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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


GRIMPOW, O CAMINHO INVISÍVEL / Rafael Ábalos
GRIMPOW, O CAMINHO INVISÍVEL / Rafael Ábalos

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

GRIMPOW

O CAMINHO INVISÍVEL

 

                                                               A Abadia de Brínkdun

 

                     Um cadáver na neve

A névoa o impedia de distinguir um pouco mais adiante de seus próprios passos sobre o espesso manto de neve que cobria as montanhas. Por isso, Grimpow não viu o cadáver antes de tropeçar nele e cair de bruços a seu lado. Só então se deu conta de seu sinistro achado, e olhou aterrorizado para o ros­to do homem morto que jazia ao seu lado como se estivesse adormecido. Im­pulsionado pelo medo, Grimpow ficou em pé de um salto e correu o mais depressa que pôde até a cabana, exalando vapor pela boca como se fosse um cervo perseguido por lobos famintos.

A que se deve tanta pressa? — perguntou-lhe Dúrlib, depois de abrir a porta que Grimpow golpeava como um alucinado.

Há... Há um homem morto perto daqui! — respondeu Grimpow com voz entrecortada, ao mesmo tempo em que apontava para o branco bosque de abetos que se estendia às suas costas.

Dúrlib ficou pálido.

Você tem certeza disso, garoto? — perguntou, alarmado.

Grimpow só fez um gesto de consentimento para responder, enquanto dei­xava cair sobre o toco de um tronco cortado o par de coelhos que acabara de caçar com seu arco perto das geladas cascatas do vale.

Espere um momento. Vou pegar minha espada — disse Dúrlib.

O homem entrou na cabana, vestiu sua manta de peles e prendeu no cinto uma longa espada que sempre deixava dependurada ao lado da porta.

Vamos, Grimpow, leve-me ao lugar onde você encontrou esse homem.

E os dois partiram em direção ao cadáver do cavaleiro desconhecido, como se fossem dois espectros esfumados pela névoa.

Grimpow caminhava depressa, com seu arco na mão esquerda e a aljava repleta de flechas pendurada nas costas; estava disposto a usá-las contra qual­quer sombra que se movesse ao seu redor. Sentia que seu coração palpitava no peito com golpes de tambor, enquanto seus olhos seguiam o rastro de seus próprios passos na neve. As pegadas de sua corrida até a cabana eram tão níti­das e profundas que não podia se equivocar. Só tinha de percorrer de volta o mesmo caminho entre penhascos e abetos, e o corpo daquele homem estendi­do sobre a neve voltaria a aparecer diante de seus olhos como se estivesse adormecido.

Está ali! — gritou Grimpow ao ver o vulto escuro de um corpo semi-oculto na neve.

Dúrlib parou ao seu lado.

Fique aqui e não se aproxime até que eu lhe diga — ordenou-lhe.

O cadáver estava tombado de costas, e seu rosto parecia fitar o céu nubla­do, como se o último desejo daquele homem antes de encontrar a morte tives­se sido o de se despedir das estrelas. Teria uns sessenta anos e, a julgar pelas roupas que vestia e a capa de pano grosso que trazia presa às costas, Dúrlib teve certeza de que sua linhagem era nobre. Aproximou-se devagar, ajoelhou-se diante do cavaleiro morto e fechou seus olhos ainda abertos. Diminutas estalactites de gelo pendiam de seus longos cabelos, de suas barbas esbranquiçadas e de suas sobrancelhas, sua pele tinha uma cor azulada, e em seus lábios ressecados parecia desenhar-se o esboço de um sorriso.

Está congelado — disse Dúrlib depois de examinar atentamente o cadá­ver. — Não vejo em seu corpo nenhuma ferida que permita acreditar que foi assassinado. O mais provável é que tenha se afastado de sua montaria e se perdido no meio da noite cheia de névoa. O frio grudou em suas veias e gelou seu sangue. Creio que teve um final suave, apesar de sua desgraçada morte — acrescentou.

Nesse instante, Dúrlib viu que a mão direita do cadáver estava fechada com força, como se guardasse nela um objeto valioso do qual o cavaleiro morto não quisera desprender-se nem mesmo nos últimos momentos de sua vida. Dúrlib pegou a mão rígida e gelada do defunto e foi separando com dificuldade cada um dos dedos até que ficou visível uma pedra polida e arredondada do tamanho de uma amêndoa. Sua cor era estranha e indefinida, como se mudas­se de tonalidade ao ser movida ou girada.

O que está acontecendo? — perguntou Grimpow, impelido pela curio­sidade,

Aproxime-se — disse Dúrlib.

Quando Grimpow acomodou-se ao seu lado e contemplou de novo o ros­to do cadáver, confirmou que aquele homem parecia adormecido. Talvez a morte seja apenas um plácido e eterno sono, pensou. Depois reparou na pe­quena pedra que Dúrlib tinha na mão, e lhe perguntou:

Que pedra é esta?

Talvez o cavaleiro morto a usasse como amuleto e a tivesse segurado com a mão pouco antes de morrer, ao ter certeza de que havia chegado o momento de encomendar sua alma a Deus — disse Dúrlib, ao mesmo tem­po em que jogava o talismã do defunto para Grimpow. — Guarde-a você: a partir de agora esta pedra estará unida ao seu destino — acrescentou com um tom misterioso.

Grimpow pegou a pedra ainda no ar e suas mãos sentiram o cálido tato do mineral, apesar do ar gelado das montanhas.

O que você quer dizer com esta história de que esta pedra estará unida ao meu destino? — perguntou desorientado, pois nunca havia ouvido Dúrlib falar de uma maneira tão enigmática.

Supondo que se trata de um amuleto, ela o protegerá dos espíritos ma­lignos e lhe dará sorte — disse Dúrlib, com indiferença.

Eu já tenho um amuleto — replicou Grimpow, abrindo o gibão e mostrando-lhe a bolsinha de linho com alguns raminhos de alecrim que sua mãe lhe pendurara no pescoço quando ainda era criança.

Pois agora você tem dois, e não haverá mau-olhado, maldição ou vene­no que possa prejudicá-lo. Mas, como você pode ver no rosto gelado deste cavaleiro, não se deve confiar no frio. Não parece que a ele seu amuleto tenha sido de grande utilidade.

Grimpow lembrou que sua mãe costumava lhe dizer que ele havia nascido com o século XIV, e que, segundo predizia a circunferência da lua cheia que iluminava o céu na noite de seu nascimento, o futuro haveria de lhe apresen­tar toda a sorte e todas as bondades que a ela seu destino infeliz havia negado. Grimpow passou as pontas de seus dedos pela superfície polida da pedra, e teve o pressentimento de que os vaticínios de sua mãe começavam a ser cum­pridos. No entanto, algo dentro dele também o fazia temer alguns aconteci­mentos incertos que só era possível vislumbrar, e que lhe provocavam um pro­fundo desconforto. Pensou que essa inquietude só era por causa de seu encontro com o cavaleiro morto, cujo corpo sem vida ainda tinha diante de seus olhos, mas, apesar de sua pouca idade, não era esse o primeiro cadáver que ele via. Em uma época marcada por epidemias, as pessoas da comarca de Üllpens morriam com uma facilidade assustadora, e Grimpow havia visto cadá­veres de muitos homens, mulheres, velhos e crianças amontoados às portas do cemitério como se fossem sinistros espantalhos, enegrecidos e desfigurados.

Grimpow estava pensando nisto quando a voz espantada de Dúrlib afas­tou-o de suas reflexões.

Veja estas coisas maravilhosas! — exclamou, sem ocultar sua alegria.

Logo despiu com precipitação sua manta de peles, estendeu-a sobre a neve e imediatamente despejou sobre ela o conteúdo de um alforje de couro que encontrara sob o cadáver. Ao abrigo da névoa, e sob a pálida luz do meio-dia, surgiu um par de adagas de tamanhos diferentes que tinham uma empunhadura de marfim incrustado de safiras e rubis. Havia também uma grande quantidade de moedas de prata, algumas jóias, uma carta lacrada e, guardado em uma caixinha de madeira talhada, um lacre de ouro daqueles que reis e nobres usavam para autenticar seus documentos e mensagens.

Você está pensando em ficar com essas riquezas? — perguntou Grimpow, assustado diante da visão das jóias mais valiosas que seus olhos ja­mais haviam contemplado.

Dúrlib olhou-o com descrença.

O que você está querendo dizer? Somos vagabundos e ladrões! Ou você já se esqueceu?

Mas não somos profanadores de cadáveres — respondeu Grimpow com uma autoridade que surpreendeu a ele próprio.

