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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FOGO SOB GELO / Carole Mortimer
FOGO SOB GELO / Carole Mortimer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Tudo mudou na vida de Edna quando Jason Earle apareceu. Primeiro, foram todas as verdades cruéis que ele trouxe da Inglaterra, a respeito da família que ela jamais tinha visto. Depois, o choque de constatar que estava apaixonada por ele, um tipo devastador, perverso, até. Era fogo sob o gelo. Um olhar dele a fazia sentir-se invadida por um sentimento estranho e arrebatador. Como um autômato, Edna o seguiu até a Inglaterra. O que ia fazer agora, sozinha num país que mal conhecia e ligada àquele homem tão cheio de orgulho, que ela odiava, mas ao mesmo tempo lhe tomava o corpo inteiro com um ardor que nem o demônio poderia provocar?

 

 

 

 

Edna percebeu que havia alguma coisa errada assim que se juntou à família, para tomarem um aperitivo antes do jantar. Viu isso pela tensão em volta da boca bem pintada de Angela, sua mãe, e pelo ar preocupado do padrasto. Pobre Drew! Ele não tinha uma vida fácil, com aquela esposa geniosa!

Aceitou com um sorriso o martíni que o padrasto lhe esten­deu, esperando pacientemente por uma explicação para o estado alterado da mãe. Decididamente, alguma coisa estava errada com ela. Edna nunca a vira tão aborrecida!

— Onde é que você esteve, a tarde inteira? — Angela per­guntou, com aspereza.

— Na casa de Cheryl, ouvindo discos — Edna replicou, sur­presa. — Por quê?

— Porque chegou uma visita para você. Por isso!

— Alguém importante?

— Alguém importante?! — Angela repetiu, com voz aguda. — Claro que era alguém importante, senão eu não estaria neste estado.

Edna franziu a testa, intrigada com a agitação da mãe.

— Quem era?

— Jason Earle!

— Jason Earle? Mas eu não conheço nenhum Jason Earle!

— O homem dos jornais — Drew explicou rapidamente, antes que a esposa explodisse.

— Minha nossa! — Edna assobiou por entre os dentes. Dizer que Jason Earle era o "homem dos jornais" era dizer muito pouco. Ele era um dos homens mais poderosos do mundo, com controle sobre grande parte dos meios de comunicação. — E ele veio aqui para me ver?

— Veio. E teve a coragem de me olhar do alto o tempo todo, com aqueles olhos frios e cinzentos! — O gelo chocou-se no copo que Angela segurava, quando ela estremeceu de raiva. — Você não imagina como ele é arrogante! Até parece que tem o rei na barriga!

— Acalme-se, Angela — Drew pediu. — Não tem sentido ficar remoendo o que aconteceu, desse jeito.

— Não tem sentido...

— Mas por que ele queria me ver? — Edna interrompeu a mãe. — Eu nem o conheço!

— Nós não temos notícias deles desde que Edna tinha dois anos de idade, e agora David resolveu...

Edna levou um susto.

— David? O meu avô, pai do meu pai? Mas o que ele tem a ver com a visita desse tal de Jason Earle?

— Tudo! — Agitada, Angela começou a percorrer a sala de um lado para o outro. — Depois de dezoito anos, seu avô resol­veu que quer ver você de novo, e mandou esse tal de Jason Earle buscá-la. Ele disse que é amigo de David, mas eu tenho certeza de que tem sido o par constante de Isobel, durante estes últimos anos.

Isobel era a segunda esposa de Graham Morton, pai de Edna, que sabia da história do casamento desfeito dos pais. Graham Morton tinha sido noivo de Isobel Dean, até conhecer e se apai­xonar por Angela, casando-se com ela poucas semanas depois, para grande desgosto do pai dele, David Morton.

Mesmo depois de Edna, sua neta, ter nascido, David Morton fez tudo que podia para desfazer o casamento do filho, pois queria que ele casasse com Isobel, a filha de seu velho amigo, Russel Dean. Ele perseguiu Angela, ridicularizou-a até ela não aguentar mais, e dar um ultimato ao marido: ou ela, a esposa, ou David, o pai dele. Graham Morton tinha escolhido o pai, e depois de obter o divórcio, casou-se com a antiga noiva.

Quando tudo isso aconteceu, Edna tinha dois anos de idade, e apenas três quando a mãe casou de novo com Drew. Por isso, ela sempre considerou o padrasto como seu pai verdadeiro, e a família dele, como sua. E era difícil acreditar que, agora, os Mortons pudessem ter algum interesse por ela, e que seu avô quisesse realmente vê-la.

— Talvez Jason Earle esteja mesmo saindo com Isobel — Drew comentou —, mas ele está aqui por causa de David Mor­ton, e não, dela.

— Eu sei disso — Angela replicou, com ar de pouco caso. Isobel e eu nunca chegamos a gostar uma da outra. Ela sempre fez questão de deixar bem claro que tomaria o meu marido, na primeira oportunidade que tivesse.

— Isso é coisa do passado — Drew falou com calma. — É o presente que deve nos preocupar. David mandou Jason Earle atrás de nós, porque quer ver a neta.

— Pois, então, ele mesmo deveria ter vindo. Faria mais sen­tido que mandar um estranho.

— Ele é um velho, Angela. Já passou, há muito, dos setenta.

— Ele nunca teria vindo, mesmo que tivesse vinte anos a menos. David queria se livrar de nós, para que Graham pudesse casar com Isobel, e não mostrou mais o mínimo interesse por Edna e por mim, depois que conseguiu isso. Naturalmente, ele não podia saber que Graham e Isobel não lhe dariam mais nenhum neto — acrescentou, com satisfação —, e que depois da morte do filho, a única pessoa de seu próprio sangue, que lhe restaria, seria Edna. Mas eu não vou permitir que Edna vá, Drew. Não vou permitir!

— Não vai permitir que eu vá para onde? — Edna perguntou, intrigada.

— Para a Inglaterra, é claro — a mãe estava irritadíssima.

— Não ouviu nada do que eu disse?

— Ouvi, sim, mas...

Nesse momento, Suzy, a criada, entrou:

— Tem um sr. Earle aí, sra. Shaw.

— Está bem, mande-o entrar — Angela disse abruptamente. E continuou, depois que a mocinha saiu da sala: — Drew, eu não quero... — apressadamente, endireitou a gravata do marido — eu não quero que você deixe esse homem provocá-lo.

Drew deu um meio-sorriso.

— Eu não tenho nenhuma intenção de deixar que ele...

— Você ainda não o conhece — Angela interrompeu, afas­tando-se um pouco para examiná-lo com ar crítico. Depois, voltou a atenção para Edna. — E você, não deixe que ele a force a concordar com nada. Temos que discutir esse assunto unidos, como uma família.

Edna estava curiosa para conhecer o homem que tinha co­locado sua mãe naquele estado. Não era fácil tirar Angela do sério! O tal Jason Earle devia ser um sujeito e tanto!

— O sr. Earle — Suzy anunciou com um sorriso tímido, antes de se retirar.

A primeira impressão que Edna teve dele foi a de um homem alto, sem um grama de gordura a mais, com um par de olhos cor de aço que percorreu as pessoas presentes na sala com frio desdém. "Bem apessoado" era uma expressão fraca demais para descrevê-lo. Jason Earle era incrivelmente atraente, e deixou Edna pasma com o magnetismo e a vitalidade que emanava.

Ela nunca tinha visto uma pessoa como ele antes! Na ver­dade, nem sabia que pessoas como ele existiam! A camisa bran­ca que usava era imaculada, e o smoking preto tinha um cai-mento extraordinário.

Jason Earle deve estar com trinta e poucos anos, ela pensou, enquanto observava a expressão cínica dos olhos e o ar duro da boca de lábios cheios, que só pareciam torná-lo mais atraente ainda.

Agora, não estava mais surpresa com a hostilidade da mãe. Depois de tantos anos convivendo com um homem de natureza dócil, como Drew, Jason Earle devia ser uma espécie de choque para ela. E o padrasto também estava ligeiramente impressio­nado pelo visitante, apesar de sua declaração de que não dei­xaria isso acontecer.

Graças a Deus ela estava bem-arrumada, pois pretendia ir, mais tarde, a uma discoteca com Tim. Sabia que ficava bem com o macacão de veludo preto que usava, ele realçava as cur­vas de seu corpo esbelto e tornava seus cabelos mais claros que o normal, fazendo com que parecessem fios de ouro emolduran­do-lhe o rosto, além de dar mais profundidade a seus olhos dourados.

Ern silêncio, observou Jason Earle apertar a mão de Drew, depois passar por ela e dirigir-se à sua mãe, ignorando-a com-pletamente:

— Eu esperava que sua filha estivesse aqui — ele disse, em tom seco.

— Edna... — Angela balbuciou.

— É, Edna — ele pronunciou o nome dela meio a contragosto. — Esperava que a menina já estivesse aqui.

Menina! Aos vinte anos, isso era uma coisa que Edna não se considerava mais. Deu um passo para a frente, e o sorriso em seus lábios congelou-se quando os olhos frios de Jason Earle percorreram-na da cabeça aos pés, com mal disfarçado atrevi­mento. Aquele homem podia ser tremendamente atraente, mas as maneiras dele deixavam muito a desejar.

Respirando fundo, enfrentou o olhar insolente com valentia.

— Eu sou Edna — disse numa voz ligeiramente rouca, com um leve sotaque americano.

A surpresa transpareceu por um momento no rosto de Jason Earle, mas ele logo se dominou, reassumindo a expressão fria de antes.

— Você é a neta de David Morton?

— Meu nome é Edna Shaw, mas creio que David Morton é meu avô — respondeu com ar de pouco caso, certa de que, na verdade, Jason Earle esperava uma resposta negativa.

— Eu pensei que você fosse... mais nova. — A irritação dele era evidente.

— Verdade? — Edna levantou as sobrancelhas com desdém, acrescentando secamente: — Meu avô provavelmente pensa em mim como uma criança. Eu tinha dois anos na última vez em que ele me viu. Quando as pessoas ficam mais velhas, tendem a se esquecer da passagem dos anos. Mas o senhor já deve saber disso.

O último comentário era insultante, de propósito, porque a atitude condescendente daquele homem era uma coisa que ain­da não estava preparada para aceitar. Jason Earle estreitou os gelados olhos cinzentos, mostrando que o insulto não tinha pas­sado despercebido e, pela expressão do rosto dele, era fácil ver que Edna também não ficaria sem castigo.

— Tenho certeza de que David sabe exatamente quantos anos você tem, ele nunca esquece nada. Mas agora que a vi, estou com a impressão de que perdi a viagem.

— Provavelmente — ela murmurou, jogando a cabeça para trás.

— Podemos discutir esse assunto mais tarde — Angela su­geriu, tensa. — O que acham de jantarmos, agora?

— Infelizmente não posso ficar para jantar com vocês. — O visitante não parecia nem um pouco triste em recusar o convite.

— Eu só vim até aqui para combinar a ida da sua filha para a Inglaterra comigo, na segunda-feira. Já tenho um jantar de negócios marcado para esta noite.

— Entendo — Angela respondeu, zangada com a recusa dele.

— Por fim, não se prenda por nós.

— Sobre segunda-feira...

— Como deve ter percebido, sr. Earle — Edna interrompeu

— já tenho idade suficiente para ir sozinha para a Inglaterra, caso tenha vontade de ir. Mas a verdade é que não tenho, e não pretendo ir para lá nem na segunda, nem em qualquer outro dia. A Inglaterra nunca me atraiu — acrescentou, com insolência —, e agora me atrai menos que nunca. Ouvi dizer que uma pessoa pode morrer de frio lá, sem que ninguém tome conhecimento — terminou com ar provocante, esperando que ele percebesse o duplo significado de sua frase.

Os olhos frios e cinzentos percorreram-na da cabeça aos pés, novamente, com uma expressão impiedosa e especulativa.

— Acho que os invernos daqui podem ser até piores — Jason respondeu, com aspereza.

Edna levantou as sobrancelhas bem feitas.

— Era sobre as estações do ano que estávamos falando? Havia agora uma perigosa tensão em Jason, uma aura de raiva, que traía a zanga dominada a custo.

— Talvez não. — Ele deu uma olhada no relógio de pulso. — Mas agora não tenho tempo para tentar convencê-la de que teria muito a ganhar, visitando o seu avô.

A risada áspera de Edna ressoou pela sala.

— Se está falando de ganhos monetários, sr. Earle, pode esquecer o assunto. A última coisa que quero, de David Morton, é dinheiro.

— Talvez fosse melhor discutirmos isso amanhã. — O olhar dele era enregelante.

— Tem certeza de que vai ter tempo livre? O senhor parece estar tão ocupado...

O rosto de Jason endureceu.

— Não, eu não tenho tempo. Por isso, gostaria que se en­contrasse comigo no meu hotel, na hora do almoço, se não se importa.

Edna não queria vê-lo de novo em lugar nenhum, muito me­nos no isolamento de um quarto de hotel.

— Eu não...

— Eu não estava me referindo ao meu quarto — ele inter­rompeu, com ar de zombaria — só ao restaurante do hotel. Acho que nenhum de nós tem vontade de ficar a sós com o outro.

— Isso está completamente fora de cogitação, sr. Earle — Angela comentou. — Aqui em casa, nós sempre almoçamos jun­tos, no domingo. É o único costume inglês que eu me recuso a perder.

— Entendo — ele murmurou, pensativo. — Então, o que acha de jantarmos juntos? — perguntou, olhando diretamente para Edna.

O olhar dele a deixou nervosa, e Edna desejou que sua mãe o convidasse para almoçar com eles no dia seguinte. Mas sabia que isso era impossível, na presente circunstância.

— Eu... bem...

— Oito horas é um bom horário para você? — Jason inter­pretou a hesitação dela como uma resposta afirmativa.

— Eu... Bem, acho que sim.

— Ótimo. — Um ar de satisfação apareceu no rosto másculo. — Virei buscá-la aqui.

— Não seria mais fácil me encontrar com o senhor no hotel?

— Pode ser, mas eu prefiro vir buscá-la. As pessoas poderiam entender mal a situação.

Esse comentário trouxe um sorriso aos lábios de Edna, fa­zendo seus olhos dourados brilharem, cheios de malícia.

— Não quer, então, que a gerência do hotel pense que está recebendo... visitas de mocinhas — provocou.

— Isso mesmo — Jason reconheceu, com voz tensa.

— Está bem, sr. Earle. — O sorriso de Edna se aprofundou. Ele virou-se para os pais dela.

—Espero que não tenham objeções a que eu converse com sua filha. —Não...

— De jeito nenhum — Angela interrompeu o marido —, des­de que vocês conversem, apenas. Qualquer decisão sobre Ed­na ir ou não visitar David deve ser tomada pela família, em

conjunto.

— Entendo. Agora, se me dão licença...

Angela chamou a criada, para levá-lo até a porta, e só falou quando teve certeza de que não poderia ser ouvida.

— A coragem desse homem! — explodiu, finalmente. — Que... que sujeitinho desagradável!

Em silêncio, Drew estendeu-lhe uma bebida e esperou que ela tomasse um bom gole, antes de comentar:

— Ele não é do tipo que aceita ser contrariado. Na verdade, creio que é do tipo que usa e abusa das pessoas, sem se importar com as consequências. É um homem que gosta de estar em uma posição de comando... em todas as situações.

Os olhos azuis de Angela brilharam, zangados.

— Eu não lhe pedi que fizesse uma análise do caráter dele... de sua potência sexual.

— Mamãe! — Edna exclamou, chocada.

— Não era à parte sexual da vida dele que eu estava me referindo — Drew disse para a esposa —, e você sabe disso.

— É, eu sei — Angela admitiu, de má vontade. — Mas você não estaria muito errado, se bem me lembro de Isobel. Não que ela tivesse muita coisa a oferecer, nesse campo. Está bem, está bem... — murmurou, vendo a censura no rosto do marido e da filha. — Esqueçam o que eu disse. Mas acho que deu para vocês perceberem por que ele me aborreceu tanto, quando veio até

aqui, esta tarde,

— Se deu! — Edna confirmou. — O homem é horrível!

— E você, Drew? — Angela perguntou. — O que achou dele? Drew refletiu durante alguns momentos, antes de responder:

— Eu o achei... interessante.

— Interessante?! — Angela repetiu, com desprezo. — Que tipo de resposta é essa?

— Eu não gostaria de dar uma opinião a respeito dele. Apa­rentemente, ele é tudo o que você diz que é, mas por dentro... quem sabe? Jason Earle me lembra um iceberg, que tem escon­dido noventa por cento do volume debaixo da superfície.

— Quer dizer que toda aquela arrogância é só dez por cento dele? — Edna quis saber, horrorizada.

Drew riu da cara que ela fez.

— Talvez vinte — concedeu, de bom humor.

— Pois, então, não quero nem pensar no que devem ser os oitenta por cento restantes — exclamou, estremecendo. — Du­vido que alguém saiba como são. Jason Earle não me parece do tipo que deixa os outros saberem o que está pensando, quan­to mais conhecerem sua personalidade tão a fundo!

— É melhor pararmos de falar nesse homem — Angela pe­diu. — Ele já arruinou o meu almoço, hoje, e não pretendo deixar que faça o mesmo com o meu jantar.

Apesar das palavras da mãe, Edna percebeu um certo clima de tensão entre eles, enquanto jantavam. Tinha certeza de que todos estavam pensando na mesma coisa: no súbito desejo de seu avô de vê-la. Depois de tanto tempo, Edna já nem lembrava mais que tinha outros parentes no mundo, além de Drew e da mãe, e tinha até adotado o sobrenome do padrasto como seu. Sabia que o pai verdadeiro morrera num acidente de carro, quinze anos atrás, e que não deixara filhos de seu segundo casamento. Daí devia vir, como a mãe já tinha comentado, o interesse do avô por ela.

Na verdade, sentia uma certa curiosidade pelo lado inglês de sua família, uma leve necessidade de saber exatamente que tipo de homem seu avô era. Seu pai devia ter sido um homem fraco, para se deixar dominar com a facilidade que sua mãe contava. E David Morton, provavelmente, tão autoritário quan­to Jason Earle. Não era de admirar que os dois fossem amigos!

No entanto, durante dezoito anos, o avô nunca procurara saber dela, nem mesmo para verificar se estava viva ou morta. O fato de ele ter mudado de idéia agora, e mandado alguém ir buscá-la, na certa esperando que ela largasse tudo e obedecesse correndo ao seu chamado, parecia a Edna o cúmulo da arro­gância. Além disso, Isobel, a segunda esposa de seu pai, não continuava vivendo na mesma casa que ele?

De uma coisa Edna tinha certeza: a última pessoa que David Morton devia ter mandado, para convencê-la a ir para a Inglaterra, era Jason Earle. Tudo nele lhe parecia antipático. Mas ela já tinha dito que não iria, e não iria mesmo. Nada que ele dissesse poderia modificar sua decisão.

 

Edna estava esperando na varanda, quando Tim chegou para pegá-la, naquela noite, e foi com um sorriso nos lábios que se levantou para receber o beijo dele, Tim era dois anos mais velho do que ela, e já fazia dois meses que os dois estavam saindo juntos. Não era muito tempo, na verdade, mas era bem mais do que os namoros dela costumavam durar. Tinha o hábito de passar muitas horas na companhia do padrasto, e talvez por isso a maioria dos rapazes com quem saía lhe parecesse infantil, depois de alguns encontros. Além disso, eles estavam sempre tentando fazer com que ela entrasse num tipo de relacionamen­to mais íntimo, e acabavam desistindo de namorá-la quando descobriam que ela não tinha a menor intenção de dormir com

eles.

Tim era diferente: rico, seguro de si, e muito sofisticado para a idade dele. Edna gostava muito da companhia do rapaz, acha­va suas carícias leves bastante agradáveis e esperava que ele se sentisse do mesmo modo em relação a ela.

Rindo, Edna limpou a boca de Tim, manchada por seu batom

cor de pêssego.

— É preciso remover as provas do crime — brincou.

Tim era o sonho de qualquer garota: alto e atlético, com a pele bronzeada e os cabelos loiros, quase brancos de tão desbo­tados pelo sol, formando um lindo contraste com os olhos mais azuis que ela já vira. Ele sorriu em resposta à brincadeira de Edna, aquele sorriso maravilhoso, irresistível para as mulheres de todas as idades. Até mesmo a mãe dela sentia seu encanto, e aprovava o rapaz de coração!

Vagarosamente ele aproximou os lábios dos dela, de novo.

— Hum... —Tim murmurou, de encontro à boca entreaberta de Edna. — Eu não ligo a mínima, se alguém descobrir que

estive beijando você.

— Nem eu — ela respondeu, aconchegando-se mais a ele.

— Onde estão seus pais?

— Foram visitar os Merricks. — Sem pressa, Edna saiu dos

braços do namorado.

— Ei! — ele brincou, afastando uma mecha dos cabelos dou­rados dp rosto dela. — Eu não vou atacar você, só porque es­tamos sozinhos aqui.

— Eu sei que não — Edna sorria, enquanto vestia um blazer de lã branca por cima do macacão. Sabia que as carícias de Tim nunca iam muito além de um beijo apaixonado.

— Não sei se gosto dessa sua certeza de que eu nem mesmo

tentaria.

Ela olhou-o nos olhos, erguendo uma das sobrancelhas.

— Por acaso, você tentaria?

— Talvez, se não tivesse a certeza de que pelo menos três criados surgiriam correndo, depois do seu primeiro pedido de socorro.

Edna observou-o por um momento por entre as pálpebras semicerradas, antes de dizer vagarosamente: — Eu não vou pedir socorro.

— Não? — Os olhos azuis do rapaz assumiram uma expres­são interessada.

— Não. Eu vou sair daqui e entrar no seu carro. — Rindo, ela correu para a calçada.

Tim alcançou-a logo e abriu a porta do carro esporte para ela entrar, antes de se sentar no lugar do motorista.

— Você estava brincando comigo, não estava? — perguntou, antes de dar a partida.

Os olhos dourados tinham uma expressão desafiadora, quan­do Edna disse, com voz rouca:

— Será?

— Estava, sim. — Com um suspiro, Tim deu a partida. Examinando-o com atenção, ela notou uma certa tensão em

volta da boca do rapaz.

— Está zangado comigo?

— Não, Edna, não estou — ele respondeu, sorrindo com calor.

— Mas gostaria de que não brincasse desse jeito comigo. Um dia desses eu posso levar sua brincadeira a sério...

— Está querendo me dizer que...

— Estou! Eu sei que você é virgem, Edna, mas, eu não sou, e isso torna tudo mais difícil para mim. Não que eu me importe

— acrescentou rapidamente —, mas as suas brincadeiras tam­bém não ajudam em nada.

— Eu nunca pensei... — Ela olhou para ele com novos olhos, vendo-o não corno o companheiro despreocupado dos últimos dois meses, mas como o rapaz rico acostumado a frequentar a sociedade, que ele era. Com certeza havia muitas garotas que fariam qualquer coisa para conseguir se tornar a esposa de Tim Channing, o herdeiro de milhões de dólares. Era a primeira vez que Edna pensava nesse fato, que colocava Tim sob uma nova luz. E ela não tinha certeza de gostar disso.

— Você não pode ser tão inocente, Edna!

Ela corou e sentiu-se contente por estarem na penumbra, pois isso impedia que ele visse seu rubor.

— Eu não disse isso — explicou, com impaciência. — O que eu quis dizer foi que nunca pensei que... que...

— Que houvesse outras garotas no meu passado? Você ama­durece logo, quando frequenta a sociedade desde cedo.

Edna sabia que Tim era sofisticado para a idade dele, e ad­mirava a facilidade com que ele dominava tudo em seus encon­tros, mas nunca lhe passara pela cabeça que o relacionamento de Tim com outras garotas não fosse tão inocente quanto com ela. Sem saber por quê, sentiu-se amedrontada por esse novo conhecimento, que despertou sua timidez.

Será que os amigos de ambos achavam que o relacionamento entre eles era mais íntimo do que era na realidade? Esse pen­samento fez com que ela corasse de novo. Não conseguiria su­portar que os outros pensassem isso dela, por mais errados que

estivessem.

O rapaz lançou-lhe um olhar penetrante.

— Ei, você está bem?

— Estou ótima! — Edna mentiu, sorrindo nervosamente. Com uma das mãos, Tim cobriu as dela, que mexiam sem

parar no fecho da bolsa de noite.

— Você ficou chocada com o que eu disse, não ficou? Jogando a cabeça para trás num gesto despreocupado, Edna

tentou rir.

— Não seja tolo, Tim. Eu não sou uma criança, que desco­nhece os fatos da vida.

— Não, mas por mais sofisticada que seja a sua aparência, no fundo você ainda é muito ingénua. Desculpe, eu não queria aborrecê-la.

— Eu não estou aborrecida.

— Chocada, então.

— Também não — mentiu. — Pelo amor de Deus, Tim, este é o século vinte, e você já está bastante crescidinho para saber o que quer fazer, e com quem.

— É, mas...

— Vamos mudar de assunto — disse asperamente, sem sa­ber, na verdade, se estava ou não chocada com o que ficara sabendo. A maioria de suas amigas tinha relações sexuais com os namorados, e não havia razão para Tim ser diferente dos outros rapazes, principalmente com o número de garotas que já devia ter se oferecido a ele. Ela estava sendo tola e infantil e, apesar de saber disso, não conseguia reagir de outro modo. — Aonde vamos, esta noite? — acabou perguntando, para mu­dar de assunto.

— Ao Delanie. Claire vai se encontrar conosco lá, mais tarde. Ela foi jantar em outro lugar, com um amigo.

Claire era a irmã mais velha de Tim, uma mulher de car­reira, que tinha abandonado qualquer idéia de casamento para dedicar-se exclusivamente ao trabalho de editar uma famosa revista feminina, Edna sabia que ela tinha pouco tempo para os homens, e ficou surpresa com o comentário de Tim. Não que Claire não fosse bonita, ela era, e muito, mas sua inteligência e ambição geralmente afastavam os representantes do sexo oposto. Além disso, poucos homens gostam de sair com uma mulher que ganha mais dinheiro do que eles.

— Eu não sabia que Claire tinha um namorado.

— E não tem. Esse sujeito é um velho amigo dela, e, todas as vezes em que ele aparece na cidade, minha irmã cancela todos os compromissos que já tinha para sair com ele.

O tal sujeito devia ser um homem e tanto, para afetar a dura e confiante Claire, a ponto de fazê-la esquecer o trabalho. Edna sentiu-se muito curiosa.

— Eu conheço esse amigo da sua irmã?

— Não creio. Já faz mais de seis meses que ele esteve aqui. Mas não se preocupe, você vai gostar dele. Quase todas as mu­lheres gostam. Mas não vá gostar demais, hein? E não se deixe abalar pelo charme dele.

— Por quê? É provável que isso aconteça?

— É, sim.

Edna notou que estava começando a relaxar, que a tensão estava deixando seu corpo. Ela riu, aliviada, já mais segura de si.

— Será que eu poderia fazer você sentir ciúme de mim, Tim?

— Com a maior facilidade. Se bem que eu não recomendo isso, esta noite. Claire é capaz de matar você, se tentar afastá-la desse amigo dela.

— Ela gosta tanto assim dele?

— Se gosta! Ela seria capaz de casar amanhã mesmo com esse sujeito, se ele lhe pedisse.

— E ele vai pedir? — Edna estava admirada com o fato de existir alguém no mundo que significasse mais do que a carreira de editora, para Claire.

— Nem em um milhão de anos — Tim respondeu, com uma honestidade brutal.

— E Claire sabe disso?

— Claro que sim. Mas tratando-se desse sujeito, ela não tem o mínimo orgulho, e aceita qualquer migalha que ele queira lhe dar.

— Você está querendo me dizer...

Tim riu baixinho, ao ver a cara de Edna.

— Pobre querida, esta é a noite dos choques para você, não é? Estou querendo dizer que eles são amantes, sim.

— E faz seis meses que não se vêem? — Ela estava pasmada.

— Faz, mas se fossem seis anos, não faria a menor diferença. Ela iria correndo, assim que ele estalasse os dedos.

Edna mal acreditava. Claire, a mulher que manejava os ho­mens com frieza e altivez...

— Você não se importa com isso?

— Por que eu deveria me importar? Claire é uma mulher adulta, capaz de tomar suas próprias decisões.

— Eu sei, mas...

— Eu não sou o tutor dela, Edna. Se minha irmã quer fazer papel de tola cada vez que esse sujeito aparece na cidade, é problema dela. E Claire não me agradeceria se eu interferisse.

Edna bem podia imaginar que não!

— Talvez não, mas...

— Espere só até você ver os dois juntos, Edna. Claire muda na companhia dele! Ninguém pode lutar contra isso.

— Você admira esse homem, não? — Edna perguntou, no­tando que havia um certo respeito na voz de Tim, quando ele falava sobre o outro.

— Admiro, sim. — O rapaz estacionou o carro e virou-se para encará-la. — Está muito horrorizada com o que ficou sa­bendo sobre a família Channing?

Edna estava um pouco menos segura de seus sentimentos por ele, mas não ia admitir isso. Não queria demonstrar ainda mais quanto era ingênua. Por isso, respondeu, sorrindo aber­tamente:

— Não, claro que não.

Tim acariciou o rostinho corado com um de seus dedos bron­zeados.

— Fico contente com isso, porque gosto muito de você, Edna. Mais do que já gostei de qualquer outra garota, e não quero assustá-la.

— Eu não me assusto com tanta facilidade — ela replicou, mentindo novamente. — Agora, o que acha de entrarmos?

Tim saiu do carro e ajudou-a a descer, beijando-a depois, de leve, na ponta do nariz.

— Não vá embora — ordenou com voz rouca, enquanto se virava para trancar a porta. — Eu gostaria que Claire não viesse se encontrar conosco aqui — ele disse, passando um bra­ço pelos ombros dela.

— Seria mais gostoso se fôssemos para um lugar onde pu­déssemos ficar a sós.

— Para quê? — Os olhos dourados tinham uma expressão desconfiada.

— Ora, vamos, Edna — Tim censurou, com delicadeza. — Eu já lhe dei motivos para queixa, alguma vez?  

— Não.

— E nem vou dar, agora. Eu respeito e gosto muito de você, para isso.

— Obrigada, — Timidamente, ela sorriu para ele.

— Agora, esqueça a conversa que tivemos no carro. Lembre-se apenas de que eu sou um bom rapaz.

E foi disso que Edna tentou se lembrar, durante a hora seguinte, enquanto fazia de tudo para recapturar a atmosfera amigável que havia antes, entre eles. Alguma coisa tinha mu­dado e ela não conseguia superar uma certa insegurança em relação a Tim. No entanto, o fato de ele ter admitido que era dono de uma certa experiência sexual não devia tê-la deixado daquele modo. Ela já tinha saído com outros rapazes, tão ex­perientes quanto ele.

Mas é que estava se apegando muito a Tim e não gostava de pensar que ele já tivera um relacionamento íntimo com ou­tras garotas. Só com muito esforço conseguiu responder e rir das brincadeiras que ele fazia, e foi com alívio que o ouviu dizer que a irmã e o amigo tinham chegado.

— Tente não mostrar quanto você desaprova o relaciona­mento deles — o rapaz cochichou no ouvido dela, antes de se levantar.

— Eu não faria uma coisa dessas! — Edna protestou, in­dignada.

— Eu sei que não — Tim murmurou, sorrindo.

