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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


GOA / Richard Zimler
GOA / Richard Zimler

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

G O A

O Guardião da Aurora

 

Na colónia portuguesa de Goa, estava o século XVI a chegar ao fim, a Inquisição fazia enormes progressos na sua missão de impedir todos os «bruxos» - quer fossem nativos hindus, quer imigrantes judeus - de praticarem as suas crenças tradicionais. Os que se recusavam a denunciar outros ou a renunciar à sua fé eram estrangulados por carrascos ou queimados em autos-de-fé.

Ao viver nos limites do território colonial, a família Zarco consegue manter firmes as suas raízes luso-judaicas.Tiago e a irmã, Sofia, gozam uma infância pacífica aprendendo com o pai a ilustrar manuscritos e mergulhando no caos inebriante das festividades hindus celebradas pela sua amada cozinheira, Nupi.

Quando as crianças atingem a idade adulta, a família é destroçada quando, primeiro o pai e depois o filho, são presos pela inquisição. Mas quem poderia tê-los traído?

De um rigor histórico notável, Goa ou o Guardião da Aurora é simultaneamente um policial his­tórico absorvente e, na sua profunda exploração da natureza do mal, uma poderosa reinterpretação do Othello de Shakespeare.

Na linha dos seus romances históricos anteriores - O Último Cabalista de Lisboa e Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, traduzidos em vários países com grande sucesso tanto comercial como da crítica, Richard Zimler dá-nos um livro imaginativo, estimulante e profundamente sensível.

 

 

- De que pensas tu que é feita a memória? - perguntou o meu pai. Vendo-lhe a húmida ternura no olhar baixo e a mão a tremer no meu ombro, percebi que a minha mãe lhe estava a acariciar os pensamentos. Já fora enterrada há mais de dois anos, e fazer ele esta pergunta tão adulta a um rapaz de sete anos dava bem a dimensão da dor que continuava a sentir.

- Não sei, papá - respondi encolhendo os ombros, já que era demasiado novo para achar que me valia a pena arriscar uma conjectura. Mas, quando ele retirou a mão, o medo adejou as asas aos meus ouvidos. - Talvez seja feita de tudo o que já vi - apressei-me a acrescentar, na esperança de que a resposta fosse suficientemente boa para o convencer a levar-me para o alpendre, onde podíamos observar o grandioso pôr do Sol de Indra por sobre a ourela do nosso mundo.

Ficou a meditar na minha resposta por um longo período, curvando a cabeça e fechando os olhos, como quem está a escutar uma conversa ao longe. Por fim, ergueu as sobrancelhas. - Mas, então, e os ratos que moram nas nossas janelas há tanto tempo? - perguntou.

A barriga apertou-se-me num nó de inquietação, pois não conseguia imaginar o que é que ele queria dizer, mas logo me piscou o olho para mostrar que era apenas mais uma das suas adivinhas. A troça brincava-lhe nos claros olhos cinzentos e fazia-me sentir protegido, como se os braços dele me estivessem a apertar com força.

- Onde estão os ratos? Mostre! - Pedi, aconchegando-me a ele insistentemente.

Ele abriu lentamente as portadas de madeira, e ambas soltaram um guincho agudo e fugaz. Esfregando os olhos com patinhas imaginadas, franziu o nariz e inclinou-se para mim, farejando ávido a minha face.

Assaltado por risadinhas incontroláveis, todo eu me retorcia para me afastar.

- Faz muito bem de rato, pai - disse-lhe.

- Ainda bem que sou bom em alguma coisa. E então esses guinchinhos? E essas vozes que sempre ouviste? - Deu-me uma pancadinha no cocuruto.

- Também estão aí dentro, não? - inquiriu.

Fiz-lhe um grande aceno que sim e ele inclinou-se para fora da janela, inspirando com força, dando graças em silêncio, como era seu costume, pelos campos de arroz de ouro vivo e pelas nuvens suaves e rosadas. Às vezes acho que o meu pai se sentia mais ele próprio quando observava as cores do mundo. Sempre fomos parecidos nisso - atraídos para o mundo pelos olhos.

- Parece que, esta noite, os nossos ratos trouxeram o vento leste - disse ele satisfeito. - E o vento pediu à floresta que nos mandasse os seus odores.

- Abanou a cabeça, espantado com estas coisas simples e foi à secretária por trás dele buscar a escova de teca da minha mãe. Segurou-a nas mãos como se ela lhe estivesse a dar vida, e percebi que estava prestes a sair para o seu quarto, onde poderia sentar-se sozinho com as recordações dela.

- Passa-se alguma coisa, papá? - perguntei.

- Não, é que... Ti, sabes que tenho quase quarenta e um anos. E, mesmo assim, continuo a lembrar-me de todos os cheiros de Constantinopla como se ainda lá vivesse.

O meu nome é Tiago, mas toda a gente na família me chamava Ti. Os olhos do meu pai perpassaram-me, direitos à sua infância, e ele esfregou os cabelos eriçados, já grisalhos.

- Como eu gostava dos molhos de açafrão e de cravinho do Grande Bazar - disse, sonhador. - E do cheiro do robe de lã do teu avô quando estava de chuva - bafiento e pesado. E do baclavá nas padarias. Com aquele cheiro, tudo cheirava a mel, mesmo a luz que se reflectia no Corno de Ouro. - Lambeu os lábios, brincalhão, e eu imitei-o. - Como achas que todas estas diferentes coisas ficam dentro de nós durante anos?

- Talvez fiquem presas a alguma coisa - sugeri. Recuou a cabeça, surpreso.

- Então - replicou, franzindo o sobrolho, zangado -, achas que Deus nos lambuza as almas com cola? Diz-me cá, as minhas perguntas, para ti, são assim uma espécie de brincadeira?

O meu pai fitou-me de olhos abertos e, com força assassina, atirou fora a escova, que passou a sibilar pela minha cabeça e foi bater por trás de mim com um estrondo que me fez saltar o coração. No dia seguinte, reparei que faltava uma lasca na orelha esquerda da estátua em tamanho natural de Shiva que, com os seus oito braços, guardava a nossa porta. Hoje estou em crer que era intenção precisa do meu pai ferir a imagem de madeira; a estátua era a parte do dote que a minha mãe mais amava.

A beliscadura na orelha de Shiva havia de ficar para sempre a recordar-me esta discussão, e a persistente presença da minha mãe nas nossas vidas, mas nesse momento não ousei olhar para trás, para ver o que acontecera, porque os olhos do meu pai continuavam a coriscar de fúria. Fiquei afogado em lágrimas de aflição, e devo ter tentado escapulir-me; ainda hoje sinto a imperiosa tensão entre nós quando ele me agarrou pelo pulso: dir-se-ia uma corda estendida até ao limite.

Ajoelhou-se a meu lado, de olhos baixos.

- Não me bata! - roguei.

Nunca me pusera a mão em cima, mas, desde a morte da minha mãe, eu, por vezes, já não sabia quem ele era.

- Que fiz eu? - gemeu. - Perdoa-me, Ti. - Cobriu-me de beijos, e as cócegas da sua barba por fazer na minha face restituíram-me a fé nele. Quando eu era muito pequeno, uma brincadeira facilmente me punha bem disposto, e bastou que ele me abotoasse a camisa para eu ficar animado. Uma vez feito isso, os seus dedos manchados de tinta - que passeavam delicada e rapidamente sobre a minha pele - tinham restituído o significado ao meu mundo.

- Talvez tenhas razão - disse, tomando-me as mãos e balançando-as no espaço que nos separava como a ponte de corda que sobrepujava a catarata perto de Ponda, quando o vento a embalava. - Deus pôs-nos cola na alma, e o que fica nela preso é aquilo que sempre recordaremos.

Arrebatou-me para o seu colo, e por um longo momento ficámos os dois a olhar pela janela, com a cabeça dele por cima do meu ombro e a sua respiração quente nos meus ouvidos. Voltou a farejar-me o cabelo como um rato, e eu retorci-me feliz no seu abraço.

Pouco depois, as primeiras estrelas tremeluziram por sobre os cumes das palmeiras, leques a abanar a Lua nascente com as frescas brisas do lusco-fusco que caía sobre a terra. Esperei que o eco das palavras do meu pai se desvanecesse completamente na maré enchente da escuridão, sentindo que ousaria dizer alguma coisa nova sobre mim próprio logo que elas se fossem. Mas o quê? A minha existência pulsava ali à volta como nunca pulsara, e estava-me tão presente como o bater do coração, mais profundo do que de costume, como se precisasse que o ouvissem. Fechei os olhos e vi o Sol como era ainda há pouco, um crescente vermelho a fundir-se num lençol ondulante de colinas ao longo do horizonte - e também a dissolver-se no bordo vibrante sem fim doutro dia da minha vida. Eu era Tiago, era o filho do meu pai. Eu e o mundo, éramos distintos ou uma só coisa? Estremeci.

- Sinto-me só, papá.

Beijou-me e apertou-me a si. Abandonei-me a ele, tudo o que eu era e o que viria a ser. Ao pensar na escova de cabelo da minha mãe abandonada no chão, comecei a respirar pesadamente, mas também com expectativa, como se a sua ausência fosse um peso dourado no meu peito. Saltei para o chão para a apanhar, e voltei a subir para o colo dele. Começou a pentear os meus cabelos e disse uma coisa que eu sabia que havia de ficar para sempre presa à minha alma:

- Nunca estarás só, Ti, porque estarei sempre contigo. - Fez um arco com a mão para indicar o luar que estava a transformar as palmeiras em plumas de prata. - E isto tudo também.

Na clausura da minha cela em Goa, pensei muitas vezes na promessa do meu pai, meditando se me teria mentido de propósito. Ou teria ele querido dizer que a recordação que teria dele sobreviveria à sua morte e havia de morar sempre em mim? Se assim era, devia ter-me avisado de que isso não seria bastante para salvar-me.

 

Prenderam-me em Novembro de 1591 e, durante quase onze meses, não falei a mais ninguém para além do guarda prisional. Nem fui informado das acusações que pendiam sobre mim nem autorizado a ler fosse o que fosse, e a minha janela, uma fenda mesquinha na pedra nua, estava tão alta que não me permitia espreitar para a cidade lá em baixo. A esperança agarrava-se às recordações de Tejal, e por vezes, também, ao tamborilar da chuva, a qual me lembrava que havia um mundo onde os meus carcereiros não tinham poder. Uma vez, durante uma tempestade, pus-me a lamber umas gotas que escorriam pela parede. Souberam-me ao Riacho do Moinho e, por uns instantes, os meus pensamentos chapinharam em toda a minha liberdade de criança, mas muitas vezes penso que acabaram por me trair; nessa mesma noite, Deus foi-me roubado, e, ao acordar, senti-me mais sozinho do que já alguma vez estivera, expulso do mundo sobre o qual Ele sempre velara. Nunca mais haveria de sentir os dedos dos meus pés afundarem-se na terra vermelha dos arrozais ou saber se Tejal dera à luz um rapaz ou uma menina.

Silenciosamente, pedi perdão ao meu pai por não fazer a vida melhor que ele desejara para mim, e fui buscar o precioso instrumento feito de ferrugem e ponta acerada que escondera no fundo do penico havia umas semanas. Farejando-lhe o odor sagrado de desígnio metálico, confiante na derrota como a minha última amiga, sulquei com ele um braço e depois o outro. O meu retrato final havia de ser quente e desenhado no meu próprio sangue como se impunha.

Percebi que era um homem amaldiçoado quando nem sequer, apesar das minhas preces, conseguia afundar o prego o suficiente para fazer o milagre de que precisava. Mesmo assim, sangrei bastante, e o rio que fica além do Sabat levou-me para longe na sua corrente. Pousando a cabeça na verdade das suas águas, sonhei com um horizonte de pinheiros e cedros muito ao longe a ocidente, nas margens do rio Jordão.

Tejal seria informada da minha morte; agora ficaria livre para casar com outro homem. Isso valia bem o preço que eu tinha de pagar.

Acordei sobressaltado e dei com um padre que nunca tinha visto antes a atar-me os braços, suando, com umas cordas grosseiras. Pedi-lhe que me deixasse em paz, mas ele continuou o seu trabalho e atirou-me para o catre com um resmungo de repugnância. Tentando impedir a queda, puxei-lhe pelo rosário, e as contas espalharam-se pelo chão.

- Mulato fi de puta! - gritou-me. - Ainda hás-de confessar!

Não, pensei, na voz da criança que já fora. Mesmo não sendo quem já fui, a minha alma ainda tem cola suficiente para não me deixar assim tão facilmente.

Dois guardas puseram-se de quatro - homens transformados pela encantação do meu desprezo em ursos que gatinhavam. Por qualquer razão que não descortino, comecei a pintar listas de tigre na cara com sangue dos meus pulsos. Pouco depois, lembrei-me da alcunha que Wadi me dera e pensei: Sim, tenho de me tornar noutra espécie de ser, um ser feroz; senão, ponho-me a dizer o nome de outras pessoas e condeno-as a um destino igual ao meu.

Fora o meu pai que me dissera que os dominicanos e jesuítas tinham um apetite sôfrego pela identidade de todos os que eram como nós. Mais cedo ou mais tarde, os padres haveriam de tentar arrancar-me os nomes deles pela tortura.

Resvalei para um sono febril. As minhas recordações eram agulhas, e todo o meu passado estava eriçado de espinhos e envenenado - uma infância torcida e no fim morta pelo destino.

Na manhã seguinte, logo após o repicar da hora prima, os guardas trouxeram para a minha cela um velho com pele cor de canela e cabelo branco eriçado, na manifesta esperança de que a sua companhia me impedisse de voltar a abrir as feridas; a Igreja não abdicava facilmente do prazer de decidir como e quando eu havia de ser morto.

Os pés do velho eram dois caranguejos estorricados. Afastei os olhos, pois a compaixão é por eles que vem, e não queria que ele percebesse que eu ainda podia sentir essa emoção inútil.

Desabou no chão quando o meu guarda habitual - um lisboeta com olhos verdes mortiços e o hálito fétido desses homens que andam sempre a tentar deitar a mão a um pouco de bebida - retirou os braços de sob os ombros dele. A cabeça do prisioneiro descaiu-lhe para trás e para o lado, e os olhos fecharam-se-lhe.

O Analfabeto, como eu chamava ao guarda, disse-me que o meu hóspede era um jaina acusado de feitiçaria. Os torcionários tinham-lhe coberto os pés com óleo de coco, assando-os depois como num churrasco.

Os olhos pretos metálicos do velho abriram-se por um momento, e olhou para mim como se compartilhássemos um segredo condenatório. O que fosse, não fazia ideia. Talvez só estivesse à espera de que eu fosse amável com ele na sua infelicidade.

A passos largos triunfantes, o Analfabeto dirigiu-se para a saída da cela, fechou com estrondo a porta interior e ajoelhou-se, mostrando-me a cara bulbosa recortada pela grelha. Lançou-me um sorriso escarninho. - Usaram carvão - disse. - O carvão queima muito mais do que a lenha.

Até o fogo trabalha para eles, pensei.

Quando o guarda se foi embora, embebi a camisa no jarro de água. Envolvi com ela os pés do jaina, que escaldavam nas minhas mãos. Às tantas, até os sonhos dele estavam em chamas. Nunca mais conseguiria andar sem ajuda.

De noite, a respiração do velho parecia areia a cair nas minhas mãos. Dormi aos repelões. O tempo resfolegava junto a mim nos meus pesadelos e transformou-se num ciclope com crostas de sangue nos lábios - como o meu pai, a última vez que o vira. Arrancou as asas a um papagaio e meteu-me nas mãos a carne mutilada do bicho. Segurei nele com todo o cuidado, como se fosse um filho meu morto. Imaginei Tejal no parto, a chamar-me para junto dela. O nosso menino ainda estaria vivo?

Sempre que acordava, os mosquitos zumbiam doidamente aos meus ouvidos, sussurrando que os meus esforços para salvar o jaina eram em vão.

Ao romper do dia, o meu companheiro cumprimentou-me com um jucundo acenar da mão. Sentado no chão, tinha as faces encovadas e as costelas salientes, e a pele do peito e da barriga era um velho pergaminho enrugado. Passeou o olhar das ligaduras dos meus pulsos até aos olhos e sorriu-se docemente, convidando-me a falar pela forma como é costume na minha terra natal. Afastei o olhar.

- Não devias estar tão ansioso pelas asas da tua próxima vida - disse em concani.

O conselho agastou-me. E não tinha confiança na fala dele, que era rápida e viva, como se os pensamentos passassem a saltar através do homem. Talvez fosse da dor.

Não respondi, esperando que pensasse que não falava a língua dele e me deixasse em paz. Mas não, ergueu um dedo recurvo e apontou-mo aos olhos. A minha mente deve ter ficado muito debilitada durante a reclusão, pois o meu coração ruiu à ideia de que ele poderia sibilar uma encantação contra mim. Recuando, apoiei-me na parede.

- Não tens de ter medo de mim - disse, pronunciando as palavras lentamente, por julgar que eu era estrangeiro. - É que eu já tinha visto os teus olhos azuis. - Como não lhe dei resposta, acrescentou: - Nas borboletas que chegavam à minha aldeia na Primavera.

Ergueu-se e baixou os braços como se adejasse as asas, drapejando as mãos com elegância, como um bailarino de Kerala. Sorriu-se, voltando a convidar-me a falar.

- Se falares comigo, só vais ter mais problemas - disse eu em concani. - Eu sou um homem amaldiçoado.

- Então és de cá! - exclamou alegremente, como se fôssemos já amigos. - Então deves saber de que borboletas estou a falar... Sabes? São pretas pretas, e cada uma delas parece uma noite sem lua, só que têm manchas azuis aqui e aqui. - Tocou os flancos. - Na minha aldeia, dizem que são o vento norte feito coisa.

Ainda hoje sinto como resisti à sua voz musical a puxar-me de volta à vida. - Não te servi para nada -, disse-lhe, voltando-me para o lado, na esperança de que conseguiria ser tão duro e insensível como as paredes da prisão. Senti o seu olhar de curiosidade a cair sobre mim. Será que ele queria que eu prometesse nunca mais atentar contra a vida? Enterrei a cabeça na enxerga de farrapos e espremi os olhos, só querendo desaparecer. Passados uns instantes, pensei em confessar-lhe como tinha morto o meu pai, mas logo achei que o silêncio tinha mais a dar-me do que qualquer homem.

Só mais tarde vim a perceber o que era preciso dizer antes do mais: Nunca te hei-de falar como se tivesses alguma autoridade sobre mim. Só o meu pai a tinha e matei-o...

Pouco depois, meteram-nos o pequeno-almoço por uma portinhola da porta interior: o meu companheiro, de ombros encolhidos, ia recolhendo o arroz para a boca, com um vagar meticuloso que parecia troçar da minha fome. Como jaina, só lhe era permitido comer legumes e cereais, e, quando pegou no peixe frito e me fez sinal que o aceitasse, pus-me a pensar num plano para o afastar de mim. Os guardas devem ter-lhe dado o peixe por crueldade, para troçarem dele.

- Quando era rapaz - disse eu, afastando a oferta dele com um gesto -, apanhei uma dessas borboletas pretas de que falaste.

- Eu sabia! - disse, com uma gargalhada argentina. - Foste atraído por elas. - Voltou a tocar no peito para indicar o sítio das manchas. - Foi como que o destino. Foi, não foi, que achas?

- Não acredito no destino - respondi com brusquidão. Na altura, pensava estar a falar verdade, mas, agora, não tenho tanta certeza, pois muita coisa parece ter acontecido da única forma que podia ter acontecido.

Sabia que, para um jaina, toda a vida é sagrada - até a do mais pequeno verme. Tanto assim que tinha a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o velho havia de perguntar se tinha morto a borboleta. Quando perguntou, a vingança refulgiu-me dentro do peito como uma estrela negra. - Esmaguei-a com os dedos - disse-lhe -, e nunca me arrependi.

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos.

- Não esbanjes compaixão com uma migalha de ser que não tem alma nem inteligência - disse eu. Falava como se soubesse do que estava a falar; a reclusão dera-me uma arrogância amarga e rancorosa e uma voz professoral que mal reconhecia como minha.

Quem afirma que as pessoas nunca podem realmente mudar nunca esteve numa prisão, não conheceu esse miserável caminho de reclusão que acaba necessariamente na morte.

Cerrou os lábios com força como se não quisesse exprimir uma terrível verdade, e percebi o que já se devia estar mesmo a ver - eu é que era a pequena criatura sem alma de que ele tinha pena. Ri-me pela primeira vez desde há uma eternidade; ser mais digno de pena do que um insecto esmagado parecia um feito considerável.

- Se o meu espírito não me tivesse quase abandonado, havia de encontrar uma maneira de nos matar aos dois - disse-lhe.

Pôs-se a fitar-me, com aqueles olhos negros cheios de dó. Eu desprezava a sua prontidão em sentir tanto por alguém de quem não sabia nada.

- E que tal se eu te batesse, gostavas? - disse eu, pondo-me de pé. - Ainda te preocupavas assim tanto comigo? - O impulso de o castigar irrompeu em mim com a força destruidora de uma casa a ruir. - Posso muito bem dar cabo de ti e ninguém aqui virá deter-me. Até ficam satisfeitos.

Fechei o punho e brandi-o na direcção dele, como que para confirmar que era o vilão de um drama escrito para mim por um inimigo secreto - a pessoa que me traíra e provocara a minha prisão. As mãos do jaina ergueram-se-lhe num repente para proteger a face, e nesse gesto percebi que, além de o queimarem, o tinham agredido. Afastei-as à punhada e foi como se uma corda se tivesse rompido cá dentro e eu estivesse a cair para fora de mim, desamparado. Continuei a bater-lhe até lhe fazer espirrar o sangue da boca.

Logo, porém, o horror ante aquilo em que me transformara fez-me soçobrar. Murmurei uma desculpa e recolhi-me à cama, encostando os joelhos ao peito. Fechei os olhos e durante horas não disse nada, tentando imaginar o que o meu pai gostaria que eu fizesse, mas a voz dele desaparecera de dentro de mim.

Ao crepúsculo, ajoelhei-me junto ao meu companheiro de cela. - Mata-me - murmurei.

- Não posso. É-me proibido.

- Por favor, não percebes. Não poderia suportar ser queimado ou obrigado a engolir água até sufocar. Se for torturado, poderei revelar os nomes de pessoas que me ajudaram a mim e ao meu pai. Se morrer, a minha noiva poderá casar com outro homem. - Segurei-lhe no ombro. - Asfixia-me de noite, quando estiver a dormir. Dou-te tudo o que tenho por esse acto de bondade. Digo-te aonde hás-de ir quando te libertarem, e poderás ir buscar os meus pertences à minha irmã e ao meu tio.

Abanou a cabeça. Afastei-o com um empurrão.

Nessa noite, veio a rastejar deitar-se a meu lado. Tomou-me a mão e apertou-a com força.

- Perdoa-me ter-te falhado - murmurou. - Mil perdões. Empurrei-o, mas ele agarrou-se a mim com força. Era muito mais forte

do que eu pensava. Por mim, tinha a certeza de que a persistência dele era sinal de loucura, mas um sinal abençoado, pois assim ficávamos em pé de igualdade nesse período que passaríamos juntos.

Ficámos calados. Recordei a minha irmã aos quatro anos, com os olhos reluzentes de alegria; dentro do cesto que lhe estendia estava uma borboleta que apanhara - não do tipo que o jaina dissera, mas outra, escarlate e dourada. Adejando, foi pôr-se na borda do cesto e flectiu as asas, refulgindo ao sol como um fragmento de vitral. A minha irmã pôs-se a rir quando me viu cheirá-la. Quando a borboleta levantou voo, ergueu as mãos e gritou de alegria. De pé por trás dela, pus-lhe as mãos nos ombros, pesando-lhe com o meu amor, como aprendera com Nupi, a nossa cozinheira e criada. Tinha a certeza de que ficaríamos sempre juntos.

O jaina acariciou-me a face. Difusamente, sabia que estava a pedir-me os meus pensamentos. Ou, então, se calhar, a solidão em que vivera durante um ano levava-me a querer acreditar que todos os gestos dele eram um convite a que falasse do meu passado.

- A borboleta que apanhei não era do tipo que disseste - confessei. - E não a matei. Apenas queria mostrá-la à minha irmã. E cheirá-la, embora agora isso pareça muito estranho.

Pôs-se a rir docemente. Virei-me de lado para ele. Sentia a sua respiração húmida contra a face. Parecia-me o vento de Deus que me faltara.

A escuridão da nossa cela não me permitia ver mais do que as formas esfumadas da minha imaginação, mas acreditava que ele estava a espreitar para algo muito fundo dentro de mim. Senti a inquirição como uma pedra no peito. Apeteceu-me abraçá-lo, mas sabia que começaria a soluçar se o fizesse.

- E a que cheirava? - perguntou.

- Pensava que havia de cheirar a jasmim, pois estivera a comer da trepadeira do nosso alpendre, e eu era novo de mais para perceber mais do que isso. Mas tinha o ténue cheiro da terra.

Ficou calado por uns momentos, ponderando as minhas palavras. - Vou tentar impedir isso - disse-me.

- Impedir o quê?

- Até os mais pequenos animais observam as nossas vidas - respondeu. Pensei que ia continuar, mas não deu mais explicações.

- Continua a falar comigo - roguei-lhe. - Diz o que te apetecer, mas não me deixes ficar aqui sozinho sem a tua voz. - Os nossos murmúrios proteger-nos-ão aos dois, pensei.

Enfiou o braço em berço debaixo da minha cabeça e começou a falar dos apaziguantes sons nocturnos que nos vinham da cidade lá em baixo. Deixei-me ir, a imaginar que estava com o meu pai, mas vi que fora um erro; espalhou-se o terror dentro de mim, centrado no ventre, frio, como um ser nado-morto. Levantei-me. Quem denunciara o meu pai à Inquisição? A tia Maria? Wadi? Se calhar, fora alguém que eu nunca vira.

- Que se passa? - perguntou o meu companheiro.

- As recordações parece que às vezes me traem. E há alguém que preciso de encontrar. Tenho uma dívida a pagar.

- Não querem que estejas aqui - respondeu.

- Quem?

- Essas recordações de que tu falas. Querem que sejas livre. Não achas?

- Se querem - disse eu, céptico -, não parecem ter lá grande estratégia para me ajudarem.

Disse uma prece numa língua que eu desconhecia. Contei-lhe então que à borboleta de que ele falara chamávamos nós trevas azuis em português. Agradou-lhe aquele som e disse que passaria a chamar-me Trevas Azuis. Ao sentir a meu lado o lento subir e descer do peito dele, apercebi-me da nossa fragilidade. Não tínhamos armas - nem preces nem argumentos que valessem alguma coisa. Só nos tínhamos um ao outro e isso nunca bastaria.

Disse-me que os pais lhe tinham dado o nome de Ravindra, isto é, sol, mas toda a gente lhe chamava Phanishwar - Rei das Serpentes - desde o berço; uma noite, o pai fora encontrá-lo a dormir no pátio com uma cobra-capelo a guardá-lo. - Não consigo lembrar-me dessa serpente em particular - disse. - Mas é verdade que nunca tive medo delas como os outros homens.

Os pais mandaram-no como aprendiz para junto de um encantador de serpentes de Poona quando ele tinha dez anos. Agora tinha cinquenta e sete. - Até eu próprio ser pai também nunca me ocorreu que o meu pai poderia ter inventado a história da cobra-capelo para ajudar aos planos que tinha para mim - disse-me. - Era mesmo dele. Como se preocupava connosco quando éramos crianças! Meu Deus! Percebes, queria ter a certeza de que todos nós tínhamos um modo de ganhar honestamente a vida. Que bom homem ele era - sempre a jejuar e a ir ao templo. Nunca conseguiu aceitar que os hindus e os muçulmanos matassem as serpentes como se estas não tivessem lugar no mundo. «Phanishwar, tens de lhes mostrar que há outras maneiras de proceder», costumava dizer-me.

- O teu pai ainda é vivo? - perguntei.

- Não, morreu há muito, e a minha mãe também.

- As tuas queimaduras... devem doer muito.

- Não te aflijas, Trevas Azuis. Na minha vida sofri muitas dores físicas. A dor e eu somos velhos inimigos que se conhecem na ponta dos dedos. Tentamos enganar-nos um ao outro, mas ela acaba sempre por vencer. Suporto-a de má vontade, é certo, não vou negar, mas acho que está só a fazer o papel dela e não tem por onde escolher.

Ergui-me, voltei a embeber a camisa em água, e ajoelhei-me a seu lado. Pus-me a lavar-lhe os pés, e ele gemia, chorando baixinho, agradecendo-me a minha bondade. Não me lembrava de nenhuma voz de homem tão suave.

Quando acabei, afagou-me a cabeça e abençoou-me. Nesse primeiro dia, Phanishwar pareceu-me representar tudo o que havia de bom nos camponeses com que tinha sido criado: as suas maneiras delicadas e a prontidão do sorriso; a sua aceitação das circunstâncias e uma certa crença de que a vida era um grandioso combate que mantinha a unidade do mundo; o deleite que sentiam com o nós, muito mais do que com o eu.

- Fala-me da tua vida - disse eu. Queria ouvir uma história, para me abandonar ao sono, conjurado por palavras sussurradas no escuro.

Falou-me da mulher, que morrera alguns anos antes, e dos cinco filhos; o mais novo tinha doze anos e chamava-se Rama. A aldeia dele, Bharat, ficava na costa, a três dias de caminho de Goa, para norte.

Não contou como a Inquisição o apanhara e eu não perguntei. Passado um pouco, começou a cantar uma melodia suave, dourada, e acabei por perceber que não me suicidaria - assim como percebi agora que havia de confessar tudo o que os meus algozes quisessem para escapar às suas chamas. Tinha de me manter vivo para encontrar a pessoa que me traíra a mim e ao meu pai e vingar-me.

Phanishwar teve-me abraçado toda a noite, e eu sentia a sua generosidade a palpitar à nossa volta. Nunca me sentira tão chegado a um homem, não contando com o meu pai. De onde em onde, a nossa união parecia um sonho, e foi por isso, acho eu, que, ao aparecer a alvorada na nossa janela, tingida de azul e rosa, ganhei coragem para falar de factos que nunca contara revelar a ninguém.

Com ele a meu lado - o Rei das Serpentes -, sabia que não só as minhas recordações mas todas as coisas na natureza nos queriam libertar. Tinha esperança de que, juntas, tivessem força suficiente.

Comecei por lhe falar da minha infância, a começar pela doença da minha mãe, que era a minha mais antiga recordação ainda completa.

- Uma vez vi uma pessoa voltar a atravessar a ponte da morte para a vida - disse-lhe.

 

Por muitos anos após a morte da minha mãe, costumava infiltrar-me em bicos dos pés no silêncio alcatifado da biblioteca do meu pai, abrir a gaveta de baixo da secretária, e extrair de lá o estojo de couro onde ele guardava os desenhos em que a retratava. Ansioso por estudar a face dela e compará-la com a minha, levava os desenhos para junto do espelho preso à parede no meu quarto e encostava-os sucessivamente ao vidro. Por vezes, imaginava que era o meu reflexo - que éramos a mesma pessoa.

Uma vez, saíra o meu pai para Goa, rasguei um dos retratos dela de que eu mais gostava. Devia ter oito ou nove anos. Não me lembro que raciocínio retorcido tive - só sei que estava tão zangado que senti ganas de destruir algo belo e valioso. Pode ter sido o meu modo de tentar armazenar a sua recordação num lugar seguro na minha cabeça - ou até restituí-la à vida por uma chispa de magia perversa.

Azoratado de vergonha, saí de casa a correr e atirei as provas do meu pecado às águas do Riacho do Moinho, um braço preguiçoso do rio Zuari que se esgueirava pelo estreito vale de plantações de banana e palmeiras junto à borda oriental da nossa propriedade. Depois, senti-me tão culpado que a barriga me doía como se tivesse engolido areia. Quando o meu pai regressou no dia seguinte, confessei-lhe a maldade, certo de que haveria de me odiar. Mas não, ergueu-me no ar e pôs-se a andar comigo à volta.

- Um desenho velho não é nada comparado com estar em casa contigo

- disse-me.

Não percebi porque não me castigava. Eu queria: penso que desejava ter a certeza - por um pungente minuto - de que me prestava toda a atenção, e que o fantasma da minha mãe não ia afastá-lo de mim. Se calhar, também queria obter a certeza de que havia justiça no mundo, mesmo à custa de um traseiro ao rubro.

- Mas era bonito - disse-lhe. - E o papá fê-lo para ficarmos com ele.

- As confissões devem ter uma sequência muito própria, porque acrescentei:

- De vez em quando vou à gaveta de baixo e tiro os retratos da mamã.

O meu pai soltou uma breve gargalhada de surpresa, e logo a seguir fechou o olho direito, como era seu hábito quando eu estava para pregar alguma - como quem tinha medo de saber tudo o que eu fizera. Pôs-me no chão.

- Escuta lá, Ti. Não é mal nenhum esconderes-me alguns segredos. Precisas de ter a tua própria vida. Mas tens de me prometer uma coisa. Quando te apetecer rasgar mais algum desenho, ou fazer qualquer estrago permanente do género, vem ter comigo antes para falarmos.

Ao prometer que o faria, estremeci com redobrada culpa. Ele reparou na minha atrapalhação e acrescentou: - Escuta, meu filho, a morte da tua mãe põe-me tão zangado como a ti. Há alturas em que me apetece rasgar todas as recordações dela.

Ao crescer, comecei a perceber que herdara os lábios encurvados da minha mãe e a suave profundidade dos seus olhos, embora os meus fossem azuis e os dela, castanho-claros - da cor da amêndoa, costumava dizer o meu pai.

- Tu herdaste mesmo foi toda a maldade da tua mãe - costumava dizer o meu pai, gemendo comicamente, como se eu lhe fizesse estalar a cabeça. Depois, punha-se a correr atrás de mim pela casa fora, grunhindo, tentando expulsar a nossa tristeza com palhaçadas, forma que encontrara de impedir que a ausência dela nos destruísse. Por vezes, punha-se a dançar comigo uma jiga improvisada ou a guinchar como um dos veados que passavam a vida a comer as rosas do jardim. Depois, deixávamo-nos cair os dois nas travesseiras de seda dourada que faziam parte do dote da minha mãe e ficávamos a dormitar ao sol que se filtrava pelas janelas. Provavelmente, as nossas gargalhadas impotentes preservavam a nossa sanidade, e, no entanto, talvez devesse dizer-lhe que aquilo só me deixava mais triste ainda, que era como se traíssemos os nossos verdadeiros sentimentos. Mas, naquela idade, nunca conseguiria verter em palavras pensamentos tão complexos. E nunca seria capaz de o magoar de propósito.

No retrato que eu preferia, e que o meu pai pendurara por cima da minha cama, os longos cabelos negros da minha mãe estavam enfiados por baixo do lenço cor de marfim que a minha irmã, Sofia, haveria de herdar mais tarde. As mãos da minha mãe eram esguias e graciosas, e estavam a acenar na direcção do arcanjo Gabriel como que dançando para ele.

Gabriel tinha asas cor de vinho e amarelas, as mesmas cores do sari da minha mãe. A mim sempre me pareceu que a minha mãe e o anjo podiam ser um e o mesmo ser com formas diferentes.

Por vezes, surripiava à Sofia o lenço da minha mãe. Punha-me a olhar para o retrato com ele na mão, meditando no mistério do tempo - pois aqui estava eu a crescer e a minha mãe nunca havia de me conhecer.

O desenho da minha mãe com o arcanjo Gabriel era um estudo para um Corão feito pelo meu pai para o sultão de Bijapur. O sultão convidara o meu pai para a índia uma década antes de eu nascer e pagava-lhe um estipêndio anual pelos seus Corões e livros de orações iluminados. A minha mãe, que o meu pai conhecera e cortejara sete anos após ter chegado, veio a ser o modelo para Khadija, mulher do profeta Maomé. Nunca a vi posar para o meu pai, mas nos meus sonhos vejo-o a desenhá-la. E embora nem sequer se toquem, é como se estivessem a fazer amor com os olhos - talvez até a conceber-me.

Depois de ter encontrado Tejal, tinha eu dezoito anos, nos nossos momentos de intimidade, costumava recordar o odor quente e protector da minha mãe. O que é estranho é que, sempre que mergulhava nas suas recordações, era como se ela fosse um pressentimento de algo no meu futuro mais do que uma reminiscência do passado distante. Talvez o amor não possa deixar de olhar em frente.

A minha mãe caiu de cama com febre e arrepios no princípio de Junho de 1576, quando eu tinha quatro anos e meio. Ficava aterrorizado ao ver como os dentes lhe batiam e como adormecia com os olhos abertos. Mesmo no calor húmido do Verão, o meu pai tinha de a cobrir com pesados cobertores de lã e viu-se obrigado a levar a cama dela para junto da lareira, que ele mantinha acesa dia e noite. Muitas vezes, tinha uma respiração desesperada, como se estivesse faminta de ar, e amiúde estava demasiado fraca até para sussurrar.

O meu pai pendurou-lhe à volta do pescoço um talismã de couro com os anjos judeus Sanoi, Sansanoi e Samnaglof, representados como velhos sábios de vestes compridas e bastões com cabeça de leão; dizia-se que os três anjos protegiam as mulheres de Lilith, a rainha dos demónios, e de todos os seus acólitos sedentos de sangue.

Sentado aos pés da cama a observar a minha mãe, e a ouvir as impiedosas chuvas da monção lá fora, sentia-me como se estivéssemos a ser varridos da vida. As cortinas de chuva que caíam sobre as nossas janelas eram tão espessas que não víamos vida nenhuma para lá delas. Todo o mundo era água, e o insistente martelar no nosso telhado fazia tanto barulho que, durante a noite, havia alturas em que, mesmo guinchando como um papagaio, ouvia a minha voz apenas como um arranhar ao longe. Nesse Verão, a monção tornou-se um ser vivo - malévolo, acusatório, de uma avidez sem fim. De vez em quando - quando lhe dava para aí - retirava-se por meio dia, recuando lentamente, voltando-se para trás de quando em quando para gozar em silêncio o mal que fizera. Durante essas tréguas, podíamos ver que o nosso jardim se tornara um charco bordejado de ervas e esguios fetos. A súbita magia do Sol renascido transformava em cristal as folhas encharcadas.

Passava os dias junto à cama da minha mãe doente, brincando no chão com as minhas marionetas de sombras e os animais de brinquedo. Só deixava a casa para me ir sentar no alpendre quando o meu pai insistia em aproveitarmos uma aberta da tempestade. Se Nupi tentasse levar-me dali, mesmo que fosse para lavar a cara, punha-me a agitar os braços e a berrar. Ela dizia que só me prejudicava com tanta casmurrice, mas, pelo olhar duro que me lançava, percebia que ela respeitava a minha determinação. Mudámos a cama dos meus pais para a sala de estar para que o meu pai e eu pudéssemos dormir junto à minha mãe. Ele costumava deitar-se por trás de mim, enroscado, e afagar-me o cabelo para me adormecer.

Por vezes, a minha mãe conseguia sentar-se, especialmente de manhã. O meu pai dava-lhe então chá à colher e incentivava-a a comer um pouco de arroz. Os lábios dela eram cinzentos e gretados, e começavam a sangrar-lhe quando tentava sorrir. Anos mais tarde, o meu pai mostrou-me um desenho que tinha feito dela durante a doença e eu disse-lhe que não estava parecida. Mas estava: eu é que não queria acreditar que aquela mulher de olhos cavos e face cinzenta era mesmo ela.

Uma tarde, no fim desse terrível Junho, estava sentado junto à minha mãe, a desenhar caras de macacos numa folha de papel. Para a adormecer, Nupi tinha-lhe dado a beber uma chávena de chá de folhas de damas-da-noite esmagadas e raiz de gengibre, e, embora tenha dado resultado, ela continuava a respirar com dificuldade. Era como se tivesse os pulmões salpicados de ferrugem.

Quando reparei que o seu resfolegar parara, ergui-me. Pondo-lhe a mão no peito, senti que este não se mexia, e os olhos vidrados não estavam a olhar para coisa nenhuma deste mundo. O quarto começou a girar à minha volta, como se eu estivesse no centro de uma roda. Muito ao longe, ouvia o meu pai a falar a Kiran - a ama de peito - que amamentava a minha irmã, nascida havia sete meses, em Dezembro de 1575.

Nupi estava a raspar coco na cozinha; esse som persistente de arranhar havia de me lembrar para sempre a morte.

Sacudi a minha mãe e chamei-a baixinho para a acordar. A seguir corri para o meu pai.

Por mais que fizesse, não conseguia acordá-la. Beijou a minha mãe nos lábios, e depois fechou-lhe os olhos com um afago e ajoelhou-se a seu lado de cabeça curvada. As chuvas martelavam por cima de nós, e ele soluçava, e eu pensava que éramos mais frágeis do que alguma vez pensara, o meu pai mais que ninguém. Terei visto na curva fatal das suas costas que a morte da minha mãe haveria de o quebrar? Se ela não tivesse morrido, será que, passados muitos anos, ele me pediria o veneno?

Eu estava ali ao pé dele, agarrado por Nupi, a qual mantinha os joelhos ossudos contra as minhas costas e as mãos fortes nos meus ombros, mãos que me tinham preso para impedir que me atirasse aos braços do meu pai. Recordo-me de que sentia uma sombra - talvez a minha, embora não tivesse a certeza - a afastar-se de nós em bicos dos pés, para nunca mais regressar.

Beijando as mãos da minha mãe, o meu pai por fim voltou a chamar-me para o seu lado. Pôs-me as pontas dos dedos dela nos olhos, e depois nos dele, murmurando o kadish, a oração judaica pelos mortos.

Por vezes, ainda sinto nas pálpebras o peso do toque da minha mãe. Habitualmente, é uma recordação reconfortante, mas acontece que me assuste, também, como se significasse que os mortos hão-de ter sempre poder de mais sobre mim.

Quando o meu pai foi com a Nupi buscar a minha irmã junto da Kiran, subi para a cama, peguei no braço flácido da minha mãe e pu-lo à volta da cintura, na esperança de que ela acordasse. Ao fim de algum tempo, abalou-me um tremor, e já não conseguia ouvir o estrépito da chuva, embora as portadas estivessem entreabertas e pelas frinchas se visse tudo inundado. Era um silêncio de expectativa, como se a minha cabeça estivesse fechada num frasco de vidro prestes a rebentar. A luz em torno esmorecia.

- Não te aflijas, Berequias - murmurou subitamente a minha mãe, chamando o meu pai pelo nome. - O Ti e a Sofia amparam-se um ao outro.

Com um sacão da cabeça, girei o olhar na sua direcção e vi claramente os lábios esculpir as duas últimas palavras. Ou seria que eu caíra no sono por um momento e, aquilo, só o tinha sonhado? É que os olhos dela continuavam fechados, afinal.

Debrucei-me sobre a cara dela e toquei-lhe as faces frias. Não estava assustado. Tinha esperança de a ver abrir os olhos a qualquer momento. - Mamã - murmurei -, sou eu. Acorda.

O meu pai voltou para o quarto, embalando a minha irmã, e eu precipitei-me para ele a contar-lhe o que se tinha passado.

- É impossível - disse, carregando o sobrolho reprovador. Senti a vergonha inundar-me e fugi como uma flecha conseguindo livrar-me das garras da Nupi, que tentou apanhar-me à porta. O meu pai correu para o jardim no meu encalço, chamando-me com a voz a tremer de desespero, mas eu não voltei para trás. Procurou por detrás da hortênsia molhada e das moitas de hibisco, deixando-se encharcar, de face retorcida pelo medo. Eu estava na borda de um arrozal a espiá-lo, todo arrepiado, de pés descalços enfiados na lama, com água até aos joelhos. Achei que o odiava.

Nessa noite, pediu-me desculpa por não acreditar em mim e implorou-me que não voltasse a fugir.

- Se eu agora te perdesse ou à tua irmã, não aguentava mais - confessou. Quando ele ia a cobrir os olhos com a mão, vislumbrei-lhe um olhar perdido de arrepiar; por isso, fui para junto dele e abracei-me às suas pernas. O meu pai era alto e forte, e tinha mãos grandes e suaves. Quando me ergueu, apanhei-o pelas orelhas. Era uma brincadeira que nós tínhamos, era a deixa para ele soltar um barrido de elefante, fingindo que tinha uma tromba. Nesse dia, porém, sentou-me no regaço sem um som. Disse-me que os judeus como nós, e os hindus como Nupi e Kiran, acreditam que a alma de uma pessoa morta podia voltar a cruzar a ponte para a vida por um breve período - se tivesse ficado algo por dizer ou fazer. Fora isso que eu vira a minha mãe fazer. - Percebes? - perguntou.

Eu disse que sim, mas o cheiro escuro e bafiento da sua aflição faziam-me sentir ameaçado, e só queria ter os braços dele a abraçar-me. Pousou-me os lábios na fronte e voltou a perguntar-me o que a minha mãe tinha dito. Disse-lhe, e ele levantou-se e ficou a meditar na minha resposta.

- Sempre que íamos passear, tinha de voltar para trás para buscar alguma coisa de que se esquecera - disse meditativo. - Desta vez, tinha de voltar atrás para nos sossegar. - Sorriu-me agradecido. - Foi uma sorte tu estares aqui com ela e ouvires o que ela queria dizer, Ti. Isso deve tê-la sossegado.

Por que é que as crianças que perdem o pai ou a mãe parece que julgam ter de ficar com a responsabilidade dos vivos? Não disse ao meu pai o que estava a pensar: que ele estava enganado e que a minha mãe queria que, a partir de agora, fosse eu a tomar conta da minha irmãzinha. Era isso que queria, mesmo que me tivesse falado em sonhos.

 

Os OLHOS FUNDOS de Sofia eram de um verde escuro e húmido, como sombras num lago profundo, e, ainda não passara muito de ter nascido, a minha irmã já fitava tudo à sua volta como se estivesse surpreendida por toda a existência. Nupi dizia que o seu olhar de espanto era na realidade uma vigilância secreta, e, passados quarenta dias, quando, segundo a tradição judia, a minha irmã já podia sair de casa em segurança, a velha cozinheira levou-a a Jaidev, o homem santo que nos tirava a cera dos ouvidos com um fio fino, para que ele nos dissesse quem fora ela numa vida anterior.

Eu adorava Jaidev porque ele tinha faces afundadas e umas tranças que lhe chegavam à cintura. Ao chegarmos lá, encontrámo-lo sentado como um Buda, com as mãos queimadas do sol recurvadas sobre os joelhos ossudos. Estava coberto de pó branco endurecido, visto que se espojava na terra seca como um elefante para se limpar.

Quando os olhos se lhe abriram por entre aquela crosta, traziam um fogo negro secreto que lhes dava vida. - Nupi veio com o Menino Ti! - exclamou, estendendo as mãos para nos saudar.

- E quem é este pequeno chapati? - perguntou, deitando a língua de fora à bebé, o que fez com que ela agitasse braços e pernas.

Instruído do que queriam dele, aceitou as nossas moedas, e abriu os dedos de Sofia como uma estrela-do-mar. Deitou-nos um olhar espantado, soltando pó do cabelo. - Uma brâmane! - exclamou.

Curvando-se para ver melhor, e entrando num transe, descobriu que ela fora uma princesa hindu raptada por um califa muçulmano há mais de quinhentos anos. - Era bela e muito esperta, e era capaz de acabar por encontrar o caminho para casa - explicou-nos. Erguendo a mão em pose de professor, acrescentou: - Mas é por isso que a vossa Sofia está sempre a olhar em torno.

Nupi ficou agradada com este veredicto e estendeu-lhe mais uma moeda de cobre.

- E toda a gente gostava dela - gritou ainda quando nos afastávamos.

O meu pai resmungou quando Nupi lhe contou o que Jaidev descobrira. Disse à cozinheira que a menina estava sempre a olhar em torno porque estava a apreender o que havia para lá dela - coisas grandes como a sua necessidade de dormir e de afagos, e coisas diminutas também, como a goma do arroz quando o apertava nos dedos e «as estranhas crenças de algum do pessoal da nossa casa».

Nupi amuou quando ele lhe atirou esta última observação, e durante anos havia de se referir ironicamente às suas «estranhas crenças» sempre que se verificava que tinha razão quanto a um assunto importante ou até uma trivialidade. Mas eu percebi que a crítica do meu pai lhe agradava secretamente, porque significava que a considerava parte da família.

O que está fora de mim é tudo, e, contudo, entra dentro de mim logo que o fito ou toco.

Isto era o que eu achava que Sofia estava a pensar quando fitava o mundo, só porque era o que eu pensava quando a observava, e ainda não sabia distinguir entre ela e mim - isto é, não como um adulto, com fronteiras claras em torno de mim.

Por vezes, punha-se a guinchar de alegria ao ver um beija-flor levantar voo do corrimão do alpendre, ou um escaravelho de patas finas deslizar num charco do jardim, e o meu pai dizia que eu era igual na idade dela. Eu gostava de ser como ela e, quando estava só, abraçava-me a esse saber com toda a força. Éramos ambos filhos da mamã e do papá e nunca poderíamos ser outra coisa.

Cerca de dezoito meses após a morte da minha mãe, tinha Sofia dois anos, os seus interesses mudaram, e tudo via e ouvia, tudo queria meter na boca.

Uma noite suave e perfumada, estava o meu pai a ensinar-me as constelações, disse-lhe que as estrelas eram deliciosas e fiz que estava a comê-las. Ela estendeu a mão como eu e meteu-as - às estrelas que apanhara - na boca.

O vivo prazer de ser imitado pela primeira vez fez-me vibrar de emoção, mas também me sentia inseguro, como se ainda não soubesse o que fazer com o poder que tinha sobre a minha irmã e talvez nunca o viesse a saber. Nupi surpreendeu-me ao encorajar-me a jogar este jogo com ela. - Pelo menos, ao limpar-lhe o rabinho, a única coisa que tenho de procurar é a luz das estrelas - disse, rindo-se.

Fiz tantas coisas para a Sofia quando ela ia crescendo - palafitas formadas de raminhos presos com fios, fortalezas antigas que ela podia deitar abaixo feitas de pedras empilhadas bem alto, coroas, espadas e chapéus de pasta de papelão! A minha especialidade eram as marionetas de sombras de animais, e aos sete anos já tinha muito jeito para as recortar no papel. Queria que ela fosse forte e rápida - e, se calhar, queria também que fosse um rapaz. Comecei a atirar-lhe a minha bola de couro mesmo antes de ela saber andar e, uma vez, com as tintas e os pincéis de marta do meu pai, pintei-lhe a cara de azul, como Krishna. Pensei que Nupi ia ficar louca de alegria, mas disse-me que, se eu voltasse a fazer um disparate desses, me cozinhava em vindaloo. Nupi tinha o olhar mais intimidante que já conheci. Quanto ao resto, o seu corpo parecia frágil, e só tinha dois dentes amarelos vacilantes em baixo, mais três em cima, mas tenho a certeza de que ela cultivava um olhar estropiado e escarninho para surpreender as suas vítimas. Sim, os dedos dela estavam cheios de nós nas articulações que lhe doíam horrivelmente quando chovia, mas tinha mãos como tenazes. Com ela, ninguém ousava forçar a passagem, excepto o meu pai.

Foi com Nupi que aprendi todos os provérbios locais que conhecia. «Bhaanshira zari aayla» («o trapo de repente tem fios de seda»), dizia ela em concani quando Sofia ou eu nos púnhamos nas nossas tamanquinhas. «Cada grão de areia da praia tem o seu lugar», dizia sempre que eu ousava pôr em causa o valor de uma tarefa aparentemente sem sentido. Ou, quando nos dava uma boa notícia, acrescentava: «Embora todos saibamos que Kali terá a sua hora», visto que era de opinião que os dias felizes apenas tentam a Deusa da Destruição a puxar da espada. No entanto, das suas expressões, a minha favorita era: «Os guardiães da aurora conhecem a noite melhor que ninguém.» Nupi utilizava-a sempre que a minha família passava alguma dificuldade, e geralmente queria dizer que a esperança nos faz sentir mais profundamente as épocas de escuridão. A esse respeito, era muito parecida com o dito «Só quem conhece a tristeza conhece também a alegria»... No entanto, ao crescer, comecei também a perceber que podia utilizar o provérbio para dizer que quem protege os outros muitas vezes se vê perante os piores perigos. Nupi tinha um grande inimigo, a prisão de ventre, e passava a vida a comer sementes de funcho para ajudar o que ela chamava a sua «tripa do demónio».

Era capaz de passar horas a falar da sua aflição, descrevendo com pormenores rigorosos os esforços que fazia para produzir um resultado cabal. Sofia e eu aprendemos a deflecti-la, pedindo-lhe que nos contasse histórias de gandharvas e apsaras, os espíritos hindus das florestas e dos rios.

No tempo de Rama, nasceu um duende que sabia ver o futuro, e o seu nome era Tiago...

Nupi punha-nos sempre, a mim e à Sofia, nas suas histórias labirínticas. Quando já era muito mais velho, compreendi que era porque queria ter a certeza de que sobrevivêramos intactos à morte da nossa mãe, de que as nossas vidas - e histórias - continuariam pelo futuro fora. Eu tinha-lhe devoção, e adorava escutar a sua delicada voz a contar histórias, mas secretamente receava a forma como tinha os olhos vigilantes pregados em mim.

- Diz-se que não reparamos no amor quando nos surge dos lugares mais óbvios - disse-me o meu pai uma vez que eu estava irritado com Nupi, mas só quase em adulto compreendi bem o que ele queria dizer.

Às escondidas de Nupi e do meu pai, depois das chuvadas, costumava levar a minha irmã do pátio para o telhado, e ali púnhamo-nos a olhar para os campos de arroz - espelhos líquidos num vale esmeralda - a serem cultivados por mulheres e crianças de Ramnath, a aldeia mais próxima da nossa casa. Costumávamos fingir que conseguíamos ver o oceano, duas léguas para oeste. Eu contava-lhe então que o nosso pai embarcara numa nau de Constantinopla para a índia antes de sermos nascidos. E que, antes disso, a família dele fugira de Portugal porque o rei D. Manuel e outros homens maus não queriam que eles vivessem livremente como judeus.

Sofia e eu dormíamos muitas vezes juntos, e eu abraçava-a contra a barriga como se fosse um presente que me tivessem dado. Quando o meu pai estava triste, levava-nos para a cama dele, dizendo que era o califa que a raptara na vida anterior e que éramos outra vez prisioneiros dele.

Os piores momentos para nós eram quando a minha irmã se punha a gritar com fome a meio da noite. Havia alturas em que ficava muito nervosa e casmurra, pelo que o meu pai e a ama de peito, Kiran, tinham de andar a passeá-la pela casa por mais de uma hora para a levar a beber um pouco de leite. Às vezes eu tomava o lugar deles e - imitando o que os vira fazer - de tantos em tantos minutos, chegava-lhe a ponta do polegar aos lábios.

A face de Kiran iluminava-se de uma ternura decidida sempre que cingia Sofia ao seu peito. A jovem ama de peito parecia ter o poder de uma deusa - sobre o fogo, a terra, o ar e a água; sobre a vida e a morte. Soltava as tranças negras como uma cortina sobre a menina, de forma a ficarem as duas abrigadas num mundo só delas. Kiran tinha uns olhos grandes e redondos e um pescoço comprido e recurvo. Trazia argolas de prata nos tornozelos e braceletes nos braços, pelo que repicava como os sinos das festas por onde quer que andasse. A beleza dela e a sua separação em relação à minha família inspiravam-me um temor respeitoso, e quando eu era mais velho o meu pai disse-me que eu passava o tempo a perguntar-lhe se podia apalpar a cicatriz na testa que o pai dela lhe fizera com uma faca numa altura em que estava bêbado.

Kiran jurou a Durga Devi que nunca haveria de voltar a casa para ir ter com ele e acabou por vir a cumprir a sua palavra; deixou-nos quando a minha irmã tinha dois anos e meio, e, com uma carta de recomendação para o sultão escrita pelo meu pai, pôs-se a caminho de Bijapur, levando todos os pertences - incluindo dois saris de seda que haviam sido da minha mãe - embrulhados num só xaile. Nunca mais voltámos a vê-la.

Eu estava sempre com ciúmes da intimidade que Kiran estabelecia com a minha irmã e muitas vezes punha-me a observá-las do umbral, a pensar muito na vida e na morte. Se pudesse alimentar a minha irmã do meu corpo, fá-lo-ia. E eu achava que ela ficava melhor servida com leite do irmão. Quem mais havia de amá-la tanto como eu?

Talvez isto tivesse feito de mim uma criança estranha, e agora percebo por que é que os amigos europeus do meu pai, e especialmente a minha tia Maria, de vez em quando se divertiam a pendurar corações de filigrana dourada nas minhas orelhas e a perguntar em voz alta se eu não me sentiria mais feliz se tivesse nascido rapariga. Odiava aquela esperteza cruel e as gargalhadas deles, e por vezes brigava com os seus filhos. Embora pequeno para a idade, era muito decidido e um nó do dedo esfolado ou um joelho arranhado apenas me levavam a bater muito mais forte. O meu pai, de castigo por andar à pancada, fechava-me no quarto, mas eu nunca me arrependia. - Só paro se os obrigar a não me incomodarem a mim e à Sofia! - costumava gritar-lhe de dentro do quarto.

Por vezes, as minhas fúrias punham o meu pai tão fora de si que se sentava com a cabeça nas mãos sem dizer nada durante horas, mesmo que eu fosse aninhar-me nos seus braços. Desta maneira, fui lentamente aprendendo a tratá-lo com ternura.

O momento em que percebemos que podemos magoar muito os nossos pais é um momento de terrível mudança, e por vezes sinto que gostaria de ter aprendido isso um pouco mais tarde na vida.

Os nossos vizinhos hindus e os meus pequenos parceiros de brincadeira de Ramnath nunca me acirraram por causa da minha fervorosa devoção à minha irmã, e essa é uma razão, acho eu, por que sempre me senti mais à vontade com os Indianos do que com os Europeus. Não julgavam que eu fosse menos viril só porque sentia aquela ternura por ela. Nem pensavam que a singularidade fosse uma maldição ou algo que se temesse, ao contrário do que acontecia por vezes com os cristãos e os judeus. Encaravam a minha invulgar devoção por ela como uma bênção - que não tinha necessariamente de ser compreendida, mas que tinha o seu lugar no jardim-universo em que mandava Vishnu.

Depois de Kiran se ter ido embora, a nossa casa ficou de súbito demasiado grande e fria para mim. Parecia-me que todos os seus cantos acolhedores tinham endurecido e as suas portas estavam para toda a eternidade à espera de um visitante que nunca havia de chegar. Durante semanas a fio, arrastava-me de quarto para quarto, pensando que passara a ser um intruso. Até detestava a minha cama, e os travesseiros que faziam de costa rochosa quando eu brincava às batalhas navais em cima dos lençóis, e a alcova sombria do lado norte da biblioteca do meu pai onde lia os meus livros quando em todo o resto da casa estava demasiado calor. Meteu-se-me na cabeça que queria umas escadas e um segundo andar na casa. Já não me lembro porquê. Talvez precisasse de um novo lugar para começar de novo.

Uma tarde, depois de o meu pai se ter recusado outra vez a fazer uma escada para mim, pus-me a chorar e Nupi levou-me para a cozinha. Quando lhe expliquei qual era o problema, mandou-me sentar.

- Para quê? - perguntei.

- Mas alguma vez vai fazer o que lhe digo sem se pôr a barafustar? Fizera para si uma pratada de dal fumegante e, com a sua concha de

ferro, verteu-me um pouco para uma folha de bananeira, e depois serviu-se de uma porção menor. Chegou a velha cadeira de madeira para a mesa a que, há pouco, tínhamos dado uma nova demão amarela brilhante e mandou-me fazer o mesmo com a cadeira de verga onde estava encostada a vassoura.

- Queres que coma contigo? - perguntei.

Olhou em torno e depois espreitou por cima do meu ombro. Até levantou o grande caldeirão, que tinha um pedaço de sabão preto escondido por baixo. - Não vejo aqui mais ninguém - disse -, por isso só podias ser tu. Era a primeira vez nas nossas vidas que comíamos juntos. Uma flor branca de hibisco colhida no nosso jardim espreitava da borda da jarra de barro rachado que se encontrava entre nós dois.

- As flores são boas - declarou quando eu lhe toquei. Vim a perceber mais tarde que se tratava de um postulado essencial do seu guia para a vida. - E a tua mãe gostaria de saber que te alimentas bem - acrescentou.

Comíamos o nosso dal, e Nupi, de vez em quando, tocava-me no pé descalço para me obrigar a olhar para cima, pois, ultimamente, tendia a ficar perdido nos meus pensamentos. Disse-me que não devia deixar um só grão, senão ia fazer queixa ao meu pai, o que era uma tentativa de piada, pois estava sempre a dizer que o meu pai era muito brando comigo. Como não sorri, lançou-me um olhar sério e decretou que tinha de comer com ela na cozinha sempre que me sentisse mal.

- A sério? - perguntei.

- Nunca brinco com a comida - respondeu, e era mesmo verdade. Por vezes, penso que a singela oferta de Nupi naquele dia me salvou a

vida, porque, de facto, nos anos seguintes comi com ela - e muitas vezes. E sempre associei o sabor daquele primeiro dal com o tipo de amor que nunca nos falha em horas de aperto. Sofia disse-me, muito mais tarde, que também comia na cozinha, e era capaz de apostar que Nupi convidava a minha irmã para comer com ela em alturas que eu nem suspeito.

Quem me dera nesse dia ter feito algo em paga para a nossa velha cozinheira - ter colhido uma braçada de orquídeas violetas, a que chamávamos bigodes-de-gato, para o seu sacrário em honra de Ganesha ou simplesmente tê-la abraçado. Ainda não percebera que ela só rezava por uma coisa - e era isso o que mais queria na vida: que eu e a minha irmã não morrêssemos novos. Mas, é claro, isso era uma garantia - e uma prenda - que ninguém lhe poderia dar.

Durante toda a minha infância, os meus momentos mais felizes eram de manhã. Nupi costumava levantar-se cedo para nos fazer chapati, que eu comia com coco ralado e açúcar de palma, e no Inverno ela fritava feijões-mungos com alho e manjericão. O meu pai e eu sentávamo-nos à mesa grande de calcário do pátio, empurrando a refeição com chá preto e ele mostrava-me os desenhos que estava a fazer para o sultão. Por vezes, Nupi também espreitava para eles por cima do ombro, mas, como tinha o irritante hábito de chupar nozes de areca com grande ruído, o meu pai punha-se a inventar constantemente recados para a manter afastada. Depois, ele e eu púnhamo-nos a ler a Tora e eu tinha a minha aula de desenho, que se prolongava por vezes até ao meio-dia, pois quando fosse crescido havia de ser iluminador de manuscritos como ele.

Nos desenhos que fiz do meu pai nesse tempo, ele tem olhos cansados e apreensivos. É espantoso que nunca tenha percebido que a sua preocupação estava toda virada para o pequenino artista que o desenhava com tanta aplicação. Como deve ter perdido a confiança no olhar vigilante de Deus depois de ter enterrado a minha mãe.

De uma forma vaga, também comecei a perceber que o desenho é que havia de repor o mundo tal como era antes da doença da minha mãe; com um cálamo na mão, sentia que não era impotente e que o mundo fora feito para mim. A ingenuidade é prerrogativa dos rapazes, claro, mas ponho-me a pensar se - caso pudesse viajar para trás no tempo - me poria a mim próprio de sobreaviso contra tão voraz optimismo. Seja como for, duvido que prestasse ouvidos ao meu eu mais velho, pois - embora tivesse assistido à morte da minha mãe e tivesse sido forçado a despedir-me em lágrimas da ama de Sofia, Kiran -, nessa época, não era da minha natureza duvidar da bondade do mundo.

Por vezes, quando se sentia sozinho, o meu pai pedia-me que fosse passear com ele pela casa, e eu metia a minha mãozinha na dele e espreitávamos a Sofia. Se estivesse a dormir, beijávamos-lhe a face ou afagávamos-lhe o cabelo louro vaporoso. Dirigíamo-nos depois para o pátio e, passando pelo canteiro de manjericão de Nupi, terminávamos a ronda na cozinha. Ficávamos a vê-la a carregar o carvão ou a descascar vagens de tamarindo para fazer o seu famoso creme, e perguntávamos-lhe o que planeara para a refeição do meio-dia. Por fim, íamos para a biblioteca do meu pai, onde ele tinha a sua secretária de trabalho. Pouco falávamos nessas pequenas excursões caseiras, mas, uma vez sentados, ele pegava por vezes num volume de poesia portuguesa encadernado a couro e punha-se a ler para mim, comigo sentado ao colo.

Também me recitava poesia de noite, depois de me aconchegar os cobertores, lendo à luz de uma só vela que estava sempre numa taça branca de barro junto à minha cama. Nunca houve outra luz como aquela. Era mais suave e redonda e por isso tornava tudo o que me diziam no quarto muito mais secretamente meu.

 

Uma vez por ano, na noite sagrada antes do Yom Kippur, o nosso Dia da Expiação, o meu pai deixava-me pousar os olhos num manuscrito sumptuosamente iluminado, escrito há uns sessenta anos pelo meu famoso bisavô, Berequias Zarco, um poderoso cabalista de Lisboa que, em 1497, fora convertido à força ao cristianismo. Guardávamos este tesouro sem preço, intitulado «O Espelho que Sangra», num esconderijo secreto por trás do guarda-roupa do meu pai, envolto numa bolsa de veludo negro bordada a fio de prata com as iniciais BZ. Gostava de passar a ponta dos dedos sobre a magnífica ilustração da capa - um pavão que desdobrava descaradamente o leque iridiscente de penas verdes, púrpura e azuis à largura do título, o qual era feito numa folha de ouro tão polida que eu conseguia ver o meu reflexo a fitar-me. - Era intenção do meu avô que quem quer que pegasse neste livro se visse reflectido nele - contou-me o meu pai mais do que uma vez, e eu acreditava que o nosso ilustre antepassado devia ter sido um cabalista tão mágico que naquele momento estava a olhar para mim de dentro do seu manuscrito.

«O Espelho que Sangra» era a descrição de um massacre em Lisboa em 1506, no qual dois mil judeus conversos foram assassinados por uma turba açulada pela Igreja e queimados na praça principal. Tinham dado ao meu pai o nome de Berequias, facto que no seu entender lhe conferia uma obrigação especial, acho, porque, sempre que me lia a descrição do pogrom feita pelo avô, a seguir me dizia: - E é por isso que Portugal deve ficar para sempre no nosso passado. Nunca deves pôr sequer um dedo do pé nesse país, Ti. - Como que para recompensar o meu amor pelos segredos, por vezes levava um dedo aos lábios e dizia: - E, em nenhuma circunstância, mesmo que te ameacem de morte, podes dizer seja a quem for fora da família que possuímos uma cópia deste manuscrito.

Uma manhã de Inverno, fui dar com o meu pai a chorar na cama, nu, a tremer de frio, com as portadas abertas de par em par. Eu ficava desesperado quando ele se punha a chorar. Suponho que, não sei como, percebia que nunca conseguiria enxugar as suas lágrimas. Pareciam ameaçar a minha própria existência porque me lembravam que nos movíamos em mundos diferentes, e embora eu pudesse visitar o seu universo adulto, nunca poderia demorar-me nele. Desta vez, disse-me que sonhara com a minha mãe fechada fora de casa a chamar de lá. Tomou-me nos braços, como se fôssemos dois náufragos.

Teríamos sido mais felizes em Bijapur ou Calicut, onde ele poderia ter encontrado companhia? Dizia-me sempre que não queria ter de começar de novo noutro lugar, mas foi Nupi quem finalmente me contou a verdade. Um dia, tendo-lhe repetido o que o meu pai me dissera, ergueu o olhar das colheres de pau que estava a alinhar na mesa e fitou-me com uma expressão de espanto. - Não sabes que ele não quer levar-te a ti e à Sofia desta casa, em que a vossa mãe continua presente?

Uma vez, depois de o ter ajudado a arrancar um cepo de pipal que apodrecia no fundo do jardim, vi-o olhar de esguelha para o sol tórrido da tarde. Disse: - Ti, por vezes perguntas-me pelas coisas de que a tua mãe gostava, e nunca me lembrei de dizer o mais evidente. Ela abria-se como uma flor quando o sol a tocava. A tua irmã herdou isso dela.

Compreendi então o retrato que o meu pai fizera da minha mãe depois da morte e que guardava por cima da cama. Nele, ela está ajoelhada numa caverna de nuvens escuras, com os raios a irradiar dela, como se fosse o Sol a nascer.

 

O IRMÃO MAIS NOVO do meu pai, Isaac, vivia a um dia apenas de viagem, na cidade portuguesa de Goa. Era a capital de uma colónia com o mesmo nome, e fora fundada numa terra que os invasores europeus tinham conquistado pelas armas ao sultão de Bijapur há uns cem anos. De tantos em tantos meses, Isaac e a mulher faziam-nos uma visita de vários dias, ou, se o meu pai se sentisse com forças para uma viagem, éramos nós que arrostávamos com as estradas lamacentas e as insolentes inspecções dos guardas fronteiriços para irmos a casa deles. Viviam mesmo ao lado da Rua Direita, numa casa de pedra de dois andares com cortinas de renda nas janelas. Num instante se chegava a pé ao rio, onde as naus, com a sua floresta de altos mastros, nos levavam inevitavelmente, a mim e ao meu pai, a falar do que seria a vida na longínqua Istambul, ou Lisboa. No lintel da porta de entrada estava esculpida uma grande cruz: Isaac, que seguira o meu pai para a índia, fora baptizado quando decidira viver em Goa, visto que os judeus não estavam autorizados a residir permanentemente dentro dos territórios portugueses. Ainda não ousava pensar em perguntar se o meu tio praticava a sua antiga crença em segredo, mas era certo que nunca me iram confiar tão delicada informação, numa idade tão tenra.

Fechando os olhos, ainda hoje sinto o mal-estar que me causava a cidade, como se eu fosse para sempre demasiado fraco para a grandiosidade das igrejas de pedra e demasiado inexperiente para decifrar o confuso emaranhado das suas ruas. Quanto às dezenas de milhar de residentes portugueses, pareciam senhores e damas de outras eras, com as suas infindas camadas de roupas vaporosas e esvoaçantes. E os homens usavam penas nos chapéus, coisa que eu achava estúpida. O cheiro a azeite fazia-me picos no nariz e eu tremia à vista dos seus escravos africanos. Detestava as sobrancelhas desenhadas das mulheres, que me pareciam asas de morcego.

O tio Isaac tinha sempre prendas surpresa para Sofia e para mim, e até quando eram apenas uns doces de leite, açúcar e cominho em forma de coração, trepávamos por ele acima para lhos arrebatarmos das mãos. Gostávamos da sua louca alegria, do brilhinho de juventude nos seus olhos, e dos cabelos castanho-escuros. O meu pai abria os braços com uma alegria tão radiante quando se cumprimentavam - como se tivesse ficado durante semanas na escuridão só pelo prazer de depois ver o irmão - que eu percebia que os irmãos tinham brincado juntos em crianças. E, depois, tinham tantos gestos parecidos - por exemplo, a forma como reviravam os olhos quando nos ouviam dizer algum disparate, ou se punham a arfar como cachorros com a língua de fora quando Nupi trazia a ceia para a mesa. Muitas vezes um deles fazia rir o outro e ninguém mais percebia porquê. Talvez porque, como o meu pai conhecera Isaac muitos anos antes de conhecer a minha mãe, ele, mais do que ninguém, poderia ficar distanciado da sua morte.

O tio Isaac não podia viver mais perto de nós porque o seu negócio de exportação de tecidos e tintas indianas para Lisboa o obrigava a morar junto a um porto, o que a mim, quando eu era pequeno, me parecia uma razão tola - e muitas vezes lho disse.

A tia Maria era cristã desde o berço. Provinha de uma família aristocrática portuguesa que perdera muito da sua fortuna nos altos e baixos do comércio das especiarias. Mesmo assim, mantinha uma postura distante e altaneira em público e andava sempre com um escravo pessoal atrás para a abrigar do sol tropical com uma sombrinha de seda carmesim. Tinha um extremo orgulho na sua pele pálida e dizia sempre que era algo que não se comprava nem com uma fortuna de ouro. Também contratava carregadores indianos para a levarem à missa aos domingos num palanquim, como muitos portugueses, embora isso fosse censurado pelo meu tio, que ia a pé a seu lado. Maria trazia sempre vestidos de seda aos folhos mesmo no calor húmido das tardes de Verão e andava sempre com um lenço de renda cor-de-rosa pronto para enxugar as gotas de suor que lhe escorriam pelas faces e pelo pescoço. Uma vez, acompanhou-nos, a mim e ao meu pai, até ao rio com o cabelo repuxado para trás e enrolado num funil de veludo negro com uma pequena coroa de pérolas no cimo. Não resisti a perguntar-lhe se não lhe doía.

- O desconforto no vestir e no pentear - disse-me no seu sotaque cheio de floreados - é sinal de bom nascimento. - Virando-se para o meu pai, acrescentou, ofensiva: - Embora nenhum desses hindus, nem os brâmanes, perceba isso.

Achei que ela era muito esquisita porque comia as papaias com sal e se benzia sempre que via um cão ou um gato a correr. Por vezes, por razões que nunca descortinei, até fazia uma cruz na minha testa, o que sempre me fazia comichões.

Para minha grande frustração, parecia que nunca conseguia fazer nada bem aos olhos da minha tia. Dava mimos de mais à Sofia ou apaparicava de mais os meus parceiros de brincadeira hindus. Os meus pés sujos é que a exasperavam especialmente. Tenho a certeza de que odiava rapazes e os olhares de soslaio que lançava muitas vezes ao tio Isaac convenceram-me de que também não tinha grande apreço por homens crescidos. Por mim, tentava desesperadamente tornar-me invisível quando estava junto dela. Não acho que o meu pai alguma vez tenha notado o meu mal-estar, mas um dia pediu-me que tentasse perdoar-lhe ser tão rude, pois era uma mulher muito infeliz.

- Infeliz porquê? - perguntei. Isto passou-se após uma estada especialmente desagradável na casa deles.

- Ela e Isaac não têm filhos - respondeu.

- Mas ela não gosta de crianças!

- Ela queria que tu fosses dela - disse, para minha grande surpresa. - E fica furiosa por não seres.

O meu coração teve um baque e infiltrou-se em mim um profundo sentimento de terror. - Não me vais dar a ela, ou vais? - perguntei hesitante.