Ora, vamos, meu amigo! — disse, conciliador, Dúrlib. — Em minha longa e miserável vida de proscrito e vulgar salteador de estradas, jamais o céu colo­cou a meu alcance um tesouro tão valioso como o que agora tenho em minhas mãos sem necessidade de arriscar o pescoço para consegui-lo, e você me pede que não me apodere dele! Você ficou louco, garoto? — perguntou exaltado.

Grimpow girava a pedra que tinha na mão procurando argumentos que pudessem convencer Dúrlib de que suas intenções eram equivocadas.

Nem sequer sabemos quem é este homem, nem de onde veio, nem como chegou até estas montanhas. Até é possível que alguém saiba que passou por aqui e venha logo procurá-lo.

A neve que caiu durante a noite apagou todas as pegadas, você não deve se preocupar com isso — disse Dúrlib com intenção tranqüilizadora.

E sua montaria?

Os lobos cuidarão de seu cavalo, se é que montava algum.

Os lobos não poderão devorar as rédeas nem a sela, e se alguém as en­contrar seremos acusados de assassinato do cavaleiro desconhecido, e nos condenariam à morte pelo pior dos martírios — disse Grimpow com um de­sembaraço que chegou a aturdi-lo, pois nunca antes havia se expressado com um conhecimento tão claro daquilo que queria dizer.

Eu não havia pensado nisso — admitiu Dúrlib, coçando a cabeça. — Será melhor esconder o tesouro perto da cabana e voltar ao entardecer para sepultar o cavaleiro defunto antes que anoiteça. Bons cristãos não têm o hábi­to de abandonar os corpos dos mortos para que sirvam de pasto aos animais. Essas riquezas recompensarão depois o nosso gesto, e assim a alma do cava­leiro ficará em paz com Deus e as nossas redimidas de todo pecado — con­cluiu, persignando-se como um frade durante sua pregação.

Deveríamos avisar ao abade de Brínkdum — disse Grimpow, secamente.

Os olhos de Dúrlib não ocultaram seu assombro ao ouvir a sugestão do amigo.

Ao abade de Brínkdum? Esse abade é o pior ladrão que estas terras conheceram desde o começo do mundo! Se seus olhos chegarem a ver este tesouro, estou certo de que o quererá só para ele mesmo, em pagamento pelas muitas missas e orações que dedicará a cada dia em sua abadia à salvação da alma do cavaleiro morto — disse Dúrlib, com sarcasmo.

Mas ele poderá averiguar de quem se trata, e poderá tratar de enterrá-lo na igreja do monastério como cabe a um cavaleiro de estirpe — replicou Grim­pow, empenhado em seus esforços de não profanar aquele cadáver.

Não tenha dúvida de que o abade também saberá cobrar com vantagens a hospedagem de tão generoso e nobre defunto — sentenciou Dúrlib, mais irônico ainda.

Isso não é coisa que nos diga respeito — disse Grimpow, desdenhoso.

Diante do súbito silêncio de Dúrlib, Grimpow pensou que ele se dera por vencido.

Eu me pergunto quem poderia viajar sozinho por estas montanhas com um tesouro de tal monta em seu alforje — perguntou Dúrlib, sem que Grimpow soubesse se a pergunta era dirigida a ele ou se a formulava a si mes­mo em voz alta.

O que você acha? — respondeu Grimpow com outra pergunta.

Talvez ele seja um desses cavaleiros cruzados que voltaram há anos da Terra Santa carregados com os tesouros dos infiéis, ou um peregrino que ca­minha em solitária penitência a expiar suas culpas diante das relíquias de um santo apóstolo. Também poderia se tratar de um rei destronado que fugiu de seu longínquo reino com os únicos objetos que cabiam em seu alforje, ou tal­vez seja apenas um simples ladrão como a gente, disfarçado de nobre para dissimular o alcance de suas malfeitorias. Mas, em qualquer caso, não creio que se trate de um senhor destas terras. Jamais vi adagas como estas, forjadas com o melhor aço e com empunhaduras de marfim repletas de jóias tão belas e perfeitas — discursou Dúrlib sem estar muito convencido.

Parece que era portador de alguma mensagem — disse Grimpow, apon­tando a carta lacrada.

Dúrlib pegou a mensagem lacrada e a examinou atentamente. Depois pe­gou o lacre de ouro e o comparou com as marcas do selo, um estranho dese­nho de uma serpente que mordia o próprio rabo formando um círculo com seu corpo, contornado por sinais incompreensíveis.

Trata-se do próprio lacre — confirmou, depois de comparar as filigra­nas de seu traçado. — Se quebrarmos o lacre da missiva, talvez possamos des­cobrir algo sobre o cavaleiro morto.

Dúrlib olhou para Grimpow como se esperasse ver em seus olhos a confir­mação de que ele também desejava conhecer o conteúdo daquela mensagem. Foi então que Grimpow começou a perceber o poder oculto daquela pedra que, sem se dar conta, girava em sua mão como se fosse um brinquedo de criança.

Abra-o — disse, sem hesitar.

Servindo-se da adaga menor, Dúrlib quebrou o lacre cuidadosamente, e pela expressão de seu rosto Grimpow deduziu que não lhes serviria de nada abrir a mensagem, pois jamais entenderiam o que estava escrito nela.

Qual será o significado destes símbolos? — perguntou à meia-voz.

Grimpow pediu-lhe que o deixasse ver a mensagem e assim que a teve di­ante de seus olhos uma cadeia de palavras foi se formando em sua mente, como se para ele aquela sucessão de estranhos sinais não guardasse nenhum segredo.

No céu estão a escuridão e a luz. Aidor Bílbicum. Estrasburgo — disse Grimpow prontamente, sem que ele próprio pudesse compreender por que foram estas e não outras as palavras que saíram de sua boca, ao mesmo tempo em que sua mente era povoada por um sem-fim de imagens irreais e confusas.

Dúrlib o fitou com uma mistura de espanto e desconfiança.

Como você pode saber uma coisa dessas?

Eu não sei — admitiu Grimpow. — É como se pudesse ler sem conhecer essa linguagem, da mesma maneira que digo pássaro sem saber escrevê-lo, ou pronuncio qualquer outra palavra. Creio que foi esta pedra estranha que me permitiu interpretar esse enigma — raciocinou aturdido, enquanto sentia que a in­sólita pedra que estava em sua mão parecia fundir-se com sua pele, e que todo um universo de conhecimentos iluminava sua mente de um modo tão mágico e inexplicável que chegou a pensar que o próprio cavaleiro morto havia se apoderado de sua alma.

E então o gelo que pendia dos cabelos e das sobrancelhas do cadáver co­meçou a se desfazer em pequenas gotas de água, seu rosto adquiriu uma colo­ração rosada e todo o seu corpo começou a derreter sobre a neve como um boneco de cera exposto ao calor do fogo, até que desapareceu completamente diante deles.

Pelas cicatrizes de um ladrão espancado! Que me pendurem na árvore dos enforcados de Úllpens se isto não foi obra do diabo! — exclamou Dúrlib, sem acreditar no súbito desaparecimento do cadáver.

No entanto, Grimpow não ficou surpreso diante de um fato tão prodigioso.

Creio que o cavaleiro morto voltou ao lugar de onde veio — disse Grimpow meditabundo, sem deixar de sentir o contato da pedra em sua mão, e sem estar muito seguro de que era ele quem realmente falava.

Dúrlib fitou-o pasmado.

E qual é esse milagroso lugar onde os mortos se evaporam no ar como por encantamento?

Não sei exatamente, mas desde que segurei esta pedra sinto como se algo inexplicável me fizesse ver coisas que você mesmo jamais poderia imagi­nar — disse Grimpow.

Vamos, Grimpow, deixe de perorações! Há apenas um instante tínha­mos aí o cadáver de um homem, exatamente diante dos nossos narizes, e ago­ra ele não está mais! É evidente que se trata de algum sortilégio realizado por um necromante aliado do demônio — disparou Dúrlib, persignando-se de novo com fingida devoção.

Nem Deus nem Satanás têm nada a ver com isto, creia-me — disse Grimpow sem saber por quê.

Pois não serei eu quem vai ficar neste bosque maldito nem um momen­to a mais para averiguar isso; não quero correr o risco de que o fantasma desse cavaleiro corte nossas cabeças e as crave em um pedaço de pau para que os abutres se deleitem com o sabor de nossos olhos.

As mãos de Dúrlib recolheram apressadamente o valioso tesouro do cava­leiro morto que ele mesmo havia espalhado sobre sua manta de peles. Enfiou tudo no alforje do defunto e se preparou para ir embora dali.

