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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


GRENDEL / John Gardner
GRENDEL / John Gardner

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

G R E N D E L

O Inimigo de Beowulf

 

O carneiro velho olha do alto das avalanches, estupidamente triunfante. Pestanejo. Observo-o horrorizado. — Danado! — sopro eu. — Volta para a tua caverna, volta para o teu estábulo — o que for.

Ele inclina a cabeça como um rei idoso e desorientado, contempla os ângulos, resolve ignorar-me. Bato com os pés. Martelo o chão com os punhos. Atiro-lhe uma pedra do tamanho de um crânio. Ele recusa-se a sair do lugar. Agito os meus punhos peludos na direção do céu e deixo escapar um uivo tão horripilante que a água a meus pés se transforma em gelo súbito e até eu fico ansioso. Mas o carneiro permanece; estamos na época. E assim começa o décimo segundo ano desta minha guerra idiota.

A aflição! A estupidez!

— Enfim — suspiro, e encolho os ombros, arrasto-me de volta para as árvores.

Não julgues que tenho os miolos esmagados, como os do carneiro, pelas raízes de cornos. De flancos a tremer, olhos como pedras, ele observa tudo o que consegue ver do mundo e sente-o percorrer o seu íntimo, enchendo-lhe o peito como a neve derretida enche os leitos secos dos riachos, enchendo de comichão aqueles tomates tortos e nojentos e saturando-lhe o cérebro com a mesma inquietação que o fez sofrer o ano passado por esta altura, e o ano antes desse, e o outro. (Já os esqueceu a todos.) Os seus quartos traseiros estremecem, como é habitual, com a alegre e grosseira vontade de montar o que quer que tenha por perto — a tempestade que se levanta em torres negras a ocidente, um toco de árvore dócil e putrefato, uma ovelha de pernas bambas. Não sou capaz de olhar.

— Porque não descobrem estas criaturas um bocadinho de dignidade? — pergunto ao céu. O céu não responde, previsivelmente. Faço uma careta, estico o dedo do meio em desafio e dou um coice obsceno. O céu ignora-me, eternamente desinteressado. Também o odeio, da mesma maneira que odeio os rebentos estúpidos das árvores e estes pássaros sempre a matraquear.

Não que me iluda, é claro, com idéias de que sou mais nobre. Um mostrengo ridículo e insignificante acoitado nas sombras, tresandando a mortos, crianças assassinadas, vacas martirizadas. (Não tenho orgulho nem vergonha, fica sabendo. Mais uma vítima embrutecida, de olhar lúbrico posto em estações que não eram para ser vistas.)

— Ah, coitado, pobre e velho aborto! — lamento-me, e felicito-me, e rio, vertendo lágrimas salgadas, ih ih! até cair a arfar e a soluçar. (É quase tudo fingido.) O Sol percorre o céu, desatento, as sombras alongam-se e diminuem como que seguindo um plano. Com um grito estridente, os passarinhos põem os seus ovos. Espreitam do chão as ervas tenras, de um amarelo inocente: as filhas dos mortos. (Estava precisamente aqui, este verde chocante, quando certa vez, com a Lua no sepulcro das nuvens, arranquei a cabeça ao velho e matreiro Athelgard. Aqui, onde as surpreendentes e minúsculas mandíbulas do croco se fecham para morder o Sol no fim do Inverno como se fossem as cabeças de pequenas cobras-de-água, aqui matei a velha do cabelo cor de ferro. Sabia a urina e a bílis, o que me obrigou a cuspir. Belo estrume para flores amarelas. São assim, as recordações enfadonhas de um salteador das sombras, que caminha pelos confins da Terra, que marcha no misterioso muro do mundo.)

— Uaaah! — urro, fazendo outra rápida careta para o céu, observando tristemente como é, relembrando amargamente como foi, e tentando estupidamente adivinhar o amanhã. — Aargh! Iauu!

Estonteado, esmago árvores. O filho disforme de lunáticos. Os carvalhos corpulentos olham-me do alto, amarelecido pela madrugada, abaixo de toda a complexidade.

— Não quis ofender — digo eu com um temível sorriso sicofântico, e cumprimento-os tocando um chapéu imaginário.

Nem sempre foi assim, claro. Chegou a ser pior.

Não importa, não importa.

A corça na clareira estaca ao ver a minha horribilidade, depois lembra-se das pernas e desaparece. Deixa-me irritado.

— Preconceito cego! — berro às farpas de Sol onde há meio segundo se encontrava a corça. Torço os dedos, ponho-me carrancudo. — Ah, a injustiça de tudo — digo, e abano a cabeça. É um fato que nunca matei um veado em toda a minha vida, e nunca o farei. As vacas têm mais carne e, apriscadas nos currais, são mais fáceis de apanhar. É possível que nutra uma aversão insignificante aos veados, mas não mais do que a que nutro por outras coisas naturais — sem contar o homem. Mas os veados, à semelhança dos coelhos, dos ursos e até dos homens, não fazem, quanto à minha raça diz respeito, distinções delicadas. Tal é a sua sorte: vêem toda a vida sem a observar. Enterram-se como caranguejos na lama. Salvo o homem, claro. Não me apetece, por enquanto, falar dos homens.

Assim é comigo, dia a dia, século a século, digo para mim. Preso no progresso mortal da Lua e das estrelas. Abano a cabeça, resmungando, soturno, nos carreiros sombrios, à conversa com o único amigo e consolo proporcionado pelo mundo, a minha sombra. Porcos do mato esgueiram-se ruidosamente pelos arbustos. Um pássaro bebê cai de pernas para o ar no meu caminho, piando. Com uma gargalhada arrogante, deixo-o ficar, uma misericordiosa dádiva do céu generoso para uma raposa doente. Assim é comigo, século a século. (Falando, falando. Urdindo uma teia de palavras, pálidas muralhas de sonho para me separar do que vejo.)

Surgem os primeiros sinais deprimentes de agitação primaveril (como já adivinhava, tendo visto o carneiro), e até debaixo do chão, onde vivo, onde não entra a luz a não ser o vermelho das minhas fogueiras, e onde nada se agita a não ser as sombras vacilantes nas minhas paredes de rocha úmida, ou as ratazanas em fuga sobre os meus montes de ossos, ou a figura obesa e imunda da minha mãe dando voltas, de novo inquieta — atormentada por pesadelos, velhas recordações — o meu peito pressente os tubérculos vibrando no húmus doce-negro da floresta sobre a minha cabeça. Sinto a minha raiva voltar, crescer como um fogo invisível, e por fim, quando a minha alma não pode mais resistir, subo — maquinal como tudo o resto — de punhos cerrados contra a minha fraqueza de espírito, com a barriga, desvairada como o vento, a clamar por sangue. Passo a nado pelas cobras de fogo, pilas de baleia quentes e escuras que vagueiam no verde luminoso da lagoa, e atinjo a superfície engasgando-me, por entre as ondas agitadas e o fumo. Arrasto-me até à margem e recobro o fôlego.

A princípio, é bom sair à noite, despido diante do frio mecanismo das estrelas. O espaço lança-se para fora, rápido como um falcão, elevando-se como uma injustiça irreversível, uma doença final. O ar frio da noite é enfim a realidade: indiferente à minha pessoa, como um rosto de pedra esculpido na parede de um penhasco para mostrar que o mundo está ao abandono. Também a infância é boa a princípio, antes de se reparar na terrível monotonia, era após era. Ali me deito a descansar na erva fumegante, com o velho lago silvando e borbulhando atrás de mim, segredando padrões de palavras aos quais a minha sanidade resiste. Por fim, pesado como uma montanha coroada de neve, levanto-me a abro caminho para a parede interior, começando com a ladeira do lobo, a fronteira do meu reino. Ergo-me equilibrado no vento alto, enegrecendo a noite com o meu fedor, contemplando penhascos que desaparecem noutros penhascos, e de novo estou consciente do meu potencial: posso morrer. Dou uma gargalhada furiosa e respiro fundo.

— Abismos negros! — grito da beira do precipício. — Agarrem-me! Agarrem-me nas vossas imundas entranhas negras e esmaguem-me os ossos! — Atemorizo-me perante o som do meu próprio vozeirão no escuro. Ali fico, tremendo dos pés à cabeça, comovido até às profundezas abissais do meu ser, como uma criatura lançada a uma audiência com um estrondo.

Ao mesmo tempo, estou secretamente desenganado. O clamor não é mais do que o meu grito, e os abismos são, como tudo o que é vasto, inanimados. Nem daqui a mil anos me irão arrebatar, a menos que, num acesso lunático de religiosidade, eu salte.

Suspiro, deprimido, e ranjo os dentes. Entretenho-me a pensar em gritar mais coisas — uma ameaça aterradora e impensável, uma maldição enigmática e negra como a fuligem — mas não tenho coragem.

 

— Não me apanhas! — digo com um trejeito infantil e um sorriso, para ganhar ânimo. Depois, com um suspiro, uma espécie de gemido, desço cuidadosamente os penhascos que me levam aos brejos e às charnecas e ao salão de Hrothgar. Cruzam-se corujas no meu caminho, silenciosas como navios piratas, e ao som das minhas passadas, erguem-se lobos famélicos, olham-me com estranheza, e, como lagartos de andar elegante, esgueiram-se para longe. Costumava orgulhar-me disso — da cautela das corujas sempre que se me avulta a figura, do alarme que desperto nestes gigantescos lobos do Norte. Era mais novo. Ainda brincava ao gato e ao rato com o universo.

Desço pela escuridão, ardendo de luxúria criminosa, o meu cérebro furioso com a doença que consigo observar em mim com a objetividade de um intelecto a dez séculos de distância. As estrelas, borrifadas na noite sem vida de lés a lés, como pedras preciosas lançadas ao túmulo de um rei morto, arreliam e atormentam-me o espírito no sentido de padrões cheios de significado, mas que não existem. Sou capaz de ver a quilômetros de distância destas paredes rochosas: a floresta espessa subitamente quieta com a minha chegada — aninham-se os veados, os lobos, os ouriços e os javalis, submersos num medo sufocante e imemorável; pássaros mudos, pulsantes, barro estouvado em velhas árvores silenciadas, de grossos ramos entrelaçados para guardar segredos monótonos.

Suspiro, afundo-me no silêncio, e atravesso-o como o vento. Pelas costas, no fim do mundo, a minha mãe gorda, pálida e fosforescente, dorme, velha, destroçada, no nosso quarto subterrâneo imundo. Velha bruxa inchada de vida, desorientada, sofredora. Culpada, imagina ela, de um crime esquecido, quiçá ancestral. (Deve ter algo de humano nela.) Não que ela pense. Não que ela disseque e contemple o mecanismo empoeirado que é a maldição da sua miserável vida. Agarra-se a mim durante o sono como se me quisesse esmagar. Fujo.

— Porque estamos nós aqui? — costumava perguntar. — Porque vivemos nós neste buraco pútrido e malcheiroso?

Ela estremece às minhas palavras. Tremem-lhe os lábios grossos.

— Não me perguntes! — imploram as suas garras serpenteantes. (Ela nunca fala.) — Não me perguntes!

Deve ser um segredo terrível, costumava pensar. Lançava-lhe um olhar matreiro. Há de contar-me, pensava eu. Mas ela não me contava nada. Esperei. Isso foi antes de o velho dragão, calmo como o Inverno, ter desvendado a verdade. Não era amigo.

E assim chego, através das árvores e das aldeias, à luz do salão de Hrothgar. Não sou nenhum estranho aqui. Sou um hóspede respeitado. Há onze anos, vai para doze, subi a este monte central despido de vegetação, uma sombra negra da floresta mais abaixo, e bati educadamente à enorme porta de carvalho, arrebentando-lhe os gonzos e lançando para dentro o choque da minha saudação como a ventania gelada de uma caverna.

— Grendel! — guincham eles, e eu sorrio como uma mola em expansão.

O velho Poeta, um homem que não posso deixar de admirar, sai pela janela das traseiras de um salto, agarrado à sua harpa, não obstante ser cego como uma toupeira. Os mais bêbados de entre os guerreiros de Hrothgar saltam a chocalhar das suas camas fixas à parede, com furioso alarde, ébrios do mulso, e as grandes espadas descrevendo círculos como as asas de uma águia.

— Ai, ai, ai! — grita Hrothgar, encanecido dos Invernos, espreitando, de olhos bem abertos, do seu quarto nas traseiras. A mulher, observando por trás dele, faz uma cena. Os guerreiros no salão apagam as luzes e tapam a lareira de pedra com os escudos. Eu rio-me, incapaz de resistir. Na escuridão, só eu vejo como se fosse dia. Enquanto eles guincham e dão encontrões, agarro em silêncio nos meus mortos e retiro-me para a floresta. Como e rio e como até mal me ter de pé, com os pêlos do meu peito cobertos de sangue e baba, e cantam então os galos do monte, e a madrugada surge por cima dos telhados das casas, e de súbito estou novamente cheio de tristeza.

— É um castigo — ouço-os gritar no monte. Dói-me a cabeça. A manhã crava-me pregos nos olhos.

— É um deus furioso — ouço uma mulher carpir. — As gentes de Scyld, Herogar e Hrothgar caíram no pecado.

A minha barriga protesta, indisposta com a sua carne amarga. Arrasto-me pelas folhas manchadas de sangue até à orla da floresta, e espreito daí. Os cães calam-se à beira do meu feitiço, e onde o salão do rei encima a aldeia, o velho Poeta cego, apertando a harpa contra o peito frágil, olha futilmente na minha direção. De resto, nada. Os porcos fuçam, apáticos, junto às estacas de uma cerca de madeira. Uns quantos homens, magros, envergando peles de animais, olham para o alto, para as empenas do salão do rei, ou para os abutres que, descontraidamente, descrevem círculos mais além. Hrothgar nada diz, barba coberta de geada, feições gretadas e dementes. Do interior, ouço as pessoas orando — chorando, gemendo, resmungando, implorando — aos seus muitos paus e pedras. O rei tem as suas próprias teorias empoladas.

— Teorias — sussurro ao chão manchado de sangue. Assim falou o dragão certa vez. (“Descreveriam caminhos pelo Inferno com as suas teorias malucas!” lembro-me de ele se rir.)

Os gemidos e as orações param, e num dos lados do salão inicia-se uma escavação lenta e pesarosa. Fazem um monte para a pira funerária, para os braços, pernas e cabeças que eu, com a pressa, tenha deixado ficar. Entretanto, lá em cima, no salão destroçado, martelam os carpinteiros, substituindo a porta pelo que deve ser a décima quinta ou décima sexta vez, diligentes e néscios como formigas operárias — a não ser pelas pequenas alterações disparatadas que fazem, acrescentando pregos e traves de ferro com um dogmatismo incansável.

E agora o fogo. Umas linguinhas de lagarto, depois chamas possantes erguendo-se do ninho emaranhado de paus. (Um corvo sem tino teria concebido um ninho melhor.) Uma perna decepada incha e arrebenta, depois um braço, depois outro, e o fogo vermelho vira-se para a carne enegrecida e fá-la crepitar, subindo cada vez mais pelo fumo oleoso, às voltas como falcões em guerra, como lobos descrevendo círculos no céu voraz e indiferente. E agora, de acordo com uma teoria lunática qualquer, atiram anéis dourados, velhas espadas e capacetes engalanados. A multidão de homens e mulheres chora em uníssono, e entoa uma espécie de canção numa voz trêmula. A canção eleva-se como o fumo oleoso e as caras brilham com o suor e algo que se assemelha a júbilo. O cantar intensifica-se, penetra florestas e céu, e agora cantam como se, de acordo com uma teoria lunática qualquer, tivessem ganho. Estremeço de raiva. O Sol encarnado cega-me, enche-me a barriga de náusea, e o calor emanado daquela fogueira de ossos queima-me a pele. Encolho-me, arranhando a carne, e corro para casa.

 

Falando, falando, tecendo um encantamento, uma pele lívida de palavras que me encerra como num caixão. Num idioma que já ninguém compreende. Murmúrio impetuoso e degenerado de ruídos que emito, anunciando a minha presença para onde quer que me arraste, como um dragão soprando fogo para abrir caminho pelas trepadeiras e pelo nevoeiro.

Costumava brincar muito quando era novo — o mesmo seria dizer, há mil anos. Explorava o nosso remoto mundo subterrâneo num jogo de guerra interminável de saltos para o vazio, hábeis flexões em direção à liberdade ou a novas perplexidades, breves conspirações segredadas com amigos invisíveis, gargalhadas furiosas quando a vingança me pertencia. Meti o nariz, nestas minhas brincadeiras de criança, nos dentes de tubarão de todas as câmaras e salas, e todos os tentáculos negros da caverna da minha mãe, e assim cheguei por fim, depois de muitas aventuras, à lagoa das cobras de fogo. Pus-me a olhar, de boca aberta. Eram pardas, como cinzas velhas; sem rosto, sem olhos. Cobriam a superfície da água com uma chama pura e verde. Sabia — parecia saber desde sempre — que as cobras estavam ali para guardar qualquer coisa. Inevitavelmente, depois de ali passar um bocado, revirando os olhos de regresso pela passagem escura, de orelha arrebitada à coca dos passos da minha mãe, firmei os nervos e mergulhei. As cobras de fogo dispersaram-se como se a minha pele estivesse encantada. E assim descobri a porta submersa, e cheguei, pela primeira vez, ao luar.

Não fui mais longe, naquela primeira noite. Mas voltei a sair, inevitavelmente. Brincando, adentrei-me cada vez mais no mundo, essa vasta caverna acima do chão, lançando-me cautelosamente de árvore em árvore, desafiando as forças terríveis da noite em bicos dos pés. Pela madrugada, fugia de regresso a casa.

Vivi esses anos, como todas as coisas jovens, sob um feitiço. Como um cachorrinho dando mordidelas, rosnando jovialmente, preparando-se para a batalha com os lobos. Por vezes, o feitiço era subitamente quebrado: nas saliências ou nas passagens da caverna da minha mãe, figuras grandes e antigas de olhar fumegante observavam-me. Um ronco contínuo saía-lhes das bocas; as costas arqueavam-se. Pouco a pouco, apercebi-me que os olhos que pareciam penetrar o meu corpo na realidade viam através dele, cansados e indiferentes à minha ligeira obstrução das trevas. De todas as criaturas que conhecia, naqueles tempos, apenas a minha mãe me olhava. — Fitava-me como se me fosse consumir, como um troll. Amava-me, num sentido misterioso que eu compreendia sem que ela o expressasse. Era da sua criação. Éramos uma entidade única, como a rocha e a parede que dela se ergue. — Ou assim afirmava eu, de forma ardente e desesperada. Quando o seu olhar estranho me fulminava, não parecia tão certo. Sentia-me por demais consciente dos lugares onde me sentava, do volume de escuridão que fazia deslocar, da extensão polida de terra entre nós, e da separação horrível nos olhos da mamãe. Sentia-me, ao mesmo tempo, sozinho e feio, quase — como se me tivesse borrado — obsceno. O rio da caverna ressoava ao longe, sob nós. Sendo eu novo, incapaz de enfrentar estas coisas, berrava e atirava-me à minha mãe, e ela estendia as garras para me apanhar, embora eu pudesse ver que a assustava (os meus dentes eram como uma serra), e esmagava-me então contra o peito gordo e flácido como se pretendesse voltar a fundir-me com a sua carne. Mais tarde, reconfortado, soltava-me gradualmente para voltar às minhas brincadeiras. De olhar matreiro, maldoso como um lobo velho, conspirava ou perseguia os meus amigos imaginários, projetando o ego em que me pretendia tornar por todos os esconsos da caverna e da floresta acima.

Então, num ápice, lá estavam eles outra vez, os olhos penetrantes e incandescentes dos estranhos. Ou os da minha mãe. O meu mundo voltava subitamente a transformar-se, trespassado como uma rosa por um prego, o espaço frio afastando-se de mim em todas as direções. Mas eu não compreendia.

Certa manhã, fiquei com o pé preso numa fresta onde dois troncos de árvore velhos se cruzavam.

— Aup! — gritei. — Mamãe! Uáa!

Tinha saído até mais tarde do que esperara. Por regra, voltava à caverna pela madrugada, mas naquele dia fora atraído para mais longe do que o habitual pelo cheiro divinal de um bezerro recém-nascido — ah, mais doce que flores, doce como o leite da minha mamãe. Olhei para o pé, furioso e incrédulo. Estava bem preso, como se os dois carvalhos o estivessem a comer. Serradura preta — dos esquilos — espalhava-se pela perna quase até à coxa. Ainda não sei ao certo como se deu o acidente. Devo ter afastado os troncos quando subi ao ponto em que se cruzavam, e quando estupidamente desci, fecharam-se sobre o meu pé como uma armadilha. Tinha sangue a jorrar do tornozelo e da canela, e as dores dispararam por mim como o fogo pela encosta de uma montanha. Perdi a cabeça. Gritei por socorro, com tanta força que fiz o chão tremer.

— Mamãe! Uáa! Uáaa!

Gritei ao céu, à floresta, aos penhascos, até estar tão fraco da perda de sangue que mal conseguia agitar os braços.

— Vou morrer — gemi. — Coitadinho do Grendel! Coitadinha da Mamãe!

Chorei e solucei.

— Coitadinho do Grendel, vai ficar aqui pendurado e morrer à fome — disse para mim — e ninguém vai ter saudades dele!

A idéia encheu-me de raiva. Soltei um uivo. Pensei nos olhos estranhos da minha mãe, fitando-me do outro lado do quarto; pensei nos olhos frios e indiferentes dos outros. Soltei um grito agudo de medo; mesmo assim, ninguém veio.

O Sol tinha nascido, e apesar de filtrado pelo rendilhado de folhas jovens, deu-me dores de cabeça. Torci-me tanto quanto pude, procurando desesperadamente a figura dela nos penhascos, mas não vi nada, ou, por outro lado, vi tudo menos a minha mãe. Tudo tentou, cínica e cruelmente, fazer-se passar pela forma da mamãe — um rochedo negro equilibrado à beira do precipício, uma árvore morta projetando a sombra de um braço comprido, um veado em corrida, a entrada de uma caverna — tudo procurando destacar-se, erguer-se do amontoado geral e desprovido de significado de objetos, mas esbatendo-se, desfazendo-se na confusão vazia e exasperante das coisas que não eram a minha mãe. O meu coração começou a palpitar. Tive a impressão de ver todo o universo, incluindo o Sol e o céu, dar um salto em frente e voltar a afundar-se, decompondo-se. Tudo era escombros e putrefação. Se ela ali estivesse, os penhascos, o céu da manhã, as árvores, o veado, a cascata, tudo se recomporia imediatamente à sua volta, de novo são de espírito e arrumado; mas não estava, e a manhã estava enlouquecida. O brilho verde apunhalava-me como agulhas vivas.

— Por favor, Mamãe! — choraminguei, inconsolável. Então, a uns dez metros, vi um touro. Olhou-me com a cabeça baixa, e o mundo recompôs-se imediatamente à sua volta, como que se tendo aliado a ele. Devia estar mais próximo do bezerro do que tinha imaginado, já que o touro tinha aparecido para o proteger. Os touros são assim, embora nem sequer saibam que os bezerros que defendem são seus. Agitou os cornos na minha direção, como que escarnecendo. Eu estremeci. Com os pés bem assentes na terra, ter-me-ia mais do que igualado ao touro, ou, senão, teria fugido dele. Mas eu estava a cerca de um metro de altura, preso e fraco. Seria capaz de me atirar para fora da árvore com uma arremetida daquela cabeça quadrada e ossuda, quem sabe se arrancando-me o pé, e depois matando-me calmamente à cornada no meio da erva. Calcou o chão, olhando-me de baixo, mortífero.

— Vai-te embora! — disse eu. — Hssst!

Sem efeito. Gritei-lhe. Ele sacudiu a cabeça como se o som fosse um pedregulho que eu lhe tivesse arremessado, mas limitou-se a parar para pensar, e, decorrido um minuto, voltou a calcar o chão. Voltei a berrar. Desta vez, ele mal reparou. Bufou pelo nariz e calcou mais fundo, espalhando erva e chão negro com os cascos afiados das patas de trás. Como se o tempo tivesse abrandado, como acontece aos moribundos, vi-o pender o seu peso para a frente, lançando-se sem dificuldade a galope, de cabeça inclinada, descrevendo um arco natural na minha direção. Ganhou velocidade, fazendo força sobre as espaldas enormes, a cauda torta erguida atrás de si como uma bandeira. Quando gritei, não mexeu uma orelha que fosse e continuou a avançar, como uma avalanche, com a trovoada dos seus cascos ecoando nas escarpas. No preciso instante em que colidiu com a minha árvore, sacudiu a cabeça e chamas percorreram-me a perna. A ponta de um dos chifres dilacerara-me o joelho.

Mas foi tudo. A árvore estremeceu com a pancada que o touro lhe deu com o crânio, e ele andou às voltas, cambaleante. Sacudiu a cabeça, como se estivesse a arejá-la, depois deu meia volta e regressou a galope para o lugar de onde tinha começado a primeira carga. Investira muito baixo, e mesmo aterrorizado pude compreender que seria sempre assim: lutava por instinto, um mecanismo cego e ancestral. Teria lutado da mesma forma contra um terremoto ou uma águia: nada tinha a temer da sua fúria a não ser aquele corno revirado. Da próxima vez que carregasse, estaria de olho nele, observando o corno com a mesma concentração com que observaria a beira de um abismo que estivesse a saltar e, no preciso instante, esquivei-me. Nada me tocou a não ser a aragem do corno a passar por mim.

Ri-me. Tinha agora o tornozelo dormente; a perna ardia até à anca. Virei-me para perscrutar os penhascos mais uma vez, mas continuei sem ver a minha mãe, e as minhas gargalhadas intensificaram-se. Bruscamente, como numa visão súbita, compreendi o vazio nos olhos daquelas formas corcundas na caverna. (Seriam meus irmãos, meus tios, essas criaturas arrastando-se com olhos sulfurosos de sala em sala, ou sentadas isoladamente, num murmúrio eterno como o dos rios subterrâneos, cada uma na sua melancolia pessoal e inviolável?)

Compreendi que o mundo nada era: um caos mecânico de inimizades fortuitas e selvagens sobre o qual impomos, estupidamente, as nossas esperanças e receios. Compreendi que, final e absolutamente, apenas eu existia. Tudo o resto, pude ver, não é mais do que o que me impele, ou aquilo ao qual resisto, cegamente — tal como tudo o que não sou me resiste. Crio o universo inteiro com cada piscar de olhos. — Um deus feio, patético, a morrer numa árvore!

O touro voltou a investir. Esquivei-me da ponta do chifre e gritei de raiva e dores. Os ramos ao alto, atravessando a clareira como serpentes famintas erguendo-se do ninho, seriam paus se os tivesse nas mãos, ou uma barricada, erigida entre mim e a minha caverna, ou achas para a fogueira na sala onde eu e a minha mãe dormíamos. Onde estavam, por cima de mim, eram — o quê? Gentil sombra? Ri-me. Um uivo lacrimoso.

O touro continuou a investir. Por vezes, depois de colidir com a árvore, caía ofegante no chão. Fiquei sem forças das minhas gargalhadas anarquísticas. Já não me preocupava em afastar a perna. Por vezes, o chifre rasgava-a, outras não. Agarrei-me ao tronco de árvore que caía, inclinado, à minha direita, e quase adormeci. Talvez tivesse adormecido, não sei. Devo ter. Nada importava. Algures a meio da tarde, abri os olhos e descobri que o touro se tinha ido embora.

Voltei a adormecer, julgo. Quando acordei dessa vez e olhei através das folhas ao alto, havia abutres. Suspirei, indiferente. Estava a habituar-me às dores, ou então tinham diminuído. Não importava. Tentei ver-me da perspectiva dos abutres. Vi, em vez disso, os olhos da minha mãe. Consumindo-me. Tornara-me, subitamente, o seu foco no meio do nada — não por minha causa, nem por causa de qualquer qualidade no meu corpo grande e desgrenhado, ou no meu intelecto astuto e anormal. Tinha, aos seus olhos, um significado que eu próprio jamais poderia conhecer, ou até desejar conhecer: um estranho, a rocha separada da parede. Voltei a adormecer.

Naquela noite, pela primeira vez, vi homens.

Estava escuro quando acordei — ou quando recuperei a consciência, se foi caso disso. Tive imediatamente consciência de que algo não estava bem. Não se ouvia um som, nem o grasnar de uma rã ou o canto de um grilo. Havia um cheiro, um fogo muito diferente do nosso, pungente, doloroso como cardos no nariz. Abri os olhos e vi tudo turvo, como se estivesse debaixo de água. Havia luzes em redor, como os olhos de uma criatura estranha. Afastaram-se bruscamente quando olhei. Depois vozes, entoando palavras. Os sons eram estranhos a princípio, mas quando me acalmei, concentrando-me, descobri que os compreendia: era a minha própria língua, mas falada de maneira estranha, como se os sons fossem feitos de paus quebradiços, pinhas secas e lascas de xisto. A minha vista desanuviou e pude vê-los, montados em cavalos, segurando archotes. Alguns deles tinham cúpulas reluzentes (assim me pareceu na altura) munidas de chifres, como os do touro. Eram pequenas, estas criaturas, de olhar mortiço e caras cinzento-pálidas, e de certa forma eram como nós, mas ridículas e, ao mesmo tempo, misteriosamente irritantes, como as ratazanas. Os seus movimentos eram rígidos e regulares, como se fossem calculados pela lógica. Tinham mãos magras e nuas que se mexiam com estalidos. Quando, a princípio, me apercebi da sua presença, falavam todos ao mesmo tempo. Tentei mexer-me, mas tinha o corpo rígido; só a mão teve um espasmo. Pararam de falar todos no mesmo instante, como pardais. Entreolhamo-nos.

Disse um deles — um homem alto com uma longa barba preta:

— Mexe-se, independente da árvore. Acenaram que sim.

Disse o alto:

— Uma espécie de planta, é a minha opinião. Um fungo em forma de animal.

Levantaram todos os olhos para os ramos.

Um gordo atarracado com uma barba branca emaranhada apontou para a árvore com um machado.

