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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FOGO NO CERRADO / Janice Diniz
FOGO NO CERRADO / Janice Diniz

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

        Ninguém ousaria interrompê-los.

       O fazendeiro tamborilava os dedos por sobre a pasta de capa fosca, parda, com a etiqueta digitada na fonte Arial, a usada oficialmente nos documentos da delegacia de polícia civil da cidade. Onório Dolejal era o que estava escrito.

       O delegado, sentado na cadeira em frente à escrivaninha de Thales Dolejal, avaliava os efeitos de sua aparição no meio da tarde, debaixo da chuvarada que lavava as calçadas do centro e fazia muita gente correr para a proteção das marquises. Dobrou a perna sobre o joelho e descansou as costas no encosto da cadeira acolchoada.

       Simulavam um jogo de pôquer em silêncio.

       Então era a vez de Thales analisar as suas cartas enquanto fitava a pasta com o nome do avô. E era como se aquele nome significasse chances extras ao seu oponente, uma carta escondida na manga, por exemplo. Abrindo a pasta revolvia a terra por cima do corpo do primeiro colonizador de Matarana, retirava a corda ao redor do seu pescoço, batia no rosto carcomido e lhe dava novamente vida.

       Ele não esperava por aquele tipo de conversa.

 

 

 

 

       — O que significa isso, Rodrigo?

       O outro quase sorriu. Esfregou dois dedos no cavanhaque ralo, sem pressa, sorvendo a densidade da atmosfera.

       — É a minha garantia de vida. — disse simplesmente.

       — Não entendi.

       — É mesmo? — perguntou com escárnio e, ajeitando-se na cadeira como quem procura uma posição para declarar algo solene, continuou: — Sabe, meu amigo, quando estava no hospital me recuperando daquele tiro, pensei sobre o lance do descarte das muletas para quem passa a ter pernas biônicas... Essa teoria veio da sua cabeça, não?

       — Foi a Karen quem lhe falou? Que devemos nos livrar de suportes quando estamos fortalecidos? — perguntou retoricamente. — Sim, Rodrigo, é o que penso. Por isso não entendo por que ela ainda está com você.

       — Não, Thales, o que não entende é a razão de ela não estar com você. — afirmou, convicto. — Mas não vim aqui para falarmos sobre a minha mulher. A questão relevante nesse momento é que eu sei o que você fez vinte anos trás. — falou com calma, ainda que um pingo de ironia tingisse a significativa paráfrase. 

       O fazendeiro nem piscou, cônscio de que estava a respeito do assunto sobre a mesa e a maneira de agir do homem da lei.

       — O que você tem a ver com o suicídio do meu avô?

       — Nada, absolutamente nada. Naquela época eu nem estava em Matarana e tampouco era delegado de polícia. Faz um tempão, não é mesmo? A insensatez da juventude. Eu estudava Direito como uma forma de defender os fracos e oprimidos. Filho de um bombeiro executado com um tiro na cabeça durante um assalto e uma dona de casa que se casou mais três vezes para superar a perda do primeiro marido, eu acreditava nas regras, em seguir as regras, em manter em dia os princípios morais em quaisquer circunstâncias. Aí, o tempo passou e o lixo ao meu redor começou a feder cada vez mais. — ele tornou a se recostar na cadeira sem deixar de fixar seus olhos nos olhos de Thales. — Vim para Matarana obrigado pelo meu chefe em Cuiabá, porque descobri a sujeirada que ele fazia por lá. E quando cheguei aqui e conheci as duas forças econômicas da região, sabia que um tentaria me puxar pelos braços e o outro pelas pernas, ou seja, você e o coronel Marau tentariam me arrebentar ao meio. Admito que dancei conforme a música por anos, fazendo vista grossa para os boatos de trabalho escravo nas fazendas do coronel e também sobre o convite informal para os ex-pretendentes da Karen deixarem Matarana...

       — Aonde quer chegar? — interrompeu-o bruscamente.

       — Aqui, Thales, aqui mesmo, com você nessa sala. É aqui que termina qualquer ligação entre nós, qualquer vínculo que seja entre a polícia civil e qualquer outro latifundiário.

       Thales sorriu um sorriso que se formou lentamente nos lábios. Depois, ergueu-se da cadeira e fez um sinal em direção à parte oposta da sala, o balcão de mármore com o bar.

       — Que tal um uísque?

       Rodrigo o acompanhou com o olhar e depois respondeu para aquele que um dia fora o seu único amigo na cidade.

       — Não bebo em serviço.

       — Que seja, eu bebo.

       Servindo-se de uma dose generosa da bebida, de costas para a autoridade, Thales perguntou com displicência:

       — Quer seguir os passos do meu avô, delegado? — antes que o outro pudesse argumentar, ele se voltou com o copo cheio na mão e explicou: — Ressuscitou o arquivo de um suicida e está abrindo mão da minha proteção armada. Bem, me parece que a vida perdeu o sentido para você. Os últimos dois atentados contra a sua vida não lhe bastam como provas de que, sem mim, é um homem morto?

       Rodrigo levantou da cadeira sem a mínima intenção de abandonar o recinto.

       — Nunca pedi proteção particular. Não preciso e não quero, entendeu?

       — E quanto a Karen e a família dela? Devo ignorá-los? Veja bem, da última vez eles tiveram que se abrigar na minha casa, porque a polícia não deu conta do recado.

       O delegado ajeitou o chapéu na cabeça. Um gesto que demonstrava a incipiente irritação.

       — A polícia prendeu um dos mentores dos atentados. — disse ele.

       — Que, em seguida, foi assassinado dentro da delegacia. — completou Thales com sarcasmo. — Entendo as suas boas intenções, Rodrigo, sei sobre o seu caráter e não o julgo por já ter se tornado obsoleto. Você precisa de mim, dos meus homens, do meu poder e tudo o que significo no centro-oeste.

       — Vou dizer o que eu preciso, preciso que você tenha em mente que tanto as tuas imundícies quanto as do coronel serão investigadas com bastante dedicação, e se eu tiver de mandar os dois para a cadeia, mando os dois e ponto final, servirão de exemplo para os demais. Ninguém tem as costas quentes em Matarana, ouviu bem? Muito menos um camarada que é capaz de matar o pai do seu pai, sangue do seu sangue, simular um suicídio, subornar um delegado e acreditar todos esses anos que Deus jamais acharia uma testemunha. Pois bem, senhor Thales Dolejal, revi todos os relatórios do caso do teu avô e investiguei além. Encontrei o delegado subornado... Ele está tentando manter o segundo casamento frequentando a igreja e fazendo as pazes com o seu passado. Na verdade, — Rodrigo deu de ombros com indiferença, — acredito que ele tenha descoberto um tumor benigno e, mesmo assim, se apavorado. Isso realmente não importa. Um homem sabe os seus limites morais.

       — Claro que sabe, a extensão dos limites morais da maioria é igual a do forro da carteira de dinheiro... bem rasa. E o seu colega de profissão não passa de um oportunista que foi exonerado seis meses após a morte do meu avô. O sujeito é um pilantra.

       — O pilantra tomou o depoimento de uma testemunha que viu a briga entre você e o seu avô e tudo o que aconteceu depois.

       Thales terminou sua bebida e suspirou demonstrando fastio.

       — Vamos ver o que você tem... O relato de um ex-delegado podre de sujo e o depoimento de uma suposta testemunha de vinte anos atrás. Certo, o que fará com esse ouro?

       — Já fiz, Thales. Essa pasta aí traz toda a verdadeira investigação juntamente com a perícia feita no corpo da vítima. O laudo do IML aponta uma série de pequenas fraturas nos maxilares e nariz de Onório e isso comprova a tese de que ele foi golpeado até cair inconsciente para, em seguida, ter uma corda passada pelo pescoço e ser pendurado numa árvore. Você o enforcou. O delegado da época, pensando como eu penso agora, dirigiu duas investigações paralelas; a real, na qual juntou todas as provas, testemunhos e ocorrências policiais anteriores, quando vocês dois se pegavam no pau, ou melhor, quando o seu avô espancava você publicamente, e a investigação fictícia, baseada apenas no seu depoimento, levando em consideração o fato de que ninguém em Matarana suportava Onório Dolejal, o mal encarnado, não era assim que o chamavam?

       Os punhos do latifundiário se fecharam dentro dos bolsos laterais da calça social.

       — Ele era apenas um velho amargurado que bebia demais. — falou com esforço.

       Queria dizer a verdade. Que Onório Dolejal era um espancador, um sádico, um ladrão de terras e de vidas alheias.

       Queria confessar o crime.

       Queria, na confissão do crime, sentir o mesmo prazer ao ter em seus braços o mal desencarnado.

       — Pelo o que entendi, se acontecer algo a você, alguém entregará esse tal dossiê para as autoridades. — considerou o neto de Onório Dolejal tranquilamente.

       — Sim, é um modo do seu suporte não ser descartado com tanta facilidade.

       Thales sorriu e se aproximou de Rodrigo.

       — E se, por acaso, o coronel Marau matá-lo? Entregarão o dossiê? Veja bem, não há garantia alguma pela sua vida, meu amigo. Você está no meio de uma guerra.

       — Tem uma pessoa que saberá de onde partiu a bala. — assegurou insinuante.

       Por um segundo ou dois, Thales considerou o que o delegado lhe dissera como um blefe, um tiro no escuro. Depois, retesou os maxilares com força.

       — Está tentando jogar o meu filho contra mim?

       — O Franco é justo, nada mais.

       — Se eu quisesse acabar com você, poderia fazer isso agora e o enterrava debaixo da minha cama, enquanto em cima estaria trepando com a Karen. — começou, a voz baixa e serena: — Você é atrevido, um cara de pau que entra no meu escritório, joga essa merda toda na minha cara e ainda me ameaça. Com que direito? Se tem algo oficial para me comunicar, delegado, fala com os meus advogados. Se quer me acusar de homicídio, faça-o. Arranje gente para depor contra mim, traga a tal testemunha, chame o ex-delegado safado, arme todo o circo. Tente me deter, me ponha atrás das grades, se puder. Porque não haverá dossiê no mundo que o salvará do que estou preparando especialmente para você, Rodrigo.

       O delegado avaliou as possibilidades.

       — Ok, que tal o 147?

       Thales estreitou os olhos, curioso com a manobra alheia.

       — Consulta os teus advogados da capital, porque é por aí que começarei a azedar os teus dias.

       Rodrigo Malverde deu uma leve batidinha na aba do seu chapéu, despedindo-se do amigo de longa data.

       Ao telefone, Thales foi informado:

       — Crime de ameaça, senhor Dolejal. A pena é detenção de 1 a 6 meses ou multa.

       — Não sei como isso azedaria os meus dias. — pensou alto, desligando o telefone na cara do advogado.

         

       Franco estava tenso, não conseguia relaxar nem fingir que aceitava numa boa aquela situação.

       A esposa pegou-o na mão com carinho, demonstrando que compreendia bem o que ele sentia, mas não podiam desistir. O certo era estar ali e fazer o que deveriam fazer. Se não fosse pelo sogro jamais conseguiria a permissão do marido para a realização da ecografia. Thales o persuadira a respeito da necessidade desse tipo de exame, pusera-o em frente ao computador e pesquisara a respeito do assunto para o filho.

       Apesar dos livros lidos, Franco ainda se mantinha preso a antigas crenças nascidas da convivência com os pistoleiros toscos da fazenda. Fora apenas Bronson comentar que a sonda do ultrassom liberava radiação — motivo pelo qual levou uma bronca do patrão, que o chefe da segurança da fazenda Arco Verde deu sinal vermelho para a realização do exame. Ele temia que machucassem ou deformassem a sua filha.

       Assim que a médica espalhou o gel na barriga de Nova e, em seguida, abaixou-se para pegar a caixa de lenços descartáveis no balcão que sustentava o equipamento de ecografia, Franco limpou rapidamente o excesso do líquido gelatinoso com as fraldas da camisa.

       — É demais. — murmurou numa espécie de resmungo.

       — Franco! — Nova recriminou-o baixinho.

       Ele sorriu sem graça ao receber a recriminação da mulher e o olhar intrigado da obstetra. A doutora Vitória percebeu que o jovem caubói à sua frente estava deslocado no consultório.

       — Algum problema, senhor Dolejal?

       Nova quase riu ao ouvir a médica se referir a Franco como “senhor Dolejal”. Para todos os efeitos, essa era a designação do pai do seu marido, e não do rapaz de menos de 23 anos.

       Entretanto, ele estava incomodado, sim. 

       — Tem como fazer isso bem rápido? — revelou a ansiedade.

       — O exame? Não há nenhum tipo de problema em se fazer uma ecografia, não se preocupe. Para falar a verdade, esse gel até faz bem a pele, é umectante. Além disso, não é um exame invasivo, vou apenas deslizar esse aparelhinho por sobre a barriga de sua esposa. Não fará mal algum a ela ou ao bebê. O que o senhor acha, posso continuar? — ela tinha a paciência de professora do jardim de infância.

       Nova achou por bem interferir.

       — Amor lindo, a gente já conversou sobre isso. — disse com brandura.

       — Eu sei, eu sei...

       De pé, ao seu lado, ele mordia o lábio inferior.

       — Tudo bem? — perguntou a doutora com um sorriso simpático.

       Franco suspirou profundamente e assentiu, cravando os olhos nos movimentos da mulher de quase cinquenta anos, cabelos longos e presos num rabo de cavalo baixo.

       Olhou ao redor, avaliando pela quarta ou quinta vez o consultório sofisticado que fazia parte de uma famosa clínica de Santa Fé. Era nesse lugar que as gestantes dos empresários e latifundiários da região se consultavam; algumas, quando não dava tempo para chegar a Cuiabá, pariam por lá mesmo, no centro cirúrgico ou na sala de parto da clínica.

       Nova sorriu confiante. Piscou o olho para ele e se voltou para o monitor, as primeiras imagens revelando a silhueta do bebê. Não era uma imagem tão nítida quanto a que mostrou, segundos depois, o contorno do corpinho do feto com 12 semanas de gestação. O formato do crânio desproporcional ao tamanho do tronco miúdo e das perninhas e bracinhos. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas, o peito estufou numa alegria e um sentimento maior que qualquer outro que sentira na vida. Estava cheia, transbordando da mais pura plenitude. Percebeu quando Franco pegou a sua mão, os dedos se entrelaçaram.

       — Aqui estou eu, mamãe e papai. — falou a médica, carinhosamente, enquanto deslizava a sonda pelo ventre de Nova, voltada para o monitor à procura do melhor ângulo para analisar o desenvolvimento do feto e também mostrá-lo aos seus pais.

       — Meu Deus, é um bebê de verdade! — exclamou Nova entre incrédula e exultante. Ela tinha uma criança dentro de si, outro ser humano, um absurdo coerente e maravilhoso. — Qual é o tamanho dele?

       — Uns cinco centímetros.

       — Só? — ela perguntou, rindo-se e, voltando-se para Franco completou com ternura: — Viu como é pequeninho?

       Franco estava com os olhos vidrados na tela do monitor, admirando o bebê que se mexia, revelado nas imagens que ora apareciam nítidas e claras, ora mergulhavam na confusa escuridão.

       — Aquilo lá, aquilo meio pontudo é o nariz? — indagou ele, interessado, as sobrancelhas juntas, o olhar firme.

       A médica digitou algumas teclas e ampliou a imagem.

       — Sim, sim, é o narizinho... Estão vendo que ele está chupando o dedo?

       — Ela está. — corrigiu Franco com secura — E como está tudo por lá? Os órgãos? Estão no lugar certo? A placenta é boa? Está fazendo tudo certinho... a... como... — ele parou de falar.

       Nova não conseguia desgrudar os olhos do filho, queria memorizar cada detalhe, cada movimento para mais tarde, quando acarinhasse a barriga, lembrar-se da imagem dele. Ainda assim achou estranho o silêncio repentino de Franco e se voltou para ele.

       — Tudo bem, amor lindo? — perguntou baixinho.

       Ele levou a mão ao próprio nariz, apertando-o. O corpo pendeu para frente e para trás, como se hesitasse entre ficar ou sumir porta afora. Baixou a cabeça e as mechas loiras camuflaram seu rosto.

       Nova sabia o que estava acontecendo e falou com carinho:

       — É uma droga essa alergia, né? Por que não dá uma corridinha até o banheiro para assoar o nariz?

       Franco ergueu a cabeça e relançou um rápido olhar para a médica, que permaneceu de costas apertando botões e enquadrando as imagens. Ela também conhecia a alergia que atingia alguns pais diante da visualização de um sonho.

       Ele não queria sair da sala e perder os preciosos momentos vendo a filha. E quando ouviu os batimentos cardíacos dela, num ritmo rápido e forte, os joelhos amoleceram. Apoiou-se na beirada da cama e encurvou ligeiramente o corpo para ter o melhor ângulo possível para ver o coraçãozinho que mais se parecia com uma mancha pulsante.

       — Dá para saber o sexo, doutora? — perguntou Nova, tentando ignorar a cabeça loira que girou em sua direção.

       — Olha, ainda é difícil afirmar com certeza, a margem para uma avaliação errada é muito grande.

       — Claro, né, é uma máquina! — disse Franco, contrafeito.

       — Meu marido tem certeza de que é uma menina.

       — É o instinto paterno, mãezinha. — comentou doutora Vitória com um sorriso gentil. — Está tudo muito bem. — ela se virou para Franco e disse com descontração: — Agora vamos ver para quando será a chegada de mais um Dolejal ao mundo. — emendando a seguir: — Minha secretária enviará uma cópia da gravação da ecografia para o seu pai, ok?

       — Ele pediu? — Nova perguntou, encantada com a atitude de Thales.

       — Claro que não, princesa. — Franco curvou o lábio para baixo e, a contragosto, acrescentou suspirando resignado: — Ele mandou que enviassem a gravação para a fazenda. Até parece que ele pede alguma coisa.

       — Me sinto tão mal por não tê-lo convidado para vir conosco ao exame...

       Ela percebeu que o seu tom de lamento não chegou aos ouvidos do rapaz que olhava fixamente, hipnotizado, para o bebê na tela. A expressão facial congelada num sorriso apaixonado e os olhos vertendo o brilho do amanhecer em Matarana antes da estiagem.

       — Está decidido, vou fecundá-la várias vezes, dona. — prometeu, incisivo.

       Nova riu com vontade. Havia poucos meses, ela o ordenara para que a fecundasse. O desejo de ter um filho era maior que o de ter um homem. Agora, o amor pelo filho e o amor pelo homem conviviam tranquilamente.

       Quando o casal se foi, a secretária do consultório entrou na sala e, parada junto à janela observando o caubói abrir a porta da picape para a esposa, comentou:

       — Então é esse o diabo loiro.

       Vitória sorriu enquanto ajeitava o DVD no invólucro de papel e etiquetava-o.

       — É, sim, o famoso pistoleiro de Matarana.

       — Desculpa a curiosidade, mas como ele é? Grosseirão? Sei que tem a fama de ser meio fora dos eixos.

       — Pois é, um colega meu me falou algo assim a respeito dele.

       — E?

       A obstetra sorriu com ar maternal.

       — O meu colega pediatra se enganou.

         

       Ele dirigia com uma mão no volante e a outra sobre o ventre arredondado da mulher.

       Nova admirava as fotos da ecografia com um sorriso plantado na cara.

       — Não quis falar nada, mas sabe que pensei que veríamos dois bebês? Minha barriga está grande demais para 12 semanas! — exclamou ela, sem conseguir desmanchar o sorriso.

       Franco virou a cabeça em sua direção, os óculos escuros e a aba do chapéu para baixo escondiam parte do rosto. Mas o sorriso amplo, acentuando as covinhas nas bochechas, não disfarçava o orgulho e a felicidade que sentia. E quando via Nova sorrindo, quando a via feliz, seu coração disparava de euforia.

       — Será que o outro bebê não se escondeu da tal da sonda? Ele podia muito bem estar atrás da Paola, bem camuflado, o espertinho. — comentou em tom brincalhão.

       Nova riu e pôs sua mão sobre a dele, ainda descansando em cima do lugar onde vivia o seu filho.

       — Duas ervilhas não ocupam o mesmo espaço.

       — Ainda tem coragem de chamar essa lindinha de ervilha, dona Nova? — indagou ele, lançando um olhar significativo para a barriga dela. — Ela está ouvindo tudo o que você diz, sabia, né?

       — Ouve, mas não entende. E o que eu quis dizer é o seguinte, moço lindo, a doutora liberou geral. Imagina só, se o nosso bebê tem cinco centímetros, qual é o tamanho da testa dele? Entendeu o que quero dizer, não é?

       Ele manteve o sorriso.

       — Desse jeito não vai ser difícil manter você sempre grávida.

       — Meu amor, agora é uma corrida contra o tempo. Ano que vem alcanço os 35, temos de fazer logo nossos bebês e num curto espaço entre eles... O óvulo envelhece e começa a ficar lento até ter de ser empurrado numa cadeira de rodas.

       — Deixa comigo, sou bom de mira, sempre acerto no alvo.

       — E eu não sei? — brincou, aproximando-se dele e o beijando na boca.

       — Mais um pouquinho. — ele pediu quando ela se afastou. E por isso tornou a beijá-lo.

       Até tentou voltar para junto da janela aberta e observar a paisagem da rodovia que os levava de volta a Matarana, mas Franco puxou-a para si, colando-a contra o seu tórax, o braço possessivamente sobre os ombros dela.

       — Hoje, pela manhã, quando fui para a Arco Verde, o patrão se convidou para jantar lá em casa, disse que tinha coisa pra tratar com a gente.

       — É mesmo? Nossa, o que farei pro jantar? Não cozinho tão bem quanto a Irene.

       Franco achou graça do tipo de preocupação dela.

       — Eu faço o jantar. Nada como um bom pão na frigideira. — debochou.

       — Até parece! — recriminou-o; em seguida, cogitou uma possibilidade mais à altura do convidado: — Vamos encomendar comida do Arizona.

       — Por mim, tudo bem. Mas não esquenta com isso, princesa, o problema não é a comida. O que me deixa com a pulga atrás da orelha é o convidado. Eu trabalho na Arco Verde, ele me vê todo dia por lá, então, por que tem de ir a nossa casa?

       Nova percebeu a sua incipiente exasperação. Era verdade que pai e filho estavam mais próximos, embora Franco não fosse mais o segurança de Thales Dolejal — mesmo que permanecesse no posto de braço direito. Outra verdade era que a eterna devoção, sempre acompanhada pela desconfiança, permanecia em Franco inabalável. De sua parte, Thales mostrava-se um excelente patrão, pagando ao seu chefe da segurança o salário condizente ao dos diretores do seu grupo de empresas.

       — Deve ser algo de cunho pessoal. — deduziu ela, sagazmente.

       — E o que não é pessoal, moça linda? Vindo de um camarada controlador como ele, boa coisa não é.

       — Baixa um pouco a guarda e dá uma chance ao seu pai. Ele está tentando se aproximar, do jeito dele, do jeito Dolejal de ser, como diz o Rodrigo, mas já é um avanço.

       — Não sei, não. É melhor eu ficar esperto, de olho nele.

       — Bem, quem sou eu para falar, você o conhece há bem mais tempo, só acho que os dois são orgulhosos demais, é evidente que morrem de amores um pelo outro...

       — Ei, ei, Nova, o que aconteceu com a sua memória? — perguntou, engatando dois dedos debaixo do queixo dela e erguendo seu rosto: — Esqueceu que ele mandou um cara me matar?

      — Não, mas também lembro que ele o protegeu contra esse mesmo cara. — afirmou, incisiva. — Sei que foi horrível o que o seu pai fez, e você, amor, tem todas as razões do mundo para ficar de olho nele, sim. Só que não quero que sofra tentando sufocar o que sente por ele. Nós não temos culpa de amar, porque isso não é errado. Não se sinta mal por amar o seu pai. Tenho certeza absoluta de que ele também o ama e deve se corroer por dentro ao pensar que poderia tê-lo assassinado. Convenhamos, Franco, ele faz todas as suas vontades... Aliás, a Irene me disse que o Thales sempre fez as suas vontades desde que chegou à fazenda.

       — Isso é uma bronca, Nova? — alçou a sobrancelha, interrogativo.

       — Entenda como um aviso. Para quem preza pela justiça, você está se saindo um tanto injusto para com a sua família. — disse com firmeza para, depois, emendar num tom mais terno: — É fácil amar as pessoas fáceis, não é mesmo? Difícil é amar os complicados.

       — Amo você e a nossa ervilha. Estou satisfeito assim, meu coração é pequeno.

       Ela ergueu a cabeça para ele e viu os ossos dos maxilares projetados contra a pele escanhoada.

       — Eu quero muito que a nossa família dê certo, e o seu pai faz parte dela, sim.

       — Se insiste...— deu de ombros.

       — Faço questão. A família Dolejal tem de ser igual à Malverde-Lisboa, entendeu?

       — Não adianta falar isso só pra mim.

       — Deixa comigo, hoje à noite, o seu pai também será enquadrado. — determinou.

       — Quero só ver. — fez troça com um sorrisinho.

       — Duvida? Acha que não tenho coragem de enquadrar o seu pai?

       — A dona é doida. — afirmou, obrigando-se a rir.

       Ela o apertou com força na cintura e achatou o nariz contra a camisa dele.

       — Sou doida por você, caubói. — murmurou.

       Nova precisava saber. Ver o bebê na ecografia acalmara o seu coração que ultimamente andava inquieto. Bronson no cinema. O que acontecera no banheiro do cinema? Será que Thales Dolejal sabia sobre o que acontecera?

       Mas, no fundo, não queria saber.

       Porque, sabendo, teria de tomar uma atitude, se posicionar a respeito. Fazer o que era certo.

         

       A cliente mandou embrulhar um Macaron para levar e comê-lo com café preto em sua casa. Karen, que detestava trabalhar na sua própria confeitaria, irritou-se com a petulância da mulher. Por que não bebia o seu café por ali mesmo, já que o Vaca Louca era uma confeitaria e cafeteria? Elas não tinham comprado uma máquina expressa de café para ser usada como enfeite. A sua exasperação elevou-se a potência nove milhões, quando a descarada, filha e esposa de fazendeiros, esticou a nota de cem reais para pagar algo que custava menos de cinco paus.

       Karen fitou os olhos empapuçados e grudentos de rímel nos cílios superiores e inferiores e disparou:

       — Está de gozação comigo, né? — falou alto, um sorrisinho de escárnio.

       Dona Mariana, que descera de uma camionete zero bala e tinha a aparência típica de coroa endinheirada — cabelo loiro tingido, cortado reto, alcançando a nuca e o vestido de verão longo, de seda, até os tornozelos, combinando com a bolsa de grife, queria apenas um macaron.

       — Qual é o problema? Você não tem troco para cem? — rebateu, fingindo-se de inocente.

       Karen percebeu a sutileza da pergunta e a intenção do fingimento. Sabia tudo sobre piranhas cretinas e aquela à sua frente era a regente-mor de todas elas. Era impossível esquecer que boa parte da população de 13 mil habitantes de Matarana ainda a considerasse como a vadia do cerrado, a mulher largada pelo marido, a amante que chifrara Thales Dolejal e a namorada encrenqueira do delegado linha dura. E, como se isso não bastasse, Rita Maldita, a doceira libidinosa, tinha suas amigas leais, sua clientela de alto poder aquisitivo pronta para atiçar o gênio irritadiço da concorrente bem próxima de seu estabelecimento.

       — Tenho, sim, espera só um pouquinho. — fez um sinal com a mão e se agachou atrás do balcão da máquina registradora.

       Abriu uma portinha e pegou de lá um saco plástico com quase 1 kg de moedas. Era o “porquinho” de Johnny que trocara de endereço. Como o cofre de cerâmica se espatifara ao despencar da estante durante o último atentado contra Rodrigo, o jeito foi despejar as moedas que ele guardara havia cinco ou seis anos num saco plástico. Karen resolvera, então, substituí-las por cédulas e pagara ao filho um valor meio que condizente a uma mesada de longa data acrescido, evidentemente, da aquisição de um novo computador; o anterior também levara bala dos pistoleiros do coronel.

       Ela pôs o saco com moedas sobre o balcão e ameaçou abri-lo para começar a contagem.

       Mariana fechou a cara. Porém, tal movimento somente foi perceptível porque ela falou num tom rascante o que o Botox impediu de mostrar na expressão facial:

       — Agora é você que está de gozação, né, ô mocinha?

       — Não, senhora, estou apenas contando o seu troco.

       — Isso é um ultraje! — a outra resmungou.

       Karen desistiu do intento, estava entediada e se sentindo oprimida entre as paredes e o teto da confeitaria. Relançou um rápido olhar para Ninita e Veridiana, sentadas nas cadeiras e bebericando chá. O trabalho como atendentes de um estabelecimento sempre às moscas levavam-nas a se comportarem como clientes.

       Voltou-se para Mariana e tentou ser diplomática:

       — Olha só, é uma cortesia.

       — Eu não quero cortesia alguma; quero é que simplesmente me dê o troco em cédulas e de preferência de 10 e 20 reais. — disse com azedume.

       — Não posso ficar sem troco. — enfatizou.

       — Mas isso, querida, não é problema do cliente.

       — Claro que não, isso é problema meu.

       Valéria entrou no recinto, cumprimentou vó Ninita e Veridiana e se aproximou do reservado onde ficava a caixa registradora e a sua sócia. Sorriu para Mariana ao reconhecê-la e indagou à cunhada:

       — O que está acontecendo?

       Mariana adiantou-se, esbaforida.

       — Já faz meia hora que estou tentando pagar essa bolacha, mas parece que a proprietária quer impor regras quanto à forma de pagamento.

       Val voltou-se para Karen tentando se familiarizar com a situação e encontrou uma mulher de pavio curto com uma faísca brilhante na ponta. Era melhor que intercedesse antes da cliente ser jogada para fora pelos fundilhos como acontecia com alguns no Colono Tranquilo.

       — Karen, por que não vai tomar um cappuccino enquanto eu vejo o troco para a nossa amiga, hein? Vim do banco, tenho muitos trocados comigo.

       A morena estava inclinada a aceitar a interferência da cunhada. Algo dentro dela não deixou que isso acontecesse. Ceder, naquele momento, pareceu-lhe como aceitar dois pés sobre as suas costas enquanto tinha a cara grudada no chão. Diante de uma sacana que frequentava o salão de beleza todas as tardes para afiar as garras e discutir a vida alheia — talvez até o apelido Vaca Louca tivesse partido primeiro daquela boquinha com colágeno, ou gordura da bunda, Karen não sabia ao certo, a vontade que tinha estava à altura de sua coragem. Ela nunca se deixava na mão.

       — A questão é que isso aí não é uma bolacha, é um doce, um bolinho francês, se quiser entender assim, mas não é uma mera bolacha. Se não sabe o que é uma iguaria francesa, ainda que a sua periquita valha milhões de reais, quero que deixe aqui no meu balcão o Macaron, enfie o rabo entre as pernas e dê o fora.

       Valéria Malverde sentiu o coração na boca. Todas as vezes que Karen resolvia trabalhar na confeitaria pegava pesado com alguém.

       Mariana sabia sobre o temperamento amalucado da mulher que andava a cavalo pela cidade enfiada num jeans justíssimo que realçava o traseiro.

       — É assim que trata a sua clientela? Não é à toa que esse pulgueiro com decoração afrancesada esteja sempre vazio. — e emendou com menosprezo: — Fica com a bolacha caseira, meu bem, porque eu ainda prefiro os cupcakes da sua vizinha. Aliás, — completou, virando-se para Val: — se não quiser afundar, é melhor deixar os cachorros no canil.

       Karen empurrou com força o balcão ao passar por Val que, em vão, tentou pegá-la pelo antebraço. Tinha nos olhos uma expressão de divertimento sádico. Não estava realmente zangada ou enraivecida. A irmã do delegado percebeu que alguém ali queria se divertir, como Tom com Jerry.

       Uma diversão que foi para o beleléu, já que o homem que usava um distintivo e tentava pôr ordem na cidade acabava de entrar.

       Val deu um discreto cutucão nas costelas de Karen.

       Rodrigo sorriu ao cumprimentar a mulherada que virara a cabeça, ao mesmo tempo, para vê-lo. Era impossível ignorar a presença de um morenão de 1,90, usando jeans, camisa xadrez aberta nos primeiros botões e remangada até a altura dos cotovelos. Além do clássico chapéu de caubói sobre o cabelo curto e castanho-claro.

       Karen não era burra nem nada. Tudo o que ela tinha de fazer era mostrar a Rodrigo que estava se comportando como uma pessoa madura e equilibrada, uma mãe de família ponderada e uma cidadã acima de qualquer suspeita. Obrigou-se a sorrir para a cliente.

       — Peço desculpas pelo comportamento da minha sócia. Às vezes, ela é impulsiva. — afirmou de um jeito brando e conciliador enquanto ignorava os olhos de Val queimando sua cara: — Tenha a certeza de que se ela falou que sua boca tem gordura de bunda não foi por mal.

       Val prendeu a respiração, as bochechas pegando fogo de vergonha.

       Mariana torcia o lábio num trejeito de repulsa. Antes que ela se manifestasse, o delegado se aproximou e, sorrindo, fez o seu pedido:

       —Tem um expresso tinindo de quente pra mim?

       Ele olhou para Karen, olhou para toda ela, cima a baixo, um sorriso charmoso no canto dos lábios. Um convite.

       Mariana entendeu que o convite era para a sua pessoa. Endireitou os ombros e mudou a máscara social que usava, suavizando a expressão do rosto para ajustar-se à nova situação.

       —Ai, delegado, sinto tanto por não ter podido ir à cerimônia de entrega do troféu de cidadão mataranense. Meus parabéns! — falou com manha, afinando a voz.

       Rodrigo ajeitou o chapéu e pousou os olhos sobre a mulher.

       — Obrigado, Mariana, mas não perdeu grande coisa, não.

       — Os melhores homens da cidade, o senhor, o meu amigo Thales e o doutor Cristiano, os melhores da região.

       Karen sorriu com deboche. Sabia o quanto tivera de insistir para o namorado aceitar o troféu e, mais do que isso, participar do evento no clube campestre. A comparação com Thales Dolejal também o incomodava sobremaneira. No entanto, as pessoas continuavam a vinculá-lo ao fazendeiro.

       Ele percebeu o sorrisinho de Karen e, se desvencilhando da inoportuna com um quase inaudível “com licença”, pegou a namorada pelo cotovelo, a firme intenção de agarrá-la no escritório da confeitaria. Já se tornara hábito tal comportamento por parte da polícia. E ela adorava.

       Coube a Val dar literalmente o troco para a cliente que, antes de sair, prometeu não voltar a pisar na pocilga e, de brinde, não recomendar aos seus amigos. Falava enquanto caminhava para a calçada como se estivesse ao celular, comunicando-se pelo fone de ouvido, do jeito que algumas pessoas faziam e que se pareciam bastante com esquizofrênicos em delicado surto.

       — É só uma espiã, não perdemos porcaria de cliente nenhuma. — afirmou Ninita do alto de sua perspicácia.

       Val concordou com a cabeça, suspirando resignada. Postou-se detrás da caixa registradora, relançando um olhar preocupado para a porta fechada do escritório. Era evidente que Karen odiava ficar por horas atrás de um balcão servindo os outros. Ainda mais quando o movimento das primeiras semanas de inauguração fora substituído pela indiferença dos consumidores da cidade.

       Rodrigo fechou a porta com um pé, um chute preciso que não a bateu com força, mas foi o suficiente para isolá-los no escritório. A boca ocupada em usufruir outra a sorvendo tal qual um fruto tenro, aos poucos, intenso e sem parar para respirar, enquanto os braços apertavam o corpo da mulher que se grudava nele.

       Ela levantou a camisa dele pela barra, expondo o abdômen sarado, os quadradinhos desenhados pelos músculos trabalhados na garagem de casa e debaixo do sol, ajudando os pedreiros com a reforma da casa. As pontas dos dedos deslizaram pela pele morena até encontrar os pelos que marcavam como seta o caminho do pecado. Ele gemeu; ela não parou. Desceu a mão pelo cós do jeans, mas não foi além. Vontade não lhe faltava. A mão ficou presa antes de alcançar o que fora pegar.

       Ele riu baixinho por entre os lábios dela, afastou-se centímetros, abriu o botão de metal e permitiu que ela baixasse o zíper. Enterrou as mãos nos cabelos de Karen, segurando o rosto para si, contra o seu, ao mesmo tempo em que chupava o seu lábio inferior e depois esfregava a boca ao longo do maxilar até prender entre os dentes e a língua o lóbulo da orelha, arrancando dela um gemido rouco que subia do fundo da garganta.

       Com um gesto urgente, ela baixou o jeans dele o suficiente para fazer o mesmo com a cueca boxer e se apropriar do pênis que se enchia de poder.

       Ele resmungou qualquer coisa junto ao seu ouvido quando o tocou intimamente. Em seguida, deitou-a sobre a mesa e tirou-lhe as botas, uma de cada vez, sem deixar de enfiar seus olhos dentro dos olhos dela, olhos de promessa.

       — Faz menos de quatro horas que saímos da cama e você está com todo esse fogo. — Karen constatou num murmúrio rouco e um sorriso endemoniado.

       Rodrigo sentia o sangue ferver dentro da cabeça, a respiração não conseguindo escapar pelo nariz no ritmo normal enquanto a livrava do jeans para se apossar da calcinha até arrancá-la pelos pés. Tocou com delicadeza no lugar onde tantas vezes o recebia tão bem e tão quente. E admirou a mulher que deitava a cabeça para trás, as pálpebras cerradas e a respiração sendo expulsa pesadamente. Enganchou as mãos por entre suas coxas e puxou-a para a beirada da mesa.

       —A Val... Rodrigo... a Val pode entrar a qual...qualquer momento.— balbuciou sôfrega.

       Ele se importou com o que ouviu. Por isso encurvou o corpo e lhe deu prazer. Com a boca.

       Quando pensou que a sensação fina e quente implodiria os seus órgãos, imediatamente, subiu à superfície de sua pele gotas grossas de suor e ela levou a mão aos lábios para não gritar, não gritar com tanto desespero e deixar escapar o orgasmo que a fazia fechar as pernas e prensar a cabeça do delegado entre as suas coxas.

       Um minuto antes de gozar, ele a penetrou forte e duro.

       E fez amor com ela.

         

       Valéria não se espantou ao ver Karen Lisboa sair do escritório descabelada, a boca inchada, um chupão no pescoço e a expressão facial de uma drogada. Atrás dela, o responsável pelo seu estado ajeitando a camisa para dentro do jeans enquanto ainda ofegava ligeiramente.

       O irmão sorriu sem jeito e se sentou com Ninita e Veridiana.

       — Vou pegar o seu café, Rodrigo. — disse Karen, meio desnorteada, sorrindo para ele com cumplicidade.

       Ele agradeceu com um gesto discreto de cabeça e voltou sua atenção para as duas que jogavam canastra à mesa, as xícaras vazias, no início da tarde de um dia qualquer da semana.

       Vó Ninita empurrou os óculos contra o rosto, pegou uma de suas cartas do leque à sua frente e disparou:

       — Sabia que tem uns hotéis à beira da estrada para fazer sacanagem? Quer que a gente seja multada pela vigilância sanitária, delegado?

       O delegado ajeitou o chapéu num trejeito engraçado. Fora pego em flagrante.

       — Nós estávamos apenas conversando, vó. — tentou argumentar.

       — Com os genitais, é claro.

       Ele baixou a cabeça e apertou os lábios, consternado. Jamais agira de forma impulsiva e inapropriada... até Karen arrancá-lo da raiz da vida segura.

       — A senhora tem razão, agi errado e peço desculpas por tê-la desrespeitado. — falou com sinceridade.

       Vó Ninita aceitou o pedido de desculpas com um gesto de assentimento e prosseguiu no jogo. O fato não passaria em branco. O fato de sua neta e o delegado terem feito sexo na confeitaria. Veridiana prestava a atenção nas cartas com os olhos e na história com os ouvidos. E, depois, repassaria o que presenciara com a boca, espalhando pelas ruas de Matarana que ouvira gritos e gemidos da sócia do Vaca Louca sendo comida pelo delegado da cidade. Mais falatórios contra a sua neta.

       A não ser que...

       — Espero que isso não se repita, Rodrigo. — determinou com aspereza.

       Ele encarou a avó de Karen e sorriu com gentileza.

       — Com certeza, vó, nunca mais. — assegurou.

       Ela se voltou para a velha amiga e comunicou solenemente:

       — Se essa história vazar, mando a Karen fazer uma visitinha pra você, Veri.

       Veridiana sorriu constrangida.

       — Que é isso, nem pensar!

       Karen se aproximou trazendo a xícara com café fumegante sobre o pires de cerâmica. Depositou-a sobre a mesa, em frente ao delegado, e aproveitou para beijá-lo de leve na boca. Sentou-se ao seu lado e sorriu para ele.

       — Tem emprego pra mim na delegacia? — sem deixá-lo responder, emendou com entusiasmo: — Sabia que nos Estados Unidos tem um pessoal que ganha dinheiro procurando foragidos? São os tais caçadores de recompensa. O que acha? Eu poderia caçar os foragidos da polícia de Matarana. — sugeriu, alegremente.

       Rodrigo assoprou a bebida e a emborcou em dois goles. Voltou-se para a namorada com um sorrisinho que já denunciava o rumo de sua resposta.

       — Por acaso estamos nos Estados Unidos?

       — E daí? Imitamos tanto os americanos, por que então não importamos mais uma porcaria deles?

       — Justamente por isso, Karen, é uma porcaria. Quem faz o trabalho da polícia é a própria. Além do mais, esse tipo de conduta é crime.

       — O que não é crime, hein? Meu Deus, não se pode fazer nada! — reclamou com mau humor.

       Ele suspirou enquanto se recostava na cadeira.

       — Pode, sim. Trabalhar no seu negócio não é contra lei. — considerou calmamente.

       — É contra a lei da vida! É um tédio de doer. É uma tortura chinesa.

       — Então por que nos meteu nessa, porra?Eu e a Veri estávamos convidando rapazes bonitos na rodoviária para trabalhar no setor do amor terceirizado. — voltou-se para Rodrigo e o informou: — Aqueles guris, coitados, chegam cheios de sonhos e ficam sem dinheiro uma semana depois... Bem, eu e a Veri pensamos em criar um site e alugar os mais bonitos para as fazendeiras e a mulherada da alta roda em geral... Tiramos até foto deles, fizemos um álbum legal, só gurizão, tudo forte, saudável e cheio de amor para dar...

       À medida que Rodrigo ouvia sobre as aventuras de Ninita, mais se apavorava com a família Lisboa e o seu corpo abandonava a posição relaxada para se endireitar, o olhar atento à senhora a sua frente.

       — Vó, não pode, isso é crime de favorecimento da prostituição. — ele se virou para Karen e completou sério: — Por acaso, vocês duas conseguem fazer algo dentro da lei?

       Neta e avó se entreolharam, aturdidas.

       — O que ele quis dizer com isso? — perguntou Karen com ironia.

       — Nada, querida, é obrigação do delegado falar esse tipo de coisa a favor da lei. No fundo, bem lá no fundo, o Rodrigo sabe que as melhores coisas da vida são as proibidas.

       Rodrigo apertou os lábios e negou com a cabeça, taxativo.

       — Podem ser até as melhores, vó, mas não são as mais certas.

       — Ok, momento-pieguice-exploda-meu-cérebro! — debochou Karen, recebendo um olhar duro de Rodrigo. — Me poupa de seus projéteis cor de mel, bom-moço, mas a verdade é que a gente era mais feliz e mais livre antes dessa bosta de confeitaria.

       — Claro que sim, ao primeiro sinal de responsabilidade você quer pular fora. — constatou ele com secura.

       Karen sorriu sem um pingo de vergonha.

       — Tem razão, papai. Então, é o seguinte: pega essa merda e enfia...

       — Eu fico no seu turno, Karen. Posso contratar outra pessoa para ficar pela manhã, quando o movimento é ainda menor ou abrir apenas à tarde. — sugeriu Val, interrompendo o que poderia se transformar numa briga. Karen era tinhosa, e Rodrigo não levava desaforo para casa.

       A cunhada, por fim, deu de ombros, indiferente ao destino de seu comércio.

       — Faça o que quiser, Val, só não me convida para participar. — virou-se para a avó e completou com um sorriso: — E a senhora está livre para bater perna e aliciar meninos.

       Ouviu um rosnado baixo ao seu lado e ignorou. Era a voz da razão tentando se impor debaixo do chapéu que lhe caía tão bem.

       — É, façam o que quiserem, mas bem feito para que eu não descubra. — avisou as duas.

       Karen sustentou o olhar direto e profundo do homem que amava. A cabeça voou rapidinho para a Arco Verde.

         

       Havia dois meses que ele se encontrava com Verônica. E apenas com ela, o que lhe parecia um tanto insensato de sua parte. Cristiano Bittencourt era cuidadoso quanto ao que se referia à sua vida afetiva. E a atual fidelidade estava mais associada à zona de conforto estabelecida pela rotina de encontros em sua cobertura e ao comodismo de apenas telefonar e ter uma mulher na sua cama do que à lealdade a qualquer tipo de sentimento. Era estranho que se sentisse anestesiado; a questão era que não gostava ou desgostava de Verônica. Sentia-se oco, vazio. E, de certa forma, tremendamente livre. A ausência de sentimentos por alguém lhe oferecia a liberdade que sempre desejara. Não estava na mão de uma pessoa. Não precisava ser aceito, paciente, compreensível e todas aquelas merdas em torno da obrigação de se sentir algo por alguém. Ele não sentia nada. Contraditoriamente, como quase toda a sua personalidade, estava feliz por isso. Satisfeito até. De bem com a vida. Sorridente pelas ruas. No controle da situação.

       Convicto de que sua existência imediata estava pronta e definida, ele ousou beneficiar-se do destino e plantou em terreno fértil a dúvida que boa parte do povo de Matarana também compartilhava com ele. Antecipou-se aos fatos.  A bem da verdade, era só uma questão de tempo para que a sua previsão se efetivasse. Agora, entretanto, não o fazia por amor. Visto que nada sentia que não fosse a felicidade de nada sentir. Cogitar que sua amiga de infância sofria violência doméstica não era de todo uma fantasia ou maledicência. Terrorismo psicológico também era considerado como abuso, uma espécie de abuso emocional, por exemplo.

       Não havia outra explicação para o casamento e a gravidez de Nova. Lavagem cerebral ou fuga da realidade. Qualquer teoria pela qual serpenteava os seus pensamentos, a única ideia que fundamentava tal comportamento era a de que ela estava sendo coagida pelo pistoleiro, sem ao menos dar-se conta disso. Porque Franco Dolejal ou diabo loiro, não importavam os nomes, jamais deixaria de ser quem era: um bandido com problemas emocionais armado até os dentes.

       Foi isso que Cris falou para Verônica e também para algumas enfermeiras e médicos do hospital. Não seria uma charrete e um vestido de Cinderela que transformaria um relacionamento doentio em um conto de fadas.

       Ele não sofria mais pelo amor perdido. Não sofria.

       Raras vezes pensava em Nova.

       Pensava mais em Franco.

 

       Ela deixou o Maverick na garagem de casa e pegou o seu melhor amigo pelas rédeas. Tencionava levar Prefontaine para um passeio pelos prados do senhor, do senhor Dolejal. Talvez conseguisse persuadir o novo chefe da segurança a aceitá-la em seu quadro de funcionários. Se Thales contratara uma mulher para ser a sua segurança particular, o filho poderia indicá-la para alguma missão de contra-ataque a Coração de Ouro. Sabia que os Dolejal armavam uma ofensiva contra os Marau. Os atentados sofridos por Rodrigo — interpretados por Thales como uma afronta à sua pessoa, seriam retaliados à altura. E como o próprio Thales dissera: ela e Franco eram os seus melhores soldados.

       Era verdade também o seu desejo de destruir o camarada que quase tirara Rodrigo de sua vida, entregá-lo a Thales e virar as costas para o destino do coronel. Pois, se deixasse a cargo da lei, o delegado teria pela frente um longo inquérito, uma papelada dos diabos e a encheção de saco de um bando de advogados.

       Com Thales todo esse trabalho era resumido. Assim funcionava a justiça em Matarana. Se o cidadão decide tirar a vida de alguém, assume também o risco de perder a sua. Faça o bem e receba o bem. Faça o mal e receba sete palmos de terra sobre si. Era justo, considerava Karen, em frente a Arco Verde, segurando firme as rédeas do seu cavalo.

       Na guarita, um velhote que carregava uma barriga gorda por cima do jeans, a camisa testando a resistência dos botões, o chapéu meio torto na cabeça. Ele tinha o nariz largo e um bigode vasto. Bolsas debaixo dos olhos que a examinavam de cima a baixo, dois riscos verticais entre as sobrancelhas.

       Ela conhecia aquele tipo de olhar.

       — Vim falar com o patrão. — comunicou simplesmente, sem apear.

       Era o tipo de olhar que tentava barrá-la nos lugares.

       O pistoleiro nem se deu ao trabalho de se aproximar, falou da porta da guarita de alvenaria e janela de vidro, aberta:

       — A senhora tem que descer do cavalo para a revista. — determinou com mau humor.

       O relincho baixo do manga-larga parecia uma troça à determinação do desavisado. Karen acariciou-lhe a crina e perguntou sem deixar de sorrir:

       — O senhor é novo por essas bandas, não?

       — Na fazenda, sim, mas não no meu trabalho, senhora.

       Ele percebeu que a senhora em questão fazia parte da tribo dos “ossos duros de roerem”. Avançou dois passos e levou a mão coldre, pouco acima da parte ostensiva na calça, a fivela do cinto.

       — Avisa o patrão que é a Karen, assim o senhor não perde pontos com ele nem comigo.

       —Vou obedecer à ordem de revista do patrão. — enfatizou.

       — Certo... o patrão ou o patrãozinho?

       — O senhor Dolejal.

       — Tem dois Dolejal agora, meu senhor. — olhou ao redor à procura de Bronson; não o encontrando, voltou-se para o tosco de cara amarrada: — Cadê o Bronson?

       — Não posso fornecer essa informação.

       Karen começou a rir.

       — O que está acontecendo nessa porra de fazenda? Abre a porteira logo e me deixa passar. Tenho livre acesso, meu querido, é só usar o rádio aí e dizer duas palavras mágicas: Karen Lisboa.

       O velhote nem se mexeu.

       — Ou a senhora desce para a revista ou a senhora cai fora daqui antes que eu me irrite.

       Ela apertou os lábios começando a se exasperar. O sol no lombo.

       — Acha mesmo que vou te dar o prazer de me apalpar, seu velho tarado? Pode tirando a mão da pistola que não vai chegar um centímetro perto dos meus peitos ou da minha bunda! E agora avisa o Bronson ou o seu patrão que estou aqui, e faça isso antes que eu desça do cavalo e do salto e te encha de porrada! — não elevou a voz, mas se cuspiu um pouco.

       — Olha, madame, se mulher maluca me assustasse, eu não tinha dado uma tunda na minha mãe. — falou sério, inabalável.

       — Idiota! Acabou de se foder de vez!

       — Só cumpro ordens do seu Franco e ninguém passa por essa porteira sem revista.

       Karen bufou.

       — Ele não é o patrão; é, no máximo, o patrãozinho, a sombra anã do dono de tudo. Duvido que o Thales aceite que ponham a mão nojenta em mim! Duvido!

       — Quem está no comando é o seu Franco.

       — No comando da segurança dessa porra de fazenda, animal burro! Quem manda em tudo e inclusive no Franco é o Thales. Chega! Olha só a magia da telefonia móvel — anunciou com sarcasmo, digitando os números do celular de quem ela esperava que resolvesse um probleminha não esperado.

       — Pode ligar até para a polícia. — zombou, o sem-noção, a cara fechada.

       Do outro lado da linha, sentado na cadeira estofada na sala refrigerada de seu escritório, Thales admirou o nome na tela do seu celular. Dois meses em silêncio. E ele somente a via rodando pela cidade com a lei e a ordem bem firme ao seu lado. Um casal ostensivo, Karen e Rodrigo.

       Podia se poupar e ignorá-la. Aguardou que após o terceiro toque, enfim, desistisse.

       Amor ou ódio, eles nunca desistiam.

       Atendeu e ouviu:

       — Thales, é o seguinte: tem um pistoleiro teu, aqui na Arco Verde, querendo me apalpar...

       Um minuto de silêncio.

       — Bom dia, Karen. Perdeu seu tempo indo à fazenda, estou no escritório do centro. — disse calmamente.

       — Vim falar com o Franco.

       — Por acaso não sabe onde a sua amiga Nova mora com ele? — enfatizou, sugestivamente.

       —Sei, sei muito bem. Vim tratar de negócios com o chefe da segurança, por isso a fazenda. Só que não consigo entrar, porque tem um tarado...

       — Karen...

       Ela esperou que ele prosseguisse. Lançou um olhar para o céu azul e fresco, que se aguentava firme até perto das duas da tarde, quando desabava água.

       — Thales?

       O velhote do bigode mantinha os olhos empapuçados grudados nela, como se esperasse pelo momento de rir de sua inocente tentativa de burlar as determinações do patrão.

       — Vai me deixar falando sozinha, é? — perguntou com impaciência.

       — O Franco tem as suas próprias regras. — disse, resoluto.

       —Ah, então é assim? Vai deixar um desconhecido me bolinar, é? Estou armada, sim, tenho comigo a Glock que você mesmo me deu...

       Ele a interrompeu:

       — Toda vez que precisa de mim, você afina a voz. Já percebeu isso, Karen? — havia um tom de divertimento na colocação.

       Ela quase riu. Só não o fez porque estava prestes a ter de se humilhar diante de um pistoleiro nojento e antipático que esperava justamente por esse momento. Bom, não custava nada tentar...

       — E adianta? — pediu com voz quase infantil.

       Thales fez um sinal para a secretária e, em seguida, pegou o telefone sem fio que ela o entregou.

       — Franco, libera a entrada da Karen sem a revista.

       — Que revista?

       Franco estava distraído, esperando que os pistoleiros da Lagosta do Brejo se ajeitassem nas cadeiras do pavilhão ocupado para a mobilização antes do ataque aos coronéis. Por um minuto ou dois, a palavra “revista” lhe pareceu algo relacionado à leitura. Nova enchia-o de livros e revistas o tempo inteiro e, às vezes, ele até sonhava com o que lia.

       — A Karen nunca é revistada, entendeu? Ela está armada e deve sair da fazenda da mesma forma que entrou. Ninguém toca um dedo sequer nela. — determinou, falando bem devagar, quase num tom de ameaça.

       O filho assimilou a informação. Fez um sinal para Paulo, o ruivo que fora transferido para a Lagosta do Brejo e voltara para participar da ofensiva, dar o recado ao homem da porteira. Depois, voltou a atenção para a ligação:

       — Resolvido, patrão.

       Thales devolveu o telefone à secretária, recostou-se na cadeira e tornou a falar com Karen, a voz arrastada de um irônico fastio:

       — O que você quer, você tem.

       Ela sorriu se sentindo muito bem ao ver o velhote emburrado, cedendo passagem para a sua entrada no reduto onde também dominava.

       — E assim não é bom para nós dois, Thales? — perguntou num tom que lembrava muito a sedução, a persuasão de quem impunha o domínio sobre um homem forte.

       — Sente prazer em conseguir tudo o que quer?

       Ela gemeu baixinho

       — Sim, muito.

       — Sente prazer em conseguir tudo o que quer de mim? — ele tragou o cigarro, prendendo a fumaça nos pulmões.

       — Por acaso aderiu ao sadomasoquismo? — ela debochou, indicando a Pre a sombra de uma figueira.

       Um riso áspero e rápido antecipou-se à resposta:

       — Talvez. Você é a minha única cicatriz que ainda sangra.

       Algo dentro dela foi surpreendido pela sinceridade dele e se manifestou como uma pressão no peito. Desmontou, o celular colado à orelha, os olhos turvos de um sentimento indefinível.

       — Não quero mais que sofra, Thales. Nem por mim nem por ninguém.

       — Vai à merda, Karen.

       Ele expulsou as palavras da boca, a raiva junto. E desligou.

       Ignorou os executivos que o acompanhavam na reunião. Alheio aos olhos fixos sobre sua figura na extremidade da mesa oval para dez lugares. Tamborilava os dedos devagar, o empresário do agronegócio que, desde a morte do avô, jamais tornara a sujar as mãos na terra, ainda que fossem as suas.

       Thales absorvia o amargor debaixo da língua, engolia-o, e a descida até o seu estômago queimava-o por dentro. Uma úlcera. Uma ferida chamada Karen Lisboa. E o remédio para a doença não era a ingestão de antiácidos.

       Levantou-se sem nada dizer e saiu da sala. Em dois meses, emagrecera sete quilos. O entendimento que perdera, além da batalha, a guerra inteira, a guerra que travava contra si mesmo por amar uma mulher canalha e a guerra por não tê-la reconquistado. 

       Decidiu retomar o que abandonara pouco depois do casamento de Franco. Havia algo a ser feito, um alvo para acertar e ferir. Alguém precisava receber a dor que ele sentia.

         

       Valéria contou novamente as cédulas; separou as de maior valor das de menor e as guardou no cofre do escritório.

       Por que a cidade estava boicotando o Vaca Louca?, perguntou-se preocupada. Tinha quase certeza de que não era por causa de uma das proprietárias, visto que Karen mal parava por lá. E quando resolvia aparecer...

       Havia tanta novidade para os mataranenses apreciarem. Doces e salgados cujas receitas atravessaram o oceano. Croissants, brioches, pães de todos os tipos e formatos. No entanto, na confeitaria de Rita havia filas para comprar o simplório pão francês.

       Encontrou vó Ninita cortando uma generosa fatia de torta para duas senhoras bem vestidas. E pelo o que percebeu, eram suas amigas companheiras de bingo. Servidas na mesa pela mais amável de suas funcionárias, as meninas da terceira idade antes de sorverem o chá gelado, testaram o sabor do limão com o chantili e o leite condensado. Sorriram ao mesmo tempo.

       Quando via no rosto de suas clientes pelo menos um pequeno esboço de prazer, sentia que o Vaca Louca tinha chance de ainda dar certo e superar a resistência da cidade. Oferecer algo de qualidade e original, sem parâmetros de comparação, era uma tarefa para os fortes. Esse pensamento acalentava sua alma, saber que trafegava pela estrada dos pioneiros, dos desbravadores, dos primeiros a começar — como a própria colonização de Matarana pelos demais brasileiros.

       Postou-se detrás do caixa e suspirou resignada. Folheou o caderno com a lista de pagamento dos seus fornecedores e balançou a cabeça. Karen teria de mexer na sua conta bancária pessoal novamente.

       Percebeu a entrada de uma nova cliente e ergueu o rosto com o melhor de seus sorrisos. A morena alta, corpo escultural e cheia de carnes como munição extra à beleza dos traços faciais bem marcados, pisou com suas botas sem fazer barulho. O chapéu com a aba puxada para frente foi ligeiramente empurrado para trás, porque ela averiguava o local com olhos que esquadrinhavam cada parte, canto, detendo-se aqui e ali, avaliando possibilidades e não deixando de ignorar as duas atendentes uniformizadas detrás do balcão dos doces, as clientes concentradas em levar o garfinho à boca entre um comentário com “hmmm” e outro e, por fim, a morena no caixa.

       Sustentou o olhar sério e perscrutador da cowgirl até perceber, atrás dela, a entrada daquele que fez os seus batimentos cardíacos dispararem. O coração batia tão forte, tão forte que ela o sentia no corpo inteiro e era como se ele tivesse criado braços e punhos e esmurrasse as costelas tentando afastá-las para ter mais espaço e explodir confortavelmente.

       Exagero ou não, Valéria cogitou um desagradável desmaio ao ver Thales entrar com todo o corpo grande e alto vestido no terno escuro e reduzindo o tamanho da confeitaria.

       — Conferido, patrão.

       — Obrigado, Virgínia. Aguarde-me lá fora que vou falar com uma velha amiga.

       Ele falou com os olhos postos na mulher que sentia um filete de suor descer do couro cabeludo para a nuca, fino, morno. Falava baixo e sereno, o homem de olhos azuis. A serenidade em ordenar e lhe causar arritmia cardíaca como um intruso que enlouquece o órgão que trabalha apenas para bombear o sangue e não para deflagrar emoções. Mas ele estava ali, parado no meio do recinto, com um esboço de sorriso no canto da boca e os olhos presos nos dela, escravizando-a.

       Tudo o que era certo, perdeu o rumo. Tudo o que era errado, encontrou-a de braços abertos. Tudo o que era medo, ela quis. E tentar fugir, uma distração para não se considerar. Sem saída, o peito explodindo de ar quente, inflado de angústia. Toda ela, da cabeça aos pés, descobriu que sentira saudade, tanta saudade que com receio de enlouquecer pela ausência, pela falta do veneno bom, do monstro nas veias, da melancolia que a tingia de azul e ternura, com receio de se pôr de joelhos ou de esmurrá-lo para deixá-la entrar na sua vida até os poros — tanta saudade sentira que a mente ocupou-se em não pensar nele.

       Agora vinha tudo à superfície.

       — Como está, Valéria?

       Ele estava mais magro, o que suavizava sua face. Discretos sulcos acima dos maxilares projetavam as maçãs do rosto e destacavam os olhos grandes, protegidos pelas pálpebras relaxadas e os cílios escuros e cumpridos.

       Tencionava responder o de praxe, um “tudo-bem” mecânico. Abriu a boca e saiu a respiração. Tanta coisa para falar e a falta das palavras. Desorientada. Dentro da sua mente, os pensamentos mais racionais, todos eles, corriam por labirintos de espelhos como ratinhos de laboratório. Desesperados por uma explicação lógica atiravam-se suicidas, os pensamentos e concepções de vida, do topo do cérebro, em queda livre, aterrissando nos braços protetores e traidores dos sentimentos.

       Ela descolou os lábios e ouviu a própria voz, saída debaixo do lençol, puxá-lo para perto:

       — Por que não veio antes?

       Não era para ter dito isso.

       Ele se aproximou, o queixo altivo, a atenção somente em quem o interessava no momento.

       — Tentei resistir.

       Talvez ainda não fosse o bastante, então ele completou com seriedade:

       — Você atiçou a minha curiosidade, Valéria, ao afirmar que era a mulher da minha vida. Não posso deixá-la impune, terá de cumprir essa ameaça.

       Ela sorriu um sorriso trêmulo e baixou a cabeça. A recordação da sensação da língua chupando a sua, a boca tomando-a com paixão e selvageria, o desejo. Sentiu as bochechas queimarem e as pernas tremerem. Não era vergonha, de forma alguma. Era vontade e por isso não podia enfrentá-lo naquela hora da tarde, com a atenção de Ninita e Veridiana voltada para ambos, com a segurança à porta, com o cheiro de baunilha e canela morna e todo aquele maluco amor falando por ela.

       — Quer um expresso?

       Tentou pular da ponte com paraquedas.

       — Quero. — ele respondeu concentrado nela. — Quero um expresso depois do jantar. Amanhã à noite. O Bronson irá buscá-la em sua casa às 20 horas.

       Ela o encarou com os olhos rasos de lágrimas.

       — Não posso continuar.

       — Não prenda os cabelos, Valéria. — sugeriu com um sorriso charmoso.

       —Não posso seguir em frente com você.

       Ele olhou ao redor, acenou discretamente com a cabeça para vó Ninita e fez menção de sair. Mas ficou. As mãos nos bolsos laterais da calça social meio que levantava a barra do paletó e também expunha o cinto preto de couro. A postura autoconfiante nada tinha de arrogância ou soberba; era a manifestação do carisma inato dos líderes, dos homens no comando, dos homens que nasciam para vencer e proteger.

       — Sinto falta de nossas conversas.

       — Eu também, mas... — ela balançou a cabeça, confusa. — Quando esquecer a Karen a gente volta a se ver, ok? Preciso cuidar de mim, não adianta fazer dieta e me entupir de problemas. — tentou sorrir.

       Thales alçou a sobrancelha, interrogativo.

       — Sou um problema?

       — E dos grandes.

       — Não me faça implorar, mulher. — pediu, a voz mansa e arrastada, um leve sorriso nos lábios, o convite.

       Ser forte era desprezar o que mais se queria.

       Olhou para ele e sorriu.

       — Vamos jantar, sim, Thales.

       Ela era a mulher mais frágil de Matarana. Se a vida fosse um filme de terror, Valéria seria a primeira a morrer, a que iria até o celeiro à noite para investigar um barulho.

       Talvez por isso fosse tão amiga da vodca. Amava o que poderia destruí-la.

       Ao volante da Silverado, Thales Dolejal permitiu-se sorrir. Devolveria a Rodrigo Malverde a sua irmãzinha aos pedaços.

         

       Franco terminou de falar e acendeu um cigarro. Diante de mais de quarenta pistoleiros era um verdadeiro milagre o silêncio que fazia naquele galpão de madeira com telhas de zinco e o sol ardendo sobre todos. Ele mesmo sentia o cabelo grudado nas têmporas e não via a hora de tirar a roupa e pular no Rio Verde.

       Voltou-se para o quadro branco e os seus garranchos expondo a estratégia com o pincel atômico preto, os rabiscos revelavam o posto de cada grupo de pistoleiros, a localização dos pontos estratégicos na Coração de Ouro e o posicionamento dos seguranças do coronel Marau.

       Franziu o cenho ao ver Karen e o seu chapéu à entrada. Obrigou-se a ir até ela que estranhamente parecia intimidada com o ambiente rústico, quente e cheio de homens.

       — O patrão não está na fazenda. — foi direto ao ponto.

       — Vim falar com você.

       Ele sorriu de leve e coçou o queixo, pensativo.

       — É mesmo? Não consigo imaginar um motivo para me procurar.

       Karen pôs as mãos nos bolsos traseiros do jeans. Com Franco não adiantaria qualquer joguinho.

       — Preciso de ação. Quero um lugar aqui, fazer parte da ofensiva contra o suíno, vingar o que fizeram contra o Rodrigo. É isso aí.

       — Olha ao redor, veio gente de tudo o que é lugar, não preciso de mais ninguém. — ele gostou de dizer isso.

       — O Thales disse que eu e você somos os seus melhores soldados. — atacou.

       — Nunca vi você lutando, dona. O que normalmente apronta é confusão, mas isso não tem nada a ver com valentia.

       — Não dificulta, Franco. — pediu.

       — Se está entediada procure o que fazer no salão paroquial ou na associação das mulheres entediadas, sei lá. — afirmou, dando de ombros, indiferente.

       — Ai, porra!, deixa de ser besta!

       —Deixa de ser besta você! — apontou o dedo para ela e continuou sem elevar a voz: — Não quero ter de cuidar da sua proteção. Saiba que se a mocinha entediada se foder, terei de prestar contas ao patrão, ao Rodrigo e à Nova.

       — Sei me cuidar!

       — Olha aqui, ô moscona, você foi já foi salva por mim e o Rodrigo e, depois, pelo Bronson. Isso já não prova que a senhorita mais atrapalha do que ajuda? — torceu o lábio com escárnio — A conversa termina por aqui, dê meia-volta e vá assar uns bolinhos.

       Karen conhecia o temperamento de Franco. Não adiantaria argumentar.

       — Sabe, tenho informações privilegiadas da polícia, podem ser úteis, não acha? — ainda assim tentou.

       Franco sorriu expondo os dentes alvos e as covinhas ao redor dos lábios.

       — Duvido que o delegado abra o jogo com você. Valeu pela tentativa, estou comovido com o seu desespero.

       — Não estou pedindo esmola ou penico, só quero fazer algo importante como os homens dessa merda de cidade fazem. Eu também tenho uma pistola, Franco, e bem grande.

       — Caramba, Karen, queria muito ter você ao meu lado metendo bala, mas não vou bater de frente com o Rodrigo. Tenho certeza absoluta de que ele é contra essa sua ideia maluca de ser homem mesmo sendo mulher. — debochou.

       — Me dá uma chance, porra! Sou melhor que a Virgínia. Pergunta pra ela, já dei um pau nela também.

       — Eu sei que sim... mas o que tem de forte também tem de inconsequente. — ele suspirou profundamente e coçou a cabeça depois de tirar o chapéu: — Por mim, levaria você comigo só para ter o prazer de ver você meter a mão nos caras sem piedade. É certo que odeia os homens. O problema é que tem dois deles que estão bem de olho em você, e eu não tenho saco para me meter em briga que não é minha. Se fosse minha mulher, Karen, estava é prenha em casa me esperando com a comida pronta e a banheira com coisinha cheirosa.

       Ela o olhou com desprezo.

       — Machista de merda.

       Ele riu com vontade, a cabeça deitada para trás, as mechas loiras e bagunçadas deixando à mostra o rosto quase feminino.

       — Não se preocupe que eu também faço a minha parte. — piscou o olho de forma significativa e mudou o rumo da conversa: — Preciso voltar ao trabalho, dona. Tenha uma boa-tarde.

       E deu-lhe as costas, o filho do Homem.

         

       Leonardo Marau conseguiu com facilidade distribuir a pasta de coca entre as bocas de fumo da Vila Zumbi. Em dois meses, tivera a habilidade de impor o seu domínio em Matarana como um eficiente fornecedor para a produção do óxi. A última carga, trazida da Bolívia clandestinamente por meio de um Cessna, foi empilhada em um dos pavilhões da Coração de Ouro para, poucos dias depois, ser espalhada pela região.

       Ele tirou os óculos escuros e os pendurou na abertura da camisa xadrez, os primeiros botões abertos logo abaixo da gola engomada. Entrou em um dos pavilhões, sendo seguido por dois de seus capangas, abriu e fechou duas portas antes de alcançar uma terceira, que foi destravada e aberta, quando ele girou a maçaneta.

       Parou com as mãos na cintura e admirou os tijolos prontos e preparados para partirem. Várias pilhas da mercadoria que, pouco a pouco, tornava-o mais rico. Milhões de reais em 345 kg de pasta de cocaína.  O próximo passo era tirar a polícia dos seus calcanhares.

       O delegado entrara na Coração de Ouro com mandado em punho, um agente com pavio  curto e seis policiais militares. O advogado da família atendeu-os prestativo enquanto tentava acalmar a ira do coronel. Para o dono da fazenda, a acusação de tentativa de homicídio contra o delegado era infundada, mais do que isso, era manipulada por Thales Dolejal — que, aos olhos do coronel, tinha a polícia civil de Matarana nas mãos.

       Leonardo permanecera ao lado do pai o tempo inteiro, omitindo-se de atuar como advogado para não supostamente desprestigiar Dr. Lourenço; além disso, como afirmou ao pai após a saída da polícia com as mãos abanando e nada de apreensão de picape usada em atentado, já que não a encontraram — ele ainda precisava passar pelo exame da OAB. O coronel anuiu, resignado. Perdera um bom momento para assistir à atuação do filho advogado impor-se ao delegado protegido por seu inimigo de anos.

       O executivo do narcotráfico, que jamais injetara droga na veia e tampouco fumara sequer um cigarro de maconha, se desviara de uma bala. Porém, sabia que havia outra arma engatilhada em sua direção. Rodrigo Malverde, durante a ofensiva policial, mirara seus olhos duramente nele. Não era coincidência que invadisse a fazenda logo após o assassinato de Vitorino, antecedido pela matança na Vila Zumbi, na boca de fumo mais tradicional da cidade. O delegado sabia sobre a sua ligação com Joaquim, o traficante morto. E começava a juntar as peças para montar o quadro da nova paisagem de Matarana. Provavelmente, encontrara pistas na cena do crime na Vila Zumbi que o levara a Vitorino...

       E depois?

       Leonardo tirou o chapéu e arou o cabelo curto com os dedos. Ele havia dado pouco tempo para Vitorino contar o que quer que fosse ao delegado. Poucas horas antes de receber o beijo da morte direto no tórax. Um de seus capangas, treinado pelo braço direito do coronel, eliminara habilmente o pistoleiro que, por não ter executado o delegado, acabara preso e morto.

       Agora, mais do que nunca, precisava do delegado. Debaixo da terra.

       Voltou-se ao sentir a presença de um de seus capangas.

       — O que foi, Francisco?

       O rapaz de origem alemã, cabelo quase branco e pele cor-de-rosa, descascada no nariz, respondeu o que não podia ser desconsiderado também como um aviso:

       — O coronel quer falar com o senhor. Ele está aqui por perto xeretando.

       O filho de Marau contraiu os lábios, irritado.

       O velho não aceitara muito bem que a decoração do escritório de advocacia do seu filho tivesse de esperar pela aquisição do registro da ordem dos advogados para funcionar. Exigira que ele retornasse o quanto antes à capital para providenciar o tal registro, fazendo a prova e, com certeza, sendo aprovado. Se não fosse a entrada intempestiva da polícia com a firme intenção de apreender a picape usada no primeiro atentado contra o delegado, na estrada vicinal, pouco antes da 163 e, seguido disso, a prisão e o assassinato do seu braço direito, o coronel não estaria tão atento aos passos de cada um na sua fazenda.

       Precisou esfriar a cabeça e aguardar alguns minutos no compartimento isolado dentro do pavilhão onde eram estocados os pesticidas.

       Sabia o que o seu pai queria. Respostas. Por que Vitorino fora preso? Quem o havia matado? Por que o delegado fora alvo de atentados? E por que o delegado tinha motivos para acreditar que a ordem partira da Coração de Ouro?

       Leonardo Marau não temia o seu pai de jeito nenhum. Não o temia porque sabia o que ele ainda “pretendia” saber. Por isso ajeitou o chapéu na cabeça e relançou um último olhar por sobre a sua mina de pó. Abriu e fechou todas as portas que separavam a vida bucólica da fazenda do submundo que o acolhera de braços abertos.

         

       O coronel Marau era um camarada das antigas, do tipo que colecionava certas crenças e ignorava tantas outras. Era preciso acreditar em alguma coisa na vida para poder seguir em frente, acreditar em alguém, acreditar na família, por exemplo. Bem, ele não apostava todas as suas fichas na filha, nos netos ou na inconveniente esposa; apostava, sim, hectares de terra no filho mais novo, seu filho homem. Leonardo Marau era a sua crença mais arraigada e o alvo de seu amor mais profundo.

       Ele catou do chão um punhado de capim, puxou-o da raiz como que com o gesto arrancasse cabelos de uma cabeça humana, com força, sangrando o couro. Observou o punhado verde na palma da mão. Nada justificava uma traição, uma mentira. O fruto não tinha o direito de envenenar a árvore. Ainda que o fruto fosse a razão vital da árvore aceitar a seiva singrando dentro de si, densa, essencial, como o amor de um pai pelo filho. O fruto não tinha o direito de macular a seiva para envenenar a árvore, apodrecer cada galho, minguar de vida o que nasceu para dominar o prado.

       Havia dois dias que o coronel refugiara-se em um quarto de hotel em Belo Quinto. A família pensava que ele estava na fazenda de Santa Fé. A família de fracassados que ele carregava nas costas. Precisara da reclusão para absorver o veneno, administrá-lo dentro do organismo a fim de fortalecê-lo em vez de matá-lo. A vontade de sucumbir era verdadeira ao ponto de levá-lo a um quarto de hotel depois de comprar raticida e depositá-lo sobre a mesa para ser usado antes de dormir, entre a oração e o fechar de olhos.

       O desgosto engrossara a saliva debaixo de sua língua e o seu corpo inteiro doía. Todo um amor desperdiçado. Anos de trabalho, dinheiro em vários bancos, negociatas e... Para quem deixaria o seu legado? Quem herdaria a sua terra?

       Olhou ao redor com os olhos embaçados. Um punhal entre as suas costelas, mal conseguia respirar. Um homem podia envelhecer e sedimentar a alma de calos que ainda assim era um merda iludido.

       Voltou-se ao ouvir passos atrás de si. Ele estava numa situação em que não podia dar às costas a quem quer que fosse.

       Viu o filho e, por um momento, olhou-o com carinho, um carinho profundo misturado com tristeza, talvez o mesmo sentimento, ainda que fugaz, desconcertante até, que o condenado à forca sente pelo seu algoz com o capuz. Então viu mais que um filho, viu um bebê que voltava da maternidade, uma criança que tentava caminhar e caía, que andava de bicicleta com rodinhas... Viu também que jamais o deixara cair uma segunda vez, o seu filho feito de ouro, a sua maior riqueza, o maior trunfo sobre o seu inimigo Thales Dolejal, que juntara da estrada o bastardo que tivera com uma prostituta. Viu o seu próprio filho sorrir ao encontrá-lo com um punhado de capim na mão, a terra deslizando-lhe pelos dedos, o torpor de um corpo sem ter porque se mexer. E o coronel tornou a ver o filho com olhos de pai e se sentiu pobre, o mais pobre de todos. Por mais que se esforçasse em acumular patrimônio e capital, jamais seria tão rico quanto Thales Dolejal, porque o bastardo que herdara os seus genes morrera por minutos para salvá-lo. Lealdade era o que dava base para o amor.

       Leonardo manteve o sorriso nos lábios ao se aproximar do pai. E o coronel perdeu anos de vida ao retribuir o sorriso, sabendo o que sabia. Engolindo a vontade de dizer que a faculdade de Direito era uma mentira, que o dinheiro enviado para a capital fora usado no Acre para a compra de entorpecentes e, se o delegado estivesse certo, assim como Thales Dolejal tinha um filho que não batia bem da cabeça mas que o amava acima de Deus, ele, Emílio Marau, tinha um filho traficante. E nada mais do que isso.

       Quando o coronel falou a voz saiu firme e baixa. Ele era um homem das antigas e resolvia os seus problemas de um jeito muito simples:

       — Eu devia ter deixado você cair mais vezes.

       O filho estreitou os olhos, intrigado.

       — O que foi, pai?

       O coronel fez um gesto com a cabeça para dois de seus pistoleiros, os mais velhos. Aproximaram-se como cobras ágeis para dar o bote, e cada um segurou um braço de Leonardo que, surpreso, não esboçou reação que não fosse a expressão interrogativa direta no progenitor.

       — O delegado me perguntou por que um traficante pé de chinelo da Vila Zumbi tinha telefonado para você pouco antes de morrer. Eu não soube responder. Você sabe, meu filho?

       Leonardo empalideceu.

       — O desgraçado estava blefando, pai, o filho da puta é pau-mandado do Dolejal. — argumentou.

       Dois camaradas segurando-o como se fosse um bandido pego em terras alheias. Ele sentia o suor gelado escorrer pela coluna.

       — Isso eu sei, mas o que me deixa encafifado é de onde ele tirou essa ideia, hein? — indagou, fingindo-se de sonso.

       Leonardo deixou-se ficar preso entre os pistoleiros. A reação partia do intelecto, do cérebro que corria a mil por hora deflagrando as respostas corretas.

       — Não conheço ninguém na Vila Zumbi, nem tive tempo de conhecer, pai. — ele suspirou pesadamente e completou, agora, num tom de quase pesar: — Não acredito que esteja desconfiando de mim. Não fui eu que me tornei viciado; foi o seu neto!

       — É, estou cercado por gente fraca mesmo. — considerou com amargura.— Se o delegado provar que o número do teu celular está registrado no telefone do defunto traficante, o que sugere que eu faça contigo, filho? — perguntou argutamente, sem esconder a dor.

       — Isso não vai acontecer, pai! O delegado está fazendo o jogo dele, nos pondo um contra o outro. É coisa do Dolejal, é armação dele. Nunca falei com traficante nenhum. — enfatizou, tentando não perder a linha.

       O coronel fitou o horizonte sentindo-se enojado de tudo. Dobrou o braço para trás e tirou da cintura, entre o cinto e a bombacha, a faca de cabo de madeira guardada dentro da bainha de couro. Voltou a sua atenção para a lâmina, pensativo, quase anestesiado depois de aguentar a overdose de decepção e infelicidade.

       — Precisamos dar um jeito nesse delegado, não é mesmo?

       Leonardo assentiu, os olhos cravados na faca.

       — Pelas vias legais não será possível, pai. — arriscou.

       O velho ergueu a cabeça e demonstrou o que lhe passava na alma.

       — Por quê?

       — O que alegaremos?

       — É você o advogado, não é?

       Ele queria que o filho assumisse o erro, pedisse perdão, inventasse uma justificativa qualquer, uma desculpa tola...

       Leonardo sorriu impondo-se uma segurança que estava longe de sentir.

       — Sim, meu pai, sou advogado, deixa comigo.

       O coronel aproximou a ponta da faca da bochecha esquerda do filho, descansando a lâmina sobre a pele nívea, quase junto à pálpebra inferior do olho claro e arregalado. O filete de suor deslizou pela têmpora e encontrou o aço inoxidável, umedecendo-o.

       Leonardo fechou os olhos ao sentir a lâmina rasgar a sua pele, a dor fina e aguda do corte. Segurou a respiração e tentou virar a cabeça para escapar.

       —Você tem de se redimir comigo, filho. — a voz grossa do coronel soou como um trovão.

       O homem que sempre lhe dera de tudo, agora cobrava.

       — Sou um bom filho. — murmurou.

       — Sim, um excelente filho, o melhor de todos. E eu sou o homem mais poderoso da região, sou o melhor de todos.

       — O senhor é o melhor pai que eu poderia ter.

       Eu te odeio, odeio, manipulador de merda! Vou tirar a tua fazenda, encher teus pavilhões de coca, pôr fogo nos teus grãos e te enterrar vivo.

       — Leonardo, quero que limpe qualquer vestígio de droga da minha fazenda! Não quero saber sobre essa sujeirada toda. Quero me manter longe dessa merda e só não vou te entregar para o delegado porque quero que faça ele desaparecer, entendeu? Se ele não desaparecer, terei de entregar você para a polícia. Não vejo alternativa. Você e o Vitorino fizeram muita merda às minhas costas.

       O coronel guardou a faca na bainha e deu o assunto por encerrado.

       Os pistoleiros soltaram o filho do coronel e receberam o olhar gelado dele. Postaram-se ao lado do patrão, sem deixarem de fitar o mais novo.

       — Eu já tentei matar duas vezes o delegado.

       — É mesmo? Então está faltando competência. Espero que tenha sucesso na terceira tentativa, pois terá apenas mais uma chance para acertar ele de jeito. — o tom era de ameaça.

       Leonardo procurou impor-se uma pose superior, natural, pôs os óculos escuros.

       — Os homens do Dolejal estão sempre por perto, isso também dificulta.

       — Não sabe pensar, meu filho? — perguntou o coronel, encarando-o com desdém. — Nada de emboscadas, ele escapa de todas, não é mesmo? Então simplesmente entra na casa dele e atira em quem ver pela frente.

       — É, parece bem simples. — debochou.

       — Os planos perfeitos são os mais simples. — retrucou o pai com um sorriso forçado. — Agora, vá com eles, precisam limpar a fazenda antes que a polícia faça isso por nós. — afirmou, fazendo um aceno com a cabeça para os pistoleiros.

       — Eu só queria aumentar o nosso poder na região, pai. — tentou se justificar com simulada humildade.

       — Claro, filho, aumentar o poder na região. — repetiu, sem fitá-lo.

       Leonardo foi escoltado pelos pistoleiros. Era fato que ele jamais mostraria o esconderijo da sua preciosa droga, da sua liberdade para todo o sempre. Levou-os onde guardava 15 tabletes de pasta de coca que, na manhã seguinte, seriam distribuídos em Belo Quinto. O problema era que os pistoleiros do seu pai não sabiam como tirar a droga da fazenda sem serem abordados pela polícia, que os vigiava para além da porteira e arames farpados que a cercavam. E, assim, a droga ficou na Coração de Ouro.

       À noite os mesmos pistoleiros foram com Leonardo para o descampado perto da pista de pouso desativada. Afirmaram que queriam se juntar a ele nesse novo empreendimento e o convenceram a levá-los até o local onde o Cessna aterrissara com o entorpecente vindo da Bolívia.

       O traficante que se passava por caubói, ainda que caubói de butique, não percebeu a manobra do seu velho pai. E foi lá mesmo, na pista de terra de chão batido, que ele foi espancado até desmaiar.

         

       Nova ajeitou o arranjo com margaridas miúdas no centro da mesa. Relançou um rápido olhar para o rapaz lendo o Jornal do Cerrado displicentemente sentado à mesa, ainda vestido com as roupas do trabalho. Franzia a testa concentrado na leitura, interessado em se manter a par dos eventos políticos e sociais da cidade. Franco tornara-se um leitor voraz, lia tudo que lhe era dado e, quando sem material, pedia indicações.

       Ele trouxera do restaurante lombo de porco assado, abacaxi caramelado e purê de maçã. Embalada em invólucros térmicos, dentro de sacolas de papelão personalizadas, o Arizona oferecia a melhor comida da região. A escolha do cardápio do jantar coubera a Nova que, com habilidade, investigara os gostos gastronômicos do sogro por meio de um rápido e eficiente interrogatório junto a Franco. Era incrível, ele sabia tudo sobre Thales Dolejal.

       Olhou mais uma vez para o marido e perguntou como quem não queria nada, descansando os talheres sobre a toalha de linho branco:

       ― Não vai tomar banho, amor lindo?

       Ela o viu sorrir sem desviar a atenção do jornal.

       ― Já lavei as mãos, dona.

       ― Não custa nada ficar bonitinho para o seu pai, é a primeira vez que ele vem jantar conosco.

       ― Bonitinho? ― perguntou num tom divertido, o jornal sendo abandonado sobre a mesa. ― Sou macho demais pra ficar “bonitinho”. Além disso, o patrão já me conhece, não preciso me enfeitar para ele, já consegui o emprego, Nova. ― brincou, levantando-se e deslizando a cadeira para debaixo da mesa.

       Chegando-se devagar até ela, como se movesse o corpo consciente de cada músculo que se definia debaixo da pele dourada, ele parou e puxou-a pela cintura, abraçando-a.

       ― Tenho ou não cheiro de macho?

       Delicioso.

       Ela bateu de leve no ombro dele, sorrindo.

       ― Só penso besteira quando me encosto em você.

      ― É?, que tipo de besteira, me diz. ― pediu com um sorrisinho malicioso.

       ― Prefiro não falar, acho que te assustaria. ― respondeu meio sem jeito.

       Ele se afastou o suficiente para poder encará-la nos olhos, direto e preciso. Ainda sorria ao perguntar:

       ― Olha bem com quem casou, senhora Dolejal.

       ― Sei, você não tem medo de nada e nada o assusta... bom, então... Ah, Franco, deixa pra lá.... Que mania irritante de me forçar a falar coisas que prefiro manter seguras dentro da cabeça.

       ― Não acredito que estamos casados, e você tem vergonha de falar sacanagem pra mim. ― afirmou de um jeito que misturava incredulidade com diversão. ― Pode falar tudo, Nova, sabe que gosto de escutar... O que é, hein? O que sente quando fica bem coladinha em mim, hã?

       Nova o encarou com uma seriedade que não combinava com a situação.

       ― Sinto vontade de cortá-lo em pedaços bem pequenos e depois engoli-lo todinho, cada parte de você. E, dentro de mim, te proteger de todos, não deixá-lo partir ou morrer jamais, ficar com você para sempre. Às vezes, porém, penso que o melhor seria retaliar o seu corpo inteiro e costurá-lo debaixo da minha pele, andar com você pela cidade, carregá-lo comigo até a minha morte.

       ― Jesus Cristo, Nova, que é isso? Está me assustando! ― exclamou, afastando-se dela e a olhando como se a visse pela primeira vez: ― Pensei que quisesse transar em público ou qualquer sacanagem barra pesada como... como... sei lá, transar enquanto dirijo, por exemplo... Mas isso!, porra, princesa, me comer de verdade!

       Ela juntou as mãos e estalou os dedos, num gesto de ansiedade, e disse quase num murmúrio:

       ― E não é só isso.

       Franco arou os cabelos com os dedos.

       ― Ai, ai, ai...

       ― Quando me abraça forte, me vem uma vontade quase incontrolável de entrar em você, atravessar a sua pele como um fantasma, sabe?, e me grudar entre as suas costelas, as minhas mãos apertando o seu coração para ajudá-lo a bater sempre forte... É, é isso que sinto quando enlouqueço um pouquinho sentindo o teu cheiro...Não sou totalmente certa da cabeça, Franco. Ninguém, é, viu?

       ― Aham, sei. ― ele coçou a nuca, confuso. ― Nunca senti essas coisas aí, não. Acho que sou um tipo de doido mais comum. ― em seguida, sorriu com ternura e tocou na bochecha dela: ― É por isso que quando te judio na cama você me morde todo?

       Ela escondeu o rosto com as mãos.

       ― Não fica assim, princesa, eu gosto, dói mas eu gosto. Casei com uma canibalzinha... ― completou rindo muito e puxando-a para si. ― Ei, olha pra mim, sou o homem ideal para ser comido.

       ― Para, Franco, não devia ter falado nada. Esse tipo de pensamento maluco a gente não fala, mas, é claro, você arranca confissões até dos mortos!― exclamou, resignada.

       ― Quer me comer, princesa?

       ― Pronto, agora vai debochar até o homem pisar na lua de novo.

       Ele a apertou entre os braços e beijou o topo de sua cabeça.

       ― Entendi o que falou, bobinha. Me assustou um pouco, você fala de um jeito tão sério. Mas sei que é outra coisa, que tem medo de me perder, de nos separarmos por algum motivo. Vou te dizer uma coisa, mas não é para parar de me morder, porque aprecio muito a sua violência na cama, ― disse, sorrindo de forma sedutora e emendou impondo-se seriedade: ― não tem de temer o que não vai acontecer, entendeu? Sei que é difícil acreditar que a vida nos dará trégua e viveremos um mar de rosas, como o Bronson fala... mar de rosas... que porra é essa não faço a mínima! Mas é verdade, a gente vai ainda levar muito nas guampas, princesa, e todos esses anos em que nós dois fomos rejeitados, de um jeito ou de outro, também pesarão na balança contra nós. É por isso que tem medo de me perder, porque já viveu essa perda quando foi rejeitada pelo doutor bunda mole e pelo seu ex-marido panaca. A Irene sempre diz que temos de olhar para frente, e ela entende das coisas. Outro dia, na fazenda, o Bronson me chamou e eu olhei pra trás, acabei pisando numa bosta recém-saída do forno. ― completou brincando e abraçando-a.

       ― Meu Deus do céu!, você é tão doce, Franco. ― ela sussurrou, emocionada, enfiando o nariz na camiseta dele.

       Ele riu baixinho.

       ― Bonitinho e doce...Que tal me chamar de loirinha linda, hein?

       O ronco suave da Silverado quebrou o encanto. Imediatamente os músculos de Franco se retesaram. No fundo, ele acreditava que o pai não apareceria para o jantar. Na última hora ele daria um desculpa qualquer para se ausentar. A vida não dava trégua mesmo, pensou, desvencilhando-se da mulher e preparando-se para o enfrentamento.

       Ela o seguiu, um dedo enfiado no cós do jeans dele, a curiosidade arregalando os seus olhos. Estava tensa, como sempre ficava diante do pai do seu marido, do patrão do homem que amava, do fazendeiro que mandava outros homens matar por ele.

       Ao abrir a porta e encontrá-lo saindo da picape, depois de determinar a Virgínia que voltasse com os demais pistoleiros para a Arco Verde, Franco já não sabia mais o que sentia recebendo à mesa, à mesa de sua casa, aquele que o rejeitara e o protegera na mesma medida. Observou a camionete com os pistoleiros se distanciarem até alcançar a rodovia federal e concentrou sua atenção, inclusive estreitando os olhos, na figura alta e imponente que caminhava sem pressa, com um leve sorriso nos lábios.

       Thales trazia uma pequena cesta de vime com laços lilases, um objeto um tanto feminino que contrastava com a roupa formal, a camisa azul-escura enfiada na calça jeans preta que escondia as botas de dois mil reais. O cabelo curto, ainda úmido, deixava à mostra o rosto escanhoado, a aparência de homem limpo, de quem parecia sempre acabar de sair do banho.

       Parou à entrada da casa e entregou a cesta ao filho. Antes, contudo, retirou um delicado buquê de rosas brancas e o entregou à nora.

       ―A Irene pediu para que entregasse esses doces para vocês. ― comentou com um esboço de sorriso e acrescentou sem modéstia: ― Mas as flores são minhas, Nova Dolejal.

       Ela não deixou de perceber a ênfase no sobrenome. Seria algum tipo de aviso? Uma antecipação do que ocorreria mais tarde? Fora ele, o sogro, que se convidara para o jantar. E nada que Thales fizesse fugia de uma programação objetiva. Era isso que deixava o marido tenso e vigilante.

       Tomou o buquê nas mãos e instintivamente o cheirou.

       ― Obrigada, senhor Dolejal. ― agradeceu com um sorriso leve, percebendo que ele alçava as sobrancelhas como se ela tivesse cometido algum lapso. E cometera. ― Oh, desculpa... Thales.

       Sentia-se estranha ao chamar o homem que um dia fora o seu chefe pelo primeiro nome. Mas era assim que ele determinara.

       Ele se voltou para o filho e pôs uma mão sobre seu ombro.

       ― Sua esposa passa o dia inteiro sozinha, aqui, no meio do mato, é mais seguro para os dois que morem na Arco Verde. ― afirmou com serenidade.

       Franco relançou um olhar avaliativo para Nova, deu de ombros e respondeu:

       ― Estamos bem, patrão.

       Thales não aceitava muito bem ser contrariado.

       ― Até a poeira assentar prefiro tê-los por perto.

       ― Poeira? ― Nova interrompeu, desconfiada.

       Falavam sobre Everaldo?

      Franco pôs as mãos nos bolsos do jeans e balançou a cabeça como que, com tal gesto, espantasse a importância da questão:

       ― Daqui a alguns dias, tudo estará terminado e a cidade limpa. Poderemos permanecer aqui, o quarto da Paola já está montado, não quero mais nenhuma mudança.

       Nova percebeu que o marido já demonstrava os primeiros sinais de filho, ou seja, começava a fazer birra. Interferiu na conversa, convidando o sogro para acompanhá-la até a cozinha. Ele pareceu aliviado pela sua interferência, esboçou um sorriso e deu às costas a Franco, que os seguiu com o cenho franzido, a expressão facial de quem aceitava ficar em segundo plano, ainda que contrariado.

       ― Nós terminamos ontem de decorar o quarto do bebê. ― começou Nova, indicando a cadeira na extremidade da mesa e emendando: ― Se o senhor... ah, desculpa, mas é tão difícil chamá-lo pelo nome.

       Thales sorriu, mas não se sentou na cadeira. Olhou ao redor e perguntou com interesse:

       ― Onde é o quarto do meu neto?

       ― Vou levá-lo até lá. ― providenciou Nova, satisfeita com o interesse de Thales.

       De longe, Franco acompanhava com as pálpebras semicerradas a movimentação do pai por sua casa, via-o analisando os móveis e objetos de decoração, avaliando a pintura nas paredes sem deixar de perceber as estrias do mofo no teto de alvenaria e, em passadas largas e lentas, avançava sobre o terreno que pertencia ao dono de uma agropecuária no centro da cidade. Era uma casinha de tijolo à vista, com quintal e árvores frutíferas à beira do Rio Verde. O aluguel era alto e a construção exigia manutenção que o proprietário pouco se importava em oferecer.

       O olhar crítico do latifundiário somente se suavizou ao parar diante da porta aberta do quarto infantil. Cortinas, berço, sofá e almofadas, tudo cor-de-rosa.

       Ele se voltou para Nova com a pergunta nos olhos, e coube a ela informá-lo:

       ― O Franco gosta de cor-de-rosa.

       O pai da criança, que se aproximava ainda emburrado, corrigiu-a:

       ― “Meninas” gostam de cor-de-rosa.

       Thales o encarou por um ou dois minutos.

       ― É um daqueles seus pressentimentos que nunca falham? ― ao vê-lo assentir, completou com interesse: ― O que mais pressente?

       Franco ponderou se deveria entrar naquela conversa. Era verdade que o patrão sabia sobre algumas de suas esquisitices desde que voltara do mundo dos mortos.

       ― Que terei três filhas. ― afirmou com serenidade.

       Mas não era aconselhável expor mais do que o necessário.

       Nova sorriu encantada.

       ― Terá comigo?

       Franco a olhou entre aturdido e zangado:

       ― E com quem mais seria? Com o Bronson?

       ― E você nunca erra?

       Thales respondeu pelo filho:

       ― Nunca errou. Acho que quando o coração do Franco parou de bater por alguns minutos, o seu cérebro acionou alguma área que desconhecemos. ― emendou, em seguida, dando de ombros: ― O que mais posso dizer?, que os mortos lhe deram o poder de enxergar para além da realidade?

       ― E me deram. Não tem nada estranho com o meu cérebro. ― resmungou Franco, completando com o olhar direto e atrevido no pai: ― E um menino. Teremos outro diabinho loiro na família Dolejal, patrão. Não sei se pretende juntar mais um desgraçado da estrada ou se encontrará outro bastardo que teve com suas acompanhantes de viagem, mas a verdade é que pressinto a chegada de um irmãozinho.

       A tranquilidade do fazendeiro não se alterou ao manter seus olhos na feição sorridente do filho, um sorriso sarcástico que o convidava a um leve embate, nada grave, apenas para polir as armaduras que, dia após dia, entre eles, perdia o metal da proteção. Estavam quase nus, pai e filho, tateando no escuro à procura do encontro.

       ― Não é de hoje que tenho o hábito de proteger os perdidos e os azarados; às vezes, cachorros com sarna e fome, outras vezes, pessoas desempregadas ou crianças abandonadas à própria sorte. Por isso acredito na sua previsão, Franco, e até gosto. Sinto falta de ter uma criança correndo pela fazenda, seguindo os pistoleiros e me imitando como se eu fosse o seu ídolo. ― havia um pingo de tristeza na sentença acrescida por um longo olhar interrogativo que implicitamente o inquiria: não sou mais o seu ídolo?

       Ele foi à raiz do drama, escavando com as mãos e retirando os entulhos que atrapalhavam a visão.

       Para Nova, aquilo era a mais clara e bonita declaração de amor. Thales acompanhara a vida de Franco na sua fazenda, observara-o de longe, educara-o como um pai mesmo no papel de patrão e agora também como um pai vivia a síndrome do ninho vazio e exibia os traços característicos do ressentimento típico dessa fase.

       Franco não conseguiu manter o sorriso nem o prazer do desafio. Aceitou o que ele disse como um golpe no estômago, o punho fechado, e teve de se encurvar para recebê-lo. Momentos como aquele eram únicos, ele o sabia.

       ― Você terá a chance de repetir essa experiência, é só substituir uma criança por outra. Mas fico pensando em como uma criança revive a experiência de ter um pai, depois que não é mais criança.

       A mágoa de Franco era visível em seus olhos úmidos.

       ― Se não é mais criança, não deve agir como tal. ― repreendeu-o com firmeza, mas sem deixar de usar um tom terno. ― Nunca escondi a sua importância para mim. O que quer mais?

       ― Nada, patrão. ― respondeu Franco, baixando a cabeça, constrangido pela repreensão.

       ― “Nada, patrão”?

       ― Sim, o senhor é o meu patrão.  ― afirmou o filho, entredentes.

       Thales riu um riso áspero e descrente

       ― Você é um Dolejal dos pés à cabeça, cheio de orgulho, ressentimento e raiva. ― virando-se para a nora, emendou: ― Já antecipo que precisará de muita paciência para criar o seu filho, aconselho-a a não mimá-lo como fiz com o meu.

       Ela relançou um olhar para o marido, que mantinha a cabeça baixa e os lábios constritos. Era a posição de obediência de um empregado, e não a de respeito de um filho.  Aquela relação afetiva era por demais confusa, mas não se podia negar a intensidade de todos os seus sentimentos.

       Afagou o ventre com carinho e sorriu, dizendo, em seguida, ao mais velho:

       ― Dentro do possível e de suas limitações emocionais, Thales, você criou e educou uma pessoa maravilhosa. O Franco é justo, leal e um marido perfeito, só tenho que agradecer a você por isso, muito obrigada.

       Pegou-os de surpresa, como bem reparou.

       Franco ergueu o rosto com um sorriso gentil, o reconhecimento de um elogio como o reconhecimento de uma missão cumprida. Determinado que estava em ser o melhor de todos para Nova, ouvi-la ratificar a sua intenção punha aquele sorriso no seu rosto.

       Thales meneou levemente a cabeça, tinha um ar divertido na expressão que se abria e o rejuvenescia anos.

       ― Obrigado, Nova. ― voltando-se para o filho, completou com suavidade: ― Talvez a minha parte na sua vida tenha sido a de te ensinar a se proteger sozinho e, inclusive, a se proteger de mim. ― deu de ombros e acrescentou um breve sorriso antes de afirmar, encarando-o nos olhos, sem desviar: ― Eu sempre soube que você me superaria, Franco. E é assim que tem de ser, porque foi criado para ser o melhor.

       Franco engoliu em seco, atônito. Para aonde ele estava indo? Que caminho, estratégia nova era aquela?

