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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FORA DE MIM / Martha Medeiros
FORA DE MIM / Martha Medeiros

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

"Passei a ocupar meus dias pensando sobre o que, afinal, é isso que todo mundo enche a boca para chamar de amor, como se fosse algo simplificado: defina em meia dúzia de frases, é fácil, querida.
É fácil? Pois a querida não entende como uma palavrinha simples formada por apenas duas vogais e duas consoantes pode absorver um universo de sensações contraditórias, diabólicas, insensatas, incandescentes e intraduzíveis. O que é amor? Já tentei explicar a mim mesma e, por mais que tente, jamais conseguirei atingir a essência dessa anarquia que dispensa palavras."

A porta bate e logo se ouve a partida do motor. O carro levanta do chão uma sombra pesada, um zumbido surdo. No apartamento, ela se equilibra, tenta achar o prumo.
Ele se foi. Ela sabia.

Martha Medeiros nos faz testemunhas de um momento crucial, terrível, na relação amorosa - aquele em que a paixão acaba, por mais intensa que tenha sido.
Com sua escrita fluente e cristalina, que parece cravar as unhas na pele da personagem, a autora inicia sua narrativa no instante da despedida, da queda, do fim trágico, nem além nem aquém da dor maior: quando se tem a certeza de que não há mais volta.
Só depois o leitor chegará ao antes, compreendendo como tudo se teceu, por que assim aconteceu, como tudo afinal foi ficando fora de controle.

 

 

 


 

 

 


Obrigada, Mario.

Nunca sofri um acidente
de avião, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda de altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a
parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador.
Então, após o estrondo, sobe
do chão um silêncio absoluto.
Por alguns segundos, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais.
É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.

Só então, depois desse
VáCUO de existência, desse breve período em que ninguém tem certeza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia
de lamentos que dará início ao que está porvir: o depois.