- Dar-te a ela! - exclamou o meu pai com horror, logo desatando a rir. Após uma breve negociação, combinámos que nunca ficaria na minha tia mais de seis dias seguidos. - O Senhor levou seis dias a criar o mundo e depois descansou - disse o meu pai -, de modo que também devemos ter direito ao mesmo benefício.

O tio Isaac e a tia Maria não haviam de ficar sem filhos por muito tempo. Em Dezembro de 1577, tinha eu quase seis anos e Sofia dois, adoptaram um órfão praticamente da minha idade. Por que razão não quiseram um bebé, nunca o soube, mas uma vez ouvi por acaso Nupi, muito agastada, a explicar ao meu pai no seu português estropiado: - Aquela sua cunhada... quer um rapaz que já venha desmamado!

O meu novo primo tinha sido chamado Wadi pelos pais muçulmanos, que haviam sido mortos pelos soldados portugueses no assalto a um barco árabe junto à costa do Malabar, mas as freiras que tomaram conta dele decidiram que tinha de ter um nome cristão e chamaram-lhe Guilherme.

Contudo, por uma infeliz coincidência, o cozinheiro indiano da minha tia já tinha esse nome. Farejando aqui uma oportunidade para ser louvada pela sua piedade, Maria resolveu chamar ao rapaz Francisco Xavier, em honra do missionário jesuíta que convertera dezenas de milhar de hindus em Goa há várias décadas. No entanto, os vizinhos tratavam-no geralmente por pequeno mouro, o que fazia os seus olhos cor de avelã contrair-se e coruscar de fúria, pois sempre evitava referir que ele fora adoptado, mesmo com os conhecidos. Quando os adultos estavam longe, Sofia e eu chamávamos-lhe sempre Wadi, porque achávamos que era um nome muito bonito, e exótico aos nossos ouvidos - e porque ele parecia preferi-lo. Algum tempo depois, o meu pai também passou a fazer o mesmo. Disse-nos que o Francisco Xavier original tinha pedido ao Papa que instalasse a Inquisição em Goa, e que, por causa disso, os judeus conversos como Isaac, e até os antigos hindus, eram obrigados a esculpir cruzes sobre a porta de entrada para garantir à Igreja que não tinham voltado aos seus modos de vida ilegais. Os conversos corriam até o risco de serem queimados vivos num lugar especial junto ao rio se alguma alma traiçoeira que buscasse a bênção da Igreja os acusasse de continuarem a praticar as antigas confissões. Vários infelizes morriam nas chamas quase todos os anos. - Nenhuma criança, mesmo entregue aos cuidados piedosos da vossa tia, deveria ter de começar a vida com um nome tão infelizmente escolhido - disse-nos o meu pai.

- Ou passar mais de seis dias com ela - recordei-lhe.

De início, achei o Wadi irritante, pois não respondia nem às perguntas mais simples.

- Tens fome? - perguntava-lhe o meu pai, ou: - Queres fazer desenhos comigo e com o Ti? - e ele limitava-se a espremer os lábios, com medo de soltar um pio.

A primeira vez que o vi, perguntei se queria ajudar-me a mondar o canteiro de manjericão da Nupi. O manjericão é uma planta sagrada para os hindus, pelo que aquilo era uma honra que tinha de implorar à cozinheira, mas Wadi limitou-se a abanar a cabeça num safanão, como se eu lhe tivesse batido.

Quando ele e os pais se foram embora, confessei ao meu pai que ele me irritava e acusei-o de se considerar bom de mais para nós.

- Mas ele ainda está a aprender Português! - exclamou o meu pai, horrorizado com a minha falta de bom senso tolo.

- Oh, não tinha pensado nisso - disse eu, sentindo-me perfeitamente

Achando-me muito magnânimo, resolvi dar-lhe outra hipótese na visita seguinte.

Wadi era uns centímetros mais alto do que eu e magro como um arame. Era moreno e tinha uns espantosos olhos verdes debruados a negro, e longas e delicadas pestanas que lhe davam um ar pensativo quando estava calado. Os meus tios achavam que era bastante bonito, o que era bem verdade. Também estavam convencidos de que tudo o que ele fazia era encantador, o que era muito menos verdade. Por exemplo, na presença dos adultos, o seu andar tornava-se uma marcha marcial, e até eu percebia vagamente que não era bom sinal, embora não tivesse adivinhado o óbvio - que aquilo queria dizer que não estava à vontade no novo lar. Na altura, de facto, só me dava vontade de lhe bater. A mãe costumava mandá-lo marchar à militar na sala, em frente aos estranhos, os quais - cochichando - concordavam sempre que era um encanto de menino.

Na sua segunda visita a nossa casa, que nos deu a primeira verdadeira oportunidade de estarmos a sós, recusou-se a trepar comigo à mimosa encostada à margem do Riacho do Moinho. Ofendido, disse-lhe que nunca mais o convidaria a fazer comigo fosse o que fosse, com o que ele desatou a fugir, com as lágrimas a correr-lhe pelas faces. Infelizmente, foi - ainda a choramingar - contar à mãe a minha brusquidão. Quando ela informou o meu pai, este explodiu como se fosse pólvora.

- Ti! - gritou da sala de estar, logo que me ouviu subir as escadas do alpendre. - Vem já aqui imediatamente] - Eu esgueirei-me, segurando as mangas que colhera para a Nupi, com o sumo a escorrer pelas mãos pegajosas. O meu pai erguia-se diante de mim como o Deus da Tora. - Pousa a maldita fruta! - bramiu.

Assim fiz, lançando um olhar de soslaio à tia Maria, faustosamente recostada na poltrona de veludo do meu pai, a abanar o leque, atirando-me uma expressão de real desprezo, como se eu fosse um ovo podre. Nupi deve ter-se esgueirado para fora de casa tão rápida e calada como um mangusto, dando a volta à socapa para o alpendre, pois estava a fitar-nos pela janela, com a face franzida de preocupação.

- Importas-te de nos deixar sozinhos? - disse o meu pai à cozinheira, fechando as portadas com estrondo sem esperar resposta. O chicotear áspero da madeira não era de bom augúrio. O suor saía-me a rodos; não conseguia pensar no que tinha feito. Limpei o sumo de manga das palmas da mão numa prega do dotim, manchando-o de amarelo.

- Queres arreliar o Wadi? - perguntou o meu pai. - Ou será que, pura e simplesmente, és absolutamente incapaz de ver as coisas do seu ponto de vista?

- Não... não percebo o que quer dizer - gaguejei.

- Ai, não?

O meu pai revirou os olhos como se fosse perfeitamente evidente que eu estava a mentir e recapitulou o que a tia Maria lhe dissera. Não ousei olhar para ela, mas senti a sua satisfação devorar-me como um ácido.

- Papá, eu só disse o que estava a pensar.

- Nem tudo o que a gente pensa é de ouro, sabes? Ti, esse pobre rapaz tem de aprender a confiar em nós. O Wadi precisa de tempo.

- Eu bem lhe quis mostrar tartarugas e libélulas e essas coisas - choraminguei. - E ele não ligou nenhuma. E depois eu queria que a gente subisse a uma árvore para vermos o cimo do templo hindu para lá dos campos de arroz, e... e...

- Eu sei - interrompeu ele, a voz mais branda. - Mas um pouco de paciência só te fazia bem. A bondade sem paciência não é nada. - Vendo que eu não percebia o que ele queria dizer, acrescentou: - As outras pessoas nem sempre estão prontas a aceitar as coisas boas que fazemos por elas, por isso tens de esperar que se vão habituando e ajudá-las.

O meu pai pegou-me nos ombros. - Ti, as outras pessoas são tão reais como tu. Não existem apenas dentro da tua cabeça. - Para explicar melhor, pôs a ponta do indicador no centro da minha testa e empurrou-o. - Todos nós somos criaturas frágeis sentadas no centro do nosso universo.

- Está a dizer que eu é que tenho culpa de o Wadi não querer fazer nada comigo - declarei eu, só para que ficasse registado.

- Não, só estou a dizer que o teu primo merece o teu amor e amizade. A resposta deixou-me desconcertado, pois não compreendia por que é

que Wadi merecia fosse o que fosse. Quando o meu pai me mandou embora, saí disparado, pois não queria mostrar as lágrimas à tia Maria.

Na visita seguinte de Wadi, eu estava a dar banho à Sofia no pátio quando ele apareceu no umbral. Decidido a ganhar as boas graças do meu pai, fiz-lhe amigavelmente sinal para se aproximar, mas ele ficou ali quieto como uma estátua de barro, pelo que lhe pedi para se juntar a mim no meu mais claro português. Não deu resposta. Como havia eu de resolver este enigma de um metro de altura e boca aberta? Numa súbita inspiração, aproximei-me dele e pus-lhe a Sofia nos braços, mostrando-lhe como a secar com a toalha. Ele começou por ficar nervoso e tentou devolvê-la, mas eu insisti que ficasse com ela. A partir desse momento, sempre que Wadi estava em nossa casa, seguia a minha irmã como se fosse o único laço com o resto da humanidade. Gostava de a sentar no colo e de lhe falar numa voz fina e esganiçada que lhe provocava o riso; entretinha-a com as marionetas de sombras que recortávamos os dois. Para a ajudar a andar sobre as pernas arqueadas e inseguras, punha-se por trás dela e segurava-lhe as mãos muito alto acima da cabeça, dizendo-lhe que era a rapariga mais esperta que já vira. Quando estávamos longe dos nossos pais, murmurava-lhe por vezes em árabe, mas, com o passar dos anos, deixou de fazer isso, afirmando que esquecera todas as palavras que já soubera. Através de Sofia, aprendeu a confiar em mim, na Nupi e no meu pai. E, se calhar, no pai e na mãe dele, também.

Nos meses seguintes, consegui convencer Wadi a acompanhar-me em muitas aventuras nas aldeias vizinhas. Os rapazes não precisam de muitas razões para gostarem uns dos outros ou para desejarem passar algum tempo juntos, e para mim bastava ele ter uma corrida muito rápida e pés incrivelmente grandes, como um coelho gigante - e conseguir gritar mais alto do que toda a gente que eu conhecia. Éramos capazes de ficar a conversar sem parar sobre os assuntos mais tolos - como o que comeriam os macacos de barba dourada quando catavam o pêlo uns dos outros ou para que serve o umbigo. Também se tornou muito obediente a ajudar na casa - por exemplo, a colher os bigodes-de-gato para o sacrário que Nupi tinha no quarto. Sempre que eu o retratava, ficava sentado pacientemente, permanecendo quieto mais tempo do que parecia possível, quase sempre contente com os resultados, que podia levar para casa e pendurar na parede por cima da cama. Tinha alcunhas afectuosas para toda a gente. Sofia era o Esquilo Voador, visto ser pequena e rápida, e Nupi era a Senhora Semente de Funcho, por estar sempre a comer disso para estimular a tripa. Chamava-me Tigre. Era um jogo com o meu nome e com a minha ferocidade quando estava irritado. Sempre que sentia que eu estava a ficar furioso, benzia-se e punha-se a olhar para o céu como quem pede ajuda divina, o que me fazia gostar muito dele, pois era como que um reconhecimento indirecto do meu poder.

Quando Wadi se ria a valer, as forças por vezes faltavam-lhe de uma maneira tão absoluta que não conseguia ter-se de pé, e quando chorava era como se estivesse a derreter-se. Por vezes, acho que sentia as emoções mais profundamente do que as outras pessoas e que por isso é que mais tarde aprendeu a escondê-las tão bem. É possível que fosse a pessoa mais sensível que alguma vez conheci.

Quando Wadi e eu estávamos em Goa, tínhamos apanhado o hábito de nos esgueirarmos para o escalavrado bairro hindu, sujo e ruidoso como um mágico submundo, e que por isso mesmo nos despertava todo o interesse. Adorávamos andar aos baldões entre o enxame de pessoas, especialmente nos mercados. Tudo e todos fediam a óleo de coco e cúrcuma, e a mil outros cheiros mais difíceis de detectar, e tenho a certeza de que, por vezes, bastava o ar para nos pôr bêbados.

Por vezes, dávamos de caras com uma cena de sofrimento tão grande que eu sentia a visão esfumar-se e a respiração fraquejar. Lembro-me em especial de um pedinte, sem pernas e sem braços, de idade indefinida que costumávamos ver a arrastar-se como um caranguejo pelas ruas, com os tocos envoltos em folhas de bananeira secas e o cabelo tão emaranhado que parecia uma corda esfiapada. Dizia-se que os membros lhe tinham sido decepados ao nascer pelo pai, para que ele pudesse ganhar melhor a vida.

Uma vez, vimos dois carpinteiros indianos afastá-lo aos pontapés da casa que estavam a construir como se ele fosse uma bola de couro. Quando lhes perguntei porque o odiavam, responderam que não odiavam, só que ele era um intocável que não tinha o direito de incomodar as pessoas de bem. Nesse dia, enchi-me de coragem para o abordar e dei-lhe umas moedas de cobre, que ele apanhou com a boca.

Lembro-me também da vez em que o telhado de palma de uma casa de chá ruiu sobre mim e o Wadi, e nós, num ataque de histeria, nos arrastámos por debaixo das mesas em direcção à porta, enquanto deflagrava um fogo na cozinha. Para nos salvarmos, tivemos de sair a correr desesperados, e ficámos para sempre com uma história fantástica para contar. Por vezes dizíamos que tínhamos salvo dois bebés das chamas, para que as pessoas pensassem que éramos heróis.

Noutra ocasião, na mesma casa de chá, Wadi encontrou na sua chávena um grande escaravelho castanho com mandíbulas ferozes, estonteado mas não morto. Quando o ergueu a espernear para o mostrar ao dono do estabelecimento, o sorridente homem - que pouco mais era do que um pau com um turbante no cimo - juntou as mãos na posição de orar e exclamou: - Outro vencedor! - Entregou a Wadi um colar de frangipanas murchas como prémio. Se não estivesse lá, não acreditava.

Guardei a grinalda junto à cama durante semanas. Depois as flores murcharam num amarelo quebradiço, e uma noite a grinalda desapareceu. Nupi negou que as tivesse levado quando eu estava a dormir, mas achei que ela se fartara do cheiro azedo e as deitara fora. Passados dois anos, vim a saber a verdade, e com ela aprendi uma coisa sobre a minha irmã de que nunca suspeitara.

Passado um tempo, tornou-se evidente que a Sofia e eu éramos o refúgio de Wadi. Nunca marchava à soldado quando estava a sós connosco, e falava português com mais fluência, também, pois a mãe não andava por perto a enervá-lo. Para evitar os castigos da tia Maria, também começou muito depressa a revelar um talento excepcional para a dissimulação. Por exemplo, deixava uma muda de roupa limpa num cesto de verga debaixo do alpendre, ou na padaria junto à casa dele em Goa, de forma que, mesmo após as nossas escapadas mais lamacentas, se podia apresentar aos pais como um príncipe português.

Infelizmente para mim, a esperteza do meu primo tinha o imprevisto efeito de confirmar à minha tia que eu era uma má influência, visto que, em comparação - com os meus cabelos cheios de palha e a cara suja de terra -, eu geralmente parecia um vadio de baixa condição. Para meu grande pesar, Wadi nunca fez menção de convencer a mãe do contrário, explicando-me que, se não concordasse com ela, certamente trairia o seu segredo. - Além disso, o tio Berequias nunca te castiga - dizia. - Ele era capaz de preferir dormir numa cama de vidro partido a ter de te bater.

Sentindo o ciúme na voz de Wadi, sempre lhe perdoava, mas, à medida que íamos crescendo, comecei a suspeitar de que lhe era muito cómodo ter um vilão comprovado tão à mão.

Passados poucos meses após a adopção, Wadi teve o primeiro ataque. Ouvindo-o debater-se, a tia Maria correu para o quarto dele, tomou-o nos braços e gritou por ajuda. O tio Isaac estava a trabalhar no armazém, e, por isso, foram os criados e vizinhos quem acorreu, o que aumentou a ansiedade da minha tia, pois agora toda a gente podia ver que o filho dela não só era mouro, mas sofria também de uma doença temível que até podia ser contagiosa. Quando as convulsões cessaram, um médico português obrigou o

Wadi a inalar vapores de querosene e o fumo de um trapo de algodão a arder.

O pobre rapaz estava exausto e aterrado, e coberto por uma patina de suor.

- Parecia que tinha caído a um poço e se afogara - disse-nos o tio Isaac

quando acorremos a Goa. Lembro-me de que os olhos do meu tio estavam debruados a vermelho com a preocupação, e que parecia faltar-lhe o ar. - Ti - disse-me -, é com pena que digo que não acho que o Wadi vá ter uma vida fácil.

Fiquei todo contente por ele me ter falado como se fosse um adulto, e, quando lhe jurei que havia de ajudar, ele sorriu e fez-me uma festa distraída na cabeça, pensando - eu tinha a certeza - que um rapazinho não podia fazer nada contra um destino terrível.

Nessa mesma viagem a Goa, lembro-me de que o meu pai e a tia Maria tiveram uma zanga cheia de raiva. Tínhamos ido com a tia ver uma velha amiga dela que dera à luz gémeos havia duas semanas. A jovem mulher ainda estava fraca da provação, e tinha uma estatueta pintada da Virgem Maria na cabeceira, como talismã. Todos os visitantes se inclinavam para beijar a imagem ao entrar no quarto, como era costume dos cristãos portugueses. O meu pai, porém, recusou, mesmo depois de a tia o ter acotovelado. - Maria, minha cara, a única virgem que alguma vez beijei era minha noiva - disse-lhe, não sem um toque de humor. - E beijar outra feita de um ramo de árvore e pintada de forma tão incompetente não me diz nada.

A minha tia soltou um arquejo e até parecia que o ia estrangular, pois o meu pai falara na presença do médico e dos dois criados indianos da amiga, mas só lá fora, na rua, é que lhe deu uma descompostura asssassina, dizendo, em suma, que ele era surdo em questões de coração. O meu pai escutou-a sem a interromper, de braços cruzados no peito como para se defender, e ostentando uma expressão de resoluta paciência. Quando, por fim, ela acabou, fê-lo com um condescendente abanar da cabeça, como se ele não merecesse os seus esforços caridosos, e foi talvez por isso que ele lhe deu uma resposta que a calou para o resto da tarde: - Maria, nunca te ocorreu que tolerar as tuas tolas opiniões e tiradas diabólicas sem sequer te insultar uma vez talvez seja um acto de generosidade da minha parte? E que só consigo fazer isso por amor do meu irmão e respeito pelas escolhas que ele fez na vida, concorde ou não com elas.

Wadi confidenciou-me que nunca se lembrava dos ataques depois de acontecerem, mas que sempre sabia quando se aproximavam. - É como uma trovoada que se levanta cá dentro - dizia. - Vejo relâmpagos, e sinto o cheiro do ar queimado - como caramelo.

A voz do Wadi viria a mudar alguns anos mais tarde, mas na altura tinha umas tremuras, como se houvesse um pequeno seixo encravado no fundo da garganta. Ouvi-lo dava-me sempre vontade de o proteger.

Depois do segundo ataque na presença da mãe, a tia Maria rogou-lhe que não voltasse a assustá-la daquela maneira. Com uma mão sobre o coração e a outra a agarrar-lhe o braço como se não voltasse a largá-lo enquanto ele não se vergasse à sua vontade, disse-lhe: - Não sei se sobrevivia a outro, por isso nunca mais faças isso, estás a ouvir?

Wadi imitava a mãe quase na perfeição, por isso sei exactamente o desespero com que lho pediu. Ele nunca disse o que respondera, mas tenho a certeza de que cerrou os lábios e ficou calado. E que já então suspeitava que não havia força de vontade - nem ave-marias - que chegassem para enxotar os ataques, a que a tia Maria começou a chamar os seus desvios, por forma a que quem os ouvisse por acaso não fizesse a mais pequena ideia do que estavam a falar. Talvez tenha sido então, e ali, que Wadi decidiu que o embuste era a sua única hipótese de felicidade, pois pouco depois contou-me - obrigando-me a jurar silêncio - que, sempre que via relâmpagos no ar, corria o mais depressa que podia para a cave e fechava a porta por trás dele, para que ninguém visse ou ouvisse o que lhe estava a acontecer.

Vi um dos «desvios» de Wadi pela primeira vez quando tinha oito anos e meio, e isso havia de aprofundar a minha afeição por ele - e até pela minha tia - de uma forma que nunca poderia ter previsto. Hoje, parece-me que foi um momento em torno do qual girou toda a minha vida.

Estávamos no nosso alpendre, a depenar uma galinha-da-índia que Nupi ia preparar para a ceia. - Aí vem - gemeu Wadi.

- O que é? - perguntei, mas, no momento em que acabei a pergunta, os olhos dele estavam tão cheios de medo que percebi o que estava para acontecer. Só outra vez na vida vi uma expressão tão alarmada e nessa ocasião não consegui prestar nenhuma ajuda.

- Tenho de me esconder! - gritou entre dentes. - Tigre, ajuda-me! - Estendeu a mão para mim, como quem estava a escorregar para o abismo. Antes de eu lhe conseguir pegar na mão, os olhos vidraram-se-lhe e a cabeça caiu-lhe com um baque no soalho. Soltou um ronco fundo, como se lhe tivessem dado um soco na barriga, e os braços e o peito desataram em espasmos. Era como uma boneca de trapos nas garras de um génio. Uma mancha de humidade alastrava-lhe na frente das calças.

Ergui-lhe a cabeça, pousei-a no regaço e gritei pelo meu pai. Escorria-lhe sangue da boca: deve ter mordido a língua ou o interior da face. Lá fundo, por sob o meu terror, havia um pensamento sempre a retumbar: O sangue dele vai juntar-nos para sempre.

O meu pai e o tio Isaac vieram logo a correr ter connosco. A tia Maria estava na praça de Ponda com a criada que sempre trazia de Goa consigo.

O ataque durou alguns minutos. O meu pai não parava de me dizer que Wadi ia ficar bem, mas eu tinha as minhas dúvidas e, temendo pela sua vida, comecei a chorar. Quando pararam as tremuras, o rapaz quedou-se inconsciente nos braços do pai. Fui a correr buscar água do poço e Nupi lavou-lhe a cara e os braços, encharcados em suor. Finalmente acordou, mas não se lembrava de nada do que tinha acontecido e não conseguia falar. Bebeu como se tivesse estado no deserto e cuspiu mais sangue, mas, felizmente, só tinha mordiscado o interior do lábio. Quando já tinha forças para erguer os braços, não os lançou para o pai, como eu pensava que faria, mas estendeu a mão para mim. Pode parecer esquisito, mas achei que era como se tivesse sido escolhido pelo próprio Deus. Recusei-me a largá-lo, mesmo quando o tio Isaac o levou pela casa fora, para a cama. Quem voluntariamente larga a mão de Deus?

Com Wadi são e salvo a dormir, perguntei ao meu pai se podíamos rezar uma oração por ele. Achou muito boa ideia. - Que oração queres? - perguntou.

- Não sei. Não tenho a certeza de conhecer uma que convenha.

Os olhos do meu pai reluziram de divertida afeição. - Todas as orações rezadas com verdade convêm, para falar como tu, Ti - riu-se.

Sempre gostei do Chanuká, a festa judia das Luzes, por isso conduzi a oração que o meu pai me ensinara no ano anterior: Baruch atah Adonai, Elobeynu Melecb ha'olam, asher kidshanu bemitzvotav, vetzivanu, lehadleek ner, sbel cbanukah. - Bendito sejas, Senhor, que nos santificas dando-nos um modo de vida dirigido pelos sagrados mandamentos e que nos cominaste a acender as luzes do Chanuká.

Nessa noite, o meu pai chegou a pederneira a um pavio de cera de abelha e deixou-me levar a chama a cada uma das sete velas do nosso menorá, que colocámos numa mesa junto à cama de Wadi, para que, se acordasse de noite, não se visse na escuridão.

Após o ataque, a tia Maria mostrou-se muito delicada para com o filho e para comigo; esteve sempre à sua cabeceira durante todo o dia e toda a noite e, na manhã seguinte, veio para o alpendre onde eu estava a observar o nascer do Sol e agradeceu-me por o ter ajudado.

Roçando uma mão cansada no cabelo, que não tinha escovado, agarrou-se ao colar de pérolas em torno do pescoço como se estivesse a agarrar-se à sua sanidade. - Peço desculpa pelo meu aspecto - murmurou, não parando de dizer que se sentia embaraçada, mas pensei que estava muito bela. Os olhos dela pareciam puros e honestos - e terrivelmente tristes. Senti que a estava a ver pela primeira vez.

- Por vezes, pergunto a mim própria onde estou - confessou-me a minha tia. - E como vim aqui parar. Sentes o mesmo?

- Não tenho a certeza.

- Vou dizer-te um segredo - sussurrou. - Fico aterrada quando me sinto assim; é como se fosse capaz de fazer fosse o que fosse para mudar a minha vida, até embarcar de volta para Portugal. - Tomou-me o queixo na mão. - Tiago, tu e eu começámos muito mal - disse. - Achas que podemos tornar a começar do princípio outra vez?

Todo o rendado da sua pronúncia se evaporara, e senti que nunca voltaria a ouvir esta simples voz se não dissesse que sim. Por essa razão mais do que qualquer outra, concordei, mas, mesmo quando dei o meu acordo, sentia uma parte de mim a puxar-me para longe dela. Depois de todos os sarcasmos que lhe ouvira, sabia que nunca havia de confiar nela completamente. Mesmo assim, quando trouxe sopa e pão a Wadi como pequeno-almoço, ajoelhando-se a seu lado para o ajudar a comer, vi claramente que tinha subestimado o seu amor por ele - e, com isso, a profundidade do seu sofrimento.

A tia Maria sentou-se a bordar numa cadeira junto à cama de Wadi quando este se pôs outra vez a dormitar, e eu, observando as suas mãos rápidas e seguras, pensava na minha mãe. Senti o ciúme a remoer cá dentro, o que me surpreendeu. Sentia-me como que abandonado e estava tentado a tentar dizer algo de inteligente ou agradável, mas não me vinham as palavras certas e esgueirei-me dali.

De volta ao meu quarto, pensei em algo novo: a minha tia pura e simplesmente não resistia a estar sempre a dizer coisas más, porque fora muito infeliz antes de Wadi ter entrado na sua vida. Fora isso que o meu pai tentara dizer-me.

Alguns dias depois, o meu pai contou-me que o tio Isaac e a tia Maria haviam perguntado às freiras que tinham tomado conta de Wadi por que é que não disseram nada dos ataques, mas as irmãs juraram que nunca tinham tido conhecimento disso.

O meu pai suspeitava que estavam a mentir e que o rapaz devia ter sido recusado outras vezes para adopção por esse mesmo motivo.

Agora, passadas quase quatro décadas, admito que talvez tenham sido as freiras - e não a tia Maria, como eu sempre pensara - que deram a Wadi a ideia de criar um novo passado para si próprio. Dadas as suas circunstâncias, até pode ter parecido natural e correcto para ele.

O papel que Wadi desejava que eu desempenhasse na sua vida - pelo menos enquanto as nossas aventuras tinham terrenos comuns com o universo dos adultos - tornou-se-me absolutamente claro num dia ventoso de Primavera, tínhamos nós nove anos. Convidou-me nessa tarde a ir visitar com ele a mesquita de Safa na estrada para Ponda. Aquele lugar era proibido para ele, pois a tia Maria dizia que todos os muçulmanos eram ou ladrões ou piratas, mas quando levantei essa objecção, Wadi escarneceu de mim e declarou que, se eu não tivesse coragem para o acompanhar, ia sozinho. Embora os pais nunca lhe tivessem falado da sua captura a bordo de um barco árabe, ele, na altura, já tinha ouvido mais de três anos de mexericos sobre as suas origens e queria ouvir com os seus próprios ouvidos os muçulmanos a rezar.

Abrigados num maciço de palmeiras, fazendo de conta que éramos espiões da Coroa portuguesa, estivemos a observar os fiéis a entrar em fila no templo. Wadi riu-se de uma forma forçada e maldosa das vestes compridas usadas por alguns dos homens, e do besoirar do muezzin. Ouvindo isso, imaginei que ele estava a ponderar a sua vida e o caminho que fora forçado a tomar. Talvez não esteja nada perto de onde devia estar. Deve ter sido o que ele começara a pensar nesse dia, numa daquelas inquietações que trazem por vezes às crianças lampejos adultos.

Acocorado junto a ele nas sombras, senti o perigo nele, e foi como se ele não estivesse comigo, mas dentro de uma caverna de pensamentos secretos. Até cheguei a crer que me chegava o cheiro da escuridão que o envolvia e que parecia estar à espera de me envolver também, e comecei a tremer com uma sensação premente de terror e expectativa.

Iniciado o serviço religioso, saímos do esconderijo e sentámo-nos na borda da fonte de pedra no centro do laranjal, em frente à mesquita, a ouvir as vozes abafadas lá dentro. Começou a chuviscar, e, enquanto eu estava a remoinhar a mão na água com reflexos coloridos, Wadi atirou um pau para dentro de uma das janelas. Para meu horror, este atingiu um homem lá dentro, o qual se pôs a berrar e, antes que eu pudesse fazer fosse o que fosse, Wadi desatou a correr, gritando que os muçulmanos eram pagãos. Eu fui atrás dele, imitando-o.

Corremos tão depressa pela mata, que ele escorregou e caiu por uma ribanceira de fenos e ervas, esfolando o braço. Arranquei uma tira do meu dotim e envolvi-lhe a ferida com ela. Ele amaldiçoou-se por ser tão descuidado.

- A minha mãe vai matar-me - gemeu.

- Não, vamos buscar roupas lavadas ao cesto debaixo do alpendre e dar as sujas à Nupi para lavar. Vamos fazer de conta que não aconteceu nada. Ninguém vai saber.

Em casa, Nupi aceitou ajudar-nos, embora dizendo que tínhamos ido longe de mais desta vez e resmungando com os seus botões que as crianças portuguesas eram apaparicadas e mimadas. Nesse dia tudo correu bem, mas, na manhã seguinte, quando o tio Isaac foi acordar Wadi para a longa viagem de regresso a casa, reparou nas nódoas negras que ele tinha. O meu primo disse que tinha tropeçado ao fugir da frente de um palanquim que vinha pelo caminho com um pândita, um médico indiano, a correr para um doente. O tio Isaac sabia, porém, que nas aldeias os médicos andam a pé ou, quando muito, num carro de bois. Ameaçado de pancada, Wadi disse a verdade sobre a visita à mesquita - só que acrescentou que eu o tinha forçado a ir com ele e até o tinha obrigado a correr para casa à chuva! Como é evidente, não contou que troçara dos fiéis muçulmanos nem que atirara o pau para dentro da janela.

Nessa manhã, o meu pai chamou-me à biblioteca e pôs-me perante o que Wadi contara da minha traição, calando-me sempre que tentava interrompê-lo. Quanto mais ele ralhava, mais claro me parecia que o meu primo sabia certamente que o tio Isaac nunca acreditaria na sua explicação do palanquim. Pretendia que o pai aceitasse sem questionar a sua segunda descrição dos acontecimentos, e a melhor maneira de o conseguir era ser «apanhado» numa mentira e, depois, «forçado» a dar a explicação verdadeira. E que Isaac havia de acreditar que o filho nunca ousaria mentir-lhe duas vezes seguidas.

Mas não podia simplesmente ter dito ao pai que tivera um ataque e caíra em cima de umas pedras? Com isso teria satisfeito toda a gente, pensei - pelo menos, até o meu pai acabar a sua tirada e se pôr a olhar para mim como se fosse a única oportunidade que eu tinha para me justificar. Nessa altura, lembrei-me de que Wadi não ousava chamar mais a atenção para a sua doença, já de si considerada uma maldição pela mãe.

Seria essa necessidade de ocultar o sofrimento a causa de muitas coisas que veio a fazer mais tarde?

Não sabia ao certo o que dizer ao meu pai. Estava furioso, mas também sabia que, se Wadi tivesse dito a verdade, a mãe teria compreendido que sentia curiosidade pelas suas origens muçulmanas, e isso certamente teria provocado uma explosão. Ainda por cima, receberia uma ensaboadela do pai, que temeria certamente as preocupações impróprias com o credo religioso da sua família. Ainda não me ocorrera que a recusa da tia Maria em falar abertamente sobre a adopção do filho era uma farsa que só poderia conduzir a mentiras maiores, mas talvez Wadi já sentisse que isso o arrastava para um perigo de que não poderia escapar. Talvez ele não pudesse dizer a verdade.

Só muitos anos mais tarde me ocorreu que o meu primo poderia ter os sentimentos profundamente baralhados; talvez até secretamente quisesse que os pais soubessem que tinha visitado uma mesquita para que a sua anterior vida fosse finalmente reconhecida.

Antes de eu poder dizer alguma coisa - fosse o que fosse - sobre todos estes meus pensamentos emaranhados, a face do meu pai amoleceu. Chamou-me a si e beijou-me.

- Não consigo zangar-me contigo - murmurou. - E esse teu silêncio, como se eu fosse um ogre... Ti, por vezes não sei o que te hei-de fazer.

- Desculpe, papá.

- Se prometeres que não voltas a visitar nenhuma mesquita com o Wadi, vamos esquecer que isto aconteceu.

Dei-lhe a minha palavra e não fui castigado. Mesmo assim, nunca considerei aquilo um final feliz; deixara que o meu pai acreditasse numa mentira sobre mim, e sabia que nunca havia de voltar a confiar no meu primo.

 

A MINHA VIDA com a minha irmã Sofia - tal como a relação com o meu primo, Wadi - cedo tomou um rumo não totalmente agradável.

Como tinha cabelo louro e pele clara, aos cinco anos de idade já todos os residentes de Ramnath, a aldeia mais próxima, a conheciam pelo nome. As velhas encarquilhadas que vendiam peixe no mercado e até os sangradores de coqueiros alcandorados nas copas das palmeiras costumavam sorrir como parentes orgulhosos e trocar cochichos quando ela passava. Levei muito tempo a perceber que a minha irmã fazia uma ideia totalmente errada do deleite que despertava em toda a gente. Na altura, por mais que eu dissesse, não conseguia convencê-la de que não tinha de se sentir envergonhada com a sua mescla de traços europeus e indianos.

- Toda a gente olha para mim! - disse-me uma vez quando tinha sete anos, num falso desespero. - O meu cabelo é claro de mais. Tenho um aspecto horrível.

- És maluca. Eles não pensam mal de ti. Só acham...

- Tudo o que é diferente é horrível! - gritou, como se estivéssemos a lutar pela vida dela. - E o que as pessoas dizem de...

Sofia ia para dizer ti, visto que eu também era uma mistura de europeu e indiano e os meus olhos azuis não me deixavam passar despercebido. Tapando a boca com as mãos, pediu-me desculpa. Até se atirou a mim e me beijou na face. Fiz de conta que não me tinha magoado, mas era como se me tivesse aberto a barriga com uma lâmina e metido o seu próprio terror dentro de mim.

Eu, por vezes, ouvia o meu pai a murmurar para Nupi que ninguém esperaria que uma menina tão viva quando bebé se tornasse numa rapariga tão reservada, e não tardou que a timidez da Sofia em público começasse a preocupá-lo, pois não se desvanecia com o passar do tempo.

Confidenciou-me que sempre lhe parecera que ela passava a vida a ouvir o ruído de um intruso invisível a aproximar-se na ponta dos pés.

As outras crianças só lhe despertavam agitação e infelicidade. Escondendo-se por trás do pai ou de mim, tapava a cara com um véu de cabelo, exactamente como uma vez fizera a ama dela, Kiran, era a Sofia bebé. Wadi era a única pessoa mais ou menos da sua idade com quem se sentia à vontade, e a intensa dedicação que ele lhe votava quando era bebé manteve-se durante toda a infância. O que ele mais adorava era mostrar-lhe as novas maravilhas que descobrira; era um modo, acho eu, não apenas de a encorajar mas também de lhe revelar as suas emoções mais íntimas - sentimentos que nunca surgiam à luz diante da mãe. Lembro-me, por exemplo, que ele e eu uma vez descobrimos milhares de pequenas rãs no vale por detrás de Ramnath no ponto em que o Riacho do Moinho mergulhava numa lagoa límpida. As minúsculas bolas verdes saltavam e chapinhavam na franja oscilante das águas e vinham a pular até aos nossos pés e pernas por entre as ervas altas e as flores de lótus. Eram tantas que nos bastava baixar-nos para as colher às mãos-cheias. Deixávamo-las cair nos cabelos um do outro e inspeccionávamos as barriguinhas brancas, fazendo sons de coachos de faces inchadas. Caminhávamos descalços como garças para não as pisar.

- Temos de as mostrar à Sofia! - exclamou Wadi, e logo se pôs a correr para nossa casa.

Foi por essa altura que comecei a acreditar que a impetuosa energia que sempre mostrava quando estava comigo era a sua forma de manter os seus desvios à distância - como se estivesse decidido a correr pela vida fora tão depressa que o seu mal nunca o conseguisse apanhar.

A Sofia gostou tanto das rãzinhas que fomos buscar frascos inteiros delas, espalhando-as pelo jardim. A seguir deitámo-nos na relva e deixámo-las saltar e brincar no peito e na barriga, e era como se fosse o mundo a fazer-nos cócegas.

Na meia dúzia de anos que se seguiram, eram tantas as rãs na quinta que por vezes iam amontoar-se no canteiro de manjericão da Nupi, o que a punha muito maldisposta e irritada. Os vizinhos que trabalhavam nos arrozais ali ao lado queixavam-se que elas atraíam cobras e víboras, o que era um problema mais sério, pois não eram raras as mordeduras mortais de serpente. Os monstrozinhos chegaram até a vir meter-se debaixo das travesseiras e nas arcas da roupa. Uma vez em que acordou de noite, o meu pai, ao enfiar os pés nas pantufas de seda, começou a gritar de horror ao sentir o visgo nos dedos. Nos anos que se seguiram, costumava imitar-se a si próprio a saltitar ao pé-coxinho e a gritar furioso o meu nome e o da Sofia.

 

Imitando o meu pai, tentei recorrer ao humor para pôr a minha irmã à vontade sempre que tínhamos de estar com alguém de fora da família, mas, após uns tempos, até disso desisti, pois só servia para ela me acusar de estar a meter-me com ela e «ser como toda a gente». Pedi-lhe que me explicasse o que queria dizer, mas sempre se recusou. A casmurrice dela era uma montanha que nem eu conseguia escalar.

Mas, uma vez em que estava especialmente zangada comigo, deixou transparecer um pouco mais do que pensava. - Toda a gente quer que eu seja diferente do que sou! - gritou.

Era bem verdade que eu a queria menos tímida, pelo que, sentindo o aguilhão da culpa, lhe pedi desculpa, ao que ela murmurou: - Ti, às vezes fico toda a tremer. Sinto-me tão mal que até me apetece escapulir da minha pele e tornar-me noutra pessoa.

Com o passar do tempo, comecei a encarar a minha irmã como duas pessoas distintas - a rapariga de sorriso fácil e vivacidade radiante quando estava com o pai, o Wadi, a Nupi e eu, e outra de olhares furtivos e receosos e posturas estranhas quando estava com os vizinhos, os amigos da família e os estranhos. Aos oito ou nove anos, o que ela mais gostava era de ficar sozinha a fazer exercícios de caligrafia na escrivaninha do lado norte da sala de estar, por baixo da portada da janela que o meu pai pintara no tom de azul que ela preferia. A Sofia ficava debruçada horas a fio sobre o papel, sentada no banco de verga, tão fechada em si como um segredo, com o cabelo apanhado no lenço da minha mãe. Era capaz de ficar semanas inteiras a criar desenhos intrincados a partir de letras hebraicas pequenas como formigas - técnica que se chama micrografia e que ela apreendeu só de ficar sentada ao meu lado durante uma das minhas lições. Para formar as suas letras minúsculas - pouco mais eram que pontos a olho nu -, utilizava um cálamo que o meu pai tinha afiado como uma agulha só para ela. Inspeccionava a evolução do desenho com uma lupa redonda de cabo de marfim que o meu pai encomendara ao espelheiro do sultão em Bijapur e que lhe tinha dado de prenda.

Mesmo hoje, sempre que vejo a Sofia em sonhos, ela está geralmente sentada à escrivaninha, e é como se o azul das portadas, a poeira palhetada na sala e o tempo passado entretanto me digam: Cuida desta recordação, porque mostra que tudo se podia ter passado doutra forma...

Não posso dizer se o temperamento de Sofia se moldou em função deste trabalho exigente ou se, pelo contrário, a micrografia se ajustava precisamente ao seu carácter, mas em breve percebemos que lhe agradava mais do que tudo. Mesmo assim, o meu pai só lhe dava lições quando ela pedia, pois depressa percebeu, da pior maneira, com ela a gritar e espernear, que a Sofia gostava de ser senhora da sua vida. Com apenas dez anos, espantou-me pedindo-me que a ensinasse a fazer as suas tintas, e eu, todo contente, assim fiz, baseando-me nas receitas do meu pai. Mais tarde, percebi o que devia ter sido evidente: essa sabedoria dar-lhe-ia ainda maior independência.

Ver a Sofia tão satisfeita dentro do seu mundo protegido em muito contribuiu para desatar os meus nós de preocupação com ela. Mesmo assim, por vezes ainda me punha a fitá-la com um cuidado de irmão mais velho, excessivamente intenso, o que a levava a erguer a lupa de tal forma que os olhos dela pareciam tão grandes e doces como os de um camelo. Com a idade, vim a perceber que isso era uma forma cómica de blindagem - pois ser adorado também pode ser um fardo - e aprendi a deixá-la em paz quando trabalhava. O meu pai predizia um futuro glorioso para ela como calígrafa do sultão.

Foi por essa altura que desenhou uma minúscula flor de lótus micrográfica no canto do lenço que herdara da nossa mãe. Quando o usava, escondia a flor. As pétalas representavam os nossos nomes: Sofia, Tiago, Berequias e Chana, que era o que o meu pai sempre chamara à minha mãe, embora o seu verdadeiro nome fosse Chandara.

Dada a minha natureza, não é de espantar que, de tempos a tempos, me sentisse invadido de inveja do talento da minha irmã e da sua paciência sobre-humana. O meu pai deve ter sentido isso. Um dia, tinha eu catorze anos e a Sofia dez, pediu-nos pela primeira vez que trabalhássemos juntos. Estava a fazer um livro de orações para oferecer à escola hebraica de Cochim. A princípio, a minha irmã e eu pegávamo-nos como vespas, mas, depois de termos acabado meia dúzia de páginas, a minha rivalidade abrandou. Não só sentia que fazíamos iluminuras mais belas do que alguma vez poderia ter esperado, como também verifiquei que estávamos apaixonados por coisas diferentes, pelo que no futuro não nos íamos meter no caminho um do outro. Eu gostava de dar forma a tudo o que era cor e ornamentação sem limites - orquídeas e auroras, ou o ruidoso voo de uma nuvem de papagaios - e Sofia adorava o que era exacto e pequeno.

E talvez obscuro, também...

Um serão de domingo, após uma longa tarde de estudo da Tora, ao procurar uma moeda de cobre turca que o meu pai me dera como talismã, descobri um ninho de objectos no fundo da arca da roupa da minha irmã. Metade do que ali estava eram coisas totalmente desconhecidas e a outra metade andava irremediavelmente perdida há anos: um colar de coral da minha mãe, uma boneca de cera de Portugal, botões de tartaruga, uma bolsa de conchas cor-de-rosa, um retrato do meu pai que eu fizera aos oito anos (e que passara dias a tentar encontrar havia mais de um ano), e - espanto dos espantos! - o colar de frangipanas que tinham dado a Wadi como prémio por ter descoberto um insecto no chá. Fiquei demasiado espantado para me zangar, e senti-me extremamente lisonjeado por ela achar o meu desenho tão bom que até o roubara, por isso nunca revelei a Sofia que encontrara o seu tesouro. E nunca disse ao meu pai, embora supusesse que possivelmente ele já sabia disso.

Mas, da vez seguinte que vi a minha irmã, quase me pareceu ver a arca do tesouro nos olhos dela. Aquela rapariga tinha tantas coisas escondidas lá dentro...

Com o nosso trabalho lado a lado nas ilustrações, Sofia e eu aproximámo-nos um do outro de outra forma muito preciosa, pois em breve começámos a falar mais abertamente de coisas importantes. Com nós os dois sentados à sombra da mimosa do jardim, enrodilhando os dedos dos pés na carpete de finas flores cor-de-rosa e na erva rugosa, soube, por exemplo, que ela sonhava ir um dia a Veneza, a Londres, e às outras grandes cidades da Europa.

- Até podia ir viver para Portugal - confessou-me um dia.

- É melhor não dizeres isso ao papá.

- Não agora, seu tolo! Quer dizer, quando for mais velha.

- Eles lá odeiam-nos. Lembras-te do que dizia no livro do bisavô, que os judeus hão-de sempre assombrar os sonhos dos reis da Europa?

- Mas isso foi há sessenta anos!

- Pois, mas o papá não há-de aceitar que vás para Lisboa, mesmo sendo adulta.

- E se eu fosse sem a aprovação dele?

A Sofia tirou-me a respiração com esta fala. Noutra ocasião chegou a perguntar se eu achava que Jesus Cristo era como Jaidev, o sadhu que nos contara que ela tinha sido uma princesa hindu numa vida anterior.

- Queres dizer, se Jesus tinha cabelo emaranhado até à cintura e a cara coberta de poeira? - perguntei, fazendo-me desentendido, porque estávamos a entrar em território perigoso. Até sentia a estátua de Shiva a escutar a nossa conversa.

- Não, sabes muito bem o que eu quero dizer... santo.

- Isso é o que os cristãos dizem - respondi, indicando pela entoação que não fazia ideia se era verdade.

- Ele era filho de Deus, não sabes?

- Quem te disse isso?

- A tia Maria. E o Wadi.

- Acho que, se tens perguntas a fazer sobre Jesus, deves ir falar ao papá. Ela revirou os olhos. - Deus amava a mãe dele?

- Que mãe?

- A mãe de Jesus, seu tolo.

- Queres dizer Maria?

- Pois. Deus amava-a?

- Está escrito na Tora que o Senhor nos ama a todos.

- Tu às vezes irritas uma pessoa - suspirou.

- Porquê?

- Estás sempre a fazer que não percebes o que eu quero dizer. - Cruzou os braços no peito. - Deus amava Maria como o papá amava a mamã?

Como podia eu responder a isso?

Disse que não tinha a certeza e que tinha de ir para dentro estudar a Tora. Nessa noite, depois de ela estar deitada, contei ao meu pai a nossa conversa e, embora ele não tenha tocado no assunto com a Sofia, sei que pediu à tia Maria que não tentasse catequizá-la. A menina suspeitou, porém, que algo não batia certo, e pouco depois disse-me que o nosso pai não gostava que ela soubesse que Jesus era santo.

- Como é que sabes? - perguntei.

- Porque está sempre a desviar-me das igrejas quando estamos em Goa. Ele pensa que eu não sei, mas sei!

Descobri assim que a Sofia tinha um espírito muito mais observador do que o meu pai ou eu imaginávamos.

A minha irmã só tinha autorização para abandonar a vizinhança imediata da nossa propriedade, mesmo para tomar banho no Riacho do Moinho, se acompanhada pelo meu pai, pela Nupi ou por mim. A nossa vigilância reforçava a sua forte sensação de isolamento, mas o meu pai disto não se afastava, pois ouvira histórias de raparigas raptadas e forçadas a casar com viúvos hindus cinco vezes mais velhos do que elas.

Ela às vezes costumava queixar-se a mim de que eu era um espião e o nosso pai um carcereiro, embora não ousasse manifestar o seu descontentamento ao meu pai. Nas festas, parecia sempre que este descontentamento dela se acentuava, e lembro-me de que logo a seguir a uma viagem a Ponda para celebrar os seus onze anos, ao voltar para casa, se enfiou no quarto e desatou a chorar. Quando, por fim, me deixou entrar, revelou-me um pouco mais da intensidade da sua infelicidade.

- Não tenho ninguém! - fungou.

- Tens-me a mim, ao papá e à Nupi desde que nasceste - disse eu, pois na altura pensava que para ela bastávamos.

- Mas eu quero amigos!

- Tens a caligrafia. Gostas disso.

Fuzilou-me com o olhar, como se eu fosse um demónio. - Não me estás a ouvir - disse. - Nunca ouves!

- Tens o Wadi - chamei-lhe a atenção. - Para ele, és tudo.

- Mas vive muito longe. Quase nunca o vejo. E depois é mais velho do que eu. Não sei se podíamos ser amigos mesmo a sério.

- Sofia, sempre que vamos a Ramnath ou Ponda, parece que nunca gostas. As outras raparigas acham que tu não gostas delas.

Ficou com ar espantado.

- É verdade - acrescentei. - Pensam que não falas com elas e cobres a cara com o cabelo porque te achas superior. Isto ainda a fez chorar mais.

- Há muito que sentes isso? - perguntei, com medo da resposta. Fez que sim com a cabeça, hesitante, como se eu fosse castigá-la por dizer a verdade.

Acho que nunca percebera o quão profundamente ela sentia a sua diferença até que ergueu o olhar macerado, como se estivesse massacrada pela vida. Será que os mais velhos acreditam sempre que os irmãos mais novos são felizes mesmo quando lhes surgem pela frente amplas provas do contrário?

Em resultado desta conversa, fiz todos os esforços para conseguir que o meu pai nos autorizasse a ir mais vezes visitar a tia e o tio em Goa, pois pensei que seria boa ideia a minha irmãzinha encontrar-se com diferentes tipos de pessoas de origem mista europeia e indiana. Também pensei que, se a Sofia travasse amizade permanente com uma pessoa exterior à nossa família mais chegada - como o Wadi -, começaria a abrir-se a todos. Assim, acho que só tenho de me culpar a mim pelo que havia de se passar entre eles.

 

Se falei da minha infância ao meu companheiro de cela, Phanishwar, acho que foi como uma forma de entretecer esses tempos há muito idos numa malha que fizesse sentido para mim. É que a vida parece estar muito pouco interessada em se congregar numa forma que nos ajude a perceber como chegámos ao presente; esse trabalho, somos nós que o temos de fazer, na sua maior parte - quando não na totalidade.

Evitara inquirir do velho jaina de que forma viera parar à prisão, mas à terceira noite juntos, depois de acordar de uma soneca, fez-me sinal para me estender na cama dele e disse: - Foi um erro terrível, sabes?

- O quê?

- Eu ter sido preso.

- Como foi?

Pegou na colcha às riscas, pô-la atrás das nossas costas a servir de travesseira e respondeu: - Um dia, recebi um convite de um brâmane português para visitar Goa. E então, quando...

- Os Portugueses não se subdividem em castas - interrompi. - Não têm brâmanes.

Inspirou profundamente, como se lhe doesse alguma coisa. - Por favor, não me estás a perceber - disse, com os lábios retorcidos de frustração. - O homem trazia uma esmeralda grande como uma semente de anona na ponta das contas.

- Na ponta de quê?

- Ele tinha uma fileira de contas atada à cintura.

- O rosário. É para contar as orações.

- Mas a esmeralda... Se o homem não era brâmane, que podia ser, Trevas Azuis?

Phanishwar fitou-me como se eu estivesse a estragar-lhe a história; era evidente que uma grande pedra preciosa triunfava contra quaisquer factos que eu alegasse.

Era lusco-fusco e as nossas portas duplas de ferro estavam aferrolhadas até de manhã. De quando em quando, um vento tímido perpassava a janela, soprando-nos o cheiro a musgo da cidade encharcada pela chuva. Dir-se-ia que o tempo era um fantasma vagaroso a andar à nossa volta em bicos de pés. - Só queria que o brâmane português viesse ter agora comigo - gemia Phanishwar. - Rama e os meus outros filhos devem estar afogados num mar de cuidados! Ai, que hei-de fazer? - Meteu a cabeça nas mãos como se estivesse a rebentar com um forte zumbido. - Tens de me dizer o que tenho de fazer para sair daqui.

- Não sei. Talvez confessando os pecados aos padres eles te ponham em liberdade.

- Que pecados queres tu dizer?

- Alguma vez maldisseste o cristianismo? Se alguém te tivesse ouvido por acaso, bastaria isso para...

- O cristianismo é a religião das pessoas de Goa, não é assim? - interrompeu.

-É.

- Mas eu nunca maldigo outra religião - protestou.

- Terás inadvertidamente dito algo de Jesus que eles não gostaram...?

- Quem é Jesus?

- É como Krishna - uma encarnação do Deus cristão. Viveu há mil e quinhentos anos num país longínquo.

O jaina encolheu os ombros como se esses pormenores não fossem necessários. - Juro que rezo todos os dias e jejuo em cada ciclo da Lua - disse-me. - E nunca insultei de propósito nenhum ser vivo. Não sou celibatário, e sei que devia, mas na verdade tal só é exigido aos monges. - Os seus olhos negros escancararam-se surpresos. - Achas que eles querem que eu me faça celibatário... é isso? Na minha idade, talvez devesse, mas gosto de mulheres... - A face dele resplandecia de malícia. - Gosto de mais, receio.

- Nem de mim sei o que eles querem, quanto mais de ti - retorqui. - Ouve, na altura em que te prenderam, deixaste bem claro que tinhas recebido convite de um nobre português?

- Tentei, mas os soldados não me ouviam. - Abanou a cabeça desesperado e ergueu quatro dedos. -Já fez quatro meses que fui preso. Por favor, diz-lhes da minha parte que me quero ir embora. Tu falas português muito bem, não falas? Acenei que sim.

- E vê-se bem que és um rapaz com educação. Sabes ler e escrever, não sabes?

- Sei.

- Eu sabia! - Sorriu com simpatia. - Então, consegues convencê-los.

- Mas eles sabem que sou judeu.

-Judeu? - Fez um gesto de súplica enganchando as mãos e erguendo-as ao ar. - Ai, dizes tantas coisas que eu não percebo. Explica lá.

Contei-lhe da nossa crença num só Deus e que o nosso livro sagrado fora escrito por um profeta chamado Moisés. - Os senhores cristãos de Goa acham que os judeus são perversos - acrescentei.

- O Jesus deles não gostava do vosso Moisés, é isso?

- Não, Jesus gostava de Moisés, sim; os portugueses que seguem a fé dele é que não.

- Acho isso muito complicado. Seja como for, não interessa - declarou. - Quem vir os teus olhos azuis quer logo ajudar-te.

Abanei a cabeça perante a inocência dele. - Diz-me lá como recebeste um convite de um nobre para visitar Goa.

- Estava a dançar com Dharanendra em frente do templo de fogo dos zoroastrianos e o brâmane português veio falar comigo. Trazia tantas camadas de roupa. Tolo que eu sou, achei que tinha ar de tonto, mas ele era tão...

- Quem é Dharanendra? - interrompi.

Atirou-me uma gargalhada juvenil. - É a minha cobra-capelo, e também um grande príncipe - respondeu.

- Não percebo.

- Sabes quem é Parsva? - perguntou. Como eu respondi que não, coçou a barbicha cinzenta, ponderando as palavras. - Parsva é o vigésimo terceiro santo jaina - exemplar e muito corajoso. Uma vez, numa vida anterior, há muitos séculos, deu de caras com um brâmane hindu muito mau que se preparava para atirar uma serpente para a pira do sacrifício. Oh, que fazer, que fazer? Correndo, arrebatou a aterrada criatura ao hindu e deu com o bastão na cabeça do homem. - Phanishwar bateu as mãos uma na outra. - Mais tarde, quando reencarnou como Parsva, apareceu-lhe o mesmo brâmane malvado sob a forma de demónio a lançar relâmpagos, mas queres saber?

- O quê?

- A serpente que ele salvara na anterior encarnação também tinha renascido sob a forma de uma cobra-capelo príncipe chamada Dharanendra. Não é fantástico? E calhou bem ela estar por ali quando Parsva precisava dela, pois cobriu o nosso santo com o capuz e salvou-lhe a vida. Mesmo hoje, em algumas dessas cobras, se olharmos com atenção, vemos a coroa de Dharanendra a brilhar na parte de trás do capuz, o que prova que era uma alma nobre, Trevas Azuis.

Phanishwar falava em tom triunfal e fez-me uma reverência, como se eu fosse o herói da sua história. Por um momento, pareceu muito superior a um encantador de serpentes sem educação. Comecei a ponderar se não seria um santo homem disfarçado; ouvira falar dos sadhus indianos que viajam disfarçados pelas aldeias, para melhor observar o mundo. - Achas que as serpentes têm alma? - perguntei-lhe. Virou-se para mim com olhar espantado. - Hás-de-me perdoar, mas tu, que és um rapaz educado, dizes umas coisas que nem sempre fazem sentido. Se as serpentes não tivessem alma, como podiam estar vivas?

- Phanishwar, não tenho resposta para perguntas dessas.

- Até as plantas e árvores têm alma, claro - disse, como se eu o tivesse provocado de propósito e não houvesse coisa mais evidente. A sua expressão endureceu. - Diz-me honestamente e não me poupes os sentimentos. Os Portugueses são como os hindus? Sacrificam animais?

- Não.

- Não me estás a esconder nem uma migalha de verdade?

Fiz que não com a cabeça, e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas agradecidas. - Então Dharanendra vai voltar a dançar comigo! - exclamou. Lançando um sorriso de alívio, acrescentou: -Já alguma vez viste um encantador hindu?

- Em Ponda, muitas vezes. Estava a tocar uma flauta de cabaça e a cobra-capelo dele estava sempre a bambolear-se no cesto, como se estivesse bêbada.

Franziu o nariz com repugnância. - Qualquer pessoa consegue encantar uma serpente dentro de um cesto. Não há muito perigo. A cobra-capelo não pode atacar tão depressa com a cauda abaixo da borda do cesto. E o que é mais terrível - murmurou -, é que os encantadores hindus tiram as presas às serpentes. Um dia, o meu mestre mandou-me fazer isso... a uma cobra-capelo que acabara de apanhar. Como tinha sido aprendiz dele durante três anos, achava que aquilo era uma honra para mim. Uma honra fazer mal a uma cobra-capelo? Que tolo! Recusei, e ele expulsou-me de casa dele à vassourada. Como é possível? Eu tinha só treze anos. Um rapaz solitário pode ficar tão triste! E que deserto é o mundo para ele! Pus-me a caminho de volta para a minha aldeia e, passados dois dias, vi-me no meio de um festival hindu em que os sacerdotes estavam a sacrificar serpentes - atirando-as para uma pira. Parecia-me um presságio funesto, e quis ser heróico como Parsva, mas era tão pequeno e tinha tanto medo! Por isso, perguntei a um dos anciãos se libertaria uma das pobres criaturas, caso eu conseguisse pô-la a dançar na minha barriga.

- Já tinhas feito isso antes?

- Não, mas tinha de fazer algo maravilhoso, e aquilo foi a única coisa que me veio à cabeça. O hindu aceitou o meu desafio e eu olhei para a serpente que tinham no poço: vi uma bela e grande cobra-capelo, de dois metros, enrolada à volta de outra mais pequena, tentando escondê-la e protegê-la. A criaturinha era bebé e vi que a mãe queria com toda a força que ela vivesse, por isso ergui-a e murmurei-lhe o meu plano. Estava a tremer de medo, mas que podia eu fazer? Deitei-me no chão de costas e, segurando-lhe a cabeça delicadamente entre o polegar e o indicador, pousei-a lentamente na barriga. Os aldeões fizeram uma roda, olhando-me com os olhos quase a saltar das cabeças. Havia muita gente à nossa volta, e todos eles tinham medo de se mexer ou até de respirar! O silêncio feito pelas serpentes pode ser muito ruidoso, Trevas Azuis. O mundo inteiro sustém a respiração diante da cobra-capelo. - Cobriu a orelha direita com uma mão e os olhos com a outra, deixando uma frincha para espreitar para mim. - Algumas pessoas não conseguiam ouvir nem olhar.

- E o que aconteceu?

- A mãe cobra-capelo ficou quieta por um momento, depois levantou a cabeça e ergueu o capuz como para atacar. As pessoas gritavam, mas eu olhei para ela com doçura para que tivesse a certeza de que as minhas intenções eram boas. - Phanishwar mostrou-me um sorriso benevolente, e depois ergueu as mãos lentamente por cima da cabeça. - Afaguei o ar para um lado e para o outro, assim... «Agora, para salvares o teu filho, tens de dançar comigo», disse-lhe.

Os olhos de Phanishwar brilhavam de malícia.

- E ela, dançou?

- Não, o monstro abominável mordeu-me com toda a força que tinha! - gritou alegremente. - Mesmo aqui. - Inclinou a cabeça para o lado e mostrou-me uma cicatriz no pescoço. - Apalpa.

Passei a ponta dos dedos sobre a pele encrespada, rindo com ele.

- Gostas? - perguntou com um sorriso expectante.

- Muito impressionante.

- A minha pele ficou toda azul e inchada - acrescentou excitado. - Fui cá uma atracção! Homens e mulheres e crianças vieram de uma roda de três léguas para me ver - o rapaz jaina com o pescoço pintado pelas presas de uma cobra-capelo. Tudo porque o abominável monstro tentou matar-me!

Abanou-se, todo bem-humorado. Pela primeira vez desde há meses, senti o meu corpo encher-se de alegria.

- Fui mordido onze vezes - disse com orgulho. Nomeou cada uma das aldeias em que uma serpente o atacara, contando-as pelos dedos, mas só chegou a dez. O seu ar de perplexidade exagerada provocou-me novo riso. Estava a fazer palhaçadas para mim, como o meu pai, e, embora lhe estivesse grato, sentia também o desespero à minha espreita por sob tudo o que ele dizia.

- Ah, pois, em Bastora, a bestazinha apanhou-me no pé! - recordou-se num repente. Mostrou-me a unha que a serpente lhe mutilara. - Nessa primeira vez, a mãe cobra-capelo deixou-me na montanha sagrada de Indra durante dois dias e uma noite - disse, divertido. - E quando acordei, fiquei com febre mais dois dias. - Fez uma cara triste. - Os pobres aldeões pensaram todos que eu ia morrer e rezaram a Devi para que me ajudasse. «Oh, que havemos de fazer para salvar o pobre rapaz jaina?» E então sacrificaram a mãe serpente, pobrezinha. Coisa terrível que fizeram. Mas queres saber? Quando fiquei bom, deram-me a serpente bebé por ter mostrado tanta coragem, bem como dois cocos para a viagem para a aldeia, e uma jaca também, e incenso para as minhas orações. As crianças puseram-me flores ao pescoço e disseram-me que eu era o seu Rei das Serpentes. Dei o nome de Dharanendra à minha serpente.

- Foste muito corajoso. Mas talvez um pouco imprudente ao tentares pôr a mãe a dançar na barriga.

- Não, estás enganado, Trevas Azuis. É que pouco depois consegui! Havias de ver Dharanendra a dançar comigo agora.

- Ainda a tens? As serpentes vivem assim tantos anos?

- Sabes a história jaina do homem que pintou mais de cem templos, e todos de azul?

- Não, mas que tem isso a ver com Dharanendra?

- Tu é que tens de dizer. Sabes, quando alguém perguntou ao pintor por que é que não usava amarelo, vermelho ou verde, ele respondia sempre: «Encontrei a cor de que precisava e que me agrada, por isso seria insensato e desleal se usasse outra!» - Phanishwar voltou a fazer-me uma reverência.

- Então todas as tuas serpentes são Dharanendras?

- Todas elas. Vim para Goa com Dharanendra Nona.

- E conseguiste ensiná-las todas a dançar?

- Claro. O segredo é que tens de fazer de conta que és a cobra-capelo. - Juntou os polegares e colocou as mãos, de palmas para a frente, por trás da cabeça, formando um capuz. - Se te tornares como ela, ela dança como se nunca tivesse feito mais nada na vida. Até consigo pô-la a girar e, quando não tem muita comida na barriga, a dar uma espécie de salto. - Devo ter-lhe lançado um olhar céptico, porque disse: -Juro! Hás-de ver com os teus próprios olhos, quando sairmos daqui.

- Se isso alguma vez acontecer.

- Mas é claro que sim, porque tu vais dizer-lhes que estamos aqui por engano. - Agitou dois dedos no ar, lançando-os depois para a minha face como uma víbora a atacar. - E tens de perguntar pela Dharanendra. - Fez uma careta. - Espero que não tenha mordido ninguém. Fica zangada quando não estou à beira dela.

- Ainda não me contaste do nobre português.

- Porque tu estás sempre a espicaçar-me com perguntas - declarou.

- Eu?

- Sim, tu és demasiado... perguntador. - Piscou o olho, e percebi que estava a provocar-me outra vez.

De repente, o estreitar da nossa amizade começou a preocupar-me - como se pudesse levar-me para longe de mim próprio.

- Que se passa? - perguntou, afagando-me o joelho. - Por favor, espero não te ter ofendido.

- Não, é que... é que as emoções me atacam de repente. Por vezes, pareço completamente perdido.

Beijou-me a testa. - És um bonito e simpático rapaz, Trevas Azuis - disse. - E tudo te há-de correr bem. Vejo que sim.

Eu ia para falar dos meus sentimentos, mas ele pousou o dedo nos lábios, como se fosse perigoso continuar a falar. Quem é este homem? pensei, e, pela primeira vez na minha vida, senti que estava na presença de um ser muito mais sábio do que alguma vez eu poderia ser - a encarnação de uma alma muito grande.

- Quem... quem és tu na verdade? - disse eu, gaguejando.

Os olhos cintilaram-lhe. - Todos nós somos muitas pessoas. Até tu. Agora, vou dizer-te uma coisa que poucos sabem - disse, muito sério. Parecia estar a saborear a oportunidade de me falar de coisas importantes. - Mas, antes, tens de me dizer se sabes por que é que as serpentes metem tanto medo a quase toda a gente.

- Porque mordem. E podem matar.

- É verdade, mas não é a única razão. Com o seu veneno, as serpentes não só podem matar-nos, mas também pôr-nos num transe, em que ficamos sentados com Indra no seu trono. Ouvi dizer que as cobras-capelo são a lâmina de uma espada que nos pode libertar das nossas cadeias ou pôr termo à nossa vida. As suas bocas alimentam-se das criaturas da terra e as suas caudas erguem-se para o céu; por isso, quando nos tornamos serpentes, estamos em ambos os mundos ao mesmo tempo. Lembras-te de quando a tua mãe entrou na ponte da morte para a vida para se despedir de ti? - perguntou, voltando a esfregar a barba da face. - As serpentes podem-nos levar a essa mesma ponte.

Antes que eu pudesse responder, envolveu-me o ombro no braço dele e puxou-me para si.

- Agora - continuou -, como estava a dizer antes de me interromperes.. . Eu estava a dançar com Dharanendra e, quando acabámos, o brâmane português veio ter comigo e disse que gostaria que eu fosse visitá-lo a Goa. Garantiu-me que me pagaria uma boa soma para divertir os convidados na sua boda.

- Esse nobre disse-te o nome?

- Disse, e tinha quatro. Não é maravilhoso? Chamava-se Padre Carlos Miguel Fonseca. Nomes magníficos, não achas? Sempre que os pronuncio, parece que me deslizam na língua.

- Como estava vestido?

- Trazia uns vestidos escuros e duas peças de metal cravejadas cruzadas ao pescoço. Assim. - Phaníshwar cruzou os indicadores. - Disse-me o nome daquilo como se fosse uma coisa muito poderosa, mas esqueci-me.

- É um crucifixo - um símbolo cristão. Havia outros homens com ele?

- Mais cinco, e tratavam-no com tal reverência que eu percebi que era muito importante. É uma pessoa muito simpática, também. Deve ter sido piedoso e bom na sua anterior vida para ter tido tão bom nascimento. E estava sempre a sorrir, como se escondesse uma piada muito fina debaixo da língua.

Pois estava, e era a gozar contigo!, pensei. - Phanishwar, ele não era brâmane nem sequer nobre - disse eu, ríspido. - O que ele estava era a aproveitar a oportunidade para gozar contigo.

- Não, estás enganado. Até pode ser de sangue real. Como a Dharanendra! Estive a pensar nisso. Um rei... Se calhar, encontrei o rei dos Portugueses. Achas que é? Eras capaz de reconhecer a face do rei se eu ta descrevesse?

- Ele é um sacerdote.

- Não, não, não - é impossível. Estava vestido com tantas camadas de roupa. Só um grande senhor podia...

- Era um sacerdote dominicano ou jesuíta. Eles mandam na Inquisição aqui. Não estás a ver? Enganou-te.

- Mas convidou-me a dançar com a Dharanendra no casamento dele. Ninguém ia mentir sobre um dia tão sagrado.

- Os padres cristãos não se podem casar!

- É verdade? - O rosto do meu companheiro de cela ensombrou-se enquanto ponderava esta nova informação, mas logo um sorriso lhe atravessou os lábios. - Agora percebo! Estávamos a falar através de um intérprete e o tolo do homem deve ter cometido um erro. Era o casamento do filho dele! - declarou com redobrado vigor.

- Phanishwar, acho mesmo que...

A minha afeição por ele agora era tão forte e ele estava tão sôfrego de boas notícias, que não acabei a minha objecção. Deixei a verdade fugir de nós, que Deus me perdoe, e, em vez disso, perguntei:

- Então foste para Goa para a cerimónia de casamento?

- Fui, e nós - Dharanendra e eu - chegámos com três dias de avanço. Chegámos a Goa num barco muito bonito, mas os soldados espreitaram o meu saco e descobriram-na a dormir. Mas que barulho fizeram - berrando e guinchando! Ri-me até a barriga me doer, pois eles saltavam como sapos e não queriam chegar-se ao saco. Dir-se-ia que a minha Dharanendra era um crocodilo! Sabia que o Padre Carlos Miguel Fonseca havia de se fartar de rir também, e expliquei a esses homens que fora convidado por ele. Tenho a certeza absoluta de que até um macaco havia de me perceber, mas aqueles portugueses... - Agitou a mão diante da cara e ficou com os olhos em alvo. - Por mais lentamente que falasse, não adiantava, olhavam para mim sem mostrar a mais pequena ponta de entendimento. Foram muito brutos e puseram-me a ferros. E trouxeram-me para aqui. - Agitou um punho. - Tenho a certeza de que se o Padre Carlos Miguel Fonseca soubesse onde estou agora, ficaria muito zangado com eles. Tenho a certeza de que já não posso ir ao casamento do filho. Se descobrir, há-de castigar esses homens ruins e, nessa altura, eu e tu seremos convidados para o seu palácio.

Falava com tal segurança que quase comecei a acreditar que o tal padre tinha boas intenções, no fim de contas.

- Hei-de contar a tua história ao guarda - garanti-lhe, batendo-lhe no ombro. - Hei-de pedir-lhe que fale ao brâmane português que encontraste.

- E, por favor, vê lá se a Dharanendra está bem. - Phanishwar bateu-me no pé para ter a certeza de que eu o ouvia e agitou o dedo no ar entre nós. - Se quiseres, até te ensino a fazê-la dançar na tua barriga. Então serás sempre capaz de ganhar a vida honestamente, Trevas Azuis, vás para onde vás. E talvez te venhas a sentar com Indra de tempos a tempos no céu. Isto são prendas muito bonitas para dar a quem amamos, não é assim?

 

Ao RAIAR DA AURORA, ensinei a Phanishwar as orações judias da manhã, e ele mostrou-me como começar o dia como os jainas. Começou por entoar a palavra nisihi, que queria dizer «abandono», disse, e que significava o entrarmos num espaço sagrado. Depois, fez-me rodar três vezes em torno do centro da cela, onde deveria estar a imagem em talha de Parsva a subir para o céu por uma serpente enrolada, se não lhe tivesse sido confiscada pelos soldados portugueses. Espargimos ambos água sobre o santo invisível. E então era chegada a altura de lhe oferecer arroz, doces e fruta.

- Ai, e agora, que havemos de fazer? - gemeu Phanishwar. - Fico tão confuso aqui dentro, que não me lembrei de guardar nada do meu jantar para ele.

Ficou a meditar longamente em silêncio, com as mãos coladas à cara como uma criança a esconder os olhos, e depois reanimou-se de repente e pediu-me que arrancasse quatro madeixas do cabelo.

- Mas porquê? - perguntei.

- Vá lá, vá lá, vá lá! - disse impetuosamente, sacudindo as mãos como quem espanta abelhas. - Tens um cabelo muito basto, bem podes dispensar quatro madeixas sem te pores a protestar.

Nesse momento, a porta exterior da nossa cela rangeu e pela frincha entraram os nossos pequenos-almoços trazidos pelo Analfabeto, que, como de costume, fedia a álcool de pai. Pedi-lhe que dissessse ao Padre Carlos Miguel Fonseca que Phanishwar estava aqui. - Este homem é um famoso encantador de serpentes que o Padre Carlos encontrou uma vez - expliquei, apontando para o jaina.

O Analfabeto limitou-se a grunhir, mas o meu companheiro mostrou-me um sorriso grato. - Agora vamos ter justiça - disse, a satisfação a brilhar-lhe nos olhos.

Atou as minhas madeixas e espalhou as pontas de modo a formar uma flor, que colocou aos pés de Parsva. - Tem quatro pétalas - disse. - Para os seres humanos, os animais, os deuses e os demónios, uma pétala para cada um.

Depôs arroz em forma de crescente junto à flor. Ao repetir as preces de Phanishwar, sabia que o meu pai teria ficado furioso comigo por me estar a dirigir a um ídolo - ainda que um ídolo invisível conjurado pela imaginação de um bom e honesto homem. Mas também sabia que o meu pai agora estava morto e que a minha vida tinha de trilhar caminhos que nenhum de nós alguma vez previra.

Durante outro mês, não soubemos mais nada sobre o nosso pedido de ver o Padre Carlos. Phanishwar e eu desenvolvemos uma camaradagem prazenteira, e - fiel ao grande sol indiano de optimismo que quase sempre brilhava dentro dele - o meu companheiro de prisão continuava convencido de que ele e eu havíamos ambos de ser libertados no momento em que o seu amigo sacerdote soubesse do nosso sofrimento.

- Um homem tão importante está provavelmente a fazer uma grande viagem de estudo - disse o jaina. - Mal regresse, há-de vir ver-nos!