Edna correspondeu ao sorriso, antes de se virar para olhar o par que se aproximava. O que viu deixou-a boquiaberta. Abrin­do caminho na direção deles, estava a irmã de Tim, Claire, maravilhosa como sempre, com os longos cabelos loiros casca-teando pelas costas, o corpo bem-feito realçado por um vestido vermelho-escuro, e o rosto bonito iluminado de prazer. Ao lado dela, com um ar arrogante e seguro de si, vinha Jason Earle! E pela cara que ele fez, quando reconheceu Edna, estava tão perplexo com a situação quanto ela.

 

Edna olhava para Jason Earle, boquiaberta! Não porque ele tivesse mentido, quando disse que tinha um jantar de negócios, mas por causa do que Tim contara sobre a irmã e aquele homem. Se era tudo verdade, e ela não tinha razões para duvidar dele, o fato de Jason Earle ser o par constante de Isabel Morton não o impedia de sair com outras mulheres!

— Que bom ver você de novo, Jason. — O prazer de Tim, em se encontrar com o outro homem era óbvio.

— Corno vai, Tim? — Jason Earle cumprimentou, cordial.

— Quero que você conheça Edna — Tim disse, com orgulho. — Edna, este é Jason Earle. Jason, minha namorada, Edna Shaw.

— É um prazer, srta. Shaw. — O tom de Jason era formal, embora houvesse um brilho caçoísta em seus frios olhos cin­zentos.

— O prazer é todo meu, sr. Earle — Edna replicou, no mesmo tom.

Claire sentou-se na cadeira que Jason puxou para ela, di­zendo, bem-humorada:

—- Vocês dois vão ter que parar com essa história de "senhor" e "senhorita". Edna e Jason fica muito melhor e é mais amigável.

Edna sabia disso, mas a última coisa que queria era ser amigável com Jason Earle. Como é que ele podia aparecer ali com Claire quando, de acordo com sua mãe, estava a ponto de casar com Isobel Morton? Será que não se importava com o fato de a noiva poder ficar sabendo de sua escapada? Provavelmente, não. Devia estar tão certo dos sentimentos de Isobel, quanto dos de Claire.

Jason sentou-se entre Claire e Edna e logo assumiu o con­trole da situação, pedindo bebidas para todos. Depois, virou-se para Claire, dizendo:

— A srta. Shaw e eu não somos amigos, e não vou poder tratá-la pelo primeiro nome, a não ser que ela me autorize.

— Jason, pelo amor de Deus — Claire pediu, rindo —, es­queça essas suas maneiras cerimoniosas de inglês, enquanto estiver aqui.

— Pode ser que a srta. Shaw prefira que eu continue a ser cerimonioso com ela — ele falava, olhando para Edna, que teve a impressão de que seus pensamentos estavam sendo lidos por aqueles olhos frios.

— Edna não se importa. Não é, querida? — Tim interferiu. Nos olhos dela surgiu um brilho hostil. Pela velada expressão

de zombaria de Jason Earle, percebeu que ele havia descoberto sua intenção e manejado tudo para colocá-la naquela situação. Apertando os lábios, afastou os olhos dos dele.

— Não, eu não me importo — disse finalmente. — Por que deveria?

— Obrigado... Edna! — Jason inclinou a cabeça, num gesto caçoísta.

— De nada... Jason — ela correspondeu, com um sorriso forçado, mas nem por isso menos brilhante.

— Ótimo, então. — Claire acomodou-se melhor na cadeira, entrelaçando a mão na mão de Jason. — Nós tivemos um jantar delicioso, agora há pouco. Não foi, querido?

— É... foi agradável.

— Mas o melhor, mesmo, foi a companhia — Claire acres­centou, rindo.

— Você me lisonjeia, querida.

Edna olhou para o outro lado, enojada pela adoração que Claire não fazia nada para esconder. Talvez não fosse tão ruim, se Claire não passasse de uma cabeça oca, mas era absurdo uma mulher como ela estar tão louca por um homem como Ja­son Earle. E Jason aceitava tudo, como se tivesse direito àquela adoração!

O desprezo que Edna sentia por ele foi aumentando, à medida que a noite progredia. Várias vezes teve que se conter, para não ser abertamente rude com ele. E foi um alívio quando Tim a tirou para dançar.

Mas Jason Earle levantou-se também, junto com eles.

— Você se importaria se eu dançasse esta música com Edna? — perguntou, dirigindo-se a Tim.

Surpreso, Tim lançou um rápido olhar para a irmã, antes de responder:

— Não. Você se importa, Edna?

Ela respirou fundo, aborrecida com a expressão de desafio nos olhos de Jason Earle.

— Não — acabou dizendo, com frieza.

Em silêncio, Jason a levou até a pista de dança, tomando-a nos braços e começando a se mover suavemente, ao ritmo da música. O topo de sua cabeça batia no queixo dele, e o cheiro de loção, misturado com o odor agradável do corpo másculo, chegou às suas narinas.

A música que estavam dançando era suave e romântica, e Edna teve que se dominar para não relaxar de encontro ao corpo rijo daquele homem, para resistir à tentação de ceder aos braços que lhe envolviam a cintura. Estava surpresa pelo fato de ele se limitar a dançar tão formalmente, contentando-se em segurá-la à distância.

A tensão entre os dois era inegável. Sem conseguir suportar aquela situação por mais tempo, ela disse com sarcasmo, jogan­do a cabeça para trás:

— Afinal, o seu jantar de negócios acabou sendo mais agra­dável do que você esperava.

— Eu sempre gostei de jantar com Claire — Jason replicou suavemente, sem fugir do olhar dela.

— Tim me disse, mesmo.

Ele sorriu, então, um sorriso tão natural, que fez Edna pren­der a respiração. Aquele homem era mesmo atraente, e talvez a adoração de Claire não fosse tão absurda assim.

— Você não tinha necessidade de mentir, dizendo que ia a um jantar de negócios — continuou, desviando o olhar da boca sorridente, decidida a não ser afetada pelo charme que ele era capaz de mostrar com tanta facilidade, quando queria. — Nós não queríamos mesmo que você ficasse para jantar conosco.

Jason riu baixinho e aconselhou, com suavidade:

— Pode recolher as garras, garota. Meu jantar com Claire foi exatamente o que eu disse que seria: um jantar de negócios.

— Não diga!

— Foi, sim. Claire trabalha para mim. — Para você?!

— Eu sou dono da revista que ela dirige.

— Ah! — Ela não conseguiu disfarçar a surpresa que a in­formação lhe causou. — Entendo. Mas será que Isobel Morton também encararia esse... jantar, do mesmo modo? — perguntou com meiguice.

Jason apertou os lábios.

— O que está querendo dizer com isso?

— Tenho certeza de que não preciso lhe explicar, sr. Earle.

— Ao contrário, precisa, sim.

— Todo mundo sabe que você vai casar com a viúva do meu

pai.

— É mesmo? — A voz dele tinha um tom extremamente suave.

— É. Você acha que ela aprovaria as suas saídas com Claire?

— Por acaso você pretende contar a ela?

— Eu?! — Mais uma vez, Edna não conseguia disfarçar a surpresa. — E por que eu deveria? Não a conheço, e não gosto dela. Ela e meu avó acabaram com o casamento de meus pais. Além do mais, não tenho nada a ver com isso.

— Concordo plenamente — Jason disse sério apertando com força a cintura de Edna e puxando-a para mais junto de seu corpo rijo e forte. — Você não tem nada a ver com a minha vida privada.

— Mas você pretende mesmo casar com Isobel Morton? — Ela gostaria que ele a deixasse voltar para a mesa. Os músicos já haviam tocado duas seleções, desde que eles tinham ido para a pista de dança, e dava para ver que Tim estava começando a ficar ansioso. Quanto a Claire...

— Talvez.

— E Claire sabe disso?

— Por acaso, você está me ameaçando? — As sobrancelhas escuras ergueram-se.

Edna arregalou os olhos de expressão inocente.

— Ameaçando você? Não faço a menor idéia do que está falando, sr. Earle.

— Eu acho que faz, sim, Edna. — A voz máscula tinha um tom gelado. — E eu não reajo bem a ameaças.

O riso de Edna não soou tão confiante quanto ela gostaria.

— Acho que me entendeu mal, sr. Earle. Eu só estava querendo saber se Claire tem conhecimento do seu casamento próximo.

— Eu sei muito bem o que você estava querendo saber — Jason respondeu, com aspereza. — E apesar de eu estar saindo com Isobel há bastante tempo, e todos saberem disso, não fize­mos nenhum plano de casamento — acrescentou, com zombaria. — Mas, diga-me, por que você não contou a Tim e Claire que já nos conhecíamos?

— Por que você não contou?

— Resolvi fazer o seu jogo. Você me deu a impressão de não querer que eles soubessem.

— Achei que não havia necessidade, já que não tenho inten­ção de ir ver meu avô. Mas não se preocupe, sr. Earle. Não vou contar a Claire sobre sua outra... amiga.

— Claire sabe sobre Isobel — ele replicou, com frieza. — Eu nunca lhe fiz nenhuma promessa, no que se refere ao nosso relacionamento.

— Não creio que haja necessidade disso. A coitada adora você. É de dar náuseas, só de ver.

— Então, não olhe.

— É um pouco difícil. — Edna livrou-se dos braços dele. — Podemos voltar para a mesa, sr. Earle, agora que já se certi­ficou de que não pretendo tornar as coisas desagradáveis para o senhor?

— Pode tornar as coisas tão desagradáveis quanto quiser, Edna. Pelo menos, pode tentar. Não acredito que consiga abor­recer Claire, com o que tem para contar. Mas é melhor, mesmo, voltarmos para a mesa. Já nos dissemos tudo o que queríamos... por enquanto. — Isso quer dizer que não preciso jantar com você, amanhã?

Jason apertou os lábios, zangado.

— Do modo como fala, até parece que eu a forcei a aceitar o meu convite!

— E não forçou, por acaso?

— Não creio. E acho que você está enganada sobre uma coisa, no que se refere a essa sua visita ao seu avô: falando franca­mente, eu não ligo a mínima se você for ou não. Prometi a ele que iria procurá-la e lhe pediria para ir vê-lo. E isso, eu já fiz.

— Quer dizer que acha que já cumpriu a ordem que meu avô lhe deu?

— Seu avô não me deu ordem nenhuma. Eu precisava vir para Nova York, a negócios, e...

— E decidiu prestar um favor a ele.

— Isso mesmo. — Jason segurou-a pelo braço e quase a ar­rastou de volta para a mesa.

— Pensei que vocês dois não fossem voltar mais. — Incli­nando-se, Tim beijou Edna na ponta do nariz, quando ela se sentou ao lado dele.

Ignorando a zombaria claramente visível nos olhos cinzentos, que a observavam, Edna disse com rudeza, atacando o homem que era capaz de enervá-la com um simples olhar:

— O sr. Earle achou melhor se livrar, de uma vez por todas, de seu dever de dançar comigo.

— Mas... — Tim estava surpreso com a explosão dela.

— Estou só brincando, Tim. — Edna riu. vendo a expressão do namorado. — O sr. Earle e eu começamos a conversar, e não vimos o tempo passar.

— É. — Jason acomodou-se melhor na cadeira, passando um braço pelos ombros de Claire. — Descobrimos que Edna é neta de David.

— Então, ela é... — Claire começou.

— Filha do primeiro casamento de Graham Morton — Jason completou.

— Entendo — Claire disse, num murmúrio.

Edna não imaginava que Jason Earle pudesse admitir, com tanta franqueza, que já se conheciam. Notou que Claire sabia perfeitamente quem era David Morton e, consequentemente, Isobel Morton. Mas Tim parecia um pouco confuso com a conversa.

— Eu não estou entendendo — ele disse. — Vocês dois já se conheciam, antes de hoje?

— Antes de hoje, não — Jason respondeu.

— É estranho que vocês só tenham se conhecido por nosso intermédio — Claire comentou, olhando o irmão.

— Mas nós não nos conhecemos através de vocês. — Mais uma vez, Jason respondeu pelos dois. — Eu estive com Edna e os pais dela, um pouco antes de sair para jantar com você.

— E por que não nos disseram isso, quando Tim os apre­sentou?

Os olhos azuis de Claire examinaram os dois, com atenção.

— Não havia motivo. — Jason deu de ombros, num gesto de pouco caso.

Tim ainda estava confuso.

— Não estou entendendo nada. Pensei que Drew fosse seu pai, Edna.

— Ele é meu padrasto. E não faça essa cara, Tim. Divórcios e novos casamentos são bastante comuns, hoje em dia.

— Mas eu... Eu não sabia. Sempre pensei que Drew...

— Ele é o único pai que tive, ou quis ter — Edna falou, com firmeza. — E você não sabia, porque eu não tenho o hábito de sair por aí anunciando que meu pai verdadeiro era um homem fraco, dominado pelo meu avô, e que ele...

— Já chega, Edna — Jason interrompeu. — Não é preciso entrar em detalhes sobre o fim do casamento de seus pais.

— Claro que não. Porque, se eu entrasse, a verdade sobre a sua preciosa Isabel iria aparecer...

— Acho que já encerramos o assunto do meu relacionamento com Isobel — ele avisou, com voz dura.

— Bem. — Tim falou, quebrando o desagradável silêncio — não há dúvida de que isso é uma...

— Surpresa? — Edna terminou, com meiguice. — Pois é, o sr. Earle e eu ficamos realmente abalados com a surpresa que tivemos. A última pessoa que eu esperava ver aqui, esta noite, era ele.

— Vamos dançar, Jason? — Claire sugeriu.

Edna estudou o copo que tinha nas mãos, até o outro par se afastar. A última coisa que queria era discutir com Jason Earle na frente dos Channings, mas ele a colocara numa posição difícil ao falar de seu avô, obrigando-a a explicações que não desejava dar, nem para Tim, nem para nenhum outro.

— Por que você não me disse que já conhecia Jason? Eu me senti um tolo, quando ele contou — Tim falou, furioso.

— Fiquei sem jeito, depois de tudo o que você me falou sobre ele e Claire.

— Sei. Desculpe. — Ele estendeu a mão e segurou a dela.

— Eu, não tinha idéia de que ele era aparentado com você.

— E não é — Edna corrigiu, com voz áspera. — Isabel não é minha parente. E eu mal conheço Jason Earle. A visita que ele nos fez, hoje, foi ultra-rápida.

— Mas todo mundo conhece Jason Earle.

— Todo mundo já ouviu falar nele. E diferente — ela corrigiu.

— Não podemos ir embora agora, Tim? Estou com dor de cabeça

— mentiu. — Além disso, não estou me divertindo nada. Não, com ele aqui!

— Você devia ter-me explicado tudo antes. Eu teria enten­dido e tirado você daqui.

— Não podemos ir agora?

— Assim que eles voltarem, nós vamos.

— Eles provavelmente vão se sentir aliviados com a nossa ida.

Edna sorriu, mas o sorriso desapareceu imediatamente de seus lábios quando ela ergueu a cabeça e deu com os olhos zombeteiros de Jason fixos nela. Durante alguns segundos sus­tentou o olhar dele, mas no fim não aguentou e olhou para o outro lado. Havia alguma coisa em Jason Earle que despertava o que havia de pior em si mesma.

— Espero que vocês não se importem, se formos embora ago­ra. — Tim disse com um sorriso. — Edna está com dor de ca­beça.

— Verdade? — Era evidente que Jason Earle não estava acreditando. — Então, talvez fosse melhor irmos todos juntos.

— De jeito nenhum — Edna protestou. — Não quero estragar a noite de vocês.

— Vamos ficar, Jason — Claire pediu, pousando a mão de leve sobre a coxa dele, quando Jason se sentou ao lado dela. — Nós só temos esta noite, para nós. Você não devia ter combinado um jantar de negócios, para amanhã. Afinal, ninguém trabalha aos domingos.

Na mesma hora. Edna olhou para Jason. Então, ele havia dito a Claire que tinha um jantar de negócios para a noite seguinte, hein? Mas que ótima chance para uma desforra! E, pela cara do sem-vergonha, era exatamente isso que ele espe­rava que ela fizesse. Pois bem, não lhe daria esse gostinho!

— Pelo que entendi, não vai ficar muito tempo aqui, não é, sr. Earle? — perguntou, com delicadeza.

— Vou embora segunda de manhã. Até lá, já devo ter resol­vido todos os negócios que me trouxeram até aqui.

— E a América não tem outros... atrativos, para o senhor?

— Talvez...

Claire sorriu para ele.

— Eu, por exemplo. Não é, querido? — ela ronronou, voltan­do depois os frios olhos azuis para Edna. — Tenho certeza de que a sra. Morton entende o fato de eu tomar Jason emprestado, de vez em quando.

— É mesmo? — Edna replicou com suavidade.

— É, sim. E eu teria a mesma atitude, no lugar dela.

— Acredito que sim. — Edna não estava gostando de discutir com Claire. As duas não tinham nada em comum, mas geral­mente eram educadas, uma com a outra. Jason Earle é que era o culpado do que estava acontecendo.

— Vamos, meu bem? — Tim segurou o braço dela, de leve.

— Vamos. Boa noite, Claire. Boa noite, sr. Earle.

— Até amanhã, Edna — Jason Earle respondeu.

— Boa noite — ela repetiu apressadamente, agarrando o braço de Tim e puxando-o para fora do salão. Mas Tim resistiu. — O que foi que ele quis dizer com esse comentário?

— Espere até estarmos fora daqui, Tim — Edna pediu.

O rapaz concordou com uma certa relutância, mas era fácil ver que estava aborrecido. Edna não podia culpá-lo por isso, pois também estava zangada. Jason Earle tinha gostado de fa­zer aquele último comentário, e ela ia jantar com ele no dia seguinte nem que fosse só para lhe dizer umas verdades!

— Então, o que foi que Jason quis dizer com aquilo? — Tim insistiu, quando os dois já estavam no carro dele.

— Nós vamos jantar juntos, amanhã.

— Mas por quê? Por acaso você também está se encontrando com ele?

— Claro que não! Pensei que tivesse ficado evidente que eu não suporto esse sujeito. Ele quer falar comigo sobre o meu avô, quer tentar me convencer a ir visitá-lo, na Inglaterra.

— Sei. Eu ainda não me conscientizei de que Drew não é seu pai.

Edna apertou os olhos, zangada.

— Pelo que me diz respeito, ele é, sim. Graham Morton de­sistiu de qualquer direito sobre mim quando se divorciou de minha mãe e casou com Isobel. E posso lhe garantir que ele não fez o menor esforço para me ver, depois que casou de novo.

— Talvez ele tenha achado que você estaria melhor com a sua mãe.

— Pode ser, e ele estava certo, mas isso não queria dizer que não pudesse mais me ver. E não me lembro de ter recebido uma única visita dele, ou do meu avô, depois que mamãe e eu viemos para Nova York.

— Mas, com certeza...

— Não há desculpa para o que ele fez, Tim. E eu desprezo meu avô ainda mais, pelo modo como ele manipulou meu pai!

— E Jason quer convencê-la a mudar de idéia sobre ir vi­sitá-lo?

— Ele vai tentar — Edna respondeu, dando de ombros. — Disse que está fazendo isso como um favor a meu avó.

Tim deu partida no carro e saiu do estacionamento.

— Você tem que admitir que, de certo modo, a noite foi muito divertida! — falou finalmente, rindo gostoso.

— Fico contente por você pensar assim. — Edna tentou pa­recer zangada, mas o lado engraçado da situação atingiu-a tam­bém. — Se você visse a cara de Jason, quando ele descobriu que eu era a sua namorada! Se bem que, devo reconhecer, ele se recuperou logo.

— Deve ter-se recuperado, mesmo. Eu não percebi nada.

— Com um homem como ele, seria impossível, mesmo — ela respondeu, séria de novo.

— Por que você não gosta de Jason? E porque ele vai casar com Isobel Morton?

— Se Isobel é como eu penso que é, os dois se merecem — Edna respondeu, com aspereza. — Mas eu não gosto dele porque é arrogante, egoísta e se acha superior em tudo. Jason Earle tem tudo o que eu desprezo num homem. O fato de ele manter um relacionamento íntimo com a sua irmã, enquanto planeja casar com outra mulher, mostra claramente o tipo de pessoa que é. Desculpe, Tim, mas eu simplesmente não gosto dele. Jason é muito seguro de si e das reações dos outros, em relação a ele.

— Inclusive das suas?

— A minha hostilidade não o aborrece. Na verdade, acho que até se diverte com isso. Ele gosta é de me atormentar.

— Ele gosta de atormentar você? — Tim repetiu, num tom de voz cortante.

— Bem, ele gosta de me provocar, pelo menos. Mas vamos mudar de assunto, Tim. Falar nesse homem me deprime.

— Como está a sua dor de cabeça?

— Acabou — ela respondeu, corando.

— Você estava mesmo com dor de cabeça?

— Não.

— Foi o que pensei.

— Jason e Claire também não devem ter acreditado na mi­nha desculpa, mas se eu ficasse lá mais um minuto, acho que teria agredido fisicamente aquele homem. Mas que importância tem isso? Eles também queriam ficar sozinhos, como nós.

Tim sorriu.

— Para mim, não tem a menor importância. E se não vou ver você amanhã, tenho que aproveitar esta noite ao máximo.

— Eu não quero ir jantar com ele. Não vejo sentido nisso. Já tomei minha decisão.

— Não vai lhe fazer mal nenhum ouvir o que Jason tem para

lhe dizer.

— É, acho que não. E, de qualquer jeito, vou conseguir que ele me pague um bom jantar.

Tim parou o carro na frente da casa dos pais de Edna e os dois entraram para tomar um café, como costumavam fazer. Ela estava colocando o bule e as xícaras em uma bandeja, quan­do Tim entrou na cozinha, atrás dela.

— Por que você está sorrindo? — Edna perguntou, observan­do o sorriso que acabava de aparecer nos lábios do namorado.

Ele se recostou na geladeira, cruzando os braços sobre o peito.

— Adoro ver uma mulher trabalhando na cozinha.

— Machista! — Ela levou a bandeja para a sala de estar e sentou-se para servir o café.

— Não sou, não! — Tim pegou a xícara que lhe era oferecida. —Mas a visão de uma mulher na cozinha é reconfortante! Lá em casa, nunca tenho a oportunidade de ver uma cena dessas.

Edna acomodou-se melhor na poltrona, sentando-se sobre as pernas.

— Mas sua mãe e sua irmã não precisam mesmo ir para a cozinha. Vocês têm mais criados que pessoas da família, na sua casa.

Apesar dos Shaws estarem longe de ser pobres, Edna ficou impressionada com o aparato que havia na casa de Tim, quando foi conhecer os pais dele. Apesar de ter sido muito bem recebida, ela se sentiu meio perdida, no meio de tanta riqueza.

A casa dos Channings era maravilhosa e ficava bem no cen­tro de um parque belíssimo, rodeado por uma cerca eletrificada, para afastar os intrusos. A mãe de Tim pertencia a uma família tradicional do sul dos Estados Unidos, e combinava às mil ma­ravilhas com aquele ambiente luxuoso. O vestido de seda que ela usava, na ocasião da visita, fizera Edna se sentir mal dentro de sua camiseta e calça despretensiosas. Se bem que a sra. Channing não deu a menor demonstração de não estar gostando da aparência da namorada do filho.

Mas, no fim das contas, analisando-se tudo, a visita tinha sido um sucesso no que se referia a Edna. Só que ela nunca mais teve coragem de repetir a experiência, por mais que Tim insistisse, tinha sempre uma desculpa na ponta da língua, quan­do ele sugeria isso.

Aproximando-se, Tim se acomodou ao lado de Edna, na larga poltrona.

— Mas eu não vim aqui para falar da minha família — ele disse, acariciando com os lábios a garganta dela. — O que você responderia, se eu lhe pedisse para se casar comigo, Edna?

— Ca-casar com você? — Edna afastou-se um pouco dele.

— É. Quer casar comigo? — Tim parecia ansioso.

— Eu... eu, bem... eu não sei! — Ela riu, nervosa. Como gostaria que ele não tivesse feito essa pergunta!

— Eu amo você e quero que case comigo — ele disse, com simplicidade. — O que você sente por mim?

Edna gostaria de saber. E era exatamente por isso que teria preferido que Tim não a tivesse pedido em casamento. Não ti­nha certeza de nada, no que se referia aos sentimentos que nutria por ele.

— Eu gosto de você — começou vagarosamente. — Gosto muito...

— O bastante para casar comigo?

— Eu... eu não tenho certeza. Tim se levantou.

— Então, como é que você gosta de mim?

— Eu gosto muito de você, mas casamento... Bem, ainda há muitas coisas que quero fazer, antes de casar. Quero viajar...

— Podemos viajar juntos.

— Não é desse tipo de viagem que estou falando. Eu quero ficar dois anos fora, vivendo do que conseguir ganhar, por aí.

— Você nunca me falou disso, antes.

— Não tive oportunidade. Nunca tocamos nesse assunto.

— E os seus pais? O que eles acham dessa idéia?

— Eles são de opinião que viajar é muito bom. Melhora a mentalidade da gente.

— E quando você pretende partir? — Tim estava zangado. Era fácil ver isso.

— Ainda não decidi.

— Então, decididamente, o casamento não faz parte dos seus planos?

— Por enquanto, não. Eu não sabia que você estava pensan­do em casamento, Tim — ela acrescentou, num tom de voz quase implorante.

Tim riu, sem a menor alegria.

— Pode acreditar em uma coisa, Edna: se eu não estivesse pensando em casamento, nós já teríamos terminado há muito tempo.

— Por quê? — ela perguntou, consciente de que estavam tendo a primeira briga. E tudo tinha começado com uma pro­posta de casamento!

— Porque os relacionamentos do tipo "mantenha distância" não fazem o meu gênero — ele respondeu, com aspereza.

— Entendo. — Edna também estava zangada, agora. — Pois então, não se detenha por minha causa. Eu nem pensaria em impedi-lo de procurar alguém que pense do mesmo modo que você, em relação a sexo!

Edna virou-lhe as costas, mas Tim agarrou-a pelos ombros e fez com que o encarasse novamente.

— Ei, espere aí, Edna. Não foi isso o que eu quis dizer, e você sabe. Eu só estava tentando lhe mostrar que você é espe­cial, para mim.

A tensão deixou o seu corpo rígido.

— Eu sei — murmurou. — E desculpe. Eu estou cansada, e o seu pedido foi uma surpresa e tanto! Preciso de um pouco de tempo, para pensar a respeito.

— Quanto tempo? — Tim quis saber, a voz áspera de novo. — Não sei. Isso não é uma coisa que a gente decide de um

dia para o outro.

— A maior parte das pessoas não precisa pensar, para de­cidir. — Ele estava zangado, novamente.

— É, mas eu preciso. E se só com isso você fica de mau humor, não quero nem pensar em qual pode ser a soa reação, se eu lhe disser que não quero casar com você!

Tim afastou-se para pegar o paletó, que ele havia tirado e jogado sobre uma poltrona.

— Se eu fosse você, começaria a minha viagem agora mesmo. Por que não vai para Londres com Jason, visitar o seu avô? E depois me escreva, contando o que acha de estar sozinha num país estranho, onde não conhece ninguém. E não pense que ainda vou estar esperando por você, quando resolver voltar!

— Isso nem me passaria pela cabeça! — Os olhos dela bri­lhavam de raiva.

— É bom mesmo, porque eu não vou estar! — ele berrou antes de sair, batendo a porta.

Edna não conseguia acreditar no que acabara de acontecer! Tim sempre lhe parecera tão bem-educado, de tão bom gênio! Era óbvio que ele não tinha gostado de sua indecisão, que saíra dali completamente furioso!

Levantou a cabeça quando a porta se abriu novamente, e forçou um sorriso quando viu os pais entrando. Por um momen­to, tinha pensado que era Tim, voltando.

— Tiveram uma noite agradável? — perguntou.

— Muito! — a mãe respondeu. — Tim estava saindo, quando chegamos. E ele me deu a impressão de estar um pouco fora do normal. Aconteceu alguma coisa?

Edna suspirou, resignada. Era melhor dizer tudo, de uma vez. Angela não sossegaria enquanto não ficasse sabendo de tudo, nos mínimos detalhes.

— Eu recusei o pedido de casamento que ele me fez, e ele não gostou.

— Você recusou Tim? Ficou louca, menina?

— Eu não amo Tim, mamãe. Angela soltou uma risada áspera.

— E o que o amor tem a ver com isso?

— Muito. Pelo menos, foi o que eu sempre pensei.

— Pois então, você é uma tola! Aquele rapaz é tão rico, que você nunca mais teria que se preocupar com dinheiro na sua vida!

— Eu não me preocupo com dinheiro, agora.

— Só porque Drew e eu nunca permitimos que nada lhe faltasse. Mas, acredite em mim, eu sei o que é ter que contar com os centavos. — Angela estremeceu, recordando os maus tempos. — E não quero que você passe pelo que eu passei, enquanto estava casada com o seu pai.

— Meu pai não era pobre!

— Mas ficou, quando David Morton acabou com ele. David botou o filho para fora de casa, tirou o emprego dele, deixou-o sem nada! Nós ficamos tão pobres que... Bem, seu pai detestava a situação em que nos encontrávamos, e no fim acabou fazendo o que o seu avô queria, como David sabia que ia acontecer. Pense seriamente, antes de dar uma resposta definitiva a Tim, minha filha. Ser pobre não é fácil!

— Eu já dei a minha resposta.

— Chame-o de volta, amanhã, e diga que mudou de idéia.

— Não. — Nada do que a mãe acabara de lhe dizer alterava o que Edna sentia por Tim.

Angela lançou-lhe um olhar desconfiado.

— Por acaso a sua recusa tem algo a ver com Jason Earle, e a sugestão maluca que ele lhe fez de ir visitar o seu avô?

— Claro que não.

— Acho que tem, sim. Mas você não vai para a Inglaterra, visitar aquele velho...

— Mamãe — Edna falou num tom de voz baixo, que escondia sua zanga —, vamos deixar clara uma coisa: se eu quiser ir para a Inglaterra, eu vou.

— Veremos! — Angela respondeu antes de sair, batendo a porta.

Edna sacudiu a cabeça, atordoada. Por que dissera aquilo? Afinal, não tinha a menor intenção de ir visitar o avô!

 

E foi isso o que ela disse a Jason, na noite seguinte. Sem responder, ele a estudou com olhos frios e Edna sentiu-se contente por estar com seu único vestido preto, uma criação simples e elegante, que lhe dava a sofisticação que ela precisava, para se defender daquele ho­mem. Seu corpo bem-feito era realçado pela cor e pelo modelo provocante, que deixava à mostra o início de seus seios jovens e firmes, e boa parte de suas costas.

Sorriu, levantando os olhos dourados para o garçom, quando ele colocou o melão gelado na sua frente.

— Eu estou falando sério, sr. Earle. — O sorriso desapareceu de seus lábios, quando ela se virou para encarar Jason. — A Inglaterra nunca teve nenhum atrativo para mim.

— Nem mesmo a idéia de conhecer seu avô atrai você?

— Nem mesmo isso, sr. Earle. Se é que David Morton pode ser chamado de avô. Ele acabou com o casamento de meus pais e me ignorou durante anos.

— Seu pai era filho dele.

— E isso por acaso me torna, automaticamente, neta dele?

— Pensei que tornasse — Jason respondeu, observando-a por entre as pálpebras semicerradas.

— Não concordo. — Edna sorriu, de repente. — Oh, não se preocupe, sr. Earle. Eu não quis dizer que não seja, realmente, neta de David Morton. Minha mãe sempre foi fiel ao meu pai, e eles só se separaram por causa do meu avô.

— Mas isso não quer dizer que a sua mãe não teve culpa nenhuma nessa separação.

— Não, mas também não quer dizer que meu pai foi inocente.