       Thales repetiu o gesto que costumava fazer quando precisava monopolizar a atenção do seu ex-segurança, pôs as mãos sobre os ombros de Franco e entrou na sua mente. Viu a si mesmo no olhar que misturava ansiedade e aturdimento e muito de esperança, aquele tipo de esperança que somente os mais desiludidos a possuíam. Era ele aquele olhar. Era ele aquele menino de 22 anos. Era dele aquele filho.

       ― O que se diz a alguém que se pôs no mundo quando descobre que o ama depois de ter planejado tirá-lo de sua vida? ― indagou com a voz baixa e serena.

       O silêncio que se seguiu pesou sobre eles. Apenas se ouviam os bichos lá fora, no meio do mato, agitados debaixo da lua.

       Discretamente, Nova saiu do quarto, o coração acelerado, as lágrimas borrando a maquiagem.

       A encomenda de seu assassinato nunca fora conversada, assim como o motivo que o levara a dormir com a mulher do seu pai. Franco considerou que, no final das contas, eles estavam quites.

       E ainda juntos.

       Ele refletiu sobre a pergunta por um tempo, separando cada sentimento como quando Nova separava os feijões bons dos bichados sobre a mesa da cozinha. Não queria que os sentimentos bichados estragassem o momento. Diante de si, a segunda pessoa que mais amava no mundo. E precisara de dez anos para conquistá-la.

       Tudo o que vinha de Franco era intenso e imprevisível. Ainda assim, Thales permaneceu imóvel, as mãos pousadas de forma possessiva sobre o ser que desafiava o monstro adormecido de sua alma com a dedicação de um revolucionário xiita, cego de amor pela causa, louco de dor por acreditar não ser correspondido.

       ―Todos nós cometemos erros, patrão. ― respondeu por fim, mal conseguindo extrair da garganta a voz.

       Thales retesou os maxilares.

       ― Olha para mim, Franco. ― ordenou, sério.

       Franco obedeceu-lhe e permaneceu à espera.

       ― O que diria ao seu filho?

       ― Não sei, patrão.

       ― Olha para mim, eu mandei!

       ― Estou olhando! Estou olhando, porra!

       Thales sacudiu-o pelos ombros com raiva:

       ― O que quer de mim, Franco? Por que você e a Karen nunca estão satisfeitos?

       ― Não sei, patrão. ― retrucou quase num sussurro.

       Enraivecido, Thales se desvencilhou do filho. Olhava-o com desprezo, contaminado pela impotência da não compreensão de todas as regras, alguém roubava no jogo, como sempre, alguém não dava a cara à tapa.

       ― O que VOCÊ quer de mim? Que eu me ponha de joelhos? Que eu arranque o meu coração e te dê? ― gritou Franco, descontrolado, vertendo lágrimas.

       Arou o cabelo com os dedos num gesto que revelava todo o seu nervosismo, a carga emocional que o enchia de energia; porém, naquele instante, aniquilava-o ao ponto de esmagá-lo contra o chão. Caiu de joelhos e escondeu o rosto com as mãos, chorando, os ombros se sacudiam em espasmos convulsos.

       O seu mundo sempre fora capenga; depois, Nova o consertou. E agora o pai voltava de uma longa viagem e trazia bombons nos bolsos. Chocolate não sustentava edificações.

       Thales detestava boa parte da humanidade...

       Ajoelhou-se diante do filho e admirou a beleza de um choro profundo. Tinha o poder de terminar com aquela dor em segundos. Qualquer gesto ou palavra. Contudo, preferiu somente olhar para o filho chorando como uma criança, uma criança largada no acostamento de uma rodovia. E foi apenas quando a criança ergueu os olhos molhados e avermelhados para ele, que se permitiu abandonar a contemplação do belo e agir, destruir uma situação para construir outra.

       Sorriu um sorriso de pai.

       ― Odeio quando me chama de patrão. Acho que assumir um filho não é apenas registrá-lo ou torná-lo o seu herdeiro, não é mesmo? ― indagou, a voz quase sumida. ― Assumir um filho é assumir a sua própria imortalidade, apesar de que pouco me importo com isso. O que me importa mesmo é saber se você me entende, se você entende que eu sou o seu pai, que você é o meu único filho e que amo você. O que acha disso tudo, Franco?

       Franco limpou as lágrimas com o dorso da mão e fungou. Sentia-se exaurido emocionalmente e, ao mesmo tempo, pleno e exultante. Não sabia o que falar. Não sabia como falar. Tanta vontade de poder amá-lo. Ficou imóvel, paralisado.

       Thales detestava boa parte da humanidade e a outra parte, nascera para proteger e cuidar.

       Puxou o filho para si, o braço enganchando-o pela nuca. Trouxe-o contra o seu peito, a fortaleza que recebia o jovem guerreiro de volta ao lar. Abraçou-o com força para que ele sentisse que jamais seria abandonado e que essa mesma força ele também a tinha no coração e nos genes.

       Franco tinha tanta fome daquele gesto, anos subnutrido ansiando o alimento, perto e longe de sua boca. Seus braços não acreditavam que aprisionavam em seu arco o corpo de sua origem e destino. Abraçou o pai e chorou, molhando a camisa dele.

       ― Desculpa. ― disse baixinho.

       Thales balançou a cabeça, sorrindo, e bagunçou desajeitadamente o cabelo do filho.

       Ninguém jamais separaria os Dolejal.

         

       Durante a estação chuvosa, à noite, o céu de Matarana era vibrante e profundo. Pontinhos brilhantes minavam o tecido de seda negro, tingindo a cidade de uma luminosidade diferente das luzes artificiais das casas e postes públicos. Vez ou outra era possível encontrar uma coruja sobre um muro ou torcendo e retorcendo seu pescoço no gramado de uma casa. Excluindo os humanos, tudo inspirava a paz naquela cidadezinha.

       Karen sorriu consigo mesma ao perceber que um par de olhinhos escuros, separados por um focinho longo e estreito, fitava à frente com bastante atenção, as orelhas apontadas em alerta, a postura rígida e imponente sentada entre ela e Rodrigo, que dirigia a picape. Bonnie se recuperara do tiro; mancava ligeiramente, mas nada que lhe tirasse a mobilidade. Mudança maior ocorrera por parte do seu dono e fiel parceiro. Rodrigo não a levava mais consigo para as diligências ou à delegacia. Todo o zelo e dedicação que dispensava ao seu bichinho de estimação ganharam, após o atentado, ares de excessiva proteção. A cadela dobermann agora se tornara um cãozinho doméstico que se refestelava à sombra das árvores e zanzava de um lado para outro tão-somente nos limites do pátio de casa, sem coleira.

       Esticou o braço para mudar de estação de rádio e esse movimento foi o suficiente para chamar a atenção de Bonnie. Abrindo e fechando a boca como se bocejasse, ela virou a cabeça em direção a Karen. Parecia que perguntava: “por acaso tem permissão para fuçar no que não é seu?’’ Karen, por sua vez, preferiu acariciar o pelo negro e sedoso da cadela e verificar a cicatrização do tiro acima da coxa. Estava tudo bem. Bichinho e dono se recuperando plenamente dos respectivos tiros. Pelo menos, do ponto de vista físico.

       ― Ah, não, mãe, nada de música de caipira, ― reclamou Johnny, no banco detrás, abaixando o livro que lia e entregando-lhe um CD, ― põe um som de verdade.

       Rodrigo riu e relanceou um olhar divertido, pelo retrovisor, para o enteado.

       Bonnie lambeu-se e virou a cabeça para o seu ídolo, lançando-lhe um longo olhar pedinte. Ela era por demais ciumenta, considerou Karen, ajeitando o CD no aparelho e pondo The  Turtles a rodar So  Happy  Together.

       Como o motorista não era insensível aos sentimentos alheios, puxou a cabeça da cadela para contra o seu peito, beijando-a no topo. A imensa dobermann derreteu-se toda com o carinho, dobrou as patas e deixou-se escorregar para as pernas do dono. Como era encorpada ficou praticamente empacada entre o peito de Rodrigo e o volante da picape, obstruindo parcialmente sua visão da rua.

       Karen puxou Bonnie com jeitinho. As duas tentavam estabelecer uma boa relação; a bem da verdade, apenas a namorada do delegado. A sua amiga de quatro patas não fazia concessões quanto ao amor de sua vida. Assim, bastava um belo rosnado para pôr a mulher que também usava chapéu de caubói no seu devido lugar. Por respeito ou medo, Karen não se metia com Bonnie e a última, cheia de si, se tornava dia após dia mais espaçosa.

       ― Não acha que é meio perigoso nos expormos em público? ― ela considerou, prestando atenção na expressão facial do delegado que sempre era bastante reveladora.

       Era uma boa questão aquela. O delegado havia convidado a família para um passeio no centro, tomarem um sorvete, se refrescarem e curtirem a noite como qualquer família normal. Ele forçava uma normalidade longe do que lhes acontecera havia pouco tempo. Era verdade que o principal suspeito dos atentados fora assassinado dentro da delegacia, embora Vitorino tenha sido mero executor de um plano elaborado por alguém mais importante e, infelizmente, vivo e livre pela cidade.

       Tentou sorrir para imprimir ao gesto leveza. Tencionava amenizar a conotação dramática da situação.

       ― Temos de seguir com nossas vidas, Karen.  Quando o Vitorino foi morto, percebi que os Marau pisaram no freio, talvez tentem outra manobra, mas ainda é cedo. Além disso, daqui a dois dias fecharemos o cerco na Vila Zumbi, enquanto uma força-tarefa do Ministério do Trabalho com a Polícia Federal inspeciona as fazendas menores do coronel. Com uma cajadada só daremos fim ao tráfico de óxi e ao trabalho escravo.

       Ela notou o quanto ele estava confiante no sucesso da empreitada. Atingiriam o coronel Marau por todos os flancos.

       Será que a polícia também sabia sobre a invasão dos pistoleiros da Arco Verde? Era provável que não. Um tipo de ofensiva que jamais teria a conivência do delegado. O que Thales queria com a Coração de Ouro? E o que faria invadindo uma propriedade privada? A intenção era a de matar o coronel? Não, não era essa.

       ― E quanto a Coração de Ouro? ― perguntou, vendo-o manobrar para estacionar diante da sorveteria com mesinhas brancas na calçada e no seu interior envidraçado.

       Ele girou a chave na ignição desligando o motor da camionete. Alçou uma sobrancelha demonstrando com o ricto o aturdimento quanto à pergunta. Virou-se para a namorada com um esboço de sorriso meio debochado:

       ― É um tanto curioso mencionar a Coração de Ouro, Karen, mas acho que essa fazenda não é do interesse nem da polícia nem de qualquer órgão do governo. Entretanto, ― ele fez uma breve pausa desferindo-lhe um olhar penetrante: ― é do interesse do Dolejal, não é mesmo? Aliás, eu soube também que ele está comprando briga com o coronel Rodrigues e isso significa que quer se tornar de fato o dono de tudo, o rei do cerrado.

       Karen sorriu sem jeito.

       ― Bem, ele sempre fez propaganda de ser o segundo homem mais rico da região, ainda que fosse o primeiro. Acho que já está na hora de acabarmos com esses coronéis todos e aceitarmos os novos tempos, e é o que os Dolejal significam.

       ― Até pouco tempo você era capaz de atirar na cabeça do Thales. ― comentou com franqueza, ainda mantendo um sorriso preguiçoso nos lábios. ― E agora o defende como se ele fosse Bruce Wayne e Matarana uma Gotham City da vida.

       Johnny gargalhou no banco detrás, e Bonnie ocupou-se em quase quebrar o pescoço para ver o que acontecia com o guri.

       ― Todo mundo quer se sentir protegido, Rodrigo.

       Não foi da boca de Karen que a afirmação partiu. O tom era casual e até brincalhão, Johnny também vivia no mesmo mundo que os adultos.

       Rodrigo obrigou-se a relevar o assunto, ainda mais que a participação do enteado como defensor de Thales não lhe caía bem no estômago.

       Saiu da picape aguardando que Bonnie fizesse o mesmo. Depois circundou a camionete e abriu a porta do passageiro enquanto via Johnny descer com um sorrisinho divertido nos lábios. Ele tinha a personalidade da mãe, porém com a leveza e o bom humor típicos da idade.

       Quando bateu a porta atrás da namorada, aproveitou para puxá-la pela cintura e apertá-la entre os seus braços. Foi recebido com o calor de um corpo forte e preparado para amá-lo todas as noites. Ele não se cansava de ajeitar a mecha revolta do seu cabelo para detrás da orelha, cheirá-la na dobra do pescoço, trazê-la para perto de si, grudá-la feito velcro na sua camisa, o calor de um corpo alcançando o outro, os poros se enchendo da umidade de cada um sem distingui-los, sem separá-los.

       Afastou o suficiente para sorrir e acrescentar ao sorriso a sentença fria e direta:

       ― Não quero mais que vá à Arco Verde sem mim.

       Karen tentou manter a expressão de encanto e apaixonamento no rosto, ainda estava meio tocada pela delicadeza do namorado, os seus carinhos de seda e a sua masculinidade de macho alfa que tirava seus pés do chão. Por isso sentiu como se tivesse enfiado o dedo numa tomada de 220 volts.

       ― Quê?! Não entendi. ― só conseguiu balbuciar.

       Qual fora a última vez que um homem determinara as pisadas de suas botas?

       ― Preciso repetir? ― ele não sorria mais e o seu tom também deixara de ser gentil. ― Quando foi morar comigo tomou uma decisão, não acho que pega bem essa história de livre acesso à fazenda do teu ex e, antes que pense que sou moralista, acho que não pega bem é para mim, que sou o seu homem agora.

       ― Por acaso está tentando me pôr o cabresto?

       Ele estreitou os olhos perigosamente, visto que o lampejo de sarcasmo na pergunta irritava-o sobremaneira:

       ― Parece que a única linguagem que você conhece é a da imposição, e eu não sou como o Thales que te deixava livre pelo prado, comigo a conversa é bem outra, madame.

       Karen levantou o queixo com altivez, incapaz de acreditar que Rodrigo tentava se impor a ela.

       ― Não devia falar nesses termos comigo.

       ― É mesmo? O que vai fazer? Correr para Arco Verde pedir emprego? Qual será a próxima desculpa que usará para rever o teu ex-amante?

       Um nó bem apertado na garganta e na boca do estômago, era o que ela sentia ao vê-lo zangado, falando baixo, tão baixo que parecia soquear as palavras entre os dentes.

       ― Fui para falar com o Franco.

       ― Eu sei, foi ele mesmo que me contou sobre sua visita intempestiva. Saiba que mais um pobre coitado foi demitido por sua causa... ― ele arou o cabelo num gesto que denunciava sua tentativa de restabelecer seu autocontrole. ― Sabe, Karen, o poder que tem sobre o Thales ainda vai destruir outras pessoas.

       ― Não tenho culpa, ele é viciado em destruição, não posso fazer nada. ― justificou-se nervosa. ― Sinto muito pelo velhote da guarita. Que merda!Posso falar com o...

       ― Não, chega de falar com o Thales! Será que não entende? Antes sentia um ódio mortal e agora é a sua mais forte aliada. Será que não percebe que de um jeito ou de outro você arranja um modo de se ligar a ele?

       Johnny se enfiou entre os dois, de costas para a mãe e olhando diretamente para o padrasto, sério.

       ― A gente não veio se divertir? Se é para bancar o xerifão em tempo integral, eu e a mãe vamos assaltar um banco e aí, sim, será divertido.

       Rodrigo suspirou resignado, fitou as próprias botas e retornou o olhar ao garoto. Bagunçou o cabelo dele com um sorriso sem graça.

       ― Tem toda a razão, Johnny. ― voltando-se para Karen, pegou sua mão entrelaçando os dedos e melou a voz já arrastada e sedutora: ― É verdade, a gente veio se divertir, meu amor. Percebeu a ênfase no “meu”, né? ― brincou, piscando o olho com charme.

       Ela ainda não estava certa se deveria baixar a guarda e aceitar aquela mudança de atitude tão rápida e influenciada pela intervenção do filho. Rodrigo era doido por Johnny e fazia de tudo para desempenhar o papel de pai, assim como o fazia com a sobrinha. Ele interrompera a conversa que os levariam a uma boa briga. Contudo, evitara ir mais longe por causa do enteado e da sua imagem diante dele. O assunto estava no ar, respirava junto com os dois, e o assunto ainda era Thales Dolejal.

       Ao afastar a cadeira para Karen sentar, ele roçou os lábios em seu cabelo e confiscou-lhe brevemente o lóbulo da orelha entre os dentes. Em seguida, sentou-se diante dela, a aba do chapéu meio abaixada mostrava parte de seus olhos cor de mel e expunha os maxilares retesados com pontos da barba de um dia.

       Ela não sorriu o resto da noite, tampouco foi indelicada ou rabugenta. Conversou com o filho sobre as provas finais e a perspectiva de ingressar no último ano do ensino médio aos 16 anos. “Grande bosta, mãe”, comentara Johnny sem muito interesse e dando fim no seu sundae com calda de caramelo. Para Rodrigo ela endereçou palavras amenas e floridas, sem cores vibrantes, o suficiente para agradá-lo na medida certa. Não queria se meter em outra discussão e estragar a noite de Johnny. Em breve começaria a famigerada terapia de casal proposta pelo namorado. Aliás, como Karen reparou, não fora proposta por Rodrigo; fora, isso sim, imposta por ele.

       Fitou-o fundo nos olhos. Ele aceitou o convite para ser investigado, interrogado em silêncio. O rosto bonito, a postura autoconfiante e tranquila, a boca num sorriso que transmitia calor e desafio. Como jamais percebera essa característica que a cada dia despontava dominante na personalidade dele? O que a fizera fechar os olhos para isso? O amor profundo? O desejo sexual intenso? O carisma à prova de balas? Rodrigo Malverde era mandão, um legítimo e enervante mandão.

       Engoliu o creme gelado sem desviar seus olhos dos dele, que aguardavam uma decisão.

       Karen desacreditou em si mesma. O que estava acontecendo com ela? Tantas vezes batera de frente com os homens e agora fugia da briga como uma covarde... Ou como alguém que tinha muito a perder.

       Sorriu para o seu namorado, e ele retribuiu o gesto, um sorriso calmo de quem já sabia que ela decidira nunca mais entrar na Arco Verde sem ele.

       Ao chegar em casa, ela abriu o registro do chuveiro, o jato de água morna caía fazendo barulho contra o piso azulejado,  digitou no celular os números que sabia de cor. 

       A voz do outro lado da linha era baixa e distraída.

       ― Hmm, fala!

       ― Você precisa saber que daqui a dois dias a polícia estará bastante ocupada na Vila Zumbi, sugiro então que aproveitem a oportunidade.

       ― Preciso agradecer? ― a pergunta foi feita num resmungo.

       ― Não, não precisa, só quero que ele saiba que a minha lealdade é para sempre. Pode dizer isso a ele, Franco?

       ― Ele está aqui na minha frente agora, posso passar o telefone e...

       Karen desligou.

         

       Franco depositou o celular sobre a mesa, avaliando criticamente a informação recebida, uma valiosa informação, por sinal. Sentiu o olhar do pai sobre si à espera que revelasse o teor da conversa com Karen.

       ― Era ela, não era? ― Thales perguntou, a serenidade de quem dominava alguns signos do universo.

       ― Pois é, nada como uma ajudinha dos amigos. ― disse Franco dando de ombros; depois, sorveu a cerveja e passou o recado adiante: ― Ela mandou dizer também que sempre será leal ao senhor.

       Thales levou à boca o garfo com o purê de maçã, degustando-o sem pressa, entretido na vazão profunda de seus pensamentos. Cortou uma lâmina fina do lombo de porco no seu prato cobrindo-o com uma fatia de abacaxi caramelado, pedaços pequenos e o gesto quase de enfado ao ter o talher e a comida sobre a língua. Tinha a doçura e a acidez na boca. E eram esses os sabores dos sentimentos que alcançavam mas não atingiam Karen Lisboa.

       ― Ela só é leal a si mesma. ― comentou o fazendeiro como se pensasse alto.

       Nova e Franco se entreolharam.

       ― O que pretendem fazer na Coração de Ouro? ― perguntou ansiosa a mulher de Franco.

       E foi ele próprio que respondeu, depois de limpar a boca no guardanapo.

       ― Ah, a gente vai dar um susto no coronel, só isso. Vamos apenas mostrar o nosso... digamos, poder de fogo, princesa. Ele não pode achar que atirando contra o nosso delegado não vai também levar chumbo na bunda. ― completou, rindo bem feliz da vida.

       ― Meu Deus, Franco, o assunto é sério! Aquela fazenda é minada de pistoleiros armados, e eles com certeza vão revidar.

       ― Quarenta contra quinze, Nova, o coronel está frito.

       Nova voltou sua atenção ao membro mais velho da família.

       ― Invadir uma propriedade privada é crime.

       Thales ergueu o cálice com o vinho branco gelado e sorveu-o sem esboçar reação. Ao terminar com a última gota da bebida, procurou acalmar a nora exalando a própria calma ao falar:

       ― Não será uma invasão. Vamos apenas entrar na Coração de Ouro. Para falar a verdade, eu devo uma visita ao coronel, não é mesmo, Franco?

       Os Dolejal trocaram olhares cúmplices e maldosos, e Nova sentiu um fio gelado percorrer-lhe a coluna.

       ― É, pai, uma visitinha.

       Eles eram iguais, Nova não pôde deixar de notar.

       Mordeu o lábio inferior, indecisa. Queria entrar em um determinado assunto com a mesma coragem que eles entrariam na Coração de Ouro. Confrontar o marido era uma atitude arriscada, Franco oscilava emocionalmente entre os extremos. Por outro lado, enfrentar um homem maduro, experiente, que controlava com habilidade as emoções parecia ainda menos indicado. Ela era agora a garota da família, a única mulher Dolejal, e precisava tirar proveito dessa situação, e não pô-los contra si, na defensiva.

       O problema era que a voz continuava a sussurrar ao ouvido...

       ― Por que o Bronson apareceu no cinema?

       Ela olhou para Franco sem piscar, o coração acelerado, o sangue subindo ao rosto. Esperou que ele a fuzilasse com o olhar, não sabia por que reagiria assim, mas foi tudo o que ela esperou dele. Mas Franco apenas parou de mastigar e ficou fitando o vazio a sua frente, imóvel.

       Coube a Thales interferir com secura:

       ― Você é uma Dolejal, senhorita Monteiro?

       A pergunta dúbia desarmou-a.

       ― Minha família é a Dolejal. ― afirmou com convicção, observando de esguelha a estranha imobilidade do marido.

       Franco gemia por dentro um gemido de aflição. Agulhas em sua pele não doíam tanto quanto a possibilidade de Nova saber o que havia acontecido no banheiro do cinema. Ele seria abandonado mais uma vez.

       Thales ajeitou-se confortavelmente na cadeira e se permitiu um sorriso, mirando com atenção a expressão ansiosa da mulher à sua frente:

       ― Antes de vir para cá, vi a sua filha. É emocionante ver uma criança se formar, um ser humano se desenvolver para poder enfim nascer nessa terra que herdamos dos nossos pais. A filha do meu único filho, o meu herdeiro. Quero o melhor para os meus netos, cuidar do futuro deles e limpar a cidade de toda a maldade. A maior riqueza que alguém pode deixar aos seus é oferecer proteção e conforto, um lugar bom para se viver, um lugar sem criminosos, um lugar limpo. Claro que para se fazer uma boa faxina temos de eventualmente sujar as mãos, não é mesmo, Nova? Talvez você não me entenda, já que nunca deve ter feito uma faxina na vida, mas outros devem tê-la feito por você. Alguém sujou feio as mãos para livrá-la de todo o mal, para que você também não se sujasse ou pior que isso...morresse. ― ele descansou os antebraços sobre a mesa e avançou parte do corpo de forma ameaçadora: ― Para ser uma legítima Dolejal é preciso amar de forma incondicional na limpeza e na sujeira, no certo e no errado, até que a morte dos nossos inimigos nos separe deles, amém. Entendeu, Nova? ― indagou por fim com sutileza.

       Em nenhum momento ele deixou de encará-la com um desafio seco e bruto nos olhos, olhos de predador, olhos de quem recolhe almas pelo caminho.

       Ela sentiu medo, desde sempre sentira medo dele. A confissão de seus crimes. Uma família de criminosos. Ela amava um criminoso, Franco talvez até fosse um assassino frio e cruel. Instintivamente, levou a mão ao ventre e voltou-se para o marido. Ele olhava para ela, o rosto branco de cera, os lábios ressecados, a expectativa angustiante da espera.

       Franco estava em pânico, porque também tinha medo. Nova percebeu que ele tinha medo dela, o que era impossível de se acreditar. Franco com medo? E foi por causa desse medo, refletido em todo o seu rosto e corpo imóveis, que ela descobriu que o marido matara alguém no banheiro do cinema e Bronson fora apenas o faxineiro.

       Ouviu um barulho de vidro quebrado. Olhou ao redor, nada caiu. Alguém atirara uma pedra contra os vidros que a protegiam do mundo, a redoma que criara para viver com Franco, a redoma dentro da sua cabeça, a redoma estava quebrada.

         

       Com a ponta do dedo Karen desenhava um coração no azulejo da parede, a flecha partia-o ao meio em direção ao infinito, uma dezena de ladrilhos acima. Desmanchou o desenho com a palma da mão aberta e se pôs debaixo da ducha morna. O jato forte batia contra os seus ombros, os músculos tensionados. Fechou os olhos e se imaginou tragada para o interior de uma cachoeira, ergueu a face para o chuveiro e parou de respirar. E por não conseguir aspirar o cheiro que conhecia desde que apertara pela primeira vez a sua mão, assustou-se ao ver Rodrigo tão perto, à entrada da porta de correr do boxe, vestido e sem chapéu, olhando para ela como sempre o fazia quando a amava sem tocá-la. Era um modo diferente de ser olhada, as pálpebras semicerradas, o brilho de admiração e placidez no olhar, o esboço de um sorriso gentil. Ninguém a olhava daquela maneira, como se falasse com os olhos “Você é perfeita”.

       Esperou que tirasse a roupa e a acompanhasse no banho. Uma prática bastante comum entre os dois, o banho juntos antes da cama; o banho juntos depois do amor. Mas Rodrigo não fez qualquer menção de despir-se, e Karen estreitou as sobrancelhas não o compreendendo. Com um sorriso charmoso, que deveria servir como resposta, ele estendeu o braço e pegou o frasco com o xampu.

       ― Vou cuidar de você, mimá-la um pouco. ― disse numa voz arrastada e baixa, um afago aos seus ouvidos.

       Ela ficou sem jeito. Tudo o que ele mais fazia era cuidar dela. Ameaçou dizer que já estava na hora de ela cuidar dele, ainda que a sua intenção fosse para, além disso, protegê-lo. Entretanto, ele antecipou-se a qualquer objeção:

       ― Fui grosso ainda há pouco e quero me redimir. ― assumiu com simplicidade, derramando o creme por sobre o cabelo dela. ― Estou errando na medida, eu sei; às vezes sou molenga demais e outras...um legítimo troglodita.

       Ela riu e balançou a cabeça em negativo.

       ― Nunca esteve nem perto de se parecer com um troglodita.

       ― É mesmo? ― perguntou, alçando uma sobrancelha e emendando com um sorrisinho: ― Então cala a boca e se vira para eu poder lavar o seu cabelo.

       ― Seu troglodita! ― xingou, divertindo-se com o jeitão dele.

       Rodrigo devolveu o sorriso e postou-se um passo adiante para o interior do cubículo de acrílico, as pontas das botas recebendo os respingos da água.

       ― Por que não entra e me acompanha?

       ― Acho que o sexo pode esperar um pouco, não é? ― ele acariciou o couro cabeludo devagar, aumentando o volume da espuma e acrescentou com ternura: ― A vontade agora é de fazer carinho na minha amiga de longa data.

       Ela se virou para olhá-lo, um fio de espuma deslizou na sua testa, e Rodrigo aparou-o antes de entrar nos olhos dela. Um gesto que resumia tudo o que ele sempre fizera por ela.

       Incapaz de falar, Karen apenas se deixou ser ensaboada em cada parte do corpo que se abria e umedecia para recebê-lo. Mas ele não entrou. Limpou-a da poeira da rua, dos olhares maledicentes, da fuligem dos carros e do cansaço do cotidiano. Depois, pegou sua mão para sair do boxe e secou o seu corpo com a toalha.

       Segurou-se nos ombros do homem que secava o seu corpo como se ela fosse uma criança. Todo o erotismo, inato à personalidade dele, estava no gesto de simplesmente cuidar dela. E foi com cuidado que a envolveu no robe e a pegou no colo.

       Era tarde, e todos estavam enfiados em seus quartos. O som da televisão no quarto de Val era o único que denunciava a presença de gente acordada na casa. Ela não conseguia dormir. Os outros brigavam com zumbis no computador, com amigos pelo Facebook ou com Deus durante as orações.

       Rodrigo passou pelo corredor na semiescuridão, entrou no quarto e a deitou sobre a cama. Havia apenas o lençol e os dois travesseiros, a colcha retirada e dobrada sobre a cômoda. A luz do abajur sobre o criado-mudo e o aparelho de som ligado, nenhuma música.

       Entre o banheiro e a cama, ela pousou a cabeça contra o tórax dele, os primeiros botões da camisa abertos, o cheiro da colônia masculina misturada ao seu odor natural, tépido, ao cheiro estonteante de homem moreno. Todavia, antes de deitar a cabeça e ouvir os batimentos cardíacos dele, esfregou a bochecha no cavanhaque ralo e no maxilar com pontos de barba, que lhe arranharam a pele de forma prazerosa, como quando roçavam na pele fina entre suas coxas. Baixando a cabeça sem desviar do seu caminho, ele encaixou o lábio inferior entre os seus lábios, um sorriso nos olhos.

       Na cama de Rodrigo. Deitada de costas e vendo-o movimentar-se pelo quarto, a porta trancada. A aproximação até o aparelho de som, a escolha do disco, o posicionamento da agulha de brilhante sobre a faixa escolhida e o início da viagem.

       Ele se virou e falou numa voz macia quase um ronrono:

       ― Me acompanha numa cavalgada?

       Ela gemeu baixinho em resposta.

       Viu-o então abrindo a camisa, soltando cada botão com vagar até arrancá-la do tronco e jogá-la em qualquer parte. Depois, ele parou. Nada mais foi retirado, nem mesmo os olhos dos olhos dela que, encantada, respirava mais rápido e fundo, a expectativa arrebatando-a em cheio.

       A década de 70 alcançou-os, e Roberto Carlos contou que cavalgaria por toda a noite por uma estrada colorida, enquanto Rodrigo sentava na beirada da cama e encurvava-se ligeiramente para retirar algo da gaveta do criado-mudo. Um pacote pequeno, decorado com laços dourados, uma embalagem bastante feminina.

       Karen se ajeitou sobre os cotovelos, seduzida pela música altamente erótica que enchia de luxúria o ambiente e interessada no embrulho que era aberto sem perícia. Vasculhou a feição masculina, ele se concentrava em desvendar o mistério dos laços. Ela o ajudou, e recebeu como pagamento um beijo na boca, a mão enganchada na sua nuca pressionando-lhe a cabeça. Ao abrir os olhos, encontrou-o de pose de uma atração.

       Ele se virou e comentou com naturalidade:

       ― Frutas vermelhas. Eu, bem... ― deu de ombros meio sem jeito ― nunca comprei essas coisas femininas.

       A embalagem de uma marca famosa revelava que o creme para o corpo fora comprado fora de Matarana. Imaginá-lo entrando em uma perfumaria de chapéu, botas e distintivo, o coldre da Glock visível no cós frontal do jeans à procura de um hidratante para a pele era, no mínimo, uma visão interessante.

       ― A Val te ajudou? ― sondou com um esboço de sorriso.

       Ele fez que não com a cabeça.

       ― A Jasmine tinha um igual?

       Repetindo o gesto, acrescentou a título de informação:

       ― Quer saber a história do creme? ― perguntou, enquanto depositava sobre a própria mão a substância branca. Friccionou-a no abdômen dela devagar após afastar a abertura do robe, e continuou, os olhos ocupados na tarefa que desempenhava: ― Uma noite fiquei até tarde na delegacia, foi antes dos atentados, então não tinha muita aporrinhação além do caso do Teobaldo. Eu até deveria estar pensando no corretor assassinado, mas não conseguia parar de pensar na vontade de estar com você e de me tornar um dia o seu porto seguro, o seu caminho de volta. Não tenho uma cidade inteira para oferecer nem uma fazenda ou um sobrenome que abra portas e isso até pouco tempo me incomodava...

       Ela o interrompeu fazendo menção em se levantar para calá-lo, mas ao fazê-lo, Rodrigo pôs dois dedos sobre os seus lábios e continuou com brandura:

       ― Sei o que me dirá, sei quem é você e que tipo de mulher representa. Só que todo homem quer dar o que tem de melhor para a mulher que ama e nesse desejo doido a gente acaba se esquecendo de alguns valores. ― ele suspirou fundo. ― Quando levou aquele bolo para mim na delegacia, para matar a minha fome, entendi o seu modo de amar e pensei que a recíproca deveria ser no mesmo nível e, assim, me senti mais seguro para amá-la do meu modo também, que é cuidando, protegendo e de vez em quando puxando a sua orelha... ― riu-se baixinho e, endereçando os olhos para o frasco que tornava a despejar o creme sobre a mão, completou com simplicidade: ― Aí fui até Santa Fé, numa butique chique, e comprei essa frescurinha. Sabia que um dia do mesmo modo que você me alimentou com o bolo que fez, eu lhe daria conforto com o que tenho, com as minhas mãos e a minha vontade de vê-la feliz comigo.

       Karen ergueu os olhos rasos de lágrimas, não tinha condições de falar, sua voz sairia feia, aos pedaços. Ao piscar, a água escorreu pelo seu rosto até ser absorvida por uma boca que a acariciou com um beijo leve.

       Era inacreditável que um homem que lidava com a possibilidade da própria morte a cada dobrar de esquina fosse tão terno e carinhoso, tão especial e único.

       Respirou fundo a fim de firmar a voz e murmurou embargada:

       ― É por isso que preciso te proteger, não posso perder uma pessoa como você.

       ― Não se preocupe com isso, sei como me defender e, melhor ainda, garota, sei como contra-atacar. ― enfatizou.

       ― Mas eu posso ajudá-lo. O Franco me chispou da Arco Verde porque não quer se indispor com você. Mas preciso estar do teu lado para combater os teus inimigos e ter certeza absoluta de que não te machucarão. Eu sou assim, Rodrigo! Não conseguirá me deter.

       ― E se eu pedir para que fique com a nossa família e a proteja? Acha que a Val consegue dar conta do recado? Viu o que aconteceu ontem quando entrou uma barata voadora pela janela? ― indagou num tom brincalhão.

       ― Só eu posso te dar proteção... ― a voz saiu fraca, pois nem ela mesma acreditava no que dizia.

       ― Sei como se sente, mas, acredite, Karen, não somos super-heróis. ― afirmou com um leve sorriso.

       Rodrigo deitou o creme sobre a palma da mão e o deslizou sobre os seios dela, uma lentidão de afago, circulando um mamilo, depois outro, enfim as duas mãos pressionando ambos os seios.

       Karen deitou a cabeça para trás, os cotovelos enterrados no colchão, o peito arfando numa respiração pesada. Mirou os olhos no teto e entreabriu os lábios quando um gemido escapou depois de sentir o calor úmido de uma língua lambendo o bico; um depois o outro, retornando ao primeiro, enquanto as mãos permaneciam acariciando os peitos, as mãos grandes tomando-os e os apertando à medida que a intensidade do afago se aproximava do desejo de posse sexual.

       Num gesto rápido e brusco, rindo-se baixinho diante da expressão assustada da mulher ao arregalar os olhos após ser virada na cama, deitou-a de bruços. Urgia se acalmar, abanar com pano úmido o incipiente incêndio. Estava disposto a reconfortá-la massageando seu corpo cansado de tantas caminhadas vida afora. Tocando o dorso delicado e comprimindo cada vértebra, soltando músculos, impregnando de carinho cada extensão de pele no terreno que cedia e se moldava ao seu domínio sem opressão, a livraria da aridez de uma existência difícil desde menina, queria dar-lhe nova vida, fazer brotar o orvalho por sobre a couraça da espartana.

       Desceu primeiro com o rosto até as nádegas que receberam delicados beijos e o toque quase imperceptível de seu cavanhaque, que a invadiu entre as pernas e a tomou como um sobrevivente do deserto ao sorver entre as mãos em concha a água que o enlouquecia e o vivificava... até virá-la para si. Ela estava pronta.

       Pôs-se dentro dela sem se mexer. Ali ficou quieto e cheio, duro. Deitou sobre ela, o tórax comprimindo-lhe os seios, os braços envolvendo-a por baixo do pescoço e ao redor das costas, tiras que a enfaixavam com a precisão e a beleza do domínio de teias de aranha. Mas não era uma prisão. Ela o sabia. Quando o viu, as pálpebras semicerradas, as narinas dilatadas e toda a feição inchada de quem era possuído corpo e alma, apenas entreabriu os lábios para recebê-lo na boca e afastou ainda mais as pernas para tê-lo no âmago.

       Devagar, bem devagar, ele a cavalgou, a musculatura das coxas e nádegas contraindo e se estirando, a respiração saindo em golfadas do fundo da garganta, o gozo oprimido até o momento da primeira explosão, quando ela cruzou as pernas ao redor da cintura dele. E depois.

 

       Franco acompanhou o pai até a picape, observando a escolta do outro lado da rua, os faróis desligados camuflavam a camionete com dois pistoleiros da Arco Verde de prontidão. Um deles tinha o cabelo longo e preto, era Virgínia, que se tornara praticamente a sombra do patrão, ainda que o último a mantivesse em sua mira. Algo nela o perturbava, e ao chefe da segurança também. De qualquer forma, ela era apenas uma entre dezenas de capangas armados. Que mal poderia fazer?

       Thales abriu a porta da Silverado e se voltou para o filho. O semblante circunspecto revelando que ponderava sobre um assunto importante.

       ― Lembra aquela tarde em que entrou no meu escritório puto da cara com a tal jornalista mimada?

       Franco assentiu sem falar.

       ― Foi essa a primeira impressão que teve da sua mulher. E por mais que ela tenha se apaixonado por você, por um sujeito com a sua fama, não significa que tenha errado sobre o julgamento que fez dela.

       ― O que quer dizer com isso? ― perguntou, desconfiado.

       O fazendeiro suspirou profundamente e era um tipo de suspiro de quem se impõe uma pausa antes de se fazer compreender.

       ― Que talvez, Franco, ela não tenha estômago para aceitar determinadas situações.

       Era esse tipo de argumento que Franco não queria ouvir. Entretanto, no fundo, pressentia a verdade daquela sentença.

      ― Acho que ela já sabe sobre determinadas situações. ― falou baixinho, quase para si.

       A praticidade de Thales Dolejal era-lhe um dos seus maiores aliados.

       ― Temos de dobrá-la, filho. Afinal, ela tem um Dolejal na barriga e outro na mão, não é mesmo? ― indagou com leve ironia e determinou: ― Corte as asas dela, não seja tolo como eu fui com a Karen. Ela é uma mocinha da cidade que se encantou com o pistoleiro com fama de mau, então dê a Nova o que ela quer, rédea curta e voz de comando.

       Com um tapinha amistoso no ombro do filho, o latifundiário deu a conversa por encerrada e postou-se atrás do volante. Relançou um rápido olhar para o seu melhor pistoleiro, o mais temido da região, e viu um rapaz acuado diante das circunstâncias. Balançou a cabeça, decepcionado. Noutros tempos, domar uma mulher, para Franco, funcionaria aos seus instintos como um desafio de final de semana, algo trivial para amenizar o tédio. Mas fora só aparecer a tal forasteira que o diabo loiro perdera os bagos. Um verdadeiro desperdício de armamento, cogitou Thales, pisando no acelerador até ultrapassar a marca dos 120 km por hora.

       Ao voltar pelos fundos da casa, encontrou Nova diante da pia lavando a louça do jantar. Postou-se atrás dela, tomando a esponja ensaboada das mãos.

       ― Volta para o quarto, princesa, eu dou um jeito nessa sujeirada. ― sugeriu de um jeito manso e sem coragem para encará-la.

       Nova não refutou a ideia, visto que desejava muito um tempo só para si. Precisava pôr os pensamentos em ordem, catá-los no lodo do riacho onde estavam afogados de medo e apreensão. Temia que do fundo de sua mente a figura de Cris emergisse apontando o dedo e dizendo: “Eu não disse?”.

       ― Obrigada, vou dormir então. ― afirmou, a cabeça baixa, certo desconforto como quando se voltava a falar com alguém após uma briga. Mas eles não haviam brigado.

       Franco largou a esponja sobre os pratos sujos e a acompanhou até o quarto. Esperou que ela retirasse a colcha e ajeitasse os travesseiros. Manteve-se à porta, atento a cada gesto da mulher que abria e fechava gavetas, preparando-se para dormir. Sentia-se inquieto, incomodado e era perceptível até mesmo um princípio de náusea na boca do estômago. O silêncio de Nova e o fato de ignorá-lo, ali parado feito um bobo, sinalizavam nuvens escuras no céu dos novos dias.

       Ela escolheu um pijama curto de algodão, o tecido branco com miniaturas de balões de aniversário, coloridos, estampados na regata e no short curto. Passou por ele e se encaminhou para o banheiro a fim de escovar os dentes. Foi seguida por uma figura alta que balançava os braços para frente e para trás, ao longo do corpo, na defensiva. A intenção era fechar-se em concha para avaliar melhor o que teria pela frente se aceitasse como normal e natural um homem tirar a vida de outro. Por isso continuou a ignorar o marido enquanto enxaguava a boca, secava o rosto e retornava ao quarto.

       Deitou-se e estendeu o braço para desligar a lâmpada do abajur.

       ― Nova...

       Precisava dormir para esquecer.

       Desde o início a violência estivera presente no relacionamento deles. E fora em função disso que Franco se tornara o seu segurança particular. Sempre o vira como seu salvador, e não como um matador. Havia uma importante diferença entre essas duas visões.

       ― Nova, fala comigo.

       Ele se ajoelhou ao lado da cama. Toda a juventude e o desamparo dessa juventude estampados em seu rosto. Não, era impossível que alguém tão jovem e belo puxasse o gatilho ou espancasse até a morte outro ser humano. Matar era uma ação suja e pesada; não era como nos filmes, uma encenação, um apontar e atirar e o ator finge que morre. Cometer um homicídio, junto com o estupro e a pedofilia, era um dos delitos mais graves contra uma pessoa. Ainda que fosse legítima defesa, como ele poderia ter matado alguém e depois sentado na cadeira do cinema para assistir a Duro de Matar? Que tipo de indivíduo agiria de forma tão fria?

       A resposta veio como um raio: o diabo loiro.

       ― Amanhã a gente conversa. ― comunicou secamente, virando-se de lado a fim de lhe dar as costas.

       ― Vai me deixar?

       Ela engoliu em seco ao ouvir a voz baixa que mais se parecia com um gemido de um animal machucado. Respondeu por cima do ombro sem se dar ao trabalho de se voltar:

       ― É impossível deixá-lo, Franco, por isso a nossa situação é ainda mais complicada. Agora me deixa tentar dormir, por favor. ― disse secamente.

       Ele não foi embora. Teria de voltar por um caminho de pregos e estacas, um caminho minado de incertezas.

       Ergueu-se do chão e deitou de lado na cama, atrás da mulher que cada vez mais se encolhia para se afastar. Colou-se ao corpo pequeno que carregava outra vida e passou um braço por sobre ele, como sempre, de forma possessiva. Fora gerado pelo Citotec e parido pelo destino. Criado pela terra e educado por pistoleiros. Um homem como Franco não desistia do que lhe era importante.

                 ― Atravessei a margem do rio, não foi? ― ela perguntou, a voz abafada contra o travesseiro.

       A resposta foi o abraço apertado e longo, do tipo quando se despedia de alguém no aeroporto sem saber ao certo se o avião levaria a pessoa amada ou o próprio coração; não era, portanto, o abraço das chegadas, onde a saudade se grudava e mal deixava respirar mas ainda assim abria botões de flores debaixo do azul do céu. O abraço da partida era avassalador e, mesmo que nem ele nem ela partissem, ambos se despediam de uma fase de suas vidas, do período da ilusão e do encantamento quando se projetava no outro todas as suas aspirações fictícias, seus desejos imaginários forjados por anos de crenças nem sempre lógicas. Mas era apenas uma ponte, essa fase de contos de fada, uma ponte para se atravessar até chegar ao mundo real.

       E foi mais ou menos isso que Franco disse:

       ― Sou o seu rio, Nova, e agora você me conhece todo, até o fundo.

       Sentiu-a estremecer e beijou o topo da cabeça dela.

       ― Não posso aceitar o que você faz, seria como aceitar o que o Everaldo tentou fazer com você.

       Ele a interrompeu bruscamente:

       ― O Everaldo é um matador de aluguel.

       ― E você, Dolejal? Mata a mando do próprio pai. Qual é a diferença?

       ― Não mato pessoas, ― assegurou com seriedade e completou a informação para que ela jamais esquecesse a essência de seu trabalho: ― executo bandidos, criminosos que matam pessoas.

       Ela se virou com os olhos revelando a raiva que sentia.

       ― Justiça com as próprias mãos? E a polícia e a Justiça, para quê servem? Os Dolejal julgam, sentenciam e executam? Ainda que Matarana seja uma terra de pistoleiros, nós temos um delegado honesto e determinado a pôr ordem na cidade. O seu trabalho deveria ser o de proteger como chefe da segurança da Arco Verde, e não o mesmo trabalho de um verme como o Everaldo. Não há diferença alguma entre vocês dois! Tenho é nojo de você, Franco, nojo, ouviu bem? ― gritou, tentando se desvencilhar dele.

       Ele se pôs por sobre ela, cuidando para não tocar no seu abdômen proeminente, mas o suficiente para tê-la presa debaixo de si. O olhar duro, os lábios contraídos e uma veia grossa latejando no meio da testa.

       ― Não sou igual ao Everaldo, Nova, você está errada.

       ― Me solta! Me solta, agora! ― gritou, erguendo o joelho para tentar acertá-lo.

       Num movimento ágil, ele se esquivou da joelhada no quadril e puxou-a com força pela cintura, apertando-a entre seus braços com desespero.

       Nova se debatia com força. Tinha consciência de que era uma briga entre desiguais. Ela estava grávida e sua estatura mignon não ajudava a enfrentar um homem de 1.80 e a força muscular de um atleta. Embora Franco fosse forte, usou dessa qualidade apenas para segurar a esposa a fim de que ela não caísse da cama e se machucasse. Por um momento esquivou-se dos tapas, joelhadas e uma malsucedida tentativa de puxar seus cabelos. Depois, deixou que ela descarregasse a frustração de ele ser o sapo que sempre lhe havia dito que era e suportou os golpes sem esboçar reação. Até que ela o acertou entre as pernas, e ele se curvou de dor, o rosto vermelho, um ganido preso na garganta.

       Viu-a escapar da cama vestida no seu pijama infantil, sair do quarto, alcançar a sala, abrir a porta e correr para a rua.

       Dobrado sobre os lençóis, louco de dor, ele mal conseguia respirar.

         

       Leonardo Marau estava nu diante do espelho. Levou à mão até a pálpebra esquerda, mas não a tocou. A pele arroxeada inchara ao ponto de parecer que revestia um ovo de galinha no lugar de um olho humano. Estrias avermelhadas tingiam o globo ocular e, logo abaixo, o maxilar com hematomas. Ao voltar a si, depois da surra que levara dos capangas do coronel, ele sentira o gosto do próprio sangue no fundo da garganta e se arrastara pelo chão até se refugiar debaixo de uma mangueira à espera que um de seus pistoleiros aparecesse para levá-lo ao hospital.

       Ninguém apareceu.

       Foi assim que Leonardo descobriu que o bando de covardes que até poucos meses o seguia havia voltado a se submeter à autoridade do latifundiário. Estava sozinho com quase 4oo kg de pasta de coca em um galpão. Teria que se desfazer da droga, vendê-la para pagar os bolivianos.

       Aproximou-se do espelho olhando-se diretamente, pois não queria ver o filho do coronel espancado a mando do próprio pai. Um homem que feria a sua cria não deveria ser considerado um ser humano e sim algo entre monstro e mutante besta-fera. A surra lhe despertara sentimentos até então soterrados pela ambição. E tudo o que ele fizera, desde o tempo no Acre escondendo a mentira da faculdade em Cuiabá e o retorno a Matarana para comercializar a pasta de coca, tudo que planejara com a intenção de enriquecer sem ter de baixar a cabeça para o seu pai, tudo era apenas a ponta do iceberg. Porque Leonardo Marau odiava o velhote gorducho que tratava a sua mãe e a sua irmã como pessoas de quinta categoria; os fracos, dizia ele, os fracassados. E era isso o que justamente ele, o filho que o desapontara, sentia por ele, pelo ditador que lhe causava asco havia muito tempo, tanto tempo que ele precisara esquecer o quanto o enojava estar vinculado a um grosseirão endinheirado para poder usufruir do berço onde nascera.

       Tencionava agora se livrar da mercadoria valiosa e, em vez de abandonar Matarana, ele destruiria a Coração de Ouro e depois a Arco Verde.

       Gemeu de dor ao vestir-se para sair. Desceu os degraus da escada que conduzia até o hall de entrada da casa-sede. Ouviu as vozes que se misturavam na sala de jantar. Não sabia qual desculpa o coronel dera à família a respeito do estado lamentável do filho. Qualquer desculpa dita eles acreditariam ou fingiriam acreditar; afinal, Leonardo era explicitamente o preferido do coronel e jamais pensariam que fora ele próprio que mandara descer o sarrafo no seu bacharel em Direito, a sua preciosidade.

       Ao volante da picape, mal enxergando à frente, visto que contava apenas com a visão de um olho, Leonardo fechou a cara e parou diante da porteira.

       O segurança apertou um botão e o portão de ferro se abriu.

       A camionete deslizou para a estrada, os galhos secos e os cascalhos bateram contra o assoalho antes de alcançar a estrada de asfalto.

       O caubói ferido queria ferir.

       Havia uma boa lista para começar a guerra: o delegado inconveniente, o dono da Arco Verde e o seu dissimulado filho e o coronel. Sim, o velho precisava também levar uma liçãozinha. 

       Encurvou-se até o painel e abriu o porta-luvas, retirando de lá a pistola que tiraria do corpo a alma de Rodrigo Malverde. E de quem se interpusesse entre ele e o xerife.

       Acelerou, os lábios apertados e a pálpebra doendo uma dor quente e pulsante. Teria de passar pela Arco Verde antes de entrar na estrada vicinal, próxima ao Rio Verde, até a casa dos Malverde. O primeiro momento crítico da ação.  A ideia então era a de deixar a picape em uma clareira e seguir a pé.

       Quantas pessoas moravam com o delegado? Quantas delas teria de matar para o projétil certeiro chegar até ele?

 

       Ela ainda não sabia exatamente para onde ir. Sabia apenas que tinha de correr, fugir para algum lugar seguro. Embora a cidade inteira pertencesse ao responsável por sua corrida ao longo do acostamento da estrada, quase perto da meia-noite. Debaixo dos pés nus a terra úmida, pedrinhas e tiras de galhos finos que a machucavam e impediam que sua corrida ganhasse fôlego. A dor no baixo-ventre também a fez diminuir o ritmo. Assim, Nova teve de se esgueirar para o interior do mato, ainda que seguisse pelo contorno da estrada asfaltada, a fim de continuar a sua caminhada na escuridão da noite, o peito arfando, a cabeça cheia de pensamentos.

       Já não era a primeira vez que se apavorava e fugia. À época em que invadira a Coração de Ouro também fizera o mesmo ao perceber que caíra em uma emboscada. Talvez o fato de ter conhecido e se apaixonado por Franco fosse também outra cilada. Ela não era o tipo que enfrentava os problemas de frente; preferia ignorá-los ou fugir, o que não deixava de ser de certa forma um enfrentamento.

       Naquele momento, entretanto, não estava em jogo os seus sentimentos pelo marido. Amava-o, sem dúvida. Só não sabia o que fazer com aquele amor nascido do medo e da sua atração pelo medo que, contraditoriamente, colidia com a sua noção de certo e errado.

       Parou e respirou fundo. Tremia muito. Abraçou-se ao próprio corpo olhando ao redor, atrás de si, a entrada de uma clareira; do outro lado, a estrada. Os postes públicos com lâmpadas vacilantes e frágeis e os ruídos noturnos das criaturas. Agora não se sentia mais segura. O seu cavaleiro de armadura brilhante não poderia salvá-la porque ela fugia dele. E era a segunda vez que o seu mundo ruía.

       Agachou-se o máximo que pôde ao perceber os faróis de uma picape que riscavam a tira de asfalto passando por seu esconderijo em alta velocidade. O coração na garganta. Trêmula, ergueu-se e correu para a estrada para certificar-se se era a picape vermelha. Suspirou aliviada ao ver a traseira de uma Hilux.

       Precisava parar em algum lugar e descansar. Temia que as suas emoções atingissem o bebê. Na verdade, temia pela vida do filho também fora da segurança de seu ventre. Como seria o seu futuro tendo como pai um pistoleiro que colecionava inimigos? Teria de levar o filho à escolinha escoltado por capangas da Arco Verde?

       Isso era tudo menos uma vida normal.

       Agora, mais do que nunca, era nítida a compreensão sobre os motivos que tornaram Rodrigo um alvo a ser aniquilado. Ele era o oposto da essência de Matarana: justo, íntegro e generoso. Ele era o bem na luta contra o mal. E estava sozinho na arena com os leões.

       Uma fisgada latejante obrigou-a quase a se dobrar de dor. Ergueu o pé e o sangue subia à superfície da sola, parte dela descolada após pisar na lasca de uma pedra.

        

        O refeitório da fazenda era usado como salão de festas quando um funcionário ou outro fazia aniversário ou batizava um filho ou resolvia ficar noivo. Para grandes festas, como um casamento da peonada, usava-se um galpão maior, arejado e com sistema de alto-falantes.

       Bronson olhava fixamente para a vareta preta, pensava fundo, concentrado, a fim de não tremer a mão ao pegá-la pela extremidade debaixo de uma vareta amarela. A vareta preta era a mais valiosa, e se ele a puxasse sem tocar em qualquer outra ganharia o jogo. Via de esguelha quatro ou cinco camaradas com sorrisos debochados e olhos postos no emaranhado de varetas coloridas sobre a mesa. A aposta fora um engradado de cerveja. Na reta final da competição, frente a frente, o velho pistoleiro e Paulo.

       Um sorriso de dentes amarelados pela nicotina revelou o prazer de se apoderar do objeto desejado. Bronson balançou a vareta preta no ar como se fosse um troféu. Riu da cara dos rapazes se empurrando e falando besteiras, relacionando o jogo pega-varetas com a habilidade do velho pistoleiro em pegar varas maiores. Bronson, por sua vez, somente ria. Até que apenas ele ficou rindo, já que ninguém imaginava que o patrão aparecesse no refeitório tarde da noite.

       ― Reúna os homens e me siga!

       A voz grave se impôs destoando do clima alegre e festivo do recinto.

       Bronson ergueu-se rapidamente e fez um sinal com a mão para um grupo de homens obedecerem à ordem. Alcançou o patrão e, caminhando ao seu lado, esperou que ele revelasse o motivo da determinação:

       ― A minha nora está criando problemas para o Franco. ― disse com um esgar de amargor no canto dos lábios. ― Telefonei há pouco para saber se estava tudo bem encaminhado, e ele não atendeu o celular.

       ― O menino é meio distraído, patrão, vai ver ele deixou o telefone em algum lugar...

       ― Não, não foi isso. ― ele parou e encarou o velho de chapéu de caubói e pálpebras empapuçadas, o tom era o de acusação: ― Você o ensinou a atirar, mas não foi capaz de ensiná-lo a se proteger. E o que temos agora é um garoto que se protege se armando até os dentes. Só que isso não o protegeu de ser pego por uma vaca.

       ― Entendo perfeitamente...A Lúcia também está me fodendo a vida.― emendou Bronson esfregando a nuca. ― A gente dá uma olhada por lá e avisa o senhor. ― decidiu.

       ― Quero os dois aqui na fazenda.

       ― Sim, senhor.

       Bronson chamou quatro pistoleiros e rumaram para a casinha à beira do Rio Verde. Não havia ninguém na casa. Portas e janelas abertas, lâmpadas acesas, celulares sobre a cama e a mesa da cozinha, louça suja na pia, ausência da picape na garagem. Foi o que Bronson relatou ao patrão.

       Imediatamente, Thales e mais vinte homens entraram nas camionetes que seguiram em comboio até Bronson.

 

       Abraçados, ele ainda dentro dela, beijava-a sem pressa.

       Rodrigo puxara-a para o seu colo na terceira vez que a possuíra, de frente um para outro, gozaram olhando-se nos olhos.

       Karen admirava a transformação da face do seu amor ao atingir o ponto agudo do prazer, ele ficava ainda mais lindo e sensual. As delicadas rugas ao redor dos olhos salientavam-se, os dentes frontais mordiam o lábio inferior e a expressão inteira do rosto era a de dor aguda e boa, dor boa, a pele brilhando pela fina camada de suor. Por isso ela não fechava os olhos depois que gozava. Porque era a vez dele.

       ― Hmm... Que tal umas férias depois que as coisas se acalmarem? ― ele perguntou, boca encostada noutra boca, mãos desenhando círculos nas costas dela, brincando de se desencontrarem.

       ― Só nós dois.

       Ele sorriu e deslizou os lábios para mordiscar o lóbulo da sua orelha. Depois, encarou-a, as pálpebras relaxadas e a respiração retomando o seu ritmo normal.

       ― Uma cabana, eu e você. O paraíso logo ali depois da curva. ― brincou, ajeitando uma mecha de cabelo úmido para detrás da orelha dela.

       Karen abraçou-o com força, adorando a ideia.

       ― Uma transferência resolveria os nossos problemas. ― murmurou.

       Ele se afastou um pouco.

       ― Sabe que pretendo tornar Matarana uma cidade boa e decente. E, além disso, ― tocou-a no queixo erguendo o seu rosto e completou com seriedade: ― você é a minha parceira, a minha companheira e acho que nessa altura do campeonato não preciso de uma segunda versão da Jasmine.

       A amiga não se adaptara a Matarana e exigira que ele pedisse transferência para um lugar civilizado. Rodrigo acatou a decisão da esposa, mas não teve tempo de fazer a mudança. Jasmine morrera antes disso na estrada.

       ― Foi só uma sugestão.

       ― Sei que sim, Karen. ― disse, esboçando um frágil sorriso.

       Ela o beijou afagando os cabelos dele com os dedos, bagunçando os fios curtos e irregulares. A noite estava perfeita e era assim que deveria continuar. Reclamou baixinho quando Rodrigo pegou-a pelos ombros afastando-a ligeiramente.

       ― Espera um pouquinho, ouvi um barulho na porta. ― ele pôs o dedo indicador sobre os lábios e alçou as sobrancelhas num gesto que demonstrava o quanto deveriam se manter atentos.

       Rapidamente, sentado na cama, vestiu o jeans e pegou a Glock que estava sobre o criado-mudo. Antes que Karen o seguisse, visto que ela enfiava o robe ao contrário procurando com os olhos a sua automática, Rodrigo se antecipou resoluto:

       ― Tira o pessoal dos quartos e traz todo mundo para cá, inclusive a Bonnie. ― salientou, erguendo-se após destravar a arma.

       O delegado foi até a porta e voltou-se determinando em voz baixa:

       ― Assim que eu chegar à cozinha pode sair e pegar o povo, ok?

       Karen sentia a adrenalina coçar debaixo da pele. Levantou-se como se tivesse sido mordida por uma cobra. Ao mesmo tempo, uma aflição dos diabos cortava o ritmo da respiração. Tentou endereçar-lhe um sorriso corajoso, mas, provavelmente, somente entortou o rosto.

       ― Está tudo bem, parceira. ― enfatizou ele, percebendo a tensão da mulher.

       Rodrigo atravessou o corredor com passadas largas e cautelosas. Em um ou dois minutos tinha um dobermann nos seus calcanhares. Fez um careta e parou. Abaixou-se e acariciou a cabeça da cachorra. Em seguida, pegou-a no colo e a deixou no quarto onde Karen se preparava para sair, apertada no cinto do robe, escabelada e com a automática em punho.

       Entre a parede lateral da janela da cozinha, na alvenaria, e a porta, o delegado se postou e, esgueirando-se a fim de olhar para fora, o jardim frontal da casa, avançou parte da cabeça. Não viu nada que não fosse a sua picape, uma vez que era o Maverick de Karen que ocupava vaga na garagem interna.

        Aproveitou para desligar a lâmpada do lustre que ficava no alpendre e era toda a iluminação externa, além dos postes públicos a alguns metros dali.

       Um toque leve na madeira da porta o pôs em sobreaviso.

       Franziu o cenho, intrigado. Destrancou a porta da sala e girou a maçaneta sem fazer barulho. Contornou a casa pelos fundos até chegar à garagem. Por trás da parede, escalou a grade da janela e subiu até alcançar o telhado. Esgueirando-se com os pés nus por sobre as telhas chegou até a parte da frente e aguardou o momento certo para pular por sobre o camarada.

       A terceira batida à porta, seguida por um pedido em tom de lamento, o fez pular para o chão, mas com o cuidado de não cair por sobre a pessoa que o procurava. Flexionou os joelhos e ouviu estalos nas juntas. Se o telhado fosse um pouco mais alto e ele menos flexível e fora de forma, teria se machucado.

       ― Por favor, Rodrigo, abre pra mim...

       Era Nova e estava parada diante de sua casa com um pé banhado em sangue. Ela estremeceu os ombros ao se assustar com o homem que aparecera num salto atrás de si.

       Ele não sabia por onde começar. O instinto protetor agiu no lugar da razão. Pegou-a no colo e bateu à porta para Karen abri-la.

       A família enfiada no quarto, o último, localizado nos fundos da casa depois do longo corredor. Karen explicou aos trancos e solavancos o que acontecia e, na verdade, o que acontecia era que alguém simplesmente batera à porta. Se fosse em outros tempos, uma visita após a meia-noite não causaria tamanho alarde. Todavia, após os atentados contra a vida de Rodrigo, o inesperado podia muito bem ser o terceiro atentado.

       Val, metida na camisola de fantasminha camarada, apertava as mãos com nervosismo:

       ― Deixei a porra do meu celular no quarto.

       Karen fez sinal para que ela se calasse e colou a orelha na porta.

       Johnny e Sabrina se sentaram na cama e vó Ninita os acompanhou sem, no entanto, deixar de acender um cigarro. E foi ela quem fez o melhor dos comentários:

       ― Não é melhor desligarmos a luz, não?

       Val correu até o interruptor.

       ― Meu Deus do céu!,  aonde estão os policiais militares que iam fazer a vigilância? Estão nos enrolando!

       ― Sabe por que, né? Coisa da prefeita do coronel que está fazendo corpo mole dizendo que o efetivo é pequeno demais para deslocar homens para cá. ― considerou Sabrina, sagazmente.

       ― É, mas e os homens da Arco Verde? ― perguntou Johnny com os olhos arregalados.

       Karen voltou-se para o filho e travou a arma. Aproximou-se dele e o beijou na testa.

       ― Vai dar tudo certo, parceiro. ― disse, fingindo um otimismo que não sentia.

       Johnny tentou sorrir e ajeitou-se contra os travesseiros, a expressão de tensão e expectativa.

       Ouviu a voz grave e familiar gritando o seu nome. Karen disparou pelo corredor como se tivesse fogo nos cascos. Ao chegar à cozinha, viu Rodrigo batendo contra o vidro da janela.

       ― O que está fazendo trancado na rua, homem?

       Destrancou a porta e abriu-a.

       ― Fiz uma manobra para surpreender quem quer que fosse, ― ele falou meio sem graça e apontou para a mulher pequena, de pijama e cara de dor, nos seus braços ― e acabei surpreendido por essa moça aqui.

       ― Puta merda, Nova, quer nos matar de susto?

       Foi tudo o que Karen disse.

       Rodrigo entrou com Nova nos braços, passou por Karen e deixou-a numa cadeira. Ela ergueu o pé ferido e listras vermelhas escorriam-lhe por debaixo da sola, uma parte da pele rasgada e solta, expondo a carne.

       ― Veio buscar uma xícara de açúcar, comadre? ― indagou Karen, o tom era o de deboche e desconfiança, o olhar demorava-se nas roupas de dormir da amiga e na sua palidez, fosse pela dor no pé sangrando ou pelo motivo que a fizera aparecer à noite em sua casa.

       Rodrigo interferiu fazendo um sinal à sobrinha e acrescentando com bastante ênfase:

       ― Busca o estojo de primeiros socorros, dona enfermeira.

      Sabrina assentiu, curiosa em saber o que estava realmente acontecendo. Ao sair para o corredor até o banheiro, esbarrou em Johnny e aproveitou para contar que o suposto perigo iminente não passava da amiga de suas mães aprontando alguma. E emendou baixinho:

       ― Vai ver ela voltou a se meter em encrencas, como fazia antes de casar com o diabo loiro. Parece que não aprende que para ser forte em Matarana tem de ter bala na agulha, né, meu bem?

       Johnny adorava o jeito da sobrinha do delegado.

       ― Você é má, Sabrina.

       Ela riu com vontade ao receber o elogio.

       Karen esperava por uma boa justificativa para a amiga irromper tarde da noite à sua porta, andando sozinha pela estrada sem o seu fiel guarda-costas. Contudo, a amiga não queria abrir o jogo, fitava o pé com uma careta de dor, procurando ignorar todos os olhares da casa sobre si. Até que Val sentou ao seu lado e perguntou na cara dura:

       ― O Franco bateu em você?

       Nova empalideceu à simples menção de que a amiga pensasse que Franco poderia tê-la machucado. Voltou-se para ela e respondeu secamente:

       ― Ele jamais me machucaria. ― ao sentir a pressão do olhar de Karen, completou sem fitá-la: ― Só preciso de um tempo para pensar em algumas coisas...

       ― Que coisas? ― Karen inquiriu com brusquidão.

       ― Coisas minhas, Karen. Estou grávida, preciso pensar no futuro do meu filho... essas coisas...

       Karen e Rodrigo se entreolharam cúmplices. Era possível que o casal mais jovem estivesse passando por sua primeira crise ou talvez fosse apenas uma briguinha sem grandes consequências.

       ― Bem, vou pôr uma roupa decente porque daqui a pouco teremos a visita do diabo. ― declarou Karen com naturalidade e deixando a cozinha gingando o quadril com displicência.

       Um breve silêncio recaiu sobre todos.

       Rodrigo se pôs à janela e deu uma rápida averiguada ao redor. Aproveitou para acender a lâmpada do alpendre e, percebendo-se sem camisa, pediu licença meio sem jeito e voltou para o quarto. A deixa eficiente para a aproximação de Val e vó Ninita. Foi a última quem desferiu o primeiro golpe:

       ― Por acaso a senhora sabe onde amarrou o seu bode?

       Nova esboçou um frágil sorriso ao mesmo tempo em que relançava um olhar aturdido a Val, que suspirou profundamente e concordou com a mais velha:

       ― A vó tem razão. Não sei o que aconteceu e é óbvio que estamos aqui para apoiá-la, mas se pensa que casou só com o Franco está enganada.

       ― Como assim?

       Foi a vez da avó de Karen esclarecer a questão:

       ― Já devia ter percebido que casou com a família inteira. Agora você é uma Dolejal, milionária, poderosa e completamente escrava desse bendito sobrenome. Eles não vão deixar que decida o que quer fazer ou não. Pensa bem, querida, Thales Dolejal controla a cidade, boa parte dos empresários, além dos juízes de Santa Fé... ― ela baixou o tom da voz para não ser ouvida pela autoridade: ― E ainda que a polícia se rebele, não se pode dizer que o delegado e o fazendeiro sejam propriamente inimigos, uma vez que já foram bem amigos. E para piorar ainda mais a situação, o seu sogrinho tem plenos poderes sobre a fera em forma de gente, fera essa que você mesma amansou... o teu marido. Acha mesmo que pode sair correndo pelo mato feito uma gazela enlouquecida impunemente?

       Sabrina entrou carregando o estojo com iodo, algodão, gaze, esparadrapo e pomadas.

       Nova sentia-se anestesiada após ouvir as palavras da avó de Karen. Vó Ninita conhecia Thales Dolejal havia mais de dez anos e sabia como ele agia. Ela tinha razão. A pergunta à mesa do jantar: “Você é uma Dolejal, senhorita Monteiro?” fora um aviso sobre sua nova condição agora que entrara para a sua família. O mais assustador não fora o tom sinistro da pergunta, e sim o silêncio respeitoso de Franco ao ouvi-la.

       ― Preciso de um tempo. ― as palavras pareciam enfraquecer à medida que ela percebia as suas opções. Amava o marido. Era esposa de um pistoleiro. E pertencia à família poderosa e cheia de segredos.

       Ela e Cris teriam sido ingênuos ao escolherem morar em Matarana? A ingenuidade típica dos forasteiros que lhes enchiam os olhos de sonhos e os pulmões de esperança. Cris acordara antes dela.

       Nova não queria acordar.

       Sabrina trouxe uma bacia com água morna, pegou com delicadeza o tornozelo de Nova, mergulhando seu pé.

       ― Está doendo, né?

       ― Um pouquinho. ― respondeu à sobrinha de Rodrigo; doía muito mais viver o dilema que crescia dentro dela junto com o seu bebê. ― Não quero criar mais problemas para vocês. Fui impulsiva e saí correndo, é o que eu sempre faço, saio correndo por aí. Me apavoro e fujo. Aliás, quase tudo me apavora. Não sei por que sou assim. Sinto as coisas de uma forma exagerada e dramática e é impossível qualquer tipo de raciocínio quando parece que acabei de cair num buraco. Acho que não tenho estrutura psicológica para ser uma Dolejal, ainda sou a forasteira de Minas cuja maior ambição na vida era viver uma história de amor, ― riu-se com desprezo por si mesma e completou com tristeza: ― como se isso dependesse apenas de mim. Sou ingênua, vó, a senhora tem razão.

       ― A ingenuidade, às vezes, é a melhor proteção, ― afirmou Ninita com o semblante sério e, ao ver a neta voltar à cozinha seguida pelo namorado, completou: ― assim como a ignorância uma benção. A gente não precisa destrinchar a vida do outro só porque moramos debaixo do mesmo teto.

       ― É isso aí, vó. ― falou Karen, vestida na regata preta e no jeans. ― Existe uma coisa, minha cara amiga, que se chama “determinação do perímetro”, a famosa DP...

      Johnny emborcou o seu copo com leite e achocolatado em pó até o fim e, e entre um arroto e uma risada, fez troça:

       ― DP não é delegacia de polícia, Rodrigo?

       O delegado tentou não rir, visto que Karen o olhava fixamente como se dissesse: vai debochar do que estou falando? E ele não estava muito a fim de perder pontos com ela. Endereçou um olhar divertido ao garoto e postou-se à janela, de olho no pátio frontal e, um pouco adiante, na entrada cujo portão enferrujado a mantinha aberta. Suspirou resignado e fez uma anotação mental: consertar o portão e comprar uma tranca.

       ― Posso continuar falando, ô pivete? ― a mãe emparedou o filho, que ainda exibia um sorrisinho debochado enquanto se dirigia de volta ao seu quarto para matar assaltantes de banco zumbizados. Ela continuou: ― Cada um tem o seu perímetro de atuação e por isso tem de ser respeitado. Num bom português seria mais ou menos assim: cada um no seu quadrado, entendeu? Você cuida da sua vida, o Franco da dele e os dois da vida como casal.

       Nova não esperava aquele tipo de conversa vindo de Karen, que sempre a defendia de tudo e de todos. Inclusive, era estranho percebê-la praticamente defendendo Franco, um homem, um homem que era filho de Thales e, além disso, ambos se tratavam como cão e gato. De certa forma sentiu-se ofendida e um pouco enciumada. Via Karen como uma irmã mais velha, ainda que fosse apenas um ano mais velha. Entretanto, a amiga tinha uma postura tão imponente e uma personalidade tão forte que parecia bem mais velha e sábia, como se fosse a chefe de uma tribo de mulheres selvagens.

       ― Quer que eu simplesmente feche os olhos, é? Ou melhor, que me esconda debaixo da omissão como uma tartaruga dentro do casco?

       Karen estreitou os olhos, avaliativa.

       ― Nem sempre é a verdade que traz a felicidade, Nova. É incrível que depois de tantos anos rastejando por um cara que falava bonito e agia de forma porca, você ainda não acredita que quando sabemos sobre algo temos de tomar uma atitude.

       ― Eu sei, foi por isso mesmo que fugi.

       ― Mas nenhum Dolejal foge. ― constatou Karen num tom tranquilo e ameaçador, que ligou o radar do delegado.

       ― Se quiser ficar aqui, sinta-se à vontade. ― ele assegurou, interferindo na conversa sem diplomacia e, desviando seus olhos de Karen para Nova, acrescentou de forma significativa: ― A minha casa é um território neutro, viu? Uma espécie de Suíça. Não precisa falar mais nada. Dentro de casa, não sou um delegado de polícia e não deixei de ser o seu amigo.

       Nova conseguiu sorrir e se sentiu bem melhor. Rodrigo passava uma confiança tremenda, como se tudo fosse realmente dar certo enfim.

       ― Ei, vai comprar briga com o diabo loiro?

       ― Com quem for, Karen. ― assegurou, encarando-a fixamente. Até com o pai do diabo loiro ele compraria briga, era o que dizia aquele olhar.

       E foi Val quem contornou a situação:

       ― O meu irmão adora salvar donzelas em apuros.

       Rodrigo assentiu com a cabeça, aceitando a declaração da irmã. Era verdade, sim, ele não era nem um pouco objetivo quando percebia que precisava agir e salvar uma mulher em situação de risco. Era possível que Nova tivesse acessado a parte obscura da vida de Franco, aquela parte que nem mesmo a polícia tinha provas sobre a sua existência e periculosidade.

       Ele contornou a mesa e abaixou-se diante de Nova, o rosto transmitindo segurança e carinho.

        ― Não está sozinha nem é obrigada a aceitar qualquer que seja a situação. Você tem amigos, viu?

       ― Eu sei, Rodrigo. Vocês são a minha família desde que cheguei de Minas e não teria suportado metade das coisas que suportei se não os tivessem bem perto de mim. Acho que é apenas isso que devo ao Cris, conhecê-los e fazer parte da vida de vocês.

       Rodrigo beijou o dorso das mãos dela. Ele gostava muito daquela garota miúda, que ora parecia a mais sensata das Três Mosqueteiras Tresloucadas, ora a mais lunática. Suspirou fundo e afirmou com convicção:

      ― Nada de ruim acontecerá com você e o seu bebê, tenha certeza disso.

       Karen se aproximou e pôs uma mão sobre o ombro da amiga:

       ― No fundo, sabe que está fazendo merda, né? E como é uma mulher experiente e madura vai ceder e voltar para a casa.

       Nova e Val olharam para Karen ao mesmo tempo, incrédulas. Mas foi Rodrigo quem mais uma vez se interpôs:

       ― Se ela quiser voltar e quando achar adequado. ― enfatizou com o tom de voz e o arquear das sobrancelhas.

       ― Não se meta, delegado. ― declarou Karen, secamente.

       Ele não gostou da grosseria desproporcional. Sabia o quanto Karen era ciumenta, mas era ridículo que se sentisse ameaçada em relação a Nova. Ou seria outra questão em jogo?

       Não teve tempo para interrogá-la. Sabrina elevou a voz, avisando sobre a entrada de uma pessoa.

       ― O cara está a pé, tio, e vindo para cá.

       Nova prendeu a respiração. Franco viera buscá-la. Relançou o olhar para Rodrigo que se aproximava da porta para sair. Ela viu quando Karen atravessou a cozinha feito um foguete e segurou o antebraço do namorado antes de ele dar o primeiro passo para fora da casa.

       Voltando-se aturdido ele nem precisou perguntar:

       ― O Franco não se separa da sua picape. ― afirmou Karen, sem rodeios.

       Rodrigo considerou por alguns segundos aquela informação. Depois, sorriu para acalmar a mulher e retrucou com suavidade:

       ― Acha mesmo que o coronel mandaria um matador sozinho e a pé para me executar?

       Sim, parecia um absurdo, Karen considerou.

       ― É só mandar o camarada se identificar, cacete. ― disse Val, nervosa, arrancando com os dentes frontais as cutículas do polegar.

       ― Deixa que eu pergunto...

       ― Não, vó! ― exclamou Karen com determinação. Em seguida, se voltou para Rodrigo com ansiedade: ― Não é o Franco.

         

       Quando ele alcançou a entrada do pátio da casa do delegado, não contava com a ironia do destino materializada em forma de gente. Leonardo seguia confiante, mesmo que enxergasse apenas com um olho e o corpo doesse após quase ter sido moído na porrada. Arrastava as botas com uma determinação mais emocional do que física. A automática destravada já estava à mão e pronta para fazer o serviço destinado. Tinha a alma limpa e o desejo de cobrar uma dívida. Havia algum tempo que Rodrigo Malverde o fazia de idiota escapando das emboscadas e prendendo Vitorino. Semear a desconfiança na cabeça do seu pai, certamente, fora o estopim para deflagrar a sua irremediável exclusão do planeta.

       Por outro lado, matar o delegado de Dolejal era o mesmo que abrir caminho para a ampliação dos poderes do coronel. Era sabido que o latifundiário sulista tinha conexões com a Secretaria de Segurança do estado e, em breve, um delegado de suas relações seria transferido para Matarana, ocupando então a vaga do falecido Malverde. O impacto para Thales Dolejal seria fascinante aos olhos dos Marau. Após 10 anos de proteção policial, ele se tornaria o alvo principal da artilharia pesada da polícia, enquanto para Leonardo restava saber se conseguiria também ampliar o seu negócio oferecendo sociedade no narcotráfico ao novo homem da lei.

       Uma cidade perfeita, pensou Leonardo, ao fixar o silenciador na arma. Agachou-se ao lado da picape do delegado, após subir e pular o muro que dividia a casa dos Malverde com um terreno abandonado.

       Respirou fundo antes de se levantar e se dirigir a casa. O plano era atirar no primeiro que abrisse a porta e ― sem parar, revezando as duas pistolas que trouxera, deitar todos no chão.

       Baixou a aba do chapéu e incitou o caminho de colisão.

       Jamais matara alguém e exterminaria uma família inteira. Trincou os maxilares, insatisfeito com a decisão. Ele não tolerava sujar as mãos, pois fora criado para ser servido.

       Antes de sair detrás da picape protegida debaixo da mangueira cujos galhos despencavam como cordas mortas e nodosas, ouviu passos resolutos sobre os cascalhos. Voltou-se para trás e se agachou o quanto pôde, os joelhos dobrando e mantendo o corpo flexionado. Tirou o chapéu e jogou-o no chão. O peito começou subir e descer numa respiração pesada, o ódio fervia no sangue, queimava nas veias e doía. Mirou a figura alta e loira que adentrou pelo portão, posicionou-o sob a sua mira, o dedo no gatilho, a ponta do cano em direção aos cabelos revoltos sobre os ombros encurvados.

       A mão tremeu e balançou a arma.

       Quando Franco parou e olhou ao seu redor, Leonardo esperou para ser descoberto.

 

       Karen não conseguiu segurar Rodrigo em casa. Assim que saiu, ela se pôs à janela com a Glock preparada para ser usada. Manteve a atenção direta naquele que parara à entrada, um espectro imóvel. E quando o espectro levou a mão ao coldre na cintura, Karen quebrou o vidro da cozinha com o cano da pistola.

       Rodrigo parou e, instintivamente, também destravou a sua arma. Por um segundo considerou que o camarada tivesse atirado contra a janela, mas a voz de Karen elevou-se para avisá-lo que estava a postos:

       ― Tem mais gente armada aqui, ô sujeito! ― gritou ela, as duas mãos juntas firmando a Glock na extremidade dos braços estendidos, decidida a acertar o intruso a qualquer movimento suspeito.

       Nova tentou se levantar, mas ao pisar no chão com o pé machucado, tornou a se sentar. Restou pedir com a voz angustiada:

       ― Por favor, Karen, vê se não é o Franco.

       No minuto seguinte, Rodrigo gritou para amenizar a tensão de todos:

       ― É o Franco!

       No entanto, o pistoleiro era o único que não estava calmo. Na verdade, ele estava fora. Assim que ultrapassara o portão aberto, uma sensação de alheamento tomou conta dele. Já não era primeira vez. Quando isso acontecia, precisava parar e esperar os ouvidos pararem de zumbir e a energia voltar ao corpo. Era como quando desmaiara uma vez, uma sucção de força extraída de sua cabeça e a percepção de outra realidade no estranhamento do que o cercava como real.

       Sentindo que ficaria inconsciente, dobrou o corpo e apoiou-se nos antebraços sobre os joelhos. A névoa não o envolveria para o abraço escuro e vazio. Ele não queria ir. Ele não sairia dali sem Nova. Lutou bravamente até descobrir o que estava errado.

       ― Ela está aqui. ― afirmou Rodrigo, aproximando-se e levando a arma ao coldre na coxa.

       Vendo-o encurvado como se passasse mal, o delegado estreitou as sobrancelhas, preocupado.

       ― O que tem, guri?

       Franco agachou-se e baixou a cabeça. Pegavam-no pelos pés, da terra, debaixo da terra, puxavam-no para baixo. Respirou forte, as abas das narinas se arreganharam para que o ar pudesse entrar e o oxigênio nutri-lo de força. As pálpebras pesaram como se carregassem chumbo e era difícil manter os olhos abertos.

       ― Franco! Vem, vamos entrar. É perigoso ficarmos...

       Ele não se mexeu. E o delegado virou-se para trás, dando de ombros, demonstrando sua incapacidade para compreender o ocorrido.

       Karen se voltou para Nova:

       ― O teu marido está tendo um treco.

       Nova ficou de pé e tentou caminhar. Sabrina ajudou-a a alcançar a porta, cedendo o ombro como suporte para a mulher do pistoleiro.

       ― Não vai sair daqui, amiga. ― disse Valéria.

       ― Ele precisa de mim.

       ― É verdade, mas você fugiu, não foi?

       ― Não entende, Karen, ele...

       Karen se interpôs entre as duas e a porta:

       ― É você quem não entende. Senta na cadeira e fica quieta. ― ordenou, séria.

       Coube a ela repetir o gesto de obediência que também usava para com o sogro. Sentou-se e se abraçou ao próprio corpo a fim de tentar impedir a tremedeira que irrompia de seus músculos.

       Val aproximou-se discretamente e sentou ao seu lado, pegando a sua mão, confortando-a em silêncio.

       ― Mais alguém quer bancar o herói aqui? ― perguntou Karen com dureza.

       Ninita foi a única a se pronunciar:

       ― Posso ir mijar ou vou levar bronca também?

       ― Vai mijar, vó, vai. ― respondeu a neta secamente e voltando a se posicionar à janela, de olho nos homens no meio do pátio. ― A próxima vez que bancar a perua enlouquecida, Nova, corre até a rodoviária e volta para tua terra, viu? Não quero que envolva o meu marido nos seus problemas pessoais. Ele está com a cabeça a prêmio e ainda tem de se preocupar com briguinhas de casal, me poupa! Se a tua situação com o Franco é ruim, arranja um emprego e vira gente.

       Nova abaixou a cabeça e começou a chorar baixinho.

       Não era certo ser tão dura com uma grávida cheia de hormônios, considerou Val, mas preferiu não bater de frente com a cunhada. Abraçou a amiga com carinho, trazendo sua cabeça para o seu ombro. Karen jamais dosava suas palavras, fosse para os inimigos ou amigos. Contudo, de todas elas a que mais chamara a sua atenção fora a nova designação do seu irmão: claramente Karen se referira a ele como “marido”. Rodrigo fora promovido.

         

       Franco estava de pé, os braços estendidos alguns centímetros afastados do tronco, os dedos mexiam-se exercitando as juntas, estalando no aquecimento para o movimento a seguir, após ele erguer a cabeça e fitar o delegado com os olhos congestionados, as pálpebras caídas, as narinas dilatadas e o denso silêncio de uma possível possessão.

       ― Tudo bem? ― insistiu Rodrigo na pergunta que não seria respondida.

       Franco precisou de uma fração de tempo para sacar duas pistolas enquanto o corpo girava à esquerda acompanhando o giro da cabeça e a propulsão dos pés.

       Antes que Rodrigo esboçasse qualquer reação, presenciou o ataque de um puma à presa mergulhada na escuridão. Ele não via ninguém ao redor no pátio iluminado por uma frágil lâmpada, cercado por pedras e a grama baixa, o canteiro com rosas paralelo ao muro alto de alvenaria, a picape entre ambos. E foi para lá que Franco se encaminhou, os braços estendidos e as armas destravadas, as botas pisando com determinação no chão que se estendia aos seus pés, resolutos, determinados, como um matador destinado a cumprir a sua missão.

       Ele não se protegeu ao pular por sobre o capô da picape e deslizar para o outro lado, pondo-se sobre duas pernas sem dificuldade. Ainda que o vão entre o utilitário e o muro de quase dois metros estivesse escuro, Franco pressentia a presença de olhos vigilantes, a presença de alguém que não deveria estar ali.

       Rodrigo surgiu atrás de si, a mira pronta para ajudá-lo a desarmar quem quer que fosse. Conhecia um pouco sobre a natureza mística do filho de Thales, sabia sobre os seus instintos. No entanto, ao alcançá-lo, encontrou-o mirando o vazio. Ajustando o foco da lanterna para o chão, o que descobriu foi apenas o que sempre estivera por ali, a casinha de Bonnie abandonada. Mas Franco ainda se mantinha imóvel e pronto para atirar.

       Até que virou a cabeça em direção ao muro que os separavam de um terreno baldio e que se tornara um matagal alto com árvores de tamanhos irregulares.

       ― Viu alguém? ― o delegado perguntou, vendo-o impulsionar o corpo para escalar o muro e, em seguida, pular para o outro lado.

       Rodrigo pôs as mãos na cintura e calculou a trabalheira que daria imitar a atitude do chefe da segurança da Arco Verde. Estalou a língua no palato e desistiu da empreitada. Conhecia onde morava e era só sair pelo portão para entrar no terreno vizinho. E foi o que fez. Tornando a empunhar a arma e intrigado com a inquietação do outro. Era certo que vira alguém.

       Lembrou-se da busca por Karen quando Mendes a sequestrara. Os instintos do pistoleiro captaram o “cheiro morno de sangue”, e eles a encontraram.

       Desembaraçou-se dos arbustos menores, os galhos secos e tortuosos eram como braços que o agarravam e o impediam de acompanhar a corrida frenética de Franco, caçando o seu alvo com o desespero faminto de um predador. Rodrigo tentou alcançá-lo para lhe dar cobertura ou impedi-lo de cometer um crime. Correu a plenos pulmões e, ainda que estivesse em forma, era incapaz de pôr no mesmo páreo os seus 38 anos contra os 22 de Franco. Parou, ofegante. Dobrou os joelhos e apoiou-se neles com os braços. Tomou novo fôlego ao ver a silhueta do rapaz contra a luz da lua, poucos metros a sua frente. Recomeçou a correr.

       Somente conseguiu alcançá-lo quando ele parou. Nesse momento, veio a sua mente a expressão “pôr os bofes pra fora”. Os pulmões exigiam que fossem cuspidos para se dilatarem com mais conforto.

       ― Onde está a sua inseparável picape?

       ― Deu pau na bateria ― enfim Franco falou; em seguida, confessou ainda atento ao redor: ― Senti alguém nos vigiando. A respiração tinha cheiro de sangue coagulado, uma coisa nojenta demais. ― virando-se para Rodrigo, completou com a expressão séria: ― Os olhos do camarada grudaram nas minhas costas. Acredita nisso? Ele estava de tocaia, o filho da puta estava de tocaia para pegar você, delegado.

       Rodrigo estava com a garganta seca. Correra com a boca aberta, algo não muito indicado. Endireitou os ombros não deixando de observar a cadência tranquila na respiração do garoto, a cor dourada na pele que destacava os olhos azuis e límpidos. Ele parecia ter voltado ao normal. Bem, pensou Rodrigo, voltara à normalidade típica de Franco Dolejal, normalidade estranha, por assim dizer.

       ― Quem estava de tocaia? ― perguntou, olhando ao redor, vasculhando o pouco que enxergava com o rastro de luz da lanterna.

       Franco deu de ombros e guardou no cós da cintura, frontal e traseiro, o seu armamento portátil. A postura relaxada demonstrava que o suspeito escafedera-se.

       ― Por acaso acha que eu sou a Mãe Dináh? ― debochou com um sorrisinho.

       ― Olha, pode até não ser, mas há pouco parecia um Pai de Santo recebendo uma entidade.

       ― Sou intuitivo, Rodrigo, coisa de cabra macho.

       O delegado armou um sorriso nos lábios e respirou fundo para espantar a tensão que lhe endurecera os músculos dos braços e das costas.

       ―Vou chamar o pessoal da DP para fazermos uma varredura.

       Franco ergueu a mão num sinal para contê-lo ao ver o celular pronto para ser usado:

       ― Deixa comigo, tenho um batalhão de homens para vasculhar a região.

       ― Obrigado, mas deixa os seus cães farejadores fora disso, ok? A competência é da polícia. ― foi incisivo.

       ― Assim como as sentinelas na sua casa? Ou como a escolta de militares quando você sai para as diligências? Engraçado, são todos invisíveis. Não estou te chamando de coroa, mas você é como um pai pra mim, um cara que prezo pra cacete, então enfia esse orgulho goela abaixo e me deixa pescar esse peixão fugitivo. ― a voz mostrava determinação, ainda que os olhos refletissem tranquilidade e desafio. ― Trago ele vivo, pode até ser que venha meio esfolado, mas vivo, pronto para ser interrogado por você. Olhe ao seu redor, é inútil lutar sozinho contra o coronel, chega até ser uma questão matemática, cara, o velho está em maior número. E, além disso, o que não falta em Matarana é lugar ermo para enterrar o corpo de um delegado da polícia civil. ― acrescentou de forma persuasiva.

       O delegado não estava convencido de fazer conchavo com um Dolejal, apesar da confiança que nutria pela geração mais nova deles. Fitou longamente o loiro a sua frente, escavou um pouco a sua própria intuição e não encontrou qualquer vestígio de mau pressentimento.

       Na verdade, encontrou sim.

         

       Karen estava tremendamente irritada com a situação. A prisão forçada, dentro de casa, tirava-a do sério e testava um temperamento já um tanto explosivo. Queria estar ao lado dele, ao lado do seu homem, como soldados aliados no campo de guerra. Ela não nascera para esperar pelo guerreiro. Era ela a guerreira e não se trancava em casa uma mulher composta dessa matéria.

       O ronco dos motores e os fachos de luz dos faróis antecederam a entrada do comboio de camionetes que imediatamente se perfilaram lado a lado, em oblíquo, diante da casa. Da primeira delas, saltaram a motorista debaixo do chapéu de vaqueira e o fazendeiro na calça social escura e camisa branca impecável. Atrás de si, vinte capangas sentados com meio corpo pra fora das janelas e nas caçambas, todos com espingardas empunhadas de forma ostensiva.

       Surpreendeu-se ao ver Thales e o seu exército de pistoleiros no pátio de sua casa naquela hora da madrugada que, por sinal, não era uma madrugada trivial. Observou que até mesmo Bronson estava presente e com cara de poucos amigos.

       Antes de abrir a porta para indagá-lo a respeito de sua visita inesperada, ouviu a voz da avó:

       ― Quando fui fazer xixi levei o teu celular e chamei o pai do guri. ― confessou ela.

       Karen olhou-a detidamente.

       ― Sabe o que a senhora é?

       Ninita sorriu como uma menininha travessa.

       ― Uma filha da puta?

       ― Não, vó, uma sacana muito inteligente. Agora eu posso ir atrás do Rodrigo e vocês ficarão protegidas com o Thales. ― afirmou a neta com um sorriso de vitória, abrindo a porta e quase esbarrando na muralha de carne e osso à sua frente.

       ― Por que tanta pressa? Tudo isso é saudade? ― perguntou Thales sério, ainda que debochasse e barrasse o seu caminho.

       Ela só queria correr e se juntar a Rodrigo. Encontrá-lo onde estivesse para ter certeza de que estava bem. Mas Thales não era o tipo de pessoa que facilitava as coisas. As mãos enfiadas nos bolsos laterais da calça social e agora um sorriso que era forçado a parecer natural, embora todo o conjunto do rosto mostrasse escárnio e desdém, revelava sinais de fraqueza por baixo da carcaça de arrogância. Talvez apenas Karen o visse rastejando dentro do corpo cuja coluna ereta e queixo altivo escondiam o antigo amante alquebrado.

       ― Não tenho tempo para brincadeiras, meu querido, mas não posso negar que gostei muito de vê-lo. ― piscou o olho e tentou novamente passar por ele.

       Uma mão em seu antebraço a conteve; um olhar penetrante segurou-a no mesmo lugar.

       ― O que está acontecendo aqui?

       Suspirou cansada.

       ― Teu filho fez alguma merda e deixou a Nova apavorada. Ela está esperando um bebê, é normal que fique mais sensível, ainda mais quando descobre que entrou para a máfia.

       Thales sorriu levemente.

       ― Devia ter uma conversa com sua amiga e explicar como realmente são as coisas em Matarana. ― sugeriu de forma persuasiva, os olhos cravados na boca da mulher que se agitava para se desvencilhar dele e partir.

       ― Não se preocupe com isso, ela é gamada por ele, e mulher nessa condição pisoteia os próprios princípios, esmaga todos eles num piscar de olhos. ― voltou-se para ele e o encarou: ― Vocês dois precisam afastá-la do Rodrigo. Sabe como é, né?, gente boa e honesta contamina quem decide trilhar o mau caminho. ― acresceu com ironia.

       ― Interessante. Você também divide a humanidade entre bons e maus? Houve uma época em que era mais original e aceitava a vida sem se preocupar com os rótulos. Será que a melhor mulher de Matarana contaminou-se com os Malverde e se enfraqueceu recitando agora valores morais?

       ― Não, estou ainda mais forte e por isso vou atrás do melhor homem de Matarana. Com licença, a sua nora está no quarto. ― antes de deixá-lo plantado entre a porta e o segundo degrau do alpendre, acrescentou: ― Ah, avisarei o seu filho que veio buscá-lo.

       Karen sabia que ele ainda estava olhando para ela quando desceu a escadinha e correu para fora do portão em direção ao matagal adjacente a casa. A consciência de que ele ainda se corroia com a situação estabelecida entre os dois não lhe tirava o sono, desde que permanecesse na função de aliado da polícia.

       Thales considerou impedi-la de se enfiar no meio do mato. Cogitou trancá-la em casa até que os homens voltassem com o delegado e Franco. Aí lembrou quem era Karen, lembrou-se da parte boa e ruim que ela representava, e simplesmente permitiu que debandasse. Se, por um lado, ainda quisesse vê-la de joelhos e vencida; por outro, temia que sofresse. E era por isso também que precisava ficar de olho no delegado. Se ele fosse abatido, Karen sofreria. No fundo, ele não queria ser o motivo do sofrimento dela. Nem de ser incapaz de manter vivo um de seus protegidos.

       O que ele queria então? Thales se perguntava olhando para uma porta fechada à sua frente. A resposta até que não era complicada. Queria que ela sentisse a sua falta. Poderia até lhe dizer isso por telefone. Ele precisava se manter importante para a mulher que o transformara em um desgraçado vingativo.

       Bateu à porta e esperou. Era hábito por aquela região, entre as famílias mais simples, que a entrada da casa fosse pela sua parte lateral ou dos fundos, sempre passando primeiro pela cozinha, onde normalmente recebiam as visitas.

       Foi dona Ninita quem o recebeu, um cigarro no canto da boca, o olhar gentil de reconhecimento.

       ― Obrigado por ter-me avisado sobre o meu filho. ― disse ele de forma educada e estendeu-lhe a mão.

       A avó de Karen aceitou o agradecimento e apertou a mão com firmeza.

       ― O guri nem chegou a entrar. Não sei o que aconteceu, ele e o Rodrigo saíram correndo.

       ― Devem ter visto alguém. ― e acrescentou num tom de brincadeira, ainda que não sorrisse: ― Imagina o que acontece quando dois paranoicos estão juntos.

       Ninita imaginou, sim, e torceu para que o suspeito em questão fosse filho de chocadeira, porque se tivesse uma mãe viva, a pobre desgraçada veria o filho na prisão.

       Afastou uma cadeira e fez sinal para o fazendeiro, um leve sorriso nos lábios que raramente sorriam. Ninita era uma durona das antigas.

       ― Senta, por favor, seu Dolejal, que eu vou chamar a Nova.

       Ele agradeceu e se sentou com as costas relaxadas contra o encosto da cadeira, as pernas cruzadas.

       Ninita percebeu que ele se sentia à vontade, confortável, um sorriso simpático nos lábios e os olhos curiosos xeretando cada parte do ambiente jamais visitado. Alcançou o longo corredor até o quarto de Val.

       No caminho refletiu sobre a presença do ex-caso da neta na cozinha do atual caso, parecia aquele tipo de putaria típica da novela das nove. E era sobre putaria que a senhora setentona pensava quando o furacão Sandy quase a arrancou do chão.

         

       Apenas a luz do abajur sobre o criado-mudo iluminava o quarto de Val. Sabrina, sentada à beira da sua cama, fazia carinho no dorso da mão de Nova que, deitada de lado, tentava relaxar a musculatura das costas, dolorida de tensão.

       Valéria achou bonito o carinho da filha para com Nova e era como se ela cuidasse de uma paciente ferida e carente no leito hospitalar. O que estava longe de ser o caso da amiga. A esposa de Franco estava assustada e sensível demais por causa da gravidez. E Val tinha certeza absoluta de que assim que ela visse o marido, assim que ele botasse a ponta da bota esquerda na casa para buscá-la, ela se atiraria em seus braços.

       Val e Nova não eram como Karen; elas, sozinhas, não se bastavam. Elas precisavam dos outros para viver e viviam através deles. Eram como plantas voltadas para o calor e a luz do sol, de si mesmas não tiravam alimento nem energia, precisavam de uma fonte externa. Nova precisava de Franco para existir para os outros e para si própria. E Val precisava da filha e do irmão.

       E agora Val precisava impedir que os seus pés corressem em direção à voz que ouvira na cozinha.

       Mãe e filha se entreolharam. E foi a última quem primeiro perguntou:

       ― É o Dolejal?

       Nova ergueu meio corpo, o rosto cansado expressou ansiedade:

       ― O Thales também veio me buscar?

       Val engasgou com a saliva. Uma veia grossa pulsava no seu pescoço. Ela sentia o tremor da veia.

       ― Fiquem aqui que eu vou ver. ― sugeriu num fiapo de voz.

       Sabrina se voltou para Nova e o seu olhar dizia tudo. Porém, o que ele dizia parecia-lhe sem sentido, visto que sua mãe jamais arregalara os olhos e tremera as narinas ao receber em casa uma visita do sexo masculino.

       ― O que ela tem, hein? ― perguntou à Nova.

        A mulher de Franco se ajeitou nos travesseiros e respondeu com um sorriso brincalhão:

       ― Tua mãe foi tocada pela fadinha do amor.

       Sabrina franziu o cenho sem entender, e foi preciso uma breve explicação:

       ― Bem, ela está vivendo o que tem de viver, é isso. O que você viveu com o Eduardo, por exemplo.

       ― Mas o cara da farmácia da segunda via é doido por ela, até pediu o telefone daqui de casa, quer levar a mãe pra jantar e, sei lá... ― balançou a cabeça, incomodada: ― Sei que a mãe é bonitona, mas...

       ― Mas acha que Thales Dolejal é muita areia pro caminhão dela?

       ― Sinceramente?

       ― Ela é perfeita para ele.

       Sabrina balançou a cabeça, pensativa.

       ― Isso não vai dar certo.

       Nova percebeu que qualquer argumento a favor do romance entre Val e Thales seria limitado, optou então por descansar a cabeça no travesseiro e observar a futura enfermeira ligar a televisão à procura de um filme de terror.

         

       Valéria escancarou as portas do guarda-roupa, deu um passo para trás e levou as mãos às bochechas, ligeiramente atônita. Onde estaria a roupa mágica que poria aos seus pés o homem da sua vida?

       Era impossível que o deixasse vê-la na camisola que vestia, uma segunda vez acabaria com qualquer chance de conquistá-lo. Precisava causar uma boa impressão, algo bem comportado e sensual, que não mostrasse que ela tinha posto suas roupas abaixo para criar uma imagem sedutora e fisgá-lo. Ainda que a intenção fosse essa.

       Experimentou um jeans e uma regata, como Karen se vestia. O efeito não era o mesmo. A cunhada tinha a cintura estreita e o abdômen enxuto, estufava assim apenas a parte detrás da calça. Um nó de angústia e frustração a fez desistir de tudo, de se vestir bonita para ele, de vê-lo, de jantar com ele e de entrar na sua vida.