— Aqueles ramos ali no lado norte estão todos mortos. De certeza que a árvore morre toda antes do Verão. É sempre o lado norte o primeiro a ir quando na há seiva que chegue.

Acenaram afirmativamente, e outro disse:

— Estão a ver ali, onde cresce para fora do tronco? Tem seiva por todo o lado.

Inclinaram-se nos cavalos para ver melhor, empunhando os archotes na minha direção. Os olhos dos cavalos cintilavam.

— Temos de fechar aquilo se quisermos salvar a árvore — disse o alto. Os outros resmungaram, e o alto olhou-me nos olhos, apreensivo. Não me conseguia mexer. Ele desmontou do cavalo e aproximou-se, tão perto que lhe poderia ter esmagado a cabeça com um movimento da mão, caso conseguisse obrigar os meus músculos a tal.

— Parece sangue — disse ele, e fez um esgar.

Dois dos outros desmontaram e aproximaram-se para repuxar os narizes e dar uma olhadela.

— Cá para mim, a árvore está feita — disse um deles.

Concordaram todos, à exceção do alto.

— Não podemos deixá-la aqui a apodrecer — disse. — Se começam a deixar tudo cair na ruína, já sabem o resultado.

Acenaram que sim. Os outros desmontaram dos cavalos e acercaram-se. O da barba branca emaranhada disse:

— Se calhar cortávamos o fungo.

Pensaram no assunto. Passado algum tempo, o homem alto abanou a cabeça.

— Não sei. Às tantas, é uma espécie de espírito do carvalho. O melhor é não o perturbar.

Pareceram inquietos. Havia um careca escanzelado com olhos como dois buracos. Estava de braços estendidos, como um pássaro provocado, e não parava de andar em pequenos círculos irregulares, inclinado para a frente, mirando tudo, a árvore, o bosque em redor, os meus olhos. Depois acenou bruscamente com a cabeça.

— É isso! O rei tem razão! É um espírito!

— Tens a certeza? — perguntaram. Inclinaram a cabeça para a frente.

— Tenho — respondeu.

— Será benévolo, achas? — perguntou o rei.

O careca olhou para mim com as pontas dos dedos na boca. O cotovelo escanzelado pendia para baixo, como se estivesse apoiado numa mesa invisível enquanto ele pensava na pergunta. Os seus olhinhos negros fitavam os meus, como se estivessem à espera que fosse eu a dizer-lhe algo. Tentei falar. A minha boca mexeu-se, mas as palavras recusavam-se a sair. O homenzinho deu um salto para trás.

— Está com fome! — disse.

— Fome! — repetiram todos. — Que será que ele come?

Voltou a olhar para mim. Os olhos minúsculos observaram-me intensamente e ele estava agachado, como se estivesse a pensar em tentar saltar-me para dentro da cabeça. Tinha o meu coração aos saltos. Tinha tanta fome que era capaz de comer um rochedo. Ele sorriu de súbito, como se uma visão divina lhe tivesse explodido na cabeça.

— Come porco! — disse. Pareceu ter dúvidas. — Ou, se calhar, fumo de porco. Está num período de transição.

Olharam-me todos, refletindo, e acenaram então com a cabeça.

O rei selecionou seis homens.

— Vão buscar porcos para lhe dar — disse.

E os seis homens responderam «Sim, meu rei!” subiram para os cavalos e partiram a galope. Tal encheu-me de alegria, embora fosse loucura, e antes de descobrir que o podia fazer, ri-me. Eles afastaram-se de um salto e ficaram a tremer, olhando para o alto.

— O espírito está furioso — segredou um deles.

— Sempre esteve — disse outro. — Por isso está a matar a árvore.

— Não, não, estão enganados — disse o careca. — Está a pedir porco aos berros.

— Porco! — tentei gritar. Isso assustou-os.

Começaram a gritar uns com os outros. Um dos cavalos relinchou e empinou-se nas patas de trás, e por qualquer motivo disparatado, interpretaram isso como um sinal. O rei tirou o machado do homem a seu lado e, sem qualquer aviso, arremessou-o. Virei-me, soltando um uivo, e o machado passou-me pelo ombro, tocando a pele ao de leve. Sangue aflorou.

— Estão todos loucos — tentei gritar, mas o que saiu foi um gemido. Chamei pela minha mãe.

— Cerquem-no! — gritou o rei. — Salvem os cavalos!

E, de súbito, fiquei a saber que tratava, não com um touro estúpido e mecânico, mas com criaturas pensantes, criadoras de padrões, as mais perigosas que alguma vez encontraram. Gritei-lhes, procurando afugentá-las, mas elas limitaram-se a esconder-se atrás dos arbustos e a tirar paus compridos das selas dos cavalos, arcos e dardos.

— Estão todos loucos — gritei — estão todos dementes!

Nunca gritara tanto na minha vida. Dardos como carvões quentes trespassaram-me as pernas e os braços e eu gritei mais ainda. E então, quando já pensava estar acabado, ouvi, vindo dos penhascos, um grito dez vezes o meu. Era a minha mãe! Desceu a rugir como a trovoada, a gritar como mil furacões, olhos incandescentes como o fogo de um dragão, e nem ela estava a um quilômetro de distância, já as criaturas tinham saltado para os seus cavalos e fugido a galope. Árvores grandes caíam em pedaços no caminho dela; a terra tremia. Foi então que o seu fedor, como sangue num cálice de prata, encheu a clareira iluminada pelo luar até cima, e eu senti as duas árvores que me prendiam a ceder, e caí, liberto, no meio da erva.

Acordei já na caverna, com a luz calorosa do fogo tremeluzindo nas paredes. A minha mãe estava deitada, remexendo o monte de ossos. Quando me ouviu despertar, virou-se, franzindo a testa, e olhou para mim. Não estavam as outras figuras. Penso ter percebido vagamente, mesmo então, que se haviam retirado para uma escuridão maior, para longe do homem. Tentei contar-lhe todo o sucedido, tudo o que tinha aprendido: o materialismo desprovido de significado do mundo, a brutalidade universal. Ela limitou -se a olhar, incomodada pelo meu barulho. Há muito que tinha esquecido toda a linguagem, ou talvez nunca a tivesse aprendido. Nunca a ouvira falar com as outras figuras. (Como aprendi a falar, já não me lembro; foi há muito, muito tempo.) Mas eu continuei a conversar, tentando demolir as paredes da sua insensibilidade.

— O mundo resiste-me e eu resisto ao mundo — disse eu. — É tudo. As montanhas são como eu as defino.

Ah, monstruosa estupidez da infância, esperança irracional! Acordo sobressaltado e vejo-a de novo (na minha caverna, em passeio, ou sentado à beira da lagoa), a recordação surgindo como se me perseguisse. O fogo nos olhos da minha mãe aviva-se e ela estica os braços como se uma corrente nos afastasse.

— O mundo é todo um acidente sem significado — digo. Grito agora, de punhos cerrados. — Existo, e nada mais.

Ela franze a cara. Põe-se de gatas, varrendo bocadinhos de osso do caminho, e, com um ar de terror, levantando-se como que por obra de uma força sobrenatural, lança-se pelo vazio e enterra-me na sua pelagem áspera e na gordura. Fico doente com o medo.

— A pelagem da minha mãe é áspera — digo para mim. — A carne é descaída.

Soterrado debaixo da minha mãe, sou incapaz de ver. Ela cheira a porco do mato e peixe.

— A minha mãe cheira a porco do mato e peixe — digo.

O que vejo, inspiro de utilidade, penso eu, esforçando-me por respirar, e tudo o que não vejo é inútil, inválido. Observo-me observando o que observo. Fico assustado.

— Então não sou eu quem observa!

Sou um desgraçado! Ai! Não passa um cabelo entre mim e a desordem universal! Escuto o rio subterrâneo. Nunca o cheguei a ver.

Falando, falando, tecendo uma pele, uma pele...

Não consigo respirar, e arranho-a para me soltar dela. Ela debate-se. Cheiro o sangue da mamãe e, alarmado, ouço, das paredes e do chão da caverna, o estrondear do seu coração.

 

Nâo foi por me ter atirado aquele machado de guerra que me virei contra Hrothgar. Essa não foi mais do que a loucura de uma noite. Pu-la de lado, só voltei a lembrar-me dela como alguém que se recorda de uma árvore que lhe tenha caído em cima ou uma víbora pisada por acaso, a não ser pelo fato, claro, de que Hrothgar era mais temível do que uma árvore ou uma víbora. Só mais tarde, quando já estava crescido e Hrothgar era um homem muito, muito velho, é que pus alma na idéia de o destruir — lenta e cruelmente. A não ser pelos relatos ocasionais dos guerreiros que encontraram as minhas pegadas, era possível que ele já se tivesse esquecido de que eu existia.

Estivera ocupado. Assisti a tudo da orla da floresta, a maior parte das vezes das alturas, dos ramos.

A princípio, havia vários grupos deles: bandos maltrapilhos que vagueavam pela floresta a pé ou a cavalo, assassinos matreiros que trabalhavam em equipas, caçando no Verão, ficando a tiritar em cavernas ou casebres no Inverno, por vezes saindo para a neve, sulcando-a devagar, desastradamente, em busca de mais carne. O gelo pegava-se às suas sobrancelhas, barbas e pestanas, e eu ouvia-os gemer e queixar-se durante as caminhadas. Quando dois caçadores de grupos diferentes se encontravam na floresta, digladiavam-se até a neve acabar manchada de sangue, depois retiravam-se, de rastos, ofegantes e chorosos, para os seus acampamentos para contar relatos espantosos do sucedido.

Com o aumento do tamanho dos bandos, apoderavam-se de um monte e desbravavam-no e, com as árvores cortadas, erigiam casebres e, no cimo do monte, um rude casarão com um telhado muito inclinado e uma grande lareira de pedra, onde todos iam à noite para se protegerem dos outros bandos de homens. As paredes interiores eram ricamente pintadas e decoradas com tapeçarias, e todas as traves mestras e poleiros de falcão estavam esculpidos e enfeitados com sapos, serpentes, figuras vermiformes, veados, vacas, porcos, árvores e trolls. Ao primeiro sinal de Primavera, alçavam os seus altares e espalhavam sementes nas encostas do monte, à sombra dos casebres, e construíam cercas de madeira para encurralar os seus porcos e vacas. As mulheres trabalhavam na lavoura, ordenhavam e davam de comer aos animais, enquanto os homens caçavam; e quando os homens voltavam pelos carreiros dos lobos ao sol-posto, as mulheres cozinhavam a caça enquanto eles se retiravam para beber mulso. Tendo todos jantado, os homens primeiro, depois as mulheres e as crianças, os homens continuavam a beber, cada vez mais ruidosos e audazes, falando do que iam fazer aos bandos dos outros montes. Eu aninhava-me, a ouvir o seu ruído no escuro, de sobrancelhas arqueadas, lábios apertados, cabelos da nuca eriçados como cerdas de porco. Todos os bandos faziam o mesmo. Mais tarde, comecei a divertir-me mais do que me revoltava com as suas ameaças. O que faziam uns aos outros não me dizia respeito. Era um tanto ominoso devido à estranheza — nem um lobo era tão maldoso para outros lobos — mas parte de mim acreditava que não falavam a sério.

Escutavam-se uns aos outros, sentados às mesas do salão, rostos chupados e astutos de ratazana crivando, como agulhas, as palavras do fanfarrão, com os falcões de guerra assistindo, negros, do alto das traves, e quando um deles terminava as suas ameaças furiosas, outro levantava-se e erguia o seu corno de carneiro, ou desembainhava a espada, ou ambos se estivesse realmente bêbedo, e contava-lhes o que planeava ele fazer. De vez em quando, irrompia uma discussão trivial, e um matava outro, e todos os restantes se destacavam do assassino, refletindo sobre o caso, e perdoá-lo-iam por qualquer motivo, ou então expulsavam-no para a floresta, onde teria de viver do roubo dos currais periféricos como uma raposa ferida. Por vezes, eu tentava socorrer o exilado, outras, tentava ignorá-lo, mas eles eram sempre traiçoeiros. No fim, via-me obrigado a comê-los. Regra geral, no entanto, não era assim que terminavam as suas sessões de bebida. Normalmente, os homens alardeavam a sua valentia, e a noite alegrava-se, cada vez mais barulhenta, com o rei louvando este e criticando aquele, sem que ninguém se magoasse, a não ser talvez alguma fêmea que estivesse a pedi-las, e por fim acabavam por adormecer encostados uns aos outros como lagartos, e eu lá ia roubar-lhes uma vaca.

Mas as ameaças eram sérias. Esgueirando-me de acampamento em acampamento, observei uma mudança nos seus alardes embriagados. Estávamos no fim da Primavera. A comida era abundante. Todas as ovelhas e cabras tiveram os seus gêmeos atartamelados, a floresta pululava de vida, e as primeiras colheitas na encosta dos montes amadureciam. Bradava um homem:

— Vou-lhes roubar o ouro e queimar o salão! — agitando a espada como se a ponta estivesse em chamas, e um homem com olhos como dois alfinetes respondia:

— Força, ó Cara-de-Vaca! Acho que não és o homem que o teu pai foi!

As pessoas riam-se. Eu recolhia-me nas sombras, furioso com a minha necessidade estúpida de os vigiar, e esgueirava-me para o acampamento seguinte, onde ouvia o mesmo.

Até que, certa vez, por volta da meia-noite, deparei-me com os escombros de um salão. As vacas nos currais jaziam a borbulhar sangue das narinas, com buracos de lança no cachaço. Nenhuma delas tinha sido comida. Os cães de guarda jaziam como pedras negras e úmidas, com as cabeças decepadas, dentes à mostra. O salão desabado era um quadrado de chamas e fumo acre, e as pessoas no seu interior (as quais também não tinham sido comidas) encontravam-se carbonizadas, mirradas, como anões enegrecidos e quebradiços. O céu abria-se como um buraco onde antes se erguiam as empenas, e as bancadas de madeira, os suportes das mesas e os catres suspensos das paredes do salão espalhavam-se até à orla da floresta, reluzentes como carvão. Do ouro que guardavam, nem sinal — nem um punho de espada derretido que fosse.

Depois começaram as guerras, as canções de guerra, e a forjadura das armas. Se as canções fossem verdadeiras, como calculo que uma ou duas fossem, as guerras tinham existido desde sempre, e o que tinha visto fora apenas um período de exaustão mútua.

Vigiava o salão do alto de uma árvore, com as aves noturnas cantando nos ramos mais abaixo, o rosto da Lua escondida num torreão de nuvens, e nada bulia à exceção das folhas na aragem primaveril e, junto às pocilgas, dois homens caminhando com os seus machados de guerra e cães. No interior do salão, conseguia ouvir o Poeta relatar os feitos gloriosos de reis passados — como haviam rachado certas cabeças, e escapulido com certas espadas e colares preciosos — a harpa imitando o fragor das espadas, ressoando valentemente com os discursos nobres, suspirando por trás das últimas palavras dos heróis. Sempre que parava, imaginando fórmulas para o que dizer a seguir, todas as pessoas gritavam, davam palmadas nas costas umas das outras e bebiam à longa vida do Poeta. À sombra do salão e junto aos anexos, sentavam-se homens a assobiar ou a cantarolar, enquanto remendavam as armas: apertando tiras de bronze em torno de lanças de freixo, tratando as lâminas das espadas com veneno de cobra, observando o ourives a decorar o punho dos machados de guerra. (Os ourives ocupavam um lugar de honra. Recordo-me de um deles em particular: um homem magro, distante e orgulhoso de meia-idade. Nunca falava com os outros exceto para se rir às vezes — “Nieh, eh, eh.”)

Então, os pássaros na árvore por baixo de mim calavam-se repentinamente, e para lá da clareira do salão, ouvia o ranger do couro dos arneses. As sentinelas e os cães de guarda estacavam, como que atingidos por um raio; após o que os cães ladravam e, no instante seguinte, a porta abria-se com um estrondo, e os homens emergiam aos tropeções, desvairados, do salão. Os cavalos dos inimigos entravam na clareira com o som de trovoada, saltando as cercas das pocilgas, espantando vacas e porcos que fugiam a mugir e a guinchar, e os dois grupos de homens partiam então ao assalto.

A cinco metros um do outro, detinham-se na lama escorregadia e punham-se a gritar de espadas erguidas. Os líderes de ambas as partes levantavam os seus dardos bem alto e agitavam-nos, berrando a plenos pulmões. Ameaças terríveis, a julgar pelas poucas palavras que consegui perceber. Coisas sobre os seus pais, e sobre os pais dos seus pais, sobre justiça e honra e vingança proba — de gargantas inchadas, olhos revirados como os de um potro recém-nascido, suor escorrendo pelos ombros. Lutavam então. Voavam lanças, entrechocavam-se espadas, choviam flechas das janelas e das portas do salão e da orla da floresta. Empinavam-se e caíam os cavalos relinchando, esvoaçavam os corvos, como morcegos enlouquecidos pelo fogo, cambaleavam os homens, gesticulando desenfreadamente, entoando discursos, morrendo ou, às vezes, fingindo morrer e fugindo pela calada. Por vezes os atacantes eram repelidos, por vezes venciam e incendiavam o salão, por vezes capturavam o rei e obrigavam a sua gente a entregar as armas, o ouro e o gado.

Era confuso e assustador, mas não de uma maneira que pudesse decifrar. Estava em segurança na minha árvore, e os homens que combatiam não me diziam nada, apesar de, claro, falarem uma língua parecida com a minha, o que significava que, incrivelmente, éramos aparentados. Sentia náusea, que mais não fosse pelo desperdício: tudo o que matavam — vacas, cavalos, homens — era deixado a apodrecer ou queimado. Saqueava o que podia e tentava guardá-lo, mas a minha mãe punha-se a resmungar e a fazer caretas por causa do cheiro.

A guerra durou todo o Verão e recomeçou no seguinte, e de novo no outro a seguir. Por vezes, quando um salão ardia, os sobreviventes dirigiam-se a outro salão e, de mãos estendidas, rastejavam desarmados pelo monte dos estranhos acima e pediam para ser recebidos. Davam aos estranhos as armas, os porcos ou o gado que tivessem resgatado da destruição, e os estranhos davam-lhes um anexo, a pior parte da comida e palha. Os dois grupos passavam a lutar como aliados a partir de então, traindo-se ocasionalmente, com um atingindo o outro pelas costas por qualquer motivo, ou roubando-lhe o ouro a meio da noite, ou introduzindo-se nas camas das mulheres e filhas do outro grupo.

Assistia a tudo isto, estação após estação. Às vezes assistia do alto dos penhascos, de onde podia avistar as luzes de todos os salões nos vários montes espalhados pela região, a brilhar como velas, estrelas refletidas. Com sorte, poderia ver, numa noite de Verão amena, até três salões a arder ao mesmo tempo. Era raro, naturalmente. Tornou-se mais raro quando o padrão das suas guerras se alterou. Hrothgar, que começara pouco mais forte do que os restantes, começou a superá-los. Tinha congeminado uma teoria acerca daquilo pelo qual lutava, e agora já não combatia com os seis vizinhos mais próximos. Tinha-lhes mostrado a força da sua organização, e agora, em vez de lhes declarar guerra, enviava-lhes homens a cada três meses, com grandes carroças e sacos a tiracolo, para recolher o tributo à sua grandeza. Carregavam as carroças de ouro, peles e armas, e eles ajoelhavam-se diante dos mensageiros, faziam longos discursos e prometiam defendê-lo de todos os criminosos que se atrevessem a atacá-lo. Os mensageiros de Hrothgar respondiam com palavras amistosas e louvavam o homem que tinham acabado de pilhar, como se tudo tivesse sido idéia dele, após o que açoitavam os bois, punham os sacos às costas, e partiam de regresso a casa. Era uma viagem árdua. A erva alta e sedosa das pastagens e dos caminhos junto à floresta entravava os raios das pesadas carroças e enredava-se nas patas dos bois; as rodas afundavam-se na terra negra e rica que só o vento tinha semeado e colhido. Os bois reviravam os olhos, tropeçando, e mugiam. Os homens rogavam pragas. Empurravam as rodas com varas de carvalho compridas e vergastavam os bois até estes terem o lombo sulcado de feridas sangrentas e o focinho a espumar vermelho. Por vezes, com um movimento tremendo, um dos bois soltava-se do cabresto e desaparecia no matagal. Um homem a cavalo seguia no seu encalço, açoitado pelos ramos, abrindo caminho pelo labirinto de aveleiras e pilriteiros, enquanto o cavalo se recusava a avançar devido à dor provocada pelos espinhos, e por vezes, quando o homem encontrava o boi, enchia-o de flechas e deixava-o abandonado aos lobos. Por vezes sentava-se, tendo encontrado o boi, olhava-o naqueles seus olhos estúpidos e tristonhos, e chorava. Às vezes era o cavalo que, atolado, desistia e se recusava a andar mais, ficando de cabeça caída, como se aguardasse a morte, e os homens gritavam-lhe e feriam-no com chicotes, ou atiravam-lhe pedras, ou davam-lhe pauladas com ramos pesados, até um deles se dominar e acalmar os outros, após o que içavam o cavalo com cordas e rodas de carroça, quando eram capazes, caso contrário, deixavam-no à sua sorte ou matavam-no — retirando antes a sela, o freio e os arreios elegantemente decorados. Por vezes, quando a carroça ficava irremediavelmente atolada, os homens caminhavam de volta ao salão de Hrothgar para pedir ajuda. Quando regressavam, a carroça estaria despojada de todo o ouro e reduzida a cinzas, às vezes pela própria tribo de Hrothgar, embora fosse mais comum ser por outros, e os bois e cavalos mortos.

Hrothgar reuniu-se com o seu conselho por noites e dias a fio, e nesse tempo beberam, conversaram, oraram às suas estranhas criaturas esculpidas e chegaram por fim a uma decisão. Construíram estradas. Aos reis de quem recebiam tributos em riqueza pediram então tributos em homens. Então, Hrothgar e os seus vizinhos, carregados como formigas numa grande caminhada, abriram caminho, metro a metro, dia após dia, pelos charcos, pelos brejos e pelos bosques, assentando pedras lisas no chão e na erva moles, enchendo de pedrinhas os espaços em redor, até todo o reino de Hrothgar parecer, do meu posto de vigia no alto dos penhascos, uma roda cambada e pouco firme com raios de pedra.

Agora, quando inimigos de terras distantes atacavam os reis que se intitulavam amigos de Hrothgar, um mensageiro esgueirava-se a cavalo pela noite para se apresentar ao soberano, e, numa questão de meia hora, enquanto os bandos inimigos continuavam a gritar uns com os outros, a agitar as suas lanças de pau de freixo e a contar as coisas horríveis que iam fazer, já a floresta vibrava com o fragor da cavalaria de Hrothgar. Não tardaria a derrotá-los: o seu bando tornara-se enorme, e pelos tesouros que Hrothgar podia agora dar-lhes em sinal de agradecimento, os guerreiros eram como vespas. Novas estradas serpentearam pela região. Novos salões pagaram tributo. O tesouro de Hrothgar cresceu até o seu salão estar cheio até cima de escudos vivamente pintados, espadas ornadas, elmos de cabeça de javali e correntes de ouro, levando-os a abandonar o salão e passar a dormir nos casebres circundantes. Enquanto isso, aqueles que pagavam tributo eram obrigados a atacar salões mais distantes para obter o ouro que entregavam a Hrothgar — e um quanto extra para eles. O seu poder invadiu o mundo, do sopé do meu penhasco ao Mar do Norte e às florestas impenetráveis a sul e a leste. Abateram árvores em círculos cada vez maiores em torno dos salões centrais e empolaram a terra com as cabanas dos camponeses e as pocilgas, até a floresta acabar parecida com um cão velho a morrer de sarna. Dizimaram a caça, mataram aves por diversão e atearam fogos por acidente que lavraram durante dias. As ovelhas destruíram sebes, desnudaram vales inteiros e os porcos desenterraram as raízes de tudo o que poderia ter crescido. A tribo de Hrothgar construiu barcos para o levar mais para norte e para oeste. Não havia nada para impedir o avanço do homem. Javalis enormes fugiam ao som de um estalar de arreios. Lobos encolhiam-se nas combas como raposas quando pressentiam aquele cheiro mortal. Preenchia-me uma inquietação muda e obscuramente sanguinária.

Certa noite, inevitavelmente, um cego bateu à porta do salão temporário de Hrothgar. Trazia consigo uma harpa.

Observei-o da sombra de um estábulo, já que aquele monte não tinha árvores. Os guardas à porta cruzaram os machados diante do cego. Ele esperou, com um sorriso apatetado, enquanto um mensageiro foi lá dentro. Minutos passados, o mensageiro regressou, grunhiu para o velho, e este — cuidadosamente, tateando o caminho com os dedos tortos dos pés, como um homem numa estranha dança religiosa, e o mesmo sorriso pateta ainda estampado no rosto — lá entrou. Um rapaz lançou-se do meio das ervas daninhas no sopé do monte, o companheiro do tocador de harpa. Também ele foi convidado a entrar.

O salão acalmou e, passado um instante, Hrothgar pronunciou-se, num tom grave e calculado — por necessidade, de tanto gritar durante os assaltos noturnos. O tocador de harpa deu-lhe uma resposta qualquer, e Hrothgar voltou a falar. Olhei de relance para os cães de guarda. Permaneciam mudos como tocos de árvore, prisioneiros do meu encantamento. Aproximei-me do salão para ouvir. As pessoas tornaram-se ruidosas um bocado, gritando ao tocador de harpa, oferecendo-lhe mulso, fazendo troça, e o Rei Hrothgar, com a sua barba branca, voltou a falar. A corte calou-se.

O silêncio espalhou-se. Pessoas tossiram. Então, como que tocando sozinha, a harpa produziu uma curiosa sucessão de notas, quase palavras, e um instante depois, agarrando a atenção como uma voz surgida de uma árvore oca, o tocador de harpa começou a entoar um cântico:

 

Ouvi! Escutamos, em tempos, as glórias

dos dinamarqueses de lança e dos seus monarcas,

das grandes façanhas destes senhores da guerra.

Tantas vezes Scyld Scefing esmagou as forças

Dos seus irmãos saqueadores,

Despojando-lhes os salões de assentos,

espalhando o terror entre os condes — ele a quem

os homens deram por náufrago. (Foi recompensado!)

Criado sob as nuvens, conquistou prosperidade

até a sua ordem chegar, para lá do antro da baleia,

aos inimigos que o rodeavam: render-se-iam

e pagariam tributo. Foi um grande rei!

 

Assim cantou ele — ou entoou, acompanhado pela harpa — atando como cordas de marinheiro pedaços das melhores canções de antigamente. Todas as pessoas se calaram. Até os montes circundantes se calaram, como que humilhados pela linguagem. O homem sabia da arte. Era o rei dos Poetas, dos arranha-cordas, das cordas da canção (Poetas com barbas de musgo, inspirados pelo vento). Fora a arte que o trouxera pela imensidão selvagem, pelos becos sem saída do tempo e do espaço, até ao famoso salão de Hrothgar. Cantaria as glórias da linhagem de Hrothgar, douraria o seu saber e incitaria os homens a feitos mais audazes, tudo por um preço.

Contou como Scyld, pela astúcia das armas, reconstruíra das cinzas o velho reino dinamarquês, deixado tanto tempo sem senhor, à mercê de qualquer bando que por aí passasse, e ainda como o filho de Scyld, pela força da sua vontade, aumentou o poder da nação, sendo um homem que compreendia na totalidade as necessidades dos outros, da luxúria ao amor, e soube usá-las para forjar em malha de aço um punho com quilômetros de extensão. Cantou as batalhas e os matrimônios, os funerais e os enforcamentos, os gemidos dos inimigos derrotados, as esplêndidas colheitas e caçadas. Cantou sobre Hrothgar, branco de geada, excelso de espírito.

Quando terminou, o salão quedou-se num silêncio sepulcral. Também eu ficara mudo, com o ouvido encostado à madeira. Até eu, incrivelmente, fora pelo Poeta convencido da verdade e qualidade de tudo. Agora pouco, agora mais, levantou-se um grande barulho, uma exalação de ar que cresceu num tumulto de vozes e se transformou em urros e aplausos e pateada de homens enlouquecidos pela arte. Conquistariam os oceanos, as estrelas mais distantes e os rios secretos mais profundos, tudo em nome de Hrothgar! Os homens choravam como crianças: as crianças estavam aturdidas. Assim continuou, um fogo mais aterrador do que qualquer fogo visível.

Só um homem em todo o reino pareceu deprimido: o homem que tocava harpa na corte de Hrothgar antes de o cego se ter anunciado. O antigo tocador de harpa desapareceu nas sombras, ignorado pelos restantes. Esgueirou-se por campos e florestas, com o seu precioso instrumento debaixo do braço, para se refugiar no salão de um saqueador menor. Também eu desapareci nas sombras, com o pensamento num turbilhão de frases magníficas, áureas e todas, incrivelmente, mentira.

Que seria ele? Tinha mudado o mundo, arrancado o passado pelas suas raízes grossas e retorcidas, transmutando-o, e eles, que sabiam a verdade, recordavam-no antes à maneira dele — e eu também.

Atravessei as charnecas tomado por um pânico inusitado, como uma criatura meio demente. Eu sabia a verdade. Estávamos no fim da Primavera. Todas as ovelhas e cabras tinham os seus gêmeos atartamelados. Bradava um homem: “Vou-lhes roubar o ouro e queimar o salão!” e outro homem respondia: “Força!” Recordei-me dos homens em farrapos digladiando-se até a neve acabar manchada de sangue, gemendo no Inverno, os gritos das pessoas e dos animais em chamas, os bois açoitados no lamaçal, os restos espalhados da batalha: cadáveres dilacerados pelos lobos, falcões repletos de sangue. Mas também me recordei, como se tivesse acontecido, do grande Scyld, de cujo reino nada restava, e do seu filho visionário, de cujo reino maior nada restava. E as estrelas ao alto tinham ganhado vida com a promessa do imenso poder de Hrothgar, da sua paz universal. Os pântanos que os seus machados tinham despojado de árvores cintilavam como prata ao luar, e as luzes amarelas nos casebres dos camponeses eram jóias espalhadas no manto preto do rei. Sentia-me tão triste e fragilizado que nem coragem tive para roubar um porco!