Com o passar das semanas, cresceu a minha gratidão para com Phanishwar por este respeitar os meus humores. Por vezes, não conseguia evitar chorar como uma criança abandonada, e ele agarrava-me com os fortes braços, falando-me da família com o bálsamo da sua voz, de tal forma que eu em breve senti que havia de reconhecer cada um dos filhos dele se os encontrasse na rua. De outras vezes, precisava de toda a minha força de vontade para não me pôr a gritar. Andava léguas e léguas na minha cela, com os pensamentos tão carregados de perigo como as nuvens da monção. Aprendeu a nem sequer tentar dirigir-me a palavra nessas alturas.

Sem me aperceber disso, o jaina trouxe-me lentamente de volta a um mundo guardado por Deus; por causa dele, comecei a acreditar que iria voltar a ver a minha família não tardaria muito. De certa maneira, havíamos de recomeçar as nossas vidas.

Uma tarde, a nossa porta dupla abriu-se e um padre grisalho e corpulento entrou na nossa cela. Soube logo quem era pelo cabuchão de esmeralda que lhe pendia do rosário. Phanishwar, que estivera a dormitar, levantou-se num rompante.

O Padre Carlos descansava as mãos na barriga generosa, deu um breve suspiro e sorriu para o jaina como se estivesse aliviado por o ter encontrado após árdua busca. O Analfabeto e outro guarda estavam postados muito hirtos por trás dele.

- Cá estás tu! - exclamou o padre em português.

Phanishwar juntou as mãos, curvando-se para o nosso visitante. - Obrigado por me ter vindo ver, senhor - disse em concani.

- Falas a língua dele? - perguntou-me o padre.

- Falo - respondi, e traduzi o que o jaina acabara de dizer.

- Eu é que tenho de te agradecer por me teres vindo ver - disse o Padre Carlos num tom suave.

- Peço perdão por não me poder levantar para vos saudar, senhor - disse o jaina. - Por favor, não é por mal. Tendes de acreditar em mim.

- Não há mal nenhum - respondeu com um sorriso.

Benditas sejam as surpresas da vida, pensei. Phanishwar tinha razão quanto a este homem!

- E tenho muita pena de não ter podido ir ao casamento para que me convidou - disse o meu amigo -, mas estive aqui muitos meses e os guardas não me deixavam sair.

O jesuíta olhou longamente para mim com firmeza enquanto eu repetia as palavras do jaina em português. Quando acabei, o padre era todo sorrisos, como que orgulhoso de mim, e estendeu a mão para me afagar o braço. Tive de resistir à tentação de me ajoelhar e lhe pedir que me libertasse. Sentia um enjoo pesado nas entranhas, como se todas as esperanças que lá tinham estado enterradas estivessem para me trair. Ouvia o meu pai a dizer: Não percas a calma e hás-de voltar para a Tejal. Vais criar os meus netos e...

- Se eu soubesse, tinha vindo logo aqui! - disse o Padre Carlos a Phanishwar. Tinha uma voz bonita - como se tivesse ganho gravidade com os anos de paciente estudo. Tinha-me esquecido de que o som do português podia ser tão comovente.

- Agora, junto a mim ficas em segurança - disse a Phanishwar. E, dirigindo-se aos guardas: - Levantem este homem e levem-no connosco. Tenham cuidado com ele.

Obedecendo, levaram Phanishwar como se ele estivesse sentado numa cadeirinha. Ele fez uma careta, embaraçado por tantas atenções.

- Ai, estou a dar tanto incómodo - disse ao Padre Carlos ao passar por ele. - Por favor, perdoai-me.

Aterrado à ideia de que me esquecesse, disse-lhe em concani: - Phanishwar, dou-te tudo o que possuo se me conseguires libertar.

- Não tenhas medo, Trevas Azuis. Voltarei para junto de ti antes do pôr do Sol. - Agitou os braços. - Quem senão tu pode levar-me a voar para casa ao luar?

Não tornei a ver Phanishwar nos dois dias seguintes, mas as minhas esperanças renascidas teceram sonhos intrincados. Imaginava-nos a caminhar de braço dado para a aldeia dele, cumprimentando Rama e os outros filhos. Convidava-os para a nossa quinta. Nupi preparava galinha masala para o nosso festim. Que graças dávamos nesse dia ao Senhor da Tora e aos santos jainas!

Com as pontas dos dedos, percorri as cicatrizes dos cortes nos meus pulsos, agora louco de alegria por as ter, pois eram prova de que sobrevivera ao pior. Na primeira noite e na manhã seguinte, perguntei ao Analfabeto pelo Phanishwar, claro, mas o nosso guarda limitou-se a franzir o sobrolho, encarando-me claramente como uma praga.

No terceiro dia, mesmo antes da ceia, a porta abriu-se de par em par mostrando o Analfabeto que trazia Phanishwar ao colo - inconsciente e flácido. O guarda despejou-o no catre com um grunhido de rancor.

- O maluco do indiano pesa mais do que parece - declarou. Esfregou as mãos uma na outra como que para as lavar de uma mancha nojenta.

Não vi marcas nem queimaduras no corpo do meu amigo, mas tinha crostas de sangue nos cantos da boca.

- Voltaste a aleijá-lo, seu filho-da-puta! - gritei.

- Caluda, judeu!

Quando lhe cuspi, gritou: - Devia meter-te tento na cabeça à pancada!

- Experimenta lá! - gritei para o provocar, mas não lhe dei nenhuma oportunidade. Atirando-me a ele, preguei-o contra a parede, partindo-lhe pelo menos uma das costelas com um magnífico estalido. Ele arquejou e gritou por socorro, mas consegui agarrá-lo pela garganta. Que bom era tê-lo em meu poder. Teria morto o malvado boçal - e sem nenhuma pena -, mas outro guarda veio a correr e arrancou-mo das mãos.

- Vais morrer, judeu! - gritou o novo homem para mim, erguendo o bastão acima da cabeça.

Acordei na escuridão. A cabeça latejava-me. Algures por detrás da porta, Nupi falava com o meu pai sobre uma viagem à sua aldeia que estávamos para fazer.

- O Sol há-de proteger-nos - disse ao meu pai.

- Mas o Sol não pode ver através da pedra - respondeu este.

Então o mundo afastou-se de mim. Estava a flutuar. Pensei que conseguia até cheirar a noite - como canela a arder. Acima de mim, a Lua, criando espirais prateadas de luz à roda da minha cabeça e uma auréola pulsante no maciço de bambus por baixo de mim. Perguntei a mim próprio se isto seria a morte. Esperava que sim.

Quando voltei a acordar, era como se me tivessem deixado cair de uma grande altura. Todo o corpo me doía. Tentei lamber os lábios, mas a dor era insuportável. O segundo guarda deve ter-me pontapeado a cara e partido o queixo. Carreguei na fronte com o dedo e parecia que me estavam a enfiar um prego nos ossos.

Na manhã seguinte, informei Phanishwar por gestos que não conseguia falar. Ele afagou os lábios rebentados contra a minha face inchada, e depois sentou-se de costas para mim a olhar para a parede. Não tocava no pequeno-almoço nem se voltava para me encarar, por mais puxões que lhe desse. Ainda não sabia que ele não conseguia erguer os braços para comer a refeição.

Horas mais tarde, começou a uivar. Era um som infernal e eu agachei-me como um pedinte aos seus pés para que ele me explicasse, mas limitou-se a abanar a cabeça. Nessa noite, porém, quando as últimas sombras do pôr do Sol fugiam pelas paredes acima, veio ter comigo, sentou-se junto à minha cama e contou-me o que se passara.

Quando deixara a nossa cela quase há quatro dias, fora levado para um quarto com centenas de livros em prateleiras cobrindo as paredes. O Padre Carlos pegou num grande tomo negro e pôs-se a lê-lo à secretária, à luz de uma vela dourada grande como um homem. Um pequeno indiano com um crucifixo ao pescoço fazia de intérprete.

- O que o jesuíta lera era sobre mim... eu nem queria acreditar - disse-me em tom atónito. - Descreveu como eu encantara Dharanendra no dia em que nos encontrámos. Havia até um pequeno desenho de mim que ele fizera. Porque haveria um brâmane português de me retratar? Parecia muito estranho. Perguntei-lhe isso, e respondeu: «Estou a registar os costumes da índia, porque em breve se perderão. Todos os rastos de feitiçaria e superstição tornarão ao pó. Vim cá registá-los para a posteridade.»

Phanishwar disse-lhe que não via como é que os costumes da índia poderiam desaparecer em breve, pois tinham sido praticados durante milhares de anos.

- Todos os vossos deuses estão mortos - explicou o padre com um sorriso impaciente. - Destruímo-los com isto. - Brandiu a cruz que tinha ao pescoço.

Quando Phanishwar perguntou como poderia morrer Indra, o Rei dos Deuses, o Padre Carlos replicou em tom grave e severo que fora morto pela compaixão de Cristo, como todos os infiéis e pagãos haviam de ser. - Já está enterrado - disse o padre -, só que tu não sabes ainda.

- Aquilo não fazia sentido, Trevas Azuis - disse-me o jaina então. - Mesmo que Indra tivesse sido morto por um grande demónio que assumisse a forma de uma cruz, haveria de renascer imediatamente. Enterrá-Lo não adiantava nada. Até as criancinhas sabem isso. - Os olhos escancararam-se-lhe, suplicantes. - Diz-me lá, tenho ou não razão? - Deves ter - articulei em silêncio, em jeito de resposta. Phanishwar disse que, a seguir, o sacerdote abriu o livro numa página em branco e molhou a pena em tinta negra. - Agora diz-me tudo o que puderes sobre as serpentes e como as treinas - disse.

- Mas isso pode levar horas - protestara o jaina. - Só o ia aborrecer. O seu hospedeiro riu-se suavemente. - Não tenho pressa. E quero saber tudo.

O meu amigo contou-lhe todas as histórias de serpentes de que se lembrava, e como tentava entrar em Dharanendra quando dançavam. Falou até de como o veneno da cobra-capelo contém simultaneamente céu e terra, embora o tenha dito num sussurro, pois isso era ensinar o poder e não era para todos os ouvidos. O padre não parava de sarrabiscar, até que ouviu que as serpentes têm almas imortais sujeitas às mesmas leis cósmicas que os homens. Ouvindo isso, mandou o seu conviva parar e fez-lhe muitas perguntas sobre o tamanho, a forma e a constituição da alma, o que levou Phanishwar por um caminho tortuoso até outros assuntos esotéricos de que pouco sabia. No entanto, não pretendia desagradar ao seu hospedeiro, e elaborou as suas respostas o melhor que podia, embora tendo o cuidado de acrescentar que seria melhor o Padre Carlos consultar um sacerdote jaina.

Nessa altura, Phanishwar começara a apreciar o calor da presença do jesuíta e a sua instante inquirição. O jesuíta sorria como se toda a verdade o fizesse feliz, e o jaina estava muito orgulhoso por ser escutado por um brâmane português - embora tivesse alguma vergonha, também, pois era apenas um encantador de serpentes de uma pequena aldeia, e não sabia ler nem escrever. Não parava de pedir desculpa por ser de uma casta tão baixa e insignificante, e por não ter comparecido ao casamento para que tinha sido tão generosamente convidado. Jurou que haveria de fazer um espectáculo para o padre quando ele quisesse - e nunca lhe cobraria uma única moeda de prata ou sequer de cobre!

E então arriscou uma pergunta: - Vossa Senhoria sabe alguma coisa da minha serpente - de Dharanendra? - inquiriu.

- Claro que sei! Hei-de trazer-ta quando acabarmos isto.

Phanishwar abençoou e louvou o Padre Carlos, e até fez questão em se pôr de joelhos e lhe beijar os pés. Já estavam a conversar pelo menos há três horas, pelo que o jaina achou que chegara a altura de falar de mim. Rastejando de volta para a sua cadeira, disse ao padre: - O moço de olhos azuis que está na minha cela também está aqui por engano. Diz que é judeu e que acredita num só Deus, mas não sei se é Vishnu ou Shiva ou Devi, ou outro venerado só pelos Portugueses, ou se o Deus dos judeus também foi morto pela compaixão do vosso Cristo.

O padre riu-se até às lágrimas por uma razão que Phanishwar não descortinava, e depois pediu-lhe que lhe contasse mais das serpentes. Passada mais cerca de uma hora, o jaina falara de tudo o que lhe era permitido falar, e o seu hospedeiro pousou a pena. - Deste-me uma grande ajuda, Phanishwar, e agradeço-te muito - disse.

Afagou a mão do jaina como se fossem agora grandes amigos, e depois dirigiu-se para a porta e chamou um assistente. Travaram uma conversa animada que não foi traduzida para Phanishwar, mas os acenos amistosos do padre na sua direcção davam-lhe a certeza de que ia ser libertado brevemente. Uma golfada de excitação deixou-o tonto. Ia para falar de mim outra vez, mas o intérprete indiano interrompeu-o.

- Sua Excelência deseja perguntar-te se queres reconhecer agora a acusação de feitiçaria. Se sim, ele pode marcar já uma audiência com o Grande Inquisidor.

Phanishwar deu a resposta que tinha praticado na nossa cela: - É verdade, Vossa Senhoria, que não tenho mantido o celibato. Não achei necessário, visto que não sou monge. Confesso isto de boa vontade e apresento as mais humildes desculpas. - Sorriu expectante, pensando que falara bem.

- Mas então esses anos todos em que praticaste feitiçaria? - perguntou o Padre Carlos. O seu tom era agora mais duro.

- Que eu saiba, nunca feri ninguém por palavras ou pensamentos - replicou Phanishwar, visto ser essa a sua definição de feitiçaria.

- Acabo de escrever vinte páginas precisamente sobre isso! - gritou o padre. - Achas que não sei porque vieste para Goa? Achas que sou idiota?

- Dharanendra e eu... nós... nós viemos ao vosso casamento - tartamudeou Phanishwar.

- Se não fizeres uma confissão completa e honesta, então vieste para Goa para o teu funeral! - explodiu o outro homem.

O jaina estava calado, a magicar como haveria de atrair outra vez as boas graças do seu hospedeiro. O brâmane português parecia ser dois homens, e o segundo não era nada amistoso.

- Negas a Cristo a verdade sobre as tuas malfeitorias? - perguntou o jesuíta.

Voltando a cair de joelhos e falando lentamente, para que não houvesse erros de tradução, Phanishwar respondeu: - Por favor, senhor, mandai vir aqui o rapaz da minha cela. Ele há-de explicar-vos tudo em português, tal como vós quereis.

Furioso, o padre não tornou a falar ao seu convidado: em vez disso, chamou dois guardas. Quando estes agarraram Phanishwar, o jaina rogou que não o queimassem outra vez e pôs-se a gritar que a partir daí guardaria o celibato.

- Receio que não te reste outra hipótese enquanto fores prisioneiro de Cristo - informou o Padre Carlos.

Foi arrastado pelas escadas abaixo até aos calabouços em que lhe tinham chamuscado os pés em carvão a arder. O cheiro da carne podre que ali reinava fê-lo desmaiar de terror e, quando uns homens de capas compridas lhe ataram as mãos atrás das costas com cordas que cheiravam a mar, não foi capaz de resistir. Só conseguia murmurar que era tudo um engano. Prenderam as cordas a uma roldana de ferro presa ao tecto e amarraram-lhe aos pés um cesto de verga cheio de pedras. Três vezes foi içado duas braças no ar e três vezes foi largado até a uns palmos do chão. Lançava uns gritos tão estridentes e preces tão intermináveis que lhe enfiaram um rolo de ferro na boca, preso com umas fitas de couro em torno da cabeça. Depois de os ombros lhe terem saltado das articulações, deixaram-no pendurado durante o resto desse dia e toda a noite. Pelo menos, era assim que recordava o sucedido; logo perdeu a noção da passagem do tempo.

A certa altura, espetaram-lhe um atiçador de ferro nas costelas e fizeram-lhe perguntas, mas quais fossem e o que lhes respondeu, ou quanto tempo durou a tortura, não sabia. Antes de uma das piores sessões, ataram-lhe em torno do pescoço uma serpente podre a borbulhar de vermes. Não achava que fosse Dharanendra, embora lhe dissessem que sim.

- Já não me interessava saber se era a minha bela amiga - disse-me Phanishwar, soluçando. - Estás a ver o que aconteceu, Trevas Azuis? Já não sou o homem que era. Já não sou sequer homem. - Tinha os olhos debruados a vermelho com o desespero. - Não consigo levantar os braços nem andar. O que acontecerá ao meu jovem filho? O que vai acontecer a Rama?

Não posso dizer o que Phanishwar sentiu durante os dias que se seguiram, visto que não me dirigiu uma palavra e até descurou as suas preces da manhã a Parsva, mas a raiva enrolava-me as entranhas como uma coisa viva, fazendo-me vibrar com a vontade de destruir a prisão. Mas nem pontapeando a porta da cela atraí alguém: isso só me fez desprezar a minha impotência. A dor negra no meu queixo rasgava-me a cada respiração e o ódio por mim próprio caía-me em cima em ondas esmagadoras. Quando o cansaço me venceu, os meus sonhos eram contos de vingança tecidos com velhas histórias da Tora em que já não acreditava. Quando acordei de noite, sabia-me ao sangue do meu pai, como quando o visitara nesta mesma prisão.

Disse a Phanishwar num débil sussurro dolorido que a nossa única saída era dominar o guarda, e pedi-lhe a opinião sobre o meu plano, mas ele recusou-se a responder-me.

No dia em que me iam levar para cortar o cabelo, excitei-me interiormente até ficar num estado de loucura furiosa. Quando o nosso novo guarda - um homem baixo com cara vermelha de pele escamosa - entrou na cela para me escoltar, saltei-lhe em cima. Ainda estava com forças para o acachapar de joelhos, mas ele, retorcendo-se nos meus braços, veio dar com o cotovelo no meu queixo. Num instante, todo o ímpeto de lutar se me esvaiu. Uivando de dor, rojei-me no chão, enquanto ele ameaçava espancar-me de morte.

Phanishwar amaldiçoou-o e disse que ele havia de renascer no inferno.

O novo homem sabia concani e riu-se. - A reencarnação é só para «arroz preto» - expressão com que alguns portugueses designavam os Indianos, a fim de os humilhar. Referia-se ao arroz negro em bruto comido pelos camponeses.

Entre dentes, jurei pela memória do meu pai que havia de tentar evadir-me outra vez, mas secretamente rendi-me, com tudo o que era e havia de ser, aos meus captores. Como podia continuar a lutar? Tinha os dedos nodosos como os de um esqueleto; As minhas costelas pareciam os degraus de um escadote desengonçado, e sangrava sempre que roçava as pernas na cama.

De quem eram estes olhos que agora tinha? De certeza que não eram os da minha mãe nem de nenhum ser vivo. Era bom não ter espelho.

A vontade de um homem não é nada quando comparada com a dor física, que arrasava todos os meus planos, salvo um: matar quem me denunciara a mim e ao meu pai e nos tinha metido neste inferno.

Consolei-me como pude a alimentar Phanishwar pelas minhas mãos e a lavá-lo todos os dias. Até só de tentar levantar os braços o pobre homem estremecia de dor. Gemia durante a maior parte da noite. Eu arrastava-me até ao catre dele e deitava-lhe a cabeça no meu colo, enxotando os mosquitos que se lhe aproximavam da cara para que pudesse dormir sem interrupção. Aprendi a sentir as suas lágrimas nas minhas mãos. Por vezes, parecia que transpiravam dos meus dedos.

Se os homens e as mulheres chorassem das mãos, talvez a compaixão despertasse em nós mais facilmente, comecei a pensar, e esse pensamento nunca me abandonou desde então.

Por vezes, ficava a dormir sentado, segurando Phanishwar, sonhando com a morte. Era um barco com velas pretas e vermelhas que nos levava para longe, com o vento salgado de Shiva a soprar atrás de nós. Muitas manhãs, via Tejal de pé à minha frente, nua, estendendo-me flores-do-paraíso no cesto de verga que eu costumava usar para colher flores para Nupi. Eu recusava-me a pegar nas flores. Não podia. Se ao menos tivesse conseguido matar-me, serias livre, dizia-lhe.

A escuridão da nossa cela durante a noite tornou-se na recordação da doçura de Tejal, e ela até veio beijar-me nos lábios uma manhã para me acordar. Acho que era a minha abjecta fome que gerava tais visões.

Quando me aparecia, a minha mãe trazia sempre o seu lenço branco. Embalava-me nos braços tal como eu embalava Phanishwar e, quando olhava para as minhas mãos, via as dela. Era como se nos tivéssemos tornado uma e a mesma pessoa. Disse-me que estaria à minha espera quando eu chegasse a casa. Agradeci-lhe a promessa, mas até nos meus sonhos sabia que ela não devia fazer tal jura. Como poderia fugir da cela que partilhava comigo?

Uma noite, quase ao nascer do Sol, Wadi estendeu os braços para mim, com os dedos esticados.

- Cheira-me a queimado! - gritou o meu primo. Com um puxão, pu-lo a salvo. Senti que nos tinha salvado aos dois. Suponho que somos todos prisioneiros das nossas antigas amizades -mesmo quando, com a idade, as lamentamos.

Ao fim de três semanas, lá nos mandaram um médico indiano. Pôs-se a manipular os ombros de Phanishwar, enquanto o jaina chorava, voltando a enfiá-los nas articulações. Pelo comportamento frio do médico, percebi que já fizera isto muitas vezes. Antes de se ir embora, ajoelhei-me à sua frente.

- Dê-nos veneno - articulei.

Não sabia ao certo se iria utilizar o veneno em mim próprio ou o guardaria para Phanishwar, mas era bom tê-lo comigo; um judeu, acho, deve estar sempre pronto - e disposto - a matar-se.

O médico afastou-me, mas eu agarrei-me às pernas dele até que o guarda me sacudiu.

Embora as dores físicas de Phanishwar estivessem a abrandar, mesmo assim não consegui levá-lo a dizer-me em que pensava. Pediu-me que o deixasse em paz. Quando ia ter com ele de noite, empurrava-me, dizendo: - Parsva está morto e enterrado.

Por gestos, propus-lhe que disséssemos as nossas preces judias e jainistas, mas ele recusou. No mundo envilecido a que descera, os príncipes das serpentes já não podiam proteger os santos jainas, e os homens não podiam pôr as cobras a dançar.

Passadas quatro semanas, já conseguia abrir a boca o suficiente para engolir pequenos bocados de arroz e até mastigar alguns nacos de peixe frito. Conseguia falar num sussurro sem ficar aniquilado pela dor.

Disse a Phanishwar que o Padre Carlos o ludibriara sobre a morte de Indra para lhe arrancar uma confissão de feitiçaria. - Levaste a melhor não cedendo nisso - disse eu.

- Tu é que estás a enganar-me! - respondeu, zangado, com os olhos a relampejar violentamente. - A minha ignorância do mundo deu cabo de mim. Que louco fui em acreditar que percebia como se portam os homens!

- Vais ver, Parsva e Dharanendra um dia hão-de destruir as cruzes de todos os cristãos da índia.

O velho jaina riu-se para mim, e pôs-se a resmungar incompreensivelmente com uma voz que eu já não conhecia.

Alguns dias depois, tornou a deixar de comer. Sempre que me aproximava dele, cerrava logo os olhos e fazia-se de surdo.

Uma noite, porém, chamou pelo filho Rama durante o sono.

- Não posso continuar assim - murmurou quando o acordei.

- Tens de comer e reconstituir as forças - disse-lhe.

- Não, tenho de morrer rapidamente para poder voltar como assassino. Então matá-los-ei a todos.

Passados uns dias, apareceu à nossa janela um periquito-rabo-de-junco, que se pôs a olhar para nós do parapeito. As crenças de Phanishwar devem ter moldado a forma da minha loucura, porque reconheci o meu pai nos olhos reluzentes do pássaro. Voltou para me salvar, pensei. Vai-me deixar caçá-lo para que eu lhe ate um recado ao pé.

Tentei atrair o periquito cá para baixo, mas ele não queria vir. Dando um salto, varri o ar com a mão, mas ele escapuliu-se a voar, levando as minhas pragas consigo para o ninho.

Que podia ter escrito utilizando o sangue como tinta? E a quem? Nem sequer o meu tio teria podido ajudar-nos na nossa prisão. Se isso fosse possível, então já teria vindo visitar-me.

Phanishwar enfraquecia por falta de comida. Eu receava que conseguisse pôr termo à vida. Quase não falávamos, e ele ficava estendido no catre dia e noite. As chagas que tinha nas costas começaram a sangrar e a ficar infectadas, e ele fedia, de sujo que estava.

Na esperança de o salvar - e para ganhar coragem -, disse-lhe que o periquito fora enviado por Parsva. - Ele era a reencarnação da tua Dharanendra. Veio até aqui para verificar que ainda estávamos vivos.

O jaina fechou os olhos como se estivesse a ponderar seriamente as minhas palavras, mas logo respondeu como se fosse evidente: - Ah, mas não acho que estejamos vivos, Trevas Azuis.

Phanishwar e eu estávamos a mover-nos em direcções opostas, e, à medida que eu ia ganhando forças, os seus desejos suicidas cada vez mais me punham de mal com ele. Disse ao velho que o desprezava por não lutar contra os nossos inimigos, o que nem sequer era meia verdade. Mas logo me deixei cair diante dele e me pus a soluçar, pois sabia que eu era capaz de dizer não importa o quê para sair daquela prisão - até de confirmar aos padres que ele era um feiticeiro ou denunciar os meus tios como judeus secretos.

Quando lhe confessei que poderia traí-lo, o jaina fitou-me com um olhar de compaixão que hei-de sempre lembrar. Era como se os seus olhos contivessem todas as grandes e pequenas coisas da minha vida - o Sol e a Lua, o cheiro a jasmim do nosso alpendre, Nupi cantando uma canção de embalar sobre Ganesha...

- Quero morrer - disse-me. - Portanto, nada do que digas aos carcereiros me importará nada. Na minha próxima vida, hei-de vingar-me de tudo o que fizeram a Indra e Dharanendra.

- Mas o teu ódio por eles não há-de renascer - protestei. - Serás outra pessoa... um bebé, sem recordações do que se passou nesta vida.

Tapou os ouvidos com as mãos e não respondeu.

Passados dois dias, o guarda entrou na nossa cela e disse-me que me fora finalmente concedida a audiência com o Grande Inquisidor que eu há mais de um ano andava a pedir. Seria levado à sua presença dentro de vinte e quatro horas. Depois de ele ter voltado a fechar a porta, Phanishwar sustentou o meu olhar pela primeira vez desde há semanas. Era um monte de ossos quebradiços e de carne flácida, mas, mesmo assim, vi um lampejo de esperança e amizade nos seus olhos pretos vidrados, húmidos de ternura por mim. Será que afinal não se resignara à morte? Queria que eu lhe dissesse que ia meter um empenho por ele aos senhores da Igreja?

Sabia que só isto lhe poderia reanimar o espírito, mas falar dele aos nossos carcereiros iria sem dúvida prejudicar a minha situação. Fugi ao seu olhar e deitei-me de barriga na enxerga, tentando amainar a minha culpa, mas nessa noite fui-me enroscar por trás dele no seu catre. O morno da mão dele na minha veio alterar-me os planos.

- Vou dizer-lhes que estás pronto a confessar - disse-lhe.

- Não - sussurrou.

Soergui-me. - Ouve lá, Phanishwar. Tens de lhes dizer que praticavas feitiçaria, mas que agora renuncias a todas as tuas anteriores crenças e aceitas Cristo como teu salvador - como Deus. Percebes? Senão, vais mesmo morrer - e não de fome. Antes de te ser dada essa bênção, vão torturar-te outra vez.

Virou-se de costas para baixo. - Não posso regressar à vida. Não posso tornar a ser o que já fui. Tudo isso agora é passado.

- Não acredito nisso - disse-lhe. Apertei-lhe a mão. - Isto... isto pode parecer tolo - disse eu, hesitante -, mas, por vezes, penso que podes ser uma pessoa maior do que alguma vez eu poderia imaginar. Alguém que desceu a este mundo da montanha de Indra.

- Não sou - disse. - Sou apenas um jaina encantador de serpentes. Não te deixes iludir.

- Dir-me-ias se fosses - quer dizer, se fosses alguém grande e poderoso?

- Como é que hei-de saber? Nunca tive nenhum poder.

- Talvez nem sequer conheças a tua verdadeira natureza. Não é possível?

- Estás a atrapalhar-me. Trevas Azuis, mesmo que eu fosse Vishnu ou Shiva, que interessava? Aqui é que eu estou agora. Sou prisioneiro. Só preciso de saber isso.

- Phanishwar, seria um crime monstruoso morreres aqui às mãos de homens tão vis - disse eu, desesperado. - Seria imperdoável. Tens de pensar em Rama.

Começou a chorar baixinho. Agarrei-lhe o ombro para que ele sentisse quanto eu estava decidido. Disse-lhe outra vez que tinha de confessar a feitiçaria.

- Não tenho a certeza... Não consigo pensar no que hei-de fazer...

O meu pai sempre nos dissera, a mim e à Sofia, que o amor fora utilizado por Deus durante os seis dias da Criação para moldar o mundo, mas ao abraçar Phanishwar, que soluçava, deixei de acreditar nisso. Mais tarde, o velho recordou-me que os hindus e os jainas tinham um nome para a nossa era de crueldade: chamavam-lhe a Idade de Kali, um período de rebaixamento e de trevas espirituais sem fundo contra as quais era vão lutar.

Caía-me nas pernas uma luz sedosa de aurora, e eu estava sentado no chão da cela. Phanishwar, deitado no catre por trás de mim, penteava-me o cabelo preguiçosamente com os dedos. Ao acordar nessa manhã, aceitara que eu fizesse um pedido em seu nome.

Ouvindo o guarda aproximar-se e sabendo que era quase tempo de sair para a audiência com o Grande Inquisidor, ajoelhei-me diante do meu amigo. Ele sorriu, lutando contra as lágrimas. A porta exterior da nossa cela abriu-se com estrondo. O meu pulso começou a bater rápido.

- Vêm buscar-me - disse eu, levantando-me. - Phanishwar, não sei o que vou dizer se me torturarem... Posso não ter coragem de falar de ti. Perdoa-me se puderes.

- Não te preocupes. Vai lá. - Acenou-me como um ancião a um jovem.

- Vou tentar salvar-nos a ambos - prometi.

Levou o dedo aos lábios - como fazia sempre que achava demasiado perigoso falar do futuro. Sentiria ele aproximar-se uma mudança irreversível nas nossas vidas? Por vezes, ainda hoje o sofrimento dele me acorda de manhãzinha e ponho-me a meditar quem de facto seria e o que estava a tentar dizer-me. Imagino os olhos negros dele como se pudessem criar uma nova vida em mim - ou fazer do passado qualquer coisa com que eu pudesse viver mais facilmente. Mas talvez a minha impressão da sua grandeza fosse só uma ilusão conjurada pela clausura.

Talvez tivesse conseguido seguir o meu guarda firme e seguramente para a audiência, se não tivesse sido forçado a deixar Phanishwar. Na circunstância, segui aos tropeções, duvidando da solidez dos meus passos. Pela primeira vez, ousava admitir para mim próprio que desejava desesperadamente que Tejal esperasse por mim. Se conquistasse a liberdade mas a perdesse a ela, que é que aquilo tudo significava?

Seguindo por corredores sombrios, alcançámos uma sala de altos tectos e paredes recamadas de tapeçarias de seda com listas amarelas brilhantes. O guarda parou no limiar e, curvando-se perante duas pequenas figuras sentadas à mesa lá dentro, mandou-me num murmúrio que entrasse sozinho.

Durante muito tempo imaginara o Padre Tomás Pinto, o Grande Inquisidor da índia, como um ogre com a face desfigurada pela crueldade, mas era apenas um homem descarnado de vestes escuras e um chapéu de quatro bicos que, noutras circunstâncias, me havia de parecer cómico. Não parecia ter mais de quarenta anos - demasiado novo para se dedicar a condenar homens e mulheres à morte, pensei eu na altura, com certa inocência. Tinha um olhar austero e sabedor, como se fôssemos velhos inimigos - mas ocorre-me agora que ele já passara por aquilo milhares de vezes e o mais provável era que estivesse profundamente aborrecido com mais um judeu ou hindu que precisava de conhecer a misericórdia de Cristo.

Estava sentado no topo de uma mesa muito comprida, que fora colocada numa plataforma de madeira a dois palmos do chão e estava coberta por um elegante brocado verde e escarlate, semeado com um padrão de cruzes douradas. Uma rampa de luz jorrava das janelas, cujas cortinas não se encontravam completamente fechadas.

Ele quer estar mais alto do que os homens que julga, percebi. E quer ostentar a riqueza que a Igreja confisca às pessoas que prende.

Que tolo era ainda em pensar que este tipo de sabedoria me conferia alguma vantagem! Depois de tudo o que passara, ainda não percebera que a Inquisição tinha a sua lógica e as suas castas, e que nada do que me era importante tinha algum valor neste local. Para estes homens, os meus pensamentos eram os de um intocável, tão sem valor como a poeira.

Ao fundo da sala, contra a parede, estava pendurado um crucifixo de tamanho natural. Nas mãos e pés do Cristo, crostas de sangue.

Se fosse o Parsva de Phanishwar, ter-me-ia curvado diante dele. Como não era, orei em silêncio para que Ele e os Seus seguidores fossem engolidos pelo antigo solo da índia - que até as suas pegadas e sombras fossem esquecidas.

Um homem atarracado e de pele cor de azeitona estava sentado do lado de cá da mesa, segurando um cálamo. Tinha os lábios cerrados e olhava para mim como se alguma coisa o intrigasse. Talvez estivesse surpreso por ver que um jovem que partira as costelas de um guarda tivesse a face tão emaciada e tão parca carne nos ossos. Subitamente tive consciência do cheiro a sujo em mim, e de todo o tempo desperdiçado que se transformara em lixo e desesperança. Cheirava ao que cheirava o meu pai quando da minha última visita à sua cela - como um animal esmagado deixado a apodrecer ao sol. Olhei para baixo, para as minhas mãos, e vi as unhas demasiado crescidas, como as de um pedinte de setenta anos. Como era possível que até então não tivesse visto aquilo em que me tornara?

Pedi ao Senhor que ele não me interrogasse sobre o assassinato do meu pai; se tivesse de admitir isso, nunca sairia dali vivo.

Na mesa, diante do meu juiz, estava espetado um pendão de São Domingos, o fundador da Inquisição, com uma espada numa mão e um ramo de oliveira na outra, tendo bordado o lema Misericórdia etjustitia. - O modo como o Inquisidor começou a afagar este estandarte, como quem passasse a mão pelo meu medo, varreu tudo do meu espírito. O meu coração parecia estar a bater fora do corpo. Quando fechei os olhos, o terror parecia que me sacudia de um lado para o outro.

- Aproxima-te da mesa - disse o secretário.

A voz dele irrompeu como o quebrar de um selo; fiquei afogado em terror.

Não sei como consegui avançar; os meus pés pareciam feitos de ossos friáveis. Parando a três passos do Inquisidor, comecei a chorar, só pela razão de conseguir estar perante o homem que podia libertar-me. Senti que tinha corrido um ano inteiro, todos os minutos de todos os dias, e que por fim alcançara o meu destino.

- Confesso todos os meus crimes - gemi. Caí de joelhos. A minha voz soava lastimosamente fraca, mas isso era bom - ele veria de certeza que eu não estava a tentar desafiá-lo. A minha visão parecia estar também a falhar; a sala ficara muito escura.

O espírito corre em direcções delirantes quando intimidado pela circunstância - tremi ao pensamento de que em breve o Senhor me cegaria por me curvar a este homem ruim.

O secretário mandou-me sentar num banco junto ao Inquisidor. Arrastei-me para lá, com o coração a retumbar-me aos ouvidos, sem conseguir olhar para cima. Sentei-me o mais direito que podia, virado para a porta da saída - o meu caminho para casa.

- Põe a mão no missal à tua frente e jura declarar a verdade e preservar o santo segredo da Inquisição - disse-me o secretário.

Quando pronunciei o juramento, Tomás Pinto perguntou:

- Sabes a causa da tua detenção e estás disposto a confessar os teus crimes?

A voz dele parecia encher-me cada fibra do meu corpo. A princípio, não conseguia formar uma resposta.

Havia mais de um ano, ao ser preso, fingira inocência; agora, disse a verdade maldita:

- Sou judeu, e muitas vezes pratiquei os rituais do meu povo com o meu pai. Estou pronto a assinar uma confissão nesse sentido.

As minhas palavras saíram-me como se estivessem agarradas ao meu corpo desde o nascimento. Olhando para cima, perguntei a mim próprio se seria mesmo diferente da luz envenenada, do ar viciado, do cheiro a cera, a poeira e a cemitério. Senti que estava pronto para a mortalha. E para a terra funerária a cair sobre mim.

- É bom teres-te tornado o teu próprio acusador - disse-me o Inquisidor -, mas em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, tens de confessar tudo o que sabes para poderes gozar da misericórdia que este tribunal está pronto a oferecer a quem quer que deseje sinceramente reparar as suas faltas. Ora bem, és judeu ou cristão-novo?

- Sou judeu - declarei, e a minha voz ecoou contra as paredes e o tecto como uma acusação do mais infecto dos pecados que se possa imaginar. Eu nunca teria imaginado que a palavra judeu pudesse soar tão maldita.

- Os mortos, porém, dizem que tu és outra coisa - disse o Inquisidor.

- Os mortos?

- O teu pai era cristão-novo - disse severamente.

Não percebi o que ele queria dizer e deduzi que estava a fazer o primeiro movimento de um jogo destinado a ensarilhar-me em mentiras. Estava a tentar confundir-me.

- Se era, então... então eu não tinha reparado - gaguejei.

- E o pai e o avô dele, o que eram?

- Eram judeus, também.

O Inquisidor enxugou as faces com pancadinhas do lenço e franziu o sobrolho incomodado.

Que o calor da minha terra expulse todos os cristãos da índia, pensei. - No entanto, uma testemunha disse-nos que o teu bisavô se converteu ao cristianismo - disse.

Era perfeitamente verdade que o ilustre avô do meu pai, Berequias - juntamente com todos os judeus de Portugal - fora forçado a converter-se ao cristianismo em 1497, mas só alguém da minha família poderia ter dado essa informação à Inquisição.

- Quem é a vossa testemunha? - perguntei ao padre.

- Lamento, mas isso é precisamente o que tu tens de me dizer a mim - respondeu em tom divertido. Bebericou um pouco de água.

- Mas como poderei?

- Se praticavas os rituais judaicos - disse, limpando os lábios -, tens de saber quem estava contigo, ou quem te viu.

Não imaginava o que lhe responder. - Não me tornem a levar para a cela! - implorei. - Direi tudo o que quiserem, mas não posso voltar a estar durante meses à espera de outra audiência. Nunca conseguirei aguentar. - Então conta-me lá do teu bisavô.

Tinha a impressão de que a verdade nunca lhe bastaria, mas era tudo o que tinha: - Chamava-se Berequias Zarco, e foi convertido em 1497, na cidade de Lisboa. Era um famoso cabalista e levou a família para Constantinopla em 1507. Sei os nomes dos seus irmãos e da irmã, que era mais nova: chamavam-se Mordecai, Judá e Cinfa.

- Era cabalista? Então deves ter estudado essas práticas mágicas na tua família. - Um vivo interesse acelerava a fala do Grande Inquisidor.

Se admitisse aquilo, seria acusado de feitiçaria - tal como Phanishwar. Mas se o negasse, e se Wadi ou os meus tios tivessem testemunhado secretamente contra mim, então o meu juiz saberia que eu estava a mentir.

- A cabala nunca é ensinada a quem tenha menos de quarenta anos - respondi, dizendo uma verdade parcial, pois muitas práticas avançadas eram ocultadas aos noviços.

- Tens a certeza disso?

Aqui achei que podia fintá-lo. - Não, de facto, não tenho a certeza de nada quanto à cabala. O meu pai era um simples iluminador de manuscritos.

Uma certa admiração por mim faiscou nos olhos do dominicano, mas só por um instante, e logo ele voltou ao ataque. - Como o teu bisavô era convertido ao cristianismo, o teu pai teria de ser cristão também, ou não será?

Tal nunca me ocorrera antes. Agora percebia como a Inquisição tinha adquirido tanto poder sobre o meu pai.

- Não sabia que assim era, Excelência.

- Espero que agora desejes alterar a confissão que fizeste antes, não?

- Sim... Sou cristão-novo. Agora percebo.

Estava demasiado aturdido e tomado de pânico para perceber que acabara de perder toda a esperança de liberdade; admitira ser cristão apóstata - o pior crime possível a seus olhos, um crime pelo qual poderia ser queimado numa pira.

- No entanto, nunca foste baptizado, ou foste? - inquiriu.

- Que eu saiba, não.

- Estás disposto a ser baptizado?

- Estou.

- Primeiro, tens de dizer que crimes judeus praticaste ao visitar Goa.

- Nunca praticámos o judaísmo em Goa. Sabíamos que era proibido e poderia trazer problemas aos meus tios, que são bons cristãos.

- No entanto, temos testemunhas que nos contam uma história diferente, e, para nos convenceres do teu sincero arrependimento, tens de nos dizer todos os teus crimes e dar os nomes das pessoas que os viste praticar.

Tinha a certeza de que todos os que nomeasse seriam imediatamente presos. - Tenho muitos parentes na Turquia - respondi, tentando esgueirar-me. - Alguns deles, incluindo o meu avô, visitaram-nos uma vez na quinta. Eu era muito pequeno, mas lembro-me de que participaram na Páscoa Judia em nossa casa. Eu tinha aí uns oito ou nove anos.

- Mas, aqui na índia, quem sabia que tu e o teu pai tinham recaído nas práticas judaicas?

- Eu. E o meu pai.

Uma sombra de agastamento perpassou-lhe a face. - Por favor, não te faças de esperto - advertiu-me com brusquidão. - Só te prejudicas com isso.

Vi brilhar-lhe um perverso regozijo nos olhos. Está a fazer de mim joguete, pensei, e percebi então, pela primeira vez, que podiam muito bem ter mandado meter o Phanishwar na cela não para me animar, mas para destruir a minha vontade. Era isso o que eu sentira estar escondido no jaina. Talvez até as feridas do velho fossem fingidas. O Inquisidor utilizara-o para me enfraquecer.

- E então o teu primo, Francisco Xavier? Não o referiste e acho isso esquisito.

- É uma boa alma cristã - respondi firmemente.

- Tens muita certeza disso, não tens?

A expressão de gato-e-rato que lhe via na face perturbava-me. Teria também prendido Wadi? Quase desejei que assim fosse, pois isso queria dizer que o meu primo não podia ser responsável pela prisão do meu pai.

- Tenho a certeza absoluta - disse eu.

- Continuas a manter que nunca praticaste o judaísmo em Goa?

- Continuo.

- Queres dizer que nunca proferiste uma única blasfémia contra a Igreja?

- A incredulidade transparecia-lhe nos olhos.

- Nunca, Excelência.

Tomás Pinto fitou-me de lábios cerrados, à espera de que eu me retratasse, mas o meu pai e eu nunca sequer dissemos uma bênção sobre o vinho quando estávamos em território português. Tínhamos muito cuidado.

- Disseram-me que cada judeu tem de cumprir seiscentas e treze obrigações durante a vida - disse o padre, num tom rápido, profissional - e que a primeira dessas obrigações é acreditar num só Deus.

- É verdade. Chamamos-lhes mitzvot.

- Também ouvi dizer que metade dessas obrigações são injufições negativas - actos que não devem ser praticados. Diz-me, achas que o cristianismo é menos rigoroso do que o judaísmo? Ou exige menos dos seus crentes?

- Não acho, mas... mas não tenho maneira de saber. Franziu o cenho. - As testemunhas contra ti dizem que és um jovem inteligente, mas pelos vistos estão enganadas.

- Posso assinar a minha confissão? - perguntei, pois ouvira dizer que obrigavam os prisioneiros a fazer isso antes de os humilharem publicamente num auto-de-fé, sendo depois mandados a cumprir pena numa prisão civil. - Cala-te, louco teimoso! - gritou o Inquisidor. Pegou numa sineta de prata, fitando-me duramente, com o queixo rígido de raiva, deixando bem claro que a minha vida estava nas suas mãos.

- Rogo-lhe que não me mate - gemi. - Farei tudo o que me pedir.

O sorriso do vencedor atravessou-lhe os lábios, e eu percebi que implorara no momento exacto. Pousou a sineta. - Que me dizes a uma pequena charada que talvez te possa ajudar a compreender o apuro em que estás? Se responderes correctamente, deixo-te assinar a tua confissão. É bastante justo, acho eu.

- Mais do que justo, Excelência.

Em tom de desafio, disse-me a charada: - Falo-te durante a minha jornada - e só a ti - desde o ponto de partida até ao final. E, embora morra sempre no mesmo local, podes ouvir-me a falar do meu túmulo se prestares atenção. Quem sou eu?

Nada me ocorreu; era como se o meu espírito se lançasse disparado numa centena de direcções diferentes ao mesmo tempo.

O Inquisidor fitou-me impaciente. - Então? - perguntou.

- Não... não sei. Poderá ter algo a ver com um fantasma?

O retinir da sineta pareceu explodir dentro de mim e eu dei um pulo. Quando vi o guarda voltar a entrar na sala para me levar, senti uma golfada de ar a atravessar-me, como se a minha alma estivesse a fugir-me pelo corpo fora.

Quando acordei na cela, Phanishwar já lá não estava. Estaria a ser torturado e morto como feiticeiro?

É estranho como o espírito magoado deseja ter um objecto em que possa descarregar o seu desprezo com segurança; sozinho no meu catre, pensei que, provavelmente, a missão do jaina para me quebrar tinha sido consumada. Teriam dado ao traidor autorização para regressar à sua aldeia.

 

O MEU PAI E EU estávamos na biblioteca quando, pela primeira vez, abordei a hipótese de a Sofia passar mais tempo com Wadi e os seus pais. Ele estava sentado à secretária, com o dedo a mexer num pião de quatro lados - um dreidl - que me tinha feito quando eu era pequeno. Manifestou dúvidas sobre o meu plano, e eu pus-me a argumentar até que ele ergueu a mão como um escudo. - Ti, se me permites uma pequena crítica, tendes a ser um bocado casmurro quando se trata da tua irmã. - Abriu o volume da filosofia de Abraham Abulafia que estava a ler quando eu chegara.

- Que é que quer dizer ao certo? - disse eu, não conseguindo evitar que a minha voz traísse o que sentia.

- O que quero dizer, Ti - respondeu com severidade e sem erguer o olhar -, é que provavelmente, para já, o melhor é deixar as coisas seguir o seu caminho. - Escorregou o dedo pela borda de uma página, à procura da citação que queria, como se eu não existisse.

Em vez de começar uma discussão que tinha a certeza de perder, fugi, amaldiçoando a rudeza dele. À ceia fuzilávamo-nos com os olhos como inimigos, e eu rosnei a Sofia que não se metesse onde não era chamada quando me perguntou se tínhamos tido uma discussão, o que só levou o meu pai a dizer o inevitável: - Agradecia que não falasses assim à tua irmã!

À hora de deitar, porém, ouvi o meu pai vir lentamente até à porta do meu quarto nas velhas pantufas. Sabia que vinha pedir desculpa. De peito nu por causa do calor languescente, pôs-se a ofegar no umbral da porta com a língua de fora, para me arrancar um sorriso. Mas era a minha vez de fazer de conta que ele era invisível, e não tirei os olhos do livro. - Ti, retiro o que disse. Desculpa.

Levou a ponta dos dedos aos lábios fechados, a sua maneira de perguntar se eu o desculpava - um gesto que ficara de quando eu era muito pequeno.

Quis obrigá-lo a implorar, mas a frágil luz da vela desenhava crescentes de pele flácida por sob os olhos dele. Com surpresa, percebi que envelhecera sem que eu desse por isso. Teríamos já percorrido a maior parte da nossa jornada comum?

- Peço desculpa, também - disse eu.

O meu pai entrou e, com a pederneira, acendeu uma segunda vela na mesinha-de-cabeceira, dizendo-me que o meu quarto não era uma caverna e que, ao que sabia, eu não era um morcego. Deixou-se cair aos pés da cama como se tivesse atravessado o deserto da Arábia para vir ter comigo. Ergui-me e fechei o livro.

- O teu pai é um velho elefante, não é? - disse ele, sombrio.

- Às vezes é difícil de perceber, mas não me importo - respondi. Assumiu uma expressão grave. - O que tu propões é sensato, Ti. Por

favor, compreende que apenas estou com receio de que a tua tia tente converter a tua irmã ao cristianismo se a tiver mais tempo perto dela, nas nossas costas. Foi o que me fez ser tão duro contigo há bocado.

- Será que um sermão da tia Maria de vez em quando será um preço tão grande assim a pagar, se Wadi puder ajudar a Sofia a encontrar o seu lugar no mundo?

- Sem o judaísmo, não acho que Sofia alguma vez encontre o seu lugar.

- Papá, ela não está disposta a converter-se. Ela vê a crueldade com que os cristãos tratam os hindus em Goa - e como têm escravos africanos. E adora a sua micrografia hebraica. Não poderia continuar a trabalhar nela se fosse baptizada. Seria considerado pecado.

- Não tinha pensado nisso. - Sorriu, dando uma piscadela cúmplice. - Sabes, Ti, por vezes penso que ainda és mais esperto do que a tua mãe!

Disse-lhe então que a Sofia uma vez me confessara sentir-se tão mal consigo que queria escapulir-se da própria pele. Pôs-se a olhar pela janela, como que à procura de uma estratégia. Vendo o seu perfil sombrio, deu-me a impressão de que ele queria que fosse a minha mãe a tomar a decisão por ele. Provavelmente, ele às vezes sentia que fora o progenitor errado que sobrevivera.

A grande lição que aprendi com o meu pai em momentos como este foi, acho eu, que as pessoas são mais frágeis do que pensamos - e que nunca conseguimos passar por cima de certas mortes.

- Obrigado por nos ter deixado ficar aqui depois de a mamã morrer - disse-lhe. - Foi muito generoso.

- Que queres dizer? - perguntou.

- Depois de ela morrer, não mudámos de casa. Quis que eu e a Sofia pudéssemos ficar onde sempre vivêramos.

- Foi a Nupi que te disse isso, não? Eu fiz que sim e ele continuou:

- Ouve, Ti, não foi sacrifício - eu queria ficar aqui. Hei-de sempre gostar desta casa. - Abriu-se num sorriso. - Há mais algum sítio onde eu possa encontrar rãs a viver nas minhas pantufas? E uma cozinheira que se mete em tudo o que fazemos?

Rimo-nos um com o outro. - Papá - disse eu -, há coisas que gostava de lhe dizer... sobre mim.

Olhando para trás, percebo que a possibilidade de ele morrer cedo - tal como a minha mãe - era como o matraquear, sem fim, de um tambor em tudo o que eu pensava durante toda a infância e adolescência.

- Então, diz - respondeu o meu pai, lançando-me um olhar preocupado.

- Não é nada de mal - sosseguei-o. - É só que por vezes... por vezes, penso que nunca lhe disse as coisas mais importantes. Não quero que o senhor. .. o senhor se vá antes de eu as dizer.

- Me vá?

Não consegui dizer a palavra que queria dizer.

Afagou-me os pés, e depois apertou-os com força. - Quando eras bebé, os teus pés eram tão pequeninos e tenros - cada um dos teus dedos era como uma gavinha de hera. Ti, eu sei que estás a crescer. E isso quer dizer que estás a pensar novos pensamentos - daqueles que os jovens pensam. Quanto a mim, estou a ficar velho. Mas assim é que tem de ser. É assim que a vida funciona. Não tenhas pena. Conheço-te, e tu conheces-me, e aquilo que ainda não me disseste posso vê-lo com os meus olhos sempre que olho para ti.

Fitávamo-nos um ao outro, e a intimidade entre nós ia-se tornando demasiado profunda - como se fôssemos a cair ambos lá dentro, sem nunca conseguir sair de lá. É esquisito como a vida tem de ser vivida à tona das coisas. Se assim não fosse, a nossa consciência seria assoberbada pelas pequenas despedidas e mortes que vivemos todos os dias.

O meu pai quebrou o silêncio para falar mais de Sofia. Talvez fosse apenas o especial ambiente de transcendência que me cercava, mas parecia que ele me escutava mais atenta e plenamente do que nunca. Que sorte ainda ter o papá junto a mim, pensava eu ao escutá-lo. E que sorte tivemos na vida, a Sofia e eu. Este pensamento - tal como o meu pai observara - era novo para mim; antes, até nos melhores tempos, pensara que tínhamos tido infâncias solitárias.

Por fim, o meu pai acabou por concordar que era boa ideia a Sofia passar mais tempo numa grande cidade onde se viam por todo o lado pessoas com a sua mescla de traços europeus e indianos.

- Mas, ouve - acrescentou -, nunca podemos deixar a tua irmã sozinha com a tua tia.

Explicando que as crianças muçulmanas, hindus e judias por vezes eram baptizadas à força quando estavam longe dos pais, acrescentou:

- E nunca a podemos deixar entrar numa igreja sem que nós estejamos presentes.

- Pelo que diz, até parece que a tia Maria é uma bruxa - disse eu.

- Lá no fundo, a tua tia é boa mulher, Ti, mas ambos sabemos que essa boa mulher está escondida muito lá no fundo da criatura oca que costumamos ver. Para uma pessoa tão vulnerável como é a tua irmã, essa mulher é muito mais perigosa do que uma bruxa.

Decidi falar francamente a Wadi da preocupação que sentia por Sofia e angariar a sua ajuda. Ele e eu tínhamos quinze anos na altura, e ele tinha um metro e setenta - tanto como o pai. Tinha agora os ombros mais largos e a face ganhara ângulos de adulto. Usava o cabelo curto, coisa que eu achava muito elegante, e muitas vezes tinha uma penugem na face. Estava a ficar homem muito depressa. Quanto a mim, a seu lado, parecia um querubim de faces rosadas, embora, louvado seja, ele nunca tenha feito pouco de mim nem tenha tentado intimidar-me. A sua atenção para com os meus sentimentos contribuiu em muito para restabelecer a minha confiança nele - a confiança que perdera quando contara aquela mentira de eu o ter impelido a visitar a mesquita perto de Ponda. No entanto, tinha perfeita consciência de que ele continuava a esconder as suas emoções e pensamentos quando não correspondiam às expectativas da mãe, e quando temia ser ridicularizado por causa do seu mal. Quanto mais crescia, menos espontâneo se tornava, e por vezes falava e agia como se estivesse metido num cauteloso jogo de xadrez. Acho que havia sempre o perigo de, tal como a tia Maria, vir a enterrar o melhor de si tão fundo nele próprio que se tornasse inacessível, mesmo para ele. Não percebera ainda na altura que atribuíra a mim próprio a tarefa de manter essas qualidades à disposição de nós todos. De certa maneira, estava a ser egoísta: o saber que ele tinha muitas coisas escondidas fazia-me sentir especial - como um feiticeiro capaz de ver o que é invisível aos outros.

Como era de esperar, Wadi desvalorizou facilmente a timidez de Sofia e o seu desprezo por si própria como fruto da sua juventude que em breve desapareceriam.

- Espero que tenhas razão - disse-lhe -, mas quando visitarmos Goa, gostaria muito que a apresentasses aos teus amigos e a levasses a passear pela cidade. Inventarei pretextos para não ir convosco. Ela precisa de andar por aí sem mim ou o meu pai.

- Talvez - disse, inclinando a cabeça dubitativo, se calhar com medo de me dizer o que pensava realmente. Quando o pressionei, disse: - Acho que se vai aborrecer com isso - ou comigo.

- Mas porquê? Ela acha que tu és maravilhoso!

- A Sofia só tem onze anos, Tigre, e os meus amigos são todos da nossa idade. E há também a Sara.

- Quem é a Sara?

- Uma rapariga que eu conheci.

Fiquei contente por ele, mas nesse momento percebi pela primeira vez que a amizade começada no dia em que lhe entregara a minha irmãzinha para enxugar provavelmente se tornaria uma sombra do que fora. Wadi, sentindo o meu conflito de emoções, benzeu-se. Tendo eu franzido o sobrolho, pôs-se a olhar em torno para ter a certeza de que ninguém podia ver-nos, e depois tocou-se a si próprio sugestivamente. - Sabes, tu também podias encontrar facilmente uma rapariga. Fazia-te bem.

- Se calhar.

- Não tenhas ciúmes - disse.

- Porque havia de ter?

- Não sei. Então, se não é isso, o que é que se passa?

- Nada - menti. - É só que ainda estou a pensar na Sofia. Quero que a ajudes a conhecer outras raparigas. Podes ser a ponte dela para o mundo. Como nós fomos para ti quando eras pequeno.

- Tenho medo só de pensar que não vou ser capaz de a ajudar como tu queres - disse, naquele tom verdadeiro que só costumava usar com Sofia e comigo. - Às vezes, pergunto a mim próprio se consigo estar à altura do que tu queres.

- Que queres tu ser? - perguntei, desconcertado.

- Desde pequenos, sempre senti algo em ti a espicaçar-me. E sinto isso agora mesmo. É como... como se estivesses sempre a dizer-me alguma coisa mesmo quando não dizes nada. É como se a tua voz estivesse dentro da minha cabeça. - Encolheu os ombros. - Não é que me importe. Só que é esquisito. Se calhar até gosto. - Riu-se. - Hás-de pensar que sou louco.

- Não. Às vezes também te ouço a falar comigo - quando está tudo calado. É porque crescemos os dois juntos. Tudo se torna diferente.

É como quando o teu pai te levava nos braços e tu me pegaste na mão. Esse tipo de coisas muda as pessoas.

No mesmo instante em que disse isto, senti logo vontade de poder retirar o que dissera; Wadi tinha uma regra não escrita pela qual o entendimento entre Sofia, eu e ele não eram motivo de conversa. Devo ter tido muita vontade de conservar as nossas vidas tal como eram. - Então, vais ajudar-me? - apressei-me a perguntar.

- Tenho outra solução? - disse, dando-me uma pancada no ombro.

- Não - respondi. Não lhe repliquei com outra pancada, porque, se o fizesse, ele havia de pensar que me estava a desculpar por ter quebrado a regra dele.

Torceu os lábios numa careta exagerada. - Por que é que eu tenho a impressão de que, desta vez, és tu que me estás a meter em complicações? - disse ele. - É de propósito!

Durante os dois anos seguintes, íamos visitar os meus tios sempre que podíamos. Embora, de início, Sofia pusesse reticências a ir passear sem mim ou o meu pai, Wadi cumpriu o que prometera. Seduziu-a com os seus galanteios e os olhos brilhantes com que se empenhava em mostrar-lhe a cidade, e, à medida que nos aproximávamos da idade adulta, ele ia ganhando mais ousadia na forma como a arrastava para sair com afectuosas palhaçadas sempre que a teimosia dela parecia tê-lo derrotado. Por vezes, parecia que a sua recente maturidade lhe dava mais liberdade para lidar com ela como um rapazinho.

Muitos anos depois, soube que alguns dos estudantes da escola jesuíta que Wadi frequentava eram proibidos pelos pais de falar sequer com ele. Como muitas outras coisas, o meu primo guardava isso para ele, e agora percebo que coragem demonstrava ao levar Sofia a passear por toda a cidade.

Do meu quarto no andar de cima, vira-os muitas vezes a sair da casa juntos. E embora a solidão estivesse debruçada a meu lado no parapeito da janela, sentia-me estranhamente bem ficando só comigo - como se me tivesse libertado de uma obrigação. Foi nesses momentos da minha juventude que vim lentamente a aceitar a minha natureza solitária.

Nas poucas ocasiões em que acompanhei Wadi e os amigos dele ao rio ou a uma casa de chá num dos bairros hindus, reparei que Sofia aprendera a rir-se sem velar a cara com o cabelo. E embora ela tendesse a andar agarrada a ele ou a mim como uma folha numa tempestade, as raparigas por vezes conseguiam arrastá-la de nós para lhe dizerem um segredo cheio de risinhos.

Após algum tempo, adoptaram-na como sua protegida e ensinaram-lhe a maneira correcta de andar com um flutuante vestido português e sapatos elegantes de couro, e como pegar num guarda-sol, coisa que nunca se cansava de nos exemplificar, a mim, a Nupi e ao meu pai. Hei-de sempre lembrar-me dela a voltar para casa do nosso tio uma tarde, as madeixas entrançadas com fitas cor de prata e azuis. O meu pai e eu demos-lhe os parabéns, mas estava tão bela e adulta que fiquei com medo, e, pelos olhares de soslaio que me lançou, sabia que ele sentia o mesmo.

Sofia estava cheia de respeito pelos novos amigos e falava deles como se fossem visitantes vindos de uma terra longínqua de grande saber. Sob a tutela deles, foi-se tornando mais portuguesa no vestir e nas maneiras, embora, quando regressássemos à quinta, pusesse sempre um sari.

- A mamã já não havia de me reconhecer doutra maneira - explicou-me uma tarde quando estávamos a plantar batatas no quintal. Tinham acabado de aparecer na nossa região e Nupi, deliciada com o sabor, convenceu-nos a ajudá-la na horta.

Por vezes, conseguimos pressentir um momento fulcral na vida de alguém. - Não sejas absurda - disse-lhe eu. - A mamã havia de te reconhecer mesmo na escuridão total. E não havia de se importar que tu parecesses mais portuguesa do que indiana.

Sofia desatou a chorar quando eu disse isto. Estava a tremer e eu, abraçando-a, não me lembrava de alguma vez me ter sentido mais próximo dela.

- Os meus amigos acham-na a coisa mais bonita do mundo - confirmou-me Wadi uma manhã, a seguir a uma noite em que tinham saído os dois até tarde na grande feira de Goa em honra de São João.

Quando ouvi aquilo, foi como se se tivesse aberto em mim um portão: podia seguir para o meu futuro sem ter de ficar a olhar pela minha irmã. Até àquele momento, não tinha sequer compreendido que a minha liberdade estava refém da sua infelicidade. Subitamente, percebi que não sentira ciúmes da activa vida social de Sofia porque - em algum sítio dentro de mim - sempre soubera que era necessário renunciar a estas novas amizades para recuperar o meu destino. Tão cego às minhas próprias motivações estava eu às vezes.

Sofia e Sara - a rapariga que Wadi andava a cortejar - começaram a sentir uma especial afeição uma pela outra. Lembro-me da Sara desse tempo como uma rapariga magra de cabelo escuro, sempre vestida com roupas que pareciam demasiado pregueadas para ela. Costumava sorrir como se estivesse a combater a tristeza, o que levava Sofia e eu a tentar toda a espécie de palhaçadas para ela se rir. Ela gostava especialmente da imitação que a minha irmã fazia de uma tartaruga a comer uma folha de couve - uma rábula que apanhara ao meu pai, claro.

A mãe de Sara morrera de varíola, era ela muito pequena, e o pai é que a criara, o que nos fazia sentir especialmente chegados. O saber isso também conferiu um significado mais profundo à forma apressada, possessiva, como pegava na mão da minha irmã sempre que estavam juntas. A Sofia contou-me muitos segredos da Sara, obrigando-me a jurar silêncio. Sara veio a ser a primeira rapariga cujo mundo íntimo conheci com certa profundidade.

Com a cabeça pousada no meu colo, Sofia punha-se a contar-me que um dos rapazes caíra ao rio ao alardear os seus dotes de equilibrista, ou que Sara encontrara a moeda escondida no bolo-rei e lha dera de presente. Uma vez veio ter comigo ao quarto, após uma viagem de barco com Wadi e os pais, e deitou-se ao meu lado na escuridão. - Obrigado por seres meu irmão -murmurou.

Pela forma sub-reptícia como Wadi sempre procurava saber onde estava Sara - e os modos cavalheirescos que adoptava ao falar com ela -, era evidente que estava desesperadamente apaixonado por ela. O que Sara sentia por ele era mais difícil de dizer. Suspeito que temia a revoada de emoções bravias que ele lhe suscitava, pois parecia sempre em guarda na sua presença - e ansiosa, como que pronta a fugir. A sua confiança não saiu de maneira nenhuma reforçada quando a tia Maria lhe disse que a família dela não era suficientemente boa para ela e o tio aceitarem um convite para jantar. Eu não estava presente quando disse isso, mas Sofia estava, e contou-me que a pobre rapariga parecia ter sido forçada a engolir lixo, e que os olhos se lhe tinham enchido de lágrimas humilhadas. Muito gostaria de ter estado presente para lhe garantir que a minha tia desprezaria qualquer pessoa que o querido filho tivesse escolhido.

Quando inquiri Wadi sobre o assunto, começou por negar o facto, mas logo a seguir desatou a amaldiçoar a traição da mãe, o que o levou a ter um terrível ataque convulsivo que o deixou fraco por dois dias inteiros, e, durante esse tempo, eu disse mal de mim mesmo por insistir em que ele fosse sempre honesto comigo. Porque não podia eu deixá-lo ser quem era, se isso lhe facilitava a vida?

 

Pela primeira vez, vislumbrei como podia ser injusto com os outros. Não admira que Sofia uma vez me tivesse chamado espião!

Quanto aos meus sentimentos por Sara, nunca mencionei a ninguém que me sentia perplexo com eles. Uma vez em que eu estava a castigar-me mentalmente, pensando em como era franzino comparado com Wadi, o meu pai veio sentar-se no alpendre ao meu lado e disse: - Há-de chegar a tua hora. E quando sentires aquela paixão por uma rapariga lá dentro de ti, isso não há-de parecer-te muito importante.

Senti-me grato por ele pôr o braço protector no meu ombro, mas também um extremo ressentimento por insinuar que o meu doloroso desespero era insignificante.

Penso que Sofia aprendeu com Sara bastantes coisas que, noutras circunstâncias, lhe poderiam ter sido ensinadas pela mãe - e uma, que não era das menos importantes, foi compreender que o despertar da sua condição de mulher lhe começava a transformar o corpo. Quando fez treze anos, tinha atingido uma plenitude de formas que alterou o modo como fazia tudo, mesmo o modo de se sentar à secretária a fazer a sua micrografia. Aquela sua contenção curvada cheia de timidez e diligência deu lugar a uma postura de mulherzinha muito direita que, por vezes, abria as portadas só para sentir a aragem soprar-lhe os cabelos soltos e pentear-lhos sobre os ombros. Uma vez, com o sol a entrar a jorros, até deixou o sari carmesim de debrum dourado escorregar-lhe pelas ancas e cair ao chão. Ao passar pela porta, entrevi esse momento e lembrei-me logo de o meu pai me dizer que a minha mãe também se abria ao sol como uma flor.

Os botões, as plumas de aves e os desenhos deixaram de desaparecer de casa agora que se fora a nossa rapariguinha das mágoas escondidas. Um dia, até fui encontrar o meu colar de frangipanas murchas na mesa junto à minha cama.

- Estive a deitar fora umas roupas velhas - disse-me a Sofia -, e descobri isso embrulhado dentro de um vestido. Não faço ideia de como foi parar dentro das minhas coisas.

Sofia ia-se apegando cada vez mais à sua vida na cidade e era capaz de se pôr a falar tempos infindos à ceia sobre os novos amigos. Por isso, no início de Dezembro de 1589, poucos dias após o seu décimo quarto aniversário, o meu pai deu-lhe autorização de ficar na casa do tio Isaac três semanas, na condição de prometer nunca entrar numa igreja com a tia Maria.

Na manhã em que se foi embora, Sofia pôs-se a soluçar contra o meu peito e disse que a estavam a abandonar.

- És impossível! Tu é que querias ir-te embora.

- Mas agora já não quero.

Com Sofia era sempre importante manter uma porta aberta e uma vela a arder na janela, por isso eu disse:

- Se te sentires infeliz, manda-nos um recado, que eu vou lá buscar-te.

Depois de mais um breve choro, recuperou o ânimo e lá se foi, na companhia de uns generosos vizinhos hindus que iam para Goa. Passados uns dias, lembrei-me da nossa velha regra de não ficar na casa da tia mais de seis dias seguidos, mas, nas cartas que nos mandava, só falava das suas excitantes aventuras.

Foi por essa altura que ganhou o hábito de me escrever mensagens secretas em micrografia. Eu costumava decifrar as suas palavras com a ajuda da lupa dela. Habitualmente, eram apenas tolices. Mas na última carta que me enviou durante esta visita, escreveu: Consegui escapulir-me completamente da minha pele e, por baixo, descobri algo melhor.

 

Em finais de Janeiro de 1590, após uma visita de uma semana que Wadi e os pais nos fizeram por ocasião dos meus dezoito anos, Sofia e eu fomos ao Riacho do Moinho para nos escaparmos à onda escaldante de calor que fizera da nossa casa um forno. Disse que me queria contar uma coisa importante, mas só o podia fazer quando estivéssemos longe de casa.

Sentámo-nos numa rocha com os pés a chapinhar na água. Sofia contou-me que, no dia anterior, enquanto eu estava a estudar a Tora, Wadi tinha ido com ela apanhar folhas de canela, que Nupi queria para curar uma erupção no cotovelo do meu pai. Uma vez fora de vista da nossa casa, ele pôs-se a abanar um lenço de seda vermelho que devia ter roubado da arca da roupa da mãe. Fazia-o oscilar como se fosse uma sineta junto ao ouvido dela. - Vou-te fazer uma surpresa - dissera, com uma expressão de alegria maliciosa.

- Que estás tu a engendrar? - perguntou-lhe Sofia, cautelosa, suspeitando uma garotice destinada a experimentar a paciência dela.

- Estou a engendrar uma coisa que tenho a certeza de que vais gostar - respondera ele -, mas vou ter de te pôr uma venda nos olhos. - Quando Sofia se pôs a andar outra vez para nossa casa, olhando para trás a ver se tinha sido seguida, ele acrescentara num tom misterioso: - Não, ninguém nos pode ver. Estamos os dois sozinhos.

- Wadi, tenho de ver para onde vou... posso cair - replicara a minha irmã. Falara com voz muito séria, embora um sentimento de orgulho e provocação a tivessem levado a atirar-lhe uma falsa gargalhada pouco depois, como se ele estivesse a pedir-lhe uma coisa de nada.

- Era como se me estivesse a ameaçar - disse-me então. - E eu queria convencê-lo de que não tinha medo, embora tivesse. Parecia que ele me ia magoar de uma forma que nunca teria cura. Não estava a ser tola?

Quis dizer-lhe que não, que o seu instinto me parecia acertado, pois já estava a ver onde tudo isto levaria, mas limitei-me a perguntar-lhe o que tinha respondido Wadi.

- Mostrou-me uma cara magoada e disse: «Não confias em mim?» Imagina-o a dizer isso - contou-me, espantada. - Quer dizer, quem no seu perfeito juízo poderia confiar num rapaz de dezoito anos como Wadi, que tem toda aquela malícia estampada no rosto. E toda aquela energia!

Sofia enviezou os olhos e deitou a língua retorcida de fora, e no momento em que fez isso - para dar à sua história menos importância do que tinha - percebi a verdade. A partir daquele momento, senti o medo a espreitar nas minhas costas.

Sofia contou-me então que devia ter mandado Wadi guardar a venda e as surpresas para ele, não fosse estar decidida a ficar em pé de igualdade com ele e os seus amigos. Cruzando os braços no peito, retorquira:

- Se vais ser os meus olhos, Wadi, então tens de prometer que me manténs afastada de tudo o que possa ser perigoso.

Ele lançou-lhe um olhar ressentido, mas como ela não transigia na exigência da promessa, ele proferiu-a em voz alta. O coração pulou-lhe quando lhe atou o lenço na cabeça. Agora não podia voltar atrás.

Um céu de chumbo pesava sobre os campos e florestas, ameaçando tempestade, pelo que começaram a caminhar rapidamente, com Wadi a puxá-la pela mão por um caminho de terra batida bordejado de fetos e pequenas palmeiras.

- Wadi, por favor, vais-me arrancar o braço do ombro! - exclamou. Na verdade, porém, a força com que a mão dele prendia a dela nessa caminhada pelo monte que subiam, sabe-se lá qual, provocava-lhe um frémito nos ombros e na nuca. Além disso, ela adorava ser desagradável com ele. Tudo isso fazia-a sentir-se a flutuar, e mais ela própria do que nunca - embora não pudesse imaginar como podia sentir as duas impressões simultaneamente.

Nos dedos entrelaçados com os dele, sentia as suas pulsações douradas e poderosas. Percebeu que era muito fácil fazê-lo feliz: bastava uma pequena cedência da sua vontade à devoção do rapaz.

Tentou orientar-se às cegas, mas Wadi obrigou-a a rodar para frustrar tais esforços. Por fim, com risinhos e pernas bambas, tivera de admitir que fora vencida pela esperteza dele - e estava totalmente perdida. Sentia o cheiro das folhas a apodrecer e da terra húmida, e do fumo ao longe. Estou a caminhar num sonho que estamos ambos a sonhar, Wadi e eu, pensou. E no fim talvez acordemos juntos.

Quando ela perguntava onde estavam, ele só respondia que estavam perto do destino.

Abraçando-a pela cintura, Wadi conduziu-a por um caminho íngreme, e a seguir por sobre um tronco de árvore caído. Por fim, seguiram por entre duas fiadas de arbustos bastos que lhe roçavam nas pernas, e aquilo recordou-lhe a natureza suave e oculta de todos os prazeres que já sentira, muito em especial as das preces micrográficas que escrevia na solidão. Dados mais alguns passos, ele agarrou-lhe os ombros e pediu-lhe que se deixasse estar bem quieta. Começara a chuviscar. Ela sentia na face a respiração dele, morna e exultante. O seu espírito ergueu-se quando percebeu que confiava mesmo neste rapaz - este rapaz de mãos calosas e olhos verdes penetrantes que fora sempre o melhor amigo do irmão. Mais do que isso, achava que ele era a criatura mais bela que já vira.

Foi nesse momento que sentiu o coração abrir-se. Imaginava que Wadi a trouxera para um jardim oculto pertencente a uma família brâmane - haveria lá flores de hibisco cor de coral e um jasmim branco como pérola a cair em cascata para os seus pés... Haveria uma estátua de Shiva debaixo de uma mimosa.

Desatando o nó que lho prendia à nuca, ele retirou-lhe o lenço. - Oh, Deus!

O abismo de uma escarpa erguia-se para ela, eriçado de ameaças. O ânimo de Sofia ruiu. Titubeando sobre uma ravina, a seiscentos pés do fundo, com o céu a girar em torno dela, estendeu a mão e não tocava em nada. Tombou para trás, e a terra parecia que se dobrava para ela abraçando-a.

Era a escarpa cor de areia a que chamávamos a Cabeça de Hanuman, pois, de um certo ângulo, dava ideia de um macaco de nariz achatado visto de perfil.