Eu sabia que terminaríamos eu sabia que era uma viagem sem destino, sabia desde o início e não sabia, não sabia que doeria tanto, que era tanto, que era muito mais
do que se pode saber, ninguém pode saber um amor, entender um amor, tanto que terminou sem muito discurso, foi uma noite em que você quase pediu, me deixe. Ora,
pra que me enganar: você realmente pediu, sem pronunciar palavra, você vinha pedindo, me deixe, olhe o jeito que te trato, repare em como não te quero mais, me deixe,
e eu, de repente, naquela noite que poderia ter sido amena, me vi desistindo de um jantar e de nós dois em menos de dez minutos, a decisão mais rápida da minha
vida, e a mais longa, começou a ser amadurecida desde o dia em que falei com você pela primeira vez, desde uma tarde em que ainda nem tínhamos iniciado nada e eu
já amadurecia o fim, e assim foi durante os dois anos em que estivemos tão juntos e tão separados, eu em constante estado de paixão e luto, me preparando para o
amor e a dor ao mesmo tempo, achando que isso era maturidade. Que idiota eu sou, o que é que amadureci? Nada, nem a mim mesma, jamais deixei de ter 10 anos, nem
quando tive 30, nem quando fiz 40. Nunca tive idade, ela de nada me serviu, ser lúcida sempre foi apenas uma maneira de parecer elegante, uma estratégia para a convivência.
Você lembra como eu chorei aquela noite, lembra do fim, você não pode ter esquecido aquela cena, entramos em casa sem acender as luzes, você olhando para fora da
janela enquanto eu derramava toda a minha frustração e meu desespero, como se a culpa fosse minha e não sua, ou fosse sua e não minha, como se existisse culpa para
o término de um relacionamento que simplesmente não tinha mais combustível, nem mais estrada. Faz quanto tempo desde aquela cena? Eu consigo enxergá-la por vários
ângulos, vejo você de costas pra mim, parecia um soldado, tão ereto,
em vigília de si mesmo, querendo saltar do terceiro andar, sair sem precisar passar pela porta, sem passar pelo adeus, e eu, curvada, amparada em algum móvel, demolida,
e então, na cena seguinte, nós de frente um para o outro, mas com as cabeças abaixadas, você não queria ver meu rosto, e eu estava espantada com o seu, tão sereno,
aliviado, quanto tempo faz, 15 minutos, vinte minutos desde que você saiu aqui de casa? Eu ainda estava quieta agora há pouco, eu ainda estava sem pensar e sem sentir,
de repente me deu uma calma, nenhuma desgraça aconteceu, você desceu pelas escadas, eu fechei a porta do apartamento e não chorei mais, eu vi pela janela o seu carro
saindo da garagem e não chorei, eu fui para o banheiro escovar os dentes, acho que escovei os dentes, não lembro, e botei uma camisola e fui pra cama e não chorei,
não pensei, não senti, não chorei, entendi, não entendi, não pensei, não sei, acho que dormi.
Você não ligaria no dia seguinte, era domingo, fui até a cozinha lavar a louça, mas não havia louça para lavar,
o combinado era jantarmos fora na noite anterior, não jantamos, ninguém se alimentou, quanto tempo faz desde aquela noite, parece um século, foi ontem. Decidi seguir
a rotina: o que eu fazia aos domingos de manhã? Eu caminhava, eu ia ao parque, então caminharei, mas falta você, coloquei o tênis, saí a pé de casa, falta você e
não falta, o estrondo está diminuindo, o barulho cessou, será que eu já percebo o acidente? Dou uma volta no parque, duas voltas, três voltas, você não virá aqui
me ver? Volto. Telefono pra minha mãe, não telefono pra você, conto pra ela que acabamos, meu relato é muito coerente, ela lamenta mais ou menos, já ouviu eu contar
essa história antes, somos reincidentes em finais, mas agora é pra valer, quem me acredita? Eu não me acredito, mas agora não te quero mesmo, e eu já ouvi isso antes,
de você, de mim, agora não tem mais volta - dei tantas voltas no parque, é tão ridículo caminhar pra lugar nenhum, para quem vou ficar magra e saudável? E voltei
a dizer: não, mãe, acabou de verdade, e pela primeira vez reparei em minha voz tremida, pela primeira vez naquele domingo eu fraquejei, as palavras saíram
entrecortadas, eu catava as sílabas que me fugiam, e ela do outro lado da linha fingia que não doía nela também.
Liguei o computador, escrevi, que é como organizo meu pensamento, escrevi e parecia que eu estava ditando a mim mesma um texto requentado, agora acabou, agora
é comigo, sei que vou conseguir, tenho meus motivos, e me dei várias explicações, tentei me convencer, eu estava tão racional, tão genial, eu quase consegui, e não
almocei, zanzei pela casa, tomei um banho, troquei de roupa, tirei suas fotos dos porta-retratos e desabei pela segunda vez, a primeira sem que você testemunhasse.
Guardei na gaveta aquela fotografia em que você estava de boné, parecia um garoto, me agarrando pela cintura. Guardei todas. Aquela outra, nós dois, eu de novo
enlaçada por você. E uma de você sozinho, um flagrante, você não percebeu, bati a foto enquanto você lia o jornal, tão lindo, você era tão lindo, você ainda é o
mesmo homem depois de ontem, o mesmo homem sem mim? Eu me olho no espelho e não me enxergo, não sou mais a mesma, perdi a identidade. Tirar suas fotos de vista me
pareceu uma providência curativa, agora você não o verá mais, querida, vai esquecê-lo mais rápido, como somos inocentes. E eu lá quero esquecê-lo? Sua presença ainda
está tão quente dentro
desse apartamento, o colchão ainda está meio afundado do lado em que você dormia.
Não sei se as pessoas choram de forma diferente umas das outras, eu choro contraída, como se alguém estivesse perfurando minha alma com uma lâmina enferrujada,
choro como quem implora, pare, não posso mais suportar, mas o insuportável é uma medida que nunca tem limite, eu chorei no domingo, na segunda, na terça, em várias
partes do dia e da noite, um choro de quem pede clemência, de quem está sendo confrontado com a morte, eu estava abandonando uma vida que não teria mais, eu sofria
minha própria despedida, morte e parto, eu tinha que renascer e não queria, não quero, sinto que caí num vácuo, perdi a parte boa da minha história, e não quero
outra, enquanto choro penso que se alguém me visse chorar dessa maneira me salvaria, prestaria socorro, chamaria uma ambulância, eu nunca vi você chorar, você alguma
vez chorou por mim, você sofre a minha ausência, sente minha falta? Estar
sozinha nessa aflição me condói de mim mesma, é o labirinto do inferno, não há saída, não há saída, você não está me esperando lá fora, nem hoje, nem amanhã, você
não vai fazer nenhum gesto para me resgatar, e se fizesse, eu não estenderia minha mão, e é isso que me faz descrer de tudo, eu sei que acabou, eu estava infeliz
ao seu lado, eu estou infeliz sem você, mentira, eu era feliz ao seu lado, e nem sei se a palavra é essa, feliz. Felicidade é um resumo fácil, uma preguiça de investigar
o muito mais que nos ergue diariamente, na época era o que me bastava, eu sabia onde estava e com quem, eu não estou infeliz, eu só estou perdida e não consigo mandar
nenhum S.O.S., ninguém sabe onde estou, largaram meu corpo em cima dessa cama e ninguém me procura.
Choro, choro muito, choro agora feito uma guitarra dedilhada por um bêbado, sinto uma piedade inconso- lável de mim, de tanto que recordo o quanto te quis e o
quanto te admirei por amares a mim, era paixão inveterada, paixão de doer, paixão de não dar certo mesmo, paixão de perder o tino, e perdi por completo, hoje tento
compreender duas ou três frases e nem isso me cabe, ficou tudo sem lógica, eu que prezo tanto a
lógica, não entendo mais nada, mergulhei no escuro da minha perplexidade, você era meu até bem pouco tempo, mas vou sair dessa, veja, já estou enxugando as lágrimas,
procurando meu celular para fazer uma ligação qualquer, esses compromissos que a gente inventa para fingir que a vida continua. Marquei hora no cabeleireiro sem
ter motivo algum pra ficar bonita.
Não consigo mais ser uma pessoa comum, dessas que conseguem ver uma novela sem se afligir e que dirigem prestando atenção apenas nos sinais de trânsito, agora
eu só assisto à tevê com o controle remoto na mão para que eu possa trocar de canal a qualquer indício de que virá cena de beijo, não consigo ver um homem e uma
mulher se amando, é como se fosse uma agressão pessoal, vamos massacrar essa coitada, vamos fazê-la lembrar, mas não, eu não fico lembrando de nós dois, é muito
mais torturante que isso, eu fico imaginando você com outra mulher, você beijando outra mulher, e isso me dá uma náusea que quase me faz
desmaiar, fico em posição fetal, eu penso que vou ficar louca, como se já não estivesse, eu não posso ver uma foto de mulher bonita que já imagino o quanto você
vai
se interessar por ela, e vai desejá-la, eu passei a ter ódio de todas as mulheres que cruzam seu caminho, meu caminho. E no trânsito, eu só tenho olhos para as placas
dos carros que são da mesma cor e marca que o seu, e quando um se aproxima eu rogo a Deus para que não seja você, e ao mesmo tempo quero que seja, e às vezes consigo
não olhar, me sinto tão valente, consigo por minutos olhar só em frente, não reparo em nenhum veículo a minha volta, é como se estivesse sozinha na avenida, e é
nessas horas que corro o risco de bater, eu acelero sem perceber e depois freio muito em cima dos outros carros, eu saio da minha pista sem sinalizar, eu esqueço
pra onde estou indo, eu vejo você caminhando pelas calçadas e não é você, de repente todos os homens do mundo ficaram idênticos a você, e eu ainda não me envolvi
num acidente por um triz, ou talvez já esteja mais do que acidentada para ainda ter que enfrentar essa dor na carne, de verdade, sem ser apenas uma metáfora. Evito
olhar os casais de namorados nas paradas de ônibus, e tem um painel publicitário
em que um homem olha para uma loira com um desejo tão escancarado que me retorço e choro só de imaginar você olhando assim para outra mulher, e eu sei que você está,
ninguém precisa me contar, eu sei como é que você se cura, se trata, você não chora nem lamenta, você volta pra rua, você vai atrás de todas as mulheres nuas feito
um vira-lata, você está olhando nesse instante para outra mulher, está entrando nela, dizendo a ela como ela é gostosa, você está me matando dentro de você, e eu
morro a quilômetros de distância, a sós comigo mesma, você transa com outra e me mata, você goza e me mata mais um pouco, você dorme e me deixa insone pra sempre,
eu sei que não vai ser pra sempre, mas eu não enxergo o dia de amanhã, hoje eu só estou acordada pro eterno desse pesadelo, você era meu, droga, exclusivamente meu
até dias atrás, meu como esse sofrimento.
É a parte quase engraçada da história, eu acordo de manhã depois de ter dormido apenas três horas, tomo banho, coloco uma roupa e vou até o supermercado
que fica a meio quarteirão aqui de casa, e então pego um carrinho, dou bom-dia pro segurança, escolho as marcas de minha preferência, peso as verduras, pago a conta
e saio de lá sem ninguém desconfiar de que sou um fantasma, de que sou uma fraude, de que não sou eu que estou ali, estou apenas levando meu zumbi pra passear, pegar
um ar e cumprir certas obrigações domésticas, já que algumas pessoas aqui em casa ainda precisam se alimentar, enquanto eu as assisto comer, abismada com a fome
do mundo. Uma sorte eu ser dessa época, o século dos individualistas, ninguém mais se atém ao rosto dos outros, quem saberia dizer a cor dos olhos do seu melhor
amigo? Um exército numeroso de invisíveis, e eu me valho dessa invisibilidade para sair de casa como se eu fosse uma mulher em total domínio dos meus atos e sentimentos,
uma criatura confiável que não vai estacionar na vaga para os paraplégicos nem esquecer de trancar a porta do carro e que vai até sorrir de volta para a conhecida
que lhe deu um cumprimento quando se cruzaram no corredor dos enlatados. Tudo bem?, ela me pergunta. Tudo bem. Hoje está um dia assombrosamente calmo e eu quase
lembrei
de como era a vida quando eu estava viva.
No segundo dia eu sumi com sua escova de dente, que ficava ao lado da minha, as duas grudadas de forma indecente, como nunca mais ficaremos, tirei a sua de perto,
mas não tive coragem de jogá-la fora, abando- nei-a numa gaveta na esperança de que você viesse um dia e não veio. Hoje a peguei entre as mãos e cheirei as cerdas
em busca de um resto de saliva sua, do odor da sua boca, e me senti estúpida e digna de pena, joguei na lixeira sua escova e fiquei me sentindo um pouquinho pior,
porque nada me serve, nenhum ato que pareça maduro é maduro de fato, mas o que me resta? Tenho que faxinar você da minha vida, não posso permitir o atrevimento de
você estar aqui sem estar aqui. Não ouço mais música, todos os discos foram escutados em sua presença, nas nossas noites e também ao acordar, a casa sempre sonorizada,
você não gostava de silêncios, nunca estive com você sem que houvesse música e isso agora me intriga: por que o silêncio te incomodava tanto? Nas nossas viagens,
música, música, muita música, e quando a estrada era longa às vezes eu cansava do barulho, diminuía o volume ou desligava o som e você
reagia, e eu sigo desligando, interrompendo as músicas que ouvíamos na sala, no carro, pois cada verso, cada letra, é de mim que falam, da sua ausência, da minha
dor, do seu novo amor. Quem é ela, tão mais linda e jovem que eu, tão mais nova em sua vida, tão feliz com a sua chegada, tão cheirosa pra você, como você consegue
dizer pra ela o que me dizia semana passada, você já disse que a ama? Você levou quatro meses para me dizer e nunca mais parou, você era perdulário com as palavras,
não havia um único dia em que eu não escutasse de você o quanto me amava, dizia no meu ouvido ou através de bilhetes, te amo, te amo, como é que você fez para incinerar
todo esse amor em tão pouco tempo, onde o escondeu, em algum guarda-volume de rodoviária, enterrou em algum matagal, como é que seu amor foi desaparecer sem deixar
pista, rastro, feito um crime perfeito? A primeira vez que eu disse que te amava foi depois de uma transa, uma das nossas primeiras, e eu me surpreendi com o que
havia dito, porque ao contrário de você, sou econômica nas declarações, mas as palavras saíram de mim como num gozo, sem controle, eu mal te conhecia e de dentro
de mim saiu
aquele te amo com uma voz que era a minha, porém num tom mais leve e de uma sinceridade que me comoveu, te amo, e também nunca mais parei, e nunca vou parar, te
amo e quero te matar, queria que você evaporasse, onde é que eu te incinero, te escondo, te enterro, me conta onde fica esse esconderijo secreto, o mesmo onde você
sumiu com todos os eu te amo que me disse.
Recebo um aviso da minha operadora de telefonia de que há um celular novo e grátis a minha espera, como se fosse Natal, venha buscar seu presente, e eu corro
para o shopping porque finalmente tenho um compromisso inadiável e esse é o verdadeiro prêmio, agora tenho algo pra me ajudar a esquecer de você por três segundos,
tenho que buscar um novo celular, que acontecimento, que espetáculo, um aparelhinho com a caixa de mensagens vazia, sem um único torpedo seu: merda, já estou pensando
em você de novo. Uma caixa de mensagens vazia, que excelente método de tortura.
O que faço com o aparelho antigo, aquele lotado de torpedos que nunca apaguei, em que você dizia que nunca havia amado ninguém como amava a mim, e nossas brincadeiras,
e os "bom dia, linda" e os "boa noite, amor" e todos os nossos segredos. Faço o quê com o aparelho antigo, com o aparelho que registrou todos os nossos telefonemas
intermináveis, dou o mesmo fim que dei à sua escova de dente?
Não sei se devo registrar seu número no meu novo celular, se coloco na agenda seu nome, não sei se alguma vez ele vai tocar com você chamando no outro lado da
linha, acho que nunca mais e isso me apavora, o "nunca mais" que me persegue desde o momento em que acordo e que me dá medo e me faz voltar a ser criança, medo de
nunca mais viver o que vivi, sentir o que senti, medo de não conseguir agüentar viver sem você e o medo maior de todos, que é o de enlouquecer, porque o que me resta
de sanidade me avisa: estou pirando, eu sei. Esse final de amor me roubou o juízo, eu era uma mulher de classe, uma mulher consciente, eu não perdia o chão desse
jeito, eu já sofri outras vezes, mas sofria com mais discernimento, sem essa vertigem
que faz parecer que a queda não tem fim e que não vou acordar tão cedo.
Saí da loja no shopping, entrei no meu carro, sentei e fiquei ali parada no estacionamento com o novo celular na mão, pensando: vou adicioná-lo na agenda, e com
as lágrimas já escorrendo fui teclando letra por letra de um nome que estava sendo digitado apenas para me iludir um pouco mais, quem sabe um dia seremos amigos,
você me liga no meu aniversário, e eu atenderei sem nenhum sobressalto, achando tudo muito natural, vai ver eu até já terei outro namorado, e você será uma lembrança
afetiva do meu passado, será que essas civilidades acontecem mesmo ou a gente nunca esquece, nunca, nunca, nunca esquece um amor vivido de forma tão audaz? Você
me laçou, me prendeu, fui com você arrastada pelo seu ímpeto, pela surpresa em me ver de um dia para o outro sua, você que era apenas uma fantasia, um fetiche, era
pra ser apenas um "se" na minha vida, se ele existisse, se me desejasse, se surgisse, e você surgiu e instalou o céu e o inferno no mesmo playground.
A primeira pessoa que telefonou para meu novo celular não foi você, e a segunda também não.
Estou com o corpo que sempre sonhei. Minha barriga sumiu como que por milagre, meus ombros são dois ossos pontiagudos, as minhas calças sobram na cintura, tivesse
20 anos menos ainda poderia arriscar uma carreira de modelo anoréxica, mas só o que me resta agora é trocar as peças do guarda-roupa. A dieta da dor de cotovelo
funcionou melhor do que um photoshop, perdi 3 quilos, eu que achava que não havia mais nada a perder.
É o momento de percorrer as lojas da cidade, dizem que é uma
eficaz compensação, mas não quero deixar de usar as roupas que usava, não quero vestir cores que não sei se você iria gostar, não quero virar a página, enxergar
no espelho uma mulher que você nunca irá ver, ficar bonita como nunca fiquei pra você, porque a dor é a última ligação que mantenho com nossa história, ninguém pode
me obrigar a seguir adiante, eu quero ficar onde estou, mesmo sem você, mas, de uma forma estranha, ainda com você, esse você que hoje já não é mais aquele que viajou
por tantas estradas ao meu lado, que me levou a uma espécie de transe de tanta alegria, eu não racionalizava mais, a Miss
cerebral ofertou dois anos sabáticos para seus neurônios, não havia o que pensar, apenas exigência de viver, eu nunca tinha me permitido isso, estar totalmente entregue
a um corpo, a um homem, a um arrebatamento que visto de fora ninguém daria crédito - ou será que alguém percebia? Eu me entreguei a você porque não pensei. Se pensasse,
não faria. Eu estava tão cansada de mim quando você surgiu, meu único sonho de consumo era um leito de hospital e sedativos, eu nem suspeitava que o remédio era
simplesmente me permitir ser conduzida, e fui, você passeou comigo pelos cenários mais idílicos e mais lamacentos, sem me dar tempo de perceber onde meus pés pisavam,
você me pariu de novo e agora não aceito devolução, não me quero de volta, não aquela, não a pré-você, a ex-você, não nasci para ser sua ex, para ser seu passado.
Como é que você não sente do jeito que eu sinto, como é que pode ter se entorpecido por outra mulher tão rapidamente a ponto de ignorar meu desespero? Quem é você,
um crápula ou um homem decente? Nenhuma mulher apaixonada aceita essa esnobação sem planejar assassinatos múltiplos, você corre o risco porque sabe que sou ponderada,
ponderação é uma farsa que sustento bem. Não vou
matar você e não posso matar a mim, não tenho essa valentia, essa garra, essa vileza, não vou dar o gostinho aos meus parentes de me verem nas primeiras páginas
dos jornais, e muito menos vou dar esse gosto aos seus, que sempre desconfiaram da minha exagerada lucidez, que mulher é essa tão nutrida de si mesma?
Parece um nódulo, tem consistência de nódulo, e ficou roxo menos de cinco minutos depois do tombo, um tombo ridículo, aceitável apenas para crianças, eu corri
como uma menina desajeitada e caí de joelhos feito uma santa, mas não foi por fé, e sim por aflição, meu celular começou a tocar no mesmo horário que você costumava
ligar, eu na sala, o aparelho no quarto, e um tapete no corredor interrompeu minha disparada e me fez desabar. Ainda bem que estava sozinha em casa, ninguém para
testemunhar o vexame dessa minha esperança vã, sonhar que poderia ser você com saudade, imaginar você do outro lado da linha dizendo que sentia minha falta e que
eu não me deixasse abater por
especulações, que você era homem e resolvia suas carências de um modo diferente de mim, imaginar você ainda me amando em silêncio, dizendo para a outra as frases
que gostaria de dizer para mim, delírios de uma mulher que ainda aposta, ainda acredita, envergonhada, que um amor sincero não morre por causa de uma tentação sexual
paralela, que um amor como o nosso não se esvai, e ali de joelhos no meio do corredor, doída, com o tapete amarrotado por causa das minhas pernas bambas que não
souberam atravessá-lo, ali fiquei até escutar a desistência da chamada, aquela que seria de qualquer outra pessoa que não você. Feito uma anciã bem velha em dia
de folga da enfermeira, levantei devagar, machucada por fora, por dentro, me sentindo a mulher mais patética entre todas as mulheres do mundo, imaginando aquelas
