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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FRIDAY, A MULHER DO FUTURO / Robert Anson
FRIDAY, A MULHER DO FUTURO / Robert Anson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

FRIDAY, A MULHER DO FUTURO

 

Quando saltei da cápsula do Cabo Espacial do Quênia, ele estava colado aos meus calcanhares. Seguiu-me através da porta que levava à Aduana, Saúde & Imigração. No momento em que a porta deslizava atrás de nós, eu o matei.

Nunca apreciei viajar pelo Cabo Espacial. Mesmo antes do acidente com o Gancho Celeste de Quito, minha aversão era total. Um cabo que sobe aos céus sem nada a sustentá-lo cheira a bruxaria. Mas o único outro meio de transporte para chegar até a L-5 é muito caro e muito lento; não fora incluído em minhas ordens, nem na minha ajuda de custo.

Portanto, mesmo antes de desembarcar da conexão de L-5 na Estação Fixa e entrar na cápsula do Cabo Espacial, o nervosismo já me dominava... mas, que diabo, nervosismo não é motivo para matar um homem. Minha intenção era apenas tirá-lo de circulação por algumas horas.

O subconsciente tem sua própria lógica. Agarrei-o antes que caísse na plataforma, arrastei-o rapidamente em direção a uma fileira de armários de aluguel, blindados e à prova de bombas, apressando-me para não manchar o chão — pressionei seu polegar contra o trinco e empurrei-o para dentro ao mesmo tempo em que agarrava sua sacola; achei seu cartão de crédito, introduzi-o na fenda, recuperei seus documentos de identidade e o dinheiro, e joguei a sacola junto do cadáver no momento em que a chapa de blindagem descia ruidosamente. Voltei-me.

Um Observador Eletrônico flutuava acima e por trás de mim.

Não era motivo para perder a calma. Nove em dez vezes o Observador está flutuando ao acaso, sem monitor, e seu circuito de 12 horas pode ou não ser examinado por um ser humano antes de descartá-lo. Na décima, uma agente da força de paz pode estar atenta no controle ou, então, polindo as unhas e pensando na noite anterior. Ignorei-o, portanto, e prossegui em direção à saída do corredor. O malfadado Observador devia ter-me seguido, pois naquela passagem eu era a única massa irradiando a 378. Mas, antes de voltar a seguir-me, deteve-se durante pelo menos três segundos para examinar o armário.

Eu tentava decidir entre três atitudes a tomar, quando aquela parte independente do meu cérebro assumiu o controle, e minhas mãos executaram uma quarta opção. Minha caneta emitiu um raio laser e "matou" o Observador Eletrônico. Dei força total ao raio laser até que o Observador caiu na plataforma, cego, a antigravidade desativada, a memória destruída — pelo menos, assim esperava.

Recorri outra vez ao cartão de crédito do meu seguidor, utilizando a caneta para abrir o armário, evitando assim apagar a impressão digital do seu polegar. Foi preciso um forte pontapé para que o Observador também coubesse naquele armário abarrotado. Em seguida, apressei-me. Era tempo de mudar de personalidade. Como a maioria dos outros portos de entrada, L-5 oferece comodidades aos passageiros nos dois lados da linha divisória. Em vez de passar pela inspeção, encontrei um banheiro e depositei moedas para usar um toalete com chuveiro.

Vinte e sete minutos mais tarde, eu não só tinha tomado meu banho, como exibia roupas, cabelo e rosto totalmente diferentes — três horas para colocar o disfarce, quinze minutos de água quente e sabão para retirar. Não me agradava mostrar meu verdadeiro rosto, mas era urgente livrar-me da persona que eu havia representado nesta missão. O que dela não descera pelo ralo ia agora para o triturador: macacão, botas, mochila, impressões digitais, lentes de contato e passaporte. Passei a usar um passaporte com meu nome real — bem, um dos meus nomes —, e um estereógrafo do meu rosto exibia um honesto carimbo de trânsito de L-5.

Antes de destruir os objetos de uso pessoal que havia retirado daquele corpo inerte, examinei-os e hesitei.

Identidades e cartões de crédito apresentavam quatro personalidades diferentes.

Onde estariam os outros três passaportes?

Provavelmente em algum lugar naquele monte de carne guardado no armário. Revistei-o mal — estava com pressa —, só tendo tempo de pescar o que estava na sacola.

Voltar e olhar? Se eu ficasse indo e voltando a toda hora, abrindo um armário onde havia um corpo ainda quente, alguém certamente iria notar. Ao retirar seus cartões e o passaporte, eu tentava retardar a identificação do corpo e ganhar mais tempo para escapar, mas... num, espere um instante. Sim, passaporte e cartão Diners, ambos em nome de Adolf Belsen, a American Express dava garantia a Albert Beaumont, o Banco de Hong Kong encarregava-se de Arthur Bookman, enquanto o MasterCard garantia o crédito de Archibald Buchanan.

"Reconstruí" o crime: Beaumont-Bookman-Buchanan mal tocara a fechadura do armário quando Belsen atacou-o por trás, jogou-o lá dentro e utilizou seu próprio cartão Diners para trancá-lo, partindo apressadamente.

Sim, uma excelente teoria... e agora embaralhemos um pouco mais as coisas.

Os cartões de identidade desapareceram na minha carteira; o passaporte de Belsen fiz desaparecer na minha pessoa. Agora não poderia passar por uma revista epidérmica, mas sempre existem meios de evitá-la, até mesmo (mas não exclusivamente) suborno, jogo de influência, corrupção, informações truncadas e alvoroço.

Quando saí do banheiro, passageiros que haviam desembarcado da última cápsula surgiam aos poucos, e as filas iam-se formando próximo à Aduana Saúde & Imigração.

O funcionário da ASI comentou a respeito da minha mochila, que não pesava nada, e fez perguntas sobre a alta no mercado negro. Contemplei-o com meu olhar mais imbecil, o do retrato no passaporte. Foi então que ele encontrou no passaporte a quantia adequada para persuadi-lo, e o assunto morreu aí.

Perguntei pelo melhor hotel e o melhor restaurante. Ele respondeu que dar indicações não fazia parte das suas funções, mas que o Nairóbi Hilton era bom. Quanto à comida, se eu tivesse dinheiro bastante, o FatMan, em frente ao Hilton, servia a melhor comida da África. Desejou-me uma agradável estadia no Quênia.

Agradeci. Alguns minutos mais tarde, eu já tinha descido a montanha, estava na cidade e me lamentava. A Estação Quênia fica a mais de cinco quilômetros de altura; o ar é sempre leve e fresco. Nairóbi é mais alta que Denver, quase tão alta quanto a cidade do México, mas isso não passa de uma fração da altura de Monte Quênia, e daqui ao Equador é um pulo.

O ar era pesado e quente demais para respirar; num instante minhas roupas ficaram encharcadas de suor, eu sentia os pés começando a inchar — além disso doíam em conseqüência da gravidade normal. Eu não gosto de ser lançada em missões fora da Terra, mas o pior de tudo depois é a hora de voltar.

Apelei imediatamente para algumas técnicas de controle da mente que conheço, tentando ignorar o desconforto. Droga! Se meu professor de controle da mente passasse menos tempo de pernas cruzadas na posição de lótus e mais tempo com os pés no Quênia, seus ensinamentos talvez fossem mais úteis. Pus o assunto de lado e concentrei-me no ponto central do problema: como sair deste diabo de sauna o mais depressa possível.

O saguão do Hilton era ligeiramente ventilado, de um frescor agradável, e, o melhor de tudo, possuía uma agência de viagens totalmente automatizada. Entrei, encontrei uma cabine vazia e sentei-me de frente para o terminal. Imediatamente surgiu uma atendente.

— Posso ajudar?

Disse-lhe que podia me arranjar sozinha, o teclado parecia familiar. (Era um Kensington 400 comum.)

— Teria muito prazer em digitar para você — ela insistiu. — Não há ninguém mais à espera. Aparentava uns dezesseis anos, possuía um rosto agradável, voz suave e, pelo seu jeito, concluí que realmente sentia prazer em ajudar.

Aquilo de que eu menos precisava, porém, era de alguém me ajudando a trapacear com cartões alheios. Escorreguei, então, uma gorjeta tamanho médio, afirmando que chamaria se surgissem problemas.

Ela argumentou que a gorjeta não era necessária... mas não insistiu em devolvê-la, e saiu.

"Adolph Belsen" tomou o duto para o Cairo e em seguida o balístico para Hong-Kong, onde tinha reserva no Península, tudo cortesia do Diners Club.

"Albert Beaumont" estava de férias. Ele embarcou num dos Safari Jets para Timbuctu, onde a American Express hospedou no luxuoso Shangri-La, às margens do mar de Saara.

O Banco de Hong-Kong pagou a viagem de "Arthur Bookman" para Buenos Aires.

"Archibald Buchanan" visitou Edinburgh, sua cidade natal, com pagamento antecipado graças ao MasterCard. Como toda a viagem poderia ser feita através do duto, com uma única baldeação no Cairo e troca automática em Copenhague, em duas horas estaria na mansão dos seus ancestrais.

Consultei então o programador de viagens — sem fazer reservas ou compras de qualquer espécie e utilizando exclusivamente a memória temporária.

Isto feito, saí da cabine e perguntei à atendente de covinhas no rosto se a entrada do metrô, que eu via no saguão, me levaria até o FatMan.

Ela me instruiu sobre as baldeações, desci e peguei o duto para Mombasa, pagando outra vez em dinheiro.

Mombasa fica a apenas 450 quilômetros, trinta minutos de Nairóbi, mas se situa ao nível do mar, o que faz o clima de Nairóbi parecer um paraíso. Saí dali o mais depressa que pude, e 27 horas mais tarde eu estava em Illinois, província do Império de Chicago.

Você pode achar que a viagem foi demorada para um percurso de apenas 13.000 quilômetros. Mas eu não segui uma linha reta, nem passei por alfândegas ou departamentos de imigração... Também não utilizei cartões de crédito, nem mesmo emprestados. Consegui filar sete horas de sono no Estado Livre do Alasca. Desde que saíra da cidade espacial de L-5, dois dias antes, não tinha dormido um bom sono.

Como? Segredos do ofício. É possível que eu nunca mais utilize aquela rota, mas pode ser que algum colega de profissão precise dela. Além do mais, como diz o Chefe, todos os Governos dificultando o máximo, com seus Observadores Eletrônicos, computadores e mil outras formas de vigilância automática, a obrigação moral de cada cidadão livre é fazer oposição sempre que possível — conservar abertas as vias férreas subterrâneas, manter as cortinas fechadas e alimentar os computadores com informações falsas. Os computadores são bitolados e estúpidos, registros eletrônicos não são registros fiéis... portanto, é bom estar alerta para as oportunidades de confundir o sistema. Se você não pode fugir de um imposto, pague um pouco mais se com isso puder enganar os computadores. Transponha dígitos, coisas assim...

O segredo de viajar meio planeta sem deixar vestígios é: pague em dinheiro. Nunca a crédito, nunca algo que possa entrar num computador. E suborno jamais é suborno; qualquer transferência de fundos deve ser feita de modo que o beneficiado possa continuar mantendo as aparências.

Mesmo sendo muito bem pagos, os funcionários públicos estão convencidos de que ganham uma miséria — na verdade, todos eles admitem o furto em seus corações, ou não se alimentariam à custa do povo. Você apenas precisa saber destes dois fatos — mas tome cuidado: o funcionário, por não ter respeito próprio, exige demonstrações públicas de rigoroso respeito.

Sempre fui complacente com essa necessidade, e a viagem transcorreu sem incidentes. (Não levei em conta o fato de o Nairóbi Hilton ter explodido, incendiando-se poucos minutos após a minha partida para Mombasa; seria muita paranóia pensar que isso tivesse alguma coisa a ver comigo.)

Livrei-me dos quatro cartões de crédito e do passaporte assim que ouvi falar do incidente; de qualquer forma, minha intenção sempre fora livrar-me deles. Se a oposição desejava eliminar-me — possível, mas não provável —, destruir uma propriedade de milhões e ferir centenas de pessoas só para me liquidar seria o mesmo que usar um elefante para esmagar uma mosca. Nada profissional.

De um jeito ou de outro, finalmente estava eu no Império, mais uma missão cumprida, com apenas alguns percalços. Saí em Lincoln Meadows, pensando com meus botões que, com tantos pontos a meu favor, talvez pudesse induzir o Chefe a oferecer-me umas poucas semanas de licença na Nova Zelândia. Minha família, um grupo S-7, estava em Christchurch. Há meses não a via. Muito tempo.

Enquanto isso, saboreei o ar límpido e fresco e a beleza rústica de Illinois — não era South Island, mas era quase tão bom. Dizem que estes prados, outrora, eram cobertos de fábricas enfumaçadas — o que é difícil acreditar. Hoje, o único prédio que pode ser visto da estação é a cocheira da Avis, do outro lado da rua.

Em frente à estação, viam-se dois coches de aluguel da Avis, ao lado das carroças e charretes habituais. Enquanto eu estava escolhendo um dos pangarés, reconheci um coche que vinha chegando: um lindo par de cavalos baios atrelados a um landau Lockheed.

— Tio Jim! Aqui! Sou eu!

O cocheiro tocou a aba do chapéu com o chicote, parando exatamente em frente aos degraus onde eu me encontrava. Saltou, tirou o chapéu.

— Que bom vê-la de volta, Srta. Friday!

Dei-lhe um rápido abraço, que ele suportou com paciência. Tio Jim Prufit tinha conceitos rígidos a respeito de decoro. Comentam que foi condenado por pregar o papismo — alguns contam que o apanharam em flagrante, rezando uma missa. Outros dizem bobagens: ele estivera tentando infiltrar-se na companhia e assumiu a culpa para proteger os outros. Mas eu não entendo essas coisas de política e acho que um padre seria sempre formal, fosse mesmo um padre ou um colega de profissão. Posso estar enganada; suponho que nunca vi um padre antes.

Enquanto ele me ajudava a entrar no coche, fazendo-me sentir uma "dama", perguntei:

— Como você veio parar aqui?

— O chefe mandou-me ao seu encontro, senhorita.

— Mandou? Mas eu não avisei que ia chegar! — Tentei lembrar-me quem, no meu rastro, poderia pertencer à rede do Chefe. — Às vezes acho que o Chefe tem uma bola de cristal!

— Parece mesmo, não é? Jim estalou a língua para Gog e Magog, e partimos rumo à fazenda. Recostei-me e relaxei, ouvindo o alegre e familiar plaque-plaque de cascos de cavalo na terra.

Acordei, quando Jim atravessou o portão, e já estava totalmente desperta, quando parou diante da cocheira. Pulei sem esperar pela representação da "dama" e voltei-me para agradecer.

Eles me atingiram de ambos os lados.

Meu caro tio Jim não me avisara. Simplesmente ficou olhando enquanto me levavam.


 

Que erro estúpido, o meu! Ensinaram-me que nenhum lugar é totalmente seguro e que o mais perigoso é aquele para onde você sempre volta, o lugar mais apropriado para armadilhas de toda espécie.

Parece que aprendi como um papagaio; julgando-me experiente, cheia de prosa, esqueci as regras e caí como um patinho.

Este princípio é semelhante a um outro que ensina que seu mais provável assassino é um membro da sua família — esta sombria estatística também é ignorada... e tem que ser. A viver com medo da própria família é melhor morrer.

Minha maior estupidez foi ignorar não apenas um princípio, mas um aviso claro, preciso, específico. Como teria feito o adorável "tio Jim" para encontrar minha cápsula no dia certo e quase no minuto exato? Bola de cristal? O Chefe é mais esperto do que nós, mas não é mágico. Posso estar errada, mas continuo afirmando: se o Chefe tivesse poderes sobrenaturais, não precisaria de nós.

Eu não informara ao chefe dos meus movimentos. Nem sequer o avisara ao sair de L-5. É a doutrina; ele não nos incentiva a fazer contato a cada passo, pois sabe que qualquer deslize pode ser fatal.

Nem eu mesma sabia que ia viajar naquela cápsula até embarcar. Pedi o café da manhã no bar do Hotel Seward, levantei-me sem ao menos prová-lo, atirei o dinheiro no balcão — três minutos depois eu estava hermeticamente fechada numa cápsula expressa. Então, como...

Obviamente, aquela sombra que eliminei em L-5 não era a única Das duas, uma; ou havia uma sombra de apoio no local, ou o desaparecimento de "Belsen" ("Beaumont"- "Bookman"-"Buchanan") fora percebido imediatamente, havendo substituição instantânea. É possível que me tenham acompanhado o tempo todo, ou talvez o destino de "Belsen" os tenha afastado, por precaução, dos meus calcanhares. Ou, quem sabe, o meu sono da noite anterior lhes dera tempo de me alcançarem.

A variável certa era irrelevante. Logo que embarquei naquela cápsula, no Alasca, alguém telefonara mandando uma mensagem do tipo:

"Pirilampo para Libélula. Mosquito partiu cápsula expressa Corredor Internacional há nove minutos. Controle de tráfego do destino informa cápsula programada para desvio e abertura Lincoln Meadows horário onze-zero-três." Ou qualquer coisa assim. Um amigo-urso me viu embarcar e telefonou; de outra forma o caro tio Jim não poderia ter ido ao meu encontro. Lógico.

Percepção tardia é mesmo uma coisa maravilhosa: revela-nos que quebramos a cara quando já é tarde demais.

Mas eu os fiz pagar pelo divertimento. Se tivesse sido esperta, capitularia ao perceber que estava em franca desvantagem numérica. Mas não sou esperta; disto já dei provas antes. Eu devia ter desatado a correr quando Jim me afirmou que viera a mando do chefe... sem subir no coche e cochilar.

Só me lembro de ter matado um deles.

Possivelmente dois. Por que teriam insistido no jogo duro? Poderiam ter-me esperado entrar e asfixiar-me com gás, ou ter usado um dardo letárgico, ou mesmo uma corda aderente. Em todo caso, ficou claro que queriam pegar-me viva. Será que desconheciam que uma agente de campo da minha categoria, quando atacada, tenta automaticamente superar-se? Talvez eu não seja a única imbecil. Por que perder tempo com estupro? Toda a operação teve toques de amadorismo. Hoje em dia, nenhum grupo profissional espanca e estupra antes do interrogatório; isso não traz nenhum proveito: o bom profissional é treinado para os dois casos. No estupro, ela (ou ele — dizem que é pior para os homens) pode desligar-se e esperar que termine, ou (treinamento avançado) obedecer ao antigo adágio chinês.

Ou, em vez do método A ou B, a combinação dos dois; e, se a capacidade histriônica do agente for suficiente, a vítima pode encarar o estupro como uma oportunidade para enfraquecer seus algozes. Não sou lá grande atriz, mas tento, e, embora nunca tenha conseguido virar mesas sobre os adversários, ao menos uma vez isso me ajudou a sobreviver.

Na ocasião, o método C não alterou o resultado, mas provocou uma saudável dissidência. Quatro deles (estimativa que fiz pelo tato e pelos odores corporais) me possuíram num dos quartos de cima. Talvez até fosse o meu próprio quarto, mas não tenho certeza porque estive inconsciente por instantes e usava como vestimenta (somente) uma fita adesiva sobre os olhos. Possuíram-me num colchão estendido no chão... Uma suruba com grau de sadismo menor que, preocupada com o método C, ignorei.

Apelidei-os, mentalmente, de "Mestre-de-Obras" (o que parecia estar no comando), "Pedras" (era como o chamavam — tinha pedras na cabeça, provavelmente), "Miúdo" (interprete como quiser) e "O Outro", já que não possuía características que o definissem.

Atuei com todos eles segundo o método, é claro: relutante, deixando-me ser forcada e então, gradativamente, permitindo-me ser dominada pela paixão e perder o controle. Todos os homens acreditam nesta seqüência; ficam tarados. Esforcei-me ao máximo com o Mestre-de-Obras, tentando o papel de favorita do sultão, ou peixinho do professor, algo assim. Não me saí nada mal; os métodos B e C combinaram-se suavemente.

Pedras me deu mais trabalho; com ele foi preciso combinar os métodos C e A, por causa do seu bafo medonho. Não era amigo da higiene, o que foi difícil ignorar para ccorresponder lisonjeiramente ao seu ego de macho.

Depois que ele amoleceu, disse:

— Mac, perdemos tempo. A cadela está gostando.

— Então sai da frente e dá mais uma chance ao garoto. Ele está pronto.

— Ainda não, primeiro ela vai levar uns tapas para aprender a levar a gente a sério. — Levei um bofetão no lado esquerdo do rosto: uivei.

— Corta essa — a voz do Mestre-de-Obras.

— E quem dá as ordens aqui? Mac, você está ficando muito metido.

— Eu dou. — Era uma voz nova, sonora, amplificada, vindo certamente do alto-falante instalado no teto. — Pedras, Mac é o líder do seu grupo, você sabe disso. Mac, mande o Pedras aqui; quero ter uma palavrinha com ele.

— Major, eu só estava tentando ajudar!

— Você ouviu o homem, Pedras — falou o Mestre-de-Obras suavemente. — Pegue as suas calças e vá depressa.

Subitamente, vi-me livre do peso daquele homem e de seu bafo fedorento no meu rosto. A felicidade é algo bem relativo. A voz no teto falou outra vez.

— Mac, é verdade que a Srta. Friday simplesmente adorou a recepção que preparamos para ela?

— É possível, major — disse vagarosamente o Mestre-de-Obras. — Pelo menos age como tal.

— E então, Friday, é assim que você dá suas rapidinhas?

Em vez de responder à pergunta, comentei detalhadamente sobre ele e sua família, dedicando especial atenção à mãe e à irmã. Se eu dissesse a verdade — que o Mestre-de-Obras, em outras circunstâncias, até que seria bem agradável, que o Miúdo e o outro não fediam nem cheiravam, e que o Pedras era um porcalhão descartável na primeira oportunidade — estragaria o método C.

— O mesmo para você, queridinha — devolveu alegremente a voz. — Detesto desapontá-la, mas sou cria de orfanato. Não tenho sequer esposa, que dirá mãe ou irmã. Mac, algeme-a e cubra-a com o cobertor. Não lhe dê nenhuma injeção; mais tarde vou falar com ela.

Amador! Meu chefe jamais despertaria num prisioneiro a expectativa de ser interrogado.

— Ei, cria de orfanato!

— Pois não, querida.

Acusei-o de um vício que não requer mãe nem irmã e é anatomicamente possível — pelo menos é o que dizem — para alguns machos. A voz respondeu:

— Todas as noites, meu bem, É muito relaxante!

Um a zero para o Major. Ele, percebi, se fosse bem treinado, seria um bom profissional. Entretanto, não passava de um diletante barato, não merecendo meu respeito. Tinha desperdiçado um, talvez dois de seus melhores homens, submetendo-me desnecessariamente a contusões e variadas indignidades pessoais — e até mesmo traumáticas, fosse eu uma mulher inexperiente — e desperdiçara duas horas ou mais. Com o meu chefe no comando, o prisioneiro, ele ou ela, teria revelado tudo imediatamente e passaria essas duas horas entregando as mais secretas recordações a um gravador.

Mestre-de-Obras deu-se até ao trabalho de me escoltar: levou-me ao banheiro e esperou quietinho enquanto eu fazia xixi, sem tirar proveito disso — o que também era prova de amadorismo, pois uma boa técnica, do tipo cumulativo, para interrogar um amador (não um profissional), é forçar o prisioneiro ou prisioneira a abandonar seus hábitos de higiene. Se ela foi poupada pelas duras realidades da vida, ou ele sofre de excesso de amor-próprio — como a maioria dos homens —, isto é quase tão eficaz quanto a dor, e tem o mesmo peso que esta em outras humilhações.

Acho que Mac não sabia disso. Imaginei-o uma boa alma apesar de — não, exceto por — seu gosto pelo estupro, segundo os relatórios um gosto comum a grande parte do sexo masculino.

Alguém pusera o colchão de novo na cama. Mac conduziu-me de volta e mandou-me deitar de costas, com os braços abertos. Algemou-me então aos pés da cama, utilizando dois pares. Não eram algemas comuns, eram especiais, envoltas em veludo, usadas por idiotas adeptos de joguinhos sexuais. Quem seria o pervertido, o Major?

Mac certificou-se de que estavam bem colocadas, mas não muito apertadas; então, gentilmente, cobriu-me com um cobertor. Não me surpreenderia se me tivesse dado um beijo de boa-noite. Mas não deu, saiu de mansinho.

Se tivesse me beijado, o método C me mandaria retribuir avidamente ou virar o rosto, tentando evitá-lo? Uma bela pergunta. O método C baseia-se em eu-não-posso-fazer-nada e exige muito critério no que se refere a quando e quanto mostrar entusiasmo. Se o estuprador suspeitar que a vítima está fingindo, a manobra falhou.

Eu acabara de decidir, meio pesarosa, que o hipotético beijo deveria ser recusado, quando adormeci.

Não me deixaram dormir o bastante. De tão exausta por tudo o que acontecera comigo, caíra num sono profundo, pesado, e fui despertada por um bofetão. Não o Mac, mas o Pedras, é claro. Não tão forte quanto o anterior, mas totalmente desnecessário. Parece que me culpava pela bronca que teria levado do Major... Prometi a mim mesma que, quando chegasse a hora de eliminá-lo, eu o faria bem devagar.

Ouvi o Miúdo dizer:

— Mac disse para não bater nela.

— Eu não bati nela. Foi só um tapinha de amor para ela acordar. — Cale a boca e não se meta. Afaste-se e aponte seu revólver para ela... para ela, seu burro, não para mim!

Desceram-me até o porão e entramos numa de nossas câmaras de interrogatório. Miúdo e Pedras saíram. O Miúdo eu acho que saiu, e o Pedras eu sei que sim, porque seu fedor desapareceu. Uma equipe de interrogatório assumiu. Não sei quem, ou quantos, ninguém pronunciou uma só palavra. A única voz era a que eu pensava ser a do "major". Parecia vir de um alto-falante.

— Bom-dia, Srta. Friday.

(Dia? Parecia improvável) — Alô, cria de orfanato!

— Estou encantado em vê-la em boa forma, querida. Esta sessão provavelmente será longa e cansativa. E até desagradável. Quero saber tudo a seu respeito.

— Fale logo! O que você quer primeiro?

— Esta viagem que você acaba de fazer. Quero que me conte tudo nos mínimos detalhes. Descreva sua organização. Devo dizer que já sabemos um bocado sobre ela; por isso, se você mentir, vou saber. Nem mesmo uma lorotinha, querida, pois eu não vou gostar nem um pouco, e você muito menos.

— Ora, eu não vou mentir. O gravador já está ligado? Meu depoimento vai demorar.

— O gravador está ligado.

— Muito bem.

Durante três horas entreguei tudo. É o que manda a doutrina. Meu chefe sabe que, de cem prisioneiros, noventa e nove cedem quando submetidos a um determinado grau de dor, quase a mesma porcentagem cede a um interrogatório longo combinado a simples fadiga, e que Buda seria o único capaz de resistir a certas drogas. Já que não espera milagres e detesta sacrificar seus agentes, a doutrina-padrão é: "Se o pegarem, solte a língua."

Por isso, ele cuida de que os agentes nunca saibam das informações vitais. Um mensageiro nunca sabe o que está transportando. Não entendo nada de diplomacia. Nem mesmo sei o nome do meu chefe. Não tenho certeza se somos um órgão governamental ou um ramo das multinacionais. Sei onde fica a fazenda, e isto muitos outros também sabem, mas ela é (era) muito bem protegida. Já visitei outros lugares em potentes veículos autorizados e fechados. Uma VMA levou-me, por exemplo, a um campo de treinamento que bem poderia estar nos confins da fazenda. Ou não.

— Major, como tomou este lugar? Estava muito bem protegido.

— Eu faço as perguntas, espertinha. Vamos repetir do ponto onde você começa a ser seguida assim que sai da cápsula.

Depois de muito tempo desse papo, quando eu já tinha contado tudo o que sabia e começava a ficar repetitiva, o Major interrompeu- me:

— Querida, a sua história é muito convincente, mas eu só consigo acreditar em um terço. Vamos iniciar o processo B.

Alguém agarrou meu braço esquerdo, senti a picada da agulha. Soro para soltar a língua! Eu esperava que esses amadores de terceira não o aplicassem com a mesma incompetência demonstrada até então. Você pode morrer bem depressa com uma dose excessiva.

— Major, é melhor eu me sentar!

— Ponha-a numa cadeira. — Alguém obedeceu.

Nos mil anos que se seguiram, tentei repetir exatamente a mesma história, por mais tonta que me sentisse. A certa altura caí da cadeira. Mas não me sentaram de novo, deitaram-me no concreto frio. Continuei meu bla bla blá.

Um tempinho depois, deram-me outra injeção. Meus dentes doeram, meus olhos arderam, mas ela me despertou.

— Srta. Friday!

— Senhor!

— Já acordou?

— Acho que sim.

— Minha cara, creio que você foi hipnoticamente doutrinada para repetir a mesma história, com ou sem drogas. É uma pena, pois vou ter que mudar de método. Você consegue ficar em pé?

— Acho que sim. Posso tentar.

— Levantem-na. Não a deixem cair. — Alguém, uns dois me seguraram. Eu estava meio tonta, mas não me deixaram cair.

— Iniciar processo C, item 5.

Alguém, com uma bota pesada deu um pisão nos meus dedos descalços. Gritei.

Preste bem atenção, se você algum dia for interrogado sob violência física, grite. A velha rotina do Homem de Ferro só atrapalha, eles ficam cada vez mais perversos. Aprenda com quem já passou por tudo isso. Grite a plenos pulmões, e conte tudo o mais rápido que puder.

No vou descrever em detalhes o que se passou. Quem tem imaginação certamente ficará enjoado, pois eu só de contar tenho vontade de vomitar. E vomitei, várias vezes. Desmaiei também, mas logo me reanimaram e a voz continuava a fazer perguntas. Parece que depois de um certo tempo não conseguiram mais me reanimar, pois quando voltei a mim estava de novo na cama, a mesma, acho, e algemada. Sentia-me toda doída.

Aquela voz conhecida, bem acima da minha cabeça.

— Srta. Friday.

— Diabo! O que você quer agora?

— Nada. Se servir de consolo, você foi a única pessoa que eu interroguei sem conseguir a verdade.

— Dane-se!

— Boa-noite, querida.

Amador desgraçado! Eu contara a pura verdade. Cada palavra que eu dissera refletia a mais pura verdade.


 

Alguém entrou e me aplicou outra injeção subcutânea. A dor desapareceu. Dormi.

Acho que dormi muito tempo. Ora tinha sonhos confusos, ora períodos de vigília parcial, ora ambos. Sonhos, eu tive com certeza: cachorros falam, e muitos, mas não fazem preleções sobre os direitos dos artefatos viventes, não é verdade? Os ruídos de azáfama, a correria de pessoas subindo e descendo, devem ter sido reais, embora parecessem um pesadelo, pois, quando tentei sair da cama, descobri que não conseguia sequer levantar a cabeça e muito menos me pôr de pé e participar da festa.

Num determinado instante decidi que estava realmente acordada, pois não havia mais algemas incomodando os meus pulsos e nem fita adesiva nos meus olhos. Mas não saltei da cama nem abri os olhos. Eu sabia que os poucos segundos que teria assim que os abrisse seriam minha melhor e, possivelmente, única chance de escapar.

Estirei os músculos sem me mexer. Tudo parecia estar sob controle, embora aqui, ali, em vários lugares, eu estivesse bem dolorida. Roupas? Esqueça, eu não fazia idéia de onde estavam, e além do mais não ia parar para me vestir quando estava tentando salvar a própria vida.

Restava planejar. Parecia não haver ninguém no quarto. E no andar? Fique imóvel e ouça. Se e quando tiver certeza de que está sozinha neste andar, saia silenciosa da cama, suba furtivamente as escadas até o terceiro andar e dali direto para o sótão. Esconda-se. Espere anoitecer. Saia pelo basculante do sótão, desça pelo telhado. Pule o muro e vá direto para o bosque. Se conseguisse alcançar o bosque atrás da casa, nunca mais me pegariam... mas até chegar lá eu seria um alvo fácil.

As chances? Uma em nove. Talvez uma em sete, se andasse em ziguezague. O ponto fraco deste plano sofrível era a grande probabilidade de ser descoberta antes de sair da casa, porque se eu fosse descoberta — não, quando eu fosse descoberta — teria que matar, e no maior silêncio.

A alternativa, afinal, era esperar que me liquidassem... o que ocorreria tão logo o Major decidisse que nada mais havia a extrair de mim. Por mais ineptos que fossem aqueles imbecis, não eram tão burros — ou melhor, o Major não era burro — a ponto de deixar viva uma testemunha que fora estuprada e torturada.

Fiquei de ouvidos aguçados, escutando. Nenhum barulho, nem mesmo o de um camundongo. Não adiantava esperar; a cada segundo que passava, as chances de alguém fazer um ruído aumentavam proporcionalmente. Abri os olhos.

— Finalmente acordou. Muito bem.

— Chefe! Onde estou?

— Que frase batida, Friday. Tente outra.

Olhe à volta. Um quarto, provavelmente de hospital, sem janelas, à meia-luz. Silêncio sepulcral, até mesmo acentuado pelo suavíssimo murmúrio da refrigeração.

Tornei a olhar para o chefe. Uma visão bem agradável. O mesmo tapa-olho pouco elegante... por que não tirava uma folga para operar aquele olho? As bengalas estavam apoiadas na mesa, bem ao alcance das suas mãos. Trajava o deselegante e habitual terno de seda pura, cujo feitio lembrava um pijama mal acabado. Eu estava radiante em vê-lo.

— Ainda quero saber onde estou. E como? E por quê? Com certeza é um subterrâneo... mas onde?

— Subterrâneo, sim, alguns metros; "onde", você vai saber quando for preciso, ou quando aprender a ir e vir. Era essa a desvantagem da nossa fazenda — um lugar agradável, mas muita gente sabia onde ficava. "Por quê", é óbvio. "Como", você pode muito bem esperar. Relate.

— Chefe, o senhor é o homem mais irritante que conheço.

— Uma questão de prática. Relate.

— Seu pai conheceu sua mãe numa suruba, e nem tirou o chapéu.

— Eles se conheceram num piquenique do catecismo dominical da Igreja Batista, e os dois acreditavam na cegonha. Relate.

— Chato, rabugento. A viagem para L-5 transcorreu sem incidentes. Encontrei o Sr. Mortenson e entreguei-lhe o conteúdo do meu umbigo postiço. Mas a rotina foi interrompida por um fator bastante incomum; a cidade espacial fora atingida por uma epidemia de distúrbios respiratórios de etiologia desconhecida; contraí o mal. O Sr. Mortenson foi muito simpático; levou-me para a casa dele, e suas esposas cuidaram de mim com muita eficiência e um maternalíssimo carinho. Chefe, quero que tenham uma recompensa.

— Anotado. Continue.

— Estive quase todo o tempo inconsciente. Por isso é que perdi uma semana. Parti logo que me senti em condições de viajar, uma vez que, segundo o Sr. Mortenson, a encomenda já estava no lugar certo. Chefe, minha bolsa umbilical outra vez?

— Sim e não.

— Ora, isso é uma resposta?

— Usamos sua bolsinha artificial.

— Bem que eu desconfiava. Embora digam que não existem terminais nervosos no local, sinto alguma coisa esquisita — pressão, talvez — quando está cheia.

Pressionei minha barriga, em torno do umbigo, contraí os músculos abdominais.

— Ei, está vazia! Você a esvaziou?

— Seus inimigos se encarregaram disso.

— Então falhei! Ai, meu Deus! Chefe, que horror!

— Não — disse ele gentilmente. — Você conseguiu. E diante de grandes perigos e obstáculos monumentais, você logrou êxito absoluto.

— Verdade? (Você algum dia já recebeu a grã-cruz?) Chefe, deixa de falar por enigmas, oriente-me.

— Farei isso.

Bem, talvez seja melhor, primeiro, eu mesma me explicar.

Tenho uma bolsa marsupial, criada por cirurgia plástica, atrás do umbigo. Não é grande, mas cabe um bocado de microfilmes nesse espaço de mais ou menos um centímetro cúbico. Você não a vê, porque um esfíncter cobre a cicatriz umbilical. Meu umbigo tem uma aparência normal. Juizes imparciais sempre me disseram que tenho uma barriguinha linda e um umbigo bem delicado... o que de certa forma é melhor do que ter um lindo rosto, que por sinal não tenho.

O esfíncter é um elastômero de silicone sintético que mantém o umbigo permanentemente fechado, mesmo que eu esteja inconsciente. Isso é necessário, já que na região não existem nervos para um controle voluntário de contração e relaxamento, como acontece com os esfíncteres anal, vaginal e, em algumas pessoas, também com o da garganta. Para encher a bolsa, basta aplicar um pouco de óleo gelatinoso ou qualquer outro lubrificante que não seja à base de petróleo, e fazer pressão com o polegar — por favor, nada de arestas pontiagudas! Para esvaziar, uso os dedos das duas mãos. Abro as bordas do esfíncter artificial ao máximo, depois comprimo com força os músculos abdominais — e o recheio solta fora.

A arte de esconder objetos no corpo humano tem uma longa história. Os locais clássicos são: a boca, seios nasais, estômago, intestinos, reto, vagina, bexiga, a órbita de um olho oco, o canal auricular; além dos métodos exóticos, mas pouco úteis, que utilizam tatuagens às vezes cobertas por pêlos.

Todos os fiscais de alfândega e agentes públicos ou particulares em nosso mundo, em Luna, nas cidades espaciais, nos planetas, em qualquer local que o homem tenha alcançado, todos conhecem muito bem os métodos clássicos. Portanto, esqueça-os. O único método clássico ainda capaz de enganar um especialista é o da Carta Clandestina. Mas esta é uma arte especialíssima e, mesmo quando utilizada com perfeição, deve ser colocada num inocente, que por isso, ainda que drogado, não poderá entregá-la. Repare nos próximos mil umbigos que encontrar em ocasiões sociais. Agora que a minha bolsa foi descoberta, é possível que um ou dois deles ocultem esconderijos iguais ao meu, feitos por cirurgia. Em breve, talvez apareça uma enxurrada de umbigos artificiais, e então não serão mais implantados, pois toda novidade na arte de contrabandear, uma vez conhecida, torna-se inútil. Neste meio-tempo, muitos umbigos vão ser examinados pelos dedos pouco delicados dos fiscais alfandegários, e espero que muitos recebam um bom tabefe dado pela vítima enraivecida... Umbigos tendem a ser sensíveis e cosquentos.

— Friday, o ponto fraco da sua bolsinha sempre foi o de qualquer interrogatório habilidoso...

— Eles eram desastrados.

— ... ou um interrogatório duro, feito com drogas, podia forçá-la a denunciar sua existência.

— Só se foi depois que me injetaram aquele soro solta-língua. Não me lembro de tê-la mencionado.

— Talvez. Ou podem ter recebido informação através de outros canais. Muita gente sabia: eu, você, três enfermeiras, dois cirurgiões, um anestesista, sei lá. Gente demais. Não importa como souberam, o fato é que seus raptores retiraram a encomenda. Mas não faça essa cara triste, o que eles levaram foi uma imensa lista microfilmada dos restaurantes que constavam no catálogo telefônico de 1928 da antiga cidade de Nova Iorque. É claro que neste exato momento, em algum lugar, um computador deve estar trabalhando nessa lista, tentando decodificá-la... o que vai levar bastante tempo, já que não existe código algum. Carta falsa, sem qualquer sentido.

— E por causa disso eu tive que me despencar para L-5, comer um monte de porcarias, cair de cama no Cabo Espacial e ser violentada por aqueles canalhas.

— Sinto muito pela parte final, Friday, mas você acha que eu ia arriscar à toa a vida do meu melhor agente?

(Estão vendo porque eu trabalho para esse cretino arrogante? A lisonja move montanhas).

— Desculpe, senhor.

— Dê uma olhada na sua cicatriz da apendicectomia.

Toquei a cicatriz por baixo das cobertas. Afastei o lençol para ver.

— O que houve aqui?

— A incisão foi inferior a dois centímetros, bem em cima da antiga cicatriz. O tecido muscular permaneceu intacto. Há vinte e quatro horas reabrimos a incisão e retiramos a encomenda. Com os métodos de rápida restauração usados no seu caso, disseram-me, em dois dias não existirá o menor vestígio da nova cicatriz sobre a antiga. Foi muito bom os Mortensons terem cuidado tão bem de você, porque aqueles sintomas artificiais, provocados para disfarçar o que tinha de ser feito, não eram nada agradáveis. Aliás, há mesmo uma epidemia de febre catarral por lá: uma fachada fortuita.

O chefe fez uma pausa. Recusei-me a perguntar o que eu tinha transportado: ele não iria me dizer. Logo em seguida, acrescentou:

— Você estava contando sobre a viagem de volta.

— A descida foi sem incidentes. Chefe, a próxima vez que o senhor me mandar para o espaço, quero ir de primeira classe, e em nave com antigravidade. Não quero mais saber daquele truque da corda indiana.

— A análise técnica prova que um gancho celeste é muito mais seguro do que qualquer outra nave. O cabo de Quito foi destruído por sabotagem, não por falha material.

— Patético!

— Não faço nenhuma questão de vê-la sofrer. Daqui por diante, você usará as naves antigravidade. Se as circunstâncias e o tempo permitirem. Desta vez tínhamos bons motivos para usar o cabo espacial do Quênia.

— Talvez, mas alguém me seguiu quando saí da cápsula. Matei-o assim que ficamos a sós. — Fiz uma pausa. Algum dia, um belo dia, ainda vou provocar surpresa nesse rosto! Voltei indiretamente ao assunto. — Chefe, preciso de uma reciclagem, com orientação cuidadosa.

— E mesmo? Para quê?

— Meu reflexo de matar ficou muito rápido. Não discrimino mais. Aquele idiota não fez nada para justificar a sentença de morte. Claro, ele estava me seguindo, mas eu poderia muito bem ter-me desvencilhado dele ali ou em Nairóbi; na pior das hipóteses, poderia tê-lo deixado nocauteado e ir embora.

— Vamos discutir essa possível necessidade depois. Continue.

Contei sobre o observador eletrônico, da quádrupla identidade de "Belsen" e de como o despachei aos quatro ventos. Em seguida descrevi minha viagem de retorno. Ele me corrigiu.

— Você não mencionou a destruição do hotel em Nairóbi.

— O quê? Mas, chefe, aquilo não teve nada a ver comigo, eu já estava quase chegando em Mombasa!

— Minha cara Friday, você é muito modesta. Inúmeras pessoas e grandes somas foram usadas para impedir que você completasse a missão, incluindo aquela última tentativa na fazenda. Presuma, ao menos por hipótese, que a explosão do Hilton visava exclusivamente a sua morte.

— Hum... Parece, chefe, que o senhor sabia que a coisa ia ser muito feia. Não podia ter-me avisado?

— Você ia ficar mais alerta, mais resoluta, se eu tivesse enchido a sua cabeça com vagos avisos sobre perigos desconhecidos? Menina, você não cometeu um só erro!

— Essa não! Tio Jim estava me esperando, e não tinha por que saber a hora da minha chegada. Todos os alarmes na minha cabeça deviam ter disparado. No momento em que pus os olhos nele, eu devia ter mergulhado de volta no corredor e tomado a primeira cápsula para onde quer que fosse.

— Isso iria dificultar bastante o nosso encontro, fazendo abortar a sua missão, o que equivaleria a jogar fora a encomenda. Minha filha, se tudo tivesse corrido bem, tio Jim estaria lá do mesmo jeito, mas a meu pedido. Você subestima a minha rede de informações, e também nosso esforço para zelar pelo seu bem-estar. Não mandei Jim porque naquele momento eu estava fugindo. De uma arapuca, para ser preciso. Tentando escapar à toda. Acho que Jim descobriu o horário da chegada sozinho, ou através do nosso homem, ou de um dos seus adversários, ou quem sabe de ambos.

— Chefe, se eu soubesse disso, teria usado Jim como ração para aqueles cavalos. Eu até que gostava dele. Quando chegar a hora, eu mesma quero eliminá-lo. Ele é meu.

— Friday, na nossa profissão não é aconselhável guardar ressentimentos.

— Não guardo muitos, mas tio Jim é especial. E há outro caso que eu também quero tratar pessoalmente, mas depois conversaremos. Diga, é verdade que tio Jim era um pregador papista?

O chefe pareceu quase surpreso.

— Onde você ouviu tamanha besteira?

— Por aí, fofocas.

— Humano, bem humano. Fofoca é um vício. Vou esclarecer as coisas. Prufit era um presidiário. Conheci-o na prisão, onde ele fez um servicinho tão importante para mim que eu lhe arrumei um lugar em nossa organização. Erro meu. Erro imperdoável: um presidiário é sempre um presidiário, não consegue mudar. Sucumbi ao desejo de acreditar, um defeito que pensei ter superado inteiramente. Me enganei. Continue, por favor.

Contei ao chefe como me haviam agarrado.

— Acho que foram uns cinco talvez quatro.

— Seis, creio. Descrições.

— Nenhuma, chefe. Eu estava muito ocupada. Bem, uma só. Dei uma boa olhada nele enquanto o matava. Altura, em torno de 1,75m, pesando 75 ou 76 quilos, idade aproximada de 35 anos. Alourado, bem barbeado, eslavo. Foi o único que meu olho conseguiu fotografar, porque ficou imóvel. Involuntariamente, quando o pescoço quebrou.

— O outro que você matou era louro ou moreno?

— "Belsen"? Moreno.

— Não, na fazenda. Mas esqueça. Você matou dois e feriu três antes de a imobilizarem com o peso deles. Por sinal, mérito do seu instrutor. Ao fugir, não conseguimos nos desfazer totalmente deles, e alguns a pegaram. Mas foi você, na minha opinião, quem ganhou a batalha final, eliminando previamente boa parte dos efetivos do inimigo. Mesmo algemada e inconsciente, você ganhou a batalha final. Continue, por favor.

— Isto é praticamente tudo, chefe. Um estupro coletivo, seguido primeiramente de interrogatório, depois com drogas, depois com dor.

— Sinto muito pelo estupro, Friday. Será recompensada, como sempre. E melhor, com um bônus extra, porque considerei as circunstâncias particularmente agressivas.

— Ora, não foi tão ruim assim. Já não sou uma virgem assustada. Lembro-me de alguns encontros sociais quase tão desagradáveis. Menos um. Não vi o rosto, mas posso identificá-lo um pouquinho antes de fazê-lo morrer.

— Repito o que disse antes. Para nós, ressentimentos pessoais são um erro. Reduzem a probabilidade de sobrevivência.

— Nesse caso vou arriscar, chefe. Não é pelo estupro; eles tinham ordem para me estuprar, obedecendo à imbecil teoria de que me amolece-riam para o interrogatório. Mas aquele pilantra devia ter tomado banho, escovado os dentes e usado um desodorante bucal. E ele terá que saber que não é educado bater na mulher com quem se está copulando. Não vi o rosto, mas conheço o seu cheiro, peso e o apelido, "Pedras."

— Jeremy Rockford.

— Ah! O senhor o conhece? Por onde ele anda?

— Encontrei-o certa vez e recentemente dei uma boa olhada nele, o suficiente para ter certeza. Requiescat in pace.

— Não! Verdade? Espero que não tenha morrido suavemente.

— De fato, não, Friday. Ainda não lhe contei tudo que sei...

— O senhor nunca conta!

—... porque primeiro queria o seu relatório. Eles conseguiram tomar a fazenda porque Jim Prufit cortou a energia instantes antes do ataque. Os que manipulavam os equipamentos ficaram reduzidos a armas manuais e o resto ficou de mãos vazias. Ordenei a retirada e a maioria escapou por um túnel construído quando a casa foi reformada. Tenho orgulho e pesar de dizer que três de nossos melhores homens, os três que possuíam armas quando fomos atacados, decidiram encenar Horácio na ponte. Sei que morreram porque mantive o túnel aberto até perceber que fora invadido pelo inimigo. Aí fiz explodir o túnel. Algumas horas foram necessárias para conseguir pessoal suficiente e preparar o contra-ataque, e principalmente para conseguir veículos motorizados. Poderíamos atacar a pé, mas víamos precisar no mínimo de um VMA como ambulância para você.

— Como sabia que eu estava viva?

— Da mesma forma que soube da invasão do túnel. Receptores sem fio. Friday, tudo o que eles fizeram, tudo o que você fez e disse, e tudo o que você ouviu foi monitorado e gravado. Não o 'fiz pessoalmente, estava ocupado preparando o contra-ataque, mas sempre que o tempo permitia eu repassava as partes essenciais. Quero que saiba que estou orgulhoso de você. Sabendo que transmissor gravava o quê, descobrimos onde você estava presa, que fora algemada, quantos haviam na casa, onde estavam, quando descansavam, quem ficava acordado etc. Através das retransmissões para o comando VMA, eu estava perfeitamente a par da situação na casa até o momento do ataque. Nós atacamos, quer dizer, o nosso pessoal atacou. Eu não comando ataques apoiado nestas bengalas. Transfiro a pasta. Os nossos atacaram, entraram, os quatro designados pegaram você, um deles armado com um defletor de raios, e em três minutos e onze segundos já tinham saído. Aí pusemos fogo na casa.

— Chefe! Aquela casa da fazenda era tão bonita!

— Quando um navio está afundando, vamos nos preocupar com as toalhas do refeitório? Não podemos mais usar aquela fazenda. Incendiando a casa, destruímos muitos registros embaraçosos e muitos dispositivos secretos ou quase secretos. Mas o melhor de tudo é que assim eliminamos rapidamente os invasores que se tinham apoderado dos seus segredos. Nossa artilharia estava pronta antes mesmo de utilizarmos o material incendiário, e todos os que tentavam sair foram mortos. Foi então que vi seu amigo Jeremy Rockford. Queimou a perna quando tentava escapar pela porta leste. Cambaleou, deu meia-volta, mudou de idéia, tentou escapar de novo, caiu e ficou preso lá dentro. Pelos gritos que soltou, posso garantir que não morreu suavemente.

— Puxa, chefe, quando eu disse que queria castigá-lo antes de morrer, não pensava na horrível possibilidade de queimá-lo vivo.

— Se ele não se tivesse comportado como um cavalo, voltando para o estábulo em chamas... teria morrido sossegadamente, por raio laser. E na hora, pois não fizemos prisioneiros.

— Nem mesmo para interrogatório?

— Doutrina incorreta. Minha cara Friday, você não levou em conta o clima emotivo. Todos tinham ouvido as fitas, pelo menos as do estupro e do interrogatório. Nossos rapazes e meninas não iam querer prisioneiros, mesmo que eu ordenasse. Nem tentei. Quero que saiba que tem um alto conceito entre os seus colegas, incluindo gente que você nunca viu e provavelmente nunca verá.

O chefe apanhou as bengalas, levantou-se com dificuldade.

— Excedi em sete minutos o tempo que seu médico estabeleceu para esta visita. Amanhã voltamos a conversar. Relaxe agora. Uma enfermeira vem aí para fazê-la dormir. Descanse, e melhoras!

Tive alguns minutos para mim mesma. Passei-os envolta numa aura de ternura. "Alto conceito." Quando você nunca se pertenceu, nem se poderá pertencer, palavras como estas significam tudo. Confortaram-me tanto que naquele momento nem me importei de não ser humana.


 

Algum dia ainda vou ganhar numa discussão com o chefe.

Mas não se espantem!

Houve dias em que não perdi — aqueles em que ele não veio me visitar.

Tudo começou com uma divergência a respeito do tempo que eu teria de ficar em tratamento. Depois de quatro dias eu me considerava apta a voltar para casa ou para o trabalho. Embora ainda sem fôlego para enfrentar uma boa luta no cais do porto, mas me sentia pronta para serviços leves — ou para uma viagem à Nova Zelândia, aliás, a minha preferida. Todos os meus ferimentos estavam melhorando. Não tinham sido exageradamente graves: algumas queimaduras, quatro costelas quebradas, fraturas simples de tíbia e fíbula esquerdas, fraturas múltiplas dos ossos do pé direito e de três dedos do esquerdo, uma lesão superficial e descomplicada no crânio e (horrível porém em nada estropiante), alguém tinha arrancado meu mamilo direito.

Este último item, as queimaduras e os dedos do pé quebrados eram os únicos de que me recordava; os outros devem ter ocorrido enquanto eu estava ocupada com assuntos mais importantes.

O chefe disse:

— Friday, você sabe muito bem que para refazer este mamilo são necessárias pelo menos seis semanas.

— Mas o Dr. Krasny disse que uma simples cirurgia plástica se curaria em uma semana.

— Escute aqui, mocinha, quando um membro desta organização é mutilado em ação, deve ser reconstituído com a mais absoluta perfeição da arte terapêutica. Além desta nossa filosofia, no seu caso existe outra razão bem forte. Cada um de nós tem a obrigação moral de conservar tudo que existe de belo neste mundo. A beleza não pode ser desperdiçada. Você tem um corpo excepcionalmente gracioso; qualquer dano seria lamentável. Portanto deverá ser corrigido.

— Eu já disse que concordo com a cirurgia plástica. Não pretendo amamentar, e quem for para a cama comigo não vai ligar.

— Friday, mesmo que você se tenha convencido de que nunca vai precisar amamentar, esteticamente um seio funcional é muito diferente de uma mera imitação pela cirurgia. O hipotético parceiro pode não notar... mas você sabe, e eu também. Não, minha cara. Vamos reconstituir a perfeição original.

— Hum... Quando é que o senhor vai mandar regenerar esse seu olho?

— Não seja grosseira, minha filha. No meu caso, a questão não é estética.

E assim devolveram-me o bico do seio, perfeito — quem sabe, até mais do que antes. A discussão seguinte foi a respeito do retreinamento que eu julgava necessário por causa do meu reflexo de matar. Quando voltei ao assunto, o chefe fez uma cara de quem comeu e não gostou.

— Friday, não consigo me lembrar de algum caso em que você tenha errado quando matou. Você andou matando sem eu saber?

— Não, não! — respondi apressadamente. — Nunca matei ninguém antes de trabalhar para o senhor, e depois sempre o informei.

— Nesse caso, todas as vezes que você matou foi em legítima defesa.

— Todas, menos aquele tal de "Belsen". Aquilo não foi em legítima defesa. Ele não me encostou nem um só dedo.

— Beaumont. Pelo menos era o nome que ele usava normalmente. A legítima defesa muitas vezes assume as características de "faça aos outros aquilo que eles gostariam de fazer com você, mas faça primeiro". De Camp, creio. Ou outro qualquer da escola dos filósofos pessimistas do século XX. Vou pedir o dossiê de Beaumont para você ver por si mesma que ele estava em todas as listas de morte urgente.

— Não vale a pena. Quando examinei aquela sacola, tive certeza de que ele não estava me seguindo só pelos meus belos olhos. Mas o exame foi depois.

O chefe levou alguns segundos para responder, bem mais do que o normal.

— Friday, você quer mudar de ramo e passar a ser um matador?

Meu queixo caiu, meus olhos se esbugalharam. Foi a minha resposta.

— Não tive intenção de assustá-la — disse o chefe secamente. — Você já deve ter concluído que esta organização inclui assassinatos. Não quero perdê-la como mensageiro; você é o melhor de todos; mas sempre precisamos de assassinos hábeis, uma vez que nesta área a proporção de desgaste é bem elevada. Existe, entretanto, uma diferença básica entre um mensageiro e um assassino: um mensageiro mata somente em legítima defesa e muitas vezes por reflexo... e, reconheço, sempre com possibilidade de erro... já que nem todos os mensageiros têm o seu excepcional talento de integrar imediatamente todos os fatores e chegar à conclusão necessária.

— Como é!?

— Você me ouviu perfeitamente, Friday. Uma de suas fraquezas é a falta de auto-estima. Um matador que se preza não age por reflexo; mata deliberadamente. Se o plano sair mal, e ele precisar matar por reflexo, em breve não passará de estatística. Em todos os homicídios planejados ele tem que saber por que e concordar com a necessidade... do contrário escolho outro.

(Mortes planejadas? Assassinatos, por definição. Levantar de manhã, tomar um lauto café, ir ao encontro da vítima e liquidá-la a sangue-frio? Jantar e dormir um sono tranqüilo?)

— Chefe, acho que esse trabalho não faz meu gênero.

— Não tenho certeza se você possui o temperamento adequado para a função, mas por via das dúvidas considere a possibilidade. Não penso em diminuir seu reflexo de defesa. Além disso, posso garantir também que, se tivermos de submetê-la a novo treinamento, como você quer, não vou mais usá-la como mensageiro. Não mesmo. Arriscar a vida é problema seu... quando não está a serviço. Acontece que suas tarefas são sempre críticas e não vou utilizar um mensageiro com reflexos amortecidos.

O chefe não me convenceu, mas fiquei insegura. Quando repeti que não queria ser um matador, fingiu estar surdo; disse apenas que ia me mandar alguma coisa para ler.

Pensei que, fosse lá o que fosse, por certo apareceria no terminal do quarto. Contudo, uns vinte minutos depois, um jovem — bem, pelo menos mais jovem do que eu — apareceu com um livro, um livro encadernado, com páginas de papel. Tinha número de série e estava carimbado INFORMAÇÃO ALTAMENTE CONFIDENCIAL — IMPRESCINDÍVEL AUTORIZAÇÃO DEPARTAMENTO AZUL. .

Olhei, segurei-o com a aflição de quem segura uma cobra.

— É para mim? Deve haver algum engano.

— O velho nunca se engana. Basta assinar o recibo.

Ele esperou enquanto eu lia as instruções.

— Este trecho diz: "Não perca de vista." Como é? Eu durmo de vez em quando.

— Ligue para o arquivo, peça para falar com o encarregado dos documentos classificados: Sou eu. Venho num piscar de olhos. Mas não durma até eu chegar. Não mesmo.

— Está bem. — Assinei o recibo, olhei-o e vi que me encarava interessadíssimo.

— O que é que você está olhando?

— Senhorita Friday, como é bonita!

Nunca sei o que responder nessas horas, visto que não sou bonita. Certo, tenho um corpo bonito, mas na ocasião estava vestida.

— Como descobriu o meu nome?

— Ora, todos sabem quem a senhora é. O caso na fazenda, há duas semanas. A senhora estava lá.

— É, eu estava. Mas não me lembro.

— Mas eu me lembro. — Os olhos dele brilharam. — Foi a única oportunidade que tive de participar de uma operação de combate. Gostei de tê-lo feito.

(O que você faria numa hora dessas?)

Estendi o braço, puxei-o para mim, tomei seu rosto entre as mãos e beijei-o cuidadosamente, no gênero irmã-amorosa, mas vamos transar! O protocolo talvez exigisse algo mais forte, mas ele estava de serviço e eu ainda permanecia na lista dos incapacitados. Não era justo sugerir promessas que talvez não fossem cumpridas, principalmente diante de olhos que faiscavam tanto.

— Obrigada por me salvar — disse eu ajuizadamente, antes de largar seu rosto.

A adorável criatura enrubesceu, mas pareceu bem satisfeita.

Fiquei acordada até tão tarde, lendo, que a enfermeira da noite reclamou. Mas toda enfermeira, afinal, costuma precisar de algum motivo para reclamar. Não vou citar passagens daquele documento inacreditável... mas atentem para estes tópicos:

 

O Primeiro título: A única arma mortal. Em seguida...

Assassinato como arte pura

Assassinato como instrumento político

Assassinato por lucro

Assassinos que mudaram a história

A sociedade para uma eutanásia criativa

Os cânones da Associação dos Assassinos Profissionais

Assassinos amadores: devem ser exterminados?

Honrados matadores — alguns casos históricos

"Preconceito desmedido" — "processo úmido" — Para que os eufemismos?

Conferências publicadas: Técnicas & Instrumentos

 

Ufa! Não havia razão para ler tudo. Mas li. Era de um fascínio pecaminoso. Sujo.

Decidi nunca mais mencionar a possibilidade de mudar de ramo e jamais tocar no assunto d?reciclagem. O chefe que o aborde de novo se quiser. Digitei o código do arquivo no terminal, declarei que precisava do encarregado dos documentos classificados para custodiar o documento tal e tal e que ele, por favor, trouxesse meu recibo.

— Imediatamente, senhorita Friday — respondeu uma mulher. Popularidade!...

Esperei, inquieta, que o jovem chegasse. Tenho vergonha de confessar que aquele livro venenoso me fez um mal terrível. Era tarde, alta madrugada, e pairava no ar um silêncio mortal. Se a adorável criatura me tocasse, eu era bem capaz de esquecer que, tecnicamente, estava inválida. Precisava de um cinto de castidade com um cadeado bem forte.

Mas não era ele; o gracioso jovem já tinha saído. Quem apareceu j

trazendo meu recibo foi a tal senhora que atendera no terminal. Fiquei ao mesmo tempo aliviada e desapontada, com vergonha pelo desaponto. A convalescença nos deixaria irresponsavelmente ousados? Hospitais têm problemas de disciplina? Não sei, não fico doente a toda hora.

A encarregada da noite permutou o livro pelo recibo e surpreendeu-me, perguntando:

— Não vou ganhar o meu beijo?

— Você também estava lá?

— Todos estavam, querida, naquela noite havia pouquíssimos efetivos. Não sou o que há de melhor no mercado, mas recebi treinamento básico, como qualquer um. Sim, eu estava lá. Não ia.perder por nada deste mundo.

Eu disse "Obrigada por me salvar" e beijei-a. Tentei levar tudo como uma simples questão simbólica, mas ela entrou de sola e ditou as regras. Vigorosa e turbulenta. O que ela me dizia, muito melhor do que com palavras, era que a qualquer momento que eu decidisse variar ela estaria esperando.

O que fazer? Parece que existem situações para as quais não há protocolos estabelecidos. Eu acabara de reconhecer que ela tinha arriscado a vida para salvar a minha — aquele ataque não tinha sido a canja que o relato do chefe fizera parecer. A modéstia habitual do chefe é de tal ordem, que, para ele, a destruição total de Seattle seria um mero "abalo sísmico". Tendo acabado de lhe agradecer por salvar minha vida, como poderia esnobá-la?

Não poderia. Deixei que parte do meu beijo respondesse à mensagem silenciosa. E cruzei os dedos para não ter que cumprir a promessa nele implícita.

Logo ela encerrou o beijo, mas continuou me abraçando.

— Querida — disse —, quer saber de uma coisa? Você se lembra dos desaforos que disse àquele pateta que eles chamavam de major?

— Lembro.

— Existe uma fita pirata circulando por aí com aquela passagem. O que você disse, e como o disse, é admirado por todos. Principalmente por mim.

— Interessante. Foi você o duende que copiou esse trecho da fita?

— Puxa! Como pode pensar uma coisa destas? — Esboçou um amplo sorriso. — Você se importa?

Refleti durante três milésimos de segundo.

— Não. Se quem me salvou gosta de ouvir o que eu disse àquele canalha, não me importo. Mas não é assim que falo habitualmente.

— Sabemos que não. — Deu-me uma beijoca, mais parecendo uma bicada. — Mas falou quando foi necessário, e todas as mulheres na Companhia estão orgulhosas de você. Nossos homens também.

Ela não parecia disposta a me soltar, mas a enfermeira da noite apareceu e me despachou com firmeza para a cama, dizendo que ia me aplicar uma injeção para dormir. Manifestei apenas um protesto formal. A encarregada disse: "Olá, Goldie. Boa noite, querida", e saiu.

Goldie (não devia ser o nome verdadeiro — era uma falsa loura) disse:

— Quer no braço ou na perna? Não ligue para Anna; é inofensiva.

— É boa gente. — Ocorreu-me que Goldie provavelmente monitorava sons e imagens. Provavelmente? Com certeza! — Você também estava lá? Na fazenda? Quando incendiaram a casa?

— Não durante o incêndio. Eu estava com você numa VMA, a toda. Seu aspecto era medonho, senhorita Friday.

— Aposto que sim, Obrigada. Goldie? Quer me dar um beijo de boa-noite?

Foi um beijo afetuoso e casual.

Descobri depois que ela era uma das quatro pessoas que foram correndo me pegar no andar de cima — um homem levou defletores de raios, dois outros entraram armados, atirando... e Goldie carregou sozinha uma padiola dobrável. Mas ela não mencionou o fato, nem ali nem mais tarde.

 

Lembro-me daquela convalescença como sendo a primeira vez na minha vida, com exceção das férias em Christchurch, em que me senti, noite e dia, cálida e sossegadamente feliz. Por quê? Porque eu pertencia!

Como qualquer um pode adivinhar por este relato, minha situação há alguns anos melhorara muito. Eu não usava mais uma carteira de identidade com um AL impresso em letras garrafais (ou mesmo um PA). Eu já podia entrar num banheiro sem ninguém me mandar usar a última cabine. Mas uma identidade falsa e uma árvore genealógica forjada não confortam ninguém; só impedem que você seja perseguida e discriminada. Mas você sabe muito bem que não existe uma única nação, em qualquer lugar, que considere sua espécie vendida, se seu disfarce fosse descoberto.

Uma pessoa artificial carece de árvore genealógica. Muito mais do que você possa imaginar. Onde você nasceu? Bem, eu não nasci propriamente, fui projetada nos Laboratórios de Engenharia Biológica da Tri-University, Detroit. É mesmo? Brotei de uma formulação feita por Mendelian Associados, Zurique. Uma historinha agradável essa, que você nunca vai escutar, porque não é compatível com ancestrais do Mayflower ou como Domesday Book. Meus registros (ao menos um conjunto deles) mostram que eu "nasci" em Seattle. Uma cidade destruída é um excelente local para registros desaparecidos. O lugar ideal para perder também os parentes mais próximos.

Como nunca estive em Seattle, estudei cuidadosamente todos os registros e fotografias que encontrei. Um legítimo nativo de Seattle não consegue me enganar. Eu acho. Pelo menos até agora nenhum conseguiu.

Mas o que eu recebi enquanto me recuperava daquele estupro idiota e daquele interrogatório nada engraçado não era falso e eu não precisei me preocupar em divulgar minhas mentiras. Não foram só Goldie e Anna e aquele jovem (Terence), foram mais de vinte pessoas antes que o Dr. Krasny me desse alta. Foram os únicos com quem tive contato. Muitas outras pessoas participaram daquele ataque, não cheguei a saber quantas. A doutrina oficial do chefe impedia que os membros da organização se encontrassem, exceto quando obrigações exigiam. Ele também ignorava perguntas. Segredos não revelados não se divulgam, e não se trai quem não se conhece.

O chefe não estabelecia regras pelo prazer de estabelecê-las. Se por acaso fizéssemos amizade durante uma missão era permitido mantê-la socialmente. Embora jamais estimulasse essas confraternizações, não era tolo, não tentava impedi-las. Por isso Anna sempre me visitava antes de assumir seu plantão.

Não tentou cobrar a promessa daquela noite. As oportunidades também não foram muitas, mas, se quiséssemos, encontraríamos uma. Não procurei desestimulá-la — bolas, não mesmo! Se ela tivesse apresentado a conta, eu não só pagaria de bom grado como tentaria convencê-la de que a idéia fora minha.

Mas não apresentou. Acho que Anna era como um homem sensível (dos bem raros) que jamais agarra uma mulher quando ela não quer ser agarrada — percebe isso e não tenta.

Certa noite, pouco antes da minha alta, eu me sentia especialmente feliz. Naquele dia eu ganhara dois novos amigos: "amigos beijoqueiros” pessoas que tinham participado do ataque. Tentei explicar a Anna por que aquilo tudo era tão importante para mim, e quando me dei conta estava começando a revelar que não era exatamente aquilo que parecia ser.

Ela me interrompeu:

— Friday, querida, escute sua irmã mais velha.