Wadi estendeu os braços para não a deixar cair e gritou o seu nome, com o pânico a esganar-lhe a voz. Dobrada sobre si a recuperar a respiração, ela agitou as mãos para afastar as suas perguntas ansiosas.

Endireitando-se e alisando o sari, afastou-lhe as mãos - tão rudes e metediças - e inspirou profundamente uma ou duas vezes mais. - Idiota! - gritou-lhe. Os olhos eram-lhe punhais apontados ao íntimo do rapaz, onde ele concebera aquele plano que dera tão mau resultado.

Então, tremendo de fúria, bateu-lhe no braço e desatou a correr pelo caminho abaixo, chorando a bom chorar. A chuva caía sobre ela. Sentia que era ainda a rapariguinha desastrada que nunca quisera ser, e isso dava-lhe vontade de se ferir a si própria.

- É o meu miradouro favorito - gritou-lhe ele. - Daqui, consegue-se ver todo o vale.

Correu atrás dela. Quando por fim a agarrou, pediu-lhe que lhe explicasse porque estava tão furiosa.

- Wadi, se eu escorregasse, ia cair lá ao fundo! Ficava uma pasta de ossos e cabelo. Sabes? Não é qualquer um que gosta de olhar a morte certa de frente! E se te desse um dos teus ataques, como era?

- Sofia, quando estou aqui, sem nada a separar-me do mundo, eu... eu sinto-me vivo como nunca. Só queria que tu também te sentisses viva. Só queria isso. A sério, era só isso... Desculpa. Nunca pensei.

A chuva infiltrava-se nas pregas do sari de Sofia e pingava-lhe para as sandálias, invadindo-a um remorso tão palpável que começou a doer-lhe. Sentiu que odiava o cheiro húmido das ervas que os cercavam, que odiava as emoções desencontradas que a afogavam sem que conseguisse controlá-las. Daria tudo para se poder entregar outra vez - para, diante de Wadi, voltar a ser aquele espírito indefeso de sentimentos obscuros e misteriosos que já fora com a venda nos olhos.

Ele rogou-lhe que se sentasse com ele nas ruínas da parede de um templo antigo. Não tinha a certeza de poder perdoar a um rapaz que - passados tantos anos - ainda não aprendera que ela era muito diferente dele. Deixou-se cair, fugindo ao seu olhar carente, suplicante, e escondeu a cabeça nas mãos.

Como é que, por vezes, na falta de palavras, uma pessoa consegue encontrar o caminho certo - e talvez único - para a salvação?

Sem que ela lhe pedisse, Wadi pegou-lhe nas madeixas e começou a entrançá-las. Ela pedira-lhe isso vezes sem conta, e até lhe tinha mostrado como se fazia, mas ele sempre se recusara, por achar que era trabalho de mulher.

Em que me estou a tornar?, começou ele a perguntar. Quem éeste rapaz que eu sou, que gosta de entrançar o cabelo de uma rapariga à chuva e não se importa que o vejam?

Sei que era isto que ele estava a pensar porque mo disse mais tarde, um dia em que se desatou o nó apertado em que normalmente prendia a intimidade. O sentir-se apaixonado deve tê-lo feito sair por um tempo dos seus gonzos habituais.

Quanto à Sofia, confiou-me que o toque dele provocara nela tal mistura de desejos que sentiu uma vontade enorme de se escapar outra vez e gritar pelo meu pai e por mim. Mas, em vez disso, pôs-se a soluçar.

Tornou-se na chuva que lhe escorria pelas costas e no movimento das mãos dele. E ficou com ele. Isto é a verdadeira prova da minha coragem, pensou.

Muito antes de a minha irmã ter chegado à sua tranquila revelação, eu recordara-me de todas as vezes que Wadi me traíra como se tivéssemos desde sempre rumado direitinhos a este momento. Em frente a nós os três havia um bosque escuro, e a única coisa que me ocorreu dizer era que ela tinha de andar muito lentamente, mas isso só lhe deu vontade de rir, visto que, do seu ponto de vista, o seu amor já estava plenamente formado - e polido por todos os sonhos diurnos de aventura romântica em que andava mergulhada há um ano ou mais.

Fragilizado pela sua revelação e desejando ficar sozinho para pensar,

disse-lhe que, se não voltássemos depressa para casa, seríamos devorados pelos mosquitos. Sofia pôs os olhos no chão com vergonha e não erguia o olhar.

- O que há? - perguntei.

- É uma coisa... uma coisa que quero dizer-te há muito tempo - respondeu a minha irmã. - Quando eu era pequena, o papá e eu estávamos no mercado em Goa, e ouvi por acaso duas crianças portuguesas, mais a mãe, a comentarem o quanto eu era feia. Senti-me como se estivesse ali nua e todo o mundo se risse de mim. Senti... senti que era só vergonha e mais nada.

- Contaste ao papá?

- Como podia? Tinha tanta vergonha.

- Mas podias ter-me contado a mim.

- Ti, primeiro pus-me a tremer, depois fiquei de pedra. Não conseguia falar. Fiquei assim seis anos. Percebes? E comecei a juntar todas aquelas coisas na arca da roupa. Eu sei que as encontraste. Achava que precisava de um dote. E o que é que o papá me deu da mamã? Quase nada. Uma rapariga feia como eu, precisava de tudo o que pudesse arranjar. - Sorria por entre as lágrimas. - Mas, agora, Wadi veio mudar tudo. Sei que só tenho catorze anos, e sei que achas que não é o que se deve fazer, mas é.

Decidi não contar ao meu pai as revelações de Sofia, pois imaginava muito bem que ele havia de a proibir de sair de casa para dar o coração em tão tenra idade a um rapaz cristão - mesmo parente por adopção. Secretamente, também, não queria que o meu pai me atribuísse a responsabilidade por esta volta de 180 graus do destino. É claro, havia tão poucos judeus a viver perto de nós que deve ter esperado - e temido - uma ligação destas desde há muitos anos. Ou teria tencionado enviar a Sofia para a família de Constantinopla quando chegasse a altura? Mais tarde, disse-me isso na prisão, mas acho agora que deve ter sido um pensamento que lhe veio depois, suscitado pelas decepções.

Na viagem seguinte a Goa, andei sempre colado à Sofia, e, a maior parte do tempo, ficava entalado desconfortavelmente entre Wadi e a minha irmã. Diante dos parentes, ele fazia tudo para manter a compostura, mas quando estávamos só os três, não despegava os olhos dela. Uma manhã apanhei-o no quarto e perguntei-lhe o que acontecera com a Sara. Disse-me que a tinham proibido de o voltar a ver há uns meses porque ele tinha tido um forte desvio ao passear com ela na baratilha, uma feira da ladra que os indianos faziam de noite. Juntara-se uma grande multidão.

- Que pena! - disse eu, e estava a falar a sério.

- Pena, porquê? Assim como assim, já estava farto dela.

A maneira como falou tão desprendido de Sara pôs-me furioso. Suponho que receava pela minha relação com ele.

- Quero que me digas exactamente o que sentes pela minha irmã - perguntei. Senti um pressentimento a envolver-nos, como se as suas próximas palavras fossem forçosamente uma encantação capaz de alterar todos os nossos futuros.

- Aquilo que sempre senti - insistiu.

- É o quê, exactamente? - perguntei.

- Somos amigos, sempre fomos amigos. Por quem me tomas? - Dirigiu-se à secretária e pegou no carquaz e no arco. Ultimamente, passávamos o tempo a praticar arco, pois ele queria ser campeão da escola, enquanto para mim era já uma vitória não acertar a mais de cinco palmos do alvo.

- Wadi, eu percebo o que se está a passar. E prometo não te trair. Mas será melhor teres ainda mais cuidado do que já alguma vez imaginaste. Se o meu pai descobrir o teu interesse na Sofia, não sei o que será capaz de te fazer. - Ou o que eu te faço se a magoares, devia talvez ter acrescentado, pois sentia como se estivesse a preparar-me para uma daquelas lutas de esfolar os punhos em que me metia em pequeno. Apetecia-me bater-lhe ali mesmo. Era mais forte do que eu, mas, a meu favor, tinha a fúria que armazenara.

- O teu pai vai ficar contente por nós - declarou com um sorriso.

- Não acho: é que tu não o conheces. Tu és cristão. E ele há-de pensar que tu te estás a aproveitar de ela ser tão miúda.

- Mas, Tigre, foi ela que me beijou primeiro!

- Mas ela beijou-te?

- Não foi o que tu estás a pensar. Foi só um beijo de amigos.

- Wadi, estás a ver qualquer coisa escrita em sânscrito na minha testa?

- O quê?

- Ou talvez alguma coisa escrita em árabe no meu nariz? Devo ter alguma coisa escrita a dizer que tenho cérebro de lagarto, pois é como me estás a tratar!

- Muito bem. Beijámo-nos, mas só uma vez. Foi tudo.

- Será bom que assim seja.

- Senão o quê? - retorquiu, provocante.

Tinha um olhar ameaçador, mas eu estava a transbordar de fúria. - Senão hei-de arranjar maneira de nunca a voltares a ver. Nem em Goa, nem na nossa quinta, nem sequer nos teus sonhos!

Nesse mesmo dia, precipitei-me a ir ter com Sara; abrira-se inesperadamente uma porta diante de mim e tinha de atravessá-la já antes que se voltasse a fechar rapidamente. Estivemos a falar na sala de chá da casinha dela, sem tocarmos sequer na bandeja de doces de leite indianos com cardamomo que estava ali junto a nós. Ela falava em monossílabos sombrios, enrolando nos dedos uma madeixa junto à orelha. O meu coração não parava de bater, e sentia a vida a dançar na ponta de uma agulha.

Nunca lhe disse o que sentia, mas ela leu-o nos meus silêncios. E não disse nada para me dar esperança. À porta, deu-me uns brincos de prata em forma de sino e beijou-me em ambas as faces. - Dá isto de volta a Wadi - disse-me.

 

O que é a memória? perguntara-me o meu pai quando eu tinha sete anos. Seria um palácio na alma, pensamentos entrançados num cordão, uma ponte entre tudo o que fomos e o que havemos de ser? Onde, em que lugar cá dentro, reside Setembro de 1590, de tal forma que me lembro tão claramente de como mudou as nossas vidas?

Eu tinha então dezoito anos e meio - era mais alto do que o meu pai, mas ainda atreito a oscilações de humor de rapazinho. Sentia-me desajeitado no meu novo corpo e inseguro da minha nova posição no mundo, pelo que a alegria me incendiava o peito com um fogo negro sempre que era tratado como o homem que queria ser - por exemplo, quando Kahi, o barbeiro de Ramnath, me rapava a face e o queixo. Sentado no banco amarelo no meio da praça, sentia o arranhar da navalha na pele como confirmação de que alcançara uma melhor condição na vida.

Advaki, Iraaj, e os outros anciãos hindus que me conheciam desde bebé juntavam-se à minha volta para se certificarem de que Kahi não me fazia sequer uma beliscadura, mascando nozes de areca e cuspindo como tios ufanos.

Eu usava cabelo comprido, com umas franjas a balançar na testa, na esperança de me parecer com Rama num espectáculo do templo. Sonhava acordado com aventuras sexuais mesmo quando devia estar a estudar a Tora, e, embora uma vez por outra tivesse tido uns encontros secretos com raparigas, nunca sentira verdadeiros impulsos de amor desde o acontecido com Sara. Felizmente, não era virgem, mas mal tinha passado essa fronteira. Há dois anos, Wadi levara-me à traição a uma casa de prostituição de Goa. Dissera-me que era um bamam turco, mas logo percebi que não me iam dar banho nem fazer uma massagem; quando a porta do meu quarto se abriu, apareceu uma jovem de olhos debruados por um espesso anel de kohl, usando umas argolas de prata na canela, que me estendeu os braços. Mas, como na altura também só tinha uma toalha, não estava em condições de ir procurar Wadi para me pôr a discutir com ele - nem disposto a isso.

Por aqueles tempos, o meu pai e eu tínhamos estabelecido uma nova forma de amizade, e ele, em especial, adorava passear de braço dado comigo nos jardins do templo de Ponda, mostrando-me a toda a gente. Passara a ser o seu companheiro e não só o seu filho.

Nupi era agora uns dois palmos mais baixa do que eu e costumava pôr-se a revirar os olhos para cima para mim diante das suas amigas hindus, dizendo-lhes que todas as manhãs me tomava por um minarete, o que punha toda a gente a rir-se alegremente às gargalhadas. Tenho a certeza de que apanhara com o meu pai este hábito de repetir cenas cómicas - como todos nós, acho.

A cara de Sofia era agora redonda e cheia, colorida com todas as suas novas descobertas sobre si própria, e o sari caía-lhe em suaves pregas sobre o peito e as ancas. Embora ainda não tivesse quinze anos, já tinha perfil adulto, e quando usava o lenço branco de marfim da nossa mãe - que passara a trazer sempre com ela - parecia ter dezassete anos ou mais. Tinha prazer nisso - e orgulho também.

Agora percebo que Sofia poderia ainda nessa altura desejar ser alguém diferente de quem era.

Wadi tornara-se um belo jovem, com quase seis pés de altura e um porte poderoso e senhor de si. Os vizinhos ainda lhe chamavam o Mourinho, mas agora como uma brincadeira bem-intencionada.

Revelara-se bom estudante no Colégio de São Paulo, a escola jesuíta de Goa, e não tinha rival em Latim. Também conseguira o seu objectivo de ser campeão de arco, tendo por isso ganho um belo exemplar de um Novo Testamento impresso em Lisboa em 1542. Como recompensa, o tio Isaac começara a levá-lo consigo nas suas viagens pela índia em busca de novos fornecedores de tecido. Em comparação, eu levava uma vida provinciana, e quando Wadi me contava das maravilhas de Calicut ou Cochim, eu sentia grande ressentimento pela minha vida limitada.

Ele e Sofia tinham prudentemente decidido manter o seu amor secreto e tornaram-se ambos actores consumados. Acreditavam que toda a gente se deixava enganar e estavam confiantes de que passado um ano e três meses, quando Sofia festejasse os seus dezasseis anos, poderiam dizer a verdade sem causarem muito estardalhaço. O quanto se tinham aventurado no território do amor físico, não ousava eu perguntar.

No início desse mês fatídico, o meu pai chamou-nos, a mim e a Sofia, à sua sala de estar e disse-nos que tinha de fazer uma viagem a Bijapur para fazer retratos do sultão e desenhos de uma nova mesquita que recentemente este erigira. Ficaria fora por um mês inteiro. Não parava de esfregar as mãos nervosamente e de se desculpar, dizendo que a sua ausência seria difícil para todos nós, mas que recusara o convite do seu benfeitor duas vezes nos dois anos anteriores e não podia voltar a dizer não.

Sabíamos que ficaríamos bem sozinhos com Nupi, mas o meu pai explicou a complicação que o estava a preocupar: lá para os fins da sua estada em Bijapur, a nossa cozinheira ia ter de regressar a Benali, a aldeia onde nascera, para assistir aos últimos três dias do festival de Ganesh Chaturthi, em honra do deus hindu da Sabedoria. Eu tinha a certeza de que éramos suficientemente crescidos para ficarmos sozinhos, mas o meu pai nem queria ouvir falar nisso. Pretendia perguntar a Nupi se nós a podíamos acompanhar, mas primeiro precisava do nosso acordo. Informou-nos de que não podíamos ficar com os nossos tios em Goa porque o tio Isaac ia levar Wadi a Diu. Na altura, eu não sabia que Isaac pedira para me levar também a mim com ele. O meu pai nunca me contou isso porque nunca pensou em deixar Sofia sozinha, e mais valeu que eu só tivesse sabido da generosa oferta do meu tio muito depois - eu teria ficado furioso por ter de desistir desta oportunidade de viajar. E teria perdido a oportunidade de dar o passo seguinte a caminho de mim próprio...

Nessa noite, por trás da porta fechada do seu escritório, ouvi o meu pai propor o seu plano a Nupi. Esta interrompeu-o imediatamente, o que não era nada dela, protestando que não podia proporcionar-nos nada que se comparasse com o conforto a que estávamos habituados. A vergonha fazia-lhe tremer a voz. Percebi que estava a chorar, as mãos a tremer no regaço.

- O chão na casa da minha família é feito de bosta de vaca - lamentava-se em concani. - As paredes e o telhado são de folhas de palmeira. - Passou então para o seu português feito de arranques para ter a certeza de que o meu pai percebia o seu desespero. - Não é bom - superstição por todo o lado. Toda a gente dorme em esteiras de juta... só fumo da cozinha. Não há janelas. Galinhas entram galinhas saem e... e... - Nupi perdeu-se e começou a chorar alto.

O meu pai quis sossegá-la garantindo que não éramos nenhumas bonecas de seda e ficaríamos contentes por estar em Benali. Muito provavelmente, estava ajoelhado a seu lado a segurar-lhe a mão.

- É impossível! - gritou. Ela sempre acreditara que se erguesse bastante a voz podia ganhar qualquer discussão com o meu pai. - As pessoas na minha aldeia acreditam na magia! - berrou. - Oh, tanta superstição. Vão pedir ao Ti e à Sofia para fazerem oferendas aos deuses. Não é bom, não é nada bom! Toda a gente vai dizer-lhes o que Ganesha pode fazer por eles.

- Como por exemplo?

- Ó sorte a minha! - uma mulher bonita que saiba cozinhar para o Ti. Um belo marido de boa casta para Sofia.

- Ela não está propriamente em idade casadoura - assinalou o meu pai.

- Tem catorze anos. Em algumas aldeias, as raparigas dessa idade já estão casadas há dois ou três anos. Não é bom, não é nada bom.

- Então vou ter de os mandar para a minha cunhada em Goa. O meu irmão vai estar fora durante esse período, mas se não tenho outra solução...

Nupi adorava o tio Isaac, mas achava que a tia Maria não prestava. Então, era este o trunfo do meu pai.

- A tia Maria? Não, não, não! Essa mulher nem sequer sabe cozer arroz! - Nupi falava como se fosse um pecado pior do que o assassinato.

- Não, mas as crianças provavelmente vão ter todos os doces que quiserem. Se não tiverem galinha masala que se possa comer durante três dias, também não morrem por isso. - Masala era a especialidade de Nupi, embora não pudéssemos comer isso muitas vezes, porque ela fazia o prato tão picante que nos esfolava a pele dentro da boca.

- Mas sem o tio Isaac lá, ela até lhes pode servir carne de vaca! E então? Diga-me, então?

Por deferência para com Nupi e os vizinhos hindus, o meu pai sempre nos proibira de comermos vaca, mesmo quando estávamos longe de casa.

- Ela nunca prepararia uma vaca inteira, só pedaços - respondeu ele, sem dúvida para agravar o caso. Provavelmente, estava a fazer todos os esforços para não sorrir.

- Que pedaços? - gritou a velha cozinheira.

- As patas. E dizem que as costeletas são deliciosas. E há também as orelhas...

- Orelhas! Oh, não, não, não, não pode ser! Diga à tia Maria que guarde os pedaços da vaca para ela! Nupi leva as crianças.

 

Benali FICAVA na costa, a cerca de quatro léguas da nossa quinta. Para chegarmos lá, demorávamos quase um dia. Ficava na província portuguesa de Goa, duas léguas e meia para sudoeste da cidade propriamente dita; por isso, antes de partirmos para Bijapur, o meu pai obrigou-nos a prometer que teríamos muito cuidado e nunca recitaríamos preces judias, mesmo para nós próprios. Deu a Sofia e a mim cruzes de madeira para que as puséssemos, se por acaso aparecesse algum padre ou missionário católico na aldeia a querer causar sarilho.

O meu pai tinha pedido aos vizinhos uns burros para nós, mas, passadas apenas poucas horas a cavalgá-los, os nossos traseiros pediam com tanta insistência um pouco de descanso que fizemos mais de metade da viagem a pé. Nupi jurava que estava aleijada para sempre e disse que não se espantaria se ficasse com prisão de ventre durante um ano inteiro. - Aquela ruim e malcheirosa criatura deu-me cabo do traseiro - dizia a quem quer que encontrássemos, apontando para o pobre réu hirsuto como se fosse um diabo.

Nupi disse a Sofia e a mim que Benali era o sítio onde a província de Goa fora criada por Shri Parasurama, uma encarnação de Vishnu, que disparara uma seta para o mar e mandara as águas recuar. Antes da ocupação portuguesa, muitos aldeões tinham em casa um sacrário em honra de Parasurama.

A umas milhas de Benali, as chuvadas dos dias anteriores tinham feito um buraco lamacento na estrada. Um búfalo caíra lá dentro na tarde anterior e tivera de ser içado por uns homens com cordas. Formara-se uma feira ruidosa junto à cena do acidente, visto que as centenas de trabalhadores que ali passavam diariamente eram praticamente obrigadas a ficar a conversar sobre a pobre criatura e o incómodo daquilo - pelo que aquele era o local ideal para vender de tudo, desde bananas e limas a macacos e pássaros, bem como para secar pimento e peixe, e separar a polpa de coco das cascas. Rapidamente se ergueram barracas com ramos de palmeiras entrançadas em estacas de bambu, e apareceram músicos, dançarinos e tatuadores, arrastando consigo uma trilha de gatos poeirentos e matilhas de cães sujos que cheiravam tão mal como redes de pesca. Também ali estava uma família maltrapilha de camponeses morenos de Madrasta, fugida à seca do Sul e pedindo comida na sua língua indecifrável. Os meus braços eram mais grossos do que as pernas dos homens e as crianças pareciam gafanhotos de barrigas inchadas e grandes olhos abertos cor de lama. Alguns homens da terra espantavam-nos como chacais, o que era difícil de suportar. Após uma breve conferência familiar, Nupi afastou-se e foi comprar manteiga para eles, e um grande saco de farinha de grão-de-bico e uma jaca, com moedas que o meu pai nos dera para uma emergência. Os camponeses agradeceram-lhe cheios de lágrimas, e as mulheres caíram-lhe aos pés. Nupi também comprou uma bilha de feni, o licor local de palma, para a irmã dela e o marido. À merenda, comemos feijão-mungo e arroz, servido em folhas de banana-pão. Como sobremesa, chupámos o sumo de mangas amarelas brilhantes, à sombra de um tamarindo e ao som de um tocador de tabla de Bengala cuja mulher trazia uma coroa de malmequeres no cabelo. A mulher engraçou com Sofia, que a deixou entrelaçar umas flores nas tranças. Ainda há um ano a minha irmã nunca o teria consentido.

Mesmo ao chegarmos à costa, metemos por um caminho acidentado por entre uma floresta emaranhada de teca e bambu. Os ventos frios vindos do oceano lá ao longe abanavam os cumes das árvores, fazendo chover sobre nós lagartas amarelas felpudas, cujos pêlos nos picavam como bolinhas de fogo. Cobri Nupi com uma capa que trazia no meu saco e pu-la à nossa frente, enquanto Sofia vinha atrás com os três burros. Assim que chegámos à praia, alguns gamos muntjac aproximaram-se agressivamente, emitindo o seu peculiar latido.

- Não te preocupes - estão sempre aqui - disse Nupi. - Guardam este caminho para o mar. Já não falta muito.

O Sol, baixo no céu, transformava o oceano infindo num lençol de ouro. O ar cheirava a fresco e a novo. Nupi murmurou uma prece a Devi, a sua protectora.

Louvado seja o Senhor por me trazer aqui, pensei. Sentia que sempre tinha querido vir a um lugar como aquele - um sítio em que o mar era luz palpável.

Passada mais uma hora, quando por fim chegámos a Benali, suando como soldados de infantaria, a minha irmã e eu causámos grande sensação. Fomos cercados por crianças de cabelos desgrenhados e olhos curiosos, gritando de júbilo. Os velhos aldeões - a maior parte dos quais eram parentes de Nupi - receberam-nos com pancadinhas bem-dispostas e sorrisos contentes. - Há tanto tempo que ouvimos falar de vós! - não paravam de dizer, e contavam-nos histórias da nossa infância, incluindo a da rã que se esgueirara para a pantufa do meu pai. Aquilo deixou-me de boca aberta, pois, até àquele momento, não fazia ideia do orgulho que Nupi tinha em nós.

Um ancião com a face mais enrugada do que couro velho mantinha-se à parte dos outros, de ar carrancudo, cuspindo suco de areca vermelho-sangue. Prestei-lhe pouca atenção, pois, por trás dele, havia quatro raparigas num novelo de risadinhas, vestidas simplesmente com saias de algodão atadas à cintura. Contudo, outra rapariga em breve me chamou a atenção, tão implausível era o que estava a fazer nesta aldeia tão remota: sentada num cepo de palmeira, dobrada sobre um livro, bebia avidamente uma última hora de leitura antes do pôr do Sol. Era alta e delgada, e trazia o simples vestido português das meninas da escola, mas estava descalça. Tinha pele cor de sândalo e aquele modo gracioso de repousar o queixo na mão tão próprio e exclusivo das raparigas indianas. Tinha longas tranças escuras muito apertadas, atadas na ponta com uma fita de seda violeta de fios dourados que me apetecia mesmo desfazer. Quando deu comigo a mirá-la, deitou a língua de fora e voltou a mergulhar no livro.

Benali era constituída por cerca de trinta cabanas de ramos de palmeira erguidas numa mata de pimpois e de tamariscos cobertos de flores. Em frente de cada casa havia um pátio de terra batida, alisado com bosta de vaca e cercado por uma fileira baixa de tijolos grosseiros, a protegê-lo da invasão da areia branca da praia. Depusemos os sacos num deles, que tinha uma cruzinha de prata a balançar de uma folha sobre a porta e uma pilha de pratos de barro a secar na parte da frente. Esta casa pertencia à irmã mais nova de Nupi, Ajira, e ao marido, Bharat. Não viemos a conhecê-lo nem ao filho, Kintan, porque, pelo tempo que durava a festa, tinham ido para um templo hindu logo ali junto à fronteira com o território português, para jejuarem e orarem pela saúde do pai de Bharat, que estava muito doente. Na verdade, como logo viemos a descobrir, Nupi viera para casa neste ano precisamente porque Ajira estava assim tão só. Engraçámos logo com a irmã de Nupi - a prontidão com que sorria e nos pegava nas mãos, como se tivesse estado toda a vida a esperar para nos receber. Ajira tinha uma forma de sorrir e falar mais suave do que a irmã mais velha e um modo de rir muito doce, como se fosse feito de sininhos. E seria bonita, não fossem as cicatrizes da varíola que lhe escalavravam a face. Pôs-se logo a fazer-nos muitas perguntas. Os meus olhos eram mais escuros quando eu era pequeno? O nosso pai era do ponto mais a norte da índia? Pura e simplesmente, não conseguia imaginar uma terra chamada Europa a mil léguas para oeste de Goa, onde as pessoas não acreditavam em Vishnu e Shiva, e onde ninguém sequer punha a hipótese de ter tido uma existência anterior. Disse que eu estava a contar histórias. Quando acrescentei que os Europeus nunca cozinhavam com leite de coco, ergueu os braços. - Não, não, não, é impossível! - disse, e a premência da sua incredulidade fez-nos desatar a rir.

Ajira decorara a entrada da casa com arabescos de farinha de arroz, o que era de tradição na terra. Gabámos-lhe os desenhos, que circundávamos com passo de garças. Estávamos a tomar chá de gengibre e a comer pão chapati, sentados num círculo com os outros, e, quando me enchi de coragem, fiz-lhe a única pergunta que me interessava: - Quem é a rapariga que vi a ler um livro?

- Devia ser a Tejal - respondeu, examinando os carvões que ia deitar ao lume.

- Vive aqui?

- Sim e não.

-Já chega - disse Nupi, num tom cortante. Lançou-me um daqueles seus olhares de aço.

Deitei-lhe a língua de fora, coisa que nunca fizera antes. Ela esticou a cabeça para trás como uma galinha espantada.

- Estás a crescer de mais para o meu gosto - disse-me, ácida, e logo pediu a Sofia e a mim que bebêssemos o chá num instante e fôssemos apanhar flores para ela antes que caísse o crepúsculo. Deu-nos um cesto de verga, mas eu recusei-me a ir embora enquanto não respondessem à pergunta.

- Tejal é da aldeia - disse Nupi, franzindo o sobrolho de má vontade. - É filha do nosso primo Shanti. Mas já não mora cá.

- Onde mora?

- Ti, por que é que és tão maçador? A Tejal mora na cidade. Agora, faz favor, vai-me buscar flores e depois falamos do que quiseres.

Quando nos afastámos, Nupi e Ajira desataram a rir. Mais tarde, Nupi disse-me que tinham achado ambas que eu parecia um pato à chuva da monção com o bico aberto. Pelos vistos, era uma expressão usada na aldeia para os rapazes apaixonados.

Uma dúzia de crianças seguiu atrás de nós até um vale de flores silvestres logo por trás dos campos de juta e grão-de-bico da aldeia.

As crianças estavam tostadas do sol e nuas em pêlo, e algumas delas sujas, mas eram tão docemente insistentes e belas como libélulas a zumbir. Com vozes cheias de vivacidade pediam-nos que as erguêssemos no ar e as fizéssemos rodar, pelo que Sofia e eu fizemos de conta que éramos moinhos de vento até não podermos mais de tontos. Eles queriam mais, mas dissemos que tínhamos que fazer, e eles ajudaram-nos a apanhar flores, correndo em todas as direcções, gritando e guinchando, deitando flores na nossa cesta e saindo outra vez a correr quando lhes dizíamos que ainda precisávamos de mais.

Quando Sofia e eu regressámos tão depressa com uma cesta cheia, Nupi fitou-nos espantada como se tivéssemos feito alguma magia negra.

Sofia sorriu. - Tivemos uns gandbarvas e apsaras a ajudar-nos. - Eram os espíritos hindus de que Nupi nos contara histórias quando éramos pequenos.

Nupi dispôs as nossas flores silvestres cor-de-rosa, brancas e amarelas no chão arenoso junto ao tronco de um grande coqueiro por trás da casa da irmã. Com as velhas mãos encarquilhadas, espalhou-as cuidadosamente num crescente. Quando a coisa estava a seu gosto, fechou os olhos e começou a tremer.

- O que se passa, algum problema? - perguntei.

Fez-me «chiu» e mandou-nos ajoelhar com ela. As nossas sombras compridas corriam pela duna à nossa frente. Sussurradas as suas orações, disse:

- Plantei este coqueiro para o meu filho quando morreu.

- Tinhas um filho? - exclamei. - Porque nunca nos contaste? Pôs-se a mascar a goma, meditando nisto. - Ti, precisei de muitos anos para aceitar que tu não eras esse filho. - Apertou-me a mão. - Quando cresceres um pouco, hás-de aprender que muitas coisas se tornam segredos sem tu quereres.

- Deve ter sido há muito tempo - disse Sofia.

- Muitos anos antes de tu teres nascido, tu e o Ti.

Para mim, foi um momento de revelação. Até ali, nunca vira Nupi como uma mulher com uma vida - e um passado - completamente independente do da minha família.

Nessa noite, houve na aldeia um banquete em honra de Ganesha, e Nupi explicou-nos que não podíamos olhar para o céu - considerava-se que olhar para a Lua durante esta festa, mesmo de soslaio, dava má sorte, pois ela uma vez tivera a impertinência de se rir do deus da Sabedoria.

Havia uma dúzia de pessoas a separar-me de Tejal, que tinha vestido um imponente sari violeta e azul-celeste.

Nupi dissera-me que ela andava a estudar numa escola conventual na cidade de Goa e que tinha quinze anos. Tejal nem sequer se virava para o meu lado, o que me deixou todo frustrado. Sentia que o meu futuro estava escondido dentro dos seus olhos negros.

Quando a refeição terminou, tinha comido tantas gambás e bolos de coco que aos olhos de Nupi parecia estar grávido de quatro meses, o que a fez rir até às lágrimas. Bebi feni em vez de água para a aborrecer, visto que ela não parava de tentar tirar-me o jarro. As danças e a música dos tambores que se seguiram puseram-me os olhos a andar à roda. Fui descansar na areia à borda da água, e no meu entressonhar vi-me de pé numa cadeira a espreitar pelas portadas quem vinha a subir as escadas do alpendre em nossa casa. Ao erguer o olhar, vi Tejal a pairar por cima de mim, com uma tigela de barro nas mãos, como numa oferenda ceremonial.

- Desculpa-me, Ajira pediu-me que te viesse trazer chá de gengibre - disse ela, docemente.

Espantado, sentei-me e agradeci-lhe. Segurando a tigela fumegante contra a fronte e fechando os olhos, senti a presença da minha mãe. Compreendi que era a pessoa que estava prestes a subir as escadas. Via-a a trazer a minha irmã bebé nos braços.

- Sentes-te bem? - perguntou Tejal.

- Nunca mais na vida bebo feni - respondi, gemendo, para dar um efeito cómico. - Sinto-me todo inchado.

Ela atirou-me um sorriso fugidio, o que teve por efeito acelerar-me o coração, e logo se voltou para se retirar.

- O que estavas a ler quando a minha irmã e eu chegámos? - perguntei-lhe.

- Um livro - disse ela como quem não quer a coisa.

- Isso sei eu, mas que livro?

- Chama-se A Lenda Dourada - respondeu, falando português pela primeira vez. Pronunciou marcando bem cada palavra. Gostei.

- É bom? - persisti.

- É um livro sagrado - declarou, como se a qualidade não interessasse. - É sobre Jesus Cristo e os santos.

As suas belas mãos gesticulavam em círculos quando falava. Parecia que me punham em transe.

- Nunca li nada sobre ele - disse eu.

- Nunca? - Os olhos abriram-se-lhe de espanto. A sua pele escura era tão irradiante ao luar que parecia ter descido do alto da noite para estar comigo.

- Os judeus não costumam ler o Novo Testamento - expliquei.

- Se me permites uma palavra, as irmãzinhas dizem que os judeus são muito casmurros por não acreditarem na divindade do Nosso Senhor.

- Permito, permito, com todo o prazer - disse eu, curvando um pouco a cabeça, saboreando o seu modo formal de falar. - Mas, e tu, o que é que tu dizes dos judeus?

Ela estremeceu. Talvez fosse a primeira vez que alguém lhe perguntava a opinião sobre o assunto. - Eu... eu não sei - disse hesitante. - Nunca conheci nenhum.

- Acho que agora conheces.

Pela minha maneira tonta de sorrir, percebeu que lhe estava a pedir a sua opinião geral sobre mim. Lançou-me um olhar sério. - Por favor, bebe o chá e logo te sentes melhor - disse, num tom controlado e maduro, como se já lhe tivesse causado problemas muitas vezes. Não sei dizer como, mas naquele preciso momento compreendi que ela era muito inteligente.

- Eu bebo, se te sentares aqui comigo - disse eu.

Ela lançou um olhar nervoso para a aldeia, presa a ela como estava por tradições que a deviam proibir de se sentar sozinha com um estranho. Agora, tinham acendido uma grande fogueira, e a música era cada vez mais frenética.

- Suponho que as freiras não haviam de gostar - disse eu, desafiando-a a ser ela própria.

- As freiras estão longe. O meu pai é que me preocupa - respondeu sombria.

- Mas senta-te, mais nada. Podes dizer-lhe que estavas a ser hospitaleira com o afilhado da Nupi.

- É isso que tu és?

- Não sei. Às vezes, penso que ela se tornou uma espécie de madrinha no dia em que me salvou a vida - disse, para criar mistério, mas, depois de o dizer, percebi que era verdade.

- A Nupi salvou-te a vida?

- Já te conto, mas primeiro... - bati com a mão na areia junto a mim.

Tejal estreitou os olhos, pesando o perigo que espreitava. Quando se sentou, cobriu as pernas com a orla do sari. Eu bebi um golo de chá, ofereci-lho, e ela ousou aceitar, o que achei muito bom sinal. Conforme ela bebia, eu ia sentindo um alívio no peito - como se uma tranca se tivesse soltado.

Nessa altura consegui pôr-me a falar de sentimentos íntimos, do período após a morte da minha mãe, quando Nupi me convidara para comer com ela sempre que me sentisse só.

- E foi o que eu fiz - contei a Tejal, como se fosse a moral da história -, até deixar de sentir-me um estranho.

Ficámos a falar de como a morte da minha mãe nos mudara, ao meu pai e a mim, e comoveu-me o zelo com que me ouvia. Ambos tínhamos, porém, uma viva consciência de que estávamos a evitar assuntos mais escorregadios e mais próximos de nós. Após um silêncio desajeitado, perguntei-lhe como tinha ido parar à escola em Goa.

- Ajira e Nupi tiveram a bondade de mo conseguir - respondeu. - Não devia contar-te isto, mas a minha mãe diz que eu aprendi a ler sozinha quando era pequena - apenas olhando para um rolo que o meu pai tinha junto ao sacrário.

- E por que é que não devias dizer isso?

- Porque ninguém sabe ao certo como consegui. A minha mãe diz que Ganesha me deve ter visitado em sonhos para me dar lições. Toda a gente descobriu, claro, e Ajira disse aos meus pais que havia de arranjar maneira de pagar a minha escola em Goa, se eles permitissem. O meu pai achava que educar uma rapariga era muito má ideia e pôs-se a gritar-lhe que não metesse o nariz onde não era chamada. Como ele ficou desvairado! Mas a Nupi veio a Benali por um curto período quando eu tinha sete anos e moeu-lhe o juízo. A Nupi intimida muito o meu pai.

- Não é só a ele - disse eu, rindo-me.

- Agora, toda a aldeia contribui para a minha educação. Os anciãos é que decidiram. Agora, acham que é uma honra ter uma rapariga da aldeia a estudar com as freiras cristãs. E se me perdoares isto que vou dizer, também acham que isso pode elevar o seu mérito aos olhos dos nossos senhores portugueses. E lisonjeá-los especialmente, também.

- O que vais fazer quando acabares os estudos?

- Quero trabalhar no Real Hospital. E quando tiver aprendido bastante, volto para Benali.

- Acho que seria pena, se fosses para freira.

Afastou o olhar, sem saber que responder, e depois limpou a areia das pernas com um movimento brusco da mão e levantou-se. - Se me permites, agora vou ter de me retirar - disse.

Procurei-lhe a mão, mas ela abanou a cabeça e afastou-se a correr.

Nessa noite, Nupi, Sofia e eu levámos as nossas esteiras de juta para o pátio, para dormirmos à luz das estrelas como os outros aldeões. Ficámos uns momentos a ouvir o embalar do oceano sem trocar palavra.

Então a nossa velha cozinheira explicou-nos que, tinha ela apenas dezanove anos, o marido e o filho morreram de disenteria provocada por uma água de poço envenenada. Nesse Verão foram enterrados nove adultos e doze crianças. Ekath, o filho, só tinha três anos e quatro meses. Numa madrugada, duas semanas depois do funeral, abalara da aldeia. Quando passara a última barreira de pimpóis, sentiu que era o próprio mundo - o vento do mar e as últimas estrelas da noite, e até as folhas debaixo dos pés - quem lhe escolhera o caminho. - Eu estava viva e os entes queridos mortos. Era terrível. Não percebia nem o porquê nem o como. Mas sabia que a culpa era minha. Mantive-me afastada do mundo durante vinte anos, até a vossa mãe e o vosso pai me terem descoberto.

- Eles descobriram-te?

- Eu estava a viver no templo de Ponda. Só tinha uma tigela para o arroz - era tudo o que tinha. Os teus pais recolheram-me, embora eu insistisse que não merecia. Sabem, a vossa mãe não aceitava um não por resposta. - Neste ponto, Nupi estava sentada com a mão no peito. - Não sei como, mas ela percebeu a noite que aqui morava.

Os pais de Tejal devem tê-la interrogado sobre a conversa que teve comigo, porque na manhã seguinte toda a gente começou a tratar-nos por afilhados da Nupi. Toda a gente nos trazia nas palminhas, excepto o velho que eu vira ao chegar a Benali. Logo a seguir ao pequeno-almoço, vendo-me a sair da choupana de Ajira, pôs-se a cobrir-me de injúrias como se eu lhe tivesse roubado um tesouro. Quando indaguei sobre ele a Nupi, esta limitou-se a dizer-me que se sentia enganado pelo mundo por razões fechadas a sete chaves no passado distante. Estupidamente, comecei a troçar da sua pele curtida como modo de o achincalhar, mas ela repreendeu-me severamente:

- Não sabes por onde andou o coração dele; por isso, deixa-o em paz!

Queria pedir desculpa a Tejal por a ter alarmado na noite anterior com as minhas insistências, mas ela já estava a um quarto de légua de distância, a trabalhar nos campos de arroz com a irmã mais nova. Não podia ir ter com ela, porque Nupi nos obrigara, a mim e a Sofia, a prometer que a ajudávamos a pintar as cabeças de gesso de Ganesha para a última noite de festividades.

Os aldeões escondiam essas imagens ocas gigantes em várias casas, não fosse algum padre católico, ou funcionário português, vir fazer uma inspecção.

As orelhas, o tronco e a cara encaixavam-se por meio de um sistema engenhoso de cavilhas, e havia dois anciãos - os gémeos Darpak e Harmut - que logo juntariam as peças na casa do fumeiro em poucos minutos. Os dois velhos fediam tanto a feni que a Sofia e eu, sempre que estavam de costas, tapámos os narizes. Numa das vezes, apanharam-nos e, para nosso espanto, desataram às gargalhadas. Tinham cabelos brancos compridos, que cintilavam como cristais de sal por estarem embebidos em óleo de coco. Semelhantes até nos rostos sulcados, pareciam directamente saídos de um mito antigo. Apesar do seu estado atordoado, manejavam os pincéis de pêlo de corça com rapidez de andorinhas. Obedecendo às indicações deles, demos à máscara maior de Ganesha uma face azul e às outras duas uns tons acastanhados mais reais. As três foram todas pintadas com lábios carnudos e olhos debruados a dourado. Por volta do meio-dia tínhamos acabado, e então os dois velhos artistas colocaram a máscara maior na minha cabeça e a do meio na de Sofia, equilibrando-as nos nossos ombros e atando-as habilidosamente em torno dos nossos peitos para que não balançassem. Quando, pelas nossas indicações, os buracos dos olhos ficaram na posição certa e conseguíamos ver em frente sem dificuldade, Harmut envolveu-nos em capas cor de carmim, ocultando as cordas que nos cingiam o peito, e atou-as à nossa cintura com cintas negras. Darpak trouxe-nos um velho espelho embaciado. Descobri que adorava ser um elefante.

Harmut escapou-se por um momento e voltou com um menino esguio de olhos de cabra, chamado Arj una, a quem logo enfiaram a cabeça mais pequena. Dentro de segundos, tornara-se um bebé elefante, com as orelhas cómicas e grandes como bandejas muito espetadas. Percebi então uma coisa que deveria ter-me sido evidente - que nós personificávamos Ganesha em diferentes idades.

Os homens mandaram-nos dar as mãos - com Arjuna no meio - e andar à volta do quarto para experimentarmos o equilíbrio. O ar dentro da cabeça do deus era cavernoso, e o som extremamente abafado. O pobre Arjuna começou a chorar, mas, depois de lhe termos tirado a cabeça, Sofia animou-o dizendo-lhe que se fizesse todos os esforços para fazer de elefante, Ganesha talvez o deixasse voltar à terra como o maior elefante de toda a índia.

Descobrimos então que os aldeões nos tinham preparado uma armadilha.

- Amanhã - disse Darpak, erguendo um dedo autoritário -, vão ter a bondade de enfiar os fatos quando acabarmos de comer. Eu sei o que estão a pensar, mas não tenham medo; vamos trazer-vos colares e grinaldas de flores, para estarem enfeitados como deve ser. Então, quando lhes fizermos sinal, saem da casa do fumeiro para o banquete, onde o povo dançará para vós. Só têm de nos seguir. Tudo vai correr maravilhosamente, vai ser magnífico!

- E hão-de trazer-nos a bênção dos deuses! - exclamou Harmut.

- Que está a dizer? - perguntou Sofia.

- Os afilhados de Nupi vão fazer de Ganesha - respondeu Darpak, dando um saltinho de júbilo. - Vocês vão ser o deus da Sabedoria personificado!

Logo que conseguimos afastar-nos sem ofender os dois velhos, Sofia e eu fomos a correr ter com a nossa cozinheira, que estava sentada no pátio, com um bebé nu à sua frente, a pentear os cabelos de prata.

- A ideia não foi minha - disse, mal viu as nossas caras. Ergueu as mãos e encolheu-se para trás. - Os anciãos decidiram que seria uma honra para nós vocês fazerem de Ganesha.

- Mas podemos estragar tudo - protestou Sofia com veemência.

- Não é difícil fazer de deus. Basta escutar e ver com apreço o que os aldeões dizem e fazem. E dizer-lhes que vão ter um ano maravilhoso. Por falar nisso, esta é Matri - disse Nupi, que manifestamente queria mudar de conversa. - É neta do meu primo Radrani.

- Acho que é má ideia - respondi. - O papá não vai deixar que nós façamos de ídolos. É pecado no judaísmo.

- Vocês não são ídolos! Na verdade, ninguém acredita que vocês são Ganesha. Só o são em Benali. E apenas neste momento. - Puxou as pontas do cabelo de Matri para que a bebé se voltasse. - Será que os meus meninos portugueses pensam mesmo que os hindus são assim tão estúpidos?

Não sabendo o que a velha mulher queria, Matri limitou-se a rir e a babar-se.

- É claro que não - respondi. - Mas é que pode haver quem reze a nós.

- A vocês, não, ao que vocês representam! E o que vocês representam é Deus! Nunca prestaste atenção a nenhuma das histórias que te contei quando eras miúdo? - Nupi juntou as mãos, o que queria dizer que estava a chegar aos limites da paciência. - Além disso - piscou o olho -, há uma certa menina que vai ficar muito impressionada.

Eu ainda não tinha a certeza se era o que devia fazer, mas, depois de ouvir isso, mandei calar a minha irmã que continuava com objecções, esforço que me valeu uma pancada no cocuruto.

 

Um pouco depois, Sofia e eu fomos dar um longo passeio a uns montes de vegetação rasteira a sudeste, onde descobrimos as ruínas carbonizadas de dois templos hindus que os Portugueses tinham queimado alguns anos antes. Da crosta branca cristalina de um lago de sal ali à beira, sobressaía uma escultura de madeira do deus macaco Hanuman, com uma papaia ainda a rebrilhar de tinta amarela presa à longa cauda. Limpei a imagem e a minha irmã disse que a queria. Como eu hesitei, fez tal barulho que começámos a discutir, mas acabei por lha dar.

Quando regressámos à aldeia, Tejal e a irmã mais nova, Idika, estavam metidas no oceano até às ancas, a refrescarem-se depois da manhã de trabalho. Eu não tinha a certeza de que podia ir ter com elas sem trair a minha excitação, mas Sofia já tinha percebido o que se passava na minha cabeça e começou a puxar-me para a frente.

- Não percas esta oportunidade! - declarou.

Resisti, mas, quando me atirou areia, fui atrás dela até à água. Idika veio falar connosco, mas Tejal não. Quando me enchi de coragem e me aproximei dela, virou a cara, como se tivesse medo sequer de respirar. Eu disse que esperava não lhe ter criado problemas. Ela fez um sinal com a cabeça, aceitando as minhas desculpas, e afastou-se imediatamente para a aldeia, com a água a escorrer-lhe dos ombros e das ancas. Até o sol parecia ir atrás dela para as choupanas.

Durante a tarde, voltei a ver Tejal, a ler no cepo de palmeira, mas jurara que, desta vez, havia de me obrigar a esperar pelo seu convite. Ela sabia que eu estava ali, mas não levantou o olhar. Após um certo tempo, começou a mexer com as contas do seu colar de âmbar, parecendo à beira das lágrimas. Eu escondi-me por trás de um pimpol até ela se precipitar para casa.

Nessa noite, no banquete, Sofia ofereceu-se para trocar de lugar com Tejal, mas a rapariga não tinha autorização para se afastar dos pais. Comi a minha comida sorumbático, zangado com toda a gente, e durante as festividades que se seguiram recusei-me a cantar uma canção de embalar em que se contava como Rama libertara Sita do rei dos demónios e que Nupi me ensinara quando eu era miúdo e que todos reclamavam em voz alta. Ajira veio ter comigo mais tarde e segredou-me que, embora sem querer, eu insultara Nupi diante da família e dos amigos. Vexado, desatei a correr pela praia fora, a pensar na forma incorrigível, adolescente pela qual - apesar das minhas melhores intenções - estragava sempre tudo.

De manhã, pedi desculpa a Nupi, que me disse que tinha compreendido.

- Cuidado, Ti - foi tudo o que acrescentou, e, pelo olhar que me lançou, percebi que queria demover-me de andar atrás de Tejal.

Três pescadores andrajosos de grandes mãos rudes chamaram-me quando estávamos a tomar o pequeno-almoço. Disseram que tinham uma surpresa especial para mim, e em breve descobri que se tratava de ficar de cócoras num palmeiral a observar os peixes na água, enquanto meia dúzia de colegas deles aguardavam sentados em barcos da aldeia a trinta jardas da praia, agarrados às redes enroladas. Parecia um pretexto para me interrogarem sobre a minha família, até que um deles se pôs aos saltos a gritar. Disse-me que batesse no gongo de latão que tinham pendurado no tronco de uma palmeira.

Ao meu sinal, os homens dos barcos puseram-se a remar rapidamente para um sítio apontado pelos colegas que gritavam, e lançaram as redes. De cada barco saltou um homem para o mar e arrastou-o para junto dos outros. Fomos a correr pela praia abaixo, reunindo-nos a eles quando saíam da água a chapinhar na orla do mar. Logo a seguir, apareceram a correr vindos da aldeia uns homens e rapazes, que se juntaram a nós a alar as pesadas redes, enfoladas com centenas de peixes prateados e negros do tamanho de mãos.

Eu estava muito excitado, espantado com a nossa pesca, e, quando me voltei para olhar para a aldeia, vi Sofia e as outras mulheres e raparigas a observar-nos com ar de orgulho. Entre elas, quase escondida lá atrás, estava Tejal. Era a única que não sorria nem tagarelava. Parecia uma sombra das outras.

Estraguei tudo ao dizer que sou judeu, pensei.

- Sentes-te bem? - perguntou Sofia a Arjuna. Estávamos todos na casa do fumeiro.

- O quê? - respondeu ele num guincho abafado.

- Juna, consegues ver-me? - inquiriu a mãe nervosa, segurando o candeeiro de óleo.

Ele abanou a cabeça de elefante, com as mãozinhas penduradas nas orelhas douradas. - Tenho cócegas no nariz - declarou, e pensámos que se referia ao seu próprio nariz, mas começou a esfregar a tromba de Ganesha, o que nos fez rir a todos.

Cheirávamos que tresandávamos ao óleo de coco que Harmut nos espalhara nas nossas cabeças de elefante, e no ar pairava o odor a peixe frito. Eu, agora, tinha uma coroa de papelão, pintada de púrpura e rosa, e enfeitada com pérolas. Ao pescoço trazíamos colares de hibisco branco e malmequeres cor de fogo. O pequeno Arjuna tinha uma espada numa mão e um bastão na outra.

Sofia e eu levávamos nos braços mais de setenta grinaldas de flores, que deviam ser entregues a todos os aldeões, mesmo aos bebés.

Era um pôr-do-sol ruivo e dourado, e o mar estava extraordinariamente calmo, como um espelho. Arjuna foi o primeiro a sair, levado pela mão por Darpak, seguido por Sofia e, finalmente, por mim. Nunca hei-de esquecer o sobressalto dos aldeões, e os seus olhos, abertos e radiantes: três mil anos de História e mito tinham-se feito realidade à sua frente. Olhavam para nós, de mãos na boca, como se fôssemos rubis a brilhar com a profundidade dos seus sonhos secretos.

Um silêncio perpassou o banquete. Eu estava nervoso, mas decidido a fazer tudo bem para ganhar as boas graças de Nupi. Os aldeões levavam a mão à testa quando passávamos, em sinal de respeito. Quando os tambores começaram a soar, puseram-se a dançar à nossa frente, conduzidos por um rapazinho e uma rapariga, saltando e cabriolando e fazendo ferozes caras de animais.

Darpak levou Arjuna para o ponto central da celebração, e, aí chegado, pôs o rapaz aos ombros e começou a balançar ao ritmo da música. Um deus tão jovem levado por um velho tão ameno... Não sei dizer como, mas aquilo passou a resumir para mim toda a festa - significava o tempo e o nosso envelhecer, e a necessidade de Deus trabalhar dentro de nós. No fim de contas, se não formos nós a carregá-Lo, quem o fará?

Foram buscar a um esconderijo por trás da casa do fumeiro uma escultura de madeira do tamanho de um homem que representava Ganesha dentro da Roda da Vida - os aldeões tinham-na salvo de um templo ali à beira destruído pelos Portugueses -, e colocaram-na na areia à beira-mar. Estávamos os três junto a ela, e as pessoas vinham a nós uma a uma, mães e bebés, irmãos e irmãs, viúvas e viúvos, e, quando lhes dizíamos que ano soberbo iam ter, curvavam-se diante de nós, para que lhes colocássemos uma grinalda ao pescoço. Que sorte a minha e de Sofia, esta oportunidade de os coroarmos de felicidade!

Uma velha alquebrada amparada nos braços do filho pediu-me que a abençoasse. Assim fiz e ela atirou-me um sorriso glorioso e desdentado e beijou-me o peito.

Nupi aproximou-se de nós e eu tomei-lhe as mãos e agradeci-lhe.

- Chiuu - sibilou. - Não te esqueças de quem és.

- Cala-te, mulher! - bramei. - Ganesha já não pode manifestar gratidão a uma das suas servas?

Nupi fuzilou-me de fúria com os olhos, mas logo percebeu o que eu queria e sorriu. Pedi aos músicos que parassem de tocar por um momento, e pus-me a cantar a canção de embalar que me tinham pedido. Estropiei a cantiga numa ou duas passagens, mas, mesmo assim, Nupi estava mais ufana do que alguma vez a vira nos últimos anos.

Depois, sentaram-nos, a mim, a Arjuna e a Sofia, no topo de uma longa esteira e trouxeram-nos oferendas de frutos e flores. Acabara de receber um coco muito grande quando ouvi um estalido enorme por cima de mim.

A seguir, só me lembro de ver a cara de Nupi como que envolta em gaze. Estava a chorar e eu sentia a cabeça latejar.

-Ti... Ti...

Sofia estava por trás dela, a chamar-me pelo nome. Tinha o lenço da nossa mãe na mão.

Tentei erguer-me, mas estava muito fraco.

- Onde está o papá? - perguntei. Estava muito preocupado por ele não ter voltado ainda de Bijapur. Queria que ele me levasse para a cama.

Devo ter desmaiado outra vez por algum tempo. Quando acordei, Tejal estava a chegar-me aos lábios uma chávena de chá de gengibre. Beberiquei e pus-me a olhar para o negro horizonte por trás dela. O mundo inteiro estremecia ao luar fresco.

Percebi que estava deitado no pátio de Ajira e que tinha muito frio. Ergui-me, assustado. Houve alguém que me envolveu os ombros num cobertor.

- O que aconteceu? - perguntei a Tejal.

- Houve... houve um acidente - respondeu nervosa.

- Que espécie de acidente? A Sofia não se aleijou, pois não?

- Não, estou aqui - respondeu a minha irmã, sentando-se junto a mim, debruçando-se para o meu peito como um gato e abraçando-me. - Estás bem, Ti?

- Acho que sim. Arjuna... o acidente aleijou-o?

- Não, está fino - garantiu-me Sofia.

Nupi afastou a pequena multidão que me cercava com mãos insistentes e acocorou-se a meu lado.

- Consegues ver-me? - perguntou a velha cozinheira. Debruçou-se para mim. Senti-lhe no hálito o cheiro pungente da noz de areca.

- Claro que consigo.

-Já lhe disseste? - perguntou Sofia, que abanava a cabeça.

- Ouve, Ti, agrediram-te - disse Nupi. - Com uma espada Felizmente para ti, Ganesha tem cabeça bem dura. E a lâmina estava embotada Se não fosse assim... - as mãos dela, até aí muito juntas, abriram-se de um golpe como a minha cabeça parecia querer abrir-se. - Tens um golpe na fronte, mas graças a Ganesha não é fundo. Pusemos-te remédio. Vais ficar com uma cicatriz, se calhar, mas hás-de ficar bom.

- Quem me bateu?

A anciã mordeu o lábio:

- O meu sogro - respondeu.

 

Nupi e Sofia sentaram-se a meu lado. A velha cozinheira agarrou-me a mão e rezou a Devi pela minha saúde. Disse-lhe a ela e à minha irmã que voltassem para a celebração, mas insistiram em ficar junto a mim.

Nupi contou-nos que o sogro, Madesh, era o velho de pele encortiçada que estava sempre a cuspir suco de nozes de areca. Nunca lhe perdoara a ela por, como dizia, lhe ter matado o filho e o neto.

- Eu estava encarregada de ir buscar água ao poço para a família, e, por isso, talvez ele tenha razão - disse-nos, sombria.

- Isso é impossível - exclamou a minha irmã. - Tu também deves ter bebido da água. Não podias saber que era má!

- Foi a água que matou as pessoas, não foste tu - acrescentei.

Nupi descansou a mão no meu peito. - Foi há muito tempo, e depois aconteceram muitas coisas na minha vida, mas parece-me que foi ontem.

- Por que é que Madesh tentou matar Ti? - perguntou-lhe Sofia.

- Não lhe parecia justo que eu tivesse um afilhado. Tão zangado, tão zangado... Era para tentar tirar-me o Ti, porque acha que eu lhe tirei o filho e o neto. Foi o que a vida lhe ensinou.

- Onde está agora?

- Na cabana dele. Os anciãos vão decidir hoje à noite qual será a sua sorte.

- O que queres que eles façam? - perguntei.

- Ele agora tem de viver com a vergonha. Deve bastar. A não ser... a não ser que queiras outro castigo. Tu é que foste ferido, Ti. Os anciãos farão o que tu pedires.

Eu sabia o que queria, mas não o disse, com receio de que Nupi me mandasse calar logo.

No dia seguinte, soubemos que os anciãos tinham decidido que Madesh passaria um ano exilado de Benali. Foi a nossa última manhã ali, e levámos muito tempo a emalar as trouxas porque tinham desaparecido dois braceletes de prata de Ajira. Virámos a cabana de pernas para o ar para as encontrarmos e não conseguimos. Nupi chamou-me de parte e segredou-me que provavelmente tinha sido a própria Ajira a escondê-los por a irmos deixar sozinha. - Ela quer prender-nos aqui - disse com tristeza.

À despedida, Ajira abraçou-me com força e obrigou-me a prometer que voltaria para a festa do ano seguinte. Antes de abalarmos, pedi que me deixassem confrontar Madesh a sós. Darpak e Harmut trouxeram-mo.

- Não lamento o que fiz - rosnou o velho quando me encontrei com ele ao pé da cabana de Ajira. Tinha as mãos dobradas sobre o peito, ostentando a sua fúria, como se tivesse esperado toda a vida por este momento. A aldeia juntou-se toda à nossa volta. - Só queria ter-te rachado ao meio! Eu não estava zangado - apenas contente por continuar vivo. E confuso por uma pessoa que não me conhecia me poder odiar tanto.

- A mim, o que sentes, tanto se me dá - disse-lhe, provocador, embora estivesse a mentir. Pensando no que a Nupi gostaria que eu fizesse, e não querendo embaraçá-la, acrescentei: - Ouvi contar o que aconteceu ao seu filho e ao seu neto, por isso não quero que tenha maior castigo do que o que já teve.

- Não tens o direito de vir aqui como vieste - declarou, franzindo o cenho. - Nem sequer de falar da minha família! Esta aldeia é nossa, não é tua. - Falou para toda a gente. - Nem sequer é hindu!

Alguns aldeões gritaram que Madesh era um cobarde. Ouvi a voz de Ajira entre eles.

Voltei-me para Darpak e Harmut, e disse: - Posso pedir-lhe que faça uma coisa por mim em sinal de arrependimento?

- Podes - responderam os gémeos.

- Madesh, quero que peças desculpa a Nupi - diante de todos. Se fizeres isso, eu peço que te autorizem a ficar em Benali.

Cuspiu suco de areca para a minha sandália, que não consegui retirar a tempo. Ao ouvir a sua gargalhada demente, a dor que sentia nas entranhas rapidamente se fez raiva, mas Nupi começou a injuriá-lo antes que eu pudesse amaldiçoá-lo. Agarrada pela irmã, só parou de gritar quando Sofia se ajoelhou para limpar por sua vez o meu pé com a mão, o que me gelou a pele toda. Então a minha irmã fez uma coisa ainda mais corajosa: dirigiu-se ao sogro de Nupi e limpou a palma da mão suja no braço dele.

Que bravura demonstrou aquela menina! Senti mais respeito por ela do que nunca.

Madesh ofegou. Ainda hoje o estou a ouvir a aspirar o ar bruscamente, como se tivesse sido rasgado por uma faca. Ele queria agredir Sofia, mas não ousou.

Sofia estava tão cega de raiva que até tremia. Era arrepiante - nunca a vira assim. Então rebentou a chorar e dobrou-se como se fosse para desmaiar.

Envolvi-a nos braços e arrastei-a dali.

Eu esperara que Tejal me falasse antes de me ir embora, mas não a tinha sequer vislumbrado. A nossa viagem para casa começou muito sorumbática, e durante duas horas Nupi não dirigiu palavra, nem a mim nem a Sofia. Eu tinha a certeza de que era da dor de deixar a irmã e todos os parentes, mas, quando finalmente falou, foi de outras preocupações.

- Não sei como vou explicar ao teu pai esse lanho na tua cabeça - disse-me. - Nunca me há-de perdoar eu ter deixado isto acontecer. Eu sabia que não devíamos ter vindo. Foi um grande erro... um grande erro do princípio ao fim. Esses erros que a gente não pára de fazer... tudo a repetir-se sem parar...

Nupi escondeu a cara nas mãos. Sofia e eu fitámo-la desamparados.

- Só preciso de dizer ao meu pai que fui derrubado por uma onda quando estava a nadar - disse eu para a encorajar, pouco convicto. - Ele há-de acreditar nisso.

Quando Nupi olhou para mim, o kohl com que a irmã lhe debruara os olhos estava esborratado e ela chorava lágrimas negras. - Ai, não - murmurou. - Eu nunca mentiria ao vosso pai. Se o fizesse, não podia viver com a vossa família. Teria de deixar a vossa casa como deixei a minha aldeia.

- Não percebo... não aconteceu nada de horrível - insistiu Sofia.

- Mas podia - respondeu Nupi. - Ti podia estar agora morto. Podíamos estar a viver num mundo sem ele. - Afastou o olhar, pensativa. - E um presságio. É muito mau. E o vosso pai nunca há-de voltar a confiar em mim.

- Eu conto-lhe a verdade - disse eu. - E faço-lhe perceber que a culpa não foi tua.

- Não vais conseguir - respondeu desesperada.

- Então não confias em mim! - eu estava furioso.

- Como podes dizer-me isso? É só que eu... eu não sou digna da tua ajuda neste caso...

- Escuta-me! - interrompi abruptamente. - Eu é que fui ferido. O meu pai e tu têm de respeitar os meus desejos. Não é presságio nenhum... foi só algo que um velho zangado fez porque sofreu demasiado.

Não posso explicar o que me inspirou tanta confiança, especialmente porque o meu pai de certeza ia ficar aborrecido por Sofia e eu termos desempenhado o papel de ídolos. Nupi esfregou os olhos como se estivesse diante de uma miragem. - Não sei como até aqui não percebi que te tornaste um homem - disse.

A segunda metade da viagem foi amistosa e fácil, e Nupi até consentiu em montar o burro durante umas léguas. Quando chegámos a casa, o meu pai estava lá à nossa espera, embora nos tivesse dito que chegaria na tarde seguinte. Reparou logo na minha ferida, pôs-se a inspeccioná-la à luz da vela enquanto eu explicava que Madesh se aproximara de mim e me tinha dado uma pancada por não ser neto dele. Não disse nada sobre o termos feito de Ganesha, visto que Sofia e eu havíamos concordado que estávamos demasiado cansados da viagem para ouvir um sermão sobre os males da idolatria. Não diríamos nada até que a ferida se curasse; nessa altura, contaria ao meu pai toda a verdade.

Ele tinha encomendado à mulher de um vizinho um repasto de galinha guisada, que comemos à luz acolhedora das estrelas de nossa casa. Antes de irmos para a cama, Nupi meteu-me uma carta na mão - escrita em três folhas secas de pimpol - que a haviam encarregado de me entregar apenas quando chegássemos.

 

     Querido Ti:

Obrigada pela estatuazinha de Hanuman. Como adivinhaste que Ele é o meu deus favorito? Foi uma adorável surpresa, e aprecio os teus cuidados com os meus sentimentos (e com a vigilância do meu pai!) ao mandar-mo pela tua querida irmã. Não o vou levar para a escola (as freiras logo o confiscavam, pensando que ele é ímpio - e que eu também sou!), mas hei-de guardá-lo para sempre,

Madesh fez muito mal ao tentar ferir-te, mas fiquei contente com uma coisa: quando me debrucei sobre ti e pensei que os teus olhos nunca se abririam outra vez, só a ideia de que nunca havia de te conhecer se me tornou insuportável (imagina que te davam um belo livro de capa de couro e não te deixavam sequer ler uma simples página!). Por isso, gostaria de continuar a escrever-te, se não te importas, sem prometer que vou contar-te coisas muito inteligentes. Mas se te apetecer mesmo, podes escrever-me para a escola do convento, sem nunca porém fazeres referencia a seres judeu, pois as freiras lêem todas as nossas cartas. Da próxima vez que fores a Goa para visitar a tua tia e o teu tio, talvez possamos voltar a ver-nos.

                 A tua, Tejal

 

P.S. Por favor, desculpa-me pela forma como me comportei quando nos conhecemos, mas sentia que estavas prestes a mudar a minha vida, o que me assustou. Mas agora já não. (Talvez por detrás de tudo o que sinto e que não pode ser descrito esteja a malícia de Hanuman. Seria mesmo Dele!)

 

Sofia já estava na cama, deitada ao suave luar, quando entrei a correr com as folhas de Tejal na mão. - Sou eu - murmurei. Todo eu vibrava. Sentia-me transformado pela mensagem dela - como se estivesse a caminhar numa corda bamba levando comigo os meus sonhos.

Numa Voz cheia de sono, a minha irmã murmurou: - Eu quem?

Deitei-me junto dela e passei-lhe a mão pelo cabelo, imitando uma tromba de elefante à procura de um doce. - Adivinha - sussurrei.

Estava à espera de que dissesse - Ganesha -, mas limitou-se a enroscar-se contra mim e a puxar o meu braço muito apertado em torno do ombro, o que ainda era melhor. Fiquei horas acordado junto dela, gerando uma nova vida dos meus desejos enquanto ela e o resto da índia dormiam.

Passada mais uma semana, a minha cicatriz quase desaparecera e pareceu-me escusado comunicar ao meu pai mais pormenores sobre o modo como fora ferido. A Nupi andava irritada comigo por ter quebrado a minha promessa de contar a história toda, mas no fim limitava-se a meter mais alguns grãos de funcho debaixo do lábio, fitando-me com olhar desapontado, e recitando uma das suas expressões locais favoritas: «Não adianta pedir ao Sol que volte ao anoitecer.»

Tejal e eu começámos a escrever longas cartas um ao outro uma vez por semana, e, ao ver a sua escrita após dias de espera, costumava sentir que estava a correr por uma ponte fora para a minha verdadeira casa. Mandava-me as cartas ao cuidado da bondosa camponesa que fornecia pão ao convento e aconselhou-me a fazer o mesmo, ao descobrir que várias páginas que eu escrevera tinham sido confiscadas.

Muitas vezes corria para o quarto ao receber uma carta, e uma vez tropecei na estátua de Shiva que tinha sido da minha mãe, a qual foi cair no chão com estrondo. Parti um dedo de uma das suas oito mãos, o que fez Nupi abanar a cabeça, como se eu estivesse condenado por um amor demasiado fervoroso.

O meu pai costumava dizer que a história da nossa família estava escrita nos arranhões e cicatrizes de Shiva.

Era muito má ideia alguém mandar-me fazer o mais pequeno recado durante esse período de doença de amor. Lembro-me de que Nupi uma vez me pediu que lhe fosse comprar ovos e eu lhe trouxe uma couve!

Depois disso, o meu pai inventou um novo número cómico, e, quando íamos todos ao mercado de Ramnath, costumava imitar-me a ler uma carta e a pôr pedras no cesto.

Eu agora estava contente por ver Portugal e a índia ao mesmo tempo na minha cara quando olhava para o espelho. Sentia que tinha voltado para casa, para mim próprio.

Tejal escrevia sobretudo sobre as suas leituras, e a sua ternura pela Irmã Ana, uma freira de Lisboa franzina, nariguda, que lhe dava os livros tirados de um gabinete secreto da biblioteca e que lhe escovava o cabelo com um pente de marfim antes de se deitar. Os hindus de Goa adivinhavam os desejos dos seus deuses pela forma como as pétalas caíam dos seus sacrários, e Tejal tinha a certeza de que a freira de bom coração tinha sido trazida à sua vida por Hanuman porque uma pétala de hibisco se soltara da testa do deus e fora cair às suas mãos quando ela rezava na casa dos pais pela saúde da Irmã Ana.

Assim, foi pelas cartas que soube da sua adoração pela sua professora favorita, e da sua fascinação pelas histórias aterradoras que ela lhe contava, especialmente quando descreviam uma possessão demoníaca, em que todas as freiras acreditavam e que receavam mais do que qualquer doença. Tejal nunca se cansava de ler coisas sobre o martírio dos santos, pois, à noite, a fé deles banhada em sangue fazia-a enterrar a cabeça na almofada com o mais delicioso dos terrores e meditar na lealdade, no bem e no mal, no Além, e todos esses outros assuntos importantes que propiciam o sono quando estamos a tornar-nos adultos. Frequentemente, escrevia-me sobre a vida desses santos homens e mulheres, desde o nascimento até ao martírio, passando pela revelação, e dessa forma aprendi o pouco que havia de saber sobre a tradição cristã. Eu presumia que Tejal se tornara católica crente, mas quando lho perguntei numa das minhas cartas, respondeu: «Não, continuo a ser hindu, mas quando a Irmã Ana fala de Cristo como se realmente fosse casada com Ele, parece-me a coisa mais bela do mundo, como se o que ela sacrificou fosse superior a tudo o que outra pessoa qualquer poderá alguma vez compreender.»

Tejal raramente mencionava as colegas, e quando lhe perguntei porquê, escreveu que, salvo muito poucas, troçavam dela, não tanto porque era indiana, mas porque vinha de uma aldeia longínqua de pobres pescadores. Para zombar dela, as outras raparigas chamavam-lhe carapau e, quando as professoras não estavam a ver, punham-se a abanar com as mãos junto ao pescoço como guelras. Uma ocasião um grupo de quatro inimigas pontapeou-a até sangrar e, por isso, comecei a temer pela sua segurança, e a compreender também que a sua timidez escondia muita emoção. Quando lhe escrevi dando-lhe conta das minhas preocupações, respondeu, porém, que as zombarias não a incomodavam. Não acreditava nas suas bravatas: soavam precisamente ao que a Sofia e eu diríamos em circunstâncias parecidas.

Numa das minhas primeiras cartas, perguntei a Tejal se teria preferido continuar a viver na aldeia.

«Por vezes, sim», escreveu, «mas é o sacrifício que tenho de fazer, por isso não contes a Nupi nem a ninguém as minhas dificuldades com as outras raparigas. Toda a gente em Benali tem de acreditar que sou feliz. Não posso mostrar-me ingrata para com eles.»

A confissão deixou-me perturbado e aterrorizado, porque achara alguém que podia mudar o curso de toda a minha vida, e, no entanto, tinha menos influência do que o vento sobre as dificuldades que ela tinha de aguentar. Quando lhe escrevi que estava mais preocupado do que nunca com ela, respondeu:

«A Irmã Ana toma conta de mim, e atrás dela há todos os santos, e, por cima deles, sentado no cume do seu pimpol, com uma papaia na cauda, está Hanuman.»

Levou-me muito tempo a perceber que aquilo não era uma simples ostentação de optimismo, mas que ela realmente acreditava na protecção mágica dos seus deuses hindus. No entanto, como eu não acreditava, pouco me consolava, quando acordava de noite imaginando-a a chorar na sua cama.

Demasiado embaraçado para revelar a profundidade dos meus pensamentos, comecei a escrever sobretudo sobre os meus estudos, que, tendo agora escalado a longa escada da Tora, entravam no mundo fulgurante da cabala, muitos ensinamentos da qual tinham sido transmitidos pela minha família através dos séculos. Suponho que pretendia impressionar Tejal, também, pois isso significava que o meu pai me confiava práticas esotéricas que, nas mãos erradas, poderiam ser perigosas. Tinha a certeza de que qualquer rapariga com fé nos seus deuses teria de respeitar isso, e ela fez-me muitas perguntas, embora eu só tivesse liberdade para responder a umas poucas. Agora, o meu pai e eu passávamos as manhãs a praticar os nossos exercícios respiratórios e a falar da vida oculta de Deus, que, explicava ele, estava presente em todos os cantos do universo - mas sobretudo no corpo humano. Dávamos longos passeios juntos para estudar como as sepbirot - os dez atributos essenciais do Senhor - davam a cada animal e planta a sua forma e determinavam o seu caminho pela vida fora.

Numa fria madrugada, levou-me ao lago Salim, e estivemos a praticar permutações das letras de orações, deitados em esteiras de juta estendidas na clareira guardada por um maciço de bambus gigantes, com caules mais grossos do que o pulso de um homem e muitos tão altos como as torres da catedral de Goa. Disse-me que a índia era especialmente querida do Senhor porque não havia lugar mais fértil na Terra.

- A índia sabe, no seu solo e no seu céu e nas suas águas, que Deus está em tudo e em todos, e é por isso que nunca a deixarei.

O meu pai falava com o ar de alívio de um viajante que chegou a casa depois de anos de árdua viagem, mas hoje, quando fecho os olhos, ouço-o como se estivesse a pronunciar a sua sentença de morte.

Na nossa primeira viagem a Goa após a ida à aldeia de Nupi, ficara combinado que Tejal pediria autorização para sair e se encontrar comigo durante uma tarde na casa do meu tio. Quando entrou pela porta no seu vestido branco da escola, tremia como uma gatinha encharcada, e trazia um ramo de flores cor-de-rosa de aloendro numa mão e um livro encapado a couro na outra como se contivessem toda a sua força e certeza. Os seus cabelos, acabados de lavar, cintilavam-lhe nas costas.