que naquele instante estariam jantando com seus amores e sorrindo com o rosto inteiro, plenas, mulheres amadas, levantei primeiro uma perna, depois a outra, consegui
me erguer feito um filhote de girafa numa pista escorregadia, dei o primeiro passo, e o segundo, agora entendendo o benefício de uma bengala, na falta dela me amparando
com as mãos
na parede, outro passo, e mais um, doendo, até chegar ao aparelho já mudo em cima da mesinha ao lado da cama. Teclei chamadas perdidas. Era você.
Antes mesmo de discar eu já não te amava com a mesma insensatez. Bastou saber que você havia pensado em mim, fosse pela besteira que fosse, e meu coração já batia
mais devagar, ganhava autoconfiança, eu podia voltar a respirar. Liguei e você atendeu no segundo toque, eu estava ouvindo a sua voz novamente, o mundo se reorganizava,
parecia que eu tinha retornado de uma longa e exaustiva viagem, estava no conforto do meu quarto, na paz da minha existência cotidiana, assistindo à mudança dos
fatos, o inesperado acontecendo, e eu ainda não fazia idéia do que viria. Você estava gentil, mas meu sossego durou apenas dois minutos e meio, os primeiros dois
minutos e meio de uma conversa que terminou aos berros vinte minutos depois, vinte minutos de acusações, queixas, choros, vontade de falar de amor e não conseguir,
vontade de pedir
para você voltar e a voz não sair, porque você confirmou, você disse que não era nada significativo, mas que sim, estava com outra mulher. Deixava de ser uma suspeita,
uma fantasia, eu tinha esperança de que não fosse verdade, que fosse apenas coisa da minha imaginação diabólica, mas você confirmou, e depois eu não escutei mais
nada, não queria saber da desimportância do fato, não acreditei quando você disse que ainda me amava, só o que eu pensava eram em vocês dois juntos na cama, nus,
suados, se amando, sorrindo, aos beijos, abraços, se tendo, se agarrando, ela dona de você, ela podendo ligar pra você quando quisesse, ela na sua casa, tomando
vinho nos cálices que eu te dei, ouvindo os discos que deixei com você, fazendo carinho no seu cachorro que era um pouco meu também, estacionando o carro dela na
vaga que era minha, recebendo as chaves que eu devolvi pra você, ela era sua namorada agora, e eu era alguém em quem você ainda pensava, e eu não consegui me sentir
grata por essa condescendência, nem vou, jamais. Como quer que eu acredite que tudo aconteceu por acaso, como é que em tão poucos dias você conheceu, paquerou e
iniciou uma relação? Ela já estava na sua vida, você estava a fim dela antes de sair pela minha
porta, e isso agora não interessa mais, pois agora eu sei o que mulher nenhuma suporta saber, agora o tiro de misericórdia foi dado, não sei de quem você está se
vingando, quem foi que lhe fez tanto mal para você descontar sua miséria em mim, mas está descontada, agora você pode se sentir quite com sua infância sem fotos,
com sua adolescência sem rumo, com sua maturidade nunca alcançada, agora você pode se sentir um homem de verdade, e talvez eu deva mesmo lhe agradecer o favor que
me prestou, agora você me secou, me drenou, agora eu odeio você e posso começar a planejar meu futuro, e olhe que outro bem você me fez, meu joelho parou de doer.
Eu hoje não tomei banho, está muito frio, a vida se tornou metálica, as paredes parecem de alumínio, o chão é uma pista de gelo. Não tive vontade de tirar o pijama,
mas de pijama o dia inteiro não tem cabimento, coloquei qualquer trapo que encontrei no armário e vim para a sala ler meu horóscopo, que é a única coisa que me interessa
no jornal, logo eu que nunca dei bola
para adivinhações. Não há nada de animador previsto para meu signo, então leio o seu e, segundo o astrólo- go, está tudo correndo bem pra você, então decido que
vou esquecer a data do seu aniversário, qual é o seu sol, a sua lua, o seu planeta, vou esquecer que você é de novembro, de Sagitário, de Saturno, de outra galáxia,
não passo mais em frente à sua rua, deleto seus contatos, esqueço seu rosto, não lembro mais o nome dos seus familiares, apago toda e qualquer recordação do passado,
viro uma múmia, uma esfinge, uma estátua de pedra. Meu cabelo está sujo, faço um rabo de cavalo, não troquei as flores da sala, ontem era o dia em que elas chegavam
frescas na loja, mas me esqueci de passar para comprá-las, as pétalas mortas das flores da semana passada estão caídas no chão, alguém precisa varrer. Pego um livro
de psicologia, sei que há muitos trechos ali sublinhados, frases que destaquei alguns anos atrás, tento resgatá-las para saber se ainda fazem sentido, se conversam
comigo, mas elas não me dizem mais nada, preciso ler outros livros, buscar consolo em idéias re- cém-escritas, talvez eu encontre algo que me faça rir, que consiga
distrair meus pensamentos sem muito esforço, ou então eu deva ir ao cinema, mas só de pensar
em escovar os dentes, passar um batom, pegar o carro, não, nem pensar, estou absolutamente sem energia para tanta atitude, estou magra e pesando 200 quilos, um corpo
afundado no sofá que virou uma espécie de alto-mar, o sofá que não me abraça, apenas me sustenta, me mantém à tona, mas não estou triste, e tampouco alegre, não
estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, eu não vou gritar, eu não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo.
Por mim, sumiriam os espelhos da casa, e a tevê pode estar sintonizada em qualquer canal, nenhum deles me fixa a atenção, não lembro se estou de calcinha, se troquei
de calcinha, e não me depilo há alguns dias, não preciso de pernas sedosas, não preciso de lingerie, eu só preciso respirar - inspira, expira -, isso ainda consigo
fazer porque é inconsciente, hábito, costume, tudo o mais que me exige reflexões eu dispenso. Uma amiga me mandou um e-mail dizendo que vai passar, tudo passa, e
me convida para um drinque no final da tarde de amanhã, eu sei que não vou, mas ainda não respondi ao e-mail, amanhã eu respondo, vai passar? Já passou, querida,
já passou, meu problema é o que ficou.
As vezes dura dez minutos, às vezes um pouco mais. Quando dura 15, é carnaval. Fico 15 minutos trabalhando, concentrada, focada em algum assunto que não é você,
e então tenho a impressão de que o processo de cura começou, mas os dias possuem bem mais do que 15 minutos, e em todo o resto de tempo é em você que penso, e eu
me flagro incrédula, mortificada: faz de conta que não aconteceu, não aconteceu nada, fique calma. Ontem sonhei com você e tive quase certeza de que Deus não existe
mesmo, pois Ele, em sua infinita bondade, não faria isso comigo: sonhei que você havia me buscado na saída. Saída de onde? Do teatro, do colégio, da minha vida?
Caminhamos juntos pela rua, seu carro estava estacionado um pouco mais adiante, e eu estava quase alegre, você havia me buscado, me retirado de algum lugar para
seguir com você, e quando chegamos no seu carro, dentro dele estava a outra, uma mulher no assento em que eu deveria sentar, gargalhando, debochada, uma mulher com
pouca roupa e reclinada, desbocada, me mandando sumir porque agora você era dela, e você não soube o que dizer, calou, e eu
não soube para onde correr, como é que você havia esquecido uma mulher dentro do seu carro, como é que não teve o cuidado de lembrar, como pensou que poderíamos
conviver os três no mesmo espaço? Acordei com uma dor semelhante à de uma agulha enfiada na veia, alguém estava retirando meu sangue, me vampiri- zando. Você, só
podia ser você, que se me visse agora consideraria um exagero esse meu desalinho emocional, que diria que estou dramatizando, você que nunca passou por nada igual,
mas talvez passe, tomara que passe, para poder entender. Não há inteligência que nos salve nessa hora, não há explicação, discernimento, só vibrações, as ruins e
as péssimas. Soube de um cara meio bruxo que joga cartas, búzios, um homem que basta olhar no fundo do nosso olho para abrir um caminho e dizer o que vai acontecer,
você sabe quantas vezes fiz esse tipo de consulta? Pois irei lá, será minha estreia no mundo das adivinhações. E agora, ouça essa: eu tenho rezado. Acredito em astrólogos,
magos, duendes, cartomantes, charlatões, trevos de quatro folhas, por que não acreditaria também em Deus, nesse Deus que está quase me deixando?Todas as noites eu
rezo pra Deus pedindo desculpas pelo meu sofrimento mesquinho,
menor. Tanta mãe que perdeu filho, tanto trabalhador que perdeu casa em enchente, tanto jovem que perdeu braço e perna, tanto cego e tanto pobre, tanta criança
pedindo esmola de pés descalços, tanto desempregado humilhado, tanta gente pedindo dinheiro emprestado para não ter a luz cortada, tanta mulher que foi deixada depois
de vinte anos de credulidade no amor e que ficou com os três filhos pra criar, pra sustentar, pra explicar, tanta gente chegando aos 70 anos, aos 80, olhando pra
trás e não vendo sentido em nada do que foi vivido, se deparando com o tempo desperdiçado, e mesmo assim eu rezo e ocupo ainda mais a agenda do Senhor por causa
de um traste que me trocou por outra sem me deixar filho nem despesa, sem me deixar aleijada ou sem teto, apenas me deixou, apenas me deixou, apenas isso. Pai de
todos, tão atarefado e ainda tendo que se ocupar comigo, logo eu que nunca lhe dei crédito antes, pecadora por desprezo e falta, eu que nunca precisei, mas que agora
ajoelho e imploro por bênção: Deus, Pai, Senhor, seja você quem for, tire esse homem do centro das minhas atenções.
Acordei com o despertador na mesma hora de sempre, antes das sete, mas com o agravante de que agora o inverno está mais intenso, não só o inverno metafórico,
aquele do coração abaixo de zero que me destemperou emocionalmente, mas o inverno de junho, julho, agosto, aquele que me gripa, me acinzenta e me faz andar curvada,
encolhida, com os ossos a ponto de quebrar, mas mesmo assim coloquei um par de tênis, uma calça de cotton, um casaco, e não me importando de que ainda estivesse
semiescuro lá fora, fui caminhar, sentir o ar gelado no rosto, o corpo vivo, confiante no futuro. Dei voltas e voltas no mesmo parque em que tantas vezes nos divertimos,
em que tanto namoramos, o mesmo parque, as árvores no mesmo lugar, porque é a única área verde aqui perto e não vou trocar de bairro por sua causa, ainda que eu
desejasse trocar de nome, de rosto e de encarnação. Durante meu passo apressado, aeróbico, um homem bonito cruzou por mim e me cumprimentou sem eu nunca tê-lo visto
antes, será que é marido de alguma conhecida, será que já fomos apresentados? Mais duas voltas no parque e novamente um sorriso tímido foi trocado por ambas as partes,
eu nem sabia mais o que era isso e comemorei feito uma menina
de 12 anos vivendo o primeiro flerte da sua vida. Voltei pra casa, tomei banho e depois de muitos dias tive vontade de me vestir bem, mesmo que pra ninguém. Abri
minha caixa de e-mails, havia muitas mensagens, me dei conta de que eu continuava existindo e aproveitei para responder àquele convite da minha amiga, topei um happy
hour para o dia seguinte. Ela não demorou 15 minutos para me responder. Me propôs à queima-roupa: amanhã por quê? Vamos hoje! Te pego às seis. E com ela, num café
lotado de gente charmosa, tive uma noite inteligente e divertida como não sabia mais ser capaz.
Ontem voltei pra casa meio alta, eu e minha amiga tomamos champanhe para comemorar minha liberdade, meu reencontro comigo mesma, meu futuro pela frente, tudo
isso ela me disse, que eu era ótima, que eu voltaria a amar de novo, que minha relação com você já estava condenada, que foi melhor assim, e disse mais uma série
de outros chavões que eu adorei ouvir, e tim-tim, saí de lá entusiasmada e fui dormir certa de que o pior havia
passado, até que hoje acordei às cinco da manhã e senti a mesma vontade de morrer.
A morte tem me visitado em horas diversas do dia, a idéia dela surge em conta-gotas, e muitas vezes não é a morte minha, mas a sua, o que facilitaria muito as
coisas, você morto não me trai, você morto não me dá esperança de retorno, você morto não me enviará o e-mail que tanto aguardo, você morto é a tranqüilidade certa
da minha alma. Morrendo você, eu é que descansaria em paz.
Mas isso eu não digo pra você, eu adoraria te encontrar e te dizer os piores desaforos, te chamar de tudo, berrar os palavrões mais inqualificáveis, abalar teus
brios, mas não faço nada disso, agora fico em silêncio tal como você, os dois manipulando um ao outro com a quietude, apostando num desaparecimento que sempre alimenta
interrogações, você tem vontade de me procurar? Quem de nós dois vai resistir mais tempo? Quando não desejo você morto, alimento a fantasia de que você seria capaz
de assaltar um banco para ficar comigo outra vez.
Não sei por que ainda considero importante que você me guarde na sua memória afetiva, se eu mesma
já não me dou a mínima. Que troca de vibrações telepáticas é esta que idealizo como um elo entre nós dois, quando o natural seria eu pensar apenas em mim e você
em você, desconectando os fios, desenovelando essa nossa história, mas ainda quero te conquistar, por isso não apareço na tua frente, não te xingo, não te chamo
de filho da puta, um pouco porque ter deixado de me amar não faz de você um filho da puta, mas principalmente porque tenho medo de que se houver em você um resto
de amor por mim, esse amor irá por água abaixo quando você me ouvir te caluniar, te insultar, então me mantenho educadamente afastada, porque é a única saída que
me resta para continuar sendo gostada por você, que absurdo, esse meu falso refinamento ainda é uma forma patética de sedução.
Lembro como era bom compartilhar minha felicidade com os amigos, falar pelos cotovelos sobre alegrias que soavam até ofensivas àqueles que não entendiam o que
se passava no interior de um corpo em festa. Eu costumava ser uma alegoria ambulante. Agora a festa terminou, os
copos estão espalhados pelo chão, os pratos sujos, silêncio absoluto, ficou o vazio devorador de uma solidão impossível de ser contada. Qualquer coisa que eu fizer
será inútil, o fim é uma parede, impossível atravessar, fica-se exatamente onde se está, inerte, até que uma porta, um dia, num passe de mágica, venha a ser desenhada
no meu futuro. Mas, por ora, não existe futuro, não existe passado, não existe o tempo, eu olho a chuva pela janela e ela existe lá fora, eu não existo aqui dentro.
O desespero acalmou, virou uma tristeza amistosa que me impede de reagir, me impede de fazer planos, me impede até de sofrer - ela simplesmente me entorpece,
imobiliza, é uma espécie de anestesia. Durma, querida. Durma, mesmo acordada. Durma, mesmo trabalhando. Durma e não preste atenção no que está acontecendo. Não está
acontecendo nada mesmo.
Peguei meu carro num domingo e fui passar o dia na praia. Me levei embora de mim. Queria ver o mar, foi a desculpa que me dei. Não podia admitir que precisava
ouvir uma pessoa estranha me contar o que há do outro lado desse abismo. Queria que alguém me enganasse com a melhor das intenções. Procurei o tal bruxo que não
era bruxo, e sim proprietário de uma loja de artigos indianos.
Mas chamá-lo de bruxo me faz parecer um pouco menos burra.
Era um sujeito muito alto, com mãos grandes, olhar opaco como o de um cego. Exatamente como eu havia sido advertida por quem o indicou. Me levou para um escritório
ao lado da loja. Nos porta-retratos, fotos dele ao lado de políticos, artistas, jogadores de futebol. Quanta gente precisada de um engano bem gratificado. Eu ainda
não havia dito nada e tampouco quis saber quanto me custaria a consulta com vossa excelência. Perguntou meu nome. Pronunciei meu nome calmamente, como se estivesse
mentindo. Ele disse: "Você deveria ter vindo antes. Fazia tempo que não via uma mulher tão machucada."
Não sei como consegui segurar as lágrimas. Talvez não tenha conseguido, pois a partir daí, por piedade ou paternalismo ou porque era o que ele estava vendo no
fundo dos meus olhos, ele me disse tudo o que eu precisava ouvir. Que eu era uma criatura iluminada. Que havia um anjo tomando conta de mim. Que minha estrada estava
aberta.
Ele adivinhou sobre a minha vida algumas coisas práticas e fáceis de acertar. Chutou algumas coisas também fáceis de chutar. Não falou em nenhuma desgraça, por
que intuiu que, em caso de mais um desgosto, eu sairia dali sem deixar um tostão. Ele tinha o produto que eu queria para pronta-entrega: a esperança mais fuleira,
uma ilusão de quinta categoria. Eu só necessitava de uma boa mentira para enfiar no bolso, uma mentira que ficasse comigo até pelo menos eu voltar pra casa. Ele
me deu várias, eu paguei corretamente pela alienação que fui buscar e antes de eu ir embora ele colocou a mão no meu ombro e me olhou de um jeito que dava a impressão
de estar mais assustado que eu: "Você vai atravessar paredes."
No dia seguinte não choveu.
No dia seguinte não chorei.
Aceitei que deveria levar dentro de mim o projétil que não havia como retirar, a bala que se alojou num ponto que impossibilitava a extração. Um médico me diria,
se eu tivesse procurado um médico, que é preciso se acostumar com esse corpo estranho e levar uma vida normal, como se nunca tivesse sido atingida.
Esse corpo estranho. A dor.
Continuo sentindo tudo o que sentia, mas já sem procurar lógica para esse sentimento atrofiante. Sigo triste, mas menos catastrófica. A ansiedade que me empurrava
ladeira abaixo deu uma desacelerada, já consigo ficar indiferente. Passei a ir ao cinema com mais freqüência e tenho me encontrado com as amigas. A gente ri muito,
parece que a vida sem você começa a ser possível de ser vivida. O homem que cruzava comigo no parque continua me cumprimentando com uma simpatia suspeita, e eu retribuo,
sabendo que o máximo que pode acontecer entre nós dois é envelhecermos juntos todas as manhãs dizendo bom-dia ao cruzarmos nossos caminhos, pois a aliança que ele
traz na mão esquerda me impede de fantasiar um romance clandestino - todas as mulheres do mundo estão a salvo de mim, eu não faria nenhuma delas sofrer por minha
causa.
Minto quando digo que não procuro mais lógica. Eu ainda gostaria de entender. Li num livro que entender é limitado, e que não entender é libertador. Estou quase
certa de que é Clarice Lispector. Gostaria de ser esperta o bastante para atingir esse salvo-conduto. Olho para trás, para o tempo em que formávamos um casal, e
me dá a sensação de que estávamos atuando um para o outro, você minha platéia e eu a sua, cada um tentando
desempenhar o papel dos sonhos do outro. Eu, sua mulher. Você, meu homem.
Hoje já não me sinto traída por você, e sim por mim mesma. Eu sabia desde o início que estávamos fadados a uma luta desigual, você mais bonito e mais instável;
eu, mais centrada e vivida. Tão vivida que sabia que amores se constroem, basta um terreno propício, e terreno não nos faltava, dois recém-divorciados querendo voltar
à ativa, amparar-se um no outro para virar a página dos fracassos anteriores. Um fracasso novo é o mínimo que se espera de qualquer relação.
Mas tivemos um fracasso majestoso. Um fracasso de cinema. Dois apaixonados brigando contra suas adver- sidades, dois apaixonados empunhando todo tipo de arma
para se manter em pé, e quando deitados, os dois gozando vitórias, uma atrás da outra, dois heroicos, dois eróticos, dois sublimes. Fracasso de matar de inveja os
que nunca experimentaram um.
É a pior morte, a do amor. Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retorno para o nada,
uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo
- tudo segue. E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes. É uma morte experimental: um ensaio para você saber o que significa a morte ainda estando vivo,
já que quando morrermos de fato, não saberemos.
Então é isso que começo agora, minha trajetória de morta-viva, com algumas horas mais mortas, outras mais vivas, dependendo do que me chega, se um convite para
uma balada ou uma lembrança corrosiva que abate e me destrói. A cada meia hora, um estado de espírito diferente. A noite, meu cansaço é igual ao de um maratonista,
é como se eu tivesse atravessado dezenas de quilômetros, entre subidas e descidas. Mas, ao contrário do que acontece nas atividades físicas, as descidas são as que
mais consomem minha energia.
Soube que você segue com ela, aquela que não era significativa, aquela que não era importante, aquela que estava apenas te distraindo enquanto você não me esquecia.
Sua irmã me telefonou ontem para saber como eu estava. Nós nunca fomos íntimas, estranhei ela estar tão interessada na minha sobrevivência emocional. Foi ela
que confirmou que você segue com a mulher a quem você não ama, a mulher pra quem você não está nem aí, a mulher que está te servindo como muleta enquanto você não
me tira da cabeça. Sua irmã me contou isso como se o fato de você não demonstrar animação por essa que me substituiu fosse suficiente para não me fazer sofrer. Sua
irmã sempre me pareceu meio tola, então vou desconsiderar esses comentários e tentar acreditar que ela não está sendo maledicente.
Afora a atualização pormenorizada da sua vida afetiva, ela deixou escapar algo que eu já suspeitava, mas não tinha certeza. Eu sabia que havia um troço esquisito
em você que afetava a nossa relação, mas esse distúrbio é tão inédito pra mim que não consegui diagnosticar, ou talvez eu tenha preferido fazer de conta que tudo
em você era autêntico e que a insana era eu, ao menos assim eu poderia repartir a conta do estrago e tentar salvar o que eu não queria que se rompesse, foi assim
que passei dois anos me iludindo: está tudo caótico, mas tudo bem, a paixão é desse modo, eu apenas
não estou acostumada, apenas isso, mas vou me acostumar, todo mundo diz que amar desse jeito transtornado é normal. Não era.