       Mas foi uma hesitação momentânea e durou até ouvir os passos de Ninita no corredor. Abriu a porta e pegou a velhinha pelo antebraço:

       ― Aonde vai, vó? ― sussurrou.

       ― Chamar a Nova, ora.

       ― Me dá um tempo com ele, quero dizer, sozinha com ele. ― pediu.

       A avó de Karen mordeu o lábio inferior, pensativa.

       ― O que ganho se deixar?

       ― Lavo sua roupa por um mês. ― prometeu.

       ― Certo, as calcinhas também?

       Val fez uma careta e bateu amistosamente no ombro de Ninita.

       ― Claro que não!

       ― Tudo bem. Corre lá e agarra o homem, assim ele deixa a minha neta em paz. Sugiro uma boa overdose de sexo. ― falou, espirituosa.

       Val sentiu o sangue subir às bochechas. Piscou o olho e voltou a se concentrar na montanha de roupas espalhadas sobre a cama e o tapete.

       Encontrou um vestido de verão, de malha, longo até os tornozelos. Sim, não mostraria suas pernocas. O charme do mistério também seduzia. As costas e os ombros desnudos na frente-única amarrada atrás do pescoço. Um corte reto num caimento mole, marcado logo abaixo do decote avantajado; tamanho 42 para quem vestia 44.

       Olhou-se demoradamente no espelho, um sorriso malicioso nos lábios e o fogo da paixão no olhar. Penteou o longo cabelo e deixou as mechas descansarem sobre as costas. Um pouco de perfume vestiu-a de almíscar. Calçou as sandálias e saiu para o evento.

       Ao chegar à entrada da cozinha, parou.

       Ninguém se acostumava àquele tipo de beleza numa região de aridez e chuva de cinzas; principalmente, a uma beleza agressiva. Não era como contemplar uma pintura; era mais como admirar a terra, a terra no poço do penhasco, e o perigo da queda fatal. Ondas de temor lambiam suas as panturrilhas e quase lhe dobravam os joelhos. E quando ele percebeu a sua chegada e a encarou sem se esquivar de ser revistado e revirado por dentro, ela se entregou não apenas na roupa e no perfume, ela se entregou na alma revelada no brilho do olho. Porque os seus olhos disseram que o amava por ser belo, por ser perfeito, por ser quem era com tudo o que vinha com isso, por ter nascido e por existir, por ser proibido e inacessível, por ser o ogro que ela desejava aceitar sem modificá-lo, sem retocá-lo e sem se deixar destruir por ele.

       Ao entrar, Valéria desconfiou que ele percebera a manobra de conquista. Na fisionomia séria um brilho de divertimento que contrastava com o lampejo de luxúria, os olhos se detiveram no decote que revelava e escondia parte dos seios. O modo como Thales a olhou, oscilando gradativamente da mera constatação de uma intenção de sedução para a aceitação da estratégia, a admiração velada pelo corpo cheio pressionando a malha do vestido. O azul dos olhos escureceu chamando-a para dentro, convidava-a a mergulhar no oceano profundo e quente. E ela se viu banhando nua nas águas dele, e, nelas, Valéria era bonita e desejável. Através dos olhos dele, a realidade era melhor. Ela se aceitava melhor.

       ― Como vai, Thales?

       Cruzou o recinto até se postar entre a mesa e o balcão da pia, o janelão de vidro aberto, e a noite entrando com o vento suave e morno, a atmosfera cheirando a eucalipto e o barulho das botas de quem estava lá fora.

       ― Como vai você, Valéria?

       A pergunta foi feita num vagar rouco e arrastado, uma correnteza fluída de quando se dá um salto num planeta sem gravidade. Intencional ou não, toda a vez que Thales a chamava pelo nome tocava a sua pele o lençol de uma cama com ele. E também isso ele sabia.

       ― Pensei que fôssemos nos ver apenas amanhã. ― forçou um tom casual que o tremor na voz o corrompeu.

       O sorriso nasceu preguiçoso no rosto cuja macheza explícita se evidenciava na barba por fazer.

       ― Pra ver como sou um homem de sorte. ― comentou simplesmente; em seguida, tornou a vasculhar o seu corpo atrás de evidências de que tudo fora posto ali para servi-lo.

       Ela deu-lhe as costas a fim de ganhar tempo e reunir coragem para voltar ao embate. Aproveitou para abrir a porta do armário aéreo e retirar o pote plástico com o pó de café. Determinada a se controlar, continuou a se mexer pela cozinha em busca do bule de inox e o coador.

       Falou sem se voltar:

       ― Gosta de café passado?

       Não obtendo resposta, voltou-se e o encontrou olhando para o seu traseiro.

       ― Gosto. ― ele respondeu ao esbarrar os olhos nos olhos dela; depois, completou sugestivamente: ― Forte e quente, você gosta?

       Ela pensou em responder que sim e com duas doses de vodca. Se ele se referia realmente a café. Mas talvez a vodca não mais tivesse sobre si o efeito que Thales causava. Desde que dividira o mesmo teto com ele nenhuma bebida fazia efeito no seu organismo. De certa forma, Val perdera o prazer de antes, de sorver os seus sucos batizados. Ansiava, sim, por algo mais forte, como um viciado subindo os degraus da dependência e descendo os da dignidade.

       A ideia era se ocupar com qualquer tarefa que não o permitisse hipnotizá-la para além do normal. Por isso se manteve atenta ao acrescentar a água fumegante para vê-la misturar-se ao pó marrom, encher até a borda do coador e, depois, descerem misturados pó e água.

       Um barulho na rua a fez se aproximar da janela. Estranhou o número de pistoleiros que viera com o patrão. Encurvou o corpo para frente quase encostando o quadril no balcão da pia, indagou intrigada:

       ― Por que tantos homens?

       ― O Bronson encontrou a casa do Franco aberta e a picape abandonada no acostamento da estrada. ― ele respondeu calmamente e acresceu: ― Se tivéssemos que procurar por ele, pela região, eu teria de utilizar um bom contingente de funcionários.

       ― A Nova veio direto para cá. ― comunicou-o, enquanto enchia novamente o coador com água.

       O cheiro do café era delicioso e combinava com a cena intimista, o aconchego de sua casa, a simplicidade no encontro entre duas pessoas que se conheciam havia muito tempo e que, no fundo, não se conheciam.

       Percebeu-o atrás de si, fazendo o mesmo que ela, olhando para fora através da janela. O corpo forte colou-se ao dela. O propósito de fazê-la sentir todo o seu poder e calor pressionando-a contra a virilha, encurvando-se ligeiramente por sobre ela e, ao mesmo tempo, ignorando o ato, enquanto comentava distraidamente o motivo de andar com tantos capangas ao seu redor.

       ― Ainda há muitos desses na Arco Verde. ― falou baixinho, a boca quase encostada à sua orelha.

       Se Val virasse o rosto centímetros para o lado, esbarraria no rosto dele tão próximo ao seu que aspirava o cheiro de sua pele e cabelo. Preferiu fingir que se interessava pela movimentação no pátio logo depois do alpendre.

       ― Almíscar ― ele sussurrou antes de prender-lhe o lóbulo da orelha entre os dentes frontais.

       Ela gemeu baixinho oferecendo-lhe o pescoço, que foi mordiscado com suavidade em toda a sua extensão, alcançando o ombro nu e retornando pelo mesmo caminho até parar a boca na parte superior da orelha, descendo para o maxilar, os braços enlaçando-lhe o tronco, as mãos abertas, o abdômen; as nádegas firmemente pressionadas contra a dureza de seu sexo.

       Thales estava atordoado de desejo e fascinado pela beleza espetacular do corpo grande e feminino, explosivo, dinamite debaixo de um vestido comprado em alguma liquidação, loucura de mulher tipicamente suburbana, domesticada pela vida de prestadora de serviços caseiros, sem maquiagem, sem unhas de porcelana, sem sofisticação alguma, sem classe, simplória e completamente disposta a enfrentá-lo na arena. Desarmada e tola, oferecendo-se para ser tatuada pelo seu suor e, ah!, ele imprimiria naquela pele branca e cheia de sardas a sua marca, fosse beijando a pele do seu pescoço, arrepiada, fosse subindo as mãos e apertando os seios fartos, sentindo debaixo da palma os bicos duros, a excitação dela o consumia em labaredas que se espalhavam pelos músculos, tencionando-os e os estirando ao limite.

       ― Seu plano é me enlouquecer, Valéria Malverde? ― ele gemeu, a voz rouca contra a sua orelha, o ar falando junto, a respiração pesada.

       Sim, ela guardou para si a resposta, deitando a cabeça para trás, encontrando o tórax dele, o apoio do corpo forte. Estava drogada, só podia. A única coisa que a interessava era se deixar ser apalpada, apertada, desbravada por um colonizador. O seu.

       Gemeu alto quando a mão grande avançou por dentro do decote e pegou seu peito com domínio, pegou-o como se pegasse um objeto seu, posse, força. O desejo aumentou ao ponto da perda da noção de certo e errado, ultrapassando o limite do sensato e do desatino. Ela queria senti-lo mais e mais. Forçou o quadril para trás para encontrá-lo pronto.

       ― Quero você na minha cama. ― a voz sufocada de desejo golpeou os últimos pudores dela, nocauteou-os, e a vontade subjugou a razão.

       ― O que você quer, Thales? ― insistiu entre um gemido e um suspiro profundo. Ela queria ouvir, precisava ouvir novamente.

       Ele a virou para si e a olhou com firmeza. O rosto afogueado de tesão, as mechas curtas e úmidas na testa, as linhas de expressão pronunciadas ao redor das pálpebras, toda a fisionomia de um animal com fome, um predador voraz diante de uma presa fácil.

       ― O que você também quer. ― repetiu devagar, com a sinceridade crua que lhe era peculiar.

       Só que não era a expressão de um desejo, ela bem o percebeu quando ele continuou com um leve sorriso maldoso:

       ― Deixarei marcas em você que nem o tempo apagará.

       Valéria ouviu alguém gritar dentro de sua cabeça para correr e fugir.

       ― Estou preparada. ― constatou com serenidade.

       Thales nunca imaginou que ainda existissem mulheres ingênuas como a irmã do delegado. Testou mais uma vez:

       ― Quer mesmo fazer parte do meu inferno? ― os olhos se estreitaram avaliando-a.

       ― Vou tirá-lo do inferno. ― declarou com simplicidade.

       Fora tão fácil, tão fácil. Sem jogos ou estratégias, sem plano algum para uma elaborada vingança e já estava a mulher se entregando. Ela sorria como uma tola, como toda mulher enganada por si mesma sorria.

       Por um momento teve vontade de abandoná-la na cozinha e voltar para sua vida, esquecer a intenção de punir Rodrigo. A facilidade em ter Valéria o incomodava e, de certa forma, o exasperava. Ela não lutava para se proteger dele nem para se preservar de uma decepção. Ela o aceitava de braços abertos como a vítima o seu algoz. Por isso, e ainda mais, precisava apanhar da vida para aprender a ser inteligente. Ele lhe daria uma boa lição, prometeu a si mesmo.

       E depois baixou a cabeça e a beijou, os braços apertaram-na com força.

         

       Karen encontrou-os no meio do caminho, o foco branco da luz da lanterna chegou antes das figuras altas toldadas por chapéus, caminhando lado a lado, remexendo levemente os quadris de forma displicente, cansados, arrastando as botas no mato baixo. Aqueles dois eram os legítimos caubóis do cerrado, pensou ela, com um sorriso de reconhecimento e ajustando as passadas largas a um ritmo menos puxado.

       Jogou-se nos braços de Rodrigo, que lhe enrodilhou o corpo e a apertou num abraço daqueles, cheio de contentamento. Mas depois se afastou para encará-la com um ricto de contrariedade, já que ela não devia estar ali.

       ― Se você e a Glock estão aqui, quem está protegendo o pessoal de casa?

       Karen sorriu de modo travesso.

       ― O exército do Franco chegou com tudo.

       O loiro apertou o passo, uma ruga de preocupação acentuava a expressão agora séria. Rodrigo, como sempre, exigia explicações para compreender a situação como um todo.

       ― É algum tipo de estratégia para limitar os passos da Nova? ― a pergunta direcionada para o homem ao seu lado.

       Franco nem se deu ao trabalho de se voltar ou diminuir o passo para responder secamente:

       ― Não sei o que está falando. Vim buscar minha mulher e espero que ela queira voltar comigo, senão...

       ― Senão...? ― o semblante do delegado demonstrava a sua disposição em defender a amiga. ― Vai fazer o quê, hein? Levá-la de arrasto como um primitivo?

       ― Não, delegado. ― resmungou.

       Karen tinha o hábito de pôr lenha na fogueira:

       ― Meu amigo, não é porque casou que algemou a Nova na tua cama, viu? O que tem de fazer é conversar com ela usando aquele teu charminho de menino-bruto-abandonado-na-estrada, isso realmente parte o coração de qualquer mulher.

       Rodrigo interferiu com ponderação antes que Franco a mandasse à merda e a confusão se instaurasse de vez.

       ― Tente ser maduro e racional, controle-se, ela precisa de segurança, está grávida e longe de casa, é uma situação difícil.

       ― Quem sabe o senhor mesmo não pega a Nova no colo e a consola? ― indagou Karen, irritada: ― Porra, Rodrigo, ela tem trinta e poucos anos nas guampas e é tratada como se fosse uma adolescente retardada que precisa de proteção e palavras gentis para não ficar traumatizada com a brutalidade da vida. Me poupa, cacete! A gente já queimou sutiã, meu filho! Mulher não nasceu para ser protegida, nem Deus quer isso, Ele Próprio nos escolheu para gerar e parir vocês, os tais fortões! Nós temos o poder! Nós somos a força da natureza! Nós é que protegemos vocês, diabos! Quem foi que te ensinou a comer, caminhar e fazer coco no penico, hein, ô Rodrigo? Foi uma mulher, meu querido! Então para de tratar a mulherada como bonequinhas de porcelana!

       O delegado não sabia o que falar, já não era a primeira vez que os discursos de Karen o deixavam mudo. Concordava com ela em cada vírgula, mas, ainda assim, por ser tão importante, o sexo feminino precisava de proteção dobrada. Talvez Karen não percebesse que a sua necessidade de se impor aos homens revelasse justamente a sua fragilidade, mesmo sendo a mulher durona que ele tanto amava.

       ― O Rodrigo tem razão. ― afirmou Franco, espicaçando o efeito do discurso.

       Karen então prontamente encerrou o assunto.

       ― Então te fode, Franco.

       O pistoleiro não havia percebido que Karen estava de fato do seu lado tentando facilitar a sua relação com Nova. Relanceou-lhe um olhar de esguelha e a viu olhando para Rodrigo de um jeito que jamais a vira olhar para o patrão. Um olhar amoroso e sereno, de admiração e respeito. Mesmo desbocada e bruta, Karen Lisboa não fora domesticada por Rodrigo ― e jamais o seria, ele tinha certeza disso, ela fora, isso sim, conquistada por ele.

       ― Se a minha mulher não me quiser mais, eu vou embora do centro-oeste. Monto na minha picape e ganho o mundo, e espero encontrar algum inimigo de grosso calibre pelo caminho pra me abater de vez. ― falou com amargura.

       ― Céus, quanta sabedoria! ― debochou Karen. ― Vai deixar a tua filha sem pai e abrir caminho para a Nova casar com outro, além, é claro, que embolsará uma bela pensão e viverá feliz da vida à beira da piscina com o próximo pistoleiro saradão. ― caiu na gargalhada.

       A caminhada cessou num átimo, e todos olharam para a mesma direção.

       ― Pra quê tudo isso? ― interrompeu Rodrigo ao adentrarem o pátio de sua casa.

       Franco sorriu sem jeito ao ver as camionetes cercadas pelos seus subordinados da Arco Verde.

       ― Acho que foi por que eu me esqueci de fechar a porta de casa.

         

       Foi como voltar de um desmaio, da escuridão tépida e morosa da inconsciência, apesar de contraditoriamente todos seus os sentidos se mantivessem em alerta. O corpo vibrava numa frequência aguda, a carne comprimida por outro corpo, exigente e ousado. Valéria mergulhou no beijo e era como se todo o seu ser beijasse a maciez firme da boca de Thales. Nunca lhe havia passado pela cabeça que alguém tão controlado e determinado no comando de suas ações fosse também um macho lascivo e avassalador, quente, e tal constatação a levava a pensar de forma vulgar, comparando-o com os garanhões comprados a peso de ouro para cobrirem éguas.

       Ela se afastou antes dele. E foi esse gesto de afastamento, impondo a distância de poucos centímetros entre ambos, que a permitiu presenciar o evento. Thales injetava o azul de seus olhos dentro de suas veias e a droga já corria por sua corrente sanguínea do mesmo modo que acontecera com Karen anos atrás. Foi mágico até, um tipo de sofisticado sadismo por parte dele, que encontrou a reverência contemplativa do seu lado mais forte, imbatível e totalmente entregue à dependência da toxina que minaria não apenas o seu sistema nervoso, como também os seus pudores criados à base de chás e comédias românticas.

       Thales estava tomado pela vontade de fazer sexo com ela, afastar o fundilho da calcinha, arreganhar suas coxas e meter fundo olhando para o seu rosto limpo de mulher caseira, de dona de casa certinha, de santa com cheiro de almíscar vertendo suor corrompido pela libido. Lambeu com os olhos cada palmo do corpo feminino e sensual, desenhado com curvas generosas, flambando-a para ser servida com a maçã na boca, de bruços, na sua cama. A boca inchada, as marcas avermelhadas na pele e as pálpebras quase fechadas, toda a expressão facial de Valéria e os seus seios fartos, os bicos se projetando duros, as coxas cheias de carne, o vale quente pulsando, toda ela ofegava ainda presa no arco dos seus braços e prometia oferecer a melhor de suas aventuras eróticas. Nada como uma submissa para deflagrar a paixão de um dominador.

       Notou quando ela baixou o olhar discretamente para a sua cintura, um sorriso de satisfação ao perceber que o excitara ao ponto de revelar na calça o tamanho de uma bela ereção. E a reação ao sorriso dela o levou a imaginá-la de joelhos diante da fonte.

       ― Acho que eles chegaram. ― Valéria deixou escapar junto com a respiração.

       ― Então temos um segredo? ― perguntou ele, com certo divertimento na entonação de voz baixa e irônica.

       ― Por quê? Quer que a Karen nos veja?

       Thales percebeu que a submissão de Valéria era bem dosada.

       ― Para falar a verdade, prefiro que o seu irmão nos dê o flagrante. ― afirmou com um meio sorriso, soltando levemente as rédeas da mulher que já estava presa por elas. ― Tenho a impressão de que ele a porá de castigo se descobrir que brinca comigo no parquinho.

       Val ouvira falar sobre o senso de humor esquisito do fazendeiro.

       Ele sorria sem vestígio algum de maldade ou ironia.

       Ela então sorriu de volta. E, ainda se olhando, eles riram; estavam rindo de si mesmos.

       Até que a porta foi aberta bruscamente, e Franco entrou, não demonstrando qualquer interesse em compreender o motivo da agitação da irmã do delegado, retirando-se do diminuto espaço entre o balcão da pia e o seu pai.

       Ele realmente não se importava com nada que não fosse ver Nova. Mas teve de parar no meio da cozinha, uma vez que não estava em sua casa e precisava cumprir determinados protocolos de civilidade, como lhe dizia Rodrigo.

       ― Vá buscar a sua mulher. ― ordenou Thales com a naturalidade típica de quem está acostumado a mandar.

       Valéria fez menção de levá-lo até o quarto, porém se deteve ao ver a mágoa cristalina que quase se derramava de uma pálpebra, a que tremia. Por isso apenas indicou o caminho sem se juntar ao casal.

       ― Franco, ela está no quarto com a Sabrina.

         

       Ao encontrar Nova deitada na cama, recostada contra dois travesseiros e o pé com a atadura, Franco pôde enfim desaguar a dor que quase o asfixiava. As lágrimas vertiam em fios sinuosos descendo pelos maxilares e pingando no chão. O choro silencioso, sem escândalo, sem soluço. Apenas os olhos molhados e o queixo trêmulo.

       Sabrina ergueu-se rapidamente sem deixar de se sentir contaminada por toda aquela tristeza que ela não soube definir de onde vinha e por que se instalara não somente em Franco, mas também nas paredes, cortinas e dentro dela. E era como se ela estivesse assistindo ao lamento calado e até sereno de uma criança que sonhara com a morte da própria mãe. Logo Franco cuja morte materna não fora apenas um pesadelo. Conteve-se para não abraçá-lo.

       Antes de sair e fechar a porta atrás de si, ela viu o diabo loiro, o psicopata de Matarana, ajoelhar-se ao lado da cama, pegar o pé ferido da esposa, baixar a cabeça e beijá-lo delicadamente. Com esse gesto ele dizia tudo, Sabrina pensou, um nó apertado na garganta.

       Ele não pediu para não ser abandonado; uma segunda vez ele não pediria. Na decisão não havia rastro de orgulho ou soberba e sim a determinação de aceitar o seu destino, a fatalidade de ser largado no acostamento das estradas. O que Nova resolvesse seria acatado por ele. Ela era a sua vida e se a sua vida desejasse partir, assim seria.

       ― Entre nós, você sabe, é uma estrada sem volta. ― ela começou, fitando-o de cabeça baixa, os lábios descansando levemente sobre o seu pé, o cabelo atirado para frente escondendo o seu rosto. ― Nunca mais seremos iguais a como éramos antes do que aconteceu, e não adianta tentarmos esquecer e seguir em frente. A gente nunca esquece o que é importante e o problema acaba criando vida própria e toma conta de tudo.  Essa coisa de margem de rio acabou, ou sou a sua mulher ou não sou mais. E se não me disser exatamente como age e o que faz, qual é a natureza do seu trabalho, vou acreditar que não o conheço de verdade. Sinceramente, não quero deixar de ser a princesa para me transformar na bruxa, entendeu? ― perguntou, incisiva.

       Ele apenas assentiu levemente com a cabeça.

       ― Olha pra mim. ― pediu e foi atendida.

       Vê-lo chorar não a fazia nada bem. A ponta do nariz avermelhada e as lágrimas que desciam dos olhos injetados contrastavam com o rosto másculo com a barba por fazer.

       ― Por algum motivo sempre imaginei que a sua fama de pistoleiro fosse mais devido ao seu comportamento irreverente do que a algum ato ilícito. Não sei, talvez conhecendo a sua docilidade e estando apaixonada por você, elaborei uma bela fantasia, uma ideia romântica que o tornava um justiceiro, sim, alguém perigoso, mas que jamais faria mal a alguém. Ou talvez eu tivesse tanto medo de descobrir que o homem mais maravilhoso do mundo era, na verdade, um assassino frio, que acreditei nessa fantasia de sermos comparsas. Afinal, quantas vezes me autointitulei de bandidona? ― indagou com um sorriso triste. ― Mas o amor verdadeiro não é feito de projeções, não é mesmo?

       Ela parou de falar, a voz carregada de emoção. Uma faca partia em pedaços o seu coração que sangrava angústia.

       ― Amo você, princesa... amo demais, não sei falar palavra bonita, não sei como dizer o que sinto por você, a única coisa que me interessa nessa desgraceira de vida é ver você sem esse olhar de tristeza por minha causa... ― ele começou a falar aos trancos, engolindo as lágrimas, tremendo cada sílaba, afoito, quase se afogando na vontade de trazê-la para perto outra vez. ― Só acreditei que tinha sorte na vida quando você se interessou por mim, alguém como você, meu Deus, nunca alguém como você ia querer coisa com alguém como eu. Sempre soube disso, eu sempre soube que...

       ― Era um assassino? É isso, Franco?

       ― Não.

       ― O que sempre soube então?

       Ele a olhou prolongadamente e por fim revelou quase num sussurro:

       ― Que eu não sou uma boa pessoa.

       ―E o que fará a respeito?

       ― O que posso fazer, minha genética é fodida.

       ― Para de bancar o moleque ou volta pra escola, Franco! ― repreendeu-o com austeridade. ― Chega de culpar a mãe prostituta que o rejeitou ou o pai que o criou como um empregado ou essa sua famosa genética avariada! Cresça e assuma a responsabilidade das suas ações! Não continuarei casada com um pistoleiro matador, ouviu bem? Vou sofrer horrores longe de você, nem quero pensar em não vê-lo todos os dias... ― ela parou, consternada, puxou um pouco mais de ar para os pulmões e continuou: ―Viu o que fez? A gente precisava dessa merda toda, hein? Não basta ser segurança de fazenda, tem de sair por aí matando gente?

       ― Princesa, não mato gente. ― insistiu.

       ― Bandido também é gente, Franco.

       ― Para mim, não.

       ― Claro, isso justifica tudo, não é?

       ― Não, não justifica.

       ― Quantas pessoas você matou?

       Ele sorriu com o canto dos lábios.

       ― Nenhuma pessoa. ― antes que ela falasse após abrir a boca, acresceu significativamente: ― Mas dei fim a dois bandidos.

       ― Meu Deus! Sabe quanto tempo de prisão pegará por esses dois homicídios?

       ― Tudo é bem-feito, Nova, não se preocupe com isso. ― assegurou.

       ― Claro, o Bronson descarta corpo e o Thales joga uma boa pá de terra sobre qualquer investigação. ― considerou exasperada.

       ― Porque ninguém se interessa por bandido morto. Só você. ― enfatizou de forma significativa.

       As lágrimas haviam secado, ainda que os cílios estivessem úmidos. Um rastro de choro se mostrava no leve inchaço das pálpebras e no tom corado das maçãs do rosto. Ele mantinha os olhos cravados nos dela, talvez como uma forma de hipnotizá-la para mudar o seu modo de pensar ou talvez para trazer de volta a Nova com a qual se casara.

       ― O interesse que tenho é por você. ― afirmou convicta sem, no entanto, baixar a guarda: ― Já disse em várias ocasiões o quanto o amo e não vejo outra forma de amar alguém que não seja se preocupar com a pessoa e desejar o melhor para ela. Você, Franco, nunca teve chance de escolher o seu próprio caminho, foi pego pelo Thales na estrada e depois criado com os pistoleiros. O que mais poderia fazer? Quem poderia tê-lo aconselhado? Em quem você confiaria para aceitar um conselho? Não é tarde para mudar, entendeu? Continue como segurança, não vejo problema algum nisso, mas lembrando que a sua função é a de defender e proteger. É preciso que haja um limite nesse seu trabalho. Quem prende bandido é o Rodrigo e o resto da polícia; você, o seu pai e os pistoleiros são cidadãos comuns. ― ela fez uma pausa, pois precisava reunir coragem para jogar a sentença no ar: ― De agora em diante, você é apenas o chefe da segurança da Arco Verde, como sempre o foi. Tem de cuidar de quem entra, dos limites da fazenda e tudo que se relaciona com essa segurança. Acabaram as ofensivas armadas contra os inimigos do teu pai ou ações de justiça com as próprias mãos. Se não andar na linha, Franco, vou embora com a nossa filha. ― declarou com firmeza.

       Quarenta homens preparados para pôr fim à dinastia Marau. Em menos de quarenta e oito horas, sob o seu comando, a entrada de Thales Dolejal, pela primeira vez em vinte anos, no terreno do seu maior inimigo.

       Franco não hesitou ao afirmar:

       ― Andarei na linha, princesa, pode deixar comigo.

       Ela ainda não estava certa sobre a verdade daquelas palavras.

       ― E o que falou há pouco no jantar, de invadir a Coração de Ouro?

       ― É só uma visita, nem tirarei minhas armas do coldre. ― respondeu com serenidade e depois completou sem rodeios. ― É o meu trabalho, estou à frente dos meus homens e preciso garantir a segurança do meu pai.

       Nova percebeu que batera de frente com a devoção a Thales Dolejal. Sustentou o olhar atento do marido, perscrutador até, para, em seguida, se recostar nos travesseiros e chorar.

       Foi então que o desespero tomou conta do pistoleiro.

       Num átimo, ele se postou ao lado da mulher, à beira da cama, e a puxou para si abraçando-a. Apertou o corpo pequeno contra o seu, sentindo a fragilidade de duas vidas entre os seus braços e, ao mesmo tempo, a força e o poder que detinham sobre ele.

       ― Volta comigo pra casa, por favor. ― ele não pediu uma segunda vez. Implorou.

       Franco jamais mudaria, havia nascido para ser quem era, Nova considerou, enterrando o nariz na camiseta dele e aspirando o cheiro da sua própria pele.

         

       O sol queimava do céu e espalhava o calor pela planície. Embora na estação das chuvas as temperaturas não se elevassem tanto quanto no estio, naquela manhã de dezembro, a bola amarela incandescente se mostrava mais hostil que nas últimas semanas. Bem, pelo menos, era assim que Cristiano Bittencourt sentia o seu dia, vindo do Camaro largado a poucos quilômetros dali, entre as fazendas Arco Verde e Coração de Ouro, perto da casinha onde Mendes ― segundo a polícia de Matarana, fora assassinado.

       Ele estava diante de uma cova fechada e recentemente recheada com um corpo. Debaixo de seus sapatos caros, a terra que fora remexida havia pouco mais de um mês. Olhando ao redor, o que via eram arbustos retorcidos com algumas folhas verdes, outras amareladas; o prado quase esverdeado no mato ralo e baixo e uma casinha de madeira abandonada. Era um pedaço de terra entre duas importantes fazendas esquecido após o recolhimento do cadáver de Mendes, o pistoleiro morto por Everaldo Viegas.

       Cris agora sabia quase tudo sobre Everaldo. Observando Franco bem de perto, à espera de descobrir e provar o quanto era nocivo e instável emocionalmente, o destino dera-lhe um presente pondo-o como testemunha de um crime. Era mesmo como se dizia, que para todo o crime Deus arranjava testemunhas.

       Após o casamento de Nova com o pistoleiro, iniciou o que se configuraria como “o processo de exposição de um bandido disfarçado de justiceiro” e passou a seguir e espreitar todas as ações de Franco Dolejal. Todas, até mesmo sua ida ao cinema.

       Voltou ao Camaro e retirou do porta-malas a pá em bico, de aço, o cabo comprido e de madeira ainda no invólucro plástico da agropecuária de Belo Quinto.  Segurou-a longe alguns centímetros de seu corpo, admirando com certo desprezo o objeto tão deslocado do seu estilo de vida; era o bisturi da terra, cortando e separando em linhas. Considerou que também estivesse descendo alguns degraus ao comprar de forma sorrateira um instrumento para cavar a terra e retirar dela um cadáver. Nem sabia ao certo se era aquele tipo de pá para fazer tal trabalho, como se houvesse pás especiais para isso. O que ele sabia sobre cavar e escavar relacionava-se apenas à metáfora relacionada à investigação de possíveis doenças infantis.

       Ajustou o chapéu panamá na cabeça e bebeu uma boa golada de água mineral, antes de se postar diante da terra revolvida, a cova de Everaldo.

         

       Nova se espreguiçou e bocejou ao mesmo tempo. Antes de abrir os olhos já sabia que estava sozinha na cama. Franco não dormira ao seu lado, justamente porque ele não dormira. Ao voltarem da casa dos Malverde, a tônica principal entre ambos fora o silêncio.

       Ele a retirou da picape e a carregou no colo para o quarto, trancou a casa e se pôs a limpar a louça usada no jantar.

       Ela então adormeceu ouvindo o barulho suave da água da torneira e os passos descalços do marido sobre o assoalho de madeira. Como estava exausta após ser tomada por uma enxurrada de emoções e lágrimas, o sono veio fácil, arrebatou-a com sua suave tepidez.

       Foi até a cozinha, aspirando no ambiente o odor característico do café descansando na cafeteira elétrica. A sensação ruim de não encontrar Franco à mesa lendo o jornal ou tostando o pão com manteiga na frigideira ― sua especialidade que tanto se orgulhava, atingia o seu peito em cheio. Fora dura com ele, era verdade. Encostara-o contra a parede exigindo um comportamento que era mais compatível com o seu modo de pensar do que com o tipo de vida que se levava em Matarana. Dera-lhe um ultimato, como quando o fizera com Cris, a fim de que resolvessem a situação afetiva entre ambos. E o que acontecera? O amigo lhe deixara à mão o celular com as mensagens de sua amante para que Nova soubesse que nada mudaria entre eles. Ele não mudaria por ela. Não lutaria por ela. E assim o ultimato se transformara num tiro no próprio pé. Mas aí Franco aparecera do nada, entrando pela porta da cozinha com a sua juventude endiabrada e o seu coração carente de amor. E depois a revolução.

       Ela se sentou na cadeira e teve um déjà vu. Só que não era bem um déjà vu, pois de fato vivera essa mesma cena numa manhã em que saíra da cama e se encaminhara até a cozinha, sentara numa cadeira e olhara para as paredes à procura do sentido. A diferença entre as duas situações era que agora estava grávida. Mas isso não a impediria de se acomodar e aceitar o estabelecido. Queria muito acreditar que era livre.

       Uma cestinha com bolachas salgadas e torradas convidava-a a ser degustada. E sem os enjoos matinais, Nova estava sempre faminta. Pegou uma torrada e a mordeu na ponta enquanto enchia a caneca com café preto para, logo depois, adicionar um pouco de leite integral. Seus olhos pousaram sobre o papel debaixo da cestinha, puxou-o e leu na letra arredondada de Franco o que o seu coração, batendo forte, transformou em código Morse:

       “Quando a gente quer dizer mais do que “eu te amo”, o que a gente diz? Você me perguntou, lembra? Então, minha princesa, jamais esqueça a resposta.

       Trarei o nosso almoço.

       Beijo na boca,

       Franco”.

       Ela suspirou pesadamente, o amor sufocando-a de tristeza. Às vezes era triste amar um homem incondicionalmente porque até mesmo o amor impunha condições: sê-lo verdadeiro, por exemplo. E o verdadeiro amor não era cego ao ponto de ser incondicional; ele era, isso sim, pleno e valente, o militante de uma causa não corrompida.

       As lágrimas começaram a rolar. Hormônios da gravidez, tensão diante da primeira crise conjugal ou o eterno medo de perdê-lo, fosse o que fosse, Nova se abandonou ao choro convulso. E não era porque se despedia de Franco e da sua vida com ele, como acontecera com Cris.

       Chorava por ter lido o bilhete dele, a saudade doía demais.

       Vestiu-se rapidamente decidida a encontrá-lo na Arco Verde. Pôs um vestido curto, o tecido florido e romântico e sandálias de salto baixo. O pé em perfeito estado envolto na atadura.  Borrifou perfume, pegou o bolsão e as chaves do jipe.

       A vontade de abraçar o marido e estar com ele a enchia de energia, pronta a pisar no acelerador e ganhar a estrada direto à fazenda. Ansiava por jogar-se nos braços do seu loiro lindo, o chefe da segurança, o chefe da sua casa.

       Parou assim que abriu a porta dos fundos.

       Um velhote com a idade de Bronson, chapéu de caubói, jeans puído e arma na cintura descansava em uma das cadeiras do pátio. Ele a cumprimentou com um aceno de cabeça, e ela o reconheceu como um dos pistoleiros da Arco Verde. Automaticamente, relançou um olhar para o seu jipe.

       O outro a informou rapidinho sobre a situação:

       ― O patrão mandou a gente proteger a senhora.

       Thales?

       O segurança percebeu a hesitação em seu rosto e completou com gentileza:

       ― O seu Franco.

       Nova sorriu levemente e seguiu em direção ao carro.

       ― A senhora não pode sair de casa sem autorização do patrão.

       Ela parou no meio do caminho como se tivesse levado um tiro na coluna.

       ― O que?

       ― Ordens do patrão.

       ― É mesmo? A minha casa agora virou o meu cativeiro, é? ― irritou-se.

       ― O patrão está ocupado trabalhando e ele precisa manter a cabeça limpa, foi isso mesmo que ele falou.

       ― Como assim? ― indagou, desconfiada.

       O velhote sorriu meio constrangido, apesar de que concordava com as determinações do patrão mais novo. Agora não era hora para se pensar em mulher, e sim de se pintar a cara para a guerra próxima. Ele próprio preferia estar enfiado no galpão quente ouvindo as estratégias do seu Franco, mas Bronson escolhera a dedo os pistoleiros que fariam a proteção armada da senhora Dolejal, e Franco salientara que tinham de ser os mais confiáveis e experientes. Isso era muito bom para Valentino que, no alto dos seus 58 anos, ainda era considerado como um capanga da elite do exército dos Dolejal.

       ― A casa está cercada, senhora Dolejal. ― afirmou o líder do bando.

       O pistoleiro também olhou para o jipe e depois novamente para a mulher que o fitava com os olhos arregalados, imóvel e muda.

         

       Leonardo estava deitado na cama; debaixo dele, a colcha de tergal com figuras geométricas sob o fundo verde musgo. Fumava sem pressa, a cabeça descansando sobre dois travesseiros, o peito nu, o pus escorrendo de algumas feridas decorrentes da última surra. Um líquido grosso, uma água brilhante emergia por sobre riscos abertos que exibiam a carne. Não doíam nem eram ignoradas, as feridas que marcavam o seu corpo jovem e atlético, vestido no jeans e descalço, escondendo-se num quarto de hotel em Belo Quinto, vindo de uma corrida alucinada pela estrada desde a casa dos Malverde.

       O motor da picape ainda fervia no estacionamento fechado do hotel, vaga exclusiva do gerente, que lhe custara o dobro do valor da hospedagem. Pagou em dinheiro; livrou-se do celular e cartões de crédito. Em seguida, voltaria a Matarana de carona, deixando para trás a picape com o GPS. Mas não voltaria para a Coração de Ouro. O delegado ainda estava vivo, e o coronel não o aceitaria antes de terminar o serviço. Se não fosse a quantidade de droga que tinha armazenado na fazenda e o seu compromisso com os bolivianos, Leonardo voltaria para o Acre. Só que agora o Acre era como um caixão aberto esperando a sua chegada. Não podia voltar com as mãos abanando sem o dinheiro dos seus fornecedores. Tinha de pensar num jeito de tirar o carregamento de pasta base de coca do armazém da fazenda do pai antes que fosse descoberta, antes que o cerco se fechasse ainda mais em torno de si, antes que o cartel da Bolívia se irritasse com a demora em receber o pagamento pela droga.

       Então Leonardo entreabriu os lábios cortados e fechou um dos olhos cuja pálpebra inchada e arroxeada pulsava como um coração:

       ― Será que dói quando a gente morre? Já pensou sobre isso? Saca só, não estou falando de uma doença, de uma tunda desgraçada ou tiro, não é se sofremos até a morte. A questão central é: dói morrer? Tipo, a gente fecha os olhos e poft!, essa parte depois do poft será que dói? Acho que é como dormir depois de encher a cara de analgésico, não deve doer porra nenhuma. Acho mesmo que morrer é bom, é natural e até faz bem pra saúde, sabe? ― ele parou e fez uma careta antes de prosseguir. ― Ei, tira esse sorrisinho metido da cara, estou falando do organismo como um todo, entende? A sociedade inteira como um corpo que precisa se regenerar morrendo algumas células para outras nascerem. E é isso que somos, umas células de merda vivendo e morrendo. Por isso até é saudável morrer, entendeu?, além do quê o corpo enfim descansa. De certa forma parece bonito morrer. Mas será que dói? Porra, será que é mesmo natural morrer? Não devia ser considerado um crime essa merda? Ser arrancado da vida sem ao menos te pedirem a opinião. Acho que está aí a dor da morte, não saber o que acontece depois, depois que é intimado a comparecer num lugar para o qual não quer ir porque sabe que não vai voltar. Alguém devia fugir de lá e nos contar, não é mesmo, Virgínia?

       A pistoleira estreitou os olhos, desconfiada, e perguntou sem se mexer do lugar onde estava, perto da janela, longe da cama com ele:

       ― Aonde quer chegar com isso? Está todo esborrachado, mas não vai morrer. Por acaso está cheirando as tuas porcarias, é?

       ― Sabe muito bem que sou um administrador, um executivo do narcotráfico, minha putinha, a parte do consumo deixo a cargo dos meus clientes, nunca fumei nem um cigarrinho de maconha pra relaxar. ― mesmo alquebrado, manchado de hematomas no rosto e corpo, cheio de dor na carne e nos músculos, mesmo assim, ele mantinha a arrogância em alto nível. ― E como estão as coisas na Arco Verde?

       Ela tragou o cigarro sem dar muita importância à pergunta.

       Leonardo então teve de insistir:

       ― Olha só, Virgínia, só posso contar com você agora. De uma hora pra outra fui abandonado pelo meu pessoal que, aliás, era o mesmo pessoal que trabalhava para o coronel. Assim como eles se debandaram pro meu lado logo que cheguei cheio de ideias e dinheiro, agora, depois que o velho descobriu tudo, me deixaram na mão, os covardes. Além disso, não posso voltar pra fazenda sem a cabeça do delegado. Não posso, sacou? É um inferno isso! Não sou pistoleiro, porra!, sou um administrador! Mas o coronel é teimoso e não vai sossegar até eu dar cabo do Malverde... Merda! E ainda por cima, pra foder minha vida de vez, tenho que entrar na Coração de Ouro e pegar as porcarias para passar a adiante... ― ele balançou a cabeça, frustrado.

       ― Ainda não conseguiu se livrar daquilo?

       ― Tentei, mas tive de abater o meu melhor homem antes de ele vacilar diante do coronel... E aí tudo virou de pernas para o ar, aquele Malverde cretino invadindo a fazenda e pondo minhoca na cabeça do velho... ― reclamou, ajeitando-se nos travesseiros. ― Tenho um carregamento monstro num dos galpões e preciso tirar de lá.

        ― Que loucura, Leonardo!, como pôde esconder a droga na fazenda do teu pai?

       ― Agora vai querer me dar conselho, é? Quando uma ex-viciada tem moral para dar pitaco na vida dos outros, hein? Te catei da rua, mulher, dos becos de Brasileia, e a única coisa que tem de fazer é espionar o Dolejal. ― afirmou exasperado. ― Até agora não ouvi nenhuma novidade da Arco Verde. Que tal soltar o verbo, hã?

       ― Já disse tudo o que sei. O patrão dispersou alguns pistoleiros para proteger o delegado de uma nova emboscada, mais nada. O alvo agora é o coronel Rodrigues. ― deu de ombros com indiferença. ― Parece que os índios estão tendo problemas com os capangas do fazendeiro, coisa séria, que inclui espancamentos e tudo o que é tipo de ameaça. Aquela faixa de terra comprada pelo patrão está em clima de guerra.

       ― É? E daí? Isso pouco me interessa. Quero saber se o Dolejal planeja alguma retaliação contra o velho. Afinal, para ele, foi o coronel quem mandou o Vitorino matar o Malverde, e ele sabe a merda que seria a mudança de chefia na polícia de Matarana. ― afirmou com sagacidade.

       Virgínia tragou mais uma vez o cigarro e afirmou com um sorriso confiante:

       ― Na Arco Verde não existe essa coisa de vingança, eles querem é manter o poder econômico que detêm e não planejar uma revanche à altura do que você provocou. Além disso, o novo chefe da segurança é o Franco, e ele detesta desperdiçar munição à toa.

       ― Odeio esse camarada! Odeio esse fingido de merda! ― exclamou o rapaz visivelmente magoado, atingindo no coração de filho renegado por um pai que sempre fizera as suas vontades. ― Por Deus!, antes de me mandar dessa terra de aborígenes, vou pegar o bastardo de jeito, como devia ter feito na época de escola quando ele me encheu de porrada por causa de um franguinho efeminado! E se ninguém tem coragem de confrontar o diabo, Virgínia, eu tenho, tenho coragem e muita gana!

       Ela sabia que ele tinha coragem e gana e conhecia tantos outros caras, mesmo na Arco Verde, que também possuíam coragem e gana para enfrentarem Franco Dolejal. Virgínia tinha certeza absoluta de que se Leonardo se juntasse a eles, ainda assim, cairiam de joelhos, todos. Independente do número de armas que Franco tinha pelo corpo ou da perícia ao manejá-las, contava a seu favor a sua natureza impetuosa e passional. Ele se jogava contra o perigo que o agarrava firmemente com os braços abertos. No final das contas, tudo era muito simples: Franco era superior a todos os demais caubóis, era filho da terra, nascera em Matarana e por isso era o verdadeiro fruto da terra de ninguém.

       ― O dia em que resolver enfrentá-lo, não se esqueça de me chamar.

       ― Claro que sim, vadia.

       ― Pelo menos saberá se dói ou não morrer. Será de bom gosto me contar um pouquinho antes de partir, não? ― ironizou.

       Leonardo não gostou do que ouviu.

       ― Conto, cretina, pode deixar. Agora, presta atenção! Dá um jeito de tirar a minha mercadoria da Coração de Ouro, senão telefono para o Dolejal e conto tudo sobre você, suas putarias no Acre e, principalmente, o seu trabalhinho como espiã na fazenda dele. Acho que do jeito que o camarada é desconfiado e paranoico, vai te esfolar viva. E pensa comigo, acha mesmo que o solo fértil de Matarana é somente das ossadas dos desafetos dos Marau e do Rodrigues, hein, ô Virgínia? Será que você não descobrirá primeiro se dói ou não morrer?

       Ela fitou o fundo dos olhos do outro e não viu vestígio de sentimento que não fosse por si mesmo.

       Então teve certeza de que escolhera o lado certo.

       Assentiu levemente com a cabeça e bateu em retirada sem olhar para trás.

         

       O motor da picape roncou alto ao passar pelo caminho de cascalhos até os fundos da casa, onde aos poucos foi reduzido a um som baixo e grave para depois cessar de vez. A porta do veículo abriu rangendo e o som da voz de Franco soou divertido:

       ― E, aí, pessoal, com fome? Trouxe a boia de vocês, o melhor da comida mataranense, pernil de porco com arroz e feijão!

       Nova sentiu a emoção de sempre e todas as sensações físicas que elas lhe causavam. As pernas tremiam e o suco gástrico jorrava ensandecido no estômago, queimava por dentro. Tinha de lembrar que estava zangada com ele por mantê-la presa com os pistoleiros, precisava urgentemente se impor às suas emoções e à vontade muito louca de jogar longe a vassoura que segurava, correr e pular no seu colo.

       Quando a porta abriu devagar e a ponta da aba do chapéu entrou antes dele, ela segurou o ar nos pulmões, aguentando firme a sensação de plenitude e paixão diante da antecipação de vê-lo, da sensação que quase a fazia levitar, sempre, segundos antes de ser invadida por um par de olhos azuis ― ora verdes, ora cor de caramelo, que imprimia em sua alma o código de barras de sua pertinência.

      Mas ele era jovem demais e precisava ser educado por alguém como ela, que o amava e o queria vivo. Por isso se controlou para não agir impulsivamente e pôr tudo a perder. Afinal, ela era mais velha e mais vivida. Não devia se incomodar tanto com o fato de ele depositar as sacolas do mercado e do restaurante sobre a mesa sem deixar de encará-la. Sem sorrir, sem dureza, apenas deitando os olhos sobre ela, sondando-a, averiguando o terreno à sua frente. O chapéu foi descartado e posto sobre o armário.

      O silêncio somente não era mais gritante em função das risadas no pátio. Os peões se alimentavam felizes com o vagar dos minutos e a tranquilidade de um almoço ao ar livre. Ao passo que dentro da casa, o casal testava a resistência do desejo que os unia, a consistência da saudade que ambos sentiam após horas sem se verem.

       Franco queria se ajoelhar diante dela e rezar, apesar de não saber como se começava uma oração. No peito, um coração desnorteado soqueava suas costelas. O pai dissera que para manter a sua mulher tinha de ter voz de comando. O que o seu pai sabia sobre mulher que não fosse além do domínio e submissão? Será que alguma vez ele se sentira fraco, sem ar, com vontade de carregar a sua mulher no colo para sempre, protegendo-a das pedras, dos insetos e de qualquer perigo que a machucasse, que tocasse sem leveza e carinho a sua pele?

       Mas ele precisava se manter durão para ser respeitado por sua esposa. Ainda que necessitasse beijá-la e apertá-la em seus braços e sussurrar ao seu ouvido que ele estava em suas mãos, que nascera ao conhecê-la, que era ela a sua mãe, amiga, mulher, amante. Era ela a sua estrela da sorte, a constelação. Queria dizer tudo isso. E amá-la a tarde inteira. Tocar em cada parte do seu corpo numa expedição de reconhecimento de uma terra adquirida por direito e por dádiva. Queria ser abençoado pelo seu carinho e amado com a sua força canibal que quase lhe arrancava a pele. Queria, sim, que ela o comesse e o absorvesse dentro de si, bem feliz seria dentro dela.

       O melhor a fazer era parar de pensar e de querer. Ele baixou os olhos e se concentrou em retirar os mantimentos das sacolas, as frutas, chocolates, iogurtes e sucos, as vitaminas para fortalecê-la e a comida para lhe dar prazer, alimentá-la de todas as formas.

       Forçou-se uma naturalidade arrancada a fórceps:

       ― Não quero que faça o trabalho da Maria. Ela não veio hoje?

       Nova percebeu que ele estava sério e interessado em saber por que a mulher que era chamada de princesa varria o assoalho da sala. Franco não permitia que ela voltasse a bancar a dona de casa do castelo encantado, como à época de Cris. Para o marido, Nova tinha de descansar para se apresentar no Gringo ou simplesmente descansar porque estava grávida. Maria Helena limpava a casa e cuidava de todas as atividades domésticas, enquanto ele trazia do restaurante o almoço e o jantar.

       ― Ela telefonou avisando que contraiu uma virose. ― disse apenas, a atenção voltada para ele, que se movia na cozinha abrindo e fechando portas e gavetas, retirando a louça e os talheres para serem usados.

       ― Deixa então que eu termino. ― determinou, depositando dois pratos sobre a mesa, circundando-a a seguir e tomando a vassoura de suas mãos: ― Vou trazer alguém da fazenda para organizar as coisas por aqui.

       ― A casa é minha, posso cuidar de tudo, não estou doente...

       ― Eu sei o que você pode e o que não pode fazer. ― afirmou, encarando-a sem desviar.

       Ela aproveitou para chamar uma questão à pauta:

       ― Sair de casa, por exemplo, eu posso ou não? ― perguntou, imprimindo um tom de desafio à voz.

       Ele não fez rodeios ao responder secamente:

       ― Com escolta pode.

       ― Escolta? Pra quê isso agora?

       ― Primeiro, porque eu quero. ― respondeu sem hesitar e, levando a vassoura de volta à lavanderia, continuou: ― E acho que poderia parar nessa resposta mesmo.

       Nova estreitou os olhos tentando entender os motivos de ele usar um tom duro e ríspido para com ela. Não estava acostumada e jamais se acostumaria àquilo.

       Ele tornou a se concentrar nela, no seu rosto pálido, nos lábios que se entreabriram para nada falar.

      ― Em segundo lugar, a escolta é para proteger você. O patrão tem razão, não é certo deixar você sozinha no meio do mato. Tenho inimigos por tudo que é canto dessa terra e da terra dos outros, e se eles quiserem me enfraquecer saberão quem atingir primeiro. Se a dona não quer mais que eu mate bandido, eu não mato, mantenho meu dedo longe do gatilho e os pés na linha reta que seguirei, e só faço isso enquanto os bandidos não esquecerem que eu mato, sim, mato até duas vezes, quem chegar perto da minha mulher. ― afirmou num misto de convicção e altivez; a bem da verdade, como Nova percebeu, era como se ele a desafiasse a contestá-lo, a enfrentá-lo para saber assim o quanto ainda lhe faltava coragem para a empreitada.

       Pela primeira vez sentiu-se pequena diante dele, pequena e impotente. E ela percebeu o quanto ele era grande, não apenas em relação à sua altura. Não era o seu porte físico que se agigantava aos seus olhos, era a firmeza e a liderança de um homem vivido. Franco assumia novamente as rédeas da relação.

       Nova manteve-se irredutível na tarefa de manter os olhos fixos nos dele. O que resultava sempre numa prisão e afogamento. Acabava mergulhando no oceano azul claríssimo e, hipnotizada, aceitando com o coração o que a mente demorava a compreender.

       Foi o marido quem primeiro quebrou o encanto ao desviar a atenção do rosto para o pé da esposa. Apontando, ele perguntou:

       ― Por que tirou a bandagem?

       Ela se obrigou a fitar o próprio pé, entorpecida pela mudança no comportamento dele.

       ― Não foi nada sério, apenas um cortezinho superficial.

       ― Deixa eu ver isso. ― afirmou, puxando-a pela mão e a fazendo sentar-se numa das cadeiras em frente à mesa da cozinha.

       A ordem foi dada, e ela obedeceu-lhe prontamente. Aproveitou para admirar a figura que se curvava e inspecionava o ferimento. Ele havia se agachado e por isso o coldre no cós dianteiro era visível e mostrava uma de suas armas; a outra, no cós traseiro. E Nova sabia sobre o novo canivete, comprado após Mendes roubar o antigo e usá-lo em Karen, enfiado na bota.

       ― Então preciso da sua permissão para sair de casa? ― sondou-o meio que em tom de provocação.

       Os dedos de Franco inspecionavam a pele ao redor do risco quase em forma de um sorriso triste, o corte irregular provocado por um pisão num cascalho pontudo. Ao ouvir a pergunta, franziu o cenho e rebateu sem se abalar:

       ― Pretende fugir de mim?

       ― Não.

       Ele tornou a capturar a sua atenção e, por um minuto ou dois, foi tudo o que fez, encará-la sem expressar a felicidade que quase o arrebentava por dentro. Depois, ergueu-se e se pôs na postura displicente que usava para irritar os pistoleiros que o irritavam.

       ― Vamos almoçar.

       Ela esperava por uma resposta.

       ― Falei pro Gringo que você se machucou e ficará em casa.

       ― Ah, que ótimo!, agora manda no meu trabalho também. ― ironizou.

       Ele arqueou a sobrancelha de forma interrogativa, demonstrando com o gesto a incompreensão diante de um favor feito a ela.

       ― Se quiser trabalhar, peço pro Bronson levar você.

       ― É claro que quero trabalhar, ora.

       ― Mais alguma coisa, dona?

       Ela até pensou em largar uns desaforos sobre a toalha, contentou-se em avisá-lo que logo mais sairia com suas amigas. E acrescentou erguendo o nariz tal qual uma adolescente desafiando a autoridade:

       ― Irei à confeitaria que, por sinal, fica em frente à delegacia de polícia. Acho que não preciso de escolta.

       ― Não, claro que não. ― respondeu com um sorrisinho misterioso. ― Vou deixar você com suas amigas, depois é só telefonar que eu volto e te busco.

       Nova o fuzilou com o olhar.

       ― A adulta aqui nesta casa sou eu, viu, ô moleque!

       Franco apertou os lábios para se manter sério. Afinal, a estratégia sugerida pelo pai estava dando certo. Mas ao ouvir o xingamento de Nova ― e ela sempre tinha um desses na ponta da língua, não resistiu e caiu na gargalhada.

       Definitivamente ele era louco por aquela mulher.

         

       Na confeitaria, sentadas ao redor de uma mesa decoradas por duas fatias de torta, Nova e Valéria comentavam sobre a noite passada, ainda que a última mantivesse segredo sobre os amassos com Thales Dolejal na cozinha.

       A mulher de Franco preparava-se para comentar algo a respeito do sogro não ter aparecido no quarto para levá-la de lá antes de o filho chegar, quando Bronson apareceu à entrada.

       Ela franziu o cenho, contrariada. Franco lhe dissera que ele próprio a buscaria, não Bronson. E antes que perguntasse pelo marido, percebeu que o pistoleiro trazia um pacote grande e retangular nas mãos, embrulhado num papel fino e vermelho, a etiqueta de uma loja sofisticada de Santa Fé.

       O pistoleiro tirou o chapéu e meneou a cabeça num cumprimento discreto às mulheres sentadas à mesa e a Ninita, que lia uma revista diante da caixa registradora. Depois, espichou os braços e caminhando do jeito que os caubóis daquela região caminhavam, meio arrastado, entregou o embrulho para Val, afirmando com bastante economia nas palavras:

       ― O patrão mandou entregar para a senhora.

       Sobre a caixa havia um laço de cetim num tom vermelho mais escuro, quase um bordô, uma cor quente. E Valéria somente o percebeu quando recebeu nas mãos a encomenda que, em seguida, foi posta sobre a mesa.

       Aturdida, ela soltou um agradecimento sem muita energia.

       Nova aproveitou para interpelá-lo:

       ―Veio me buscar também?

       O velho percebeu o tom azedo e respondeu com simpatia:

       ― Não, dona Nova, o Franco está pela cidade e vai passar aqui antes de retornar para a fazenda.

       Ele já não tinha mais o que fazer por ali, deu um breve sorriso que serviu como um “tchauzinho” e saiu.

       Coube às mulheres decifrarem o enigma da caixa.

         

       Valéria estava diante do espelho do banheiro no escritório que dividia com Karen na confeitaria. Ela olhava para o reflexo de si mesma, mas, estranhamente, não se via. Encarava com um semblante surpreso outra mulher e essa mulher estava dentro de um vestido que ela jamais ousaria vestir.

       Era o presente de Thales. A roupa que ele queria que ela usasse para o jantar à noite e como desejava vê-la.

       Ouviu o assobio de Nova.

       ― Caramba, você está incrível! ― ela caminhou ao redor da amiga, admirando o corpo cheio estufando o tecido macio e justo do vestido curto tomara que caia. ― Pura sensualidade, mulher!

       Val recuou um passo sem deixar de perceber que o corte da roupa marcava-lhe a cintura e também se ajustava perfeitamente às suas coxas e traseiro, assim como os seios grandes pareciam simular uma fuga dos bojos. A cor do vestido combinava com o seu cabelo pintado de preto. Mas alguma coisa ali destoava. E por isso ela dera um passo para trás, precisava avaliar o que aquela imagem dizia sobre si mesma.

       ― Estou parecendo uma cantora de tecnobrega. ― afirmou em um tom avaliativo. ― Essa aí não sou eu e nem se parece comigo. O que ele quer de mim? Em quem ele quer me transformar?

       Nova ficou intrigada com a atitude da Val. Para ela, Thales havia apenas enviado um presente para a sua paquera. Era um vestido sensual? Sim, muito sensual. E a mensagem era bem clara: ele acertara o número da roupa porque havia decorado as curvas daquela estrada.

       ― Acho que ele vê uma mulher bonita e gostosa no lugar da moça caseira adoradora dos vestidos floridos de algodão. ― disse Nova com bom humor.

       Incerta, a outra mordeu o lábio inferior:

       ― Viu os sapatos? Saltos altíssimos. Meu Deus, é esse tipo de mulher que ele gosta? Vulgar? ― balançou a cabeça decepcionada ― Não sou assim, não faço o tipo fêmea fatal.

       ― Bom, então não usa essa roupa, ora. Você tem de vestir o que a deixa à vontade. Mas, pra falar a verdade, Val, é esse tipo mesmo de mulher que ele gosta, roupa sexy, saltos, maquiagem e presença... É bem o estilo de quem teve uma mulher como a Karen, tremendamente exuberante e uma noiva ex-modelo. O lance da discrição e sofisticação não vale para as mulheres dele, não. ― completou num tom de divertimento.

       ― Olha só o tamanho da minha bunda! ― exclamou Valéria, apavorada. Em seguida, coçando a cabeça como as pessoas confusas e perdidas o faziam, sentou-se numa cadeira, desolada, as pernas juntas, os joelhos tremendo. ― É uma piada, esse vestido é uma provocação daquela parte monstro da personalidade dele. Só pode! Ele quer me pôr no meu lugar, a hipócrita assexuada como me chama...

       Nova se controlou para não rir. Era evidente que a amiga estava sob efeito da paixão e de todos os hormônios em ebulição que tal sentimento provocava.

       ― Humm, acho que não é bem isso, amigona, vejo mais como um elogio, uma espécie de celebração para a mulher escondida nesse corpo de dona de casa solitária. Seja honesta consigo mesma, você precisa viver algo intenso que não tenha a ver com a promoção de amaciantes de roupa no supermercado.

       ― Nova, acorda! A gente não está falando do farmacêutico queixudo! É sobre Thales Dolejal!, o homem mais importante da cidade, milionário, lindo de morrer e solteirão convicto! O homem, como a Karen mesmo mencionou, sob medida para a Rita. Nós dois somos como a Dama e o Vagabundo às avessas...tipo... tipo, o Cavalheiro e a Vira-lata.

       A amiga pôs as mãos na cintura e fez um trejeito com a boca que revelava impaciência:

       ― O nome dessa crise toda aí é autossabotagem, ok? Agora levanta a bunda da cadeira e vamos tirar esse vestido antes que dê alguma merda. Logo mais você irá jantar com um velho amigo, nada de mais, sem estresse. ― falou com tranquilidade a senhora Dolejal.

       O resto da tarde voou. Franco apareceu para buscar sua mulher e tinha um sorriso enigmático no rosto. Como andava sempre com o pai, Valéria cogitou que ele soubesse sobre algo, talvez sobre os planos para logo mais à noite.

       O filho de Thales cumprimentou-a com um aceno de cabeça e um olhar penetrante, aquele olhar meio que avaliava o grau de periculosidade da sócia de Karen em relação ao homem que ele continuava protegendo.

       Antes de fechar a confeitaria, ela conseguiu quebrar três canecas e levar duas cadeiras vazias ao chão. Sempre se desculpando e se justificando, se sentia à flor da pele, os sentimentos e as sensações se misturando como um milk-shake com pingos de adrenalina.

       Por que lhe dissera que era a mulher da sua vida? Por que o provocara sem bala alguma na agulha?

       Thales agora queria que ela cumprisse a promessa com toda a força de uma ameaça.

       E Valéria suspeitava que fosse se tornar a sua próxima vítima.

         

       Era como se fosse o primeiro encontro com ele. Não sabia bem ao certo quantas vezes esbarrara com o dúbio amigo de seu irmão ao longo de uma década vivendo em Matarana. Quase sempre ele a ignorava, embora tal atitude não ocorresse por questão de esnobá-la ou por considerá-la desimportante. Na verdade, Thales somente percebia a sua frente quem o interessava de fato ou que significasse um confronto direto. Valéria, como apenas a irmã mais nova do delegado, mãe solteira de uma adolescente sem crises e dona de casa que recém iniciara negócio próprio, não representava para o todo poderoso latifundiário qualquer perigo.

       Ainda assim, ele não gostou de vê-la estacionar o próprio automóvel diante da escadaria do alpendre da casa-sede numa atitude explícita de desobediência à sua determinação de ser trazida até ele por Bronson.

       O pistoleiro, ao telefone, avisara-o que “dona Valéria” dissera que seguiria à frente no seu automóvel, mas que aceitava de bom grado a escolta.

       Ao vê-la descer do veículo fabricado no século XX, a porta encobrindo parte do corpo no vestido preto, ele arriscou relançar os olhos para o céu antes de enfiá-los nela. E foi somente por que um raio riscou a escuridão da noite e um trovão esbravejou feio, que ele deixou de olhar para a mulher que tentava se equilibrar sobre os saltos.

       Ela dirigia descalça e, ao chegar, afastou a porta, pôs as pernas para fora e calçou as sandálias. De pé, a primeira gafe. A mão procurou o suporte do capô do carro, pois o pé esquerdo escapou de uma das duas tiras que o mantinha firme no calçado. Tornando a se equilibrar, Valéria empertigou a coluna e incitou os primeiros passos, vacilante, consciente da presença imponente na base da escadaria esperando por ela, o jeans escuro e a camisa social azul, uma ruga funda entre as sobrancelhas.

       O melhor a fazer era se concentrar em caminhar como quando tinha dois anos de idade, um pé de cada vez, com bastante calma. Uma tarefa nada fácil. Calculou que estava a dez centímetros do chão, pouco para lhe causar vertigem; muito para caminhar com naturalidade e, menos ainda, com elegância.

       Bateu um joelho contra o outro e o corpo inteiro pendeu para frente depois para trás, como a Torre de Pisa soprada por um furacão. Ao se voltar para se segurar em algum suporte e não desabar, nada encontrou que não fosse o vazio. Balançou seguidas vezes até recompor o equilíbrio e a dignidade. Praguejando alto, encurvou ligeiramente o corpo e soltou as tiras das sandálias. Pegou-as na mão e continuou a caminhar em direção a Thales Dolejal com a sensualidade de uma mulher descalça vestida numa roupa que mais se parecia com um adesivo.

      Ele desceu os degraus até se aproximar dela, o semblante sério e crítico.

       Valéria balançava as sandálias em uma mão e tinha no rosto um sorriso forçado, já que estava muito puta da cara com a cena que fizera, perdendo o restinho de glamour que poderia usar para impressioná-lo. 

       Cogitou comentar algo espirituoso e sarcástico sobre as sandálias que ele havia-lhe presenteado. Mas ao vê-lo se aproximar e ter a mais completa visão dos olhos azuis destacados pela cor da camisa impecavelmente lisa, o cabelo curto e úmido pelo banho recente e todo o conjunto elegante de um corpo másculo, ela simplesmente esqueceu qualquer frase de efeito e apenas manteve o sorriso grudado nos lábios. Vontade não lhe faltava de dizer à luz da lua, mesmo encoberta pelas nuvens, o quanto ele era bonito, o quanto ele era importante para o seu mundinho simples e cotidiano e o quanto fervia de vida por dentro.

       Mas ele mantinha a cara amarrada e assim que o seu dedo indicador apontou para o calçado, a ordem foi dada:

       ― Calce as sandálias, Valéria.

       Entorpecida pela presença imperiosa aproximando-se dela com a firme intenção de se fazer obedecido, ela não conseguiu esboçar qualquer reação, somente baixou ligeiramente a cabeça para vê-lo com as sandálias na mão, os dedos correndo por sua panturrilha até alcançar o tornozelo. Um toque de seda na ponta dos dedos de um bruto.

       Precisou apoiar-se nele, nos ombros dele, sacudida por espasmos tão delicados quanto arrebatadores, porque os dedos de Thales exploravam a pele macia de seus tornozelos ao calçá-la novamente. E, em vez de ela protestar por ser obrigada a usar um calçado que a poria de cara no chão a qualquer momento, limitou-se a observá-lo em ação.

       Abaixado, o rosto bem perto de suas pernas, admirava-o com um sorriso discreto pronto para se desfazer caso ele olhasse para cima, para ela, para o rosto iluminado de satisfação. Sentir as mãos masculinas e macias escorrer por suas pernas, tocar com intimidade e, mais do que isso, familiaridade, sem formalismo, como se o fato de se conhecerem havia anos o desse total liberdade para vesti-la, calçá-la, tocar nela, enchia o seu peito de amor, de amor por ele.

       Ao se erguer e olhá-la diretamente, afirmou ainda sério:

       ― Aprenda a caminhar direito em vez de temer a queda.

       Falava sobre sandálias de salto alto ou era uma lição de vida?

       Tentou sorrir, a dureza daquele olhar acovardou-a:

       ― O meu estilo é mais chinelos e tênis.

       Ele foi rápido e preciso:

       ― Claro que sim, se dependesse do seu estilo, como disse, estaria vestindo uma cortina com mangas ou um saco de estopa com babados. Sabe muito bem que não gosto do seu estilo. ― ele parou e imprimiu um tom menos arrogante na voz ao constatar: ― Prefiro muito mais o meu estilo, e você está deliciosamente linda nesse vestido, Valéria.

       Ela olhou para si mesma e balançou a cabeça em negativo. A parte da cortina e saco de estopa fora ofuscada pela “deliciosamente linda”. Porém, a verdade dos fatos era que ele não gostava de como ela era. Bom, isso já não era novidade e ele jamais escondera o que pensava a respeito.

       ― Quer então me vestir de vadia? ― provocou-o.

       Thales esboçou o primeiro sorriso da noite.

       ― É essa a relação que tem com o seu corpo? Está sempre punindo com falta de sexo ou trajes típicos de lavadeira uma escultura que não só enche os meus olhos, como também cada espaço de luxúria da minha imaginação. Você é muito má para consigo mesma, minha cara, deixa isso um pouquinho para mim.

       ― Como se você precisasse de permissão para ser cruel. Agora que já se divertiu com a minha fantasia de Halloween de sex shop, posso entrar e me esconder, pelo menos, dos teus seguranças?  ― perguntou irônica, captando de esguelha a movimentação dos pistoleiros.

       Thales não se abalou e tampouco parou de sorrir.

       ― Não.

       Ela o olhou confusa e, baixando bastante o tom de voz, repreendeu-o:

       ― Por favor, Thales, está na cara que eles estão de olho na minha bunda.

       ― Hmm, é isso que estou tentando te dizer, o que é bonito deve ser mostrado, porque a nossa parte feia, Valéria, todo mundo vê por conta própria. ― constatou com deboche; em seguida, pegando seu rosto entre as mãos, afirmou sem deixar de sorrir: ― Mas agora eu preciso bancar o “patrão” e marcar o meu gado. Veja o milagre da invisibilidade. ― ele disse poucos segundos antes de baixar a cabeça e lhe tomar os lábios num beijo profundo.

       Duas mãos desceram pelo tecido findo do vestido, contornando as curvas acentuadas e os declives até se espalmarem ostensivamente no traseiro dela, trazendo-a para si. Afastando-se ligeiramente, a boca entreaberta separando os seus lábios, murmurou:

       ― Agora eles já sabem que essa bunda é minha.

       Valéria percebeu o tom de divertimento da observação. Abriu os olhos e encontrou dois oceanos tragando-a para o seu interior.

       ― Sou a nova vaca louca, Thales?

       Ele riu baixinho e mordiscou seu o pescoço até alcançar o queixo, parando ao prender-lhe o lábio inferior entre os seus lábios. Depois, enquanto as mãos espalmadas acariciavam as costas dela, disse baixinho numa voz rouca:

       ― A expressão marcar o gado é só uma forma de situar os meus homens quanto à sua posição em relação a mim, Valéria. A Karen sabia se impor com esse bando de macho tosco, mas você não se impõe nem diante do espelho, por isso tive de fazer esse teatrinho para eles. ― completou, por fim, com um sorrisinho malicioso: ― Olhe ao redor, agora, senhorita Malverde. Essa é a magia da pertinência, agora você tem a minha marca.

       Ele se afastou dela e a virou pelos ombros, de costas para si. Valéria compreendeu então o que significava ser marcada como uma mulher que interessava a Thales Dolejal. Imediatamente todos os pistoleiros deram as costas e tornaram a fazer a ronda pela fazenda.

       ― É melhor que aceite o meu braço antes que se estatele no chão...donzela.

       Era verdade que havia muito de escárnio no tom de voz que usou. Entretanto, embora recheado de ironia, o gesto de dobrar o braço para o encaixe e apoio de sua mão, oferecendo-lhe o corpo como seu suporte, era uma atitude cavalheiresca para se levar em consideração.

       Ao enganchar o braço no dele, Thales apertou-o contra si e, com isso, Valéria se sentiu segura para continuar a subir os degraus.

       A experiência de subir a escadaria da Arco Verde de braços dados com Thales Dolejal funcionou em sua alma como um passeio pela Paris do século XIX, pois a paisagem que via, a paisagem que o seu espírito enxergava em toda a sua forma, cheiro e cor era a mesma que a sonhada romanticamente durante as tardes de sábado, sozinha, e cheia de um amor para ninguém.

       E como ela era uma mulher jovem e crédula, o coração arrebatado de paixão por ele, por esse homem que sempre vivera tão perto e tão longe dela, ao alcançarem a entrada da casa, Valéria sentiu uma espécie de angústia. Separar-se dele, deixar de sentir o seu calor e força, o seu amparo, causou-lhe dor, tão fugaz quanto profunda, que se reverteu num suspiro longo de quem se resignava com o fato de ter perdido a vez.

       Voltou o rosto para ele e teve de erguer ligeiramente a cabeça devido à diferença de altura. Thales olhava para ela com a expressão de quem fazia um cálculo mental, um tipo de raciocínio silencioso digno dos ponderados.

       Agora ele via uma mulher com os olhos brilhando com a mesma adoração que já vira nos olhos do garoto que juntara da estrada e aprendera amar.

       Talvez ele fosse um tipo esquisito ou apenas doesse a dor mais forte que nos outros. Talvez afagar um rosto não o levasse à beira do penhasco. Talvez abaixar a cabeça devagar e tocar os seus lábios nos lábios dela, com uma ternura que somente o seu novo estado de espírito impingia-o ― o efeito da incipiente melancolia que o tomava inteiro como um potente anestésico misturado à ternura e à fragilidade, não o matasse aos poucos.

       Não se sentia forte o suficiente para juntar as palavras e afastar Valéria Malverde do monstro que ele era, porque não queria, não queria que Valéria Malverde se afastasse. Queria, sim, que a adoração dos olhos dela também conseguisse afagar a alma do monstro.

       Puxou-a para si e o abraço veio depois do beijo. Enquanto sentia os braços da mulher ao redor do seu pescoço e via os seus olhos fechados, a pele macia das pálpebras pintadas de azul e prata, os cílios longos, as sardas na testa, a entrega na carícia e a dedicação ao beijá-lo com tanto sentimento, Thales cogitou manter a vingança e devolver a Rodrigo a sua irmã ferida, abandonada, rejeitada. Ele também precisava dos sentimentos ruins, senti-los todos, para viver.

       Abraçou-a com força tentando se salvar.

       Sentado sobre a amurada do alpendre, Bronson espalitava os dentes com um sorriso preguiçoso. Ajeitou o chapéu e comentou baixinho com os seus botões: “Sim, a dona Karen se impôs sozinha. E a dona gringa? Ele nunca marcou a dona Mary e ia casar com ela. E agora ele marcava a irmã do delegado, a que menos precisava de proteção, visto que tinha o irmão policial. O patrão, como dizia Franco, era doido”.

         

       A noite explodia em estrelas e a atmosfera úmida de dezembro, no centro-oeste, entrava pelas janelas da picape na estrada que recebia um ou outro caminhão e poucos automóveis.

       Franco optou voltar do Bar do Gringo pela rodovia federal no lugar de cruzar a cidade pela segunda via; era uma espécie de atalho que poucos podiam se dar ao luxo de usufruir. Mas ele era o pistoleiro mais temido do cerrado, dispensava qualquer tipo de escolta, uma vez que a sua proteção era a própria fama.

       Proteção e danação ― como havia descoberto no dia anterior. E foi esse pensamento que o fez olhar de esguelha para a mulher ao seu lado, fitando a paisagem à frente, a traseira de uma caçamba, o semblante circunspecto, o cabelo mantido curto, as mãos pousadas sobre as coxas logo abaixo do ventre.

       Ele queria se virar para contemplá-la, para deixar seus olhos parados nos dela, no seu rosto lindo, no corpo delicado que o recebia para o amor, fosse físico ou como apoio emocional. Uma vontade doida de abraçá-la, de levar a picape para uma clareira e amá-la como já o fizera.

       Acionou o pisca e entrou na estrada de chão batido que levava até a sua casa. Ultrapassou o portão de ferro e estacionou pouco antes de onde estava o jipe. Desligou o motor e voltou-se para ela:

       ― Você canta muito bem, a sua voz é linda, Nova.

       Ela fez um movimento para sair; porém, antes, virou-se para ele e agradeceu o elogio:

      ― Obrigada. Aliás, quero agradecer também por manter o pessoal quieto, nada como a sua presença na primeira mesa.

       ― Gente ignorante tem de ser tratada na ferradura.

       ― Sabe, Franco, eles não vão lá para me ver, o bar do Gringo é um lugar para relaxar, jogar conversa fora e beber. Ninguém é obrigado a prestar atenção no show. Ali não é uma casa noturna, é só a merda de um bar.

       ― De jeito nenhum, eles têm de respeitar os artistas, ora. Que conversem na rua ou depois da apresentação! É uma caipirada trouxa mesmo! ― resmungou, irritado, preparando-se para descer. ― Fica quietinha aí, você tem a mania de não me esperar abrir a sua porta.

       Nova viu-o contornar a picape pela frente e se postar à porta aberta. Estendeu-lhe a mão para usar como apoio, mas ele foi mais ágil e a pegou no colo.

       ― Não estou aleijada, Franco, me põe no chão!

       ― Mas está cansada, ficou quase uma hora de pé no palco com esse pezinho machucado e essa barriguinha gorda. ― brincou.

       ― Sabia que não sou feita de cristal?

       ― Sabia, dona.

       Ele a carregou até a entrada e parou. Tateou os bolsos do jeans para pegar a chave da casa, girá-la na fechadura e destrancar a porta.

       Deitou-a sobre o sofá sem deixar de lhe endereçar um sorriso daqueles. Mas foi apenas isso, não forçou a barra nem tentou puxar conversa. Deu-lhe as costas e se encaminhou para a cozinha, dizendo sobre os ombros:

       ― Vou preparar um sorvete com bastante calda de caramelo. Precisa se alimentar, está leve demais para uma grávida.

       O tom era de brincadeira e, de fato, ele parecia mais descontraído, relaxado, do que pela manhã ao retornar da Arco Verde.

       No bar do Gringo, a cantora enviara-lhe olhares disfarçados durante todo o show. Não queria baixar a guarda tão facilmente, ceder à vontade de um coração louco de saudade e cheio de medo. Medo que não se referia apenas à questão de saber que era casada com um pistoleiro que carregava dois homicídios nas costas; era a constante sensação de perda, de que um dia perderia o direito à dádiva de tê-lo em sua vida que a assombrava sobremaneira.

       Quando terminou de cantar, e eles voltaram juntos para casa, Nova já havia tomado uma decisão. Olhou-o de soslaio, captando numa fração de segundos o seu perfil simétrico e bonito, o cabelo que crescia caído em mechas irregulares e rebeldes, a juventude arrebatadora e fresca. Não veria toda essa beleza sepultada.

       O que decidira fazer com ele incluíam muita coragem e alguém de fora.

       Ela tinha coragem.

       Ao vê-lo de costas em frente ao balcão da pia, concentrado em servir uma taça com a colher cheia de sorvete, ao deter os olhos na camiseta de algodão, os cotovelos à mostra, todo o antebraço, os pelos loiros, a força da musculatura que tantas vezes sustentava o corpo dela, ao deixar os seus sentimentos olhar para ele, por ela, através dele e dela, viu muito mais do que os seus próprios olhos: viu o ser humano que precisava continuar vivo. Porque Franco não pertencia a ela ou ao seu pai. Franco pertencia à vida.

       Então ela falou numa voz rouca:

       ― Acha que é de sorvete que preciso?

       Ele não parou de servir a segunda taça para responder com um falso desinteresse:

       ― Frutas e verduras também, claro. Temos que acatar as ordens da sua médica.

       ― Que inclui sexo.

       ― Acho que isso não está faltando.

       ― Se estou pedindo é por que faz falta, sim.

       Franco se virou para ela, o semblante revelando desconfiança e aturdimento.

       ― Ontem você fugiu de mim, e agora quer transar comigo.

       ― É engraçado que para um homem que já se deitou com quase todas as garotas de Santa Fé, você ainda não compreenda a cabeça de uma mulher. ― ironizou, sem deixar de sorrir com superioridade.

       Ele não gostou do comentário nem do tipo de sorriso e fechou a cara:

       ― Dona, como posso entender a cabeça de uma mulher se eu só dormia com garotas? Como bem sabe, só tive duas mulheres na minha cama, você e a Karen, a sua melhor amiga, não é mesmo? ― devolveu a ironia.

       ― Não tenho ciúme do que aconteceu entre você e a Karen, se quer saber.

       ― Fico satisfeito por ouvir isso.

       Ela piscou meio que perdendo o rebolado. Ele estava com os braços cruzados em frente ao corpo, a cintura descansando na beirada do balcão, as pernas cruzadas displicentemente. Uma atitude de deboche e altivez como se esperasse, com certo divertimento até, os golpes de uma criança malcriada.

       ― E quanto a mim? Pretende ou não me satisfazer?

       ― Quer então dormir com um assassino? Não se importa em sujar os seus lençóis com o suor de um homem pelo qual sente nojo? O que mais me disse ontem, hein? ― ele parou, fingindo vislumbrar ao longe os vestígios da cena vivida e continuou no mesmo tom baixo que usava, ainda que pontuado por sinais de amargura e escárnio: ― Ah, acho que foi algo como eu ser igual ao Everaldo, um criminoso. Então a moça de boa família quer levar o bandidão aqui pra cama, é?

       ― Não seja infantil, Franco! ― ralhou.

       ― Estou falando sério, Nova. Sou um fodido que só serve para te comer, é isso?

       Ela recuou um passo diante da imprevisibilidade daquela sentença.

       ― Você canta músicas de amor e depois não me procura para me abraçar ou beijar, não me agarra por trás e diz que me ama ou pede desculpas por ter me machucado ontem, por ter fugido pra casa do delegado que, por sinal, considera uma “delícia”. Todos os seus bons sentimentos por mim somente aparecem quando você quer enfeitar a sua fantasia romântica de príncipe encantado de merda, como se eu já não tivesse dito que sou o sapo, o sapo gosmento, Nova. Você mesma descobriu afinal. E agora que sabe que se enfiou na lama, que caiu numa emboscada daquelas, percebeu a minha única utilidade, o meu “talento natural” para trepadas de longa duração, é ou não é, minha princesa?

       Ela viu a própria mão voltar e descansar ao longo do corpo, a palma ardendo. E somente depois de notar por entre uma cortina de lágrimas a água brilhante nos olhos de Franco, compreendeu a ação por inteira, o esbofeteara com força.

       As lágrimas deslizaram pelo seu rosto. Tentou correr para o quarto e se trancar, ainda que pusesse abaixo o plano de salvar a vida dele. Entretanto, uma mão fechou-se ao redor do seu antebraço e a puxou para si, ao encontro do tórax rígido preparado para recebê-la como um escudo de proteção. Dois braços apertaram-na, as mãos espalmadas acariciavam suas costas procurando abrandar os espasmos que lhe sacudiam os ombros.

       Ele baixou a cabeça e a beijou perto da orelha, murmurando com aflição:

       ― Tenho medo de ficar sem você. Envelheci dez anos desde ontem.

       Era tudo o que ela precisava ouvir para se entregar ao desespero de amá-lo até o fundo da alma. Rodeou-lhe o pescoço com os braços e ofereceu-lhe os lábios. Precisava beijá-lo, senti-lo a carne, quentura, explosão. Enquanto tinha-o próximo, colado ao seu corpo, o coração batendo rápido e forte, os pulmões expandindo-se e se retraindo, tudo nele vivo, ela também estava viva, conectada a uma energia de um milhão de volts, sem merda nenhuma de fio terra.

       Subiu nas botas dele e abandonou-se num beijo que a arrastou para o paraíso do amor correspondido. Por entre os lábios do marido, ela pediu num sussurro lânguido:

       ― Vamos levar o sorvete para cama.

       Por um momento, ele hesitou. Afastou-se dela e avaliou o teor da declaração. Parecia magoado pelo fato de ela vê-lo como uma espécie de objeto sexual, um homem de segunda linha e pouco valor. Tudo nele, na sua postura em alerta e no calor terno do olhar, pedia para que ela fosse clara e não brincasse com os seus sentimentos. Ele não era só um homem; era um homem em estado de amor, quase tão inocente quanto um menino.

       E como ela era uma mulher feita e sabia das coisas, falou o que ele precisava ouvir, a verdade dos fatos:

       ― Quando a gente ama, o sexo não é só sexo, Franco. Você entra em mim, mesmo que já esteja no meu coração, mas quando me penetra fundo é como se tivesse me tatuando por dentro, com o seu nome e com o seu amor. Por isso sinto vontade de te devorar até o último pedaço. ― completou bem devagar, provocando-o, olhando-o nos olhos.

       Ele sentiu os pelos da nuca se eriçarem. Nova o deixava doido quando falava daquele jeito. Pequeninha, delicada e grávida, a voz mansa e um olhar de canibal. Parava de respirar absorvendo o teor daquelas palavras e a intenção erótica do significado.

       Devorar até o último pedaço, ela dissera.

       Havia algum tempo que ele andava fora de si. Mal sentia as botas pisarem no chão que, em outros tempos, era massacrado pela firmeza de suas pegadas. O diabo loiro estava frito. Febre alta, olhos brilhantes, narinas dilatadas e o corpo. Inflamação aguda nos músculos que ora se estendiam flexíveis, ora se contraíam. Virou-se para trás, sem largar a mão que segurava outra mão, a dela, e pegou as duas taças pelo suporte. Voltou-se para a sua mulher e com um gesto hábil, pegou-a no colo, segurando-a com o braço livre.

       Ela se aconchegou a ele e deitou o nariz no seu pescoço. Depois o beijou no maxilar enquanto os dedos, apenas as pontas, deslizavam por baixo da camiseta no abdômen rijo e magro, sobre o desenho das costelas, os mamilos e voltava. Ouviu-o expirar profundamente ao sentir o seu toque e, em poucos segundos, foi deitada sobre a cama.

       Sentou-se e se livrou do vestido, jogando-o longe. Sem deixar de prestar bastante atenção na expressão ansiosa e congestionada de desejo do marido, apoderou-se de uma das taças de sorvete e o derrubou sobre os seios, lambuzando-os de creme e calda de caramelo.

       Franco gemeu baixinho, hipnotizado pela visão luxuriante. O sangue não chegou rapidamente ao cérebro, visto que se desviara para abaixo do umbigo, e por isso precisou de algum tempo para desmanchar a expressão de deslumbramento e entrar em ação.

       E ele sabia como entrar em ação.

         

       A informação foi dita por cima do ombro, poucas palavras, nenhuma entonação de voz em especial, apenas:

       ― Dei folga às empregadas.

        E depois de informada, Valéria foi conduzida ao mesmo sofá onde uma noite o encontrou bebendo para aceitar o gosto amargo da derrota. Ainda sob o efeito do beijo, sentou-se devagar, de olho no homem que naturalmente se postava ao bar.

       Nada na postura dele demonstrava que sentira o mesmo turbilhão químico pelo corpo como acontecera com ela minutos atrás, longos minutos, deliciosos minutos. E estranhos. O abraço que recebera tivera mais a intenção de trazê-la para perto de si do que a de explorar o seu corpo. Até cogitou que fosse um abraço de carinho e não de luxúria. Valéria queria ser amada como qualquer ser humano, mas também aceitaria de bom grado ver novamente nos olhos de Thales o desejo. Despertar em um homem como ele a vontade sexual de tê-la também alimentava o espírito. Pois bem, ela já sabia o que queria.

       Adiantou-se antes que ele enchesse o seu copo com vodca:

       ― Parei de beber. ― como ele arqueou uma sobrancelha numa expressão entre divertida e incrédula, sentiu-se compelida a se justificar: ― Estou fazendo dieta também e me matriculei numa academia perto da confeitaria. Decidi que preciso cuidar mais de mim, sabe? Afinal, o tempo não costuma andar para trás. ― completou com simplicidade.

       O jeito como a olhou, o jeito de descansar os olhos sobre as suas pernas nuas e quase afagá-las para depois voltar a encará-la, no canto da pálpebra um sorriso malicioso, esse jeito tocou os tecidos sutis da sua alma.

       ― Está em busca de uma vida saudável?

       ― Na verdade, não sou tão profunda, só quero ficar bonita mesmo.

       Ele riu sem esconder o contentamento pela resposta espontânea e tão cheia de verdade.

        Valéria se sentia à vontade com Thales, embora a sua postura de homem poderoso e ogro nas horas vagas a intimidasse. Na maior parte das vezes, havia entre ambos uma camaradagem entre desiguais que nunca haviam sido inimigos ou adversários. Por ser uma mulher madura, sabia que o que se passava entre ela e Thales era bem diferente do que compartilhava com o amigo Cris.

       ― Bom, então...o que prefere beber?

       A tua saliva ― cogitou responder.

       Uma parte do seu corpo respondeu por ela. Talvez tenha sido delatada pelo brilho nos olhos, por um ricto no canto do lábio ou pela leve contração das pernas se fechando, uma cruzada sobre a outra. E, ao perceber o gesto, procurou manter a pose e fingir não vê-lo endereçar um olhar quente para o lugar protegido por suas pernas.

       Thales permitiu-se usufruir do momento. Uma mulher nervosa e possivelmente carente, sentada no sofá de sua sala vazia de sua casa vazia, tentando jogar xadrez com peças de dominó. Por mais que ela usasse as roupas que usava e tivesse o rosto maquiado e o cabelo solto, negro, caindo-lhe pelos ombros, ainda era a mulherzinha que adorava o correto, a verdade, o limpo, o ético. E, provavelmente, desaprovasse o sexo no primeiro encontro. Ele se controlou para não rir.

       Voltou ao sofá e sentou ao seu lado, o uísque já pela metade, a curiosidade espelhada no semblante à espera de uma resposta.

       ― Suco, qualquer suco. Ah, e sem açúcar, por favor. ― antes que ele tornasse a se levantar, instintivamente, ela o puxou pela mão: ― Você não vai fazer o suco! Posso beber água mesmo... ― ou o teu suor mais tarde.

       Jesus, o que estava acontecendo?

       Dois dedos tocaram no seu queixo e ergueram o rosto. À vista daquele olhar toldado por nuvens e amansado por uma terna interrogação, ela ouviu dele:

       ― Parece nervosa, o que está acontecendo, mulher?

       Ela não sabia o que responder.

       ― Me sinto à vontade com você, mas...

       Ele a interrompeu sem deixar de pegar uma de suas mãos e levá-la aos lábios; depois, com o dorso a fez tocar o seu maxilar, acariciando o próprio rosto escanhoado:

       ― No fundo, confia em mim. ― piscou o olho e continuou com um leve sorriso: ― É uma dureza ter de admitir, eu sei. Não tenho motivos para mentir nem disposição para criar uma historinha romântica para ter o prazer de tê-la na minha cama. Todo esse enfeite, as roupas, o jantar, todo esse teatro apenas para protelar por algumas horas o principal. Seja franca, Valéria, admita que faz um tempão danado que a mulher no comando matou e enterrou a garotinha romântica.

       A carícia continuava, a posse de sua mão na dele, no rosto, descendo pelo maxilar até alcançar a linha dos lábios que, entreabertos, firmes, úmidos, beijaram os seus dedos na dobra deles. O tempo inteiro ele mantinha um sorriso suave e os olhos descansados, serenos. Parecia que encontrara a paz na companhia dela.

       A irmã do delegado jamais conhecera um homem tão direto e perturbador como aquele. Estufou os peitos e se impôs sem, contudo, correr o risco de afugentá-lo.

       ― Sou um pouco romântica, sim, Thales, e não pretendo mudar só porque você quer transformar o que é bonito em feio. O que me salvou de me tornar uma amargurada foi esse meu romantismo boboca e acreditar no amor mesmo quando ele não acontecia para mim... ou para você.― alfinetou-o.

      ― Certo, Malverde, catequese em plena noite de sexta-feira eu dispenso. ― debochou, entrelaçando seus dedos nos dela.

       ― Qual é o problema em se abrir o coração, falar sobre os sentimentos?

       ― Qual é o problema de uma cama? ― foi direto ao ponto com um sorrisinho maldoso.

       ― Você precisa se tratar. Está obcecado pela Karen. ― ela parou, controlou o tom da voz e falou sem acusá-lo, sem pô-lo contra a parede, apenas fez uma simples constatação: ― Sei que pretende me usar para atingir a Karen ou, sei lá, atingir o meu irmão. Tudo isso, todo esse interesse não é por mim, não nasci ontem. Pensei em vir aqui e aproveitar. Aproveitar mesmo, entendeu? Aceitar os presentes, beijar e agarrar um homem bonito e desejado como você, meter a mão. Eu também tenho as minhas necessidades, sou um ser humano, além de hipócrita e assexuada como diz. Aliás, assexuada uma ova!

       Ela parou porque ele ria baixinho.

       ― Eu o divirto muito, não é mesmo? ― perguntou, chateada. ― Não leva a sério nada que eu falo.

       Thales respirou fundo, os olhos cheios d’água mirados nela, a expressão de divertimento:

       ― Quer ouvir a verdade, moça ofendida?

       ― Claro que sim.

       O resto do uísque foi sorvido numa golada.

       ― Tem razão, pensei, sim, em dar uma lição no seu irmão. Ele me desafiou no casamento do Franco, merecia uma boa retaliação. Além disso, roubou a minha mulher. ― beijou-a na palma da mão aberta e continuou sempre num tom baixo e sereno: ― Você nunca me interessou, Valéria.

       Ela quase sorriu.

       ― Eu sabia. ― murmurou, a peridural anestesiando a dor mas não evitando a sensação do toque, da faca que ele puxava pelo cabo depois de enterrá-la entre as suas costelas.

       ― Ainda quer se aproveitar de mim? ― perguntou ele, irônico.

      Não gosto do seu estilo, ele dissera. Você não me interessa, ele afirmara.

       Valéria baixou a cabeça e fitou o vestido que usava, a parte que cobria minimamente as pernas, respondeu num fiapo de voz:

       ― Não. Quero ir embora.

       ― Uma fraca, sempre será a sombra do seu irmão. Não luta, não insulta, não esbraveja. Sempre a resignação da vítima do destino, e é por isso que tanto me diverte. ― ele enganchou dois dedos debaixo do queixo dela e a fez encará-lo: ― Está apaixonada por mim, não é mesmo?

       Ela fez que sim com a cabeça.

       ― Conseguiu se vingar. ― afirmou com a voz embargada para, em seguida, completar com tristeza, arrastando as palavras na rouquidão da voz: ― Só não entendo qual é o prazer que sente ao magoar quem nunca pensou em magoar você. Acha mesmo que contarei sobre nós ao Rodrigo? Jamais.

       Fechou os olhos e respirou fundo. Queria que ele fosse diferente, ainda que o amasse por ser como era. Passou a mão pelos cabelos num trejeito nervoso, não conseguia entender o que sentia.

       Voltou-se para ele antevendo um sorrisinho petulante.

       ― Que mais, Valéria? Mandei falar tudo, não mandei?― estava sério e atento.

       Ela balançou a cabeça negando a intenção de lhe obedecer.

       ― Você não tem cacife para substituir a Karen.

       ― Esse nunca foi o meu objetivo de vida.

       Imediatamente ele fechou a cara e se levantou do sofá, puxando-a junto consigo, já que ainda tinha seus dedos entrelaçados nos dela.

       ― Vamos jantar, depois o Bronson a leva para casa.

       ― Dispenso o jantar, vou embora agora mesmo.

       ― Aqui quem dispensa sou eu. ― afirmou, sério. Depois disso, puxou-a pela mão até à porta de saída: ― Quer ir embora, vá, pode ir, mas saiba que não voltará mais à minha fazenda. Não a expulsei de lugar nenhum, apenas fui honesto. Não aguenta? Paciência. ― quando ela fez menção em soltar a sua mão e partir, ele enfatizou: ― Se ficar poderemos aproveitar o nosso jantar e eu tentarei não decepcioná-la... pelo menos por hoje. É pegar ou largar.

       Por mais que estivesse apaixonada e tal fato comprometesse sua capacidade intelectual, Valéria desconfiava que Thales brigasse internamente consigo mesmo, pois suas palavras contradiziam as atitudes. Abria a boca para acertá-la na testa enquanto mantinha sua mão na dele. Talvez ela estivesse errada nessa interpretação e, como sempre, projetasse no comportamento dele a sua própria vontade. Ele havia dito com todas as letras que não estava interessado nela. Não fazia jogos de sedução. Era pegar ou largar, como havia dito.

       Mas o que de tão ruim poderia acontecer se aceitasse o convite para ficar e jantar?

       Puxou discretamente a sua mão da dele e afirmou com um leve sorriso:

       ― Aceito jantar com você, só espero que não me esfaqueie novamente.

       Ele esboçou um sorriso, tornando a pegar sua mão sem chance de deixá-la se afastar.

       ― Tentarei me portar como um legítimo cavalheiro. ― e depois de beijar a mão dela, mantendo os olhos sarcásticos fixos no seu rosto, completou: ― Selecionarei minhas melhores palavras para não ferir seu espírito, senhorita Malverde. Como pode ver, até mesmo um fazendeiro bruto pode se passar por um lorde.

        De mãos dadas, dirigiram-se à sala de jantar.

       A mesa posta sobre uma toalha de linho branca e os castiçais com seis velas. Talheres, pratos e cálices dispostos para um jantar íntimo; apenas dois lugares, próximos o suficiente para que tocassem levemente os joelhos ao se sentarem à mesa.

       Durante o jantar, ele se comportou como um nobre. Ainda que o modo de olhar para ela não refletisse nobreza; eram apenas as palavras ― como lhe havia prometido, bem escolhidas. O tom ligeiramente irônico e irreverente permanecia. Até o momento em que cruzou a fronteira e perguntou à queima-roupa:

       ― Quem é o pai da sua filha?

       Valéria parou de mastigar o salmão, limpou os lábios no guardanapo com as iniciais da Arco Verde e procurou esconder a exasperação.

       ― Sou eu o pai e a mãe dela. ― respondeu num tom contido.

       Thales percebeu que tocara numa ferida. Esboçou a sombra de um sorriso do tipo que dizia: “aha, descobri o seu calcanhar-de-aquiles”. Ele não fazia o tipo diplomático ou apaziguador.

       ― Felizmente ainda não é possível a autofecundação. ― estendeu o sorriso exibindo os dentes e as covinhas de cada lado da boca e continuou incisivo: ― E, com certeza, você não iria optar por essa prática, Valéria.

       ― Pelo contrário, seria um avanço tremendo para a civilização. ― afirmou com azedume e, em seguida, foi direta: ― De qualquer forma, esse assunto não é da sua conta.

       O fogo na ponta das velas oscilou, dançava à mercê do vento frágil e morno que entrava pelas janelas.

       ― Só estou curioso, nada mais. ― defendeu-se com um dar de ombros.

       O segundo cálice de vinho branco desceu com prazer garganta abaixo. Sentia-se frustrada por ter cedido à vontade de beber. Adeus vida saudável, ouviu alguém dizer dentro da sua cabeça.

       ― Ele era casado, e eu não sabia. ― falou com naturalidade, visto que não havia ferida nem cicatriz que tivesse marcado tal evento ― Então não contei que tinha engravidado e peguei a minha filha só para mim; afinal, ele já tinha outros filhos e eu nenhum. Não fui abandonada, Thales, se quer saber. É claro que fui rejeitada e enganada. Afinal, o cara tinha família e me pediu em noivado e a palhaçada toda. ― ela refletiu por um momento e continuou, olhando diretamente para o anfitrião: ― E eu até aceitei. Aceitei casar com um cara que mal conhecia. Eu era uma criança de 18 anos. Não tinha maturidade para separar a realidade dos sonhos, e quando o desconhecido encantador começou a me cercar com palavras bonitas, caí na dele. Na verdade, queria muito ter o mesmo tipo de casamento que os meus pais tiveram. Deus!, eles se amavam demais. Isso sim é uma história de amor, viver com alguém por anos sentindo o mesmo carinho desde o início.

       ― O pai do Rodrigo não morreu cedo? Pelo o que ele me falou uma vez, parece que foi baleado quando vocês eram crianças... Então acredito que o casamento dos seus pais não durou muito, não é mesmo?

       Ela estreitou os olhos captando vestígios de ataque no ambiente.

       ― O que quer dizer com isso?

       ― Que mais uma vez foi enganada, minha querida. ― respondeu com simplicidade para, em seguida, apontar com o garfo a comida no prato: ― Coma, mulher, a Irene e as cozinheiras não se mataram no fogão para que você esnobasse a comida delas.

       Automaticamente, Valéria olhou para o próprio prato. Encheu o garfo e, aturdida, mastigou, sentindo sobre si a atenção satisfeita do outro. Engoliu a comida, mas não a afirmação jogada à mesa, insistiu:

       ― Por que tenta destruir tudo, hein? Você não conheceu os meus pais, nunca os viu juntos. Eu e o Rodrigo somos frutos de uma família que se amava, entendeu? Nem todo mundo é criado num lar disfuncional. Nossos pais cuidavam de nós, participavam de todas as atividades escolares e nós tínhamos orgulho dos dois... E quando aquele desgraçado atirou na cabeça do meu pai destruiu tudo, acabou com os churrascos aos domingos, com as caminhadas no parque, com todos os Natais até o fim da minha vida, da vida da minha família. Não é justo ter alguém arrancado da vida com tamanha brutalidade, isso faz a gente pensar se a vida tem algum sentido, se a gente respira por respirar, se trabalha apenas para manter de pé um sistema econômico asqueroso ou se tem filho só para encher o planeta com mais gente e continuar o ciclo da inutilidade. Porque não existe um pingo de justiça na vida, e só o otário do meu irmão acredita nisso! ― ela se calou abruptamente, assustada com o que acabara de dizer.

       Thales estava sério e concentrado nela ao falar com uma pontada de amargura e tristeza:

       ― O seu pai não merecia morrer. Se fosse em Matarana, o seu assassino já estaria morto e enterrado. Por outro lado, Valéria, boa parte de suas lembranças de família feliz são fantasiosas, fruto da imaginação de uma criança. ― ele fez um sinal com a mão, contendo-a, e depois prosseguiu: ― Mas se podemos tirar algo positivo dessa merda toda, é que o Rodrigo se tornou o profissional que é e você, bem...o que posso dizer sobre você... ― sorriu com charme e completou numa voz arrastada ― É uma pessoa que me faz muito bem. ― antes que ela esboçasse qualquer reação, ele continuou, agora, sério: ― Gosto quando mostra quem verdadeiramente é e isso somente acontece ao se livrar da sua hipocrisia de mulher comum, como se diz, mulher do povão.