Por isso fugi, qual criatura peluda e ridícula dividida pela poesia — rastejando, chorosa, pelo mundo como um monstro de duas cabeças, um híbrido de cordeiro e cabrito correndo atrás de uma ovelha perplexa e indiferente — e rangi os dentes, agarrando a cabeça de ambos os lados como que para curar a ferida, mas debalde.

Houve, em tempos, um Scyld que governou os dinamarqueses; e outros que governaram depois dele, isso é verdade. E o resto?

No alto dos penhascos, virei-me e olhei para baixo, e vi todas as luzes do reino de Hrothgar e dos reinos para lá desse, que em breve seriam seus, e, para desanuviar, aspirei o vento e gritei. O som viajou, violento, até aos confins do mundo, e momentos depois voltou — cruel e terrível comparado com o lamento da harpa recordada — como mil guinchos aflitos de ratazana, gritando: Perdido!

Cobri os ouvidos, escancarei a boca e soltei outro grito agudo: uma tentativa de verdade, um instante de prazer apocalíptico. Depois pus-me de gatas e corri, com o coração aos pulos, de volta à lagoa fumegante.

 

Toca agora uma canção solene, o velho arranha-cordas, das cordas do coração, o velho desafina-memórias. Dos reis mais ricos, enfraquecidos em espírito pelos ossos dispersos dos guerreiros. Pelo final da tarde, o fogo esmorece e a coluna de fumo é branca, sem fuligem. Haverá outros este ano, sabem-no; e, no entanto, perseveram. O Sol afasta-se do mundo às arrecuas, como um caranguejo, e os dias ficam mais curtos, as noites mais longas, mais escuras e perigosas. Sorrio, furioso no anoitecer mais espesso, e regalo os olhos com o maior de todos os salões, pouco convencido.

É o seu orgulho. O facho dos reinos. Heorot. O Poeta permanece, apesar de agora haver cortes mais nobres onde possa cantar. O orgulho da criação. Ergueu este salão com o poder das suas trovas: criou, com palavras de ocasião, a sua mor(t)alidade. O rapaz observa-o, alto e solene, doze anos mais velho do que na noite em que chegou com o seu mestre de olhos vítreos. Não conhece outra arte a não ser a tragédia — é um cantor comovente. Os louros são todos meus.

Inspirado pelo vento (ou pelo que se quiser), o velho cantou acerca de um glorioso salão cuja luz brilharia até aos confins do mundo agreste. A idéia enraizou-se na cabeça de Hrothgar. Cresceu. Convocou as gentes e falou-lhes do seu plano ambicioso. Construiria um salão magnífico no alto de um monte, com vista para o mar a ocidente, um local de triunfo junto à obra dos gigantes, a velha fortaleza em ruínas da primeira guerra do mundo, para se erguer, eterno, em sinal da glória e da justiça dos dinamarqueses de Hrothgar. Aí faria o seu trono e ofertaria tesouros, toda a riqueza salvo a vida dos homens e a terra do povo. E os filhos à sua imagem, e os filhos dos seus filhos, até à última geração.

Escutei, aninhado no escuro, atormentado, desconfiado. Conhecia-os, tinha-os observado; porém, as coisas que dizia pareciam verdadeiras. Mandou vir, de reinos distantes, lenhadores, carpinteiros, ferreiros, ourives — mais carreteiros, abastecedores e costureiros para tratar dos trabalhadores — e o seu clamor encheu os dias e as noites semanas a fio. Assisti das trepadeiras e pedregulhos das ruínas dos gigantes, a uns três quilômetros de distância. Depois correu a notícia entre as raças do homem que o salão de Hrothgar estava concluído. Deu-lhe o seu nome. De reinos vizinhos e do outro lado do mar, surgiram homens para a grande festa. O tocador de harpa cantou.

Fiquei à escuta, e senti-me enlevado. Sabia muito bem que tudo o que ele dizia era ridículo, não uma luz para lhes alumiar as trevas, mas lisonja, ilusão, um vórtice sugando-os da luz para o calor, uma espécie de rebento no solstício do Verão, uma valsa na direção da foice. E, no entanto, senti-me enlevado.

— Ridículo! — soprei no negrume da floresta. Agarrei numa serpente que se encontrava junto ao meu pé e segredei-lhe: — Conheço-o há muito!

Mas fui incapaz de uma gargalhada maldosa, como pretendia. Tinha o coração leve da bondade de Hrothgar, e pesado de dor dos meus hábitos sanguinários. Afastei-me às arrecuas, como um caranguejo, para uma escuridão mais funda — como um caranguejo que se retira, dorido, quando duas pedras chocam à entrada do seu covil subaquático. Afastei-me até o fascínio melífluo da harpa já não me escarnecer. Mas, ainda assim, tinha o pensamento atormentado por imagens. Guerreiros enchiam o salão e, deles, uma grande multidão silenciosa espalhou-se sobre o monte circundante, sorridente, pacífica, escutando o tocador de harpa como se ninguém daquela gente tivesse torcido uma faca no peito do vizinho.

— Então transformou-os — disse eu, e tropecei e caí nas raízes de uma árvore. — Porque não?

Porque não? sussurrou de volta a floresta — mas não era a floresta, era algo de mais profundo, uma sensação de outro intelecto, de um ser vivo antigo e terrível.

Fiquei à escuta, tenso.

Nem um som.

— Ele recria o mundo — sussurrei, beligerante. — Tal como o próprio nome implica. Observa o mundo sem alma com aqueles olhos estranhos e transforma paus secos em ouro.

Um tanto poético, podia, de bom grado, admitir. O seu modo de falar infectava-me, tornando-me pomposo.

— Mesmo assim — sussurrei, mal-humorado — mas fui incapaz de continuar, muito consciente dos meus sussurros, da minha atitude eterna, sempre a transformar o mundo com palavras — sem mudar nada. Ainda tinha a serpente na mão. Pousei-a. Ela fugiu.

— Ele deita a mão ao que encontra — disse teimosamente, voltando a tentar. — E ao transformar o pensamento dos homens, tira o máximo proveito. Porque não? — Mas soava petulante; e não era verdade, sabia-o. Ele cantava por dinheiro, pelos elogios das mulheres — de uma em especial — e pela honra de ter a mão de um rei famoso apoiada no braço. Se as idéias da arte eram belas, a culpa era da arte, não do Poeta. Um selecionador cego, quase estúpido: um pássaro. Será que se matavam com mais cuidado por cantarem doces pássaros no bosque?

Ainda assim, não fiquei convencido. O seu dedilhar era infalível, como que animado por algo para lá do seu poder, e as palavras cosidas de canções antigas, as cenas tecidas de contos monótonos, resultavam numa visão sem remendos, uma imagem que era e não era a sua, para lá da urgência no ouro de um velho barbudo: o possível projetado.

— Porque não? — sussurrei eu, lançando-me em frente, esforçando-me por abrir caminho com os olhos através dos troncos e das trepadeiras negras.

Sentia-a à minha volta, aquela presença invisível, gélida como a primeira sugestão da morte, o olhar fixo e indiferente de mil cobras. Não se ouvia um som. Toquei uma trepadeira gorda e lisa, e preparei-me para saltar com o susto, mas era apenas uma trepadeira, nada mais. E ainda assim, nem um som, nem um movimento. Levantei-me e curvei-me, semicerrando os olhos, e afastei-me cautelosamente por entre as árvores na direção da aldeia. Perseguia-me — o que quer que fosse. Disso estava certo. Então, num ápice, como se tivesse imaginado tudo, desapareceu. Riam-se no salão.

Homens e mulheres conversavam à luz da entrada do salão e nas ruas estreitas mais abaixo; ao fundo da encosta, rapazes e raparigas brincavam junto ao redil, de mãos timidamente dadas. Uns quantos deitavam-se na orla da floresta, tocando-se. Imaginei os seus gritos se eu lhes aparecesse de súbito pela frente, e deu-me vontade de rir, mas contive-me. Falavam de bagatelas, disparates, as vozes doces agarrando-se como mãos. Fiquei tenso, irritado, cada vez mais inquieto sem um motivo aparente, e obriguei-me a caminhar mais devagar. Então, contornando a clareira, pisei algo roliço, e afastei-me de repente. Era um homem. Tinham-lhe cortado a garganta. A roupa tinha-lhe sido roubada. Levantei os olhos para o salão, desconcertado, começando a tremer. Eles continuavam a falar docemente, de mãos dadas, com o cabelo cheio de luz. Agarrei no corpo e pu-lo ao ombro.

A harpa começou então a tocar. A multidão calou-se.

A harpa chorou e o velho cantou numa voz doce, como a de uma criança.

Contou como a Terra começou por ser feita, há muito tempo: disse que o maior dos deuses criara o mundo, todas as planícies luminosas e os mares ondulantes, e deixara, como prova da sua vitória, o Sol e a Lua, grandes candeias para alumiar os habitantes da Terra, como fachos do reino, e adornara os campos com todas as cores e formas, fez ramos e folhas e deu vida a todas as criaturas que se movem pelo mundo.

A harpa tornou-se solene. Falou de uma contenda antiga entre dois irmãos que dividiu o mundo entre a luz e as trevas. E eu, Grendel, pertencia ao lado negro, disse-o efetivamente. A raça terrível amaldiçoada por Deus.

Acreditei nele. Tal era o poder da harpa do Poeta! Contorci a cara, deixando as lágrimas escorrer pelo nariz, esfregando os olhos com os punhos cerrados, ainda que, para isso, tivesse de apertar com o cotovelo o cadáver que provava que ambos estávamos amaldiçoados, ou então nenhum estava, que os irmãos nunca tinham existido, nem o deus que os julgara.

— Uáa! — berrei. Oh, que conversão!

Saí para a clareira aos bordos e cambaleei na direção do salão com o meu fardo às costas, gemendo:

— Misericórdia! Paz!

O tocador de harpa deteve-se, e as pessoas gritaram. (Elas têm as suas versões, mas esta é a verdadeira.) Os bêbados carregaram sobre mim com machados de guerra. Pus-me de joelhos, gritando:

— Amigo! Amigo!

Dirigiram-me golpes, ganindo como cães. Levantei o cadáver para me proteger. As lanças atravessaram-no e uma delas feriu-me, um pequeno arranhão na parte superior esquerda do peito, mas pude constatar pela dor aguda que trazia veneno e percebi, surpreendido como se fosse a primeira vez, que me podiam matar — e que efetivamente o fariam se lhes desse oportunidade para tal. Joguei-lhes golpes, segurando o cadáver como se fosse um escudo, e dois caíram a sangrar das minhas unhas à primeira pancadinha. Os outros afastaram-se. Esmaguei o cadáver no meu abraço e atirei-o às suas caras, virei-me e fugi. Não me seguiram.

Corri para o meio da floresta e caí, ofegante. Estava desorientado.

— Que pena — lamentei. — Oh, que pena! Que pena!

Chorei — este monstro corpulento com dentes de tubarão — e esmurrei a terra com tanta força que uma fenda de três metros se abriu.

— Sacanas! — brami. — Cabrões! Filhos da puta!

Palavras que tinha aprendido com os homens furiosos. Nem sequer estava seguro do que queriam dizer, embora tivesse uma idéia: desobediência, rejeição dos deuses que, pela minha parte, reconheceria sempre como paus sem vida. Dei grandes gargalhadas, ainda soluçando. Nós, os malditos, nem sequer tínhamos palavrões!

— AAARGH! — cantei, depois tapei os ouvidos e calei-me. Parecia pateta.

A súbita tomada de consciência da minha tolice acalmou-me.

Olhei através das copas das árvores, absurdamente esperançoso. Acho que estava meio preparado, naquele meu estado negro e demente, para ver Deus, barbudo e cinzento como a geometria, carregando o sobrolho, agitando o seu dedo exangue.

— Porque não tenho eu com quem falar? — perguntei. As estrelas não responderam, mas eu fingi ignorar a má-criação. — O Poeta tem com quem falar — disse. Torci os dedos. — Hrothgar tem com quem falar.

Pensei no assunto.

Talvez não fosse verdade.

De fato, se a visão que o Poeta tinha da bondade e da paz fosse parte de si, e não rimas fúteis, então ninguém o compreendia, nem mesmo Hrothgar. E quanto a Hrothgar, se falava a sério do seu ideal de glória — com os filhos e os filhos dos filhos distribuindo riqueza — então tinha uma novidade para lhe contar. Se tivesse filhos, estes não o escutariam. Pesariam no espírito a sua prata e o seu ouro. Já observei gerações. Vi os seus olhos de fuinha.

Venci um sorriso.

— Isso pode mudar — disse eu, agitando o dedo como se falasse para uma audiência. — O Poeta pode ainda cultivar a mentalidade dos homens, trazer paz aos miseráveis dos dinamarqueses.

Mas estavam condenados, sabia, e estava feliz por isso. Não o podia negar. Eles que errassem nos caminhos nublados do Inferno.

 

Duas noites depois, regressei. Estava viciado. O Poeta cantava as façanhas gloriosas dos mortos, num elogio à guerra. Cantou como me enfrentaram. Era tudo mentira. A harpa, insidiosa, produziu um som áspero como as serpentes nos canaviais, exaltando a morte. Agarrei num guarda e atirei-o contra uma árvore, mas o meu estômago deu voltas à idéia de o comer.

— Ai do homem — cantou o Poeta — que, por via de hostilidades pecaminosas, precipite a sua alma no abraço do fogo! Que não espere qualquer mudança: jamais poderá regressar! Mas feliz aquele que, no dia da sua morte, procure o Príncipe, e encontre paz no abraço do seu pai!

— Tretas! — sussurrei eu por dentes cerrados. Como conseguia ele deixar-me tão furioso?

Porque não? sibilou a escuridão à minha volta. Porque não? Porque não? Trocista, torturante, gélida como dedos mortos fechando-se sobre o meu pulso.

Imaginação, sabia. Um mal dentro de mim projetado nas árvores. Sabia o que sabia, a brutalidade mecânica e insensível das coisas, e quando o feitiço do tocador de harpa me atraía o pensamento em direção a sonhos de grandes esperanças, o negrume do que era e sempre foi insurgia-se e agarrava-me pelos pés.

No entanto, ficaria surpreendido, devo admitir, se houvesse algo em mim assim tão frio, tão negro, tão velho de séculos como a presença que pressentia em redor. Tateei uma trepadeira para me tranqüilizar. Era uma víbora. Dei um pulo, aterrorizado.

Depois voltei a acalmar-me. Os dentes não me tinham acertado. Apercebi-me de que a presença ainda lá estava, num recesso mais profundo, muito mais profundo, da noite. Tive a impressão de que podia cair nela, que me puxava, que puxava todo o mundo como um turbilhão.

Loucura, claro. Levantei-me, embora a impressão continuasse a mesma, e tateei o caminho através da floresta, sobre o penhasco e de regresso à lagoa e à minha caverna. Aí fiquei a escutar a recordação indistinta das canções do Poeta. A minha mãe remexia o monte de ossos, carrancuda.

Não tinha trazido comida.

— Ridículo — sussurrei.

Ela olhou-me.

Era uma mentira descarada que um deus tinha afetuosamente criado o mundo e instalado o Sol e a Lua para alumiar os habitantes da Terra, que os irmãos tinham pelejado, que uma das raças fora salva, e a outra amaldiçoada. No entanto, o velho Poeta podia torná-la verdade, através da doçura da sua harpa, das suas artimanhas. Apercebi-me, sobressaltado, que eu o queria. E eles também, apesar de animais cruéis, matreiros, enlouquecidos pelas suas teorias. Queria-o, pois! Mesmo que para isso tenha de ser um pária, amaldiçoado pelas regras daquela fábula hedionda.

A minha mãe gemeu, coçou o mamilo onde eu já não mamava há anos. Era miserável, imunda, com um rasgão branco à luz da fogueira por sorriso: um desperdício.

Gemia uma palavra só: Dul-dul! dul-dul! coçando o seio, numa tentativa pavorosa de recuperar a fala.

Fechei os olhos com força, escutando o rio, e, ao fim de algum tempo, adormeci.

 

Sentei-me de supetão.

A presença rodeava-me, agora, como a carga de um trovão.

— Quem é? — perguntei eu.

Não tive resposta. Escuridão.

A minha mãe dormia; parecia morta, como um velho leão-marinho cinzento e vermelho estendido na praia de um dia de Verão.

Levantei-me e saí da caverna pela calada. Fui ao penhasco, desci à charneca.

Também nada.

Apaguei todos os pensamentos e caí, afundei-me como uma pedra através da terra e do mar, ao encontro do dragão.

 

De nada adianta rosnar, uivar ou rugir na presença deste monstro! Imenso, vermelho-áureo, com a enorme cauda enrolada, de membros esparramados sobre o tesouro e um olhar que era, não abrasador, mas frio como a memória de famílias mortas. Espalhando-se a perder de vista sobre pisos invisíveis, havia objectos de ouro, pedras preciosas, jóias e receptáculos de prata tornados da cor do sangue pela luz ondulante e vermelha do dragão. Elevando-se em abóbada sobre o dragão, o tecto e a parte superior das paredes enchiam-se de morcegos. A cor das escamas pontiagudas escurecia e clareava enquanto o dragão ia inspirando e expirando lentamente, fazendo circular ar novo através da sua vasta fornalha interna; os seus colmilhos afiados reluziam como se também estes, à semelhança da montanha por baixo, fossem feitos de pedras e metais preciosos.

O meu coração estremeceu. Os olhos do dragão fixavam-me a direito. Tinha os joelhos e as entranhas tão fracas que tive de me pôr de gatas. A boca dele abriu-se ligeiramente. Escaparam-se línguas de fogo.

— Ah, Grendel! — disse ele. — Vieste.

A voz surpreendeu-me. Não era uma voz ribomban-te, como estava à espera, mas algo que poderia ter pertencido a um velho muito velho. Era mais sonora, naturalmente, mas não muito.

— Estávamos à tua espera — disse. Soltou uma gargalhada nervosa, como um avaro apanhado a contar o seu dinheiro. Os olhos tinham grandes pálpebras, infimamente vascularizadas, rugosas como um idoso consumidor de mulso. — Afasta-te para o lado, se não te importares, rapaz — disse. — Às vezes dá-me uma tosse que é uma coisa terrível de ter pela frente.

As grandes pálpebras mortas franziram-se mais ainda, e os cantos da boca contorceram-se num sorriso matreiro que mal lhe escondia a malícia. Desviei-me imediatamente para o lado.

— Lindo menino — disse ele. Inclinou a cabeça, baixando um olho na minha direção. — E esperto! Ih, ih, ih! — Ergueu uma pata rugosa com garras da altura de um homem como se pretendesse esmagar-me com ela, mas limitou-se a baixá-la ao de leve, uma, duas, três vezes, afagando-me a cabeça.

— Então, fala, rapaz — disse. — Diz, “Olá, Sr. Dragão!”

Soltou uma gargalhada ruidosa.

A minha garganta entrou em convulsões e eu tentei reter o fôlego para falar, mas não consegui.

O dragão sorriu. Tinha uma boca terrível e perversa, flácida e gretada, folgada junto aos dentes como a boca de um cão velho.

— Agora já sabes o que eles sentem quando te vêem, eh? Aposto que até te mijaste pelas pernas abaixo! Ih, ih!

— Pareceu assustar-se, e depois irritar-se, com um pensamento pouco agradável. — Não te mijaste, pois não?

Acenei que não com a cabeça.

— Ótimo — disse ele. — Isso que estás a pisar são coisas valiosas. Maminhas, hemorróidas, pústulas, baba (nieh eh eh)... Agora. — Mexeu a cabeça como se estivesse a cingir o pescoço escamado com uma coleira de metal apertada, e apresentou o que lhe deve ter parecido uma expressão sóbria, como um bêbedo velho a fazer uma cara solene para o tribunal. Então, como que involuntariamente, voltou a rir-se. Uma gargalhada horrível, horrível! Obscena! Não conseguia parar. Riu tanto que uma lágrima brilhante, como um diamante gigantesco, lhe rolou pela face. E nem assim conseguiu parar. Levantou a pata e apontou para mim. A cabeça caiu para trás, às gargalhadas, cuspindo fogo da boca e das narinas. Tentou falar, mas só se conseguiu rir mais. Rebolou para o lado, estendendo uma asa imensa e rugosa para se equilibrar, cobrindo os olhos com uma garra, e continuando a apontar com a outra, rindo a bandeiras despregadas e pontapeando o ar com as patas traseiras. Fiquei imediatamente irritado, embora não me atrevesse a mostrá-lo.

— Parece um coelho! — deixou escapar. — Nih, ih, ih, ih! Quando te assustas, pareces — nih, ih, ih, ih — mesmo. .. (gasp!) mesmo...

Carreguei o sobrolho e, apercebendo-me de que tinha as mãos pela frente como um coelho sentado, pu-las bruscamente atrás das costas. A minha carranca raivosa quase acabou com ele. Uivou, arfou, chorou e começou a engasgar-se de tanto rir. Perdi completamente a cabeça. Agarrei numa esmeralda do tamanho de um punho e preparei-me para a arremessar. O dragão ficou imediatamente sóbrio.

— Larga! — disse ele. Respirou fundo e apontou a enorme cabeça na minha direção. Larguei a esmeralda e lutei para não perder o controlo dos intestinos.

— Não mexas — disse. A voz de velho era agora tão terrível quanto os próprios olhos. Era como se tivesse morrido há milhares de anos. — Nunca nunca nunca mexas nas minhas coisas — disse. Chamas acompanharam as palavras e chamuscaram-me o pêlo da barriga e das pernas. Acenei com a cabeça, tremendo como varas verdes. — Ótimo — disse ele. Observou-me mais um bocado, e depois, muito, muito devagar, virou a cabeça para longe. Então, como uma velha, como se estivesse, apesar do rancor, um tanto atrapalhado, voltou a subir a montanha de tesouros, abriu as asas e instalou-se.

Estava de péssimo humor. Eu já não tinha certezas de conseguir aprender alguma coisa com ele. Teria muita sorte se conseguisse sair dali vivo. Pensei imediatamente no que ele tinha dito: “Agora já sabes o que eles sentem quando te vêem”. Tinha razão. Doravante não me aproximaria deles. Uma coisa era comer um de vez em quando — era perfeitamente natural: impedia-os de sobrepovoar a terra e, se calhar, morrer à fome, chegado o Inverno — outra era assustá-los, dar-lhes ataques de coração, preencher-lhes as noites de pesadelos, só por divertimento.

— Patacoadas! — disse o dragão. Pestanejei.

— Patacoadas, foi o que eu disse — repetiu. — Porque não assustá-los? Ó criatura, as coisas que eu te podia contar... — Revirou os olhos cobertos pelas pesadas pálpebras e emitiu um ruído — Glaagh. — Assim permaneceu, com uma respiração áspera, irritado. — Estúpido, estúpido, estúpido! — disse com um silvo. — Raio de corja. Porque é que vieste? Porque é que me vens incomodar?—Não me respondas! — acrescentou rapidamente, interrompendo-me. — Eu sei no que estás a pensar. Eu sei tudo. É por isso que estou tão doente, velho e cansado.

— Desculpa — disse eu.

— Calado! — gritou ele. Um jacto de chamas atravessou a entrada da caverna. — Eu sei que pedes desculpas. Por agora, isto é. Por este fulgor fátuo e fugaz no longo e monótono declínio da eternidade. Não me impressionas— Não, não! Calado!

O seu olho abriu-se de repente como uma cova para me calar. Fechei a boca. O olho era terrível, vindo na minha direção. Senti que caía — uma queda interminável naquele vazio mudo. Ele deixou-me cair, em direção a um sol negro e aranhas, embora soubesse que eu começava a morrer. Nada poderia ter sido mais insensível: uma serpente até à medula.

Mas ele voltou a falar, apesar de tudo, ou melhor, riu-se, e a realidade recompôs-se. Riu, falou e amparou-me a queda, não por bondade, mas pelo prazer frio que tinha em saber o que sabia. Encontrava-me novamente na caverna, e o seu terrível sorriso percorreu-lhe a face enrugada, estando o olho mais uma vez semicerrado.

— Queres uma palavra — disse. — Foi por isso que vieste. O meu conselho é: não a peças! Faz como eu! Procura ouro — mas não o meu — e guarda-o!

— Porquê? — perguntei.

— CALADO! — A caverna ficou branca do fogo do dragão, e as paredes rochosas devolveram-lhe o eco. Os morcegos esvoaçaram como pó num celeiro, depois regressaram aos seus lugares, aos poucos de cada vez, até tudo ter acalmado, inertes, como que mortos. As asas do dragão, que se tinham aberto ligeiramente, descontraíram e fecharam-se.

Esperei o que me pareceram horas, encolhido, com os dedos a proteger a cabeça. Então:

— Queres saber do Poeta. Acenei que sim com a cabeça.

— Ilusão — disse ele. Esboçou um sorriso, depois abandonou-o como que infinitamente cansado, farto do Tempo. — Eu sei tudo, estás a ver — a voz antiga falou meigamente. — O princípio, o presente, o fim. Tudo. Tu, agora, vês o passado e o presente, como outras criaturas inferiores: sem mais capacidades do que a memória e a percepção. Mas os dragões, rapaz, os dragões têm um intelecto completamente distinto. — Escancarou a boca numa espécie de sorriso, sem vestígios de prazer. — Observamos do alto de uma montanha: todo o tempo, todo o espaço. Observamos, no mesmo instante, o sonho apaixonado e a sua derrota. Não que sejamos nós a causa do fracasso, atenção. — Ficou de imediato mal-humorado, como se respondesse a um argumento do qual já estivesse farto que lhe apresentassem. — Os dragões não interferem com a insignificância do vosso livre-arbítrio. Pah! Ouve o que te digo, rapaz. — O olho morto iluminou-se. — Se tu, com o teu conhecimento do presente e do passado, recordas que determinado homem escorregou, digamos, numa casca de banana, ou caiu de uma cadeira, ou se afogou num rio, tal recordação não significa que foste a causa do seu deslize, ou da queda ou do afogamento. Correto? Claro que sim! Aconteceu, e tu sabes, mas saber não significa causa. Claro! Quem afirma o contrário é um estúpido ignorante. Ora, de volta a mim. O fato de conhecer o futuro não causa o futuro. Apenas o vejo, exatamente como as criaturas do teu nível inferior recordam acontecimentos passados. E mesmo que eu interfira — queime o salão de alguém, por exemplo, seja porque me apetece ou porque me pediu um suplicante — mesmo então não altero o futuro, apenas faço o que vi desde o princípio. É óbvio, decerto. Concordemos que é ponto assente, então. Era uma vez o livre-arbítrio e a intercessão!

O olho do dragão semicerrou-se.

— Grendel!

Dei um pulo.

— Não fiques tão enfadado — disse. Carregou o sobrolho negro como a meia-noite. — Imagina como eu me sinto — disse.

Quase pedi desculpa, mas detive-me.

— Os homens — disse o dragão, e fez uma pausa comprida, deixando o desprezo acumular-se na caverna como o veneno do seu bafo. — Vejo que os compreendes. Contadores, medidores, teóricos.

Todos os porcos comem queijo.

O velho Ameias é um porco.

Se o Ameias adoece e se recusa a comer,

experimenta queijo.

Jogos, jogos, jogos! — Cuspiu fogo. — Eles só pensam que pensam. Não têm uma visão total, um sistema total, só esquemas vagamente aparentados, idênticos como pontes e teias de aranha. Mas eles lá se precipitam através de abismos em cima de teias de aranha, e por vezes conseguem, e isso, pensam eles, resolve a questão! As milhentas histórias que eu te podia contar das suas absurdidades. Descreveriam caminhos pelo Inferno com as suas teorias malucas, as suas listas intermináveis de fatos irrelevantes. Loucura — a mais simples loucura alguma vez engendrada! Simples fatos isolados, e fatos para os ligar — es e mases — são o sine qua non da sua gloriosa conquista. Mas não há fatos isolados. A coerência é a essência de tudo. Nada que os detenha, claro. Constroem o mundo usando dentes sem corpos para mastigar ou serem mastigados.

»Pressentem-no, claro, de vez em quando; invade-lhes o receio de que nada na sua vida faz sentido. Têm uma vaga idéia de que proposições como “Deus não existe” são um tanto dúbias, pelo menos quando comparadas com afirmações do tipo “Todas as vacas carnívoras comem carne”. É aqui que o Poeta lhes açode. Oferece uma ilusão da realidade — reúne os seus fatos com a lamúria pastosa da coerência. Pura balela, acredita. Pura manipulação intelectual. Não sabe mais do que os outros sobre a realidade total — dir-se-á até que sabe menos: trabalha com o mesmo velho amontoado de átomos, as inclinações do seu tempo, lugar e idioma. Mas ele compõe-nos com ritmos de harpa e alarido, e eles pensam que o que pensam está vivo, pensam que o Céu os adora. Quando muito, dá-lhes alento. Já a mim, custa-me olhar.

— Estou a ver — disse eu. O que era, até certo ponto, mentira.

O dragão sorriu, e por instantes quase pareceu amistoso.

— Tens estado muito atento e pensativo — disse — bem vistas as coisas. Por isso, vou falar-te do Tempo e do Espaço.

— Obrigado — disse eu, com toda a sinceridade possível. Já tinha muito em que pensar, parecia-me.

Ele carregou o sobrolho, e não disse mais nada. Respirou fundo, mudou as patas da frente para uma posição mais confortável, e, depois de pensar um momento, começou:

— Em todas as discussões da Natureza, precisamos de manter presentes as diferenças de escala, e as diferenças de tempo em particular. Nós (e por nós, entenda-se vocês) temos a tendência de considerar modos de funcionamento observável nos nossos corpos como medida de uma escala absoluta. Mas, na verdade, é precipitado retirar conclusões derivadas de uma observação muito para lá da escala de magnitude à qual a observação se encontra limitada. Por exemplo, a aparente ausência de mudança num segundo de tempo nada nos diz das mudanças no espaço de mil anos. Do mesmo modo, a ausência de mudança em mil anos não nos diz nada a respeito do que pode acontecer, por exemplo, num milhão de anos; e nenhuma mudança aparente num milhão de anos nos há de dizer seja o que for sobre um milhão de milhões de anos. Podíamos seguir esta progressão indefinidamente; não existe um padrão absoluto de magnitude. Qualquer termo desta progressão é grande comparado com o predecessor e pequeno comparado com o sucessor.