O olhar que me lançou - com os seus suaves olhos como que a pedir socorro - deu-me vontade de a abraçar e levá-la dali. Beijámo-nos na face à maneira portuguesa, e apresentei-a aos meus tios com estudado formalismo. Isaac estava de pé por trás de mim e, pressentindo o meu estado, agarrou-me pelos ombros.

- Estamos muito contentes por esta oportunidade de te conhecer - disse ele a Tejal.

- Se me permite dar-lhe um presente, trouxe-lhe estas flores - disse esta, entregando o ramo à minha tia. - Espero que goste delas.

- São muito bonitas! - exclamou a tia Maria, num tom de voz tão sincero que me deixei embalar por uma sensação de segurança.

- São muito belas - concordou o meu tio quando a mulher as ergueu para que as admirássemos.

- Vejo que trazes também um livro - disse a minha tia alegremente, acrescentando: - Deve ter muitas belas imagens... quero dizer, para que uma rapariga como tu possa apreciá-lo.

Uma rapariga como tu queria dizer «indiana», claro.

- Perdão, mas não tem imagem nenhuma - respondeu Tejal, sem perceber de todo a crueldade das insinuações da tia Maria.

- Não me digas que é para leres! - arquejou a minha tia com espanto teatral, levando a mão à face para acentuar a sua surpresa.

Tejal mordia o lábio, sem saber ao certo o que responder.

- Já percebi aonde quer chegar - disse eu à minha tia -, e quero que pare com isso.

- Que mal há em fazer uma pergunta a Tejal? - perguntou, fingindo-se intrigada. Eu franzi o cenho, e ela pôs-se a olhar para mim do alto do nariz como se eu fosse uma afronta à sua dignidade; compreendi então que nunca deixáramos de ser inimigos. Acrescentou inocentemente para o marido:

- Eu disse alguma asneira? - Lançou-lhe um olhar de soslaio que significava: Se não me apoiares, vai haver sarilho...

- É que uma pessoa pôr-se a lançar suposições para o ar pode trazer sarilhos, Maria - respondeu Isaac. - Ouve lá, por que é que não deixamos as crianças a falar uma com a outra em paz durante um bocado?

- Tejal e eu vamos para o jardim - disse eu. - Anda - disse-lhe, ansioso -, lá fora está-se bem. - Mas quando lhe peguei no braço, estremeceu. Tinha a pele muito fria.

- Por favor, não nos deixem já - disse a tia Maria, sentindo, sem dúvida, uma oportunidade de fazer mal a sério. - Então é verdade que sabes ler? - Sorriu com falsa benevolência.

- Claro que sabe - atalhei. - Eu disse-lhe que ela anda numa escola conventual.

- É... é verdade, senhora Zarco - disse Tejal num murmúrio envergonhado, receando agora olhar para cima, como se, numa rapariga indiana, saber ler fosse crime.

- Devias estar muito orgulhosa de ti própria - disse-lhe o tio Isaac.

- Sou a primeira rapariga da minha aldeia que teve o benefício da educação - disse, num tom de desculpa.

- A primeira - que maravilhoso para ti! - exclamou a tia Maria, e olhou para mim como se tivesse vencido uma aposta entre nós.

- Que livro é que trazes, Tejal? - perguntou o meu tio, ansioso por mudar de assunto.

- O Novo Testamento - respondeu, nervosa. Pensando provavelmente que a seguir a minha tia podia acusá-la de roubo, acrescentou: - Uma das minhas professoras teve a bondade de mo dar.

- És cristã de nascimento? - perguntou a tia Maria. - Ou foste forçada a acreditar em todos aqueles animais quando eras pequena?

- Que animais, senhora Zarco? - Tejal começou outra vez a morder o lábio.

- Aquele horrível com cabeça de elefante, por exemplo.

- Ganesha - rosnei. - Nem sequer sabe isso? Há quanto tempo vive na índia?

- Quem quer um pouco de ponche de caju? - perguntou o tio Isaac antes que a mulher pudesse responder. - Fui eu que fiz, Tejal. É bom, acho, mas gostaria da vossa opinião. Podem levá-lo para o jardim convosco. Vou buscá-lo à cozinha. Queres vir comigo, Maria?

- Não, acho que fico por aqui.

- Como quiseres - disse, e, lançando-lhe um olhar de aviso, afastou-se.

- Tiago, o nome de um elefante na índia pouco interessa ao Deus único e verdadeiro - anunciou a minha tia, em tom condescendente.

O meu tio parou à porta e lançou-lhe um olhar de desagrado, mas ela fez-lhe um aceno altivo, e depois outro a mim e a Tejal, como se tivesse acabado de nos conceder a todos a graça da sua sabedoria.

- Tenho a certeza de que a senhora tem razão, senhora Zarco - disse Tejal, com uma pequena reverência. - Ainda tenho de aprender muitas coisas.

- Eu só acho que deve dar muita confusão ter todas essas centenas de deuses e deusas. Diz-me cá... como podes rezar a uma estátua de macaco sem te rires?

- Maria! - exclamou o tio Isaac, em tom excitado. Tornou a ela e pôs-lhe o braço à volta da cintura, mas ela repeliu-lhe a mão.

- Só um bocado - disse.

Tejal tinha os olhos marejados, e os lábios tão apertados que se diria que não voltaria a falar.

No meu desespero, disse à minha tia:

- Os hindus veneram Hanuman porque Ele simboliza tudo o que é divertido no mundo. E tudo o que não pode ser predito.

Ela abanou a cabeça.

- Isso é patetice filosófica que deves ter aprendido com o teu pai. Nem os hindus, quando instruídos, acreditam nisso.

- Seja lá o que acreditarem, ao menos não andam por aí a obrigar toda a gente a converter-se como todos os vossos horríveis padres católicos!

- Isso... isso é blasfémia, Tiago Zarco!

- Por amor de Deus, querem calar-se os dois?! - gritou o tio. - Maria, tu e eu vamos para a sala de estar e deixar o Tiago e a Tejal ficar sozinhos por uns momentos. - Encostou a mão às costas da mulher e empurrou-a.

- Hei-de falar contigo depois sobre o cristianismo, meu caro - ameaçou a minha tia, voltando-se outra vez para nós.

- Não vai haver tempo para isso - disse eu com fúria controlada.

- Há sempre tempo para Deus - declarou, triunfante.

Ao ver o seu esgar de auto-satisfação, foi como se ela tivesse tirado a máscara, e percebi de repente que aquilo não tinha nada a ver com a religião. Ela estava a soltar aquela fúria porque Tejal era jovem e bela - e contra mim porque eu estava apaixonado pela rapariga. Seria possível que a minha tia nunca tivesse sentido nenhuma afeição profunda por ninguém, mesmo o tio Isaac? Estaria eu errado quanto à sua devoção por Wadi?

Isto tudo é por causa da vida inútil e estéril que ela leva, percebi.

Quando ela ia a sair com o meu tio, senti que este conhecimento me dava poder.

- Tia Maria, devia ter mais cuidado com o que diz - gritei-lhe. - Os seus motivos podem não me ser tão desconhecidos como parece.

Virou-se de supetão:

- Tiago, estás a ameaçar-me?

- Estou, acho que sim.

- Tiago - interveio o meu tio rudemente -, agradecia que tratasses bem da Tejal. Estás a ser muito mau anfitrião.

Enquanto ele ia empurrando a mulher para fora da sala, eu escoltava Tejal pela casa e descia com ela a escada das traseiras para o jardim. - Vais-te sentir melhor lá fora - disse-lhe. Estava pálida. Percebi que tinha vontade de chorar, mas que o orgulho não lho permitia.

Precisa de toda a força dela para lutar contra eles, pensei, e por «eles» entendia todos os que a queriam rebaixar.

Sentámo-nos no banco de madeira por baixo do tamarindo no centro do jardim. Prendi-lhe as mãos nas minhas para as aquecer e expliquei que a tia Maria estava com ciúmes dela. Pedi-lhe desculpa pela nossa disputa, mas senti em mim o triunfo de deixar de considerar a minha tia; sabia que nunca mais voltaria a tentar obter a sua aprovação ou afecto.

- Nunca devia ter vindo - disse Tejal com tristeza.

Estava eu a meditar como havia de transformar esta derrota em vitória, quando ouvi uma pancadinha por cima de nós. O meu pai, debruçado da janela, estava a rodopiar as mãos, fazendo-nos sinal para subirmos. Cá dentro de mim, ouvia-o dizer: Tem confiança no teu velho pai... Mas confiança era a única coisa que não tinha, pois sabia que ele sempre pretendera que eu casasse com uma rapariga judia.

- O papá quer falar contigo - disse eu, tentando soar alegre.

Ela fez um esgar e juntou as mãos para concitar o seu poder de decisão.

- Por favor, ainda não, deixa-me um tempo para voltar a ser eu própria - disse-me.

Fiz sinal ao meu pai que esperasse um pouco, e propus a Tejal ir-lhe buscar uma taça do ponche do tio Isaac. Respondeu que só queria ficar ali sentada calmamente por um bocadinho.

- Acontece-me às vezes - acrescentou.

- O quê?

- Vai parecer-te esquisito.

- Não vai nada - prometi.

- Em alturas como esta, a minha vida parece-me irreal... é como se eu fosse acordar daqui a pouco e descobrisse que não sou rapariga e não estou na índia... que não sou nada do que sou.

Antes que eu pudesse responder, fechou os olhos. Senti que o mundo estava a rodar lentamente à minha volta. Vai tudo parar dentro em pouco, pensei. Dentro em pouco, também eu vou descobrir que já não sou quem pensei que era. Arrisquei-me a acariciar-lhe a face. Que esta rapariga ao menos saiba que não quero fazer-lhe mal, pensei.

Ela mantinha os olhos fechados.

- Para ti não vai fazer sentido - murmurei -, mas quando estamos juntos lembro-me como a pele da minha mãe era macia. Todos os anos de separação entre nós desaparecem. Tu fazes-me sentir isso. Uma coisa que mais ninguém nunca me fez.

Apertou-me a mão, mas manteve os olhos bem cerrados. Que fácil me era naquele momento acreditar que havíamos de ultrapassar todos os obstáculos! Mas talvez isso seja o que se deve passar com um rapaz que vê tudo filtrado pelo amor. Quando ela conseguiu falar de novo, conversámos por uns momentos sobre a minha mãe, e contei-lhe como às vezes ia descobrir o meu pai a desenhá-la de memória de manhãzinha. Contei-lhe também que gostava muito que ele me deixasse sempre ficar a vê-lo desenhar, pois era assim que percebia que ele confiava em mim. Voltei a perguntar-lhe se podíamos ir lá acima ver o meu pai.

- Sim, acho que é melhor - disse Tejal. Ao levantarmo-nos, eu disse em concani:

- Quero que saibas que nada nem ninguém me obrigará a trair-te.

Contara-lhe os meus sarilhos com Wadi e esperava que ela compreendesse que, para mim, isto era mais importante até do que as muitas declarações de amor que lhe escrevera.

Quando estávamos em Goa, o meu pai dormia na biblioteca do irmão, e Tejal teve um sobressalto ao perpassar o olhar pelas centenas de volumes que havia nas estantes.

- É bom viver numa floresta de livros, não é? - disse o meu pai, com um sorriso de boas-vindas.

- Acho que era capaz de passar anos aqui dentro, senhor Zarco.

A resposta agradou ao meu pai. Beijou-a em ambas as faces e, pela forma como se ergueu depois, vi que já estava a gostar dela.

Fez-nos sinal para nos sentarmos nas cadeiras que dispusera diante da secretária do tio Isaac, e penteou o cabelo para trás com a mão. Estava muito nervoso. Percebi que me esquecera que o meu pai não era muito diferente da maior parte dos homens e que talvez quisesse causar boa impressão numa bela rapariga.

Tejal e eu sentámo-nos diante dele, temendo ambos sem dúvida o seu julgamento. Éramos três viajantes a caminho de uma nova terra. Por vezes, desejo que tivéssemos fechado os olhos nesse momento e dado graças por tudo o que íamos deixar.

O meu pai fez-lhe algumas perguntas sobre a escola, mas ela só lhe deu respostas muito lacónicas. Mais tarde, disse-me que tinha o coração a latejar-lhe aos ouvidos.

Sentindo que assim não se ia lá e desejando ganhar-lhe a confiança, o meu pai ofereceu-lhe um manuscrito em pergaminho de duas antigas histórias populares judias, que traduzira de hebreu para português para ela. Narravam as intrigas de Lilith e Asmodeus, a rainha e o rei dos demónios judeus, pois eu tinha-lhe dito que era esse tipo de histórias que ela adorava.

Eu não fazia a mínima ideia do cuidado com que ele se preparara para este encontro até ela abrir os manuscritos e vermos as magníficas ilustrações que ele desenhara com os mais brilhantes azuis, rosas e laranjas. Lembro-me em especial de Lilith a voar sobre Jerusalém, com as tranças em fogo e a boca a pingar sangue, e um Asmodeus com asas de falcão e olhos amarelos posto sobre uma montanha de crânios na Gehenna, o inferno judeu, prestes a atirar a cabeça de Golias para um oceano a ferver. O meu pai nunca antes fizera iluminações num livro para nenhum dos meus amigos.

Tejal pôs-se a olhar para as imagens com olhos enlevados, com a mão pousada no coração, daquele modo como as raparigas indianas muitas vezes manifestam profunda emoção.

- Fez... fez isto para mim, senhor Zarco? - titubeou.

- Fiz. Estas eram as minhas duas histórias favoritas quando era rapaz. Por causa da Lilith ficava acordado toda a noite. A minha mãe costumava pôr-me um talismã ao pescoço para me proteger dela.

Tendo-lhe eu dito como estava tocado pela sua generosidade, sacudiu a mão, dizendo que isso não tinha importância. Pegou num livro delgado, que me entregou.

- Isto é para vocês os dois - disse.

Era uma história espanhola de aventuras chamada Lazarillo de Tormes. Mostrei o frontispício a Tejal.

- É mais interessante do que poderia parecer à primeira vista - disse o meu pai. Encolheu os ombros e pôs-se a olhar à volta com ar conspiratório para se fazer cómico. - Não digas à tia Maria ou ao tio Isaac que vos dei isto. - Pôs as mãos à volta do pescoço e fez um esgar como se estivesse a ser estrangulado. - Isso só me ia trazer sarilhos.

- Devo dizer que é bom partilhar segredos com a juventude - continuou, sorrindo como se estivesse a semear maldade no mundo. A seguir, foi num repente à janela e chamou-nos, apontando para o tamarindo. - Há anos que não o vejo parecer tão novo.

- Foi o meu Ti que quando ainda era pequenino plantou aquele grande gigante - disse a Tejal. - Tinha apenas um palmo, e meia dúzia de folhas raquíticas.

- Papá, por favor - disse eu, pensando que ele me ia embaraçar com histórias da minha meninice.

- Chiu - disse ele, batendo levemente na minha cabeça com o punho. - Eu não queria plantá-lo. Não sabias isto, pois não?

- Não.

- Estás a ver? Ele pensa que sabe tudo, mas não sabe - disse a Tejal, triunfante, e o orgulho que sentia por mim estava tão patente nos seus olhos radiantes que ela desatou a rir como ele.

- Mas porque não queria que o plantasse? - perguntei.

- Estava zangado com a morte da tua mãe e irritado com a tua tia Maria por ela me dizer que Deus tinha as Suas razões para a levar. Não queria que nada crescesse aqui. Queria vingança.

Só percebi o que queria com esta história quando acrescentou:

- Mas tinhas razão em plantá-lo, e, passados todos estes anos, este tamarindo está muito belo. Ti, o que eu quero dizer desta minha forma desajeitada é que tu, às vezes, sabes mais do que eu.

Pondo a mão direita por cima da cabeça de Tejal, sussurrou uma bênção hebraica.

Eu estava muito feliz, claro, mas ainda não conseguia imaginar como me ia deixar casar com uma rapariga não judia. Talvez tenha visto na minha face essa pergunta muda, porque, quando o deixei nesse mesmo dia, murmurou:

- Há alguns truques que ainda não aprendeste, meu filho. Por isso, por ora confia um pouco no teu velho pai.

Mal deixámos o meu pai, Tejal e eu voltámos para o jardim e começámos a ler o Lazarillo de Tormes. Ela não sabia espanhol suficientemente bem para o ler sozinha, por isso traduzi-o para concani. Fitando os seus olhos ávidos, voltei a sentir que éramos como viajantes que empreendiam uma viagem juntos, mas, desta vez, a história vinha também condimentada com a dependência dela para comigo. Mas como eu queria que ela precisasse de mim!

Nessa tarde morna debaixo do tamarindo, enquanto Lázaro - o herói do livro - contava as suas aventuras de servo moralmente dúbio de um fidalgo empobrecido e cego, começou a parecer que ele desde sempre fora fadado para acompanhar as nossas explorações no amor. Quando chegou a altura de a acompanhar de volta ao convento, Tejal pediu-me que guardasse o livro para ela, junto com as histórias populares, pois as freiras os confiscariam se os encontrassem. Antes de ela deixar a casa dos meus tios nesse dia, beijámo-nos como nunca nos tínhamos beijado, como se estivéssemos a tentar entrar dentro um do outro, e na escuridão por trás dos meus olhos vi-me num sítio que só vislumbrara nos meus sonhos mais espantosos.

A crescente intimidade da nossa correspondência serviu para nos dar, a Tejal e a mim, mais confiança um no outro quando nos encontrávamos na casa do meu tio, e agora até já dávamos as mãos em frente do meu pai, embora a primeira vez que o fizemos com ele a ver eu quase tenha desmaiado.

- Não tens de ficar atrapalhado à minha frente - disse-me mais tarde. - Sei que não fui assim muito mau como pai quando te vejo dar amor tão bem e tão livremente.

Pouco depois, o meu pai começou a fazer palhaçadas para ela à mesa do jantar em casa dos meus tios, a começar pela sua imitação de mim no mercado e a acabar pelo seu velho número favorito, uma rã na pantufa. Hoje, quando penso nesses dias de comunhão, nos meus sonhos ansiosos e nos nossos olhares cúmplices, parece-me que tudo isso está envolto nesse humor simples - como se o modo de ser do meu pai fosse uma espécie de metáfora para tudo o que agora seria possível para mim. No entanto, também consigo ver o que então nem sequer suspeitava - que não tinha uma verdadeira compreensão de quem era Tejal e do que ela precisava. Só pensava que tinha, porque estávamos iluminados de esperança. Erradamente, tomava esse halo de luz por conhecimento, e ela provavelmente também. Talvez fosse assim que devêssemos ser - pois, no fim de contas ela só tinha quinze anos, e eu dezoito. Estávamos a aventurar-nos a sair do mistério de nós próprios, agarrando-nos intuitivamente ao que podíamos.

A certa altura, o pensamento de que um dia poderia dormir lado a lado com ela na mesma cama começou com frequência a assaltar-me de noite. Comecei por consultar, sempre que o meu pai saía de casa, um exemplar bengali do Kama Sutra que ele pensava ter conseguido esconder de toda a gente. Sentado na cama, com uma cadeira encostada à pega da porta para me proteger de Nupi, que tinha o costume de entrar sem bater nem sequer chamar o meu nome, virava os desenhos para um lado e para o outro, para imaginar o que é que exactamente se exigia de mim.

Terminei o Lazarillo de Tormes sozinho e, embora a história me fizesse soltar sonoras gargalhadas, fiquei um pouco perturbado pela total ausência de Deus na narrativa. A vida acontecia, e muito dela eram coisas más, embora bastantes fossem cómicas e maravilhosas. E mais nada - não havia um padrão, um sentido, uma revelação. Quando transmiti ao meu pai as minhas conclusões, ele disse:

- Lê-o daqui a uns dez anos e talvez sintas outra coisa.

- Papá - respondi, irritado com o seu tom paternalista -, é muito improvável que as frases do livro se ordenem de outra maneira durante a próxima década.

Ele sorriu.

- É, mas tu, sim. E, da próxima vez que o leres, poderás achar que o Senhor não está tão ausente como pensas. De facto, podes vir a encontrá-Lo no lugar onde menos o esperas.

Nessa época, a vida poderia ter-me corrido boa e calma, mas Sofia e Wadi andavam cada vez mais ressentidos por terem de manter secreta a sua relação. Pouco depois, começaram a descarregar a frustração em mim.

- Os rapazes têm tudo - resmungava a minha irmã para mim, quando estávamos a trabalhar num Corão para o médico principal do sultão. - Quem me dera ter nascido rapaz.

- Se tivesses nascido rapaz, não estarias apaixonada por Wadi - respondi num murmúrio, visto não saber bem onde estava o meu pai e não desejar trair o segredo dela.

- Quem sabe, até podia estar - respondeu, sorrindo misteriosa.

Não percebia bem o que queria dizer com aquilo. Perguntei-lhe, e ela deitou-me a língua de fora, pegou na pena e na lupa, e fez de conta que eu não estava ali. Havia uma força silenciosa dentro dela que parecia apostada em ferir-me.

- Sofia, vou contigo falar com o papá, se quiseres - disse eu um pouco depois, no mesmo dia. - Dizemos-lhe o que sentes.

Encolheu os ombros como se isso não interessasse.

- Acho que consigo convencê-lo a aceitar o Wadi - acrescentei. - Ele anda tão feliz. Podia ser a altura certa.

- Ti, se há coisa de que não preciso é da tua ajuda - declarou.

Na realidade, não era verdade, visto que muitas vezes me pedia que mentisse ao nosso pai quando queria estar a sós com o Wadi - que lhe dissesse que estivera com eles numa feira ou no mercado. Sentia-me desonesto com o subterfúgio, mas não podia recusar.

Dada a natureza de ambos, vejo agora que Wadi e Sofia talvez preferissem levar uma vida dupla - e meter-me nisso contra a minha vontade. Talvez o fingimento lhes parecesse menos arriscado e, simultaneamente, mais excitante. E eu havia de aprender com o meu primo a não subestimar o prazer que ele tirava dos seus ardis.

Uma tarde de Fevereiro de 1591, o meu pai chamou-me à sua biblioteca. Pelos seus dentes cerrados, percebi logo que estava furioso. Reparei numa carta pousada em cima da secretária, com o selo de cera espatifado, como se tivesse sido esmagado por um murro.

- Aconteceu algo de mal? - perguntei.

- Bem se pode dizer. Descobri como apanhaste essa cicatriz na testa.

- Mas já te contei - o sogro da Nupi agrediu-me. Agitou a carta na minha direcção.

- Mas, convenientemente, esqueceste-te de me dizer que o provocaste. - O meu pai fitava-me fixamente, desafiando-me a desmenti-lo.

- Provoquei-o? Eu... eu não fiz nada.

- Tu e a Sofia fizeram de Ganesha na festa de Benali.

- Oh, isso - disse eu como quem não quer a coisa. - Não foi nada de especial, andámos por lá a distribuir flores com umas cabeças de elefante. Foi como andar a brincar com marionetas de sombras.

- Achavas que eu não ia descobrir? Julgas que sou algum tolo? - O meu pai bateu com o punho na secretária.

- E que não me pareceu muito importante - menti, mas num tom de desesperada convicção.

- Oh, portanto escondeste a verdade porque não era importante.

- Não, não é bem isso. Foi porque não queria que o senhor se zangasse comigo.

- Nunca te ocorreu que Madesh poderia não gostar que vocês monopolizassem as atenções da aldeia? Que isso só o levaria a pensar mais desesperadamente no filho e no neto que morreram?

- Não, é que...

- Não percebes que para ele andavas a ostentar a tua saúde e a tua felicidade?

- Se ele sentia isso, papá, lamento, mas os anciãos da aldeia pediram-nos que fizéssemos de Ganesha. Seria incorrecto desprezar a sua hospitalidade. A Tora ensina-nos que somos...

- A Tora! - fulminou, tremendo escandalizado. - E também te ensina a receber oferendas disfarçado de ídolo? A aceitar a hospitalidade quando significa renegar a tua religião?

- Não renegámos o judaísmo! E não éramos ídolos. Estávamos a representar um deus hindu para os aldeões. Eles sabiam quem estava dentro das cabeças de elefante. Papá, era simbólico. Não percebe?

- Ti, garanto-te que não preciso de lições tuas sobre o significado simbólico do ritual.

- Foi a Nupi que lhe contou o que se passou?

- Não, embora devesse ter contado. Foi o Isaac que me escreveu a contar.

Percebi então o que acontecera: a Sofia tinha confiado a Wadi todos os pormenores que eu escondera do pai, e ele deve ter deixado escapar alguma coisa junto do tio Isaac ou da tia Maria. Voltara a levar-me a melhor.

- Então, agora, o que quer que eu faça? - perguntei, na esperança de apanhar o castigo rapidamente.

- Vai buscar a Nupi e a tua irmã e trá-las cá.

- Não foi culpa delas. Não tiveram nada a ver com isso.

O meu pai sentou-se e juntou as mãos sobre o tampo da secretária numa tentativa de recuperar a compostura.

- Estás então a dizer que a Nupi não teve nada a ver com o que fez o sogro dela? - perguntou.

-É.

- Ti, ouviste o que eu disse? Vai já buscar a Nupi e a Sofia.

Fui dar com elas a pendurar a roupa por trás da casa. Quando lhes expliquei apressadamente o que acabara de se passar, a velha cozinheira pôs-se a fitar longamente o Oeste, na direcção de Benali, como se estivesse prestes a fugir da sua vida pela segunda vez. A Sofia, pressentindo essa possibilidade, agarrou-lhe o braço. Entrámos juntos no gabinete do nosso pai, sentindo-nos sucumbir.

Nupi lançou um olhar à sua cara ríspida e desatou a chorar, agarrando-se a Sofia com ambas as mãos ossudas como se estivesse a agarrar-se ao bordo do mundo, que lhe escapava. Ajudámo-la a sentar-se no cadeirão em frente da secretária do pai. Vendo a sua cara desfeita de infelicidade, senti-me furioso por ele ficar ali sentado de cenho franzido.

- Sofia - começou ele -, sei que és mais nova do que o teu irmão, mas sempre pensei que tivesses mais juízo e não andasses a brincar à idolatria.

- Perdão - respondeu, sorumbática.

- Nupi, confiei-te as duas crianças. E sabes o que acho das oferendas aos deuses. Porque fui ter de saber isto pelo meu irmão?

A velha cozinheira caiu de joelhos diante do meu pai, as mãos agarradas como quem reza.

- Por favor, não faças isso - pediu ele, erguendo-se.

As palavras dela tornaram-se soluços. O pai virou-lhe as costas e fez que estava à procura de um livro nas estantes enquanto Nupi rastejava até ele, prostrando-se no chão. Era uma cena de terrível crueldade. Sofia dobrou-se para tentar voltar a erguer Nupi do chão, mas a velha cozinheira afastou-a rudemente, e escondeu a cabeça nas mãos. Começou a chorar como se a alma lhe estivesse a escorrer para fora dela.

- Papá, por favor, faz alguma coisa - roguei. - Estás a ser um tirano. Ele voltou-se num repente, com a cara retorcida de desprezo.

- Estou cansado de ser enganado por vós... pelas três pessoas que mais amo neste mundo. Não percebem que é uma grande falta de respeito? E que pode envenenar tudo o que há de bom na nossa família?

- Não queríamos enganar-te - protestei. - Aconteceu.

- As coisas não acontecem sem mais nem menos. Escutaste alguma coisa do que te disse sobre os modos como Deus intervém nas nossas vidas? Ti, vai-te embora. Já! Quero falar com a tua irmã e a Nupi.

- Não - respondi. Sentia que o meu futuro como homem girava em torno deste momento.

- O que disseste tu?

- Posso ter feito coisas muito erradas, e posso ter sido irresponsável, mas não me vou embora enquanto não ajudar a Nupi a levantar-se e não lhe pedir perdão.

Ele inclinou-se na minha direcção, ameaçador.

- Faz o que eu te digo. Isto ainda é a minha casa.

- Não faço - respondi, num desafio. - A Nupi não fez nada de mal. Protegeu-me a mim e à Sofia, como sempre. A Sofia e eu aceitámos oferendas como ídolos e pode punir-nos por isso se quiser. Mas isso não lhe dá o direito de ser tão mau para a Nupi. Ela é hindu, acredita em Ganesha. Os aldeões também. Fizemo-los felizes. O que há de mal em fazer as pessoas felizes? - Estava agora a gritar, levado pelo desespero que sentia à minha volta, ciente de que estava também a lutar por Tejal e pelo meu amor por ela, pois ela também era hindu. - Está a faltar ao respeito aos deuses da Nupi e a tudo o que representam. A Tora não pode dizer isso.

Pela cara de horror dele, percebi logo que tinha ido longe de mais.

- Sai da minha casa! - gritou. A voz dele parecia que rasgava o ar entre nós. - E não ouses voltar até estares pronto a pedir desculpa.

- Foi aqui que nasci e esta casa também é minha - declarei para que ficasse registado. - E há-de ser sempre.

Dei meia volta e saí disparado do quarto. A Sofia veio a correr atrás de mim.

- Não vás - implorou. - Ele não queria dizer aquilo, Ti, mas tu não lhe deste outra solução. Tens de voltar e dizer que estás arrependido.

- Dizer isso era dizer outra mentira. E as mentiras, para mim, acabaram. Não precisava de acrescentar, Mesmo que seja por ti e pelo Wadi; pelo

sombrio gesto da cabeça dela vi que percebera a minha mensagem.

Ouvíamos a Nupi a gemer lá dentro. Parecia demonstrar como éramos débeis e sem poder.

- Não aguento isto - disse Sofia, puxando os cabelos. - Farei tudo para ela parar. Não sei como o papá pode aguentar.

- Precisavas de ir dizer tudo ao Wadi? - perguntei.

- Ti, nunca pensei que algo de mal pudesse acontecer. Foi um simples acidente.

Não, ele queria meter-me em sarilhos, e tu, se calhar, também, pensei.

A única conclusão a que cheguei enquanto chapinhava pelos campos de arroz em torno da nossa casa - maldizendo a lama e o cheiro a podre e tudo o resto - era que a minha amizade com Wadi se partira a meio naquele momento. Era o fim da nossa história comum.

Nunca me ocorrera que se pudesse sentir ternura e ódio por uma pessoa ao mesmo tempo, e agora via o que nunca quisera reconhecer: a minha fé no meu primo fora sempre mais importante que o meu afecto por ele, precisamente por ela ser o mais frágil dos sentimentos.

O meu pai recusou-se a erguer o olhar para mim quando, passadas duas horas, passei o limiar da porta da biblioteca, e comeu a ceia sozinho no quarto. Nupi estava sentada na cozinha dobrada sobre a sua mesa, de olhos vazios, os dedos a remexer nos pêlos encaracolados da barbela. Nessa noite, entrouxou os poucos pertences num saco de farinha, enfiando lá dentro as suas colheres de cozinha favoritas como se fossem adagas a apunhalar todas as suas mágoas. Pelo seu ar ausente, percebi que tinha o pensamento no marido e filho mortos. Disse que se iria às primeiras luzes da madrugada para a aldeia, mas Sofia e eu esvaziámos-lhe o saco e dissemos-lhe que nunca a deixaríamos ir embora. Levámo-la para a cama, sentámo-nos junto dela, vendo-a a chorar, e ficámos ali a maior parte da noite. À luz de uma única vela, a minha irmã olhou para mim com ternura pela primeira vez desde há semanas e fiquei-lhe grato por isso.

Nenhum de nós dormiu muito nessa noite. De manhã, o meu pai tinha profundas olheiras de tristeza. Eu ainda acreditava que devia ser ele a fazer as pazes, mas a intensidade da infelicidade cá dentro ia-me impelindo cada vez mais a pedir desculpa.

Nupi não se juntou a nós ao pequeno-almoço e ficou só na cozinha. Ninguém falou, até que eu disse:

- Papá, tenho pena de o ter ofendido, mas nunca mais lhe volto a mentir; por isso, não posso dizer que lamento o que lhe disse. Mas não queria magoá-lo. Não acho que alguma vez tenha querido. Acho que isto deve bastar.

Ele pôs-se a olhar para baixo, a ponderar as opções que se lhe abriam, mas a Sofia rebentou em lágrimas e abraçou-o como se fossem separar-se. O seu desespero espatifou a loucura que nos tinha envolvido. O nosso pai beijou-a.

- Não vêem vocês - disse-nos, desesperado - que não paro de me preocupar convosco? Não imaginam os pesadelos que tive em Bijapur. Agora, escutem com atenção... Têm de ter muito cuidado quando não estou convosco. Têm de pesar muito bem as coisas que fazem. E a Nupi também. Tenho de lhe exigir isso, mesmo que vos pareça cruel: é a minha responsabilidade como vosso pai. Devo isso à vossa mãe, quanto mais não seja.

Pouco depois, nessa mesma manhã, foi ter com Nupi ao seu jardim de manjericão e perguntou-lhe se podia ajudá-la a mondar. Lá ficaram acocorados lado a lado, e ele explicou-se calmamente: dentro em breve já estavam a falar do que se havia de fazer para a ceia. Quando ele começou a fazer palhaçadas para ela, o cansaço e o alívio da cozinheira fizeram com que desatasse a rir-se em gargalhadas estrondosas, com as mãos a tapar os olhos como uma menina.

Quando da visita seguinte de Wadi a nossa casa, pu-lo perante a sua traição. Ele estava com a Sofia no nosso jardim, a mostrar-lhe como se segura num arco, de pé por trás dela e com as mãos por cima das dela. Tinha espetado um boneco representando um mangusto numa barra de ferro a servir de alvo.

- Tinhas de ir dizer aos teus pais que fizemos de Ganesha na festa da aldeia? - perguntei-lhe.

- Não disse - respondeu, sem olhar para mim. Virou-se para a Sofia, e disse: - Alinha-o pelo mangusto. Mais alto... um bocadinho mais alto... assim!

- Então como é que ele soube?

- Não tenho a certeza. Talvez a minha mãe tenha ouvido a Sofia a contar-me.

Era óbvio que Wadi pensava ser isto um assunto muito pouco importante; puxou a corda para trás, preparando-se para deixar a seta voar. A minha irmã estava a morder os lábios, na expectativa.

- Ajudaste a trazer muita dor à nossa casa, especialmente a Nupi, coisa que acho muito difícil de perdoar - insisti. - Ao menos, podias dizer-nos que lamentas. E pedir desculpa a Nupi.

Ping... A seta disparou num ângulo demasiado baixo e foi cair a quinze palmos do alvo. Os risos deles soaram-me como uma bofetada. Sofia foi a correr buscar a flecha.

- Responde-me - avisei Wadi.

- O quê? - perguntou, erguendo as sobrancelhas de forma teatral, fingindo que não me ouvira.

- Quero saber porque fizeste isso.

- Já te disse que não fui eu.

- Ti, deixa-o em paz - disse Sofia, ameaçadora. Ao passar por mim, empurrou-me para o lado.

- Não me digas o que devo fazer - retorqui-lhe rispidamente. Franziu o sobrolho, condescendente.

- Vai estudar a Tora e deixa-nos em paz.

- Sofia, só te dou este conselho uma vez: não confies numa pessoa só por que a amas. - Olhei directamente para Wadi.

- Estás é com ciúmes! - gritou, quando me voltei para me ir embora.

- De Wadi? Ao que vejo, apontas tão mal que nunca hás-de atingir nenhum alvo.

- Não dele, de mim! Não gostas que Wadi me ame a mim e não a ti! Nunca gostaste disso. Sempre o quiseste para ti.

Parou tudo à minha volta. Os pensamentos não se formavam. Wadi ergueu o arco lentamente, e apontou uma seta aos meus olhos, com os dentes cerrados como se me fosse matar, mas, naquele momento, não me teria arredado um palmo, mesmo que a seta partisse.

Rodei nos calcanhares para me afastar, meditando se ela teria razão. Nunca me ocorrera antes que viver com ele fosse sequer concebível. Ficaríamos condenados para sempre se déssemos rédea solta - mesmo que uma só vez - ao nosso afecto? Era isso que eu queria?

Algo veio bater-me com força nas costas. Olhando para baixo, vi uma pedra cinzenta, e, pela forma perversa como Wadi e Sofia me sorriam, percebi que estavam contentes por me ter ferido, e que a sua paixão os havia de levar a fazer coisas ainda piores, se os deixasse.

- Nunca mais vou mentir ao papá sobre as vossas andanças - declarei-lhes. - Isto agora foi de mais.

Wadi imitou a minha forma de falar, o que interpretei como sendo o seu modo cruel de concordar que a nossa amizade morrera, e, pelo olhar altivo e impiedoso da Sofia, percebi que eu passara a ser seu inimigo.

Vendo apenas um impaciente desprezo por mim nos seus olhos, comecei a tremer. Seria que, por trás de todos os momentos de simples riso e afeição que partilhara com o meu primo, se escondiam os meus desejos vergonhosos?

Lutei contra as lágrimas enquanto estive com eles, mas não consegui evitar ir-me abaixo no meu quarto. Vou ter de ir para muito longe se contarem a alguém, pensei.

Passei o resto desse dia tão amargurado por uma sensação sombria de terror, que pensei que podia fugir e nunca voltar. Tinha a respiração como que constrangida por um desastre iminente, como se o chão estivesse prestes a abrir-se e engolir-me.

Nessas primeiras horas de ansiosa aflição, descobri que o passado de uma pessoa pode ser despedaçado por um único instante do presente. Nada do que vivera se parecia agora com o que tinha sonhado. Fora sempre erradamente apreciado pela minha irmã, por Wadi, e provavelmente por toda a gente.

Era isso que a tia Maria queria dizer quando me pôs um brinco na orelha e troçou de mim por querer tomar conta da minha irmã?

Negar que alguma vez tenha tido esses sentimentos pelo meu primo não me servia agora de nada, pois Wadi e Sofia acreditavam que sim e eram capazes de convencer até o meu pai. E eu, como podia eu desmenti-los, visto que não sabia até aonde poderia ter ido para reforçar ainda mais a nossa ligação? Dois rapazes que crescem juntos alguma vez saberão aonde os levará a sua intimidade e como acabará ela? Se disserem que sabem, se disserem que o pecado nunca foi ter com eles quando estavam sentados na margem de um rio a observar o pôr do Sol ou corriam por uma floresta à chuva, então acho que não viveram algo que se parecesse com a vida que eu vivi.

Acordei sobressaltado bem depois da meia-noite. Alguém acabara de se sentar aos pés da minha cama. Tinha as portadas fechadas e o quarto estava negro.

- Papá? - perguntei eu à forma escura, sentando-me em pânico.

- Sou eu - disse Wadi.

- Que estás aí a fazer?

- Estava só a pensar se havia de te estrangular durante o sono. - Falava num tom frio e decidido, como quem está a andar na corda bamba por cima de qualquer emoção que possa sentir.

Antes que eu pudesse lançar os pés para o lado da cama, as mãos dele cingiram-me o pescoço. Tentei afastá-las, mas ele prendia-me com força. Resisti-lhe, mas não conseguia respirar.

Então, libertou-me com uma gargalhada seca, trocista. Caí ao chão, ofegante, num desespero para encher os pulmões. Levantou-se, saiu do quarto e fechou devagar a porta.

 

A POSSIBILIDADE de o meu pai vir a descobrir a acusação de Sofia e Wadi contra mim ergueu uma barreira invisível entre ele e eu. Às vezes ele perguntava-me o que se passava, mas eu mentia sempre. Não seria capaz de arcar com a sua vergonha juntamente com a minha. Passado um tempo, para explicar os meus modos esquivos, inventei dores de barriga, para as quais a Nupi passava o tempo a fazer-me chá de gengibre.

Podia ter implorado a Wadi e Sofia que não revelassem nada, mas suspeitava de que as minhas súplicas apenas acicatassem novas crueldades. A minha fraqueza confirmar-lhes-á que têm razão, e deitará por terra qualquer hipótese que ainda possa ter de felicidade com Tejal.

Por isso, comecei a evitá-los a ambos, esgueirando-me como um caranguejo sempre que ouvia os seus passos a aproximar-se. Nos meses seguintes, Sofia e eu nunca falámos uma só vez como irmão e irmã.

Claro, não parava de pensar nas aventuras de rapaz que tivera com Wadi, mas a retrospecção é uma mentirosa nata. Como podia estar certo dos meus sentimentos passados, se estavam velados por anos de distância e por todas as experiências que tivera desde então? Só via uma coisa com clareza: os segredos e a dissimulação que Wadi e eu teríamos tido de empregar por forma a ocultar qualquer laço físico entre nós ter-me-iam desfeito. Eu nunca lhe teria dado voluntariamente os meios de provocar a minha destruição - e causar tanta vergonha ao meu pai. Por isso, teria tido de me forçar.

Teria ele alguma vez pensado em vergar-me à sua vontade quando estávamos sozinhos no Riacho do Moinho? Seria então esse o perigo como que animal que por vezes pressentia nele?

A que ponto teríamos estado perto de viver uma vida dupla?

No centro desse mundo de pecado e dúvida que crescia sem parar à minha volta estava uma única recordação: Wadi a lançar-me um sorriso lúbrico e a levar a mão ao sexo, da primeira vez que me falou de Sara. Dissera-me que não tivesse ciúmes. Não percebera que ele queria dizer de Sara - tal como, a princípio, não percebera a acusação de Sofia. O nexo não podia ser acidental. Talvez Wadi durante anos me tenha lançado sinais de que queria que a nossa relação seguisse um caminho muito diferente.

Será que Sofia suspeitava ainda que a sua acusação de ciúme devia ser-lhe lançada a ele e não a mim?

Como deve ter ficado frustrado por eu não ter compreendido os seus desejos, embora talvez acreditasse que eu os pressentia muito facilmente e o repelia de propósito. Se assim era, então deve ter convencido Sofia a acusar-me para se vingar. Wadi não precisara de disparar uma seta contra mim naquele dia no jardim: a Sofia fizera-o por ele. E tinha muito boa pontaria, afinal de contas.

Ou estava eu agora a inventar as suas motivações por forma a poder compreender uma traição definitiva que não conseguia explicar doutra forma, de maneira a escrever o final da nossa amizade como uma história em que eu fosse a vítima? Será que a índole de Wadi ainda me escapava completamente?

Um dia, em finais de Março, o meu pai chamou-me ao seu gabinete para me dizer como o preocupava o grau de desagregação da minha relação com Sofia, mas eu não podia sequer começar a explicar o que se passara entre nós sem lhe revelar a natureza dos sentimentos dela por Wadi. O meu medo do que ela poderia fazer-me explicava certamente grande parte do meu silêncio, mas eu também queria mostrar-lhe que o irmão que ela perseguia ainda lhe era moralmente superior.

- Estamos a ficar mais velhos e a afastar-nos um do outro - foi tudo o que disse, o que era bem verdade. - Mas acho que acabaremos por voltar a aproximar-nos.

Com olhar resignado, aceitou a minha resposta, na qual - nessa altura - eu próprio acreditava em parte, visto não me passar pela cabeça que todos os nossos anos de afecto viessem a dar em nada. De facto, ao pronunciar a minha predição, pensava que Wadi em breve haveria fatalmente de revelar um segredo dela, ou praticar outra qualquer traição, forçando-a a acordar por fim dos seus devaneios românticos. Parecia o único desfecho possível de qualquer amizade com ele.

Só esperava que não ficasse muito magoada pelo meu primo, em parte porque sem dúvida teria de ser eu a tomar conta dela nos meses de solidão que se seguiriam.

Quando ia a chegar à porta, o meu pai deteve a minha mão. Invadiu-me o pânico: senti que ia perguntar-me agora o que acontecera entre mim e Wadi.

- Ti, não queria ter de falar de certas coisas contigo, mas agora que a tua relação com a tua irmã se deteriorou... A que ponto a Sofia ama o vosso primo?

- Há quanto tempo sabe disso entre eles? - perguntei, aliviado por não ter de falar de mim.

- Desde a altura em que Sofia pediu para ficar em Goa durante algumas semanas. Mas só tive a certeza quando começaste a viver a sério a tua vida - sem te preocupares tanto com ela.

- Ela ama-o muito - disse eu.

Tanto, que se deixou convencer de que tinha de escolher entre nós, apetecia-me acrescentar.

- E ele ama-a a ela?

- Acho que sim. - A não ser que, pensei, se tenha metido com ela só pelo prazer de destruir a harmonia da nossa família.

- Vou ter de ter uma conversa a sério com o Isaac sobre o assunto dentro em pouco - respondeu-me, soltando um grande suspiro.

- Talvez não.

- Porquê?

- Tenho as minhas dúvidas de que aquilo dure.

- Continua.

Não podia falar das traições do Wadi sem o condenar aos olhos do meu pai - e arriscar-me a que o meu primo se vingasse de mim. Por isso, limitei-me a apontar como se cansara de Sara tão depressa.

- Achas que será bom que deixe de gostar da Sofia? - perguntou.

- Nem bom nem mau - respondi, sentindo que todas as coisas importantes da vida estavam fora do nosso controlo. - Só que é isso que vai acontecer.

 

Tejal conseguiu obter autorização para nos visitar durante as férias da Páscoa porque Nupi era tia-avó dela e prometera aos pais que tomaria conta da rapariga.

Uma noite, já todos tinham ido dormir, fomos sentar-nos os dois no alpendre. Era uma dessas noites perfeitas que a índia tece com o sussurro de uma brisa, com cada estrela no seu lugar e todos os sons da floresta a parecer que vêm de uma idade há muito ida. No entanto, eu não estava descansado. Sentia que o Senhor do Velho Testamento poderia aparecer a qualquer momento e forçar-me a lutar com o Wadi para reconquistar a minha identidade.

Não tinha coragem para explicar a Tejal porque já não estava de boas relações com o meu primo e a minha irmã - e porque me mantivera tão calado durante a visita dela. Uma parede - feita do meu profundo medo de ser rejeitado por ela - erguera-se entre nós.

Estava a observá-la a ler os contos populares do meu pai, sentindo o reconfortante peso da sua cabeça no meu ombro, quando a Lua, libertando-se de uma nuvem, lhe iluminou a face e o cabelo, dando-me a estranha impressão de que era talvez um ser eterno - e ficaria comigo apenas por um curtíssimo período, a não ser que eu tivesse um acto decisivo. Foi um desses momentos em que acreditamos em revelações e na fortuna. Senti que estávamos destinados a casar-nos e que ela me daria uma força invencível se o fizéssemos. Depois disso, o meu espírito desatou a soltar-se em fantasias, na sua maioria tolas, mas numa delas percebi que, se declarássemos o nosso noivado, resolveríamos todos os meus problemas. Nessa altura poderia ridicularizar quaisquer acusações de desejos vergonhosos. O nosso amor fazia desta a solução ideal. Se ao menos conseguisse convencer o meu pai que uma rapariga hindu podia ser minha noiva.

- Quero casar contigo - disse eu.

Ter-me-ia transformado num ser de estratégias cautelosas quando disse estas palavras ou simplesmente nunca antes vira as minhas tácticas tão claramente?

- Que disseste? - perguntou Tejal, levantando-se, com o alarme estampado no rosto.

- Suponho que precisaríamos talvez de um ano mais ou menos para preparar tudo. Vou ter de falar aos teus pais, embora não faça ideia do que esperarão de mim. E havemos de arranjar maneira de convencer o papá de que...

A expressão retorceu-se-lhe de angústia e deixou cair o manuscrito.

- Que se passa? Pensei que ficavas contente...

- Oh, Ti, não posso deixar a escola do convento só porque tu queres. Toda a aldeia contribuiu para a minha educação. Estão a contar comigo. É impossível - tão impossível que nem posso pensar como te hei-de responder.

Inclinei-me para apanhar os seus contos populares. - Mas quero que acabes os teus estudos e vás trabalhar para o Real Hospital. Eu mudo-me para Goa. Tenho a certeza de que o meu tio me emprega.

- Ti, o meu pai é um simples pescador. Não temos nada de valor. Se encontrasses uma rapariga brâmane, tu...

- Estás a querer insultar-me? - interrompi. Falei num tom mais ríspido do que era necessário; queria provar que não estava a esconder quaisquer outros motivos.

- Insultar-te? - perguntou desesperada.

- Ao insinuares que quero uma noiva brâmane. Por mim, fico contente por o teu pai e a tua mãe serem de Benali. Adoro a terra.

- É verdade?

- Lembra-te de que fiz de Ganesha! Tudo pode acontecer na vossa aldeia.

Rodeou-me com os braços. Na minha ingenuidade, não percebera como a diferença entre os nossos dois meios não paravam de a atormentar desde que nos conhecêramos. Naquele momento, o sistema das castas parecia-me mais cruel do que nunca. Era como se simbolizasse todas as armadilhas que o mundo nos prepara.

Libertando-se dos beijos com que queria tranquilizá-la, ergueu-se de um salto e anunciou que queria um casamento à beira-mar - só com os nossos parentes e amigos chegados. Insisti contudo em fazer uma grande festa - com tocadores de sitar e tabla, bailarinos de Kerala, e tantas flores que havíamos de atrair nuvens de abelhas e beija-flores.

Será útil anunciar o nosso amor tão alto quanto possível, pensei, e senti que a minha estratégia - como a roda do moinho - estava a dar a sua primeira reviravolta.

Mordeu a unha do polegar, com receio de concordar. - Achas que podemos? - perguntou, ajoelhando-se a meu lado.

Deliciavam-me os seus gestos, tão graciosos e infantis ao mesmo tempo. Senti tonturas por uma rapariga como ela me querer e pus os meus lábios nos dela, prendendo-lhe a cara nas minhas mãos. Foi um beijo de desejos abertamente declarados e, passados uns momentos, ela afastou-me.

- Ti, não - protestou. Pôs-se de pé num salto, zangada, alisando o sari como se tivesse ficado conspurcado.

- É mau querer estar com alguém que amamos? - perguntei. Levantei-me, e mostrei-lhe o que queria dizer erguendo um folho do meu dotim.

- Ti, pára! - Desviou o olhar. - Isso não parece teu. Se o meu pai soubesse...

Soltei uma pequena gargalhada para desvalorizar o que fizera e voltei a compor-me.

- Já podes voltar-te - disse. - Olha, já está tudo em ordem!

Rodei as mãos como um faquir a escamotear o rato, mas Tejal não sorriu. Na verdade, parecia à beira das lágrimas.

- Os aldeões hão-de estar à espera de um grande casamento, pois contribuíram para a tua educação - argumentei, desejoso de mudar de assunto. - Não gostaria de os desiludir.

Pôs-se a olhar para mim sem responder, com uma cara adulta e séria. Depois, estendeu a mão e veio tocar a tensa marca do meu sexo na roupa.

Soltei um pequeno gemido. Quando ela fechou os dedos, senti-me todo a esvaziar para ela. Dei um passo na sua direcção. Senti-lhe a respiração morna no peito.

- Não tenhas medo - disse. - Prometo que nunca te magoarei. Senti que, com essa jura, estava a reconquistar-me a mim próprio. Beijei-lhe ambas as faces e levei a língua jubilosa aos seus ouvidos, o que a fez estremecer.

- Amo-te - sussurrei -, por isso, não tenhas medo.

Ela meteu a mão no meu dotim e correu-a lentamente num vaivém, como que a testar o comprimento e a largura do seu querer. Suspeito que estava também a confirmar se podia apoderar-se de mim por meio de um gesto tão simples; um triunfo obscuro veio iluminar-lhe lentamente os olhos.

Imaginando a sua quente humidade, o meu coração parecia despenhar-se. Quando afastou a mão, apertei-me insistente contra a anca dela.

- Mais não, Ti - disse ela suavemente.

Escapou-se ao meu abraço e sentou-se. Estendeu a mão para a minha, e eu dei-lha. Levou-a aos lábios e, a seguir, sorrindo enigmática, mergulhou os olhos nos seus pensamentos como se me tivesse esquecido. Não sabia que fazer.

- Talvez possamos fazer com que a Sofia e o Arjuna representem Ganesha como na festa - disse ela, voltando-se para mim com olhar esperançoso.

Beijei-lhe os lábios, mas desta vez suavemente.

Provaste o que tinhas, a provar, pensava eu, não te arrisques pois a atemorizá-la. ..

- Acho que ninguém pode fazer de Ganesha no nosso casamento - disse eu.

- Porquê? - perguntou, fechando a minha mão entre as dela, gesto que fazia quando não sabia bem como se comportar.

- Ambos sabemos que o papá te adora, mas tu és hindu.

- Não posso acreditar que isso o incomode tanto.

- Pela lei mosaica, os filhos de uma mulher hindu não podem ser judeus, mesmo que o pai seja. O papá vai querer que te convertas. Como a minha mãe fez.

Ficámos a falar por uns momentos no que isso implicava, e Tejal disse que achava que não poderia jurar que só havia um Deus, o que é o primeiro de todas as mitzvot -mandamentos - do judaísmo.

- Hanuman sempre me protegeu, Ti. Não acho certo renegá-lo em favor de outro deus. - Vendo a minha cara desamparada, acariciou-me as faces. - Não te preocupes, vou ter uma grande conversa com o teu pai sobre nós - disse numa voz que parecia mais segura do que nunca. - Sei que posso convencê-lo a ajudar-nos.

Que lhe dava tal confiança? Talvez estivesse à espera de que lhe pedisse que casasse comigo desde aquela tarde em Benali.

Mordendo o lábio, como se estivesse a elevar-se à altura de um desafio interior, meteu a mão no meu dotim e voltou a brincar comigo. - Se o teu pai vive com Shiva a guardar-lhe a entrada - murmurou conspiratória, debruçando-se para o meu ouvido como se estivéssemos a falar de amores proibidos e não de um deus poderoso -, é porque está mais disposto do que tu pensas a fazer compromissos com uma rapariga hindu.

Agarrou-me a virilidade e fê-la dançar na mão como se estivesse a ensaiar-lhe o peso.

Está a habituar-se a sentir-me, pensei, sabendo que isso era o que eu queria há muitos anos.

Na manhã seguinte, Tejal disse ao meu pai que desejava falar com ele antes de eu começar as minhas lições. Ele concordou, e acompanhei os dois até à biblioteca, mas, aí, ela pôs-me a mão no peito e abanou a cabeça: - Não, Ti, deixa-nos sós por uns momentos.

Quando a porta se fechou atrás deles, pensei: Vai ter de ser muito ágil para se escapar às armadilhas dele.

Ajoelhei-me com o ouvido no buraco da fechadura, mas passados poucos momentos a porta abriu-se de par em par. O meu pai sorria triunfante, com as mãos nas ancas, inclinado para trás como um paxá.

- Perdeu alguma coisa no chão, moço? - perguntou. Ouvi as gargalhadas de Tejal por trás dele.

- Muito bem, vou-me embora - disse eu, abatido. - Mas, por favor, ouça o que ela quer dizer. E lembre-se de que não é obrigado a pôr-se a magicar em todas as possíveis objecções.

Quando me voltei para me ir embora, vi Nupi a espreitar para nós de uma janela da sala de estar. Viu o pedido nos meus olhos e fez-me um sinal com a mão.

- As negociações com Tejal começarão quando vir que foste lá para fora, para o jardim - bramiu o meu pai. - E não te dês ao cuidado de pedir à Nupi que venha cá espiar-nos por tua conta - acrescentou, em voz alta para ela ouvir. Ergueu o nariz no ar como um cachorro contente. - Eu consigo farejar os grãos de funcho à légua.

Meia hora mais tarde, Tejal saiu para o jardim, de olhar abatido e passo inseguro. Estendi os braços para me segurar, mas só encontrei ar.

- Oh, Ti, não é nada. Estava só a fingir. Às vezes sou muito tonta! - Abraçou-me com tanta força - apertando a cabeça contra o meu peito nu -, que parecia que queria entrar dentro de mim. - Desculpa, desculpa! Tens de me perdoar.

- Não percebo - disse eu, inspirando o seu cheiro tranquilizante.

- O teu pai e eu pensámos que seria ainda melhor para ti se começássemos por dar a entender que as coisas tinham corrido mal. Mas quando te vi ficar tão pálido, não consegui continuar com isso.

- Então não correram? - perguntei, sentindo pela primeira vez que os instintos cómicos do meu pai e os talentos de actriz da Tejal iam tornar-se uma perigosa combinação para mim.

- Não, o teu pai e eu acertámos tudo. Ele vai dar-me lições de judaísmo e vamos ler a Tora juntos. Se, depois disso, eu continuar a escolher não me converter, não fico obrigada.

- Ele aceitou acatar qualquer decisão que tomares? - perguntei incrédulo.

Tejal fez que sim, e o alívio espalhou-se em mim como um oceano de calor; Wadi e Sofia já não teriam qualquer poder sobre mim. Através de Tejal e do meu pai, Deus aceitara as minhas preces. Agora ia tudo correr bem.

- O teu pai também me contou uma coisa sobre o Lazarillo de Tormes

- disse Tejal, apartando-se um pouco de mim e sorrindo como uma criança.

- Diz que o herói do livro é Hanuman!

- Tejal, não percebo nada do que estás a dizer.

- Não é só na tradição hindu que há um deus que prega partidas - disse enfaticamente. - Esse é o segredo do livro, disse-me. Lazarillo é um trapaceiro. Se decidir converter-me, ser-me-á permitido acreditar que Hanuman é uma parte do Senhor. Na realidade, terei de acreditar nisso!

Puxou-me para o alpendre para poder explicar-se connosco sentados.

- O teu pai disse-me que todas as aves e árvores e serpentes que vemos, e tudo o que sentimos ou até sonhamos... tudo é um reflexo de Deus. Devi e Lakshmi e até Vishnu são aspectos do Senhor da Tora. As suas diferentes formas chamam-se sephirot no judaísmo, disse ele. O Criador que apareceu a Moisés tem asas e uma cabeça de elefante e uma papaia na cauda e tudo o mais que possamos imaginar. Por isso, posso continuar a acreditar que Hanuman me protege. Na realidade, o teu pai disse que é um segredo, mas Hanuman ajuda a proteger cada um de nós desde o momento em que nascemos e mesmo antes disso. Porque todos temos um trapaceiro cá dentro. E é bom que o tenhamos!

Percebi então o que o meu pai quisera dizer com aquilo de Deus estar no lugar mais evidente no livro.

- Ele nunca me disse nada assim parecido - comentei, um pouco ressentido.

- Talvez to diga quando fores suficientemente crescido para perceberes - disse ela, rindo.

Nesse momento ocorreu-me uma coisa tão espantosa que me recordo de ter sentido que Tejal e eu estávamos a ser observados pelas árvores e as matas, pelo céu azul e pelo horizonte distante: de repente, compreendi que o meu pai se devia ter apercebido das ameaças de Wadi e Sofia contra mim. Ele tinha mais poder de observação do que eu alguma vez imaginara e estava a dizer-me que combatesse as traições deles com igual esperteza. Foi por isso que nos deu o Lazarillo.

Nesse momento, a janela da biblioteca abriu-se com um rangido e ele pôs-se a olhar para os céus, a cabeça inclinada como se o destino o esmagasse. Claro, aquilo era para nos divertirmos, e, nos meses seguintes, havia de vir a ser mais um dos seus números cómicos.

- Que o Senhor me perdoe - disse, a voz a tremer de medo fingido -, mas não consigo recusar nada a essa rapariga.

Eu tinha a certeza de que, a partir de agora, tudo ia correr bem e a contento, mas o acordo do nosso pai com Tejal veio alimentar ainda mais o ressentimento de Sofia. Uma manhã, depois de Tejal voltar a Goa, tinha eu ido cortar o cabelo a Ramnath, a minha irmã entrou de rompante no quarto do nosso pai quando ele se estava a vestir e declarou que não aguentava mais.

Vendo o peso da perturbação nos olhos da filha, ele deu a volta à cama e foi ao seu encontro para lhe acariciar a face, mas ela não o deixou tocar-lhe.

- Não aguentas mais o quê? - perguntou.

Recuando como se a sua vida dependesse da distância, hirta como um soldado, ela anunciou:

- Estou apaixonada por Wadi e pretendo casar com ele. - A seguir, voltou as costas ao pai e saiu a correr do quarto.

Isto foi-me contado mais tarde pela Nupi.

O nosso pai seguiu-a e foi encontrá-la a soluçar, de cabeça nas almofadas, transbordando meses de amarga frustração. Gemia que se sentia como uma leprosa na sua própria casa.

- Sofia, parte-se-me o coração de te ver assim - disse-lhe o nosso pai.

- Então... então posso casar com ele? - perguntou esperançosa, erguendo-se e enxugando a face enrubescida com o lenço da mãe.

- Estou contente por estares apaixonada, mas não te vou mentir... não acredito que Wadi seja o homem certo para ti.

- Só porque é cristão?

- Se fosse só isso ...

- Então o quê? Papá, por favor, não pode ser outra coisa. Não pode ser! Ele explicou que o Wadi era demasiado parecido com a tia Maria para o gosto dele e que sempre soubera que o meu primo me traíra muitas vezes quando éramos rapazes. Disse a Sofia que teria intervindo nessa altura, se não achasse que certas coisas deviam ser as crianças a resolvê-las sozinhas.

- Acho que Wadi é inteligente e fervoroso, e capaz de actos de bondade maravilhosos, mas não é de confiança - concluiu. - Vive a vida por trás de uma cortina. Receio que acabe por te fazer mal. Admito, também, que sempre quis que casasses com um judeu, e a tia Maria nunca deixará que ele se converta.

Preparou-se para outra enxurrada de lágrimas, mas, em vez disso, o corpo da minha irmã retesou-se e os olhos escancararam-se-lhe, como sempre que ela se preparava para uma luta.

- Papá, Wadi tem de ser amigo do Ti para eu poder casar com ele?

É isso?

Ele sentou-se na borda da cama e afagou-lhe os pés, na esperança de evitar uma discussão que só terminaria com uma troca de palavras duras. - Claro que não. Não é isso que estava a dizer. Isto não tem nada a ver com o Ti.

- A culpa também é dele, sabe? O Ti está sempre a querer coisas das pessoas - coisas que não lhe podem dar. Ou que não lhe devem dar.

O pai recuou a cabeça num sobressalto surpreso.

- O que é que isso quer dizer?

Sofia descarregou as suas acusações contra mim naquela voz de menina pequena com que costumava arrancar concessões do pai e de mim.

- Ele sempre exigiu ao Wadi que fosse diferente do que é - e a mim também. Acho até que está apaixonado pelo Wadi. Ele agora odeia o Wadi por me ter escolhido em vez dele!

O nosso pai ergueu-se e afastou o olhar como se estivesse a escutar duas vozes ao mesmo tempo - a minha e a da minha irmã, talvez. Por fim, disse:

- Sofia, achas que não conheço o coração do meu filho? Eu sei o que ele sente pelo Wadi, e estou muito mais a par do que tu nunca estarás daquilo que os rapazes por vezes fazem uns com os outros antes de se tornarem homens. Mas agora o Ti não está apaixonado pelo primo. Se achas isso, estás errada. - Dirigiu-se para a porta. - Devo dizer-te - acrescentou friamente - que nunca esperei que sentisses tanto desprezo pelos sentimentos do teu irmão.

Quando Nupi me contou estas coisas, puxou-me para baixo até si e sussurrou-me ao ouvido um dos seus provérbios: «O céu abraça a Lua seja qual for a forma que ela toma.»

Para que não me restassem dúvidas sobre o que queria dizer exactamente, beijou-me na face e disse:

- Seja qual for a forma que tu tens ou venhas a ter.

- Mas, e eu, papá? - perguntou Sofia ao pai, e a dor na sua voz implorava-lhe que reconsiderasse.

- O tempo nos dirá o que Wadi realmente sente por ti - respondeu. - Vamos falar nisto outra vez daqui a um ano. Se ainda estiveres apaixonada por ele, e ele por ti, terei todo o prazer em reconsiderar.

- Não gostas de mim, nunca gostaste! - gritou ela. - Não da mesma maneira como gostas do Ti.

Ao ouvir isto, ele engoliu o terror que sempre tivera - o de não estar à altura de ajudar a sua filha nos seus tempos mais difíceis e que devia ter sido ele, e não a mãe, a morrer.

 

Regressado da audiência com o Inquisidor, fiquei aliviado púr ver que Phanishwar se fora da cela; amaldiçoei-o como um traidor que cumprira as ordens secretas dos meus carcereiros. O velho fora escolhido sem dúvida alguma pelos seus talentos de contador de histórias e pela sua afabilidade, qualidades que constituíam boas armas naquilo que agora me parecia uma conspiração em toda a linha contra mim; todos os que cruzara estavam metidos nesta conspiração e o seu desprezo por mim tornara-se na pedra e no ferro da minha prisão.

Agora, passadas décadas, posso ver como me foi útil acreditar nesta fantasia, pois a raiva mantinha o desespero à distância. Passados alguns meses, porém, a lima lenta do tempo começou a desbastar a minha fé absurda em inimigos ocultos a espreitar em cada canto do meu passado, e o calor sem vento infiltrou em cada respiração minha uma dolorosa solidão. Tivesse o jaina traído ou não, esperava que tivesse voltado são e salvo à sua aldeia. Não se tratava de generosidade minha; era que eu sabia que, no seu lugar, teria feito o mesmo.

Muitas vezes nos meses que se seguiram, deitado no escuro, havia de o ouvir a falar-me outra vez do seu filho mais novo, Rama. Por uma alquimia do espírito que não consigo explicar, a esperança e a coragem da sua voz vieram a significar que os nossos destinos nunca poderiam separar-se - acontecesse o que me acontecesse de agora em diante. Uma manhã, reuni coragem para perguntar ao Analfabeto o que acontecera ao meu velho companheiro de cela.

- Oh, foi enterrado já há uns meses! - replicou o guarda em tom insolente, como se eu devesse estar a par. Passou a mão na garganta como a degolar alguém e sorriu, mas quem pode confiar na palavra de um bêbado que adora guardar homens em jaulas?

A canção de Rama que cantei para os aldeões de Benali... Os sangradores de coqueiros, nus, tisnados do sol saudando-me a mim e à Sofia em altas vozes... Os lábios da minha mãe moldando o meu nome pela última vez... O meu pai entregando-me o dreidl que talhara para mim...

Rebusquei milhares de recordações para tentar perceber como pudera ir parar ali quando tudo o que eu sabia estava lá fora, mas até as ideias mais simples se me tornavam impossíveis de imaginar. O dentro e o fora, a falsidade e a verdade, a compaixão e a crueldade - tudo isso eram tintas que se tinham misturado nos recessos do meu espírito e agora nunca mais se poderiam separar completamente. Não parava de pensar na charada do Inquisidor, mas sabia que nunca haveria de descobrir a resposta; de momento, acreditava que as coisas que mais queria sempre me seriam negadas.

Por vezes imaginava a minha mãe debaixo do catre, do tamanho de uma boneca, deitada de olhos fechados. Parecia estar à espera. Mas de quê? Nos anos que se seguiram, falei com muitos outros condenados a longas penas e aprendi que, por uns tempos, todos perdemos o raciocínio. Começamos a acreditar que estamos a ouvir os pensamentos de amores distantes ou a falar com animais. Talvez a loucura seja a última protecção do espírito contra o suicídio.

Ou talvez a loucura não tenha qualquer intuito. E nada tenha intuito. A vida é feita apenas de pedra e ferro e cordas.

E, no entanto, as revelações vêm ter connosco...

Numa manhã especialmente quente, estava eu deitado na cela a resvalar para o sono, descobri por que é que o Inquisidor me falara nas seiscentas e treze obrigações que todos os judeus têm de cumprir - as mitzvot. Na manhã seguinte, contei ao Analfabeto que estava pronto para admitir tudo. - Eu revelo o nome das testemunhas contra mim - disse eu, custando-me a engolir a minha traição, mas sabendo que era a única forma de vir a ser livre.

Pelas minhas contas, estávamos quase no fim de Outubro de 1593. Estava na prisão há vinte e três meses.

Uma vez, o guarda dissera-me que, geralmente, os autos-de-fé dos prisioneiros que iriam ser queimados em público ou libertados pelo Santo Ofício se realizavam uma vez por ano, no primeiro domingo do Advento, que eu sabia ser cerca de um mês antes do Natal. Se o Analfabeto não transmitisse a minha mensagem depressa, eu iria passar o terceiro ano na cela.

Passaram três semanas e dois dias, e pus-me a rezar pela ajuda do Senhor da Tora e de Parsva, cuja estátua imaginária colocara à cabeceira da cama, como santo protector contra tudo o que viera da Europa para a minha pátria. Foi durante esse tempo que comecei a pensar em mim como indiano e não português. Espantava-me ter demorado tanto tempo a ver essa verdade. Os olhos azuis não fazem de ti um deles, murmurava para mim próprio na voz de Phanishwar.

Ao pequeno-almoço do vigésimo quarto dia, que eu contava com grãos de arroz guardados como votos secretos debaixo da enxerga, o guarda veio à minha cela e levou-me à grande sala, onde, mais uma vez, me mandaram sentar junto do Padre Tomás Pinto, o Grande Inquisidor.

- Disseram-me que tens uma confissão a fazer - disse este, recostando-se na cadeira e cruzando os braços no peito, céptico. -Já resolveste a charada?

- Não - disse eu. - Mas agora sei porque me falou das mitzvot.

- Sabes? - disse com um sorriso divertido. - Suponho que, nestas circunstâncias, podemos considerar isso um bom começo.

Descobri que queria agradar-lhe - como um menino de escola sentado diante do seu senhor e mestre. Era capaz de me pôr a fazer malabarismos com pedras para ele, ou a declamar poesia antiga - ou rasgar os pulsos outra vez e dar-lhe a minha morte de presente. No fim de contas, que melhor prenda poderia haver do que o sangue, para um padre que quer possuir as almas das suas vítimas?

Sentado diante de um ser humano que possuía poder de vida e morte sobre mim, descobri o grande alívio que é uma pessoa render-se - deixar que a rebaixem se for só isso o que lhe resta.

- Um dia - comecei eu, debitando cautelosamente as palavras que praticara -, quando estávamos em Goa, a minha tia pediu-nos que a acompanhássemos a casa de uma amiga que acabara de dar à luz gémeos...

Prossegui, explicando que o meu pai se recusara a beijar a estatueta da Virgem Maria da jovem mãe, e que eu também me afastara dela.

- Não respeitámos a mãe do Nosso Senhor - concluí. - Não foi o que fizemos, foi o que não fizemos. Caímos em erro por omissão - o mesmo tipo de erro que os judeus podem fazer quando não cumprem uma mitzvah.

Parece patético admiti-lo agora, mas estava tão ufano da minha esperteza que sorri como uma criança.

- E quem assistiu a esse crime? - perguntou o Inquisidor.

- A minha tia e o médico da jovem mãe. E os dois criados indianos dela. - Para os proteger da perseguição, acrescentei: - A tia Maria ficou furiosa e mais tarde teve uma discussão muito dura com o meu pai. E beijou a estatueta, claro - ao entrar no quarto e ao sair. Os criados indianos também.

A minha irmã também estava lá; rezei para que o meu inquiridor não o soubesse.

- E foi a única vez que não mostraste respeito por nosso Senhor?

- Não, houve muitas outras. - Como quem escava tesouros há muito enterrados, disse-lhe que passáramos diante da catedral dezenas de vezes sem sequer entrar para rezar, e nos recusáramos a agradecer ao Senhor as nossas refeições quando os meus tios o faziam. - Até declinámos dizer «se Deus quiser» ao falar do futuro nas conversas do dia-a-dia - expliquei.

Testemunhei contra mim próprio por mais de uma hora. A minha traição a mim próprio entrou num ritmo inebriante, como uma dança frenética sobre um túmulo. Tinha a esperança de me tornar no judeu mais desprezível que ele alguma vez tivesse perseguido, ganhando-lhe assim os favores. Enterra-te o mais que puderes, não parava de pensar.

Quando a minha garganta ficou tão seca que já não conseguia falar claramente, o secretário encheu-me um copo de água.

- E então a tua afronta contra o bispo? - perguntou o Inquisidor enquanto eu engolia uns golos.

- Não... não me lembro sequer de lhe ter falado. Mas se diz que eu disse algo de ofensivo, é porque estarei enganado. Peço desculpa.

- Durante uma das vossas visitas a Goa, o bispo chegou de Lisboa. - Mostrou-me o sorriso de gato atrás do rato, saboreando a sua nova jogada.

Pus-me a vasculhar na memória, mas não consegui descobrir nada. O padre deixou que o silêncio me condenasse, com o desprezo estampado na face. Num gesto largo, pegou na campainha de prata.

- Por favor, tenha piedade de mim - implorei. Juntei as mãos como vira os cristãos fazer, e em silêncio rezei ao Senhor deles pela primeira vez na minha vida: Louvado seja o Filho de Deus, que faz branda a mão do homem mau...

O repicar da sua campainha fez-me ruir o coração. Ouvindo os passos do guarda por trás de mim, saltei em pânico.

- Senta-te! - mandou o Inquisidor.

Obedeci, envolvendo-me nos meus próprios braços.

- És um desgraçado! - disse-me, lambendo os lábios como se quisesse cuspir-me.

- Não me lembro da chegada do bispo - gemi. - A ignorância será crime? É o que quer?

Uma chama de aprovação perpassou-lhe nos olhos, como se me tivesse apanhado nas suas garras. - Agora, estás a começar a perceber a profundidade da tua heresia - disse num tom terrível de condenação, e, com a mão erguida de palma para a frente, mandou o guarda manter-se à distância.

- Mas tu sabias que no barco do bispo vinha outra pessoa - disse, mais calmo. Falava como se me levasse pela mão por um caminho fora.

Só havia uma possibilidade que eu pudesse imaginar. - Uma vez, ouvi um rumor de que um rei angolano estava a bordo de um barco no porto. Dizia-se que era um gigante.

- E quem te ouviu manifestar o desejo de o ver?

- O meu tio e a minha tia. O meu pai, também, e Francisco Xavier, o meu primo. Mas eles não queriam ir vê-lo. Diziam que um rei africano não valia o incómodo. Lembro-me disso perfeitamente. Só eu é que queria pôr-lhe os olhos em cima.

- Havia outra pessoa.

Mal ele disse isto, percebi que alguém da minha família testemunhara contra mim, dando muitos pormenores - e contra o meu pai também. De que outra maneira poderia ele saber que a minha irmã estava presente?

- Quem estava contigo? - perguntou.