Você nunca acreditou em fantasmas, Dúrlib! Além do mais, alguma coi­sa me diz que esse misterioso cavaleiro tinha uma missão a cumprir, alguma tarefa importante a realizar e não pôde concretizá-la como era seu propósito. A gente deve fazer isso por ele; em troca, ficaremos com seu tesouro — disse Grimpow.

A julgar pela cara que Dúrlib fez ao ouvir suas palavras, Grimpow não teve dúvidas de que seu amigo temia que a pedra que servia de amuleto ao cavaleiro morto e agora estava em sua mão houvesse transtornado seu juízo.

E escolheu vir a estas montanhas nevadas e despovoadas para encon­trar-se cara a cara com a morte, fazer-nos herdeiros de suas riquezas e desapa­recer como Cristo depois de crucificado? — inquiriu irônico.

Talvez só estivesse de passagem para outro lugar, provavelmente a ca­minho de Estrasburgo, onde entregaria a esse tal de Aidor Bílbicum a mensa­gem da carta lacrada — refletiu Grimpow em voz alta.

Dúrlib suspirou e esbugalhou os olhos como um sapo.

Você pode pensar o que quiser, mas só o diabo e sua corte de bruxos, feiticeiros e necromantes são capazes de realizar prodígios como o que acaba de acontecer, e o qual nós, embora não saiba se para nossa desgraça e tormento, testemunhamos. Por isso, é melhor que partamos para a abadia de Brínk­dum antes que a noite cubra a floresta com suas trevas. Lá na igreja assistire­mos ao último culto do dia e purificaremos nossos corpos e nossas almas com grandes quantidades de água benta. Só assim evitaremos os estragos que o espírito deste cavaleiro morto, mago, bruxo ou o que quer que seja, poderia nos causar com seus malefícios de além-túmulo.

Eu vejo que no fundo você não é só guloso, é supersticioso também — disse Grimpow rindo. — Mas não acredito que o cavaleiro morto, que foi tão generoso ao colocar ao nosso alcance seu valioso tesouro, tenha intenção de nos transformar também em objeto de sua vingança. Além do mais, que mal nós lhe fizemos? Estávamos até pensando em lhe dar uma sepultura cristã ao lado do altar da abadia de Brínkdum! — observou Grimpow, convencido da solidez de seus argumentos.

Dúrlib contraiu o cenho para referendar suas dúvidas.

Espero que os dons de adivinhação que essa pedra parece ter lhe dado de presente sejam tão precisos como as flechas de seu arco; caso contrário, tenho muito medo de que a maldição do cavaleiro morto se grude nos nossos calcanhares como a sombra do diabo à pele de um possuído pelo demônio.

Esqueça seus temores, Dúrlib! Ainda não sei até onde nos levará a des­coberta do cadáver do cavaleiro que desapareceu diante dos nossos olhos, nem o da pedra que ele tinha em sua mão e que agora eu tenho na minha, mas, se não me engano, é esta mesma pedra a que nos levará a desvendar o mistério que tanto o perturba — disse Grimpow, convencido pela primeira vez de suas palavras.

Para mim, as riquezas que a deusa Fortuna colocou ao nosso alcance são mais que suficientes, embora ela tenha usado os serviços de um cavaleiro morto que goza do fantasmagórico e temível feitiço da invisibilidade. Mas, se é seu desejo desvendar sua missão neste nosso mundo, não serei eu quem o abandonará agora que a aventura nos chama para seu lado como o doce canto de uma formosa donzela — concluiu Dúrlib seu discurso.

— Então partamos para a abadia de Brínkdum quanto antes! — disse Grimpow, alegre.

 

À medida que eles desciam em direção à abadia, a névoa ia subindo em delgados chumaços que flutuavam sobre as copas dos abetos como nuvens esponjosas e desfiadas. A camada de neve era mais fina, e caminhar sobre ela se tornava mais cômodo e mais rápido quando se usava a estreita trilha cercada de arbustos espinhosos que conduzia ao vale. Os temores de Dúrlib diante da vin­gança do fantasma do cavaleiro morto pareciam ter se dissipado como a névoa, e ele caminhava ao lado de Grimpow cantarolando uma cançãozinha que cos­tumava sempre entoar quando se sentia tranqüilo e feliz.

Dúrlib sabia tocar viola, declamava poesias e fazia truques de mágica e malabarismos com a agilidade dos mais famosos trovadores e saltimbancos das comarcas próximas. Mas, acima de tudo, Dúrlib era um enganador e um ladrão capaz de aliviar a bolsa de camponeses, andarilhos, peregrinos, merca­dores, monges e cavaleiros, tanto com a habilidade da palavra como com a eficiência de suas mãos e de sua espada. Quando o conhecera um ano antes nas festas de primavera, Grimpow trabalhava como garçom na taberna obscu­ra e fétida que seu tio Félsdron, o Irritado, como todos o chamavam, tinha em Rhíquelwir, e a qual Dúrlib costumava freqüentar para animar com suas habi­lidades as bebedeiras dos clientes que vinham de todas as aldeias. Numa noite tormentosa na qual Dúrlib acabara de esvaziar a bolsa de um grupo de artesãos incautos que tinham aceitado jogar com ele uma partida de dados, foi reconhecido por um rico mercador de gado de quem, na manhã daquele mesmo dia, havia roubado os ganhos que tivera com seus negócios, ameaçan­do-o com a ponta de sua espada em uma encruzilhada da comarca. Em troca de algumas moedas, o comerciante humilhado pediu a Grimpow que vigiasse o ladrão e o seguisse aonde quer que fosse, enquanto ele corria para avisar os esbirros do senhor que exercia jurisdição dentro das muralhas de Rhíquelwir para que prendessem o assaltante e o enforcassem sem demora na praça da cidadela, tão logo a alva despontasse. No entanto, comovido pelo cruel castigo que aguardava quem para ele era apenas um intrépido e amável malandro, Grimpow correu para avisá-lo da punição que desabaria sobre ele se não fu­gisse imediatamente da taberna. Dúrlib despejou o cântaro de vinho em sua garganta de uma só vez, limpou a boca com a manga de seu gibão e lhe disse:

É triste o destino de um proscrito! — e, lançando a Grimpow uma pis­cadela de cumplicidade, acrescentou: — A taberna tem alguma saída alterna­tiva que eu possa usar para escapulir antes que os soldados do conde me destripem como se fosse um porco empanturrado de bolotas?

Grimpow fez um sinal para que o seguisse e, aproveitando um descuido de seu tio, cruzaram a adega abarrotada de teias de aranha e barris de vinho e alcançaram o pátio traseiro da taberna. O menino abriu o portão pelo qual entravam e saíam os carros na época da vindima e pediu a Dúrlib que aguardasse um momento do lado de fora, vigiando a rua. Depois, foi até o pequeno estábulo em que seu tio Félsdron, o Irritado, guardava um velho cavalo, colocou-lhe as rédeas, improvisou uma manta surrada para servir de sela, colocou-a sobre o dorso do animal e voltou puxando-o para vencer sua teimosia.

Como poderei lhe pagar por sua generosa ajuda? — perguntou-lhe Dúrlib, mostrando por meio de gestos que tinha a intenção de tirar algumas moedas da bolsa que guardava sob seu gibão.

Leve-me com você — disse Grimpow sem titubear. — Quando o mer­cador e meu tio descobrirem minha manobra não hesitarão em me açoitar até quebrar minhas costas — acrescentou, suplicando a Dúrlib com os olhos que não o deixasse ali.

Dúrlib ficou observando-o enquanto pensava no que fazer com o garoto. Mas, ao fim, disse sorrindo:

Suba na garupa deste bucéfalo e fujamos daqui antes que a matilha dos meus perseguidores fareje o nosso rastro e consiga nos alcançar. Se nos pega­rem, seremos dois e não um os enforcados ao amanhecer.

E foi o que Grimpow fez. Montou no cavalo com um salto acrobático, sem dissimular sua alegria, e se encaminharam sob a chuva à casa de sua mãe na aldeia de Obernalt, que ficava a pouco mais de uma hora de estrada de Rhíquelwir, para passar a noite ali.

Não parece que você goste muito de estar em companhia desse seu tio — disse Dúrlib no meio do murmúrio da tormenta que se afastava, e dos raios que iluminavam com suas rajadas o céu no horizonte.

