganta pareciam lhe espremer o calor do corpo.

Magiere golpeou com a mão que ficava livre para o vulto ovulado que era a cabeça do homem. O impacto lhe freou o punho e lhe enviou tal retrocesso que fez que lhe doesse o ombro. A cabeça do homem apenas se moveu. Pôs uma mão sobre sua cara e tratou de afastá-la tudo o que pôde.

Sua pele era tão pouco flexível como os ossos sobre os que se estendia e uma sensação gelada voltou a lhe chegar através da mão.

O terror se mostrou no rosto do Magiere quando a cara esbranquiçada se desvaneceu por completo e soube que não ficava muito até ficar inconsciente. O frio foi impregnando cada vez mais profundamente até que chegou ao peito, inclusive até que seu medo fraquejou e se afogou na sensação. O frio se filtrou por sua garganta também e pelo pulso que tinha sujeitado contra o chão.

Uma pontada dentro dela respondeu ao crescente frio.

Não vinha da vida que se estava desvanecendo de seu corpo, mas sim vinha de algum lugar dentro dela, um pouco escondido que se movia sem cessar. Conseguiu transladar uma crescente febre que passou de seus ossos a seus músculos e a seus nervos, deixando a seu passado um calor de formigamento. Ao final ficou em seu estômago, o calor se converteu em um nó crescente de dor que nem o frio podia rebater depois se estendeu a sua garganta. Em seu interior se abriu um vazio que esperava ser cheio.

Fazia que se sentisse... Faminta.

Magiere se sentiu esfomeada. Um enorme desejo ia crescendo com a ira e procurava uma maneira de acabar com a fome. Tirar-lhe a vida a seu atacante poria fim a essa fome.

Empurrou a cabeça do homem. Esta vez cedeu um pouco.

A fome se estendia desde seu estômago, ia esquentando suas extremidades até que eliminou a fadiga e o medo e consumiu o frio daquele homem. Tentou levantar o braço que segurava a cimitarra e sentiu como seu pulso ia separando-se pouco a pouco do chão apesar da pressão do homem. Na escuridão em que se achava pôde ouvir um assobio frenético que escapava dos lábios de seu atacante, quando afrouxava a sujeição de seu pescoço para tirá-la mão do Magiere da cara. Ela agarrou ar e se encheu os pulmões.

—Não... Não... Não! —gritou ele—. Não é rival para o Parko.

Magiere se esforçou por desfazer-se da pressão que o homem exercia sobre seu pescoço, não podia mover sua espada nem lhe golpear a cabeça com a mão que tinha livre. Seu atacante começou a jogar o corpo para diante sobre o de Magiere e esta ouviu um som seco, como um estalo estranho. Conforme sua vista retornava à normalidade pôde distinguir o formato da cabeça do homem que se aproximava de seu rosto, clique, depois retrocedia e voltava a avançar, falência, o homem lutava contra a força do Magiere. O som era como o da mandíbula de um animal ao fechar-se.

Então se deu conta do que estava fazendo aquele homem. Com as forças de ambos compensadas, seu atacante recorria ao único que ficava para desfazer do impasse. Estava tentando mordê-la.

Magiere arqueou as costas para mover a cara para cima e que ele não pudesse alcançá-la e depois empurrou com força com ambos os braços. Um grunhido desumano veio de sua esquerda e de repente algo arrastava o corpo de Magiere pelo chão. O homem esbranquiçado deixo escapar um uivo de ira ao sentir como perdia força que restringia os pulsos de Magiere e esta perdeu a concentração ao tentar entender o que acabava de lhe passar.

Pôde ver o Chap que voava a sua esquerda, golpeava ao homem e ricocheteava pelo golpe. O corpo do homem saiu disparado para a direita e Magiere voltou a sentir como a arrastavam, esta vez para a direita, ao acompanhar ao homem pelo chão. A nebulosa que grunhia voltava para a carga e Chap golpeou ao homem esbranquiçado em um lado. Tanto o homem como o cão caíram e deixaram de ser uma carga para o Magiere, logo rodaram pelo chão para as sombras noturnas das árvores. Era impossível distinguir os uivos e grunhidos de um e de outro.

Magiere se apressou a levantar do chão e lhe preocupou que Chap não fora rival para este adversário. Magiere se cambaleou e se equilibrou contra o tronco sem ramos de uma árvore. A estranha sensação de fome que tinha no estômago seguia ali embora se debilitasse. Enjoada e desorientada, sentia que seus pés não pisavam em terra firme enquanto tratava de aproximar-se da briga e se esforçava por distinguir ao homem do cão.

O homem girou para ela, mas ainda não o podia alcançar. Chap se arremessou na perna do homem e ele tentou golpeá-lo com a mão. Entretanto, o cão era muito rápido e um chiado de dor se cravou nos ouvidos do Magiere quando Chap lhe mordeu o pulso ao homem.

Naquele momento, o som, as sensações e a vista desapareceram da mente do Magiere. O cão e o homem pareciam estar muito longe, muito para que ela os alcançasse. Ainda sentia a garganta constrangida e lhe custava respirar.

O grito de dor mal tinha terminado quando ela agarrou a cimitarra com as duas mãos e deu uma chicotada para os lados com ela, reforçando o golpe com todo seu peso. Lançou o golpe alto, mas o fez cegamente, não sabia onde estava seu objetivo, mas sabia que era muito provável que o homem se incorporasse para tirar o braço da goela de Chap. O impulso lhe fez perder o equilíbrio, as sombras do bosque se turvou e tudo lhe deu voltas.

Magiere se golpeou a cabeça contra o chão brando do bosque ao cair. Toda a fome que havia sentido lhe desapareceu de repente. Presa no pânico tentava saber por onde devia levantar-se, rodou pelo chão antes que o homem caísse sobre ela. Mas não o fez.

Deu-se por vencida e ficou quieta, tombada, ainda não era capaz de incorporar-se e muito menos de ficar em pé. Quando a noite começou a deixar de lhe dar voltas dentro da cabeça e foi dando passo a uma intensa dor, pôde ouvir ruídos a seu redor. Por um lado estava o gorjeio do rio ao passar por seu leito rochoso e por outro o suave matraqueio dos ramos das árvores na brisa. Ouviu sua forte e desesperada respiração, o rangido das agulhas de pinheiro e as folhas caída que havia debaixo dela ao mover-se e tentar levantar-se.

E isso foi tudo. Todos os pequenos sons, os sons da noite, deixaram de monopolizar sua atenção e entre eles quão única havia era silêncio. Quando as sombras que havia sobre ela começaram a recuperar sua forma real e pôde distinguir ramos e estrelas no céu sobre as árvores, deu-se a volta para um lado com todo seu peso.

Dois olhos brilhantes a olhavam fixamente.

A respiração ficou apanhada na garganta até que pôde distinguir um focinho manchado de sangue e umas orelhas caninas. Chap a olhava com expectativa.

No chão a seus pés jazia uma aranha de pele branca e roupas feitas farrapos. Chap o olhava enrugando o focinho e grunhia incômodo. Baixou a cabeça e ofegou.

Magiere se arrastou pelo chão de quatro. sentia-se como se tivesse deslocado toda uma légua sem parar. Conforme se ia aproximando do corpo do homem ia levantando-lhe cimitarra, apenas se a podia manter, pronta para defender-se. O homem não se moveu.

—Chap, afaste-se—disse Magiere com a voz seca.

Alargou a mão para medir ao homem com a espada, seguia sem mover-se. Quando se aproximou de rastros ficou claro por que não se moveu.

Onde deveria ter estado sua cabeça só estava o coto de seu pescoço.

Deu um salto para trás e sua espada caiu pesadamente no chão.

Já tinham ido tantos povoados que não podia recordá-los todos. Mas sempre tinha havido uma razão aparentemente racional para a morte dos aldeãos. Este povoado não era distinto. A brancura e frieza do homem eram claros sintomas de enfermidade e não seria a primeira vez que essa fora a autêntica razão de que mães e pais, esposas e irmãos se reunissem para rezar pelos espíritos dos mortos. A enfermidade com freqüência atraía a loucura, como lhe tinha passado a este homem. E ela o tinha matado.

A fome ardente tinha desaparecido. O frio do homem em sua pele tinha desaparecido. Recordar todas as sensações estranhas fazia que tivesse calafrios e lhe revolvia as tripas, mas não tinha tempo de surpreender-se. Tinha matado a um aldeão e isso era o pior que lhe podia passar. Tropeçou-se, deixou cair à cabeça se desesperada e uma pequena e pálida luz captou sua atenção.

Para seu desconcerto, olhou para baixo e viu seu amuleto de topázio. Acreditava recordar que o tinha guardado, mas ali estava pendurado de seu pescoço pendendo sobre sua couraça de couro. Brilhava com tal suavidade que lhe podia ter acontecido despercebido de não ter sido porque o olhou diretamente. Olhou-o até que se apagou e depois se perguntou se a suave luz não teria sido mais que produto de sua imaginação, pelo cansaço e a falta de ar.

Olhou ao cão, que estava sentado perto dela e a olhava com expectativa. Teve que esforçar-se por empurrar as palavras através de sua constrangida garganta.

—Vêem aqui, Chap.

Chap caminhou pelo curto caminho e se sentou frente a ela. Custou-lhe um grande esforço levantar as mãos para inspecioná-lo. O cão não parecia ter nenhuma ferida grave, só um par de arranhões nos ombros e nos flancos. O sangue que cobria sua garganta vinha de um corte superficial que não era de preocupar-se. Uma sensação de alívio percorreu todo seu corpo. Ao dia seguinte estaria rígido e dolorido, mas o lógico é que tivesse estado pior depois de tal briga.

Ao esfregar o pescoço sentiu como se já lhe estivessem sobressaindo as contusões. Chap se lançou sobre ela de repente e tirou a língua para lhe lamber o queixo e as bochechas.

—Para-lhe alfinetou—. Pode guardar isso para o bêbado de seu amo.

Chap se afastou e se passeou de um lado a outro do corpo sem vida do homem. Deixou escapar um latido curto e baixo, e depois saiu disparado entre as árvores em direção ao rio.

Magiere não podia entender o que era o que o tinha disparado de novo, mas ao ver a água se lembrou do iminente problema ao que devia enfrentar-se. A escuridão ia remetendo. Aproximava-se o amanhecer. Terei que fazer algo com o corpo.

Não havia tempo para enterrá-lo e pode que embora escondesse muito bem a tumba alguém pudesse encontrá-la antes que eles se afastassem o suficiente. Não sabia quanto estavam acostumados a afastar-se de suas casas e campos os aldeãos para procurar madeira ou o que queira que produzira aquele bosque. Como não dispunha de meios para transportar o corpo, o rio era sua única possibilidade. Magiere começou a atirar do corpo pelos pés para a margem.

A camisa estava muito desfeita para utilizá-la, assim em seguida fez uma corda com o pasto. Com isso atou juntas as pernas da calça e as encheu de pedras. Enquanto fazia todo isso evitava olhar ao corpo. Tocar-lhe a pele a punha doente e lhe revolvia as tripas. Estava gelado, como se levasse morto mais do pouco tempo que em realidade levava. Quando teve terminado, deu-se a volta para dirigir-se ao bosque a procurar a cabeça. Uma náusea lhe subiu pela garganta quando viu o que tinha ante seus olhos.

Ali estava Chap com a cabeça do aldeão pendurando de seu focinho com o cabelo entre os dentes. Aproximou-se dela e deixou sua carga aos pés de Magiere; logo se sentou olhando-a, esperando-a com expectativa.

Não era capaz de decidir o que era mais desagradável: a visão da cabeça atalho com os olhos abertos em seu último momento de comoção, ou a tranqüilidade com a que o cão a dirigia. A náusea desapareceu e lhe voltou a gelar o sangue ao recordar como Chap se passeou com o passar do corpo e depois tinha deslocado para a margem do rio. Olhou dentro dos olhos azul prateado do cão.

Chap sabia o que teria que fazer, inclusive antes que ela o pensasse. Entretanto, era somente um cão.

Magiere se agachou para agarrar a cabeça sem deixar de olhar ao cão até que se ajoelhou junto ao corpo. Não tinha tempo para considerar tão surpreendente descobrimento. Como não tinha outra coisa ao seu dispor utilizou o próprio cabelo comprido para atar a cabeça ao corpo, fez vários nós no cinturão. Arrastou o corpo até dentro do rio, até meter-se ela mesma até metade da coxa, e o empurrou para afundá-lo e afastá-lo com todas suas forças.

Saiu à flutuação um momento e a corrente o arrastou um pouco. Depois, por fim se afundou baixou a superfície. Um som metálico fez que se desse à volta na água.

Chap estava sentado na borda. Olhava-a com as orelhas levantadas. Esta vez o que tinha a seus pés era a cimitarra que ela se deixou nas árvores.

—Deixa-a já! —alfinetou-lhe frustrada enquanto saía do rio. Agarrou a arma. Ao agachar voltou a enjoar e tudo lhe deu voltas. Deteve-se até sentir-se melhor—. Deixa de fazer estas coisas.

Chap deixou escapar um grunhido lastimando e agachou a cabeça enquanto a olhava.

A lamina ainda tinha uma mancha escura. Olhou ao cão e se foi ao bosque onde a limpou com a grama. Quando terminou, alguém saiu da clareira do bosque e se tropeçou na rochosa borda do rio. Leesil.

 

Olhou atrás e diante. Quando viu a Magiere correu pela borda, tropeçou-se duas vezes, embora não chegou a cair de bruços. Chap correu para ele e deu uma volta ao redor do magro homem sem deixar de mover a cauda.

—Escutei... E lhes tinham ido. —Leesil cuspiu enquanto ofegava—. O que acontece? Por que está...?—Olhou para as desarrumadas roupas do Magiere, à grama e as folhas que tinha no cabelo e depois olhou ao Chap e viu as manchas de sangue que tinha na pelagem. Abriu muito os olhos. Leesil inspecionou rapidamente ao cão e uma vez que teve comprovado que não tinha nenhuma ferida que pusesse em perigo sua vida, olhou a Magiere.

—O que passou? —perguntou com mais claridade.

Magiere apartou a vista de seus olhos injetados em sangue. O sol estava já em algum lugar por debaixo do horizonte e as nuvens estavam tintas de vermelho. Ainda não tinha começado o dia, mas toda sua vida tinha trocado seu curso. Se ela tivesse sido um camponês supersticioso haveria dito que era uma profecia.

—Para mim se terminou Leesil—disse ela—. Tudo se acabou.

Leesil franziu o cenho e as duas muito finas sobrancelhas loiras se juntaram sobre seus enormes olhos em uma mescla de surpresa, desconcerto e ira.

—O que acontece? —gritou—. Íamos falar disto.

Magiere desviou a vista para a água. O corpo se inundou, mas a corrente podia mudar isso. Pensou no corpo miserável pela corrente sem poder evitá-lo.

—Vou a Miiska—disse Magiere—. Vem?

 

No pequeno povoado costeiro da Miiska, um armazém dos moles transbordava atividade apesar de que ainda não tinha amanhecido. A enorme planta principal entre as paredes sem terminar estava cheia de garrafas de cerveja, fardos de trigo e madeira no lado das importações; e pescado seco e algumas peças de artesanato no das exportações. Os empregados anotavam todas as gavetas, barris e pacotes falsos que entravam e saíam constantemente. Inclusive com a porta aberta, o armazém cheirava a corda tratada com azeite, madeira úmida e metal, suor dos animais e empregados, e o que queira que a maré tivesse miserável nos dois dias anteriores. Um menino pequeno com aspecto de abandonado, com uma camisa verde grande e o cabelo pardo, não deixava de esfregar o chão sob os pés de todos para tentar evitar o contínuo armazenamento de pó e sujeira. Os empregados estavam muito ocupados preparando a carga para uma barcaça que zarpava ao amanhecer. Apesar da furiosa atividade, apenas um par de pessoas falava com as outras.

À direita das portas que davam ao cais, que eram o suficientemente largas como para que passasse um carro, havia um homem alto que fiscalizava todo o trabalho com cuidadoso desapego. Não dava ordens e apenas se comprovava algo, como se soubesse que tudo se faria a sua plena satisfação. Sua enorme altura física fazia que parecesse como se estivesse acostumado a olhar a outros de acima, inclusive a aqueles que não fossem de menor estatura. Tinha uns braços largos e musculosos que, dentro da túnica verde, estavam cruzados sobre seu peito. Sua pose arrogante sugeria que não tinha obtido semelhantes músculos a apóie de levantar caixotes ele mesmo. Tinha o cabelo muito curto, da cor da seda tingida de negro e ainda mais escuro ao redor de suas pálidas feições. Também tinha os olhos de um azul cristalino, quase transparentes, e com eles o observava tudo.

—Não, Jaqua—disse uma voz desde atrás—. Ordenei vinte barris de vinho e trinta e dois de cerveja. Confundiste os números.

Olhou para o fundo do cavernoso receptáculo. Uma jovem com o cabelo marrom, que media sozinho dois terços do que ele media,discutia com o empregado da recepção.

—Senhorita Teesha, estou seguro de que você... —começou Jaqua.

—Sei o que ordenei que—disse com calma—. Não há maneira de que possamos vender todo esse vinho agora. Devolve doze barris. E se o capitão da barcaça tenta nos cobrar o transporte lhe diga que podemos encontrar a outro com o que fazer negócios.

O alto supervisor abandonou seu posto junto à porta e se aproximou da discussão.

—Há algum problema? —perguntou em tom monocórdio.

—Não senhor. —O empregado, Jaqua, retrocedeu. Sua cara se tornou inexpressiva, mas quando agarrou sua pasta com as duas mãos ficaram as unhas brancas.

Teesha sorriu e deixou ver seus pequenos e brancos dentes. Olhou sem preocupação há seu muito alto companheiro.

—Não, Rashed. Só um engano com o pedido de vinho. Já vão se ocupar disso.

Rashed assentiu, mas não se moveu e Jaqua se apressou a corrigir seu engano.

—Ultimamente se equivocou em muitos pedidos—disse Teesha—. Pode que tenha estado provando muito os vinhos, ou com muita freqüência.

Rashed era incapaz de lhe devolver o sorriso, mas a ela parecia não lhe incomodar. Muito poucos diriam que era bonita, mas tinha esse brilho em sua cara de pulso que fazia que os homens pensassem em casar-se com ela nada mais vê-la. Rashed sabia que seu exterior não era mais que um objeto doce que não fazia mais que cobrir a verdade, mas, ainda assim, sua aparência lhe agradava tanto como a outros, ou pode que mais. Também lhe agradava sua companhia.

—Se você não gostar de Jaqua—disse ele—, substitui-o.

—OH! Não seja tão duro. Não quero que o substituam. Só quero... —deteve-se metade da frase e o olhou fixamente.

Rashed olhou para a parede que dava ao norte do armazém e se levou uma mão à garganta. Sentiu como dormia todo o corpo, congelou-se da cabeça aos pés. Fazia muitos anos que não sentia dor e sua volta o surpreendeu. Seus pensamentos se voltaram imprecisos e se desvaneceram antes de poder tomar uma forma definida em sua mente.

Aproximou-se da parede e se deu a volta para apoiar-se em uma das madeiras. A linha gelada que lhe cruzava a garganta lhe dava a volta ao pescoço.

Teesha lhe agarrou o braço, ao princípio com suavidade e logo apertou seus finos dedos.

—Rashed... O que te passa?

—Teesha —conseguiu sussurrar.

Suas infantis mãos o agarraram da túnica com firmeza, para lhe ajudar a manter o equilíbrio. Quando começou a cair em picado Rashed sentiu como as mãos da Teesha o erguiam outra vez. Era tão forte... Mais forte que qualquer homem do armazém, embora ninguém soubesse. Pô-lhe um braço ao redor da cintura, a segurou, e o urgiu a sair por uma porta lateral para afastar o dos olhares de suspeita. Uma vez fora, Rashed se esforçou por lhe ajudar a que o sustentara em pé. Sentiu como suas mãos lhe tocavam a cara e a olhou aos olhos, que estavam cheios de preocupação.

—O que é? —perguntou-lhe—. O que acontece?

Uma grande tristeza lhe jogou em cima como uma enorme onda e depois veio a ira. Uma cara branca com os olhos e as maçãs do rosto afundados brilhava no olho de sua mente. Depois se apagou e se desvaneceu. Encontrou-se a si mesmo olhando sobre os telhados dos edifícios para o bosque e o horizonte para o nordeste.

—Parko morreu—disse em um sussurro sibilante; estava muito atônito para falar em voz alta, muito zangado para dizê-lo com claridade.

A suave frente da Teesha se enrugou confusa.

—Mas, como sabe?

Negou levemente com a cabeça.

—Pode que porque durante algum tempo foi meu irmão.

—Nunca havia sentido uma conexão tão forte com ele, inclusive antes que se fora para seguir o caminho selvagem.

Rashed baixou o olhar para olhá-la aos olhos enquanto a ira ultrapassava ao resto de suas emoções.

—Senti-o. Alguém lhe cortou a cabeça e... Algo úmido... Água corrente.

Teesha o olhou, congelada no tempo, através de suas mãos Rashed pôde sentir como um calafrio percorria seu pequeno corpo. Apartou rapidamente suas mãos da cara dele, como se o que lhe havia descrito lhe provocasse repulsão, depois apoiou a frente em seu peito.

—Não. OH! Rashed, sinto muito.

O voltou a levantar o olhar para o horizonte para o nordeste e um calafrio como a água corrente sobre a carne viva o voltou a atravessar. Era perturbador de uma maneira que já tinha esquecido, fazia várias décadas que não sentia algo tão frio que fizesse mal.

—Temos que descobrir quem o tem feito. Onde está Edwan?

—Está perto. —Teesha fechou os olhos um momento—. Meu marido diz que também o sente.

Rashed fez caso omisso das condolências.

—Manda-o fora. Diga-lhe que encontre a quem é que fez isto e que me traga um nome. Diga-lhe que olhe ao nordeste. —Voltou a olhar para terra adentro—. E lhe diga que se dê pressa.

Uma suave luz de brilho trêmulo tremeu no ar perto dos dois, pouco mais que a luz de um farol com a tampa quebrada. Teesha voltou à cara para ela e moveu os lábios como se falasse, entretanto, não se ouviu palavra alguma. A luz se desvaneceu.

 

—Teremos que parar logo —disse Magiere cansada enquanto se passava uma mão pela cara—. Está escurecendo.

O sol se estava ocultando depois do oceano junto à estrada da costa do Belaski enquanto iluminava as terras com um brilho alaranjado escuro, o que lhe dava à paisagem um aspecto muito menos sombrio e desamparado do que lhe dava a luz do pleno dia. Leesil sempre tinha gostado do entardecer e se deteve um momento a observar como a luz desaparecia depois da água. A estrada da costa que seguiam para o sul desde a Bela, a capital do país, era razoavelmente rápida e limpa. Era uma viagem muito mais fácil que os cinco dias acampo através, para sair pelo oeste da Stravina.

Tinham passado já doze dias da morte do aldeão louco e Leesil ainda não lhe tinha perguntado o que era o que realmente tinha passado àquela noite na costa do rio Vudrask. Magiere lhe tinha dado escassos detalhes a respeito do que lhes tinha ocorrido a Chap e a ela. Ainda ficavam mistérios por resolver: por que tinha atacado Chap sem que lhe ordenasse e por que Magiere parecia tão zangada e afetada. Era algo que ia além da simples morte violenta de um aldeão. Nenhum dos dois se atreveu a mencionar o assunto, nem sequer quando se detiveram em um povoado para comprar um asno e um carro para transportar a Chap, o que deveria ter suscitado perguntas a respeito das lesões do animal. Para então quase todas suas feridas pareciam estar cicatrizadas mas Magiere insistia em que precisava descansar.

—vamos acampar —disse Magiere.

Leesil assentiu e se desviou da estrada. Olhou a Magiere enquanto esta se passava uma mão pela frente de novo, tentava apartar-se da cara um par de mechas de cabelo cobertas por pó do caminho. Ele sabia quanto odiava estar suja.

—Pode que deveríamos nos aproximar da costa —disse Leesil—. A água do mar não é a melhor do mundo para banhar-se, mas no momento servirá. Embora não é adequada para lavar a roupa, a não ser que você goste de ir com uma crosta de sal.

Magiere o Miro suspicaz. —Desde quando importa a ti a roupa limpa? —sempre.

—Deixa de tentar me seguir a corrente. —Magiere deixou escapar uma risada curta e sarcástica—. Já sei o que quer e é melhor que o esqueça. Não vamos roubar a nenhum outro povoado mais. Eu terminei. —Ela o seguiu em sua saída da estrada, parou-se e olhou para trás.

—O que acontece? —perguntou-lhe Leesil.

—Não estou segura. —Negou com a cabeça—. Do entardecer tive a estranha sensação de que alguém está... —foi ficando calada.

—Alguém o que?

—Nada. Só estou cansada. —encolheu-se de ombros—. Não nos afastemos muito da estrada. É muito difícil passar o carro pelos arbustos.

Inclusive a capa de Leesil ia resultando muito fina para o ar cada vez mais frio da tarde, assim rapidamente escolheu uma clareira entre as árvores. Magiere tirou uma chaleira amassada, chá a granel, carne seca e maçãs, enquanto Leesil limpava uma parte do chão e acendia uma pequena fogueira.

Apesar de sua tranqüilidade externa, os pensamentos do Leesil ainda eram de preocupação. De novo tinham cansado na singela rotina, levavam a cabo suas atividades sem logo que falar-se e, entretanto, havia outras coisas além do que foram ter de jantar que lhe gostaria de comentar.

—Necessita que te ajude com o Chap? —perguntou Magiere de repente.

—Não, pode andar por si mesmo.

Leesil se aproximou do carro e abraçou ao cão com seus finos e bronzeados braços.

—Né, você! É hora de despertar e tomar algo.

—Que tal está? —perguntou Magiere.

Chap abriu os olhos imediatamente e uivou antes de levantar seu focinho azul prateado para lamber a cara ao Leesil. Desfez-se do abraço do Leesil e saltou do carro em direção à fogueira em que se estava fazendo o jantar.

—Olha você mesma —respondeu Leesil—. E acredito que está aborrecido até a extenuação de ir ao carro.

Leesil sempre encontrava que a atitude do Magiere para com o Chap era bastante estranha. Nunca lhe dava tapinhas e estranha vez lhe falava, mas sempre se assegurava de que comesse e que tivesse todas as comodidades possíveis. Leesil, por outro lado, desfrutava enormemente com a companhia do animal. Mas nos dias em que ainda não tinha encontrado a Magiere, Chap estava acostumado a caçar seu próprio jantar porque a seu amo simplesmente lhe esquecia.

Leesil soltou ao asno do carro, atou-o em uma zona com grama suficiente e retornou junto ao fogo.

—Faz uma meia légua passamos uma estrada lateral —disse Leesil sem lhe prestar muita atenção enquanto agarrava um cantil de couro com água do chão e a vertia na chaleira para fazer o chá—. Pode que leve a um povoado.

—Se queria parar deveria ter dito —respondeu Magiere sem lhe dar maior importância.

—Não queria... —Ao final, zangado pelo respeitoso da resposta de sua companheira, saltou—: Sabe exatamente o que quero dizer! Pode que isto não seja Stravina, mas aqui as noites nos povoados dos camponeses são iguais de escuras. Estamos deixando tirar proveito só porque não gosta de trabalhar. Quer-te comprar um botequim? Esta bem, mas não vejo por que temos que deixar o negócio estando quase sem dinheiro.

—Eu não estou sem dinheiro —lhe recordou Magiere.

—Bom, eu sim! —A atitude serena do Magiere o enchia de fúria—. Só tenho minha parte de um povoado e não me avisou. Se tivesse sabido que íamos deixar o, faria alguns planos.

—Não, não o teria feito —disse ela sem olhá-lo e com a voz ainda tranqüila—. O vinho tinto D'areeling é caro, e se não tivesse sido o vinho, teria encontrado uma partida de cartas em algum lugar ou alguma taberneira com uma história triste. Que lhe houvesse isso dito antes não teria mudado nada.

Leesil suspirou e rebuscou em sua mente algum argumento com o que convencê-la. Sabia que ela estava pensando muito mais do que dizia. Tinham trabalhado juntos já muito tempo, mas ela sempre mantinha uma parede invisível entre ela e outros. A maior parte do tempo ele estava cômodo com aquela situação, até a agradecia. Ele também tinha seus próprios secretos.

—por que não um mais? —perguntou por fim—. Tem que haver outros povoados ao longo de...

— Não, não posso fazê-lo mais. —Magiere fechou os olhos como se queria fechar a porta do mundo—. Empurrar o corpo desse aldeão louco pelo rio... Estou muito cansada.

—Está bem. Ok. —Deu-lhe as costas—. Então me fale do botequim.

O entusiasmo retornou à voz de Magiere.

—Bom, Miiska é uma pequena comunidade de pescadores que está fazendo bom negócio na rota da costa. Haverá muitos trabalhadores e algum que outro marinheiro que queira tomar uma taça e jogar depois de um duro dia de trabalho. O botequim tem dois andares, a moradia está acima. Ainda não pensei em um nome. Dão-lhe melhor essas coisas. Até pode pintar um pôster para a porta.

—E quer que eu conduza o jogo, apesar de que sabe que perco a metade das vezes? —perguntou.

—Hei dito que quero que conduza os jogos, não que participe deles. Por isso adquire a casa e você acaba com a carteira vazia. Só dirige uma mesa de farol decente e seguiremos sendo sócios como sempre. As coisas não vão mudar tanto como crês.

Leesil se levantou e pôs mais madeira no fogo. Não sabia por que se estava pondo tão difícil. A oferta do Magiere era muito generosa e sempre lhe havia dito as coisas claras. Nunca ninguém o tinha incluído em seus planos. Jamais em sua vida. Pode que o que lhe acontecesse fora que não gostasse dos riscos que tal mudança pudesse ocultar.

—Quanto de distancia está este lugar, Micos? —perguntou.

—Miiska. —Magiere suspirou com força—. Chama-se Miiska e está a umas quatro léguas ao sul. Se formos a bom ritmo podemos chegar amanhã à última hora.

Leesil tirou seu cantil de vinho enquanto Chap rodeava o acampamento, cheirando a seu passo. Em sua mente, começou a considerar a sério a proposta do Magiere e começaram a ocorrer-se as possibilidades. Pode que um pouco de paz e tranqüilidade pusesse fim a seus pesadelos, embora o duvidasse muito.

—Pode que tenha um par de idéias para o pôster —disse ao fim.

Magiere sorriu levemente e lhe estendeu uma maçã.

—me conte.

Ao bordo do acampamento, um tênue brilho sobrevoava o bosque. A muitos não teria parecido mais que a luz do entardecer ao apagar-se, menos quando se movia através das árvores. Aproximou-se, embora parando cada vez que a mulher da armadura ou o homem de cabelo claro falava, como se estivesse escutando com atenção cada palavra. Deteve-se detrás de um carvalho no bordo da luz da fogueira e ficou ali.

 

Rashed caminhava pelo quarto de atrás de seu armazém. Essa noite não gostava de sair a contemplar a enorme e brilhante lua, como acostumava a fazer. A tensão nervosa lhe enrugava a pálida cara enquanto suas botas batiam no chão de madeira. A imagem pessoal era muito importante para ele, até nos momentos de crise tinha sido capaz de ficar umas bombachas negras e uma jaqueta limpa.

—Que caminhe como um gato não vai fazer que retorne antes —disse uma suave voz a seu lado.

Baixou o olhar para ver a Teesha meio zangada. Estava sentada em um banco de madeira com almofadas verdes e costurava pontos incrivelmente pequenos em uma peça de musselina torrada.

A peça que estava bordando começava a mostrar um pôr-do-sol sobre o oceano. Rashed nunca pôde entender como podia criar tais quadros só com tecido e fio.

—Então, onde está? —perguntou Rashed—. Faz mais de doze dias desde que morreu Parko. Ao Edwan não o encadeia a distância física. Não pode ser que lhe leve tanto tempo solicitar a informação.

—Tem um sentido do tempo distinto ao nosso. Isso já sabe —lhe respondeu Teesha enquanto cortava um fio de linho azul com os dentes—. E sabe que não lhe deu muito com o que poder começar. Pode que lhe leve um tempo simplesmente confirmar o que for ou quem seja que esteja procurando.

Enquanto mantinha seu trabalho com suas delicadas mãos, inspecionava seus pontos como se fora outra noite mais, apesar de que depois do pôr-do-sol estava acostumado a ler algum texto antigo. Em uma das habitações de abaixo, suas prateleiras estavam cheias de livros e manuscritos pelos que tinham pagado seu bom preço. Rashed não chegava a entender de todo por que as palavras em pergaminho eram tão importantes para ela.

Desejava que lhe contagiasse sua tranqüilidade, por isso se sentou a seu lado. A luz das velas se refletia em seu cabelo cor chocolate. A beleza daqueles largos cachos de cabelo brilhantes e sedosos captou sua atenção só uns minutos. Depois se levantou e ficou a passear de novo.

—Onde pode estar? —perguntou sem dirigir-se a ninguém em particular.

—Bom, eu me estou fartando de esperar —disse uma terceira voz em um assobio da outro canto da habitação—. E tenho fome. E está escuro já. E quero sair desta caixa de madeira a que chamam nosso lar!

Do escuro canto da habitação emergiu uma figura magra, o último membro do estranho trio que habitava o armazém. Aparentava ter uns dezessete anos embora talvez fora um pouco pequeno de estatura para sua idade.

—Ratboy —Rashed alfinetou seu apelido como se fora uma piada já muita gasta de tanto contá-lo—. Quanto tempo tem escondido no canto?

—Acabo-me de despertar—respondeu Ratboy—. Mas sabia que se zangaria muitíssimo se não saudava antes de ir.

Tudo à exceção de sua pele parecia marrom, e inclusive aquela tinha um tom torrado de meses, pode que de anos de sujeira. O cabelo marrom, corrente, lhe pegava à estreita cabeça sobre uns olhos também corrente. Rashed tinha ouvido muitas palavras ao longo de sua vida para definir as diferentes tonalidades de marrom (avelã, mogno, bege) mas a suja figura de Ratboy não lhe trazia nenhum desses términos à memória. Deu-lhe tão bem seu papel de garoto de rua que o personagem se converteu em parte dele. Pode que esse fora um de seus pontos fortes. Ninguém se lembrava dele como um indivíduo, só era outro adolescente imundo sem teto.

—Não tem que preocupar com que me zangue, a não ser que me dê uma razão —disse Rashed—. Deveria preocupar-se de ti mesmo.

Ratboy fez como se não tivesse ouvido a advertência e adotou um ar depreciativo, ao sorrir mostrou uns dentes manchados.

—Parko estava louco —respondeu—. Uma coisa é deleitar-se com nossa existência e sentidos superiores, e outra é perder-se como fez ele. Alguém ia matar o antes ou depois.

Duras palavras se congelaram na garganta do Rashed. Apesar de que sua voz era suave e tranqüila, sua expressão o traiu.

—As matanças desnecessárias são algo que não deveria criticar.

Ratboy se deu a volta e se encolheu de ombros ligeiramente.

—É a verdade. Pode que houvesse um tempo no que fora seu irmão, mas estava loucamente apaixonado por caminho selvagem, obcecado e bêbado com a caça. Por isso é pelo que o expulsou —pinçou-se nos dentes com uma unha—. Por outro lado, como já te hei dito, por enésima vez... —Sua voz se foi apagando como a de um menino ao que se acusa falsamente frente a um pai incrédulo—. Eu não matei ao dono desse botequim.

—Suficiente —disse Teesha enquanto olhava ao Ratboy como uma mãe que repreende o seu filho—. Isto não serve para nada.

Rashed voltou a passear-se com rapidez pela habitação. Era o dono do enorme armazém, mas aquela habitação tinha sido desenhada para seu uso privado fazia muito tempo. Várias passagens na parede e no chão que levavam ao exterior ou os andares inferiores. Teesha a tinha decorado ela mesma com uma mescla de sofás, mesas, abajures e velas muito elaboradas, com forma de rosas cor vermelha escura.

À exceção de sua pouco comum pálida pele, tanto ele como Teesha passavam com facilidade como humanos. Rashed tinha trabalhado muito e muito duro para estabelecer sua vida na Miiska. Era importante que descobrisse o que lhe tinha passado a Parko, não só por vingança, mas sim pela segurança de todos eles.

—Estou farto de esperar cada noite —disse Ratboy com petulância—. Se Edwan não vier logo, sairei eu.

Teesha abriu a boca para responder, mas nesse momento uma suave luz brilhante apareceu de um nada e começou a ganhar intensidade no centro da habitação. Então, Teesha simplesmente sorriu a Rashed.

A pequena luz se transformou em uma figura horrenda que flutuava a sobre o chão. Um homem transparente estava frente à Teesha e a olhava.

Levava bombachas verdes e uma camisa branca solta, as cores de sua roupa se viam realçados pela luz das velas. Sua cabeça parcialmente seccionada repousava sobre um de seus ombros, unida ainda ao corpo pelo que uma vez tinha sido carne. Um cabelo comprido, loiro escuro, descia-lhe pelo ombro e braço coberto de sangue e criava a ilusão de peso. Tinha exatamente a mesma aparência que no momento de sua morte.

—Meu querido Edwan —disse Teesha—. Estive muito só sem ti.

O fantasma flutuou para ela como se a pequena distância que os separava fora muita.

—Onde estiveste? —perguntou-lhe Rashed imediatamente—. Encontrou o assassino do Parko?

Edwan se deteve. Girou o corpo até que sua cabeça esteve frente à Rashed e ficou comprido tempo em silêncio.

Era pouco habitual que aparecesse o fantasma de maneira visível como nesse momento. Sua própria aparência o envergonhava, e não gostava de ver horror, repulsão ou simples desagrado nos olhos dos outros. Geralmente só aparecia a Teesha, que nunca deu amostra de desconforto alguma. Entretanto, ultimamente tinha adquirido o costume de materializar-se da forma mais horripilante cada vez que Rashed estava presente.

Rashed manteve sua expressão absolutamente carente de emoção de propósito.

—O que tem descoberto?

—foi uma mulher chamada Magiere. —A profunda voz do Edwan ressonou. Girou-se para olhar a sua mulher como se tivesse sido Teesha a que tivesse feito à pergunta—. Cobra aos povoados de aldeãos por desfazer-se de seus vampiros e seres similares.

—Eu acredito que ouvi mencionar esse nome —interveio Ratboy um pouco mais interessado já que algo tinha chamado sua atenção—. Foi um mascate. Mencionou algo a respeito de uma de uma «caçadora de mortos» que trabalhava nos povoados da Stravina. Mas têm que ser falatórios. Não há muitos dos nossos. Não somos suficientes como para que ganhe a vida com isso, se é que houvesse alguém o suficientemente bom para tentá-lo. É uma imitadora, uma charlatona. Não pode ter matado a Parko.

—Sim o tem feito. —respondeu Edwan, sua voz era como um sussurro por um comprido e longínquo corredor. —Parko está no rio Vudrask, sua cabeça... Sua cabeça... —gaguejou um pouco antes de continuar—, a cabeça está separada do resto do corpo. Cortou-lhe a cabeça. Sabia o que tinha que fazer.

Ratboy zombou em voz baixa em seu canto. Teesha simplesmente ficou sentada pensando e escutando. Rashed começou a passear-se de novo.

Ele mesmo tinha ouvido falar muito de algumas «caçadoras» que atuavam de vez em quando e que foram por distintas terras e se faziam chamar coisas sonoras como «exorcistas», «bruxas de pesadelos» ou «caçadoras de mortos». Ratboy tinha razão em uma coisa. Não eram mais que trapaceiras e charlatonas que só queriam tirar benefício das superstições dos camponeses, sem ter em conta que às vezes as superstições estavam apoiadas em uma verdade oculta. Entretanto, Rashed sabia que esta vez tinha passado algo mais e Parko tinha morrido por isso. Era difícil, quase impossível, que um mortal matasse a um vampiro, inclusive um que tivesse abandonado seu intelecto para vagar grosseiramente pelas noites, perdendo-se no caminho selvagem.

—E mais —sussurrou Edwan.

Rashed se deteve.

—O que?

—Vem para aqui. —O fantasma se deu a volta para estar frente à Rashed de novo—. Comprou o velho botequim do mole.

Ao princípio ninguém se moveu, depois Ratboy correu para diante, Rashed se aproximou e até a Teesha ficou em pé. Bombardearam com perguntas ao espírito, os uns interrompiam aos outros.

—Onde ouviu...?

—Como pode ser isso de...?

—Onde se inteirou ela de...?

Edwan fechou os olhos como se suas vozes lhe fizessem mal.

—Silêncio —alfinetou Teesha. Tanto Ratboy como Rashed se calaram enquanto ela se girava fazia o fantasma para lhe falar com calma e em tom mais sob—. O Edwan, nos conte tudo o que saiba a respeito disto.

—Todo mundo na Miiska sabe que o dono desapareceu faz uns meses. —Edwan se interrompeu e Rashed olhou a Ratboy com suspicacia—. A ouvi falar com seu sócio. O dono desaparecido lhe devia dinheiro do imóvel a alguém na Bela, assim que o botequim se vendeu a sob custo só para pagar a dívida. Esta falsa caçadora tem agora a escritura do botequim livre de dividas. Chegará amanhã à última hora e tem a intenção de instalar-se aqui e levar o negócio do botequim.

Rashed baixou a cabeça e murmurou para si.

—Pode que não seja uma charlatona. Não matei a nosso senhor e deixei nosso lar para que acabássemos como recompensa para uma caçadora.

Outros permaneceram em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos.

Por fim, Teesha perguntou:

—O que deveríamos fazer?

Rashed a olhou e analisou as linhas de seu delicado rosto. Não ia deixar que nenhuma caçadora se aproximasse de Teesha. Entretanto, outros pensamentos também lhe preocupavam:

—Se a caçadora chegar a Miiska, teremos que lutar contra ela aqui, e não nos podemos permitir isso se queremos manter o anonimato que nos criamos neste lugar. Outra morte no povoado —olhou para o Ratboy— poderia acabar com tudo o que temos aqui. A caçadora não deve chegar a Miiska.

—Eu o farei —disse Ratboy quase antes que Rashed tivesse terminado de falar.

—Não, conseguiu acabar com o Parko —disse Teesha com expressão preocupada—. Pode sair ferido. Rashed é o mais forte, assim é ele o que deve ir.

—Eu sou o mais rápido e adapto a qualquer coisa —argumentou Ratboy com desejo em seus olhos—. Deixe ir, Rashed. Ninguém do caminho se lembrará de me haver visto, nunca. A gente sempre se lembra de ti. Parece uma nobre. —Um pingo de sarcasmo lhe escapou por um segundo—. Essa caçadora nunca saberá que a vou atacar, não se dará conta e tudo isto se terminara.

Rashed refletiu sobre as possibilidades.

—Está bem, suponho que seus maus costumes nos podem servir de algo nesta ocasião. Mas não jogue com ela. Só faz e se livre do corpo.

—Há um cão. —Edwan começou a falar e logo suas palavras perderam toda coerência—. Algo velho, algo que não posso recordar. —.Ratboy trocou sua má cara por um cenho franzido. Deixou escapar um grunhido de aborrecimento.

—Um cão não é nada.

—lhe escute—. Advertiu Rashed—. Sabe mais que você.

Ratboy se encolheu de ombros e se dirigiu para a porta.

—Voltarei logo.

Teesha assentiu com os olhos um pouco tristes.

—Sim, mata-a rápido e volta para casa.

Ratboy se deteve o suficiente para agarrar um rolo de lona que poder atar a suas costas e a pôr um pouco da terra de seu caixão em uma bolsa grande. Não levava nenhuma arma. Ninguém o viu sair do armazém e entrar no frio ar da noite.

Os pensamentos a respeito da caça o consumiam por dentro. A obsessão que tinha Rashed com a discrição significava que no próprio Miiska podiam matar muito pouco ou quase nada. Os três estavam acostumados a apagar a memória a suas vítimas enquanto se alimentavam. E se isto servia para alimentar o corpo, não chegava a alimentar a alma de Ratboy, nem as ânsias que infestavam sua mente.

Adorava sentir como se parava um coração debaixo dele, cheirar o medo e o último tremor de vida quando saía de sua presa para ser absorvido por ele. Às vezes matava a gente de fora, estranhos e viajantes, mas o fazia em segredo e escondia os corpos em lugares onde ninguém os pudesse encontrar. Mas eram muito poucos e muito separados no tempo. Alguma vez, passou-se e lhe tinha ocasionado a morte a alguém que vivia na Miiska e logo se esforçou ao máximo por esconder seu corpo. É obvio que a única vez que alguém verdadeiramente perceptível tinha desaparecido, o antigo dono do botequim, não tinha sido coisa sua; mas Rashed seguia sem acreditá-lo.

Aquela noite, Rashed lhe tinha dada permissão, e ia se aproveitar disso ao máximo, ia desfrutar de cada momento, ia saborear . Sentiu como crescia a fome de novo, pedia e ordenava, deu-se conta de que ainda não se alimentou aquela noite.

Passou um quarto da noite enquanto caminhava em paralelo à estrada. De vez em quando se detinha constatar a noite com todos seus sentidos. Cheirava o ar e, ao princípio, não percebia nada. Depois um leve aroma de calor chegou até suas fossas nasais. Arrastou-se pelas árvores e arbustos até o bordo da estrada da costa da Bela e ouviu o ligeiro ranger de um vagão, as rodas precisavam lubrificar-se.

Ratboy aguardou pacientemente sob um arbusto de arándanos. Olhava através das folhas e assim viu como o vagão se ia aproximando. O cavalo parecia velho e cansado. Um condutor solitário estava sentado às rédeas e a cabeça lhe pendurava de vez em quando porque se ia ficando sonolento. Estava muito claro que esta não era a pessoa que lhe tinham mandado procurar, mas lhe pareceu uma pena deixar aproveitar a oportunidade. E se pegava à caçadora quando estivesse bem alimentado e cheio de força as coisas iriam muito melhor.

—Ajudem —disse Ratboy com voz débil.

O condutor levantou a cabeça, já acordado. Com sua capa morada bem gasta parecia um mercado de êxito médio, provavelmente um que viajava muito e ao que não sentiriam falta ao menos em uma lua. Ratboy se conteve as vontades de atacar.

—Aqui, por favor. Acredito que me tenho quebrado uma perna —disse com voz agonizante—. Ajude-Me.

Com o rosto cheio de preocupação, até a náusea, o mercado se baixou imediatamente. Ratboy desfrutava de muito do momento.

—Onde está? —perguntou o vendedor—. Não te vejo.

—Aqui, aqui. —Ratboy pôs uma voz suave, chorosa de uma vez que se tombava no chão.

Umas fortes pisadas aproximaram o aroma de vida cálida até seu lado. O vendedor se ajoelhou.

—Há caído? —disse-lhe—. Não se preocupe. Miiska não está longe, ali podemos encontrar ajuda para ti.

Ratboy agarrou o pescoço da capa do vendedor e atirou para baixo de uma vez que rodava pelo chão até que os dois tiveram trocado posições. Enquanto olhava para baixo e via a cara de surpresa, Ratboy não pôde evitar formar a palavra «tolo» com os lábios. Umas mãos que pareciam esposas de osso sujeitavam ao vendedor contra o chão. Presa do pânico, o homem se revolvia grosseiramente e tentava derrubar a seu atacante. Não serve de nada.

A dor evitava que os humanos fizessem que seus corpos se esforçassem muito. Ratboy não sentia dor, não como o sentiam os mortais, por isso não tinha tais limitações. Os esforços da vítima o divertiam. Um brilho de prazer iluminou seus olhos quando nos olhos do vendedor a surpresa se transformou em medo.

—Deixar-te-ei escapar se responde a uma adivinhação —sussurrou Ratboy—. O que sou eu?

—Minha mulher morreu o verão passado —disse o homem ofegante de uma vez que tentava liberar-se de seu captor—. Tenho dois filhos pequenos. Tenho que chegar a casa.

—Se não vai jogar, eu tampouco —lhe repreendeu Ratboy de uma vez que o apertava mais contra o chão—. Só tente uma vez. O que sou eu?

Sua vítima deixo de esforçar-se e só o olhou com o que parecia uma mescla de incredulidade e confusão.

—Sinto muito... Muito tarde.

Ratboy o mordeu com rapidez no suave oco debaixo da mandíbula do vendedor.

O sangue que tinha na boca não era nada em comparação com o calor da vida que enchia seu corpo enquanto se alimentava. Às vezes gostava de arrancar e rasgar enquanto a presa estava viva. Aquela noite a fome era muito forte para andar brincando dessa maneira. O batimento do coração se foi abrandando em seus ouvidos, o sabor da adrenalina e do medo aumentou na carne do vendedor e depois ambos os matizes desapareceram.

Cada vez que se acabava, para o Ratboy sempre lhe seguia um momento de melancolia, como o último momento de um menino na feira, quando apagavam as luzes, os acrobatas se retiravam e as lojas se fechavam por última vez até o ano seguinte. Levantou a cabeça para o norte. A caçadora estava ali fora, dirigia-se para ele. Era somente uma questão de tempo.

 

Ratboy viajava com rapidez de onde podia ver a estrada da costa, deslocava-se entre as árvores enquanto cheirava o ar constantemente em busca de qualquer indício de sua presa, apesar de que sabia que estava a horas de distância. Como cheirava uma caça vampiros charlatona? Como sabia? Em uma existência sem fim, qualquer novidade, qualquer experiência nova era uma coisa pouco comum e saborosa.

Quando a noite se afastava e os primeiros raios do amanhecer apareceram sobre o oceano, Ratboy se preocupou, e não precisamente por onde dormiria aquele dia. Era bastante fácil encontrar uma gruta no mar e em caso de desespero sempre se podia colocar debaixo do chão do bosque sob o pedaço de lona que levava às costas. Mas, o que ocorreria se ela passava por onde ele estivesse quando dormisse? O certo era que aconteceria. Tivesse-lhe gostado de passar por seu acampamento enquanto ela dormisse, mas lhe chegou o aroma de vários viajantes e nenhum era mulher. O que devia fazer?

Deu-se conta de que devia ter subestimado a velocidade humana. Quanto longe estava? E uma vez que se despertou, quanto caminho podia adiantar em um dia? Franziu o cenho, sabia que era iminente procurar proteção. A estrada junto a arvoredo estava vazia em ambos os sentidos.

Ratboy cruzou através das árvores até a costa e olhou a seu redor em busca de uma gruta de aspecto profundo ou alguma curva no lateral do escarpado. Deixou-se cair pelo escarpado e baixou como uma aranha, até desaparecer em um buraco antigo. Arrastou-se pelo túnel afastando-se da luz, sem medo da escuridão ou do que pudesse viver ali dentro. Colocou o saco com a terra de seu caixão no chão da gruta e se fez um novelo a seu redor, de lado no estreito lugar. Depois atirou da lona que levava às costas e se tampou com ela no caso de algum raio de sol rebelde chegava a alcançá-lo.

A lógica lhe dizia que embora só tivesse viajado meia noite, ela não seria capaz de percorrer a distância que ficava até a Miiska em uma só noite. Dormiria e voltaria a ficar em caminho, esta vez retrocedendo. De uma maneira ou de outra, ia interceptar a e iria a Rashed com sua cabeça como presente provocador. Cada vez que alguém desaparecia na Miiska, Rashed jogava a culpa a ele. A verdade era que às vezes sim que era culpa sua, mas não sempre, e certamente que não o era no caso do dono do botequim. Um velho bêbado chorão não era uma tentação para um assassino como ele.

As pálpebras começaram a lhe pesar e perdeu o fio de seus pensamentos.

 

Para bem entrada à tarde daquele dia, os estreitos pés do Leesil estavam já muito doloridos e seu parcial entusiasmo por ver o botequim começava a desaparecer. Nem sequer a beleza da costa e do mar que se estendia pelo horizonte lhe chamava já muito a atenção. Parecia-lhe totalmente desnecessária tanta pressa frenética. O botequim estava claro que ia seguir estando ali quando queira que chegassem. Magiere nunca os forçava tão quando estavam no negócio. Para nada, os três viajavam a um passo cômodo, com simplicidade, até que chegavam a seu suposto objetivo. Já se estava fartando de sua perseguição constante: «Leesil se apresse. Leesil, já falto pouco. Se seguirmos, chegaremos esta noite».

Até o Chap parecia estar cansado de ir no carrinho e gemia brandamente, os olhos mostrando um aborrecimento tal que dava pena, mas Magiere ainda não lhe permitia caminhar. O velho asno parecia estar a ponto de morrer. No que estava pensando Magiere? Este repentino desejo de ser uma honrada mulher de negócios a tinha mudado-a para mau. Quase exausto, ou o que então decidiu que o parecia, Leesil se precaveu de que a parte inferior do sol tocava o horizonte do oceano.

—Já está bem —anunciou em voz muito alta.

Quando Magiere, que ia diante do asno e do carro, não deu mostra de havê-lo ouvido, Leesil se tropeçou teatralmente ao lado da estrada e se atirou à grama.

—Vêem aqui Chap —o chamou—. É hora de tirar um descanso.

A elegante cabeça azul cinzento de seu cão se levantou com as orelhas alerta e a vista fixa em seu amo.

—Já me ouviste. Vêem aqui - lhe repetiu Leesil quase gritando.

Esta vez Magiere sim ouviu gritar ao Leesil e voltou à cabeça bem a tempo para ver o Chap saltar do carro e correr para onde estava Leesil sentado na grama. Seu pelo comum, impassível mandíbula se deslocou de assombro enquanto se detinha na estrada. O asno e o carro seguiram avançando sem pausa.

—O que...? Outra vez não—gaguejou para depois ver como se afastava o carro. Agarrou ao animal que escapava e o freou.

—Elfo meio tolo—gritou ao Leesil enquanto arrastava o asno e o carro até onde estava seu companheiro—. O que está fazendo?

—Descansar?—disse ele como se pedisse confirmação. Olharam-se as pernas, que se estendiam comodamente no chão, e assentiu firmemente—. Sim, quase seguro. Descansar.

Em lugar de deita-se Chap ficou a cheirar a grama da zona, esticava suas patas e se dirigiu a um arbusto próximo. Leesil tirou seu cantil de vinho e se passou a asa pelo ombro. Tirou-lhe a tampa e o inclinou sobre sua boca aberta para dar um gole longo e satisfatório. O escuro vinho D'areeling sempre tinha sabor um pouco às castanhas de inverno. Reconfortava-o de maneira indescritível, e esse seria todo o desafogo que ia obter se Magiere persistia em sua teimosia. Entretanto, dois podiam jogar a isso.

Magiere estava aniquila e o olhava fixamente, estava coberta de pó do caminho e precisava tomar um banho.

—Não temos tempo de descansar. Quase te levei arrastando desde meio-dia.

—Estou cansado. Chap está cansado. Até esse ridículo asno parece estar a ponto de cair de maduro. —Leesil se encolheu de ombros, sem alterar-se pelo aparente dilema do Magiere—. Está em minoria.

—Quer viajar depois do pôr-do-sol? —perguntou-lhe.

Leesil deu outro gole e se deu conta de que também o fazia falta tomar um bom banho—. Claro que não.

—Então se levante.

—Faz muito que olhaste o horizonte? —Leesil bocejou e se

Tombou na grama, maravilhado com a terra arenosa e o aroma de sal.

Marinha do ar—. O melhor será que acampemos e procuremos a

Botequim amanhã pela manhã.

Magiere suspirou e sua expressão se tornou quase triste e frustrada ao mesmo tempo. Leesil sentiu um repentino desejo de reconfortá-la, até que a dor de pés lhe recordou quão molesta estava sendo em outros aspectos. Amanhã seria, deveria ser, o suficientemente logo, inclusive para ela. Deixá-la-ia que o sofresse um momento se gostava, mas ele não ia dar outro passo mais pela estrada até a manhã seguinte.

Olhou ao Magiere posar seu olhar no oceano, precaveu-se da limpeza das linhas de seu perfil contra o laranja brilhante do céu. Olhava ao horizonte como se quisesse que o bordo da água rechaçasse ao sol que se inundava e o mantivera ali. Baixou a cabeça muito devagar, o suficiente como para que seu cabelo lhe ocultasse o rosto. Leesil ouviu, apenas, o suave suspiro que saiu de seus lábios. Ele deu um suspiro exagerado.

—É melhor assim. Não quererá despertar os caseiros em metade da noite. —ficou calado esperando uma resposta, positiva ou negativa, mas Magiere permaneceu em silêncio—. O que passa se o local parecer sombrio e deprimente na escuridão? Não, chegaremos como autênticos proprietários a meio-dia e avaliaremos o lugar a plena luz.

Magiere olhou para trás, ao Leesil, um momento e depois assentiu.

—Eu só queria... Algo tira de mim como uma marionete.

—Não fale como um poeta. É muito incomodo — lhe respondeu ele.

Ficou calada e, uma vez mais, cada um retomou sua rotina para desdobrar o acampamento. Chap seguiu farejando e ficou a cavar na areia, encantado de ter sido liberado de seu cárcere com rodas.

De vez em quando Leesil levantava a vista ao céu. Havia uma clara diferença entre o clima marinho com aroma a sal, que vinha do mar e entrava na terra refrescando-o tudo com uma suave brisa, e entre a umidade que lhe fazia tiritar sob as mantas em um refúgio de montanha e provocava que o mofo crescesse nas paredes.

—Veremos isto todas as noites na Miiska? —perguntou Leesil.

—Veremos o que?

—O pôr-do-sol... Sua luz estendida por todo o horizonte, fogo e água.

Por um momento, Magiere enrugou a frente como se seu companheiro estivesse falando em um idioma estrangeiro, depois registrou sua pergunta. Ela também se girou por volta do mar.

—Isso espero.

Leesil grunhiu.

—Corrijo-me. Não é nenhum poeta.

—Procura madeira para a fogueira, preguiçoso meio sangue.

Acamparam no lado interior da estrada que os separava da costa. Em realidade, havia uma boa distância até a água, mas a imensidão do oceano criava a ilusão de proximidade. A última fibra de luz do dia se afundou depois do horizonte, mas as grossas árvores erodidas pelo vento lhes proporcionavam resguardo da brisa da noite. Leesil estava remexendo nas bolsas feita de retalhos que havia no carro se por acaso ficava um pouco de fruta e carne-seca quando Chap deixou de cheirar zombeteiramente e ficou congelado enquanto prestava atenção. Uivou para o bosque em um tom que Leesil não tinha ouvido nunca antes.

—O que acontece, menino?

O cão estava rígido, quieto e atento como se fora um lobo que estivesse vendo sua presa da distância. Seus olhos azuis prateado pareceram perder cor e tornar-se cinza claro, quase transparente. Seus lábios subiram levemente sobre seus dentes.

—Magiere — disse Leesil com calma.

Mas sua companheira já estava olhando ao cão e ao bosque a intervalos iguais.

—Isto é como o que fez essa noite — sussurrou ela—, na Stravina, perto do rio.

Tinham passado um bom número de noites na Stravina perto de um rio, mas Leesil sabia perfeitamente a que noite se referia sua companheira. Tirou suas mãos do carro e as subiu por suas mangas, em oposição, até que conseguiu agarrar o punho das capas de seus estiletes em seus antebraços.

—Onde tem a espada? —perguntou-lhe com a vista fixa nas árvores.

—Na mão.

 

Ratboy abriu os olhos e as paredes negras e úmidas de sua pequena cova o desorientaram por um momento. Depois se lembrou de qual era sua missão. A caçadora. Era hora de retroceder caminho.

Quando saiu ao fresco ar da noite, alegrou-se na sensação de liberdade que a terra aberta lhe oferecia. Aquela era uma boa noite. Apesar de tudo, uma parte dele sentia falta da Teesha e a estranha comodidade que criava em seu armazém. «Lar», chamava-o, embora ele não fosse capaz de recordar nenhuma só razão pela que os de sua classe precisassem ter um lar. Era idéia dela, e Rashed a respaldava. Ainda assim, não importava quanto gostasse do ar livre, acostumou-se ao mundo que se criaram na Miiska. O melhor seria que encontrasse à caçadora rapidamente e assim poder alternar-se seu tempo para matá-la, sangrá-la e depois voltar para mencionado lar antes do amanhecer.

Sob o escarpado, a branca e arenosa praia se estendia em ambas as direções, mas ele se deu a volta com rapidez e escalou até o alto do escarpado, agarrando-se sem esforço algum com os dedos à áspera parede de pedra. A praia seria mais rápida para viajar, mas era muito aberta. Quando chegou ao topo se impulsionou sobre ela e estava a ponto de calcular sua demora quando o aroma de uma fogueira chegou até suas fossas nasais.

Sua somente afiada cabeça deu a volta e ao mesmo tempo cheirou a uma mulher, a um homem e a um asno. Então seu nariz detectou algo mais, um cão? Edwan fazia um ridículo comentário a respeito de um cão. Ratboy odiava ao Edwan quase mais do que odiava ao Rashed. Pelo menos Rashed lhe proporcionava necessidades valiosas, um lugar para dormir, uns ganhos estáveis e o encobridor disfarce da normalidade. Edwan apenas fazia outra coisa que não fora absorver o tempo da Teesha e não dava nada em troca. Ok tinha encontrado à caçadora e a seus companheiros, mas isso era algo do mais mínimo. E, o que tinha ele, Ratboy, que temer de um cão, um mulherengo que viajava com seus amos?

Uma euforia eletrizante lhe percorria o corpo inteiro. Tinha encontrado a sua presa tão facilmente? Podia esta mulher ser a mulher que ele estava procurando? Tinha acampado ela a procura de pedra de onde ele tinha dormido?

As chamas laranja de fogo eram visíveis através das árvores e ele queria ver melhor. Deitou-se de barriga para baixo no chão e observou como cruzar a estrada e aproximar-se sem ser visto. A estrada não oferecia nenhum esconderijo, por isso decidiu simplesmente cruzá-la com rapidez. Em um abrir e fechar de olhos, como uma sombra da fogueira que palpitava, tinha cruzado o caminho de terra dura e se misturou com as árvores e arbustos do outro lado. Arrastou-se para poder ver melhor o acampamento.

A mulher era alta, levava uma couraça de pele com pregas e parecia mais jovem do que Ratboy esperava. Era quase adorável, levava uma trança coberta de pó que lhe pendurava pelas costas enquanto jogava água em uma chaleira junta ao fogo. Seu companheiro era um homem magro, com o cabelo loiro quase branco e as orelhas bicudas; vestia quase como um mendigo e estava remexendo na parte de atrás de um carro quando...

Um cão cinza prata, que quase chegava ao quadril de Ratboy, saltou a seus pés e o olhou fixamente, como se a folhagem que os separava não existisse. Curvou os lábios para cima. O uivo que saiu de entre seus dentes ressonou no silencioso bosque até os ouvidos do Ratboy. Algo desse som fez que tivesse uma sensação estranha no peito. O que era aquela sensação? Odiava-o, o que queira que fora, e essa mesma sensação fez que se escondesse atrás do grosso tronco de uma árvore.

Edwan havia dito algo sobre o cão.

Um cão não era nada. Voltou a olhar por um lado da árvore e viu a mulher agarrar a espada. Ratboy sorriu.

—O que lhe passa? —perguntou Leesil.

Chap seguia grunhindo, mas não se movia, não tentava ir em nenhuma direção.