— Hum? Fiz alguma besteira?

— Quase. Lembra da noite em que nos encontramos e você me devolveu aquele documento classificado? Eu tenho passe livre, há anos, por ordem do homem das bengalas em pessoa. Nunca abri aquele livro, nem vou abrir. A capa diz AUTORIZAÇÃO IMPRESCINDÍVEL, e nunca me disseram que eu devia conhecer aquele conteúdo. Você leu, mas eu não conheço nem o título, nem o assunto, só o número. Casos pessoais são assim. Existiu certa vez um grupo militar de elite, uma legião estrangeira que se gabava de que seus legionários começavam a ter história a partir do dia do alistamento. O homem das bengalas quer que sejamos assim também. Por exemplo, se temos que contratar um artefato vivente, uma pessoa artificial, o encarregado do pessoal sabe. Eu sei, porque já fui encarregada do pessoal. Registros são forjados, uma cirurgia plástica é necessária, em alguns casos ocorre eliminação e conseqüente regeneração de identificações de laboratório... Quando terminamos, a pessoa não precisa se preocupar com tapinhas no ombro nem em ser expulsa de uma fila. Pode até casar, ter filhos, sem se afligir com futuros problemas para as crianças. Também não precisa se inquietar comigo, já que fui treinada para esquecer. Muito bem, querida, não sei o que você tinha em mente. Mas se era alguma coisa que não costuma revelar às pessoas, não me conte, senão amanhã vai se odiar quando acordar.

— Não eu!

— Está bem. Se daqui a uma semana você ainda quiser me contar, vou ouvir. Combinado?

Anna estava certa. Na semana seguinte, eu já não sentia necessidade de desabafar. Tenho quase certeza de que ela sabia. De qualquer forma é maravilhoso ser amada pelo que você é, por alguém que não ache que PAs sejam monstros subumanos.

Não sei se os meus outros adoráveis amigos sabiam ou desconfiavam. (Não me refiro ao chefe; ele sabia, é claro, mas ele não era um amigo, era o "chefe".) Se meus novos amigos descobrissem que eu não era humana, não tinha importância. Acabei entendendo que ou eles não se importavam, ou deixariam de se importar. Para eles, o que importava era saber se você fazia ou não parte do time do chefe.

Certa noite o chefe apareceu fazendo barulho com as bengalas e resmungando, Goldie atrás. Arriou pesadamente na poltrona das visitas e disse a Goldie: "Não vou precisar de você, enfermeira. Obrigado." Em seguida, para mim: "Tire a roupa."

Partindo de qualquer outro homem no mundo, isto seria ofensivo ou agradável, depende. Partindo do chefe, significava simplesmente que ele queria que eu tirasse a roupa. Goldie também interpretou assim, pois assentiu com a cabeça e saiu, e Goldie é um daqueles profissionais que atacaria o próprio Siva, o Destruidor, se ele tentasse molestar um de seus pacientes.

Tirei rapidamente a roupa e esperei. Olhou-me de alto a baixo.

— Estão iguais outra vez.

— Também acho.

— O Dr. Krasny disse que fez um teste funcional de lactação. Positivo.

— É. Ele fez uma proeza com meu equilíbrio hormonal; os dois pingaram um pouco. Foi esquisito. Aí ele restabeleceu o equilíbrio e sequei outra vez.

O chefe resmungou.

— Vire-se. Mostre-me a planta do pé direito. Agora o esquerdo. Está bem. As cicatrizes das queimaduras desapareceram.

— Até onde eu posso enxergar. O doutor disse que as outras também já estão regeneradas. A coceira passou, então deve ser verdade.

— Pode se vestir. O Dr. Krasny me disse que você está bem.

— Se eu estivesse melhor do que estou, teriam que me fazer uma sangria.

— Bem é absoluto, não tem comparativos.

— Certo, então estou "beníssima".

— Imprudência. Amanhã de manhã você vai para o treinamento de revigoração. Esteja pronta às zero-nove-zero-zero.

— Como eu não trouxe nem mesmo um sorriso alegre quando cheguei, não vou levar mais de onze segundos para fazer minhas malas. Mas eu preciso de uma nova identidade, novo passaporte, novo cartão de crédito, um bocado de dinheiro...

— Tudo isso lhe será entregue antes das zero-nove-zero-zero.

— ... porque eu não vou para a revigoração, vou mesmo é para a Nova Zelândia. Chefe, já cansei de dizer que, tendo terminada a R & R, acho que mereço uma licença remunerada para tratamento de saúde como compensação do tempo em que estive acamada. O senhor é um feitor de escravos.

— Friday, quando você vai aprender que se eu lhe contrario um capricho é pensando no seu bem-estar e na eficiência da organização?

— Seja louvado o grande pai branco! Humildes desculpas. Mando um cartão-postal de Wellington.

— De um belo Maori, por favor; nunca vi um gêiser. A revigoração será adaptada às suas necessidades, e você é quem vai decidir quando terminar. Embora esteja "beníssima", precisa de preparo físico, com dificuldades cuidadosamente progressivas para trazê-la de volta àquele soberbo tônus muscular, velocidade e reflexos que são de seu direito por nascimento.

— Direito por nascimento! Que piada, chefe! O senhor não tem talento cômico. Minha mãe era um tubo de ensaio, e meu pai um bisturi.

— Sua boba, está constrangida com um obstáculo removido anos atrás.

— Ah, estou? Os tribunais dizem que não posso ser um cidadão, as igrejas, que não tenho alma. Não sou "um ser nascido de mulher", pelo menos aos olhos da lei.

— A lei é imbecil. Os registros sobre a sua origem foram retirados dos arquivos do laboratório e substituídos por um dossiê falso relativo a uma PA aperfeiçoada do sexo masculino.

— O senhor nunca me contou isso.

— Você ainda não tinha exibido essa fraqueza neurótica; portanto, não foi preciso. Mas uma fraude desse tipo deve ser perfeita, a ponto de eliminar completamente a realidade. E assim foi feito. Se amanhã você quiser provar sua verdadeira origem, não vai conseguir. Nenhuma autoridade, em qualquer lugar, irá acreditar em você. Pode contar a quem quiser, não importa. Mas, minha cara, por que se mantém nessa rígida defensiva? Você, além de ser tão humana quanto a Mãe Eva, é um humano aperfeiçoado, quase ao nível pretendido por seus projetistas. Por que acha que me dei ao trabalho de recrutá-la sem experiência e sem qualquer interesse especial por esta profissão? Por que gastei uma pequena fortuna com o seu treinamento e sua educação? Porque eu sabia. Esperei alguns anos para verificar se na verdade estava se desenvolvendo segundo os planos dos seus arquitetos... e quase a perdi quando de repente você sumiu do mapa. — Ele fez uma careta que achei fosse um sorriso. — Você me deu trabalho, garota. Mas vamos ao seu treinamento. Quer saber?

— Quero, senhor.

(Não tentei falar sobre a creche do laboratório; os humanos pensam que todas as creches são iguais às que conhecem. Não contei sobre a colher de plástico, meu único talher até os dez anos, não quis confessar que a primeira vez que tentei usar um garfo.furei o lábio, sangrei, e todos riram de mim. Não é só uma coisinha, são milhões de coisinhas que constituem a diferença entre ser educada como uma criança humana e ser criada como um animal.)

— Você vai reciclar-se em combate desarmado, mas deve treinar somente com seu instrutor, não quero uma única mancha em você quando for visitar sua família em Christchurch. Receberá treinamento avançado em armas manuais, incluindo algumas de que você jamais ouviu falar e de que vai precisar se mudar de ramo.

— Chefe, eu não vou me tornar uma assassina.

— De qualquer maneira, vai precisar. Há ocasiões em que um mensageiro precisa portar armas, e precisa de toda experiência. Friday, não despreze os assassinos indiscriminadamente. Com qualquer instrumento, o mérito ou demérito está na forma como é utilizado. O declínio e a queda dos antigos Estados Unidos da América do Norte são em parte conseqüência de assassinatos. Mas apenas em parte, pois foram assassinatos sem padrão determinado, despropositados. O que sabe você a respeito da Guerra Russo-Prussiana?

— Não muito. Principalmente que os prussianos foram absolutamente acuados quando todos achavam que iam vencer.

— E se eu disser que doze pessoas ganharam aquela guerra — sete homens, cinco mulheres — e que o armamento mais pesado que utilizaram foi uma pistola de seis milímetros?

— Acho que o senhor nunca mentiu para mim. Como?

— Friday, a inteligência é a mais rara de todas as mercadorias, e a única de real valor. Qualquer organização humana pode ser desmantelada, tornar-se impotente e um perigo para si própria se, de modo seletivo, forem removidos os mais inteligentes, deixando-se cuidadosamente que sejam substituídos por imbecis. Apenas alguns "acidentes" cuidadosos foram necessários para arruinar totalmente a poderosa máquina militar da Prússia, transformando-a numa caótica. Mas isso só ficou evidente depois que a luta estava bem adiantada, porque antes do combate os seres obtusos são perfeitamente iguais aos gênios militares.

— Só doze? Chefe... por acaso nós realizamos o trabalho?

— Você sabe muito bem que não incentivo este tipo de pergunta. Não, não fomos nós. Foi um serviço contratado, feito por uma organização pequena e especializada como a nossa. Não gosto de me envolver em guerras nacionalistas; é muito difícil saber de que lado estão os anjos.

— Continuo não querendo ser assassina.

— Não vou permitir que você seja uma assassina, e não vamos mais falar nisso. Esteja pronta para partir amanhã às nove.


 

Nove semanas depois, parti para a Nova Zelândia.

Uma coisa eu digo em favor do chefe: aquele gigolô arrogante sempre sabe o que faz. Quando o Dr. Krasny me liberou, eu não estava "beníssima", era apenas uma paciente recuperada que não precisava mais dos cuidados de uma enfermaria.

Em nove semanas eu estava apta a ganhar alguns prêmios das antigas Olimpíadas sem ao menos suar a camisa. Quando embarquei no SB Abel Tasman, no porto livre de Winnipeg, o comandante me olhou interessado. Eu sabia que estava com boa aparência, e acrescentei um ondular de quadris que jamais usaria numa missão. Como mensageiro, sempre procurei passar despercebida, mas agora, de folga, era divertido exibir alguns dotes. Aparentemente, eu sabia fazê-lo, pois o comandante veio me ver quando eu apertava o cinto. Ou talvez fosse o macacão supercolante que usava — a última moda da estação e o primeiro que tive; comprei-o no porto livre e troquei de roupa na loja. Garanto que é só uma questão de tempo, e as seitas que confundem sexo com pecado vão dizer que usar um supercolante é pecado mortal.

Ele disse:

— É a senhorita Baldwin, não? Alguém a espera em Auckland? Com a guerra e essa confusão toda não é bom uma mulher andar sozinha num porto internacional.

(Eu não disse: "Olha aqui, garotão, o último que tentou eu matei.") O capitão tinha 1,95m, devia pesar mais de 100 quilos, nem um grama de gordura. Trinta e poucos anos, aquele tipo de louro que você espera encontrar na SAS, mas não na ANZAC. Se estava querendo bancar o protetor, eu não pretendia atrapalhar. Respondi:

— Ninguém vai me esperar, mas só vou fazer baldeação para o expresso de South Island. Como funcionam estas fivelas? Ih! Essas divisas significam que você é o comandante?

— Eu ensino. Comandante, sim, comandante Ian Tormey. — Começou a prender meu cinto. Deixei.

— Comandante! Oba! Você é o primeiro comandante que conheço.

Uma resposta assim não pode ser considerada lorota, pois é parte do ritual da antiga dança do celeiro. Ele disse:

— Eu hoje estou a fim, e você é bonita. Está interessada? E eu respondi:

— Você é bem aceitável, mas sinto ter que dizer que hoje não tenho tempo.

Neste instante, ou ele suspenderia a sessão, sem ressentimento, ou investiria em boas intenções, visando a um futuro encontro. Escolheu o segundo alvitre.

Quando acabou de apertar meu cinto, bem apertado, mas não demais, sem aproveitar a oportunidade para uma encostadinha — trabalho profissional —, disse:

— Os horários para aquela conexão estão atualmente bem apertados. Se você ficar para trás no desembarque e sair por último, terei prazer em colocá-la a bordo do seu Kiwi. Será bem mais rápido do que furar sozinha a multidão.

(A conexão leva vinte e sete minutos, comandante, sobram vinte para tentar desfazer meu sinal de comando. Mas, se continuar agradável, eu talvez o transfira para você.)

— Ora, muito obrigada, comandante! Se não for muito trabalho...

— Cortesia da ANZAC, senhorita Baldwin. Mas o prazer é todo meu.

Gosto de viajar nos semibalísticos: o lançamento em alta-g, que dá a impressão de arrebentar o assento e derramar fluido por toda a cabine, os minutos sem respiração em queda livre, quando parece que o estômago vai sair pela boca, a reentrada, e enfim, planar, o melhor passeio celestial já inventado. Há outra maneira melhor de se distrair, vestida, em 40 minutos?

Surge então uma questão sempre interessante: Será que a pista está livre? Um semibalístico não tenta duas vezes. Não pode.

Está escrito aqui no folheto que um SB nunca decola sem antes receber autorização do porto de reentrada. Certo, certo, e eu acredito na cegonha tanto quanto os pais do chefe. E quanto ao idiota no VMA, que entra na pista errada e estaciona? E aquela vez em Cingapura, quando eu estava no bar do convés superior e vi três SB aterrissarem em nove minutos — claro que não na mesma pista, mas em pistas transversais! Roleta-russa.

Vou continuar viajando neles, gosto dos semibalísticos, e minha profissão muitas vezes o exige. Mas prendo a respiração no momento em que aterrissamos até a parada total.

Como sempre, a viagem foi divertida, e como não pode ser longa num semibalístico nunca é cansativa. Fiquei para trás quando aterrissamos, e meu amável conquistador já estava fora da cabine quando saí. Um comissário entregou minha sacola, que o comandante segurou imediatamente apesar dos meus protestos pouco sinceros.

Levou-me ao portão da conexão, encarregou-me de confirmar minha reserva e escolher meu lugar, driblou o aviso "Exclusivamente Passageiros" e sentou-se perto de mim.

— É uma pena que você tenha de ir embora tão depressa, quer dizer, uma pena para mim. Segundo o regulamento, meu rodízio é de três dias... e estou sem paradeiro. Minha irmã e o marido moravam aqui, mas mudaram-se para Sydney e não tenho ninguém para visitar.

(Posso bem imaginá-lo passando todo seu tempo de folga com a irmã e o cunhado.)

— Mas que pena! Sei como você se sente. Minha família está em Christchurch e me sinto sempre solitária quando estou longe dela. Uma família grande, amistosa. Ruidosa, casei-me num grupo-S. (Eu costumo contar logo.)

— Que maravilha! Quantos maridos você tem?

— Comandante, esta é sempre a primeira coisa que os homens perguntam. E isso porque não entendem o que é um grupo-S. Pensam que o S é de sexo.

— E não é?

— Santo Deus! Não! S de segurança, sociabilidade, santuário, socorro e muitas outras coisas, todas elas ternas, doces e reconfortantes. Ora, pode significar sexo também. Mas sexo pode ser facilmente encontrado em qualquer lugar. Não é necessário formar um grupo tão complicado como o S só por causa de sexo.

(O S corresponde à Família Sintética, designação dada pela legislação da primeira nação territorial, a Confederação da Califórnia, que a legalizou. Mas, aposto dez contra um, que o comandante já sabia disso. Estávamos simplesmente passando pelas variações normais do Grande Cortejar).

— Já não encontro atividade sexual com tanta facilidade...

(Recusei responder à investida. Comandante, com a sua altura, seus ombros largos, essa aparência saudável e bem cuidada e a maior parte do tempo livre para A Caçada... em Winnipeg e Auckland, caramba, dois lugares de colheita sempre farta... Ora, por favor... conte outra!)

— ... mas concordo com você que isso não é motivo para casar. Acho que nunca vou casar... porque sou do bando dos gansos selvagens. Mas um grupo-S parece um grupo digno de provocar saudades.

— E é.

— Quantas pessoas são?

— Ainda interessado nos meus maridos? Tenho três maridos, meu caro, e três irmãs grupais por casar... Acho que você gostaria de todas elas — especialmente Lispeth, a mais nova e a mais bonita. Liz é uma ruiva escocesa, bem namoradeira. Filhos? Claro! Tentamos contá-los todas as noites, mas eles se mexem demais. E gatinhos, patos e cachorrinhos, um jardim maravilhoso com rosas o ano inteiro, ou quase. É um lugar movimentado e feliz, e é preciso sempre ter cuidado para ver onde se pisa.

— Parece ótimo. Será que o grupo não precisa de um marido associado, que quase não pára em casa, mas possui uma porção de seguros de vida? Quanto custa para entrar?

— Vou falar com Anita. Mas você não parece estar falando sério. O blábláblá continuou, nós dois falando da boca para fora, tudo

num nível simbólico. Mas logo demos o jogo por empatado, tentando um novo reencontro. Trocamos códigos, dei-lhe o da minha família em Christchurch como resposta à oferta de uso ocasional do seu apartamento em Auckland. Ele assumira o leasing quando a irmã se mudou, mas só o utilizava uns seis dias por mês.

— Portanto, se você passar por aqui e precisar de um lugar para um banho rápido e uma soneca, ou passar uma noite, basta ligar.

— Mas, Ian — ele me pedira para deixar o comandante de lado —, e se um dos seus amigos, ou mesmo você, estiver usando o apartamento?

— Pouco provável, mas, se for o caso, o computador avisa. Se eu estiver na cidade, ou para chegar, também vai avisar... e eu não gostaria de perder a oportunidade de vê-la.

Passe direto, mas extremamente educado. Respondi informando o nosso número em Christchurch, dando a entender que se quisesse tentar tirar as minhas calcinhas... seria bem-vindo se tivesse peito para enfrentar meus maridos, minhas co-esposas e um bando de crianças barulhentas. Achei bem improvável ele ligar. Solteirões jovens, com empregos fascinantes e gordos salários não precisam de tais manobras extremas.

Foi então que o alto-falante, que resmunga as chegadas e as partidas, interrompeu-se para dizer: "É com grande pesar que fazemos esta pausa para anunciar a destruição total de Acapulco. Este flash chega a você por cortesia da Intramundo Transport, Concessionária da linha dos Três "S" — supervelocidade, segurança, serviço."

Engoli em seco. O comandante Ian disse:

— Ora, aqueles idiotas!

— Que idiotas?

— Todo o Reino Revolucionário Mexicano. Quando é que os estados territoriais vão aprender que provavelmente não podem vencer os estados incorporados? Por isso eu disse que são idiotas. E eles são mesmo!

— Por que diz isso, comandante?... Ian?

— Porque é óbvio. Qualquer estado territorial, mesmo que seja um L-4 ou um asteróide, é um freguês fácil. Mas lutar contra uma multinacional é o mesmo que querer contar a neblina em fatias. Onde está o alvo? Pretende lutar contra a IBM? Onde está ela? O escritório central é um número de caixa postal no Estado Livre de Delaware. Não é um alvo. Os escritórios, empregados e fábricas da IBM estão espalhados por mais de quatrocentos estados territoriais diferentes na Terra e outros tantos no espaço; é impossível atingir qualquer setor da IBM sem prejudicar mais alguém. E mesmo a IBM, será que consegue derrotar, por exemplo, a Grande Rússia?

— Não sei — admiti. — Os prussianos não conseguiram.

— Bem, depende de a IBM achar ou não lucrativo. Que eu saiba, a IBM não tem guerrilheiros, pode até nem ter agentes sabotadores. Talvez precise comprar as bombas e os mísseis. Mas pode fazê-lo e levar o tempo que quiser para se preparar, porque a Rússia não vai mudar de lugar. Daqui a uma semana, ou mesmo um ano, ainda estará imóvel, um alvo grande e gordo. A Intermundos de Transportes acaba de mostrar qual seria o resultado. Esta guerra está em toda parte. O México apostou que a Intermundos não se arriscaria à desaprovação pública ao destruir uma cidade mexicana. Mas aqueles políticos antiquados esqueceram que, na verdade, nações corporadas não estão interessadas na opinião pública. Já as nações territoriais têm que estar. A guerra acabou.

— Puxa, espero que sim. Acapulco é... era... um lugar lindo.

— Era, e ainda seria um lindo lugar se o Conselho Revolucionário de Montezuma não continuasse preso ao século XX. Mas chegou a hora de salvar as aparências. A Intermundos pedirá desculpas e pagará uma indenização. Depois, sem alarde, Montezuma vai renunciar à terra e à extraterritorialidade para o espaçoporto de uma nova corporação com nome mexicano e um escritório regional no DF, e o público não vai nem saber que sessenta por cento dela é propriedade da Intermundos e quarenta por cento dos mesmos políticos que fizeram corpo mole e deixaram Acapulco ser destruída. O comandante Tormey parecia amargurado, e de repente percebi que ele era mais velho do que eu a princípio imaginara. Eu disse:

— Ian, a ANZAC não é uma subsidiária da Intermundos?

— Talvez por isso eu esteja parecendo tão cínico. — Ele se pôs de pé — Seu expresso está chegando no portão. Deixe que eu levo a sua mala.


 

Christchurch é o mais lindo lugar deste globo. Na verdade, o mais belo lugar que existe, já que até agora não há, fora da Terra, uma só cidade realmente bonita. Luna City é subterrânea. L-5, de longe, parece mais um ferro-velho, e dentro dela só há um arco de aparência razoável. As cidades de Marte são meras colméias, e a maioria das cidades periféricas da Terra sofrem de uma equívoca tentativa de se parecer com Los Angeles.

Christchurch não tem a grandeza de Paris, o panorama de São Francisco, nem as praias do Rio. Mas tem todas as coisas que fazem uma cidade ser admirável, embora não impressionante. O Avon tão suave, ziguezagueando pelas ruas do Centro. A suave beleza da praça da Catedral. A fonte Ferrier bem à frente da Prefeitura. A suntuosa beleza dos nossos jardins botânicos, mundialmente famosos, espalha perfumes por toda a cidade.

Os gregos louvam Atenas. Mas eu não sou natural de Christchurch (se é que "natural de" tem algum significado para os da minha espécie). Não sou nem mesmo neozelandesa. Encontrei Douglas no Equador (antes da catástrofe do Gancho Celeste de Quito), deleitei-me com um apaixonado caso de amor igualmente composto de piscos amargos e lençóis suados. Levei um susto quando pediu minha mão, mas acalmei-me quando me fez entender que o que propunha não era trocar votos solenes diante de um funcionário qualquer e sim uma visita experimental ao seu grupo S para descobrir se gostavam de mim, e eu deles.

Assim era diferente. Zarpei para o Império, apresentei-me e disse ao chefe que estava tirando férias acumuladas — ou será que ele preferia aceitar minha demissão? Ele resmungou qualquer coisa a respeito de ir em frente e acalmar minhas gônadas e apresentar-me quando estivesse em condições de trabalhar. Corri de volta para Quito e Douglas ainda estava na cama.

Naquela época, não era impossível ir do Equador à Nova Zelândia por via direta... e então tomamos o tubo para Lima, um SB direto, passando pelo Pólo Sul, para West Austrália Port, em Perth (trilha das mais estranhas, em forma de S, por causa de Coriolis), o tubo para Sydney, um pulo até Auckland, planador para Christchurch, em quase 24 horas no mais louco dos itinerários para atravessar o Pacífico. Winnipeg e Quito são praticamente eqüidistantes de Auckland — não se deixe enganar por mapas planos; pergunte ao seu computador: Winnipeg é só um oitavo mais distante.

Quarenta minutos contra vinte e quatro horas, mas nem me importei com o tempo, já que estava com Douglas e louca de amor.

Outras vinte e quatro horas e eu estava louca de amor, mas era pela família dele. Eu não esperava aquilo. Previra umas férias deliciosas com Douglas; ele me havia prometido esqui e sexo — não porque eu tenha insistido em esquiar. Eu sabia que tinha a obrigação implícita de ir para a cama com seus irmãos de grupo, se fosse convidada. Mas isto não me preocupava: uma criatura artificial não encara a cópula tão seriamente quanto a maioria dos humanos. Muitas mulheres da minha turma na creche tinham sido treinadas desde a puberdade para acompanhantes e, depois, eram enviadas para uma das muitas multinacionais da construção. Eu também recebi treinamento básico como acompanhante, mas o chefe apareceu e comprou meu contrato, mudando radicalmente a minha vida. (E eu descumpri o contrato e desapareci por vários meses... mas isto já é outra história.)

O sexo amistoso não me incomodaria, mesmo que não tivesse recebido treinamento; as PAs não toleram essas frivolidades. Sexo, afinal, é coisa que não aprendemos.

Mas também nada aprendemos sobre participar de uma família. No primeiro dia consegui atrasar todos para o chá, pois fiquei rolando pelo chão com sete pimpolhos — o mais velho tinha onze anos, o mais novo ainda usava fraldas —, dois ou três cachorrinhos e um gato apelidado Capacho devido ao seu extraordinário talento para ocupar todo o chão ao mesmo tempo.

Eu nunca tivera experiência igual na minha vida, e não queria parar.

Brian, e não Douglas, levou-me para esquiar. As cabanas de esqui no monte Hutt são lindas, mas depois das dez da noite o aquecimento é desligado e é preciso se aconchegar para aquecimento. Em seguida Vickie me levou para conhecer os carneiros da família e fui apresentada a um cachorro treinado que sabia falar, um grande collie chamado Lord Nelson. Lord não confiava no bom senso dos carneiros; creio, aliás, que com toda razão.

Bertie levou-me de expresso a Milford Sound e daí a Dunedin (a Edinburg do Sul), onde pernoitamos. Dunedin é simpática, mas não é Christchurch. Tomamos um naviozinho a vapor para dar a volta pelos fiordes, com cabines bem pequenas, só para dois, porque no extremo-sul da ilha faz muito frio. Aconcheguei-me outra vez.

Não existe fiorde que se compare a Milford Sound. Sim, eu já fui às ilhas Lofoten. São muito bonitas, mas minha opinião está formada.

Se você me acha tão coruja em relação a South Island quanto uma mãe com seu primogênito, acertou, eu sou. North Island é um ótimo lugar, tem suas atrações térmicas e uma das maravilhas do mundo, as Cavernas dos Pirilampos, e a baía das Islands parece um conto de fadas. Contudo, North Island não tem os Alpes Meridionais e, muito menos, Christchurch.

Douglas levou-me para visitar a fábrica de laticínios e vi enormes tinas de maravilhosa manteiga prestes a ser empacotada. Anita apresentou-me à Liga do Altar. Comecei então a perceber que talvez, apenas uma possibilidade, me convidassem para sócia efetiva. Foi quando descobri que mudara: de "Oh-Deus-que-faço-se-me-convidarem" passei a "Oh-Deus-que-faço-se-não-me-convidarem" e daí para "Oh-Deus-o-que-é-que-vou-fazer?"

Pois é, eu não tinha revelado a Douglas que não era humana.

Ouço muitos humanos se gabarem de que são capazes de reconhecer uma pessoa artificial. Bobagem. É claro que é possível reconhecer um artefato vivente que não tenha forma humana — por exemplo, um humanóide com quatro braços ou um gnomo das minas. Mas quando arquitetos intencionalmente se dedicam à forma humana (essa é a definição técnica de "pessoa artificial", em oposição a "artefato vidente"), não há ser humano capaz de distinguir a diferença, nem mesmo outro engenheiro genético.

Sou imune ao câncer e à maioria das infecções, mas não carrego um cartaz avisando. Tenho reflexos incomuns, mas não vou me exibir pegando uma mosca no ar entre o polegar e o indicador. Nunca tento competir com os outros em jogos de destreza.

Minha memória é especial, bem como minha aptidão para números, espaços, relações e idiomas. '

Mas se para você isto define um QI genial, quero lembrar que, na escola onde fui treinada, o propósito de um teste de QI é verificar a capacidade de atingir um número predeterminado de pontos e não exibir talentos. Em público ninguém me vai pegar querendo ser mais esperta do que os que me cercam... a não ser no caso de uma emergência envolvendo minha missão, meu pescoço, ou ambos.

O conjunto destes aperfeiçoamentos e de outros mais, segundo fontes de confiança, melhora o desempenho sexual; felizmente, porém, a maioria dos homens tende a considerar toda melhora notável, nesse campo, como um mero reflexo de seus próprios méritos. (Bem encarada, a vaidade masculina é uma virtude e não um defeito; tratada sabiamente, torna-os muito fáceis de manejar. Por isso o chefe é tão irritante: carece inteiramente de vaidade. Não há jeito de manobrá-lo.)

Eu não tinha medo de ser descoberta. Removidas todas as marcas de identificação de produção em laboratório, até mesmo a tatuagem no céu da boca, não há como provar que fui projetada em vez de concebida na roleta biológica de um bilhão de espermatozóides competindo cegamente por um único óvulo.

Entretanto, como esposa num grupo S, eu devia colaborar para o aumento daquele bando de crianças rolando pelo chão.

Mas não podia fazê-lo. Por quê?

Por muitas razões.

Eu era mensageiro de combate numa organização paramilitar. Imaginem-se tentando enfrentar um ataque súbito com uma barriga de oito meses.

Nós, mulheres PA, somos distribuídas ou comercializadas em condição de esterilidade reversível. Para uma pessoa artificial, a ânsia de ter um bebê — fazê-lo crescer dentro do próprio corpo — não é "natural", é ridícula. In vitro parece bem mais razoável, mais higiênico e mais conveniente do que in vivo. Eu já tinha a estrutura que tenho hoje quando vi pela primeira vez uma mulher nos últimos dias de gravidez — e pensei que estivesse mortalmente enferma. Quando descobri o que havia de estranho naquela mulher, senti vontade de vomitar, e ainda ficava enjoada, muito tempo depois, em Christchurch, sempre que pensava nela. Igual a um gato, com sangue e dor, caramba! Por quê! Para quê? Mesmo superpovoando o céu como estamos, este globo doido que já tem gente demais... Para que piorar as coisas?

Decidi, bem pesarosa, que teria de encerrar o assunto casamento alegando ser estéril — nada de bebês. Uma meia-verdade.

Ninguém me perguntou nada. Nada a respeito de filhos. Nos dias que se seguiram, aferrei-me a todas as alegrias possíveis na vida familiar: o prazer da conversa feminina durante o lava-louças depois do chá, a alegre algazarra das crianças e dos animais: a suave alegria do disse-me-disse ao cuidarmos do jardim; tudo isso estava presente em cada minuto dos meus dias de pertencimento.

Certa manhã, Anita convidou-me para uma volta no jardim. Agradeci, dizendo que estava ocupada ajudando Vickie. Meu pedido de dispensa foi negado, e logo me vi sentada com Anita no fundo do jardim, as crianças expulsas para bem longe.

Anita disse:

— Marjorie, querida — em Christchurch sou Marjorie Baldwin, o pseudônimo que eu usava quando encontrei Douglas em Quito — nós duas sabemos por que Douglas a trouxe aqui. Você está feliz?

— Demasiadamente feliz.

— Feliz o bastante para querer que seja permanente?

— Sim, mas — nunca tive chance de dizer "sim, mas sou estéril". Anita cortou com firmeza as minhas palavras.

— Talvez seja melhor eu contar algumas coisas primeiro, querida. Temos que discutir o dote. Se eu deixasse a responsabilidade para os homens, jamais falariam em dinheiro. Albert e Brian estão loucos por você, e também o Douglas, e eu os compreendo. Mas este grupo é uma empresa familiar, além de ser um matrimônio, e alguém tem que cuidar da contabilidade... É por isso que sou presidente e diretor-executivo; nunca me emociono a ponto de esquecer as nossas finanças. — Ela sorriu, suas agulhas de tricô estrepitaram. — Pergunte ao Brian, ele me chama de pão- duro, mas não se oferece para assumir a responsabilidade.

"Você pode ficar conosco como hóspede o tempo que quiser. Mais uma boca numa mesa como a nossa não faz diferença, mas, se você quer se unir formalmente e por contrato, então tenho que me transformar no pão-duro e descobrir que tipo de contrato podemos fazer, pois não vou jogar no ralo a fortuna da família. Brian possui três cotas e três votos, Albert e eu, cada um, duas cotas e dois votos. Douglas, Victoria e Lispeth, uma cota e um voto cada. Como você vê, tenho apenas dois votos em dez... mas, durante estes últimos anos, sempre que ameacei me demitir, recebi logo um estrondoso voto de confiança. Algum dia, ainda serei derrotada; então, vou largar tudo para brincar de Gata Borralheira junto à lareira (e o enterro sairá logo depois, no mesmo dia!). Enquanto isto, vou levando. Cada criança tem uma cota, sem direito a voto... A criança nunca tem o direito a voto, e sua cota é comprada em dinheiro quando sai de casa, a título de dote ou capital inicial... e eu torço, para não desperdiçarem. Essas reduções de capital devem ser planejadas. Se três das nossas garotas se casassem no mesmo ano, a situação poderia ficar embaraçosa se não fosse prevista."

Respondi dizendo que achava o esquema muito sensato e generoso, pois raramente as pessoas pensam no futuro dos filhos. (Na verdade, eu não sabia nada dessas coisas.)

— Tentamos agir direito com eles — ela concordou. — Afinal, filhos são o objetivo da família. Sei que você entende que, quando um adulto entra para o grupo, precisa comprar uma cota, senão o sistema não funciona. Os casamentos são decididos no céu, mas as contas são pagas aqui na Terra.

— Amém.

(Meus problemas estavam resolvidos. Negativamente. Eu não avaliava a fortuna do Grupo Familiar Davidson. Ricos eles eram, com certeza, embora não tivessem empregados e morassem numa casa antiquada, sem automação. Fosse como fosse, eu não podia comprar uma cota.)

— Douglas nos disse que não fazia idéia se você tinha dinheiro ou não. Quero dizer, capital.

— Não tenho.

Ela nem alterou o ritmo das agulhas.

— Na sua idade, eu também não tinha. Você tem emprego, não? Você não poderia trabalhar em Christchurch e comprar a cota com seu salário? Eu sei que encontrar emprego numa cidade estranha pode ser um problema... mas tenho alguns conhecimentos. O que é que você faz? Você nunca nos disse.

(E nem vou dizer!) Depois de escapar da pergunta, acabei informando que meu trabalho era confidencial e eu me recusava a discutir qualquer aspecto dos negócios de meu empregador; e que não, eu não poderia sair e procurar emprego em Christchurch; portanto, a coisa não ia funcionar, mas fora maravilhoso enquanto durou, e eu esperava...

Ela interrompeu:

— Minha cara. Não me encarregaram de negociar o contrato e falhar. O que não pode ser feito é supérfluo; eu preciso descobrir o que pode ser feito. Brian se propôs a lhe dar uma cota das três que possui... e Douglas e Albert apoiam, pro rata, embora não possam pagar imediatamente. Mas eu vetei o esquema todo; é um mau precedente, e eu disse isso a eles com um ditado bem rústico, comum no interior, que fala de formigas e cigarras. Mas aceitei uma das cotas de Brian como garantia do seu cumprimento do contrato.

— Ora, eu não tenho contrato!

— Mas vai ter. Se você continuar nesse emprego, quanto poderá pagar por mês? Não se aperte, mas pague o mais rápido que puder, pois é o mesmo que amortizar a compra de uma casa. De cada pagamento, uma parte vai cobrir os juros, e a outra abate o débito restante. Portanto, quanto maior o pagamento, melhor para você.

Eu nunca tinha comprado uma propriedade.

— Podemos calcular em ouro? Posso converter em qualquer moeda, mas sou paga em ouro.

— Em ouro? — Ana ficou de orelhas em pé. Remexeu na bolsa de costura e retirou um terminal portátil do seu computador. — Posso fazer uma proposta muito melhor para ouro. Muito melhor. — Digitou, esperou e assentiu, meneando a cabeça. — Mesmo despreparada para lidar com barras, damos um jeito.

— Eu disse que poderia converter. As ordens de pagamento são de três gramas de ouro com pureza 999, sacáveis na Ceres e South African Acceptances, Luna City, mas podem também ser pagas na Nova Zelândia, em moeda local, por ordem de pagamento automática, mesmo que eu não esteja na Terra na ocasião. Banco da Nova Zelândia, filial Christchurch?

— Não, Canterbury Land Bank. Sou membro da diretoria.

— Melhor, fica tudo em família.

No outro dia assinamos o contrato, e naquela mesma semana eles casaram comigo, tudo de um modo legal e correto, numa capela lateral da catedral, e eu toda de branco, que coisa!

Na semana seguinte voltei ao trabalho, ao mesmo tempo triste e alegre. Pelos próximos 17 anos eu pagarei Nz$ 858,13 por mês ou até mais, se quisesse. Para quê? Eu não poderia morar em casa até o pagamento final, pois tinha que conservar o emprego para poder enfrentar as mensalidades. Então, para quê? Não por sexo. Como dissera ao capitão Tormey, sexo se encontra em toda parte; é tolice pagar por isso. Era pelo privilégio de enfiar as mãos em pratos ensaboados, suponho, de rolar pelo chão com crianças e cachorrinhos que fazem pipi em você.

Pelo suave prazer de saber que, onde quer que eu estivesse, existia um lugar no planeta onde eu tinha direito a essas coisas, porque eu pertencia.

Para mim, uma pechincha.

Logo que o expresso decolou, telefonei para Vickie, e assim que ela parou com os gritinhos informei a hora prevista para a chegada do meu vôo. Eu tinha pensado em telefonar do salão da Kiwi Lines, no porto de Auckland, mas o meu lobo cacheado, capitão Ian, tomara o meu tempo. Não fazia mal, pois embora o expresso tenha uma velocidade próxima à do som, uma parada em Wellington e outra em Nelson dariam tempo para alguém me esperar. Pelo menos eu contava com isso.

Todos estavam lá. Bem, quase todos. Somos autorizados a possuir um VMA, pois criamos carneiros e gado; portanto, precisamos de transporte motorizado. Mas não podemos usá-lo na cidade. Brian fugiu à regra, e a maior parte da nossa grande família estava ali espremida, espiando pelas janelas da camioneta flutuante da fazenda.

Quase um ano sem vir em casa. Quase o dobro de todas as minhas ausências anteriores — muito mau. O tempo de trabalho é tanto, que as crianças crescem e você não vê. Tomei o maior cuidado com nomes e mentalizei um por um. Ellen não viera — era apenas uma criança, 11 anos, quando me desposaram, agora uma moça em idade universitária. Anita e Lispeth também tinham ficado em casa, preparando a festa de boas-vindas... eu seria gentilmente admoestada por não ter avisado com antecedência e tentaria outra vez explicar que no meu ramo de trabalho, quando se consegue uma folga, é melhor embarcar no primeiro SB do que parar para um telefonema. E, afinal, era preciso marcar hora para voltar para minha própria casal

Logo eu estava no chão, com todas as crianças à minha volta. Capacho, um gatinho arruaceiro quando entrei para a família, esperou a vez de me cumprimentar com a dignidade condizente a um gato adulto, maduro, gordo e lento. Olhou-me de alto a baixo inquisitivamente; esfregou-se em mim e ronronou. Eu estava em casa.

Depois de algum tempo, perguntei:

— Onde está Ellen? Ainda em Auckland? Pensei que a Universidade ficasse fechada nas férias. Eu estava olhando para Anita quando fiz a pergunta, mas ela pareceu não ouvir. Estaria ficando surda? Claro que não.

— Marjie...

A voz era de Brian, olhei em volta. Ele não disse mais nada, o rosto impassível. Simplesmente balançou a cabeça.

(Ellen: o assunto seria tabu? O que é que há, Brian? Guardei a pergunta para quando estivesse a sós com ele. Anita sempre disse que gostava igualmente de todas as crianças, fossem seus filhos naturais ou não. Claro, mas seu especial interesse por Ellen era patente a todos que a conheciam.)

Mais tarde, naquela noite, assim que a casa começou a serenar, Bertie e eu nos preparávamos para deitar (o sistema era lotérico; os adoráveis implicantes diziam que o perdedor teria que passar a noite comigo), quando Brian bateu levemente na porta e entrou.

Bertie disse:

— Tudo bem, meu caro, pode ir. Sou capaz de suportar o meu castigo.

— Pára com isso, Bert. Você já contou à Marj sobre Ellen?

— Ainda não.

— Então conte logo. Querida, Ellen casou sem o consentimento de Anita... e Anita está furiosa. Portanto, é melhor não mencionar o nome dela perto de Anita... E agora preciso voltar antes que ele dê por minha falta.

— Você não tem permissão para me dar um beijo de boa-noite? Ou de passar a noite aqui? Você não é meu marido também?

— Claro que sim, mas Anita anda muito nervosa, e não convém irritá-la.

Brian despediu-se com um beijo. Perguntei:

— O que há, Bertie? Por que Ellen não podia casar com quem gosta? Ela tem idade para decidir por si mesma.

— Concordo. Mas Ellen não foi sensata. Casou com um tongan e foi morar em Nuku'alofa.

— Anita queria que eles morassem aqui, em Christchurch?

— Não, não. Ela é contra o casamento.

— O que há de errado com esse homem?

— Marjorie, você não ouviu? Ele é um tongan.

— Claro que ouvi. Se ele mora em Nuku'alofa, é claro que é. Ellen vai sentir um bocado de calor por lá, ainda mais porque foi criada neste clima quase perfeito. Mas o problema é dela. Até agora não compreendo por que Anita está aborrecida. Deve haver alguma coisa que ainda não sei.

— Claro que você sabe. Bem, talvez não saiba. Os tongans não são iguais a nós. Não são brancos; e são bárbaros.

— Ah, não são não! — Sentei na cama, assim pondo um ponto final no que nem sequer tínhamos começado. Sexo e discussão não combinam. Pelo menos não no meu caso. — Eles são o povo mais civilizado da Polinésia. Por que você acha que os antigos exploradores chamavam aquele grupo de "as Ilhas Amistosas"? Você já foi lá, Bertie?

— Não, mas...

— Eu, já. Apesar do calor, é um verdadeiro paraíso. Vá até lá um dia, e verá. Esse homem... o que ele faz? Fica sentado, esculpindo mogno para os turistas? Se é por isso, até posso entender a aflição de Anita. E por isso?

— Não, mas duvido que seja capaz de sustentar uma esposa. E Ellen não pode sustentar um marido, ainda não se formou. Ele é um biólogo marinho.

— Já entendi. Não é rico, e Anita respeita o dinheiro. Mas quem disse que será sempre pobre? Talvez venha a ser professor em Auckland ou Sydney. Um biólogo pode ficar rico em nossos dias. Pode projetar uma nova planta, um novo animal, e aí fica podre de rico.

— Querida, você ainda não entendeu.

— É, acho que não. É melhor explicar.

— Ellen devia ter-se casado com alguém da mesma classe.

— O que você quer dizer com isso, Albert? Alguém que morasse em Christchurch?

— Ajudaria.

— Rico?

— Não seria necessário. Embora as coisas fiquem mais fáceis quando não existem problemas financeiros unilaterais. "Garotão polinésio desposa herdeira branca" tem um quê de ranço.

— Ah, ele é um morto-de-fome, e ela acaba de receber suas cotas!

— Não exatamente. Droga, por que ela não casou com um branco? Não foi para isso que a educamos.

— Bertie, o que há? Você parece até um dinamarquês falando de um sueco. Pensei que na Nova Zelândia isso não existisse. Lembro-me de ouvir Brian dizer que os maoris eram social e politicamente iguais aos ingleses, sob todos os aspectos.

— E são. Mas não é a mesma coisa.

— Acho que sou burra. — (Ou Bertie era burra? Os maoris são polinésios, os tongans também — qual era o problema?)

Deixei o assunto de lado. Eu não viera de Winnipeg para debater os méritos de um genro que jamais vira. "Genro", que idéia engraçada.

Eu adorava quando uma das. crianças, em vez de me chamar de Marjie, me chamava de mamãe — mas nunca tinha pensado na possibilidade de ter um genro. E, de acordo com as leis da Nova Zelândia, ele era de fato meu genro. E eu nem mesmo sabia seu nome.

Fiquei quieta, tentei não pensar em nada e deixei Bertie dedicar-se a me fazer sentir bem-vinda. Ele é bom nisso.

Instantes depois, eu já me mantinha ocupada, demonstrando quão feliz me sentia por estar de volta. A desagradável interrupção caíra no olvido.


 

Antes de me levantar, na manhã seguinte, decidi não puxar o assunto Ellen, deixando que alguém mais o fizesse. Eu não podia dar nenhuma opinião antes de saber exatamente o que tinha acontecido. Decidi não me precipitar; esperar até que Anita se acalmasse. Esquecer tudo eu não poderia, afinal de contas Ellen era minha filha também.

Mas ninguém tocou no assunto. Os dias que se seguiram foram preguiçosos e dourados. Não vou descrevê-los. Acho que você não deve estar interessado em festas de aniversário ou piqueniques em família — importantes para mim, maçantes para você.

Vickie e eu fomos a Auckland fazer compras. Só por uma noite. Depois que nos registramos no Tasman Palace, Vickie disse:

— Marj, você seria capaz de guardar um segredo?

— Claro! Tomara que seja bem emocionante. Um namoro novo? Dois?

— Se eu tivesse um namorado novo, dividiria com você. O caso é mais complicado. Quero falar com Ellen sem precisar discutir com Anita. Esta é a minha primeira chance. Você esquece que eu telefonei?

— Ora essa, também quero falar com ela. Mas não conto a Anita, se é isto o que você quer. O que está acontecendo? Sei que Anita ficou aborrecida com o casamento de Ellen, mas o que ela pretende, que nenhum de nós fale com ela? Com nossa própria filha?

— Infelizmente, do jeito que as coisas estão, apenas "filha dela". Anita não tem agido de modo racional.

— Parece que não, mas não vou deixar Anita me separar de Ellen. Só não entrei em contato com ela antes porque não sabia como.

— Vou chamar agora, e você aproveita e anota.

— Aqui não!— interrompi. — Não toque neste terminar. Você não quer que Anita descubra.

— Mas é por isso mesmo que estou chamando daqui!

— A ligação vai ser incluída na conta do hotel, que será paga com seu cartão de crédito Davidson. Anita verifica todas as contas que chegam, não é?

— Claro. Oh! Marj, sou tão burra!

— Não, você é honesta. Anita não vai reclamar do custo da ligação, mas vai reparar no código internacional. Vamos aos correios e chamamos de lá. Você paga em dinheiro, ou, melhor ainda, uso o meu cartão de crédito. Minhas contas não vão para Anita.

— Claro, Marj. Você daria uma boa espiã.

— Deus me livre! É perigoso. Aprendi quando tinha que driblar minha mãe. Mas vamos logo ao correio. Vickie, o que há de errado com o marido de Ellen? Pelo tumulto, parece que ele tem duas cabeças.

— Ele é um tongan. Você não sabia?

— Claro, mas "tongan" não é uma doença. E isso é problema de Ellen, se é que chega a ser um problema.

— Anita não soube lidar com o caso. Diante de um fato consumado, a atitude certa é aceitar da melhor maneira possível. Mas um casamento desigual é sempre um problema. Principalmente se é a mulher que casa com um marido inferior, como no caso de Ellen.

— Inferior! Mas se ele é um tongan! Os tongans são hospitaleiros, altos, simpáticos e quase tão morenos quanto eu. Pela aparência, é difícil distingui-los dos maoris. E se o rapaz fosse um maori, de boa família e dono de muitas terras?

— Bem, acho que Anita não ficaria satisfeita, mas teria ido ao casamento e oferecido a recepção. Existem muitos precedentes no caso de casamentos com maoris. Temos que aceitá-los, mesmo que não gostemos. Misturar raças não é boa idéia.

(Vickie, Vickie, você não percebe que é precisamente a melhor idéia para resolver todos os problemas do mundo?) — Por que não? Onde você acha que eu arranjei este bronzeado natural?

— Você já nos contou. Ameríndia. Você disse cherokee. Marj, magoei você? Seu caso é diferente! Todo mundo sabe que os ameríndios são... bem, tão bons quanto qualquer branco.

(Claro, claro!, e "alguns dos meus melhores amigos são judeus". Mas, pelo que eu sei, não sou cherokee. Ah, Vickie, o que você diria se soubesse que sou uma PA? Bem que estou tentada a contar... mas não quero chocá-la).

— Não, porque eu me referia à origem. Você não sabe nada. Nunca foi a lugar algum e provavelmente está impregnada do racismo do leite da sua mãe.

Vickie ficou vermelha.

— Isso não é justo! Eu votei a seu favor quando você se candidatou a membro da família!

— Eu pensei que todos tinham votado a favor. De outra forma, eu não teria aceito. Será que o meu sangue cherokee foi motivo de discussão?

— Bem... foi mencionado.

— Por quem e por quê?

— Puxa, Marjie! São reuniões executivas, não posso fazer comentários.

— Estou entendendo. E houve reunião executiva no caso de Ellen? Se houve, você pode me contar, porque eu teria direito a participar e votar.

— Mas não houve. Anita disse que não era necessário. Disse que não gostava de incentivar caçadores de dote. E como já tinha dito a Ellen que Tom não podia vir conhecer a família não havia nada a fazer.

— Ninguém defendeu Ellen. Você a defendeu, Vickie? Ela ficou vermelha outra vez.

— Isso só serviria para enfurecer Anita.

— Eu é que estou ficando furiosa. Pelas normas da nossa família, Ellen não é só filha de Anita, é minha e sua também. Anita está errada, não podia proibir Ellen de levar o marido à nossa casa sem nos consultar.

— Marjie, não é bem assim; Ellen queria trazer Tom para nos visitar. Bem, uma visita de inspeção. Você sabe.

— Tendo eu mesma passado pelo microscópio, sei muito bem.

— Anita só estava tentando impedir um mau casamento para Ellen. E, quando percebemos, Ellen já tinha casado. Pelo jeito, tratou de casar assim que recebeu a carta de Anita desaprovando.

— Droga! Estou começando a perceber. Ellen estragou o jogo de Anita, casando-se imediatamente... Isto significa pagar uma das cotas em dinheiro e sem aviso prévio. Pode ser difícil, é um bocado de dinheiro. Vou levar anos e anos para pagar a minha.

— Não, não é bem assim. Anita só está zangada porque sua filha predileta... nós todos sabemos... casou com um homem que ela não aprova. Anita não precisava arranjar tanto dinheiro. Não existe obrigação contratual de pagar a cota, e Anita salientou também que não existe obrigação moral de drenar o nosso capital para beneficiar um aventureiro.

Comecei a sentir uma raiva fria.

— Vickie, eu nem posso acreditar. Que tipo de vermes covardes são vocês para deixar Ellen ser tratada assim? — Respirei fundo e tentei controlar a raiva. — Não entendo vocês. Nenhum de vocês. Mas vou dar o exemplo. Quando chegar em casa, vou ao terminal, na frente de todo mundo, e vou convidar Ellen e o marido para virem nos visitar... no próximo fim de semana, pois tenho que voltar para o trabalho e não quero deixar de conhecer meu genro.

— Anita vai ter um derrame.

— Veremos. Em seguida, vou provocar uma reunião de família e pedir que a cota de Ellen seja paga dentro de um prazo considerado razoável para ambas as partes. — E acrescentei: — Imagino que Anita vai ficar furiosa de novo.

— Provavelmente. E não vai adiantar nada, porque você vai perder a votação. Marjie, para que tudo isso? As coisas já estão tão complicadas!

— Talvez. Mas pode ser que alguns de vocês estejam esperando que apareça alguém para acabar com a tirania de Anita. Pelo menos vou descobrir a hora da votação. Vickie, pelo contrato que assinei, já paguei mais de setenta mil dólares neozelandeses e me disseram que a razão desses pagamentos, que me permitiram casar, era proporcionar a cada um dos nossos filhos a possibilidade de receber uma cota completa quando tivesse que ir embora. Não protestei, assinei. Portanto, diga Anita o que disser, existe um compromisso implícito. Se Ellen não pode receber a parte a que tem direito agora, vou exigir que meus pagamentos mensais sejam feitos a ela até que Anita arranje o dinheiro para completar a cota. Não parece mais justo?

Ela demorou a responder:

— Marjie, não sei. Não tive tempo de pensar.

— É melhor achar tempo, porque daqui até quarta-feira você vai ter que decidir. Não vou deixar que continuem tratando Ellen assim. — Sorri e acrescentei: — Anime-se! Vamos ao correio alegrar Ellen.

Mas não fomos. Nem telefonamos para Ellen. Fomos jantar, e continuamos a discutir. Nem consigo me lembrar como e quando surgiu o assunto pessoa artificial. Acho que foi quando Vickie tentava "provar" mais uma vez que não era racista, mas exibindo uma atitude totalmente irracional cada vez que abria a boca. Maoris e, é claro, índios americanos, eram ótimos — e também os hindus. Os chineses certamente tinham produzido sua cota de gênios, todo mundo sabia disso, mas é claro que existe um limite...

Já estávamos deitadas e eu tentava não escutar todas aquelas bobagens quando, de repente, perguntei:

— Como você iria saber?

— Saber o quê?

— Você disse: "É claro que ninguém casaria com um artefato!" Como você iria saber? Nem todos têm números de série.

— Ora, Marjie, não seja boba. Não se pode confundir um humano com uma criatura manufaturada. Se você já tivesse visto um...

— Já vi muitos.

— Então você sabe.

— Sei o quê?

— Que só de olhar a gente identifica aqueles monstrengos.

— Como? Qual é o estigma que diferencia uma pessoa artificial de outra pessoa qualquer? Cite um só.

— Marjie, você está complicando só para incomodar, nem parece a mesma. Assim está transformando nosso passeio numa coisa bem desagradável.

— Eu não, Vickie. Você está. Você, dizendo tolices desagradáveis, sem nenhuma prova concreta que as apoie. (Tal resposta prova que um humano aperfeiçoado não é um super-homem, pois este tipo de comentário é verdadeiro e cruel demais para ser incluído em discussões familiares.)

— Eu? Mas que maldade!

O que fiz em seguida não pode ser atribuído à lealdade com as demais pessoas artificiais, porque PAs não tem espírito de grupo. Não faz sentido. Sei que um francês é capaz de morrer pela Belle France, mas dá para imaginar alguém lutando e morrendo pela Homunculi Ilimitada, filial de Nova Jersey? Acho que o fiz por mim mesma, embora, como outras decisões importantes na minha vida, jamais pude analisar o porquê. O chefe diz que tudo o que eu penso de importante ocorre no plano inconsciente. Talvez tenha razão.

Saí da cama, tirei a camisola e fiquei em pé bem diante dela.

— Olhe bem. Sou artificial ou não? Como você pode saber?

— Ora, Marjorie, você está só se mostrando. Todos sabem que o seu corpo é o mais bonito da família. Você não precisa provar.

— Responda! Diga-me o que eu sou e como sabe. Faça qualquer teste. Pegue amostras para laboratório. Mas diga o que eu sou, e que provas o confirmam.

— Você é malcriada, isso sim!

— Possivelmente. Mas de que tipo? Natural ou artificial?

— Ora, natural, é claro!

— Errado. Artificial!

— Ora, deixe de bobagem. É melhor vestir a camisola e voltar para a cama.

Mas desandei, contei tudo, o laboratório que me projetou, a data da minha saída do útero artificial, meu "aniversário" — embora as PAs sejam "cozidas" um pouco mais para acelerar a maturação. Obriguei-a a ouvir uma longa descrição da vida na creche de um laboratório de produção. (Correção: da vida na creche onde me criei, em outras pode ser diferente.)

Fiz um resumo da minha vida depois que saí da creche, na maioria mentiras; eu não podia revelar os segredos do chefe. Simplesmente repeti o que já tinha dito antes, que eu era um agente comercial confidencial. Nem foi preciso mencionar o chefe, pois Anita há muito decidira que eu era o enviado de uma multinacional, uma espécie de diplomata que viaja incógnito — um erro compreensível que eu incentivava por nunca tê-lo negado.

— Marjorie — Vickie disse —, eu gostaria que você não agisse assim. Tanta mentira junta pode pôr em perigo sua alma imortal.

— Eu não tenho alma. É o que estou tentando lhe dizer.

— Ora, pare com isso! Você nasceu em Seattle. Seu pai era engenheiro eletrônico, sua mãe era pediatra. Você ficou órfã no terremoto. Você nos contou tudo... mostrou até retratos.

— Minha mãe era um tubo de ensaio, e meu pai um bisturi. Vickie, devem existir alguns milhares de pessoas artificiais cujos "registros de nascimento" foram "destruídos" com o desaparecimento de Seattle. São incontáveis, porque ninguém soma as mentiras. Depois do que aconteceu este mês, muitos dos meus semelhantes começaram a nascer em Acapulco. Precisamos dessas saídas para não sermos perseguidos por ignorantes e preconceituosos.

— O que significa que sou ignorante e preconceituosa!

— Significa que você é uma boa menina a quem os mais velhos contaram um monte de mentiras. Estou tentando consertar isso. Mas, se a carapuça serviu, sirva-se à vontade!

Calei-me. Vickie não me deu boa-noite. Levamos muito tempo para dormir.

No dia seguinte, fizemos de conta que a discussão não existira. Vickie não falou em Ellen e eu não mencionei as pessoas artificiais. Mas o que parecia ser um passeio alegre estava completamente estragado. Fizemos as compras, e tomamos o expresso noturno de volta para casa. Não cumpri minha ameaça. Não telefonei para Ellen quando chegamos. Não que a tivesse esquecido; minha esperança era de que, se aguardasse um pouco, talvez as coisas melhorassem. Covardia, suponho.

Logo no início da semana seguinte, Brian me convidou para ir com ele visitar umas terras para um cliente. Foi uma viagem agradável, com almoço num hotel campestre, licenciado: um ensopado com preço de carne de porco, embora na verdade fosse carneiro, empurrado goela abaixo por uma cerveja suave. Comemos no jardim, debaixo das árvores.

Depois da sobremesa — torta de amoras, excelente —, Brian disse:

— Marjorie, Victoria me contou uma história esquisita...

— É mesmo? Qual?

— Querida, acredite que eu nem mencionaria o caso se ela não estivesse tão preocupada.

Fez uma pausa. Esperei.

— Ela garante que você disse que era um artefato vivo disfarçado em ser humano. Desculpe, mas foi o que ele afirmou.

— É verdade, eu disse a ela. Não com essas palavras.

Não acrescentei qualquer outra informação. Brian disse suavemente:

— Posso perguntar por quê?

— Brian, Vickie estava dizendo um monte de bobagens sobre os tongans, e eu tentava convencê-la de que eram tolices e que Ellen ia ser prejudicada por causa disto. Estou muito preocupada com Ellen. Desde que cheguei, você me fez calar, mas não posso continuar assim. Brian, o que vamos fazer a respeito de Ellen? Ela é nossa filha. Não podemos simplesmente ignorar quando está sendo injustiçada. O que vamos fazer?

— Eu não concordo que tenhamos necessariamente que fazer alguma coisa. Marjorie, por favor, não mude de assunto. Vickie ficou muito aborrecida e eu estou tentando desfazer o mal-entendido.

Respondi:

— Não mudei de assunto. O assunto é a injustiça feita contra Ellen e não vou deixar passar. Existe algum motivo para condenar o marido de Ellen? Além do preconceito por ele ser um tongan?

— Não, que eu saiba. Embora, na minha opinião, tenha sido muita falta de consideração Ellen casar com alguém sem apresentá-lo à família. Não demonstra com isso respeito às pessoas que a amaram e protegeram toda a vida.

— Espere um pouco, Brian. Segundo Vickie, Ellen pediu para levá-lo em casa. Para ser inspecionado, do mesmo jeito que eu fui, e Anita recusou. Em conseqüência, Ellen casou com ele. Foi isso?

— Bem, é verdade. Mas Ellen foi cabeçuda e precipitada. Não devia ter tomado tal atitude sem falar com os outros pais. Fiquei muito sentido.

— Ela tentou falar com você? Você tentou falar com ela?

— Marjorie, quando eu soube, já era um fato consumado.

— Foi o que me disseram. Brian, desde que cheguei estou esperando alguém me explicar o que aconteceu. Pelo que Vickie disse, o caso não foi levado a conselho de família. Anita recusou-se a deixar Ellen apresentar seu amado. E os outros pais não souberam ou preferiram não tomar qualquer atitude contra a crueldade de Anita. Crueldade, sim. Aí a garota casou, e, em conseqüência, Anita arrematou a crueldade anterior, cometendo uma grave injustiça: recusou a Ellen algo a que ela tinha direito: sua parte na fortuna da família. Tudo isto é verdade?

— Marjorie, você não estava aqui. Todos nós, seis entre sete, agimos da melhor maneira possível diante de situação tão delicada. Acho que você não tem o direito de chegar agora e criticar o que fizemos... Palavra que acho.

— Querido, não quero ofendê-lo. Quero é provar que esses tais seis não fizeram nada. Anita, agindo sozinha, fez coisas que considero injustas e cruéis... e vocês ficaram de lado, só espiando. Não foram decisões de família, foram decisões de Anita. Se isso é verdade — Brian, corrija-me se estiver errada —, sinto-me obrigada a convocar uma reunião executiva com todos os maridos e esposas para corrigir tal crueldade, convidando Ellen e o marido para nos visitar, e tal injustiça, entregando a Ellen o que ela tiver direito, ou pelo menos reconhecendo a dívida, caso não possa ser liquidada imediatamente. Quer me dar sua opinião?

Brian tamborilava com as unhas sobre o tampo da mesa.

— Marjorie, essa é a visão simplista de uma situação muito complexa. Você pode, pelo menos, admitir que gosto e me preocupo com Ellen tanto quanto você?

— Claro, meu bem.

— Obrigado. Concordo com você em relação à Anita não ter permitido que Ellen levasse o rapaz lá em casa. Na verdade, se Ellen tivesse podido observá-lo em seu próprio meio, segundo as nossas tradições e boas maneiras de bem-nascidos, talvez tivesse decidido que ele não servia. Anita empurrou Ellen para um casamento estúpido, e eu a alertei sobre isso. Mas o problema não pode ser corrigido com um convite imediato aos dois. Acho que você entende. Numa coisa concordamos: Anita deveria recebê-los bem, de bom grado, sorrindo... mas, pelo jeito, nem por imposição recebe.

Ele sorriu para mim, e fui forçada a retribuir o sorriso. Anita pode ser encantadora... mas também pode ser de uma frieza e grosseria terríveis, se lhe convier.

Brian prosseguiu:

— Minha idéia é outra: dentro de umas duas semanas, arranjo um pretexto para ir a Tonga, o que me dará tempo para tomar pé da situação sem Anita nos meus calcanhares.

— Que bom! Leve-me com você, por favor!

— Anita ficaria aborrecida.

— Brian, Anita já me aborreceu de sobra. Não é ela que vai me impedir de visitar Ellen.

— Hum... Você evitaria fazer alguma coisa que pudesse prejudicar todos nós?

— Se me dissessem o quê, sim. E desde que me dessem explicações.

— Você as terá. Mas primeiro quero tratar do segundo ponto. É claro que Ellen receberá todo o dinheiro a que tem direito. Mas entenda que isso não é urgente. Casamentos apressados muitas vezes não duram. E enquanto eu não tiver prova em contrário, para mim Ellen pode muito bem ter caído nas mãos de um caçador de dotes. Vamos esperar um pouco, e ver o que esse rapaz quer — se é o dinheiro dela. Você não acha prudente?

Tive que concordar. Ele continuou:

— Marjorie, meu bem, tenho por você um carinho todo especial, aliás, todos nós temos, até mesmo porque você vem raramente. Para todos nós, cada vez que você volta é como uma nova lua-de-mel; mas como você está sempre fora, não compreende por que nos esforçamos tanto para manter Anita bem calma.

— É, não compreendo mesmo; mas a procuração deveria ser mútua.

— Lidando com as leis e com as pessoas, descobri que existe uma grande diferença entre o que deve ser e o que é. De todos nós, sou eu quem conhece Anita há mais tempo. Aprendi a viver com suas idiossincrasias. Talvez você não tenha percebido que ela é o elemento aglutinante que nos mantém unidos.

— Como assim, Brian?

— Em primeiro lugar, como administrador dos negócios e das finanças da família, ela é totalmente insubstituível. Talvez alguns de nós fossem capazes de assumir o cargo, mas ninguém quer, e duvido que tivéssemos a mesma competência. E, mesmo nas questões extramonetárias, ela é como um executivo forte e capaz. Apartando as brigas das crianças ou decidindo as mil e uma coisas que surgem numa família tão numerosa, Anita sempre chega a uma decisão e faz tudo funcionar. Um grupo familiar como o nosso deve ter um líder seguro e eficaz.

(Um tirano forte e capaz, pensei comigo mesma.)

— Portanto, Marjorie, meu bem, você pode esperar um pouco e deixar que o velho Brian ajeite as coisas? Você acredita que eu amo Ellen tanto quanto você?

Acariciei-lhe a mão.

— Claro, querido. (Mas não demore a vida inteira.)

— Bem, quando chegarmos em casa, você vai procurar a Vickie e dizer a ela que estava brincando, e pedir-lhe desculpas por tê-la deixado tão perturbada? Por favor, querida.

(Ai! Eu estava tão concentrada em Ellen que até me esquecera onde a conversa tinha começado.) — Bem, olhe, Brian, eu posso esperar um pouco e não aborrecer Anita, já que você acha necessário. Mas não vou alimentar os preconceitos raciais de Vickie.

— Mas você não os estaria alimentando. Nem toda a nossa família pensa da mesma maneira nessas questões. Eu concordo com você, e Liz também, como verá. Vickie está mais ou menos em cima do muro, mas também procura uma desculpa para trazer Ellen de volta ao seio da família. Depois que conversei com ela, está pronta a admitir que os tongans são exatamente iguais aos maoris e que, na verdade, o importante é o indivíduo. A brincadeira de mau gosto que você fez a seu próprio respeito deixou-a contrariada.

— Brian, certa vez você me disse que já estava quase se formando em Biologia quando decidiu estudar Direito.

— Bem, "quase" é exagero.

— Não importa, você sabe muito bem que biologicamente não se pode distinguir um ser humano de uma pessoa artificial. A falta da alma não é visível.

— Ora, eu sou apenas um conselheiro paroquial, meu bem, e alma é um problema dos teólogos. Mas não é difícil identificar um artefato vi vente.

— Mas eu não falei em "artefatos viventes". Essa expressão abrange até os cachorros que falam, como Lord Nelson. Uma pessoa artificial tem estritamente a aparência e forma humanas. Portanto, como você vai distinguir? Essa foi a bobagem que Vickie disse: ela afirmou que é sempre capaz de identificar uma pessoa artificial. Olhe para mim. Brian, você conhece meu corpo muito bem, e me alegra dizê-lo. Eu sou um ser humano comum ou uma pessoa artificial?

Brian sorriu e com a língua umedeceu os lábios.

— Querida Marjorie, estou pronto a depor em qualquer tribunal que você é cem por cento humana... exceto nos locais onde você é angelical. Devo especificar?

— Já conheço bem as suas preferências; portanto, não é necessário. Obrigada. Mas, por favor, vamos falar sério. Suponha, só para podermos conversar, que eu seja uma pessoa artificial. Como poderia um homem que vai para a cama comigo, como você ontem, e tantas outras noites, dizer se eu sou ou não uma pessoa artificial?

— Marjorie, por favor, pare com isso; não tem graça. (Algumas vezes, os humanos me desesperam.) Eu disse secamente:

— Pois eu sou uma pessoa artificial.

— Marjorie!

— Você não acredita em mim? Será que vou ter que provar?

— Pára de brincar! Já! Senão, quando chegarmos em casa, vou perder a cabeça. Deus sabe que nunca bati numa esposa minha, mas você está merecendo.