Ele é marido de uma irmã de minha mãe, e a única pessoa de nossa família que tem uma situação mais estável. Meu pai morreu de varíola há dois anos, e minha mãe me mandou trabalhar com meu tio para que ao menos não passasse fome e aprendesse o ofício de taberneiro. Na aldeia de Óbernalt, cul­tiva-se pouca coisa, e o vento frio do norte destrói todos os anos as colheitas. Minha tia é uma boa mulher, mas meu tio Félsdron é mesmo um irritado que passa as horas grunhindo, e quase todos os dias desconta seu mau humor em mim, maldizendo-me e dando-me todo o tipo de tapas e chibatadas.

E o que você está pensando em fazer agora? — perguntou Dúrlib, sem deixar de observar a escuridão em que se embrenharam logo depois de terem deixado a pequena cidade de Rhíquelwir.

Se você quiser, posso ser seu criado — respondeu-lhe.

Vagabundos como eu não têm criados. Além do mais, gosto de estar sozinho, e minha vida errante de proscrito não é melhor do que a que você tinha na taberna de seu tio.

Mas você é livre para ir aonde quiser! — exclamou Grimpow.

Minha liberdade só me servirá para que eu acabe enforcado um dia em alguma aldeia miserável. Não posso aceitar que você venha comigo.

Então me deixe ficar ao seu lado só durante algum tempo, até que en­contre meu próprio caminho na vida — implorou-lhe o menino.

Conversavam sem ver seus rostos por causa da escuridão e de sua posição sobre o cavalo, mas nesse momento Dúrlib virou a cabeça e olhou o menino diretamente nos olhos.

Você deveria tentar ser alguma coisa mais que um simples ladrão como eu — disse.

Eu sempre quis ser escudeiro, para aprender a lidar com as armas e combater nas guerras.

Nas guerras, os homens matam uns aos outros sem saber muito bem por que o fazem. Você deveria procurar outra ocupação.

O silêncio os envolveu e os acompanhou durante um bom tempo, até que Dúrlib, sentindo-se em dívida com o garoto que o havia salvado da forca, disse:

Tudo bem. Você pode ficar ao meu lado, se quiser. Mas só durante al­gum tempo — ponderou sem lhe dirigir o olhar.

Grimpow sabia que sua mãe ficaria alegre em vê-lo, embora fosse se abor­recer depois, ao saber da história de sua fuga da taberna de seu tio. Quando chegaram à aldeia de Óbernalt, calados até os ossos, Grimpow narrou os acon­tecimentos à sua mãe, e, embora seus projetos de futuro com Dúrlib, a quem apresentou como um trovador digno, não chegassem a convencê-la de que sairia ganhando com a mudança de ofício, tudo foram beijos e parabéns quan­do voltou a se despedir do filho. Talvez porque, por um momento, sua mãe tivesse chegado a temer que fosse ter outra boca para alimentar em sua casa, onde, além de suas quatro irmãs, Grimpow viu duas crianças pequenas que nem sequer conhecia.

Foi assim que Grimpow começou sua vida ao lado de Dúrlib, vagando por aldeias e cidades, roubando em granjas e mercados, assaltando mercadores e peregrinos, pedindo esmola nas portas das igrejas fingindo-se de cegos ou aleijados, fazendo malabarismos ou caçando furtivamente durante o inverno nas montanhas. Com ele aprendeu a manejar o arco e a rastrear as pegadas de coelhos, cervos e cabritos-monteses, de linces, ursos e raposas. Aprendeu a sobreviver no meio da miséria e da pobreza, a gostar de um bom amigo e a contemplar as estrelas nas noites sem lua.

Todas estas recordações vieram à sua mente enquanto avançavam sobre a neve a caminho da abadia de Brínkdum carregando o valioso tesouro do ca­valeiro morto, sem que Grimpow pudesse imaginar naquele momento que muito em breve se separaria de Dúrlib para sempre.

 

                                     Visitas inesperadas

A abadia de Brínkdum apareceu diante deles no meio das débeis luzes do amanhecer como uma massa de pedra avermelhada ocupada por telhados cobertos de neve. A abadia ficava ao nordeste da comarca de Üllpens, ao pé de um fértil vale cercado por bosques, rios e montanhas. Fora construída havia três séculos por um grupo de monges eremitas que acreditaram ter encontrado naquele belo lugar as próprias portas do Paraíso, e a alta torre do campanário se alçava majestosa sobre o resto dos edifícios; era visível desde longe e servia de guia para peregrinos, além de ser uma clara advertência aos demônios.

Essa não era a primeira vez que Grimpow visitava a abadia com Dúrlib. O abade, um monge de meia-idade cujos olhos diminutos e inexpressivos pare­ciam ser de estátua, gostava, apesar de seus votos de pobreza, de possuir todo tipo de jóias e adornos, e, em mais de uma ocasião, ficara com boa parte do butim de seus assaltos aos andarilhos. Em troca, dava-lhes comida e vinho abundante, permitia-lhes viver na cabana do bosque durante o inverno e ca­çar nas montanhas, e fingia não ver os delitos que cometiam.

Será melhor esconder nosso tesouro antes de chegar à abadia. Não po­demos despertar a curiosidade do abade. Ele pode querer conhecer o conteú­do deste alforje, e pretender enfiar suas narinas nele — disse Dúrlib quando se preparavam para cruzar um pequeno arroio pelo raso que ficava logo ali.

Grimpow examinou a abundante vegetação que tinha ao seu redor, os al­tos abetos que salpicavam a paisagem e as massas de rochas cinza das quais o vento havia arrancado seu frágil manto de neve. Não muito distante deles, uma pequena cruz que indicava o caminho da abadia se alçava sobre um pe­destal de pedra. Pensou que aquele podia ser um lugar adequado para enter­rar o alforje, e apontou-o com o braço esticado.

O tesouro estará bem guardado ao pé da cruz — disse.

Dúrlib limitou-se a concordar e se dirigiu ao lugar escolhido. Abriu o alfor­je e tirou as duas adagas adornadas com safiras e rubis. Deu a Grimpow a menor e reservou para ele a maior.

Esconda-a entre o gibão e as calças — disse.

Você acha que correremos algum perigo entre os monges da abadia? — perguntou Grimpow, desconcertado.

Depois do que vi, prefiro desconfiar de todas as minhas crenças — dis­se Dúrlib, com um sorriso fugaz.

Dúrlib também escondeu sua adaga sob o gibão, tal como havia sugerido a Grimpow que fizesse, desembainhou sua espada e cavou um buraco atrás do pedestal que sustentava a pequena cruz de pedra. Mas antes de introduzir o alforje no esconderijo, voltou a abri-lo e tirou algumas das moedas de prata que o cavaleiro morto carregava.

Trocaremos estas moedas com o abade de Brínkdum por dois daqueles bons cavalos que cria com tanto esmero em seus estábulos. Não sei muito bem onde fica Estrasburgo nem quantos dias levaremos para chegar lá, mas estou certo de que será mais confortável ir a cavalo que a pé.

Saber que Dúrlib, apesar de seus receios, desejava ir a Estrasburgo tanto quanto ele para investigar o significado da mensagem que o cavaleiro morto carregava aumentou a vontade de Grimpow de chegar à abadia. Durante o ca­minho, não apenas estivera recordando a maneira como havia conhecido Dúrlib, mas também esteve pensando no que acabara de ocorrer com o cavalei­ro morto que encontraram nas montanhas e desaparecera na neve. Grimpow havia guardado a pedra na pequena bolsa de linho com raminhos de alecrim que sempre trazia pendurada no pescoço, e, embora já não sentisse o calor que havia desprendido quando a tivera na mão, não deixava de perceber sua proxi­midade. Sabia que aquele minério era mais que um simples amuleto; era uma coisa inexplicável, como uma convocação silenciosa e distante. As únicas pistas de que dispunham eram a mensagem lacrada e o lacre de ouro do cavaleiro morto, e Grimpow não deixava de pensar nelas sem parar.

Depois de cobrir com terra e neve o buraco em que ocultaram o alforje com seu pequeno tesouro, voltaram ao último trecho do caminho à abadia de Brínkdum, uma subida tortuosa.

No céu estão a escuridão e a luz — disse Grimpow em voz alta, repetindo as mesmas palavras que pronunciara ao ler a mensagem escrita com símbolos estranhos na carta lacrada que o cavaleiro morto tinha em seu poder.

Essas palavras soam como o exorcismo de um mago, eu já lhe disse, e será melhor que não as pronuncie tão perto de uma igreja; um raio divino pode nos fulminar com sua luz celestial e nos mandar para sempre à escuridão dos infernos — proclamou Dúrlib, divertindo-se com seus jogos de palavras.

Eu creio que elas significam muito mais que isso, Dúrlib. Estou pensando que essa mensagem talvez seja uma espécie de contra-senha, um código cujo verdadeiro sentido só esse tal de Aidor Bílbicum de Estrasburgo conhece.