2

Eu não esperava nada. Eu ia
Eu não esperava nada. eu
não sonhava com nada. Dizem que as pessoas verdadeiramente ricas são aquelas que nada desejam. Então eu era a nova milionária da cidade, porque estava saindo de
um casamento de 16 anos sem nenhuma expectativa, sem nenhuma dívida pra pagar ou receber, e o mais assombroso: sem uma dor aguda e incurável, apenas a melancolia
natural que acomete a todos que encerram uma etapa importante da vida. Mais ou menos como uma peça teatral de sucesso que inesperadamente sai de cartaz: deu tudo
certo, mas uma hora a repetição cansa, o entusiasmo acaba, há textos novos por encenar e um mundo lá fora chamando.
Eu me sentia íntegra e honesta, estava conduzindo a minha história como achava que deveria, e tinha a cumplicidade do meu ex-marido, que sentia a necessidade
de afastamento tanto quanto eu. Éramos bons amigos e assim continuaríamos, e daquele dia em diante, o dia em que ele saiu com as malas pela porta do nosso apartamento
depois de inúmeras conversas sobre os prós e contras da nossa decisão, estávamos seguros de que não haveria o que lamentar, porque ninguém estava de fato saindo
da vida um do outro. Era apenas uma mudança de endereço e de estado civil. Voltávamos ao atribulado mundo dos solteiros, mas jamais deixaríamos de nos falar e de
nos ver. Era uma separação, e não uma briga, não houve uma despedida de novela incluindo gritos, insultos, beijos desesperados ou uma última transa para ficar na
memória. Nada de passionalidade. A porta do elevador se abriu, eu fiz um rápido cafuné nos cabelos dele, sorrimos um para o outro meio sem jeito e trocamos um tchau,
amanhã te ligo. O que estava acontecendo era um bem-vindo recomeço para cada um dos dois, uma estrada nova, um presente a ser desfrutado com tranqüilidade e sabedoria.
Essa tal sabedoria, que até então eu imaginava consistente, me dizia: calma, madame. Nada de pressa.
Você recém está inaugurando um capítulo novo da sua biografia. Não precisa preencher páginas e mais páginas de acontecimentos furtivos e pretensamente
eletrizantes. Permita que essas páginas sigam em branco antes de começar a descrever o turbilhão de acontecimentos incríveis que as revistas juram que acontece,
mas que é
provável que não passe de ficção. Não invente, não force. É mais sensato acreditar que o que valerá a pena, a partir de agora, será apenas seu armário com espaço
de sobra, nenhum ronco masculino na cama, algumas horas mais livres para encontrar com suas amigas e o carinho que você deve redobrar para com seus filhos, que continuam
onde estão, sob sua guarda. Serão esses os seus próximos capítulos por um longo e indefinido tempo.
Santa ingenuidade.
A cidade inteira comentou que eu havia trocado um casamento estável por uma aventura, acreditando que
você já fazia parte da minha vida quando eu ainda estava casada. Pelo visto, maledicência não era exclusividade da sua irmã. Essa "cidade inteira" era composta apenas
por meia dúzia de fofoqueiros sem mais o que fazer e eles estavam irritantemente enganados, mas não havia como culpá-los pelo delírio a que estavam se entregando.
Você realmente surgiu horas depois que meu marido se foi. Eu disse horas.
Os meteorologistas costumam avisar com um mínimo de antecedência quando a natureza vai sofrer um fenômeno climático, quando um temporal está a caminho, quando
é hora de retirar as roupas do varal ou, em casos mais extremos, reforçar portas e janelas. Mas ainda não inventaram um recurso tecnológico para avisar que um homem
vai entrar na sua vida e fazer o chão tremer. Você foi um abalo sísmico totalmente inesperado, e antes que eu pudesse me defender, deu-se o início da minha devastação.
O fato de tê-lo conhecido num velório seria uma piada pronta, não houvesse acontecido exatamente assim. Encerrado meu sólido casamento num saguão de edifício,
o primeiro compromisso social que tive, no mesmo dia, foi levar meus pêsames a uma colega
de trabalho cujo marido havia falecido. Ela estava arrebentada, sofrendo, era mais uma mulher que perdia o seu amor, mas eu me sentia blindada contra a comoção
daquela estranha. Só pensava em sair ligeiro da capela, onde, deitado dentro do caixão, não havia ninguém meu, ou que fora meu. Eu não estava enterrando ninguém,
minha despedida do passado havia sido bem menos dramática. Depois de abraçá-la e consolá- -la com palavras retiradas de algum manual de etiqueta, fiquei estática
a seu lado por alguns minutos, cercada por pessoas desconhecidas, compartilhando a tristeza e o peso do ambiente, pensando nos ciclos que se encerram por livre-arbítrio
ou pelo destino, até que, meditação feita, fui até a cafeteria do cemitério e você, sozinho no balcão, me pagou o primeiro café de nossas vidas, já que o atendente
não tinha troco para minha nota de 20. Fiquei lhe devendo o favor, e você apresentou a conta já na noite seguinte.
Impossível não me apaixonar. Você é e sempre será o acontecimento mais improvável na vida de uma mulher, de qualquer mulher. Se eu fizesse uma pesquisa, duvido
que encontrasse uma única cristã que me dissesse que sim, que também já teve um homem excêntrico surgido
do nada oferecendo um amor transbordante, um homem com uma conversa sem pé nem cabeça, mas deixando transparecer em cada palavra que está disposto a morrer para
tê-la, um homem com quem você sai uma única vez e já se sente a mulher mais desejada do planeta, um cara que diz que é capaz de ir até os cafundós da Via Láctea
para buscar o que você quiser, e você olha dentro dos olhos desse sujeito quase histérico e descobre emocionada que sim, ele iria. Este é você, que não permite que
a mulher ao seu lado tenha um único minuto de pensamento próprio, pois sabe que se ela tiver tempo de usar os neurônios, irá desconfiar da sua natureza impulsiva,
intempestiva e alucinada, portanto, antes que ela racionalize sobre a cilada em que está se metendo, você já a cercou com todo o romantismo e com toda a lábia e
com toda a parafernália que faz de você um homem que não existe. É óbvio que eu percebi que havia algo de muito afoito em toda a sua aproximação, e quando você,
ao me responder sobre seu estado civil, me disse sorrindo que eu era o empurrão que faltava para você se separar de um casamento quase tão longo quanto o que eu
havia tido, entrei no jogo e achei natural que você fizesse essa transição com tamanha
facilidade e rapidez, sem curtir um luto mínimo. Você não me conhecia e em cinco minutos já me tratava como se eu fosse a mulher da sua vida. Mas quem era eu, de
fato? Simplesmente
aquela que não era significativa, aquela que não era importante, aquela que estava apenas te distraindo enquanto você tentava esquecer a mulher de quem você não
se separou por minha causa, mas que te deixou, e que hoje eu entendo por quê.
Você não me enganou, eu é que adorei enganar a mim mesma. Sem estar preparada para nenhuma espécie de emoção forte, de repente me vi enredada numa minissérie
de tevê daquelas que costumam ser escritas por um autor alternativo, histriônico, independente, do tipo que tem a pretensão de "renovar a dramaturgia brasileira"
e aposta no nonsense. Eu me deixei levar por tudo o que não era eu, ou que deveria ter sido eu, porém uns trinta anos antes. Coisas que eu achava cafona passaram
a ser divertidas, acordar com pétalas de rosas pelo chão era hilário, termos um gosto musical totalmente oposto parecia desafiador, eu estava diante do meu reverso
e curti à beça essa visita por uma galáxia misteriosa, que
me permitia, no início, inventar um personagem e, aos poucos, fazer a coisa se tornar ainda mais excitante: abandonar o personagem para me tornar real, ser eu mesma
em uma versão até então lacrada, desconhecida - você me abriu para uma nova essência de mim. Muito prazer, garota. Olha só quem você também é.
Mérito todo seu, amor. Você parecia não ter medo, não ter dúvida, não ter passado, não ter futuro, era um mágico, um encantador de serpentes, tornava surpreendente
qualquer dia útil, cozinhava para nós naquela espécie de gruta onde vivia, agia de um modo que quase sempre me chocava, num misto de grosseria e pureza, mas eu não
seria covarde a ponto de fugir desse neanderthal cheio de charme que transava comigo de uma forma que eu já nem lembrava que era possível. Eu acordava de manhã,
me olhava no espelho e ria com a mais deliciosa expressão de sem-vergonhice feminina: isso está acontecendo mesmo? Depois de uma separação matrimonial asséptica
articulada com muita calma por anos - e por isso o meu luto se deu antes, e não depois de me divorciar -, ganhei como prêmio um macho livre, espontâneo, original
e que sabia fingir muito bem uma paixão que ainda não sentia. De minha parte, sem problema. Um simulacro, àquela altura, era mais
que suficiente para mim, até que depois de muitos encontros onde havia só eu e você, você e eu, sem testemunhas oculares, fomos um dia jantar num restaurante, como
um típico casal de namorados, e você encasquetou que um homem, sentado em outra mesa, estava me paquerando, e que eu estava retribuindo, e eu achei aquilo meio chato,
mas ao mesmo tempo simpático, que bonitinho, ele tem ciúmes de mim.
Praticamente em todos os restaurantes, você elegia um homem e passava a fantasiar que ele era do meu interesse, e a partir dali perscrutava meus olhos para saber
se eu estava olhando para ele, e eu, que não tinha interesse em mais ninguém a não ser em você, passei a me sentir vigiada, investigada e culpada pelo que eu não
fazia, e nervosa, realmente olhava para os lados para saber quem afinal estava sendo considerado tão mais atraente e superior ao meu namorado. Então isso é que é
ciúme? Ainda não tinha vivido essa grata experiência. Vinha de um casamento tranqüilo, seguro, cujas cenas de ciúmes nunca foram dignas desse nome:
Cenas. Eram apenas alertas divertidos, uma sinalização quase erótica: "Não pense que não estou percebendo..." E entre risadas maliciosas, o que parecia estar sendo
percebido acabava desaparecendo diante da cumplicidade e do bom humor que eu e meu ex-marido cultivávamos. Quando eu escutava histórias pérfidas e bem mais pesadas
sobre ciúmes, era como se alguém estivesse me contando o enredo de um filme que eu nunca iria assistir. Pois agora eu passava a estrear como protagonista da famosa
"cena", o meu homem desconfiava de mim. Pois então. Chegara minha vez de experimentar.
No começo, não me estressei tanto. Era envaidece- dor. E inédito. Eu não sabia muito bem que romance era esse que se iniciava de forma tão acelerada entre dois
seres provenientes de universos distintos. Seria bobagem me incomodar com você tão cedo, eu estava me sentindo dentro de um parque de diversões, e o passeio de montanha-russa
estava incluído no ingresso. Mas descobri que minha paciência era menor que minha indulgência com esse admirável mundo novo, e aos 45 dias de lua de mel, tivemos
nosso primeiro rompimento, que eu julgava o último. Inocência minha. Foi o primeiro de uma centena.
Eu já havia sido apresentada ao seu poder de sedução, mas não imaginava que ele seria tão eficiente e inesgotável. Foram tantas flores e torpedos e músicas românticas
que você cantava - cantava! - pelo celular antes de eu dormir que pensei: abandonar essa brincadeira por quê? Tenho programa melhor? E fui com você, e viajei para
lugares espetaculares com você, e conheci sua família, e recebi uma joia no dia dos namorados e levei um susto numa noite em que, depois de termos transado na garagem
de um amigo seu feito dois adolescentes sem teto, eu esgotada e feliz disse que te amava.
Você sorriu e me beijou e ganhou milhares de pontos comigo por não ter cedido à tentação de dizer um automático "eu também". Era cedo demais para se comprometer
pela palavra. Dessa vez, eu é que tinha sido afoita.
Talvez você não lembre de nada disso, e talvez lembre de coisas que eu já esqueci. Você me resgatou do meio do deserto feito um sultão, eu vivi com você mil e
uma noites em que nada parecia real, a começar pela minha certidão de nascimento: perdi a idade que eu tinha, você me rejuvenesceu de forma escandalosa,
a ponto de as outras mulheres notarem e não se conformarem, elas que gastam fortunas em clínicas de estética. Eu via você como um extraterrestre que havia sido esquecido
pela sua nave espacial aqui neste planeta, não falávamos o mesmo idioma, não pensávamos de forma parecida e não sei como nos comunicávamos, o que havia entre nós
era apenas uma vontade, uma enorme e insaciável vontade de investigar o que haveria no lado oculto da lua, ver onde essa maluquice iria dar, aonde poderíamos chegar,
quem agüentaria mais tempo, quem seria o primeiro a jogar a toalha, e feito duas crianças prendemos a respiração e mergulhamos um no outro para, em tese, nunca mais
emergir. Eu vivia em êxtase, a cada manhã eu acordava para uma surpresa, nenhum dia foi igual ao outro e eu nunca mais fui igual a mim mesma, estava indecentemente
alegre, espantada, moleca, e mesmo quando ficava enfurecida com seus delírios sobre outros homens, ainda assim aquela era eu fora de esquadro, eu descentralizada,
nunca havia me dado esse direito antes. Eu sei por que eu disse que te amava depois daquela transa, com tão pouco tempo de convívio: porque eu estava me amando pela
primeira vez na vida.
Houve aquele show de rock em que você teve certeza de que eu estava de olho em outro cara e, pra não ficar por baixo, começou a azarar uma mulher que estava perto
de nós. Me perturbou essa sua faceta vingativa, ainda mais sem ter um porquê, e lembro que quando você me deixou em casa eu pensei que, apesar de muito legal, você
também era um mala, mas no dia seguinte você me roubou da rotina, me levou pra fazer aula de dança de salão e me venceu mais uma vez, não havia defesa contra sua
inventividade, contra o entusiasmo efusivo que você demonstrava quando estava na minha companhia - desde que não corresse riscos, é claro. Na aula de dança só havia
mais três mulheres e o professor, por isso a noite acabou bem, com nós dois num supermercado feito cães farejadores atrás de comida, morrendo de fome depois de dançar
mambo, samba, twist e sei lá mais o quê naquela espelunca que eu não iria com nenhum outro homem, nem arrastada. Só você mesmo para me subverter.
Estava tudo muito interessante, afora algumas discussões que começavam sem razão nenhuma e que me
deixavam intrigada, nunca conseguia detectar em que momento da conversa a coisa havia degringolado e, quando descobria, me parecia surreal que uma questão tão boba
pudesse deixar você tão alterado, mas a fome que eu sentia por você era maior e eu fui deixando pra lá suas alterações súbitas de humor, até que um dia você me disse
que seu trabalho o obrigaria a ficar fora da cidade durante um mês, e isso me deixou um pouco insegura, mas você me convenceu de que a distância não era páreo para
o que estávamos vivendo e eu acabei não achando de todo ruim vivenciar uma saudade estendida e ter mais tempo para cuidar dos meus filhos, coisa que meu deslumbramento
estava me fazendo negligenciar, incrivelmente. Na noite anterior à sua partida, combinamos de jantar, namorar, nos curtir, e eu caprichei no visual e feito uma garotinha
separei uma foto minha pra te dar, meu Deus, parecia que meu soldado iria pra guerra, então você me buscou em casa e disse que o programa era irmos a um ginásio
na periferia da cidade, onde você tinha combinado de jogar futebol com seus colegas de escritório, e ali eu percebi pela primeira vez algo maquiavélico na sua aparente
doçura.
Obviamente, você não jogou, você melou o compromisso com eles e comigo, discutimos, acho até que foi a primeira vez que você me viu chorar, e eu não costumava