       Foi a vez de ela sorrir, embora estivesse sob efeito da enxurrada de emoções que sentira ao tornar a viver o seu passado. Sorriu com simplicidade. Quando ele falava algo bom e depois algo ruim, por amá-lo ou por ser uma doida varrida, escolhia guardar apenas aquilo que a fazia sorrir.

       ― Mesmo quando o irrito faço bem a você? ― brincou.

       Ele não queria que a conversa tomasse o rumo da brincadeira jovial entre conhecidos.

       ― Você não me irrita, Valéria, não tem esse poder sobre mim; no máximo, me entedia.

       ― Cadê o lorde?

       ― O monstro matou.

       ― Claro, durou pouco, não é mesmo?

       ― Desculpa, senhorita Malverde, mas não consigo ser hipócrita, ou melhor, politicamente correto por mais de trinta minutos, minhas têmporas latejam. ― ironizou.

       ― E ser educado, consegue? Que adianta ter dinheiro e tratar mal as pessoas?

       ― Está se sentindo ofendida?

       ― Bom, é quase por aí mesmo. ― resmungou, jogando o guardanapo na mesa e se preparando para levantar: ― Ainda bem que vim de carro, sabia que jantar com você seria uma experiência desagradável e curta.

       ― Quer que eu peça para ficar? É isso?

       ― Sou inexpressiva, não tenho vontade própria. ― debochou, afastando a cadeira e olhando ao redor à procura da sua bolsa.

       ― Tem é pavio curto, isso sim. Vamos, Valéria, para de fazer cena e volta à mesa. ― ordenou, a cara amarrada.

       Ele era inacreditável, pensou a irmã do delegado.

       ― De jeito nenhum! Sente prazer em tripudiar em mim.

       ― Deixa de ser fresca e senta nessa cadeira agora!

       Ela parou e lançou-lhe um olhar duro:

       ― Então é bom começar a me tratar com respeito. ― ela já não havia dito isso antes?, pensou, irritada consigo mesma. ― É como você mesmo disse há pouco, pegar ou largar. ― completou com altivez e disposta a entrar no carro e partir.

       Thales levantou-se da cadeira e, endereçando-lhe um olhar gelado, aproximou-se dela.

       ― Pode ir embora.

       A sentença foi pronunciada com suavidade, cada palavra envolvida em fios de seda. A aspereza estava no significado.

       Agora já era uma questão de honra. Não podia ceder, cogitou Valéria, aceitando a invasão de dois mísseis azuis. Recuou um passo ao tê-lo quase encostado ao seu corpo. Entortou o pé sobre o salto altíssimo da sandália e teve um dos antebraços pego pela mão que a puxou para si. A batida contra o tórax forte serviu somente para despertar sensações que a duras penas tentava reprimir. Espalmou as mãos sobre o peito enxuto dele, os dedos tocaram a textura macia da camisa, o nariz aspirou a colônia refrescante e máscula e o chão cedeu debaixo de seus pés.

       Ele não fez qualquer menção de beijá-la enquanto detinha os braços dela em suas mãos em garra, a determinação velada de ajustá-la ao seu corpo e a intenção de não ceder à vontade de subjugá-la, pô-la de joelhos para, contraditoriamente, afastá-la de si.

       ― Quer ver o meu passado feliz? ― ele indagou, impassível.

       ― Quero ir para minha casa. ― disse num fiapo de voz.

       ― Depois eu a levo para a sua concha. Vou lhe mostrar algo que jamais compartilhei com ninguém, uma parte da minha vida, a parte que começou aqui em Matarana há trinta anos.

       Puxou-a pela mão até o segundo ambiente da sala principal, postando-a entre o sofá e a televisão de 64 polegadas.

       ― Sente-se, que volto em um segundo. ― disse, atravessando a sala até alcançar a escada que levava às suítes e ao seu próprio escritório.

       Voltou com um DVD e o semblante tenso.

       Enquanto ajeitava o DVD no aparelho, mantinha na testa uma ruga profunda e nos lábios um ricto de amargor.

       Ela não sabia o que fazer. Talvez o mais sensato fosse não fazer nada e assistir ao que quer que fosse. Thales era imprevisível.

       ― Esse filme é de 1981, a qualidade é um lixo. ― ele explicou, sem desviar a atenção da imagem que aparecia, um colorido esmaecido, o áudio ruim.

       Vários homens conversando no que parecia ser um acampamento, a terra de chão batido, barracas feitas de lonas pretas ao redor do grupo. Ventava. Os homens riam alto, pareciam animados, comemoravam algo.

       ― O início da colonização quando Matarana ainda pertencia à Santa Fé. ― constatou Valéria, desviando a atenção da tela da TV e encontrando o perfil do homem ao seu lado, envolvido pelas imagens.

       ― Sim. Estão felizes, os desbravadores da terra de ninguém. Nesse dia, o meu avô, aquele velho vestido na camisa vermelha, havia decidido retomar as suas terras invadidas. Juntou uma tropa, um grupinho de gatos e grileiros e se prepararam para a guerra, beberam a noite inteira.

       No momento em que contextualizava a sucessão de imagens ― o velho de camisa vermelha rindo alto, outro enrolando o cigarro de palha e mais um terceiro emborcando a garrafa de pinga do gargalo ― a expressão do rosto de Thales se contraía como se sentisse dor, não uma dor terrível e insuportável, uma dor de sempre, de todos os dias, lancinante e adestrada, presa entre as vértebras da coluna.

       Ele se lembrava daquela noite de guerra. Porque ninguém partiu. Todos ficaram em suas tendas, bêbados.

       Um garoto magro e alto não sorria nem parecia feliz no meio dos outros. Deslocado, tanto na tez clara demais quanto na profundidade do sofrimento que raiava de seus olhos arregalados, assustados, cheios de abandono. Valéria reconheceu-o e se voltou para ele, agora, homem. O mesmo tipo de olhar de infelicidade, sem, no entanto, o medo.

       ― Sim, sou eu. O neto do mal encarnado. ― comentou com um sorriso torto. ― Essa caipirada inventa cada besteira.

       Naquela noite o velho Onório entrou em sua barraca de lona. A primeira vez que recebeu a sua visita.

       O fazendeiro apontou para a televisão, acrescentando a esse gesto a declaração em voz baixa:

       ― Quero que me veja aos 12 anos, Valéria, a minha infância feliz.

       Ela sentiu um nó na garganta ao ver o menino desamparado na tela, no filme caseiro, e o adulto melancólico ao seu lado.

       Quando o velho Onório entrou em sua barraca e tentou tocar na intimidade do seu corpo, o menino já havia se preparado para a sua má sorte. Ninguém jamais o protegeria. Os pais mortos na estrada. A faca que guardava debaixo do travesseiro não foi usada. Ele era um Dolejal, fora o que dissera ao seu avô paterno, “sou um Dolejal, se tocar em mim eu te mato, te mato até duas vezes”.

       Espancadores e assassinos ― dissera isso ao seu próprio filho.

       Thales jamais espancara alguém.

       O velho saiu da barraca e guardou o ressentimento no chicote que usou durante mais de dez anos no neto. Até que o neto o enforcou numa árvore. A figueira sagrada.

       Valéria compreendeu como num insight, uma epifania de mulher louca de amor, que, ao mostrar-lhe o filme que visivelmente o feria, queria mostrar de onde nascera o monstro que coabitava sua alma, a de menino crescido.

       Ele parecia mergulhado dentro de si, a cabeça voltada para a tevê enquanto o resto do corpo imóvel, sem se recostar no sofá, rígido. E era como se sentisse o cheiro da cachaça e do suor do velho Onório Dolejal.

       Mas de repente notou que o cheiro era outro, jasmim e violetas, um campo minado de flores. Era a mão feminina no seu rosto, acariciando com ternura o seu maxilar e o contorno do seu queixo.  Deixou-se ser tocado, vivendo o tempo presente com o coração enterrado debaixo da barraca de lona preta. Fechou os olhos, inclinou ligeiramente a cabeça para a concha da mão que o amparava, o carinho tão doce e necessário que mandou para longe o odor característico daquele tipo de vida que não deveria ser vivida por ninguém, que arrancava da raiz o grito morto na garganta e tornava um homem livre escravo de um pesadelo.

       Por alguns segundos Thales Dolejal foi tomado pela mais profunda sensação de paz. O céu dentro do peito, sem nuvens, azul e belo. Leve. Eucaliptos. Pés descalços sobre a relva úmida. O penhasco debaixo dos olhos. Se ele saltasse não encontraria a mulher pela qual passara 10 anos tentando subjugar. Se ele simplesmente saltasse, sem a proteção de seus traumas, ele não encontraria mais Karen Lisboa.

       Encontraria enfim o amor.

       Virou-se para Valéria e quase sorriu ao comunicar:

       ― Está dispensada.

         

       Nova se postou aos pés da cama, pouco adiante do tapetinho de crochê barbante que a ladeava, entre o criado-mudo e a parede com a janela fechada, a luz do dia cuspida para fora. Segurava a caneca grande de cerâmica, as duas mãos postas e aquecidas pelo seu conteúdo, café com leite. Bem mais café do que leite, visto que o último provocava náusea só de sentir o cheiro.

       Admirou a beleza espichada, todo o corpo comprido e ligeiramente musculoso, entre os lençóis. Apenas uma faixa amarfanhada do tecido de algodão cobria-lhe a linha da cintura, atirada por cima das coxas e do sexo, o umbigo à mostra.

        Franco era tão bonito que deveria ser exposto em uma galeria de arte ― pensou Nova, sorrindo para os olhos azuis que se abriam devagar, o semblante sonolento, o esboço de um sorriso de reconhecimento e satisfação ao vê-la admirando-o com o olhar de amor que o convidava para viver aquele dia, e todos, com ela.

       Ela depositou a caneca sobre a cômoda atrás de si. E preferiu permanecer no espaço reservado para a sua segurança ao ficar apenas parada, observando-o. Esperou que ele, enfim, despertasse e descobrisse a realidade de sua situação. Manteve o sorriso jovial e a postura despreocupada de quem assumia para si a missão de salvar uma vida, que, para ela, era a mais preciosa do universo.

       ― Sabe, moço, acho que essa madrugada o senhor me engravidou de novo. ― brincou, sorrindo como uma garota travessa, os braços para trás balançando.

       Ele sorriu e ameaçou erguer-se sobre os cotovelos. Uma ruga sulcou a testa enquanto os lábios se apertavam, a feição se modificando como se a entidade diabo loiro acabasse de lhe entrar no corpo. Puxou um dos braços, o pulso firmemente envolvido por uma corda atada à cabeceira da cama; o outro braço recebera o mesmo tratamento.

       ― O que significa isso?

       A pergunta saiu num tom seco, a voz ainda rouca devido ao sono pesado provocado pelo sonífero posto no suco que levara para ele, após terem feito amor.

       Nova sorriu com doçura. Franco não gostou do tipo de sorriso que viu.

       ― Por que me amarrou, Nova? Quando? Como fez isso? ― desandou a perguntar, tentando puxar o pulso da corda, a sensação de que ela não o ajudaria a safar-se.

       ― Vou explicar tudinho, Franco, mas quero que se acalme. ― pediu com brandura, aproximando-se da cama, mas não o suficiente para as pernas do marido alcançá-la. Sabia que ele jamais a machucaria, mas poderia retê-la entre elas e forçá-la a libertá-lo.

       ― Espero que seja alguma fantasia sexual sua, dona. ― disse ele, de um jeito ameaçador, os olhos sérios fincados nela.

       ― Já disse que você não é mais um pistoleiro. Se tivesse me escutado, não estaria nessa situação. ― afirmou com bastante calma.

       ― Como me amarrou? ― perguntou, tentando inutilmente arrebentar a corda com sua força muscular.

       Nova recuou até a janela, respirou fundo antes de confessar:

       ― Implorei para a Karen vir aqui e amarrá-lo, eu não tenho força para isso. Pensei no Rodrigo ou na Val, mas acho que os Malverde não aceitam muito bem esse lance de cárcere privado.

       ― Nem eu. ― completou ele com o olhar duro sobre ela. ― Por acaso me dopou?

       A esposa fez que sim.

       ― Que beleza! ― exclamou com amargura. ― Parece que virou moda me doparem, e depois sou eu o bandido, você fez a mesma coisa que o Mendes antes de pegar meu canivete e enterrar na vaca louca. ― falou, irritado.

       ― Franco, a Karen não queria te amarrar, tive de implorar. ― apertou as mãos nervosamente e continuou: ― Expliquei para ela os meus motivos e a firme decisão de mantê-lo na linha. Você é o meu marido, pai do meu bebê e o segurança de uma fazenda, nada mais do que isso...

       ― Não entende, Nova?! O meu pai vai se enfiar na fazenda do coronel mesmo que eu não apareça! ― as palavras saíam com dificuldade, oprimidas pela respiração pesada e tensa: ― Ele não vai desistir só porque eu não apareci na Arco Verde.

       Nova não se abalou.

       ― Naquele fatídico jantar, vocês dois se gabaram por terem 40 pistoleiros para invadirem a Coração de Ouro, portanto...

       ― Quarenta homens não são eu!! Sou eu que fico à esquerda do meu pai e protejo ele, Nova! Ele não confia em ninguém e o Bronson está velho e sem reflexo pra atirar.

       ― Tem a Virgínia... ― argumentou sem esmorecer.

       Franco balançou a cabeça, impaciente:

       ― A Virgínia não é confiável!

       ― Como, não? O seu pai a tem como sua segurança particular...

       ― Nova, acredite em mim, nós mantemos ela bem perto para ficar de olho, só isso, como fizemos com você ao ser contratada para escrever sobre a fundação da cidade.

       ― Então a Karen estava certa. ― constatou num fiapo de voz.

       ― A Karen vai me pagar caro! A vagabunda vai se ver comigo! ― esbravejou.

       ― Cala a boca, Franco! Fui eu que planejei tudo, eu, viu!

       O semblante do pistoleiro passou de irritado à beira de uma crise de raiva para a de um pedinte esfarrapado:

       ― Por favor, princesa, me solta e deixa eu proteger o meu pai.

       Ela percebeu o brilho dos seus olhos, a água rasa molhando as órbitas congestionadas. Baixou a cabeça decidida a ignorá-lo e voltar à sala. Somente o soltaria após a tropa de Dolejal retornar a Arco Verde. Karen a avisaria por telefone.

       Antes de sair do quarto ouviu-o implorar numa voz embargada e trêmula:

       ― Por favor! Nasci para proteger o meu pai, preciso dele como preciso de você. Não posso abandonar ele, fui eu quem organizou a ofensiva. É o meu trabalho, tem que confiar em mim, sou bom no que faço e voltarei inteiro! Princesa, me escuta, por favor... Se acontecer alguma coisa ao meu pai, a culpa terá sido minha, porque eu não estou com ele! Você não pode fazer isso comigo! Você me traiu, Nova, me traiu! ― gritou aflito.

       Puxou a porta atrás de si, fechando-a. Levou a mão aos lábios e, ainda assim, não conseguiu conter o primeiro dos vários soluços enquanto chorava.

       Sabia que estava seguindo as ordens do seu coração. O problema era que Franco estava desesperado se debatendo na cama para escapar.

         

       Assim que Thales surgiu no alpendre da casa-sede da Arco Verde, Bronson se chegou até ele, o desalento no semblante antecipava-se à declaração:

       ― Nada, patrão. O celular do Franco está desligado.

       ― Que merda aconteceu agora? ― era uma pergunta retórica, dita de forma brusca e irritada.

       Olhou à sua frente, as picapes com os pistoleiros na cabine e caçamba; alguns apenas ao redor, armas na cintura, olhares atentos. Eles aguardavam o seu subcomandante, exalavam a ansiedade típica que antecedia aos grandes acontecimentos.

       ― A gente vai até a casa do garoto ver o que aconteceu. ― disse o velho, ensaiando descer os degraus e pôr em prática a decisão.

       Foi contido por uma voz forte e determinada:

       ― O Franco sabe sobre as suas responsabilidades, e eu não vou tratá-lo como se tivesse 15 anos de idade. ― em seguida, emendou com menosprezo: ― Não duvido nada que a jornalista o tenha convencido a boicotar a ação contra o coronel.

       ― Não acredito nisso, não, patrão. O Franco estava suando naquele pavilhão para nos mostrar a posição de cada um na fazenda do coronel, inclusive já tinha até combinado com o Elias, que fica na portaria da manhã na Coração de Ouro, a nossa entrada sem chamar a atenção da tropaiada toda do coronel.

       ― O Elias que está na folha de pagamento da Arco Verde?

       ― É, sim, senhor. O camarada já está esperando a nossa chegada. Quando a cambada perceber que entramos na propriedade, não terá muito o que fazer senão nos entregar as armas e se pôr de joelhos. Por isso precisamos do Franco, patrão, ele planejou cada passo, cada manobra, e ele vai pôr o senhor bem na frente do coronel sem dificuldade alguma.

       ― Pois é, mas parece que vai nos deixar na mão. ― comentou, torcendo o canto do lábio com amargura.

       Franco cedera aos caprichos da mulher. Uma hora ou outra, isso aconteceria. E o mais difícil não era invadir a fazenda construída nas terras do velho Onório, as terras roubadas pelo coronel à época do desbravamento do centro-oeste, logo no início da colonização de Matarana. Thales estava decidido a recuperar o que era por direito dos Dolejal. Havia algum tempo que protelava tal ação. Agora, com a chegada de mais um coronel e o ar se tornando deveras poluído, urgia que mostrasse aos latifundiários que o coronelismo tinha os seus dias contados por aquelas bandas.

       ―Vamos então aguardar por vinte minutos. Se ele não aparecer até lá, começamos a nos mexer. ― decidiu, por fim, o latifundiário.

       Bronson também criara o garoto que se tornara o seu chefe, o segundo na hierarquia, o seu guri, o filho que nunca teve. Conhecia a lealdade desmedida entre os Dolejal, pelo menos do filho em relação ao pai, e botava a mão no fogo por Franco, ele jamais abandonaria o patrão. Coçou a cabeça na nuca e, com o gesto, o chapéu desabou para frente, na testa larga e enrugada.

       ― Vou ver o que aconteceu com o garoto e já volto.

       A afirmação não precisava da concordância do seu empregador. Já havia algum tempo que o velho pistoleiro fazia o que lhe dava na telha. Nem olhou para trás antes de entrar na picape e partir.

       Thales quase sorriu, considerando que Bronson agira de acordo. Na Arco Verde, ninguém abandonava os seus.

       Já estava na hora da jornalista aprender essa lição.

         

       Karen saiu detrás do caixa e se postou na calçada em frente a sua confeitaria. Pôs as mãos nos quadris depois de ajeitar a aba do chapéu de modo a permiti-la observar tudo o que tinha para observar logo adiante, do outro lado da rua. E era lá onde se localizava a delegacia e, antes dela, o seu estacionamento com duas viaturas da Polícia Federal, outra da Polícia Rodoviária Federal, três da Polícia Militar de Matarana e a própria viatura da Polícia Civil, ladeando a picape particular do delegado da cidade.

        A movimentação começara cedo. Desde as cinco da matina Rodrigo já estava de prontidão na delegacia para esperar a chegada da força tarefa. Um bom número de agentes compunha a Operação Sentinela de combate ao tráfico de drogas, criada havia pouco tempo e com o firme propósito de fiscalizar as fronteiras brasileiras.

       Ainda naquela manhã, a Vila Zumbi receberia os policiais e os seus mandados de prisão e busca e apreensão, pondo por terra as bocas de fumo franqueadas por Leonardo Marau, cliente de uma família poderosa de traficantes bolivianos.

       Karen ainda não sabia o que Rodrigo já tinha como certo. As investigações sobre o surgimento do óxi em Matarana avançara na velocidade de um raio a partir de um telefonema e uma indicação.

       Agora, enquanto pressentia a chegada da cunhada atrás de si, imaginava o seu homem vestindo o colete à prova de balas, conferindo a munição das pistolas, a ruga funda no meio da testa, sério, mergulhado na missão de livrar de todo o mal a cidade a qual protegia.

       ― Meu Deus, parece que estamos em estado de guerra. ― murmurou Valéria, preocupada.

       Ela percebera a movimentação também na Arco Verde. E, na noite em que Nova se refugiara na sua casa, assustada, havia deixado escapar algo sobre uma ofensiva de Dolejal contra o coronel. Não fora difícil juntar as peças.

       Karen se voltou para ela com um olhar avaliativo.

       ― Acho que foi a senhorita quem voltou ontem de uma zona de guerra. O que aconteceu? Ele quis por trás e você se sentiu ofendida?

       ― Karen! ― Val exclamou num tom esganiçado, não esperava ouvir uma pergunta com tamanha dose de refinamento.

       ― Me poupa, Val! Pela sua cara a noite foi uma droga. Não a vi flutuando com um sorrisinho besta ou cantarolando “Pensa em Mim”. Acho então que o charme do Thales desbotou.

       ― E um grosseirão tem charme?

       ― Percebi um tom irônico e um pouco maldoso na sua vozinha, querida cunhada. ― disse Karen sorrindo. ― Mas, sim, Thales sempre foi um insuportável. Entretanto, isso só acontecia fora da cama.

       ― Karen, não houve “cama”. Ele não me quis.

       A outra desviou os olhos do estacionamento da delegacia e se voltou para a amiga.

       ― Como sabe que ele não a quis? Por acaso ficou esperando ele te pegar no colo, te jogar na cama e te fazer mulher?

       ― Precisava?

       Karen deixou escapar uma risada engraçada.

       ― Claro que não! É só pegar na mão do Thales que ele te come em dois minutos.

       ― Estou falando sério. Não rolou. Ele... meio que me dispensou.

       ― Certo, ele a convidou para jantar pra nada?

       ― Não, ele me convidou para jantar, ora... E também para me seduzir, queria se vingar de você e do Rodrigo.

       ― Para por aí, ô malandra, por acaso essa não é a sinopse daquela antiga novela mexicana? Como é mesmo o nome? Ah, sei lá! ― brincou a cunhada com verdadeiro deboche, divertia-se. ― Que coisa mais ridícula, Valéria Malverde! O Thales está atraído por você e fica inventando merda pra não dar o braço a torcer, ele sempre foi assim, e é por isso que acaba levando guampa! ― em seguida, ela fez um gesto com a cabeça em direção à delegacia e completou: ― Temos de nos preocupar agora é com o que acontecerá quando esse bando de policial armado entrar numa vila com um bando de traficantezinho armado e outro bando de viciados desesperados. Não vai sair coisa boa dessa ação de hoje.

       Val balançou a cabeça devagar em afirmativo.

       ― O Thales vai invadir a Coração de Ouro. ― contou, esperando a reação de uma possível aliada do seu irmão.

       Preferia que Karen contasse a Rodrigo sobre a invasão dos Dolejal e, com isso, contivesse Thales antes de lhe acontecer o pior. Todavia, não ocorreu o pretendido:

       ― É muito bom que o Rodrigo esteja ocupado em cumprir a lei, assim o Thales pode fazer justiça. ― em seguida, aproximando-se do Maverick, disse sem se voltar: ― Aguenta as pontas aí que já volto.

       ― Aonde vai?

       Diante da porta aberta, Karen suspirou contrafeita, ela detestava dar satisfações. Olhou para os lados ao perceber que os agentes começavam a entrar nas viaturas e se voltou para a cunhada, respondendo simplesmente:

       ― Preciso de O.B.

       ― Hã...?

       Valéria perscrutou-lhe a expressão desconfiada. Duas ações da pesada acontecendo na cidade. Rodrigo se enfiando numa vila e Thales na fazenda do seu maior inimigo. Karen Lisboa montando no V8 para comprar absorvente interno...

       ― Fiquei mocinha.

       ― Karen, por favor! ― era quase uma súplica.

       ― O que é agora, Valéria? ― perguntou com impaciência, pondo as mãos nos quadris e fechando a cara: ― Acha que estou feliz com isso? Acha mesmo que eu queria ficar menstruada? Desde que fui morar com seu maninho parei com a pílula e, por acaso, engravidei? Não, claro que não. Queria dar um cauboizinho para o meu macho alfa sentimental, ver aqueles olhos lindos se encherem de lágrimas ao saber que seria pai...Pensa que não vejo a carinha dele pra barriga da Nova? Mas não adianta, fiquei oca do dia pra noite e agora tenho que comprar tampão. ― por fim, deu de ombros e se despediu com um sorriso misterioso: ― Cuida aí para as moscas não comerem todos os macarons.

       Valéria não teve tempo para argumentar. Viu quando a cunhada entrou no carro, bateu a porta e se encurvou para mexer no porta-luvas.

       Que metamorfose o amor podia provocar nas pessoas, refletiu Val. Karen considerando Rodrigo como seu marido e tentando engravidar novamente para tornar realidade o sonho dele. Karen querendo fazer um homem feliz.

       Se ela estava disposta a mudar por amor, isso também poderia acontecer para qualquer pessoa, cogitou a mulher que tinha a cabeça longe, mais precisamente, no interior de uma fazenda.

         

       Todas as saídas da Vila Zumbi foram barradas pelos policiais. O labirinto entre as casas, ruelas estreitas de chão batido debaixo de um emaranhado de fios elétricos clandestinos, auxiliava o rápido deslocamento dos criminosos. Até os ladrões de galinha se enfiaram pelos becos para fugir da lei.

       Mulheres apareciam às portas e gritavam o nome dos filhos; algumas corriam para juntar os menores do chão, carregá-los encaixados nos quadris para dentro de casa. E, supostamente seguros, aguardavam o início do barulho para além dos motores das viaturas, esperavam o estampido seco do primeiro tiro.

       Por aqueles lados, quando a noite escondia as bocas de fumo e o dia revelava a praça povoada por moleques empinando pipa, ainda que houvesse transação de drogas, a violência não os havia alcançado como um todo. Até pouco tempo atrás, o forte na região eram as plantações de maconha. Plantavam nos quintais de casa e vendiam a mercadoria para os filhos dos fazendeiros e empresários; principalmente para os que retornavam a fim de curtirem as férias universitárias junto à família. Eles sentiam falta dos pequenos luxos da cidade grande, como “curtir um barato”.

       Um camarada de cabelo cor de palha, olhos escuros, lábios secos e voz de fumante desde a última encarnação, falou para Rodrigo Malverde:

       ― A gente aqui nunca se meteu com droga pesada. Como dizem, não é da nossa cultura, doutor. Maconha, sim, isso é da nossa cultura.

       Rodrigo olhou ao redor. Aqui e ali, por entre árvores, automóveis e muros a presença dos agentes impunha respeito, abordando transeuntes e invadindo as casas dos suspeitos, lendo os direitos enquanto algemavam traficantes pés de chinelo. A resistência à prisão ocorrera apenas em uma circunstância: o homem corpulento, algemado com os braços para trás, já que fora preso por um policial civil (os federais algemavam os braços para frente), decidiu que um cabo de vassoura empunhado como uma espada o livrasse de ser levado no camburão para detrás das grades.

       Ele plantava maconha e, acreditando que vivesse na Holanda, afirmara que no Brasil já estava arraigada a cultura da Cannabis. Era uma questão de tempo, ele enfatizara, para a droga ser legalizada, assim como para o aborto.

       O delegado percebeu que ele estava pra lá de Marrakesh.

       ― Não acha que está velho demais pra bancar o hippie? ― apontando para o quadro com brincos de metais e penas ladeado pelos saquinhos com erva.

       O delegado conhecia a figurinha de meia-idade, cabelos longos e grisalhos, tatuagem desbotada no alto do braço esquerdo, o rosto de Guevara.

       O outro sorriu um sorriso amarelo. A nicotina de fato fodia os dentes, considerou Rodrigo.

       ― É para consumo próprio, não trafico.

       ―Bom, então você é um filho querido do capitalismo e consome demais, amigo.

       ― Olha só, por que a polícia sempre dá batida nas vilas e deixa os bairros ricos de fora, hein? Vocês querem mostrar serviço pra comunidade, dizer pra eles ‘aqui tá o dinheiro de vocês, dos impostos de merda’, aí entram nos lugares onde só tem maconha e...

       ― E nada, cala a boca, camarada, que já sabemos sobre a pedra de dois rolando por aqui.

       ― Vou te fazer um favor, ô autoridade, e dizer o seguinte: a única boca de fumo que mexia com essas merdas de pedra foi abatida a tiros. A cartomante dominava o pedaço e vendia essa porcaria de óxi. Ninguém mais. Aliás, ninguém mais podia vender, a velha não permitia. O guri, neto dela, meteu no valão uns malandrinhos que tentaram burlar as regras e foram comprar a pasta de coca direto com o Vitorino... Que os quintos dos infernos o tenha, o filho de uma puta bem gasta! ― afirmou com menosprezo antes de juntar a saliva sobre a língua e cuspi-la num jato grosso.

       A cuspida acertou a bota do delegado.

       Lucas aportou ao seu lado.

       ― Os federais querem os peixões. ― queixou-se.

       O delegado sorriu levemente.

       ― Dê o endereço da Coração de Ouro. ― puxando o cidadão maconheiro pelo antebraço, ordenou ao agente: ― Leva junto com os outros. ― virou-se para o pátio com a planta que não seria colhida e acresceu determinado: ― Vamos pôr fogo nessa merda toda, acabar com qualquer vestígio dessa praga na lavoura.

       O policial considerou a ordem do doutor delegado à sua frente, parou entre o homem algemado e o homem pensativo, que olhava para os mais de oitenta vasos de maconha decorando a paisagem no quintal da casa de alvenaria e telhas de zinco.

       ― Não sei se levo fé na nossa fonte.

       ― E o que faremos então, Lucas? Não consigo provar que o desgraçado ou o filho dele tentou me matar duas vezes. Fizemos uma puta diligência na Coração de Ouro e as picapes simplesmente evaporaram. Além disso, ontem fiquei sabendo que uma equipe da Delegacia do Trabalho voltou para a capital com as mãos abanando, porque não encontrou os trabalhadores que supostamente eram mantidos em situação de escravidão. E sabe o que isso significa?

       Lucas foi direto ao ponto:

       ― Que ele sabia com antecedência sobre a ação do Ministério.

       O delegado fez que sim com a cabeça.

       ― O coronel não será posto detrás das grades e tampouco entrará na lista negra do cadastro do Ministério do Trabalho.  ― resumiu com desânimo a condição do latifundiário. ― Para todos os efeitos, os seus funcionários são registrados e pagos em dia, conforme consta no relatório dos fiscais. Mas tenho certeza absoluta de que esses registros são falsos e os coitados foram orientados a não se manifestarem.

       ― E por acaso essa certeza vale outro mandado para entrarmos na Coração de Ouro? ― não era bem uma pergunta, era mais como uma sentença irônica que traduzia o quanto os homens da lei estavam presos às circunstâncias.

       Intuição e dedução lógica, sem provas materiais, não trancafiariam o coronel Emílio Marau e Leonardo no presídio de Santa Fé.

         

       Os pneus massacraram a terra seca e as pedrinhas bateram contra a lataria da Silverado que reluzia à luz do sol, o motor rugia suavemente, os vidros abaixados aceitavam o ar tépido e o som dos pássaros naquela manhã de dezembro.

       O homem à direção estava sério. O meneio com a cabeça ao passar pela porteira e cumprimentar o seu espião em reduto alheio foi mal percebido. Endereçou um rápido olhar para o retrovisor e confirmou a entrada discreta de outras duas picapes com seus pistoleiros. À frente esbarrariam com os seguranças da Coração de Ouro. Até lá seguiriam fazenda adentro como se passeassem discretamente, sem a intenção de pôr fogo no cerrado. A ideia era chegar à casa-sede e, enfim, aceitar o convite para almoçar com a família Marau.

       O primeiro grupo de pistoleiros despontou no horizonte camuflado pela cortina de poeira que suas montarias ergueram no recorte ao fundo do céu azul. Antes que engatilhassem suas . 40, os homens da Arco Verde destravaram as Glocks e esse era o aviso sobre a beligerância da visita.

       Thales estacionou a picape e desligou o motor. Deu uma boa olhada para o paraíso verdejante ao seu redor, para a propriedade que tencionava reconquistar. Desceu, tirou os óculos escuros e sorriu levemente. Revigorado, nas veias o sangue elétrico que aquecia sua pele. Pôs as mãos nos bolsos laterais da calça social enquanto percebia a aproximação de Virgínia ao seu lado, o esquerdo.

       Ela jogou o cabelo para trás e ajeitou o chapéu, gestos rápidos e precisos. A mão tornou a descansar sobre o coldre atado displicentemente nos quadris. Um olhar mau fixo nos seguranças do coronel, o semblante carrancudo e o chiclé mascado bem devagar. Elos de tensão se grudavam à sua pele suada. Era capaz de tocar na fumaça de raiva que exalada pelos corpos dos seguranças. Afastou as pernas enfiadas no jeans colado e mostrou aos rapazes que não estava ali para brincar. Ao seu lado, o poder imanente de um ser digno de ser reverenciado. E então sorriu ao recordar a última noite com o filho do dono daquela fazenda. A vida era dura para algumas mulheres, dura e injusta. E que atirasse a primeira pedra quem nunca traíra uma antiga paixão desbotada.

       Virgínia voltou-se ligeiramente em direção ao patrão e sentenciou:

       ― Falei com o delegado.

       Thales não moveu um músculo, concentrado que estava ao ver a porta da casa se abrir e a governanta surgir com a expressão preocupada e abatida.

       ― Contou para o Rodrigo que traficava com o seu amante?

       A pergunta foi feita com bastante serenidade, o que causou à pistoleira uma forte contração estomacal. Ela engoliu o medo.

       ― O senhor sabia. ― constatou numa voz pálida de energia.

       ― Eu sei de tudo, Virgínia. E você só continua comigo, porque, para a sua sorte, o Franco não sabe.

       ― Me perdoa, patrão...me perdoa, por favor. ― pediu baixinho numa aflição que não combinava com a ocasião.

       Ele pousou os olhos duros nela.

       ― O que contou ao delegado?

       Ela tentou sorrir.

       ― Tudo.

       Com muita tranquilidade e autoconfiança, características típicas de quem nascera de posse de uma bússola e uma carta de navegação, Thales foi direto:

       ― Contou sobre nós? Sobre essa conversinha com o coronel? Ou sobre o fato de você dormir com o Leonardo Marau e ser uma espiã na Arco Verde? Me diz, Virgínia, está me espionando para me entregar a quem, ao coronel, ao seu amante ou ao delegado? ― e sorrindo com todos os dentes afirmou: ― Acha mesmo que me enganou esse tempo inteiro? Você é só mais uma mulherzinha iludida por um canalha, nem levo em consideração a sua deslealdade, pois o pior ainda está por vir.

       ― Patrão... não fui desleal...

       O coronel apareceu à porta e tinha uma ruga funda entre os olhos ao ver o seu inimigo e uma dezena de camaradas armados sem nenhuma discrição.

       ― Sorria, Virgínia, você está sendo vigiada. ― Thales apontou discretamente para o coronel e encerrou a conversa: ― Torça para que o Franco nunca descubra sobre o seu caráter.

       O velho gritou do alpendre:

       ― Obrigado, Virgínia, por trazer o meu amigo até mim, já estava mais do que na hora de nós dois acertarmos os nossos ponteiros, Dolejal. Vamos, entra, vem beber um trago comigo!

       Thales ignorou a pistoleira que tentou em vão se aproximar para dizer que entregara Leonardo Marau para o delegado, ele e a sua droga armazenada na fazenda. Mas Thales a conteve com um gesto de mão antes que ela pudesse se inocentar do crime.

       Ele subiu devagar os degraus até a entrada da casa, sabendo de antemão que a facilidade em adentrar a fazenda do coronel, erguida sobre as terras dos Dolejal, devia-se à espionagem de Virgínia. Ela contara tudo a Marau. A partir de agora ele teria um árduo caminho de negociação para readquirir a sua propriedade.

       ― Está dispensada, Virgínia. ― afirmou secamente, sem olhá-la.

       Ela parou no meio da escada, constrangida. Sabia que a única atitude a tomar era obedecer à exigência do patrão. Estava chocada, aturdida e frustrada. Observou os latifundiários apertarem as mãos.

         

       Todas as janelas da casa estavam fechadas. O jardim florido e bem cuidado, cercado por pequenas estacas de madeira branca, decorava a construção moderna e jovial, típica moradia para um jovem casal começar a vida.

       Bronson entortou a boca num ricto de desagrado diante do que viu, a picape vermelha estacionada na garagem, na parte lateral da casa. E foi para lá que ele se dirigiu, parando um pouco antes do para-choque do cavalo de metal de Franco.

       Desligou o motor e relançou um olhar divertido para Valentino, que voltava à casa do patrão pela segunda vez naquela semana.

       ― Será que o Franco não ouviu o barulho do despertador?  ― era mais uma brincadeira largada no calor da estação do que uma pergunta séria.

       O passageiro do banco ao lado, falou:

       ― Duvido, o patrãozinho mal comia de tanta ansiedade. ― ele riu pelo nariz. ― É mais fácil ele ter trepado até desmaiar.

       E foi dessa forma despreocupada que bateram à porta dos fundos, a da cozinha.

       Valentino ficou um pouco atrás de Bronson, pois terminava o seu cigarro e não queria que a fumaça entrasse na casa de uma grávida. Ele se importava com essas coisas, fumaça em pulmões alheios, por exemplo. Ninguém era obrigado a fumar com ele; principalmente a mulher do patrão e o herdeiro dos Dolejal.

       Ninguém veio à porta. Os camaradas se entreolharam, intrigados. Valentino bateu mais forte contra a madeira, e o silêncio foi a resposta.

       Bronson fez um sinal com a cabeça em direção à parte lateral da casa, onde se localizavam duas janelas, a do quarto do bebê e a do banheiro. Fez o contorno e espiou pelo vidro fechado, toldou os olhos para não dar de cara com a própria imagem, agora, esculpida por linhas tensas ao redor dos olhos e na testa. Bateu no vidro e gritou com severidade:

       ― Franco! Nós vamos pôr abaixo essa porta, guri!

       Os pardais sobre as cerquinhas se assustaram e se bandearam para um lugar sossegado, o alto de uma árvore.

       Valentino nascera de sete meses e por isso não esperou e meteu o pé contra a porta, soltando a estrutura de madeira das dobradiças; um segundo depois, a bota direita se arremeteu contra a porta solta, que não quebrou, mas cedeu espaço suficiente para que com os braços ele forçasse a sua entrada.  Atrás de si, Bronson com a Glock em punho e a outra mão forçando a passagem para ambos entrarem na cozinha mal iluminada, as venezianas e cortinas fechadas.

       Ouviram um barulho em um dos quartos. Uma batida forte e seca, constante.

      Valentino sacou a pistola e arregalou os olhos, a casa estava às escuras, sem sinal de vivalma.

       Bronson encostou-se à soleira da porta entre a cozinha e a sala e avistou uma poltrona posicionada de forma estranha. Fez um sinal para o outro, indicando-a com a cabeça e levando um dedo aos lábios num gesto que exigia silêncio absoluto. A poltrona, um modelo antigo, deveria estar virada de frente para a estante com a televisão e não o contrário. Alguém se escondia sentada nela.

       Valentino apontou e engatilhou a automática.

       Uma voz irrompeu feito um trovão dos infernos:

       ― Fica frio, Valentino! É a minha mulher!

       O pistoleiro sentiu um fio de suor escorrer pelo seu rego, gelou, e lançou um olhar assustado a Bronson.

       ― Mas que bosta é essa!

       ― Franco, o que está acontecendo, cacete! ― Bronson apertou os olhos tentando compreender o que acontecia por ali.

       ― Como ele sabe que sou eu? ― insistiu, o velhote encafifado.

       Franco gritou de volta:

       ― Está tudo bem, fiquem com o meu pai que eu seguirei direto para a Coração de Ouro. Vamos! Se mandem, porra!

       Bronson percebeu nuances de aflição na rispidez do timbre de voz do filho de Thales. Sem tirar os olhos da poltrona, perguntou curioso:

       ― O que está acontecendo? Fala que a gente vai embora!

       Valentino ainda estava pasmo. Como Franco sabia que ele estava dentro da sua casa? O garoto tinha um pacto com o diabo mesmo!

       ― Não interessa! Vão embora!

       E então o motivo da aflição do pistoleiro se revelou. Nova saiu detrás da poltrona, o rosto vermelho e inchado, as lágrimas molhando a face e o .38 numa mão, na outra a Glock. Duas armas engatilhadas e apontadas para quem ousasse livrar o seu homem do cativeiro.

       Bronson quase sorriu ao reconhecê-la. Ela era uma bonequinha bem corajosa e meio doida, pensou bem-humorado. Notou então que Valentino coçava a cabeça tentando entender a situação, achou por bem tirá-lo da escuridão da ignorância:

       ― O Franco descobriu que era você, porque o piso é de assoalho e você arrasta uma perna, só isso. Agora vê se sossega, porra! ― e, voltando-se para a esposa do diabo loiro disse com bastante calma, quase didaticamente: ― Quando a gente aponta uma arma para alguém é porque estamos assumindo a responsabilidade por uma morte.

       Ela fechou ainda mais a cara.

       ― E quando apontamos duas?

       Valentino manteve a pistola apontada para a mulher, a mente tentava encaixar as peças: Franco no quarto. Dona Nova armada.

       ― Vai atirar na gente, dona Nova? ― perguntou Bronson numa voz macia, se aproximando devagar.

       ― Quer apostar?

       Ela atirou.

       Franco quase teve um enfarte no quarto.

       ― Vão embora, seus merdas! Ela não pode se estressar! Não incomodem ela, caralho! É uma ordem! Vou pôr os dois na rua se não se mandarem agora!!! Desgraça de gente burra!

       Nova atirou contra a televisão.

       Valentino estremeceu os ombros, jamais cogitaria que a mocinha tão feminina fosse atirar de verdade. E por que, diabos?

       ― Por que atirou em nós, dona Nova? ― ele perguntou, mais curioso do que assustado.

       Bronson respondeu por ela, sem deixar de manter o olhar cravado nas armas da atiradora:

       ― Ela está segurando o Franco em casa.

       Nova não baixou as armas ao ver os homens guardarem as suas.

       ― Ouviram o que o patrão disse? Caiam fora! Agora! Não me façam cometer uma loucura, por favor.

       ― Eles vão embora, princesa! Não fica nervosa, vai dar tudo certo, ok? Respira fundo...vai dar tudo certinho, eu prometo...Não faz bem para você, amor lindo, e a bebê vai ficar nervosa também... tudo o que você sente ela também sente...

       Nova tentou sorrir. A situação estava sob controle. Os homens voltariam para junto de Thales e Franco aceitaria a sua condição.

       O chão faltou debaixo dos seus pés descalços e ela viu a porta do quarto se abrir. A figura alta saiu vestido no jeans, abotoando a camisa, os braços arranhados, filetes de sangue na superfície das tiras da pele queimada, no atrito contra a corda fina presa à cama.

       O barulho das botas chegou aos ouvidos dela antes mesmo de Franco se aproximar e se deter à sua frente, o olhar sério e compenetrado nela, dentro dela, revirando-a.

       Ele a desarmou com um sorriso gentil e tomou-a nos braços com carinho e proteção. Balançou-a devagar.

       ― Precisa pensar na nossa filha, Nova. Não me decepcione, por favor. Se não puser a nossa filha em primeiro lugar, antes de mim e de você, me deixará muito triste.

       Nova compreendeu a extensão daquela verdade, deslizando a mão sobre o ventre inchado.

       Franco se afastou depois de beijá-la na testa. Seguiu com os pistoleiros, seus subordinados, para fora da casa.

       E voltou.

       ― Vou deixá-la com sua amiga Valéria. Não quero que fique sozinha pensando besteira. ― decidiu, um sorriso travesso debaixo do olhar terno. ― E à tarde vamos comprar outra televisão.

       Pegou-a no colo e a levou consigo.

         

        Thales fumava após beber dois copos de uísque ao estilo cowboy. Com apenas quatro goles ele derrubara a bebida amarga pela goela, sem fazer careta, sem queimar por dentro. Do seu esqueleto emanavam ondas frias, a era glacial entre ossos e cartilagens. E era sempre assim que se sentia em um ambiente hostil, preparado para o confronto, a frieza azulada que engatilhava cada pensamento, cada linha de raciocínio na perfeita ordem de ataque. Eram apenas as mulheres que o tiravam do sério e quebravam o gelo, trazendo à superfície de sua alma os sentimentos mais cáusticos.

       Ele procurava não pensar na falta que Franco fazia ao seu lado, a frieza que também revestia o seu melhor homem, o seu subcomandante com gatilho rápido e inteligência afiada. Precisava manter-se concentrado no adversário e também esquecer a ausência de Virgínia e a lerdeza de Bronson, que, não chegando no prazo estipulado de vinte minutos, fora deixado para trás. Mas, ainda assim, Thales Dolejal tinha Paulo, o sardento transferido para a Lagosta do Brejo e que retornara tão-somente a fim de fazer parte daquele momento glorioso de retomar as terras do primeiro Dolejal no cerrado, o verme.

       O coronel comportava-se como uma cascavel de fraque; parte formal, comedido, escolhendo as palavras; parte, de acordo com a sua natureza peçonhenta. E se a analogia entre os dois fazendeiros se mantivesse relacionada à fauna, o caso era de se pensar que aquele ambiente arejado ― escrivaninha de cedro, paredes claras, duas portas fechadas e pesados tapetes que não combinavam com a região bucólica ― assemelhava-se a um aquário com um par de Betta Splendens dispostos a defenderem o seu território até a morte. 

       Sentado na poltrona, as pernas cruzadas como as mulheres o faziam, a postura calma e autoconfiante e o olhar vazio. Thales ouvia o barulho dos pássaros, da arrumação da mesa para o almoço na sala contígua ao escritório, onde estavam a sós, já que o coronel dispensara os seus seguranças, e Dolejal nem fizera questão de chamar o garoto Paulo para assegurar a sua integridade física.

       O coronel zanzava de um lado para outro, com vagar, arrastando as alpargatas abaixo da bombacha. E começou a dizer:

       ― Quando cheguei aqui, nesse povoado dos bugres, junto com o teu avô e uma porrada de esganados, tratei de me certificar de que todos teriam o seu pedaço de terra, todos, os pequenos e os grandes. E sabe por quê? Todos nós tínhamos deixado muito para trás. A gente tinha vendido terreno, casa, auto e se enchido de empréstimo pra pagar. O governo disse: pega a terra, vem povoar esse fim de mundo, a terra é de vocês. ― ele deu de ombros num gesto de indiferença tristonha: ― E foi o que a gente fez, ora. Quase perdi meus dedos escavando essa terra seca e ainda precisei criar olhos na nuca. Índios, garimpeiros e a bandidagem toda que trouxemos com a gente que, lá no sul, nem eram tão bandidos assim, andavam com a faca entre os dentes prontos para nos furar e se apossar do que conseguíamos. Ah, o que estou falando? Há trinta anos, você era um piá de bosta, não sabia merda nenhuma sobre a vida...Tiro o meu chapéu pra você, Dolejal, comeu terra e cuspiu ouro. ― ele riu alto e completou num tom debochado: ― Temos as nossas diferenças, claro, mas o nosso passado nos liga. O teu avô foi meu amigo, é isso mesmo, o velho pervertido era o meu faixa.

       ― E desde quando se rouba um amigo, coronel?

       Emílio Marau quase sorriu, ameaçou um ricto facial parecido com um sorriso, apenas isso. Surpreendeu-se com a rapidez de ataque do outro, esperava que conversassem mais sobre trivialidades ou sobre o fato do diabo loiro tê-lo abandonado. Sim, ele tocaria no assunto. Mas não agora, não quando olhava diretamente para o homem vestido como um executivo e empertigado como se fosse um faraó. Diabos!,  desprezava o almofadinha, a vontade de cagá-lo a pau até desfigurar o rosto! O rosto. Não era à-toa que o velho Onório tentava coisa com o neto...

       ― Como é mesmo o ditado?, ah, sei... é mais ou menos algo como: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Estou errado? ― rapidamente emendou num tom de troça: ― Acho que não, compadre. As terras do teu avô, na verdade, eram do governo. Aliás, boa parte das suas terras também é do governo, porque o Onório... que Deus, pobre diabo, o tenha!, expulsou um bando de bugre e matou um punhado de garimpeiro para se apossar dessas terras que tanto prazer te dão. O teu avô expulsou também os primeiros colonos, os sulistas mais fraquinhos que não tinham armas nem pistoleiros para se protegerem... E agora você vem aqui cagar moral pra cima de mim, é? ― gargalhou, feliz da vida.

       Thales sorriu, depois de tragar o cigarro e exalar a fumaça pelas narinas.

       ― Não, a última coisa que pode me chamar é de moralista. ― ele se ajeitou na poltrona, curvando ligeiramente metade do corpo para frente, como se fosse contar um segredo para o velho: ― Mas é como você mesmo falou, há trinta anos eu era um “piá de bosta”, completamente inocente das sujeiradas dos primeiros desbravadores dessas terras. Herdei uma fazenda caindo aos pedaços e um pouco de terra no Pará, só isso. Imagino que o meu avô enchesse a cara por vê-lo, coronel, enriquecer com a rapidez de um foguete enfiado no rabo. Sabia que ele forçou meus pais a venderem o sítio, único teto que eles tinham, e mandar o dinheiro para ele poder se manter no jogo?,  para pagar um maldito empréstimo e um trator de segunda mão. O velho era tão sortudo que você sabe muito bem o que aconteceu com a minha família, não é mesmo?

       Marau captou a nota amarga no final da sentença. Balançou a cabeça como se de fato lamentasse a morte dos pais do seu oponente. Não lamentava.

       ― Tiveram sorte de não caírem nas mãos imundas do teu avô, Dolejal. Cá entre nós, foi uma dureza se safar delas, ainda mais com essa aparência e no meio de tanto homem sem mulher.

       Thales retesou os maxilares e encostou-se contra a poltrona, avaliando a beligerância da questão posta de forma maliciosa e nojenta.

       ― Os acampamentos sempre foram bem servidos de putas.

       ― É verdade, bons tempos aqueles, a gente pagava as vadias com comida requentada. Acho que era por isso, pelas vadias serem de alto nível, que o Onório te protegia dos outros camaradas... Ou não te protegia? Parece que ele às vezes leiloava um tempinho com você, é verdade? Bem, esse era um dos rumores que rolavam pelas tendas. Os caras diziam que você ficava quietinho enquanto eles passavam a mão no teu corpo branquinho e virgem estendido na cama, coitado. Isso vem de longe, né?,  essa tua bichice. ― ele se aproximou o suficiente para poder ser pego pelo pescoço e disse devagar com visível menosprezo: ― Olha bem pra mim, ô bicha cosmopolita, aprenda de uma vez por todas que quem dá as cartas por aqui sou eu, não nasci ontem nem serei enganado por viado que aperta as bolas pra sentar, entendeu? ― fez um sinal com a cabeça em direção à janela aberta e completou com raiva: ― Meus homens estão desarmando a tua cambada. Sei que veio preparado para a matança, acabar comigo, com a minha família de merda e se adonar das minhas terras e sei também que fará o mesmo com o Rodrigues, armando os índios para ficarem do teu lado. Ganancioso cretino! Acredita mesmo que um dia será o único dono de Matarana? Acha mesmo que pode comprar uma cidade e expulsar os inconvenientes? Então vou te dar uma excelente notícia, meu caro: vou acabar com o teu delegado, depois pego o psicopata e, por último, para que você possa apreciar todo o espetáculo, do começo ao fim, acabarei com a Arco Verde. E quer saber como? Ah, que coisa, acho que vou contar, eu não me aguento, não guardo segredo nem de mim mesmo... Lembra o tal incêndio no armazém de grãos daquela associação de merda?,  aqueles chacreiros metidos a fazendeiros? Lembra, Dolejal? Um incêndio na Arco Verde também poderia começar a partir do curto-circuito de uma lâmpada, ― ele parou, avaliou o semblante impassível do outro e completou muito satisfeito consigo mesmo:  ― que foi posta já queimada no meio do fogo. É claro que sendo a Arco Verde, o Rodrigo...Opa!, o novo delegado, o “meu” delegado, por sinal, investigará por cima, e não como o Malverde, quer dizer, o “seu” delegado fez com o incêndio na associação e ainda assim não descobriu a fraude dos bombeiros. Velhas amizades, sabe? Agora, me diz, ô empresário do agronegócio, o que vai fazer para me impedir de você sair daqui direto para o hospital? ― em seguida, ele pôs dois dedos entre os lábios e assobiou. Uma das portas abriu e dois roupeiros musculosos saíram do esconderijo: ― Sempre tive nojo do teu avô, nojo pelas coisas que ouvia sobre ele, e que ninguém nunca provou ser verdade. Mas, convenhamos, Thales Dolejal, uma coisa é inegável, você nasceu para apanhar. ― riu com vontade, a barriga balançando.

         

       Quando ela tirou a automática do porta-luvas, em frente à confeitaria, e verificou o carregador, já sabia o que tinha de fazer.

       Karen considerou as suas alternativas. Podia fingir que não se importava com o ex-amante, com o cara que lhe havia estendido a mão no momento mais crítico de sua vida, ao voltar do hospital lotado com Johnny doente nos braços e encontrar o bangalô onde morava vazio, os móveis postos num caminhão, a conta bancária no vermelho. O marido roubara tudo o que pudera antes de se mandar com uma cabrita de 18 anos, enquanto Karen envelhecia na fila do SUS, o filho de cinco anos com suspeita de pneumonia e o médico, um grosseirão na faixa dos cinquenta anos, insistindo em afirmar que era uma virose. 

       Naquela época os dois clínicos do hospital público, único da cidade, diagnosticavam como virose qualquer quadro febril e como estresse quando o paciente não apresentava febre; às vezes, chutavam “alergia”, “bronquite” ou “mal-estar de verão” e também às vezes as pessoas diagnosticadas com estresse retornavam ao hospital público e acabavam presas a uma cama na UTI, um compartimento três por quatro, espécie de antessala do necrotério.

       Havia dez anos que ela parara diante da bifurcação daquela estrada. À esquerda o caminho para a Arco Verde e à direita, a Coração de Ouro. Àquela época vó Ninita, sentada ao seu lado no Fusca, amenizou a angústia da escolha:

       ― Pensa bem, o coronel apadrinha quem pede ajuda para ele, “apadrinha”, viu!, e espera algo em troca por esse apadrinhamento ― ela olhou para o pequeno em seus braços, quente, respirando pesado, as pálpebras tremendo e completou: ― Se tem de entregar a alma ao diabo, que seja para o Dolejal. Ele é ganancioso como o Marau, mas protege os mais fracos, defende os injustiçados e já meteu muito dinheiro onde a prefeitura desviou. Escolha a estrada certa, minha filha, porque o Johnny precisa ser salvo.

       Karen pisou fundo no acelerador. E agora ela não tinha mais um Fusca nem um filho doente que foi salvo pela proteção do homem que, meses depois, se tornou o seu amante por dez anos.

       Quando subiu as escadas e chegou até o escritório do fazendeiro, dono da Arco Verde, trazia o filho nos braços e o desespero nos olhos. Thales se levantou detrás da escrivaninha e se aproximou com o semblante sério, ainda que tivesse sido avisado pela governanta, parecia assustado e tenso. Ele sabia que a vida daquela criança estava por um fio.

       Karen não precisou contar sobre todo o seu infortúnio. Thales os levou de volta ao centro da cidade dirigindo a Silverado velozmente. No caminho, telefonou para o diretor do hospital e exigiu uma equipe de médicos a postos. E assim Johnny foi salvo, recuperando-se nas semanas seguintes num quarto particular. A partir desse evento, Thales doou dinheiro para a construção da ala pediátrica do hospital de Matarana e para a contratação de pediatras. Por causa de Johnny.

       Franco estava atado a uma cama. E Karen o substituiria. Ela não acreditava no exército de 40 homens sem o diabo loiro, pois era ele quem pensava por todos. Então seria Karen a pensar por ela e tentar esquecer que essa sua decisão, de entrar na Coração de Ouro e se postar do lado esquerdo de Thales, acabaria com a paz no seu lar. Rodrigo jamais perdoaria tal atitude que, possivelmente, para ele, seria considerada uma traição. Ele a queria longe do antigo amante.

       Movida pela lealdade e com os olhos toldados pelas lágrimas, ela teve de abandonar o seu amor na estrada. E no acostamento Rodrigo ficou.

         

       ― Isso verdadeiramente sempre me deixou maravilhado. ― disse o coronel, as mãos na cintura, o sorriso zombeteiro, os olhos brilhando. ― O modo como aceita a porrada, Dolejal, é quase como aquelas merdas de sabedoria chinesa e o escambau, é com resignação e silêncio respeitoso. Quando era moleque apanhava até desmaiar, o teu avô te deixava em carne viva, mas ninguém ouvia um pio, um gemido, um soluço ou um pedido de clemência, um gesto de humilhação sequer. E ainda mantém a mesma técnica, fantástico! ― e, virando-se para os pistoleiros que aprisionavam Thales pelos dois braços, ordenou com ar divertido: ― Chama o ruivo, o tal do Paulo, ele disse que queria ser o primeiro a meter a mão no patrão. Não me custa nada fazer a vontade da gentalha.

       Thales estreitou os olhos, desconfiado. Ao que o coronel percebeu o rumo dos seus pensamentos e aceitou confidenciar:

       ― Achou mesmo que a piranha tinha delatado o teu esqueminha de ataque a minha fazenda, é? Quem está puto contigo e já faz tempo é o Paulo. Parece que mandar o garoto, o teu ex-futuro braço direito, para onde o Gilberto perdeu as cuecas não foi uma boa ideia. Ele voltou, Dolejal, e voltou vingativo, o galinho de briga. ― ele tornou a sentar na beirada da escrivaninha e comentou como quem não queria nada: ― Como é que é mesmo aquele lance sobre a lealdade na Arco Verde? Ah, certo, só não serve para a nova geração. Até agora não vi o tal diabo encarnado...

       ― Por que nós dois não resolvemos isso como homens? Vamos para rua e podemos duelar ao ar livre. O que acha?

       ― Ai, ai, que vontade de negociar contigo. ― ele parou de falar abruptamente e, olhando para o tapete grosso e caro, determinou: ― Leva ele para aquela área coberta lá nos fundos. ― em seguida, acrescentou num tom mais discreto: ― Pra esse aí não dá para ser numa cova. Arruma as pedras que te falei e joga no rio. Quero ver drenarem o Rio Verde. Olha só a trabalheira que você me dá, Dolejal, coisa séria!

       Thales endureceu o corpo e, com isso, obrigou os pistoleiros a pararem.

       ― Tenho pena de você, coronel, muita pena. Eu sou apenas um administrador de terras, quase um burocrata engravatado, mas o meu herdeiro, o meu sangue que herdará tudo o que tenho, transformará a sua vida num pesadelo e a Coração de Ouro no seu cemitério particular, para você e os seus pistoleiros. ― ele encarou com um sorriso os camaradas que o faziam de refém e sentenciou com genuíno prazer, um prazer mau: ― Inclusive vocês dois. Sugiro que me matem e fujam em seguida. O Franco vai buscá-los no fosso do inferno para ter o prazer de matá-los várias vezes.

       ― Sei, o teu filho bastardo, por acaso, está dentro do bolso da tua calça? Ééé, até agora não vi o destrambelhado, não.

       ― O seu está aonde, coronel? ― Thales enfiou a agulha quente na ferida.

       O coronel parou de sorrir. Sim, onde estava aquele filho da puta?

       ― Ele está no escritório de advocacia dele. O teu vira-lata também é doutor? ― debochou.

       Thales nem tentou se desvencilhar para responder serenamente quase enlevado:

       ― Não, ele é o dono da Coração de Ouro.

       O coronel tomou a vez de Paulo e desferiu o primeiro soco no nariz do seu rival, pouco se importando com o respingo do sangue grosso e vermelho no tapete caríssimo. A beleza de um golpe bem dado valia a perda de um objeto de decoração, o modo como a cabeça de Thales foi para trás e depois para frente, impagável.

       Os homens seguraram-no firme, a massa encorpada que, por um segundo ou dois, pesou ainda mais com a pancada.

       Ele assimilou a dor em silêncio, sem gemer ou alterar a respiração, e foi como se aquele primeiro soco após trinta anos sem ser tocado com violência, engatilhasse em sua mente um revólver contra a própria têmpora. Por isso, morto por dentro, ele sorriu.

       Quem sempre lutara para sobreviver tinha outro nome.

       O coronel se irritou ao perceber o sorriso debaixo dos veios de sangue que desciam das narinas e tingiam de vermelho os dentes de Thales.

       ― Levem o cretino para os fundos!

       Os camaradas puxaram-no com força, embora ele seguisse sem se rebelar. O reinado de Franco na Arco Verde preparava-o para partir. Anos treinando o seu guerreiro e sucessor para manter os Dolejal no poder. Era certo que Franco enterraria cada um dos Marau até se vingar por completo. Conhecia a natureza do seu filho e sempre a instigara a se desenvolver em todo o seu potencial. As interferências de Rodrigo e Nova jamais aniquilariam a sua essência superior.

       Ao saírem da casa-sede em direção ao galpão aberto, Thales verificou de esguelha os pistoleiros da Arco Verde ajoelhados, ladeados pelos homens do coronel armados com suas pistolas calibre .40, prontos para atirar nos invasores e depois enterrá-los, adubando as plantações.

       Ele queria dizer aos seus homens que a viagem não fora perdida e que ninguém morreria por morrer. Então apenas sorriu, verificando que Bronson não estava entre os prisioneiros.

       O galpão aberto, com telhas de zinco e alvenaria na única parede ao fundo, era usado como estacionamento para os visitantes da fazenda, com um vão livre capaz de comportar seis ou sete picapes. O piso de concreto bruto tinha manchas de óleo.

       Thales foi levado para um canto onde se localizavam a pia e a churrasqueira que tomava boa parte da parede.

       O coronel apontou para a entrada do galpão e disse para o roupeiro com uma tatuagem de caveira na bochecha:

       ― Quero três caras aqui na entrada. ― voltando-se para o roupeiro com a cabeça raspada debaixo do chapéu, o que lhe dava uma aparência no mínimo bizarra, acrescentou: ― Prende o filho da puta naqueles ganchos e pode começar a sova!

       Assim que o coronel determinou a ordem, Paulo surgiu à entrada do galpão e, incerto, ficou por ali mesmo. A ideia de enfrentar o antigo patrão, agora, amedrontava-o. Antes fora fácil entregar toda a ação ao coronel. Fizera-o por ressentimento e, tinha de admitir pelo menos para si mesmo, por inveja. O retorno de Franco a Arco Verde e, mais do que isso, à posição de chefe da segurança no lugar de Bronson e, futuramente, no lugar que poderia vir a ser o seu, pusera por terra qualquer motivação de se manter fiel a Dolejal. Sabia que contrariava a educação recebida em casa e a devoção dos seus pais ao patrão. Entretanto, quando a empresa não vestia a camiseta dos funcionários...

       Ao encarar o homem que sangrava ainda que se mantivesse altivo, de pé, fitando-o com dureza, Paulo se acovardou. Deu meia-volta e evitou o confronto.

       Duas correntes presas ao teto, constatou Thales, sem fazer ideia da utilidade da engenhoca, com ganchos em suas extremidades como algemas que, logo depois, como constatou, prenderam seus pulsos.

       Suspenso pelas correntes, os pés ainda sentiam o concreto debaixo de si, enquanto a camisa de seda italiana era rasgada pelo pistoleiro tatuado.

       ― O que pretende fazer?, me chicotear? ― perguntou com um meio sorriso sarcástico.

       O tatuado entortou o lábio num esgar de desprezo e respondeu sem hesitar:

       ― Chicote só serve para tortura, e nós não queremos arrancar nenhum segredo do senhor.

       ― Não falo com serviçais. ― disse com menosprezo e, inclinando a cabeça para encontrar a carranca gorducha do coronel, Thales repetiu a pergunta, acrescentando: ― Sou resistente a chicotes, bem sabe. Sugiro um tiro na cabeça, acho que não sou resistente à bala.

       O pistoleiro se voltou para o seu patrão, os punhos fechados e os maxilares tesos. Esperava apenas o sinal, um simples e maldito sinal para fazer valer a viagem. Ele não era do cerrado, viera do Rio Grande do Sul, era parente distante do coronel. Por isso se sentira ofendido ao ser considerado, pelo outro fazendeiro, como alguém de casta inferior.

       O coronel pôs as mãos nos quadris, contemplando o sorriso arrogante e tingido de vermelho.

       ― Você é muito egoísta, Dolejal, nunca pensa no prazer alheio. Quero te ver morrer devagar, perdendo essa pose de merda. ― endereçou a atenção ao tatuado, percebendo a chegada de mais dois de seus capangas, e falou: ― Usa a soqueira. Quero essa cara bem marcada.

       Imediatamente quatro dedos entraram nos anéis de metal. O pistoleiro ajustou a soqueira, estendeu os dedos e fechou a mão. As cicatrizes de uma briga de rua estriava a pele sensível do dorso.

       ― Não economize na força, meu amigo, tenho placas de metal debaixo da pele e meus músculos foram trabalhados nas trepadas com a senhora sua mãe. ― provocou-o Thales.

       O coronel riu alto e fez o sinal o qual o tatuado tanto esperava.

       Ele não sentiu os ossos do rosto do fazendeiro nas juntas dos seus dedos, apenas a sensação do impacto, a cabeça pender para trás e voltar, a marca no maxilar esquerdo, no direito; a sequência de socos que o acertavam na pele que se abria em cortes vertendo fios de sangue, inchando, escurecendo a tez dourada da epiderme.

       Marau orientava o pistoleiro:

       ― Evita o queixo para ele não perder a consciência tão cedo. Acerta uma bordoada no estômago, talvez ele desfaça esse sorrisinho cretino da cara.

       Ao que Thales falou, mal descolando os lábios:

       ― Sou o Homem de Ferro, seus merdas! ― e riu, engolindo uma pasta grossa de sangue. ― Acho que quebraram meu nariz; não é interessante?

       ― Ele já está delirando, vai sucumbir em minutos. Segura aí a força, meu chapa, e acerta só nos flancos, vai com tudo. ― recomendou o coronel, tirando um cigarro da carteira e se preparando para fumar.

       O barulho dos punhos golpeando o abdômen de Thales e o balanços das correntes que sustentavam seu corpo misturavam-se aos passos das botas dos camaradas fora do galpão e ao ronco das picapes que se aproximavam.

       Um segundo pistoleiro da Coração de Ouro, que se postara ao lado do patrão para observar o serviço do colega de trabalho, resolveu meter a mão na massa, pegou um pedaço de pau e bateu com tudo nos joelhos do dono da Arco Verde.

       Thales dobrou as pernas, apertou os olhos fechados, aceitando a dor física que acalmava a da sua alma. Rasgavam-no. Queimavam cada parte do seu corpo numa sucessão de pancadas que parecia não ter mais fim. A dor, a dor de antes, dos espancamentos da adolescência, era outra, diferente; agora era a dor da libertação. No passado fora a dor da injustiça e da infelicidade.

       Os joelhos enfim cederam e ele baixou a cabeça, o sangue pingava no chão, naquela parte o concreto era liso e agora com manchas vermelhas. Sorriu ao perceber que se não fossem as algemas segurando-o às correntes, estaria no chão. Esgotado, a visão turva. Tentou abrir os olhos, estava escuro, mas ele não sabia se estava com os olhos fechados, se enxergava para dentro, se já estava morto, a dor se fora, o concreto debaixo dos pés também, o suor que escorria do cabelo e coluna não era água morna...

       Ao longe a voz do coronel.

       ― O filho da mãe está apagando. Joga água na cara dele e põe força nos punhos, cacete!

       “Você vai trabalhar com seu avô. Ele está no garimpo, vai ficar rico e nos tirar dessa desgraça toda. Contamos com você, filho! Um dia será rico, um dia seremos ricos e poderemos até adoecer em paz”.

       Thales entrou no túnel onde os trens eram proibidos trafegar. Os trilhos eletrificados queimaram seus pés e por isso ele teve de flutuar. Uma luz muito forte contornou a silhueta da mulher que tinha cabelos longos e pretos, e ele sorriu ao vê-la. Tentou erguer a cabeça para sussurrar que se lembrava dela, tanta coisa para dizer e só balbuciou uma sentença desconexa enquanto se atirava do penhasco:

       ― Eu consegui.

       O tatuado e o careca com chapéu de vaqueiro cessaram os golpes e aguardaram a decisão do coronel, que fumava tranquilamente, avaliando a quantidade de sangue no piso e o tempo que tinha até se desfazer do corpo antes de darem falta do fazendeiro e dos seus homens mais chegados.

       ― Já está fora de si. ― considerou, desanimado. ― Preparem a camionete, forrem tudo, e avisem o pessoal para começar o abate. Esse aí ― balançou a cabeça num gesto de lamento ― desmaia fácil, mas é duro de matar.

       ― E a piranha do Leonardo?

       ― Mata, ela sabe demais. Aliás, quero que encontrem o Leonardo. ― ele deu uma boa olhada no homem desmaiado, pendurado como um pedaço de carne no açougue, e falou: ― O meu maior erro foi deixar tanto esse canalha quanto o meu filho crescerem. Bem, fazer o quê, né? Limpem tudo imediatamente, não quero dar cabo do delegado nas minhas terras. Mas de hoje o Malverde também não passa! ― decidiu, tragando mais uma vez o cigarro mentolado.

        

        Karen meteu o pé no freio, levantando uma poeira grossa ao redor do Maverick, o que lhe serviu de escudo. Avaliou a situação. A alguns metros a porteira da Coração de Ouro e a possibilidade de arrancá-la do chão como já fizera com a da Arco Verde. Mas não seria recebida pelo bom e velho Bronson, e sim por um bando de mal-encarados que certamente revidariam a invasão à bala.

       Ajeitou os óculos escuros que escorregaram do nariz, transpirava por todos os poros, o calor infernal e a adrenalina fervendo na corrente sanguínea. Tragou fundo o cigarro, jogou-o para fora da janela aberta e atacou a marcha, dando uma ré feroz, os pneus arrastando a aridez barulhenta do chão de terra.

       Girou o volante e entrou na primeira vicinal à esquerda da portaria da fazenda. Seguiu-a elevando o ponteiro do velocímetro para a marca dos 100 km/h com a facilidade que somente a potência do motor e a aderência perfeita daquele V8 podiam oferecer. Os solavancos, provocados pelos buracos na estradinha, desafiavam os amortecedores.

       Pelo retrovisor, ela avistou uma máquina vermelha vindo direto do inferno, pois quem a dirigia era o diabo e trazia consigo um rastro alto de poeira, a picape velha se balançava toda e parecia tomada pelo fogo da fúria.

       Cogitou que Franco fosse passar por cima do Maverick, em momento algum ele desacelerou a rotação do motor, o chapéu na cabeça e a cara amarrada, a atenção na estrada.

       Karen ligou o pisca e reduziu a velocidade, cedendo espaço para ultrapassá-la. Viu quando a camionete barulhenta passou deixando pedaços do assoalho enferrujado pelo caminho, uma língua de fumaça saindo pelo escapamento. O estado do veículo era deplorável, exigido ao máximo no seu limite. Os solavancos levantavam a traseira e jogavam a caçamba para os lados, o que favoreceu o desencaixe do para-choque da lataria e ele também ficou pelo caminho.

       Entretanto, mais rápido que os veículos estava o coração de Karen, que parecia bater forte na goela, entupindo a traqueia de tensão. Isso porque o rosto de Franco não era o do garoto loiro irreverente; era a máscara de cera de uma expressão tão concentrada quanto malévola. O diabo estava solto, considerou ela, tornando a voltar para a estrada pisando fundo no acelerador para alcançar a picape. Sinceramente, não queria estar na pele do coronel ou de qualquer um de seus capangas.

       Até que a máquina vermelha deu pau e pegou fogo.

       Franco pulou porta afora e começou a chutar a lataria feito um louco possuído. Jogou o chapéu longe e esmurrou o ar, tomado pelo ódio.

       Ela freou o Maverick e abriu a porta do passageiro para ele.

       Franco riu um riso estranho.

       ― Cai fora, eu dirijo!

       Cogitou mandá-lo à merda. Até preparou a frase dentro da boca, mas, ao erguer os olhos, viu nos dele um brilho perverso. Sim, ele estava pronto para acabar com tudo. E, pela primeira vez, ela acatou uma determinação sua e pulou para o banco do passageiro.

       Ficou em silêncio enquanto apenas acompanhava discretamente ele arrancar do motor todos os cavalos enlouquecidos e rasgar a estrada num risco de poeira, deixando para trás a picape em chamas. Até que o fogo atingiu o tanque e ela explodiu.

       Olhou para o motorista que nem se abalou.

       Ele apontou para a bolsa preta sobre as coxas e falou numa voz baixa e rouca:

       ― Sirva-se.

       Ela puxou o zíper que fechava a lona e um arsenal de guerra jazia à sua espera.

       ― Não sai ninguém vivo.

       Karen sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.

       ― Nada disso, vamos apenas intimidar os homens do coronel.

       Ele repetiu sem tirar os olhos da estrada:

       ― Ninguém.

       ― Não, Franco, nada de matança! ― exclamou, nervosa.

       ― Se não fosse por você, eu estaria ao lado do meu pai. Só não acabo com a tua raça, porque a minha mulher me pediu. ― ele estendeu o celular para ela e falou: ― A Virgínia mandou essa mensagem, leia, vamos! E vê se eu não tenho motivos para fazer uma boa faxina.

        

       Seu pai me dispensou. Vi o Paulo de conchavo com o coronel. É uma emboscada!

       ― Meu Deus do céu! ― ela levou a mão à testa, preocupada. ― Cadê o Bronson?

       ― Vai tentar entrar pela frente para distrair eles.

       ― O Thales está sozinho? Merda! Os homens da Arco Verde foram rendidos, só pode!

       ― Ou mortos.

       Franco reduziu a velocidade até parar o automóvel, se voltou para ela e afirmou numa expressão que sugeria o escárnio e camuflava o instinto de predador:

      ― Serei justo, para cada arranhão na pele do meu pai uma vida a menos.

       Karen segurou-o pelo antebraço antes que ele saísse:

       ― Foi por isso que a Nova quase te deixou.

       Ele não hesitou ao responder com secura:

       ― Então terei que deixar a moça partir.

       Não era Franco, Karen sentiu um arrepio pela coluna, cada vértebra gelando diante da constatação de que talvez a lenda sobre o “diabo encarnado” fosse verdade.

       Ele prendeu o coldre à coxa, além do outro no cós traseiro e dianteiro da cintura. Levou também consigo uma submetralhadora Taurus que retirara da coleção pessoal do pai, no escritório da fazenda. Incitou os primeiros passos em direção à cerca de arame farpado que foi demolida por uma saraivada de balas.

       A poucos metros da casa-sede, ele correu como nunca correra na vida. E não demorou a ser visto pelos seguranças que detinham os rapazes da Arco Verde ajoelhados, cabisbaixos e com as mãos cruzadas atrás do pescoço.

       Karen destravou a automática que escolhera, respirou fundo, e correu para tentar alcançar Franco.

       Viu-o quando parou, ajustou a mira e disparou uma sucessão de tiros. Os estampidos secos reverberaram pelo prado e não demorou muito para que começasse o revide.

       Ele se postou detrás do tronco nodoso de uma mangueira e na sua mente o jogo já havia começado antes mesmo do primeiro disparo, detectando a posição de cada alvo em seu espaço de atuação, não mais de dez homens, ao redor dos grupos de prisioneiros prostrados de joelhos. Franco sabia que para os seus homens a vergonha pesava mais que as porradas no lombo que levavam ao tentarem erguer a cabeça.

       Respirou fundo e desencostou-se da árvore. O corpo exposto a céu aberto, o azul caía vertiginosamente e se espalhava por sobre os pistoleiros. Uma manhã quente e abafada como no estio.

       Leopoldo foi o primeiro a receber um tiro e, ao seu lado, o parceiro de jogo de truco nas noites mornas e carregadas de pernilongo. E enquanto caíam e perdiam suas armas, antes de deitarem os crânios na grama seca, olhavam para os homens cativos e os olhos deles refletiam os raios do sol. As linhas de expressão nos rostos curtidos pelo sol e cansados de uma vida dura no cerrado, as rugas foram preenchidas pela força que emanava de almas que só precisavam aguardar a chegada do líder para se libertarem. E ele havia chegado. E já não mais atirava em joelhos.

       O coronel relançou um olhar pesado para o tatuado e falou com brusquidão:

       ― Carreguem esse merda para fora daqui! E é pra agora! ― voltando-se para o careca e já de posse da própria arma, perguntou com rispidez: ―É o filho da puta do Bronson, né? Vamos pegar esse velho e dar para os cachorros comerem. Essa corja toda da Arco Verde me dá nojo!

       Thales foi solto das algemas e o seu corpo pendeu por sobre o ombro do seu agressor, dobrou ao meio, o rosto coberto por uma máscara de sangue sujou a camisa do outro.

       O careca engatilhou a pistola e, apertando-se contra uma coluna, espreitou para fora. Apurou quatro dos seus no chão; um se mexia. Voltou-se encostando a cabeça contra a alvenaria e trancou a respiração, um filete de suor descia do couro cabeludo sem a proteção do chapéu.

       O camarada que batera com um pedaço de pau nas pernas de Dolejal, apareceu ao lado do careca e fez um sinal com a cabeça em direção à entrada do galpão. O atirador estava próximo, os tiros ressoavam perto e os gemidos de quem era alvejado também.

       A picape de Bronson irrompeu no meio dos tiros, vindo da portaria. Antes de pular para fora do veículo ainda em movimento, ele já se movia de modo a acobertar o filho do patrão, que acabava de acertar mais um.

       Franco abria caminho atirando e, à medida que derrubava um após o outro, os obstáculos para chegar até o seu pai, libertava seus próprios homens, que distribuíam socos nos inimigos mais próximos.

      Bronson se achegou até o filho do fazendeiro, soltava os bofes para fora, suava todo o líquido do corpo:

       ― Cadê o patrão?

       ― Ainda não vi ele.

       ― Acho que está na casa do coronel, vou entrar lá.

       Antes que ele pudesse dar o segundo passo em direção à casa-sede, Franco falou:

       ― Estou sentindo cheiro de sangue morno.

       Bronson parou em estado de choque:

       ― Sangue morno ou sangue parado?

       Franco retesou os maxilares.

       ― Sangue meu. ― em seguida, ordenou: ―Entra na casa e traz para fora todos os Marau que encontrar.

       O velho de olhar amarelado e duro assentiu sem hesitar. E se foi.

       O pau comia ao seu redor. Por isso ele nem precisou se preocupar com os cinco ou seis homens que faltavam para ser aniquilados. Seus soldados faziam a festa à base da porrada. Descarregavam a humilhação sofrida horas atrás, humilhação e medo de zarparem rumo ao desconhecido.

       Franco seguiu para o galpão, tivera a impressão de ver um idiota correr para o seu interior, e se o coronel tivesse levado a termo a pior ideia de sua vida, ele não iria fazê-lo dentro da casa onde vivia. Nada melhor e mais prático que o galpão à frente.

       Assim que entrou, foi surpreendido por um golpe forte e preciso. Sentiu os pulmões na boca, o ar faltou. Num átimo arremessaram-no contra a parede e mais uma vez um pedaço de pau foi arremetido, agora, contra o seu tronco. Mas Franco se esquivou agachando-se, flexionando os joelhos e, ao se levantar novamente, já tinha tirado da bota o canivete. Enterrou-o na linha de gordura ao redor dos quadris do camarada.

       Ao trazer o braço de volta, o canivete ensanguentado, o outro dobrou o corpo e levou as mãos ao ferimento numa atitude instintiva de conter o próprio sangue enquanto via o amigo careca disparando para fora do galpão.

       Franco apenas o observou segurando o colchão de gordura de onde brotava o líquido viscoso. E, por cima do ombro do cara, avistou Thales Dolejal no chão, imóvel, sobre uma poça de sangue.

       ― Cadê o seu pai, garoto?

       Ele olhou para os olhos do homem que tinham a mesma cor que a dos seus.

       ― Eu não sei.

       ― E a sua mãe?

       Franco desviou atenção do rosto sério do motorista da picape para o asfalto, para a mancha disforme de um sangue secado pelo sol, balançou a cabeça para os lados devagar.

       ― Depois que vender essas laranjas, vai para aonde?

       ― Não vou, fico aqui.

       O homem contraiu o canto dos lábios num esgar de ressentimento.

       ― Conhece Thales Dolejal?

       O garoto de doze anos fez que sim.

       ― Tem lugar para você na minha fazenda.

        Entre o seu pai e ele havia um muro, com um carimbo de caveira na cara, um metro e noventa de altura e bem mais de cem quilos. Um alemão criado com chucrute, carne gorda e linguiça. Exalava de sua pele cor-de-rosa um mau cheiro repugnante de suor morno. Os punhos cerrados e os dedos nas soqueiras. Entre as sobrancelhas amarelas quase brancas acima do par de olhos verdes cujas órbitas estavam avermelhadas, um sulco profundo que revelava a raiva reprimida. Por isso ele cheirava mal.

       Assim que ele se afastou do corpo estendido no chão e cruzou mais da metade do espaço que o separava do outro de pé, com o canivete, bateu os nós dos dedos envolvidos pelos anéis de metal contra a palma da sua outra mão, numa atitude explícita a qual dizia que no lugar da sua mão que apanhava seria ele, o filho da mãe que tinha furado o seu colega de profissão.

       Franco queria pegar o seu pai e se mandar. Para usar o canivete teria de ter paciência a fim de esperar o gigante chegar até ele, todo o teatrinho dos punhos de pugilista amador pronto para a luta, o tédio das trocas de jabs, ganchos, diretos e talvez um ou outro malabarismo com as pernas, era uma merda as tevês exibirem as lutas profissionais. Ele realmente só queria tirar o seu pai dali e foi o que disse para o tatuado:

       ― Caralho!, só quero tirar o meu pai daqui!

       ― Teu pai? ― o outro riu e gritou: ― Coronel, acho que é esse aqui o tal psico...

       Não terminou de falar.

       Um tiro no joelho o fez ficar de quatro urrando de dor e procurando a arma que se materializara na mão do atirador. Era mesmo o que contavam: o gatilho mais rápido do cerrado, pensou o tatuado, olhando para a maldita soqueira com manchas do sangue do pai do gatilho mais rápido do cerrado. Logo depois de pensar na sua condição fodida, uma bota alcançou seu queixo e o corpo grande pendeu para trás. Como era forte, evitou a queda e ficou a meio caminho de deitar de costas no concreto, a força na espinha dorsal o segurou.

       Franco atirou na outra perna do homem. E, em seguida, sentou sobre a sua barriga com o cano da pistola apontado para a caveira.

       O coronel ouviu o que o seu capanga disse e retrucou, aparecendo do outro lado do galpão:

       ― Você tem uma arma. Eu tenho uma arma.

       Franco ergueu a cabeça e, por entre as mechas de cabelo que lhe caíam sobre a face, ouviu-o completar com arrogância:

       ― Mais do que uma arma, eu também tenho a cabeça do teu pai, bastardo! Joga todas as tuas armas no chão, com muita calma e amor no coração. ― depois, virou-se para trás e gritou para o comparsa: ― Paulo, pega o filho da puta e mostra para os homens dele que a casa caiu... Não é como se diz por aí, a casa caiu? É isso aí! Nunca pensei que conseguiria abater pai e filho no mesmo dia. ― disse exultante. ― Acaba aqui o clã Dolejal.

       Paulo entrou com a postura de um herdeiro de extensas faixas de terra. Ele nada tinha na vida, tampouco caráter. Juntou do chão as armas de Franco com um sorriso que dizia tudo o que ele sentia ao perceber a expressão de seu sofrimento. O coronel conseguira desarmá-lo simplesmente porque a qualquer momento ele iria atirar com uma .40 contra o crânio do seu pai e patrão, quem sabe até, Paulo quase riu ao pensar isto, o seu deus para o qual rezava à noite. Maluco como era, por que não?

       ― Covarde estúpido! ― exclamou Franco com o rosto desfigurado pelo ódio e impotência.

       O coronel fez uma careta de nojo.

       ―Tudo se encaminhava para esse fim, guri. É melhor aceitar.

       Então o coronel fixou os olhos arregalados para além do filho de Dolejal, e um ponto escuro e delicado marcou sua testa. No instante seguinte, o corpo pendeu para o lado lentamente. A arma caiu e bateu contra o chão fazendo barulho, ao seu lado, as bombachas tombaram.

       Franco correu para o pai e agachou-se ao seu lado, verificando a pulsação. Ele estava vivo. E só depois de constatar o seu estado de saúde, compreendeu o que ocorrera durante aqueles poucos minutos. Eles estavam vivos.

       Tocou na camisa rasgada e ensanguentada, no cabelo molhado de suor e sangue grudado nas têmporas, no jeans sujo, no farrapo humano que acabava de se tornar o homem mais rico do cerrado e dono absoluto de Matarana.

       O coronel estava morto. Um único tiro.

       ― Não sei como te agradecer. ― foi só o que conseguiu falar, olhando em direção à entrada do galpão.

         

       Assim que Rodrigo entrou no Vaca Louca, como quem não queria nada e olhando ao redor à procura da namorada, Valéria fechou a gaveta da registradora e quase deixou os dedos no lado de dentro. De forma irrefletida, relançou um olhar significativo para Nova, que fora deixada na confeitaria pelo marido havia pouco mais de quarenta minutos, e talvez fora esse tipo de olhar que chamara a atenção do delegado para as duas.

       Ele quase gemeu ao perceber a troca de olhares. Conhecia aquelas duas o suficiente para captar os códigos que enviavam entre si, e como faltava uma das três mosqueteiras tresloucadas, coincidentemente, a sua mulher (sem dúvida, a mais encrenqueira), considerou que elas escondiam algo dele e era algo sobre Karen.

       Parou diante da mesa de Nova, encurvou-se e a beijou no topo da cabeça:

       ― E, aí, mamãe, como está?

       Nova sorriu de um jeito pálido, mas disfarçou:

       ― Sofrendo com esse calor.

       ― É mesmo? ― retrucou o delegado, olhando para ela enquanto afastava a cadeira à sua frente e se sentava com toda a calma do mundo. ― Imagina como se sentirá no final da gravidez em plena estação do estio. ― virando-se para irmã, perguntou interessado: ― A vó está de folga?

       Valéria circundou o balcão onde estava e se aproximou da mesa servida com apenas uma garrafinha de água mineral e um copo.

       ― Decidimos que a vó e a Veridiana trabalharão apenas três horas por dia. Elas têm outras coisas para fazer e, pra falar a verdade, detestam ficar presas aqui.

       ― Assim como a Karen. ― completou Rodrigo com um sorriso que, logo depois, foi substituído por uma indagação: ― Por falar na moça, não era para ela estar por aqui?

       Mais uma vez a troca de olhares entre as duas, e Rodrigo considerou que ou elas eram muito ingênuas ou queriam realmente ser notadas por ele. Cogitou a segunda hipótese:

       ― O que a Karen está aprontando agora?

       Ele olhou para Nova, pois ela estava à sua frente. Porém, a amiga baixou os olhos para o seu copo quase cheio e sinalizou que nada falaria sobre. Então ele se virou para a mais fácil de arrancar informações:

       ― Olha só, não quero fazer o sermão da Montanha, como a Karen costuma se referir às minhas observações sobre conduta moral, por isso espero que me digam por que estão nervosas e se olhando como quando um pai pega as filhas fazendo arte. O que aconteceu, Val?

       ― Acho que nada. É que ela falou que ia à farmácia comprar absorventes e não voltou. Por isso tive de ficar no seu lugar. ― falou, simulando uma indiferença que estava longe de sentir.

       Quando ela viu o irmão entrar, pensou se não era um sinal de Deus para que contasse tudo a respeito da entrada de Thales na Coração de Ouro. Antes, ao ver Franco com os pulsos com frisos de queimadura carregando Nova no colo da picape até a entrada da confeitaria, considerou que Thales houvesse desistido do que parecia planejado fazer, embora ela não soubesse exatamente o quê, mas havia sim um movimento estranho na Arco Verde. Depois, Nova contou a respeito da ofensiva e da tentativa de segurar o marido em casa, com a ajuda de Karen e a sua habilidade de prender homens na cama. Foi nesse ponto, após o relato completo da amiga, que Val percebeu o motivo da angústia afundando o seu peito. Temia por Thales.

       E, agora, diante de si um delegado de polícia. O homem que poderia prender Thales por invasão de propriedade privada e talvez outras contravenções ou protegê-lo contra uma ação criminosa por parte do coronel.

       Ela não sabia o que fazer. E pelo visto Nova também não. Elas não sabiam até onde podiam contar com Rodrigo. Porém, havia nisso tudo uma questão a se considerar: Karen.

       ― Você pode olhar para o chão, Val, e tentar organizar o seu raciocínio a fim de tentar me ludibriar e talvez até consiga, mas será por pouco tempo. Nem sei quantos estelionatários e assassinos interroguei, gente preparada para mentir e que mentiam bem, e sabe o que aconteceu com eles?

       ― Você descobriu a mentira. ― ela respondeu baixinho.

       ― Não, eles me disseram a verdade. Pode demorar um pouco ou até terei de usar de alguns subterfúgios, se é que me entende, mas a verdade sempre aparece.

       ― Vai nos torturar, delegado? ― era a mulher de Franco cravando a pergunta e o olhar duro sobre a autoridade.

       Rodrigo sorriu com charme e espichou as pernas debaixo da mesa numa posição displicente:

       ― Ok, a Nova já confirmou a minha primeira suspeita, vocês estão escondendo algo. Agora, maninha, solta o verbo. Não tenho muito tempo, os federais só estão esperando o mandado de Santa Fé para a diligência até a fazenda do coronel. É uma questão de horas, dessa vez o juiz não está no Chile. ― brincou, ajeitando o chapéu para frente como se preparando para ouvir uma historinha antes de cochilar.

       A postura era de alguém despreocupado, mas tanto Nova quanto Val sabiam que era só uma encenação, Rodrigo estava totalmente atento a qualquer movimento ou palavra que viesse delas, captando no ar as intenções e os atos falhos.

       Foi Nova quem começou:

       ― O Thales decidiu visitar o coronel e levou consigo os seus pistoleiros. Tentei impedir que o Franco liderasse a ação e pedi para a Karen amarrá-lo na cama, depois que eu o dopei. Acontece que o Bronson e o Valentino foram buscá-lo, porque o meu sogro resolveu ir de qualquer jeito para a Coração de Ouro... Bem, o Franco conseguiu se soltar... Ele me disse no caminho para cá que a Karen deixou o canivete dele debaixo do despertador no criado-mudo e foi assim que ele se soltou... E foi atrás do pai dele. ― concluiu, apertando as mãos nervosamente.

       Rodrigo estava sentado ereto e a expressão do seu rosto revelava bastante atenção. Antes que esboçasse qualquer reação ou fizesse outra pergunta, Val prosseguiu:

       ― Ontem percebi certa agitação na Arco Verde e um número anormal de seguranças...

       ― Ontem? Você foi à Arco Verde ontem? Não foi jantar com aquele tal farmacêutico que a Sabrina debocha? ― perguntou desconfiado. ― Mentiu para mim, é?

       Valéria mordeu o lábio e tentou sorrir, envergonhada.

       ― Jantei com o Thales.

       Rodrigo suspirou fundo tentando se controlar.

       ― Certo, depois me explica direito porque um simples jantar com o Thales a faria mentir para mim. Agora, não. O que vocês querem, hã? O Thales é um cidadão livre que pode tirar satisfações do coronel a hora que quiser. Acham que vou usar recursos da polícia para assegurar a segurança de um fazendeiro? Sinto muito, Nova, sei que é o seu sogro e o seu marido, mas eles estão agindo errado e contra a lei. Prefiro pensar que estamos jogando conversa fora e que nada disso está acontecendo, visto que se o coronel quiser registrar queixa de invasão ou qualquer outra merda que acontecer, terei de algemar o Dolejal pai e o Dolejal filho, entendeu?

       Ela fez que sim.

       ― Eu ainda não acabei. ― ele falou, irritado. ― Além disso, a qualquer momento os federais entrarão na Coração de Ouro e encontrarão um bando de homens armados, sem porte de armas, inclusive o Franco que só falta carregar um míssil consigo...

       ― Por que os federais vão para lá?

       ― É assunto da polícia, Val. Isso basta. ― levantou-se da cadeira e cercou a irmã, os olhos duros postos nela: ― O que quer? Que eu finja que não sei que o Thales e o Franco arregimentaram um bando de pistoleiros para dar fim no coronel e nos seus homens? Que de fato não é através do voto que se muda uma sociedade, e sim por meio da luta armada? O que eu estou fazendo na Vila Zumbi, acabando com as bocas de fumo e caçando os traficantes e seus fornecedores, não estou mudando a sociedade? Então, Valéria Malverde, é melhor que eu não saiba o que o seu novo amiguinho está fazendo, porque assim não terei de agir e, se eu tiver de agir, se me sentir compelido a intervir nas coisas dos Dolejal, agirei como policial.

       ― Ninguém está pedindo para acobertar nada, Rodrigo. ― afirmou Nova com a voz embargada.

       Ele retesou os maxilares.

       ― Mas parece que sempre esperam que eu limpe a barra do seu sogro.

       ― Não penso assim, só estou preocupada com o Franco.

       Valéria havia decidido que já estava na hora do seu irmão sair de cima do muro.

       ― E se fosse uma questão pessoal?

       O delegado se voltou com o semblante carregado:

       ― Não me venha com rodeios.

       Ela ergueu a cabeça e mirou bem nos olhos ao desferir:

       ― A Karen ficou dez minutos na confeitaria e, em seguida, inventou uma desculpa qualquer para sumir. Depois que a Nova chegou e contou sobre o Franco e a ofensiva, não precisei de muito para concluir que ela está na Coração de Ouro também. Ela não é policial e pode se comprometer com os Dolejal, e como o filho estava preso na cama, foi ajudar o pai.

       O irmão empalideceu.

       ― É só uma suposição. ― enfatizou Nova.

       ― Sim, claro. ― reafirmou Valéria, observando a metamorfose no rosto do irmão; da impaciência e raiva para algo perto do tormento, e completou, ajeitando a informação com cuidado: ― A Karen escolheu um lado, sempre disse isso para você. Mas, além dessa escolha, os últimos dois atentados que quase te mataram, Rodrigo, a tornou inimiga do coronel. Mas e daí, né? Isso também não é assunto da polícia.

       Só havia uma coisa a fazer.

       ― Não tenho como entrar na Coração de Ouro sem um mandado. ― ele disse.

       ― Então entra sem um mandado.

       Rodrigo olhou para Nova, para os seus olhos cheios de esperança.

       E saiu.

         

       Bronson entrou no galpão e, por um tempo, ficou olhando para o conjunto da cena. Esperou o cérebro assimilar todos os dados dispostos à sua frente. E lentamente compreendeu que a pessoa deitada no chão, de costas, aparentemente inconsciente era o seu patrão, a altivez jazia sobre o piso de cimento vagabundo. Ao lado, Franco agachado e olhando fixamente para a mulher que ainda segurava a arma apontada para frente, em linha reta, na direção do corpo que antes estava de pé, agora, deitado morto.

       Guardou a sua própria arma no coldre da cintura e virou-se para a atiradora, que estava em estado de choque, imóvel.

       ― Me dá sua arma, dona Karen. ― pediu com cautela.

       Ela não se mexeu, olhava fixamente para frente, sem, no entanto, nada ver.

       Franco ergueu-se e falou para Bronson:

       ― Traz a picape até aqui e depois junte os homens.

       Bronson estava pensativo e contou para o filho do patrão a respeito de sua preocupação:

       ― Não é fácil encobrir o assassinato de um cara importante como o coronel.

       ― Pois é, mas ele ia encobrir o meu assassinato e o do meu pai.

       ― Franco, admita que a coisa destrambelhou de vez. Os homens do coronel nos viram entrar aqui e nem todos morreram.

       ― É só matar os que escaparam.

       ― Pelo amor de Deus, guri! O teu pai jamais cogitou matar desse jeito.

       ― Por que acha que ele me chamou para planejar essa operação? Por que, Bronson? Para que eu negociasse à mesa com coquetéis? Não seja besta e traz a porra da picape.

       Franco se aproximou de Karen e pegou a Glock da sua mão.

       ― Salvou a minha vida e a do meu pai. Nossa dívida para com você é imensa, Karen. ― afirmou, limpando as digitais dela na arma e pegando-a para imprimir as suas: ― Isso ficará entre nós. Ouviu você também, Bronson? Para todos os efeitos, eu matei o desgraçado.

       Ela ouvia a voz dele de longe, como se tivesse entrado água nos seus ouvidos. Abriu a boca e falou numa voz pastosa e baixa:

       ― Então é assim que se mata?

       Franco estalou a língua no palato, incomodado por ela se sentir daquele jeito, sentindo algo sem nome, um sentimento sem sentido.

       ― Às vezes é assim que se salvam vidas: matando. Agora, você vai pegar o seu carro e ir para um lugar onde possa ficar sozinha e limpar a mente, entendeu? Depois voltará para a confeitaria e dirá que me viu na estrada indo para Coração de Ouro e mais nada. Não sabe de mais nada, ok? Karen, olha para mim. ― pediu com brandura. ― Esse homem estava determinado a matar o Rodrigo.

       ― Eu sei.

       ― Ótimo. Agora, te manda daqui. ― falou, ajeitando uma mecha do cabelo dela para detrás da orelha.

       Antes que ela saísse do lugar, ouviu Bronson dizer:

       ― Os outros Marau se mandaram quando ouviram os tiros, não encontrei ninguém dentro da casa.

       ― É possível que já tivessem considerado que um dia isso poderia acontecer e simplesmente deixaram o coronel para trás. Não duvido que não tenham transferido dinheiro da fazenda para suas contas particulares. ― em seguida, ele pôs as mãos na cintura e perguntou com impaciência: ― O que eu preciso fazer para o senhor trazer a maldita picape para cá, hein?

       Bronson endereçou um longo olhar ao patrão, ao mais velho, e perguntou:

       ― Como ele está?     

       ― Todo fodido, mas vai sobreviver.

       Karen não queria sair do galpão antes de confirmar o estado de saúde de Thales. Deu uma olhada crítica no pistoleiro com os tiros nos joelhos, mas evitou olhar para o corpo grande do coronel. Parou ao lado de quem a interessava no momento e se ajoelhou.

       ― Viu os hematomas por baixo do sangue? ― ela perguntou a Franco, que voltou e se postou ao seu lado, conferindo o que lhe era mostrado: ― Olha só... ― levantou e encheu uma garrafa plástica com água da torneira da pia, voltou e lavou com delicadeza o rosto de Thales, e afirmou: ― percebeu? Não é soco com a mão nua, como nas corridas em que eu participava; usaram o tal do soco-inglês. Por aqui ninguém usa isso, o pau canta no punho limpo mesmo. Aquele cara ali, ó, está usando um desses.

       Franco olhou em direção ao tatuado e depois para Karen.

       ― Foi ele então que cobriu o meu pai de porrada?

       Ela fez que sim.

       O tatuado gritou tentando se arrastar para fora do galpão:

       ― Nem vem, eu não bati sozinho!

       ― Eles o prenderam nesses ganchos e o golpearam até desmaiar.

       À medida que ela falava, Franco sentia uma enguia de fogo percorrer-lhe a espinha até alcançar as pontas dos seus dedos. As asas dos insetos que habitavam a sua cabeça batiam agitadas. Ele então deixou o grandalhão rastejar feito uma lesma soltando a gosma sanguinolenta pelo chão até chegar à saída. Não suportando mais reprimir a vontade de causar um dano maior que a dor que ele próprio sentia, a dor que o homem que venerava tinha sentido, com passadas largas e obstinadas ele seguiu até o tatuado.

       O outro parou de rastejar e segurou a respiração. Alguma coisa estava para acontecer. Ouviu um choro baixo, rouco, e o barulho do metal esfregando o couro. Era uma pistola puxada do coldre.

       A sombra alta de chapéu se formou sobre o piso e a voz calma e persuasiva rasgou ao meio a atmosfera do ambiente:

       ― Acabou, Franco. Se não abaixar a arma, terei de usar a minha.

       Karen se pôs de pé no minuto seguinte que viu Rodrigo e gritou alto e claro:

       ― Esse desgraçado que você quer proteger me viu atirando na cabeça do coronel Marau.

       Somente por causa da confissão de Karen, que o fez apertar os lábios com raiva, Franco abaixou a arma. Olhou para o delegado com a feição ainda molhada pelas lágrimas e os olhos toldados pela dor. Esperou pelo o que tinha de acontecer. Porém, ainda assim, tentou limpar a barra de Karen:

       ― Fui eu que matei o coronel.