Os magos e os bruxos são os únicos que conhecem a utilidade das pala­vras mágicas que pronunciam em seus rituais e exorcismos. Estamos falando da mesma coisa. Certa vez, vi uma velha bruxa exorcizar uma mulher cujo corpo não parava de dar saltos e sacudidelas sobre o chão, enquanto babava como uma fera moribunda. As palavras que a bruxa pronunciava sem parar de dançar em torno da mulher pareciam estar saindo da boca de um ser monstruoso e diabólico.

Mas você está falando de crenças e superstições, de bruxarias e feitiçarias, e eu me refiro a uma coisa muito maior do que isso. Até diria que esta frase quer dizer que no céu está a ignorância, que é a escuridão, e a luz, que não é nada mais que o conhecimento e a sabedoria. As superstições e os encanta­mentos de que você fala são frutos da ignorância. Os deuses e demônios não existem, Dúrlib, são apenas coisas que os homens inventaram para explicar o mundo — argumentou Grimpow, estranhando mais uma vez suas próprias palavras.

Você tem certeza de que é você quem está falando comigo e não o espí­rito do misterioso cavaleiro morto? — indagou Dúrlib, fitando-o sem ocultar de novo seus temores e suas dúvidas.

Que importância tem isso? — questionou Grimpow, incapaz de respon­der a essa pergunta.

Importa, e muito. Se o abade de Brínkdum o ouvisse, pensaria que os demônios se apoderaram de seu corpo e faria com que você fosse queimado em uma fogueira diante de toda a comarca de Üllpens, como exemplo aos hereges.

Você pode rir se quiser, mas creio que era precisamente de uma foguei­ra que o cavaleiro morto fugia — disparou Grimpow, convencido.

Mais uma razão para considerá-lo um mago, um bruxo ou um adorador das trevas, desses que a Inquisição persegue para purificar suas almas nas cha­mas do fogo — disse Dúrlib, exatamente no momento em que chegavam às portas da abadia de Brínkdum.

A noite deixava cair espessos véus de penumbra sobre o vale quando a por­ta foi aberta por um servente agigantado, encurvado e taciturno que era cha­mado de Kense pelos monges, um homem que não parecia ter muita simpatia pelos recém-chegados. Ao vê-los na sua frente, ficou observando-os sem dizer nada, como se houvesse ficado mudo ou tivesse sido o vento quem acabara de golpear as portas da abadia com suas mãos invisíveis.

Você não vai deixar entrar na abadia dois pobres andarilhos que não têm fogo para se aquecer nem leito para repousar seu corpo cansado, amigo Kense? — disse Dúrlib, imitando uma reverência inacabada.

O servente voltou a fechar a porta sem dizer palavra, e Grimpow e Dúrlib ouviram seus passos se afastando no interior da abadia com um cicio de sandálias arrastadas. Acharam que iria avisar a algum monge ou ao abade para que sua entrada na abadia fosse autorizada, mas, diante da sua demora em voltar, Dúrlib golpeou de novo a porta com a aldrava, desta vez com mais vee­mência.

Já vai, já vai! — ouviu-se uma voz de flauta manifestando-se do lado de lá.

Era o irmão Brasgdo, um monge risonho e gordo como um tonei de vinho que Grimpow sempre havia visto labutando na cozinha no meio de caçarolas e fogões, pedaços de carne e maços de verduras. Destrancou a porta, e, ao vê- los plantados e hirtos de frio diante dele, deixou que de seus grossos lábios escapasse um sorriso matreiro, enquanto dizia:

Passem para dentro, antes que o frio deixe vocês sem respiração ou con­gele seus ossos. — Depois perguntou: — É possível saber a que se deve esta visita inesperada?

Resolvemos abandonar a cabana das montanhas; não queremos voltar nunca mais àquele inferno de gelo — disse Dúrlib, entrando resolutamente na abadia.

O inferno que vocês devem temer não é o de gelo e sim o de fogo, e nele arderão eternamente a menos que Deus perdoe vossos pecados — disse o monge, voltando a trancar a porta depois que Grimpow atravessou o umbral.

Irmão Brasgdo, nós viemos a esta casa santa com o propósito de ali­mentar nosso espírito na igreja da abadia e também o de acompanhá-los em suas preces e pregações, antes de empreender uma longa viagem a terras dis­tantes — explicou Dúrlib, com fingida beatitude.

E suponho que, aproveitando a oportunidade, também vão querer en­cher seus estômagos e dormir protegidos do frio e do vento aqui em nossa casa — disse, com ironia, o monge.

Ao menos por esta noite — admitiu Dúrlib, sacudindo a neve de sua manta de peles. — Como leito, nos bastará uma manta e um dos colchões de palha da sala dos peregrinos; como alimento, ficaremos contentes com um pedaço de pão, um bom bocado de queijo e um cântaro daquele vinho que o senhor guarda em sua despensa tão secretamente — disse Dúrlib, rindo.

O monge também riu.

Este ano a colheita foi péssima — comentou, encaminhando-se para a cozinha e indicando-lhes com um aceno de mão que deveriam segui-lo.

No interior da abadia tudo estava escuro; uma única tocha que ardia em uma das paredes de pedra do fundo do grande hall de entrada permitia entre­ver, no meio das sombras, um longo corredor abobadado.

Então vocês estão planejando fazer uma longa viagem — disse o irmão Brasgdo, bamboleando sua enorme barriga sob o hábito pardo de sua ordem religiosa.

É verdade, e partiremos amanhã mesmo, depois que surgirem as pri­meiras luzes do dia — confirmou Dúrlib.

E vocês já decidiram qual será o destino de sua viagem?

Procuraremos o fim do mundo! — disse Dúrlib, cheio de fantasias.

Segundo ouvi dizer, ofinis mundi fica muito longe daqui, para lá dos mares profundos do Ocidente, e nele só moram monstros e demônios terrí­veis — murmurou o monge, forçando uma careta de espanto com sua cara gorducha.

Há, também, quem garanta que é lá que ficam as portas invisíveis do Paraíso. Dizem que nessas terras distantes abundam o ouro e as pedras pre­ciosas; as mulheres são as mais belas que jamais foram encontradas; a comida e a bebida estão sempre ao alcance da mão, e a juventude é eterna — argu­mentou Dúrlib.

O irmão Brasgdo lançou-lhe um olhar de reprovação no mesmo instante em que abria a porta da cozinha.

As portas do Paraíso já estão neste vale criado por Deus para regozijo de nossos olhos — disse bruscamente. — Esses lugares de que você fala ainda não foram vistos por ninguém; só existem na imaginação de algumas mentes perversas e alucinadas que entregaram suas vontades às tentações do diabo. Não será você um deles? — insinuou o monge.

Eu sou apenas um ignorante que teme o poder de Deus e reza a cada dia para alcançar Seu Reino — disse Dúrlib, adulador, para aplacar as descon­fianças do monge.

Estou vendo que você é melhor comediante do que rufião — senten­ciou o irmão Brasgdo sem deixar de sorrir.

Entraram na cozinha. Na grande lareira central ainda ardiam grossos tron­cos de lenha, e o irmão Brasgdo convidou-os a se sentar a uma mesa ladeada por um banco corrido e sem encosto. O calor era sufocante, a ponto de obrigá-los a se livrar de suas mantas de pele. Uma pequena porta situada em um ân­gulo do amplo recinto dava acesso ao refeitório, e por ela entravam e saíam um par de criados levando e trazendo panelas de barro. Grimpow podia ver, da sua posição na mesa, que os monges da abadia começavam a jantar. Esta­vam em silêncio absoluto, iluminados pela tênue luz das lamparinas a azeite espalhadas pelas mesas, e olhavam cabisbaixos e meditabundos para a comida. No entanto, aos ouvidos de Grimpow chegava, como um murmúrio próximo e oco, a voz do monge encarregado da leitura dos salmos.

O irmão Brasgdo trouxe um grande pão redondo, um prato de sopa quen­te, pedaços de porco assado, um bocado de queijo, outro de toucinho salgado, e o cântaro de vinho que Dúrlib lhe havia pedido.

Se o abade quiser saber o que você está bebendo, diga-lhe apenas que é água — brincou o monge ao colocar o cântaro na mesa.

Depois se sentou ao lado deles e começou a quebrar nozes, fazendo-as ge­mer entre as palmas de suas mãos.

O abade sabe que estamos aqui? — perguntou Dúrlib, sem deixar de sorver ruidosamente a sopa de sua tigela.