O coração palpitava-me. Sabia que isto poderia querer dizer que até o meu rebaixamento era vão; se o Santo Ofício prendera Sofia, eu nunca poderia viver a minha vida, mesmo que me dessem a liberdade. O que ela tivesse feito que me magoara já não interessava. O nosso passado já não tinha salvação, mas podia proteger o seu presente e o seu futuro.

- Não me lembro de mais ninguém - menti. - A não ser... talvez... talvez a criada da minha tia estivesse connosco.

- Era alguém da tua família! - insistiu.

- Não, ninguém.

- Até agora, fui indulgente - disse, ameaçador. - Mas lembro-te de que, nesta batalha pela tua alma, tenho comigo o fogo e a água, tal como as tinha na batalha pela do teu pai.

- Não aguentaria ser queimado.

- Vais aguentar o que Cristo mandar!

- A minha irmã - gemi. - A minha irmã estava lá. É verdade. Mas era uma menina. Disse-me que os Africanos não deviam sair da terra deles. Está inocente.

; - Parece uma rapariga esperta. O teu pai deixou-a beijar a Virgem?

- Não, mas ela beijou na mesma - menti. - A minha irmã sempre foi

muito determinada.

- Estou a ver - respondeu, sorrindo como se tivesse ganho uma luta comigo. Senti que ele sabia que eu estava a mentir; no entanto, não me fez mais nenhuma acusação.

- E quanto aos mortos? - inquiriu.

- Não percebo.

- Para vocês, cristãos-novos - disse com um sorriso -, os espinhos mortos podem ser ainda mais acerados do que os vivos.

- Isso tem a ver com a resposta ao seu enigma? - perguntei.

- Pode ter.

Pegou num manuscrito que estivera escondido no seu regaço e pô-lo em cima da mesa entre nós. Reconheci a capa imediatamente: um pavão desdobrando o leque da cauda esmeralda, azul e púrpura por sobre um título em letras hebraicas douradas.

Estendi a mão para ele sem pensar, como a teria estendido para salvar um ser amado das mãos do Anjo da Morte, mas ele retirou-mo do alcance. Fitámo-nos longamente de olhos nos olhos, e vi como ficou satisfeito por ter conseguido provar-me assim que um familiar me traíra conscientemente, a mim e ao meu pai.

- Sim - disse, com um aceno de cabeça. - O manuscrito do teu bisavô , agora é nosso. Mais nenhum judeu o voltará a ver. Ou sequer saber da sua existência.

Eu estava alagado em suor e sentia dificuldade em respirar. A tia Maria, o tio Isaac, ou Wadi, algum deles deve ter roubado o manuscrito; só eles é que conheciam o sítio onde estava escondido no fundo do guarda-fato do meu pai.

- Agora, Tiago Zarco, pensa no nosso enigma - disse o padre sedutoramente, como que a convidar-me a dar com ele um passo rumo à minha redenção. «Falo-te durante a minha jornada - e só a ti - desde o ponto de partida até ao final. E, embora morra sempre no mesmo local, podes ouvir-me a falar do meu túmulo se prestares atenção. Quem sou eu?»

Levou o manuscrito do meu bisavô aos ouvidos como se estivesse a ouvir o que estava lá dentro.

- Um livro - murmurei, e compreendi que devia ter adivinhado. Sorriu. - Bom menino.

- Um livro fala a cada leitor e acaba sempre no mesmo lugar - disse eu. - Quando fechamos a capa pela última vez, a jornada está acabada e ele vai para o seu túmulo, mas continuamos a ouvi-lo a falar-nos.

- Podíamos ter poupado muito sofrimento se fosses mais esperto, sabes?

- Perdão - desculpei-me. Sabia que era absurdo, mas não conseguia impedir-me de me comportar como se fosse ele quem tinha sido maltratado.

- Como podias tu ignorar a tua identidade se o teu bisavô te disse toda a tua vida que eras cristão-novo? Todos os anos o teu pai te lia textos sobre a sua conversão. É espantoso como pudeste ser tão tolo.

- Percebo agora. É indesculpável.

- Todo o pecado é desculpável se for honestamente confessado a Nosso Senhor. E se rezarmos de coração devoto para sermos dignos Dele.

A voz tornara-se-lhe suave; estava satisfeito com o desfecho. A minha ignorância e desolação davam-lhe oportunidade de se mostrar misericordioso. Nestes anos que se seguiram, tenho pensado muito que talvez ninguém queira olhar o que faz como coisa má; mesmo os demónios do inferno pensam provavelmente que estão a fazer um trabalho bom e necessário.

- E estás pronto a fazer uma confissão completa dos teus crimes? - prosseguiu Pinto.

- Estou.

Durante a hora que se seguiu, o secretário reduziu o meu depoimento a escrito. Seguidamente, o Inquisidor chamou o guarda, que mandou o Analfabeto pôr-me grilhetas nos tornozelos e nos pulsos.

Fui empurrado lá para fora e logo a seguir um franzino padre castelhano veio juntar-se a nós. Como tinha ficado privado da luz do dia por muito tempo, o sol a bater-me na face parecia metal a queimar e tive quase de fechar os olhos para que não se desfizessem em lágrimas. O Analfabeto segurava-me pela corrente como se me levasse pela trela e mandava-me andar em frente sacudindo-a. As feridas que os ferros me faziam em breve começaram a aguilhoar-me, mas a dor até me ajudava: evitava que me demorasse em pensamentos mais dolorosos. As pessoas fitavam-me e apontavam-me a dedo. Um mercador, rindo-se, gritou-me que até me pagava para eu tomar banho e atirou-me uma moeda de cobre.

Um trabalhador português de peito nu, julgando-se muito esperto, ergueu as mãos em fingida devoção e disse: «Jai Shri Dalit», isto é, Louvado o Senhor Intocável. Vários homens de ar grosseiro zombavam de mim.

- Aonde vamos? - ia perguntando, enquanto caminhávamos pesadamente sobre as pedras da calçada ao calor abafado, mas nem o padre nem o Analfabeto me respondiam.

Chegámos à igreja dominicana. Sentada à porta, estava uma florista indiana de face descarnada, que eu reconhecia da minha longa vigília diante do Santo Ofício, com o cabelo grisalho enfeitado com frangipanas cor-de-rosa. Trazia uma cruz de madeira ao pescoço e, quando me aproximei, beijou-a, estendendo-me depois uma flor de híbisco. Mas quando tentei pegar na flor branca, o Analfabeto puxou-me pela corrente, e eu caí ao chão.

No momento em que olhei para cima, o meu guarda já lhe tinha dado uma bofetada na cara, deitando-a por terra.

Desde esse dia, tenho pensado muitas vezes na bondade espontânea dessa mulher. Mais do que por tudo o resto, foi por causa da brutalidade com que a tratara que, muitos anos depois, tentei dar cabo da vida ao Analfabeto - e hoje espero com todas as forças da minha alma ter conseguido.

Numa capelinha lateral, aspergiram água benta sobre a minha fronte enquanto o padre entoava em latim: «Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...»

A seguir, lá fomos outra vez a caminho da prisão, cuja fachada parecia erguer-se por cima de mim como um fantasma a sair do túmulo, e puxei pelas grilhetas, em tal estado de terror que me molhei todo. Pedi socorro aos circunstantes que me fitavam boquiabertos, o que fez com que o Analfabeto me apertasse o pescoço com o seu braço gordo, abafando-me. Engasgado, caí de joelhos. Ele puxou-me para a frente impiedoso, pelo que fui forçado a arrastar-me a quatro pelas pedras sujas da praça.

- Lá baptizado é ele, mas continua a insistir em andar como um judeu - disse ao padre, e deram ambos uma boa gargalhada.

Passados dois dias, um documento arrolando os meus crimes foi-me lido na Sala Magna por um padre que nunca vira. Assinei-o com mão hesitante; o Inquisidor recusou-se a dizer-me se aquilo significava morte ou vida para mim. Só consentia em dizer que este era o único caminho para Cristo.

Obrigou-me então a jurar que nunca revelaria nada do que me acontecera enquanto estivera sob a jurisdição do Santo Ofício. Depois disso, caí de joelhos e voltei a implorar-lhe que me dissesse o que iria ser de mim.

- Vais esperar - respondeu o padre com indiferença.

No sábado, o criado indiano que levava o meu lençol uma vez por semana para ser lavado não apareceu. Imediatamente a seguir ao repicar das vésperas na catedral, os sinos soaram segunda vez. Perguntei a mim próprio se estava para haver alguma cerimónia especial.

Estava a dormir há umas horas quando os ferrolhos das minhas portas rangeram, acordando-me num sobressalto. O guarda entrou de rompante e entregou-me umas vestes escuras e uma lamparina de barro. Mandou-me vestir depressa e disse que dentro em breve voltaria para me buscar.

- Se vou morrer, por favor, diz-me - implorei. - Tenho de me preparar.

- Não estou autorizado a dizer-te nada do que te espera.

Enfiei a jaqueta de mangas compridas e as calças - ambas as peças negras com listas brancas - como se me estivesse a vestir pela última vez, tremendo como uma criança perdida. Todas as sensações do meu corpo pareciam espinhos vivos. Era como se o próprio mundo, neste último possível momento, estivesse a tentar dizer-me algo que precisava de aprender - a revelar o seu mais fundo mistério - através da brisa que me perpassava a face, do cheiro das ervas húmidas no ar, do suave toque dos meus dedos nos lábios gretados... Disse a mim próprio que iria voltar a Deus, mas a verdade era que eu vivia num mundo sem significado transcendente. Sabia que ia morrer sozinho ao fim de uma vida demasiado curta. Senti-me enganado. Nunca iria saber quem me traíra e ao meu pai - nunca poderia cobrar vingança. Mas que inútil viagem sem sentido esta que fiz, pensei num desespero total.

Descobri que os condenados podem fazer gestos tolos e pueris para preservarem o seu poder de decisão até ao último momento: após ter agradecido a Phanishwar pelos meus poucos dias de felicidade na prisão, ergui a sua estátua imaginária de Parsva e fiz de conta que estava a abraçar o meu filho - o filho que Tejal e eu tínhamos feito. Comecei então as minhas preces finais a um Senhor em que já não acreditava.

Quando o guarda voltou, escoltou-me até uma câmara sombria, de tecto baixo, onde estavam alinhados dezenas de prisioneiros de costas para a parede, imóveis, sem dúvida receosos até de respirar fundo, para não sabotarem as suas frágeis esperanças de liberdade. Na sua maior parte, fitavam sombrios os pés nus; alguns deles soluçavam, escondendo com as mãos os olhos e a boca. Pelo menos dois tinham desmaiado e jaziam no chão, e alguns padres davam-lhes água. Procurei Phanishwar com os olhos, mas não o encontrei.

Tomei o meu lugar lá atrás, tentando não fazer barulho com os meus passos, e de tanto em tanto tempo outro infeliz entrava arrastando-se. Vi-me junto de muitos homens, e todos tinham sofrido como eu. E, no entanto, isso não me trazia consolo; sentia-me distante deles e exilado de mim próprio.

Deram a cada um dos prisioneiros uma pequena vela acesa, que projectava sombras distorcidas das nossas faces descarnadas, como se as paredes que acolhiam essas sombras devessem saber e registar o nosso sofrimento. Quando me pus a fitar a minha chama, as minhas forças parece que desistiram.

- Deus me ajude - murmurei, enxugando as lágrimas que me vinham aos olhos.

Os padres distribuíram uma túnica a cada homem. Como a maior parte dos prisioneiros, eu devia vestir uma amarela com um grande X vermelho pintado na frente e nas costas - mais tarde, disseram-me que era uma cruz de Santo André, e que davam estes sambenitos a quem tivesse praticado heresias ou outros crimes contra a Igreja. A cerca de vinte outros homens, a maior parte deles indianos, mandaram que envergassem túnicas cinzentas com as suas imagens pintadas cercadas de toros a arder, e diabos de asas e rabos dardejantes a afastar-se, voando, das chamas. Eram prisioneiros que haviam sido obrigados a confessar feitiçaria. Se Phanishwar ainda fosse prisioneiro, tinha de estar entre eles, mas não estava. Rezei a Parsva para que ele e o filho mais novo, Rama, estivessem outra vez juntos.

Depois de terem colocado uns chapéus cónicos, enfeitados com chamas e diabos, nas cabeças de sete dos hindus condenados por praticarem a pior magia negra, mandaram-nos sentar a todos no chão. Uns criados vieram distribuir-nos pães quentes, figos secos e arroz, e deram-nos água a beber. Sabia que não podia comer nem sequer uma migalha, mas o padre franzino e irrequieto que parecia estar encarregado daquilo tudo disse-me que pusesse ao menos uma côdea de pão nas calças, visto que a cerimónia duraria muitas horas e eu de certeza ia ter fome quando terminasse.

- Deixam-me comer quando isto acabar? - sussurrei.

- Sim, mas não te dão mais nada até ao pequeno-almoço - respondeu. Ele deve ter pensado que me pus a chorar como agradecimento ao seu bondoso conselho, mas na verdade era porque me dissera, sem querer, que não me iam queimar.

Ao romper da aurora, os sinos da catedral começaram outra vez a repicar e fomos chamados um por um à Sala Magna, onde o secretário da Inquisição nos atribuiu a cada um de nós um acompanhante para andar connosco durante todo o auto-de-fé. Calhou-me a mim um capitão da frota portuguesa de Goa, de nome Jácome Morais. Era um sujeito rotundo com bochechas pendulares, que cheirava a azeite e cera de couro; cumprimentou-me e em seguida limpou disfarçadamente a palma da mão nas calças.

Morais levou-me lá para fora, para o ar quente da praça, onde marchava uma procissão dirigida por uma dúzia de dominicanos, atrás de um pendão gigante representando o fundador da ordem, São Domingos, bordada com o lema Misericórdia eJustiça. Diante de mim, iam uns cem prisioneiros, doze dos quais eram mulheres que seguiam separadas dos homens. Andorinhas de cauda branca faziam arcos acrobáticos no céu por cima de nós, chilreando loucamente, e uma espantosa luz purpúrea erguia-se lá ao longe, a leste. À nossa volta, a multidão que nos cercava. Nunca hei-de esquecer um rapazinho com uma capa emplumada, sentado aos ombros do pai, a apontar alegremente para mim, e, por trás dele, a mãe, com um bebé nos braços. Na esperança de ver alguém que conhecesse, olhava para todas as faces, mas logo - espantado de ter estado tão confuso - compreendi que vir aqui seria muito perigoso para qualquer parente meu.

Talvez a minha tia e Wadi também se tivessem mantido afastados por recearem que os acusasse de traição, mas eu não faria nenhuma cena; não tinha forças para isso. Era todo apreensão e desejo de que aquilo acabasse.

Por uma hora ou mais, fomos exibidos pelas ruas, e eu nunca vira uma tão grande massa de gente assim amontoada, a acotovelar-se e a gritar. Os mais excitados forcejavam para terem uma vista mais perfeita da nossa desgraça. Os pés começaram-me a sangrar, e eu fazia todos os esforços para não coxear, para não dar mais nas vistas.

Quando chegámos à Igreja de São Francisco, vimos a porta central engalanada com ramos de palmeira. Entrando lá dentro de cabeça curvada, sentá-mo-nos nos bancos, junto aos nossos acompanhantes. No ar húmido pairava um doce cheiro a incenso queimado nos incensórios que exalavam fumo. A terrível solenidade da ocasião era como um jugo nos meus ombros. Tenho a certeza de que os outros prisioneiros sentiam o mesmo, pois estávamos ali todos sentados como quem quer reduzir-se à ínfima expressão. O altar central estava ladeado por cadeirões de brocado dourado e verde, e recoberto por uma toalha negra, onde assentavam altos candelabros de prata. Um padre jovem seguia pela ala central carregando um crucifixo do tamanho de um homem. Atrás dele, vinham três homens, um dos quais um aleijado seguro por dois acompanhantes, e por uma mulher de olhos protuberantes e cabeça rapada. A seguir, havia cinco figuras em tamanho natural grosseiramente pintadas em madeira, espetadas em paus - três homens e duas mulheres. Igual número de carregadores indianos seguiam atrás com baús de couro à cabeça.

Mais tarde vim a saber que as figuras representavam os que haviam sido acusados após a morte de crimes contra a Igreja; os baús continham as suas ossadas, roubadas dos túmulos. Também não sabia isso na altura, mas o crucifixo de costas voltadas para eles significava que não tinham salvação possível.

E então o meu coração pôs-se aos saltos. Embora lhe tivessem cortado o cabelo branco muito curto e tivesse a face horrivelmente machucada e inchada, reconheci o penúltimo prisioneiro - o aleijado: era Phanishwar. Tal como os vizinhos, trazia um sambenito cinzento com o retrato grosseiramente pintado, com chamas amarelas brilhantes a lamber o ar onde pairavam demónios com cabeça de animal, e um chapéu cónico com as mesmas representações. Por baixo da sua imagem grosseira estava o seu nome em grandes letras pretas e ainda por baixo a natureza do seu crime: FEITIÇO, e o que iria ser escrito na pedra tumular: MORREU QUEIMADO.

Tinha a expressão exausta, e as faces tão inchadas que parecia um velho afogado. Estaria tão enfraquecido que não percebia já o que iam fazer-lhe? Não sei como, eu sabia no meu coração que era o homem mais importante na sala - a encarnação de uma grande e santa alma. Seria um crime contra toda a natureza não correr em sua ajuda. Dei comigo de pé.

- Senta-te, louco! - murmurou o meu acompanhante, puxando-me para baixo.

O meu fito agora era chamar a atenção de Phanishwar, mas o velho jaina não olhava para mim ao dirigir-se ao seu lugar num dos últimos bancos da igreja. Depois disso, deixaria de poder vê-lo; havia demasiados prisioneiros entre nós.

Só um pensamento me ficou: A quem posso pedir ajuda? Quando o Grande Inquisidor tomou o seu lugar no cadeirão à direita do altar, ousei perguntar ao capitão:

- As pessoas lá atrás vão ser queimadas? - sussurrei. Fez que sim.

- E não há nada que se possa fazer para as salvar? Um deles é um grande homem - talvez até a reencarnação de um deus hindu.

Lançou-me tal olhar de ódio que estremeci.

O Vice-Rei português da índia, vestido com uma túnica de seda azul, sentou-se então no cadeirão da esquerda, e o grande crucifixo foi colocado ao alto no centro do altar. Um padre idoso de andar bamboleante subiu ao púlpito e fez um sermão que parecia nunca mais acabar numa voz nasalada muito aguda. Não sei dizer o que nos pregou; o meu desespero latejava-me aos ouvidos e a única voz que ouvia na minha cabeça era a minha. Devo ter voltado a mergulhar na loucura; acreditava que, se me concentrasse muito, poderia enviar os meus pensamentos a Phanishwar. Incontáveis vezes lhe disse: «Se confessares, talvez ainda vás a tempo...»

Pouco depois, dois leigos vestidos de túnicas de seda azul chegaram-se ao púlpito e começaram a ler em voz alta as acusações contra cada homem. Quando anunciavam o nome de um prisioneiro, este era escoltado pelo guarda até à ala central, e depois para um segundo altar perto das portas de entrada. Aí chegado, ajoelhava-se, mandavam-no pôr as mãos sobre um missal e ouvia a sentença.

Um rapaz de olhos encovados e cabeça rapada, e sem ponta de barba nas faces rosadas, urinou pelas pernas abaixo ao arrastar-se para o altar. Alguns presentes riram-se, zombeteiros. Passado pouco tempo, já vários outros prisioneiros, incluindo uma velha, tinham tido desastres piores.

Quando chamaram o meu nome, arrastei-me pela nave, voltando-me para encarar Phanishwar ao aproximar-me dele. O espaço parecia muito escuro. A certa altura, ele estava apenas a três passos de mim. Podia ter-lhe chegado com a mão. E devia tê-lo feito, embora isso pudesse custar-me a vida.

Quando ia a passar por ele, ergueu o olhar para mim. Esbugalhou os olhos.

Tens de confessar, para poderes voltar para o teu Rama, tentei dizer-lhe com o olhar, mas a expressão dele endureceu: fitou-me como se fosse um dos seus carcereiros.

E deixei-o para trás, aproximando-me do altar. Quando o guarda me carregou no ombro, ajoelhei-me com a mão num missal. Sentindo que a minha vida girava em torno daquele momento, comecei por saber que era excomungado e que todas as minhas posses terrenas eram expropriadas em proveito da Coroa, embora não possuísse em Goa nem um simples grão de açafrão. Até aqui, tudo bem, e senti-me respirar de alívio, como se fosse quase um homem livre, mas logo a seguir disseram-me que era expulso da índia Portuguesa e condenado a quatro anos de prisão em Lisboa na cadeia da Galé.

Nessa altura, o meu filho ou filha terá cinco anos e Tejal ter-me-á certamente dado por morto, pensei desesperado.

Voltando aos tropeções para o meu lugar, incapaz de confiar nos meus pés, roguei silenciosamente a Phanishwar que confessasse. Ele desviou o olhar de mim como se me desprezasse. Chamei-lhe louco, mas, ao sentar-me junto ao capitão, ocorreu-me que provavelmente o jaina sofria do mesmo engano que me atormentara durante semanas: pensava que, desde o início, eu estivera metido numa conspiração contra ele.

Conduzidos pelo Grande Inquisidor, uns vinte padres juntaram-se então no centro da nave; cada um deles levava um pequeno ponteiro de madeira. Um deles era o Padre Carlos, o homem que atraíra Phanishwar ao engano para Goa e que reconheci da visita que nos fizera à cela. Baixei o olhar para esconder a cara dele; se me descobrisse, achava que poderia mudar-me para o grupo dos que não tinham salvação.

Dispersando-se por entre os bancos, os padres batiam nos ombros de cada prisioneiro com a extremidade dos ponteiros e pronunciavam uma ladainha em latim que tinha por efeito anular a ordem de excomunhão e reintegrar-nos na Igreja como católicos romanos. Estes cristãos, é evidente que só odeiam a feitiçaria que não é deles, pensava eu.

Infelizmente, as suas varinhas mágicas não tiveram efeito nenhum na minha pena de quatro anos.

- Somos agora irmãos na Santa Madre Igreja - exclamou o capitão Morais, sorrindo como um pai orgulhoso, logo que um padre me bateu com a vara. Congratulando-me pelo que chamou a minha boa fortuna, beijou-me ostensivamente, tirando do bolso várias pequenas tartes de creme, envoltas num pano de algodão branco, que a mulher fizera para quem quer que ele viesse acompanhar. Desta vez, não limpou as mãos às calças; evidentemente, a nódoa do judaísmo também me tinha sido removida por magia.

O Grande Inquisidor, regressado ao seu cadeirão, recebeu cada um dos homens e mulheres que iam ser queimados na fogueira para grande glória de Cristo, bem como as cinco efígies e os baús com as ossadas. Mais tarde, disseram-me que isto não era uma farsa, como a princípio me pareceu, mas sim uma catástrofe para as famílias: queria dizer que todas as suas posses neste mundo seriam imediatamente confiscadas.

Foram lidos os autos contra estes infelizes, mesmo os que estavam mortos, e desta maneira soube que três das efígies eram de cristãos-novos acusados de heresia. Também descobri que um dos homens de pele escura não era um converso que recaíra nas suas velhas crenças hindus, como presumira, mas um cristão tomista acusado de feitiçaria por acreditar numa liturgia diferente. O próprio São Tomás convertera os seus antepassados ao cristianismo há mil e quinhentos anos, mas isso não impediu estes tiranos de o julgarem.

Phanishwar avançou arrastando-se, conduzido pelo guarda e um acompanhante, que o segurava de pé. Nunca poderia compreender nada do que lhe estavam a dizer em português, e enfrentou a sentença de morte - que lhe foi lida num tom frio, de desprezo - com uma expressão de impassividade, como num transe. Talvez todo o seu treino com Dharanendra o tivesse preparado para este momento único de confronto com o Anjo da Morte. Eu rezei para que ficasse a salvo com Parsva.

O guarda bateu no peito de Phanishwar e dos outros prisioneiros condenados para significar que estavam para lá de toda a salvação; depois foram levados pelas portas pelos beleguins da Coroa portuguesa. Nós, os outros prisioneiros, fomos levados a marchar atrás deles, em direcção ao rio, ainda acolitados pelos nossos acompanhantes, e fizeram-nos ficar de pé à espera. Na margem, tinham espetado nove altas estacas no solo, cada uma das quais cercada por uma grande pilha de lenha. Os cheiros nocturnos da índia recordavam-me que a floresta estava ali perto, e a meia-lua parecia ir cair nas águas escuras.

Um carrasco que envergava um capuz com buracos para os olhos atou os prisioneiros, e também as efígies, com cordas. Quando chegou à vez de Phanishwar, arrisquei-me a voltar a falar ao capitão.

- Por favor pare isto - implorei.

- É tarde de mais - disse-me.

- Tenho de me chegar mais perto - disse-lhe. Agarrou-me o braço. - Não seja louco!

Libertei-me com uma sacudidela e abri caminho para a frente da multidão. O jaina estava agora atado com as mãos atrás das costas, a fitar o céu como quem procura nas constelações alguma coisa há muito esquecida. O seu transe tinha sido quebrado e estava a torcer-se de desconforto. Parecia confuso, quase drogado.

Dois dos homens e a mulher pediram a graça de morrerem como cristãos, que lhes foi concedida. Um carrasco encapuçado pôs-lhes, um a um, um colar de ferro enferrujado à volta do pescoço e apertou-o com um torniquete. Os membros das vítimas asfixiadas estremeciam em convulsões horríveis, e os olhos pareciam querer saltar das órbitas, mas em poucos instantes tudo se acabou. Pendiam flácidos presos nas cordas, como se tivessem sido apanhados numa rede.

A multidão soltava vivas após cada execução, mas nós, prisioneiros, não deixámos escapar um só som.

Phanishwar e o cristão tomista recusaram-se a tornar-se católicos romanos. As suas piras foram acesas.

Se estás presente no nosso mundo, pára com isto, rezei eu ao Senhor, mas as chamas pegaram-se logo às calças de Phanishwar. Num abrir e fechar de olhos, ficou envolto em rolos de fumo. Começou a berrar de dor, puxando as cordas, de dentes cerrados. Sabia agora que ia morrer na dor.

- Parsva, socorro! - gritou.

Chegava-nos agora o terrível cheiro a carne a estorricar. Dois prisioneiros à minha frente caíram de joelhos, rezando em voz alta pela misericórdia de Cristo. Outros começaram a vomitar.

- Socorro! - gritava Phanishwar em concani. O cristão tomista também estava a gritar.

- Phanishwar! - gritei-lhe, e tornei a gritar, mais alto, e ele avistou-me. Os olhos brilharam-lhe em sinal de que me tinha reconhecido.

- Socorro! - voltou a gritar. Retorceu os braços, num esforço extremo para me tocar.

Levei uma mão acima da cabeça e fechei o punho, mas não havia tempo para pensar no que dizer. Estupidamente, talvez, gritei:

- Nunca te traí! E estou a ver o que te estão a fazer. - Não podia suportar que ele deixasse este mundo pensando que eu era um traidor.

Mas de que servia agora a minha lealdade para com ele? E como podia o meu testemunho ajudar fosse quem fosse?

Deviam ter-lhe embebido as roupas de prisioneiro em óleo; Phanishwar inflamou-se como uma tocha antes que eu conseguisse gritar mais alguma coisa.

Forcei-me a observar a cara a encarquilhar-se e a enegrecer, sentindo que a destruição total deste homem delicado era a chave do mundo em que eu nascera.

Um ser humano desfaz-se mais depressa do que julgamos possível. E arde com maior fúria. O fedor é insuportável. Deve ser este o cheiro que tem o inferno.

Não disse mais nada até ele não ser mais do que um monte de peles e ossos carbonizados.

- Não podem matar Parsva - murmurei nesse momento, falando à minha própria impotência.

E prometi: Se renasceres como assassino, vem ter comigo que eu te ajudarei.

Recusei-me a sair dali quando mandaram os prisioneiros ir-se embora. Estava demente com terror e dor, e queria ficar onde estava como protesto, mas fui arrastado pelo meu acompanhante, o qual me esbofeteou com tanta força que temi que o meu queixo se tivesse partido outra vez.

Ele e mais dois homens levaram-me para a minha cela, onde fiquei a chorar até sentir a misericordiosa escuridão do sono. Ao romper do Sol, quando acordei, tudo me parecia um sonho até que apanhei as roupas do chão e senti nelas o cheiro da carne carbonizada de Phanishwar.

Juntaram dois anos à minha pena pelo meu arrebatamento no auto-de-fé. Foi o próprio Grande Inquisidor quem me deu a notícia após uma prédica furiosa sobre o meu comportamento chocante. Depois, a voz tornou-se-lhe melíflua:

- Já me esqueci de que havia um feiticeiro jaina entre nós, e tu também já devias ter esquecido - disse-me. -Agora, pensa só em Cristo e no sacrifício que Ele fez por ti.

Entregou-me um documento em que se descreviam as minhas obrigações religiosas nos próximos seis anos: confessar-me uma vez por mês, ir à missa todos os domingos, repetir o Padre-Nosso e a Ave-Maria cinco vezes por dia, e não fazer amizade com hereges. Mais uma vez, mandou-me nunca revelar nada do que vira ou ouvira enquanto prisioneiro do Santo Ofício. Desobedecer-lhe foi o meu único triunfo nesta vida, acho eu.

Caminhando a custo para a cela pela última vez, o conselho do Inquisidor de que guardasse o sacrifício de Cristo nos meus pensamentos fazia-me o espírito voltar à noite anterior, e agora senti que percebera tudo. Foi como um relâmpago a rasgar a escuridão absoluta e a dar ao meu espírito a brancura dos ossos: Estes padres puseram Phanishwar na fogueira e deitaram-lhe fogo porque não acreditam realmente que Jesus teve força de vontade para deixar que o matassem pela Sua fé. Eles precisam de ver os momentos finais do seu Salvador a ser representados diante dos seus olhos - ver que um homem consegue aguentar tal dor. Obrigaram-nos a testemunhar o seu espectáculo porque não podem admitir que ninguém mais tem uma fé maior do que a deles. Cristo tem de ser assassinado todos os anos de novo para preencher o vazio das suas almas.

 

Agora que revelara o seu amor por Wadi, Sofia comportava-se como se não fosse possível voltar atrás. Embora não ousasse afrontar directamente o nosso pai pela sua oposição ao casamento com Wadi, não parava de o criticar pelas mais pequenas falhas. Uma vez, até o acusou de a envergonhar ao deixar que, em Ramnath, um grupo de rapazes maltrapilhos da aldeia o persuadissem a tirar as sandálias e a tentar apanhá-los num jogo de kabbadi, num campo de grão-de-bico em pousio por trás do mercado. Eu vi a ferida que luzia nos olhos do pai quando limpava o barro dos pés depois da brincadeira e quis dar-lhe a ela dois berros, mas ele lançou-me um olhar sombrio em que me mandava não me meter no assunto.

O nosso pai aguentava as suas humilhações com sossegada paciência, dizendo-lhe uma e outra vez que não achava que Deus o pudesse julgar muito severamente por obrigar uma rapariga de quinze anos a esperar mais um pelo casamento. A certa altura, Sofia decidiu que se absteria de tomar o pequeno-almoço connosco. Na quarta manhã do seu protesto, na esperança de umas tréguas, ele foi-lhe levar chapati quente ao quarto.

- Como posso eu ter fome estando presa? - perguntou-lhe ela. .: Ele não me disse o que lhe respondeu, mas nunca mais lhe levou comida ao quarto.

Passados dois dias, comprou-lhe um colar de coral em Ponda, mas ela recusou-se a pô-lo. Nessa mesma semana ainda, o pai não conseguiu convencê-la a aceitar um frasquinho de perfume de jasmim que viera lá de longe, de Ceilão.

As prendas que lhe dava não adiantavam nada, mas não posso culpá-lo pelos seus erros de julgamento, ou pela maneira como apalpava o caminho na aparente escuridão; a sua amada Sofia estava tão intratável como infeliz, e a frágil bússola que ele sempre tivera no coração já não conseguia encontrar o íntimo da filha.

Quanto à frígida recepção que a minha irmã concedia a todos os seus esforços, ela decidira - talvez com sentido de honra - que, se não podia conseguir o que mais desejava, não aceitaria nada dele. A mim, não me parecia muito diferente daquela menina que se recusava a brincar com as outras crianças ou a falar com estranhos. Agora que eu era mais velho, percebia a enorme força que ela tinha - na sua casmurrice, era muito mais forte do que qualquer de nós. Apesar de todas as amizades que forjara nos últimos anos, nunca aprendera que um gesto de conciliação - uma coisa tão pequenina como um beijo - podia conseguir mais do que uma praça fortificada.

Uma noite, à hora de deitar, desencadeou uma brutal discussão com o pai por este ter dado à ama de peito, Kiran, dois dos saris da nossa mãe em vez de os ter guardado para o dote dela. A discussão deixou-o em lágrimas, e ele confessou-lhe, numa voz áspera como a areia do deserto, que estava exausto.

- Uma noite destas, sonhei que tu e eu nos estávamos a afogar - disse à minha irmã. - Via os minaretes de Constantinopla à distância, mas não conseguíamos chegar lá. Portanto, se isso é a única maneira de nos salvarmos...

Disse-lhe, num tom grave e hesitante, que consentiria que o casamento se fizesse dentro de seis meses se entretanto Wadi só demonstrasse fidelidade e afecto por ela.

- E se ele concordar em deixar-te continuar judia, pelo menos em segredo - acrescentou solenemente. - Estou a ir contra o que me parece correcto ao não pedir que esperes pelo menos um ano.

Estava no meu quarto e dali ouvi-o propor-lhe esta concessão; nessa altura, quis ir dar-lhe o meu apoio indo a correr abraçá-lo, mas a resposta dela deteve-me de chofre no caminho.

- Não posso esperar - declarou.

Deve ter-lhe lançado um olhar de desafio peremptório porque ele, sem mais palavra, saiu de casa. Saltei pela janela para evitar ter de falar com Sofia e precipitei-me no encalço dele, que se debatia chapinhando pelo jardim encharcado pela chuva, mas mandou-me voltar para casa. Ofegante, desolado, disse:

- Ti, sei que queres ajudar-me, mas no estado em que estou não me sinto capaz de falar com ninguém, salvo os mortos.

Nunca hei-de esquecer tê-lo deixado ali, com as pernas salpicadas de lama, rendido a tudo o que acreditava ter feito de errado na vida.

Talvez todos tenhamos inevitavelmente de enfrentar os nossos desgostos na solidão, mas eu queria tanto ajudá-lo naquela altura que a minha inutilidade me doía.

Mas quanto bem, verdadeiro bem, podemos nós fazer : aos nossos entes queridos nos momentos mais duros?

A facilidade com que a minha irmã rejeitara tão justo compromisso deixou-me intrigado durante vários dias até que, uma noite, ao adormecer, uma nova possibilidade me veio apunhalar de súbito: estava grávida! Se isso fosse verdade, percebia porque é que o casamento tinha de ser já. Entrei em bicos de pés no quarto dela e chamei-a.

- Ti? - respondeu sussurrando. - És tu? - A voz soava-lhe tão amistosa que soltei uma risadinha de alívio.

- Sou, acordei-te? Desculpa.

- Não, estava acordada.

Sentei-me aos pés da cama e expliquei-lhe as minhas suspeitas, acrescentando que, sem sua autorização, não diria nada ao pai.

- Havemos de arranjar uma maneira de sair deste sarilho - garanti-lhe em tom fraternal.

Ergueu-se. À luz crua da minha vela, parecia uma marioneta de sombras representando alguma divindade vingativa; os seus dedos eram lâminas e os olhos pareciam apostados na minha destruição. Transformara-se em alguém que eu não conhecia de todo. : - Wadi tinha razão quanto a ti! - disparou.

- Que estás a dizer? - perguntei.

- Queres achar que eu sou má. Sempre quiseste ser o bonzinho. Eu era uma menina casmurra e agora sou um monstro. Como é possível que me venhas fazer uma pergunta tão perversa?

Durante os primeiros dias de guerra entre Sofia e o nosso pai, sempre que a minha irmã desatava aos gritos, Nupi escondia-se na cozinha com as mãos a tapar os ouvidos e punha-se a entoar preces a Lakshmi e Devi na sua voz monocórdica, para espantar a loucura. Comemos muitas refeições juntos na sua mesinha gretada, fazendo os possíveis para falar sobre ninharias.

- Sofia esticou a rede de mais e agora está espantada por a ter rasgado - dizia-me Nupi.

A velha cozinheira era de opinião que as raparigas tinham de obedecer aos pais até ao casamento, altura em que os maridos passavam a mandar nelas.

- Mas como agora há uma confusão tão terrível - acrescentou, abanando a cabeça desconsolada -, o vosso pai pode não ter outra solução senão aceitar o casamento já.

Pedi-lhe que lhe dissesse isso.

- Eu? Não. - Enxotou-me como se eu fosse uma praga.

- Mas ele respeita a tua opinião.

- Talvez lhe diga alguma coisa quando chegar a altura, mas ainda não chegou.

- E quando chega?

- Quando eu não tiver outro remédio.

Foi assim que Nupi manteve os lábios bem fechados e se habituou a fazer o seu trabalho sem dar nas vistas. Começou até a desleixar o seu jardim sagrado de manjericão. Observava sisuda as plantas a murchar e de mãos nas ancas, de dentes cerrados, como se elas também tivessem de ficar a sofrer connosco.

E claro, eu reconhecia que, do ponto de vista de Sofia, o seu amor estava a ser espezinhado e que eu estava a ser injustamente favorecido; por isso, depois de suportar durante cerca de dez dias o mortal silêncio que impregnava a casa, fui outra vez ter com ela. A minha irmã estava a espanejar teias de aranha nos cantos do quarto, brandindo a vassoura como uma espada. Do umbral da porta, disse-lhe que planeara perguntar ao pai se Wadi podia vir fazer-nos uma visita mais demorada. Assim, ele poderia provar quanto a amava. Eu sairia durante a maior parte da sua estada, para que eles pudessem gozar de toda a atenção do nosso pai.

- É impossível - disse-me Sofia friamente.

- Mas porquê?

Arrastou a vassoura pelo tecto.

- Wadi proibiu.

- Proibiu o quê?

- Que tu nos ajudasses.

- Não percebo.

Franziu-me o sobrolho, como se eu estivesse a ser obtuso.

- Já disse, Ti: o Wadi não quer a tua ajuda.

- A julgar pelo teu tom, tu também não - observei.

- Não.

- Sofia, por favor, pára lá com essas malditas vassouradas por um momento. E olha bem como te estás a comportar com o papá antes que seja tarde. Não vês como estás a ser injusta?

Ela deu uma pancada numa teia emaranhada no canto do caixilho da janela e não deu resposta.

- Vais deixar que o Wadi decida tudo o que fazes? - perguntei, numa voz tingida de escárnio.

- Agora que já não são amigos, Wadi disse que tem o direito de não te deixar meter na nossa vida.

- Eu era teu irmão antes de lhe ser alguma coisa.

Ela voltou-se e baixou a vassoura, com as cerdas para baixo, equilibrando o queixo no cabo. Não pude deixar de lhe olhar para a barriga, a ver se tinha crescido na última semana. Achei que não.

- Eu amo-o, Ti - disse suavemente. - Amo-o tanto que não tenho outro remédio senão fazer o que faço ou digo. Percebes? Lamento, mas é assim.

- Então o que é que isso quer dizer no que toca a nós os dois?

Fuzilou-me com o olhar como se eu tivesse dito a pior coisa deste mundo.

- Quer dizer que eu farei tudo o que ele me pedir - declarou.

Eu não disse nada. Por sob todos os meus pensamentos de malquerer, desejava naqueles momentos que as coisas não fossem como eram, mas mais do que isso, lá no fundo, sentia-me dominado por uma estranha sensação de ter chegado a um destino que, na altura, não consegui entender. Mais tarde, compreendi que a minha irmã me estava a dar as regras da nossa nova relação, e que lhe estava grato por saber em que pé é que ficávamos. Ti, comigo, a partir de agora é assim...

Quando disse ao meu pai que talvez Wadi viesse fazer-nos uma longa visita, e que eu ficava em Goa enquanto ele estivesse em nossa casa, ele revirou os olhos.

- Ti, não achas que devia ser ele a sugerir a visita? Anda a namorar a tua irmã há meses.

- Talvez tenha medo de si.

- Se o medo de mim é mais forte do que o amor pela Sofia, o que é que isso prenuncia da futura vida deles? Devo deixá-la casar-se com um cobarde?

Hesitei um momento, mas decidi não ceder um palmo.

- Sim, papá, acho que talvez devas deixá-los casar. Não há forma de sabermos o que ele é na realidade, é demasiado dissimulado. E, assim como assim, já não podes impedi-la de fazer asneiras.

- Se é verdade, tu também não - anunciou, esperando deixar-me desarmado, e talvez até magoar-me, tal como ele tinha sido magoado. Mas eu já tinha isso interiorizado e limitei-me a fazer que sim com a cabeça.

No dia seguinte de manhãzinha, cheguei-me ao meu pai, que estava sentado nos degraus do alpendre a beber o seu chá, e descarreguei um medo que me remoera toda a noite.

- A Sofia pode muito bem, pura e simplesmente, fugir com o Wadi um destes dias e nunca mais a vemos. Se quer ter alguma influência no que ela faz, então tem de concordar com o casamento já.

Respondeu que pensara nessa possibilidade, também, mas que receara sequer murmurá-la.

- Não poderia continuar a viver se nunca mais a visse - confessou. Pensando no que a Nupi me dissera, repliquei:

- Então não tem outro remédio.

Nessa tarde, comunicou à Sofia e a mim que tinha algo de especial a dizer-nos à ceia. Quando estávamos sentados, tirou o anel de ouro que os pais lhe tinham dado quando saíra de Constantinopla em direcção à índia e entregou-o a Sofia.

- Para ti - disse. Fechou-lhe a mão sobre o anel e beijou-lhe a testa. Uma vez, há muito tempo, dissera-me que me daria o anel quando eu

fizesse vinte e um anos, pelo que fiquei chocado.

Sofia virou e revirou a prenda na mão. Os olhos humedeceram-se-lhe de gratidão. - Papá, por que é que tu... - ia a dizer, mas ele interrompeu-a.

- Chiuu, agora é teu. Quero que fiques com ele. - Virou-se para mim e abriu os braços a pedir desculpa.

- Importas-te, Ti? - perguntou. - Se sim, eu compreendo. Rebusquei os meus sentimentos, não desejando mentir-lhe.

- É uma surpresa, e sempre o quis, mas... - Aqui olhei para a minha irmã, que estava a examinar o anel com olhar ávido. - Se isso puder mudar alguma coisa na situação, então é melhor que a Sofia fique com ele.

- Obrigado, filho.

Ele não recebera dos pais nada que mais caro lhe fosse do que aquele anel. Fora transmitido de pai para filho na nossa família, a começar pelo meu bisavô Berequias, que o recebera do seu amigo mais chegado, Farid. Era evidente que o nosso pai queria mostrar a Sofia quanto lhe queria. Enquanto ela experimentava o anel nos diferentes dedos, disse que, na sua próxima viagem a Goa, ia falar ao tio Isaac e à tia Maria e que lhes ia pedir que concordassem em fixar a data de casamento para Setembro, quatro meses depois.

No meio de todas as minhas preocupações, esquecera-me completamente da minha tia, mas podia facilmente adivinhar que não queria que o filho casasse com uma judia e sofresse o mesmo estigma que ela ao casar com ísaac. É possível que a Sofia, receando aquela nova fonte de resistência, tenha dado uma resposta que nunca tinha pretendido dar. Ou talvez tivesse que afirmar ante o nosso pai pela última vez o que queria; por vezes, deixamos cair uma última gota de ácido no coração de um ente querido antes de nos dispormos a começar de novo tudo.

O certo é que Sofia baixou o olhar por um momento, medindo as palavras ante a solenidade do momento. Ainda não tinha posto o anel. Estava outra vez com ele na mão fechada.

- Acho que não devia ter de esperar, papá - disse. Não falou rispidamente. As suas palavras tinham um tom de desculpa, e recordo-me de ter pensado que estava finalmente pronta para aceitar um compromisso. Infelizmente, o nosso pai não esperara nada disso, mas que ela agradecesse. Empalideceu e levantou-se. Mal saiu, fechou-se no quarto e não respondia quando eu e Sofia lhe pedíamos que nos deixasse entrar. Demos a volta à casa até às janelas dele, mas as portadas já estavam bem fechadas e eu bem podia bater, que ele não abria. Recordo-me de Sofia com uma flor vermelha de hibisco na mão à espera. Nupi dissera-lhe que a desse ao nosso pai. Agora estava também com o anel posto.

A minha irmã percebeu que cometera um erro fatal nessa noite, e deitou-se nos braços de Nupi a soluçar.

De manhã, o nosso pai disse-lhe que nunca mais a autorizava a ir a Goa.

Sofia ficou no quarto a maior parte da semana seguinte, e a sua infelicidade pairava sobre tudo o que o nosso pai, Nupi e eu dizíamos entre nós. O ar à nossa volta parecia impregnado de inquietação, e o meu espírito era perseguido por sombras que subiam a todas as paredes. Até o imparável sol indiano parecia hesitar por cima do nosso telhado - parecia que, pela primeira vez, não estava seguro de si.

As cartas que nessa altura escrevi a Tejal eram tão vazias de alegria que pareciam que iam tornar-se em pó nas minhas mãos. Odiava Sofia por nos obrigar a passar por isto e dizia-lho com o meu olhar gélido sempre que ela vinha observar-me a trabalhar nas minhas iluminuras. Agora não me importava que não gostasse de mim; ela e Wadi já não estavam em condições de me prejudicar, e não queria nada com eles.

O meu pai teve de suspender as lições da Tora com a Tejal e pediu-me que lhe pedisse desculpas pela sua parte nas minhas cartas. Eu detestava ser forçado a estar separado dela e durante umas semanas não me largava a preocupação de que os nossos planos não resultassem como queríamos, mas logo que lhe manifestei as minhas inquietações, ela arranjou coragem para perguntar ao pai o que diria ele se eu lhe fosse pedir a mão em casamento, e ele respondera favoravelmente.

- A minha mãe disse-me que vai ser um belo casamento para a nossa família - escreveu-me, e eu adivinhava-lhe na escrita coleante a felicidade que sentia.

Fui dar as boas novas ao meu pai, que fez todos os esforços para me mostrar um sorriso autêntico, mas tinha o coração despedaçado.

Por esses dias, sentia com frequência que, se Sofia não conseguisse aprovação para se casar, havia de fazer tudo para nos manter num estado de constante desespero, embora andasse talvez tão perplexa como nós com a forma como nos tínhamos despenhado tão rapidamente neste abismo. Será que sabia realmente o que andava a fazer?

Uma manhã, estávamos, eu e o meu pai, a estudar a Tora, Sofia bateu suavemente à porta da biblioteca e pediu autorização para ir ao mercado de Ponda com a Nupi. A minha irmã tinha os olhos no chão, como se receasse esperar a aprovação. Foram as primeiras palavras que lhe ouvíamos desde há dias.

- Antes do pôr do Sol estás em casa - disse-lhe o nosso pai sem erguer o marcador da página da Tora. Depois de ela sair e fechar a porta, perguntei-lhe o que pensava que ela queria da cidade.

Parou de ler apenas por um instante para dizer que não lhe interessava. Quem não o conhecesse podia pensar que estava a falar a sério, mas a sua expressão tensa e os ombros hirtos diziam-me que não ia pensar em mais nada durante o resto do dia.

Sofia e Nupi voltaram ao fim da tarde. Fui logo sondar a velha cozinheira no pátio, e ela respondeu à minha pergunta sem eu ter de a fazer.

- Chorou um bocado à ida para a cidade, mas, lá chegada, já estava bem. Sentou-se sozinha numa tenda de comida e não a vi sequer falar com ninguém.

- Disse-te porque queria ir a Ponda? Nupi fez um trejeito com a boca.

- Não, só pediu para ficar sozinha. Deixei-a lá sentada, pobrezinha. Acho que precisava de ir para qualquer sítio sem ser interrompida a todo o instante. - Deitou as mãos aos ouvidos. - Aqui há sempre tanto barulho.

- Barulho? O meu pai e eu quase não lhe falamos há semanas.

- Ti, há poucas coisas menos barulhentas que o silêncio desta família.

Sofia começou então a acompanhar Nupi quando esta saía para os seus afazeres. Um domingo, voltou de Ponda com muita febre e arrepios. Nupi disse que ela vomitara duas vezes no caminho para casa, depois de comer uns quiabos que deviam estar estragados, mas o nosso pai tinha a certeza de que o que a pusera doente era toda essa guerra silenciosa que grassava em nossa casa. Arrastámos a cama dela para junto da lareira e cobrimo-la com cobertores. Nupi correu para a cozinha para fazer o seu chá de folhas de goiabeira.

A minha irmã pôs-se a bebericar golinhos de uma malga de barro fumegante e o nosso pai sentou-se junto a ela, com a mão apoiada atrás da cabeça, os olhos cercados por uma negra preocupação - praticamente não falavam um com o outro há um mês e ali estava ela, tão doente como a nossa mãe antes de morrer.

- Não quero mais chá - disse Sofia, por fim, com um gemido. - Deixem-me só dormir. - Fez um esgar ao recostar-se.

- Sofia, o que é que te dói? - perguntei, mas não me respondeu. O nosso pai fez-lhe uma festa no cabelo.

- Esquece os teus problemas - sussurrou -, que, quando acordares, tudo estará como era antes de começarmos a guerrear.

Ela virou-se de lado e pegou-lhe na mão. Após uns instantes, quando começou a respirar com mais facilidade, aconchegou as mãos às faces e as pernas à barriga como uma menina que está a fazer-se o mais pequenina que pode. O pai foi ao quarto buscar o anel de ouro que lhe dera e pôs-lho no dedo. - Vai protegê-la com a história de toda a família - disse-me. Tendo ido buscar o seu talit, o seu manto sagrado, pô-lo sobre os ombros e começou a rezar por Sofia. Os olhos dela em breve se fecharam mas ele continuou a rezar por ela durante o resto do dia, nem sequer parando para comer.

Apesar dos apelos do nosso pai, Sofia continuou a afundar-se na doença. Na manhã seguinte, o seu peito erguia-se e descia tão debilmente que tínhamos a certeza de que estava a desaparecer da nossa companhia.

Sempre que acordava, falava como se estivesse já longe do mundo. Tinha agora os olhos de um cinzento fosco - como se estivesse a olhar para nós através de uma névoa - e a face empalideceu-lhe tanto que pensámos que o sangue se lhe devia ter escapado por um corte profundo, mas não lhe víamos nenhuma ferida. Doía-lhe tudo. Nupí aplicou-lhe emplastros quentes no peito.

- Pus-lhe pimenta e manjericão - murmurou-me dramaticamente quando os cheirei, deixando claro com o tom de voz que isto era uma batalha de vida ou de morte, que precisava do poder da mais sagrada das plantas para salvar a sua amada afilhada.

O nosso pai e eu passámos todo o segundo dia a rezar junto à cama dela. Nupi mantinha-nos de pé com caldo de arroz e um chá muito escuro, e, no seu quarto, fazia oferendas de flores e frutos a Sitala Devi - a deusa local do último recurso. Depressa se espalhou a nova da nossa infelicidade. Vinham aldeões de Ramnath a todas as horas dar-nos condolências, descalços e de faces sombrias, com tanto medo da morte que não sabiam bem onde pôr as mãos e os pés. Encarreguei-me de os acompanhar à entrada e à saída do quarto da doente o mais rapidamente possível, pois o meu pai não queria que o impedissem de prestar atenção à sua filha por um instante que fosse.

- Basta um abrir e fechar de olhos para o Anjo da Morte deitar uma gota amarga na boca de uma criança e a envenenar - disse-me.

As amigas de Nupi vinham de Ramnath e Ponda, trazendo limas, queijo, mangas, e tudo o que acaso julgassem que precisávamos, e ficavam a conversar com ela no pátio, falando em tom sussurrado de todas as inevitáveis tristezas da maternidade. Recordo-as, de mãos juntas no peito, sentadas em círculo a falarem e a escutarem-se umas às outras, como se fizessem parte de uma sociedade sem nome cuja missão consistia em estar de vigília junto ao leito de morte dos seus filhos. Os olhos delas ainda hoje me perseguem obsessivamente - enfrentando-me como pensamentos secretos que nunca podem ser expressos, como que me fitando através de uma janelinha do coração que, sei, nunca conseguirei fechar completamente, por mais anos e léguas que me afastem da minha irmã.

Ao irem embora, as velhas punham-me uma mão no peito como quem quer ter a certeza de que eu era coisa material e diziam quanta pena sentiam, o que eu detestava ouvir, pois parecia que já tinham perdido a esperança na vida de Sofia.

A sua pobre mãe, e agora isto, ouvia-as a pensar.

Uma manhã apareceu lá em casa uma turba de pedintes maltrapilhos, de olhos como berlindes e pele amarela, fedendo a carne podre, que se puseram a gritar do jardim. Tinham ouvido dizer que lhes davam comida em troca das suas preces pela saúde da minha irmã, mas Nupi não estava para os aturar. Atirou-lhes da porta dois pequenos sacos de arroz e enxotou-os, brandindo um grande cutelo na sua direcção e resmungando enquanto eles fugiam:

- Por vezes, penso que a minha maior alegria nesta vida será quando nunca tiver de falar com outra alma viva.

Nessa tardinha, ao crepúsculo, ouvimos cacarejar no jardim. Pensando que eram os pedintes outra vez, corri para a porta, a fúria a invadir-me o peito, mas fui dar com Jaidev - o santo homem do mercado da aldeia - de pé ao fundo das escadas do alpendre, empoado com terra seca, uma grinalda de frangipanas e margaridas ao pescoço, e um grande calau indiano pousado no ombro, a guinchar como se quisesse acordar a índia inteira. A magnífica ave tinha uns oito palmos, era negra, com asas de branco puro na ponta. Olhava para mim fixamente, acusadora, como se eu fosse a reencarnação de um velho inimigo.

Saí de casa, mas mantive-me à distância.

O sadhu riu-se. - Não tenhas medo, Ti, o Sujay prefere fruta mais tenra do que tu.

- Mesmo assim, acho que vou deixar os cumprimentos para outra altura.

Os olhos de Jaidev estreitaram-se, preocupados. O seu cabelo branco, a brilhar do óleo de coco, caía-lhe até à cintura num matagal.

- Ouvi dizer que a nossa Sofia está mal - disse.

- Está, está gravemente doente.

Ajoelhou-se, para que Sujay pudesse saltar para o alpendre. A asa direita da ave descaía-lhe penosamente ao andar.

- Está partida? - perguntei. Jaidev disse que sim com a cabeça.

- Estou a alimentá-lo, à espera de que recupere.

O santo homem chegou-se a mim e, quando me afagou suavemente a face, os meus cuidados com a saúde de Sofia desabaram sobre mim. Nos seus braços, chorei por muitas coisas, mas, sobretudo, por não ter conseguido proteger a minha irmã.

Jaidev e eu sentámo-nos, e ele passou-me o braço ossudo na cintura. Cheirava a barro seco quente, como se, com a velhice, se estivesse a tornar parte da própria terra.

Contei-lhe como tudo começara a correr mal. Enquanto eu falava, ele atirava ao calau umas nêsperas que ia buscar à bolsa de pano que trazia à cintura. Uma luz bruxuleou dentro de mim ao observar a generosa cumplicidade entre os dois. Era como se a sua simples e improvável relação significasse um pouco de esperança - e não só para mim, mas para todo o mundo.

Quando acabei de contar a Jaidev os problemas de Sofia, ele apontou para Sujay.

- A asa dele foi partida por uns caçadores, acho eu. Não suportava vê-lo a arrastá-la ao pedir comida. Por isso, agora estamos juntos.

Deixámos Sujay no nosso pátio, onde a ave não podia causar muitos estragos, e fomos ter com o meu pai, que tinha adormecido no quarto. Ficou tão comovido pela vinda de Jaidev que lhe beijou as mãos, coisa que nunca o vira fazer antes a nenhum homem. O sadhu sentou-se junto à minha irmã, agitando os dedos escuros sobre a cabeça dela, e entrou em transe. Afastou-se do mundo por quase uma hora, imóvel como uma estátua. O meu pai e eu rezámos. Quando Jaidev acordou estremecendo, disse que Vishnu o chamara das águas do Ganges.

- Disse que ainda não é a hora de Sofia - explicou-nos. Fez um sorriso de radioso alívio, mas também ele limpou as lágrimas.

- O que há? - perguntou-lhe o meu pai.

- Vejo muito sofrimento nas minhas jornadas.

Despedimos o santo homem com papaias maduras de uma das nossas árvores.

- Ora vejam lá, trazer aquela ave nojenta para aqui - disse-me a Nupi de nariz no ar, depois de ele se ir embora, parando de varrer as descargas de Sujay. - Às vezes, acho que este sadhu tem miolos de gafanhoto.

Reanimados pela certeza de Jaidev, o meu pai e eu pusemo-nos de novo a orar pela minha irmã. A cada palavra, eu sabia que estava a lutar não apenas por ela mas também por toda a minha vida - até pelo meu amor por Tejal. No entanto, Sofia não estava melhor nem nessa tarde nem ao princípio da noite, e eu fui sentar-me no alpendre, escutando os sons da floresta como se toda a índia estivesse à espera da notícia da sua morte.

Na manhã seguinte, ao acordar, verifiquei que Sofia não estava na cama, e que também lá faltava um cobertor vermelho de lã que fora da minha mãe. O travesseiro ainda tinha uma cavidade no sítio da cabeça dela, mas estava frio ao toque. O meu pai estava a dormir na cama, com as pontas da manta de orações presas nas mãos, como se num sonho fosse puxar as cordas de um sino para tocar a rebate.

Saí de casa a correr e fui encontrar a minha irmã sentada debaixo de uma palmeira na borda do jardim, com o cobertor à volta dos ombros. Fez-me um pequeno sinal, depois estendeu a mão como se fosse agarrar a meia-lua - branca como cal à luz desfocada da manhã - e fez de conta que a metia na boca.

Nessa manhã, o meu pai olhava para Sofia como se tivesse acabado de nascer, não querendo tirar os olhos agradecidos dela, que, pela primeira vez desde há dias, comia comida sólida. Ela ria-se a bom rir quando ele lhe roubava pedaços de chapati. Até a Nupi se sentou connosco depois de eu a ter ido buscar e levado para a mesa.

Eu era suficientemente novo para acreditar que o mundo dera uma volta completa, indo parar à exacta posição em que estava antes dos nossos problemas, mas o meu pai logo me chamou de lado e confessou que, durante a doença de Sofia, recebera uma carta do irmão que o enchia de terror. O tio Isaac escrevera que tinha visto o Wadi a passear com a Sara ao longo do rio - e que provavelmente não era a primeira vez. O meu primo negou vivamente perante o pai que tivesse reatado com Sara, mas Isaac era de opinião que devíamos proceder com cautela. Sugeria que podíamos talvez até começar a preparar a minha irmã para o pior.

- Wadi quer que nós percebamos que se pode portar conforme lhe der na gana - disse ao meu pai. - Sabe que a Sofia lhe é devotada. Está a saborear o seu poder sobre nós e sobre ela.

O meu pai deu o único passo razoável que podia dar: escreveu ao irmão a dizer que iríamos a Goa logo que tivéssemos a certeza de que Sofia estava bem, para podermos conversar calmamente sobre o assunto. Ou chegávamos a acordo sobre uma data para o casamento ou - se Wadi tivesse realmente deixado de gostar dela - insistir numa ruptura definitiva entre os dois.

O meu pai e eu não ousámos dizer nada à minha irmã sobre a duplicidade do Wadi. Nem a Nupi, pois era tão pobre actriz que sem dúvida iria revelar alguma coisa.

Na minha carta seguinte para Tejal contei-lhe os nossos planos e acrescentei que o meu pai prometera começar as lições de Tora com ela logo que estivéssemos em Goa. Mandei-lhe também um bigode-de-gato espalmado e seco.

Não pensava que Sofia adivinhara que ainda podia haver alguma coisa que não estivesse certa, mas poucos dias depois, antes de nos irmos deitar, veio pé ante pé até mim e disse-me:

- Diz-me honestamente, Ti: o papá continua a não querer que eu case com o Wadi, não é?

- Preferia que esperasses mais um pouco, é só isso.

- Tens a certeza?

- Claro.

Via que não acreditava em mim.

- Sofia - disse eu para a sossegar -, vais-te casar com o Wadi de uma maneira ou doutra, mais cedo ou mais tarde. Portanto, deixa de te preocupar. - Puxei-lhe a mão e brami como um elefante para a alegrar, mas ela não sorriu. - Vais ter o que queres - disse eu vivamente. - E se nos mantivermos calmos durante umas poucas semanas, o papá também vai ter o que quer.

Não estou certo que tenha acreditado nas minhas palavras, mas pareceram-nos acertadas a ambos, e por vezes não precisamos de mais nada para seguir em frente.

Sofia e eu apanháramos um grande susto com a doença dela e a convalescença deixou-nos a ambos um pouco loucos e estonteados. Passávamos tardes inteiras em que praticamente não conseguíamos parar de rir, por mais que Nupi amuasse connosco ou nos expulsasse da cozinha aos gritos. Olhando para trás, vejo que nos fora dada uma segunda oportunidade numa idade dourada, e estou grato. Voltáramos a ser crianças, mas não achávamos que houvesse mal nisso.

Uma tarde, o meu pai manchou as mãos de cor-de-rosa a preparar para nós pato selvagem em molho de romã - o único prato que sabia cozinhar. Sofia trazia o colar de coral que ele lhe dera e fartou-se de gabar a comida, embora na verdade debicássemos a pobre ave como se tivesse morrido de sede no deserto da Arábia.

No dia seguinte, Nupi decidiu que tínhamos de arejar a casa e limpar tudo para destruir os últimos vestígios da presença nefasta que fizera Sofia adoecer. O meu pai pôs-se a troçar, mas, embora a velha mangusta teimosa tivesse aceite não tocar em nada, na manhã seguinte começou a arrastar cadeiras e tapetes, fazendo um barulho tão infernal que acordámos todos e começámos a ajudar sem resmungar.

Uma vez tudo fora de casa - com a estátua de Shiva da minha mãe a guardar o cimo das escadas do alpendre -, Sofia perguntou ao nosso pai se podíamos pintar o quarto dela.

Ao ouvi-la, ele começou a dançar com ela pelo jardim, pois - como depois me disse - interpretou aquilo como querendo dizer que não nos ia deixar tão cedo para ir viver com Wadi em Goa. Eu não tinha muita certeza disso.

Enquanto Nupi sacudia o espanador de penas para trás e para a frente por tudo o que era sítio, e enquanto Sofia e eu batíamos os tapetes soltando nuvens de pó, o nosso pai dirigiu-se a Ponda na carroça do burro. Duas horas depois, voltou com dois sacos gigantes de cal e sacos de pigmentos. Pintámos o quarto de Sofia de amarelo-açafrão, como banhado na luz do Sol; o meu, pintámo-lo de verde-azeitona com tecto cor-de-rosa, as cores de um papagaio de que eu gostava quando era menino. Quando chegámos ao quarto de Nupi, ela pediu que Sofia e eu pintássemos retratos de Sujay e Jaidev sobre um fundo azul-escuro.

- Temos de dar-lhes o que lhes é devido - disse-me a cozinheira.

- Mas tu achaste que Jaidev era louco por trazer com ele aquela ave nojenta, como tu lhe chamaste.

- A ave e ele são ambos uma porcaria, mas o que fizeram, seja lá o que for, resultou. Aquilo que preserva a vida é bom e digno do nosso agradecimento. O resto são apenas folhas caídas ao chão.

Tejal surpreendeu-nos ao chegar alguns dias depois nessa semana numa carroça conduzida por Igbal Aziz, um queijeiro de Ponda que a trouxera com ele desde Goa. Vinha vestida com o uniforme da escola, mas trazia consigo um saco de farinha com uma muda de roupa.

- Não podia estar mais tempo longe de ti - disse-me com um sorriso embaraçado quando saí de casa a correr para a saudar. - Disse às professoras que tinha de voltar a Benali para um casamento.

- És muito manhosa - respondi com admiração.

Tejal corou, mas eu podia ver nos seus olhos confiantes que estava bastante ciente do poder que conquistara sobre o seu destino, agora que estávamos para casar. Disse-me que teríamos três dias juntos e que depois tinha de voltar.

Nunca discutira com Sofia a minha apreensão de que ela não quisesse a amizade de Tejal, mas a minha irmã deve ter pressentido isso; correndo para nós, rindo-se com cumplicidade da audácia de Tejal, Sofia tomou-lhe a mão e levou-a a correr para o quarto dela para a ajudar a lavar-se da poeira e a vestir um sari. O nosso pai levou-lhe lá um chá, e Nupi começou a escovar-lhe o cabelo, que ficara amarfanhado da longa viagem.

Logo que nos encontrámos juntos no alpendre, Sofia calou todos os amáveis planos que o nosso pai preparava para Tejal. Naquela voz de menina que fazia esboroar-se a resistência dele, disse:

- Por favor, papá, deixa o Ti e a Tejal ir dar uma volta primeiro. Há semanas que não se vêem.

Ele percebeu logo o erro que tinha feito e empurrou-nos para fora.

À ida para Ramnath, passámos pelas papoilas vermelhas que cresciam abundantes ao longo dos caminhos e por dezenas de garças de patas amarelas que palmilhavam com passos hesitantes os campos de arroz. Uma mulher que trazia uma cabrinha nos braços sorriu-nos calorosamente. O filhinho, curioso, com uns olhos como berlindes negros, agarrava-se-lhe à orla do sari. Perguntou-nos aonde íamos e se tínhamos filhos. Sabíamos que havíamos de nos lembrar deles para sempre porque tinham visto o nosso amor.

Tejal teve a primeira lição de Tora com o meu pai nessa tarde, e à noite ela e Nupi prepararam um banquete de camarões frescos e pampo em molho de coco e tamarindo, à moda da aldeia delas. Fiquei na cozinha com as duas, não dizendo praticamente uma palavra, contente por poder ficar sentado em silêncio junto delas. Que peso uma pessoa ter sempre de estar a dizer coisas às outras pessoas!

Adorava os seus movimentos rápidos e seguros, o estimulante cheiro das especiarias, e o crepitar das brasas. Mas, acima de tudo, admirava a seriedade dos olhos delas. Era como se acreditassem que fazer uma refeição era a coisa mais importante do mundo.

Tejal deixou-me provar as sucessivas fases do molho na colher de madeira, embora, quando a opinião de Nupi diferia da minha, elas simplesmente desprezassem o que eu dizia, o que me dava vontade de rir. Eu estava perfeitamente ciente de que vinha do mundo dos homens e que elas eram mulheres, e apreciava cada vez mais a diferença.

Nessa noite, Sofia implorou com êxito ao nosso pai que deixasse Tejal dormir no quarto dela, em vez de no de Nupi. Pouco depois da meia-noite, acordei com a minha irmã, de vela na mão, debruçada sobre a minha cama e com um dedo nos lábios.

- Chiuu. Vai para o meu quarto caladinho como um rato.

Percebi imediatamente porque lutara para que Tejal ficasse com ela.

- És capaz de fazer isso por mim? - perguntei. Bateu-me na cabeça brincalhona.

- Não é por ti, é pela Tejal!

Ou por ela? Não tinha esquecido completamente as traições de Sofia, e - por um momento de pânico - perguntei mesmo a mim próprio se o ajudar-me agora não poderia de uma ou de outra forma encaixar nos seus planos; mas se encaixava, não me importava; também descobrira as minhas capacidades de embuste.

Tejal estava a dormir profundamente quando me meti, furtivo, debaixo do cobertor e me aninhei por trás dela. Passando-lhe a mão muito suavemente pelas nádegas e a anca, que me pareceram frias ao tocar-lhes, insinuei-a depois até à curva firme e quente dos seus seios. Beijei-lhe o pescoço, que, como eu já sabia, cheirava mais a ela do que qualquer outra parte do seu corpo, e, embora estivesse muito nervoso, disse a mim próprio que só estava a fazer o que Deus pretendera que os homens e mulheres fizessem. Gemeu docemente e soltou um suave protesto do fundo do seu sono. Não me mexi, deixando que o meu calor a invadisse, e, quando reuni coragem para encostar a minha carência cada vez maior à fenda entre as suas nádegas, puxou-me para a quente humidade ali escondida como se não pudesse esperar mais para encontrar o nosso futuro.

Depois, agarrei-me a Tejal como se estivéssemos ambos em perigo de cair de uma altura fatal. Adormecemos os dois juntos pela primeira vez, com a minha perna por cima do ventre dela e o braço dela a cingir a minha cintura, tentando fazer dos nossos corpos um nó que nunca pudesse ser desatado. Uma vez durante a estada dela em nossa casa, mergulhados até à cintura no Riacho do Moinho, unimo-nos com tal urgência que, quando nos separámos, era como se tivéssemos quebrado alguma coisa. Foi aterrador. E, contudo, no que me diz respeito, casámo-nos naquele preciso momento. Que melhores testemunhas podíamos ter tido do que as águas e o céu, e um bando de periquitos palradores numa teca por trás de nós?

Após a partida de Tejal, fiquei sombrio a mais não poder, visto que ela parecia ter levado consigo o que havia de melhor em mim, mas Sofia esforçou-se bastante para me animar até que o nosso pai nos disse que íamos a Goa dentro de dez dias. Depois disso, a minha irmã andava tão nervosa que até escondeu a cara num véu de cabelos quando as amigas de Nupi vieram a nossa casa para verem com os próprios olhos que ela melhorara. O meu pai e eu adiámos por uns dias perguntar-lhe o que se passava, mas, como o seu humor não mudava, fui ter com ela, estava ela sentada na cama, a afiar o cálamo.

- Alguma coisa te está a preocupar, está-se mesmo a ver - disse eu. - Não te perguntei nada até agora, mas talvez devêssemos falar.

Sem erguer o olhar, respondeu:

- Acho que talvez eu nos esteja a levar por um caminho que não devia. Sentei-me ao seu lado. Como tinha a lupa pousada na travesseira, peguei-lhe e pu-la diante da cara dela, fazendo-lhe uns olhos grandes como os de um camelo. Deitou-me a língua de fora, jocosa.

- O papá tem de acertar as coisas com o tio Isaac e a tia Maria - disse eu. - Não há outro caminho.

- Eu sei, mas... mas...

Pareceu-me saber aquilo que ela, por medo, não conseguia dizer:

- E se a tia Maria não quiser que tu cases com ele? É isso, não é?

Sei agora que lhe devia ter dado mais tempo para me dizer o que estava a pensar; ela podia ter salvo várias vidas se tivesse tido coragem para dizer as palavras certas naquele momento.

- Às vezes, penso que ela não gosta nada de mim - concordou, em tom envergonhado. - Às vezes, não sei o que ela quer. Ou se posso confiar nela.

- Ela nunca gostou de ninguém! - exclamei. - Mas o tio Isaac e o papá hão-de ultrapassar as suas objecções. Tem confiança no papá. Ele ama-te mais do que tudo.

Passou as mãos pelo cabelo.

- Lembras-te de quando te disse que queria esgueirar-me para fora da pele? - perguntou. - É como me sinto agora. Só que já sou crescida e já não posso transformar-me em mais nada.

Quis dizer: «Se amas o Wadi e ele te ama, nada de mal pode acontecer», mas os motivos do nosso primo eram um tal enigma que não ousei. - Prometo dar-te toda a ajuda que puder - foi tudo o que consegui dizer. - Todos aprendemos uma lição com a tua doença.

Pensei que isso a sossegaria; em vez disso, rebentou em lágrimas, tremendo no meu abraço como se estivesse aterrorizada de mais para esperar um final feliz.

Quando partimos para a cidade, Nupi despediu-nos com um almoço de chamuças e fruta para a viagem, e uma bolsa com bolos de cardamomo coloridos com açafrão para o tio Isaac. Chegámos a Goa quase ao pôr do Sol. À ceia, a tia Maria tagarelou com toda a gente, sempre a chilrear no seu vestido de seda como um pardal na fonte favorita. Wadi, muito provavelmente imitando-a, estava encantador e galante com Sofia, a mais não poder. Eu não acreditava em nada daquilo.

Uma vez, apanhei a imagem da minha tia no espelho dourado por cima do fogão de sala, e por um instante pude claramente ouvi-la a dizer-me:

«Não posso ser senão a mulher que estás a ver. Isso me basta; por isso, não esperes mais nada.»

Apanhei a imagem do meu pai quando fui ao seu lado da mesa buscar o pote de mel, e nos seus olhos vi-o dizer-me: «Quem anda sempre com uma máscara acha que todos fazem o mesmo, pelo que receia, mais do que podes imaginar, o que pode estar escondido na tua.»

Foi uma refeição em que não tocámos em nada do que tínhamos de falar. Não me importei, porém; a utilidade do subterfúgio em assuntos de coração ia-se-me tornando cada vez mais óbvia.

Depois da sobremesa, Sofia foi para o quarto e pôs um elegante vestido azul com uma gola negra tufada, prenda recente da tia Maria. Então, ela e Wadi disseram que iam dar uma volta. O nosso pai não via com bons olhos que eles estivessem a sós antes de ter tido oportunidade de falar com o irmão, mas manteve um silêncio diplomático. No meu quarto no andar de cima, escondi-me por trás das cortinas de renda e fiquei a espiar o par a falar baixinho à porta da rua, o que até seria natural em namorados que já não se viam há meses, mas Wadi estava visivelmente agitado. Assaltou-me a ideia de que podia estar a pressionar Sofia para se casarem.

Ele trazia uma carteira de couro ao ombro, e disse-me o nosso pai mesmo antes de nos deitarmos que tinha lá dentro um livro de estudo em latim - comentários sobre os Paradoxos Históricos de Cícero - que pedira emprestado a um amigo e tinha de restituir nessa noite, mas pareceu-me que era uma desculpa para ficar com Sofia mais tempo do que o que se podia considerar apropriado.

Enquanto eu adormecia, o meu pai ficou a pé a falar com o tio Isaac, e, de manhã, disse-me que tinham decidido que Wadi e Sofia iam ter reuniões com eles em separado nessa mesma noite. Dar-se-ia a cada um ampla oportunidade para dizer se o casamento era mesmo o que queria.