       ― Não, Rodrigo, fui eu. O Franco limpou as digitais da minha arma, aquela que o Thales me deu, e que você sabe o número de série...

       ― Bom, usei a arma dela. O cretino aí no chão me desarmou e tive de pegar a automática da Karen. Consegue imaginar essa vaca atirando em alguém?

       Rodrigo olhava para Karen sem piscar, impassível:

       ― Era uma emboscada, ― ela começou a falar com desânimo e tristeza: ― tudo deu errado desde o início. Olha o Thales aqui no chão.

       Ele viu e se aproximou até parar e flexionar os joelhos, pondo dois dedos sobre a artéria que pulsava forte no pescoço do fazendeiro.

       ― Atirei em todo mundo, delegado, e depois vim para cá pegar o meu pai. O coronel apareceu e eu atirei nele. O Bronson vai levar o meu pai para a fazenda, e eu sigo com você até a delegacia. Sei que tenho direito a um telefonema, então quero avisar a minha mulher...

       Rodrigo se ergueu e o fitou firmemente.

       ― Está preparado para viver no presídio de Santa Fé?

       ― Sim. ― Karen respondeu por Franco. ― Fiz o que tinha de fazer. Ou era o Marau ou era o Dolejal. E há dez anos fiz a minha escolha.

      O delegado se voltou para a mulher e a fitou com o semblante carregado.

       ― Por que se envolveu nessa imundície? O que acha que acontecerá agora, com os federais na cidade?

       ― A Karen não tem nada a ver com isso, porra!

       ― Acha que nasci ontem, moleque? O que pretendiam? Cavar um buraco e empilhar os corpos? Jogá-los no rio? Ou nem pensaram em limpar essa sujeirada toda? Pro inferno que vou deixar que você dois se destruam, os dois que não escutam ninguém e nunca pensam direito, sempre movidos por sentimentos extremos! Olha o que fez para a sua mulher e a sua filha! Satisfeito? Vão ficar sozinhas, enquanto o teu pai infernizará um bando de advogados para no máximo reduzir a tua pena. E você, Karen...O que faço com você? Pelo amor de Deus, me diz, o que faço com você? ― ele tinha os olhos cheios de lágrimas que não rolavam.

       Bronson entrou com a picape e estacionou ao lado deles.

       Ninguém se mexeu.

       Rodrigo então fez um sinal com a mão para Franco e falou de forma clara e concisa:

       ― Pega o teu pai e a Karen e se mandem daqui. ― como o outro não saiu do lugar, insistiu: ― Sai daqui, Franco. Eu e o Bronson vamos sumir com qualquer vestígio de que alguém da Arco Verde, e isso inclui você, Karen, tenha estado aqui. Preciso da arma que ela usou.

       Franco estendeu a Glock sem nada falar.

       ― Levem-no para a fazenda e, se ele precisar ser hospitalizado, que seja na capital. Vocês têm jatinho, não é? Então nada de chamar a atenção sobre a Arco Verde. Talvez com toda essa droga na fazenda, os federais acreditem que tenha sido uma execução. Toda vez que tem droga envolvida e alguém morre, associam uma coisa à outra. ― ele parou e fitou os dois: ― Por que ainda estão parados me olhando?

       Franco indicou com a cabeça o tatuado.

       ― Ele ouviu tudo.

       Rodrigo chegou até o homem e, se agachando ao seu lado, falou:

       ― Tudo indica que você também será assassinado. Notou que ficamos sem opções? Ou acredita que prenderei a mulher que amo? O que acha mais fácil de acontecer: eu indiciar a minha mulher por homicídio ou executá-lo como queima de arquivo? ― ele puxou a aba do chapéu para frente e acresceu de forma dura e persuasiva: ― Se há uma terceira alternativa, chegou o momento de dar a sua sugestão.

         

       Paulo correu pela planície feito um condenado à forca. O coronel fora assassinado friamente, sem hesitação alguma por parte da ex-mulher de Dolejal. Talvez a mulher mais importante de Matarana que, por certo, jamais seria trancafiada detrás das grades. Pelo contrário, a fim de manter a sua liberdade, a família Dolejal inteira caçaria toda e qualquer possível testemunha do crime. Seria então o alvo de uma busca selvagem de um batalhão de pistoleiros.

       Não podia voltar para casa e falar com os seus pais. Contar sobre a cagada que fizera, a maior de todas, e ele ainda nem tinha 20 anos.

 

       Franco dirigia a picape Ford F250 de Bronson como se fosse sua, correndo, não a poupando dos buracos e com os vidros abaixados, desprezando o ar-condicionado. O vento morno entrava em rajadas, quase sacudia o comboio de veículos que seguia pela estrada vicinal. Nuvens escuras se formavam para jogar água por sobre todos.

       A cada cinco minutos, ele lançava um olhar pelo retrovisor para espiar os passageiros no banco traseiro.

       Karen olhava ao redor, desconfiada da placidez da paisagem de campos verdes ao longo da estrada, um sulco fundo de seriedade marcando a testa, os braços em torno do corpo escorado contra o seu, a cabeça de Thales descansando sobre seu ombro, os olhos ainda fechados.

       E, para além dos dois  ― na picape que Bronson ganhara do patrão ao completar vinte anos de serviços prestados ― os seguranças da Arco Verde retornando ao lar.

       ― Não pensa besteira, não se deixa enganar por pensamentos que não são seus.

       Foi o que ela ouviu de Franco. Endereçou um olhar cheio de sombras para um par de olhos azuis emoldurado pelo retrovisor.

       ― Ele estava decidido a nos matar. ― ele reafirmou, se virando parcialmente e lançando um olhar terno para o homem que parecia adormecido no ombro da mulher. ― E você nos trouxe de volta para casa. ― enfatizou, sério.

       Ela confessou num fiapo de voz:

       ― Não estou nada bem.

       Exausta e vencida. Fracassara de vez, a última pá de terra jogada por sobre si mesma... Ah, ela era mestra nisto, em se afundar empurrando a própria cabeça com as suas mãos.

       ― Eu sei, Karen, a primeira vez mexe com a gente. ― considerou, a meio caminho da empatia com ela e a indiferença para com o evento da morte de um bandido. ― Justamente porque consideramos que o alvo sucumbiu por nossa causa e não provocado pelo mal que ele próprio cometeu. Se o coronel fosse uma pessoa boa, tenho certeza de que você não teria mandado ele passear. ― afirmou contundente ― Você precisa de um tempo para absorver essa porrada.

       Karen percebeu que a voz de Franco se tornara meiga quase como um afago, era a manifestação dos extremos de uma personalidade explosiva. Olhou para o pai dele, machucado, o sangue seco ao redor dos hematomas inchados, a roupa rasgada, e repetiu baixinho:

       ― Não estou nada bem.

       Franco reduziu a velocidade ao alcançar a entrada da Arco Verde e, enquanto passava pela guarita e acelerava até estacionar em frente ao avarandado da casa-sede, cogitou que ela ainda estivesse em estado de choque.

       Parou e desligou o motor. Desceu da picape e abriu a porta detrás, ao lado dela, e fitou-a sem desviar:

       ― Se quiser, podemos levar você para um lugar isolado até se sentir melhor. Tudo o que quiser e precisar, fala comigo. Ouviu? Karen, ouviu? ― ele fez um afago em seu rosto inexpressivo.

       Thales se mexeu no banco chamando a atenção de ambos. A feição contraiu-se de dor quando abriu os olhos gemendo baixinho, ainda confuso tentando se orientar. Tinha a pálpebra esquerda arroxeada, um ligeiro inchaço começava a se formar alcançando toda a extensão abaixo da sobrancelha, enquanto a pele abaixo do olho escurecia num círculo semelhante a olheiras; a pálpebra direita não sofrera qualquer golpe porque naquele lado do rosto fora o maxilar que enfrentara o punho de metal, e a marca avermelhada que, aos poucos, também escurecia, rasgara a epiderme em sulcos finos, delicadas tiras de carne brilhante, por onde ainda escorria sangue. O suor escorria por debaixo do cabelo curto, grudado na testa e nas têmporas, e uma palidez mortal revestia-lhe como uma máscara de fantasma. Ao redor das narinas o sangue secara, e o resto do dano estava no corpo encurvado e numa das pernas, a que recebera a pancada com o pedaço de pau.

       Todavia, não foi por meio da visão que ele reconheceu a pessoa que lhe emprestara o ombro como suporte:

       ―Patchuli... ― ele murmurou; depois, tentando se virar para ela, perguntou intrigado:― O que faz por aqui?

       Franco interveio e parecia uma criança no Natal, eufórico:

       ― Conseguiu acordar? Como se sente? Pronto para dominar o mundo?

       Karen não se incomodou com o fato de ele tê-la reconhecido pelo cheiro nem considerou o longo tempo em que estiveram juntos para criar aquele tipo de vínculo tão íntimo e instintivo. A percepção de que se importava com ele não conseguiu atravessar o muro que a isolava da recente realidade que a sufocava.

       Os dois homens à sua volta dificilmente entenderiam o absurdo de toda aquela sua angústia, não apenas por ter dado fim ao homem que possivelmente mataria Thales e que mandara, em duas ocasiões, executar Rodrigo. O peito dilacerado de uma dor seca, rude, uma dor em metástase tinha sua origem também no fato de que destruíra outra vida, a de alguém honesto, incorruptível e orgulhoso dessa sua condição.

       Com somente um tiro, ela matara o bandido e o mocinho. 

       Fitou Thales com vontade de desabafar. Jamais desabafara com ele, e não seria naquele momento. Ela estava fragilizada e ele também.

       ― Ai, droga, preciso mijar, tenho que sair daqui. ― Thales falou num resmungo.

       Era para soar como um pedido, mas Franco sabia que era uma ordem expressa. Assim, ele fez sinal para outro camarada chegar até eles a fim de ajudá-lo a carregar o pai para dentro de casa.

       Quando o pistoleiro grandalhão surgiu, tão encorpado quanto o seu patrão, Thales, já com meia perna para fora da picape, foi taxativo:

       ― Sei caminhar, não preciso de muletas.

       ― O senhor é quem sabe... ― disse Franco, resignado e dando de ombros.

       Karen desceu da camionete, fez a volta e se postou à porta, na expectativa de requisitarem a sua ajuda.

       Ele olhou para ela ao ficar de pé respirando pesadamente e com a testa porejada de suor:

       ― Por acaso foi me salvar?

       Não havia ironia na pergunta; havia, sim, uma espécie de incredulidade.

       Ela assentiu, sem condições de falar. O problema era que ele a conhecia e não deixava nada passar batido:

       ― Essa sua boa ação lhe renderá uma encrenca daquelas com o nosso amigo delegado, não é mesmo?

       Franco interveio diplomaticamente, o que era incomum.

       ― Depois a gente conversa sobre isso, vamos subir e limpar os seus ferimentos.

       Fez menção de pegar o antebraço do pai, ao que Thales puxou o braço encarando-o com uma expressão de poucos amigos:

       ― Não me interrompa, moleque. ― disse, mal descolando os lábios, mas deixando escapar junto com as palavras a rispidez.

       O filho deu um passo atrás, surpreso com a advertência e muito mais com o seu tom beligerante. A luz vermelha de seu alarme interno se acendeu. O que tinha a fazer era simples: obedecer à ordem e se pôr em segundo plano. Por isso baixou os olhos, enfiou as mãos nos bolsos traseiros do jeans e procurou relaxar.

       Para Karen, embora permanecendo distante dos eventos mais próximos e não querendo se meter em nenhuma situação que lhe exigisse descarga de energia emocional, havia algo a ser posto diante dos dois homens:

       ― O moleque, como você disse, está correndo o risco de ser largado pela mulher por sua causa, por você ser ganancioso. Ele deu cabo de pelo menos mais duas pessoas, a lista de mortes nas costas do Franco já está bem parecida com a de um assassino em série...

      ― Então os meus melhores soldados se uniram? ― falou com admiração, encostando-se à picape, visto que uma das pernas, na altura da coxa, latejava quente.

       Franco sorriu.

       ― Deve a sua vida a essa mulher. Não é interessante?

       ― Não, chefe da segurança, o mais interessante é o fato de ter abandonado a missão antes mesmo de começar. Isso porque na sua casa quem dá as cartas é a patroa. A sua atitude irresponsável fodeu toda a operação! A partir de hoje, o Bronson volta ao posto de chefe da segurança e você ficará subordinado a ele. ― determinou com dureza.

       ― Como o senhor quiser. ― assentiu Franco, apertando os lábios.

       ― Ok, isso é com vocês, tenho que pegar o meu carro que ficou na estrada. ― falou ela, indicando o seu não envolvimento na relação entre pai e filho. Antes, porém, deixou seu recado ao mais velho: ― Quanto a você, Thales, boa sorte aí com a escadaria.

       Deu-lhes as costas, deixando ambos sem ação, os olhos deles postos na mulher que usava chapéu e se postava diante dos demais pistoleiros com as mãos no quadril.

       ― Preciso de carona, quem se habilita?

       Franco se voltou para Thales e confessou baixinho, olhando-o com firmeza:

       ― Ela matou o coronel.

       O fazendeiro encheu-se de vigor, o sangue dentro das veias coçava a pele, fervilhava. O coronel morto. O seu maior adversário e, talvez, único, na lona. Mais ninguém a sua frente, visto que Rodrigues não era grande coisa.

       Sorriu levemente.

       ― A melhor de todas, nunca tive dúvidas. ― afirmou, fitando a ex-amante; em seguida, perdendo o ar contemplativo, determinou com obstinação: ― Entre em contato agora mesmo com o departamento jurídico. O xerife tentará através da Karen arrancar o meu couro.

       ― Não precisaremos de advogado.

       Dolejal estreitou os olhos, intrigado.

       ― E por que não?

       Franco ajeitou a aba do chapéu para frente, aproximando-se ainda mais da figura com a postura ligeiramente reclinada para frente, e sussurrou o que parecia impossível:

       ― Ele e o Bronson ficaram na fazenda limpando os vestígios da nossa ofensiva.

       ― O que?

       ― Foi o que ouviu. O delegado jamais acusaria a Karen de homicídio. Ele preferiu enterrar a carreira na lama, patrão. ― a última frase foi dita com uma ironia beirando a amargura.

       Esperou que o pai fechasse a cara e os punhos de raiva, raiva por agora dever favores ao policial, raiva por ficar na mão do atual namorado da mulher que amava, raiva por ter precisado do delegado e da sua proteção em vez de o contrário, raiva por esse delegado ser Rodrigo Malverde, conhecido adorador do manual dos bons modos do cidadão sem falhas. E, acima de tudo, raiva por ele não lhe dever mais nada.

       Entretanto, o que Franco viu foi uma expressão de contentamento, como se tudo o que Thales sempre quisera e esperara de Rodrigo, enfim, acontecesse. Ele queria a lealdade do homem e a obediência do delegado. E, por isso, sorriu superior.

       ― Ele sempre tentou bancar o pai para cima de você, Franco, então está na hora de usarmos isso de forma positiva. Aproxime-se dele até trazê-lo totalmente para o nosso lado. Entendeu?

       ― Um “obrigado” não basta... pai? ― desafiou.

       ― Existe uma coisinha estúpida chamada dilema de consciência, e pode ser que essa coisinha faça o nosso delegado pedir uma inconveniente transferência ou até mesmo uma exoneração. E nós não queremos que isso aconteça...filho. E, agora, pega a Karen e a leva para onde ela quiser ir.

       O filho assentiu com a cabeça, oferecendo carona a Karen até a estrada, perto da Coração de Ouro, onde se encontrava o Maverick. Depois de deixá-la, buscaria Nova na confeitaria. No celular, vinte ligações perdidas antecedidas de dez mensagens de texto da esposa.

      Entre a estrada e a confeitaria, a sua casa. Ele precisava trocar de roupa, livrar-se do sangue na camisa e no jeans.

         

       Antes do anoitecer, Bronson e outros dois pistoleiros alcançaram a divisa com a Bolívia. Ele tinha consigo alguns dos homens do coronel, os sobreviventes, por assim dizer, os sobreviventes da própria armadilha.

       A determinação do delegado fora clara: as testemunhas da ofensiva contra Marau e, consequentemente, do seu assassinato e dos seus dois pistoleiros deveriam desaparecer de Matarana. Ele próprio os conduziria se a sua presença na estrada, sendo obrigado a trafegar pelas secundárias de Santa Fé e Belo Quinto, não fosse percebida; mas ela seria. Portanto, coubera a Bronson escoltá-los até a fronteira com o ultimato para jamais retornarem à cidade. Caso contrário, segundo Rodrigo afirmara a eles:

       ― Lavo as minhas mãos. Mexeram com o Dolejal, então arquem com as consequências disso.

       Os capangas do coronel se entreolharam e meio que se despediram mentalmente de suas famílias, os que ainda mantinham contato com a família.

       Expulsos da cidade pelo xerife. Bronson coçou a cabeça, rindo, e sinalizando com a mão para onde os prisioneiros deveriam se dirigir, ao largo da planície úmida, o cheiro morno da terra subindo em elos invisíveis.

       ― Aqui começa um novo ciclo. Coronel morto; Thales Dolejal posto. Não é mais ou menos assim o ditado?

       Pelo radiotransmissor alguém o pôs a par sobre a ação policial na Coração de Ouro.

       ― A PF acabou de entrar.

       Tudo estava acontecendo de acordo com o plano do delegado. Livrara a cara da sua mulher, limpara o local do crime ― tarefa difícil haja vista a extensão da área do tiroteio ― e, ainda por cima, indicara aos seus colegas da polícia a localização de um importante carregamento de pasta de coca.

       Para os federais, a execução do coronel e da dupla de pistoleiros ― além do desaparecimento de alguns dos seguranças da fazenda e da família Marau, teria relação com algum cartel de drogas da Bolívia.

       Para o bem ou para o mal, Malverde era eficiente e pragmático. Acima de qualquer suspeita, ele mexera as peças certas para Dolejal vencer o jogo. Ainda que fosse contra a sua vontade.

       Mas o delegado não podia ser tão ingênuo ao ponto de acreditar que aqueles bandidos armados e assalariados jamais retornariam a Matarana, Bronson pensou; e, mais, para ele, um camarada durão e experiente, Rodrigo acabava de se tornar um enigma. Principalmente, porque a partir da constatação de que dona Karen estava envolvida diretamente na morte do coronel, o delegado tomara para si a missão de protegê-la acima dos seus próprios princípios e valores. E Bronson pensava, enquanto tocava a ponta dos dedos no couro do coldre, se o delegado tencionava de fato dar uma segunda chance àqueles criminosos ao oferecer-lhes a expulsão da cidade ou a ideia fosse a de matá-los, sem sujar as próprias mãos de sangue.

       Era complicado assimilar as verdadeiras intenções de Rodrigo ao confiar ao homem forte de Thales Dolejal o destino daqueles que quase o mataram.

       ― Ahh...já sei.

       Bronson viu a luz.

         

       ― E a sua picape?

       Franco apertou os lábios ao recordar as chamas consumindo-a. Ao volante da camionete de Bronson, voltando da confeitaria com Nova ao seu lado, testa franzida e expressão entre desconfiada e despreocupada, respondeu:

       ― A coitadinha não aguentou e se foi, não está mais entre nós.

       Ela não gostou da resposta.

       ― É isso?, meias verdades?

       ― Como assim?

       ― Pensa que não percebi que também trocou de roupa?

       ― Queria que eu aparecesse sujo na confeitaria? Sabe que sou um pistoleiro limpinho, princesa. ― debochou, piscando o olho para ela.

       ― Ou tinha sangue na sua roupa. ― deduziu.

       Ele teve de se voltar para ela, desviar por alguns segundos a atenção do trânsito no centro da cidade, para perscrutar-lhe a feição acusadora.

       ― Acho que já conversamos sobre esse assunto antes. ― afirmou com bastante calma.

       ― Isso significa que matou de novo?

       O sinal vermelho obrigou a parada antes da faixa de segurança. Um movimento oportuno para se acertar os ponteiros do relógio.

       ― Era uma armadilha. Fomos pegos de surpresa... Na verdade, o meu pai e os nossos homens foram pegos de surpresa, porque você, princesa, com a brilhante ideia de me amarrar, acabou me livrando da emboscada e eu pude salvar o meu pai. Mais do que nunca acredito em destino, e você é o meu talismã. Acho até que todas as manhãs, antes de sair para trabalhar, me esfregarei durante um bom tempo em seu corpo para que a boa sorte continue acompanhando os meus passos. ― completou com um sorriso de canto de boca, do jeitinho que a desarmava.

       Mas ainda não.

      Nova considerou o que acabava de ouvir; principalmente a primeira parte. Alisou a barriga com a mão enquanto perfilava calmamente os pensamentos. Com Franco se jogava xadrez o tempo inteiro.

       ― O que exatamente aconteceu?

       ― Eles esperavam por nós.

       ― O que exatamente aconteceu, Franco? ― insistiu.

       Ele ajeitou o chapéu e endereçou a atenção ao semáforo. Beco sem saída.

       ― Muita coisa aconteceu. ― voltou-se para ela e tocou seu queixo com as pontas dos dedos: ― E muita gente nossa acabou se envolvendo nisso. Olha só, Nova, agora não cabe mais a postura de defensora de criminoso, ok? Até hoje, quem não havia cometido crime na vida, cometeu... E quem já havia cometido parou de cometer porque morreu. ― avaliou a expressão tensa da esposa e continuou: ― Vou te contar tudo, se quiser. Arrastarei você para baixo d’água, no fundo do rio, do meu rio, na parte mais suja, e mostrarei todo o lixo que eu tenho de limpar. Quero ser completamente honesto com você. Não posso mais ter medo que me deixe, não posso viver assim. ― balançou a cabeça devagar concentrado no que dizia: ― Quer visitar o meu mundo e se encher de tristeza, tanta tristeza que fará nossas filhas também pessoas tristes? Ou prefere continuar inocente e perfeita, absolutamente perfeita para mim e para as nossas meninas? Me diz, Nova, antes da luz verde aparecer, o que quer para a sua vida, hein?

       Ela manteve os olhos fixos nos dele.

       ― Ser feliz. ― falou num fiapo de voz, assentindo com dificuldade, a contragosto.

       Dentro de si, a jornalista detestava ver o sorriso satisfeito do seu marido. Por isso, foi ela mesma, a jornalista, quem falou:

       ― Arriscou a sua vida por um homem ganancioso que, em nome de uma suposta justiça, quer aniquilar o seu maior adversário para justamente tomar o seu lugar. Essa ofensiva não foi para vingar o velho Onório e retomar as terras roubadas e tampouco para livrar Matarana das garras do coronel; essa ofensiva nada mais foi que uma boa estratégia para aumentar o patrimônio dos Dolejal. Era assim que agiam os desbravadores no início da colonização, não é mesmo? Não é o que o seu pai conta? Tomavam as terras dos outros e do governo, dos mais fracos ou dos incautos. E para quê?, para fazer a reforma agrária? Não, não, imagina! Você suja as suas mãos, Franco, para que um empresário do agronegócio continue ampliando o seu império. Você limpa o caminho para ele, é o rolo-compressor dos seus inimigos, é o escudo que protege o mesmo tipo de homem que você mais rejeita, que é o coronel. A diferença é que um veste roupas importadas e fala vários idiomas; o outro não. Sim, meu amor, o seu rio é sujo, mas você não é um peixe e pode muito bem viver fora dele. ― ela fez uma breve pausa e perguntou com um sorriso de primavera: ― Não prefere se tornar inocente e perfeito para mim e para nossas filhas?

       Olharam-se por alguns minutos até ouvirem as buzinas. O sinal indicava que o caminho estava livre, aberto, verde. E embora o asfalto não fosse de boa qualidade e tivesse ranhuras e buracos, era o caminho certo a seguir, a estrada para uma vida melhor.

       ― Quero ser perfeito pra você, Nova. ― ele murmurou sério, enquanto trocava as marchas e acelerava em direção à casa perto do Rio Verde.

       Ela sorriu com ternura e estendeu-lhe a mão.

       ― Então fica comigo. ― pediu com carinho.

       Franco aceitou o que inevitavelmente teria de um dia aceitar. Era mais forte que ele ou que qualquer explicação a respeito. Queria ser perfeito, Franco pensava, dirigindo debaixo do céu carregado de nuvens, uma mão no volante e a outra segurando firme o seu futuro.

       Ninguém jamais lhe dissera que poderia ser assim, que poderia deixar de ser quem era e que poderia ser melhor sem ter de abandonar nenhum dos lados, dos seus dois lados, dois amores, a sua mulher e o seu pai.

       Franco decidiu ficar com ambos.

       ― Tem razão, princesa, ― disse, puxando-a para si e pondo um braço sobre os ombros dela, ― não sou um peixe; sou um mamífero.

         

       Ele a encontrou no alpendre, sentada na cadeira que ladeava a sua, as pernas cruzadas e esticadas, a mesma roupa que usara horas atrás quando se viram na fazenda do coronel. Apertou a própria nuca para relaxar os músculos enquanto caminhava em direção à entrada da casa, arrastando as botas nas passadas lentas e cansadas. Estava um caco, quebrado, morto. Urgia um banho morno e desmaiar na cama até o outro dia. A cidade parecia mergulhada num pandemônio de sentimentos ante o assassinato do coronel Marau. Os mataranenses se dividiam entre os pesares e a compra de fogos de artifício; os que receberam o seu apoio não escondiam o receio dos novos tempos e os partidários do inimigo do coronel comemoravam o início de uma era, a Era Dolejal.

       Ironia ou não, os rumos de Matarana foram decididos através da mão de uma mulher, a chamada de vaca louca por boa parte da população.

       Considerou a ideia de confrontá-la, pô-la contra a parede a respeito de sua participação no ataque de Dolejal ao coronel. Metia-se numa guerra que não era sua. E, com isso, se tornara uma criminosa. Uma situação difícil de ser contornada, considerou, parando diante dela, tirando o chapéu e puxando um cigarro da carteira.

       ― E o Thales? ― ele perguntou antes de riscar o fósforo.

       Ela deu de ombros como se o assunto não a interessasse.

       Rodrigo observou a palidez de seu rosto. Tragou fundo o cigarro, escorando o corpo contra a amurada ao redor do avarandado.

       Terminou de fumar em silêncio. Havia qualquer coisa de pesado separando-os, um muro de palavras não ditas, um punhado de interrogações como estacas apontadas para todos os lados.

       E de repente a intenção do confronto já não lhe parecia a mais sensata. Ele conhecia a sua melhor amiga tempo o suficiente para recuar diante das sombras que via em seus olhos. Um sentimento indefinido cobria-lhe as pálpebras como um véu de tristeza e algo mais, indescritível. Talvez desafio, talvez obstinação. Ainda não lhe era possível compreender de todo o que se passava no coração daquela mulher. Ela voltara do local de um crime, estava impregnada dele, pólvora nos poros, sangue na roupa. Ela matara um homem.

       Suspirou profundamente e jogou no piso de madeira a bagana, amassando-a com a sola da bota. Em seguida, juntou o resto do cigarro consumido e encaminhou-se para a cozinha a fim de pô-lo na lixeira e rumar em direção ao quarto.

       Ao alcançar a porta de entrada, endereçou um rápido olhar para Karen e seus olhos colidiram com os dela. Pressentiu que uma tragédia ainda maior estava por vir. Era melhor, então, refugiar-se no silêncio. Afinal, o que estava feito não podia mais ser mudado.

       Deixou-a sozinha em sua cadeira, após ela desviar a atenção dele para a estrada a alguns metros depois do portão aberto. Não olhava exatamente para um ou outro automóvel que passava em baixa velocidade, próximo ao Rio Verde, e sim olhava para dentro de si mesma, para o seu caos particular.

       Ele não prosseguiu até a cozinha. Parou no meio da sala, incerto. Cumprimentou o enteado com um aceno de cabeça e um sorriso fraco, ficou aliviado quando o guri se voltou para o computador a fim de metralhar um patético zumbi. Por um momento Rodrigo observou a criatura que, mesmo já morta e em decomposição, jorrava sangue.

       Talvez fosse sensato voltar e conversar com Karen, abrir o jogo com ela, ouvir a sua versão. Não queria interrogá-la ou deflagrar um discurso moralista. Apenas mover o braço em sua direção e oferecer-lhe o peito como apoio. Ele nunca matara alguém, nunca, nem mesmo um bandido. Mas sabia muito bem o quanto custava aos inocentes limpar o lixo da rua. Decidiu que após o banho, mais relaxado e propenso à conversação, iria procurá-la enfim.

       Ao entrar no quarto, seu coração disparou num galope louco.

       Era possível que tivesse arregalado os olhos e dilatado as narinas numa respiração rápida e pesada, a mesma provocada quando se levava um susto. E ele acabava de levar um susto daqueles. A adrenalina jorrou queimando em suas veias e, em vez de pô-lo em ação, paralisou-o diante de sua cama.

       Levou a mão à testa, apertando-a com as pontas dos dedos a fim de liberar a pressão que sentia na cabeça. Girou nos calcanhares, pisando firme no assoalho de madeira, a sola da bota fazia um barulho seco.

       Voltou ao alpendre para questioná-la, sacudi-la ou simplesmente amarrá-la até criar juízo. Encontrou-a já de pé à sua espera, o olhar duro e direto.

       ― Vou passar um tempo fora, preciso pensar...

       Rodrigo sentia os maxilares doerem de tanto que os apertava controlando uma explosão de palavras de grosso calibre. Sobre a cama uma mala aberta expondo as suas vísceras, as roupas de Karen.

       ― É mesmo?, pensar sobre o quê especificamente?

       Ela percebeu a ironia com nuances de rispidez.

       ― Sobre o fato de tê-lo arrastado para um monte de merda... especificamente. ― retrucou, segura de que a ideia de deixá-lo o salvaria de sua destruição.

       ― Sou adulto, Karen, e responsável por meus atos...

       ― Você é um homem bom e um delegado de polícia íntegro que se orgulha disso e tem de se orgulhar mesmo. Lutou a vida inteira para pôr os criminosos detrás das grades e proteger os cidadãos de bem. Sei que às vezes debocho de sua condição de bom-moço, mas tenha a certeza absoluta de que boa parte do amor que sinto por você tem a ver com o tipo de ser humano que você é, Rodrigo, e não quero corrompê-lo, não eu, logo eu... ― ela balançou a cabeça devagar e continuou em tom baixo, emocionado: ― Os grandões de Matarana tentaram tirá-lo do seu caminho, do caminho da integridade e da justiça, e você não apenas resistiu como se recusou a fazer a vontade deles. Esquece que já era o meu melhor amigo antes de ser o meu amor? Sei o quanto sofreu nos primeiros anos aqui, tentando impor a lei para todos, não apenas para os ladrões de galinha, e sempre com a firme intenção de não se aliar aos poderosos... E agora...por minha causa... por minha causa se sujou de lama até os ossos... Não posso conviver com isso na minha consciência, não posso olhar para você e não ver o quanto desceu por minha causa...não posso continuar a viver com alguém que um dia se olhará no espelho e sentirá repulsa de si mesmo e se perguntará por que se tornou um bandido em questão de minutos?, e, então, a resposta aparecerá no meu rosto, Rodrigo, e você me olhará também com repulsa e pensará: “Ah, claro, foi por causa dela.”

       Karen parou de falar. A garganta seca e os olhos molhados.

       Ele apertou os lábios e inspirou profundamente. Matou no peito toda a emoção que ameaçava se expandir e arrastá-lo para o vazio. Considerou a firmeza de cada palavra lhe dita após o seu tempo de maturação, ganhando corpo e densidade para seguir em frente em forma de plano. Karen estava pensando em abandoná-lo quando ele chegou e a encontrou com os olhos fixos na estrada. Ela decidira deixá-lo. Ela arrumara a mala pensando em largar para trás o que eles haviam vivido e o futuro.

       ― Jamais na minha vida olharei para você com repulsa... ― foi só o que conseguiu pronunciar, um nó na garganta obrigou-o a se calar. Olhou para cima e as lágrimas voltaram para os olhos. ― Não fui obrigado a fazer o que fiz e faria novamente. Acha mesmo que me importo com essa merda de moralidade? O que sigo é a minha consciência, Karen, e não um manual, como você costuma dizer. Sigo os meus princípios e o que considero certo, e o certo nessa situação específica era protegê-la. Jamais a trancafiaria numa cela por ter evitado o assassinato do Dolejal. O coronel apontava uma arma para a cabeça de uma pessoa inconsciente, desprotegida, e você fez o que eu ou qualquer outra pessoa teria feito... Se mirasse em outro lugar que não fosse a cabeça, o coronel teria puxado o gatilho, Karen. Você não teve escolha! E eu jamais falharia com você... e com o Franco também, se me permite incluí-lo no rol das pessoas as quais protejo com especial interesse...

       Ela juntou as mãos, aproximando-se dele, o corpo em posição de súplica:

       ― Precisa me ouvir, pelo amor de Deus! Não entende, não entende o que isso significa? Ao me proteger, além de ter infringido a lei, se colocou inteiro na palma da mão do Thales, e ele vai tirar proveito disso. Não importa que salvou a vida dele, o Thales não é como nós, meu amor, ele é um predador voraz que há muito tempo quer tê-lo totalmente ao seu lado, comprometido com ele junto com seu exército de seguidores fanáticos... ― ela respirou fundo e controlou o tremor na voz ao declarar: ― Quero me entregar, delegado, eu matei o coronel Marau, essa é a minha confissão.

       Rodrigo arou o cabelo com a mão e se postou de costas para ela, os braços sustentando o corpo sobre o peitoril da amurada de madeira.

       ― Estamos em casa, Karen, e aqui eu não sou delegado. ― ele se virou para ela e afirmou duramente: ― O que se passa entre mim e o Dolejal não diz respeito a você. A gente se entende de um jeito ou de outro. Posso estar na mão dele, mas ele também está na minha; esqueceu o dossiê sobre a morte de Onório Dolejal? ― completou com uma ponta de ironia. ― Se quer pular fora, arranja outra desculpa, minha filha. Mas pensa bem, porque não estou disposto a deixá-la cruzar esse maldito portão com aquela maldita mala!

       Automaticamente ela olhou para o portão sempre aberto e depois para Rodrigo. E não foi difícil dar-lhe as costas, passar por ele com os olhos injetados de determinação e seguir para o quarto. Ao seu encalço, ele a seguia em silêncio, ainda aturdido pela atitude desafiadora da mulher. Oh, diabo de tinhosa era essa Karen Lisboa, ele pensava, apertando a boca com raiva, uma raiva inconformada.

       Antes que ela alcançasse suas roupas, ele pegou a mala de qualquer jeito, as blusas caindo no chão, e o barulho do couro arremessado contra a parede. Uma mala se arreganhava cuspindo o seu conteúdo.

       Karen não acreditou no que viu. Rodrigo havia se apossado da mala e a jogado longe, o semblante carregado, uma veia grossa pulsando no meio de sua testa. O homem estava possesso.

       Ele se virou para ela com as mãos no quadril e um olhar de matar.

       ― Sabe, acho que sou o cara mais idiota do planeta, devo sinceramente ser um babaca, um ingênuo mesmo, imaginei que depois da minha declaração explícita de amor você fosse me abraçar agradecida e até mesmo fosse aceitar o meu sexto pedido de casamento, mas não, claro... resolveu ter uma crise de consciência pela primeira vez na vida, depois de TANTA MERDA que já fez... e tinha de ser comigo.

       Ela engoliu o choro e se arranhou por dentro.

       ― Pela primeira vez não pensei em mim, não levei em consideração o quanto te amo e o quanto me fode a alma ter de me afastar porque não quero ser responsável por você ter se tornado... um sujo...um policial sujo...me desculpa, mas é que o você se tornou ajudando a ocultar a minha autoria no assassinato do coronel. Chegamos ao nosso limite a partir do momento em que minhas atitudes extremas te colocaram do lado oposto dos teus princípios. Fim da linha, meu chapa! ― afirmou, abaixando-se para juntar suas roupas e enfiar novamente na mala.

       Rodrigo começou a zanzar pelo quarto feito uma fera enjaulada, os cabelos para todos os lados, os dedos pressionando a própria nuca. Olhava para o chão, para ela pegando seus pertences, para a escuridão que seria o resto da sua vida.

       ― O negócio é o seguinte, dona Karen Lisboa, não vou entrar nessa loucura de relacionamento entre tapas e beijos. Fiz o que fiz para ficar com você e, se me sujei ou não, o que não falta é um bom rio aqui por perto para me lavar... O importante é que o desgraçado que queria me matar morreu. Vou dormir muito bem com isso. ― ele apontou o dedo em riste se aproximando dela com a cara de poucos amigos ― E se, por acaso, você sair por aquela porta para me deixar, não pense em voltar, acabou tudo entre nós. Entendeu? Não vou atrás de você nem considerá-la como amiga, protegida ou o raio que a parta! Não vou aceitá-la mais comigo e, por Deus, juntarei meus trapos com a primeira mulher que passar na minha frente só para ver você sofrer, sofrer sozinha com o seu egoísmo e essa individualidade de merda. O que está esperando? Não é a fodona do pedaço? ― ele a pegou pelo antebraço e a puxou para si: ― Prova que vive melhor sem mim. ― e depois a empurrou em direção à porta.

       Cada palavra que ela ouviu entrou por seus ouvidos cortando os tímpanos. Cacos de vidro, sílaba após outra, rasgando-a sem sangrar. O sangue era outro. A mágoa era o sangue, doía ser tratada com brutalidade... por ele, por aquele que a aquecia como o sol, sem queimar, raios brandos feito um abraço cheio de amor.

       Ele, pálido, leu essa dor nos olhos dela.

       Karen se adiantou em dizer com a veemência de uma apaixonada:

       ― Não quero viver outra vida que não seja com você.

       Rodrigo havia arriscado suas fichas até o limite de sua relação com Karen. Noutros tempos, ela ultrapassaria a soleira da porta com passadas largas e o nariz empinado, nem que fosse para provar que ainda era dona de seus passos.

       A questão era que o delegado também não era uma pessoa fácil e tinha para si uma situação ainda pendente:

       ― Então já está na hora de casarmos. ― afirmou, sério.

       Karen, imediatamente, se voltou para a porta.

       Rodrigo puxou-a para si e a abraçou com força, beijando-a no topo do crânio. A cota de risco do dia estava completa, pensou ele, agarrado nela.

       ― Acho que o Johnny me chamou... ― ela falou baixinho, o nariz enterrado na camisa xadrez dele.

       Antes que o delegado comentasse o que fosse, Johnny surgiu com a feição desfigurada pelo medo.

       ― A Veridiana acabou de ligar.

       Rodrigo sentiu o corpo de Karen endurecer para suportar o que estava por vir. E Johnny completou como se algo inacreditável tivesse acontecido:

       ― A vó está no hospital, mãe... Parece que ela teve um enfarte.

         

       O dia se arrastou até se transformar em noite. Úmida e cheia de estrelas, assim era a noite em Matarana no inverno. Corujas sobre muros e até mesmo no gramado em frente às casas. A densidade da atmosfera era quase táctil, uma fina camada de frescor salpicava a pele de quem andava a céu aberto. E por ser tão agradável, a estação das chuvas, as pessoas se mantinham ativas por mais tempo, levando cadeiras para as rodas de conversa na calçada ou trabalhando no comércio.

       Valéria Malverde fechou as portas do Vaca Louca uma hora antes do habitual, alegando enxaqueca e tentando disfarçar o nervosismo enquanto se despedia dos funcionários com um sorriso forçado. A sua sorte era que vó Ninita estava em casa, não fora à confeitaria trabalhar naquela tarde e, por isso, ela fora poupada de ser questionada a respeito de seu estranho comportamento. Val jamais tivera enxaqueca e, caso chegasse a tê-la, não explicaria a palidez, as mãos trêmulas, o olhar aflito para o relógio de pulso e a sensação de alheamento. Afinal, a avó de Karen saberia que o motivo de toda sua agitação era o fato de Franco, ao buscar Nova, informar que Thales Dolejal, vítima de uma emboscada, fora duramente espancado. Ela saberia também que Val tencionava correr pela cidade até ultrapassar os portões da Arco Verde, porque precisava vê-lo e curá-lo de sua dor; pelo menos a física. A bem da verdade, Ninita sabia coisas demais.

       Pisou fundo no acelerador acompanhando as batidas ritmadas do seu coração. Nada havia a fazer senão correr para ele.

       Ao alcançar a portaria com um número excessivo de seguranças em frente à guarita, ela compreendeu a realidade nua e crua resumida por Franco: o rei estava ferido e a segurança fora reforçada.

       Assim que o carro parou, um rapaz com a espingarda ostensivamente sobre o ombro se aproximou. Val baixou o vidro e se identificou.

       ― Boa noite, dona Valéria. A senhora pode sair do carro para ser revistada, por favor?

       Ela concordou e obedeceu-lhe. Observou o pistoleiro assobiar e fazer um sinal com a mão para a colega segurança. Virgínia se voltou, franziu o cenho ao reconhecer a irmã do delegado e foi até eles. Antes, porém, comentou com os seguranças da guarita:

       ― A dona Valéria tem de ser revistada? ― somente as duas mulheres estranharam o comportamento deles.

       O rapaz da espingarda respondeu tranquilamente:

       ― Todo mundo o seu Franco disse; menos, é claro, a dona Karen.

       Virgínia assentiu sem contestá-lo, estava de volta a Arco Verde e era tudo o que mais desejava. Voltou-se para Valéria e falou com polidez:

       ― A senhora pode se virar e pôr as mãos sobre o capô?

       ― Claro, sem problema. ― e foi o que Val fez, deixando-se ser examinada pela pistoleira.

       Ao final da revista, Virgínia fez um sinal afirmativo com a cabeça para os homens, liberando a entrada da visita para o interior da fazenda.

       Antes de Valéria entrar no seu carro, uma picape parou rente ao seu para-choque. Era Bronson, e ela somente o reconheceu quando ele desceu, ajeitou o chapéu na cabeça e apontou o dedo na sua direção acrescentando ao gesto a informação:

       ― A dona Valéria é convidada do patrão, ninguém põe a mão nela, ouviram?

       Virgínia encolheu os ombros. E Bronson completou arrastando-se nas botas ao se aproximar da visita do dono de tudo:

       ― Desculpa o incômodo, mas é que o patrão não havia repassado a ordem aos outros, falha minha, viu? Aqui, na fazenda, a senhora entra e sai sem ter de dar explicação.

       Valéria tentou sorrir, mas o lábio inferior tremeu. Bronson estava sujo e com respingo de sangue nas roupas.

       ― Obrigada, mas preciso ver o Thales.

       O segurança notou o tom de aflição na voz, apertou os lábios e afirmou com discrição:

       ― Ele é duro na queda, não se preocupe.

       ― Posso entrar?

       ― Pode, sim, dona Valéria, mas acho que não passará da sala. O patrão se tranca no quarto quando não está bem, sempre foi assim.

       Sim, como poderia ser diferente? Por anos se curara sozinho, talvez escondido do avô espancador. Ela sentia um ódio sem limite de Onório Dolejal.

       ― Mas vim cuidar dele. ― disse num fiapo de voz, sentindo a garganta se fechar.

       O pistoleiro balançou a cabeça e ajeitou a aba do chapéu para frente e para trás, antes de afirmar com a convicção de quem vivera anos, vários deles, na vida:

       ― Bom, quem sou eu para impedir a senhora. Alguém tem de enfrentar o homem.

       Ela sorriu depois de vê-lo sorrir. Entrou no carro e rumou para o casarão.

       Irene abriu a porta depois da segunda batida e sorriu fracamente ao reconhecê-la. Nos olhos da governanta a preocupação de uma mãe para com o filho doente e recluso, como ela mesma asseverou em seguida, logo após a entrada de Valéria na sala.

       ― Uma covardia, é só o que posso dizer. ― afirmou, ainda assustada desde a primeira visão do patrão ensanguentado subindo lentamente os degraus da escadaria, impedindo com o olhar duro qualquer auxílio das mais de vinte pessoas ao seu redor, atentas a qualquer hesitação ou fraqueza de suas pernas. ― Depois de tudo, se enfiou no quarto. A gente não pode fazer nada, ele não permite. Uma vez estava com quase 41 graus de febre, tinha contraído uma virose terrível no Texas e voltou para o Brasil com princípio de pneumonia. Sabe o que o patrão fez? Simplesmente se trancou no quarto. O Franco ficou louco, arrombou a porta com um chutão e encontrou o patrão delirando de febre. ― ela parou com os olhos rasos de lágrimas e continuou: ― Não adiantou nada. Ele segurava uma 9 mm e apontou para o menino assim que ele se aproximou. A gente ficou com muito medo, o Chicão implorou para o patrão aceitar a visita de um médico, pelo menos. A peonada alvoroçada no pátio fazendo vigília e o Bronson tendo que segurar o Franco, porque ele queria carregar o patrão no colo e levá-lo para o hospital. Mas a gente não podia permitir isso, não importa o que aconteça. É a vontade do seu Thales, e ele nunca deixa ninguém cuidar dele, nunca. Ele disse que cuida de si mesmo.

       ― Meu Deus, podia ter morrido.

       ― É, podia. A senhora imagina então o nosso desespero.

       Valéria endereçou o olhar para o alto da escadaria, que, seguida do corredor, levava até o quarto de Thales. Era para lá que ela iria. Ainda que ele não estivesse com pneumonia, o seu lugar era ao seu lado. E o fato de ter sido dispensada na noite anterior, bem, mero detalhe.

       Voltou-se para Irene e avisou-a sobre o seu intento:

       ― Se a porta estiver trancada, tem uma chave reserva?

       A governanta arregalou os olhos.

       ― Dona Valéria, a senhora ainda não viu o patrão zangado, realmente zangado. É melhor voltar para a sua casa, e eu aviso a senhora quando ele melhorar. Pode ser assim?

       ― Não, não pode. ― reafirmou Val e emendou determinada: ― Não tenho medo de birra de homem, não, Irene. Vou entrar naquele quarto e cuidar desse cabra teimoso, ah, se vou!

       Irene tapou a boca para conter um riso nervoso.

       ― Ele bate em mulher?

       A pergunta feita de forma brusca fez os olhos da governanta se arregalarem ainda mais.

       ― Não, não, pelo amor de Deus! O patrão manda bater é em quem bate em mulher, isso sim. ― asseverou convicta.

       ― Bom, então, o que tenho a temer? ― perguntou retoricamente.

       Sorriu de um jeito que parecia nervosismo, mas tinha muito mais era de ansiedade. Antes de sentir apreensão, sentiu medo, medo de nunca mais vê-lo. Bom, ele estava vivo. Para o resto dava-se um jeito ― assim era a filosofia de vida de Valéria Malverde.

       A governanta manteve-se no meio da sala de olho na mulher que subia com obstinação a escada. Balançou a cabeça devagar imaginando o tamanho da tempestade que viria a seguir, em questão de minutos, caso ele estivesse ainda acordado. Era possível que dona Valéria disparasse a correr escada abaixo e desaparecesse da Arco Verde para sempre. O que seria lamentável, Irene apostava que a moça simples e desajeitada consertaria o coração quebrado do patrão e o poria a funcionar direito como quando se formara embrião.

       A mão girou a maçaneta dourada, a porta cedeu e a claridade de um abajur, um amarelo esmaecido, se jogou aos seus pés. Cogitou que ele não trancara a porta por estar acostumado a ser obedecido em suas ordens.

       O primeiro pé pisou no seu reduto e não fez barulho, meio corpo ultrapassou a porta e a cabeça se enfiou pela fresta, permitindo a visão do campo do adversário. Encontrou então primeiro as botas sobre a cama, ainda nos pés cujas pernas vestidas no jeans jaziam prostradas sobre a colcha debaixo do dossel. O ângulo de sua visão abarcou também os janelões de vidro que davam para o terraço, fechados.

       Notando que ele dormia, Valéria entrou e fechou a porta atrás de si, trancando-a à chave. Desencostou-se da porta e aspirou o cheiro forte de uísque. Sem surpresa alguma, a garrafa vazia no criado-mudo.

       Livrou-se das próprias sandálias, pondo-as debaixo da cama. Precisava resguardar-se no silêncio. Era quase certo que Thales bebera até cair no sono. E quando ela se aproximou e viu o estado do seu rosto, a roupa rasgada, suja e com nódoas de sangue seco, compreendeu que a bebida servira como anestésico. Sentiu o coração se apertar de angústia.

       Sentou-se ao lado dele, na beirada da cama, e afastou ligeiramente a barra lateral da camisa cujos botões haviam sido arrancados do tecido. Na pele clara, as marcas arroxeadas e filetes do sangue, agora seco, que desceram do seu rosto.

       Ela deslizou a ponta dos dedos pelo caminho de pele ferida e sentiu o calor dele, o calor morno do corpo firme e grande, imponente e completamente a sua mercê, o corpo adormecido e desamparado do homem que mudava destinos. Desceu a mão até o cós do jeans e abriu o botão, abaixando em seguida, o zíper.

       A ideia era limpá-lo para, depois, cuidar de seus ferimentos. Olhou ao redor, aturdida, perguntando-se sobre uma forma de banhar um homem daquele tamanho. Não poderia carregá-lo até o banheiro. Afinal, ele era alto e pesado e, além disso, poderia acordar com qualquer movimento brusco, estava bêbado e adormecido apenas; não inconsciente.

       Mordiscou a cutícula do polegar, pensativa. Ao dar de cara com um objeto de decoração, a luz de uma ideia se acendeu em sua mente. Pegou a vasilha que sustentava uma jarra antiga de porcelana e se foi para o banheiro da suíte.

       Abriu as torneiras da banheira e encheu-a com água morna. Teve o cuidado de fechar a porta atrás de si. Era só o que faltava ele acordar com o barulho da água!

       Voltou para o quarto carregando consigo a bacia com a água e uma toalha de rosto felpuda. Tornou a se sentar ao seu lado, cuidando para não tocá-lo. Umedeceu a ponta da toalha e deslizou-a com delicadeza por sobre a testa e maxilares de Thales, a parte mais machucada de sua face. À medida que limpava o sangue seco, era possível perceber os cortes nos hematomas, arranhões fininhos e inchaços. Com ainda mais cuidado limpou as pálpebras ligeiramente inchadas.

       O rosto de Thales estava limpo e, assim, exibia a agressividade da ação. Por um momento, ela perdeu a objetividade, vendo-o ferido, o choro subiu à sua garganta e ela teve de engoli-lo de volta. Para aliviar a sua própria dor, beijou-o no lábio inferior delicadamente.

       Depois de beijá-lo na boca, não conseguiu mais refrear a vontade de absorver de alguma forma a agressão sofrida por ele. Desceu a ponta da toalha para o pescoço e, com o gesto, os seus lábios deslizaram em seguida como um iodo cicatrizante. Pelo tórax, ao redor dos hematomas e, mais para baixo, o abdômen enxuto. Na carne de sua boca sentia a maciez cheirosa e quente do corpo dele, a firmeza dos seus músculos. Beijou-o todo com a delicadeza de um arrastar de seda.

       Depois se levantou para deixar a bacia sobre o criado-mudo. Precisava retirar a sua camisa rasgada e suja. Enganchou a mão debaixo do pescoço dele e ergueu bem devagar a sua cabeça, a outra mão puxou aos poucos a roupa, um braço, depois outro. A sincronia perfeita e cadenciada no movimento em câmera lenta, calma, muita calma, até jogar a camisa para o chão e deitá-lo novamente contra o travesseiro.

       Suspirou profundamente. Não percebera que estivera segurando o ar nos pulmões durante a empreitada. A missão estava apenas no começo. Precisava agora livrá-lo das botas e do jeans, assim como arejar o quarto.

       Com as botas já no chão, se viu diante de algo que particularmente a deixou nervosa. Não por ser um corpo masculino com apetrechos de acordo, mas por ser a intimidade do homem pelo qual ela estava completamente apaixonada. A questão era que ele estava ferido e toda a conotação erótica era ofuscada pela necessidade de atenuar o seu sofrimento.

       Puxou o jeans, com bastante destreza, por uma perna e depois a outra. Dobrou-o com a intenção de entregá-lo a Irene, já que a camisa só tinha um único destino, a lixeira.

       Encaminhou-se até os janelões e os abriu. Averiguou o posicionamento de seis ou sete pistoleiros nos fundos do casarão e, ao perceberem-na quarto do patrão, todos se viraram em sua direção.

       Minutos depois, Bronson era avisado sobre o evento e chamado para constatar com os seus próprios olhos. Ele, então, sorriu e tirou o chapéu para Valéria, que retribuiu o sorriso como se dissesse “viu, não tenho medo de brincar com fogo”. Mas ao se voltar e ver o homem de 1.85, encorpado, metido na cueca boxer escura, as coxas duras cujos músculos marcavam a pele de pelos ralos e aloirados, o volume considerável entre elas, as pernas estiradas e a cabeça sobre o travesseiro deitada de lado, ela parou de sorrir... e começou a tremer. Que homem lindo, Senhor da Vodca!, foi o que Val pensou, admirando-o sob a penumbra do abajur.

       O sangue subiu para as suas bochechas. Ela deveria estar ali para cuidar dele e não para pensar em sacanagem. Sentiu-se envergonhada por sua superficialidade. Não podia fugir de suas obrigações. Precisava limpá-lo, desinfetar os cortes e passar pomada sobre os inchaços.

       Aproveitou para levar a garrafa de uísque para o banheiro. Depositando-a sobre o balcão da pia de mármore, imaginou-o chegando aos tropeços no quarto e enchendo a cara para aliviar a dor da surra. Estalou a língua no céu da boca com tristeza, suspirando pesadamente, e abriu o armarinho a fim de pegar o estojo de primeiros socorros. Voltou ao quarto e quase deixou tudo cair.

       Ele estava com a cabeça ainda de lado, deitada no travesseiro, mas virada na direção oposta a que estava antes. As pálpebras se mexiam, e como estava com o rosto virado para baixo, não era possível ver se ele havia aberto os olhos ou se sonhava. Parecia mesmo era que ele olhava para baixo, imóvel, endurecido pela tensão na musculatura.

       Valéria aproximou-se devagar, sem fazer barulho. Parou diante da cama e tentou adivinhar se Thales despertara.

       Sentou-se na beirada da cama e esperou que ele se movesse. Cheia de amor no coração, estendeu o braço e tocou numa mecha de seu cabelo curtíssimo, tocou com carinho, ternura, com vontade de abraçá-lo o resto de sua vida. Ela não estava preparada para receber o olhar aturdido, congestionado, um azul aquoso e claríssimo, que a fitou segundos depois do toque. Prendeu a respiração e suportou com valentia a força do olhar de Thales, que parecia ainda perdido num mundo de densas brumas.

       ― Sonhei com você pela manhã... antes de tudo escurecer... ― mal descolava os lábios, o olhar esgazeado, a fala pastosa e baixa.

       Um braço se estendeu para a mão alcançar-lhe o rosto, o afago em sua face fez a alma da mulher vibrar.

       Ele ainda manteve os olhos nela, um sorriso suave. E a constatação de que estava bem acompanhado motivou-o a falar mais um pouco:

       ― Posso gostar de você... ele está dormindo... posso vê-la e dizer que tudo vai dar certo... o monstro está dormindo. ― ele fez um sinal com o dedo em gancho para ela se aproximar e confidenciou junto ao seu ouvido: ― Eu consegui.

       Quando ela se afastou para fitá-lo, ele já estava com os olhos fechados e a respiração regular.

       Por um instante, Valéria ficou imóvel, protegida pelo escudo invisível da substância que aquela declaração se consistia. Temia se mexer, piscar os olhos ou sentir um grama a mais de amor que sentia por ele e romper a bolha, a bolha que saía do seu peito e os protegia, a ambos, de tudo, inclusive, de si mesmos.

       Quem acabara de falar? O verdadeiro Thales, sem trauma, sem tormentos, sem arrogância, sem a criatura que o manipulava vencida pelo álcool? Escapara o verdadeiro Thales da masmorra e se encostara à grade da jaula para lhe dizer que se libertara do monstro, que o confrontara e o vencera e que ao reviver os anos de espancamento, na fazenda do Marau, se curara enfim da violência do passado? E ele agora estaria pronto para aceitar uma nova vida e um novo amor. Por outro lado, ela poderia ter falado com o verdadeiro Thales, adorável e monstro, única criatura apenas entorpecida pelo uísque, ainda carregando correntes nos tornozelos e fazendo afirmações incoerentes.

       Apertou na ponta dos dedos uma fina camada de Hirudoid e massageou com cautela os hematomas no abdômen, logo abaixo das costelas.

       Os dedos continuaram a massagear a coxa, o movimento cadenciado e quase impessoal, embora houvesse um toque de ternura característico de quem se importava com o ferido, avançavam ao som de um ritmo que alcançava notas quentes. A pressão da palma acompanhou a extremidade da mão e subiu um pouco mais no terreno, tocando a barra da boxer, enfiando-se dois ou três centímetros por baixo dela.

       Imediatamente ergueu os olhos para ele, para o seu rosto, à procura de evidências que comprovassem que ainda dormia. E, por isso, por ainda dormir, ela considerou que não deveria se aproveitar dele, não deveria repetir o comportamento lascivo do avô, que se escondia na escuridão da noite para tocá-lo. Valéria não tinha o consentimento de Thales para tocar suavemente por suas coxas mornas, nem por cima do tecido elástico e apertado da boxer, tampouco sobre a faixa no cós onde se lia Calvin Klein.  Não, ela não tinha esse direito. Recolheu a mão e a vontade.

       Baixou a cabeça e beijou-o na testa, imaginando que se ele a tocasse intimamente enquanto ela estivesse abatida na cama, seria, no mínimo, considerado um canalha. Valéria não era esse tipo de pessoa. Por isso resolveu protegê-lo com um lençol. Ela não queria se transformar no tipo de pessoa que se aproveita de homens irresistíveis adormecidos.

       Só que não conseguiu sair da cama.

       Ele olhava diretamente para ela. Sério, os maxilares duros projetados contra a pele.

       Reconheceu a causa perdida. Valéria percebeu, assim que o fitou, a aparição do bom e velho Thales Dolejal, nos dias em que estava mal-humorado, sem arrogância, apenas a sinceridade cruel e venenosa. A expressão de agora era a tradicional, fechada e sagaz. Ele estava completamente desperto quando afirmou de posse do seu pulso:

       ― Termina o que começou.

       Valéria tentou escapar puxando o braço de uma garra de ferro; impossível. Sustentou o seu olhar sem demonstrar altivez ou qualquer outro sentimento que o irritasse ainda mais.

       ― Só vim cuidar de você. ― falou baixinho.

       ― Já não foi dispensada?

       A pergunta feita era a simples constatação do que ele pensava sobre ela estar ali no seu quarto, à noite, sem ter sido convidada.

       ― Não sou sua funcionária para ser dispensada. ― respondeu tentando não parecer magoada.

       Ele percebeu.

       ― Valéria, não gosto de intrusos no meu quarto e não preciso de sua ajuda ou de você. Portanto... ― fez um gesto com a cabeça em direção à porta.

       Ela o ignorou.

       ― Não vou embora; além disso, não sou uma intrusa. Ontem jantei com você e outro dia a gente se agarrou na cozinha da minha casa. Isso significa alguma coisa para mim. Não sou qualquer uma, vou ficar aqui até amanhã. Quero ter certeza de que ficará bem.

       ― Estou bem, pode ir. ― afirmou, impaciente.

       ― Sei, está bem é para encher a cara com outra garrafa de uísque. Não vou deixá-lo, isso é certo. ― teimou.

       ― É mesmo? Tenho pelo menos uns trinta homens lá fora prontos para escorraçá-la daqui. Quer sair com dignidade ou a pontapés?

       Ela continuou fitando as próprias mãos sobre o colo, desconsiderava a questão posta haja vista que não sairia daquele quarto nem de arrasto. Que fosse para o diabo a sua autoestima tripudiada pela rejeição dele. Valéria aguentava. Era duro na queda também.

       Ousou provocá-lo sem se voltar em sua direção:

       ― Por que você mesmo não me arranca do seu quarto?

       Esperou pela resposta mordaz.

       Minutos depois se voltou para vê-lo, e ele a olhava detidamente, o semblante imperscrutável, a cabeça encostada nos travesseiros.

       ― Levanta e me tira do quarto, vamos! ― provocou-o.

       ― Acredita que meia dúzia de socos me torna um moribundo? Me toma por um fraco? ― ironizou.

       ― Não, de jeito nenhum, você é tão forte que machuca. ― constatou num fio de voz.

       Queria acreditar que lutava por ele e que essa luta a tornava uma guerreira. Mas, na verdade, se sentia uma pedinte.

       ― Como não quero machucá-la, peço para que saia da minha casa, da minha fazenda e, principalmente, da minha vida.

       Ela sentiu os olhos se encherem de água. Se piscasse, transbordaria o dique que era vencido por uma enxurrada de sentimentos. O amor e a dedicação desperdiçados se derramando por cima da pálpebra, carregando junto a tristeza de amar um muro de concreto. Procurou se concentrar em algo além da cena, na repetida cena de desafeto, e contou mentalmente o número de passos que teria de dar entre a cama e a porta.

       Ouviu-o suspirar baixinho ajeitando-se na cama. Em seguida, ele estava sentado ao seu lado passando a mão pelo cabelo curto a fim de ajeitar as camadas rebeldes. Ela sentiu que era observada e se virou para encará-lo.

       Trinta passos, entre a cama e o fim de um sonho.

       Ele tentou sorrir e disse numa voz sonolenta:

       ― Que tal fazermos uma boquinha antes de decidirmos qualquer coisa?

       Valéria sorriu assentindo e, ao fazê-lo, piscou. Os sentimentos deslizaram pelo seu rosto como flores por sobre um caixão. O queixo tremeu, e ela chorou sem fazer barulho. Chorou por o terem machucado agora e no passado e, com isso, transformado a beleza em escuridão.

       Thales não sabia ao certo o motivo das lágrimas, apenas que era o responsável por elas. Deveria se sentir feliz e vingado. Não fora essa a ideia original ao se aproximar da irmã de Rodrigo?

       Olhou para si mesmo e viu que estava limpo e seus ferimentos com pomadas e iodo. Ela havia cuidado dele mesmo após ter sido maltratada. Como podia ser assim? Sem revide, sem gritos ou ameaças?

       ― Precisa aprender a não se expor desse jeito, Valéria. ― ele balançou a cabeça com pesar e completou dando-lhe um tapinha amistoso no ombro: ― Vem, vamos descer e conversar sobre um assunto bem mais importante que nós dois, que é o seu irmão e o falecido coronel.

       Fez um movimento para se levantar e gemeu baixinho, levando a mão à testa. De pronto, Valéria limpou as lágrimas e foi até sua bolsa em busca de um analgésico.

       ― Preciso perguntar uma coisa...

       Ele começou, mas parou ao aceitar e engolir a cápsula colorida que lhe era estendida. Depois retomou o que deixara incompleto, um sorriso se formava na comissura dos lábios e as pálpebras quase semicerradas sugeriam a intenção maliciosa do que viria a ser dito a seguir:

       ― Por acaso gostou do que viu?

       Faltou-lhe a compreensão ao que ele se referia. Ela franziu o cenho, aturdida. E Thales, estreitando ainda mais os olhos desconfiado, insistiu:

       ― Está se fazendo de desentendida, Valéria? Você estava prestes a arrancar a minha cueca quando acordei... Mulheres gulosas como você sempre se satisfazem com o que eu tenho para oferecer. ― completou com uma arrogância misturada à diversão.

       Ela não se fez de rogada. Já estava com as bochechas vermelhas e uma tremedeira dos diabos, o que tinha de fazer agora era continuar no mesmo caminho.

       ― Não toquei no seu membro.

       Ele soltou uma risada tão espontânea e juvenil, que ela cogitou o efeito instantâneo do analgésico que normalmente a derrubava em dez minutos como o coice de um cavalo no meio da testa.

       ― Membro? “Membro” do meu conselho administrativo? ― escarneceu, divertindo-se. ― Você fica linda corada. Não lembro a última vez que vi uma mulher enrubescer... ― ele parou e estreitou os olhos, fitando-a detidamente: ― Ah, sim, você, ontem. ― se pôs de pé, circundou com certa lentidão a cama e deu-lhe as costas. Antes, contudo, parou, a mão massageava a parte atingida abaixo das costelas quando a interpelou sem rodeios: ― Quer o meu pau dentro de você?

       No instante em que ela tentava se desfazer do choque provocado pela pergunta direta e debochada, ele afirmou com naturalidade:

       ― Desfaça essa carinha de donzela imaculada, hoje quase fui assassinado, preciso trepar para me sentir vivo. ― ele mudou o tom, expressando que falava a sério o que seguiu: ― Prefiro que seja com você. E sabe por quê? ― não a permitiu responder e completou num tom sério e profundo: ― Vou lhe dizer. Já fiz de tudo para espantá-la e você continua teimando em me rodear, talvez até seja a mulher da minha vida ou talvez seja só mais uma louca, mas a verdade é que não posso protegê-la de mim, já que não aceita os meus conselhos. Assim, ― continuou, dando de ombros, ― considero que fiz a minha parte e se, por acaso, não aguentar o meu inferno, saberá que não foi enganada nem iludida. Sou forte, Valéria, você viu as minhas costas, as minhas cicatrizes, mas eu sou forte por mim e não posso ser forte por você. Por isso, minha querida, faça a sua escolha, seja sensata, calce as suas sandálias de dona de casa bem-comportada e fuja.

       Ela não o deixou fechar totalmente as portas da sua vida.

       ― Ou...o quê? Tem outra alternativa? Sempre tem.

       Viu uma luz acender dentro dos olhos dele, labaredas de um fogo azul.

       ― Ou viva comigo no inferno. ― respondeu com bastante naturalidade.

       O gemido rouco que escapou dos lábios de Valéria não devia ter ressoado pelo quarto. Porém, praticamente substitui o assentimento por meio das palavras.

       Thales ainda estava sério, olhando-a demorada e profundamente.

       ― É isso que quer?

       A irmã do delegado fez que sim com a cabeça.

       ― O preço é alto, Valéria. ― considerou, sondando-a atentamente.

       ― Acho que tenho crédito na praça. ― reforçou com simulada indiferença.

       ― Sou o dono da praça.

       ― Tenho então créditos com você, Thales?

       Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, endereçando-lhe um olhar avaliativo. Em seguida, esboçou a primeira expressão de tédio da noite.

       ― Estou com fome, ― afirmou, sem desviar a atenção do rosto afogueado dela e emendou brincando com a intenção subentendida: ― vamos comer alguma coisa que não seja nós mesmos.

       Piscou o olho com charme e entrou no closet, saindo minutos depois vestido no robe preto de gola alta. Passou por ela e parou, mexendo a mão largada ao longo do corpo como o sinal para que lhe desse a sua; entrelaçaram-se os dedos e desceram para a cozinha.

         

      Era como um túnel, engolida por uma dimensão que embaçava sua visão, e as pessoas passavam por ela; algumas tentavam contê-la e alguém, atrás de si, impedia a contenção. Respirava um ar viciado, lascas de cristais nos bronquíolos antecipando a dor da falta, o horror da saudade que jamais, nunca mais, seria morta no abraço, no encontro do nariz com o cheiro, no calor de amar a vida inteira a sua fonte e origem.

       Karen estava devastada. E cega de sofrimento.

       Os leoninos eram fortes, os leoninos não podiam morrer antes da hora e a hora era a que não deveria ser considerada.

       A mulher que empurrou com a mão as portas duplas da minúscula UTI desprezava com asco a morte e todas as pessoas que se referiam a ela, com olhos chapados de maconheiro, como tão-somente uma passagem. Uma passagem que também era temida e desprezada pelos tais passageiros porque, na verdade, na mais profunda verdade, o mundo era um cão feroz babando raiva mas ainda assim era o lugar para ficar, amar e ser amado. Esse era o lado conhecido e vivido e o outro lado, o tal Jardim Florido da Eternidade, bem, para lá as pessoas eram forçadas a ir, ninguém queria viajar para um lugar sem direito a escolha. Apenas os suicidas.

       O coronel fizera a tal passagem. E que fosse feliz depois da ponte, considerava a neta da senhora entubada no último leito próximo à janela.

       Aos seus pés, Karen encurvou o corpo para frente, quase formando um arco, cedendo ao choro baixo e convulso. Não era para vê-la prostrada, a avó durona, sua companheira de viagem e de vida, sua mãe mais velha. Faltavam o cigarro, os óculos de aros grossos, o trejeito de mordiscar a parte interna do lábio inferior, a voz grossa quase masculina e todo o humor ácido e feroz que a tornava única, como uma espécie de vovozinha dos Irmãos Metralha.

       ― Isso não pode estar acontecendo... Vó, sua sacana, você jamais se deixaria ser pega...

       Uma voz baixa e controlada ressoou junto ao seu ouvido:

       ― Não, ela jamais se deixaria ser pega.

       As mãos de Rodrigo pousaram sobre os seus ombros com carinho e devagar, com muito cuidado, ele a virou para si e a fez erguer o rosto para enfrentar o seu olhar cheio de amor:

       ― Preste atenção no que vou lhe dizer...

       ― Não! Não quero ouvir!

       Karen tentou se desvencilhar dele para ficar junto daquela que parecia decidida a partir. Mas Rodrigo impediu-a de deixá-lo ― talvez essa fosse a sua tarefa essencial no mundo: manter Karen consigo para sempre, e dois braços apertaram-na contra si quando ele baixou a cabeça e sussurrou com os lábios encostando na sua orelha:

       ― A vó já se foi...

       ― Não! Não!

       A mulher gemeu alto e empurrou-o para escapar do abraço. Rodrigo não cedeu um milímetro sequer na ferrenha decisão de tê-la próxima até completar o que tinha de fazer. E o que ele tinha de fazer era contar tudo:

       ― Karen, meu amor, essa não é a vó, a “nossa” avozinha já se mandou do hospital, se foi, fugiu, escapou, entendeu? Olhe bem, ― afastou-se dela e indicou com a cabeça a senhora deitada no leito: ― não é a vó.

       Karen olhou-o desconfiada; em seguida, virou a cabeça enquanto secava as lágrimas e descobria que a senhora entubada tinha cabelos brancos, e não loiros tingidos como os da sua avó.

       ― Filha da puta! ― constatou num fiapo de voz.

       Rodrigo endereçou um olhar de agradecimento ao médico da UTI; afinal, a invasão de Karen, apesar de justificada, não cabia dentro do protocolo de visita do hospital. A questão era que ele conversara rapidamente com Veridiana, que logo o interpelara no saguão com olhos arregalados e aflitos. Narrara, aos tropeços, a odisseia de ambas naquele dia; desde o início das ferroadas no peito da avó de Karen até o posterior diagnóstico clínico que as confundiram.

       Veridiana estava certa de que se tratasse de um enfarte e obrigara, assim, a amiga a passar por uma consulta de emergência. Ao chegarem, viu-a ser levada imediatamente para a UTI. Por isso telefonara para a sua casa avisando Johnny. No entanto, meia hora depois, médicos, enfermeiros e seguranças perguntavam-se pelo paradeiro da paciente, que, no final das contas, teve seu diagnóstico drasticamente corrigido, o enfarte substituído por uma crise de flatulência. Faltava agora encontrar a paciente para informá-la a respeito. E coube a Rodrigo, primeiro, seguir a namorada até a UTI, com a certeza de que se ele lhe dissesse que sua avó não estava na UTI, ela não acreditaria, tinha então de deixá-la ver para crer.

       Agora, de mãos dadas com Karen, percorria o caminho inverso e voltava pelo corredor até o saguão.

       Veridiana acelerara os passos, a bolsa colada contra o peito, a vontade de rir misturada ao alívio e à angústia que lhe haviam comprimido o peito. Talvez também não fosse somente angústia. Não fora apenas Ninita que comera repolho no almoço.

       Ao alcançarem as portas duplas do saguão, o celular de Karen vibrou, e Cristiano aproximou-se de Rodrigo, jogando um pouco de luz às buscas:

       ― Acho que a dona Ninita estava à procura de vocês... ― comentou com casualidade, ainda que houvesse um traço de divertimento no olhar.

       ― Onde você a viu, Cris? ― indagou Rodrigo.

       ― Bom, ela me cumprimentou enquanto passava pela portaria. Confesso que achei estranho ela estar sozinha por aqui... Algum problema?

       ― Não, ela só aprontou mais uma vez. ― respondeu Karen quase contente e dirigindo sua atenção para o aparelho. ― A ligação é de casa. ― disse a Rodrigo enquanto esperava o reconhecimento da voz do outro lado da linha, e ele veio: ― Vó? Aonde se meteu, sua doida?

       Rodrigo sorriu satisfeito com o rumo da história. Um pouco de leveza não limparia a mancha de sangue daquele dia, mas também não o tornaria inesquecível.

       Do outro lado do celular, vó Ninita avisou que arrumara carona com um motoqueiro-caubói e esperava-os para o jantar. Acrescentou à declaração que se sentia muito bem para quem enfartara e que enfartar nem era tão ruim assim, as pessoas realmente exageravam muito esse lance de enfarte. Karen, por sua vez, suspirou e a informou sobre o verdadeiro diagnóstico:

       ― Vó, sacana do meu coração, você não teve um enfarte, nada.

       ― Eu sabia! Aquela neurótica da Veridiana me obrigou a ir ao hospital. Que fiasco! Foi crise de pânico, né? Sabe que tenho pânico de ficar em casa e limpar o banheiro...

       Karen riu baixinho.

       ― Não, vó, foi crise de peido mesmo.

       Ouviu a gargalhada da avó, sem deixar de perceber a mão do pediatra no antebraço de Rodrigo ao conduzi-lo para uma parte discreta do saguão do hospital.

       O delegado deixou-se levar pelo amigo para um canto do corredor, próximo à máquina de café expresso, sentindo-se reanimado ante a perspectiva de emborcar um copo de café preto. Enfiou uma moeda pela fenda da máquina e aguardou o líquido descer no copo de isopor. Ao seu lado, o pediatra parecia agitado como se ele próprio já tivesse emborcado litros de cafeína.

       ― A cidade está em polvorosa, ninguém imaginava que o coronel estivesse envolvido com o tráfico de drogas. ― disse Cris, torcendo a comissura do lábio num esgar de desgosto.

       Cuidou para não se queimar ao ingerir a bebida. Os olhos, por entre a fumaça, captavam a chegada de uma mulher que ele amava demais da conta. Ainda assim, não desconsiderou o estado emocional do camarada que tinha ao redor do pescoço um estetoscópio.

       ― A vó já está em casa. Vamos? ― ela falou.

       Ele esticou a mão e fez um carinho na bochecha dela, sendo retribuído com um sorriso de acelerar o coração.

       Karen abraçou-se nele.

       ― Vamos, sim. Precisamos descansar, não é mesmo?

       ― Me diz uma coisa, Rodrigo, a polícia suspeitava que o coronel também fosse traficante?, digo isso, porque desde que cheguei a Matarana nunca ouvi rumor algum a respeito.

       Karen e Rodrigo perceberam o tom de falsa despreocupação do médico. A questão era que tudo o que envolvesse o coronel, a partir daquela manhã, corria o risco de respingar nela ou no delegado. Os músculos de seu corpo se tensionaram. E o homem que a apertava contra si com um braço ao redor dos seus ombros, beijou-a no topo da cabeça e considerou dar-lhe atenção antes de entrar naquele assunto com o médico:

       ― Por que não volta para casa, hã? Depois o Lucas passa aqui para me pegar, ainda tenho que resolver algumas coisas na DP.

       Ele queria ficar a sós com Cris ― ela considerou sem muita dificuldade, acatando sua determinação e beijando-o ligeiramente na boca.

       ― Adoro beijo de café. ― sussurrou por entre os lábios dele, antes de se afastar para fitar o rosto bonito e cansado sorrindo.

       Leve como uma pluma ― era assim que se sentia Rodrigo Malverde, naquele exato momento, paquerando ostensivamente a morena.

       ― Se por acaso eu chegar um pouco tarde...posso acordá-la?

       ― Não estarei dormindo quando você chegar.

       Ela afirmou com um sorriso de promessa.

       Ele precisou de meio minuto para se refazer da sensação de plenitude, antecipada plenitude, que logo mais teria ao seu lado. Admirou o corpo vestido no jeans gasto e sujo se afastar e respirou fundo, recompondo-se. O café estava quente, o dia fora quente, a noite prometia então um incêndio ― ele considerou, um sorriso malicioso dançava em seus lábios.

       Voltou-se para Cristiano Bittencourt, que aguardava com bastante interesse a sua resposta.

       ― Pois é, o coronel Marau deve ter entrado na onda do filho, que trouxe o empreendimento de Brasileia. Mas não posso negar que também fiquei surpreso com essa história, inclusive, com a quantidade de droga apreendida pelos federais.

       ― É verdade que a família do coronel desapareceu?

       ― Olha, Cris, o que sei é que não encontramos nenhum outro Marau na Coração de Ouro, nem vivo nem morto. Além disso, o salão da Giovana está fechado há mais de três dias. Vamos começar as buscas, mas, para mim, o Leonardo pôs a família num jatinho e a mandou para fora do Mato Grosso. A coisa estava engrossando para o lado dele e ele salvou a pele de quem importava.

       ― E agora Matarana pertence aos Dolejal. Como está a sua relação com o nosso amigo?

       Rodrigo engoliu o último gole, morno e amargo.

       ― Assim, assim, nada que emocione as nossas mães. Por quê?

       Cristiano, Rodrigo e Thales um dia foram amigos. Pescavam juntos, conversavam sobre a cidade que os abrigara desde que eles próprios eram considerados pelos demais como forasteiros e, num determinado momento, a amizade entre os três degringolou. O médico permaneceu relacionando-se com o fazendeiro e com o delegado; o fazendeiro manteve a promessa de proteger o delegado, e o último, por sua vez, deixou passar algumas atitudes arbitrárias do fazendeiro. Porém, nem o delegado nem o fazendeiro poderiam supor que o médico, pacato burguês contrário ao uso de armas, pudesse ser beligerante ao ponto de propor uma traição de grosso calibre:

       ― O que acha de livrar Matarana também das mãos dos Dolejal?

       O fazendeiro jamais traíra o delegado...

       ― O que? Acho que não entendi.

       ― Sei de algo que pode levar os Dolejal para detrás das grades. Só preciso saber o que é mais importante pra você, Rodrigo: sua inimizade com Thales ou sua amizade com o filho dele?

       O delegado jamais traíra o fazendeiro.

       Rodrigo farejou no ar uma nova tempestade.

        

       ― Não, Valéria, não sei onde estão guardados os pratos na cozinha. ― respondeu Thales calmamente, observando a mulher abrir portas e gavetas dos armários, sentado displicentemente à mesa ― Imagino que estejam bem escondidos, a Irene acredita ser a guardiã do casarão.

       Ainda não se livrara de todo da dor, embora a massagem e os remédios tivessem feito um bom serviço, assim como o analgésico oferecido por Valéria que também nocauteara o latejamento nos maxilares. Era para as porradas com o soco inglês fraturarem os ossos, se ele não tivesse o corpo treinado para aguentar espancamentos. 

       Estreitou os olhos ao observar a barra do vestido da mulher se erguer expondo boa parte de suas coxas, quando se abaixou a fim de investigar o compartimento inferior do armário embutido. Usava um tecido macio e com estampas delicadas, ligeiramente ajustado à sua cintura e seios, alças finas e babados ao redor da gola. O tom era um alaranjado escuro, discreto; um modelo barato comprado em alguma loja cujos preços eram acessíveis às classes menos favorecidas economicamente ― supôs Thales, já que a textura da roupa permitia a exposição em relevo do contorno da calcinha e sutiã de quem o usasse. E foram nesses pontos estratégicos do corpo de Valéria que Thales concentrou a sua atenção enquanto esticava as pernas debaixo da mesa e acendia um cigarro com o isqueiro.

       Ao vê-la levantar meio corpo, olhar ao redor pensativa e avançar em direção aos armários do outro lado do recinto, sugeriu sem conotação especial na voz, somente jogou a ideia no ar, sem mais nem menos:

       ― Pode estar lá em cima, a cozinheira é alta, uma alemoa que trabalhou anos na roça do Onório. ― apontou em direção ao local mencionado.

       Valéria arreganhou as portas duplas e perscrutou o lugar indicado. Deu dois passos para trás e esbarrou na ponta da mesa.

       ― Merda! Não vejo nada... Essa sua funcionária deve ter uns dois metros de altura. ― comentou em tom de brincadeira, pondo-se na ponta dos pés, o corpo todo espichado.

       ― Ela é bem mais alta que você, sim. Que tal subir numa cadeira?, ou prefere que eu a pegue no colo?

       Ela se voltou ao perceber o tom de troça na voz dele.

       ― Ou talvez você mesmo possa ver se os pratos estão lá dentro ou não. ― considerou com firmeza.

       Ele sorriu um sorriso preguiçoso.

       ― Ah, não faça isso comigo, minha querida, estou ferido.

       ― Então pare de dar ordens. ― falou com mau humor, preparando-se para subir na cadeira de espaldar alto, posicionada junto ao balcão.

       Encontrou os benditos pratos de pão no fundo do armário. Aliás, encontrou duas dezenas de pratos de cerâmica ladeadas por uma pilha de prato de porcelana. Não sabia qual o tipo que Irene permitia o uso. Pôs o dedo sobre os lábios, incerta. Aquele era o reduto da governanta, lugar onde nem mesmo Thales Dolejal possuía jurisdição. Valéria só estava ali para preparar um lanchinho inofensivo para ambos, embora as ordens de Thales e o seu olhar cravado em seu traseiro e peitos a deixassem inquieta.

       Ouviu o estalo da cadeira atrás de si e quase despencou da sua.

       ― Opa!, cuidado para não cair, mulher! ― falou ele, a voz cheia de calor se arrastando rouca junto com a respiração.

       Duas mãos se posicionaram ao longo de seu corpo, firmando-a nas coxas, a quentura das palmas atravessando o tecido da roupa.

       Valéria sentiu os joelhos fraquejarem, respirou fundo, irritada consigo mesma. O que estava acontecendo com o seu cérebro que funcionava agora como se fosse, todo ele, um mero órgão sexual? Onde estavam enfiados aqueles bestas arrogantes chamados neurônios?

       A cadeira balançou porque suas pernas oscilaram.

       Ele estava lá para segurá-la, não sorria ao colidir seus olhos com os dela, apenas deixou os dedos longos descerem devagar até a barra do vestido para tocarem a pele de sua perna. 

       Decidida, deu-lhe as costas e pegou dois pratos antes de perder o equilíbrio.

      Thales apertou-a ao seu tórax, os braços a envolveram para, em seguida, soltarem-na. Um sorriso superior nos lábios dele, a postura do predador em posição de ataque.

       Quando ela desceu da cadeira e se virou para depositar a louça sobre a mesa, percebeu que fizera o movimento errado, jamais se dava às costas a um felino. E ele aproveitou o deslize sem hesitar um segundo, colando o corpo no dela, uma mão rodeou-lhe o abdômen puxando-a para si, para a dureza de seu quadril, para a força de sua musculatura e para a intenção explícita de tê-la, ali, sem grandes floreios.

       ― Acho que só um sanduíche não matará a minha fome. ― sussurrou ao seu ouvido, dedos subindo por baixo do tecido simples, a barra junto. ― Qual é o tamanho da sua fome, Valéria?

       Num giro preciso, ela se pôs de frente diante dele. Ergueu a cabeça para olhá-lo e mostrar que dentro dos seus olhos, no fundo da retina, ele, Thales Dolejal, jazia deitado sobre uma grelha.

       E ele se viu dentro dela. O fogo ao redor. A necessidade. Já era não mais uma questão de sedução ou um jogo de poder; era a necessidade dos instintos, da preservação da espécie e do que deveria ser feito quando um homem e uma mulher queriam.

       Ela deixou o ar escapar pela boca ao sentir os dentes dele em seu pescoço, o mordiscar erótico na pele sobre a veia grossa que pulsava o sangue em brasa. Estendeu a cabeça para trás oferecendo-se toda e, com isso, o corpo em arco, pressionava ainda mais os seios volumosos contra o tecido do vestido. A fricção da textura do sutiã nos mamilos e o endurecimento deles em resposta às carícias do homem com a barba por fazer esfregando pele contra pele.

       Até que ele parou. E ela foi obrigada a esperar que a cozinha parasse de girar para encará-lo. A missão não foi nada fácil, aceitar a intromissão da força do seu olhar, o azul destacado pela coloração avermelhada e escura dos hematomas nos maxilares, a feição congelada numa expressão séria, concentrada, que somente denunciava as chamas que o consumiam na dilatação das narinas ― a respiração pesada de quem subia de joelhos o pico mais alto do autocontrole. Adestrara as sensações e os sentimentos como um pugilista que treina os golpes no saco de areia antes da luta.

       Thales só precisava decidir se continuaria por aquele caminho, a mulher em suas mãos, o quadril entre as pernas dela...

       ― Você me deixa louco, Valéria. ― admitiu com a voz rouca e, baixando a cabeça, um sorriso malévolo iluminou o que veio a seguir: ― E não é apenas o seu corpo delicioso que me enlouquece de tesão nem seus olhos verdes ou suas sardas... tampouco a intenção de tentar imitar a minha Karen... ― ele sorriu ainda mais e completou com genuíno prazer: ― Você é praticamente uma suicida se entregando a mim sem oferecer qualquer resistência e é isso que me atrai, que me joga para você, que me deixa completamente com fome de você. ― uma mão agarrou um punhado de mechas escuras e lisas do cabelo dela, sem puxar, apenas a manteve com a cabeça virada em sua direção: ― Confesso que tenho dedo podre para escolher mulher, mas definitivamente, dessa vez, eu me superei. ― completou com um sorriso quase feliz e depois a ergueu para a beirada da mesa e arrancou a calcinha dela.

       Quando se enfiou fundo e duro entre as pernas dela e a ouviu gemer alto com os braços deitados para trás da cabeça, ao longo da superfície da mesa, os seios balançando até escapar do decote ― quando ele meteu com força e, em seguida, mal deslocou os quadris, intercalando o ritmo e retendo o extravasamento de si dentro dela até vê-la estremecer e transpirar enquanto afastava ainda mais as pernas para recebê-lo todo, grande, potente ― quando ele mandou que ela não tapasse a boca porque queria ouvi-la gemer, gritar, suplicar, e ela obedeceu-lhe e gritou, gemeu, arqueou a coluna ao ser atingida em cheio pelo orgasmo ― quando viu que queria e precisava beijá-la na boca antes e depois de gozar, descobriu também que o único caminho era continuar no mesmo caminho, com ela, com a falsa submissa que fatalmente o dominaria.

       Ele virou a cabeça e beijou a parte lateral do seu pé. O prazer de vê-la arfando, exaurida, deitada na mesa e com as pernas abertas e postas sobre cada ombro dele, propiciava-lhe a visão da luxúria inebriante do proibido. Ela respirava com força e as abas do seu nariz se dilatavam, assim como o ar inflava o seu peito, fazendo-o subir e descer, estremecendo a cada golfada.

       Pegou-a por baixo das nádegas e enterrou-se nela mais uma vez, até o fundo. Dentro dela era bom, ele queria ficar ali, apertado, aconchegado. Sentiu-a estremecer e se contrair. Ela gozou como se fosse morrer. E ele esperou a sua vez, a boca apertada, as veias nas têmporas latejando, as mãos apertando forte o volume macio que tinha em mãos. Despejou-se nela sem piedade, arremetendo como um desesperado que vencera a morte. Chupou o lóbulo da orelha dela enquanto esperava o coração e a respiração voltar ao ritmo normal.

       Um sorriso maldoso se formou em seus lábios ao pensar a respeito do que fizera, agora, depois de fazer sexo com ela.

       Comera a irmã mais nova de Rodrigo Malverde.

       Puxou-a contra o seu tórax e beijou o primeiro filete de lágrimas que escorregou do rosto dela.

       ― Machuquei? ― perguntou baixinho, interessado.

       Ela tentou sorrir e fez que não com a cabeça.

       ― Você me fez feliz, só isso.

       Estalou a língua no palato e tornou a beijá-la no rosto. Depois a pegou no colo e subiu para a suíte principal. Ela não chorava mais, e ele a carregou para o quarto disposto a desmascará-la.

       Jogou-a contra a cama debaixo do dossel e a olhou com desprezo. A dor da surra pela manhã ardia como uma picada de inseto perto do sentimento que o consumia. Mal descolando os lábios, indagou à mulher nua debaixo do vestido:

       ― Acha mesmo que tem cacife para se meter comigo?

       Valéria engoliu em seco, confusa. Não sabia o que responder, visto que poucos minutos atrás fora beijada apaixonadamente.

       ― Moralista hipócrita.

       O menosprezo era evidente ao lhe dar as costas para sair do quarto e deixá-la na cama dele marcada pelos arranhões de sua barba e perfumada com o cheiro da sua pele. Tensa. Os cotovelos cravados sobre os travesseiros, o peito arfando. O que estava acontecendo?, ela se perguntava.

       Thales foi até a porta e estacou. Brigava consigo mesmo, quase era possível ver os soldadinhos atirando uns contra os outros com suas espingardas. Ele ganhava a batalha? Ele perdia?

       Ao girar sobre os calcanhares, encará-la, cruzar o espaço até a cama e arrancar o próprio robe do corpo para possuí-la mais uma vez e outra vez, ela ainda não sabia se aquele homem seguia a vontade do seu coração ou a contrariava.

       Mais tarde, sentia-o dentro dela, mas ele já não estava mais. Ela fitava o dossel, o antebraço sobre a testa, a sinfonia dos músculos latejando e o vazio que ainda parecia preenchido pelo sexo dele. Tentou não ficar feliz, era recomendável não exagerar na ingestão de sentimentos haja vista que a fonte de sua felicidade era um homem bastante complicado.

       Olhou-o de esguelha, incapaz de se mexer debaixo do lençol, a pressão da boca masculina ainda tatuada em cada centímetro de pele depois de Thales Dolejal desbravar-lhe o corpo com o sexo, os dedos, a boca, os dentes, a língua, todo ele, inteiro. E, agora, fumava sem pressa, observando a fumaça subir e desaparecer engolida pela claridade fugidia do abajur sobre o criado-mudo. Nu, as pernas estiradas ao longo da cama displicentemente e recostado sobre vários travesseiros, fronhas brancas, cinza, pretas.

       Ele se virou para vê-la, por entre a fumaça, com o cabelo desgrenhado e um sorriso juvenil. A mulher era mais perigosa do que ele supunha.

       ― Por que está enrolada no lençol? O que ainda não vi que está me escondendo?

       Valéria um dia se acostumaria ao modo direto de Thales falar e agir. Diplomacia, rodeios, insinuações ou sutileza estavam fora de cogitação. Mas ainda era cedo para não sentir o impacto do que quer que fosse vindo dele. Baixou a cabeça meio sem jeito, tentou manter o sorriso, pois a felicidade que sentia ― afinal, fizera amor com o ogro que amava, era maior que a vergonha de dizer que ainda não se aceitava o suficiente para se expor fisicamente sem reservas. Ele não entenderia. Era preciso ser mulher para compreender que não era uma questão de se sentir inferior ao homem com o qual compartilhara a nudez e a cama; a questão essencial, nesse caso, era que simplesmente não se sentia segura nem bela. Se Thales a amasse de verdade, Valéria jogaria o lençol para o lado e se mostraria insinuante e sexy, mas eles tinham feito sexo.

       ― Nem tudo o que fazemos com o nosso corpo é bonito, Thales, prefiro manter certo mistério, não desvelar todos os véus.

       Ele apertou os olhos, desconfiado. Ainda sorrindo, virou-se e apertou a bagana no cinzeiro pondo-se, em seguida, de joelhos e puxou com força e precisão o lençol do corpo dela. De posse da roupa de cama, afirmou, sem deixar qualquer sombra de dúvida a respeito a que se referia:

       ― Que frescura é essa, Valéria? Fez curso de etiqueta para se portar bem na cama?

       Não conseguiu evitar o impulso de tapar os seios com um braço e o outro, disfarçadamente, desceu por sobre o abdômen. Odiava-se por se empanturrar e beber como se não houvesse amanhã, isso por anos, aplacando uma fome que não era reclamada pelo corpo. Subnutrida e esquálida estava a alma da mulher que vivia dentro daquele corpo grande.

       ― Essa ideia é minha mesmo... ― comentou sem graça, procurando disfarçar o constrangimento de ser vasculhada pelos olhos dele. ― Comecei a malhar há pouco tempo, falei pra você, né? Pois bem, aí perco essa barriguinha, nada como cinco mil abdominais por dia... ― riu um riso rápido e desviou os olhos dos dele, que pareciam armados para deflagrar um projétil certeiro em sua direção.

       Mas ele nada fez que não fosse se espichar e apertar um dos botões num painel próximo ao criado-mudo, e as lâmpadas do lustre do teto acenderam seus 100 watts iluminando uma mulher que agora se encolhia.

       ― Por favor... Thales...

       Ela já não mais sorria.

       ― Chega de jogos, para de bancar a complexada! Você não está vendo a mesma mulher que eu vejo, a maquiagem borrada e o olhar de quem foi bem comida mas ainda não está satisfeita. Quer jogar comigo? Quer fazer tipo? Não sou muito chegado a putinhas com falsa baixa autoestima. Aliás, a única coisa que não é falso em você é esse seu corpo...

       ― Por que é sempre tão agressivo comigo?

       ― Sabe a resposta.

       Ele se encurvou e pegou-a pelos antebraços, afastando-os dos seios, e expondo-a aos seus olhos duros e ligeiramente irônicos.

       ― Ah, sim, sou uma hipócrita moralista... ― ela retrucou com amarga ironia, sem oferecer resistência a ele.

       Segurando-a pelos braços presos no alto da cabeça dela, Thales baixou a boca até roçá-la no bico do seio e depois no outro, a ponta da língua, nada mais que isso. Afastou-se, sem, no entanto, soltá-la.

       ― Você é linda, linda mesmo. ― falou, o tom sério de quem comunicava algo solene; a seguir, completou com malícia: ― Linda e gostosa. A sua academia, minha querida, é foder comigo, entendeu? É assim que manterá a forma. Por mais que seja a farsante que é, uma safada manipuladora, quero tê-la por perto, tão perto que seja impossível haver espaço entre nós dois para que eu receba uma facada.

       ― Jamais o trairia...

       ― Perfeita, bem do jeito que as farsantes falam. ― debochou.

       ― Como protege as mulheres se as odeia?

       ― Preciso amá-las para protegê-las? O seu irmãozinho protege os bandidos dos meus homens e do linchamento público, mas tenho certeza de que ele não os ama. ― a voz carregada de amargura e ironia.

       ― Por que me odeia, Thales?

       ― Não se dê tanta importância.

       ― Já conseguiu se vingar. Você venceu; eu perdi.

       Ele vasculhou sua expressão entristecida, atento.

       ― Venci? Como pode dizer que eu venci se é você quem está comigo? Acho que deveria ser a Karen, não?

       Em resposta, ela tentou se soltar.

       ― Então nós dois perdemos! Agora me solta que quero ir para casa. Parece que se recuperou muito bem da surra, não precisa mais de mim. ― disse, ressentida.

       ― Nunca precisei de você, veio aqui para se sentir importante pra si mesma. Imagino que a sua missão na vida seja me salvar do tal monstro e ficou bem feliz me vendo fodido na cama, à sua mercê, aos cuidados da inútil da cidade.

       ― Me solta! ― gritou, as lágrimas na garganta.

       ― Mas não era isso que queria? Uma aventura erótica com um homem atormentado? ― debochou, ampliando o sorriso e completando: ― Você já passou dos trinta, Valéria, agora não dá mais para ficar escolhendo muito...

       Ela ergueu o joelho para acertá-lo na virilha. Porém, a perna ficou presa numa garra firme, que, num gesto rápido e brusco, subiu para a parte interna da coxa e puxou-a para o lado, desprotegendo o sexo.

       ― O que quer que eu faça?  ― ela perguntou num tom de desafio. ― Me diz, hein? Quer que eu traga a Karen amarrada? Eles se amam pra valer, Thales! Se me tratar bem ou mal, não vai mudar o fato de que nunca mais terá a Karen. Acabou, seu merda!

       Ele riu com vontade.

       ― “Seu merda”? foi isso mesmo que ouvi?

       ― Um homem que pede em casamento uma mulher que acabou de meter a mão na cara dele e humilha outra que veio cuidar dos seus machucados só pode ser um legítimo merda. Não quero mais saber de você, jogo a toalha, vou embora pra minha casa...

       Ele continuava rindo e segurando os pulsos dela com apenas uma mão. Divertia-se com a sua rebeldia.

       ― Quando fala grosso comigo me deixa de pau duro, Valéria.

       ― Não acredito que goste de ser maltratado, ninguém gosta! Eu pelo menos já estou farta disso!

       Fechou os olhos e respirou fundo. Lutava contra as lágrimas e contra a realidade que não queria encarar. Thales não batia bem da cabeça. E ela era louca por ele.

       ― Se eu meter agora em você, vai considerar como um estupro?

       A voz dele era tão calma que ela se obrigou a encará-lo parta ter certeza de que ouvira o que pensara ouvir:

       ― O que?

       Ele entortou o canto do lábio para baixo e meio que se justificou:

       ― Sexo depois de uma briga é o melhor sexo.

       ― Será que não percebe que... ― ela parou, as palavras fugiram, um branco total. Impôs-se retomar o que ficara suspenso e concluiu, balançando a cabeça em negativo, água rasa nos olhos: ― Não pode me tratar como um objeto para sua satisfação sexual. Não pode me maltratar e depois... e depois querer fazer amor comigo. Isso está errado.

       ― Errado é você querer que eu faça isso, não é? ― provocou-a sagazmente. ― Que merda fazer parte de algo que condena e, ainda assim, querer ficar e viver isso até o talo. Que diabo se interessar por alguém que pode não valer nada e mais uma vez foder com os seus sentimentos e bagunçar a sua vida. Que coisa séria, né, minha querida?

       ― Está falando de mim?

       ― Estou falando de nós dois.

       Ela deixou as lágrimas brincarem no seu rosto. A angústia a sufocava.

       ― Tem razão, quero fazer amor com você mesmo depois de ter me ofendido. Acho que para algumas pessoas o amor vem em forma de doença...

       ― E para outras ele nem dá as caras, Valéria, então somos dois sortudos.

       Sim, dois sortudos. Ela o amava. E ele amava Karen.

       Thales sorriu; não foi um simples sorriso, um espichar de lábios e os dentes à mostra, foi um gesto de cumplicidade e determinação.

       Valéria sabia que ele faria o diabo com ela.

       Thales não permitiria que ela fizesse o diabo com ele.

       Eles erraram.

         

       Acordou de um sono profundo, esticou o braço e percebeu que estava sozinha na cama. Valéria achou tão clichê despertar sem a companhia do homem que lhe proporcionara tanto prazer que estranhou ouvir um barulho do outro lado do quarto.

       À luz do abajur, vislumbrou a silhueta alta e encorpada nua, as nádegas pequenas e duras encimando as coxas musculosas. Thales remexia o interior da bolsa dela.

       ― Perdeu alguma coisa aí? ― ela perguntou numa voz sonolenta e divertida.

       Ele nem se voltou para responder por cima do ombro:

       ― Onde estão os analgésicos?

       Ela pulou para fora da cama imediatamente. Se ele procurava remédios para aliviar a dor, era porque a coisa estava feia. A culpa era dela; afinal, fora para a fazenda a fim de cuidar dele e não para esgotá-lo de tanto fazer sexo.

       Ao se encaminhar até ele, notou que também estava dolorida, ligeiramente dolorida, nos lugares em seu corpo onde ele se concentrara com mais vigor. Era uma dorzinha boa de quem se sentia muito bem, por sinal. Teve vontade de abraçá-lo por trás e beijar as marcas de suas cicatrizes. Não sabia qual seria sua reação a tal gesto. Entretanto, optou por manter a espontaneidade que sempre marcara a sua personalidade (para o bem e para as gafes) e fez o que o seu coração mandava. Rodeou-lhe a cintura com os braços e deitou a cabeça de lado contra o dorso largo e morno, sentiu na bochecha a aspereza de algumas cicatrizes. Afastou-se o suficiente para tocá-las suavemente com a boca, uma carícia terna que demonstrava que o amor que sentia por ele era mais que o amor sexual, muito mais.

       Ele não se mexeu, além de abrir a embalagem e engolir o remédio.

       Quando Valéria fez menção de se soltar a fim de não irritá-lo com suas manias de mulherzinha apaixonada, Thales, para variar, imprevisível, pegou sua mão e, virando-se para ela, beijou cada dedo, os olhos nos dela.

        ― Vamos para a hidro, meus músculos estão em frangalhos. ― determinou, uma nota de divertimento na expressão séria.

       Ela continuou olhando para ele, entre aturdida e fascinada. O comportamento de Thales era um caleidoscópio de sentimentos, uma combinação arrebatadora de alguém que tentava combater os seus próprios extremos. Em poucas horas, Valéria fora tomada por um turbilhão de sensações e emoções, arrastada por ele, ao sabor da maré que fazia parte da vastidão do mar azul e profundo e misterioso que era aquele homem.