Quando Kense me avisou da sua chegada e fui abrir a porta, o jantar dos monges no refeitório já havia começado. Eu não quis interromper o abade para não quebrar nossa regra de silêncio. Ele será avisado assim que todos ter­minarem de jantar, e antes que dê início, na igreja, ao último culto do dia. Mas você está cansado de saber que dar abrigo a andarilhos e peregrinos é dever dos cristãos. O abade não se oporá a que vocês passem esta noite na abadia.

Preciso falar com ele antes que se retire aos seus aposentos — explicou Dúrlib, depois de beber um longo gole de vinho.

Algum assunto em que possa ajudá-lo? — perguntou o monge sem ocultar sua curiosidade.

Quero tratar com o abade da troca de cavalos por moedas de prata.

Estou vendo que você não carece de fortuna — disse o irmão Brasgdo. — E quem foi agora a vítima de sua rapina? — acrescentou, suspicaz.

A quem eu poderia assaltar nestas montanhas desoladas em pleno in­verno, quando nem mesmo as gralhas sobrevoam a floresta? — voltou a per­guntar Dúrlib, assustado.

Talvez um fantasma — disse o monge em voz baixa, levando uma noz à boca e mastigando-a com sua muralha de dentes amarelos.

Dúrlib olhou para Grimpow com os olhos desorbitados, mas logo dissi­mulou seu estupor e disse com calma:

Eu estava guardando algumas moedas de prata para uma ocasião tão especial como esta.

Grimpow assistia à conversa com curiosidade e tão mudo como Kense, o servente grandalhão e retardado do convento, até que o monge virou seus olhos de esquilo na sua direção, e, como se não estivesse interessado nas expli­cações de Dúrlib, lhe perguntou:

E você, por que não fica como noviço na abadia, em lugar de ir correr o mundo acompanhado de um ladrão como Dúrlib?

Quero encontrar meu próprio caminho na vida — afirmou Grimpow, timidamente.

Pois você não encontrará caminho mais santo que o da oração e do tra­balho. Nos dias que correm, os campos e as florestas estão infestados de la­drões, frades rebeldes e mendigos — disse olhando de propósito para Dúrlib —, e não há melhor refúgio para quem quer escapar do pecado do que o da casa de nosso Senhor. Aqui você poderia aprender a ler e a escrever em latim e grego, a cuidar da granja, a cultivar a horta, a colher flores e plantas medici­nais, a curar enfermos, a copiar manuscritos, a ilustrá-los ou traduzi-los. Até poderia ser aprendiz de cozinheiro, e ocupar meu posto quando eu morrer, o que espero que aconteça muito depois de chegar a velho — disse, levantando o olhar para o teto.

Não gosto do silêncio — respondeu Grimpow, animado pela conversa do monge.

O irmão Brasgdo pareceu achar a resposta do garoto engraçada e soltou uma gargalhada.

Como você vê, o cozinheiro está dispensado da observância dessa estrita regra da ordem. Eu não poderia me entender com os criados se tivesse de fazê- lo usando as minhas mãos para fazer mímica e não as palavras — alegou, rindo.

E possivelmente arrebentaria se tivesse de ficar calado durante um único dia — sentenciou Dúrlib, a quem os vapores do vinho começavam a turvar a fala.

O irmão Brasgdo considerou piada o jocoso comentário de Dúrlib, a quem conhecia suficientemente para não dar nenhuma importância à malícia de suas palavras, e todos riram em voz baixa para não perturbar o silêncio da abadia.

Logo, um rumor de bancos e pés deslizando sobre o solo anunciou-lhes que os monges haviam terminado de jantar; abandonavam, taciturnos, o refei­tório.

Perdoem-me por um momento, vou avisar o abade da sua chegada — desculpou-se o monge.

Assim que o irmão Brasgdo saiu da cozinha, Dúrlib perguntou a Grimpow em voz baixa:

Você ouviu o que ele disse?

Grimpow assentiu balançando várias vezes a cabeça.

Falou sem dúvida de um fantasma, referindo-se ao dono das moedas de prata que eu tinha intenção de trocar com o abade pelos cavalos! — insistiu Dúrlib, atabalhoadamente.

É possível que só tenha sido uma maneira de se expressar ao tentar en­contrar uma justificativa para o fato de você ter em seu poder essas moedas de prata — argumentou Grimpow.

E se o cavaleiro morto tiver estado aqui antes de a gente encontrá-lo? — perguntou Dúrlib, olhando para os olhos de Grimpow como se quisesse adivinhar seu pensamento.

Grimpow não pôde responder a essa pergunta. Nesse momento, o irmão Brasgdo voltou à cozinha pela pequena porta que se comunicava com o refei­tório seguido pelo abade de Brínkdum.

Estas raposas escolheram um mau momento para abandonar sua guarita nas montanhas — disse o abade sorrindo assim que os viu sentados perto da lareira.

Dúrlib ficou em pé e correu para beijar o grande anel da mão que o abade estendia diante deles. Grimpow imitou-o, e sentiu em seus lábios o frio tato do ouro. Pareceu-lhe que havia beijado um pedaço de gelo. O abade de Brínkdum não apenas era a maior autoridade do convento; seu poder abarca­va toda a comarca de Üllpens e parte das comarcas vizinhas. Dizia-se dele que fora um intrépido cavaleiro que abandonara as armas aos 30 anos para tor­nar-se monge e viver o resto de seus dias afastado do mundo, como um anacoreta. No entanto, segundo o irmão Brasgdo dissera havia muito tempo a Dúrlib, a verdadeira causa da devoção religiosa do abade fora uma bela dama que lhe negara seu amor por desejo expresso de seu pai, e a quem o abade continuava visitando na condição de confessor em um castelo das proximida­des, agradando-a com todo tipo de presentes e oferendas. Grimpow imaginou então que nas delicadas mãos dessa dama brilhariam parte das jóias que eles haviam roubado como salteadores de estradas, e que agradavam ao abade tan­to ou mais que os cânticos de seus monges.

Depois de saudar amavelmente os recém-chegados, o abade deu instru­ções ao irmão Brasgdo para que os acomodasse na sala dos peregrinos da aba­dia, intimando-os a que, uma vez terminado o último culto do dia na igreja, fossem para seus aposentos, situados ao lado da sala capitular.

Assim que o abade saiu da cozinha em direção ao claustro, o monge cozi­nheiro, Dúrlib e Grimpow fizeram o mesmo usando uma porta lateral que levava a uma estreita escada espiralada que conduzia diretamente à sala dos peregrinos. Subiram os degraus em silêncio, e sem outra luz que a de uma pequena lamparina a azeite que o irmão Brasgdo segurava em sua mão. A sala estava às escuras, e apenas a chama cambaleante da vela lhes permitia ver al­guns colchões de palha enfileirados sobre o chão de pedra. Era um aposento amplo e retangular com uma abóbada de canhão no teto, e não tinha outro enfeite além das pequenas janelas arqueadas de uma das paredes laterais. Fi­cava em cima da cozinha. Em seu centro, um enorme tubo cilíndrico pelo qual subia a fumaça da lareira do recinto de baixo proporcionava ao aposento uma temperatura confortável durante os duros invernos das montanhas, embora nessa época do ano os peregrinos e andarilhos fossem escassos por causa da neve que cobria o vale. Só muito raramente algum deles se hospedava na abadia.

Pelo menos durante esta noite vocês não serão obrigados a suportar os roncos e as pestilências de outros hóspedes — disse o irmão Brasgdo, enquan­to tirava de uma grande arca que ficava num canto um par de grossas cober­tas de lã.

Faz muito tempo que ninguém dorme aqui? — perguntou Dúrlib en­quanto farejava o ar como um sabujo.

Provavelmente desde que caíram as primeiras neves no começo do in­verno. Desde então, só vocês entraram nesta sala.

Grimpow pôde adivinhar o pensamento de Dúrlib em seu rosto relaxado. Se o irmão Brasgdo não mentia, era evidente que o cavaleiro morto não havia passado pela abadia antes de embrenhar-se nas florestas das montanhas; de maneira que ninguém ali podia saber de sua existência nem de seu misterioso desap arecimento.

No entanto — continuou o monge, baixando a voz até atingir um tom confidencial —, ontem eu saí da abadia antes do amanhecer para estirar as pernas e catar algumas nozes e me pareceu ver entre a névoa um ginete solitá­rio que se dirigia às montanhas. Pensei que havia se extraviado, e que, por cau­sa da névoa, não estava encontrando o caminho da abadia. Cheguei a gritar para chamar sua atenção, mas aí ele virou a cabeça, me fitou com olhos que me pareceram tão vazios como os de uma caveira, e continuou seu caminho como uma alma penada, até desaparecer de novo no meio da névoa.