—Não sei — lhe respondeu Magiere, a falta de algo melhor que dizer. E a verdade era que não sabia, mas estava começando a suspeitar que o cão tivesse algum sentido especial, uma habilidade para ver o que ela não podia ver—. Agarra a besta do carro e carregue-a.

Por uma vez nesta viagem, Leesil não pigarreou, moveu-se sem fazer ruído e seguiu suas instruções com prontidão.

Os uivos do Chap começaram a ser cada vez mais agudos, com o mesmo tom inquietante e estremecedor que a noite do rio Vudrask. Magiere se aproximou do cão, agachou-se e lhe agarrou o suave pelo de atrás do pescoço ao Chap.

—Fique — lhe ordenou—. Ouve-me? Você fica.

Uivou em tons mais graves, mas não se moveu do lugar. Em troca, moveu o olhar que tinha tido fixa em algo para a esquerda e todo seu corpo a seguiu.

—Está rodeando o acampamento — sussurrou Magiere ao Leesil.

—O que? —Leesil olhou a seu redor, tinha o pé no estribo da besta e com as duas mãos puxava a corda do arco para colocá-la em seu lugar—. O que está rodeando o acampamento?

Magiere olhou a seu companheiro, a seu rosto estreito e seu cabelo espaçado. Pelo menos esta vez não estava bêbado e tinha a besta carregada, entretanto se arrependia de não lhe haver contado mais coisas sobre quando matou ao aldeão louco. Quão forte era o pálido homem, o medo que infundia... Como sentiu essa estranha fome crescer de repente no fundo de seu estômago. Depois, todo isso lhe pareceu irreal, e o deixou acontecer como se tivesse sido algo de sua mente, que mesclava todas as armadilhas e truques do negócio que tinham estado exercendo muito tempo. Um mau encontro lhe tinha feito acreditar suas próprias mentiras em um momento de pânico.

E agora não tinha resposta para a pergunta do Leesil. Chap levantou seu focinho branco e prateado e ela esperava ouvi-lo uivar. Pelo contrário começou a olhar acima e para os lados, acima para os lados, acima e acima.

— As árvores! —gritou de uma vez que ficava em cócoras depois do carro por medo ao que o ladrão poderia fazer de um ponto de vantagem nas alturas. Alargou a mão por cima do lateral do carro e atirou do cinturão do Leesil até que este se agachou—. Está em cima das árvores.

A habilidade do cão para seguir sua posição estava começando a ser mais que uma mera moléstia para o Ratboy. Não havia maneira de tentar flanqueá-los ou atirar-se de cabeça assim que se abriu passo para o objetivo através dos ramos das árvores. Aproximou-se com cuidado.

—Me vou levar sua pele a casa para me fazer um tapete, cão brilhante — sussurrou, e se sentiu melhor ao imaginá-la pele ensangüentada do cão sobre seus ombros. Pode que a Teesha gostasse da suave e pouco comum cor.

Podia lhe romper o pescoço ao cão o suficientemente rápido se aterrissava sobre ele primeiro, mas isso lhes daria tempo aos outros dois parra preparar-se para lutar. Não, as primeiro prioridades, incapacitar à caçadora e logo matar ao cão e ao meio sangue. Assim poderia jogar com a caçadora todo o tempo que quisesse.

Desde sua posição em um ramo sólido e resistente, concentrou-se na caçadora e saltou sobre ela.

Não houve aviso algum. Leesil pôde ver algo na escuridão, algo impreciso sem cara que passava por cima de suas cabeças e seguia baixando.

Uma figura robusta com a cabeça marrom, vestida como um mendigo se chocou contra Magiere e a atirou ao chão. Leesil esperava que o atacante também se cambaleasse e caísse ao chão, mas para sua surpresa, o homem não só não caiu, mas sim aterrissou firmemente sobre seus pés. Além disso, com o impacto, seu punho estava já a meio caminho para baixo.

—Magiere! —gritou Leesil. Apenas se tinha terminado de dá-la volta para dirigir a besta quando soou um forte rangido de uma vez que o atacante dava um primeiro golpe no maçã do rosto ao Magiere.

A cabeça do Magiere ricocheteou contra a terra, em retrocesso. Leesil disparou.

A flecha lhe deu na parte baixa das costas ao mendigo, a ponta lhe sobressaía pelo abdômen, mas respondeu sozinho com um leve calafrio e se voltou para o Leesil.

Um grito, o suficientemente agudo para ser humano, saiu da garganta do Chap de uma vez que se lançava sobre o mendigo. Ambas as figuras rodaram pelo acampamento e sobre o fogo em uma massa de dentes e cabelo em rápido movimento, que dispersaram a metade da madeira que estava ardendo e faziam saltar faíscas a seu redor.

Magiere jazia no chão imóvel enquanto Leesil saltava desde atrás do carro. Pelo som do golpe, sabia que era muito provável que estivesse inconsciente. Por um momento não soube se parar-se a ver como estava sua companheira ou seguir a seu cão e lhe ajudar a acabar com o intruso. Entre a flecha da besta e a ferocidade do Chap, ao muito parvo do intruso só ficavam uns minutos de vida, de todas as formas. Ainda assim, não podia permitir o luxo de que o agarrasse de costas. Tirou outra flecha do compartimento de debaixo da besta e a deixou preparada para recarregar enquanto se girava entre o fogo que tinham dispersado com a luta e depois se deteve em seco antes de chegar à metade do caminho.

O cão e o intruso se separaram. O pequeno homem enxuto e robusto, ou pode que só fora um adolescente, caiu de uma vez que Chap investia contra ele de novo. O cão estava no ar quando o intruso se lançou para diante de onde estava agachado e alargou uma mão com os dedos encurvados preparados para lhe enganchar o pelo da tripa ao Chap. O cão se desviou de sua trajetória.

Pode que fora a escuridão, ou as cinzas que estavam por toda parte suspensas no ar, ou a meia luz lhe brilhava da fogueira quase apagada as que fizessem que falsas imagens se projetassem sobre a grama e os matagais, onde se estava desenvolvendo a luta. Entretanto, Leesil poderia ter jurado que o pequeno homem, de algum jeito inexplicável, tinha trocado de direção enquanto Chap ainda estava no ar. Se tinha aterrissado um momento para voltar a lançar-se ou se nunca tinha chegado a tocar o estou acostumado a era algo do que Leesil era incapaz de estar seguro.

Os pés do sujo mendigo golpearam para cima até lhe dar no flanco ao cão, de maneira que lhe acrescentaram força ao impulso que animal já levava por si mesmo. Chap gemeu ao voar em um arco sobre a clareira do bosque, a cabeça sobre a cauda, e uivou de dor quando se chocou contra o pé de uma árvore e deu tombos pelo chão coberto de areia. Ao momento ficou em pé.

Leesil atirou do arco da besta, tentava recarregá-la quando quase lhe caiu das mãos por causa de um enorme grito que soou a suas costas.

—Chap, não!

Leesil olhou para trás o justo para poder ver, mas não deixar de olhar ao pequeno vagabundo. Magiere estava em pé, cimitarra em mão, embora um pouco instável.

—Retrocede Chap! —gritou-lhe de novo.

Chap se cambaleou e grunhiu, mas manteve certa distância. Todos e cada um de seus músculos se esticaram em protesto sob o pelo chamuscado, como se a ordem que acabava de receber não só fora injusta, mas também incorreta.

Ninguém se moveu.

O jovem intruso levantou uma mão e olhou as marcas de dentes caninos que tinha.

—Estou sangrando — disse o menino completamente aniquilado—. Queima.

Seus olhos marrons sem brilho algum se abriram e mostraram incerteza. Estava agitado por alguma razão, parecia como se não se esperou sair ferido nem sentir dor. Não parecia ter mais de dezesseis anos e tinha a constituição de alguém que tivesse passado a maior parte de sua vida morto de fome. A calma pareceu apoderar-se dele, mas sua postura seguia mostrando certa apreensão trocava o peso de uma perna a outra, nervoso, possivelmente duvidasse entre voar e lutar. Agarrou a flecha que lhe saía do abdômen e a tirou com um único puxão seco e rápido, sem fazer o mais mínimo gesto de dor.

Absorver todo aquilo de uma vez fez que Leesil se esquecesse de recarregar a besta momentaneamente. Aquele estranho jovem deveria estar morto ou pelo menos estar muito perto da morte e Magiere deveria estar inconsciente no chão. Entretanto, sua companheira estava a seu lado, agarrando com força sua cimitarra com expressão tensa e decidida. E o intruso que estava em pé ao outro lado da fogueira estava em muitas melhores condicione das que deveria ter estado.

—Como te chama? —sussurrou Magiere através da escuridão.

—Isso importa?—perguntou o menino.

 

Leesil se precaveu de que nenhum dos dois se dava conta de que ele seguia ali.

—Sim — respondeu Magiere.

—Ratboy.

Magiere assentiu em resposta.

—Vêem e me mate, Ratboy.

Ele sorriu e se lançou para diante.

Leesil se agachou e rodou. Ouviu como aterrissavam uns pés a suas costas e olhou para trás, bem a tempo para ver como Magiere se dava à volta pelo chão, já que seu atacante lhe aproximava pelas costas. Ela já oscilava sua cimitarra. O menino se retorceu para esquivar a arma, mas ainda assim a lamina da espada lhe fez um corte superficial nas costas e gritou com força.

A voz era incrivelmente forte e aguda. Leesil fez um gesto de dor.

Ratboy começou a cair, mas se agarrou ao carro com as duas mãos. Impulsionou-se para dá-la volta e ficar olhando para o Magiere. Ela correu para ele antes que tivesse recuperado o equilíbrio e lhe deu um chute no peito. O corpo do Ratboy se arqueou para trás, seus pés abandonaram o chão e a lamina da cimitarra do Magiere lhe desceu pelo corpo quando ainda estava no ar.

Leesil era incapaz de imaginar que a força de uma simples patada normal e corrente pudesse fazer que o corpo de outra pessoa se contorcesse tão rápido como o que tinha visto.

A cimitarra se cravou no lugar no que Ratboy deveria ter aterrissado. Pelo contrário, ele estava de pé junto ao fogo, vaiava e se buscava provas pelas costas o corte que a cimitarra de Magiere lhe tinha feito nas costas.

—Queima — gritou atônito e zangado—. Onde conseguiu essa espada?

Magiere não respondeu. Leesil se levantou do chão e olhou a sua companheira.

Tinha os olhos totalmente abertos e olhava fixamente ao Ratboy. Os lábios lhe brilhavam, úmidos, já que sua boca não deixava de salivar incontrolavelmente. Leesil não estava seguro de se Magiere teria sido capaz de falar embora tivesse querido.

Magiere respirava profunda e rapidamente, e os suaves rasgos de seu rosto se contorceram, franziu o cenho com rugas de puro ódio. Brilhava-lhe a pele com um suor que era impossível que fora produto do exercício que tinha feito.

Chap a rodeou e ficou a seu lado. Um leve tremor lhe percorreu o corpo e se mostrou no estremecimento de suas comissuras retraídas. Em seu selvagem estado, era impossível não ver o parecido que havia entre o cão e a mulher. Quando Magiere separou os lábios, sua boca se parecia muito a do cão que tinha a seu lado quando grunhia. Seus olhos se negavam a pestanejar e começaram a empanar-se até que pequenas lágrimas lhe percorreram as bochechas.

Leesil não era capaz de voltar a concentrar toda sua atenção no Ratboy. Manteve-se onde estava para que Magiere seguisse em seu campo visual. Aquela não era a mulher com a que tinha estado viajando durante anos.

O cão, o menino e a mulher se mantiveram totalmente imóveis tensos e em posição. Todos estavam atentos ao primeiro indício de movimento. Leesil não o pôde suportar mais e apontou com a besta.

Ratboy simulou carregar de novo e trocou de direção no último momento de uma vez que absorvia a visão do Magiere e Chap, ela com sua cimitarra e o cão com suas presas e garras. As costas e os braços do Ratboy não deixavam de sangrar e o medo se mostrava em seu rosto.

—caçadora — sussurrou e saiu disparado para as árvores.

Leesil levantou a besta e apontou para a figura que se afastava, embora não acreditava que servisse para muito. De algum jeito, a espada do Magiere e os dentes do Chap tinham sido mais daninhos que uma flecha através do corpo a pouca distância. Antes que pudesse disparar, Ratboy tinha desaparecido na escuridão. Leesil caminhou com rapidez pelo acampamento para ter a pouca luz que ficava a suas costas, mas não havia nem rastro da figura que escapava. Chap começou a trotar em direção às árvores, mas Leesil chamou a atenção do cão, estalou os dedos e negou com a cabeça. Chap grunhiu e se sentou, sem deixar de estar atento à escuridão.

—Leesil?

A voz do Magiere era muito débil, apenas um sussurro. Leesil se deu a volta, quase como se ficasse em guarda, quando ficou de frente ao desumano menino mendigo.

Magiere respirava com dificuldade, como se o cansaço e as feridas tivessem cansado sobre ela de repente. Suas facções se suavizaram ao desaparecer as rugas de ira e seus olhos olharam confusos para toda a parte.

—Leesil? —repetiu como se não o pudesse ver. Então, caiu de joelhos e a lamina de sua cimitarra golpeou contra o chão.

Leesil hesitou. Um ligeiro medo se amontoava em seu peito. Um perigo desconhecido tinha sobrevoado o acampamento e o tinha deixado ali com outro com o que tinha compartilhado, sem sabê-lo, anos e anos de companhia. Tinha visto um menino mover-se com uma velocidade e uma força totalmente impossíveis, e seu próprio cão tinha saído ileso dos desumanos ataques. Tinha visto como a que durante anos tinha sido sua única companheira se recuperou de um golpe que teria derrubado a qualquer, e então se converteu lentamente em algo..., em alguém que somente podia reconhecer.

Magiere se desabou, com a cabeça a meio caminho do chão. Tinha deixado cair à espada por completo. Sua arma se dobrou para trás contra o chão, incapaz de girar-se e suportar seu peso.

Leesil nunca a havia meio doido, menos durante seus falsos combates por dinheiro. O mero pensamento de aproximar-se dela naquele momento fazia que lhe esticassem as vísceras. Levantou a besta instintivamente, a segurou com força e apontou para o Magiere.

Quantas vezes tinha sido ela a última em ficar dormida quando ele se embebedou até cair rendido? Quanto tempo tinha passado de roubo em roubo e de mesa de apostas em mesa de apostas antes de tentar lhe roubar o bolsa de moedas por engano? Quantas pessoas tinham conhecido em sua vida que queriam compartilhar seu sonho, embora este não fora exatamente o mesmo que ele tinha? Além disso, nunca antes a tinha visto necessitar a alguém.

Correu para ela, deixou cair a besta e a agarrou, antes que chegasse ao chão. Magiere se derrubou e seu peso resultou ser mais do que Leesil podia suportar meio agachado como estava. Caiu de costas sobre o fundilho de suas bombachas, e a cabeça e os ombros do Magiere caíram sobre seu peito e quase o tombaram contra o chão.

—Tenho-te — disse ele, incorporou-se e a segurou com um braço sobre seus ombros—. Está bem.

Leesil sabia que era mentira. Havia algo que não estava nada bem no Magiere, com ela, e certamente, o não estava nada bem tampouco. Já nada estava bem. O que deveria fazer ele então? Sairia completamente de tudo aquilo, fora o que fora, pela manhã?

Enquanto estava ali sentado e tentava tirar uma velha manta de um velho fardo e a punha sobre o tremente corpo a sua companheira acreditou ver um resplendor em seu peito, justo debaixo do pescoço. Quando terminou com a manta, voltou a olhar, mas não encontrou nada mais que os amuletos que levava sempre pendurado, meio escondido na parte superior de seu colete de couro.

 

Ratboy não recordava sua viagem de volta a Miiska. Quão único podia recordar era a crescente dor e a crescente debilidade, e o enorme desconcerto. Estava muito ferido para pensar, inclusive racionalizar, sentia como a energia de sua existência escapava por suas costas e seu braço lentamente e o debilitava cada vez mais. Tinha sido capaz de concentrar sua atenção e o que ficava de energia em fechar a ferida da luta, mas as demais lesões não. A ferida da espada e as marcas de dentes se negavam a fechasse.

Já o tinham ferido antes, mas nunca antes uma ferida lhe tinha despojado de sua energia daquela maneira, e a falta de compreensão não fazia a não ser acrescentar seu medo. Cambaleou-se e caiu contra a parede de madeira de um edifício, nem sequer sabia por que parte do povoado tinha entrado. Se perder o que ficava de força antes de ficar a coberto, o sol sairia sobre ele.

Há àquela hora madrugada antes que começasse o dia, o povoado estava em um silêncio total. A ambos os lados de onde ele se encontrava se estendiam fileiras e fileiras de casas erodidas pelo tempo. Precisava ficar a talher antes do amanhecer, e necessitava força e vida. Precisava alimentar-se.

Um ligeiro cantarola feminino chamou sua atenção, e a sensação de um calor, uma carne e finalmente sangre próximo encheu suas fossas nasais. Fome e saudade o tiraram de seu estupor e se aproximou de quatro no canto mais próxima da casa. Também cheirava a esterco de cavalo e a metal, assim como a carvão e cinzas de madeira. Levou-lhe um momento entender o que estava vendo. Havia uma pilha de madeira a sua direita, e à esquerda, à volta do canto, havia umas portas de estábulo. Na viga do beiral tinha penduradas ferraduras de cavalo que esperavam ser provadas.

Ratboy abriu os olhos de par em par quando se deu conta de onde estava. Encontrava-se fora da loja do único ferreiro da Miiska. Seguiu a voz que cantarolava, subiu pela pilha de madeira até a cerca que havia atrás dela. Teve todo o cuidado que pôde ao subir pelas madeiras para olhar pela cerca.

Uma garota de uns quinze anos estava ajoelhada ante o armazém de madeira da família ao outro lado da cerca, levava o cabelo marrom e sedoso emaranhado, como se acabasse de levantar da cama. Só levava uma camisola branca de algodão que Ratboy teria achado tentador em qualquer outro momento. Então o único que precisava era vida, sangre para recuperar forças até que pudesse encontrar a maneira de fechar as feridas a caçadora e o cão lhe tinham infligido.

A garota seguia cantarolando com suavidade e disse:

—Misty, vêem aqui, vem. É o que está arranhando minha janela para que te deixe passar. Deixa de jogos e entra na casa.

Um suave miado lhe respondeu e um pequeno gato listrado tirou a cabeça da pilha de madeira no lado da cerca no que estava a garota. Ratboy viu como a garota fingia franzir o cenho e se esforçava por parecer zangada.

Não se meteu em seus pensamentos com sua voz para levá-la ao esquecimento, poder tomar o que queria e logo dissimular as marcas dos dentes. Muito ao contrário, lançou-se sobre ela.

O gato vaiou e correu de volta a seu esconderijo.

Ratboy tinha saltado a cerca e estava sobre a garota antes que esta pudesse sequer vê-lo. Com uma mão lhe agarrou o cabelo e atirou de sua cabeça para trás para deixar exposto o pescoço e com a outra segurou o corpo da garota contra o seu. Abriu a mandíbula sobre seu pescoço e mordeu, sentiu como se rasgava a pele. Qualquer grito que a garota tivesse podido dar foi silenciado ao lhe bloquear a traquéia. Não lhe deu tempo a defender-se ou resistir. Só pôde mover as mãos, incapaz de atuar.

Os primeiros segundos de cálidez e vida apenas se os registrou, mas logo lhe começou a esclarecer mente.

O líquido vermelho lhe cobria a cara, as mãos e a camisa, mas não lhe importava o mais mínimo. Tudo o que tinha na cabeça era a dor nas costas e os pulsos, mas este se foi aliviando de uma vez que deixava cair à vasilha vazia no chão. Ali a deixou.

O frio nunca tinha incomodado aos não-mortos, mas o luxo do calor interior que se sentia depois de alimentar-se era um prazer do que nunca se cansava, sem importar as vezes que o houvesse sentido. Era o maior prazer que podia recordar inclusive se contava quando estava vivo. Além disso, eliminava a fome, desfazia-se da queimação de suas feridas e já não sentia que a força se o fora do corpo.

Satisfeito e eufórico, quase perdeu a noção do tempo, até que um ardor nada agradável lhe correu pelas costas, pela pele. Havia um brilho por cima do horizonte, pelo leste, ao outro lado do oceano. Aproximava-se o amanhecer.

Ratboy voou pelo cais para o armazém. Ia ter que dar muitas explicações. Pode que tivesse que mentir um pouco também.

 

Leesil tinha conseguido jogar umas quantas peças de madeira perdidas à fogueira, mas fez pouco mais que obter que chispasse ligeiramente o resto da noite. Não podia permitir-se beber naquele momento, assim que isso também significava que não ia dormir. Tampouco era que pudesse dormir, já que os eventos daquela noite tinham sido quase tão inquietantes como seus intermináveis sonhos. Não era difícil, já que se necessitavam três noites sem dormir para que ele caísse rendido. Recordou que sua mãe podia passar-se inclusive mais tempo acordada quando era necessário, por isso era possível que tivesse herdado essa característica dela. Algo de sua herança de elfo da que ela somente falava.

Chap tinha voltado para sua personalidade alegre com rapidez, como se nada fora do ordinário tivesse ocorrido. Tinha encontrado um lugar cômodo no chão ao lado de seu amo e passou o resto da noite lavando-se em silêncio e tornando-se curtas sestas, para remexer-se com os sons do bosque que só ele podia ouvir.

Leesil estava sentado em silêncio, Magiere dormia em seu regaço e o elfo passou umas quantas horas em tensão na escuridão antes de poder olhar o rosto de sua companheira, sem imaginá-lo transformado no que tinha visto antes aquela mesma noite. Tinha comprovado que não estivesse ferida e pelo que podia ver estava ilesa. Para quando foi capaz de olhar a cara sem pestanejar já estava começando a amanhecer. Deveria ter tido um bom contusão azul e negro, e pelo sangue coagulado no lado de sua cara onde lhe golpeou o intruso. Tudo que podia ver era um leve contusão em sua bochecha esquerda. Em lugar de sentir alívio, o que sentiu foi medo e confusão. Quando o sol esteve o suficientemente alto como para que sentisse seu calidez nas costas, Magiere abriu os olhos.

—Está bem? —perguntou-lhe com calma.

—Sim — lhe respondeu duvidosa, depois acrescentou—: dói-me a mandíbula.

—Não me surpreende—disse Leesil. Então recordou que não lhe tinha pegado na mandíbula, a não ser na bochecha.

Antes que lhe pudesse fazer outra pergunta, sentiu como lhe pôs o corpo em tensão. Piscou com os olhos muito abertos e o olhou, parecia não dar-se conta de que estava deitada em seu regaço.

—O que acontece? —perguntou.

—Boa pergunta — lhe disse de uma vez que levantava as sobrancelhas—. Eu gosto dessa pergunta. Pode que até eu mesmo a faça.

Magiere rodou e se sentou o mais rapidamente que pôde sem apoiar-se nele, sem deixar de olhá-lo fixamente.

—Desabou-te e começou a tremer ontem à noite — lhe explicou—. Não queria que te congelasse na noite por estar exausta.

—Não estou exausta — disse entre dentes, zangada, antes de ficar em pé.

Levou-se a mão ao lado da cara imediatamente e se cambaleou um momento onde estava. Leesil tiro seu cantil de vinho, uma taça de lata de seu fardo e a encheu de vinho tinjo.

—Isto é tudo o que temos para a dor, beba-lhe isso Tudo.

Magiere quase nunca bebia nada que não fora água ou chá com especiarias. Agarrou a taça com muita força e derramou parte de seu conteúdo ao chão. Bebeu-o, fez um gesto de dor e se esfregou a mandíbula. Leesil a observava com suspeitas.

—Quer me contar o que passou ontem à noite? —perguntou-lhe.

Magiere negou com a cabeça.

—O que há para contar?

Leesil se cruzou de braços.

—Bom, vejamos. Atacaram-nos sem razão alguma. Disparei-lhe ao intruso e se tirou a flecha como se fora uma lasca. Depois atuou como se a mordida do Chap fora uma ferida mortal. Por não mencionar que parecia estar muito surpreso de que sua espada pudesse lhe fazer dano. E logo você... —interrompeu-se sozinho um momento, à espera de uma resposta, mas não houve teve — Vejamos... Perda da capacidade de falar deu-lhe um chute a um homem que o atirou de costas mais rápido do que eu pude ver..., por não mencionar a expressão de maníaca babando que tinha. O que exatamente você acha...?

—Não sei! —gritou-lhe.

Magiere se deitou no chão ao lado do carro e apoiou as costas em uma roda. Deixou cair à cabeça até que Leesil já não lhe pôde ver os olhos, lançou um suspiro profundo e zangado. Depois um segundo suspiro, débil e pesado.

Em todos os anos que levava com ela, lhe tinham ocorrido muitas palavras para descrever ao Magiere adequadamente, forte, de recursos, sem coração, manipuladora, cuidadosa, mas nunca haveria dito que fora vulnerável ou que estivesse perdida.

—Não sei o que aconteceu — disse quase tão baixo que apenas se o pôde ouvir ele—. Se lhe conto uma loucura, Leesil, não deve rir.

—Tem-me em nervos — disse ele, sem entender por que de repente em lugar de sentir-se mais compreensivo se sentia cada vez mais zangado. Pode que fora pela larga noite com os nervos a flor de pele sem respostas.

— Estivemos muito tempo no negócio. —Levantou a cabeça, mas não o olhou—. O que é real e o que é falso se está mesclando em minha cabeça. Não quero lutar mais... Ou para nada O... Não sei. Tudo isto pode parar se levarmos uma vida em paz e tranqüilidade. Levaremos um negócio honrado, para nós e tudo isto se irá.

—Isso é tudo? —A frustração do Leesil alimentava sua ira com rapidez.

—Isso é tudo o que sei. —Por fim o olhou e apartou a vista dele de uma vez que negava com a cabeça—. Não sei que outra coisa poderia ser.

Aquilo não era nenhuma resposta, era outra evasiva. Não lhe havia dito nada. Ou sim o tinha feito? O passado do Leesil tinha eliminado qualquer desejo de proteger a ninguém que não fora ele mesmo. Naquele momento não estava seguro de se o que sentia eram desejos de protegê-la ou se era sozinho que estava aniquilado. Tudo que sabia era que o comportamento do Magiere por fim voltava a ser a continência fria e moderadamente agradável que conhecia e confiava. Pode que fossem os anos de viver na mentira e os jogos do negócio que tivessem podido com ela. Isso devia ser desafogo suficiente no momento. Mas assim que houvesse outra oportunidade, haveria mais perguntas.

—Está bem — disse Leesil de uma vez que levantava os braços e os deixava cair—. Se não tem nenhum secreto para me contar deixaremos que este seja outro ladrão louco da estrada. Ao meio-dia estaremos em Miiska.

—Sim—Magiere esboçou meia sorriso—. O suficientemente bom para uma nova vida.

—Eu prepararei o chá — resmungou ele, enquanto se ajoelhava para tratar de avivar os restos da fogueira. Olhou-a e assentiu—. Uma nova vida.

 

Com os primeiros raios do amanhecer, Rashed arrastou o corpo ensangüentado e fraco do Ratboy ao salão do porão e o atirou contra uma parede.

Teesha levantou a vista de seu trabalho de bordado quase alarmada.

—O que acontece?

—Olha-o! —espetou Rashed.

Ratboy tinha o queixo e o torso cobertos de sangue seca. Apesar de que Rashed pensava que o componente mais jovem do trio era um oportunista impaciente, nunca tinha pensado que fora um completo estúpido, até aquele momento.

—Este desprezível tonto deixou a uma garota morta atirada em seu próprio pátio com a garganta aberta!

Teesha ficou em pé e se alisou seu suave vestido azul de cetim. Os cachos cor chocolate lhe ricochetearam brandamente quando se aproximou do Ratboy, que estava escancarado no chão contra a parede do fundo da habitação. Olhou-o e inclinou a cabeça levemente conforme sua cara ia adquirindo uma expressão de decepção.

—É isso certo? —perguntou.

—Já que olha com tanta atenção, me olhe às costas — lhe respondeu o sujo garoto quando pôde falar—. Isso enegrecido não é sangue humano. É o meu própria. —Mostrou seus pulsos—. E estas cicatrizes muito recentemente eram feridas abertas. Viu alguma vez que algum dos nossos tenha cicatrizes?

—Impossível — vaiou Rashed. Entretanto sim que enrugou a frente quando se inclinou sobre ele para examinar o de perto. Os antebraços do Ratboy estavam talheres de cortes brancos irregulares que pareciam marcas de dentes—. Como?

—Essa caçadora! —gritou-lhe Ratboy frustrado—. É uma caçadora de verdade. Vi a muito poucos de nossa própria espécie que se movem tão rápido e sua espada me cortou as costas como se fora carne viva.

—Tolices — disse Rashed com aberto desagrado de uma vez que retrocedia—. A charlatona usou suas economias para comprar uma espada guardiã, isso é tudo. É óbvio que você te lançou com sua ingênua confiança e falhou. Cortou-te por sua própria temeridade e fugiu correndo como um covarde. E para piorar as coisas ainda mais não te incomodou em pensar em nós, não? Em lugar de voltar aqui para te enfrentar ao lento processo de cicatrização, consumiu a uma garota até matá-la a não mais de vinte casas da tua própria, e deixou ali seu corpo para aterrorizar a todo o povo.

Ao Ratboy lhe abriu a boca como se as acusações do Rashed fossem muito injustas para defender-se.

—Mas tenho cicatrizes!

Rashed se parou sozinho um segundo e depois se deu à volta enojado.

—Você o mandou — lhe disse Teesha com suavidade, com os olhos meio fechados e as sobrancelhas levantadas para repartir a culpa bem. Sua pequena boca vermelha ficou em uma posição de castigo—. Não tem a suficiente experiência para lutar contra uma caçadora, seja uma charlatona, ou seja, uma caçadora legítima, e você sabe. E nenhum de nós tinha a certeza de se era falsa ou autêntica. Teria que te haver ocupado disso...

Se Ratboy fizesse tal comentário, Rashed o teria sacudido como a um pulso de trapo, mas as palavras da Teesha soavam a realidade. O chefe alto voltou a olhar ao Ratboy, mas não continuou seu ataque.

—Quando chegará ao povo? —perguntou Rashed.

Ainda petulante Ratboy lhe respondeu:

—A alguma hora do dia de hoje. Viaja com um meio elfo e esse cão. —girou-se para a Teesha—. Edwan tinha razão sobre o cão. Seus dentes me queimavam. Eu não estava preparado! Se o tivesse sabido, poderia ter ganhado. Tivesse-lhe quebrado o pescoço ao cão no primeiro abrir e fechar de olhos.

As rosas de cera brilhavam a seu redor e Teesha lhe deu um tapinha no ombro ao Ratboy.

—Precisamos baixar às cavernas e dormir um pouco. Tire esses farrapos e me deixe verte as costas. Buscarei para você outra camisa.

Os cuidados da Teesha levaram toda a ira do rosto do Ratboy e se permitiu a si mesmo que o levassem, como um cachorrinho.

Rashed, a suas costas, franziu o cenho. As feridas do Ratboy eram culpa do próprio guri. Cicatrizes ou não, a amabilidade maternal da Teesha não fazia mais que incentiva mais a preguiça de sua parte. Aquele explorador moleque deveria dormir toda a noite com seu próprio sangue ressecado.

Mas, no momento, tais pensamentos insignificantes eram preocupações menores. Rashed tinha construído aquele lar do nada. Sua pequena família tinha uma riqueza e uma segurança razoável como as que os mortos nobres conseguem depois de muitos anos de manipulação e planejamento. Enquanto ele dormia durante o dia, uma caçadora, charlatona ou não, ia ali a lhes tirar tudo. Teria que desfazer-se dela com rapidez e sem fazer nada de ruído. Teesha tinha razão. Tinha que haver-se ocupado daquele assunto ele mesmo.

Rashed começou a soprar as velas para apagá-las, uma a uma. Já não era possível manter aquela situação afastada da Miiska. Parko, seu irmão falecido, tinha que ter deixado escapar alguma informação antes de morrer, porque se não, por que ia dirigir se para ali uma caçadora? Não havia dúvida de que iam busca deles três. Então esperaria, pode que uma noite ou duas, e assim lhe permitiria que ficasse cômoda. E depois se ocuparia dela pessoalmente.

 

Magiere teve sua primeira impressão da Miiska à última hora daquela manhã e sentiu uma pontada de incerteza. Tinha depositado literalmente tudo o que tinha em encontrar a paz naquele pequeno povoado portenho, e os sonhos que se tinham ao redor da fogueira de um acampamento eram muito freqüentemente um grito da realidade.

Leesil não mostrava nenhuma apreensão similar.

—Por fim — disse e apertou o passo até adiantasse a ela—. Venha.

Como ele, Magiere se tinha afeiçoado do ar limpo e salgado. Mas a diferença dele, ela não era capaz de expressar tal apreciação. Seu costume de dizer exatamente o que lhe passava pela cabeça com freqüência a confundia, mas então se apressou a segui-lo e sacudiu o freio do asno. Estava contente da aberta curiosidade que Leesil manifestava. Pode que isso fizesse que as coisas fossem mais fáceis.

Chap já não ia no carro, mas sim trotava ao lado do Leesil com a cabeça bem alta como se soubesse bem aonde se dirigia, como um cão que retornasse a casa depois de sua corrida matinal. Depois de tantos anos de tentar encaixar todas as peças de seu jogo de «caçadora dos mortos», Magiere se deu conta de quão peculiar parecia o trio. Perguntava-se o que pensariam deles os habitantes do povoado.

—Desejaria que nos tivéssemos podido limpar-nos antes de chegar — disse Magiere.

—Está bem — lhe respondeu Leesil, soava ridículo com sua camisa puída, enorme e por fora das sujas bombachas. Não se tinha incomodado nem em ficar um lenço nem em recolher o cabelo de maneira que os laterais do acréscimo lhe tampassem as pontas das orelhas. Pode que naquele momento no que chegava a seu novo lar, já não via a necessidade de não desafinar com outros.

A distância que os separava do povo diminuiu a grande velocidade, até que Magiere sentiu como se tivesse passado uma fronteira invisível para entrar em seus domínios.

A gente ia e vinha arrastando pela rua principal, onde se abria em um pequeno mercado perto do extremo do povoado. Cheirava a leite quente, esterco de cavalo, suor e sobre tudo a pescado. Todos esses aromas a assaltaram quando passou o primeiro grupo de postas e bancas de vendedores ambulantes. Um fabricante de velas médio a tintura que estava acrescentando em uma terrina de cera fundida. Muito perto, um proprietário de uma banca de modas estava esvaziando um carro e pendurava uns tecidos cujo estampado teria provocado ataques a um arlequim. De além dos edifícios, para os moles, veio um assobio e a voz do supervisor que instigava aos trabalhadores do mole a que se movessem e esvaziassem algum navio recém-chegado. Além disso, é obvio, estavam os peixeiros, cada um tratava de gritar mais alto que outros para vender seu pescado fresco, seco, curado ou defumado. Este não era um povoadinho do interior cheio de supersticiosos, mas uma comunidade movimentada.

—Não está mal — sorriu Leesil de uma vez que olhava como um carro carregado de barris de vinho se aproximava de um armazém—. Poderia-me acostumar a isto.

A sua direita passou por diante de um pequeno botequim em que uma corpulenta mulher estava varrendo os despojos da noite anterior de sua porta. Por sua aparência e a situação que tinha no povoado, Magiere sabia que não era a que ela tinha comprado, mas duvidou um momento e se perguntou se teria de puxar a Leesil antes de penetrar pela porta aberta.

Inclusive em plena atividade, a gente voltava à cabeça para olhá-los. Magiere manteve as costas reta e seu passo estável. Os recém chegados seriam freqüentes em um povo portenho. Entretanto, solo uma ou duas pessoas levavam armas visíveis e nesse momento desejou ter guardado sua cimitarra no carro. Com um pouco de sorte, ali não lhe seria necessária.

O aroma de pão recém feito captou sua atenção e seu olhar não deixou de procurar a procedência. Caminhou até uma mesa situada diante de uma pequena cabana. Através de uma janela sem venezianas pôde ver uns fornos de argila e se deu conta de que era uma padaria.

—Uma fornada de selva negra e uma fornada de centeio — lhe disse Magiere a um homem cheio e calvo que levava um avental.

O homem duvidou e Magiere se deu conta imediatamente do aspecto que devia ter com a armadura e a espada. Fez-se um silêncio incômodo.

—Tem pãezinhos doces? —sorriu-lhe Leesil de uma vez que se aproximava da mesa e o examinou tudo—. Tenho tanta fome que lhe poderia deixar isto limpo.

O homem abriu um pouco os olhos ao ver o altas que eram as sobrancelhas do Leesil, suas orelhas bicudas e seu cabelo loiro platino. O sorriso do Leesil era contagiosa. Podia parecer à pessoa mais despreocupada e inofensiva. Magiere sabia. Também sabia quando não devia interferir na influência que Leesil exercia sobre as pessoas.

—Tenho umas tortas de creme dentro — lhe sugeriu o homem.

—torta de creme? —Leesil deixou escapar um grito afogado enlevado—. Traga-Me três antes que eu caia rendido ao seus pés!

O homem desfranziu o cenho, sorriu-lhe por seus dramáticos gestos e desapareceu pela porta da padaria enquanto ria entre dentes.

—Estaria perdida sem mim — lhe sussurrou Leesil a sua companheira, claramente satisfeito consigo mesmo.

—Sempre pensaste isso — disse Magiere em voz baixa, mas em seu interior estava aliviada.

Quando o homem retornou, Leesil lhe fez uma reverência às tortas e deu uma a Chap, que o tragou de uma vez. Quando a cara do homem ficou engomada pela indignação, Leesil se deu conta do engano que tinha cometido e o encobriu de maneira educada sem lhe dar maior importância.

—É um mais da família. Adora a creme e... —Leesil lhe piscou os olhos um olho ao homem — só lhe dou o melhor. Diga-me, sabe onde podemos encontrar ao agente Ellinwood, o oficial do povoado?

—O agente Ellinwood? —perguntou-lhe o homem, de uma vez que se secavam as mãos no avental e uma expressão de preocupação aparecia em seu rosto—. Há algum problema?

—Problema? —Leesil pôs voz de surpreso—. Não, adquirimos um botequim aqui no povoado, perto do mole. Precisamos lhe apresentar a escritura da propriedade e encontrar sua localização.

—Um botequim... Perto dos moles? Ah! Compraram o lugar do velho Dunction. Por que não o disse antes? —O homem de cara redonda chamou um guri de cara limpa que estava cortando lenha na esquina da padaria—. Geoffry corre e busca ao agente. Deve estar almoçando com Martha há esta hora. Diga-lhe que os tipos que compraram o do Dunction estão aqui. —Então voltou a dirigir-se ao Leesil— Venham, venham —lhes fez um gesto com a mão—. Sou Karlin. Tenho umas quantas mesas ao outro lado, assim podem se sentar a terminar as tortas. O agente virá em um momento.

Magiere os seguiu em silêncio, sentia-se de uma vez envergonhada e aliviada de como Leesil estava dirigindo a situação. Ela se teria ido procurar o botequim ela sozinha, por sua conta, e lhe teria jogado uma olhada em privado antes de ocupar-se das formalidades, mas as coisas foram bastante bem. Ao encontrar-se frente ao pão recém feito e estar comodamente sentada se deu conta de que tinha mais fome do que acreditava. Um momento depois, Leesil estava sentado com ela e molhava partes de pão de centeio em uma terrina de mel que o homem lhe tinha levado. Estavam esperando a que a autoridade adequada se dirigisse a ela. Sua apreensão se dispersou um pouquinho, já que estava um pouco longe da rua principal, protegidos dos olhares curiosos dos habitantes do lugar.

—Não acredito que neste povoado vejam muitos visitantes que venham pela estrada — comentou.

Leesil assentiu.

—Deveria ter guardado essa cimitarra.

Magiere o olhou, mas não disse nada. Era muito possível que ele fora armado até os dentes com essas facas pequeninas que eram mais fáceis de esconder entre as roupas.

Apesar de nervosa que estava a Magiere gostou da aparência que dava a confusão e negócio constante a seu redor. Aquela gente parecia viver com mais propósitos na vida que proteger-se de suas superstições. Tinham assuntos dos que ocupar-se, com família e amigos a seu redor que não se vigiavam uns aos outros à espera de que alguma maldição saísse de sua própria imaginação. Pode que nunca chegasse a conhecer nenhum deles, mas seriam seus clientes e tinha tomado à decisão de não depreciá-los.

Essa determinação se cambaleou quando o jovem Geoffry, o filho do dono da padaria, retornou a toda velocidade seguido de um homem de dimensione colossais que se deslizava entre a gente como se todos e cada um dos habitantes do povo fossem seus serventes. Assim que o viu, uma grande sensação de desagrado lhe instalou no estômago a Magiere. Estava a ponto de molhar um pedacinho de pão no mel e o deixou sobre a mesa. Já tinha visto antes a mais gente de sua classe.

O homem levava uma jaqueta de brocado arroxeado com um cinto verde botella e um chapéu a jogo adornado com uma pluma branca. Apesar de que seu traje devia custar o que Magiere tirava três povoados, o cinto não fazia mais que acentuar a magnitude de sua protuberante barriga, em lugar de fazê-lo parecer distinto. Parecia uma uva que se deixou maturar muito tempo na videira. Seu rosto estava cheio de uma dureza forçada, como o dos que se toma sua posição muito a sério, mas não assim seus deveres. Esse devia ser o agente Ellinwood.

Karlin, o padeiro, com muito respeito o conduziu até a mesa em que estava sentada Magiere e o desagrado que esta sentia cresceu. O agente Ellinwood tinha um semblante sério e carnudo e uns olhos pequenos, como os dos porcos, que sugeriam que acreditava que grandes quantidades de cerveja grátis e ao ir depenando aos habitantes do povoado eram seu pleno direito e obrigação. Magiere duvidava muito de que tivesse comprado àquela jaqueta de tecido duplo com seu próprio salário, pelo que ela sabia   o que se cobrava nessas posições.

Para seu interior, Magiere se deu conta de quão hipócrita era seu desdém. Entretanto, apesar de que ela e Leesil pudessem ter feito coisas piores em seu momento, eles davam um único golpe por povoado e em seguida se iam ao seguinte. Não ficavam no mesmo povoado para seguir drenando-o como uma sanguessuga glutona.

Karlin, pelo contrário, parecia alegrar-se e até estar agradecido pela presença do agente e começou a fazer as apresentações.

—Esta é a gente — disse Karlin. Magiere se deu conta de quanto brilhava a saudação à pele do agente.

—Você comprou o do Dunction? —perguntou - Ellinwood ao Leesil enquanto repetia o que lhe haviam dito.

—Não sei de quem era antes — o interrompeu Magiere—. Mas tenho a escritura de um botequim perto dos moles. —Magiere desdobrou uma folha de papel já alhada.

Leesil se recostou sobre o respaldo da cadeira em silêncio, estava bastante cômodo com a mudança de papéis e ficou a comer. Para baixar as enormes dentadas que dava, pegava-lhe algum que outro trago a seu cantil de vinho. O agente Ellinwood dirigiu sua atenção para o Magiere, alargou a mão para agarrar a escritura e deixou ver os anéis de ouro que levava nos dedos.

—Ensinar-lhes-ei onde está o lugar — disse depois de ler por cima a escritura—, mas não posso ficar até que se instalem. —Até sua voz lhe soava grosa e entorpecida. Inchou-se cheio de importância—. Uma garota do povoado foi encontrada morta esta manhã e estou abrindo uma investigação.

—Quem? —Karlin deu um grito afogado.

—A jovem Eliza, a irmã do Brenden. Encontraram-na em seu próprio jardim.

—OH, não! Outro... —Karlin se foi ficando calado de uma vez que olhava ao Magiere e ao Leesil.

—Outro o que? —perguntou Magiere de uma vez que olhava ao agente e não ao Karlin.

—Nada que seja de sua incumbência — disse Ellinwood dando-se ainda mais importância—. Agora, se querem ver o botequim, me sigam.

Magiere se guardou para si qualquer outro comentário. Se Ellinwood de verdade tivesse acreditado que a garota morta não era de sua incumbência, não o teria anunciado tão ostensivamente. Além disso, Karin conhecia a vítima, embora isso não fosse nenhuma surpresa. Miiska era um povoado de um tamanho saudável, mas não tão grande como para que a maioria de gente não se conhecesse, pelo menos de vista. O desagrado que Magiere sentia para o agente se converteu em repulsão.

Desceu, perto dos moles, a brisa do oceano soprava com mais força e encheu os pulmões do Magiere com uma confiança cheia de sal. A vista do horizonte do oceano com suas finas nuvens era verdadeiramente impressionante. Uma pequena península de árvores saía do sul do povoado, e a linha da costa por volta do norte se encurtava um pouco por volta do mar, para depois dirigir-se costa acima. O escuro azul da água na baía dizia a Magiere que o precipício era muito alto e um lugar perfeito para se forma um pequeno povo costeiro que pudesse oferecer comércio e uma parada segura para barcaças e navios mais modestos que atravessassem a costa.

O botequim, por outro lado, não cumpria com todas suas expectativas. Quando chegaram ao outro extremo do povoado, encontraram um pequeno edifício de dois andares escondido depois de um par de árvores, perto do começo da pequena península.

Triste, maltratado pelo tempo e possivelmente necessitado de um telhado novo, quando Magiere o viu duvidou em entrar. As paredes externas pareciam velhas e não se pintaram em anos. Além disso, com o passado do tempo e do ar carregado de sal e umidade se voltaram de um marrom cinzento. Ao menos as persianas estavam intactas. Um deles golpeava uma janela brandamente embalado pela suave brisa. Leesil deu um passo para diante e tocou a madeira que havia junto à entrada.

—É bastante sólida — disse com excitação—. Estupendo, um pouco de tintura, um par de pedras...

—Como o chamava o anterior dono? —perguntou - Magiere ao Ellinwood.

—Não acredito que lhe tivesse dado nenhum nome. A gente simplesmente o chamava o do Dunction.

—por que o vendeu?

O agente enrugou os lábios.

—Vendê-lo? Não o vendeu. O que fez foi partir e deixá-lo uma noite quando ninguém olhava. Suponho que não seria seu totalmente porque recebi um aviso formal do banco da Bela no que reassumiam sua posse. Estava tudo em ordem.

—O dono partiu? —perguntou Magiere—. Tão mal ia o negócio?

—Não, seu botequim estava cheio a transbordar todas as noites. Os trabalhadores do povoado e os dos navios a sentiram falta de imensamente. E eu também, para lhe ser justifico. —Bateu na porta com os nódulos antes de entrar—. Caleb? —chamou—. Está em casa? Os novos proprietários estão aqui.

Ellinwood não esperou a ter resposta, mas sim abriu a porta para entrar e lhes fez um gesto ao Leesil e Magiere para que o seguissem. Chap penetrou detrás de todos antes que a porta se fechasse. Com uma agradável surpresa, Magiere encontrou o interior muito mais cuidado que o exterior. O chão de madeira estava varrido e limpo, se acaso um pouco desgastado. À direita, na zona principal, havia mesas de aspecto respeitável que estavam colocadas de maneira que entrassem o máximo número delas possível, deixando a sua vez lugar suficiente para que o serviço passasse a pôr jarras e garrafas. Havia uma enorme chaminé, tão grande que alguém poderia meter-se em cócoras dentro, que dominava a zona do fundo da sala passadas às mesas, o que oferecia calidez e uma muito boa bem-vinda.

A barra que havia à esquerda era larga e era feita de sólido carvalho, escurecido e abrilhantado ao longo dos anos pelo encerado e a graxa das mãos dos clientes que se apoiavam nela durante suas noites. Atrás do extremo mais afastado deles havia uma porta com uma cortina que certamente levaria a cozinha da moradia ou ao armazém, e a seu lado havia uma escada que levava acima, o segundo andar onde estaria a moradia.

Em geral, o interior era bastante melhor do que Magiere tinha imaginado pelo pouco que tinha pagado por ela. De fato, algumas noites se perguntou o que poderia esperar ao havê-la comprado sem vê-la. E por alguma razão que era incapaz de explicar, a chaminé era mais importante para ela que todo o resto. Estava em bom estado e parecia forte.

—Isto é perfeito — disse Leesil, como se não acreditasse de tudo. Passou pelo lado do Magiere e deu uma volta assombrado, passou uma mão por uma mesa de uma vez que se dirigia para a chaminé que Magiere não deixava de olhar—. Porei o jogo de farol ao lado da janela principal, perto do fogo. Pode que tenhamos que sacrificar uma mesa ou duas para fazer local.

De repente Magiere se deu conta de que não lhe tinha dirigido nenhuma palavra de reconhecimento ao Ellinwood.

Para ouvir pisadas se deu a volta para a escada. Quem descia pela escada era um homem maior e curvado, uma mulher também de avançada idade e uma menina pequena loira de uns cinco ou seis anos.

—OH, aqui está Caleb — disse Ellinwood enquanto se esfregava as mãos. Dava a sensação de estar decidindo que sua tarefa ali já tinha acabado—. Estes são os novos proprietários. Devo retornar a meu trabalho.

Desejou - um bom dia ao Magiere, acenou ao Leesil e partiu.

Sem saber exatamente o que era o que estava passando, Magiere se voltou para o casal de anciões e a pequena. O homem era uma meia cabeça mais alto que a mulher e levava o comprido corto cor cinza recolhido atrás do pescoço. Tinha o rosto riscado por rugas, mas sua expressão era suave, seus olhos marrom escuro e o olhar firme e seguro. Levava uma camisa Lisa de musselina a combinar com a saia cor queimada que levava sua esposa, ambos os igual de limpos ao bem varrido chão. A mulher era pequena como um pardal e levava o cabelo recolhido em um singelo coque.

—Somos os caseiros — disse Caleb ao ver o desconcerto no rosto desta Magiere — Esta é minha esposa Beth rae e minha neta Rose.

Chap trotou para a anciã, que apartou à pequena de seu caminho. O cão levantou as orelhas enquanto examinava à pequena Rose, logo moveu o nariz para ir farejando pouco a pouco até que a menina tirou uma tímida mão.

Geralmente, a Chap não gostava que ninguém que não fora Leesil lhe dessem tapinhas, assim Magiere ficou tensa e se preparou para arrastar o cão pelo lombo em caso de que grunhisse. Entretanto, Chap lhe lambeu os dedinhos da menina e esta riu quando o cão começou a mover o rabo. Magiere experimentou uma onda de bons sentimentos para aquelas três pessoas que fez que esquecesse o mau sabor que Ellinwood lhe tinha deixado.

—OH, veja, Caleb. —Beth rae se colocou uma rebelde mecha de cabelo cinza que lhe tinha escapado do coque—. Têm um cão. Não é precioso? —agachou-se e arranhou com suavidade ao Chap detrás das orelhas. Chap gemeu de prazer e lhe empurrou o flanco com sua enorme cabeça.

—É um encanto, mas também feroz, vê-se — disse Beth-rae—. Estará bem ter o de guarda.

A pequena Rose lhe deu um golpe com as duas mãos no lombo e riu.

—chama-se Chap — disse Leesil também surpreso pelo comportamento que o cão estava tendo com aqueles estranhos.

—Vêem a cozinha, Chap — disse Beth rae—. Buscaremos-te um pouco de cordeiro frio. Mas não te acostume. A maior parte dos dias o que temos é pescado.

Enquanto Beth rae, Rose e Chap partiam à cozinha, Magiere olhou ao Caleb como questionando sua presença.

—Somos os caseiros — repetiu, enquanto lhe sustentava o olhar—. Quando o senhor Dunction desapareceu, o agente encarregou a um banco da Bela que nos mantivera aqui até que se vendesse o lugar.

Enquanto se perguntava por que Caleb tinha usado a palavra «desaparecer», Magiere concentrou sua atenção em um novo dilema.

—Vivem aqui os três?

Leesil se aproximou para unir-se a ela.

—Claro que vivem aqui os três, quem crê que se esteve encarregando de manter isto?

Magiere se cruzou de braços e passou o peso de uma perna à outra. Encarregar-se de um botequim era uma coisa; encarregar-se de uma família de três que acabava de conhecer era outra muito distinta. Leesil deveu ler com claridade a expressão de seu rosto, por isso a cortou antes que pudesse começar a falar.

—De todas as maneiras vamos necessitar ajuda—disse Leesil—. Se você for ocupar do bar e eu me vou ocupar dos jogos, quem vai servir, a cozinhar e a manter isto?

Tinha sua parte de razão. Magiere não tinha pensado muito na comida, mas a maioria dos clientes certamente também vai querer comer algo.

—O que estava acostumado a servir Dunction? —perguntou-Magiere ao Caleb.

—Um cardápio simples. Quando o lugar estava aberto, Beth rae assava pão todas as manhãs e depois cozinhava um par de guisados distintos ou guisados e sopas de pescado. Dão-lhe muito bem as ervas e as especiarias-disse Caleb e depois fez uma pausa—. Venham acima e lhes mostrarei a moradia.

Apesar de que seu tom se manteve desenvolto, Magiere sentiu uma leve tensão de cautela no caseiro, como se houvesse algo mais além do que lhes havia dito.

—Quanto tempo estão aqui? —perguntou-lhe Magiere enquanto o seguia escada acima.

—Nove anos-respondeu o homem—. Rose esteve conosco desde que nossa filha... Deixou-nos.

—Deixou-os? —perguntou Leesil. Depois disse para si mesmo em voz baixa—: Parece que a gente não deixa de ir-se deste lugar.

Caleb não respondeu. Magiere também permaneceu em silêncio. Os assuntos daquele ancião não eram coisa dela.

A andar de acima estava igual o bem cuidada que a baixa. A escada chegava até um patamar que ficava no centro de um estreito corredor. O primeiro que Caleb lhe ensinou foi um dormitório grande que estava no extremo esquerdo do corredor, ficava em cima da sala comum do andar de baixa e lhe disse que era o dela. Depois outra habitação para o Leesil no centro do corredor, justo em frente da escada. A última deveu usar-se para armazenar coisas ou algo assim. Havia uma cama afundada em uma esquina, com dois travesseiros e um pequeno tapete no chão.

—Aqui é onde ficamos senhorita-disse Caleb—. Não ocupamos muito lugar.

Pela segunda vez aquele dia, Magiere suspirou resignada. Leesil tinha razão; os dois não podiam ocupar-se de todo eles sozinhos. Por outro lado, ela não tinha nem a menor idéia de como fazer uma sopa especial de pescado e não tinha tempo para tarefas como limpar a chaminé se é que queria aprender como levar aquele lugar.

—Que acordo tinham com o banco? —perguntou Magiere.

—Acordo? —Caleb juntou as sobrancelhas.

—Quanto os pagamento o banco?

—nos pagar? Só estivemos vivendo aqui, atendendo o lugar e cuidando de não terminar o armazenado antes que chegasse o novo proprietário.

Naquele momento não sabia a quem desprezava mais, se aos muito ricos ou aos muito pobres. O banco podia ter caseiros grátis ao aproveitar-se de duas pessoas que repentinamente se ficaram sem quem lhes desse emprego. —Está bem-disse Magiere ao Caleb—. Os dois trabalharão para mim e lhes pagarei a vigésima parte do que lucrar a casa, mais alojamento e manutenção. —Empurrou ao Leesil para dirigir-se para o outro lado do corredor e afastar-se da pequena habitação. Deteve-se no alto da escada e se deu a volta para olhá-los—. E não necessito esse dormitório grande. Trocaremos as habitações esta tarde.

Leesil a olhou, depois olhou ao Caleb e se encolheu de ombros. Uma leve, mínima, expressão de assombro apareceu em rosto do Caleb, entretanto assentiu, como se um acerto daquele tipo fora do mais normal.

—Isso estará bem-disse com calma. Cruzou o corredor, passando por detrás dela e foi AP andar de baixa, sem dúvida a lhe contar a sua mulher as mudanças que estava à frente.

Magiere cruzou a soleira da que seria a habitação do Leesil e se apoiou na ombreira. Leesil se aproximou para ficar a seu lado na soleira da porta e simulou examinar o espaço vazio da habitação. Não havia nada que olhar exceto uma cama e a janela com persianas que estavam aberta na parede do fundo. Por ela se podia ver o oceano, uma vista um pouco obscurecida pelos ramos de uma árvore vizinha. Magiere desejava que Leesil se mantivesse calado.

—Que inusitado! —disse por fim.

—Se não estava de acordo podia havê-lo dito.

—Não estou discordando.

Durante um momento curto nenhum dos dois disse nada. Entre os dois, era muito provável que tivessem matado com fome a povoado inteiros pelo preço de seus serviços. Magiere falou por fim:

—Quero uma vida nova.

Leesil a olhou com a extremidade do olho, o cabelo solto permitia que lhe vissem as orelhas. Assentiu e sorriu.

—Suponho que é um começo.

Para quando pos o sol aquela noite, a aparência pessoal de Magiere e seu próprio mundo se viram alterados notavelmente. Beth rae lhe tinha preparado um comprido banho quente na cozinha para que pudesse eliminar qualquer resto de barro de sua pele e de seu cabelo. Enquanto se banhava, sua roupa desapareceu por arte de magia e a substituíram por uma bata de musselina. Ainda tinha planejado fazer muitas coisas aquela noite para ficar com aquela roupa que considerava quase de dormir, assim Mugir voltou para sua habitação. O que uma vez foi um armário para três bem serviria para uma.

Tinham trocado os móveis de uma habitação a outra, e a rodeavam todas as comodidades de um lar. Onde antes havia uma cama em que apenas se cabiam dois, agora havia uma cama para um com dossel singelo e com umas cortinas tintas de profundo verde mar. Parecia que o anterior dono ou era solteiro ou dormia sozinho. Alguém tinha entrado enquanto se banhava e tinha colocado sobre a cama uma grosa colcha marrom. Sobre esta estava sua mochila, sua navalha e a cimitarra com sua capa.

O calor da cozinha subia pela chaminé de pedra que havia no canto e ajudava a que a habitação se esquentasse, embora com os pés descalços, ainda notava um pouco frio o chão de madeira. Contra a parede que havia frente à cama descansava um armário de madeira escura. No lugar que antes ocupava o tapete de Rose, havia uma mesa pequena com uma cadeira, dois tamboretes e velas brancas que iluminavam a habitação. Abriu sua mochila para esvaziar seu conteúdo sobre a cama.

Do fundo da mochila tirou um maço de lonas. Estava pressa com barbante que se estriou com o passar dos anos. Fazia tanto tempo que não o tinha aberto que Magiere se viu forçada a cortar o barbante com a faca porque o nó não cedia. Dentro havia um vestido azul escuro de brocado com cordões negros no sutiã. A tia Bieja o tinha dado anos atrás.

Magiere o pôs rapidamente, enredou-se um pouco com os cordões antes de atar-lhe bem. Sem prestar muita atenção, agarrou a corrente de metal de seu amuleto de osso e o deixou cair para que descansasse entre seus peitos, perto do topázio. Bagatelas sem significado que se acrescentavam a seu papel de caçadora. Não tinha nem as mais remota idéia de por que os deixava postos então, mas lhe resultava muito estranho tirar-lhe depois de tantos anos.

Não havia nenhum espelho no que pudesse olhar-se, mas quando baixou a vista para a saia que a cobria, resultou-lhe estranho não ver suas pernas embainhadas nas bombachas e seus pés dentro das botas. Sentiu uma repentina necessidade de tirar o vestido, mas como não tinha sua roupa usual e ficava muito pouca roupa de reposição em sua mochila, não tinha muito mais que ficar no momento.

Sua manta e chaleira usadas, assim como alguns objetos interiores, fizeram que o armário parecesse ainda mais vazio que antes que pusesse nada nele. O pequeno tamanho da habitação era um alívio, já que tinha muito poucos pertences com as que enchê-lo.

 

—Por todos os deuses mortos - soou a voz do Leesil detrás dela. Magiere se deu a volta rapidamente—. O que te tem feito?

Também banhado, Leesil estava de pé com uma mão no ferrolho da porta e levava posta uma bata muito parecida com a que ela se acabava de tirar. Seu cabelo molhado que lhe chegava até os ombros passava por cima de suas orelhas e parecia areia da praia com aquela escassa luz, mas ainda assim seguia parecendo ele mesmo. Olhava-a como se fora uma estranha que se penetrou ali sem anunciar-se.

Magiere se sentiu muito consciente de sua aparência, o ajustado vestido atado fortemente e seu cabelo negro caindo livremente até suas omoplatas. De repente desejou haver-se deixado posta a enorme bata.

—Beth-rae levou a lavar minha roupa - lhe respondeu Magiere—. E deve tomar cuidado. Certamente queimará a tua pelo estado no que se encontrava.

—Onde comprou isso? —perguntou-lhe de uma vez que entrava na habitação.

Deu-se conta de que quando ambos estavam descalços, ele era possivelmente um pouquinho mais alto que ela.

—Não sabe chamar ou é que dormir no chão te tirou os bons maneiras? —respondeu-lhe ela—. E não o comprei. Deu-me isso minha tia faz muito tempo. —Essa frase pôs fim a essa linha de perguntas imediatamente. Ambos evitavam falar de seus passados a todo custa.

—Onde está Chap? —perguntou Magiere.

—Na cozinha. —Leesil pôs os olhos em branco—. Apaixonou-se por Beth-rae. Cada vez que os vejo, lhe está dando algo de comer. Isso tem que parar. Do que serve um cão guardião gordo?

Leesil seguia olhando ao Magiere de cima abaixo, e isso estava começando a irritá-la muito mais.

—Registraremos isto manhã, jogaremos uma olhada ao porão ou onde seja que armazenem as coisas, e faremos um inventário. Se houver suficientes garrafas de cerveja aí abaixo, pode que possamos abrir ao público manhã de noite. Se necessitar algo mais para os jogos, diga-me - isso se deu a volta, agarrou sua cimitarra e a guardou em um canto do armário enquanto Leesil se deixava cair em uma cadeira e a seguia olhando—. Pela tarde, voltaremos para mercado, ou pode que aos moles para ver o que há nos armazéns que queiramos ou necessitemos. Não temos muito dinheiro para gastar, mas nos chegará até que o negócio vá rodando.

 

Umas sombras ao outro lado da porta captaram a atenção do Magiere, que as viu com a extremidade do olho e instintivamente se deu conta de que não eram nem Caleb nem Beth rae. Leesil também se deu a volta, de uma vez que olhava para a porta que tinha deixado aberta, e um estilete apareceu em sua mão.

Magiere não se deteve refletir sobre como tinha aparecido aquilo em sua mão. Desembainhou sua cimitarra e deixou cair à capa ao chão.

Não havia luz perto da porta, e inclusive as velas não permitiam ver quem estava ali. Uma voz profunda entrou na habitação, era suave, quase tranqüilizadora.

—Não se alarmem.

A escuridão parecia seguir à figura quando esta entrou na soleira da porta, depois as sombras se foram dissipando, ou pode que fora que se aproximasse ao alcance da luz das velas.

—Como chegou até aqui acima? —perguntou-lhe Magiere, de uma vez que se perguntava assim mesma por que Chap não os tinha alertado da presença de um intruso.