Acho que houve culpa dos dois lados, mas não posso esquecer os dezoito anos de minha vida, durante os quais meu avô nunca se lembrou de mim, nem para perguntar se eu estava viva ou morta.

— Nem mesmo se eu lhe contar que ele está morrendo? Edna empalideceu, procurando algum sinal de zombaria nas

feições másculas e duras, alguma indicação de que ele estava mentindo. Mas não encontrou nada. Os olhos cinzentos conti­nuavam frios, e a boca tão cruel quanto antes.

— Isso é verdade? — perguntou, respirando fundo.

— É.

— Mas eu... não entendo. Você não falou nisso, ontem!

— Achei melhor lhe contar quando estivéssemos a sós!

— Ele não pode estar morrendo! Ele é velho, mas... O que ele tem?

— Há pouco tempo, David teve um ataque cardíaco, e o pró­ximo provavelmente será fatal.

— Meu Deus!

— É, não é uma coisa muito agradável.

— Como é que você pode aceitar isso com tanta calma? — Os olhos dourados estavam sombrios. — Pensei que vocês fos­sem amigos. Não sente nada, sabendo do estado em que ele está?

— Claro que sinto. Mas por que você está reagindo desse modo, se seu avô não significa nada para você?

— Meu Deus, você é cruel!

Levantando-se, Jason obrigou-a a ficar em pé também, e con­duziu-a para fora do restaurante do hotel, sem o menor esforço. Edna ergueu os olhos para ele, quando Jason empurrou-a para dentro de um dos elevadores e apertou um botão.

— Para onde você está me levando?

— Para a minha suíte — ele respondeu abruptamente, se­gurando com mais força o braço de Edna.

— Será que isso não vai ser mal-interpretado? — Edna per­guntou com sarcasmo, lembrando-se do comentário que ele fi­zera no dia anterior.

— Talvez. Mas é melhor do que ver você fazer uma cena no restaurante.

— Eu não ia fazer uma cena. — Ela olhou, zangada, para ele.

— Não diga!

— Digo, sim. É verdade que o que você me disse foi um choque, mas... mas foi a sua atitude que me aborreceu.

Jason empurrou-a para fora do elevador e depois até a porta de sua suíte. Abrindo-a, acendeu a luz e convidou-a para entrar.

— Por que a minha atitude aborreceu você? — ele perguntou, fechando a porta e dirigindo-se ao bar, que ficava em um canto da saleta em que se encontravam.

— Porque sim. — Desconfiada Edna observou-o se aproximar com um copo, contendo um líquido âmbar. — O que é isso? — quis saber, quando ele o estendeu para ela.

— Brandy,

— Eu não gosto de brandy.

— Vai ajudá-la a superar o choque.

— Não é preciso. Já superei. — Edna colocou o copo intocado, sobre a mesa.

— Sente-se.

— Não, obrigada. Podemos descer, agora?

— Não!

— Não?!

— Vou mandar que o resto de nosso jantar seja trazido para cá — Jason explicou, pegando no telefone. — Podemos falar com maior liberdade, aqui.

— Pode ser, mas eu...

— Não estou fazendo nenhum plano em relação ao seu corpo — ele disse, num tom de voz cheio de impaciência.

O sangue subiu às faces de Edna.

— Eu não pensei que estivesse, sr. Earle.

— Jason. Pode me chamar de Jason. Afinal, eu a chamo de Edna.

— Achei que era um direito que sua idade lhe dava.

Pelo enrijecimento dos lábios de Jason, Edna viu que ele não tinha gostado do comentário. Mas só depois de pedir, pelo te­lefone, que o restante do jantar fosse mandado para o quarto, ele disse:

— Vamos deixar a minha idade fora disso. E é melhor você se sentar, não vai sair daqui, tão cedo.

— Não vou? — Edna perguntou, em tom de desafio. Mas resolveu sentar-se, pois estava certa de que Jason usaria a for­ça, se não o obedecesse.

— Meu a... David Morton...

— Seu avó — ele veio em seu auxílio, com suavidade, pa­rando ao lado dela, o que a deixou mais nervosa ainda.

— David Morton — insistiu Edna. — Faz tempo que ele está doente?

— Ele teve o primeiro ataque mais ou menos seis semanas atrás. Foi muito grave, e o próximo pode ocorrer a qualquer momento. — Jason serviu-se de uma bebida, antes de se sentar em frente a ela.

— E provavelmente vai ser fatal... Foi isso que você disse, não foi?

— Foi. E ele gostaria de ver você, antes de morrer. Aquilo colocava Edna em uma posição muito difícil. Ela não queria visitar o avó, mas também não queria lhe causar ne­nhum mal, uma vez que não era uma pessoa vingativa.

— Por que ele quer me ver?

— Pensei que fosse evidente.

— Não para mim. Um homem não ignora uma neta por de­zoito anos, e depois se interessa subitamente por ela. David deve ter um motivo importante para querer me ver, além do fato de eu ser sua única parente viva.

— David não ignorou você por dezoito anos.

Edna levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, com movimentos bruscos.

— Não diga!

— Por que você tem tanta certeza de que ele a ignorou du­rante todo esse tempo?

— Não é óbvio?

— Para mim, não. Quando eu falei com ele esta tarde, pelo telefone, e lhe contei que você não estava querendo ir visitá-lo, David ficou triste, naturalmente, além de um pouco preocupado com o seu ressentimento. Pelo que entendi, sua mãe vem es­condendo muita coisa de você nesses dezoito anos.

— Como assim?

— Não sou eu quem deve lhe explicar. Para isso você deve procurar a sua mãe.

— Ora, vamos! Você já falou demais, para parar agora. O que é que a minha mãe tem escondido de mim?

Jason ficou alguns momentos em silêncio. Depois, deu de ombros e disse:

— Parece que seu pai nunca deixou de se interessar por você, e sempre escrevia para a sua mãe, pedindo notícias e fotografias suas. Depois que ele morreu, seu avô é que fazia isso, pelo. telefone.

— Não acredito em você!

— Pois então, como acha que seu avô ficou sabendo que Che-ryl Sands é a sua melhor amiga? Que você tirou o sexto lugar, no exame de História, quando...

— Está bem! — ela gritou. — Mas se ele ficou sabendo de tudo isso por intermédio de minha mãe, por que ela nunca me disse nada?

— Isso é uma pergunta que você vai ter de fazer a ela.

Pegando a bolsa e o casaco, Edna caminhou apressadamente para a porta.

— Aonde você vai? — Na mesma hora, Jason se levantou também.

— Falar com a minha mãe, é claro.

— Mas, e o nosso jantar? Ele deve chegar a qualquer mo­mento.

— Pois coma tudo sozinho — ela falou, com aspereza. — E não se engane! O que você me disse não vai fazer a menor diferença. Não pretendo ir para a Inglaterra.

Jason deu de ombros, comentando:

— Em todo caso, se mudar de idéia, telefone para mim. Será um prazer reservar a passagem de avião para você.

— Eu posso fazer isso sozinha... se for necessário.

— Faça como quiser.

— Geralmente, eu faço mesmo.

— Eu já tinha percebido.

— Posso saber o que quer dizer com isso, sr. Earle?

— Pode, sim! Estou lhe dizendo que você é uma garotinha estragada por mimos.

— Sua opinião a meu respeito não me interessa — Edna replicou, com altivez. — Tenho certeza de que sou capaz de sobreviver à sua desaprovação.

— Não tenho dúvidas a esse respeito. E também tenho cer­teza de que você será uma ótima esposa para Tim.

Os olhos dourados se estreitaram.

— Por que acha que vou casar com ele?

— Você seria uma tola, se não o fizesse. Qualquer um pode ver que ele está apaixonado por você.

Edna não deixou de perceber o tom de desprezo com que ele pronunciou a palavra "apaixonado".

— Pode ser, mas isso não quer dizer que eu também esteja apaixonada por ele.

— Pensei que isso não fosse importante. — Jason serviu-se de uma nova dose de bebida. — Você estava pensando nele quando disse que não precisava do dinheiro do seu avô, não estava?

— Não, não estava! — respondeu, furiosa. — E, levando em conta que você não sabe quase nada a meu respeito, está me insultando muito, sr. Earle!

— Você sabia menos ainda a meu respeito quando nos en­contramos pela primeira vez e, no entanto, já não gostava de mim.

Edna corou.

— Era diferente. Eu já tinha ouvido falar sobre o senhor.

— E não gostou do que ouviu.

— Nem um pouco. Não aprecio o seu gosto por mulheres... e não estou falando de Claire. Diga-me, sr. Earle, não se im­porta com o fato de sua querida Isobel ter roubado o marido de outra mulher?

— E por que eu deveria me importar? Todos nós temos coisas de que nos envergonhamos, em nosso passado.

— Tenho certeza de que Isobel nunca se arrependeu de ter casado com o meu pai.

— Pelo que sei, os dois foram muito felizes, juntos.

— Ela dificilmente lhe diria outra coisa. Afinal, você podia pensar que ela não foi boa esposa.

— O fato de Isobel ter sido uma boa esposa para o seu pai não significa que ela vá ser uma boa esposa para mim. As mi­nhas necessidades podem ser diferentes.

— Imagino! Ele sorriu.

— Tenho certeza de que sim. Mas não foi Isobel quem me disse que o casamento dela com o seu pai foi um sucesso.

— Deve ter sido meu avô, então.

— Foi.

— Ele queria esse casamento, portanto não ia falar mal do que ele mesmo planejou.

— Pare de ser tão amarga, menina. Isso tudo já passou. É com o futuro que eu estou preocupado, agora.

— O seu futuro com Isobel?

— Se eu tenho algum futuro com ela, não é da sua conta.

— Ela já deve ter ouvido falar da sua reputação, das mulhe­res que você teve, das que ainda tem... Mas talvez isso não a aborreça. E não existe nenhuma razão para o meu pai ter sido mais fiel a ela, do que foi à minha mãe. Mesmo assim, eu não gostaria de me envolver com você.

Jason correu os olhos, com insolência, pelas curvas bem-fei-tas do corpo jovem de Edna.

— Você não vai ter essa chance. Gosto de mulheres expe­rientes, e você não tem nenhum dos dois requisitos que eu exijo.

— Dois requisitos?

— É. Algumas garotas de vinte anos já tiveram mais aman­tes do que podem se lembrar. Mas você, não. Você é uma criança e, decididamente, não tem experiência nenhuma.

— Como sabe disso?

Jason sorriu, de modo vagaroso e zombeteiro.

— Eu sei, Edna.

— Você poderia estar errado — replicou, em tom de desafio. — Como você disse, uma garota não chega aos vinte anos, hoje em dia, sem ter pelo menos um pouco de experiência.

— Quanto? — Ele aceitou o desafio.

— Não é tão pouco quanto você pensa — mentiu. — Agora, se me dá licença, vou falar com a minha mãe.

— Parece que vocês vão ter muito o que conversar. E não vou me esquecer do que disse, sobre a sua experiência. Pode ser que me seja útil algum dia.

Edna ficou vermelha como um pimentão.

— Por acaso, você costuma chegar a esse ponto de desespero?

— Não, com mulheres como Isobel e Claire por perto — ele respondeu, sorrindo.

— Você é horrível! E convencido!

— Eu não sou convencido, Edna. Só estava tentando fazer jus à reputação que você me atribuiu.

— Eu não atribuí reputação nenhuma a você. Não foi preciso. Outras pessoas fizeram isso por mim. E os jornais estão sempre falando de suas atividades. Afinal, você é notícia!

— Você me lisonjeia — ele zombou.

— E notícias escandalosas, a maior parte das vezes. Adeus, sr. Earle!

— Espero que se comunique logo comigo.

— Pois pode esperar sentado.

Fumegando de raiva, Edna foi para casa, certa de que a mãe deveria ter uma explicação razoável para o que Jason lhe con­tara. Era verdade que Angela tinha muita coisa contra David Morton, mas não mentiria tanto tempo para a filha. E se ela tivesse mentido? Em que isso influenciaria sua decisão de não ir ver o avô?

Drew estava sozinho na sala de estar, assistindo a um de seus programas favoritos de televisão, quando Edna entrou.

— Como foi sua noite? — ele perguntou, ao vê-la.

— Não muito boa. Nós nem acabamos de jantar! — Ela he­sitou. — Papai, você sabe se meu... pai e meu avô mantinham contato com mamãe?

— Foi isso que Jason Earle lhe disse?

— Foi. Ele me disse...

— A verdade — Angela falou, atrás deles. Edna virou-se abruptamente para ela.

— A verdade? — E, vendo o gesto afirmativo da mãe, Edna continuou: — Quantas vezes por ano eles entravam em contato com você?

— Duas ou três vezes — Angela respondeu, com ar de de­safio.

— Duas ou três vezes... Mamãe, você nunca me disse nada!

— Isso é verdade, Angela? — Drew quis saber. Ele estava tão chocado quanto Edna.

— Claro que é. — Angela riu, de repente. — Não precisam ficar tão surpresos. Vocês acham que David desistiria de sua única neta, depois que descobriu que Graham não teria filhos,

no segundo casamento? Se acham, são inocentes demais! David é muito egoísta para fazer uma coisa dessas!

— Mas você nunca nos disse nada! — A reprovação de Edna era evidente.

— E por que deveria? Uns poucos telefonemas não o trans­formaram num homem diferente do que ele era, quando eu e seu pai nos casamos, contra a vontade dele.

— Não, mas provam que meu avô não se esqueceu de mim!

— Eu nunca disse isso. Mas este ano ele não telefonou. Ele sempre liga no dia do seu aniversário, e este ano ele não...

— Sabe por que ele não ligou? — Edna interrompeu a mãe, zangada. — Porque está morrendo! Foi por isso! Meu avô está morrendo, e a única coisa em que você consegue pensar é no ressentimento que sente por ele! Você não tinha o direito de esconder esses telefonemas de mim! — Ela se encolheu quando a mão de Drew atingiu-a com força em uma das faces. — Papai! — exclamou, chocada, com os olhos cheios de lágrimas.

— Nunca mais fale com a sua mãe desse jeito, na minha frente! — ele disse, com frieza. — Seu avó procedeu como um canalha em relação à sua mãe, e tudo o que ela fez depois disso foi pensando no bem de todos nós! Entendeu?

— Desculpe. — Edna colocou a mão sobre a face, que latejava.

— Sinto muito!

— E tem mesmo que sentir!

— Edna. — A voz de Angela tinha um tom estranho. Era como se ela não fosse mais a mulher que dominava a casa com mão de ferro. — O que é que David tem?

— Ele teve um ataque cardíaco.

— Alguém deveria ter-nos avisado... Isobel poderia ter feito isso. Afinal, David é avó de Edna.

— Talvez Isobel também não soubesse dos telefonemas — Drew comentou.

— Ela sabia, sim. Até tentou fazer David parar com eles!

— Acho melhor você ir se deitar — Drew disse, com suavi­dade, para a esposa. — Está muito pálida, Angela.

— É, acho que vou fazer isso. — Com um sorriso vago, Angela saiu da sala.

— Mamãe está bem? — Edna perguntou ao padrasto, quando ficaram sozinhos. Ela estava estranhando o procedimento da mãe. Parecia que Angela havia sofrido um forte golpe!

— Está, sim. Foi só o choque.

— Choque? Mas por quê?

— Você tem que entender a sua mãe, para saber o que ela está sentindo agora. É como se ela tivesse perdido a razão de viver. Quando nós nos casamos, eu sabia que ela ainda estava apaixonada pelo seu pai, mas...

— Não pode ser — Edna interrompeu-o. — Ela o odiava, do mesmo modo que sempre odiou meu avô.

Drew meneou a cabeça, com tristeza.

— Ela sempre amou Graham, mesmo depois que ele morreu. Só não podia suportar o que David Morton estava fazendo a ele, aos dois, enfim. Sua mãe gosta de mim, e nós temos um bom casamento, mas o grande amor da vida dela sempre foi o seu pai. Angela nunca deixou de amar Graham, e só o abando­nou porque percebeu que, no fim, ele acabaria por odiá-la. E eu sempre me ressenti desse amor que ela tinha por ele...

— Eu nunca percebi...

— Eu sei que não. — Drew sorriu. — Não fique ressentida com sua mãe por ela não ter contado sobre os telefonemas. Tenho certeza de que ela manteve em segredo os que recebeu de Graham, porque eram seu único contato com o homem que ainda amava.

— Oh, papai! Deve ter sido horrível, para você!

— Eu nunca liguei para isso, Edna. Tudo o que eu sabia é que sua mãe precisava de mim. E, agora, ela vai precisar do meu apoio mais do que nunca. E eu pretendo ajudá-la.

Edna sempre soubera que Drew amava a esposa, mas nunca imaginara que o amor dele pudesse ser tão pouco egoísta. Devia ter percebido que o ressentimento de Angela por David Morton era a força que a levava para frente, a razão para todas as suas atitudes. A seu próprio modo, naqueles dezoito anos, Angela estivera tentando provar ao sogro que ele havia perdido muito quando a rejeitou. Drew tinha razão e, se David Morton mor­resse, Angela ia precisar dele mais do que nunca.

Mas tudo o que ficara sabendo naquela noite despertou em Edna o desejo de conhecer o avô, de saber o que ele tinha, para conseguir que o filho o escolhesse, abandonando a esposa e a filha. E, depois, havia também Isobel Morton...

 

E foi assim que Edna se viu num avião para a Inglaterra no dia seguinte, sentada ao lado de Jason Earle. Sua mãe não havia feito mais nenhuma objeção, era como se, de repente, ela tivesse perdido toda a força interior.

Edna tinha pensado em não dar a Jason a satisfação de pe­dir-lhe ajuda e viajar sozinha, mas depois refletiu melhor e viu que seria uma atitude muito infantil. No fim, ele ficaria sabendo de tudo, e apesar de não se encaixar na idéia que Edna fazia de um companheiro de viagens ideal, era melhor do que nada. Ou pelo menos seria, se não passasse o tempo todo com o nariz enfiado nos jornais que trouxera.

Edna lançou-lhe um olhar impaciente, suspirando.

— Você não é uma boa companhia — acusou finalmente, cansada daquele silêncio.

Os olhos cinzentos voltaram-se para ela.

— Não sabia que você queria companhia, especialmente a minha.

— Não lhe passou pela cabeça que eu poderia estar nervosa? Afinal, estou viajando para um país estranho, para ver o homem que causou a separação de meus pais.

— Você, nervosa! — Jason caçoou. — Não acredito!

— Está bem. Caçoe de mim. Tenho certeza de que isso faz você se sentir melhor. — Virou a cabeça para o outro lado, a boca tremendo ligeiramente.

— Eu não estava caçoando de você — ele explicou, com um suspiro resignado. — Só fiquei surpreso quando você admitiu que é capaz de sentir tal emoção.

— E eu estou surpresa por você ter ficado surpreso — Edna falou com aspereza, e ouviu Jason rir.

— Você é uma constante surpresa para mim, Edna. Tem sido, desde a primeira vez em que nos vimos.

— Quantos anos você pensou que eu tivesse? — Ela pergun­tou, já sorrindo.

— Onze ou doze. David e Isobel nunca mencionaram a sua idade, e eu achei que devia ser essa. Mas, com você, já estou aprendendo que não adianta achar nada. Sabe, não pensei que viesse comigo, hoje. E ainda não entendi por que veio.

Edna deu de ombros, ainda insegura de seus próprios sen­timentos,

— Acho que foi por curiosidade.

— E o seu trabalho? Pensei que você fosse uma moça que trabalha.

— E sou. Trabalho para Drew.

— Então, está explicado.

— Não é para isso que servem os padrastos? Para dar férias às enteadas, quando elas precisam? E aposto que você está pen­sando que o meu não é um emprego sério, já que posso tirar férias desse jeito.

— E é, por acaso?

— Claro que é. Eu não trabalho para Drew, e sim para um dos gerentes dele. E fui contratada pelos meus méritos.

— Se você está dizendo... — ele comentou, com pouco-caso.

— E foi mesmo! Se algum dia você precisar de uma secretá­ria, terei prazer em lhe mostrar o que sei fazer.

— Obrigado, mas acho que não vai ser preciso. Sandra é muito eficiente, e nunca fica doente.

— Um modelo de secretária!

— Por que você não lê um jornal, ou qualquer coisa assim? — Jason perguntou, com ar de tédio. — É muito cansativo ten­tar conversar com você. Além disso, tenho algum trabalho para fazer.

— Pois não deixe que eu o impeça. Na certa é o trabalho que você já devia ter feito, durante o fim de semana.

— E que não fiz, porque fiquei andando por aí com a adorável Claire — ele terminou por ela, com secura. — Não era isso que você queria dizer?

— Se a carapuça lhe serviu...

Jason fechou a maleta, que já tinha aberto, e voltou-se para olhar Edna de frente.

— Acho que eu já lhe disse isso antes, Edna, mas vou repetir: minha vida particular só interessa a mim. Não estou tentando lhe passar sermões, portanto não tente passá-los em mim.

— Sermões? Em mim? Eu não tenho nada...

— Nem mesmo com Tim? — As sobrancelhas escuras se er­gueram, num gesto de descrença.

— Claro que não!

— Pensei que tudo já estivesse acertado, entre vocês.

— Pensou que "o quê" já estivesse acertado, entre nós? — Edna perguntou, zangada. — O fato de eu ter saído alguns meses com Tim não significa que eu tenha ido para a cama com ele. Não sou tão promíscua assim.

— Fico contente em saber, mas não era a isso que eu estava me referindo. É que Claire tinha dito que você ia casar com o irmão dela, mas depois acabou me contando que você mudou de idéia.

— Eu não mudei de idéia. Eu recusei o pedido de Tim.

— Por quê?

— O que é que você tem com isso?

— Só estou interessado.

— Pois, então, canalize seu interesse em outra direção. As minhas razões para não casar com Tim são do meu interesse apenas, e não pretendo discuti-las com ninguém.

— Por acaso o fato de ficar sabendo que é a única herdeira de David influenciou a sua decisão?

Edna estava pálida de raiva. Mas que homem arrogante! Ele era... era... Deus, como o odiava!

— Sabe, tenho pena de você! — disse, com desprezo. — Deve ser horrível analisar tudo na vida do ponto de vista monetário.

— Nem tudo, Edna. Ou todos... — ele falou, com frieza. — Mas não posso negar que estou curioso para saber por que você mudou de iéeia, sobre casar com Tim.

— Eu não mudei de idéia. Eu nunca tive intenção de casar com ele. E não quero o dinheiro do meu avô. — Os olhos dou­rados lançavam chispas de raiva. — Se estou aqui com você, agora, é só porque resolvi satisfazer o capricho de um homem que está morrendo! Não pretendo ficar na Inglaterra um minuto além do necessário.

— Acho que seu avô está esperando uma visita mais longa.

— Mas eu não pretendo ficar muito tempo. Eu não o conheço, nem conheço mais ninguém na Inglaterra.

— Você me conhece — Jason comentou, com voz rouca.

— Muito mal. E não faço idéia de como é Isobel.

Os lábios firmes e bem-feitos de Jason curvaram-se num sorriso.

— Ela é o tipo de pessoa que o seu avô aprova.

— Eu sei. Ela é bonita?

— Muito.

— Foi o que pensei.

— Por quê? Porque ela tirou seu pai de sua mãe?

— Não, porque ela atrai você. Tenho certeza de que nunca pensaria em casar com uma mulher que não fosse bonita e prendada. Isobel Morton deve ser as duas coisas. E já está mes­mo na hora de você casar — acrescentou, maldosamente.

— Obrigado. Com certeza, você me considera um velho, aos trinta e seis anos de idade.

— Mais ou menos. Quantos anos tem Isobel?

— Trinta e oito.

— Então, ela é mais velha do que você? Não se aborrece com isso?

— Por que deveria?

— É, não há razão. Você não a ama. Se amasse, não sairia com Claire. Por isso, acho que a idade dela não tem importância.

— E se eu lhe dissesse que amo Isobel?

— Eu lhe diria que a idéia que você faz do amor é muito pobre. Fidelidade não significa nada para você?

— Vai haver tempo de sobra para isso, depois que eu me casar.

— Quer dizer que você vai mesmo casar com ela?

— Eu não disse isso.

— Mas há possibilidade de você casar com ela?

— Pode ser. Olhe, eu pensei que você quisesse conversar, e não me submeter a um interrogatório. Por que não pergunta a Isobel se ela quer casar comigo? Vai ser interessante saber a resposta dela.

Edna não conseguia imaginar uma mulher recusando-se a casar com Jason Earle, se fosse esse o desejo dele. Principal­mente uma mulher do tipo que ela achava que Isobel Morton era.

Edna foi obrigada a reconhecer que Isobel Morton era real­mente bonita. Mesmo abatida e chorando, ela era linda. Sua pele era do tipo que parece porcelana, as feições perfeitas, e os cabelos vermelhos, brilhantes e sedosos. Parecia bem longe de seus trinta e oito anos, quando se jogou com expressão trágica nos braços de Jason. De lá, virou-se para olhar Edna, e na mesma hora seu rosto transformou-se numa máscara raivosa.

— Você deve ser Edna — disse.

— Isobel, o que foi que aconteceu? — Jason perguntou, afas­tando-a um pouco de si e examinando-lhe as feições com cuidado.

— Você não deveria estar perguntando isso a mim — Isobel respondeu, sem tirar os olhos de Edna. — Devia estar pergun­tando a essa vagabundazinha mercenária!

— Isobel! — ele censurou, com firmeza. — O que foi que aconteceu?

— David morreu! — Isobel gritou, com voz aguda. — E por culpa dela! — acrescentou, olhando acusadoramente para Edna.

 

— Morreu? — Edna repetiu, empalide­cendo. — Mas não pode ser!

— Mas é — Isobel confirmou, com aspereza. — Eu mesma o encontrei.

— Isobel — Jason assumiu o controle da situação —, expli­que tudo com mais calma. Quando foi que David morreu?

— Eu o encontrei depois do almoço. Estou tão contente por você ter chegado, Jason.

Jason segurou-a pelo braço e levou-a para uma saleta. Edna foi atrás deles, como se estivesse vivendo um sonho. Seu avó estava morto, e ela nem mesmo tivera a chance de conhecê-lo!

— O médico veio logo que nós chamamos — Isobel continuou, sentando ao lado de Jason, no sofá. — Mas não havia mais nada que pudesse ser feito. Ele já estava morto. E tudo por causa dela. David não conseguiu aguentar a notícia de que ia ver a neta, depois de todo o tempo em que ela o ignorou.

— Isobel — Jason advertiu, com suavidade —, eu sei que você está desgostosa, mas a morte de David foi um choque para Edna, também.

— Choque? — Isobel repetiu com desprezo. — É mais fácil ter sido um alívio. Agora ela não vai ter que representar a cena do retorno do filho pródigo. Agora ela vai receber tudo, sem ter que fazer o mínimo esforço. Meu Deus, quando penso.,.

— Já chega! — Jason ordenou, com severidade.

— Ah, não, eu mal comecei! Você sabe que David deixou tudo o que tinha para ela? Eu fiquei com ele todos esses anos, tomei conta dele, depois que Graham morreu, e ele deixou tudo para ela! — O tom de voz de Isobel estava próximo da histeria. — Bem, David deixou esta casa para mim, e eu não quero essa pirralha aqui dentro. Fora daqui! — gritou para Edna. — Dê o fora daqui!

Jason segurou-a no momento em que ela voou para Edna, as mãos transformadas em verdadeiras garras. Mesmo quando Isobel parou de lutar para se livrar, ele não a soltou.

— O médico não receitou um sedativo para você, Isobel? — ele perguntou, com impaciência.

— Receitou, sim. Mas eu disse a ele que não tomaria nada, até você chegar.

— Pois bem, eu já estou aqui. — E, tentando acalmá-la, Jason levou Isobel para fora da sala.

— Mas eu não a quero aqui, Jason. Ela não vai ficar! — Edna ouviu-a dizer, enquanto subia a escada na companhia de Jason, que parecia conhecer muito bem a casa.

Sozinha, pensou que Isobel Morton não precisava ter-se dado ao trabalho de colocá-la para fora, pois não tinha intenção ne­nhuma de ficar em Londres. Não havia mais necessidade disso, agora que seu avô estava morto.

Uns quinze minutos depois, Jason voltou.

— Espero que desculpe a falta de delicadeza de Isobel, Edna. A morte de David foi um choque para nós.

— Não tem importância.

— Geralmente, Isobel não é indelicada.

— Tenho certeza de que não.

— Eu vou ter que sair, para cuidar de uma série de coisas. Já pedi à sra. Young para lhe mostrar o seu quarto. Volto assim que puder.

— Jason — Edna chamou, quando ele já estava na porta. — Você vai me deixar aqui?

— Eu já pedi desculpas pelo comportamento de Isobel — ele disse friamente, com ar impaciente. — Ela está em choque.

— Já percebi isso. Não sou estúpida. Mas, em choque ou não, ela não me quer aqui... e não posso culpá-la por isso. — Fez uma pequena pausa, depois acrescentou, estremecendo: — Será que eu sou mesmo responsável pela morte do meu avó?

— Não seja ridícula! Já é ruim que Isobel tenha dito isso, mas você acreditar... — Jason balançou a cabeça. — David es­tava louco de alegria com a sua vinda.

— Será que a emoção não foi demais para ele?

— Duvido. — Jason olhou rapidamente para o relógio que trazia no pulso. — Agora, eu tenho mesmo que ir. A sra. Young tomará conta de você.

— Eu não vou ficar aqui.

— Por favor, não dificulte as coisas, Edna. Seu avô gostaria que você ficasse aqui.

— Mas Isobel Morton não quer, e eu também não — ela acrescentou, com veemência. E, correndo até onde Jason estava, pediu: — Por favor, Jason, leve-me com você. Não me deixe aqui.

— Você não pode ir comigo. Eu vou arrumar tudo para o funeral do seu avó.

— Então, deixe-me num hotel.

— Você tem mesmo que fazer uma cena, agora? — ele per­guntou, com aspereza. — Tem mesmo que ser difícil?

— Eu não estou sendo difícil. Eu só...

— Não está sendo difícil? Eu já estou com uma mulher his­térica nas mãos, e posso muito bem passar sem outra.

— Eu não estou histérica, sr. Earle.

— Não? Pois é o que está parecendo.

De repente, os olhos dourados de Edna se encheram de lá­grimas, e ela se sentiu desesperadamente só.

— Por favor, Jason. Você é a única pessoa que conheço, aqui. Estou me sentindo tão sozinha...

— Desculpe — ele murmurou, abraçando-a. — Eu não tinha

percebido.

— Bem, bem, mas que ceninha linda! — Da escada, a voz de Isabel Morton chegou até eles. — Não contente em matar seu próprio avô, você agora está tentando tirar Jason de mim.

— Meu Deus! — Jason gemeu baixinho, soltando Edna. — Espere por mim aqui, Edna. Não vou demorar.

— Mas...

— É só um minuto, Edna! — E, tirando Isobel da sala, ele fechou a porta na cara dela.

Voltou depois de alguns minutos com ar de quem havia do­minado completamente a situação.

— Tudo bem — ele disse. — Pegue a sua mala e vamos.

— Obrigada — Edna replicou, com um sorriso trêmulo. —

Muito obrigada.

— No estado em que Isobel está, não seria bom deixar você aqui. O que foi que aconteceu, agora? — Jason perguntou, lan­çando-lhe um olhar penetrante.

— Eu vou ter que contar à minha mãe, e não vai ser fácil. Acho melhor falar com Drew e deixar que ele dê a notícia do falecimento a ela.

— Não creio que a morte de David tenha importância para a sua mãe. Afinal, ela arranjou um novo sogro, quando casou

com o seu padrasto.