As palavras do irmão Brasgdo, pronunciadas no meio das sombras que se agitavam ao seu redor, produziram em Dúrlib e em Grimpow um calafrio tão intenso que chegou a emudecê-los.

Vocês não viram esse ginete nas montanhas? — perguntou o monge diante do silêncio de seus hóspedes, elevando a chama da vela para ver me­lhor seus olhos.

Grimpow ia negar com a cabeça quando Dúrlib pigarreou e disse:

Você conversou a respeito disso com o abade, irmão Brasgdo?

Se o tivesse feito, o abade pensaria que eu estava bêbado, e que haviam sido os vapores do vinho que tinham me feito ver essa imagem fantasma­górica perambulando nas proximidades da abadia — respondeu o monge, com desdém.

E você estava? — insistiu Dúrlib, como se fosse seu confessor.

Eu juro pelas relíquias de São Dustan guardadas na cripta da igreja abacial que ao longo de todo o dia de ontem não bebi nada além de água.

Então pode dar crédito aos seus olhos, porque nós também vimos hoje de manhã esse misterioso ginete cavalgando pelo bosque próximo à nossa ca­bana, como se fosse uma aparição — disse Dúrlib, deixando Grimpow tão ge­lado como o cadáver que encontrara de manhã na neve.

O que você diz é correto? — perguntou o monge, como se as palavras de Dúrlib o reconfortassem ou lhe confirmassem uma crença da qual ele mes­mo duvidara.

Que me queimem as duas mãos no fogo de sua cozinha se estou men­tindo! — disse Dúrlib em voz baixa, esticando os braços e oferecendo as mãos abertas ao monge para mostrar sua sinceridade.

Por um momento, Grimpow pensou que seu bom amigo ia contar ao ir­mão tudo o que eles haviam presenciado na manhã daquele dia nas monta­nhas, até mesmo a história da pedra, da carta lacrada e do valioso tesouro do cavaleiro morto.

É verdade — confirmou Grimpow para atestar as palavras de Dúrlib e interromper o seu relato. — Ao ver esse cavaleiro desconhecido diante da cabana, eu mesmo me aproximei dele, e quando me dispus a saudá-lo e a acariciar seu cavalo, ambos se desvaneceram no ar como se aquilo fosse um sonho.

Um incrível e espantoso pesadelo, diria eu! — acrescentou o irmão Brasgdo, que também havia sido testemunha da misteriosa presença do cava­leiro desconhecido nas proximidades da abadia.

Sentimos tanto medo ao ver o que acontecera que abandonamos a ca­bana no mesmo instante e corremos a procurar refúgio na abadia, onde nem os fantasmas nem os diabos podem encontrar guarida — disse Dúrlib, voltan­do a persignar-se com a mesma devoção com que o fizera depois do desapa­recimento do cavaleiro morto sobre a neve das montanhas.

O monge também se persignou, e murmurou em voz baixa:

Ouvi muitas lendas pagãs sobre gênios e demônios das águas, florestas e montanhas que contam façanhas terríveis de gigantes, dragões, ondinas, fa­das, bruxas, magos, anões e elfos, mas nunca vi um fantasma tão verdadeiro como o do cavaleiro de que vocês falam. Seu rosto, longe de ser humano, me pareceu ser a própria face de um espectro diabólico, um desses seres infernais que vagam invisíveis e em completa solidão pelos caminhos do mundo, para saldar, depois de mortos, as dívidas e os erros de sua vida pecaminosa.

Dúrlib achou ter realizado seu propósito de iludir o irmão Brasgdo com a história do fantasma do cavaleiro morto que, além do mais, ele também acre­ditava ser uma verdade irrefutável, e perguntou cheio de expectativas:

O senhor falou com algum monge da abadia sobre um assunto tão delicado?

Você está achando que sou louco? — reagiu o irmão Brasgdo franzindo a testa. — Se estes fatos fantásticos e terríveis chegarem aos ouvidos do abade, dos frades e das pessoas da comarca de Úllpens, este vale e suas montanhas serão considerados malditos, e não haverá monge, peregrino nem crente que ponha seus pés na abadia, por medo de topar com o fantasma desse cavaleiro desconhecido e ser alvo de suas iras e rancores.

Talvez o fantasma do cavaleiro tenha seguido seu caminho e a esta hora da noite esteja muito longe daqui, do outro lado das montanhas — sugeriu Grimpow para dissipar os temores do irmão Brasgdo.

Confiemos que seja assim — disse o monge.

Pois para evitar que seu espírito impuro possa se aninhar em nossas almas, vamos à igreja e roguemos a Deus por nossa salvação eterna, tal como era nossa intenção ao vir à abadia — concluiu Dúrlib.

 

Subiram para a igreja abacial usando uma ampla escada que ficava ao fun­do da sala dos peregrinos e desembocava em um grande pátio descoberto. Ao sair à intempérie, o frio era intenso; pequenos flocos de neve deslizavam dian­te deles, tingindo de branco a escuridão da noite. Correram até uma porta cravejada que levava diretamente à nave lateral da igreja, única entrada possí­vel para andarilhos e peregrinos. Lá dentro, grandes velas situadas nas esqui­nas da nave central mal iluminavam as grossas colunas que se elevavam for­mando tranças impossíveis até o teto abobadado, àquela hora tão negro como um céu noturno.

Assim que entraram no templo, Dúrlib foi até uma pia de água benta situa­da diante da porta, empapou nela sua mão e se benzeu três vezes para exorci­zar as más vibrações que o espírito do cavaleiro morto pudesse lançar sobre suas vidas. Até tirou as moedas de prata de um bolso dissimulado em suas calças de pano e mergulhou-as distraidamente na pia para purificá-las de qualquer maldição ou feitiço.

Quando voltou a um dos bancos centrais da igreja, sentou-se ao lado de Grimpow e, aproveitando que o irmão Brasgdo havia se prostrado de joelhos e cobria o rosto com as mãos em atitude de meditação e arrependimento, sussurrou-lhe ao ouvido:

Você deveria fazer o mesmo com a pedra que o cavaleiro defunto usava como amuleto.

Grimpow fez ouvido mouco às palavras de Dúrlib e prestou atenção na entrada dos monges no coro da igreja para o completório que os sinos da tor­re haviam anunciado momentos antes. Todos usavam capuzes que lhes cobriam as cabeças inclinadas sobre o peito, e desfilavam com as mãos juntas em fila indiana, enquanto iam se acomodando em seus respectivos bancos. Chegou a contar trinta monges de várias idades e aspectos, embora todos estivessem ataviados com o mesmo hábito pardo da ordem. Depois, um deles, que a Grimpow pareceu pela voz ser quase um menino, começou a entoar um cântico tão doce e melodioso que ele adormeceu profundamente.

Só um milagre pode explicar que este par de ladrõezinhos mostre tanta devoção aos cultos religiosos da abadia — disse o abade em voz baixa, apertando ainda mais seus diminutos olhos, assim que chegou ao banco em que Dúrlib e Grimpow estavam sentados no final da igreja.

Ficaram em pé respeitosamente, e o irmão Brasgdo respondeu por eles:

Eles decidiram abandonar a cabana das montanhas e procurar uma vida mais livre de pecado em algum lugar distante, e por isso desejam partir ao amanhecer com sua bênção.

Isso é verdade? — quis saber o abade, dirigindo seu olhar a Dúrlib.

Iremos até Estrasburgo. Antes de o inverno ter começado, ouvi dizer que estão construindo uma nova catedral nessa cidade, e talvez ali encontre­mos trabalho como pedreiros.

Grimpow olhou para Dúrlib, admirado por sua capacidade de inventar uma patranha.

Os pedreiros são muito ciumentos de seu ofício, e não abrem as portas de suas lojas a ninguém que não seja de sua confiança — disse o abade.

Havia pensado que talvez o senhor pudesse nos recomendar ao bispo. Estou certo de que com vossa ajuda não teremos dificuldade em conseguir um trabalho digno para que Grimpow desenvolva uma vida afastada do peca­do — sugeriu Dúrlib, bajulador.

O maior pecado deste menino foi ficar ao seu lado durante todos esses anos, mas Deus é bondoso e saberá compreender que a maldade não era sua, e sim de quem foi como um pai para ele — dissertou o abade, movendo de um a outro lado seus olhinhos de pássaro.

Dúrlib foi para mim o melhor pai que jamais poderia ter imaginado encontrar, e nunca me afastarei de seu lado — disparou Grimpow em defesa de seu amigo, ao mesmo tempo em que mordia a língua para conter seus de­sejos de dizer ao abade tudo o que pensava a seu respeito e de seus pecados.