— É mesmo? Está vendo esse pedaço de torta no seu prato? Vou agarrá-lo. Ponha as palmas em cima do prato, tente me impedir.

— Não seja tola.

— Vamos, faça o que lhe digo. Você não vai conseguir.

Nossos olhares cruzaram. Quando ele começou a bater palmas sobre o prato, entrei imediatamente em aceleração automática. Peguei o garfo, espetei a torta, puxei o garfo por entre as mãos dele e interrompi a aceleração automática antes de levar a torta aos lábios.

(Aquela colher de plástico na creche não era discriminação, o objetivo era me proteger. A primeira vez que usei um garfo, feri os lábios, pois ainda não tinha aprendido a reduzir a velocidade dos meus movimentos para igualar-me a uma pessoa não aperfeiçoada.)

Não creio que existem palavras capazes de descrever a expressão de Brian.

— Foi o bastante? — perguntei. — Provavelmente, não. Brian, aperte minha mão. — Estendi minha mão direita. Ele hesitou, depois apertou-a. — Cuidado para não se machucar, querido — avisei. — Diga-me quando parar.

Brian não é frágil, e pode muito bem suportar uma dor forte. Quando eu estava quase afrouxando, temendo quebrar-lhe alguns ossos, ele disse:

— Chega!

Afrouxei imediatamente, comecei a massagear sua mão.

— Não foi nada agradável machucar você, querido, mas era preciso provar que estou dizendo a verdade. Sempre tomo cuidado para não exibir força e reflexos excepcionais. Mas são importantes no meu tipo de trabalho. Força e velocidade aumentadas salvaram a minha vida várias vezes. Tenho sempre muito cuidado em não utilizá-las em circunstâncias normais, a não ser que me forcem. Preciso fazer mais alguma coisa para provar o que sou? Fui aprimorada em muitos aspectos, mas força e velocidade são mais fáceis de demonstrar.

Ele respondeu:

— É hora de voltarmos para casa.

No caminho de volta trocamos apenas umas pouquíssimas palavras. Adoro passeios de charrete, mas naquele dia eu teria preferido um veículo barulhento e mecânico, bem veloz.

Brian me evitou nos dias que se seguiram. Só o encontrei à mesa do jantar. Certo dia, Anita me disse:

— Marjorie, vou à cidade, preciso fazer algumas coisas. Será que você pode me ajudar, querida?

Eu disse que sim, naturalmente. Ela parou em vários lugares próximos a Gloucester Street e Durham. Na verdade, não precisava de mim para nada: concluí que simplesmente queria minha companhia e gostei da idéia. Anita é uma pessoa muito agradável quando você faz tudo que ela quer.

Ao terminarmos, caminhamos pelo Cambridge Terrace às margens do Avon, seguimos para Hagley Park e fomos ao jardim botânico. Anita escolheu um lugar ensolarado, e ficamos observando os pássaros enquanto ela tricotava. Durante algum tempo, falamos de coisas sem importância, ou simplesmente ficamos em silêncio.

Já estávamos ali há mais ou menos meia hora, quando o telefone de Anita tocou. Tirou-o da bolsa de costura e levou-o ao ouvido:

— Sim? — e acrescentou: — Muito obrigada. Desligo. Guardou o comunicador e não me disse quem havia chamado. Privilégio dela. Mas falou, numa indireta:

— Marjorie, você às vezes não sente remorsos? Ou, quem sabe, sentimentos de culpa?

— Bem, algumas vezes, sim. Deveria? Por quê?

Examinei minha consciência, embora certa de ter sido bem cautelosa para não aborrecer Anita.

— Por nos ter enganado.

— Como é?

— Não se faça de inocente. Nunca na minha vida tive que lidar com alguém que não fosse criatura de Deus. Não sei se você entende os conceitos de pecado e culpa. Não que isso importe, agora que retirou a máscara. A família pede anulação imediata. Brian vai hoje mesmo consultar o juiz Ridgley.

Sentei-me bem ereta.

— Por quê? Não fiz nada errado!

— Não mesmo? Você se esquece de que, de acordo com as nossas leis, um não-humano não pode contrair matrimônio com seres humanos?


 

Uma hora depois embarquei no expresso para Auckland, e então tive tempo suficiente para meditar sobre a minha loucura.

Durante quase três meses, desde a noite em que conversei sobre o assunto com o chefe, senti-me à vontade pela primeira vez quanto ao meu status humano. Ele me afirmara que eu era tão humana quanto Eva e que poderia dizer a qualquer um que era uma PA, pois ninguém acreditaria.

Quase acertou. Não imaginou, entretanto, que eu fosse me esforçar propositadamente para provar que, pelas leis neozelandezas, eu não era "humana".

Meu primeiro impulso fora pedir uma audiência com toda a família, e o que consegui descobrir foi que meu caso já tinha sido julgado in câmara. O veredicto? Seis a zero.

Nem voltei para casa. O telefonema que Anita recebera no jardim botânico avisava que meus objetos pessoais já tinham sido despachados para o depósito de bagagens do terminal.

Eu poderia ter insistido numa votação, em vez de aceitar passivamente a palavra (duvidosa) de Anita. Mas com que finalidade? Para ganhar uma discussão? Para defender um ponto de vista? Ou só para criar confusão? Cinco segundos bastaram, compreendi que tinha perdido tudo que me era mais caro. Um sonho desfeito, como se desfaz um arco-íris ou uma bolha de sabão que rebenta. Eu não tinha mais um lar. Os filhos não eram meus; nunca mais rolaria com eles no chão.

Tão absorvida e pesarosa estava por estes pensamentos que quase não percebi que Anita fora "generosa" comigo: pelo contrato que eu assinara com a família, o montante do principal venceria imediatamente no caso de quebra.

Ser "não-humano" constituía quebra de contrato? (Embora eu tivesse saldado todos os pagamentos mensais.)

Examinando o problema de determinado ângulo, já que estavam me expulsando, eu teria a receber dezoito mil dólares neozelandeses; mas, por outro ângulo, eu não só perdia o que já tinha pago como passava a dever pelo menos o dobro daquela soma.

Mas eles foram "generosos": se eu desaparecesse rápida e silenciosamente, retirariam a queixa. Nem era preciso mencionar o que aconteceria se eu ficasse por lá e o escândalo se tornasse público.

Fugi.

Não preciso de um psiquiatra para me dizer que eu mesma provocara tudo. Percebi o fato assim que Anita me transmitiu as más notícias. Uma pergunta mais profunda seria: por quê?

Não por Ellen, não adiantava nem pensar nesse pretexto. Muito pelo contrário, minha loucura tornara impossível qualquer atitude em favor dela.

Por que eu tinha agido assim?

Raiva.

Era a melhor resposta que podia encontrar. Raiva de toda a raça humana por decretar que eu e meus semelhantes não éramos humanos e, conseqüentemente, não tínhamos direito a igual tratamento e justiça. Ressentimentos que se vinham acumulando desde o dia em que fora forçada a entender que as crianças humanas, pelo fato de terem nascido, tinham privilégios aos quais eu nunca teria, simplesmente por não ser humana.

Fingir de humano resolve o problema dos privilégios, mas não cura o ressentimento contra o sistema. A pressão aumenta ainda mais, porque não pode ser expressa. Mas o dia chegou em que para mim tornou-se mais importante saber se minha família me aceitaria como sou do que preservar nossa relação tão feliz.

Descobri. Nenhum deles me defendeu... assim como não defenderam Ellen. Eu acho que sabia que não me aceitariam: sabia desde o instante em que percebi que nada tinham feito por Ellen. Mas tudo isso se passa em lugar tão profundo da minha mente que nem eu mesma conheço bem. É nesse nível obscuro, segundo diz o chefe, que meus verdadeiros pensamentos se concretizam.

Cheguei a Auckland tarde demais para o SB diário para Winnipeg. Reservei um lugar na viagem do dia seguinte, despachei toda a bagagem, conservando apenas minha mochila, e comecei a meditar sobre o que fazer com as vinte e uma horas de espera que me aguardavam, quando me lembrei do meu lobo cacheado, o comandante Ian. Pelo que me havia dito, as chances de ele estar na cidade eram mínimas, mas seu apartamento (caso disponível) era uma perspectiva muito mais agradável do que um hotel. Procurei um terminal público e digitei seu código.

Logo a tela se iluminou e surgiu o rosto de uma mulher, bonita e jovial.

— Oi! Meu nome é Tocha. E você, quem é?

— Eu sou Marjie Baldwin — respondi. — Talvez tenha errado o código. Estou procurando o comandante Tormey.

— Você acertou, querida. Espere um pouco, vou abrir a jaula. — Afastou-se da câmera e gritou — Ó meu chapa! Tem um estouro de garota no terminal. E ela sabe o seu nome certo.

Quando se virou, afastando-se, percebi seios nus, e quando passou em frente à câmera vi que estava nua em pêlo. Um belo corpo, talvez um pouco larga no traseiro, mas as pernas eram longas, a cintura fina e o busto tão bonito quanto o meu... e do meu ninguém ainda reclamou.

Amaldiçoei-me. Eu sabia muito bem por que tinha chamado o capitão: o melhor remédio para esquecer três homens é cair nos braços de um quarto. É, eu o encontrara, mas parece que estava muito ocupado.

Ele apareceu, vestido, mas não muito: uma tanga polinésia. Pareceu intrigado, mas logo me reconheceu.

— Ei, senhorita... Baldwin. É isso mesmo! Que ótimo! Onde você está?

— No porto. Só chamei para dar um alô.

— Fique onde está. Não se mova. Não respire. Dois minutos e eu visto as calças, a camisa, e vou buscá-la.

— Não, comandante. Chamei só para dizer alô. Estou esperando um expresso.

— Qual expresso? Para um porto? Qual é o horário da partida?

Droga, droga ao cubo. Eu não preparava minhas mentiras. Melhor a verdade do que uma mentira idiota.

— Estou voltando para Winnipeg.

— Ah, então você está diante do seu piloto. Comando o vôo de meio-dia amanhã. Diga-me exatamente onde está e em quarenta minutos, se eu conseguir logo um táxi, chego aí para pegá-la.

— Comandante, você é um amor, mas está completamente louco. Já tem companhia suficiente. A garota que me atendeu, Tocha.

— Tocha não é bem o nome, é a condição dela. Tocha é minha irmã, Betty, de Sydney. Sempre fica aqui quando está na cidade. Acho que até lhe falei dela. — Ele se virou e gritou: — Betty, vem até aqui se apresentar. Mas vista-se decentemente.

— Muito tarde para ficar decente — respondeu a voz alegre. Vi-a voltando, enrolando a tanga polinésia nos quadris, com certa dificuldade. Não parecia acostumada a usá-la. — Droga! Meu irmão quer me ver sempre bem-comportada. Meu marido já desistiu. Escute, meu bem; ouvi o que ele disse, eu sou a sua irmã casada. Mas, se você tenciona casar com ele, vai me apresentar como a noiva. Você quer?

— Não.

— Então pode ficar com ele. Vou fazer chá. Você prefere gim ou uísque?

— Tanto faz... o que você e o comandante quiserem tomar.

— Ele não pode ingerir álcool. Vai voar em menos de vinte e quatro horas. Mas eu e você podemos tomar um porre.

— Tomo o que você quiser. Menos cicuta.

Convenci o comandante de que era mais fácil eu tomar um cabriolé no porto, onde havia muitos, do que ele vir-me buscar e depois voltar para casa.

O número 17, Locksley Parade, é um novo conjunto de apartamentos do tipo segurança reforçada. Da entrada até o apartamento de Ian passei tão hermeticamente apertada quanto numa nave espacial. Betty recepcionou-me com um abraço e um beijo que bem mostravam que andava bebendo. Meu lobo cacheado recebeu-me com um abraço e um beijo que provavam não que andava bebendo, mas que tinha a intenção de me levar para a cama logo, logo. Não fez perguntas a respeito dos meus maridos, eu nada revelei sobre a minha família — minha ex-família. Ian e eu nos entendíamos muito bem, porque éramos ambos capazes de entender nossos sinais, usá-los corretamente e assim evitar equívocos.

Enquanto Ian e eu nos entendíamos em silêncio, Betty saiu do aposento e voltou carregando uma tanga vermelha.

— Hora do ritual do chá! Portanto, querida, tire sua roupa de passeio e vista essa — disse, com um leve soluço.

Idéia dela ou dele? Dele, decidi não muito depois. A luxúria de Ian saltava aos olhos como um soco no queixo, mas ele era basicamente quadrado. Betty, não, parecia uma marginal. Por mim, estava tudo bem; as coisas caminhavam conforme eu esperava. Pés descalços são provocantes, tanto quanto seios nus, embora a maioria não se dê conta disto. Uma mulher envolta apenas numa tanga pode provocar muito mais do que uma mulher completamente nua. A festa, ao que tudo indicava, seria a meu gosto, e eu contava com Ian para despachar a tutelagem da irmã quando chegasse a hora. Se necessário. E Betty poderia resolver cobrar ingressos. Não me incomodei.

Tomei um porre sideral.

Só descobri a que perfeição tinha chegado no dia seguinte, quando acordei na cama ao lado de um homem que não era Ian Tormey.

Durante alguns minutos, permanecei deitada, olhando-o roncar e procurando descobrir, em minhas recordações nubladas de gim, onde encaixá-lo. Tínhamos sido formalmente apresentados? Já nos conhecíamos?

Aos poucos, os dados foram voltando. Nome: Professor Federico Farnesse, também chamado "Freddie" ou "Gorducho". (Nem era tão gorducho assim, só umas gordurinhas na barriga devido à profissão acadêmica.) Marido de Betty, cunhado de Ian. Lembrava-me vagamente da noite anterior, mas não tinha a menor idéia de quando tinha chegado, ou como ocorrera a troca, e jamais cheguei a saber tudo isso.

Assim que descobri quem era, não fiquei muito espantada ao perceber que tinha (pelo menos parecia) passado a noite com ele. No estado de espírito em que me encontrava na noite anterior, nenhum representante do sexo oposto estaria a salvo perto de mim. Uma única coisa me preocupava: tinha eu dado as costas ao meu anfitrião para correr atrás de outro homem? Não é boa educação, Friday; não fica bem.

Procurei mais fundo. Não, pelo menos tenho certeza de não ter-lhe dado as costas. Foi muito bom. E Ian gostou também, se os seus comentários foram sinceros. Uma vez dei-lhe as costas, mas a pedido dele. Não, eu não fora descortês com meu anfitrião, e ele fora muito amável comigo, ajudara-me a esquecer como tinha sido injustiçada e abandonada pela quadrilha racista de Anita.

Depois meu anfitrião recebera auxílio de um recém-chegado. É interessante observar que às vezes uma mulher com problemas emocionais precisa de mais ajuda do que um só homem é capaz de lhe dar. Só não consegui me lembrar de como a transação chegara a termo. Uma troca justa? Não seja bisbilhoteira, Friday! Uma PA não compreende os tabus sexuais dos humanos — que eu tinha decorado, afinal, durante meu treinamento básico de acompanhante, sabendo que esse era um dos mais fortes, um daqueles que os humanos sempre tentam esconder, mesmo quando todas as outras barreiras foram transpostas.

Portanto, decidi evitar qualquer sinal de curiosidade.

Freddie parou de roncar e abriu os olhos. Bocejou, espreguiçou-se e, ao me ver, pareceu espantado; então, subitamente, sorriu e me tocou. Correspondi ao sorriso e ao toque, pronta a cooperar de bom grado. Foi quando Ian apareceu e disse:

— Bom-dia, Marjie. Freddie, detesto interromper, mas o táxi está esperando. Marjorie precisa levantar e se vestir. Está na hora de sairmos.

Freddie não me largou. Deu uma risadinha e recitou:

Um passarinho de cabecinha amarela pousou no peitoril da minha janela. Fitou-me com um olhar viçoso e disse: crie vergonha, seu preguiçoso!

— Comandante, sua preocupação com o trabalho e com o bem-estar da nossa hóspede é deveras meritória. A que horas você precisa estar lá? São quase nove. A decolagem está marcada para meio-dia em ponto. Correto?

— Sim, mas...

— Entretanto, a nossa Helen... seu nome é Helen, não é?... só precisa estar no portão de embarque meia hora antes, e isso eu prometo providenciar.

— Fred, eu não gosto de ser desmancha-prazeres, mas pode-se levar mais de uma hora para encontrar um táxi neste lugar. Você sabe disso muito bem. E eu já consegui um.

— Certo, os táxis nos evitam. Os cavalos não gostam das nossas ladeiras, e foi por isto mesmo, meu caro cunhado, que ontem à noite aluguei um coche a peso de ouro. Neste exato instante o fiel Rocinante está lá embaixo, numa das baias do zelador, tratado a espigas de milho, ganhando forças para o trabalho pesado que o espera. Quando eu avisar, o já mencionado zelador, pronto a colaborar movido por generosas gorjetas, colocará os arreios no adorável animal e o levará atrelado à porta da entrada. E assim Helen estará no portão de embarque precisamente trinta e um minutos antes do vôo. Juro pela alma de quem está bem fundo do seu coração.

— Do seu coração, não é isso?

— Bem, eu caprichei na frase, não foi?

— E então, Marjie?

— Você não se incomoda, Ian? na verdade, eu não queria pular da cama agora, mas também não quero perder o seu vôo.

— Não perderá. O Freddie é de confiança, embora não pareça. Mas saia até às onze, assim chegará a tempo ainda que tenha de ir a pé. Posso guardar sua reserva mesmo depois da chamada para o vôo. Um comandante tem certos privilégios. Muito bem, vocês podem recomeçar o que estavam fazendo. — Olhou para o relógio-anel. — Nove horas.

Tchau.

— Ei! Quero um beijo de despedida!

— Por quê? Vamos nos ver daqui a pouco na nave, e temos um encontro marcado em Winnipeg.

— Quero um beijo, droga! Senão vou perder o vôo.

— Então se desvencilhe desse romano gordo e tome cuidado para não manchar meu uniforme.

— Não a esnobe, meu velho, senão quem vai beijar Helen sou eu.

Ian abaixou-se, deu-me um beijo de verdade, e não manchei seu uniforme. Depois beijou o cocuruto de Freddie, exatamente na rodela calva, e disse:

— Divirtam-se. Mas trate de levá-la ao portão de embarque a tempo. Tchau.

Naquele instante, Betty deu uma espiada porta adentro; o irmão segurou-lhe o braço e retirou-a do recinto.

Voltei minha atenção novamente para Freddie. Ele disse:

— Helen, prepare-se.

Obedeci, enquanto pensava, muito feliz, que Ian, Betty e Freddie eram exatamente o que Friday precisava para esquecer os puritanos hipócritas com quem tinha vivido durante tanto tempo.

Betty trouxe o chá matinal no momento adequado. Presumi, portanto, que andara escutando. Sentou-se na cama em lótus, e tomou uma xícara conosco. Em seguida, servimo-nos de uma pequena refeição. Tomei mingau de maisena, dois lindos ovos, presunto de Canterbury, uma gorda costeleta, batatas fritas, panquecas quentes com geléia de morango e a melhor manteiga do mundo, depois uma laranjada. Tudo isso acompanhado de chá preto bem forte, com leite e açúcar. Se em todos os lugares do mundo as pessoas quebrassem o jejum à moda da Nova Zelândia, não existiriam, pode estar certo, agitações políticas.

Freddie enrolou-se numa tanga para comer, mas, como Betty não se vestiu, também não me dei ao trabalho. Fui criada numa creche, e por isso jamais vou entender a educação e a etiqueta dos humanos. Mas sei que uma hóspede deve se vestir — ou se despir — exatamente como sua anfitriã. Não estou habituada a andar nua na presença de seres humanos (a creche é outra história), mas Betty deixa qualquer um à vontade. Fiquei pensando se ela me esnobaria se soubesse que eu não era humana. Creio que não, mas não quis testar. Foi um desjejum muito feliz.

Freddie entregou-me no aeroporto às onze e vinte. Chamou Ian e exigiu um recibo, que Ian assinou solenemente. Como da primeira vez, Ian ajudou-me a apertar o cinto quando me sentei, e disse calmamente:

— Você de fato não precisava de ajuda naquela primeira vez, estou certo?

— Não — concordei —, mas estou contente por ter fingido. Eu me diverti muito!

— E vamos nos divertir em Winnipeg também. Telefonei a Janet, durante a contagem regressiva, avisando que você ia jantar conosco. Ela quer que você fique para o café da manhã, pois é bobagem andar por Winnipeg à noite; pode ser assaltada em qualquer conexão. Concordo. Os imigrantes clandestinos, do Império, que atravessam a fronteira estão matando a troco de passagens.

— Combinamos ao chegar lá. (Comandante Ian, você é um leviano. Não me disse que nunca ia casar, para ser "Um ganso selvagem". Está lembrado? Acho que não.)

— Já está combinado. Janet não confia no meu julgamento sobre as mulheres. Diz que sou preconceituoso. Um conquistador barato. Mas em Betty ela confia, e Betty já deve ter telefonado a esta altura. As duas se conheceram bem antes de eu aparecer, foram colegas de quarto em McGill. Foi onde conheci Janet, e Fred conheceu minha irmã. Éramos subversivos, os quatro; de vez em quando, agitávamos o Pólo Norte e o virávamos ao contrário.

— Betty é um amor. E Janet, também?

— Sim e não. Janet era a líder das nossas atividades insubordinadas. Mas, com licença, tenho que fingir que sou o comandante. É sempre o computador que dirige este caixão de lata, mas pretendo aprender isso até a semana que vem. — E com isto, retirou-se.

Depois da restauradora catarse de uma ébria noitada saturnal com Ian, Freddie e Betty, eu já pensava mais racionalmente na minha ex-família. Eu fora lograda?

Assinara voluntariamente aquele contrato idiota, incluindo a última cláusula, que me derrubou. Eu pagara para fazer sexo?

Não, era verdade o que eu dissera a Ian: sexo existe em qualquer lugar. Pagara pelo feliz privilégio de pertencer a uma família... pelas delícias de trocar fraldas, lavar pratos, acariciar gatinhos. Capacho fora muito mais importante para mim do que Anita, o que só agora eu constatava. Tentei amar todos eles, mas o assunto Ellen me iluminou certas áreas obscuras.

Contudo, vejamos: eu sabia exatamente quantos dias passara com minha ex-família. Dizia-me a aritmética rudimentar (já que tudo me fora confiscado) que o custo de minha estada, cama e mesa, em férias tão ternas fora pouco mais de cento e cinqüenta dólares neozelandeses por dia.

Muito caro, mesmo para uma estância de veraneio. Já para a família, o meu custo fora inferior a um quarenta-avos daquela importância. E os demais, em que termos financeiros aderiam à família? Eu não sabia.

Teria Anita, impotente para conter a boa acolhida com que os homens me reverenciavam, manobrado as coisas de modo a eu não poder largar o emprego e morar na casa, amarrando-me, mesmo assim, à família e aos seus interesses lucrativos? Isto é, os de Anita? Não havia como saber. Conhecia tão pouco dos casamentos humanos... não podia julgar.

Uma coisa eu sabia. Estava decepcionada com Brian. Ficara contra mim quando eu o julgava o membro mais sofisticado da família, o mais velho, o mais sensato, o único capaz de aceitar e conviver com o fato da minha derivação biológica.

E talvez o fizesse, tivesse eu escolhido, para demonstrar, outra qualidade aperfeiçoada, e não uma que lhe parecesse tão estranha.

Mas como eu o superara numa proeza de força, questão em que o macho sempre espera vencer, ferira-lhe o orgulho masculino.

Não chute o saco de um homem, nem mesmo simbolicamente — ou, quem sabe, muito menos simbolicamente — a não ser que queira matá-lo.


 

Presentemente, as regiões de quedas-livres tiveram um fim, e nós penetramos no tão esperado (e temido) momento, repleto de sensações arrebatadoras, da passagem da barreira hipersônica. O computador estava fazendo um trabalho de boa qualidade, sendo responsável pelo controle das ondas de turbulência, mas podia-se sentir ainda as suas vibrações nos próprios dentes e eu pessoalmente podia localizá-las um pouco por toda parte depois da minha inusitada noite de plantão.

Rompemos para dentro da esfera transônica um tanto abruptamente, gastando um longo tempo a circular pela esfera subsônica, e, enquanto a folia a bordo aumentava, aumentavam também os rangidos. Então tocamos o solo, e os pneus fizeram o resto... Respirei longamente, aliviada. Muito parecido, neste pormenor, com os SBs, eu não conseguia relaxar desde o momento da aterrissagem até a parada total.

Nós havíamos alçado vôo da ilha do Norte na quinta-feira à tarde, chegando quarenta minutos depois em Winnipeg no dia anterior (quarta-feira) ao anoitecer, às 19h40min. (Não me culpe, camaradinha; dê uma olhada num mapa, daqueles que contêm os fusos horários.)

De novo esperei pelo momento "certo" e fui o último passageiro a sair. Nosso comandante uma vez mais tomou a iniciativa de pegar a minha mala, mas desta feita escoltou-me até a saída da nave com a casualidade aparente de um velho conhecido e eu me senti muitíssimo enternecida por tal atitude. Ele me conduziu através de uma porta lateral, e então passou junto comigo pela borboleta da Aduana, Saúde & Imigração, oferecendo primeiro, para o devido controle alfandegário, a sua própria mala de viagem.

O oficial da ASI nem a tocou.

— Boa-noite, capitão. Quais são as muambas de hoje?

— Tudo como sempre. Desta vez estou traficando somente diamantes falsos. Contratos comerciais secretos. Sem falar em drogas médicas de contrabando e algumas dezenas de amostras da última palavra em armamentos.

— Isso é tudo? É um desperdício de giz de controle. — Ele rabiscou algo ilegível na mala de viagem de Ian. — Ela está com o senhor?

— Nunca a vi mais gorda.

— Mim esposa de Injun — fui dizendo. — Grande Chefe me promete boa água de fogo.* Grande Chefe não manter promessa.

* Água de fogo = aguardente, cachaça (fírewater, expressão burlesca, no original). (N. do T.)

— Eu lhe teria avisado. Vai passar muito tempo aqui?

— Eu vivo no Império. Estou de passagem. Talvez apenas esta noite. Eu estive neste aeroporto quando vim da Nova Zelândia no mês passado. Eis o meu passaporte.

Ele deu uma olhada, carimbou-o, rabiscou qualquer coisa indecifrável na minha mala sem tê-la aberto.

— Se você ficar por um pouco mais de tempo, eu mesmo lhe comprarei a aguardente. Não creia jamais no capitão Tormey.

Nós prosseguimos adiante. Logo após a grade de proteção, Ian largou no chão ambas as malas, ergueu uma mulher pelos cotovelos (dando provas de sua excelente condição; ela era apenas dez centímetros mais baixa do que ele) e beijou-a com entusiasmo. Depois a colocou no chão.

— Ian, esta é a Marjie.

(Se Ian tinha aquele trabalho, que não era brincadeira dentro de casa, por que se interessou de coração pelos meus parcos recursos? Talvez porque eu estava lá e ela não. Mas agora era diferente. Cara senhora, por acaso tem um bom livro que me possa emprestar?)

Janet beijou-me e eu me senti bem melhor. Então, ela me segurou com ambas as mãos na altura dos meus ombros.

— Eu não a vejo. Será que você a deixou a bordo da espaçonave?

— Deixar o quê? Esta mala de viagem é tudo o que carrego comigo — a minha bagagem está no controle de trânsito...

— Não, amor, a sua auréola. Pelo que Betty me disse, esperei encontrar você de auréola e tudo...

Pensei um pouco a respeito.

— Você tem certeza de que ela falou auréola?

— Bem... Ela me disse que você era um anjo. Talvez eu tenha deduzido mal..

— Pode ser. Não creio que estivesse circulando com um halo de qualquer espécie ontem à noite, quando fui dormir. Bem raramente uso algum quando estou viajando.

— O comandante Ian disse:

— Isto é verdade. Na noite passada, tudo que ela tinha era um grande peso na consciência. Doçura, eu odeio ter de lhe dizer, mas essa Betty é uma péssima influência para você. Deplorável mesmo.

— Oh, céus! Talvez fosse melhor irmos diretamente à igreja. Vamos ou não, Marjorie? Chá e biscoitos aqui, e nada de jantar. A congregação todinha rezará com você.

— Concordo com o que propuser, Janet. (Era preciso que eu concordasse com isso? Eu nem conhecia as regras de etiqueta para um encontro com a congregação.)

O comandante Tormey disse:

— Janet, talvez seja melhor nós a levarmos pra casa e rezarmos nós mesmos por ela. Não estou certo de que Marjorie gostará de fazer a confissão pública de seus pecados.

— Marjorie, você faria isso por nós?

— Creio que sim. Eu o faria.

— Então nós iremos. Ian, você não quer cumprimentar Georges? Georges finalmente revelou-se como sendo o cidadão Georges Perreault. Isso é tudo o que eu soube a seu respeito naquele exato momento, além do fato de que ele guiava um par de puros-sangues negros atrelados a uma carroceria Honda própria para os muito ricos. Qual será o salário de um comandante SB? Friday, isso não é da sua conta. Mas decerto seria uma bela soma. Belo era Georges, por sua vez. Bonito, quero dizer. Alto, cabelos negros, vestia um costume preto e usava quepe. Parecia um cocheiro de altíssimo nível e merecer de todo o respeito. Mas Janet não o apresentou como um assalariado, e ele fez uma curvatura e beijou a minha mão suavemente. Será normal um cocheiro observar a cerimônia do beija-mão? Eu me mantive atenta às práticas sobre os humanos não incluídas no treinamento de praxe das PAs.

Ian sentou-se bem em frente a Georges; Janet levou-me com ela e abriu uma manta bem grande.

— Eu imaginava que você não teria algo quente para se cobrir, já que vinha de Auckland — ela explicou. — Portanto, chegue mais perto, agasalhe-se.

— Eu não havia dito uma só palavra sobre estar sentindo frio; era mesmo muito gentil da sua parte, e fui me aconchegando junto a ela. Georges nos conduziu estrada afora; assobiou para os cavalos, e eles saíram num trote estimulante. Ian tirou um como (feito com chifres de carneiro) do porta-luvas e fez soar um toque — não parecia haver razão alguma para tal; eu acho que apenas lhe deu vontade de fazer um pouco de barulho.

Não chegamos a entrar na cidade de Winnipeg. A casa ficava a sudoeste de uma cidadezinha bem pequena, Stonewall, ao norte de Winnipeg e bem mais perto do espaçoporto. À hora que chegamos já havia escurecido, mas pude observar um detalhe: era uma quinta campestre equipada para manter do lado de fora qualquer tipo de ataque militar.

Havia três portas colocadas em série, sendo que as portas um e dois formavam uma área cercada, como uma barreira. Eu não esbarrei com observadores eletrônicos ou com armas de controle remoto, mas podia jurar que se encontrariam por ali — a quinta era em toda a sua extensão demarcada por luzes-faróis alvirrubros que serviam como aviso inconfundível para eventuais vôos rasantes não tentarem penetrar na área.

Pude olhar apenas de relance o que quer que as três portas poderiam esconder — estava escuro demais. Uma parede e um par de para-peitos eu consegui ver, mas não dava para descobrir se seria uma trincheira; eu não podia avaliar como todo aquele concreto estava estruturado, se se tratava de uma armadilha, se continha armas de fogo. Mas nenhuma pessoa equilibrada gastaria tanto numa simples proteção doméstica; e muito menos, depois de ter gasto tanto dinheiro, ficaria de braços cruzados confiando cegamente num sistema de defesa essencialmente passivo. Eu desejava fazer algumas perguntas sobre o gerador de energia, pois havia me lembrado da maneira como, na sua fazenda, o chefe perdera o seu gerador principal (cortado por obra satânica de tio Jim) e, por assim dizer, ficara inapelavelmente sem defesas — mas uma vez mais não se tratava de algo que um convidado pudesse perguntar livremente, sem ser descortês.

Eu me preocupava muitíssimo com o que poderia ter acontecido, por exemplo, se alguém saltasse sobre nós antes que tivéssemos atravessado os limites do castelo. Uma vez mais, com o próspero comércio ilegal de armas que iam dar em mãos que se acreditavam desarmadas, esta era a espécie de problema que ninguém ousava colocar. Eu costumo andar por aí desarmada, mas nem por isso assumiria que era o que os outros faziam ou deveriam fazer. Eu não acho que os outros devam fazê-lo, porque não é nada fácil — muitas pessoas não possuem minhas qualificações nem passaram pelo treinamento que eu passei.

(Eu, pessoalmente, preferiria confiar na minha condição de "desarmada" a depender de máquinas que me poderiam ser arrancadas da mão numa determinada altura; instrumentos que possam falhar ou ser perdidos, ou ficar sem munição, ou emperrar, ou não disparar no momento certo. Eu não faço o tipo "armado", não me exibo, e isso já me ajuda. Mas pessoas de outras espécies têm problemas de outro tipo — eu sou um caso bem particular.)

Cobrimos um trecho impetuosamente, dando numa saliência em que tivemos de parar — e mais uma vez Ian fez soar aquele estranho como, num toque obsceno, só que agora parecia haver uma boa razão: as portas da frente se abriram. Ian disse:

— Leve-a para dentro, querida. Eu vou dar uma mão a Georges com o material.

— Não preciso de ajuda.

— Não se mexa. — Ian pulou fora do assento e nos ajudou a descer. Passou a minha mala de viagem para a esposa — e Georges afastou-se. Ian simplesmente seguiu a pé. Janet me fez entrar — e eu ofegava.

Observei, olhando através do vestíbulo, uma fonte iluminada, do tipo programada por computador; ela mudava de cores, tons e formas, como pude ver enquanto estive ali. Podia-se ouvir ao fundo uma música suave que possivelmente (repito, é apenas uma possibilidade) controlava os movimentos da água na fonte.

— Janet... quem é o seu arquiteto?

— Você gosta?

— Naturalmente.

— Então eu posso admitir. Eu mesma sou o arquiteto, Ian é o engenheiro, e Georges um especialista em decoração de interiores. Ele é um artista de muitos talentos e tem o seu próprio estúdio. E eu devo também dizer-lhe agora que Betty me pediu para esconder todas as suas roupas até Georges pintar pelo menos um nu seu.

— Betty disse isso? Mas eu nunca fui modelo, e além disso preciso voltar para o meu emprego.

— Cabe a nós mostrar-lhe o outro lado das coisas. A menos que você tenha vergonha de posar... Ou será uma forma de timidez? Betty não imaginou que você se sentiria assim. É importante que Georges o saiba para pensar num quadro com roupas. Em primeiro lugar.

— Não, eu não sou tímida. Bem, talvez um pouquinho quanto à idéia de posar; a coisa é nova para mim. Veja, não poderíamos deixar tudo para mais tarde? Neste exato momento estou mais interessada em ver tudo por aqui do que em posar; para dizer a verdade, ainda não respirei direito desde que deixei o apartamento de Betty. Eu devia ter parado um pouco no porto.

— Perdão, minha cara; eu não devia aborrecê-la desta forma falando das pinturas de Georges. Minha mãe ensinou-me, anos atrás, que a primeira coisa que se deve mostrar a um convidado é o banheiro da casa.

— Minha mãe também me ensinou a mesma coisa — eu menti, por cortesia.

— Por aqui. Um corredor abria-se em direção à esquerda a partir da fonte; ela me conduziu através dele até um quarto. — O seu quarto — anunciou, pousando a minha mala sobre o lençol da cama. — E o banheiro fica nesta direção. Você o dividirá comigo, pois o meu quarto é a imagem espelhada do seu no lado oposto.

Havia tanto para compartilhar — três antecâmaras, todas com o respectivo toalete, um bidê, um chuveiro grande o bastante para um orangotango e repleto de controles que eu teria de perguntar para que serviam; uma mesa para massagem e bronzeamento, uma sauna — ou seria um jato d'água quente? — que com certeza fora criada (e, anteriormente, projetada) para se saborear momentos de ócio e frenesi a dois; mesas gêmeas e guarda-roupões; um terminal de videofone; uma geladeira; e uma estante com livros e fitas cassete.

— Cadê o leopardo? — perguntei-lhe.

— Você deseja um? Esperava que houvesse algum?

— Todas as vezes que eu vi um quarto assim, nos filmes, a heroína tinha um leopardo ainda filhote à sua cabeceira.

— Oh! Você vai ficar tempo suficiente para um gatinho?

— Certamente. Você e Ian gostam de felinos?

— Eu não aceitaria cuidar de uma casa que não tivesse pelo menos um. De fato, agora mesmo eu posso lhe oferecer uma verdadeira pechincha de gatinhos.

— Eu gostaria de levar um. Mas não posso.

— Discutamos isso mais tarde. Trate de se arrumar. Você quer tomar uma ducha antes do jantar? Confesso que vou fazer isso; gastei tempo demais pajeando Beleza Negra e Demônio antes de ir ao espaçoporto, e acabei perdendo a oportunidade. Você reparou que não temos um estábulo?

E eis a maneira como, por etapas bem graduais, cerca de dez ou vinte minutos mais tarde as minhas costas estavam sendo lavadas por Georges, enquanto Ian lavava o meu ventre. Minha anfitriã lavava a si mesma e ria bem-humorada, exibindo voluptuosidades que eram ignoradas. Se fosse eu mesma a elaborar tudo na minha cabeça, a festa toda não teria saído mais perfeita. Bem se podia perceber a lógica de cada detalhe, naquela sucessão de etapas; aqueles gentis sibaritas nada faziam para me apressar. Tampouco existia o mais sutil esforço no sentido de me seduzir, nem mesmo uma centelha no ar a sugerir que eu já havia trepado com o meu hospedeiro na noite anterior (trepada quase simbólica).

Só depois compartilhei de uma orgia volúptica em plena sala de estar. Da sala de visitas a festa passou para o grande salão e foi terminar diante da lareira, que na verdade parecia ser mais um dos truques de Ian. Eu estava vestida num negligê esvoaçante que Janete me havia emprestado para a noite. (Aliás, a idéia de Janet quanto a negligês próprios para jantares à luz de velas poderia valer-lhe uma ordem de prisão em Christchurch.)

Mas isso certamente não causou graves desavenças entre nós, apenas não obteve a aprovação de ambos os homens. Quando chegamos ao café e ao brinde, eu já flutuava um pouco indistinta na nuvem criada por tantos aperitivos — conhaque, antes, vinho durante o jantar, — e, atendendo a pedidos, me desfiz daquele escasso pano que me cobria, e Georges me fez posar como uma estátua egípcia em cinco ou seis posturas diferentes, tirou holofotos e registros em estéreo de cada uma delas, enquanto tecia comentários em voz baixa como se eu fosse uma espécie de vaca de exposição. Eu continuava insistindo timidamente que devia partir no outro dia bem cedo, mas os protestos tornaram-se débeis e pro forma — Georges nem mesmo prestava mais atenção aos meus resmungos. Ele disse que eu tinha "belas massas" — talvez fosse um cumprimento, mas decerto não se tratava de uma aprovação.

Contudo, devo admitir que ele tirou umas fotos maravilhosas de mim, principalmente uma em que eu estava deitada à beira de um leito ao rés-do-chão com cinco gatinhos perdidos entre as minhas pernas e meus peitos, sobre a minha barriga e o meu umbigo. Pedi-lhe que me desse aquela e então soube que Georges tinha o equipamento necessário para processar cópias.

Georges tirou a seguir algumas holofotos de Janet comigo, e uma vez mais pedi-lhe a cópia de uma delas, porque havíamos estabelecido um contraste belíssimo e Georges possuía o toque que nos fazia parecer ainda melhores do que realmente éramos. Mas dali a pouco eu já estava bocejando, e Janet sugeriu a Georges que parássemos. Agradeci, dizendo que na verdade não tinha nenhuma boa razão para estar com sono, uma vez que era ainda plena tardinha no hemisfério em que havíamos principiado o dia.

Janet disse que eu me atormentava à toa, pois o sono podia não ter relação alguma com relógios, tempo e zonas horárias — cavalheiros, nós vamos para a cama. Ela me conduziu ao quarto.

Demos uma parada naquele banheiro espetacular e ela envolveu minhas costas com os seus braços, que pareciam de veludo.

— Marjie, você deseja companhia ou prefere dormir sozinha? Eu soube pela Betty que você ontem teve uma noite agitada; possivelmente, vai preferir uma noite calma, solitária e tranqüila. Ou talvez não, quem sabe? Diga você!

Afirmei com toda honestidade que não costumava dormir sozinha por escolha pessoal.

— Eu também — ela concordou — e é maravilhoso escutar isto dos seus lábios, em vez de dar voltar como conchas de caracóis ou fazer cenas como certos tipos... Quem é que você deseja na sua cama?

Doçura, pode estar certa de que você tem direito ao seu marido, na noite em que ele chega.

—Talvez as coisas acabem invertidas. Quem é que pretende dormir comigo?

— Ora essa! Todos nós, estou certa. Ou escolha dois. Ou um só. Basta você escolher.

Pestanejei. Eu me perguntava como havia conseguido beber tanto.

— Quatro numa cama só?

— Você gosta da idéia?

— Eu nunca tentei; parece-me muito apropriado, mas a cama ficará terrivelmente lotada, eu acho.

— Você ainda não conhece o meu quarto. Uma cama enorme. Pois meus dois maridos escolhem com muita freqüência dormir comigo... e ainda sobra muito quarto. Podemos até convidar amigos para dormir conosco.

Sim, eu havia bebido — duas noites seguidas e muito mais do que estava acostumada. — Dois maridos? Eu não sabia que o Canadá britânico havia adotado o plano australiano.

— O Canadá britânico, não. Os britânico-canadenses, sim. Ou, para ser mais exata, muitos milhares de nós. As portas ficam fechadas e, afinal, não é da conta de ninguém. Você quer experimentar a cama da casa? Se pegar no sono, pode engatinhar até o seu quarto — uma razão a mais para eu ter planejado a suíte da maneira que fiz. Bem, querida?

— Ai... sim. Mas eu talvez fique um pouco em órbita...

— Você vai superar esse pormenor, meu anjo. Vamos.

Ela foi interrompida pelo som melodioso de uma campainha no terminal de vídeo. Janet disse:

— Oh, diabos, mas será possível? É quase certo que estão chamando Ian, que o querem no espaçoporto — embora ele tenha acabado de voltar. — Ela se dirigiu para o terminal e ligou-o.

— É uma emergência. Nossa fronteira com o Império de Chicago foi invadida e um sem-número de refugiados terá que ser procurado. O ataque desferido por Quebec é coisa séria, mas pode tratar-se do erro pessoal de algum comandante isolado; até este momento não houve qualquer declaração de guerra. O estado de emergência entrou em vigor; portanto, mantenham-se fora das ruas, conservem-se calmos e ouçam nesta faixa de onda as notícias oficiais e demais instruções.

A Quinta-Feira Vermelha havia começado.


 

Acredito que todos tenham mais ou menos a mesma imagem da Quinta-Feira Vermelha, e de toda a confusão que a seguiu. Mas para que eu possa explicar (até para mim, se isso for possível!), devo contar direitinho como foi que a senti, vivenciei-a, incluindo a grande agitação e tanta perplexidade.

Nós quatro fomos parar na cama de Janet, mas só por companhia e conforto mútuo, nada de sexo. Ficamos atentos, os olhos fixos na tela do terminal, aguardando as notícias, que se repetiriam mais ou menos iguais — um ataque abortado do Quebec, um poderoso chefão do Império de Chicago encontrado morto na sua cama, a fronteira com o Império fora fechada. Além disso, atos de sabotagem ainda não avaliados, mantenham-se fora das ruas, conservem-se calmos — mas não importa quão freqüentemente a mesma toada era repetida, nós nos mantínhamos calados, escutando, esperando alguma novidade que viesse imprimir um sentido àquele caos.

Mas, em vez de um novo sentido, as coisas ficaram ainda mais indefinidas. E foram piorando à medida que a noite avançava. Lá pelas quatro da manhã, soubemos que assassinatos e atos de sabotagem aconteciam aos montes em toda a extensão do globo terrestre... Assim que a luz do dia apareceu, relatórios ainda não confirmados chegaram em linha direta, revelando quebra-quebras e confusão em L-4, na base de Tycho, na Estação Fixa, e (mensagem interrompida) em Ceres. Não havia meio de saber se as dificuldades haviam chegado até Alfa Centauro ou Tau Ceti... mas um comunicado oficial, feito por uma voz que ecoava macabra no áudio do terminal, apresentava uma interpretação bem duvidosa exatamente por recusar-se terminantemente a interpretar aquela conjuntura: simplesmente aconselhava que ninguém se engajasse em qualquer espécie de especulação perniciosa.

Nessa altura, com certa ajuda de minha parte, Janet preparou alguns sanduíches apetitosos e serviu café.

Acordei às nove, sentindo que Georges se mexia. Descobri que eu havia dormido com a cabeça apoiada no peito dele, e com o braço envolvendo o seu corpo. Ian encontrava-se estendido de través no leito, meio deitado e meio sentado, apoiado contra o travesseiro, o rosto ainda voltado para a tela — só que seus olhos estavam fechados. Janet não estava mais ali — fora ao meu quarto e se deitara no que, nominalmente, era a minha cama.

Percebi que, movendo-me bem devagar, poderia sair da cama de Janet sem acordar o pobre Georges. Fiz isso e passei rápido para o banheiro, onde me aliviei do efeito daquelas bebidas e me senti também um pouco melhor. Fui espiar dentro do meu quarto e pude ver a .cama ocupada pela minha anfitriã. Ela estava acordando. De pé, no momento seguinte, acenou com a mão convidando-me a entrar. Ela veio ao meu encontro e beijou-me. Depois, envolveu minha cintura com os braços.

— Como estão os meninos?

— Ainda estão dormindo, os dois. Ao menos ainda estavam, três minutos atrás.

— Muito bem. Eles precisam de umas boas horas de sono. Ambos são do tipo que se preocupa. Eu não sou. Decidi que não há razão para aguardar o Armagedon com os olhos injetados por infinitas noites sem sono, e por isso vim até aqui. Você dormia, suponho.

— Poderia estar dormindo. Não sei bem quando adormeci. Parece que eu estava ouvindo as mesmas más notícias, pela milésima vez. E de repente acordei.

— Você não perdeu nada. Diminuí o volume do som, mas deixei a imagem na tela vomitando a mesma velha história de mortes violentas. Marjorie, os rapazes estão à espreita, esperando que bombas sejam lançadas. Mas eu não creio que alguma bomba será lançada.

— Espero que esteja certa. Por que essa sua confiança?

— Quem poderia lançar bombas H? E sobre quem? Quem diabos é o inimigo? Todas as grandes potências encontram-se em grandes dificuldades, se é que pude compreender as notícias. Parece que houve um erro estúpido da parte de um general qualquer de Quebec; porém, nenhuma força militar foi mobilizada em parte alguma. Assassinatos, incêndios, explosões, todas as espécies de sabotagem possíveis e imagináveis, levantes armados, terrorismo — mas nenhum padrão visível, nenhum contorno definido. Não se trata do Leste contra o Oeste, ou de marxistas contra fascistas, ou de negros contra brancos. Marjorie, se vierem a ser lançados mísseis, isso significará que o mundo inteiro enlouqueceu.

— E isso não terá mesmo acontecido?

— Não creio. A prova é que não há um único sinal disso. O alvo seríamos todos nós. Parece que a agitação se espalha por todas as nações com igual intensidade. — Anarquistas? — sugeri.

— Talvez niilistas.

Ian entrou com os olhos inchados, a barba por fazer, o olhar meio assustado. Vestia um robe muito velho, curto demais para ele. Seus calcanhares eram nodosos.

— Janet, não consigo encontrar Betty nem Freddie.

— Eles não iam voltar para Sydney?

— Não consigo sequer entrar em contato com Sydney nem com Auckland. Tudo que obtenho é aquele diabo de voz sintética do computador do outro lado: "Não existe circuito disponível neste momento. Favor tentar mais tarde. Agradecemos pela paciência demonstrada." Você sabe como é.

— Ufa! Mais sabotagem, será?

— Pode ser. Mas talvez algo muito pior. Depois daquela confusão, tratei de contactar o controle de tráfego aéreo no porto e procurei me informar sobre o que estaria acontecendo de errado com o satélite de Winnipeg-Auckland. Obtive do supervisor a seguinte orientação: "Esqueça as chamadas não concretizadas porque ali ocorrem problemas de verdade. Todos os SB haviam pousado — porque dois deles foram sabotados em pleno espaço: Winnipeg-Buenos Aires, vôo vinte-e-nove, e Vancouver-Londres, um-zero-um.

— Ian!

— Perda total, ambos. Nenhum sobrevivente. Problemas de compressão, sem dúvida, porque explodiram no momento em que deixavam a camada atmosférica. Ian, na próxima vez em que tiver que decolar, eu mesmo farei a inspeção de cada uma das fases. É melhor parar a contagem regressiva ante a menor suspeita de seja lá o que for. — E acrescentou: — Mas eu não posso saber ao certo quando alguma coisa fatal irá acontecer. Não se pode levar ao espaço um SB quando os circuitos para reentrar no porto estiverem com defeito... e o supervisor admitir que no solo houve perda de todos os circuitos de emergência.

Janet pulou da cama, levantou-se e beijou-o.

— Agora pare de se preocupar. De uma vez por todas! Naturalmente você checará tudo o que for necessário, até serem descobertos os sabotadores. Até lá, tire tudo isso da sua cabeça, sobretudo porque não o chamarão para voar antes que os circuitos comuns sejam avaliados e tenham garantido o seu funcionamento. Portanto, aproveite estas férias que o destino lhe trouxe. E quanto a Betty e Freddie, é uma grande pena se não podemos falar-lhes, mas são competentes para tomar conta do próprio nariz, e você sabe disso. Não tenho a menor dúvida de que estarão se preocupando conosco, mas eles também não deviam. Fico feliz de que tenha acontecido enquanto você estava em casa — e não em qualquer outra parte do globo. Você está aqui, são e salvo, e é tudo o que importa. Vamos nos acomodar muito bem, sossegados e felizes, até que este nonsense acabe.

— Preciso ir para Vancouver.

— Homem de Deus, você não "precisa" fazer nada... exceto pagar os impostos e morrer na hora certa. Ninguém se preocupará em despachar artefatos pelas naves quando nenhuma nave está levantando vôo.

— Artefatos, repeti, num lamento. Ian pareceu ver-me pela primeira vez.

— Oi, Marj — bom-dia. Nada de que você possa se queixar muito, pode estar certa — e me perdoe toda esta algaravia, hoje, quando você é a nossa convidada. Os artefatos aos quais Ian se referia não são simples engenhocas, são criaturas vivas. O Planejamento tem até mesmo a tola idéia de que um artefato vivo, projetado para pilotar uma nave, poderá desempenhar suas funções muito melhor do que um homem. Sou o administrador de loja na seção de Winnipeg, e falo por experiência pessoal. É necessário que eu enfrente o problema. Há uma Assembléia do Grupo de Planejamento em Vancouver, amanhã.

— Ian — Janet chamou —, telefone para o secretário-geral. É uma tolice ir para Vancouver sem ter antes tentado confirmar.

— Ok, ok!

— Mas não fique implorando. Exija do secretário-geral que pressione o Planejamento para conseguir um adiamento do encontro até que a emergência tenha um fim. Quero que você esteja aqui e cuide de mim.

— Ou vice-versa.

— Ou vice-versa — ela concordou. — Mas eu vou desmaiar nos seus braços, se for necessário. O que você deseja no seu desjejum? Não torne as coisas muito complexas ou terei que apelar para o seu bom senso.

Eu não estava realmente prestando atenção até a palavra artefato me golpear a mente. Acertou em cheio. Eu tinha pensado um pouco em Ian — em todos eles, na verdade, daqui e dalém — como um tipo tão sofisticadamente civilizado que poderia até mesmo considerar a minha espécie simplesmente tão boa quanto a espécie humana.

E agora eu ouvia dizer que Ian ia representar o seu grupo numa assembléia que pretendia afastar a minha espécie do incômodo encargo de competir com os humanos.

(O que é que você nos faria, Ian? Cortaria as nossas gargantas? Não pedimos para ser produzidos, nem um pouquinho mais do que vocês pediram para nascer. Nós não somos humanos, mas compartilhávamos a sina ancestral dos humanos; somos estrangeiros num mundo que não foi feito para nós.)

— O que é que há, Marjie?

— Oh, desculpe-me, por favor. Eu estava distraída. O que foi mesmo que você disse, Ian?

— Perguntei o que você queria para o café da manhã, amor...

— Ora, isso não é importante. Me servirei do que estiver no prato. Pode até estar vivo, basta que se mova devagar o bastante para que eu o alcance. Talvez seja uma boa idéia ir com você e ajudá-la. Posso?

— Eu esperava que você se oferecesse. Sobretudo porque Ian não é de grande ajuda na cozinha, apesar das boas intenções.

— Sou um grande cozinheiro!

— Sim, querido. Ian me garantiu, por escrito que sempre estaria à minha disposição para cozinhar, se fosse necessário. Ele nunca tentou fugir ao compromisso, só que eu tenho de estar roxa de fome para ter a coragem de pedir.

.-— Marjie, não lhe dê ouvidos.

Ainda não descobri se Ian sabe ou não cozinhar, mas Janet certamente sabe (e também o Georges, como vim a constatar depois); Janet nos serviu — com um pouco de ajuda da minha parte — omeletes de Cheddar, um queijo clarinho e fofo, acompanhado por panquecas bem tenrinhas enroladas no estilo Continental, cobertas com açúcar e geléia, guarnecidas com bacon bem seco. E também suco de laranjas frescas (espremidas à mão, é preciso dizer, mas nada devendo àquelas espremidas pelas máquinas) e café expresso que saía em gotas da máquina a partir de grãos frescos torrados e moídos.

(A comida da Nova Zelândia é excelente, mas os hábitos culinários neozelandeses deixam muito a desejar.)

Georges tomou uma ducha no tempo exato em que um felino o faria —Mamãe Gata, neste caso, que chegava seguindo Georges de perto. Os filhotes eram excluídos por ordem de Janet, porque ela tinha preocupações demais para perder tempo cuidando de gatinhos. Janet decretou também que as notícias não seriam ouvidas durante as refeições e que a emergência jamais poderia ser tema de conversação à mesa. Isto me soava bem; talvez servisse para contrabalançar a tensão suscitada em minha mente por estes tão estranhos e ríspidos acontecimentos, que, desde o início, tomavam conta dos meus pensamentos até mesmo durante o sono. Segundo Janet, só uma bomba H teria condições de penetrar nossas defesas, e provavelmente nem perceberíamos a explosão de uma bomba H — logo, era relaxar e saborear o café da manhã.

Eu saboreei, e sem dúvida também Mamãe Gata, que patrulhava os nossos pés no sentido inverso ao movimento dos ponteiros do relógio, informando pacientemente a cada um de nós a sua vez de lhe presentear um pedacinho de bacon. Creio que ela teve para si o melhor da festa...

Depois de lavar os pratos (medida de economia mais do que técnica de reciclagem; Janet era bastante tradicional nessas situações) Janet fez mais um pouco de café, ligou o receptor e nós nos aprontamos para assistir e conversar — na cozinha, não no salão em que havíamos jantado. A cozinha, aliás, se tornara a nossa sala de estar de jacto. Janet possuía o que se pode chamar de uma "cozinha camponesa", se bem que nenhuma caipira que eu conheça tenha tido uma de tão boa qualidade: um grande fogão, uma mesa redonda onde a família realiza as refeições, mobiliada com grandes e confortabilíssimas poltronas de sala de espera. Uma cozinha espaçosa e sem problemas de localização ou movimento, até mesmo porque tudo que se devia cozinhar ficava no lado oposto àquele dedicado a conforto e passatempo. Aos gatinhos permitiu-se que voltassem à sala, o que pôs fim aos seus miados, e tornaram a eriçar os pêlos e sacudir as patinhas. Segurei um em minhas mãos; tinha o pêlo branquinho e grandes manchas escuras. Seus roncos eram maiores do que ele. Certamente a vida amorosa de Mamãe Gata não se restringia a nenhuma regra de pedigree; não havia dois gatinhos absolutamente iguais.

Grande parte das notícias era apenas repetição, mas era certo que houvera novidades no Império.

Os democratas estavam sendo cercados, condenados por conselhos de guerra sumários (denominados Cortes Militares) e rapidamente executados com raio laser, pelotão de fuzilamento, alguns enforcamentos. Empreguei todas as técnicas de controle da mente que conhecia a fim de suportar tais atrocidades. Havia condenados até de quatorze anos — vimos uma família em que os pais, condenados também, insistiam em explicar que seu filho tinha somente doze anos.

O presidente da Corte, membro da Polícia Imperial, encerrou as lamentações, atirando ele mesmo no jovem, e ordenando à sua gente que terminasse o serviço, matando os pais e a irmã mais velha do garoto.

Ian desligou a imagem e abaixou o volume do som.

— Eu já vi tudo que devia ver — grunhiu. — Seja quem for que detenha o poder, agora que o velho gerente está morto, deve estar liquidando todos os que constam na sua lista de suspeitos. — Mordeu os lábios e assumiu uma expressão severa.

— Marjie, você ainda mantém aquela intenção maluca de voltar para casa?

— Eu não sou democrata, Ian. Sou apolítica.

— E você pensa por acaso que aquela criança tinha alguma idéia política? Estes bandidos a matariam num piscar de olhos. De qualquer modo, você não conseguiria. A fronteira está fechada.

Não lhe contei que, no íntimo, eu tinha plena consciência da minha capacidade de transpor qualquer barreira ou fronteira na face da Terra.

— Pensei que estivesse fechada apenas para os que estivessem tentando chegar ao Norte sem ser de lá. Então eles não permitem que sequer os súditos do Império voltem às suas casas?

Ele suspirou.

— Marjie, você não é mais esperta do que esse gatinho que está no seu colo? Você não percebe que garotas bonitas podem se machucar se insistirem em brincar com garotos malvados? Se você estivesse em casa, estou certa de que o seu pai lhe diria para continuar em casa. Mas você está aqui, e isso traz a Georges e a mim a obrigação moral de a conservar salva. Hem, Georges?

— Mais oui, mon vieux! Certainement!*

*— Mas sim, meu velho! Certamente! (Em francês no original.) (N. do T.)

— E eu a protegerei de Georges. Ian, você é capaz de convencer esta criança de que é bem-vinda aqui por todo o tempo que ela queira? Creio que é a espécie de fêmea auto-suficiente que pretende agir por si mesma em qualquer situação.

— Eu não sou isso! Janet falou:

— Marjie, Betty me disse para tomar conta direitinho de você.

Se pensa que está nos dando despesa, pode compensar dando uma contribuição para a Cruz Vermelha Britânico-Canadense. Ou para um lar de gatinhos indigentes. Ocorre que nós três produzimos boas quantidades de dinheiro e nem mesmo temos filhos. Podemos cuidar de você como se mais um gatinho tivesse surgido na nossa porta, num cesto com lacinho de fita. Agora... me diga: você vai ficar conosco? Ou terei que esconder as suas roupas ou mesmo bater em você?

— Hum... Não quero que batam em mim.

— Tanto pior, eu até pretendia. Tudo certo, caros senhores; ela fica. Marjie, nós a enganamos. Georges sem dúvida a obrigará a fazer horas extras — ele é um brutamontes — e reconhecerá somente os seus serviços de compras no entreposto, e vai lhe creditar muito menos do que você merece e tem direito.pelas leis trabalhistas. E ainda vai contar vantagem.

— Não — disse Georges. — Não vou contar nenhuma vantagem; eu vou é tirar vantagem. Porque apresentarei a despesa com ela como sendo maior, minha cara. Nunca segundo a avaliação da gerência, mas pelo que ela realmente vale; e ela vale bem mais. O que você acha de uma vez e meia?

— No mínimo. Na verdade, o dobro seria mais justo. Seja generoso, uma vez que não é você quem vai pagar. Não lhe interessaria tê-la para seu uso pessoal, no campus"! No seu laboratório, quero dizer.

— Uma grande idéia! Aliás, uma idéia que talvez já estivesse surgindo na minha mente sórdida... e obrigado, minha cara, por trazê-la à tona. — Georges dirigiu-se a mim: — Marjorie, você vai ou não vai me vender um ovo?

Fiquei surpresa.

Procurei fitá-lo como se não houvesse absolutamente compreendido. — Eu não tenho nenhuma espécie de ovos.

— Ah, nisso você se engana! Algumas dúzias você tem, sem a menor dúvida, e isso é muito mais do que precisará para satisfazer condignamente suas necessidades pessoais. Um óvulo humano é o ovo ao qual me refiro. O laboratório oferece muito mais por um ovo do que por esperma — aritmética das mais elementares. Você está chocada?

— Não. Surpresa. Eu pensava que você era um artista. Janet intrometeu-se na conversa:

— Marjie querida, eu já lhe expliquei que Georges possui muitas qualidades de um artista. De um lado, ele é o professor Mendeliano, catedrático de Estudos Avançados de Teratologia na Universidade de Manitoba... e também tecnólogo-chefe para a produção associada do laboratório e da creche; e, creia-me, isto é arte de alto nível. Mas ele também é bom na pintura a óleo. Ou numa tela de computador.

— Isto lá é verdade — Ian concordou. — Georges faz arte em absolutamente tudo quanto toca ou participa. Mas vocês dois não deveriam ter jogado isso na cara de Marjie, pelo menos enquanto ela é nossa convidada. Algumas pessoas se assustam terrivelmente ante a simples idéia de manipulação genética — especialmente se se trata dos próprios genes.

— Marj, acho que fui um pouco rude com você. Você me desculpa?

— Não, Ian, não sou essa espécie de pessoa que se transtorna ante a simples idéia de artefatos vivos ou seres artificiais ou coisas do gênero. Ufa, alguns dos meus melhores amigos são pessoas artificiais.

— Caríssima... minha cara — Georges quase murmurou, gentilmente — não tire proveito de pobres diabos.

— Por que usa essa expressão? Tentei fazer com que minha voz não fosse ríspida demais.

— Eu falo de cadeira; aliás, é algo que posso exigir, sobretudo porque trabalho nesse campo e, orgulho-me em dizê-lo, tenho muitíssimos amigos que são seres artificiais, amigos de verdade. Mas...

Eu o interrompi:

— Pois eu pensava que uma PA jamais poderia conhecer pessoalmente os idealizadores do seu projeto!

— Certo! Isso é verdade e eu nunca violei essa regra. Mas eu já tive (e tenho) inúmeras oportunidades de estar em contato íntimo tanto com artefatos viventes como com seres artificiais — não são a mesma coisa — e até de conquistar verdadeiramente a sua amizade. Mas perdoe-me, cara senhora Marjorie... A menos que a senhora seja minha colega de trabalho... A senhora o é?

— Não!

— Só um engenheiro genético ou alguém muito próximo e concretamente ligado à indústria poderia arrogar-se o direito de fazer amigos entre a gente artificial. Porque, minha cara, ao contrário da crença popular, é simplesmente impossível a um leigo distinguir entre um indivíduo artificial e um indivíduo natural... e por causa do estúpido preconceito de gente ignorante, uma pessoa artificial jamais admitiria publicamente a sua origem. Portanto, ao mesmo tempo que me deleita o fato de você não estar subindo pelas paredes ante a simples menção da existência de criaturas artificiais, eu me sinto forcado a ver nas suas palavras uma hipérbole a provar que você não alimenta qualquer preconceito.

— Bem — tudo isto faz sentido. Interprete como bem entender. De qualquer modo não posso compreender por que PAs devam ser cidadãos de segunda classe. Não acho isso correto.

— E não é. Mas algumas pessoas se assustam com a idéia. Pergunte a Ian.

Ele seria capaz de ir até Vancouver arriscando a vida apenas para evitar que seres artificiais possam tornar-se pilotos. Ele...

— Cheeeega! Estou cheio disso! Coloco as coisas desta maneira porque os meus irmãozinhos do grupo de gerência assim o quiseram. Mas eu não sou tolo, Georges; viver com você, falar com você, fez-me tomar consciência de que nós devemos procurar um acordo. Não somos mais o que se pode chamar de pilotos de verdade, e aliás não o fomos durante todo o decorrer do século. É o computador que pilota. E, se o computador tem um branco em pleno ar, sou eu quem faz o papel de escoteiro tentando descer a tresloucada nave e pousá-la em terra firme. Mas não ponha as suas mãos no fogo por essa possibilidade, meu caro! As velocidades e as possíveis emergências há decênios deram prova de superar em muito os níveis de reação humana. Claro, eu bem que tentaria! E qualquer um que faça parte do grupo também tentaria... Mas Georges, se alguém pode projetar um ser artificial que pensa e se move rápido o bastante para competir com a fatalidade em plena linha de chegada, eu peço as minhas contas e me aposento. E isto é tudo que se pode fazer por ora — se a companhia empregar pilotos AP terá que pagar todos os nossos direitos, com indenizações, subsídios etc. Se é o que tais seres podem realmente ser produzidos.

— Ora, eu mesmo seria capaz de projetar um, valha a verdade. E no momento em que tivesse elaborado um, e me permitissem empregar o processo de clonação, todos vocês, pilotos, poderiam ir pescar pelo resto da vida. Mas não seria um PA; teria que ser um artefato vivente por excelência. Se eu tivesse que planejar e produzir um organismo capaz de exercer a função do piloto perfeito, isento de qualquer falha, não poderia aceitar a limitação de ter de fazê-lo à imagem e semelhança de um ser humano.

— Oh!, não faça tal coisa!

Ambos os homens pareceram admirados, Jane estava atônita — e eu desejei que tivesse sido capaz de conter a minha língua.


— Por que não? — perguntou Georges.

— Ora... porque eu, por exemplo, jamais entraria em tal nave. Creio que seria muito mais seguro viajar com Ian.

Ian agradeceu:

— Obrigado, Marjie, mas você ouviu o que Georges disse. Ele se referia à capacidade de um piloto andróide ser melhor do que qualquer um... É possível. Diabos, sei que é. Vai acontecer! Tal como os Kobolds da mitologia tomaram o lugar dos mineiros, todo o meu grupo de gerência terá de ser despedido. Não tenho como gostar dessa idéia — mas posso prever a sua presença iminente, posso sentir o seu cheiro no ar.

— Me diga, Georges, você já trabalhou alguma vez com computadores dotados de inteligência?

— Certamente, Marjorie. A inteligência artificial é um campo relativamente próximo ao meu.

— Bem. Então você deve saber que inúmeras vezes os cientistas da IA anunciaram estar trabalhando num projeto tal que representaria um golpe terrível para o bem-sucedido computador inteligente. Mas isso sempre foi por água abaixo.

— Sim. Decepcionante.

— Não — inevitável. A coisa vai terminar sempre desta forma lamentável. Um computador pode tornar-se inteligente, sabemos disso! Leve o projeto para o nível da condição humana e então ele terá de se tornar inteligente, ou pelo menos autoconsciente. E aí ele descobre que não é humano. Que jamais alcançará um progresso que o torne humano. E tudo que lhe restará a fazer será permanecer atento e receber ordens dos seres humanos. Até ficar maluco.

Encolhi os ombros,, aborrecida.

— Aí está um dilema terrível, sem solução. Ele não pode tornar-se humano, nunca será um ser humano. Ian pode não ser capaz de salvar seus passageiros, mas ele tentaria. Mas um artefato vivo, não-humano e sem a menor lealdade com os seres humanos, certamente faria a nave espatifar-se no chão pelo simples prazer de fazê-lo. Talvez assim estivesse demonstrando o seu protesto por ser tratado como é. Não, caro Georges, eu viajaria com Ian e nunca me deixaria conduzir pelo seu artefato vivo, que poderia a cada momento estar aprendendo a 'odiar os seres humanos.