Certa de que Jason não entenderia Angela, mesmo que ela se esforçasse a explicar, não disse mais nada. No carro, sen­tou-se ao lado dele, olhando fixamente para a frente.

— Para onde está me levando? — perguntou, depois de al­gum tempo.

— Para a minha casa.

— Para a sua casa? — Edna estava pasma. — Mas eu pensei

que você morasse com ela!

— Bem, agora você sabe que não moro.

— Desculpe. Eu não queria... Desculpe.

— Esqueça. Nós todos estamos nervosos. Sinto que você não tenha conhecido seu avô. Acho que gostaria de David, apesar dos modos dominadores dele.

— Talvez. O que eu faço agora, Jason? — Era impressionante a facilidade com que ela passara a tratá-lo pelo primeiro nome.

— Por enquanto, você fica comigo. Depois, veremos... Fora a casa e uma renda mensal para Isobel, David deixou tudo o que tinha para você. E, até todos os documentos estarem lega­lizados, você vai ter que permanecer na Inglaterra.

— Eu não entendo nada disso, Jason. Vou ficar completa­mente perdida, quando receber minha herança.

— Seu avô tomou providências para que você não tenha que se preocupar com nada. — Jason entrou com o carro num ca­minho coberto de cascalho, que levava a uma casa enorme, iso­lada da rua por uma fileira de árvores. — Mas vamos deixar para falar nisso em outra ocasião — disse, ajudando-a a descer do carro. — A sra. Gifford vai tomar conta de você. Eu preciso sair agora.

A sra. Gifford era uma mulher gorducha, que tomou Edna sob sua proteção, assim que Jason lhe explicou o que estava acontecendo. Depois de mostrar-lhe o quarto onde ia ficar, des­ceu para preparar uma boa sopa. Mais tarde, insistiu com ela para que dormisse um pouco e, para satisfazê-la, Edna acabou indo para a cama.

Como sou covarde!, pensou, quando já estava quase dormin­do. Mais um pouco e teria implorado a Jason Earle para tirá-la da casa de Isobel! Deveria ter insistido para que ele a levasse para um hotel. Não podia continuar na casa dele. Não podia ser hóspede do homem que odiava...

Já estava escuro, quando Edna acordou. Não se ouvia um barulho na casa, era como se ela estivesse completamente so­zinha. Em pânico, levantou-se e desceu a escada, correndo. A casa inteira parecia estar envolta na escuridão. Trêmula e as­sustada tropeçou e caiu sobre o carpete macio do hall de entra­da. Lá ficou, sem ânimo para se mexer. Como Jason podia ser tão cruel, deixando-a sozinha daquele jeito?

— Mas o que... — Braços fortes levantaram-na do chão, bra­ços familiares, que já a haviam segurado uma vez. — O que aconteceu? — Jason quis saber.

Edna ergueu os olhos para ele, com uma expressão de alívio intenso.

— Oh, Jason — soluçou, abraçando-o com força. — Pensei que você tivesse me deixado sozinha aqui.

— Sua tolinha! Faz mais de duas horas que estou em meu escritório. Desde que a sra. Gifford foi dormir.

Edna encostou a cabeça no ombro forte, espalhando os cabe­los longos e dourados pela camisa escura que ele usava.

— Eu pensei que...

— Você pensou que eu fosse insensível o suficiente para dei­xá-la sozinha numa hora dessas — Jason terminou por ela.

— Não. Eu só achei que você tinha ido fazer companhia a Isobel, que precisa mais da sua presença.

— Não sei, não. Ela está dormindo agora, enquanto você está muito acordada.

De repente Edna tornou-se consciente de como seus braços envolviam o pescoço de Jason.

— Desculpe — murmurou, tentando se afastar —, eu...

— Fique onde está — ele ordenou, com voz alterada.

— Mas...

— Não se mexa, Edna. Você não é tão inocente, a ponto de não saber quando é melhor não dizer, nem fazer nada.

Não, ela não era tão inocente. Alguma coisa estava aconte­cendo com eles, alguma coisa puramente física, e era fácil os dois perderem o controle da situação naquele momento, quando suas emoções estavam totalmente exacerbadas.

Finalmente ele a afastou de si, os lábios apertados, duros, formando uma linha que expressava zanga.

— Venha comigo — disse. Edna resistiu, insegura.

— Vamos — ele ordenou novamente, percorrendo o corpo dela com olhos avaliadores. — Não pretendo levar você para a minha cama, ou algo assim — zombou. — Não vou dizer que a idéia não passou pela minha cabeça, agora há pouco, mas nós já con­cordamos que isso só poderia acontecer num momento de deses­pero da minha parte. E eu ainda não estou tão desesperado.

A cada palavra de Jason, Edna ficava mais pálida. E o que ele dizia magoava-a ainda mais, porque naqueles poucos minu­tos ela havia se tornado consciente da presença de Jason de um modo como nunca se sentira perante homem nenhum. Cada centímetro do corpo daquele homem a atraía, como nunca lhe tinha acontecido.

Mas ela não gostava dele, não gostava de sua arrogância, nem do modo como ele aceitava a adoração de mulheres como Isobel e Claire. Então, por que essa repentina atração? Já ou­vira falar de umas respostas puramente físicas com outras pes­soas, mas nunca pensou que isso pudesse acontecer com ela.

Oh, Deus, tomara que Jason não percebesse nada! E aquilo não podia durar. Atração física nunca durava... Pelo menos, era o que todos diziam.

— Edna!

O tom de voz penetrante trouxe-a de volta à realidade.

— O que foi?

— Venha comigo.

Apática, ela o seguiu até o escritório. Lá, Jason colocou um pouco de brandy num copo e estendeu-o para ela.

— Parece que isso está se tornando um hábito — ela disse, os olhos dourados ainda espelhando confusão, uma confusão que ela não queria que Jason percebesse.

— Eu lhe ofereci brandy antes, porque você me deu a im­pressão de ter sofrido um grande choque. Como agora!

— Não seja dramático! Estar nos braços de um homem não é exatamente uma experiência nova, para mim. Dificilmente isso poderia me causar um choque... nem mesmo se os braços pertencem ao famoso Jason Earle.

— Eu não estava me referindo a esse choque — ele disse com frieza, o rosto bonito expressando desprezo. — Eu estava falando do choque causado pela morte do seu avô.

— Eu... eu tinha esquecido... — ela murmurou, com ar de culpa, corando intensamente.

Jason deu de ombros.

— O que não me surpreende. Você mal o conhecia.

— Mas ele era meu avô.

— Não se torture com sentimentos de culpa que você nem tem motivo para ter. — Por um momento, Jason contemplou os olhos dourados, que estavam agora cheios de lágrimas. — Não sei como não percebi, quando nos conhecemos, que seus olhos são igualzinhos aos de David. Talvez tenha sido porque eu estava prestando atenção no seu corpo, e não nos olhos,

— Ê mesmo? Como ele era?

Jason refletiu um pouco, antes de responder.

— Bem, ele era um homem que sempre sabia o que queria, e fazia tudo para conseguir o que desejava. Até ficar doente, David era um astuto homem de negócios, totalmente implacá­vel, e muito bem-sucedido em sua profissão.

— Até parece que você está se descrevendo.

— Talvez — ele admitiu, com secura.

— Se bem que você tem sido bom para mim...

— Muito mais do que você esperava, não é? — Jason zombou. — Mas eu vou exigir que me pague pelo que lhe estou fazendo.

Edna olhou-o, apreensiva. Afinal, ela estava totalmente à mercê dele. Será que tinha sido muito confiante? O olhar de Jason parecia indicar que sim.

De repente ele riu, um riso cruel, destinado a ferir... E teve sucesso.

— Não se preocupe, Edna. Estou só brincando. Você não faz o meu gênero. É melhor se agarrar a rapazinhos como Tim Channing, que têm vocação para capachos.

— Tim não é um capacho! — A raiva serviu para salvá-la de uma humilhação maior. Aquele homem havia percebido sua fraqueza e estava avisando que ela não conseguiria se livrar dele com tanta facilidade, caso a situação se repetisse. — Ele vale dez vezes mais do que você!

— Então, por que não quer casar com ele?

— Talvez eu faça isso mesmo. Sou bem capaz de casar com Tim, quando voltar para os Estados Unidos.

— Ah, sei! Quando você voltar para os Estados Unidos... Edna franziu a testa. Não estava gostando do modo como

ele tinha dito a última frase.

— O que está querendo dizer, com esse "quando eu voltar"? — O mesmo que você.

— Não, você falou num tom diferente. Deu-me a impressão de que ainda vai levar muito tempo para eu voltar para casa,

— Foi, é? Mas não tive essa intenção.

— Tem certeza?

— Nós acabamos de concordar que você não está em condi­ções de julgar nada com clareza, neste momento. E, já que quer ver seu namorado, talvez seja melhor convidá-lo para vir visi­tá-la, aqui. Vamos ter muitas coisas para resolver sobre sua herança, nas próximas semanas.

— Eu não quero nada do meu avô.

— Mesmo assim, tudo o que ele tinha é seu agora. E você não pode jogar o que herdou pela janela.

— Posso, sim. Eu...

— Não seja tão egoísta! — Jason disse com aspereza. — Você ignorou seu pai e seu avô por...

— Eu ignorei? — Edna interrompeu-o, indignada. — Eles é que...

— Você ignorou, sim. Está certo que eles rejeitaram a sua mãe, mas essa rejeição não incluía você. Você magoou muito seu avô, não querendo vir visitá-lo. Acho que você pode, pelo menos, dar-lhe um pouco do seu tempo, agora que ele está morto.

— Você não tem piedade mesmo, não é?

— Esperava que eu tivesse?

— Não.

— Então, estou contente por ter-lhe dado uma decepção.

— Você... esteve com Isobel? — mudou de assunto. E, vendo 0 gesto afirmativo dele, perguntou: — Ela já se acalmou?

— Já, sim. Na minha opinião, está calma até demais, agora. Quando explodir, espero que você não esteja por perto.

— Mais uma razão para eu ir embora. Isobel Morton não me quer aqui.

— Isobel não tem nada com isso. E você não vai a lugar nenhum.

Ele se levantou da poltrona em que estava sentado, domi­nando-a e... atraindo-a, com seu corpo forte.

— Pelo menos, não enquanto eu não lhe disser que pode.

— Até você... Até você me dizer que posso? Mas quem você pensa que é? Isobel e Claire podem gostar da sua arrogância, mas eu estou longe disso.

— Eu sei. — O sorriso que surgiu nos lábios dele era total­mente sem alegria. — Acho que nós já descobrimos do que você gosta.

— Ora, seu...

— Eu não faria isso — Jason disse, quando Edna avançou para ele. — Não gosto de violência e não respondo bem a ela. Eu me desforraria do seu ataque de um modo altamente satis­fatório para mim, mas você não ia achar a mesma coisa.

— Você seria capaz de... — Ela se interrompeu, abaixando lentamente a mão que havia erguido para atingi-lo.

— Eu lhe daria a maior surra da sua vida. E, depois, seria até capaz de beijá-la.

— Entendo. — O desprezo que havia no tom de voz de Edna serviu para encobrir o medo que ela sentia. — Isso é o tipo da coisa que o deixa excitado, não é?

Percebeu que tinha ido longe demais, pelo brilho zangado que surgiu nos olhos cinzentos, e pelo modo como as feições de Jason endureceram.

— Não — ele disse, puxando-a com brutalidade de encontro ao peito másculo. — Isso é que me excita — murmurou, apos­sando-se da boca de Edna.

Toda a luta e resistência dela foram em vão, e sem piedade ele a puniu, pressionando-lhe os lábios de encontro aos dentes e machucando-a implacávelmente, quando ela se recusou a abrir a boca. Edna sabia que era a única culpada pelo que es­tava acontecendo, mas isso não tornava a situação mais fácil de suportar.

Então a pressão que a boca de Jason exercia sobre a dela mudou, tornando-se insistentemente persuasiva, de um modo tão sutil que Edna nem percebeu quando começou a retribuir o beijo. Ela não tinha dúvidas de que ele era um amante expe­riente, e essa impressão foi reforçada pelo modo como parecia atingir-lhe a própria alma, com a profundidade de seu beijo, enquanto suas mãos acariciavam-lhe lentamente o corpo, dos seios até as coxas, puxando os quadris dela com firmeza de encontro às pernas musculosas, fazendo-a totalmente conscien­te de sua excitação sexual.

Afinal ele a soltou, dando um passo para trás para exami­nar-lhe as faces coradas e os olhos brilhantes, com indisfarçada satisfação.

— E isso que me excita.

Não era preciso que lhe dissesse isso. O desejo dele tinha estado evidente em cada músculo tenso do corpo forte, e a boca de traços bem-feitos lhe dissera, com clareza, o que ele real­mente gostaria de fazer. E não era apenas beijá-la!

Tentou ajeitar os cabelos com as mãos, consciente de que tinham sido as mãos de Jason que os haviam desarrumado, quando ele a imobilizou para beijá-la.

— Você é odioso! Como se atreve a me beijar desse modo, quando pretende casar com outra mulher?

— Pretendo, mesmo?

— Você sabe que sim! Você vai casar com Isobel Morton.

— Eu não sabia que você devia lealdade a ela.

— E não devo, mas...

— Então, deixe os sentimentos de culpa para mim... se eu achar que eles são necessários.

— O que você não acha, com toda a certeza.

— Como não tenho intenção de casar com ela, não.

— Mas...

— Já não está na hora de você telefonar para a sua mãe? — Jason interrompeu-a. — Você disse que precisava falar com ela.

— Preciso, mesmo. Posso telefonar daqui?

— Daqui, do quarto, ou do hall. Como preferir.

— Não é disso que estou falando. Estou querendo saber se posso fazer a chamada da sua casa.

Ele olhou-a de alto a baixo, vagarosamente, com ar caçoísta.

— Está com medo de que eu exija pagamento pelo uso do meu telefone? — perguntou, com um sorriso de desprezo.

— Não! — Por que aquele homem tinha o poder de reduzi-la ao nível de uma desajeitada garotinha de escola? Ele não era o primeiro homem sofisticado, seguro de si e extremamente ar­rogante que ela encontrava e, no entanto... Não deveria se sen­tir atraída por ele, deveria sentir apenas antipatia. Mas tudo o que queria, desesperadamente, era estar nos braços de Jason.

Pensaria mais tarde. Se tinha que continuar vivendo naquela casa, precisava sufocar estas novas emoções que a invadiam. Jason era bem capaz de se divertir flertando com ela, mas Edna pressentia que, de sua parte, a história seria bem mais séria,

— Posso telefonar daqui, ou não? — perguntou novamente, com ar de desafio.

— Pode fazer o que quiser, seja lá o que for — ele respondeu, com voz rouca. — Posso considerar qualquer oferta.

— Se eu vou ter de pagar pela minha hospedagem na sua casa, do modo que está insinuando, prefiro ir para um hotel — mentiu.

— Você não tem de fazer nada. Eu só estava imaginando se não gostaria de partilhar o seu quarto comigo.

— Não, eu não gostaria. — Edna estava tensa.

— Não está acostumada a acordar de manhã e encontrar um homem do seu lado, na cama?

— Isso mesmo. Prefiro dormir só.

— É uma pena! Eu goste de acordar de manhã e encontrar alguém na cama comigo.

— Tenho certeza de que isso acontece com bastante frequência.

— Acontece, mesmo. — Jason sorriu. — Desse modo, a gente sempre pode repetir a experiência da noite anterior, se ela foi agradável.

— Verdade? — Edna teve certeza, naquele momento, de que Jason já tinha dormido com uma infinidade de mulheres... e não gostou do sentimento que a invadiu. — Eu sempre achei que não existem repetições, que cada vez é uma nova experiência.

— Nesse caso — ele murmurou, levantando as sobrancelhas escuras —, talvez fosse melhor você aceitar o pedido de casa­mento de Tim. Pelo que acabou de me dizer, vocês dois devem ter o tipo ideal de relacionamento físico.

— Não me lembro de ter falado em Tim. E, se eu acho uma nova experiência a cada vez, é porque tenho o cuidado de sem­pre escolher um homem diferente para dormir comigo — acres­centou, com voz entediada.

— Não posso acreditar! Você não parece ser do tipo que...

— Que tipo? Por acaso, ter novas experiências é um direito apenas dos homens? Eu quero ter o maior número possível de experiências em minha vida, antes de me dedicar a um só homem.

— E não quer que uma dessas experiências seja comigo?

— Não!

— Nem mesmo para se desforrar de Isobel, por ela ter rou­bado seu pai de sua mãe?

— Fazendo a mesma coisa? Ou seja, roubando você, dela?

— É.

— Existem muitos homens disponíveis por aí, para eu pre­cisar roubar a propriedade de outra mulher. Eu jamais me re­baixaria ao nível dela.

— Eu já lhe disse que não pertenço a mulher nenhuma! — A voa de Jason tinha um tom duro e zangado.

— Talvez esse seja o seu problema, "sr. Earle". No fundo, você não consegue aceitar que, na sua idade, ainda esteja ten­tando levar todas as mulheres que encontra para a cama, em vez de estar se dedicando à formação de uma família e de um lar. — Edna olhou-o com ar de inocência, fingindo não perceber quanto suas palavras o enfureciam. — Afinal, você já é velho o bastante para ser meu pai!

— E você é jovem o suficiente para levar a surra que eu mencionei, agora há pouco — Jason disse, dando um passo amea­çador na direção dela.

— Ah, não. — Dando uma risada deliberadamente provo­cante, Edna apoiou uma das mãos no peito dele. — Eu não me esqueci do que você disse que viria, depois da surra, e prefiro não repetir a experiência. Você não me excita.

— Ora, sua...

— Não sabe perder, é? Eu detesto quando um homem faz   uma cena, por causa dessas coisas...

— Um destes dias — Jason avisou, furioso —, eu posso muito bem exigir que você me mostre até onde vai toda essa sua ex­periência.

— Só se estiver num estado de completo desespero — ela lembrou a ele, com meiguice. — Você parece ser um amante experiente, mas isso não quer dizer que seja um bom amante.

Os olhos cinzentos se estreitaram perigosamente.

— Eu já avisei, Edna!

— Já — ela concordou. — Um dia destes... Bem, vamos ver. Pode ser que eu chegue a esse estado de desespero. Afinal, não conheço nenhum homem em Londres.

— Tenho certeza de que você logo vai dar um jeito nessa situação.

— Sem dúvida. — Edna lançou-lhe um sorriso brilhante. — Acho melhor eu falar com a minha mãe, do quarto. Vejo você amanhã, de manhã? — Ela já tinha percebido que aquela con­versa não estava agradando a Jason. Pois bem, era o que ele merecia, por ser tão seguro de si mesmo... e do poder que tinha sobre ela.

— Talvez. É capaz de eu já ter ido para o escritório, quando você se levantar.

— Você vai trabalhar amanhã? Mas, e Isobel?

— Ela está tomando sedativos, e vai dormir a maior parte do dia. Meu tempo será melhor empregado, no escritório. — Vendo a cara que Edna fez, Jason continuou: — Você não en­tende a minha atitude agora, Edna, mas logo vai entender.

— Isso soa como uma ameaça.

— Vá fazer o seu telefonema — ele ordenou, com impaciên­cia. — E não se esqueça de dizer à sua mãe que vai ter que ficar aqui, por enquanto.

— Eu irei para casa quando bem entender!

— Isso, veremos — ele murmurou, estreitando os olhos.

 

Infelizmente, foi Angela quem atendeu ao telefone, quando Edna discou.

— E então? — Angela perguntou, depois que as duas troca­ram os cumprimentos iniciais. — Já viu David? Como está ele?

— Eu...

— Ele está muito mal?

— Mamãe... Drew está aí? Posso falar com ele?

— Depois, Edna. Agora, conte-me como está se saindo com David.

— Por favor, mamãe, chame Drew para mim.

— O que foi que aconteceu?

— Deixe-me falar com Drew.

— Não. Diga-me o que está acontecendo.

— Precisa de ajuda? — Jason perguntou da porta do quarto, que Edna havia deixado aberta.

— Um momento, mamãe — Edna disse. Durante alguns se­gundos, hesitou; não queria contar à mãe sobre a morte do avô, mas também não queria que a notícia fosse dada a ela sem o menor tato, como Jason faria, com toda a certeza.

Mas, no fim, acabou estendendo o fone para ele, murmuran­do: — Peça para falar com Drew. Ele saberá o que fazer.

— Sra. Shaw? — Com calma, Jason assumiu o controle da situação. — Quer chamar o seu marido, por favor? Agora, sra. Shaw.

Angela deve ter reconhecido a autoridade na voz de Jason, pois logo depois ele estava falando com Drew.

— Não, Edna não vai voltar logo — ela ouviu-o dizer para Drew. — Vamos levar vários meses para resolver tudo.

Vários meses?! Do que é que ele estava falando?

— Jason...

— Portanto — ele continuou, fazendo um gesto com a mão, para que Edna se calasse —, acho melhor você arranjar outra pessoa para preencher a vaga dela, na sua firma.

Edna estava a ponto de avançar em Jason, quando ele final­mente desligou o telefone.

— Como teve a coragem de dizer a Drew para dar o meu lugar para outra pessoa? — berrou. — Eu preciso daquele em­prego, eu gosto daquele emprego. E que negócio é esse de eu ter que ficar aqui vários meses? Eu não quero!

— Pare com isso, Edna. Vamos deixar para discutir esse assunto amanhã, quando estivermos mais calmos e descansa­dos. Agora, eu só consigo pensar em ir para a cama. — Ele sorriu para ela. — Se me deixasse dormir com você, esta noite, eu lhe garanto que nada aconteceria.

— É? Mas e quando você acordasse, depois de uma noite de sono?

— Bem, foi só uma idéia. De qualquer modo, o meu quarto fica a duas portas além do seu. Se resolver aceitar o meu con­vite, não hesite em me procurar.

— Não tenho o hábito de visitar quartos de homens.

— Então, vejo você amanhã cedo — ele disse, dando de ombros.

— Até amanhã.

Edna reconhecia que era a culpada por estar naquela situa­ção. Se pelo menos não tivesse dito todas aquelas mentiras a Jason, sobre a vida que costumava levar. Ela não condenava as pessoas solteiras que dormiam juntas, desde que estivessem apaixonadas uma pela outra. Mas desprezava as que iam para a cama com alguém, pelo simples prazer de uma relação sexual. E, agora, havia dado a ele, de propósito, a impressão exata de que era desse tipo!

No dia seguinte, como Jason havia predito, ele já tinha saído para o escritório quando Edna desceu para tomar o café da manhã. Estava com uma fome de leão e comeu tudo o que a sra. Gifford lhe ofereceu. Depois, resolveu sair para dar urna volta e admirar as vitrinas de Londres.

Levou algum tempo escolhendo a roupa que ia usar. No fim, acabou vestindo uma calça e um suéter bem justo, verde-limão, que aderia ao seu corpo como se fosse uma segunda peie. Não tinha dúvida de que Jason desaprovaria o modo como estava vestida, moderna demais para o gosto dele, mas talvez por isso mesmo tivesse escolhido aquela roupa.

Jason Earle e seu gosto que fossem para o inferno! Por que razão ela se importava com a opinião dele? Ele não era nada para ela, nada além de um homem arrogante, que tinha o hábito de "cantar" todas as mulheres com quem cruzava. Gostaria de ser uma exceção, mas estava desconfiada de que, em vez de ficar imune a Jason, estava começando a achá-lo atraente demais.

Londres era uma cidade muito diferente das outras. As lojas eram interessantes, mas o povo... Todo mundo parecia estar a caminho de algum lugar, e aparentemente atrasado! Ela foi tão empurrada, e recebeu tantas cotoveladas, que seu prazer pelo passeio quase acabou. Finalmente, resolveu comprar um san­duíche e um refrigerante, e ir fazer um lanche num dos parques que Londres tem, em grande número.

Comeu metade do sanduíche e distribuiu o restante entre os famintos pombos que se aproximaram do banco, mal ela se sen­tou. Os pedacinhos de pão logo desapareceram, devorados pelos

biquinhos ávidos.

— Acabou — disse, quando os pombinhos começaram a ar­rulhar e olhar para ela com ar implorante. — Acabou.

— Eles não irão embora — uma voz comentou, do banco em frente. — Só quando outra pessoa começar a dar comida para

eles.

Edna olhou com interesse para o rapaz que tinha falado. Era jovem, loiro e atraente, e estava vestido de modo casual, com um jeans e camiseta de algodão. Não devia ser muito mais velho do que ela, provavelmente dois ou três anos, apenas.

— Venha sentar-se aqui — ele convidou, sorrindo, os olhos muito azuis brilhando no rosto amigável. — Eles não virão atrás

de você.

— Tem certeza? — Edna perguntou, rindo.

— Tenho, sim. Eles estão ocupados demais, procurando pelas migalhas que podem não ter visto, da primeira vez.

Os pombos se agitaram quando ela passou por eles, mas o rapaz estava certo: eles não a seguiram.

— Eu estava começando a me sentir presa no meio deles — Edna confessou, sentando-se ao lado do rapaz.

— Eles causam mesmo esse efeito na gente. Antes, eu vinha sempre alimentá-los, mas agora perdi o hábito. Meu nome é Gary Nichols — acrescentou, com um sorriso.

— Prazer em conhecê-lo, Gary. Eu sou Edna Shaw.

— Não faz muito tempo que você está aqui, não é?

— Nos Estados Unidos, todo mundo caçoava de mim por causa do meu sotaque inglês, mas aqui é evidente que eu sou facilmente reconhecida como americana. Não tem jeito, mesmo!

— Você é inglesa?

— Sou, mas faz muito tempo que moro em Nova York. — Sentindo-se um pouco envergonhada de si mesma, por estar falando com um completo estranho, Edna levantou-se. — Acho melhor eu ir embora.

Gary levantou-se também e, segurando-a pelo braço, per­guntou:

— Você tem mesmo que ir? Eu tenho a tarde livre e... bem. gostaria de passar algumas horas com você.

— Não, obrigada — Edna respondeu na mesma hora. Ele parecia um bom rapaz, mas, pelo que ela sabia, podia até ser um estuprador de mulheres.

— Podemos ficar o tempo todo em público — ele disse, como se estivesse lendo os pensamentos dela.

— Desculpe, eu não pretendia ser tão pouco sutil.

— Eu entendo. E não foi falta de sutileza, foi sensatez. Va­mos tomar um café em algum lugar por aí e conversar um pouco.

Ela hesitou, mas acabou concordando, e poucos minutos de­pois viu-se sentada num café ali perto, ainda insegura sobre se estava certa ou não, tendo aceito o convite de Gary. Para uma garota que gostava de conhecer bem um rapaz, antes de sair com ele, estava tendo um comportamento bastante estranho. Mas, enfim, tudo o que vinha lhe acontecendo desde que che­gara à Inglaterra parecia estranho.

— Sabe, eu me sentei naquele banco de propósito — Gary disse. — Estava atravessando o parque quando a vi, e senti vontade de conhecê-la.

A franqueza dele não a surpreendeu. Olhando-o mais de per­to, Edna descobriu por que havia permitido que Gary conversasse com ela: ele era parecidíssimo com Tim! Ambos tinham o mesmo cabelo loiro, os mesmos olhos azuis, o mesmo tipo de rosto e aquele ar de segurança que sugeria, principalmente em Gary, que eles sabiam o que queriam e fariam o possível para obter. E o inglês havia acabado de confirmar essa impressão: ele desejava conhecê-la e tinha dado um jeito para que isso

acontecesse.

— Você me lisonjeia — respondeu, num tom ligeiro.

— Não era a minha intenção. Eu só estava confessando uma verdade. De onde você tirou esses adoráveis olhos dourados?

Edna riu, um riso alegre e despreocupado. Ela era jovem, razoavelmente bonita, e Gary Nichols era muito atraente. Su­bitamente, o mundo lhe pareceu mais belo.

— Do meu avô. Pelo menos, foi o que me disseram.

— Você não sabe?

— Eu não o conheci. Meus pais eram divorciados — explicou, de modo breve. — Diga-me, o que você faz para viver, que lhe permite estar de folga, numa tarde de terça-feira?

— Você tem diante de si o maior artista da próxima década — Gary disse, de modo brincalhão. — Sou pintor.

— Verdade? Não me lembro de já ter visto um quadro seu.

— E não viu, Eles são tão raros e exclusivos que quem os possui guarda-os debaixo de sete chaves.

— Sei... Você deve ser bom.

Gary riu.

— Falando sério, espero ser grande, algum dia. Tenho uma exposição marcada para daqui uns seis meses.

— Então você é bom mesmo. — Ela estava impressionada.

— E você, o que faz? Está morando aqui, ou só passando

férias?

— Nenhum dos dois. Eu... bem, eu vim visitar uns parentes.

— E está hospedada na casa deles?

— Estou hospedada na casa de... de Jason. Ele era amigo do meu avô — Edna explicou rapidamente, quando percebeu o olhar dele, penetrante e especulativo. — Verdade. O nome dele é Jason Earle.

— Ele costuma sair com Isobel Morton, não costuma?

— Como você sabe disso?

— Está em todos os jornais desta manhã. Olhe aqui — ele lhe estendeu um jornal já manuseado —, veja. O artigo é sobre a morte de David Morton, e menciona que... Ei, você está se sentindo bem?

Gary parecia alarmado com a palidez de Edna.

— Estou. Estou... muito bem.

Edna não havia pensado que a morte de seu avô pudesse

   aparecer nas primeiras páginas dos jornais. A notícia parecia

tão crua e chocante, impressa em letras garrafais! Seria melhor

se não a tivesse visto, pela primeira vez, justo na frente de um

estranho.

— Com licença... — Com as pernas trémulas, Edna levan­tou-se e correu para o banheiro, que ficava perto de onde eles estavam.

No jornal, havia um retrato de Jason e Isobel Morton, juntos. Havia também um retrato de seu avô, e ele tinha exatamente a aparência que ela imaginara: um homem alto e magro, com uma expressão decidida no rosto duro, cabelos grisalhos e um ar distinto. Era impossível dizer qual a cor dos olhos dele, mas davam a impressão de serem curiosamente claros. Dourados, como os dela, Jason dissera.

Num espasmo doloroso, vomitou tudo o que tinha no estô­mago. Depois, sentindo-se bem melhor, molhou o rosto pálido com água fria. Quando o avô não era mais que uma figura remota em sua vida, a morte não significara muito para ela. Mas o fato de ter visto como ele era transformara sua morte numa dolorosa realidade. Podia não o ter conhecido, mas ele havia se importado com ela o suficiente para lhe deixar uma enorme fortuna.

Agora, chorava as lágrimas que não derramara no dia ante­rior. Chorava por todos os anos desperdiçados, os anos que ela e o avô podiam ter convivido, senão inteiros, pelo menos em parte. Soluçou e soluçou e, quando finalmente se acalmou, to­mou uma decisão que fez uma estranha sensação de paz inva­di-la. Não discutiria mais com Jason sobre ficar ou não na In­glaterra, e aceitaria a herança que ia receber. Era isso, obvia­mente, que o avô queria que fizesse. Depois refez a maquiagem estragada e penteou os cabelos. Quando terminou, só uma pes­soa observadora seria capaz de descobrir que estivera chorando. Infelizmente, Gary era muito mais do que observador. Tinha os olhos perspicazes de um artista e percebeu logo por que ela tinha fugido para o banheiro.

— Vamos — Gary disse, assim que ela se juntou a ele. — Já paguei a conta.

Edna seguiu-o, ligeiramente atordoada.