O homem teria uns quarenta anos e era de estatura e constituição media. Tinha o cabelo castanho grisalho cuidadosamente penteado para trás. Umas mechas de um branco imaculado emolduravam umas facções regulares que eram mais chamativas que atrativas. Seu nariz se alargava ligeiramente na ponte. Suas roupas se escondiam atrás uma capa mogno que lhe chegava até o chão. Só ficavam visíveis as ponteiras arredondadas de suas botas de boa qualidade. Não parecia ir armado, mas não havia forma de saber o que podia ter escondido debaixo da capa. Levava as mãos entrelaçadas diante do peito e Magiere se fixou em que lhe faltava à ponta do mindinho esquerdo.

—Responde! —exigi-lhe Leesil. Levantou-se e de algum jeito outra afiada lamina tinha aparecido em sua outra mão.

O homem olhou um momento a cimitarra do Magiere, como se a estivesse estudando, depois, olhou-a de cima abaixo com a mesma concentração. Seu olhar se deteve nos amuletos. Magiere queria que o homem deixasse de olhá-la e rapidamente se guardou os amuletos dentro do vestido, fora da vista. Enquanto os metia no sutiã, deu-se conta de que o topázio parecia brilhar mais do normal, mas devolveu sua atenção ao estranho. O intruso parecia não prestar atenção alguma ao Leesil.

—Meu nome é Welstiel Massing. Mas, você é a escolhida, não é certo? A que mata vampiros?

 

Ao Magiere não lhe ocorria nenhuma resposta. O homem falava tão descaradamente, sem nenhum fingimento, como se fora a pergunta mais normal que fizesse a alguém a quem não se conhece.

—Não sabemos do que está tagarelando-respondeu Leesil—. Mas ainda não estamos aberto aos clientes. Sugiro-lhe que volte amanhã.

De novo, aquele Welstiel Massing atuava como se ninguém tivesse falado, tinha toda sua atenção concentrada no Magiere.

—Não é o que esperava, mas é a escolhida.

—Já não me dedico a isso-respondeu Magiere.

Havia algo naquele estranho que lhe dava medo, tanto como lhe pudesse ter assustado algo. Não queria ter nada que ver com nenhum aspecto de seu próprio passado, e a presença daquele intruso não fazia a não ser perturbar o recém ganho equilíbrio de sua nova vida.

—Duvido muito que o possa evitar aqui—disse Welstiel—. Somente vim te avisar.

—Saia daqui—lhe disse com frieza, estava perdendo a paciência—, ou me verei obrigada a jogá-lo.

Welstiel retrocedeu, não por medo, a não ser com o aspecto de quem tem uns maneiras impecáveis.

—me desculpe. Só queria te avisar.

—Bom, já o tem feito - falou Leesil—, e eu te vou levar a porta principal. —adiantou-se.

Por um momento, pareceu como se aquele visitante noturno não se fora a mover. Então de maneira fortuita olhou ao Leesil. Deu-se a volta e se dirigiu para o corredor como se a idéia de partir tivesse sido dele.

Tanto Leesil como Magiere ficaram quietos pela surpresa um instante e depois Leesil correu para a porta para «acompanhar» ao Welstiel Massing escada abaixo. Magiere o seguiu bem a tempo para ver seu companheiro no alto da escada com os olhos muito abertos. Ouviu como abaixo se fechava a porta do botequim. Leesil olhou ao Magiere com a expressão de quem entrou tarde em uma conversação e não se inteira de nada no rosto.

—É bastante rápido para ser um senhor idade - disse Leesil, e acrescentou—: agora volto. —E correu escada abaixo fora da vista.

Magiere retornou a sua habitação e se deixou cair na cama. Por isso fora que tivesse vindo àquele visitante, não ia deixar que a arrastassem ao velho negócio, nem por dinheiro nem por nada.

Leesil voltou a aparecer no marco da porta.

—Chap, Caleb e Beth rae estão todos adormecidos na cozinha. Já te disse que lhe estava dando muito de comer.

—Falarei com ela pela manhã. —Assentiu Magiere, alegrava-se de poder concentrar-se nas tarefas que tinha à mão de novo, algo com tal de estar distraída—. Mas, a porta principal não estava fechada?

—Não estou seguro. Eu suponha que sim. Caleb e Beth rae não parecem do tipo de gente que deixe este local totalmente aberto. —Estava a ponto de ir-se outra vez, mas se deteve e olhou ao Magiere com semblante sério—. Não deixe que esse lunático te incomode. O manteremos fora do botequim. Não temos que fazer negócios com quem não queiramos.

Magiere voltou a baixar a cimitarra e olhou como se refletia a luz das velas em sua lamina brilhante.

—Não acredito que isso seja necessário. Parece-me inofensivo, mas se voltar a falar de vampiros o porei no olho da rua.

—Como faz essa gente para nos encontrar?

Olhou-o um pouco zangada. Passaram-se anos inteiros fazendo voltas   todos os rumores possíveis sobre ela por todo o país justamente para que a gente pudesse encontrá-la.

—Sim, ok, bem - acrescentou Leesil—. Pergunta estúpida.

Magiere negou com a cabeça.

—vamos tentar abrir o negócio quanto antes possível.

—Te ocorreu um nome?

—Pensei que já o faria você quando pintasse o letreiro.

—Que tal «Botequim o Bolo de Sangue»?

—Não tem nenhuma graça.

Leesil riu, saiu da habitação e fechou a porta atrás dele.

 

Duas noites mais tarde, um botequim de algum jeito remodelado e chamada «O Leão Marinho» abriu pouco antes do entardecer. Leesil não tinha vivido junto ao oceano antes e quando viu uma manada de leões marinhos nadar entre as ondas frisadas para o norte lhe acendeu a inspiração do nome que sugeria de uma vez lugar e força. Ao princípio nem sequer sabia como se chamavam as criaturas que acabava de ver, até que perguntou a um dos marinheiros nos moles. Magiere sabia que ela tinha muito pouca imaginação com as palavras, mas Leesil pelo general expressava palavras suficientes para os dois.

A maioria de seus clientes eram marinheiros que estavam longe de seus lares ou trabalhadores do porto não estavam casados. Também apareceram um par de casais jovens. Além disso, foram duas mulheres de meia idade que eram empregadas em uma loja, que diziam adorar o guisado de pescado de Beth-rae e que vieram lentamente atrás do grupo de gente principal. Depois de comer, as duas se interessaram pela nova atração da mesa de farol do Leesil e se sentaram a conversar comodamente marinheiros que tinham ao redor enquanto Leesil repartia as cartas.

Ironicamente, os caseiros, em especial Beth-rae, pareciam um presente divino. Antes de chegar a Miiska, a Magiere nunca lhe tinha ocorrido servir comida, mas então se deu conta de sua escassa visão comercial. Todos os que se sentavam a falar e beber, e a jogar às cartas pediam algo de comer, antes ou depois. Foram ali quase tanto pela comida como pela cerveja. Um par de empregados do porto de pele escura inclusive pediram chá com especiarias. Magiere descobriu que não tinha tal coisa no armazém, mas quando o disse aos dois homens, estes a olharam como se o especial da casa que tivessem estado pedindo durante muitos anos tivesse desaparecido de seu lugar favorito de repente. Correu escada acima e mesclou todos os restos de chá que ficavam de suas viagens, logo os deu a Beth-rae para que fizesse infusões à conta da casa até que pudesse comprar uma mescla em condições. Além desse convite, o dinheiro não fazia mais que entrar. Não era uma fortuna, e lhes ia levar umas quantas semanas tirar o que Leesil e ela tiravam de um povo ou dois, mas sem dúvida era uma maneira muito mais cômoda de ganhá-la vida. Caleb lhes tinha ajudado a pôr os preços das comidas tomando como referência o que cobrava o dono anterior, e esse era tão bom ponto de partida como qualquer outro.

Magiere retornou a seu posto favorito detrás da barra e observou ao Caleb enquanto servia as bebidas e os deliciosos pratos de Beth-rae que saíam da cozinha. Deixou-se cair contra um barril de cerveja e se relaxou sozinho um pouquinho, sentia-se limpa e cômoda. Beth-rae lhe tinha lavado suas velhas bombachas negras a noite anterior, e Magiere os levava postos àquela noite, com uma camisa branca larga e um colete avermelhado sem pregas que se comprou no mercado ao ar livre. Levava os amuletos colocados dentro da camisa, como tinha por costume. Apesar das muitas mudanças que tinha sofrido sua vida, o vestido que lhe tinha dado a tia Bieja simplesmente não lhe era cômodo, por isso decidiu seguir vestindo como sempre o fazia.

Olhou a seu redor satisfeita. Tudo era quase como o tinha imaginado. Chap estava sentado junto ao fogo, atento como sempre a qualquer problema que pudesse surgir. Leesil ria e brincava enquanto repartia as cartas, recolhia as apostas e aplicava seu truque de relaxar a todo mundo com naturalidade. Fazia três dias que Magiere não o havia visto bêbado, embora lhe visse fadigado pelas manhãs, com os olhos mais injetados em sangue que de costume, como se todos aqueles anos tivesse necessitado o vinho para descansar. Magiere tinha dormido a seu lado ao ar livre, no chão, suficientes vezes para conhecer seus problemas com os pesadelos. As poucas vezes que se ficaram sem vinho entre dois povos a tinha despertado de noite com seus balbuceios e movimentos, às vezes gritava coisas ininteligíveis enquanto dormia. Nunca o tinha mencionado.

A pequena Rose se sentou perto do fogo detrás do Chap, quem de vez em quando lhe jogava uma olhada enquanto ela desenhava com carvão em algum pergaminho esvaído que lhe tinha comprado Leesil.

Cada vez que se abria a porta, Magiere não podia evitar olhar com ansiedade se tratava do intruso visitante, Welstiel, da primeira noite que passaram ali. Conforme foi passando a noite sem rastro dele, deixou de olhar a cada pessoa que entrava pela porta e se relaxou um pouco mais. Era primeira de muitas mais noites, poderia encontrar a paz que imaginava.

Não ouviu abri-la porta, mas sim sentiu o vento e ouviu como Leesil lhe dava a acostumada bem-vinda. Quando se deu a volta de um barril de cerveja, um primeiro olhar lhe disse que havia algo que não estava em seu lugar.

Não era um comerciante, não como os que tinha visto no povoado. Tampouco era um trabalhador do porto ou um trabalhador de uma barcaça, embora por sua constituição, tais empregos não lhe teriam suposto esforço algum. Marinheiro ou capitão estavam totalmente descartados já que sua pele era tão clara que não podia ter visto a luz do dia em uma larga temporada. Estava frente a ela ao outro lado da barra, extraordinariamente alto, com uma estrutura óssea muito pesada e o cabelo negro curto. Levava uma jaqueta cor Borgonha que apenas se conseguia esconder os músculos de seus braços. Captou o olhar de Magiere e o sustentou. Tinha uns olhos azuis muito claros, quase transparentes, que ao Magiere recordaram os do Chap. Tinha a postura de um nobre, mas em tal caso, que fazia em um botequim do porto?

Ao Magiere levou mais de um segundo registrar um som baixo e surdo sob o barulho da sala. Chamou-lhe a atenção mais que nada porque não estava segura de por que o podia ouvir falar entre os bate-papos dos clientes. Mas era familiar e inquietante de algum jeito. Olhou para sua fonte.

Chap estava de pé frente à chaminé com os lábios tensos a ponto de grunhir mais alto.

Voltou a observar ao homem que tinha frente a ela para logo voltar a olhar ao cão, e para a pequena Rose quem estava sentada depois do animal com os olhos abertos como pratos pela surpresa. Chap não tinha reagido com nenhum outro cliente em toda a noite.

—Cala Chap - lhe advertiu Magiere em voz o suficientemente alta como para que o cão a ouvisse.

Deixou de grunhir, mas se manteve rígido, até quando Rose lhe começou a atirar da cauda.

Magiere voltou a concentrar toda sua atenção no nobre.

—O que posso fazer por você?

—vinho tinto. —Sua voz era grave e profunda.

Esse novo costume de fazer uma idéia da gente rapidamente lhe estava começando a incomodar a Magiere. Desde que tinha chegado a Miiska, alguns de seus habitantes lhe tinham feito chegar a avaliações muito rápidas, ou pode que antes nunca tivesse estado tanto tempo com tanta gente. Tinha experiente um intuitivo e imediato rechaço para o agente Ellinwood, uma estranha sensação de acomodação para o Caleb e Beth-rae, um inexplicável medo do Welstiel e então aquele nobre lhe criou uma nova emoção: precaução.

Magiere verteu vinho de um tonel a uma fina taça e depois a deixou sobre o balcão. O homem tirou três moedas de cobre. Sabia o preço, por isso tinha estado ali quando estava o anterior dono. Por alguma razão, Magiere queria que deixasse as moedas sobre a barra para não ter que agarrar as de sua mão. Todavia, alargou a mão e agarrou as moedas. O nobre não tocou seu vinho. Manteve seu olhar fixo no rosto do Magiere, como se estivesse memorizando todas e cada uma de suas feições.

—Um bom lugar - disse o homem—. Não se parece com os botequins que há na Bela, mas é muito cômoda para a Miiska. Tenho alguns amigos aos que eu gostaria de trazer alguma vez.

—Qualquer bom cliente é sempre bem recebido - lhe respondeu Magiere educadamente enquanto assentia com cortesia. Ele assentiu em resposta, mas sem sorrir, e depois sua expressão se fez inclusive mais fria.

—Você é a escolhida, não é assim? —disse-lhe—. A que caça aos mortos nobres?

A animação de risadas e bate-papos de seu redor se voltaram menos fortes e sentiu uma dor aguda que lhe pulsava nos ouvidos. Não pôde evitar olhar a seu redor para ver se alguém o tinha ouvido. Mortos nobres, nunca antes tinha ouvido essa expressão, mas seu significado estava muito claro.

—Já não dedico a isso.

—É uma caçadora - disse com calma—. Vi uma ou duas caçadoras de verdade antes. Nunca param. Não podem.

—Há uma mesa de farol no canto se gosta de jogar às cartas, ou, se não, pode sentar-se em uma mesa e pedir algo de comer. Tenho outros clientes aos que atender.

Magiere se deu a volta para os tonéis de vinho como querendo jogá-lo, mas de uma vez tinha medo de lhe dar as costas. Ouviu o Chap grunhir de novo, mas esta vez, quando se deu a volta para olhar, o nobre já havia partido. Chap já não se encontrava ao lado da chaminé, mas sim estava cheirando a porta fechada do botequim, com os lábios ainda tensos a ponto de grunhir. Magiere deixou escapar um suspiro.

—fique longe daí - lhe disse ao cão.

Chap não se moveu, seguia olhando a porta, até que a pequena Rose cruzou por entre as mesas para arrastar o de volta junto ao fogo como se fora um enorme arrasto de madeira. O cão a seguiu a contra gosto.

Magiere não desfrutou de mais sons agradáveis àquela noite e seguiu servindo cerveja sem sentir as mãos até que partiu o último cliente. Pensou que isso lhe passaria em algum momento. Sempre era possível que alguém que a conhecesse de sua vida anterior aparecesse nesta. Simplesmente não tinha esperado que fora tão logo, nem duas vezes ao longo da primeira semana, assim possivelmente a fofoca ainda se estivesse estendendo. E as duas vezes não tinham sido um simples reconhecimento, mas uma provocação e uma negação.

—Miúda noitinha - disse Leesil com a vista ainda fixa na mesa coberta pelo pano para jogar farol com as treze cartas de lanças. Por alguma razão havia moedas de cobre e uma de prata empilhada sobre as rainhas, dezenas e os trezes.

Magiere saiu de seu ensimesmamento.

—Que tal nos foi?

—Bem - lhe respondeu Leesil—. Um pouco menos de um quarto sobre o bote inicial, mas fui muito bom com eles. Já tiraremos suficiente com a comida e a bebida, assim é melhor não assustá-los deixando-os sem dinheiro tão logo.

Surpreendida por sua claridade de pensamento, quase a passa o mau humor, mas nem tanto.

O que era o queria aquele nobre? Não o tinha visto antes e ele pareceu reconhecer a de vista. Não olhou pela sala quando entrou, mas sim foi direto para ela. Pode que a gente na cidade estivesse falando dela. Tinha tendência há destacar um pouco, e certamente que não havia outras mulheres armadas que se passeassem pelo povoado com um meio elfo e um enorme cão detrás. Mas, o que era o que estava passando? Uma morte inexplicada a noite antes de sua chegada tampouco é que ajudasse muito. Era muito parecido ao patrão do jogo ao que se dedicaram Leesil e ela durante anos.

—Assim... Magiere? —disse Leesil, que soava um pouco zangado ao sentir-se negligenciado—. Que problema tem? Estiveste provando muito dos barris esta noite?

A grande sala de repente lhe pareceu muito menor que quando estava repleta de gente. Pensou na garota morta que mencionou Ellinwood e na reação do Karlin. Teria havido outros assassinatos naquele pequeno povo costeiro?

—Caleb - disse Magiere—, quem é Brenden?

O ancião estava secando jarras de cerveja e duvidou como se perguntasse a razão de sua pergunta.

—O ferreiro - respondeu simplesmente—. Tem a loja perto do norte do povoado, na outra borda.

—Preciso tomar o ar - disse Magiere de uma vez que agarrava sua cimitarra de debaixo do balcão e colocou no cinto, sem lhe importar o que qualquer, incluído Leesil, pensasse—. Pode limpar sozinhos?

Seu companheiro pestanejou.

—Quer companhia?

—Não.

Virtualmente saiu correndo do botequim e engoliu vários goles de ar salgado depois de fechar a porta do botequim atrás dela. A seu redor, Miiska dormia, mas em poucas horas alguns dos pescadores se levantariam, muito antes do amanhecer para preparar suas redes e linhas. Magiere não se permitiu pensar e caminhou entre uma linha de barracos, casas e lojas sem ver nada em realidade. Apenas se precaveu das poucas tochas que iluminavam as ruas ainda ou dos retardados que saíam de outro botequim que fechava bem passada a meia-noite. Só queria limpa à cabeça de todos os pensamentos que a invadiam como uma praga.

Alguns aromas começaram a penetrar entre seus silenciosos pensamentos, esterco de cavalo, carvão e fuligem. A loja do ferreiro e os estábulos.

Magiere se deteve em meio da rua sem saber o que fazer, vacilando entre as direções.

Ellinwood havia dito que a garota assassinada, Eliza, era a irmã de alguém chamado Brenden. Brenden, o ferreiro.

Parecia que ninguém dizia as coisas às claras naquele povoado, mas tinha havido mais de uma menção a outros desaparecimentos. Karlin, o padeiro, havia-se mais que surpreso pela morte anunciada; teve que reprimir-se para não dizer algo a respeito dos outros. E naquele momento ao menos duas pessoas sabiam exatamente qual tinha sido sua anterior profissão, ou ao menos acreditavam que sabiam.

Magiere não se deu conta de que estava caminhando outra vez até que chegou ao final da rua e ouviu os cavalos mover-se nos estábulos. Ao outro lado da curva estava à zona de trabalho do ferreiro, e detrás uma pilha de madeira atalho que chegava até a altura do peito de uma pessoa e repousava contra uma cerca. Detrás, a certa distância, via-se um barraco. Um fino fio de fumaça saía da chaminé e se curvava no ar da noite à luz da lua.

Passou com cuidado pela parte mais afastada da cerca, comprovou que a porta dianteira estava fechada, e viu que não havia sinais de que dentro houvesse ninguém acordado. Só havia uma janela com cortinas debaixo da que esconder-se, no lado da casa que dava às árvores. Deu a volta.

Ao outro lado havia um pequeno parque e um jardinzinho de flores a um lado. Além dos estábulos havia outro jardim, possivelmente uma horta. Havia uma segunda pilha de madeira no muro ao lado da cerca, a este lado da casa. Não estaria bem visto que a pegassem rondando em sua primeira semana no povoado, por isso se manteve atenta à porta de atrás enquanto olhava. É obvio fazia muito que tinham retirado o corpo, mas podia ser que tivessem deixado atrás alguns detalhes que lhe pudessem ajudar.

Uma mancha escura que havia na pilha de madeira lhe chamou a atenção. Ao princípio pensou que era somente um espaço entre um corte e outra parte de madeira, mas conforme se aproximava do montão pôde comprovar que não estava oco. Alguns dos borde da madeira para a fogueira estavam manchados de tons mais escuros. Em dois lugares parecia como se um fluido escuro tivesse gotejado para baixo. Ajoelhou-se perto da base da pilha de madeira.

A terra perto da costa estava acostumada ser úmida, mas ao olhar mais de perto e com mais atenção, deu-se conta de que a terra que tinha visto quando viajava era de cor clara, muito parecida a da areia pedregosa da própria borda. Ali, encontrou mais manchas escuras no chão, como as manchas que havia na madeira. Uma maior estava rodeada por outras menores e estendidas.

O chão era um labirinto de pegadas, certamente do Ellinwood e os que se faziam chamar seus guardas. Mais à frente, não podia ver outros sinais de perseguição ou luta.

Passou os dedos por uma das manchas escuras. Apesar de estar quase seca pelo estado semi-úmido da terra da costa, algo pegou aos dedos. Os levou ao nariz e depois o provou um pouco com a língua.

Sangue.

Magiere fechou os olhos e os voltou a abrir rapidamente quando em seu interior pôde conjurar as imagens do que o assassino lhe podia ter feito a sua vítima para derramar tal quantidade de sangue.

Ainda assim estava toda em um lugar, como se a garota não tivesse podido correr, resistir ou lutar por sua vida.

—Acreditava que já não lhe importavam estas coisas, Dhampir - disse uma voz a suas costas.

Magiere se deu a volta com rapidez e agarrou sua espada. Ao princípio não podia ver nada e depois pôde ver uma sombra tremente sob uma árvore em direção ao mar.

Ali estava Welstiel, de pé, vestido exatamente igual à outra vez com sua larga capa de lã. Saiu de entre as árvores do bordo do jardim e a lua se refletiu nas mechas brancas de suas têmporas. Magiere se deu conta de que lhe estava olhando as mãos, e embora quase não as pudesse ver, lembrou-se da parte do dedo que lhe faltava e se perguntou como a teria perdido.

—Está-me seguindo? —perguntou-lhe Magiere zangada.

—Sim - lhe respondeu.

Isso a fez calar por um momento. Quando se confrontava às pessoas com essa pergunta, pelo general o negavam.

—por quê? —perguntou-lhe por fim.

—Porque este povoado está cheio de mortos nobres —lhe disse— que sobrevivem à base de nutrir-se dos vivos. Esta garota não é a primeira, mas isso você já sabe. E ninguém da Miiska os pode deter mais que você.

—E como sabe você o que é o que eu sei?

Suas palavras eram mais uma resposta que uma pergunta que esperasse que lhe respondessem. E não teve resposta alguma. A Magiere lhe fez um nó de dor no estômago pela ansiedade e a ira.

—O que significa? —perguntou—: mortos nobres.

—A mais alta ordem entre os mortos, ou, mas bem, não-mortos - lhe respondeu—. Os mortos nobres usufruem toda a presença da pessoa que foram em vida, sua única essência, por assim dizê-lo. Os vampiros não são mais que um dos tipos que há como os liches, os espectros mais poderosos ou algum que outro alto espírito. São conscientes de si mesmos, de seus próprios desejos, decisões e pensamentos, e podem aprender e crescer ao longo de sua existência imortal, não como os não-mortos de menos categoria, como os fantasmas, corpos animados e demais.

—Você não é nenhum aldeão tolo - disse Magiere com suavidade—. Como pode acreditar nessas coisas? Não há vampiros. —deu-se a volta para olhar a pilha de madeira manchada—. Já há suficientes monstros entre os de nossa espécie.

—Sim - disse com calma—. De nossa própria classe.

Magiere ouviu como ele se aproximava para ela entrando no jardim, mas não se deu a volta para olhá-lo.

—Os não-mortos que drenam o sangue de outros para viver existem-disse—. E têm feito deste lugar, deste povo, algo próprio. Tais criaturas podem ser algo mais... Exclusivas... Pelo que muitos aldeãos acreditam, mas de todas as maneiras existem. Você já sabe tudo isto. É uma caçadora.

—Eu não o sou.

—Não vai poder evitar tais tarefas aqui.

—De verdade? —deu-se a volta para olhá-lo, entrecerrou os olhos zangada—. Olhe quão bem evito tudo isto, ancião.

Não era tão maior, mas atuava como qualquer paletó velho. Pensou na primeira vez que se viram e outra pergunta lhe veio à mente, algo que lhe havia dito aquela noite também.[1]

—O que me chamou? Dhampir?

—Não é nada - Se deu a volta para partir—. Uma palavra antiga e muito pouco conhecida que se utiliza nas terras nas que nasci para designar a aqueles que nasceram com o dom de caçar aos não-mortos.

Magiere não evitou que partisse. Observou como se desvanecia entre as árvores, para a costa.

Apesar dos possíveis intentos do Welstiel por pô-la nervosa, suas loucas frases lhe fizeram sentir melhor em lugar de pior. Um par de noites atrás, temeu que quisesse algo dela que ela não estivesse disposta a lhe dar, mas naquele momento não lhe pareceu mais que outro tonto supersticioso, embora muito bem vestido. Sim, era certo que havia um assassino solto no povoado, um doente e retorcido, mas ao Ellinwood e a seus amigões pagavam para que se ocupassem dessas coisas. Ela era a proprietária de um botequim, não uma caçadora, inclusive se uns quantos vizinhos do povoado tinham ouvido algo de seu passado. Em um ano, pode que em dois, aquela reputação se teria esquecido e a teria levado a maré, de maneira que somente seria Magiere, a proprietária do botequim O Leão Marinho.

Limpou-se os dedos no chão arenoso e depois se sacudiu a terra na coxa das bombachas enquanto notava como se acalmava a respiração e lhe relaxava o estômago. Caminhou para afastar do jardim traseiro, a pilha de madeiras e as manchas no chão sem olhar atrás.

A solo uns quantos passos já na rua viu o Caleb que caminhava para ela.

—O que faz aqui? —perguntou-lhe confusa.

—As ruas não são sempre seguras de noite. Vim a procurá-la.

—Posso me cuidar eu sozinha perfeitamente.

Entretanto, sua preocupação lhe chegou ao coração, sobre tudo porque parecia bastante cansado. Os últimos dias de preparar o estoque e o botequim para sua abertura não tinham sido nada fáceis para ele, por não mencionar acontecer meia noite servindo mesas. Magiere estava a ponto de dirigir-se ao botequim de novo, lhe ia fazer um gesto quando se deu conta de que Caleb estava olhando para os estábulos do barracão do ferreiro.

—por que estava o senhor Welstiel aqui? —perguntou ao Magiere.

Ela girou a cabeça rígida para ele.

—Conhece-o?

Caleb se encolheu de ombros.

—É novo na Miiska, mas estava acostumado a vir com freqüência ao botequim quando era do Dunction. Ambos desfrutavam da companhia do outro, e o senhor Welstiel sempre era bem-vindo.

Pode que aquele novo detalhe lhe ajudasse a definir ao Welstiel. Se tinha tido muita relação com o anterior dono do botequim, pode que estivesse interessado em encontrar respostas, inclusive depois de tanto tempo. Também pode que tivesse ouvido algum leve rumor a respeito de seu próprio passado, se outros estavam falando sobre ela, como o nobre que entrou no botequim aquela mesma noite.

Também podia ser que estivesse especulando a respeito do que ele acreditava que podia ter passado na Miiska.

Algo por si mesmo era fácil de rechaçar. Inclusive as dois podiam eliminar-se como os pensamentos de um louco. Mas tudo começava a acumular-se, uma coisa sobre outra.

—Deveríamos dormir um pouco, senhorita — Urgiu Caleb. Alargou a mão para lhe atirar do ombro e só então Magiere deixou de olhar aos estábulos, o barraco e a pilha de madeira manchada. Caminhou pela rua em silencio com o Caleb a seu lado.

Enquanto Magiere e Caleb se dirigiam a sua casa, uma leve luz detrás deles se escorreu entre as sombras, e se fez tão brilhante quase como as brasas de carvão enquanto deslizava ao longo da rua onde dois caminhantes noturnos acabavam de parar. Seguiu-os durante um momento e depois girou por um beco e desapareceu.

 

O agente Ellinwood chegou a sua habitação de aluguel pouco depois da meia-noite, contente de estar de volta a casa.

Embora fosse conhecido por ficar sentado com seus homens bebendo cerveja até altas horas da noite em qualquer botequim da Miiska, com o tempo cada vez encontrava essas obrigações mais e mais pesadas. Acreditava que era normal e até bom que o agente do povoado e seus guardas fossem clientes dos botequins do povo. Escutava a seus homens contar aborrecidas histórias a respeito de suas famílias, a detenção de alguma trombadinha ou a intervenção em alguma discussão entre vendedores ambulantes no mercado. Sempre sorria, assentia e fazia como que prestava atenção.

Entretanto, a cerveja fazia pouco por encher sua mente com o consolo sonhador, e ultimamente lhe estava fazendo muito difícil não partir logo do quartel onde levava a cabo a maior parte de seu trabalho e correr a sua esplêndida habitação da melhor estalagem da Miiska, A Rosa de Veludo. Uma vez que estava sozinho em sua habitação, podia sentar-se e mesclar o pó de ópio amarelo de Somam com seu contrabando próprio de uísque especial estravinianos. A combinação de ambos criava um capitalista tônico para seus perturbados pensamentos e lhe permitiam sentar-se na felicidade mais absoluta durante horas e horas, flutuando em estado de existência perfeita.

Apesar de ter sabido do elixir fazia já vários anos quando um mascate o deu a provar, no passado não tinha tomado tanto, já que o custo de ambos os componentes era exorbitante. Em particular o do pó que vinha do outro lado do mar, do continente longínquo, ao sul do Império Sumano e seu reino do IL'Mauy Meyauh. Além disso, inclusive ali, cultivava-se em segredo e terei que passar o de contrabando fora do país. O preço estava acostumado a ser muito alto para ele, menos nas contadas ocasiões nas que podia extorquir a um delinqüente até obter uma soma custosa por sua liberação. Encontrava que era muito injusto que um homem de sua posição, que ganhava um dos salários mais elevados da Miiska, não pudesse permitir umas simples comodidades depois de um duro dia de trabalho. É obvio que não tinha por que viver em La Rosa de Veludo, mas suas luxuosas habitações também lhe proporcionavam um grande prazer, e um homem de seu status tinha que manter as aparências.

Então, fazia já quase um ano, teve lugar um milagre e de repente se podia permitir todo o ópio sumano e o uísque especial que desejasse. E seu «lar» era um lugar estupendo para passar a noite.

Ellinwood deixou sua capa sobre a colcha de seda que cobria sua cama, dirigiu-se a um brilhante armário de madeira de cerejeira e abriu a fechadura da última gaveta. Tirou uma grande garrafa de cristal que continha um líquido ambarino e uma urna chapeada, sorriu antecipando o prazer que sentiria.

Bateram na porta.

O sorriso desapareceu de seu rosto e decidiu não responder. Qualquer que chamasse há àquelas horas não vinha por nenhum assunto decente. Se houvesse algum tipo de emergência no povo, sua primeiro tenente, Darien, podia ocupar-se de tudo. Ele se merecia um descanso.

Voltaram a chamar e uma fria voz disse:

—Abra a porta.

Ellinwood se estremeceu. Conhecia a voz. Deixou a garrafa e a urna na gaveta e se apressou a abrir a porta. No corredor estava Rashed, o dono do maior armazém da Miiska. O agente não sabia o que dizer.

—Um... Bem-vindo — conseguiu dizer—. Tínhamos uma entrevista?

—Não.

Qualquer contato com o Rashed punha nervoso ao agente, mas tinham uma relação de tal benefício mútuo que estava decidido a não pô-la em perigo.

—Então, no que posso lhe ajudar? —perguntou-lhe Ellinwood educadamente.

Rashed entrou na habitação e fechou a porta. Era tão alto que quase tocava o teto com a cabeça. Nunca tinha estado na habitação do agente e a típica expressão nervosa do Ellinwood se transformou em ansiedade. Um espelho oval com o marco de prata refletia o rosto carnudo do agente, muito adornado pelo tom do veludo verde. Não pôde evitar comparar-se com a criatura perfeitamente construída com a que compartilhava habitação naquele momento.

Rashed olhou rapidamente a seu redor.

—Há uma caçadora na cidade e se me incomodar ou a um de meus, matarei a ela, e a qualquer que tente defendê-la ou ajudá-la, e isso inclui a seus guardas. Entende-me?

Ellinwood o olhou e balbuciou:

—Quem é..., a nova proprietária do Dunction? OH! Esteve escutando as fofocas do povoado. Não me pareceu nada impressionante a nenhum nível.

—É uma caçadora, e se caça aqui, vai se derramar sangue, o seu. E você olhará para outro lado, como sempre.

O agente tentou recompor-se. Embora ele e Rashed tivesse um claro acordo pelo que qualquer desaparecimento ou corpo morto que aparecesse seria investigado muito sumariamente, aquela era a primeira vez que Rashed lhe tinha falado de maneira tão aberta a respeito de derramamentos de sangue. E nunca antes tinha tido que dar tanta informação a respeito de um fato.

—por que me consulta? —perguntou Ellinwood.

—Isto é diferente. Não sei quando Haverá um confronto, mas prefiro não ter a nenhum de seus guardas de por meio.

—Eu me ocuparei de meus guardas. Mas, será discreto? É nova na cidade, e a conhece pouca gente. —caiu um momento, tentava procurar uma possível explicação para o futuro—. Poderia ser que o negócio, a vida sedentária, não fossem tão bem como ela pensava. Não vão despertar muito interesse se uma noite desaparecerem ela e seu companheiro.

Rashed assentiu.

—É obvio. Nada de corpos.

—Bem, então. Faça o que crês que seja melhor, - Ellinwood desviou o olhar à última gaveta de seu armário—. Agora se me desculpar foi um dia muito comprido e eu gostaria de descansar.

Os olhos cristalinos do Rashed lhe seguiram o olhar e também se detiveram na gaveta. Um leve gesto de asco apareceu na cara e deixou uma bolsa de moedas sobre a colcha de seda.

—Pelas moléstias. —deu-se a volta e abandonou a habitação.

O agente se desabou aliviado, respirava agitadamente. Talvez devesse ter estipulado que se Rashed desejava falar com ele de novo, devia combinar uma entrevista no armazém, como estavam acostumados a fazer. Não tinha o mais mínimo desejo de voltar a estar a sós com o vampiro nas reduzidas dimensões de sua habitação nunca mais. Mas aquelas criaturas, que eram as proprietárias do principal armazém da Miiska, vinham-lhe realmente bem, e de vez em quando tinham outras utilidades.

Ellinwood se tinha encontrado com os da espécie de Rashed ao redor de um ano antes. Voltava para sua casa depois de uma noite de cervejas com seus guardas, e quando atalhou por um beco, topou-se com a figura de um sujo moleque de ruas que tinha a boca no pescoço de um marinheiro. Quando Ellinwood se deu conta de que o moleque estava bebendo-o sangue do marinheiro, gritou alarmado. O assassino levantou o olhar, assobiou-lhe, deixou cair ao marinheiro e se adiantou para atacar. Três de seus guardas, que saíam do botequim detrás dele, ouviram gritar a seu superior e correram a investigar. O moleque se desvaneceu beco abaixo.

Como ele mesmo tinha estado em perigo de morte, Ellinwood pôs a seus guardas a revistar o povoado com esforço. Uns quantos habitantes da Miiska tinham ido a ele no passado afirmando que a noite anterior umas criaturas se levaram a algum ser querido. O agente não lhes tinha prestado muita atenção até que viu com seus próprios olhos ao pequeno e retorcido vagabundo lhe chupar o sangue ao marinheiro no beco. As histórias de monstros e demônios eram muito freqüentes entre os marinheiros e vendedores que viajavam acima e abaixo pela costa e que aconteciam terras estranhas e estrangeiras. Não era certo que todos os mitos provinham de uma pequena verdade? O agente estava decidido a encontrar a aquele moleque assassino e possivelmente sobrenatural.

A seguinte noite chegou uma mensagem ao quartel, um convite. Ellinwood se rendeu à curiosidade e baixou ao armazém. Recebeu-o Rashed e o levou a uma luxuosa sala cheia de sofás baixos com almofadas bordadas e deliciosas velas com forma de rosa. Entretanto, Ellinwood não dedicou muito tempo a contemplar a decoração.

Inclusive na tênue luz da sala, o agente podia ver que havia algo em seu anfitrião que não estava de tudo bem. Sua pele era muito pálida para alguém que trabalha em um armazém dos moles em um povoado costeiro, era como se não lhe tivesse dado o sol em meses. E os olhos do homem eram quase incolores. Seu semblante parecia não expressar nenhum desejo, não havia avidez de desejos, não tinha emoções.

Então entrou uma formosa jovem com cachos cor chocolate e cintura muito estreita. Apresentou-se como Teesha e sorriu ao Ellinwood, deixando ver umas presas afiadas. Quando Rashed a olhou, sua expressão vazia trocou por completo e se transformou em um enorme desejo de amparo, o agente decidiu ficar calado e ver aonde lhe conduzia aquela reunião.

Rashed ofereceu ao Ellinwood vinte partes do armazém, virtualmente uma fortuna, para que olhasse para outro lado se algum dos habitantes da Miiska simplesmente desaparecia ou era encontrado morto por causas não naturais. Disse-lhe que tais acontecimentos quase não teriam lugar absolutamente, mas depois se corrigiu e disse que ocorreriam com muito pouca freqüência. Para que aquele intercâmbio tivesse lugar, ele não escondia o que eram Teesha e ele mesmo. Apesar de que ao Ellinwood levou um momento digerir que estava falando com duas criaturas, não se estremeceu. Não era nenhum tonto e não ia rechaçar a oportunidade. Pelo contrário, ele se via si mesmo como uma pessoa muito ardilosa e sagaz. Se não aceitava nunca sairia daquela habitação com vida. Mas enquanto mantivera sua posição de agente do povoado, poderia guardar o segredo do Rashed e simplesmente fazer como que investigava os desaparecimentos ou mortes estranhas. Não só teria seu estipêndio para seus gastos cotidianos, mas sim, além disso, receberia dinheiro suficiente para estar constantemente abastecido de ópio sumano e uísque especiado. Era o acerto perfeito.

Então Ellinwood se recordou a si mesmo que tinha que esclarecer algo com o Rashed. As reuniões deviam ter lugar no armazém. Depois de tudo, ele devia manter um pouco de intimidade. Sim, devia esclarecer isso à primeira oportunidade.

Já mais cômodo e depravado, o agente voltou a abrir a gaveta do armário. Mesclou o ópio da urna com o uísque em um copo comprido de cristal e começou a sorver. Não muito depois, estava sentado em uma cadeira forrada de uma malha adamascada, imerso no maior dos prazeres, com a mente caminho da felicidade absoluta.

 

Teesha estava esperando perto dos moles a que passasse o marinheiro adequado. A maravilha e enormidade do oceano nunca deixava de agradá-la, em especial quando a maré estava alta. A beira era uma parede entre mundos que guiava o movimento de todas as coisas entre a água e a terra com seu bordo que não deixava de lamber ao outro. Caminhava descalça, às vezes colocava os delicados dedos de seus pés na areia, sem lhe importar que a prega de seu traje arroxeado arrastasse um pouco pela areia e se manchasse.

Fazia muitos anos, antes que chegasse a Miiska, um dos moles se desabou porque as colunas que o sustentavam estavam carcomidas. Em sua queda, tinha arrastado a dois pequenos navios de dois mastros que não deu tempo a desatar. Os trabalhadores tiraram parte dos restos da água, e o que ficava dos navios e do mole estava sobre há costa um pouco mais abaixo. Pode que em algum momento se expor salvar parte do material do acidente, mas nunca se seguiram tais planos. Então, empilhados na borda fora do alcance da maré, os pilares do mole e os restos dos cascos dos navios jaziam na escuridão como os restos de um monstro marinho de praia que se abandonou para que se apodrecesse e já estavam nos ossos. Desgastados pelo vento, o tempo e o mar, os restos ainda estavam parcialmente sólidos e lhe ofereciam o esconderijo perfeito. Teesha passeava com calma ao redor das colunas, escutava a escuridão mais que a via e periodicamente inspirava o aroma da brisa marinha.

Então lhe chegou o aroma de carne quente próxima. Todo seu corpo se esticou em antecipação e se escondeu detrás de uma grossa escora de madeira que podia ter sido algum antigo suporte do mole ou pode que um Baú de algum dos navios. Só se deixava ver frente os solitários, voltaria a se esconder entre as sombras se aproximava um casal ou um grupo. Com cuidado, olhou para fora no vento.

Um marinheiro solitário ia caminhando pela beira para o porto. Levava bombachas de lona com as pregas descosturadas e desfiados que lhe chegavam por debaixo dos joelhos, e se sujeitava a calça manchada de sal com um cinturão de corda. Nos pés tão somente levava umas sandálias improvisadas sustentadas nos tornozelos por tiras de couro. Tinha a pele obscurecida pelos efeitos do sol, e tão só ligeiras ninharia adolescentes de barba.

Teesha não correu a ser vista, mas sim se relaxou contra o poste e esperou a que fora ele quem se aproximasse e a visse ela. Quando o fez, seu passo se fez algo mais lento por um momento até que desviou seu caminho para ela. A não mais de dois metros, o marinheiro se deteve e ficou olhando a preciosa cara da Teesha, seu selvagem cabelo marrom e seus pés descalços.

—Perdeste-te? —perguntou-lhe Teesha em um tom suave e tranqüilizador que resultava lhe sussurre entre os sons da suave brisa e das ondas—. Deve te haver perdido. Onde está seu navio?

Por um momento, o marinheiro franziu o cenho surpreso, pensava que era ela a que se perdeu ou se confundia. Teesha olhou o jovem rosto do marinheiro e através de seus olhos pôde ver como se repetiam suas palavras uma e outra vez até que já não sabia se tinha sido ele ou ela quem as tinha pronunciado. Uma espécie de neblina cruzou os olhos do marinheiro e franziu ainda mais o cenho.

—Perdido... Perdido?—gaguejou ele. Então, com urgência em sua voz perguntou—: Sim, onde está meu navio?

—Aqui — disse Teesha com a mesma voz calmante, com o mesmo tom lhe sussurrem—. Aqui está seu navio. —E deslizou seus delicados dedos para baixo pelo pilar de madeira que tinha a seu lado.

—Vêem e te ensinarei o caminho — o urgiu.

Teesha lhe estendeu uma mão ao jovem marinheiro e ele tomou. Animou-a que a seguisse enquanto se metia entre os antigos restos do mole e os navios. Não olhou nunca por cima de seu ombro ao avançar de costas entre as ruínas, manteve sua vista totalmente fixa na do jovem marinheiro enquanto se moviam ambos. Ele a seguiu de bom grau sob o improvisado teto de mastros quebrados e antigas pranchas de madeira, de volta entre as sombras.

—Aqui está. —Sorriu-lhe ela lhe mostrando sua perfeita dentadura.

O marinheiro era muito jovem, pode que uns dezessete anos, o fôlego lhe cheirava um pouco a cerveja, embora não o suficiente como para que estivesse bêbado. De todas as maneiras, isso não importava para nada. Olhou a seu redor inseguro.

—Sim, está em casa outra vez — lhe disse Teesha enquanto lhe punha a mão que tinha livre sobre a que já lhe sujeitava para guiá-lo—. Este é seu navio, seu lar que vai contigo.

Seus feições se relaxaram. Teesha ouviu como um suspiro de alívio escapava de seus lábios.

—Vêem e sente-se comigo. —Guiou-o até sentar-se ambos na areia.

Passou-lhe os dedos pelo cabelo emaranhado e o beijo nos lábios com suavidade. Alimentar-se nunca lhe havia custado nenhum trabalho, uma vez que teve aprendido seu próprio estilo de caça.

O marinheiro alargou as mãos e lhe agarrou os braços para poder lhe devolver o beijo e ela tentou ficar sobre os joelhos. Ele era mais forte do que parecia com simples olhada, mas lhe obedeceu quando lhe sussurrou:

—Schhhh, ainda não — e atirou de sua cabeça até ficar a sobre o ombro. Quando teve todo o pescoço bem exposto, Teesha não perdeu nem um segundo.

Às vezes se alimentava de seus pulsos, às vezes da veia da cara interna do cotovelo. O que fora melhor em cada momento. Entretanto, aquela noite lhe mordeu um lado do pescoço do marinheiro, sujeitava-lhe a cabeça com força, tanto para agüentar o peso para evitar que instintivamente se separasse dela. Seu corpo resistiu uma vez. Depois se perdeu em seus sonhos de novo.

Teesha pegou o que necessitava nada mais, e tirou suas presas sem rasgar a pele. Tirou-se uma pequena adaga da manga e com milimétrica precisão conectou os dois pontos que lhe tinha deixado no pescoço, assegurando-se de que o corte fora superficial e algo irregular. Poderia lhe haver feito o corte e ter bebido da ferida, mas isso não era suficiente para ela. O tato da carne cálida em seus lábios, afundar seus dentes nela, era mais prazenteiro que o sabor de metal que ficava nas primeiras gotas de sangue.

Recostou-o na areia e lhe desatou a carteira; não é que ela necessitasse o dinheiro, mas era parte do engano. Pô-lhe uma mão na frente dormida e com a outra lhe fechou os olhos. Roçou-lhe a orelha com os lábios quando lhe sussurrou ao ouvido:

—Foi passeando para seu navio esta noite, de volta a casa de novo, quando dois ladrões lhe aproximaram. Lutou contra eles, mas as pessoas tinha uma faca...

O marinheiro fez um gesto de dor reflito. Levantou uma mão fracamente para agarrar o pescoço, mas ela a baixou com suavidade.

 

—Roubaram-lhe a carteira e você veio até aqui engatinhando para te esconder, e dormiu... Agora.

Quando Teesha ouviu como a respiração do marinheiro se fazia mais profunda, ficou em pé e partiu. O jovem estaria a salvo ali. Entretanto, se algo lhe acontecesse depois de seu encontro, esse destino já não referia a ela absolutamente.

Esteve-se alimentando daquela mesma maneira durante anos. E sempre tentava escolher aos que não foram estar muito tempo por ali. Miiska era o lugar perfeito, com marinheiros e vendedores que iam e vinham. Alguma vez tinha matado a algum acidentalmente, quando a necessidade e a fome tinham podido com seu cuidadoso controle, mas fazia já muito tempo que não havia lhe tornado a acontecer. E se a necessidade lhe tinha feito escolher a um habitante do povoado, sempre tinha enterrado ao pobre infeliz; além disso, Rashed sempre culpava ao Ratboy quando desaparecia algum mortal. Não via por que tinha ela que lhe alterar sua percepção das coisas.

Então ficou a correr ligeiramente pela beirada, sentia o calor e a força do sangue do marinheiro, contente de sua habilidade inata para eliminar o passado e o futuro de sua mente e viver unicamente o momento.

—Teesha?

Deteve-se surpreendida, olhou na água e no vento que penetrava entre as árvores sobre a borda.

—Meu amor?

A vazia voz do Edwan ressonava atrás dela e Teesha se deu à volta, Edwan estava flutuando ao mesmo nível a areia, suas bombachas verdes e sua camisa branca brilhavam como uma chama branca na névoa. Levava a cabeça cortada em um ombro e o comprido cabelo amarelo lhe pendurava pelo lado até a cintura.

—Carinho — disse Teesha—. Quanto tempo leva aí?

—Um tempo. Vai a casa... Já?

—Queria dar uma olhada ao armazém e ver se Rashed necessitava alguma coisa.

—Sim—disse Edwan—. Rashed.

O rosto do Edwan mudou imperceptivelmente, como se a imagem do corpo sem vida não fora a de alguém que acaba de morrer, a não ser a de quem leva já em decomposição uma semana ou duas. O brilho de sua pele estava então algo mais apagado, esbranquiçado, com um reflexo de hematomas sob a pele pelo sangue coagulado sob a tecido.

Teesha perdeu a alegria do momento pela força e o calor. Caminhou letargicamente pela beira e se deixou cair até o chão por uma árvore inclinada.

—Não te amargure. Necessitamos ao Rashed.

—Isso é o que não deixa de me dizer. —Edwan estava a seu lado, embora em realidade ela não tivesse visto que se movesse—. Isso é o que sempre me há dito.

Os dois juntos escutaram como as ondas chegavam à beira e lambiam a praia. Teesha não sabia como lhe responder. Queria a Edwan, mas ele vivia no passado; como a maioria dos espíritos que estavam entre os vivos, quase não podia nem captar o presente. E sabia o que era o que ele queria. Sempre era isso o que queria. Ele era o faminto então, e como não tinha uma autêntica vida que viver as lembranças eram tudo o que tinha.

Mas a aborrecia tanto, deprimia-lhe tanto fazer aquilo para ele. Cada vez que ele o necessitava ela transigia, mas as seguintes seis ou sete noites já não podia viver unicamente no delicioso presente.

—Não, Edwan — lhe disse cansada.

—Por favor, Teesha. Somente uma vez mais — lhe prometeu, de novo.

—Não há suficiente tempo antes que saia o sol.

—Temos horas.

O desespero da voz do Edwan a perseguia. Teesha deixou cair o queixo sobre seus joelhos e olhou para onde a água desaparecia na escuridão.

Pobre Edwan. Merecia-se algo muito melhor, mas aquilo tinha que parar. Pode que se lhe mostrasse as lembranças mais ardentes, até o final, ele pudesse aceitar sua existência de então, e a nova existência dela.

 

Muito ao norte da Stravina, a neve caía do céu um dia atrás de outro e parecia como se as nuvens tampassem o sol continuamente. Havia pouca diferença entre o dia e a noite, mas a Teesha apenas importava. Com seu avental ajustado e seu vestido vermelho favorito, servia jarras de cerveja aos clientes e viajantes da estalagem. O lugar sempre estava quente com a chaminé acesa e ela tinha um sorriso para todo o que entrasse pela porta. Mas aquele sorriso especial, tão bem-vinda como uma pausa entre as nuvens quando se podia ver o sol, só a dedicava a seu jovem marido, que trabalhava tristemente detrás do balcão, assegurando-se de que tudo fora bem e de que nenhum cliente tivesse que esperar para que lhe servisse sua bebida.

 

Edwan quase nunca lhe devolvia o sorriso, mas ela sabia que a queria com loucura. O pai do Edwan era um homem retorcido e violento, e sua mãe havia falecido de umas febres quando ele ainda era um menino. Tinha vivido na pobreza e na servidão. Isso era tudo o que Edwan recordava de sua infância, até que se foi de casa aos dezessete anos, viajou por duas cidades, encontrou um trabalho atendendo um bar e depois conheceu a Teesha, o primeiro gole de bondade e carinho que ele tinha tido em sua vida.

Há seus dezesseis anos, Teesha já tinha recebido várias proposições de matrimônio, mas sempre as tinha declinado. Simplesmente havia algo que não terminava de encaixar com o pretendente: muito velho, muito jovem, muito frívolo, muito sério... Muito que fora. Sentia que tinha que esperar a alguém. Quando Edwan cruzou a porta do botequim, com seu cabelo loiro escuro, suas maçãs do rosto largo e seus olhos angustiados, soube que ele era sua outra metade. Depois de cinco anos de matrimônio, ele seguia quase sem falar com ninguém mais que com ela.

Para Edwan, o mundo era um lugar hostil e a segurança se encontrava somente nos braços da Teesha.

Para Teesha, o mundo eram canções, nabos picantes, servir cervejas aos clientes, que fazia muito que se converteram em amigos próximos, e passar a noite sob uma colcha de plumas com o Edwan.

Foi um bom momento de sua vida, mas muito curto.

A primeira vez que Lorde Corische abriu a porta da estalagem, ficou fora e não entrou. A fria brisa que entrava na sala foi suficiente para que todo mundo começasse a praguejar e Teesha correu a fechar a porta.

—Posso passar? —perguntou ele, mas sua voz era exigente, como se já conhecesse a resposta e só estivesse esperando impaciente para ouvi-la.

—É obvio passe, por favor—lhe respondeu ela, um pouco surpreendida posto que o botequim estivesse aberto a todos.

Quando ele e um acompanhante entraram, Teesha pôde por fim fechar a porta, com todos já tranqüilos de novo. Um par de pessoas se deram à volta curiosos, e logo uns quantos mais, já que os primeiros não voltaram a girar-se para seguir com suas refeições.

Não havia nada em Lorde Corische que se saísse do normal. Nem seu colete de cota de malha nem as placas sobre a armadura acolchoada, já que soldados e mercenários se viam por aquelas lareiras com certa freqüência. Não era nem atrativo nem feio, nem alto nem baixo. As únicas características que o distinguiam eram sua cabeça suave e totalmente calva e uma cicatriz branca sobre seu olho esquerdo. Mas não ia sozinho, e não era lorde Corische ao que olhavam os clientes do botequim em qualquer caso. Era a seu acompanhante.

Ao lado do soldado com a cabeça suave ia o homem mais alto e mais chamativo que Teesha tinha visto em sua vida. Levava uma casaca acolchoada de um tom azul profundo bordada com um fio branco brilhante que formava um vigamento de rombos. Seu cabelo negro azeviche contrastava com o branco pálido de seu rosto e com uns olhos tão brancos que Teesha não estava segura de que cor eram como a capa de mais fino gelo que cobrisse um lago.

Os dois homens caminharam até uma mesa, mas o soldado calvo seguia sem apartar sua vista da Teesha.

—Posso lhe trazer uma cerveja? —perguntou-lhe.

—Trará o que eu queira que me trouxesse — respondeu o soldado em voz alta, desfrutando de do momento—. Sou Lorde Corische, novo senhor do castelo do Gäestev. Tudo o que há aqui me pertence.

Quando os habitantes do povoado que estavam a seu redor ouviram o que Corische disse, elevou-se uma nuvem de murmúrios com palavras pronunciadas em voz o suficientemente baixa como para que não se entendessem.

Teesha conteve a respiração e baixou o olhar. Tinha passado mais de um ano da morte do anterior senhor vassalo por uma ferida de caça. Em todo aquele tempo não tinham ouvido nenhuma notícia de que tivesse chegado nenhum novo senhor.

—Desculpe minhas maneiras de confiança — disse Teesha—. Não sabia.

—Suas maneiras de confiança são bem recebidos — disse Corische com calma.

A Teesha não parecia o mais remotamente nobre, mas, de todas as maneiras, tampouco havia visto muitos nobres em sua vida. Corische tinha aspecto de ajustar-se com aquelas terras montanhosas, frias e possivelmente cruéis com os incautos. Mas se algum daqueles dois estranhos era um nobre, Teesha tivesse pensado que era seu companheiro.

O chamativo acompanhante do Corische não falava. Até parecia estar longe dali, como se não estivesse escutando sua conversação. Depois de observar à multidão que ali havia, como valorizando possíveis perigos, sentou-se e ignorou tudo o que o rodeava.

—Este é meu homem, Rashed — disse lorde Corische sem fazer nenhum gesto por volta de seu acompanhante—. Vem das terras do deserto ao outro lado do mar e despreza nosso tempo frio, não é assim, Rashed?

—Não, meu senhor — respondeu Rashed como se fora um ritual que tivesse que cumprir.

—Posso lhe trazer uma cerveja, meu senhor? —pergunto-lhe Teesha educadamente, queria uma razão para afastar-se da mesa.

—Não, vim por ti.

A resposta a deixou perplexa e confundida.

—Perdão...

Corische se levantou e se tornou para trás a capa. Tinha a pele pálida

Mas seus ombros e braços se viam fortes sob a armadura.

—Levo já umas quantas noites no povoado, estive-te observando. Tem uma cara agradável. Virá comigo ao castelo e ficará ali enquanto esteja detido aqui. Uns quantos anos, como muito, mas não te faltará de nada.

O medo se fez oco no estômago da Teesha, entretanto, sorriu como se sua petição fora uma simples paquera.

—Bom, acredito que meu marido se poderia opor—disse enquanto se dava a volta para voltar para trabalho.

—Marido? —Os olhos de Lorde Corische olharam além de onde ela estava e se posaram no Edwan, o frágil e fiel Edwan, que estava já em posição para saltar por cima do balcão.

—Não é o momento, meu senhor — lhe disse Rashed com calma.

Passou um comprido momento. Depois Corische lhe fez um gesto de assentimento com a cabeça a Teesha, ficou em pé e partiu sem dizer uma palavra. Rashed também se levantou e o seguiu.

Aquela noite, na cama, Edwan lhe suplicou que recolhesse suas coisas e escapasse com ele.

—aonde? —perguntou-lhe ela.

—Aonde seja. Isto não terminou.

Aquele pequeno povoado do norte era seu lar e bobamente insistiu em que ficassem. Duas noites depois, encontraram a um granjeiro, com o que Edwan tinha discutido pelo preço do grão para o pão, apunhalado detrás da estalagem. Quando os homens de Lorde Corische foram investigar, encontraram uma faca ensangüentada escondido sob a cama do Edwan e Teesha. Rashed estava ali, pelo visto para fiscalizar o procedimento de registro, embora o único que fez foi entrar sentar-se junto à chaminé e esperar. Quando os soldados do Corische tiraram à faca, seus olhos transparentes não deixaram ver nem surpresa nem ira. Simplesmente assentiu levemente e os guardas procederam como se já lhes tivessem dado a ordem.

Teesha estava muito surpreendida para ficar a chorar quando os soldados tiraram seu marido da estalagem arrastado e com grilhões. Teesha viu os olhos do Rashed, e o vazios que estavam à exceção de um pequeno brilho que não pôde ver bem porque se foi em seguida.

Antes que Teesha se pudesse aproximar do Edwan, um terceiro guarda a agarrou pelos braços por atrás. Então entrou na estalagem Lorde Corische e ficou pacientemente em pé diante dela, esperando a que deixasse de resistir.

Pela primeira vez, Teesha começava a acreditar que sua áspera aparência e suas maus maneiras ao falar não eram mais que uma máscara para esconder uma personalidade oculta. Não havia vida em seu rosto, nenhum sentimento.

—O que lhe vai passar? —sussurrou ela.

—Sentenciarão à morte. —Corische fez uma pausa—. A não ser que você venha ao castelo comigo esta noite.

É que ela tinha sido tola ou só uma ingênua? Tinha ouvido histórias na estalagem a respeito dos nobres e seus abusos, como destruíam a vida de outros sem que lhes importasse o mais mínimo. Sempre acreditou que tais histórias não eram mais que exageros.

—Se for com você viverá? —perguntou-lhe.

—Sim.

Não lhe deixou agarrar nada mais que outro vestido. Escoltaram-na da saída até onde estavam dois cavalos zainos sujeitos pelos homens do Corische. Corische montava um e Rashed o outro. Não havia nem rastro do Edwan.

—Rashed é também seu servente agora — disse Corische—. Protegerá-te.

Rashed se inclinou para baixo e a agarrou por debaixo dos braços. Levantou-a e a pôs diante dele como se fora um pergaminho. Apesar de que o horror fez que não se precavesse do que estava acontecendo naquele momento, muitas vezes depois lhe tinha vindo à mente. Aquela noite ainda era Teesha, a garota que servia cervejas, que amava a seu marido e acreditava que a vida eram canções e nabos picantes. Teesha, a garota que servia cervejas que não entendia onde estava seu marido Edwan ou o que era o que lhe estava passando a ele. Sentada de lado sela de montar, recostou-se para trás e se agarrou da jaqueta do Rashed enquanto o cavalo saltava para diante.

O caminho até o castelo do Gäestev durou uma eternidade. Como não levava capa, o frio lhe introduzia pela fina malha do vestido.

Rashed não reconheceu sua presença verbalmente, mas depois de que se estremecesse uma vez, levou as rédeas do cavalo com seus braços sobre os da Teesha para protegê-la do vento. Corische ia diante, com o resto de seus soldados em procissão atrás dele.

E ainda não sabia nada do Edwan. O teriam levado já a alguma cela úmida?

O castelo se erguia ante eles e seu medo passou a ocupar-se de seu próprio destino. Era uma imponente construção em pedra, com uma torre baixa e larga, e uns estábulos e uma casa, para os guardiões, construídos aos lados. Quando Rashed a levantou para baixá-la do cavalo, lhe passou pela cabeça sair correndo, mas não tinha idéia alguma de onde podia ir e também temia o que poderia lhe passar ao Edwan se escapava.

O interior do castelo era tão inóspito e lôbrego como o exterior. Não havia nenhum fogo que lhes desse a bem-vinda e ao amargo vento o substituía um ar frio que gelava os ossos e que estava apanhado entre aqueles muros. Nas paredes não havia nem quadros nem tapeçarias. O chão principal o cobria palha velha. Uns degraus de pedra ao outro lado da parede de dentro levavam ao andar superiores que não se podiam ver. O único mobiliário visível era uma mesa larga e rachada e uma enorme cadeira. Duas pequenas tochas que penduravam da parede contribuíam um pouco de luz.

Lorde Corische não se precaveu de que a Teesha batiam os dentes e passou por seu lado para deixar sua espada sobre a mesa. A luz da tocha fazia que lhe brilhasse a cabeça.

—Ratboy — chamou—. Parko.

O timbre de sua voz se fez mais grave até converter-se em um grunhido de aborrecimento que ressonou nas paredes do castelo. O som de uns passos que corriam e escorregavam escada abaixo fizeram que Teesha inconscientemente se escondesse detrás do Rashed. Dois estranhos homens, ou, mas bem criaturas, entraram na habitação.

O primeiro parecia um moleque de rua, todo coberto de terra mesmos dentes. Bem poderia ter sido um menino ou um homem jovem. Tudo nele era marrom menos sua pele, que Teesha pôde ver pela metade debaixo de toda a imundície. A segunda figura, entretanto, aterrorizou-a imediatamente, inclusive mais que Corische.

Tinha um rosto emagrecido e branco com olhos de besta que brilhavam a luz das tochas e pareciam estar esculpidos no osso. Mechas de cabelo negro sujo lhe penduravam pelas costas por debaixo de um lenço que em um dia deveu ser verde. Entretanto, eram seus movimentos os que mais medo davam a Teesha. Rápido como um animal, entrou a toda velocidade na habitação, saltava dos degraus antes de havê-los tocado. Subiu à mesa e se propulsava com as mãos de uma vez que cheirava o ar.

Seus olhos se giraram para onde ela estava, inclinou-se para o centro da habitação, deteve-se a meio caminho, estirando e girando o pescoço para ver o que era o que havia detrás do Rashed.

—Não esperais para saudar seu senhor? —disse Corische com frieza.

—nos perdoe — disse Ratboy em um tom murcho—. Estávamos preparando a habitação da mulher como você nos disse.

Sua educada voz não deixava transluzir o ódio e as travessuras que mostravam seus olhos. Parko se deixou cair ao chão para ficar de quatro e não se girou para o Corische.

—Mulher — disse Parko de uma vez que assentia.

A insensibilidade em que tinham estado às emoções da Teesha se desvaneceu assim que olhou ao poço ao que a tinham levado. Aqueles eram a espécie de homens que serviam a seu senhor feudal? Onde estavam os fogos? Onde estavam os guardas, os barris de cerveja e a comida?

Rashed deu um passo para diante, e deixou que a vissem. Agachou-se até ficar ao nível ao que se encontrava Parko.

—Não a pode tocar, Parko. Entende-o? Ela não é para ti.

O estranho tom suave surpreendeu a Teesha.

—Mulher — repetiu Parko.