       Percebeu a mão balançando ao longo do corpo, a mão dele, os dedos preparados para receber os dela, a intenção explícita no gesto que dizia: vou guiá-la como a minha vontade determinar. A questão era que entre eles não haveria quedas de braço. Para a irmã do delegado, criada num lar com amor, aceitar a força e o domínio de alguém que precisara se impor a vida inteira para sobreviver também era um gesto de amor, do seu amor por ele, a aceitação das suas determinações sem atingi-lo no ego ou, como o próprio Thales mencionara, a sua autoestima. Ela não queria o desgaste do domínio; preferia a zona de conforto da aceitação. Que Thales interpretava como um tipo de “rebeldia silenciosa”.

       A preparação do banho na Jacuzzi foi feita por ela, enquanto Thales aguardava sentado numa poltrona próxima ao jardim de inverno no banheiro. A testa franzida expressava a dor que o analgésico ainda não havia combatido. Uma das mãos pressionava ligeiramente a têmpora esquerda.

       ― Temos de ir a Santa Fé consultar um médico. ― ela sugeriu.

       Ele cruzou as pernas como as mulheres faziam ao sentar e respondeu desinteressado:

       ― Não tenho nada quebrado.

       ― A culpa é minha, vim para cuidar de você. Às vezes me falta maturidade e, talvez, vergonha na cara.

       ― É verdade, Valéria, você é uma sem-vergonha mesmo. ― afirmou com um meio sorriso: ― Mas não foi você quem me nocauteou totalmente; você apenas pôs na lona o meu pau.

       Eles riram, e Valéria aproveitou o bom humor dele:

       ― Não sabia que gostava de tomar banho com sais perfumados. ― pegou a embalagem sofisticada e leu o rótulo: ― Hmm, morango...Dizem que é afrodisíaco.

       ― Pensei que fosse uma fruta. ― debochou.

       Valéria era uma mulher estranhamente corajosa, mas, mais do que isso, curiosa:

       ― Já dividiu essa Jacuzzi com outra mulher?

       Ele se levantou devagar, ainda apertando a parte lateral da testa, e se encaminhou até ela.

       ― Se eu disser que não pensará que, com isso, você é importante pra mim?

       Ela sorriu um sorriso de desafio.

       ― Só quero saber se já trouxe alguém para o seu quarto, além da Karen e da sua ex-noiva texana...

       ― Pode perguntar o que quiser, minha querida, sinta-se à vontade para fuxicar, não me importo. E se, por acaso, levar nos cornos o problema é inteiramente seu. ― afirmou com um sorriso satânico.

       ― Então responde o que perguntei, ora.

       ― Certo. Para o quarto levei a Mary Jessica e uma vez a Karen.

       ― E aqui na Jacuzzi...?

       Ele enfiou os olhos azuis nos dela. Detestava ter de admitir o que ela queria ouvir, sabia exatamente o que ela queria ouvir.

       ― Esse nível de intimidade ainda não foi compartilhado com nenhuma mulher, se é que quer saber. ― enganchou dois dedos debaixo do queixo dela e completou com bastante tranquilidade: ― O que não significa porra nenhuma, Valéria Malverde.

       Os dedos desceram do seu queixo para o pescoço, a mão se abriu como se fosse esgoelá-la, embora não houvesse força alguma naquele gesto e fosse mais como um modo de firmar-lhe a cabeça para aceitar a violência do seu beijo. E ainda beijando-a, lábios e língua chupando a sua, as mãos puxaram-na para si, o corpo dela sem roupa, sem lençol, apenas vestido pela luz suave da iluminação indireta do ambiente. Ao fundo, a trilha sonora era a respiração baixa e rouca dele e o som da banheira se enchendo de água.

       Após se desvencilhar dela, Thales admirou-a toda, fixando seu olhar ostensivamente no rosto dela, a feição impassível usada como uma máscara que sempre o protegera. Tenso, preocupado, encantado. Sempre se interessara por fêmeas combativas, guerrilheiras, loucas assassinas, mulheres movidas pela adrenalina, alfas, dominantes, briga de fodões na cama e fora dela.

       ― Você tem um vestido preto?

       Nunca percebera a beleza da fragilidade.

       Valéria, boca inchada e peito explodindo, sorriu sem compreender.

       Ele indicou a banheira com um meneio de cabeça. A espuma transbordava, e Val teve de desligar as torneiras, pensando sobre o interesse dele em relação às suas roupas. Bom, isso já não era de hoje...

       ― Tenho aquele pedaço de pano que comprou pra mim.

       ― Pode ser esse mesmo. Temos um enterro para ir. ― comunicou enquanto se dirigia para a banheira, puxando-a pela mão. Como ela não saiu do lugar, se virou e perguntou de forma jocosa: ― Consegue pensar caminhando?

       Ela esboçou um sorriso amarelo e entrou na banheira, postando-se do lado oposto ao dele. O cheiro da água era como o cheiro de uma plantação de morangos mornos. Procurou não molhar o cabelo, vendo que Thales fazia o contrário, deitando a cabeça para trás.

       ― Vida de rico é outra coisa. ― comentou, espirituosa.

       Ele sorriu assentindo levemente.

       ― Vem para mais perto, não vou mordê-la...novamente.

       Puxou-a para si até que suas costas encontrassem o tórax dele e os braços que a envolveram num abraço cheio de espuma.

       ― Acha apropriado ir ao enterro do coronel do jeito que está? Pensa bem, o coronel morre e você aparece ferido.

       ― Tenho de falar com o delegado para saber como está a minha situação. ― considerou, pensativo.

       A menção ao seu irmão a fez endurecer a coluna.

       ― O Rodrigo não fará nada contra você.

       Thales riu baixinho e apertou-a mais contra si:

       ― Não se preocupe com o maninho, ele sempre esteve seguro comigo, ainda que seja tão irritante quanto à irmã. Além disso, nós dois agora temos motivos para nos protegermos mutuamente.

       Valéria se sentiu incomodada com a observação, tentou se afastar, mas foi impedida pela prisão de braços ao seu redor.

       ― Vai jogar na cara do Rodrigo que dormiu comigo, é isso?

       Thales olhou-a, confuso, tentando completar as lacunas da ideia que, ao seu ver, parecia incoerente. Desistiu e foi direto ao ponto:

       ― Falo sobre a morte do coronel. Eu e ele estamos protegendo a mesma pessoa. ― em seguida, entortou o canto do lábio numa careta engraçada: ― Meu Deus, Valéria, você não precisa de muito material para distorcer as coisas, não é? Me diz, além de falsa é neurótica também?

       ― Não sei de onde tirou que sou falsa. ― reclamou com azedume.

       ― É falsa, sim.

       Ela se virou, irritada, e o encontrou sorrindo.

       ― Não é? ― provocou-a.

       A irritação se dissipou por entre a espuma. Suspirou pesadamente e o beijou, cuidando para não pressionar-lhe os maxilares. Depois se afastou dele e sugeriu:

       ― Por que não inventa que se machucou na fazenda ou algo do tipo? Sabe muito bem o quanto é fácil surgirem rumores.

       ― Ligarei para o Jornal, e eles publicarão na primeira página que Thales Dolejal caiu do cavalo. O que acha?

       ― Acho que amo você e o seu bom humor. ― disse com simplicidade.

       ― É mesmo? ― indagou, estreitando os olhos, desconfiado.

       ― E amo também essa banheira.

       Ele riu, apertando possessivamente as nádegas dela.

       ― E eu, Valéria, amo a sua bunda. ― observando que o elogio não era bem o que ela esperava, ele se obrigou a amenizar a situação criada: ― Nem toda a história de amor começa pelo coração, as mais duradoras começam debaixo.

       Bem, o que ela podia dizer? Ele dividira a banheira com ela e falara numa mesma sentença as palavras coração e amor. Val sorriu feito uma princesa de contos de fada, embora o príncipe em questão fosse bipolar.

       E era óbvio que para encerrar a noite com chave de ouro, antes de decidirem voltar para a cama, ele avisou com ar superior:

       ― Caso eu continue bonzinho com você, agradeça a esse analgésico para derrubar cavalos.

       Amanheceu do outro lado daquela vida que era o quarto com Thales. Ela não acordou, porque depois do banho não dormiu. Deitara a cabeça no peito dele, já na cama, e aproveitara os efeitos do paracetamol, como ele sugerira. Ficou quietinha recebendo o carinho dos dedos que se misturavam às mechas do seu cabelo até que a carícia parou, e ela notou que ele havia adormecido. Ajeitou os travesseiros para tornar mais confortável seu sono e juntou do chão o lençol que fora desprezado até poucas horas atrás. Cobriu-o até a cintura e tocou-o na testa com o dorso da mão. As horas, poucas, era verdade, passaram, e ela se distraiu vendo-o respirar.

       Percebeu o amanhecer porque a fazenda acordou com o sol, com o dia vivo de azul. Saiu da cama com cuidado, abriu os janelões que davam para o terraço e, vestida no robe dele, acarinhada pelo cheiro que se desprendia da seda, postou-se à amurada com um sorriso de amor proibido.

       Os pistoleiros não foram discretos ao virarem a cabeça em direção ao terraço da suíte do patrão. E ela sabia que em pouco tempo se tornaria a mulher mais falada da cidade, a nova vaca louca de Thales Dolejal. Seria apontada como a sua amante. Sabrina e Rodrigo também receberiam os respingos de sua má fama. A filha se preparava para trabalhar no hospital e começar sua carreira profissional, e, numa cidade pequena, o constrangimento a atingiria em cheio. E quanto ao delegado de polícia... Bem, ele meio que já estava acostumado, uma vez que vivia com Karen. Mas ela e sua filha, não. Valéria Malverde prezava a sua boa reputação.

       Perdeu o sorriso.

       Iria ao enterro do coronel com ele. Ainda mais que boa parte da cidade estaria lá, inclusive Rodrigo, e, dessa forma, ninguém desconfiaria que ela e Thales haviam-se tornado amantes.

       Voltou para o quarto, e o encontrou esfregando devagar os olhos machucados ainda sonolentos. Bocejou e cravou os antebraços na cama, indagando sem rodeios:

       ― Está arrependida?

       A sua expressão preocupada a delatara. Ela tentou sorrir e escapar da intromissão daquele olhar perscrutador. Antes que falasse qualquer coisa, ele atalhou com secura:

       ― Não precisa responder. A porta sempre estará aberta para você ir e voltar. Era assim com a Karen.

       Depois se sentou na cama e bocejou mais uma vez, pressionando a nuca com a mão.

       ― Mas se vai ficar, é bom se preparar. Temos um enterro depois do almoço. Vou pegá-la na Confeitaria a uma da tarde. ― voltou-se para ela e continuou, informando-a: ― Almoço no Arizona quando tenho compromisso na cidade.

       Apertou-se dentro do robe dele.

       ― O que foi, Valéria?

       Como dizer que temia se tornar mal falada? Logo para ele, dizer isso “para ele”, que desprezava convenções e os tais “moralismos”?

       ― Nada.

       ― Então vamos tomar café. Precisamos trabalhar, não é mesmo?

       ― Sim, Thales.

       Ele sorriu e estendeu-lhe a mão.

       ― Vem aqui, vem. ― puxou-a para a cama: ― Sabia que faz bem à saúde provar o gosto de uma mulher bonita antes do café da manhã?

       Havia luxúria e algo mais no olhar quente que se demorou nos olhos dela. Deus, como o amava!, ela quase gemeu.

       Ele soltou o cinto do robe e desceu a ponta dos dedos por seu abdômen, que se contraiu num espasmo como se tivesse recebido uma potente descarga elétrica. Ao encontrar o lugar tépido e úmido que ele tencionava buscar, baixou a cabeça e falou ao seu ouvido:

       ― Toda vez que disser “Sim, Thales” será gratificada por isso. É a recompensa pela devida obediência.

       Pensou que ele estivesse brincando haja vista o humor estranho que possuía. Mas nada indicava que fosse brincadeira, nem o olhar determinado nem a intenção de levá-la ao orgasmo com a boca.

       Ele sabia que não era assim que se conquistava a obediência de uma mulher, não era o sexo que as punham de joelhos.

       Após voltar do núcleo da Terra, ela ainda estava trêmula, ofegante e apertava o lençol com força entre os dedos.

       ― Quero que fique comigo.

       Era esse o momento certo para falar sobre os seus receios. Endereçou um longo olhar para ele. O coração batia forte. A garganta seca.

       ― Quero muito ficar com você.

       Só conseguiu dizer a parte importante.

       Ele suspirou fingindo impaciência e falou com um sorriso travesso:

       ― Se tivesse dito “Sim, Thales”, eu a foderia. Pois é, perdeu a chance, agora vamos enfim nos alimentar. ― acrescentou, levantando-se da cama com preguiça e se encaminhando lentamente, nu e lindo (como ela não pôde deixar de admirar), para o closet. ― Ah, minha querida, sua calcinha está debaixo da mesa da cozinha. Acho que a Irene deve tê-la guardado. ― piscou, satisfeito por vê-la vermelha de vergonha.

         

       Karen acordou antes do sol e se espreguiçou sem dispensar do corpo os vestígios do ato de amor com o namorado. Sorriu antes de abrir os olhos, a ressaca de uma noite bem vivida e maldormida impressa no cansaço agradável de cada músculo.

       Por estar só na cama, levantou-se e se abrigou vestindo a camisa xadrez do policial. Encontrou-o na academia improvisada na garagem.

       Ele caminhava na esteira sem pressa. I Walk  the Line estava alto e claro aos ouvidos. Mas ela prestou mais atenção no tórax nu, nos bíceps proeminentes e tríceps moldados e nos quadradinhos do seu abdômen, pouco acima do cós da calça de moletom cinza-chumbo.

       Não resistiu, parou à sua frente e disse numa voz sonolenta:

       ― A visão do paraíso bem no meio da garagem.

       Ele retirou os fones e franziu o cenho:

       ― O que?

       ― Eu disse que você é o homem mais lindo do mundo!

       Ele sorriu sem jeito. Não perdeu a cadência das passadas ao falar:

       ― Ah, me perdoa por acordá-la, mas nada como forçar os músculos para pôr em ordem os pensamentos. ― brincou, um sorriso desanimado denunciava seu estado de espírito.

       Ela não era uma mulher que enrolava fios ao redor de um novelo; na maior parte das vezes era aquela que criava os nós. Por isso foi direto ao ponto:

       ― Siga a sua consciência, é só isso que importa. O Thales tem uma equipe de advogados que não me deixarão passar mais de dez minutos na delegacia. Sabe como é a Justiça no Brasil para quem tem dinheiro, né?

       Rodrigo assentiu levemente retesando os maxilares.

       ― Essa questão já está resolvida, Karen.

       ― Mas não parece.

       ― Minha preocupação agora é outra. ― justificou-se, descendo da esteira e se sentando ao lado da mulher: ― O Cris jogou uma bomba no meu colo e ainda não sei se a desarmo ou a deixo explodir.

       ― O Cris? O nosso querido e inofensivo pediatra?

       ― Pois é, ― ele torceu a boca para baixo num ricto de amargura ― parece que ele também foi picado pelo vespeiro envenenado de Matarana, como diz o Dolejal.

       Karen passou a mão pelo cabelo dele e beijou-o na bochecha, um beijo de amiga  ― como antes e sempre o fora.

       ― Não quero me meter nos seus assuntos, mas... Bem, qual é a potência dessa bomba? Um rojãozinho de festa Junina ou uma bomba nuclear?

       Ele riu um riso cansado, desgostoso.

       ― Já viu uma fábrica de fogos de artifício explodir? É um espetáculo lindo e assustador, sobra pra todo mundo...

       ― Pra nós também?

       ― A bomba foi largada no “meu colo”, Karen. ― reafirmou, entristecido ― Indiretamente sobrará para nós também. Na verdade, uma família inteira será destruída.

       Dois blocos de concreto caíram sobre os ombros dela. Rodrigo não era o tipo de cara que escondia suas emoções e elas estavam todas lá na feição sombria quase desolada. Ela não sabia o que Cris lhe falara, que denúncia ou segredo revelara. No entanto, vindo do ex-amigo de Nova o alvo só podia ser Franco e, assim, a família atingida: os Dolejal.

       Encurvou-se colando os antebraços nos joelhos e virou a cabeça para ele, para o seu rosto voltado para o chão.

       ― Ai, meu Deus...me deixa te ajudar, por favor! ― pediu.

       Ela percebeu que, mais uma vez, ele vivia um dilema moral quando respondeu secamente:

       ― Isso é assunto exclusivo da polícia.

       Karen encolheu-se, pensativa.

       ― Polícia?

       ― O Cris me procurou como delegado e foi bem taxativo quanto a isso, me sondou antes para testar a calibragem dos meus princípios e depois se sentiu seguro para... ― ele parou, arou os cabelos com os dedos, impaciente consigo mesmo.

       Precisava confortá-lo.

       ― Rodrigo, você é a melhor pessoa que conheço, não apenas o melhor homem, digo com toda a certeza do meu coração, você é o melhor ser humano que já conheci. O que decidir a respeito será o correto, não duvido nadinha disso.

       Ele se voltou para ela e a olhou demoradamente. Puxou-a para si num abraço quente e apertado.

       ― Então casa comigo. ― murmurou ao seu ouvido.

       Eles riram. Precisavam rir, porque o ar se tornou pesado demais para respirar. Era uma avalanche de problemas, um atrás do outro, que não lhes davam trégua.

       ― Daqui a alguns meses teremos um bebezinho...

       Ela foi interrompida por um olhar direto e acrescido de uma indagação num tom desconfiado:

       ― Está grávida?

       Karen sorriu sem graça.

       ― Não, meu amor, falo do bebê da Nova e do Franco. Bem, eles nos escolheram para sermos os padrinhos dele e isso é uma grande responsabilidade. ― ela ganhou um ar sonhador ao afirmar com um sorriso terno: ― Imagina um bebezinho aqui em casa, hein! Vamos poder ficar com ela um ou outro fim de semana. Claro, se a possessividade do Franco permitir.

       Rodrigo fitou-a profundamente e revelou o que guardava para si havia anos:

       ― Acho que sou estéril, Karen.

       Por um minuto ou dois, eles ficaram se olhando. Ele sondava os efeitos daquela declaração haja vista que por tantas vezes falara em ter filhos com ela.

       Por fim, foi Karen quem tomou a iniciativa:

       ― Eu sei, teve uma época em que você e a Jasmine tentaram ter filhos, e ela acabou desistindo da ideia. ― tocou o rosto com carinho com carinho e continuou: ― Desde que estamos morando juntos não me preveni mais, então liguei uma coisa a outra.

       Ele assentiu sem muita vontade, ainda mais triste, descendo fosso adentro.

       ― Já temos o nosso Johnny, Rodrigo, e, agora, a nossa afilhada. E ainda temos a dona Sabrina que pensa que já é adulta. Amor, sou muita egoísta para querer dividi-lo com mais alguém, ainda que seja um filho nosso. Você me tornou uma mulherzinha mimada demais da conta! Quero que nada mude. Pra falar a verdade, quero sim que algo mude.

       O delegado tentou sorrir ao esperar pelo pedido dela, certo de que a atenderia.

       ― Quero que seja feliz comigo e que não carregue para si todo o peso do mundo. Você é feito de outra substância, sem dúvida alguma, mas ainda é apenas um ser humano.

       Os olhos de Rodrigo se encheram de água e o queixo tremeu ligeiramente.

       ― Sou muito feliz com você. ― ele afirmou numa voz emocionada.

       ― Apesar de tudo?

       ― O “apesar de tudo” não é nada perto do meu amor por você. Nada.

       Ele já sabia o que fazer desde que saíra do hospital, depois de ouvir o relato de Cris a respeito de sua investigação particular. A obsessão por Franco levara-o ao lugar onde supostamente o filho de Thales enterrara o corpo do matador de aluguel procurado pela polícia, Everaldo Viegas.

       A polícia recebera a denúncia informalmente. Rodrigo não era como Thales, não podia fazer justiça como bem quisesse, tinha de seguir a lei. E ele sabia o que deveria fazer, estudara para isso, conhecia o procedimento a respeito.

       O delegado de Matarana se levantou e falou numa voz clara e determinada:

       ― O doutor Cristiano Bittencourt indicou à polícia a localização do corpo do Everaldo, e ao meio-dia faremos uma diligência até lá.

       Karen nem piscou ao ouvir a informação.

       Rodrigo reafirmou sem se voltar para ela:

       ― Meio-dia, Karen, e isso não é meio-dia e cinco ou qualquer outro horário. ― acrescentou significativamente; em seguida, num tom menos sério continuou: ― Sei que fará bom uso dessa informação, assim como fez com a anterior.

       ― É para uma boa causa. ― balbuciou, surpresa e na defensiva.

       ― Claro que sim, por essa “boa causa” você se tornou uma criminosa. ― desferiu com escárnio.

       ― Viu só?, matei dois problemas com apenas um tiro. ― devolveu com um sorriso sem culpa.

       Não era de hoje que Karen Lisboa o deixava sem palavras.

         

       Valéria olhou com carinho para Thales ao lhe devolver o prato com a torrada coberta pela geleia, após servi-lo de café. A sincronia perfeita entre ambos, ela cumpria os pedidos dele, mesmo os silenciosos, antecipava-se a eles, inclusive; ao passo que Thales, dolorido o corpo e um pouco do ego depois da surra dos homens do coronel, mantinha-se calmo, pacificado e disposto a ficar de fato com a irmã do delegado, tomar conta dela, bancá-la, por exemplo.

       Ele retribuiu o olhar sem demonstrar o que passava dentro de si, a revolução que ameaçava se irromper, guerrilheiros atacando o imperador vigente, o homem que lutava para se livrar de um antigo amor. Acontecia, no caso, que os olhos verdes cheios de luz e paixão, o sorriso belo e o jeito tranquilo de uma personalidade sem requintes de dominação e controle acalmavam-no, embalava a sua alma num tipo de acondicionamento refrescante. Ela tinha de ser verdadeira ― ele torcia silenciosamente. Ela não podia estar fazendo tipo ou inventando uma personalidade flexível para golpeá-lo mais para frente, quando as suas reservas de homem que já levara nas guampas lhe caíssem por terra. Ele era forte, era verdade; mas era forte contra outros da sua espécie. Em relação à docilidade de uma moça simples, Thales Dolejal se sentia perdido.

       Então por que não se apaixonara por Mary Jessica, que também era dócil e submissa? ― pensou, precisando de poucos segundos para obter a resposta: porque Valéria não era submissa. Além disso, ele tinha de convir consigo mesmo, nunca vira nos olhos da ex-noiva texana o amor na sua forma mais explícita e intensa como via nos olhos de Valéria. Se ela era uma farsante, como ele lutava para acreditar que não, era excelente na intenção, excelente atriz. E Thales expulsaria a família Malverde inteira do centro-oeste se Valéria o enganasse.

       ― Acho que deveria acrescentar um pouquinho de leite nesse seu café. ― ela disse num tom meigo, pegando a alça do bule de inox com a intenção de servi-lo: ― Provavelmente passará a manhã inteira à base de expresso, não é mesmo?

       Ele ergueu a mão para contê-la, fitando-a detidamente e inclinado a contrariá-la, mas foi difícil resistir àquele tom de voz suave e ao sorriso quase infantil. Permitiu-se ser novamente servido e, de certa forma, conduzido por ela.

       ― Bem pouco, por favor.

       Ela assentiu, servindo-o, e franziu o cenho ao ouvir o celular vibrar sobre a mesa.

       Thales, contrariado, pediu desculpas e o atendeu. Era visível a metamorfose em seu semblante, da contrariedade à aprovação, talvez fascínio.

       Valéria já sabia quem estava do outro lado da linha e tal constatação a fez perder o sorriso.

       ― Não precisa se justificar, Karen, sei que tentou entrar em contato com Franco antes de mim... ― ele alçou a sobrancelha, surpreso, e indagou: ― Não...? E por que não? Pensei que o delegado a tivesse proibido de falar comigo...

       Thales voltou-se para Valéria com um leve sorriso divertido nos lábios e piscou o olho para ela, apontando para o prato à sua frente:

       ― Coma, mulher! ― ordenou, parecia leve como uma pluma, bem-humorado; em seguida, ao ouvir qualquer coisa de Karen, franziu o cenho e a feição se fechou imediatamente: ― Sempre contei com a sua inteligência, minha querida, se tivesse passado essa informação ao Franco o estrago teria sido devastador. ― ele suspirou pesadamente e prosseguiu: ― Tudo será resolvido agora mesmo, inclusive o destino do nosso amigo. Sinceramente, por essa eu não esperava. Bem, o que se pode fazer quando os amigos se comportam como inimigos... Tratá-los de acordo, não é verdade?

       Falavam sobre quem?, Valéria se perguntou, preocupada. Karen passava uma informação que, com certeza, não se referia a Rodrigo. Como Thales era um homem que possuía seguidores leais, mas não cultivava amizades... Cristiano.

       ― E como você está? Precisa de alguma coisa? ― perguntou, voltando seus olhos para a mulher ao seu lado. ― Jamais se esqueça do quanto você é importante para mim. ― depois, com um sorrisinho maldoso, perguntou com falsa naturalidade: ― Quer falar com sua amiga Valéria?

       Val engoliu em seco e baixou a cabeça, fingindo se concentrar na xícara que levava a boca, o gosto amargo do café.

       Ele desligou o celular e, no mesmo minuto, entrou em contato com Bronson, levantando-se da cadeira e se afastando, o gesto indicava que a conversa restringia-se aos homens da Arco Verde. E por isso ela só pôde acompanhá-lo com os olhos, vendo-o se afastar ainda mancando ligeiramente, a camisa social escura ajustada para dentro da calça do mesmo tom. Sério, gestos contidos, coluna ereta ― Thales determinava algo ao seu homem forte.

       Por um momento considerou que se a cunhada ainda se mantinha leal a Arco Verde, traficando informações da polícia, especificamente do delegado, ela também continuaria ao lado do seu irmão. Lealdade não era um sentimento circunstancial.

       Endereçou um rápido olhar ao homem ao telefone e digitou uma mensagem para Rodrigo: “Karen ligou para o Thales. Algo sobre traição de um amigo. Acho que o Cris cutucou a fera”. Apertou a tecla para enviar a mensagem, os pelos da nuca eriçados, um fio de eletricidade correndo pela coluna. 

       Thales voltava para a mesa, ainda ao celular, os olhos postos nela. O seu aparelho vibrou, arriscou um olhar para a tela que indicou uma mensagem recebida: “Por que está com o Dolejal a esta hora da manhã?”

       Instintivamente desligou o aparelho, mordendo o lábio inferior, nervosa. Agora Rodrigo sabia que ela passara a noite com Thales.

       ― Então vamos rever nosso roteiro para o dia de hoje. ― Thales disse, sentando-se na cadeira e ignorando a refeição ao se postar novamente diante do Tablet, no qual até poucos minutos atrás, lia dois jornais on-line. ― Costumo almoçar a uma da tarde. Portanto, passarei na Confeitaria para pegá-la para almoçarmos no Arizona... Ah, me esqueci de lhe devolver... ― interrompeu-se, tirando do bolso lateral da calça um pedaço de tecido: ― Sua calcinha estava no bolso do meu robe, Valéria.

       Recebeu o olhar significativo dele, e a cumplicidade os envolveu atando-os, deixando-os muito perto um do outro.

       Ela aceitou de volta a lingerie, sentindo o calor a consumir subindo pelo pescoço e se espraiando pelas bochechas. Gaguejou um “obrigada”, embora seus pensamentos estivessem sobrevoando uma área beligerante na qual fatalmente teria de aterrissar.

       Ele piscou o olho com charme, recostou-se contra o espaldar da cadeira e tornou a se concentrar na sua agenda:

       ― Agora às dez horas tenho uma reunião com um grupo de empresários norte-americanos. ― ele parou, esfregou os olhos com cuidado e continuou: ― Não sei se é interessante que me vejam com esses hematomas na cara. Bem, a senhorita Freitas pode transferir a reunião para outro dia. Então, mais tarde, me encontrarei com o chefe Aturi. Depois vou buscá-la para o enterro do coronel e voltamos para a fazenda. Você passará a noite comigo, por isso é melhor que avise a família. Aliás, você avisou a sua família sobre a noite anterior? ― indagou com curiosidade.

       ― Não.

       ― Não?

       ― Quando soube que estava ferido, saí feito uma louca da confeitaria...Meu Deus, não avisei nem a minha filha. ― constatou, assustada consigo mesma.

       ― Interessante... ― ele falou, avaliando-a. ― É certo que a Karen avisará o seu irmão sobre a sua...digamos, visita à minha propriedade.

       ― É claro, ainda mais que fez questão de que ela soubesse.

       ― Temos de nos esconder?

       ― Não, mas também não é preciso tocar trombetas avisando.

       ― E por que, não?

       ― Isso é um assunto que só diz respeito a nós dois.

       ― Três, a sua filha também merece ser comunicada.

       ― Comunicada sobre o quê?

       Ele a fitou demoradamente antes de afirmar com bastante serenidade:

       ― Que estamos juntos.

       ― É mesmo? Juntos como? Como quando você estava com a sua ex-noiva? Ou como quando era amante da Karen?

       ― Aonde quer chegar com isso, Valéria? Parece o seu irmão me pondo contra a parede, vá direto ao ponto, por gentileza.

      ― Aceito ficar com você, mas de forma discreta. ― afirmou, determinada.

       ― E como seria isso, mocinha bem-comportada? ― perguntou com deboche.

       ― A gente se encontra somente aqui na fazenda. Não quero ser vista em público com você, Thales. Prezo a minha boa reputação, tenho uma filha, sou mãe de família e, além disso, sou irmã do delegado da cidade. Não quero que me chamem de vaca louca ou se refiram a mim como “a amante de Thales Dolejal”... Sei que você acha isso tudo uma palhaçada, mas essa cidade é muito cruel, e eu não aguentaria receber olhares de reprovação. Olha o que aconteceu com a Karen e, há pouco tempo, com a Nova, desde que começou o relacionamento com o Franco. Sinto muito ser assim, sinto muito não corresponder às suas expectativas.

       Ele cruzou as pernas como os terapeutas o faziam ao analisar o material humano diante de si.

       ― Deixe-me ver se entendi... Você quer um relacionamento casual, é isso?

       Ela ergueu rapidamente a cabeça, os olhos arregalados enfatizando o que veria a seguir:

       ― Não, nada de putaria! ― cobriu a boca com a mão, envergonhada.

       Ele riu.

       ― Mas é o que parece. Encontros noturnos às escondidas...

       ― Só peço discrição. É difícil?

       ― Baixa o tom comigo, Valéria. ― determinou com secura.

       Ela o olhou, aturdida.

       ― Desculpa. Preciso que me compreenda, que se ponha no meu lugar...

       ― Veja bem, é complicado, para mim, encarar a vida sob o ponto de vista de uma moralista hipócrita. ― ele começou a falar com uma serenidade cortante. ― Horas atrás abriu as pernas com bastante facilidade e gritou de prazer feito uma cadela no cio e agora está posando de Maria imaculada. Que tipo de mulher você, é, hein? Já chegou a alguma conclusão?

       ― O que faço entre quatro paredes não deve servir de assunto à comunidade. ― disse, ressentida.

       ― Mas nós não vamos trepar no coreto da Praça, Valéria. Nós vamos apenas almoçar juntos e depois iremos a um enterro. E, mais para frente, seremos vistos em solenidades públicas, em restaurantes e em vários lugares da cidade aonde eu quiser levá-la comigo. ― afirmou secamente.

       Quando ela baixou a cabeça, mergulhada nos próprios pensamentos e dilemas, ele percebeu que a colocara numa posição que lhe exigiria uma força e uma determinação que talvez não fosse capaz de ter. Era possível que Valéria renunciasse à própria felicidade para não abalar o cotidiano da sua família.

       ― Você não fica bonita triste.

       Ela tentou sorrir, e ele atalhou procurando uma solução para um problema que até então estava fora de pauta:

       ― Tenho um jeito de resolver isso, Valéria. ― digitou alguns números no celular e, ao ser atendido, comunicou: ― Bom dia, Gregório, a edição de hoje ficou excelente. Fez um ótimo trabalho. ― depois que o editor-chefe se recuperou da emoção de receber o primeiro elogio do dono do Jornal após sete anos de empresa, Thales continuou, agora, num tom quase divertido: ― Bem, para a edição de amanhã, quero na primeira página o comunicado a respeito do meu noivado com Valéria Malverde. Só não poderei mandar nossa foto juntos, porque caí do cavalo e machuquei o meu rosto. Mas Matarana inteira sabe como é a cara do dono da cidade, não é mesmo, meu querido?

       Ele encerrou a ligação bem satisfeito consigo mesmo. Voltou-se para ela e afirmou com um esboço de sorriso:

       ― E, agora? Quem inventará apelidos ou fará qualquer maldade contra a minha noiva?

       Ela olhava-o entre espantada e irritada. Não sabia exatamente o que sentir, porém nada perto de uma mulher que fora pedida em casamento. Ou ele não levava a sério os relacionamentos afetivos ou ele não a levava a sério.

       ― Uma mentira, inventou uma mentira... ― balbuciou, incrédula.

       ― Não de todo, vou comprar as nossas alianças, não se preocupe. Tudo sairá conforme o protocolo oficial das coisas certas a se fazer quando não se tem criatividade alguma; já ouviu falar nesse filme? ― perguntou com uma ponta de sarcasmo.

       ― Nada de noivado fajuto.

       ― Somos dois fajutos, Valéria, merecemos um noivado fajuto, depois um casamento fajuto e filhos fajutos. ― falou, a expressão se abrindo num divertimento que não combinava com a irritação crescente dela. ― Quero você e sua filha aqui na fazenda. Depois que os Lisboa e Malverde voltaram para casa, o casarão ficou grande demais. Tentei trazer o Franco e a Nova para cá, só que o meu filho sente uma necessidade quase imbecil por independência. Além disso, convenhamos, a Sabrina se adaptou muito bem ao meu estilo de vida. ― completou com um sorrisinho superior.

       ― É muito cedo. Precisamos nos conhecer melhor... ― tentou ponderar.

      ― Ah, claro, temos de seguir o guia oficial dos relacionamentos. Ridículo, minha cara! Posso trepar durante anos com uma mulher e não querer morar com ela, ou passar uma única noite com uma e desejar tê-la todas as outras noites à minha espera, obediente e carinhosa, para conversarmos e depois pormos fogo na cama.

       Ele estava se divertindo.

       ― Thales...

       Ouviu-o suspirar pesadamente e, com o gesto, demonstrava que a diversão estava se esvaindo.

       ― Qual é o problema agora?

       ― Você ama a Karen.

       ― Sim, amo e a amarei para sempre. Ela fez e faz parte da minha vida e, além disso, inclusive, salvou a minha vida. Se não fosse a Karen, o Rodrigo e o Franco também poderiam estar mortos. Sou leal a ela e o que ela quiser sempre terá de mim. E sabe o que ela mais quer? ― ele esperou os olhos verdes e aflitos, molhados de água, fitarem-no: ― Ela quer que eu mantenha o Rodrigo a salvo de qualquer perigo, e será isso que eu farei para ela e por ela. O amor que eu sinto pela Karen me faz querer vê-la feliz e se ela está feliz com o delegado... o que posso fazer?

       ― Ficar com a estepe, por exemplo. ― completou Valéria com amargura.

       Ele se ergueu da cadeira, limpou a boca no guardanapo de linho e o jogou sobre a mesa.

       ― Agora você me ofendeu. Por acaso, sou um camarada que precisa aceitar uma “estepe”? ― perguntou com uma seriedade pincelada de exasperação.

       ― Não, Thales.

       ― Quer se casar comigo ou não?

      Ela o olhou completamente confusa. Ele estava irritado, o cenho franzido, e pedindo-a em casamento.

       ― A senhorita Freitas comprará o seu anel, e hoje à noite eu o ponho no seu dedo. Só quero saber se vou gastar dinheiro à toa.

       ― Thales, eu... ― qual era a intenção daquele pedido?

       ― É muito simples, Valéria, para responder essa pergunta não precisa nem ser alfabetizado. Quer ser minha mulher? ― ele parou e estreitou os olhos, analisando-a; depois, completou incisivamente: ― Só faço esse pedido uma vez, entendeu?

       Ela respirou fundo, uma tremedeira dos diabos.

       ― Pelo menos gosta um pouquinho de mim?

       A expressão do homem permaneceu imperscrutável quando respondeu sem hesitar:

       ― O suficiente para casarmos.

        E naquele momento foi tudo o que ela arrancou dele.

         

       O Maverick estava no acostamento da estrada, uma vicinal de chão batido cercada por árvores de copas altas, que antecedia à clareira logo atrás. A motorista estava fora do automóvel e usava o chapéu de vaqueira para se proteger do sol, fumava, meio corpo escorado contra o capô.

       Cris parou e fez um sinal com a mão para que Karen se aproximasse. Ainda estava meio desconfiado do telefonema que recebera logo pela manhã, convidando-o para um encontro na linha de fogo entre a Arco Verde e a Coração de Ouro; embora, com a morte do coronel, a linha houvesse praticamente desaparecido. Desde o dia anterior, notara uma estranha movimentação ao seu redor, como se fosse vigiado a distância.

       Ela se aproximou com um sorriso misterioso, o quadril se remexendo com malemolência. E ele apenas abaixou o vidro, sem fazer qualquer menção de sair da trincheira:

       ― Algum problema, Karen? ― perguntou sem fazer rodeios.

       ― Tem uma pessoa que quer conversar com você.

       Cris ameaçou sorrir.

       ― Ainda não recebi nenhuma intimação do delegado.

       Foi a vez de Karen ameaçar e sorrir, todos os dentes à mostra.

       ― Na verdade, sou eu a intimação.

       ― Não entendi.

       ― Me diz uma coisa, Cris, se no meu lugar aqui nessa estrada estivesse o Bronson... você teria parado? ― ela o observou empalidecer e continuou: ― Pois é, segue o meu carro que vou te levar até o Thales.

       ― Por acaso agora é capanga dele?

       ― Sinceramente ainda não pensei sobre isso. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que não pude planejar minhas metas profissionais para o ano. ― debochou.

       O médico apertou os dedos ao redor do volante, pensativo.

       ― O Thales não pode me expulsar de Matarana.

       ― Bem, isso realmente não me interessa.

       Ela o deixou refletindo com seus botões enquanto se dirigia para o próprio veículo, afivelou o cinto transversal e se pôs novamente na estrada.

       O sol enviava seus raios que batiam em cheio contra o vidro frontal do Camaro. E no seu interior um homem apertava os lábios, irritado. Se a notícia chegara até Thales, era porque Rodrigo de fato o protegia ― segundo corriam os rumores pela cidade. Como fora estúpido ao acreditar na integridade moral de um delegado de cidadezinha comandada por latifundiários.

       Estacionou ao lado do Ford, na vaga diante do centro comercial, onde se localizava o conjunto de escritórios do fazendeiro, um andar inteiro de salas, o último. Desligou o motor com vagar, dando tempo para perfilar os pensamentos e se antecipar ao que estava por vir.

       Karen aguardava-o com os braços cruzados, fitando-o com bastante atenção, talvez à espera que ele desse marcha ré e fugisse.

       Não, Cristiano Bittencourt jamais desistiria de Franco.

       Desceu do automóvel e, mentalmente, somou as suas chances. De todos os seus amigos, com os quais poderia contar caso houvesse uma represália por parte de Thales Dolejal? Quem sobrava? Um ou outro médico do hospital; talvez o diretor... se não fosse ele próprio amigo do fazendeiro. Inferno! Rodrigo não era mais o seu maior trunfo.

       A porta do elevador se abriu, ele entrou seguido por Karen. No entanto, ela apertou o botão que os levaria até o quinto andar apenas.

       ― Meu trabalho é pô-lo dentro do prédio, nada mais. ― informou.

       A parede especular atrás de si mostrou um homem num beco sem saída. Preso no elevador. Maldizia o momento em que decidira largar a civilização para embarcar em uma aventura na qual perdera Nova e toda uma vida criada ao redor dela, seu amor de uma vida inteira, sua amiga, sua única amiga...

       Até que ele se lembrou da mulher que sempre o defendera de todos.

       A porta novamente se abriu e Cris deu de cara com Bronson, não gostou de ver a sua feição fechada numa carranca dos diabos.

       Voltou-se para Karen e disse com ar superior:

       ― A Valéria receberá a pasta com as fotografias do cadáver do Everaldo enterrado nas terras do Thales, depois de ter sido assassinado pelo Franco.

       A mulher do delegado fechou os punhos, controlando-se para não esmurrar o médico.

       ― A Nova está grávida.

       ― De um assassino.

       ― Grávida de um justiceiro. ― corrigiu-o e emendou, assim que saiu do elevador cedendo passagem a Bronson: ― O Franco é o justiceiro do cerrado, e você, doutor Bittencourt, é só um homenzinho com o ego destroçado. Mas quem sou eu para julgar você. Sou apenas uma mulher simples que acredita na justiça feita pela iniciativa privada. Convenhamos, o Estado está quebrado. ― debochou.

       Cris expressou todo o asco que sentia a respeito da fama de justiceiro daquele que, para o pediatra, tratava-se apenas de um desequilibrado mental.

       ― A Valéria é a única pessoa sensata do nosso grupo.

       ― Você não faz mais parte do “nosso grupo”. ― afirmou ela com dureza; em seguida, pegando o jornal da mão de Bronson, jogou-o contra o peito de Cris e completou com visível prazer: ― Lê aí a bela notícia na primeira página.

       O médico empalideceu ao saber que Valéria, em breve, passaria a ser uma Dolejal.

       Na sala refrigerada, ele encontrou o dono de Matarana. Havia em suas mãos uma procuração assinada por Nova Monteiro Dolejal a qual dava plenos poderes ao seu sogro para dispor do imóvel onde Cristiano até então residia. Sem perder a cadência da música de despedida, Thales Dolejal providenciou a exoneração do pediatra junto ao diretor do hospital municipal.

       Cris não seria expulso da cidade. De acordo com a conversa tensa e seca entre os antigos amigos, estabeleceu-se uma situação semelhante à época da guerra fria. O fazendeiro economizou palavras cravando os olhos irônicos e argutos naquele que se preservou ao evitar pronunciar o nome do bandido que se passava por justiceiro. Avaliou a posição dos ventos e percebeu que o seu barquinho, já à deriva, afundaria de vez.

       Thales não levou em consideração o fato de Cris ser um excelente médico, uma vez que não o considerava mais um excelente ser humano, e o pai de Franco cagava para profissão alheia. Portanto, determinado a tornar os dias do ex-amigo os piores possíveis, informou a chegada de um novo tempo:

       ― Meu filho vai ser pai e precisa de um pouco de sossego. Não quero que acusações levianas o tirem do sério. Por outro lado, sei que você está fodido e acredita que se vingando passará para um nível superior da existência. Esse negócio de vingança raramente dá certo. Por isso, para que você se acalme e tenha algo mais útil para se ocupar em vez de cuidar da vida alheia, meus advogados irão processá-lo por calúnia e difamação. ― ele foi taxativo ao completar: ― Vou arrancar até o seu último centavo. O que falta a você, Cristiano, é humildade para aceitar a derrota. Então terei de ensiná-lo na marra a ser humilde.

       Cris retesou os maxilares chispando fogo pelos olhos.

       À porta, prestes a sair, ainda seguido de perto por Bronson, ele ouviu a voz beligerantemente mansa atrás de si:

       ― Está por sua conta e risco em Matarana. Boa sorte.

       Pisava no carpete grosso sem sentir o chão debaixo dos sapatos. Fixou o olhar no elevador logo após o longo corredor envolvido pelo barulho característico dos escritórios, do caos organizado. Era certo que ele ainda estava anestesiado, vivendo aquela sensação fugidia de quase alienação, como quando se afastava da realidade o suficiente para enxergá-la bem de perto, um microscópio como olhos, uma 9 mm como cérebro e no peito: o vazio. Homem inteligente que era, lembrou-se de que não estava totalmente sozinho, tinha um aliado de peso, alguém capaz de se impor a Thales Dolejal. Afinal, Cristiano Bittencourt também fazia parte de uma família importante e possuía amigos influentes. Um desembargador, por exemplo.

        Quando ultrapassaram o portal de Matarana pela primeira vez, Nova tinha cabelos longos, e o vento morno da cidade soprou-os para fora da janela do automóvel que os trouxeram da capital. Cinco anos. Cris ainda não sabia que a vida às vezes ― poucas, era verdade ― a vida abençoava. E a benção fora ter a menina que conhecera num parquinho e o esbofeteara, assim como o beijara pela primeira vez, era a mesma que marcaria a sua existência, dividindo-a como um personagem bíblico o mar. O amor podia nascer do costume, da convivência, da amizade de anos. Isso realmente não mais importava. Agora estava sem forças para sair do estacionamento e enfrentar o resto da sua vida.

       O que teria pela frente? Encontros fugazes com corpos sem alma? Pedintes de amor e atenção. Todas elas, esboços malfeitos da mulher que agora era de outro. Tanto de si ele resguardara para mantê-la para sempre ao seu lado.

       Em frente ao semáforo, cogitou a possibilidade de partir. Não temia Thales Dolejal; temia a si mesmo.

      Vermelho, amarelo e uma picape desconhecida cujo motorista ao volante, chapéu, óculos Ray Ban, cigarro caído no canto da boca, cabelo loiro desgrenhado foi reconhecido pelo médico. O tumor latejou. Doeu. Doeu vê-lo. Até então Cris refugiara-se na anestesia que a prostração e a sensação de fracasso ofereciam-lhe. No entanto, o ódio deu-lhe vida, seiva bruta que lhe singrava veias e artérias. Renascido, posto novamente de pé, ereto. Acelerou seguindo a picape de Franco Dolejal.

       Alcançaram juntos a 163 debaixo do azul do céu, e o coração do médico encheu-se de paz enquanto pisava no acelerador. O vento de Matarana beijava seu rosto e secava as suas lágrimas, cedendo espaço para as próximas deslizarem.

       Emparelhou o automóvel com a picape e encarou o motorista. Por alguns segundos, os homens se avaliaram. Cris sentiu um profundo amor pela morte, apaixonou-se pela ideia do desaparecimento e a solução para tudo, e Franco, meio aturdido e um tanto angustiado, notou que o ex-amigo de sua mulher chorava.

       Franco acelerou e partiu. A dor que estava no médico pulou para dentro dele, contaminando-o como um vírus de tristeza, melancolia e algo mais, indescritível e bem próximo do abismo, como a loucura. O desatino de se sentir vivo, sentir cada impulso elétrico, aspirar cada partícula de oxigênio e quase tocar com os dedos as pontas dos dedos de Deus para depois cair, de joelhos e de nariz, na terra.

       Inquietou-se ao verificar pelo retrovisor que o Camaro avançava velozmente em direção ao seu para-choque e, ainda que ele pisasse fundo no acelerador, a batida foi inevitável. Como Leonardo Marau o fizera, o doutor Cristiano chamava-o para o confronto.

       Só que dessa vez Franco não parou.

       Cris não deixou passar barato, determinado que estava em fazer valer a vontade do seu coração que exigia o aniquilamento do inimigo. Enquanto Franco respirasse, Cris não teria a quantidade de ar que precisava para viver bem. Tornou a acelerar e jogou o carro contra a camionete. Como o outro não teve tempo para desviar, os veículos se chocaram.

       Ele perdeu o controle da direção e foi impossível evitar a capotagem.

       Os pneus ainda rodavam como se cumprimentassem o céu e o dia inteiro, cheio de luz, o mato verde. Rapidamente a gasolina se espalhou. O cheiro do combustível o fez sorrir. Fechou os olhos e ignorou os gritos desesperados ao seu lado, a mão estendida, os golpes contra a lataria retorcida que o protegia e o aprisionava contra o chão.

       Voltou lentamente a cabeça em direção à janela e, por entre a neblina da vertigem e a devassidão dos sentimentos, viu um rapaz lutando para salvá-lo. O rapaz que Cris ainda odiava com todas as suas forças. Odiava-o tanto que o pusera em primeiro lugar em sua vida. Antes de si mesmo estava Franco.

       O sangue na garganta não o impediu de sentir o gosto doce e delicado da vingança. Fechou os olhos e partiu. Cristiano Bittencourt sorria quando morreu com as costelas quebradas e enterradas nos pulmões feito estacas no vampiro.

       Sorriu ao morrer porque acreditou que Nova culparia Franco por sua morte.

       Morreu iludido.

 

       Três Anos Depois

        Estação do Estio

        Bronson foi se chegando devagar, coçando o lóbulo da orelha, meio que se ajeitando para fazer uma observação ao jovem concentrado em uma tarefa importante. Parou, mirou os olhos no céu branco, empurrou a aba do chapéu para trás e, com tal gesto, deu uma coçadinha também na testa, falando em seguida o que tinha de falar.

       Apontou o dedo em direção à cabeça de Franco e afirmou carrancudo:

       ― No meu tempo, homem usava cabelo de homem e mulher cabelo de mulher. Acho que não fica bem o patrãozinho ter cabelo de mulher, não. A peonada não respeita.

       ― É mesmo? Alguém aqui na minha fazenda não me respeita? Me diz aí, Bronson, tem alguém me chamando de bichona?

       O pistoleiro apertou os olhos ao notar que o novo dono da antiga Coração de Ouro, arrematada em leilão por Thales Dolejal havia dois anos e que agora se chamava Fazenda Quatro Princesas, estava se divertindo à sua custa. Franco se tornara um homem de 25 anos, administrava uma propriedade com as dimensões e o poderio econômico da Arco Verde, chefiava um batalhão de funcionários, lidava com engenheiros, agrônomos, representantes comerciais, gerentes de banco e até mesmo com políticos ― aliado que era do prefeito apoiado pelo seu pai; entretanto, a parte de latifundiário sério contrastava com seu estilo de jovem irreverente.

       ― Está ficando uma belezura, não acha? Ainda falta a sombrinha. ― disse todo orgulhoso, pondo-se de pé para avaliar melhor a montagem da bicicleta da filha mais velha.

       ― A Paola prefere andar a cavalo.

       ― É, eu sei, influência da madrinha dela, mas já está na hora de ter o seu próprio veículo. Aro 12, rodinhas e cestinha. Coisa linda, né? ― brincou.

       ― E esse penteado aí, Franco? Quando vai cortar esse cabelo? ― Bronson insistiu, sabendo que o garoto pouco se importava com opinião alheia.

       Franco até ia responder que o estilo do cabelo fora ideia de Nova, após assistir a Lendas da Paixão. Porém, estava com preguiça de explicar a Bronson o motivo de um filme servir de inspiração para o seu novo visual. E, além da preguiça, ele acabava de ver a filha de três anos tentando se livrar do vestido de algodão, levantando-o para acima da cabeça sem a mínima paciência, expondo a calcinha de renda com babados e as botinhas de vaqueira. Ela estava realmente irritada, as mãozinhas puxavam o tecido pela barra de modo a quase arrebentá-lo enquanto era possível ouvir de longe um rosnado exasperado.

       Bronson se voltou para acompanhar o olhar carinhoso e divertido de Franco, assimilando rapidamente que a pequena Dolejal, inimiga das roupas, tentava se livrar de uma prisão sem sucesso.

       Quando Paola começou a chorar histericamente ― e isso acontecia quando a loirinha de cabelos lisos até os ombros se encontrava no limite da sua frustração, o pai achou por bem interferir antes que a roupa levasse a pior.

       Foi até a filha com a mesma calma que usava ao se aproximar de um cavalo xucro. Paola Monteiro Dolejal, segundo sua própria mãe, poderia ser considerada como a encarnação de Karen Lisboa, se a última não estivesse viva.

       ― Ai, ai, ai, que vestido atrapalhado! Deixa que o pai ajuda, ok?

       Ele se ajoelhou diante dela e deu um beijo barulhento na barriguinha branca e saliente. A garota tinha a estrutura física de alguém que, no futuro, seria alta e encorpada. Não fora sem razão a sua pequena mãe ter precisado de uma cesárea. Como Nova dizia com bom humor: “Muita filha para pouca mãe”.

       O beijo não amansou a garotinha.

       ― Tira essa méda! ― ela mandou na sua voz infantil.

       Bronson caiu na gargalhada. E Franco se voltou olhando-o com cara feia; em seguida, retirando o vestido da filha, falou num tom sério:

       ― O que a mamãe disse sobre falar palavrões, hein?

       Paola tentava olhar para além do pai, por cima de seus ombros, equilibrando-se na ponta dos pés.

       ― Hmm, ainda não ouvi a resposta.

       Ela percebeu o tom incisivo e sorriu. Apesar da idade, tinha plena consciência do seu poder sobre o homem agachado à sua frente.

       ― Que é pra falá em voz báxa. ― cochichou de um jeito engraçado, como se tal afirmação fosse um segredo importante.

       Franco se segurou para não rir. O modo como Nova educava era fascinante. No lugar de repreender, ela negociava. Sim, era impossível impedir que a filha ouvisse e repetisse os palavrões ditos pelos empregados da fazenda, pistoleiros e até mesmo pela madrinha desbocada. Além do mais, como poderiam mandar uma criança não falar o que ela mesma ouvia os outros falarem? Franco via nisso uma tremenda contradição. E Nova resolvera o problema.

       Apertou suas bochechas com carinho e indicou com um meneio de cabeça a bicicleta montada no meio do jardim. O gramado verde e baixo, irrigado 24 h por dia, parecia um tapete felpudo. O resto da cidade ardia na seca, a aridez, a vegetação morta e as queimadas. Mas a paisagem das fazendas de grande porte era outra. O dinheiro não comprava o céu mas comprava a terra.

       Admirou a filha correr até o seu presente, a primeira bicicleta. Ele sabia que vivenciava um momento único. A primeira filha e a sua primeira bicicleta. Sorriu feito um bobo quando a viu se sentar no banco e ensaiar as primeiras pedaladas sob o olhar atento de Bronson.

       ― Essas crianças já nascem sabendo andar de bicicleta e a mexer nessas máquinas de computador. ― constatou o pistoleiro do jeito que os das antigas faziam, um tom de lamento e rabugice incluídos na observação.

       Franco assentiu sem deixar de sorrir com satisfação. Encaminhou-se até a garotinha que pedalava com calma, faceira, rindo alto. Manteve-se a postos caso ela precisasse dele.

       ― O que é uma bicicleta para quem anda a cavalo! ― havia um tom genuíno de admiração na voz do velho pistoleiro.

       ― É verdade, essa doidinha é gamadona no Prefontaine. ― e, virando-se para a filha, que era ladeada com cautela pelo pai, perguntou com interesse: ― Gostou da bicicleta, princesinha?

       Pedalando agora com mais confiança, ela respondeu após apertar a buzina:

       ― Mais que muito. ― disse, sorrindo.

       Paola era feliz, o espelho da família na qual vivia. Repetia o que ouvia dos outros, nem sempre eram palavrões. “Mais que muito” era o que Nova respondia quando Franco perguntava agarrado nela:  “Me ama muito, princesa?”

       Agora ele ajeitava o chapéu caminhando próximo à bicicleta da filha, preparado para ampará-la caso fosse preciso, era a primeira vez que ela testava as rodinhas sobre a grama. Pousou seus olhos na figura pequena com as duas mãos firmes no guidão, a voz infantil esganiçada, tropeçando nas letras, ao exclamar com alegria:

       ― Vô mostrá pro Pongo, pai!

       Franco riu e comentou:

       ― Sim, amanhã ele vem almoçar aqui e você mostra pro Pongo, ok?

       ― Di verdadi? ― ela perguntou, sem se virar para trás, pedalando até alcançar a cerca que, sempre fechada, dividia o gramado da piscina.

       ― Ô se é verdade, todo domingo você vê o seu tio, e amanhã o churrasco vai ser aqui em casa. ― disse ele, achando graça do jeitinho dela e, voltando-se para Bronson, completou no mesmo tom: ― Não é meio estranho que a sobrinha saiba andar de bicicleta antes do tio?

       O velho descansou o olhar gentil sobre a menina e disse ao pai dela:

       ― O Pongo é um tio que não tem nem dois anos de idade. ― afirmou, rindo-se; em seguida, o sorriso murchou e ele continuou de um modo menos alegre: ― Pra falar a verdade, nem sei mais o que é e não é estranho.

       ― O que foi, Bronson?

       Ele deu de ombros antes de responder

       ― Tudo está mudando com muita rapidez, não gosto disso.

       ― Como assim? ― indagou Franco, interessado.

       ― Sei lá, você é um fazendeiro importante, tem até agenda de compromissos e só falta o escritório no centro da cidade para ficar igualzinho ao patrão. Parece mesmo que o pistoleiro se aposentou, o diabo loiro recebeu a graça divina e virou um anjo que cuida dos seus anjinhos... Gosto assim, como a Paola fala, “de verdade”, só que daqui a pouco, me diz, pra quê EU vou servir? A pobre da Lúcia não vai me aguentar caquético e resmungão.

       ― O Charles Bronson gringo jamais falaria assim. É por que a Karen é a chefe de todo mundo agora?

       O pistoleiro levou a mão ao chapéu como se tivesse se assustado com algo e temesse perdê-lo da cabeça, amassou a grama com a sola da bota e falou meio que num resmungo:

       ― Epa, epa!, ela não é chefe de todo mundo, não; ela é a chefona da segurança das duas fazendas, a Arco Verde e a sua, Franco. Pode até mandar em todos os pistoleiros, mas ainda sou eu o braço direito do seu pai, viu? Isso francamente não me aborrece.

       Franco estreitou os olhos avaliando o homem à sua frente, havia um rastro de divertimento no tom de voz que usou ao considerar:

       ― Não mesmo? Sabe que o pai confia em você da mesma forma que confia na Karen. Por acaso não baixou uma TPM aí, meu velho?

       ― Sei lá, sinto falta de ação, a coisa está calma demais. Parece até aquelas calmarias que vem antes de um puta temporal. Acho que é isso que me aborrece.

       ― Sabe por que essa tranquilidade toda? Vou te dizer, é porque a gente cuida direito do nosso povo e os nossos inimigos dormem o sono eterno debaixo da terra. ― afirmou, sério.

       ― Pode ser, Franco. Afinal, até o coronel Rodrigues parou de implicar com o pessoal do chefe Aturi.

       ― Ele não é um sujeito burro. Temos a prefeitura, a polícia e o povo do nosso lado. O coronel bunda mole não tem as mínimas condições de bater de frente com os Dolejal e acabar se fodendo como o outro coronel, o falecido.

       Franco parou de caminhar ao lado da bicicleta da filha e deixou que ela seguisse sozinha o seu caminho. Ele não tinha a mesma preocupação que Bronson, havia um bom tempo que simplesmente não mais se preocupava. A última vez fora onze meses atrás, quando Nova foi para a maternidade dar a luz às gêmeas.

       E foi ela quem apareceu, saindo do avarandado logo após a porta que levava à cozinha, vestida num short jeans e na regata cor-de-rosa, o cabelo sempre mantido curto e os pés arrastando a rasteirinha, no tornozelo esquerdo a pulseira que tantas vezes atrapalhava a sua boca ao beijá-la nos pés.

       ― O que vocês dois estão aprontando, hein? ― ela perguntou com um sorrisinho travesso.

       Franco não se cansava de admirá-la, de encontrar nela, sorriso, olhar, voz, em tudo, a beleza que o encantava e que sempre, ainda após os anos de casamento, o levavam a esquecer-se de respirar por alguns segundos. E, depois das duas gestações, ela estava mais bela, radiante, madura e se tornando de fato a sua “dona”.

       Ele sorriu de canto, um lado apenas dos lábios encurvou-se, acentuando uma das covinhas, um sentimento morno encharcou-o por dentro como aqueles banhos cheios de vapor que quase elevam o corpo centímetros do chão. Estendeu-lhe a mão e puxou-a para o abraço apertado. Ela gemeu e ele a soltou meio se rindo:

       ― Quebrei alguma costela, princesa?

       Ela fez uma cara engraçada, esfregando a parte superior do braço e respondeu numa falsa censura:

       ― Não, mas podia, tem de aprender a controlar a sua força, caubói.

       ― Mas abraço de urso não é assim? ― indagou, se divertindo após receber um tapa no ombro.

       Bronson balançou a cabeça e se meteu na conversa:

       ― Um urso não deve abraçar uma coelhinha.

       Nova riu da comparação.

       ― Ai, que lindo, então eu sou uma coelhinha. Que meigo, Bronson!

       ― É, dona Nova, a senhora tem o tamanho de uma coelhinha, a inteligência de uma raposa e o gênio de uma leoa...com todo respeito, viu! ― completou meio sem jeito, tirando o chapéu e levando-o ao peito como uma breve reverência.

       Bem, ela já apontara uma Glock na sua cara e mantivera o marido preso em casa, amarrado na cama... e isso era pouco: a mulher pequena, de fala mansa e palavras cortantes, aposentara o diabo loiro e, com isso, afrontara diretamente o pai da entidade, Thales Dolejal.

       No final das contas, Bronson, observando as personalidades do famoso trio de amigas, denominado pelo delegado como As Mosqueteiras Tresloucadas, a que se parecia mais perigosa e a única que andava armada pela cidade era a menos beligerante. Afinal, Rodrigo Malverde continuava sendo quem era, o que não acontecia com Franco e o patrão. 

       Franco desatou a rir, chegando a dar dois passos para trás e dobrando o corpo.

       ― Obrigada?! ― Nova fitou Bronson e sorriu sem graça.

       ― É um elogio, sim, dona Nova, não tenha dúvida disso. O patrãozinho precisava de uma mulher assim como a senhora, pequena por fora e grande por dentro.

       Nova gostou do que ouviu, ficou na ponta dos pés e deu um beijo na bochecha do pistoleiro. Bronson sentiu as bochechas queimarem, falou qualquer coisa e caiu fora.

       ― Era um elogio, viu, ô moleque? ― ela disse, puxando-o pelas fraldas da camisa e o abraçando.

       ― Claro que era um elogio, só que o Bronson resumiu a sua personalidade usando a bicharada certa. Incrível, né?

       ― Melhor que você, que já me chamou de égua bipolar.

       Ele parou de rir e apertou a boca, lembrando-se da mancada pouco antes de se conhecerem de verdade, antes de tudo, do beijo no rio, da noite no hotel, da vida de ambos mudar.

       ― Eu era um babaca, não leve em consideração. ― disse, sério.

       ― Pelo amor de Deus, Franco, estou brincando também. ― ela afirmou, beijando a dobra do pescoço dele; em seguida, indicou com a cabeça a menina na bicicleta: ― Ela está indo muito bem, hein!

       ― Sim, claro, mas não duvido que após o primeiro tombo uma bicicleta não voe pelos ares....

       ― É, a nossa primogênita tem o gênio da madrinha. O que fiz para merecer isso? ― indagou num tom divertido.

       ― O pai disse que a Paola será a sucessora dele, que ela é a mulher que dominará Matarana. ― falou de um jeito jocoso.

       ― É mesmo? Sei que você não se interessa por esse lance de poder, mas ele tem outro filho, devia era planejar a vida do Theo, e não a da neta.

       ― Ah, princesa, o meu pai planeja a vida até da caturrita do Chicão, deixa ele, é um tipo de hobby, sabe? Além disso, acha mesmo que a Paola vai aceitar que alguém mande nela... Convenhamos Nova, nem você consegue. ― completou com um sorriso cúmplice.

       ― Consigo, sim, ora bolas! ― exclamou, afastando-se dele e, pondo as mãos na cintura, determinou a filha: ― Vamos entrar e comer uma fruta! Você está só com um copo de achocolatado na barriga e nós vamos ao mercado daqui a pouco. Vem, Paola!

       A garota continuou a pedalar para mais longe ainda dos pais e, sem se voltar, gritou por cima do ombro:

       ― Agoia não, tô cupada!

       Franco levou a mão à boca para esconder a risada. Sabia o quanto Nova se irritava quando ele ria das travessuras da filha. Impondo-se um ar sério, comentou:

       ― O que é cupada? Ela está se sentindo “culpada”?

       Nova o olhou feio:

       ― Não se faça de bobo, ela disse que está “ocupada”, a malandrinha. ― voltou-se para a filha e começou a se encaminhar até ela, que, percebendo a atitude da mãe, acelerou o ritmo das pedaladas: ― Muito bem, então fica pedalando sozinha, que eu e suas irmãs vamos pegar o Pongo antes de irmos às compras. Tchau, filhota!

 

       Ela deu às costas à filha e piscou o olho para o marido.

       Franco viu uma garotinha jogar longe a bicicleta e quase se atrapalhar com as próprias pernas ao correr em direção à mãe.

       Esbaforida, perguntou:

       ― Pongo vai, mãe?

       ― Sim, meu anjo. Agora, corre lá para cozinha que a Irene vai preparar um lanchinho pra você. ― disse com carinho.

       Ao se virar para falar com Franco, encontrou-o já olhando para ela, sorriu e comentou:

       ― Falei com a Val há pouco, ela e o Theo vão comigo fazer as compras para o churrasco de amanhã.

       ― Não quer que eu leve vocês? Precisam de um macho para carregar as sacolas.

       ― Vamos empurrar o carrinho até a picape, amor lindo, o macho pode ficar e descansar um pouco, essa semana foi puxada pra você.

       Ele suspirou e revirou os olhos ao mesmo tempo:

       ― Aguentar a Karen nos meus ouvidos foi a pior parte. Ela não aceita que os pistoleiros da Quatro Princesas não portem armas...

       ― Eu sei, mas falou pra ela que é inadmissível que num lugar onde há crianças haver também gente armada?

       ― Você tem toda a razão, Nova, já gastei saliva repetindo isso, mas a danada não aceita.

       ― Claro que não, é responsabilidade dela garantir a nossa segurança, entendo isso. O problema da Karen é que ela não é nem um pouco flexível. Não vou mudar de ideia, Franco, as coisas estão em paz há bastante tempo e não vejo necessidade alguma de expor nossas filhas a espingardas e automáticas. Nem sei o que faria se acontecesse um acidente desses com elas, um tiro, um tiro numa criaturinha do tamanho delas é o suficiente para matar.

       ― Não fala isso, Nova, ninguém vai usar arma aqui.

       ― Nem você.

       ― Só tenho o canivete na bota, e ele ninguém pega.

       ― Se a Karen passar dos limites, eu mesma falo com ela. ― declarou determinada.

       Franco não estranhou a atitude da esposa. Desde que as meninas nasceram, ela havia se transformado, como Bronson afirmara, numa leoa.

       ― Deixa que eu resolvo.

       Ela o fitou com um olhar que não deixava brechas para refutações:

       ― Então, resolve. Mas do meu jeito, Franco.

       Coube a ele a resposta que já lhe saía naturalmente dos lábios:

       ― Sim, Nova, do seu jeito.

         

       Thales guiou Nero pela estradinha de terra, por entre o mato baixo, que serpenteava até o rio. Era uma suave descida criada pela própria natureza numa das erosões que o solo sofrera na estação das chuvas. O cuidado, entretanto, se justificava uma vez que o cavalo poderia deslizar os cascos e se machucar, além de derrubá-lo da montaria. Mas valia a pena visitar aquele lugar na Arco Verde, cercado pelo bosque fechado e o Rio Verde, distante poucos quilômetros do casarão.

       Apeou, pisando as botas sobre a sua terra morna debaixo do sol e úmida próxima à margem do rio. O mormaço de julho irrompia também do solo queimado sucessivas vezes. Ainda não se completara a metade do dia, a chuva de cinzas desceria mais tarde, quando por alguns minutos o dia se encontrava com a noite num beijo rápido de despedida, numa carícia chamada entardecer.

       Ele se abaixou perto do rio, tirou o chapéu e, com as mãos em concha, lavou o rosto e o pescoço. Tirou do bolso do jeans a carteira de cigarros e se acomodou sobre a grama verde, sentando com displicência, os antebraços apoiados nos joelhos dobrados. O vento morno secava a água na sua pele, gotículas que insistiam em deslizar pelas têmporas. Olhando ao redor, viu a planície seca para depois do rio, na margem oposta, onde também eram suas as terras. Como agora quase tudo era seu, o seu reino; Matarana, a sua paixão.

       Anos atrás, Thales cavalgava para cansar o corpo cuja vontade era a de ter Karen de volta e qualquer outra possibilidade desprezada. E embora não se julgasse um fraco que recorresse ao álcool para aniquilar a dor da perda e frustração, depois de cavalgar até quase a exaustão física, ele bebia, muito, uísque e vingança, o ácido corrosivo da vingança.

       Tragou o cigarro e ouviu o barulho dos cascos de outro cavalo se achegar.

       O prazer da vingança, doce como o melhor dos licores. Sorriu. Era um dia bonito aquele, considerou, à espera de sua companhia, sua companheira nas cavalgadas aos sábados pela manhã. Havia três anos que ele trocara as manhãs de sábado no escritório do centro pelos passeios a cavalo. Por pura vingança, por ter tentado se vingar de Rodrigo e casado com sua irmã. Vingara-se ainda mais tendo um filho com ela. E, antes disso, a levara a Paris na lua de mel e vira os seus olhos verdes se iluminarem de felicidade. Acompanhara todas as suas consultas durante a gravidez, pois fazia parte da vingança ser o seu suporte também na hora do parto, ao lado dela, entrelaçando os dedos, esperando o bebê ser retirado de sua barriga. Vingado sentia-se após o nascimento do seu filho com Valéria ao voltar para casa todos os dias antes do jantar, uma hora antes, pois, atrasando-se, deixava de jantar com o filho, que dormia cedo. Por causa da decisão de se vingar, nunca mais viajara para fora do centro-oeste, todas as noites dormia em casa, comprara a parte de Karen na confeitaria e amarrara uma mordaça na boca do monstro que dormia dentro dele.

       Valéria conduziu o cavalo pelo caminho íngreme de terra e grama baixa, sorriu ao ver o marido se levantar calmamente de onde estava para se postar ao seu lado. Aceitou de bom grado os braços que se estenderam para ajudá-la a desmontar e aproveitou a proximidade para abraçá-lo, descansando a cabeça no tórax dele. Thales não era um homem de afagos, aceitava-os com certa indulgência, não se afastava, deixava-se ser acarinhado, mas também não fazia questão de retribuir o gesto. Andar de mãos dadas e beijar as dobras dos seus dedos era todo o seu arsenal de carinhos físicos que demonstrava publicamente.

        Ela entendia aquela contenção de gestos como o mesmo mecanismo que barrava suas explosões emocionais — que nunca aconteciam, era uma maneira de ele se manter no controle do relacionamento, soltar as rédeas levemente, conduzindo o cotidiano de ambos de forma a não provocar fissuras inabaláveis. Era visível que ele preservava a sua paz de espírito, conquistada após aceitar o fim da relação com Karen.

       Sentaram-se à beira do rio, e ela sentiu no rosto o ventinho morno. Voltou-se para o homem de chapéu de vaqueiro que a fitava com um esboço de sorriso. Ele era lindo e dedicado; o que mais poderia querer? E por mais que fosse contido em suas demonstrações de afeto a ela, aos filhos isso não acontecia. Era afável e protetor com o mais velho, Franco, e com Theo, o bebê de um ano e meio. Adotara inclusive Sabrina, numa disputa interessante e, como não dizer, engraçada, com Rodrigo. Afinal, o último tentava também ser o pai de Franco, nada mais natural que Thales apossar-se do papel paterno da sobrinha do delegado.

       — Queria saber uma coisinha de você...

       Thales enfim sorriu amplamente e as sobrancelhas formaram um arco que expressava um misto de ironia e diversão.

       — Não combinamos que fuxico demais detona a relação?

       Ela balançou a cabeça assentindo e disposta a prosseguir no assunto:

       — Por acaso, é importante para você ou para os seus negócios que eu continue a participar das reuniões com as outras mulheres dos fazendeiros da região?

       Ele a olhou longamente, avaliando o teor da pergunta feita numa voz doce e quase juvenil. Aquela ruiva que voltara a usar o cabelo vermelho natural, num corte Chanel à base da nuca, um penteado sofisticado, ainda era a pessoa simples e caseira que ele conhecera. E quando ela falava naquele tom delicado, para quem não a conhecesse de fato, pensaria que era um tom de doce submissão, meiguice até, mas Thales sabia que a ternura de Valéria era feita de um material que lembrava o mesmo usado pelos rebeldes contra o sistema imposto.

       — Vá direto ao ponto. — disse, simplesmente.

       Ele pensava seriamente em viver o resto de sua vida com aquela mulher. Ela era carinhosa e obediente. Contudo, às vezes, tentava inverter os papéis e comandar a relação, talvez gostasse de sonhar com o impossível, e era nessas vezes que ele tinha de pô-la em seu devido lugar.

       Valéria tentou manter o sorriso diante do olhar desconfiado dele.

       — É que não me sinto bem no meio daquelas mulheres, não me enquadro. Parece que elas estão sempre me avaliando, tentando entender como fui parar no meio delas, no mundo delas. Também não gosto desses desfiles de moda. Desfile mesmo, sabe? Uma moça de São Paulo traz roupas de butiques famosas e faz umas meninas gigantescas desfilarem para elas, e é assim que escolhem suas roupas. Nunca vi isso, nem em filme. Uma roupa mais cara que a outra, um absurdo.

       Thales riu.

        — E onde estão as suas compras?

       — Imagina se eu vou pagar três mil reais por um vestido!

       — É por isso que elas não conseguem entender a sua presença nessas reuniões. — considerou ele como um pai ensinando a filha; depois, continuou, agora, de um jeito displicente: — Compre uma coleção inteira, minha querida, e mande entregar na nossa casa. Mostre a elas que você sabe quem é, senhora Dolejal. Acho que já está na hora do seu lado Malverde sair de cena, não é mesmo?

       Ela não gostou de ouvir aquele comentário.

       — Até mesmo na riqueza tem de se ter bom senso.

       — Não estamos falando sobre bom senso, e sim sobre você se impor diante dessas vacas, entendeu? — considerou calmamente, sem dispensar a fina ironia e continuou, a seguir, num tom mais determinado: — Você é casada com o homem que pode foder com a vida de qualquer um dos maridinhos delas e, ainda assim, se sente por baixo? Quero que se imponha de acordo com sua nova posição social e principalmente porque é minha mulher.

       — Não quero me misturar com essa gente, Thales, não dá...

       — Então não se misture.

       — Posso?

       — Pode fazer o que quiser, Valéria.

       Ela baixou os olhos para as mãos e murmurou:

       — Elas até fumam maconha.

       Ouviu uma sonora gargalhada ao seu lado e, depois, um braço enganchou-se detrás do seu pescoço e foi beijada na boca pelo marido. Entre os seus lábios, ele perguntou num tom jocoso:

       — Gostou de fumar maconha?

       — Claro que não fumei, só fiquei pensando no meu irmão e no que ele diria se me visse no meio das maconheiras da alta roda. — resmungou.

       Thales afastou-se centímetros e a fitou como se pretendesse provocá-la:

       — Não fumou mesmo?

       — Para, Thales! — exclamou, fingindo-se de ofendida. — Elas perguntaram se eu queria “relaxar”, aham, sei. Aí pensei que fossem me oferecer um chá de camomila ou um suco de maracujá... Que nada! E depois falam que os viciados estão na Vila Zumbi. Gente rica que usa drogas também é criminosa.

       — E assim falou a irmã do delegado. — ele debochou.

       Antes que ela tentasse responder à altura, ele a deitou contra a grama.

       — Que tal trepar à beira do rio?

       Valéria não esperava pela pergunta e ainda não se acostumara com a personalidade imprevisível do marido. Sorriu nervosa e perguntou com o coração aos pulos:

       — Podemos ser vistos pelos seguranças?

       Ele olhou ao redor rapidamente e se voltou para ela sorrindo:

       — Sim.

       — Ai, bem... tenho um pouco de vergonha, mas se você quer...

       — Você quer, Valéria? — enfatizou.

       — Sim, mas não levanta muito o meu vestido, ok?

       — Acha mesmo que quero mostrar o seu corpo aos meus funcionários?

        — Espero que não. — respondeu meio sem graça.

       — Não sou exibicionista, minha cara, só estava testando a sua sem-vergonhice.

       — Está brincando comigo?

       Ele a olhou de um jeito engraçado e perguntou franzindo o cenho:

       — Decepcionada?

       — Você sabe que eu topo qualquer coisa, sempre estou preparada para qualquer aventura, só não quero cair na boca do povo.

       O olhar que lhe endereçou era quente e cheio de más intenções.

       — Realmente não tenho queixas a seu respeito, você é uma legítima depravada na cama, não é mesmo, minha ruivinha?

       Ela não sentiu o rosto queimar ou qualquer outra sensação que expressasse vergonha ou constrangimento. Com o passar dos anos, fosse a maturidade ou a convivência com um homem autoconfiante como ele, Valéria transformara-se em outra mulher, mais aberta, suave e segura sexualmente. A cama com Thales era um mundo à parte e tê-lo para si pelas horas que fossem, se estendendo até o lanche da madrugada na cozinha e o amanhecer juntos, reafirmava o sentido de sua própria existência, que era amá-lo e amar o filho deles, a extensão de Thales.

       Talvez ele tivesse percebido o fulgor no verde dos seus olhos; talvez, não. No entanto, a expressão de seu rosto tornou-se circunspecta e expectante, observando enquanto ela levava a mão até a parte frontal do jeans dele, sem sutileza alguma, explicitando a decisão de amá-lo diante dos pistoleiros da Arco Verde.

       — Quero você. — ela murmurou num gemido rouco.

       Ele desceu a cabeça e chupou o lábio inferior dela, mantendo-o por alguns segundos entre os seus dentes. Depois, esfregou o maxilar no pescoço da mulher, arranhando ligeiramente a pele sensível.

       — Vamos voltar para casa então. — determinou, fitando-a com intensidade. — Sei que está louca de tesão, mas a conheço o suficiente para saber que não relaxará se perceber que é observada.

       Tinha de dar o braço a torcer, ele estava certo, considerou.

       — Além do mais, Valéria, a reclusão é o melhor ambiente para o ato de amor, longe dos olhos da rua. — afirmou, piscando o olho com charme.

       O coração bateu forte na sua garganta e ela quase parou de respirar. Três anos de casamento e nenhuma declaração de amor. Jamais ouvira um “eu amo você” e tampouco forçara a barra nesse sentido. Assim, quando ele mencionava a palavra “amor”, ela ficava bem atenta.

       Ele a amava? Ele ainda amava Karen?

       — Sim, Thales. — ela assentiu com um sorrisinho travesso.

       — Será gratificada em dobro por ter concordado comigo. — ele disse com espirituosidade. — Só não podemos acordar o Theo, — e completou de um jeito divertido: — portanto, terei de amordaçá-la para que não grite.

       Fitou-o longamente, e ele deixou-se ser observado, admirado, analisado. Aceitou o olhar dela devolvendo outro, cheio de luxúria e interesse. Aproveitando o bom humor dele, ela fez o que havia jurado jamais fazer, perguntou de forma direta e precisa:

       — Você me ama?

        Assim que a pergunta saiu de seus lábios, Valéria arrependeu-se de tê-la feito. Mas era tarde demais, Thales tinha bons ouvidos. E um par de olhos que fulminavam de azul o seu adversário.

       Pensou que ele fosse se afastar, levantar da grama e pular para cima do cavalo.

       — O que você acha?

       Mas ele ficou bem ali, deitado de lado, fitando-a sem piscar, consciente de que aquele momento era fundamental para ela.

       — Prefiro não arriscar qualquer palpite. — hesitou.

       — É mesmo?

       — É, não estou dentro de sua cabeça para saber. Mas isso não importa, não precisa responder, temos um filho lindo e somos felizes. Você é feliz, não é?

       — Sim, agora também faço parte do grupinho dos bem nutridos e alegrinhos. Satisfeita?

       Ele parecia irritado.

       — Satisfeita plenamente, embora não entenda essa sua incipiente irritação.

       — Não estou irritado. — ele se pôs de pé e estendeu-lhe a mão: — Vamos?

       Ela aceitou a mão e a resposta. Havia desistido de cutucá-lo nas entranhas de sua alma e acabar encontrando o que temia descobrir. Ele falava a verdade na cara, sem poupar ninguém, e ela não estava preparada para ouvir o que não queria ouvir.

       Na verdade, ele já lhe havia respondido. Bastava um “sim” para destruir a força daquele silêncio, da falta daquela resposta, do não dito que gritava para ela o “não”.

       Cavalgaram lado a lado numa quietude que combinava com a placidez da manhã no campo, aspirando o cheiro da relva aquecida pelo sol.

       O trote dos cavalos, manso e cadenciado, era a deixa para ela se aproximar novamente dele.

       — A Nova vai passar lá em casa logo mais para irmos ao supermercado. Espero que o Theo já tenha acordado, ele ainda tem de tomar banho. — considerou, agradecendo a si mesma por ter aceitado a contratação de uma babá assim que ele nascera.

       — Vocês duas têm funcionárias para fazer as compras.

       — E também temos braços e pernas, meu amor. — disse de um jeito engraçado.

       Ele riu baixinho e indagou:

       — O Franco vai levá-las?

       Ela se voltou para tentar compreender o tom de falsa naturalidade. Sim, ele estava sondando-a.

       — Não, mas a Irene também irá para poder ajudar a Nova com as gêmeas. E eu, bem, terei o auxílio da Paola, ela é apaixonada pelo Theo e não desgrudará um minuto sequer dele. — comentou, satisfeita.

       Paola era apaixonada por Theo. E o apelido criado pela filha mais velha de Nova para o seu próprio tio, Pongo, fora em função de ter sido a única palavra pronunciada por ele até o momento. E nem fora “Pongo” e sim “Pôgo”, modificada sutilmente por Paola Monteiro Dolejal ou, como era mais conhecida pela cidade, a “loirinha do Franco”.

       Ouviu quando Thales determinou numa voz quase neutra que elas sairiam da Arco Verde com escolta. Era desta forma que ela tinha certeza de que ele estava irritado.

Quando parava de falar ou economizava nas palavras, significava tão-somente que algo ou alguém o desagradara.

       — Tudo bem, mas o Franco não viu necessidade de uma escolta. — ela disse como quem não queria nada.

       — E isso significa exatamente o quê, Valéria?

       — O que você acha, Thales?

       Ele olhou em sua direção ao perceber a ironia na voz:

       — É muito interessante vê-la mostrar as garras, ainda mais quando não estão afiadas. — sustentou o seu olhar sem mexer músculo algum da face — O que acho é bem simples de se entender, o Franco é o Franco e eu sou eu.

       Ela meio que sorriu, sentiu-se inspirada para rebater:

       —Ah, claro, esse argumento poderia ser considerado inteligente se estivesse falando com sua neta de três anos.

       — Bom, o que posso fazer se não percebeu que considerei o seu comportamento imaturo e por isso lhe dei a devida consideração?

       — Sinceramente não sei por que está irritado comigo. O que foi que fiz? Estava tudo bem até... até... — ela parou, mordendo o lábio inferior, incerta.

       — Quer que eu complete a frase?

       — Quero, sim. — disse, petulante.

       — Até você pôr os pés pelas mãos. — afirmou com bastante serenidade.

       Por essa ela não esperava.

       Apertou firme as rédeas e conteve o animal. Precisava de um tempo para se recompor antes de encontrar o filho, não queria passar para ele a frustração que sentia.

       O outro cavalo emparelhou junto ao seu, e o homem que o montava se aproximou mantendo uma distância segura entre os animais.

       — Sei o que você quer. Para me tornar o marido perfeito terei de entoar as três palavrinhas mágicas, não é mesmo?, nem que depois de dizer que a amo, eu meta a mão na sua cara como alguns camaradas galantes costumam fazer. — declarou com seriedade e prosseguiu: — Você faz parte do grupo de mulheres que precisa ouvir qualquer merda adocicada para se sentir amada e menos carente e insegura, o tipo de mulher que precisa de elementos externos para a sua autoafirmação. Então se um cara diz que a ama ou simplesmente cospe qualquer coisa nesse sentido, como aquelas frases malucas...aquelas que vocês, mulheres, tanto amam...como são mesmo? Ah, sim, algo como “minha vida só tem sentido com você” ou “você é o ar que eu respiro”... e tem outra que é fantástica: “eu a amo mais do que a mim mesmo”. — ele riu um riso áspero e malévolo e concluiu, sem deixar de fitá-la com dureza: — Mulheres como você pedem, imploram para se tornarem vítimas de estelionatários, psicopatas ou apenas mentirosos oportunistas, porque essa necessidade estúpida de ouvir palavras floridas não pode ser mais importante do que os gestos concretos do cotidiano e se você, querida esposa, não é capaz de se sentir amada é porque deve rever o seu conceito de amor. — ele fechou a boca como se contivesse o disparo de uma munição com maior poder de fogo e os ossos dos maxilares se projetaram contra a pele.

       Ouviu-o suspirar pesadamente para depois falar num tom menos severo:

       — Mudei muita coisa na minha vida por você.

       Ela se voltou para ele e tinha lágrimas nos olhos.

        — Sei que sim, me perdoa por incomodá-lo.

       — Acha que casei por dinheiro? — indagou com escárnio.

       — Casou para encher a sua casa, se livrar da solidão e...

       — É, você acredita mesmo em tudo que eu falo. — comentou com um sorrisinho — Bem, você disse que é feliz, não é mesmo?

       Encarou os olhos azuis que raiavam uma luz de divertimento.

       — Sim, sou muito feliz. — respondeu com um sorriso que recebia um fio de água escorrida dos seus olhos.

       — Então, Valéria, como pode ser feliz se não é amada por mim?

       Ele sorria com charme e expressava no olhar uma terna interrogação.

       — Talvez porque eu o ame por nós dois. Sou tão apaixonada por você que acabo me sentindo completa. — ela fungou e o seu peito estremeceu. — Olha, Thales, não estou reclamando de nada, não, viu?

       — Vê se presta atenção ao seu redor, mulher. — censurou-a brandamente: — Você é feliz porque se sente amada. Agora se pensa que ouvirá de mim essas baboseiras românticas, sinto muito, mas terá de se contentar em apenas ser feliz ao meu lado.

       Ele estendeu a mão e pegou uma mecha do cabelo dela; depois, piscou o olho e conduziu Nero pelo campo aberto. Esperava ser seguido por ela, nem olhou para trás, ainda sorria ao imaginá-la naquele exato momento também sorrindo.

       Valéria indicou o caminho à frente para o seu cavalo, lembrando-se nitidamente da cena que assistira na própria fazenda onde agora morava: Thales dizendo as três palavrinhas mágicas a Karen. Em alto e bom som, ele declarara o seu amor, a sua dita “baboseira romântica” e fora a cunhada, e não ela, a sua esposa, que ouvira o “eu amo você”.

         

       Rodrigo Malverde estava sem chapéu. Sentado, uma perna dobrada sobre a outra, mascando discretamente o chiclé de hortelã agora sem sabor algum, diante da mesa que o separava de uma terapeuta de casais. Havia seis meses que começara a frequentar o consultório da doutora Catarina Leone Bertollo, e era a sétima ou oitava vez que Karen se atrasava e contando com suas dez faltas, em um conjunto de uma sessão por semana, ela até que estava se esforçando.

       Agora o delegado esperava que sua namorada chegasse antes de terminar os cinquenta minutos de sessão. A situação só não era mais constrangedora porque a psicóloga — que chegara havia dois anos com o marido, um engenheiro italiano dono da empreiteira contratada para construir a ponte entre Matarana e Belo Quinto — sempre começava a sessão de psicoterapia com ele. Parecia até que era o próprio Rodrigo quem mais precisava de ajuda psicológica haja vista que para Karen tudo estava sempre indo muito bem.

       Catarina era uma mulher bonita, na faixa dos quarenta, uma brasileira nascida no Rio Grande do Norte e criada no Ceará, onde conhecera Francesco Bertollo, vinte anos mais velho. E foi com um olhar clínico e um leve sorriso nos lábios que ela começou:

       — Como se sente em relação ao fato de a Karen não estar aqui?

       Ele devolveu o sorriso, cônscio que estava das implicações daquela pergunta. A bem da verdade, não se sentia à vontade ao ser revirado do avesso por uma estranha, o lance de abrir o coração e esparramar seus sentimentos pelo carpete não o animava. A ideia sempre fora a de estabelecer uma relação saudável com Karen, nem que para isso precisasse de intermediários da área da saúde mental. Às vezes se sentia estressado, exaurido emocionalmente, por conviver com uma fêmea alfa de pavio curto. Longe de suas intenções tentar domá-la, queria tão-somente mantê-la no seu campo de visão... e um pouco além.

       Agora ele enfrentava uma terapeuta astuta e sua parceira de alfinetadas sarcásticas o abandonara outra vez. Optou por sorrir com charme, era melhor do que levantar, pôr o chapéu na cabeça e inventar um problemão qualquer na delegacia. Sorriu então e respondeu:

       — “Sinto” que ela está ocupada e não pôde vir.

       Ela devolveu o sorriso e o charme e foi direto ao ponto:

       — Por que está na defensiva?

       Antes que ele pudesse responder, a porta do consultório foi aberta pela morena que não tirou o chapéu depois de beijar o seu caubói e sentar ao seu lado, endereçando um sorriso encantador para a psicóloga.

       — Perdi alguma coisa?

       A terapeuta manteve o sorriso intacto, o mesmo que havia endereçado ao cliente ao perguntar sobre a intenção de proteger a namorada. Antes que ela retomasse a sessão, percebeu a ligeira inclinação de Rodrigo em direção a Karen antes de indagar com bastante interesse:

        — Falou com o Franco sobre a cerca danificada?

       Karen se voltou para Rodrigo com um restinho do sorriso endereçado à psicóloga, mas, agora, para ele, o sorriso mudava, era outro, assim como o tom ronronante que usou ao comentar:

       — Hmmm, adoro o gosto de hortelã da sua boca, delegado. — ela tinha uma especial predileção por deixá-lo sem jeito e vê-lo corar e, para isso, bastava elogiá-lo ou falar qualquer coisa picante fora de hora, desse jeito, diante da mulher que os observava atentamente e anotava coisas.

       Ele baixou a cabeça e sorriu, balançou o chapéu na mão e devolveu um olhar cheio de calor à espera da resposta para a questão da segurança da Quatro Princesas. Uma das cercas de arame da fazenda de Franco fora arrebentada e de acordo com a verificação de Bronson não fora por animal.

       — E...? — ele insistiu, sabendo de antemão que a namorada não costumava falar sobre seu trabalho com ninguém.

       — E é o seguinte, mandei meus homens averiguarem as cercanias, mas aquela fazenda é imensa, então, já viu, né? — falou com desânimo.

       — Posso deslocar gente para auxiliar na busca.

       — Primeiro, amor, auxiliar na busca por quem? Não tem como saber se houve algum tipo de invasão ou uma travessura qualquer da molecada que sai podre de bêbada das festas e quando volta para as suas fazendas apronta alguma.

       — De qualquer forma, tem de ficar de prontidão, Karen. Tudo o que se relaciona aos Dolejal, normalmente, requer uma atenção maior. — aconselhou.

       — É, eu sei, ainda mais que a dona Nova não deixa os pistoleiros andarem armados pela fazenda. — reclamou.

       — Ela tem as suas razões.

       — E eu as minhas, Rodrigo, isso atrapalha o meu trabalho.

       — E o meu também.

       O casal voltou-se para a terapeuta que ainda mantinha um sorriso gentil após tê-los sutilmente chamado a atenção.

       Karen foi a primeira a tentar consertar a mancada, já que Rodrigo apenas esboçou um sorriso travesso.

       — Caramba, doutora, a gente se empolga e esquece o resto do mundo.

       — Já não é a primeira vez, mas foi bom mesmo isso ter acontecido novamente, digo, os dois começarem a conversar sem levar em conta a minha presença. — não havia tom de censura e sim um censo avaliativo e profissional: — Sinceramente, o que vocês fazem aqui? Não me entendam errado, minha função é auxiliá-los a desenvolver ao máximo a potencialidade do casal e não quero de forma alguma desmotivá-los a frequentar o meu consultório. O que vejo, na verdade, é que vocês estão perfeitamente sincronizados um com o outro, que ajam conflitos eventualmente isso é normal em qualquer relacionamento, mas não ao ponto de precisarem de terapia.

       Karen quase deu um salto na cadeira de tamanha animação:

       — Eu sempre disse isso pro Rodrigo, parece que a senhora tirou as palavras da minha boca!

        — Calma, aí, Karen. — ele fez um gesto com a mão de modo a contê-la em seu entusiasmo: — A questão, doutora, é que talvez o problema não esteja relacionado à nossa relação como casal e sim à personalidade explosiva da moça aqui do meu lado.

       — O que? Por acaso está insinuando que eu tenho problemas psicológicos?

       — Não, não estou insinuando; estou é afirmando. Com todo o respeito, Karen, mas normal você não é. Essa raiva toda que sente já está se tornando incontrolável. — afirmou Rodrigo com bastante calma e segurança.

       Karen bufou.

       — Não vim aqui para ser insultada.

       A terapeuta achou por bem interferir:

       — Você encara como insulto uma observação sobre a sua personalidade?

       A namorada do delegado piscou algumas vezes antes de responder, constrangida:

       — É claro que não.

       — Então escute o que o Rodrigo tem para falar.

       — Eu sei muito bem o que ele tem para me falar, é sempre a mesma coisa, que tenho pavio curto, que sou descontrolada beirando a histeria... ah, e imatura. Só porque não sou calma que nem um octogenário sedado, como o delegado aqui do meu lado, não significa que eu não seja equilibrada emocionalmente. O meu equilíbrio é outro, não preciso falar baixo ou raciocinar friamente, me equilibro sobre arame farpado ou sobre brasas de carvão, é um tipo de autocontrole para quem vive em grandes altitudes, sabe? — afirmou em tom de desafio.

       — Ou para quem não tem autocontrole nenhum. — concluiu Rodrigo e continuou sério: — Você tem porte de arma e lidera um bando de pistoleiros. Uma pessoa que anda armada não pode ter pavio curto, Karen. É preciso que controle a sua raiva, entendeu?

       — Sei o que faço e nunca machuquei ninguém que não merecesse.

       Um silêncio perturbador recaiu sobre eles.

       Karen se sentia pressionada contra uma parede áspera, quem era para lhe ser o cúmplice mudara de lado. E a tal raiva a qual Rodrigo se referira começava a dar as suas caras, chacoalhando o sangue quente dentro das veias. Por outro lado, uma parte de seu cérebro captava a intenção do namorado e, de certa forma, era mais a intenção do amigo de longa data e esse amigo sempre lhe apontara o cerne de toda a sua danação: a raiva enrustida.

       Quando um raio de sol deitou sobre a mesa de vidro da psicóloga, ela aproveitou para perguntar com suavidade:

       — De onde vem tanta raiva, Karen?

       Era uma voz meiga, uma voz parecida com outra, que ela não ouvia mais havia quase seis anos. Deu de ombros e respondeu baixinho, fitando as mãos cujos dedos eram estalados um a um:

       — Sei lá, doutora.

       — Quando era criança se sentia assim tão zangada?

       — Não, me sentia um menino, mas não zangada.

       — E na adolescência? Tinha raiva do mundo, dos seus pais? Se sentia deslocada ou deprimida, angustiada? Como foi a sua adolescência?

        Karen sorriu com tristeza, a quentura do olhar de Rodrigo aderindo à pele do seu rosto.

       — Casei aos 15 anos e, em seguida, engravidei. Acho que isso resume a minha “adolescência”.

       — Me diz uma coisa, de tudo o que aconteceu na sua vida até agora, o que mais lhe causou ou causa raiva e por quê?

       Ela se virou para Rodrigo com o semblante tomado por uma melancolia que ameaçava se transformar em lágrimas. O caso era que Karen também não queria revirar seus sentimentos como quando se revira gavetas para encontrar algo escondido lá no fundo.

       — Vamos embora? — pediu, quase emendando um “por favor”.

       Por mais que quisesse atendê-la, visto que a simples expressão de sua mágoa causava-lhe também extrema tristeza, ele sabia que a doutora Catarina alcançara o ponto inflamado e que, a partir dali, o espírito raivoso se libertaria dos grilhões para, enfim, encontrar a paz interior. Por isso respondeu numa voz serena e incisiva:

       — O que lhe causa raiva é o que você não pode controlar, não é mesmo?

       Ela baixou a cabeça e nesse gesto a denúncia de que ele estava no caminho certo.

       A terapeuta recostou-se no encosto da cadeira e assentiu levemente com a cabeça para Rodrigo, permitindo-o que conduzisse a conversa.

       — E o que não dá para controlar é a morte.

       Karen mirou seus olhos nos olhos da psicóloga e afirmou numa voz abafada:

       — Tenho raiva da morte, acredita? Raiva da separação, raiva dos meus pais e da Jasmine porque me deixaram para trás. Sinto um ódio tremendo de tudo o que está errado, de tudo o que é injusto. Não consigo estabelecer um meio termo, porque sei que nasci para perder. Vou perder quem mais gosto uma hora ou outra, então a raiva me protege do medo. Não sei falar como o Rodrigo, não estudei tanto quanto ele...mas ainda prefiro a minha raiva, que já é uma amiga e aliada, ao medo paralisante.

       — Sente falta da Jas? — Rodrigo perguntou numa voz embargada, as lágrimas brilhando sem rolar pelo rosto.

       — Ela era minha irmã, Rodrigo.

       — Eu também a amava, e ela nos amava, isso nada e ninguém pode tirar de nós. O que aconteceu foi terrível, um acidente terrível, algo que não tínhamos como prever ou controlar. Destino ou seja lá o que for, Karen, não fomos nós que enchemos a cara de Martini e depois pisamos no acelerador até enfiar o carro numa árvore. Sim, eu também sinto muita raiva. As pessoas deveriam de fato ser responsáveis por quem cativam, não é mesmo? — falou, a ironia misturada à tristeza emprestava à sua fala a densidade apropriada, depois, concluiu num fiapo de voz: — Mas elas não o são.

       — Eu também tinha bebido um pouco, a gente estava se divertindo à beira da piscina do condomínio, o dia estava quente e... — ela balançou a cabeça, vencida: — a Jasmine não quis cochilar na rede antes de voltar para casa, não quis. Mas eu também não a obriguei a ficar. Ela foi até o portão, se voltou e disse: “Você precisa conversar com ele.”

       — Conversar sobre me deixar, eu sei, Karen. Agora, realmente, não me importa mais. Quero apenas que você entenda que não pode mais pular no pescoço dos outros ou  se meter em brigas como um lutador de rua. Amor, você precisa de um pouco de paz, precisa dar a si mesma um pouco de paz.

       Ela assentiu levemente, acatando as palavras carinhosas dele. Entretanto, sentia o olhar crítico e sério da terapeuta sobre si.

       — Como era a sua relação com os seus pais?

       Rodrigo franziu o cenho e se voltou para Karen, toda a atenção do mundo direcionada a ela.

       Mal movendo os lábios, ela respondeu secamente:

       — Meu pai me levava para passear e paquerava as mulheres na minha frente e, então, eu contava para a minha mãe e ela não acreditava. Meu pai, doutora, era um traidor mentiroso e a minha mãe, uma fraca iludida. Mais alguma coisa?

       Rodrigo não sabia quanto à resposta da terapeuta, mas, para ele, não precisava saber mais nada. Enfim, alguém acessara o fundo da alma de Karen, o lugar onde estava escondida a raiva, pelo menos, dos homens.

       Ele tinha de dar o seu melhor para curá-la.

         

       Thales subiu a escadaria até o segundo andar de sua casa. No alto da escada, endereçou um último olhar à esposa que, parada à soleira da porta entre a sala e o corredor que a separava da cozinha, ainda o fitava de forma enigmática. Ele não gostava de quando aqueles olhos verdes escureciam-se ao ponto de esconder as emoções. A ideia inicial era a de chegar em casa e jogá-la na cama, mas as cozinheiras haviam posto o seu plano por terra, chamando-a para resolver qualquer coisa sobre o almoço. Ele ainda trazia consigo a incômoda sensação de que se declarara e, com isso, baixara perigosamente os seus escudos de proteção.

       Foi ela quem desviou primeiro o olhar, a responsabilidade de dona de casa e matriarca da família Dolejal impondo-se aos desejos de mulher. A insegurança que sentia ao lado do marido que tanto amava a tornava ainda mais refém dele e das expectativas que ele tinha a respeito dela. Por outro lado, essa mesma insegurança potencializava a sua vontade de satisfazê-lo. Entregava-se às tarefas de anfitriã nos poucos jantares de negócios na fazenda, assim como organizava as atividades das arrumadeiras, cozinheiras e demais funcionários que trabalhavam na casa-sede. À tarde, administrava a Confeitaria Dolejal, agora, com dois andares, dispondo na cobertura de um jardim com mesas e cadeiras protegidas por guarda-sóis coloridos. Não havia mais concorrência; a confeitaria de Rita quebrara por não conseguir competir com a lealdade dos amigos, políticos, empresários e funcionários dos escritórios de Thales Dolejal. O plano de Karen dera certo com o auxílio de Thales, ainda que não tivesse sido seu objetivo. Valéria jamais perguntara são marido sobre suas intenções ao comprar a parte da sua sócia e ampliar o negócio, o tornando exclusivamente dela, de papel passado, o seu primeiro patrimônio. Quanto a Rita...Ela não precisava mais trabalhar, era bancada pelo coronel Rodrigues, após se separar de sua esposa de 20 anos de idade.