»Mais uma vez, todos os estudos especiais pressupõem determinados tipos fundamentais de coisas. (Nota que uso a palavra “coisas” no seu sentido mais abrangente, o que pode incluir atividades, cores, e todos os demais sensos, e também valores.) Segundo o funcionamento dos intelectos inferiores, o estudo, ou “ciência”, preocupa-se com um conjunto limitado de vários tipos de coisas. Temos assim, em primeiro lugar, essa variedade de tipos. Em segundo, temos a determinação dos tipos que se manifestam numa dada situação. Por exemplo, há a proposição singular — “Isto é verde” — e há a proposição mais geral — “Todas as coisas são verdes”. Este gênero de averiguação é tratado pelo raciocínio usual. Indubitavelmente, estas averiguações são essenciais, para os intelectos inferiores, na fase inicial de qualquer estudo. Mas todos os estudos devem procurar ir mais além. Infelizmente —

Olhou-me desconfiado.

— Não estás a prestar atenção.

— Estou, pois! — disse, entrelaçando os dedos para mostrar que falava a sério.

Ele abanou a cabeça lentamente.

— Não queres saber de outra coisa que não seja agitação e violência.

— Não é verdade! — respondi.

O olho abriu-se mais, o corpo iluminou-se de uma ponta à outra.

— Tu é que me dizes a mim o que é verdade?

— Estou a tentar acompanhar. Faço os possíveis — disse. — Devia ser mais tolerante. Que quer?

O dragão pensou no caso, respirando devagar, pleno de ira. Por fim, cerrou os olhos.

— Tentemos começar por outro lado — disse. — É difícil, compreende, limitar-me aos conceitos familiares para uma criatura da idade das trevas. Não que uma idade seja mais escura do que as outras. — Carregou o sobrolho como se tivesse dificuldade em convencer-se a prosseguir. Então, decorrido um longo momento:

— A essência da vida encontra-se nas frustrações da ordem imposta. O universo rejeita a influência desvitalizante da conformidade total. No entanto, com a sua rejeição, transita no sentido de uma nova ordem como requisito principal para uma experiência importante. É necessário explicar o objetivo nas formas de ordem, o objetivo nas inovações de ordem, as medidas de sucesso, e as medidas de fracasso. À parte de algum entendimento, não importa quão imbecil, destas características de processo histórico... — A sua voz esmoreceu.

Após outra pausa demorada, disse:

— Vê as coisas da seguinte forma. Este jarro, por exemplo. — Agarrou num recipiente dourado e segurou-o na minha direção, mas sem deixar que lhe tocasse. Apesar dos seus esforços, ou assim dava a entender, exibia um aspecto hostil e desconfiado, como se estivesse à espera que eu fosse estúpido o suficiente para deitar a mão ao objeto e fugir. — Em que difere este jarro de uma coisa animada? — Afastou-o para longe de mim. — Pela organização! Exato! Este jarro é uma democracia absoluta de átomos. Tem importância, ou presença, por assim dizer, mas falta-lhe Expressão, ou, de um modo informal, um elemento de ah-ha! A importância é primordialmente monística na sua referência ao universo. Limitada a uma ocasião individual finita, a importância deixa de ser importante. De uma maneira ou de outra — podemos esquecer os pormenores — a importância deriva da imanência da infinidade no finito. A expressão, contudo — e agora ouve com atenção — a expressão fundamenta-se na ocasião finita. É a atividade do finito deixando marcas no seu meio ambiente. A importância transita do mundo único para o mundo múltiplo, enquanto que a expressão é a dádiva do mundo múltiplo ao mundo único. As leis da natureza são grandes efeitos médios que governam imparcialmente. Mas não há nada de médio na expressão: é essencialmente individual. Supõe que tens uma molécula definida —

— Uma quê? — perguntei.

Os seus olhos fechados comprimiram-se. Deixou escapar um longo suspiro irritado de fogo vermelho e laranja.

— Vê as coisas assim — disse. A sua voz tornara-se frágil, como se estivesse a perder a esperança. — No caso dos vegetais, encontramos organizações físicas expressivas que não possuem um centro de experiência de maior complexidade, quer de expressões recebidas, quer de dados inatos. Outra democracia, mas com qualificações, como iremos ver. Um animal, por outro lado, é dominado por um ou mais centros de experiência. Se a atividade dominante é separada do resto do corpo — se, por exemplo, lhe cortamos a cabeça — toda a coordenação sucumbe, e o animal morre. Enquanto isso, no caso do vegetal, a democracia pode ser dividida em democracias mais pequenas, que sobrevivem sem dificuldade e sem perda aparente de expressão funcional. — Fez uma pausa. — Percebeste isto, ao menos?

— Penso que sim. Suspirou.

— Escuta. Escuta com atenção! Um homem enfurecido não tem por hábito agitar o punho cerrado numa ameaça ao universo em geral. Faz uma seleção e deita abaixo o vizinho. Um bocado de pedra, por outro lado, atrai imparcialmente o universo de acordo com a lei da gravidade. Concordas que há uma diferença?

Ficou à espera, impacientemente furioso. Olhei-o nos olhos o tempo que pude, depois abanei a cabeça. Não era justo. Tanto quanto sabia, bem podia estar a contar-me disparates de propósito. Deixá-lo falar. Deixá-lo queimar-me vivo. Para o raio que o parta.

Ao fim de muito, muito tempo, disse:

— Foi estúpido da tua parte teres vindo. Acenei com a cabeça, amuado.

Abriu as asas — como um enorme bocejo irascível — e depois fechou-as.

— As coisas vão e vêm — disse. — É a essência da questão. Daqui a bilhões e bilhões e bilhões de anos, tudo terá ido e vindo muitas vezes, de várias formas. Até eu. Há um certo homem que me irá absurdamente matar. É uma grande pena — a perda de uma extraordinária forma de vida. Os ambientalistas vão andar aos berros. — Riu-se. — Sem sentido, porém. Os jarros e pedrinhas, tudo, também estes irão. Puf. Maminhas, hemorróidas, pústulas, baba...

— Não sabes isso! — disse eu.

Ele sorriu, mostrando-me todos os dentes, e soube que ele sabia.

— Um remoinho no curso do tempo. Um agregado temporário de pedacinhos, uns quantos grãos de poeira ao acaso, por assim dizer — pura metáfora, como deves compreender — e, por sorte, uma imensa nuvem flutuante de grãos de poeira, um universo em expansão... — Encolheu os ombros. — Complexidades: poeira verde para além da normal. Poeira púrpura. Dourada. Retoques adicionais: poeira sensível, poeira copulante, poeira venerável! — Riu-se, uma gargalhada cavernosa como o espaço em redor. — Novas leis para cada nova forma, claro. Novas avenidas de potencial. Complexidade para lá da complexidade, acidente após acidente, até... — O seu olhar mal-intencionado era como um vento gélido.

— Continua — disse eu.

Ele fechou os olhos, ainda a sorrir.

— Escolhe um apocalipse ao acaso. Um mar de óleo negro e morte. Sem vento. Sem luz. Em que nada se agita, nem uma formiga, ou uma aranha. Um universo silencioso. Assim termina o lampejo de tempo, a mecha curta e escaldante de acontecimentos e idéias acidentalmente acesa e acidentalmente apagada pelo homem. Não é um final verdadeiro, claro, nem sequer um início. Apenas uma perturbação no curso do Tempo.

Semicerrei os olhos.

— Isso pode mesmo acontecer?

— Já aconteceu — respondeu ele — e sorriu como que satisfeito por isso — no futuro. Sou testemunha.

Pensei um bocado no assunto, recordando a harpa, e abanei a cabeça.

— Não acredito.

— Vai acontecer.

Continuei a olhá-lo por pálpebras semicerradas, com a mão na boca. Ele podia estar a mentir. Era maldoso que bastasse.

O dragão abanou a pesada cabeça.

— Ah, a astúcia do homem! — disse, e soltou uma gargalhada. — Nova complexidade, apenas, novo acontecimento, novo conjunto de regras para a ocasião a gerar ainda mais regras para a ocasião, e por aí fora. Há coisas que persistem, sabes. O peixe do Devónico, o polegar oponível, a fontanela, tecnologia — clique, clique, clique, clique...

— Acho que estás a mentir — disse, outra vez baralhado, num turbilhão de palavras.

— Reparei nisso. Nunca saberás ao certo. Deve ser frustrante, estar preso como o grilo de um chinês na gaiola de uma mente limitada. — A sua gargalhada não tinha alma, desta vez. Estava a ficar muito farto da minha presença.

— Disseste “Patacoadas” — comentei. — Porque há de ser patacoadas eu deixar de dar ataques de coração às pessoas sem motivo nenhum? Porque não se pode uma pessoa reformar, melhorar o seu caráter? — Devo ter sido um espetáculo interessante, naquele momento, um mostrengo guedelhudo, sério e concentrado, curvado como um sacerdote em oração.

Ele encolheu os ombros.

— Faz o que te apetecer. Faz como achares melhor.

— Mas porquê?

— “Porquê? Porquê?” Que pergunta ridícula! Porquê tudo? O meu conselho—

Cerrei os punhos, embora fosse absurdo, claro. Não se ameaçam dragões.

— Não, porquê?

O dragão inclinou a enorme cabeça cheia de dentes, esticou o pescoço, suspirou fogo.

— Ah, Grendel! — disse. Quase pareceu, naquele instante, ter pena. — Tu melhorá-los, rapaz. Não vês? Estimulá-los! Fá-los pensar e formular planos. Incitá-los à poesia, à ciência, à religião, tudo o que faz deles o que são pelo tempo que existirem. És, por assim dizer, o existente bruto pelo qual aprendem a definir-se. O exílio, a prisão, a morte que os assusta — os fatos nus da sua mortalidade, do seu abandono — são o que tu os obrigas a reconhecer e abraçar! Tu és a humanidade, ou a condição humana: inseparável como o alpinista da sua montanha. Se te retiras, serás imediatamente substituído. Existentes brutos, há-os ao pontapé, sabes. Sem tretas sentimentalistas, pois. Se a irrelevância que te interessa é o homem, persegue-o! Espanta-o a alcançar a glória! Vai tudo dar ao mesmo, matéria e movimento, simples ou complexo. No final, não há diferença. Morte, transfiguração. Cinzas às cinzas e lama à lama, ámen.

Tinha a certeza de que ele estava a mentir. Ou uma meia-certeza. Exortava-me a atormentá-los porque ele, no seu buraco lúgubre, adorava a maldade. Afirmei:

— Eles que encontrem outro “existente bruto”, seja lá isso o que for. Eu recuso-me.

— Força! — disse ele, com um olhar trocista. — Vai fazer outra coisa, por favor! Altera o futuro! Faz do mundo um lugar melhor! Ajuda os pobres! Dá de comer aos famintos. Sê caridoso com os idiotas! Que desafio, esse!

Já não me olhava, já não se dava ares de contar a verdade.

— Pessoalmente — continuou — a minha grande ambição é contar isto tudo — gesticulou na direção do tesouro à sua volta — e, se calhar, arrumá-lo em montes. “Conhece-te”, é o meu lema. Descobre quanto tens, e cuidado com os estranhos!

Remexi rubis e esmeraldas com a parte lateral do pé.

— Deixa-me contar-te o que disse o Poeta.

— Poupa-me, peço-te! — Cobriu os ouvidos com as garras, e fez um esgar hediondo.

Mas eu teimei.

— Disse que o maior dos deuses tinha criado o mundo, e todas as planícies luminosas e os mares ondulantes. Disse —

— Ridículo.

— Porquê?

— Qual deus? Onde? Força vital, queres tu dizer? O princípio do processo? Deus como a História do Acaso?

De uma maneira que não pude explicar, percebi que este desprezo em relação à minha credulidade infantil se justificava.

— Não obstante, algo resultará de tudo isto — disse eu.

— Nada — disse ele. — Uma breve pulsação no buraco negro da eternidade. O meu conselho —

— Espera para ver — disse eu. Ele abanou a cabeça.

— O meu conselho, caro e violento amigo, é que procures algum ouro para te instalares.

 

Nada mudou, tudo mudou, por ter visto o dragão. Uma coisa é escutar, cheio de desdém e de dúvidas, os poetas a cantar versões de tempos idos e visões de tempos vindouros; outra é conhecê-las, fria e simplesmente, como a minha mãe conhece o seu monte de ossos. Independentemente do que possa ter ou não ter compreendido da conversa do dragão, algo de mais profundo permaneceu comigo, tornou-se a minha aura. A futilidade, a ruína, tornou-se um cheiro no ar, penetrante e acre como o cheiro morto após um fogo florestal — o meu cheiro e o do mundo, o cheiro das árvores, das rochas, dos cursos de água onde quer que fosse.

Mas havia algo pior. Descobri que o dragão me tinha encantado: nenhuma arma me podia cortar. Podia subir ao salão sempre que me apetecesse, e eles estariam impotentes. O meu coração enegreceu por causa disso. Embora escarnecesse deles, e por vezes os odiasse, havia sempre algo entre mim e os homens quando podíamos lutar. Agora, invulnerável, achava-me solitário, como uma árvore viva numa imensa paisagem de carvão.

Escusado será dizer, não a compreendi a princípio: pensei que fosse uma vantagem.

Estávamos no pino do Verão, a estação das colheitas no primeiro ano daquilo que costumo chamar a minha guerra contra Hrothgar. O ar noturno estava preenchido com o cheiro a maçãs e a cereais acabados de ceifar, e podia escutar a algazarra do salão a quilômetros de distância. Fui na sua direção, atraído como sempre, como que por uma espécie de maldição. Fazia tenções de não ser visto naquela noite. Apesar da conversa do dragão, não queria aterrorizar os soldados de Hrothgar sem motivo. (Não tinha iniciado, por aquela altura, as minhas incursões sistemáticas. Na realidade, não tinha ainda admitido que se tratava de uma guerra. Matava uns retardatários de vez em quando — com um certo prazer sinistro muito diferente do que sentia quando rachava o crânio de uma vaca — mas não tinha ainda atacado o salão, não me tinha ainda revelado aí — excetuando aquela noite ridícula em que lá fui para me tentar juntar a eles.) Acocorei-me junto à orla da floresta, observando as luzes do salão no alto do monte comprido. Podia ouvir a canção do Poeta.

Já não me recordo com exatidão aquilo que cantava. Sei apenas que surtiu em mim um efeito estranho: já não me enchia de dúvida e angústia, solidão, vergonha. Enfureceu-me. Era a sua confiança, talvez — a sua abençoada e grosseira ignorância, a sua auto-satisfação presunçosa, e, pior de tudo, a sua esperança. Aproximei-me, correndo de alpendre em alpendre, e por fim para junto da parede. Dei com uma fresta e espreitei. Já me recordo do que ele dizia, agora que penso nisso. Ou parte do que ele dizia. Falava de como Deus fora bondoso para com os scyldings, concedendo-lhes uma colheita farta. As pessoas sentavam-se sorridentes, remelosas e gordas, acenando a sua satisfação com Deus. Falou da grande generosidade de Deus ao conceder-lhes um rei tão sábio. Todos ergueram as suas taças a Deus e a Hrothgar, e Hrothgar sorriu, com a barba cheia de bocadinhos de comida. O Poeta falou de como Deus tinha derrotado os seus inimigos e enchido as casas de tesouros preciosos, de como eram as pessoas mais ricas e poderosas da Terra, de como ali, e apenas ali, os homens eram livres, os heróis eram valentes e as virgens eram virgens. Terminou a canção, e as pessoas aplaudiram e gritaram elogios e encheram as suas taças douradas. Rodeando a sua bolha de estupidez, pressenti a bruma do dragão.

Foi então que um pauzinho se partiu atrás de mim, e no mesmo instante, um cão ladrou. Um guarda com elmo e cota de malha lançou-se sobre mim, com a espada em ambas as mãos levantada por cima da cabeça, preparado para me rachar ao meio. Afastei-me de um salto, mas havia algo a estorvar, e caí. Tentei rebolar, e então, pelo canto do olho, vi a espada cair e compreendi que não podia evitá-la. Fiquei mole, como alguns animais no momento em que o predador salta. Não aconteceu nada.

Fiquei tão surpreendido quanto o guarda. Ficamos ambos a olhar, eu estendido, indefeso, de barriga para o ar com a espada atravessada, o guarda debruçado, segurando ainda o punho como se tivesse medo de o largar. A barba e o nariz espreitavam pelas placas da face, e os olhos, nos esconsos sombrios do elmo, pareciam-se com dois buracos escuros numa árvore. O meu coração batia, enchendo-me o peito de dor. Ainda assim, nenhum dos dois se mexeu. Então, quase no mesmo instante, o guarda gritou e eu brami como um touro enlouquecido para o afugentar. Ele largou a espada e procurou escapar, recuando, mas tropeçou no cão e caiu. Ri-me, um tanto descontrolado, e estiquei-me rapidamente como uma cobra para lhe atacar a perna. Num segundo, eu estava novamente de pé. Ele gritou, sacudindo-se, após o que fiquei completamente rodeado por outros como ele. Atiraram-me lanças e machados, e um dos homens agarrou o guarda que se agitava pelos braços, procurando libertá-lo. Mantive-me firme, mas à parte disso fui incapaz de agir. Era como se também eu estivesse ébrio de beber mulso. Vi as armas voar na minha direção, vi-as tocar-me o pêlo e cair silenciosamente ao chão.

Então, aos poucos, percebi. Senti uma gargalhada eclodir no meu peito — do encantamento do dragão, dos sussurros e tremores de Hrothgar junto à porta do salão, de tudo — as árvores e céu absortos, a lua imbecil. Não lhes queria mal, mas tinham voltado a atacar-me, como sempre. Eram loucos. E as gargalhadas negras transbordaram então, enfim, incontroláveis como o riso do dragão, e quis dizer: “Olhai! Deus derrotou os meus inimigos!” — mas tal só me fez rir mais, embora tivesse o coração aos pulos e, apesar de tudo, os temesse. Afastei-me, continuando a agarrar o guarda aos gritos. Limitaram-se a olhar, de armas inúteis desembainhadas, ombros levantados contra o meu riso. Tendo atingido uma distância segura, icei o guarda para os provocar, e mais ainda para me rir na sua cara. Ficou mudo, olhando-me horrorizado de cabeça para baixo, apercebendo-se subitamente dos meus planos. Descontraidamente, à vista de todos, arranquei-lhe a cabeça à dentada, esmagando o elmo e o crânio com os dentes e, segurando com ambas as mãos o corpo em convulsões e escorregadio do sangue, sorvi o sangue que jorrava como um gêiser, quente e abundante, do pescoço. Cobriu-me por completo. As mulheres desmaiaram, os homens recuaram para o salão. Fugi para o bosque com o corpo, e o coração pulsante — transbordante como um fosso inundado — de alegria.

Três ou quatro noites mais tarde, lancei o meu primeiro assalto surpresa, arrombei a porta enquanto todos dormiam, tirei sete da cama, abri-os ao meio e devorei-os ali mesmo. Senti um estranho júbilo sobrenatural. Foi como se tivesse feito uma descoberta incrível, como a minha descoberta distante deste mundo iluminado pela Lua, para lá da lagoa. Transformei-me. Era um novo foco para o amontoado espacial que ocupava: se o mundo tivesse implodido na árvore onde esperara, preso e cheio de dores, explodia agora, para longe de mim, soltando gritos penetrantes de medo. Tinha-me tornado, eu próprio, na mamãe que procurara em vão nos penhascos. Mas isso apenas dá a entender o que pretendo dizer. Tinha-me tornado algo, como se tivesse renascido. Antes, hesitara entre possibilidades, entre as verdades frias do que sabia e os truques sentimentais do Poeta; agora não: era Grendel, Demolidor de Salões, Destruidor de Reis!

Mas também, como nunca antes, sentia-me só.

Não me queixo (falando, falando, queixando-me, queixando-me, enchendo o mundo que percorro de palavras). Mas confesso que foi uma surpresa. Foi uns quantos assaltos mais tarde. A porta do salão escancarou-se ao tocar-lhe, exatamente como antes, e, pela única vez, naquela noite, hesitei. Os homens sentaram-se nas suas camas, agarraram os elmos, espadas e escudos dos cobertores a seu lado, e, gritando palavras corajosas que soaram como guinchos, lançaram as pernas para fora da cama e cambalearam na minha direção. Alguém gritou:

— Recordai agora, ó soldados de Hrothgar, as vanglorias proferidas com o passar do mulso! Recordai a dádiva de anéis do nosso bom rei e recompensai-lhe a generosidade com a vossa valentia!

Malditos imbecis pomposos. Arremessei uma bancada ao que estava mais próximo. Aninharam-se todos. Fiquei à espera, inclinado para a frente de pernas afastadas, pés assentes no chão, até acabarem as suas orações intermináveis. Tinha as costas arqueadas como um lutador, virando a cabeça de um lado para o outro, para me assegurar de que ninguém me apanhava à traição. Era do hábito que os temia, e quando os quatro ou cinco soldados mais bêbedos se aproximaram, agitando armas e gritando, o meu medo idiota aumentou. Mas mantive-me firme. Então, com um uivo, um deles lançou-se na minha direção, de espada empunhada acima da cabeça com ambas as mãos. Deixei-o vir. O encantamento manteve-se. Fechei a mão sobre a lâmina e arranquei-a ao soldado bêbedo e atirei-a para o fundo do salão. Caiu com um ruído sobre as pedras da lareira e depois no chão, com um eco. Agarrei-o e esmaguei-o. Um segundo veio na minha direção, ávido no seu heroísmo remeloso, com um júbilo maníaco por se ter vangloriado de poder morrer pelo rei e estar agora a fazê-lo. E assim foi. Veio outro, aos bordos e aos gritos, esforçando-se por focar a visão.

Ri-me. Era indigno: chegavam e caíam, bradando loucuras acerca dos irmãos, dos pais, do glorioso Hrothgar e de Deus. Mas embora me risse, sentia-me encurralado, oco, como uma árvore apodrecida. O salão pareceu prolongar-se por quilômetros, até às fronteiras do espaço e do tempo, e imaginei-me a matá-los, sem nunca parar, maquinalmente, sem me darem luta. Imaginei-me inchado como um fole do seu sangue, um borrão insignificante num universo morto como vento velho a soprar em ossos, abandonado a não ser pelo cheiro a sangue queimado do dragão. Comecei imediatamente a esmagar coisas — bancadas, mesas, catres — numa raiva insignificante e terrível como tudo.

Então — como que a coroar o absurdo, a minha salvação naquele momento — apareceu o homem a que os soldados chamavam Unferth.

Encontrava-se do outro lado do salão, jovem, compenetrado, completamente sóbrio. Era mais alto do que os outros; elevava-se acima dos seus companheiros como um cavalo numa manada de vacas. O nariz era poroso e escuro como rocha vulcânica. A barba loura era mal semeada.

— Para trás — disse.

Os homenzinhos bêbedos à minha volta afastaram-se. O chão entre nós, Unferth e eu, estava desimpedido.

— Monstro, prepara-te para morrer! — disse. Muito probo. As suas narinas inflamaram-se e tremeram como as de um sacerdote.

Ri-me.

— Aargh! — disse eu. Cuspi pedacinhos de osso. Ele olhou para trás, assegurando-se de que sabia onde era a janela.

— Estás com o teu deus?

Ri-me mais intensamente. Era daqueles. Experimentou um passo na minha direção, depois hesitou, mostrando a espada e agitando-a.

— Diz-lhes no Inferno que foi Unferth, filho de Ecglaf, que te mandou, famoso nas terras da Escânia como um herói entre os scyldings.

Deu alguns passos para o lado, como um lutador circulando outro, a não ser pelo fato de estar a dez metros de distância; a manobra era ridícula.

— Então vem — disse eu. — Deixa-me ir lá dizer-lhes que fui mandado pelo Anda-De-Banda.

Ele franziu a sobrancelha, tentando decifrar a minha fala. Repeti, falando mais alto e devagar, e um ar de susto apoderou-se dele. Ainda assim não sabia o que lhe estava a dizer, mas era-lhe evidente, julgo, que eu proferia palavras. Fez uma expressão matreira, como se estivesse a preparar um acordo — a expressão dos homens quando lutam com outros homens em vez de pobres animais estúpidos.

Estava abalado e, para recuperar o ânimo, continuou a falar-me.

— Há muitos meses, monstro disforme, que vens matando homens a teu bel-prazer no salão de Hrothgar. A menos que me mates como mataste homens menores, dou-te a minha palavra que esses dias acabaram para sempre! O rei ofereceu-me presentes esplendorosos. Verá hoje à noite que esses presentes não foram dados em vão! Prepara-te para cair por terra, coisa imunda! Esta hora consagrará a tua reputação ou a minha!

Abanei a cabeça, sorrindo com maldade.

— Reputação! — respondi, fingindo-me muito impressionado.

As sobrancelhas dele arquearam-se. Compreendia-me; já não restavam dúvidas.

— Consegues falar! — disse ele. Recuou um passo.

Acenei com a cabeça, caindo sobre ele. Perto do centro da sala havia uma mesa com um grande monte de maçãs reluzentes. Ocorreu-me uma idéia malvada — tão malvada que me arrepiei enquanto sorri — e caminhei de lado até junto da mesa.

— Com que então és um herói — disse. Ele não compreendeu, e repeti duas vezes antes de desistir, repugnado. Continuei a falar na mesma, deixá-lo perceber aquilo que fosse capaz, e que viesse buscar a reputação quando bem lhe apetecesse. — Estou impressionado — disse. — Nunca encontrei um herói vivo. Pensava que só os havia nos poemas. Ah, ah, mas deve ser um grande fardo, o de herói — sempre na sua ceifa de glórias, na sua colheita de monstros! Sempre com toda a gente a observar-te, a julgar-te, a ver se continuas heróico. Sabes como é — hi, hi! Mais tarde ou mais cedo, a virgem das colheitas irá cometer o seu erro no monte de feno. — Ri-me.

O cheiro a dragão na sala intensificou-se, como se as minhas provocações estivessem a atrair o velho monstro. Peguei numa maçã e esfreguei-a rapidamente e ao de leve nos pêlos do braço. Tinha a cabeça baixa, e sorria, observando-o através das sobrancelhas.

— Criatura medonha... — disse ele. Continuei a esfregar a maçã, sorrindo.

— E o terrível incômodo — disse. — Ter de andar sempre direito, sempre à procura de palavreado nobre! Um homem há de se cansar.

Ele pareceu magoado e um tanto indignado. Tinha percebido.

— Figura desprezível... — disse.

— Mas haverá indubitavelmente recompensas — disse eu. — A imensa sensação de superioridade, o êxito fácil com as mulheres...

— Monstro! — gritou.

— E a alegria da autodescoberta, essa é uma grande recompensa! A certeza tranqüila e absoluta de que, sejam quais forem os perigos, por muito terríveis as probabilidades, te manterás firme, te comportarás com a dignidade de um herói, sim, até à morte!

— Chega de conversa! — gritou ele. A voz foi-se abaixo. Levantou a espada para carregar sobre mim, e eu ri-me — a bandeiras despregadas — e atirei-lhe uma maçã. Ele desviou-se, e a boca abriu-se, de queixo caído. Ri-me com mais força, arremessei outra. Voltou a desviar-se.

— Eh lá! — gritou ele. Um lapso compreensível. Choviam-lhe agora maçãs em cima e eu ria até não me ter nas pernas. Cobriu a cabeça, soltando berros. Tentou uma investida por entre as rajadas, mas foi incapaz de avançar meio metro. Acertei-lhe com uma em cheio no nariz bexigoso, e o sangue espirrou como dois afluentes. O chão tornou-se escorregadio, e ele caiu. Clang! Agarrei-me à barriga de tantas gargalhadas. Pobre do Fanfarrão — Unferth — tentou aproveitar-se do fato para me atacar de gatas, agarrando-me pelos tornozelos, mas eu dei um salto para trás e virei a mesa sobre ele, enterrando-o debaixo de uma montanha de maçãs vermelhas e inocentes como sorrisos.

Ele gritou e debateu-se, tentando alcançar-me e, ao mesmo tempo, tentando ver se os outros estavam a assistir. Estava a chorar, um rapazinho apenas, herói famoso ou não: uma pobre virgem miserável.

— É a vida — disse eu, e simulei um suspiro. — É a dignidade!

Deixei-o então. Tinha retirado mais prazer daquele combate de maçãs do que de qualquer outra batalha na vida.

Tinha a certeza, ao regressar à caverna (era quase alvorada), de que não me perseguiria. Nunca me perseguiam. Mas estava enganado; este era um tipo novo de scylding. Deve ter começado a seguir-me naquela mesma manhã. Um homem obcecado, um maníaco. Alcançou a caverna três noites depois.

Eu estava a dormir. Acordei sobressaltado, sem saber o que me tinha despertado. Vi a minha mãe passar por mim devagar e em silêncio, com um ar de desespero nos olhos. Apercebi-me imediatamente da situação, não com a cabeça, mas com algo mais célere, e atravessei-me à sua frente para lhe bloquear o caminho. Empurrei-a para trás.

Ali estava ele, prostrado e ofegante como uma ratazana afogada. A cara, a garganta e os braços eram uma malha de cortes supurantes, as marcas das cobras de fogo. O cabelo e a barba pendiam como algas. Ficou muito tempo a arfar, depois revirou os olhos, vagamente na minha direção. Não me podia ver no escuro, embora eu o pudesse observar. Fechou a mão sobre o punho da espada e agitou-a ao de leve, muito fraco para a levantar do chão.

— Unferth chegou! — disse.

Sorri. A minha mãe andava de um lado para o outro como uma ursa atrás de mim, excitada com o cheiro.

Ele arrastou-se na minha direção, puxando ruidosamente a espada pelo chão rochoso da caverna. Deteve-se novamente, esgotado.

— Será cantado — sussurrou, depois voltou a parar para recuperar o fôlego. — Será cantado de ano para ano, de era para era, que Unferth mergulhou pelo lago em chamas... — fez uma pausa — ...e deu a vida numa batalha com o monstro dos confins do mundo.