— Mas que idiota eu sou — ele murmurou, quase para si mesmo. — Eu devia ter percebido... Você é a neta que chegou da América, ontem.

— Os jornais falam de mim?

— Da sua família toda. Puxa, eu sinto muito, Edna. Acho que, desta vez, enfiei mesmo os pés pelas mãos.

— Está tudo bem. — Ela sorriu para ele, um sorriso sem a menor alegria. — Eu só estou tendo uma reação tardia.

— Está se sentindo melhor agora? — Gary examinou-a, preo­cupado.

— Muito. E sempre melhor quando a gente desabafa.

— Mas, na certa...

— Você se importa se eu for agora, Gary? Quero voltar para casa... para a casa de Jason. Obrigada pelo café.

— Eu levo você para casa — o rapaz disse, com firmeza.

— Eu... eu posso pegar um táxi.

— Não, por favor, Edna. Deixe que eu a leve.

Ela não conseguiu resistir ao olhar implorante de Gary.

— Está bem. Mas eu não vou poder convidar você para en­trar. Sou apenas um hóspede, lá.

O carro de Gary estava parado a poucos metros dali. Ele levantou as sobrancelhas, quando ouviu o endereço que ela lhe deu, mas não fez nenhum comentário. No entanto, só a expres­são dele bastou para Edna entender que a casa de Jason devia ficar numa área muito exclusiva de Londres.

— Posso ver você de novo, Edna? — ele perguntou, quando os dois já estavam sentados no carro. E acrescentou, quando viu que ela hesitava: — Pelo menos, me dê o número do seu telefone.

Ela mordeu o lábio, pensativa. Não podia negar que Gary tinha procedido como um grande amigo. Além disso, era a única pessoa que ela conhecia, num país totalmente estranho.

— É provável que eu me mude logo de lá.

— Quando isso acontecer, o sr. Earle pode me dar o seu novo endereço, não pode?

— Está bem — concordou, estendendo-lhe um pedaço de pa­pel, no qual havia tomado nota do endereço e telefone de Jason. — Mas se Jason atender, não garanto que você seja bem tra­tado. Ele pode ser muito rude, quando quer.

— Já li a esse respeito. Mas não se preocupe, eu serei edu­cado. E só telefonarei daqui a uns dois dias. Nesse meio-tempo, você provavelmente vai ter muita coisa para fazer.

— Deixe para daqui uma semana. Talvez, até lá, minha vida já esteja mais organizada. — Se bem que ela duvidasse, com Jason por perto.

Desceu do carro e acenou para Gary, quando ele partiu, con­tente por ter feito um amigo. Depois, virou-se para apertar a campainha, mas, antes que tivesse tempo para isso, a porta se abriu e Jason surgiu à sua frente, o rosto contorcido de raiva. Ele a puxou rudemente para dentro e bateu a porta, arrastan­do-a para o escritório, antes de empurrá-la para longe de si.

— Onde é que você esteve? — perguntou, por entre os dentes cerrados.

— Estive fora. Eu avisei a sra. Gifford...

— Que ia ver vitrinas. No entanto, você voltou acompanhada por um homem.

— Como é que você sabe que não era um motorista de táxi?

— E era? — O olhar que ele lhe lançou era cheio de des­confiança.

— Não — Edna admitiu, com ar de culpa, abaixando a ca­beça. Não queria olhar para o rosto lívido de raiva de Jason.

— Então, onde foi que você o conheceu?

— No parque.

— Meu Deus, você não perde tempo, hein? — Ele exami­nou-a de alto a baixo, com evidente desgosto. — Faz só um dia que está aqui, e já achou um homem para partilhar a sua cama!

O sangue invadiu as faces de Edna. Como ele se atrevia? Como?

— Um homem, não — ela disse, com ênfase. — Outro ho­mem. Não se esqueça de que já recebi um convite seu.

— Sua...

— Será que me enganei? — Edna fingia inocência. — Ontem à noite você...

— Cale a boca, sua vagabundazinha! — Jason ordenou com brutalidade. — Isobel está na sala. E você sabe muito bem como ela se tornou possessiva em relação a mim, de repente.

— Por que você não me disse antes? — Seu desejo de atingir Jason não incluía Isobel.

— Não pensei que fosse preciso — ele murmurou, furioso. — Você disse que não tinha intenção de atingir Isobel, por meu intermédio.

— E não tenho, mesmo. Não, com alguém como você. Gary é muito mais o meu tipo. Ele não faz do fato de dormirmos juntos um cavalo de batalha.

— Ele só aceita o fato, eu imagino.

— Isso mesmo. — Edna olhou-o, com ar de desafio. — Você não deveria estar fazendo companhia à sua noiva?

— Ela não é minha noiva, nem foi nunca. — Os olhos cin­zentos brilharam perigosamente. — E ela veio ate aqui para ver você.

— Não diga.

— Isobel quer que você fique na casa dela.

— Mas ela disse... Ah, já entendi! Isobel não me quer na casa dela, mas também não me quer aqui na sua. Bem, agra­deça a ela e diga que, se eu tiver que sair daqui, irei para um hotel.

— Pelo amor de Deus, eu não estou querendo que você vá embora! Isobel só pensou...

— Eu sei o que ela pensou. Mas eu não vou ficar na casa dela. Não quero, e não vou!

— Já entendi, Edna, não precisa protestar tanto! Eu poderia ficar com a impressão de que você não quer ir porque deseja ficar perto de mim.

— O que seria um grande erro. Se a sua explosão de agora há pouco, só porque eu vim com um homem para casa, é um exemplo do seu comportamento habitual, eu...

— Você admitiu que o conheceu num parque, hoje mesmo. Que tipo de garota você é, afinal?

— Pensei que você já soubesse, Jason. Eu sou uma garota que se agarra a todos os prazeres da vida, por mais baratos que sejam. E para mim qualquer homem serve, desde que não seja você. — Fez uma pequena pausa, antes de continuar: — Eu não quero lhe dar satisfação de cada coisa que faço. Se for para fazer isso, prefiro ir para um hotel. Eu...

— Cale a boca! — Ele agarrou-a brutalmente pelos ombros e, inclinando-se, colou os lábios aos dela num gesto de pura raiva, que ao mesmo tempo expressava paixão intensa. Quando finalmente a soltou, ela estava atordoada, ofegante. — Parece que esse é o único jeito de fazer você ficar quieta — disse, com satisfação.

— Jason... — O beijo punitivo havia acabado com todo o desejo de luta em Edna.

— Peto amor de Deus, Edna, você...

— Jason? Onde está você? — A voz rouca de Isobel Morton chegou até eles. — Querido...

Com esforço, Edna conseguiu se recompor. Por que será que Jason tinha o poder de fazê-la esquecer de tudo no mundo, menos dele?

— Acho que Isobel quer você por perto — ela murmurou.

— Um segundo atrás, pensei que você me quisesse — Jason replicou, observando-a por entre as pálpebras semicerradas.

— Seu convencido...

— Ah, você está aí, querido! — Isobel Morton entrou no es­critório. — E Edna também.

— Você deveria ter ficado na sala. Ainda não está boa para sair andando por aí. — Com a mão estendida, Jason aproxi­mou-se de Isobel.

De fato, Isobel não estava com boa aparência; o rosto bonito apresentava uma palidez doentia e enormes olheiras arroxea­das rodeavam-lhe os olhos castanhos. No entanto, como sempre, ela estava impecavelmente vestida e penteada.

— Eu estava preocupada com você, querido — Isobel disse para Jason, sorrindo. — Já fazia tanto tempo que tinha vindo para cá. Não vi que Edna havia chegado.

— Ela chegou agora mesmo — ele respondeu, ajudando-a a se sentar numa poltrona.

Edna estremeceu, ao ver o olhar de advertência nos olhos cinzentos. Será que Jason achava que ela ia contar a Isobel o que havia acontecido, momentos atrás? Aquela mulher podia ter tirado seu pai de sua mãe, mas ela nunca seria capaz de proceder da mesma forma.

— Como está se sentindo, agora? — Edna perguntou.

— Melhor, obrigada — foi a resposta um tanto fria de Isobel. — Jason me alertou e eu concordo que a tratei muito mal ontem. Espero que me desculpe. Ele ficou bem zangado comigo.

Edna, que estava boquiaberta com aquele pedido de descul­pas, entendeu logo o que havia acontecido. Na certa, se Jason não tivesse ficado "zangado" com Isobel, ela não estaria rece­bendo nenhum pedido de desculpas.

— Está tudo bem — disse, com ar distante.

Isobel disfarçou logo a raiva que surgiu em seus olhos cas­tanhos e, virando o rosto para o outro lado, sorriu para Jason.

— Ele pode ser tão bruto, quando quer... — ela murmurou, como se não desse importância às mudanças de temperamento dele, desde que pudesse tê-lo sempre por perto.

Aquele tipo de relacionamento deixava Edna enjoada. De uma coisa tinha certeza: Isobel Morton podia amar Jason, o que era duvidoso, mas ele não a amava. Ele era cínico demais para se apaixonar e se tomar vulnerável a uma mulher.

— Imagino que ele possa ser bruto, quando quer — respon­deu secamente, notando, com satisfação, Jason apertar os lá­bios. — Mas não era preciso você me pedir desculpas, Isobel. Entendo perfeitamente o seu comportamento! — acrescentou, certa de que a outra a odiava de todo o coração.

— Pronto, querido — Isobel disse para Jason, fazendo bei­cinho. — Não está mais zangado comigo, agora?

— Eu nunca estive zangado com você — ele murmurou, im­paciente. — E você não precisava vir até aqui hoje, para pedir desculpas a Edna. Eu só lhe disse que achava que você devia falar com ela, quando estivesse melhor.

— Eu não vim aqui só para isso — Isobel explicou, com voz suave. — Você já deve ter percebido que Edna não pode conti­nuar hospedada em sua casa. Vocês dois precisam ver que não fica bem continuarem aqui, sozinhos. Imaginem o que a im­prensa não seria capaz de dizer, se ficasse sabendo disso!

— Eu posso lhe garantir que não tenho nenhuma preten­são a...

329Fogo sob o Gelo

Edna começou, com ar de cinismo, mas Jason interrompeu-a, com firmeza.

— Edna e eu já conversamos a esse respeito, Isobel. Por enquanto, é melhor ela ficar aqui. Eu sei que essa não é uma boa hora para falar nisso, mas, assim que as disposições do testamento de David começarem a ser cumpridas, vou precisar de Edna sempre por perto.

— Como assim? — Edna estava surpresa. — O que o testa­mento de meu avô tem a ver com você?

— Muito, como você logo vai descobrir.

— É simples — Isobel falou: — Seu avô deixou para você quase tudo o que ele possuía, mas, como era um sujeito esperto, deixou "você" sob a guarda de Jason. Jason agora é o seu tutor!

 

- Não pode ser — Edna exclamou. — Eu tenho pai e mãe, e não posso fi­car sob a guarda de um completo estranho!

— Eu não vou ser esse tipo de tutor — Jason disse, com voz entediada —, embora possa controlar a sua vida, sob certos aspectos.

Edna não tinha dúvida de quais "aspectos" eram esses.

— Então, que tipo de tutor você vai ser?

— Um tutor que dirige a sua vida financeira e seus negócios. David arranjou as coisas de modo que você não vai ter de mover uma palha, para receber os lucros da herança que ele lhe dei­xou. Eu é que vou tomar conta de tudo.

— Sei... E eu posso contestar essa condição? — Edna quis saber, olhando-o com ar de desafio.

— Você pode tentar, mas acho que não vai conseguir nada. O testamento de David é bem claro. — Ele estava zangado, agora.

— E você concordou com essa condição?

— Concordei.

— Eu não vou poder dar nenhum palpite nos negócios que meu avô me deixou?

— Você será consultada, ocasionalmente — Jason esclareceu, com arrogância.

— Mas a palavra final será sempre sua?

— Isso mesmo — havia um brilho de satisfação nos olhos cinzentos.

— Meu Deus, por que ele foi escolher logo você! Isobel sorriu com um prazer maldoso.

— Uma mulher que não gosta de você, querido... — ela co­mentou, com ar pensativo. — Que novidade!

A expressão fechada de Jason mostrava claramente quanto ele estava desgostoso com a atitude de Edna. Ela sabia que tinha sido infantil e que, apesar de sua conduta moral não ser das mais recomendáveis, Jason era um gênio financeiro. Ob­viamente, o avô dela sabia disso, também.

Mas Isobel Morton estava enganada, quanto a seus sentimen­tos por Jason. Ela não deixava de gostar dele, ao contrário, gos­tava dele até demais! Será que conseguiria conviver com ele pelo tempo que fosse necessário, para cumprir todas as disposições do testamento do avô, sem trair seus verdadeiros sentimentos?

— Edna ainda não aprendeu que nem sempre é prudente deixar os sentimentos tão à mostra — Jason murmurou. — A antipatia que ela sente por mim sempre foi óbvia, desde o co­meço, embora tenham existido duas ou três ocasiões em que convivemos melhor.

Com ar de desafio, ele a enfrentou, olhos nos olhos. O sangue invadiu o rosto de Edna, e ela olhou significativamente para Isobel Morton. Mas o olhar de Jason acabou por levá-la a in­sultá-lo ainda mais:

— Eu antipatizei com você desde o momento em que nos conhecemos, e creio que o sentimento foi mútuo. — Virando-se então para Isobel, continuou: — Sabe, sra. Morton, não importa o que a imprensa diga, eu nunca tive pretensões com relação a Jason.

— Espero que não — Isobel replicou, furiosa. — Mas, quando eu falei nisso, estava me referindo ao fato de que eles talvez achem estranho você não estar hospedada na casa que foi de seu avô. Eu não quis dizer que você e Jason... A idéia é ridícula!

— É. — Edna não conseguiu reprimir um sorriso provocante para Jason. Ele não parecia nem um pouco divertido, o que aumentou ainda mais o contentamento dela. — Extremamente ridícula!

— Edna vai ficar aqui mesmo — Jason interferiu —, onde eu posso estar de olho nela.

— Eu sou bem capaz de fazer isso — Isobel insistiu.

— Edna é um pouco... irritadiça — Jason comentou. — Pre­cisa de uma mão firme.

— Eu não preciso de nada disso — Edna falou, furiosa —, e muito menos de você!

— Pois eu discordo. Pelo que vi do seu comportamento até agora, você precisa de supervisão constante. — Jason estava irredutível.

— Dia e noite? — ela desafiou, com doçura.

— Se for preciso — ele admitiu, com voz dura.

— Olhem — Isobel interferiu novamente —, do jeito que vocês estão se tratando, acho que a melhor coisa a fazer é Edna mudar mesmo para a minha casa.

— Não! — Ela recusou, na mesma hora.

— Não! — Pela primeira vez, Jason estava do lado dela. — Você já tem muito em que pensar, sem precisar se preocupar com quem é dono da cama em que Edna pode estar, todas as vezes que ela sumir de casa.

Edna ficou branca. Dizer esse tipo de coisas para ela, quando estavam sozinhos, era muito diferente do que dizê-las na frente daquela mulher. Antes que Jason pudesse pronunciar mais uma palavra, levantou-se de um salto da cadeira em que estava, foi até ele e deu-lhe um tapa no rosto, com toda força. Sem esperar para ver as consequências de seu ato, saiu rapidamente do escritório.

Jason alcançou-a quando ela estava no primeiro degrau da escada e, agarrando-a pelo braço, virou-a de frente para ele. Em seu rosto pálido de raiva, destacava-se a marca vermelha de cinco dedos.

— Eu avisei para você não me bater — ele disse baixinho, furioso. — Eu lhe disse...

— E, você me avisou. — Num gesto de desafio, Edna jogou a cabeça para trás. — E também me disse o que esperar, caso eu fizesse isso. — Para sua vergonha, lágrimas escaldantes sur­giram em seus olhos, embaçando-lhe a visão. Piscou, e as lá­grimas, desceram por suas faces, aos borbotões. — Pois bem, vá em frente e me bata. Isso é exatamente o que eu espero de um homem como você.

— Sinto desapontá-la — Jason disse, com frieza, nem um pouco emocionado pelas lágrimas dela —, mas o seu castigo vai ter de esperar até mais tarde.

— Se algum dia você me beijar de novo, acho que sou capaz de vomitar — ela murmurou, a voz abafada.

Jason torceu o braço dela para trás das costas, e com esse movimento trouxe-a para bem junto de seu corpo forte e mus­culoso.

— Eu nunca entendi como um homem podia bater numa mulher, mas com você está ficando cada vez mais fácil saber como. Não confie demais na sua sorte, Edna. A minha paciência já está chegando ao fim.

— E o que me importa? — Ela lutou para se livrar dele, e conseguiu. — Você gosta de me amedrontar. Pois bem, o tapa foi apenas para lhe mostrar que eu não vou mais aguentar isso.

— Os olhos dourados brilhavam como ouro puro quando ela levou uma das mãos ao rosto, para enxugá-lo. — Você pode me dizer o que quiser, em particular, mas eu não vou tolerar que me humilhe na frente dessa mulher.

— Por acaso já se esqueceu de que quem começou a ceninha, agora há pouco, foi você? Eu até que estava sendo muito come­dido, se levarmos em conta que havia acabado de pegá-la en­trando às escondidas na minha casa, depois de passar a tarde inteira com um sujeitinho qualquer, por aí.

— Nós passamos a tarde num café — Edna explicou, com voz abafada. — Eu... eu precisava de alguém com quem con­versar.

— Então, por que não me procurou?

— Você não estava aqui. Já tinha ido trabalhar.

— Por isso, você saiu e arranjou um... Você dormiu com ele?

— Jason perguntou, com aspereza.

— Não. Nós só nos conhecemos hoje, e...

— E normalmente você espera pelo menos até o segundo encontro. Isso deve fazer com que se sinta melhor.

— Eu odeio você, Jason Earle! — Edna recomeçou a subir a escada, e desta vez ele não a deteve.

Agora, tinha a impressão de que não conseguiria manter a decisão que havia tomado no café. Se permanecesse na Ingla­terra e aceitasse a herança, teria de ficar muito tempo em contato com Jason, e isso não seria bom para ela. Ele não era bom para ela, pois tinha uma mente suja, que distorcia todos os seus atos e chegava a fazê-la duvidar de suas próprias atitudes.

Não tinha havido nada de sórdido em sua conversa com Gary, aquela tarde. Talvez não fosse muito apropriado, para uma moça de boa família, conversar daquele jeito com um completo estranho, mas isso também não a fazia a "Rainha das Vaga­bundas". Gary tinha sido apenas amigável, mas Jason nunca acreditaria nela. Ele não queria acreditar, essa era a verdade.

Edna parou em frente à janela do quarto que ocupava e olhou para o jardim, lá embaixo. O carro de Jason estava estacionado no pátio, o que mostrava que ele e Isobel ainda não tinham ido embora. Foi nesse momento que o telefone que ficava na mesi­nha-de-cabeceira tocou, assustando-a.

— Alô? — ela atendeu, trémula.

— O seu namorado está na linha — a voz áspera de Jason comunicou. — Quer falar com ele?

Gary? Mas ela havia-lhe pedido para só ligar na semana seguinte! Bem, isso não tinha importância. Seria bom falar, para variar um pouco, com alguém que não a considerava a maior prostituta local.

— Quero, sim — respondeu, com firmeza. Houve um clique, depois ela ouviu:

— Edna, Edna, você está na linha?

— Tim? — ela perguntou, incerta.

— Quem você esperava que fosse, meu anjo? — ele brincou.

— Não comece, Tim — Edna advertiu asperamente, mas em seguida se arrependeu. — Desculpe, Tim. Eu estou um pouco tensa.

— Não é de admirar. Sinto muito sobre o seu avô. Você che­gou a vê-lo?

— Não. Como você ficou sabendo da morte dele?

— Está nos jornais daqui. Telefonei para Jason, pensando que talvez ele pudesse me dar o número do seu telefone, e ele me disse que você está hospedada aí. O que pretende fazer, agora? Vai voltar logo para casa?

— Por enquanto, vou ter de ficar por aqui mesmo. — Rapi­damente ela explicou as condições do testamento do avó.

— Que coisa estranha! — Tim parecia surpreso. — E se você fosse casada? Seu marido poderia não gostar de você ter de depender tanto de Jason.

— Ele não teria outra escolha.

— Pobre Edna! — Tim comentou, rindo. — Parece que seu avô não confiava muito em mulheres, no que se refere a negócios.

— É, acho que não.

— O que acha de casar comigo? Eu não ligaria a mínima para o fato de Jason exercer controle absoluto sobre o seu dinheiro.

— Isso é porque você é muito rico e não precisa do meu dinheiro.

— O que é um ponto a meu favor.

— Pensei que você tivesse mudado de idéia a respeito de casar comigo, Tim.

— Você me deixou com raiva, Edna. Eu nunca tinha pedido uma garota em casamento, e... bem, foi um choque e tanto ser recusado. Fiquei com o orgulho ferido. Nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo.

Edna sabia que nenhuma garota com a cabeça no lugar teria recusado um rapaz como Tim, herdeiro de milhões de dólares e que, além de tudo, era agradável e bonitão.

— Acho que você me pegou numa hora ruim.

— E o seu sonho de viajar pelo mundo? — ele lembrou.

— Já acabou — ela respondeu, estremecendo. — Você estava certo. É horrível estar num país onde não se tem amigos! Todos aqui me consideram uma amolação.

— Então, volte para casa!

— Não posso. Peio menos, não por enquanto. Eu ficaria com sentimento de culpa em relação ao meu avó, se fosse embora agora.

— Então, o que acha de eu ir visitar você? Vou passar alguns dias na Alemanha, a negócios, e na volta eu poderia passar por aí,

— Isso seria maravilhoso! — Edna concordou, entusiasmada. — Eu estou achando muito difícil aguentar a solidão e... a hos­tilidade. — Além de Jason Earle, é claro!, ela pensou.

— Como foi que você acabou ficando na casa de Jason? — Tim parecia ter a capacidade de ler os pensamentos dela. — Pensei que fosse ficar com Isobel Morton.

— Mesmo que eu quisesse ficar com Isobel, o que eu não quero, não creio que ela esteja em condições de receber visitas.

— Mas você é um membro da família, não uma visita!

— Não para Isobel, Tim. Além disso, a casa que era de meu avô pertence a ela, agora.

— Mas não me parece que ficar na casa de Jason seja uma boa coisa, para você. — Ele riu, de repente. — Não vou contar isso a Claire. Ela morreria de ciúme!

— Não há nada entre Jason e eu — Edna disse, asperamente.

— Mas eu não pensei, nem por um minuto... Não há nada mesmo entre vocês, Edna? — Tim perguntou, cheio de descon­fiança.

— Eu acabei de lhe dizer que não!

— É que você falou como se estivesse na defensiva. Eu co­nheço Jason, e se ele conseguiu levar para a cama uma mulher madura e experiente como a minha irmã, o que não conseguiria com uma menina como você?

— Acontece que eu não tenho a menor vontade de ir para a cama com ele. Puxa, Tim, se eu sou capaz de manter você, uma pessoa de quem eu gosto tanto, a distância, é muito fácil con­seguir fazer isso com alguém que eu detesto.

— É, acho que você tem razão. — Mas ele não parecia muito seguro. —Bom, eu vou até aí logo que puder. Você vai continuar na casa de Jason?

— Sem dúvida — Edna admitiu, com um suspiro resignado. — Jason disse que vai cuidar de mim e afastar todos os homens do meu caminho... ou me afastar do caminho dos pobres ho­mens. Ele parece achar que eu sou uma espécie de armadilha para homens desprevenidos — explicou rindo.

— Você?! A minha distante Edna? Para um homem tão in­teligente, Jason está se mostrando bem pouco perspicaz!

— É que eu estou fazendo tudo para lhe dar essa impressão.

— Mas, por quê? Não, não diga nada. Podemos falar sobre isso quando eu chegar aí. Tenho sentido saudade de você, Edna.

— Eu também. Telefone quando você vier para cá, para eu ir esperá-lo no aeroporto.

— Certo. Até logo, então. — E ele desligou.

Depois disso, Edna deve ter adormecido, porque, quando viu, já era noite fechada. Que horas poderiam ser? Em pânico, acen­deu o abajur e olhou para o relógio de ouro que trazia no pulso: dez e meia! Fazia mais de quatro horas que estava dormindo!

Não era de admirar que seu estômago estivesse roncando de fome!

A sra. Gifford já devia ter ido para o quarto dela. Jason sempre a dispensava, depois do jantar. Jantar! Deus, como es­tava faminta! A governanta não havia esquecido dela, como - mostrava o cobertor jogado sobre seu corpo, mas na certa acha­ra que o sono lhe faria mais bem do que uma refeição.

Deu uma olhadela nas roupas amarrotadas que vestia, pen­sando se devia trocá-las ou não, mas no fim acabou decidindo ficar do jeito que estava. Jason ainda devia estar fora, senão a casa não estaria naquela escuridão. O que era ótimo, pois lhe daria a chance de comer.

Estava terminando de comer a omelete que tinha preparado, quando a porta da cozinha se abriu e Jason Earle entrou. Suas sobrancelhas escuras se ergueram, quando ele deu com Edna sentada ali, comendo à luz da lâmpada que ficava sobre o fogão. Todas as outras lâmpadas estavam apagadas.

— Eu estava trabalhando na escrivaninha que fica no meu quarto — ele disse, notando a surpresa que se estampara no rosto dela, ao vê-lo entrar. — Antes de descer, passei pelo seu quarto, mas você já havia levantado.

Com ar indolente, Jason recostou-se num dos armários da cozinha, sem se preocupar em acender a luz principal. Estava vestido de um modo bastante informal: com jeans desbotados e justos, que delineavam suas pernas musculosas, e camiseta azul-marinho, que estava em parte desabotoada, deixando à mostra alguns pêlos macios e escuros, que ele inconscientemen­te emaranhava com os dedos.

Sua aparência era tão atraente que Edna ficou sem fôlego, só de olhá-lo.

— Eu... eu estava com fome — explicou, nervosa. — Espero que a sra. Gifford não se importe por eu ter invadido os domí­nios dela.

— Não creio — ele disse, acrescentando em seguida: — Ela está fora desde as seis horas. Hoje é a folga dela.

Edna franziu a testa, pensativa. Se a governanta saíra às seis, então quem a cobrira?

— Foi você — ela disse, de repente.

— O que foi que eu fiz, desta vez? — Jason perguntou com ar paciente, como se estivesse lidando com uma criança pouco inteligente.

— Foi você que me cobriu com o cobertor?

— E o que tem isso?

— Tem que eu... eu... — Edna sabia que quando dormem é que as pessoas ficam mais vulneráveis, e não gostava da idéia de Jason tê-la visto naquela situação.

— Você estava perfeitamente decente — Jason comentou, sorrindo, com uma expressão abertamente zombeteira nos olhos. — Na verdade, estava até com uma aparência enterne-cedora, chupando o polegar como se fosse uma chupeta!

— Oh! — O sangue subiu às faces de Edna. Ela sabia que ele não estava mentindo, pois tinha mesmo esse hábito infantil, sempre que se sentia preocupada ou aborrecida.

Os olhos dele assumiram uma expressão mais dura quando percorreram as roupas amarrotadas e os cabelos longos, total­mente despenteados.

— O que mais me preocupou foi o modo como você estava agarrada ao travesseiro — Jason continuou vagarosamente, ob­servando-a com atenção. — Quem você estava imaginando que ele era, Edna? Quem era o homem que estava em seus braços?

— Uma coisa eu lhe garanto: não era você — ela respondeu asperamente.

Com um movimento rápido, Jason obrigou-a a se levantar e perguntou, mantendo-a imóvel de encontro ao peito forte:

— Não era, mesmo?

— Não!

— Era Tim, então? — A voz dele tinha um tom perigosa­mente suave. — Ou era o seu novo namorado?

— Fosse lá quem fosse, você não tem nada a ver com isso! Meus sonhos...

— Fantasias — ele corrigiu sugestivamente. — Pelo seu sor­riso, era uma fantasia.

— Oh! — Ela corou novamente, como na certa Jason espe­rava que acontecesse. — Minhas fantasias, então — admitiu, de má vontade —, só interessam a mim.

— Não se eu fazia parte delas. Eu sempre acreditei em trans­formar as fantasias em realidade.

— Não duvido! Mas você não estava na minha fantasia. Tim é quem estava — mentiu, com ar de desafio.

— Mentirosa! Está querendo me atormentar, fazendo-se de difícil, Edna?

Foi só com muito esforço que ela conseguiu não perder a cabeça, ao ouvir a voz máscula e sedutora soar de encontro à sua orelha. Apelando para as forças que ainda lhe restavam, disse, com ar de pouco caso:

— Eu sei que Isobel não está em condições de satisfazer seu apetite sexual, mas não creio que isso seja razão suficiente para você me levar para a cama, no lugar dela.

Mas, para sua decepção, essas palavras não o deixaram zan­gado. Na verdade, ele até parecia divertido!

— Quando o meu apetite sexual precisa ser satisfeito — Ja­son zombou —, eu procuro mulheres que me dão menos proble­mas que você. É, mulheres como Claire — acrescentou, respon­dendo antecipadamente à pergunta que ela ia formular. — Mas eu não estou querendo que você satisfaça o meu apetite sexual, apenas. Eu quero fazer amor com você, e quero que você faça amor comigo.

— Você quer que eu faça amor com você? — Edna estava pasma!

— Quero. — Os lábios bem-feitos acariciaram de leve a gar­ganta dela. — Muitas mulheres pensam que, pelo simples fato de estarem na cama com um homem já cumpriram a sua parte. Mas com você não vai ser assim; você vai saber como me dar tanto prazer quanto o que eu lhe der.

— Não! — Ela tentou empurrá-lo para longe, sem sucesso.

— Pare com isso! Se o que quer é me castigar, já conseguiu!

— Está pensando no tapa desta tarde? Tenho de admitir que já tinha me esquecido dele. E também já nem lembrava que você disse que seria capaz de vomitar, se eu a beijasse de novo.

— Um sorriso zombeteiro surgiu nos lábios dele. — No entanto, o sentimento que eu provoquei em você não se parece nem um pouco com náusea...

— Você me deixou zangada e...

— Não foi zanga, não. — Ele riu da cara de ofendida que ela fez. — Por que as mulheres têm tanto medo de demonstrar a paixão que sentem? Eu ficaria excitado só de ver seus olhos

enevoados de paixão por mim... como eles estão agora. E eu estou excitado, Edna.

— Eu... eu sei. — Já fazia algum tempo que ela estava cons­ciente da excitação cada vez maior de Jason. — Mas eu... eu não posso! Eu... meu avô ainda nem foi enterrado! — gritou, desesperada.

Na mesma hora Jason a soltou, afastando-se vários passos. Só depois que conseguiu se dominar totalmente foi que ele se virou para encará-la de novo.

— E mesmo por isso que você não quer? — perguntou, com voz rouca. — Não há outra razão?

— Eu... isso não me parece certo, no momento.

Edna não achou que fosse errado mentir, naquele momento. Se Jason descobrisse que sua recusa era causada por sua inex­periência, na certa ia tentar seduzi-la e levá-la para a cama. E, com sucesso, sem dúvida nenhuma! Talvez até valesse a pena concordar, só para ver a cara dele quando percebesse que ela era virgem!

Meu Deus estou ficando louca! Onde já se viu pensar uma coisa dessas! O homem com quem eu me casar é que vai ser meu primeiro e único amante, por mais antiquado que isso seja. O que Jason Earle pensa ou deixa de pensar a meu respeito pouco me importa!

— É, você está certa — ela ouviu-o dizer. — Mas eu vou lembrar você desta conversa, em outra ocasião.