—Não necessita suas advertências — disse Corische de uma vez que se tirava a capa—, e se esquece de seu lugar.

Rashed se levantou e deu um passo para detrás.

—Sim, meu senhor.

Corische se girou para a Teesha.

—Não sou cruel. Pode descansar uma noite ou duas antes de te ocupar de suas tarefas.

—Tarefas? Quais são minhas tarefas?

—Atuar como à senhora do castelo. —Fez uma pausa e riu como se tivesse entendido por fim uma piada difícil de entender. O som fez que a Teesha lhe subisse o jantar à garganta.

—vou ser o senhor daqui — continuou Corische—, devo ter uma senhora, embora seja uma faxineira limpa chãos de botequim como você.

Esse foi o primeiro indício que teve de que Corische não tinha nenhum desejo de exercer como senhor do castelo do Gäestev. À maioria dos senhores feudais lhes atribuíam feudos a modo de presente dos nobres mais ricos que eles mesmos ou de seus próprios senhores feudais. Mas, o que era o que queria Corische dela? Não sabia nada de senhoras ou de brincar a ser nobre. Olhou de novo ao Ratboy e ao Parko confusa. Se Corische se rodeava de criaturas mais baixas para sentir-se importante, então, por que alistou a alguém como Rashed? E por que incomodar-se com uma mulher para que desempenhe o papel de senhora da casa?

Aquela noite a trancaram em uma suja habitação de uma torre e a deixaram ali se estremecendo sem um fogo e com só um fino lençol de flanela maneira a ser uma manta. Ninguém foi ali em todo o dia seguinte, mas de noite, ouviu como abriam o fecho de sua porta e suas emoções se debateram entre o alívio e o terror. Rashed entrou com uma bandeja de chá, um guisado de vitela e pão; também levava uma capa sobre um braço.

—Faz muito frio aqui — disse ela.

—Ponha isto. —estendeu-lhe a capa de uma vez que deixava a bandeja no chão frente a ela—. O castelo é antigo. Não há chaminés, só um fosso para fogueiras na sala principal. Encontrei um pouco de madeira e o acendi. Pode que um pouco de calor suba aqui, mas não baixe ali sem o senhor ou sem mim.

Teesha não era capaz de distinguir se estava sendo amável ou se simplesmente lhe estava dando instruções e ensinando uma norma mais da casa. Deu-se conta de que não importava. Ele era o mais parecido a um amigo naquele horrível lugar. Umas lágrimas não desejadas lhe riscaram as bochechas.

—O que ocorreu a Edwan? —ficou em pé e deu um passo para aproximar-se do Rashed—. O porão logo em liberdade?

Rashed ficou calado um momento, não se movia e tinha o olhar fixo na parede que havia detrás dela.

—Seu marido foi sentenciado a morte esta manhã e foi executado ao entardecer — lhe disse sem que houvesse nenhuma mudança no tom de sua voz.

Rashed se girou para a porta e se preparou para partir.

—Quer te sentar junto ao fogo?

Certa loucura fez cócegas a Teesha no cérebro.

—Se quiser...?—Começou a rir—. Bastardo!

Para nada. Tinha ido a aquele buraco do terror para nada. E Edwan, que se merecia ter uma vida cheia de paz e tranqüilidade mais que ninguém a quem tivesse conhecido em toda sua vida, estava morto, simplesmente porque a um retorcido senhor gostava de sua mulher. Depravada-a comédia se converteu em mais do que podia suportar. A morte era preferível a aquela existência.

Saiu disparada, deixando atrás ao Rashed, correu para baixo pelo estreito corredor. Não sabia se Rashed ia atrás dela enquanto baixava a escada que dava à sala principal. Lorde Corische estava sentado à rachada mesa, escrevendo em um pergaminho com uma pluma. Teesha fez como sim não estivesse ali e correu para as enormes leva de carvalho. Enquanto tentava alcançar o ferrolho de ferro, Parko saltava frente a ela como se saísse do muito mesmo centro da terra, vaiava e absorvia seu aroma. Apartou-se para trás em um ato reflito, mas não se deu a volta, tinha a vista fixa na desgrenhada figura que tinha frente a sim.

—me deixe sair daqui! —ordenou ao Corische. Não ficava nada que ele pudesse tomar nada que lhe importasse, e, portanto já não tinha nenhuma razão para ter medo.

Então viu a enorme barra de ferro que cruzava a porta. Não se tinha dado conta de que estava ali em seu empenho por escapar. Era mais larga que seu próprio braço, e tão grosa e pesada que custava acreditar que uma única pessoa a tivesse levantado para pô-la ali. Era quase seguro que a alguém como lhe resultaria impossível levantá-la por si mesmo.

—Baixa isto — disse ainda dando as costas ao Corische—. Nosso pacto finalizou.

—Rashed pôs essa barra. Até me custaria movê-la. Desfrutaste que seu jantar?

O ódio era uma nova emoção para a Teesha, desorientava-a, e lhe levou um momento poder pensar através da insultante conversa do Corische.

—Se queria uma senhora para sua casa, por que não te buscou uma? Tem medo de que não lhe vão gostar de suas mal educadas maneiras e seus ares de baixo estofo? Não, queria alguém de menor categoria para poder ser seu senhor. —Olhou ao Parko, já não lhe dava medo, e depois viu o Ratboy que estava imóvel no ar em um canto—. Como o resto de sua espantosa e desgraçada máfia.

Ouviu como algo golpeava a mesa com força suficiente como para que se vencesse e se desfizera contra o chão de pedra. Era muito fácil fazê-lo zangar. Bem. Deu-se a volta para olhá-lo e viu uma ira limpa e aberta.

—Vive a minha mercê — disse Corische—, a meu desejo. Que não se esqueça isso.

—A sua mercê? —A loucura de sua risada igualava a dos olhos do Parko—. E o que te faz pensar que viver tenha algo que ver com isto? Você mataste a meu Edwan, e eu não vou fazer nada para te dar agradar. Entende-me agora? Não vou adornar nem honrar sua mesa com minha presença, não vou entreter a suas hóspedes e muito menos vou fazer nada que deseje. Tentarei escapar todos e cada um dos dias que passe aqui, até que o obtenha, ou até que te canse e me mate.

Corische, em silêncio, parecia perplexo.

Teesha só piscou uma vez, em reflexão, e ele já tinha cruzado a sala e estava junto a ela.

Alargou uma mão e a agarrou pelo braço. Seu aroma de rançoso a enchia de repulsão, mas a apertou tanto que não pôde evitar dar um grito.

—Você vais fazer o que eu te diga — vaiou—. Aqui eu sou o senhor. Este castelo pode que não seja mais que um patético barracão, mas eu sigo sendo o senhor e você me vais obedecer.

—Não — gemeu ela—. Você assassinou a meu Edwan.

Corische varreu o chão com um pé e tirou com ele a palha, para descobrir um alçapão de madeira com um aro de ferro. Antes que Teesha se pudesse resistir, Corische tinha levantado o alçapão e a tinha atirado pela abertura.

Teesha esperava cair diretamente para baixo, mas em seu lugar foi dando tropicões por uns degraus de madeira na escuridão. Quando por fim chegou ao fundo, golpeou-se a cabeça contra o chão de pedra de maneira que não pôde nem ver a meia luz que chegava do alçapão aberta. Um ruído surdo ressonou na câmara quando fecharam a alçapão e a deixaram na mais absoluta escuridão.

Sentou-se e se apalpou os membros em busca de lesões maiores que hematomas e arranhões. Ao menos se encontrava afastada dele no momento.

Um grunhido selvagem saiu da escuridão.

—Fará o que queira que eu te peça — disse uma voz—, porque não poderá evitá-lo.

Corische tinha baixado atrás dela e estava em algum lugar daquela escura câmara.

Teesha se afastou de sua voz. Encontrou o último degrau da escada e se deu a volta para subir até a alçapão. Algo se enredou com seu cabelo e puxou ela para trás. Sentiu como uns dedos a apertavam, justo antes que lhe golpeassem com força a cabeça contra o chão.

Não estava segura de se tinha perdido a consciência durante alguns minutos, mas sim notou que alguém grande estava sobre ela e a mantinha sujeita contra o chão. O aroma do fôlego de Corische lhe deu na cara. Ainda tinha a mão em seu cabelo e o fazia dano ao puxar de sua cabeça para trás. Tentou desfazer-se dele e gritou instintivamente. Seu grito se cortou em seco assim que sentiu uns dentes caninos que lhe mordiam o pescoço.

Teesha conteve o fôlego presa do pânico, perguntava-se de onde teria saído o animal e ficou rígida do susto ao dar-se conta de que era o próprio Corische. Começou-lhe a custar mais e mais agarrar ar conforme lhe ouvia lhe chupar o sangue com os dentes. Enquanto seguia bebendo, a escuridão que a rodeava começou a lhe arder na pele, à cabeça lhe dava voltas como se estivesse na água, suas respirações eram cada vez mais curtas, até que quase não pôde sentir como o ar entrava e saía de sua flácida boca.

De repente, Corische se separou dela, e resfolegou uma grande baforada de ar antes de sentir como arrastavam ela e a sentavam. Corische seguia lhe segurando os braços a ambos os lados do corpo. Tinha suas duas mãos na nuca da Teesha e lhe incrustou a cabeça em seu peito.

O fedor lhe provocou arcadas, mas sua pele estava geada. Além disso, havia algo úmido que lhe escorregava pela pele.

Teesha abriu a boca, tentava respirar por todos os meios, e a umidade se estendeu por seus lábios. Um sabor a cobre chegou à língua. O líquido estava igual de frio que sua pele, mas Teesha ainda foi capaz de reconhecer o sabor das vezes em que se cortou um dedo enquanto preparava algo de comer na cozinha da estalagem, e se tinha levado a pequena ferida à boca para tentar parar as gotas de sangue.

Corische lhe apertou ainda mais a cabeça contra seu peito até que já não pôde respirar absolutamente, só sentir e saborear o pouco de seu sangue que lhe chegava à boca. Todas e cada uma das sensações da escuridão se voltaram irreais e distantes, até que todas as sensações de seu corpo se desvaneceram de uma vez que se deteve sua respiração.

Teesha despertou no chão de pedra na escuridão. Tinham passado horas ou dias? Parecia... De algum jeito parecia que tinha sido inclusive mais tempo. Havia luz na sala, embora a alçapão não estivesse aberta. Rashed se ajoelhou sobre ela com um pequeno abajur de azeite na mão. Algo piscou em seus frios rasgos. Pena? Arrependimento? Sentou-se e olhou com ansiedade a seu redor, mas não havia nem rastro do Corische. Havia uma pesada porta de madeira na parede que havia frente às escadas e levavam ao alçapão. À exceção disso, a sala estava vazia.

Rashed ficou em pé e abriu a porta para mostrar um corredor comprido que se inclinava para baixo, para o interior da terra. Ao longo de suas laterais havia outras portas como a primeira, todas com um ferrolho a um lado, mas também com aros de aço nas ombreiras para poder fechá-la também com um cadeado.

—Isto estava acostumado a ser algum tipo de masmorra — disse Rashed.

Teesha estava muito fraca e confundida para questionar ou objetar quando a agarrou em braços, lanterna ainda em mão, e a levou pelo corredor. Não se parou em nenhuma das portas, mas sim seguiu caminhando até o final do passadiço e pôs sua mão livre com firmeza contra a parede do fundo, sempre com cuidado de não deixá-la cair. A pedra sob sua mão cedeu e se afundou na parede e ele colocou a mão em um bolso oculto do espaço.

Teesha ouviu algo muito similar ao chiado do metal, e depois o da pedra, quando o final do corredor articulado para revelar umas escadas que baixavam ainda mais. Rashed se deslizou entre as paredes e baixou.

Caminhou e caminhou até que finalmente chegou a uma última câmara. Nela não havia mais que cinco caixões. Quatro deles eram muito singelos, não mais que umas simples caixas de madeira, enquanto que o quinto parecia ser feito de forte carvalho com detalhes em ferro, fabricado para o descanso final, embora não tinha asas aos lados da tampa.

—Aqui é onde deve dormir agora — lhe disse Rashed—, em um caixão com a terra de seu lugar de origem. Se sair à luz do sol morrerá. —deitou-a em um dos caixões de madeira—. Descansará aqui, perto do meu. Eu mesmo o preparei para ti.

E então Teesha, a despreocupada taberneira, desapareceu e outra coisa nasceu em seu lugar.

Ao longo das noites seguintes aprendeu muitas coisas: não podia negar-se aos desejos de seu senhor, que necessitava o sangue para viver, que o caixão do Rashed estava meio cheio de areia branca e que estava não morta. Rashed lhe ensinou tudo com sua infinita e desapaixonada paciência, e apesar de que às vezes desejava estar morta de verdade, o ódio que sentia pelo Corische fazia que se levantasse cada entardecer.

Corische era mais que o senhor do castelo. Era um senhor entre os mortos nobres, aqueles seres entre os não-mortos que conservavam sua aparência totalmente para toda sua eterna existência que não podia sucumbir ante a morte, o que fazia dos mortais uns seres débeis e que podiam envelhecer. Eram os vampiros e os liches os que possuíam corpo físico, suas próprias lembranças e sua própria consciência. Os mortos nobres eram os mais poderosos e os de mais alto status entre os não-mortos. A única debilidade para os vampiros, entretanto, consistia em que eram escravos daquele que os criou. O senhor do Corische, seu próprio criador, tinha sido destruído de algum jeito, por isso ele era livre para criar seus próprios serventes. Teesha se deu conta de que quando verbalizava uma ordem não podia negar-se. Em seu foro interno podia desprezá-lo, fantasiar vendo-o envolto em chamas e pensar tudo o que quisesse. Mas quando ele falava, não podia evitar obedecer-lhe. Tampouco podiam nem Rashed, nem Parko nem Ratboy, mas tampouco é que Rashed se houvesse oposto, de todas as maneiras. O alto e sereno guerreiro parecia sinceramente leal a seu senhor. Isso fazia que Teesha se rebelasse, pois Rashed era claramente superior ao Corische a todos os níveis que se pudessem imaginar.

Rashed lhe ensinou como alimentar-se sem matar, a harmonizar o rasgado de sua voz com a execução de sua vontade até que a vítima voltasse-se maleável e dócil.

Quando perguntou ao Rashed por que lhe importavam tão quão mortais não queria matá-los, sua resposta foi fria e prática.

—Inclusive uma zona muito populosa como esta não pode suportar a quatro de nós. Temos que tomar cuidado se não querermos perder nossa casa e nossa fonte de alimento.

Com o tempo entendeu que os de sua classe desenvolviam diferentes níveis de poder. Rashed pensava que as habilidades mentais da Teesha eram muito pronunciadas. As suas próprias e as do Ratboy eram adequadas. Parko não era capaz de expressá-lo suficientemente bem como para que outros pudessem avaliar suas habilidades, embora seus sentidos fossem muito agudos, inclusive mais que os de por si acentuados sentidos dos mortos nobres, e era sempre uma provocação para o Rashed o poder controlá-lo. As destrezas telepáticas do Corische eram tão limitadas que Teesha às vezes se perguntava como podia alimentar-se.

A maioria dos mortos nobres desenvolviam habilidades mentais, mas estas freqüentemente dependiam das inclinações do indivíduo em vida. A Teesha sempre tinham gostado dos sonhos e as lembranças, já que sua vida tinha estado cheia do melhor de ambos, e ao final se deu conta de que podia entrar na mente de um mortal com muita facilidade e projetar nela doces sonhos acordados e alterar suas memórias.

A primeira vez que Rashed a levou a caçar foi toda uma revelação. Montaram juntos em seu cavalo zaino durante um bom momento e depois desmontaram e o ataram a uma árvore. Deslizaram-se através do bosque, e se deu conta de que estavam escondidos entre as sombras dos subúrbios de seu povoado natal. Um granjeiro saiu do botequim e entrou entre as árvores para aliviar-se. Teesha o reconheceu. Chamava-se Davish.

—me olhe —disse Rashed— Isto é importante.

Rashed saiu de entre as sombras.

—Está perdido? —perguntou ao Davish.

O granjeiro começou a responder para ouvir o som de uma voz estranha, depois olhou ao Rashed aos olhos e pareceu relaxar-se em uma espécie de confusão.

—Perdido? Eu? Não estou seguro.

—Vêem. Ajudarei-te a chegar a casa.

Davish parecia estar assustado, mas não do Rashed. Olhava a seu redor como se devesse saber onde estava, mas não soubesse. Rashed alargou a mão como se fora a lhe ajudar, mas lhe agarrou o braço, puxou a ele e, sem perder o tempo, mordeu-lhe o pescoço diretamente. Teesha o olhava fascinado.

Rashed não bebeu muito e empurrou ao aturdido para ela.

—te alimente, mas não muito. Não deve matá-lo. Fará você sozinha muito em breve.

Teesha agarrou ao Davish e começou a alimentar-se, não era capaz de parar, e se surpreendeu do correto que lhe pareceu o ato de alimentar-se em si. Não lhe resultava repulsivo absolutamente. Depois se deu conta de quão deliciosa sabia seu sangue, o cálida que era o forte que se sentia ela. Não podia parar.

—É suficiente. —Rashed a separou—. Não o mate. —Deixou ao Davish estendido no chão e depois com uma faca conectou os dois buracos que lhe tinha feito com os dentes, mas o fez com supremo cuidado e o corte não era muito profundo. Inclinou-se sobre ele e sussurrou:

—Esquece.

—O que há feito? —perguntou-lhe Teesha.

—Simplesmente te mete em seus pensamentos com os teus próprios. Forças que o medo, o momento e a emoção desapareçam que se desvaneçam.

E assim aprendeu que Rashed era capaz de manipular emoções, capaz de criar um espaço em branco na memória da vítima. A própria Teesha aprendeu a criar sonhos e manipular lembranças mais complexas. Ratboy, pelo contrário, caçava com sua habilidade para mesclar-se com o entorno. Ninguém se dava conta de que ele estava presente. Ninguém se lembrava dele. Ele não caçava com fineza nem criando sonhos, ele era capaz de alimentar-se intensificando mentalmente sua habilidade inata de ser esquecido. Isso era tudo.

Parko matava a suas vítimas muito freqüentemente, mas em sua maioria eram camponeses. Como senhor do castelo do Gäestev, Corische era responsável por ocupar-se daquelas mortes assim, é obvio, investigavam-se muito pouco.

Teesha caçava ou ela sozinha ou com o Rashed. Sua reflexão prévia e suas consistentes maneiras racionais a impressionavam. Não é que fora exatamente adivinhado, o que o teria convertido em alguém mundano, mais que isso era constante. Sua natureza tranqüila e inteligente era o único com o que podia contar nesta nova existência além de consigo mesma.

Corische, pelo contrário, tinha mudanças de humor que ela não conseguiu entender nunca. Uma noite sua eleição de vestido o agradava e de noite seguinte o mesmo vestido lhe desagradava e lhe dava a desculpa perfeita para humilhá-la. A sujeira de sua armadura, que nunca lavava, e seus dentes amarelados causavam um profundo asco a Teesha. O ódio autêntico era uma emoção totalmente nova para ela, e por isso, não se perguntava quanto tempo lhe consumia. Começou a fazer-se perguntas a respeito da natureza do controle que ele exercia sobre ela e a considerar como podia forçá-la a ela a obedecer a seu mestre e de uma vez frustrá-lo. Como só se via obrigada a obedecer-lhe quando lhe dava uma ordem verbalmente, a única possibilidade parecia ser um enfoque mais sutil. Levou-lhe um mês dar com a resposta, mas ao final era bastante simples.

Teesha ia se converter exatamente no que ele dizia querer que fora.

Tinha passado meio ano e ao princípio Teesha só fazia pequenas mudanças. Começou a bordar e pagou a uma mulher do povoado para que fora três vezes por semana a lhe ensinar. Pedia - dinheiro ao Corische e se mandava fazer finos vestidos dos estilos que mais lhe estavam acostumados a gostar a ele. E ele começou a deleitar-se ligeiramente com seus esforços.

Como seu senhor se fazia passar por um senhor feudal, não podia ignorar completamente seus deveres. Uma grande parte dos benefícios das terras ficavam em seu bolso, por isso compilava aluguéis e às vezes julgava a quão camponeses eram acusados de roubos menores. Mas naquele primeiro ano, construiu uns novos barracões no norte do castelo e depois proibiu todos os soldados entrassem em seu lar. Um soldado de media idade e bastante competente chamado capitão Smythe, junto com o Rashed, ocupava-se dos típicos trabalhos que estava acostumado a suportar um feudo de quatro povoados.

Uma noite, quando Corische e Rashed foram partir para compilar aluguéis, Teesha viu como Rashed levantava a barra de ferro da porta. Era a pessoa fisicamente mais forte que tinha visto em toda sua vida, uma encarnação imortal de músculo e osso. Mas também tinha começado a ver através de sua fria e quase total falta de paixão, quando o via olhar com atenção algum de seus bordados ou as pequenas coisas que ela tinha ordenado para fazer daquele inóspito castelo um lar de nobre. Rashed estava ávido das cerimônias dos vivos. Ela não via que isso fora algo do que envergonhar-se, e sabia que podia utilizar essa avidez em seu próprio benefício. Aquela noite Teesha decidiu acelerar seus planos.

Primeiro, contratou a um encarregado da casa para limpar todas as habitações do porão e lhe deixou acreditar que eram uns nobres vagos que se dedicavam a suas perversões de noite e dormiam todo o dia. Ordenou tapeçarias, tapetes trancados, roupa de cama de musselina para os dois dormitórios de convidados, um candelabro com quarenta velas, taças de prata e pratos de porcelana. Cada noite acendia um grande fogo no poço para criar ilusão de vida e calor. Apesar de que se dizia que tudo aquilo não era mais que uma mutreta para o benefício do Corische, começou a ver capas de sua própria personalidade que não tinha visto alguma vez. Não eram o bom gosto e o estilo destrezas adquiridas que os ricos ensinavam a seus filhos? Não era isso o que sempre tinha acreditado? Antes, no botequim com o Edwan, a Teesha não importava nada que não fora o calor, o amor e a amizade dos outros. Levava um vestido no inverno e outro no verão. Por que alguma vez lhe tinha importado nada disto? Por que alguma vez tinha visto quantas coisas mais havia para desejar? Odiava ao Corische, mas uma parte dela apreciava como sua maldição lhe tinha aberto os olhos.

Corische via com uma crescente satisfação arrogante como dia atrás de dia, ela se metia mais e mais no papel que ele esperava dela. E ela via como crescia a fascinação do Rashed enquanto o frio castelo se transformava em um lugar com vida. Inclusive se deu conta de que tirava certo prazer de agradá-lo. E ele era o único com o que se entretinha a agradar.

A final, Corische deixou de dar-se conta de todas as coisas que ela fazia. Ela fazia o que ele queria e ele apenas se o comentava Rashed, pelo contrário, não podia esconder sua crescente aprovação, o que se deixava ver eliminando a séria frieza de seu rosto durante uns poucos instantes. Às vezes lhe perguntava onde tinha encontrado a última tapeçaria ou como ia utilizar um vaso de forma estranha. Uma vez lhe fez um completo ao desenho que estava bordando em uma almofada.

Então, uma noite, já tarde, quando Corische tinha saído, deslizou-se até a planta de abaixo e viu que Rashed estava ali só e não se precaveu de sua presença. Na mesa havia um maço que continha uma nova malha que ela tinha ordenado e ele estava tentando olhar dentro sem deixar rastro de que o tinha inspecionado.

Por um momento, Teesha se esqueceu do lugar que Rashed ocupava em seus ainda não terminados planos e ficou ali hipnotizada por sua estranha obsessão com as cerimônias que rodeavam aos mortais. Uma esquecida suavidade a encheu por um momento enquanto o olhava. A luz do fogo quase chegava a lhe dar cor a seu rosto, e estava tão atrativo de pé ao lado da mesa, e tão cheio de curiosidade como um menino a respeito de seu maço. Então se recordou a si mesmo o que estava planejando e se sacudiu a sensação. Devia pensar nele como em uma ferramenta. Ele seria seu instrumento, e não podia deixar que a emoção evitasse que o utilizasse.

Um mês depois, Corische começou a ter convidados ao castelo, ao princípio somente algum senhor de um feudo vizinho, e depois alguns mais já que as visitas eram um êxito. Teesha podia ver que perseguia melhorar sua posição social e subir na política mortal. Depois de que terminasse o ano, ela tinha progredido em seus estudos utilizando as contas da casa que Corische tinha posto ao seu dispor para ordenar pergaminhos e livros.

Ela sozinha estudou história e línguas. Lorde Corische sabia que estava tentando melhorar e não interferia, mas tampouco se tomava um interesse ativo, mas sim parecia afastar-se timidamente cada vez que a via enfrascada em algum livro. Entretanto, Rashed aprovava abertamente seus esforços e, para sua surpresa, começou-lhe a ensinar matemática e astronomia. Não mostrava muito interesse pela maioria de seus livros, mas aparentemente era muito culto, ensinava-lhe de cor. Era o máximo que tinha obtido saber de suas origens em algum lugar das terras do grande deserto às que se referia como o Império Sumano. Sua habilidade e interesse nas atividades acadêmicas lhe davam mais raciocine para apreciar sua nova vida, podia chamá-la vida? Havia muitíssimo que aprender, estudar e absorver, algo no que nunca antes tinha pensado. Nunca tinha sabido que nada existisse além de seu mundo de nabos picantes e Edwan. Que gracioso, que triste.

Apesar de que Teesha estudava astronomia e línguas com grande diligencia, apenas se conseguiu saber algo sobre o resto dos membros daquele lar. Conforme ia passando o tempo, cada vez ia sendo mais difícil falar com o Parko. Pelo general, estava acostumado a sair pelas noites e só aparecia quando Corische exigia sua presença para algo. Parecia ter um sexto sentido para saber quando seu senhor ia solicitar sua presença. Pelo contrário, Ratboy tinha a irritante mania de aparecer de repente de qualquer canto escura cada vez que gostava. Teesha o surpreendeu olhando-a com interesse em várias ocasiões, embora se desse à volta e partia com um enorme desinteresse ao ser descoberto. Sempre se mostrava educado, embora aborrecido e desinteressado, algo do que Teesha tomou boa nota.

Com o passar do segundo ano começou a fazer das visitas um evento regular na casa, ao menos uma vez ao mês.

O terceiro ano, uma caravana atravessou o povoado. Deu-se muita pressa, cedo depois do anoitecer, para comprar uma peça grande de brocado, bordões escuro e rico com fio de prata, antes que os vendedores fechassem seus postos de noite. Durante o mês seguinte esteve trabalhando em segredo para lhe costurar ao Rashed uma deliciosa jaqueta. Terminou-a uma noite cedo e se sentou a esperá-lo na sala principal, sabendo que em algum momento ficaria sozinho, como sempre.

—Toma — disse—. Pensei que não te viria mal algo novo em seu limitado guarda-roupa.

Não lhe respondeu quando lhe estendeu o tecido Colheu-o com um muito leve gesto de desconcerto em sua sobrancelha esquerda e, sem perder o tempo, desatou o pano de musselina para revelar a jaqueta.

Rashed olhou a Teesha com rapidez, e depois voltou a olhar a jaqueta, detendo-se nela um bom momento. Não lhe disse nada quando se deu a volta, mas lhe tremiam um pouco as mãos enquanto a dobrava com supremo cuidado e a voltava a envolver no pano de musselina para dirigir-se a sua habitação. Até muito depois aquele mesmo ano, Teesha não se deu conta da razão pela que não a tinha posto imediatamente. Só a punha nas excepcionais ocasione nas que se esperava que tivesse sua melhor aparência para os convidados, e quando assim o fazia mostrava um cuidado extremo em que nada lhe causasse nem a mais mínima mancha ou dano à delicada malha.

Entretanto, aquela noite Teesha se sentiu satisfeita quando Rashed desapareceu corredor abaixo com seu presente nas mãos. Ele se acreditava muito reservado, mas para ela era tão fácil lhe ler o pensamento. Disse-se a si mesmo que o presente não era mais que outro meio do ter ainda mais de sua parte. Mas parecia haver gostado de muito, verdade?

Levou-lhe um momento, distraída como estava com o Rashed, dar-se conta de que uns olhos a estavam vigiando. Girou a cabeça com cuidado com a esperança de ver o Ratboy espiando do canto outra vez, mas não podia estar mais equivocada.

A visão tivesse feito que qualquer, incluídos os convidados que habitavam sua mesma casa naquele momento desse um salto para retroceder, mas não Teesha. Ficou gelada, incapaz de falar, e pode que por um momento tivesse medo. Seu olhar se tornou triste e desamparada como se houvessem lhe tornado a romper o coração. Não derramou lágrima alguma, já que os mortos não tinham a capacidade de chorar. Tentou falar três vezes, mas não o conseguiu e caminhou torpemente até o centro da habitação onde se deteve em seco. Por fim um sorriso apareceu em seus lábios.

Edwan estava ao pé da escada em sua espantosa forma transparente.

Pode que tivesse estado vivendo um pesadelo durante tanto tempo que o fato de ver o fantasma de seu defunto marido não lhe resultou traumático absolutamente. Pode que a morte lhe resultasse algo tão íntimo que não lhe repugnasse seu rosto. Seu sorriso se fez maior e cortou em seco uma risada de alívio.

—Quanto tempo leva aqui? —perguntou-lhe.

—Desde... O princípio — disse Edwan, apesar de que o movimento de seus lábios torcidos falando da cabeça parcialmente seccionada e apoiada em seu ombro não coincidisse com o som—. Vi... O que te fez.

O sorriso da Teesha desapareceu.

—E me deixou sozinha?

A linguagem parecia lhe custar muito trabalho, mas Teesha ainda podia ler em seu rosto, familiar apesar do pálido e falto de sangue que estava.

—Não estiveste sozinha — lhe disse com tom quase petulante, sua fala se fazia cada vez mais clara—. Dava-me medo me deixar ver. Vivo no momento de minha morte. —Girou todo seu corpo, já que não podia girar a cabeça e era a única maneira de apartar seus olhos, que estava fechando, dela.

Teesha se aproximou dele enquanto olhava a seu redor rapidamente para comprovar que não houvesse ninguém que os estivesse olhando. Alargou a mão para tocá-lo, mas sua mão o atravessou sem a mais mínima sensação em sua pele. Edwan abriu os olhos.

—Para mim é formoso — lhe disse, e de verdade o sentia.

—Então vai deste lugar. Estou unido a ti, e se vai posso te seguir.

Teesha estava atônita.

—Edwan, não me posso ir, estou atada a meu senhor.

—Por isso é pelo que trocaste? Por isso te esforça em te arrumar e em arrumar este lugar para ele?

Por um momento, Teesha pensou que falava do Corische, e então captou um leve movimento dos olhos do Edwan para onde antes tinha estado Rashed fazia só um momento. Não era capaz de encontrar maneira alguma para lhe fazer entender que os anos tinham passado. Não havia muito tempo antes que viesse alguém e o descobrisse, por isso o reconfortou com palavras suaves.

—Seremos livres, meu Edwan. Planejei-o tudo.

Passou outro ano mais. Às vezes Teesha podia sentir ao Edwan perto, inclusive quando havia outros pressente. Nenhum deles parecia dar-se conta da presença do espírito, só ela. Teesha estudava muito e não deixava passar a oportunidade de fazer algo amável pelo Rashed. Comprou umas pranchas especiais para esquentá-las e se fazer cachos elaborados antes de recolher o cabelo. Seus vestidos se fizeram mais escuros e mais singelos, mas de uma vez mais elegantes. Alguma vez Rashed chamava a sua porta e a encontrava arrumando-se ou provando-se algum vestido novo. Depois de que se partiu, Edwan estava acostumado a aparecer em estado de agitação muito pouco dissimulado e Teesha o fazia um pequeno desfile e lhe contava o muito que tinha trabalhado e o pouco que ficava para que partissem dali. Não se permitia a si mesmo regozijar-se no fato de que a opinião do Rashed era a única que lhe importava quanto a seus vestidos.

Durante aquela fase, não teve muita relação com o senhor. Nunca a tocou e estranha vez procurava estar em sua companhia a não ser que tivessem visita. Inclusive deixou de deleitar-se com sua obediência e simplesmente a dava por feita, como fazia com o Rashed. Então, uma noite, Corische convidou a seis senhores do sul da Stravina a comer faisão assado e vinho encorpado.

Tanto Corische como Teesha tinha aprendido muito bem a fazer como que comiam. Consumir comida não era impossível para os mortos. Simplesmente não lhes contribuía nada substancial, e só a comida crua, em particular as frutas frescas, tinham algum sabor para eles. A carne cozinhada estava desanimada e lhes era quase repugnante. O vinho pelo menos era passível, às vezes inclusive prazenteiro.

Enquanto Corische tentava atrair a atenção de um dos nobres; para uma deliciosa tapeçaria que Teesha tinha ordenado do Belaski, ela o interrompeu com muita educação e lhe fez uma pergunta ao cavalheiro. Fez-la na antiga e pouco conhecida língua estraviniana, que solo falavam uns quantos nobres que tinham muito tempo livre e uma opinião de sua linhagem muito elevada. Era-lhe muito fácil captar os pensamentos superficiais da mente do nobre para aperfeiçoar seu acento para quando teve terminado a primeira frase.

O nobre lhe sorriu encantado de uma vez que deixava seu copo na mesa para lhe responder. Todos os presentes na mesa de repente começaram a conversar avidamente na língua quase morta, todos menos, é obvio Lorde Corische. Ao princípio permaneceu ali sentado com um desconforto medeia, pode que um pouco nervoso por não ter nem a menor idéia a respeito do que se estava dizendo a seu redor, mas então Teesha lhe interceptou o olhar.

Teesha o olhou com todo o desdém que tinha amassado ao longo dos anos que tinha passado com ele e o tirou tudo pelos olhos para que lhe caísse em cima como uma corrente.

Corische por fim o entendeu e seu desconforto se transformou em uma ira logo que contida. Teesha sentiu a primeira dentada de satisfação, uma mescla única de triunfo e vingança. A culminação de seu plano estava já muito perto.

Pouco antes do amanhecer, depois de que todos os convidados estivessem na cama, para sua segurança, Corische a encontrou ao lado do fogo. Ultimamente o nobre tinha começado a vestir-se da mesma maneira que Rashed e levava umas bombachas bem costuradas e uma jaqueta laranja escuro; tinha abandonado a cota de malha.

—Não deve esquecer seu lugar, minha senhora — disse com sarcasmo—. Desgostei-me muito no jantar.

—De verdade? —Teesha levantou umas sobrancelhas perfeitamente depiladas e observou como Corische olhava seu decote camisola negra e seu cabelo cor chocolate recolhido em uma trança — isso é porque não é um nobre e não pôde compartilhar nossa conversação. Nem sequer é antigo. —Teesha manteve um tom uniforme e educado—. Sei que Rashed acredita que é velho, mas é muito fácil enganar a alguém que tem tão bom coração. O que foi em vida, meu senhor? Um mercenário? Um guarda de caravanas? Como escapou de seu próprio senhor?

Sua provocação conseguiu dar no branco, e Corische deu um passo atrás e disse com voz iracunda:

—Não ousará me falar nesse tom.

—Sim, meu senhor.

Teesha não podia desobedecer-lhe, mas a partir de então, ia desprezar o abertamente,

Ao Corische levou algo mais de tempo dar-se conta daquilo no que se converteu Teesha, e por isso, começou a perder a satisfação. Mais freqüentemente do que era desejável, a frustração que sentia fazia que se comportasse como um valentão sem maneiras. Teesha, já uma nobre em tudo o que importava naquele momento, fazia que ele parecesse ordinário, tosco e de baixa categoria quando os via juntos. Por muito que se esforçava, não conseguia ficar ao nível ao que ela tinha chegado atrás de vários anos de treinar-se, enquanto ele desempenhava seu cargo como um soldado sem educação. Corische reagia com ira e a ameaçava até que a submetia, coisa que ela fazia à perfeição já que sabia que isso o esquentava ainda mais. Se ela se transformasse e voltasse a vestir-se e atuar como Teesha a taberneira, como reagiriam seus conhecidos? Ela era quão único tinha para manter sua posição na sociedade.

Corische trocou de tática e começou desde zero. Primeiro vieram às adulações sussurradas ao ouvido em festas à vista dos convidados, assim todos viam seu entusiasmo e a repulsão dela, mesclada com um bom toque de medo. Depois chegaram os presentes, como um colar de pérolas com forma de pétalas que lhe deu de presente em uma festa de férias que deu um senhor vizinho. Teesha fez um gesto de dor e se estremeceu quando ele o pôs ao redor do pescoço, seus olhos pareciam os de uma lebre que escapa de seu caçador. E por fim, e uma só vez, Corische tentou lhe confessar, em privado, o muito que se tinha afeiçoado com ela e o muito que a admirava, mas lhe respondeu com expressão fria e plaina.

Corische começou a sair à largas caçadas, às vezes permanecia fora toda a noite e retornava a casa ao romper o alvorada.

Se Teesha sentia a menos tristeza por sua existência, só concernia ao Edwan, quem observava desde algum lugar sem que o vissem. Mas Teesha escondia muito bem seus sentimentos, sobre tudo quando começou a jogar a sério com o Rashed.

Para então, não era nenhum secreto para ninguém do castelo que Rashed a adorava como um cavalheiro. Apesar das desapaixonadas maneiras dele, Teesha o tinha obtido. Costurava-lhe roupas de boa qualidade, reconfortava-o com palavras amáveis e se ocupava de trabalhos mais mundanos como de sua roupa suja. Teesha se ocupava de pôr as necessidades do primeiro Rashed. Para dar um passo mais no processo, começou a falar com ele quando se estava ocupando das contas e lhe punha uma de suas pequenas mãos no ombro enquanto lhe falava. Como sempre, tentava não pensar no firmes que sentia os músculos de seus ombros e se recordava a si mesmo que não era mais que uma ferramenta. Quando Teesha ficava sozinha de novo, Edwan aparecia na habitação, à beira do desespero.

—por que faz isto?

—Fazer o que?

—Seduzir ao homem do deserto.

—Necessitamo-lo, Edwan. —Falava com calma e sem emoção, sem ira ou pena—. Posso eu lhe cravar uma estaca no coração ao Corische? Você pode? Pode levantar a barra das portas?

Seu marido gemeu e se desvaneceu em um brilho. Ela sentia lhe causar dor, mas a situação assim o pedia. Necessitavam a Rashed.

A noite seguinte, seu senhor se levantou e abandonou a casa assim que o sol se ocultou por completo. Teesha se sentou ao lado do fogo e ficou a costurar. Quando Rashed entrou na sala, lhe sorriu. Ele assentiu com a cabeça, deu-se a volta para partir, mas se deteve.

—O que faz? —perguntou-lhe Rashed.

— Um acessório para mesa.

Rashed negou com a cabeça de uma vez que se aproximou para colocar-se frente a ela, sabia que ela entendia muito bem o que queria lhe dizer.

—Sei que despreza ao Corische. Mas há aspectos deles que não conhece. É glorioso na batalha. Aí é onde reside seu poder.

—É por isso que o seguiu?

Rashed a olhou, por fim podia ter alguma suspeita.

—De verdade que quer ouvir isto? Pensava que o passado te importava bem pouco.

—Determinados aspectos do passado são bastante importantes para mim. Eu gostaria de saber como alguém como você se converteu no escravo de uma criatura de pouca categoria, que não é merecedor nem de ajoelhar-se a seus pés.

Surpreso pela crueldade das palavras da Teesha, Rashed se passeou um momento, sua cara mostrava sua perplexidade.

—Eu estava lutando ao oeste do IL'Mauy Meyauh, um dos reinos do Império Sumano, ao outro lado do mar. Minha gente estava em guerra com um grupo das tribos livres do deserto. Não sei de onde veio Corische, só sei que seu próprio mestre morreu por acidente durante um incêndio. Naquele momento não o entendi, mas agora me pergunto como um dos nossos pode sofrer um acidente. Uma vez livre Corische quis assegurar-se a si mesmo fazendo-se com um grupo de serventes. Foi muito cuidadoso e só escolheu a homens muito fáceis de controlar, como Ratboy... E Parko, meu irmão.

»Uma noite, Parko desapareceu de nosso acampamento. Segui-lhe a pista e cheguei até o Corische. Lutamos. Inclusive como um simples mortal fiz que ganhasse sua vitória. Ao final, atravessou-me o coração. Enquanto me estava sangrando até morrer, fez-me uma oferta. Naquele momento, no único em que podia pensar era em que Parko não ia poder seguir adiante sem mim. Um pensamento estúpido e estranho. Quando despertei, já era um mais dos serventes do Corische. Apoderou-se de minha herança e nos obrigou a viajar para o norte. Cruzamos o mar até o Belaski. Na Stravina se fez vassalo de um poderoso senhor feudal mortal. O senhor e eu nos distinguimos na batalha para ele. Em uns escassos cinco anos nos mandaram aqui, ao castelo do Gäestev. Depois da calidez do sul, este sítio era como um cárcere gelada até que...

—Até que vim eu e o deixei bonito? —Teesha lhe terminou a frase quase com picardia.

Rashed assentiu em silêncio.

Teesha pôde observar como Rashed voltava a cair no alívio que tinha ido ganho segundo ela ia fazendo mudanças no castelo, mas esta vez não lhe ia permitir esse descanso.

—Este não é nosso lar — vaiou Teesha, e Rashed deu um passo atrás surpreso pela mudança de tom—. Não importa quantas mudanças tenha feito eu a este lugar, segue sendo seu lar Nós apenas se existirmos aqui. E isso é tudo o que jamais teremos!

Rashed a olhou durante um tempo mais comprido que qualquer silêncio que Teesha pudesse recordar ente duas pessoas. Seus olhos já não tinham nem rastro de suspeita. Rashed estava confuso e os desejos que Teesha tinha estado alimentando lentamente começaram a aflorar.

—O que quereria que fizéssemos? —perguntou-lhe por fim.

—partir. Ir ao sudoeste à costa e criar nosso próprio lar.

—Já sabe que não podemos — lhe disse Rashed com suavidade—. Sempre será nosso senhor.

—Não se estiver morto... Morto por fim.

Então foi o turno do Rashed para trocar sua conduta, sua voz se tornou fria, muito baixa, quase feroz.

—Não diga essas coisas. —deixou-se cair no banco sem apartar os olhos dela. Mas trocou o olhar e a passeou por todo seu entorno como se esperasse que Corische aparecesse pela porta em qualquer momento.

—por que não? É verdade — lhe respondeu Teesha—. Você lhe serve, mas eu vejo a ira que há baixo essa máscara de frieza que leva. Comprou-lhe a ascensão ao poder com o dinheiro de sua família e suas próprias habilidades. E ainda te trata, trata a todos, como se fôssemos uma propriedade, nada mais que isso, e nunca poderemos escapar até que ele se vá. —Teesha se deslizou do banco para o chão, ficou de joelhos, tocou-lhe uma perna e baixou a voz ao mesmo tom que a do Rashed—. Se ficar muito mais tempo com ele, encontrarei a maneira de pôr fim a minha existência.

Rashed se tornou para trás, mas seguiu com o olhar fixo nela.

—Se ele se for, iria daqui e viria comigo?

—Sim, e nos levaríamos ao Ratboy e ao Parko. Poderíamos formar nosso próprio lar.

Rashed por fim ficou em pé, separou-se dela e caminhou para a pesada porta principal. Deteve-se e se deu meia volta, mas não a olhou. Tinha a mandíbula em tensão.

—Não, não é possível. —Abriu a porta com as duas mãos—. Não fale disto nunca mais.

Entretanto, as sementes estavam bem plantadas. Teesha alternava o trato amável com o cruel fazia Corische e as engenhava para que passasse mais tempo ali. Às vezes o adulava e ele acreditava todas e cada uma de suas palavras. Outras vezes, sempre sem que Rashed estivesse presente, em voz baixa o insultava e fazia cruéis conjeturas a respeito do seu desprezível nascimento. Cada dia se comportava mais e mais como uma tola guiada pelo desejo, tinha-se que controlar muito para não empreendê-la a golpes com ela, retrocedia e procurava alguma nova maneira de conseguir sua aprovação. Ela se tinha convertido na senhora e ele no escravo, e ela o desprezava ainda mais por isso.

Pode que Corische não deixasse sair toda sua ira com a Teesha, mas de todas as maneiras lhe queimava por dentro. Em um ataque de ira e frustração, uma noite lhe arrancou ao cabo de uma vassoura e açoitou ao Parko com ele. Tal ação nunca poderia ter causado dano algum a nenhum deles, mas Rashed foi correndo a ver por que seu irmão gritava com terror. Não interferiu, mas Teesha pôde ver nuvens mais escuras que a mera desaprovação cruzar pelo rosto do guerreiro do deserto.

A cada oportunidade que tinha, Teesha levava Corische ao desespero, especialmente quando Rashed estava perto para poder fazer ficar a seu senhor como um mesquinho maltratado, que também o era, e ao Ratboy, ao Parko e a ela mesma como as vítimas. A expressão do Rashed se tornava mais séria cada noite. Teesha comprou uma pintura do mar e a costa e a pendurou sobre o poço do fogo como um aviso nada sutil, algo que Corische não poderia entender. Ela conseguia chamar a atenção do Rashed para o quadro cada vez que podia. Era grande e estava muito bem feita, a pintura com suas ondas altas e frisada era uma imagem física do que eles não tinham a liberdade de partir e ver lugares novos. Por fim chegou uma noite em que Teesha sabia que Rashed estava ao limite. Tentou cercar conversação com ele em várias ocasiões, mas se negava a responder. Era hora de dar o último passo. E Teesha esperou de noite seguinte, quando os cinco apenas se acabavam de levantar-se depois do entardecer.

Estavam reunidos na sala principal, ocupados com atividades mundanas, quando Teesha se inclinou sobre o ouvido do Corische e lhe sussurrou:

—Acredito que encontrei a sua mãe faz um par de noites. Era uma bruxa cigana que trabalhava em uma caravana e se vendia por duas moedas de cobre aos homens.

Tudo seus outros sarcasmos tinham sido cruelmente seletas, copiados dos modos com os que tinha visto que insultavam os nobres aos que pertenciam a classes mais baixas, e tinha jogado com eles com delicioso cuidado, de maneira que o ego do Corische pudesse contemplá-los como possíveis provocações em lugar de comentários desdenhosos. Mas aquele comentário era um sarcasmo subindo de tom, das que nunca tinham saído de seus lábios.

As narinas de Corische se alargaram e por um momento ficou totalmente imóvel. Golpeou-a na cara com a força suficiente para atirá-la do banco do poço do fogo e esmagar seu pequeno corpo contra a parede de pedra. Teesha fez um gesto de dor. Palpitava-lhe a cabeça e parecia como se a habitação se obscurecesse. Um momento, um mero abrir e fechar de olhos estendia-se tanto que era incapaz de medi-lo. Tudo o que podia ouvir na escuridão em que se encontrava sumido o interior de sua cabeça era um zumbido que não deixava de lhe soar nos ouvidos. Ninguém disse uma palavra. Equivocou-se ao julgar o humor do Rashed. Já não ia poder jogar com o Corische da mesma maneira, não depois do que acabava de fazer.

Por fim, parte da escuridão se esclareceu. Corische estava em pé junto ao banco, seu braço ainda se balançava. Detrás dele, Rashed estava inclinado sobre a mesa de madeira de carvalho. Tinha o rosto desfigurado pela raiva, a boca aberta com as presas visíveis e um feroz uivo saiu do mais profundo de sua garganta. Sua mão direita baixou, até agarrar o punho da espada embainhada do Corische que estava sobre a mesa.

Corische se deu a volta para ouvir o grito de ira detrás dele. Seus olhos não se aumentaram pela surpresa, pelo contrário se estreitaram como os de um cão zangado ao ser encurralado em um beco. Com a boca aberta, sua voz começou a dar uma ordem a que Rashed não poderia negar-se.

Rashed jogou seu braço para trás e moveu o pulso às escondidas. A capa da espada se escorreu desta com o movimento e antes que se desprendeu da ponta da espada, já estava sendo brandida para diante.

Teesha pôde ouvir o som de algo rangente, que se produziu quando a espada cortou o pescoço ao Corische. Sua cabeça ricocheteou sobre o manto do poço do fogo e um jorro de líquido negro salpicou as paredes.

A capa da espada caiu ao chão por fim.

Teesha se agachou contra a parede. Rashed aterrissou junto à mesa enquanto o corpo do Corische se desabava onde estava. A cabeça rodou pelo chão até que ricocheteou no pé do Ratboy.

Teesha piscou de novo. Esse foi o tempo que demorou tudo em acontecer.

Depois de anos e anos de preparação cena por cena, tudo tinha mudado em um instante. Teesha observou o líquido quase negro, muito escuro para ser sangue viva que saía do pescoço do corpo e se derramava sobre as pedras cobertas de palha. Esse foi todo o movimento que se produziu na habitação.

Parko foi o primeiro em romper a quietude. Ria em silêncio, nervoso, depois saltou pelo chão como um gato para ficar em cócoras junto ao corpo, cheirou-o. Riu histérico.

Ratboy começou a gaguejar:

—Você... Mataste-o.

Toda a ira do Rashed tinha desaparecido. Permaneceu ali de pé pálido, com a espada pendurando na mão, olhava ao corpo sem cabeça. Seu rosto estava branco como a neve. Depois levantou o olhar e se encontrou com que Teesha o estava observado.

Ela não ia deixar que agora lhe escapasse e se retratasse do que tinha feito.

—Sente-o?—perguntou-lhe Teesha, em tom quase acusador—. Arrepende-te disto?

—É muito tarde para isso, já — lhe respondeu Rashed. Deixou cair à espada ao chão com o conseguinte ruído metálico contra a pedra e com as duas mãos ajudou a Teesha a que ficasse em pé com suavidade. Ela não disse nada, mas manteve seu olhar fixo na dele, como se não lhe tivesse respondido. Algo de sua ira voltou para seu rosto e esticou a mandíbula.

—Não, não o sinto — acrescentou.

Teesha se agarrou aos antebraços do Rashed, ou tudo o que puderam suas pequenas mãos. Acreditou ver a forma nebulosa do Edwan por cima do ombro do Rashed, imóvel no ar sobre as vigas.

—Somos livres — sussurrou Teesha.

Ela não tinha falhado. Corische estava morto e eles já não tinham senhor. Eram livres. A alegria percorreu todo seu corpo e lhe entraram vontades de rir, mas entrou em razão quando Rashed se separou dela.

Alargou os braços e baixou o quadro da costa da parede.

—Que todo mundo agarre o que queira levar consigo. Iremos esta noite.

—ir? —balbuciou Ratboy indignado. Seguia de pé tão atordoado como antes e não deixava de olhar o corpo decapitado do Corische—. Do que está falando? Aonde vamos?

Teesha se aproximou do Ratboy com um sorriso nos lábios, ainda algo insegura sobre se suas pernas agüentariam seu peso. Ratboy a olhou com seus enormes olhos marrons totalmente abertos. Com um suave toque o empurrou para as escadas que levavam a suas habitações por última vez.

—Ao mar.

 

Edwan desapareceu da mente da Teesha, das lembranças que ele já não podia reviver. No silêncio, nenhum dos dois ouvia sequer como as ondas rompiam na beira da Miiska.

—por quê? —perguntou-lhe, sua vazia voz angustiada—. Por que me mostra estas visões tão horríveis? Retrocede a antes disso... Ao botequim.

—Não.

—Ao dia em que nos conhecemos, à primeira vez que...

—Não, meu amor. —Teesha negou com a cabeça—. Para entender onde está, tem que ver onde estiveste, e não só as partes bonitas e agradáveis.

—Estou atormentado! —gritou Edwan, tirando-a totalmente do passado e trazendo-a a presente.

—Meu amor — lhe sussurrou ela, arrependida pela dor que sentia ele—. Caminhemos pelas ruas escuras e façamos como se estivéssemos nas terras do norte e fôssemos meninos de novo, naqueles dias longínquos.

—Sim — ele se aproximou, aplacado imediatamente e ela alargo sua mão para tomar a dele. Apesar de que Teesha não podia agarrar-lhe a fria nebulosa que era lhe rodeou seus finos e estilizados dedos.

 

Ratboy observava a uma garota que dormia através das venezianas soltas de uma casita, tinha seu comprido cabelo negro estendido pelo travesseiro, respirava brandamente e de maneira regular. Não se parecia em nada à garota a que lhe rasgou o pescoço e deixou seco um par de noites atrás, mas com somente recordá-lo voltava a sentir o sabor do sangue em sua boca. E o mercado da estrada, tinha sido tão fácil.

Quem tinha feito àquelas absurdas regras de que matar mortais não estava permitido? Acaso todos os de sua espécie cumpriam tal norma? Parko não o tinha feito.

Primeiro tinha estado Corische com suas estritas regras, que desejava ter poder e nobreza entre os mortais. Agora tinham ao Rashed que dominava todos e cada um dos aspectos de seu estoque. Rashed com seu asqueroso sentido da honra, sua obsessão com a segurança e as armadilhas dos mortais. Não eram acaso mortos nobres? Não era isso suficiente? Nenhum não morto que estivesse em seus cabais desejaria ser um senhor mortal ou ser o dono de um armazém e ganhá-la vida como os mortais. Ultimamente Ratboy tinha começado a suspeitar que Corische e Rashed fossem os loucos, retorcido-los e não ele nem Parko.

A garota se deu a volta em seus sonhos e levantou um adorável braço bronzeado e o deixou sobre seu rosto. O movimento fez que Ratboy ficasse em tensão ao cheirar a cálida sangre que corria sob sua pele.

—O que está olhando meu carinho? —disse-lhe uma voz tranqüila a seu lado.

Ratboy não saltou, nem sequer se girou a olhar. Somente se tratava da Teesha. Assinalou através da janela.

—A ela.

—Não é inteligente alimentar-se em suas próprias casas. Já sabe.

—Sei muitas coisas. Pelo que não estou seguro é de se ainda estou de acordo ou não.

Teesha levantou a mão e lhe acariciou a parte de atrás do cabelo.

—Schhhh — lhe sussurrou—. Não falta muito para o amanhecer. Vêem comigo e encontremos uma presa fácil. Deve pensar em nosso lar. Deve pensar em mim.

Ratboy fechou os olhos ao sentir sua mão e se afastou da janela. Sim, tomaria cuidado por ela. Mas, quando giraram para baixar a rua, ele ainda se lembrava da garota bronzeada que dormia.

 

Quatro noites depois, Magiere estava detrás do balcão do Leão Marinho e se sentia algo mais cômoda com seu horário diário. Quando trabalhavam fora, Leesil e ela tinham desenvolvido uma espécie de rotina que implicava viajar, acampar, planejar, manipular falsas brigas e logo voltar a começar com todo o processo. Tais eventos se intercalavam com suas experiências em novos povoados e aldeias e as apostas do Leesil. Mas agora as coisas eram diferentes. Todos seus empregados ficavam acordados a metade da noite para servir aos clientes e depois também todos dormiam até bem o fim da manhã. Leesil se passava as tardes trabalhando no telhado, enquanto Beth-rae cozinhava, Caleb limpava e Magiere se encarregava dos fornecimentos, punha as coisas nas estantes e se ocupava das contas. Chap cuidava de Rose. Sempre comiam cedo o jantar todos juntos antes de abrir para os clientes. Magiere estava sempre limpa, não tinha frio e dormia diariamente em uma cama. A comodidade física e um sentido único da estrutura não eram os únicos aspectos de sua vida que lhe davam paz. Pela primeira vez estava dando algo a uma comunidade, em lugar de exauri-la. Os marinheiros, os pescadores e os vendedores formavam a clientela do Leão Marinho o passavam muito bem e tinham um lugar para ressarcir-se de suas duras jornadas trabalhistas. Incomodava-lhe bastante quando Leesil mencionava o que a gente dizia entre sussurros a respeito do Magiere, a caçadora de Mortos. Pode que se converteu em uma atração local. Só podia imaginar como tinham começado tais rumores, embora não havia tornado a ver o Welstiel nem ao nobre imponente. Magiere suspeitava que Leesil seguisse bebendo até dormir algumas noites, mas enquanto que permanecesse sóbrio na mesa de farol e não roubasse nenhum moedeiro, ela não tinha queixa alguma.

Beth-rae se aproximou do balcão com uma bandeja cheia de jarras de cerveja vazias e com aspecto um pouco cansado. Algumas mechas de cabelo prateado lhe tinham escapado da trança.

—Quatro cervejas mais para o agente Ellinwood e seus guardas — disse Beth-rae.

Magiere olhou para a mesa que ocupavam aqueles ruidosos homens, mas não fez nenhum comentário enquanto servia a cerveja. Ellinwood era um cliente com o que sempre podia contar. O desagrado que sentia para o homem que se acreditava muito importante não fazia mais que crescer quanto mais o conhecia.

Colocou as jarras de novo na bandeja de Beth-rae quando se abriu a porta principal e deixou que entrasse uma fria brisa. Não entrou ninguém, mas sim pôde ver uma cabeça de cabelo vermelho brilhante na porta com uma barba muito recortada da mesma cor fogo que lhe ocultava as bochechas, o queixo e o lábio superior. Um homem musculoso e corpulento, de uns vinte e tantos anos, que levava um colete de couro ficou médio fora meio dentro sem saber se entrar ou não. Olhou a sala e se deteve quando viu o agente Ellinwood. Esticou a mandíbula e Magiere soube que ia haver problemas.

O homem entrou não se incomodou em fechar a porta e se dirigiu diretamente à mesa do Ellinwood olhando fixamente ao agente enquanto este baixava a jarra de cerveja que se acabava de levar a boca, mas da que não chegou a beber.

—Posso te ajudar em algo, Brenden? —perguntou-lhe Ellinwood de uma vez que tentava que seu pesado corpo se sentasse mais direito.

—Faz quase uma semana que morreu minha irmã e você vai e se senta aqui a beber com seus guardas? É assim como vai capturar ao assassino? —alfinetou o homem zangado—. Se for assim, eu mesmo poderia encontrar um agente melhor deitado nos esgotos enquanto bebe sujeira.

A gente do povoado que havia ali ficou em silêncio, até os que estavam na mesa de farol, e muitos se voltaram a olhar. Leesil levantou uma mão para o Chap antes que o cão se movesse, para que permanecesse quieto e esperasse.

As roliças bochechas do Ellinwood se tornaram rosados.

—A investigação segue seu curso, guri. Eu tenho encontrado umas quantas pistas importantes hoje e agora desfruto de meu tempo como todo mundo.

—Que pistas encontrou? —prosseguiu o ferreiro—. Dormiu até o meio-dia e depois se passou a tarde comendo bolos no Karlin. Agora está aqui com seu veludo mais fino enquanto bebe cerveja com seus lacaios. Exatamente quando encontrou essas importantes pistas?

A tintura rosado das bochechas do Ellinwood se acendeu ainda mais, mas se salvou de ter que responder por que um guarda sem barbear que levava uma camisa enrugada ficou em pé.

—Isso é suficiente, ferreiro — lhe disse—. Vai para casa.

Respondeu-lhe uma sonora “crac” ao tomar contato o punho do Brenden com sua mandíbula e mandá-lo dando tombos contra a mesa de outros clientes. Outro dos guardas se começou a pôr de pé, mas Brenden lhe agarrou o gordurento cabelo negro e lhe golpeou a cabeça duas vezes contra a mesa antes que ninguém mais pudesse mover-se. O homem caiu rachada mesa ao chão inconsciente. Leesil saltou por cima da mesa de farol enquanto Magiere desencapava sua cimitarra que estava debaixo do balcão.

—Quieto Chap! —ordenou Leesil. Se o cão se metia naquilo alguém ia terminar sangrando.

Magiere se deslizou até a parte dianteira do balcão e se manteve ali um segundo. Normalmente Leesil podia parar qualquer briga com um mínimo número de feridos.

—Cavalheiros... —começou a dizer Leesil.

Cegado pela fúria, Brenden arremeteu com um duro punho contra o meio elfo, por sorte deu ao ar. Leesil se agachou, pôs as mãos no chão e deu um chute a Brenden na parte de atrás do joelho. O enorme corpo do ferreiro perdeu o equilíbrio, caiu e um segundo depois se encontrou sujeito contra o chão de barriga para baixo. Leesil estava sentado sobre as costas do Brenden, com um antebraço no pescoço do ferreiro e com o outro lhe segurava o braço direito. Apesar de que pesava muito mais que o Leesil, não havia força no mundo que pudesse lhe tirar das costas ao ágil guardião. Cada vez que Brenden tentava colocar uma perna debaixo de si mesmo para ficar de joelhos, Leesil voltava a lhe golpear com sua bota no joelho, como se estivesse esporeando a um cavalo, e Brenden voltava a ficar plano sobre o chão.

—Está bem — dizia Leesil—. Já terminou.

O primeiro guarda ao que Brenden tinha golpeado se conseguiu desembaraçar da mesa sobre a que o tinha atirado o ferreiro. O sangue lhe jorrava pela mandíbula e o queixo e o nariz, estava claro que Brenden lhe tinha quebrado o nariz. Baixou a mão à pequena espada que tinha embainhado no cinturão, mas então elevou a vista e viu o Magiere. Tinha-lhe posto a cimitarra no ombro com o lado afiado contra sua garganta. Magiere não disse nada. O guarda voltou a levantar as mãos à vista e muito devagar deu uns passos para trás.

Por fim Brenden deixo de tentar escapar do Leesil e ficou deitado enquanto não deixava de ofegar.

—Meu amigo vai deixar que te levante — disse Magiere ao Brenden sem apartar o olhar dos guardas do Ellinwood—. Então vai de minha propriedade, entendido?

—Ir-se? —soprou Ellinwood—. Está preso por atacar aos homens que protegem Miiska. É um delinqüente.

—Não é um delinqüente — protestou Leesil—. Tenha um pouco de compaixão, gordo infame!

Um dos guardas, não o do nariz quebrado, tirou uma corda de seu cinturão e ficou em cócoras para começar a atar os pulsos ao Brenden. Leesil alargou a mão para detê-lo, mas Magiere o agarrou pelo ombro. Leesil amaldiçoou em voz baixa, ficou em pé e se afastou. Quando Brenden ficou em pé com dificuldade olhou ao Magiere como se fora culpa dela.

—Não volte — lhe disse ela—. Este é um botequim tranqüilo.

—Tranqüilo? —alfinetou-lhe Brenden, a pena se notava em suas palavras—. Como pode falar de tranqüilidade quando é você a que pode parar estas mortes? Não, esconde-te e lhes serve cerveja aos que são como ele. —Assinalou com a cabeça ao Ellinwood.

—Não posso parar nada — disse Magiere, tensa.

Os guardas arrastaram a Brenden fora do botequim.

Leesil se afastou sem dizer uma palavra e retornou a sua mesa de farol, mas Magiere se deu conta de que já não gostava de seguir repartindo cartas.

Bem no final da manhã seguinte, Leesil estava fora do quartel da Miiska, que fazia às vezes de cárcere, e voltou a comprovar sua carteira com a vã esperança de que por olhá-lo mais vezes as moedas se multiplicassem de maneira milagrosa. Já tinha sido suficientemente duro manter-se a distância dos passantes que podiam lhe haver ajudado sem propor-lhe com tal necessidade, mas como foram ficar naquele lugar, tinha prometido não roubar mais carteiras. Quando se levantou aquele dia pediu ao Magiere sua parte dos benefícios do mês adiantado. O tinha dado com um pouco de apreensão, certamente porque tinha devido de pensar que o necessitava para saldar alguma dívida de jogo ou de apostas. Não lhe importava o que tivesse pensado. Nunca entenderia a verdade. De todas as maneiras, nem sequer ele estava seguro de entender o que estava fazendo.