— Não o meu, cara senhora, não o meu artefato vivo — disse Georges com gentileza. — Você não percebeu que modo verbal empreguei quando abordei esta idéia?

— Ora, talvez não...

— Pois bem. Foi o modo subjuntivo. Porque nada do que você disse é novidade para mim. Não me falta muita coisa para desenvolver tal projeto. Sem dúvida eu posso projetar esse piloto. Mas o que não posso é imbuir nele o espírito ético que é a essência do treinamento de Ian.

Ian parecia muito pensativo. Talvez neste caso, a solução estivesse em fazer correr um requerimento que contivesse a prescrição legal de que qualquer piloto classe PA, pessoa artificial, Av, artefato vivente, deveria ser submetido a um teste prévio de aptidão do ponto de vista ético.

— Testar como, Ian? Eu, pessoalmente, não conheço nenhuma forma de imbuir o gene da responsabilidade ética, e além disso, conforme salientou Marjorie, não existe como conceber que alguma espécie de treinamento ou exercício seja capaz de fazê-lo. E qual seria o tipo de teste capaz de demonstrar a sua eficácia?

Georges voltou-se para mim:

— Quando eu era estudante, li alguns textos clássicos que falavam de robôs humanóides. Eram histórias muito interessantes e algumas delas mencionavam a idéia de um conceito chamado lei da robótica, pela qual os robôs tinham embutida uma regra operacional: nunca provocar qualquer espécie de mal, direta ou indiretamente, a seres humanos. Por ação ou omissão. Tratava-se de uma fantástica fonte para a ficção... mas, na prática, como funcionava? Que diabo pode tornar uma máquina autoconsciente e inumana, um organismo inteligente — eletrônico ou orgânico — leal aos seres humanos? Eu não saberia fazê-lo. Os estudiosos da inteligência artificial parecem encontrar-se na mesma situação de irremediável perplexidade.

Georges esboçou um pequeno sorriso cínico.

— Seria o caso de definir inteligência como o nível no qual um organismo consciente se perguntaria: "O que cabe a mim na festa?" — E prosseguiu: — Marjie, com toda essa história de comprar um ovo (óvulo) seu, talvez eu estivesse querendo descobrir qual é a parte que lhe cabe na festa.

— Não lhe dê ouvidos — rosnou Janet. — Ele a faria deitar-se sobre o ferro frio de uma cama de hospital sem lençol e perscrutaria o seu túnel do amor sem o menor propósito romântico. Estou falando porque sei; deixei-o falar e insinuar-se por cima de mim três vezes. E nem mesmo fui paga.

— Como eu lhe poderia pagar se nós repartimos a propriedade em comunhão? Marjorie, doce senhora, aquela mesa não é fria nem repelente, é acolchoada e forrada com seda, e você pode ler ou observar o terminal ou bater papo, e tudo mais. É um grande progresso se comparado ao que se fazia há apenas uma geração atrás, quando alguns médicos loucos penetravam pela parede cartilaginosa do abdome feminino, com freqüência rompendo um ovário. Se você...

— Dê um tempo! — interrompeu Ian. — Há algo de novo no vídeo. — Em seguida aumentou o volume.

— O Conselho de Sobrevivência informa: os acontecimentos das últimas doze horas são um sério aviso para os ricos e poderosos de que o seu dia está chegando e de que a justiça prevalecerá. As chacinas e outros exemplos ilustrativos prosseguirão até que nossos objetivos superiores sejam alcançados. Fique ligado ao seu canal de emergência local...


Qualquer pessoa jovem demais para ouvir o comunicado daquela noite decerto o teria podido ler na íntegra durante as aulas, na escola. Mas eu preciso fazer ao menos um resumo do seu teor a fim de tornar claro o quanto ele nos afetou, a mim e à minha vida incomum. Esse "Conselho de Sobrevivência" identificava-se como uma sociedade secreta de "Homens Justos" inteiramente dedicados à correção dos mil e um descaminhos e engodos do Planeta Terra e de todos os outros planetas e povoados onde a humanidade já pisou. Neste sentido orientavam as suas vidas.

Contudo, primeiro precisariam sacrificar umas poucas vidas humanas — mas não as próprias. Afirmavam que já existiam listas completas de todos os verdadeiros viajores e globetrotters, do globo e de fora dele — listagens individuais para cada um dos territórios da Federação, mais uma grande lista dos líderes internacionais de renome. Estes eram os seus alvos.

O Conselho pediu um crédito, justificando as inevitáveis matanças iniciais e prometendo matar ainda mais — e mais — até que os seus objetivos fossem alcançados.

Depois de mencionar todos os líderes mundiais, a voz que chegava até nós começou a recitar a lista dos provenientes da Colúmbia Britânica. A julgar por suas expressões e suas idéias, pude perceber que meus hospedeiros concordavam com a maioria das indicações. Uma deputada ligada ao primeiro-ministro entrava na relação, mas não o próprio primeiro-ministro, é bom que se diga — o que não podia deixar de surpreender a mim, e, quem sabe, ainda mais à própria deputada. Como você se sentiria se tivesse passado a vida inteira fazendo política, escalado a duras penas até o alto, para depois um espertalhão lhe dizer que você não vale nem o prato de comida que consome? Um pouco como se tivesse caído numa teia de aranha!

A voz prometera que não haveria mais matanças por um período de dez dias. Caso certas condições não fossem imediatamente corrigidas, um de cada dez dos líderes remanescentes seria selecionado para o pelotão de fuzilamento. Os nomes dos condenados nem seriam divulgados; apenas seriam mortos, e fim. E dez dias após a última execução, outro seria escolhido, até a Utopia ser determinada pelos sobreviventes.

A voz esclarecia que o conselho não era um governo e que não vinha substituir qualquer governo; ele constituía pura e simplesmente os guardiães da moral e bons costumes, a consciência pública dos poderosos. E aqueles no poder que sobrevivessem permaneceriam no poder — mas só poderiam sobreviver fazendo justiça com as próprias mãos. Eles eram alertados para não sucumbir à tentação de renunciar à luta.

— Esta é a Voz da Sobrevivência. A Terra e o Céu ao alcance das suas mãos! — A seguir, silêncio.

Houve uma paralisação bastante longa depois que a fita terminou, até o momento no qual um repórter apareceu na tela do terminal. Janet quebrou o silêncio com um:

— Sim, mas...

— Sim, mas, o quê? — Ian perguntou.

— Não há a menor dúvida de que aquela lista contém a grande maioria dos poderosos do território. Suponhamos que você esteja na lista de procurados e se sentindo tão assustado por sua vida que faria tudo para salvar a própria pele. Como iria agir? O que significa fazer justiça?

("O que é a verdade?" perguntou-se Pôncio Pilatos enquanto lavava as mãos. Eu não tinha qualquer resposta, por isso permaneci calada.)

— Minha cara, é muito simples — respondeu Georges.

— Ora, você está brincando! Como sair dessa?

— Eles fizeram tudo parecer simples. Todo proprietário, patrão ou tirano é obrigado a conhecer o que deve ser feito em cada situação, essa é a sua tarefa. Se ele faz o que deve, tudo bem. Se erra, chama-se a sua atenção para o erro... com a Santa Guilhotina.

— Georges, fale sério, por favor!

— Minha cara, nunca fui tão sério. Se o cavalo já não pode saltar a cerca, mate o cavalo. Faça isso sempre, e pode ser que eventualmente encontre um cavalo capaz de saltar — se não esgotar a reserva de cavalos à sua disposição. Esta é a espécie de pseudológica que muitas pessoas supõem plausível na política. Não seria o caso de se indagar se a humanidade pode ser bem governada por algum sistema de governo?

— O governo é um negócio sujo — grunhiu Ian.

— É verdade. Mas o assassinato é ainda mais sujo.

Esta discussão política prosseguiria se o terminal de vídeo não tivesse, subitamente, se reativado. Percebi então que a discussão política jamais termina; ela sempre acaba sendo golpeada em sua sucessão de plausibilidades por algo que vem de fora. Uma repórter reapareceu na tela do terminal em transmissão ao vivo.

— A gravação que vocês ouviram — ela anunciou — foi trazida e entregue em nossa estação transmissora. O secretário do primeiro-ministro já se manifestou formalmente contra a gravação e proibiu terminantemente às estações que ainda não a puseram no ar que o fizessem, sob pena de transgredir a determinação existente sobre matéria disposta no Ato de Defesa Pública. Cabemos que tal disposição é inconstitucional. A censura prévia pretendida pelo secretário do primeiro-ministro vai de encontro aos princípios mais elementares de convivência civil numa sociedade livre. A Voz de Winnipeg continuará a informar sobre todas as etapas do processo. Nós aconselhamos a manter a calma e ficar em suas casas, a menos que sejam convocados por uma chamada específica para preservar os serviços públicos essenciais à vida da comunidade.

A transmissão foi interrompida, seguindo-se uma sucessão de imagens repetindo gravações anteriores sobre o mesmo assunto. Janet cortou o som e fez entrar o novo fluxo de notícias na tela. Eu falei:

— Ian, vamos supor que eu fique aqui até que as coisas se aquietem no Império.

— Isto não é suposição; é um fato.

— Sim, senhor. Então é preciso que eu chame o meu patrão o mais rápido possível. Fosso usar o terminal? Com o meu cartão de crédito, é claro.

— Dispense o seu cartão. Vou pedir uma ligação a cobrar aqui mesmo.

Eu me senti, por assim dizer, vexada.

— Ian, só posso apreciar e agradecer a recepção e a cordialidade que você estão demonstrando. Mas, se insistirem em pagar até mesmo coisas que um convidado devia prover por si só, então acho que deveriam registrar-me como uma concubina permanente e declarar em cartório público a sua responsabilidade pelos meus débitos.

— Parece-me bastante razoável. Que salário você acha bom o bastante?

— Espere um pouco! — Georges pediu. — Eu pago mais. Ele não passa de um escocês pão-duro.

— Não dê ouvidos a nenhum dos dois — Janet avisou. — Georges poderia pagar mais, mas ele é do tipo que quer comprar o mundo com trinta dinheiros. Eu sempre quis ter o meu próprio harém de escravas brancas. Gracinha! Acho que seria a coisa mais gostosa do mundo, nem iria precisar do brilhante incrustado no umbigo para ser uma perfeita odalisca... Mas você gostaria da idéia de se esfregar um pouquinho em mim? Qual é a sua? E agora chegamos à questão principal: o que é que você acha das mulheres? Você pode sussurrar a resposta bem baixinho no meu ouvido...

Eu disse:

— Talvez seja melhor eu sair e voltar logo mais para recomeçar tudo do início. Apenas desejo fazer uma chamada telefônica. Ian, não será melhor eu pagar com o meu cartão de crédito? Trata-se de um MasterCard de crédito triplo-A.

— Onde foi expedido?

— No Banco Imperial de Saint Louis.

— A julgar pelo que diz, concluo que você não deve ter prestado muita atenção ao aviso de há pouco. Ou quer que o seu cartão de crédito seja cancelado?

— Cancelado? Como assim?

— Será uma piada? A BritCanBanCreditNet anunciou em edição especial que os cartões de crédito emitidos em território do Império e em Quebec tinham a sua validez sustada durante todo o período de emergência. Portanto, mantenha-se incógnita e fique por aqui com a gente, apreciando as maravilhas da idade do computador e do plástico queimado.

— Oh!

— Diga lá, meu anjo. Parece que você disse apenas: "Oh".

— Sim, foi isso. Ian, posso lhe pedir que me desculpe? Talvez eu deva mesmo chamar o meu patrão por sua conta.

— Certamente que sim... basta você entrar em acordo com Janet. Aqui, ela é a responsável por tudo.

— Janet? O que me diz?

— Você não respondeu à minha pergunta, querida. Apenas sussurre dentro do meu ouvido.

Então fiz o que ela havia pedido. Sussurrei aos seus ouvidos. Os olhos dela cresceram.

— Vamos tratar de pedir a sua ligação, primeiro.

Passei-lhe o número de código e ela o digitou, usando o terminal do seu quarto de dormir.

O fluxo foi interrompido subitamente e substituído por um feixe de luz da cor que indicava os comunicados processuais, seguindo-se dizeres luminosos: VETO DE SEGURANÇA MÁXIMA — NÃO SÃO PERMITIDAS LIGAÇÕES PARA O CIRCUITO DO IMPÉRIO DE CHICAGO.

Cintilou por cerca de dez segundos, a seguir desapareceu. Deixei escapar um "merda!" muito sincero, e ouvi a voz de Ian soar baixinho por trás de mim:

— Malcriação, malcriação! Meninas de família bem-comportadas não falam desta maneira.

— Não sou isso, não. E me sinto muito frustrada!

— Imaginei como você se sentiria; eu já tinha ouvido este anúncio. Mas também sabia que você teria que tentar antes de poder acreditar em mim.

— Sim, eu certamente insistiria em tentar. Ian, não me sinto apenas frustrada; eu sou um fracasso.'Tenho crédito ilimitado no Banco Imperial de Saint Louis e nem sequer posso dispor dele. Tenho algumas centenas de dólares Ennzedd e mais uns trocados. Tenho cinqüenta coroas imperiais. E um cartão de crédito com a validez em suspenso. Como era mesmo aquela história de contrato de concubinagem? Você pode agora me conseguir bem baratinho; é uma questão de mercado: a lei da oferta e da procura.

— Depende. Certas circunstâncias alteram situações concretas, e neste momento eu não poderia ir além de casa e comida. O que foi que você sussurrou no ouvido de Janet? Talvez isso altere alguma coisa.

Janet atalhou:

— Ela me disse "Honi soit qui mal y pense" — (pura mentira) —, um sentimento que lhe recomendo, meu caro amigo. Marjorie, você não está nem um pouco pior do que estava uma hora atrás. Você ainda não pode voltar para casa até que tudo se acalme... Quando isso acontecer, a fronteira será reaberta, assim como todos os circuitos comuns, e o seu cartão de crédito será novamente válido... se não por aqui, logo depois da fronteira, a menos de cem quilômetros de distância. Portanto cruze os braços. Só nos resta esperar...

— "... com a mente em paz e o coração tranqüilo". Sim, faça isso — Ian concordou —, e Georges passará o tempo fazendo retratos seus. Porque ele está no mesmo barco. Mesmos apuros. Vocês dois tratem-se como inimigos perigosos, sabendo que serão irremediavelmente confinados se puserem o pé fora desta casa.

— Será que perdemos algum outro aviso? — perguntou Ian.

— Sim. Apesar de tudo parecer mera repetição dos mesmos eventos. Georges e Marjorie deveriam dirigir-se à delegacia de polícia mais próxima. Não os aconselho a fazer isso. Georges iria fazer-se de bobo, dizer uma balela qualquer — por exemplo, que não sabia que estavam incluídos os residentes permanentes. Naturalmente eles poderiam dar-lhes uma condicional... Do contrário terão de passar todo o inverno numa barraca de temporada. Coisa alguma nesta emergência estúpida garante que tudo vai terminar no fim da semana que vem.

Pensei a respeito. Uma ignóbil falha. Durante uma missão, eu nunca viajava com uma única espécie de cartão de crédito, sempre carregava comigo uma boa porção de dinheiro vivo. Mas eu havia, não sei por que cargas d'água, achado que nessa viagem de férias não seria necessário manter a velha e cínica regra de levar um monte de dinheiro vivo. Com dinheiro pode-se pagar para sair de confusões em que se entrou sem saber como, e sair com as penas emplumadas e a cabeça erguida. Mas como, sem dinheiro?

Eu não havia tentado viver fora das montanhas desde o meu treinamento básico. Talvez tivesse que descobrir na prática se todo aquele treinamento ia servir para alguma coisa. Pelo menos o tempo estava claro!

Georges gritava:

— Fale mais alto! Ou chegue mais perto! Nós nos aproximamos, apressados.

— Com os diabos! Não se pode deixar levar pelas hordas de vãos pecadores. Somos responsáveis pelos sinais de apocalipse que você vê em torno de nós. Os favoritos de Satã tentaram usurpar o trabalho sagrado dos instrumentos eleitos pelo Senhor e distorcer a sua obra no sentido das suas próprias vis finalidades. E por isto estão sendo punidos agora. Enquanto isso os marajás do ilícito e dos negócios mundanos aqui embaixo são comandados para executar as seguintes tarefas do Senhor: "Ponham fim a toda transgressão no Reino dos Céus. Se o Senhor tivesse querido que o homem voasse, dar-lhe-ia Ele mesmo as asas." A chamada engenharia genética zomba dos propósitos mais caros ao Senhor. É preciso, isto sim, destruir os covis onde a serpente põe seus ovos. Extermine-se a morte que perambula nestas fossas do mal. Sejam enforcadas as magas que praticam tais artes perversas.

— Deus do céu — disse Georges. — Eu sei que eles se referem a mim. — Eu não disse nada, eu sabia que eles falavam de mim.)

— Homens dormindo com homens, mulheres dormindo com mulheres, e aqueles que dormem com animais — todos morrerão apedrejados. Assim como as flagradas em adultério.

— Papistas, sarracenos e infiéis, judeus e todos os que se curvam ante imagens idolatras — os Anjos do Senhor vêm até vocês e dizem: "Arrependam-se, que a hora é chegada! Arrependam-se e sintam as palavras vivas que vêem dos instrumentos eleitos pelo Senhor. Pornógrafos e prostitutas, mulheres de má conduta, arrependam-se! — ou sintam os efeitos da terrível ira do Senhor! Pecadores, de todos os tipos, permaneçam ligados neste canal para receber instruções sobre como poderão finalmente ver a luz. Por determinação do Generalíssimo dos Anjos do Senhor."

A fita chegou ao fim e então houve outra pausa. Ian perguntou:

— Janet, você se lembra da primeira vez que vimos os Anjos do Senhor?

— Eu não o esqueceria. Mas nunca poderia esperar por tamanho ridículo.

Eu disse:

— Será que existem mesmo esses tais Anjos do Senhor? Não será apenas mais um pesadelo na tela?

— Hum... É difícil associar os anjos que eu e Ian vimos com toda esta confusão. Em março último, começos de abril, guiei até o porto para buscar Ian. A multidão era encabeçada pelos aleijões do Hare Krishna, vestidos com suas túnicas açafrão, as cabeças raspadas, saltando para cima e para baixo enquanto esmolavam. Um carregamento de cientologistas* estava saindo portas afora; tratava-se, creio, de uma convenção norte-americana da classe. Assim que surgiram ambos os grupos, vimos os Anjos do Senhor, portando símbolos artesanais caseiros, tamborins e clavas.

* Cientologia: Religião criada pelo escritor L. Ron Hubbard. (N. do D.)

 

"Marjie, aquela foi a luta mais pomposa, a mais sensacional que eu já presenciara até então. Não era difícil distinguir os contornos dos três grupos de contendores. Os Hare Krishnas assemelhavam-se a palhaços, inconfundíveis. Os Anjos e os sequazes do reverendo Hubbard não vestiam túnicas nem uniformes, mas não era, tampouco, difícil distingui-los. Os cientologistas eram limpos e nítidos e tinham os cabelos curtos; os Anjos pareciam camas ainda por fazer. Eles carregavam o "estigma da caridade" também. Eu tive a rota alterada por um grupo deles, mas logo desviei, movendo-me bem rápido.

"Os cientologistas, obviamente, já haviam tido de lutar pelos seus direitos muitas vezes; lutaram com disciplina, defenderam-se com brio e desembaraçaram-se facilmente — saíram fora, levando seus feridos consigo. Os cabeludos Hare Krishnas lutaram como galinhas ou patos que grasnavam de terror e deixaram os seus feridos para trás. Mas os Anjos do Senhor lutaram como se tivessem enlouquecido — e eu penso que sim. Moviam-se para a frente em bloco, brandindo suas clavas e alçando os punhos em sinal de raiva, e não pararam enquanto não deram com a cara no chão, não podendo mais levantar-se. Foram precisos tantos montanheses para superá-los quantos anjos haviam... quando a razão de praxe é: um montanhês, um motim.

"Parece que os Anjos do Senhor sabiam que os hubbarditas chegariam àquela hora e justamente para saltar-lhes em cima. A multidão Hare Krishna conglomerou-se por coincidência — eles estavam pelos lados do porto apenas porque é o lugar ideal para sacudir a bandeja e coletar um pouco de dinheiro. Pois bem: tendo deparado com os Hairies e não sendo capazes de dobrar os cientologistas, os Anjos agruparam-se para bater no fraco grupo de devotos do Krishna."

Ian assentiu com a cabeça.

— Pude ver com bastante clareza do outro lado da murada. Aqueles Anjos quase igualaram o furor dos verdadeiros bárbaros. Acho que eles se levantaram com o pé esquerdo. Mas jamais poderia crer que uma tal turba de esfarrapados tivesse força suficiente para constituir-se numa ameaça para o planeta inteiro — diabos, eu não posso crer ainda hoje. Creio que estão procurando ganhar alguma espécie de crédito, da mesma forma que aqueles psicóticos que confessam a autoria de qualquer crime espetacular.

— Mas eu juro que não gostaria de enfrentá-los — Janet acrescentou.

— Certo! Eu preferiria ter de enfrentar uma malta de cães danados. Mas não posso nem mesmo imaginar cães derrubando uma república. Muito menos um mundo.

Nenhum de nós pôde prever que outras pessoas ainda fariam novas reivindicações — mas, duas horas depois, os Estimuladores apresentaram a sua versão:

— Aqui é um representante autorizado dos Estimuladores. Demos início às primeiras execuções e selecionamos cuidadosamente os nossos alvos. Não tomamos parte em motins nem fomos responsáveis por qualquer forma de atrocidade. Contudo, achamos necessário interromper algumas comunicações, e o fizemos. Mas estas serão reativadas assim que as condições ambientais permitirem. A força das circunstâncias obrigou-nos a certas mudanças em nossos planos essencialmente benignos e não-violentos. A ação carreirista de oportunistas que se auto-intitulam Conselho da Sobrevivência em países de língua inglesa ou Herdeiros de Leon Trotsky, ou outros nomes que não fazem o menor sentido em qualquer parte do mundo, por diversas vezes buscou tirar partido pessoal do nosso programa. Eles porém não podem nos superar, uma vez que nem possuem um programa próprio.

"Pior ainda são alguns fanáticos religiosos que se proclamam Anjos do Senhor. O que ousam chamar de programa não passa de uma coleção desmiolada de slogans e frases feitas de orientação antiintelectual e preconceitos viciosos. Não podem alcançar sucesso, mas têm o fatídico poder de lançar irmão contra irmão, cidadão contra cidadão, vizinho contra vizinho. Eles devem ser contidos.

"Decreto de Emergência Número Um: Todas as pessoas que se apresentarem como Anjos do Senhor serão condenadas à morte. As autoridades de todos os rincões devem cumprir esta sentença imediatamente, executando quem for encontrado em tal situação. Cidadãos privados, sujeitos à legislação em vigor na circunscrição, cidadãos residentes e demais interessados devem, por determinação legal, encaminhar esses auto-intitulados Anjos do Senhor à autoridade policial mais próxima, estando as forças da lei autorizadas a usar todas as formas de coerção e instrumentos de poder necessários para executar o confina-mento.

"Fornecer ajuda, favorecer, socorrer ou ocultar qualquer um desses indiciados constitui ofensa capital.

"Decreto de Emergência Número Dois: Solicitar falsamente crédito ou responsabilidade por qualquer ato de um Estimulador, ou falsamente solicitar crédito por ação desempenhada sob as ordens de Estimuladores será considerado ofensa capital. Todas as autoridades são solicitadas, portanto, a tratar assim a situação. Este decreto se aplica, mas não se limita, a grupos ou indivíduos que se auto-intitulam Conselho de Sobrevivência.

"Programa de Reforma: As seguintes medidas de reforma são válidas desde agora. Líderes políticos, fiscais e/ou empresariais serão responsáveis, individual ou coletivamente, pela aplicação das medidas de reforma, sob pena de morte.

"Reformas imediatas: Todos os salários, preços e aluguéis estão congelados. Todas as hipotecas de moradias ficam desde já canceladas. Todas as taxas de juros estão fixadas em seis por cento.

"Em cada nação o setor da saúde será nacionalizado na medida em que for necessário, quando isso já não foi feito anteriormente. Aos médicos caberá uma retribuição igual àquela paga aos professores de escolas de segundo grau; os enfermeiros serão pagos como os professores de primeiro grau; quanto aos outros profissionais das áreas de terapia e auxiliar, serão remunerados segundo um padrão de equivalência. As taxas para a utilização de clínicas e hospitais estão, desde agora, abolidas. Todos os cidadãos, súditos e residentes receberão o mais alto nível de cuidados com a saúde.

"Todas as lojas comerciais e de serviços em funcionamento continuarão ativas. Após o período de transição serão permitidas algumas mudanças, e serão requeridas, quando necessárias, desde que atendam ao propósito maior do bem-estar coletivo.

"As próximas instruções terão lugar dentro de oito a dez dias. A lista de oficiais e líderes sob o risco de punição capital publicada pelo chamado Conselho para Sobrevivência" não é confirmada nem desmentida. Cada pessoa deve perguntar ao próprio coração e consciência, isto é, perguntar a si mesma, se está ou não fazendo o máximo pelos seus concidadãos e camaradas. Se a resposta for sim, você pode se considerar a salvo. Se for não, você talvez seja um entre os próximos a serem incluídos nos grupos selecionados para constituir um exemplo vivo para os que tornaram o nosso bom planeta um inferno de desigualdades e de privilégios especiais.

"Decreto Especial: As criações de pseudo-seres serão encerradas imediatamente. Todos os indivíduos chamados de pessoas artificiais e/ou artefatos viventes deverão render-se às autoridades da Reforma no exato momento em que forem notificados. Nesse ínterim, enquanto planos estiverem em fase de elaboração para que os quase-humanos possam ter meios de sobrevivência sem acarretar problemas em se gerar uma competição indesejável fica decretado que tais criaturas podem continuar seu trabalho, mas devem recolher-se a ambientes privados em todos os outros momentos.

"Exceto nas situações que enumeramos em seguida, as autoridades locais estão terminantemente proibidas de exterminar esses..."

O anúncio foi interrompido de supetão, e surgiu uma face na tela — um homem suarento, parecendo confuso:

— Sou o sargento Malloy, falo em nome do chefe Hendersen. Nem mais uma destas transmissões subversivas será tolerada. A programação regular voltará agora. Mas fiquem ligados neste canal para uma eventual emergência. — O homem suspirou. — Este é um tempo de dificuldades, senhores. Sejam pacientes.


— Eis o que nos espera, meus caros — Georges disse, -r- À escolha do freguês. Uma teocracia comandada por caçadores de bruxas. Ou um socialismo de cunho fascista concebido por estudantes retardados. Ou rudes pragmatistas que acreditam piamente em sacrificar o cavalo que não consegue ultrapassar o obstáculo. E basta! Um para cada freguês.

— Pare com isso, Georges — Ian atalhou. — Não é caso para brincadeiras.

— Meu irmão, não estou de sacanagem; estou chorando. Um dos bandos pretende acertar-me bem nos olhos, outro julga apenas ilegal a minha arte e profissão, enquanto um terceiro me ameaça sem, contudo, pôr em prática qualquer ação direta — o que é, até onde posso ver, ainda mais assustador. E nesse meio-tempo, a menos que eu encontre consolação num culto exclusivo do físico, este governo beneficente, minha alma mater vital, declara-me inimigo alienígena, bom apenas para ser punido. O que posso fazer? Contar piadas? Ou derramar minhas lágrimas no seu ombro?

— Você pode deixar de ser tão mesquinho, eis o que deve fazer. O mundo está ficando maluco diante dos nossos narizes. Seria melhor começar a nos interessar pelo que é possível fazer para consertar a situação.

— Parem com isto, vocês dois — disse Janet, gentil mas firmemente. — Uma coisa que toda mulher sabe, mas que bem poucos homens chegam a perceber no curso da existência, é que existem momentos nos quais a única ação inteligente consiste em não agir, mas esperar. Apenas esperar. Eu os conheço muito bem. Vocês gostariam de correr até o posto de alistamento mais próximo, engajar-se pelo período necessário e dessa maneira entregar as suas consciências nas mãos do sargento encarregado. Isso foi bom para os seus pais e avós, e lamento muito não ser a solução para vocês. Nosso país corre perigo, e com ele a nossa maneira de viver, é óbvio. Se alguém conhece uma saída melhor do que sentar e esperar, então, por favor, que fale. Do contrário... não vamos ficar correndo em círculos. Aproxima-se o que deveria corresponder à hora do almoço. Alguém pensa em algo melhor para fazer?

— Tomamos o café da manhã muito tarde.

— E também jantaremos bem tarde. Quando estiver tudo em cima da mesa, você sentirá fome, e também Georges comerá. Existe algo que podemos fazer: se as coisas se tornarem piores do que neste momento, Marj deve saber para onde ir a fim de se proteger de eventuais bombas.

— Ou do que quer que seja.

— Ou disto. Sim, Ian. Como a polícia, quando dá busca atrás de alienígenas inimigos. Por acaso vocês dois, homens da casa, já pensaram no que fazer caso eles venham bater na nossa porta?

— Eu já pensei no assunto — Georges respondeu. — primeiro você entrega Marj aos cossacos. Isso os distrairá; nesse meio-tempo, fugirei para longe. Esta é uma opção.

— Claro — concordou Janet. — Mas isso significa que você tem outra opção?

— Não tão elegante quanto a primeira. Mas, para a situação, até que é boa. Ei-la: eu me entrego à Gestapo, uma experiência para constatar se é possível ou não que um cidadão pagador de impostos, hóspede ilustre que não deixou de contribuir para o bem-estar da polícia sempre que possível, e que até doou uns trocados para o fundo de proteção policial e a vaquinha do Corpo de Bombeiros, seja.trancafiado sem a menor razão plausível. Enquanto eu estiver me sacrificando por um princípio ético, Marjie poderá descer até o portão e esconder-se, pois eles não sabem que ela está aqui. Infelizmente, sabem que eu estou aqui. Aí está uma coisa muito, mas muito melhor.

— Não seja tão nobre, meu caro, isso não lhe fica bem. Vamos combinar os dois planos. Se — não, quando — eles vierem procurar um dos dois, ou ambos, vocês estarão escondidos; e ficarão no abrigo enquanto for necessário. Dias, semanas, sei lá.

Georges balançou a cabeça.

— Eu não. É úmido, insalubre.

— Além disso — Ian acrescentou —, prometi a Marjie que a protegeria de Georges. Mas não faz o menor sentido salvar a vida dela se você depois a deixar nas mãos deste franco-canadense tarado.

— Não creia nele, querida. Meu fraco é a bebida.

— Amor, você deseja ser protegida da voracidade de Georges?

Sincera e bem-humorada, respondi que na verdade Georges é que precisaria se proteger de mim. Sem premeditar.

— E quanto às suas reclamações sobre a umidade, Georges, o Buraco tem precisamente o mesmo teor de umidade de todo o resto da casa, um RH benigno de quarenta e cinco; eu o concebi dessa maneira. Se for necessário, nós o empurraremos para dentro do Buraco, mas jamais o entregaremos à polícia. — Janet voltou-se para mim: — Venha comigo, querida. Nós duas faremos o quarto parecer seco. Até mesmo um pouco úmido de verdade.

Levou-me até o quarto designado para meu uso, apanhou a minha mala de viagem.

— O que é que você tem aqui dentro?

— Nada demais. Uma muda de calças compridas e algumas meias. Meu passaporte. Um cartão de crédito inútil. Um pouco de dinheiro. Documentos. Um pequeno caderno de notas. Minha bagagem real está retida na alfândega.

— Dá no mesmo. Porque nenhum traço da sua presença será deixando no meu quarto. Se se trata de roupas, eu e você temos mais ou menos o mesmo manequim. — Procurou numa gaveta e encontrou um envelope plástico dentro de um cinto — um cinto do tipo para carregar dinheiro. Identifiquei-o, ainda que jamais tivesse tido um — é inútil na minha profissão. Fica óbvio demais. — Guarde aí tudo o que você não quiser perder. E feche bem. Agora vai ter que se molhar um pouquinho. Você se importa de ficar com o cabelo molhado?

— Deus do céu, não. Em geral dou uma enxugada rápida com a toalha e depois sacudo. Ou deixo como está.

— Ótimo. Ponha tudo na bolsa e tire suas roupas. Não adianta nada ficar com elas depois de molhadas. No entanto, caso os gendarmes apareçam, simplesmente pegue-as, molhadas mesmo, e leve-as para secar com você lá embaixo, no Buraco.

Alguns momentos mais tarde estávamos no seu amplo banheiro; eu vestia aquele cinto porta-valores à prova d'água e Janet sorria.

— Minha cara — ela me disse, apontando para o tubo de aquecimento — dê uma olhada debaixo do assento, no lado mais distante.

Eu me movi um pouco. — Não posso ver muito bem.

— Eu o planejei dessa forma. A água é clara e você pode ver através dela por toda a superfície. Mas da única fenda pela qual você poderia ver debaixo daquele assento, o reflexo das luzes na água volta direto na direção de seus olhos. Existe um túnel debaixo do assento. Você não pode vê-lo, não importa onde você esteja, mas se você se virar e trouxer a cabeça até a altura da água, você poderá percebê-lo. Tem um pouco menos de um metro de largura, cerca de meio metro de altura e uns seis metros de comprimento. Como você se sente em ambientes fechados? Sofre de claustrofobia?

— Não.

— Isso é bom. Porque a única maneira de se entrar no Buraco é tomar fôlego, respirando fundo, aprisionando bastante ar nos pulmões, e mergulhando através da passagem. Seria fácil empurrar você através dele, porque construí sulcos bem no fundo, justamente para isso. Mas precisa assumir que não é longo o bastante, que você pode alcançar um ponto onde ele se abre depois do tempo de uma respirada, e que bastará erguer-se para estar novamente respirando ar puro. Você estará no escuro, mas a luz a alcançará bem rápido; é uma chave de radiação termal. Desta vez irei à sua frente. Pronta para seguir-me?

— Creio que sim. Vamos.

— Aí vai. — Janet moveu-se para baixo em direção ao assento próximo, e mais para baixo até o fundo do tanque. O nível da água tocava quase a sua cintura, um pouco acima. — Respire fundo! Ela assim o fez, sorriu e mergulhou dentro d'água, para baixo do assento.

Eu me movi dentro d'água, hiperventilada, e a segui. Não podia ver o túnel, mas seria fácil encontrá-lo tateando, fácil propelir-me pelo centro dele apenas fincando as mãos no solo como garras. Mas pareceu-me que a passagem era muitas vezes mais longa que seis metros.

De repente uma luz acendeu-se bem à minha frente. Alcancei-a, levantei-me e Janet me deu a mão, ajudando-me a sair da água. Dei comigo mesma num quarto minúsculo, com um teto não mais alto que dois metros acima do chão de concreto. Pareceu-me mais agradável que um túmulo, mas não muito.

— Dê a volta, minha cara. Por aqui.

"O por aqui" era uma pesada porta de aço, bem acima do chão e bem abaixo do teto; passamos por ela, sentando-nos na soleira da porta e agitando um pouco os pés. Janet empurrou-a e a fechou depois da nossa passagem, e a porta rangeu pesada como o selo de uma catacumba.

— Porta superpressurizada — ela explicou. — Se uma bomba caísse por aqui, a onda de concussão empurraria a água através do pequeno túnel. Isso a faria parar. Naturalmente, de um golpe só. Bem, nós não poderíamos percebê-la, e por isso nem a levei em consideração. — Ela acrescentou: — Dê uma olhada à sua volta, sinta-se como se estivesse em casa. Vou buscar uma toalha.

Nós nos encontrávamos num aposento longo, se bem que estreito, com um teto arqueado. Havia camas-beliche por toda a extensão da parede à direita, uma mesa com poltronas e um terminal de vídeo, e, num ângulo não muito distante, também do lado direito, uma cozinha pequena e uma porta que evidentemente conduzia até uma ducha ou sala de banho, pois Janet entrou lá e voltou no momento seguinte com uma toalha das grandes.

— Segure firme e deixe que a mamãe seque você — ela disse. — Não temos secadores. Tudo é tão simples e natural, não-automatizado, quanto pude conceber sem que as coisas deixassem de funcionar.

Deu-me uma esfregadela que me deixou vermelha, e então peguei a toalha de suas mãos e enxuguei-a todinha — um prazer, pois Janet é uma mulher de beleza extasiante. Por fim, ela disse:

— Isto é o bastante, amor. Agora vamos fazer um tour de cinco dólares, já que você provavelmente não voltará aqui tão cedo, a menos que tenha de usar o local como um refúgio... e então poderá se sentir sozinha — é claro, isto poderia acontecer — e a sua vida talvez dependa de conhecer o lugar nos mínimos detalhes. Primeiro, veja se você pode ver aquele livro acorrentado à parede acima da mesa. Aquele é o livro de instruções e o inventário daqui, e a corrente não está ali por brincadeira. Com aquele livro você não precisa do nosso tour de cinco dólares, tudo está mencionado nele. Aspirina, amoníaco em gotas, vinagre de maçã, tudo está descrito ali.

Fizemos então um tour de três dólares e noventa e cinco: estoque de alimentos, congelador, reserva de ar, bomba manual para água no caso de falha no nível de pressão, roupas, remédios etc.

— Eu o planejei — ela disse — para três pessoas por um período de três meses.

— Com é que você o reestoca?

— Como é que você o faria?

Pensei a respeito.

— Eu tentaria bombear a água para fora do embolo.

— Sim, exatamente. Existe uma cisterna de retenção, oculta, que não aparece na planta da casa — nada disto aqui, aliás. Naturalmente, muitos artigos acabam molhados, outros têm que ser protegidos por tampões à prova d'água. E por falar nisso, aquela sua bolsa de dinheiro se saiu bem?

— Acho que sim. Extraí todo o ar dentro dela antes de vedá-la. Ian, este lugar não pode ser apenas um esconderijo antibombas. Você não iria ter tanto trabalho, problemas e despesa se o objetivo fosse só esse.

A face dela se anuviou.

— Minha cara, você é muito perspicaz. Não, eu jamais teria me empenhado em construí-lo se se tratasse tão-somente de um abrigo antibombas. Se algum dia recebermos uma carga de bombas H, confesso não estar nem um pouco ansiosa para sobreviver a tal catástrofe. Concebi o abrigo inicialmente para nos proteger do que é comumente denominado "desordem civil".

Ela prosseguiu:

— Meus avós costumavam contar-me de um tempo em que as pessoas eram polidas e bem-educadas, não receavam passear na rua à noite, e em geral nem mesmo trancavam as portas — não circundavam, é claro, as suas casas com cercas e muros por eletrificação ou sistemas laser. Pode ser verdade, não sou velha o bastante para lembrar-me disso. Parece-me, porém, que durante toda a minha vida as coisas foram se tornando cada vez piores. O meu primeiro emprego, assim que saí da escola, consistia em projetar sistemas dissimulados de defesa em edifícios antigos que estavam sendo remodelados. Mas os artifícios empregados naquele tempo — e, afinal, não faz tantos anos assim! — já estão obsoletos. Primeiro a idéia era parar o intruso e dar-lhe um bom susto. Agora trata-se de um sistema de defesa em duas fases. Se a primeira não é suficiente para detê-lo, a segunda é projetada para destruí-lo. Estritamente ilegal, mas quem pode pagar costuma fazer as coisas dessa maneira... Marj, o que foi que ainda não lhe mostrei? Não se preocupe com o livro; você acabaria por sujá-lo. Olhe dentro da sua cabeça. Que outra característica do Buraco eu não lhe mostrei?

(Desejaria ela que eu lhe dissesse a verdade?)

— Acho que não falta nada... Você já me mostrou até o Shipstone principal e os auxiliares das suas reservas de energia.

— Pense, minha cara. A casa acima de nós desaba bem sobre os nossos narizes. Ou, quem sabe, é ocupada por invasores. Ou mesmo pela nossa própria polícia, atrás de Georges e de você. O que mais seria necessário?

— Bem... qualquer coisa que viva debaixo da terra — raposas, coelhos, esquilos, roedores — costuma ter uma porta dos fundos.

— Boa menina! Onde é que ela fica?

Fiz menção de olhar em redor e tentar localizá-la. Mas de fato uma coceira que tomara conta de mim pela primeira vez nos tempos do meu treinamento intermediário ("Não relaxe até que você tenha encontrado a sua rota de fuga") já me havia obrigado a procurá-la um pouco antes.

— Se é mesmo possível escavar naquela direção, penso que a porta dos fundos deve estar dentro daquele guarda-roupas.

— Não sei bem se lhe devo congratulações ou se procuro um novo lugar onde possa escondê-la melhor. Sim, exatamente através daquele armário e à esquerda. As luzes incidem de trinta e sete graus de radiação, assim como quando saímos fora do túnel da piscina. Aquelas luzes são recarregadas por seus próprios Shipstones, e praticamente deveriam durar para sempre, mas penso ser mais inteligente usar uma lanterna nova, e você bem sabe onde elas se encontram. O túnel é muito longo, porque se exterioriza fora dos nossos muros, numa moita e bem num canteiro de espinhos. Existe uma porta camuflada, pesada de verdade, mas basta que você a ponha de lado e ela volta para trás automaticamente.

— Soa terrivelmente bem planejado. Mas, Ian, como seria se alguém a descobrisse e viesse por ali? Eu mesma, por exemplo? Afinal de contas, sou praticamente uma estranha.

— Você não é uma estranha; é uma velha amiga que conhecemos há pouco. Sim, é vagamente possível que alguém encontre a nossa porta dos fundos, apesar do seu esconderijo e da maneira pela qual foi camuflada. De cara, faria soar um alarme estridente por toda a casa. Então iríamos examinar o túnel todo graças ao dispositivo de controle remoto, a imagem surgindo nos terminais de vídeo. Medidas de emergência seriam tomadas, a mais inofensiva sendo o gás lacrimogêneo. Mas no caso de não estarmos em casa quando a porta fosse arrombada, eu sentiria muito por Ian ou por Georges — ou pelos dois.

— Por que você diz isso?

— Porque não seria necessário preocupar-se por mim. Eu teria um ataque súbito de fraqueza feminina, desfaleceria. Eu não ponho a mão em coisas como cadáveres, especialmente naqueles que já o foram por um número de dias suficiente para ficarem podres.

— Hum... Ufa!

— Apesar do fato de que aquele corpo não estaria morto se o seu dono fosse vivo o bastante para mijar fora da bacia. Lembre-se, sou uma arquiteta e projetista profissional de sistemas de defesa civil, Marj, e note a sagacidade da atual política de duas correntes. Suponha que alguém consiga penetrar por cima de uma encosta íngreme, arrombe a nossa porta, e rebente as unhas ao conseguir abri-la — ele não está morto, naquele instante. Se se tratasse de um de nós — é possível, embora improvável —, iria acionar um mecanismo por meio de um interruptor escondido a uma distância mínima, dentro do túnel. Vou lhe mostrar onde, aliás. Se fosse mesmo um intruso, ele veria imediatamente um aviso: PROPRIEDADE PRIVADA — MANTENHA-SE FORA. Se ele ignorasse o aviso e prosseguisse uns poucos metros, adiante uma voz lhe daria o mesmo sinal de alerta e acrescentaria que a propriedade possui um sistema de defesa inviolável. E se o idiota continuasse vindo? Sirenes e luzes vermelhas — e ele ainda persiste... Então o pobre Ian ou Georges teria de arrastar esse monte de imundícies para fora do túnel. Não para fora dos muros, porém, ou de volta à casa. Se alguém for morto persistindo em varar as nossas divisas, seu corpo nem mesmo será encontrado; ele vai sumir de circulação. Você sente alguma necessidade de saber de que maneira?

— Tenho toda a certeza de que não preciso "saber como". (Um túnel lateral camuflado, Janet, e uma fossa de visgo e lodo — e eu me pergunto que corpos ainda estarão nele. Janet parece tão suave como um róseo amanhecer... e, se alguém tiver que sobreviver a todos estes loucos anos, Janet certamente será escolhida. Ela tem a mente tão serena quanto um Mediei, mais ou menos.)

— Também penso assim. Existe alguma coisa mais que você queira ver?

— Não creio, Jan. Sobretudo porque provavelmente nem vou usar o seu maravilhoso esconderijo. Vamos voltar agora?

— Antes que seja tarde. — Ela diminuiu a distância que nos separava, pôs as mãos nos meus ombros. — O que foi mesmo que você me sussurrou?

— Creio que você ouviu bem demais.

— Sim, eu ouvi. — Ela me puxou para si.

A luz do terminal sobre a mesa se acendeu. — O almoço está pronto! Ian pareceu revoltar-se. — Estraga-prazeres!


O almoço estava delicioso. No centro da mesa havia uma terrina posta sobre uma chapa aquecida rodeada por pratos frios, queijos, picles, conservas, pãezinhos, castanhas, rabanetes, cebolinha, aipo e uma grande quantidade de pedaços de pão de alho com manteiga derretida. Com a pose de um maître, Georges serviu a sopa em grandes pratos fundos. Assim que me sentei, Ian amarrou um enorme guardanapo em meu pescoço.

— Pode lambuzar-se à vontade — disse-me ele.

— E vou mesmo! — respondi, provando a sopa. — Janet, você deve estar preparando esta sopa desde ontem, não?

— Nada disso! — disse Ian. — A avó de Georges deixou a receita desta sopa para ele no seu testamento.

— Deixe de exagero — cortou Georges. — Minha querida mãe, que Deus a tenha! Inventou esta sopa no dia em que nasci. Minha irmã mais velha pretendia herdar a receita, mas como se casou com alguém inferior a ela, um canadense de origem britânica, fui eu quem a herdou. Venho tentando manter a tradição, mas acho que o aroma e o sabor desta sopa eram melhores quando minha mãe a fazia.

— Não entendo muito dessas coisas, mas posso assegurar que esta não é uma sopa em lata — afirmei.

— Comecei a prepará-la na semana passada — observou Janet —, mas Georges assumiu o comando e a terminou. Ele entende muito mais de sopa do que eu.

— Tudo o que entendo de sopas é como comê-las! — disse eu. — E espero que haja algo diferente nesta terrina!

— A gente sempre pode adicionar mais um camundongo — retrucou Georges.

— Algo de novo nos jornais? — perguntou Janet.

— o que houve com você? Onde está a sua regra de "nunca durante as refeições"?

— Ian, meu querido, você deveria saber que as minhas regras se aplicam às outras pessoas, não a mim. Responda ao que perguntei.

— De um modo geral, nada de novo. Não há notícias de outros assassinatos. Se apareceu mais alguém reclamando, além do número sempre crescente de destruidores autodeclarados, o nosso governo, numa atitude muito paternalista, prefere que não fiquemos sabendo. Com os diabos! Detesto esse tipo de paternalismo: "O papai sabe o que é melhor para você!" O papai não sabe nada; caso contrário, não estaríamos numa situação como essa. Sabemos muito bem que o governo vem censurando o noticiário e é por isso que ignoramos tudo. Tenho ímpetos de matar alguém!

— Acho que já tivemos o bastante. Ou você pretende se aliar aos Anjos do Senhor?

— Veja lá como fala comigo; ou está querendo ficar com esse beiço inchado?

— Lembre-se do que aconteceu da última vez que você tentou algo contra mim...

— Mas foi por isso mesmo que usei a palavra "beiço"...

— Meu querido, recomendo que você tome três drinques duplos ou um Miltown. Desculpe tê-lo aborrecido. Eu também não gosto da situação, mas não vejo outro jeito a não ser ficarmos firmes até o fim.

— Você às vezes é tão ofensivamente sensata, Jan! Mas o que me deixou realmente intrigado foi aquele furo nos jornais... assim, sem a menor explicação.

— Que furo?

— Sobre as multinacionais. Todas as notícias mencionam as empresas estatais e não há uma só palavra a respeito das multinacionais. E qualquer criança sabe onde se concentra o poder hoje em dia. Será que esses palhaços assassinos não sabem disso?

— Talvez seja esse exatamente o motivo por que as multinacionais não foram afetadas, meu caro — interveio Georges, brandamente.

— Eu sei, mas é que... — Ian calou-se.

— Ian — disse eu —, no primeiro dia em que nos encontramos, você mesmo afirmou que não havia como atingir as multinacionais. E até mencionou a IBM e a Rússia.

— Eu não disse isso exatamente, Marj. O que eu quis dizer foi que a força militar era inútil contra as multinacionais. De um modo geral, quando brigam umas com as outras, elas usam dinheiro, procuradores e outras manobras que envolvem advogados e banqueiros, em vez de usarem violência. Às vezes até lutam pagando mercenários, mas não é sempre, e não gostam de admitir tal coisa. Mas esses assassinos de agora estão lutando exatamente com armas que podem atingir e prejudicar as multinacionais: assassinatos e sabotagem! Isso é algo tão evidente que chega a me incomodar o fato de não ouvirmos falar de nada a respeito. Fico imaginando o que estaria acontecendo que eles não deixam pôr no ar.

Molhei um pedaço de pão naquela sopa deliciosa e perguntei:

— Ian, não existe a possibilidade de uma ou mais multinacionais estarem por trás disso tudo, usando testas-de-ferro?

Ian levantou-se tão de repente que balançou o prato de sopa, sujando o guardanapo amarrado no pescoço.

— Marj, você me surpreende! A princípio, eu a trouxe comigo por motivos que nada têm a ver com a sua inteligência!...

— Sei disso.

— ... mas você insiste em usar a cabeça. Você descobriu na mesma hora o que havia de errado naquela idéia da companhia em contratar pilotos artificiais. Eu vou até usar o seu argumento em Vancouver. E agora você pega uma confusa notícia do jornal, e pronto! Encaixa a última peça do quebra-cabeças e tudo passa a fazer sentido!

— Não tenho tanta certeza de que faz sentido — respondi. — De acordo com o jornal, houve assassinatos e sabotagens em todo o planeta, em Luna e em lugares tão longínquos como Ceres. Isso envolve centenas de pessoas, talvez milhares. Assassinatos e sabotagens exigem um serviço à altura e pessoal bem treinado. Mesmo que amadores pudessem ser contratados, o serviço não sairia bem feito. Tudo isso exige dinheiro, muito dinheiro! Não apenas uma organização política qualquer, ou uma dessas seitas de loucos religiosos. Quem teria dinheiro para um empreendimento mundial e tão abrangente quanto este? Eu não sei, apenas dei um palpite!

— Eu acho que você esclareceu o problema. Que coisa! O que você faz quando não está com sua família em Long Island, Marjie?

— Não tenho ninguém mais em Long Island, Ian. Meus maridos e minhas irmãs de grupo se divorciaram de mim.

(Fiquei tão chocada quanto ele.)

Houve um longo silêncio. Ian engoliu a comida apressadamente e disse, numa voz muito branda:

— Sinto muito, Marjorie.

— Não seja por isso, Ian. O erro foi corrigido e tudo acabou. Não quero voltar para a Nova Zelândia, mas gostaria de ir a Sydney qualquer dia para visitar Betty e Freddie.

— Eles vão gostar muito da sua visita.

— E eu também. Os dois já me convidaram para ir lá. Ian, o que Freddie ensina, exatamente? Eu nunca soube ao certo.

— Federico é meu colega de profissão, Marjorie querida — respondeu Georges —, e é por essa feliz coincidência que vim parar onde estou.

— É verdade — confirmou Janet. — Chubbie e Georges trabalhavam juntos em genética em McGill. Através dessa amizade, Georges conheceu Betty, que o apresentou a mim. E eu o fisguei!

— Georges e eu, então, fizemos um trato — interveio Ian. — Como nenhum dos dois, sozinho, podia com Jan... Certo, Georges?

— É isso mesmo, meu irmão. Se é que nós dois juntos realmente podemos com Janet...

— Eu é que tenho problemas com vocês! — comentou Janet. — E acho melhor pedir-lhe que me ajude, Marjorie. O que acha?

Não considerei essa proposta porque tinha certeza de que ela não fora feita seriamente. Todos ali estavam de conversa fiada numa tentativa de disfarçar o impacto que eu lhes causara, e sabiam disso. Mas... será que mais alguém, além de mim, percebera que meu trabalho não era mais o assunto da conversa? Eu sabia o que acontecera, mas por que aquela parte mais profunda do meu cérebro insistia em adiar esse assunto, e de um modo tão evidente? Eu jamais contaria os segredos do chefe.

Súbito fiquei extremamente ansiosa em consultar o chefe. Estaria metido naqueles estranhos acontecimentos? E, em caso positivo, de que lado estaria?

— Mais sopa, minha cara?

— Não lhe ofereça mais sopa até que ela me responda.

— Ora, Jan, você não estava falando sério. Se eu aceitar mais sopa, Georges, isso significa que vou comer outro pão de alho e acabar engordando. Não, não me tente a comer mais.

— Você quer mais sopa?

— Está bem... Só mais um pouquinho.

— Falo muito a sério — insistiu Janet. — Não estou procurando prender você, pois imagino que se tenha desiludido com casamentos. Mas você poderia tentar, e daqui a um ano tornaríamos a conversar sobre o assunto, isto é, se você quiser. Nesse espaço de tempo cuidarei de você e só a deixarei sozinha com esses dois depravados se o comportamento deles me agradar.

— Espere um instante! — protestou Ian. — Quem trouxe Marjorie aqui? Fui eu! Marj é minha namorada!

— E também namorada de Freddie, segundo a Betty. Você a trouxe até aqui para substituir Betty, mas isso foi ontem. Hoje, Marj é minha protegida. Se algum de vocês quiser falar com ela, terá que falar comigo primeiro. De acordo, Marjorie?

— Se você quer assim, Jan, tudo bem. Mas isso não passa de teoria, pois estou de partida. Você tem algum mapa de grande escala? Quero dar uma olhada na fronteira sul.

— E só usar o computador. Se quiser, use o terminal do meu gabinete, que fica perto do meu quarto.

— Não quero interferir na chegada das notícias.

— Isso não causará nenhuma interferência; temos como desacoplar um terminal de todos os outros, algo necessário numa casa repleta de individualistas.

— Especialmente a Jan — observou Ian. — Por que quer um mapa da fronteira do Império, Marjorie?

— Bem, eu preferiria ir para casa de metrô, mas, já que não é possível, preciso encontrar outra maneira...

— Foi o que pensei, mas não a deixarei partir, minha querida. Não percebeu ainda que pode ser atingida ao cruzar a fronteira? Os guardas, dos dois lados, são muito rápidos no gatilho.

— Posso dar uma olhada nesse mapa?

— Claro... se você prometer que não tentará cruzar a fronteira.

— Meu irmão — interveio Georges, calmamente —, uma pessoa jamais deve instigar um ente querido a mentir.

— Georges tem razão — decretou Janet. — Nada de promessas forcadas. Vá em frente, Marj, deixe que eu cuido das coisas por aqui. Ian, você acaba de se oferecer para ajudá-la.

Passei as duas horas seguintes no terminal do computador do quarto em que ficara hospedada. Aumentei o mapa ao máximo e decorei todos os detalhes da fronteira. Nem mesmo os alambrados com que os governos totalitários costumam cercar seus países tornam a fronteira uma linha muito segura. Em geral, os melhores trajetos ficam próximo às entradas alfandegárias, onde os contrabandistas rastejam, deixando uma trilha delineada, mas eu não queria usar um roteiro já conhecido.

Havia alguns pontos de entrada não muito longe: Emerson Junction, Pine Creek, South Junction, Gretna, Maida, entre outros. Dei uma olhada também no rio Roseau, mas me pareceu correr para o lado errado, em direção ao norte, onde se encontrava com o rio Red. (O mapa não era muito claro.)

No lago de Woods, entre leste e sudeste de Winnipeg, estendia-se uma estranha faixa de terra. Segundo o mapa, pertencia ao Império, mas nada havia que impedisse alguém de cruzar a fronteira por ali, se esse alguém estivesse disposto a arriscar-se a diversos quilômetros de charcos. Eu não sou o Super-Homem. Acabaria me atolando naquele pantanal, mas a possibilidade era muito tentadora. Acabei tirando essa idéia da cabeça; apesar de a faixa de terra pertencer ao Império, havia vinte e um quilômetros de água separando-a da fronteira. E se alugasse um barco? Apostei comigo mesma que qualquer barco que tentasse atravessar aquele lago acabaria sendo detectado pelos holofotes e, se falhássemos em responder à senha, isso resultaria num tiro de raio laser que acabaria furando-o casco. Eu nunca discuto com raios laser. Você não pode suborná-los nem falar macio com eles. Tirei isso da cabeça.

Eu tinha acabado de estudar os mapas e permitia que aquelas imagens se emaranhassem na minha cabeça, quando ouvi a voz de Janet no terminal:

— Marjorie, venha até a sala, por favor. Rápido! Fui correndo.

Ian falava com alguém na tela do computador. Georges estava afastado, fora do campo de visão. Janet me acenou para eu ficar também afastada.

É a polícia — murmurou ela. — Sugiro que vá para o esconderijo imediatamente e espere até que eu a chame, depois de eles terem partido.

— Eles sabem que estou aqui? — perguntei-lhe, calmamente.

— Ainda não sei.

— Então vamos primeiro ter certeza. Se eles souberem que estou aqui e não me encontrarem, vocês é que ficarão em apuros.

— Nós não temos medo de problemas.

— Muito obrigada, mas vamos esperar para ver.

— Mel, deixe disso — dizia Ian a alguém na tela. — Georges não é nenhum forasteiro inimigo e você sabe muito bem. Quanto a essa Srta. Baldwin — não foi esse o nome que você disse? —, por que estão atrás dela?

— Ela deixou o porto com você e sua esposa ontem à noite. Se não está mais com vocês, devem saber pelo menos onde se encontra no momento. E quanto a Georges, qualquer Kaybecker é um forasteiro inimigo nos dias de hoje, não importa quanto tempo more aqui ou a que

clube pertença. Presumo que você prefira que ele seja preso por um velho amigo do que por um soldado. Desligue seu mecanismo de defesa aérea. Estou pronto para aterrissar.

— Velho amigo! — sussurrou Janet. — Vem tentando me levar para a cama desde o científico! E eu venho lhe dizendo não desde então. É um vigarista!

Ian soltou um longo suspiro.

— Mel, não é hora de falar em amizade. Se Georges estivesse aqui, preferiria ser preso por um guarda do que ser levado sob o pretexto de uma amizade. Portanto, vá embora e faça as coisas como devem ser feitas.

— Ah, é assim? Pois bem! Aqui quem fala é o tenente Dickey e vim fazer uma prisão. Desligue seu mecanismo de defesa aérea. Estou aterrissando.

— Aqui é Ian Tormey, o dono da casa. Acuso o recebimento da ordem da polícia. Exponha seu mandato de prisão diante da tela, tenente, para que eu possa vê-lo e fotografá-lo.

— Você deve estar brincando, Ian. Estamos em estado de sítio. Não preciso de um mandato de prisão.

— Não consigo ouvi-lo.

— Talvez você consiga ouvir isto: vou atirar no seu mecanismo de proteção aérea — e, se alguma coisa pegar fogo, a culpa não é minha.

Ian fez um movimento por trás e apertou algumas teclas do terminal.

— Mecanismo desligado — disse, apertando outra tecla e virando-se para nós. — Vocês têm uns três minutos para se esconderem lá embaixo, no Buraco. Não posso ganhar muito tempo com ele na porta.

— Não vou me esconder num buraco no chão — anunciou Georges, calmamente. — Insisto nos meus direitos. E, se eles não forem respeitados, processarei Melvin Dickey por isso.

Ian deu de ombros.

— Você não passa de um canadense maluco. Mas comporte-se como um adulto. Marj, querida, vá se esconder. Vou livrar-me dele em pouco tempo; afinal, ele não tem certeza de que você está aqui.

— Irei me esconder se for mesmo necessário, mas não posso ficar esperando no banheiro de Janet? Ele pode retirar-se logo. Vou ligar o terminal do quarto e escutar o que se passa aqui, certo?

— Marj, você está dificultando as coisas.

— Então convença Georges a também se esconder no Buraco. Se ele ficar, pode ser que precisem de mim. Para ajudá-lo e ajudar a vocês.

— Do que você está falando?

Nem eu tinha certeza do que estava falando. O fato é que não fora treinada para sair de apuros me escondendo num buraco no chão.

— Esse tal de Melvin Dickey parece estar atrás de Georges, Ian. Pude sentir isso no tom da sua voz. Se Georges não quer se esconder comigo no Buraco, devo ficar por aqui para me certificar de que Melvin não lhe causará mal algum — quando alguém cai nas mãos da polícia, precisa de uma testemunha a seu lado.

— Marj, você não pode impedir que... A campainha tocou.

— Droga! Ele chegou. Sumam daqui! Escondam-se no Buraco!

Sumi de vista, mas não para o Buraco. Corri para o espaçoso banheiro de Janet e liguei o terminal. A sala da casa surgiu na tela e, assim que liguei o som, pareceu-me estar presente à cena.

Um homem de andar empertigado como o de um galo entrou no aposento. O corpo de Dickey não era pequeno, mas sim a sua alma. Ele, quase tão alto quanto Ian, tinha a alma três vezes menor que o ego. Ao entrar na sala, ao lado de Ian, Dickey deu de cara com Georges e exclamou, exultante:

— Aí está você! Perreault, eu o prendo por premeditadamente não ter anunciado a sua chegada, como determina o decreto do estado de emergência, parágrafo seis.

— Jamais recebi essa ordem.

— Tolice! Ela saiu em todos os jornais.

— Não costumo me guiar pelo que sai nos jornais. Desconheço a lei que obrigue a isso. Posso dar urna olhada na cópia da lei em que você se baseia para me prender?

— Não tente bancar o engraçadinho! Perreault, estamos em estado de emergência e eu cumpro a lei. Você poderá lê-la depois que eu o levar. Ian, ordeno-lhe que me ajude. — Dickey tirou um par de algemas do bolso e estendeu-as para Ian. — Ponha as algemas nele. E você, ponha as mãos para trás.

Ian? nem se mexeu.

— Não seja mais ridículo do que o necessário, Mel. Você não tem nenhuma razão plausível para algemar Georges.

— É o que você pensa! Estamos com falta de pessoal e venho prender Georges praticamente sozinho; logo, não posso me arriscar a chegar perto, pois ele poderia tentar alguma reação. Ande logo, coloque as algemas nele!

A essa altura, eu já não assistia mais à cena. Saí correndo do banheiro, passei pelas duas portas, atravessei o corredor e desci até a sala. Fazia isso tudo com sangue-frio, exatamente como fui treinada para agir. Dickey tentava imobilizar três pessoas com sua arma e uma delas era Janet. Dickey não devia ter apontado aquela arma para ela. Pulei em cima dele, arranquei-lhe a arma das mãos e acertei-o em cheio no pescoço. Pudemos ouvir o estalido de seus ossos se partindo, um barulho muito distinto de quando se parte a tíbia ou o rádio.

Empurrei-o para cima do tapete e coloquei sua arma ao lado. Era uma Raytheon 505 com munição bastante para deter um mastodonte. Por que homens de almas pequenas sempre carregam armas grandes?

— Você está machucada, Jan? — perguntei.

— Não.

— Vim o mais rápido que pude. Era a isto que eu me referia, Ian, quando disse que poderiam precisar de ajuda. Devia ter ficado aqui, quase cheguei tarde demais.

— Nunca vi ninguém tão rápido!

— Eu já vi — observou Georges, calmamente.

— É claro que já viu, Georges — disse eu, fitando-o. — Será que você pode me ajudar com isto? — Apontei para o cadáver. — E será que saberia pilotar um VPA da polícia?

— Se for preciso.

— Eu acho que também conseguiria. Vamos nos livrar desse corpo, antes de mais nada. Janet me falou alguma coisa sobre um lugar onde se colocam os cadáveres, mas não me mostrou o local exato. É um buraco perto do túnel de fuga, não? Apressemo-nos. Ian, logo que terminarmos, eu e Georges vamos partir. Ou Georges pode ficar e agüentar até o fim. Assim que nos livrarmos do corpo e do VPA, você e Jan podem fingir que não sabem de nada. Não existem provas. Vocês nunca o viram. Mas temos que agir antes que dêem pela falta de Dickey.

Janet ajoelhou-se ao lado do tenente de polícia:

— Marj, você o matou mesmo!

— É verdade, mas ele me obrigou a isso. Afinal de contas, quando a gente lida com um policial, é muito mais seguro matá-lo do que apenas ferir. Ele não devia ter apontado aquela arma para você, Janet. Se não fizesse isso, eu o teria simplesmente desarmado, e só o mataria se você assim decidisse.

— Você foi impelida a fazer isso, tudo bem. Você nem estava aqui e súbito chegou, e Mel rolou pelo chão... Você disse que a decisão seria minha. Não sei bem, mas não lamento essa morte. Ele é um vigarista, ou melhor, era.

— Marj, você não parece lembrar que eliminar um oficial da polícia é um problema muito sério — disse Ian, ponderado. — É o único crime capital que o Canadá Britânico ainda conserva em suas leis.

Quando as pessoas falam dessa maneira, eu não as entendo. Um polícia não é ninguém especial.

— Na minha opinião, Ian, apontar uma arma para amigos meus é um problema sério, e apontar uma arma para Janet é um crime capital. Desculpe se o aborreci com isso. Temos que nos livrar imediatamente de um cadáver e de um VPA. Eu posso ajudar, ou posso desaparecer. Digam o que é melhor, mas sejam rápidos. Não sei quanto tempo vão levar para vir atrás dele ou de nós, mas sei que certamente virão.

Enquanto falava, eu ia examinando o cadáver. Como não trouxesse uma cartucheira, tinha que revistar os seus bolsos, o que fiz com todo o cuidado, pois a bexiga sempre deixa vazar alguma urina. Ainda bem que não vazara muito. As calças estavam úmidas, mas ainda não fediam. Ou melhor, não muito. As coisas mais interessantes estavam nos bolsos da jaqueta: a carteira, o bip, documentos, dinheiro, cartões de crédito e toda aquela parafernália que um homem moderno precisa carregar para provar que está vivo. Peguei a carteira e a Raytheon — o resto não servia para nada. Levantei no alto as algemas e perguntei:

— Existe algum jeito de nos livrarmos deste metal? Ou terá que ir para o mesmo buraco que o cadáver?

Ian? ainda estava mordendo os lábios. Georges, então, falou suavemente:

— Ian, insisto que você aceite a ajuda de Marjorie. É evidente que ela é especialista nesses assuntos.

Ian? pareceu perder todo o seu nervosismo.

— Pegue-o pelas pernas, Georges.

Os dois começaram a carregar o corpo de Mel para o banheiro e eu corri para o meu quarto. Coloquei a carteira, a arma e as algemas sobre a cama, e Janet trouxe o chapéu. Dirigi-me ao banheiro, tirando a roupa pelo caminho. Como Ian e Georges carregassem o corpo, acabei chegando antes deles.

— Marj, você não precisa tirar a roupa — disse Ian, colocando o corpo no chão. — Georges e eu nos encarregaremos dele.

— Tudo bem — respondi —, mas deixem que eu o lave. Sei exatamente o que deve ser feito e o farei melhor sem roupa. Depois tomarei um banho.

Ian pareceu confuso e perguntou:

— Com os diabos, é melhor deixar que ele fique sujo.

— Se quer assim, tudo bem, mas você não vai mais querer entrar nessa piscina, nem mesmo para ir até o Buraco e voltar, se ela não estiver bem limpa e a água não for trocada. Acho que é mais rápido lavar o corpo, a não ser que... — Janet acabava de entrar. — Jan, você tinha mencionado alguma coisa sobre esvaziar essa piscina e estocar a água num reservatório. Quanto tempo levaria? Para esvaziar e encher novamente?

— Cerca de uma hora. Temos apenas uma pequena bomba para isso.