— Está bem. Eu... eu pensei que você fosse jantar com Isobel, esta noite — Edna comentou, para mudar de assunto.

— Antes de levar Isobel para casa, eu dei uma olhada em você, e achei que não seria direito deixá-la sozinha, dormindo numa casa vazia. Você poderia acordar e ficar sem saber onde estava, por isso resolvi voltar logo.

— Foi muita gentileza sua. E obrigada por me cobrir. Esfriou bastante, enquanto eu dormia.

— Dependendo da ocasião, eu posso ser bem gentil.

— Parece que todas as mulheres da sua vida são dessa opi­nião — ela respondeu, sorrindo. Agora que o perigo havia pas­sado, não se importava de ter uma conversa leve e despreocupa­da com ele.

— E você é uma das mulheres da minha vida? — A voz máscula tinha um tom suave e sedutor, sem nenhum traço de ironia.

— Se estou bem lembrada você me disse uma vez que eu não era uma mulher.

— Nem tinha experiência — ele completou. — Como eu es­tava errado!

—Jason...

— Que é?

— Bem... nada. — Sorriu para ele. — Já decidiu onde eu vou ficar?

— Eu não. Você decidiu. Deixou bem claro que não iria para a casa de Isobel.

— Então, eu vou continuar aqui?

— Vai. — Jason ficou em silêncio durante alguns momentos, depois perguntou de repente: — Você acha mesmo que eu tenho idade para ser seu pai?

Edna sorriu, surpresa por ele ainda se lembrar desse co­mentário.

— Isso o atingiu, hein?

— Atingiu, sim. Faça um café para mim, Edna.

— Por favor — ela completou.

— Faça um café para mim, Edna... por favor — ele repetiu, com ar de zombaria.

— Não era bem assim que eu queria que você dissesse. Con­tinua parecendo uma ordem.

— E é. — O riso másculo e alegre se espalhou pela cozinha.

— Você é impossível!

— Acho que não. A mulher certa poderia me manejar com a maior facilidade.

— Só que você ainda não a encontrou.

— Talvez eu já a tenha encontrado, sim.

— Então, não pode ser Isobel! — Ele nunca poderia se com­portar daquele modo com Isobel, se estivesse apaixonado por ela.

— Eu já lhe disse que não. O café, Edna.

— Você é muito individualista! — comentou, zangada, pre­parando café para ambos. — E acho que você tem idade para ser meu pai, sim — acrescentou maldosamente, aborrecida por ele ter mudado de assunto. Estava tão interessante! — Aposto que você não era mais virgem, aos dezesseis anos de idade.

— Os homens também são chamados de "virgens"? — Jason perguntou.

— Acho que sim.

— É, pode ser. — Sentando-se à mesa da cozinha, ele tomou um gole do café que ela havia preparado. — Mas não me soa bem. Prefiro dizer que me "tornei um homem", no dia do meu décimo sexto aniversário.

— Você acha que a primeira vez é igual, tanto para um ho­mem, quanto para uma mulher? É melhor e mais importante do que as outras vezes?

— No meu caso, não — Jason respondeu, rindo. — Foi um verdadeiro desastre! Tenho certeza de que não proporcionei o menor prazer à minha companheira.

— Mas ela ficou com a sua virgindade — Edna comentou, baixinho.

— O que não foi grande coisa, eu lhe garanto. Mas ela era muito bonita! Era minha professora de arte.

— É, devia ser mesmo muito bonita.

— Por que acha isso?

— Porque tenho certeza de que você já era tão arrogante e exigente naquela época quanto é hoje.

— Arrogante e exigente? — Jason repetiu, rindo. — De onde foi que você tirou essa idéia a meu respeito?

— De você mesmo. A primeira vez que nos encontramos, você olhou para mim do alto da sua importância, e nunca mais parou.

Ainda sorrindo, Jason meneou a cabeça, completamente re­laxado.

— Imaginação sua, Edna. Ou complexo de culpa. Você foi muito rude comigo, em nosso primeiro encontro. — Ele fez uma pequena pausa, depois perguntou: — E para você? A primeira vez foi boa?

Edna abaixou a cabeça, evitando os olhos dele.

— Bem, eu...

— Eu não sei como a primeira vez pode ser considerada a melhor — Jason continuou, pensativo. — A mais memorável, sim, mas não a melhor. Acho que a capacidade de dar e receber prazer, de um modo completo, só vem com a familiaridade.

— Pensei que a familiaridade levasse ao desprezo... — ela brincou, contente por não ter tido que responder à pergunta dele.

— Isso pode acontecer, principalmente na cama, mas sem a familiaridade não existe uma relação sexual perfeita.

— Jason, você já... — Edna passou a ponta do dedo pela borda da xícara, sem levantar os olhos para ele — já dormiu com uma virgem?

— Nunca — foi a resposta instantânea.

— Nunca?!

— Nunca. Dormir com uma mulher é uma coisa, mas tirar a virgindade dela é outra.

Edna forçou uma risada.

— Meu Deus, como a nossa conversa ficou séria! — disse.

— Deve ter sido por causa da hora e da intimidade da si­tuação. Acho melhor irmos dormir... por enquanto, cada um na sua cama.

— Por enquanto?! — ela exclamou, as faces em fogo.

— Você me fez uma meia-promessa, Edna, e eu pretendo exigir que seja cumprida.

— Mas... mas Isobel...

— Isobel colocou na cabeça que vai tornar-se minha esposa. Mas ela vai se esquecer disso, assim que conseguir superar a insegurança que a morte de David lhe trouxe. Pelo menos, eu espero, pois não tenho a menor intenção de casar com ela.

— Mas os jornais...

— Exageraram. Esqueça Isobel — Jason ordenou, com frieza. — Eu me encarrego dela.

— Com prazer — Edna respondeu, fazendo uma careta.

— Edna... — ele murmurou, com voz rouca. — Meu Deus, eu desejo você quase desde o primeiro momento em que a vi!

— Verdade?

— Verdade. Se você não fosse neta de David, eu já teria feito alguma coisa a respeito.

— Qual o problema de ser neta de David Morton? Jason deu de ombros.

— Isso torna as coisas um pouco mais difíceis. Mas, no fim, tudo vai dar certo. Vamos para a cama, agora. Podemos falar sobre esse assunto em outra ocasião.

Edna pretendia estar bem longe dali, antes que eles tivessem outra oportunidade para continuar aquela conversa, mas era melhor Jason não saber disso. Haveria tempo de sobra, mais tarde, para ela dizer a ele que nunca existiria nada entre os dois.

 

Edna engoliu o café tão depressa que queimou a boca. Com uma careta de dor, levantou os olhos e deu com Jason observando-a por cima do jornal que lia, enquanto tomava o café da manhã.

— Você está com pressa, por acaso? — ele perguntou.

— Estou, sim.

Jason franziu a testa e, depois de observar por mais alguns momentos os gestos apressados dela, disse:

— Calma, pelo amor de Deus! Você está me dando indigestão!

— Desculpe. Já estou de saída. Com licença. Estendendo rapidamente a mão, ele agarrou-a com força pelo

pulso.

— Aonde você vai? O funeral...

— Só vai ser à tarde. — Inutilmente, ela tentou se livrar dos dedos que a mantinham prisioneira. — Não se preocupe, até lá já vou estar de volta.

Os olhos cinzentos estreitaram-se.

— Aonde você vai? — Jason repetiu, num tom de voz que exigia resposta.

— Eu já lhe disse: vou sair. Ai! Você me machucou!

— Era o que eu queria, mesmo — Jason respondeu, com ar de indiferença. — E, agora, responda à minha pergunta.

— Eu vou... hã... vou ver uma pessoa.

— O seu jovem amante?

— Eu não tenho um amante, jovem ou não!

— Imagino que a última parte dessa declaração se aplica a mim. Eu sou o "ou não" — ele explicou, ao ver que Edna não estava entendendo. — "Velho."

—Você não é velho — ela protestou, com veemência. — Você...

— Não sou?

Tarde demais, Edna percebeu que tinha caído na armadilha

que ele preparara.

— Bem... Não muito — emendou.

— Agora, não adianta tentar disfarçar!

— Solte-me, Jason. Desse jeito, vou chegar atrasada.

— Ele pode esperar por você. Antes, eu vou lhe dar um beijo, e é bom você corresponder, senão vai chegar mais atrasada

ainda.

— Jason, por favor! Nós combinamos um encontro e ele...

ele não vai ficar me esperando.

— Eu ficaria — Jason respondeu, os olhos fixos nos lábios entreabertos dela. — Eu estou esperando, agora.

— Jason, não! — Desesperada, ela olhou à sua volta, dese­jando que a sra. Gifford entrasse para tirar a mesa. Mas sabia que isso não ia acontecer; a governanta sempre esperava que eles saíssem, para entrar.

— Jason, sim — ele corrigiu baixinho. — Eu tenho sido muito paciente, Edna. Nem uma vez eu a pressionei, apesar de você estar me deixando louco, andando pela casa com essas suas rou­pas justas, que delineiam cada uma das suas deliciosas curvas.

— Jason... — Ela murmurou, sentindo-se enfraquecer.

— Só estou pedindo um beijo. Tenho certeza de que o seu amigo vai pedir muito mais, mesmo que você não esteja prepa­rada para lhe dar nada.

— Tim não me...

— Tim? Você está falando de Tim Channing?

— Estou — ela admitiu, com relutância.

Na mesma hora a atitude carinhosa de Jason sumiu, e seu rosto másculo assumiu uma expressão de raiva e desconfiança.

— O que ele tem a ver com essa sua saída?

— Eu vou encontrá-lo no aeroporto — Edna explicou, sem olhar para ele. — Tim esteve na Alemanha, a negócios, e re­solveu passar por aqui, para me ver.

— Quando você ficou sabendo da vinda dele? — Jason per­guntou, com frieza.

— Ele me telefonou ontem e disse a que horas ia chegar. Você estava na casa de Isobel e eu... eu me esqueci de lhe contar, depois.

— Isso não responde à minha pergunta. Eu quero saber há quanto tempo você sabia da vinda dele — Jason repetiu, com voz dura.

— Eu...

— A verdade, Edna!

— Bem, ele... ele falou nisso na terça-feira.

— Na terça-feira! Meu Deus, isso foi na noite em que... Com quantos homens você é capaz de lidar, ao mesmo tempo? Quan­do Tim chegar, você vai ter três homens a seus pés! E isso, na Inglaterra. Tenho certeza de que devem existir outros, nos Es­tados Unidos.

— Centenas — ela exclamou, com ar despreocupado, apesar de estar louca da vida com ele. A paz que os dois vinham go­zando nos dois últimos dias desaparecera completamente. — Eu sempre gostei de grandes quantidades. Se bem que Tim quer casar comigo — concluiu, desafiadora.

— É evidente que ele ainda não descobriu como você é, na realidade.

— Tim sabe exatamente como eu sou — Edna respondeu, sem mentir. Afinal, Tim sabia mesmo que ela era uma garota amigável, mas nada promíscua.

— Então, ele deve estar louco! Nunca vai conseguir controlar você!

— Você nunca ouviu falar em fazer uma pessoa desejar tanto uma coisa que ela será capaz de tudo para consegui-la? — Edna inventou, magoada com o evidente desprezo de Jason. — Pois bem, é isso o que estou fazendo com Tim.

— Está mantendo o coitado a distância, hein? E está dando resultado! — Com ar de desgosto, Jason meneou a cabeça morena.

— Está, sim. — Edna sorriu, triunfante. — Está dando um ótimo resultado.

— Então, foi por isso que você recusou o pedido de casamento dele, lá em Nova York! Tudo fazia parte de um plano, não é?

— Isso mesmo. Era tudo parte de um plano. Antes do fim do ano, deverei ser a sra. Tim Channing — falou, sentindo-se estranhamente desanimada.

— Uma droga que você vai ser!

— E como é que você vai me impedir? Contando a Tim que sou uma vagabunda, que você quase dormiu comigo? Ele não vai acreditar, Jason. — Ela sorriu. — Tenho me comportado de um modo exemplar, com ele. Tim só pensaria que você está despeitado, por não ter conseguido nada comigo. Não se esqueça de que a sua reputação não é lá muito boa.

Com dedos duros, Jason agarrou o queixo dela, obrigando-a a olhar para ele.

— A sua é ainda pior — murmurou, com voz rouca.

— Duvido que você encontre alguém, aqui ou nos Estados Unidos, que confirme a opinião que tem de mim. Tenho sido muito discreta — explicou, com ar provocante. — Muito discreta mesmo.

— Sua vagabunda! — O rosto dele era uma máscara de raiva. Despreocupada, ela deu de ombros.

— Vou acrescentar mais este à lista de insultos que você já me fez. Um a mais não vai fazer diferença. Agora, tenho de ir. Não posso deixar Tim esperando. Até logo.

— Convide Tim para ficar aqui.

— Aqui?!

— É. A irmã dele é minha amiga, e eu seria muito grosseiro se o deixasse ir para um hotel.

— Pensei que você não quisesse que Isobel ficasse sabendo de sua amizade com Claire.

— Tim vai ser seu convidado, não meu.

— Ah, entendi! Que conveniente, não?

— Muito. Vou mandar a sra. Gifford preparar um quarto para ele.

— Longe do meu, espero — Edna disse, num tom de voz cheio de significado. — Eu não gostaria de ceder à tentação.

— Se caso se sentir tentada, o meu quarto fica logo depois do seu — Jason murmurou abruptamente.

— Você... você ainda me quer?

— Bem, vamos dizer que eu não a mandaria embora.

— Não vou me esquecer disso — ela respondeu, levantando a cabeça com altivez. — Vou transmitir o seu convite a Tim. Ele decide se quer, ou não, ficar aqui.

— Ele vai querer, sim — Jason comentou, com segurança. — Ele não vai resistir à tentação de ficar mais perto de você.

Edna não conseguiu conter o riso, ao ver a expressão cheia de desgosto que surgiu no rosto de Jason.                            

— Acho que você gosta de me imaginar como uma espécie de prostituta de baixa categoria, não?

A expressão dele não se alterou.

— Eu não gosto, não. Você parece tão inocente, com esses seus cabelos dourados e esses olhos grandes e ingênuos! Mas seu corpo a trai. — O olhar avaliador que ele lhe lançou fez Edna sentir-se embaraçada. — E como a trai!

Ansiosa para escapar antes que Jason se tornasse ainda mais íntimo — ou insultante —, Edna despediu-se apressadamente e foi para o aeroporto, aonde chegou com quase dez minutos de atraso. Tim estava deixando a alfândega quando ela o viu e jogou-se em seus braços.

— Oh, Tim! — Lágrimas de felicidade inundaram os olhos dela. — É tão bom ver você de novo!

Ele riu, contente com o entusiasmo dela.

— Dá pra ver! — Vagarosamente, ele a beijou, sem ligar para as pessoas que os observavam. — Hum... Se ficar longe de mim por alguns dias causou esse efeito em você, vamos ter de repetir a dose de vez em quando.

Ela riu, feliz, colocando o braço em volta da cintura dele, que a segurava pelos ombros.

— Vamos embora daqui — sugeriu, quando alguém os em­purrou para poder passar.

— Vamos — Tim concordou, sorrindo. — Jason emprestou o carro dele para você?

— Não, eu não pedi. — Uma certa frieza surgiu na voz dela, ao ouvir o nome de Jason. — Mas não vai ser difícil conseguir um táxi. Vi vários deles lá fora, quando estava entrando.

— Como vai Jason? — Tim perguntou, quando os dois já estavam a caminho de Londres. — Claire é capaz de me comer vivo, se eu não puder lhe dar notícias dele, quando voltar.

— Você vai ver por si mesmo. Jason quer que você se hospede na casa dele, também.

— Você quer que eu fique lá? — Tim quis saber, depois de uma pequena pausa.

— Quero, sim. Muito!

— Você ainda não gosta dele, não é?

Gostar dele! É claro que ela não gostava dele, ela o amava! E era isso que a amedrontava. Como podia ter-se apaixonado por alguém como Jason que tinha a pior opinião possível a seu respeito?

E Jason nem mesmo gostava dela. Ele a desejava, mas não gostava dela. Durante anos Edna tentou descobrir por que não conseguia se apaixonar por Tim, ou por qualquer outro dos ra­pazes com quem saía, e agora tinha a resposta: era seu destino amar um homem sem coração chamado Jason Earle, que não escondia o desprezo que sentia pelo casamento.

— Não, eu não gosto dele — respondeu, sem mentir.

— E Isobel Morton, como é ela?

— Bonita, sofisticada e segura de si.

— E Jason a vê muito?

— Muito — disse abruptamente, achando a idéia de Jason e Isobel juntos totalmente repugnante.

— E como vai indo a tutela dele sobre você?

— Ainda não começou. Jason achou melhor esperar até de­pois do funeral, para começar a cumprir as disposições do tes­tamento de meu avô. Mas minha mãe está furiosa com essa condição.

Os dois continuaram conversando sobre vários assuntos, até o táxi parar em frente à casa de Jason.

— Impressionante! — Tim murmurou, quando eles entraram no hall. — Mas eu não esperava menos de Jason.

— Sente-se ali — Edna disse, indicando a saleta ao lado —, que eu vou dizer à sra. Gifford que já chegamos. Ah, sra. Gifford — ela apresentou, quando a governanta apareceu, atendendo ao seu chamado —, este é o sr. Channing. O sr. Earle lhe falou a respeito dele?

— Falou, sim. E eu já preparei o quarto para ele.

— Obrigada, sra. Gifford. Pode nos trazer um pouco de café, então?

— Pois não, srta. Shaw — ela respondeu, saindo da sala.

— Você acha que ainda vai ficar aqui por muito tempo? — Tim perguntou, enquanto esperavam pelo café.

— Jason disse que a legalização de tudo ainda vai levar al­guns meses.

— E você vai ter de ficar aqui, o tempo todo?

— Parece que sim. E os seus negócios na Alemanha, como foram?

— Na minha opinião, bem, mas tenho certeza de que meus pais não vão ficar contentes. — Tim estava tendo de abrir seu caminho aos poucos, na firma da família, e nem sempre achava fácil satisfazer aos pais.

— Tim... — Edna hesitou. — Tim, esta manhã eu disse a Jason que pretendia casar com você, antes do fim do ano...

— É mesmo? — O rosto do rapaz iluminou-se de prazer. — Pois olhe, isso é...

— Eu não estava falando a sério, Tim.

— Não? Então por quê... Ah, não! Mais uma!

— Mais uma, o quê?

— Você também está apaixonada por ele, não está? — Tim perguntou resignadamente, sem se dar ao trabalho de respon­der a ela.

— Não! Eu já disse que não gosto...

— Você está apaixonada por ele, sim. Eu conheço os sinais, não se esqueça. O que é que Jason tem, para atrair tanto as mulheres? Eu sei que ele é bonito e tem dinheiro, mas, sem querer parecer convencido, eu também sou bem-apessoado e rico.

— Talvez seja porque ele é um homem ilusório.

— Ilusório? O que você está querendo dizer com isso?

— Veja, quando Drew o conheceu, disse que Jason lhe lem­brava um iceberg, com pelo menos oitenta por cento do volume escondido abaixo da superfície. E essa é a parte importante dele, a parte da qual ele não deixa ninguém se aproximar.

— Ninguém?!

— Acho que não. Isso o tomaria vulnerável e Jason não gosta de se sentir vulnerável.

— Parece que você aprendeu a conhecê-lo bastante bem...

— Eu já lhe disse que oitenta por cento dele está abaixo da superfície.

— Pois você me dá a impressão de ter conseguido ver pelo menos quarenta por cento do iceberg que Jason é. Com mais algum tempo, é até capaz de ver tudo.

— Não seja tolo, Tim — ela disse, evitando os olhos obser­vadores do rapaz.

— Não estou sendo tolo. Por que foi, então, que você disse a ele que vamos nos casar, se não estava tentando se defender? Jason lhe passou alguma cantada?

— Não!

— Mentirosa! Eu lhe disse, conheço todos os sinais!

— O fato de eu achá-lo... atraente não quer dizer que ele sinta o mesmo por mim.

— Você não precisaria ficar na defensiva, se Jason também não a achasse atraente. O problema é que ele gosta de ter casos e você não, não é?

— Talvez seja — ela admitiu, rindo amargamente. Não podia contar a Tim a opinião que Jason tinha a seu respeito. — Afinal, o homem é completamente sem moral!

— Eu já sabia disso. E, se você for esperta, vai continuar fingindo que pretende casar comigo. Nunca se sabe — Tim con­tinuou, sorrindo. — Pode ser que, no fim, a farsa se transforme em realidade.

— Tim, eu gostaria que você não...

Nesse momento a sra. Gifford entrou na sala, depois de bater de leve na porta, carregando uma bandeja.

— Eu trouxe um pouco de bolo, também — ela disse, en­quanto colocava a bandeja sobre uma mesinha. — Achei que o sr. Channing poderia estar com fome, depois de uma viagem tão longa.

— Muito obrigado — Tim sorriu com charme, o que provocou um rubor de contentamento na governanta.

— Comporte-se, Tim — Edna falou, quando os dois ficaram sozinhos. — Está querendo conquistar a governanta de Jason?

— Acho que ela gostou de mim.

— Tenho certeza de que sim. Tim, eu...

Novamente a porta da saleta se abriu, só que desta vez não houve nenhuma batida de aviso. Edna não precisou olhar para saber que era o dono da casa que estava entrando. Com um ar quase culpado, Tim levantou-se para cumprimentá-lo.

— Como vai, Jason? Foi muita gentileza sua convidar-me para ficar na sua casa.

— É mesmo? — Jason respondeu secamente. — Vou querer um pouco de café também, Edna. A sra. Gifford me disse que colocou três xícaras na bandeja.

Edna havia notado a xícara extra, mas pensou que a gover­nanta tivesse se enganado. Não lhe passou pela cabeça que Jason poderia se reunir a eles. Sem uma palavra, ela o serviu.

— Interrompi alguma coisa? — Jason perguntou, sentindo o silêncio deles.

— Não — Edna disse, com secura. Como se ele se importasse, . caso tivesse interrompido!

— Só estávamos falando sobre o nosso casamento — Tim comentou casualmente.

— Quando vai ser? — Jason quis saber.

— Era o que estávamos tentando decidir.

— Tenho certeza de que, agora que Edna conseguiu fisgá-lo, não vai querer esperar muito tempo. Afinal, você pode mudar de idéia, se ela esperar demais.

— Eu não vou mudar de idéia. É mais fácil ela mudar do que eu.

— Duvido — Jason disse, com aspereza.

— Então, você não a conhece nem um pouco. Edna não quer casar logo. Ela quer viajar um pouco, antes.

— Quer, mesmo? Então, por que não vai? — Jason pergun- tou, dirigindo-se a Edna.

— Eu...

— Eu não quero que ela vá — Tim falou, com arrogância.

— Não acha que está sendo egoísta? Edna ainda é jovem demais para se amarrar a um marido e a uma família.

— O que é que você tem com... — Tim começou, mas Edna   o interrompeu.

— Acho que sou eu quem deve decidir isso — disse, tentando evitar uma discussão entre os dois homens.

— E o que foi que decidiu? — As sobrancelhas escuras de Jason levantaram-se interrogativamente.

— Por enquanto, nada.

— Não deve esperar demais — ele disse, levantando-se. — Rapazes ricos como Tim não crescem em árvores. Com licença. — E, com um leve aceno de cabeça, saiu da sala.

— Minha nossa! — Tim murmurou.

— A culpa foi sua, Tim. Você o tratou com hostilidade desde o primeiro minuto.

— Ele não precisou de muito encorajamento.

__Pode ser, mas você não tinha de lhe dizer todas aquelas

mentiras.

— Por que não? Ele estava roxo de ciúme!

— Não seja ridículo! Você tornou a nossa permanência aqui muito difícil.

— A minha impressão é que Jason não nos deixaria sair daqui, por pior que ficasse a situação... Você, pelo menos, ele não deixaria. Comigo, a história é diferente, ele me botaria na rua agora mesmo, se pudesse.

— Imagine! Ele acabou de convidar você para ficar.

— Jason só fez isso para poder ficar de olho em nós dois. Ele parece um cachorro guardando um osso reservado para uma ocasião especial.

— Eu gostaria que você parasse de dizer essas coisas — Edna falou, irritada. — Isso simplesmente não é verdade!

— Não há nada de simples no que Jason sente por você. Ele a devora com os olhos, Edna!

Ela levou uma das mãos ao rosto corado.

— Pare com isso, Tim. Está me deixando embaraçada.

— Isso não é nada, comparado com o que ele gostaria de fazer com você!

Ansiosa para acabar com aquela conversa, Edna levantou-se:

— Venha. Vou lhe mostrar o seu quarto, Tim.

— Fica perto do seu?

— Não.

— Por ordem de Jason? — Mais uma vez, ele havia adivi­nhado a verdade.

— É — ela admitiu, relutante.

— Ele está dormindo com você?

— Tim!

— Se não está, é um tolo. Eu nunca deixaria passar uma oportunidade como a que Jason está tendo.

— Tim, você sabe que eu não...

— Você, pode ser que não, mas com ele o caso é diferente. E Jason não é do tipo que se reprime, quando deseja alguma coisa. — O rapaz fez uma pausa e, vendo que Edna não dizia nada, mudou de assunto: — Quer que eu vá com você ao funeral do seu avô?

— Você iria? Funerais não são muito agradáveis.

Tim passou o braço pelos ombros dela e, juntos, os dois co­meçaram a subir a escada que levava ao primeiro andar da casa.

— Eu sou a pessoa mais chegada que você tem aqui e, como Jason sem dúvida vai estar com Isobel, é justo que eu a acom­panhe.

— Obrigada, Tim. — Ela virou-se para dar um beijo no rosto dele.

— Se vocês têm mesmo que fazer esse tipo de coisa, talvez fosse melhor procurarem um lugar mais conveniente que a es­cada da minha casa!

Sentindo-se culpada, Edna afastou-se de Tim e levantou os olhos, dando com Jason, que os observava do topo da escada.

— Desculpe — ela disse, embaraçada com o olhar de desprezo com que ele acompanhou o resto de sua subida.

— Eu não teria interrompido a tocante cena de amor que vocês estavam vivendo, se não estivesse com tanta pressa — ele informou, com frieza, explicando em seguida: — Vou almo­çar com Isobel, antes de irmos para o funeral.

— Ah, eu não sabia. Então, Tim e eu vamos de táxi até a igreja.

— Se não fosse essa sua ridícula antipatia por Isobel, vocês poderiam ir almoçar conosco. De qualquer modo, já dei ordens ao meu motorista para vir pegá-los aqui, às duas e meia.

— Obrigado — Tim respondeu, com secura, — Agora, se nos dá licença, Edna vai me mostrar o meu quarto.

— Não pensei que ela soubesse qual era.

— Eu... eu não sei — Edna admitiu. — Mas não deve ser difícil descobrir.

— Pode ser que não, mas eu prefiro que vocês não fiquem se divertindo nos meus quartos — Jason falou, áspero. — Se você estava planejando se trancar com ele em algum lugar, na esperança de que ninguém notasse, acho melhor mudar de idéia, Edna.

— Escute aqui...

— Está tudo bem, Tim — Edna murmurou, lançando um olhar cheio de desafio a Jason. — Talvez eu estivesse mesmo planejando isso. Seria muito melhor do que ficar andando sorrateiramente pelos corredores da casa, altas horas da madrugada.

— Edna! — Tim exclamou, surpreso.

— Está tudo bem, Tim — ela repetiu. — Não precisamos fingir na frente de Jason. Ele sabe muito bem que, mesmo lhe dando um quarto separado, nós vamos dormir juntos.

— Mas, Edna...

— Eu já lhe disse que não precisamos fingir — Edna insistiu.

— Não precisam mesmo — Jason parecia um selvagem. — Mas tomem cuidado para que eu não pegue os dois juntos numa cama, se não querem sair da minha casa mais depressa do que esperam. O quarto de Tim fica pegado ao meu. — Ele desceu a escada de dois em dois degraus e saiu pela porta da frente, batendo-a com força.

— A troco de que você mentiu para ele, Edna? — Tim estava pasmo. — Jason a atacou porque estava com ciúme, mas não entendo por que você teve de mentir para ele.

— Jason esperava um comportamento desse tipo de mim, e eu só estava fazendo o possível para não a desapontar.

— Mas ele não pode achar que nós...

— Ah, mas ele acha. Jason tem certeza de que eu estou preparando uma armadilha, para obrigar você a casar comigo.

— Mas que sujeitinho arrogante!

— Ele é mais do que arrogante: é insultante!

— E parece que você gosta de provocá-lo.

— Gosto, mesmo. Adoro vê-lo louco da vida. É o único jeito de me desforrar dos insultos que recebo. — Edna olhou para o relógio que trazia no pulso. — Vou levar você até o seu quarto e depois me trocar para o almoço. Não podemos nos atrasar esta tarde.

 

Isobel Morton chorou durante todo o funeral, apoiada em Jason, mas Edna não conseguiu derramar uma única lágrima. Já havia esgotado todas as que tinha na terça-feira.

Tim mostrou-se bastante protetor e não deixou que ninguém se aproximasse dela. Depois que tudo acabou, os quatro foram para a casa que pertencera a David Morton. Isobel estava quase tendo um colapso, mas não quis ir para a cama, como Jason sugeriu.

— Quero conhecer o amigo de Edna — disse, com voz aguda.

— Você pode ser apresentada a ele em outra ocasião. Agora, é melhor ir descansar — Jason insistiu.

— Mas ele pode não estar aqui em outra ocasião — Isobel argumentou, olhando para Edna com malícia. — De acordo com o que você disse, Edna troca de homens com a mesma frequên­cia com que troca de roupas.

— Isobel! — O rosto de Jason era a imagem da reprovação.

— Bem, foi você mesmo quem disse, querido. Será que fui indiscreta? — Ela lançou a todos eles um olhar inocente.

— Você precisa aprender a prestar mais atenção no que fala, Isobel — Jason murmurou, com aspereza. — Eu sei que está traumatizada por tudo o que aconteceu, mas isso não é motivo para começar a insultar Edna. Não posso deixar que você...

— Sinto muito, querido — Isobel se desculpou, com voz im­plora nte.

— Não é a mim que você deve pedir desculpas.

— Jason, por favor — Edna protestou, branca como cera. — O que ela disse não tem importância. É melhor nos esquecermos de tudo.

A última coisa que Edna queria era discutir a própria moral na frente de Isobel Morton.

— É melhor, mesmo — Isobel concordou imediatamente. — E, se ninguém me apresenta a ele, eu mesma me apresento. Eu sou Isobel Morton, e você deve ser Gary — ela disse, diri­gindo-se a Tim.

— Gary?! Quem é Gary? — Tim perguntou, desconfiado.

— Você não é Gary? — Isobel exclamou, verdadeiramente surpresa.

— Eu sou Tim. E achava que era o namorado de Edna, talvez até o futuro marido dela. Quem é Gary, Edna?

Edna engoliu em seco, certa de que sua explicação não o convenceria mais do que tinha convencido Jason.

 

— Quem é Gary, Edna? — Tim perguntou de novo, cinco minutos mais tar­de, quando os dois ficaram sozinhos na sala de Isobel.

— É... um rapaz que conheci aqui.

— E como foi que você o conheceu?

— Jason diria que eu o peguei por aí, mas não foi bem assim.

— Então, como foi? — Era fácil ver que Tim estava zangado, e seu rosto jovem foi-se tornando cada vez mais sombrio, à medida que ele ouvia a explicação de Edna. — Por que você não me falou sobre esse sujeito? — ele disse, no fim.