Quando entrou no quartel, Leesil se deteve surpreso. Albergava a esperança de tratar com um dos estúpidos guardas do agente, mas ali estava o enorme corpo do Ellinwood detrás da pequena mesa que usava como escritório, encaixada no canto direita da habitação perto da janela da frente que tinha trancas. Estava olhando com muito interesse o que tinha escrito em um pergaminho.

Leesil tinha tido sua boa porção de cárceres, desde ambos os lados da porta de uma cela, e esta não parecia distinta às demais. Uns quantos pôsteres de «Se busca» penduravam das paredes oferecendo recompensas ou outro tipo de benefício por pistas e havia também três portas de cela, uma detrás de outra na parede do fundo, que era confinamento suficiente para um povoado do tamanho da Miiska.

Fechou a porta detrás de si e se dirigiu às portas das celas. Para ouvir o ruído, Ellinwood por fim levantou a vista.

—Ah! É você — disse com uma mal dissimulada impaciência, certamente esperaria um petição formal para o pagamento da mesa quebrada do botequim—. O que quer?

Leesil olhou pelos buracos das portas das celas que ficavam à altura dos olhos e viu o Brenden em cócoras no beliche de debaixo da cela de no meio.

—vim a pagar a fiança do ferreiro — lhe respondeu—. Quanto é?

—Quer... Por que vais fazer isso? —O agente o olhou com suspeita.

Leesil se encolheu de ombros.

—Tinha duas opções, ou vir aqui ou ficar em casa trabalhando no telhado. Qual escolheria você? —Fez uma pequena pausa e repetiu a pergunta—. Quanto é?

Ellinwood ficou sentado um momento antes de responder.

—Seis peniques de prata, não aceitamos moeda estrangeira.

Leesil se esforçou por não fazer um gesto de dor. Era uma quantidade absurda para a ofensa da que se tratava. Somente tinha cinco e isso era sua parte dos lucros de todo um mês, e muito mais que o salário mensal de muitos em um povoado pequeno como Miiska. Parecia que o agente fazia um bom dinheiro com as multas e fianças elevadas; ou lhe guardava um rancor especial ao jovem ferreiro e ia complicar lhe a coisa a qualquer que tentasse interferir. Entretanto, Leesil não se ia dar por vencido com tanta rapidez e duvidava que Ellinwood fora a passar por cima um benefício que se podia conseguir com tanta facilidade.

—O que acontece lhe pago cinco agora e lhe assino um pagarei pela sexta? —perguntou-lhe—. A abonarei a primeiros do mês que vem.

—Eu tenho o resto — disse Brenden discretamente desde sua cela.

Leesil voltou à cabeça e se encontrou com os enormes olhos do Brenden olhando pelos buracos da porta da cela, com sua juba ruiva selvagem e descuidada pela cara. Leesil se aproximou da cela enquanto assentia.

—Ao menos o tinha — continuou Brenden—, quando entrei aqui. —Olhou ao Ellinwood com olhar acusador.

—Bem, isso deveria cobri-lo, não, agente? —acrescentou Leesil de uma vez que se apoiava na porta e cruzava os braços.

O agente os olhou como se estivesse tomando uma decisão de grande peso. Depois se deu a volta e agarrou um pequeno arca do chão. Remexeu-se debaixo da jaqueta e tirou umas chaves, abriu o arca e tirou dele uma pequena bolsa de moedas manchada de carvão. Caminhou para a cela, abriu a porta e lhe aproximou a bolsinha ao ferreiro.

Brenden deixou cair uma pequena variedade de moedas na magra mão do Leesil quem ficou a crivar as moedas até dar com a quantidade de moedas de cobre que somassem a diferença. Então Leesil esvaziou seu próprio moedeiro para completar a fiança.

—Aqui — disse o meio elfo enquanto lhe estendia as moedas no punho. Deixou-as cair sobre a palma aberta do Ellinwood.

O agente retornou ao seu escritório e contou com supremo cuidado a quantidade de moedas. Pôs as moedas no arca, fechou-o e lhe jogou a chave e depois voltou para sua mesa a revisar o documento sem dizer uma palavra.

Leesil se encolheu de ombros indignado e fez um gesto ao Brenden para que o seguisse fora à rua. A gente ia e vinha afanosamente bem ao mercado ou a qualquer outro trabalho do dia. Um menino pequeno vendia bolachas de pescado defumado na esquina que tinham ao lado. O sol se abria passo em um céu apenas cobria de nuvens.

—Eu... Devolverei-te o dinheiro — disse Brenden em voz baixa—, logo que possa.

—OH! Está bem, não passa nada. Não me gasto o dinheiro que não me posso permitir me gastar. —Leesil voltou a encolher-se de ombros. Tinha comida, alojamento e um fornecimento interminável de vinho. Não necessitava nada mais e no momento tampouco o queria—. Sinto o por ontem à noite — acrescentou.

—Perdão? —Brenden olhou por volta de outro lado—. Agora faz que me envergonhe. Ouvi o que disse por mim, e podia ter feito que aquele lobo saltasse sobre mim. Pela maneira em que me jogou ao chão e me imobilizou, poderia... Supor que podia ter feito mais.

Leesil começou a caminhar e Brenden lhe seguiu o passo a seu lado. Aquele ferreiro era um homem forte com um grande sentido do jogo limpo. Era uma companhia estranha para o Leesil, depois de tantos anos de aventuras pouco escrupulosas com Magiere, ou ele sozinho antes de conhecê-la. Encontrava muito difícil dizer algo depois de ter feito tudo aquilo por um estranho.

—O que disse ao Ellinwood estava justificado — disse Leesil por fim—. Não tem feito nada para agarrar ao assassino de sua irmã.

—Não estou seguro de que possa — lhe respondeu Brenden enquanto dava um chute ao pó do caminho—. Não estou seguro de que ninguém que não seja sua companheira possa fazê-lo, e ela se nega a me ajudar.

—Do que está falando? —Leesil fingiu ignorância com a esperança de descartar o que sabia que era quão seguinte o ferreiro tinha em mente.

—Sua companheira, a caçadora de Mortos.

Ao Leesil rugiu o estômago, mas não era de fome. Começava a entender quão irritável estava Magiere ultimamente.

—Acredito que estiveste emprestando muita atenção aos rumores — acrescentou.

—Pode, mas muitos rumores revistam dizer a verdade — lhe respondeu Brenden—. Quando se trata do mesmo rumor uma e outra vez, aonde vais, é que esconde algo de verdade.

—E acredito que às pessoas gostam de muito lhe dar à língua — saltou Leesil—. Falam de algo, inclusive de..., especialmente daquilo do que não têm nem a mais remota idéia.

—Então, por que vieste e pagou minha fiança?—espetou-lhe Brenden.

Leesil não tinha resposta, ou ao menos não uma que pudesse expressar com palavras. Pode que a generosidade do Magiere para o Caleb e Beth-rae fora contagiosa. Pode que, como sua companheira, ele também estivesse examinando seu próprio passado e que pela primeira vez se desse conta do dano que tinham causado extorquindo povoado atrás povoado. Mas, que possível bem podia lhe trazer aquele repentino ataque de consciência? Como podia fazer compensação, qualquer compensação? E apesar de todo aquele auto exame, Leesil ainda considerava que a maioria da gente não era mais que ganho sem celebro que se merecia que os mais inteligentes a fraudassem, ou lobos que faziam presa de outros através do poder e a riqueza. Ajudar a qualquer deles não parecia ter sentido algum... E a aquele ferreiro?

O homem tinha entrado em um botequim público, enfrentou-se a um agente do povoado que não valia nada e tinha pedido justiça. Apesar de que Leesil estava acostumado a tentar rodear os problemas em lugar de ir por eles diretamente, era capaz de apreciar a valentia quando a via, e podia também respeitar a lealdade para os mortos, para aqueles que não têm voz.

E por seu valor tinham chamado delinqüente a Brenden e o tinham trancado em uma cela. Não estava bem. Leesil era plenamente consciente de que seu sentido do bem e do mal era quanto menos débil, mas ajudar a Brenden parecia ser o que tinha que fazer.

Os dois seguiram caminhando até que chegaram ao final da rua, onde Leesil tinha que girar para baixo para cruzar o povoado e dirigir-se ao botequim. Detiveram-se em outra pausa incômoda.

—Não julgue a Magiere. Não sabe nada de nós — lhe disse Leesil com suavidade—. Vêem o Leão Marinho quando quiser. Eu direi ao Magiere que é meu amigo.

—Sou seu amigo? —perguntou-lhe Brenden, com um tom entre a perplexidade e a suspeita.

—por que não? Só tenho dois e um deles é um cão, por certo, não é um lobo. —Leesil fez uma careta de grande seriedade—. Sou um tipo muito particular.

Brenden sorriu levemente, com um pingo de tristeza.

—Pode que me passe... Com mais tranqüilidade a próxima vez.

Separaram-se. No espaço vazio que ficou entre eles uma luz mais brilhante que o sol de meio-dia relampejou uma vez. Alguns passantes pestanejaram e giraram a cabeça como se aí tivesse havido algo e depois seguiram seu caminho.

—Estava com o ferreiro — disse Edwan na pequena sala de estar de debaixo do armazém—. O vi.

Rashed se aproximou da cara do Edwan, não sabia por que o fantasma estava tão preocupado. Em um momento estava revisando as contas de importações com Teesha e ao outro tinha aparecido Edwan e estava balbuciando algo sobre o meio elfo da caçadora e o ferreiro.

—Devagar — lhe ordenou Rashed—. Do que se trata?

—Têm que matar à caçadora já — disse Edwan com grande precisão em sua voz.

—Não. —Rashed se deu a volta. As ações precipitadas depois da tolice do Ratboy não fariam a não ser propiciar que os descobrissem—. É muito cedo. Esperaremos a que ela tenha perdido algo de seu temor.

—Equivoca-te. Visitou o lugar no que morreu a garota a que destroçou Ratboy. Eu a vi.

—por que não me disse isso antes? —perguntou-lhe Rashed zangado.

—E hoje o meio elfo, seu companheiro, pagou para que soltassem ao Brenden. Falaram juntos.

Rashed negou com a cabeça e olhou a Teesha com expressão interrogadora.

—Brenden é o irmão da garota morta e o ferreiro deste povo — disse Teesha do sofá.

—O que? —Rashed se deu a volta para olhar ao Edwan como se o agitado espírito se converteu na fonte de todos seus maus, em lugar de um mero mensageiro. Voltou a passear-se de novo em silêncio, com os olhos olhando a todas as partes, sem centrar-se em nada enquanto que punha em marcha toda a engrenagem de seus pensamentos.

—está-se preparando para caçar, verdade? —perguntou Teesha—. Por que se não ia se pôr a procurar rastros ou ia mandar à meia sangre a fazer-se amigo do que fica da família da vítima?

Sim, por que o ia fazer? Perguntou-se Rashed. Mover-se de maneira tão rápida depois de um assassinato era muito perigoso, mas o condenado Ratboy não lhes tinha deixado mais opções. Se a caçadora investigava muito profundamente e chegava a alguma conexão com eles ou com o armazém, haveria muito pouco tempo para que se pudessem preparar. Ratboy tinha sido um imprudente e não tinham tido tempo suficiente nem sequer para limpar o que tinha feito. Era impossível poder adivinhar que pistas podia ter deixado no lugar que assassinou a garota.

—Teremos que nos mover contra ela primeiro — disse Rashed—. Teesha fique aqui, mas te prepare para o pior, talvez nos tenhamos que partir daqui. Ratboy virá comigo. —Levantou uma mão para parar a objeção que ia pôr—. Não, farei eu mesmo sem fazer ruído algum e ninguém poderá encontrar o corpo. Simplesmente desaparecerá. Mas necessito a alguém que vigie a outros, ao meio elfo e ao cão.

—Então deveria me levar a mim. Eu posso te ajudar mais que Ratboy.

—Sei que o faria, mas —se aproximou do sofá— só fique aqui.

—Um gesto muito nobre — disse Edwan do centro da habitação—, mas estou de acordo. Tome cuidado de verdade, Rashed. Faz já bastante tempo que não luta com nada mais forte que um engano de contabilidade. Poderia te ocorrer qualquer desgraça.

Rashed não respondeu, mas podia sentir como toda a atenção do Edwan estava concentrada nele, como a queimadura das primeiras luzes do amanhecer na pele. Perguntava-se o que era o que tinha feito para merecer o veneno do fantasma. Tinha sido Corische o que o tinha julgado com falsas acusações e finalmente o tinha decapitado.

—Sim, deve tomar cuidado — disse Teesha, ou sem entender ou fazendo caso omisso dos comentários sarcásticos do fantasma.

Rashed assentiu e foi se agarrar sua espada.

 

Vários clientes, a maioria jovens marinheiros, seguiam bebendo e conversando no Leão Marinho já bem passada a meia-noite. Magiere sentiu um pouco de alívio quando por fim se terminaram o que ficava de suas cervejas e lhe deram boa noite. Não tinha determinado nenhuma hora oficial de fechamento já que preferia que os clientes partissem por sua própria vontade. Entretanto, aquela noite tinha sido mais longa do normal e não faltava mais que umas quantas horas para o amanhecer. Magiere estava cansada e Leesil tinha estado estranhamente calado e distante toda a noite. Magiere ouviu alguns rumores entre as mulheres de quão pescadores diziam que Leesil tinha pagado a fiança do ferreiro. Isto a surpreendeu bastante e fez que se sentisse culpado por pensar que tinha estado apostando em seu tempo livre e necessitava o dinheiro para pagar suas dívidas de jogo.

Beth-rae suspirou profundamente.

—Pensei que esses jovens não se cansariam nunca.

Leesil estava sentado ao final do balcão, perto da porta e bebia uma taça de vinho tinjo.

—Pode que devamos começar a pedir aos clientes que se vão há uma hora razoável — acrescentou.

—Podia haver ido à cama — disse Magiere cansativamente. Os últimos jogadores de farol se partiram horas antes, e, com uns clientes tão tranqüilos como aqueles jovens marinheiros e sendo tão tarde, Magiere não estava segura de por que Leesil se ficou vadiando pelo balcão o resto da noite.

Leesil piscou, franziu o cenho e pôs cara de estar doído.

—Sempre ajudo a fechar.

Sim, era certo que sempre o fazia, e não era precisamente isso o que preocupava a Magiere. Por muito que especulasse, não era capaz de imaginar-se por que se gastou o salário de um mês em tirar do cárcere ao obstinado ferreiro, e isso a irritava o bastante. Em realidade, irritava-a o suficiente como para que não lhe desse a satisfação de lhe perguntar a ele.

Chap dormia satisfeito junto ao fogo, enrolado em uma enorme bola prateada. Com a metade das velas e abajures do salão apagados, a chaminé lançava sua tênue luz vermelha por todo o salão e se refletia no cabelo loiro platino de Leesil e em sua brilhante pele. De repente a Magiere lhe ocorreu que não sabia quantos anos tinha seu companheiro. Com sua mescla de sangue, era muito possível que vivesse mais tempo que um humano, mas tampouco sabia quanto vivia um elfo puro.

—Bom, limpemos e vamos à cama — disse Magiere.

—Vá-se já à cama, senhorita — disse Caleb com sua voz perpetuamente tranqüila—. Trabalhou mais que ninguém. Nós fecharemos tudo.

Magiere olhou a Leesil, que assentiu e ficou em pé.

—Sim, vai à cama, eu lhes ajudarei — disse Leesil—. Já estive sentado suficiente tempo.

A ligeira tintura rosa de seus olhos e o quase imperceptível arrasto de palavras de sua voz sugeriam que já se tomou mais de uma taça ou duas, mas Magiere estava muito cansada e se dirigiu para as escadas. Chap despertou e se esticou, enquanto Leesil se aproximou de apagar o fogo. Caleb e Beth-rae entraram na cozinha. A fim de contas, era uma típica noite no botequim, ao menos enquanto Magiere tinha estado ali.

Dentro do mais escuro da noite no beco que havia frente Ao Leão Marinho, Ratboy estava agachado junto ao Rashed e observava como desapareciam os últimos brilhos de luz. Rashed o estava lecionando duramente.

—Nada de alimentar-se absolutamente, e nada de corpos, se for possível — lhe disse Rashed pela terceira vez—. O entende? Somente tem que vigiar o salão principal e estar preparado para me ajudar se o necessitar. Entrarei por uma janela do piso de acima e lhe romperei o pescoço enquanto dorme. Se tiver que matar, então faz, mas sem ruído, sem chamar a atenção. Levamo-nos seu corpo ao mar e simplesmente se converterá em outra desaparecida mais.

O ressentimento que sentia Ratboy era muito difícil de ocultar, ao igual a seu desconforto ante a possibilidade de ter que enfrentar-se de novo à caçadora ou ao cão. Naquele momento não podia entender por que simplesmente não se negou. Inclusive enquanto se escondiam entre as sombras da noite, Rashed estava tão resplandecente como sempre com sua jaqueta azul escuro, sua espada abrilhantada na mão sob o casaco de sua capa com capuz. Parecia como se sua íris quase translúcida brilhassem brandamente.

Ao Ratboy gostava de pensar que seu aspecto desalinhado e sujo era uma opção própria para caçar. Em realidade, ele sabia que por muito que se banhasse, por muito que se arrumasse ou por boas que fossem as roupas que colocasse, ele nunca teria o aspecto de nobre que tinha Rashed. A verdade era que se alguma vez o tentasse, o contraste seria vergonhosamente cômico, por isso se escondia sob várias capas de terra em um esforço por reafirmar sua própria personalidade. Quando mais se dava conta das diferenças que havia entre eles era quando se encontravam tão juntos e tão sozinhos.

—E o cão? —perguntou—. E o meio elfo? Não sabemos onde está ninguém. Enquanto você está colocando os narizes na planta de acima eu poderia me encontrar com os três tomando um chá noturno na cozinha. E então, o que faço?

—Não deixe que lhe vejam, para começar — lhe respondeu Rashed em voz baixa—. Isso é o que melhor faz, não? Esconder-te entre as sombras e passar despercebido.

Sim, mas ao Ratboy dava medo à caçadora. Recordava perfeitamente a dor que lhe causou o fio de sua espada e o pânico que sentiu ao notar como lhe escapavam as forças pelas feridas sangrantes até que pôde alimentar-se. Mas ao Rashed não importavam seus sentimentos. O único que lhe importava era que Ratboy fizesse o que lhe mandava.

—O que acontece se a caçadora mata? —sussurrou Ratboy—. Você tem todas as respostas. O que faço então?

—Não te faça o tonto comigo. —Seu companheiro o olhou friamente—. Nenhuma caçadora mortal me vai matar a mim. Agora entre. Temos pouco tempo e não quero que o amanhecer nos surpreenda no mar.

Ratboy se agüentou as vontades de lhe responder entre dentes quando se aproximavam do final do beco. Aquela era a melhor hora para atacar. Se tudo ia bem, pegariam a toda a casa dormida, completariam sua tarefa, afundariam o corpo da caçadora na baía, voltariam para casa e o maldito sol estaria a ponto de chegar a meio-dia para quando se dessem conta de que havia algo que não ia bem. A inteligência do Rashed não estava em dúvida, só a forma de fazer as coisas. Tratava a todo mundo como serventes, menos a Teesha.

Sem outra palavra, o garoto se deslizou pela rua até chegar à esquina mais próxima à janela dianteira. Rashed já tinha enganado ao Magiere para que o convidasse a passar quando queria posto que todos os amigos do nobre, como clientes que eram, seriam bem recebidos. Embora seu significado pudesse ser ambíguo, o convite era legítimo. Olhou através das venezianas e viu que o salão principal estava totalmente apagado. O fogo da chaminé estava apagado, mas ainda ficavam um par de brasas que brilhavam na escuridão.

Ratboy tirou uma adaga fina e brilhante e deslizou a ponta por entre as bordas das venezianas. Rapidamente fez alavanca no ferrolho interior da janela e a abriu sem fazer ruído. Muito fácil. Ratboy acreditava que a caçadora teria melhores ferrolhos e fechaduras. Colocou a adaga entre os dentes e se deslizou pelo batente. Não tinha planejado perder uma segunda luta se o cão o atacava. Cortaria lhe o pescoço da besta imediatamente. Rashed havia dito que nada de ruídos, mas o de nada de sangue, bom, deixaria que Rashed se enfrentasse ao maldito cão. O pomposo patas largas trocaria de idéia em um abrir e fechar de olhos.

Ratboy farejou o ar em busca de aromas de vivos, mas se deu conta de que o salão principal emprestava muito a suor de marinheiro, cerveja e carne queimada. Não havia ninguém nem nas mesas nem junto ao fogo. Era muito provável que Rashed já tivesse cruzado o telhado e que já se penetrou na casa. Pode que tudo fora a sair segundo o plano do Rashed.

Ratboy se deixou cair silenciosamente sobre o chão de madeira, se agachou e observou as mesas do salão. Um pequeno brilho no canto de seu campo visual lhe fez mover o pescoço para girar a cabeça.

O cabelo prateado era o suficientemente claro para poder vê-lo na escuridão. No canto mais próxima do balcão estava sentado o meio elfo olhando para as escadas e bebendo de uma taça de metal. Ia dar outro gole quando o pensou melhor e baixou a taça. Sua mão caiu do balcão.

Girou a cabeça e olhou diretamente para onde estava Ratboy agachado na escuridão.

Ratboy sentiu como seus interior lhe davam a volta. Claro, a visão noturna de um meio elfo podia ser tão boa como a sua própria. Perguntou-se se poderia lançar sua adaga com a suficiente rapidez para matar à meia sangre antes que desse a voz de alarme. Então ouviu uma revoada no ar que corria para ele e se apoiou contra a parede de costas.

Um estilete se cravou na mesa em que o acabava de estar, a ponta bem cravada na madeira e o resto da lamina ainda tremendo pelo impacto. Um grunhido muito agudo e assustador encheu a habitação, vinha de entre os móveis de além da chaminé. O cão prateado saltou sobre uma mesa com os olhos fixos no Ratboy.

 

Rashed embainhou sua espada e escalou o muro do botequim sem esforço algum, as unhas endurecidas se agarravam à perfeição a todas as juntas e gretas.

Todo aquele assunto era muito precipitado, não tomava cuidado, nem graça ou planejamento. Se lhe tivessem dado mais tempo, teria passado pelo botequim a fazer visitas quatro ou cinco noites seguidas. Para anotar os costumes de seus habitantes, quem dormia em cada habitação, a que hora se retirava cada um, quem fechava a porta de noite, quem não podia dormir e onde guardavam as suas espadas. Teria descoberto muitas coisas. Agora se via obrigado a entrar às cegas e procurar seu objetivo.

Arrastou-se pelo beiral em busca de uma janela adequada para entrar, preferivelmente não a janela do dormitório da caçadora, por medo a despertá-la e lhe dar tempo a sair disparada pela porta. Pendurou-se na borda e jogou uma olhada por uma janela em que não se correram às cortinas. A habitação era o suficientemente grande para albergar uma cama de matrimônio, vários arcas e uma cadeira. A cama vazia queria dizer que alguém estava ainda levantado e ainda estava por aí dando voltas. Rashed sentiu como a pressa crescia dentro dele. Ratboy tinha suas ordens, manter-se em silêncio e sem derramar sangue, mas tampouco é que fora a ser a primeira vez que as desobedecesse, chocar-se-ia com alguém abaixo e despertaria ao resto da casa. Então Rashed viu uma pequena menina loira que dormia sobre um tapete aos pés da cama. Pelo ritmo de sua respiração, estava profundamente dormida e não despertaria se entrava. De todos os modos, ela não devia temer nada dele. Ainda não havia sentido a necessidade de atacar a uma menina.

A janela não tinha ferrolho e em poucos segundos se deslizou por ela até o interior da habitação. Passou por diante da menina dormida e abriu um pouco a porta para jogar uma olhada. O corredor estava vazio. Só havia outras duas portas e a escada que baixava por isso sua busca ia ser muito rápida. Saiu e fechou a porta atrás dele.

Um uivo sobrenatural subiu pelas escadas do andar de abaixo e lhe pegou à pele. Seguiram-no uivos frenéticos e o rangido de madeira ao romper-se.

A porta do final do corredor se abriu de repente. Rashed ficou congelado.

Magiere levava o cabelo solto sobre os ombros, mas ainda ia vestida com os bombachas e o sutiã de couro. Os gritos, uivos e o eco de uma dura luta no salão principal se ouviam já alto e claro. A caçadora abriu os olhos de par em par.

—Você — disse Magiere surpreendida.

Antes que pudesse terminar a frase, Rashed já tinha cruzado a distância que os separava e se lançou sobre a porta com todo seu peso para tratar de fechá-la. Os dois caíram dentro da habitação.

 

Leesil tirou seu outro estilete da manga, sentia-se envergonhado porque o tivessem pegado com o guarda tão baixo. Médio agachado se deslizo rapidamente e deu um volta para a janela aberta. O vagabundo tinha cruzado toda a habitação antes que ele nem sequer se deu conta. Pode que só o tivesse surpreendido com o guarda baixo. Não podia ter sido pela bebida.

Chap estava no ar, caía em picado e o intruso tentou lhe dar uma patada a uma mesa para tirar a de seu caminho. O cão não acertou a lhe dar a seu objetivo e caiu com as patas dianteiras sobre a mesa que se estava cambaleando. As patas da mesa que estavam inclinadas não suportaram nem o peso nem o golpe, e Chap caiu sobre o intruso entre partes de madeira. O golpe e os uivos de ira do Chap martelavam os ouvidos do Leesil, seguidos de um grito cheio de dor.

—Chap! Afaste se! Se afaste! —gritou Leesil de uma vez que apartava cadeiras para chegar até o lugar da refrega.

O cão se afastou, mas só porque seu oponente lhe deu uma patada e mandou ao animal dando voltas até o centro do salão onde se chocou com duas cadeiras e se enredou com elas.

—Fique fora! —ordenou-lhe Leesil ao cão e depois se inclinou para a janela da mesa e tentou ver por cima dos restos do tabuleiro torcido da mesa.

O intruso ficou em pé voando de maneira pouco natural. Pelas venezianas abertas passava luz de lua suficiente como para que se vissem as linhas escuras que baixavam a ambos os lados da cara, as marcas das garras do Chap. Leesil se deteve quando viu as feições do intruso.

Era Ratboy, o mendigo coberto de pó da estrada aos subúrbios da Miiska. Leesil deu um passo atrás com o estilete preparado.

—Não teve suficiente a outra vez? —perguntou-lhe Leesil.

Ratboy se levou uma mão à bochecha e se passou os dedos pelas feridas, como se não estivesse seguro das ter. Depois olhou o sangue que tinha na mão.

—Mi... Cara — sussurrou Ratboy. A expressão de surpresa e dor o banhou.

Seus olhos se voltaram tão faltos de vida como os de um cadáver e Leesil recordou como a última vez o menino mendigo lhe tinha parecido mais uma criatura estranha que um ser humano, ainda mais inquietante por sua aparência humana. Entre os restos de cadeiras caídas, Chap ficou em pé e se adiantou para um novo assalto.

—Não, Chap — lhe advertiu Leesil enquanto tentava não perder de vista ao Ratboy e de uma vez girava a cabeça para comprovar que o cão o obedecia.

Ratboy se lançou contra Leesil com a adaga coberta de sangue apontando para diante.

Leesil esquivou a lamina e retrocedeu acossando a seu oponente com giros selvagens. Ratboy não era oponente para ele em uma luta com facas, mas ainda recordava sua última luta. Aquela espécie de pequeno homenzinho se tirou a flecha da besta do estômago como se tivesse sido uma lasca incomoda. Não ia se arriscar a que Ratboy lhe aproximasse o suficiente como para que o agarrasse. Voltou a girar grosseiramente e sentiu que dava com as costas no bordo da balcão. De um rápido salto rodou de costas sobre a balcão e se meteu atrás dele.

A besta não tinha servido a primeira vez, mas como pelo visto não tinha muito mais onde escolher, agarrou a arma que Magiere guardava carregada detrás do balcão. Para quando a levantou, a criatura estava no ar, não rodava sobre o balcão, mas sim tinha saltado sobre ele sem tocá-lo. Leesil agarrou tanto o estilete como a besta e disparou.

A flecha deu a Ratboy na frente, sobre o olho direito, e seu corpo se foi para trás até dar-se com a balcão na espada. A adaga lhe ricocheteou da mão pelo impacto e caiu pelo lado do balcão no que se encontrava Leesil. Ratboy se lançou para trás e se escondeu ao outro lado do balcão, fora da vista do Leesil.

Leesil se inclinou para diante para jogar uma olhada porque não podia ver com claridade na escuridão. Chap começou a ir-se para diante do centro do salão, mas Leesil levantou uma mão para que se detivesse. Estava deslizando-se pelo balcão para dar a volta em seu extremo quando o cão começou a uivar de novo. Uma mão suja apareceu sobre o balcão no extremo mais afastado. A borda de madeira do balcão rangeu ante o forte golpe. Leesil retrocedeu em um ato reflito e se apoiou nos barris de vinho que cobriam a parede do fundo.

Ratboy ficou em pé e se arrancou a flecha da frente. O sangue lhe caiu sobre o olho direito.

Planejar e pensar não eram os pontos fortes do Leesil normalmente, assim fez o único que lhe ocorria.

— por que não morre já de uma vez! —gritou-lhe, e deu uma inclinação brusca com a besta como se fora um pau.

O centro da besta deu ao Ratboy na cabeça e se tropeçou um par de passos para as escadas. O garoto voltou a agarrar-se com força aos beirada do balcão para evitar cair. Olhou ao Leesil e começou a aproximar-se do meio elfo muito lentamente.

—vais sangrar para mim — lhe cuspiu com dureza.

Nesse preciso momento a cortina da cozinha se abriu de par em par.

Beth-rae entrou na habitação ao fundo do balcão, por detrás das costas do Ratboy, levava um cubo cheio de algo. Leesil lhe gritou que corresse, mas não havia tempo. Quando Ratboy se girou para atacar a seu novo objetivo, Chap se lançou a lhe cravar os dentes na panturrilha, o que fez que se detivesse. Beth-rae lhe atirou o conteúdo por cima ao intruso que tinha ante ela. Antes que Leesil pudesse amaldiçoar uma atuação tão carente de sentido, o dilacerador grito de dor do Ratboy lhe retumbou nos ouvidos.

A criatura começou a retorcer-se, golpeou-se o corpo contra o balcão e as cadeiras que tinha perto de uma vez que atirava de suas próprias roupas e de sua pele. De seu corpo saíam fios de fumaça cinza assobios e sua pele se enegrecia.

Leesil apenas pôde perceber o som distante do choque de metais com os gritos do Ratboy. Levou-lhe um momento dar-se conta de que vinham da planta de acima. Olhou para as escadas, e esse pequeno momento de distração foi muito.

Ratboy deu um salto para Beth-rae, como uma horrível marionete queimada e a golpeou com uma mão. Seus dedos como garras agarraram seu pescoço enquanto ela tratava de escapar dele. O corpo da mulher deu voltas e se golpeou contra a parede que tinha detrás. Inclusive antes que a mulher caísse ao chão, à criatura que não deixava de gritar puxou da cortina e entrou na cozinha. Chap saltou atrás dele.

Leesil correu para onde estava Beth-rae para ouvir que abriam de repente a porta traseira da cozinha. Agachou-se. No chão, um atoleiro vermelho escuro ia fazendo-se cada vez mais extenso, alimentava-o o profundo corte do pescoço da mulher. Beth-rae jazia imóvel com os olhos totalmente abertos. Pela inclinação de sua cabeça, Leesil pôde ver que o golpe lhe tinha quebrado o pescoço. Já não podia fazer nada por ela.

Baixou a besta, preparou o estilete que ficava e se dirigiu para as escadas.

—Magiere! —gritou Leesil de uma vez que começava a correr.

 

Magiere se abriu passo pelo chão da habitação e agarrou a cimitarra que tinha posto em seu pequeno escritório.

—Sai daqui! —gritou-lhe instintivamente, já que não esperava que o nobre a obedecesse.

Rashed não respondeu, mas sim se lançou contra ela e investiu com força com sua própria espada. Magiere esquivou o golpe e a espada deu no escritório. A madeira saltou em pedaços e a espada se incrustou no chão. Tirou-a sem esforço algum.

Ninguém era assim tão forte. A habitação parecia muito pequena e Magiere não tinha espaço para manobrar, mas seu oponente também se via limitado. Magiere girou sobre um joelho na beirada da cama e ficou em pé, seu oponente se deslizou pelo chão até ficar a sua altura. A pouca luz que dava o abajur, os olhos do Rashed eram transparentes e olhavam com tranqüilidade dentro dos do Magiere. A ira pôde com o medo. Quem se acreditava que era aquele bastardo para invadir assim sua casa, em sua habitação?

—Covarde — lhe disparou Magiere. A ira crescia em seu interior chegando a ameaçar sua razão. Levantou a cimitarra até que deu no teto e se lançou a seu pescoço com todas as forças que tinha. Bloqueou o golpe, mas a força fez que retrocedesse e perdesse o equilíbrio. Ainda com as duas espadas entrelaçadas, Magiere afundou seu punho na mandíbula do Rashed.

Mais assombrado que dolorido Rashed utilizou a mão que ficava livre para empurrá-la para trás.

—caçadora — disse simplesmente e voltou a golpear com sua espada.

Magiere rodou pelo outro lado da cama enquanto a larga espada golpeava sua colcha com um som plano. Não tinha espaço para usar manobras contra ele. Mataria por simples força. Tal pensamento tivesse sido suficiente para aterrorizar a qualquer, mas sua raiva se multiplicava a tal velocidade que não era capaz nem de tentar entendê-lo.

O ódio se converteu na força que percorria seu corpo, fazia que seus movimentos fossem mais rápidos do que jamais tinham sido. Instintivamente, em sua busca de pequenos vãos, tentou encontrar uma maneira de ficar detrás dele ou surpreende-lo sem equilíbrio. Rashed não deixava de girar-se para estar frente a frente com ela.

Trocaram de posição adiante e atrás, a um lado e a outro da pequena habitação sem deixar de sacudir-se golpes de espada um ao outro. Mas não havia nenhum vão, não havia nenhum instante no que pudesse sair correndo para a porta ou baixar ao chão para sair a seu lado ou a suas costas.

Uma vez mais se moveu para o lado mais afastado da cama e rodou por cima desta. O nobre voltou a correr atrás dela pela habitação. Quando o fez, ela se deteve em seco, agachou-se em cima da cama e oscilou a cimitarra com tanta rapidez que não pôde evitar o golpe. Rashed se escorregou com as botas pelo chão, tratou de retroceder, afastou seu torso dela tudo o que pôde. O golpe não lhe deu na clavícula, mas sim lhe fez um corte superficial no peito.

—O que...?

O resto de suas palavras se perderam quando agarrou ar bruscamente. Abriu os olhos de par em par e olhou para a espada do Magiere. Enquanto franzia o cenho de dor, seus dentes chocavam e chiavam com força. Abalado pelo impacto, afrouxou a mão com a que segurava sua própria espada, que nesse momento se deslizava por cima do que ficava do escritório.

Magiere não pôde lhe responder, não podia recordar como falar. Já não queria cortá-lo com a espada. Queria lhe rasgar a garganta. Começou-lhe a doer à parte dianteira da mandíbula e não podia fechá-la de tudo, como se os dentes lhe tivessem movido de seu lugar ou lhe tivessem crescido. A confusão fez que perdesse a vantagem que tinha conseguido.

Quando Magiere por fim atacou, Rashed tinha recuperado o equilíbrio, mas seguia sem segurar bem a espada. Soltou a espada com sua mão direita e com a esquerda lhe agarrou a mão da espada ao Magiere. Rashed utilizou a força do Magiere e o impulso que levava para golpeá-la contra a parede que havia entre a porta e o armário. Sua então vazia mão direita rodeou o pescoço ao Magiere.

Magiere instintivamente lhe agarrou o pulso com a mão que tinha livre. Rashed lhe golpeou o braço da espada contra o armário duas vezes, mas ela não soltou a cimitarra.

—Não necessito uma arma para lhe matar — lhe sussurrou. Pela primeira vez a emoção se deixou sentir em suas palavras—. Precisa respirar.

Magiere se mexia grosseiramente para tentar tirar-lhe de cima, mas ele a pressionava como se fora de pedra, estava esperando a que se asfixiasse.

Magiere não se deu conta de que tinha deixado de respirar. A falta de ar fez que a habitação se voltasse enorme para ela, como se a pressão em sua garganta pressionasse também sua raiva e deixasse que crescesse em seu interior. Magiere olhou ao Rashed, não pestanejou e abriu de par em par os olhos até que se começaram a umedecer.

Quando a primeira lágrima começou a cair pela bochecha, um dilacerador grito de dor soou no piso de abaixo e o nobre moveu a cabeça pela surpresa. Magiere notou que a força com a que lhe pressionava a garganta diminuía sozinho um segundo. Soltou-lhe o pulso e lhe agarrou a parte de atrás da cabeça, então adiantou sua própria cabeça e lhe mordeu o pescoço.

Magiere sentiu a vibração de seu grito de terror em sua cara enquanto pressionou com mais força contra sua fria pele e o sangue se derramava por sua boca. De repente lhe fez um nó de fome no estômago. Rashed levantou as duas mãos para lhe empurrar a cabeça. Antes que pudesse agarrá-la Magiere retirou a cabeça e deu um golpe para baixo com sua cimitarra. Esta vez a lamina produziu um rangido sólido ao lhe dar no osso do ombro esquerdo.

—Magiere!

A voz a chamava desde algum lugar que não podia ver, de muito longe, vinha de abaixo.

O nobre rugiu e golpeou com seu punho direito apesar de que o movimento não fez a não ser aumentar a profundidade do corte. O golpe lhe deu na mandíbula.

A dor que Magiere sentiu estava tão longe como à voz que acabava de ouvir. A habitação lhe deu voltas até que o solo correu a seu encontro. No momento em que sua cabeça ricocheteou no chão a acreditou ouvir o som de madeiras e cristais ao romper-se. Esforçou-se por sentar-se, as paredes se inclinavam caprichosamente quando as olhava. Oscilou sua espada às cegas a seu redor, não era capaz de enfocar a vista. Para quando a habitação deixou de balançar-se ante seus olhos e a dor começava a abrir-se passo em seu cérebro, a habitação já estava vazia.

Custava-lhe respirar. A ira e o ódio foram saindo de seu corpo cada vez que jogava o ar, cada vez lhe custava mais, parecia como se também expulsasse as forças. Sentiu que lhe pesavam a cabeça e os braços e se voltou a tombar no chão. Enquanto estava ali tombada se deu conta do que acabava de fazer.

Não todo o sangue que tinha na boca pertencia ao nobre ao que tanto odiava, mas a tinha saboreado, tinha provado seu sangue. E esse mero pensamento fez que o medo substituísse a ira perdida.

Sua ansiedade se duplicou quando ouviu passos da escada, o nobre. Agarrou sua cimitarra com mais força e se esforçou por ficar em pé.

Leesil apareceu sobre ela. Deixou-se cair de joelhos e pôs seu torso em seu peito. O alívio fez que em sua presença o medo desaparecesse, mas por alguma razão, Magiere não queria que a visse. Afastou-se e se tampou a cara com a mão que ficava livre.

—Magiere, me olhe — disse Leesil—. Está bem?

—Não era eu — sussurrou Magiere, que por fim encontrava sua voz—. Não era eu.

—Magiere, por favor — disse Leesil com voz se desesperada—. Beth-rae morreu e Chap está ferido gravemente. Tenho que voltar abaixo. Está bem?

A vergonha, o horror e a realidade caíram sobre ela como uma laje. Por que se escondia do Leesil?

Sentou-se, Leesil a empurrou de detrás, e se deu à volta para olhá-lo. Quando se tirou a mão da cara Leesil fez um gesto de dor ao ver o sangue que tinha na mandíbula. Alargou a mão para ver o dano que lhe tinha causado no lábio inferior o murro do nobre.

Leesil retirou a mão abruptamente e a olhou como se estivesse receoso de sua presença.

—O que? —apressou-o—. O que acontece?

Leesil duvidou antes de responder.

—Presas.

O vento da noite penetrou pela janela rota e se levou o que ficava da ira no corpo do Magiere.

 

A cena que se encontraram no salão principal levou ao Leesil ao ponto de quase não poder fazer nada.

Um abajur aceso descansava sobre o extremo mais afastado da balcão e Caleb estava ajoelhado junto ao corpo de Beth-rae. Olhou Leesil confundido, como se quisesse que alguém o apagasse tudo ao explicar-lhe Chap também estava sentado junto ao corpo, gemia e empurrava o ombro de Beth-rae com o focinho. O cabelo de seu peito estava coberto de sangue, mas pela maneira em que se movia, parecia não estar tão ferido gravemente como Leesil temia.

—Saí a procurar água fresca — disse Caleb como anestesiado—. Retornei e...

—Caleb, sinto-o tanto — sussurrou Magiere das escadas.

Magiere ainda parecia estar agitada, mas pelo menos sabia perfeitamente onde estava. Se não tivesse sido pelo sangue que tinha no queixo e pelo lábio partido, Leesil tivesse pensado que não estava pior que quando ambos fingiam lutar a gastos dos aldeãos medrosos.

A garganta de Beth-rae estava rasgada de maneira irregular de lado a lado. Leesil sabia que a arma que tinham utilizado era uma unha suja.

—Foi ele — disse Leesil por fim—. Aquele sujo menino mendigo contra o que lutamos no caminho da Miiska. —Não olhou ao Magiere enquanto falava—. Atacou-nos... Ou, em realidade foi Chap o que atacou a ele, mas subiu pela janela dianteira. Beth-rae lhe atirou algo por cima e começou a gritar e a pele lhe pôs negra.

—Água de alho — disse Caleb enquanto lhe acariciava lhe o cabelo com suavidade a Beth-rae.

—O que? —perguntou Magiere.

—Guardávamos um barril de água de alho na cozinha — respondeu simplesmente—. Se cozinhar alhos em água durante vários dias, converte-se em uma arma contra os vampiros.

—Vale já — disse Magiere com dureza de uma vez que se aproximava—. Agora mesmo não quero ouvi-lo. Fora o que fora o que queriam eram homens, simplesmente homens. Entende-o?

Pela primeira vez desde que se conheceram Caleb olhou ao Magiere com algo muito parecido ao mais puro desagrado em seu rosto. Esforçou-se por levantar em braços, com cuidado, a sua esposa.

—Se te tivesse deixado de enganar a ti mesma e te tivesse ocupado da verdade pode que minha Beth-rae não estivesse morta.

Levou o corpo através da cortina até a cozinha. Chap o seguiu, ainda gemia.

Magiere se deixou cair com todo seu peso até sentar-se no último degrau da escada e se tampou os olhos com as mãos. Algumas mechas do cabelo que levava solto ficaram apanhados no sangue que começava a secar-se em seu queixo.

—O que está passando? —perguntou-lhe Leesil—. Sabe?

—O homem do rio Vudrask era igual — disse com tranqüilidade.

—Do que está falando?

—Era igual: pálido, com os ossos duros como rochas, muito forte, surpreendeu-se de que minha arma o ferisse. Era igual.

—Quer dizer que era igual ao menino mendigo da estrada, que veio esta noite — acrescentou Leesil cada vez mais zangado—. Algo que tenha esquecido me dizer? Sim?

Leesil respirou profundamente várias vezes. Se lhe gritava não ia fazer nada por melhorar a situação, assim que se deu a volta. Leesil queria beber algo, aproximou-se da barra, encontrou sua velha taça e a encheu.

—Não posso notá-los agora — disse Magiere e Leesil levantou a vista para vê-la passar-se dúbia um dedo pelos dentes de acima muito devagar, um por um. Baixou a mão—. Pode que somente lhe imaginasse.

—Não me imaginei nada! —disse Leesil levantando o tom com cada palavra. Golpeou a taça contra o balcão e caminhou até agachar-se frente a ela—. Isto não é sozinho algo que esteja em sua cabeça e certamente que na minha tampouco.

Leesil levantou a mão rapidamente para lhe agarrar à mandíbula. Magiere começou a afastar-se, mas ficou quieta e o olhou fixamente. Ao princípio sua expressão facial permaneceram inexpressivos e sem emoção alguma ante a cercania de sua mão e, de repente, trocaram. A cara do Magiere desafiava ao Leesil a que encontrasse o que acreditava ter visto antes.

Leesil se moveu com cuidado. Magiere não abriu a boca, mas tampouco resistiu quando lhe pressionou a mandíbula com os dedos com suavidade para abrir-lhe Não lhe tocou os dentes porque não o necessitava. Não havia nem rastro da elongação de suas presas. Leesil deixou cair sua mão, mas não deixou de olhar.

—Temos que informar ao agente do ataque — disse Leesil—. O rumor da morte de Beth-rae vai se propagar com suficiente velocidade.

Magiere se deixou cair para trás e fechou os olhos devagar.

—Leesil? —chamou-o uma pequena voz do alto da escada.

Magiere abriu os olhos de repente.

—Rose? —disse Magiere com suavidade enquanto se girava para olhar para cima.

Uma pequena figura em uma camisola de musselina se estava esfregando os olhos enquanto bocejava.

Leesil subiu os degraus de dois em dois.

—Onde estão a vó e o vô? —perguntou Rose meio acordada. Seu lábio inferior tremeu levemente—. Ouvi ruídos na escuridão.

—tiveste um mau sonho. —Leesil agarrou ao Rose com rapidez, mas também com suavidade, e a pôs contra o ombro.

—Onde está a vó?

—A gente que dorme em minha cama nunca tem maus sonhos — lhe respondeu—. É muito grande e muito suave. Quer dormir ali?

Rose piscou de novo, esforçava-se por manter os olhos abertos um momento.

—Onde dormirá você?

—Eu me sentarei em uma cadeira e te vigiarei até que saia o sol. Está bem?

Rose sorriu e se agarrou a seu cabelo quando pôs a cabeça no vão de seu pescoço.

—Sim, tenho medo.

—Não o tenha — antes de dá-la volta para sua habitação com a cansada menina ao ombro, Leesil olhou para baixo. Magiere estava de pé ao final da escada apoiada no corrimão. A voz do Leesil se tornou doce e suave ao lhe sussurrar à menina.

—Tudo será melhor pela manhã — lhe mentiu.

 

Rashed se passeava pelo interior da gruta que havia debaixo de seu armazém tão agitado que quase era presa do pânico. Tinha corrido a casa para encontrar-se com a Teesha e Ratboy, pois tinha suposto que Ratboy também teria corrido a casa, para levá-los a algum lugar seguro. A caçadora lhe tinha visto a cara com claridade, não havia dúvida, e muitos dos habitantes do povoado o conheciam, ou sabiam que era o dono do armazém. Somente faltavam uns momentos para que saísse o sol, e não só seguia sem aparecer Ratboy, mas sim tinha retornado a casa para ver que Teesha também se foi.

Tinha ido buscá-los ou teria posto ao Ratboy a salvo ela mesma? Ambas as possibilidades encaixavam com a natureza da Teesha, mas não podia estar seguro. Rashed se aproximou do extremo mais profundo da gruta, preparado para retornar e procurar a Teesha, mas podia sentir a hora que era. Depois de tantos anos na noite, qualquer vampiro se dava conta da hora e do movimento oculto do sol. Qualquer que não tivesse conseguido adquirir tal destreza já fazia muito que se teria queimado até converter-se em cinzas à luz do sol. Rashed sabia que o sol começava a sair pelo horizonte, e por isso se deteve, a ponto de partir e ficou a passear-se acima e abaixo outra vez na escuridão.

Onde estava Teesha?

Rashed tinha construído seu mundo com supremo cuidado em um lugar no que pudessem viver e prosperar, alimentar-se prudentemente e não correr riscos de ser descobertos. Era lar suficiente, mas não sem a Teesha. Com o tempo, até albergava esperanças de que se visse livre desse espectro que tinha por marido que lhe tinha pegado na outra vida. E se Teesha tinha ido buscá-los o Ratboy e a ele e se queimou com a luz do sol? Então seria melhor que Ratboy se queimou com ela, ou Rashed o ia despedaçar muito devagarzinho, parte por parte, durante compridos anos sem sangue, não lhe deixaria morrer pela segunda vez nunca.

Também condenaria à caçadora à tortura eterna. E que tonto tinha sido ele mesmo.

O sangue emanava da ferida que Rashed tinha no ombro e não podia mover o braço esquerdo com facilidade. Tinha uma fratura clara na clavícula. A ferida superficial de seu peito também lhe estava impregnando a caçadora. Cada ferida queimava como se as tivessem impregnado com os óleos benditos de um padre. As Feridas não lhe estavam cicatrizando absolutamente. Rashed recordou o pânico do Ratboy quando retornou de sua luta com a caçadora na estrada, e ele sabia que teria que alimentar-se muito em breve para poder curar suas feridas.

Havia-dito ao Ratboy que nada de ruídos. Acaso era um conceito tão difícil de entender? Em questão de segundos tinha perdido o controle de sua luta com a caçadora e Ratboy as tinha engenhado para alertar a toda a casa. Agora a caçadora tinha confirmação de que ao menos dois não-mortos habitavam naquela população. A situação apenas se podia ser pior.

E o que lhe tinha passado a ele durante a luta com a caçadora? Por todos os demônios do inferno! A espada da jaqueta estava magicamente dotada, isso se não tinha sido criada magicamente: isso era óbvio. De onde a tinha tirado? Inclusive uma espada que se guardou ou tivesse sido misteriosamente fabricada para combater aos não-mortos não deveria ter prevalecido contra seu ataque, ele era muito forte e sabia muito. Não é que fora orgulhoso ou arrogante, era realista. Deveria ter podido vencê-la, por não dizer matá-la diretamente, e deveria ter podido sair pela janela com o corpo em questão de segundos. Em lugar de cansar-se, a força da caçadora e sua velocidade tinham ido aumentando com seus ataques.

E, além disso, a caçadora o tinha mordido como se fora uma mais de sua própria espécie.

Rashed havia sentido o calor de seu corpo, tinha ouvido como lhe palpitava o coração. Ela não era um vampiro nem nenhum outro morto nobre. O que tinha passado? Além disso, lhe tinha visto a cara. Era somente uma questão de tempo e de que a caçadora fizesse um par de perguntas que o relacionasse com o armazém.

—Devemos partir — murmurou.

—Rashed! —chamou-o a voz da Teesha do outro lado da gruta.

Um grande alívio percorreu todo o corpo do Rashed por ouvir a voz da Teesha. Mas quando se deu a volta e a viu avançar a tropicões para ele, viu que sua cara estava tão cheia de medo como a sua quando atravessou a janela do botequim para salvar sua própria existência. Rashed correu para ela e sua fúria retornou com rapidez ao ver o que tinha diante.

Teesha levava ao Ratboy meio inconsciente pego pelo pescoço da camisa e o arrastou ao interior da gruta. Teesha parecia estar exausta. Nunca tinha tido a força física da que todos os mortos nobres estão dotados. Possivelmente fosse um intercâmbio por sua maior habilidade nos pensamentos e os sonhos que utilizava para caçar. Até ele havia sentido alguma vez uma enorme calma para ouvir seus cadenciadas palavras.

—Alguém lhe atirou água de alho por cima de Ratboy — disse Teesha—. O encontrei engatinhando perto do mar, estava usando a areia úmida para tirar-lhe a apóio de esfregar. Tive que matar a um vendedor abaixo, perto da costa, para alimentá-lo rapidamente. Às pressas não me permitiram fazer o de uma maneira mais discreta e Ratboy necessitava grande quantidade de sangue. Enterrei o corpo na areia, por agora. Conseguimos entrar em casa justo antes que saísse o sol, mas está muito ferido gravemente.

Como resposta, Rashed agarrou ao Ratboy pelo peitilho da camisa e o levantou do estou acostumado a empurrando-o contra a parede de terra da gruta. A pele do garoto ainda estava enegrecida e carbonizada em algumas zonas, chiava e se rompia. Estava-lhe bem empregado por sua imprudência.

—Agora estamos apanhados aqui por sua culpa — disse Rashed em voz baixa—. Pode que a caçadora venha durante o dia e queime tudo isto conosco dentro.

Os olhos do Ratboy não eram mais que meras frestas, mas o ódio brilhava com claridade neles.

—Que pena — conseguiu dizer com voz rouca.

— Disse-te que nada de ruídos! Obrigou-me a sair dali antes de terminar meu trabalho. —Isso era verdade só em parte, mas tampouco fazia falta que Ratboy e Teesha soubessem.

—E quem te cortou o ombro? —Ratboy abriu muito os olhos fingindo surpresa—. Tem-te feito mal, meu querido capitão?

Rashed o deixou cair e levou o punho para trás preparado para golpeá-lo.

Teesha o agarrou. O mero tato de suas mãos era suficiente para detê-lo.

—Isto não vai ajudar para nada — disse Teesha. Com uma leve pressão ele poderia ter resistido, mas Teesha baixou o braço ao Rashed—. Temos que colocar todas as armadilhas e nos esconder o mais abaixo possível.

É obvio que tinha razão. Não podiam fugir a nenhum lugar até que caísse a noite. Agora era ele o que estava fazendo o ridículo, e diante dela. O engano do Ratboy o tinha anulado a ele em mais de um sentido. Rashed se recompôs com rapidez.

—Sim, você ajuda ao Ratboy. Eu colocarei os mecanismos e me reunirei com vós abaixo.

Os pequenos dedos da Teesha lhe roçaram a cara, como se estivesse contente de que ele assumisse o mando de novo.

—me deixe que me ocupe de seu ombro.

—Não, está bem. Somente vai-te mais abaixo.

Podia ser que todos chegassem vivos ao entardecer.

Leesil e Magiere estavam esperando no salão principal a que chegasse o agente Ellinwood. Quando saiu o sol, Leesil tinha abordado a um guri na rua e lhe tinha pagado para que corresse ao quartel com as notícias do assassinato de Beth-rae. Seu primeiro instinto tinha sido limpar toda a desordem do salão principal, mas Magiere o tinha detido.

—Tudo isto prova que nos atacaram — disse Magiere.

Deixaram tudo onde tinha caído a noite anterior, com duas exceções. Caleb se tinha levado o corpo de Beth-rae à cozinha e não havia tornado a sair. E logo estava a fina adaga do Ratboy.

Leesil nem sequer se acordou dela até que tinha ido à parte de atrás do balcão a guardar a besta e a tinha encontrado no chão. Agarrou a adaga sem fazer ruído e a tirou da vista de Magiere.

Ratboy deveu usá-la para abrir o ferrolho da janela do salão principal. A lamina era larga e estranhamente plaina o que fazia que fora o suficientemente fina para colocá-la entre as venezianas ou na ombreira de uma porta, e a largura lhe daria força ao empurrá-la contra qualquer gancho de metal ou ferrolho. Ao inspecionar a lamina, encontrou-a bem cuidada e afiada, mas tinha uma forma estranha na ponta. Não era algo manifesto, e pode que ninguém mais se deu conta, mas Leesil se penetrou por suficientes janelas em sua vida para saber o que era o que tinha diante dele.

Perto da ponta, as bordas já não estavam retos, mas sim estavam um pouco recortados. O excessivo uso tinha desgastado o metal e os freqüentes afiados tinham feito que parecessem umas ligeiras curvaturas no borda a cada lado. Ratboy não era um vulgar ladrão, fora o que fora, mas Leesil se deu conta de que o menino mendigo tinha muita experiência nisso de entrar nos lugares sem que o vissem. Uma lamina como aquela era uma eleição pessoal, às vezes feita especialmente e sem dúvida uma posse da que se cuidava bem. E ainda assim, Ratboy, estava muito claro, não tinha entrado no botequim para roubar nada, e suas maneiras não eram os de um assassino, a pequena criatura podia enganar e ser sigilosa até certo ponto, mas não era nada fino.

Leesil tinha sérias dúvidas de que Ellinwood pudesse entender tais coisas sem que as indicassem claramente e depois as explicassem. E tampouco estava seguro de como se conectava com os detalhes mais estranhos da noite anterior. Se for necessário lhe mostraria a adaga, mas no momento a colocou debaixo da parte de atrás da camisa. Magiere poderia não estar de acordo com tal ação, mas já se ocuparia ele disso se saía a reluzir e quando saísse a reluzir. Deu a volta ao balcão, ficou na sala e lhe jogou uma olhada aos restos de mesas e cadeiras, aos cortes recentes do balcão e aos atoleiros de sangue seca.

As palavras do Magiere tinham sentido tudo tinha que ficar como estava para que Ellinwood se acreditasse o que tinha passado, mas Leesil odiava não fazer nada. O chão manchado de sangue lhe seguia chamando a atenção. Por que não se manteve firme e havia tornado a carregar a besta? Por que não tinha atacado à criatura logo que Beth-rae lhe tinha atirado à água de alho? A cena se repetia uma e outra vez em sua cabeça enquanto examinava todos e cada um dos movimentos que pôde ter feito de maneira diferente. Cenários que lhe tinham ensinado seu pai e sua mãe fazia já muito tempo voltavam arrastando-se a sua mente dos lugares nos que os tinha escondido. Tinha cometido tantos enganos, e agora Caleb era viúvo e a pequena Rose se ficou sem sua avó.

O peito do Chap estava já quase totalmente curado, o que em si mesmo lhe parecia com o Leesil muito para ficar a pensar nisso, se somava a tudo o que parecia não ter sentido em suas vidas ultimamente. A ferida da cara do Magiere parecia ter dias em lugar de horas. Cada vez que Magiere e Chap se enfrentavam a aqueles estranhos atacantes, curavam-se com uma rapidez sobrenatural. Ou acaso sempre tinham sido rápidos na hora de curar-se? Ocorreu-lhe que em todos os anos que tinham estado juntos nunca se viu em uma situação como aquela com nenhum dos dois, assim não tinha forma de estar seguro. Não queria falar de nada daquilo, mas, quanto lhe foram contar ao agente?

—Magiere?

—O que?

—Ontem à noite... Seus dentes — começou Leesil—. Sabe o que aconteceu?

Magiere se aproximou dele, seguia tendo o cabelo enredado em ondas e mechas ao redor da cara. A pouca luz que entrava pela janela lhe dava por detrás, e as mechas de seu cabelo se voltavam da acostumado cor vermelha, quase um vermelho sangue, e tal comparação incomodava ao Leesil. Magiere tinha uma expressão muito séria, como se quisesse, como se inclusive, por alguma razão, momento ou ânimo lhe contar algo.

—Não sei. A verdade é que não sei — lhe respondeu. Fechou os olhos com força e negou com a cabeça lentamente.

Leesil notou que movia a mandíbula, pode que estivesse comprovando com a língua se seus dente estavam como deviam e não haviam tornado a converter-se no que ele tinha visto. Baixou a voz, quase sussurrou, apesar de que não havia ninguém perto que a pudesse ouvir.

—Estava tão zangada, mais do que o estive jamais em minha vida. Não podia pensar em nada mais que não fora em matá-lo. Odiava-o tanto...

 

Bateram na porta do botequim e a interromperam. Franziu o cenho em uma mescla de frustração e desagrado. Deixou escapar um suspiro.

—Esse deve ser Ellinwood. Terminemos com isto de uma vez.

Com um rápido olhar e gesto para o Magiere, Leesil foi abrir a porta, mas para sua surpresa não era o agente Ellinwood o que estava ao outro lado da porta a não ser Brenden.

—O que está fazendo aqui? —perguntou-lhe Magiere.

—Disse-lhe que podia passar-se por aqui quando queria — atravessou Leesil, quem o tinha esquecido até aquele preciso momento.

—Inteirei-me que o que aconteceu — disse o ferreiro com tristeza—. Vim a ajudar.

Leesil nunca tinha visto ninguém com um cabelo vermelho tão chamativo como o do Brenden, e com a barba a jogo parecia uma grande bola de fogo em sua porta. Seu colete de couro negro estava muito limpo para lhe pertencer a alguém que se passava o dia trabalhando com ferro e cavalos. Magiere olhou ao ferreiro como se de verdade não lhe importasse se ficava ou se não o fazia.

—Ellinwood não serve para nada — seguiu Brenden com a mesma voz triste—. Se lhe contarem o que passou de verdade enterrará o caso e nunca falará dele a não ser que o obriguem. Não fará nada.

—Vale — disse Magiere de uma vez que se dava a volta—. Fique se quiser, vai se quiser. Não esperamos nenhuma ajuda do agente, de todas as maneiras. Ontem à noite assassinaram a Beth-rae e a lei nos obriga a informar às autoridades.

Leesil permaneceu em silencio durante aquela breve conversação com a esperança de que Brenden e Magiere pudessem falar um com o outro e ver-se como pessoas. O ferreiro era uma das poucas pessoas do povoado que tinham conhecido que estava disposto a falar de algo relacionada com o ataque na estrada ou com o que tinha passado à noite anterior. O resultado de sua presença não era precisamente o que Leesil tinha desejado, mas ao menos Magiere não o tinha jogado das instalações. Leesil deu um passo atrás e o convidou a passar.

—Prepararei um pouco de chá — disse Leesil.

—Como está Caleb? —perguntou Brenden enquanto olhava o estou acostumado a manchado de sangre junto à barra.

—Não sei. Não o vimos desde justo depois de que...

De repente o botequim se sentiu fria e o meio elfo se ocupou em acender o fogo e ferver água para o chá. Poderia ter preparado na cozinha, mas não queria deixar a Magiere. Além disso, Caleb estava na cozinha com o corpo de Beth-rae, ao que Leesil não podia obrigar-se a olhar naquele momento.

De algum jeito, os três conseguiram falar de banalidades. Brenden parecia duvidar na hora de fazer muitas perguntas a respeito do acontecido a noite anterior, mais que nada por não danificar a bem-vinda que lhe tinham dado naquele momento no que tinha conseguido ter certa aceitação. Magiere evitou dar respostas completas às poucas perguntas que lhe fez. Já ia se inteirar de tudo aquilo quando chegasse Ellinwood. Com o Magiere já escassa de respostas evasivas e com o Brenden já escasso de perguntas aceitáveis, a habitação ficou opressivamente silenciosa até que voltaram a bater na porta.

—Este deve ser ele — disse Magiere enojada—. Leesil pode atender à porta?

Esta vez o visitante era efetivamente o agente Ellinwood, que se esclareceu garganta a modo de saudação e parecia sentir-se na obrigação de cumprir com seu dever. Sua enorme e colorida figura encheu a soleira da porta como uma esmeralda gigante que se abrandou por anos de vacância.

—ouvi que tiveram alguns problemas — disse com o tom de quem quer tomar o mando, mas, em realidade preferiria estar em outro lugar. As olheiras tremendamente escuras sugeriam que não tinha dormido muito bem e suas carnudas bochechas pareciam lhe pendurar mais que de costume.

—Poderia dizer-se assim — respondeu Leesil com frieza. Deu-se a volta sem tão sequer lhe fazer um gesto ao agente para que entrasse—. Beth-rae morreu. Um lunático lhe destroçou a garganta com suas unhas.