— Posso lavar esse cadáver em dez minutos se você, Ian, o despir e o jogar na piscina. E quanto às roupas dele? Vão também para a masmorra — não é esse o nome que vocês usam? — ou temos algum outro meio para destruí-las? Devem ir junto, pelo túnel da piscina?

O resto foi rápido, já que Ian resolveu cooperar e todos deixaram que eu assumisse o comando. Janet também se despiu e insistiu em ajudar a lavar o corpo. Georges levou as roupas para a lavanderia e Ian caiu na piscina, em direção ao túnel, para alguns preparativos.

A princípio, não queria que Janet viesse me ajudar, pois eu exercitei muito o controle da mente e duvidava que ela o tivesse feito também. Treinada ou não, entretanto, ela foi inflexível. Apesar de torcer o nariz uma ou duas vezes, não entregou os pontos. E com a sua ajuda, é claro, o serviço acabou bem mais depressa.

Georges trouxe a roupa encharcada de volta. Janet a colocou num saco plástico, que o apertou até não haver mais ar dentro dele. Ian reapareceu na piscina com a ponta de uma corda nas mãos. Eles a amarraram em volta dos braços de Mel e em pouco tempo ele se foi.

Vinte minutos mais tarde estávamos todos secos e limpos e não havia pela casa o menor vestígio do tenente Dickey. Janet entrou no "meu" quarto bem na hora em que eu transferia as coisas da carteira de Dickey para uma bolsinha no cinto de plástico que ela me dera. Peguei o dinheiro e os dois cartões de crédito, American Express e Maple Leaf.

Ela não fez nenhum comentário idiota a respeito de eu estar "roubando um morto" — mas eu também não lhe daria ouvidos se o fizesse. Nos dias de hoje é simplesmente impossível agir sem dinheiro ou sem um cartão de crédito dos bons. Janet saiu do quarto por alguns instantes e, ao voltar, trouxe-me o dobro do dinheiro que eu havia encontrado na carteira. Aceitei a oferta e disse:

— Você sabe que não tenho a menor idéia de quando vou poder lhe pagar.

— É claro que sei, Marj. Mas eu tenho muito dinheiro. Meus pais eram ricos e eu também sou. Veja, minha querida... um homem apontou uma arma para mim e você voou em cima dele, desarmada! Como posso lhe pagar por isso? Meus dois maridos estavam presentes... mas foi você quem cuidou de tudo.

— Não fique zangada com eles por causa disso, Jan; eles não foram treinados como eu fui.

— Bem, eu pude comprovar isso. Qualquer dia desses vou querer saber mais sobre isso. Quais as chances de você ir para Quebec?

— Excelentes, se Georges quiser partir.

— Foi o que pensei — disse ela, oferecendo-me mais dinheiro. — Não guardo muitos francos canadenses em casa, não muitos; isto é tudo o que tenho.

Nesse momento, os dois homens entraram. Dei uma olhada no relógio e disse:

— Eu o matei há quarenta e sete minutos, portanto ele está longe do quartel-geral há pelo menos uma hora. Tentarei voar naquele VPA, Georges; aqui está a chave. A não ser que você venha comigo, e, nesse caso, o pilotará para mim. Você virá, Georges? Ou pretende ficar aqui esperando outra tentativa de prendê-lo? De qualquer modo, estou de partida agora mesmo.

— Vamos todos partir! disse Janet subitamente.

— Ótimo! — apressei-me, abrindo um sorriso.

— Você quer mesmo ir, Jan? — perguntou Ian.

— Eu... — Janet calou-se e pareceu frustrada. — Eu não posso partir. Mamãe Gata e seus filhotes — Black Beauty, Demon, Star e Red. Poderíamos trancar a casa sem problemas, funciona todo o inverno sob os cuidados de um único Shipstone; mas levaria um dia ou dois para arrumar o restante da família. Não posso abandoná-los, não posso fazer isso!

Nada havia a dizer, por isso não disse nada. O pior lugar do inferno é reservado às pessoas que abandonam filhotes de gatos. O chefe sempre diz que sou muito sentimental, e ele está certo.

Saímos todos da casa. Começava a escurecer e me dei conta de que ali chegara havia menos de um dia — e me parecia ter chegado há mais de um mês. Menos de um dia atrás eu ainda estava em Nova Zelândia, e isso me pareceu absurdo.

O veículo da polícia estava pousado na horta de Janet e ela soltou um palavrão — o que, aliás, me fez estranhar seu comportamento. O veículo tinha o usual formato atarracado de uma ostra, antigravidade mas nada apropriado para vôos, e era do tamanho aproximado da carroça da fazenda de nossa família, em Long Island. Não, essas lembranças não me deixaram triste. Jan e seus maridos, assim como Betty e Freddie, haviam substituído o grupo Davidson no meu coração. La donna è imobile. Sou assim mesmo. Tudo o que queria agora era voltar para o chefe. Estaria à procura da figura paterna? Provavelmente sim, mas eu não estava interessada em teorias profundas.

— Vou dar uma olhada nessa banheira antes de vocês a colocarem em movimento — disse Ian. — Do contrário as criancinhas podem' se machucar.

Ian entrou e saiu rapidamente.

— Vocês podem ir, se assim decidirem, mas antes ouçam bem o que tenho a dizer. Este VPA tem um sinal de identificação e deve ter também alguma luz de sinalização ativada, que não encontrei. O Shipstone está baixo, trinta e um por cento. Logo, se vocês pretendiam ir até Quebec, esqueçam! Ele vai vedar bem, mas vocês não conseguirão conservar a pressão da cabine acima de doze mil metros. O pior é que o terminal está chamando o tenente Dickey.

— Não vamos dar atenção a isso!

— É claro que não vamos, Georges. Mas desde o ano passado, como resultado do julgamento de Ortega, os veículos da polícia são equipados com um dispositivo de destruição operado por controle remoto. Procurei esse dispositivo, mas também não o encontrei — ou iria desarmá-lo. O fato de não tê-lo encontrado não implica que ele não exista.

Eu dei de ombros e disse:

— Riscos necessários jamais me incomodam, Ian. Tento evitar os desnecessários; mas temos que partir neste monte de latas. Voar para algum lugar e depois abandoná-lo.

— Não é assim, Marj. Eu entendo dessas coisas. Este veículo... espere! É um modelo militar e deve ter um piloto automático AG. Vamos programá-lo para dar uma volta. Para onde? Para o leste, talvez? Ele estouraria antes de chegar a Quebec... e isso os faria pensar que você se dirigia para casa, Georges, enquanto você estaria seguro, escondido no Buraco.

— Não estou ligando para isso, Ian. Não me esconderei no Buraco.

Concordei em partir porque Marjorie precisa de alguém para se preocupar com ela.

— É mais provável ela cuidar de você. Bem viu como ela se livrou do tenente.

— Concordo, mas eu não disse "tomar conta dela" e sim "se preocupar com ela".

— Dá no mesmo.

— Olhe, não vou discutir isso. Para quê? Decidi acabar com aquele diálogo e perguntei:

— Há combustível bastante no Shipstone para ir até a fronteira sul do Império?

— Sim, há combustível, mas não é seguro voar tanto num veículo como esse.

— Sei disso. Ajuste-o para um vôo em direção ao sul com altitude máxima. Os guardas das fronteiras daqui ou do Império poderão pô-lo abaixo. Ou quem sabe ele explodirá por controle remoto? Talvez apenas queime todo o combustível e acabe caindo sozinho. Não importa o que aconteça, estaremos livres dele.

— Certo — concordou Ian, entrando no VPA e mexendo nos controles.

O veículo subiu uns três ou quatro metros e Ian saltou. Olhei para ele e gritei:

— Tudo bem com você?

— Sim, tudo bem. Olhe como vai subindo!

O VPA subia rapidamente, dirigindo-se para o sul. Subitamente, porém, explodiu e tornou-se uma bola brilhante que logo desapareceu naquele entardecer, entre os últimos raios de sol.


Voltamos para a cozinha, um olho no vídeo do terminal, outro em cada um dos presentes e nos coquetéis que Ian servira, discutindo o que fazer, se é que havia mesmo alguma coisa a fazer naquele momento. Ian dizia:

— Marj, e se você apenas esperasse sentada até estas chuvas de verão terminarem e você então fosse para casa comodamente? Se acontecer alguma coisa, você se esconde no Buraco. O pior que pode acontecer é ter de ficar entre quatro paredes. Nesse meio-tempo, Georges pintará uns nus seus, como Betty queria. Tudo bem, Georges?

— Seria muito mais agradável.

— Bem, Marj?

— Ian, se eu disser ao meu chefe que não pude voltar atrás quando era preciso porque uma faixa de vinte e cinco quilômetros da fronteira estava virtualmente fechada, ele simplesmente não acreditará em mim. (Dizer-lhes que sou uma mensageira treinada? Não é necessário. Ou pelo menos ainda não.)

— O que é que você vai fazer?

— Creio que já trouxe problemas demais para vocês. (Caro Ian, acho que você ainda não se recuperou do choque de ter encontrado um homem morto na sua sala de estar. Mesmo que tenha reagido em seguida e se comportado como um verdadeiro profissional.) Agora sei onde fica a porta dos fundos. Quando vocês se levantarem amanhã pela manhã, pode ser que eu não esteja mais por aqui. Então vocês poderão esquecer desta perturbação em suas vidas.

— Não!

— Jan, assim que esta confusão termine, eu a chamarei. E então, se você ainda desejar, voltarei para visitá-la tão logo disponha de um breve período de férias. Mas agora devo partir e voltar ao trabalho. Isto é o que venho lhes dizendo o tempo todo.

Janet não ouvira uma palavra sobre a minha idéia de cruzar a fronteira sozinha (embora eu precisasse de alguém do meu lado tanto como uma cobra precisa de sapatos). Mas ela tinha um plano.

Argumentou que Georges e eu poderíamos viajar com os seus passaportes — eu tinha o tamanho dela, mais ou menos, e Georges e Ian tinham mais ou menos o mesmo peso e altura. Nossas faces não eram muito parecidas, mas as diferenças também não eram grande coisa — e quem realmente controla fotos de passaportes, afinal de contas?

— Vocês poderiam utilizá-los e depois devolvê-los pelo correio... mas este talvez não seja o meio mais fácil. Vocês poderiam ir até Vancouver e então passar para o lado da Confederação da Califórnia apenas com vistos de turistas — com os nossos nomes. Podem seguir todo o caminho até Vancouver com os nossos cartões de crédito. Uma vez atravessada a fronteira e no território da Califórnia, estarão certamente livres e em casa. Marj, o seu cartão de crédito deve ser suficiente. Você não terá problemas em telefonar para o seu patrão, e os guardas tampouco vão tentar prender um de vocês. Isto é de alguma ajuda?

— Sim — concordei. — Penso que o truque do visto de turista é mesmo mais seguro do que tentar usar os seus passaportes — mais seguro para todos. Se eu chegar a algum lugar onde o meu cartão de crédito seja válido, meus problemas estarão resolvidos. (Obterei numerário imediatamente e nunca mais deixarei que me peguem fora de casa sem uma boa soma em espécie — dinheiro vivo. O dinheiro conserta qualquer defeito. Principalmente na Califórnia, um lugar cheio de truques, pois no Canadá Britânico os funcionários da imigração são às vezes desconcertantemente honestos.)

Acrescentei:

— Provavelmente não poderei estar pior em Bellingham do que me encontro aqui. — Então terei todo o caminho até a República da Estrela Solitária para tentar atravessar a fronteira — no caso de existir algum controle. Será que no telejornal se disse alguma palavra a respeito de Chicago e do Texas? Terão reiniciado as discussões?

— Tudo está bem, de acordo com o que ouvi — Ian respondeu. — Será que devo acionar o computador para dar uma busca?

— Sim. Faça-o antes que eu parta, por favor. Se for preciso, poderei ir pelo Texas até Vicksburg. Pode-se sempre deparar com alguém subindo o rio atrás de dinheiro, porque os assaltantes não descansam.

— Antes de partirmos — Georges me corrigiu com gentileza.

— Georges, acredito que esta rota deve funcionar, quanto a mim. Quanto a você, iria apenas deixá-lo mais e mais distante de Quebec. Você não tinha me dito que McGill é a sua outra base?

— Querida senhora, não tenho a menor vontade de ir pra McGill. Se a polícia está criando dificuldade, não posso pensar em nada melhor do que viajar com você. Uma vez que tenhamos penetrado na Califórnia, Província de Washington, você poderá mudar o seu nome de Sra. Tormey para Sra. Perreault; assim como é certo, pelo menos eu acho, que ambos os meus cartões de crédito, o Maple Leaf e o Quebec, serão aceitos.

(Georges, você é um cara galante... e sempre que tenho de pintar o sete preciso de um cara galante ao meu lado do mesmo jeito que preciso de um buraco na cabeça. E vou ter mesmo de fazê-lo, pintar o sete — apesar do que Janet disse, eu não vou ficar me sentindo como se estivesse em casa.)

— Georges, isto soa delicioso. Não posso lhe dizer que você deve ficar em casa... mas devo lembrar que sou mensageira de profissão e que já passei anos e anos viajando sozinha por toda a extensão do planeta e mais de uma vez para colônias espaciais e para Luna. Não estive ainda em Marte ou Ceres, mas serei enviada para lá a qualquer momento.

— Você está me dizendo que de fato prefere que eu não a acompanhe?

— Não, não! Apenas digo que, se você escolher seguir comigo, tudo será puramente social. Para o seu prazer e o meu. Mas devo acrescentar que quando eu entrar no território do Império terei de seguir sozinha, pois vou ter de pegar no serviço imediatamente.

Ian disse:

— Marj, pelo menos deixe Georges tirar você daqui e levá-la para uma região onde ninguém a queira prender, e onde o seu cartão de crédito seja válido.

— A coisa mais importante é livrar-se desse negócio estúpido de poder ser presa — Janet acrescentou: — Marj, você pode servir-se do meu cartão de crédito Visa por quanto tempo desejar; vou utilizar o meu Maple Leaf no lugar dele. Apenas procure sempre lembrar-se de que você é Jan Parker.

— Parker?

— O cartão da Visa traz o meu nome de solteira. Eis aqui, pegue.

Aceitei, acreditando que o utilizaria apenas quando alguém estivesse me espiando por trás dos ombros. Quando possível, mandaria cobrar do falecido tenente Dickey, cujo crédito ainda estaria quente por alguns dias, talvez semanas. Rolou um pouco mais de disse-me-disse e por fim falei:

— Vou partir agora. Georges, você vem comigo?

— Ei! Hoje à noite, não. A melhor coisa é partir bem cedo pela manhã — opinou Ian.

— Por quê? O metrô passa a noite toda, não passa? (Eu sabia que sim.)

— Claro, mas estamos a cerca de vinte cliques da estação mais próxima. E é tão escuro como o interior de uma mina de carvão.

(Não havia tempo para discutir particularidades ou pontos de vista.)

— Ian, posso superar essa distância antes da meia-noite, e então terei praticamente uma noite inteira de sono em Bellingham. E, se a divisa estiver aberta entre a Califórnia e o Império, vou me comunicar com o meu superior amanhã pela manhã. Melhor assim.

Poucos minutos mais tarde, todos nós partimos. Ian não estava muito satisfeito comigo, porque eu não fora doce, suave, amena, do jeito que os homens preferem. Mas ele superou a sua decepção e beijou-me com muito carinho quando os outros saíram, entre Perimeter e McPhillips, deixando a composição. Georges e eu nos alojamos entre a multidão que enchia o carro das onze horas, e tivemos que ficar de pé todo o caminho pelo continente.

Mas às vinte e duas estávamos em Vancouver (hora do Pacífico — meia-noite em Winnipeg), apanhamos fichas de inscrição para vistos de turistas assim que entramos no ônibus de Bellingham e tratamos de preenchê-las durante a viagem, recebendo-as de volta devidamente processadas pelo computador logo à saída do ônibus, poucos minutos mais tarde. A operadora humana nem mesmo se dignou de erguer os olhos quando a máquina cuspiu fora os nossos cartões. Apenas murmurou "Aproveitem a estada" e prosseguiu na sua leitura.

Uma estação de ônibus que liga Vancouver a Bellingham dá na galeria inferior do Bellingham Hilton; de frente para nós estava um cartaz luminoso no espaço:

 

THE BREAKFAST BAR

Carnes — Petisqueiras — Coquetéis

Servimos Café da Manhã Vinte e Quatro Horas por Dia

 

Georges disse:

— Senhora Tormey, meu amor, parece que nos esquecemos de jantar.

— Senhor Tormey, tem toda a razão. Vamos matar um urso.

— Cozinhar na Confederação não é exótico nem sofisticado. Mas à sua própria maneira pode ser muito interessante — sobretudo dando-se o tempo necessário para surgir um apetite de verdade. Eu já comi antes neste local. Apesar do nome da casa, pode-se escolher aqui entre uma boa variedade de pratos. Mas, se você estiver de acordo em pedir o prato do dia para café da manhã, e me permitir que o escolha, posso lhe assegurar que a sua fome será sensivelmente satisfeita.

— Georges — quero dizer, "Ian" —, já provei da sua sopa. Você pode escolher por mim quando quiser!

Era realmente uma lanchonete — nada de mesas. Mas os banquinhos possuíam encostos, eram forrados, e havia lugar folgado para não machucar os joelhos; bem confortável. Sucos de maçã para abrir o apetite foram pousados à nossa frente pouco antes de sentarmos. Georges fez o pedido, depois se levantou, foi até o guichê da recepção e nos registrou. Ao voltar, disse, enquanto se sentava uma vez mais:

— Agora pode me chamar "Georges", e você é a "Sra. Perreault", pois esta é á forma pela qual nos registramos.

Pegou o seu drinque. — Santé, ma chère femme.

Peguei o meu.

— Merci. Et à la tienne, mon cher mari.

O suco estava estupidamente gelado, e tão doce quanto o sentimento. Mesmo que não desejando ter um marido novamente, Georges sem dúvida daria um dos bons, fosse de mentira ou de verdade. Contudo, ele apenas me fora emprestado por Janet.

Nosso café da manhã chegou:

Suco de Maçã Yakima, supergelado.

Morangos Vale do Império com creme Sequim

Dois ovos com as gemas, ligeiramente fritos e pousados sobre carne de boa qualidade, tão macia que bastava o garfo para cortá-la — "Ovos à cavalo".

Biscoitos quentes, grandes, manteiga Sequim, salvia e mel de trifólio.

Café Kona em xícaras tamanho família.

Café, suco e biscoitos eram renovados a cada momento — uma segunda rodada de carne e ovos nos foi trazida, mas tivemos de recusar.

O nível de ruído e a maneira pela qual nós nos sentávamos não serviam para puxar conversa de tipo algum. Existia um quadro luminoso de anúncios e oportunidades bem no fundo da lanchonete. Cada anúncio permanecia no quadro apenas o tempo suficiente para ser lido, mas, como de hábito, cada um deles possuía um número para ser registrado, a fim de que se pudesse revê-lo para acertar detalhes em alguns terminais de vídeo individuais espalhados por diversos pontos no barzinho. Dei por mim lendo-os preguiçosamente enquanto comia:

 

A Nave Livre Jack Pot está recrutando membros

para a sua tripulação no mercado do Trabalho de Vegas.

Bônus especial para veteranos de combate.

 

Poderia uma nave-pirata anunciar tão abertamente? Até mesmo no Estado Livre de Vegas? Difícil de crer, mas ainda mais difícil de interpretar de alguma outra maneira.

 

Fume a bagana que Jesus fumou!

BASTÕES ANJO

Não-cancerígenos Garantidos

 

O câncer não pode me assustar, mas o tetraidro-Canabiol ou a nicotina não são para mim; os lábios de uma mulher devem ser doces.

 

Deus está à sua espera na suíte 1208, Torres Lewis e

Clark. Não O faça vir buscá-lo.

Você não vai gostar disso.

 

Eu tampouco gostei do anúncio.

 

CHATEADO?

Estamos a ponto de abandonar uma festa pioneira

num planeta virgem do tipo T-13. Razão sexual garantida

50-40-10±2%

Idade biológica mediana 32 ± 1. Não se requer teste de

temperamento

Sem taxas — Sem contribuições — Sem resgate

Corporação de Expansão do Sistema

Divisão de Demografia e Ecologia

Cidade Luna GPO caixa postal DEMO

ou digite Tycho 800-2300

 

Solicitei a volta deste ao vídeo e o reli. Como seria estar num mundo novo em folha tendo ao lado bons companheiros? — pessoas que possivelmente não poderiam conhecer as minhas origens. Ou cuidados. Meus conhecimentos deveriam tornar-me respeitada, ao menos mais do que um monstro — desde que eu não me pavoneasse...

— Georges, dê uma olhada nisto, por favor.

Ele o fez.

— O que é que tem?

— Poderia ser divertido, não acha?

— Não! Marjorie, na escala T qualquer coisa acima de oito requer uma alta soma de dinheiro como bônus, equipamentos sofisticadíssimos, e colonizadores treinados. Nessa escala, um treze é uma exótica rota para o suicídio, isso é tudo.

— Oh.

— Leia este aqui — ele ofereceu:

 

W.K. — Realize as suas últimas vontades.

Você tem apenas uma semana para viver.

                                                         A.C.B.

 

Li o anúncio.

— Georges, é verdadeiramente ameaçador ter de matar este W.K. não? Num anúncio classificado? Como diabos ele poderia ser encontrado?

— Não sei. Não deve ser nada fácil descobrir seu rastro. Estou imaginando o que veremos aqui amanhã — estará escrito "seis dias"? Depois "cinco dias"? Será que W.K. está esperando pelo golpe para cair? Ou será isto alguma espécie de sensacionalismo publicitário?

— Não sei. — Pensei a respeito disso considerando a nossa condição. — Georges, seriam todas estas ameaças nos canais alguma espécie de complexa piada de mau gosto?

— Você está insinuando que ninguém na verdade seria morto e que toda a história não passa de uma balela?

— Ora, não sei ao certo o que estou insinuando.

— Marjorie, há uma trapaça, sem dúvida — no sentido de que três grupos diferentes se atribuem a responsabilidade e de que de fato dois grupos estão tentando sabotar o mundo. Não creio que as notícias de assassinatos sejam um embuste. Assim como para as bolhas de sabão, existe um limite superior para a dimensão de uma calúnia, tanto no que se refere ao número de pessoas como quanto ao tempo. Tudo isso é grande demais — muitos lugares diferentes, tudo amplamente difundido — para ser um embuste. Ou neste exato momento já teriam surgido desmentidos por toda parte. Mais café?

— Obrigada, não.

— Alguma coisa mais?

— Nada. Mais um biscoito com mel e eu explodiria.

 

Do lado de fora, era simplesmente uma porta de quarto de hotel: 2100. Uma vez dentro, não me contive:

— Georges! Por quê?

— Uma noiva merece uma suíte nupcial.

— É maravilhosa. Requintadíssima. Um amor. Você não devia ter desperdiçado o seu dinheiro. De qualquer modo, já conseguiu transformar uma viagem trivial num acontecimento. Mas, se esperava que eu me portasse como uma autêntica noiva hoje à noite, não devia ter me dado bifes à cavalo e uma tigela inteira de biscoitos quentes. Estou empanturrada, querido. Não me sinto atraente.

— Você está fascinante.

— Querido! Georges, não brinque com os meus sentimentos — por favor, não! Você me identificou bem quando matei Dickey. Você sabe perfeitamente o que sou.

— Sei que é um doce, uma brava e galante dama.

— Sabe ao que me refiro. Você está na profissão. Você me reconheceu. Me pegou bem na hora.

— Você está certa. Claro, peguei mesmo.

— Então sabe o que sou. Eu o admiro. Passei anos da minha vida adquirindo certa prática em escondê-lo, mas aquele bastardo não devia ter apontado a arma para Janet!

— Não, ele não devia. E pelo que você fez tornei-me seu eterno devedor.

— Você acha isso? Ian acha que eu não devia tê-lo matado.

— A primeira reação de Ian é sempre convencional. Depois ele faz a meia-volta. Ian é um piloto por natureza; pensa com os seus músculos. Mas, Marjorie...

— Eu não sou Marjorie.

— Hem?

— Você deve, aliás, saber qual é o meu nome correto. O nome de creche, quero dizer. Eu sou Friday. Não é o meu sobrenome, obviamente. Quando preciso de um, sirvo-me de um daqueles convencionados pela creche. Jones, habitualmente. Mas Friday é o meu nome.

— É assim que você deseja ser chamada?

— Claro. Acho que sim. É o nome pelo qual me chamam quando não preciso me esconder. Quando estou com as pessoas em quem confio. É melhor eu confiar em você também. Não é?

— Sentir-me-ei lisonjeado e muito grato. Procurarei ser digno da sua confiança. Afinal, já estou em débito com você.

— Como assim, Georges?

— Pensei que isso estivesse claro. Quando vi o que Mel Dickey estava fazendo, resolvi me render imediatamente, com medo de causar algum dano aos outros. Mas quando ele ameaçou Janet com aquele trabuco prometi a mim mesmo que em outra ocasião, quando estivesse em condições, eu o mataria. — Georges ensaiou um sorriso. — Apenas terminara de prometê-lo, você apareceu, tão repentinamente como um anjo vingador, e realizou o meu intento. Por isso eu hoje lhe devo o que quiser.

— Uma outra morte?

— Se esse é o seu anseio, sim.

— Ora, provavelmente nada disso. Como você disse, estou mais crescida. E me acostumei a fazê-lo eu mesma cada vez que era necessário.

— O que você pedir, cara Friday.

— Hum, oh, inferno, Georges. Não quero que você se sinta em débito comigo. À minha maneira, eu também amo Janet. Aquele bastardo selou o seu destino quando a ameaçou com uma arma mortífera. Eu não o fiz por você. Eu o fiz por mim mesma. Portanto, você não me deve coisa alguma.

— Cara Friday, você é tão amável quanto Janet, percebo isso.

— Ora, por que você não me leva para a cama e me deixa pagar-lhe por um número de coisas? Estou certa de que não sou humana e nem mesmo espero de você que me ame do jeito que ama a sua esposa humana — não deve amar-me, absolutamente. Mas você parece gostar de mim, e não me trata da maneira... ai, da maneira que a minha família Ennzedd me tratou. Da maneira que a maioria dos homens trata as PAs. Posso fazer você me apreciar de verdade. Posso mesmo. Jamais recebi um certificado de acompanhante, mas tive grande parte do treinamento... e eu tento.

— Oh, minha cara! Quem a feriu tão fundo?

— A mim? Eu estou bem. Apenas explicava que eu sei como o mundo se arrasta. Não sou uma criança que ainda está aprendendo como deve se comportar, com a ajuda da babá da creche. Uma pessoa artificial nem mesmo possui a esperança de despertar amor num macho humano; ambos sabemos disso. Você pode compreendê-lo bem melhor do que qualquer leigo; você está na profissão. Eu o respeito e sinceramente o aprecio. Se me permitir que vá para a cama com você, vou fazer tudo que puder pra diverti-lo.

— Friday!

— Sim, senhor?

— Você não irá para a cama comigo para me divertir. Percebi lágrimas nos meus olhos — uma coisa muito rara.

— Senhor, desculpe-me — eu disse miseravelmente. — Não tinha a intenção de ofender, não pretendia tecer suposições.

— Deus do céu, PARE COM ISSO!

— Senhor?

— Pare de me chamar de "senhor". Pare de se comportar como uma escrava! Chame-me Georges. Se tiver vontade de acrescentar "querido" ou "meu caro", como já fez algumas vezes no passado, por favor, faça-o. Ou me xingue. Mas trate-me como seu amigo. Esta dicotomia de "humano" e "não-humano" é algo elaborado pela mente de leigos ignorantes; todos na profissão sabem que é nonsense. Os seus genes são genes humanos; eles foram cuidadosamente selecionados. Talvez isso a torne super-humana, mas não pode torná-la não-humana. Você é fértil?

— Sim, uma esterilidade reversível.

— Eu poderia mudar isso em dez minutos com a aplicação de um anestésico local. Depois poderia lhe engravidar. O seu bebê seria humano? Ou inumano? Ou apenas metade humano?

— Parece que... humano.

— Você pode apostar a vida que seria! É preciso uma mãe humana gerar um bebê humano. Nunca se esqueça disso.

— Eu não me esquecerei.

Senti um arrepio estranho por todo o meu corpo. Sexo, mas não igual a qualquer outra coisa que eu já tivesse sentido antes, mesmo eu sendo tão ardilosa quanto um gato.

— Georges? Você deseja fazê-lo? Engravidar-me?

Ele pareceu bastante surpreso. A seguir veio na minha direção, tocou o meu rosto, pôs os braços em torno do meu corpo e me beijou. Na escala dez, eu teria de classificá-lo em oito e meio, talvez nove — não havia meio de fazê-lo melhor na vertical e com as roupas sobre o corpo. Então ele me ergueu do solo, levou-me até uma poltrona, sentou-se, eu no seu colo, e começou a tirar a minha roupa, com capricho e gentileza. Janet havia insistido para eu vestir as suas roupas; eu tinha coisas mais interessantes para tirar do corpo do que uma camiseta qualquer. O meu jogo Pele Especial, recentemente lavado por Janet, estava na minha sacola de viagem.

Georges disse, enquanto abria o zíper, desabotoava, desfazia tudo:

— Aqueles dez minutos deveriam transcorrer no meu laboratório e levaria outro mês, mais ou menos, até chegar a sua primeira época de procriação, e uma tal combinação de circunstâncias vai livrá-la de uma barriga protuberante... porque tais espécies de argumentos agem no macho humano da mesma forma que as cantáridas num touro. Portanto, você estará a salvo da sua loucura. Em vez disso, vou levá-la para a cama e tentar diverti-la... ainda que eu também não possua o meu certificado. Mas nós pensaremos em algo, cara Friday.

Ele me levantou e despiu-me do que restava em mim de roupas, jogando tudo no chão.

— Você parece estar bem. Você se sente bem. Você cheira bem. Quer usar o banheiro primeiro? Eu preciso de um bom banho.

— Bem, eu preferiria o segundo lugar, pois quero para mim bastante tempo.

Tomei um banho demorado, uma vez que eu não blefava quando lhe dissera que estava empanturrada. Sou uma viajora experiente, cuidadosa o bastante para não atrair sequer uma das maldições gêmeas das viagens. Mas nem o jantar, seguido por um café da manhã monstruoso à meia-noite, mudou a minha sensação de tempo perfeito. E se eu ia ter um peso sobre a minha caixa torácica — e sobre a minha barriga — esse era o momento de aliviar aquela sensação de empanzinamento.

Já passavam das duas quando saí do chuveiro — banhada, cuidada, a barriga macia, a boca fresca, a respiração doce, e sentindo-me tão pronta e contente quanto jamais me sentira antes na vida. Sem perfume. Não apenas eu não levo perfumes comigo, como os homens preferem o fragrans feminae a qualquer outro afrodisíaco mesmo quando não sabem disso! Só não gostam dele quando cheira a ranço.

Georges estava na cama com uma coberta sobre o corpo, parecia dormir. A tenda não estava erguida, eu reparei. E então, com extrema cautela, escorreguei para o meu lado e procurei não acordá-lo. Na verdade, eu não estava desapontada, já que não sou uma víbora egocêntrica. Senti-me confiante e feliz só em pensar que ele me veria acordar bem fresquinha, e que então seria o melhor para nós dois — pois aquele fora um dia extenuante também para mim.


 

Eu estava certa.

Não quero roubar Georges de Janet... mas adoro receber visitas felizes e, se ele estivesse mesmo decidido a reverter minha esterilidade, agir como uma gata seria a maneira mais indicada de gerar um bebê para Georges — e não posso entender por que Janet não fizera ainda tal coisa.

Fui acordada pela terceira ou quarta vez por um cheiro agradável; Georges estava descarregando o carrinho. — Você tem vinte e um segundos para entrar e sair do banho — ele disse —, pois a sopa está pronta. Você teve um excelente desjejum no meio da noite, e por isto terá agora um desjejum que já não o é.

Suponho ser impróprio comer maçãs silvestres na primeira refeição, mas acho bom demais. Elas foram antecedidas por bananas em fatias com creme ou sucrilhos — o que me pareceu um super café da manhã — acompanhadas por roscas tostadas e uma salada verde bem variada. Então arrematei tudo com um bom sabor, café de chicória adicionado de um traguinho de champanha brande Korbel. Georges é um libertino adorável, um glutão de coração mole, um chef gourmet e um curandeiro gentil, capaz de fazer uma pessoa artificial crer que é humana ou, pelos menos, que isso não é importante.

Questão: Por que todos os três daquela família são tão esbeltos? Estou certa de que eles não fazem dieta e nem mesmo exercícios masoquistas. Um terapeuta certa vez me disse que todo exercício que uma pessoa necessita pode ser feito na cama. Será que pode mesmo?

Estas são as boas notícias. Quanto às más...

O Corredor Internacional estava fechado. Seria possível alcançar Deseret mudando de rota em Portland, mas não havia a menor garantia de que o expresso subterrâneo SLC — Omaha — Gary estaria funcionando. A única rota internacional cujos veículos trafegavam normalmente parecia ser a San Diego — Dallas — Vicksburg — Atlanta. San Diego não representava problema algum, uma vez que o subterrâneo de San José estava aberto a partir de Bellingham até La Jolla. Mas Vicksburg não faz parte do Império de Chicago, é simplesmente um porto à beira-rio, do qual uma pessoa com um pouco de dinheiro e muita persistência pode alcançar o Império.

Tentei ligar para o chefe. Depois de quarenta minutos, senti-me com relação às vozes sintéticas do mesmo jeito que os seres humanos se sentem com relação às pessoas da minha espécie. Quem terá idealizado essa novidade de programar "polidez" na memória de um computador? Ouvir uma voz mecânica quase declamando. "Obrigado por esperar" talvez seja um alívio na primeira vez, mas depois de três vezes você acha que é uma chatura, e quarenta minutos de tal blablablá, sem escutar a voz de um ser vivo, pode abalar até mesmo a paciência de um guru.

O terminal jamais confessaria que não era possível telefonar para um número situado dentro do território do Império. Aquele confuso desastre digital não fora programado para uma negativa; era programado apenas para ser polido. Teria sido um alívio se, após um certo número de tentativas infrutíferas, ele tivesse opções para sentenciar. "Desista, minha irmãzinha, você deu azar."

Tentei então chamar o escritório dos correios de Bellingham para inquirir sobre as condições do serviço de mala aérea no território do Império — palavras oscilando entre cortesia e honestidade enchiam o papel, assim como sobre o pagamento de uma parcela, mas não um fac-símile ou um aerograma ou qualquer solução eletrônica.

Obtive uma repreensão bem-humorada por solicitar dados sobre correspondência natalina tão cedo. Com o Natal longe quase seis meses, parecia bem menos do que urgente.

Tentei de novo. Fiquei com raiva dos códigos de endereçamento postal.

Tentei uma terceira vez e obtive o departamento de atendimento ao consumidor da Macy's e uma voz: "— Todos os nossos amigáveis informantes estão ocupados no presente momento. Favor esperar."

Não esperei.

Afinal não desejava telefonar nem expedir uma carta, eu queria relatar ao chefe pessoalmente. Para isso necessitava de dinheiro. Aquele ofensivamente bem-educado terminal de vídeo admitia que o escritório local do MasterCard estivesse situado no escritório principal em Bellingham da TransAmerica Corporation. Então digitei o código e obtive como resposta, do outro lado da linha, uma voz doce — gravada anteriormente, não-sintética — que me dizia: "Muito obrigada por chamar MasterCard. Em nome da eficiência e de um máximo de resultados econômicos para os nossos milhões de clientes satisfeitos, os nossos escritórios da Confederação da Califórnia foram vinculados ao escritório-núcleo em San José. Para maior rapidez no serviço queira utilizar o código de ligação gratuita registrado no verso do seu cartão MasterCard." A doce voz cedeu a vez aos acordes iniciais de uma melodia. Desliguei rapidinho.

Meu cartão MasterCard, emitido em Saint Louis, não portava impresso no verso aquele bendito código para ligação a cobrar, mas apenas o número, não muito esperançado.

Obtive o Disque-por-um-Sermão.

Enquanto eu recebia instruções de um computador, verdadeiras aulas de humildade, Georges lia a edição esportiva do Los Angeles Times, à espera de que eu terminasse com aquela brincadeira de esconde-esconde. Afinal desisti e perguntei:

— Georges, o que diz a seção matutina sobre a emergência?

— Que emergência?

— Hem? Isto é, desculpe-me...

— Friday, meu amor, á única emergência mencionada neste jornal é um aviso do Sierra Club a respeito da ameaça de desaparecimento da espécie Rhus diversiloba. Planeja-se um piquete contra a Dow Chemical. De resto, nada de novo na frente ocidental.

Enruguei a fronte para estimular a memória.

— Georges, não sei muita coisa sobre a política californiana.

— Minha cara, ninguém sabe muita coisa sobre política californiana, incluindo os políticos da Califórnia.

— ...mas receio lembrar-me de relatos nos jornais sobre uma dúzia de ferozes assassinatos na área da Confederação. Será que tudo era um embuste?

Pensando direitinho e representando na memória as escalas de tempo — quando fora isso? Cerca de trinta e cinco horas antes?

— Descobri obituários de eminentes damas e cavalheiros mencionados no noticiário sobre a noite de anteontem... mas não consta que tenham sido assassinados. Um deles cita "ferimento acidental por arma de fogo". Outro morreu após "longo período de doença". Outro ainda foi vítima da "colisão súbita" de um VPA, e o encarregado geral da Confederação solicitou que se procedesse à investigação. Mas parecia que li alguma coisa dizendo que o próprio encarregado geral fora liquidado.

— Georges, o que está acontecendo?

— Friday, eu não sei. Mas sugiro que talvez seja perigoso demais investigar muito de perto.

— Ora, não vou investigar coisa alguma; não sou política e nunca fui. Vou me transferir para o Império o mais rápido possível. Mas para que eu possa fazê-lo — e como a fronteira está fechada, não importa o que diga o Los Angeles Times — preciso de dinheiro. Odeio ter que dar uma facada em Janet e me servir do seu cartão Visa. Talvez eu possa utilizar o meu próprio cartão de crédito, mas tenho de ir para San José se quiser tentar um pouco de sorte nessa história; eles são enjoados. Você deseja vir para San José comigo? Ou voltar para Jan e Ian?

— Doce senhora, os meus bens universais estão depostos a seus pés. Contudo, mostre-me o caminho para San José. Por que cargas d'água se recusa a me levar para o território do Império? Não haveria uma pequena possibilidade de o seu patrão ter algum espaço no qual eu possa encaixar os meus talentos? Não posso retornar agora para Manitoba por razoes que ambos conhecemos.

— Georges, não é que eu me recuse a levá-lo comigo, mas a fronteira está fechada... o que talvez me force a imitar Drácula e fluir através de uma fenda. Ou fazer algum milagre do gênero. Sou treinada para isso, mas só posso fazê-lo sozinha — você pertence à profissão e bem pode entender do que se trata. Além do mais, embora não saiba como anda tudo dentro do território do Império, as notícias demonstram que as coisas estão violentas. Uma vez lá dentro, eu talvez tenha de ser o mais arguta possível para sobreviver, e olhe lá. E eu sou treinada para fazer isso.

— E você está reforçada, eu não. Sim, posso compreender.

— Georges, querido, não quero ferir os seus sentimentos. Veja, logo que fizer meu relatório, eu o chamarei. Aqui, na sua casa, onde você quiser. Se for seguro você cruzar a fronteira, eu então saberei. (Georges pedir um emprego ao Chefe? Impossível! Ou será que não? O Chefe talvez tenha alguma vaga para as funções de engenheiro-genético com certa experiência. Quando pensei mais profundamente a respeito, vi que não tinha a menor idéia das necessidades do Chefe além daquela parte ínfima ligada a mim.)

— Você fala seriamente sobre ver o meu patrão a respeito de um emprego? Ufa, o que eu devo dizer a ele?

Georges exibiu o gentil meio-sorriso que costumava usar para encobrir os seus pensamentos, da mesma forma que eu usava a minha face na fotografia do passaporte.

— Como é que eu posso saber? Tudo o que sei sobre o seu patrão é que você reluta em falar dele e que ele pode se permitir utilizar alguém como você como mensageira. Mas, Friday, eu talvez possa avaliar ainda mais agudamente do que você quanto exatamente de investimento de capital representou o seu projeto, sua nutrição, sua educação e treinamento... e, em verdade, o preço inestimável que o seu empregador deve ter pago por sua escritura e registro.

— Eu não sou inscrita. Sou uma Pessoa Livre.

— Então tudo lhe custou ainda mais. O que nos conduz a conjeturas. Não importa, querida; não vou mais ficar adivinhando. Se eu estou falando a sério? Um homem pode questionar-se profundamente sobre o que existe após os limites do conhecido. Vou lhe fornecer um exemplar do meu "curriculum vitae"; se ele tiver alguma coisa que interesse ao seu empregador, esteja certa de que ele arranjará um meio de fazê-la saber. Agora, quanto ao dinheiro: não se preocupe sobre estar "chupando o sangue" de Janet; dinheiro não quer dizer nada para ela. Mas eu estou disposto a, com a maior boa vontade, suprir seja qual for a cifra de que você necessite — e eu já constatei, aliás, que os meus cartões de crédito são válidos por estas bandas, não importa quais sejam as querelas políticas em curso. Utilizei o cartão Quebec para pagar a nossa ceia da meia-noite, digitei o meu American Express para efetuar o pagamento neste albergue, depois usei o Maple Leaf para financiar o desjejum. Portanto, possuo três cartões válidos e todos de acordo com o meu documento de identidade. — Ele abriu um sorriso largo. — Portanto, aproveite para me esfaquear, cara menina.

— Mas eu não quero dar uma facada em você nem um pouquinho mais de quanto quero esfaquear a Janet. Veja bem, podemos tentar com o meu cartão de San José; se não funcionar, prazerosamente lhe pedirei emprestado... e devolverei o dinheiro assim que prestar minhas contas ao Chefe.

(Ou estaria Georges desejando armar uma fraude qualquer servindo-se do cartão de crédito do tenente Dickey —é danado de difícil uma mulher efetuar uma retirada de dinheiro vivo com um cartão de crédito pertencente a um homem. Pagar por alguma coisa inserindo um cartão numa ranhura é uma coisa; utilizar um cartão de crédito para retirar numerário é outra.)

— Por que raios você fala em pagamento? Se eu sou eternamente seu devedor?

Preferi ser obtusa naquele momento.

— Você sente de verdade que me deve alguma coisa? Apenas pela noite passada?

— Sim. Você esteve adequada. Engoli em seco.

— Oh!

Ele continuou, meio taciturno:

— Você não acha que eu disse inadequada, acha? Prendi a respiração.

— Georges, tire suas roupas. Vou levá-lo de volta pra cama e matá-lo bem devagarinho. E no final eu vou sacudi-lo todo e quebrar a sua espinha em três locais diferentes. "Adequada" "Inadequada."

Ele sorriu e começou a se desabotoar. Eu disse:

— Oh, pare com isso e me beije! Agora vamos para San José. "Inadequada." O que era eu?

A duração é quase a mesma para ir de Bellinghan a San José ou de Winnipeg a Vancouver, mas nesta viagem dispúnhamos de assentos. Emergimos sobre o solo às quatorze-quinze. Olhei ao redor com interesse, pois nunca visitara a capital da Confederação antes.

A coisa que primeiro me saltou aos olhos foi a assustadora quantidade de VPA oscilando como insetos por toda a extensão do lugar, e na maioria eram de táxis aéreos. Não conheço outra cidade moderna que tolera ver o seu espaço aéreo tão infestado. As ruas da cidade andavam cheias de curiosos cabriolés e de planos inclinados costeando cada uma das ruas; e aquelas pestes encontravam-se por toda parte, pulverizadas como as bicicletas em Cantão.

A segunda coisa em que reparei foi a atmosfera de San José. Não se tratava de uma cidade. Eu agora podia compreender aquela descrição clássica: "Um milhar de pequenas vilas em busca de uma cidade."

San José não parece possuir qualquer outra justificativa além da política. Mas a Califórnia extrai mais resultados da política que qualquer outra região do meu conhecimento — democracia totalizante, desinibida e desavergonhada. Você entra no conceito democracia de muitos ângulo diferentes — a Nova Zelândia se utiliza do tempo para designar uma forma atenuada. Mas somente na Califórnia você pode encontrar a democracia não-diluída. A maioria eleitoral principia no momento em que um cidadão é alto o bastante para acionar a alavanca sem ser auxiliado por sua babá, e os escrivães relutam em privar dos direitos civis um cidadão que não esteja na posse do seu certificado de cremação juramentado.

Eu não apreciei integralmente este último fator até o momento em que pude ver, numa história das notícias eleitorais, que os corpúsculos do Prehoda Pines Patience Park constituíam-se em três distritos distintos, todos munidos do direito de voto por intermédio de procurações pré-registradas. ("Morte, não se orgulhe disto!")

Não tentarei passar alguma espécie de julgamento, uma vez que eu já era mulher feita na ocasião em que encontrei formas de democracia, até mesmo aquelas portadoras de teores os mais sutis, não-malignos. A democracia é provavelmente utilizada de maneira correta em quocientes quânticos esparsos. Os britânico-canadenses se servem de uma espécie bastante diluída e parecem passar muito bem, obrigado. Mas unicamente na Califórnia é que todos se embebedam com ela durante todo o tempo. Parece não haver um só dia no qual não ocorra uma eleição numa parte qualquer do Estado da Califórnia, e, para cada um dos seus distritos, existe (assim me foi dito) eleição de alguma espécie em torno de uma vez a cada mês.

Suponho que eles podem se dar a esse luxo. Eles possuem um clima suave e sazonado desde a área do Canadá Britânico até o Reino do México e grande parte da mais rica região agrícola de todo o planeta Terra. O seu segundo esporte predileto (sexo) não custa nada em sua forma crua; assim como a marijuana está à mais livre e imaginável disposição possível, por toda parte. E este deixa tempo e energia para o verdadeiro grande esporte da Califórnia: colher, armazenar dados sobre política.

Eles elegem todo mundo, desde o parasita-mor do distrito até o Principal Confederado ("O Principal"). Mas eles os inelegem quase com a mesma rapidez. Por exemplo, espera-se que o Principal sirva por um período de seis anos. Mas, dos últimos nove, apenas dois se mantiveram pelos seis anos completos; os demais receberam dispensa antes, sem falar naquele que foi linchado. Em muitos casos, um oficial não havia sequer prestado o juramento quando a primeira ameaça de impedimento foi posta em circulação.

Mas os californianos não se limitam a eleger, demitir, indicar, e (algumas vezes) até mesmo linchar os seus muitos oficiais, eles também legislam diretamente. Cada uma das eleições possui em seu bojo um número maior de propostas de lei do que de candidatos propriamente ditos. Os representantes nacionais e provinciais mostram um certo constrangimento — foi-me assegurado que o legislador típico da Califórnia tratará sem dúvida de vetar uma lei, bastando para isso você provar que pi não pode ser igual a três, não importando quantos tenham votado em favor disso.

Por exemplo, três anos atrás um economista agrícola observou que graduados na universidade ganhavam, na média geral, cerca de 30 por cento mais do que os cidadãos que não possuíam graus de bacharel. Uma tal condição antidemocrática constitui verdadeiro anátema para o Sonho Californiano, de maneira que, com imensa rapidez, uma iniciativa foi indicada para a próxima eleição; e tendo passado a medida, a todos os egressos de escolas de segundo grau e/ou cidadãos californianos atingindo dezoito anos foi, doravante, concedido o grau de bacharel. Uma cláusula do tempo do vovô fez este benefício retroagir por um prazo de oito anos.

A medida funcionou maravilhosamente; o possuidor de um grau de bacharel não usufruiria mais de qualquer privilégio antidemocrático. Na eleição seguinte, a cláusula do vovô foi ampliada para cobrir os últimos vinte anos e na verdade existe um movimento bastante forte que visa a estender esta dádiva a todos os cidadãos.

Vox populi, vox Dei. Eu não posso ver nada de errado nisso. Esta benévola medida não custa nada e torna todos (exceto uns poucos descontentes) mais felizes.

Lá pelas quinze horas, Georges e eu estávamos passeando pela ala sul da National Plaza, de frente para o Palácio do Principal, voltado para os escritórios centrais do MasterCard. Georges estava me relatando que não via nada de errado no fato de eu lhe ter pedido para parar no Burger King a fim de fazer uma boquinha. Sem dúvida, o hambúrguer gigante, na opinião dele, preparado a partir de um substituto do lombo de vaca e do mal te de chocolate elaborado com pó de giz calcário, constituía-se na única contribuição original da Califórnia à alta cozinha internacional.

Eu estava concordando com ele enquanto sufocava gentilmente. Um grupo de homens e mulheres, entre uma dúzia e vinte, movia-se em frente ao Palácio e Georges começara a voltear com cuidado a fim de evitá-las, quando observei o ornamento de pluma de águia na cabeça de um homenzinho no centro do grupo, identifiquei a muitíssimo fotografada face em meio à multidão e conferi se ainda tinha Georges ao meu lado, tateando com uma das mãos.

E colhi alguma coisa de notável com o canto do olho: uma figura saindo por trás de um pilar no alto das escadas.

Isto me disparou. Empurrei o Principal secamente escadas abaixo, golpeando vários dos seus assistentes para abrir caminho, e então me dirigi para cima em direção àquele pilar.

Eu não matei o homem que se havia escondido atrás daquela pilastra; eu apenas lhe quebrei o braço que portava a arma, depois lhe desferi um forte pontapé quando ele tentou fugir. Eu não seria posta para correr da maneira como o fora no dia anterior. Depois de haver reduzido a carga que o Principal Confederado fez (realmente, ele não devia vestir aquela espécie exótica de chapéu), tive tempo bastante para compreender que o assassino, se o tivessem capturado vivo, tornar-se-ia uma verdadeira pista que nos conduziria até o bando por trás desses absurdos assassinatos.

Mas eu não tivera tempo para tomar consciência do que fizera exatamente até o momento em que um dos dois policiais da capital agarrou meu braço. Então eu me senti de fato contrariada, nervosa, pensando no desdém que haveria na voz do chefe quando eu tivesse de admitir que permitira a mim mesma ser publicamente aprisionada. Por um momento, considerei seriamente a possibilidade de me livrar e me esconder atrás da linha do horizonte — o que não seria impossível, uma vez que um dos funcionários da polícia claramente sofria de pressão alta e o outro era um quase ancião que usava óculos.

Tarde demais. Se eu corresse agora, utilizando a velocidade máxima, poderia quase com certeza dar o fora, misturando-me com a multidão, dentro de um quarteirão ou dois, e então escapar. Mas aqueles trapalhões possivelmente exterminariam meia dúzia de pedestres tentando me enjaular. Nada profissional! Por que a guarda deste palácio não tinha protegido o Principal em vez de deixá-lo em minhas mãos? Um homem à espreita por trás dos pilares, Deus do céu! — nada do gênero acontecera desde o assassinato do Huey Long.

Por que raios eu não havia tratado de tomar conta do meu próprio nariz e deixado aquele assassino queimar o Principal Confederado com seu chapeuzinho exótico? Porque eu fora treinada somente para ações táticas de defesa, aí está, e conseqüentemente lutava por reflexos. Eu não tinha qualquer interesse em lutar, nem gostava da idéia — simplesmente acontecia.

Por isso não tive tempo para considerar a conveniência de tratar exclusivamente dos assuntos que me dizem respeito, já que Georges estava tomando conta do resto. Georges falava inglês britânico-canadense sem sotaque (no máximo, um pouco afetado); agora estava gaguejando um francês incoerente e tentando tirar aqueles dois pretorianos das minhas costas.

Aquele que usava óculos deixou escapar o meu braço esquerdo para lidar com Georges, e foi quando desferi uma forte cotovelada que pegou em cheio abaixo do seu esterno. Ele desabou no chão. O outro ainda estava agarrado ao meu braço direito, e então eu o golpeei com os três primeiros dedos da mão esquerda, em conseqüência do que ele caiu deitado ao lado do parceiro, os dois vomitando.

Tudo isto aconteceu bem mais rápido do que o tempo que leva para descrever — ou seja, os cretinos me agarraram, Georges interveio e eu me livrei.

Dois segundos? Seja como for, o assassino desapareceu, levando a arma com ele.

Eu pretendia desaparecer, levando Georges, mesmo se tivesse que carregá-lo, quando tomei consciência de que Georges decidira fazer a mesma coisa. Ele me portava à altura do cotovelo direito e me mantinha firmemente voltada contra a entrada principal do Palácio, um pouco além daquela fileira de pilares. Assim que pisamos no grande salão, ele largou o meu cotovelo e me disse com voz suave.

— Marcha lenta, minha querida — quietinha, quietinha. Pegue meu braço.

Peguei o braço dele. O grande salão estava superlotado, mas não havia algazarra, nada capaz de sugerir que um atentado fora levado a cabo, a apenas uns poucos metros dali, visando a matar o chefe do poder executivo. As barracas de negócios que cercavam o grande salão estavam lotadas, especialmente as janelinhas de apostas. Bem à nossa esquerda uma jovem vendia bilhetes de loteria — ou estava prestes a vendê-los, eu devia dizer, pois não se viam clientes no momento — e concentrava atenção na novela que se desenrolava no seu terminal de vídeo.

Georges fez uma parada diante daquela barraca. Sem tirar os olhos do vídeo, ela grunhiu:

— O final é agora mesmo, e já vou poder atendê-los. Dêem uma voltinha por ai. Depois serão bem-vindos.

Existiam grinaldas de bilhetes de loteria à volta da barraca. Georges começou a examiná-los, e eu tratei de fingir um interesse profundo. Ficamos ganhando tempo; nesse momento os comerciais começaram, e a jovem abaixou o volume do som e voltou-se para nós.

— Obrigada por esperar — ela disse, com um sorriso agradável. — Eu jamais perco o seriado Mágoas de mulher, especialmente nesta fase em que Mindy Lou está grávida de novo e tio Ben se revela tão irracional sobre isso. Você acompanha este seriado de televisão, minha cara?

Confessei que raramente tinha tempo para isso — interferiria no meu trabalho.

— Isto é mau, ela é muito educativa. Veja Tim, por exemplo, o meu companheiro de quarto. Ele não assiste a nada que não seja esporte, e por isso não possui um pensamento na cachola para as sutis realidades da vida. Esta crise com Mindy Lou, por exemplo. Tio Ben está pura e simplesmente perseguindo-a porque ela não lhe diz quem foi o responsável. Você acha que Tim liga pra isso? De jeito nenhum! Jamais! O que nem Tim nem tio Ben têm consciência é do fato de que ela não pode revelar nada que aconteceu numa saleta durante a convenção do partido. Qual é o seu signo?

Eu devia ter uma resposta previamente preparada para isso; as criaturas humanas estão sempre fazendo perguntas assim. Mas, quando não se é uma criatura nascida, é fácil ficar intimidada diante de tais questões. Inventei uma data e lancei-a para ela:

— Nasci em vinte e três de abril.

Trata-se do aniversário de William Shakespeare; ele estalou dentro da minha cabeça.

— Puxa vida! Vou ver se arranjo um bilhete de loteria para você! — Esquivou-se atrás de uma das peças de decoração Maypole, encontrou Um bilhete, mostrou-me um número. — Vê isto? Quando você entrou, já estava aqui! Este é o seu dia de sorte. — Ela descartou o bilhete da vitrina. — Custa vinte paus.

Ofereci um dólar britcan. Ela respondeu:

— Não tenho troco para isso.

— Guarde o troco. Dá sorte...

Ela me passou o bilhete, recolheu o dólar.

— Você é uma grande figura, minha cara. Quando tirar a sorte grande, dê uma parada por aqui e tomaremos um drinque juntas. E o senhor, já encontrou algo que lhe agrade?

— Ainda não. Nasci no nono dia do nono mês do ano da nona década. Você pode cuidar disso?

— Ufa!... Que combinação dos infernos! Posso tentar... e se não puder não lhe venderei coisa alguma.

Mergulhou nas suas pilhas e montes de papel, zumbindo para si mesma. Afundou a cabeça embaixo do balcão, permaneceu ali por algum tempo. Logo reapareceu, a face vermelha e o ar triunfante, empunhando um bilhete de loteria. — Eis aqui! Veja-o, senhor! Dê a sua opinião sincera.

Nós olhamos: 8109999.

— Estou impressionado — disse Georges.

— Impressionado? Você está é rico. Eis aí os seus quatro noves. Agora trate de somar os dígitos estranhos. Dá nove uma vez mais. Divida pelos dígitos estranhos. Outros noves. Adicione os últimos quatro — trinta e seis. E temos nove ao quadrado, com mais dois noves, fazendo outro conjunto de quatro noves. Some-se tudo e se obtêm cinco grupos de noves. Diminua a soma e você encontra quatro noves de novo. Não importa o que fizer, sempre terá a data do seu aniversário. O que deseja, senhor? Garotinhas dançantes?

— Quanto é que lhe devo?

— Este é um número muito especial. Você pode obter outro número qualquer por apenas vinte paus. Mas aquele... Por que não começa a empilhar dinheiro na minha frente até que eu dê um sorriso?

— Isso me parece justo. E, se você não sorrir quando eu achar que deve, vou pegar toda a grana e cair fora. Certo?

— Eu talvez deva entrar num acordo.

— Não. Se você não me oferecer um preço fixo, depois não deixarei que tente baixá-lo quando eu já tiver feito uma oferta razoável.

— Você é um cliente duro, ora essa. Eu...

Alto-falantes por toda parte começaram a berrar "Viva o Principal", seguido de "O Urso Dourado para sempre". A jovem murmurou: "Espere! Acaba rápido!" Uma multidão de pessoas afluía, vinda do exterior, caminhando direto através da passagem oval e pelo corredor principal em frente. Localizei a touca da águia-emplumada despontando em meio à turba-multa, mas desta feita o Principal Confederado estava cercado tão de perto pelos seus parasitas que um assassino teria tido um grande problema para tentar golpeá-lo.

Quando se tornou possível ouvir qualquer coisa de novo, a vendedora de bilhetes de loteria dizia: Agora foi café pequeno. Há menos de quinze minutos ele passou por aqui, dirigindo-se para fora. Se estivesse simplesmente dobrando a esquina atrás de uma ninharia, por que cargas d'água não mandaria outra pessoa em vez de ir ele mesmo? Terrível para os negócios todo aquele barulho. E então, meu chapa, você já pensou no que pretende pagar para ficar rico?

— Claro que sim.

Georges tirou uma nota de três dólares e pousou-a sobre o balcão. Olhou para a mulher. Ficaram com os olhos cravados um no outro por cerca de vinte segundos, depois ela disse, carrancuda:

— Estou sorrindo. Isto é, acho que estou.

Recolheu a nota com uma das mãos e passou o bilhete de loteria com a outra. — Aposto que eu conseguirei fazê-lo desovar outro dolarzinho.

— Nunca se sabe, não é?

— O dobro ou nada, pela carta maior, ou fica por isso mesmo?

— Com as suas cartas marcadas? Georges perguntou gentilmente.

— Diabos, você vai acabar me transformando numa velha senhora. É bom que já esteja alhures antes que eu mude de idéia.

— Onde é o banheiro?

— No fundo do corredor à minha esquerda. — Ela acrescentou:

— Não perca a extração.

No momento em que seguiu para o banheiro, Georges me sussurrou em francês que alguns gendarmes haviam passado por nossas costas, durante aquele papo com a vendedora de bilhetes. Tinham entrado no banheiro, saído, voltando depois pela rotunda para o grande salão.

Cortei aquele papo falando também em francês, dizendo-lhes que eu já sabia, mas que naquele ambiente era preciso ter olhos e ouvidos — conversa-mole, só depois.

Eu não estava esnobando. Dois guardas uniformizados — não os dois com problemas no estômago — haviam entrado quase do nosso lado, corrido bem à nossa frente e inspecionado o banheiro. (Parecia razoável: um amador geralmente procura esconder-se num banheiro público.) Depois saíram, passando por onde estávamos, e então penetraram no Palácio. Georges ficara calmamente a pechinchar os bilhetes de loteria enquanto guardas à nossa procura haviam haurido o nosso hálito, de tão próximos, duas vezes. Admirável. Coisa de profissional.

Mas eu teria de esperar para dizer isso a ele. Uma pessoa de sexo indeterminado vendia tíquetes nas imediações do banheiro. Eu lhe perguntei (a ele? a ela?) onde ficava o toalete. Ela (eu me decidi pelo "ela" no momento eu que uma observação mais detalhada me permitiu constatar que a sua camiseta encobria peitinhos falsos ou pequenas glândulas mamárias) respondeu com escárnio:

— Você é alguma espécie de maluco? Ou está tentando me discriminar, bem? Eu devia chamar os tiras. Depois ela me olhou mais de perto. — Você é estrangeira.

Eu o admiti.

— Tudo bem. Mas não fale daquela maneira; as pessoas não gostam. Somos democratas por aqui, sabe? — dobermans e lulus-da-pomerânia utilizam-se do mesmo poste. Por isso compra logo o seu tíquete ou pare de bloquear o trânsito na roleta.

Georges comprou dois tíquetes e entramos.

À nossa direita vimos uma fileira de boxes abertos. Sobre eles flutuava uma manchete em holovisão:

ESTAS INSTALAÇÕES SÃO FORNECIDAS INTEIRAMENTE GRÁTIS" PARA SUA SAÚDE E CONFORTO PELA CONFEDERAÇÃO DA CALIFÓRNIA — JOHN "WARWHOOP" TUMBRIL, PRINCIPAL CONFEDERADO.

Uma holofoto em tamanho natural do Principal flutuava um pouco acima.

Além dos boxes abertos havia outros, com portas, pelo uso dos quais era preciso pagar; e, adiante, viam-se portões de acesso ornados por reposteiros. À esquerda existia um estande de novidades sob a guarda de uma criatura evidentemente do sexo feminino, mas uma figura de cachorro buldogue. Georges parou ali e me surpreendeu ao comprar vários cosméticos e um frasco de perfume barato. A seguir pediu um ingresso para uma das salas de toalete no final do corredor.

— Um bilhete? — E olhou para Georges agressivamente. Ele assentiu concordando. A mulher franziu os lábios. — Safado, safado. Nada de trapaças, cara.

Georges não respondeu. Um dólar britcan passou das suas mãos para as dela, e desapareceu. Ela disse com enorme suavidade:

— Não demore muito. Sé ouvir o zumbir da cigarra, trate de cair fora rápido. Número sete, bem à direita.

Fomos até o número sete, o mais distante dos compartimentos, e entramos nele. Georges fechou as cortinas, fez deslizar o zíper, esvaziou a água da pia, e então abriu a torneira de água fria e deixou correr. Falando uma vez mais em francês, explicou que estávamos a ponto de mudar nossa aparência sem utilizar disfarces, e "portanto, minha cara, saia fora das roupas que usa e vista aquele conjunto que está na sua mala".

Ele explicou mais detalhadamente, mesclando francês e inglês e continuando a encher e esvaziar a pia de tempos em tempos. Eu vestiria um conjunto de saia e blusa pegado à pele, escandaloso, me maquilaria em excesso e tentaria parecer tão provocante quanto uma prostituta da Babilônia — ou algo assim.

— Sei que esse não é o seu métier minha cara, mas faça uma tentativa.

— Procurarei ser "convincente".

— Combinado.

— E você, pretende vestir as roupas de Janet? Não creio que lhe caiam bem.

— Não, não, eu não vou chupar cana, vou apenas assobiar.

— Hem?

— Não vou vestir roupas de mulher, simplesmente me esforçarei por parecer efeminado.

— Não posso crer. Mas tudo certo, vamos tentar.

Não descobrimos grande coisa para mim — apenas aquela peça colante que deixa uma impressão de molhado no corpo e que havia conquistado Ian, um pouco mais de maquilagem do que estou habituada a usar, aplicada por Georges (parecia conhecer mais a respeito do que eu mesma — e se sentia daquela maneira justamente porque ele o estava fazendo), mas — como estávamos do lado de fora — agora era enfrentar o que desse e viesse.

Georges aplicou em si mesmo até mais maquilagem do que havia aplicado em mim, além daquele perfume vil (que não me havia pedido para usar) envolvendo o pescoço com a berrante faixa laranja que eu vinha usando como cinto. Fez-me empoar o seu cabelo e aplicar o spray, de maneira que ficou felpudo e bufante. Isto era tudo... além de uma mudança nas maneiras. Ele ainda parecia o velho Georges — mas não mais o alce exuberante e viril que investira contra mim na noite passada.

Refiz a minha mala e partimos. A velha bruaca da banca de novidades abriu bem os olhos e reteve a respiração no momento em que me viu. Mas nada disse quando um homem que estava apoiado no balcão levantou-se, apontou o dedo para Georges e disse:

— Você aí, o Patrão quer você. Em seguida acrescentou, quase como para si mesmo. — Eu não acredito.

Georges parou com ambas as mãos, gesticulou desamparado.

— Oh, logo eu! Deve estar acontecendo algo errado!

O lacaio mordiscou um palito que estava chupando e respondeu:

— Também creio, cidadão — Mas não vou dar palpite sobre isso, e nem você. Venha comigo. Não me refiro a você, irmã.

Georges disse:

— Eu positivamente não iria a parte alguma sem a minha querida irmã! Quanto mais lá!

Aquela vaca mugiu:

— Morrie, ela pode esperar aqui. Docinho, dê a volta e sente-se a meu lado.

George me lançou o mais negativo dos olhares, mas era supérfluo. Se eu permanecesse, ou ela me levaria de volta àquele toucador ou eu a faria estrebuchar dentro de sua própria tenda de bagulhos. Eu apostava em mim mesma. Vou acabar com essa espécie de nonsense na ordem de importância — ela jamais seria tão desagradável quanto Rocky Rockford —, mas não por livre e espontânea vontade. Se e quando eu mudar de sorte, só poderá acontecer com alguém que goste e respeite.

Aproximei-me de Georges, e peguei seu braço.

— Nós nunca nos separamos desde que Mama, em seu leito de morte, me pediu que tomasse conta dele. — Eu acrescentei: — Aí está! Enquanto conjeturava sobre o significado daquela frase, se é que tinha algum significado. Nós dois acabamos por parecer amuados e tristes.

O homem chamado Morrie olhou para mim, olhou para Georges, e suspirou.

— Aos diabos com isto. Toca o bonde, irmãzinha. Mas mantenha a boca fechada e fique fora do caminho.

Cerca de seis pontos de referência depois — em cada um dos quais uma tentativa era feita de me excluir do grupo —, chegamos. Minha primeira impressão de John Tumbril, o Patrão, foi que ele era mais alto do que eu pensava. Então decidi comigo mesma que, se ele não vestisse aquele ornamento de pi uma de águia, isso o faria diferente. A minha impressão seguinte foi de que ele era ainda mais despretensioso do que aparentava nas fotografias, quadrinhos e imagens que o terminal exibia — e esta opinião vingou. Como tantos outros políticos que o antecederam, Tumbril conseguira transformar a sua distintiva feiúra pessoal numa esquematização política.

(Seria a simplicidade um fator para alguém encabeçar um Estado? Olhando para trás na história, não me lembro de ter encontrado um único homem belo, de boa aparência, que tenha progredido muito na política, a menos que voltássemos até Alexandre, o Grande... e ele já viera com um destino traçado: era filho de rei.)

E como, aliás, devia ser, "Warwhoop" Tumbril parecia uma rã tentando virar sapo sem conseguir.

O Patrão limpou a garganta com um pigarro. — O que ela está fazendo aqui? Georges disse, apressado:

— Senhor, tenho uma reclamação muito séria a fazer! Aquele homem, aquele homem — e apontou para o que mascava palitos — tentou separar-me da minha querida irmã! Ele deveria ser repreendido!