chorar à toa e nem aquilo era motivo, você estava apenas sendo babaca, mas talvez eu tenha chorado de raiva porque estivesse me dando conta de que haveria um preço
a pagar em troca das suas declarações românticas, de suas atitudes audazes e de todas as pétalas de rosas pelo meu caminho. Mesmo sem antes consultar meu saldo emocional
para saber se eu poderia arcar com essa negociação, resolvi que tudo bem, valeria arriscar o investimento, e a contragosto entreguei minha foto antes de descer do
carro naquela noite escura de segunda-feira em que você me largou em casa sem clima, sem jantar, sem transa e já prenunciando um "sem futuro".
Eu nunca fui tão feliz como quando estive nos seus braços nos lugares mais contraditórios: de SaintTropez a Santa Catarina, de Paris a Paraty, de Portugal ao
Pantanal - e na minha casa, e na sua, e na casa dos outros, e na rua. Eu ainda fico tonta e quase despenco quando
percebo que nunca mais viverei de novo aquele arreba- tamento, amei você de um modo que se você conseguir que outra te ame, não desgrude dela como permitiu que eu
desgrudasse de você, e acredite quando digo que não te culpo pelo nosso rompimento, não culpo agora, que sei que você não tinha controle sobre seu ímpeto de me machucar.
Mas quis matá-lo antes de saber.
Lembro que eu brincava dizendo que você teria feito uma carreira gloriosa no DOI-CODI se tivesse sido adulto no tempo da ditadura e tentado a vida como tor- turador,
porque era assim que eu me sentia, sendo torturada com uma crueldade que, admito, no começo era muito pueril, muito discreta, e suportável, já que depois eu era
recompensada por beijos mais que escandalosos e por tanto amor e dedicação que seria impossível pensar em fugir daquele cárcere. Eu fiquei. Eu permaneci. Mas já
muito atenta para quando surgisse a oportunidade de escapar de uma indesejável condenação perpétua.
A conta ainda não estava paga, foi chegando a prestações, mas como você ainda tolerava aquela sua rotina abominável de executivo que vive em aeroportos, a cobrança
em cima de mim podia ser considerada leve, você me provocava, mas ao mesmo tempo me dava
alguns descontos e eu ia saldando minha dívida sem muito esforço. Ainda assim, me perguntava se era mesmo necessário pagar caro por paixão. De acordo com os livros
que eu lia e os relatos que ouvia, tudo levava a crer que sim, quem eu pensava que era? Tinha um custo alto essa história de acordar de manhã com o café servido
na cama, de ir para o banheiro e ler mensagens escritas no espelho, de ter bilhetinhos afetuosos espalhados pela casa inteira, todos os clichês que a gente desdenha
quando não é conosco que acontecem. Claro que não sairia barato um homem me tornar uma mulher completa, reaver minha sexualidade, minha feminilidade, minha excitação
e me fazer nunca mais querer sair de dentro do seu abraço. Paixão de mão beijada? Ora, de graça eu só conseguiria uma vidinha mundana e monótona. Paixão é ruína,
minha filha. E custa os tubos.
Ainda estava topando esse pacto, quando um dia você desistiu por telefone - e por nada - de uma viagem que havíamos programado, com passagens e hotel já reservados.
E ainda segui disposta a esse jogo quando saímos juntos para uma festa, mas você na última hora me largou sozinha na calçada em frente ao edifício dos anfitriões
para bajular um cliente que estava de aniversário,
voltando a tempo apenas de impedir que eu começasse a dançar com outro. E quando brigou comigo um dia antes da celebração das bodas de ouro dos meus pais,
e também naquela tarde em que você chegou aqui em casa dizendo que precisávamos terminar porque você se sentia inferior a mim. Inferior você nunca foi. Mas, perturbado,
completamente.
Com o passar dos meses, suas reuniões de trabalho foram te afastando da nossa cidade com ainda mais freqüência e por mais tempo, o que começava a comprometer
a nossa relação e a te deixar raivoso, inquieto, impaciente, e a quem competiria segurar o tranco? Aquela que, depois de cumprido o estágio inicial de estepe, passou
a ser muito significativa, aquela que tinha conseguido fazer você esquecer a ex, que reinava finalmente sozinha no teu coração, que ganhou o cetro, a coroa e o carma.
Não seria com seus sócios nem com seus parentes que você exercitaria sua amargura. Precisava de alguém mais íntimo, alguém a quem você pudesse começar a
torturar com um pouquinho mais de sordidez, e esse alguém era eu, que perdia a cabeça com você, gritava, chorava, me exasperava com sua falta de paz, com sua insistência
em tornar tudo mais difícil, com a mania de transformar trivialidades em motivo para emburramento, e de fazer tudo isso como se eu fosse a responsável por seus
acessos de ira. Você me tirava do sério de um jeito que nunca havia me acontecido, eu parecia estar endoidecendo, mas não ia embora porque acreditava que você ainda
valia a pena, e nunca entendi tão perfeitamente o significado desta expressão, valer a pena. Era um castigo.
Valia porque, nas horas em que não estava irritadiço, em que não estava sendo excessivamente desconfiado e crítico, você ainda era aquele cara a quem eu considerava
um presente da vida. Um homem lindo, generoso, incansável na sua busca em agradar os outros, em ser útil, prestativo. Um homem que amava as manhãs de sol, que amava
a mim e que, quando estava junto à natureza, amava estar vivo, o que era imprescindível para continuarmos ligados, já que eu precisava enxergar você feliz de vez
em quando. E, na cama, éramos mais do que felizes, éramos de uma indecência provocativa.
Quando dei por mim, era assim que eu tocava os dias: te amando e sendo exigida além do meu limite, te amando e não conseguindo realizar os teus desejos mais secretos,
te amando e me sentindo sempre em dívida, porque você era o doador universal e eu, a receptora universal. Você queria que tivéssemos um projeto de vida em comum
e eu acreditava que o amor podia ser um projeto em si mesmo, e assim prosseguíamos, você falando russo e eu, latim. Pensando bem, insistimos nessa relação além do
razoável.
Hoje me pergunto se você me amou de verdade. Mantenho bem guardadas as nossas fotos, bilhetes, cartas, e-mails, e esse espólio sentimental registra um amor com
toda a pinta de ter existido, mas não descarto a hipótese de você ter apenas projetado um amor em mim para vencer sua carência existencial, que era do tamanho da
muralha da China, visível a olho nu a milhões de metros de distância. De minha parte, você me fez feliz e eu sei exatamente quando, como e por quê. Em contrapartida,
olho pra trás e não lembro de ter
feito você feliz da mesma forma, ao menos não com o mínimo de serenidade: você nunca me considerou um repouso, um porto, um albergue. A impressão que eu tinha é
que minha presença funcionava como um dispositivo que fazia você entrar em euforia ou em surto. Quando sentávamos lado a lado em algum lugar para apreciarmos uma
paisagem ou para lermos um livro ou simplesmente para batermos um papo, eu achava que tinha morrido e ido para o céu. Era uma bênção ter você com os batimentos cardíacos
desacelerados, entregue ao ócio, em estado contemplativo e demonstrando uma segurança rara, sem querer brigar com ninguém nem contra nada.
Teve dias inteiros em que a gente viveu como vive a maioria dos casais, sem rompantes desatinados, sem complexos de perseguição, um confiando no outro e se divertindo
juntos. Mas eram dias incomuns, longe de qualquer contato com a sociedade: a gente se registrava em charmosas pousadas à beira-mar, dizendo apenas bom-dia para
porteiros e boa-noite para garçons e não interagindo com mais ninguém a não ser nós mesmos. Foram os dias fáceis do nosso relacionamento, e os mais inesquecíveis.
Mas a vida não é um estado constante de férias. Bastava eu voltar para o meu trabalho, e você para o seu, em nossa inescapável urbanidade, para que todas as criaturas
que ousassem respirar perto de nós fossem vistas como inimigas em potencial, pessoas das quais você precisava se defender porque se sentia sempre prestes a ser atacado,
o mundo contra você, e se ao menos eu fosse considerada uma aliada sua, mas não, eu era mais um elemento do exército oposto, aquela que estava mais perto e que podia
receber seus golpes mais certeiros.
Você nunca foi violento, mas como era cruel.
Estávamos juntos havia quase dois anos e você nunca tinha me visto usar aquele vestido, ele era de uma cor que você sabia que eu não apreciava, mas naquela tarde
encasquetei de colocá-lo, e diante dessa situação ridícula de tão banal, você me xingou, se desestabilizou e fez o quê? Deu uma sumida de três dias. Deve ter imaginado
que o vestido era presente de algum admirador secreto ou então que eu não era uma mulher de confiança, afinal, estava usando uma cor que não havia sido estipulada
previamente em contrato. Eu sei, estou sendo irônica e até perversa em te lembrar desses incidentes infantis.
E assim caminhávamos para o despenhadeiro de mãos dadas, unidos pelo desespero de querer tanto um ao outro e não vislumbrar atalho algum que nos desviasse da
queda.
A questão era simples: para continuar ao seu lado, eu teria que desistir de mim, da minha liberdade, da minha visão desestressada da vida. E era o que estava
muito próximo de ocorrer. Eu, uma adulta graduada, passei a agir como criança. Passei a me desprezar. Estava me tornando uma mulher medíocre, que perdia tempo dando
explicações estapafúrdias sobre coisa nenhuma. Quando você chegava aqui em casa sorridente, com uma garrafa de vinho na mão e fazendo planos para o final de semana
que passaríamos juntos, eu pisava em ovos para que esse final de semana não terminasse dali a três horas por causa de um mal-entendido ou de uma frase que não caísse
bem em teus ouvidos. As vezes sobrevivíamos de sexta a domingo sem atravessar a fronteira de risco, mantendo-nos dentro de um cordão de isolamento imaginário - os
limites que traçávamos para nosso equilíbrio conjugal. Eu não olhava para os lados e você não tirava os olhos de mim, e assim ficávamos
seguros, ao menos em tese, porque de santo você não tinha nada, sempre foi mulherengo. Mas me adorava, me amava, nossa, como me amava.
E eu, será que ainda me amava?
Uma mulher que procurava não tocar em assuntos que pudessem resultar em atrito. Uma mulher que evitava ser espirituosa com receio de não ser compreendida. Uma
mulher que não dava opiniões contundentes para não parecer moderna demais. Uma mulher que escondia o fato de ter encontrado um amigo na rua porque era um amigo,
e não uma amiga. Uma mulher que estava se tornando também ciumenta, porque não sentir ciúme poderia denunciar algum desinteresse. Uma mulher pouco parecida comigo,
era essa a mulher em quem eu estava me transformando. Você, que ao entrar na minha vida havia reinaugurado em mim uma sensualidade, uma vitalidade e uma alegria
que estavam obstruídas havia muitos anos, inaugurava agora em mim uma criatura que eu não reconhecia como sendo eu, uma mulher que pensava duas vezes antes de falar
e que de forma vergonhosa desenvolveu um perfil careta, totalmente em desacordo com o que eu era de fato. Depois de ter sido solta por você, voltava a ser amarrada.
Nosso namoro avançava e ao mesmo tempo retrocedia velozmente, minha paciência havia sido quase toda consumida e já estava na reserva, eu alertava você, mas você
não ouvia, continuava me testando, e eu não conseguia libertar você desse seu desamparo, eu queria apenas um companheiro, você queria uma salva-vidas. Era uma falta
de sorte tremenda: o homem que eu mais sonhei em encontrar era um sujeito que não via graça nenhuma na tranqüilidade, e a princípio isso poderia dar a idéia de que
você era muito antenado, afinal, não é isso que se lê toda hora nas revistas? Que é preciso atividade, loucura, demência, rebeldia para que os dias sejam incríveis?
Tudo
isso me soava fenomenal enquanto teoria, mas me esgotava na prática. Minha existência estava obstaculizada, eu não conseguia evoluir através de você nem sozinha,
me sentia exausta de tanta complicação criada do nada - porque se houvesse algum sentido transcendental na sua busca, eu compreenderia, mas você escolheu viver dentro
de um redemoinho, você estava encurralado na sua irritabilidade constante, e só havia uma saída pra mim: abrir a porta e deixar você adoecendo sozinho.
Jamais teria usado a palavra doença antes de ouvir o que sua irmã confidenciou. Eu ainda estava convencida de que você era apenas um cara difícil, um pouco mais
difícil que o tolerável, e que tudo não passava de uma questão de temperamento e que se poderia tentar um alinhamento psicológico com meia dúzia de consultas, ingênua
que sempre fui nesses quesitos da mente. Estava certa de que você conseguiria, se quisesse, frear um pouco seus arroubos, e se eu fiquei tanto tempo ao seu lado
foi porque também acreditei que eu podia igualmente me esforçar mais, e foi o que fiz, juro, mas não havia progresso, as minhas tentativas de fazer você reconhecer
que frustrações fazem parte da vida eram infrutíferas, não davam resultado, você era um surdo convicto, e cego, não percebia que ninguém se revoltava por bobagens
do jeito que você se revoltava, a ponto de detonar com tudo o que havia em volta.
No entanto, sua irmã citou claramente um diagnóstico, ela parecia saber do que falava, e a situação ficou exposta, não duvidei, acreditei, pois já havia sido
indiretamente alertada numa noite em que saímos para dançar e encontramos um ex-colega seu de faculdade, e ele comentou sobre um episódio do passado que eu
desconhecia: o dia em que você propôs uma forma inusitada de comemorar a formatura. Entrei em choque. Ele revelou que você, o cowboy da turma, liderou uma sessão
de roleta-russa depois de uma noitada em que já não se avistava ninguém sóbrio num raio de um quilômetro. Estavam todos tão bêbados que ninguém poderia afirmar se
era uma bala de festim ou pra valer. Você tinha a arma, a munição e a coragem de desafiar aqueles moleques de 21 anos a provarem sua virilidade participando de um
rodízio macabro, e chegaram a disparar o gatilho duas vezes, até que um bendito covarde que não havia bebido tanto assim interrompeu o ritual e você, claro, o difamou
na universidade por semanas a fio, sem ter a grandeza de agradecer-lhe por continuarem todos vivos. Você nunca havia me contado sobre essa tentativa implícita de
suicídio quando jovem, e mesmo que tenha sido uma infame armação, o espanto me venceu. Não fosse o encontro casual com seu ex-colega, eu seguiria acreditando que
você era apenas um sujeito esquisito e nada mais.
Devastada por tanta paixão e fúria, dias depois o chão desmoronou, você foi desagradável por causa de uma besteira, você bufou sem razão, você foi estúpido
sem necessidade, você estragou mais uma de nossas noites e eu assumi que minha decepção era irreversível, desisti de você, resolvi tirar o peso dessa relação das
minhas costas, pedi pra você sumir. E daquele momento em diante eu tive certeza de que o que eu sentia por você era irracional e intenso de uma forma que, como ficou
comprovado assim que você se foi, me im- plodiria. Você nunca vai acreditar nisso, vai continuar achando que eu não fiz o suficiente, que não me empenhei o bastante.
De fato, eu não demonstrava meu amor através de bilhetinhos, favores, presentes e surpresas, você é quem costumava se dedicar a esses mimos, dava a impressão de
que você era o anjo da história e que seu descontrole emocional era provocado, ora, ora, por minha causa, por estar vivendo um amor gigantesco e infinito por essa
mulherzinha indiferente aqui. Mas não era nada disso. Você era a fúria, eu era a paixão, e havia no meio de nós um transtorno psíquico que não apenas nos apartou,
como evitou um encontro verdadeiro.