       Valéria Malverde Dolejal tinha uma nova vida. Ela tinha de estar impecável, bem vestida e penteada para os eventos na prefeitura, na câmara de vereadores e em Brasília, ao lado do Homem que comprara Matarana. Mas não comprara o seu irmão delegado, considerou, entrando na cozinha com um leve sorriso nos lábios. Fazia-lhe um bem danado saber que, pelo menos, um Malverde não descansava na palma da mão de um Dolejal.

       Thales parou à entrada do banheiro, na suíte do filho, cruzou os braços em frente ao corpo e observou-o na banheira, o cabelo fino e curto encharcado, os olhos atentos ao patinho de borracha que ora boiava, ora mergulhava conduzido pelas mãos da babá. Quando o bichinho desaparecia debaixo d’água, Theo arregalava os olhinhos numa tensa expectativa, antecipando o momento da emersão do brinquedo e, quando ele surgia num rápido impulso, o garotinho miúdo, de cabelos castanhos e enormes olhos verdes, estremecia o corpinho de susto e, em seguida, desandava a gargalhar até quase ficar vermelho.

       O seu filho caçula tinha os traços faciais da mãe, um rosto delicado e meigo, um jeito de sorrir como se sempre estivesse com vergonha, um comportamento tímido e silencioso. Nascera de um parto tranquilo ao som de música clássica num hospital particular da capital e, no decorrer da gravidez de Valéria, Thales esteve presente e atento às necessidades dela. A calmaria dos novos tempos, em Matarana, os presenteou com momentos de leveza e paz, verdadeira paz, que, agora, fazia parte do DNA do seu filho, do bebê sereno, saudável, que adorava a sobrinha, dormir e caminhar pela fazenda com o velho Bronson. Uma criança alegre que jamais chorara, nem mesmo ao receber as primeiras vacinas.

       Theo tinha a personalidade quieta e pacífica de sua mãe. Por certo, era muito mais um Malverde do que um Dolejal.

       Thales, vendo-o se divertir no banho aos cuidados da babá, a filha mais nova da cozinheira e de Valentino, sentia uma quentura de amor dentro de si como se o seu coração, ao ver o filho feliz e saudável, soubesse enfim a intenção de cada sístole e diástole.

       Ao notá-lo, Mariana sorriu e fez um sinal para Theo indicando o pai à porta.

       O rosto do menino se iluminou, os olhos se arregalaram ainda mais, a surpresa e o contentamento se revezando no semblante que, tomado pelo susto feliz, mantinha a boquinha num formato engraçado como se ele tivesse congelado um “uuuu”. Meio segundo depois, refeito do impacto da aparição paterna, ele começou a se agitar, batendo as mãos freneticamente na água, ao ponto de criar ondas que empurravam a água para fora da banheira e, um pouco dela, para dentro da boca do menino.

       A babá tentou pegá-lo pelos ombros para tirá-lo da banheira. Mas ele foi mais rápido e ensaiou uma escapada por cima da borda e, como estava encharcado, escorregou duas vezes antes de conseguir se firmar sobre a cerâmica do piso, vacilando sobre as perninhas curtas e molhadas.

       Antes que o filho escorregasse na água que lhe deslizava pelo corpo, Thales deu alguns passos e se abaixou para pegá-lo, quando ele praticamente se jogou em seus braços. Levantou-se com o garotinho grudado no seu pescoço, o corpo tremia de uma emoção vista em pessoas desesperadas de saudade, mas não era o caso daqueles dois, já que o pai embalara o filho nos braços na noite anterior, enquanto assistia a um filme acompanhado de Valéria.

      — Nossa, como o Pongo é agarrado com o senhor! — exclamou Mariana, sorrindo amplamente.

       Concentrado que estava em acalmar o filho, trazendo-o para a constituição sólida e familiar de seu tórax e beijando a cabecinha molhada, ele apenas esboçou um sorriso em resposta, virando-se, em seguida, para a saída do banheiro.

       Mariana ergueu-se rapidamente da beirada da banheira, pegou uma tolha infantil e se aproximou a fim de pô-la por cima do bebê:

       — Ele acabou de sair da água, é capaz de fazer xixi na roupa do senhor. — avisou, desconcertada.

       — Tenho outras. — murmurou o fazendeiro, ajeitando a toalha ao redor do filho mais com a intenção de protegê-lo de sentir frio, visto que ainda estava com a pele molhada, do que em sinal de uma preocupação com suas roupas.

       Sentou-se numa cadeira no terraço da suíte principal, onde dormia com Valéria, e embalou o bebê ainda dobrado em seu colo, a cabeça agora deitada em seu ombro.

        — O pai disse que ia passar o dia com você, não disse? — falou baixinho, num tom que usava para acalmá-lo após uma crise de tosse ou depois de se machucar.

       Thales sorriu satisfeito ao encontrar o rosto sorridente de Theo voltado para o dele, beijou a bochecha redonda e o apertou contra o peito.

       Muitas coisas ruins haviam-lhe acontecido na vida. Coisas que o tornaram quem ele era, que moldaram o seu caráter e sedimentaram a sua força. Ainda assim, Thales era um homem de sorte por ter um ímã que atraía para si aqueles constituídos por seus genes. Theo não era nada diferente do seu irmão mais velho. Só que agora Thales cuidaria do filho mais novo desde o início, como não pudera fazer com Franco.

       Talvez ele estivesse ficando mais mole, a dedicação e o amor de Valéria e o segundo filho em seus braços; talvez essa segunda chance que a vida lhe dava fosse de fato a sua verdadeira fortuna. Não podia então perdê-la.

       Não podia perdê-los.

       Ao perceber que a respiração de Theo estava compassada e tranquila, sabia que ele adormecera. O bebê era um legítimo dorminhoco, ainda mais quando se sentia protegido no calor dos braços daquele que o amava.

         

       Karen detestava supermercados, tinha verdadeira alergia a eles. E só de entrar em um desses estabelecimentos e dar de cara com prateleiras abarrotadas de porcarias coloridas e pessoas hipnotizadas por elas, cogitava dar meia-volta e cair fora. A questão era que suas amigas adoravam a vida doméstica, o que incluía o programa de sábado, as compras para o churrasco de domingo.

       Era verdade que as Mosqueteiras Tresloucadas haviam unido três sobrenomes na invenção de uma nova e excêntrica família. Brigas e provocações à parte, a ideia de unirem os Malverde, Dolejal e Lisboa, todos os domingos, revezando apenas o local do churrasco, era uma forma de manterem a amizade intacta, como quando as três eram solteiras. No universo feminino era muito comum maridos, namorados ou noivos separarem as amigas, isolá-las de sua antiga vida de solteira. Entretanto, Karen jamais deixaria que Thales ou Franco a separasse de Val e Nova. E também de Paola.

       Assim que entrou, pisando firme debaixo do seu chapéu de vaqueira, percebeu os olhares sobre si. Sim, era incomum a chefe de segurança dos Dolejal e namorada do delegado da cidade dar às caras naquele lugar.

       Karen encontrou as mosqueteiras no corredor das frutas.

       Val parecia palestrar sobre os poderes curativos da maçã, e Nova a ouvia atentamente, enquanto Irene passeava pelo corredor empurrando o carrinho com as gêmeas. A poucos metros dali, Paola testava o sabor de vários iogurtes furando-os, um a um, com o dedinho indicador e depois o levando à boca.

       Parou em frente às amigas, pôs as mãos na cintura e disse de um jeito jocoso:

       — Que vida dura ser mulher de fazendeiro, não? E, aí, como vão as ricaças?

       Nova não deixou de desfazer o sulco entre as sobrancelhas, o que lhe conferia um ar sério de moça sensata, ao responder:

       — Muito bem, obrigada. Temos de conversar.

       Valéria atalhou antes de Karen engatilhar as palavras:

        — A Sabrina me disse que o Johnny está voltando para passar as férias em casa.

       — Sim, é verdade. — concordou ela, sorrindo, e completou com aquele seu jeitinho persuasivo que tanto a metia em confusões: — A gente vai convencê-lo a concluir o curso no campus de Santa Fé. Comprei um carro para ele e agora poderei chantageá-lo em alto estilo. Aprendi que não adianta fingir que vou me suicidar, os filhos nunca acreditam nisso.

       — Meu Deus, Karen, fez isso mesmo?

       — Até parece, Val. — respondeu Nova e, em seguida, se dirigiu a outra amiga: — Olha só, nada de pressionar o Franco a armar os pistoleiros da nossa fazenda, ok?

       — O meu trabalho é garantir a sua segurança, a do seu amado diabo e das suas filhas, e é isso que farei. Não vou discutir esse assunto com você, Nova. — declarou, incisiva.

       — Ah, mas vai discutir, sim! Sei que veio atrás de mim para me “convencer”, talvez até cogitando também comprar um presente para mim, para que eu aceite as suas decisões arbitrárias, mas não vou permitir a entrada de arma na minha casa.

       — É o que o Franco pensa?

       — É exatamente o que o Franco pensa.

       Karen suspirou profundamente. Calculava que ficaria batendo boca com Nova até o sol raiar em 29 de setembro de 2030 se continuasse por aquele caminho. Ela tinha uma carta na manga, uma informação que faria até mesmo Nova andar com uma carabina enfiada no cós da calcinha. Mas agora ainda não era o momento de lançar a granada. Precisava da atenção de todos, isso significava também a atenção dos homens.

       — É impossível trabalhar com gente ingênua e teimosa.

       Nova começava a se irritar, e foi Val que contornou a situação:

       — Por que não conversamos amanhã sobre isso? — e, virando-se para Karen, perguntou alegremente: — Ainda gosta de pudim de laranja?

       Karen sorriu sem jeito diante da mudança no tom da conversa. Sua visão periférica percebia a hostilidade silenciosa de Nova. Incomodava-a, era verdade, a mulher de Franco havia se tornado um tanto prepotente após o nascimento das filhas.

       — Gosto, sim. Deixa que eu faço a sobremesa que a Nova gosta, ainda é ambrosia? — tentou amansar a fera nanica.

       — Não, não é. — respondeu, emburrada.

       Val e Karen trocaram olhares entre curiosos e divertidos.

       — Bom, por acaso é pavê de pau?, opa!, de chocolate? — debochou Karen.

       Nova deu-lhe as costas e foi buscar a filha mais velha, que havia aniquilado uma bandeja com seis iogurtes de morango.

       — A baixinha está cada dia mais terrível, hein?

       Valéria riu e comentou enquanto juntava meia dúzia de maçãs e as punha num saco plástico:

       — Ela sempre foi assim, só que antes era mais diplomática.

       — É, mas a minha paciência tem limite, Val. — afirmou Karen com a expressão grave.

       — Por que está tão preocupada com isso?

        A outra suspirou novamente, pensando se a maternidade ou o casamento com homens fortes e poderosos havia mexido com a cabeça de suas amigas. Depois de tudo que acontecera, uma acreditava que os pistoleiros poderiam defendê-la usando apenas os seus chapéus e a outra, mal sabia o que se passava na cidade.

       — Por causa do sobrenome de vocês.

       Valéria assentiu levemente e fitou pensativa o saco de maçãs na sua mão.

       — O Thales sempre fala isso.

       Antes que Karen pudesse confirmar que Rodrigo também concordava com o cunhado, Nova voltou para junto delas trazendo Paola pela mão. O rosto da menina apresentava as evidências de um crime imperfeito, ao redor da boca e na ponta do nariz, a substância cremosa cor-de-rosa.

       — O que pretende levar para o almoço? Você não é obrigada, não tem tempo pra nada, só para planejar estratégias em tempos de paz.

       Karen pegou Paola no colo e, ignorando a mãe da garota, disse à menina:

       — Vim com o Prefontaine, que tal? — piscou o olho para a menina.

       — Vamu imboia! — a afilhada exclamou faceira da vida.

       Para o bem de todos, a vaqueira decidiu bater em retirada.

       — Decidi levar um bolo de maracujá para te acalmar, Smurfette. Agora, se me permitem, vou levar minha amiga para uma boa cavalgada pelas planícies e, depois, ela ficará na minha casa e eu a levarei amanhã para o churrasco.

       Dizendo isso, deu as costas às amigas e incitou os primeiros passos em direção à saída do supermercado. Ouviu Nova reclamar:

       — Nada disso! Preciso falar com o Franco.

       Karen se virou com um sorriso e perguntou a Valéria:

       — Cadê o Pongo? Preciso de duas crianças hoje, vamos jogar pôquer a dinheiro.

       Valéria se controlou para não rir, queria ser solidária à Nova, compreendia sua irritação para com Karen e sua arbitrariedade na condução do seu trabalho como segurança. Queria não achar engraçado o jeito irônico e displicente da cunhada lidar com a brabeza de Nova, ela simplesmente pouco se importava.

       — Ah, ele caiu no sono e ficou com o Thales.

       Karen olhou ao redor e declarou:

       — Bem, então terei de levar uma das gêmeas... Prefiro a gêmea má, faz mais o meu estilo. — afirmou, se encaminhando até o carrinho e pegando com um braço só o bebê leve feito uma pluma.

       Nova deu passou à frente a fim de lhe barrar a passagem, e Valéria a conteve com um gesto de mão:

       — Espera só.

       A cunhada estava com uma criança em cada braço e, antes de atravessar as portas duplas do mercado, voltou-se e comentou com ar superior:

       — Tentem me deter, peruas!

       Três minutos depois, ela voltou a contragosto. Devolveu Paloma à mãe e comentou meio sem jeito:

       — O Pre não quis baixar a rampa para deficientes, então não consegui montar com uma criança em cada braço.

         

       Nova avaliou a distribuição dos convidados na grande mesa retangular para dez lugares. Uma toalha de renda clarinha cobria a madeira rústica e um tecido acolchoado decorava o assento das cadeiras de carvalho. Ao lado da mesa, o aparador no qual seriam depositadas as travessas com as saladas dividia o ambiente com o frigobar e uma mesa de sinuca.

       A construção de tijolo aparente servia como o salão de festas da fazenda, sustentado por colunas do mesmo material e sem paredes laterais. Anexo à sala principal, a cozinha tão bem equipada quanto à da casa-sede e o lavabo. A área das churrasqueiras distava alguns metros da parte principal devido ao calor que liberavam ao serem usadas. Vários espetos na horizontal assados por churrasqueiros do interior do Paraná, gente que trabalhava nas churrascarias da região.

       Ela mordeu um palito salgado enquanto fazia a recontagem do número de pessoas que viriam naquele domingo.

       Johnny e Sabrina participariam do almoço. O filho de Karen chegara a Matarana durante a madrugada, e a filha de Valéria estava de folga do hospital. Por outro lado, vó Ninita viria sem a inseparável amiga. Veridiana fora passar o fim de semana com o namorado que conhecera havia seis meses no salão country.

       Voltou sua atenção para a mesinha redonda ladeada pelas cadeiras infantis, o encosto de cada uma o formato da cabeça de um bichinho. Já era de praxe Nova alimentar as gêmeas antes do almoço. Não deixava Irene trabalhar nos finais de semana, ainda que a ex-governanta da Arco Verde insistisse em acompanhá-la ao centro aos sábados. Nova entendia o seu amor e apego pelas filhas do seu “menino” — como se referia a Franco, e também sabia o quanto ela precisava espairecer pela cidade, saber sobre as novidades ou simplesmente passear e tomar um sorvete. Sentia-se grata por ter Irene consigo e por Thales tê-la cedido, mesmo que continuasse a lhe pagar o salário, bem como Franco o fazia. Os dois adoravam a mãezona de pouca estatura e olhar doce. Nova também se rendera aos cuidados e conselhos dela. Afinal, fora Irene quem tentara diminuir as dores da rejeição do seu caubói.

       E foi ele quem se postou ao seu lado, o chapéu puxado na aba para frente do rosto, enquanto um braço a atraía pelos ombros ao encontro do corpo dele.

       — Está tudo do seu agrado?

       Ela sorriu e, ao se voltar para ele, viu uma cabecinha com cabelo liso e castanho se virar na sua direção, como se espiasse escondida atrás do chapéu do pai. No outro braço de Franco estava uma das gêmeas, mas para saber qual delas Nova precisava ver um pouco mais que o seu rostinho redondo com olhos cor de mel protegidos por cílios longos tipicamente femininos, ou como Val dizia, “cílios de Betty Boop”.

       — Tudo certinho, amor lindo. Agora, me diz, essa cabritinha limpou o prato?

       Ele se virou para a filha e fez um meneio com a cabeça em direção à mãe:

        — Mamãe quer saber se sobrou comida pro pessoal que está chegando. Acho que não, né, gordinha?

       A menina sorriu bem faceira um sorriso de seis dentes e voltou a roer um osso de costela bovina.

       — Meu Deus, Franco, isso já deve estar até sem gosto!

       — Deixa, Nova, ela está gostando...

       — Ela quem?

       Franco sorriu sem graça, sabia muito bem que Nova sempre tentava pegá-lo na mesma brincadeira: descobrir com qual das gêmeas ele estava. Havia, sim, uma diferença. Era um sinal em forma de morango que uma delas tinha na coxa esquerda. O problema era que ele nunca memorizava qual delas tinha essa marca de nascença.

       Ele tentou espiar rapidinho por baixo do vestido cor-de-rosa e encontrou o traseiro do Pato Donald. A fralda descartável terminava no início da coxa gorducha e cheia de dobras. Rendeu-se, por fim, desolado:

       — Sei que é minha filha, princesa, mas não sei qual delas.

       Nova desatou a rir.

       — Você não se cansa da mesma pegadinha, né, dona? — indagou com falso tom de censura e enquanto ela ria, ele empurrou a fralda centímetros para cima e não viu marca alguma na coxa esquerda.

       Muito bem, essa é a que não tem a marca, pensou satisfeito.

       — Amor lindo, dá pra se dizer que você não tem uma memória de elefante. — ela debochou.

       Ele sorriu torto, franziu o cenho e perguntou intrigado:

       — Como podem existir duas crianças completamente iguais?

       Ela não resistiu:

       — Acho que a ciência chama isso de gêmeos univitelinos. — respondeu num tom de chacota.

       Franco considerou que Nova não o levava a sério e talvez fosse porque ela não soubesse que ele havia matado várias aulas de biologia.

       — Bem, a ciência pode chamar do que quiser, mas eu chamo essa criaturinha comilona de belezura do papai. — deu um beijo estalado na bochecha da filha, e ela caiu na gargalhada: — A Petra adora beijo na bochecha, e a Paloma fica irritada. — concluiu bem feliz da vida.

       — Safado, você tem outros truques para identificá-las, né?

       — É só prestar atenção nos detalhes. — rebateu numa altivez teatral.

       — Pois bem, temos de cuidar de outros detalhes. Logo o pessoal chega, e quero que a bebida esteja muito gelada. — ela olhou para o céu e disse quase que como para si mesma: — Faz tempo que não chove cinzas, acho que pararam de assar os forasteiros.

       O bebê riu alto quando o pai beijou a sua barriguinha e, com isso, distraída, não percebeu que ele tirava de sua mão o osso quase descorado.

       Ele se virou para Nova e afirmou com um sorriso endiabrado:

       — Nós, mataranenses, agora usamos a fornalha para assar somente os bandidos. — alfinetou.

        Ela preferiu desconsiderar o comentário e não retrucou. Com um sorriso terno, pegou a filha dos braços dele e seguiu em direção a casa. Voltou-se ligeiramente e olhou-o por cima do ombro. Ainda encontrou o sorriso autoconfiante e desafiador do marido. Às vezes ela tinha a impressão de que o diabo loiro esperava a hora certa para voltar a agir.

 

       Karen pegou o prato de Rodrigo e encaminhou-se à bancada para servi-lo. Encontrou Nova enfeitando a salada de maionese com rosas de tomate, pensou em comentar algo espirituoso ou apenas um leve deboche, mas não sabia o que receberia de volta.

       — Eu e a Paola fizemos um bolo de laranja. — comentou, pisando em ovos. — É claro que tivemos que comer um pouco para saber se tinha dado tudo certo.

       — E como ela se comportou na sua casa? — perguntou Nova, voltando-se para amiga.

       — Ah, ela sempre se comporta bem, o problema é o Rodrigo.

       Nova sorriu e relançou um olhar curioso para o seu melhor amigo.

       — E por quê?

       — Ele é meio neurótico, levantou umas três vezes para ver se a minha vaqueira estava bem. E, pela manhã, foi buscá-la no quarto e ficamos os três de lutinha na cama, quero dizer, as meninas demolindo os travesseiros no menino. — contou, rindo-se.

       — Karen... — Nova começou, baixando a cabeça e fitando as rasteirinhas nos seus pés, precisava justificar o seu comportamento agressivo na última conversa; depois, encarou a amiga e falou com suavidade: — Espero não tê-la magoado com as coisas que falei pra você, saiba que não é nada pessoal, nada contra a sua pessoa, viu? E o problema mesmo não é você ou o seu trabalho com o Thales. A verdade é que preciso proteger a minha família e isso significa manter minhas filhas e meu marido longe de armas, tiros e confrontos. Não quero que as meninas vivam cercadas por automáticas e espingardas, esse não é o mundo real; esse é o mundo que foi corrompido por nós, já que não sabemos conviver como iguais. Além disso, o Franco-pistoleiro não existe mais, ele foi substituído pelo Franco-fazendeiro, e quero que continue assim. — ela percebeu a chegada da picape dos demais membros da família Dolejal e completou, olhando diretamente para Karen: — O Franco não é um assassino nem um justiceiro e não vou deixar você e o Thales tirá-lo de mim.

       — Entendo o que quer dizer e não tiro a sua razão. Mas, veja bem, — Karen apontou para Bonnie, deitada no gramado com as patas para cima como se estivesse na praia se bronzeando, e completou séria: — você pode ficar a vida inteira pedindo para um cachorro miar que ele não vai miar. E sabe por quê? Porque não é da natureza dele miar. E isso é o mesmo que você está fazendo com o Franco, está contrariando a sua natureza de pistoleiro meio que fazendo com que ele “brinque de ser um fazendeiro”. É possível que ele lhe obedeça por anos, Nova, mas não a vida inteira.

       Ela tinha consciência de que Karen estava certa e essa certeza encheu o seu peito de uma angústia que não sentia havia muito tempo. Suspirou profundamente para controlar as  emoções. Às vezes usava um timbre de voz áspero e, ultimamente, bastante hostil. Queria ser firme, mas não antipática.

       — É só você e o Thales o deixarem em paz.

       Karen assimilou a afirmação como uma ameaça. Nova exercia um poder danado sobre Franco e o tinha resgatado da devoção cega pelo pai, o que, de certa forma, significava, para ela, que o resgatara para o seu lado, um lugar com gramado verde, crianças felizes correndo pela casa e o amor romântico de um casal que não se desgrudava. A questão era que esse mundo perfeito poderia sofrer abalos e um desses abalos havia fugido do presídio de Santa Fé e, possivelmente, vinha em rota de colisão contra a blindagem de cristal do mundo de Nova.

       — Preciso falar com você. — afirmou ela num tom de urgência.

       A mulher de Franco preferiu evitar continuar por aquele caminho. Amava Karen e precisava manter forte e intacta a sua amizade com ela e com Val. Sofreria muito se algo ou alguém interferisse no laço que as uniam. Por isso apenas tocou levemente no ombro da amiga e apontou para Valéria, que, ainda sentada no banco do passageiro, esperava o marido rodear o veículo para abrir a porta.

       As duas ficaram olhando o gesto cavalheiresco do fazendeiro. Nova sorriu encantada. Ela própria estava acostumada a esse tipo de gentileza e consideração que o filho de Thales lhe concedia.

       De sua parte, Karen estreitava os olhos e as engrenagens do seu cérebro giravam em alta rotação. Já não era a primeira ou segunda vez que analisava o comportamento de Thales para com sua esposa. Ele não apenas abria a porta para ela, isso não era novidade alguma; ele, agora, segurava-a pelo antebraço ajudando-a a descer da picape mantendo os olhos nela, um tipo de olhar penetrante, como se antes de se separarem e ele a devolver aos amigos, deixasse bem claro a sua pertinência, era um olhar de domínio, o tipo de olhar que sempre a irritara. Porém, Valéria aceitava-o com um sorriso de menina de 15 anos.

       — Jesus Cristo, Nova, a nossa amiga está em apuros! — sussurrou, enquanto observava Valéria esperar que Thales tirasse o filho da cadeirinha no banco detrás.

       — Ela está apaixonada pelo próprio marido, ora. — disse Nova, sem dar importância ao fato.

       — Ai, que maravilha, hoje é o dia das analogias com a bicharada! — exclamou Karen com as mãos nos quadris e completou, virando-se para a amiga: — Ok, vamos lá! Se descobrisse que está apaixonada por um leão africano, por exemplo...

       Nova perguntou com uma curiosidade dissolvida no deboche:

       — Por que leão africano?

       — Ah, não sabe? Bem, a caipira aqui de vez em quando lê... não livro, Deus me livre!, leio “coisas” na internet. — justificou-se meio sem jeito e esclareceu a sua linha de pensamento: — Bem, o leão africano é o predador mais feroz entre os animais. Agora, imagina o seguinte: o Thales é um predador, certo? E a nossa amiga é uma espécie de Bambi-balzaquiana-apaixonada. O que eu digo é que a Val precisa...

       Imediatamente Karen se calou. Havia demorado demais diante do aparador com a comida e, mesmo sem se virar, percebeu que o dono do prato estava bem atrás dela. O cheiro da colônia de Rodrigo era o mesmo que impregnava a própria pele.

        — O que a minha irmã precisa?

        Ela revirou os olhos, e Nova disfarçou a vontade de rir pegando da sua mão o prato vazio e enchendo-o de salada.

       Karen se virou com um sorriso sem graça e deu de cara com um rostinho que fazia o seu coração bater mais forte. Theo estava no colo do tio e sorria daquele jeitinho especial somente dele, meio que escondendo o rosto com a mão, envergonhado.

       — Quando crescer, Pongo, você será tão sedutor quanto o seu tio. — afirmou ela, admirando o chapéu de caubói que ele usava, um modelo em tamanho menor para criança, presenteado por Rodrigo.

       O garotinho vestia jeans, botinhas e uma camiseta xadrez azul. Val fazia questão de mantê-lo por dentro da última moda da indumentária country. E, assim, o que se via era a miniatura de um caubói de olhos verdes e sorriso tímido.

       — Você não me respondeu.

       Val apontou no horizonte com um sorriso de contentamento e, naquele instante, Karen considerou que a sua aparição tinha o mesmo valor que a aparição de um oásis para um azarado perdido no deserto.

       O vestido pouco abaixo das coxas e cortado num caimento reto emprestava-lhe um ar juvenil. Ela agora comumente usava roupas caras, femininas e sensuais. Nada vulgar ou ostensivo. Entretanto, roupas que contornavam seu corpo e não que o disfarçavam ou oprimiam-no. O decote tomara-que-caia exibia as sardas em seus ombros nus.

       O casamento com Thales modificara não apenas o estilo de vida dela, cogitava Karen abraçando a cunhada, sua aparência e o brilho no olhar haviam-se potencializado. Tal constatação a deixava satisfeita. Queria enfim que Thales fosse feliz ou menos infeliz. Não funcionavam juntos como homem e mulher, mas davam certo como aliados.

       — Desculpa o atraso... — o rubor em suas bochechas parecia querer completar frase e, se o irmão não estivesse ali entre elas, Val teria dito que fazer amor pela manhã acabara atrasando-os para o almoço.

       — A gente ia começar sem vocês.

       — Sem problemas, Nova... O Theo recém tomou uma vitamina de banana com aveia.

       — É por isso que está pesado como um elefante? — brincou Rodrigo, adorando ver o sobrinho esconder o rosto no seu ombro: — De onde vem tanta timidez, hein, Val? O pai não era assim e a nossa mãe continua bem saidinha.

       Val deu de ombros.

       — Nem a Sabrina, mais cara de pau que ela impossível.

       — Essa timidez toda faz parte do charme do Pongo. — disse Nova, entregando o prato com comida a Karen: — Agora, eu fico com essa coisinha fofa e você, Rodrigo, vai almoçar.

       E, dizendo isso, tentou pegar o garoto dos braços do amigo. Contudo, ele foi mais ágil e girou o suficiente para manter o sobrinho fora do alcance de suas mãos.

       — Ele ficará no meu colo.

       Nova olhou para Val como se pedisse ajuda.

       — Podia ter matado a saudade indo nos visitar na fazenda, né, moço?

       — Muito trabalho, Val.

        Mentira, pensou a irmã do delegado. Embora Rodrigo tivesse aceitado o seu casamento com Thales, não fazia questão alguma de visitá-los na Arco Verde.

       — Não gosto de quando mente pra mim. — reclamou.

       Rodrigo fez um muxoxo e assentiu levemente:

       — Ok, vou ser bem honesto, então. Não quero que o seu marido confunda as coisas, o fato de ele ter casado com a minha irmã não significa que tenhamos estreitado os nossos laços, porque não há laços para serem estreitados.

       — Malverde e Dolejal agora são uma única família. Não adianta se recusar a ver.

       Rodrigo se voltou para Nova ao ouvi-la falar como uma legítima representante dos Dolejal.

       — É claro que sim, mas não precisamos gostar de todos os membros da família.

       — Ai, Rodrigo... — reclamou Valéria.

       — Não entendo, um dia você foi amigo, muito amigo, do Thales... Por que não retomam essa amizade?

       Rodrigo trincou os maxilares e achou por bem encerrar a conversa naquele ponto. Não queria se indispor com Nova, mas também não cederia aos argumentos dela.

       — Depois de almoçar, posso falar sobre essa retomada de amizade. Não penso direito de estômago vazio. — tentou sorrir.

       Valéria olhou ao redor e encontrou Sabrina caminhando lado a lado com Johnny. O filho de Karen era um garoto moreno e bonito. Um universitário que pretendia se tornar delegado de polícia, como o seu padrasto o era.

       — Caramba, Karen, não é só o meu filho que partirá corações por aí. Os ares da capital estão fazendo um bem danado para o Johnny!

       Karen se encheu de orgulho.

       — É verdade, caprichei no futuro delegado.

       Valéria voltou-se para o irmão com um olhar curioso:

       — Deve estar muito orgulhoso, não? Isso só pode ter dedo seu.

       Antes que ele respondesse, Karen atalhou:

       — Claro que sim. O Rodrigo tem medo que o Johnny tenha herdado a parte destrambelhada dos meus genes. Ele tem uma estranha teoria a respeito dos Lisboa, e isso inclui a minha inofensiva avozinha, sobre a nossa inclinação à prática de atividades ilegais. O que não corresponde à realidade, já que presto serviço como segurança particular para um fazendeiro, tudo dentro da lei, inclusive pago impostos.  

       Os irmãos se entreolharam. Karen tinha um jeito engraçado de expor suas ideias, sempre de uma forma direta, natural e de modo a amenizar a sua devida importância nelas.

       — Pode-se dizer que as duas estão certas. Porém, ninguém tem maior influência na escolha profissional de uma pessoa que a sua própria vocação, e foi o que aconteceu com o Johnny. Pra falar a verdade, Val, nem se ele fosse meu filho biológico me deixaria mais orgulhoso. — ele declarou, incisivo; em seguida, concluiu no mesmo tom: — Aliás, as mosqueteiras tresloucadas são excelentes mães.

       As três amigas sorriram encantadas com o elogio. Rodrigo não sabia, mas elas adoravam o apelido que ele lhes dera e pretendiam continuar a fazer jus a ele.

         

       Thales observou a proximidade de Valéria com o irmão, tentou ler na expressão facial dela se o assunto sobre o qual tratavam merecia a sua atenção. Não nascera ontem, sabia que assim como Karen traficava informações da polícia para a Arco Verde, Valéria, a sua querida esposa, fazia o trabalho oposto. Isso de fato não o preocupava, uma vez que ela obtinha informações somente sobre o que ele permitia que soubesse e também porque admirava o senso de família entre os dois, a lealdade que tinham um para com o outro, traço de caráter marcante nos Malverde e quase que uma obsessão entre os Dolejal. Não havia nada mais importante, para Thales, que a lealdade. E era por isso que ele não se sentia traído por Valéria.

       Ao se afastar da picape, varreu com os olhos o gramado amplo e a parte cercada ao redor da piscina à procura de Franco. A alguns metros de onde estava podia ver as gêmeas sentadas sobre um corpo estendido ao cumprido. Logo adiante, Paola se livrou do vestido e, usando apenas a calcinha com babados, correu em sua direção.

       Ele se abaixou para pegá-la no colo.

       — Não suporta usar roupas como o seu pai.

       — É uma méda! — assim que ela deixou escapar o palavrão, olhou em direção à mãe e completou, rindo: — Não pode faiá paiavão, vô.

       Thales riu baixinho.

       — Mas eu não ouvi palavrão algum. Que tal salvarmos o seu pai, hein?

       — Cadê o Nelo?

       — Na fazenda, esperando por você.

       Ela fez uma carinha de desapontamento. Paola era louca por bichos; principalmente por cavalos. E essa paixão da neta levara-o a cogitar a ideia de ter um haras.

       Quando eles chegaram perto das gêmeas, viram que uma delas estava sentada, com sua bundinha protegida pela fralda descartável, em cima da cabeça de Franco e a outra sob os seus joelhos.

       — É aqui que mora o pistoleiro mais perigoso do centro-oeste? — indagou Thales num tom de deboche.

       Franco nem se mexeu, mas notou quando Paloma se virou para olhar o avô, pois sua bundinha fez pressão para baixo, apertando-lhe o nariz e provocando uma crise de espirros. Foi obrigado a tirá-la de cima de si e pô-la na grama. Depois de espirrar uma dezena de vezes, voltou-se para Thales, os olhos cheios d’água:

       — Pois é, a gente estava brincando que eu era uma nave espacial, mas, na verdade, queria tirar um cochilo até o senhor chegar. As malandras tiveram insônia essa madrugada, e fiquei acordado com elas. Aproveitei para contar sobre a colonização de Matarana... Bem, só assim para elas dormirem. — declarou com bom humor.

       — Interessante. — constatou enigmático, sem deixar, entretanto, de precavê-lo: — Cuidado, Franco, a vida doméstica pode castrar um homem.

       Franco fechou um olho, pois um raio de sol parecia querer perfurá-lo, e achou graça da observação do pai.

       — A minha madrasta castrou o senhor?

       Thales notou que o assunto divertia o filho.

        — Ainda não, mas todos os dias ela tenta. — respondeu no mesmo tom.

       — Como estão as coisas na Arco Verde? O Bronson anda por aí de saco murcho...

       — Saco muxu! — exclamou alto Paola, às risadas.

       — Pronto, — comentou Franco: — agora ela vai chamar todo mundo de saco murcho. — virando-se para a filha disse: — Também é palavrão, viu? Então sabe como é, tem de falar baixinho.

       Paola assentiu e pediu para descer do colo.

       Thales a pôs no chão, e, antes que ela corresse em direção a Theo, ouviu-a gritar: “Saco muxu”.

       — O que o Bronson tem? — o fazendeiro perguntou voltando-se para o filho.

       — Crise da terceira idade, só pode. Está meio desconfiado dessa calmaria toda, ainda não se acostumou com as últimas mudanças. — respondeu, dando de ombros.

       — Ou talvez ele queira se debandar para cá como a Irene e o Chicão, não duvido nada que não esteja com ciúme, ele também se sente responsável por você. — disse com evidente azedume.

       — Eles me criaram, é normal que queiram viver perto de mim.

       — Bom, que eu saiba ninguém está acorrentado na Arco Verde.

       — No caso do Bronson é diferente, ele também criou o senhor. — Franco se ergueu do gramado e ajeitou novamente o chapéu na cabeça. — Mas a questão é outra. O velhote está cismado, só isso. A gente devia dar um bom dinheiro pra ele e a Lúcia e mandar os dois viajarem, tirar umas férias, conhecer o mundo, sabe?

       Thales avaliou o que o filho falava.

       — Um tiro no pé, Franco. O Bronson vai se sentir menosprezado. Ele nunca aceitou entrar em férias e não seria agora, depois da Karen ter assumido a chefia da segurança, que aceitaria se afastar.

       — Foi bom ter tocado nesse assunto... O senhor precisa falar com a Karen, ela não sabe lidar com as pessoas como o Bronson. — Franco suspirou fundo e completou sério: — Ela está batendo de frente com a Nova, e eu não estou gostando nada disso.

       — A Karen tem carta branca para agir, e o aconselho a não interferir. Elas acabarão resolvendo suas pendências, e você apenas se desgastará. A nossa função, nesse caso, é a de meros observadores. — considerou com bastante confiança no que dizia.

       — Não consigo ficar só “observando”, como o senhor diz, quando o assunto se refere a minha mulher.

       — Muito bem, então, o que pretende fazer? Apelar a uma instância superior? Bem, sou eu essa instância e garanto a você que a Karen tem o meu total apoio.

       Franco bufou.

       — Parece até que ela é dona das suas fazendas e, no entanto, a sua mulher é a Valéria.

       Thales apenas sorriu; porém, conhecia a sua cria e ela não aceitava como resposta um mero sorriso.

       — Está ressentido? Me parece que você se sente de alguma forma traído, o que é injusto, uma vez que lhe dei essa fazenda sem pedir nada em troca. Você não precisou fazer nada para se tornar um homem rico aos 25 anos.

        — Não é isso, pai... — Franco estava chocado com o rumo da conversa. — Nunca tentei competir com a Karen por sua atenção. Na verdade, minha posição agora é mais como alguém que gosta da sua madrasta. A Valéria é muito legal comigo, a gente está se entendendo e é óbvio demais que ela é apaixonada pelo senhor, por isso...Ah, deixa pra lá, cacete, nem sei por que estou me metendo nisso.

       — A minha situação com essas duas mulheres é bem fácil de entender, Franco. — afirmou de forma quase didática, um esboço de sorriso se formando no canto dos lábios: — A Karen é a mulher em quem mais confio, é a minha leal escudeira, a mulher que quero no comando de Matarana... E a Valéria, bem, é a mãe do meu filho e a garota que eu amo. E espero que isso fique entre nós dois, ok?

       Franco coçou a testa, assentindo e, com isso, o chapéu meio que deslizou para trás quase caindo de sua cabeça. Era estranho ouvir aquela declaração de seu pai, pois havia poucas semanas Nova comentara a respeito da insegurança de Valéria em relação aos sentimentos do marido. E ele não soubera exatamente o que dizer. Por que, afinal, o pai estaria escondendo os seus sentimentos da própria esposa? Parecia coisa de gente doida, pensou Franco, pegando as gêmeas no colo e seguindo Thales até a mesa onde os demais os esperavam.

         

       Karen observou que todos ali aceitavam com naturalidade a posição dos machos alfas à mesa, um em cada extremidade, Thales e Rodrigo, e o terceiro deles, sentado entre a sua mulher e a filha na cadeirinha para bebês. Ainda que o dono da casa fosse o mais novo, não havia em Franco qualquer vontade em impor algum tipo de poder ou domínio. Ele era simples, e ela gostava disso nas pessoas.

       À esquerda de Thales, Sabrina se mexeu meio que se ajeitando para pronunciar algo solene. Pigarreou chamando a atenção de todos, menos a de Theo, que se ocupava em arrancar nacos de carne de uma coxa de galinha.

       ― Resolvi aceitar a sugestão de Thales e estudar na capital. ― ela afirmou, endereçando olhares ansiosos para a mãe e o tio.

       Val parou o garfo com comida no ar e ficou olhando-a enquanto o seu cérebro processava a novidade.

       ― Como assim?

       ― Eu e o Thales conversamos... ― ela parecia sem jeito, como se tivesse traído alguém cujo sobrenome era o mesmo que o seu. ― Sempre tive vontade de estudar Enfermagem, mas a gente só tinha grana pra pagar o curso técnico...

       Ela estava visivelmente constrangida, e o padrasto percebeu que deveria intervir ao seu favor:

       ― O hospital de Matarana precisa de profissionais qualificados, e a Sabrina tem vocação para a área da saúde. Portanto, comprei um apartamento para ela viver em Cuiabá e estudar em uma universidade particular. ― ele se voltou para a esposa e disse num tom determinado: ― A senhorita Freitas abriu uma conta bancária para ela, quero que a Sabrina se foque apenas nos estudos. Ela ficará por lá com outras amigas universitárias, porque acho imprudente que more sozinha, embora ela seja muito responsável. Mas já está tudo acertado e até o final do mês viajaremos para analisar o bairro onde ela viverá e o local onde fará seus estudos. Seria muito bom, Valéria, auxiliá-la com a decoração do apartamento.

       Ela nem teve tempo de esboçar reação, já que Rodrigo interferiu com uma voz rascante, os cotovelos plantados na mesa, as mãos unidas entrelaçando os dedos. Tinha um olhar de águia quando afirmou:

       ― Sabrina, vamos conversar mais tarde sobre isso, eu, você e a sua mãe.

       ― A conversa que vocês terão será a respeito do novo endereço dela na capital. Não quero que os seus medos e inseguranças façam com que ela se acovarde, há um mundo inteiro lá fora para ela conhecer, e foi isso que ofereci ao Franco, mas ele preferiu ficar.

       Ao ouvir seu nome, Franco parou de mastigar e sorriu sem jeito.

       ― E foi a melhor decisão da minha vida.

       Nova deu-lhe um beijo estalado na bochecha, e ele riu.

       ― Claro que sim, mas nunca soube que outro tipo de vida poderia ter tido.

       ― Que coisa, né?, ainda acho que melhor que essa não seria, não.

        Rodrigo se controlou para não voar no pescoço de Thales.

       ― A questão é que a Sabrina é uma Malverde e foi criada por mim também. ― ele se virou para sobrinha com o olhar entristecido: ― Podia ter me falado sobre seus planos, posso bancá-la na capital, não sou nenhum pé de chinelo sem eira nem beira.

       ― Não é isso, tio. ― retrucou com a voz magoada: ― Na verdade, nem eu sabia o que queria até poucos meses atrás, achei que não tinha condições de me manter em outra cidade para estudar, mas aí apareceu essa oportunidade...

       Rodrigo endereçou um olhar zangado para Thales e este devolveu outro cheio de superioridade, uma sobrancelha chegou até a se arquear.

       ― Tem de parar de dividir a nossa família, delegado. A sua mulher trabalha comigo e a sua irmã é a minha mulher. Viu? Tudo entrelaçado, a dinâmica perfeita do destino. ― ironizou com um sorrisinho.

       Karen observou o namorado crispar os lábios e falar duro, sem, no entanto, elevar a voz:

       ― E, por acaso, você se autointitulou o chefe dessa tal família?

       ― Não, Rodrigo, podemos conversar sobre o futuro de nossos filhos mais tarde. ― ele retrucou com brandura e, voltando-se para a enteada, completou sugestivo: ― Viu só como é a vida, antes a sua mãe dizia que tinha se autofecundado e agora você tem dois pais.

       Valéria sentiu o sangue subir ao rosto.

       A carranca de Rodrigo estava fechada como quando o céu de Matarana se preparava para a primeira tempestade do estio. Por um momento ele apenas mirou seus olhos nos olhos irônicos do fazendeiro e era como se pudesse puxar o gatilho com eles e meter uma bala na sua cabeça. Vontade não lhe faltava. Então respirou fundo e sentenciou bem devagar, para surpresa de todos:

       ― Que se meta com a filha da minha irmã ainda vá, mas não tente se aproximar do meu filho, entendeu?

       Imediatamente Karen e Johnny se entreolharam, e ela viu o filho sorrir contente. Ele adorava Rodrigo.

       Franco pensou em falar uma merda qualquer para acalmar aqueles dois, lançou um olhar aflito a Nova, mas ela estava concentrada em Rodrigo. Era claro que se ele precisasse, ela se meteria na discussão ao seu favor. Não podia negar que sentia uma pontada de ciúme. Se, pelo menos, Rodrigo fosse um tribufu... Voltou-se para Paola e a viu fazendo um boneco de modelar com a salada de maionese.

       Thales absorveu a energia cheia de rancor que emanava do outro lado da mesa. Duvidava que um dia Rodrigo baixasse a guarda e aceitasse a situação estabelecida entre eles. Intimamente torcia para que ele se aliasse aos Dolejal e parasse de espernear. O problema era que o camarada que conhecia havia mais de 10 anos era uma mula teimosa e defendia o seu território com os dentes à mostra.

       ― Acalme-se, não pretendo lhe tirar a paternidade do filho da Karen, só quero que entenda que temos de nos unir, estamos todos do mesmo lado.

       ― Não, não estamos. ― disse o delegado.

       Thales lançou um olhar impaciente para Valéria:

       ― O que o seu irmão tem?

        Nova intercedeu com um sorriso nervoso:

       ― Vou chamar o churrasqueiro para trazer mais carne, ok?

       ― Valéria, estou falando com você.

       Ele olhou demoradamente para a esposa e percebeu nela a oscilação de humor encontrada no irmão. Os Malverde eram pessoas sensíveis e complicadas, Thales considerou, repetindo pela segunda vez a pergunta.

       Até que Valéria, desviando a atenção de um Rodrigo carrancudo, resvalando rapidamente por Karen e parando, enfim, no rosto de Thales, falou com um rastilho de emoção na voz:

       ― Acho apenas que às vezes você se mete demais na vida dos outros.

        Thales continuou fitando Valéria, o rosto agora sem expressão tal qual um boneco de cera.

       Nova aproveitou a deixa e se levantou indo atrás do churrasqueiro. Percebeu Franco nos seus calcanhares, resmungando:

       ― Por que não acabamos com esses almoços de domingo, hein? Toda vez dá em briga.

       Antes de entrarem no compartimento das churrasqueiras, ela parou e o abraçou forte:

       ― O que foi? ― ele perguntou, gostando do carinho e puxando-a contra o seu tórax.

       ― Nada, só me deu vontade de dar uns amassos no meu amor.

       Ele se afastou centímetros e capturou a atenção dela bem dentro dos seus olhos azuis.

       ― A dona é bonita demais da conta! Terei de beijar você bem nessa boca gostosa. ― baixou a cabeça e cumpriu o prometido, os lábios separando os dela, a língua avançando até encontrar outra e se enroscar, sugá-la com força, enquanto os braços se enroscavam a mulher puxando-a para si, quase a sufocando, esmagando os seios no tronco duro e sarado dele.

       Ela deixou um gemido rouco escapar.

       ― Tenho de voltar à mesa antes que o teu pai e o Rodrigo atirem um no outro. ― disse, desgrenhada, o cabelo para todos os lados, a boca inchada e as pernas bambas.

       Franco sorriu e assentiu levemente com a cabeça:

       ― Volta, sim, gostosa, porque do jeito que estou duro e que essa churrasqueira está quente, sou capaz de fazer uma loucura com a dona, perder a cabeça mesmo e te judiar até a gente cair desmaiados.

       Ela sentiu um fio de eletricidade percorrer-lhe as vértebras da coluna e se posicionar entre suas pernas.

       ― Vamos pôr as crianças na cama mais cedo.

       Ele sabia muito bem o que isso queria dizer.

       ― Pode deixar comigo.

       Que iriam fazer amor durante a madrugada e não apenas antes de dormir.

       O que ouviu depois foi um grito.

         

       Fez um bem danado a Rodrigo observar a expressão estupefata, com direito a um ricto de desprezo na comissura dos lábios, de Thales para Valéria. Era evidente que ele não esperava pela declaração firme e provocativa dela. Talvez fosse o caso de considerar o lance da “última gota de paciência”. O que não tirava nem um pouco a beleza do momento, considerou ele com um sorriso secreto.

       Thales examinou o rosto da ruiva que o fitava com os maxilares retesados. O verde dos seus olhos escureceu, e ele sabia o que isso significava, Valéria estava puta da cara. A questão era que ele estava muito mais do que ela.

       Baixou bastante o tom de voz ao dizer com aspereza:

       ― Quando eu quiser que analisem a minha personalidade, pedirei a um profissional da área. Guarde as suas opiniões e o seu psicologismo para suas conversas no cabeleireiro.

       Valéria sentiu as palavras baterem em seu rosto, que, em seguida e vertiginosamente, empalideceu. Queria sumir, ser pulverizada naquele exato momento. Mas apenas permaneceu olhando para ele, o queixo tremeu porque ela estava com vergonha. Por mais que ele tivesse falado baixo fora perfeitamente compreensível e claro na sua exasperação. Notou que Rodrigo se mexeu para confrontá-lo e foi contido pela mão de Karen em seu antebraço, pois ela mesma tinha algo a dizer:

       ― A Val tem razão, e isso não se refere apenas a você, Thales. Eu também sou um pouco metida e o caubói aqui do meu lado também sofre dessa doença. Só que isso não justifica tratar uma mulher como se fosse um bode. Por Deus, você tem de agradecer todos os dias aos céus por ter uma mulher que aguenta esse teu geniozinho do capeta. ― completou com bom humor.

       Seu estado de espírito não foi compartilhado pelo fazendeiro, que apertou ainda mais os maxilares cerrando o semblante e se fechando em concha. Concentrou-se na comida cortada em pedaços pequenos e ignorou o resto ao seu redor, até mesmo a mão feminina e hesitante que acariciava o seu antebraço. Ele puxou discretamente o braço para não ser tocado por Valéria.

       Ela captou a mensagem e encolheu-se na cadeira.

       Rodrigo considerou tirar satisfação do comportamento do marido de sua irmã, da arrogância que ele teimava em manter intacta. Thales era muito bom na tarefa de despertar a raiva alheia. Viu quando Valéria se levantou tencionando se retirar. Não teve tempo de contê-la nem precisou, Thales foi incisivo ao mandá-la voltar para o seu lugar. O tom de ordem irritou o delegado:

       ― Acha que está lidando com seus pistoleiros?

       O fazendeiro ergueu o olhar calmamente para o outro e falou:

       ― Não, claro que não, os meus pistoleiros são obedientes e leais.

       A indireta enganchou entre duas vértebras de Valéria. Ele estava sendo injusto, não havia motivo para se irritar quando somente o que ela fizera fora dar a sua opinião a respeito do seu jeito controlador e prepotente, nada mais.

       O clima estava por demais pesado.

       Ninita baixou os olhos para suas unhas longas e postiças e quase teve um treco, deu um berro de susto que saiu esganiçado, chamando a atenção de todos. Logo que bateu os olhos na própria mão, cogitou que faltava uma parte do dedo, a ponta do indicador. Mas faltava mesmo era a unha de porcelana pintada de vermelho-puta.

       ― O que foi, vó? É o coração? ― perguntou a neta, preocupada.

       ― Que porra de coração, nada.  E eu nem tenho problema cardíaco, sua besta. ― declarou a velhinha rabugenta. ― Acho que comi a minha unha.

         

       Nova e Franco apontaram de mãos dadas e olhares assustados. Era evidente que acreditavam que alguém havia se pego com outro no tapa. Os churrascos de domingo haviam se tornado uma atração à parte, como a ida a um circo de horrores: a vontade quase incontrolável de participar de algo que tinha tudo para dar merda.

       ― Nossa, que susto, quase tive um filho! ― exclamou Nova com um sorriso nervoso.

       ― Que novidade você ter um filho, Nova. ― debochou Ninita. ― Vocês dois parecem um casal de coelhos.

       Franco deu uma risadinha e piscou o olho para a avó de Karen.

       Um dos rapazes que assava a carne surgiu com uma costela magra fincada no espeto.

       Sem perder tempo, Paola deu um beliscão no ombro do pai e, com um sorriso cheio de charme, pediu para ele deitar uma “cáne” no seu prato. Atendida, ele teve de cortar o churrasco em pedacinhos para que ela não ficasse apenas sugando o suco da carne e cuspindo-a no prato, como fazia com os seus bifes no almoço.

       E então um novo assunto veio à baila, e Karen se sentiu na obrigação de ser a portadora das últimas novidades.

       Ela bebeu um gole de cerveja, molhou a garganta e, com isso, ganhou tempo enquanto observava os rostos à mesa. Franco cuidava da filha, Nova espiava por cima do ombro de Val o carrinho com as gêmeas adormecidas, e era essa família, a de Franco e Nova, que seria atingida por sua revelação.

       Não sabia como dizer de uma forma que não causasse impacto, por isso foi direto ao ponto:

       — O Pedro escapou do presídio de Santa Fé.

       Nova parou de mastigar e fitou o próprio prato. Digeria a informação de que o seu passado voltara para assombrá-la. Não, não era mais essa a sua vida, a cheia de medos e apreensões. Ela simplesmente não queria mais isso para si nem para sua família. Ensaiou uma declaração de descaso, pois acreditava que um criminoso de Matarana, fugido da prisão, jamais voltaria à cidade onde fora preso. Notou que Franco não se manifestou, ainda concentrado que estava em supervisionar o almoço de Paola. Por certo, ele não sabia sobre a sua ligação com o ex-funcionário do coronel Marau. Franco entrara em sua vida no momento em que ela escapara de um emboscada na Coração de Ouro, quando fuxicava no alojamento do aliciador de trabalhadores, mas talvez Thales não houvesse lhe revelado toda a história, que começava desde as suas investigações e tocaia espreitando o bandido que, por causa dela, fora preso por Rodrigo.

       Thales endereçou um olhar sério e perscrutador à chefe da segurança de suas fazendas e indagou secamente:

       — Ele está na cidade?

       Karen desviou a sua atenção dele e encarou a amiga, que fingia não se importar com o rumo da conversa, obcecada em cortar uma folha de alface em tiras finas.

       — Há rumores de que ele tenha fugido justamente para acertar contas com alguém aqui em Matarana.

       — Meus homens fizeram uma boa varredura, e o Pedro não foi encontrado. Portanto, por enquanto a presença dele em Matarana não passa mesmo de boato. — asseverou Rodrigo, com bastante calma, encostado com displicência contra a cadeira, um palito de dentes descansando no canto da boca, o olhar cravado no homem que o encarava do outro lado da mesa.

      — É mesmo? O seu efetivo de dez homens da polícia militar ou o da civil, com o ex-ator pornô e a miss simpatia? — indagou Thales com um menosprezo misturado à ironia.

       Rodrigo sorriu um sorriso preguiçoso que beirava a presunção.

       — Sim, os mesmos policiais que prenderam os “seus homens” que não tinham porte de arma. Está lembrado, cidadão?

       — Por que estamos falando sobre esse cara? — perguntou Johnny, manifestando-se pela primeira vez. A bem da verdade, ele preferia continuar na posição de ouvinte; porém, estava  boiando no assunto.

       Karen queria esclarecer todos os pontos para o filho. Entretanto, se o fizesse cutucaria o diabo loiro adormecido. E era isso que Nova queria dela, que não cutucasse o diabo loiro adormecido.

       — Bem, ele era empregado do coronel e aliciava gente para trabalhar nas fazendas do falecido. Aí, um dia o Rodrigo o prendeu, e ele agora parece que está disposto a voltar para se vingar.

       — Não tem sentido, mãe. Ele vai voltar para se vingar do delegado que o prendeu? O trouxa vai ser preso de novo. Que conversa é essa? — perguntou, desconfiado.

       — É o tipo de conversa que as famílias malucas têm aos domingos. — declarou Ninita, levantando-se da cadeira. — Vou tirar um cochilo e espero não ser acordada por nenhuma tragédia. — ela se virou para Thales e falou com a voz morna e quase carinhosa: — Resolva suas diferenças com o Rodrigo, meu filho, senão vou acreditar que vocês dois têm uma ligação erótica muito maior do que eu pensava.

       Sabrina e Johnny se entreolharam e caíram na gargalhada.

       Então Karen notou o que não deveria perceber a olho nu, o que não era tangível, palpável e real. Permitiu-se mergulhar no ato e, sem usar qualquer tipo de raciocínio lógico, apenas se entregou à admiração da cena a sua frente, a intuição enxergou pelos seus olhos, a alma compreendeu pelo seu cérebro e assim ela viu, ela viu a comunicação instintiva e quase sobrenatural entre criador e criatura, entre o homem que sobrevivera e renascera das trevas e o seu filho, o diabo encarnado. Um fio de puro magnetismo os conectou sem palavras e isso aconteceu no momento em que Thales olhou para Franco e este sentiu a força do seu olhar, do chamado, da ancestralidade, da pertinência e do caos. Karen não deveria ter presenciado e ela não entendia como conseguira romper a bolha invisível que separava pai e filho dos demais, daqueles que não eram constituídos do mesmo material, da união beligerante do bem com o mal, sem mais de um nem menos do outro, tão-somente os dois, explosivos, unilaterais e prontos para defenderem os seus protegidos. Porque Thales sabia sobre tudo o que acontecia na cidade a qual fundara, o seu reino, e Pedro agora se tornara a maior das ameaças ao clã Dolejal. E assim como acontecera a Mendes e ao coronel, ele teria de ser eliminado. E foi isso que Franco entendeu olhando firmemente para a figura imponente e indestrutível que era o seu pai, o seu deus, o seu mentor.

       Os insetos bateram selvagemente as asas dentro da sua cabeça e Franco assimilou que uma entidade se rebelava ao cárcere. Não queria deixá-lo emergir, a paz dos novos tempos quase o fazia voar de tamanha plenitude. Mas agora uma sensação de mal-estar o comprimia no estômago, a intuição de tantas vidas gritando como um maldito alarme de perigo e ele nem sabia por que precisava se preocupar. Até que Thales falou o que Nova tremeu ao ouvir:

       — O Pedro é um pistoleiro tão vingativo quanto o Mendes, e por causa da nossa ex-jornalista, ele foi preso pelo delegado. É provável que esteja de tocaia no meio do mato e aproveite para atacar a sua fazenda, Franco. Ele quer se vingar é da sua mulher.

       Nova empalideceu e endereçou um olhar aflito a Karen. Não era para isso ter acontecido, o olhar dizia, não era para evocar os espíritos dormentes. Ela não temia a volta de Pedro ou sua improvável vingança; temia aquele que estava ao seu lado com a coluna empertigada, o corpo duro, a posição de espera de um cão feroz pronto para o sinal de ataque. Podia ouvir a respiração pesada, contida e, loucura ou não, ela era entrecortada com o som baixo e perigoso de um rosnado, um pigarro grosso e rouco, o som de algo sendo expulso pelos bronquíolos. Assustada, virou-se para ele e o encontrou com a cabeça baixa como se fitasse a mesa ou através dela.

       Rodrigo já havia presenciado em algumas ocasiões a insurgência da outra personalidade de Franco. E ela surgia ao comando de Thales. O problema era que Nova corria perigo de vida, embora o delegado não tivesse certeza disso. Pedro não fora localizado em Matarana. No entanto, caso ele de fato voltasse à cidade seria, sim, para cumprir o que lhe dissera atrás das grades anos atrás, ou seja, “jantar a galinha”.

       — O Johnny tem razão, — começou Nova nervosamente e, virando-se para Franco, completou incisiva: — ele jamais voltaria para cá. O coronel o deixou na mão e, além disso, está morto. O que ele faria aqui senão bater de frente com a polícia e ser detido de novo? Franco, olha pra mim! Não quero esse tipo de terrorismo psicológico dentro da nossa casa, entendeu? Franco!

       Ele se voltou para ela sem necessariamente fitá-la, enxergava para além do posto à sua frente.

       — Vamos seguir com nossas vidas, está bem? — ela insistiu.

       — Temos de armar os seguranças da Quatro Princesas. — determinou Karen, recebendo um olhar feroz da amiga.

       — Já disse que não.

       — Arme os pistoleiros, Karen. — ordenou Thales.

       Imediatamente Nova se voltou para o sogro e tudo no seu rosto mostrava o quanto repugnava a ideia de ter gente armada perto das suas filhas.

       — Não! Ninguém vai empunhar merda nenhuma de arma na minha casa!

       Valéria estava tensa. Sempre ficava ao lado de Nova e queria continuar a apoiá-la. E iria apoiá-la. Foi o que fez.

       — Dê armas apenas aos pistoleiros que ficam na portaria e deixem as demais armas por lá, caso os outros precisem delas. — sugeriu hesitante, mordendo o lábio inferior. Talvez recebesse chumbo grosso do homem que usava uma aliança de ouro com o seu nome na parte interna do aro.

       Thales não se manifestou. E Val sabia o motivo: ele estava emburrado com ela. Entretanto, Karen, por sua vez, lançou-lhe um sorriso de agradecimento.

       — Na mosca, Val, foi isso mesmo que pensei. O que acha, Nova?

       A mulher de Franco não estava para brincadeiras nem diplomacia:

       — Acho que já fui clara o suficiente quando disse que não quero porra de arma nenhuma perto das minhas filhas! Não quero que elas vejam uma automática! Não quero que elas saibam que as pessoas se matam atirando umas contra as outras! Não quero que elas descubram antes da hora que existe um mundo cão, um mundo de sangue, de vingança e de ganância! Elas crescerão dentro da mesma realidade que eu cresci, pura, feliz e infantil! Mais alguém aí vai me foder a paciência? — elevou a voz embargada.

       Paola arregalou os olhos e se virou toda para ver a mãe.

       Franco ergueu a cabeça, o queixo altivo, os olhos chispando o azul brilhante. Ele olhou para cada membro das famílias ali presentes, e todos ficaram em silêncio, uma quietude expectante, interessados em saber se ele bateria de frente com Nova. Era o que parecia.

       Encarou a esposa com a expressão séria e afirmou taxativo:

       — Não se preocupe, eu estou aqui.

       Ela aproximou o rosto do dele, olhou detidamente aquele que se apresentava com tamanha serenidade e obstinação tal qual uma entidade metafísica. Tocou-o no maxilar com a ponta dos dedos e beijou seu rosto com suavidade. Ao se afastar, viu o sorriso jovial que tanto amava e agradeceu baixinho por ele ficar ao seu lado.

       Rodrigo ajeitou-se na cadeira ligeiramente incomodado. Avaliou a atitude de Franco e a sua afirmação dita com uma tranquilidade que não fazia parte da sua personalidade. Suspeitava de algo. Farejou no ar uma possível encenação. E o seu instinto de policial ficou atento a cada detalhe ao seu redor, como a postura displicente e o sorriso de satisfação de Thales Dolejal enquanto admirava o casal abraçado. Ele sabia que Franco não estava mais lá.

         

       Valéria sentia no corpo os efeitos do tenso churrasco na Quatro Princesas. Parecia que tinha corrido uma maratona, os músculos endurecidos. Assim, ao chegar em casa, pegou o filho no colo e se enfiou na banheira com ele e os seus patinhos de borracha.

       Sabrina preferira sair com Johnny, e os dois se mandaram para o centro da cidade. A ideia era aproveitar os 32 graus — uma temperatura de primavera para os padrões climáticos de Matarana, e se refestelarem debaixo do guarda-sol de uma sorveteria. Assunto entre os dois jamais faltava.

       Durante o caminho de volta, Thales permaneceu em silêncio, concentrado em ignorá-la. Em três anos de casamento, era a segunda vez que brigavam, sem, no entanto, brigar. Uma situação bastante peculiar, considerava Val, já que a briga entre ambos era silenciosa, mas não por isso menos agressiva. Ela odiava falar com as paredes. Da outra vez, o motivo também fora fútil, embora tenha estressado o marido ao ponto de castigá-la com a sua indiferença por duas semanas. O fato de Valéria ter saído de casa sem o celular e passado o dia inteiro num evento para mulheres empreendedoras, em Santa Fé, custou-lhe catorze noites sem fazer amor com ele, catorze longas madrugadas sem tê-lo no seu corpo, junto dele, colada a ele, mordida, beijada e chupada por ele, louca por ele. Sem a sua companhia nos lanchinhos das 3 da manhã, sem poder caprichar na geleia de sua torrada ao servi-lo no desjejum, sem dividir a banheira com ele, amá-lo sob as espumas, grudar-se nele, ser o seu selo, a saliva, a língua que lambe. Deus!, duas semanas no inferno sem Thales, gemeu Valéria baixinho, observando-o de esguelha. Os maxilares retesados projetando-se debaixo da pele demonstravam que sim, duas semanas no inferno, o veredicto final do juiz, o castigo. E o castigo de Thales era excluí-la de sua vida, fingir que ela era um fantasma pela casa ou simplesmente ficar emburrado no escritório. E à noite dormia num dos quartos de hóspedes. Ele também era expert na arte de se autopunir, como ela já havia constatado.

       Depois do banho, pôs um vestido leve, com alças finas e decote rendado e vestiu Theo com suas fraldas descartáveis e um pijaminha curto, de algodão. Notou que a porta do escritório estava fechada e isso basicamente significava: “Valéria, minha querida, você foi dispensada até o meu humor determinar.” Ela deu de ombros, suspirando um “quê fazer...”

       Acomodou-se na salinha da tevê. Um lugar que ela mesma havia decorado. A parte mais aconchegante do casarão onde se podia assistir a um filme descansando sobre imensos sofás, o tapete grosso e largo debaixo dos pés, a cortina de renda sobreposta ao blackout em tecido filtrando a claridade vinda dos janelões do terraço e o aparelho de televisão importado, de 75 polegadas. Nenhum móvel além dos sofás para quatro lugares e as poltronas. Tudo era caro, mas não visava à ostentação e sim ao conforto, ao fato de se sentir bem na própria casa.

       Valéria podia passar o domingo inteiro ali, de pernas para o ar, vendo Theo apertando e abraçando o seu jacaré de pelúcia enquanto assistia ao DVD dos Teletubbies.

E era o que eles faziam naquele momento, enquanto a tarde se transformava em noite e o céu sem nuvens ficava alaranjado como o céu de uma terra mágica.

       Percebeu de soslaio a figura alta parada à porta. Thales saíra da toca.

       Antes de se isolar no escritório, ele havia tomado banho e trocado de roupa. E, agora, discretamente, ela via-o vestido num jeans e uma camiseta cinza, sem estampas. O cabelo úmido e penteado, a aparência de homem limpo que sempre lhe emprestara um charme irresistível, ainda mais quando se vestia de modo displicente e não calçava nada nos pés.

       De onde estava ela aspirava a fragrância da sua loção pós-barba e o cheiro do sabonete. Tal constatação resgatou-a do refúgio da sua calmaria, queria se jogar em seus braços, senti-lo abraçando-a e beijá-lo na curva do pescoço, no queixo, na boca. Mas não podia, ele não queria a sua aproximação. Por isso ele ficara ali parado, olhando para o filho sentado em cima do seu jacaré de pelúcia, montando-o como se fosse um cavalo. A qualquer momento o pobre animalzinho cuspiria seu enchimento de espuma pela boca.

       Thales fora atraído pelos gritinhos de felicidade de Theo a cada vez que Tinky Winky aparecia.

       Ao perceber a presença do pai, o garoto se postou diante da tevê e, apontando para a tela onde o personagem roxo de bolsa vermelha aparecia e sumia detrás do morro, desandou a falar um dialeto confuso e ansioso que escapava por debaixo da chupeta.

       Ele olhava para trás, a fim de se certificar de que o pai estava prestando atenção no seu ídolo da tevê e, ao mesmo tempo, tentava acertar o dedinho na mira do personagem correto, já que a todo o momento a cena mudava e apareciam os outros três e, pelo o que Valéria já conhecia sobre as preferências do filho, ele ria de Dipsy, Laa-Laa e Po, contudo, o com o triângulo invertido na cabeça o divertia ainda mais.

       Tão logo Thales sentou no sofá, o bebezinho com o traseiro gordo de fraldas correu para o seu colo, o jacaré atrapalhou o movimento de suas pernas e por pouco não o levou ao chão. A mão do pai evitou a queda e, em seguida, apertou o corpo miúdo e magro contra o seu tórax.

       Theo colou a sua testa contra a testa de Thales, sugando com força a chupeta demonstrando a sua ânsia por atenção, sempre faminto pela presença daquele que se havia doado inteiro desde o seu nascimento quase dois anos atrás.

       Thales o acalmou, batendo com carinho no seu traseiro gorducho e puxando-o para si. Era certo que após tomar banho e jantar, meia dúzia de cafunés tornariam o bebê refém de um sono profundo. E, após ele adormecer, o poria no berço em seu quarto e voltaria ao escritório. Daria uma boa lição na senhora Dolejal refestelada no sofá sem qualquer interesse em se desculpar pela afronta à mesa diante de Rodrigo Malverde e seus fãs.

       Relançou um olhar para ela e se descobriu também sendo observado. Um par de olhos verdes tentava adivinhar suas intenções. Era um inferno isso, Thales refletia a contragosto, ter de lidar com os extremos, com a vontade de discipliná-la, pô-la no devido lugar e a vontade de voltar a falar com ela, conversar, ouvi-la contar suas histórias de adolescência, suas fantasias de infância, as fofocas que ouvia no salão de beleza. E como Valéria falava, Deus do céu! Tinha munição para todos os assuntos, e não dominando um ou outro, desandava a perguntar a respeito até dominá-lo. Thales nunca fora muito falante, fazia mais o tipo que nascera para ouvir. E ele gostava de ouvir a ruiva empolgada com suas palavras, as mãos falando junto numa mímica exagerada.

        Não se casara com Valéria por amor nem a amava quando a pedira em casamento. A verdade era que se casara com a única mulher com a qual podia passar madrugadas inteiras simplesmente conversando. O que não precisava fazer, visto que além de tagarela, Valéria era o fogo na forma humana. Quente e safada, concluiu ele, descendo os seus olhos para os lábios dela, úmidos, entreabertos, pervertidos.

       — Posso pedir uma coisa?

       Ela usou um tom doce e um olhar de pedinte.

       Ele se retesou à espera do golpe bem no meio do seu crânio.

       — Por acaso o que vai pedir são desculpas? — ironizou sem deixar de se manter sério.

       — Devo pedir desculpas por expressar a minha opinião? Acho que não se justifica um pedido de desculpas, Thales, sinto muito.

       — Não, você não sente porra nenhuma, Valéria. Você e o seu irmão estão tão imbuídos na missão de me afrontarem que acabarão quebrando a cara. Para todos, naquele churrasco, o único cretino sou eu e, na verdade, quase todo mundo ali também tem o rabo preso.

       — Nunca disse que é um cretino...

       Ele a interrompeu com um gesto vago de mão.

       — Vamos listar... Bem, excluindo os inocentes que, para mim, são as crianças, os adolescentes, o Franco e a única idosa da família, o resto está sujo ou em vias de se sujar. A sua querida amiga Nova invadiu a fazenda do coronel, perseguiu um homem que supostamente era um aliciador, dopou o meu filho e o amarrou na cama e, ainda por cima, desarmou o delegado apontando uma arma para a cabeça dele. — ele fez uma pausa e sorriu com deboche antes de continuar: — A Karen é uma homicida, e o Rodrigo prende de acordo com a sua vontade e já até inventou leis para pôr gente atrás das grades e, além de tudo, roubou a minha mulher na primeira oportunidade... Bem, por último, você, minha querida. Tudo o que os seus ouvidinhos captam por aqui, na nossa fazenda, vai direto para os ouvidinhos do delegado. Sabia que tive de criar um código para conversar com o Bronson perto de você? Que feio, Valéria, espionando o próprio marido para fofocar com o irmão. Além disso, esse Malverde dos infernos sempre foi protegido por mim, pelos meus homens, pelos pistoleiros que são pagos com o meu dinheiro e se não fosse por isso, teríamos mais um funcionário público de merda debaixo da terra. E sabe como ele me agradece? Primeiro, novamente, roubando a minha mulher e, segundo, entregando um dossiê sobre o suicídio do meu avô às autoridades...

       — O quê? — ela indagou, intrigada.

       — O santinho do seu irmão elaborou um dossiê com supostas provas de que eu tenha assassinado o meu avô e forjado o seu suicídio. Até aí pouco me importa, esse boato já virou lenda urbana e faz parte da história da colonização de Matarana. — declarou dando de ombros. — O problema, minha querida, é que o Rodrigo entregou uma das cópias desse dossiê contra mim para o Franco. Entendeu a extensão desse gesto? A magnitude dessa maldade? O meu filho me denunciará como assassino do seu bisavô caso o delegado de Matarana sofra um arranhãozinho qualquer no seu rosto de galã de Hollywood. Isso é crueldade, e não para comigo, claro que não, estou me fodendo para as ameaças do seu irmão. A crueldade é para com o garoto que ele diz que se importa. Sou sim um filho da puta, Valéria, nunca neguei isso nem faço pose de bom-moço, mas não sou desleal e honro as minhas amizades, coisa que o seu irmão já me deixou na mão. E hoje você agiu como ele. Portanto, se não quer se desculpar, tudo bem, está no seu direito. Assim como eu também estou no meu direito de mandá-la à merda.

       E, dizendo isso, se levantou com o filho adormecido no colo e deu-lhe as costas.

       Então era isso, ela pensou, pasma, ainda fitando um Thales que não estava mais sentado ao seu lado.

         

       — Ok, chega de cerveja, já está na hora de dançarmos.

       Karen se voltou para Rodrigo, que se levantava da cadeira ao seu lado no alpendre e entrava em casa. Cinco minutos depois, ouviu a porta que separava a sala do corredor que levava aos quartos ser fechada, e My Love for You ressoou no aparelho de som. Ela sorriu encantada. A noite estava perfeita, crivada de brilhantes sob o fundo negro, a temperatura amena e um moreno lindo que ela amava pra cacete voltava sem chapéu e cheio de más intenções.

       Para eles, dançar fazia parte das preliminares.

       — De onde desencava tanta velharia, hein, caubói? — perguntou num tom divertido.

       Ele meio que sorriu, agachando-se diante da cadeira dela, e respondeu com aquele jeitinho característico de homem jovem das antigas:

       — Sempre encontro a canção certa que fale tudo por mim, sou bom nisso, amor. — ele piscou o olho para ela e continuou, as mãos escorregando pelas pernas dela: — Agora vamos tirar essas botas e mandar ver.

       — Ah, certo, sei que não sou uma boa dançarina, mas consigo dar uns passinhos sem pisar nos seus pés. — fingiu-se de ofendida.

       — Concordo plenamente, e se eu estivesse de botas, manteria as suas também. A questão é que prefiro não arriscar a integridade física dos meus dedos.

       Ela riu, e ganhou um beijo estalado na bochecha.

       — Vem, amor, gruda teu corpo no meu e me deixa te levar. — disse Rodrigo com um sorrisinho malicioso.

      Virgem-Maria-do-tamanco-torto!, como esse homem é terrivelmente sexy!, pensou ela, quase verbalizando o pensamento. Conteve-se para não encher muito a bola do delegado. Era doida por ele e por isso mesmo precisava mantê-lo na rédea curta. Aprendera desde cedo que quem se abaixava demais mostrava a calcinha. E isso na área dos relacionamentos afetivos significava: não exagere na expressão dos seus sentimentos. Ao se dizer vinte vezes por dia “eu te amo”, com o passar do tempo, a expressão de um sentimento profundo acabava se tornando aquelas frases automáticas que se dizia na falta de algo mais criativo ou para se livrar de um silêncio incômodo. Além do mais, Karen não era uma mulher insegura e tampouco cega. Vivia com um homem gostosão, com jeito de caubói das antigas, lindo de morrer e com um bom número de interessadas no posto de senhora Malverde. A última coisa que deveria fazer era permitir que o namorado se sentisse seguro demais, com o jogo ganho, com a faca e o queijo na mão, o rei do pedaço. De jeito nenhum! Às vezes ele simplesmente tinha de levar nos cornos, uma patada básica, uma ignorada esnobe ou apenas fingir que não ouvia o que ele comentava à mesa, embora tudo o que ele dissesse a interessava sobremaneira. Era engraçado vê-lo repetir duas, três vezes algo que ela prestara atenção e, mais engraçado ainda, era perceber o quanto essa sua “indiferença” irritava-o.

       Entretanto, naquele exato momento, tudo o que Karen queria na vida era dançar com ele. Deixou-se ser conduzida pelos braços fortes que, vez por outra, desciam para o seu traseiro e depois voltavam, puxando-a contra o corpo forte e ligeiramente musculoso.

       Ele baixou a cabeça e colou seu rosto no dela, uma mão entrelaçava os dedos com a dela e era trazida ao encontro do tórax masculino. Mal tirava os pés do assoalho de madeira, mexendo-se lentamente enquanto sentia o corpo da sua morena segui-lo no ritmo lento e envolvente da música romântica.

       Karen lembrou-se de outro assunto pendente, e que se repetia todos os anos, desde que Jasmine se fora. Não tencionava quebrar o clima, ainda mais quando Rodrigo se mostrava tão jovial e alegre, parecia até que a vida estava lhe dando uma folga de seus problemas. Mas, de certa forma, ele já sabia o que a incomodava ao ponto de fazê-la errar o compasso e pisar no seu pé.

       Ele riu e comentou fazendo graça:

       — Humm, boa ideia tirar as suas botas, não?

       — É, sou meio desajeitada.

       — Não, não é. — ele falou com ternura, enganchando o polegar debaixo do queixo dela e fazendo-a olhar diretamente em sua direção: — Sei exatamente qual o rumo que os seus pensamentos tomaram desde que começamos a dançar. Você se sentiu feliz e, ao mesmo tempo, culpada. Bobinha que é me imaginou com a Jas anos atrás, dançando aqui nesse alpendre e, em seguida, se deu conta de que amanhã seria o aniversário dela se ainda estivesse conosco.

       Ela parou de dançar. Era estranho que sentisse um imenso vazio no peito, um peso, o estranho era que uma ausência lhe fosse tão presente. Era a dor da falta e o martírio da saudade que jamais seria aplacada.

       — Vamos levar flores ao túmulo dela. — ela, por fim, disse, com um engasgo na voz.

       — Sim, claro, como todos os anos.

       — Certo... Ela gostava de tulipas, mas nunca encontrei tulipas em Matarana...

       Rodrigo notou a emoção carregada na voz rouca da namorada, mais algumas palavras, e ela cairia no abismo do luto e da tristeza, das reminiscências inúteis também, uma vez que recordar não era viver; era parar de viver para lembrar o vivido. Longe de sua vontade deixá-la cair, por isso começou a contar como ele era de verdade à luz do luar.

       — Sabe quando me apaixonei por você?

       Ela fez que não com a cabeça e se abraçou nele que, por sua vez, passou seus braços ao redor do corpo dela, envolvendo-a como uma couraça de proteção.

       Quando Karen se permitia dar vazão aos seus sentimentos, ele tinha a confirmação do que sempre soubera, a reafirmação de uma certeza que era acompanhada lado a lado de outra: primeiro, que ela era uma garotinha, durona, cheia de si, mas ainda uma garotinha, e sua; e, segundo, que a amava ao ponto de trapacear para tê-la para si.

       Contou então uma história junto ao seu ouvido num sussurro rouco sem, no entanto, perder a firmeza na voz, nenhum pingo sequer de hesitação:

       — Quando busquei sua cumplicidade para tentar impedir que a Jas me deixasse e voltasse para Porto Alegre, entrei na sua casa todo fodido de dor e autopiedade, e você disse para eu deixar de ser um egoísta idiota e esperar as coisas se ajeitarem por si mesmas. Você não queria impedi-la, nem tentou mantê-la conosco. Senti tanta raiva, tanta raiva de você. E sabe por quê?

       Ela o encarou com lágrimas nos olhos e nada falou.

       — Porque ela ficaria se você pedisse. A Jas era influenciável e superficial, bastavam meia dúzia de argumentos para impedi-la de nos deixar, como sobre a sua futura vida de volta ao sul morando novamente com os pais, procurando emprego após ficar sete anos fora do mercado de trabalho, apenas isso, sem se referir ao fato de que ela poderia ainda sentir um restinho de amor por mim. Mas você ficou do lado dela e pouco se importou consigo mesma... Anos mais tarde, a vó me contou que depois que saí você chorou. E que chorou também quando a Jas contou sobre a sua decisão de partir e nos deixar. Mas eu não sabia sobre isso, ainda não.

       — Me odiou por isso, Rodrigo? 

       — Não, Karen, pior que isso. — ele enrijeceu os maxilares e completou numa expressão profunda: — Naquele mesmo dia, comecei a me desesperar porque descobri que o que me incomodava não era o fim do meu casamento ou a viagem da Jas. Havia algum tempo que o que me incomodava era não conseguir definir direito o que eu sentia por você e, pior que isso, o que sentia ao vê-la se relacionando com os homens que passavam pela sua vida.

       Não havia acusação ou censura naquela declaração. Contudo, ela se sentiu compelida a se defender:

       — Eles nunca representaram nada para mim.

       — O Thales, sim. — rebateu com frieza.

       Karen sustentou o olhar duro do namorado e assentiu:

       — Sim, o Thales, sim.

       — Ainda que ele a fizesse sofrer, que a induzisse a beber e brigar pela cidade, a se descontrolar e tentar se destruir, ainda que ele não a assumisse em público e a levasse para quartos de hotel, não a respeitando como mulher e mãe de família, uma boa mãe e, ainda que ele jamais a tenha merecido, tenho plena consciência da importância do Dolejal para você...

       — Rodrigo... isso já passou...

       — Claro que já passou; afinal, ele se casou com a minha irmã, e você está comigo. Acha mesmo, Karen, que descobrindo que era você a mulher da minha vida, e não a Jasmine, eu a deixaria viver o resto da sua vida com um homem que tentava subjugá-la para provar que, mesmo louco de amor por você, não precisava de ninguém? — ele tomou o rosto dela entre as mãos e fitou a expressão expectante: — Esperei minha hora chegar quieto no meu canto, mas também perto de você, o amigo para todas as horas, o cara que a tirava das enrascadas, que lhe cedia a cama...o cara com o qual você se desarmava, porque eu era apenas o viúvo de sua melhor amiga que se tornara o seu melhor amigo... Foi dureza me manter discreto sufocando todo esse amor e a vontade de trazê-la para debaixo do meu teto. Só que eu também sabia que o Thales uma hora ia pisar feio na bola e aí eu daria o bote...

       Karen arregalou os olhos assustada diante da expressão de júbilo à referência do que até então parecia somente ser uma acusação leviana de Thales, um ato deliberado de se eximir da responsabilidade pelo desgaste do relacionamento entre ambos. Por certo, ele não era o primeiro nem seria o último ex a acusar o atual de ter a sua mulher roubada de si. Como se uma mulher fosse um objeto para ser possuído, doado ou roubado. A questão, para Karen, nem era mais essa. Pouco se importava com o machismo daquela terra. O que fazia jorrar o suco gástrico no seu estômago era ouvir a confissão de Rodrigo, a confirmação sobre algo que Thales ruminara durante anos, e ela jamais acreditara porque fora ele, Thales Dolejal, que a dispensara para ficar noivo da texana.

       E foi o que ela disse a Rodrigo.

       — Ele não me quis mais, e foi você quem me ajudou a não me expulsarem da cidade. Você não fez nada contra o Thales, nada.

       Rodrigo lançou-lhe um sorriso charmoso, diabolicamente charmoso, como bem pôde constatar.

       — Sim, meu amor, e era esse tipo de pisada na bola que eu esperava para acabar com aquele relacionamento de merda que você insistia em manter.

       — Não, você não é assim... — ela falou, meneando a cabeça para os lados, se negando a acreditar que o seu caubói romântico e sensível fosse um articulador frio e oportunista.

       — Sou o que sou, Karen, a fama de bom-moço quem me deu foi você. Somos diferentes em relação a muita coisa, mas me permito dizer que temos algo importante em comum, — ele sorriu com o canto da boca e a beijou levemente na ponta do nariz antes de fitá-la e completar: — o que eu quero, eu pego. — depois, encostando-se contra a amurada de madeira e acendendo um cigarro com a mão em concha, continuou, o semblante agora sério: — Quem manda em Matarana sou eu. Sou eu quem decide quem fica, quem vai pra detrás das grades, quem é solto, quem é invisível e quem eu tenho de vigiar. Matarana é minha. E, além disso, sou eu quem tem Thales Dolejal na palma da mão, pronto para ser esmagado. Aquele homem tem um ponto fraco e, agora, não é mais você, Karen, porque agora você é o meu ponto fraco. O ponto fraco do Thales é o Franco. — ele tragou fundo o cigarro e expeliu a fumaça pelas narinas: — E depois do que assisti hoje à mesa, tenho certeza de que a Val e o Theo também me servirão como trunfos. É engraçado como às vezes, só às vezes, o poder econômico não significa merda nenhuma, e isso só acontece quando você descobre que um figurão cheio da nota venderia até a alma para manter determinadas pessoas ao seu redor. E é esta a fraqueza do Thales: se pôr na mão dos outros acreditando piamente que tem todos sob o seu jugo e poder, coitado.

       Karen engoliu em seco. Era essa a visão de Thales a respeito de Rodrigo. Ela conseguia enxergá-lo agora através dos olhos dele. Não sabia o que pensar. Medo? Decepção?

       Deslumbramento.

       — O que aconteceu com você? — perguntou quase sorrindo. Esse só podia ser o lado B do homem que ela amava.

       — Simples, bem simples. Cansei de ser ofendido... — ele esmagou a bagana contra a amurada e completou determinado: — Bom-moço o cacete, jamais me sujei por dinheiro ou qualquer outra merda, mas não permito que deem as cartas onde quem faz o jogo sou eu. Roubei, sim, a mulher de Thales Dolejal, e Matarana não é o reino dele, não. Só não se esqueça de uma coisa, Karen. Por mais que a minha consciência tenha quase me feito perdê-la, cercá-la ao ponto de não permitir que tivesse uma recaída e voltasse para ele foi resultado da decisão do meu coração, não do meu ego ou coisa parecida. Se quase a perdi mandando você de volta a Arco Verde, foi porque jamais aceitaria que não fosse feliz comigo. Você é a minha vida, é o meu amor, é a minha parceira. E azar de quem não viu o seu valor. Quero mais é que se fodam. — concluiu, retesando os maxilares.

       Ele se afastou de onde estava e a puxou contra o seu corpo. Fingiu que não percebeu as lágrimas nas bordas das pálpebras dela.

       — E agora vamos pra cama que quero ficar dentro de você.

       Com ele era assim, simples assim.

         

       Os janelões que separavam o escritório da ampla sacada estavam abertos e as cortinas voejavam graciosamente. Um vento morno soprava para dentro do ambiente o cheiro da terra umedecida pelos irrigadores eletrônicos, um bafejo pungente e, para ela, familiar e reconfortante. Era o cheiro da terra dele, do homem parado diante da planície aberta e da lua camuflada pela fumaça das queimadas.

       Abraçou-o por trás e deitou a cabeça contra as costas dele, sentindo-o imediatamente se retesar. Desconsiderou o movimento e deitou o nariz no tecido da sua camiseta, o cheiro morno e refrescante agindo sobre si como um potente e lânguido narcótico. As mãos se cruzaram em torno do tronco rijo e ela disse numa voz abafada contra o corpo dele:

       — Não sabia sobre o dossiê, me perdoa. Respeito as razões do meu irmão e sei que você jamais faria mal algum contra ele, mas admito que fui grossa hoje no churrasco e acabei estragando o seu dia. — ela fez uma breve pausa e se grudou ainda mais nele: — Só peço para que não me deixe sozinha, por favor.

       Ele olhou para os braços ao redor de sua cintura e se manteve impassível ao responder:

       — Quando a deixei sozinha se desde que nos casamos não viajei mais?

       — Sozinha pela casa, digo. — respondeu baixinho.

       Thales exalou uma respiração pesada e lenta, como a de alguém cansado de ouvir a mesma ladainha e era o que se passava com ele naquele momento. Por isso tentou se desvencilhar do abraço e pôr fim a um assunto já tratado no dia anterior.

       — Olha, não vamos nos prolongar com isso, ok? Preciso voltar ao trabalho, decidi que teremos um haras e estou analisando alguns empreendimentos. É possível que até o final da semana eu tenha de viajar para o interior de São Paulo para comprar os primeiros cavalos.

       Então não seria apenas ignorada. Ele voltaria à sua vida de workaholic. Apertou-se ainda mais contra o corpo forte que procurava se afastar discretamente.

       — E depois?

       — O que quer saber?

       Esperou que ele se virasse e a encarasse nos olhos, até tentou parecer segura ao sustentar o seu olhar. O problema era que por dentro tremia, tremia em função da notícia de que ele viajaria, ficaria longe dela, cederia ao seu vício por trabalho e talvez levasse uma assistente consigo. Um executivo do seu cacife não viajava sem uma excelente assessoria e, no caso de Thales, não seria a boa e velha senhorita Freitas, secretária do seu escritório, que o acompanharia.

       — Não se esqueça de que você tem uma família. — foi incisiva, dando-se o direito de erguer ligeiramente o queixo em desafio.

      Thales ameaçou um sorriso, mas como não estava com vontade de sorrir, o gesto se tornou mero esboço de uma reação tendendo à ironia.

        — Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Na verdade, é você que está confusa quanto a qual família pertence, por isso acho melhor lhe dar um tempo para se posicionar a respeito. Não se preocupe, será uma viagem de um dia apenas, não pretendo ficar mais tempo longe do meu filho. — declarou, olhando-a duramente.

       — Claro, bem, mesmo assim ele notará a sua ausência...

       — Sabe usar o Skype?

       Ela fez que sim, atordoada.

       — Agora preciso voltar ao escritório, com licença. — ele pediu, pondo as mãos nos antebraços dela e a afastando educadamente do seu caminho.

       Entrou atrás dele. Viu-o se sentar detrás da mesa e digitar no notebook o que confiscava sua total atenção. Manteve-se parada no meio do escritório, sentindo a maciez do tapete persa debaixo dos pés, aspirando o cheiro da madeira dos móveis se misturando com o odor característico do campo. Balançou os braços devagar ao longo do corpo, sentindo-se deslocada e, ao mesmo tempo, apreensiva, frustrada.

       — Bom, vou para cama. Vai demorar muito por aí?

       Ele nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça para responder:

       — Não se preocupe comigo, dormirei no quarto de hóspedes. Boa noite.

       Inferno!, ela pensou, fechando o punho.

       — Já pedi desculpas. Pra quê continuar com isso?

       Thales ergueu os olhos do computador e respondeu com bastante serenidade:

       — Pediu desculpas por ter sido “grossa”, como se referiu, mas ainda assim respeitando as razões do seu irmão, ou seja, continua afirmando que sou um controlador de merda que me meto na vida de todo mundo. — ele parou, suspirou fundo e apertou as têmporas, cansado: — Detesto ficar me repetindo. O melhor que tem a fazer é ir se deitar e me deixar em paz. Pode fazer isso, Valéria? É possível?

       Ela trincou os dentes contendo um palavrão. Ele a tratava como se fosse um subordinado.

       — Sim, Thales.

       Ele a olhou num misto de menosprezo e arrogância.

       — Só é obediente quando lhe convém, não é mesmo? — constatou.

       — Vim fazer as pazes, não quero que me ignore por sabe lá quanto tempo, me propus a pedir desculpas por ter expressado a minha opinião em público e sinceramente acho que você está exagerando isso tudo.

       Ele se recostou contra o encosto da cadeira e até sorriu ao indagar mantendo o tom baixo e controlado da voz ligeiramente rouca:

       — Um pedido falso que faço questão de dispensar.

       — Não foi falso e nada do que eu faço é falso, senhor Dolejal. E já vou avisando: nada de levar acompanhantezinha na sua viagem a São Paulo. Estamos entendidos?

       A expressão do rosto dele espelhava surpresa que foi enfatizada inclusive pelo arquear de uma das sobrancelhas.

       — O que disse?

       Valéria apertou os lábios e respirou fundo. Era uma dureza se impor diante de um homem dominador.

       — O que ouviu. Meu marido, minhas regras.

        Viu-o sorrir devagar, com preguiça, como se o cérebro processasse as suas palavras aos poucos e elas lhe soassem engraçadas.

       — Ah, que merda se sentir insegura, não? Sabe por que isso acontece?

       — Sei, sim, porque o marido quer se vingar da esposa e resolve arranjar uma viagem de última hora. — respondeu com aspereza.

       O sorriso se ampliou ao ponto de marcar-lhe a face com dois sulcos ladeando os lábios.

       — O que está achando de provar o sabor da sua própria estupidez, hein, querida esposa? Ação e reação, já ouviu falar? Toda a vez que me afrontar levará na cabeça. — ele parou de sorrir e emendou secamente: — Minha mulher, minhas regras.

       Valéria balançou a cabeça como se estivesse diante de algo inacreditável, como um elefante com pantufas, por exemplo, ou um homem tremendamente cara de pau. Sentiu uma pontada aguda na cabeça e até olhou para trás, alguém lhe havia enfiado uma lança no crânio. Mas talvez fosse apenas o início de uma tempestade de eletricidade.

       — Não seja louco de me trair.

       Ela falou tão baixo que parecia ter gritado e, se o tivesse feito, seria aquele tipo de grito quando humanos deixam escapar um bicho selvagem de dentro de si. Uma fúria cega irrompeu de algum lugar onde estava escondida para não assustar os civilizados. Contudo, irrompera acionada por um gatilho, visto que não era da sua natureza ser uma pessoa furiosa. Naquele exato momento, entretanto, estava tomada por uma fúria assassina que quase a fazia levitar.

       Thales surpreendeu-se ao ouvir a sentença dita numa voz grossa e grave, tão diferente do tom feminino e juvenil que Valéria usava para falar com ele. E não apenas a voz estava diferente. Notou as narinas se dilatando e o verde dos olhos se escurecendo. A respiração parecia mais pesada, pois seu peito arfava. Avaliou detidamente cada detalhe, uma vez que se acostumara a lidar com vendavais humanos desde a adolescência de Franco. E era isso o que acontecia diante de si.

       — Acalme-se, depois conversamos a respeito. — declarou com bastante cuidado, sabendo por experiência que caminhava sobre um campo minado.

       Era óbvio que o fato de tê-la dito para se acalmar a irritou ainda mais. Valéria ouviu o barulho da última gota e ela caiu dentro de um barril que se enchia de água desde a sua adolescência...

       — Agora! Não tente olhar para outra mulher, nem pensar em outra mulher e, muito menos, trepar com outra mulher. Você pensa que me conhece, imagina que me controla, SONHA com a minha submissão, mas não faz ideia de como eu fico quando estou com raiva...

       Ela avançou para frente da escrivaninha e pôs as mãos nela, o corpo posicionado para o ataque, como se a qualquer momento fosse pular no pescoço dele.

       Thales estava tão surpreso com a mudança no comportamento dela que a única reação que esboçou foi a de se recostar ainda mais para trás numa atitude inconsciente de autodefesa.

       Projetando-se para frente, ela então começou a gritar:

       — Arranco teu pênis, Thales! Corto com uma machadada só! É só você ter a infeliz ideia de me pôr guampas, por Deus! Te mutilo e acabo com tua vida!

        O fazendeiro piscou algumas vezes, e a surpresa do ataque cedeu lugar a um sentimento que lhe fugia da compreensão racional. Conjecturou rapidamente se não estava diante de um caso de possessão espiritual. Valéria estava transtornada.

       Quando ele tentou se expressar no sentido de acalmá-la ou pelo menos tentar conduzi-la novamente à razão, ela continuou gritando ao ponto de a energia desprendida do surto (era somente assim que ele podia entender a situação) a pôr de joelhos sobre a ponta da escrivaninha, o corpo se curvando num meio arco para frente enquanto as mãos apertavam furiosamente o tecido do vestido que ela usava.

       — Não se livrará jamais de mim! Sou o teu carma, a tua sina, o teu destino! É como aquele livrinho, meu amor, você se tornou responsável ETERNAMENTE por quem cativou, por mim, e se mijar fora do penico, terá de se sentar para as próximas mijadas. OUVIU BEM, THALES DOLEJAL?

       Quando ela se inclinou para pular no seu pescoço, ele ergueu as mãos e pegou as dela, trazendo-a para si e, com o gesto, tudo o que estava sobre a mesa foi empurrado para o chão.

       Ele a puxou com força e a apertou entre os braços, o corpo feminino tremia, com espasmos que lhe vinham da musculatura endurecida. Mas ela não chorava nem o abraçava, e foi essa reação que o assustou e o pôs de pé com ela junto a si, dura como estátua.

       — O que está acontecendo com você? — perguntou com ternura e, ao mesmo tempo, apreensão.

       Tentou mantê-la presa nos seus braços, porém isso estava fora de cogitação para ela, que o empurrou com as mãos contra o tórax dele.

       — Não vai viajar com vadia nenhuma!

       — Olha pra mim, Valéria, — pediu com toda a calma do mundo, porque precisava acalmá-la. — escute o que vou dizer, ok? Para de se debater, sossega um pouco, mulher.

       — Não quero ouvir suas mentiras! Pensa que me engana? Todos os fazendeiros da região têm amantes! Todos! E sabe como eu sei? Não, claro que não, eu sou apenas a sua mulher gorda e obediente, não sou uma modelo americana nem a gostosona da Karen... — ela parou e o fitou com os olhos cheios de lágrimas: — As esposas dos fazendeiros sabem das aventuras dos maridos e tiram proveito disso, gastam horrores e ainda acham que são espertas! E nenhuma delas é tão sem graça quanto eu e nenhum delas se casou com um homem tão lindo como você! Mas você casou comigo, CASOU COMIGO, podia ter ficado solteiro, mas não quis, NÃO QUIS.

       Ele se sentiu culpado alimentando por anos a insegurança dela e fizera isso movido pelo seu próprio medo, medo de perder o controle e uma segunda vez cair de joelhos diante de uma mulher. Cogitou que, no caso de Valéria, fora longe demais. Doeu vê-la sofrer, tão miserável e louca, se afundando no mar revolto do ciúme e de sua própria vulnerabilidade.

       — Fidelidade é um traço de caráter, Valéria, e você sabe muito bem que nunca traí nem a Mary Jessica tampouco a Karen. Ou se é leal, ou não se é. Além disso, tenho bastante experiência como corno para saber o quanto dói um par de guampas e jamais tive qualquer pretensão de machucá-la. Você é o meu amor, a mulher que eu amo, a minha sina, se prefere assim... E não pretendo fazer nada que a contrarie, o que inclui viajar sem assistente ou, sei lá, talvez com um dos meus advogados, não importa, diga como você quer que seja e assim o farei. Olha pra mim, Valéria. — pediu numa voz firme e serena: — Já está na hora de mandar essa sua insegurança à merda, não? O que mais posso fazer para que acredite em mim quando digo que é linda, é perfeita e é a mulher da minha vida? Cacete, Valéria, você mesma me disse isso uma vez, gritou na minha cara, inclusive.

       As lágrimas rolavam fartamente pelo rosto dela quando o queixo começou a tremer. Ele não suportou assistir ao seu sofrimento. Vê-la enfrentá-lo fora de si, como várias vezes Karen o fizera, não o excitara ou envenenara a sua alma de paixão. Valéria transtornada por sua causa deixara-o doente e com raiva de si mesmo.

       — Não consigo imaginar minha vida sem você. — declarou numa voz cheia de emoção, os olhos presos nos dela, as mãos acariciando a parte detrás da cabeça, reconfortando-a. — De posse dessa informação, pode fazer o que quiser comigo, não tenho mais armas para me proteger de você.

       Ela o abraçou com força. Como era possível amar um homem como se amasse um mundo, como se esse homem, mero ser humano do sexo masculino, fosse o universo inteiro?

       Um dia pedira a Deus para que a livrasse das complicações afetivas e no lugar de uma paixão, a estabilidade pacífica do cotidiano. No entanto, ela não sabia sobre os planos da divindade brincalhona que escolhera entre tantos o mais complicado e adorável, o seu ogro encantado, o céu de sua vida e a terra firme onde enterrara o seu coração para sempre e ali estava abraçada, atada, amando e sendo amada por Thales Dolejal.

      Ele se afastou o suficiente para pegar o queixo dela até fazê-la encará-lo. Perguntou com um sorriso charmoso:

       — Posso continuar com o meu pau?

       Ela sorriu por entre as lágrimas e fez que sim com a cabeça:

       — Espero tê-lo assustado um pouquinho.

       — Um pouco? — ele perguntou, rindo. — Quase me mijei, Valéria.

       Eles riram e se abraçaram.

       — A sua informação está segura comigo. — ela disse, aconchegando-se dentro do arco que fazia os braços dele ao seu redor, e continuou agora na conhecida e adorável voz juvenil: — E espero que o meu delicado surto também fique entre nós.

       Ouviu-o rir e se voltou para ele:

       — Isso não vai se repetir, Thales, juro!

       — Espero que não. Mas agora já sei que dentro dessa ruivinha linda e safada mora uma psicopata e terei o bom senso de jamais me esquecer disso. — afirmou com bom humor. — Agora vamos fazer uma boquinha, que sua ira despertou a minha fome.

       — Não sei...

       — Muito bem, então é o seguinte: se não tiver carne pra eu me agarrar quando gozar, vou ter de apertar os seus ossos e provavelmente sofrerá algumas concussões ou até mesmo fraturas... Gosto de carne, mulher, quero carne, entendeu?

       — Sei, mas não preciso de gordura na barriga...

       Ele estalou a língua no céu da boca como se tivesse ouvido uma asneira qualquer.

       — Vou ensiná-la a se ver no espelho como eu a vejo, a minha garota sardenta e fogosa.

       Ela sorriu como se tivesse sido enfeitiçada e recebeu um beijo daqueles.

        Ao se separarem, sondou-o com um sorriso cheio de segundas intenções:

       — Vai continuar trabalhando?