Deixou a face tombar no chão e ficou muito tempo a arfar, sem dizer nada. Apercebi-me de que estava à espera que eu o matasse. Nada fiz. Sentei-me de cotovelos apoiados nos joelhos e o queixo nas mãos e fiquei a ver. Ele jazia de olhos fechados e começava a recuperar o fôlego. Sussurrou:

— É fácil fazer pouco de mim diante dos soldados meus companheiros. É fácil falar de dignidade e de palavras nobres e de tudo o mais, como se o heroísmo fosse uma bugiganga dourada, apenas para fazer vista, e vazia. Mas não é o caso, monstro. Isto é... — Deteve-se, pareceu indeciso; tinha perdido o curso dos seus pensamentos.

Eu não disse nada, limitei-me a esperar, impedindo a minha mãe de se aproximar com um braço esticado.

— Até aqui zombas de mim — sussurrou Unferth. Tive a sensação incômoda de que estava à beira das lágrimas. Se ele chorasse, não tinha a certeza de que me conseguiria controlar. As suas ambições de rara glória eram uma coisa. Mas se, por um instante que fosse, ambicionasse miséria como a minha...

— Julgas-me um louco desmiolado — sussurrou. — Oh, eu ouvi o que disseste. Percebi as tuas insinuações maldosas. “Pensava que só os havia nos poemas”, foi o que disseste. Dando a entender que aquilo em que me tornei não passa de um conto de fadas. — Levantou a cabeça, tentando lançar-me um olhar furioso, mas o seu olhar cego ia na direção errada, seguindo as passadas da minha mãe. — Pois não é assim, deixa que te diga. — A boca tremeu-lhe e tive a certeza de que se ia pôr a chorar, teria de o destruir só do nojo, mas ele agüentou-se. Deixou a cabeça cair novamente e respirou fundo. Uma réstia da sua voz regressou, pelo que já não precisava de sussurrar, passando a entoar as palavras num lamento esganiçado. — Poesia é lixo, nuvens de palavras apenas, consolo para os desesperados. Mas não é uma nuvem, não é um fantasma silabado que aqui se encontra, agitando a espada na tua cara.

Deixei passar o exagero.

Mas não Unferth.

— Ou que aqui jaz, caído — disse. — Um herói não tem medo de enfrentar a verdade cruel. — Isso lembrou-o, aparentemente, do que tinha querido dizer antes. — Falas do heroísmo como se fosse palavras nobres, dignidade. É mais do que isso, como prova a minha visita. Ninguém à face da terra saberá se Unferth morreu aqui ou fugiu para os montes como um cobarde. Só tu, eu e Deus saberão a verdade. Heroísmo interior é isso.

— Hmm — disse eu. Não era invulgar, claro, ouvi-los contradizer-se, mas teria preferido se ele se tivesse limitado a uma única versão, ou saberiam e cantariam a sua tragédia ou não. Assim teria sido num poema, decerto, se Unferth fosse uma personagem, boa ou má, heróica ou não. Mas a realidade, com muita pena minha, é essencialmente esfarrapada. Deixei escapar um suspiro.

Levantou a cabeça de supetão, chocado.

— Será que nada tem valor nas ruínas horríveis dessa tua cabeça?

Aguardei. Aquela cena de merda era toda idéia dele, não minha.

Vi a luz nascer-lhe no olhar.

— Compreendo — afirmou. Pensei que se fosse rir da estupidez sem fundo do meu cinismo, mas enquanto o riso ainda se começava a formar nos cantos dos olhos, outra expressão apoderou-se dele, próxima do medo. — Julgas-me iludido. Enganado pelo meu conto de fadas ambulante. Julgas que vim sem esperanças de ganhar — de escapar à indignidade através do suicídio! — Riu-se agora, mas não de satisfação: riu-se de pesar e raiva. As gargalhadas morreram rapidamente. — Não sabia a profundidade da lagoa — disse.

— Tinha uma hipótese. Sabia não ter mais do que isso. Um herói não pede mais.

Suspirei. A palavra “herói” começava a irritar. Ele era mas é um idiota. Estava capaz de o esmagar como uma mosca, mas contive-me.

— Força, faz pouco de mim — disse ele, petulante.

— A não ser na vida de um herói, todo o mundo é insignificante. O herói vê valores para lá do possível. É a natureza do herói. Acabará por matá-lo, claro. Mas faz com que toda a luta da humanidade valha a pena.

Acenei a cabeça no escuro.

— E distrai do tédio — acrescentei.

Ele apoiou-se sobre o cotovelo, e o esforço deixou-o de ombros a tremer.

— Um de nós morrerá esta noite. Será que isso te distrai do tédio?

— Não é verdade — disse. — Dentro de minutos levar-te-ei de volta a Hrothgar, são e salvo. Era uma vez a poesia.

— Eu mato-me — murmurou. Tremia violentamente.

— É contigo — respondi friamente — mas tens de admitir que irás parecer um bocado cobarde para alguns.

Os seus punhos fecharam-se e os dentes cerraram-se; depois descontraiu e permaneceu estendido.

Esperei que encontrasse uma resposta. Passaram-se minutos. Apercebi-me de que tinha desistido. Vislumbrara um ideal glorioso, esforçara-se por o alcançar e compreender, e acabara desiludido. Uma pessoa condoía-se.

Estava a dormir.

Peguei nele com cuidado e carreguei-o até casa. Deitei-o às portas do salão de Hrothgar, ainda a dormir, matei os dois guardas para que não fosse mal interpretado, e fui-me embora.

Ele continua a viver, amargo, enfrentando sem ânimo os meus assaltos noturnos de tempos a tempos (três vezes este Verão), louco de vergonha por ser o único a ser poupado, e invejando furiosamente os mortos. Rio-me quando o vejo. Ele lança-se a mim, ou aproxima-se sorrateiramente pelas costas, por vezes disfarçado — de cabra, de cão, de velha doente — e eu rebolo no chão a rir. Era uma vez o heroísmo. Era uma vez a virgem das colheitas. Era uma vez, também, as visões alternativas de velhos poetas cegos e dragões.

 

O equilíbrio é tudo, quando se navega o tempo como uma barcaça sem leme, de quilha voltada para o Inferno, mastro levantado a vazar o olho dos céus. Ih, ih! (Suspiro.) Os meus inimigos definem-se (como afirmou o dragão) com base na minha pessoa. Quanto a mim, podia aniquilá-los numa noite, arrancar as grandes traves esculpidas e soterrá-los nos escombros do salão, juntamente com os ratos, as canecas e as batatas — mas contenho-me. Não sou propriamente cego ao absurdo. Forma é função. Que iremos chamar ao Destruidor de Hrothgar quando Hrothgar tiver sido destruído?

(Dança, besta. Deixa tudo passar. Parece um bom lugar, este — rocha plana, luar, panoramas distantes! Canta!

‘Tudinho do Hrothgar,

Do Grendel vilão!

‘Tudinho do Grendel,

Ão, ão, ão!

Não tarda é Inverno.

(murmurando, murmurando. Grendel, meu querido, já te passou pela cabeça que enlouqueceste?)

(Ele entrelaça delicadamente os dedos por cima da cabeça, estica os dedos do pé — aai! que unhas horríveis!!— dá um passo, faz uma pirueta:

O Grendel é doido,

Ão, ão, ão!

Julga que Hrothgar

Faz um nevão!

O equilíbrio é tudo, quando se parte com a rima...

‘Tadinho do Grengar,

Do Hrothdel vilão!

Remoinho abaixo:

Iiii! Não, não!

Não tarda é Inverno.

Estamos a meio do décimo segundo ano da minha guerra idiota.

Tenho esperanças de que o doze seja um número sagrado. É o número de fugas de armadilhas.

[Ele procura sinais no mundo iluminado pela Lua, resguardando os olhos do escuro, apoiado num pé hirsuto, um tudo-nada ensangüentado, faltando-lhe um dedo, de um velho encontro com um machado. As três árvores mortas na charneca abaixo, imoladas por um raio, são um presságio ominoso. (Oh pá, nós, os presságios!) Também as árvores. Num monte gretado do frio ao longe, homens a cavalo. “Aqui!” grita ele. Acena com os braços. Eles hesitam, fingem-se surdos, galopam para norte. Esfarrapado, fica a vê-los. Todo o gélido universo, esfarrapado.]

Basta! É noite de arrancar cabeças, de tomar banhos de sangue! Tirando, é pena, o fato de já ter morto a sua quota para a estação. Toma, toma bem conta da galinha dos ovos de ouro. Não há limite para o desejo a não ser o das suas necessidades. (Lei de Grendel.)

O cheiro do dragão. Forte à minha volta, quase visível, como o meu bafo.

Vou contar as minhas inúmeras bênçãos, uma a uma.

  1. Tenho dentes saudáveis,
  2. O teto da minha caverna é sólido,
  3. Não cometi o derradeiro ato de niilismo: não matei a rainha,
  4. Ainda.

(Deita-se à beira do precipício, coçando a barriga, e observa-se pensativamente a observar pensativamente a rainha.)

Não é fácil de definir. Matematicamente, talvez um toro, um tanto ou quanto cilíndrico, com protuberâncias e constrições a intervalos regulares, nodoso — isto é, uma superfície gerada, mais ou menos, pela rotação de uma seção cônica em torno de um eixo paralelo ao seu plano, e o sólido aí contido. É difícil, claro, ser preciso. Para começar, o problema de determinar que quantidade é rainha e que quantidade é a sua radiação.

O monstro ri-se.

Corte transversal do Espaço-Tempo: Wealtheow.

Corte A:

Estávamos no segundo ano dos meus assaltos. O exército dos scyldings encontrava-se debilitado, dizimado. Acabara-se o ribombar dos cavaleiros de Hrothgar, cavalgando pela noite, com a cota de malha a tilintar no uivo do vento, capas a esvoaçar como asas coleantes, indo ao socorro de pequenos tributários. (Ouçam-me, ó montes!) Era incapaz de proteger o seu próprio salão, e muito menos os deles. Cortei no meu número de visitas, conservando a caça, e fiquei a vê-los. Amante da natureza. Durante semanas a fio, todo o dia e até às altas horas da madrugada, reuniu-se com o seu conselho, e nesse tempo falaram, oraram e lamentaram-se. Apercebi-me, ao escutá-los, de que eu não era a sua única ameaça. Para leste do salão de Hrothgar erguia-se um novo salão, e o seu jovem rei vinha ganhando fama. À semelhança do que Hrothgar fizera, este rei mais novo incendiava e saqueava sistematicamente os salões próximos, alargando o círculo do seu poder tributário. Alcançava agora a fronteira exterior da esfera de Hrothgar; era uma questão de tempo até lançar uma investida. Os conselheiros falaram, beberam e choraram, entre eles, por vezes, os aliados de Hrothgar. O Poeta cantou. Os homens levantaram-se com os seus braços cingidos de braceletes nos ombros uns dos outros — homens que, há não muito tempo, tinham sido inimigos mortais — enquanto assisti a tudo, contorcendo os dedos, sorrindo de raiva. As folhas fizeram-se vermelhas. As flores púrpura dos cardos enegreceram nas traseiras das casas, e as aves migratórias partiram.

Então, de todos os cantos da esfera de influência de Hrothgar e das aldeias mais além — os vassalos dos vassalos — começou a formar-se um exército. Apareceram a pé e a cavalo, com os bois puxando as suas carroças carregadas de escudos, lanças, tendas, roupa e comida. Todas as noites, quando ia ver, encontrava mais. Rodas de carroça da altura de um homem, com rudes eixos quadrangulares. Cavalos ruços de cascos grossos, e pelagem a lembrar a dos lobos, que reviravam os olhos e relinchavam a cada passada minha, ligados a homens como que amarrados às suas obrigações por arreios que não podia ver. Soaram trompas no sossego do anoitecer; chiaram pedras de amolar. O ar fresco tresandava ao cheiro dos seus cozinhados.

Acamparam num pasto íngreme orlado por enormes carvalhos, pinheiros e nogueiras, e um regato descendo pelo meio, sobre degraus rochosos. Onde a floresta começava, havia um lago. Todas as noites, surgiam novos grupos de fogueiras a repelir a geada, e cedo deixou de haver lugar, eram tantos os homens e os animais. A erva, as folhas secas, enchiam-se de sussurros, mas o acampamento estava em silêncio, abafado pela sua presença, como que tomado por uma maleita. Fiquei a ver do meu esconderijo. Falavam em murmúrios ou não falavam sequer. Os mensageiros andavam de fogueira em fogueira, falando baixinho com os líderes. As suas peles ricas reluziam como as asas de um pássaro à luz do fogo. Fortemente protegidos, os soldados mais novos abriam caminho pela multidão e, durante toda a noite, lavavam a roupa e a louça no regato até a água ficar turva da lama e da gordura e deixar de fazer barulho ao cair no lago. Quando dormiam, cães e guardas vigiavam-nos como rebanhos. Antes de amanhecer, os homens levantavam-se para exercitar os cavalos, puxar o lustro às armas, ou aventurar-se com arcos em busca de veados.

Então, certa noite quando os fui observar, tinham desaparecido, como estorninhos de uma árvore. Segui no seu encalço — marcas de pés e de cascos, e os sulcos das carroças abrindo uma ferida imunda em direção ao leste. Quando os avistei, abrandei o passo, rindo e felicitando-me; ia ser um massacre. Marcharam toda a noite, depois espalharam-se pela floresta como lobos e dormiram todo o dia sem fogueiras. Deitei a mão a um boi e devorei-o, sem deixar rastos. Com o anoitecer, voltaram à formação. Pela meia-noite, os exércitos chegaram ao salão das hastes.

Hrothgar chamou-o, glorioso protetor dos scyldings, da barba coberta de geada:

— Hygmod, senhor dos helmings, saúda os teus hóspedes!

Unferth estava a seu lado, de enormes braços cruzados sobre o lorigão. Tinha a cabeça baixa, olhos abertos em frestas, com a boca fechada onde o bigode se sobrepunha à barba. A amargura emanava dele como uma escuridão palpável: Unferth o herói (famoso nas terras da Escânia), isolado naquela multidão imensa como uma serpente venenosa consciente da sua identidade. O rei Hrothgar chamou outra vez.

O jovem rei saiu à rua, bem armado, conduzindo um urso e seis lacaios. Olhou em volta, louro e pálido, com os braços cingidos de ouro, e um sorriso tênue a esconder-lhe o choque. O exército dos scyldings e seus aliados espalhava-se a perder de vista na noite — pela encosta do monte, pelas estradas pavimentadas, pelo meio das árvores.

Hrothgar fez um discurso, empunhando a sua lança de pau de freixo e agitando-a. O homem novo aguardou como pedra, com a mão direita enluvada segurando a corrente que prendia o urso. Não tinha hipóteses, e sabia-o. Sabiam todos, menos o urso a seu lado, de pé, observando a multidão. Sorri. Já cheirava o sangue que ensoparia o chão antes do amanhecer. Havia uma aragem ligeira, trazendo consigo um cheiro a invernia. Agitava o pêlo na roupa dos homens e as folhas à minha volta. O urso caiu sobre as quatro patas e grunhiu. O rei puxou a corrente. Surgiu então um velho do salão e acercou-se do jovem rei, mantendo-se fora do alcance do urso, para falar com ele. Hrothgar e os seus aliados estavam em silêncio, à espera. O rei novo e o velho conversaram. Os lacaios chegados à porta do salão juntaram-se à conversa, em voz baixa. Aguardei. O exército de Hrothgar estava todo ele em silêncio. O jovem rei aproximou-se então de Hrothgar. Um burburinho percorreu a multidão, depois esmoreceu como uma onda afastando-se, arrastando calhaus da praia. Por fim, muito devagar, o jovem rei desembainhou a espada, com a mão esquerda — sinal de tréguas — e deixou-a cair, como que ao acaso, diante do cavalo de Hrothgar.

— Temos oferendas — disse o rei mais novo — um esplêndido tributo em sinal do nosso grande respeito pelos honrados scyldings. — A sua voz e sorriso eram amáveis. Os olhos, oblíquos como os de um peixe, mostravam-se vazios como poços secos.

Unferth riu-se, sozinho no silêncio. O som ribombou escuridão dentro até morrer entre as árvores.

Hrothgar, de cabelo e barbas brancas como o deus do gelo, acenou negativamente com a cabeça.

— Não há nada que a tua gente possa oferecer aos scyldings — disse. — Julgas poder ganhar tempo com ouro, para depois, certa noite quando estivermos com o nosso mulso, tu e os teus valentes aliados nos caírem em cima — bum! — como hoje caímos sobre vós, sem que nenhuma oferta nossa seja capaz de aplacar então a vossa fúria. — O velho sorriu com maldade no olhar. — Tomas-nos por crianças brincando com animais nos terreiros? Que teríamos nós para oferecer que não pudessem vocês tomar pela força, e em quantidade dez vezes superior?

Unferth sorriu, observando o urso. O jovem rei mostrou-se impassível, aceitando a piada e o argumento como se já os esperasse. Deu outro puxão à corrente e o urso aproximou-se dele. Quando já tinha esperado o suficiente, voltou a levantar os olhos para Hrothgar.

— Posso dar-vos tesouros tais — disse — que não me restaria nada com que pagar um exército. Então estarias seguro.

Hrothgar riu-se.

— És matreiro, rei dos helmings. Um rei de palavras astutas é capaz de organizar um grande exército com base em promessas. O tesouro que recuperarias destruindo-me a casa chegaria para fazer de todos os teus espadachins homens ricos. Vamos lá! Chega de conversa! Está uma noite fria, e temos vacas para ordenhar pela manhã. Às armas. Cederemos terreno. Não viemos para vos matar como se fossem raposas nas tocas.

Mas o jovem rei continuou à espera. Continuava a sorrir, ainda que os seus olhos não tivessem vida. Tinha algo reservado, fruto da inteligência do seu conselheiro, para lhes frustrar os planos. Disse, falando mais baixo do que anteriormente:

— Mostrar-te-ei um tesouro capaz de te fazer mudar de idéias, ó grande Hrothgar.

Virou-se para um dos acompanhantes e fez sinal. O acompanhante foi ao salão.

Ao fim de uma longa espera, regressou. Não trazia nada. Atrás dele, os homens abriram por completo a porta do salão. A luz irrompeu sobre o monte e cintilou nas armas e nos olhos dos scyldings. O urso mexeu-se, inquieto, irritado, como a fúria do jovem rei retirada para a ponta de uma corrente. O velho Hrothgar aguardou.

Então, por fim, avançando devagar, como se caminhasse num sonho, uma mulher com uma túnica prateada saiu deslizante do salão. O seu longo cabelo sedoso era vermelho como o fogo e suave como os reflexos rosados no ouro do dragão. O rosto era afável, enigmaticamente calmo. A noite sossegou mais.

— Ofereço-te a minha irmã — disse o jovem rei. — Que doravante se passe a chamar Wealtheow, ou serva sagrada do bem comum.

Lancei um olhar de esguelha da escuridão sussurrante da minha árvore. O nome era ridículo.

— Seu idiota pomposo! — soprei.

Mas Wealtheow era bela e entregou-se com a dignidade de uma virgem sacrificial. O meu peito enchia-se de mágoa, os olhos ardiam, e tive medo — Ó truque monstruoso contra a razão — tive medo de começar a chorar. Quis esmagar coisas, demolir a noite com um urro de raiva. Mas fiquei quieto. Era bela, inocente como a madrugada nos montes invernais. Fez-me em pedaços como em tempos fizera a canção do Poeta. Como que para meu proveito, como que troçando maldosamente de mim, surgiram várias crianças do salão, correndo na direção dela, chorando, para a segurar pelas mãos e pelo vestido.

— Parem! — sussurrei. — Estúpidas! Wealtheow não olhou para elas, apenas lhes afagou a cabeça.

— Sossegados — disse ela — pouco mais do que um sussurro, mas chegou a toda a multidão. Ficaram quietos, como se a sua voz fosse mágica. Finquei os dentes, lavado em lágrimas. Parecia uma criança, o seu rosto doce mais pálido do que a Lua. Olhou para a barba de Hrothgar, não para os seus olhos, cheia de medo.

— Meu amo — disse.

Ó aflição! Ó maldita violação do sentido!

Era capaz de me ver saltar da árvore alta e correr de gatas através da multidão para lhe chegar, uivando, gemendo, lançando-me ao chão, babando-me e prostrando-me a seus pés, que eram pequenos e calçavam botas de pele. “Misericórdia!” gritaria eu. “Aargh! Burble!” Tapei os olhos e esforcei-me para não rir.

Não é preciso dizer mais nada. O velho rei aceitou a oferenda do mais novo, juntamente com outras coisas — espadas e taças, algumas raparigas e rapazes, servos dela. Ao longo de vários dias, ambos os lados proferiram discursos, longos, entediantemente poéticos, completamente falsos, e depois, com muito choro e fungadelas, os scyldings carregaram Wealtheow e as belezas menores para uma carroça, fizeram umas quantas últimas observações comoventes, e foram para casa.

 

Invernia. Não fui capaz de lhes tocar com um dedo, impedido como que por um encantamento. Refugiei-me na caverna, a ranger os dentes, esmurrando a testa e amaldiçoando a natureza. Às vezes, subia ao penhasco gelado e ficava a olhar para baixo, para o fundo, para onde as luzes ardiam azuis, como filamentos irradiando de uma estrela, salpicando a neve. Os meus punhos martelavam a rocha gelada do penhasco. Mas não me bastava. De volta à caverna, ouvia a minha mãe andar de um lado para o outro, uma figura pálida movida pela agitação e raiva que sentia pela agitação e raiva que pressentia em mim e não podia curar. De bom grado teria dado a vida para acabar com o meu sofrimento — criatura horrível, corcunda, com dentes de carpa e olhos incandescentes de amor fútil e irracional. Quem podia deixar de ver o terrível paralelo? Da mesma maneira, a senhora lá em baixo daria, e dera, a vida por aqueles que amava. Da mesma maneira teriam agido todas as fêmeas dengosas da sua corte, na devida situação, dadas as condições mínimas. O cheiro do dragão rodeava-me como fumo sulfuroso. Às vezes, acordava em pânico, incapaz de respirar.

Às vezes, descia.

Ela transportava a vasilha de mulso de mesa em mesa, com um sorriso sereno, como se as pessoas que servia, a gente do marido, fossem também as suas. O velho rei observava com um olhar pensativo, comovido como que pela música do Poeta, salvo que aqui era diferente: não eram as visões de glórias possíveis ou as revisões dissimuladas do passado sangrento, mas a beleza do presente que fazia o curso do tempo parecer ilusório, como uma ordem inferior agora suspensa. O significado enquanto qualidade. Quando os bêbedos discutiam, confrontando teorias, atacando os absurdos uns dos outros, ela interpunha-se, sem palavras, sem condenações, servindo mulso como amor de mãe, e eles comoviam-se, recordados da sua qualidade humana, exatamente como se teriam comovido com o choro de uma criança em perigo, o sofrimento de um velho, ou a Primavera. O Poeta cantava sobre coisas que nunca antes lhe haviam passado pela cabeça: bem-estar, beleza, uma sabedoria mais terna, mais permanente, que a de Hrothgar. O velho rei assistia, distante da rainha, embora partilhassem a mesma cama, e cismava.

Certa noite, ela deteve-se diante de Unferth. Ele sentava-se acabrunhado, sorrindo amargamente, como sempre, de músculos retesados como velhas cordas náuticas num furacão. Era feio como uma aranha.

— Senhor? — disse ela. Era freqüente chamar “senhores” aos dinamarqueses. Serva até do mais reles de entre eles.

— Não, obrigado — respondeu ele. Lançou-lhe um olhar, depois baixou os olhos e fez um sorriso feroz. Ela aguardou, inexpressiva, a não ser por um vestígio mínimo de perplexidade. Ele acrescentou: — Já bebi que chegue.

Ao fundo da mesa, um homem animado pelo mulso disse:

— Há quem tenha morto o irmão por beber mulso a mais. Hah, hah.

Uns quantos riram-se.

Unferth ficou hirto. A rainha empalideceu. Mais uma vez, Unferth lançou um olhar à rainha, e então desviou-o. Os punhos cerraram-se sobre a mesa à sua frente, a centímetros da faca. Ninguém se mexeu. O salão caiu no silêncio. Ela ficou com um olhar estranho, como se os observasse de outro mundo e de outra época. Quem sabe o que ela terá percebido? Eu sabia, por exemplo, que o fratricida vestira a idéia do herói do Poeta como uma máscara alegre, acabando por a ver arrancada, e estando agora reduzido ao que de fato era: um animal pensante despido das suas antigas ilusões, teimando em viver, na vergonha e na insignificância, porque matar-se seria, como a sua própria vida, pouco heróico. Era um paradoxo que nada podia desfazer senão um risinho criminoso. O instante alongou-se, um obstáculo no curso do tempo, e enquanto isso ninguém se mexeu, ninguém falou. Como que em desafio, Unferth, o fratricida, voltou a levantar os olhos para a rainha, mas desta vez não os baixou. Seria desprezo? Vergonha?

A rainha sorriu. Impossivelmente, como rosas a desabrochar no coração de Dezembro, disse:

— Coisas do passado.

E eram. O demônio estava exorcizado. Vi as mãos dele abrirem-se, descontrair, e eu — indeciso entre as lágrimas e um urro de desprezo — arrastei-me de volta à caverna.

Não se dava o caso, atenção, de ela ter reservas secretas de alegria que transbordavam para todos. Deitada com o rei adormecido — observava-a onde quer que ela fosse, como um guardião astucioso, rico em artimanhas — ficava de olhos abertos, com as pestanas a cintilar das lágrimas. Era mais criança, nestas alturas, do que mulher. Pensando na sua casa, recordando caminhos da terra dos helmings onde chegara a brincar, antes de ter sacrificado a sua felicidade em nome da deles. Abraçava o corpo nu e ossudo do rei como se este fosse a criança, sem nada para o separar da escuridão a não ser os braços brancos dela. Às vezes, esgueirava-se da cama enquanto ele dormia e atravessava a porta para se aventurar sozinha na noite. Sozinha e nunca só. Num ápice, os guardas rodeavam-na, esta mulher preciosa, o mais incalculável dos tesouros dos scyldings. Punha-se a olhar para leste, à mercê do vento frio, com a mão apertando o vestido junto à garganta, e os guardas silenciosos circundando-a como árvores. Apesar de criança, jamais dava sinais da sua mágoa diante deles. Por fim, um guarda vinha falar-lhe, fazia menção ao vento, e Wealtheow sorria e acenava com a cabeça, agradecida, e ia outra vez para dentro.

Certa vez, naquele Inverno, apareceu o irmão, com o urso e uma grande comitiva, para a visitar. As suas conversas e gargalhadas ribombaram penhasco acima. Os dois bandos beberam, o Poeta cantou, e depois voltaram a beber. Escutei-os ao longe o tempo que consegui agüentar, fechando o pensamento sobre as palavras do dragão, e depois, impotente como de costume, desci. O vento uivava, juntando a neve em rajadas e cegando a noite com poeira branca de gelo. Caminhei vergado para me proteger do frio, resguardando o olhar com os braços. Árvores, postes e alpendres agigantavam-se no meu campo de visão, desaparecendo então, engolidos pelo branco. Quando me acerquei de Heorot, pude sentir o cheiro dos guardas do salão à minha volta, mas não os consegui ver — nem eles, claro, me conseguiam ver a mim. Avancei direito à parede, adentrando-me de joelhos na neve, e encostei-me para receber o seu calor. A parede tremia e abanava do barulho no interior. Baixei-me para espreitar pela fresta que tinha usado antes.

Ela estava mais viva do que o fogo na lareira, falando de novo com a família e amigos, assistindo às cabriolas do urso. Era o rei, o velho Hrothgar, que naquela noite levava a vasilha de mulso de mesa em mesa. Caminhava, digno, de grupo em grupo, sorrindo e enchendo as taças, e, a julgar pela cara dele, uma pessoa teria jurado que o velho não descobrira a felicidade absoluta até àquela noite. De vez em quando, olhava de relance para a sua rainha, enquanto andava pelo meio das pessoas, as dele e as dela, os dinamarqueses e os helmings, e com cada relance o sorriso ficava mais caloroso um momento, e um ar sério turvava-lhe o olhar. Depois passava-lhe — um gesto ou palavra de um convidado ou soldado scylding — e ele mostrava-se caloroso e jovial: não estava a ser insincero, exatamente, mas menos do que no instante do olhar. Quanto à rainha, parecia não saber que ele ali estava. Sentava-se ao lado do irmão, de braço dado com este e uma velha encarquilhada, parente de muita estima. O urso sentava-se de pernas abertas, a brincar com o pênis e contemplando o salão com um ar rabugento, como se tivesse a noção de estar a fazer algo que os humanos não aprovariam. Os helmings falavam todos ao mesmo tempo, efusiva e constantemente, como se tentassem espremer todo o passado no espaço de uma noite. Não consegui ouvir o que diziam. O salão ribombava — vozes, o tilintar de taças, o arrastar de pés. Às vezes, Wealtheow inclinava a cabeça para trás, deixando o cabelo ruivo de cobre cair solto, e ria-se; outras vezes, escutava, com a cabeça de lado, ora sorrindo, ora franzindo sobriamente os lábios, oferecendo um sorriso apenas. Hrothgar voltou para o trono entalhado, entregando a vasilha ao mais nobre dos seus soldados, e sentou-se como um velho que escuta no pensamento as vozes da sua infância. Uma vez, a rainha olhou longamente para ele enquanto escutava o irmão, com um ar tão pensativo quanto o de Hrothgar. Depois riu-se e voltou a falar, e o rei conversou com o homem à sua esquerda; era como se as suas almas nunca se tivessem tocado.