3

Doeu perder você. Passa d os
Doeu perder você. Passados quatro anos, ainda lembro.
É uma dor tão recorrente na vida de tantas mulheres e tantos homens, é assunto tão reprisado em revistas, é um sofrimento tão clássico e tão narrado em livros,
filmes e canções, que mesmo que eu não lembrasse, lembrariam por mim. É uma dor que se externa. Uma dor que se chora, que se berra, que se reclama. Uma dor que tentamos
compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão
da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem
verbo. A dor massacrante do abandono, da falta de telefonemas, da falta de beijos, da falta de confidências. No entanto, perde-se o homem, perde-se a mulher, mas
o
amor ainda está ali, mesmo sendo o deflagrador do vazio. Por estranho que pareça, há uma sensação de pertencimento, algo ainda está conosco. A saudade é uma presença.
Então vem a etapa seguinte.
Essa não é tão divulgada, tem-se por ela mais respeito e menos informação, pois é vivida em silêncio. O que acontece é que tem uma hora em que ninguém mais agüenta
ouvir a gente entoar nossa sina, lamentar nossa má sorte, procurar explicações para o fim. E quando a gente se dá conta de que já abusou da paciência dos amigos,
dos familiares, e cala. Sofrimento cansa. Não só cansa aquele que sofre, mas cansa aqueles que o assistem.
Foi assim que a segunda dor começou, enquanto a primeira ia diminuindo. Já que eu não queria mais amolar ninguém, comecei a fingir que estava me recuperando,
e aí começou a recuperação de fato, tirei o foco de cima da minha autocomiseração, já não me sentia uma abandonada por Deus, aceitava com resignação a ruptura definitiva
do nosso relacionamento, e dei início a um novo processo de despedida. Não mais o adeus a
você, que já havia partido, mas o adeus à pessoa sofrida que eu vinha sendo. Aquele eu amargurado é que estava saindo da minha vida.
Foi quando fiquei realmente só.
Era uma solidão nova. A última vez em que estivera totalmente sozinha havia sido antes de começar a namorar meu ex-marido, eu tinha uns 20 e poucos anos de idade.
Com mais de o dobro disso, o que fazer com a vida só pra mim?
Primeiro pensamento: eu não tinha mais a vida só pra mim. Tinha filhos que precisavam de orientação para descobrir seus caminhos, tinha meus pais envelhecendo,
tinha meus amigos com seus próprios problemas a dividir.
E então um segundo pensamento atropelou o primeiro: em qualquer circunstância, com filhos, pais, amigos, trabalho, e mesmo estupidamente apaixonada por quem quer
que fosse, eu teria sempre a vida só pra mim.
Era para o que eu torcia então: encontrar alguém que me despertasse emoções intensas novamente, mas que, em contrapartida, não me obrigasse a um exílio, não me
despatriasse de mim mesma. Aconteceria. Bastava aguardar. Eu não tinha pressa, não sairia à procura de um fato novo, era cedo. Não me imaginava colocando alguém
no teu lugar, formando um par comigo. Antes disso, eu precisava entender como é que se diz para um homem "eu te amo" com tanta transparência, com tanta integridade,
e depois se transfere essa frase para outro destinatário, com a justificativa de que isso é apenas o curso natural dos acontecimentos.
Em que momento o amor se desfaz, desaparece?
Quando era bem pequena, ouvia muito falar que o amor era para sempre. Ia a cerimônias de casamento e ficava emocionada quando o padre dizia "até que a morte os
separe". Naquela época, nem passava pela minha cabeça que fosse possível amar vários durante uma vida. Eu acreditava no amor único e indissolúvel. Inclusive achava
muito transgressora aquela história de "até que a morte os separe": nem a morte poderia terminar com um amor verdadeiro. Não entendia quando uma viúva, por exemplo,
alguns poucos anos depois de perder o marido, já estava casada com outro. Como? Então bastava ela deixar de ver o finado para o coração ficar livre para um novo
amor?
"Ele está morto. Ela aos ais Mas neste lúgubre assunto Quem fica viúvo é o defunto Porque esse não casa mais."
Os versos de Mario Quintana tentavam me explicar que o amor termina apenas para aquele que morre: quem sobrevive dedica-se a um breve luto e depois volta pra
vida - e voltar pra vida quase sempre significa voltar a amar. Sendo assim, aos poucos fui relaxando e aprendendo que somos aptos a amar muitas vezes, de formas
diferentes. Amamos A, amamos B, amamos C, e por alguns nem era amor, e sim entusiasmo, e sabe-se lá de quantos entusiasmos somos capazes. Melhor desse jeito, amar
com movimento, amar com todas as nossas capacidades, amores pequenos, amores tortos, amores retos, amores para sempre, até segunda ordem.
Ok, achei divertido, só que tive que reformular minha visão idealizada de amor: ele é o mais nobre dos sentimentos, mas há algo de muito racional agindo junto.
Se um homem é louco por sua esposa, conhecerá outra mulher e não dará a ela nenhuma atenção.
Porém, se sua esposa morrer, logo, logo aquela outra mulher poderá vir a interessá-lo, e dali a pouco formarem um novo casal. O que demonstra que o amor apenas aguarda
o momento oportuno, nada além disso.
Não que eu defenda romances trágicos, em que uma pessoa definha e envelhece trancada num quarto, esperando alguém que jamais voltará. Não conheço quem siga amando
um morto (mesmo metafórico) para o resto da vida, em completa solidão, com o corpo gelado, recusando a abertura para novos abalos. No entanto, uma parte infantil
e longínqua de mim absolve esses obstinados que acreditam que o verdadeiro amor sobrevive na presença e na ausência, e mesmo que isso resulte em histórias tristes
e antiquadas, por outro lado possuem uma sinceridade que comove como nenhum amor, hoje em dia, comove mais.
Nunca mais procuramos um ao outro, e hoje acredito que fomos de uma generosidade honrosa: você sabia que eu não tinha mais resistência para lidar com sua mente
em desordem e que só uma relação mais solta me
devolveria a paz, e eu sabia que você não abriria mão do seu desvario e que tudo o que precisava era de uma família estruturada, de uma base, um lar, uma chave de
casa. Éramos incapazes de realizar o sonho um do outro, e desenvolvemos defesas particulares para tocar a vida adiante. Uma dessas defesas foi o sumiço.
Foi a vitória da paciência sobre a ansiedade. A vitória do silêncio sobre o "volta pra mim".
Um ano depois, me julgando curada por essa bondosa invisibilidade mútua, tive um baque ao me deparar com você a três quarteirões da minha casa, tão ao alcance
dos meus olhos e ao mesmo tempo em outra dimensão. Foi a única vez. E não precisa haver outra.
Encontrei você com a mulher que tomou o meu lugar e que passou a ser a mulher definitiva da sua vida. A que veio depois de mim e te deu um filho, seu menino tão
desejado. Você era pai de um bebê apenas um ano depois de termos nos separado. Ele devia ter o quê? Um mês de vida? Tão miúdo no seu colo de Hércules. Aqueles cinco
minutos de conversa e apresentações me fizeram descobrir que eu tinha um insuspeitado talento cênico. Eu merecia um prêmio pela bofetada que fingia não estar levando.
Você segue um homem bonito, mas está marcado pela inclemência do sol, o tempo está avançando sobre seu rosto. Achei que você estivesse morando em outra cidade,
mas esteve aqui por perto o tempo inteiro, e uma conspiração cósmica fez com que nossos caminhos não cruzassem até então. Imagino as ocasiões em que eu estava saindo
do supermercado enquanto você procurava uma vaga para estacionar. As ocasiões em que assisti a um filme e você estava na sala ao lado, assistindo a outro. As ocasiões
em que nossos carros ultrapassaram-se numa grande avenida. Quantos encontros o destino evitou por um fio?
Mesmo já recuperada da sua ausência na minha vida, foi um golpe te rever. Quando se sofre muito por um homem, a sensação de posse não desaparece, é como se fosse
um suvenir. Eu já não pensava com insistência em você, mas quando pensava, me satisfazia imaginar que você nunca mais seria o mesmo sem mim, que seria para sempre
um homem manco, deficiente, incompleto sem mim. Havíamos nos danado juntos e, portanto, tínhamos um vínculo: nossa dilaceração. Reconstruir a vida amorosa desfaz
para sempre esse pacto.
O que eu não contei pra você naqueles cinco minutos de "Oi, qual o nome dele? LuccaP Ele é a sua cara. Parabéns, você e sua mulher devem estar radiantes com esse
filho, ele é mesmo uma graça, então você está trabalhando aqui perto, não sabia, bom, tenho que ir, foi ótimo te ver, e você, prazer em conhecê-la"é que eu também
já estava me relacionando com alguém, mas não te contaria nem que você tivesse perguntado. Não falo da minha vida íntima com estranhos.
No início, não dava para chamar de namoro. Não era um romance catalogável, daqueles em que o telefonema diário é imperativo. Era um homem, apenas. Um cara com
quem de vez em quando eu ia ao cinema, de vez em quando jantava em algum restaurante e com quem eu havia transado meia dúzia de vezes. O nome disso: rolo. E rolo
não se chama rolo à toa, um rolo é algo emaranhado, obstruído, ainda não encontrou sua linha reta, não tem estrada, ainda não engrenou.
Era essa a minha situação naquele dia em que vi vocês três e fui surrada pelo seu futuro bem mais adiantado que o meu.
Depois desse encontro violentamente trivial, me senti como que liberada das amarras criadas pela minha imaginação, fiquei mais livre para me jogar de cabeça na
nova oportunidade de amor que me surgia. E o rolo virou um namorado. Esqueci você. Comecei uma relação que foi ficando cada vez mais séria à medida que ficava cada
vez mais agradável e bem-humorada. Para minha surpresa, a vida não era irrecuperável: tornou-se possível de novo.
De onde surgiu esse, surgem todos. Quando ele se apresentou a mim num coquetel dizendo que achava que me conhecia de algum lugar, imaginei que um sujeito pouco
criativo para cantadas seria pouco criativo para todo o resto também, e no mesmo instante estiquei o pescoço e comecei a buscar alguma amiga imaginária com o olhar,
para deixar claro que não estava interessada na abordagem, até que a ficha caiu e, para minha surpresa, percebi que realmente nos conhecíamos de algum lugar, apenas
não o havia reconhecido em trajes civis, já que estava acostumada a vê-lo sempre dentro de uma camiseta suada e uma bermuda pu- ída, caminhando no parque bem cedo.
Conectados os fios da memória, perguntei se ele havia se rendido ao sedentarismo, já que nunca mais havíamos nos cruzado,
mas ele me informou que teve que trocar de endereço, morava agora num flat perto de um calçadão. Nem precisei espiar sua mão esquerda. A palavra flat era o sinônimo
de sua nova condição de homem solto na praça. Eu já não faria nenhuma mulher sofrer se envelhecesse a seu lado a cada manhã dizendo bom-dia.
No entanto, envelhecer juntos não era objetivo meu e tampouco dele, mas recuperar a juventude perdida um ao lado do outro não nos parecia má idéia. Ambos concordávamos
que, depois de uma certa idade, com as metas sociais e familiares cumpridas, tudo o que um homem e uma mulher poderiam desejar era se divertirem o tanto que a vontade
mandasse e o dinheiro permitisse. Negócio fechado. Onde é que eu assino?
Viajamos juntos por países que eu sempre quis conhecer, porém não me atrevia sozinha, como o Marrocos, o Egito, o Paquistão, o Líbano e a Itália, e não me pergunte
o que a Itália faz entre países muçulmanos, o fato é que nunca gostei de viajar sozinha para nenhum destino que ficasse do outro lado do oceano, não importa a religião
vigente.
Eu e ele ríamos das mesmas situações, conversávamos até horas avançadas da madrugada, e o sexo era o
que se esperava de um casal desinibido e experiente. Eu estava reconciliada comigo mesma, vivia algo que não me ilhava do convívio social, que não me excluía, que
não me brutalizava. Ele tinha as manias dele, todos têm, mas elas não me estafavam, e nem eu provocava nele nenhum tipo de incômodo. As discussões eram raras e duravam
pouco, não resistiam à nossa inteligência emocional - isso que faltou sempre para nós dois, eu e você. Inteligência.
Por que falo dele no passado? Porque era uma relação melhor do que eu poderia suportar.
Se eu disser que esse namorado ficou enlouquecido por mim vai parecer que eu sou uma feiticeira, que conheço todos os truques para ter o coração de um homem na
palma da mão, que possuo atributos secretos para serem usados em momentos estratégicos, sei lá, vai parecer que eu sou uma mulher linda e irresistível, coisa que
definitivamente não sou, mas o fato é que meu namorado realmente se apaixonou e eu também gostava demais dele, mas não a ponto de querer morar junto.
A primeira vez em que ele falou no assunto eu achei que era apenas um galanteio, uma maneira de dizer te amo de um jeito mais comprometido, e soltei um "quem
sabe" com a única intenção de transferir essa conversa para uma data mais distante, algo como outubro de 2067, quando eu estivesse morando embaixo da terra, sossegada,
num endereço pouco atraente para compartilhar com inquilinos.
Tempos depois, ele voltou a falar em morar junto, aventou até a hipótese de legalizarmos o novo estado civil, e eu achei que eu não havia sido suficientemente
clara no início do namoro, quando disse que não pretendia casar outra vez, mas na época ele disse que também não pretendia e acreditei que essa era mais uma afinidade
entre nós, mas agora estávamos tão encaixados, tão formatados como casal, por que não, mulher?
Porque não.
Eu estava encantada por aquele cara que gostava de mim do jeito que eu era, que me proporcionava uma troca intelectual e orgânica satisfatória, e ainda que fosse
tudo nota 7, os três pontos que faltavam para alcançar o sublime eram os que conferiam espaço para minha liberdade, eu completava minha nota 10 sem a
ajuda de ninguém. Estava vivendo com a aprovação de Deus, do diabo e do espírito santo, com todos os departamentos funcionando - afetivo, produtivo, familiar - e
ainda com margem para vivenciar uma frase de Guimarães Rosa, pelo qual sempre tive gosto: "O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais."
Eu estava conseguindo a quietude de ser eu mesma. Demais ou na medida, tanto fazia.
Simpatizava com os filhos que ele tinha do primeiro casamento, mas convivíamos pouco, eles moravam com a mãe. Já ele conhecia bem os meus e para minha surpresa
conseguiu conquistá-los com certa facilidade, talvez por não impor sua presença nem exagerar nas atenções. E também porque eu não fiquei aflita para promover um
entrosamento, aflição que, admito, tomou conta de mim quando você entrou na minha vida horas depois da minha separação.
Mas o que quero dizer é que estava tudo numa boa, e eu não estava nem um pouco tentada a transformar esse "numa boa" em algo mais apocalíptico, tipo um casamento.
Mas como está convencionado que toda mulher sonha com casamento e todo homem foge dele, a
inversão de papéis não pegou bem para o meu lado. Aí começou o problema.
A sugestão do meu candidato a noivo era a gente botar para alugar o meu apartamento e ele abandonar o flat, e juntos partirmos para um teto inédito. Assim ninguém
se sentiria hóspede na casa do outro: estrearíamos um lar zero quilômetro, com o nosso jeito, uma vida nova mesmo. Nada poderia me parecer mais absurdo. Eu não tinha
a menor vontade de alugar meu bunker para uma família desconhecida, de sair do meu canto, fugir para o exílio, então sugeri um plano B: que tal se a gente seguisse
morando cada um no seu endereço e adquirisse uma casinha de final de semana em alguma praia ou na região da serra, um refúgio que pudesse ser chamado de nosso aos
sábados, domingos e feriados?
Para quem estava ansioso para contrair matrimônio na frente de um juiz e guardar todas as roupas no mesmo closet, achei que ele iria se sentir rejeitado com a
proposta e pediria demissão do cargo, mas eu esqueci o quanto aquele homem era cavalheiro - ou então ele estava querendo ganhar tempo, é possível. Só sei que achou
minha solução sensata e genial. Agora era só decidir aquele pormenor: praia ou serra?
Eu não queria comprar um terreno, um chalé, um sobrado, eu não queria me encalacrar com mais dívidas, nem me envolver com obras, nem assinar escritura, nem pagar
mais impostos e muito menos ter que ir todo final de semana para o mesmo lugar - eu estava entrando na idade da desobrigação, a idade de me aliviar do peso extra,
a idade de me sentir finalmente solta, com os filhos levantando voo para um lado e eu, se quisesse, para o outro, e talvez eu quisesse mesmo. Uma casa em parceria
com um namorado era um sonho e uma armadilha.
Cheguei a pensar que era falta de romantismo meu, ou talvez desamor, mas descartei as duas hipóteses. Sempre fui sentimental e nunca levei adiante relações em