Tumbril olhou para Morrie, olhou para mim, olhou de volta para o seu parasita.

— Você fez isso?

Morrie afirmou que não o havia feito, mas que, mesmo se o fizesse, seria apenas por pensar que Tumbril lhe havia ordenado isso.

— E quem foi que disse que você deve pensar? — berrou Tumbril. — Falarei com você mais tarde. E por que a deixa esperando? Ofereça-lhe uma poltrona! Será que devo monopolizar todo o pensamento por aqui?

Assim que eu havia sentado, o Principal voltou sua atenção de novo para Georges.

— Uma coisa boa você fez hoje cedo. Sim, senhor, uma coisa muito bela. A Grande Nação da Califórnia está orgulhosa de ter criado Filhos do seu Calibre. Qual é o seu nome?

Georges deu o nome.

— Payroll é um Nome Característico da Califórnia, Sr. Payroll; um nome que reluz por todo o curso da nossa Nobre História, desde os rancheiros que derrubaram o jugo da Espanha até os Bravos Patriotas que abateram o Jugo de Wall Street. Você se importa se eu o chamar George?

— De forma nenhuma.

— E você pode me chamar Warwhoop. Trata-se da Glória Entronizada da Nossa Grande Nação, George. Todos nós somos Iguais.

Eu disse subitamente:

— Será que isso se aplica também às pessoas artificiais, senhor Tumbril?

— O quê?

— Eu estava perguntando sobre pessoas artificiais, como as que eles fazem em Berkeley e Davis. Eles também são considerados iguais?

— Bem... minha jovenzinha, você não devia interromper quando uma pessoa mais velha está falando. Mas vou responder à sua pergunta. Como é que princípios de Democracia Humana podem se aplicar a criaturas que são não-humanas? Você poderia esperar que um gato votasse? Diga lá.

— Não, mas...

— Aí está. Todas as pessoas são iguais e todas as pessoas têm direito a voto. Mas é preciso que se trace uma linha em alguma parte. Agora, cale-se e não interrompa enquanto os seus maiores estiverem conversando. George, o que você fez hoje — bem, se aquele brucutu estava de fato planejando um atentado contra a minha vida — e ele não estava, não se esqueça jamais disto — você não poderia ter se comportado de uma forma mais condizente com todas as Heróicas Tradições da Nossa Grande Confederação da Califórnia. Você me deixa orgulhoso!

Tumbril levantou-se e saiu de trás da sua escrivaninha, com as mãos nas costas, e andou — e eu vi por que ele parecia mais alto ali do que lá fora.

Ele usava alguma espécie de poltrona num plano elevado ou possivelmente uma plataforma na sua escrivaninha. Quando se pôs de pé sem qualquer dispositivo, não passou da altura dos meus ombros. Ele parecia estar pensando alto enquanto se movia.

— George, existe sempre um lugar na minha família oficial para um homem com a sua já demonstrada coragem. Quem sabe? Talvez um dia você poderá me salvar de um criminoso que desejará seriamente causar-me danos. Falo de agitadores estrangeiros; nada tenho a temer dos Patriotas Atléticos da Califórnia. Todos me adoram pelo que fiz por eles no período que ocupava o Escritório Octogonal. Mas outros países nos estão invejando; invejam a nossa Rica e Livre e Democrática maneira de viver — e, algumas vezes, o seu ódio embrionário explode em erupções de violência.

Ele estava de pé, com a cabeça curvada, por um momento, em adoração reverente de alguma coisa.

— Um dos Preços do Privilégio de Servir — disse com grande solenidade —, mas alguém a quem, com toda Humildade, se possa pagar com Felicidade. George, diga-me: se você fosse chamado para fazer o Sacrifício Supremo exigido pelo Chefe do Poder Executivo da Sua Nação, você poderia hesitar?

— Isto tudo me parece muito improvável — Georges respondeu.

— Hem? O quê?

— Bem, quando eu voto — o que não acontece muito freqüentemente — normalmente voto Réunioniste. Mas o atual primeiro-ministro é Revanchiste. Eu duvido que ele conseguisse o meu apoio.

— De que diabos está falando? .

— Je suis Quebecois, M. le chefe d'état. Eu sou de Montreal.


 

Cinco minutos mais tarde, estávamos na rua uma vez mais. Por alguns momentos bem tensos pareceu que iríamos ser enforcados, ou baleados, ou no mínimo trancafiados para sempre numa arapuca qualquer pelo crime de não sermos californianos. Mas o bom senso prevaleceu quando a águia legal de Warwhoop convenceu-se de que seria melhor deixar-nos ir do que arriscar um julgamento, mesmo nas câmaras — o cônsul-geral de Quebec iria cooperar, mas comprar todos os assistentes sairia terrivelmente caro.

Esta não foi a maneira pela qual colocou as coisas, mas ele não sabia que eu estava ouvindo, pois eu não havia mencionado minha audição intensificada nem mesmo para Georges. O conselheiro-chefe do Patrão suspirou em seus ouvidos alguma coisa sobre o problema que tivemos com a pequena boneca mexicana depois de que todos aqueles outros cucarachas tomaram conhecimento da história. Não podíamos suportar outra confusão do gênero. Você pode dar uma espiada, Patrão; eles se criam é à custa dos mais miúdos.

Finalmente passamos diante do palácio, seguimos para o escritório central da Califórnia com quarenta e cinco minutos de atraso... e perdemos outros dez minutos descascando nossas falsas personae num mictório do Edifício de Crédito Comercial da Califórnia. O banheiro era dos não-discriminatórios e democráticos, mas não em excesso. Não se cobrava nada pela entrada, as borboletas possuíam portas diante delas; as mulheres utilizavam um lado e os homens utilizavam o outro, onde havia aquelas coisas parecendo banheiras verticais de que os homens se serviam para urinar exatamente como faziam nos boxes. O único lugar onde se distribuíam mais eqüitativamente era um quarto médio equipado com cinzeiros e espelhos, mas até mesmo ali as mulheres tendiam a ficar em um lado e os homens no outro. Eu não me grilo com encanamentos e limpeza urbana — além de tudo, fui criada numa creche —, mas já havia percebido que tanto homens quanto mulheres, se têm oportunidade de se segregar, de fato o fazem.

Georges ficou muito melhor sem a calça larga. Ele havia lavado os cabelos, alisando-os. Guardou aquela faixa escandalosa na minha sacola de viagem. Ele me disse:

— Creio que fui tolo ao tentar camuflar-nos desta forma.

Olhei ao redor. Não havia ninguém por perto e o nível de ruído dos encanamentos do ar-condicionado era altíssimo.

— Não na minha opinião Georges. Imagino que em seis semanas você poderia se tornar um verdadeiro profissional.

— Que espécie de profissional?

— Ora, um Pinkerton, talvez. Ou um... — Alguém entrou. — Falaremos disso depois. De resto, ganhamos dois bilhetes de loteria nesta brincadeira.

— Isso é verdade. Quando é o sorteio do seu? Peguei meu bilhete, olhei-o com cuidado.

— Puxa vida, é hoje! Nesta tarde. Ou será que perdi a noção do tempo?

— Nada disso — Georges falou, examinando o bilhete — é hoje mesmo. Daqui a uma hora convém estar perto de um terminal.

— Não é preciso — eu disse. — Eu não ganho nas cartas, não ganho nos dados, não ganho nunca em loterias. Se jogo na sena, às vezes, naquela rodada, nem mesmo sai o prêmio.

— Seja como for, vamos olhar o terminal de vídeo, Cassandra.

— Tudo certo. Quando é o seu sorteio?

Ele tirou o bilhete do bolso e ambos o olhamos.

— Ufa, é o mesmo sorteio! — exclamei. — Agora temos uma razão ainda mais forte para esperar.

Georges ainda estava observando o seu bilhete.

— Friday, olhe para isto. — Esfregou o polegar no que estava escrito. As palavras permaneceram claras, mas o número de série borrou-se irremediavelmente. — Bem, bem! Por quanto tempo a nossa amiga ficou com a cabeça enfiada no balcão antes de "encontrar" este bilhete?

— Eu não sei. Menos de um minuto.

— Foi o bastante, é claro.

— Você vai devolvê-lo?

— Eu? Friday, por que deveria devolvê-lo? Um tal virtuosismo merece aplauso. Ela está desperdiçando um talento especial 'numa porcaria de atividade menor. Vamos tratar de subir; convém você terminar com essa história do MasterCard antes da extração da loteria.

Voltei temporariamente a ser "Marjorie Baldwin" e fomos autorizados a falar com o "nosso senhor Chambers" no escritório central do MasterCard na Califórnia. O senhor Chambers era um indivíduo muito simpático — hospitaleiro, sociável, agradável, amigo, exatamente o homem que eu precisava ver naquele momento, pareceu-me, enquanto observava a plaqueta sobre a mesa, avisando-nos de que se tratava do vice-presidente para as relações com a clientela.

Depois de alguns minutos, comecei a perceber que a sua autoridade residia exatamente em dizer não e que o seu maior talento estava em poder dizer não de tantas agradáveis e encantadoras maneiras que o cliente dificilmente poderia ter consciência de que estava sendo ignorado.

Em primeiro lugar, por favor, compreenda, Srta. Baldwin, que o MasterCard da Califórnia e o MasterCard do Império de Chicago são entidades estanques, separadas, e a senhorita não possui um contrato assinado conosco. Para nosso imenso desprazer. Na verdade, por uma questão de cortesia e, decerto, reciprocidade, em geral reconhecemos os cartões de crédito expedidos por outras filiais — e elas os nossos. Mas sentia-se verdadeiramente pesaroso ao dizer que no momento — ele procurou enfatizar "no momento" — O Império havia cortado as comunicações e, por estranho que pudesse parecer, não havia hoje sequer uma taxa fixada de intercâmbio entre paus e coroas... e assim não poderíamos reconhecer um cartão de crédito do Império nem mesmo com a maior boa vontade... por enquanto. Mas desejamos muito tornar a sua estada alegre. O que podemos fazer para isso?

Perguntei-lhe se tinha uma idéia de quando a emergência teria um fim.

O senhor Chambers empalideceu.

— Emergência? Que emergência, senhorita Baldwin? Talvez haja alguma no Império, uma vez que eles trataram de fechar as fronteiras... mas certamente não há emergência aqui! Olhe bem a sua volta — você já viu outra nação tão refulgente de paz e prosperidade?

Concordei com ele e deixei tudo como estava, pois não havia por onde argumentar.

— Muito obrigada, Sr. Chambers. O senhor foi muito gentil.

— O prazer foi todo meu, Srta. Baldwin. Este é um serviço MasterCard. E não se esqueça: qualquer coisa que eu possa fazer pela senhorita, seja o que for, estarei às suas ordens.

— Obrigada, vou me lembrar disso. Me diga, existe um terminal de uso público em alguma parte deste edifício? Comprei um bilhete de loteria hoje cedo e descobri que a extração é daqui a pouco.

Ele abriu um largo sorriso.

— Cara srta. Baldwin, fico muito feliz de que a senhorita tenha perguntado! Neste mesmo pavimento existe uma grande sala de conferências e todas as sextas-feiras à tarde, um pouco antes da extração, tudo pára, e o nosso grupo do escritório se amontoa para assistir à extração. J.B., nosso presidente e chefe-executivo, decidiu que seria melhor fazê-lo do que ver os funcionários correndo como serpentes para os terminais e casas de apostas, fingindo que nada acontecia. Assim é melhor para o moral. Quando algum de nós ganha um prêmio — o que acontece de vez em quando — ganha também um lindo bolo decorado com açúcar cristal, como se fosse de aniversário, um brinde pessoal do velho J.B. E ele então sai da toca e come uma fatia junto com o feliz premiado.

— Isto soa como um canto celeste.

— É verdade! Trata-se de uma instituição financeira onde se desconhece a desumanidade do computador; todos amam o velho J.B. — Olhou de relance para o seu dedo. — Vamos entrar logo na sala de conferências.

O Sr. Chambers encarregou-se de observar se estávamos sentados em assentos VIP, serviu um pouco de café para si mesmo e então decidiu sentar-se e assistir à extração.

A tela de vídeo do terminal ocupava grande parte da parede ao fundo da sala. Ficamos observando a extração de prêmios menores, durante a qual o mestre-de-cerimônias trocava piadinhas espirituosas com o seu assistente, a maioria sobre os dotes físicos das moças que tiravam os premiados da pilha de envelopes. Elas obviamente eram contratadas por seus dotes físicos aliás consideráveis — além da anuência em vestir trajes que não somente os exibiam, mas, além disso, asseguravam ao auditório que ela não escondia nada. Toda vez que uma delas mergulhava uma das mãos entre papéis e tirava fora um número afortunado, sua maior peça de roupa era a venda sobre os olhos. Parecia um trabalho fácil e agradável quando o estúdio estava devidamente aquecido.

Lá pelo meio da reunião, ouviram-se urros estridentes vindos da frente; uma escrituraria MasterCard acabara de faturar mil paus. Chambers era todo sorrisos.

— Isto não acontece freqüentemente, mas quando acontece, todo mundo fica contente por dias e dias. Vamos embora? Não, você ainda tem um bilhete que pode ganhar, não é? Embora seja difícil o raio cair por aqui duas vezes.

Finalmente, um clangor de trombetas anunciou o momento do Grande Prêmio da semana — o "Gigante, Supremo, Superprêmio da Califórnia!!!" A garota de seios enormes e traseiro protuberante sorteou primeiro dois prêmios de aproximação: um ano de fornecimento de Ukiah Gold com um cachimbo próprio e jantar com o grande astro dos sentidos, Bobby "o Bruto" Pizarro.

Finalmente ela tirou o grande prêmio; o mestre-de-cerimônias anunciou os números, que surgiram em luz fosforescente acima da sua cabeça.

— Senhor Zee! — ele gritou. — O proprietário registrou este número?

— Um momento... Não, não registrou.

— Então temos uma Cinderela? Temos uma ganhadora desconhecida. Em alguma parte da nossa grande e maravilhosa Confederação, alguém ficou duzentos mil paus mais rico! Será que essa ditosa criatura está nos escutando agora? Será que ela — ou ele — se revelará e nos permitirá pô-la no ar antes que o programa termine? Ou só saberá que ficou rica amanhã cedo, quando acordar? Eis aí o número, pessoal! Vai ficar aí reluzindo até o final do programa e depois será repetido a cada intervalo noticioso até que a nossa cara afortunada venha reclamar o seu prêmio. E, agora, uma mensagem.

— Friday — Georges sussurrou — deixe-me ver o seu bilhete.

— Não é preciso, Georges — sussurrei de volta. — É ele mesmo.

O Sr. Chambers estava em pé. — O sorteio terminou. Que bom alguém da nossa família ter ganho algo. Foi um grande prazer tê-los conosco, Sra. Baldwin e Sr. Karo, e não hesitem em me chamar se precisarem de ajuda.

— Sr. Chambers — perguntei — o MasterCard pode receber isto para mim? Não quero fazê-lo pessoalmente.

O Sr. Chambers é uma ótima pessoa, mas um pouco vagaroso. Precisou conferir três vezes os números do meu bilhete com os números ainda reluzentes na tela do terminal antes de acreditar no que via. Então Georges teve de contê-lo quando ele ia desatar a correr em todas as direções para providenciar um fotógrafo e comunicar-se com o quartel-general da loteria nacional pedindo uma turma de repórteres de holovisão — e ainda bem que Georges o conteve, porque eu talvez tivesse sido violenta com ele. Fico furiosa com machões que não dão ouvidos ao que peço.

— Sr. Chambers! — Sibilou Georges. — O senhor não a ouviu? Ela não quer receber o prêmio pessoalmente. Nada de publicidade.

— O quê? Mas os vencedores saem sempre nos jornais; isso é coisa de rotina! Só vai demorar um instante, se é o que a está afligindo, porque... Você se lembra da garota que ganhou mil paus anteriormente? Neste momento ela está sendo fotografada com J.B. e seu bolo. Vamos direto ao seu escritório e...

— Georges — eu cortei. — American Express!

Georges não é vagaroso — e eu não me importaria de me casar com ele se Janet o liberasse.

— Sr. Chambers — ele disse apressado — qual é o endereço do escritório central da American Express em San José?

A grande animação de Chambers terminou abruptamente.

— O que foi que você perguntou?

— Quer nos informar qual é o endereço da American Express? A Srta. Baldwin vai levar para lá o bilhete premiado. Farei primeiro uma ligação para ter a certeza de que eles sabem o que é o sigilo bancário.

— Mas você não pode fazer isto. Ela ganhou o Prêmio aqui. Ela simplesmente estava aqui quando o sorteio teve lugar em outra parte qualquer. Por favor, chegue para o lado; nós estamos de partida.

Então tivemos de fazer tudo de novo para J.B. Era um velho recendendo a dignidade, um charuto num canto da boca e um torrão de açúcar brilhando no lábio superior. Não era lento nem tolo, mas tinha o hábito de ver os seus desejos se realizarem e Georges teve de mencionar o nome American Express em alta voz antes que ele se convencesse de que eu não queria qualquer publicidade (O Chefe certamente desmaiaria!) e de que estávamos a ponto de apelar para aqueles cambistas de Rialto em vez de fazer negócio com a firma dele.

— Mas a Srta. Baldwin é uma cliente MasterCard.

— Não — discordei. — Eu pensei que era cliente MasterCard, mas o Sr. Chambers se recusou a conceder-me crédito. Então vou abrir uma conta na American Express. Sem fotógrafos.

Chambers repetiu que o meu cartão de crédito fora emitido pelo Banco Imperial de Saint Louis.

— Uma casa da mais alta reputação — J.B. comentou. — Chambers, faça emitir outro cartão para a senhorita. Dos nossos. Imediatamente. E receba o bilhete premiado para ela, por favor. — Olhou para mim, tirando o charuto fora dos lábios. — Nenhuma publicidade. Os negócios dos clientes MasterCard são sempre confidenciais. Satisfeita, Srta. Walgreen?

— Naturalmente, senhor.

— Chambers, faça o favor. ,

— Sim, senhor. Qual é o limite de crédito, senhor?

— Qual é o crédito que necessita, Srta. Belgium? Talvez eu deva perguntar-lhe quanto em coroas — qual é o montante da sua disponibilidade com os meus colegas de Saint Louis?

— Sou uma cliente ouro, senhor. Minha conta é invariavelmente avaliada em lingotes de ouro e não em coroas, segundo o método de duplo-vínculo para clientes ouro. Podemos avaliar a coisa deste modo? Veja você, eu não estou acostumada a pensar em termos de cifras pequenas. Viajo tanto que para mim é mais fácil pensar em termos de gramas de ouro. (É quase desonesto falar de ouro puro a um banqueiro de um país de modesta circulação de moedas; isso atrapalha os pensamentos dele.)

— Você deseja receber em ouro?

— Se puder. Saques em gramas, três nonos, com títulos aceitos em Ceres e na África do Sul, escritório de Luna City. Isto seria razoável? Em geral pago por trimestre e — veja você, eu viajo muito —, mas posso instruir C. e A. dos S. para acertarem consigo mensalmente, se por trimestre não lhe convém.

— Por trimestre está certo. (Naturalmente que estava — as taxas de juros se amontoam.)

— Agora, quanto ao limite de crédito: para dizer a verdade, senhor, não gosto de concentrar uma fatia muito substancial da minha atividade financeira num único banco ou num único país. Vamos mantê-lo baixo, em torno de trinta quilos?

— Se esta é a sua vontade, Srta. Bedlam. Se a senhorita quiser elevá-la, basta avisar. — Ele acrescentou: — Chambers, queira providenciar.

A seguir voltamos ao mesmo escritório no qual eu fora informada de que meu crédito não era bom. O Sr. Chambers trouxe um formulário de inscrição em branco.

— Deixe-me ajudá-la a preenchê-lo, senhorita.

Eu olhei de relance. Nomes dos pais. Nomes dos avôs e avós. Local e data de nascimento. Endereços (incluindo os números das ruas) nos últimos quinze anos. Empregador atual. Empregador imediatamente anterior. Horários recebidos. Contas bancárias. Três cartas de recomendação de pessoas que o (a) conhecem há pelo menos dez anos. Você alguma vez já requereu a própria falência ou já foi vítima de processo por receptação, mesmo involuntária? Já foi diretor ou responsável por qualquer negócio, sociedade ou corporação que pediu concordata' segundo as disposições do parágrafo treze da Legislação Noventa e Sete, Código Civil da Confederação da Califórnia? Você já foi réu de...

— Friday. Chega.

— É o que eu estava a ponto de dizer. — Pus-me de pé. Georges disse:

— Adeus, Sr. Chambers.

— Algo de errado?

— Naturalmente que sim. Seu empregador acabou de lhe ordenar que emita para a Srta. Baldwin um cartão de crédito-ouro no limite de trinta quilogramas, ouro finíssimo; ele não lhe solicitou que a submetesse a um questionário impertinente.

— Mas este é um procedimento de rotina...

— Não importa. Apenas diga a J.B. que você se excedeu uma vez mais.

Chambers acendeu uma luz verde.

— Sente-se, por favor.

Dez minutos mais tarde, partimos, eu portando um cartão de crédito dourado, novinho em folha, válido em qualquer praça (eu esperava). Em troca, eu fornecera o número da minha caixa postal em Saint Louis, o endereço dos meus parentes mais próximos (Janet) e o número da minha conta em Luna City com instrução por escrito de que se cobrasse à C. e A. dos S., limitada, trimestralmente, pelos meus débitos. Eu também levava uma boa quantidade de paus e outra de coroas, e um comprovante do meu bilhete de loteria.

Deixamos o edifício, cruzamos a esquina na National Plaza, demos com um banco de praça e nos sentamos nele. Era por volta das seis da tarde, o tempo agradavelmente fresco, mas o sol ainda bem alto sobre as montanhas de Santa Cruz.

Georges me inquiriu:

— Cara Friday, quais são os seus desejos agora?

— Descansar aqui por um momento e pôr em ordem os meus pensamentos. E depois gostaria de lhe oferecer um bom drinque. Ganhei um prêmio de loteria, e isso me permite comprar algo de bom para beber. No mínimo.

— No mínimo — ele concordou. — Você ganhou duzentos mil paus e pagou por eles... vinte paus?

— Um dólar — assenti. — Dei o troco de gorjeta à vendedora.

— Valeu. Você ganhou cerca de oito mil dólares.

— Sete mil e quatrocentos e sete dólares e alguns centavos.

— Não chega a ser uma fortuna, mas é uma respeitável soma.

— Bastante respeitável — concordei — para uma mulher que começou o dia dependendo da caridade de amigos. A menos que eu fosse creditada em alguns trocados pelo meu desempenho "adequado" na noite passada.

— Meu irmão Ian receitaria uma resposta insolente por tal afirmação. Eu gostaria de acrescentar que, embora sete mil e quatrocentos sejam uma soma respeitável, eu estou mais impressionado pelo fato de que, com nenhum investimento além de um bilhete de loteria, você foi capaz de persuadir uma firma de crédito bancário das mais conservadoras a lhe abrir uma conta no valor de um milhão de dólares avaliados em ouro. Como conseguiu isso, minha cara? Você quase nem se mexeu. O seu tom de voz nem mesmo foi ameaçador.

— Ora, Georges, foi você quem os fez emitir o cartão, não eu.

— Não acho. Eu apenas tentei participar da sua encenação... mas foi você quem iniciou cada movimento.

— Não quando chegou a vez do horrível questionário! Você me livrou daquilo.

— Ora, aquele asno estúpido nada ganharia interrogando-a. O patrão dele já lhe havia ordenado que expedisse o cartão.

— Você me salvou. Eu estava a ponto de perder o controle dos nervos. Georges, meu caro Georges! Você já me aconselhou a não ser tão difícil como sou, e eu estou tentando, juro que sim! Mas enfrentar um questionário que exige informações detalhadas sobre meus pais e avós é simplesmente de desmaiar!

— Não posso exigir que você seja sempre comedida. Continuaremos a trabalhar nisto. Você certamente não perdeu o autocontrole quando lhe perguntaram o valor do crédito que estava pedindo.

— Bem. Certa vez escutei alguém dizer — foi o Chefe — que era muito mais fácil conseguir um milhão emprestados do que dez. Então, quando me perguntaram, foi o que eu disse. Não a bagatela de um milhão de dólares britânico-canadenses. Por volta de novecentos e sessenta e quatro mil.

— Não vou cair num jogo de palavras. Quando passamos de novecentos mil, até o oxigênio me faltou. Você sabe quanto recebe um professor, dos pagos decentemente?

— E isso é importante? Pelo que sei da profissão, basta um único novo projeto de artefato vivente bem-sucedido para pagar o seu custo, que chega a milhões. Até mesmo milhões de gramas, em lugar de dólares. Você já conseguiu modelos bem-sucedidos? Ou esta é uma pergunta indelicada?

— Vamos mudar de assunto. Onde é que vamos dormir esta noite?

— Nós poderíamos estar em San Diego dentro de quarenta minutos. Ou em Las Vegas em trinta e cinco. Ambas têm vantagens e desvantagens, por penetrar no território do Império. Georges, agora que possuo dinheiro bastante, vou ter de relatar o fato, não importa quantos fanáticos estejam assassinando oficiais. Mas eu lhe prometo do fundo do coração que visitarei Winnipeg assim que tenha uns dias de folga.

— Eu talvez ainda esteja impossibilitado de voltar a Winnipeg.

— Ou irei visitá-lo em Montreal. Olhe, querido, vamos trocar todos os nossos endereços. Não vou perdê-lo de vista. Você não só me assegura que sou humana, como ainda afirma que sou adequada. Você faz bem ao meu moral. Agora escolha, pois é preciso partir: San Diego e falar espanglês, ou Vegas e olhar belas meninas nuas.


 

Fizemos ambas às coisas e aportamos em Vicksburg.

A fronteira Chicago-Texas, afinal, estava fechada dos dois lados durante todo o caminho, e então eu decidi tentar a rota ribeirinha primeiro. Naturalmente, Vicksburg faz parte do Texas, mas, para os meus propósitos, era a sua condição de maior porto ao lado do Império que contava — especialmente porque se tratava do porto principal dos traficantes, nas duas direções.

Assim como a arcaica Gália, Vicksburg se divide em três partes. Existe a cidade baixa, com o porto, de vez em quando inundada, e existe a cidade alta, postada no topo de um alcantilado bem íngreme, ela mesma dividida em cidade velha e cidade nova. A cidade velha é circundada pelos campos de batalha onde se travaram guerras há muito esquecidas (mas não por Vicksburg!). Estes campos de batalha são sagrados; nada pode ser construído neles. Portanto, a cidade nova se situa fora desse solo sagrado, e funciona ligada à cidade velha e a si mesma através de um sistema de túneis e veículos subterrâneos. A cidade alta é ligada à cidade baixa por elevadores, e por meio de funiculares à cidade barricada. Para mim, a cidade alta era apenas um lugar para dormir. Entramos no Vicksburg Hilton (gêmeo do Bellingham Hilton até mesmo no Breakfast Bar que ficava ao rés-do-chão), mas os meus interesses estavam rio abaixo. Era um tempo de felicidade/tristeza, pois Georges sabia que eu não o deixaria prosseguir nem mais um passo a meu lado, e já nem se discutia o assunto. Eu não havia permitido que ele viesse comigo até a cidade baixa — e já o tinha advertido de que qualquer dia eu não voltaria mais, e que sequer perderia tempo em digitar no terminal uma mensagem para ele, em nossa suíte do hotel. Quando chegasse o momento de saltar, eu saltaria.

A cidade baixa de Vicksburg é um lugar luxurioso, demoníaco, tão fervilhante de vida como um monturo. À luz do dia, a polícia da cidade viaja aos pares; à noite, deixa o lugar despatrulhado. É uma cidade de traficantes de coca, prostitutas, bandidos, contrabandistas, tipos duvidosos, alcoviteiros, assassinos de aluguel, mercenários militares, recrutadores, receptadores, malandrinhos, malandrões, mendigos, cirurgiões clandestinos, escravos negros, foras-da-lei, tolos, peixes graúdos, peixes miúdos, especuladores fura-bolos, travestis. Basta lembrar de algo irregular, e pode estar certo de encontrá-lo em Vicksburg baixa. É um lugar maravilhoso, mas nunca esqueça de fazer um exame de sangue, quando sair de lá.

É o único lugar onde um artefato vivente destacado por sua forma (quatro braços, sem pernas, olhos atrás do crânio, uma loucura) pode passear (ou rastejar) até um boteco e comprar cerveja, sem despertar a menor atenção de quem quer que seja por sua estranheza. Ali, ser artificial não significa coisa alguma — é numa comunidade onde noventa e cinco por cento dos residentes não ousariam penetrar num elevador que conduzisse à cidade alta.

Eu estava tentada a ficar por lá. Existia alguma coisa tão quente e amistosa a respeito de todos aqueles proscritos, nenhum deles jamais apontaria um dedo em sinal de desprezo. Se não fosse pelo chefe, por um lado, e por Georges e a lembrança de lugares que cheiravam bem, por outro, eu teria mesmo ficado na cidade (baixa) de Vicksburg e terminaria encontrando um refúgio que combinasse com os meus talentos.

Mas, como dizem os versos, "tenho que manter as promessas que fiz, e milhas a percorrer antes do repouso". Mestre Robert Frost bem sabia por que uma pessoa continua se movendo quando se sentiria melhor em repouso. Vestida como um soldado em licença-prêmio e fazendo compras na melhor loja das vizinhanças da unidade militar, freqüentei a cidade à beira-rio à procura de um barqueiro disposto a contrabandear carga vivente. Não havia qualquer notícia proveniente do Império nem havia botes descendo a correnteza — e bem poucos capitães estariam dispostos a arriscar-se a subir o rio.

Andei freqüentando os bares da cidade ribeirinha, tomando cerveja e espalhando pelos arredores que estava disposta a pagar um bom preço a quem se dispusesse a me levar rio acima. '

Considerei os anúncios classificados. Eu estivera acompanhando as oportunidades, anúncios consideravelmente mais bem difundidos do que aqueles que vira na Califórnia — aparentemente, qualquer coisa era tolerada, desde que se limitasse à cidade baixa:

 

Você Odeia a sua Família?

Você É um Frustrado, Deprimido, Entediado?

Será seu Esposo/Esposa um Desperdício de espaço?

DEIXE-NOS FAZER DE VOCÊ UM(A) NOVO(A) HOMEM(MULHER)!!!

Plástica — Reorientação — Relocação

Transexualização progressiva — Trabalho de

Umedecimento Discreto

Consulte Doutor Frank Frankestein

No Softly Sam Bar Grill

 

Era a primeira vez que eu via assassinato pago abertamente anunciado. Ou teria compreendido mal?

 

Você tem algum PROBLEMA?

Nada é ilegal — o caso não é o que você faz;

é a maneira pela qual o faz. Dispomos dos mais experientes

rábulas em Lone Star State.

LOOPHOLES, Inc.

(Tarifas especiais para Bacharéis)

Digite LEV 10101

 

Este me ajudou a descobrir que os códigos de chamada de LEV eram disponíveis apenas nas localidades da costa.

 

Artistas, Ltda.

Documentos de Todas as Espécies, Instrumentos

Negociáveis, dinheiro de Todas as Nações,

Diplomas, Certidões de Nascimento, Carteiras de Identidade

Passaportes, Fotografias, Licenças Comerciais

Licenças Matrimoniais, Cartões de Crédito, Hologramas,

Fitas de Áudio e Vídeo, Comissões, Pedidos de Retificação,

Testamentos, Selos Oficiais, Impressões Digitais —

Todo o trabalho é garantido por Certificado de

Lloyd's Associados. — LEV 10111

 

Certamente os serviços acima eram disponíveis em qualquer cidade grande, mas raramente eram tão abertamente anunciados.

Quanto à Garantia, eu simplesmente não acreditava.

Decidi não anunciar a minha necessidade por acreditar que algo tão público não podia ser de alguma utilidade num assunto tão público não podia ser de alguma utilidade num assunto tão clandestino — e prossegui confiando em mercadores e donos de bar e madames. Contudo, continuei de olho nas notícias com a esperança de que aparecesse alguma coisa interessante... e deparei com algo não propriamente do meu interesse, mas decididamente digno de ser conferido. Eu Congelei a imagem no vídeo e chamei a atenção de Georges.

 

W.K. — Faça o seu testamento.

Você tem apenas dez dias de vida.

A.C.B.

 

— O que você acha disto, Georges?

— Aquele primeiro que vimos deu a W.K. somente uma semana. Mais de uma semana passou, e ele agora tem dez dias. Se continuar desse jeito, W.K. vai morrer de velhice.

— Você não acredita que seja verdade.

—Não, meu amor, eu não. Trata-se de um código.

— Código de que natureza?

— Da mais simplicíssima, portanto impossível de romper. O primeiro anúncio comunicava à pessoa ou pessoas que carregassem o número sete ou esperassem pelo número sete, ou alguma coisa a respeito de algo designado como sete. Este diz a mesma coisa em relação ao item dez do código. Mas o significado dos números não pode ser deduzido através de análise estatística de qualquer espécie, pois o código pode ser alterado antes que uma pista estatística útil seja alcançada. Trata-se de um código idiota, Friday, e um código idiota não pode ser rompido se aquele que o utiliza possui o bom senso de não ir muitas vezes à fonte.

— Georges, você parece estar falando num jargão militar e/ou numa linguagem cifrada.

— Eu estava, mas não foi aqui que eu a aprendi. A'mais difícil linguagem em código já concebida — que ainda prossegue em elaboração e que jamais será completada — é a interpretação de genes vivos. Um código idiota, é o que é... mas repetido tantos milhões de vezes que poderíamos eventualmente conferir um significado a certas sílabas que não passam do mais puro nonsense. Perdoe-me pela conversa fiada durante as refeições.

— Bobagem, fui eu quem começou. Existe um modo de deduzir o que significa A.C.B.?

— Que eu saiba, não.

Naquela noite, os assassinos apareceram pela segunda vez, dentro do horário. Eu não diria que os dois acontecimentos tivessem alguma relação.

 

Passaram-se outros dez dias, quase que no mesmo horário, para acontecer o segundo ataque. O fato de ter acontecido naquela hora não nos permitia deduzir coisa alguma sobre qual grupo seria o responsável, uma vez que tudo parecia conferir com as previsões tanto do chamado Conselho para a Sobrevivência como dos seus rivais, os Estimuladores, ao passo que os Anjos do Senhor não tinham feito qualquer anúncio a respeito de um possível segundo ataque.

Houve algumas diferenças entre a primeira onda de terror e a segunda, diferenças que pareciam esclarecer-me algo — ou esclarecer algo a nós, pois Georges e eu fomos discutindo os acontecimentos à medida que o noticiário se desenrolava:

 

  1. a) Absolutamente nenhuma notícia do Império de Chicago. Não havia qualquer mudança, já que nenhuma notícia chegara do Império desde os relatos iniciais sobre a chacina dos Democratas... Silêncio sepulcral durante mais de uma semana, o que me deixou progressivamente ansiosa.
  2. b) Nada de novidades vindas da Confederação da Califórnia com respeito a uma segunda estocada — somente notícias de rotina. N.B.: umas poucas horas após começarem novos relatos sobre uma segunda leva de assassínios, uma transmissão noticiosa de "rotina" da Confederação da Califórnia entrou no ar. Principal "Warwhoop" Tumbril, a conselho de seus médicos, havia nomeado uma junta de três pessoas munidas de poderes plenipotenciários para governar a Nação até terminar o seu, por tanto tempo protelado, tratamento médico. Ele havia se recolhido ao seu refúgio, o Ninho da Águia, próximo de Tahoe, em razão do ocorrido. Seriam emitidos boletins noticiosos de San José e não de Tahoe.
  3. c) Georges e eu concordamos quanto ao mais provável — quase certo — significado de tudo isso. O tratamento médico que aquela afetada pessoa precisava no momento seria o embalsamamento e o seu corpo de "regência" a partir de então distribuiria informações enquanto intensificava o seu poder de luta.
  4. d) Nesta segunda vez, não houve nenhum relatório de fora da Terra.
  5. e) Cantão e Mandchúria não fizeram qualquer relato sobre ataques. Correção: Nenhum relato do gênero chegou a Vicksburg, Texas.
  6. f) Até onde eu pudesse constatar pelos dados contidos num para efeitos de comparação, os terroristas haviam golpeado outras quatro nações. Mas o meu registro possuía espaços em branco. Das quatrocentas "nações" que faziam parte da ONU, algumas produziam noticiário somente durante eclipses solares totais. Não sei o que aconteceu em Gales, nas ilhas do Canal em Suazilândia, no Nepal ou na ilha do Príncipe Eduardo e não posso compreender por que alguém (que não vivesse numa destas terras) deveria se importar. Pelo menos trezentas daquelas denominadas nações soberanas que possuem direito de voto nas Nações Unidas são números, com existência restrita a posições estatísticas — importantes dentro do seu raio de ação, sem dúvida, mas completamente sem significado em termos de geopolítica. Mas em todas as nações maiores, exceto no que observamos acima, os terroristas tinham golpeado e os seus ataques haviam sido descritos e documentados, exceto onde a matéria fora manifestamente censurada.
  7. g) Muitos golpes falharam. Esta era a patente diferença entre a primeira e a segunda leva de assassinatos. Dez dias antes, boa parte dos assassinos já tinha eliminado os seus alvos e muitos deles conseguiram escapar. Agora a situação seria invertida: muitas vítimas sobrevivendo e muitos assassinos sendo exterminados. Alguns haviam sido capturados, mas bem poucos conseguiram escapar.

 

Este último aspecto da segunda leva de assassinatos pôs fim a uma preocupação que tomava conta da minha mente: O chefe não era o mandante por trás de toda aquela chacina, como eu temia.

Por que eu dizia isso? Porque a segunda onda constituía uma catástrofe para quem quer que estivesse no comando.

Operadores de campo, até mesmo soldados comuns, custam caro; o Planejamento não os usa despropositadamente. O treinamento de um assassino especialista custa pelo menos dez vezes mais que o de um soldado comum: Não se espera que ele também morra no exercício de suas funções, pelo amor de Deus, não! Espera-se, isto sim, que ele faça o que deve fazer e dê o fora.

Mas quem quer que dirigisse tal espetáculo irá à falência numa única noite.

Só um leigo, um amador.

E por essa razão não podia ser o Chefe.

Mas eu não podia ainda calcular quem estava por trás dessa brincadeira estúpida porque era difícil imaginar a quem tudo isso beneficiaria. Minha noção anterior, aquela em que uma das nações da Grande Corporação teria arquitetado toda a trama, não me atraía mais, porque eu não podia conceber que alguma das grandes (Intramundo, por exemplo) estaria contratando os melhores profissionais no ramo.

Mas seria ainda mais grotesco imaginar que uma das nações territoriais iria planejar uma forma tão grotesca de conquistar o mundo.

Para um grupo de fanáticos da laia dos Anjos do Senhor, ou dos Estimuladores, seria simplesmente uma obra grandiosa demais. Não obstante, a coisa toda parecia ter um sabor de fanatismo — nada racional, nada pragmático.

Não está escrito nas estrelas que eu sempre serei capaz de compreender o que está se passando — um truísmo que em geral considero terrivelmente enjoado...

 

Na manhã seguinte àquele segundo golpe, a cidade baixa de Vicksburg fervilhava de excitação. Eu havia dado dois passos dentro de um bar a fim de falar com o maître quando um mensageiro se postou ao meu lado.

— Boas novas — o jovem disse, num sussurro. — Os Piratas de Rachel estão contratando. Rachel me pediu que contasse a você em especial.

— Grande merda — respondi polidamente. — Rachel não me conhece e eu não conheço Rachel.

— Palavra de escoteiro!

— Você nunca foi escoteiro, portanto, não pode dar a sua palavra.

— Veja bem, chefe — ele persistiu —, ainda estou em jejum no dia de hoje. Pois venha comigo; você não precisará fazer nada. É somente cruzar a rua.

Ele me pareceu magro demais, mas isso provavelmente se devia ao fato de ter acabado de atingir aquele repentino crescimento em plena adolescência; a cidade baixa não é um lugar que as pessoas costumam freqüentar com fome. Mas o garçom escolheu aquela ocasião para ameaçar:

— Vamos parar com isso, Baixinho! Deixe de atrapalhar os clientes. Você quer arranjar um dedo quebrado?

— Tudo certo, Fred — eu me interpus. — Vou conferir com você mais tarde. — Paguei uma conta no bar, não pedi o troco. — Vamos embora, Baixinho.

O escritório de recrutamento de Rachel era, afinal, uma boa poça de lama um pouco mais distante no outro lado da rua, e dois outros recrutas mensageiros tentaram me separar do Baixinho antes que chegássemos. Eles, porém, não tiveram chance, uma vez que o meu propósito era que o jovem recebesse a sua gratificação.

O sargento recrutador, que era mulher, relembrou-me a velha vaca que tinha a concessão no banheiro do palácio em San José. Ela olhou para mim e disse:

— Não há recrutas pastores, doce mocinha. Mas dê uma volta por aí e pode ser que eu lhe ofereça algo para beber.

— Pague o seu mensageiro — eu disse.

— Pagá-lo por quê? — ela respondeu com outra pergunta. — Leonard, eu já lhe avisei. Nada de preguiçosos, eu disse. Agora trate de voltar e mexer-se.

Eu a alcancei e agarrei seu pulso esquerdo. Quase brandamente, a faca apareceu na sua mão direita. E então eu modifiquei as coisas, tomando-lhe a arma das mãos e fincando-a sobre a mesma bem à sua frente, enquanto mudava minha posição imóvel sobre sua pata esquerda para uma muito mais incômoda. — Você pode pagá-lo com apenas uma das suas mãos? — perguntei. — Ou será que devo quebrar este dedo?

— Devagar com isso — ela respondeu, não procurando revidar.

— Aqui, Leonardo. Ela alcançou uma gaveta e de lá tirou e passou às mãos dele uma cédula do Texas. Ele agarrou-a e desapareceu.

Relaxei a pressão sobre o seu dedo.

— Isso é tudo que você paga aos seus? Com todos os recrutadores nas ruas pescando os que passam por aí?

— O rapaz vai ter a comissão dele quando você tiver assinado

— ela respondeu. — Porque eu não pago até receber um corpo bem quente. E saio perdendo se não for uma coisa especial. Agora, você se importaria em soltar meu dedo? Vou precisar dele para preparar os seus papéis.

Eu liberei o dedo e bem rapidamente a faca estava de volta às mãos dela, e agora vindo na minha direção. Dessa vez parti a lâmina ao meio antes de devolvê-la. — Por favor, não faça isto de novo — eu disse. — Por favor. E aliás, você devia usar um aço de qualidade melhor. Este não é um Solingen.

— Vou descontar o preço dessa lâmina dos seus ganhos, minha cara — ela respondeu, imperturbável. — Há um feixe de luz apontado para você desde o momento em que entrou por aquela porta. Será que devo puxar o gatilho? Ou vamos parar de brincar?

Não acreditei em uma só palavra do que ela disse, mas o seu pedido parecia justo.

— Nada de brincadeiras ou de joguinhos, sargento. Qual é a proposta? O seu mensageiro me contou por alto.

— Café, docinhos e taxas da corporação. Gratificação também. Noventa dias, com opção da companhia para estendê-los por outros noventa. O Manda-chuva me paga cinqüenta por cento, para você e a companhia.

— Os recrutadores que andam pela cidade estão oferecendo as taxas mais cinqüenta. (Era como um golpe no escuro: a atmosfera estava tensa.)

Ela encolheu os ombros.

— Se eles oferecem, podemos emparelhar. Que armas você conhece? Não contrataremos recrutas inexperientes. Não desta vez.

— Posso lhes ensinar a maneira certa de usar qualquer arma que vocês pensam conhecer. Onde se desenvolve a ação? Quem começa?

— Hum, a coisa é verdadeiramente salgada. Você está tentando ser contratada como uma especialista? Eu não iria comprá-la.

Perguntei:

— Onde é que vai haver ação? Nós iremos rio acima?

— Você nem mesmo foi admitida e já está solicitando informações confidenciais.

— Pelas quais estou pretendendo pagar. Tirei do bolso cinqüenta Lone-Stars em notas de dez e pousei-as bem à sua frente.

— Onde se desenvolve a ação, sargento? Vou comprar-lhe uma boa faca para substituir aquele aço da lâmina que tive de destruir.

— Você é uma PA.

— Não entremos em minúcias. Eu só quero saber se vamos ou não subir o rio. Tão longe quanto, por exemplo, Saint Louis.

— Você espera ser contratada como instrutora de sargentos?

— O quê? Céus, não! Como um membro do grupo de chefia. — Eu não devia ter dito isto. Pelo menos não tão abruptamente. As hierarquias tendem a ser um tanto vagas entre o pessoal do chefe, mas eu era com certeza um elemento importante, uma vez que fazia relatórios e recebia ordens diretamente dele e só dele — e isto era confirmado pelo fato de que eu era Srta. Friday para todo mundo menos para o Chefe — até o momento e a menos que eu solicitasse um endereço informal. Nem mesmo o doutor Krasny falava comigo en tutoyant até eu solicitar. Mas eu nunca havia dado muita bola à minha qualificação, sobretudo porque, se não havia ninguém mais graúdo do que o chefe acima de mim, eu não tinha, tampouco, ninguém trabalhando sob as minhas ordens. Numa organização mais formal (eu jamais pude presenciar uma na companhia do Chefe), eu teria de ser uma daquelas minúsculas caixinhas dispostas horizontalmente desde a raiz até o topo i.e., um especialista de cargo superior, se é que você gosta de burocratês.

— Bem, bobagens! Se você pode cobrir ofertas, faça-o para o coronel Rachel, não para mim. Espero por ele aí pelas treze horas.

Quase que automaticamente, com a mente ela aprumou-se para apanhar o dinheiro.

Peguei as notas, arrumei-as, depois, as recoloquei embaixo e bem defronte dela, mas mais próximas das minhas mãos.

— Então vamos bater um pago antes que ela chegue. Toda a tripulação viva na cidade está se engajando com eles hoje em dia; deve haver alguma razão muito boa para se engajar com um e não com outro. Teremos a tão esperada ação rio acima ou não? E até onde? Vamos agir contra profissionais de verdade? Ou com caipiras locais? Ou possivelmente com palhaços urbanóides? Batalha firme? Ou golpe e fuga Ou ambos? Vamos conversar, sargento.

Ela não respondeu, não se moveu. Ela não tirou os olhos do dinheiro o tempo todo.

Rapidamente, extraí outra nota de dez Lone-Stars, e a coloquei claramente sobre as cinqüenta — e esperei.

Suas narinas se dilataram, mas ela não se mexeu para pegar o dinheiro. Depois de alguns instantes, acrescentei outros dez do Texas.

Ela disse roucamente:

— Ponha essa porcaria fora do meu raio de visão ou passe-a logo para cá; alguém pode chegar.

Passei as cédulas para ela.

— Obrigada, senhorita — disse ela, e fê-las desaparecer. — Creio que vamos nos deslocar contra a correnteza pelo menos até Saint Louis.

— Com quem lutaremos?

— Bem... se você repetir isto uma vez mais, não vou apenas negar; vou arrancar seu coração do peito e dá-lo ao peixe-gato. Talvez não lutemos. Talvez o façamos, sem que seja uma batalha com todas as formalidades. Nós, todos nós, seremos membros do corpo de guarda do novo Presidente. O mais novo, eu deveria dizer; ele ainda está úmido de tão novo.

(Que coisa!)

— Muito interessante. Por que diabos os outros grupos na cidade estão correndo atrás de recrutas? Esse novo Presidente está contratando todo mundo? Apenas para a sua guarda do palácio?

— Senhorita, eu desejaria sabê-lo. Eu simplesmente desejaria sabê-lo.

— Talvez seja melhor eu descobrir isso. Quanto tempo ainda tenho? Quando é que estaremos partindo? — Rapidamente mudei isso para: — Ou já estaremos a velejar? Talvez a coronel Rachel possua ajuda em alguns VPAs.

— Ora... aos diabos com tudo isso, quantas informações você espera conseguir com estas setenta piolhentas Stars?

Eu pensei a respeito. Não me importo de gastar dinheiro, mas eu precisava estar certa do valor da mercadoria. Com as tropas movendo-se rio acima, os salteadores não iriam ter grandes progressos, ao menos nesta semana. Portanto, eu devia deslocar-me de acordo com o tráfego disponível.

Mas não como um oficial! Eu já havia falado demais. Tirei fora duas outras notas de dez Lone-Stars, acenei para ela com as cédulas na mão. — Sargento, e quanto a você, vai subir o rio?

Ela olhou as cédulas bancárias; larguei uma bem na sua frente. A nota desapareceu.

— Eu não perderia isto, minha cara. Uma vez que encerre o expediente neste escritório, eu me transformarei num sargento de pelotão.

Larguei a outra nota; esta juntou-se à sua irmã gêmea.

— Sargento, se eu esperar e conversar com o seu coronel, e ela me assinalar numa boa, ela vai querer uma espécie de assistente pessoal, ou de apoio logístico, ou de intendência, ou algo no gênero. Eu não preciso do dinheiro e não desejo chateação; eu quero um feriado. Você poderia utilizar-se de um profissional devidamente treinado? Um daqueles que poderia diplomar como cabo ou até mesmo como segundo-sargento assim que tivesse avaliado, os seus próprios recrutas e chegado a uma conclusão sobre que espécie de vagas você necessita preencher?

Ela pareceu amargurada.

— Era só o que eu precisava. Uma milionária no meu pelotão! Senti simpatia por ela; nenhum sargento quer uma escrivã remunerada nas suas fileiras.

— Não, eu não vou fazer o papel de milionária; só quero ser mais um elemento nas tropas. Se você não crê em mim, ponha-me em qualquer outro pelotão.

Ela suspirou.

— Preciso submeter minha cabeça a um exame. Não, preciso colocá-la em algum lugar onde eu possa ficar de olho em você. Ela meteu a mão numa gaveta e puxou fora um formulário intitulado "Contrato com limitações". Leia isto. Assine. Só então confiarei em você. Alguma pergunta?

Examinei tudo de cima a baixo. Grande parte não passava de trivial sobre fundos, dinheiro miúdo, benefícios médicos e pagamentos de taxas à corporação e subvenções — mas nas entrelinhas escondia-se uma cláusula que estabelecia uma prorrogação no pagamento dos subsídios para o décimo dia após o alistamento. Compreensível. Para mim, tratava-se de uma garantia a mais de que eles realmente estavam trilhando o caminho certo no tempo certo — i.e., rio acima. O pesadelo que arruína o sono de cada encarregado pelo pagamento de mercenários consiste na existência de duplos engajamentos. Hoje em dia, com todos os recrutas na ativa, é até mesmo possível um soldado veterano assinar contrato com cinco ou seis corporações distintas, recolher um soldo de cada uma delas, e então escapar para uma das repúblicas das bananas — a menos que o texto de lei dos contratos funcionasse e fosse capaz de detê-los.

O compromisso era assumido com a coronel Rachel Danvers pessoalmente ou com sua sucessora legal, no caso de morte ou de impedimento de qualquer espécie, e estabelecia que o contratado devia prestar contas dos encargos recebidos a ela e àqueles oficiais e patentes não-comissionados que ela determinasse. Concordei em lutar com valentia e não chorar sobre leite derramado, de acordo com as convenções internacionais e as regras que regulavam a guerra.

Mencionava-se por alto que seria necessário um corpo de juristas da Filadélfia para definir as áreas cinzentas... o que não era importante, porque uma diferença de opinião no momento definitivo faria com que o contratado fosse alvejado pelas costas.

O período era, conforme o sargento havia exposto, de noventa dias, com a opção do coronel para estendê-lo por outros noventa com o pagamento de mais uma cota, no mesmo valor. Não havia provisão de custos para protelações adicionais, o que me fez pensar. Que droga de contrato era aquele que oferecia segurança pelo período de seis meses e depois se interrompia de repente?

Ou o sargento recrutador estava mentindo ou alguém lhe havia mentido e ele (ou ela) não era brilhante o bastante para descobrir o absurdo daquilo. Não importava, não havia a menor razão para buscar descobrir as falhas. Eu apanhei uma caneta.

— Será que posso ver o médico de plantão agora?

— Você está brincando?

— Por que estaria? — Assinei, e então disse: — Estou de acordo — quando ela leu em voz alta, bem ligeiro, um parágrafo que mais ou menos confirmava a determinação formal do contrato.

Ela perscrutou a minha assinatura.

— Jones, o que é este F e o que ele está fazendo aqui?

— F de Friday.

— Nome engraçado. No trabalho, você é Jones. Fora do trabalho, será Jonesie.

— O que você quiser, sargento. Eu estou de serviço agora, ou fora?

— Você vai ser liberada num momento. Eis aqui as suas obrigações: Na assinatura lê-se WOO FONG AND LEVY BROTHERS, INK. Esteja aqui às quatorze horas, pronta para partir. Utilize a porta dos fundos. Você está livre até lá para cuidar dos seus assuntos particulares. Você pode contar a qualquer pessoa sobre o seu recrutamento, mas fique sabendo, sob pena de ação disciplinar, que não pode tecer conjeturas sobre a natureza da função que terá na nave em que vai embarcar. — Ela leu esta última parte bem depressa, como se fosse uma gravação. — Precisa de dinheiro para o almoço? Não, eu estou certa de que não precisa. Isto é tudo, Jonesie. Estou feliz por tê-la a bordo. Faremos uma boa viagem. — Puxou-me de encontro a ela.

Deixei-me levar; ela pôs o braço em torno do meu quadril e sorriu gostoso para mim. Bem no íntimo, decidi que não era hora de deixar o meu sargento de pelotão se entristecer comigo. Sorri-lhe de volta, verguei-me e a beijei. Nada mau. A respiração dela era suave.


 

O barco de passeio Skip to M'Lou, digno de um livro de Mark Twain, era um meio de transporte muito mais elegante do que eu esperava: tinha três deques e quatro Shipstones, dois para cada par de hélices. Só que o barco estava carregado até as bordas e eu tinha a impressão de que qualquer vento mais forte o encheria de água. Naquela altura, éramos o único barco que carregava tropas. O Myrtle T. Hanshaw subia o rio um pouco mais à frente, numa velocidade estimada em vinte nós. Eu temia troncos de madeira flutuantes e esperava que o radar ou o sonar estivessem funcionando.

Os Heróis de Álamo estavam a bordo do Myrtle e a coronel Rachel comandava os dois grupos de combate — e isso era tudo o que eu precisava para confirmar minhas suspeitas. Uma brigada balofa não é um corpo de guarda palaciano. A coronel Rachel estava pronta para entrar em ação — possivelmente iríamos desembarcar sob fogo cruzado.

Nós não havíamos, porém, recebido nossas armas e os recrutas ainda usavam roupas civis; isso parecia indicar que a coronel não esperava entrar em ação imediatamente, o que confirmava a previsão da sargento Gumm, de que continuaríamos a subir o rio até Saint Louis — é claro que o resto do que ela disse, que ficaríamos sob a guarda do novo Presidente, indicava que subiríamos o rio até a capital...

...Se o novo Presidente era de fato quem comandava agora; se Mary Gumm sabia exatamente o que estava dizendo...se alguém não mudasse o curso do rio num momento em que eu estivesse distraída. Havia "ses" demais e muito pouca informação confiável. Tudo o que sabia era que aquele barco devia estar cruzando a fronteira do Império naquela hora e, para falar a verdade, eu não tinha como descobrir de que lado da fronteira estávamos.

Mas eu não me importava muito com isso, pois sabia que dali a alguns dias estaria bem perto do quartel-general do Chefe. Eu queria me desligar da Brigada de Rachel, de preferência antes de entrar em ação. Eu tivera tempo bastante para avaliar a capacidade da tripulação e chegara à conclusão de que dificilmente eles estariam prontos para um combate antes de pelo menos seis semanas de treinamento forçado nas mãos de sargentos instrutores firmes e duros. Havia ali muitos recrutas e pouquíssimos oficiais qualificados.

Os recrutas tinham a obrigação de lutar como veteranos...mas eu tinha certeza de que havia entre eles jovenzinhas da roça que haviam fugido de casa e, em alguns casos, não deviam ter mais de quinze anos. Talvez fossem crescidas para a idade, "e se eram grandes o bastante, tinham idade suficiente", assim diz o ditado. Mas é preciso muito mais do que sessenta quilos para formar um soldado.

Levar uma tropa daquelas a combate era algo meio suicida, mas eu não me preocupei muito com isso. Acabara de comer e me recostara numa pilha de cordas, apreciando o pôr-do-sol e digerindo minha primeira refeição como soldado (se esta é a palavra correta). Divertia-me com a idéia de que deveríamos estar cruzando a fronteira do Império de Chicago — ou talvez já a tivesse cruzado.

— Escondendo-se, soldado? — perguntou uma voz atrás de mim.

Reconheci aquela voz e voltei-me:

— Que nada, sargento. Como pode dizer isso?

— Muito simples. Perguntei a mim mesma: para onde eu iria se quisesse fugir às minhas obrigações? E aqui estou eu! Esqueça isso, soldado. Já escolheu seu alojamento?

Eu ainda não tinha escolhido porque havia muitas opções — todas péssimas. A maioria da tropa estava acomodada, quatro nos camarotes duplos e três nos simples, mas o meu pelotão, assim como um outro, iria dormir no salão de jantar. Como eu não via a menor vantagem em ficar na mesa do comandante, não entrara naquela competição.

A sargento Gumm concordou com a minha resposta, balançando a cabeça, e disse:

— Muito bem. Quando estender seu lençol, tome cuidado para ninguém o roubar. Na popa, ao lado da despensa, fica o camarote do comissário de bordo, que sou eu. É um camarote simples, mas há nele uma cama espaçosa. Estenda seu lençol nela. E garanto que é muito mais confortável do que o assoalho do salão de jantar.

— É muito gentil da sua parte, sargento! (Como vou sair dessa agora? Terei que ceder a algo inevitável?)

— Chame-me de Sarge. Quando estivermos sozinhas, pode me chamar de Mary. Como é mesmo o seu nome?

— Friday.

— Friday. É muito interessante, se a gente pára para pensar. Muito bem, Friday. Vejo você depois do toque de recolher.

Ficamos a observar, da popa do barco, os últimos raios de sol desaparecendo dentro do rio. O Skip virará para o leste, seguindo uma das muitas curvas do rio.

— Parece que o sol devia crepitar e exalar vapores de calor ao tocar nas águas do rio.

— Você tem uma alma poética, Sarge!

— Sempre pensei que conseguiria escrever poesias...Você ouviu as ordens sobre o blecaute, não?

— Ouvi. Nada de luzes do lado de fora, nada de gente fumando aqui. Nenhuma luz acesa dentro do barco, a não ser em compartimentos completamente fechados. Os infratores serão mortos ao amanhecer. Essa ordem não me afeta muito, Sarge. Eu não fumo. — Uma correção: os infratores não serão mortos; eles prefeririam mil vezes ter sido mortos. Você não fuma nada, meu bem? Nem mesmo um baseado com uma amiga?

(Desista, Friday!)

— Mas aí não é fumar realmente, é mais um gesto de amizade. — É assim mesmo que eu encaro a coisa. Eu também não ando drogada por aí, mas um traguinho ocasional com uma amiga, quando ambas estão a fim, é algo agradável. Assim como você é agradável. Ela veio comigo até o convés e passou a mão na minha cintura.

— Sarge! Quero dizer, Mary, não faça isso! Ainda não escureceu, alguém poderia ver!

— E quem se importa com isso?

— Eu me importo. Fico constrangida. Quebra um pouco do clima.

— Com esta roupa, ninguém vai notar nada. Você é virgem, querida? Quero dizer...com garotas?

— Ora, por favor, não zombe de mim, Mary. Deixe-me ir embora, eu já estou ficando nervosa, me desculpe. Alguém pode aparecer no convés.

Ela me deu um apertão e disse:

— Que gracinha você ser tão tímida. Tudo bem. Tenho um suave Omaha Black que venho guardando para uma ocasião especial.

O céu incendiou-se com uma luminosidade fantástica e logo em seguida ouviu-se um estrondo. O Myrtle fora pelos ares.

— Jesus Cristo!

— Mary, você sabe nadar?

— Eu? Não!

— Salte logo depois de mim e eu a levarei.

Pulei a amurada e mergulhei o mais fundo que consegui. Dei uma dúzia de braçadas a fim de me afastar e olhei para o barco. A silhueta de Mary Gumm desenhava-se contra o céu.

Foi tudo o que vi de Mary antes de o Skip to M'Lou explodir. Naquela parte do Mississípi há muitas ribanceiras no lado leste. Do lado oeste, a uns dez ou quinze quilômetros, a fronteira do rio é simplesmente uma terra muito alta e não muito bem demarcada. Entre essas duas margens, a situação é uma questão discutível, principalmente em termos legais, pois o rio se desloca indiferente aos direitos de propriedade.

O rio corre em quase todas as direções, e dir-se-ia que tanto para norte quanto para sul. Bem, nem tanto. Ele corria para o oeste ao entardecer; o Skip, que subia o rio, tinha o pôr-do-sol às suas costas. Só que, enquanto o sol se punha, o barco virará à esquerda, já que o curso da água ia para o norte. Eu tinha observado que o reflexo alaranjado do pôr-do-sol se deslocava para bombordo.

Por essa razão, pulara a amurada a bombordo. Assim que mergulhei, minha preocupação maior foi me afastar do barco; em seguida, olhei para ver se Mary viera atrás de mim. Eu não esperava que ela realmente se jogasse, porque já reparara que a maioria das pessoas, sendo humanas, não consegue tomar uma decisão rapidamente.

Eu a vi a bordo e ela olhava para mim. Depois a segunda explosão aconteceu e foi tarde demais. Senti um ligeiro pesar. Mesmo em seu caminho marcado e levemente desonesto, Mary era uma boa pessoa. Mas logo a tirei da cabeça. Tinha outros problemas com que me preocupar.

O primeiro deles era evitar os escombros do barco. Eu mergulhava e voltava à superfície. Posso segurar minha respiração quase dez minutos, mas não gosto muito de fazê-lo. Dessa vez, entretanto, tive que aumentar o meu tempo até quase sufocar dentro d'água.

Isso durou bastante. Já escurecera e eu parecia livre dos fragmentos que boiavam pelo rio.

Talvez houvesse algum outro sobrevivente dentro d'água, mas eu não ouvi ninguém chamando nem me senti tentada a procurar outras pessoas (além de Mary, que não teria como encontrar), já que não me considerava bem preparada para salvar ninguém, nem a mim mesma.

Dei uma olhada à minha volta e nadei em direção ao que restava do pôr-do-sol. Pouco depois, à falta de outro sinal do poente, olhei para o céu. Havia algumas nuvens numa noite sem lua. Divisei a estrela Arcturo, as Ursas Maior e Menor e a estrela Polar. Estava me dirigindo para o norte. Corrigi minha direção e comecei a nadar para oeste. Virei-me de costas; a gente pode nadar assim para sempre sem sentir o tempo passar. Não há problemas para respirar e, cansando, é só boiar e mexer os dedos suavemente, até descansar. Eu não tinha pressa; tudo o que queria era chegar à fronteira do Império no lado de Arkansas.

Mas minha preocupação principal era a de não perder a direção e ir parar no Texas.

O problema era esse: como navegar corretamente à noite, sem um mapa, num rio de alguns quilômetros de largura, tentando alcançar a margem oeste, que eu nem conseguia enxergar ..e isso sem me desviar para o sul enquanto nadava?

Seria impossível, do jeito que o Mississípi serpenteia? Impossível é uma palavra que nunca deve ser usada em relação ao Mississípi. Há um local em que se pode cortar o rio por três pequenos trechos, que somariam menos de noventa metros, passar boiando por duas baías que somariam cerca de trinta quilômetros e... avançar mais de cem quilômetros, alcançando um ponto rio acima.

Sem mapa e sem enxergar a margem que pretendia abordar, tudo o que sabia era que deveria me dirigir sempre para oeste, nunca para o sul. E foi o que fiz. Continuei nadando de costas em direção a oeste, guiando-me pelas estrelas. Eu não saberia dizer o quanto a corrente do rio me levava para o sul, mas tinha a certeza de que, se o rio corresse para o sul, eu iria chegar à margem oeste, em Arkansas.

E foi isso que aconteceu. Uma hora depois — ou teriam sido duas? — muitas águas mais tarde, a estrela Vega estava bem alta, no leste, mas ainda muito distante do meridiano. Foi então que percebi a margem do rio se agigantando no meu lado esquerdo. Corrigi minha direção e continuei a nadar para ela. Pouco depois, bati com a cabeça num tronco que flutuava. Segurei-me nele e fui me equilibrando entre inúmeros troncos, até chegar à margem do rio. Subir até a margem do rio não era um grande problema, já que devia ter meio metro de altura, se tanto. O perigo maior era o musgo espesso e muito escorregadio. Consegui subir e parei para tomar fôlego.

A noite estava escura — a única luz vinha do brilho das estrelas e eu só conseguia distinguir o negrume do rio do negrume dos arbustos pelo fulgor muito tênue que eles refletiam na água. Minha orientação? A estrela Polar se escondera atrás de uma nuvem, mas a Ursa Maior me disse onde eu estava, e isso foi confirmado pela posição de Spica, brilhando ao sul, e Antares, a sudeste.

As estrelas me indicavam que o oeste ficava exatamente atrás daqueles arbustos cerrados e sombrios.

Minha alternativa era voltar à água e seguir à margem do rio... chegando a Vicksburg no dia seguinte pela manhã.

Nada disso. Preferi dirigir-me para os arbustos.

Não vou me deter muito no que aconteceu nas horas seguintes. Aquela pode não ter sido a noite mais longa da minha vida, mas foi sem dúvida a mais maçante. Sei que existem matas mais fechadas e perigosas na face da Terra do que aqueles arbustos na parte baixa do Mississípi. Mas eu não desejaria enfrentá-las sem ao menos ter uma faca de escoteiro...

Passei a maior parte do tempo em avanços e recuos. Não, por aqui não dá — e agora, para onde ir? Não, nunca em direção ao sul! Como dar a volta e ir para o norte? Meu trajeto era tão retorcido quanto o do próprio rio, e eu devia estar progredindo apenas um quilômetro por hora — ou talvez esteja exagerando um pouco. Seria menos ainda. Eu avançava um metro ou dois e perdia o resto do tempo tentando orientar-me novamente.

Moscas, mosquitos e animais rastejantes, provavelmente venenosas cobras d'água que não fiz questão de confirmar, passavam por mim, e acabei perturbando uma dúzia de pássaros diferentes, que voavam quase tocando meu rosto, de certo modo me perturbando também. Meus pés estavam cobertos de lama e vez por outra alguma coisa me fazia tropeçar, roçando nos meus tornozelos e nas minhas canelas.

Por três vezes — ou seriam quatro? — deparei com pequenos lagos. Segui sempre para oeste e, quando me faltava pé, eu ia nadando por aqueles braços de água estagnada do rio. Uma única vez senti correnteza por ali e imagino que tenha cruzado um dos canais menores do Mississípi. Em dado momento percebi algo enorme nadando a meu lado. Seria um peixe-gato dos grandes? Mas esses peixes não ficam sempre no fundo? Ou quem sabe um crocodilo? Mas por ali não há crocodilos! Talvez fosse o monstro do lago Ness vindo para dar um passeio. Eu não via o bicho, apenas o sentia — e saí de dentro d'água dando uma guinada violenta para o lado.

Uns oitocentos anos depois do afundamento do Skip e do Myrtle, o dia amanheceu.

A um quilômetro, a oeste, estavam as terras altas de Arkansas. Senti-me triunfante.