Ellinwood entrou detrás do Leesil de uma vez que balbuciava indignado por seu comentário. Então viu a mancha escura no chão ao lado do extremo mais afastado da barra.

—Onde está o cadáver?

—Caleb a levou a cozinha — respondeu Leesil—. Não tive coração para lhe dizer que não.

—por que não lhes pergunta o que é o que passou? —disse Brenden com os braços cruzados—. Ao menos antes de ficar a procurar suas supostas pistas a respeito de algo do que não tem nem a mais remota idéia.

—O que está fazendo ele aqui? —perguntou Ellinwood.

—Eu o convidei — respondeu Leesil dizendo a verdade pela metade.

Para então Magiere se aproximou da chaminé e simplesmente estava ali de pé observando e escutando. Naquele momento se deu a volta e se afastou dos três homens.

Leesil experimentou uma quebra de onda de pena seguida de outra de preocupação. Tinha muitas perguntas sem resposta a respeito do Magiere, mas podiam esperar a um momento melhor. Ela já se estava ocupando de muitas coisas em um espaço muito curto de tempo. Todos o faziam, em realidade. E por muito que ele quisesse que suas perguntas tivessem resposta, tampouco queria pressioná-la muito, ou ao menos não mais.

—Começa você, Leesil — disse Magiere com suavidade—. Tão solo o conte o que viu.

Leesil começou a lhe contar tudo com a maior claridade possível. Em sua maioria, não soava muito mais que à história de um ladrão desumano ao que tivessem interrompido durante um roubo incompetente, exceto pela flecha que o menino mendigo se arrancou de sua própria frente. Por muito estranho que parecesse, Ellinwood não reagiu a tal comentário com nada mais que uma sobrancelha levantada. Então Leesil chegou à parte em que Beth-rae entrou correndo da cozinha.

—Atirou-lhe um cubo de água em cima e começou a exalar fumaça.

—Fumaça? —disse Ellinwood enquanto passava o enorme peso de seu corpo ao outro pé—. O que quer dizer?

—A pele lhe pôs negra e começou a exalar fumaça.

—Água de alho — o interrompeu Brenden—. É veneno para os vampiros.

O agente negou ao ferreiro.

Leesil começou a suspeitar ainda mais. O tampouco aceitava a idéia dos vampiros, e tampouco é que o houvesse dito nem implícita nem explicitamente, mas os detalhes estavam ali. Ellinwood não parecia estar nem um pouco surpreso e tampouco é que tivesse negado ou aceito a conclusão do Brenden. Leesil se guardou aquilo para si mesmo, no momento.

—O que passou então? —perguntou-lhe Ellinwood.

—Ele correu atrás dela, golpeou-a, rasgou-lhe a garganta com as unhas e lhe rompeu o pescoço — continuou Leesil—. Depois escapou pela porta de atrás da cozinha.

Umas quantas perguntas e respostas mais continuaram aquela conversação, todas igual de práticas e do tipo de «e logo o que aconteceu», nenhuma levou a um intercâmbio de informação relevante. O agente estava informal, quase aborrecido e sempre demorava muito em fazer a seguinte pergunta. Em algum ponto do caminho, Leesil se deu conta de que Ellinwood não lhe tinha perguntado sobre o possível motivo da intrusão. O conceito de roubo nem sequer se mencionou. Tampouco é que teria que havê-lo feito, já estava muito claro que não se tratava de nenhum roubo, mas o agente nem sequer tinha tentado fazê-lo passar por tal. Quando Leesil lhe descreveu ao intruso, fixou-se em que Ellinwood se revolveu incômodo antes de voltar para sua complacência.

Foi então quando Leesil decidiu que se ia guardar o assunto da adaga para si. O desinteresse do Ellinwood era óbvio. Estava representando seu papel e fazendo seu trabalho só de boca pequena, e, além disso, escondia algo. Leesil não podia dizer por que o fazia, mas a adaga podia resultar bastante mais útil em seu poder que se a dava para que a guardassem e armazenassem para depois esquecer-se dela.

O agente se girou para o Magiere.

—E enquanto acontecia tudo isto a atacaram no piso de acima? —perguntou.

—Sim — conseguiu responder Magiere. Deu-se a volta e olhou diretamente ao Ellinwood enquanto falava—. Era muito alto e chamativo. Tinha o cabelo negro e o levava muito curto e os olhos quase transparentes com um ligeiro toque de azul. Ia vestido como um nobre, com uma jaqueta azul escuro, capa e botas altas. Levava uma espada larga que usava como se tivesse muita experiência em combate e tivesse sido bem treinado.

Magiere continuou e se esforçou por recordar o maior número de detalhes a respeito de seu assaltante. Suas expressões e gestos de superioridade, a maneira em que se movia a maneira em que falava. Pouco a pouco o agente parecia estar menos aborrecido. Sua compleição trocou e se tornou mais pálida até que sua pele adquiriu um reflexo branco pegajoso. Entretanto, Brenden o único que fez foi lhe acrescentar rugas a seu cenho já franzido, seus olhos cada vez estavam mais juntos e entrecerrados, fixos no Magiere, como se estivesse tentado criar a descrição que ela estava dando em sua mente e estivesse começando a reconhecer ao indivíduo.

Leesil começou a notar que Magiere também se deu conta de que Ellinwood tinha perdido seu desinteresse inicial. Para então já parecia abertamente nervoso. Magiere se viu mais resolvida e passou a fazer perguntas em lugar das responder.

—A quantos homens deste povoado pode descrever tal definição?—perguntou—. Não sei por que não me ocorreu até agora. Você deve conhecer todo mundo aqui, verdade? Este ia muito bem vestido para ser um rufião de meio pêlo que procurasse ter umas quantas moedas no bolso com rapidez.

—É o dono do maior armazém da Miiska — respondeu Brenden com suavidade—. Não sei como se chama, mas vi...

—Silêncio! —gritou Ellinwood ao ferreiro em um tom que chiava de quão forte era. Todos ficaram muito surpreendidos—. Guarde suas estúpidas conclusões para você mesmo. Há centenas de homens altos de cabelo escuro neste povo e chegam centenas novas ao porto cada dia.

—Centenas? —perguntou-lhe Leesil em tom de brincadeira.

Ellinwood evitou o sarcasmo e se concentrou no Brenden.

—Não vou acusar a um respeitável homem de negócios só para te agradar a ti!

—É um covarde — disse Brenden mais resignado que zangado—. Não posso me acreditar quão covarde é.

—lhes cale os dois! —espetou Magiere, com mais aspecto de tigre mordaz, como Leesil a recordava e se interpôs entre o agente e o ferreiro. Ellinwood retrocedeu enquanto balbuciava e tentava manter um ar de indignação, mas Magiere nem sequer se deu conta.

—Não lhe estou contando isto porque espere ou deseje nenhuma ajuda — disse Magiere ao Ellinwood—. Somente comporto como um cidadão que acata a lei. Se não quer ocupar-se disto é você livre para voltar para seu quartel ou ir-se tomar o café da manhã ou o que seja que faça pelas manhãs. —girou-se para o Brenden—. E a ti ninguém pediu conselho, ferreiro.

Ellinwood não fez nenhum movimento que indicasse intenção alguma de continuar com a investigação, nem inspecionou a sala nem fez gesto de ir ver o corpo ou a planta de acima do botequim. Leesil começou a pensar que era muito possível que o agente não precisasse fazer nenhuma daquelas coisas. O homem repulsivo provavelmente soubesse mais que ninguém daquela sala. Pegar-lhe até que dissesse a verdade era uma tentação muito grande, mas não faria mais que aumentar seus problemas. Ao menos no momento.

O agente inchou as bochechas em um intento por controlar a situação.

—Farei que meus homens penteiem o povoado em busca de qualquer que coincida com a descrição que me deu. Informaremos vocês se descobrirmos algo.

—Sim, faça-o — disse Magiere a modo de despedida.

Depois de que partisse o agente, os outros três ocupantes da habitação ficaram de pé olhando-os uns aos outros.

—Tenho sérias dúvidas de que vamos ouvir nada dele — disse Leesil—. Ou pelo menos não vamos ser os primeiros.

Brenden apenas se grunhiu a modo de assentimento.

A seu redor havia varas pilhas de mesas rotas e Leesil recordou que teriam que substituir a porta e a janela do dormitório de Magiere. No momento a levaria a sua habitação e ele iria se dormir sobre a barra ou junto à chaminé.

—Não terminou. Temos que caçá-los nós mesmos — disse Brenden a Magiere—. Sabe verdade?

Por todos os Santos, acaso estava louco? Uma enorme irritação, possivelmente algo mais que isso, apoderou-se do Leesil pela primeira vez.

—Deixa isso de uma vez! —médio gritou Leesil antes de poder controlar-se—. Já teve suficiente para um dia.

—Sei — respondeu Magiere em um sussurro evitando o arranque do Leesil—. Sei.

 

Ratboy acreditava que os vampiros dormiam durante o dia, como plantas ou flores investidas. É obvio que se guardava sua opinião para si mesmo e nunca contaria tal pensamento fantasioso diante da Teesha ou Rashed.

Ao sair o sol ele sempre caía em um profundo sonho isento de imagens. Mas hoje não. Hoje.

Quanto fazia que não utilizava uma palavra que se relacionasse com o dia? Não podia recordá-lo. Ali deitado em seu caixão, sobre a terra de seu povoado natal, a grande profundidade nos túneis sob o armazém, Ratboy não podia dormir. O corpo ainda lhe queimava da água de alho, apesar de que Teesha o tinha alimentado, e o espírito lhe queimava pelas duras palavras do Rashed.

Aquele filho do deserto se responsabilizaria alguma vez de seus próprios enganos? Ratboy o duvidava muito. Todas as ações empreendidas por Rashed, todas as decisões que Rashed tomava vinham motivadas pelo profundo amor que sentia pela Teesha e que o consumia. E o mais gracioso, e o mais trágico, era que nunca saberia que força era a que o impulsionava. Desempenhava o papel de pai e protetor. Entretanto, nunca admitiria algo tão patético como o amor, nem sequer a si mesmo. Especialmente a si mesmo.

Nem sequer para o Parko.

Na escuridão de seu caixão, Ratboy permitiu a sua mente retornar à viagem que fizeram ao sair do castelo do Corische. Graças à previsão do Rashed, a viagem não foi incômodo. Rashed carregou seus caixões em um vagão grande, empilhados de dois em dois e bem tampados por uns panos de lona. Também entrou nos aposentos privados do Corische e agarrou muito dinheiro. Ratboy nunca lhe perguntou quanto, mas isso era parte do passado e presente dilema do Ratboy. Sempre lhe deixava os detalhes, as preocupações e os planos ao Rashed. Sempre se movia na magra linha entre odiar ao Rashed e depender dele.

Uma noite, na estrada, uns grunhidos baixos chegaram até seus ouvidos quando o carro se aproximava de uma grande curva da estrada. Um momento depois, três lobos quase mortos de fome saíram de entre as árvores e atacaram a seus cavalos.

Dois lobos mais saltaram desde atrás e subiram ao carro, Parko lhe deu um chute a um instintivamente. Mais figura saíram do bosque, e Ratboy se deu conta de que eram muitos mais que eles. Os lobos não é que lhe dessem medo, exatamente, mas uma fome podia transformar a aqueles animais e foram aumentando diante de seus olhos.

Os cavalos gritaram. Ele mesmo lhe deu um chute ao outro lobo para tirá-lo do carro e olhou a seu redor em busca de uma arma. Então o ataque se deteve.

Teesha sustentava as rédeas dos cavalos para evitar que saíssem correndo. Rashed estava no assento do condutor com os olhos fechados. Parecia estar sussurrando, mas apesar de estar muito perto dele, Ratboy não podia ouvir nem um som sair de seus lábios.

Os grunhidos foram desaparecendo e os lobos retrocederam. Alguns até gemeram. Desde um em um se meteram entre as árvores.

—O que fez? —perguntou Ratboy.

Rashed se encolheu de ombros e lhe tirou importância.

—Uma de minhas habilidades. Não a uso muito freqüentemente.

—Pode controlar as mentes dos lobos?

—E dos gatos do deserto e outros depredadores.

Ratboy não podia controlar as mentes de animais depredadores. Sabia que todos os mortos nobres desenvolviam habilidades e poderes algo distintos, mas, por que parecia que Rashed tinha todos os úteis? Incomodava-lhe muito depender tanto do Rashed, embora estivesse obrigado a confiar em seu líder, e por outra parte, ele sempre sabia o que teria que fazer.

A essência daquela dicotomia teve lugar na estrada, quase a meio caminho da Miiska.

Antes que começasse sua existência como não-mortos, Parko e Rashed eram os dois irmãos mais unidos do mundo. Ratboy sabia pelas fibras de lembranças que alguma vez tinha contado Rashed. Parko era uma criatura suave que necessitava que seu irmão maior o protegesse. E de novo, embora Rashed não parecesse reconhecer o que era o que movia seus impulsos, Ratboy sabia que a necessidade de proteger era algo que formava parte da natureza de Rashed. Entretanto, uma vez que começaram suas vidas como mortos nobres, Parko se converteu em uma pessoa completamente distinta, selvagem, e com freqüência incoerente. Cada vez se fazia mais difícil controlá-lo.

Uma vez que deixaram o castelo do Gäestev, o pouco controle que Rashed tinha sobre o Parko diminuiu. Seu líder planejava com supremo cuidado o que viajariam cada noite e consultava os distintos mapas que levava em numerosas ocasiões. Normalmente chegavam a alguma povoado com alguma estalagem antes que saísse o sol. Rashed pagava bem por umas habitações no porão se as tinham e como sabia que era impossível descarregar os caixões sem levantar suspeitas, simplesmente fazia que sua pequena família levasse bolsas de terra entre seus pertences. Cada um deles dormiria com as bolsas perto do corpo até que voltasse a cair à noite, momento em que voltariam a retomar seu caminho. Rashed sempre contava uma história parecida com os hospedeiros a respeito de como tinham estado viajando toda a noite e precisavam descansar sem que os incomodassem. Teesha aparentava ser delicada e estar muito cansada e Parko e Ratboy se faziam passar por serventes. Embora ele nunca o admitisse, Ratboy se encontrava seguro com os planos do Rashed e com o bem que dirigia tanto aos mortais como ao mundo dos mortais.

Apesar de tudo, havia algo atrativo nas maneiras selvagens do Parko. Além disso, Parko odiava as regras de Rashed quanto a que tinham que dormir debaixo de cobertura e a que somente se podiam alimentar quando fora estritamente necessário. Rebelava-se a cada oportunidade que lhe apresentava.

Um dia, no caminho, viram-se obrigados a dormir em uma igreja abandonada. Parko se tinha deslizado da carruagem sem que o vissem. Uma vez que descobriram sua ausência, Rashed deteve o vagão imediatamente. Saiu e olhou muito devagar na escuridão, procurava. Deteve-se olhando diretamente mais adiante na mesma estrada.

Normalmente, só um senhor como Corische podia fazer aquilo para localizar a um ajudante criado por ele mesmo. Pode que como tinham sido irmãos em vida, Rashed pudesse sentir onde estava Parko. Aparentemente seu irmão tinha estado viajando por diante deles. Parariam no seguinte povoado, um pouco mais abaixo, a ver se estava ali.

Quando chegaram, o povoado estava consumido em um estado de histeria coletiva. Havia um pequeno grupo de gente ajuntados frente à porta principal da estalagem, que estava aberta, alguns homens armados os continham. As vozes se ouviam altas e zangadas e foi muito fácil ouvir que o hospedeiro e sua mulher tinham sido encontrados mortos em suas camas. Ratboy observava enquanto um guarda saiu correndo da estalagem e vomitou no esgoto da rua.

Naquele povoado os estranhos não iam ser bem recebidos e Rashed nem sequer reduziu a velocidade dos vagões. Uma vez que perderam de vista o povoado açoitou aos cavalos para que corressem. O amanhecer se aproximava.

Apesar de que a capela que encontraram ao pé da estrada parecia antiga, como negligenciada e não visitada durante anos, ao Rashed desgostava claramente o débil estado da situação em que se encontravam. A idéia de que Teesha dormisse em um lugar tão pouco seguro o enchia de ira. Quando Parko os alcançou, justo antes do amanhecer, tinha a cara e as mãos cobertas de sangue e já não ria dissimuladamente nem sorria como de costume.

Rashed estava furioso com seu irmão e lhe gritou. Parko simplesmente se retirou a um canto com sua bolsa de terra, com o olhar fixo no Rashed e sem pestanejar. Ratboy suspeitava que Parko tivesse atuado por despeito, farto já de estar constrangido continuamente e de ter que reprimir constantemente seus instintos e desejos naturais. Além disso, Ratboy também se perguntava como seria deixar-se levar, deleitar-se em uma matança como Parko fazia. Parko seguia olhando com ódio a seu irmão quando Ratboy fechou os olhos muito depois e tentou descansar.

Teesha seguia seu próprio conselho no que ao irmão do Rashed se referia, mas Ratboy podia sentir como crescia a tensão no grupo. Ele mesmo se sentia esmigalhado por dentro. Às vezes sentia que Parko era muito selvagem, mas que Teesha e Rashed eram muito dóceis. Três noites depois do incidente Rashed deteve o vagão a meia-noite perto de um pequeno povoado para que pudessem caçar. Teesha ficou sentada no vagão um tempinho, olhava os fios de fumaça que saíam por cima das árvores das pequenas casas, tinha uma expressão nostálgica.

—Rashed, quão longe fica o oceano? —perguntou-lhe—. Estou cansada. Encontraremos o caminho a nosso lar logo?

Rashed estava de pé no chão, estava-se pondo a caba da espada. Rapidamente subiu ao vagão e se sentou junto a ela.

—Ainda falta uma comprida viajem, mas tenho os mapas que peguei do castelo. Antes de ir dormir pela manhã te ensinarei onde estamos e onde está o oceano. —Sua voz era suave e soava preocupada.

De repente Parko uivou feito uma fúria.

—Lar! Oceano! —gritou. Seus olhos negros se voltaram para a Teesha—. Você! —A branca pele parecia estirar-se sobre sua fina cara e levava o cabelo despenteado e enredado em todas as direções—. Lar não—disse—. Caçar!

Uma expressão de dor apareceu em rosto do Rashed. Não serve de nada com o Parko, que se deu a volta e saiu correndo para o bosque.

Rashed olhou ao Ratboy.

—Irá com ele? Assegurará de que não faça nada que nos ponha em perigo a outros?

O líder quase nunca pedia nada ao Ratboy. Por isso Ratboy assentiu e se deslizou entre as árvores detrás de Parko. Em realidade, era um alívio estar correndo entre as árvores detrás do Parko e deixar ao Rashed e a Teesha em seu próprio mundo privado.

Ratboy fez um esforço com sua mente e tentou localizar ao Parko como Rashed fazia, mas não pôde sentir nada. Em seu lugar utilizou métodos mais mundanos de seguimento. Parko tinha tal ataque que ia deixando um rastro fácil de seguir. Ratboy não demorou muito em pegar a Parko e se escondeu com ele detrás de umas árvores no lado mais afastado do povoado. Ficou em cócoras ao lado do Parko.

—Vê algo?—perguntou-lhe.

—Sangue — lhe respondeu Parko.

Apesar de ser muito tarde, um grupo de adolescentes estava sentado fora do que pareciam uns estábulos. Riam e se passavam uma jarra os uns aos outros. Possivelmente teriam roubado um pouco de cerveja ou de uísque e se sentiriam rebeldes. Ao vê-los, ao Ratboy vieram lembranças de sua autêntica vida, a que tinha deixado atrás fazia tanto tempo já. Ele tinha feito o mesmo com freqüência em sua juventude.

—Não, Parko — lhe disse—. São muitos e estão ao ar livre. A gente poderia dar a voz de alarme. Olharemos em outro lugar.

Parko se girou para olhá-lo.

—Você não é Rashed — disse com uma claridade surpreendente—. Nós matamos. Nós caçamos. Não nos dão medo as vozes de alarme. Não nos dá medo nenhum homem. —Voltou a olhar ao grupo de adolescentes que bebia—. Não deveria ser como Rashed. Bebe comigo.

Sem mais palavras saiu disparado de entre as árvores. Sobressaltado, Ratboy observou como se movia em silêncio e com rapidez pelo lateral do estábulo. Sem estar seguro, Ratboy o seguiu até que se detiveram na esquina.

Os meninos estavam já tão perto que quase podiam tocá-los. Ratboy podia ouvir todas e cada uma das palavras que diziam, em sua major parte queixa de seus pais intercaladas com risadas e goles de líquido. Podia cheirar o conteúdo da jarra, uísque.

Em um segundo, Parko se tinha partido e Ratboy ouviu como se silenciavam as risadas e se convertiam em gritos.

Faminto e excitado, Ratboy saiu da esquina do estábulo. Viu três meninos mortos no chão com o pescoço quebrado e ao Parko bebendo da garganta de outro com o cabelo loiro escuro. O menino ainda estava vivo e agitava os braços presa do terror.

Um menino baixinho e gordinho com o cabelo escuro estava ali de pé gritando. Por que não corria? Ratboy se sentiu livre. Ele não era como Rashed. Ele era como Parko e agarrou ao menino que gritava e lhe cravou as duas presas diretamente no pescoço e fechou seus dentes sobre o pescoço rechonchudo até que o menino se afogou e ficou em silêncio. O medo e o sangue de sua vítima entraram em seu corpo na mesma medida, sentia-se eufórico, tão vivo.

Rua abaixo se ouviam já gritos mais profundos. Ratboy se bebeu sua porção de comida e atirou o corpo ao chão com um golpe seco. Sabia que devia sair correndo. O sentido comum lhe dizia que corresse, mas não o fez.

Parko terminou com o menino loiro e riu.

Em lugar de atirar o corpo vazio, começou a dançar, a correr e saltar com ele. Estava coberto de sangue, tinha os olhos negros totalmente abertos e parecia estar completamente louco, mas ao Ratboy não importava. Também riu.

Dois homens adultos com garfos de madeira dobraram a esquina e se detiveram da impressão. Uma ponta aguda cravou ao Ratboy com sua larga ferramenta. O homem parecia mais assustado que feroz. Ratboy simplesmente driblou ao redor do Garfo de madeira e lhe rasgou a garganta ao homem com as unhas.

Observou com prazer como a compreensão e depois o horror se refletiram no rosto do mortal e como lhe caiu o garfo de madeira da mão quando a levou a ferida aberta. Ratboy ouviu um rangido atrás dele e se deu à volta para ver o Parko deixar cair ao chão o corpo do segundo homem.

Parko parecia estar de humor para romper pescoços.

Ratboy queria rir em voz alta outra vez. Eram invencíveis, eram livres. Por que sempre tinham temido que aqueles mortais os descobrissem?

Então um movimento lhe chamou a atenção. Rashed estava de pé a um braço de distância com expressão de absoluta e total incredulidade. Até tinha a boca ligeiramente aberta.

A euforia desapareceu. A seu redor jaziam cinco meninos e dois homens, todos eles mortos. Outros habitantes deviam havê-lo visto, mas tinham elegido esconder-se.

Rashed parecia estar procurando as palavras adequadas.

—O que fizeram?

Por toda resposta, Parko lhe vaiou como um animal. Rashed se aproximou dele em dois passos e o golpeou com força com o punho.

Ratboy não tinha visto nunca ao Rashed golpear a seu irmão. Não acreditava que Rashed fora capaz disso. Quando o punho do Rashed fez contato com a mandíbula do Parko, este se enrugou e caiu. Parko tentou levantar-se e Rashed o golpeou outra vez, com tanta força que seu irmão saiu disparado para trás e se chocou com a grade exterior do estábulo. Parko ficou deitado, quieto e calado, entre a palha e o barro.

Rashed agarrou o corpo imóvel de seu irmão por uma perna e o arrastou à estrada. Levantou o Parko, que seguia inconsciente, o jogou ao ombro e olhou com ódio a Ratboy.

—Você vem agora.

Ratboy o seguiu sem dizer uma palavra. A verdade era que tinha medo, não do Rashed, mas sim do que passaria depois. Quando chegaram ao vagão, Rashed atirou a Parko ao chão. Depois se meteu na parte traseira do vagão, soltou o caixão do Parko de outros e o tirou do carro. Golpeou-se contra o chão e se escorregou quando Parko começou a mover-se.

Ratboy olhou a Teesha, quem às vezes podia pôr um pouco de prudência em tais cenas, mas esta vez ficou ao outro lado do vagão, observando.

Rashed lhe atirou uma bolsa de dinheiro a seu irmão.

—terminei contigo. Não viajará mais conosco. Vai pelo caminho selvagem, se for o que quer. Pode que a multidão que se forme desse povoado saia a te caçar em lugar de fazê-lo nós.

Subiu à parte dianteira do vagão e agarrou as rédeas dos cavalos.

—Teesha, sobe ao vagão—Depois se girou para o Ratboy—. Pode escolher. Sei que o abandono descuidado de esta noite não foi tua coisa, mas te rendeu ante ele. Pode vir conosco ou ir com ele. Escolhe agora.

Parko vaiou de onde estava no chão e Ratboy olhou ao Rashed.

Ratboy não era muito bom na hora de tomar suas próprias decisões e aquela era a decisão mais difícil a que jamais se enfrentou. A idéia de ficar com o Parko e seguir o caminho selvagem, matando e bebendo sangue sem pensar nas regras, somente a caça, resultava-lhe atrativa. O desejo de eliminar qualquer armadilha mortal e converter-se em um glorioso predador era algo ao que custava resistir.

Entretanto, Rashed os mantinha a salvo e sempre sabia o que teria que fazer, e Teesha sabia como criar um lar. Ratboy não estava preparado para deixar aquelas coisas. Ainda não. Dava-lhe medo ficar só com o Parko. O mero pensamento o envergonhava. Voltou a olhar ao Parko que seguia vaiando e se contorcendo e subiu ao vagão detrás da Teesha.

Enquanto se afastavam, não viu que Rashed voltasse à cabeça nenhuma só vez e foi ele o único que viu como os pequenos olhos do Parko desapareciam na distância. Durante as duas noites seguintes Rashed não disse nenhuma só palavra.

Deitado em seu caixão sob o armazém, Ratboy se perguntou se teria tomado a decisão correta então. Tentou deixar de pensar, simplesmente não ver nada. Depois de um momento, por fim conseguiu ficar dormido.

 

Magiere saiu do botequim a primeiras horas da tarde. Quando pôs um pé na rua, viu um pôster que dizia «Fechado» com a letra do Leesil. Por que não lhe tinha ocorrido a ela fazer isso? Deu-lhe um obrigado silencioso a seu companheiro e se dirigiu diretamente à estalagem mais próxima.

Apesar de que Magiere se referisse ao Leão Marinho como uma estalagem, estritamente falando não o era, já que o edifício carecia de habitações para hóspedes. Pode que em algum momento se utilizaram as habitações do piso de acima para hóspedes e que o dono vivesse em algum outro lugar. A verdade era que na Miiska só havia três posadas de verdade naquele momento, mas a um povoado pequeno como aquele tampouco fazia falta mais. A maioria dos marinheiros e dos empregados das barcaças, dormiam nos próprios navios e tampouco é que ela visse muitos viajantes com vontades de ficar a passar a noite naquele lugar que agarrava um pouco a contra-mão. Inclusive os poucos vendedores, mercados ou até granjeiros das terras vizinhas tinham mais probabilidades de passar a noite com todos seus pertences acampando no mercado ao ar livre do extremo norte do povoado.

A estalagem era um lugar de aparência miserável e decadente, que tinha um salão principal pouco mobiliado que cheirava a pescado e a pão mofado. Começou a perguntar pelo Welstiel a uma mulher que estava muito magra e levava um avental puído que supôs que era a encarregada da estalagem, descrevia-o como um homem estranho de média idade.

—Não temos a ninguém que tenha esse aspecto — lhe disse a mulher zangada depois de ouvir a Magiere, obviamente acreditava que lhe estava fazendo perder o tempo—. Tente-o em A Rosa de Veludo. Aí é onde pode encontrar às pessoas como ele.

Magiere lhe deu as graças à velha e partiu. Tudo parecia normal ao seu redor. O sol ardia como uma bola laranja entre a bruma das nuvens altas. A gente falava, ria e seguia com seus assuntos. Alguma vez, algum cliente do Leão Marinho a saudava ruidosamente, e ela assentia ou levantava a mão em resposta. De vez em quando tinha a sensação de que alguém a estava vigiando, pode que sussurrassem com um companheiro e a assinalassem. Mas quando se dava a volta era como se ninguém se deu conta de que ela estava ali. O âmbito de todo o mundo tinha mudado, não importava a aparência que tivessem as coisas. E o único que parecia dar-se conta da situação era um ferreiro alterado que tinha mais músculo que cérebro.

Magiere queria falar com o Leesil e lhe contar o que lhe estava passando pela cabeça. O que acontecia se o destino, os deuses ou o que fora que mantivera o equilíbrio entre o bem e o mal no mundo por fim havia encontrado com eles, com ela? Não podia nem imaginá-lo que Leesil pensaria de uma idéia tal. Um mês antes Leesil se teria rido e lhe teria oferecido seu cantil de vinho. Para então seu mundo se viu alterado e, ou ele tinha trocado com o mundo, ou tinha estado escondendo aspectos de si mesmo. Magiere não acabava de deixar que Leesil se ocupasse cada vez de mais tarefas das que em teoria eram responsabilidade dela. Aquela mesma manhã, ele se tinha ocupado do Ellinwood em sua maior parte, e essa tarde se preocupou de pôr o pôster de fechado, temporalmente, na porta do botequim. Agora ela tinha saído sozinha e o tinha deixado ali para que reconfortasse ao Caleb e a Rose.

Não, não o ia carregar com seu próprio e profundo sentimento de culpa, sua própria confusão ou suas próprias suspeitas. Estava muito claro que ele não precisava preocupar-se de nada mais.

Entretanto, tinha chegado à hora de ocupar-se de determinados assuntos ela mesma. Tinha viajado até aquele povoado em busca de paz e alguém a tinha forçado a meter-se em uma batalha. Brenden tinha razão, e as cartas estavam em seu lado da mesa naquele momento.

Afastou-se dos moles e entrou no povoado. Tão longe, não havia muitos que a reconhecessem de cara e os caminhantes não a saudaram. Deteve-se frente À Rosa de Veludo. Era um lugar bastante bonito, refletia seu nome incluso do exterior com suas cortinas vermelhas de seda de damasco que se sobressaíam das perfeitamente cuidadas venezianas caiadas.

Apesar de que levava o cabelo recolhido em uma arrumada trança, sentiu-se pouco vestida com suas bombachas e suas botas, sua camisa de musselina e o colete negro.

Um grande escritório de madeira de mogno a esperava à entrada. O homem que estava atrás de lhe pareceu atrativo, embora de uma maneira estranha, apesar de seu estado mental naquele momento. Magiere tinha visto uns quantos elfos puro-sangue ao longo de suas viagens, embora não eram muito freqüentes por aquelas terras. Seu cabelo castanho claro parecia suave como às plumas dos pássaros. Levava-o solto e só o prendia por detrás de suas oblongas e bicudas orelhas. Entretanto, sua cara era mais fina e tinha o queixo mais afiado que a de seu companheiro, e seus olhos cor âmbar e as finas sobrancelhas estavam mais inclinadas para cima que os do Leesil.

Quando levantou a vista para ela, Magiere pôde ver que sua pele era escura e mais suave que a de qualquer humano que jamais tivesse visto.

—Posso ajudá-la em algo? —perguntou-lhe com tom suave.

—Sim—lhe respondeu Magiere, de repente não estava segura de como devia proceder, ou de se a deixariam entrar—. Esperava poder encontrar aqui a um amigo, chama-se Welstiel Massing. É como de minha altura, muito bem vestido e com cabelos brancos nas têmporas.

Sem pensar, levou as mãos a suas próprias têmporas, para apoiar sua descrição e depois se sentiu tonta por fazê-lo. Odiava sentir-se tão nervosa e desesperada.

—Sim, o senhor Welstiel reside aqui no momento — lhe respondeu com tom sereno e com uma dicção clara e definida—. Entretanto rara vez recebe convidada, e nunca sem me notificar isso primeiro. Sinto muito. —voltou-se para pergaminho que tinha sobre o escritório, como se suas palavras fossem toda a autorização que necessitasse para retirar-se.

—Não, sou eu a que o sente. Pode que não tenha um encontro, mas ele veio para ver-me em várias ocasiões e agora queria lhe devolver a visita.

O elfo levantou a vista com seus olhos rasgados com força e surpresa.

—Jovem senhora... —começou a falar com tom severo, e, de repente, fez uma pausa como se médio recordasse algum detalhe esquecido—. É você Magiere, a nova proprietária do Dunction?

—Sim — respondeu ela com cautela—. Agora se chama O Leão Marinho.

—Aceite minhas desculpas, por favor. —levantou-se com rapidez—. Meu nome é Loni. O senhor Welstiel mencionou seu nome. Não sei onde se encontra ele agora, mas vou ver. Por favor, me siga.

O elegante elfo, que basicamente fazia as funções de guarda, nem sequer sabia se Welstiel estava ali ou não? Aquilo resultou estranho a Magiere, mas apartou tal pensamento de sua mente no momento.

Conforme foram entrando na estalagem, o lugar se ia fazendo ainda mais opulento do que Magiere esperava, a parede estava pintada de branco nacarada. Tapetes vermelhos, tão amaciados que se poderia dormir nelas, cobriam o chão nas salas principais e os corredores e subiam pelas escadas que se viam o outro lado da entrada. Grandes quadros em tons escuros que representavam batalhas, paisagens marinhas, pradarias e campos tranqüilos estavam pendurados em lugares estratégicos para contribuir com bom gosto; e tinham colocado rosas de água salgada de um vermelho profundo em deliciosos vasos de marfim.

—Não está mal — disse ao Loni—. Não lhes viria mal uma mesa de farol.

—Bom... —disse ele—. Sim, é obvio.

Magiere quase sorriu, sabia que sua fachada estirada estava cuidadosamente construída. Era muito possível que fora igual de bom que Leesil no combate mão a mão, se não fosse não estaria à frente do estabelecimento ele sozinho. Magiere o seguiu até as escadas, mas em lugar de subir, tirou uma chave do bolso de seu colete e abriu uma porta que tinha a seu lado. Ao abri-la, Magiere viu outras escadas que baixavam.

Então vinha a parte difícil. Para o Welstiel, aquela aparição abrupta lhe pareceria como se ela tivesse ido a implorar ajuda. De algum jeito, Magiere suspeitava que Welstiel fosse desfrutar. Se houvesse qualquer outra forma, qualquer que fora, Magiere teria elegido qualquer outra opção. Loni desceu pelas escadas e Magiere o seguiu. Quando chegaram abaixo se encontraram com um corredor que conduzia até uma única porta. Loni chamou com os nódulos com suavidade à porta.

—Senhor, se estiver em seus aposentos, a jovem mulher está aqui para vê-lo.

Ao princípio não houve resposta. Depois a voz inequívoca do Welstiel disse:

—Entre.

Loni abriu a porta e deu um passo atrás.

Magiere se surpreendeu de sua própria e suave ansiedade, tragou saliva e entrou na habitação. A porta fez um leve som ao fechar-se atrás dela e Magiere ouviu os passos do Loni que se afastava escada acima.

Magiere se surpreendeu pela decoração do interior da habitação, já que esperava encontrar uma que seguisse o opulento estilo que mostrava a planta principal da estalagem. Em cima de uma simples mesa, que estava ao lado de uma cama estreita cuidadosamente feita, havia uma bola de cristal esmerilhado com pedestal de ferro. Dentro da bola havia três raios de luz que brilhavam com a suficiente força para iluminar meia habitação. Em um canto havia um pequeno baú de viagem e sobre a mesa havia três livros encadernados em pele. Cada tampa estava gravada em uma língua que ela não conhecia e tinha uma tira que os mantinham fechados.

Welstiel estava sentado em uma simples cadeira de madeira e lia um quarto livro. O homem projetava uma aparência tão chamativa que qualquer que o olhasse a ele primeiro não notaria quão vazia estava à habitação. Levava uma camisa branca, de corte impecável e perfeitamente engomada, e calças negras que pareciam mais uma parte dele mesmo que um objeto de vestir que se pôs. Levava o cabelo negro penteado por detrás da orelha, de maneira que deixava expostas suas grisalhas têmporas, que lhe davam um ar sábio e nobre ao mesmo tempo. E se não fora por elas, a suave luz que lhe dava a bola a seu rosto faria que fora muito difícil adivinhar sua idade. Suas ossudas mãos repousavam sobre o livro e parecia não dar-se conta da porção que faltava a seu dedo, inclusive quando o olhava.

—Que agradável verte — disse Welstiel, com um tom que não expressava nem surpresa nem prazer por sua chegada.

Magiere se imaginou que o homem se via si mesmo como um cavalheiro rico que estudava tradições populares e magia antiga em seu tempo livre. Mas, por que ia um nobre a viver naquela habitação de porão quando as comodidades mais adequadas certamente estariam acima, nas habitações normais de A Rosa de Veludo? E se era um erudito feito a si mesmo, que fazia em um lugar como Miiska? Era mais provável que fora um estudante de tudo, professor de nada, que acreditava que sabia algo do lado escuro do mundo e simplesmente se cruzou em seu caminho por azar. Pode que não pudesse ajudá-la como ela esperava.

—Não vim por uma visita social — disse Magiere abruptamente—. Você ou sabe algo, ou acredita que sabe, a respeito dos assassinatos e desaparecimentos que ocorrem neste povoado. Ontem à noite atacaram meu botequim e morreu um dos caseiros.

Welstiel assentiu levemente.

—Sei. Ouvi-o.

—Já?

—As palavras viajam com rapidez em Miiska, especialmente se sabe o que quer ouvir.

—Não ande com enrolação comigo, Welstiel—lhe alfinetou Magiere de uma vez que entrava na habitação—. Não estou de humor.

—Então deixa de negar o que vêem seus próprios olhos e começa a aceitar a realidade — lhe respondeu com a mesma dureza.

—O que significa isso? O que tem haver comigo?

Welstiel baixou o livro, inclinou-se para diante e assinalou para o pescoço do Magiere.

—Esses amuletos que oculta sob a roupa e a cimitarra que habitualmente leva são signos reveladores. Se eu fosse um vampiro, iria caçar-te do momento em que pusesse um pé em meu território.

Magiere jogou o ar pelo nariz.

—Não comece com tudo isso outra vez.

Entretanto, sua voz tentava demonstrar uma segurança que já não sentia. Se de verdade acreditava que não havia nada sobrenatural no que estava acontecendo naquele povoado, então, porque tinha ido ver o Welstiel, ele não fazia mais que falar daquelas coisas?

Welstiel estudou o rosto do Magiere como se fora a capa de um livro, com a esperança de captar tudo o que se escondia atrás dele.

—Não pode escapar disto. Vêem-lhe como a uma caçadora e por isso lhe caçarão eles primeiro. Leva a batalha até eles.

Magiere já não tinha forças, não sentia a inclinação de discutir, por isso se sentou aos pés de sua cama.

—Como? Como os posso encontrar?

—Utiliza o que já tem disponível. Utiliza a seu cão e os fatos que já recolheu. Usa as habilidades de seu meio elfo e a força do ferreiro.

—Chap? —disse ela—. O que pode fazer ele?

—Não seja dura a entendera lhe deixe caçar. É que não lhe tinha imaginado isso você sozinha, ao menos isso?

Welstiel se estava rindo dela e de repente sentiu uma quebra de onda de ódio para a superioridade com a que se dirigia. Como podia saber ele tantas coisas que ela desconhecia?

—Se souber tanto, por que não caçou as criaturas você mesmo?

—Porque eu não sou você — lhe respondeu com calma.

Magiere ficou em pé de novo e começou a passear-se.

—Nem sequer sei onde procurar. Como começo?

Sem avisar, a expressão do homem se fechou, como se fora um livro vivente que se cansou de dar informação. Welstiel se levantou, aproximou-se da porta, abriu-a e repetiu:

—Utiliza ao cão.

O medo que Magiere sentia a respeito de seu futuro ameaçava voltando a sair à superfície conforme o matagal de coincidências se ia fazendo mais arrevesada. Como encaixava Chap em todo aquilo?

Que Welstiel abrisse a porta anunciava o final de sua visita. Além disso parecia ter muita intenção e se o empurrava mais podia danificar a única fonte de informação que tinha encontrado até o momento. Saiu ao corredor e se voltou para ele.

—Como mato eles?

—Já sabe. Estiveste praticando durante anos.

Sem dizer outra palavra, Welstiel fechou a porta.

Magiere subiu rapidamente as escadas e se deu pressa pelo vestíbulo, olhou a Loni enquanto saía. De toda a conversa com o Welstiel, só lhe preocupavam duas coisas. Primeiro, por isso ela sabia, ele nunca tinha visto o Chap e parecia saber muito sobre o animal. E em segundo lugar, ou sabia, ou fazia que conhecia aspectos de seu passado que ela não conhecia. Apesar de que aquilo último lhe preocupava um pouco, em realidade, nunca lhe importou seu passado. Não havia muito que merecesse a pena recordar.

Nos anos anteriores ao Leesil, tudo o que ela tinha tido era solidão, e se converteu em dureza, que a sua vez se converteu em ódio para todo aquele que fora supersticioso. Uma mãe que nunca tinha conhecido tinha morrido fazia já muitos anos, e seu pai a tinha abandonado a uma vida entre os cruéis camponeses que a castigaram por ser sua filha. por que ia querer recordar tais coisas? Por que ia querer olhar para o passado? Não havia nada que merecesse a pena no passado.

Enquanto caminhava com rapidez para seu lar, deu-se conta de que o sol tinha baixado um pouco. De repente sentiu o desejo urgente de retornar junto a Leesil. Com todas suas palavras críticas, Welstiel tinha razão em uma coisa. Tinham que abandonar sua posição defensiva e ir atrás de seus inimigos, e só tinham um par de horas antes do pôr-do-sol.

Leesil estava sentado em sua cama, em sua habitação, na mais absoluta solidão. Decidiu que odiava a incerteza por cima de todas as coisas, inclusive por cima da sobriedade. No momento estava tão sóbrio como uma deidade virtuosa e isso lhe proporcionava claridade, outra situação de mau gosto.

A diferença do Magiere, ele não se banhou nem tinha dormido, e os aromas do sangue, da fumaça e do vinho tinto lhe entravam pelas fossas nasais. Sabia que devia baixar a lavar-se, mas algo o mantinha ali em sua habitação.

Brenden tinha deixado o botequim para ir-se a sua casa e tinha prometido retornar logo com as armas adequadas. Caleb se tinha levado a Rose a sua habitação fazia já várias horas para poder falar com ela. Caleb tinha fechado a porta e não tinha saído dali. Chap seguia deitado junto ao corpo de Beth-rae, que Caleb tinha limpado e arrumado com supremo cuidado e tinha posto na cozinha se por acaso alguém passava a lhe apresentar seus respeitos. E Magiere tinha desaparecido em algum momento da tarde.

Leesil estava sozinho e sóbrio. Não estava seguro de qual das duas circunstâncias gostava menos.

Aproximou-se de um pequeno arca que lhe tinha dado Caleb para que guardasse coisas. Desde que o agente Ellinwood examinasse, ou, mas bem não examinasse o cenário do crime, Leesil se tinha permitido um par de momentos em privado para tirá-la adaga do Ratboy de debaixo da roupa, lhe limpar o sangue de Chap da lamina e guardá-la. Agora a tirou da arca, com muito cuidado de agarrá-la pela lamina e não pelo cabo. Inclusive quando a limpou, teve muito cuidado de limpar somente a folha e não ao cabo, já que estava seguro de que aí Ratboy sim a havia meio tocado. Necessitava qualquer prova por pequena que fora da presença do pequeno invasor poeirento que tivesse deixado atrás.

E de novo a incerteza o corroia. Deixou-se cair de joelhos e puxou duas tabuas do chão que tinha afrouxado a noite que chegaram. Debaixo, onde a tinha escondido, havia uma caixa larga retangular. O mero feito do tocá-la fazia ter calafrios da repulsão que lhe causava. Entretanto, jamais em sua vida tinha pensado em desfazer-se dela. Tirou a caixa e a abriu.

Dentro havia armas e outras ferramentas feitas pelos elfos que lhe tinha dado sua mãe por seu décimo sétimo aniversário. Não eram exatamente o que qualquer menino tivesse querido de presente. Dois estiletes finos como agulhas de costura descansavam sob uma vara de arame com finas alças de metal. A seu lado havia uma lamina curva de metal o suficientemente afiada para cortar osso com o mínimo esforço. Escondido dentro da tampa, detrás de uma coberta dobradiça, havia um conjunto de picaretas de metal que em suas mãos poderiam abrir qualquer cadeado ou fechadura. Tão só eram objetos inanimados, mas o mero feito de vê-los quase o fizeram baixar ao barril de vinho e a sua taça.

Fechou os olhos e respirou profundamente, com muita força. Bêbado não lhe servia de nada a Magiere. Mas a presença daqueles objetos e sua atual sobriedade deixaram entrar uma quebra de onda de lembranças que havia tentando manter a fronteira a metade de sua vida. Com os olhos ainda fechados podia sentir a dor.

Apareceram umas sombras de um verde rico junto com as árvores de seu lugar de nascimento. Tão formosos. Magiere nunca tinha viajado tão ao norte como estava Doyasag, o lugar no que ele nasceu, e nunca se incomodou em descrever-lhe Unir-se ao negócio com ela era o começo de uma nova vida para ele, ele tinha apagado tudo o que tinha feito antes. Deixou-o tudo atrás a noite em que se conheceram.

Os frescos aromas e paisagens de sua terra natal não eram mais que um mero tecido que escondia uma massa de homens famintos de poder que lutavam por dominar. Em lugar de estar governados por um rei, o país o governava um senhor da guerra chamado Darmouth que não fazia mais que ver traição a seu redor. Os senhores da guerra precisam ter espiões e outros serventes ocultos, e Leesil tinha quinze anos e levava já sete de treinamento quando se deu conta de que seu pai e sua mãe não só trabalhavam para Lorde Darmouth. Darmouth era seu dono.

A mãe do Leesil, com sua pele moréia, seus cabelos dourados e sua ascendência elfica era uma arma muito poderosa, já que criava a ilusão de ser uma garota alta e delicada ou uma exótica beleza estrangeira. Seu pai, por sua parte, podia mimetizar-se entre as sombras como se fosse feito de pó, e ao passar não fazia ruído e não deixava marcas. Traíam a todo aquele que lhes ordenavam trair, e matavam a todo aquele que lhes ordenavam assassinar. Ensinaram a Leesil tudo o que sabiam. Era o artesanato familiar e ele era o único herdeiro da família.

—Temos uma posição muito instável aqui, Leesil — lhe sussurrou sua mãe muito inicio de uma noite—. Necessita muita habilidade e pressentimento. Se nos negarmos ou duvidamos, seremos os seguintes em morrer inexplicavelmente enquanto dormimos ou seremos expostos e executados por nossos delitos. Entende-o, meu filho? Assente sempre e faz o que te ordene.

Sem importar quão grande fora a recompensa econômica, Leesil não tinha o temperamento necessário para uma vida de servidão isolada. Os espiões e os assassinos não faziam amigos. Sua mãe deveu sentir sua solidão. O dia de seu décimo quinto aniversário lhe deu de presente um enorme cachorrinho azul prateado que lhe subiu em cima e o cobriu de risadas e lambidas. Esse era o único momento de pura felicidade que podia recordar.

—Este é um cão especial — lhe disse movendo suas esbeltas mãos para fora—. Seu bisavô protegeu a meu povoado nos terríveis tempos do passado. Cuidará de você.

Isso foi tudo o que lhe contou, e que recordava, de Chap é de sua terra natal, onde quer que tenha sido. Naquele momento Leesil lhe dedicou uns quantos pensamentos. Se não tivesse estado tão feliz naquele momento, faria mais perguntas, ou teria se lembrado de fazer-las depois, mas o único que lhe importava era que uma parte de sua vida era como a de outros meninos. Tinha um cão.

Quando Leesil fez dezessete anos, seu pai deu por concluído sua aprendizagem, ou pode que o fizesse ante a insistência de Lorde Darmouth. Sua mãe lhe deu de presente uma caixa com todas as ferramentas que necessitaria para desempenhar seu trabalho.

—Agora é anmaglâhk — lhe disse com voz tranqüila e profunda—. Um fato que não suporta orgulho algum.

Estranha vez falava em sua língua materna pelo que Leesil recordava ao menos em sua vida. Apesar de que ele tinha aprendido vários dos dialetos daquelas terras, nunca lhe ensinou a língua dos elfos, e o único que Leesil sabia eram as escassas palavras que tinha pegado daqui e dali por sua conta. Uma vez, quando lhe suplicou que a ensinasse, zangou-se com frieza.

—Nunca terá a necessidade de falá-la — lhe disse.

E quando a deixou, saiu rapidamente de sua habitação, não sabia bem o que era o que tinha visto. Quando ela se sentou no banco que havia junto à janela e olhou para fora através do cristal, afastou sua cara da vista do Leesil e um calafrio percorreu seu corpo, como se chorasse em silêncio.

Agora Leesil olhava a caixa que tinha em suas mãos e que lhe tinha entregado como presente de aniversário. Não precisou lhe perguntar o que significava a palavra que lhe havia dito. Leesil sabia no que se converteu. Aquele mesmo dia lhe ordenaram assassinar a um barão que se dizia conspirava contra Darmouth. A ordem o deu seu pai.

Aquela mesma noite Leesil escalou o muro da fortaleza do barão Progae, deslizou-se por entre uma dúzia de guardas, e baixou subindo pela torre até o dormitório de seu alvo. Colocou-lhe o estilete pela base do crânio ao homem, como lhe tinha ensinado seu pai, e o tirou. Não encontraram o corpo até o meio-dia seguinte. Que servente ia incomodar a um nobre que dormia até tarde?

Confiscaram as terras do Progae. Levaram a sua mulher e a suas filhas à rua. Leesil procurou a informação a respeito da família depois. Uma das filhas entrou na corte de outro barão fiel ao senhor como quarta esposa. A esposa e as duas filhas mais jovens morreram de inanição porque ninguém se atrevia às ajudar. Leesil não voltou a perguntar a respeito das famílias de suas vítimas. Simplesmente penetrava pelas janelas, abria cadeados e fechaduras que outros acreditavam impossíveis de abrir, levava a cabo o que lhe tinha ordenado e não olhava atrás. Nunca.

Com vinte e quatro anos seguia tendo o aspecto de um humano de pouco mais de quinze anos. Uma noite Lorde Darmouth o chamou pessoalmente ante ele. Leesil odiava estar em presença do senhor, mas nunca lhe passou pela cabeça negar-se.

—Desta vez não quero que mate, mas sim recolha informação — lhe disse Darmouth através de sua espessa barba negra—. Um de meus ministros me deu provas para duvidar de seus autênticos interesses. Forma escribas por hobby. Seu pai me há dito que falas e escreve vários de nossos dialetos, é certo?

—Sim, meu senhor — respondeu Leesil enquanto pensava no muito que desprezava as brutais mãos e rosto da criatura que era proprietária de toda sua família.

—Bem. Viverá como um estudante e me informará de todas suas atividades, comentários, costumes cotidianos e demais.

Leesil lhe fez uma reverência e partiu.

Permitiram-lhe levar-se a Chap a sua nova residência, algo que lhe resultou de grande alívio já que o cão era sua única união com a vida além de suas obrigações. Entretanto, seu primeiro encontro com o ministro Josiah lhe resultou quase inquietante depois de anos de conspirações, confabulações e mortes silenciosas. Um pequeno homem de cabelo branco com olhos sorridentes cor violeta agarrou a mão ao Leesil com aberta calidez e amizade. O homem vestia em lugar de armadura ou roupas para não ser visto, umas vestimentas de cor nata.

—Entra meu menino. Lorde Darmouth me há dito que é um estudante muito promissor. Vamos encontrá-lo algum jantar e uma cama quente.

Leesil duvidou um momento. Nunca tinha conhecido a ninguém como Josiah. O alegre ministro interpretou mal sua pausa.

—Não se preocupe. Seu cão também é bem recebido. Uma criatura muito formosa, é algo pouco habitual, não acredito ter visto nunca outro de sua espécie. Onde o conseguiu?

O lombo do Chap lhe chegava à coxa a um homem adulto. Tinha o cabelo comprido e azul prateado, os olhos de um tom muito pálido, quase azul e um focinho afinado que fazia que ganhasse elogios de muitos dos que o viam. O cão trotou até onde estava o velho ministro e se sentou. Moveu a cauda para que o acariciasse. Aquela era a primeira vez que Leesil via que Chap fizesse uma coisa assim com ninguém que não fora ele mesmo ou sua mãe.

Leesil não estava seguro de como responder e tentou adivinhar com rapidez qual era a intenção que havia detrás dessa pergunta, que ocultava.

—Minha mãe — respondeu por fim.

Josiah levantou a vista da cabeça do Chap, que estava acariciando com suavidade.

—Sua mãe? Eu teria pensado que era mais o presente de um pai, mas é igual — riu com suavidade e sorriu—, o presente de uma mãe é ainda melhor.

Com isso, o velho ministro urgiu a Leesil e a seu cão a que entrassem em sua casa e em sua vida.

As lealdades do Josiah ficaram claras nos dias e semanas seguintes. Não tinha intenção alguma de criar uma insurreição, mas sim tinha convertido seu enorme estado de acampo em um refúgio para todos aqueles deslocados pelo regime de Darmouth e suas contínuas guerras civis e intrigas. Tinha construído barracões e casas para os refugiados. Leesil passava parte de seus dias em suas classes com Josiah, e a outra alimentando e cuidando dos pobres. Encontrava que tal atividade era algo inútil posto que aquelas pessoas seguiriam sendo pobres no dia seguinte. Os pobres eram pobres. Os ricos eram ricos. Os inteligentes e com recursos sobreviviam. Assim eram as coisas.

Entretanto, sua atitude para o ministro Josiah era muito diferente. Nunca lhe tinha dado a oportunidade de admitir ou reconhecer sentimento algum de admiração, por isso não entendia o sentimento de amparo que sentia para o ancião. Em realidade, foi o suficientemente tolo para acreditar que podia salvar-se a si mesmo, a sua família e a Josiah simplesmente com não informar de nada lorde Darmouth. Depois de tudo, não desobedecia nenhuma ordem, não se negava a levar a cabo nenhuma tarefa e não havia nada que contar.

—O que quer dizer com que é leal? —perguntou-lhe o senhor barbudo em uma das ocasiões em que Leesil foi visita sua casa.

Leesil se manteve rígido e atento nos aposentos privados de Lorde Darmouth. Apesar de estar cansado e sedento da comprida viajem não lhe ofereceram nem assento nem água.

—Não alberga nenhuma intenção negativa para você, não fala de traição alguma — lhe respondeu confundido.

A ira turvou os olhos do Darmouth.

—E o que tem que esses camponeses que emigram a seus campos? Nenhum outro ministro tem um exército de pobres! Seu pai acredita que é muito inteligente, acaso se engana?

Leesil nunca respondia nenhuma pergunta sem pensar cuidadosamente a resposta, mas naquele momento se sentia totalmente desorientado. Como podia interpretar como traição o gesto do Josiah de alimentar aos pobres?

—Acaso esta tarefa é muito para ti? —prosseguiu Darmouth depois de dar um comprido trago a sua bebida, esvaziando uma taça de estanho cheia de vinho e deixando-a sonoramente na mesa.

—Não, meu senhor — respondeu Leesil.

—Necessito provas, e as necessito logo. Suas hordas de camponeses não deixam de crescer. Se não puder me trazer uma informação tão simples, assumirei que seu pai é um tolo e farei que lhes substituam aos dois.

Um calafrio atravessou o corpo ao Leesil quando se deu conta de que Lorde Darmouth não queria a verdade. Quão único queria era algo com o que poder justificar a destruição de Josiah. Se Leesil se negava, tanto ele como seu pai seria substituído, e os serventes de sua classe não só deixavam o serviço. No melhor dos casos, desapareciam uma noite sem deixar rastro, como primeira tarefa de seus substitutos.

Viajou de volta ao norte, aos braços de seu novo professor e comeu o jantar de cordeiro assado e pêssegos frescos enquanto inventava histórias à mesa quando Josiah lhe pedia que lhe contasse tudo a respeito de sua visita a casa.

Essa mesma noite, deslizou-se ao piso de abaixo ao despacho de Josiah, abriu uma fechadura simples de seu escritório e começou a ler sua correspondência mais recente. Deixou de olhar mais pergaminhos quando sua vista se posou sobre um rascunho de uma carta que ainda não tinha enviado.

 

Minha querida irmã:

A situação piora cada mês que passa e me temo que se esteja perdendo tanto a visão como a razão nos postos mais altos de nosso Governo. Renunciaria a meu assento no Conselho pelo trabalho que estou desenvolvendo aqui com os mais necessitados. Com cada entardecer rezo para que o seguinte amanhecer traga algum sinal de mudança, alguma mudança na melhor na direção destas nossas terras. Estas guerras civis sem fim destruirão a todos...

 

A carta seguia com uma descrição das tarefas cotidianas de Josiah, pergunta para a família e os amigos e outros assuntos pessoais. Até mencionava a um jovem meio elfo que era um novo estudante muito promissor. Leesil evitou o resto da carta. O primeiro parágrafo, apesar de não assinalar diretamente lorde Darmouth, seria suficiente para que alguém como ele justificasse as acusações de traição. Leesil meteu o pergaminho na camisa, foi pelo Chap e saiu àquela mesma noite para o castelo do Darmouth.

Três dias depois, os soldados irromperam no estado do Josiah e o prenderam. Dispersaram aos refugiados, matando a uns quantos de caminho. Depois de um breve julgamento por parte do conselho de Darmouth, que se compunha de ministros totalmente fiéis a seu senhor já que estavam sentados para julgar a um deles, penduraram a Josiah no pátio do castelo por traição. Uma carta dirigida a sua irmã provava sua culpabilidade.

Leesil foi muito bem recompensado por seus serviços e aquela noite, na cama, não podia deixar de estremecer-se e tremer de frio, incapaz de envolver-se com calor. Tratou de centrar sua atenção na lealdade para seus pais e não no pouco que conseguiu aprender a respeito da ética e a moral das lições do senhor Josiah. A ética era para aqueles que se podiam permitir luxos como dedicar tempo ao pensamento filosófico e a moral terei que deixar-lhe aos clérigos e a sua doutrina. Entretanto, ele tinha destruído a um homem ao que admirava um homem que tinha acolhido a um meio elfo em sua casa e o tinha valorizado, às ordens do homem ao que mais desprezava Leesil.

Não, aquilo já não era correto. Odiava-se a si mesmo ainda mais do que odiava a Darmouth. Não podia deixar de tremer.

Aquela mesma noite, Leesil deixou atrás a maior parte do dinheiro que tinha ganhado derramando sangue para seus pais, já sabia que iam necessitar uma vez que descobrissem o seu desaparecimento. Agarrou umas quantas moedas de prata, seus estiletes diários, sua caixa de ferramentas e fugiu a Stravina com o Chap a seu lado.

Apesar de todo o treinamento que tinha recebido e de seu talento, Leesil encontrou a vida na estrada muito mais dura do que tinha imaginado. Chap e ele caçavam a comida juntos e dormiam ao ar livre. Cada noite, a escuridão que se abria atrás de seus olhos fechados se via invadida por sonhos de sua vida passada até que despertava ao amanhecer suado.

Quando chegaram à primeira cidade grande, lhe ocorreu uma nova possibilidade ao ver uma carteira muito gorda que se sobressaía do cinturão de um nobre.

Roubar carteiras lhe seria tão fácil como respirar. Em um segundo tinha talhado a carteira e tinha desaparecido entre a multidão. Morto de fome foi diretamente à estalagem mais próxima e pediu comida. Quando viu o dinheiro do meio elfo o hospedeiro sorriu.

—Quererá algo com o que baixar tudo isso — lhe disse.

—Chá estará bem — respondeu Leesil.

O hospedeiro riu e lhe levou uma taça grande de vinho tinjo. Nenhum dos pais do Leesil bebia álcool pelo que ele nunca o tinha pensado. A vida que levavam requeria uma mente totalmente alerta em todo momento. O vinho sabia bem, assim que o bebeu. Pediu outra taça, e logo outra.

Essa mesma noite experimentou a primeira quebra de onda de insensibilização e esquecimento, não sonhou nada até que quase tinha passado toda a noite. O mal-estar e a dor de cabeça que sentiu à manhã seguinte eram um pequeno preço que pagar pelo sonho de toda uma noite, e outra e outra.

Tinha começado uma nova vida para o Leesil O Ladrão de carteira, que se embebedava cada noite até cair dormido. As freqüentes visitas a posadas e botequins o expuseram a jogos de cartas e azar, e aprendeu a completar seus lucros manuais com o jogo. É obvio que corria riscos, sobre tudo se bebia e fazia armadilhas de uma vez. A verdade é que o pilharam e meteram no cárcere duas vezes, mas nenhuma dos dois cárceres o manteve preso muito tempo, inclusive sem as ferramentas que sempre guardava antes de ir-se a seus negócios noturnos. Passaram os anos.

Não vivia em nenhum lugar, e só reconhecia Chap como amigo, e justo quando esta vida parecia carecer de sentido algum como a anterior, viu uma moça e alta com o cabelo negro com reflexos avermelhados à luz dos abajures da rua. Um estranho desejo de lhe roubar a carteira lhe encheu a mente.

Era uma má idéia, mas vacilou ao tentar afastar-se. As mulheres jovens com uma couraça de couro e que levavam espadas não é que oferecessem muita riqueza. E por pouco freqüentes que fossem, tinham que estar muito preparadas e ser muito habilidosas para sobreviver; se algo saía mal daria mais problemas dos que ele queria. A couraça desta estava desgastada pelo tempo e esclarecida pelo sol, por isso certamente não acabava de sair da granja em busca de uma vida melhor que só casar-se e ordenhar vacas. Nunca se aproximava das de sua classe, mas a voz de sua mente se fez impossível de ignorar, acossava-o uma e outra vez...

Seria fácil. Seria rápido. E, além disso, podia ser que aquela levasse algo que merecesse a pena lhe roubar. Em silêncio e sem fazer nenhum ruído se deslizou atrás dela.

Ela não levava nenhuma carteira visível, mas sim um grande fardo a um ombro. Com muito cuidado adaptou seu passo ao dela, observou como o grande fardo bamboleava de um lado a outro e lhe ricocheteava nas costas. Era um pequeno problema ter que pôr tempo a seus movimentos. Leesil alargou a mão, perfeitamente colocada quando o fardo ricocheteou nas costas da garota, e quando deixou de ter contato com seu corpo colocou a mão dentro. Teve muito cuidado de não modificar o balanço do fardo enquanto remexia dentro com a mão. Ricocheteou-lhe duas vezes mais nas costas antes que se desse conta de que sua mão estava dentro.

A mulher se deu a volta bruscamente e de uma vez o agarrou com força no pulso.

—Eh! O que está...? —começou a dizer.

Leesil poderia haver-se desfeito dela com facilidade e ter saído correndo, mas seus olhos escuros o apanharam. Por um segundo ela se zangou e depois ficou ali quieta valorando-o a ele. Leesil estava seguro de que não a tinha visto nunca antes, mas por alguma razão, não saiu correndo e ela não chamou os guardas. A princípio não falou nenhum dos dois:

—É bastante bom — disse ela por fim.