que não estivesse emocionalmente envolvida, e por mais que eu pareça ser durona, é apenas fachada. Só eu sei o quanto já sonhei em ser uma princesa resgatada da
torre de um castelo. Mas eu não era mais menina e o problema era realmente a idade. Não que eu estivesse em avançado estado de putrefação; se você ainda for
bom de contas, sabe que minha aposentaria por tempo de serviço está longe, e minha aparência não me condena. Tenho a idade do meu estado de espírito.
Porém, não posso negar que a passagem dos anos aumentou minha prudência. Não estava mais a fim de acumular bens materiais nem de elaborar projetos a longo prazo.
Óbvio que ainda sofreria perdas, mas quanto menos ilusões tivesse, menor seria a queda. Eu sei que não funciona matematicamente assim, mas todo sobrevivente tem
seus mecanismos de defesa.
Meu namorado tinha só três anos menos do que eu e já havia passado por um divórcio, por alterações do destino, por desestruturações, ou seja, deveria entender
que eu preferisse seguir apostando apenas na companhia um do outro, e não na construção de mais um futuro, o terceiro, o quarto, o quinto, quantos futuros costumam
nos ser concedidos? Porém, mesmo sendo um sujeito experiente, não engoliu essa história de que eu não estava preparada para adquirir imóveis, coisa que ele só descobriu
quando eu já havia deixado a negociação ir longe demais - a casa, escolhida por ambos, estava situada num condomínio cercado por mata nativa e era um tesouro, com
um jardim que eu teria adorado
cuidar, lareira, churrasqueira e toda a segurança para nossos... nossos... netos?
Não.
Um dia antes de entregarmos os dois cheques para os corretores, pulei fora como se estivesse presa pelos cabelos no fundo de uma piscina e finalmente tivesse
conseguido me soltar. Havia visto a morte de perto. Pedi para que ele me compreendesse. Ele, um lorde, simulou compreensão, mas não resistiu em me humilhar, comprou
a casa assim mesmo, com recursos 100% próprios. Fiquei meio sem jeito, prometi ajudar a decorar, a conversa esfriou, não havia mais jeito: ele havia se decepcionado
comigo. Mulher tem que desejar ser salva da torre do castelo em qualquer etapa da vida.
Meu estado civil: sozinha de novo, sozinha da silva, sozinha de dar pena.
Se eu sofri a ausência dele como sofri a sua? Nenhum amor é igual ao outro, logo, as dores também deixam cicatrizes particulares. Ele foi mais uma intimidade
mutilada em minha vida, mais um "pra sempre" que não
durou, mais uma ruptura. Lógico que eu não passaria por isso sem algum abalo, mas só para você posso confessar: desatino como a sua morte em minha vida, nunca mais.
O outro não estava morrendo, estava indo embora. Você morreu, ou mais ou menos isso.
Poucos dias depois do término da relação com esse homem, estava caminhando por um shopping em busca de um presente, quando uma moça longilínea chegou perto de
mim e perguntou se eu era quem era. Não levei nem meio segundo para me lembrar dela: sua mulher. Eu a tinha visto rapidamente no parque com você, mas não me esqueceria
daquele rosto nem que vivesse trezentos anos. Confirmei: sim, eu era eu. Ela perguntou se eu tinha dez minutos para um café, e olhei em pânico para o relógio de
pulso, havia marcado consulta no dermatologista para dali a meia hora e ainda não tinha encontrado um presente que procurava, mas disse a ela que tinha a eternidade
pela frente, pois não se deve negligenciar os momentos que podem mudar a nossa vida.
Eu a achei menos bonita do que no dia em que a tinha visto no parque, e no parque ela me pareceu menos bonita do que era na minha imaginação, quando vivi
aqueles meses de autoflagelo emocional. Ainda assim, ela era linda de morrer. Os olhos combinavam com o nariz, que não destoava da boca, que se alinhava de forma
sublime
com o queixo. Tudo era de uma proporção que faria Mi- chelangelo pedi-la em casamento. Mas faltava o charme da descompostura, o olhar verdadeiro de algumas noites
maldormidas, a aflição de quem traz um tijolo de maconha na bolsa, uma desordem que a personalizasse. Ainda assim, entendi sua atração por ela. Era um belo
cartão-postal de mulher.
Eu apostaria meu apartamento, meu carro e meus pais que o assunto seria você.
Feito. Seu nome foi pronunciado antes que eu pudesse chamar o garçom e pedir duas águas. Com gás ou sem gás, perguntei a ela. Com gás, ela me respondeu.
Você, antes de me conhecer, só tomava água com gás. Só comia carne bem passada. Não lia nada além de livros técnicos. Achava que jazz era trilha sonora de
viado. Eu preferia água sem gás e, em duas semanas de convivência, você passou a preferir também. Eu sempre comi carne malpassada e você passou a salivar diante
do
perfumado aroma do sangue bovino. Eu adorava jazz, e você o tolerou. Agora não era preciso mais me agradar.
Logo entendi que você havia voltado às origens, havia encontrado uma parceira para resgatar seu genoma.
Duas águas com gás, por favor. Pedi em homenagem ao seu passado, não ao nosso.
Ela perguntou: você sabe meu nome, não sabe? Eu sabia. Tive vontade de dizer que não sabia, para não parecer que me importava, mas faltou tempo para articular
uma mentira: eu sabia, droga.
A partir daí, caríssimo, a cúpula envidraçada do shopping se abriu como num efeito especial e eu e ela saímos de mãos dadas voando em direção ao mais indiscreto
dos destinos: você.
Ela virou minha Santa Lurdes, minha Santa Rita de Cássia, simplesmente me ofertou um milagre de Fátima, e nenhum desses nomes era o nome dela, mas era como se
fosse. Me confessou a coitada que você nunca havia me esquecido e que ela suportava até hoje esse tumor no casamento de vocês: eu. Prosseguiam juntos apenas pelo
filho adorado.
"Por que você está me contando isso?", perguntei quase sem conseguir disfarçar a alegria mais genuína que me transpassou a alma, e eu nem sei por que estava feliz,
já que você era o câncer de nós duas, não só dela.
"Porque eu gostaria de entender."
Pobre ninfa. Estava ao lado de um homem que não lhe explicava nada. Que se recusava a falar de amores terminados, ainda que não soubesse disfarçá-los. Que deveria
enlouquecê-la como enlouqueceu a mim, mas você e ela tinham um ás na manga, um filho, e isso os algemava. Eu conhecia bem o homem que você era. Fez nela um filho
que carregava o sobrenome de sua família, ou seja, você jamais abandonaria o lar, mesmo nunca tendo assumido essa história fajuta de amor.
Mas não seria eu a deixá-la confiante em relação à sua permanência na vida dela, não sou tão misericordiosa.
Enrolei. Esporte preferido da mulherada diante da concorrência. Enrolar. Era isso ou ser maldosa.
Falei que nossa relação havia sido difícil por "incompatibilidade de gênios" - viva os clichês! - e, audaciosa, sugeri à sua santa esposa que passássemos da água
para o vinho, literalmente. A essa altura eu já havia perdido a hora no dermatologista e devia estar desenvolvendo um melanoma por conta do estresse.
Ela topou. Casada com você, já devia estar acostumada a uns copos.
Pedimos dois cálices de um tinto encorpado e a partir daí deixei de lado meu cinismo. Descobri que a linda mãe do seu Lucca era também uma mulher bem acima da
média. E não entendi mais nada. Me explique: por que você não se apaixonou por ela? Eu quase me apaixonei.
Não pela fraqueza de ela ter se viciado em você, porque desse vício já fui vítima e sei que não há nada de grandioso em um homem provocar em nós o mesmo efeito
de uma pedra de crack. Gostei dela porque exibia um bom humor que certamente você não a estimulava a extravasar, e tinha um bom gosto que posso apostar que você
não compartilhava, e era mais autossuficiente do que você pudesse suportar, e mais refinada até mesmo do que eu, veja como sou imodesta e modesta ao mesmo tempo,
e pensei: pobre garota. Teve a sorte e o azar de engravidar de um homem das cavernas. Era sua para sempre, mas nunca mais seria dela mesma.
Resolvi que jamais a veria de novo porque ela me fazia lembrar do penhasco em que quase caí. Ela era o amanhã que eu havia abortado, o que eu teria sido, se
tivesse tido a coragem de me desconstruir, se fosse uma criatura boba como talvez ela fosse. Mas não demorou para eu perceber que ela não era boba, apenas uma mulher
sem resistência e sem medo. De que ser resistente me adiantou na vida?
Menos de dez dias depois ela voltou a me ligar dizendo que nossa conversa no shopping havia mexido demais com ela e que eu não a considerasse abusada, mas ela
adoraria repetir o encontro.
Nem hesitei.
Marcamos num café bem pertinho do centro da cidade, a poucas quadras do escritório de advocacia em que ela trabalhava. Ao contrário da primeira vez, ela estava
vestida com mais sobriedade, ainda precisava atender um cliente no início da noite, e eu a achei sexy com o duplo colar de pérolas que trazia ao pescoço. Fiquei
imaginando como você lidaria com essas reuniões que o ofício de advogada exigia. Desisti de imaginar e perguntei. Saber sempre é mais divertido do que supor.
Ouvi histórias que, quando aconteceram comigo, me pareciam profundamente indigestas, e não apenas agri- doces, como ela as temperava. Fazia mais de quarenta minutos
que estávamos conversando sobre o ciúume doentio que a sua insegurança despertava, e me dei conta de que eu nunca havia falado abertamente sobre você com ninguém.
Discrição sempre foi um dos meus cartões de visita. O fato de estar trocando confidências justamente com a mulher que me roubou o homem, me roubou o sono e me roubou
a confiança no amor-, me fez sentir bem pouco nobre, como se eu estivesse atravessando a fronteira para o lado mais futriqueiro da vida, mas não foi possível evitar.
O café em que estávamos era um lugar distinto, com muitos móveis de mogno e iluminado por pequenos abajures, mas era como se estivéssemos cada uma em sua própria
janela dos fundos, pendurando as roupas num varal, as lavadeiras do conjunto habitacional mais chinfrim do subúrbio.
Detonamos com vossa majestade.
E eu não tinha dúvida nenhuma que, ao detoná-lo, estávamos lhe rendendo a maior das homenagens. Duas mulheres girando em torno do mesmo eixo, comparando as cenas
de desvario que você nos proporcionou,
tudo com o propósito de descobrir, secretamente, a quem você amava mais. Duas mulheres criando em dupla um personagem factível, alguém que fosse tão imperfeito quanto
você, porém mais bem-acabado, para poder ser compreendido.
Reparei que ela se sentia tão distante de você quanto eu, mesmo que dali a algumas horas estivesse deitada a seu lado na cama. Eu procurava manter esse pensamento
afastado: ela tomou café da manhã com ele hoje, talvez eles tenham transado antes de sair para trabalhar, é para ela que ele telefonará logo mais, com ela passará
o próximo final de semana. Juro, me impedi de pensar nisso. Não podia. Estragaria tudo.
Aconteceu que continuamos a nos encontrar a cada 10 ou 15 dias. Era uma amizade perversa: dedicávamos alguns minutos para comentar um filme ou um acontecimento
noticiado no jornal, e dali a pouco você entrava no assunto e a partir de então era como se estivéssemos numa sessão de análise, só que ambas eram pacientes - não
havia quem nos tratasse.
Até hoje me pergunto se eu queria, através dela, esquecer você ou manter você por perto através de uma via insuspeitada. A resposta parece clara, mas talvez eu
quisesse uma confirmação de que você nunca mais seria meu. Será que em algum momento um amor deixa de ser nosso, mesmo tendo acabado para sempre?
Eu não havia contado pra ninguém sobre essa minha nova amiga porque tinha noção do quanto tudo pareceria inexplicável aos olhos dos outros - era inexplicável
para mim também. Sempre que nos despedíamos, eu pensava: foi a última vez. Eu reconhecia que era doentio ouvi-la se queixando de você, parecia que eu estava tentando
extrair desses encontros alguma coisa que me confortasse, mas a verdade é que já estava confortada, então precisava admitir que estava ali apenas por voyeu- rismo.
Nós duas pensávamos estar lucrando com essas conversas, mas nenhuma das duas sabia contabilizar esse lucro.
Estava na cara que iríamos perder, ambas.
Estar com ela era uma maneira de tentar confrontar as razões que fizeram duas mulheres diferentes se interessarem pelo mesmo homem. As razões, as razões. Eu seguia
em busca de algo que iluminasse o lado obscuro
do meu amor por você: por que logo você? Se eu tantas vezes te neguei o título de "homem da minha vida" pelos motivos mais variados, se por sua causa tantas vezes
me senti menor do que eu media de fato, se afinidade era algo que jamais nos uniu, por que você seguia sendo, contrariando todas as apostas e à revelia do que eu
evitasse afirmar para mim mesma, o homem mais importante da minha vida? Eu tinha dificuldade de admitir a imponência do desejo, a primazia da fatalidade sobre o
pensamento organizado. Eu jamais encontraria as tais razões porque, caso elas existissem, estariam a séculos de distância de onde eu estava - estariam num passado
tão remoto que já nem era passado só meu, mas dos que viveram antes de mim. Eu vinha de uma linhagem de mulheres que não se julgavam capazes de ser mais do que donas
de casa. Eu vinha de uma infância que contradizia todo o meu ardor: me educaram para ser passiva e agradecida, logo eu, um bicho esfomeado. Sexo sempre foi minha
principal fome. E foi uma decepção quando descobri, ainda na infância, que pensar assim era vulgar. Eu teria que me adaptar a um padrão mais consciencioso, teria
que priorizar minhas escolhas focando apenas nos benefícios que me trariam. Mais ou
menos como se faz ao pegar um produto no supermercado e consultar pela etiqueta se ele contém glúten, qual o valor calórico, a inclusão de ingredientes artificiais.
No entanto, incorporei você na minha dieta sem me importar com o veneno que você continha.
Ela, por sua vez, se apaixonou pela idéia de casar com um homem disponível, bonito e disposto a ter um filho, e confessou que já no segundo encontro parou de
se prevenir contra uma possível gravidez. Bajulou você, adulou, mimou, se transformou numa mulher essencialmente cor-de-rosa, pastel, um docinho, e eu franzi os
olhos quando ela me contou isso, como se não estivesse escutando bem. Ela riu e disse que sabia que era cafona, mas que todas as manifestações de docilidade a faziam
se sentir mais feminina.
Ela não podia ser mais feminina. Coisa que eu também era, mas sem fanatismo.
Vocês se agarraram um ao outro como à última boia do Titanic. Ela me contava isso com muita suavidade, sem que isso soasse como uma estratégia. Disse mais:
que desde o início você foi sincero ao afirmar que era provável que nunca mais amasse profundamente alguém, mas como ela era uma companhia agradável, terna e lhe
transmitia segurança, iria tentar, e isso bastou para que ela parasse de procurar um marido. Havia encontrado. Fez por você o que eu não fiz: te aceitou desde o
primeiro instante. Ambos tinham o mesmo projeto de vida e possuíam atributos compatíveis para abrir uma sociedade permanente. Estavam diante da realização afetiva.
Certo dia, que já nem era dia, mas noite, você telefonou para o celular dela bem na hora em que nós duas estávamos jantando. Já havia acontecido três outras vezes,
e em todas, ela teve a delicadeza de interromper a chamada. Seria constrangedor ouvi-la te tratar por apelidos carinhosos, que talvez fossem até os mesmos que usávamos
entre nós. Nas três primeiras vezes em que você ligou, comemorei internamente o fato de sua mulher ser elegante. Mas desligar uma quarta vez poderia causar desconfiança,
e ela resolveu atender.
Quando ela disse "Oi, amor", me levantei para que ela conversasse com você à vontade - e para que eu tivesse tempo de chegar ao banheiro para vomitar,
porque o mal-estar que senti não foi ameno. Mas ela me segurou pelo braço e disse sem voz, só com os lábios: "Fique." Voltei a sentar e me senti minúscula como um
ácaro.
E foi então que a vi mentir de uma forma amadora, infantil. Inventou uma desculpa inacreditável, disse que estava com uma amiga que você não conhecia e que não podia
dizer o nome porque ela (eu!) estava com problemas com a lei. De onde ela tirou esse enredo de filme mexicano? E na hora de dizer em que lugar estava, inventou de
forma desastrosa um nome de um bar que, se existisse mesmo com esse nome - qualquer coisa parecida com Excrementos -, já teria sido fechado pela vigilância sanitária.
Em que rua era esse lugar? Ela não lembrava. Pergunte pra sua amiga, você deve ter dito. Ela respondeu que a amiga também não sabia. Uma fugitiva da polícia nunca
sabe direito onde está, fazia sentido.
Tudo isso aos gaguejos. Como se a criminosa fosse ela.