Mais tarde, naquela noite, passaram uma harpa de mão em mão — não o instrumento do velho Poeta, ninguém tocava nesse — e o irmão da rainha cantou. Não era artista nenhum, fosse com os dedos ou com a garganta, mas todo o salão se calou, à escuta. Cantou, qual criança não fosse o Inverno dos seus olhos cinzentos, a história de um herói que matara, por amor, o pai idoso de uma rapariga, e de como a rapariga passara a amar e odiar simultaneamente o herói, até que por fim o matou. Wealtheow sorria, cheia de mágoa, enquanto escutava. O urso observava os cães com um ar irritado. Outros cantaram então. O velho Hrothgar ficou a ver e ouvir, cismando sobre os perigos. (O irmão da rainha tinha cabelo louro, como a palha, e olhos cinzentos de ardósia. Por vezes, quando olhava de relance para Hrothgar, o seu rosto era uma faca.)

Com o aproximar da madrugada, foram-se todos deitar. Meio enterrado na neve, com um frio mortal a subir-me pelos pés, mantive-me de vigia. A rainha pôs a mão no ombro despido de Hrothgar enquanto este dormia e olhou-o, pensativa, exatamente como Hrothgar teria olhado para ela e para a sua gente. Afastou uma madeixa de cabelo do rosto dele. Ao fim de bastante tempo, fechou os olhos, mas até hoje não sei se ela estaria mesmo a dormir.

 

E assim, na caverna, tossindo por causa do fumo e apertando os pés queimados das frieiras, rangi os dentes da minha própria absurdidade. Seja qual for a desculpa deles, eu não tinha nenhuma, sabia: tinha visto o dragão. Cinzas às cinzas. E no entanto era provocado — torturado pelo ruivo daquele cabelo, pela firmeza do queixo e pela brancura dos ombros — provocado ao ponto da descrença nas verdades do dragão. Aproximava-se um momento glorioso, insistia o meu peito, e mesmo o fato de eu não desempenhar nele qualquer papel — como membro da raça amaldiçoada por Deus, segundo o conto do Poeta — era de somenos. Imaginei a sua mão sardenta acariciar o braço do velho da mesma maneira que escutara o suspiro da harpa do Poeta. Ah, maldito, maldito! Quantas vezes terá uma criatura de ser arrastada pelo mesmo ridículo caminho? As mentiras do Poeta, as ilusões do herói, e agora isto: a idéia de uma rainha! A minha mãe, respirando pesadamente, passando as unhas tortas pela pelagem, observava-me e por vezes gemia.

E assim, na noite seguinte — estava escura como breu — escancarei a porta do salão, matei homens, e avancei furiosamente direito à porta atrás da qual dormia a rainha. O glorioso Unferth dormia mesmo ao lado. Levantou-se para me enfrentar. Afastei-o para o lado à bofetada, como uma criança incômoda. O irmão da rainha despertou, soltou o urso. Aceitei o seu abraço no meu e parti-lhe a espinha. Entrei com um estrondo no quarto. Ela levantou-se aos gritos, e eu ri-me. Agarrei-lhe um pé, e agora os gritos reais eram ensurdecedores, exatamente como a chiadeira de um porco. Ninguém a veio defender, nem mesmo o suicida Unferth, que ficou à porta, gritando enraivecido — com o ódio que nutria por si. O velho Hrothgar tremia como varas verdes, fazia ruídos lunáticos e babava-se. Podia tê-la puxado da cama e esmagado a sua cabeça dourada contra a parede. Eles assistiram, horrorizados, helmings de um lado, scyldings do outro (o equilíbrio é tudo), enquanto eu a agarrei pelo outro pé e lhe abri as pernas como se a fosse partir ao meio.

— Deuses, deuses! — gritou ela.

Esperei para ver se algum deus aparecia, mas nem sinal deles. Ri-me. Ela chamou o irmão, e depois Unferth. Eles ficaram onde estavam. Resolvi matá-la. Comprometi-me a fazê-lo, lenta e horrivelmente. Começaria por segurá-la por cima da fogueira e cozer-lhe aquele buraco feio entre as pernas. Ri-me ainda mais ao pensar nisso. Gritavam todos agora, gemendo e chorando aos seus deuses feitos de pauzinhos mortos. Sim, ia matá-la! Espremer-lhe-ia as fezes entre os dedos. Era uma vez o significado enquanto qualidade de vida! Ia matá-la para lhes ensinar a realidade. Grendel, o professor de verdades, o verificador de quimeras! Seria assim daquele dia em diante — a minha obrigação, o meu caráter enquanto vivesse — e nada, vivo ou morto, me faria mudar de idéias!

Mudei de idéias. Não teria significado, matá-la. O mesmo significado que teria deixá-la viver. Para mim, seria um prazer insípido, mera ilusão de ordem neste fulgor fátuo e fugaz no longo e monótono declínio da eternidade. (Fim de citação.)

Larguei-lhe os pés. As pessoas ficaram a olhar, incrédulas. Tinha demolido outra teoria. Abandonei o salão.

Mas curara-me. Foi quanto pude constatar, no mínimo, do meu comportamento. Concentrei-me na recordação da fealdade que ela tinha entre as pernas (lágrimas de sangue brilhante) e ri-me enquanto corri através da neve espessa. Estava uma noite sossegada. Conseguia ouvir os seus choros no salão.

— Ah, Grendel, seu velho endiabrado! — segredei às árvores. As palavras soaram a falso. (O leste estava cinzento.) Encontrava-me em equilíbrio, uma criatura de duas mentes; e uma delas afirmava — irracional, casmurra como as montanhas — que ela era linda. Resolvi, absoluta e terminantemente, matar-me, por amor ao Bebê Grendel que em tempos fui. Mas no instante seguinte, sem qualquer motivo em particular, mudei de idéias.

O equilíbrio é tudo, quando se escorrega na lama...

Corte B.

 

Após o assassinato de Halga, o Bondoso, estimado irmão do audaz rei Hrothgar (líder dos scyldings, manejador de espadas, manipulador de ouro que com a esposa tinha agora dois filhos) Hrothulf chegou a Heorot na angústia da orfandade.

 

(Escutai-me,

ó pedras e árvores, e cascatas estrepitosas! Imaginais-me contando estas coisas só para me ouvir falar? Algum respeito, irmãos e irmãs!

 

(Pobre Grendel,

filho da ira,

de olhos vermelhos na treva dos verbos,

esbracejando aos berros de rima em rima.)

 

         cena: A Chegada de Hrothulf a Heorot.

 

“Hrothulf! Vem à Tia Wealtheow!

Meu pobre, pobre rapaz!”

“É muito gentil da sua parte, minha senhora, acolher-me.”

“Ora, meu querido! És da família!” “Assim me dizem.” Um resmungo. Esboço de um sorriso. O velho rei carrega o sobrolho no seu cadeirão entalhado. O rapaz tem os modos, cisma ele, de um lobo mal domesticado.

Tem catorze anos e já aspira ao raio do trono? Idade, velha cadeia de vitórias, onde está o teu consolo? Pigarreia.

Não, não; precipito-me. O rapaz passou um mau bocado, naturalmente. O funeral do pai e tudo o mais. E dotado, claro, de um coração imponente, como todos os da sua linhagem. (Tantas vezes Scyld Scefing...)

(O falcão nas traves não tem opinião.) O Poeta canta — a harpa sussurra no salão como o vento estivai — “Através de feitos dignos de elogio, é possível a um homem, em qualquer reino, prosperar!” Assim.

O rapaz senta-se, solene, a ouvir a harpa de olhos fechados. Nos montes de Outubro do seu pensar sereno correm lobos.

Theorum: Qualquer ação (A) do coração humano dá necessariamente origem a uma reação igual no sentido oposto (A1).

É a opinião de ouro do Poeta. E por isso — observo satisfeito — acolhem Hrothulf; sereno como a Lua, doce escorpião, senta-se entre os seus dois e limpa a faca.

 

         cena: Hrothulf no Terreiro. Hrothulf fala:

 

Andrajosos, os camponeses sacham os campos, gordos de estupidez, se não de carnes. O aroma das suas comidas empesta as entradas, negras como calabouços, onde raparigas de olhar bovino dão mamãe à geração seguinte do néscio sacho. Os velhos de barba tinhosa coxeiam por ruelas empoeiradas para se juntarem, como cães esqueléticos, na praça cercada de deuses onde se administra a justiça do rei; para acenar como corvos aos deslizes pelos quais se perde um cavalo, ou aos delicados erros de foro através dos quais se libertam assassinos. “Viva o rei!” guincham, “a quem devemos tanta alegria!”

Opados de liberdade imaginada, se não de gordura, os grandes senhores dos senhores baixam os olhos de cão pastor e sorriem.

“Tudo está bem,” suspiram. “Viva o rei! Tudo está bem!”

A lei governa a terra. A violência do homem está acorrentada ao bem (i.e., ao rei): força legítima que decapita o ladrão de pão e limpa o machado. — A morte pelo livro.

Pensa, besta suada! Olha e pensa! Donde vieram as peles nas costas dos teus generosos protetores?

Porque morre o ladrão de pão e escapa o soldado assassino por artifício do mais dispendioso dos advogados? Pensa! Aperta essa cara enrugada e agarra pela ponta o espigo de um pensamento cauterizante:

A violência talhou este buraco juncado de casebres nos bosques onde brincas à liberdade. Violência pouco mais legítima então que a de um lobo. E agora, pela violência, encurralam-nos — tu e eu, velho: reprimem a violência pouco régia e vil que é a nossa. Vem para a sombra.

Gostaria de ter uma palavra contigo e com o javardo teu filho.

 

             cena: Hrothulfno Bosque.

 

A nogueira, imensa por cima da minha cabeça, espreguiçando ramos negros e frios para agarrar o Sol, projeta-me uma sombra no coração. Os seus caminhos altos e sarapintados são lar seguro para as aves; esquilos lestos percorrem os veios da sua generosa mão; mas o chão por baixo está morto.

Estranha providência! Será que devo chamar tirana à árvore, visto que, onde cresce, nada mais sobrevive a não ser a própria e os seus hóspedes nas alturas? Condená-la por projetar uma sombra tão sufocante, por sugar a vida das ervas, e dealbar a folha da árvore nova por tão frívolos e esvoaçantes amigos?

A lei do mundo é a lei do Inverno, é indiferente. Também eu posso ser severo: roubar a luz pela violência da minha vontade e ser cantado pelo feito, à semelhança dele; drenar o meu chão de Considerações, firmar os desejos como pedras subterrâneas, deixar o que é velho adoecer e sucumbir.

Ela afaga-me o cabelo e sorri, afável, confiando na retórica do amor: Dar e receber. Mas a idéia cruza-me o pensamento, Tem de haver algo mais estável do que o amor. A árvore indistinta que se ergue ao alto consome o Sol; o chão está morto; anseio por chuva e vento.

 

     cena: A Rainha à Beira da Cama de Hrothulf. Wealtheow fala:

 

Tão novo e tão triste? Até a dormir? Piores tempos virão, meu amor. Os bebês cujo choro consolas Em breve terão direito a

Todos estes anéis de ouro! E o teu Amor quase fraternal arrefecerá então; O sorriso do primo esmorecerá Onde os primos mais novos governarem.

Quando era criança, amava de verdade Amor incondicional, sereno e profundo como o Mar do Norte. Mas entretanto vivi e agora já não durmo.

 

Em suma, assisti à idéia de violência crescer nele, e a apreensão em todos, divertido (velho corredor dos caminhos infernais, caminhante nos confins do mundo), chupando alegria do rancor — Ó, chupando-o até ao tutano! Ele mal falava quando chegou, escanzelado, borbulhento, imberbe a não ser por uma penugem no lábio superior e no queixo. Ao cabo de um ano, não falava sequer, a menos que a tal fosse obrigado, ou se encontrasse a sós com o velhíssimo e imundo camponês com quem se reunia por vezes nos bosques, o seu conselheiro. Hrothulf tinha cabelos pretos de carvão e olhos cor de avelã que nunca pestanejavam. Caminhava, como sempre, de cabeça pendurada e fazendo beicinho, como um homem esforçando-se por recordar algo. O velho — alcunhado de Cavalo Vermelho — tinha um ar de susto perpétuo, boca e olhos vermelhos e redondos, e cabelo branco num penacho em torno da cúpula alta e vazia da cabeça como raios de Sol: o ar de um homem que se recordou subitamente de algo. Segui os dois por caminhos à sombra, ladeados por caveiras, já que eu próprio os usava com freqüência (mas os nossos viajantes não as viam) — com Hrothulf a tropeçar nas raízes e nas pedras, e o velho coxeando sobre uma perna perra. Cuspia quando falava, de olhos esbugalhados. Tresandava.

— Abandonar a região da legalidade requer uma extraordinária conjuntura de circunstâncias — gritava o velho. Era surdo e gritava como se toda a gente o fosse também.

— O incitamento à violência depende da transvaloração de todos os valores quotidianos. De uma penada, os crimes mais hediondos convertem-se em feitos heróicos e meritórios. Malogrando-se a Revolução, será porque tu e todos os que lideras se alarmaram com a própria brutalidade.

Hrothulf caiu. O velho continuou a coxear caminho fora, absorto, agitando os punhos. Hrothulf olhou em volta, ligeiramente surpreso, percebeu que tinha caído e levantou-se. Quase voltou a cair na corrida que deu para apanhar o conselheiro.

— Não tenhas quaisquer dúvidas, meu caro príncipe — gritava o velho. — A ruína total das instituições e da moral é um ato criativo. Um ato religioso. A morte e o caos são a vida e a alma da revolução. Espero que não tenhas de te contar isto. Há uma grande quantidade de imbecis que o fariam.

— Oh não, senhor — disse Hrothulf.

— A alma! Que pretende um reino? Resguardar os valores da comunidade — regular compromissos — melhorar a qualidade do estado! Por outras palavras, proteger o poder das pessoas no poder e oprimir as restantes. Por acordo mútuo, é claro, assim dita a ficção. E eles seguem-na bastante bem. Há que admitir.

Hrothulf acenou com a cabeça.

— Há que admitir.

— Recompensas para as pessoas que melhor se ajustam ao Sistema, sabes como é. Os soldados imediatos do rei, os criados mais importantes dos soldados, e por aí fora até chegares às pessoas que não se ajustam de todo. Não há problema. Expulsa-as para os recantos mais negros do reino, deixa-as morrer à míngua, atira-as ao calabouço ou recruta-as para a guerra.

— É assim que as coisas funcionam.

— Mas satisfaz a avidez da maioria, e o resto não te fará mal. Não há mais nada. Continuas a ter a ficção do consentimento. Se o mais vil dos trabalhadores começar a protestar, declaras que o poder do estado se sobrepõe à sociedade, regulando-a, moderando-a, mantendo-a nos trâmites da ordem — uma autoridade judicial, impessoal e soberana. Mas e se os trabalhadores estão para lá da reconciliação? Então invocas a “Lei”, invocas o “Bem comum” e aplicas pressão — prendes ou executas uns quantos.

— Uma velhacaria — disse Hrothulf, e mordeu os beiços. Trazia lágrimas nos olhos. O velho servo riu-se.

— Exatamente, rapaz! O que é o estado numa época de crise doméstica ou estrangeira? O que é o estado quando as apostas estão feitas? A resposta é óbvia e transparente! Oh sim! Se meia dúzia de homens larga o trabalho, a polícia age. Se as fronteiras são ameaçadas, o exército mobiliza-se. A força pública é a vida e a alma de todos os estados: não só o exército e a polícia, mas também as prisões, os juízes, os cobradores de impostos, todos os truques imagináveis de repressão coerciva. O estado é a organização da violência, um monopólio daquilo que tem gosto em chamar violência legítima. A revolução, caro príncipe, não é a substituição da imoralidade pela moral, ou da violência ilegítima pela legítima; é apenas o confronto entre dois poderes, estando em jogo a liberdade dos vencedores e a escravização dos restantes.

Hrothulf parou.

— Não é nada disso que eu pretendo — disse. — Pode haver mais ou menos liberdade em estados diferentes.

Também o velho parou, vários passos adiantado no caminho do bosque, e olhou para trás, esforçando-se para ser educado.

— Talvez seja — disse. Encolheu os ombros. Hrothulf, apesar de trapalhão, não era parvo. Disse, irritado (sem notar a ironia de que ele, um príncipe, tinha direito à raiva, e que o velho, um camponês, não):

— Ninguém no seu perfeito juízo louvaria a violência gratuita, independentemente dos fins!

O velho encolheu os ombros e esboçou um sorriso infantil.

— Sou um homem simples, como podes ver — disse — e é precisamente isso o que faço. Todos os sistemas são maus. Todos os governos são maus. Não apenas mauzinhos. São monstruosamente maus. — Embora continuasse a sorrir, tremia agora, mal se controlando. — Se quiseres que te ajude a destruir um governo, estou aqui para te servir. Quanto à Justiça Universal... — Riu-se.

Hrothulf puxou o beiço, olhou pensativamente para lá do velho.

 

O sobrinho de Hrothgar era amável, apesar de tudo, para os primos que pretendia destronar. Era, afinal, um rapaz melancólico e solitário, receoso de estranhos, envergonhado até na presença de adultos que conhecia bem, e os primos eram crianças louras e rechonchudas de três e quatro anos de idade. Havia outra prima, Freawaru, filha de Hrothgar com uma mulher que tinha morrido. Sempre que Freawaru lhe falava, Hrothulf ficava corado.

Ele sentava-se no meio dos dois rapazes à mesa e ajudava-os com a comida, sorrindo sempre que lhe falavam mas raras vezes dando resposta. De vez em quando, a rainha lançava um olhar aos três. Também os outros, às vezes. Todos sabiam o que estava por vir, embora ninguém acreditasse. Quem é capaz de olhar para os sorrisos babados das crianças e ver um salão em chamas, ou ouvir para lá da sua tagarelice musical e escutar o rugido noturno do fogo?

— Ninguém a não ser, claro, o velho Hrothgar. A violência e a vergonha tinham revestido o rosto do velho com uma calma misteriosa. Mal sou capaz de olhar para ele sem um recrudescer de emoções confusas e desagradáveis. Senta-se direito e quieto no seu trono esculpido, de braços rígidos nos braços da cadeira, de olhos límpidos apontados à porta do salão, por onde entrarei, se entrar. Quando alguém lhe fala, ele responde com educação e brandura, com o pensamento longínquo — nos guerreiros assassinados, nas esperanças abandonadas. É um gigante. Tivera, em novo, a força de sete homens. Mas já não. Já nada lhe resta a não ser o poder do seu intelecto — e aí não encontra prazer: é uma caixa cheia de facas. A civilização que pretendia erigir transformara-se numa floresta pejada de armadilhas. Hrothulf, sabe, é um perigo para os seus filhos; mas não é capaz de abandonar o filho do falecido irmão mais novo. Hygmod, o cunhado, espera a sua hora enquanto Hrothgar vive, por causa de Wealtheow; mas Hygmod, sabe bem, não é amigo. E depois há um tal de Ingeld, líder dos hedobardos, igualmente reconhecido na arte da matança, como Hrothgar nos seus dias. O velho faz tenções de lhe dar Freawaru; não tem garantias de que vá resultar. E depois há o tesouro. Outra armadilha. Uma pessoa saqueia de modo a acumular riqueza para pagar aos homens e trazer paz ao seu reino, mas o tesouro acumulado para sua segurança converte-se num chamariz para todos os saqueadores que dele ouçam falar. Hrothgar, vivo de espírito, não tem mais planos. Não tem culpa disso. Já não restam planos. E por isso aguarda, como um homem acorrentado numa caverna, de olhos postos na entrada ou, por vezes, caindo tristes e distantes em Wealtheow, acorrentada a seu lado. Que é mais uma armadilha, a pior. É jovem, podia ter servido um homem mais vigoroso. E bela: não precisava de ter desperdiçado as noites e o corpo com um pobre diabo esquelético e tiritante. Ela sabe tudo isso, o que aumenta o sofrimento e a culpa dele. Ela tem consciência dos seus cuidados com o povo e que fazem dele um cobarde, de tal forma que, na noite em que a ataquei, ele não mexeu um dedo para a preservar. Esse medo é tal que ele nem sequer tem a certeza de estar a ser generoso; talvez seja apenas desejo que o seu nome e fama subsistam. Ela tem consciência também da amargura que a velhice lhe trouxe. Tem consciência até — mais terrível, sem dúvida, do que tudo o resto — de o velho Hrothgar saber que a paz se procura de provação em provação, sem perspectiva final que não a do fracasso. Sofreram com as lições, reconhecendo, de forma cada vez mais profunda, a sua indignidade, vergonha e trivialidade. Assim continuará.

Como é que eu, sabendo tudo isto, decerto perguntarão, me atrevo a persegui-lo — a destruí-lo vezes sem conta, conduzindo-o cada vez mais à desgraça? Não tenho resposta, a não ser talvez esta: porque não? Terá ele feito alguma coisa para merecer a minha bondade? Se lhe dou uma trégua, convidar-me-á o rei para me dar um beijo na testa, uma taça de mulso? Ha! Esta nobreza, esta dignidade: não serão antes obra minha? Que era ele antes? Nada! Um salteador vaidoso, cheio de vanglorias, anedotas estúpidas e mulso. Não era mais nobre do que o Cavalo Vermelho, o amigo de Hrothulf. Ninguém se teria ofendido com as minhas perseguições então! Fiz dele o que é hoje. Não tenho eu o direito de pôr à prova a minha criação? Basta! Quem diz que tenho de me defender? Sou uma máquina, como todos. Todos. A sede de sangue e a raiva são o meu temperamento. Porque não se senta o leão e finge sabiamente ser cavalo? De qualquer maneira, também eu aprendo, de provação em provação, sobre a minha indignidade. É tudo o que tenho, a minha única arma para demolir estas paredes rígidas e sepulcrais do mundo. E por isso danço ao luar, conto piadas rudes, ou esforço-me para abalar os alicerces da noite com os meus uivos de fúria reprimida. Alguma coisa há de surgir daqui. Recuso-me a acreditar que tanto e tão monstruoso sofrimento não dê em nada!

 

         Idealizei um sonho terrível para imputar a Hrothgar.

 

Hrothgar fala:

Voltei a sonhar: subitamente paralisado

No matagal, no meio das árvores úmidas, atordoado

Estremecendo minuciosamente, ouvindo um eco seco escapar.

O chão de musgo, quase incolor, desaparece

Nas profundezas da chuva entre as silhuetas das árvores

Tenso, saboreio aquele eco mais um segundo.

Se o pudesse precisar... familiar se o pudesse precisar...

Uma árvore negra de tronco duplo — duas árvores Fundidas numa só — levanta os seus ramos indistintos no ar.

Os dois troncos, na dança infinitesimal do crescimento

Entrançaram-se por completo, e na sua junção

Contorce-se lentamente uma chaga... que reconheço...

Um arco súbito brilha, virado de lado, no ar, Uma grande lâmina em pleno vôo. Um ruído seco: O ferro mergulha no núcleo ofegante.

Voltarei a sonhar.

 

Dezembro, aproximando-se a noite mais escura do ano, e a única fuga possível do sonho é mergulhando através dele. As árvores estão mortas.

Os dias são uma flecha cravada no peito de um morto.

A luz da neve cega-me, fogo frio; pálido, apocalíptico.

Os regatos estão gelados; os veados têm as costelas à vista.

Encontro lobos mortos — uma pata, uma cauda áspera espetada na neve.

As árvores estão mortas, e só a religião mais profunda é capaz de penetrar o tempo e acreditar que renascerão. Contra a neve, o negro corta uma mão branquíssima.

Na aldeia, as crianças caem de costas nos montes de neve e agitam os braços e, quando se levantam, deixam atrás de si as formas misteriosas e agourentas de criaturas aladas. Deparo-me com elas enquanto percorro as ruas adormecidas até ao salão, e embora saiba o que são, paro para as estudar, repuxando o lábio.

Não finjo entender estas sensações. Registro-as, recito-as uma a uma aos ouvidos surdos da noite.

Algo se aproxima, estranho como a Primavera. Tenho medo.

De pé num monte sem árvores, imagino passadas abafadas ao alto.

 

Observo enquanto um dos arqueiros de Hrothgar persegue um veado. O homem, vestido dos pés à cabeça com peles, caminha através dos bosques iluminados pela Lua e pela neve, silencioso como um mocho, de enorme arco a tiracolo, olhos nos rastos escuros. Sobe um monte densamente arborizado, e no cume, como que à sua espera, encontra o veado. As hastes estendem-se, imóveis, quietas como os ramos de árvore ao alto ou as estrelas por cima das árvores. São como asas, cheias de luz sobrenatural. Nem o veado, nem o caçador, se mexem. O tempo existe no seu interior, transferido de câmara para câmara como areia numa ampulheta; não pode sair, do mesmo modo que a areia na câmara inferior não ascende à de cima sem mão que vire a sua natureza teimosa de cabeça para baixo. Defrontam-se, imóveis como números num pau. Então, incrivelmente, a mão do homem atravessa a estranha luz pálida — clique clique clique clique — em direção ao arco, agarra-o, e puxa-o para baixo, para longe do ombro e para a frente (clique clique) e transfere o arco para a segunda mão, que se move devagar, após o que a primeira mão volta a subir, (clique) por cima do ombro, e regressa com uma flecha, enfiando-a no arco. De súbito, o tempo é uma torrente para o veado: a cabeça levanta-se e ele dá um salto, sem força nas patas da frente, e cai morto. Jaz em silêncio, como a neve que se precipita para longe à sua volta, em direção aos confins do mundo.

 

Perto do salão de Hrothgar erguem-se as imagens dos deuses dos scyldings, rostos grotescos esculpidos em madeira e escavados na pedra, dispostos em círculo, de olhos virados para o interior, olhando pensativamente para coisa nenhuma. Os sacerdotes aproximam-se, trazendo archotes, de cabelos brancos desgrenhados, obsequiosos.

— Grande espírito — implora o principal sacerdote — Destruidor espectral, protege a gente de Scyld e mata o seu inimigo, o terrível caminhante dos confins do mundo!

Sorrio, de braços cruzados sobre o peito, e rico à espera, mas ninguém surge para me matar. Entoam cânticos, num idioma antigo, áspero e estranho como as suas barbas, um idioma mais próximo do meu do que do deles. Marcham numa roda, de deus em deus — quiçá indecisos sobre qual deles será o Grande Destruidor. “És tu?” interrogam-se os humildes rostos idosos, erguendo o archote diante de cada uma das figuras monstruosas. “Eu não,” sussurra o velho e matreiro dentes-de-faca. “Eu não,” diz o deus-lobo, o deus-touro, o deus-cavalo, o deus sorridente com nariz de porco. Esfaqueiam um bezerro e queimam-no, enquanto o cadáver se sacode ainda. O velho camponês, amigo do Príncipe Hrothulf, segreda irritado:

— Antigamente costumavam matar virgens. A religião mete nojo.

O que é verdade. Não há convicção nos cânticos dos sacerdotes; apenas espetáculo. Ninguém do reino está convencido de que os deuses têm vida. Os fracos observam os rituais — tiram o chapéu, voltam a colocá-lo, erguem os braços, baixam os braços, gemem, entoam, comprimem as palmas das mãos — mas nenhum deles acalenta expectativas despropositadas. Os fracos — o velho Hrothgar, Unferth — ignoram as imagens. A vontade do poder reside entre as estalactites do coração. (Herkapf.)

Certa vez, há muitos anos, e sem qualquer motivo em especial, destruí aquele lugar; despedacei os deuses de madeira como se fossem lenha e derrubei os deuses de pedra. Quando chegaram pela manhã e viram o que tinha feito, ninguém se incomodou particularmente a não ser os sacerdotes. Lamentaram-se e puxaram os cabelos, os sacerdotes, com a mesma retórica que aplicavam às orações e, ao cabo de alguns dias, os seus gritos deixaram as pessoas incomodadas. Na eventualidade de haver repercussões, não obstante o que qualquer homem racional pudesse pensar, as pessoas reinstalaram os deuses de pedra, com alavancas e cordas, e começaram a esculpir novos deuses de madeira para substituir os que eu tinha arruinado. Era um trabalho monótono, podia ler-se nas suas caras, mas era, por qualquer motivo, necessário. Quando o anel ficou completo, ainda pensei em voltar a destruí-lo, mas os deuses eram inofensivos e desinteressantes. Para o diabo com eles.

Devorei vários sacerdotes. Assentam no estômago como ovos de pato.

 

É meia-noite. Sento-me no centro do círculo de deuses, meditabundo, perseguindo uma idéia que não consigo descortinar. Eles aguardam, imóveis como ossadas a prumo na neve que cai suavemente. Assim aguarda Hrothgar, deitado e de olhos abertos. Wealtheow deita-se a seu lado, também de olhos abertos, dando-lhe a mão. A respiração de Hrothulf altera-se. Está a ter pesadelos. Unferth dorme inquieto, à guarda do salão; e o Poeta, no seu casarão, dá voltas na cama. Tem febre. Balbucia frases rudimentares para alguém que não está lá. Todos os deuses têm chapéus de neve e cristas de gelo nos narizes. Na aldeia ao fundo não restam luzes. Ao alto, as estrelas são apagadas pelas nuvens.

Mas há alguém acordado. Ouço-o caminhar na minha direção através da neve, vagamente alarmante, aproximando-se como uma flecha num universo a passo lento, e um arrepio percorre-me a espinha. Então vejo-o, e rio-me do meu medo. Um velho sacerdote, paralítico, caminhando com uma bengala de pau de freixo. Julga que a bengala contém magia.

— Quem está aí? — pergunta ele numa voz esganiçada, tendo chegado à beira do círculo. Enverga uma túnica negra, e a barba, branca como a neve à nossa volta, chega-lhe quase aos joelhos. — Quem está aí? — pergunta outra vez, e assoma-se entre dois deuses, tateando o chão em frente com a bengala. — Está aí alguém? — chora.

— Sou eu — respondo. — O Destruidor.

Um susto violento percorre-o. Treme como varas verdes, e quase cai.

— Senhor! — chora. Prostra-se de joelhos. — Ó abençoado senhor! — Uma expressão de dúvida percorre-lhe o rosto, mas ele resiste-lhe. — Ouvi alguém aqui — diz.

— Pensei que fosse... — A dúvida regressa, desta feita com medo à mistura. Estreita as pálpebras e inclina a cabeça, esforçando-se por penetrar a cegueira pela força da sua vontade. — Chamo-me Ork — diz, inseguro — o mais velho e sábio dos sacerdotes.

Sorrio, não digo nada. Tenho uma idéia: pintar as imagens com o sangue quente do velho.