       Ele devolveu o sorriso e respondeu num tom de falsa censura:

       — Como, se a senhora Dolejal quebrou meu notebook?

       — Que bom! Vamos para o quarto e depois para a cozinha.

       Thales olhou para aquela mulher que era tudo para ele e concordou com um o sorrisinho travesso:

       — Sim, Valéria.

       Ele sabia que seria recompensado pela sua obediência.

         

       Nova abriu os olhos com lentidão, as pálpebras pesadas, a névoa da dormência dificultando o reconhecimento dos números no visor do despertador digital sobre o criado-mudo. Mal conseguia se mexer, sentindo-se comprimida contra o colchão. Ainda zonza, baixou a cabeça e percebeu um braço sobre seus seios e uma perna por cima de sua cintura. Franco parecia um polvo com seus tentáculos agarrados nela.

       Tentou se desvencilhar do corpo masculino e nu deitado sobre si. Ainda permaneceu de costas para ele, procurando ajeitar-se para voltar a dormir. Bocejou, cogitando que a decisão de uma noitada regada a champanhe e sexo ainda estava em alta entre eles, e o fôlego juvenil do marido continuava surpreendendo-a positivamente. Ele lhe dava uma canseira tremenda, pensou com um sorriso de satisfação, virando a cabeça para trás a fim de se certificar de que o loiro ainda dormia.

       Após contar a história dos Três Porquinhos para Paola (na versão de Franco era “As Três Porqueiras”), embalara no colo Paloma até o bebê dormir, enquanto Petra já estava adormecida no seu berço. Paloma nascera dez minutos antes de Petra e era a gêmea tinhosa, a que demorava a comer e dormir e também a que detestava os beijos barulhentos que o pai lhe dava nas bochechas e nas suas dobrinhas de gordura. A filha do meio gostava mesmo era de comer tudo o que via pelo chão e por isso mesmo vivia no carrinho, no colo ou sob a vigilância de alguém quando resolvia engatinhar pela casa.

       Ao entrar na suíte principal, ele não era mais o pai de família. Um sorrisinho malicioso de canto de boca já se formava à medida que ele fazia um strip para a sua mulher, retirando bem devagar cada peça de roupa e a jogando para todos os lados. Até alcançá-la com um olhar de fome que a deixava nua mesmo vestida. Talvez fosse por isso, por esse jeito instintivo e natural de ser amada sexualmente por ele, que despertasse em Nova o seu lado meio canibal — como acontecia com mulheres loucas de amor. Então ela o punha na boca, todo, até o fundo. E era só o começo.

       E até dormir de conchinha com Franco parecia uma posição do Kama Sutra, considerou, procurando uma posição confortável no travesseiro. Assim que se ajeitou, sentiu a carícia delicada quase imperceptível no seio e viu os dedos masculinos se mexerem lentamente por sobre o seu mamilo. Uma sensação agradável desandou a correr por debaixo da sua pele, arrepiando-a. Em seguida, junto à carícia, uma boca se esfregou na sua orelha e a ponta de um nariz deitou na dobra do seu pescoço. Sorriu entre incrédula e admirada com o vigor físico do marido. Ele se superava a cada ano. Haviam feito amor várias vezes e, nos intervalos, ele fumara fitando-a detidamente sem nada dizer, sério, concentrado, pensativo; depois enchera e esvaziara as duas taças com champanhe. Um clima de mistério sedutor e desejo os unia como se fossem dois estranhos completamente apaixonados um pelo outro.

       Por outro lado, tinha de convir consigo mesma que Franco estava diferente. Mais introspectivo e caladão. O semblante jovial e a personalidade irreverente cederam lugar a uma postura altiva e sóbria, de um homem que refletia profundamente sobre algo importante. Era o reflexo da conversa à mesa poucas horas atrás, Nova tinha quase certeza disso.

       Ele deslizou a mão lentamente pelo contorno do seu corpo, e Nova desistiu de retomar o sono perdido.

       Girou o pescoço para beijá-lo. Fechou os olhos e apertou sua boca contra a dele, provando a firmeza de uma boca macia feita originariamente para ser beijada. Duas línguas se encontraram tocando-se com lentidão, acordavam também por certo. Um beijo longo, sem pressa, sem vontade de terminar. Franco tomou entre os dentes o lábio inferior dela para, depois, descer para o queixo, lambê-lo, mordiscá-lo, assim como o fazia com toda a extensão do pescoço feminino. E enquanto a beijava, erguia-lhe delicadamente uma coxa e entrava nela aos poucos, recuando e tornando a avançar, na cadência de uma música latina sensual, o ritmo sincronizado do vento avançando sobre palmeiras em câmera lenta, para frente, para trás.

       Ela deixou escapar um gemido rouco junto com a respiração pesada e aos pedaços, arfando, os poros se enchendo de água. Ouviu-o exalar o ar baixinho, entre os lábios entreabertos, os pontos de barba no queixo raspando a lateral do pescoço dela.

       — Não acredito... — murmurou, fitando os olhos fechados de Franco. — Acorda, Franco... — elevou um pouco a voz, tendo o cuidado para não sobressaltá-lo.

       As pálpebras fechadas não se moveram, mas o resto dele, sim.

       Lentamente ele deslocou os quadris e se mexeu dentro dela, acelerando o ritmo e gemendo como se sofresse terrível dor se não fosse a dor do prazer.

       Nova não estava certa se Franco estava dormindo, não podia estar fazendo amor dormindo. Arqueou o corpo ao sentir a ferroada aguda e agonizante do orgasmo, o risco de fogo que cobria sua pele de suor e disparava o coração num galope enlouquecido. Em seguida, sentiu-o apertar-se contra ela, uma das mãos circundou o seu abdômen até trazê-la colada ao seu quadril, e assim ela pôde sentir contra o seu traseiro os músculos das coxas dele se estirarem pressionando-lhe a pele para depois tornarem a relaxar. Ele se jogou dentro dela enquanto tomava na mão um dos seios pequenos e a boca chupando-a no lóbulo da orelha. Um minuto depois, ele a virou de costas e tornou a se mexer, agora, com mais intensidade.

       — Franco...?

       Ele abriu um olho e sorriu.

       — Depois ele volta, dona Nova. — disse, a voz misturada com a respiração carregada.

       Nova dobrou os joelhos e os segurou flexionados, afastando ainda mais as pernas para recebê-lo, tê-lo todo para si.

       Franco se enfiou até o fundo, os braços apoiados contra o colchão, as mãos espalmadas suportando o peso.

        — Mais forte...Mais. Forte. — ela pediu, numa respiração entrecortada.

       Ele se segurou contra a guarda da cama e arremeteu com força para dentro dela, observando-a quase gritar ao gozar.

       Depois de exaustos, ela se aconchegou no peito dele e falou num resmungo contrariado:

       — Temos de nos vestir, amor lindo, a Paola pode aparecer aqui no quarto logo pela manhã.

       Ela se levantou ainda nua e acendeu a luz do abajur. Olhou ao redor à procura da calcinha e camisola que deviam estar atiradas por sobre algum móvel ou até mesmo debaixo da cama. Estalou a língua no palato ao verificar que ambas jaziam no tapete diante das portas duplas do terraço. Vestiu-se rapidamente e balançou a cabeça resignada ao ver Franco na mesma posição em que o deixara, deitado de bruços, o cabelo loiro espalhado pelo travesseiro, o traseiro durinho esperando ser beijado, como ela sempre o fazia pela manhã, um beijo na boca, um beijo na bundinha mais linda do cerrado — sorriu ao lembrar o quanto ele não gostava de ser beijado ou mordido na bunda.

       — Acorda e se veste, cabra! Vamos!

       Ele nem se mexeu ao falar com boca encostada no travesseiro:

       — Preguiça, Nova, preguiça.

       Ela suspirou contrariada e se sentou na beirada da cama.

       — Quer que eu ponha pelo menos a cueca em você?

       Ouviu-o rir baixinho.

       — Nem pensar, já basta essa sua mania de me dar banho.

       — É carinho, Franco, só isso.

       — Sei, a dona continua doida, só isso.

       Ok, ele a chamara de Nova, de dona e dissera poucos minutos atrás que o “Franco” já voltava. Bem, tudo levava a crer que ele não cruzara totalmente a fronteira do sono com a vigília.

       — Se não se vestir, eu mesma farei isso por você. — determinou do mesmo jeito que lidava com a filha mais velha.

       Franco girou o corpo até ficar de costas e fitá-la com seus olhos azuis cujas órbitas avermelhadas e brilhantes sugeriam que recém acordara. Arou o cabelo com os dedos e bocejou alto; depois, se apoiou nos cotovelos e deu uma boa olhada nela antes de dizer com um sorriso de moleque travesso:

       — Quem disse que a noite acabou? Vem aqui, vem. — ele deu uma palmadinha no colchão e arqueou a sobrancelha com ar malicioso: — Vamos quebrar a cama, princesa.

       Por um momento considerou acatar o seu pedido. Descabelado, olhos brilhando e um sorriso descaradamente luxuriante seduziam-na.

       — São quase cinco da manhã, amor, e a gente tem de dormir um pouquinho.

       — Está me rejeitando? — perguntou, fazendo beiço.

       — Deus do céu, não faz essa carinha...

       Ela pulou na cama e o abraçou com força. Sentiu que o corpo dele tremia, se afastou então para consolá-lo, até constatar que ele estava rindo.

       — Porra, Franco! — xingou-o.

        — Está me rejeitando? — tornou a perguntar numa voz infantilizada. — Ai, ai, ai, princesa, continua bobinha! Mas se não quer mais transar, tudo bem, me visto e volto a dormir, a senhora que manda.

       — Para de bancar o coitadinho, seu sacana. Pra falar a verdade, estou meio dolorida, hoje foram batidos todos os nossos recordes sexuais desde a nossa primeira vez... Preciso me recuperar.

       — Machuquei a sua flor? — indagou, divertido.

       — Que graça! Você esfolou a flor, meu filho. — respondeu com falsa censura. — Agora pega essa cueca aqui e põe a bazuca pra dormir.

       — Ah, não, quero transar mais um pouco, Nova, deixa, deixa vai!

       Ela se virou para encará-lo, um sulco entre as sobrancelhas mostrava o quanto a intrigava aquele comportamento, até que percebeu que ele ria baixinho enquanto enfiava a roupa íntima pelos pés. Era o seu lado adolescente se divertindo com a cara dela. Era evidente que ele a provocava com bom humor e, como ela permaneceu quieta, se voltou com o semblante ainda tomado por um sorriso jovial.

       — Não vai deixar, não?

       — Chega de sexo, não quero me cansar de você. Agora volta a dormir, ok?

       Ele parou de sorrir, saiu da cama e foi para o closet.

       Nova tornou a se deitar, desligou a luz do abajur e, segundos depois, sentiu o colchão afundar ligeiramente e uma voz baixa e grave a chamou:

       — Nova?

       — Estou dormindo.

       — Pode me responder uma coisa?

       Ele parecia hesitante.

       — O que é, amor? — perguntou, esticando a sua mão e pegando a dele, os dedos se entrelaçando.

       — Vai responder com sinceridade?

       —Não, Franco, vou mentir adoidada. Fala logo, não estou ficando mais jovem, não, viu?

       — Tem alguma chance de você se cansar de mim? Digo, a gente se vê todos os dias... Não quero que enjoe da minha cara, Nova.

       Ela acendeu a luz do abajur, ergueu meio corpo e o encarou com o semblante curioso:

       — Está de brincadeira, né?

       Ele voltou o olhar preocupado para ela. Nenhum rastro de brincadeira nele.

       — Que pergunta idiota, puta merda!

       — Responde, Nova.

       — Boa noite, Franco, nos vemos pela manhã. Pede para a Irene diminuir a quantidade de farinha láctea do leite da Paola, senão ela vai virar um barrilzinho...

       — Nova?

       — Caramba, Fran-co!

       Sim, ele não iria sossegar.

       — Olha pra mim, caubói, é impossível que eu me canse de um homem lindo, um pai maravilhoso e um marido de outro mundo.

        Ele sorriu satisfeito com a resposta.

       Vinte minutos de silêncio imerso na escuridão do quarto.

       — Eu te amo.

       Ela se virou para ele, fez um carinho no seu rosto e o beijou nos lábios. Deitou a cabeça no tórax largo, sentindo-se segura e em paz.

       — E eu muito mais.

       Quando imaginou que ele enfim tivesse adormecido, ouviu-o falar baixinho:

       — Impossível. 

         

       Ele esmagou a ponta do cigarro na sola da bota, seguro que estava de que a hora de se aproximar do alvo chegara. O relógio no pulso fora fabricado na China e marcavam as cinco horas de uma madrugada com cheiro de árvores queimadas. De onde ele viera o cheiro era quente e sujo, um suor grudento e uma fome de vingança. Fugir de Santa Fé não lhe fora uma opção. A clausura, de certa forma, não combinava com a sua personalidade de poeta amante da liberdade. E aguentar três anos encarcerado o tornara uma pessoa melhor, pois agora sabia como clonar cartões de crédito, como explodir um caixa eletrônico e outros truquezinhos bem-vindos ao seu retorno à sociedade. A vida de aliciador ficara no passado, visto que o único fazendeiro que cultivava escravos em seus pastos jazia debaixo da própria terra. Informação essa que Pedro descobrira assim que chegara a Matarana, antes de cortar o arame farpado da cerca da Coração de Ouro e depois de ler a placa de madeira com o novo nome da fazenda.

       Leonardo Marau estava certo. Os Dolejal haviam dado o bote final invadindo a fazenda do coronel e delatando a droga à PF. Então, se podia lucrar com isso, lucraria. Ainda que o pai o tivesse deixado na mão, aceitaria de bom grado o dinheiro do filho do seu antigo patrão para recomeçar no sul. Pouco importava as intenções do rapaz.

       O que ele tinha de fazer já estava fazendo. Entrar na fazenda de Franco e pegar uma das quatro princesas.

       Sacou a automática do coldre e coçou o queixo ao lembrar-se das palavras de Leonardo:

       — O único problema é passar pelo psicopata.

       — Isso não é problema.

      — Esqueceu quem é o ex-braço direito do Dolejal? Está tranquilo demais.

       — Se ele casou com a jornalistinha, então sei quem devo acertar antes dele. Entendo de gente, doutor. Agora, o que não entendo é porque me ajudou a fugir daquela porra? Foi só pra cutucar o seu desafeto?

       — Ué, não quer se vingar da mulher que pôs você detrás das grades?

       — Pra quê? Quero mesmo é me mandar pro sul...

       — Vou conseguir o dinheiro para nós dois recomeçarmos, mas preciso que invada a fazenda do meu pai e faça o que tem a fazer.

       Pedro empertigou-se e seguiu o caminho traçado por um laivo de luar que conseguiu escapar através do colchão de fumaça. A luz iluminava os passos lentos e cuidadosos sobre a grama úmida próximo à piscina, uma bicicleta encostada na parede.

       Ele parou e decidiu recuar.

      Anos de experiência no lombo pareciam gritar para que tomasse cuidado, uma mina prestes a explodir na sua cara. Ignorou a intuição, mas retornou pelo mesmo caminho a fim de reavaliar a sua entrada no casarão. Guardou novamente a pistola no coldre.

       Optou pelo facão que puxou do cós traseiro do jeans.

         

       O corpo ao qual estava agarrado logo ao adormecer havia deixado um vazio na cama, e Franco acordou justamente por sentir que estava sozinho. Sentou-se e bocejou ainda atordoado pelo sono. Precisou de poucos segundos para descobrir que Nova não estava no quarto.

       Vestiu o jeans por cima da boxer e alcançou o corredor, fazendo uma breve parada no primeiro quarto à sua esquerda. Meio que se encostou à soleira da porta e deu uma olhada para os corpinhos deitados em suas camas; as gêmeas nos berços e Paola na caminha cuja guarda era o rosto e cabelos da Pequena Sereia.

       Sorriu satisfeito ao vê-las bem e dormindo. Esfregou os olhos e voltou a seguir pelo mesmo caminho, agora, em direção à escadaria que levava ao andar térreo.

       E foi na cozinha que encontrou sua mulher, sentada à mesa, distraída olhando para frente e, por isso, ele via apenas a parte detrás de sua cabeça, o cabelo escuro lhe alcançava a linha dos ombros. A pouca claridade no ambiente vinha dos spots no jardim cujos reflexos ultrapassavam os vidros das janelas e da porta dupla que fazia a divisa entre a cozinha e o pátio detrás da casa-sede.

       Pensou em falar alguma gracinha, mas ainda estava chapado de sono, descabelado e com a garganta seca.

       Abriu a geladeira à procura de uma bebida gelada e sem álcool. Escolheu a garrafa de água mineral com gás. Por cima do ombro disse à esposa:

       — Quase me desidratei, dona, a senhora ainda vai acabar comigo.

       Sorveu a água gelada num gole só, tapando a boca em seguida ao conter um arroto daqueles. Nova já deixara bem claro o quanto detestava ouvi-lo arrotar alto ou “cantando” o nome das filhas.

       Virou-se ao notar que fora ignorado e a encontrou ainda na mesma posição, coluna ereta, cabeça voltada para frente, imóvel, como se observasse atentamente algo diante de seus olhos.

       Intrigado, ele olhou para o mesmo lugar que ela e viu a porta dos fundos aberta.

       O coração disparou num galope louco enquanto o estômago era queimado pelo jato de ácido. Virou-se o mais devagar que pôde, como se houvesse uma cascavel em seu encalço, e se aproximou de Nova.

       Murmurou com bastante calma:

       — Vá para o quarto das meninas e tranque a porta. Agora, Nova.

       Pela primeira vez, ela não lhe obedeceu.

       Franco então se abaixou ao lado dela e pegou sua mão.

       — Olha para mim, Nova.

       Ela não olhou.

       Ele suspirou contrariado e a ergueu pelos ombros, constatando o que a semiescuridão o ludibriou.

       Na parte posterior do pescoço de Nova havia uma faixa branca de tecido presa junto a sua nuca, mantendo, assim, a cabeça de pé na ilusão de que ela fitasse a porta à sua frente. No tecido claro a nódoa vermelha do sangue novo, recente.

 

       Franco viu os seus dedos apertarem as veias do pulso da sua mulher. Num nexo de tempo que ele jamais conseguiria traduzir, processou a ideia de que não havia mais pulsação.

       O estrondo a seguir foi como a explosão de um avião contra um prédio e o efeito dessa catástrofe minou os últimos resquícios de humanidade que ainda prendiam a entidade na clausura que Franco forjara para contê-la.

       Franco! Franco!

       Ele abriu os olhos imediatamente e viu o semblante tenso de Nova.

       Ela o abraçou com força.

       — Você estava chorando, não sei bem o que era... parecia mais com um gemido de agonia como se estivesse, Deus me livre, morrendo... Horrível, horrível demais. Teve um pesadelo, amor lindo, vou cuidar de você.

       O que ela não sabia ainda era que o homem que a olhava com visível terror não era conhecido como Franco Dolejal e jamais permitiria que aquele sonho ruim se tornasse real.

       Ele se afastou dela, não aceitando o carinho, e saiu da cama.

       Nova o acompanhou com o olhar, o medo crescendo e arrepiando a pele e, de certa forma, com a nítida sensação de que alguma coisa acordara o pistoleiro e a sua criatura.

       Viu-o entrar no closet e era lá, no cofre, que estavam suas armas.

       Quando ele saiu vestido no jeans, camiseta, botas, chapéu e armas automáticas, um gemido de dor e reconhecimento escapou dos lábios da mulher.

       O diabo loiro voltara.

         

      Karen acordou com o som do celular vibrando contra o móvel de madeira. Olhou o visor meio que apertando os olhos e leu o nome da amiga nele. Atendeu e apenas uma frase, dita num tom de preocupação, a fez jogar o lençol para o lado e pular para fora da cama:

       — O Franco se armou para caçar.

       Pediu para Nova se acalmar e ficar com as meninas. Endereçou um olhar para o delegado adormecido, de bruços, as mãos debaixo do travesseiro, o lençol descansando a barra sobre sua cintura.

       Considerou protegê-lo de outra manobra que batesse de frente com seus princípios morais. Vestiu-se rapidamente, encilhou Prefontaine e deixou o Maverick e o seu ronco de motor V8 para trás.

       Não tinha certeza sobre o que acontecia na Quatro Princesas, mas o fato de Franco se armar, contrariando a sua mulher, dava-lhe uma boa pista. Precisava pôr Thales a par do que ocorria com o seu filho.

         

       Thales saiu do closet vestido e determinado a resolver o que quer que fosse na fazenda de  Franco. Antes, porém, sentou-se à beira da cama e admirou o pé branco cujas unhas curtas estavam pintadas de vermelho, um vermelho vivo e sensual. A luz do terraço iluminou a silhueta de Valéria, nua debaixo do lençol, a respiração profunda e o semblante sereno.

       Fez um carinho no tornozelo feminino e conteve o impulso de beijá-la nos pés. O que sentia por aquela mulher era digno do ato, não havia mais qualquer reserva nele em amá-la sem medidas, em entregar-se totalmente para continuar a ser feliz ao seu lado.

       Valéria acordou com o toque de seda em sua pele e sorriu ao ver Thales fitando-a com um leve sorriso nos lábios:

       — Por que está vestido?

       Ele entortou o canto da boca numa expressão que sugeria que estava prestes a contrariar a própria vontade.

       — Acho que a Nova aprontou alguma com Franco. Parece que sua amiga tem uma tendência a querer fazer do marido o que ele não é. — sentiu-se compelido a mentir. Valéria era impressionável e não cabia agora preocupá-la com uma situação que ele mesmo não sabia ao certo o que acontecia.

       — Será?

       — Será o quê, ruiva linda? — indagou com olhar entre divertido e malicioso.

       Ela sorriu, baixou os olhos e tornou a fitá-lo:

       — Será que você não está com ciúme?

       Thales demorou com seu olhar pousado no rosto sorridente que o desafiava com a docilidade que já o havia posto na lona.

       — Pode ser, sou possessivo em relação às pessoas que amo. — concordou, piscando o olho com charme.

       — É mesmo? Eu, não. Comigo é viva e deixe viver. — afirmou, espichando as pernas e se espreguiçando.

       Sentiu o traseiro quente e dolorido com o sonoro tapa que recebeu de Thales. Fitou-o assustada e encontrou um sorrisinho superior:

       — Não brinca comigo, cachorra!

       — Thales! — exclamou, espantada.

       — É, ouviu bem, ca-chor-ra! E toda vez que bancar a “mulher independente” vai levar um tapa na bunda pra lembrar que sei que a senhora Dolejal é a doida que ameaçou me castrar, então nada de pose.

       — Está zangado?

       — Estou.

       — Merda, não foi minha intenção...

       — Você não tem culpa de nada, estou puto porque tenho de deixá-la sem poder aplicar um bom castigo.

       Ele não parecia zangado, e sim descontraído e malicioso, um sorriso maldoso insistia em se manter intacto.

       — Vou resolver tudo rapidamente e volto para bater bastante na sua bunda, sua sacana.

      Ela deitou a cabeça para trás e desandou a rir, deliciando-se com a ideia. E somente parou de rir ao ser puxada pelos pés, sentindo, em seguida, um corpo pesado vestido na camiseta esporte e no jeans deitar sobre si.

       Voltou-se para o marido e encontrou os olhos azuis límpidos, esperançosos e cheios de ternura. Diabos, como amava aquele homem! Puxou-o pela nuca e o beijou com paixão.

        Ao se separarem, ele sussurrou em seu ouvido:

       — Você mata o trabalho. Eu mato o trabalho.

       A respiração morna contra a sua orelha provocou-lhe arrepios e ela respondeu num ronronar de gata manhosa:

       — Hummm, é o paraíso.

       —Sim, minha Valéria, o paraíso é aqui.

       Ela sempre acreditou nele.

       Diante da casa-sede, boa parte dos pistoleiros da Arco Verde o esperava. Bronson liderava-os, já que Karen decidira ir direto para a fazenda de Franco.

       Thales Dolejal apertou os maxilares, consciente de que Franco não se armara à toa. Confiava nos instintos dele e, além disso, a conversa sobre Pedro ter voltado a Matarana para um acerto de contas com Nova parecia encaixar com perfeição à circunstância.

       Tragou fundo o cigarro e comentou com Bronson:

       — É certo que o Pedro está na Quatro Princesas.

       — Não é possível que o homem seja tão burro, patrão.

       — Burro ou não, meu caro, quero esse camarada enriquecendo o solo da nossa pátria amada. — o pistoleiro assentiu e, antes de bater em retirada, ouviu as próximas ordens: — Vamos fazer do nosso jeito, amigo, como nos velhos tempos...

       — Sim, patrão, o delegado não vai nem desconfiar.

       Thales fez que sim com a cabeça e emendou convicto:

       — Nem o Franco.

         

       Thales arregimentou um grupo de homens da Arco Verde, embora soubesse que os da Quatro Princesas já estariam a postos para o serviço. O clima de tensão e expectativa vibrava em seu sangue quando estacionou a picape em frente ao casarão, encontrando no alpendre uma Karen com o semblante fechado e a Glock enfiada no cós frontal do jeans. Notou que a polícia sutilmente fora deixada para trás. Não havia dúvidas, Karen Lisboa era uma das suas.

       Juntou-se a ela e, apontando em direção à entrada da casa, indagou atento:

       — Quem está com a Nova e as meninas?

       — O Valentino e a Virgínia. — respondeu, sabendo antecipadamente que teria a aprovação de Thales para a indicação de um pistoleiro experiente e uma segurança superprotetora para se responsabilizarem pela vida da família de Franco.

       Ele assentiu concordando e começou a despachar suas determinações, enquanto Bronson subia devagar os degraus e chegava até eles. Atrás do trio, ao longo da entrada de gramado verdejante e árvores de copas largas, pistoleiros armados e de sangue quente esperavam o som do primeiro estampido, o da largada, o da corrida feroz para se juntarem ao caçador-líder que desaparecera engolido pela escuridão noturna.

        — Karen, siga com os homens no rastro do Pedro, ele não deve estar longe, já que foi a sua aproximação que despertou os instintos do meu filho... Traga-o vivo, mas pode descer o cacete no caminho, isso eu deixo ao seu critério, minha querida. — virando-se para Bronson, o ar grave sem mais os vestígios de ironia ao se referir ao criminoso, determinou: — Precisa encontrar o Franco. Se a sua argumentação não funcionar, subjugue-o, faça o que for preciso para trazê-lo para mim ileso e sem sangue nas mãos, entendeu? Sabemos que ele está fora de si e que a sua outra parte, aquela... “parte” dele, não quer mais matar, e nós vamos ajudá-lo com isso.

       Bronson soltou a respiração pela boca e era um ar carregado de angústia. Doía no peito saber que o garoto corria pelo descampado alucinado com olhos de sangue. Quando ele teria paz na vida, meu Deus?, o velho pistoleiro murmurou consigo mesmo.

       Thales postou-se junto à amurada com um cigarro no canto da boca e, através da fumaça, via seus comandados obedecerem às suas diretrizes. Até que vinte minutos depois, o celular vibrou e Karen o tirou de seus devaneios. O dono de Matarana pensava num modo de deixar bem claro aos seus habitantes que a cidade mudaria de ares e os criminosos seriam convidados a partir.

       — O que foi?

       — Estamos com o Pedro. — ela disse simplesmente, sem qualquer inflexão especial na voz.

       Karen ainda não questionava as ações de Thales e nunca o faria. O nome disso era lealdade.

       — Bom trabalho, pode trazê-lo para cá.

       — Não, não posso.

       — Por que, Karen? — ele estreitou os olhos avaliando uma forte possibilidade: — O Franco já fez o serviço?

       Ouviu-a tossir do outro lado da linha, e a voz que ressoou ao fundo, como a de um psicótico na camisa de força, pareceu-lhe familiar.

       — Três homens estão tentando conter uma pessoa bem parecida com o Franco, Thales. Você precisa vir aqui. Agora.

       Ele suspeitava que um dia as coisas saíssem dos trilhos, tantos anos abusando da sorte e experimentando lidar com o desconhecido.

       Parou a Silverado no terreno de grama baixa e descuidada, afastado alguns quilômetros do casarão, bem no meio das vastas extensões de terra da antiga propriedade do coronel Marau.

       Os pistoleiros empunhavam suas armas na direção de um único homem, grandalhão, envelhecido, a cara malévola de quem nascera para destruir, não como um tornado ou qualquer fenômeno da natureza; nascera para destruir apenas para justificar o próprio nascimento. Erva daninha, pois então.

       Mas não foi o cara de cavalo quem chamou a atenção do fazendeiro, nem foram os seus olhos o sentido atraído para o caos que se formava entre a terra e o céu, o redemoinho humano, o caos desesperado que se debatia selvagemente preso pelos braços e pernas e, ainda assim, quase escapulindo da prisão, foram os seus ouvidos que o captaram na sintonia aguda do flagelo.

       Thales sentiu a garganta secar e o coração bateu forte estremecendo as veias de suas têmporas. O que viu levou-o a pensar em possessão espiritual ou surto psicótico, apesar de nem a religião nem a ciência poderem explicar a transformação do seu menino mais velho, do seu garoto.

       Franco não queria perder mais ninguém porque ele não podia perder mais ninguém, desde que esmagada contra o asfalto perdera sim uma de suas vidas. E diante da ameaça imediata, a criatura se revoltou atingindo o seu limite. Dos olhos avermelhados as órbitas cuspindo fogo, as narinas dilatadas e o semblante inteiro desfigurado numa carranca de fúria, ele gritava xingamentos desconexos, cuspia-se, puxava os braços com força para se libertar dos pistoleiros, a cabeça balançava para frente e para trás como se recebesse uma potente descarga elétrica. A camisa rasgada, o jeans sujo, as armas no chão. Havia sangue no canto de sua boca, ele se mordia ao gritar, ao mandar soltarem-no para se jogar contra Pedro e estraçalhá-lo como um cão feroz treinado para o ataque mortal.

       — VOU MATAR TODOS VOCÊS SE NÃO ME SOLTAREM!

       Thales endereçou um olhar intrigado a Bronson e viu lágrimas nos seus olhos. Fez um sinal em negativo e se voltou para Karen, impressionou-o sua palidez e a expressão entre assustada e cheia de compaixão.

       Não era uma imagem boa de se ver, um ser humano completamente louco.

       E se ele não voltasse ao normal? E se ele tivesse herdado os problemas psiquiátricos de sua mãe? E se ele fosse solto e destroçasse o corpo de Pedro e, com isso, descarregando toda a ira acumulada, voltasse sim ao normal?

       Bronson aproximou-se com o chapéu na mão, apertando-o nervosamente.

       — Ele mal consegue respirar direito, patrão, vai acabar tendo um troço.

       Thales assentiu, preocupado, e foi o próximo alvo do filho:

       — ME SOLTA, AGORA! O SENHOR ME DEVE ISSO, SALVEI A SUA VIDA! ESSE DESGRAÇADO VAI MATAR A NOVA COMO O EVERALDO IA MATAR! NINGUÉM TOCA NA MINHA FAMÍLIA, NINGUÉM! MATEI PELO SENHOR, MATEI PELO SENHOR... — ele começou a chorar um choro de raiva, de um sofrimento instalado como um parasita que o comia vivo e insistiu entre lágrimas e engasgos: — ME DEIXA... VOLTAR... PARA A MINHA CASA EM PAZ. POR FAVOR!

       Thales considerou o que Franco lhe disse e se pôs diante dele. Olhou-o nos olhos e apertou cabeça do filho entre as mãos. Ainda assim, ele tentou se soltar. Porém, quando o pai repetiu o gesto do filho mais novo, encostando a sua testa na testa dele, olhando-o firmemente nos olhos, Franco parou de se agitar ao ponto de machucar o próprio pai, embora não aceitasse a contenção forçada. Endureceu a musculatura, mas aceitou o gesto, a raiva não foi embora mas compreendeu o que aquilo significava.

       — Não pense que só porque é feliz que a sua felicidade será roubada, meu filho. Antes de me proteger, de ser o meu segurança, fui eu que o protegi e não seria agora que o deixaria na mão. — a voz saiu calma, controlada.

       Franco entendeu tudo e imediatamente se aquietou, a respiração ainda pesada e sendo exalada sofregamente, os olhos também brilhavam com lágrimas mas no fundo era a expectativa e a esperança que se agigantavam, era o amor por aquele homem que o fazia se acalmar e esperar que tudo desse certo. E tudo deu certo.

       Com um sinal de cabeça, mandou os pistoleiros o soltarem e não tentou contê-lo. Ele não saiu do lugar e até sorriu ligeiramente, as lágrimas molhando a face manchada de exaustão e suor. Aceitou o abraço longo e apertado, mal percebendo quando o pai puxou do coldre do pistoleiro ao seu lado a Glock já destravada, que foi manejada com uma só mão, enquanto o corpo girava 180º com a rapidez de um pensamento de morte, expulsando da arma o projétil que encontrou o seu alvo sorrindo com escárnio.

       Karen não pôde conter o grito e levou a mão ao próprio estômago, revirado, queimado pelo suco gástrico. Aquilo era demais para ela, pensou, com ânsia de vômito.

        Bronson a fitou como se ela tivesse sido baleada, mas vira toda a ação e o seu resultado. O patrão atirara a sangue frio em Pedro, matara-o à vista de todos, com testemunhas que poderiam chantageá-lo resto de sua vida. A frieza de Thales também atingira o seu limite, ninguém jamais tentaria tocar um dedo sequer em outro Dolejal. Aproximou-se do bandido prostrado no chão e constatou que a sua única serventia agora era minar a terra de vermes.

       Thales devolveu a arma ao pistoleiro, que o fitava ainda tomado pela surpresa, e se voltou para quem lhe era importante:

       —Vamos voltar para casa, sim, e em paz. O pessoal cuida do resto.

       Franco assentiu, a musculatura liberando os últimos espasmos.

       — Obrigado. — balbuciou.

       — Está tudo bem agora. — puxou-o para si e o abraçou, beijando-o no topo do crânio: — Precisa acreditar que merece ser feliz, ok? Merece a sua mulher e as suas filhas. Não quero mais vê-lo descontrolado desse jeito. — afastou-se o suficiente para poder encará-lo ao determinar com terna firmeza, algo bem típico de um pai que se importava: — Mantenha o diabo loiro no lugar certo, senão terei de levá-lo a um psiquiatra... — e, meio se rindo, completou com bom humor: — ou a um terreiro de umbanda, terá o direito de escolher. Embora eu tenha a certeza de que existe uma pessoa capaz de curá-lo e que até então estava se saindo muito bem.

       Franco respirou fundo e se recompôs.

       — As pessoas precisam do cérebro e do coração para viverem e, para mim, o senhor e a Nova são o meu cérebro e o meu coração... — a voz falhou antes de continuar: — E as minhas filhas são a minha alma, pai.

       — Sei disso, Franco, sei muito bem o que é isso. — enfatizou.

       Bagunçou o cabelo do filho num trejeito divertido e se voltou para Karen:

       — Quando terminar de vomitar, volta para o teu marido e procure esquecer o que viu por aqui. Pode ser?

       Ela assentiu limpando o canto da boca e se empertigando.

       — Da próxima vez que atirar em alguém vê se me avisa antes. Levei um cagaço daqueles! — reclamou, encaminhando-se para Prefontaine. — Disse que queria o homem vivo, porra... Ora, vá se foder também.

       Montou no cavalo, deu meia volta e disparou em direção ao Rio Verde. Tinha de chegar em casa antes de Rodrigo acordar ou estaria frita na manteiga.

       Bronson se aproximou e perguntou curioso:

       — O que deu nela?

       — Ficou irritada porque não mandei um memorando avisando sobre a viagem eterna de mais um bandido. — respondeu Thales, encaminhando-se para a Silverado. — Franco, eu o levarei de volta para as suas princesas.

       Franco sorriu, sorriu ainda mais quando viu o corpo de Pedro ser envolvido por uma lona preta como um maldito rocambole podre.

       Eles chegaram a casa-sede e encontraram o alpendre cercado pelos seguranças da fazenda. Assim que o motor da picape foi desligado, a porta da casa se abriu e uma mulher pequena surgiu com o rosto tomado pela angústia.

        Nova correu para os braços do homem que quase pulara da Silverado em movimento e, meio que se abraçando e se beijando, apalpavam-se em busca de ferimentos. Ele, ainda tomado pelo efeito do pesadelo; ela, assustada com o retorno do diabo loiro.

       Quando enfim se soltaram, Nova o olhou com atenção, avaliando a expressão do rosto.

       — Fez alguma coisa ruim, Franco?

       Ele balançou a cabeça em negativo, ouvindo atrás de si a voz do pai:

       — O problema foi resolvido da melhor forma possível, sem danos importantes. — em seguida, apertou o ombro do filho e se voltou novamente para a nora: — Agora ele precisa descansar um pouco e ficar com vocês.

       Nova preparou-se para dizer algumas verdades ao pai de Franco, mas este a interrompeu com um sorriso e uma declaração que a surpreendeu:

       — Quero que continue cuidando do meu filho e prometo não mais interferir. Você está fazendo um excelente trabalho, Nova. Muito obrigado. — afirmou, sério, e estendeu a mão numa oferta de paz.

       Ela aceitou a proposta, a mão e o sorriso. Ao seu lado, Franco passou o braço por cima de seus ombros e a trouxe para si:

       — E as meninas? Já amanheceu. Elas acordaram?

       — As gêmeas acordaram, mamaram e dormiram novamente. E a Paola está maquiando a Virgínia para um baile de mentirinha. — a última informação soou-lhes engraçada, ao que Nova completou: — Ela está parecendo mais um zumbi do que uma dama.

       Franco a trouxe ainda mais para si e afirmou de forma possessiva:

       — Ninguém vai nos separar, princesa.

       Ela o olhou detidamente, averiguando que, de fato, naquele momento, era mesmo Franco quem dizia aquelas palavras, porque o outro, o diabo loiro, não a chamava de princesa.

       — Bem, — disse Thales, batendo em retirada, — vou para casa aproveitar o meu dia de folga. — brincou.

       Antes de ele descer o primeiro degrau da escada, Franco puxou-o pelo antebraço e o abraçou. Foi um abraço forte e longo.

       — Obrigado. — sussurrou ao seu ouvido.

       O pai retribuiu o carinho.

       — Está tudo no seu lugar. E agora quero que durma um pouco, entendeu?

       Franco fez que sim com a cabeça e seguiu com o olhar a figura imponente que entrou no banco do motorista, acionou o motor e partiu para a Arco Verde. Voltou-se para a sua mulher e tentou controlar um bocejo:

       — Nossa, parece que lutei a noite inteira. Estou morto.

       Ela sabia como tirar o peso de seus ombros.

       — Vamos entrar, amor lindo.

       Ele aceitou o convite e a mão que entrelaçou os dedos nos seus. A porta foi fechada, e os pistoleiros armados posicionaram-se estrategicamente nos arredores da casa-sede.

       Nova se sentou no sofá e deitou a cabeça de Franco sobre suas coxas. Ele se ajeitou como um bebê buscando o carinho morno e seguro até adormecer. Por um momento temeu se entregar ao sono profundo e ser dilacerado por outro pesadelo, mas, agora, sabendo que Nova velava seu sono e que ela o acordaria se o visse gemer ou manifestar qualquer ricto facial de dor, ele podia enfim aceitar o descanso.

       E o guerreiro descansou.

         

       “Vale mais uma vingança ou uma extorsão? Ou uma extorsão por meio de uma vingança?”

       Leonardo Marau pagou o pão que o seu pai amassou. O coronel foi para a sua próxima encarnação deixando nesta, dívidas, uma família recomeçando no interior do Rio Grande do Sul e um bando de bolivianos no encalço do seu filho caçula. E agora tudo o que ele tinha de fazer era partir para o ataque. Três anos fugindo e se escondendo, isso não era vida. Precisava de dinheiro, muito e rápido.

       O barulho da rodovia entrava no quarto do hotel, os motores dos caminhões carregados que se arrastavam pelo asfalto o situavam novamente na cidade que um dia ambicionara dominar e de onde teria começado o seu império. Acontecia, porém, que como sendo um Marau, em cada partícula do seu ser trazia a ganância inerente dos colonizadores, e como não bastasse o clamor dos genes, havia a urgência desesperada de se livrar dos traficantes bolivianos para os quais ainda devia o carregamento de coca apreendido pela Polícia Federal. Para um homem como Leonardo, tal combinação tinha a composição exata de um componente bem parecido com a nitroglicerina.

       O celular tocou, e ele fitou o visor reconhecendo a origem da ligação.

       ― O que foi, mãe? ― indagou, curioso.

       ― Quero que volte para casa. Agora. ― o tom era áspero.

       ― Não posso, ainda não. ― retrucou, já sentado à mesa e mexendo na câmera digital, observando as fotografias que exibiam a rotina do seu próximo alvo.

       Ouviu um suspiro exasperado do outro lado da linha. Por mais que ele tentasse nunca era bom o bastante para a sua mãe. Até aceitava o fato de ela ter-se decepcionado ao descobrir a sua ligação com o narcotráfico, mas, antes disso, quando todos acreditavam que se tornaria advogado, ainda àquela época, dona Catarina demonstrava mais interesse pela filha fútil mas amorosa do que pelo preferido do papai. Se ela soubesse o quanto Leonardo a amava e que se voltava ao ninho de víboras também era para devolver a ela a vida segura e confortável do passado, talvez amolecesse seu coração.

       A questão era que ela não acreditava nele.

       ― Você não tem ideia da merda que está fazendo, guri. Se não voltar, te entrego pra polícia. Alguém tem de te pôr nos eixos!

       ― Mãe, espera, vou levantar uma grana, e a gente dará a volta por cima...

       ― Pelo amor de Deus, Leonardo, a tua irmã e o Augusto trabalham, e você também pode fazer o mesmo. Temos uma boa casa, ninguém aqui morrerá de fome, mas voltar a Matarana para chantagear o Dolejal vai te levar pra cova!

       Ele trincou os dentes com raiva.

       ― Como pode aceitar a humilhação de fugir com o rabo entre as pernas da cidade que o meu pai fundou?

       ― Sabe muito bem que não fugimos.

       ― Fugimos, mãe, fugimos sim! Quando o Paulo delatou os planos do Dolejal, eu mesmo pus vocês todos num avião direto para Cuiabá e deixamos o velho resolver o pepino sozinho.

       ― Se quer pensar assim, então, fugimos, meu filho... mas foi do teu pai, porque ele falou que ia matar o Dolejal e depois o filho dele é que nos mataria. Agradeço pela ajuda e é por isso que quero que volte para casa.

       ― Só volto quando o Dolejal pagar o que nos deve, que é o quanto nos valia a Coração de Ouro. Antes disso, nada feito.

       ― Sabe o que vai acontecer? Ele vai ficar uma fera e nos caçar pelo país, pôr os seus detetives atrás de nós e depois os pistoleiros e nos matar! Entenda de uma vez por todas, que se não voltar agora, você não tem mais família, está solto no mundo, piá egocêntrico duma figa!

       ― Não fala isso, mãe. ― murmurou com mágoa.

       ― Precisa aprender a aceitar a derrota, teve três anos para aprender, seu bosta, e só o que fez foi viajar de um lado ao outro do país tentando conseguir dinheiro fácil. Fico me perguntando o que sobrou de você agora sem as tuas porcarias, hein? Pra se tornar traficante basta não servir para mais nada na vida e nem isso mais você é. Já disse e repito: avisarei a polícia sobre a tua localização. Tenha a certeza de que esse gesto demonstra muito mais amor do que a forma idiota que o teu pai te criou, com a ilusão de você não ser um inútil.

       Ele permaneceu olhando fixo para o celular por alguns minutos, depois de a mãe interromper a ligação.

       Voltou a atenção para a câmera digital e, passando uma fotografia após a outra, decidiu que a confusão que arranjara na fazenda do seu pai distrairia a todos, inclusive distrairia o marido do alvo. Enquanto pensavam que Nova Dolejal estava em perigo, seria a mulher do dono de tudo que mudaria a sua vida, servindo a ele como refém, uma mercadoria ainda mais cara e preciosa que o carregamento de coca perdido.

       Ajeitou a automática no cós dianteiro do jeans e o chapéu no topo do crânio. Alugara um casebre caindo aos pedaços na Vila Zumbi, lugar que serviria como o cativeiro de Valéria Malverde Dolejal.

       Olhou para o relógio no pulso e cogitou que Pedro, a essa altura, já estava morto e sendo embalado para descansar a sete palmos. A hora chegara e tinha de agir.

       Um único alvo e atingiria as duas figuras mais importantes de Matarana, o dono da cidade e o seu braço da lei, o delegado ― sorriu satisfeito, o filho do coronel Marau.

         

       Valéria ajustou a bermudinha de surfista na barriga redonda do filho, deu um passo para trás e sorriu satisfeita com o seu visual. Ele estava de pé, em cima da cama, vestido como se fosse à praia, uma camisetinha clara, a bermuda estampada pouco abaixo dos joelhos e a sandália exibindo os pezinhos rechonchudos.

       Tentou pentear o cabelo fino e castanho, mas Theo não era amigo nem de pentes nem de escovas, aceitava de bom grado um chapéu ou boné e nada mais. A mãe então considerou proteger a sua pele clara com um boné e uma boa camada de protetor solar fator 100. Aproveitou para pegar uma garrafa de água mineral antes de sair de casa. Temia que o filho se desidratasse, apesar de que ele também aceitava muito bem as mamadeiras com água, sucos e chás gelados.

       Avisou as funcionárias que daria uma passada rápida na confeitaria e, em questão de minutos, voltaria para casa.

       Voltou-se para o bebê que caminhava ao seu lado como um patinho com traseiro gordo e a barriguinha projetada para frente e provocou-o com um sorriso:

       — Vamos buscar uns macarons para o papai? Humm, que tal?

       Ele olhou para ela já sorrindo de volta e espichou os braços pedindo colo como um bom preguiçoso que era.

       — Pa-pa!

       Valéria pegou-o do chão e franziu o cenho, intrigada:

       — Está com fome, amorzinho?

       Ele riu e pôs as mãos no rosto. Era um gesto que podia expressar muita coisa ou nada, mas, para quem o conhecia, entendia que Theo considerava uma tolice a pergunta feita. Repetiu para que a mãe o compreendesse:

       — Pa-pa!

       A vozinha clara e delicada ganhou certa ênfase na última sílaba, e era como lhe dissesse com impaciência: pô, mãe, estou falando “papai”!

       — Ah, o papai? — ela perguntou meio que se rindo, e o filho fez que sim com a cabeça: — Ele está na casa do seu irmão, e nós vamos preparar um café da manhã bem especial pra ele e depois tentaremos levá-lo para a piscina. — a parte mais difícil do seu plano, uma vez que o marido jamais usufruíra daquela parte da sua propriedade.

       O bebê bateu duas palmas em resposta, sempre sorrindo e feliz; em seguida, passou os braços ao redor do pescoço da mãe, que o apertou com carinho, aspirando o cheiro de sua pele que exalava a delicada fragrância da colônia infantil.

       Sentado na cadeirinha de segurança, ele balançou os pés, adorando a ideia de passear na picape da mãe. Valéria, por sua vez, ajustou o cinto nele e ofereceu mais uma vez um pouco de água. O dia seria quente com direito a um mormaço pegajoso.

       — Esquecemos o seu jacaré. — disse com pesar.

       Theo não parecia decepcionado e apontou para a chupeta na mão da mãe.

       — Meu.

       Valéria sorriu encantada.

       — Meu? Você falou “meu”, seu danadinho?

       Ele riu e fez que sim com a cabeça:

       — Meu! — repetiu.

       Ela deu-lhe um beijo estalado na bochecha e devolveu a chupeta ao dono.

       — Aqui está, senhor Dolejal. — brincou.

       O bebê a sugou com vontade e deitou a cabeça para o lado, olhando para a mãe com um ar de sabido.

       Valéria fechou a porta da Ford Ranger e se posicionou atrás do volante. Ligou o ar-condicionado e ultrapassou os limites da Arco Verde. No meio do caminho, apertou o play do MP3 e deixou rolar “Não olhe assim”, de Leandro e Leonardo.

       Deu uma espiada no filho, pelo retrovisor, e o flagrou sacudindo as perninhas acompanhando o ritmo da música.

        Eram tranquilas as manhãs naquela parte do interior onde se localizavam as fazendas. O campo vasto, coberto pelo mato baixo e ralo, entremeado pelo tom de queimado por sobre o verde e salpicado pelos arbustos e árvores de pequeno porte.  Uma trilha de estrada feita pelo tráfego de anos dos pneus das picapes cortava em duas tiras a terra batida formando um canteiro de relva. Ladeando a vicinal sem acostamento, o prado coberto pelo tapete de gramíneas, pontuado ao largo por uma ou outra árvore de porte alto e copa de galhos quase nus de folhas. Recortando o cenário ao fundo o contorno dos planaltos fustigados pelo poderoso sol do centro-oeste.

       A paisagem campestre exalava aquele tipo de plenitude silenciosa que somente era quebrada quando o perigo aparecia na forma de uma tempestade ou na forma humana.

       Valéria começou a cantar com a dupla sertaneja até ouvir uma gargalhada divertida no banco detrás. Relançou um olhar por cima do ombro para o filho.

       — Sei que não canto como a Nova, mas também não precisa rir, né, meu gatinho? — simulou um tom de censura, endereçando-lhe uma piscadela e voltando, em seguida, à cantoria.

       Teve de reduzir a velocidade, embora não passasse dos 40 km/h, ao avistar outra picape atravessada na pista, o capô levantado, a placa de sinalização alguns metros à frente. Alguém estava encrencado na estrada.

       Em uma cidade que não fosse Matarana, a natureza prestativa de Valéria a induziria imediatamente a pisar no freio e oferecer ajuda à pessoa. Entretanto, além de viver num lugar famoso pelas emboscadas, ela, agora, era a esposa do homem que detinha mais da metade das propriedades da cidade, além de ter o prefeito como seu testa de ferro e uma fama que o tornava temido pelos adversários e respeitado pelo resto da população.

       Manteve os vidros fechados e o ar-condicionado na temperatura agradável dos 22 graus.

       Mordeu o lábio inferior, indecisa. Teria de contornar o veículo, saindo da estrada, para poder seguir o seu caminho até o centro da cidade. Sabia que tinha feito merda ao escolher trafegar pelo atalho no meio do mato do que usar a rodovia federal, movimentada e segura. Optara pelo caminho mais curto usado apenas pelos pistoleiros quando estavam em grupo ou por Franco. Acontecia, porém, que Valéria detestava seguir a traseira de uma carreta atulhada de madeira se arrastando pelo asfalto. Queria economizar tempo chegando o mais rápido possível na confeitaria e, de igual forma, retornando à fazenda o quanto antes.

       Girou o volante para a esquerda, reduzindo um pouco mais a velocidade, até circundar o veículo parado e vazio. Espichou a cabeça e, através da janela do passageiro, constatou que a porta do motorista estava aberta. Franziu o cenho tentando estabelecer uma lógica para o abandono da picape no meio do nada. Não teve como responder a si mesma a questão.

       Instintivamente pisou no freio quando voltou a cabeça e viu diante de si, parado na estrada, um homem usando chapéu de caubói com uma arma apontada para ela.

       O primeiro pensamento foi o de acelerar para atropelá-lo. Entretanto, foi obrigada a rapidamente descartar essa opção, pois o projétil alcançaria a sua testa antes de ela alcançar o corpo do homem. Não havia então o que fazer, além de nada fazer. Endereçou um olhar cheio de terror para o seu bebê na cadeirinha. Ele sugava a chupeta e olhava a paisagem ao redor, distraído.

       A música continuava tocando enquanto o desconhecido se aproximava com cautela, sem pressa, a aba do chapéu abaixada, o braço estendido mostrava a mão com a arma de fogo que seria usada. Por isso Valéria tinha de proteger e salvar o seu filho.

       Com muito cuidado, deslizou a mão pelo banco até alcançar a sua bolsa; dentro, o celular. Precisava apertar a tecla que enviaria a Rodrigo a mensagem de SOS. Havia algum tempo que ele configurava os seus celulares para uma situação de emergência. Esse momento enfim havia chegado.

       A ponta dos dedos já tocava o zíper da bolsa, quando o cano da arma bateu contra o vidro da janela ao seu lado.

       Ela sentiu o sangue congelar nas veias, o peito se encheu de uma angústia tão dolorida que parecia um ataque cardíaco. Não temia por si mesma. A sensação que tinha era de que já não estava mais lá. Observava a si mesma do alto, de uma parte do terreno, e cogitava que a única maneira de salvar Theo era não arriscar e ceder ao bandido.

       Ergueu as mãos e virou o rosto para frente, evitando encará-lo. Mais uma vez lembrou as palavras do irmão ao recomendar que jamais encarasse um marginal, assim como não se encaravam cães raivosos.

       — Abre essa porra! — ele ordenou.

       O medo a paralisou. Ouviu a ordem, o cérebro queria obedecer-lhe porque isso era o mais sensato a se fazer. Porém, tremia e transpirava completamente imobilizada, fitando as próprias mãos deitadas sobre as coxas.

       O outro se irritou e bateu mais uma vez com o cano da automática.

       — Não quero machucar a senhora e espero que entenda a minha situação...

       Ela o interrompeu ainda olhando para baixo:

       — Pode pegar a picape e a minha bolsa... Por favor, não faça mal ao meu filho... —

       a voz doeu para sair.

       — Não sou ladrão, senhora Dolejal. Somente quero o que é meu por direito e o que o seu marido me roubou.

       Valéria percebeu que estava mais fodida do que nunca. Agora podia se virar e olhar a cara do criminoso, ele havia-lhe dado o nome e sobrenome, e, além disso, o motivo para atacá-la.

       — Você é o filho do coronel Marau? — indagou intrigada, ainda que já soubesse a resposta.

       Leonardo sorriu com altivez, como se a família Marau não tivesse sido expulsa da cidade a qual fundara. A questão era que aquele sorriso tinha outro motivo: o fato de também ter o filho caçula de Thales Dolejal como moeda de troca.

       Não pensou nem duas vezes, tinha de acabar com a conversa e levá-la para o cativeiro. A qualquer momento, um desavisado apontaria com seu veículo pela estrada e até mesmo o próprio Dolejal com o seu comboio vindo da Coração de Ouro (ele jamais aceitaria outro nome para a fazenda onde nascera).

       — Vou ser bem direto com a senhora, — declarou, erguendo a aba do chapéu e cravando os olhos nela: — dois milhões de reais e um avião. Isso não é nada para o seu marido, uns trocados, eu diria. — ele esboçou um sorriso de escárnio e completou com um cinismo cortante: — Então simplesmente siga as minhas instruções, que tudo dará certo.

 Eu pego o dinheiro e me mando para bem longe de Matarana, e a senhora nunca mais ouvirá falar de qualquer um dos Marau.

       Ela assentiu lentamente, abriu a porta e desceu. Ao se encaminhar para retirar o filho da picape, a mão em seu antebraço a impediu:

       — Não, senhora Dolejal, ele fica. O Dolejalzinho trancado na camionete será a ampulheta contando o tempo que o seu marido terá para pagar o resgate. — ele olhou para o céu branco cuja fumaça encobria o sol e disparou à queima-roupa: — Daqui a pouco a temperatura alcançará os 40 graus, o que levaria uma criança pequena a desidratar em questão de, sei lá, quatro ou cinco horas. Além disso, tenho a firme intenção de não acionar o ar-condicionado, apostando que se o baixinho ali não morrer por desidratação, será então por asfixia. Isso significa, senhora Dolejal, que quando falar com o seu marido ao telefone, repetirá tudo o que acabei de informar. Compreendeu? Agora se despeça do seu filho, tenho de levar a senhora para a vila dos desgraçados.

       Ele a puxou novamente pelo antebraço, mas não conseguiu arrancá-la do chão. Virou-se irritado para a mulher:

       — Nem tente! Sei lidar com vagabundas e, ainda que eu não queira machucar a senhora, farei o que for preciso para ter o meu dinheiro. Não tente contrariar um homem desesperado!

       Valéria endereçou um olhar carinhoso para o bebê com a chupeta na boca e os olhos sérios presos nos dela. O motor do Ford estava desligado e os vidros fechados, o cabelinho já começava a se grudar na testa coberta de suor. Antes ela pensava que não havia nada a fazer. Agora, tudo o que precisava na vida era fazer. Fazer acontecer.

       Quando sua voz saiu, ela mal a reconheceu:

       — Não saio daqui sem o meu filho.

       Ouviu o outro rir alto.

       Então teve de repetir:

       — Não saio daqui sem o meu filho.

       O silêncio caiu do céu como um bloco de cimento na cabeça. Mas não foi o silêncio que acertou em cheio seu rosto; foi o punho de Leonardo Marau que a pôs no chão.

       O golpe inesperado não a assustou nem doeu ao cair com a cabeça batendo no solo seco. As lágrimas, no entanto, turvaram sua visão, e ela precisava enxergar, não podia chorar naquele momento. Semicerrou os olhos e deixou-se ficar imóvel, prostrada. Via as botas de Leonardo paradas, ele também cogitava o próximo passo.

       E ele veio. O homem abaixou-se e a pegou pelos ombros, arrastando-a para o seu próprio veículo que servira como obstáculo na pista.

       Ela percebeu a sua força muscular e o quanto era alto e jovem. Um rival de peso, um adversário que deveria sucumbir de alguma forma. Entretanto, desarmada e sozinha, tencionou deixar-se levar. Enquanto o predador enchia-se de autoconfiança, o cérebro da presa girava com a velocidade e tensão de um motoqueiro no globo da morte.

       — É incrível como mulher não facilita nada pra gente!

       Ouviu-o resmungar exasperado, sem nem mesmo alterar a respiração ao carregá-la junto ao seu corpo, suportando o peso de outro, propositadamente, largado sem forças.

       Faltavam poucos passos para chegarem à camionete, e Leonardo cometeu o primeiro erro, baixou a cabeça.

        Ao longe, em um lugar onde as fêmeas abasteciam-se de poder para defender suas crias, Valéria lembrou também de outro predador. Franco dissera, certa vez, a ela e a Nova:

        — Se vocês sofrerem um ataque e estiverem desarmadas, usem o próprio corpo como arma. E isso significa que não devem fazer o que o cretino espera, mas simulem o previsível como uma espécie de distração, meninas. Vou mostrar para vocês como.

       E ele mostrou como.

       Num gesto ágil, girou o corpo o suficiente para sair debaixo do arco do braço de Leonardo que, por sua vez, recuperou-se do susto em segundos, puxando-a novamente para si. Não era a reação que esperava, mas isso não a impediria de seguir adiante.

       Ergueu o joelho para acertá-lo na virilha e ainda pôde ver o sorrisinho superior quando o homem pegou sua perna no ar.

       — Muita ingenuidade para alguém que vive entre assassinos. — escarneceu.

       Quando o encarou novamente, viu mais do que um par de olhos arregalados como se fitasse um bicho de sete cabeças, a sua própria mão, com o polegar e o indicador em forma de garra, apertava o pomo de adão com toda a sua força. Tinha plena consciência de que naquele momento fazia uma careta dos infernos, porque deslocava toda a sua energia para apertar o odioso pescoço do Marau. O que não lhe dava muita vantagem, visto que o braço livre do outro a atingiu furiosamente contra a bochecha, virando sua cabeça para o lado.

       Ela perdeu o equilíbrio e o soltou. Sentiu o gosto do sangue dentro da garganta. Mas ele escorria do seu nariz e entrava pela boca. Não era muito sangue, pensou aturdida, não deveria o estar engolindo... Foi cortada de seus pensamentos ao ter uma mecha do cabelo puxada violentamente para trás, obrigando-a a arquear o corpo forçando a coluna vertebral. Deixou escapar um grito de dor que fez os pássaros decolarem dos galhos mais baixos das árvores.

       Leonardo a pôs de joelho diante de si. Respirava agora pesado, arfante, numa mistura de desgaste e raiva.

       — Não adianta espernear! Você vai entrar na minha picape, e nós vamos nos mandar pra Vila Zumbi. Enquanto perdemos tempo aqui, o anãozinho vai cozinhando lá no forninho. Será que fui claro AGORA?

       — Como pode apostar assim com a vida de um inocente? — a voz embargada era real, não tinha como simular suas emoções diante de tamanha desumanidade. — É um bebê, pelo amor de Deus! Ele precisa ficar comigo, por favor... Leve nós dois com você, não faça nada contra o meu filho... — ela firmou a voz e mirou bem dentro dos olhos dele: — É certo que o pai dessa criança vai te matar.

       O filho caçula do coronel tentou sorrir apostando que tal gesto o protegeria da declaração de uma mãe aterrorizada.

       — Quando o seu marido pensar em me encontrar, estarei dentro do avião “dele” e me mandando com o dinheiro “dele” para muito longe daqui, amém! E se ele colaborar, vocês dois não terão um enterro para ir, ok? Agora, senhora Dolejal,entra na picape e não tente mais nenhuma gracinha.

        Ele a puxou do chão pelo antebraço com a firme disposição de jogá-la para o interior de sua picape. Arrastou-a por poucos metros, percebendo que ela não o estava ajudando, a cabeça voltada para trás, os olhos marejados de lágrimas fixos no filho.

        Jamais o deixaria.

       Estacou e, imediatamente, teve uma garra apertada ao redor do seu braço puxando-a com força.

       — Não seja besta! Continua!

       Ao som gutural e raivoso da voz, o gesto de levar a mão ao coldre com a automática mostrou a intenção. Ele chegou a tocar na arma, acariciá-la com suavidade enquanto chispava fogo dos olhos.

       Valéria tinha de tentar. Virou ligeiramente o corpo e, antes de Leonardo prever o que viria a seguir, ela ergueu o joelho para acertá-lo na virilha. Ele riu com vontade, nem um pouco surpreso com a segunda investida desastrada dela. Distraído, faltou o reflexo necessário para se proteger dos polegares que empurraram seus olhos para dentro do crânio.

       Ele gritou de dor abaixando a cabeça e apertando as pálpebras cerradas com as duas mãos.

       Ela não pensou duas vezes. Girou o corpo para correr de volta à picape. Podia entrar e acionar o motor o mais rápido possível, tiraria vantagem de alguns segundos que seriam usados para pôr o veículo em movimento.

       Era agora. Impulsionou-se de modo a se afastar, o mato entrava pelas tiras das sandálias que lhe arranhavam os tornozelos.

       Relançou um olhar apavorado para a Ford Ranger. Ouviu um barulho, um choro, um grito com choro. E viu os bracinhos do filho para frente do corpo, para ela, como quando fazia ao pedir colo. Ele chorava. Pela primeira vez, ela via Theo chorar.

       Antes que pudesse disparar feito um animal selvagem em defesa do filhote, dois braços a puxaram para trás, jogando-a contra o capô da camionete. O abdômen colidiu com a lateral do veículo, enquanto duas mãos puxavam seu cabelo à altura da nuca e batiam com sua cabeça contra a lataria.

       — Desgraçada! É melhor que eu te leve desmaiada mesmo! Vamos, sua vaca, vai dar uma de valentona de novo, é?

       Valéria ouviu o choro convulso do seu bebê até o terceiro golpe. Aos poucos, desvencilhou-se da brutalidade que a cercava feito um arco de músculos e ressentimento. As luzes foram-se apagando, e ela não queria partir. O chão cedeu. O som do motor de um helicóptero a fez separar as pálpebras, embora nada visse que não fosse uma imagem turva, desfocada da realidade que desaparecia.

       Num segundo Leonardo a puxou para si carregando-a pelos ombros, praticamente, arrastando-a até a sua picape. Depois, afastou a porta com o pé e jogou o corpo quase inerte por sobre os bancos.

       Ela foi embora.

         

       A luz traseira da Hilux foi acionada quando o motorista pisou no freio reduzindo a velocidade. Tal qual efeito dominó, os demais veículos do comboio constituído por três picapes vindas da Fazenda Quatro Princesas seguiram a mesma orientação.

       Thales estava ao volante da Silverado e foi ele quem teve de reduzir a velocidade ao perceber o movimento de contenção do seu subordinado logo à frente. Franziu o cenho, intrigado. Porém, antes de ter a chance de pegar o celular sobre o painel e tirar satisfações do pistoleiro à frente, ouviu o som de um helicóptero sobrevoando a área.

       Meio que abaixou a cabeça para vasculhar o céu, através do vidro frontal, à procura da aeronave. Considerou rapidamente que a polícia rondava o local, pois, em Matarana, apenas ele e a Polícia Civil se utilizavam de helicópteros.

       Por quem, diabos, o Rodrigo procura? — pensou, com bastante interesse. Era só o que faltava ele estar atrás do maldito aliciador foragido do presídio de Santa Fé, cogitou entredentes.

       Desceu da picape, seguido pelos demais pistoleiros que prontamente o cercaram entre curiosos e expectantes.

       — O que está acontecendo aqui?

       A pergunta era mais para si mesmo do que para o filho mais velho de Valentino, ao seu lado, com a mão nos quadris. Havia uma automática no coldre preso à coxa por cima do jeans justíssimo.

       — É uma ação policial da pesada, patrão. — respondeu o rapaz de quase 23 anos.

       A informação deixou-o ainda mais intrigado. O que estava acontecendo na sua cidade que ele não sabia?

       Três viaturas da polícia militar faziam o cerco ao perímetro no qual uma dezena de policiais fortemente armados acompanhavam o que quer que fosse logo mais à frente. O helicóptero se afastava sem urgência, deixando a cargo dos homens em terra cumprirem o resto da tarefa.

       Thales apressou o passo, o queixo duro revelando a tensão nos maxilares. Virgínia aportou em seus calcanhares, seguida pelo caubói com o coldre na coxa.

       Um dos policiais fez menção de contê-lo, mas foi um ato reflexo. Reconhecendo o fazendeiro, cedeu passagem. Antes, porém, comunicou num tom bastante sério e solene:

       — O delegado já controlou a situação.

       Thales não ouviu, tampouco parou de caminhar, enfiando-se no meio dos homens fardados que se mantinham atentos a tudo ao seu redor, as mãos postas sobre as suas armas, ladeados por uma ambulância e, poucos metros à frente — como ele pôde facilmente reconhecer — a picape de Rodrigo. Ela estava vazia.

       Foi nesse momento, quando se apartou do grupo de policiais e avançou até alcançar o outro lado da estrada, que descobriu o motivo daquela ação policial da pesada, como se referira o outro.

       Estacou como se estivesse diante de um penhasco. Reconheceu a Ford Ranger cujas portas abertas revelavam o abandono do veículo.

       Precisou de alguns minutos para tornar a respirar, o oxigênio no cérebro parecia tóxico e corrosivo, dificultando o raciocínio.

       Era a camionete de Valéria.

       Mas ela dissera que ficaria em casa. — pensou, aturdido.

       Ninguém usava a Ford, somente ela.

       Algo no mato, debaixo de uma árvore a poucos metros da estrada, capturou a sua atenção. Era uma lona preta, uma maldita lona preta, a ponta solta balançava no ar. Crispou os lábios sentindo debaixo da língua o amargor de uma vida inteira. A polícia em peso, a picape de sua mulher, a isca na Quatro Princesas distraindo a sua atenção e a de seus seguranças, a lona preta usada não apenas para erguer os barracos na fundação de Matarana...

       Sentiu uma gota de água escorrer pelo seu maxilar, a ternura do deslize sobre a pele e a incredulidade do evento. Olhou para o céu cheio de fumaça e ardor. Tentou compreender de onde vinha a água salgada, se não chovia naquele momento. Não chovia.

       Atordoado, levou a mão ao rosto, a ponta dos dedos acompanhou o trajeto contrário da trilha de água que lhe alcançou as pálpebras, nas bordas as lágrimas afluíam cegas de suicídio, loucas para se jogarem.

       E então Thales Dolejal entendeu o que acontecia. Ele chorava.

       Porque a lona preta enrolava um corpo, o dela.

         

       Leonardo encarava o delegado com tanta raiva que, se não fossem as algemas ao redor dos pulsos, poderia agarrá-lo pelo pescoço e quebrar cada ossinho que sustentava sua cabeça. O ódio vinha-lhe em ondas de calor.

       Rodrigo olhou com desprezo para o hospedeiro daquele corpo humano e era um verme, repulsivo e covarde, que o habitava. Nada de humanidade restava a alguém que agia contra inocentes. E não havia lei no país ou no mundo para se enquadrar criminalmente um alienígena.

       Essa era a teoria de Rodrigo Malverde, ao decidir o destino de Leonardo Marau. Entretanto, as cartas ainda não seriam lançadas à mesa. Ele tinha de contar sobre o que sabia ao homem que espancara a sua irmã:

       — Por que ainda não me perguntou sobre como o encontrei? — ele fez um gesto de contenção com a mão ― não estava interessado na resposta e retrucou jogando as palavras com asco: — Ligação anônima. Imagino que faça uma boa ideia sobre quem o delatou... Alguém com voz rouca e talvez de uns sessenta e poucos anos. Alguém que telefonou de longe para me alertar sobre o possível sequestro da mulher de Thales Dolejal, da minha irmã. Alguém que, por imenso respeito e consideração, eu jamais poderia te chamar, Leonardo Marau, de filho da puta.

       Os dois ficaram se encarando, até que o mais jovem cuspiu no chão, revelando tudo o que sentia a respeito da situação. Estava fodido de qualquer jeito.

       Rodrigo apontou para a linha da cintura do filho do coronel e ordenou ao policial militar mais próximo:

       — Solte-o!

       Assim que ouviu a ordem, Lucas apareceu com Theo no colo, o garoto sério, os bracinhos ao redor do pescoço do policial.

       — Chefe, não faça nada que vá se arrepender depois.

       O delegado pensou por alguns segundos e respondeu com cara de quem mastigava um negócio nojento que lhe causava náusea:

       — Leve o meu sobrinho para a ambulância. — ordenou sem olhar para o investigador, pois sua atenção concentrava-se no espécime diante de si, sorrindo com escárnio, atiçando o seu lado mais obscuro.

       Não havia na face da Terra ser humano sem o seu famigerado “demônio interior”. O que não significava que Rodrigo tivesse outro trauma que não fosse a perda abrupta e violenta do pai nas mãos de um bandido.

       O policial prontamente se apoderou das algemas do criminoso e endereçou um olhar de expectativa ao delegado da Polícia Civil. O servidor da segurança pública, com o seu salário de merda e o seu peito cravado de injustiças que tentava combater às vezes com munição comprada do próprio bolso, cedeu espaço quando viu o homem de 1.90 e com a cara de poucos amigos se aproximar com a firme intenção de descer o sarrafo no meliante.

       Ninguém ali, da força policial de Matarana, deteria o caubói da lei.

         

       Os policiais dispersos pela área se voltaram para o lugar onde dois homens esmurravam-se violentamente. Eles não queriam perder o show. O delegado era famoso por bater em bandidos antes de encarcerá-los, era uma forma de garantir os direitos humanos... das vítimas; o direito, por exemplo, de terem a satisfação de verem o criminoso cheio de hematomas e, algumas vezes, fraturas.

       Catalisando as atenções, Rodrigo e Leonardo trocavam socos, sem perceberem que uma força maior, tomado pelo pavoroso medo da perda, aproximava-se em passadas lentas, calculadas, como se arrastasse correntes pelas botas, ou mais como um felino flechado sagrando no flanco rastejando pelo mato, moribundo, até o lugar de sua morte.

       Rodrigo desferiu o último soco no maxilar do homem que enfim tombou no chão, ainda consciente, mas cuja face desfigurada e tingida de vermelho dava sinais de que o embate chegara ao fim. 

       O delegado amparou o próprio corpo sobre os joelhos flexionados, a respiração arfante, o chapéu no chão e um pouco de sangue no lábio inferior. Estreitou os olhos ao encarar o filho do coronel combalido e indagou com rispidez:

       — Deve se sentir muito macho batendo em mulher, não? Agora, me diz, onde está a tua macheza, ô covarde cretino?

       O outro ameaçou responder, mas algo o deteve. Algo que fez suas pupilas se dilatarem e o azul dos olhos escurecerem. Alguém que ele via atrás do delegado, de pé, apontando o cano de uma pistola automática em direção à sua cabeça.

       Rodrigo viu o pavor nos olhos de Leonardo e, antes de se voltar, sabia quem estava atrás de si. Virou a cabeça para o lado e falou incisivo por cima do ombro:

       — Esse assunto já está resolvido, Thales.

       Sem mexer um único músculo da face, o fazendeiro mantinha o cano da arma apontado para a mesma direção.

       O delegado se ergueu devagar, não queria deflagrar qualquer reação precipitada no marido de sua irmã. Ao se endireitar e fitá-lo, notou a falta de cor no rosto do outro, a água nos olhos, a expressão de alguém que acabara de enterrar o coração a sete palmos de terra. E tal constatação, além de assustá-lo, o comoveu.

       — Não faça nada “aqui”. — afirmou baixinho, enfatizando que o assunto se restringia a ambos, e completou, fitando-o nos olhos: — Confie em mim. Estamos juntos nessa.

       Se Thales ainda estivesse vivo, a afirmação do homem que sempre protegera e mantivera ao seu lado teria soado como enfim o grito da vitória. Por anos ambicionara a cumplicidade irrestrita do delegado e a lealdade a toda prova do amigo Rodrigo Malverde. Mas agora nada mais importava.

       Ele destravou a arma.

       Rodrigo se interpôs entre os homens que digladiavam com os olhos. Leonardo mantinha a postura altiva de quem um dia fora filho de um latifundiário poderoso, enquanto Thales era o sofrimento em carne viva.

        — Se não sair da minha frente, atiro em você também, Rodrigo. — ameaçou, a voz baixa, o som saindo rouco.

       — Não seja idiota! Olha ao seu redor, estamos cercados por policiais. — e, baixando ainda mais o tom, num sussurro cúmplice, declarou: — O momento certo chegará, Thales. Entendeu?

       O fazendeiro fitou-o desconfiado e, em seguida, endereçando um olhar de tristeza ao lugar onde a lona preta balançava como numa dança da morte, indagou com uma raiva que mal conseguia conter dentro do corpo:

       — É isso que ela merece? Atirada no meio do mato? Eu quero o sangue dele. Agora.

       Rodrigo acompanhou o olhar de Thales, encontrando o mesmo objeto que ele fitava com tanta dor e desespero. Precisou de alguns segundos para apreender a essência daquela circunstância. Faltavam-lhe algumas peças para encaixar e assimilar o quadro inteiro. Voltou-se para o outro e, meio confuso, perguntou franzindo o cenho:

       — O que tem ali...?

       Não precisou esperar pela resposta. Baixou a cabeça e juntou o chapéu do chão, pondo-o novamente em seu devido lugar. Sorria agora um leve sorriso, um gesto terno de empatia e piedade. Encarou o antigo amigo e lembrou, como num flash da memória, os motivos de mantê-lo por perto mesmo com um pé atrás.

       — Preste atenção no que vou dizer. — começou, encaminhando-se até o fazendeiro sem se importar com a automática apontada para si: — Quando digo que deve confiar em mim é porque é isso o que tem de fazer. — alcançou-o, e não havia mais espaço entre a ponta da arma e pouco abaixo do seu tórax: — Se por acaso ele tivesse assassinado a minha irmã, Thales, eu mesmo o mataria.

       Um clarão azul intenso raiou nos olhos do outro. E Rodrigo aproveitou o momento de confusão por parte do fazendeiro, um ou dois segundos de atordoamento, e comunicou com um sorriso gentil:

       — Aquela lona ali é lixo, já estava aqui quando chegamos... — pôs a mão no ombro do amigo e indicou com a cabeça o lugar para onde Thales deveria seguir: — A Val está na ambulância, e o Lucas foi levar o Theo para ela. Só tenha muito cuidado com o que falar, porque ela está muito emotiva... e muito machucada.

       Tudo o que ele conseguiu juntar de palavras saiu junto com a respiração:

       — E o meu filho? — balbuciou, consciente de que brotavam novamente plantas debaixo dos seus pés, a vida retornava.

       Rodrigo entortou a comissura dos lábios num ricto de amargor e respondeu:

       — Quando cheguei, ele estava preso na picape... suado, chorando e vomitando de tanto nervosismo. O Lucas o retirou e tentou acalmá-lo, enquanto eu cuidava da Val, depois, é claro, de meter as algemas nesse canalha. — voltou-se ligeiramente para o canalha que era levado, já algemado, para a viatura; em seguida, deu atenção ao cunhado: — Ela estava meio grogue dos golpes, mas é forte a menina, não se preocupe. Lutou muito contra o desgraçado, fez o diabo para salvar o filho... O vagabundo armou uma cilada e tanto para vocês, só que acabou dando o tiro no próprio pé. — ajeitando a aba do chapéu para frente declarou com sagacidade: — A dona Karen hoje fez o café da manhã e tinha até ovos mexidos...Sinal claro de que andou aprontando. Só não quero esbarrar nos dedos do Pedro saindo debaixo da terra, ok? Enterrem bem fundo. — suspirou pesadamente e ordenou com um esboço de sorriso que sugeria cumplicidade: — Agora, Thales, para de me olhar como se eu fosse a versão feminina dos Malverde e vai cuidar da minha irmã. — recebeu em troca um olhar de gratidão.

       Quando o outro se afastou meio que se refazendo do choque da ressurreição, Rodrigo ainda lhe endereçava um longo olhar avaliativo, considerando que uma revolução se processara no coração daquele homem. Se Val fora a responsável por um milagre e por despertar a parte arejada e clara de uma pessoa sombria como Thales Dolejal, tinha de ajudá-la na empreitada e também dar uma chance a ele.

       Mas agora tudo o que o delegado da cidade pensava era num modo de se manter longe dos antiácidos enquanto tivesse Leonardo Marau detrás das grades na sua delegacia.

         

       Valéria abriu os olhos após terminar de ser suturada. Era atendida na maca dentro da ambulância, e o profissional da saúde, um rapaz cuja idade devia ser próxima a de Sabrina, havia-se preocupado primeiramente em estancar o sangue que escorria do supercílio. Ele ainda tinha muitas avarias para consertar, Val considerou, num misto de nervosismo e ansiedade.

       Ao ouvir o motor do helicóptero acreditou enfim que tudo se resolveria, embora todo o seu amor e preocupação se voltassem apenas para uma pessoa, o seu bebê. Lutou até o último momento para não se render à inconsciência e perdeu as forças somente ao perceber que do céu um dos seus anjos protetores salvaria Theo. E ele o salvou.

       Voltou a si nos braços de Rodrigo, que sempre a protegera desde quando eram crianças. Ao vê-lo comovido, sorriu e perguntou se tudo estava bem. Ele disse que sim, e ela acreditou nele.

       Ainda sentia uma dor latejante na cabeça e não tinha coragem de ver o estado de seu rosto. Sentira o gosto do próprio sangue e, no seu vestido, nódoas e respingos dele para comprovar a violência do ataque. Jamais fora agredida daquela forma e tinha certeza absoluta de que a cena que vivera poucos minutos atrás tão cedo não sairia de sua mente. Não precisava mais lutar pela vida do filho. Não precisava mais lutar. Podia então se entregar a qualquer sentimento ou a nenhum deles. Como agora anestesiada na alma ainda que ferida no corpo.

       Levantou os olhos e deu de cara com Virgínia, que lhe lançou um breve sorriso e um olhar de simpatia. Ao seu lado, o primogênito de Valentino, com as mãos nos quadris e os maxilares retesados.

       Se aqueles dois estavam ali, significava que Thales estava por perto. Conteve uma explosão de choro. Por Deus, não queria provocar uma tempestade elétrica nem causar nenhum terremoto em Matarana. Leonardo tinha de pagar pelo o que fez e inclusive pelo o que tentara fazer a Theo, mas tudo dentro da lei — conforme as determinações de Rodrigo.

       Engoliu o choro, que caiu feito concreto no seu estômago, pesando muito. Era dureza digerir um trauma recente. Ela tinha de provar a si mesma que era forte e que estava à altura de ser uma Dolejal. Até mesmo Nova era durona, deixara de ser medrosa depois do nascimento da primeira filha. Então, ela, Valéria, esposa do homem mais importante da região, da lenda, do dono de tudo, tinha de também fazer valer a sua posição e o seu destino.

       Quando o viu passar por entre os seus pistoleiros e o seu olhar encontrou o de Thales, quase não o reconheceu. Uma cortina de água toldou-lhe a visão e ela respirou fundo para manter as lágrimas na borda das pálpebras. E novamente teve de lutar, agora, consigo mesma, pois nos braços do homem que amava mais que a si mesma estava o seu bebezinho agarrado ao pescoço do pai.

       Ele parou diante dela e nada falou. Porém, tudo nele parecia gritar. Cada músculo que marcava a pele dos maxilares, a profundidade das olheiras e os sulcos fundos ao lado dos olhos e na testa. A camisa para fora do jeans, amarfanhada. Os cílios longos, úmidos. Gritava a fortaleza combalida, o gigante posto de joelhos.

       Valéria estendeu a mão para tocá-lo, porque precisava aplacar o sofrimento daquele menino judiado pelo passado e que pouco fora amado. Ela o amava por todos, pelo mundo inteiro; amava-o simplesmente por existir e respirar.

       O que ele viu o fez emudecer. Queria dizer a ela o quanto se sentia mal por ter falhado, por não tê-la protegido como era a sua obrigação, não só como marido, mas também como guardião do amor que sentia por ela. Perdê-la, ainda que fora em pensamento e por alguns minutos, perdê-la, não estar com aquela mulher que o fitava com o amor devotado de uma garotinha pelo seu ídolo, perdê-la e perder esse olhar, preferia mil vezes perder a própria vida.

       Mas ele não sabia como dizer o quanto ela era importante.

       — Ele está bem? — ela perguntou, vendo o filho arquear o corpo para frente jogando os braços para ser aceito em seu colo.

       Thales o conteve abraçando-o contra si.

       — A mamãe está machucada. — falou baixinho ao filho, que, imediatamente, fitou a mãe com o cenho franzido, sugando a chupeta com ansiedade. — Depois, em casa, os dois vão descansar no quarto. — em seguida, ao ver o técnico se aproximando com algodão e iodo, antecipou-se comunicando com bastante serenidade: — Tenho essas coisas em casa, posso cuidar da minha mulher.

       O rapaz nem pensou em contrariar o marido que não tirava os olhos da esposa.

       — Sim, senhor Dolejal. Daqui a uma semana, a dona Valéria pode passar no hospital e tirar os pontos. — avisou solícito.

       Thales assentiu levemente e tornou a fixar sua atenção em Valéria.

       — Isso nunca mais acontecerá com você. — afirmou com obstinação.

       — Eu sei, meu amor. Está tudo bem agora. — tentou sorrir.

       — Não, Valéria, não está tudo bem. — declarou, encarando-a diretamente. — Pus a vida de vocês dois em risco e jamais me perdoarei por isso. Não consigo vê-la ferida desse jeito...Não posso aceitar que aquele...aquela coisa tenha tocado em você, machucado, espancado... Deus do céu, você é a minha garota... a garota que eu amo e que vou amar o resto da minha vida.

       Ele parou de falar e puxou todo o ar que podia.

       Valéria tentou sorrir e confortá-lo.

       — Estou bem, e estamos juntos, meu amor. Não quero vê-lo angustiado assim, por favor. Olha a carinha do Theo pra você.

        Ele olhou para o filho, que estava sério, concentrado, como se avaliasse o que acontecia com o seu altivo pai.

       — Sou louco por sua mãe, sabia? — declarou para o bebê, sem nenhuma intenção de fazer graça; falou com seriedade e ternura.

       Theo se virou para a mãe e espichou novamente os braços para ganhar um colo.

       Ela se levantou da maca onde até então estava sentada e o pegou.

       — Ele está se sentindo inseguro.

       — Todos nós estamos, minha Valéria.

       Antes de ter o filho no colo, ficou na ponta dos pés e beijou o rosto do marido.

       — Lutei como você para proteger o nosso filho, Thales. Aprendi muito ao seu lado. Muito obrigada.

       Ele viu de perto os hematomas nos maxilares dela, o corte suturado no supercílio e o sangue seco e escurecido em uma das narinas. E viu também a beleza dos cabelos vermelhos, dos olhos verdes, das sardas, a beleza que era toda ela.

       Tentou sorrir, mas ainda lhe era complicado sentir coisas boas vendo-a daquele jeito, imaginando-a sendo espancada por Leonardo Marau, agredida e humilhada.

       — Vou cuidar de você.

       Abaixou-se e a beijou com delicadeza nos lábios.

       — Eu também vou cuidar de você. — ela disse de forma incisiva e com um sorriso juvenil.

       — Quero que me entenda, Valéria, que não vou cuidar de você apenas agora. Planejarei todo um esquema de segurança em torno de você e o Theo, além de levá-la em todas as minhas viagens. Tomarei conta de você de tal forma que nenhum filho da puta chegará perto. Vou cuidar de você para sempre. Entende, agora? Você é a minha prioridade. — assegurou com firmeza.

       Ela o abraçou e aceitou em torno do seu corpo o braço que a puxou ao encontro do tórax largo e acolhedor. O cheiro dele a fez mais uma vez engolir as lágrimas, era o cheiro do lar, do porto seguro, do amor correspondido.

       Roçou o nariz contra o tecido da camisa masculina e respondeu quase num sussurro, sentindo a mãozinha do filho bagunçar os seus cabelos num carinho desajeitado:

       — Sim, Thales, como quiser.

       Mas Thales queria mais:

       — Como nós quisermos, minha Valéria.

         

       A confeitaria Dolejal fora decorada especialmente para a ocasião. A ideia era uma recepção privativa para receber a dona do estabelecimento novamente ao trabalho, após a semana se recuperando em casa cercada pelos filhos, amigos e o marido, que não tirara os pés da fazenda nem para trabalhar. E tal comportamento, dedicado e amoroso, provocou no irmão da convalescente a vontade de se reaproximar do amigo de longa data, que se tornara rival e depois cunhado.

       Rodrigo terminou de fumar à porta da delegacia, mirando do outro lado da rua a fachada de vidro da confeitaria protegida pelas cortinas fechadas. As três famílias estavam lá dentro, Dolejal, Malverde e Lisboa, junto com os funcionários do local, comendo doces e salgados nas mesas dispostas pelo recinto.

       A última tragada foi dada com genuíno prazer, mandando para os pulmões todas as porcarias contidas no cigarro. Pensava em parar de fumar; sabia que não pararia. Voltou-se para o interior da delegacia e piscou o olho para Adele. Pensava que devia parar de brincar de paquerá-la; gostava de pôr um sorriso nos lábios dela.

       Fez um gesto com a cabeça em direção a Lucas e comentou com estudada naturalidade:

       — Que tal vocês dois irem dar um abraço na Val, hã? Ela ia gostar muito, ainda está toda dengosa depois do sufoco que passou e... — nessa parte, ele deu uma risadinha e completou: — pelos mimos do marido. Não pode ver ninguém que abraça e beija como se não houvesse amanhã. — riu-se, ajeitando a aba do chapéu até ficar do mesmo jeito de antes.

       Adele se levantou da cadeira de imediato, jamais recusaria uma festinha regada a coisinhas que a engordavam de felicidade. Endereçou um olhar para o outro policial que preenchia relatórios atrasados e atirou à curta distância:

       — Vamos, Lucas, quero vê-lo em ação... comendo.

       O outro ergueu a cabeça exibindo um sorriso sacana que era sua marca registrada.

       — Não sou um exibicionista.

       — E, por acaso, é um voyeur?

       Rodrigo balançou a cabeça rindo baixinho. Adele era uma figura e tanto! E Lucas não fazia o tipinho que fugia de indiretas sexuais femininas:

       — Está com muita fome, parceira?

       Ela sorriu com todos os dentes à mostra.

       — Não faz ideia, parceiro.

       Lucas não se intimidou nem um pouco, mas seus pensamentos voaram em direção ao chefe que os observava com uma expressão divertida no semblante.

       — E o preso lá embaixo?

       Leonardo Marau ainda estava detido na delegacia aguardando a transferência para Santa Fé.

       O delegado deu de ombros e respondeu sem muito interesse:

        — Fico por aqui, e depois nos revezamos. Prefiro dar um abraço na Val no finalzinho da comemoração para poder voltar com a Karen pra casa.

       Os policiais assentiram. Lucas cedeu passagem para Adele andar a sua frente, mas ela preferiu se manter atrás dele. O jeans justo no traseiro era uma paisagem que fazia muito bem aos seus sentidos.

       Ao chegarem à calçada, o agente da lei deu uma paradinha e se voltou para a colega de profissão:

       — E, aí, qual é a mais bonita?

       — Não dou palpites sobre suas namoradas, Lucas. — respondeu num resmungo.

       Ele sorriu ainda mais.

       — Quem possui muitas não tem nenhuma, sou um solitário. — debochou; em seguida, passou o braço ao redor dos ombros da escrivã e se fez claro: — Qual é a bunda mais bonita, a minha ou a do chefe?

       Adele voltou-se para o homem que a cutucava próximo demais da jaula. Deu um passo para trás e averiguou a retaguarda do rapaz. A resposta foi dada num tom sério e quase solene:

       — A do chefe.

       Lucas gargalhou, apertando-a contra si:

       — É tão má comigo que ainda vou e gamar por você.

       — E aí te esmago no asfalto.

       — Jura? — indagou, os olhos cheios de admiração.

       — Promessa é dívida, meu bem.

       — A gente não presta. — afirmou com um sorriso endiabrado.

       Adele circundou a cintura de Lucas e fingiu que eles tinham um tórrido caso de amor. Embora continuasse a considerar o seu chefe como o homem mais sexy e perfeito do universo.

       O caubói da lei observou o seu pessoal atravessar a rua e entrar na confeitaria. Escorou-se contra o batente da porta e inspirou preguiçosamente, sentindo os raios do sol, frágeis àquela hora da tarde, perto das seis, lamberem seu rosto. Estreitou os olhos e fez uma busca rápida pelo perímetro. Sorriu levemente ao reconhecer quem deveria ser reconhecido.

       Deu um tapinha na ponta da aba do chapéu, erguendo-a ligeiramente para cima, expondo seus olhos cor de mel, a tez morena e as mechas do cabelo castanho claro. Espiou com curiosidade os ponteiros do seu relógio de pulso ao mesmo tempo em que se desencostava de onde parecia ter criado raízes, as raízes da preguiça. Os dias quentes sem confrontos causavam-lhe sono.

       Ao assegurar-se de que os policiais estavam distraídos na recepção do outro lado da rua, o delegado fechou a porta da delegacia atrás de si.

       Entrou na picape e ajeitou o retrovisor, recortando no retângulo especular a fachada da confeitaria Dolejal. E alguém na esquina.

       Entortou o canto dos lábios para baixo e relançou um último olhar para a entrada da delegacia, despedindo-se provisoriamente. Em seguida, acelerou em direção a 163 como se tivesse perdido o coração por lá.

         

       Sabrina diminuiu o volume de She's in Love with the Boy e postou-se detrás do balcão para retirar a torta de chocolate, com recheio de sorvete de abacaxi e rum e cobertura de chantili. Considerou que bancar a anfitriã conferia algumas vantagens, como comer um bom pedaço da sua torta preferida antes dos demais convidados, por exemplo.

       A confeitaria estava cheia, e ninguém permanecia muito tempo em sua própria mesa. A ideia da recepção para a mãe partira da vontade de amenizar o trauma sofrido por ela e evitar que caísse em depressão. Revezara-se com o padrasto nos cuidados físicos dela, embora fosse uma dureza fazer com que Thales lhe cedesse espaço e oportunidade para tanto. Agora, contudo, o que via era uma mulher refeita, com algumas marcas no rosto, era verdade, mas ainda sorridente e gentil.

       Sentiu que era observada por um dos caubóis do recinto e sorriu consigo mesma. Havia feito uma loucurinha às vésperas de partir para a capital. Um tipo de doideira gostosa que a deixara meio distraída com um sorriso besta nos lábios. Suspirou, balançando a cabeça se autocensurando mentalmente. Não cometera nenhum crime que não fosse o de amor. Apesar de que fazer amor não era crime algum.

       Do outro lado do ambiente decorado com balões dourados, com um copo de refrigerante na mão e encostado contra parede, cercado por Karen e Nova, o menino de 18 anos também sorria do mesmo jeito que Sabrina, o mesmo tipo de sorriso cúmplice.

       Johnny ajeitou o chapéu na cabeça, o chapéu presenteado por Rodrigo havia mais de três anos, e o imitava também no gesto de acomodar o Stetson meticulosamente sobre o crânio. Piscou o olho para a sobrinha do delegado e considerou levá-la ao cinema mais tarde, na sessão das 22 horas, um filme de terror. E então ela mais uma vez se grudaria nele buscando o seu afeto e proteção, além da amizade. E depois a deixaria seguir o seu caminho, porque ele sempre estaria entre Matarana e Santa Fé, com as botas preparadas para subir no Maverick da mãe e passar um fim de semana em Cuiabá.

       Karen abraçou o filho pela cintura, por trás, e o balançou consigo de um lado para o outro:

       ― Eta-ferro!, enfeitiçado por um Malverde?

       Ele riu e quase teve o refrigerante espirrado pelo nariz.

        ― Que é isso, mãe? Nunca ouviu falar em amizade entre homem e mulher?

       ― Sim, claro, amizade com benefícios, você quer dizer.

       Thales e Valéria, de mãos dadas, se aproximaram dos dois. A mãe de Sabrina aproveitou para tecer um comentário a respeito do filho da amiga:

       ― O Rodrigo me falou que pretende ser delegado da Polícia Federal. Saiba, Johnny, que deixou o seu padrasto muito feliz.

       O garoto sentiu as bochechas pegarem fogo.

       ― Falta...bem, falta muito ainda. ― tropeçou nas palavras.

       Thales notou o constrangimento de Johnny e procurou contornar a situação, falando com bom humor:

       ― Terei de elaborar novos códigos de comunicação com os meus funcionários quando o federal estiver na cidade visitando a família.

       Agora, sim, Johnny tinha o rosto em chamas.

        Karen beijou a bochecha do filho e respondeu para o homem que tinha dificuldade de parar de sorrir. Afinal, a mulher de cabelos vermelhos estava bem ao seu lado exalando o cheiro de sua plenitude.

       ― O Johnny jamais esquecerá, sendo um federal ou não, que as leis em Matarana são outras.

       ― Vejo que educou muito bem o seu filho, minha querida. ― afirmou Thales com um sorriso satânico.

       ― Não tanto quanto você com o Franco, meu querido. ― rebateu Karen no mesmo nível.

       Valéria se acostumara aos embates verbais entre os dois e considerava que era essa excêntrica dinâmica o fio condutor da amizade de ambos. O que não deixava de ser engraçado.

       Thales deu uma olhada no relógio de pulso e comentou ainda sorrindo, seus olhos brilhavam de prazer:

       ― Daqui a pouco teremos um espetáculo de fogos na praça.

       Valéria se virou para ele entre encantada e se controlando para não rir:

       ― Não acredito!

       ― Um presente completo, minha Valéria, com direito a uma doce vingança. ― afirmou bem satisfeito consigo mesmo.

       O sorriso da mulher do fazendeiro murchou.

       ― Vingança? Está tudo bem, agora. Nada de vingança.

       ― Aproveite a sua festa, que depois eu aproveitarei a minha.

       Karen sorriu para a amiga e falou com deboche:

       ― A gente não tem circo, Val, tivemos de improvisar. Desmancha essa ruga da testa, porque você é a rainha do baile. Vem, vamos prosear com a dona Nova e a vó, ok?

       Valéria relançou um olhar expectante ao marido e recebeu em troca um sorriso misterioso. Mas não teve outro jeito senão seguir a cunhada que a puxava pela mão.

       Thales se voltou para o filho mais velho e fez um sinal afirmativo com a cabeça.

       De posse do celular, Franco deu a ordem.

       

       A árvore da vida e do conhecimento do bem e do mal, as folhas da figueira que cobriram a nudez dos personagens bíblicos, agora, debaixo do céu noturno que explodia em estrelas artificiais que se desintegravam e, na morte, coloriam a noite em Matarana, sustentava em um dos seus galhos altos o aviso da chegada dos novos tempos por aquelas bandas, na terra que não mais era de ninguém porque ela já tinha um dono.

       E foi o dono de Matarana quem primeiro se aproximou da árvore frondosa no meio da praça, perto do coreto, diante do templo católico.

       Ele estava sério enquanto se postava ao lado de Leonardo Marau, desmaiado, com visíveis marcas de espancamento, amarrado pelos pés, de cabeça para baixo. A razão de sua exposição em praça pública, como os antigos enforcamentos no Velho Oeste norte-americano. Um evento, por assim dizer.

       Para Thales Dolejal não era um evento sem a dimensão de um relevante recado:

        ― Povo de Matarana, eis as boas novas: a paz se constrói sustentada por vários alicerces. E, aqui, na nossa terra, o fundamento está em uma antiga lei que, ao contrário das falhas e brechas da justiça formal brasileira, funciona para refrear a perversidade dos criminosos contra os inocentes. ― encarando cada indivíduo diretamente no olhar, a postura altiva de um faraó, ele citou as palavras de aviso: ― "Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé". É isso que está na Bíblia, e que Deus seja louvado!

       Primeiro o silêncio da multidão, o espanto, o choque. A constatação.

       Alguém gritou "Moisés".

       E aplaudiram fervorosamente.

         

       Os cascos do cavalo batiam contra o solo seco e o som reverberava pelo prado no silêncio daquela noite no descampado.

       Era por uma estrada longa, de chão batido, que ela cavalgava. Os cabelos negros soltos debaixo do chapéu de vaqueira dançavam soprados pelo vento morno que também agitava a crina de Prefontaine. Amazona e animal, ambos selvagens e livres, ganhavam o horizonte a caminho da estrada federal.

       Nada para aquela mulher fora fácil e, se o fosse, seria desprezado, ignorado, sem valor. Por isso ela podia abrir os braços para abraçar a própria vida que a arrebatava de paixão e plenitude, sentindo o coração galopar no mesmo ritmo do cavalo e da loucura de ser tantas mulheres em uma só. E enquanto corria e sorria, as lágrimas lavavam o seu rosto sem maquiagem e qualquer artifício, e ela passava pela fachada imponente dos muros da Arco Verde, e ainda galopando arrastada pela velocidade dos seus sentimentos, sempre extremos, vencia o território da Quatro Princesas, despedindo-se momentaneamente de seus moradores. Poucos metros à frente, a casa onde morava com o delegado, o filho e a avó, sem se esquecer de Bonnie, que um dia se tornaria sua amiga. Então ela sorriu e continuou.

       Ao passar pelo seu antigo condomínio de bangalôs, bateu levemente na aba do chapéu e cumprimentou o segurança da propriedade, que, comprada por Thales, era agora um hotel de luxo para executivos de fora.

       E não foi sem emoção que alcançou as ruas pavimentadas do centro e deixou o Colono Tranquilo e o Bar do Gringo para trás, os erros e os acertos eram largados no meio-fio da calçada, quem se interessasse que os juntassem. Porque ela estava diante do Salão Country e bem perto da confeitaria Dolejal e da Delegacia de Polícia.

       Puxou levemente as rédeas do manga-larga e optou por outro caminho que não enfrentasse a multidão na praça.

       Ao passar pelo Dolejal Center, lembrou-se dos almoços com as mosqueteiras tresloucadas, no Arizona, e tal pensamento também a fez sorrir. E quando não se aguentou mais de tamanha ansiedade e vontade de estar com alguém especial o resto de sua vida, exigiu um pouco mais de sua montaria. Até chegar à reta asfaltada criada para ligar pessoas a lugares e a BR 163 a recebeu como fazia para com todos que procuravam por dias melhores, ali, no centro-oeste, ou saindo dele, retornando, recomeçando, vivendo de novo o que tinham por destino viver.

       Seguiu pelo acostamento até encontrar o amor.

       Debaixo do portal da cidade, um grupo de funcionários da prefeitura vestidos em seus uniformes azuis apontou a direção certa.

       Desceu do cavalo sorrindo por encontrar sem muita dificuldade o delegado, encostado contra a picape, observando o trabalho dos homens à sua frente.

       Assim que a viu, Rodrigo Malverde sorriu e a chamou para um abraço e um beijo.

        Abraçados, Karen Lisboa prometeu a si mesma que seria feliz com aquele caubói. Ao encará-lo e revelar a sua intenção em relação ao futuro, ele antecipou-se e disse num sério e decidido, embora não faltasse o carinho na voz:

       ― É um recomeço, Karen, para todos nós. ― ele então meio que sorriu como um garoto travesso e completou com paixão no olhar: ― Sabe de uma coisa? Não quero mudar nadinha dessa boniteza que é a minha vida com você.

       ― Senhor delegado, a hora que quiser estarei pronta para o altar.

       Ele achou graça e apertou-a contra si.

       ― Certo, senhorita Lisboa, depois do almoço a gente casa então.

       Eles riram e se voltaram em direção à placa que era pendurada junto ao portal da cidade. O anúncio dos novos tempos em letras garrafais:                                        

        

        BEM-VINDO A MATARANA

        AS PESSOAS BOAS MORAM AQUI

        E ESTÃO ARMADAS

 

 

                                                                                                    Janice Diniz

 

 

 

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