Era domingo, por isso a tia Maria, Wadi e o tio Isaac saíram para a missa de manhã cedo. A minha tia lá se foi a correr levada num palanquim de brocado carregado por quatro indianos. Uma vez sós em casa, as sombras pareciam acumular-se sobre nós. O meu pai e Sofia, de tão nervosos, praticamente não conseguiam dirigir a palavra um ao outro. Começou a chover a potes, o que só nos fez sentir ainda mais intensamente o nosso isolamento, pelo que, ao voltar o sol, sugeri que fôssemos espreitar as caravelas que acabavam de chegar de Lisboa. Isaac dissera-nos que tinham feito cativo em Angola um rei africano, grande como Golias, o qual vinha a bordo de uma das naus. Sofia respondeu que preferia ficar em casa, acrescentando que os Africanos deviam ser autorizados a ficar no seu continente, o que poderia ser uma crítica velada ao nosso pai por ter vindo para a índia, mas - felizmente

- ele não o interpretou assim. Ele não queria deixá-la só, mas temia que ela se sentisse espiada. No fim de contas, aceitou acompanhar-me.

As gaivotas rodopiavam por cima de nós à ida para o rio. Paráramos para observar um guardador de gado indiano todo maltrapilho a tentar reparar o eixo da sua carroça quando três soldados nos abordaram.

- O seu nome é Berequias Zarco? - perguntou o mais baixo ao meu pai.

- É.

- Então está preso.

- Por que motivo?

- Leva-o - ordenou o soldado aos seus companheiros.

- Não vou lutar contra vocês - disse-lhes o meu pai quando o agarraram pelos braços para o levarem. - São três contra dois, e vocês têm espadas...

- Parecia divertido. - Ti, vai ter com o teu tio e conta-lhe o sucedido.

- Mas o pai não fez nada de mal.

- Faz o que te digo - ordenou-me calmamente. Vendo como eu estava perturbado, piscou-me o olho. - Não te preocupes, Isaac conhece o governador. Ele tira-me da prisão numa hora. É apenas um erro. Devem ter-me confundido com outro Berequias Zarco.

Na altura, pensei que estava a brincar. Agora, não tenho tanta certeza de que não soubesse o que estava para acontecer e de que não se tenha fingido divertido apenas para evitar que eu me pusesse a discutir com os soldados. Provavelmente, temia que eu fosse levado com ele - ou agredido - se não me mantivesse na ignorância.

Nunca tinha estado numa igreja antes e fiquei ainda mais agitado pela multidão amontoada e o cheiro enjoativo das roupas molhadas da chuva. O som do latim cantado ecoava rudemente nas paredes de pedra. Ao forcejar para chegar às primeiras filas, sentia o tempo a pulsar à minha volta: cada segundo de atraso, receava, poderia custar ao meu pai um mês de liberdade. Quando descobri o meu tio, chamei-o e pus-me a agitar a mão freneticamente. Ele ergueu-se num salto e abriu caminho até mim sem uma palavra para a tia Maria ou o Wadi.

- É o nosso pai - disse-lhe, mal chegou à minha beira. - Foi preso.

Isaac teve um sobressalto e empalideceu. Wadi e a tia Maria seguiram-nos até à rua.

- Vão para casa - disse-nos o meu tio aos três. - Vou à cadeia.

- Eu vou consigo - disse eu.

- Não, a Sofia vai precisar de ti. E é melhor eu ir sozinho. - Olhando em torno para se certificar de não estávamos a ser escutados, Isaac murmurou: - Tu também és judeu, Ti, e isso só ia piorar a situação.

Dito isto, foi-se em passo estugado. A minha tia falou-me em tom de reconforto no caminho para casa, mas não faço ideia do que disse; agudos pensamentos de morte aferravam-se avidamente a mim, como se estivessem à procura do meu ponto fraco. Quando chegámos à nossa rua, Wadi não esperou que eu dissesse a Sofia o que acontecera, foi a correr à nossa frente para a informar ele, coisa que achei difícil de perdoar. No entanto, se estava mesmo apaixonado por ela, que poderia ser mais natural - e até louvável - do que querer estar com ela a sós nesse terrível momento?

Sofia estava mergulhada num transe de profundo desespero quando a tia Maria e eu chegámos à beira dela. Estava sentada na cama, a face cinzenta, tremendo como se estivesse encharcada. Wadi envolvera-a na sua capa negra e estava ajoelhado a seu lado, receoso de a tocar.

- Ti, o que vai acontecer ao papá? - perguntou-me numa frágil voz quando pronunciei o seu nome.

- O tio Isaac diz que vai voltar para casa em breve. Não te preocupes. Foi um erro, mais nada. Agora, tens de te deitar e descansar.

- Acho que não consigo...

- Por favor, tenta, querida - disse a tia Maria suavemente.

Pedi a Wadi que saísse para eu poder despir Sofia e metê-la debaixo dos cobertores. Não acho que tenha falado rispidamente. Sei que estava a tentar manter a calma por causa da minha irmã.

- Não me fales dessa maneira! - atirou-me, como quem pretende começar uma briga. - Esta casa é minha, não tua!

- Agradeço que não levantes a voz - disse-lhe a tia Maria. - Não vai haver discussões nesta casa enquanto o tio Berequias estiver na prisão. Ouviram, rapazes?

- Francisco Xavier - disse eu, tendo cuidado em usar o nome cristão dele diante da mãe -, pensei que amavas a minha irmã e querias o melhor para ela.

- Tu, pelos vistos, não acreditas que quero.

- Neste momento, só acredito que tens de nos deixar a sós. Ou queres ver-me a ajudá-la a despir-se? Talvez queiras fazer isso por mim. É isso?

Ele lançou-me um olhar demorado de desprezo, o que me deu grande prazer, e depois fez o que lhe pedira, embora deixasse a porta aberta, forçando a tia Maria a fechá-la. Quando Sofia por fim deixou de tremer e fechou os olhos, a minha tia deixou-nos sós, mas, por mais que eu falasse, a minha irmã não me dirigiu palavra.

Ao voltar para casa nessa tarde, Isaac disse-nos que não conseguira que libertassem o meu pai, e que ele ia passar a noite na cadeia da cidade.

- De que crime o acusam? - perguntei.

- Não me quiseram dizer...

Perguntei-lhe então por que motivo o eu ser judeu só piorava a nossa situação.

- Ti, a Inquisição considera-te um herege.

- Mas eu não fiz nada!

- Tiago - disse a tia Maria, lançando-me um olhar punitivo -, parece que não percebes o perigo que tu e o teu pai são para a Igreja, e que ela tem de se defender contra vós.

- Fala como se estivesse a favor do que aconteceu!

- Não, apenas compreendo.

- Mas o Santo Ofício não tem poder sobre nós - disse a Isaac. - O papá disse-me que só pode castigar judeus que já se tenham convertido ao cristianismo.

- Isso também eu pensava, mas pode haver alguma complicação que não percebemos.

Tinha um tom tão sombrio, que pela primeira vez percebi que o meu tio receava pela sua própria vida. Talvez fosse essa a verdadeira razão por que não queria um judeu com ele na cadeia. Pior, agora percebia que ele podia não estar em condições de interceder vigorosamente pelo meu pai, ou de pedir uma audiência ao governador, visto que quanto mais fizesse pelo irmão judeu, mais provável era que ele próprio fosse acusado de trair a sua fé cristã.

Estava bastante certo de que o meu pai não tivera tempo de pensar em nenhuma destas complicações ou nunca teria falado tão desprendidamente da sua detenção. Que depressa toda uma família pode ser colocada em xeque, pensei.

 

Eu SUBESTIMARA a coragem de Isaac. No dia seguinte, aos primeiros raios de sol precipitou-se para a rua, para dar início à sua campanha para conseguir a libertação do meu pai. Voltou pelo meio-dia, com os olhos injectados e a capa a feder como um monte de excrementos. Atirou-a logo para o jardim das traseiras com uma praga surda.

- Manda queimar! - ordenou à tia Maria.

Friccionando as mãos, disse-nos que o meu pai não fora levado para a cadeia da cidade, como ele pensara, mas sim para o Aljube, a prisão do arcebispo de Goa. Ao dizer isto, despontaram-lhe lágrimas nos olhos.

- Os responsáveis da Igreja devem acreditar que ele pronunciou alguma terrível blasfémia - disse o meu tio, abanando a cabeça desesperado.

A minha tia levou-lhe um copo de aguardente e ele engoliu-o com avidez. Disse-nos que fora autorizado a ver o meu pai apenas brevemente. O meu pai estava preso numa cela cavernosa com várias dezenas de outros prisioneiros. - Pelo menos tem o conforto da conversa, graças a Deus - disse-nos o meu tio. - Está com ele um mercador francês e um brâmane indiano. - Estremeceu. - Os prisioneiros contentam-se com um buraco cavado no chão para as suas necessidades. Há muito que está cheio e agora a porcaria e os vermes espalharam-se por todo o lado.

- Isaac, agradecia que nos poupasses certos pormenores! - ralhou-lhe a tia Maria.

- Não! - disse-lhe eu, aguilhoado. - Terá de ouvir como a sua bem-amada Igreja trata os bons homens.

- Esses «bons homens» devem ser quase todos assassinos e ladrões - retorquiu desdenhosa.

- E o meu pai que é, dessas coisas? - perguntei. Isaac ergueu a mão para parar com a nossa discussão.

- Nada disso interessa agora - disse. Chamando-me a mim e à Sofia para o pé dele, deu-nos a pior notícia possível: - O vosso pai vai ser transferido esta tarde para o Palácio da Inquisição.

Quando Wadi foi ajudar Sofia a deitar-se, tive oportunidade de questionar o tio Isaac sobre a Inquisição. A tia Maria ouvia também com atenção as suas explicações, mas recusava-se absolutamente a acreditar que o nosso pai poderia ser torturado, rejeitando os nossos medos como «simples fantasia mórbida», mas o marido - pela primeira vez que eu me lembrasse - virou-se furioso contra ela.

- Maria - disse, violento -, a tua ignorância dos métodos da Igreja equivale a aprová-los. Não permitirei que tornes a repetir as tuas dúvidas nesta casa! Ninguém nesta cidade quer saber o que se passa - ou o que sanciona com o seu silêncio.

Muito abalada, levou a mão ao coração e fugiu para a cozinha, desculpando-se com a necessidade de vigiar os preparativos da ceia. Quando regressou, tinha posto os longos brincos de rubi que habitualmente usava nas ocasiões mais formais. Informou-nos de que ia visitar o Padre António, seu confessor, e pedir-lhe que intercedesse. Quando eu ia para agradecer-lhe a generosidade, quis à viva força que Sofia e eu a acompanhássemos.

- E seria bom que vocês se pusessem de joelhos e implorassem misericórdia - acrescentou, numa voz toda virtuosa, como se estivesse há anos à espera de me dizer aquilo a mim. - Vai vestir as tuas melhores roupas o mais depressa possível.

Só depois me ocorreu que ela estava a tentar descarregar a sua humilhação em Sofia e em mim. Na altura, só consegui balbuciar uma recusa, protestando que o meu pai ficaria furioso se a minha irmã e eu fôssemos visitar um padre com ela. Numa bravata ingénua, jurei que nunca me poria de joelhos diante de um cristão.

- Não vês que corremos todos um terrível perigo? - exclamou Maria em fúria. - Temos de mostrar a toda a gente que vocês, lá por serem judeus, não deixam de respeitar as nossas tradições. Se a Igreja achar que são uns desordeiros, podemos acabar todos com o teu pai na prisão.

- Ela tem razão - disse Isaac solenemente, e percebi a desculpa que me dirigia no seu olhar baixo, gesto que me lembrava tanto o meu pai que me senti impotente para continuar com o protesto.

Precisava de tempo para discutir as nossas opções com Sofia, e pedi-lhes escusa para poder falar com ela a sós.

- Não demores muito - avisou a minha tia. Estava a tirar todo o partido daquela oportunidade de vingança contra mim.

Wadi respondeu aos meus toques na porta. Estava sentado junto à cama de Sofia, e pela maneira como se debruçava sobre ela, com a mão no seu ombro, vi que se tinham estado a abraçar. Ofegava hesitante. Receei que tivesse ficado doente outra vez. A expressão sombria de Wadi deu-me vontade de lhe estender a mão, mas não queria arriscar-me a aproximar-me dele, nunca mais.

- Posso ficar uns instantes a sós com a minha irmã? - perguntei-lhe.

- Por favor, Tigre, tenho de estar à beira dela - disse suavemente. Não usava a minha alcunha há muitos meses. Senti que estávamos a

andar sobre vidro partido.

- Será mais fácil para nós se ficares lá fora à espera - disse-lhe. - Assim, não ficarás na difícil posição de teres que, ou mentir à tua mãe ou contar uma verdade que eu preferia não lhe revelar.

- Ele tem razão - murmurou Sofia.

Wadi beijou-lhe a fronte e dirigiu-se à porta.

- Chamem-me quando acabarem - disse-me.

Ele ama-a à maneira dele, percebi. E talvez eu não tenha o direito de lhe pedir mais.

- Caímos muito baixo num só dia - disse à minha irmã quando ele saiu do quarto. - Preciso que tu reúnas toda a força que sei que tens lá dentro. O papá vai precisar dela, e eu também. Talvez durante meses. Se calhar vamos ter uma longa batalha à nossa frente.

- Farei tudo o que tenho de fazer - concordou. Enquanto ela limpava a face à manga da camisa de noite, disse-lhe o que a tia Maria propunha e pedi-lhe a sua opinião.

- Não me importo de ir à igreja, se é para ajudar o papá - disse.

- Mas sabes que ele havia de o proibir.

- Oh, Ti, eu faço seja o que for... seja lá o que for!

- Ficas zangada comigo se eu não for?

- Não, mas se calhar vais pôr-nos em perigo.

- Não acho. O tio Isaac disse-me que alguém deve ter acusado o papá de blasfémia. É assim que a Inquisição funciona. Precisam de uma acusação para dar início a um processo. Deve ter sido alguma coisa que o papá disse ou fez numa das nossas anteriores vindas a Goa. Não acho que por agora estejam preocupados comigo. - Num sussurro, acrescentei: - Pode até ter sido um deles.

- Quem? Não percebo.

- Talvez a tia Maria tenha acusado o papá de algum crime contra a Igreja.

A minha irmã fitou-me, espantada.

- Queres dizer... queres dizer, isto pode ter acontecido por alguma coisa que ele tenha dito?

- Ou feito. Sofia gemeu.

- Embora, se calhar, sem ser de propósito - apressei-me a dizer. - Talvez tenha dito alguma coisa numa confissão, pensando que era coisa bastante inocente.

A minha irmã olhou para a porta como quem era capaz de correr pelas escadas abaixo naquele preciso momento para enfrentar a nossa tia. Tinha a face corada. Não ousei acrescentar que podia ter sido Wadi quem tinha traído o nosso pai. O nosso primo poderia muito bem ter decidido utilizar a Inquisição para o afastar das nossas vidas e anular a sua oposição ao casamento deles.

- Sofia, escuta, se fores com a tia Maria agora, não deves dizer uma palavra sobre o papá a nenhum padre, nem a mais ninguém, mesmo que penses que isso poderia ajudá-lo. Nem sequer fales dele a Wadi. Ele ama-te, mas poderia revelar alguma coisa que viesse complicar mais a situação.

- Percebo, Ti.

- E mais outra coisa que nunca podes fazer... O papá estava sempre com medo que a tia Maria te convencesse a converteres-te, mas se deixares que te baptizem, mesmo para tentar remediar a situação, a Inquisição terá completo poder sobre ti. Se te tornares cristã, passarão a dominar o teu amor ao Wadi, ao papá e a mim. Serás escrava dela. Percebes o que te estou a dizer?

Sofia disse que sim com a cabeça, pensativa.

- Não direi nada, e hei-de tirá-lo da prisão, mesmo que seja a última coisa que faça - declarou, com um brilho escuro nos olhos, como se estivesse a apostar a própria vida para ganhar esta batalha.

Durante o mês que se seguiu, Sofia foi todos os dias à igreja com a tia e o tio, mas não conseguiram sequer saber que acusações pendiam sobre o meu pai. A minha irmã disse-me uma noite que começaram a rezar orações cristãs à Virgem.

- Sei que está mal, Ti, mas farei tudo o que tenho de fazer - murmurou, com ar de culpa.

Acrescentou que, dentro da cabeça, também entoava as preces judias, mas que por vezes temia que a tia Maria lhe lesse os pensamentos.

A minha irmã estava a dividir-se em duas pessoas, uma das quais profundamente oculta sob a piedade cristã.

- Ainda bem - anunciou indignada quando lho apontei. - Por que é que as pessoas haviam de poder ver tudo o que se passa dentro de mim?

 

A praça onde se situava o Palácio da Inquisição, uma ampla fortaleza de três pisos com janelas gradeadas, passou a ser o meu único local de culto. Segundo um jesuíta do Porto que se aproximou de mim no segundo dia de vigília para me perguntar o caminho, as três grandes portas de madeira só se abriam para deixar passar os prisioneiros que eram verdadeiros cristãos.

- E os falsos? - perguntei, caindo na armadilha.

- Uma vez lá dentro, os hereges ficam lá até encontrarem Cristo - e aqui o padre benzeu-se -, ou morrerem a tentar.

Posto diante do Palácio como se fosse o Monte das Oliveiras, aprendi como, de manhã, as suas sombras escorriam pelas paredes da mansão cor de salmão que me ficava atrás e, durante a tarde, rastejavam lentamente pelas pedras da calçada. Por vezes ficava ali à chuva, escutando o barulho ensurdecedor dos céus a abrir-se, deixando toda essa água insistente ensopar-me a esperança, resistindo ao desejo de fugir, pondo a minha vontade à prova. Uma vez, um velho mercador indiano numa capa enxovalhada, com a cara mais escalavrada que uma noz, apiedou-se de mim e deu-me um molho de frangipanas e gardénias. O cheiro e a memória devem-se juntar no coração, e aquele cheiro docemente decadente nas minhas mãos em breve não se distinguia já de mil recordações do meu pai.

Observando as gaivotas a pousar no telhado do palácio ao lusco-fusco, gritando para o oceano ocidental de onde o meu pai viera, senti que a minha casa - a umas duas léguas a sudeste - já se afastara para muito longe de mim, levada por uma maré que nenhum deus criara, e que, portanto, não responderia às minhas preces.

Nos meus sonhos, via o meu pai ser cegado com um espeto que estava ao rubro por ter sido posto ao fogo, e ouvia os seus gritos que parecia que me rasgavam o peito.

Todas as noites na cama via os seus olhos exorbitados, e ao acordar pensava: Esta espera não me leva a lado nenhum, mas não tenho outro remédio. Tenho de observar e escutar de muito perto. Tudo tem de ser observado com o pormenor das micrografias de Sofia, pois poderia perder algo de importante - algo que mais ninguém sabe e que poderá libertar o meu pai.

Muitas vezes pensava em escrever a Tejal, e sabia que ela devia estar a interrogar-se sobre o meu silêncio, mas as freiras achavam que ela se convertera ao cristianismo e eu não podia fazê-la correr o risco de ser presa pela Inquisição. Nunca me aventurei por perto do convento dela; nem, já agora, passeei mais longe do que uns quarteirões junto ao Palácio da Inquisição. Sempre que olhava para o horizonte lá ao fundo, sentia que estava como que a nadar no alto mar, oscilando por sobre uma imensidão de água escura que buscava puxar-me para o fundo. Enviei uma carta a Nupi cinco dias depois de o meu pai ter sido feito prisioneiro. «Estamos todos muito bem, mas vamos ficar por mais umas semanas», menti, como um ladrão que já se encontra a salvo noutro país.

Nupi nunca aprendera a ler, apesar das tentativas do meu pai para a ensinar, pelo que enviei a carta a um sacerdote hindu de Ponda com o pedido de que lha lesse.

À noite, depois de regressar da minha vigília, ia direito ao meu quarto e sentava-me na cama, dentro de um quadrado mágico que fazia com almofadas de seda azul, os candelabros de madeira da minha mesinha-de-cabeceira e uma marioneta portuguesa. Sofia vinha muitas vezes ler-me a Tora. Não lhe perguntava como iam as coisas com Wadi, ou se tinham feito planos para o futuro. Dizia-lhe apenas que estava grato por me ter livrado da obrigação de ir à igreja - de fazer o que tacticamente era acertado.

Suspeitava que um dia haveria de ter de pagar perante a minha tia, o meu tio e o meu primo pelo meu comportamento de desafio, mas por agora era neste pé que estavam as coisas e noutro não estariam até o meu pai ser libertado, e não pedi desculpa a ninguém.

Onze dias depois da prisão do meu pai, a tia Maria bateu à porta do meu quarto, acordando-me de um sono intermitente. Era certamente meia-noite.

- Nupi está lá fora a perguntar por ti - disse, zangada, segurando as pregas da camisa de noite, as olheiras acentuadas pela crua luz da vela, o que me lembrou como envelhecera. - Essa vossa cozinheira diz que não entra. Não fales muito com ela; se calhar estamos a ser espiados.

Pela surpresa estampada na minha face viu que tal possibilidade não me ocorrera.

- Pois, porque não haveriam de nos espiar? - disse, irritada. - Tenho dois judeus a viver em casa e um marido converso. Pior não pode haver.

A hora tardia deve ter-lhe soltado a língua, e o ela falar de nós três como estorvos pôs-me as faces a arder. Por uma vez na minha vida, encontrei a resposta certa.

- Sem falar no seu filho árabe - disse eu com suavidade trocista. Teve um baque com o meu desaforo, e os lábios retorceram-se-lhe numa

forma horrível. Nesse preciso momento, acho que começou a recear o que eu pudesse dizer e fazer. Senti-me extremamente contente.

Nupi estava de pé na rua, com os ombros encolhidos sob um xaile escuro; o luar lançava uma gaze de sombra entre nós.

- Estava tão preocupada - gemeu. Deu um passo atrás e ergueu a mão como para me bater por fazer maldades. - Agora vais-me explicar a natureza exacta daquilo que vos prende aqui.

- Entra - disse eu, agarrando-lhe o braço.

- Não ponho os pés na casa dessa mulher - atirou-me, recolhendo as mãos por trás das costas. - Tão certo como o Sol se levantar, essa mulher é que está por trás do mal que vos prende aqui, seja ele qual for.

- Como podes ter a certeza se nem sabes o que aconteceu?

- Ashoka interpretou a queda das pétalas no meu sacrário. Ninguém fez nenhum erro.

Ashoka era o padre hindu a quem eu mandara a mensagem para ela.

- Seja como for, não podemos falar aqui - disse-lhe.

Aceitou entrar no vestíbulo. - Mas mais não! - avisou-me de dedo em riste.

A casa estava completamente escura; a tia Maria devia ter ido para a cama. Ou estaria escondida, a escutar a nossa conversa?

Acendi a vela presa à parede por cima do espelho da entrada, fui buscar uma cadeira e mandei Nupi sentar-se. Colocou as mãos no regaço. Estavam a agarrar uma bolsa de pano enfolada com algo que fazia ruídos metálicos. Contei-lhe da prisão do meu pai, evitando expressamente quaisquer conjecturas sobre quem o teria traído, para o caso de a minha tia estar a espiar-nos. A face da velha cozinheira endureceu.

- Pensei que fosse qualquer coisa do género - disse-me, estendendo-me a bolsa e fazendo-me sinal de que a abrisse. Trouxera todos os seus braceletes - sete de prata e dois de ouro. Salvo os saris, representavam toda a sua fortuna terrena. Havia também duas cartas de Tejal.

- Para que são os braceletes?

- Para pagar o resgate do teu pai.

- Nupi, não posso aceitar isto de ti.

- Tens de aceitar. Não ficaria de bem comigo se guardasse algum. - Levantou-se. - Manda-me dizer no momento em que for libertado. Entretanto, eu fico a tomar conta da casa. Tens comido bem?

Sorri. - Não é como em casa - disse-lhe.

- Pois, acho que não - disse, como se eu tivesse dado a resposta correcta. Percebi que estava em brasas para me beijar, mas que também não desejava começar a chorar, tal como eu. Chorar numa casa adormecida traz em si algo que não se esquece facilmente. Ambos sabíamos isso da experiência passada.

Finalmente, eu disse: - Não te podes ir embora. É muito tarde.

- Vou-me embora agora e estarei em casa ao nascer do Sol - declarou. - Transmite o meu amor à Sofia e ao tio Isaac. Quando vires o teu pai, diz-lhe que estou à espera dele.

- É demasiado perigoso ires assim para casa à...

Agitou as mãos na minha direcção. - Ninguém vai incomodar uma velha.

Propus-lhe ir buscar uns biscoitos e uma jarra de água.

- Não, vou para casa sem nada - disse. - Assim é que deve ser. E então, lenta mas irremediavelmente, afastou-se de mim.

 

Nas SUAS CARTAS, Tejal mandava sobretudo notícias dos estudos, embora, na segunda, manifestasse preocupação por não saber de mim.

Ainda não ousava escrever-lhe sobre os nossos problemas. Duas terríveis semanas passaram; nem sequer podíamos confirmar que o meu pai ainda estivesse vivo.

Chegou-me então outra carta de Tejal, a cuidado do meu tio.

«Porque não me dizes nada?», escrevia. «A Sofia está outra vez doente e foram a Goa ver um médico português? Por favor, escreve-me para Benali. Vou lá dentro em breve.»

Na manhã seguinte saí de casa no frio escuro antes da alvorada e, na esperança de conseguir que não me seguissem, tomei um caminho que me levou às portas sul da cidade e voltei para trás. Rezei para que o que fazia desse certo. Bati à porta do convento e fui recebido por uma freira baixinha de tez escura. Quando expliquei que Tejal era minha irmã, ela sorriu, enrugando a pele em torno dos olhos de uma forma muito cativante.

- Que encantadora rapariga é ela! - disse-me, juntando as mãos de alegria.

Levou-me a uma capela minúscula com um fresco no tecto representando um anjo com asas e uma jovem mulher, e desapareceu a correr. Passado um bocado, apareceu Tejal à porta, com os cabelos apanhados por um laço. A cara dela - iluminada pela surpresa - parecia-me mais estreita e mais adulta do que a que tinha na lembrança. Pela forma como se agarrou a mim, pensei que soubera do meu pai, mas logo que a freira nos separou, Tejal disse:

- Ti, se fiz alguma coisa de errado, desculpa. Perdoa-me ou tenho a vida desgraçada. - Falava em concani para que não a compreendessem.

O ter usado a palavra «desgraçada» fez-me perceber pela primeira vez como tinha comprometido todo o seu futuro ao dormir com ela.

- Não fizeste nada de errado. A culpa é minha, toda minha. O papá foi preso pela Inquisição. Não sabia o que te dizer para que não te preocupasses, nem te pôr em perigo.

- Mas o que fez ele?

- Não sabemos. O tio Isaac pensa que alguém o deve ter acusado de blasfémia.

- Foste autorizado a vê-lo no Orlem Gor? Está bem?

Orlem Gor significava «solar» e era o nome que as pessoas da terra davam ao Palácio da Inquisição. A freira deve ter percebido o termo, porque se chegou a Tejal e bateu-lhe no braço com tanta força que ela gritou.

- Não quero que continues a falar nessa língua pagã! - avisou.

Por um momento, atónito, limitei-me a olhar para ela. Mas logo disse num tom de aviso:

- Gostaria que não se metesse onde não é chamada. - Como ela franzisse o sobrolho em desafio, acrescentei: - E não torne a bater na minha irmã.

A freira saiu a correr do compartimento, sem dúvida para ir buscar ajuda.

- O papá estava bem quando o tio Isaac o viu - apressei-me a acrescentar, sabendo que Tejal e eu não teríamos muito tempo -, mas há semanas que não sabemos nada dele. Ouve com atenção... Posso ter-te causado problemas vindo aqui, porque devo andar a ser espiado. Não vi ninguém, mas a tia Maria acha que devemos estar a ser vigiados. Desculpa.

- Não tens de quê... estou contente por teres vindo. Receava que o ter... o ter-me entregue a ti fizesse com que me odiasses.

Estendeu a mão para a minha cara como se quisesse acariciar-me as faces, mas, pensando duas vezes, retraiu-se de mostrar os seus sentimentos na capela. Beijei-lhe a palma da mão, ansioso por sossegá-la.

- Quando eu me for embora, tens de dizer às freiras que não me deixem voltar a entrar - disse eu. - Têm de pensar que não gostas de mim. Diz-lhes que não confias em mim. É muito importante, Tejal.

- Não interessa. Vou deixar isto aqui muito em breve.

- Disseste que vais para Benali. Aconteceu alguma coisa?

- Estou grávida.

Olhei-lhe para a barriga, mas não notei diferença.

Ela franziu o nariz divertida. - O bebé ainda não se mostrou, mas falhei o meu ciclo da Lua duas vezes.

Quando nos abraçámos, pensei: «Tejal e o nosso bebé estarão à minha espera quando chegar ao fim deste comprido e demorado caminho.»

Estava, porém, com medo por nós todos e cá muito no fundo desejava que tivéssemos esperado para fazermos uma nova vida.

Uma freira corpulenta de faces macilentas irrompeu e começou a gritar para mim.

- Já me vou - disse-lhe eu, erguendo as mãos. Virando-me para Tejal, disse: - Escreve-me para casa do meu tio logo que chegares a Benali. E se vires Nupi, tem cuidado com o que lhe dizes. Já sabe do papá, mas não quero que se preocupe muito.

Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

- Casamo-nos logo que estivermos outra vez juntos - prometi-lhe, conhecendo agora o seu maior medo.

Ela limitou-se a fazer que sim com a cabeça.

Mas passei o umbral, percebi que lhe devia ter metido alguma coisa nas mãos para selar a minha promessa, mesmo que fosse apenas uma moeda de cobre para pôr ao pescoço, mas nessa altura as freiras já tinham fechado e aferrolhado solidamente a porta atrás de mim.

Ao fim da manhã, estava eu de vigília diante do Palácio da Inquisição, fiquei a saber como era fácil alguém cair vítima do ódio fanático que reinava em Goa.

Tinham os sinos da catedral dado a hora sexta, avistei o senhor Saraiva, o velho cirieiro cristão-novo a quem comprávamos velas, a coxear pela praça fora como se estivesse incumbido de uma missão vital. Chamei-o em voz alta e, embora de certeza me tivesse ouvido, não se voltou nem me fez sinal, o que não era mesmo nada dele. Mais estranho ainda, continuou a atravessar a praça e foi bater às portas do Palácio, onde foi recebido por um padre que o deixou entrar.

A curiosidade foi mais forte do que eu, e dirigi-me para a sua minúscula loja, que, como muitas em Goa, era aberta para a rua. A sua enrugada mulher estava de pé por trás do balcão de madeira, a embrulhar velas de cera de abelha para uma cliente solitária, uma jovem mulher compacta de cara redonda que trazia um vestido castanho simples. Estavam as duas a conversar amigavelmente. Não desejando interromper, atirei um rápido cumprimento à senhora Saraiva, e voltei para a praça.

Subitamente, dois beleguins de espada desembainhada dobraram a esquina e vieram direitos a mim. Atrás deles, seguia um padre baixinho, magro como um fuso, com um crucifixo na mão. Uns passos mais atrás vinha o senhor Saraiva, fazendo os possíveis para os acompanhar, apesar do coxear.

O meu coração pôs-se aos saltos; achei que vinham prender-me. Mas não, passaram por mim, que estava de respiração cortada, e foram direitos à loja do cirieiro.

Senti uma onda de alívio invadir-me, e soltei uma risadinha de troça pelo meu pânico. Contudo, logo que os beleguins entraram na loja, ouvi a cliente começar a implorar:

- Não, não fiz mal nenhum! Não percebo. Por favor, não me façam isto. Mesmo temendo pela minha segurança por causa dos beleguins, desci a rua a passo estugado em direcção à loja e pus-me em posição de poder observar a uma distância prudente. A jovem mulher estava de joelhos. Erguendo as mãos suplicantes para o beleguim mais velho, começou a falar, mas com uma voz tão débil que só consegui apanhar poucas e incertas palavras: - Só estava a comprar velas. Isso... isso não tem mal, ou tem?

- Levante-se, senhora Barbosa! - ordenou o homem, mas a pobre mulher baixou a cabeça e começou a rezar.

O velho cirieiro, que deve ter corrido ao Palácio da Inquisição mal a senhora Barbosa entrara na loja, apontava para ela, manifestamente furioso. Para minha grande frustração, não consegui ouvir quase nada do que disse. Aproximei-me furtivamente da loja. Já não conseguia ver lá para dentro, mas ouvia tudo o que se dizia.

- Tu não me levas - dizia-lhe o senhor Saraiva, zangado, resumindo tudo o que eu devia ter perdido.

- Não... não percebo - tartamudeava a senhora Barbosa, fazendo-se eco da minha perplexidade.

- Não nos vamos arriscar a sermos acusados de vender velas aos porcos judeus para as suas celebrações - cuspiu a senhora Saraiva, proferindo a palavra «judeus» como se soubesse a podre.

- Cala-te, mulher! - ordenou-lhe o beleguim mais velho.

Só mais tarde percebi porque estava a tratá-la rispidamente, quando o meu tio me explicou que, ao referir as velas, a mulher do cirieiro dera à senhora Barbosa uma pista sobre os motivos da sua prisão - informação que os Inquisidores teriam preferido guardar para si próprios.

- Eu acendo as velas ao pôr do Sol todas as noites - disse a senhora Barbosa numa voz aterrada. - Mas quem o não faz? Quem pode viver sem luz?

- Mas compraste-as em três sextas-feiras seguidas - informou a senhora Saraiva.

- Não digas mais uma palavra! - ordenou-lhe o marido, e ouvi uma bofetada.

- Não tomo nota dos dias em que compro velas. Porque o faria? Vou às compras às sextas-feiras, porque é o dia em que a minha irmã está livre para tomar conta da minha filha. Chamem a minha irmã, se não acreditam em mim. Ou mandem chamar o meu marido. Ele lhes dirá se estou a falar verdade. Sempre fui uma boa cristã.

Ouvi a senhora Barbosa soltar um gemido e o ruído de uma breve rixa. Acho que um dos beleguins a deve ter posto de pé com um puxão, sacudindo-a a seguir.

- Não compliques isto mais do que o que está, minha filha - aconselhou-lhe o padre.

- Por favor, Padre - implorou a jovem mulher -, mande chamar o meu marido. Trabalha no porto; não fica a mais de cinco minutos.

- O teu marido agora não te pode ajudar - disse-lhe o beleguim mais velho.

- Mas já estamos casados há quase dez anos. Conhece-me melhor que ninguém e pode dizer-lhe... - Engasgou-se, percebendo num instante de terror o que o seu captor estava a insinuar. - Também... também o prenderam?

- Está neste preciso momento a ser escoltado para o nosso Palácio - respondeu o padre.

- E a nossa filha? - perguntou a mortificada mulher, frenética. - O que vai ser dela?

- Depende inteiramente de confessares os teus crimes, minha filha.

- Vamos embora - rosnou o beleguim mais velho.

Ouvindo passos dentro da loja, afastei-me à pressa pela rua abaixo, para não dar tanto nas vistas. Quando ousei voltar-me, vi a senhora Barbosa seguir amparada pelo padre. Tinha-se-lhe esvaído toda a cor da cara e ia aos tropeções pelas pedras da calçada.

Para minha grande vergonha, desviei o olhar quando passou por mim. O cirieiro estava de pé à entrada a observar os homens a levá-la embora. Estava a comer uma mão-cheia de figos secos. Juntara-se uma pequena multidão de vizinhos.

Levado pela perplexidade e a raiva, aproximei-me dele.

- Senhor Saraiva - comecei -, que mal fez aquela pobre mulher?

- Tiago, aceita o meu conselho: não te metas - respondeu.

- Por favor, o meu pai está preso. E eu não conheço o modo como a Inquisição funciona.

O cirieiro olhou-me com dureza, pesando o que havia de fazer, e depois puxou-me para os fundos da loja.

- A senhora Barbosa comprou velas em três sextas-feiras seguidas - disse-me.

- Mas isso não prova que ela celebre o Sabat judeu.

- Lamento, Tiago, mas para mim é prova bastante - declarou. - E não posso discutir essas coisas contigo. Agora era melhor que te fosses embora.

- Mas já foi a casa dela? Já alguma vez a ouviu proferir uma oração judia?

- Não.

- Então não sabe nada!

- Sei que os padres é que têm de dizer se ela está a falar verdade ou não!

- cortou ele. Em tom conciliatório, acrescentou: - Os Inquisidores estão a preparar-lhe o processo desde há semanas. Mandaram-me...

- Há semanas? - perguntei.

- Os padres mandaram-me começar a vigiá-la de perto há dois meses, pelo menos. Pelos vistos, já outras pessoas testemunharam contra ela.

- Quem?

- Só os Inquisidores sabem.

- Alguma vez lhe vão dizer quem são os seus acusadores?

- Não, ela é que terá de adivinhar os seus nomes. - Franziu o sobrolho.

- Embora ela agora saiba que nós estamos metidos nisto. Pedi aos beleguins que a levassem presa mais tarde, mas disseram-me que tinham estado precisamente à espera de mais um incidente de heresia para a apanhar. - Vendo o meu ar escandalizado, acrescentou: - Tiago, apenas lhes disse o que ela fez. Ninguém pode dizer que fiz algum mal. Fiz o meu dever.

- Mas agora vão enfiá-la numa cela, talvez durante anos. Até pode ser torturada. Como pode fazer isso sem uma verdadeira prova?

- Não percebes nada, Tiago? Se tivesse esperado para contar aos padres, poderiam acusar-me a mim de conspirar com ela. Poderia ter sido preso. Podia estar eu agora na cadeia.

- Mas para que isso acontecesse, alguém teria de o denunciar à Inquisição. Quem havia de reparar em que dias vende velas à senhora Barbosa?

- Outro cliente, um vizinho... Toda a gente em Goa segue tudo de perto. Todos são espiões. E toda a gente tem inimigos.

- Inimigos?

- Imagina um cliente que não me queira pagar as dívidas. Poderá muito bem mentir, dizendo que eu sou um cristão apóstata.

Poderia dar a alguns dos seus amigos umas poucas de moedas de cobre para jurarem que me ouviram falar hebreu junto ao túmulo da minha mãe. Garanto-te que coisas dessas se dão a cada passo. - Correu a ponta do dedo em redor do pescoço. Reparei que tinha uma ténue marca de cicatriz. - Uma mentira inteligente e quando menos espera uma pessoa está à mercê dos padres.

- Então foi preso pela...

- Foi há muitos anos, e não estou autorizado a falar disso.

- Mas admite que todas as acusações contra a senhora Barbosa podem ser mentira.

- Mentira ou perfeito absurdo. Mas não é a mim que compete decidir. Nem a ti. - O cirieiro deitou o olhar para além de mim, para a multidão de vizinhos que continuavam por ali. Lançando-me um olhar preocupado, levou-me para a frente da loja. - As pessoas estão a observar; terás de te ir - murmurou.

- Mas, se sabe o que eles são capazes de fazer, então... Afastou-me com um empurrão rude, e, em tom furioso, para que toda a gente lá fora ouvisse, exclamou: - Vai-te embora, Tiago! Tu e a tua família não são de Goa.

No caminho de volta para o Palácio da Inquisição, estas últimas palavras faziam-me arrepios, pois pareciam uma espécie de maldição. Mas, nessa noite, foi o grito de desespero da senhora Barbosa pela segurança da filha que me veio arrancar ao sono - no fim de contas, que certeza tinha eu de que a criança que estava a crescer dentro de Tejal não sofreria um dia igual destino?

 

Dois dias depois, ao crepúsculo, Isaac irrompeu pela porta da rua. - Todos cá abaixo, já! - gritou. - Tenho notícias maravilhosas do guarda! Despenhei-me pelas escadas.

- Vou ser autorizado a ver o teu pai amanhã de manhã - disse-me. Ouvindo o alvoroço, Sofia e Wadi entraram a correr vindos do jardim das traseiras. Quando a minha irmã ouviu as boas novas, deu graças, moldando silenciosamente com os lábios as palavras em hebreu. Chegou-se a mim e abraçámo-nos.

- Acho que isto significa que Berequias será libertado em breve - acrescentou Isaac. - Devem saber que as acusações contra ele têm pouco fundamento. Talvez queiram um pequeno presente em troca da sua liberdade. Vou dar-lhes o que quiserem.

Wadi agarrou-me o braço. - Agora vai tudo correr bem, Tigre - disse, sorrindo-me como costumava fazer.

Mesmo assim, senti que algo em mim se mantinha apartado dele, como que espreitando por cima de uma cerca.

A minha tia vinha agora a descer as escadas, de expressão dura. Isaac começou a explicar-lhe em tom excitado o pé em que estavam as coisas, mas ela mandou-o calar-se como se fosse uma criança.

- Nunca vês as armadilhas que se preparam, pois não? - cortou rispidamente. - Logo que deixes o teu irmão amanhã, é a ti que eles prendem. Vão dizer que se o vais visitar, é porque és um judeu secreto. O Ti é que tem de ir, Isaac. Não tem nada a perder.

- Mas Berequias é meu irmão. - Como tal declaração só arrancou à mulher um sorriso escarninho, Isaac acrescentou em voz dura: - Seja lá qual for a religião dele.

- Nunca repitas uma coisa dessas lá fora - ordenou a minha tia, fitando-o fixamente. Enxugou o pescoço e a fronte com o lenço; quando estava zangada, suava sempre muito.

O meu tio olhou para mim a pedir apoio, mas, pela sua expressão desesperada, anelante, percebi que ele sabia que ela tirara uma conclusão razoável.

- A tia Maria tem razão - disse-lhe, poupando-o à necessidade de o admitir. -Amanhã sou eu quem vai ver o papá.

- Eu acompanho-te à prisão - replicou o meu tio, desafiador.

- Eu também - declarou Wadi.

- Francisco Xavier, tu ficas aqui com a Sofia! - a tia Maria, manifestamente, não estava para admitir qualquer discussão sobre o assunto. - Quanto a ti, Isaac, podes acompanhar o Tiago, mas não deves entrar no Santo Ofício. Tens de me prometer isso.

Ele acenou que sim, mas ela insistiu em ouvir aquilo pronunciado em voz alta.

- Juro! Chega-te? - gritou-lhe ele, fitando-a com desprezo. Depois daquilo, ficámos todos calados, como se os meus tios tivessem despedaçado qualquer coisa que nunca mais poderia ser reparada.

O confessor da família, Padre António, apareceu-nos à porta na manhã seguinte. Terrivelmente magro, com um sorriso infantil e fugaz, cumprimentou todas as pessoas calorosamente, e beijou as faces da minha irmã, agarrando-a pelos ombros. Tinha as mãos e a cara brancas como ossos: dir-se-ia que vivia em isolamento forçado.

- Como estás, Sofia? - perguntou num tom que me parecia de falsa sinceridade, mas sem dúvida o que eu via nele estava a ser filtrado pela minha antipatia pelos padres.

- Bem, Padre - respondeu ela, constrangida. Pus-me a imaginar quantos sermões para se converter ao cristianismo tivera de aturar em silêncio nas últimas semanas.

Quando chegou a minha vez, o Padre António apertou-me a mão por muito mais tempo do que o considerado conveniente pela maioria dos homens.

- Tens andado a esconder-te de mim, Tiago Zarco - disse, com um cintilar manhoso no olhar.

- É muito tímido - apressou-se a minha tia a responder, temendo que eu lhe dissesse o que pensava da obra da Igreja na índia.

- Ai sim? - disse, dubitativo. - A mim, pareces-me um homenzinho muito senhor do seu nariz.

- Não senhor - respondi. - Eu, provavelmente, nunca saía de casa se a minha tia não estivesse sempre a espicaçar-me para ir lá para fora. - Sorrindo para suavizar as palavras seguintes, acrescentei: - Às vezes, parece-me que ela se torna especialmente insistente quando há visitas.

A tia Maria lançou-me um olhar assassino, que muito me satisfez, mas Sofia olhou para mim de soslaio. «Não arranjes mais sarilhos ao papá», parecia-me ouvir ela a avisar-me, e fiz-lhe sinal de que concordava com ela erguendo a mão, o que fez com que levasse o indicador à orelha como quando éramos crianças, pelo que percebi que me tinha compreendido.

- Venha comigo até ao jardim por uns momentos, Padre António - disse o meu tio. - Preciso de esclarecer uma coisa consigo antes de nos irmos.

Foram sentar-se debaixo do tamarindo, e Isaac explicou ao padre a delicada posição em que nos encontrávamos e que eu tinha de o substituir na visita ao meu pai. Como vim a saber, também deu ao seu convidado quatro anéis de ouro, um para ele e os três outros para subornar quem achasse por bem no momento oportuno. Talvez por essa razão, o sacerdote estava muito bem-disposto ao voltar para dentro, e até me deu uma pancadinha cordial nas costas. - Bem, meu rapaz, é melhor irmos indo! - disse com vivacidade, como se estivéssemos a pensar numa ida ao mercado das flores. Antes de sairmos, fui buscar à cozinha um tachinho de frango guisado feito pela cozinheira dos meus tios, pois tinha a certeza de que o meu pai devia andar a comer miseravelmente.

Ao sairmos, Sofia fitou-me com olhar preocupado. Parecia uma rapariga que não conseguia continuar a viver sem umas palavras de orientação, mas eu - sentindo-me inútil e consternado - sabia que não as tinha para lhe dar.

- Diz ao papá que o amo mais do que tudo - gritou. Ergueu a mão para me saudar, mas, vendo que o padre a observava atentamente, pôs-se rapidamente a cofiar uma madeixa de cabelo, puxando-a para trás da orelha.

- Esse frango cheira divinamente - disse o Padre António quando íamos a caminho. - Mas de manhã prefiro comer só ovos. Cozo-os com sal, claro, visto que só os hindus juntam o sal depois, o que é proibido pelo Santo Ofício. Embora suponha que não saibas isso, pois vives fora de Goa.

- Não, não fazia ideia - respondi, desprendido. - Lamento ser tão ignorante da forma como a Igreja funciona.

Ele arredou a minha desculpa com um gesto e sorriu. Talvez estivesse apenas à procura de uma forma de começar uma conversa comigo.

- Onde vives ao certo? - perguntou.

- Perto da aldeia de Ramnath, não muito longe de Ponda. Enquanto caminhávamos, fez-me muitas perguntas sobre as nossas vidas.

A princípio, cada uma delas parecia bastante inocente, mas comecei a suspeitar que quisesse obter informações potencialmente prejudiciais quando perguntou se o meu pai tinha amigos chegados perto da nossa quinta e que trabalhos fizera ultimamente para o sultão. Dei-lhe respostas vagas, embora em alguns casos tenha respondido com uma mentira descarada; não podia correr o risco de lhe dar provas contra nós.

Quando chegámos ao destino, fomos recebidos por outro padre, Frei Crispiano, um castelhano alto de tez escura.

- Sei que fiz demasiadas perguntas - disse-me o Padre António antes de se despedir. - Mas a tua família tem muito interesse para mim, e só estou na índia há poucos anos, pelo que tudo aqui para mim ainda é novo. Só espero que possamos voltar a ver-nos em circunstâncias mais agradáveis.

- Quando o meu pai for libertado, vou visitá-lo e agradecer-lhe mais adequadamente.

- Fico à espera.

Benzeu-se, e depois fez o mesmo na minha testa. Baixei a cabeça e desejei-lhe bom dia.

Quando penetrei nos domínios da Inquisição ao lado de Frei Crispiano, nenhuma sombra fria caiu sobre mim. As paredes do Palácio não pareciam mais vazias ou impiedosas do que quaisquer outras pedras, e a constelação de chamas nos sinuosos lustres de vidro veneziano pendurados do tecto parecia-se bastante com a de quaisquer outras luzes.

Talvez o pior tivesse passado; talvez estivéssemos a começar a jornada de regresso à situação tal como sempre fora.

Os guardas logo confiscaram o guisado de frango do meu pai. Tiraram-me também um pequeno canivete, mas, este, prometeram restituir-mo à saída. Todos eram formais comigo, mas bastante corteses.

Confesso que não consigo lembrar-me de uma única palavra que o frade me tenha dito desde que começámos a subir a escada em direcção à longa galeria de celas lá em cima; estava a conversar com o meu pai em pensamento, à procura da voz que haveria de espantar o medo dele e o meu. Imaginei-me a dizer-lhe que era só uma questão de dias, e havíamos de estar todos juntos outra vez. De certeza que podia ser verdade...

Logo a seguir, estávamos diante da cela dele. Eu estava estonteado, e tudo me parecia muito escuro, como se estivéssemos numa cave.

A primeira porta de ferro abriu-se com estrondo, deixando ver uma segunda porta interior. Ouviu-se um ranger de metal, e o meu pai apareceu diante de mim - sentado no catre, de peito nu, com umas calças cinzentas grosseiras, e o cabelo cortado muito cerce. Tinha nódoas escuras à volta dos olhos, que estavam inchados e quase fechados. Nos cantos da boca, havia crostas de sangue. A toda a roda do pescoço, uma linha de pele esgarçada. Devia ter tido uma corda a apertá-lo.

- Papá!

Abraçámo-nos por longo tempo. Disse-me palavras ternas, o padre deixou-nos e a porta interior fechou-se com estrondo.

- Deixa-me olhar bem para ti - disse o meu pai.

Lançou-me um sorriso doce, e eu beijei-o nos lábios. Os olhos dele pareciam fendas de vidro fosco.

Ver o sofrimento físico de um pai é coisa que nos toca até aos recessos mais fundos do espírito; de súbito, assaltou-me o terrível medo de que ele nunca mais se havia de parecer consigo próprio e que iria morrer na maior das dores.

- Muito gostaria de os matar por tudo o que te fizeram - comecei. - Diz-me quem...

Estendeu a mão para que eu não dissesse mais nada.

- Eras um bebé tão bonito - disse, com vivacidade. - Tão frágil. Eu temia que nunca chegasses à idade adulta, mas aí estás tu, um jovem com todo o mundo pela frente. - Agarrou-me as mãos. - Ti, quero que saibas que tenho muito orgulho em ti.

Falava de uma forma - como quem fala para a posteridade -, que as palavras que eu tinha na garganta se fizeram de areia. Deu-me de beber pela sua malga de barro.

- Como está a Sofia? Não adoeceu outra vez, ou adoeceu? - perguntou.

- Não. Está triste e preocupada, como todos nós, mas está bem.

- Imagino que estás a morar com o tio Isaac.

- Estou.

Cheguei a ponta dos dedos à linha de pele inflamada do seu pescoço. Teve um esgar.

- Dói-te... dói-te muito?

A minha voz receosa e hesitante não era a que queria mostrar, e fiquei zangado comigo por não ser capaz de dominar as minhas emoções.

- Não te preocupes comigo. Que disseste à Nupi?

- Ela sabe a verdade. Veio uma noite a Goa, e não consegui mentir-lhe.

- Deve estar terrivelmente preocupada - disse ele e, ao fazer um esgar, uma das pequenas crostas ao canto da boca rebentou-lhe; o sangue escorreu-lhe pelo queixo. Limpei-lho com o dedo.

Aproveitou a oportunidade para comprimir os lábios na minha mão, o que me perturbou tanto que por uns momentos não consegui voltar a falar.

Por fim, disse: - Tens de ter muita força, Ti.

Fez-me sorrir imitando a forma como Nupi erguia a mão para me ameaçar e à Sofia.

- Espero que a tia Maria não se ponha a criticar-te muito - disse. - E que tenhas sido paciente com ela.

- Às vezes temos umas brigas, mas a maior parte do tempo contenho-me.

- Tenho pensado muito em ti ultimamente. Promete-me que, de agora em diante, vais passar a fazer tudo o que deves para encontrares o teu caminho. Não te preocupes tanto com a Sofia ou o Wadi, ou seja quem for. Vive a tua vida com Tejal.

- Farei tudo o que disseres, papá.

- Muito bem. E como está a Tejal? Viste-a ultimamente?

- Está bem. - Naquele momento, não lhe disse nada sobre o nosso filho. Precisava de mais tempo para falar do que tínhamos passado - e para ouvir os seus planos sobre a forma como havíamos de o libertar.

- E Isaac? - perguntou.

- Papá, está toda a gente bem - disse eu, impaciente. - Mas só conseguimos pensar em ti. E tu, estás bem?

- Claro. A única parte difícil é o aborrecimento. Quatro paredes e mosquitos - não é lá muita coisa. O meu espírito, às vezes... parece que não regula. E a comida. Vivo sobretudo de caldo de arroz. - Bateu na testa. - Sabes, nunca tinha percebido quanta coisa está guardada na minha memória. Foi o que me salvou de enlouquecer. Estou muito grato ao passado.

- Por falar em comida, trouxe-te frango guisado, mas tiraram-mo.

A face pareceu que se lhe esvaziou de sangue, e escapou-se-lhe um gemido da boca. Percebendo que fora um erro revelar o seu desespero, voltou a abraçar-se a mim por muito tempo. - Não importa - não parava de murmurar, como se estivesse a lançar um esconjuro sobre ambos. Numa voz triunfante, acrescentou: - Tu e eu estamos juntos, que é mais do que eu podia esperar.

Sentia o pulsar do seu coração a envolver-me. Queria ficar sempre com ele.

- Isaac disse que se me autorizaram a visitá-lo, é porque as provas que têm contra si são fracas. - Num murmúrio, acrescentei: - Acha que estão à espera de um suborno.

- Não. Eles... eles estão à espera de que me convenças a dar-lhes o que querem.

O meu pai passara a falar em concani, pelo que a sua fala se tornou desajeitada, levando-me mais tarde a pensar que poderia ter-me dado outras opções se tivesse falado em português. Foi aí que começou a minha impotente descida a um mundo de «ses», uma paisagem de especulações inúteis onde sempre vivi desde essa altura.

- Que é que os teus carcereiros querem? - perguntei-lhe.

- Nomes.

- Não percebo, papá.

- Querem os nomes dos judeus secretos que vivem em Goa. Só então aceitarão a minha confissão de que disse blasfémias contra a Igreja. Pensam que ver-te vai enfraquecer a minha resistência. - Sorriu fugidiamente. - Têm razão, claro. Ver a tua cara é como estar perante Deus, coisa extremamente perigosa para um homem como eu. Acham que me derrotarás no ponto em que eles falharam. - Piscou-me o olho, astuto. - Mas eu lembro-me de Massada, e de como centenas de corajosos judeus encurralados no cume dessa montanha se recusaram a render-se aos Romanos. Não vou deixar que os meus antepassados tenham morrido em vão.

- Esses judeus secretos... quem são? - perguntei.

- Homens e mulheres que se converteram ao cristianismo para agradar à Inquisição, mas que praticam a nossa religião em segredo. Há algumas dezenas em Goa. Conheço muitos deles. Mas a Igreja nunca há-de saber os seus nomes. Vais fazer com que assim seja.

-Eu?

Pôs-me o braço no ombro.

- Papá, a maneira como falas, e como te comportas, faz-me medo.

- Lamento, mas não posso dizer isto de outra maneira. As coisas são assim, Ti. Há uma semana, quando me ataram com cordas e me magoaram, senti a minha alma a abandonar-me. Sentia-a fugir voando mesmo por cima da minha cabeça, era uma sensação estranha. Percebi então que não ia aguentar muito mais, que ia dar-lhes os nomes dos judeus que eles queriam.

- Que te fizeram eles?

- É melhor que não saibas. A certa altura, perdi a consciência. Quando acordei, estava de volta à cela, mas da próxima vez não vou ter a mesma sorte. - Afastou o olhar por um momento, com a fronte enrugada, meditando na melhor forma de me dizer o que teria preferido manter secreto. - Ti, a tortura muda uma pessoa. É como se eu já não soubesse quem sou quando fico aqui deitado na escuridão. Há qualquer coisa fora do sítio em mim; a minha alma, talvez. - Empurrou a mão contra o meu peito, e depois voltou a retirá-la rapidamente. - A minha faúlha de Deus quer voltar a casa. Quer ir ter com o sol que ilumina a Tora. É por isso que sei que não vou ser capaz de confiar em mim. E eles também sabem. Não são estúpidos, são ruins, e ignoram os seus verdadeiros motivos, mas são espertos. Vão torturar-me até obterem o que querem, ou até me matarem.

- Papá, tens de tentar subornar...

- Não, escuta-me! Nem as esmeraldas do sultão conseguiam comprar mais do que umas poucas semanas. E a minha alma vai-me abandonar da próxima vez que me torturarem. Vai procurar fugir à dor e voltar a casa. Vou acabar por lhes dar os nomes que querem. E quando os der, muitos bons homens e mulheres vão acabar aqui onde eu estou agora. Não conseguia viver com isso. Preciso da tua ajuda, Ti. Vais ajudar-me mesmo que isso signifique fazer uma coisa que odeies?

-Vou.

- Muito bem. - Agarrou-me o braço. - Lamento estar a falar assim e a causar-te preocupação. É porque estou nervoso, e também porque estou prestes a ferir a única pessoa que nunca pensei poder ferir. Bem, lembras-te daquela expressão da Nupi sobre o Guardião da Aurora? Lembras-te de que ela por vezes a empregava para dizer que temos de nos proteger uns aos outros, seja qual for o risco?

- Claro.

- Vais ser o meu Guardião.

Sorriu, e, quando sorriu, vislumbrei nele uma loucura que nunca vira antes.

Já não é quem era, percebi. Roubaram-me esse homem...

- Como? - perguntei.

O meu pai assumiu um tom conspirativo. - Quero que vás ver um pândita que vive perto daquela casa de chá aonde tu e o Wadi costumavam ir... aquela muito degradada no bairro hindu... Chama-se...

Um pândita era um médico indiano. O meu pai pronunciou o nome do homem num sussurro e disse que eu devia perguntar por ele numa loja de curtumes onde por vezes comprávamos carneira, acrescentando em tom de advertência que nunca, em circunstância alguma, devia revelar a identidade desse pândita a ninguém. Falava com muita determinação, sublinhando as palavras com as mãos, como um adulto quando quer prender a atenção de uma criança distraída. Imagino que devia ter toda a minha perplexidade espelhada na face.

- Quando lhe disseres quem eu sou - continuou -, vai dar-te um pequeno frasco de vidro com um pó. Não deves separar-te dele.

- Um pó?

- Um veneno muito poderoso.

- E que é que devo fazer com ele?

- Deves trazer-mo.

- Pretendes matar o guarda? Achas que consegues fugir? - O coração batia-me com força; estupidamente, não percebera que aquilo que julgara ser o caminho para casa, mais não seria do que os últimos passos sobre uma ponte que se desmorona.

- Não, não, vou usá-lo para pôr termo à vida. Vais evitar que eu cause muita infelicidade.

-Não!

Vendo o meu terror, tentou abraçar-me, mas repeli-o.

- Ti, isto não é fácil para mim - disse. - Por favor, compreende, morrer era a última coisa que eu queria. Gostaria de viver muitos anos contigo e com a Sofia, ver-vos aos dois a crescer. Mas isso, agora, não vai acontecer. - Ajoelhou-se à minha frente. - Filho, se calhar não temos muito tempo.

Não posso pedir a mais ninguém. És a minha única esperança. Não estejas tão triste. Tive uma vida boa e bem recheada; poderá um homem esperar mais da vida do que ter-te a ti e à Sofia? E tive a grande sorte de conhecer a vossa mãe. Ainda estou espantado por ela se ter apaixonado por mim.

- Papá, Tejal está grávida - anunciei.

Vejo hoje que disse aquilo como um suborno. De certeza que, tendo um neto aí a vir, não escolheria a morte...

Sobressaltou-se. Surgiram-lhe lágrimas nos olhos machucados. Tomou-me a cabeça nas mãos e encostou-me os lábios a ambas as faces, e depois aos lábios. - Ai, meu rapaz, que grande felicidade me deste, tu e a Tejal! Diz-lhe obrigado da minha parte.

- Tens de ficar vivo para veres o bebé, papá. Não valerá de nada se não estiveres connosco.

Ergueu-se, num esgar de dor, enxugando as lágrimas. - Ouve-me bem, Ti. Vão deixar-te ver-me mais uma vez. Já combinei.

- Como?

- Tenho uns amigos que conhecem os cantos à casa. E, como eu disse, os Inquisidores esperam que tu quebres a minha determinação e me convenças a confessar.

- Mas se tens amigos que te podem ajudar, então por que é que eles não...

Voltou a erguer a mão para calar a minha pergunta. - É demasiado tarde para mim, Ti. Não podem fazer mais nada por mim após a tua segunda visita. Bem, antes de voltares para me ver, tens de esconder o frasco num sítio onde ninguém o encontre. Não é maior do que uma unha, e eles não vão procurar dentro de ti. - Bateu no traseiro para perceber o que queria dizer. - Peço perdão pela indignidade a que te obrigo, meu filho, mas só assim temos a certeza.

- Papá, não vou ser capaz de te envenenar. Não vou ser capaz de fazer isso!

Sentou-se a meu lado outra vez. - Não tens de fazer. Eu tomo o veneno uns dias após a tua visita, para que não suspeitem de ti. Nunca lhes deves dizer o que fizeste, claro, senão dão cabo de ti aqui.

- Nem sequer serei capaz de to trazer...

- Vais ter de ser. Só tu podes ser o meu Guardião. Compreendes? És o único que pode garantir que a aurora vai continuar a chegar para todos os judeus que eu conheço. Ti, a Tora diz que ao salvares uma pessoa, salvas todo um universo. Imagina seres capaz de proteger todas as boas pessoas que eu podia denunciar sob a tortura.

Imagina salvares vinte ou trinta! O teu nome será escrito pelo Anjo Metatron no Livro dos Justos.

- Mas deve haver outra maneira de te salvares e de...

- Andei a vasculhar no meu espírito e não encontrei nada - interrompeu. - E o tempo está a escassear. Ti, vão autorizar-te a visitar-me outra vez daqui a dois dias precisamente. Não podes falar disto a ninguém. Se disseres à Sofia ou ao tio Isaac, eles correrão grave perigo... e tu também. Bem como todos os judeus secretos.

- Talvez se conseguirmos que a pessoa que te denunciou se retrate, podemos...

- Uma vez feita, uma acusação não pode ser retirada. E o Santo Ofício deve ter conseguido convencer mais do que uma testemunha a prestar declarações contra mim... é assim que o processo funciona.

, - Sabes quem te denunciou?

- Não.

- Podia ter sido alguém que conhecemos?

- Suponho que sim. Embora possa também ser outra pessoa qualquer.

- A tia Maria... podia ter sido ela?

Abanou a cabeça. - Não acredito que a tua tia fosse capaz disso. Certamente não seria capaz de ocultar do Isaac por muito tempo o que fizera.

Pensei na briga que tinham tido. Será que o meu tio desconfiou dela também?

- Papá, tu não és cristão apóstata, és judeu. Como é que então eles te podem manter preso?

- Ninguém me disse isso, e talvez nunca mo digam. Suspeito que a mesma pessoa responsável por eu estar aqui lhes tenha jurado que fui baptizado numa altura qualquer.

- Mas não foste!

- Não, mas se ela jurar... Ti, por favor, não há tempo para esses esclarecimentos todos... o guarda pode voltar a qualquer momento. Faz o que te digo, e mais nada.

- Mas, e se não o conseguir encontrar? - perguntei, e disse o nome do médico que me daria o veneno.

- Vai à loja de curtumes mal saias daqui. É a minha única esperança. - Ergueu-se e pôs-me de pé. - Quero abraçar-te como um homem - disse, e, quando estávamos nos braços um do outro, sussurrou-me ao ouvido: - Que Deus e tu me perdoem ambos o que te pedi que fizesses.

Senti o sabor do sangue nos seus lábios quando voltou a beijar-me. Fechei os olhos, desejando ser capaz de parar o tempo. Não sei quanto tempo estivemos abraçados sem falar. Passado pouco, demasiado pouco tempo, ouvi uma chave rodar na fechadura. O meu pai afastou-me de si, e o nosso último olhar tornou-se demasiado íntimo. Soluçando, virou a cara para a parede.

- Não olhes para mim, Ti - disse. - E não digas mais nada.

Cobrindo os olhos com as mãos, o meu pai começou a rezar em hebreu, oscilando, a cabeça dobrada para o chão.

 

Arrastei-me para o bairro hindu, vagueando pelas barracas de madeira a ameaçar ruína e o bulício das ruas, no ar espesso com o cheiro doce meio apodrecido das especiarias e do óleo de coco. O céu adensava-se agora tanto com as nuvens debruadas a negro que vinham em vagas do oeste, que se diria o fumo de uma cidade a arder. Quando pouco depois chegou a chuva, martelava o chão, caindo em lençóis ondulantes, e o vapor de água ergueu-se do solo recozido em farrapos como fantasmas. Deixei-me ficar arrepiado debaixo do toldo de madeira da cabana de um canteiro, imaginando as flores e ervas de toda a índia a afogar-se. No chão, junto a mim, estava uma fileira de deuses de pedra, cada estatueta do tamanho da minha mão, quando muito - como um conjunto de pedras de xadrez esperando pacientemente que começasse uma partida. Uma imagem de greda de Sarasvati, a deusa da música, da arte e da literatura, chamou a minha atenção. Cavalgava um pavão de cauda em leque e tinha nas quatro mãos um livro, duas flores de lótus, e um vati - um alaúde indiano de braço comprido.

Que teria eu de lhe dar para que me desse em troca o que sabe sobre a forma de refazer o passado? - perguntei a mim próprio.

Na esperança de encontrar consolo na voz de outra pessoa, pus-me a espreitar pela porta por trás de mim e avistei o canteiro, acocorado, a grelhar dois peixes prateados do tamanho de dois dedos sobre um punhado de brasas ardentes amontoadas no chão. Junto dele estava sentado um gato branco esguio de pêlo molhado, que me olhava com olhar furioso e desconfiado. Havia algo de humano na criatura - a reencarnação de uma criança que terá morrido aterrorizada e agora nunca poderia ser outra coisa, através de ciclos infindos de novos nascimentos.

Desde esse dia vi aquele gato em muitos sonhos e está sempre a afastar-se de mim, mirrando, como se a minha face se tivesse transformado em algo de monstruoso - ou, mais propriamente, como se suspeitasse o que eu ia fazer ao meu pai...

- Quer comprar alguma coisa? - perguntou-me o canteiro, esperançado.

- Não, estou só a abrigar-me da chuva.

O interesse dele por mim desvaneceu-se. Dando uma dentada num pedaço de pão de arroz, tornou ao seu cozinhado.

Pus-me ao lado da porta, num sítio onde o canteiro não podia ver-me, e, com pequenos toques do pé, aproximei a imagem de Sarasvati de mim. Estava eriçado de pânico. Era como se dentro de mim vivesse uma criatura feita de garras e espinhos, a alimentar-se da minha dúvida.

Agarrei a Sarasvati e desatei a correr, sacudido como uma pedra à beira-mar pela minha rapidez lunática, mas o ar húmido - tão denso com o meu passado - depressa me cansou. Ofegante, dobrado em dois, sentia-me como se a garganta me tivesse sido rasgada por uma faca ferrugenta.

Levando a Sarasvati como um despojo de guerra, invejando a sua solidez pelo contraste que fazia com a minha ligeireza de espírito, dirigi-me à loja dos curtumes. Ao entrar na oficina, o fedor a excrementos nas cubas de pedra fez-me regressar ao meu corpo. O velho proprietário tâmil saudou-me com o seu sorriso desdentado.

Perguntou onde arranjara a estatueta e eu disse-lhe que um amigo a tinha esculpido.

- Fazer música deu-lhe uma cara muito doce - comentou.

Insisti por que a aceitasse como uma pequena prenda, e aceitou com uma gargalhada feliz.

- Ora então, que posso fazer hoje por ti? - perguntou.

Quando falei do pândita, ergueu as sobrancelhas e levou a mão em concha ao ouvido como se me tivesse ouvido mal. Em voz baixa, perguntou se o meu pai fora preso pelo Santo Ofício.

- Sim, e foi torturado - respondi rudemente.

- Então, vem cá - disse o peleiro, de olhos graves, como a querer que eu visse neles o que não ousava dizer dos senhores portugueses da sua cidade. Depois de trocar umas palavras com o encarregado, levou-me para lá de uma estreita porta das traseiras na qual umas belas letras floridas diziam em português: Muitos são os caminhos que levam ao Senhor, mas que ventura a nossa só haver um caminho para além disso.

- O que é que isso significa? - perguntei-lhe.

Abanou a cabeça. - Não fui eu que escrevi isso, foi o teu pai.

- O meu pai? Quando?

- Há uns anos. Chegou aqui um dia e pediu-me autorização para escrever na porta. É uma espécie de oração, acho. O meu português não é muito bom.

Um amigo dele estava para ser preso pela Inquisição e precisava da ajuda do pândita. O teu pai queria que esse seu amigo pudesse ver essas palavras antes de comprar veneno e pôr termo à vida.

Pouco depois, fomos dar a um pequeno vale de casas dispersas nos arredores da cidade. O nosso caminho era bordejado por plantas como orelhas de elefante, em cujas pregas as gotas da chuva que tinham ficado presas reluziam ao sol húmido que espreitava das nuvens. Depois de vermos um falcão a rodopiar no céu como um presságio impossível de decifrar, o meu guia indicou-me uma casa térrea com uma varanda de madeira a toda a volta. - Toda a vida é sofrimento, por isso reza por uma boa morte - recitou, ao despedir-se. Imagino que deve ter dito isso a todos os que passaram para o reino dos mortos pelas suas mãos.

A porta de entrada do médico estava pintada de azul-escuro, com uma pequena flor de hibisco cor-de-rosa e branca no centro, como uma mandala a formar-se. Toquei a uma campainha de latão que pendia de uma corda esfiada.

O criado barbudo de turbante que veio à porta fitou-me céptico e recusou-se a deixar-me entrar enquanto eu não me secasse. Entregou-me uma toalha grosseira perfumada com água de rosas.

O perito em venenos acolheu-me logo à entrada. Tinha uma crista de cabelos brancos sedosos, olhos inteligentes negros de obsidiana, e uma pele suave cor de canela. Tinha um porte seguro de si e requintadamente estilizado, como se tivesse tido educação de bailarino. Percebi por isso que era um brâmane; olhava para o mundo - e até para o jovem encharcado que tinha pela frente - do cimo da sua prestigiosa árvore genealógica, árvore que sem dúvida tinha mais de quatro mil anos de antiguidade.

Na presença de tanta história, senti-me acalmar e hoje sei que entreguei uma parte de mim próprio ao seu cuidado no momento em que os nossos olhares se cruzaram.

Logo que me identifiquei, sorri. - Chama-me Vaasuki - disse-me em concani -, embora este nome, tal como o que o teu pai te deu, não seja o meu verdadeiro nome. Para minha e tua segurança, nunca to direi.

Havia uma benevolência protectora no modo como me convidou a sentar-me, indicando-me com um gesto uma cadeira de verga junto a uma mesa baixa de bambu. Sentou-se em frente a mim, aprumado. Não me parecia que aquele homem fosse capaz de uma falsa palavra ou gesto, mas se calhar só por querer que isso fosse verdade - quem desejaria entregar todo o seu futuro nas mãos de um homem que oculta os seus motivos?

Enquanto o criado nos servia o chá, Vaasuki deixou claro pela sua atitude que teríamos de participar neste pequeno ritual antes de podermos falar de coisas mais urgentes.

Estávamos sentados numa grande sala no meio de uma floresta de delicadas palmeiras e bosques luxuriosos pintados em vasos de cerâmica de cores brilhantes. Num canto ao fundo estava um altar ao deus Shiva, pintado de azul até ao pescoço. Diante do deus balançava-se uma bananeira em forma de coração, com flores vermelho-sangue, que, dir-se-ia, se iriam transformar em oferendas quando caíssem a seus pés. A porta de trás estava aberta e dois pardalitos tinham entrado a voar. Os pássaros pulavam de ramo para ramo numa árvore graciosa ao meu lado, penicando sementes.

- Os Pakló erguem grandes paredes de pedra por onde quer que vão - disse Vaasuki, utilizando o termo local para se referir aos Portugueses. Pakló significa portadores de plumas, visto que os primeiros colonizadores que vieram para Goa eram conhecidos pelas plumas que traziam nos chapéus. Bebericou o chá e incitou-me a fazer o mesmo. - Não se importam de matar aves para se enfeitarem com as cores delas, mas têm medo de as deixar entrar em casa. Têm de manter o fora e o dentro claramente separado.

Os pardais pularam para o chão e começaram a vasculhá-lo. O ar quente entrava em ondas pela porta, fazendo vibrar a minha pele.

- Sei que isto deve ser difícil para ti - disse. - Talvez eu devesse começar por falar um pouco de mim. - Fez um gesto de bênção sobre a minha cabeça. - Não te preocupes. Embora estejas a começar a compreender que este lugar não faz parte do teu mundo, prometo que te deixo ir a salvo para casa.

O criado voltou a encher-me a chávena. Vaasuki contou-me que nascera perto de Panaji, umas léguas a oeste da cidade de Goa, no ponto em que o rio Mandavi se abria numa ampla baía ao chegar à costa. Como ele próprio confessou, era um jovem egoísta. Passava o tempo a jogar. Estudara medicina aiurvédica com um mestre de Deli só porque o pai lho ordenara - e porque os brâmanes haviam perdido o direito de se tornarem sacerdotes hindus no território português. Queixara-se constantemente do seu destino até ao fim do aprendizado, altura em que descobriu que os portugueses e os outros europeus de Goa o tratavam com um respeito que negavam aos outros indianos. Até lhe permitiam andar de palanquim.

- Sempre... sempre ajudou as pessoas como eu a arranjar venenos? - perguntei-lhe num murmúrio.

- Não, mas há uns doze anos, um homem veio ter comigo e pediu-me que fosse visitar um amigo dele que estava a morrer. Quando cheguei à morada que me indicara, fui encontrar o meu pai, pálido e emaciado, sentado numa esteira. Não o via há anos. Estava ressentido com ele por muitas coisas, incluindo - mas não apenas - pela profissão que me escolhera. O meu pai arranjara aquele ardil para me atrair, pois sabia que não iria voluntariamente a casa dele. Sentámo-nos e disse-me que estava a tentar esconder a gravidade da sua doença, porque, se a Igreja descobrisse, havia de mandar um padre visitá-lo para lhe dar a extrema-unção. Percebi que ou o deixava morrer como falso cristão ou lhe dava a morte de hindu que desejava. Estás pois a ver que compreendo um pouco o que sentes. Depois de ajudar o meu pai a morrer da maneira que queria - acrescentou com um sorriso -, andar de palanquim a cinco palmos do chão deixou de me parecer tão importante.