E senti também fome, cansaço, sujeira, picadas de insetos, vergonha e uma sede quase insuportável.

Cinco horas mais tarde, eu era hóspede do Sr. Asa Hunter, e seguia com ele na carroça da fazenda, puxada por uma junta de mulas. Aproximamo-nos de uma pequena cidade chamada Eudora. Eu não pudera dormir até aquele momento, mas comera, saciara a sede e tomara um banho. A Sra. Hunter cuidara de mim, me emprestara um pente e me oferecera um grande desjejum: ovos fritos, presunto caseiro em fatias grossas e gordas, pão de milho, manteiga e café, servido em xícara de porcelana. Para apreciar devidamente a cozinha da Sra. Hunter, aconselho-o a nadar uma noite inteira no Mississípi e andar pelos arbustos de suas margens. É um néctar dos deuses!

Enquanto comia, a Sra. Hunter insistia em lavar minhas roupas enlameadas, e eu vestira seu roupão. Na hora de partir, eu já tinha um outro aspecto, mais respeitável.

Não ofereci dinheiro aos Hunters. Há seres humanos que não têm muitas posses, mas são dignos e respeitáveis. A hospitalidade dos Hunters não estava à venda, tampouco sua caridade. Venho aprendendo aos poucos a distinguir essa característica nas pessoas que a possuem. Nos Hunters, ela era bem evidente.

Atravessamos um braço do rio, o Macon, e a estrada desembocou numa outra, ligeiramente maior. O Sr. Hunter deteve suas mulas, apeou da carroça e deu a volta, parando ao meu lado.

— Eu agradeceria muito se a senhorita descesse aqui. Dei-lhe a mão e desci da carroça.

— Alguma coisa errada, Sr. Hunter? Eu o ofendi?

— Não, senhorita, de modo algum — disse ele, calmamente. Depois de uma pausa, tornou a falar:

— A senhorita informou que o barco em que pescava teve o casco furado por um tronco.

— Sim, e então?

— Os troncos por aqui são um perigo — avisou ele, calando-se por alguns instantes. — Ontem, ao entardecer, uma coisa muito desagradável aconteceu neste rio. Houve duas explosões perto da curva de Kentucky. Duas das grandes. Pude ver e ouvir as explosões lá de casa.

Ele calou-se de novo e eu não disse uma palavra. Minha desculpa de estar naquele local e no estado em que me encontrava tinha sido a mais inadequada.

— Minha esposa e eu nunca tivemos problemas com a Polícia Imperial — tornou o Sr. Hunter — e não pretendemos ter. Sendo assim, se a senhorita não se importar de seguir por essa estrada à esquerda, logo chegará em Eudora. Eu darei a volta na minha carroça e voltarei para casa.

— Entendo, Sr. Hunter, e gostaria de haver um modo de agradecer ao senhor e à sua esposa.

— Sim, há uma maneira de nos agradecer.

— E qual é ela? (Iria ele pedir-me dinheiro? Não!)

— Se algum dia a senhorita encontrar alguém que precise de ajuda, não a negue e pense em nós.

— Eu farei isso! Farei, sim!

— Mas não precisa nos escrever. As pessoas que recebem correspondência ficam visadas. Nós não queremos chamar atenção.

— Entendo. Eu ajudarei alguém e pensarei em vocês. E não farei isso uma vez só, mas muitas vezes.

— Assim é melhor. O pão que se joga nas águas do rio sempre acaba voltando, senhorita. A Sra. Hunter manda dizer que rezará por você.

Meus olhos encheram-se de lágrimas e mal pude enxergar o que havia em torno de mim.

— Oh, por favor, diga-lhe que sempre me lembrarei dela em minhas orações. Dela e do senhor. (Eu jamais rezara em minha vida! Mas agora rezaria: pelos Hunters.)

— Muito agradecido. Direi a ela, senhorita. Eu poderia lhe dar um conselho, se a senhorita não se importar?

— Eu preciso de um conselho.

— A senhorita não está pensando em ficar em Eudora, está?

— Não, pretendo ir mais para o norte.

— Se é assim, saiba que Eudora não tem nada além de um posto policial e algumas lojinhas. Lake Village é um pouco mais distante, mas o VPA Greyhound estaciona lá. São cerca de doze quilômetros pela estrada à direita. Se chegar antes do almoço, poderá pegar o ônibus de meio-dia. Mas é uma boa distância, e o dia vai ser muito quente...

— Eu chegarei a tempo.

— De Greyhound a senhorita poderá ir até Pine Bluff ou mesmo até Little Rock. Mas vai precisar de dinheiro para o ônibus. — O senhor tem sido muito generoso, Sr. Hunter, mas eu tenho meu cartão de crédito e posso pagar o ônibus.

Eu não ficara em boa forma depois de nadar tanto, mas meus cartões de crédito, meus documentos, o passaporte e o dinheiro permaneceram intactos dentro da bolsa de plástico que Janet me dera há anos-luz atrás. Algum dia desses eu contaria isso a ela.

— Muito bem. Há mais uma coisa. A maioria das pessoas daqui não costuma se meter muito na vida dos outros. Se a senhorita for direto apanhar o Greyhound, os poucos abelhudos que aparecerem não lhe causarão maiores problemas. Assim será melhor... Bem, adeus e boa sorte.

Despedi-me dele e parti. Gostaria de ter-lhe dado um beijo, mas uma mulher estranha não podia tomar essas liberdades com alguém como o Sr. Hunter.

Peguei o VPA de meio-dia e cheguei em Little Rock às 12h52min. Um expresso subterrâneo para o norte estava sendo carregado naquele momento. Vinte e um minutos depois eu estava em Saint Louis. De uma cabine, na estação do subterrâneo, tentei chamar o número do Chefe para pedir-lhe que me enviasse um transporte até o quartel-general.

— O número que você discou foi desligado. Aguarde na linha e uma telefonista... — começou a dizer uma voz.

Desliguei rapidamente e abandonei a cabine, às pressas.

Fiquei perambulando pelas lojas subterrâneas, fingindo olhar as vitrinas, fui me afastando dali.

Pouco depois, deparei com um terminal público, numa alameda cheia de lojas. Tentei outra vez fazer a ligação.

— O número que você discou foi desligado...

Desliguei logo, mas a voz do terminal não parou de falar. .Abaixei-me e saí da cabine de joelhos, chamando a atenção das pessoas, o que detesto fazer. Mas era provavelmente muito melhor do que ser fotografada pela tela do terminal, o que seria um desastre.

Misturei-me às demais pessoas. Quando me certifiquei de que não estava sendo seguida, desci mais um nível e tomei o circuito local do subterrâneo, seguindo até o leste de Saint Louis. Eu ainda tinha outro número secreto para emergência, mas não pensava em usá-lo antes de tomar certas precauções.

O novo quartel-general do Chefe era num subsolo e ficava a uma hora dali, mas eu não sabia exatamente em qual direção. O caso é que, quando deixei a enfermaria para um curso de atualização, o VPA levou exatamente uma hora. A volta levou o mesmo tempo. Quando saí de licença e pedi que me levassem a um trem para Winnipeg, fui deixada em Kansas City em exatos sessenta minutos. Mas dentro de um VPA a gente não consegue ver para onde está indo.

De acordo com a geometria, a geografia e o mais simples conhecimento do que um VPA pode fazer, concluí que o quartel-general do chefe devia ficar perto de Des Moines, num raio de aproximadamente cem quilômetros. Mas não me pus a fazer muitas suposições, nem mesmo sobre quantos de nós saberiam exatamente a localização do QG. Ficar pensando que eu "precisava descobri-lo" ou em como o chefe o escolheria era pura perda de tempo.

Em East Saint Louis, comprei um casaco com capuz e uma máscara de borracha numa loja de novidades, mas tive o cuidado de escolher uma não muito grotesca. Fiquei andando muito antes de escolher o terminal que iria utilizar. Eu tinha a leve impressão de que o chefe, dessa vez, fora agarrado. A única razão pela qual ainda não entrara em pânico era que eu fora treinada para isso, pelo menos até que conseguisse acionar o número de emergência.

De máscara no rosto e capuz na cabeça, tentei o código final. Obtive o mesmo resultado: dessa vez, como da anterior, o terminal não pôde ser desligado. Virei-me de costas, arranquei a máscara e joguei-a no chão. Saí da cabine vagarosamente, dobrei uma esquina, tirei o casaco e me livrei dele enquanto caminhava, jogando-o numa lata de lixo.

Voltei para Saint Louis e, muito confiante e atrevida, usei meu cartão do Banco Imperial para pagar minha condução até Kansas City. Uma hora antes eu o usara em Little Rock sem a menor preocupação, mas ainda não desconfiava de que algo pudesse ter acontecido ao chefe. Para dizer a verdade, eu tinha uma convicção "religiosa" de que nada de ruim poderia acontecer ao chefe. (Religiosa = crença absoluta sem nenhuma prova.)

Agora, porém, eu me via forçada a usar o meu cartão com a ligeira idéia de que algo realmente acontecera a ele, somada à ligeira idéia de que o meu cartão Saint Louis MasterCard (ligado à conta do chefe e não à minha) não serviria para mais nada. Quando a máquina identificasse o número, o cartão seria automaticamente destruído.

Quatrocentos quilômetros e quinze minutos mais tarde, cheguei a Kansas City. Não saí da estação do subterrâneo. No balcão de informações, eu me orientei sobre os transportes de KC—Omaha—Sioux Falls—Fargo—Winnipeg e fui informada de como chegar até a fronteira em Pembina, mas não além daí. Cinqüenta e seis minutos depois eu estava na fronteira do Canadá Britânico, ao sul de Winnipeg. Ainda era de tardinha e há dez horas atrás eu escalava a margem do rio Mississípi e perguntava a mim mesma se estaria do lado do Império ou se havia voltado ao Texas.

Dessa vez eu queria, mais do que nunca, deixar o Império e estava muito mais ansiosa para sair dali do que estivera para entrar. Até aquele momento eu conseguira driblar a Polícia Imperial, mas não tinha a menor dúvida de que eles gostariam de uma boa conversa comigo. Eu não queria conversar com eles, pois ouvira certas histórias a respeito de como conduziam uma investigação. As mulheres que me haviam interrogado no início do ano eram razoavelmente duras... mas a Polícia Imperial era conhecida por destruir a inteligência de suas vítimas.


 

Quatorze horas mais tarde eu me havia deslocado apenas vinte e cinco quilômetros a leste de onde tive que deixar o sistema de transporte por tubulações. Uma dessas horas eu passei fazendo compras, grande parte de outra hora comendo, mais de duas horas em consulta íntima com um especialista, seis horas paradisíacas de sono, quase quatro movendo-me com cautela para leste do paralelo, em direção à barragem da fronteira, sem ter, porém, me aproximado dela — e agora era já o nascer do sol e eu segui direto por cima da sebe, e estava caminhando por ela, um chateado funcionário de reparos.

Pembina é apenas uma vila; eu tive de voltar a Fargo a fim de encontrar um especialista — uma viagem rápida pela cápsula local. O especialista que eu procurava era do mesmo tipo dos "Artistas, Limitada" de Vicksburg, exceto pelo fato de que tais empresários não costumavam anunciar em terras do Império; levou tempo e um pouco de paciência e cansaço para encontrá-lo. O escritório ficava no centro da cidade, perto da Main Avenue e da University Drive, logo atrás de um edifício mais convencional; o lugar não seria facilmente notado.

Eu ainda vestia o mesmo conjunto de neodenim azul desbotado que usava ao mergulhar fora do Skip to M'Lou, não devido a uma especial afeição por ele, mas porque um conjunto de tecido grosseiro é o que existe de mais próximo de um costume unissex internacional. Ele pegaria bem até mesmo em L-5 ou em Luna City, onde um monoquíni seria muito mais indicado. Adicione-se uma faixa, e uma boa dona-de-casa o vestirá para fazer compras; porte-se uma pasta 007, e eis um impecável homem de negócios dos mais respeitáveis; acocore-se com um chapéu cheio de lápis e aí está o traje digno de um camelô. Sendo difícil poluí-lo, é fácil de limpar, não amassa e você quase nunca o tira do corpo. É ideal para uma mensageira que quer se diluir no palco de ação e não pode perder tempo nem carregar bagagem com roupas de uso pessoal.

Àquela peça universal fora acrescentado um boné gorduroso com o meu emblema da união gravado, um cinto que caía muito bem com suas antigas mas úteis ferramentas, uma coleção de chaves e ligas de reparo sobre um dos ombros e um set de lanternas-maçarico sobre o outro ombro.

Tudo que eu usava me caía bem no corpo, incluindo as luvas. Devidamente vedada, dentro do meu bolso direito, estava uma velha bolsinha que continha documentos atestando que eu era "Hannah Jensen", de Moorhead. Um velho recorte de jornal atestava que eu havia sido líder de torcida na escola, segundo grau: um manchado cartão da Cruz Vermelha indicava o meu tipo sangüíneo: O Rh pos sub 2 (o que confere) e me creditava pelo fato de haver conseguido um diploma — mas as datas revelavam que eu havia deixado de doar sangue havia bem uns seis meses.

Outras trivialidades conferiam a Hannah Jensen um passado seguro; ela também levava consigo um cartão Visa emitido pela Moorhead Savings and Loan Company — mas neste item eu havia feito o chefe economizar mais de mil coroas. Como não esperava usá-lo, ele não tinha a assinatura magnética invisível sem a qual um cartão de crédito não passa de um pedaço de plástico.

Já era dia claro e eu tinha, avaliei, no máximo umas três horas para atravessar aquela cerca — e não mais que isto, porque o pessoal de manutenção da barragem havia começado a trabalhar nela e eu não estava nada ansiosa para topar com um deles. Antes que isso acontecesse, Hannah Jensen deveria desaparecer... para possivelmente ressurgir no fim da tarde num esforço último. Hoje, tratava-se de enfrentar tudo; as minhas coroas já haviam sido usadas. É verdade, eu ainda possuía o meu cartão de crédito do Império — mas sou por demais alerta a respeito de rastros eletrônicos. Teriam as minhas tentativas de ontem de chamar o chefe, todas feitas com o mesmo cartão, esbarrado com algum subprograma pelo qual poderia ser identificada? Eu parecia ter desistido da idéia de me utilizar do cartão para pagar a tarifa do transporte subterrâneo logo depois... mas será que eu havia verdadeiramente driblado todas as armadilhas eletrônicas? Eu não sabia e nem mesmo desejava descobrir — simplesmente queria passar para o outro lado daquela cerca.

Eu saracoteava por ali, resistindo a uma poderosa ânsia de desistir e dar no pé. Eu queria um local onde pudesse cortar o cercado sem ser observada embora o solo estivesse revolvido cerca de cinqüenta metros de cada lado da barreira. Eu tinha de aceitar isso, o que precisava era de um trecho ao longo de toda a parte ressequida das árvores e de mato como o das cercas-vivas da Normandia.

Em Minnesota não existem cercas-vivas normandas.

No norte de Minnesota quase não existem mais árvores — pelo menos, quase não existem mais na parte da fronteira que eu estava cobrindo. Eu tomava conta, com os olhos, de um pedaço da barreira, conjeturando comigo mesma como poderia uma área tão ampla de espaço aberto sem vivalma à vista estar tão bem conservada como se dela estivessem cuidando, quando um VPA da polícia entrou no meu raio de visão cruzando lentamente a oeste do cercado. Fiz um aceno amistoso e continuei com passo meio arrastado rumo ao leste.

Eles giraram, deram meia-volta e estacionaram a cerca de quinze metros de onde eu estava. Voltei-me e me movi na sua direção, alcançando a viatura no momento em que o principal dos dois jovens policiais pulou fora, seguido de perto pelo motorista, e pude ver em seus uniformes (inferno, maldição e nojo) que não eram policiais da Província de Minnesota e sim, policiais do Império.

O primeiro rapaz perguntou-me:

— O que é que você está fazendo aqui tão cedo?

Seu tom era agressivo; respondi, como que para afrontá-lo:

— Eu estava trabalhando, até.você me interromper.

— Prós diabos com a sua conversa. Você não poderá começar nas próximas oitocentas horas.

Eu respondi:

— Dê uma olhada no que dizem os jornais, grande homem. Isto foi na semana passada. Agora são dois turnos. A primeira turma trabalha na hora do "pode". A troca se dá à tardinha; a segunda turma sai na hora do "não pode".

— Ninguém nos notificou.

— Você quer que o superintendente em pessoa lhe escreva uma carta? Dê-me o número de seu registro e eu comunicarei a ele exatamente o que você acabou de me dizer.

— Nem uma palavra de sua boca, vagabunda. Vou pô-la pra correr.

— Faça isso. Será um dia de folga pra mim... depois veja se pode explicar por que nosso pacto não foi observado.

— Basta! — Eles começaram a voltar.

— Algum dos dois perus terá uma ficha telefônica? — perguntei. O motorista respondeu seco:

— Nós não conversamos em serviço e o mesmo deveria se aplicar a você.

— Nariz sardento — xinguei com polidez.

O motorista insinuou uma resposta, mas o chefe dele abriu a porta com violência, e ambos me agrediram, agarraram a minha cabeça, fazendo-me vergar. Não creio que tivessem gostado de mim.

Voltei até a cerca, enquanto concluía com os meus botões que Hannah Jensen não era uma senhora de verdade. Ela nem mesmo pedia desculpas por tratar tão rudemente os Verdes pelo simples fato de que eles eram indizivelmente vis. Até mesmo viúvas-negras, piolhos-do-púbis e hienas precisam construir uma vida, um futuro, ainda que eu não pudesse entender por quê.

Decidi que os meus planos não haviam sido bem projetados; o chefe não os aprovaria. Desbastar e realizar escavações naquele cercado em plena luz do dia era algo conspícuo demais. Melhor seria dar um jeito de me ocultar até escurecer, e voltar à carga. Ou passar a noite conforme o plano número dois: Considere a possibilidade de descer toda a extensão da cerca-viva até o rio Roseau.

Eu não estava muito segura quanto ao plano número dois. A camada mais baixa do Mississípi era mais ou menos quente, mas as correntes vindas do norte fariam até um cadáver sentir frio. Eu havia conferido a temperatura de Pembina anteontem à tarde. Brr! Um último recurso.

Então escolha uma parte do cercado, decida exatamente de que maneira você a anulara, em seguida procure encontrar algumas árvores. Enfie-se entre as folhas acolhedoras dos galhos mais altos de uma delas e espere cair a noite. Repasse com antecedência cada movimento, para que você possa desaparecer naquela sebe exatamente como a urina desaparece em meio à neve.

Nesse momento, iniciei uma subida leve e me vi face a face com um outro funcionário da conservação, um tipo másculo. Em dúvida, mande bala.

— Que diabos você está aprontando por aqui, grandão?

— Eu estou passeando ao longo da cerca. Minha metade da cerca. E você, o que está fazendo aqui, irmãzinha?

— Ora bolas! Não sou sua irmã. Aliás, ou você está passeando do lado errado, ou então está fora de hora. Observei com certo desassossego que o bem equipado caminhante portava um aparelho receptor-transmissor. Bem, eu nunca fui mesmo um tipo muito sabido; ainda estava engatinhando na profissão.

— Com o inferno — ele respondeu. — Segundo o novo horário, devo pegar ao amanhecer; sou substituído à tardinha. Talvez por você, hem? Sim, provavelmente é isso; mas você deve ter cometido algum erro ao ler a tabela de plantão. E melhor eu entrar em contato com a polícia.

— Faça isto — eu disse, enquanto me movia em sua direção. Ele hesitou.

— Por outro lado, talvez...

Eu não hesitei. Não costumo eliminar todo aquele que pensa diferente de mim e não gostaria que alguém, ao ler este relato, pensasse uma coisa assim a meu respeito. Eu nem mesmo o machuquei a não ser superficialmente; apenas o pus a dormir um tanto inesperadamente.

Servindo-me de um cordel que levava no cinturão, tratei de atar-lhe as mãos por trás do corpo e prender seus tornozelos bem juntos. Se eu tivesse comigo uma amostra de fita cirúrgica, daquelas bem largas, eu poderia realmente amarrá-lo bem, mas tudo que eu possuía era uma fita de fricção mecânica de dois centímetros, e eu estava muito mais interessada em aparar as extremidades do cercado vegetal do que em não permitir que ele gritasse por ajuda aos coiotes e coelhos dali. Eu estava muito ocupada.

Uma lanterna-maçarico feita para reparar o cercado pode também ser utilizada para cortá-lo, mas minha ferramenta era até um pouco melhor; eu a havia comprado na porta de trás do cercado de Fargo (a outra espécie de cercado). Tratava-se de uma lâmina com corte a laser, afiadíssima, e não a bugiganga de ociacetileno que aparentava ser. Em alguns instantes consegui um buraco grande o bastante para Friday. Decidi partir.

— Ei, pode me levar com você?

Eu hesitei. Ele repetiu com certa insistência que estava tão ansioso quanto eu por escapar aos malditos Verdes.

— Me solte!

O que eu fiz em seguida é comparável em loucura apenas ao que fez a esposa de Ló. Empunhei a faca que trago no cinturão, cortei o cordel que atava seus pulsos e tornozelos — mergulhei dentro do meu alçapão de emergência e comecei a correr. Não esperei para ver se ele vinha ou não vinha atrás.

Havia um dos raros grupos de árvores cerca de meio quilômetro ao norte; eu me pus a caminho a uma velocidade recorde. O cinturão das ferramentas, porém, era pesado demais e me tolhia os movimentos; procurei desvencilhar-me sem diminuir o ritmo. Um momento mais tarde, dei um jeito e me livrei da coisa. Hannah Jensen voltou a ficar no mato sem cachorro, uma vez que lanterna, luvas e material de conserto continuaram ainda no Império. Tudo que me restava era uma sacola da qual deveria ainda desembaraçar-me no momento em que não estivesse ocupada demais.

Infiltrei-me sem hesitação em meio às árvores, dei uma volta e deparei com um lugar apropriado para observar a trilha que tinha percorrido, pois me sentia estupidamente consciente de que levava uma cauda.

Meu antigo prisioneiro estava a meio caminho entre o cercado e as árvores... e dois VPAs lhe estavam apresentando as boas-vindas. O que se encontrava mais próximo dele carregava o grande Maple Leaf do Canadá britânico. Não pude ver a insígnia do outro porque estava bem de frente para mim, cruzando a linha demarcatória da fronteira internacional.

O veículo da polícia do Canadá britânico aterrissou; meu camarada de outros tempos pareceu render-se sem maiores objeções — razoável, uma vez que o VPA do Império aterrissou no momento seguinte, pelo menos duzentos metros dentro do território canadense-britânico. Era a Polícia Imperial — possivelmente o mesmo carro que me havia parado.

Eu não sou rábula internacional, mas estou bem certa de que guerras já foram desencadeadas por muito menos. Contive a respiração, agucei ao máximo os ouvidos e fiquei atenta.

Não havia advogados de jurisdição internacional entre aqueles dois tipos de polícia, muito pelo contrário, o argumento era da maior importância, apesar de contraditório. Os da parte do Império solicitavam a imediata consignação do refugiado de acordo com a doutrina do "corpo quente" e um destacamento montanhês sustentava (corretamente, aliás, parecera-me) que o evento do "corpo quente" só ocorria quando criminosos eram capturados em flagrante, e o único crime ali verificado seria o fato de penetrar em território do Canadá britânico, fora de uma de suas alfândegas, o que era assunto não pertinente à área de jurisdição da Polícia do Império.

— Agora, trate de tirar essa carcaça do solo do Canadá britânico.

O Verde esboçou uma resposta monossilábica negativa que perturbou profundamente o Montanhês. Ele perdeu a paciência e urrou pelo alto-falante:

— Vou prendê-lo por violação do espaço aéreo e terrestre do Canadá britânico. Saia daí e renda-se. Não tente fugir.

Nesse momento, o veículo do Verde subiu, batendo em retirada pela linha demarcatória da fronteira internacional — partindo para outro lugar qualquer. Era talvez exatamente aquilo que o Montanhês havia arquitetado. Tratei de me encolher no meu canto, pois nesse momento eles poderiam perceber a minha presença.

Concluí que o meu companheiro fugitivo, do modo como agira, havia pago do seu próprio bolso a minha cota por ter estado ali: nenhuma busca ulterior em torno do cercado foi efetuada. Com toda certeza, ele me havia visto correr entre os arbustos no bosque. Mas é bastante improvável que a polícia canadense tivesse me visto. Sem a menor sombra de dúvida, ao aparar a vegetação do cercado, eu podia ter acionado os alarmes das estações de polícia de ambos os lados da fronteira; isso seria apenas uma operação de rotina para o pessoal da eletrônica— até mesmo para encontrar a cesura — e por isso eu planejara fazê-lo o mais rápido possível.

Mas contar o número exato de "corpos quentes" que teriam passado por uma fenda constituiria, por si só, um problema à parte de eletrônica — não seria impossível, mas daria uma despesa que talvez nem compensasse o seu mérito. Como o meu quase companheiro não havia me delatado, o que era previsível, ninguém viera à minha procura. Depois de certo tempo, de dentro de um carro policial canadense-britânico desceu uma equipe de manutenção. Pude vê-los apanhar o cinturão porta-ferramentas do qual eu me desfizera próximo da barreira. Depois que partiram, outra equipe de reparos aportou, desta vez da parte do Império; eles inspecionaram o que fora feito e partiram também.

Conjeturei um pouco a respeito de cinturões porta-ferramentas. Ao pensar mais detalhadamente, não pude me lembrar de ter visto o tal cinturão no corpo do meu prisioneiro no momento em que ele se rendeu. Concluí que ele o havia deixado cair ao tentar a passagem pela cerca divisória: por aquela fenda mal passaria a massa física do corpo de Friday; para ele deveria ter sido um aperto.

Tentativa de Reconstrução: Os tiras do Canadá britânico tinham visto um cinturão do outro lado; os Verdes viram o mesmo cinto, mas do lado deles. Nenhum dos dois iria ter uma razão mais forte para crer que algo mais sério do que um bêbado alucinado passara através da linha divisória... isto enquanto o meu antigo prisioneiro mantivesse a boca fechada.

Muito decente da parte dele, aliás. Boa parte dos homens faria misérias para aproveitar aquela pequena ocasião de fazer mal a alguém.

Fiquei escondida no bosque até tarde da noite, treze tediosas horas. Eu não queria ser vista por qualquer pessoa até o momento em que encontrasse Janet (e, com sorte, Ian); um imigrante ilegal não pode buscar nenhuma espécie de publicidade. Fora um dia muito longo, mas durante o treinamento médio meu guru de controle mental havia me ensinado a lidar com a fome, a sede e a eventual chateação de ter que ficar quieta, desperta e vigilante. Quando a noite caiu, comecei a me aventurar. Eu conhecia o terreno apenas pela leitura de mapas, o que não é muito, mas ao menos eu os havia estudado cuidadosamente na casa de Janet, cerca de duas semanas atrás. O problema que me esperava não era complexo nem difícil: transpor aproximadamente cento e dez quilômetros a pé, antes que amanhecesse e sem deixar que me percebessem.

A rota era simples. Eu precisava mudar de curso um quase nada a fim de pegar a estrada de Lancaster, no Império, para La Rochelle, no Canadá britânico, porto de entrada — fácil de projetar. Seguir rumo norte para os confins de Winnipeg, girar à esquerda em torno da cidade e apanhar a estrada norte-sul que conduz ao porto. Stonewall encontrava-se à distância de um grito dali, ficando a granja de Tormey bem pertinho. A última — e mais difícil — parte da empresa eu conhecia não apenas da leitura de mapas e sim, de uma estada há não muito tempo, aliás bem recentemente, quando me perdi por aquelas paragens sem nada que me pudesse distrair ou alegrar, confortada apenas por uma quase agradável busca do caminho.

Apenas despontara a manhã quando cruzei as portas externas de Tormey. Eu estava cansada, mas não me encontrava em muito má forma. Posso manter a rotina caminhada-acelerado-corrida-caminhada-acelerado-corrida por vinte e quatro horas se for necessário, e assim o fiz no treinamento; manter o ritmo durante toda a noite é igualmente aceitável. Meus pés doíam e eu tinha muita sede. Pressionei o botão do interfone num estado de feliz alívio. E ouvi imediatamente:

— Aqui fala o capitão Ian Tormey, numa gravação. Esta casa está sob a proteção da Winnipeg Werewolves Security Guards, Incorporated. Eu havia guardado aquele nome na memória sem jamais levar muito a sério a reputação deles de serem terrivelmente rápidos no gatilho; eles são simplesmente zelosos em proteger seus clientes. — Chamadas telefônicas dirigidas a esta casa não serão atendidas, mas a correspondência nos será encaminhada. Obrigado por sua atenção.

E obrigada a você, Ian! Oh, maldição, maldição, maldição! Eu sabia não haver razão alguma para esperar que permanecessem em casa... mas a minha cabeça nunca acalentara o pensamento de que poderiam não estar em casa, num momento em que eu necessitava deles. Eu havia sido "transferida", como diriam os ponderados; e visto que eu perdera a minha família Ennzedd e o chefe desaparecera, e, quem sabe, estaria morto, a quinta Tormey tornara-se para mim o "lar" e Janet a mãe que eu nunca tivera.

Desejei estar de volta na fazenda dos Hunters, banhando-me com a morna e protetora afetividade do Sr. Hunter. Desejei estar em Vicksburg, repartindo uma mútua solidão com Georges.

Neste meio-tempo, o sol se tornara intenso, e logo as estradas se encheriam de gente e carros, e eu seria uma estrangeira ilegal, quase sem dólares britânico-canadenses e com uma necessidade profunda de não ser notada, de não ser instada a responder perguntas embaraçosas, e com a cabeça zunindo por causa da fadiga, da falta de sono, da fome, da sede.

Mas eu não teria de tomar decisões difíceis, ninguém conseguiria forçar-me a isso, eu só precisava me esconder uma vez mais, tal como um animal acuado e rápido o bastante, antes que o tráfego enchesse as ruas.

Bosques não são comuns nos arredores de Winnipeg, mas eu me lembrava de alguns hectares de verde intocado nas cercanias à esquerda, longe da estrada principal e mais ou menos por trás das terras dos Tormeys — lugar inculto — logo abaixo da suave colina onde Janet tinha construído. Caminhando naquela direção, deparei com um caminhão distribuidor de leite e nada mais.

Chegando na altura dos arbustos, deixei a estrada. A caminhada tornou-se difícil; por entre vários pequenos canais e vielas, eu me movia "através da trilha". Mas rapidamente encontrei algo ainda mais interessante do que árvores: uma corrente de água doce tão delgada que eu poderia atravessá-la com um passo.

Foi o que fiz, mas não antes de beber. Seria água potável? Provavelmente contaminada, mas eu nem pensei no assunto; o meu estranho "modo de nascimento" me protegia contra qualquer espécie de infecção. O sabor da água era agradável e eu bebi muito e me senti fisicamente melhor — mas não passou o peso doente no meu coração.

Penetrei mais fundo dentro da mata, buscando um lugar onde pudesse não apenas esconder-me, mas até tirar uma soneca. As seis horas de sono de duas noites atrás me pareciam terrivelmente distantes no tempo e no espaço, mas o problema de se esconder no meio do mato tão próximo de uma cidade grande é o risco de que uma dessas tropas de escoteiros acabe dando exatamente onde a gente se escondeu, terminando por pisar em cima do seu nariz. Por isto, procurei um cantinho não somente bem coberto de folhas, mas também inacessível.

E encontrei. A cerca de um passo acima e ao lado de um canalete que alguns espinheiros tornavam ainda mais inacessível, e que só pude perceber pelo método Braile.

Espinheiros?

Custou-me cerca de dez minutos para localizar, pois se assemelhavam à face exposta de uma imensa rocha que provavelmente havia rolado no tempo em que o grande degelo aplainou este imenso vale verde. Mas, quando olhei mais de perto, já não parecia mais uma rocha. Demorei ainda algum tempo para enfiar os dedos e improvisar uma alavanca, alçá-la, para então ele se mover facilmente, em parte contrabalançando o movimento. Mergulhei para dentro com rapidez e deixei-o cair de volta ao lugar onde estava... e dei por mim totalmente no escuro, exceto por algumas palavras ardentes: PROPRIEDADE PRIVADA — MANTENHA-SE FORA.

Parei, fiquei em silêncio e comecei a pensar. Janet havia me dito que o seletor-interruptor que acionava e desligava mortais armadilhas encontrava-se escondido por ali, a uma curta distância.

O que é uma "curta distância"?

E escondido onde?

Estava escondido, sem dúvida, já que o local era escuro como tinta nanquim, exceto por aquelas letras agourentas e cheias de brilho. Elas deveriam, isso sim, sentenciar: "Abandonai toda a esperança, vós que entrais."

Portanto, Friday, tire a sua lanterna de bolso ativada pelo minúsculo, mas vitalício Shipstone, e dê uma busca. Mas não vá longe demais!

Havia de fato uma lanterna num saco de viagem que eu deixara para trás na época no Skip to M'Lou. Talvez até ainda estivesse brilhando, a divertir os peixes no fundo do Mississípi. Mas eu sabia de outras lanternas, estocadas naquele túnel sombrio.

Eu não tinha um só fósforo comigo.

Se houvesse um escoteiro por ali, eu poderia produzir um fogo, esfregando o pau dele. Oh!, cale a boca, Friday.

Deixei meu corpo cair no chão e me permiti algumas lágrimas. Depois me espichei toda naquele chão de concreto (duro e frio, porém acolhedor e suave) e dormi.


 

Acordei muito tempo depois, e o chão continuava duro e frio. Entretanto, me senti tão descansada que não me incomodei. Ergui-me, alisei minha roupa e só então percebi que não me sentia mais desamparada, mas, sim, com fome.

O túnel agora estava bem iluminado.

O luminoso ainda me aconselhava a não seguir adiante. O túnel, porém, estava claro como uma sala de estar bem iluminada. Olhei à minha volta para ver de onde vinha aquela luz.

Só então pude perceber. Aquela luz provinha somente do letreiro, meus olhos é que se tinham acostumado às trevas, devido ao tempo de sono. Acredito que os humanos também experimentam esse fenômeno, mas não de maneira tão forte.

Comecei a procurar o interruptor.

Antes disso, porém, decidi usar a cabeça. É um trabalho mais pesado do que usar os músculos, porém mais tranqüilo e gasta menos calorias. É essa a única característica que nos diferencia, ainda que muito ligeiramente, dos macacos. Se eu fosse um interruptor oculto, onde ficaria?

As informações mais importantes sobre esse interruptor tinham que ser as de que ele ficaria escondido o bastante para frustrar a entrada de estranhos, mas que estaria à mão para salvar a vida de Janet e seus dois maridos. O que significaria isso?

Ele não devia ficar muito alto, para que Janet o pudesse alcançar; sendo assim, eu o poderia alcançar também, pois eu e Janet temos quase o mesmo tamanho. O interruptor, portanto, estará ao alcance da minha mão sem que eu precise subir num banco para acioná-lo.

O luminoso parecia flutuar no escuro, a cerca de três metros da porta. O interruptor não devia estar muito longe dali, pois Janet me prevenira de que o segundo aviso (aquele que ameaçava os intrusos de morte) estava escondido não muito mais para dentro. "Uns poucos metros", dissera ela. Ora, "poucos" geralmente significa menos de dez.

Janet não teria escondido o interruptor de maneira que um de seus maridos não pudesse se lembrar exatamente onde estava, num momento em que sua vida corresse perigo. O simples fato de saber que ali havia um interruptor já era uma pista suficiente para poder encontrá-lo. Embora um intruso que desconhecesse a sua existência nunca tomaria conhecimento dele.

Entrei no túnel até ficar sob o letreiro e olhei para o alto. A luminosidade permitia apenas que eu visse uma parte do teto, logo acima, e nada mais. Mesmo minha visão mais aguçada e meus olhos acostumados à escuridão não conseguiram distinguir nada além disso.

Estendi o braço e minha mão tocou o teto. Meus dedos encontraram um botão, provavelmente ligado a um fio metálico, e eu o apertei.

O letreiro piscou, e as luzes do teto brilharam, iluminando até o fim do túnel.

Comida congelada, um forno, toalhas enormes, água quente e fria, e um terminal no Buraco onde eu poderia ficar sabendo das últimas novidades e obter o resumo de notícias anteriores... Livros, discos e dinheiro vivo estocados no Buraco para emergência, além de armas, munição e roupas de todos os tipos — que cabiam em mim, já que elas cabiam em Janet — e um relógio-calendário no terminal me dizendo que eu dormira treze horas até a dureza do chão de concreto me acordar. Uma cama enorme e confortável, macia, me convidava a dormir de novo depois de tomar um banho, comer e satisfazer meu apetite por notícias frescas... Um sentimento de total segurança me acalmou o bastante para que eu parasse de controlar minha mente e permitisse que meus sentimentos espontâneos funcionassem outra vez.

Pelo noticiário, fiquei sabendo que o Canadá britânico reduzira a situação para uma "emergência limitada". A fronteira com o Império permanecia fechada, mas Quebec estava apenas sob controle, e vistos eram dados a quem tivesse negócios serem resolvidos. A questão ainda pendente entre as duas nações restringia-se à indenização que Quebec devia pagar pelo que agora se admitia ser um ataque militar cometido por engano ou insensatez. As ordens de prisão ainda estavam em vigor, porém mais de noventa por cento dos prisioneiros de Quebec haviam sido libertados após darem suas palavras de honra, assim como vinte por cento dos presos procedentes do Império. Sendo assim, eu fizera muito bem em fugir. Sem sombra de dúvida, eu era de um tipo considerado muito suspeito.

Ao que parece, Georges poderia voltar para casa quando quisesse. Ou será que eu entendera alguma coisa de modo errado?

O Conselho para a Sobrevivência prometera uma terceira série de assassinatos "educativos" para cerca de dez dias após a anterior. Um dia depois, os Estimuladores vieram a público com uma nota onde, mais uma vez, condenavam o suposto Conselho para a Sobrevivência. Os Anjos do Senhor não se pronunciaram, ou, pelo menos, nenhuma declaração deles foi divulgada pela rede de informações do Canadá britânico.

Mais uma vez, tirei minhas conclusões, ainda que me parecessem meio teóricas: os Estimuladores eram uma organização apenas de fachada, pura propaganda do governo, sem representação do operariado. Os Anjos do Senhor estavam mortos e enterrados. O Conselho para a Sobrevivência tinha uma rede de patrocinadores muito ricos querendo pagar mais colaboradores não-profissionais que eram sacrificados em infrutíferos atentados. Isso tudo, porém, eram apenas palpites que deveriam ser abandonados se a terceira série de atentados resultasse eficaz e bastante profissional, o que eu não esperava. Mas eu sempre dou palpites errados.

Eu ainda não conseguira me decidir a respeito de quem estaria por trás desse absurdo reinado de terror. Não podia ser (eu tinha certeza) uma nação territorial; talvez fosse uma multinacional ou um consórcio, embora isso não fizesse o menor sentido para mim. Poderia até ser um ou mais milionários — se fossem bastante loucos para isso.

Enquanto me restabelecia, tentei pensar no Império, no rio Mississípi e em Vicksburg separadamente, em dupla e em trio. Nada. Juntei o nome dos dois barcos afundados e tentei todas as combinações possíveis. Nada ainda. Aparentemente, o que acontecera comigo e com centenas de pessoas ficara sob censura. Ou talvez fosse considerado algo sem muita importância.

Antes de partir, deixei um bilhete para Janet, informando-a das roupas que eu levara, de quantos dólares canadenses apanhara, somando essa quantia à que ela já me havia dado anteriormente, e deixei uma lista detalhada de tudo o que gastara com o seu cartão de crédito Visa; uma passagem na cápsula subterrânea de Winnipeg para Vancouver, outra de Vancouver para Bellingham, e nada mais. (Ou teria eu pago minha passagem para San José também com o cartão dela? Ou isso ocorrera quando Georges começou a pagar as contas?) A relação das minhas despesas ficara no fundo do Mississípi.

Como esperava ter pego dinheiro bastante para sair do Canadá britânico, fiquei muito inclinada a deixar o cartão Visa de Janet com o bilhete. Mas um cartão de crédito é algo tão traiçoeiro — um pedacinho de plástico barato... que pode equivaler a grandes lingotes de ouro. Cabia a mim guardar aquele cartão pessoalmente e a qualquer preço até entregá-lo diretamente a Janet. Nada seria mais justo de minha parte.

Um cartão de crédito é como uma corda no pescoço. No mundo desses cartões ninguém tem privacidade... no melhor dos casos, a pessoa resguarda sua privacidade gastando um esforço enorme e muitas palavras. Além disso, alguém saberia informar o que acontece numa rede de computadores quando você introduz seu cartão na abertura de uma máquina? Eu não faço idéia. Acho muito mais seguro usar dinheiro. Nunca soube de ninguém que levasse a melhor ao discutir com um computador.

Considero os cartões de crédito uma maldição. Mas eu não sou humana e provavelmente deve faltar em mim um ponto de vista humano (não só a esse respeito como em relação a muitas e muitas outras coisas).

 

Parti na manhã seguinte, vestida num lindo terninho azul-claro (tenho certeza de que Janet fica linda nele, e por isso me senti bonita também, apesar de não haver por ali um espelho onde eu pudesse me olhar). Queria tomar uma diligência perto de Stonewall, mas descobri que minhas opções eram um veículo puxado a cavalo ou um VPA da Canadian Railways. Ambos me deixariam na estação do subterrâneo, Perimeter e McPhilips, de onde Georges e eu partíramos em nossa lua-de-mel informal. Embora preferisse os cavalos, tomei o veículo mais veloz.

Como me dirigisse para o centro, não poderia resgatar minha bagagem que ficara retida no porto. Seria possível pedi-la em trânsito sem ser localizada como fugitiva do Império? Decidi reclamá-la quando estivesse fora do Canadá britânico. Além do mais, minhas malas haviam sido embarcadas na Nova Zelândia. Se conseguira passar sem elas até agora, era sinal de que poderia fazer o mesmo daí em diante. Quantas pessoas já morreram por se recusarem a abandonar suas malas?

Sempre tive um anjo da guarda razoavelmente eficaz ao meu lado. Apenas há alguns dias, Georges e eu atravessáramos um torniquete, usáramos os cartões de crédito de Ian e Janet sem pestanejar e partíramos animadamente para Vancouver.

Dessa vez, entretanto, embora houvesse um trem sendo carregado, eu passei direto pelos torniquetes e me dirigi ao escritório do Departamento de Turismo do Canadá britânico. O lugar estava cheio de gente, logo não havia perigo de um dos funcionários se intrometer no que eu estava fazendo. Esperei, entretanto, até vagar um guichê num dos cantos. Em seguida, coloquei o cartão de Janet na máquina e pedi uma passagem para Vancouver.

Por sorte, meu anjo da guarda estava por perto. Puxei o cartão rapidamente e escondi-o: esperava que ninguém sentisse o cheiro de plástico queimado. Deixei o escritório andando rapidamente e de nariz para o alto.

Quando passei pelo guichê, pedi uma passagem para Vancouver. O funcionário, que estava muito ocupado lendo a página de esportes do Winnipeg Free Press, levantou os olhos e me perguntou:

— Por que você não usa seu cartão de crédito como todo mundo?

— Você tem passagens para Vancouver? Isto aqui não é moeda corrente?

— Não é esse o caso.

— Para mim, é. Por favor, eu quero uma passagem. E quero também o seu nome e número de identificação, como pede aquele aviso que está preso ali, bem atrás de você.

Entreguei a quantia exata.

— Aqui está a sua passagem.

Ele ignorou o meu pedido de se identificar e eu ignorei o fato de ele não ter cumprido o regulamento. Não queria arranjar nenhum problema com o superior dele. Só queria arrumar uma desculpa que o distraísse para não reparar no meu comportamento evidentemente excêntrico de usar dinheiro em vez de um cartão de crédito.

A cápsula já estava cheia, mas eu não fiquei de pé. Um Galahad saído de séculos passados levantou-se e me ofereceu o lugar. Ele era jovem e bem apessoado. E mostrava-se gentil porque devia ter visto em mim grandes qualidades femininas.

Aceitei o lugar com um sorriso e agradeci, inclinando-me um pouco para que ele pudesse olhar dentro do meu decote. O jovem Lochinvar pareceu gratificado e continuou olhando durante todo o trajeto. Quanto a mim, isso nada me custou nem me causou nenhum problema. Gostei muito do seu interesse e do conforto que ele me proporcionou: sessenta minutos seria um tempo muito longo para ficar de pé, equilibrando-me aos intensos sacolejos de um subterrâneo expresso.

Quando chegamos a Vancouver, ele me perguntou quais eram os meus planos para o almoço. Caso eu não tivesse nada programado, ele conheceria um lugar muito bom, o Bayshore Inn. Ou eu preferiria uma comida japonesa ou chinesa?

Pedi desculpas e disse que precisava chegar a Bellingham pela hora do almoço.

Em vez de se decepcionar com o meu fora, seu rosto se iluminou.

— Mas que coincidência! Eu também estou indo para Bellingham, mas só pensava em ir depois do almoço. Vamos almoçar juntos em Bellingham, combinado?

(Será que existe alguma lei internacional a respeito de cruzar uma fronteira internacional por motivos imorais? Mas poderia essa cantada simples e direta ser corretamente classificada como "imoral"? Uma pessoa artificial nunca chega a compreender os códigos sexuais dos seres humanos; o máximo que conseguimos fazer é decorá-los e tentar não nos meter em problemas. Os códigos sexuais humanos são tão ou mais enrolados do que um prato de espaguete.)

Minha primeira tentativa de despedi-lo com gentileza falhara. Tive que decidir rapidamente entre bancar a grossa ou ir até o fim com ele. Discuti comigo mesma: você já é uma moça, Friday ; já conhece muitas coisas. Se você não queria alimentar nenhuma esperança de ele a levar para a cama, a hora de recusar era aquela em que ele lhe ofereceu o lugar no trem, em Winnipeg.

Fiz outra tentativa:

— Está combinado, mas só se eu pagar a conta, e fim de papo.

Foi um golpe sujo. Ambos sabíamos que se eu pagasse a conta já o estaria recompensando pela hora que ele passara em pé, sacolejando dentro daquele trem; as regras protocolares não lhe. permitiriam reivindicar a recompensa pelo investimento; seu ato de gentileza devia ser desinteressado e nobre, sem segundas intenções.

Mas aquele patife pervertido, sujo, desprezível e imoral acabou quebrando o protocolo.

— Está certo — respondeu. Engoli em seco o meu espanto.

— Sem discussões depois? Será mesmo o meu cheque?

— Sem discussões. É claro que você não deve se preocupar com o preço do almoço; afinal, fui eu quem a convidou, e portanto deveria ter o privilégio de pagar. Não sei o que fiz que a aborreceu, mas não vou forçar a barra. Há um McDonald's próximo à estação de Bellingham. Vou querer um Big Mac e uma coca, você paga a conta e nós ficamos amigos.

— Meu nome é Marjorie Baldwin, e o seu?

— Trevor Andrews, Marjorie.

— Trevor. Bonito nome. Pois fique sabendo, Trevor, que você é sujo, desprezível, imoral e ordinário. Por isso mesmo, vai me levar ao melhor restaurante de Bellingham, oferecer-me uma boa comida, uma boa bebida, e vai também pagar a conta. Vou lhe dar a chance de me mostrar o que você sente, mas não acho que consiga me levar para a cama. Não me sinto a fim.

Eu mentia. Estava muito excitada, e, se ele tivesse faro apurado, teria certeza de como eu me sentia, assim como eu tinha certeza do que ele sentia por mim. Um macho humano possivelmente não tem como disfarçar essas coisas de uma mulher artificial como eu, cujos sentidos são muito apurados. Aprendi essas coisas na puberdade. Mas é claro que nunca fico ofendida quando um homem me dá uma cantada. O máximo que posso fazer é fingir que estou ofendida, e só faço isso para imitar o comportamento das mulheres humanas. Mas não faço sempre e tento evitar agir assim. Não sou uma boa atriz.

Desde Vicksburg até Winnipeg, eu não sentira nenhum impulso sexual. Agora, porém, depois de duas noites de sono, de um banho muito, muito quente e cheio de espuma, e de um bom prato de comida, meu corpo recuperara seu comportamento normal. Sendo assim, por que eu estava mentindo para esse inofensivo estranho? "Inofensivo"? Racionalmente falando, sim. Sem uma pequena cirurgia corretiva eu era estéril. Não tenho predisposição a pegar sequer um resfriado e sou imunizada especificamente contra as quatro doenças venéreas mais comuns. Aprendi muito cedo a associar sexo com comida, bebida, sono, respiração, brincadeiras, conversas e carinhos — as necessidades mais agradáveis que tornam a vida uma alegria em vez de um fardo.

Menti a ele porque as regras dos seres humanos pedem uma mentira nessa altura do campeonato — e estava tentando passar por humana, sem ter a coragem de, honestamente, ser eu mesma.

— Você acha que estou perdendo o meu tempo? — perguntou ele, me olhando.

— Acho, sim. Desculpe.

— Você está equivocada. Nunca tento levar uma mulher para a cama. Se quiser dormir comigo, ela dará um jeito de me dizer isso. E se não quiser, não vou achar graça em dormir com ela. Mas você parece ignorar que vale o preço de um almoço: sentar-se ao seu lado e ficar ouvindo as bobagens que você diz.

— Bobagens?! É melhor você me levar a um restaurante muito bom! Vamos tomar logo o trem.

Eu julgava que teria de gastar minha saliva ao desembarcar na fronteira, mas o funcionário examinou com muito mais cuidado os documentos de Trevor do que os meus, antes de conceder o seu visto. Ele deu apenas uma olhada breve no meu MasterCard San José e acenou para que eu passasse. Fiquei esperando por Trevor logo após a cancela e passei os olhos no letreiro de um bar, que dizia THE BREAKFAST BAR, sentindo um duplo déjà vu.

— Se eu tivesse visto aquele cartão de ouro que você exibiu agora mesmo, não teria me oferecido para pagar o almoço — disse Trevor num tom lastimoso, quando se aproximou de mim. — Você é uma herdeira riquíssima.

— Olhe aqui, meu caro, trato é trato. Você disse que sentar-se ao meu lado e ficar escutando as bobagens que eu digo já valiam o preço do almoço. Eu vou cooperar e vou abrir um pouco a minha blusa. Um botão, dois, talvez. Mas não permito que você volte atrás. Mesmo uma rica herdeira gosta de levar vantagem uma vez ou outra.

— Ai, coitado de mim!

— Pare de reclamar. Onde vamos comer?

— Bem, Marjorie... sou obrigado a confessar que não conheço os restaurantes desta cidade tão encantadora. Você tem algum de sua preferência?

— Sua técnica de sedução é terrível, Trevor!

— É o que minha esposa sempre diz.

— Você tem um olhar tão mansinho! Deixe-me ver o retrato dela! Não, espere um momento. Vou descobrir um restaurante para nós.

Dirigi-me ao funcionário da estação e perguntei a ele o nome do melhor restaurante da cidade.

— Isto aqui não é Paris, você sabe — disse ele, pensativo.

— Bem, eu já percebi.

— Nem mesmo Nova Orleans. Se eu fosse você, iria ao restaurante do Hotel Hilton.

Agradeci e voltei para junto de Trevor.

— Vamos almoçar no Hilton, dois andares aqui em cima. A não ser que você queira despistar seus espiões. Ande, deixe-me ver o retrato da sua mulher.

Trevor tirou um retrato da carteira e me mostrou. Olhei com muita atenção e dei um assovio, com todo o respeito. As louras sempre me intimidam. Quando eu era pequena, achava que poderia ficar com aquela cor se me esfregasse bastante.

— Com uma coisa dessas em casa, Trevor, como você pode estar pegando mulheres soltas na rua?

— Você está solta?

— Não mude de assunto!

— Você não acreditaria em mim, Marjorie, e daria com a língua nos dentes. Vamos subir logo, antes que os martínis todos sequem.

O almoço estava bom, mas Trevor não possuía a imaginação de Georges nem seu conhecimento culinário e sua habilidade em deixar inibido um maître de restaurante. E sem o encanto de Georges, a comida estava apenas razoável, regular, bem norte-americana, a mesma em Bellingham ou em Vicksburg.

Eu estava muito preocupada; saber que o'cartão de crédito de Janet fora invalidado me deixara quase tão aborrecida quanto a terrível decepção de não encontrar Janet nem Ian em casa. Estaria Janet em apuros? Estaria morta?

Trevor perdera um pouco do encantador entusiasmo que um jogador deve demonstrar quando o jogo está em andamento. Em vez de olhar sensualmente para mim, ele também parecia um pouco preocupado. Por que mudara suas maneiras? Seria por eu ter pedido para ver o retrato da esposa? Eu o teria deixado sem graça? Na minha opinião, um homem não deve se meter numa cantada se não tem liberdade para chegar em casa e comentar sobre os detalhes mais escabrosos com a esposa (ou esposas). Como Ian. Eu não espero que um homem "defenda minha reputação", porque, com toda a experiência e convicção que tenho, sei que isso é algo que eles nunca fazem. Se quero que um homem se abstenha de fazer comentários a respeito de minha calorosa inabilidade na cama, o jeito é não dormir com ele.

Além do mais, Trevor mencionara sua esposa primeiro, não? Deixe-me ver... foi, foi isso mesmo.

Depois do almoço, ele pareceu se animar um pouco. Eu lhe disse para voltar ao hotel depois de resolver seus negócios, porque eu viera até ali como convidada e precisava ter a privacidade e a comodidade de fazer algumas chamadas particulares (verdade), podendo passar ali a noite (verdade, também). Então, ao voltar, que ligasse para mim: eu o encontraria na sala de estar do hotel (um requisito condicional — eu me sentia sozinha e desamparada, e desconfiava que o mandaria subir imediatamente).

— Eu vou ligar primeiro para que você possa dispensar aquele homem, mas subirei em seguida. Não será preciso você subir duas vezes. Mandarei alguém levar o champanha, não o carregarei comigo.

— Espere um pouco — disse eu. — Você ainda não me explicou quais são as suas abomináveis intenções. Eu só me comprometi a escutar o que você tinha a dizer. E na sala do hotel, não no meu quarto.

— Você é uma mulher difícil, Marjorie.

— Não, você é que é um homem difícil. Sei o que estou fazendo. (Um pensamento rápido me afirmou que sim.) Qual é a sua opinião sobre pessoas artificiais? Você se incomodaria se a sua irmã se casasse com uma delas?

— Você conhece alguma que queira se casar? Minha irmã já está ficando pra titia: ela não pode esperar alguém muito especial.

— Não fuja do assunto! Você se casaria com uma pessoa artificial?

— O que iriam pensar os vizinhos? Como você sabe que eu não me casei com uma delas, Marjorie? Você viu o retrato da minha mulher. Os artefatos têm a obrigação de ser as melhores esposas, em todos os sentidos.

— Você quer dizer as melhores amantes. Não é preciso casar com uma delas. Você não é casado com uma pessoa artificial, Trevor. E nada sabe a respeito delas além do que se diz por aí... Do contrário não teria usado a palavra "artefato", quando o assunto é sobre "pessoas artificiais"!

— Eu sou sujo, desprezível e ordinário e empreguei esse termo de uma forma errada só para você não pensar que sou uma PA.

— Oh, quanta tolice! Você não é uma delas, ou eu saberia. Você provavelmente iria para a cama com uma PA, mas não se casaria com ela. Que discussão mais tola! Vamos esquecer isso. Preciso de duas horas. Não fique surpreso se o meu terminal estiver ocupado. Deixe recado e tome um drinque enquanto espera. Descerei assim que puder.

Passei pelo balcão e subi em seguida. Não fui para a suíte nupcial (sem a presença de Georges, essa adorável extravagância me deixaria triste), mas fiquei num quarto muito agradável, com uma enorme cama de casal — um luxo que pedi porque, no fundo, suspeitava de que Trevor subisse. Aquele patife difícil...

Tirei essas coisas da cabeça e comecei a trabalhar.

Chamei o Vicksburg Hilton. Não, o casal Perreault não estava mais lá, nem havia deixado endereço. Sinto muito!

Eu também sentia muito. Aquela voz sintética do computador não era nada consoladora. Chamei a Universidade McGill, em Montreal, e perdi vinte minutos até me informarem que o Dr. Perreault era, de fato, decano naquela universidade, mas no momento se encontrava na Universidade de Manitoba. A única novidade era o fato de esse computador falar francês ou inglês com a mesma desenvoltura e responder sempre no idioma em que lhe eram feitas as perguntas. Muito sabidos, esses computadores eletrônicos. Sabidos demais, na minha opinião.

Tentei o número de Janet (e de Ian) em Winnipeg e fui informada de que o terminal fora desligado a pedido dos assinantes. Perguntei a mim mesma como pudera receber as notícias pelo terminal do Buraco naquela mesma manhã. Será que ele só estava desligado para chamadas de fora? E seria esse mistério um segredo muito bem guardado?

ANZAC Winnipeg me remeteu para diversas partes do computador destinadas ao público em geral e custei muito até falar com uma pessoa de verdade. Fui informada de que o capitão Tormey estava de licença devido ao estado de emergência e ao fato de os vôos para a Nova Zelândia terem sido interrompidos.

O número de Ian, em Auckland, tocou uma música e pediu para deixar o recado em gravação. Para mim não era surpresa, pois Ian não iria para lá até que o serviço semibalístico fosse recomeçado. Só que com isso eu esperava talvez entrar em contato com Betty e/ou Freddie.

Como poderia alguém ir para a Nova Zelândia se os SBs não estavam funcionando? Não se pode montar um cavalo-marinho; eles são muito pequenos. E será que esses enormes cargueiros flutuantes levam passageiros? Acho que eles não têm acomodações para pessoas. E eu já não escutara em algum lugar que certos cargueiros sequer tinham tripulação?

Eu acreditava possuir um conhecimento muito mais abrangente sobre modos de viajar do que os agentes de turismo profissionais. Como mensageira especial, tenho viajado freqüentemente por meios que os turistas e os viajantes comuns desconhecem. Senti-me um pouco envergonhada ao perceber que ainda não pensara numa maneira de levar a melhor sobre o destino quando todos os SBs estão em terra. Mas deve haver um jeito; sempre há um jeito para tudo. Tirei isso da cabeça e decidi que tentaria resolver esse problema mais tarde.

Entrei em contato com a Universidade de Sydney e no início falei com um computador. Quando consegui me comunicar com uma pessoa, fui informada de que o professor Farnese estava de folga. Não, não damos recados quando os assuntos são particulares, sentimos muito. Talvez a telefonista de serviços me possa ajudar.

O computador do sistema de informações de Sydney devia estar se sentindo muito sozinho, pois não queria cortar a ligação comigo. Falou sobre tudo, menos admitir que o nome de Federico ou Elizabeth Farnese estava na lista. Ouvi ao lançamento de vendas da Maior Torre do Mundo (que não é a maior), e do Maior Teatro Lírico do Mundo (que é de fato o maior), portanto venham todos para a Nova Zelândia e... — Desliguei o terminal, contrariada; um computador amistoso e com sotaque pode ser melhor companhia do que a maioria das pessoas, humanas ou do meu tipo.

Tentei então outro contato, aquele que eu esperava não ter que usar: Christchurch. Era vagamente possível o quartel-general do chefe ter deixado algum recado com a minha família anterior, por ocasião de mudança — se é que houvera mesmo uma mudança e não um desastre total. Havia ainda uma possibilidade muito remota de que Ian, impossibilitado de mandar um recado para mim do Império, tivesse enviado alguma mensagem para a minha ex-família, na esperança de que eu a recebesse. Eu me lembro de ter dado a ele meu endereço em Christchurch quando ele me deu o número do seu apartamento em Auckland. Sendo assim, tentei ligar para a minha residência anterior...

...e levei um choque daqueles, como alguém que de súbito sente o chão faltar sob os seus pés: "A linha do terminal discado foi suspensa. Não damos recados. Em caso de emergência, ligue para Christchurch..." — o número a seguir era o do escritório de Brian.

Quando dei por mim, estava fazendo cálculos para me certificar do fuso horário e quase deixei de completar a ligação por um erro meu, até que descobri. Se aqui eram cinco da tarde, na Nova Zelândia seriam dez da manhã — uma hora muito razoável para Brian estar no escritório. Disquei para lá e em poucos segundos o satélite completou a ligação. O rosto de um Brian perplexo surgiu na tela do terminal.

— Marjorie!

— Sim, sou eu mesma. Como vai você?

— O que quer de mim?

— Brian, por favor! Fomos casados durante sete anos. Não poderíamos ter uma conversa amigável?

— Desculpe-me. O que posso fazer por você?

— Eu não queria ligar para o seu trabalho, mas o terminal da casa não estava funcionando. Como você deve ter sabido pelos jornais, Brian, qualquer comunicação com o Império de Chicago foi interrompida pelo estado de sítio. Os assassinatos e aquilo que os noticiários vêm chamando de Quinta-feira Vermelha... por causa disso, vim para a Califórnia e não consegui entrar em contato como meu endereço no Império. Você não poderia me dizer se há alguma correspondência ou algum recado para mim? Veja bem, eu estou ilhada aqui.

— Eu não saberia dizer tal coisa, desculpe-me.

— Você não pode nem me dizer se alguém tentou deixar algum recado? Só em saber que alguém fez essa tentativa já me ajudaria muito em descobrir quem foi.

— Deixe-me ver... há um monte de dinheiro que você sacou... não, você mesma deve ter o recibo de saque.

— Do que você está falando? Que dinheiro?

— O dinheiro que você exigiu que lhe devolvêssemos — para não nos envolver num escândalo. Pouco mais de setenta mil dólares. Marjorie, eu não sei como você tem coragem de mostrar sua cara aqui novamente... O seu péssimo comportamento, suas mentiras e sua ganância insaciável destruíram nossa família.

— Brian, do que você está falando? Eu não menti para ninguém, não me comportei do jeito que você diz e nunca tirei um só centavo da nossa família. "Destruí a família!", que conversa é essa? Eu fui expulsa da família, fui posta na rua, sem a menor explicação, de uma hora para outra. Não fui eu quem destruiu a família! Explique-se!

Brian explicou-se friamente e com riqueza de detalhes. O meu péssimo comportamento estava ligado às mentiras que eu contara, e é claro, ao ridículo fato alegado de eu ser um artefato vivo e não um ser humano, e com isso forçara a família a pedir a anulação do nosso contrato. Tentei lembrar a ele que eu era muito bem-dotada, mas ele nem deu atenção. Quanto ao dinheiro, eu também estava mentindo: ele vira a minha assinatura no recibo.

Não deixei que terminasse de falar e aleguei que qualquer assinatura num recibo como aquele era falsificada, pois eu não recebera um único tostão.

Você está acusando Anita de ter falsificado sua assinatura. Como se atreve a prosseguir com essa mentira?

— Eu não estou acusando Anita de nada. Mas não recebi dinheiro algum da família!

Eu estava acusando Anita e nós dois sabíamos muito bem disso. E talvez estivesse acusando Brian também. Tentei lembrar a ele que Vickie afirmara uma vez que os mamilos de Anita ficavam eretos ante uma gorda conta bancária... e eu a mandara calar a boca e dissera a ela para deixar de ser fingida. Algumas pessoas insinuavam que Anita era frígida e isso é algo que uma pessoa artificial não consegue entender. Pensando melhor, realmente me parece possível que a paixão de Anita fosse pela família, pelo seu sucesso financeiro, seu prestígio e seu poder sobre a comunidade.

Sendo assim, ela devia me odiar. Eu não destruíra a família, mas na minha expulsão detonara um efeito dominó, até a queda final. Logo depois da minha saída, Vickie foi para Nuku'alofa... e contratou um advogado para cuidar de seu divórcio e da liquidação de suas finanças. Douglas e Lispeth, então, deixaram Christchurch. Casaram-se e entraram com um mesmo tipo de ação contra a família.

Minha única consolação: fiquei sabendo por Brian que a votação para a minha saída fora de sete a zero e não de seis a zero. Um sinal de melhora? Sim, claro, Anita decidira que a votação devia ser por partes. Em primeiro lugar votariam os acionistas majoritários, ou seja, ela, Brian e Bertie, somando, então, sete votos contra mim. Ganhara a clara maioria que queria expulsar-me, ao passo que Doug, Vickie e Lispeth se abstiveram de votar.

Uma consolação muito pequena, porém. Eles não haviam enfrentado Anita, nem tentado detê-la. Nem ao menos me haviam avisado do que estava em jogo. Abstiveram-se... e ficaram de fora, permitindo que a sentença fosse executada.

Perguntei a Brian pelas crianças e ele me respondeu que eu não tinha nada com isso. Em seguida, disse que estava muito ocupado no trabalho e precisava desligar. Deti-o para mais uma pergunta: o que fora feito dos gatinhos?

— Como você pode ser tão insensível? — explodiu Brian — Depois de ter-nos causado tanta dor e sofrimento, uma verdadeira tragédia, como pode perguntar algo tão sem importância quanto aqueles gatinhos?

Controlei a minha raiva e disse:

— Eu quero saber dos gatos, Brian!

— Acho que foram mandados para a Sociedade Protetora dos Animais, ou talvez para a escola veterinária. Adeus! Não ligue para mim de novo!

— Para a escola veterinária...

Imagine o Sr. Capacho amarrado numa mesa cirúrgica enquanto um dos estudantes abre seu corpo com uma faca! Eu não sou vegetariana e também não sou contra o uso de animais como cobaias em benefício da ciência e do aprendizado, mas se isso precisa ser assim, meu Deus, se é que existe mesmo um Deus, não permita que isso aconteça com animais que foram educados para pensar que eram gente de verdade!

Na Sociedade Protetora ou na escola veterinária, o Sr. Capacho e os gatinhos pequenos deviam estar mortos a uma hora dessas. Mesmo assim, se os SBs estivessem funcionando, eu me arriscaria a voltar para o Canadá britânico só para pegar o próximo vôo para a Nova Zelândia, numa tentativa desesperada de salvar meu velho amigo. Mas sem esses transportes modernos, Auckland ficava muito mais distante que Luna City. Nem mesmo uma tentativa desesperada...

Mergulhei fundo no controle da minha mente e tirei os problemas que não tinha como resolver da minha cabeça, mas tive a impressão de que o Sr. Capacho parecia roçar em minhas pernas.

 

Uma luz vermelha começou a piscar no terminal. Dei uma olhada no relógio e percebi que as horas que eu pedira haviam passado. Aquela luz vermelha no terminal devia ser Trevor.

Decida-se logo. Que tal lavar o rosto, ir lá embaixo e deixar que ele a convença? Ou talvez fosse melhor mandá-lo subir, levá-lo logo para a cama e começar a chorar no seu ombro? Só um pouquinho. Neste momento, você pode não estar muito excitada, mas... é só afundar o rosto nos ombros macios de um homem e deixar seus sentimentos livres... Logo, logo você vai ficar a fim. E você sabe disso. Para a maioria dos homens, as lágrimas de uma mulher funcionam como um afrodisíaco muito forte e você tem experiência. (Sadismo? Machismo? Quem se importa? Isso funciona!)

Convide-o a subir. Mande trazer uma bebida. Passe até um pouco de batom. Tente parecer mais sexy. Não, aos diabos com o batom! De qualquer modo, ele não ia durar muito tempo. Convide-o para subir e leve-o para a cama. Trate de se alegrar e faça o possível para alegrá-lo também. Mostre tudo o que você tem.

Tratei de arrumar um sorriso e atendi ao terminal.

Dei de cara com uma voz de robô:

— Há uma caixa de flores para você. Mandamos subir?

— Sim, claro. (Não importa o que ou quem as tivesse mandado, uma caixa de flores é melhor do que levar um soco na boca do estômago.)