—Não o suficientemente bom — respondeu ele.

Assim foi como conheceu o Magiere e começou a que ele considerava a terceira e melhor de suas vidas. Não recordava muito bem em que momento lhes ocorreu que se implicasse em seu negócio de caçadora, mas a contida aprovação do Magiere depois da prova o encheu de um estranho sentimento de satisfação que nunca havia sentido antes. depois daquilo, teve muito poucas responsabilidades além de fazer o papel de vampiro várias vezes cada lua, e viajar na capaz e cômoda companhia do Magiere.

As lembranças se consumiram pouco a pouco.

Leesil se ajoelhou no chão de sua habitação e olhou aos remanescentes metálicos de sua primeira vida, a vida da que nenhum dos pressente sabia nada. Quantos anos tinham passado? Sinceramente não o recordava. Além disso, deu-se conta de que as destrezas que um dia odiou e afinou, foram ser necessárias de novo se queria ajudar em algo ao Magiere, pode que inclusive a salvar a vida.

Fechou a caixa com um estalo e a colocou dentro da camisa. Um suave rasgar e gemer que vinha do outro lado da porta chamou sua atenção.

—Chap? —Caminhou para a porta e a abriu—. Entra, menino.

Olhou para baixo e viu que o cão levava no focinho uma parte do lenço ensangüentado que Caleb lhe tinha tirado a Beth-rae antes de vesti-la para as visitas e para o enterro. Os olhos transparentes do Chap brilhavam pelo sofrimento. Gemeu outra vez e empurrou o pé ao Leesil com sua pata.

Leesil se agachou e olhou a Chap com expressão confusa. Leesil sabia que os cães eram capazes de sentir o duelo pelas pessoas a sua maneira, mas Chap tinha ido a ele com um objeto específico da mulher morta.

—O que é? O que quer?

Parecia ridículo lhe fazer essas perguntas a um animal. Depois se deu conta de que não precisava lhe perguntar. Sabia o que queria o cão. Chap queria lhe dar caça ao assassino de Beth-rae.

Umas pegadas provenientes da escada fizeram que o cão e o meio elfo levantassem o olhar.

—O que lhe passa? —perguntou Magiere enquanto deixava as escadas e entrava no corredor. A parecia clara, tranqüila e recomposta de novo.

Leesil fez caso omisso da pergunta.

—Onde estiveste?

—fui conseguir umas quantas respostas. —Magiere se deu conta de que Chap levava uma parte de tecido no focinho. Franziu o cenho confundida e enojada—. Isso é o lenço de Beth-rae?

—Sim — assentiu Leesil—. O trouxe da cozinha.

—Tocou-o a criatura que matou a Beth-rae?

—Não sei, mas...

Leesil vacilou. Por alguma razão, Magiere estava seguindo a mesma linha de pensamento que ele. Podia ser que tivesse chegado à hora de comprovar o que tinha tido em mente quando escondeu a adaga do Ratboy e decidiu não dar-lhe a Ellinwood. Aproximou-se de sua arca e tirou a adaga que o assassino de Beth-rae deixou atrás, fez-lo com muito cuidado para não tocar o punho e danificar qualquer aroma que ficasse.

—Aqui Chap, prova com isto.

—Onde encontrou isso? —alfineto-lhe Magiere de uma vez que alargava a mão para agarrar a lamina da adaga—. E por que não a mostrou a Ellinwood?

Leesil negou com a cabeça e lhe afastou a mão.

—Sabemos com certeza que o pequeno menino mendigo tocou isto, e Ellinwood não tem a ninguém como Chap.

—Me deveria haver dito isso—disse Magiere. Seguiu ao Leesil e também se agachou junto ao cão.

—Era uma aposta, minha aposta — respondeu Leesil—. E não te podia responsabilizar do que não sabia.

Segurou no ar o punho da adaga e Chap cheirou cada centímetro dela ansiosamente.

—Crê que pode seguir o rastro para nós? —perguntou-lhe Magiere.

—Não sei seguro — respondeu Leesil—. Mas sim, acredito que pode.

Magiere agarrou ar uma vez.

—nos preparemos também. Não temos muito tempo. —Leesil a olhou desconcertado.

—O sol porá logo — lhe respondeu à pergunta que ele não tinha feito.

Nenhum dos dois pronunciou a palavra «vampiro». Enquanto Magiere foi agarrar sua espada, Leesil lhe rompeu as pernas da cadeira de seu dormitório e improvisou umas estacas. Meteu-as na mochila junto com sua caixa de ferramentas e se dirigiu ao andar de abaixo a recolher mais utensílios para a batalha.

Depois de que Magiere se fora, Welstiel ficou sentado em sua cadeira um bom momento enquanto com sua mente tratava de se localizar com exatidão uma presença sem convite. Tinha estudado com atenção cada centímetro de sua habitação, mas até o momento, qual único tinha registrado seus agudos olhos eram livros, estantes e a mesa.

—Sei que está aqui — murmurou, mais para si mesmo que para a presença.

Notava-o. Por que estava ali e o que era o que queria? Os três raios de sua bola proporcionavam uma boa iluminação. Pode que mais do necessário.

—Escuridão — disse Welstiel e os raios da bola se apagaram imediatamente.

Sem nenhuma luz na habitação, Welstiel viu imediatamente um brilho amarelado que flutuava na esquina mais afastada, mas só o viu um momento. Desvaneceu-se e deixou atrás um leve resíduo de medo e ira.

As possibilidades eram muito variadas como para que Welstiel ficasse tranqüilo. Podia ter sido algo de um espírito até uma consciência astral. Mas, por quê? Fechou os olhos e tentou sentir qualquer pista, qualquer caminho no resíduo que tinha deixado a presença invisível. Os restos de medo e ira já não estavam. A presença se evaporou. Não podia seguir nada.

Welstiel franziu o cenho.

 

Magiere se agachou fora do armazém que estava frente à borda, Leesil e Brenden estavam a seu lado. O lugar parecia estar quase novo e o tinham construído com caros e sólidos tabuleiros de pinheiro.

—por que não o queimamos simplesmente? —sussurrou Leesil.

—Já lhe hei dito isso — lhe respondeu Brenden—. Milhares dos habitantes do povoado vivem deste armazém, de uma maneira ou de outra.

—Sim, mas se matarmos ao dono, não dará isso um resultado muito parecido? —Leesil trocou o peso para poder pressiona melhor ao cão que não parava de retorcer-se—. Chap pode parar?

Era muito complicado manter uma conversação já que Leesil estava tentando manter pressionado o focinho e o corpo do cão, que não deixava de contorce grosseiramente.

—Pode... —Brenden titubeou—. Pode que não. Pelo menos pode que seu sustento fique intacto por um tempo se alguém se ocupar de manter o lugar em funcionamento.

Em seu caminho através do povoado, Chap os guiou por um percurso sem rumo fixo por becos e ruas secundárias sem deixar de rastrear o chão com o nariz pego a ele. Em um cruzamento de ruas, inclinou-se para trás com força, cheirou o ar como se tivesse captado algo que agitasse todos seus sentidos. Rompeu a andar em uma espécie de médio trote e depois saiu correndo. Todos outros se viram obrigados a dar-se pressa fazendo que os visse ridiculamente suspeitos. Magiere se amaldiçoou a si mesmo por não lhe haver amarrado uma corda ao pescoço a cão.

Chap correu diretamente a aquele armazém, farejou as tabuas de fora e grunhiu. Welstiel lhe havia dito que usasse ao cão. Se estiver certo, aquele era o lugar acertado. Armados até os dentes, estavam escondidos depois de uma pilha de gavetas, estavam decidindo que passos seguir a seguir e de uma vez tentavam evitar que os trabalhadores do porto os vissem. O sol estava já posto no céu.

Magiere escutava em silêncio de uma vez que desejava que Leesil e Brenden se calassem e a deixassem pensar tranqüila. O armazém parecia o lugar lógico para começar, sobre tudo porque coincidia com a afirmação de que era o dono o que a tinha atacado. A reação do Chap parecia confirmar suas suspeitas.

Parte dela estava de acordo com o Leesil. Deviam esperar a que fora a hora de fechar, quando os trabalhadores retornassem a seus lares, depois orvalhar com azeite toda a base do armazém e lhe prender fogo. A preocupação do Brenden também era razoável. E o que passava se o nobre e o sujo garoto não estavam dentro? O que acontecia Chap não estava reagindo mais que a um resíduo antigo de quando algum dos dois tivesse passado por ali? Magiere não tinha a menor idéia de como o cão podia seguir a aquelas criaturas ou até onde chegavam suas habilidades.

Efetivamente, encontrar a sua presa era o primeiro obstáculo que tinham que superar, mas uma vez que o tinham completo, ela e seu pequeno grupo estavam preparados para lutar contra os não-mortos, embora nenhum deles tivesse utilizado essas palavras. Welstiel tinha mencionado a forca de Brenden. Ela tinha suposto que falava de força física, mas naquele momento Magiere não estava tão segura. Seu companheiro de barba ruiva estava agachado tranqüilo, não tinha medo e com uma mão segurava a besta e segurava ao chão com a outra. Tinha submerso todas suas flechas em água de alho e se colocou seis estacas afiadas e vários peles de água no cinturão. Uma das estacas que levava a que tinha no centro de suas costas, era mais larga, como uma meia lança. Magiere não o conhecia, mas começava a acreditar que havia mais nele do que se podia apreciar a simples vista.

A Leesil quase o atirava o peso da bolsa que levava às costas e que pendurava de seu ombro esquerdo. Magiere tinha visto como a refazia várias vezes. Levava uma besta, várias flechas impregnadas em água de alho e uma caixa larga de madeira. Também tinha enchido vários frascos de vinho com azeite, tinha-os selado com plugues e os tinha metido na bolsa junto com uma pedra de sílex. Depois tinha feito duas pequenas tochas, que também se atou às costas. Magiere sabia que Leesil estava acostumado a levar vários estiletes e outras armas afiadas sob a roupa.

Magiere, pelo contrário, ia ligeira de bagagem, não levava nada mais que sua cimitarra. Seu papel naquela macabra peça de teatro era lutar contra Rashed enquanto os outros se ocupavam da pequena criatura que respondia no nome do Ratboy, se encontravam ambos os objetivos de uma vez.

—Como vamos entrar? —perguntou Magiere ao fim, enquanto olhava a parede do armazém de cima abaixo—. Não é que possamos entrar pela porta principal e lhe perguntar aos trabalhadores: «Por certo, onde dormem seus senhores?». E não gosta de entrar depois do anoitecer.

—Pode que haja uma porta escondida na parede de atrás — lhe respondeu Leesil.

Magiere piscou.

—Como sabe?

Leesil titubeou.

—Porque vi este tipo de construções antes. Sei o que terá que procurar.

Tinha entrado em armazéns antes? A Magiere picava a curiosidade, mas não era nem o momento nem o lugar.

—Esta bem — disse Magiere—. Fique detrás das gavetas.

Aquele lado do edifício estava rodeado de gavetas, o que lhes permitia mover-se até a parte traseira do edifício sem ser vistos. Todos os trabalhadores se encontravam no interior e poucas pessoas lhe passeavam pelo mole. Uma vez em posição, Leesil passou Chap ao Magiere, que agarrou ao cão pelo cangote.

Os três olharam como Leesil apalpava com suavidade a base do armazém. Brenden parecia confuso e se inclinou para diante.

—O que está procurando? Aqui não há nenhuma porta.

Leesil não lhe respondeu e seguiu movendo os dedos pela madeira. Depois de um momento, Magiere começou a mover-se nervosa, o que fez que fora mais difícil evitar que o cão fizesse o mesmo. Magiere não apartou a vista de Leesil embora estreitasse bastante os olhos, suspicaz, ao tentar adivinhar o que estava fazendo seu companheiro. Por fim, Leesil se deteve e ficou quieto com as mãos apoiadas firmemente em um ponto. Então inclinou um pouco a cabeça para um lado e entrecerrou os olhos.

Magiere estirou o pescoço e tentou ver o que era o que Leesil tinha encontrado. Não era mais que um espaço vazio da parede. Leesil tirou as mãos, mas ficou agachado enquanto colocava a mão em sua bolsa e tirava a caixa alargada. Olhou-a ao ver sua preocupação.

—Confia em mim? —perguntou-lhe.

A franca pergunta a colheu com a guarda baixa e duvidou na hora de responder.

—É obvio — lhe respondeu.

Quando se inclinou para baixo lhe caiu pela cara sua juba loiro platino.

—Então não me peça que te explique nada disto.

Quando abriu a caixa, Magiere se arrependeu de ter consentido a tal petição.

O primeiro que viu em seu interior foi um aro de arame com pequenas pegas de ferro nos extremos e dois estiletes com as laminas tão finas como agulhas de costura. Quando viu o arame tragou saliva. Nunca tinha visto uma coisa assim em primeira pessoa, mas uma vez tinha visto como executavam a um criminoso por estrangulamento e podia adivinhar perfeitamente como se utilizava aquilo.

Os estiletes estreitos eram outra coisa. Eram muito finos para lutar com eles, não podia estar segura de que se utilizariam. Mas, ao olhar outra vez o arame, tampouco é que queria sabê-lo. O que sim que queria saber era como os tinha encontrado Leesil, e não lhe emprestou atenção às idéias que lhe cruzavam a cabeça.

O metal do arame e das laminas dos estiletes era muito branco para ser aço. Tinham utilizado algum outro metal, e aqueles eram utensílios caros de natureza duvidosa, que ninguém compraria abertamente em um armeiro. Apenas se havia restos de manchas nas folhas bem afiadas. Apesar de ter estado muito cuidados em seu momento, não os tinham tirado um comprido período. Por muito que os utensílios que seu companheiro tinha fizessem que Magiere se sentisse nervosa e precavida, sentiu uma inesperada quebra de onda de preocupação ansiosa para o Leesil. Apartadas e escondidas, aquelas posses de mau gosto tinham o suficiente significado para ele como para que as tivesse tido um número indeterminável trancados anos.

Leesil vacilou e Magiere viu como suas costas subia e baixava ao respirar profundamente, antes que seus finos dedos pressionassem um lugar oculto do interior da caixa. Então agarrou a base da tampa, perto da dobradiça, e um painel interior se rendeu para deixar à vista um compartimento dentro da própria tampa. Ali, metido em tiras de tecido, havia uma variedade de arames com distintas formas, ganchos finos e largos como agulhas e outros utensílios diminutos com a mesma aparência delicada, retorcida e dobrada, cuja utilidade Magiere não era capaz de adivinhar. E de novo, o metal tinha um brilhante tom prateado muito claro para ser aço.

—O que é isso? —perguntou Brenden.

Leesil o ignorou e agarrou um arame fino que acabava em um ângulo reto. O extremo dobrado me sobressaía menos da metade da longitude de uma unha e tinha sido aplanada para ser mais fina que a parte mais larga ou cabo. Apalpou com cuidado a base da parede de madeira, e depois pressionou com seu dedo indicador um ponto que parecia exatamente igual a qualquer outro da vasta parede. Tentou inserir o arame diretamente por cima da unha de seu dedo.

Para surpresa do Magiere a ponta do arame atravessou a madeira, e um painel tão alto e largo como seu braço se deslizou e abriu.

—Deixem ir diante — disse Leesil—. Pode que haja armadilhas.

Leesil tinha o corpo tão tenso e o rosto tão sério que Magiere logo que era capaz de reconhecê-lo. Sabia perfeitamente o que estava fazendo, mas de algum jeito levar a cabo todas aquelas ações era uma carga para ele, era como se estivesse obrigando a si mesmo.

Os pensamentos do Magiere se detiveram e deu um passo atrás. Leesil sabia exatamente o que estava fazendo. Como?

—Leesil...

Quando ele se deu sua volta rasgados olhos cor âmbar lhe rogaram.

—Confia em mim — disse Leesil.

Fechou a caixa de um golpe, deslizou-a de novo ao interior de seu fardo e subiu através da porta secreta. Magiere tinha poucas opções além de segui-lo.

Uma vez que Brenden teve subido pelo vão detrás de Magiere e chegado a uma sala de estar muito luxuosa, o primeiro que chamou sua atenção foi uma vela com a forma de uma rosa de um vermelho profundo. Rosas de cera não eram exatamente o que esperava encontrar. Leesil já estava apalpando paredes e chão, e os observava com atenção. Dois pequenos abajures de azeite presos às paredes proporcionavam umas pequenas chamas. Se o verão anterior alguém houvesse dito a Brenden que ia ver-se logo na companhia de uma caça vampiros e de um ladrão profissional, seguindo aos assassinos não-mortos de sua irmã, tivesse pensado que o que falava estava bastante louco. Em realidade, sim que soava a loucura, e esse pensamento fez que lhe arrepiasse o cabelo da nuca.

Além disso, a primeira vez que viu o Magiere, tinha-a desprezado, tinha-a tomado por uma mulher fria e egoísta cujo único interesse era tirar benefício de seu botequim. Sua opinião a respeito do Magiere tinha trocado muito após. Apesar de toda sua força e o muito que se cuidava em não mostrar emoções, sob a máscara podia ver dor e insegurança. Não se escondia em seu botequim por egoísmo, mas sim por outra coisa, e ainda não a conhecia o suficientemente bem para lhe perguntar o que era. Então, tinha superado o misterioso obstáculo e estava de pé a seu lado com uma espada na mão, preparado para lutar, matar ou morrer. Brenden admirava seu valor, mas as podas linhas de suas facções e sua larga trança negra tampouco lhe eram indiferentes. Força, beleza e capacidade para lutar na mesma pessoa eram uma estranha combinação para ele.

Então seus pensamentos voltaram para a Eliza, seu frágil irmana, e a ira que lhe consumia o peito lhe fez concentrar-se no objetivo que tinham naquele momento.

Naquela habitação... Amaciados sofás curvos, estofos em veludo verde, uma pintura da costa norte, tapetes trancados, e uma variedade de adornos de prata que descansavam em brilhantes mesas, tudo aquilo o registraram seus olhos de uma vez. Caminhou um pouco e agarrou uma cesta de costura. Dentro encontrou um bordado. O que estavam bordando era mais um reflexo fiel de cenas cotidianas que um simples adorno. Sustentou em sua mão uma parte de musselina ao meio terminar que mostrava um enorme sol rodeado de nuvens que ficava sobre o oceano.

Chap avançava sigilosamente e cheirava tudo, de uma vez que grunhia brandamente.

—Há uma mulher — disse Brenden em tom desapaixonado.

—O que? —Magiere parecia confundida de algum jeito por aquela afirmação.

—Aqui não só nos ocupamos do nobre e do garoto de ruas. E as coisas que há nesta habitação são muito pessoais como para que se trate de uma faxineira. As faxineiras não se sintam a bordar durante horas.

Leesil deixou a tarefa a que estava entregue que era levantar os tapetes.

—Ou pode que um dos homens seja tão artístico como uma mulher e tenha o mesmo bom gosto para a decoração.

Magiere médio sorriu ante o frívolo comentário e Brenden negou com a cabeça. Para então já tinha adivinhado que Magiere se escondia depois de uma máscara de falsa frieza e hostilidade, e Leesil o fazia atrás do humor, mordaz ou não. Entendia o mecanismo de defesa de Magiere, mas por muito que tinha chegado a apreciar ao meio elfo, as bruscas mudanças de Leesil entre um humor a fora de tempo e a compaixão inesperada, entre suas habilidades de luta rápida e agora roubo, estavam começando a ser bastante inquietantes.

Leesil examinou o que claramente parecia um alçapão no centro do chão.

—A que esperas? —perguntou Magiere.

—Esta é diferente—disse Leesil, quase para ele mesmo—. Quem quer que tenha construído este lugar nunca pensou que alguém encontraria a porta de fora, e é muito provável que nunca a tivesse utilizado, por isso não tinha uma necessidade real de ter medidas de segurança ativas. —Levantou a cabeça até que seu olhar se encontrou com a do Magiere—. Temos que baixar. Não sei mais deste tipo de caça do que você sabe, mas estou seguro de que estarão dormindo em algum sitio clandestinamente.

—O que quer dizer com que não sabe? —perguntou Brenden. Olhou a Magiere—. Não era assim como ganhava a vida antes de chegar a Miiska?

O meio elfo sorriu fracamente.

—Não há tempo para explicações. Os dois lhes joguem atrás.

Brenden deu um passo atrás e logo deu outro mais, e outro mais até que quase se deu com as costas na parede. Leesil caminhou devagar ao redor do alçapão como se estivesse memorizando toda e cada uma das partes que a compunham. O ferreiro experimentou uma quebra de onda de desconforto depois de que passasse um bom momento do precioso tempo de que dispunham e de que Leesil ainda seguisse com seu estudo do alçapão.

—Temos que nos dar pressa — disse Brenden—. O sol vai se pôr logo.

—A luz do dia não nos servirá de ajuda se estivermos mortos — lhe respondeu Leesil.

Tinham talhado um pequeno círculo na madeira para formar uma argola simples. Tudo o que fazia falta para abri-la era deslizar os dedos através do buraco e atirar, Leesil se agachou e rebuscou em seu fardo, mas em lugar de tirar sua caixa de estranhas ferramentas, tirou uma estaca.

—Vós dois, lhes coloque detrás de um dos sofás. E segurem a Chap com força — disse Leesil—. Vou utilizar uma estaca para abrir isto um pouco. Quando o fizer, uma agulha envenenada vai cravar a ponta da estaca. Depois disso tentarei levantar a porta, mas pode que haja mais surpresas. —Fez uma pausa—. Uma vez vi uma plataforma geral de gás venenoso sujeita a uma porta como esta. Se gritar, lhes coloque na porta secreta, sem importar o que acontecer.

Brenden olhou repetidas vezes a cada um de seus companheiros, que nesse momento se estavam olhando um ao outro. Estava muito claro que Leesil estava demonstrando habilidades e conhecimentos que Magiere não conhecia previamente. A expressão dela era algo mais que de preocupação, mas se retirou e se escondeu detrás de um sofá ricamente estofado. Brenden fez o mesmo e apareceu a cabeça por um lado para olhar.

—Tome cuidado — disse Magiere.

—Não, de verdade? —disse Leesil enquanto empurrava a estaca com suavidade pelo interior da abertura. Seguiu-lhe um clique muito sonoro.

—Tenho a agulha — disse e depois se tombou de barriga para baixo no chão, com uma perna dobrada sob o corpo, certamente para tornar-se a um lado em caso necessário—. Mantenham as cabeças agachadas.

Fez alavanca com a estaca para levantar a porta e depois lhe deu um rápido empurrão e se tornou para trás ao tempo que a porta se abria.

Ao abrir-se, a porta rangeu duas vezes. Bem a salvo depois dos dois sofás, tanto Brenden como Magiere se agacharam rapidamente em um ato reflito quando duas flechas saíram disparadas. A primeira passou por cima do Leesil, apontava para onde estaria uma pessoa ao abrir o alçapão. A outra para então já me sobressaía do sofá do frente atrás do qual estavam escondidos Brenden e Magiere. Brenden lhe jogou uma olhada por cima do sofá.

—Espera — disse Leesil de uma vez que levantava uma mão—. Não estou seguro de que isso seja tudo. —Desapareceu pela abertura.

Magiere não fez o que lhes tinha pedido, mas sim subiu pelo sofá, foi até a abertura e jogou uma olhada para baixo com cuidado.

—O que está fazendo?

—Somente me estou assegurando. —A voz do Leesil soava muda e apagada ao vir de algum lugar mais abaixo—. Acredito que já podem baixar.

Brenden se uniu a Magiere, e ficou a pensar como baixar a Chap, mas o cão solucionou o problema saltando pela abertura e aterrissando ao lado do Leesil. Magiere o seguiu e o ferreiro baixou o último.

 

Brenden se encontrou a si mesmo de pé, em meio de um túnel estreito. Sempre lhe tinham interessado os artefatos e os aparelhos, deteve-se examinar as duas bestas que estavam sobre uns suportes de ferro e que estavam cuidadosamente apontados para cima, para a abertura.

—É um truque muito simples, de verdade—disse Leesil—. Somente terá que as montar solidamente, as carregar e depois pôr um arame ou uma corda da porta para disparar os mecanismos.

—Se tiverem terminado de admirar estas duas armas com intenção assassina — interrompeu Magiere com voz baixa e irritada—, temos que seguir. Acende uma tocha.

 

Edwan chegou de retorno aos túneis que havia debaixo do armazém em estado de grande agitação. Tinha estado escutando cada palavra que se falou entre a caçadora e o estranho que se estava alojando nas habitações do porão de A Rosa de Veludo. Embora não entendia do tudo o que tinha ocorrido ali, Edwan sim entendia que aquela caçadora era mais perigosa do que Rashed pensava e o estranho sabia muito a respeito dos não-mortos. Além disso, aquele estranho estava apressando à caçadora a que caçasse. Edwan voltou a pensar na noite em que Magiere visitou o lugar no que morreu a irmã do ferreiro. O estranho tinha aparecido e tinha falado com ela. Chamou-a «Dhampir». Como o tinha definido? «Alguém que tinha o dom de poder matar aos mortos». À caçadora não tinham interessado nem Teesha nem Rashed antes daquela noite. Pequenas porções de lembranças e pensamentos passaram pela dispersa mente do Edwan. Obrigou-se a pensar.

O que acontecia aquele estranho de algum jeito estava guiando os passos da caçadora? Ela parecia tão orgulhosa, mas procurava a guia daquele estranho.

Edwan sabia que devia contar-lhe a Teesha. Ela entenderia o que queriam dizer todas as palavras, ao menos as palavras que ele podia recordar. Ela saberia o que teria que fazer.

Tinha planejado levitar até seu caixão diretamente quando sentiu uma presença e vacilou... Não, sentia mais de uma presença. Moveu-se instintivamente, flutuou túnel abaixo e se encontrou com a caçadora, o meio elfo, o ferreiro e o cão. Levavam tochas e armas e foram diretos para onde Teesha e Rashed e Ratboy dormiam. Edwan se inquietou e se repreendeu a si mesmo. Claro que iam estar ali. Não lhe havia dito o estranho que caçasse e que utilizasse ao cão?

Algum tempo atrás, Edwan lhe tinha suplicado a Teesha que movesse seu caixão e o afastasse do Rashed, para que ele pudesse ter um pouco de intimidade com ela quando se deitasse ou quando se levantasse. E ela tinha estado de acordo. Agora ele corria para ela. Com um grande brilho apareceu em forma visível no centro de sua câmara privada subterrânea, sentia-se frustrado por não ter a capacidade de abrir a tampa de seu caixão.

—Meu amor — disse em voz alta—. Tem que despertar.

Edwan tentou empurrar a sua consciência para quando estava vivo e ao menos tinha podido tentar protegê-la. O que teria feito? Seus pensamentos tinham estado tanto tempo apanhados entre o mundo dos mortais e o dos espíritos que encontrava muito difícil concentrar-se em nada que não fossem detalhes específicos do momento que tinha mais à mão, e muito menos feitos de um passado mais longínquo.

—Teesha. —Tratou de usar seu pensamento esta vez, permitiu que sua forma não corpórea passasse através da suave tampa de seu ataúde de maneira que pôde ver sua cara dormida—. Acordada.

Os olhos da Teesha permaneciam fechados como os de uma doce menina profundamente dormida. O entardecer acabava de começar somente. Ela despertaria por si mesmo em pouco tempo, mas ele necessitava que despertasse naquele preciso momento.

Edwan saiu da câmara e retornou aos túneis de pedra cobertos de terra pelo que Rashed tinha pagado a doze homens para que os escavassem antes de construir o armazém. O trabalho lhes levou quase um ano. Contrataram a homens de fora do povoado, e ninguém sabe o que foi deles uma vez que terminaram sua tarefa. O fantasma tratou com desespero de recordar qualquer palavra que flutuasse naquele tempo. Algumas zonas precisaram ser pressionadas com madeiras, lembrava-se daquelas palavras, e o guerreiro desenhou uma maneira de que essas zonas se afundassem em caso de que passassem intrusos. Onde estava aquele lugar?

O movimento rápido era um dos poucos dons que lhe tinham concedido, Edwan se concentrou em sua presença e se evaporou.

 

Leesil levava a bolsa de equipamento pendurada em um ombro. Levava uma pequena tocha frente a ele, mas queria ter a outra mão totalmente livre. Chap caminhava diretamente detrás dele, logo ia Magiere e finalmente Brenden, que fechava o grupo e levava outra tocha. Leesil avisou a ambos de que não tocassem nada, nem tão sequer as paredes, a não ser que ele lhes dissesse que era seguro fazê-lo.

Tinha passado muito tempo da última vez que tinha tido que localizar um objetivo que estivesse dormindo, e pelo geral a tarefa implicava escalar e subir, não para baixo. Com a atenção posta na tarefa que se trazia entre mãos, Leesil se movia devagar, examinava o chão, as paredes e o teto antes de avançar. Fez caso omisso dos contínuos comentários do Brenden de dar-se pressa.

Leesil também evitou falar ou olhar ao Magiere, coisa que não era difícil naquele momento. As tochas que levavam lhes proporcionavam a única fonte de luz a tanta profundidade, e depois de tudo, estava bastante ocupado.

Chap grunhiu brandamente, e os olhos lhe brilharam mais e se voltaram mais transparentes do que o eram de costume.

—Estamos perto — disse Magiere—. Acredito.

Nenhum deles sabia nada a respeito das habilidades do Chap, mas Leesil pensou que seu comentário tinha sentido. Jogou-lhe um olhar por cima do ombro, e na escassa luz, algo chamou sua atenção. Com lodo o que se arrastaram, os amuletos do Magiere se saíram da camisa e lhe penduravam do pescoço à vista. A pedra de topázio estava brilhando. —Olhe — lhe disse de uma vez que a assinalava. Magiere olhou para baixo e a tocou um pouco assombrada.

—Não está mais quente, somente brilha.

Chap uivou.

—brilhou alguma outra vez? —perguntou-lhe Leesil.

—Quando lutei com aquele aldeão no rio Vudrask Y... —A voz do Magiere se foi apagando e se olharam aos olhos.

—Pode que seja melhor que o deixe fora da camisa — disse Leesil.

—Temos que nos dar pressa—disse Brenden claramente frustrado. O túnel era pequeno, apenas o suficientemente alto para ficar de pé nele e estava grosseiramente escavado. Leesil só podia ver as paredes, seus pés e uma pequena distância mais adiante.

—Como escavaram este túnel debaixo do armazém? —perguntou Magiere.

—Já faz um tempo, mas pelo que lembrança, levou-lhes algum tempo construí-lo — respondeu Brenden—. Poderia ser que escavassem primeiro o túnel e logo construíram o armazém sobre ele?

Aquilo soava plausível. Leesil viu que se aproximava uma zona com pranchas no teto.

—Aqui há uns suportes de madeira — disse—. Tome cuidado ao passar.

Um ligeiro brilho no chão lhe chamou a atenção. Leesil se deteve, levantou uma mão para que outros fizessem o mesmo e se agachou para poder vê-lo mais de perto. Havia um pequeno cabo que atravessava o túnel de lado a lado a um palmo do chão.

—Cabo armadilha — disse Leesil—. Se olharem o poderão ver. Caminhem com cuidado.

Aquelas coisas não eram mais que moléstias para Leesil, não representavam nenhum perigo. Nada escapava a sua aguda vista, e se deu conta de que sua antiga forma de fazer as coisas tinha voltado para ele de maneira natural, inclusive depois de muitos anos de tratar de esquecê-la. Deu-se a volta para assegurar-se de que Chap não se tropeçava com o arame e então uma luz brilhante apareceu diante dele.

Em um segundo se solidificaram as cores.

Leesil se encontrava cara a cara com um homem decapitado que estava o suficientemente perto para tocá-lo se alargava a mão. A cabeça parcialmente seccionada do homem estava apoiada sobre um ombro formando um ângulo muito aberto que deixava exposta a garganta aberta e lhe sangrem. Girou o torso rapidamente, de maneira que sua cabeça ficou olhando ao Leesil e curvou os lábios para grunhir.

Leesil deu um salto para trás para afastar-se da aterradora visão... Mas recordou o cabo armadilha.

Seu primeiro passo foi o suficientemente alto para esquivar o arame, mas perdeu o equilíbrio ao baixá-lo. Seu outro pé se enganchou no arame ao tropeçar-se para trás. Tampou-se a cabeça com as mãos instintivamente. Duas pranchas da parte de acima se soltaram uma delas lhe deu de pleno ao cair. O teto que tinha sobre a cabeça explorou quando as raízes e a terra se revolveram e cobraram vida própria. Tratou de ver se Magiere estava o suficientemente longe como para não ser enterrada, mas não lhe deu tempo. A terra e as pedras que não deixavam de golpeá-lo e cair sobre ele de repente se fizeram muito pesadas. Esmagaram-no contra o chão.

Magiere viu o Leesil girar-se em direção a ela, depois o viu tropeçar de costas com uma expressão de horror no rosto, como se tivesse visto algo terrível. Quase imediatamente se desencadeou uma avalanche de madeira, rochas e terra arenosa que caíam do teto do túnel. —Leesil! —gritou Magiere de uma vez que lançava uma mão para segura-lo, mas Brenden a agarrou pela cintura e atirou dela para trás.

—Não! Não o faça! —gritou-lhe—. É muito tarde.

Uma nuvem de pó os envolveu aos dois e por um momento cegou a Magiere.

O afundamento se terminou tão rápido como tinha começado. Pó muito pesado ainda flutuava no ar a seu redor, mas Magiere podia ver a cauda e as patas traseiras do Chap e o ouvia gemer. Limpou-se a terra dos olhos com o dorso da mão e viu que o cão já tinha começado a escavar freneticamente.

—Traz para o cão de volta e agarra minha tocha — lhe ordenou Brenden.

No túnel não havia espaço suficiente para que duas pessoas entrassem em ação. Brenden era potencialmente mais forte. Magiere agarrou as patas traseiras ao Chap e atirou com força e rapidez.

—Vêem aqui, Chap!

Chap lhe grunhiu virulentamente, ou por quão dura tinha sido ou por havê-lo parado quando estava dedicado a seu próprio e se desesperada trabalho. Enquanto segurava ao cão, agarrou a tocha do Brenden, quem passou por diante a pressão e ficou a apartar tabuas e atirá-los a um lado e ao outro o melhor que podia.

A Magiere não ficou mais remedeio que ficar ali de pé observando.

Magiere odiava não ter controle sobre as coisas. Algumas vezes tinha amaldiçoado as responsabilidades que ela mesma se exigia. Mas ao estar ali no túnel, de pé, observando como Brenden escavava grosseiramente para tirar o Leesil, deu-se conta de que os espectadores inúteis o passavam muito pior que os que entravam em ação.

O que acontecia Leesil morria? Do que lhe serviria lutar por um lar e um negócio se não tinha com quem compartilhar seus planos e seus eventos cotidianos? Leesil era a única pessoa com a que tinha sido capaz de passar incontáveis quantidades de tempo. O que dizia isso dela? O que acontecia morria?

Lutou contra o impulso de atirar a tocha, apartar a Brenden e ficar a cavar ela mesma. Pelo contrário, segurou bem a Chap, não estava segura de se o tremor que sentia no corpo vinha de seu próprio interior ou se vinha da vibração dos grunhidos e gemidos do cão. Com a outra mão tentou pôr a tocha a um lado para proporcionar luz ao Brenden e para poder ver ela o que estava ocorrendo.

O túnel não estava fechado de todo. Os escombros e a terra só o cobriam até a metade. O problema era que Brenden não tinha aonde atirar os escombros que retirava. Sua cara tinta de vermelho brilhava do esforço, mas não diminuiu a velocidade.

—Pode vê-lo? —perguntou-lhe Magiere.

—Não, eu não... espera, um pé!

—Tira! Tira e tira-o.

Magiere deu um passo atrás rapidamente e puxou a Chap. Brenden atirou com força, quase se chocou com ela e se levantou uma pequena nuvem de pó a seu redor. O pó e seu próprio medo fizeram que parecesse como se Brenden tivesse criado ao meio elfo de um nada e o tivesse feito existir.

Agora tocava a ela. Apoiou as costas contra a parede se deslizou por detrás de Brenden e lhe deu a tocha para poder ajoelhar-se ao lado do Leesil, pô-lhe o ouvido no peito e logo na boca.

—Não respira.

Ali deitado, Leesil parecia mais magro que nunca. Todo seu corpo estava da cor da terra menos onde o sangue procedente de um corte ou arranhão na cara ou na mão tinha escurecido a terra e a tinham pegado a ele. Tinha visto uma vez a sua tia Bieja salvar a um menino que se caído em um poço, lhe insuflando ar na boca do menino.

Magiere afastou a cabeça do pó e inspirou profundamente. Agarrou-lhe um beliscão no fino nariz ao Leesil, a tampou com dois dedos, tampou-lhe a boca com a sua própria e soltou o ar. Levantou-lhe o peito uma vez e lhe voltou a ficar plano.

—O que faz? —gritou Brenden enquanto a agarrava pelo ombro.

Magiere se girou, desfez-se do braço do ferreiro e repetiu o que tinha feito. Voltou-o a repetir. O desespero não lhe permitia parar. À quinta vez conseguiu que o peito do Leesil subisse e lhe tossisse na boca.

Magiere se separou rapidamente e o olhou à cara.

—Leesil?

Leesil permaneceu deitado e imóvel. Voltou a tossir e lhe saiu terra da boca, seguiu-lhe um sonoro estertor quando agarrou ar. Magiere se deixou cair sobre ele e um grande alívio lhe percorreu o corpo.

—Aqui — disse Brenden e lhe aproximou um cantil de água que tinha solto de seu cinturão—. Tenta lhe lavar a garganta e então veremos se tiver algum osso quebrado.

Antes que Magiere pudesse agarrar o cantil de água, Leesil alargou a mão e o agarrou ele mesmo. Deu um grande gole, rodou para um lado e cuspiu a água. Depois tentou sentar-se.

—Estou bem — disse com voz rouca. Piscou pela terra que tinha nos olhos—. Onde está o fantasma? Foi-se?

—Que fantasma? —perguntou-lhe Magiere.

Depois lhe ordenou:

—Fique quieto — Magiere lhe comprovou as mãos, os braços e as pernas com os dedos—. Acredito que não tem lesões.

—Estou bem — divagou Leesil—. Onde está a porra do fantasma! Acreditei que era real... mas não podia sê-lo... Tinha a cabeça atalho.

Magiere olhou ao Brenden.

—Temos que voltar. Tem alucinações.

—Não! —espetou Leesil—. Não tenho alucinações. OH, esqueçam! É muito tarde. Se nos rendermos agora, saberão que estivemos aqui. Quão seguros estaremos em casa esta noite? Quão seguros estarão Rose e Caleb? Temos que terminar isto.

Leesil tinha razão, e Magiere sabia, mas ainda assim seu primeiro instinto foi tirá-lo dali. Tirou-se a camisa da calça e arrancou uma parte e o empapou em água do frasco e lhe enxugou a cara e os olhos. Ao princípio Leesil protestou e lhe apartou as mãos, mas quando Magiere se negou a dar-se por vencida, ficou sentado e lhe deixou que terminasse. Pequenos cortes e abrasões lhe danificavam a pele bronzeada, mas nenhuma das feridas parecia séria.

—tiveste sorte — disse Magiere.

—Os deuses cuidam dos tolos — lhe respondeu Leesil enquanto tentava sorrir.

—OH, lhe cale — lhe espetou Magiere, todo seu pânico se converteu em irritação ante um de seus típicos comentários inapropriados.

Brenden negou com a cabeça. Magiere sabia que acreditava que ambos eram bastante estranhos. Não o culpava por isso.

—esta bem. Agora o que? —perguntou-lhe Magiere a seu companheiro.

Leesil olhou para trás por cima de seu ombro ao montão de escombros que ocupava a metade da altura do túnel.

—Teremos que nos arrastar e atirar do equipamento — lhe respondeu—. Acredito que já estamos muito perto. Esse fantasma deve ser algum tipo de guardião.

Leesil olhou em sua bolsa para comprovar se havia alguma peça de equipamento quebrada. Um dos frascos de azeite se arrebentou, e tinha feito que outros e sua caixa de estranhas ferramentas fossem escorregadios ao tato. Só um pouco tinha manchado sua besta. Limpou a besta e outros objetos o melhor que pôde com a parte da camisa do Magiere.

—Perdi a tocha — disse Leesil—. Teremos que nos arrumar somente com uma.

Para alguém que tinha estado a ponto de morrer, sua calma e maneiras competentes não faziam mais que irritar e confortar ao Magiere ao mesmo tempo.

—te arraste pelo túnel e Brenden lhe poderá dar —acrescentou isso Leesil—. Mas não avance para baixo até que eu esteja aí por diante de ti.

—Espera — disse Brenden—. Fica quieta, Magiere. Trago algo para ti. —tirou-se um pequeno frasco do cinturão que levava—. Levanta os braços.

—O que é isso? —perguntou ela.

—Água de alho — lhe respondeu—. A agarrei de sua cozinha. Em lugares pequenos pode te ser de ajuda na hora de te proteger ou ao menos pode fazer que essas criaturas o pensem duas vezes antes de meter-se contigo.

Jogou água de alho pelos braços, ombros e costas. A Magiere impressionou sua previsão, mas não lhe disse nada até que teve terminado.

—Preparados? —perguntou Magiere.

Brenden assentiu.

Um por um se arrastaram pelo espaço que tinha ficado sobre o cansado e de novo empreenderam seu caminho pelo túnel. Pode que fora sua imaginação, mas Magiere acreditou notar que Leesil aliviava o passo e sim comprovava as coisas, mas com menos parada.

—Vejo uma abertura — disse Leesil.

Uma segunda quebra de onda de alívio percorreu o corpo do Magiere quando saíram do túnel e entraram em uma caverna subterrânea onde puderam estar uns ao lado dos outros.

—Ali — disse Leesil de uma vez que assinalava ao outro lado da caverna.

—O que?—perguntou Brenden.

Leesil se adiantou e segurou a tocha em alto. Olhou para trás.

—caixões.

 

Edwan sobrevoou o caixão de Rashed em sua forma invisível, dividido entre contente e frustrado. Tinha falhado em seu intento por fazer que aqueles intrusos se matassem eles mesmos, e acreditava que se lhes voltava a aparecer naquele momento suas futuras táticas de ataque por surpresa não teriam a mesma efetividade.

Entretanto, eles tinham visto primeiro os caixões do guerreiro e do Ratboy, não tinham visto o de Teesha. Deixaria que esses dois lutassem com os caçadores; eles não lhe importavam nada. No momento, sua Teesha estava a salvo.

Concentrou-se em sua própria forma outra vez e se transportou à pequena caverna de sua amada.

—Acordada, meu amor — sussurrou—. Por favor.

Esta vez, Teesha se moveu em seu sonho.

 

Alguns vampiros descansam mais profundamente em seu estado dormido que outros. Rashed nunca o tinha admitido ante ninguém, nem sequer ante a Teesha, mas sempre tinha que esforçar-se por não cair rendido imediatamente depois da saída do sol, e apenas se recordava algo até o entardecer. Igual era algo que só acontecia com ele e não tinha nada que ver com o resto dos não-mortos. Considerava que tal tendência era uma debilidade, mas ainda não tinha dado com uma solução.

Esta vez, ainda perdido em seu sonho, algo muito parecido a um sonho mortal tocou a fronteira da consciência. Sentiu como se algo invisível o olhasse na escuridão. De noite podia ver melhor que qualquer mortal, mas ainda assim necessitava um pouco de luz. Aquela escuridão não a podia atravessar nem seu olhar. Mas sentia igual de bem a presença na escuridão, movia-se de um lado a outro e tentava agarrá-lo pelas costas.

Fazia tantos anos que não pensava nos sonhos. Tais visões e preocupações eram para os vivos, não para os não-mortos. O que era o que atirava dele? Com um repentino ataque de ansiedade, a presença se moveu para dentro, para ele e Rashed abriu os olhos.

Antes que pudesse reagir, alguém abriu a tampa de seu caixão desde fora.

A luz de uma tocha iluminava a câmara depois de uma sombra que se erguia sobre ele, agora era muito fácil ver com aquela luz. A caçadora se erguia sobre ele e tinha uma estaca afiada na mão. Magiere abriu um pouco os olhos. Ambos ficaram congelados pela surpresa e depois ela baixou a mão com a estaca, com força.

Rashed lhe agarrou o pulso com um grunhido de ira mais que de medo, a ponta da estaca se deteve antes de chegar a seu peito. A caçadora tinha a manga e o braço úmidos e a mão do Rashed começou a expelir fumaça.

Rashed médio gritou da dor e lhe soltou o pulso enquanto saía do caixão com uma chute. O pé lhe deu na parte baixa do peito e caiu para trás. Rashed rodou pelo lado do caixão imediatamente e ficou em pé. O que era o que tinha feito a caçadora?

Um aroma fétido chegou ao nariz e fez que lhe picassem os olhos. Alho.

Rashed recordou como choramingava Ratboy ao contar o que a anciã lhe tinha feito no botequim. A caçadora se orvalhou com água de alho.

Rashed podia mover um pouco seu braço esquerdo, mas não o suficiente para utilizá-lo para lutar e agora tinha a mão direita muito queimada também. A jaqueta se passou a estaca a sua mão esquerda e desembainho a cimitarra com a direita. Rashed reagiu imediatamente, apertou os dentes enquanto tirava sua própria espada com a mão queimada.

A caçadora estava coberta de pó e muito suja, mechas soltas de cabelo lhe pegavam à pálida cara como se tivesse estado arrastando-se pela terra; sua expressão era dura e zangada. Certamente era uma caçadora fria e desumana, uma invasora que tinha entrado em seu lar para matá-lo a ele e a aqueles que lhe importava. Não havia sentido um ódio puro e real da noite em que lhe tinha talhado a cabeça ao Corische, mas agora voltava a enchê-lo.

Um cão de cabelo prateado grunhia e uivava do outro lado da caverna, onde um homem com barba ruiva o mantinha preso. A seu lado estava ajoelhado o meio elfo de cabelo claro que estava carregando uma besta.

—Ratboy—o chamou Rashed—se Levante!

A caçadora se equilibrou sobre ele e brandiu sua cimitarra. Para sua própria surpresa, esquivou-a em lugar de pará-la, o instinto atuava por ele. Não podia permitir que aquela lamina o tocasse. Se o voltava a ferir de gravidade, estaria acabado e não haveria ninguém para proteger a Teesha. Sua única e verdadeira prioridade era desarmar à caçadora. Precisava levá-la até o túnel onde não pudesse brandir a cimitarra e pode que ali sua força fora uma vantagem. Mas a ferida que tinha no ombro de sua anterior batalha ainda lhe queimava. Sentia-se um pouco desequilibrado por seu quase imprestável braço esquerdo, recuperou o equilíbrio e carregou contra ela.

 

—Sim, meu amor—disse Edwan enquanto olhava as pálpebras da Teesha e fundia sua cabeça com a tampa do caixão—. Acordada. Temos que fugir.

Teesha levava sua bata de veludo vermelho mais profundo, como o vinho e seus grossos cachos marrom chocolate se pulverizavam pelo leito do caixão, emoldurando sua preciosa cara ovalada. Edwan ainda recordava a primeira vez que lhe sorriu. Era uma das poucas lembranças que ainda ficavam atrás de sua morte.

Ao igual à Rashed, Teesha se negava a dormir sobre a terra e cobria a terra de seu lugar de origem com uma colcha de seda. Quando se sentou e empurrou a tampa de seu caixão, Edwan retrocedeu e se separou de seu caminho. Teesha piscou e Edwan se deu conta de quão pálida a fazia o tom do forro do caixão como ressaltava a cor do vestido.

—Temos que fugir — repetiu Edwan.

—por quê? —perguntou ela—. O que acontece?

Edwan começou a lhe falar sobre o estranho de A Rosa de Veludo e então se deu conta de que lhe contar aquilo era uma tolice. Tinha que lhe falar primeiro da caçadora, para que ela escapasse com ele. Rashed estava lutando com a caçadora. Se a deusa fortuna estava de seu lado, o guerreiro morreria e teria a Teesha para ele sozinho outra vez.

—A caçadora entrou pelos túneis — disse—. Trouxe para o cão e a outros mortais e muitas armas. Temos que ir.

O alarme alterou as formosas feições da Teesha.

—Onde está Rashed? Não o despertaste?

—A caçadora o encontrou primeiro, e a Ratboy. Eles podem lutar com ela. Vêem comigo, agora.

Teesha saiu de seu caixão rapidamente e correu pelo túnel para a cova do guerreiro.

—Não! —chamou-a Edwan, desesperado. Adiantou-a voando e se deteve em seu caminho—. A caçadora está aqui. Corre para ela. Devemos escapar pelos túneis do outro lado.

—Se mova Edwan — lhe gritou—. Tenho que ajudar a Rashed... Necessitamo-lo.

A impressão do Edwan foi ainda maior quando Teesha saiu correndo através dele. Edwan não podia acreditar o curso que estavam tomando os acontecimentos e a seguiu sumido na confusão. Os sons de uivos, grunhidos, gritos e choque de metais foram subindo de volume conforme se aproximavam da gruta de Rashed. Teesha se deteve e se inclinou para aproximar-se pela parede do túnel à porta da gruta.

Edwan viu o Rashed que lutava contra a caçadora. Cada choque, cada som de passos prementes os aproximava das duas à entrada do túnel no extremo mais afastado da gruta. Rashed estava tentando encurralar à caçadora naquele túnel. À direita, justo ao lado de onde descansava Rashed, o meio elfo e o homem grande da barba ruiva, que segurava ao cão prateado, estavam a ponto de abrir o caixão de Ratboy.

O olhar da Teesha se movia entre a caçadora e seus acompanhantes.

—Edwan! —chamou-o Teesha — Ajuda ao Ratboy! Agora!

Edwan se manteve no ar detrás de Teesha. Nem sequer havia se virado para vê-lo, simplesmente o tinha ordenado.

—Não.

Teesha se deu a volta e o olhou em estado de choque. Abriu-lhe a boca, mas não saiu nenhuma palavra. Quando voltou a olhar para o interior da gruta, Rashed já tinha à caçadora a dois passos da entrada ao túnel. De repente, correu para diante para tentar encurralá-la e fez um forte corte com a espada para baixo.

A caçadora se moveu para a direita contra a entrada da gruta e baixou sua espada sobre a de Rashed, fazendo que aquela chegasse ao chão. Com a outra mão, que tinha colhida com força a estaca, deu-lhe um forte golpe no ombro que já tinha ferido.

O muito alto guerreiro deu médio giro até que suas costas se aplanou contra a parede da gruta, ficou com o peito totalmente exposto. Ao mesmo tempo, a metade superior da tampa do caixão de Ratboy se rompeu no ar. A caçadora se retorceu de retorno à gruta, de frente a Rashed, preparada para golpeá-lo outra vez com a estaca.

Antes que Edwan pudesse dizer nada mais, Teesha se lançou como uma selvagem à gruta e saltou sobre as costas da caçadora. A formosa esposa do Edwan gritou quando lhe começou a sair fumaça dos braços.

 

Leesil rastejou até aproximar-se mais ao extremo inferior do caixão, com a besta já dirigida para baixo para lhe dar ao menino mendigo à primeira. Sua bolsa de utensílios lhe pendurava sobre o quadril da cinta que lhe cruzava o torso do ombro contrário. O som da cimitarra de Magiere ao se chocar contra a espada do nobre soou a suas costas, mas ele não podia dá-la volta para olhar. Devia confiar em que ela manteria ocupado a seu competidor, igual a ela confiava em que se ocuparia do menino mendigo. Se qualquer deles falhava, o outro acabaria caindo, ao ser atacado pelas costas.

Leesil assentiu para o Brenden, que segurava de uma vez a tocha e ao Chap, ao que tinha pegado pelo cangote.

—Solta ao Chap e abre a tampa — disse Leesil.

Brenden se moveu para fazer o que lhe haviam dito, mas antes que sua mão chegasse a tocar a madeira, a parte superior da tampa do caixão explodiu quando Ratboy a destroçou para sair. Leesil assustado falhou o tiro e deu um passo atrás.

O menino mendigo agarrou o pulso ao Brenden e puxou dele com força. O ferreiro se cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu ao largo da parte inferior do caixão, de maneira que ficou em meio da linha de tiro do Leesil. Chap se viu forçado para trás ao cair o ferreiro, e a tocha que Brenden tinha na mão caiu ao chão. Com sua luz parcialmente bloqueada pelo caixão frente à Leesil as sombras cresciam na parede.

Entre a repentina mudança de luz e a queda do corpo do Brenden, Leesil perdeu de vista seu objetivo. Ratboy se enroscou para trás, impulsionou os pés para cima por cima da cabeça e se deu a volta sobre o outro extremo do caixão. Aterrissou sentado no chão.

Leesil tentou apontar de novo, mas Ratboy deu caminhos chutes com ambos os pés contra o extremo do caixão que tinha mais próximo. O caixão se deslizou pelo chão e se estrelou contra as pernas do Leesil.

Leesil tratou de manter-se em pé com uma mão, mas caiu para um lado. Como a parte superior da tampa parecia pedacinhos, seu torso caiu dentro do caixão. Suas roupas se engancharam na madeira estilhaçada e Ratboy estava sobre ele antes que pudesse dá-la volta e erguer-se.

Leesil pôde ver um rosto de alabastro com sombras, com os olhos injetados em sangue e um sorriso aberto. Os dentes, com presas que lhe sobressaíam em ambos os maxilares estavam muito amarelados. Leesil se contorsiona e girou a cabeça quando viu um rápido movimento em seu oponente.

Uma mão como uma garra fez um movimento brusco para baixo, mas não chegou a lhe dar na garganta. Deu ao largo da bochecha e a boca. Leesil sentiu como lhe brotava o sangue antes de sentir nenhuma dor.

—Ninguém reconhecerá seu cadáver — vaiou Ratboy.

Leesil fechou as mãos com força para agarrar a besta, mas já não estava ali, lhe tinha escapado das mãos com a queda. Ratboy voltou a mover a mão, Leesil fez um gesto de dor, com um braço se cobriu a cabeça e com a outra mão que ficava livre mediu em seu cinturão em busca de um estilete ou de uma estaca ou a primeira arma que encontrasse.

A cara e a mão desapareceram depois de um relâmpago prateado.

Leesil escapou das lascas e conseguiu sair do caixão, rodou para um lado e quase cai sobre a besta que lhe tinha caído ao chão antes.

—Dispara! —gritou-lhe Brenden, que se estava levantando do chão também e que sangrava por um corte na frente—. Dispare-Lhe.

Leesil voltou a rodar e ficou agachado, viu o Chap em cima de Ratboy. O cão e o não morto estavam enredados em um matagal enquanto se davam uma surra da que saíam dentes, extremidades, garras e uivos, moviam-se tão rápido que Leesil era incapaz de segui-los. As presas do Chap mordiam e davam no branco uma e outra vez, e apesar de que Ratboy não podia lhe devolver as dentadas, suas mãos como garras não deixavam de açoitar ao cão. A Chap arrancaram muitas mechas de cabelo.

—Não posso disparar. Acertaria ao Chap — respondeu Leesil enquanto apertava os dentes.

—Tolo! —cuspiu-lhe Brenden. Agarrou a tocha e a atirou ao Ratboy fazendo-a escorregar pelo chão.

—Não! Não o... —começou Leesil. Quase não teve tempo de ver como a tocha dava ao Ratboy no quadril. Tanto o cão como o não morto se esforçaram por afastar-se das chamas.

Pela extremidade do olho, Leesil viu como o muito alto nobre encurralava ao Magiere para a entrada do túnel e como ambos os competidores oscilavam suas espadas. Magiere empurrou a espada de seu oponente ao chão e lhe golpeou o ombro ferido com a estaca. O nobre rodou pela parede da gruta e Magiere voltou para a zona mais aberta. As caras de ambos estavam distorcidas por um ódio que ia além da razão, ambos se tinham esquecido da existência de ninguém que não fora seu oponente. As feições do Magiere se retorceram em um grunhido que deixou ver umas presas enquanto levantava sua cimitarra para cortar ao nobre.

Leesil começou a devolver sua atenção a seu próprio oponente quando viu um vulto vermelho que lhe caía nas costas ao Magiere.

Uma mulher. Brenden tinha razão.

 

Uma massa de cabelo marrom e um vestido vermelho envolveram ao Magiere quando a mulher saltou sobre as costas do Magiere e lhe rodeou com os braços os ombros e o pescoço. A mulher gritou quando começou a exalar fumaça, a água de alho a tinha queimado. Magiere lançou seu cotovelo esquerdo para trás para golpear a mulher no flanco, depois se girou um pouco e golpeou a mulher na cara com o punho de sua cimitarra. A mulher caiu de costas ao chão da gruta e enquanto caía, Magiere a cortou com a cimitarra.

Isso custou a Magiere a pouca vantagem que tinha conseguido. O nobre tinha recuperado o equilíbrio e tinha levantado sua espada preparado para golpeá-la.

Tudo desapareceu do campo visual do Leesil.

Leesil levantou a besta e disparou.

Monstro.

A palavra lhe ressonou na mente a Magiere enquanto cortava, esquivava e carregava contra a alta criatura que tinha frente a ela. Apenas se era consciente de sua aparência, o cabelo curto negro e os olhos transparentes.

Ele a via como uma assassina, como uma invasora. Mas Magiere sabia o que Rashed era.

Monstro voltou a pensar enquanto levantava a cimitarra pronta para golpear com ela.

Não importava seu nome. Sua cabeça separada de seus ombros, isso era o que importava. Ela era forte, tão forte... E rápida. Doía-lhe a boca, não podia falar.

Um enorme rangido lhe ressonou nos ouvidos, e um peso lhe caiu sobre as costas e os ombros. Uns braços fortes e finos lhe rodearam o pescoço enquanto uma voz gemendo em seus ouvidos se convertia em um grito cheio de dor. Uma densa fumaça se levantou ao redor de sua cabeça e lhe obscureceu a visão.

Magiere golpeou para trás com o cotovelo, deu a um torso brando e em resposta obteve a agradável sensação dos ossos ao romper-se dentro da carne. Quando os braços se soltaram, Magiere girou e lhe deu com o punho a quem quer que a tenha pegado, nem sequer se fixou em se lhe tinha chegado a dar. Quão único via era o vestido vermelho inchado escurecido pelos fios de fumaça e o cortou com força com a cimitarra. A lamina deu em carne, mas não se deteve olhar a seu objetivo, deu-se a volta.

A espada do Rashed caía sobre ela. Magiere se retorceu instintivamente e tentou tirar-se de no meio.

De repente, uma flecha de besta me sobressaía do estômago do Rashed e o percurso do fio de sua espada vario levemente. Passou-lhe perto do ombro e se afastou dela.

Magiere sentiu como o ódio crescia dentro dela como uma euforia abrasadora. girou-se para trás, levantou a espada com a folha sobre sua cabeça para golpear a sua presa.

O monstro investiu o giro da sua antes que Magiere terminasse de dá-la volta.

Magiere sentiu surpresa mais que dor quando a ponta de sua espada desapareceu de sua vista justo por debaixo de sua mandíbula. O ódio e a força saíram dela pela leve dor da garganta. Uma cálida umidade lhe desceu pelo corpo por dentro do colete.

Magiere caiu de joelhos, deixou cair à estaca e se levou a mão à garganta. A mesma calidez penetrava por entre os dedos pelo lado de seu pescoço.

Rashed deu um passo para trás, tirou-se a fumegante flecha do corpo, avançou de novo e curvou os lábios em um sorriso depreciativo.

 

Leesil baixou a vista o tempo suficiente para tirar outra flecha da antecâmara da besta. Não podia permitir-se interpor-se entre aqueles dois, posto que dado seu estado de loucura algum dos dois terminaria por feri-lo com sua espada, por isso carregou a besta de novo. Pode que não matasse ao nobre, mas podia retardá-lo o suficiente como para que Magiere pudesse avantajá-lo. Colocou a besta e levantou a vista ao tempo que puxa a corda.

Magiere estava ajoelhada no chão com uma mão ao pescoço. Já não tinha o rosto contorsionado pela ira, mas sim tinha o cenho franzido pela confusão e os olhos muito abertos. Tinha os dedos muito escuros pelo sangue.

—Chap! —gritou Leesil sem incomodar-se em comprovar se o cão se livrou de seu oponente—. O nobre se tirou a flecha do estômago de uma forma muito parecida com como o fez Ratboy no caminho a Miiska. Chap correu para o Leesil em um segundo. As patas do cão tão solo tocaram o chão até estar o suficientemente perto para saltar sobre o nobre. Enquanto Leesil se dava a volta, ouviu mais que viu o Chap se chocar com o nobre, uivos, choque de metais quando uma espada caiu ao chão seguida de um ininteligível grito de ira. Leesil centrou sua atenção no Ratboy.

O pequeno não morto estava enegrecido, sangrava e se estava apagando as últimas chamas de suas esfarrapadas roupas onde a tocha do Brenden lhe tinha dado. Brenden já estava carregando contra Ratboy com a flecha mais larga que tinha impregnada em água de alho em ambas as mãos. O ferreiro deixou cair todo seu peso sobre seu pequeno oponente e lhe cravou a flecha no peito.

Ratboy abriu a boca para gritar, mas não lhe saiu som algum O não morto não caiu imóvel nem morreu. Tentou escapar do Brenden, golpeou-o na cabeça e nos ombros com uma mão enquanto tratava de tirá-la flecha com a outra. Apesar de seu tamanho, quão único Brenden pôde fazer foi mantê-lo sujeito contra o chão.

—Não lhe deste no coração — lhe gritou Leesil. Depois sussurrou—: vamos morrer... Vamos perder esta... Magiere!

Tudo se desmoronava a seu redor. Leesil podia agarrar a cimitarra e acabar com o Ratboy, ou com o nobre com a ajuda do Chap, mas não via como acabar com os dois com a suficiente rapidez. Nunca o treinaram para usar uma espada. Não era seu estilo de arma. Mas embora tivesse tido essa sorte, Magiere poderia morrer antes que ele chegasse até ela.

Leesil colocou a mão em sua bolsa, tirou um frasco de azeite e o esmagou contra o caixão quebrado do Ratboy. Teve que lhe dar duas patadas muito fortes para que caísse sobre o do nobre e formassem uma pequena barreira ao redor do ferreiro e Ratboy que lutava contra a parede da gruta. Quando saltou sobre os caixões, com a besta ainda na mão, tirou um estilete de sua manga e rasgou os restantes cantis de água de alho que penduravam a Brenden da parte de atrás do cinturão. Não havia maneira de que pudesse utilizar com rapidez uma estaca com o Brenden em cima do objetivo, teve a esperança de que aquela vez a sorte estivesse de sua parte.

A água salpicou entre os dois corpos que lutavam no chão, Leesil viu como a fumaça começava a levantar-se. Agarrou a Brenden pela camisa e puxou o ferreiro para cima com todas suas forças para pôr o de pé.

—Agarra a Magiere! —gritou - Leesil ao Brenden—. Tira a daqui! Agora!

Livre do peso do ferreiro, Ratboy agarrou a flecha com as duas mãos, não estava no centro de seu peito. Seu corpo se estremeceu quando a água de alho começou a queimá-lo. Brenden se separou dele e se dirigiu para o Magiere a toda velocidade.