Depois ela me contou que ao chegar em casa, não encontrou você. Que você não voltou para dormir. Que no dia seguinte deixou o celular desligado. E que quando
ela estava trocando a raiva por preocupação,
você reapareceu sarcástico, com a barba por fazer, dizendo que havia passado a noite com uma amiga que também não tinha as melhores relações com a legalidade. Isso
não me surpreendeu, e lembrei a sorte que eu tinha de não estar no lugar dela.
Ela continuou a se encontrar comigo escondido e eu pensava na ironia de estar sendo o pivô da crise conjugal de vocês dois. Propus várias vezes que parássemos
com esses drinques de final de tarde e que nos comunicássemos por e-mail ou telefone, mas ela dizia que com nenhuma outra pessoa se sentia tão à vontade para conversar
sobre você, que as amigas dela desaprovavam abertamente esse casamento e que até a família de ambos não soltava foguetes com o enlace, mesmo havendo um neto no meio.
Eu já estava me sentindo mal com a situação, você voltou a ligar para ela num dia em que eu estava já pegando as chaves do carro para ir embora, e vi que ela desligou
de novo sem atender. Alertei que ela não deveria provocar seu ciúme. Ela, com aquele jeiti- nho meigo que você bem conhece, alegou não saber
mentir e que preferia assim, que se entenderia com você em casa, mas eu sabia o quanto a relação de vocês começaria a se fragilizar, já que vossa majestade deveria
estar fazendo misérias para dar o troco.
Pouco depois desse episódio, ela me telefonou querendo combinar um encontro, e eu inventei um cansaço mortal, neguei. Dias depois, ela ligou de novo, e eu menti
que tinha uma viagem marcada para a manhã seguinte e que ficaria fora uns dias. Ela esperou eu "voltar" e ligou mais adiante, demonstrando uma dependência que começou
a me embaraçar. Passei a gostar dela, porém não tinha mais vontade de falar sobre você. Ela era um ótimo papo quando discorríamos sobre qualquer outro tema, eu me
distraía ouvindo-a contar sobre os processos, os clientes, a paixão pela advocacia, ou suas opiniões sobre música, cinema, mas quando o assunto era você, já não
havia mais interesse de minha parte, não sentia prazer em escutar as queixas dela, não me sentia vitoriosa, não sentia mais nada. Fui descobrindo que os grandes
amores sucumbem por falência múltipla dos órgãos, nunca através de uma tentativa pueril de amar de novo, e menos ainda por vingança. Mas ela insistiu tanto que eu
topei me encontrar
com ela outra vez, mas agora seria para abrir o jogo, dizer que começava a me sentir incomodada. Ridículo: parecia que eu iria romper um namoro. Só me faltaria voltar
para casa aos prantos.
A conversa revelou-se mais agradável do que de costume, ela estava inspirada naquele entardecer, e seu nome não foi mencionado nem brandamente. Eu já conseguia
imaginar a continuidade daquela amizade, bastava que a gente mantivesse você fora de pauta, mas eu não previ o que iria me acontecer dali a meio segundo, quando
meu celular tocou. Reconheci seu número.
Impossível descrever meu desconforto. Eu não tinha tempo hábil para decidir o que fazer. Desligo? Atendo? Conto pra ela? Fosse qual fosse a decisão que eu tomasse,
agiria como uma cascavel. Resolvi ser uma cascavel sincera. Falei: é o teu marido. Ela respondeu serenamente: atende. Alô.
Eu escutava pela última vez o som da voz do meu James Bond, do meu Barba Azul, do meu Casanova, do
meu Nosferatu. Lânguido feito uma serpente, você gozava pela boca, armava o bote sem saber que eu estava na presença de sua mulher. Dizia que sentia saudades, que
queria me ver. Saudades? Você queria era uma revanche. Queria que eu fosse sua amante, vingando- -se do caso que imaginava que ela estava vivendo, um affair que
não existia: era eu que tirava sua esposinha de casa, que ocupava as horas livres da mãe do seu filho. Você não podia imaginar que estava sendo presu- midamente
traído por uma mulher, e logo a ex-mulher da sua vida. Eu, um tumor incurável. Você, minha bala nunca extraída.
Respondi que não, que não iria ao lugar para o qual você me convidava. E pedi que não me ligasse de novo. Você perguntou se eu estava comprometida com alguém.
Respondi que sim. A única mentira que contei pra você em toda a minha vida, e nem sei se era mentira. Ali eu estava me comprometendo eternamente comigo, pra fugir
em definitivo das suas emboscadas.
Desliguei e olhei bem no fundo dos olhos da sua mulher, sem pronunciar palavra. Sabia com exatidão o que ela pensava e o que ela sentia, e fui solidária no silêncio,
mas não a privei de falar a frase que decretaria o
epílogo dessa história. Acabou entre nós, ela disse. Perguntei: nós quem? Ela respondeu: nós todos.
Tic, tac. Meu rosto está murchando. Um dia serei uma velha bem seca com cara de malvada, mas por enquanto ainda estou sintonizada com a menina inocente dos retratos
do colégio, que não acreditava que os sentimentos precisassem de tantas conexões para serem explicados. Casamento era pra mim um ritual de aceitação, um gostar-se
tornado público. Minha família adorava usar uma expressão para justificar a pompa matrimonial na igreja e no salão de festas: "Casar é uma satisfação para a sociedade."
Por mim, usaria esse termo pela metade, diria apenas: "E uma satisfação."
Não consigo imaginar nada mais satisfatório do que amar, e mesmo não sabendo o que o amor significa, sei o que representa. É o que nos faz, no meio de uma multidão,
destacar alguém que se torna essencial para nosso bem-estar, e o nosso para o dele. E receber uma atenção exclusiva e ofertá-la na mesma medida. Ter uma intimidade
milagrosa com a alma de alguém, com
o corpo de alguém, e abrir-se para essa mesma pessoa de um jeito que não se conseguiria jamais abrir para si mesmo, porque só o outro é que tem a chave desse cofre.
O amor é uma subversão, e seu vigor nunca será encontrado em amizades ou parentescos. Todas as palavras já foram usadas para defini-lo: magia, surpresa, visceralidade,
entrega, completude, requinte, deslumbre, sorte, conforto, poesia, aposta, amasso, gozo.
Amar prescinde de entendimento. Por isso não sei amar, porque sou viciada em entender.
Fugi de você, naquela época em que ainda éramos um casal, porque percebi que nossos beijos haviam virado respiração boca a boca, uma tentativa de sobrevivência
quando já era tarde demais. Tudo que é improdutivo se torna esgotante, e minha fonte de energia secou, eu não tinha mais por onde trilhar um caminho ao seu lado,
havia obstáculos demais para alguém que, como eu, sempre preferiu tomar impulso e ir em frente mantendo o ritmo. Nunca gostei de pausas, nunca gostei de intervalos
no meio de peças de teatro, nunca gostei nem
mesmo de parar na estrada para ir ao banheiro e tomar uma água, queria sempre seguir em frente, a constância para mim era sinônimo de paz, uma paz sem perder o pique,
sem perder velocidade, uma paz dinâmica, diferente da paz dos cemitérios, da paz da solidão. Mas estando com você eu teria que me acostumar a um amor interrompido
a cada 10 quilômetros rodados. Isso não era pra mim. Não sou mulher de ter que recuar toda hora para o acostamento e manter uma viagem atravancada para lugar nenhum,
tudo pela vaidade de, em troca, dizer ao mundo: "Vejam só, eu tenho alguém!" O que eu tinha era um fiasco: eu te amava e era amada por você e me sentia completamente
desacompanhada. "Vejam como estou só" seria uma afirmação mais realista.
Entretanto, quando alcancei o nirvana de um relacionamento estável com aquele meu parceiro de caminhadas, foi bom, lembro como era tranqüilo estar com o homem
pós-você, o cara que já vinha com a aprovação do senso comum, que nunca me aborrecia, que nunca me fez ter crises convulsivas de choro, a ponto de eu me perguntar:
será que gastei meu crédito de sofrimento e a partir de agora estarei insensível para todo o resto?
Eu não me incomodava com ele, não me incomodava comigo, não me incomodava com nada. Pode rir de mim: às vezes eu sentia falta do seu talento para me atordoar.
Mas não ria tanto assim porque sei também que a gente sempre sente falta do que nos livramos com dificuldade.
Passei a ocupar meus dias pensando sobre o que, afinal, é isso que todo mundo enche a boca para chamar de amor, como se fosse algo simplificado: defina em meia
dúzia de frases, é fácil, querida.
É fácil? Pois a querida não entende como uma palavrinha simples formada por apenas duas vogais e duas consoantes pode absorver um universo de sensações contraditórias,
diabólicas, insensatas, incandescentes e intraduzíveis. O que é amor? Já tentei explicar a mim mesma e, por mais que tente, jamais conseguirei atingir a essência
dessa anarquia que dispensa palavras.
Esperei passar três semanas e ela não me telefonou. Havia uma compreensão silenciosa de que tínhamos ido longe demais, porém não me contive e liguei eu. Ela me
atendeu com uma voz educada, sem revelar simpatia ou antipatia. Durante o telefonema, pensei que ela facilitaria as coisas e me contaria de boa vontade o que aconteceu
entre vocês depois daquela situação inconveniente pela qual passamos, mas ela não tocou no assunto, só dizia que estava tudo bem, aquele tudo bem que deixa a gente
sem saber se tudo bem significa tudo igual.
Perguntei pelo menino de vocês, perguntei pelo trabalho no escritório de advocacia, perguntei se ela havia trocado a saia cor de laranja que comprou e que não
conseguia usar por achá-la extravagante demais e perguntei, como se fosse natural, se vocês haviam se acertado, e ela confirmou: tudo igual.
É uma mania besta que eu tenho de caçar confirmações. Pra que, se eu já sabia?
Falei um pouco de mim, contei as trivialidades de sempre, mesmo reconhecendo que era um tema pelo qual ela não estava demonstrando o menor interesse, e encerramos
com o fatídico "a gente se fala", sabendo que levaria umas cinco décadas até ouvirmos a voz uma da outra de novo. Eu tinha certeza de que ela estava arrependida
daquela aproximação desesperada que havia provocado entre nós duas, e eu arrependida de ter
me deixado levar por uma curiosidade mórbida, e a palavra mórbida aqui se presta, porque depois de um fim de amor tão arrastado, um fim que custou a acabar, fui
desalojada da minha própria ilusão. Acabara o choque da morte súbita, agora eu vivia a morte lenta com a qual todos se acostumam. Não havia mais o que prantear,
nem sobra de qualquer grandiloqüência, não havia mais a dor licenciosa, nem o orgulho de me supor vitalícia em sua vida, nem crença mais nisso, não havia mais romance,
fosse trágico ou cômico, não havia traição nem esperança, mais nenhum espaço para especulação, nem motivo para recordações. O ontem e o anteontem empalideceram,
se transformaram num acontecimento episódico, viraram apenas alguns capítulos da nossa história: ninguém mais amava ninguém.
Hoje você tem um segundo filho a caminho e cansou de brigar contra o mundo: soube que está se tratando daquele distúrbio psíquico que nunca lhe permitiu que fosse
o homem sereno que merecia ser e espero sinceramente que esteja descansando de suas neuroses e aproveitando com mais desembaraço as oportunidades de convivência
que surgem - elas sempre surgem. Não imagino você deitado numa rede por mais de 15
minutos e suponho que ainda se exalte por bobagens, mas quem seria você se lhe roubassem o vigor, a impaciência e o sentido de alerta? Tenho certeza de que você
não
deixará que ninguém lhe descaracterize, não há remédio milagroso que lhe torne apático, mas aceite a ajuda possível, experimente um olhar cordial para o que lhe
cerca, aprenda a lidar com os imprevistos e confie: nunca houve conspiração alguma, você é que perseguia a si mesmo.
Quanto a mim, reconheço que estive doente também: onipotência é uma enfermidade grave. Mas começo a recuperar a lucidez perdida, se considerarmos que lucidez
nada mais é que interromper a busca pela compreensão absoluta de tudo que nos cerca e aceitar que a vida não vem com manual de instruções. Fácil não tem sido, mas
consigo, finalmente, me libertar de certas crendices. Já admito que não é necessário estar apaixonada em todas as etapas da vida, desde os 14 até os 99 anos. Paixão
é a força motora que justifica nossa existência, mas a perseguição desenfreada por esse
privilégio nos torna dementes, viramos parasitas de uma obsessão. Quem garante que essa ansiedade não foi produzida em laboratório por algum cientista muito cínico?
Claro que é excelente ter com quem compartilhar nosso erotismo, desejos, gargalhadas, mas não é preciso se sentir incompleta na falta desse alguém.
Preciso que saiba: nunca deixarei de pensar em você, porque você foi o amor menos elaborado que tive, menos politicamente correto, menos "o cara certo na hora
certa", menos criado no cativeiro da idealização, e essa impossibilidade de intelectualizar o que senti me faz pensar que talvez eu não estivesse enganada sobre
aquela idéia romântica de que só se ama assim uma vez.
Mas os impactos se sucedem, e devido a tudo que passamos, hoje sou uma mulher menos assustada com a dinâmica incontrolável dos vínculos afetivos. Não estou só.
Não me pergunte se estou feliz, apenas me ouça: não estou só. Novamente me encontro numa relação sem alicerces. Como explicar quem é ele? Se cruzassem nossos perfis
num site de relacionamentos, haveria um curto-circuito parecido com o que nós dois, eu e você, já provocamos. Quem diria que a cdf da escola, que sempre passava
por média, iria se tornar
repetente em uma matéria clássica como o amor impossível. Encarei você como uma exceção no meu currículo, sem cogitar a hipótese de que a compatibilidade amorosa
é que talvez seja a verdadeira avis rara das uniões. Estou apaixonada por um junkie. Um homem com total domínio de suas responsabilidades profissionais, que tem
o respeito dos amigos, uma rotina saudável de esportista, que não fuma e bebe pouco, mas que não abre mão de algumas alucinações programadas, um homem que tem com
a droga uma relação amistosa, sem medo. Poderia parecer um detalhe charmoso se fosse um filme, um livro, mas é a vida dele, e agora a minha.
Bastaria rejeitá-lo, bastaria deixar de atender seus telefonemas, manifestar desinteresse, porém não é tão simples. Estou tudo, menos desinteressada. Fui, mais
uma vez, resgatada do marasmo, recolocada em movimento, de novo desafiada. Minha experiência e maturidade me assopram: fuja. Meu corpo não me ouve, fica.
Hoje dispenso as regras amorosas estabelecidas, começo a achar ridículo ter que seguir os dez mandamentos para merecer uma paixão que não nos envergonhe aos olhos
da sociedade. E creio que é justamente
essa consciência do ridículo que está resgatando minha porção criança, aquela criança que só queria saber de satisfação imediata, sem espaço para o cultivo de paranóias
e sem brigar inutilmente contra as dificuldades que se apresentam a qualquer um que tenha nascido. Decidi que não quero mais entender, não quero mais encenar, não
quero mais que me expliquem essa bagunça, já não preciso ser conduzida a nenhuma espécie de iluminação. Atravessei paredes, conforme o bruxo previu. Estou do lado
de fora.
O que tenho, nesse instante, é um sabor inédito de beijo, um novo número de celular para adicionar na minha agenda, uma cor de olhos que não sei definir com precisão,
um corpo que se encaixa no meu e uma conversa que me mantém fascinada. Em contrapartida, é como se houvesse um fio de alta tensão bem perto dos meus pés molhados.
Ele é um homem que flerta perigosamente com a irrealidade, que se sente atraído pelos seus instrumentos de fuga e não pretende mudar. Tem o desplante de não concordar
comigo com a autoridade de quem não concorda com ninguém e com lei alguma, o que é suficiente para eu querer esganá-lo, odiá-lo e não conseguir pensar em viver longe
dele, eu que já havia desistido de me programar para qualquer tipo de eternidade. Não é um novo você, mas estou tendo o privilégio, a essa altura da vida, de ser diferente de mim
outra vez. Isso me tonteia, mas agora me dou conta de que não há outra maneira de me sentir viva, ao menos viva como preciso: escancaradamente.
Não resistirei. Sei que está tudo errado e que o sofrimento me alcançará a cada minuto que eu perceber que estou sendo conivente com um hábito que me irrita,
me agride, mas serei como uma platéia a que tudo assiste em silêncio e êxtase, com a respiração trancada. Não tenho mais forças para lutar contra o que se declara
gigantesco em qualquer ser humano: a pulsão da entrega. Não será um relacionamento leve, um passeio, quase nenhuma relação é. Mas, com sorte, talvez eu consiga aceitar
que no amor não existe moral da história, enfim.

 

 

                                                                  Martha Medeiros

 

 

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