— Conheço todos os mistérios — diz o sacerdote.

— Sou o único homem vivo que os decifrou todos.

— Estamos satisfeitos contigo, Ork — digo numa voz muito solene. Então, subitamente endiabrado — às vezes não resisto: — Conta-nos o que sabes do Rei dos Deuses.

— O Rei? — pergunta ele.

— O Rei. — Não me desfaço em risinhos.

Ele revira os olhos cegos, adivinhando as probabilidades, vasculhando o pensamento em busca de doutrinas.

— Fala-nos da Sua indescritível beleza e perigo — digo, e fico à espera.

A neve tomba suavemente sobre as imagens. O velho sacerdote, ajoelhado, tem um joelho assente na barba e é incapaz de levantar a cabeça. Treme como varas verdes, como se a paralisia lhe fosse algo externo, um elemento como os vendavais.

— O Rei dos Deuses — sussurra ele, e fica a pensar. Por fim, entrelaça as mãos brancas e artríticas, ergue-as diante de si como uma flor de pesadelo, e fala.

— O Rei dos Deuses é a derradeira limitação — entoa — e a Sua existência é a derradeira irracionalidade. — Um tique nervoso percorre-lhe a face; puxa-lhe o canto da boca. — Pois não há razão a dar para a única limitação que está na Sua natureza impor. O Rei dos Deuses não é concreto, mas Ele é a base da realidade concreta. Não há razão a dar para a natureza de Deus, porque essa natureza é a base da racionalidade.

Inclina a cabeça, aguardado uma resposta minha que o informe de como se está a sair. Não digo nada. O velho pigarreia, e o rosto adquire uma expressão ainda mais pia. O tique regressa.

— O Rei dos Deuses é a entidade em virtude da qual toda a multiplicidade de objetos eternos obtém a sua relevância graduada em cada fase de concrescência. À exceção do próprio, não é possível haver inovação relevante.

Constato, com surpresa, que os olhos cegos do sacerdote estão marejados de lágrimas. Escorrem-lhe pelas faces e desaparecem-lhe na barba. Levo os dedos à boca, perplexo.

— O papel do Deus Maior no avanço criativo é a evocação de novas intensidades. Ele é o fascínio das nossas sensações. — Ork chora copiosamente, de tal forma comovido que a garganta se aperta. Assisto, admirado. Os dedos nodosos tremem-lhe e agitam-se.

— É o eterno impulso de desejo que estabelece os objetivos de todas as criaturas. É uma paciência infinita, um cuidado terno, para que nada no universo seja em vão.

Começa a gemer, tremendo violentamente, e ocorre-me pensar que talvez seja apenas do frio. Mas em vez de se abraçar, como espero que faça, ergue os braços para o céu, com as articulações enormes dos dedos deformadas e retorcidas, como se me quisesse assustar.

— Ó, a maldade elementar do mundo temporal é mais profunda do que qualquer mal específico, como o ódio, ou o sofrimento ou a morte! A maldade elementar é que o Tempo significa deterioração permanente, e o ser real implica a eliminação. A natureza do mal pode resumir-se, portanto, a duas simples, se bem que horríveis e sagradas, proposições: “Tudo desaparece” e “As alternativas excluem”. Assim é o Seu mistério: a beleza requer contraste, e a discórdia é fundamental para a criação de novas intensidades sensíveis. A derradeira sabedoria, deu-me a entender, está na percepção de que a solenidade e grandeza do universo surgem do lento processo de unificação em que as diversidades da existência são utilizadas, e em que nada, nada se perde. — O velho cai prostrado, de braços estendidos à sua frente, e chora agradecido. Tenho dificuldade em decidir o que fazer.

Antes de me decidir acerca dele, dou conta de que outros se dirigem ao local, atraídos pelo carpir do velho. Tão sorrateiro que nem o velho Ork é capaz de me ouvir, deixo o círculo em bicos dos pés e escondo-me atrás da figura obesa de um deus com uma caveira no colo e um avental de ferreiro. Surgem três dos seus camaradas sacerdotes. Juntam-se à roda dele, debruçam-se para o observar. A neve tomba suavemente sobre eles.

primeiro sacerdote: Ork, o que fazes aqui? Está escrito que os mais velhos devem permanecer no conforto das suas camas!

segundo sacerdote: Mau hábito, velho amigo, estes passeios à noite quando há monstros à solta. terceiro sacerdote: Está senil. Já vos disse que o velho cretino está senil.

ork: Irmãos, falei com o Grande Destruidor! terceiro sacerdote: Tolice.

primeiro sacerdote: Blasfêmia! Está escrito: “Não verás a minha cara.”

segundo sacerdote: Pensa no estado em que vais estar para as tuas devoções matinais.

ork: Vi-o aqui como vos vejo agora.

primeiro sacerdote: “A adoração cabe aos sacerdotes. O que os deuses fazem é com eles.” Conheces o texto.

terceiro sacerdote: É um perfeito cretino. Se uma pessoa quer ter visões, então que as tenha em público, que é onde nos fazem proveito.

segundo sacerdote: Não te fica bem, caro amigo, vaguear por aí no meio da noite. Um homem tem de tentar ser mais normal.

ork: Não obstante, eu vi-o. A minha vida de estudo e devoção foi recompensada! Contei-lhe a minha opinião do Rei dos Deuses, e ele não a negou. Creio estar mais ou menos correto.

primeiro sacerdote: É uma teoria ridícula. Pura especulação. Pois está escrito —

segundo sacerdote: Por favor, vem conosco, caro amigo. Detesto estar a pé depois da meia-noite. Fico uma lástima no dia a seguir. Visto a roupa ao contrário, engano-me na missa, como mal —

terceiro sacerdote: Os sacerdotes lunáticos são maus para o negócio. Mexem com os nervos das pessoas. Um homem assim é capaz de nos deixar a todos pobres.

Enquanto escuto, abanando a cabeça perante a estranheza desta conversa clerical, surge outro sacerdote a correr, mais novo do que os restantes, com o manto arregaçado. Eles viram-se, olhando incomodados para o sacerdote mais novo. Fico com a idéia de que este talvez tenha estado a beber.

— O que é isto? — grita ele. — Meus queridos deuses, o que é isto?

Abre os braços, deliciado com o que vê. Ork conta-lhe o que viu, e o jovem sacerdote cai de joelhos e levanta as mãos, lábios hirsutos sorrindo, desenfreado.

quarto sacerdote: Abençoado! Ó, abençoado! (De joelhos, vai até Ork, agarra o velho pela cabeça e beija-o.) Receei por ti, abençoado Ork — receei o teu racionalismo frio. Mas agora vejo! A vontade dos deuses! O ritmo está restabelecido! O pensamento racional apenas — perdoa-me se prego um sermão, mas preciso! — o pensamento racional apenas deixa o espírito irremediavelmente mutilado, num sistema que se fechou e ossificou, que apenas pode extrapolar a partir do passado. Mas agora, finalmente, doces fantasias enraizaram-se na tua santa alma! O absurdo, o inspirador, o insólito, o incrível, o assustador, o extático — nenhum destes tinha lugar para ti. Mas devia ter adivinhado. Ó, como me arrependo de não ter adivinhado! Uma visão do Destruidor! Claro, claro! Antes de nos darmos conta, vais estar a beijar raparigas! Não vêem, irmãos? O sangue e o esperma são ambos explosivos, irregulares, movidos pelo sentimento, sujos — e inexplicavelmente fascinantes! Transcendentes! Saltam o abismo! Ó abençoado Ork! Acredito que a tua visão prova que há esperança para todos nós!

Assim delira, transbordante de alegria e mulso, e os três sacerdotes mais velhos olham-no, sobranceiros, como se este fosse uma serpente estropiada. Ork ignora-o, fungando para si. Afasto-me. Até a sede de sangue de um monstro pode acabar reprimida por palavras destas. Eles permanecem no interior do círculo de imagens, com a neve tombando suavemente sobre os cabelos e as barbas, e, tirando as suas silhuetas, a sua tagarelice, a aldeia está morta.

 

Hrothgar dorme agora, recobrando as forças para a provação que constitui a espera de amanhã. Wealtheow respira calmamente a seu lado. Hrothulf e os dois filhos do rei estão a dormir. No salão principal, nas fileiras de catres montados na parede, ressonam os guardiães, à exceção de Unferth. Cheio de olheiras, levanta-se, e vai entorpecido até à porta do salão para mijar. Um cão ladra — não por minha causa: tenho-os encantados. Unferth mal ouve. Espreita para lá dos telhados cobertos de neve da aldeia na direção da charneca coberta de neve, do bosque coberto de neve, sem notar a minha presença atrás da parede. A neve tomba suavemente por entre as árvores, tapando as tocas de raposa, escondendo os rastos de veados adormecidos. Um lobo, a dormir com a cabeça entre as patas, acorda com o som dos meus passos e abre os olhos, mas não levanta a cabeça. Vê-me passar, com olhos cinzentos hostis, e volta a adormecer, a sua cova semienterrada na neve.

Não tenho por hábito lançar ataques no Inverno, quando o mundo é um cadáver. Era prudente ficar enrolado, a dormir como um urso, na minha caverna. O meu coração move-se devagar, como a água gelada, e não sou capaz de recordar com clareza o cheiro do sangue. E todavia estou inquieto. Se pudesse, teria mergulhado pelo tempo e pelo espaço até ao dragão. Não posso. Caminho devagar, limpando a neve da cara com as costas da mão. Não se ouve outro som na Terra que não o sussurro da neve. Recordo algo. Um vazio sem limites, como um céu infernal. Penduro-me das raízes retorcidas de um carvalho, observando a imensidão debaixo de mim. Ao longe, muito longe, vejo o sol, negro, mas brilhante, e rastejando à sua volta estão aranhas. Detenho-me, intrigado — mas não interessado — pelo que vejo. Encontro-me então outra vez no bosque, a neve cai, e todos os seres vivos dormem. Não passa de um sonho. Prossigo, inquieto; expectante.

 

O tédio é a pior das aflições.

A vítima embrutecida, de olhar ausente posto em estações que não eram para ser vistas.

O Sol percorre o céu, desatento, as sombras alongam-se e encurtam como que seguindo um plano.

— Os deuses criaram este mundo para nosso contentamento!

— guincha o jovem sacerdote. As pessoas escutam-no respeitosamente, de cabeças baixas. Não ficam com impressão nenhuma de que é doido.

O cheiro do dragão é uma insipidez na terra. O Poeta está doente.

Observo um grande bode cornudo escalar os rochedos em direção à minha lagoa. Estou quase resolvido a admirar-lhe a infinita estupidez.

— Ó bode! — grito. — Aqui não há nada. Vai-te embora.

Ele levanta a cabeça, considera-me, depois volta a baixá-la para manter as fendas e os veios, os seixos gelados e os rebordos escorregadios debaixo de olho — prosseguindo teimosamente. Empurro um pedregulho e deixo-o cair com um estrondo na sua direção. As orelhas levantam-se com o alarme, ele estaca, olha apressadamente em redor e dá um salto. O pedregulho passa a rebolar por ele. Fica a vê-lo cair, depois vira a cabeça, olha-me com reprovação. Voltando então a baixar a cabeça, prossegue. Está na natureza das cabras montesas subir. É o que ele quer.

— Ah, bode, bode! — falo como se estivesse profundamente desiludido com ele. — Usa a razão! Não há nada aqui!

Continua a subir. Fico de súbito irritado, já não me diverte a sua estupidez. A lagoa é minha e das cobras de fogo. E se todos se lembrassem de dizer que o lugar é público?

— Volta para baixo, bode! — grito-lhe. Continua a subir, estúpido, mecânico, porque está na sua natureza fazê-lo.

— Aqui não — grito. — Se subir é o teu dever para com os deuses, vai subir ao salão.

Continua a subir. Afasto-me da beira do precipício até uma árvore morta, lanço-me contra ela, abatendo-a, e arrasto-a de volta ao penhasco.

— Foste avisado — grito-lhe. Estou furioso. As palavras ecoam de volta. Pouso a árvore de lado, espero que o bode se chegue a uma distância melhor, e empurro-a. Cai com um estrondo e rebola de través na sua direção. Ele esgueira-se para a esquerda, volta atrás e salta para a direita, e há um ramo que lhe acerta. Solta um balido, caindo, tombando pesadamente com uma sacudidela muito rápida para se ver, e volta a balir, lutando para se equilibrar enquanto escorrega para o precipício. A árvore, rolando devagar, desaparece de vista. Os cascos afiados do bode cravam-se no chão e ele põe-se de pé, mas antes de ter recuperado o equilíbrio, a minha pedra atinge-o, e ele volta a tombar. Desço de um salto para ter a certeza de que o bode cai desta vez. Ele põe-se de pé no preciso instante em que a segunda pedra o atinge. Racha-lhe o crânio, e o sangue espirra pelos miolos pendurados, e no entanto não cai. Ameaça-me, cego. Não é fácil matar uma cabra montesa. O bode pensa com a espinha. Um arrepio de morte percorre-lhe os flancos, mas ele avança na minha direção, sacudindo os enormes cornos retorcidos no ar. Afasto-me para cima, em direção à lagoa que o bode nunca alcançará. Sorrio, ameaçado por um animal já morto, e que ainda sobe. Agarro numa pedra e atiro-a. Esmaga-lhe a boca numa chuva de dentes e penetra-lhe a jugular. Ele cai de joelhos, volta a levantar-se. O ar torna-se doce com o cheiro do seu sangue. A morte agita-lhe o corpo da mesma maneira que os vendavais agitam as árvores. Sobe na minha direção. Agarro numa pedra.

Ao cair da noite, fico a ver os homens ir à sua vida nas aldeias dos scyldings. Meninos e cães levam os cavalos e os bois ao rio e abrem o gelo para os deixar beber. Regressados aos celeiros, os homens trazem feno em forquilhas de madeira, despejam farinha nas manjedouras e carregam o esterco para fora. Um carpinteiro de carros e o seu aprendiz agacham-se no seu quarto escuro, pregando raios a um cubo de roda. Escuto o resmungo, a martelada, o resmungo, a martelada, como o som de um coração a vazar. Cheira a cozinhados. O fumo cinzento da lenha eleva-se suavemente no céu plúmbeo. Sobre os penhascos virados para o mar, sentam-se os vigias de Hrothgar, cada qual estacionado a dois passos do seguinte, embrulhados em peles, montados em cavalos ou no abrigo de uma saliência rochosa, esfregando as mãos, batendo com os pés. Ninguém atacará o reino por mar: icebergues flutuam a quilômetros da costa, entrechocando-se ocasionalmente, soltando um gemido grave como o suspiro de uma enorme criatura marinha. Os guardas olham na mesma, obedientes ao rei que se esqueceu de cancelar as ordens.

As pessoas comem, debruçando-se em conjunto sobre a comida, mal falando. A candeia no centro da mesa ilumina-lhes os olhos. Os cães aguardam junto às pernas dos donos, levantando a cabeça de vez em quando, e a rapariga que traz a comida do fogão está de pé a olhar para a parede, à espera que os pratos fiquem vazios. Um velho, terminando antes dos restantes, sai para ir buscar lenha. Observo uma velha a contar mentiras aos filhos. (O seu rosto está ensombrado por uma doença qualquer, e as veias nas costas das mãos são cordas. É muito velha para varrer ou cozinhar.) Fala-lhes de um gigante do outro lado do mar que tem a força de trinta dinamarqueses.

— Um dia há de cá vir — diz às crianças. Os olhos delas abrem-se muito. Um velho careca levanta a cara do prato de barro e ri-se. Um cão cinzento encosta-se à sua perna. Ele dá-lhe um pontapé.

O Sol demora-se mais com cada dia que passa, escalando, mecânico como o bode, o horizonte plúmbeo. Crianças deslizam monte abaixo sobre tábuas escavadas, soltando gritos de alegria no sossego nevado. A noite adensa-se e as mães chamam-nas para casa. Umas fazem-se surdas. Uma sombra (a minha) cai sobre elas e nunca mais são vistas.

É assim.

 

Escuridão. Na casa do Poeta, entram e saem pessoas, de rostos solenes, pé ante pé, cabeças baixas e mãos entrelaçadas com receio de lhe encher os sonhos de aparições aterradoras. O seu ajudante, o rapaz que viera com ele — agora homem feito — senta-se à beira da cama e toca cadências mortiças na harpa do velho. O velho vira a cabeça cega, erguendo-se da confusão para ouvir. Pergunta por certa mulher que não vem. Ninguém responde.

Mas o rei aparece, de braço dado com a rainha, e o jovem Hrothulf quatro passos atrás, trazendo pela mão os filhos deles. O rei senta-se à beira da cama do Poeta tal como no salão, imóvel, de olhar atento e paciente. Hrothulf e as crianças aguardam lá fora, à entrada. A rainha assenta as pontas dos dedos ao de leve na testa do velho.

O Poeta pede a candeia com um sussurro. O ajudante finge ir buscá-la, embora esta já esteja na mesinha de cabeceira.

— Assim está melhor — diz a rainha respeitosamente, e o rei acrescenta, como se antes não tivesse reparado bem:

— Estás com melhor aspecto, hoje.

O Poeta não diz nada. Acocorado nos arbustos junto ao caminho, espreitando para dentro como um velho voyeur de suíças, lábios úmidos, olhos vermelhos, com o peito cheio de uma angústia sem significado, observo o velho enquanto ganha coragem para deixar o coração parar.

— Onde estará agora o seu bonito palavreado? — segredo à noite. A noite, como de costume, não comenta.

Senta-se imóvel na cama, com as mãos brancas de morte entrelaçadas por cima dos lençóis: os olhos, outrora raiados de visões, estão fechados. O rapaz, o ajudante sentado com a harpa, não toca. O rei e a rainha aguardam, respeitosos, quem sabe se fazendo contas ao tempo nas suas cabeças, e o ervanário — corcunda, trajado de preto (com um tique nervoso que lhe apanha toda a metade da cara) — o ervanário, sem outra utilidade para o antigo rei dos poetas, caminha de um lado para o outro lentamente, esfregando as mãos. Espera pelo estertor seco e suave que o deixará livre para ir caminhar para outro lado.

O Poeta começa a falar. Aproximam-se.

— Vejo uma era — diz — em que os dinamarqueses voltarão... — A voz morre-lhe; a confusão enruga-lhe a testa, e ele estende a mão fraca como se a fosse alisar, mas esquece-se de imediato, e deixa-a tombar nos lençóis. Levanta um pouco a cabeça, tentando ouvir o barulho de passos. Não há. A cabeça pende para trás, sem força. As visitas aguardam ainda. Parecem não se ter apercebido de que ele está morto.

Noutra casa, diante de uma enorme mesa coberta de entalhes, uma mulher de meia-idade de cabelo ligeiramente menos ruivo do que o da rainha (tem os olhos muito próximos e sobrancelhas bem arranjadas, finas como golpes de faca) senta-se à luz de uma candeia à escuta, como ele, do barulho de passos. O seu fidalgo marido dorme num quarto próximo, com a cabeça assente no braço, como se escutasse o bater do coração. É uma senhora que tenho observado com a maior das admirações. A alma da fidelidade e do decoro. O Poeta inclinava a cabeça branca, de olhar cego fixo no chão, sempre que a senhora falava, e de tempos a tempos, quando cantava sobre heróis e naufrágios, não havia dúvidas de que cantava para ela. De nada lhe serviu. A senhora deixava o salão sempre de braço dado com o marido: o Poeta dobrava-se numa vênia respeitosa quando ela passava.

Ela ouve-os chegar. Escondo-me na escuridão para ver e ouvir. O mensageiro enviado pelo ajudante do Poeta chega-se à porta e mal tem tempo de bater antes de esta se abrir e a senhora aparecer, de olhos postos no horizonte.

— Morreu — diz o mensageiro.

A senhora acena com a cabeça. Quando o mensageiro se retira, a senhora desce a entrada e fica nos degraus de braços cruzados, inexpressiva. Observa o salão no cume do monte.

— Assim nos tocará a todos, mais tarde ou mais cedo — sinto-me tentado a sussurrar. — Ai! Ai de nós! — Resisto.

Só o vento está vivo, comprimindo-lhe o vestido contra as ancas e o peito cheio e flácido. A mulher está inerte como o morto na sua cama. Sinto-me tentado a agarrá-la. Como dançariam os seus gritos nas paredes cinzeladas da noite! Todavia, retiro-me. Espreito o Poeta mais uma vez. As velhas preparam-no, colocando-lhe moedas de ouro sobre as pálpebras para o impedir de ver para onde vai. Por fim, insatisfeito como sempre, arrasto-me de regresso a casa.

 

Na caverna, o tédio é pior, claro. A minha mãe já não mostra qualquer indício de sanidade, correndo de um lado para o outro, entre paredes, às vezes de pé, às vezes de gatas, testa escura franzida como um campo acabado de arar, olhos brilhantes e enlouquecidos como os de uma águia capturada. De cada vez que entro, ela interpõe-se entre mim e a porta, como se quisesse fechar-me com ela para sempre. Tolero-o, por enquanto. Quando durmo, abraça-me, enterra-me debaixo do seu pêlo áspero e gordura.

— Dul-dul — geme. Baba-se e chora. — Idacopeis — choraminga, e arranha-se. Punhados de pêlo caem das suas garras, vejo-lhe a pele cinzenta. Estudo-a do meu canto, frio e objetivo, e porque o Poeta está morto, há estranhos pensamentos que me assolam. Penso na essência do passado: como o momento em que vivo, em que sou prisioneiro, avança como uma figura rebolando pelo escuro, o rio subterrâneo. Não só a história antiga — a idade mítica da disputa entre os irmãos — mas a minha própria história de há um segundo, desapareceu por completo, esvaiu-se da existência. As façanhas do rei Scyld não existem “há muito” Tempo. “Há muito Tempo” é uma alusão lingüística. Não existem de todo. A minha maldade de há cinco anos, ou seis, ou doze, não existe a não ser hoje, murmurando, murmurando, sacrificando o mundo chacinado à onipotência das palavras, esforço-me por recordar e recuperá-lo. Agarro no espírito uma época em que eu era muito pequenino e a mamãe me levava carinhosamente nos braços. Ah, ah, como eu te amava, Mamãe — todos estes anos morta! Agarro uma época em que me acocorava do lado de fora do salão para escutar os primeiros estranhos hinos do Poeta. Beleza! Santidade! Como me embalava o coração! Está morto. Devia tê-lo aprisionado, provocado, atormentado, humilhado. Devia ter-lhe rachado o crânio a meio de uma canção, espalhando sangue por todo o salão como uma nota escandalosamente desafinada. Uma má ação desperdiçada é uma perda para toda a eternidade.

Decido, naturalmente, ir ao funeral. Ela tenta impedir-me. Levanto-a pelas axilas como se fosse uma criança e afasto-a cuidadosamente para o lado. A cara treme-lhe, dividida, creio, entre o terror e a autocomiseração. Fico com a impressão de que ela sabe qualquer coisa, mas não, eu sei. O futuro é tão negro e irreal quanto o passado. De modo frio e objetivo, observo o tremor; é como se todos os músculos estivessem ligados à carga de uma enguia. Afasto-a, então. O rosto desmorona-se, e ela põe-se a uivar. Corro para o lago e mergulho, a até daí a consigo ouvir. Amanhã já me terei esquecido, pelo que a sua dor é-me indiferente.

Ao funeral, portanto.

O ajudante do Poeta, agarrando a harpa polida do velho, canta sobre Hoc e Hildeburh e Hnaef e Hengest, como os dinamarqueses, a mando de Finn, enfrentaram os estimados compatriotas da sua esposa e mataram o rei Hnaef, e as conseqüências terríveis que daí advieram. Quando restavam poucos homens a Finn e os inimigos não tinham rei, fizeram tréguas, com as seguintes condições: Finn seria senhor dos dinamarqueses sem amo, pois um rei sem homens de nada vale, e os dinamarqueses sem senhor são desterrados. Ambos os lados fizeram votos solenes, jurando paz, e assim chegou o Inverno, a seu tempo, à pátria dos jutos.

As pessoas escutam, silenciosas e solenes, a velha canção do Poeta nos lábios do homem novo, enquanto a pira funerária onde jaz o velho aguarda o fogo. Os braços mortos estão cruzados e as feições, rígidas e azuis, como que geladas. O gelo cintila ao lado da pira. O mundo está branco.

Hengest continuou a passar o Inverno negro de morte com Finn, de coração em luto. Pensou na sua pátria, impedido de levar o navio de proa anelada pelos caminhos escuros do mar; o ar agitava-se, anoitecido pelo vento, e as vagas eram cativas do gelo. Outra estação se seguiu, outro ano, como é seu apanágio, estação propícia aguardando a sua hora. Foi-se o Inverno, o seio da terra era belo, e o exilado Hengest ficou ansioso por partir, hóspede relutante do palácio. — Mas tal como os grilhões de gelo prendiam a terra, também o seu coração estava preso: falava mais alto a vingança do que a saudade. Clamou por guerra no pensamento, e guerra teve, e Finn jazeu então em sangue, rei ousado com a sua companhia, e a rainha foi tomada; e, levando os anéis que o rei Finn não pôde recusar,

Os dinamarqueses partiram. Os duplos votos dos homens cedo se perderam na água. Chuva primaveril cai pelas traves.

Assim canta ele, olhando para o chão, recordando e repetindo as palavras, mãos caindo ao de leve na harpa. O rei escuta, de olhos enxutos e o pensamento muito, muito distante. O príncipe Hrothulf está com os filhos de Hrothgar e Wealtheow, não revelando a sua expressão mais segredos do que a neve. Incendeiam a pira. Unferth observa as chamas com olhos como pedras. Também observo o fogo, na medida do possível. Parece incolor. Um ponto mais intenso no brilho da neve e do gelo. As chamas levantam-se rapidamente, como que ávidas da carne rija e fibrosa. Os sacerdotes caminham lentamente em volta da pira, proferindo orações antigas, e a multidão, toda de preto, ignorando os sacerdotes, canta lamentos fúnebres. Vejo a cabeça em chamas arrebentar, oca de visões, sangue negro a escorrer do canto da boca e do ouvido.

É o fim de uma era, podia dizer ao rei.

De novo entregues a nós mesmos. Abandonados.

Acordo sobressaltado e imagino ouvir o bode calcando ainda a rocha do penhasco, subindo à lagoa. Ouve-se um rugido no mar ao longe.

A minha mãe faz barulho. Esforço-me por o entender, envolvo-o com o pensamento. Cuidado com o peixe.

Levanto-me e vou dar um passeio, cheio de expectativa impaciente, embora saiba que não há nada a esperar.

Não sou o único monstro nestes charcos. Encontrei uma velha feroz como o vento

Saindo de branco e a passos largos do abismo da meia-noite.

Tinha uma capa esfarrapada, e as carnes chupadas,

E os seus olhos, os seus olhos estropiados...

O cheiro do dragão.

Devia ir dormir, deixar a guerra para a Primavera como faço normalmente.

Sempre que adormeço, acordo aterrorizado, com as mãos na garganta.

Estúpida ocupação.

Nihil ex nihilo, é como digo sempre.

 

Estou louco de alegria. — Pelo menos acho que é alegria. Chegaram visitantes, e é uma caça completamente nova. Beijo o gelo dos regatos congelados, encosto-lhe o ouvido, honrando a água que ressoa por baixo, pois foi por água que vieram: os icebergues afastaram-se como que cuidadosamente empurrados por mãos enormes, e o navio passou pelo meio, sedento de mar, com espuma no pescoço, velas brancas navegando o caminho dos cisnes, esvoaçantes como uma ave! Ó, ditoso Grendel! Quinze gloriosos heróis, orgulhosamente ataviados, gordos como vacas!

Pude pressentir a sua chegada, deitado no escuro da caverna. Despertei, atordoado por esta estranha sensação, sondando de olhos semicerrados os cantos escuros em busca da causa. Atraía-me tal e qual como me atraíra a mente do dragão. Vem aí! disse. Com uma clareza inaudita, escutei os passos abafados na cúpula do mundo, e mesmo quando me apercebi de que as passadas não eram mais do que o barulho do meu próprio coração, encontrava-me convencido, com mais certezas ainda do que antes, de que algo estava a caminho. Levantei-me, passei pelas estalactites em direção ao charco e à porta submersa. A minha mãe não fez qualquer gesto para me impedir. Chegado ao charco, as cobras de fogo afastaram-se de mim em todas as direções, irritadas, sibilantes, misteriosamente atormentadas. Também o tinham pressentido. Aquele batimento — uniforme, desumanamente uniforme; inexorável. E assim, uma hora antes do amanhecer, acocorei-me nas sombras junto à falésia, no sopé da obra dos gigantes. Maré baixa. A água plúmbea exauria calmamente, teimosa e circunspecta, os pedregulhos cinzentos e gelados. Vento pardo atormentava as árvores sem folhas. Não se ouvia outra coisa a não ser a ondulação gelada, o piar de um alcatraz, invisível nas sombras ao alto. Passou uma baleia, uma sombra escura e comprida, a dois quilômetros da costa. O céu clareou atrás de mim. Foi então que avistei a vela.

Não fui o único a presenciar a sua chegada. Havia um solitário guarda costeiro dinamarquês embrulhado nas suas peles, com o cavalo ao lado, que fez uma pala com as mãos para proteger os olhos do brilho dos icebergues para lá da vela e ficou a ver os estranhos a aproximarem-se rapidamente da praia. A quilha de madeira feriu a terra e fez um golpe até aos pedregulhos na costa — um golpe de quinze metros, metade do comprimento do barco — e depois, lestos como lobos — mas mecânicos, terríveis — os estranhos saltaram para fora, e com cordas rijas e cobertas de gelo, cinzentas como o mar, o céu e as pedras, amarraram a embarcação. As cotas de malha chocalharam enquanto estiveram a trabalhar — sem uma palavra, como mortos ambulantes — amarrando firmemente a barra do leme, baixando a vela, descarregando lanças de pau de freixo e machados de guerra. O guarda costeiro montou o cavalo, deitou a mão à lança, e galopou ruidosamente ao seu encontro. Os cascos do cavalo soltaram chispas. Ri-me. Se tivessem vindo para guerrear, o guarda costeiro estava perdido.