- Mas ajudar alguém a suicidar-se é proibido pelo hinduísmo. - As minhas palavras soaram como crítica, pelo que me apressei a acrescentar: - Pelo menos, foi o que ouvi dizer.

- Imagina que estás no deserto e encontras uma mulher a morrer de sede, talvez até a tua irmã ou mãe. Seria pecado dar-lhe água? Não seria teu dever dares-lhe de beber até o teu sangue?

- Mas, nesse caso, estaria a ajudá-la a viver.

- E isso, Tiago, foi precisamente o que o meu pai me disse depois de tomar o veneno que lhe dei. «Meu filho, agora posso seguir em paz para o meu fim. Salvaste-me a vida.»

Enquanto Vaasuki continuava a contar-me o seu passado, eu ia ficando cada vez mais sonolento. Era capaz de dizer que - dada a profissão do meu hospedeiro - o criado deitara na minha chávena pó de valeriana ou daturina, ou de qualquer outra das dezenas de agentes soporíferos. Muito provavelmente, achara que o meu estado de agitação nos punha aos dois em perigo.

Quando acordei, vi que Vaasuki tinha as minhas mãos nas suas, para me ajudar a levantar. Estava aturdido, mas sentia-me mais leve do que antes.

- Sê bem-vindo - disse, curvando a cabeça amigavelmente.

- Há quanto tempo estou a dormir?

- Há tempo que chegue. - Riu-se, afagando-me a face com uma pancadinha.

Deu-me água, e mandou-me ajoelhar em frente de Shiva. Disse uma oração por ambos e meteu-me um frasquinho de vidro cor de rubi na palma da mão.

- Por agora, podes guardá-lo no sapato - disse-me. - Mas o teu pai explicou-te onde o deves guardar quando o visitares na prisão?

- Sim.

- Muito bem. Ti, vais levar a morte dentro de ti, por isso tem cautela. À porta, o pândita desculpou-se por ter de me ajudar daquela maneira.

- Vamos sentir a falta do teu pai - disse. - Mas tenho a certeza de que vai ter uma boa reencarnação.

Entreguei-lhe as moedas de prata que tinha para ele e prometi-lhe arranjar mais, mas ele fechou-me o pulso sobre elas e colocou a mão em cima da minha. - Não é preciso - disse.

- Obrigado... Vaasuki, na porta do peleiro, o meu pai escreveu uma coisa sobre o caminho que está para além do Senhor.

- Sim, eu vi, claro.

- Sabes que caminho é esse? É a morte?

- Isso é o que toda a gente pensa - respondeu, sorrindo misterioso.

- Mas não é?

- Onde estávamos nós antes de nascermos?

- No ventre da nossa mãe.

- Pois, é bem verdade. - Acenou, divertido, como se eu tivesse dado uma resposta de criança. - Mas antes disso?

Encolhi os ombros. - Não sei se estávamos em sítio algum.

Deu com a mão na cabeça dele, e depois na minha. - Donde veio o eu que está no nosso espírito? E porque estás tu dentro da tua cabeça e não na de outra pessoa?

- Não sei.

Deu-me uma pancadinha no ombro. - Quando souberes a resposta, saberás também aonde leva o caminho que parte do Senhor. Mas isso agora não é importante - aquela mensagem não era para um jovem como tu. Tiago, lembra-te do que o meu pai me disse. Cinge-te às suas palavras. E deseja a teu pai boa viagem da minha parte. Dá-lhe a minha bênção e o meu obrigado.

- Fico-lhe grato - disse eu.

O seu olhar tornou-se grave. - Não gostaria de te voltar a ver aqui ou a alguém da tua família. Segue o meu conselho: deixa Goa logo que isto acabe, e não voltes.

Quando cheguei a casa, Sofia e a minha família precipitaram-se para

mim.

- O papá está de boa saúde e bem-disposto, e manda cumprimentos para todos - disse-lhes, fazendo os possíveis para me mostrar alegre.

- Graças a Deus! - disse a minha irmã.

Enquanto a minha tia mandou buscar roupas limpas para mim, inventei uma história para eles - a história que eu também preferiria: o meu pai estava bem e cheio de força, e não fora torturado; concordava com Isaac que o que os Inquisidores queriam era um suborno, e estava certo de que, mal o tivessem, o libertavam.

- Estava zangado comigo por não ter ido lá? - perguntou Isaac, receoso.

- Não, claro que não. Agradece-lhe tudo o que fez para ajudar.

- Conseguiste dar-lhe o frango? - perguntou Wadi.

- Os guardas confiscaram-mo. Mas não tem comido mal. - Pedi desculpa à minha tia por me ter esquecido de trazer o tachinho. Prometi que o iria recuperar no dia seguinte.

Afagou o meu braço suavemente. Pelos vistos, até ela percebia o que eu tinha passado. - Não tem importância - disse.

Após ter respondido a todas as perguntas deles, confessei o meu cansaço e perguntei se podia retirar-me. Sofia empurrou-me toda divertida pelas escadas acima e ajudou-me a enfiar a camisa de noite. Não me queria deixar, pelo que tive de manter o veneno escondido no sapato.

Abrindo os cobertores, mandou-me meter na cama. Notei, na sua face pensativa e na maneira como esfregava a fronte com o polegar e o indicador, a semelhança com o meu pai.

- Ti - disse timidamente, sentando-se a meu lado -, os outros podem não ter reparado, mas eu vi que estavas a mentir.

- Não estava - insisti.

Franziu o sobrolho, pois esperava mais lealdade da minha parte. - Diz-me a verdade, tens de dizer.

Previra a possibilidade e decidira confessar uma pequena mentira para que ela acreditasse na grande. - Não deves dizer a ninguém, nem sequer a Wadi.

- Prometo.

- É que o papá não tem comido bem. Alimenta-se de caldo de arroz. Dói-lhe o estômago, e ficou extremamente magro. Ficou aborrecido por eu não ter podido dar-lhe o frango. Pôs-se a gemer quando lhe disse que fora confiscado.

- Oh, Ti - disse. - Tenho a certeza de que conseguimos levar-lhe comida como deve ser se continuarmos a tentar!

Vou pedir à tia Maria que fale ao Padre António logo de manhãzinha. Tenho a certeza de que ele nos vai ajudar. Vou fazer chapati com dal. É um prato ligeiro para o estômago do papá.

- E eu levo-lhe mangas. - Sorri, desejoso de me enterrar ainda mais nesta mentira para não ser tentado a revelar-lhe grandes verdades.

Com o júbilo de voltar a ser útil, pôs-se de pé num salto.

- Sim, o papá há-de adorar. Descansa - disse com vivacidade, toda entregue já aos seus planos -, que eu trato de tudo.

No dia seguinte, o Padre António garantiu aos meus tios que um dos anéis dourados já fora dado a um homem próximo do topo da hierarquia da Inquisição. O sacerdote explicou que não podia garantir nada em termos de concessões, mas a prenda fora apreciada - embora, como era natural, nunca a devessem referir a ninguém. Também lhe garantiu que pedira que dessem peixe fresco e fruta ao meu pai, e nunca porco ou lulas, embora não ousasse referir que isso era por razões religiosas relacionadas com as nossas leis kosher.

Wadi, Sofia e eu fomos ao Santo Ofício ao meio-dia, caminhando os três lado a lado, com a minha irmã no meio, como fazíamos quando éramos crianças. Como nenhum deles sabia a verdade sobre o meu pai, um alívio silencioso tornava mais leve tudo o que me diziam naquela manhã. Era como se tivéssemos juntado e colado de novo tudo o que se quebrara entre nós. Wadi levava um tabuleiro de madeira em que Sofia colocara o seu tacho de dal, uma malga de pudim de arroz e duas mangas.

Um padre de olhos cinzentos mortiços e pele cor de cera velha veio abrir quando batemos à porta do Santo Ofício. Causava-me repulsa, o que me facilitava o implorar, como se fosse mais que justo espezinhar os últimos vestígios do meu orgulho. Mal comecei a pedir que entregasse a nossa comida ao meu pai, um tom débil e humilde insinuou-se na minha voz. Após a sua recusa inicial, áspera e rude, tentei atingir o núcleo de solidariedade que, tinha a certeza, deve estar presente em todos os homens em diferentes graus - no fim de contas, sempre que quisermos, conseguimos ver através dos olhos uns dos outros com bastante facilidade. Disse-lhe da nossa preocupação com a saúde do nosso pai, mas, vendo a sua expressão distante, comecei a falar como um rapaz obrigado a jogar às cartas com um apostador experiente - tacteando as palavras, sabendo que estava prestes a perder tudo.

O meu servilismo contagiou Sofia, levando-a a ajoelhar-se. - Padre, sei que Cristo é compaixão, e, por tudo o que Ele sofreu, acredito que Deus lhe permitirá ajudar-nos - disse ao homem, numa voz tão clara e segura de si que percebi que ensaiara o discurso. - Disseram-me que a Sua compaixão se estendia a todos aqueles que nem sequer a merecem. E penso que devemos imitá-Lo em tudo o que fazemos para... para que o Seu sacrifício tenha valido alguma coisa. Ou o que significa realmente tudo o que Ele disse e fez? Se este mundo fosse um mundo de justiça e sortilégio, a eloquência dela seria um encantamento e teria aberto todas as grilhetas e calabouços e dado a todos os miseráveis prisioneiros asas para voarem para casa. Mas, sendo o mundo o que é - ferrugento metal que não se altera -, ouviu imperturbável os nossos rogos.

A fééum ornato inútil e não tem lugar aqui, podia eu ouvir a pedra vazia das paredes a dizer-nos.

O padre terá ouvido algo semelhante dito pelo chão que pisava; fitando a minha irmã do cimo do nariz como se ela fosse uma miúda louca, fez um sinal a um dos guardas para nos pôr dali para fora.

Já se ia afastando, quando Wadi pousou o tabuleiro no chão. - Vossa Excelência, volte, por favor - gritou. - Por favor, tem de nos ajudar...

Mas o padre nem olhou para trás.

A caminho de casa, Sofia e eu íamos a falar em voz baixa sobre a necessidade de esperar que o suborno do tio Isaac surtisse efeito, tentando encorajar-nos um ao outro. Wadi não dizia nada, os dentes cerrados com fúria. Subitamente, o tabuleiro que levava caiu com estrondo no chão e ele estendeu a mão tensa para mim.

- Tigre, cheira-me a queimado! - gritou.

- Aguenta-te - disse-lhe. - Sofia, agarra-lhe os braços, que eu ponho-me por trás dele.

Antes de ela conseguir tocar-lhe, os olhos reviraram-se-lhe, os joelhos fraquejaram-lhe. Consegui amparar-lhe a queda, mas ele bateu no chão com a anca esquerda, com o pulso preso detrás das costas.

Contorceu-se como se estivesse a ser chicoteado. Segurei-lhe a cabeça, e Sofia tentou prender-lhe os pés, mas ele deu-lhe um pontapé tão forte no ombro que ela caiu para trás.

- Tenta de novo! - ordenei, e desta vez os seus movimentos foram rápidos e fortes.

Nessa altura, já se tinha juntado uma multidão de basbaques, e ouvi várias mulheres portuguesas dizer que estava enfeitiçado. Se a tia Maria descobrisse que tinha tido um ataque em público, havia de nos fazer pagar.

- Que é que ele tem? - perguntou-me horrorizado um mercador de cara de burro vestido com uma capa vermelha comprida. Não respondi.

Wadi esteve a ser sacudido no seu mundo durante vários minutos. Após se ter acalmado, Sofia acariciou-lhe o cabelo ensopado em suor e foi a correr buscar água. Ele fez uma careta quando lhe toquei o pulso esquerdo, que já estava a inchar.

- Desculpa - murmurou lamentoso. - Só nos faltava esta.

- Não fizeste de propósito. Descansa, vá.

- Perdão... mil perdões...

- Esse é o menor dos nossos problemas.

Sentado com a cabeça de Wadi no meu regaço, à espera que a minha irmã voltasse, deixei-me arrastar suavemente pelo peso das antigas recordações. Quanto mais me aproximava, porém, do presente, mais a minha vida me parecia irreal, como se o rio em que todos navegávamos não me levasse ao mar, como compete a todas as águas, mas a uma alta montanha que nunca conseguiria escalar - à morte do meu pai e a tudo o que deixaria de acontecer por causa disso. Tinha de manter as minhas distâncias para com Wadi - essa era a mensagem das minhas recordações. Talvez fosse ele o responsável pela prisão do meu pai.

- Leva-me para um sítio onde não me vejam, Tigre - implorou-me o meu primo. - Não quero que me vejam assim. Acho que hoje não conseguia aguentar um dos sermões da minha mãe.

- Logo que a Sofia volte, vamo-nos embora.

- Muito gostava de poder recomeçar a partir do momento em que vieste a Goa da última vez. Diria ao teu pai que fosse para casa e nunca voltasse aqui. Faria tudo para desfazer o que aconteceu.

- Sei que sim - menti.

Será que lamentava tão profundamente ter denunciado o meu pai que agora queria reparar o mal?

Sofia regressou e levou um jarro de barro com água aos lábios de Wadi. Ele sorveu-a como um lobo, e depois deixou-nos pô-lo de pé.

- Desculpa, Sofia - disse.

- Chiuu. Temos de te levar para casa - respondeu-lhe ela. Abrimos caminho por entre a multidão. Ninguém quis saber do estado

de Wadi. Percebo por que é que o papá quer deixar este monstruoso mundo, disse a mim próprio, e então, uma verdade mais profunda revelou-se-me imediatamente.

Até um prisioneiro torturado sabe que o mundo é belo, e anseia por escolher o momento da sua morte precisamente para poder dar a essa beleza o fim que merece. Para ele, como para todos nós, não faz diferença que o sol e o mar e as estrelas - ou até os homens e as mulheres - sejam capazes ou não de nos mitigar a dor. Somos seres frágeis, e a vida é boa, e nós sofremos sem fim, como dizia Buda. A caminho de casa, essa ideia surgia-me como a coisa mais triste e mais óbvia do mundo.

Passei a maior parte da noite sentado na cama, com os pensamentos do meu pai escondidos no peito, onde só o bater do meu coração havia de saber da sua existência. O cansaço espalhou-se lentamente por mim até que senti a calma do desamparo. Agora só posso confiar em mim, pensei, e fiquei contente com isso porque estava finalmente livre de ilusões.

Acordei antes da aurora. O tio Isaac estava com sentimentos de culpa por ter de sair de casa para ir vigiar o trabalho nos seus armazéns, mas garanti-lhe que ele não tinha outra solução senão fiscalizar as cargas que seguiam nessa tarde para Lisboa - que era isso que o irmão havia de querer. Pelos seus olhos, eu via que estava desejoso de se afastar da tia Maria, com a qual continuava manifestamente a ter uma briga.

- Não podemos cair no desespero enquanto esperamos pelo papá - disse-lhe.

Olhou para mim fixamente. - Nestas últimas semanas, tornaste-te um homem - afirmou, mas num tom sombrio.

Sofia fez duas grandes travessas de bagi-puri - uma para o nosso pai e a outra para o padre mesquinho que nos repelira no dia anterior. - Eu não desisto - declarou-nos.

Wadi levou-lhe as travessas fumegantes para o Santo Ofício. Não os acompanhei, fiquei antes sentado no quarto junto à janela, sentindo a brisa húmida a brincar com o meu cabelo como se fosse a carícia do meu tão próximo crime. Sabia que ia ser chamado naquele dia para visitar o meu pai e comecei a arquitectar estratégias para o convencer a abster-se de usar o veneno. Quando a Sofia regressou por volta do meio-dia, ela e Wadi disseram-me, com grande excitação, que tinham sido recebidos por um padre diferente - um padre de sorriso benevolente -, que os autorizara a deixar a comida, prometendo levá-la ao meu pai.

No mesmo dia, bateu-nos à porta um rapaz descalço com uma carta de Tejal. Sofia, Wadi e a tia Maria estavam no mercado, e o meu tio no trabalho.

O pequeno moço de recados - o primo de Tejal, Jai - viera a pé desde Benali, embora só tivesse onze anos.

 

«Rezo por que o teu pai já esteja em casa», escrevia Tejal.

«Estou com os meus pais, e o nosso filhinho está a crescer a bom recato dentro de mim. Peço-te que venhas ter comigo logo que possas. Traz livros para me leres e, se possível, pede a teu pai que os escolha. Manda-me notícias pelo Jai. Muito amor, Tejal.»

 

Dei a Jai um breve recado para ela e um livro de poesia de Samuel Ha-Levi. Também lhe dei um pequeno saco de biscoitos de amendoim, o que o fez desatar a correr pela rua abaixo, de cotovelos a esvoaçar, como se quisesse levá-los para um esconderijo secreto antes que alguém lhe pedisse que os compartilhasse.

Ao fim da tarde, Sofia subiu as escadas a correr e abriu a minha porta num repelão.

- Estão a chamar-te ao Santo Ofício! - anunciou. - Talvez mandem o papá para casa contigo.

Fingi-me surpreendido, e até fiz os possíveis para sorrir, mas ela notou logo algo na minha cara.

- Achas que é má notícia, não achas? - perguntou, hesitante, de voz quebrada, como se temesse que eu fosse dizer-lhe que o nosso pai já estava morto.

- É que eu não confio neles - respondi. - Embora tenha a certeza de que o suborno resultou. Agora é só uma questão de tempo.

A cara iluminou-se-lhe. Espantou-me como era fácil levantar-lhe o ânimo. Talvez tenha investido demasiado num final feliz para acreditar que outra coisa pudesse acontecer.

Fui encontrar o meu pai em muito piores condições físicas, com o olho direito tão inchado que não se abria e as marcas de corda no pescoço vermelhas da infecção, como se os vermes andassem a escavá-lo sob a pele. As mãos tremiam-lhe, e tinha um cheiro de animal a apodrecer.

Quando entrei na sua cela, agarrou-se a mim, irradiando o calor da febre.

Nas nossas costas, a porta de ferro fechou-se com estrondo.

- Trouxeste? - sussurrou-me ao ouvido.

Fiz que sim. Sentia a cabeça andar à roda, como se fosse desmaiar.

- Abençoado sejas, Ti.

Ajoelhou-se para espreitar pela grelha da porta, para ter a certeza de que não estávamos a ser vigiados. Quando voltou a levantar-se, estendeu a mão, de dedos esticados e olhos em fogo, como se fosse este o momento mais importante que alguma vez viveria.

Arrancou-me o frasco como um ladrão e começou a chorar silenciosamente.

- Oh, papá - gemi.

- Agora está tudo bem - não parava de repetir, passando-me a mão no cabelo, beijando-me as faces. Voltaram-lhe as forças, e quando me agarrou, foi com mãos firmes. - Tu e eu estragámos-lhes os planos - sussurrou, tossindo com excitação.

Baixou as calças e espanejou-se como um pato a sacudir a água da cauda, tentando fazer-me sorrir. Depois, meteu o frasco onde ninguém o podia encontrar e andou à roda, com os braços para fora, numa lenta dança de triunfo. - Não te preocupes - disse-me -, não estou louco. Só estou feliz, muito feliz por te ter aqui comigo neste momento. Ti, salvaste tantas vidas. Deus te abençoe para sempre.

- Então não lhes deste nenhum nome...

- Não, e agora nunca darei. Sentámo-nos os dois no catre dele.

- Sabes o que me apetecia agora? - perguntou, dando-me um piparote na cabeça.

- Não, o quê?

- O creme de tamarindo da Nupi. - Lambeu os lábios e fingiu que desfalecia.

- Deram-te a comida que te deixámos? Abanou a cabeça.

- A Sofia fez-te bagi-puri.

- Agradece-lhe por mim. Diz-me cá, Wadi tem sido bom para ela?

- Tem, acho que está arrependido das suas traições. Acho que vão ser felizes.

Não sabia se era verdade, mas não podia deixar o meu pai preocupado com ela.

- Maravilhoso. Dá-lhes a minha bênção a ambos. É importante. Fazes isso por mim?

Encostou a minha mão à sua cara quando eu concordei.

- Papá, estás a arder em febre - disse-lhe.

- Agora, não interessa. Ti, vou tomar o veneno daqui a dois dias. Ninguém vai suspeitar que foste tu. - Fez o gesto de atirar qualquer coisa pela janela fora. - Vou livrar-me do frasco, e tu nunca podes admitir que mo trouxeste.

Pelo menos enquanto alguém da nossa família viver ao alcance da Inquisição. Percebes?

- Nunca direi a ninguém.

- Bom menino.

- Papá... Tens a certeza de que tens de fazer isso?

- Desta última vez quase me quebraram. Com o funil na minha boca e uma corda ao pescoço, podia ter dito tudo, não importa o quê. Acredita em mim, não há outra maneira. Vá, não percamos mais tempo com isto. Conta-me da Tejal e do meu neto.

- Mas papá, temos de falar mais do... Pôs-me um dedo nos lábios. - Como está Tejal?

- Recebi uma mensagem dizendo-me que voltou à aldeia. Quer que eu a vá visitar lá.

- Logo que saíres daqui vai ter com ela, meu filho. E fica lá. Não voltes para Goa, mesmo que ouças... que ouças o que aconteceu. Fica com ela. E quando voltares à nossa quinta...

- Mas... mas depois, depois de tu... da... - não conseguia forçar-me a dizer a palavra.

- Não vai haver funeral. Serei enterrado aqui sem qualquer cerimónia.

- Mas isto não é chão sagrado. Não te posso deixar aqui.

- Enterram todos os prisioneiros mortos aqui, mas o meu corpo não tem importância. - Enxugou as lágrimas com os polegares. - Sabes isso.

- Mas a tua alma pode vaguear pelos Reinos Inferiores para sempre se nós não...

- Isso é tola superstição. A minha alma já estará de volta a Deus quando os Inquisidores encontrarem o meu corpo. - Sacudiu as mãos como se fossem asas. - Não vão conseguir apanhar-me. Ti, por vezes, penso que devíamos fazer, pura e simplesmente, como os zoroastrianos e deixar o corpo numa torre para que os abutres o limpem... é muito mais acertado.

- Papá, não fale assim! Não aguento...

- Perdão, lamento as minhas conversas estúpidas. Chiuuu. Embalou-me nos braços e começou a falar de quando eu era bebé.

Demasiado cedo, a porta abriu-se e entrou um guarda, com um padre atrás.

- Não tivemos tempo suficiente - disse o papá, furioso.

- O teu filho tem de sair - disse-lhe o guarda.

- Não saio! - gritei.

- Não lamentes nada do que se tenha passado entre nós, Ti - disse o meu pai em concani, beijando-me depois nos lábios. - Estarei sempre contigo. E amo-te mais do que tudo.

 

Foi como se o coração me fosse explodir. Jurei que não me levantava. Ficaria com o meu pai e morreria com ele.

O guarda agarrou-me o braço. - Levanta-te! - gritou, pondo-me de pé com um sacão.

- Ti, olha para mim! - exclamou o meu pai. - Vai ao sultão com a Sofia

- disse-me. - O sultão toma conta de ti. Há uns anos, prometeu que o faria, e não é homem para voltar com a palavra atrás.

- Papá - respondi -, não te deixarei.

- Mas tens de deixar. Espero que agora tomes conta de ti. Tens de viver uma boa vida por esse meu neto!

Insultei o guarda e o padre enquanto eles me arrastavam para fora da cela. Não parei de gritar, mesmo quando estava na rua a fitar fixamente as portas fechadas pelas quais nenhum prisioneiro passara sem ter aceite Cristo como seu salvador.

Durante dois dias, disse a mim próprio que o meu pai não ia tomar o veneno. Mas ao fim da terceira manhã, o Padre António veio a nossa casa e informou-nos sorumbaticamente de que o meu pai estava morto. Foi a 4 de Novembro de 1591. No silêncio do meu coração, tão fundo que até os lamentos da minha irmã se ouviam muito ao longe, pensei: Não vamos ser capazes de continuar a viver.

Se houvesse justiça, os meus gritos haveriam de ter arrancado as pedras das calçadas de Goa e deitado as casas ao chão. Que direito tinha o mundo de ficar tão indiferente ao nosso destino?

Wadi foi muito atencioso tanto comigo como com Sofia, mas a tia Maria, ajoelhando-se diante da minha irmã, disse pouco depois uma coisa que me fez crer que, mesmo que não tivesse sido responsável pela morte do meu pai, não a lamentava.

- Vais acabar por esquecer este terrível momento. Eu ajudo-te a esquecer. Todos te ajudaremos.

- Cale-se! - gritei, todo eu em fogo. - Eu não ajudo. Porque havemos de querer esquecer o momento em que soubemos da morte do nosso pai? Só pode falar assim porque o desprezava por viver abertamente como judeu!

Wadi e o tio Isaac foram ao Santo Ofício tentar recuperar o corpo do meu pai. Este dissera-me que não seria possível, e verificou-se que tinha razão, pelo que chegara o momento de eu cumprir os seus últimos desejos. Fui ao andar de cima falar a Sofia, pedindo à tia Maria para ficar a sós com ela.

A minha irmã não falara nem comera desde que soubéramos da morte do meu pai. Tinha os olhos abertos, mas fitos no vazio; fugira lá muito para o fundo dela própria.

Mal a minha tia se afastou, sentei-me junto a Sofia e agarrei-lhe a mão. - Vou ter de me ir embora, Sofia. Vou ficar na aldeia da Tejal durante uns dias. Estás a ouvir-me? - Piscou os olhos. - Tenho de ver a Tejal ou não consigo sobreviver a isto. Dentro de uma semana, estou de volta. Ficas bem sem mim?

Fechou os olhos, o que tomei como uma condenação silenciosa.

- Sofia, gostaria que não me deixasses assim sozinho. Preciso de ti. Percebes o que te estou a dizer? Queres vir comigo? Vamos os dois embora. Não precisamos de voltar.

Não quis olhar para mim. Senti-me abandonado e infeliz. - Vou-me embora - disse. - Quando voltar, vamos dar um grande passeio, mas eu não fico em Goa. Levo-te para casa e depois vou ter com o sultão. A não ser... a não ser que tu decidas ficar com o Wadi e casar já com ele. Sabes que o papá te deu a sua aprovação antes de morrer, embora eu ache que devias voltar para casa por alguns dias... quanto mais não seja, para que a Nupi se convença de que estás... - ia a dizer bem, mas muitos anos passariam antes de podermos dizer isso. - Para que ela se convença de que vais recuperar - terminei.

Quase me sentei para tentar levá-la a olhar para mim, mas sabia que, se o fizesse, me sentiria tentado a ficar com ela. Lembrando-me de que o meu pai me animara a tomar conta de mim e do meu futuro, fechei a porta suavemente ao sair.

O cão era grande e hirsuto, e tinha como olhos umas contas negras enterradas numa massa lãzuda de pêlo castanho. Acabara de dobrar uma esquina para me dirigir às portas do sul da cidade quando por pouco não tropecei nele. Um rapazinho com um chapéu de aba larga feito de junco chamou por ele.

- Vem aqui, Carlito! - gritou.

Quando endireitei a bolsa no ombro, um homem que se identificou como beleguim municipal veio ter comigo e perguntou-me o nome. Quando lho disse, informou-me de que estava preso. Estava há horas à minha espera, disse. Decidira não me prender em casa para não incomodar o meu tio.

Talvez me tenha abstido de correr por causa da sensação de estar a ser perseguido pelo próprio mundo. Ou pela minha necessidade de voltar a ver Sofia.

Ou seria que o meu desejo de enfrentar os perseguidores do meu pai já me tinha cegado para o perigo que corria?

Talvez fosse uma mistura de todas essas razões, mas eu, por vezes, acho que uma vingativa parte de mim - um ladrão de almas de que ainda nada sabia - já estava à espera por trás de uma porta dentro do meu espírito, a conspirar para aproveitar uma oportunidade de pôr fim ao que um traidor começara.

 

Na tarde de 17 de Janeiro de 1594, passados mais de dois anos sobre a minha prisão e um mês e pouco após o auto-de-fé em que Phanishwar foi feito em fumo, prenderam-me aos tornozelos umas grilhetas enferrujadas em que pesavam as vidas destruídas de dezenas de homens antes de mim, e fui conduzido para a nau pronta a zarpar que havia de me levar à cadeia de Lisboa. Eu fizera vinte e um anos há apenas três dias.

Uma vez no convés, o capitão Martins, um homem de uma beleza cruel, cabelo prateado e a pele curtida do sol, foi obrigado por um padre a jurar sobre um missal que me entregaria fielmente à Inquisição. Pela sua voz escarninha, percebia-se facilmente que o capitão não gostava de receber ordens de um homem sem calos nas mãos.

Um tripulante descalço que falava apenas um português rudimentar meteu-me numa casa de arrumos junto com quatro pipas de vinho do tamanho de um homem. Entregou-me uma taça de água, duas côdeas de pão, e um cibo de queijo velho malcheiroso. Quando aferrolhou a porta, receei que fosse passar toda a viagem encurralado naquela escuridão sem ar, mas na manhã seguinte, muito cedo, vogávamos pelo rio abaixo, o capitão mandou que me trouxessem para o convés. Ao sairmos de vista da cidade, mandou que me tirassem as correntes. Ainda os últimos elos retumbavam no convés, já as lágrimas me espreitavam aos olhos, mas a minha gratidão só aborreceu o capitão Martins.

- Se te apanho a chatear, mando-te açoitar o coirão de cristão-novo até mijar sangue! - disse-me.

Nesse primeiro dia, agarrado à balaustrada, sentindo o vento salgado a soprar-me na cara e o mar sem fim a erguer a nau para o céu, nem o desprezo dele me podia ferir. Senti que, podendo ver o Sol, seria capaz de resistir ao meu destino. Contudo, ao cair do lusco-fusco, um medo veio alojar-se muito fundo dentro de mim. O horizonte a escurecer veio lembrar-me a razão da minha partida da índia e parecia estar a chamar-me à inevitável destruição. Não teria força para aguentar seis anos noutra cela. Para mais, com o meu pai morto.

Depois da ceia, um jovem tripulante mostrou-me o meu catre. Deu-me uma laranja da sua reserva pessoal antes de me deixar. Com o convés por cima de mim a proteger-me, a descascar a fruta com as minhas unhas lascadas e sujas, sentia-me mais seguro. Após quase dois anos num compartimento de quatro por cinco côvados, era patente que precisava de paredes e de um tecto à minha volta.

Durante esses primeiros poucos dias, sempre que tentava recordar a sucessão de acontecimentos da minha vida, percebia que o cárcere me tinha danificado gravemente o espírito; levei dias a recordar os nomes de aldeões que conhecia desde rapaz, e alguns dos momentos cruciais da minha vida - até a morte da minha mãe - me pareciam ter sido vividos por um distante antepassado. Se me visse num espelho, tinha a certeza de que não reconheceria o homem que via - demasiado magro até para ter uma verdadeira sombra, demasiado hesitante e frágil, com cicatrizes nos pulsos por onde a sua alma tentara escapar-se.

A princípio receei estar a afastar-me muito de casa, como se pudesse pura e simplesmente desaparecer, mas, após uma semana no mar, comecei a acreditar que me fora dada uma oportunidade sem par. Em breve estaria noutro continente, longe de todos os que podiam esperar de mim alguma coisa. Não tinha de revelar a ninguém a verdade sobre mim nem sobre a minha vida.

Podia fazer de mim próprio uma nova pessoa.

Ao tomar as minhas refeições com a tripulação, não podia deixar de dizer umas palavras de vez em quando, quanto mais não fosse sobre os ventos fracos ou os peixes-voadores, ou os exuberantes golfinhos que vinham por vezes brincar junto à nau, pelo que em breve travei amizade com José, um grumete de dezassete anos de uma pequena cidade chamada Tavira, o qual ficara encantado com a índia e ouvia com avidez as minhas histórias de uma infância vivida no campo. Falei-lhe de rãs dentro de pantufas e de um calau chamado Sujay, mas nem uma só vez abordei a questão da morte do meu pai, nem a minha prisão, e José nunca me perguntou porque me mandavam para Lisboa. A nossa amizade deslizava sobre a superfície das coisas - como parecia adequado, pois sabia que não podia arriscar-me a mais do que isso.

Se lhe tivesse dito que ainda estava vivo apenas para poder encontrar quem traíra o meu pai e pôr termo à vida dessa pessoa, seria que ele acreditaria sequer em mim?

Soube por José que ele e a maioria dos outros marinheiros eram filhos de pais sem posses, ou não tinham família e que se haviam alistado ao serviço da Coroa quando eram ainda rapazes. Para além do capitão e de mim, ele era o único a bordo que sabia ler e escrever; tivera a sorte de ser ensinado no orfanato por um franciscano que fizera voto de educar os indigentes.

José, Deus o proteja onde quer que se encontre agora, emprestou-me dois dos livros que estimava, mesmo sem eu lhe ter pedido: os Lusíadas de Luís de Camões e o Novo Testamento, ambos presentes do seu querido professor.

Encostar a face a essas páginas e sentir o cheiro bafiento da cola de peixe e do papel era como entregar-me ao abraço do meu pai. Gostava de ficar a ler no meu catre à luz de uma única vela enquanto os outros estavam no convés, e ouvir os passos deles por cima de mim como se fossem deuses no céu. Nas semanas que se seguiram, decorei tudo o que pude do Evangelho, e punha-me à prova recitando passagens quando estava sozinho no convés. «Na casa do meu Pai há muitas moradas...» escrevia João no seu Evangelho, e eu ergui muitos aposentos no meu espírito para preservar as minhas citações para posterior uso.

A bordo da Santa Cecília, pensei muitas vezes no meu pai e em Phanishwar, claro, e sempre com uma sensação de lhes ter faltado aos dois, mas os fantasmas que me assombravam todas as manhãs e noites eram Sofia e Tejal. Atormentava-me não ter tido ao menos um vislumbre deles no auto-de-fé.

Nos meus sonhos acordados, via a tia Maria e Wadi de pé sobre o túmulo anónimo do meu pai. Um deles deve ter ficado sobremaneira alegre com a notícia de que eu estaria longe pelo menos seis anos, mas qual deles? Ou eram ambos responsáveis por tudo o que atingira a minha família?

Depois de termos navegado para sul durante seis semanas e circum-navegado a África pelo cabo da Boa Esperança, seguimos para noroeste e, quatro meses depois, a 12 de Maio, chegámos a São Salvador, capital do Brasil. Fiquei fechado numa prisão pública. No pátio por baixo da minha janela com grades, via uns abutres a depenicarem noite e dia o lixo, como que se andassem a vasculhar à procura de um tesouro perdido. Dei-lhes nomes afectuosos como Comilão e Barrigudo, pois o espectáculo das suas rixas em torno dos restos mitigava o meu tédio.

Pedi logo uma pena e tinta, para poder escrever à minha família e a Tejal, mas o meu guarda disse que era contra as regras. E os livros também.

As mulheres, pelos vistos, não eram, e o meu guarda explicou-me que, por um tostão de prata, me traria uma africana ou mulata - ou até uma índia brasileira com pintura vermelha à volta dos olhos e nos seios. Falava das maravilhas que essas mulheres exóticas me podiam fazer de uma forma que seguramente despertaria o meu interesse, mas, mesmo que eu quisesse a sua companhia, não tinha nem uma única moeda de cobre.

Uma manhã, cerca de três semanas após a chegada ao Brasil, um jovem de tez amarelada e cabelo negro e basto - como uma crina de cavalo - conduziu-me pelas colunas verdejantes que sobrepujavam a cidade até uma mansão cor de coral que pertencia a um velho de corpo deformado e face simpática chamado Afonso Gil Pereira da Silva, o qual, enquanto saboreávamos um copo de vinho, me avisou que iria trabalhar para ele enquanto o meu barco não partia para Portugal. Quando isso seria, Pereira da Silva não tinha a certeza, mas podia levar meses, explicou.

Dom Afonso, como gostava que lhe chamassem, era proprietário de vinte mil hectares de plantações de cana-de-açúcar, e precisava de um assistente que lhe lesse a correspondência e escrevesse as suas respostas, pois a vista estava a falhar-lhe miseravelmente. Ia dar-me uma escrivaninha só para mim num escritório do primeiro andar e pagar-me-ia um pequeno salário semanal, mas teria de continuar a passar a noite na cela. Teria os domingos livres para vaguear pela cidade sem um guarda sequer.

- E pode comer o açúcar que quiser! - disse-me o velho, como se fosse um presente de rei.

Se calhar era, pois o que me rendeu imediatamente ao meu benfeitor foram os bolos de coco que o seu escravo pessoal nos trouxe. Nesse primeiro dia com Dom Afonso, comi até me doer a barriga, o que lhe deu vontade de rir afectuosamente. O dono da plantação parecia desmedidamente satisfeito por me ter contratado, embora eu ainda não suspeitasse porquê.

Os abastados residentes de São Salvador nunca passeavam de palanquim, como os de Goa, nem sequer a cavalo, mas em camas suspensas presas a umas barras e transportadas por escravos africanos. Dom Afonso ia para todo o lado numa dessas camas de cor vermelho-rubi enfeitada com centenas de ametistas brilhantes incrustadas no tecido, e, para vestir, deu-me um gibão de brocado verde-esmeralda e calças carmesim enfoladas, pelo que eu devia Parecer um papagaio ao feitor e aos escravos.

Levava-me a seu lado quando ia inspeccionar as suas propriedades; armado de papel e pena, gastava páginas e páginas a registar o seu português floreado. Um escravo taciturno de catorze anos chamado Melaço segurava-me o tinteiro, aconchegando-o nas mãos como se contivesse uma poção mágica.

Uma vez por outra, Dom Afonso até me levava a jantares de festa, nos quais eu tinha por tarefa provar toda a sua comida (pois temia ser envenenado) e satisfazer todos os seus caprichos. Ouvi por acaso dois cavalheiros a gracejar que eu até lhe segurava o membro para ele urinar, coisa que achavam extremamente divertida.

Os campos em torno de São Salvador eram viçosos e acidentados, cheios de palmeiras e árvores de fruto, e as praias de areia branca eram tão resplandecentes como as da índia. O Brasil era uma terra maravilhosa e bela, mas recordava-me de mais a minha pátria e comecei a odiá-lo.

Logo que me entregaram a minha secretária, passei horas a compor cartas para a minha família e para Nupi. Foi difícil encontrar o tom certo a adoptar com a minha irmã, e descobrir a forma de me referir à traição que custara a vida ao nosso pai, visto que a tia Maria, Wadi ou talvez mesmo o meu tio tinham testemunhado contra ele e contra mim e entregado o manuscrito do meu bisavô Berequias Zarco aos nossos inimigos. Achei que podia pôr Sofia em perigo se lhe referisse as minhas suspeitas: tinha poucas dúvidas de que mostraria a minha carta a Wadi, mesmo que lhe rogasse que não o fizesse. A amargura e a dor frustraram as minhas primeiras tentativas, seguindo-se-lhes a raiva. Quando Dom Afonso me deixou sozinho, fechei-me no escritório e fiz em farrapos a roupa que trazia vestida na viagem da índia, pois queria destruir o rapaz que fora, gritando aos céus que havia de matar quem me tinha denunciado e ao meu pai à Inquisição.

Percebi por fim que o que mais importava era convencer a Sofia a levar a melhor vida que pudesse e a esquecer-me até eu voltar. Depois de lhe descrever o meu novo emprego, e lhe pedir que oferecesse ajuda a Tejal, terminei a minha primeira carta referindo-me apenas brevemente ao nosso infeliz destino:

 

Tenho a certeza de que por vezes não consegues dormir a pensar como é que o papá poderia ter ido parar à prisão, e talvez até te culpes a ti própria por o não teres protegido do mal, como eu me culpo, mas deves atirar isso para trás das costas até ao meu regresso. Constrói uma boa vida com o Wadi. Não penses em mim muitas vezes. O que aconteceu tem de permanecer mistério, por agora. Será difícil ter paciência, mas não temos outra solução. Mais tarde,

..- quando estiver mais próximo do fim da minha pena, pedirei ao tio Isaac que encete diligências para conseguir a revogação da minha pena de banimento, para que eu possa voltar para ti. Quando estivermos outra vez juntos, faremos os possíveis para recomeçar de novo.

 

No final, citei o Evangelho de Lucas, pensando na minha própria necessidade de ser paciente:

«Pois com autoridade e poder ele dá ordens aos espíritos imundos, e eles saem.»

Na minha primeira carta a Tejal, pedi-lhe que esperasse por mim e jurei a minha devoção por ela. Roguei-lhe que mandasse notícias do nosso filho. Terminava sugerindo que fosse ter com o tio se precisasse de ajuda, mas só quando tivesse a certeza de que a tia não estava. Mandei-lhe juntamente uma flor silvestre seca, como tantas vezes fizera na índia.

A partir dessa altura escrevia a Tejal e à minha família duas vezes por mês, enviando-lhes descrições da cidade e das minhas pequenas aventuras com Dom Afonso, visto não me parecer pertinente referir assuntos mais desagradáveis. Não esperava receber respostas, pois Goa estava a meses de navegação. No entanto, como não recebia nenhuma, não podia evitar sentir uma decepção que me punha apático e maldisposto. Pedira a Sofia e Tejal que me escrevessem para a Cadeia da Galé em Lisboa, e esperava que dali a poucos meses, quando lá chegasse, teria as cartas delas à minha espera.

Mesmo antes de partir do Brasil em Agosto, ouvi por acaso Dom Afonso explicar a minha situação a um mercador que negociava em peles exóticas e tinha recentemente chegado de Lisboa. Entre outras coisas, o dono da plantação pretendia que eu era o filho mais velho de um rico nobre encarregado de cobrar os direitos portuários de Goa para o rei. Tudo passou então a fazer sentido: o capitão Martins deve ter dito a Dom Afonso que eu era de uma família importante e o velho achava que empregar-me era uma maneira de elevar o seu estatuto na cidade. Durante todo o tempo em que tínhamos estado juntos, andara a mostrar-me como um troféu!

Também descobri na mesma conversa que o capitão ficava com todo o meu salário e que só recebia metade da tarifa corrente - uma prova, suponho, de que as coisas raramente são o que parecem nesta vida terrena. E que a maior parte das pessoas preferem que assim seja.

Chegámos a Lisboa a 11 de Novembro de 1594, após quase mais três meses no mar e uma breve escala na ilha Terceira no meio do Atlântico.

Desses primeiros dias em Portugal, lembro sobretudo as chuvas e os ventos frios. Parecia-me que os meus ossos eram feitos de vidro gelado.

Após uma noite numa cela no Palácio da Inquisição na praça principal de Lisboa, fui levado para a Cadeia da Galé, nas margens do rio Tejo, a cerca de um quarto de légua do porto. Um barbeiro rapou-me a barba e o cabelo, e fui agrilhoado à perna de um velho cristão-novo de Santarém, Manuel Lopes de seu nome. Tinha uma pele enfermiça - da cor das cinzas - e o corpo muito torto de ter sido recentemente torturado. Recusava-se a olhar para mim ou a dizer fosse o que fosse. Outro prisioneiro veio a dizer-me que, tendo sido pendurado pelos pulsos, Manuel denunciara a mulher e os filhos como judeus secretos. Desse modo, salvara-se de ser queimado vivo, mas a família estava agora a apodrecer nas entranhas de um calabouço da Inquisição.

Conheci muitos homens miseráveis, mas Manuel era o único que tinha o espírito completamente apagado. Mesmo hoje, não sei como continuava a viver.

Perguntei imediatamente pelas minhas cartas, mas disseram-me que não tinha chegado nenhuma. Suspeitei que mas retinham, mas só consegui suscitar ameaças quando roguei por elas aos guardas. - Até a Jesus deram o livro de Isaías - disse-lhes, mas, pelos vistos, não queriam saber do seu salvador e deram-me pancada.

Naquele primeiro dia da minha nova vida, junto com mais cerca de duzentos prisioneiros, Manuel e eu fomos levados para as docas, onde nos puseram ao trabalho como estivadores, e isso havia de ser o meu destino enquanto durou a minha pena. De sol a sol descarregávamos frutos secos, açúcar, tecidos de algodão, especiarias, madeira, e tudo o mais que podia ser enviado com lucro das colónias, sendo-nos dadas tarefas inferiores, como, por exemplo, juntar pedras para lastro, reparar redes, e limpar junco para fazer cordas. Havia também uma vintena de escravos africanos, a cumprir pena por terem tentado fugir dos seus senhores, que ficavam separados de nós. Ao mais pequeno gemido, estes pobres desgraçados eram vergastados com uma corda de nós. Também a trabalhar separados, havia uma dúzia de mouros que tinham sido capturados numa batalha naval ao largo da costa de Marrocos. No meu terceiro mês de trabalho, vi um muçulmano ser apunhalado por um guarda na face esquerda por se recusar a saltar para o rio Tejo para recuperar um cesto que caíra de bordo. Num sotaque árabe cerrado, o pobre homem jurava que não sabia nadar, mas isso, pelos vistos, não era considerado desculpa válida.

Dormíamos juntos - presos de direito comum e homens transferidos da Inquisição - numas enxergas num dormitório húmido e a cada um de nós davam uma camisa azul larga e uma capa, bem como um casacão de lã grossa cinzenta, que, à noite, fazia também de cobertor. Comíamos quanto quiséssemos de uma espécie de biscoitos negros tão duros que os homens lhe chamavam tijolo esmagado. Também nos davam, mas com parcimónia, carne salgada e favas. Eu punha-me a devanear com mangas, e por vezes sonhava com a vinha-d'alhos de Nupi.

Aos domingos, íamos à missa na capela da prisão. A certa altura, já citava os evangelistas tão perfeitamente, que todos e cada um pensavam que era agora um piedoso converso. O idoso sacerdote, Padre Pedro, punha-me a acolitá-lo na liturgia, e passei a ter como tarefa acender todos os círios, visto que ele já não conseguia subir a escadotes. Era um homem maravilhoso, que costumava tentar fazer-me rir, mas as suas palhaçadas só me recordavam o meu pai.

Passei esse Inverno quase sempre doente e muitas vezes tinha arrepios de febre por causa do tempo miseravelmente frio, mas por alturas de Março, quando o Sol começou a demorar-se mais sobre a cidade, fui sentindo as forças a voltar. Subtraindo o tempo que passara no mar e em São Salvador com Dom Afonso, agora tinha pouco mais de cinco anos de pena a cumprir.

Tenho a certeza de que o meu pai gostaria que eu, nesses próximos anos, me enobrecesse pelo trabalho e aproveitasse ao máximo o contacto com os outros prisioneiros - mas, não, comecei a aforrar o azedume e a raiva como um jovem Midas, deitado de costas no meu catre e erguendo-os bem alto à luz, para admirar a sua forma e o seu brilho, polindo-os constantemente quando estava só, sempre impressionado pela claridade com que irradiavam as suas intenções.

Breve percebi que quem traíra o meu pai junto da Inquisição devia ter andado a maquinar contra ele durante meses; para ter a certeza de levar a sua avante, esse traidor deve ter achado essencial registar todos os momentos de heresia do meu pai, por mais pequena que fosse a infracção. Além disso, ele ou ela, quem quer que fosse, deve ter planeado com extremo cuidado a forma de roubar o manuscrito do meu bisavô no momento exacto e de o surripiar da nossa quinta sem ser apanhado.

Os Inquisidores que receberam esse valioso texto antigo deviam ter tido que preparar uma investigação aturada do meu pai, por forma a conseguir uma acusação sólida contra ele. Mesmo que o inimigo secreto do meu pai tivesse fornecido aos padres os nomes de possíveis testemunhas - e mesmo que tivesse subornado essas testemunhas para as induzir a acusar o meu pai -, o processo de acumular depoimentos devia ter levado várias semanas, pelo menos.

Vim a achar também que Wadi e a tia Maria eram as únicas pessoas que conhecia suficientemente retorcidas para instigar tal conspiração - e as únicas que poderiam ter detestado o meu pai a ponto de andarem a maquinar contra ele durante meses.

Foi essa obstinada premeditação que fez com que o seu crime me parecesse tão horrível e que acabou por transformar os meus devaneios nas mais cruéis formas de assassinato.

Uma e outra vez, fechava a minha tia e o meu primo numa masmorra e deixava-os a morrer de fome até confessarem que tinham roubado o manuscrito do meu bisavô para destruir o meu pai. Quanto ao Padre Carlos Miguel Fonseca, que eu desprezava quase com a mesma paixão, atraía-o mentalmente à minha câmara de tortura por meio de estratagemas, tal como ele atraíra Phanishwar para lhe tirar a vida. Então quebrava-o com cordas e polias.

As dezenas de milhar de caixas que ergui e de carros de mercadoria que arrastei vieram a ficar impregnadas com as minhas fantasias contra Wadi, a tia Maria e os inquisidores, e essas fantasias, por seu turno, vieram reforçar os meus músculos e a minha vontade. Seria exagero dizer que me transformaram, fazendo de mim algo novo e melhor?

Se é certo que dar rédea livre ao meu ódio me restituiu um objectivo na vida, nos meus primeiros meses em Lisboa, combati por vezes as minhas negras emoções - como um viciado no ópio que repele o cativante cheiro do cachimbo. Por vezes, deixava a frustração tomar conta de mim e embrenhava-me em rixas com os outros homens. Uma vez, sentindo a urgente necessidade de cometer um erro irredimível, apanhei uma prancha de madeira e enfiei-a na cara de um ladrão de Coimbra que tentara roubar-me a capa, partindo-lhe a queixada. Quanto à cicatriz em forma de C na minha orelha direita, foi feita pela unha de um assassino de Bragança que não apreciou eu ter-lhe dito que não cuspisse à minha beira. Atirou-se a mim quando eu estava a descarregar bacalhau, mas consegui atirá-lo ao rio antes que me fizesse mais cicatrizes na cara:

Quando acabei por aceitar o meu exílio da índia e o meu destino, comecei a compreender a utilidade de fazer alianças na prisão, e travei amizade com alguns dos outros prisioneiros. Até os mais fanfarrões e brutos de entre eles acabaram por perceber que eu nunca desistia na luta, não se metendo comigo.

Um dos prisioneiros com que travei amizade era um ministro da Igreja anglicana chamado Benedict Gray, que mais tarde veio a escrever muito eloquentemente sobre as suas experiências da prisão num volume publicado em Londres, em 1602, e intitulado Breve Narrativa da Inquisição de Lisboa. Dizem-me que o livro se vendeu muito bem e figura em muita biblioteca inglesa.

Pus-me a estudar inglês com Benedict Gray aos serões, pois achava agora que conhecer outra língua europeia poderia vir a ser-me útil, e que ter um amigo num país livre do catolicismo poderia também um dia ser uma grande vantagem para mim.

Explicando-me as suas opiniões sobre o cristianismo, Benedict contou-me que o rei Henrique VIII proibira os papistas (nome que os anglicanos davam aos católicos romanos) de celebrarem o seu culto na Inglaterra. O ministro acreditava até que o Papa era um anticristo que tinha por objectivo afastar os homens e as mulheres da verdadeira mensagem de compaixão do Messias.

Disse-lhe a ele e aos outros que era filho adoptivo de um exportador de tecidos. Não tinha irmãos. Tinha-me distinguido em latim e no tiro ao arco na minha escola jesuíta de Goa.

Teriam acreditado em mim? Não me aquecia nem arrefecia; roubar o passado de outro homem dava-me uma certa segurança, e, depois, as opiniões que eles tinham de mim eram menos importantes até do que a poeira das colónias portuguesas da índia, de África e do Brasil que, todas as noites, sacudia das minhas roupas esfarrapadas. A minha necessidade de caçar o assassino do meu pai escondia-se por trás das palavras piedosas e das amáveis mentiras que pronunciava em público.

Nenhuma carta de Sofia, de Tejal ou dos meus tios chegou até mim. Comecei a escrever-lhes no último domingo de cada mês, pois, no nosso dia de descanso, uma velha freira de rosto doce, chamada Maria Madalena, vinha à prisão com uma pena e papel, assentando na sua escrita muito precisa o que cada um desejava escrever à família. A irmã Maria Madalena descobriu em pouco tempo que eu sabia escrever e, metendo-me um cálamo na mão, insistia para que eu nunca perdesse a esperança de uma resposta.

Contudo, como continuava a não receber resposta de casa, deixei de tirar proveito das suas visitas, por achar que a situação não tinha remédio. Imaginava que todas as cartas que recebia continuavam a ser-me confiscadas.

Mais tarde, no meu terceiro ano em Lisboa, um mercador cristão-novo, de seu nome Marcos Severino Pereira, começou a distribuir esmolas aos prisioneiros. Quando me deu um cobertor grosso de lã, mostrou-me tal compaixão nos olhos castanhos, que impulsivamente lhe perguntei se poderia dizer à minha família que me escrevesse a seu cuidado. A princípio, remexendo a corrente das chaves que trazia atada ao gibão, balbuciou uma desculpa sobre ter de se afastar de Lisboa por vários meses. Era manifesto que - apesar da minha reputação - receava que continuasse a ser um herege, mas quando lhe garanti que só estava desesperadamente à espera de receber novas da minha irmã, concordou, reservando-se o direito de ler a minha correspondência.

Passados vários meses, quase quatro anos depois de eu chegar a Lisboa, chegou a sua casa uma primeira carta do meu tio. Ao ver a escrita floreada de Isaac, tão parecida com a do meu pai, senti-me tonto e as minhas mãos começaram a tremer. O tempo que passara fora da índia ficava reduzido a nada. Ao ler essa carta, senti-me a flutuar para lá de mim, num sítio onde as suas palavras eram carícias sussurradas.

 

Foste muito esperto em pedir ajuda ao senhor Pereira, escrevia ele. Tenho todas as esperanças de que estas minhas palavras finalmente te cheguem. Mando-te todo o meu afecto e amor.

Dava-me então as notícias por que eu mais ansiava: A tua pena de banimento foi revogada, pelo que podes regressar livremente para junto de nós logo que cumpras a tua pena. Vou mandar-te fundos substanciais através do senhor Pereira, para que possas fazer a viagem de regresso sem teres de trabalhar mais.

O meu tio também escrevia que Wadi tomara conta de muito do seu trabalho em Goa, e que ele, Isaac, passava a maior parte do tempo em Damão e Diu, pequenas colónias portuguesas da índia, onde esperava alargar as suas relações comerciais. Por entre linhas, percebi que o seu casamento com a minha tia era praticamente caso arrumado.

Sobre a minha irmã e a minha futura noiva, limitava-se a escrever uma linha: A Sofia sente imenso a tua falta e tive recentemente notícias de que Tejal está bem.

Talvez não dissesse mais porque elas tencionariam escrever-me em separado, mas, se alguma coisa me enviaram, não me chegou às mãos. Sendo as informações tão escassas, o meu espírito logo desatou a magicar nas desgraças que poderiam ter sofrido e o meu tio me estaria ocultando. Nas cartas que se seguiram, pedi-lhe que me contasse tudo sobre elas e que lhe rogasse que me escrevessem directamente, mas nunca me disse mais nada senão que estavam bem.

Não dizia nada do meu filho, embora eu lhe tivesse escrito a dizer que Tejal estava grávida no momento da minha prisão. Teria o bebé morrido à nascença? Isso passou a ser o meu maior medo, e receava que, se o nosso filho tivesse morrido, Tejal pudesse ser obrigada pelos pais a casar com outro homem. Comecei a perceber que um mundo que não reconheceria me esperava na índia. Tentei preparar-me para o pior, mas aprendera de sobejo que as preparações de pouco servem em assuntos de coração.

Benedict Gray foi libertado pouco depois de eu começar a receber cartas do meu tio. Mesmo antes do nosso adeus final, estávamos nós a carregar pedra de lastro numa nau para o Brasil, o inglês entregou-me um pedaço de papel em que escrevera a sua morada. Depois de a ler cuidadosamente, atirei o papel ao rio.

- Porque fizeste isso? - perguntou, de expressão chocada.

- Não quero trazer provas que os meus inimigos possam apanhar. Não te preocupes, não me esquecerei de onde vives. - Perguntei-lhe então se não se importava de receber cartas para mim em Oxford e de as enviar para o senhor Pereira.

- Mas porquê? Assim, vão levar mais umas semanas a chegar-lhe às mãos, vindas de Oxford.

- É melhor que não saibas a razão - respondi.

Perante isso, sorriu reservadamente. «Olhai, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus» - recitou, citando Mateus, 16.

Estaria a aconselhar-me a não voltar a cair nas mãos da Inquisição? Ou a viver os meus desejos secretos? Nunca ousei perguntar, antes o avisei:

- Se fizeres isso por mim, é possível que nunca possas regressar a Portugal, visto que o que eu vou escrever e receber pode pôr-te em perigo.

Os olhos brilharam-lhe com o fogo do seu desprezo pelos papistas.

- Farei tudo o que me pedires - garantiu-me.

- As cartas que me enviares, endereça-as a James Matthews - disse-lhe. - Nunca deves admitir a ninguém para onde as mandas, ou o senhor Pereira correrá perigo.

- Serei um túmulo - jurou Benedict, estendendo-me a mão, que eu prendi com força entre as minhas, sabendo que nunca voltaríamos a encontrar-nos.

 

Durante os meus últimos anos na prisão, as cartas de Isaac só me chegavam de quando em quando. Pelos pequenos indícios que o meu tio dava, comecei a perceber que não estava de boa saúde, e só depois de eu muito insistir me escreveu a dizer que Tejal dera à luz um menino chamado Kama. O nome fez-me sorrir, já que Kama era o malicioso deus hindu do amor - o equivalente a Cupido. Tanto o meu filho como a mãe estavam a viver em Benali, e gozavam ambos de boa saúde. Perguntei por que é que Tejal não me escrevia, mas Isaac nunca respondeu a essa pergunta. Talvez para ela a vida fosse um combate desde a minha partida. Naquele momento, se calhar só sentia ressentimento em relação a mim, e o meu tio desejava poupar-me a esse conhecimento.

Kama... Imaginei-o como um menino de olhos azuis com o cabelo escuro de Tejal, a atirar setas de paixão aos aldeões. Permiti-me acreditar que se ele estivesse bem, eu também estaria.

O tio Isaac escreveu que não sabia do paradeiro de Nupi. Temia que ela se culpasse pelo que acontecera e, em penitência, andasse a pedir esmola nalguma cidade remota.

Passava a maior parte do tempo sozinho a meditar em como haveria de abordar Tejal quando regressasse. É esquisito como o espírito se agarra a uma solução que mais tarde nos parece absurda; deu-me para imaginar que havia de salvar Nupi do seu estado de desamparo cheio de culpas, como tinham feito os meus pais, e que ela convenceria a rapariga a voltar para mim. Como devia estar desesperado para ter de inventar tão intrincadas fantasias de redenção!

Num dia de Outono chegou uma carta da minha tia. Perguntava por mim apenas de raspão, mas estendia-se em pormenores exasperantes sobre os seus jantares - duas páginas e meia de ornamentada descrição. Wadi acrescentava cinco palavras ao fim: Tigre, espero que estejas bem.

Suponho que eu devia ficar grato por o meu primo roubar algum tempo aos seus urgentes afazeres para me manifestar com tanta liberalidade os seus velhos sentimentos por mim.

Faltando-me cumprir um ano de pena, comecei a sentir que o fim da minha vida na prisão me agitava o coração. Tendo ganho a confiança do director da prisão com as minhas frequentes citações do Novo Testamento, pude pouco depois visitar o senhor Pereira e a família num domingo sem a habitual presença de um guarda, e ali, após a refeição do meio-dia, sentei-me a uma pequena secretária no seu escritório e escrevi a seguinte carta, dando vários erros de português que emprestariam veracidade à minha história: Reverendíssimo Padre Carlos Miguel Fonseca,

Por favor desculpe-me escrever para Vossa Reverência sem o benefício de uma apresentação. Meu nome é James Matthews, e pertenço a uma raça muito persecutada em Inglaterra e com a qual deve, talvez, sympatizar - os Católicos Ingleses. Eu tive de ir esconder-me uma vez de novo por causa das minhas crenças e por causa disso estou a pedir a vós que mandeis a vossa resposta por cuidado de um amigo confiado.

De um conhecimento inglês que teve a boa fortuna de ficar em Goa por umas poucas semanas, tenho aprendido recentemente do vosso valuável trabalho em codificar as práticas de muitas das seitas pagãs que infectam a índia no presente. Através do vosso trabalho, sem dúvida, um grande número de indianos infiéis já têm sido baptizados e conduzidos para dentro do portão da compaixão de Nosso Senhor.

Estou particularmente interessado nesses primitivos que dão pelo nome de jainas. Tenho sido informado que esta seita é muito peculiar, e que os seus aderentes até acreditam que os animais têm almas! (Os meus amigos riem dessas crenças, mas tenho-os assegurado de que essa heresia de uma espécie tão simples-espírito não é assunto de alegria na índia e outros países escuros!) Para os estudos que actualmente me ocupam, que se centram sobre a possibilidade de o judaísmo ser a oculta e insuspeitada origem de um grande número de heresias, incluindo a dos jainas, eu ficaria muito grato se vós puderes descrever a mim as crenças desses horríveis pedintes com respeito à alma. Teria muito prazer em pagar por este serviço e obrigado desde já pela vossa valuável ajuda.

Se um dia vós viereis à Europa, terei o maior gosto em conversar sobre estas matérias com vós, e vós podeis, claro, ficar comigo em minha casa, embora as minhas circunstâncias são bastante modestas. Espero estar capaz para mandar vos uma morada permanente numa data mais tarde, mas por agora, por favor, escrevai ao cuidado do meu amigo.

«Muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e reclinar-se-ão à mesa no reino de Deus.» - Lucas 13.

O seu, James Matthews

Como post-scriptum, acrescentei em inglês:

Queira, por favor, perdoar-me quaisquer erros gramaticais que possa ter dado nesta carta. Embora tenha vivido em muitos países, o meu conhecimento das línguas não é tão perfeito como o dos jesuítas.

Decidi-me por não enviar a carta directamente ao Santo Ofício, tendo-a antes mandado ao cuidado do Senhor Jácome Morais, o homem que me acompanhara durante o auto-de-fé. Ele haveria de se pôr a pensar por que raio era utilizado como intermediário, mas a sua perplexidade acabaria necessariamente por servir os meus interesses.

Quando o senhor Pereira me perguntou porque enviava a carta ao cuidado do capitão da Frota Real em Goa, expliquei-lhe que um importante padre que eu não estava autorizado a identificar me pedira que o mantivesse informado do meu progresso espiritual como recente cristão converso, mas que não achava conveniente os nossos nomes andarem associados, pelo que me pedira que lhe escrevesse através de um conhecimento chegado.

O senhor Pereira ficou contente por saber da minha diligência em satisfazer o pedido de um padre e, dada a natureza pretensamente íntima da carta, abdicou do seu direito de ler o que eu escrevera. Deu-a a um conhecido dele que ia para Malaca passando por Goa. Como eu não desejava pôr mais ninguém em perigo, industriei-o para que dissesse ao tal homem que entregasse a carta através de um portador. - Para proteger o padre - expliquei, acrescentando uma citação de Lucas, 11: «Quando o valente guarda está armado, a sua casa, em segurança estão os seus bens.»

 

Passaram-se dois meses, tempo que mal dava para a minha carta chegar a Goa e suscitar uma resposta, mas estava tão nervoso que me senti impelido a tornar a escrever ao Padre Carlos. Repeti o meu pedido original e, desta vez, enviei-lhe um anel de prata que me fora dado recentemente como prenda de aniversário pelo senhor Pereira e em que eu gravara um minúsculo menorá, utilizando uma faca que subtraíra da sua cozinha. Pedia ao padre que, por favor, aceitasse o pequeno presente como adiantamento pelo serviço que me estava a fazer, explicando que o anel me fora dado por um amigo jesuíta que o tirara de um judeu queimado por heresia em Sevilha. «Suspeito que o menorápode ser uma espécie de talismã», escrevi, «e portanto de grande interesse para vós na vossa investigação. O anel mesmo pode também ser muito antigo, julgando pela pobre qualidade da gravação, mas com o vosso conhecimento da raça hebraica, indubitavelmente vós sereis capaz de deitar mais luz sobre esta matéria.»

Enviei a minha carta para Goa através de um portador que me fora recomendado pelo senhor Pereira. O anel fazia uma saliência circular na folha de papel fechada e selada, o que levaria certamente o capitão Morais a abrir a carta antes de a entregar. Imaginei-o a segurar a minha bugiganga à luz para a inspeccionar melhor, e isso inundou-me de uma vibrante sensação de vitória - a primeira desde a minha prisão há cinco anos.

Passados mais três meses, chegou uma carta de Benedict Gray. As minhas lisonjas tinham despertado o interesse do Padre Carlos: este enviara-me uma longa carta a cuidado do meu velho amigo inglês, na qual expunha demoradamente o que chamava a «heresia jainista». As descrições que o sacerdote fazia do ritual e das crenças eram eruditas e até poéticas, mas a mim não me interessavam. Eu queria era apanhar-lhe a letra. Era enxuta e angulosa, excepto nas palavras de início de parágrafo, ornamentadas com grandes floreados. A sua assinatura era florida e ampla. As muitas horas que gastara a iluminar manuscritos foram-me muito úteis então, e, após várias semanas de prática, conseguia imitar a letra dele sem olhar para a carta original, e nesse momento senti-me suficientemente confiante para lhe escrever de novo: A Sua Excelência Padre Carlos Miguel Fonseca, Tendo sido confiado a mim por Vossa Excelência encontrar um barco ou nau conveniente para vos levar de Lisboa para a Terra Santa depois que vós vindes para a Europa de Goa, tomei a liberdade de falar com um amigo inglês que possui o mais subtil conhecimento dessas matérias. Ele vai pelo nome de Charles Benjamin, e teve o grande prazer de vos encontrar em Goa há vários anos. Na verdade, ele nunca esqueceu as vossas muitas gentilezas. Ele tem-me assegurado de que vos escreverá logo que preparar planos apropriados, visto que vós podeis ter de viajar para um porto mediterrânico para apanhar um barco para a Terra Santa. Na sua carta, ele promete que fará todos os detalhes relevantes explícitos para vós e vos ajudará a encontrar uma modesta casa apropriada para vós ficardes. Espero que isto encontre a vossa aprovação. «Quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas em Deus.» - João 3.

De V. Ex.a atentamente, James Matthews

 

Um leitor desprevenido desta carta presumiria que o Padre Carlos me contratara para o ajudar nos seus planos de viagem para a Terra Santa, mas eu tivera o cuidado de inserir expressões do código local dos cristãos-novos que aprendera com outros prisioneiros:

«O mais subtil conhecimento» significava a Tora; «modesta casa» era a sinagoga.

Havia uma terceira expressão menos conhecida:

Além do significado habitual, «Porto» na minha carta referia-se à mezuzá, o pequeno estojo de orações fixado no batente direito das casas judias e que se acreditava que proporcionava protecção.

As palavras «para vos levar de Lisboa para a Terra Santa» reforçariam este significado codificado e faziam também referência à jornada espiritual que a mezuzá ajudaria o jesuíta a fazer.

Para alguém familiarizado com estas expressões - para os Inquisidores, por exemplo - eu informara simplesmente o Padre Carlos de que um judeu inglês chamado Charles Benjamin lhe forneceria uma mezuzá. Além disso, destinava-se às suas necessidades espirituais pessoais, e o inglês entraria em contacto com ele dentro em breve.

Enviei a carta de novo ao cuidado de Jácome Morais, mas desta vez escrevi «urgente epessoal» por baixo do selo. Dada a curiosidade que a minha primeira carta devia ter despertado no capitão, e dado o clima efervescente de suspeita criado e alimentado pela Inquisição, era certo e sabido que assim leria o seu conteúdo.

Agora, faltando-me cumprir sete meses de pena, o meu tio conseguiu transferir-me fundos ao cuidado do senhor Pereira. Um domingo à tarde em que seguia sozinho para casa dele, comprei um fino escrínio de prata numa pobre feira de coisas roubadas e em segunda mão, erguida à beira-rio. Antes de me dirigir de novo ao meu dormitório nessa noite, consegui escapulir-me por uns minutos e fechei-me no escritório do meu hospedeiro. Na tampa do escrínio gravei: «Escuta, ó Israel», que eram as primeiras palavras da oração hebraica guardada nas mezuzás. Por sob essa inscrição, desenhei um minúsculo menorá. No domingo seguinte, escrevi a oração propriamente dita numa tira de papel, enrolei-a bem enrolada, e meti-a lá dentro.

Na nota de acompanhamento, escrevi: Este estojo deve ser aberto apenas pelo Padre Carlos Miguel Fonseca. E assinei Charles Benjamin.

Como post-scriptum, acrescentei que teria o maior gosto em satisfazer o pedido do padre no sentido de preparar uma viagem semelhante para o guarda prisional António Ribeiro que ele me referira, assim como para os outros amigos indicados na sua lista. António Ribeiro era o verdadeiro nome do Analfabeto; eu nunca esquecera - nem perdoara - a bofetada que ele dera à velha florista que me oferecera um hibisco quando eu era arrastado para o baptismo.

Nessa noite, enviei a mezuzá por um portador.

Seis semanas depois, naquela que passara a ser a minha visita dominical regular, o senhor Pereira entregou-me uma carta de Benedict Gray que acabara de chegar. Continha uma curta mensagem de Padre Carlos. A ponta da pluma do jesuíta escorregara em dois lugares, fazendo borrões profundos, e quase furara o papel ao assinar o nome. Escrevia:

 

Não sei quem sois, senhor, nem quem pensais que sou, mas ordeno-vos que pareis de enviar-me correspondência ou outros anéis, ou quaisquer outras pretensas prendas. É manifesto que me confundistes com algum herege de baixa índole. Não creio que sejais sequer católico. Podeis considerar encerrada a nossa

correspondência.

 

Rasguei a nota e atirei-a ao rio ao voltar para a prisão. Estava nervoso e excitado. Sentia que estava a atravessar uma ponte feita dos meus próprios desejos proibidos.

Vários dias depois, voltei a escrever, dizendo que não recebera notícia nenhuma do bom sacerdote acerca dos seus planos de viagem.

Estou tão desiludido por não receber uma só palavra, especialmente porque a vossa viagem foi tão cuidadosamente planeada por Mr. Benjamin. Eu estava seguro que vós apreciarias tudo o que ele preparou para vós, e embora eu confie que o vosso silêncio é devido só à falta de confiança nas comunicações entre Goa e Lisboa, não posso senão imaginar se alguma coisa aconteceu. Eu rezo para que vós não estais doente ou zangado comigo por alguma razão. Por favor, tende a bondade de escrever ao vosso humilde servidor.

Nos quinze dias seguintes, desenhei de memória um retrato pormenorizado do Padre Carlos, com o Santo Ofício de Goa em fundo. Mandei-lhe então duas cartas mais, na primeira das quais dizia:

Que bom finalmente receber novas de vós, Excelência. Obrigado pelas vossas prendas. Minha mulher muito apreciou o belo lenço de seda. Tão glorioso bordado deve ter sido feito pelas raparigas indianas dos dedos mais ágeis. Quanto à minha escova de tartaruga, eu só desejo que tenha tido mais cabelos para pentear!

Todos os vossos amigos do mais subtil conhecimento agradecem os vossos bons votos.

Tenho de acrescentar que não era necessário para vós me enviar essas prendas, pois foi uma grande honra para mim ser capaz de vos ajudar com os vossos planos.

Eu espero que a Terra Santa vá ficar sempre viva dentro de vós agora.

Estarei em ligação com Charles Benjamin e ele assegura-me de que os desejos do Senhor António Ribeiro também foram recentemente satisfeitos.

De V. Ex.a atentamente, James Matthews

P.S. Eu dei o vosso pagamento a Charles Benjamin, que éextremamente agradecido pela generosa liberalidade que lhe juntastes.

«O homem bom, do seu bom tesouro tira coisas boas» - Mateus, 12.

 

A minha segunda carta incluía o retrato do Padre Carlos que desenhara. Fora-me sugerida pela afirmação do padre de que o meu alter ego, James Matthews, o confundira com outro homem. Por cima do desenho, escrevi em inglês:

A Sua Excelência Reverendíssima Padre Carlos Miguel Fonseca: Fiz este desenho quando estava em Goa, como podeis ver. Estou em crer

que não tereis mudado muito nos últimos três anos e que reconhecereis a si

próprio apesar dos meus modestos talentos!

Foi um prazer tratar de negócios com vós e com Mr. Matthews.

Os meus melhores votos, Charles Benjamin

 

Quem abrisse a carta e visse os meus desenhos veria imediatamente, claro, que não houvera erro de identidade.

Nas semanas seguintes não recebi mais comunicações de Benedict Gray e concluí que o Padre Carlos se decidira pelo silêncio como mais seguro recurso.

Nesse Outono, no entanto, houve uma carta que veio de alguém que não via há muitos anos - Sara, a rapariga que Wadi abandonara pela minha irmã. Dizia que soubera da morada do senhor Pereira pelo meu tio. Após fazer votos de que eu estivesse de boa saúde, dizia que prometera ao tio Isaac não referir certos assuntos especialmente delicados. «Contudo, sinto-me obrigada a, pelo menos, dizer o seguinte», afirmava, acrescentando:

Os teus tios irão provavelmente esconder-te certas coisas que se passaram nestes últimos anos. Sinto-me obrigada a escrever-te sobre isso porque o que te disserem entrará provavelmente em contradição com o que a tua irmã me disse.

Por conseguinte, quando regressares a Goa, rogo-te que me venhas visitar. Por favor, Tiago - não formes opiniões muito definidas sobre o que aconteceu entre Wadi e a tua irmã até teres falado comigo.

Aterrorizado, pus-me a imaginar a que é que ela poderia estar a referir-se, mas mais do que isso, se seria possível que Sara soubesse quem me traíra e ao meu pai. Infelizmente, não me chegaram mais cartas a explicar as suas palavras impenetráveis.

A 19 de Dezembro de 1599, completada a minha dívida de seis anos para com o Santo Ofício, saí pela porta principal da Cadeia da Galé para a chuva e o vento impiedosos que sempre associei com o Inverno de Lisboa. Benzi-me logo e fui a resmonear orações cristãs enquanto me dirigia ao centro da cidade.

Nesses primeiros dias fora do dormitório, senti-me abandonado. Parecia impossível que ninguém me estivesse a espiar e eu estivesse livre de grilhetas. Na minha desorientação, imaginei que muitas das pessoas por que passava nas ruas eram espiões contratados para me seguirem, e, ao andar, estava sempre a olhar por cima dos ombros.

Recorrendo aos fundos do meu tio, arranjei um quarto numas águas-furtadas numa estalagem meio escalavrada p