Pouco depois, o entregador bateu na porta. Corri para abrir e recebi um arranjo floral num recipiente tão grande quanto um caixão de criança. Coloquei-o no chão e abri. Rosas vermelhas de cabos longos! Decidi proporcionar a Trevor uma noite muito melhor do que Cleópatra poderia proporcionar, mesmo em seus melhores dias.

Fiquei admirando as rosas e em seguida abri o envelope que viera com elas. Esperava que tivesse apenas um cartão, com talvez uma única frase, pedindo-me para ligar para a sala do hotel, algo assim:

Mas não. Dentro do envelope havia quase uma carta:

 

Querida Marjorie,

espero que estas rosas sejam tão bem aceitas quanto eu o seria.

("como eu o seria", como assim?)

Devo admitir que fujo de você. Alguma coisa aconteceu e percebi que devia desistir de forçar minha companhia.

Não sou casado. Nem sei quem é aquela mulher do retrato. É apenas uma fachada. Como você mesma disse, as pessoas do meu tipo não foram feitas para o casamento. Sou uma pessoa artificial, minha querida. Minha mãe era uma proveta e meu pai, uma lâmina de vidro. Sendo assim, eu não deveria tomar essas liberdades com uma criatura humana. Eu me passo por humano, é verdade, mas preferi contar a verdade do que continuar enganando-a até você descobrir depois. E você acabaria descobrindo tudo, é claro, mesmo porque sou de um tipo que acabaria contando a verdade, mais cedo ou mais tarde. Por isso achei melhor confessar agora do que fazê-la sofrer depois.

O nome de minha família não é Andrews, evidentemente. Pessoas do meu tipo não têm família.

Não consigo parar de desejar que você também fosse uma PA. Você é tão adorável (e sexy também). A inclinação para dizer bobagens a respeito das coisas, tais como sobre pessoas artificiais, de que você não entende nada, não é, provavelmente, culpa sua. Você me faz lembrar de uma pequena fox terrier que eu tive. Era muito esperta e carinhosa, mas brigava com todo mundo quando decidia que esse seria o seu programa do dia. Devo confessar que sou muito mais apegando a cães e gatos do que a maioria das pessoas; eles nunca têm nada contra mim pelo fato de eu não ser humano.

Espero que goste das flores.

Trevor.

 

Enxuguei os olhos, assoei o nariz e saí correndo para o saguão do hotel. Dei uma olhada no bar e desci até o terminal dos trens. Parei pouco antes dos torniquetes e fiquei a olhar as cápsulas que partiam... e ali fiquei, esperando e esperando um pouco mais, até que um policial começou a olhar para mim. Ele finalmente se aproximou e me perguntou o que eu queria e se poderia me ajudar.

Contei a verdade, ou parte dela, e ele me deixou em paz. Esperei mais e mais, e ele continuou me observando. No final, tornou a se aproximar e disse:

— Escute, se você insistir em ficar aí como uma sentinela, vou ter que ver sua licença e seu certificado médico, e vou ser obrigado a levá-la, se não estiverem em ordem. Eu não gostaria de fazer isso. Tenho uma filha da sua idade e gosto de pensar que outro policial lhe daria uma chance também. De qualquer modo, não acho que você esteja no negócio. Pela sua cara, vê-se logo que não é dura o bastante para esse tipo de serviço.

Pensei em mostrar a ele aquele cartão de crédito maravilhoso. Duvido que exista uma prostituta com um cartão de crédito ouro. Mas aquele bom homem estava mesmo querendo apenas tomar conta de mim, e eu já humilhara pessoas o bastante naquele dia. Agradeci e voltei para o meu quarto.

Os seres humanos são presunçosos pensando que podem distinguir sempre uma PA. Bobagem! Nós nem conseguimos distinguir a nós mesmos! Trevor era o único homem que eu encontrara com que em poderia ter-me casado sem pensar duas vezes — e eu o enxotara!

Mas ele era tão sensível!

Quem é sensível demais? Você, Friday!

Mas, com os diabos!, a maioria dos humanos sempre nos discrimina! Dê vários pontapés num cachorro e ele se torna terrivelmente desconfiado. Olhe só a minha querida família Ennzedd, aqueles traidores. Anita provavelmente se sentiu orgulhosa por ter-me mandado embora — eu não sou humana.

Placar do dia: Humanos 9 X Friday 0.

Onde estará Janet?


 

Depois de tirar um cochilo bem rápido numa sala de leilão público, esperando ser posta à venda, eu acordei porque compradores em potencial insistiam em inspecionar os meus dentes, e terminei por dar uma mordida na mão de um deles e o leiloeiro começou a me fazer provar o gosto do chicote, o que me despertou. O Bellingham Hilton parecia sobremodo interessante.

Então fiz a ligação que deveria ter feito antes. Mas as outras chamadas precisavam ser feitas de qualquer maneira e esta ligação de agora custava muito caro e teria sido desnecessária se a última ligação tivesse sido completada. Além disso, eu não gosto de telefonar para a Lua; a diferença de fuso horário me incomoda.

Por isto chamei Ceres e South African Acceptances, o banqueiro do chefe — ou um deles. Exatamente aquele que cuidava do meu crédito e pagava as minhas contas.

Depois da introdução habitual, com as vozes sintéticas soando mais deliberadamente frustrantes do que nunca à velocidade da luz, alcancei finalmente um ser humano, uma belíssima fêmea que obviamente (assim me pareceu) fora contratada para fazer as vezes de recepcionista "decorativa" — uma sexta parte da gravidade terrestre é bem mais eficiente do que um sutiã. Pedi-lhe que me fizesse falar com um dos funcionários do banco.

— Está falando com um dos vice-presidentes — ela respondeu.

— Você tentou convencer o nosso computador que precisava da ajuda de um funcionário responsável. Um bom truque; aquele computador é um idiota. Em que lhe posso ajudar?

Contei a ela uma parte da minha improvável história.

— Bem, levei algumas semanas para entrar no território'do Império e, quando o fiz, todos os códigos de contato já não eram bons. Teria o banco um outro número de código ou endereço para mim?

— Veremos isso. Qual é o nome da companhia para a qual você trabalha?

— Ela tem vários nomes. Um deles é System Enterprises.

— Qual é o nome do seu empregador?

— Ele não tem nome. É um ancião, severo, de um olho só, um tanto estropiado e caminha bem devagar, utilizando-se de duas bengalas. Isto dá direito a algum prêmio?

— Veremos. Você me disse que nós garantimos seu MasterCard emitido pelo Banco Imperial de Saint Louis. Leia o número do cartão, bem devagar.

Eu assim o fiz.

— Você deseja fotografá-lo?

— Não. Dê-me uma data.

— Dez, sessenta e seis.

— Quatorze, noventa e dois — ela respondeu.

— Quatro mil e quatro a.C. — concordei.

— Dezessete, setenta e seis — ela recolocou.

— Dois mil e doze — respondi.

— Tem um senso de humor cinzento, Sra. Baldwin. Tudo certo, você é você por tentativas. Mas, se não for, faremos uma pequena aposta de que você não viverá muito tempo depois do próximo ponto de conferência. O senhor Duas-Bengalas é tido como não sendo de muita cerimônia com os penetras. Trate de pegar o número de código. Depois leia-o de novo para mim.

Eu o fiz.

Uma hora mais tarde, eu estava caminhando em frente ao palácio da Confederação em San José, uma vez mais dirigindo-me para o edifício da Califórnia Commercial Credit, firmemente disposta a não me meter em nenhuma encrenca ou briga enquanto estivesse nas imediações do palácio, não importa que assassinatos estivessem sendo tramados. Pensei sobre o fato de que me encontrava no mesmo ponto em que estivem, aí, duas semanas atrás? — e, se esse ponto de mudança me mandasse pra Vicksbury, eu enlouqueceria aos poucos.

Meu encontro do edifício CCC não era com o MasterCard, mas com uma firma legal, num outro andar, que eu havia chamado de Bellingham depois de obter o código terminal da firma na Lua. Eu havia apenas alcançado o quarteirão do edifício quando uma voz soou em meus ouvidos:

— Srta. Friday.

Eu olhei em torno, rápido. Uma mulher num uniforme da Yellow Cab. Olhei de novo:

— Goldie!

— Fez sinal ao táxi, senhorita? Ao redor da praça e pela estrada abaixo. Eles não nos deixarão ficar de cócoras aqui.

Cruzamos a praça juntas. Comecei a balbuciar, me expressando de maneira eufórica. Goldie me puxou o cabresto. — Por favor, tente agir como um passageiro de táxi normal, Srta. Friday. O mestre não quer que sejamos notadas.

— E desde quando você me chama de senhorita?

— É melhor. A disciplina está muito apertada agora. Ao escolhê-la eu lhe outorguei uma permissão especial, que jamais seria concedida se eu não tivesse concluído que poderia fazer uma identificação positiva sem recorrer a palavras tolas.

— Bem. Tudo certo. Apenas não me chame de senhorita quando não for o caso. Deus do céu, Goldie querida, estou tão feliz em vê-la que poderia até chorar.

— Eu também. Especialmente porque deram você como morta nesta última segunda-feira.

Eu chorei. E muitas outras mais.

— Morta? Eu? Nem mesmo estive perto de morrer, de modo algum, em lugar nenhum. Não corri o menor perigo. Apenas estava perdida. E agora me encontraram.

— Eu fico feliz.

 

Dez minutos mais tarde fui introduzida no escritório do chefe.

— Friday relatando, senhor — eu disse.

— Você está atrasada.

— Tomei uma rota pitoresca, senhor. Mississípi acima, num bote de excursão.

— Foi o que ouvi. Você parece ser a única sobrevivente. O que eu quis dizer é que você está atrasada hoje. Você cruzou a fronteira para a Califórnia às doze-zero-cinco. Agora são dezessete-vinte-dois.

— Com os infernos, chefe, eu tive problemas.

— Supõem-se que os mensageiros são capazes de superar problemas de qualquer espécie e andar rápido em qualquer circunstância.

— Aos diabos, chefe, eu não estava de serviço, não desempenhava o papel de mensageira, eu continuava de folga. Você não tem nem mesmo o direito de ficar me enchendo a paciência. Se não se tivesse deslocado sem me avisar, eu não teria tido o menor problema. Eu estava, duas semanas atrás, em San José, a apenas um passo daqui.

— Há treze dias.

— Chefe, você está dando voltas à toa só por não querer admitir que o erro foi seu e não meu.

— Muito bem, vou aceitar a culpa, se existe alguma. Cessemos de nos hostilizar, não percamos mais tempo. Fiz um esforço extremo para avisá-la, muito maior do que o alerta de rotina mandado para os campos operativos que não fazem parte do quartel-general. Lamento que esse esforço especial tenha falhado. Friday, o que preciso fazer para convencê-la de que você é única e que o seu valor é inestimável nesta organização? Em antecipação aos eventos rotulados Quinta-feira Vermelha...

— Chefe! Nós estávamos metidos naquilo? — Eu me senti chocada.

— O que leva você a imaginar semelhante tolice? Não. A nossa equipe de inteligência artificial a projetou — em parte a partir de dados que você colheu em L-5 — e começamos a tratar das medidas de precaução com uma boa margem de tempo, ao menos assim me pareceu. Mas os primeiros ataques foram feitos com um certo avanço em relação à nossa previsão mais pessimista. Ao estourar a Quinta-feira Vermelha, ainda estávamos com os nossos movimentos tolhidos; foi necessário forçar passagem através da fronteira. Com truques e não com violência. As notificações de mudança de endereço e de código de chamada haviam sido enviadas pouco antes, mas só fui notificado do seu não-cumprimento do relatório de rotina depois que chegamos aqui e o nosso centro de comunicações restabeleceu a ligação.

— Pela perfeitíssima razão de eu não ter recebido nenhum comunicado de rotina!

— Por favor. Ao saber que você não havia apresentado o seu relatório, procurei contatá-la em sua residência na Nova Zelândia. Você deve saber que houve uma interrupção nos serviços de satélites...

— Eu ouvi falar disso.

— Pois é. A chamada ocorreu cerca de trinta e duas horas depois. Falei com a Sra. Davidson, uma mulher em torno dos quarenta, traços bem nítidos. Esposa sênior no seu grupo S?

— Sim. Anita. É o Grande Executor e o Grande Factótum.

— Foi exatamente a impressão que tive. E tive também a impressão de que você se tornou persona non grata.

— Estou certa de que se trata de bem mais do que uma simples impressão. Vá em frente, chefe; o que é que o velho morcego tinha a dizer a meu respeito?

— Quase nada. Você abandonou a família meio de repente. Não, não deixou endereço para contatos nem código da chamada. Não, ela não aceitaria uma mensagem para você nem reencaminharia alguma que tivesse chegado. Estou muito ocupada. Marjorie nos deixou numa terrível enrascada. Adeus.

— Chefe, ela tem o seu endereço no Império. E também o endereço de Luna City, de Ceres e da África do Sul, porque era por meio deles que efetuava os meus pagamentos.

— Posso imaginar a situação. Meu representante na Nova Zelândia (era a primeira vez que ouvia falar dele) me forneceu o endereço comercial do marido sênior do seu grupo S, Brian Davidson. Ele se mostrou mais polido e, eu diria mesmo mais bem-disposto. Por ele soubemos que nave você havia tomado em Christchurch, e nos levou até a lista de passageiros do semibalístico que você tomou de Auckland para Winnipeg. Nessa altura nós a perdemos por algum tempo, até o momento em que o agente local da nossa companhia garantiu que você havia deixado o porto junto com o capitão Tormey. Ele nos foi de grande ajuda, mas você já havia partido. Fico contente em lhe dizer que pudemos retribuir a gentileza do capitão Tormey. Uma fonte secreta nos informou que ele e sua esposa estavam a ponto de ser engaiolados pela polícia local.

— Com todos os diabos! E por que razão?

— Sob a acusação de que abrigavam um forasteiro inimigo e um tipo não-registrado no Império durante uma emergência declarada. De fato, o escritório de Winnipeg da polícia provincial não estava interessado em você ou no Dr. Perrault; era apenas uma desculpa para meter os Tormeys na história. Eles são procurados por uma acusação bem mais grave, embora não provada. Um certo tenente Melvin Dickey desapareceu. O último traço que deixou foi uma informação dele, ao deixar as dependências do quartel-general da polícia, dizendo que seguia para a casa do capitão Tormey a fim de agarrar o Dr. Perrault. Existe uma suspeita de jogo sujo.

— Mas isso não constitui evidência contra Jan e Ian! Isto é, contra os Tormeys.

— Não, não constitui. Eis por que a polícia provincial' pretende detê-los sob a acusação de um crime menor. E tem mais. O VPA do tenente Dickey explodiu próximo a Fargo, no Império, mas estava vazio. A polícia vai investigar no local do acidente atrás de impressões digitais. E possivelmente o estão fazendo neste exato momento, pois, há cerca de uma hora atrás, um boletim noticioso relatou que a fronteira comum entre o Império de Chicago e o Canadá britânico fora reaberta.

— Oh, meu Deus!

— Veja você. No painel de controle daquele VPA existiam mesmo impressões digitais que não eram do tenente Dickey e se assemelhavam às do capitão Tormey, de acordo com a sua ficha na ANZAC Skyways. Repare que usei o verbo no passado: aquelas impressões existiam, mas não existem mais. Friday, embora eu tenha achado conveniente mudar o nosso campo de operações para fora do Império, depois de muitos anos ainda mantenho contatos por lá. E agentes. E posso cobrar favores do passado. Já não existem mais as impressões digitais que pareciam ser do capitão Tormey no veículo acidentado, agora existem impressões diversas, de muitas fontes diferentes, vivas e mortas.

— Chefe, posso beijar seus pés?

— Segure a língua. Eu não fiz isso só com o intuito de frustrar a polícia britânico-canadense. O meu agente de campo em Winnipeg é um psicólogo clínico, além de, obviamente, ter recebido o nosso treinamento de praxe. Pela competente opinião profissional dele, tanto o capitão Tormey quanto sua esposa poderiam ter matado em legítima defesa da honra ou da integridade pessoal, mas seriam necessárias condições extremas para levar um dos dois a exterminar um policial. O Dr. Perreault é descrito como uma pessoa avessa ao uso de soluções violentas.

— Eu o matei, tenente.

— Foi o que pensei. Nenhuma outra possibilidade casava com os dados que tinha comigo. Você deseja falar sobre o assunto? Ele me diz respeito, de alguma forma?

— Bem... digamos que não. A não ser pelo fato de que você talvez tenha se metido no caso quando resolveu se livrar das malditas impressões digitais. Eu o matei porque ele estava ameaçando Janet, Janet Tormey, com uma arma. Eu poderia simplesmente tê-lo desarmado; tive tempo para pensar. Mas eu quis matá-lo e o fiz.

— Eu ficaria — e ficarei — bastante desapontado se você alguma vez ferisse um policial desarmado. Um policial ferido é bem mais perigoso do que um leão ferido. Eu reconstituí tudo mais ou menos da mesma maneira como você me descreveu, exceto pelo fato de acreditar que estava protegendo o Dr. Perreault... pois você parecia achar que ele daria um substituto aceitável como marido.

— E acho, até agora. Mas foi aquele imbecil ameaçando a vida de Janet com uma pistola que me fez perder a paciência! Chefe, até isso acontecer eu nem mesmo sabia que amava Janet. Não sabia que podia amar uma outra mulher tão intensamente. Você sabe melhor do que eu a maneira como fui projetada, pelo menos assim me sugeriu. As minhas glândulas estão misturadas?

— Conheço um pouco do seu projeto, mas não quero discuti-lo. Você não precisa saber dele. Suas glândulas não estão mais misturadas do que as de qualquer ser humano saudável — especificamente, você não possui um cromossomo Y redundante. Todos os seres humanos normais possuem glândulas mistas. A raça se divide em duas partes: aqueles que sabem disto e aqueles que não o sabem. Pare com essa conversa chata. Não fica bem para um gênio.

— Oh, então agora eu virei um gênio. Caramba, Chefe.

— Não banque a engraçadinha. Você é um supergênio, mas está muito longe de concretizar o seu potencial. Os gênios e os supergênios sempre criam as próprias regras, no sexo e em tudo mais; eles não aceitam os costumes simiescos dos seus inferiores. Vamos retornar ao que importa. Seria possível que encontrassem o corpo do tenente?

— Eu apostaria fábulas que não.

— Alguma objeção em falar a respeito do assunto comigo?

— De fato, eu não acho que deva.

— Então, não tenho a menor razão para saber e vou sustentar que os Tormeys poderão seguramente retornar a sua casa logo que a polícia concluir que não tem um corpus delicti. Embora a determinação de um corpus delicti não requeira um cadáver, é sobremaneira difícil estabelecer a acusação de assassinato sem que haja uma vítima. Se fossem presos, um bom advogado os poderia soltar em cinco minutos — e eles teriam um excelente advogado, eu lhe posso assegurar. Você deve se sentir contente em saber que os ajudou a fugir do país.

— Eu fiz isso?

— Você e o Dr. Perreault. Ao deixarem o Canadá britânico como capitão e Sra. Tormey, ao se utilizarem dos seus cartões de crédito, ao preencherem pedidos de cartões com vistos para turistas em nome deles. Vocês dois deixaram uma trilha evidenciando que os Tormeys fugiram do país imediatamente após o desaparecimento do tenente Dickey. Isso funcionou tão bem que a polícia desperdiçou muitos dias buscando localizar os suspeitos na Confederação da Califórnia — e atribuindo a culpa da sua falta de sucesso à ineficiência dos seus colegas na Confederação. Mas de qualquer maneira eu fico surpreso pelo fato de que os Tormeys não tenham sido presos em sua própria casa, uma vez que o meu agente não teve a menor dificuldade de interceptá-los lá.

(Eu não estou. Se um tira aparecer — zip! pra dentro do Buraco. Se não se tratar de um tira e ele trouxer prazer a Ian, então tudo bem.)

— Chefe, teria o seu agente de Winnipeg mencionado o meu nome? O nome "Marjorie Baldwin", quero dizer.

— Sim. Sem aquele nome e uma foto sua, a Sra. Tormey jamais o deixaria entrar. E sem os Tormeys teriam faltado os dados necessários para que eu farejasse a sua um tanto duvidosa pista. Beneficiamos um ao outro. Eles a ajudaram a escapar; e nós os ajudamos a escapar depois que eu lhes revelei — depois que o meu agente lhes revelou — que eles estavam sendo ativamente procurados. Um final agradável.

— Como foi que você conseguiu tirá-los da toca?

— Friday, você deseja mesmo saber?

— Hum... não. (Quando irei aprender? Se o Chefe quisesse divulgar seus métodos, ele teria me avisado. "Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém". Não no caso do Chefe.)

O Chefe saiu de trás da sua mesa... e fiquei chocada. Normalmente, ele não se movimentava muito pelas vizinhanças e no antigo escritório o seu ubíquo serviço de chá ficava estrategicamente situado sobre a mesa, bem ao alcance de suas mãos. Agora ele saía dali. Nada de bengalas. Uma cadeira de rodas movida a energia. Dirigiu-se para uma mesa auxiliar e começou a brincar com o aparelho de chá. Eu me levantei.

— Posso servi-lo?

— Obrigado, Friday. Sim.

Ele se movimentou, voltou ao seu lugar atrás da mesa. Eu me virei, ficando de costas para ele — era o que eu precisava fazer naquela hora.

Ninguém deve se surpreender quando um aleijado decide substituir um par de bengalas por uma cadeira de rodas movida a energia — era uma questão de eficiência. Só que neste caso se tratava do Chefe. Se os egípcios de Gisé se levantassem pela manhã e topassem com as pirâmides viradas de cabeça para baixo e a esfinge com um nariz postiço, não ficariam mais chocados do que eu fiquei naquele momento. Algumas coisas — e algumas pessoas — não têm o direito de mudar.

Depois de lhe servir o chá — com leite morno e dois biscoitos — e encher a minha xícara, voltei ao meu lugar, a compostura restabelecida. O Chefe se utilizava da mais recente inovação tecnológica ao lado de certos hábitos muito antigos; eu nunca soube de o Chefe ter pedido a uma mulher o que quer que fosse, mas, se houvesse uma presente e se oferecesse para servir-lhe chá, sem dúvida ele aceitaria cortesmente e transformaria o acontecimento numa pequena cerimônia.

Ele tagarelou um pouco sobre outros assuntos enquanto cuidávamos de terminar a primeira xícara. Enchi a xícara dele de novo, mas me abstive de tomar outra. Ele resumia a situação.

— Friday, você trocou de nomes e de cartões de crédito tantas vezes, que nos encontrávamos sempre um passo atrás. Não poderíamos localizá-la em Vicksburg se o seu progresso não nos sugerisse algo a respeito do seu plano. Não interferir na ação da agente, não importa o quão próximo ele esteja sendo observado, é uma das orientações que sempre procuro seguir, mas ainda assim eu poderia ter decidido proibi-la de subir o rio — sabendo que aquela expedição estava condenada...

— Chefe, o que pretendia aquela expedição? Jamais acreditei na história que me contaram.

— Um coup d'état. Bem tosco. O Império teve três líderes em apenas duas semanas... e o atual não é melhor nem mais passível de sobreviver. Friday, numa tirania bem administrada é uma base melhor para o meu trabalho do que qualquer forma de governo livre. Mas uma tirania bem conduzida é quase tão rara quanto uma democracia eficiente. Para resumir, você nos deixou para trás em Vicksburg porque se moveu sem hesitações. Você estava a bordo daquela nave de ópera-bufa e sumiu de circulação antes que o nosso agente de Vicksburg tivesse percebido um sinal seu. Eu estava irritado com ele. E tanto, que até agora ainda não lhe chamei a atenção. Devo esperar.

— Não existe a menor razão para bronquear, Chefe. Eu é que me movi depressa demais. A menos que ele pudesse sentir o meu cheiro — o que sou capaz de perceber e me livrar — ele não poderia ter me acompanhado.

— Sim, sim, eu conheço as suas técnicas. Mas você deve concordar que eu tinha razão para ficar chateado quando lhe relataram que o nosso homem em Vicksburg estava no seu encalço... e vinte e quatro horas depois ele a dava como morta.

— Talvez sim, talvez não. Um homem colou nos meus calcanhares quando eu estava chegando em Nairóbi no princípio deste ano — cheirou bem o odor do meu pescoço e esta foi a sua última cheirada. Se eu for rastreada de novo, é melhor avisar disso os seus agentes.

— Eu normalmente não mando rastrear você, Friday. No seu caso, conferências em determinados locais funcionam melhor. Felizmente para todos, você não estava morta. Embora os terminais dos meus agentes em Saint Louis fossem cortados pelo governo, eu ainda tirava proveito deles. Quando alguém tentou inutilmente apresentar seu relatório três vezes sem ser apanhado, desconfiei logo que só podia ser você, e confirmei minha suposição quando você chegou a Fargo.

— Quem, em Fargo? O artista do papel? O Chefe fingiu não ter ouvido.

— Friday, devo voltar ao trabalho. Trate de terminar o seu relatório. Seja breve.

— Sim, senhor. Deixei aquele bote de excursão quando entramos no Império, segui para Saint Louis, encontrei os seus números de código vigiados; parti, passei por Fargo, como você percebeu, penetrei no Canadá britânico a cerca de vinte e seis cliques a leste de Pembina, cruzei para Vancouver e desci até Bellingham, e aqui estou, hoje, fazendo o meu relatório para você.

— Algum problema?

— Não, senhor.

— Alguns aspectos mais recentes de interesse profissional?

— Não, senhor.

— Para sua conveniência, grave uma fita bem detalhada para análise posterior. Sinta-se livre para suprimir fatos que não lhe digam respeito ou que não sejam importantes. Eu a mandarei apanhar nas próximas duas ou três semanas. Você começa na escola amanhã pela manhã.

— Hem?

— Não resmungue; não fica bonito numa mulher jovem. Friday, seu trabalho tem sido satisfatório, mas já é tempo de você começar na verdadeira profissão. A sua verdadeira profissão neste momento, talvez eu deva precisar. Você é terrivelmente ignorante. Vamos mudar isso. Nove horas de amanhã.

— Sim, senhor. (Ignorante, eu? Arrogante velho bastardo, Deus do céu, eu estava feliz em tê-lo encontrado. Só que aquela cadeira de rodas me inquietou.)


 

Pajaro Sands era um hotel à beira-mar, numa estação de veraneio. Ficava num lugar perdido da baía de Monterey, na orla de uma cidade perdida de nome Watsonville, onde se localiza um dos maiores portos de exportação de petróleo do mundo. A cidade não tinha absolutamente nada de especial, e, se alguém quisesse um pouco de divertimento, teria que viajar cinqüenta quilômetros, até Carmel, onde ficavam os cassinos e os inferninhos. Só que eu não jogava e não estava interessada em alugar sexo, nem mesmo com todo o exotismo oferecido na Califórnia. Poucas pessoas do quartel-general do chefe freqüentavam os cassinos e bares de Carmel. Além de ser muito longe para ir a cavalo, exceto se fosse num fim de semana, não havia trem direto, e, embora as leis da Califórnia fossem muito liberais no que tocava à autorização de veículos motorizados, o chefe não liberava seus VPAs a não ser para uso em serviço.

Para nós, o maior divertimento em Pajaro Sands eram os atrativos naturais que haviam levado à construção do hotel: a praia, o sol, o surfe.

Eu adorava pegar onda até que finalmente aprendi; depois acabei enjoando. Geralmente eu tomava um pouco de sol e nadava todos os dias. Ficava observando os navios enormes chupando petróleo e acabei reparando, muito entretida, que o vigia a bordo de cada navio ficava nos olhando com o binóculo.

Não tínhamos o menor motivo para nos aborrecer, pois todos os serviços estavam incluídos em nossos terminais individuais. As pessoas acostumaram-se de tal forma ao uso dos computadores que, na maioria das vezes, acabam se esquecendo de que um computador pode ser uma janela para o mundo — e entre essas pessoas incluo a mim mesma. Fica-se acostumado a usar o terminal para serviços, como pagar contas, fazer ligações telefônicas e ouvir o noticiário, que se acaba não utilizando os recursos mais preciosos que um computador pode oferecer. Se o assinante paga pelos serviços de aparelho, ele devia saber que pode obter quase tudo diante de um terminal.

Música? Era só digitar umas teclas e eu podia ouvir um concerto ao vivo que ocorria em Berkeley nessa mesma noite, ou então um concerto que se realizara em Londres dez anos atrás, sendo o maestro já morto. E este último seria tão "ao vivo", tão imediato, quanto aquele de Berkeley ocorrendo hoje. A eletrônica está aí para isso. Assim que qualquer informação cai em suas redes, o tempo pára. O mais importante é nos lembrarmos sempre que o imenso patrimônio do passado está à nossa disposição a qualquer hora que quisermos convocá-lo.

O chefe me mandou estudar num terminal de computador e eu tive uma oportunidade muito mais valiosa do que qualquer estudante de Oxford, Sorbonne ou Heidelberg poderia ter tido.

A princípio, não me pareceu estar numa escola. Na manhã do primeiro dia, mandaram que eu me apresentasse ao chefe da biblioteca, Prof. Perry, um senhor muito querido e de ar paternal que eu já conhecia da época em que fizera meu treinamento básico. Achei-o muito acabado, mas isso era fácil de compreender, já que a biblioteca do chefe era provavelmente a coisa mais volumosa e complexa embarcada do Império para Pajaro Sands. Sem a menor dúvida, o Prof. Perry teve pela frente várias semanas de trabalho até todos os volumes estarem em ordem — e nesse meio-tempo o chefe esperava, certamente, que tudo ficasse organizado de uma maneira absolutamente perfeita. O trabalho era ainda mais difícil devido à excentricidade do chefe ao insistir em guardar livros em vez de optar por fitas cassete e discos de microfilmagem.

Quando me apresentei, o Prof. Perry pareceu ficar um pouco incomodado. Apontou-me um terminal a um canto e me disse:

— Sente-se ali, Srta. Friday.

— E depois, o que é que eu faço?

— Hum... veremos. Sem dúvida, eles nos dirão o que fazer. Hum... eu estou tremendamente ocupado agora e estou com pouca gente para me ajudar. Por que não se familiariza com o equipamento começando a estudar qualquer coisa em que esteja interessada?

Não havia nada de especial no equipamento, a não ser o fato de possuir algumas teclas extras que me permitiam acesso direto às maiores bibliotecas, tais como a de Harvard, a Biblioteca Washington da Atlantic Union e a do Museu Britânico, ter que entrar em contato com pessoas humanas ou outras linhas de computador. Além disso, dispunha dos recursos incomparáveis de acesso direto à biblioteca do chefe, ali a meu lado. Se quisesse, podia ler qualquer um dos seus livros encadernados, ali mesmo, no terminal. Podia virar as páginas apertando algumas teclas sem o livro sequer sair do seu invólucro de nitrogênio.

Naquela manhã, eu passava os olhos no índice de títulos da biblioteca da Universidade de Tulane (uma das melhores da República de Luna Star) à procura de dados históricos de Old Vicksburg, quando deparei com uma referência sobre tipos espectrais de estrelas. Fiquei totalmente absorvida. Não consigo me lembrar a razão para me referir a este tipo de assunto, mas essas coisas sempre acontecem pelas razões mais improváveis. Eu ainda estava lendo a respeito da evolução no formato das estrelas quando o Prof. Perry sugeriu que fôssemos almoçar. Antes de sair, entretanto, anotei certos pontos de matemática que eu gostaria de estudar mais tarde. A astrofísica é algo fascinante, mas você precisa primeiro entender bem a sua linguagem.

Voltei à pesquisa sobre Old Vicksburg naquela mesma tarde, e uma nota de pé de página me remeteu para Show Boat, um musical que fora encenado naquela época. Passei o resto da tarde vendo e ouvindo os musicais da Broadway daqueles dias felizes, antes que a Federação Norte-americana desmoronasse. Por que não fazem mais músicas desse tipo? Aquelas pessoas, sim, sabiam se divertir! E eu certamente me diverti muito ouvindo Show Boat, The Student Prince e My Fair Lady uma vez atrás da outra. Anotei o nome de mais uma dúzia deles para ouvir mais tarde. (Isto é estar numa escola?)

No dia seguinte resolvi me dedicar a um estudo profissional mais sério nas matérias em que eu era mais fraca, pois tinha certeza de que, tão logo meus tutores (quem quer que eles fossem!) determinassem o curso dos meus estudos, eu não teria tempo de fazer minhas escolhas — meu treinamento anterior na turma do chefe ensinara-me que, para tais estudos, o dia deve ter vinte e seis horas. Mas, no café da manhã, minha amiga Anna me perguntou:

— Friday, o que você acha da influência de Luís XI na poesia lírica francesa?

— O que vou ganhar se responder? — perguntei, piscando o olho — Luís XI me parece mais o nome de uma marca de queijo. O único nome em francês que consigo me lembrar é "Mademoiselle de Armentières". Será que isso serve?...

— O Prof. Perry foi quem me mandou perguntar a você.

— Ele estava brincando.

Quando cheguei à biblioteca, Papa Perry levantou os olhos da sua mesa e eu lhe perguntei:

— Bom-dia. Anna disse que o senhor a mandou consultar-me sobre a influência de Luís XI na poesia francesa?

— É verdade. E, agora, você pode me deixar sozinho? Estou com um programa muito complicado.

E abaixou os olhos e continuou a trabalhar, ignorando-me.

Fiquei frustrada e nervosa. Fui até o terminal e levantei todos os dados a respeito de Luís XI. Duas horas depois, saí para tomar um pouco de ar. Eu não aprendera muita coisa sobre poesia — até onde eu podia dizer, o rei nunca rimara ton con com c'est bon tampouco fora um defensor das artes — mas aprendera bastante sobre a violenta política do século XV. Fazia com que as enrascadas em que eu me metera parecessem brincadeiras de jardim de infância.

O resto do dia, reuni tudo o que podia sobre a poesia francesa, a partir de 1450. Boa em certos períodos. A língua francesa combina muito com a poesia lírica, muito mais do que a inglesa — Edgar Allan Poe sofrerá muito para arrancar belas passagens das dissonâncias do inglês. O alemão também não combina com o lirismo. As traduções, por essa razão, são muito mais agradáveis aos ouvidos do que os originais alemães. Mas Goethe não tem culpa, muito menos Heine. É o mal de uma língua tão feia. O espanhol, por sua vez, é tão musical que um comercial de sabão em pó, nesse idioma, soa mais perfeito do que o melhor verso livre em inglês. A língua espanhola é tão bonita que a maior parte da sua poesia parece melhor ainda se o ouvinte não entende o significado do texto.

Nunca fiquei sabendo, entretanto, qual a influência de Luís XI na poesia francesa, se é que houve alguma.

Certa manhã, encontrei "meu" terminal ocupado. Olhei interrogativamente para o chefe da biblioteca, mas ele parecia muito atarefado.

— É verdade, estamos com muita gente por aqui hoje. Hum... Srta. Friday, por que não usa o terminal do seu quarto? Ele tem todas essas teclas extras e, se precisar de mim, poderá contatar-me mais rapidamente do que se estivesse aqui. Digite o número sete e o código da sua assinatura, e mandarei o computador atendê-la imediatamente, combinado?

— Está bem — assenti.

Eu gostava muito da agradável companhia das pessoas que freqüentavam a sala de estudos da biblioteca, mas no meu quarto eu podia estudar despida e sem aquela sensação de estar incomodando Papa Perry.

— O que devo estudar hoje?

— Por Deus! Não há nenhum assunto por que você se interesse e que mereça uma leitura profunda? Eu não gosto de ser incomodado.

Fui para o meu quarto e continuei a estudar a história da França, desde o tempo de Luís XI até o aparecimento das novas colônias no outro lado do Atlântico: daí fui levada a estudar economia, fui parar em Adam Smith, e então nas ciências políticas. Cheguei à conclusão de que Aristóteles merecia certa fama, mas que Platão era um impostor arrogante. Fiquei tão absorvida nos meus estudos que me chamaram três vezes para almoçar, sendo que a última chamada era um aviso de que eu receberia apenas um prato frio e uma ameaça exagerada de Goldie, avisando que vinha me buscar pelos cabelos.

Corri para o salão, descalça e abotoando a roupa. Anna quis saber o que eu estava fazendo de tão importante a ponto de ter esquecido a hora de comer.

— Isso é muito anormal em você!

Anna, Goldie e eu geralmente fazíamos as refeições juntas, tivéssemos ou não companhia masculina. Os internos do quartel-general eram como membros de um clube, uma fraternidade, uma família muito ruidosa, e muitos deles eram meus amigos.

— Eu estava aperfeiçoando minha mente — afirmei. — Vocês estão frente a frente com a maior autoridade da Terra.

— Autoridade em quê? — perguntou Goldie.

— Em qualquer coisa. É só me fazer as perguntas. As fáceis eu respondo na hora; as mais difíceis, responderei amanhã.

— Vamos ver — disse Anna. — Quantos anjos cabem sentados na ponta de uma agulha?

— Essa é fácil. Primeiro você mede o traseiro dos anjos. Depois mede a ponta da agulha. Divida 13 por A. A resposta numérica fica para você como exercício de casa.

— Espertinha!... Que som faz a mão batendo?

— Mais fácil ainda. Use qualquer terminal, ligue o gravador e bata com uma das mãos. Depois é só ouvir o resultado.

— Você tentou, Goldie. Mas ela está afiada.

— Qual é a população de San José?

— Ah, essa é muito difícil! Eu respondo amanhã.

 

Isso continuou por mais de um mês até que me conscientizei de que alguém (O Chefe, é claro) estava tentando fazer com que eu me tornasse "a maior autoridade do mundo".

De fato, já houve um homem, conhecido como a "maior autoridade do mundo". Certa vez encontrei referências a ele, quando tentava desvendar outra das tolas questões que chegavam até mim, das maneiras mais esquisitas. Como esta: Ajuste seu terminal para "Pesquisa". Digite parâmetros em série: "Cultura norte-americana", "Inglês falado", "meados do século XX", "comediantes", "a maior autoridade do mundo". A resposta que você procura é "professor Irwin Corey". Você vai descobrir o seu eterno e habitual bom humor.

Enquanto isso, alimentavam-me como um touro.

Bem, foram dias muito felizes. Vez por outra, um dos meus amigos mais chegados me levava para a cama. Não me lembro de jamais ter recusado. Esses encontros eram combinados durante a tarde, em dias brilhantes, e a paisagem aumentava ainda mais o prazer sensual de nos banharmos ao sol. Todos no quartel-general eram tão educados, tão doces, que não havia problemas se respondêssemos: "Sinto muito, mas Terence me convidou primeiro. Amanhã, quem sabe? Não? Então tudo bem, qualquer outra dia." E ninguém ficava magoado com ninguém. Um dos poucos defeitos desse meu grupo é que os encontros eram negociados entre os homens, segundo regras que nunca me foram explicadas, mas que não eram isentas de tensão.

As perguntas tolas começaram a se tornar mais e mais freqüentes. Eu acabara de encontrar explicações detalhadas sobre a cerâmica Ming, quando uma mensagem apareceu no meu terminal. Alguém do nosso grupo queria saber qual era a relação entre a barba dos homens, a saia das mulheres e o preço do ouro. Eu deixara de me admirar ante essas questões bobas. Perto do chefe, tudo podia acontecer. Mas a pergunta de agora era o fim. Por que deveria haver qualquer relação? Eu não me interessava pelas barbas dos homens; elas me fazem cócegas e são freqüentemente sujas. Quanto às saias, sabia menos ainda. Quase nunca usara saias na minha vida. Elas podem ser bonitas, mas não são práticas para viagens e eu poderia ter sido morta umas três ou quatro vezes se estivesse usando saias — e, quando em casa, o que há de errado em ficar nua? Pelo menos o quanto os costumes locais nos permitam ficar.

Mas eu aprendera a não ignorar questões apenas porque elas me pareciam tolas; encarei essa pergunta começando por levantar todos os dados possíveis, digitando, até mesmo, as correntes de associação mais improváveis. Em seguida, instruí o computador a tabular as informações em categorias diferentes.

Duvido não encontrar uma resposta!

Como as informações se fossem acumulando mais e mais, percebi que a única maneira de avaliar todas elas seria ordenar ao computador que as dispusesse num gráfico de três dimensões — e o resultado foi tão promissor, que mandei, em seguida, que o gráfico fosse convertido para cores holográficas. Ficou lindo! Eu ainda não sabia como aquelas três variáveis se relacionariam, mas não tinha mais dúvidas de que havia uma solução. Passei o resto do dia mudando aqueles padrões — X versas Y versus Z, nas mais variadas combinações —, aumentei, diminuí, alternei, procurei entre insignificantes relações ciclóides as mais evidentes e óbvias... e acabei percebendo uma ligeira sinusoidal dupla que se destacava quando eu girava o holograma — e de repente não sei por que decidi subtrair aquela curva dupla.

Eureca! Tão preciso e necessário quanto um vaso Ming! Antes da hora do jantar, eu já tinha a equação: uma única linha que abrangia todas aquelas informações tolas que eu pássara cinco dias a juntar no terminal do computador. Chamei o código do chefe do meu grupo e coloquei a equação de uma só linha no terminal, além de uma definição das variáveis. Não fiz qualquer outro comentário, nenhuma argumentação. Queria obrigar o secreto gozador a me fazer perguntas.

Recebi de volta a mesma resposta — isto é, nenhuma.

Perdi mais de um dia esperando e garantindo a mim mesma que eu seria capaz de, ao olhar para o retrato de um grupo de pessoas de qualquer ano, dar palpites precisos sobre o preço do ouro (se estava em alta ou em baixa), dizer a época em que o retrato fora tirado (baseando-se na curva dupla) e — mais incrível ainda — afirmar se o regime político da época estava em decadência ou se fortalecendo.

Meu terminal soou. Ninguém apareceu, ninguém me deu parabéns. Apenas uma mensagem: "Nosso setor de Operações solicita com rapidez uma profunda análise sobre a possibilidade de ter havido uma epidemia de peste nos séculos VI, XIV e XVII resultante de uma conspiração política.

Droga! Eu caíra numa instituição muito divertida e me encontrava aprisionada pelos internos!

Muito bem! A questão era tão complicada que eu teria de ficar sozinha por um longo tempo para poder estudá-la. Isso me agradou muito. Eu estava completamente viciada por possibilidades abertas pelo terminal de um computador dos grandes ligado a uma rede de informação em todo o mundo! Sentia-me como Little Jack Hormer.

Comecei listando todos os assuntos possíveis através da livre associação: pragas, epidemiologia, pulgas, ratos, Daniel Defoe, Isaac Newton, conspirações, Guy Fawkes, franco-maçonaria, os Iluminados, OTO, Rosacrucianismo, Kennedy, Oswald, John Wilkes Booth, Pearl Harbor, Green Bowlers, gripe espanhola, controle da peste etc...

Em três dias, minha lista de possíveis assuntos relacionados estava dez vezes maior.

Depois de uma semana, percebi que levaria a vida inteira para estudar profundamente todos os itens listados. Mas eu fora convocada para estudar o assunto, portanto tinha que começar — só que eu mesma decidiria quanto à "rapidez" pedida na mensagem. Ou seja, estudaria o assunto cuidadosamente, pelo menos cinqüenta horas por semana, mas quando e como quisesse, sem ter que dar uma corrida final... a não ser que aparecesse alguém para me convencer de que eu devia estudar mais ou de uma maneira diferente.

E assim se passaram semanas.

Certa noite, fui acordada no meio da madrugada pelo alarme estridente do meu terminal. Eu o havia desligado, como sempre faço quando vou para a cama sozinha (não me lembro por quê).

— Já vou! Já Vou! — Disse eu, sonolenta. — Explique-se logo, e espero que seja mesmo importante.

Não apareceu nada na tela, mas ouvi a voz do Chefe.

— Friday, quando vai acontecer a próxima grande epidemia de peste negra?

— Daqui a três anos. Em abril. Começará em Bombaim e se espalhará imediatamente pelo mundo. E se estenderá para fora do planeta via meios de transporte.

— Muito obrigado e boa-noite.

Descansei a cabeça no travesseiro e dormi novamente.

Na manhã seguinte, acordei às sete horas, como sempre, e fiquei parada alguns instantes, muito pensativa, enquanto sentia mais e mais frio. Sim, eu realmente falara com o Chefe durante a noite e lhe dera aquela resposta absurda.

Agüente o galho, Friday, e suba os Treze Degraus. Liguei para o número um:

— Chefe, aqui é a Friday. É sobre o que eu lhe disse esta noite. Venho alegar insanidade mental temporária.

— Que tolice! Quero vê-la às dez e quinze.

Tive ímpetos de passar as três próximas horas na posição de lótus, entoando orações, mas tenho uma convicção muito forte de que uma pessoa não deve assistir nem mesmo ao fim do mundo sem um quebra-jejum apropriado... e tomei uma decisão acertada, pois o café da manhã daquele dia era especial. Tivemos figos com creme, picadinho de carne com ovos pochê, bolinhos de milho e geléia de laranja da Knott’s Berry Farm. Leite fresco e café colombiano. Aquilo me deu tanto ânimo, que passei quase uma hora tentando encontrar uma relação matemática entre o passado histórico da peste negra e a data que surgira na minha cabeça sonolenta. Não consegui encontrar nenhuma relação, mas já começava a ver uma curva no terminal, quando este me deu o aviso que eu pedira para quando faltassem três minutos para me encontrar com o Chefe.

Eu não cortara o cabelo nem lavara o pescoço, mas de certo modo estava pronta. Entrei no seu escritório na hora exata.

— Friday se apresentando, senhor.

— Sente-se. Por que Bombaim? Eu consideraria Calcutá um centro muito mais provável.

— Isso deve ter alguma coisa relacionada com a previsão do tempo a longo prazo e com as monções. As pulgas não conseguem suportar uma temperatura quente e seca. Oitenta por cento da massa do corpo de uma pulga é constituído de água, e, se essa porcentagem cai para sessenta, a pulga não resiste e morre. Sendo assim, um clima quente e seco seria capaz de segurar ou mesmo impedir uma epidemia. Mas, Chefe, tudo isso é um disparate. Você me chamou no meio da noite, fez-me uma pergunta tola e eu lhe dei uma resposta tola, sem ao menos acordar direito. Vai ver que tirei essa resposta de um sonho. Tenho tido pesadelos com a peste negra e realmente ouve uma grande epidemia que começou em Bombaim, em 1896.

— Mas essa não foi tão grave quanto a de Hong Kong, três anos mais tarde. A sessão de análises do nosso setor de Operações afirma que a próxima epidemia de peste negra não acontecerá até um ano depois do prazo previsto por você, Friday. E não em Bombaim, mas em Djakarta e na cidade de Ho Chi Minh.

— Isso é um absurdo — gritei, logo a seguir me calando. — Desculpe-me, senhor. Pensei ter voltado àquele pesadelo. Chefe, eu não poderia estudar alguma coisa mais agradável do que pulgas, ratos e a peste negra? Isso está acabando com o meu sono.

— Está bem. Você não precisa mais estudar sobre a peste...

— Oba!

— ... não ser que sua curiosidade intelectual a obrigue a estudar algum ponto que não se tenha esclarecido. A questão agora fica por conta do setor de Operações e de como agirá. Mas Operações vai se basear na sua previsão e não na dos analistas matemáticos.

— Preciso dizer a você outra vez: a minha previsão é um disparate.

— Seu maior defeito, Friday, é ignorar a sua verdadeira força. Não ficaríamos parecendo tolos se permanecêssemos na dependência dos analistas matemáticos e o surto de peste começasse um ano mais cedo, como foi previsto por você? Seria uma catástrofe. Afinal, não custa nada tomarmos medidas profiláticas um ano antes...

— Vamos tentar impedir o surto da peste? (As pessoas vêm tentando acabar com as pulgas e os ratos há séculos! Por enquanto, os ratos e as pulgas continuam à nossa frente.)

— É claro que não! Em segundo lugar, uma proposta dessas seria grande demais para nossa organização. Mas em primeiro lugar, nunca aceito contratos que não possa cumprir, e esse seria um deles. Em terceiro lugar, de um ponto de vista puramente humanitário, qualquer tentativa de acabar com os processos pelos quais uma cidade superpopulosa consegue se depurar não seria um favor de nossa parte. A peste traz uma morte horrível, mas rápida. A morte por inanição também é horrível... mas as pessoas vão morrendo aos poucos.

O Chefe fez uma careta e prosseguiu:

— Esta organização se limitará a impedir que a Pasteurellapestis saia deste planeta. Como faremos tal coisa? Responda imediatamente.

(Que absurdo! Qualquer Ministério da Saúde, frente a frente com um problema desses, nomearia um grupo especial de estudos, angariaria fundos para pesquisas e estabeleceria um prazo — cinco anos ou mais — para uma investigação científica do problema.)

Respondi de pronto:

— Eu as explodiria.

— O quê? As colônias espaciais? Seria uma solução muito drástica.

— Não, falo das pulgas. Na época das guerras mundiais do século XX, alguém descobriu que se podia matar pulgas e piolhos expondo-os a uma altitude muito elevada: eles explodem, se não me engano, numa altura de cinco quilômetros, mas podemos fazer testes e checar a altura correta. Eu pensei nisso porque percebi que a estação do Cabo Espacial, no monte Quênia, fica acima dessa altitude crítica e quase todo o tráfego hoje em dia vai além do Cabo Espacial. E aí entra aquele método simples sobre o calor e a falta de umidade — ele demora, mas funciona. Contudo, a chave para isso dar certo, chefe, é não permitir exceções. Basta um único caso de imunidade diplomática ou um VIP que não se submeta às rotinas e pronto... Um único cãozinho de estimação. Um rato. Um carregamento de ratos de laboratório. Se eles pegarem pneumonia, L-5 será uma cidade fantasma ao cabo de uma semana. Ou mesmo Luna City.

— Se eu não tivesse outros planos para você eu a mandaria chefiar essa missão. E quanto aos ratos?

— Não quero esse serviço, estou enjoada do assunto. Não existe o menor problema para matar um rato, Chefe. Empurre-o dentro de um saco, dê uma martelada, um tiro. Jogue o saco dentro d'água, afogue o bicho e, em seguida ponha fogo no saco com o rato morto dentro. Enquanto você estiver fazendo isso, outra fêmea colocará no mundo uma dúzia de ratinhos para tomar o lugar daquele que você matou. Tudo o que fizemos contra os ratos, até agora, sempre acabou em empate. Nunca conseguimos ganhar deles. Se nos distrairmos um só instante, os ratos tomam a nossa frente. Acho que eles são a segunda raça — finalizei amarga.

Essa conversa sobre a peste acabara me deprimindo.

— Explique-se.

— Se o Homo sapiens não o fizer — ele vive tentando acabar consigo mesmo —, os ratos estão prontos para isso...

— Que bobagem. É um disparate. Você dá muita atenção à tendência do homem para a morte, Friday. Há muitos e muitos anos temos os meios para cometer um suicídio racial e não o fizemos, embora tais meios já tenham passado por inúmeras mãos. Em segundo lugar, os ratos teriam que desenvolver enormemente o seu cérebro, teriam que crescer para sustentá-lo, aprender a andar em duas pernas, fazer com que suas patas dianteiras mudassem a ponto de se tornarem hábeis para manipular objetos — e desenvolver mais córtex para controlar isso tudo. Para tomar o lugar do homem, seria necessário que uma outra raça se tornasse humana primeiro. Ora, vamos deixar de bobagens. Antes de encerrarmos este assunto, a que conclusões você chegou sobre as conspirações?

— E muito simples. Você especificou os séculos VI, XIV e XVII... e isso significa navios, caravanas e nenhum conhecimento sobre bacteriologia. Aqui entra, portanto, o sinistro Dr. Fu Manchu, em seu esconderijo, criando milhões de ratos infestados de pulgas —»fácil. Os ratos e as pulgas estão contaminados pelo bacilo — e isso é possível mesmo sem muita teoria. Mas como ele consegue atingir o seu alvo? Com a ajuda de navios? Em poucos dias, todos os ratos estariam mortos, assim como a tripulação. Seria ainda pior tentar fazer isso por terra. Para uma conspiração dessas dar certo naquela época, seria preciso ter o conhecimento da ciência moderna e uma enorme máquina do tempo. Chefe, quem inventou uma pergunta tão boba?

— Fui eu.

— É, ela tem mesmo o seu jeito. Mas por quê?

— Ela a levou a estudar o assunto de uma maneira muito mais ampla do que você normalmente teria encarado, não foi?

— Hum... presumo que sim.

Eu passara muito mais tempo estudando os principais pontos históricos e políticos do que a doença em si mesma.

— Você sabe que sim.

— Bem, é verdade. Nenhum animal é mais estudado do que uma conspiração, Chefe. As vezes, elas são tão bem documentadas, que um documento chega a afirmar o contrário do outro. Se uma conspiração aconteceu algum tempo atrás, cerca de uma geração ou mais, torna-se impossível descobrir a verdade sobre ela. Você nunca ouviu falar de um homem chamado John F. Kennedy?

— Ouvi, sim. Era chefe de estado em meados do século XX. Naquela época, a Federação ocupava a terra entre o Canadá — Canadá britânico e Quebec — e o Reino do México. Ele foi assassinado.

— Eis o homem. Morto diante de centenas de testemunhas, e tudo, antes, durante e depois, foi fartamente documentado. Todas as evidências apontam para o mesmo aspecto: ninguém sabe quem atirou nele, quantos atiraram, quantos tiros levou, porque atiraram, e quais eram as pessoas envolvidas nessa conspiração, se é que houve uma conspiração. Não se pode nem mesmo afirmar se o plano para o seu assassinato foi tramado internacionalmente ou não. Chefe, se é impossível desvendar uma conspiração tão recente quanto essa, e tão fartamente examinada, imagine só querer saber com detalhes uma conspiração ocorrida no tempo de Gaio Júlio César. Ou então Guy Fawkes e a Conspiração da Pólvora. Tudo o que pode realmente ser dito a esse respeito é que as pessoas que estão no poder escrevem as versões oficiais do episódio, que são as encontradas nos livros de história — uma história não mais honesta que uma autobiografia.

— Mas, Friday, uma autobiografia normalmente é muito honesta.

— Que nada, Chefe! Você andou fumando alguma coisa?

— Bem, uma autobiografia deve geralmente ser fiel à realidade, mas nunca se pode ter certeza.

— Tem o meu endosso.

— Veja bem, Friday. Não posso perder mais tempo com você. Você fala demais e troca toda hora de assunto. Procure ficar calada enquanto eu falo. Você agora faz parte decisiva do grupo de apoio. Você vai ficando mais velha, e seus reflexos, sem dúvida, devem estar mais lentos. Não vou me arriscar mandando-a trabalhar lá fora....

— Eu não estou reclamando!

— Cale a boca! Você não precisa ficar grudada naquele terminal o tempo todo. Faça mais exercícios; algum dia seus apurados reflexos salvarão sua vida outra vez, e, possivelmente, a vida de outras pessoas também. Nesse meio-tempo, trate de considerar a idéia de se virar sem a nossa assistência. Acho melhor deixar este planeta. Aqui não há nada mais para você. A balcanização da América do Norte acabou com a última chance de reverter a decadência da Civilização Renascentista. Sendo assim, você deveria se pôr a pensar num planeta distante e nas possibilidades de morar lá... Não só neste sistema solar, como em qualquer um outro, desde os planetas mais primitivos até os mais desenvolvidos. Examine cuidadosamente as vantagens e desvantagens de emigrar para um deles. Você precisará de dinheiro. Quer que meus homens cobrem o dinheiro que extorquiram de você na Nova Zelândia?

— Como sabe disso?

— Ora, não somos crianças.

— Hum... posso pensar um pouco mais sobre o que você me disse?

— Claro. Quanto à sua emigração: eu lhe recomendaria evitar o planeta Olímpia. Fora disso, não posso aconselhar você a fazer outra coisa senão emigrar. Quando eu era mais novo, acreditava ser possível mudar este mundo, mas já não penso assim. Por questões puramente emocionais continuo em ação. Mas você é jovem e, devido a sua excepcional herança, seus laços emocionais em relação a este planeta e a esta porção da humanidade não são muito grandes. Eu não poderia ter afirmado tal coisa antes de você romper sua relação sentimental na Nova Zelândia...

— Eu não rompi essa relação. Mandaram-me embora com um pontapé no traseiro!

— Ou isso. Enquanto não se decide, lembre-se da alegoria de Benjamin Franklin sobre o capricho e me diga — não, pergunte a si mesma — se você pagou ou não muito caro pelo seu capricho. Isso é tudo. Mais duas tarefas: primeira: estude todo o complexo de ligações Shipstone, até mesmo suas ligações fora do complexo; segunda: da próxima vez que nos encontrarmos, quero que você me diga como se pode distinguir uma cultura de outra em decadência. Isso é tudo.

O Chefe debruçou-se sobre a mesa e eu me levantei. Só que eu não estava disposta a concordar com uma despedida tão abrupta como aquela, já que não tinha tido a oportunidade de fazer algumas perguntas importantes.

— Chefe, eu não vou ter outros deveres? Só esses estudos aleatórios que não levam a lugar nenhum?

— Mas eles levam a algum lugar, sim. E você tem deveres. O primeiro deles é estudar. O segundo, ser acordada no meio da noite, ou ser detida no meio do corredor, para responder a perguntas tolas.

— Só isso?

— O que queria você? Anjos e trombetas tocando?

— Bem... eu queria um cargo com nome. Eu costumava ser uma "mensageira especial". E o que sou agora? O bobo da corte?

— Friday, você está desenvolvendo sua parte burocrática. "Um cargo com nome", ora essa! Muito bem... Você é a analista intuitiva do nosso grupo, e deve obedecer apenas a mim. Mas esse cargo tem uma certa imposição: você está proibida de discutir qualquer assunto mais sério do que um jogo de cartas com qualquer membro da seção de analistas do nosso grupo. Você pode dormir com eles, se quiser — eu sei que você dorme, em ambas acepções — mas limite suas conversas aos assuntos triviais.

— Eu preferiria que você passasse menos tempo atrás de mim, chefe!

— É só o bastante para proteger a nossa organização. Você sabe muito bem, Friday, que hoje a ausência de Olhos e Ouvidos significa simplesmente que eles estão escondidos. Pode estar certa de que não tenho o menor escrúpulo quando se trata de proteger a organização.

— Sua falta de escrúpulos não tem limites. Chefe, responda-me só mais uma pergunta. Quem está por trás da Quinta-feira Sangrenta? A terceira onda foi um fracasso; haverá uma quarta? O que está para acontecer?

— Estude isso você mesma. Se eu lhe contasse, você não ficaria sabendo, apenas teria sido informada. Estude este assunto do início ao fim, e qualquer noite dessas, quando você estiver dormindo sozinha, eu lhe perguntarei a respeito. Você responderá e então ficará sabendo.

— Com os diabos! Você sempre sabe quando estou dormindo sozinha?

— Sempre. Você está dispensada.


 

Assim que deixei o sanctum sanctorum, esbarrei em Goldie entrando. Eu estava aborrecida e me limitei a acenar com a cabeça. Meu humor nada tinha a ver com Goldie. Chefe! Aos diabos com ele. Orgulhoso, arrogante, voyeur! Eu fui para o meu quarto e caí no trabalho, para esquecer e deixar de me irritar com tudo.

Inicialmente, digitei o pedido dos nomes e endereços de todas as corporações de Shipstone. Enquanto estavam sendo impressos na tela do vídeo, solicitei histórias sobre o complexo corporativo. O computador apontou duas, uma oficial da companhia, combinada com a história da vida de Daniel Shipstone, e outra oficiosa, de pé de página, que denunciava casos fortuitos de corrupção. Em seguida a máquina sugeriu várias outras, de diversas fontes.

Instruí o terminal para imprimir os dois textos e cópias de textos de outras fontes que não ultrapassassem quatro mil palavras, e resumos das que ultrapassassem. Então dei uma olhada na lista da corporação:

 

Incorporação Memorial Muriel Shipstone

Daniel Shipstone Patrimônio                          Shipstone Nunca-Nunca

Laboratórios de Pesquisa                                Shipstone L-4

Shipstone Tempe Shipstone Gobi Shipstone L-5

Shipstone Aden                                  Shipstone Estacionário

Shipstone Sahara                                              Shipstone Tycho

Shipstone África                                 Shipstone Ares

Shipstone Vale da Morte                  Shipstone Água Profunda

Shipstone Karroo.                                              Shipstone Ilimitada, Ltda.

Coca-Cola Holding Company                         Scars-Montgomery, Inc.

Intramundo Transportes Corp.                        Fundação Prometheus

Corporação Colonial                         Escola Billy Shipstone para crianças deficientes

Extra-Sistemas                    Escola e Museu Artes Visuais do Shipstone

Passada do Córrego do Lobo                         Refúgio da Vida Selvagem

Preservação da Natureza                                Morgan Associates

Año Nuevo

 

Olhei para essa lista tomada de um entusiasmo facilmente controlável. Eu já sabia que o cartel Shipstone teria que ser mesmo muito grande — quem é que não possui meia dúzia de empresas Shipstone ao alcance das mãos sem falar da maior em sua base ou fundação? Mas agora me parecia que estudar essa monstruosidade seria trabalho para uma vida inteira. E eu não estava muito interessada por Shipstones.

Eu me senti intrigada quando Goldie parou ao meu lado e me disse que era tempo de vestir o pijama.

— Tenho instruções para cuidar que você não passe mais de oito horas por dia no seu terminal e que desfrute sempre de um completo fim de semana.

— Ah, é? O tirano velho e bastardo. Dirigimo-nos para o refeitório.

— Friday...

— Sim, Goldie?

— Você está achando o Chefe chato e algumas vezes difícil.

— Correção. Ele é sempre difícil.

— Hum...sim. Mas o que você não deve saber é que ele sofre de dores constantes — e acrescentou: — Ele não consegue mais aplacá-las nem mesmo com drogas.

Caminhamos em silêncio enquanto eu engolia mais essa.

— Goldie? O que há de errado com ele?

— Na verdade, nada. Eu até diria que ele goza de boa saúde... para sua idade.

— Quantos anos ele tem?

— Não sei. Eu sei de ouvir falar, muito por alto, que ele já passou dos cem. Quantos exatamente, não posso nem imaginar.

— Oh, não! Goldie, quando vim trabalhar para ele, o Chefe não podia ter mais de setenta. Oh, eleja usava bengala, mas ainda era muito lépido. Ele se movimentava tão rapidamente como qualquer outro que eu conhecia.

— Bem... isto não é importante! Você deve lembrar que ele sofre muitas dores. Se ele parece rude, é porque a dor está comandando. Ele nutre a mais alta estima por você.

— O que a faz pensar assim?

Ora... eu já falei demais sobre o meu paciente. Vamos tratar de comer.

 

Ao estudar o complexo corporativo Shipstone, não atentei para o fato de que devia estudar os Shipstones. A maneira — a única maneira — correta de estudar os Shipstones consistiria em voltar à escola, conseguir um grau Ph.D. em Física, acrescentar um intensivo estudo de pós-graduação em estados sólido e plasmático, obter emprego numa das companhias Shipstone e desta forma impressioná-los pela lealdade e brilhantismo, e pelo fato de você já fazer parte, há bastante tempo, do círculo fechado que controla a fabricação e a qualidade.

Considerando que isto implicaria cerca de vinte anos e que eu então deveria ter começado ainda na adolescência, assumi tacitamente que o chefe não queria que eu me prendesse àquela rota.

Portanto, deixem-me recorrer à história oficial ou de propaganda:

 

Prometheus, uma breve biografia e Curto Relato das Inigualáveis Descobertas de Daniel Thomas Shipstone, B.S., M.A., Ph.D., LL.D., L.H.D., e do Benévolo Sistema por Ele Fundado.

 

...assim, o jovem Daniel Shipstone percebeu imediatamente que o problema não era a escassez de energia, mas sim o seu. A energia está em toda parte — na luz do sol, no vento, nas correntes montanhosas, em gradientes de temperatura de toda espécie onde quer que fossem encontrados, no carvão, no óleo fóssil, no minério radioativo, nas coisas verdes que cresciam. Especialmente nas profundezas dos oceanos e no espaço livre, a energia é liberada para operar maravilhas além de toda a compreensão humana.

Aqueles que falam de "escassez de energia" e de "conservação de energia" simplesmente não compreendem a situação. O céu estava "chovendo benesses"; faltava só um recipiente no qual se pudesse transportá-las.

Com o encorajamento de sua devotada esposa Muriel (neé Greentree), que voltou ao trabalho para ter comida em casa, o jovem Shipstone demitiu-se da General Atomics e tornou-se o mais americano dos heróis-mitos, o inventor das estruturas. Sete anos de frustração e desencanto depois, ele fabricaria manualmente o primeiro Shipstone. Descobrira que...

 

Ele havia descoberto uma forma de acondicionar mais quilowatts-hora dentro de um espaço e de uma massa menores do que qualquer outro engenheiro jamais sonhara ser possível. Denominá-la "bateria de armazenamento desenvolvida" (o que certos relatos iniciais fizeram) seria o mesmo que chamar a Bomba H de "fogo de artifício desenvolvido". O que ele tinha produzido acarretava o aniquilamento total da mais poderosa indústria do mundo ocidental (além da religião organizada).

Para que se compreenda o que se seguiu, devo reportar-me à história oficiosa e a outras fontes independentes, pois simplesmente não acredito na doçura e luminosidade da versão da companhia. Eis uma fala ficcionalizada atribuída a Muriel Shipstone:

 

— Jovem Dan, você não vai tirar uma patente da engenhoca. O que isso lhe traria de bom? Dezessete anos no máximo aqui...e nem um só nos outros três quartas partes do mundo. Se você requisitar essa patente, a Edison a P.G. & E. e a Standard tentarão mandá-lo para a cadeia invocando injunções e dispositivos legais; alegariam infração do direito de propriedade e não sei o que mais. Ora, você mesmo me disse que seria capaz de colocar um dos seus aparelhos numa sala à disposição da mais perfeita equipe de pesquisas e que o melhor que eles poderiam fazer seria um fracasso — e o pior seria eles acabarem por se explodir. Você disse isso. Está de acordo?

— Certamente. Se eles não souberem a maneira correta de inserir a...

— Silêncio! Eu não quero saber. E as paredes têm ouvidos. Não faremos nenhum anúncio ilusório; apenas cuidaremos da produção. Num local onde a energia seja atualmente de mais baixo custo. Onde fica isto?

 

O autor da denúncia de infração à lei da livre iniciativa caiu no lugar-comum e ao referir-se ao "desnaturado monopólio comandado pelo complexo corporativo Shipstone, que se prevalece das carências primárias das pessoas humildes de todos os lugares". Eu não veria as coisas daquela forma. O que o Sr. Shipstone e suas empresas faziam era, isto sim, produzir energia barata e abundante, a energia que costumava custar caro e ser escassa — isto é um "desnaturado monopólio"?

As companhias do grupo Shipstone não constituem um monopólio no setor. Elas não possuem carvão, óleo ou urânio, nem usinas hidroelétricas. Elas precisam apenas arrendar muitos hectares de terra desértica... mas existem ainda grandes áreas de areias secas absolutamente impróprias para o plantio por causa do sol escaldante, além daquelas de que o Cartel Shipstone está se servindo. No que diz respeito ao espaço, é literalmente impossível interceptar até mesmo um por cento dos raios solares que vão se perder na órbita da lua, impossível por um fator de muitos e muitos milhões. Faça os cálculos aritméticos você mesmo; do contrário, jamais poderá crer na resposta.

Então, qual é o crime deles?

Vejamos:

 

  1. a) As companhias Shipstone são culpadas de fornecer energia à espécie humana por um preço abaixo daqueles cobrados por seus concorrentes;