— Quem sois, guerreiros armados, envergando cota de malha, que navegam assim pela estrada do mar, no oceano invernoso, até aqui à Dinamarca? — Assim falou o guarda costeiro. O vento pegou-lhe nas palavras e desfê-las.

Agarrei-me à barriga, rindo sem fazer um som até achar que ia arrebentar. Eram como árvores, estes estrangeiros. O líder era enorme, como uma montanha, avançando com a sua floresta na direção do guarda. Não obstante, o dinamarquês sacudiu a lança da mesma maneira que um atacante a sacode enquanto informa um homem do que lhe vai fazer com os testículos.

— Lindo menino! — sussurro. Finjo esmurrar um oponente imaginário. — Se se aproximarem, vai-lhes às pernas!

O guarda resmungou, irado, e exigiu saber a linhagem deles; os outros escutaram de braços cruzados. O vento soprou mais frio. Por fim, a voz do guarda costeiro apagou-se — o homem dobrou-se sobre o punho da lança e tossiu para a mão — e o líder respondeu. A voz, se bem que possante, era plácida. A voz de um morto, calmo como pauzinhos secos e gelo quando o vento sopra sobre eles. Tinha uma cara estranha que, aos poucos, me incomodou: era a cara, ou assim pareceu por instantes, de um sonho há muito esquecido. Os olhos, sempre abertos, eram oblíquos e insensíveis como os de uma serpente. Não possuía mais barba do que um peixe. Sorria enquanto falava, mas era como se a voz serena e o sorriso infantil e, ao mesmo tempo, ligeiramente irônico, escondessem algo, um poder mágico capaz de reduzir penhascos a cinzas como um relâmpago faz às árvores.

— Somos gautas — disse — os companheiros do rei Hygilac. Decerto ouviste falar do meu pai. Um velho famoso chamado Ecgtheow.

Os seus pensamentos, enquanto falava, pareceram distantes, como se, embora cortês, fosse indiferente a tudo aquilo — um estranho não só entre os dinamarqueses, mas em todo o lado. Disse:

— Viemos como amigos numa visita ao vosso senhor, rei Hrothgar, protetor do povo. — Inclinou a cabeça, fazendo uma pausa. Uma pessoa podia pensar que tinha séculos de idade. Por fim, com um encolher de ombros, acrescentou:

— Tem a bondade de nos aconselhar, velhote. Temos uma tarefa relativamente importante para cumprir.

— Os vestígios de ironia no seu sorriso ensombraram-se, e olhava agora, não para o guarda costeiro, mas para o cavalo.

— Uma certeza nunca se pode esconder por muito tempo, acredito. Deverás saber se é verdade, como ouvimos dizer na nossa terra, que uma espécie de inimigo assalta o vosso salão à noite — mata homens, pelo que contam, e, por qualquer motivo, troça dos vossos guerreiros. Se é verdade...

— Fez uma pausa, de sobrancelhas arqueadas, lançou um olhar ao guarda costeiro e sorriu. — Estou aqui para aconselhar Hrothgar.

Estava-se mesmo a ver que conselhos iria ele dar. Tinha um peito da largura de um forno. Os braços pareciam barrotes.

— Vem — murmurei. — Faz a tua jogada. Mostra o que não vales.

Mas tinha menos certezas do que pretendia ter. Observando os seus ombros grotescamente musculados — arqueados, despidos apesar do frio, lustrosos como a barriga de um tubarão e retesados de poder como as espáduas de um cavalo — dei por mim a sonhar acordado. Se deixasse, teria caído num transe só de olhar para aqueles ombros. Era perigoso. E no entanto sentia-me excitado, subitamente vivo. Ele continuou a falar. Dei por mim a ignorar o que dizia, limitando-me a olhar para a boca, que se mexia — ou assim me pareceu — independentemente das palavras, como se o corpo do estranho fosse um ardil, um disfarce para algo infinitamente mais terrível. O guarda costeiro virou então o cavalo e conduziu-os por onde começava a estrada de pedra, cinzenta como o mar, por entre montes de neve.

— Tratarei de arranjar homens para te guardar o barco — disse. Apontou para o salão, no alto do seu monte por cima da aldeia. Depois virou-se para trás. Os olhos pálidos de mar do estranho estavam concentrados em coisa nenhuma. Ele e a companhia continuaram, de armas a tilintar, cotas de malha a chocalhar, solenes e agourentas como tambores. Deslocavam-se como uma criatura única, uma grande e estranha máquina. O Sol cintilava nos seus elmos e proteções faciais e brilhava fugazmente nas pontas das lanças, ofuscante. Não os segui. Permaneci na ruína, deambulando onde deambularam os gigantes, ansioso por saber o que faziam agora os estrangeiros, no salão ao alto. Mas era pleno dia; teria de ser louco para ir lá acima ver.

De volta à caverna, não sabia se tinha ou não medo deles. Doía-me a cabeça de passar tanto tempo ao sol, e estava sem força nas mãos. Era como se estivessem dormentes. Estava anormalmente consciente, por qualquer motivo, dos ruídos da caverna: o rumor do rio subterrâneo, dezenas de metros abaixo das nossas divisões, escareando a parede rochosa, cada vez mais fundo; o gotejar de séculos das infiltrações que erguem estalagmites, um centímetro a cada cem anos; a chuva três divisões ao lado — a divisão das imagens semienterradas na pedra — onde a nascente se infiltra pelo teto. Meio acordado, meio a dormir, senti-me como se eu próprio fosse a caverna, pensamentos vazando pelas minhas estranhas passagens... ou um impulso mais antigo e tenebroso do que pensava, antigo como o mecanismo sem alma de um urso, as meditações crepusculares de um lobo, uma árvore...

Quem sabe o que tudo isto significa? Nem acordado, nem a dormir, de peito carregado com uma excitação semelhante à alegria, procurei decidir se tinha ou não medo dos estrangeiros, mas a idéia não fazia sentido. Era irreal — insubstancial como teias de aranha que voam por uma janela aberta com vista para as árvores. Cheguei a ver homens fazer coisas misteriosas. Um homem casado e com sete filhos, um carpinteiro com reputação de sábio, imperturbável por paixões, pouco dado a loucuras — de hábitos regulares, aspecto digno, um artesão dedicado (sem arestas por limar, nem cavilhas desiguais, nem uma estria ou fenda) — certa vez esgueirou-se de sua casa na periferia da aldeia enquanto a família dormia, e correu pelos caminhos nevados do bosque até à casa de um caçador que se ausentara à procura de animais. A mulher do caçador recebeu-o, e ele dormiu com ela até ao segundo cantar do galo; depois fugiu de volta a casa. Quem sabe porquê? O tédio é a pior das aflições. A mente ordena o mundo em blocos, e o sangue calado aguarda a vingança. Toda a ordem, descobri, é teórica, irreal— uma máscara inócua, sensata e sorridente que os homens colocam entre essas duas grandes e tenebrosas realidades, o ego e o mundo — dois ninhos de cobras. O espírito atento mente, astuto e ligeiro, acerca das paixões do sangue negro, mente, mente e mente até que, farta de conversa, a sentinela adormece. Então, súbito e veloz, vindo do nada, o inimigo ataca, o coração cavernoso. Violência é verdade, como disse o velho camponês louco a Hrothulf. Mas o velho imbecil apenas apanhava metade do que dizia. Nunca tinha conversado com um dragão. E o estranho?

Tendo medo ou não, iria ao salão, sabia-o. Brinquei, claro, com a teoria ridícula de que não sairia de onde estivesse seguro, como uma besta sensata.

— Não serei eu livre? — livre como um pássaro? — sussurrei, malévolo, maníaco. Assisti — e dou corpo — à visão do dragão: a devastação final e absoluta. Vi, há muito tempo, o universo enquanto algo que não era a minha mãe, e nele vislumbrei o meu lugar, um buraco. E, no entanto, existo, sabia. Então só eu existo, disse. Sou eu ou ele. Que alegria, que reconhecimento glorioso! (A caverna minha caverna é uma caverna ciumenta.) Pois até a minha mamãe me adora não por aquilo que sou, o que me torna especial (ih ih oh ah), mas por ser seu filho, por ser seu, pela deslocação de ar enquanto prova visível do seu poder. Afastei-a — cuidadosamente, levantando-a pelas axilas como uma criança — e assim provei que ela não exerce poder sobre mim a não ser aquele que lhe concedo conforme me dá na veneta. Do mesmo modo afastaria eu todo o reino de Hrothgar e os seus guerreiros se, por amor ao doce desejo, não lhe impusesse limites. Se eu massacrasse os scyldings até ao último, que razão teria para viver? Teria de me mudar.

Por isso, agora, pela primeira vez sem vitória assegurada, contemplo impor limites ao desejo: dormir, adiar os meus assaltos até os gautas voltarem para casa. Porque o mundo está dividido, ensina a experiência, em duas partes: as coisas a matar, e as coisas que impedem a morte de outras: e os gautas podem concebivelmente definir-se de acordo com qualquer das duas. Assim murmurei, enquanto avançava com neve pela cintura, inexorável, em direção ao salão de Hrothgar. A escuridão fechava-se sobre o mundo como a tampa de um caixão. Apressei-me. Era pena perder a sessão de vanglorias. Cheguei ao salão e debrucei-me para espreitar pela minha abertura. O vendaval soprava estridente, cheio de padrões.

Era um quadro animador. Os dinamarqueses estavam descontentes, para não exagerar, com o fato de os gautas terem vindo em seu socorro. A honra era-lhes cara; antes acabar comidos vivos do que serem salvos por estranhos. Os sacerdotes também não estavam satisfeitos. Há anos que afirmavam que o fantasmagórico Destruidor resolveria, a seu tempo, o assunto. E agora ali estavam aqueles estrangeiros arrivistas para lhes desmascarar a religião! O meu velho amigo Ork abanava a cabeça de consternação, sem falar com ninguém, decerto contemplando as tenebrosas implicações metafísicas. Tudo desaparece; as alternativas excluem. Independentemente de qual de nós excluirá o outro, chegada a hora de me encontrar com o estranho, os olhos da multidão serão atraídos pela circunstância, e não estarão à altura da idéia sagrada do processo. A teologia não medra num mundo de ações e reações, de mudança: desenvolve-se na calmaria, como o lodo num charco estagnado. E floresce, prospera, no declínio. Só num mundo em que manifestamente tudo se perde, pode um sacerdote inflamar o coração dos homens como um poeta faria, afirmando que nada é em vão. Em recordação de velhos tempos, pela honra do velho sacerdote, teria de matar o estranho. E pela honra dos guerreiros de Hrothgar.

Os dinamarqueses sentavam-se, amuados, a ver os estrangeiros comer, desejando que um deles lhes desse uma desculpa para puxar dos punhais. Tapei a boca para abafar o riso. O rei presidia à refeição, solene e rabugento. Sabia que os seus guerreiros, sozinhos, não davam conta de mim, e ele estava muito velho e cansado para se deixar impressionar — não obstante a utilidade para o reino — pelas suas pretensiosas idéias de honra. Agüenta-os até ao final da refeição, é tudo o que importa, pensava ele. Não os deixes desperdiçar as suas mui-publicitadas habilidades uns nos outros. A rainha não estava presente. A situação era muito delicada.

Tomou então a palavra Unferth, filho de Ecglaf, o homem mais importante no salão de Hrothgar. Tinha um nariz que parecia uma batata preta e deformada, e olhos a lembrar um par de caninos. Debruçou-se por cima da mesa e apontou o punhal com que tinha estado a comer.

— Ó, amigo — dirigiu-se ao líder imberbe dos gautas — és o mesmo que foi nadar daquela vez com o jovem Breca — arriscando as vossas vidas no pino do Inverno para nada — por causa de uma estúpida fanfarronice derivada da bebedeira?

O estranho parou de comer e sorriu.

— Ouvimos falar do caso — disse Unferth. — Ninguém foi capaz de te impedir — reis, sacerdotes, conselheiros — ninguém. Splash! Uh, uh, uh! — Unferth deu aos braços, fingindo nadar, de olhos revirados e boca ofegante. Os guerreiros à sua volta riram-se. — O mar fervia das ondas, grandes vagas invernais. Nadaste sete noites, dizem as pessoas. — Fez uma expressão crédula, e os dinamarqueses voltaram a rir. — E por fim, Breca venceu-te, foi mais forte do que tu. Demonstrou a sua bravata contra ti — valha o que isso valer. — Os guerreiros dinamarqueses riram-se. Hrothgar sorriu. Unferth fez-se sério, e agora só o estranho continuava sorrindo, ele e os enormes gautas a seu lado, com a paciência de lobos. Unferth apontou com o punhal, oferecendo um conselho de amigo. — Adivinho que esta noite ainda vai ser pior para ti. É possível que tenhas tido triunfos — deles nunca ouvi falar. Mas espera uma noite pelo Grendel e todos os teus gloriosos triunfos chegarão ao fim.

Os dinamarqueses aplaudiram. O estranho continuou a sorrir, olhos oblíquos a lembrar abismos vazios. Podia ver o mecanismo dos seus pensamentos em marcha, frio e rígido, como uma mó. Quando o salão se acalmou por fim, falou, brando, o estranho olhar concentrado em coisa nenhuma.

— Ah, meu caro Unferth, muito falaste de Breca assim bêbedo. A verdade, todavia, é que eu o venci. Sou mais forte no mar do que qualquer outro homem vivo. Como rapazes inconscientes, acedemos ao desafio, sim... éramos ambos muito novos... juramos arriscar as nossas vidas no mar, e assim fizemos. Levamos conosco as espadas, nadando com um braço apenas, para afastar as baleias.

Unferth riu-se, e os outros seguiram-lhe o exemplo, como deviam. Não tinha pés nem cabeça!

Disse o estranho:

— Breca não se conseguia afastar de mim, apesar da sua força — um homem de braços como os teus, caro Unferth — e, quanto a mim, optei por não me afastar dele. Assim nadamos cinco noites, após o que se levantou uma tempestade, um vento gelado do norte, céu negro, ondas bravas, e acabamos separados. A agitação provocou os monstros marinhos. Um deles atacou-me, arrastou-me para o fundo, onde o peso do mar teria esmagado qualquer outro homem. No entanto, surgiu a oportunidade de o matar com a minha espada, o que fiz. Outros atacaram-me então. Acossaram-me duramente. Matei-os, nove velhos demônios aquáticos, privei-os do banquete que aguardavam no fundo do mar. Pela manhã, dilacerados a golpes de espada, flutuavam de barriga para o ar junto à praia. Não voltariam a incomodar os marinheiros de passagem depois disso. A luz surgiu a oriente e, avistando promontórios, nadei nessa direção. O destino tem por hábito recompensar os homens que guardam a sua coragem.

Os dinamarqueses não se riam agora. O estranho falara com tanta calma, com tanta brandura, que era impossível rir. Acreditava em tudo o que dizia. Compreendi enfim o seu olhar. Estava louco.

Ainda assim, não estava preparado para o que aconteceu a seguir. Ninguém estava. Solene, circunspecto apesar do sorriso irônico, lançou um ataque súbito — mas com a mesma brandura, a mesma indiferença quase desumana a não ser pelo fogo pálido no seu olhar.

— Nem tu nem Breca participaram em tais batalhas — disse. — Não me gabo muito disso. Ainda assim, não me recordo de ouvir falar de nenhuma façanha tua, exceto a de teres assassinado os teus irmãos. Há de caminhar por entre as estalagmites do Inferno por isso, caro Unferth — apesar da tua inteligência.

O salão estava paralisado. O estranho não brincava.

E, no entanto, era astuto, havia que admitir. Quer acreditassem ou não na sua história da força sobre-humana, não havia guerreiro no salão que o atacasse de novo e arriscasse sofrer uma cutilada daquela língua suave e assassina.

O velho rei Hrothgar, pelo menos, estava satisfeito. O caráter obsessivo do louco ser-lhe-ia útil no combate contra o monstro. Disse:

— Onde está a rainha? Somos todos amigos neste salão! Que se junte a nós para servir o mulso!

Ela devia ter estado à escuta atrás da porta. Saiu, radiante, e atravessou rapidamente o salão até à grande vasilha dourada na mesa junto à lareira. Como se tivesse trazido luz e calor com ela, os homens começaram a conversar, contar anedotas e rir, dinamarqueses e gautas, juntos. Tendo servido todos os dinamarqueses e os gautas de menor importância, pôs-se, cabelo ruivo solto, pescoço e braços adornados de ouro, junto ao líder dos estrangeiros.

— Dou graças a Deus — disse — por me ter concedido o desejo de enfim encontrar um homem em cuja coragem possa confiar.

O estranho sorriu e olhou de relance para Unferth. O imediato de Hrothgar tinha recuperado um pouco, embora o pescoço ainda estivesse muito corado.

— A ver vamos — respondeu o estranho.

E mais uma vez detectei que algo de peculiar se passava na minha cabeça. A sua boca não parecia mexer-se em conformidade com as palavras, e quanto mais olhava para aqueles ombros reluzentes, menos certezas tinha a respeito da sua forma. A sala estava saturada de um cheiro intenso e desagradável que não consegui identificar. Esforço-me por recordar algo: raízes retorcidas, um abismo... escapa-me. O estranho espasmo de terror passa-me. À parte da sua curiosa falta de barba, não há nada de assustador acerca do estranho. Já parti as espinhas de touros mais fortes do que ele.

Hrothgar proferiu discursos, de mão dada com a rainha. Unferth permaneceu absolutamente imóvel na cadeira, não corando mais. Decerto lutava por depositar esperanças no sucesso do estranho. O heroísmo é mais do que palavras nobres, dignidade. Heroísmo interior, é isso! Glorioso rubim da alma! A não ser na vida de um herói, todo o mundo é insignificante. Respirou fundo. Sim, tentaria ser uma pessoa melhor. Obrigou-se a um sorriso, mas contorceu-se, descontrolado. Lágrimas! Levantou-se de supetão e, sem dizer uma palavra, saiu.

Hrothgar explicou ao salão que o estranho era como um filho para ele. O sorriso da rainha era distante, e o sobrinho, Hrothulf, arranhava a mesa com uma unha encardida.

— Já tens mais filhos do que precisas — riu-se a rainha. Hrothgar riu-se também, embora não parecesse entender. Estava um tanto ébrio. O estranho permaneceu na cadeira com o mesmo sorriso apagado. O velho rei falou dos seus planos para Freawaru, como a casaria com o inimigo, o rei dos hedobardos. O estranho continuou a sorrir, mas de olhos fechados. Sabia reconhecer uma dinastia condenada, tive essa impressão; mas, por qualquer motivo, manteve-se mudo. Senti cada vez mais medo dele e, ao mesmo tempo — quem o pode explicar? — cada vez mais ansioso pela hora do nosso confronto.

A rainha levantou-se, por fim, e retirou-se. O fogo na lareira tinha esmorecido. Os sacerdotes saíram ordeiramente para as suas devoções no círculo dos deuses. Ninguém os seguiu. Podia ouvi-los ao longe: “Ó Destruidor espectral...”

O círculo dos deuses olhava friamente para dentro com os seus enormes olhos mortos.

Está na natureza dos carneiros ser carneiros e das cabras ser cabras, na natureza dos poetas cantar e dos reis governar. O estranho continua à espera, paciente, como um monte funerário. Também eu aguardo, murmurando, murmurando, igualmente louco. O tempo alonga-se, obedecendo à sua mecânica, como todos nós. Assim observa o jovem Poeta, cantando aos poucos que restam, dedos atormentando a harpa do morto.

A geada irá gelar, e o fogo derreter madeira; a terra dará frutos, e o gelo erguer-se-á sobre a água tenebrosa, impedindo misteriosamente o florescer da terra; mas as grilhetas do gelo também elas cairão, e o bom tempo voltará e o Sol poderoso restituirá o mar agitado...

Aguardamos.

O rei retira-se, e a sua gente sai. Os gautas espevitam o fogo, preparam-se para dormir.

E agora, silêncio. Escuridão. Está na hora.

 

Toco na porta com a ponta dos dedos e esta arrebenta, apesar de todas as traves — salta para longe como um veado aterrorizado — e mergulho no silêncio do salão iluminado pela lareira com uma gargalhada que eu próprio não gostaria de ter a acordar-me. Piso as tábuas que há momentos protegiam o salão como uma mão que o medo leva à boca (ah, poesia!) e os gonzos despedaçados ressoam como espadas ao fundo destas paredes de madeira. Os gautas são pedras, e se é por estarem paralisados de medo ou perros do mulso, não sei dizer. Estou inchado de excitação, sede de sangue, alegria e um estranho medo que se mesclam no meu peito com a fúria turbilhonante de uma fogueira de ossos. Salto para o piso reluzente e avanço, irado, sobre eles. Estão todos a dormir, a companhia toda! Mal posso crer na minha sorte, e o meu coração alvoroçado ri-se, mas não faço um som. Rapidamente, pé ante pé, irei de cama em cama para os destruir a todos, devorá-los até ao último homem. Sinto-me desenfreado, meio louco de alegria. Por pura maldade, agarro num pano da rnesa mais próxima e ato-o ao pescoço para fazer um guardanapo. Não me demoro mais. Agarro num homem adormecido e desfaço-o avidamente, desfaço-lhe as articulações à dentada e sorvo o sangue quente e escorregadio. Devoro-o em grandes bocados, cabeça, tronco, ancas, pernas, até as mãos e os pés. Tenho a cara e os braços encharcados, com o pêlo emaranhado. O guardanapo está ensopado. O chão negro fumega. Passo imediatamente ao próximo e deito-lhe a mão (murmurando, murmurando, mastigando o universo em palavras), agarrando-o pelo pulso. Percorre-me um choque. Erro!

É um truque! Os seus olhos estão abertos, sempre estiveram, observando-me friamente para ver como trabalho. O olhar trespassa-me agora enquanto a sua mão me prende o braço. Dou um salto para trás sem pensar (murmurando descontroladamente: dou um salto para trás sem pensar). Salta então da cama, com a mão ainda apertada em redor da minha como as mandíbulas de um dragão. Em lugar algum desta terra-média, constato, encontrei um aperto firme como o dele. Todo o braço me arde, com dores incríveis, dilacerantes — é como se os seus dedos possantes estivessem carregados de veneno, como os dentes de uma cobra. Grito, encarando-o, num aperto de mão grotesco — um irmão amado há muito perdido, um guerreiro da família — e o salão de madeira devolve-me o grito. Sinto os ossos dar de si, puxados das articulações, e volto a gritar. Estou subitamente acordado. O longo sonho pálido, a minha história, abandona-me. O salão está vivo, uma grande barriga cavernosa, ornada de ouro, manchada de sangue, retribuindo os meus uivos, iluminado pelo fogo crepitante no olhar do estranho. Ele tem asas. Será possível? E no entanto é verdade: dos seus ombros erguem-se terríveis asas de fogo. Sacudo a cabeça, tentando afastar a ilusão. O mundo é o que é e sempre foi. É a nossa esperança, a nossa oportunidade. Mas até em tempos de catástrofe povoamo-lo de truques. Grendel, Grendel, agarra-te ao que é verdade!

 

De súbito, as trevas. A minha sanidade triunfou. Ele não passa de um homem; posso fugir-lhe. Congemino um plano. Sinto o plano mover-se por mim como as águas do degelo subindo no meio de penhascos. Quando me sinto preparado, dou um pontapé feroz — Uá! — caindo pelo espaço sem fundo — Uá! — procurando agarrar as grandes raízes retorcidas de um carvalho... um clarão ofuscante... não, trevas. Concentro-me. Caí! Escorreguei no sangue. Ele, maldoso, torce-me o braço para trás das costas. Acidentalmente, fico a pensar, dei-lhe uma vantagem maior. Era capaz de me rir. Ai, ai!

E agora, algo pior. Está a sussurrar — espalhando palavras como uma chuva de granizo, com a boca a dez centímetros do meu ouvido. Recuso-me a escutar. Continuo a murmurar. Enquanto eu continuar a murmurar para mim, não terei de o ouvir. As suas sílabas tocam-me ao de leve, um fogo gélido. As suas sílabas tocam-me ao de leve, um fogo gélido. As suas sílabas tocam-me...

Um remoinho insignificante no curso do tempo, um agregado temporário de pedacinhos, uns quantos grãos de poeira ao acaso, uma imensa nuvem... Complexidades: poeira verde, poeira púrpura, dourada. Retoques adicionais: poeira sensível, poeira copulante...

O mundo é a minha caverna de ossos, nada me falta... (Ele ri-se enquanto segreda. Reviro os olhos. Saltam-lhe chamas dos cantos da boca.) É como o vês, enquanto a visão dura, negra história de pesadelo, o tempo-enquanto-caixão; mas onde a água era rígida, haverá peixe, e os homens sobreviverão às custas da sua carne até ser Primavera. Está a chegar, irmão. Quer acredites, quer não. Apesar de massacrares o mundo, reduzires planícies a pedra, metamorfoseares a vida em eu e aquilo, as raízes penetrantes acabarão por abrir fendas na tua caverna para que esta possa ser lavada pela chuva: O mundo arderá em tons de verde, o esperma voltará a criar. Prometo. O tempo é o espírito, a mão criadora (os dedos nas cordas da harpa, as espadas dos heróis, as façanhas, os olhos das rainhas). Com isso te mato.

Não o ouço. Estou farto. Já fui traído por uma conversa assim.

— Mamãe! — choro. Figuras indistintas como sargaços rodeiam-nos. A minha visão fica mais nítida. Os companheiros do estranho cercam-nos, empunhando espadas inúteis. Ter-me-ia rido não fossem as dores que me obrigam a gritar. Ainda assim, dirijo-me a ele, murmurando, murmurando, chorando.

— Se triunfares, é por puro acaso. Não te iludas. Primeiro enganaste-me, e depois escorreguei. Por acaso.

Ele responde com um puxão que me faz tombar aos gritos. Os guerreiros abrem alas. Caio de encontro a uma mesa e esmago-a, abrindo fendas na parede. Apesar de tudo, continua a sussurrar.

Grendel, Grendel! Crias o mundo em sussurros, segundo a segundo. Não vês? Se o convertes num túmulo ou num jardim de rosas, não é a questão. Sente a parede: não é sólida? Esmaga-me de encontro a ela, abrindo-me um golpe profundo na testa. É sólida, pois! Atenta à sua dureza, assenta-a cuidadosamente com runas. Agora canta sobre as paredes! Canta!

Solto um uivo.

Canta!

— Estou a cantar!

Canta palavras! Canta hinos furiosos!

— Estás doido. Au! Canta!

— Eu canto — grito. — Viva a dureza das paredes! Péssimo, sussurra ele. Péssimo. Ri-se e cospe fogo.

— Estás doido — digo. — Se julgas que criei a parede que me partiu a cabeça, és um filho da puta de um lunático!

Canta sobre as paredes, sibila. Não tenho outra escolha.

— A parede ruirá com o vento do monte ventoso Que ruirá também, e todas as coisas imaginadas: Nada feito irá restar, nem homens para recordar. E estas aldeias passarão a ser as aldeias cintilantes!

Está melhor, sussurra. Está melhor. Volta a rir-se, e a gargalhada maldosa admite que sou mais matreiro do que ele tinha imaginado.

Está doido. Entendo-o perfeitamente, que disso não restem dúvidas. Entendo a sua teoria lunática do espírito e da matéria, a frieza do intelecto, a intensidade da imaginação, os tijolos e o pedreiro, a realidade enquanto pressão. Ainda assim, foi por acaso que me apanhou o braço atrás das costas. Não desvendou mistério nenhum. Teve sorte. Se eu soubesse que ele estava acordado, se soubesse que havia sangue no chão quando lhe dei aquele pontapé...

A divisão fica subitamente branca, como que atingida por um relâmpago. Olho para baixo, surpreendido. Arrancou-me o braço pelo ombro! O sangue jorra onde antes se encontrava o membro. Choro, berro como um bebê. Dirijo-me para a porta. Corro como o vento. Tropeço e caio, volto a levantar-me. Vou morrer! Solto um uivo. A noite arde com homens alados. Não, não! Pensa! Mais uma vez, acordo subitamente do pesadelo. Trevas. Vou mesmo morrer! Todas as pedras, todas as árvores, todos os cristais de neve gritam a sua fria objetividade. Contornos frios e bem definidos, todas as coisas em redor: nítidas, desligadas como os mortos. Fico a perceber.

— Mamãe! — solto um rugido. — Mamãe, mamãe! Estou a morrer!

Mas o seu amor passou à história. O sussurrar do estranho persegue-me pelo bosque, embora o tenha deixado para trás.

— Foi por acaso — grito em resposta. Vou agarrar-me ao que é verdade. — Cego, obtuso, mecânico. A pura lógica do acaso.

Sinto-me fraco da perda de sangue. Ninguém me persegue agora. Volto a tropeçar e, com o braço que me resta enfraquecido, agarro-me às raízes retorcidas de um carvalho. Olho para baixo, para lá das estrelas, para uma escuridão aterradora. Julgo reconhecer o lugar, mas é impossível.

— Acaso — murmuro. Vou cair. Pareço querer cair, e embora resista com toda a minha vontade, sei de imediato que não posso vencer. Perplexo, a tremer de medo, a um metro da beira de um precipício assustador, dou por mim, incrivelmente, a caminhar na sua direção. Olho para baixo, para o negrume sem fundo, sentindo o poder tenebroso a penetrar-me como uma corrente oceânica, um monstro no meu íntimo, uma maravilha das profundezas, monarca da noite terrível despertando na sua caverna, obrigando-me lentamente ao meu salto voluntário para a morte.

A visão fica de novo mais nítida. Estou coberto de sangue. Os animais juntam-se à minha volta, inimigos de antigamente, para me ver morrer. Ofereço-lhes o que, espero, seja um sorriso acanhado. O meu coração pulsa de medo. Deixarei a vida escapar-se com o próximo fôlego? Eles observam com olhares indiferentes, obtusos, serenos e negros como o abismo a meus pés.

Será alegria, o que sinto?

Assistem, maldosos, incrivelmente estúpidos, deliciados com a minha destruição.

— Pobre Grendel, foi vítima do acaso — murmuro. — Que todos o sejam também.

 

                                                                                John Gardner  

 

                      

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