— Porque ele não é importante. E eu...

— Ele pode não ser importante para você, mas para mim é. E, pensando melhor, Jason pode muito bem estar certo sobre o número de homens que já passaram pela sua vida. Eu me lembro de ter visto você com pelo menos meia dúzia de namo­rados, antes de começar a se encontrar comigo. E nenhum deles durou muito tempo...

— Isso foi porque...

— Porque nenhum deles tinha dinheiro. Você me disse que eu a pedi em casamento na hora errada, e agora sei por quê. Você já sabia que ia herdar todo o dinheiro de seu avô e não precisava mais de um marido rico. O que você não sabia é que Jason teria o controle da sua herança. — Com ar de desgosto, Tim olhou-a de alto a baixo. — Agora eu entendo por que você estava tão ansiosa para eu vir visitá-la: porque tinha descoberto que não seria a garota rica que havia imaginado. E não foi para se defender que você disse a Jason que íamos casar. Você estava armando uma armadilha... para mim! E eu quase caí nela.

Edna estava branca como papel.

— É isso mesmo que você acha?

— E o que mais eu poderia achar? — Tim respondeu, com selvageria. — Foi tudo um jogo para você, não foi? Aposto que, se Jason pudesse ser agarrado, ele ia ser a sua escolha número um. Afinal, seria tão conveniente! Como esposa dele, você aca-baria dando um jeitinho para que ele liberasse a sua herança.

— Tenho certeza de que sim — Edna rebateu, magoada com as palavras de Tim. — E o que o faz pensar que ele não é a minha escolha número um? Por que acha que eu não posso estar usando você e Gary para consegui-lo?

— Você realmente casaria com ele, se pudesse?

— É você quem está dizendo isso, não eu.

— Sua mercenariazinha...

— Chega, Tim. Isto não vai nos levar a nada. Ou você acre-dita em mim, ou acredita em Jason. E é melhor decidir logo!

— De acordo com Jason, você está à venda e será de quem. fizer a melhor oferta.

— E a melhor oferta não é a sua. — Ela disse, com esforço, tentando esconder a mágoa que estava sentindo.

— De quem é, então? De Jason?

— E se for?

— Então, eu lhe desejo sorte. Decididamente, Jason é o tipo de homem que nunca será fiel a uma mulher e, se você está querendo exclusividade, vai ficar desapontada. Se não, tudo bem...

— Antes, eu preciso eliminar Isobel da competição.

— Isso é fácil. Você tem a vantagem de estar morando na mesma casa que ele, e pode muito bem lhe fazer uma visitinha, qualquer noite dessas. E não se preocupe comigo, eu pretendo ir embora o mais rápido possível.

— Oh, Tim — Edna suspirou. — Não foi assim que eu pla­nejei a sua visita. Eu queria...

— Eu sei o que você queria! Queria Jason, Gary e eu a seus pés, enquanto resolvia com qual era melhor ficar. Pois bem, eu estou fora da jogada. Vou deixar Jason e Gary brigando sozinhos.

— E como Gary não é rico, eu não tenho muita escolha — Edna disse sem pensar, e ficou surpresa, quando o viu caminhar para a porta: — Aonde você vai?

— Vou pegar as minhas coisas. Quando você voltar para a casa de Jason, não vai me encontrar lá. Vou me embora para os Estados Unidos, esta noite mesmo.

— Mas...

— Adeus, Edna!

Ela teve a impressão de que a casa estremeceu quando Tim bateu a porta atrás de si. Rapidamente pegou a bolsa e correu para a saída, decidida a arranjar um táxi para voltar para a casa de Jason. Como ele ia gostar, quando soubesse que Tim a deixara! Já estava quase chegando à porta, quando ouviu a voz de Jason ressoar pelo hall:

— Você não acha que é falta de educação sair sem se des­pedir?

Edna virou-se para encará-lo, colocando a bolsa defensiva­mente na frente do corpo.

— Eu... eu não sabia quanto tempo você ainda ia ficar lá dentro com Isobel — murmurou, sem graça.

— Acho que era evidente que eu não ia demorar. Hoje não é um dia próprio para ficar aqui.

— E como é que eu podia saber?

— Usando de raciocínio. Isobel tomou uma das pílulas que o médico receitou e está dormindo a sono solto.

— Sei...

— Onde está Tim?

— Ele... ele precisou ir embora.

Um sorriso zombeteiro surgiu nos lábios dele.

— Não diga! Acho que não gostou de ser confundido como sendo seu amigo Gary.

— Você gostaria, por acaso? — A voz de Edna soou áspera.

— Geralmente eu não tenho esse problema — Jason respon­deu, rindo.

— É, acho que não. Todo mundo conhece o notório Jason Earle!

— É melhor você tomar cuidado com o que fala. Neste mo­mento, eu não sou a melhor pessoa para ser provocada, princi­palmente por você.

— Não? E o que você pode fazer contra mim? Cortar minha mesada?

— Eu posso muito bem fazer isso, não se esqueça.

Edna teve de fazer um grande esforço para não se esquecer de muitas coisas nas semanas seguintes, e a principal delas era ficar fora do caminho de Jason. O humor dele andava comple-tamente imprevisível, e os dois discutiram inúmeras vezes. Nada do que ela fazia parecia estar certo, mas o que Jason mais desaprovava era sua amizade com Gary. O jovem pintor havia lhe telefonado, como prometera, e eles tinham saído jun­tos várias noites.

Gary estava trabalhando com afinco por causa de sua expo­sição, e Edna acabou criando o hábito de ir sempre ao aparta­mento dele, para ver os novos quadros. Muitos eram abstratos e ela não entendia, mas alguns eram paisagens e retratos dos quais gostava bastante. Sem dúvida, o rapaz tinha muito ta-lento, mas ela sabia que Gary não conseguiria sucesso só com isso. Ele precisava de um padrinho, alguém rico e influente, que pudesse dar publicidade ao seu trabalho. Foi pensando nis­so que procurou Jason um certo dia, logo depois do jantar.

— Jason...

Ele levantou os olhos dos papéis que examinava, sentado à escrivaninha de seu escritório.

— O que é? — perguntou, com secura.

Parada na porta, ela entrou sem esperar por um convite.

— Eu estive pensando...

— Não diga! E o que foi que você pensou?

— Bem...

— Diga logo, Edna — ele exclamou, com impaciência. — Tenho trabalho a fazer e ainda quero ir ver Isobel.

— Como está ela?

— Com tendências suicidas a maior parte do tempo. É claro que ela pode estar representando apenas, mas eu não pretendo   me arriscar. O que é que você quer?

— Eu... bem...

— E então? — As sobrancelhas escuras ergueram-se. — Não   vai me dizer o que a preocupa?

— Eu não estou preocupada.

— Não? Pois não foi essa a impressão que me deu, forçando a entrada no meu escritório desse jeito.

— Eu não forcei minha entrada em lugar algum!

— Uma droga que não forçou! E, se não me disser logo o que

quer, pode ir embora. Já desperdicei tempo demais com você!

— Desculpe, eu vou embora. Não quero que desperdice nem

mais um minuto do seu valioso tempo comigo.

Jason já estava na frente da porta, antes mesmo que ela a alcançasse.

— Eu sei de um jeito de ficar com você, durante o qual o meu tempo não vai ser desperdiçado — ele murmurou, com voz rouca.

— Jason... — Os olhos dela tinham um tom profundamente dourado.

— Hum? — Com uma das mãos ele começou a acariciar de leve o pescoço dela.

— Jason... — Edna mal conseguia falar. Era a primeira vez que Jason a tocava, desde a noite anterior ao funeral de seu avô, quando ele afirmou que um dia os dois teriam um caso... Quando ele "decidiu", arbitrariamente, que ainda seriam aman­tes. — Eu queria falar sobre a sua casa, com você.

— A minha casa?!

— É. Você vê...

— O que tem a minha casa a ver com você? Você não manda em nada, aqui.

Edna se retraiu.

— Eu sei. Eu só queria...

— Dar-me algumas sugestõezinhas sobre a decoração, eu imagino — ele a interrompeu, friamente.

— Não é... não é bem sobre a decoração. Os olhos cinzentos se estreitaram.

— Sobre o quê, então? Você pode ser minha hóspede, mas isso não lhe dá o direito de interferir no andamento da minha casa.

— Nem eu pensei isso! — Ela rebateu, indignada. — Pare de torcer tudo o que eu digo!

— Você tem de admitir que o que está dizendo parece um tanto suspeito. Se quer mesmo se interessar por algum canto da minha casa, eu sugiro que seja pelo meu quarto.

— Eu só queria falar sobre algumas pinturas com você, mas, se o que você quer é me insultar, é melhor eu ir embora.

— Que pinturas? — Jason perguntou, desconfiado.

— Sabe, alguns dos seus quartos são um pouco tristes, e eu achei que uma ou duas pinturas poderiam alegrá-los.

— Que tipo de pinturas?

— Oh, quadros abstratos, paisagens — ela disse, com ar des­preocupado. — Qualquer tipo de pintura os tornaria atraentes.

— Eu sempre pensei que eles fossem atraentes. Afinal, foram decorados por um profissional.

— Talvez seja este o problema. Eles precisam de algo que os torne mais aconchegantes.

— Posso saber por que esse súbito interesse pela minha casa?

— Bem, eu só estava querendo alguma coisa para fazer.

— Você não está pensando em se mudar para cá definitiva­mente, está?

— Não, não estou. Não se preocupe, Jason, eu vou embora logo. Só lhe falei sobre os quartos, porque vi umas pinturas que me pareceram ideais para eles.

— Onde? — A voz máscula tinha agora um tom indulgente.

— Gary fez algumas...

— Gary? O que Nichols tem a ver com essa história? Surpresa por ele se lembrar do sobrenome de Gary, Edna

começou a explicar:

— Gary... Gary pinta, e ele...

— Meu Deus! — Jason parecia pasmo. — Você quer que eu compre pinturas feitas pelo seu amante? Ele precisa ser pago pelos serviços que presta a você?

— Jason!

— Jason, o quê? — ele retrucou, com aspereza. — Será que a sua mesada não chega, para esse sujeito?

— Você... você me enoja, Jason! Como pode falar assim? Gary é bom, muito bom mesmo.

— Não diga! — Jason rugiu. — Mas eu realmente não quero ouvir falar sobre as habilidades sexuais dele.

— Não era a isso que eu estava me referindo, e você sabe! Ela quase gritou. — As pinturas dele são muito boas. Acho até que são as melhores que eu já vi, de um pintor desconhecido.

— Mesmo que sejam, eu não pretendo comprar nenhuma delas. Esqueça esse rapaz, Edna. — A voz de Jason mudou de tom, sedutoramente. — Ele pode se fazer sozinho se é mesmo tão bom quanto você diz. O que eu quero saber, agora, é quando você pretende cumprir a promessa que me fez...

— Que promessa? Eu não me lembro de ter prometido nada

a você.

— Meia-promessa, então. Já faz quatro semanas que seu avô foi enterrado, quatro semanas durante as quais eu nem me aproximei de você, com medo de perder o controle. Mas agora eu vou me aproximar de você — seus lábios acariciavam de leve o pescoço de Edna — e muito mais...

— Mas Jason, você disse... você disse que ia ver Isobel! — ela murmurou, atordoada, sentindo o coração bater depressa.

— Ela vai entender, se eu não for.

Edna estremeceu, quando ele mordeu de leve o lóbulo de sua orelha. Todo o seu corpo estava tomado por estranhas sensações.

— Mas você disse que ela estava com tendências suicidas... E ela está à sua espera.

— Não esta noite. Eu não disse que ia. Só resolvi ir porque queria ficar longe de você — ele explicou, sem deixar de acari­ciar a garganta dela com os lábios. — Mas, agora que a tenho em meus braços, não posso mais fugir.

— Mas, Jason...

— Fique quieta, Edna — ordenou, com impaciência — e me beije. O tempo de espera terminou. Esta noite eu quero que você divida comigo mais do que uma casa.

— Vai ser no seu quarto ou no meu? — ela perguntou, com ironia.

— No meu. — Sem ligar para o sarcasmo dela, Jason levan­tou-a nos braços e caminhou, decidido, para a escada, enquanto explicava, sorrindo: — Eu tenho uma cama de casal.

— Mas que conveniente!

— Muito. — Ele a beijou rapidamente nos lábios, levantando a cabeça apenas para abrir a porta do próprio quarto com o pé.

— Jason, você não pode fazer isso! — Edna protestou, quando ele a colocou em pé no chão, de novo. Na verdade, ela é que não podia. — Pare, Jason, por favor! — pediu, a voz implorante, quando ele abriu o zíper de seu vestido. — Jason! — exclamou, quando os dedos másculos fizeram o tecido macio deslizar ao longo de sua pele, até se amontoar no chão.

Intensamente corada, viu que ele analisava vagarosamente seu corpo quase nu, coberto apenas por um conjunto de calcinha e sutiã de renda rosa, tão fino e transparente, que era como se ela estivesse sem nada.

— Linda! — Jason exclamou baixinho. — Mas eu já sabia que você era linda.

— Você... você sabia? — Ela parecia hipnotizada pelo olhar. dele.

— Sabia. — Estendendo uma das mãos, ele tocou os seios firmes e arredondados. — Tire a minha roupa, Edna.

— Eu... nós... os criados... — gaguejou, desesperada, cobrin­do-se o melhor que podia com as mãos.

— Eles são discretos demais para nos interromper. Se você prestou atenção, já deve ter notado que sempre desaparecem,: quando nós dois estamos em casa.

— Será... será que eles pensam que somos... amantes?

— Provavelmente. Mas que importância tem isso?

— Para mim, tem muita. — Ela se abaixou para pegar o vestido. — Porque não é verdade.

— Ainda não — ele tirou o vestido das mãos dela e atirou-o sobre a cama — mas logo vai ser.

Agarrando-a com firmeza com uma das mãos, Jason começou a desabotoar a camisa com a outra, mas Edna conseguiu se libertar com um puxão e pegou novamente o vestido, seguran- do-o defensivamente na frente do corpo.   .

— Você não quer entender, não é? Eu não sou uma garota promíscua. Nunca houve ninguém na minha vida.

Os olhos dele se estreitaram, transformando-se em verda- deiras fendas.

— O que você está querendo dizer com esse "ninguém"?

— Que nunca houve nenhum homem, na minha vida. — Com dedos trêmulos, enfiou o vestido pela cabeça, puxando o zíper.   — Eu nunca fui para a cama com ninguém, eu nunca dormi   com um homem.

— Não acredito. Você me disse...

— Exatamente o que você queria ouvir — Edna o interrom-   peu,zangada.

— Você acha que eu queria que me falasse sobre os outros   homens de sua vida? — A raiva dele era, agora, maior do que a dela. — Meu Deus, eu me sinto agoniado só de pensar na possível existência deles!

— No entanto, eu só lhe disse o que você queria ouvir de mim. Você me provocou até eu me desforrar do único modo que podia.

— Do único modo que você sabia que me podia magoar — Jason corrigiu, áspero.

— Magoar você? Nada seria capaz de magoá-lo. Eu poderia dormir com cem homens diferentes que você não ligaria a mí­nima, desde que pudesse ser um deles.

— É isso o que você pensa? — O rosto dele era agora uma máscara de fúria. — É nisso que você acredita?

— Eu sei que é verdade. — Com gestos bruscos, ela abriu a porta.

— Aonde você vai? — Jason quis saber.

— Vou sair!

— A esta hora da noite?

— A qualquer hora da noite, desde que eu queira. E não me espere acordado... vou chegar muito tarde.

Batendo a porta atrás de si, Edna desceu a escada correndo, pegou a bolsa e saiu para a rua, como se estivesse sendo per­seguida pelo próprio diabo. Precisava da bolsa porque nela es­tavam as chaves do carro esporte que havia comprado, com a permissão de Jason. Não sabia para onde ia, só sabia que não podia continuar na casa dele.

Sem perceber, pegou a direção do apartamento de Gary. Já era tarde, mas Gary não ligava a mínima para horários, e na certa a receberia bem.

E foi o que aconteceu. Ele estava pintando e Edna ficou sen­tada num almofadão observando-o trabalhar, levantando-se de vez em quando para pegar café para os dois. Lá pela uma hora da madrugada, o rapaz olhou para o relógio e exclamou:

— Minha nossa, como é tarde! Você devia ter-me avisado. Eu me esqueço da vida, quando estou inspirado. Deve ter sido aborrecidíssimo para você ficar me olhando.

— De jeito nenhum. A paz e o silêncio do seu apartamento me fizeram bem.

— O que foi que aconteceu? Brigou de novo com o seu tutor?

— Briguei, sim.

— E foi uma briga feia desta vez, não foi?

— Foi. — Ela fez uma pequena pausa, depois pediu: — Será que eu poderia passar o resto da noite aqui? Prometo não lhe dar trabalho. Você nem vai notar a minha presença.

Gary sorriu.

— Isso seria impossível.

— Eu só quero um lugar para dormir — ela esclareceu, tom medo de ser mal interpretada.

— Eu sei, Edna. Aprendi a conhecê-la durante estas semanas que temos saído juntos. E é claro que você pode ficar. Tenho um quarto extra e você pode dormir nele. Se quiser, pode até se mudar definitivamente para cá.

— Obrigada, mas não creio que Jason deixasse.

— Eu não sabia que você precisava da permissão dele par resolver essas coisas.

— E não preciso, mas não vejo nenhuma vantagem em cutir com ele à-toa.

— Você tem medo dele?

— Claro que não! — Edna respondeu, indignada. Pelo menos, não do modo que Gary imaginava. — Mas, de qualquer jeito, não daria certo nós morarmos juntos. E agora, se me dá licença, eu gostaria de ir dormir.

— Claro. Só que você vai ter de arrumar a cama. Tem lençóis limpos no armário.

Desejando boa-noite a Gary, foi para o quarto que ele indi­cara, fez a cama e deitou-se. Estava tão cansada que não con­seguia nem pensar, e adormeceu mal colocou a cabeça no tra­vesseiro.

 

Foi acordada por um barulho atordoante na entrada do apar­tamento, seguido peto som de vozes alteradas, por volta das quatro horas da manhã. De repente, a porta de seu quarto se abriu e a luz foi acendida com violência, mostrando Jason pa­rado na soleira, e um Gary com cara de sono logo atrás. Pelo peito nu e pelas calças de brim colocadas apressadamente, era evidente que Gary também tinha acordado há pouco.

Com ar amedrontado, Edna olhou para Jason por cima do lençol, que puxara até o queixo. Pelo brilho dos olhos dele e pelo modo como ele apertava os lábios, deu para saber quanto estava zangado. Na verdade, Jason estava a ponto de explodir.

— Jason... — ela murmurou fracamente.

— Isso mesmo... Jason — ele repetiu, seco, — Saia dessa cama, Edna. Você vai para casa comigo.

— Como foi que você me encontrou?

— Eu procurei o nome do seu amigo na lista telefônica. Ago­ra, saia dessa cama e venha comigo.

— Ei, você não pode forçar a entrada no meu apartamento e começar a dar ordens — Gary protestou corajosamente. — Se Edna quiser ficar, ela fica.

Jason olhou-o com uma expressão gelada.

— Se você disser mais uma palavra, Nichols, eu o jogo no chão, onde é o seu lugar.

Gary corou de raiva.

— Não pense que você me amedronta... — ele começou, mas foi interrompido pelo punho que lhe atingiu o queixo e o fez

cair.

— Gary! — Na mesma hora Edna pulou da cama, sem se importar com o fato de estar apenas de calcinha e sutiã, e in­clinou-se ao lado do rapaz, que esfregava o queixo, atordoado.

— Você está bem? — perguntou, preocupada.

— Acho... acho que sim — Gary respondeu.

— Você poderia ter quebrado o queixo dele — gritou para Jaaon. — Poderia...

— Vista-se — Jason ordenou por entre os dentes cerrados.

— O fato de nós dois conhecermos os seus encantos, de sobra, não é razão para você desfilar por aí seminua.

Ela corou até a raiz dos cabelos quando tomou consciência de como estava vestida e, sem olhar para nenhum deles, enro­lou-se no cobertor.

— Vou esperar por você na sala. Dou-lhe exatamente dois minutos para se vestir — Jason avisou.

— É melhor eu ir também — Gary falou, caminhando para a porta. — Se bem que eu estava falando sério, quando lhe disse que poderia ficar, se quisesse, Edna.

Um rápido olhar para o rosto frio e decidido de Jason foi suficiente para Edna ver que não tinha a menor escolha, na­quela situação.

— Não, eu vou com ele — disse, acrescentando logo depois, com raiva: — Não imagina quanto eu sinto que esse bruto tenha atingido você, Gary.

— Seu tutor tem um soco e tanto — ele comentou.

— Nichols! Saia daqui, para Edna se vestir.

Logo depois, Edna estava sentada ao lado dele no seu Jaguar, lançando olhares nervosos para seu perfil rígido.

— Você não precisava bater em Gary.

— Naquelas circunstâncias, acho até que fui muito con­trolado.

— Circunstâncias? Que circunstâncias? O fato de você con­trolar o meu dinheiro não significa que possa me dizer o que devo, ou não, fazer. Acho melhor eu me mudar da sua casa. Vou procurar outro lugar para morar, hoje mesmo.

— Você não vai fazer nada disso — Jason retrucou calma­mente. — Vai continuar exatamente onde eu possa ficar de olho em você. E vou lhe dar um aviso: se você for correndo à procura de outro homem cada vez que nós discutirmos, depois que es­tivermos casados, vai apanhar também.

— Casados? — Edna estava boquiaberta. — Você e eu?

— É. Vamos nos casar o mais depressa possível.

 

— Não está se esquecendo de alguma coisa?

— Isobel — ele respondeu.

— Se bem que ela é apenas parte da história — Edna estava enfurecida. — É muita arrogância achar que eu me casaria com você, mesmo que me pedisse!

— Quer dizer que não vai casar comigo? — Estacionando o carro na frente de sua casa, Jason virou-se para olhá-la.

— Não!

— Pois nós vamos continuar esta discussão lá dentro. — Sem a menor consideração, ele arrastou-a até o escritório, fechando a porta. — Você tem alguma razão especial para me rejeitar?

— perguntou, então.

— Tenho, sim: nós não estamos apaixonados um pelo outro!

— Eu estou apaixonado por você.

— Está? — Edna murmurou, pasma.

— E muito.

— Mas não pode ser!

— Mas é. — Ele se aproximou dela, envolvendo-lhe o rosto com as mãos. — Eu amo você, Edna, e quero que seja minha

esposa.

— Não acha que devia esclarecer sua situação com Isobel,

antes de falar desse modo comigo?

— Você pensa, por acaso, que eu não venho tentando fazer

isso?

— Você vem tentando?

— Claro que sim! Eu saí com ela muitas vezes, mas nunca a pedi em casamento. No entanto, desde a morte de David, Isobel tem-se agarrado a mim como um náufrago a uma tábua de salvação. Eu tentei várias vezes esclarecer a situação com ela, mas não consegui. Não pretendia falar agora com você. Tinha esperanças de me conter um pouco mais, até Isobel se sentir forte o suficiente para encarar o fato de que qualquer idéia de casamento, comigo, não passa de uma fantasia dela. — O rosto de Jason tornou-se mais tenso. — Mas você me forçou a tomar essa atitude, você e seus homens. Eu não podia ficar de lado, observando calmamente o número de homens que pas­sa pela sua vida. Eu poderia matá-la pelo que você fez esta noite, Edna. — Ele sacudiu-a com força, enterrando os dedos na carne macia dos ombros dela. — Como é que você pôde correr para Nichols, depois de toda a paixão que tínhamos partilhado?

— Pa-pare de me sacudir, Jason — Edna pediu, sentindo que seu cérebro nunca mais ia parar de girar. — Assim, eu não consigo pensar direito.

Ele parou de sacudi-la, mas não a soltou.

— Estou com vontade de fazer muito mais do que só sacudir você — disse, furioso. — Você estava quase nua na cama de Nichols! Meu Deus, a vontade que tenho é de lhe dar uma surra!

— Eu estava quase nua, Jason — ela argumentou, implo­rando. — Isso não significa nada para você?

Os olhoa dele se estreitaram.

— O que isso deveria significar?

— Se eu tivesse mesmo dormido com Gary, estaria comple-tamente nua.

— Está tentando me dizer que...

— Eu lhe disse, esta noite, que nunca tinha dormido com um homem. E isso ainda é verdade.

— Edna... você... — Pela primeira vez, havia insegurança na voz dele.

— É verdade, Jason — ela confirmou, com voz rouca.

— Meu Deus, como você me torturou! — Ele puxou-a com selvageria para junto de si, enterrando o rosto dela nos pêlos do próprio peito. — Nunca houve outro homem? Sério? — Jason ainda estava inseguro.

Edna deslizou as mãos pelos ombros dele, até atingir-lhe a nuca, que começou a acariciar com ternura.

— Você quer que eu prove?

Ele se afastou um pouco, examinando-lhe o rosto com atenção.

— Que você prove? — repetiu, baixinho.

— É.

— Mas só existe um modo... Edna, você me ama também! — Jason exclamou, triunfante.

— Amo, sim. — Ela murmurou, os olhos cheios de lágrimas.

Os lábios de Jason se apossaram dos dela com uma feroci­dade que quase a sufocou, antes que a gentileza e a ternura surgissem. Então, a boca máscula brincou e tentou, até conse­guir a resposta apaixonada que queria.

Jason estava tremendo quando finalmente afastou Edna de si.

— Quando foi que você se apaixonou por mim? — ele per­guntou, segurando-a pela cintura.

Edna riu, feliz.

— Acho... acho que foi assim que cheguei à Inglaterra — murmurou, achando ainda incrível que pudesse ter-se apaixo­nado pelo homem que odiava.

— Há tanto tempo assim?

— Está duvidando de mim novamente?

— Não. Só estava pensando em todo o tempo que desperdi­çamos. Acho que eu me apaixonei por você desde o primeiro momento em que a vi.

— Não pode ser! Você sempre me tratou tão mal!

— A maioria dos homens tem essa reação quando se sentem presos numa armadilha, principalmente sejá chegaram à mi­nha idade e se acreditam livres, para sempre, do trauma do amor.

— Trauma? É tão ruim assim estar apaixonado?

— Não. — Ele sorriu. — Só que eu tinha Isobel para com­plicar tudo.

— Deus, eu já tinha me esquecido dela. Por que você pensou em se casar com alguém que não amava, Jason?

— Tente entender, querida. Eu estou com trinta e seis anos, e já não esperava mais me apaixonar por ninguém, principal­mente por uma garota de vinte! Mas eu não cheguei a pedir Isobel em casamento.

— Mas pensou nisso.

— Sim, mas...

— Você diz que é uma tortura pensar nos outros homens que já passaram pela minha vida, Jason — ela o interrompeu, com voz abafada —, mas não imagina o que sinto, quando penso em vocês dois juntos. É... é nauseante! — Sua voz tremia.

— Eu só continuo vendo Isobel porque ela parece precisar de mim, meu anjo. É você que eu amo. Um único olhar foi suficiente para me fazer esquecer completaraente dos meus pla­nos de um casamento sem amor. E eu a conservei aqui comigo, apesar de todos os pedidos de Isobel. Não queria nem ouvir falar na possibilidade de você se mudar para outro lugar. — As mãos dele aumentaram a pressão que exerciam sobre a cin­tura dela. — E ainda não quero. Eu não poderia suportar! Eu amo você, Edna, e acho que sou capaz de morrer, se você for embora.

— Jason... — Delicadamente, ela acariciou-lhe a testa. — Nunca pensei que você pudesse me amar desse jeito!

— Você ainda não me disse que me ama, Edna.

— Não?

— Você sabe que não.

Ela sorriu de novo provocante e, ficando na ponta dos pés, beijou-o de leve nos lábios.

— Eu o amo, Jason — murmurou, com a boca encostada à dele. — Eu o amo muito.

— O bastante para ficar aqui comigo?

— Não posso, Jason. E agora, mais do que nunca, preciso sair da sua casa. Não quero nenhum caso de amor escondido, entre nós dois. Até você esclarecer sua situação com Isobel, não posso ter nada a ver com você.

— Eu não pertenço a Isobel.

— Ela pensa que sim.

— Eu vou falar com ela.

— Quando? No mês que vem? No próximo ano? Como vamos saber quando ela vai estar forte o bastante para encarar a rea­lidade?

— Eu não vou deixar você ir embora, Edna.

— Eu acho que é melhor eu ir para a minha casa, até toda a situação se esclarecer.

— Não!

— É melhor, sim. — Edna odiava o que estava fazendo. — Pode ser desastroso se Isobel descobrir o que há entre nós, antes que você tenha chance de falar com ela.

— Como é que você pode pensar em me deixar, agora que acabou de dizer que me ama? — A voz dele soou agoniada.

— Você sabe o que aconteceria, se eu ficasse.

— E seria tão ruim assim? Eu a desejo tanto!

— Eu... eu não poderia, Jason. Nunca houve um homem na minha vida, e não quero que haja, até eu me casar. Eu... eu tenho medo de fraquejar, se continuar aqui.

— E isso teria tanta importância assim? A primeira vez não é muito agradável para uma mulher. Poderia arruinar a nossa noite de núpcias.

— Não venha com essa velha história, Jason — ela zombou, rindo. — Eu sei que um homem experiente pode transformar até mesmo a primeira vez em algo maravilhoso. E ninguém pode acusá-lo de não ter experiência — terminou, com amargura.

— Eu não posso apagar o passado, querida, mas posso lhe prometer que meu futuro pertence a você. Por favor, Edna, fique...

Ela estava a ponto de ceder, quando a porta do escritório se abriu e o rosto assustado da sra. Gifford apareceu. A mulher sorriu, aliviada, quando reconheceu os dois.

— Pensei que estivéssemos recebendo a visita de ladrões. Já são mais de cinco horas da manhã. Aconteceu alguma coisa? — perguntou, preocupada.

— Não, sra. Gifford — Jason respondeu amavelmente. — A srta. Shaw e eu estávamos conversando, e acabamos esquecen­do a hora. Pode voltar para a cama. Nós também já vamos

dormir.

— É verdade. — Edna agarrou a desculpa na mesma hora, e dirigiu-se para a escada, dizendo por cima do ombro: — Boa-noite, Jason. Boa-noite, sra. Gifford.

— Edna! Nós ainda não acabamos a nossa... conversa. Fique

mais um pouco.

— Não, acho que já falamos demais, por uma noite. Até

amanhã.

Com a sra. Gifford ali, Jason não teve outro remédio senão

aceitar a decisão dela.

— Boa-noite, Edna — ele murmurou, e seus lábios formaram a palavra "querida".

E!a foi para o quarto, sentindo-se felicíssima. Jason a amava! O arrogante, autoritário e muitas vezes duro Jason estava apai­xonado por ela! Deus, como era feliz! Jason a amava!

Adormeceu com um sorriso nos lábios e acordou cerca de quatro horas depois. A manhã estava linda, com o sol brilhando num céu muito azul e os passarinhos cantando nas árvores. Sentiu uma vontade irresistível de sair.

Como naquela sua primeira manhã em Londres, passou o tempo andando pelas ruas e olhando vitrinas, mas sem se sentir triste e solitária. Ao contrário, estava bastante feliz e com uma deliciosa sensação de paz. Já era quase hora do almoço quando se lembrou de Gary e resolveu ir ver como ele estava.

— Entre — o rapaz disse, abrindo a porta para ela. Seu queixo estava bastante inchado e com uma estranha coloração, no lugar em que Jason o atingira. — Quer uma xícara de café? Eu estava acabando de coar um pouco.

— Não, obrigada. Só vim saber como você está.