Leesil agarrou a tocha do Brenden do chão com a mesma mão que segurava o estilete e saiu da barreira de caixões. Enquanto se dava a volta, Ratboy ficava em pé, retorcia-se de dor apesar de que a fumaça se dissipou em uma leve bruma a seu redor. Leesil não duvidou. Apontou a besta para o Ratboy e disparou. Depois prendeu o caixa orvalhado com azeite com sua tocha. A madeira velha prendeu como uma pira e apanhou ao Ratboy atrás dela. Leesil não se incomodou em comprovar se sua flecha lhe tinha dado ao já queimado não morto e deixou a besta para procurar outro frasco de azeite em sua bolsa.

Ao outro lado da habitação, um ensangüentado Chap tentava abandonar ao desarmado nobre, ou ao menos, distanciá-lo mais da abertura do túnel e de Magiere. A estratégia de Chap contra Ratboy tinha sido atirá-lo ao chão e cair em cima, mas apesar de estar ferido, o nobre era muito alto para utilizar o mesmo truque. O cão se via limitado a golpeá-lo e mordê-lo nas mãos e nas pernas, por isso o único que podia fazer era pouco mais que mantê-lo a raia. E isso não duraria muito tempo.

Brenden já tinha ao Magiere em seus braços, arrancou-se uma manga da camisa e a tinha posto para lhe enfaixar o corte do pescoço. De uma vez que ficava em pé agarrou a cimitarra.

—Vai! Agora! —ordenou-lhe Leesil, depois se meteu na boca do túnel e estrelou outro frasco de azeite no chão—. Chap vêem aqui!

Chap golpeou a seu oponente uma última vez, depois girou bruscamente e se dirigiu a grande velocidade para o túnel. O nobre ficou imediatamente atrás do cão, mas Chap foi muito rápido. Enquanto o cão corria para o túnel, Leesil prendeu o azeite ao chão com sua tocha e retrocedeu rapidamente pelo túnel. A abertura da cova se acendeu.

—Corram! —gritou Leesil.

Nem Brenden nem Chap necessitavam tal persuasão. O ferreiro estava já bem entrado o túnel quando Leesil chegou a sua altura, levava ao Magiere sobre o ombro e Chap ia abrindo o caminho. Leesil podia ver como o sangue da ferida do Magiere já lhe tinha manchado a camisa ao Brenden.

A escuridão, o pó e o medo corriam com eles.

Quando chegaram à parte que se derrubou, Chap se arrastou em seguida sobre os escombros. Brenden o seguiu e atirou do corpo inerte do Magiere. Leesil ouviu o som de umas pegadas de botas que vinham atrás deles pelo túnel. Não tinha tempo para perguntar-se como alguém podia ter atravessado as chamas.

—Depressa! —urgiu-os.

Os pés do Magiere se escorregaram pela abertura e Leesil atirou a tocha para diante e a seguiu. Quando desceu pelo outro lado dos escombros se deteve para procurar em sua bolsa de novo. Solo ficava um frasco de azeite. Agarrou a tocha de uma vez que lhe tirava o tampão do frasco com os dentes e o cuspia. Derramou a metade do azeite do frasco sobre as madeiras que havia nos escombros. Depois colocou sua bolsa impregnada de azeite no oco e a prendeu. As chamas fecharam o espaço pelo que tinham passado.

—Isso o manterá ocupado um momento-disse Leesil de uma vez que tentava não respirar a fumaça e agarrava o frasco médio cheio de azeite—. Vamos.

Apenas se recordava o resto da baixada pelo túnel, exceto cada passo que davam era outra gota de sangue que Magiere perdia. Brenden se movia tudo quão rápido podia no estreito passadiço, e os crescentes ofegos do Chap sugeriam que se estava ficando exausto. Leesil não deixava de lhe dizer:

—Segue menino. Só um pouco mais. —A ele mesmo queimavam os cortes que Ratboy lhe tinha infligido.

Quando chegaram ao alçapão que dava à sala de estar decorada, Leesil deixou a tocha e o frasco médio cheio de azeite no chão do túnel e agarrou ao Brenden pelo ombro.

—dêem-me isso e salta-lhe disse—. Terá que subi-los ao Chap e a ela, de um em um.

Brenden deixou cair os pés do Magiere no chão, e Leesil agarrou seu corpo flácido e a aproximou. Enquanto o forte ferreiro sujeitava ao Chap sob seu braço e subia pela escada, o cão choramingou brandamente, mas não resistiu.

Se tivesse havido tempo, Leesil teria baixado a Magiere ao chão, mas, em seu lugar, apoiou-se com as costas contra a parede do túnel para ter uma mão livre e poder lhe levantar a cara e pô-la à altura da sua. Estava quase branca e a ferida seguia sangrando através da improvisado vendagem. A segurou com força contra seu peito e inclinou a cabeça para lhe pôr uma orelha na boca.

Sua respiração era superficial e curta, mas ao menos Leesil podia ouvi-la.

—Está viva? —Brenden se inclinou pela alçapão e alargou uma mão.

—Sim—lhe respondeu Leesil.

—Não sei como com o pescoço aberto por um corte.

Leesil empurrou a Magiere perto da escada. Levantou-lhe um dos braços até que Brenden pôde agarrá-la pelo pulso. Subiu ao primeira travessa e se preparou para subi-la também de abaixo, mas logo que Brenden lhe agarrou o colete com a outra mão, subiu-a sem esforço algum.

—Tudo irá bem - lhe disse Leesil a uma Magiere inconsciente—. Só não morra em cima de mim.

Leesil agarrou a tocha e o azeite e subiu pela escada. Para quando já tinha subido e fechado à porta da alçapão de um chute, Brenden já tinha ao Magiere no ombro outra vez.

—por que trouxeste a tocha? —perguntou-lhe Brenden—. Agora não a necessitamos.

Leesil não lhe respondeu. Não havia tempo para discutir com o ferreiro a respeito do que tinha planejado fazer. Em lugar de dirigir-se à portinhola pela que tinham entrado, Leesil caminhou e abriu a porta principal da habitação.

—Não podemos passar a Magiere pela portinhola, assim vamos sair por diante. Este corredor deveria levar a algum lugar do armazém. Agora te mova.

Brenden abriu um pouco mais os olhos, mas assentiu e se dirigiu à porta. Chap o seguiu.

Leesil vacilou sozinho um segundo. Não havia outra maneira de assegurar-se de que ninguém os ia seguir, e se tinha sorte queimaria a aquelas criaturas até as matar. De qualquer maneira, já não lhe importava o custo dos sustentos e das contas dos vendedores, não com o que aquilo havia flanco ao Magiere.

Rocio brandamente o tapete com o azeite e o alçapão. Também jogou um pouco nos sofás e os prendeu ao igual ao tapete e o alçapão e depois saiu correndo pela porta. Só se deteve aqui e lá para jogar algo de azeite nas paredes, até que lhe acabou o frasco. Quando chegou a enorme planta do armazém, Brenden o estava esperando entre as pilhas de gavetas colocadas para ser mandadas ou recolhidas por algum mercado local.

Leesil jogou um rápido olhar a seu redor e viu uma pilha de tecidos. Brenden abriu os olhos de par em par quando viu o Leesil aproximar a tocha à parte superior da pilha.

—Vamos-disse Leesil sem mais—. Procuremos uma porta.

Brenden olhou ao tecido que ia prendendo pouco a pouco e à fumaça que saía do corredor

—Aqui-alfinetou Brenden zangado.

Leesil seguiu ao Brenden que ia o primeiro para uma porta de aspecto totalmente vulgar. Estava fechada de dentro, por isso era muito provável que não fora a saída que utilizavam os trabalhadores quando terminavam suas jornadas. Leesil levantou a barra e a atirou a um lado, depois abriu a porta de uma patada.

Uma vez fora, Leesil viu que Chap estava ofegando, lhe via débil e exausto e tinha numerosas feridas pequenas. Agachou-se e agarrou em braços ao cão. À exceção do rosto, Leesil estava ileso, mas muito cansado. A força do pânico e da ira lhe estava escapando.

—Sei muito pouco de padres-disse Leesil—. Temos que lhes encontrar ajuda rapidamente.

Brenden o olhou, a tristeza e a ira intercambiavam lugares em seu rosto.

—Minha casa. Todos estarão mais seguros ali.

 

Depois de que Brenden deitasse a Magiere em sua própria cama e a tampasse com uma manta, começaram-lhe a tremer as mãos e não podia as parar. Leesil rompeu uns quantos lençóis, fez as tiras e depois tentou diminuir o sangue que brotava da ferida do pescoço de Magiere utilizando as tiras a modo de ataduras. Tinham-lhe talhado o pescoço de um extremo até a metade do outro. Brenden não sabia como ou por que estava ainda com vida, mas não tinha dúvida de que se estava morrendo. Sabia Leesil?

Chap estava deitado igual de imóvel que Magiere, sobre um tapete junto à cama e respirava com dificuldade.

A pequena casa de Brenden tinha somente uma habitação e estava construída a costa de seu estábulo e sua forja. Em seu dia aquela casa tinha sido um lugar quente e reconfortante, cheio dos cantos de sua irmã e do aroma do pão recém assado. A Eliza adorava as velas e lhe levava freqüentemente cera e azeites essenciais do mercado para que pudesse as fabricar ela mesma. Eliza não era formosa a primeira vista, era um pouco magra e tinha o cabelo murcho e de um marrom comum. Mas ele sabia que algum dia o abandonaria por seu próprio marido. Sua beleza se fazia evidente de outras maneiras. Seus olhos cor avelã riam com suas piadas e exsudava essa alegria que muitos homens procuram em uma mulher. Eliza mantinha a casa arrumada, ajudava-lhe com o trabalho da loja, e preparava boas comidas. Que homem não a desejaria? Ela não podia, não devia passá-la vida cuidando de seu irmão maior. Embora ele não tivesse interesse algum no matrimônio para si, estava plenamente preparado para o dia em que ela se casasse e o deixasse para formar uma família própria.

Entretanto, aquela manhã, aquela terrível manhã quando a encontrou ao lado da pilha de madeira, algo mudou dentro dele.

Eliza era pequena e frágil, não como aquela fera mulher que agora jazia moribunda em sua cama. Eliza não podia lutar para defender-se, e o fracassou na hora de protegê-la, inclusive depois de que as notícias de que tinha havido tantos desaparecimentos chegassem a seus ouvidos. A ambos gostava de seu lar e seu negócio de ferraria, e decidiram ignorar os sussurros e rumores. Depois de tudo, nunca lhes tinha passado nada mal.

Mas agora ela já não estava. Não haveria nenhum marido, nem meninos, e ele não sentia sorte alguma por ter destruído a seus assassinos. Em troca, estava sentado em sua cama presenciando a morte de uma caça vampiros.

Brenden não sabia como ajudar, e não podia evitar que lhe tremessem as mãos. Acreditou que deveria sentir satisfação por ter fechado o círculo. Mas não a sentia. Aquela noite nada tinha sido como ele tinha imaginado.

A cara do pequeno garoto chamado Ratboy não deixava de aparecer-se o na mente, emagrecido e selvagem. Tinha sido aquela a criatura que tinha assassinado a sua irmã? Igual tinha sido o alto que parecia nobre. Ou pode que tivesse sido a mulher. Brenden fechou os olhos e depois os abriu rapidamente, já que a escuridão não fazia mais que acentuar as feições de Ratboy.

Leesil terminou de enfaixar o pescoço ao Magiere e depois lhe colocou os dedos na boca.

—Tem os dentes normais-disse Leesil.

Brenden se sentiu confuso pelo comentário. O que era o que queria dizer?

—está morrendo, Leesil. Deveria ter morrido antes que abandonássemos o armazém.

Leesil levantou a cabeça bruscamente.

—vais procurar ajuda ou não?

—Isto está fora do alcance dos curandeiros da Miiska.

Leesil agarrou ar zangado. As largas feridas de sua cara não tinham deixado de sangrar ainda.

—Não vai morrer. Pensa! Tem que haver alguém que possa ajudá-la.

—Eu posso-disse uma voz tranqüila do outro lado da habitação.

Brenden se deu a volta surpreso, fechou o punho com força, esperava encontrar a alguma criatura que se escapou do armazém em chamas e os tivesse seguido até sua casa. Em seu lugar, quem estava em pé na porta aberta era um elegante homem de média idade com as têmporas prateadas. A qualidade da malha de sua capa sugeria riqueza e cultura.

—Welstiel? —perguntou Leesil, embora fosse mais uma afirmação que uma pergunta—. Pode ajudar?

—Se fizer o que eu te diga.

—O que seja-respondeu Leesil rapidamente—. Farei o que seja.

Em algum lugar, fora na distância, Brenden ouviu gritos e sinos. Os habitantes do povo se despertaram com o alarme e para então já deviam estar no armazém para apagar o incêndio. Experimentou uma pontada de culpabilidade. Apesar de ter estado de acordo com a decisão do Leesil, muitas vidas se veriam negativamente afetadas.

 

Abaixo na praia, depois de que saísse a lua, um dos lados lisos da borda explorou para fora, destroçando qualquer ilusão de paz que lhe pudesse ficar de noite.

Rashed saiu arrastando-se por um pequeno buraco, e abriu um pouco mais a terra quando tirou pelo mesmo a Teesha atrás dele. Anos atrás, tinha mandado construir aquele túnel secreto que chegava das grutas de debaixo do armazém até uma das grutas que havia debaixo do escarpado. A entrada era bastante pequena e estava virtualmente coberta pela areia. Nunca ninguém tinha tentado entrar na gruta do exterior, por isso empurrou a barreira de areia de dentro e saiu ao ar livre.

A praia estava vazia um pouco mais abaixo, mas estava ferido e quase exausto. Agarrou a Teesha com força com seu braço bom, saltou abaixo e caiu sobre seus pés.

—Está bem-lhe disse enquanto a tombava na areia—. Encontrarei sangue logo.

Teesha assentiu e até lhe sorriu, mas Rashed sabia que o corte da cimitarra do Magiere a tinha paralisado da cintura para baixo. Uma perspectiva aterradora.

Deixou-a ali e voltou a escalar a parede.

—Ratboy, necessita ajuda?

A única resposta que obteve foi o som de alguém se arrastando e cavando, por isso começou a apartar mais areia do caminho.

Ratboy apareceu na abertura, estava tão queimado, mordido e de da lastima que Rashed lhe ajudou sem zangar-se e sem repreendê-lo. Ambos tinham falhado na hora de evitar ou destruir à caçadora. Esta vez não era culpa do Ratboy.

—Sobe a minhas costas-disse Rashed—. Te levarei abaixo.

Ratboy renunciou a fazer seu típico comentário sarcástico e sem dizer nada se agarrou dos ombros do Rashed com as mãos enegrecidas e Rashed descendeu com a maior rapidez que pôde e tendeu a seu magro companheiro junto à Teesha.

A mera visão da Teesha o enchia de emoções que não podia reconhecer ou explicar. Apesar de que só suas mãos e um de seus ombros estavam gravemente queimados, o corte que tinha no estômago parecia muito profundo e sua força vital se derramava sobre a areia. Apesar de tudo Teesha não se queixou nem o amaldiçoou.

—Fique aí e não fale-disse—. Voltarei-Rashed desembainhou a espada e a deixou junto ao Ratboy—. Para que lhes sirva de amparo.

Depois se dirigiu pela praia para um conjunto de navios que havia no porto. Já não lhe importava nada a vida daqueles mortais da Miiska, nem ocultar sua identidade. Aquele sentimento não lhe tinha servido para nada ao final. Enquanto se aproximava do porto, Rashed viu dois marinheiros que estavam sentados em um pequeno tronco encravado e se passavam uma garrafa o um ao outro. Ambos pareciam jovens e sãs. Não havia ninguém mais à vista.

Sem fazer nenhum ruído, Rashed caiu sobre eles de um lado. Ambos abriram os olhos de par em par, Rashed sabia que devia parecer um monstro recém saído das profundidades da terra, com a jaqueta ensangüentada, o braço imprestável que lhe pendurava flácido e a cara meio queimada. Golpeou com o punho esquerdo.

Deu-lhe ao marinheiro que ficava mais perto na mandíbula com tanta força que o homem caiu inconsciente, apenas se respirava. Ao segundo só lhe deu tempo a dar um grito e meio passo para trás antes que Rashed o agarrasse do cabelo e lhe cravasse ambas as presas na garganta.

Rashed não se alimentava daquela maneira. Ele nunca se alimentava daquela maneira.

Enquanto segurava sem dificuldade alguma o corpo do marinheiro de uma vez que lhe tirava toda a vida que podia, a força, o poder e a euforia encheram todo seu ser. Em um fugaz momento de claridade mental sentiu uma trêmula iluminação de compreensão para o Ratboy... e para o Parko. Podia ser que alimentar-se fora algo mais que simplesmente recuperar a energia necessária.

Rashed terminou, deixou cair o cadáver na areia e o deixou onde caiu. por que lhe ia preocupar agora? um pouco de medo, um pouco de verdade podia lhes servir a aqueles mortais de aviso para que o deixassem em paz. Quantos anos tinham lutado e se esforçou por manter o mais absoluto segredo e anonimato? Aquela fria mulher caçadora tinha destruído o mundo que ele tinha construído com tanto esmero. Bom, assim o tinha querido.

Rashed ficou imóvel um momento para sentir como a vida do marinheiro lhe percorria o corpo. Então se concentrou no fluxo de vida e o dirigiu para onde mais o necessitava. A ferida de seu ombro começou a fechar-se, as parte de osso se juntaram. A queimadura da mão deixou de lhe arder. Outras lesões menores também desapareceriam logo, tudo curado em troca da vida de um insignificante mortal. Agarrou ao outro marinheiro inconsciente pelo gola da camisa e o arrastou pela praia. O peso morto do marinheiro não era nada para ele já.

O medo se apoderou dele quando chegou até a Teesha, pois esta tinha os olhos fechados. Estava tão quieta. Ficou a seu lado e deixou cair sua carga. Corische lhe explicou uma vez que aos vampiros os podia ferir de maneira tão grave que ficassem em estado de não morte vegetativa. Rashed não sabia se era verdade e tampouco queria sabê-lo.

—me olhe-lhe ordenou.

Quando Teesha não respondeu, Rashed agarrou o pulso do marinheiro e a abriu com os dentes. Sustentou-lhe a cabeça contra o peito e lhe pôs a ferida na boca para que o sangue que brotava de lhe caísse diretamente na boca.

—Bebe-lhe sussurrou.

Ao princípio Teesha não se moveu, mas depois a força do sangue deveu lhe sortir efeito. Começaram a mover-se o as comissuras dos lábios, apertavam e soltavam. Rashed se esqueceu de tudo e lhe acariciou o cabelo sem pensar.

—Bem, bem-murmurava uma e outra vez.

Ficou ali sentado comprido momento, deixou que Teesha se alimentasse. Depois levantou a vista e se encontrou com o olhar gelada do Ratboy. Rashed se sentiu envergonhado. Tinha dois companheiros, mas ele somente pensava na Teesha.

—Espera-disse ao Ratboy—. Já vou.

Com cuidado, separou a boca da Teesha do braço do marinheiro. Seus olhos se abriram em protesto, mas Rashed viu que sua ferida tinha deixado de sangrar.

—Ratboy também precisa alimentar—lhe disse de uma vez que lhe limpava a boca e lhe voltava a colocar a cabeça na areia lentamente.

Teesha pôs expressão de entendê-lo e assentiu.

—Sim, é obvio. Tudo irá bem agora.

Arrastou ao marinheiro, que ainda respirava, até o Ratboy, cuja expressão havia tornado a ser zangada e mordaz como sempre.

—Sua amabilidade é comovedora —lhe sussurrou com voz rouca—. Mas tome cuidado, os deuses da caridade poderiam ficar ciumentos.

—se alimente —lhe respondeu Rashed— assim poderá nos ajudar a traçar um plano.

Uma leve surpresa cruzou o rosto do Ratboy. Depois atacou o pescoço do marinheiro com voracidade.

Rashed se voltou para a Teesha, que se tinha sentado e estava comprovando seu próprio estado. O tom de sua pele tinha voltado para nata pálido habitual.

—Este vestido está destroçado-disse—. E era meu favorito.

Rashed caminhou até ela e se deixou cair a seu lado na areia.

—por que tentou lhe saltar a essa caçadora de detrás? De todos os ataques estúpidos...

 

—Pensei em lhe romper o pescoço —lhe respondeu— Como ia eu, a saber, que estava coberta de água de alho?

A ira começou a crescer no interior do Rashed de novo.

—queimaram nosso lar.

—Queria acabar com ela ali-lhe respondeu com suavidade—, mas agora acredito que deveríamos partir daqui os três.

Rashed não podia acreditar-se suas palavras.

—Não, essa caçadora vai morrer. Ela começou esta batalha. Não nos escapulimos na escuridão.

—Teesha tem razão-disse Ratboy. O marinheiro jazia morto a seu lado—. Não podemos ficar aqui. De todas as maneiras, todo o povoado deve acreditar que estamos mortos. Deixa que sigamos mortos. Ou pode que queira acrescentar a suas façanhas o renascer de suas cinzas.

Rashed ficou em pé. Aqueles dois não se davam conta da situação.

—Não temos onde dormir esta noite. A terra de nossos lugares de origem estava em nossos caixões.

Uma luz brilhante apareceu diante do Rashed e as cores se solidificaram na trágica forma do Edwan.

—Superstições de não-mortos! —disse Edwan com aberto desprezo.

Rashed sempre havia sentido que não gostava a Edwan, inclusive que o fantasma não confiava nele, mas agora havia algo diferente. Havia algo mais duro no profundo tom do fantasma.

—O que quer dizer, meu amor? —perguntou-lhe Teesha.

Rashed ouviu desconforto e frieza no tom da Teesha. O que tinha passado entre eles?

Edwan se deu a volta.

—Quero dizer meu amor querido, que não faz falta que durma sobre a terra de seu lugar de origem. Isso é um conto de camponeses que se contou já tantas vezes que até os de sua espécie acreditam. Não sou o único sem corpo neste mundo. Falo com os mortos. Com o pouco do que me posso inteirar isto o entendo. Confiem em mim.

Ratboy ficou em pé com dificuldade. Suas queimaduras não estavam curadas de tudo, mas parecia que tinham melhorado muito. —Está seguro? —perguntou-lhe muito sério.

—Sim-disse Edwan sem olhá-lo.

Rashed se inclinou para diante e ajudou a Teesha a levantar-se. O mero feito de pensar em dormir em outro lugar que não fora seu caixão o punha muito nervoso, mas escondeu seus sentimentos para que outros não os vissem.

—Então, sei de um lugar seguro ao que podemos ir, é um lugar ao que estou acostumado a ir pensar. —Olhou ao Edwan—. Fiz um corte muito profundo na garganta à caçadora. Pode que esteja morta, mas não tenho maneira se soubesse a ciência certa. Pode inteirar-se?

Edwan se sustentou no ar e o fulminou com o olhar.

—O que você peça meu senhor.

Edwan se desvaneceu no ar.

—Temos que descansar e nos alimentar de novo, e nos curar-lhe disse Rashed a seus companheiros—. Se a caçadora estiver viva, a próxima vez será a ela a que surpreendam enquanto dorme.

Welstiel seguia estando de pé na soleira da porta da casa do Brenden e Leesil tinha decidido não lhe pedir que se aproximasse. O que queira que tivesse que dizer, podia-o dizer da distância.

Enquanto Leesil assimilava a calma e a frieza do homem, começou a odiar ainda mais sua própria ignorância. A respiração do Magiere era entrecortada, superficial e irregular, sua pele estava mais branca que um pergaminho branqueado ao sol. O não sabia como salvá-la, mas odiava a perspectiva de permitir que Welstiel se aproximasse dela. O chamativo semblante do estranho homem e suas elegantes roupas não enganavam ao Leesil. Welstiel não era de confiar.

—O que faço? —perguntou-lhe Leesil por fim.

—lhe dê seu sangue a beber-lhe respondeu Welstiel com simplicidade.

De todas as instruções que Leesil podia esperar aquela não lhe tinha ocorrido e se encontrou tão surpreso que não encontrava palavras.

—Do que está falando? —disse o ferreiro com o rosto avermelhado pela ira.

—Ela é uma Dhampir, a filha de um vampiro, nasceu para caçar e matar aos não-mortos. Compartilha com eles algumas de suas fraquezas e algumas de suas virtudes. Apesar de tudo é mortal, e com uma ferida assim morreria sem o sangue de outro mortal. —Welstiel olhou ao Leesil—. E, a quem lhe importa mais que a ti?

—Está louco! —alfinetou-lhe o meio elfo zangado—. Igual de louco que o senhor da guerra de minha terra natal.

—Então não tem nada que perder por lhe dar seu sangue a beber, e se não lhe ajuda, pode te sentar a ver como morre. Acredito que há dito que faria algo.

Leesil olhou ao Magiere. As vendagens estavam empapadas e o travesseiro também estava úmido com seu sangue. Se só pudesse abrir os olhos e rir dele, amaldiçoá-lo, repreendê-lo por querer acreditar no Welstiel. Mas os olhos do Magiere permaneceram fechados e já não podia ouvir sua respiração.

—Odeio-te por me fazer isto-disse Leesil ao Welstiel em voz baixa, mas clara—. Ela te odiará ainda mais. —Tirou um estilete de sua manga.

—Leesil não o faça-lhe gritou Brenden—. Não o escute. Ele não pode ajudá-la.

—Retrocede! —Leesil avisou ao ferreiro.

—Tem que fazer uma coisa mais-disse Welstiel como se Brenden não estivesse ali—. Tira o amuleto de osso e metal e ponha a parte de osso em contato com sua pele. O osso deve lhe tocar a pele.

—por quê? —perguntou Leesil.

—Não há tempo. Faz o que te hei dito.

O meio elfo levantou a perna e a passou por cima do estômago do Magiere e ficou escarranchado sobre seu corpo. O colchão de palha se moveu e afundou um pouco ao mover-se ele, mas tomou cuidado de não pôr peso em cima a ela. Tirou-lhe o amuleto de dentro da camisa e lhe deu a volta de maneira que a parte de osso ficou sobre o oco da garganta. Leesil se precaveu de que a pedra de topázio ainda brilhava. Depois se inclinou sobre sua cara.

Em um só movimento se fez um corte no pulso, deixo cair o estilete e com sua mão boa lhe aproximou a cabeça. Apesar de estar manchado com fumaça e terra, seu cabelo era estranhamente suave.

Lhe derramou sangue pelo lado da cara quando com a mão do pulso aberto lhe abriu a boca. Leesil se esqueceu da presença de Welstiel e de Brenden e pressionou seu pulso cortado entre os dentes do Magiere.

—lhe tente sussurrou—. Sozinho tenta-o.

Ao princípio, o sangue só caía em sua boca flácida, parte lhe derramava por um lado ou pela mandíbula e lhe jorrava pelo pescoço. Chegava-lhe à vendagem de linho e se mesclava com seu próprio sangue.

Magiere se moveu, e depois, sem avisar, uma de suas mãos lhe agarrou o braço e forçou o pulso mais dentro de sua boca. Leesil não tinha previsto que lhe pudesse doer e o repentino raio de grande força o agarrou despreparado.

Uma sensação muito quente, como se o queimassem de dentro a fora, fez que instintivamente queria lhe retirar o braço, mas o manteve com força e deixou que se seguisse alimentando dele. Era perturbador, mas de uma vez era fascinante, sua boca suave e úmida ao redor de seus dentes afiados que se afundavam em sua carne. O corpo do Magiere se estremeceu e se esticou debaixo dele. Leesil sentiu medo, ira, dor e pena ao mesmo tempo, entretanto, não podia estar seguro de que todos aqueles sentimentos fossem deles. Ela estava tão perto, justo debaixo dele, tão perto que algo que houvesse sentido podia ter subido dela até ele.

A respiração do Magiere se fez mais forte e mais profunda, e, de repente, Leesil se sentiu cansado e entrou em calor.

A dor começou a desaparecer, e o único que sentia era o perto que estava ela, a sensação de sua boca em seu braço e sua mão no cabelo dela, seu quente fôlego na cara. Leesil baixou a cabeça até que suas sobrancelhas se tocaram.

Os escuros olhos do Magiere se abriram de par em par, tinha as íris negras, sem cor algum, e não parecia reconhecer a Leesil. A outra mão do Magiere o agarrou pelo ombro e o baixou até que o corpo do Leesil esteve contra o seu. Leesil queria que ela seguisse bebendo até que estivesse seguro de que ia viver.

Que seguisse bebendo.

Sua cara se aumentou frente a ele, imprecisa, obscurecida pelas sombras, e desapareceu.

Depois era ela a que o sustentava a ele, colhia-o com as duas mãos pelos ombros. Seu pulso aberto caiu flácida sobre o peito dela. Dentro de sua boca Leesil pôde ver as presas manchadas de sangue, mas seus olhos, ainda negros as íris, estavam muito abertos e mostravam medo e confusão. O amuleto caiu do oco da garganta e ficou suspenso da cadeia sobre o travesseiro.

—Não... Segue bebendo-sussurrou Leesil. Estava tão cansado que lhe custava falar—. Necessita meu sangue.

De algum longínquo lugar Leesil ouviu um grito, alguém lhe estava gritando, mas não lhe importava.

—Para! É suficiente.

Leesil sentiu que o separavam do Magiere e viu como se afastava sua cara dele. Havia ira em seus olhos, atirou-lhe da camisa para tentar aproximá-la de novo. Leesil levantou uma mão para tentar tocá-la.

Então já não a via.

Brenden estava já frente a ele e o sacudiu.

—Isso é suficiente! Ouve-me?

Inclusive no estado do Leesil, pôde ver como a avermelhada cara do Brenden empalidecia. O medo que expressava seu rosto foi substituído por asco, logo terror e depois pena. Por que ia sentir o?

Leesil se deu conta muito devagar de que estava apoiado contra uma parede aos pés da cama e de que Brenden o estava segurando. Uma de suas mãos lhe empurrava fracamente o peito ao enorme homem para tentar afastá-lo. O outro braço, com o pulso manchado com seu próprio sangue e a saliva do Magiere, estirava-o para a cama. Magiere se havia agachou-se sobre a cama e lhe grunhiu ao ferreiro, mas tinha o olhar fixo em Leesil. Quando ele a olhou, sentiu uma quebra de onda de angústia por havê-la deixado ali sozinha. Tudo a seu redor estava impreciso e era débil, menos ela.

Magiere o olhou com fome e fechou a boca muito devagar. As íris negras se encolheram e Leesil se deu conta de sua cor pela primeira vez que ele pudesse recordar. Eram de um tom marrom profundo, tão rico como a terra de onde ele nasceu. Trocou o olhar a seu braço estirado e ao pulso que sangrava.

—Leesil? —Magiere deu um passo atrás, afastou-se dele e se meteu no canto contra a parede. Ali se aconchegou, tremia e não podia apartar a vista do pulso do Leesil, até que ele baixou o braço.

—Bem! —disse outra voz—. Bom menino.

Leesil girou a cabeça para o som daquela voz e viu o Welstiel, que ainda estava de pé na porta da casita. O homem tirou um pequeno frasco do bolso de sua capa e o atirou a Brenden. O ferreiro soltou uma de suas enormes mãos dos ombros do Leesil e agarrou o frasco.

—lhe ponha este bálsamo na cara e no pulso, e nas feridas do majay-hi — disse Welstiel ao Brenden—. Ambos se curarão mais rápido. Faz que comam muita carne, muito queijo e tanta fruta como pode nos próximos dias e te assegure de que o meio elfo não beba nem vinho nem cerveja. Isso sôo lhe liquidificaria o sangue e pode que a Dhampir o necessite.

De repente, Leesil se sentiu cansado e doente. O que era o que acabava de fazer? Ainda tinha a sensação da boca do Magiere no braço. Tentou falar.

—O que é majay-hi? Conseguiu sussurrar.

Welstiel olhou ao Magiere um comprido momento e depois olhou a Leesil.

—O cão. É o nome de seu cão em élfico.

Leesil se deu conta de que estava sentado no chão, Brenden o tinha baixado. Voltou a girar a cabeça para a cama.

Magiere estava sentada e confusa. Levou as mãos à garganta, e quando notou as vendagens, começou a arrancar-lhe Moveu os dedos muito devagar sobre a pele que ficou visível. Apesar de que tinha sangue seca ao redor do pescoço, Leesil não via nem rastro da ferida a não ser uma fina linha em sua pele.

Magiere olhou ao Leesil, e depois baixou o olhar a seu pulso, em que Brenden já lhe estava pondo o bálsamo do frasco. Levou os dedos a um lado da boca e notou uma mancha úmida. De novo, sua expressão passou a ser de medo.

—O que há feito? —perguntou-lhe Magiere—. Leesil, o que há feito?

Leesil se girou para a Brenden.

—Comida. Vê e nos consiga um pouco de comida. Eu me ocuparei de Chap.

Brenden soltou ao Leesil e saiu feito uma fúria pela porta como se não pudesse suportar mais a situação. Welstiel já se partiu. Ninguém se tinha dado conta de que se foi.

Leesil utilizou as mãos para levantar-se, cambaleou-se, mas não caiu. À exceção do Chap, Magiere e ele estavam sozinhos.

—O que há feito? —repetiu ela.

—Estava-te morrendo. Fiz o que ele me disse que fizesse.

Magiere assimilou melhor seu rosto e seu pulso.

—Está ferido.

—Não é nada. Me posso enfaixar isso eu mesmo.

Parecia que lhe estavam voltando as lembranças, Magiere se voltou a tocar o pescoço.

—Estava lutando. Cortou-me e então... O que aconteceu?

A história em sua versão íntegra era mais do que Leesil podia dirigir. Era muito para ele. O mero feito de estar de pé era um esforço para ele.

—É uma história tão longa — lhe sussurrou—. Muito longa para esta noite.

Magiere lhe deu as costas. Parecia débil e pálida, mas pelo resto parecia estar bem. Muito devagar, Magiere se desceu da cama, entretanto, não se aproximou dele. Quando se lembraria de que lhe deu seu sangue a beber? Ele queria que o recordasse tudo.

Magiere começou a passear-se pela habitação. Olhava ao pulso de Leesil, sua expressão trocou A... Vergonha. Era isso o que sentia?

—Não posso... Não posso estar aqui—disse Magiere—. Se você estiver bem... E Chap?

Leesil se sentia muito vazio para discutir.

—Eu cuidarei dele.

Não necessitava que a convencessem, Magiere agarrou sua cimitarra do chão, onde Brenden a tinha deixado, mas não tocou nem agarrou nenhuma outra arma das que havia ao redor, e saiu da casa de Brenden como um prisioneiro que foge de sua cela.

Leesil as arrumou para caminhar e agarrar o frasco de bálsamo. Ajoelhou-se junto a seu cão e lhe pôs o grosso ungüento nas feridas. Entretanto, Chap seguia profundamente dormido.

Pela primeira vez em muitos anos, Leesil se sentiu sozinho.

 

Alguns meses atrás, enquanto dava um passeio pelo bosque, Rashed tinha encontrado um pequeno navio encalhado em uma estreita entrada de água. Arbustos e árvores cobriam agora parte do casco, e não encontrou signos de que ninguém tivesse entrado no navio desde fazia anos.

—Aqui deveríamos estar seguros —disse Rashed.

Rashed fez o necessário para pôr cômodos a Teesha e a Ratboy dentro, e depois saiu a procurar lugares pelos que um raio de luz do dia pudesse penetrar quando saísse o sol e queimá-los. Aquelas tarefas eram obrigação dele, eram próprias do papel que desempenhava naquela família. Entretanto, as visões de túneis que se vinham abaixo e do fogo faziam que uma ira silenciosa o enchesse por completo. Nem sequer havia uma manta para que Teesha descansasse sobre ela. Aquilo lhe preocupava. Ele deveria ter uma manta para ela.

Todos seus pergaminhos, seus livros, seus vestidos e bordados tinham desaparecido. Rashed sabia que Teesha nunca se queixaria. Ela nunca diria nenhuma palavra, mas ele se sentia quase afligido pelo sentimento de perda.

—Vêem e se deite — lhe disse Teesha do alçapão traseira. —Disse-te que ficasse dentro-lhe respondeu, mas rapidamente foi ao alçapão e a seguiu à coberta de abaixo.

Ratboy já estava dormido no chão. Não havia beliches. Teesha se deitou na barriga de madeira do navio e alargou a mão para o Rashed para convidá-lo a que se unisse a ela. Rashed se deitou a seu lado, mas não a tocou. Raras vezes a tocava, a não ser que fora necessário. Não era que a considerasse muito preciosa ou muito frágil. Entretanto, inclusive em vida, sempre tinha acreditado que um guerreiro não devia ser carinhoso nem mostrar seus sentimentos. Parecia-lhe uma debilidade. Como se uma vez que se abrisse essa comporta fora a ser impossível deter a inundação, e então ele perderia toda sua força. Rashed necessitava toda sua força.

Embora não lhe importava quando era ela quem o tocava a ele. Para nada.

Seus cachos cor chocolate lhe cruzaram a pequena e delicada cara quando se deu a volta para ficar de barriga para cima.

—Dorme — disse Rashed a Teesha.

Suas velas com forma de rosa também tinham desaparecido.

A memória do Rashed voltou para a primeira vez que Teesha viu Miiska e a expressão de deleite que se refletiu em seu rosto. Levavam semanas viajando em busca de um lugar que ela pudesse chamar lar. Rashed nunca lhe disse quão difícil era à viagem para ele. O sentimento de culpa pela morte de Corische o atormentava. O sentimento de culpa por ter abandonado a Parko o atormentava. Rashed odiava estar tanto tempo ao ar livre, sempre movendo-se por estranhos caminhos. Mas também recordava o que Teesha fazia com o castelo, o lugar tão cômodo e acolhedor que tinha conseguido fazer daquela vazia e inóspita morada de pedra. Ele queria isso outra vez. Lhe recordava a vida, e formar parte da vida.

Pode que estivesse cativo entre os dois mundos, mas ela também o estava, e em algum nível, também o estava Ratboy, ou se não o jovem garoto teria seguido a Parko.

Uma vez que chegaram à costa, ele pensou que a viagem terminaria logo, mas nenhum dos povoados pelos que passavam lhe pareciam adequados a ela. Ou eram muito grandes ou muito pequenos, ou muito ruidosos ou muito estranhos, comparados com o que ela tinha conhecido em sua vida. Quando uma noite chegaram a Miiska, Teesha saiu do transporte e correu um pouco até a borda, depois se girou para ele e sorriu.

—Este é o lugar—lhe disse—. Este é nosso lar.

Um enorme alívio o encheu, e a seguinte noite já começou a trabalhar. O dinheiro não era nenhum problema. A fortuna do Corische estava no carro. Construir um lar a Teesha, criar um lugar no mundo para sua pequena família lhe ajudava a aliviar a culpa. convenceu-se a si mesmo de que tinha feito o correto, de que estava fazendo o correto. Pôs umas leis e esperou que Ratboy seguisse suas ordens. Ali, o senhor do castelo e seu mandato não os protegiam.

—Não tinham nenhum amparo legal além da que tinham os cidadãos correntes, e se queriam ficar naquele lar, o segredo era essencial.

—Nada de corpos — disse Rashed rotundamente.

A maioria do tempo Ratboy obedecia, mas ao igual à Parko, de vez em quando sentia a chamada do caminho selvagem e tinha cometido alguns enganos. Em lugar de jogar ao Ratboy, Rashed fazia um trato, um trato muito caro, com o agente do povoado. Algo de mau gosto, mas necessário.

Teesha havia tornado a fazer um lar bonito e cômodo. E agora tudo tinha desaparecido.

Rashed estava deitado na coberta de um navio abandonado sem nem sequer uma manta para tampar a Teesha.

—Não poderá descansar nunca se não deixar de pensar — lhe sussurrou entre a escuridão.

—Todo nosso dinheiro estava no armazém — lhe respondeu—. Ainda não sei como de graves som os danos, mas pode que estejamos sem dinheiro.

—Isso não importa. Você sempre encontra a maneira de arrumá-lo tudo. Agora descansa.

Teesha alargou o braço e lhe pôs sua pequena mão no peito a Rashed.

Rashed fechou os olhos e permitiu que a mão dela ficasse ali.

 

Quando despontou o amanhecer, Leesil agarrou a Chap e o levou a seu lar. Apesar de que o cão para então já estava meio acordado, perecia estar tão doente e débil que Leesil queria levá-lo a seu lugar favorito do Leão Marinho, junto à enorme chaminé. A casa do Brenden lhe desejava muito fria e pouco familiar.

Em seu curto caminho a casa não viu quase ninguém e por um momento se perguntou onde estariam a maioria dos comerciantes. A resposta veio quando viu que a fumaça ainda se elevava sobre a cidade de perto dos moles. Grande parte do povoado devia ter passado a noite em pé, tratando de controlar o fogo. Agarrou a consciência um caminho pelo povo que não passava perto do destruído armazém.

Quando entrou no salão principal do botequim, quase suspirou aliviado ao ver que não havia ninguém. Não podia enfrentar-se com o Caleb ou Rose naquele momento e desejou com todas suas forças que dormissem profundamente toda a manhã. O fogo da chaminé estava baixo, mas seguia ardendo, e tudo o que havia na pouco iluminada habitação fazia que Leesil tivesse a certeza de que este mundo ainda tinha sentido, da barra de carvalho às cadeiras desgastadas, passando por sua mesa de farol.

Leesil estava exausto por ter transportado a Chap meio caminho através do povoado e então tremia sob o peso do cão. Ao meio elfo lhe faltava força por causa da perda de sangue e dos acontecimentos da noite anterior. Inclusive a comida que Brenden lhe tinha levado não parecia lhe haver devolvido grande parte de sua força. O ferreiro se partiu muito pouco depois.

Quase ofegante pelo esforço, tropeçou-se e deixou ao Chap sobre o pequeno tapete junto à chaminé. A maioria das feridas do cão eram pomposos, mas superficiais.

Leesil lhe acariciou as orelhas de veludo.

—vou esquentar um pouco de água e venho em seguida.

Chap só gemeu e lhe tentou chupar uma mão.

Foi então quando começou a comoção.

Ao princípio só ouviu um fraco rugido que vinha do exterior. Leesil se levantou para aproximar-se da janela e olhar, mas o estranho som logo se converteu em vozes que gritavam muito perto do botequim. Trocou de direção e foi abrir a porta. Encontrou-se com várias imagens de uma vez.

As costas larga e coberta de couro do Brenden estava a um braço de distância dele. O ferreiro estava contendo a uma grande multidão liderada pelo agente Ellinwood. O rosto do agente estava vermelho pela ira.

—Como te atreve a interferir em meu trabalho! —bramou.

—Não cumpriu com seu trabalho durante anos — lhe espetou Brenden.

—O que está passando? —perguntou Leesil assombrado.

Brenden se girou e o olhou.

—Sinto muito. Não pude mantê-los afastados. —Cruzou os braços e se voltou para o agente—. Mas os manterei afastados.

O ferreiro parecia estar rendido, lhe via gasto e ainda estava sujo de rastejar pelos túneis do armazém. Entre a multidão de umas vinte pessoas, Leesil viu três guardas do povo. Que novo horror era aquele? Algum perverso Deus pensava que necessitava outro julgamento mais.

—Brenden admitiu que você e sua sócia incendiaram o melhor armazém da Miiska — disse Ellinwood de uma vez que assinalava com força com o dedo ao Leesil—. Tem alguma idéia do que têm feito?

A compreensão golpeou ao Leesil como uma rocha.

—OH! O armazém. Tudo isto é por isso? Deveriam estar agradecidos. Seu povoado é muito mais seguro agora.

—Agradecidos? —balbuciou indignado e incrédulo um homem de meia idade que estava em primeira fila na multidão—. Onde vou trabalhar? Como vou dar de comer a meus filhos?

Apesar de que aqueles trabalhadores do cais lhe davam muita pena, ao Leesil lhe tinha esgotado sua habilidade para resistir qualquer emoção forte. Não tinha nenhum interesse em continuar aquela conversação que não ia levar a nenhuma parte.

—Se o dono do armazém quer apresentar uma queixa formal, deixem que fale com o agente — disse Leesil—. Tenho um cão doente de que cuidar.

—Você matou ao dono! —gritou Ellinwood—. Sua sócia e você estão detidos. O ferreiro também.

Brenden apertou mais seus braços cruzados, e Leesil se perguntou por que não teriam detido já ao Brenden. Então se deu conta de que os guardas se ficaram atrás, nem sequer tinham tentado aproximar-se de Brenden, e por sua expressão, Ellinwood parecia estar a bordo da histeria.

Brenden utilizou palavras claras e precisas para dizer bem alto:

—O dono dormia em um caixão, sobre a terra de seu lugar de nascimento, a tanta profundidade que tivemos que nos arrastar por um túnel para chegar até ele.

Medo e desconforto silenciaram os zangados murmúrios da multidão. Brenden deu um passo para diante e Ellinwood se tornou atrás.

—Se alguém dúvida de que esta cidade estava infestada pelos não-mortos — gritou Brenden—, pode ir desenterrar a minha irmã e comprovar o que lhe fizeram. Os ladrões e os assassinos não deixam marcas de dentes. Não bebem sangue.

Para então já estava de pé em meio da multidão.

—Este covarde ao que chama agente sabia o destas criaturas fazia anos e não fez nada para lhes proteger! Pode que tenha desaparecido o armazém, mas ao menos seus filhos estão a salvo. Deveriam estar lhe dando as graças a este homem que tenho detrás de mim. Deveriam estar lhe dando as graças a essa mulher. —Assinalou detrás da multidão.

Quando Leesil olhou além dos trabalhadores do povo, viu o Magiere que estava sozinha na rua. Nunca a tinha visto tão parecida com um guerreiro como então. Alta e ágil com sua couraça de couro e a cimitarra pendurando da cintura, Magiere olhava à massa de gente com olhos angustiados.

Sujeira e fumaça tinham marcado suas mãos e seu rosto. Lhe via uma fina linha vermelha no pescoço.

Ninguém falou. Então um dos guardas, com semblante frio no rosto, afastou-se da multidão e caminhou para ela.

Leesil olhou a Magiere com atenção. Não havia maneira de que ele pudesse atravessar todo aquele tumulto para chegar até ela a tempo se aquele guarda decidia descarregar toda sua ira sobre ela, e ela já tinha passado por muito.

O jovem guarda se aproximou dela. Todos os que estavam na rua ficaram em silêncio, espectadores ante o que pudesse ocorrer. O guarda ficou ali de pé e a olhou à cara.

—Meu irmão desapareceu faz dois anos. Eu não vou prender a ninguém.

Não disse nada mais, deu-se a volta e se afastou. Os outros dois guardas esperaram e depois o seguiram.

Ellinwood respirou três vezes, ofegava, e Leesil se deu conta de que o agente tinha perdido seu controle.

Se os guardas se negavam a seguir suas ordens e entrar em ação ele por si mesmo não servia para nada.

Mas, por que estava Ellinwood tão zangado? Não é que estivesse sozinho fazendo detrás para que parecesse que estava fazendo seu trabalho. E à besta carnuda não importava absolutamente nenhuma das famílias da classe trabalhadora de Miiska. Então, o que tinha produzido todo aquele veneno contra a destruição do armazém?

Magiere atravessou com decisão a multidão. Leesil se aparto com rapidez para deixar que entrasse. Magiere não disse nada.

Brenden seguia zangado com o agente. Leesil olhou aos trabalhadores do porto e negou com a cabeça.

—Vão a casa, por favor. Se quiserem cerveja ou jogar às cartas, abriremos ao entardecer. —Olhou ao Ellinwood—. Alegre se. Já não tem que esconder-se de nada.

A primeira pontada de autêntico prazer que tinha sentido em dias o invadiu por completo quando a metade da multidão olhou com autêntico e genuíno desagrado a seu agente. A gente começou a dispersar-se e partir. Entretanto, Ellinwood não tinha terminado.

—Reparará o dano — disse no tom mais sério que Leesil lhe tinha ouvido jamais empregar—. Embora tenha que lhes confiscar os bilhetes de banco e vender este botequim e a ferraria para isso.

A fúria do Brenden não fez mais que aumentar e Leesil temeu que seu amigo pudesse atacar ao frustrado e igualmente zangado Ellinwood.

—Não o mate — lhe disse o meio elfo cansado—. Ou lhe prenderão de verdade e não ficam moedas com que pagar a fiança para te tirar.

O humor era a única ferramenta que ficava, mas funcionou. Brenden se manteve firme, mas se relaxou um pouco.

—Faça o que tenha que fazer — disse Leesil ao agente—. Mas, de algum jeito duvido muito que o conselho da cidade lhe permita vender nada nosso por isso.

Ellinwood pareceu surpreender-se por aquelas palavras e Leesil decidiu que a conversação tinha terminado. Alargou a mão, agarrou a Brenden pelo braço e puxou ele para que entrasse no botequim, assim deixou ao Ellinwood e os poucos habitantes do povoado que ficavam ali na rua. Depois colocou a barra de madeira no esquadro de metal da porta.

—lhe deixe que bata na porta se quiser. —Entretanto não soou nada.

Dentro, o salão principal estava vazio. Magiere devia ter ido acima. Brenden e Leesil estavam sozinhos.

—Alguém tem que te limpar essas marcas de garras da cara — disse Brenden com total naturalidade—. Tal como estão lhe vão deixar cicatriz.

Leesil suspirou e fez caso omisso do comentário.

—Como começou essa aglomeração?

—fui ver o armazém, para me assegurar de que se afundou. Quando apareceram Ellinwood e seus homens, os trabalhadores do porto lhe pediram ação. Eu tentei ser sincero a respeito do que tinha acontecido, de por que fizeram o que fizeram, mas eles sozinho queriam alguém a quem poder lhe jogar a culpa. Ellinwood utilizou a Magiere e a ti como bodes expiatórios e incitaram a todos. Não pude detê-los antes que chegassem ao botequim.

Leesil jogou lenha ao fogo. Bom, pelo menos Brenden ainda estava de seu lado. Se tinha em conta como tinha reagido o ferreiro a noite anterior, a Leesil não teria sentido saudades que suas lealdades tivessem sofrido mudanças.

—Brenden, poderia te ocupar de Chap enquanto eu vou ver como se encontra Magiere?

Seu amigo ficou em silêncio indeciso.

—O que é ela?

—Não sei. De verdade que não, e ela tampouco sabe.

—parece-se tanto a uma mulher. Até tinha pensado em... —Suas palavras se foram apagando—. Mas agora não sei o que pensar.

Leesil sentiu como seu corpo ficava em tensão. O que estava dizendo Brenden? Tinha pensado cortejar a Magiere? Como se Magiere fora a deixar-se cortejar por qualquer. De repente Leesil sentiu uma enorme pressa por jogar dali a Brenden de maneira muito pouco educada. acalmou-se e se deu conta de quão tolo estava sendo. Brenden era seu amigo, e não tinha muitos desses.

Sua barba não estava do acostumado vermelho brilhante, mas sim a terra e o pó a tinham deixado de um marrom escuro e Leesil sabia quão cansado devia estar. Ao meio elfo não lhe agradava deixá-lo para que cuidasse do cão, mas Magiere tinha retornado e tinha que vê-la.

—Cuidará do Chap? —voltou-lhe a perguntar.

O ferreiro assentiu. Enquanto Brenden começava a ferver água, Leesil subiu à habitação do Magiere, ficou ao outro lado da porta meio rota e chamou uma vez.

—Sou eu. vou entrar.

Magiere estava sentada em sua cama em silêncio, tinha a cabeça agachada e o cabelo lhe pendurava para diante. A perspectiva de ter uma conversação sincera não atraía muito a Leesil, por isso ficou na soleira da porta um momento.

—O fato, feito está. Vêem a cozinha comigo. Temos que começar a nos assear e ver o que outras feridas temos. É impossível julgar as lesões sob toda esta terra.

—Eu não tenho nenhuma ferida — lhe respondeu com tranqüilidade—. Só tinha uma e você me curou isso.

Exausto ou não, não ia se liberar daquilo.

—Magiere, estão mortos. Queimei o armazém sobre suas cabeças e se derrubou. O que queira que te passe, só ocorre quando luta com não-mortos, e já não estão. terminou-se.

Magiere levantou a cabeça.

—Sua cara. Olhe o que lhe têm feito na cara.

—Não se preocupe. Seguirei estando bonito.

Magiere não sorriu.

—Tem que me contar o que aconteceu.

Leesil se endireitou e tentou irradiar uma insuportável decisão.

—Brenden está abaixo. Vêem a cozinha comigo para que possamos nos limpar. Depois faremos chá e prepararemos o café da manhã. Enquanto comemos lhe contarei isso tudo, trato feito?

Magiere começou a discutir e ficou de pé.

—esta bem.

—Agarra a bata-disse Leesil—. As calças que leva está tão rasgada e suja que até eu quero queimá-los, e você é a mais suscetível dos dois.

Apesar de que lhe afligia a insistência de Leesil em que se asseassem e tomassem o café da manhã antes de falar, Magiere depois admitiu para si mesmo que seu companheiro tinha razão ao seguir seus instintos. Uma vez que se lavou, recolheu-se o cabelo em uma trança. Logo se colocou a macia bata, fez chá e cortou um pouco de pão enquanto ele se tirava sua própria fuligem. Aquelas atividades singelas lhe permitiram serenar-se e sentir-se mais forte e capaz de enfrentar-se com o que lhe pudessem contar eles.

A noite anterior tinha estado coberta de sangue, e não toda era dela. Quando saiu a passear antes do amanhecer seu estômago estava duro como uma pedra.

Enquanto pensava em tudo o sangue que Leesil tinha perdido por ela a noite anterior, buscou-lhe um pouco de cordeiro frio e queijo. Depois lhe limpou com cuidado os fortes arranhões que tinha na cara e lhe aplicou o ungüento que Welstiel lhes tinha deixado. Enquanto estava ali sentada em um tamborete e lhe aplicava com suavidade a remédio na pele, Magiere voltou a sentir-se mais como ela mesma. Sentia-se melhor ao fazer algo, o que fora, por ele. Ficariam algumas cicatrize, mas tinha razão, suas estreitas facções seguiriam sendo atrativas.

Enquanto fazia tudo aquilo, Brenden entrou em ocupar-se de si mesmo e nenhum dos três mencionou a noite anterior até que todos estiveram comodamente sentados ao redor de uma mesa do salão principal. O chá tinha sabor bom e Magiere tinha sede. Magiere se terminou uma taça e se serve outra antes de perguntar:

—ides começar a falar?

Até então, Brenden e ela tinham evitado falar um ao outro, mas seus inquisitivas olhados de esguelha eram muito difíceis de esquivar.

—Vejo fragmentos da luta, mas a última lembrança clara que tenho é abrir a tampa do caixão de Rashed. —Seus dois companheiros se removeram em seus assentos para ouvir o nome do não morto—. Se chama assim — insistiu—. Deveu me dizer isso

Leesil sorveu seu chá. Magiere se deu conta de que a pele de sua cara estava menos irregular e menos inchada. Podia ser que o ungüento lhe diminuíra as cicatrizes.

—depois disso — disse Leesil com naturalidade—, Ratboy saiu de repente atravessando a tampa de seu caixão.

Continuou um bom momento enquanto lhe contava como se aconteceram os acontecimentos. Magiere sabia que a Leesil não lhe dava muito bem ordenar temporalmente as histórias daquela maneira, e valorou sua concentração e seu esforço por lhe dar detalhes. Mas quando chegou ao ponto em que Brenden a tirou nos braços, Magiere sentiu vergonha, e ficou envergonhada o resto da história até que chegaram a quando apareceu Welstiel. Quando Leesil vacilou, Brenden olhou para outro lado. Não mencionou expressamente o que ocorreu quando a alimentou.

—Não sabia o que outra coisa fazer — disse Leesil—. Você estava morrendo.

Leesil lhe tinha dado a beber seu próprio sangue, e aquilo, de algum jeito, salvou-lhe a vida. Magiere não sabia como responder a seu sacrifício. Viu chamas espontâneas de lembranças, os dedos do Leesil movendo-se com suavidade sobre sua cabeça, seu pulso em sua boca, sua força para segurar ambos os corpos juntos até que a força aconteceu com ela.

—Você respirou para mim e me reviveu depois de que se afundasse o túnel — disse ele—. Não vejo a diferença.

Entretanto, Magiere encontrou seu comentário muito simples. Todos os que estavam vivos precisavam respirar para viver. Não precisavam alimentar-se de sangre para sobreviver. O que era ela exatamente?

—Há algo mais — acrescentou Leesil—. Mas não sei o que significa. —Assinalou-lhe ao pescoço—. Welstiel fez que tirasse um de seus amuletos e que apoiasse o lado de osso sobre sua pele. Tem alguma idéia de por quê?

Ainda mais confusa, Magiere negou com a cabeça.

—Não, não sei. Ele parece saber muito mais do que nós sabemos. Mas também fala com enigmas e quanto podemos acreditar? Diz que utilizou a palavra «Dhampir». Já havia dito isso quando fui ao lugar... —olhou ao Brenden—. Onde morreu Eliza.

—Um Dhampir é a descendência de um vampiro e um mortal-por fim, Brenden falou—. Mas não são mais que uma lenda, um conto de populares. O povo de minha mãe era do norte, e sua mãe era uma sábia do povoado, uma curandeira de magia natural, fazia feitiços rurais e coisas assim. Ouvi algumas costure a respeito dos não-mortos e não podem criar nem conceber filhos. Tal descendência seria impossível.

—Então, como explica que me curasse o pescoço? —perguntou-lhe Magiere, sem querer de verdade ter uma resposta—. Minha arma? Os amuletos? As coisas que me passam quando luto contra Rashed?

—Bom, não podemos nos acreditar tudo o que nos conte Welstiel — interrompeu Leesil—. Chamou o Chap majay-hi, e eu sei que isso é ridículo.

—por quê? O que significa? —perguntou Brenden.

—Sei muito pouco da língua elfica, mas o estive pensando. Acredito que significa algo assim como cão mágico. Bom, certamente seja algo mais parecido a cão fada. Mas as fadas e espíritos da natureza a respeito dos quais tenho lido não eram criaturas agradáveis exatamente. Não, pode que Welstiel saiba mais do que nós sabemos e pode que nos seja útil em algumas ocasione, mas ou está louco, ou é tão supersticioso como os aldeãos da Stravina.

—Não pode negar que há algo especial em Chap — sussurrou Magiere—. Ele é diferente, como eu, cada vez que luta contra um desses... —Sua voz se foi apagando.

Leesil ficou pensativo.

—Estive-me perguntando a respeito disso. Minha mãe me disse uma vez algo a respeito do Chap, algo de que foi criado para proteger. Pode que os não-mortos fossem mais abundantes no passado, e que o povoado de minha mãe tratasse de criar uma raça de cão capaz de lutar com tais monstros.

Magiere levantou a vista, olhou-o e pestanejou surpreendida. Fazia muito tempo que Leesil não dizia nada a respeito de seu passado, nunca falava de sua família.

—Conheceu sua mãe?

Leesil se esticou.

—Sim.

Alguém bateu na porta.

—OH! Pelo amor de todos os bêbados! —exclamou Leesil—. Brenden, se Ellinwood ainda está tentando nos prender, dou-te permissão para que o mate.

Brenden se levantou com o cenho franzido e foi abrir a porta. Não era Ellinwood o que esperava fora. Ao outro lado da porta estava em pé uma adolescente a que Magiere não conhecia e um menino que lhe era vagamente familiar.

—Geoffry? —disse Leesil—. O que faz aqui?

Então Magiere se localizou ao jovenzinho. Era o filho de Karlin, o padeiro.

—Olá, Brenden — disse a garota de uma vez que lhe aproximava uma bolsa verde—. Trouxemos o pagamento para a caçadora.

A garota poderia ter uns quinze anos, tinha os olhos grandes, uma cara agradável, e lhe faltava um dente. Falava de uma maneira muito estranha que Magiere nunca tinha ouvido.

—Ouvi que você estava com eles — acrescentou—. Sempre pensei que você ser valente.

—Esta é Ária — disse Brenden a modo de apresentação—. Sua família veio do leste faz uns anos. Era amiga da Eliza.

Ária entrou no salão principal e olhou a seu redor. Geoffry a seguiu.

—Meu pai recolheu o pagamento — disse o menino—, e nos mandou vir aqui.

Ao princípio, Magiere não o entendeu. Depois estudou a bolsa que Ária lhe tinha dado e lhe deu um tombo o estômago. Pagavam-lhe por ter matado aos não-mortos da Miiska.

—Agarre-o, senhorita — lhe disse Geoffry—. É dinheiro de verdade, não só quinquilharias de comida. Sabemos que você não trabalha barato. O agente será um tolo, mas muitos dos habitantes do povo lhe estão muito agradecidos.

—Este é um lugar bonito — disse Ária de uma vez que tocava o balcão de carvalho—. Nunca estado aqui.

Magiere tentou levantar-se, mas não pôde. Deixou cair à bolsa sobre a mesa e a empurrou rapidamente para Ária.

—Agarrem estas moedas e devolvam a tudo o que tenha contribuído. Não fizemos nada disto por dinheiro.

Ária e Geoffry a olharam confusos, inclusive um pouco decepcionados. Possivelmente tinham solicitado a honra de lhe levar a caçadora sua tarifa. Magiere podia imaginar-se de onde vinha o dinheiro. Imagens de padeiros, peixeiros e jornaleiros do armazém agora sem trabalho, rebuscando até o último penique lhe cruzaram pela mente.

Sentiu-se mau e o café da manhã ameaçava saindo. Aquilo era como um pesadelo da que não se podia despertar. O passado não deixava de enganá-la para repetir uma e outra vez.

Brenden convidou aos jovens visitantes a que partissem com muita educação. Magiere pôde ouvir frases e partes de frases de palavras amáveis como: «Apreciamo-lo» ou «lhe Dê as graças a seu pai» e «A caçadora está cansada». Entretanto, uma vez que Ária e Geoffry tinham desaparecido rua abaixo, Brenden se voltou para ela perplexo.

—Só estavam tentando te dar os obrigado. E não é que este tipo de gratidão não te seja conhecida. Leesil e você destruístes não-mortos e cobrastes por isso muitas vezes com antecedência.

Magiere se deu a volta para lhe dar as costas. Não pôde evitá-lo, e olhou a seu companheiro para que lhe desse algum tipo de resposta, de qualquer classe. Leesil se terminou a taça de chá, foi a detrás do balcão e a encheu de vinho tinto.

—É obvio — disse Leesil—. Muitas vezes.

 

Sem saber o que fazer, Ellinwood abandonou O Leão Marinho e se apressou para seu lar em A Rosa de Veludo. Precisava pensar, e pensava melhor em casa.

Uma vez esteve comodamente instalado em seus luxuosos aposentos com a porta fechada, deixou aflorar o pânico. O que ia fazer? O primeiro que lhe ocorreu foi vender os formosos móveis que tinha a seu redor. Mas então se lembrou de que não eram deles. Tudo era propriedade de A Rosa de Veludo. Possuía pouco mais que as luxuosas e caras roupas que cobriam seu corpo, as que tinha no armário, uma espada que não tinha usado virtualmente nunca e alguns objetos pessoais como pentes de prata e garrafas de colônia de cristal.

Rashed se tinha ido, e já não teria mais benefícios do negócio do armazém.