— Estou bem. E você?

— Eu? Eu estou ótima.

— É, dá pra ver. — Pegando uma xícara de café, Gary sen­tou-se num dos almofadões espalhados pela sala. — Foi ele que colocou esse sorriso no seu rosto?

— Foi, mas não do jeito que você pensa — ela esclareceu, corando.

— E o que é que eu estou pensando?

— Você... você está pensando que nós fomos para a cama juntos, depois que saímos daqui.

— Não — Gary respondeu, rindo. — Se vocês tivessem dor­mido juntos, você não estaria aqui. Ele não é do tipo que deixa uma mulher levantar-se e ir embora, depois de apenas algumas horas.

— Ele poderia ter-se levantado, também.

— Não é o estilo dele. O que foi que aconteceu, depois que vocês saíram daqui?

— Nós conversamos muito e... acabamos por nos entender.

— Ótimo. E para quando é o casamento?

— Você está indo depressa demais, Gary. Eu ainda não sei se vou casar com Jason.

Gary assobiou por entre os dentes.

— Aposto que ele não está contente com essa sua indecisão.

— É, não está mesmo.

— Ele sabe que você está aqui comigo?

— Não.

— Então eu espero, pelo seu bem, que ele não fique sabendo. Edna jogou a cabeça para trás, num gesto de desafio.

— Eu não tenho medo de Jason. Se ele me perguntar aonde estive, vou contar. — Mas, graças a Deus, não havia nenhum motivo para ele fazer essa pergunta!

— Eu não contaria, se fosse você — Gary disse, esfregando o queixo. — Ele é uma fera, quando fica zangado.

— Jason não bateria em mim!

— O homem é capaz de qualquer coisa, quando está furioso. Faz tempo que você saiu de casa?

— Umas três horas, mais ou menos.

— Então, acho melhor voltar correndo, antes que ele venha à sua procura. E a última coisa que eu quero é levar outro

murro.

— Jason não virá à minha procura — Edna garantiu, rindo.

— Ele está trabalhando.

— Tem certeza de que ele não resolveu tirar o dia de hoje de folga, para poder ficar ao lado da garota que ama?

Ela riu ainda mais.

— Você é capaz de imaginar Jason como sendo do tipo sen­timental? — perguntou.

— Falando francamente, não.

— Nem eu, por isso pare de se preocupar.

Ela ficou com Gary por mais de uma hora, antes de voltar para a casa de Jason, onde entrou fazendo uso da chave que ele lhe dera algumas semanas atrás. Já estava no meio da es­cada que levava ao primeiro andar quando ouviu o som de pas­sos familiares.

— Jason! — exclamou, virando-se rapidamente. Com o rosto iluminado de prazer, desceu correndo ao encontro dele, mas parou abruptamente ao ver a expressão de zanga que ensom-

breava os olhos cinzentos. — O que foi que aconteceu? — per­guntou, surpresa.

— Você esteve com Nichols esta manhã? — Ele estava de péssimo humor.

— Eu...

— Esteve? — Jason repetiu, começando a se mostrar violento.

— Jason, deixe-me...

— Esteve? — ele gritou.

— Estive! — ela respondeu, no mesmo tom.

— Sua vagabunda! — Jason murmurou e, afastando-se dela, entrou no escritório e bateu a porta.

Atordoada, ela continuou onde estava por vários minutos, antes de tomar a decisão de segui-lo. Jason não tinha ido tra­balhar, o jeans desbotado e a camiseta que ele usava eram uma evidência disso. Na certa, ficara à sua espera a manhã inteira! E ela ainda admitira que tinha procurado Gary. Deus, o que ele não devia estar pensando dela!

Quando entrou, Jason estava sentado à escrivaninha, com o rosto enterrado nas mãos. Não conseguindo suportar a visão dele naquele estado, ela deu a volta na cadeira e puxou a cabeça morena de encontro aos seios. Vagarosamente, começou a aca­riciar-lhe as têmporas, para acalmá-lo.

— Meu Deus, Edna — Jason murmurou, voltando-se para ela — não me torture mais. Não suporto isso!

— Eu não pretendia torturar você, Jason. Eu só fui ver Gary para...

— Eu não quero saber! — Jason exclamou, encarando-a de frente. — Não quero saber de nada do que existe entre vocês dois!

— Deixe-me terminar, querido. — Com carinho, ela afastou os cabelos que lhe caíam sobre a testa. — Eu só fui até à casa de Gary porque queria ter certeza de que ele estava bem, depois do murro que você lhe deu.

— E precisou de horas para descobrir isso?

— Não, mas eu me sentia tão bem, tão feliz, que saí para dar uma volta, antes de ir ver Gary.

— Se você se sentia tão bem, por que não deu uma volta até o meu quarto? Teria sido recebida de braços abertos.

Edna sorriu.

— Pensei que você tivesse ido trabalhar.

— Eu fiquei em casa, com a intenção de passar o dia com você. E não me senti nem um pouco feliz, quando descobri que seu quarto estava vazio — ele concluiu, com uma careta.

— O que você teria feito, se tivesse me encontrado?

— Isso — Jason murmurou, puxando a cabeça dela para que seus lábios pudessem se encontrar. — E isso... — beijou-lhe a garganta com ardor, antes de desabotoar a blusa que ela vestia e soltar-lhe o sutiã, libertando os seios arredondados e de bicos rosados, que começou a acariciar com a ponta da língua. — Oh, Deus, e isto!

Edna, que se sentia perdida desde o primeiro beijo, não re­sistiu quando Jason puxou-a para o colo dele e cotou novamente os lábios aos dela, enquanto seus dedos morenos acariciavam-na por toda parte, transportando-a para um mundo de incrível êxtase.

— Eu te amo — ela murmurou, com voz rouca.

— E eu te amo — ele respondeu, beijando-a e acariciando-a, sem esconder o desejo que o dominava.

— Se você acreditar nisso, é mesmo uma tola! — uma voz feminina disse, da porta do escritório.

— Isobel! — Jason levantou-se, empurrando Edna, que ten­tava rapidamente se arrumar um pouco.

— Eu mesma! — Os olhos de Isobel flamejavam quando ela bateu a porta do escritório com força, depois de entrar. — Eu devia ter percebido o que estava acontecendo! Fui mesmo muito ingênua! Mas não posso deixar de lhe dar os parabéns pela rapidez com que conseguiu o que queria, Jason.

— Posso saber o que você está querendo dizer com isso? — Aparentemente Jason era a imagem da calma.

— Você sabe muito bem!

Corada, Edna saiu de trás de Jason.

— O que você viu, Isobel, não tem nada demais — ela mentiu. — Foi... foi só uma dessas coisas que acontecem.

— Edna! — Jason lançou-lhe um olhar furioso. — Não torne tudo pior!

— Será que isso é possível? — Isobel perguntou, com voz entediada. — Você não precisa mentir para mim, Edna. Eu conheço Jason há muitos anos e sei exatamente como trabalha

a mente diabólica que ele tem. Além disso, não se esqueça de que eu ouvi suas declarações de amor.

— Mas tudo não passou de uma coisa dita no calor do momento — Edna protestou, notando que Isobel não estava muito alterada. Talvez ela já estivesse mais forte do que eles pensavam.

— Tenho certeza de que sim — Isobel concordou. — Jason tem uma habilidade incrível para fazer a gente se esquecer de tudo em volta, menos dele. Mas não precisa ficar com essa ca- rinha de infelicidade, Edna. Eu já lhe disse que conheço Jason... e muito bem, para falar com franqueza. — Virou-se então para ele: — Quando é que você pretendia me dar a notícia do seu casamento? Porque vocês vão casar, não vão?

— Vamos — Jason respondeu, sério.

— Foi o que pensei. Se não fosse para casar, não haveria sentido na cena que acabei de presenciar. Que pena David ter morrido! Se ele ainda estivesse vivo, eu provavelmente seria a sra. Jason Earle, agora. O testamento dele deve ter sido uma surpresa e tanto para você também, querido.

— David me falou sobre o que queria, antes de morrer — Jason informou. Agora, ele estava bastante tenso.

— Mas aposto que você só ficou sabendo de tudo depois que o testamento foi aberto pelos advogados. Estou certa?

— Pode ser...

— Pobre Jason! Que choque, hein? — Isobel comentou, rindo.

— De jeito nenhum. Já era de se esperar que David deixasse todos os bens para a neta.

— Uma neta que você nem sabia que existia. Isso alterou um pouco os seus planos, não alterou?

— Eu não tinha nenhum plano, Isobel. Eu sabia que ia me tornar responsável pelos negócios de David, depois da morte dele, mas não podia adivinhar — e estendeu a mão para segurar a de Edna, sorrindo para ela — que acabaria por me apaixonar pela neta dele.

— Não diga! — A voe de Isobel era sarcasmo puro. — Você pode ser capaz de enganar essa criança apaixonada com o que diz, Jason, mas você e eu conhecemos a verdade.

— Vocês dois querem ficar sozinhos? — Edna tentou soltar sua mão da de Jason, para poder ir embora, mas ele não deixou,

— Acho melhor você ficar, Edna — Isobel falou. — Este assunto interessa tanto a você, quanto a nós... Na verdade, é muito mais do seu interesse do que do nosso.

— Eu... eu sinto muito que você tenha descoberto tudo desse modo — Edna sentia-se pouco à vontade ali.

— Para falar com franqueza, eu não descobri tudo "desse modo". Desde que fiquei sabendo que David tinha deixado o controle de todos os negócios para Jason, desconfiei que isso ia acontecer. Jason não deixaria escapar uma fortuna como essa por entre os dedos, sem mais, nem menos. Mas você, Edna, vai ser a única pessoa a sair ferida desta história. Homens como Jason nunca são atingidos; eles não têm coração, e não há san­gue em suas veias, só gelo.

— Eu não estou entendendo. Que fortuna Jason não deixaria escapar?

Isobel lançou a Jason um olhar penetrante.

— Ela ainda não sabe?

— Acho que está claro que não — ele respondeu friamente.

— Você só pretendia lhe contar depois do casamento, não é? Meu Deus, mas que sujeira!

— O que é que eu não sei? Diga-me, Jason.

— Isobel pode lhe contar — ele murmurou, com uma expres­são perdida nos olhos. — Tenho certeza de que ela vai se divertir muito.

— Vou, mesmo. Acho melhor você se sentar, Edna. Todos os seus sonhos românticos sobre Jason estão a ponto de ser des­truídos.

— Vou ficar em pé mesmo — ela declarou, tensa.

— Faça como preferir. — Isobel deu de ombros. — Você sabe por que Jason controla o seu dinheiro? — perguntou em segui­da, com uma expressão maldosa no rosto bonito.

— Porque meu avô confiava nele.

— É, mas David confiava nele porque eram sócios.

— Sócios? — Edna olhou para Jason, surpresa.

— Nem todos sabiam disso — Isobel continuou —, o que era muito conveniente para Jason. Ele sempre preferiu trabalhar sozinho e teria comprado a parte de David na empresa, se pu­desse. Mas David sempre se recusou a vender. Foi por isso que Jason resolveu casar comigo: para assumir o controle total da empresa, quando o sócio morresse. Porque ele achava que eu seria a herdeira!

Edna ouvia em silêncio, sentindo-se enjoada.

— Então, David soltou a bomba: ele não estava deixando seus bens para mim, mas para a neta. Acho que, naquela época Jason não ficou muito preocupado, porque pensou que a sua mãe acabaria por vender tudo a ele, mais cedo ou mais tarde Foi aí que ele a encontrou, Edna, e levou o maior choque: você estava longe de ser uma criança. Com vinte anos de idade podia perfeitamente tomar suas decisões sozinha, além de idéias definidas sobre o que queria da vida.

Durante todo o tempo, Jason permanecera em silêncio, olhan­do pela janela a paisagem lá fora, aparentemente desligado da que se passava à sua volta. Agora, Edna queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Se pelo menos Jason à olhasse uma vez com amor, ela se sentiria segura e confiante, mas ou ele estava ignorando deliberadamente seu pedido silencioso, ou não percebera nada, pois seu rosto sério nem uma vez se voltou para ela.

— Eu ainda não terminei — Isobel disse, chamando nova­mente a atenção de Edna para si mesma. — Sabe, havia uma cláusula no testamento de David, da qual nem mesmo Jason ficou sabendo, antes da morte dele.

— Qual? — Edna perguntou, a voz sem expressão.

— Uma cláusula que dizia que, mesmo que você quisesse vender e Jason comprar os seus bens, a venda não poderia ser realizada. A sociedade entre vocês dois não pode terminar.

— Então, Jason não tem com que se preocupar, não é mesmo? — Edna comentou asperamente, percebendo aonde Isobel que­ria chegar. E Jason não se defendia!

— Não, enquanto você não se casar.

— Como assim?

— Quando você se casar, seu marido assume o controle da sua parte e Jason não poderá mais interferir em nada. Agora você sabe, por que ele a pediu em casamento. Ele simplesmente não quer mais ninguém envolvido no império de negócios que construiu praticamente sozinho.

Muito pálida, com os olhos enevoados de dor, Edna virou-se para o homem que continuava a olhar fixamente pela janela.

— Jason? — murmurou com voz abafada. — Jason, é verdade?

 

Felizmente, quando Edna voltou para os Estados Unidos, seu lugar no escritório de Drew

ainda estava vago e ela pôde reassumir a vida que levava antes, como se nunca tivesse conhecido e amado Jason Earle. Só uma coisa não a deixara esquecê-lo, durante aquele ano: o coração dolorido que trazia no peito, o coração que se havia partido em mil pedaços, quando Jason não quis se defender. O silêncio dele tinha confirmado sua culpa, e ela deixara a Inglaterra no dia seguinte, arrasada.

Desde sua volta, saíra pouquíssimas vezes, preferindo ficar em seu quarto ouvindo discos ou lendo. Se a visse agora, Jason mudaria de opinião sobre seus méritos como secretária. Ela se tornara uma profissional perfeita, sempre pontual, capaz de trabalhar com rapidez e capricho, e que nunca se queixava se tinha que fazer horas extras.

Não tivera mais notícias de Jason, nem tentara entrar em contato com ele, depois que voltou para casa. A verdade é que não sabia nada a respeito dele, nem queria saber, e pedira a Drew para cuidar de tudo que se referia à herança que o avó lhe deixara. Nesse sentido, as coisas pareciam estar indo bem. Os cheques que lhe chegavam todos os meses eram bastante polpudos.

Sua mãe tinha mudado muito, durante aquele ano, passando a dar mais valor ao marido que possuía. Como Drew havia pre­dito, Angela passara a se apoiar nele, depois da morte de David Morton, e eles davam a impressão de nunca ter sido tão felizes.

Naquele dia, ao voltar para casa do escritório, ela encontrou a mãe bastante agitada.

— Isobel Dean esteve aqui hoje — Angela disse, mal a filha entrou.

— Isobel Morton, mamãe — Edna corrigiu. — O que é que ela queria?

— Esse não é mais o nome dela. Ela casou de novo.

— Ca-casou? — Edna repetiu, pálida como morta.

— Casou. E tenho certeza de que ela só veio aqui para exibir o anel de brilhantes que ganhou do novo marido.

Então, Jason tinha casado com outra mulher!

— Que motivo ela alegou, para vir nos procurar?

— Ela disse que queria ver você.

— Ela... vai voltar? — Oh, Deus, não poderia suportar se Isobel aparecesse de novo, junto com Jason. Seria horrível ver os dois como marido e mulher.

— Não. Isobel disse que não teria tempo, pois está em lua-de-mel.

— Lua-de-mel?

— É. Ela e o marido estão dando a volta ao mundo, em viagem de lua-de-mel. Aposto que ela só passou por aqui para nos mostrar que o testamento de David não a prejudicou em nada, no fim das contas.

O que não deixava de ser verdade, se Jason tinha casado com ela.

— Mamãe, eu não vou jantar hoje. Não estou me sentindo bem.

— Mas você não pode fazer isso — Angela protestou. — Você vai jantar fora, esta noite.

— Aonde? — Ela perguntou, suspirando. Desde sua volta, seus pais viviam lhe arranjando convites para sair, muitos dos quais ela não podia recusar.

— Tim Channing telefonou agora à tarde, convidando-a para jantar e eu aceitei em seu nome.

— Você não tinha esse direito, mamãe.

— Achei que já era tempo desse distanciamento entre vocês dois terminar, filha. Tim lhe telefonou milhares de vezes, nos últimos seis meses, mas você sempre se recusou a atender. Na verdade, a única coisa que você tem feito, Edna, é andar pela casa como uma alma penada.

— Mas não é por causa dele!

— Claro que é por causa dele. Você não ficou na Inglaterra tempo suficiente para se envolver com mais ninguém. Além disso, admitiu que brigou com Tim, quando ele foi visitá-la, lá.

— Eu sei, mas...

— Deixe de ser tola, minha filha. Tim é um ótimo rapaz!

— Mesmo assim, eu não quero jantar com ele.

Saiu dali e foi para o quarto, de onde ligou várias vezes para a casa de Tim, sem obter resposta. No fim, acabou desistindo e perguntando à mãe a que horas ele chegaria, para poder se aprontar.

Depois de refletir um pouco, colocou um vestido preto, que lhe dava um ar sofisticado e altivo.

Tim não havia mudado nada, durante aquele ano. Ainda ti­nha o mesmo ar simpático de garotão mimado.

— Oi — ele disse, com uma certa insegurança, sem saber de que modo ela o receberia.

— Oi — ela replicou friamente.

— Eu... eu reservei uma mesa no Delanie's. Está bom para você? — Cheio de nervosismo, Tim enfiou as mãos nos bolsos da calça.

Delanie's! Tinha sido lá que ela dançara pela primeira vez com Jason.

— Podemos ir a outro lugar, se você preferir — Tim mur­murou, vendo a expressão dela.

— Eu... eu não...

— Você não quer ir a lugar nenhum comigo, não é? A verdade é que ficou muito ofendida com o que eu lhe disse em Londres, e com toda razão. A única coisa que posso fazer é lhe pedir desculpas. Eu sei que a acusei injustamente. Jason me disse que eu fui um tolo, mas...

— Quando foi que ele lhe disse isso? — perguntou abrupta­mente, interrompendo-o.

— Ontem. Mas eu já sabia. Nesses últimos seis meses...

— Você viu Jason ontem? — ela o interrompeu novamente.

— Vi, sim. Ele está nos Estados Unidos.

— Eu não sabia que vocês tinham se tornado tão amigos, a ponto de Jason procurar você, quando está nos Estados Unidos,

Tim riu.

— Você sabe que nos não somos amigos. Eu o vi com Claire no...

— Você viu Jason com Claire, ontem à noite?

— Vi, sim. Eu já lhe contei que Claire não desgruda dele, quando ele vem para cá.

— Eu sei, mas... — Meu Deus, nem mesmo durante a lua-de-mel Jason conseguia ser fiel a uma só mulher! — Você falou que tinha reservado uma mesa no Delanie's, não foi? — per­guntou forçando um sorriso.

O rosto de Tim se iluminou.

— Quer dizer que você vai comigo?

— Claro que sim — respondeu, rindo.

Foi uma noite alegre, uma noite cheia de risos, conversas e danças. Era como se ela estivesse tentando exorcizar Jason de sua mente e de seu corpo para sempre, como se estivesse ten­tando varrê-lo até mesmo de seus pensamentos. E, até certo ponto, foi o que fez, ajudada por Tim, que nunca estivera tão charmoso.

Depois de uma dança particularmente agitada, Edna deixou-se cair de encontro ao peito do rapaz, exausta.

— Vamos sentar um pouco? — perguntou, com os olhos bri­lhando e o rosto corado pelas bebidas que tinha tomado,

— Agora, não — Tim recusou, sorrindo. — Estão tocando a nossa música.

— Nossa música? Qual é a nossa música?

— Bem, ela pode vir a ser a nossa música. É lenta e bonita, e dá para a gente dançar bem juntinho, todas as vezes que tocarem.

— Eu não sei... Acho que seria encorajá-lo demais. — Edna murmurou, sorrindo.

— Concorde, Edna, concorde — Tim disse, puxando-a mais para perto de si.

Rindo, ela se afastou um pouco de Tim, mas todo riso morreu em seus lábios quando reconheceu o par que dançava ao lado deles. Jason e Claire! E, pela expressão de desprezo nos olhos de Jason, já devia fazer algum tempo que ele os observava.

Tim localizou o outro par, quase ao mesmo tempo que ela.

— Oh, meu Deus, por que eles tinham que vir para cá? — ele reclamou, falando entre os dentes.

— Não podemos ir embora? — Edna perguntou, numa voz estrangulada.

— Não, sem parecermos rudes. Olhe, vamos cumprimentá-los rapidamente e ir embora. Certo?

— Está bem. — Em silêncio, permaneceu em pé ao lado de Tim, enquanto ele falava educadamente com o outro casal.

— Dance comigo! — Jason arrastou-a para longe de Tim e Claire, abraçando-a sem a menor delicadeza, mal os quatro aca­baram de se cumprimentar.

— Jason! — Olhou-o, assustada. — Não acha que está sendo um pouco rude?

— E que me importa? — ele murmurou, puxando-a mais para junto de si. — Conte-me, como está você?

Será que ele não via? Será que ele não podia perceber, por seu rosto abatido e pelas olheiras que lhe rodeavam os olhos, quanto ela se sentia infeliz?

— Eu vou bem, obrigada. E você?

— Estou bem.

Mas ele também não estava com boa aparência. Quando o conheceu, ela o havia classificado como arrogante e insensível, mas agora o rosto dele parecia uma máscara fria e dura, incapaz de registrar a menor emoção. Além disso, ele estava mais magro e com os cabelos muito longos. Só cinco por cento do iceberg permanecia visível, o congelamento estava quase completo.

— Fico contente — ela replicou, com frieza.

— Verdade? — A voz dele era carregada de amargura. — Pois eu duvido.

— É, pode ser que você tenha razão.

— Eu tenho certeza de que estou com a razão.

— Afinal, o que é que você esperava? — A voz dela soou calma, mas seus olhos flamejavam de raiva. — Que eu ainda estivesse morrendo de amores por você?

Jason sorriu sem alegria, com uma expressão desagradável no rosto másculo.

— De jeito nenhum. Faz tempo que você e Tim reataram o namoro?

— Alguns meses — ela mentiu.

— Você pretende casar com ele?

— O que é que você vai achar, Jason, de ter Tim corno sócio em seus negócios?

— Eu pouco me importo com isso!

— Não diga! — ela comentou, zombeteira. — Tim pode ser jovem, mas ele tem cabeça para negócios. Tem várias idéias, que vai querer pôr em ação.

— Eu continuo sendo o sócio majoritário, como sempre fui. Venha. — Segurando-a com força pelo pulso, ele a arrastou de volta para onde Tim e Claire estavam. — Não deixe de me mandar um convite para o seu casamento. Vou fazer de tudo para comparecer.

— Com Isobel?

— Não posso falar por ela. Cada um de nós leva sua própria vida.

— Tenho certeza de que isso lhe é conveniente.

— Muito.

— Não vou me esquecer de lhe mandar um convite. — Apoiando a mão no braço de Tim, perguntou sorrindo: — Va­mos, querido?

Tim disfarçou bem a surpresa que a palavra de carinho lhe causou e, aproveitando-se da situação, passou um braço pelos ombros dela possessivamente.

— Com licença — ele disse para o casal que os observava. — Não posso recusar um convite para ficar a sós com Edna. Nenhum homem poderia, não acha, Jason?

O olhar frio de Jason era insultante, quando percorreu Edna da cabeça aos pés.

— Poucos recusam — ele murmurou.

— Poucos são convidados — Edna retrucou asperamente, muito corada. — Vamos, Tim?

Quando os dois chegaram à casa dela, Tim estacionou o carro e encarou-a:

— Você está muito quieta — comentou, acariciando-lhe as faces pálidas. — É por causa de Jason, não é?

— Não!

— É, sim. Você ainda o ama.

— Eu o odeio — Edna gritou, com as lágrimas que havia contido durante todos aqueles meses escorrendo-lhe pelo rosto.

— Como é que eu poderia amar um homem como ele, tão sem moral, que é capaz de sair com outra, na própria lua-de-mel?

— Lua-de-mel? Mas Jason não está em lua-de-mel!

— Está, sim — Ela insistiu, ainda chorando. — Ele casou com Isobel Morton.

— Eu não sei de onde você tirou essa informação, mas está errada. Jason não casou. Para falar a verdade, ele nem anda particularmente interessado em mulheres.

— Mas não pode ser! Isobel foi até a minha casa hoje e contou para a minha mãe que estava em lua-de-mel!

— E ela disse que tinha casado com Jason?

— Eu deduzi que... — Edna franziu a testa. Isobel Morton sabia exatamente o que ela ia pensar, e aquele fora seu gesto final de vingança. — Oh, meu Deus, eu disse a Jason que ia casar com você.

— Mais uma vez, você me usou — Tim comentou, com um suspiro de resignação.

— Desculpe, Tim. Eu não pretendia fazer isso, mas Jason estava me insultando tanto!

— É claro que ele estava insultando você. O pobre coitado está apaixonadíssimo e quase ficava louco de ciúme, cada vez que eu olhava na sua direção. Eu não sei por que vocês dois se separaram, mas qualquer um vê que estão apaixonados um pelo outro. Até minha irmã percebeu! Você precisava ouvir os comentários que ela fez a seu respeito, enquanto Jason dançava com você.

— Quando Jason me forçou a dançar com ele.

— Ele só queria abraçá-la um pouco. Jason quase explode de paixão, quando você está por perto.

— Você acha mesmo que ele me ama?

— Sem dúvida. — Tim deu a partida no carro. — Vou levá-la até o hotel dele.

— Ele... ele pode não ter chegado, ainda.

— Você pode esperar por ele.

— E... e se, na verdade, Jason não estiver interessado em mim?

Tim lançou-lhe um olhar impaciente.

— Onde é que você estava, quando a intuição feminina foi distribuída? Jason a ama. Cabe a você fazer com que ele confesse.

Lembrando-se das coisas que tinha acreditado a respeito de Jason, e que agora ela sabia que ele não poderia ter feito, Edna achou que isso seria bem difícil. Mas foi.

O saguão do hotel estava estranhamente deserto e silencioso, àquela hora da noite e, além de Edna, só o porteiro continuava ali. Muito nervosa, ela olhava constantemente para as enormes portas de vidro da entrada, desejando, e ao mesmo tempo te­mendo, a chegada de Jason. Seu coração deu um pulo quando finalmente ele entrou, com uma expressão distante no rosto másculo, completamente sozinho.

No momento em que a viu, Jason parou abruptamente. De­pois, deu um passo involuntário na direção dela, detendo-se novamente, com uma chama ardente brilhando nos olhos cin­zentos, uma chama que revelava tudo o que ela precisava saber. Jason realmente a amava!

— Edna?! — A voz grave tinha um tom rouco. Ela engoliu em seco.

— Jason,.. eu... eu o amo — murmurou, trêmula de ansiedade.

— Vamos para a minha suíte — ele disse, segurando-a pelo braço e perdendo o ar distante.

— Pensei que você não gostasse de receber visitas de garotas aqui — ela comentou tolamente, lembrando-se da primeira con­versa que tinha tido.

— Você veio me visitar? Pensei que tivesse vindo para ficar.

— Jason... — murmurou, os olhos cheios de amor.

— Espere até chegarmos ao meu quarto, querida. Se eu co­meçar a beijá-la agora, não conseguirei mais parar.

Assim que entraram na suíte, Jason virou-se e puxou-a de encontro ao peito, separando-lhe os lábios com a ponta da língua e beijando-a com ardor. Seu corpo musculoso pressionava o dela, tornando-a consciente da extensão de seu desejo.

Edna agarrou-se a ele, correspondendo ao beijo de todo o coração. Se Jason quisesse tomar posse de seu corpo, naquele momento, ela não protestaria. Um ano longe dele servira para lhe mostrar que a única coisa que desejava, realmente, era aque­le homem.

— Meu Deus, como eu precisava disto — Jason murmurou, fazendo com que ela se deitasse no sofá e acomodando-se ao lado dela. — Não vou permitir que saia daqui esta noite, querida.

Ela começou a tirar-lhe o casaco com dedos trêmulos.

— Eu o amo, Jason. — Sem a menor vergonha, estava se oferecendo a ele. — E sou sua.

— Meu Deus, como eu senti a sua falta! — ele disse, de encontro à garganta dela. — É isso que você quer, não é? É isso que você estava pedindo lá embaixo, não é?

— É, sim.

— Você não pertence a Tim, querida. Você é minha. — Eu sei, Jason. Eu estava mentindo.

— Você quis me ferir de novo.

— Desculpe. Eu estava tão confusa!

Percebendo a agonia dele, ela lhe falou sobre a visita de Isobel e o que havia pensado.

— Eu não me casaria com Isobel de jeito nenhum, Edna. Ela casou com um milionário grego, que conheceu logo depois que você veio embora.

— Eu... eu deveria ter confiado em você, Jason...

— Naquela época, você não me conhecia o suficiente para isso. A confiança só surge com o conhecimento profundo.

— Esse tipo de conhecimento? — perguntou, pressionando o corpo de encontro ao dele.

— Não. Nós precisamos ter uma conversa, Edna. — Com um gesto firme, Jason afastou-a de si e levantou-se. — Não quero que ainda existam mal-entendidos entre nós, no momento em que eu a fizer minha. — Inclinando-se, ele a beijou rapidamente nos lábios, antes de continuar: — Isobel disse que eu não a amava, que só queria me casar com você para ter o controle total da empresa. Ela estava errada. Eu a amo muitíssimo, e só a pedi em casamento por causa disso. Você não deve ter esquecido que, antes do meu amor se tornar tão grande, cheguei mesmo a encorajá-la a casar com Tim. Eu não queria me apai­xonar por você, Edna, principalmente porque sabia o que você ia pensar, quando descobrisse a existência daquela cláusula ridícula no testamento de David. Mas a verdade é que me apai­xonei por você à primeira vista.

— Ah, não! Tenho certeza de que não! — ela disse, rindo. — Você me desprezava.

— Eu a desejava, mas achava que não estava certo. Afinal, David era meu sócio e você, a neta dele.

— Por que nunca me contou que era sócio de meu avô?

Jason deu de ombros.

— Sei lá. De qualquer modo, não era uma coisa importante. Só quando eu me apaixonei por você é que se tornou importante, pois eu fiquei com medo de que você desconfiasse de mim, se ficasse sabendo disso e da cláusula do testamento. — Ele fez uma pequena pausa, continuando depois com ansiedade: — Ed­na, você tem certeza de que confia em mim, agora? Se nós nos casarmos, não vai jogar na minha cara tudo o que eu escondi de você, cada vez que brigarmos?

— Para falar com franqueza, acho que eu arranjei uma boa solução para esse problema — ela murmurou, com meiguice.

— Qual? Não me deixe em suspense.

— A solução ideal é transformarmos nossos filhos nos únicos proprietários da empresa — declarou, triunfante.

— Nossos filhos... — Uma expressão cheia de ternura apa­receu nos olhos de Jason, aqueles olhos que há poucas horas olhavam para ela com tanto desprezo.

— Não gostou da minha idéia? — Ela perguntou, sorrindo.

— Adorei, e acho que devemos começar a trabalhar nela agora mesmo. Amanhã, podemos fazer os arranjos para o nosso casamento, por enquanto, chega de conversa. Concorda? — Ja­son falou baixinho, com os lábios colados à garganta dela.

— De todo o coração!

E, durante muito tempo, o silêncio reinou entre eles.

 

 

                                                                  Carole Mortimer

 

 

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