Nesse instante, Grimpow sentiu um puxão na manga de sua camisa, e per­cebeu que se tratava do irmão Brasgdo, que o reprimia assim pelo tom insolente com que havia se dirigido ao abade.

Será melhor irmos aos meus aposentos, ali vocês poderão me dar deta­lhes mais precisos de suas intenções, pois, segundo creio, desejam falar comigo privadamente — disse o abade, indiferente ao desafio que pulsara nas pala­vras do menino.

Os monges saíram do coro da igreja de forma ordenada e em silêncio, encaminhando-se como uma fileira de formigas disciplinadas a uma escada próxima que conduzia diretamente ao seu dormitório: um recinto alargado e alto, com teto de madeira, e sem outras peças de mobília que não fossem colchões de palha alinhados um atrás do outro sobre o chão. Nem sequer usavam co­bertores para se proteger do frio, e as pequenas janelas da parede exterior do dormitório permaneciam abertas durante toda a noite para deixar entrar o ar gelado das montanhas.

O irmão Brasgdo ficou rezando na igreja, e Dúrlib e Grimpow se dirigiram ao interior da abadia seguindo os passos silenciosos do abade. Saíram ao pátio e comprovaram que não apenas havia parado de nevar; a névoa se dissipara completamente, e no céu, ao qual Dúrlib e Grimpow alçaram os olhos, se abriam grandes clarões que deixavam entrever, no meio das nuvens, o brilho das estrelas.

Voltaram ao edifício principal usando uma portinhola situada em um can­to do pátio e percorreram um estreito e curto passadiço no qual cintilava a dimi­nuta luz de uma lamparina a azeite pendente do teto. Depois subiram a uma das galerias do claustro, intensamente iluminado por tochas, e de súbito surgiu diante de seus olhos um bosque de arcos e colunas de uma beleza incomensurável. Grimpow se deteve na contemplação do capitei de uma coluninha do claustro, na qual estava talhada uma figura humana cercada por feras, e debai­xo da qual havia uma legenda que não teve nenhuma dificuldade em compre­ender, apesar de estar escrita em latim:

 

                   DANIELEM CUM LEONIS

 

O abade, surpreendido pela curiosidade de Grimpow, se deteve ao seu lado e lhe perguntou:

Você sabe o que essa imagem significa?

É uma representação do profeta Daniel, que de tão leal a Deus foi lan­çado por seus inimigos em um fosso com leões — explicou Grimpow ime­diatamente.

Dúrlib olhou para ele com um espanto semelhante ao do abade.

E você sabe se os leões chegaram a devorar o profeta Daniel? — insistiu o abade em tom paternal, cravando seu olhar penetrante no rosto do menino.

Não — disse Grimpow. — Um anjo enviado por Deus fechou a boca dos leões e eles não puderam feri-lo.

Quem lhe ensinou essa história? — perguntou o abade, meio perturbado.

Grimpow sabia que não podia falar da influência da pedra do cavaleiro morto que trazia pendurada no pescoço, e achou que se dissesse ao abade que havia sido Dúrlib ele mudaria sua opinião sobre seu amigo e seria mais gene­roso com eles quando chegasse o momento de trocar as moedas de prata pe­los cavalos de seu estábulo. Por isso não hesitou ao responder-lhe:

Nas montanhas, Dúrlib tem me contado muitas histórias a respeito de Deus — disse com ingenuidade, consciente de que mentia.

Dúrlib enrubesceu, mas, como estava acostumado a sair de enrascadas recorrendo à sua imaginação, disse sem titubear:

Bem, só tenho repetido para o menino histórias que o irmão Brasgdo me conta de vez em quando na cozinha da abadia.

O abade olhou para ele, receoso.

Pelo menos fico alegre em saber que nessa cabana de proscritos e la­drões em que vocês passam os invernos não se tem pronunciado o nome de Deus em vão — disse, e continuou andando em direção aos seus aposentos.

Depois caminharam sob as arcadas abobadadas do claustro até deixar a um lado a sala capitular e finalmente entraram em um aposento quadrado e frio, cujas paredes desprendiam um intenso cheiro de umidade e cera queimada.

O abade acendeu as velas de um candelabro que estava em uma mesa em que também havia uma Bíblia, um Livro de Horas e alguns rolos de pergaminho, e indicou-lhes que se sentassem em duas cadeiras situadas diante de uma poltrona com espaldar alto e entalhado, na qual ele se acomodou com a sole­nidade de um patriarca.

Quer dizer que vocês estão pensando em abandonar estas terras ao amanhecer — afirmou o abade.

Sim, é isso — disse Dúrlib. — Faz tempo que venho pensando que a caba­na das montanhas não é um lugar adequado para um menino como Grimpow, e não quero que ele passe a vida fugindo de aldeia em aldeia como eu tenho feito desde quando minha memória alcança.

E vocês pensaram em ir à cidade de Estrasburgo em pleno inverno?

A cidade de Estrasburgo é rica e próspera, e ali poderemos encontrar um lugar para viver honestamente, como já disse antes. Conheço um desfiladeiro pelo qual poderemos cruzar as montanhas sem nenhum perigo.

Enquanto Dúrlib e o abade conversavam, Grimpow fingia estar distraído, espiando as capas dos manuscritos fechados sobre a mesa, e surpreendendo-se ao perceber que podia ler seus títulos sem qualquer dificuldade.

Você sabe que se o menino quisesse poderia vestir, na qualidade de no­viço, o hábito da nossa ordem religiosa, e ficar vivendo no monastério como têm feito muitos jovens de origem nobre e humilde desde que esta abadia foi fundada há mais de três séculos.

Eu mesmo lhe dei esse conselho em muitas ocasiões, e há pouco, na cozinha, o irmão Brasgdo também falou com ele sobre isso, mas Grimpow é um garoto muito livre e não quer se submeter às estritas e sacrificadas regras da vossa ordem.

Deus quis que os homens se dividissem em nobres, clérigos e servos — disse o abade dirigindo seu olhar a Grimpow. — Os primeiros servem às ar­mas e os últimos servem aos primeiros, só nós, os clérigos, temos o privilégio de servir a Deus. Você é apenas um servo, e esta liberdade mencionada por Dúrlib não passa de uma quimera.

É possível que seja como o senhor afirma, mas Grimpow se recusa a afastar-se do meu lado e eu também não desejo abandonar sua companhia — disse Dúrlib, expressando, fielmente, os sentimentos de ambos.

E você não diz nada? — perguntou o abade a Grimpow, diante de seu silêncio.

Acho que eu nunca chegaria a ser um bom monge — respondeu o garo­to com simplicidade, voltando a mostrar-se distraído.

Está bem, que seja como mais o agrade. Estou vendo que você é tão teimoso como seu mestre. E agora me digam a respeito de que queriam falar comigo em particular — disse o abade, recostando-se na cátedra e entrelaçando os dedos das mãos sobre o colo.

Dúrlib pigarreou.

Precisamos dos melhores cavalos de seus estábulos.

Você está cansado de saber que os cavalos dos estábulos da abadia não estão à venda — disse o abade, impassível.

A mão direita de Dúrlib voou rapidamente para o bolso secreto de suas cal­ças, tirou as moedas do cavaleiro morto como num passe de mágica e deposi­tou-as suavemente na mesa. O abade levantou-se sobressaltado, esbugalhou os olhos ao ver as cintilações da prata sob a pálida luz das velas, e perguntou:

Onde você conseguiu essas moedas?

Roubei-as há muito tempo de um mercador de sedas veneziano, perto da cidade de Molwíler — respondeu Dúrlib sem vacilar.

O abade colocou uma das moedas em sua mão, aproximou-a dos olhos e a examinou atentamente.

Não há dúvida de que são de prata, mas jamais vi algo parecido com estes estranhos símbolos — disse.

Teremos, então, os cavalos? — perguntou Dúrlib, para evitar ter de dar mais explicações sobre a origem das moedas.

Conversarei ainda hoje à noite com o administrador. Amanhã vocês po­derão retirar os cavalos dos nossos estábulos, e levar algumas provisões para a viagem.

O senhor também nos dará sua bênção e uma recomendação para o bispo de Estrasburgo? — pediu Dúrlib, aproveitando a manifestação de gene­rosidade do abade.

Satisfarei seus desejos ao amanhecer.

O truque usado com o abade havia seguido o mesmo ritual que Grimpow havia testemunhado em outras ocasiões: Dúrlib expressava seus desejos, o abade dizia que não seria possível atendê-los, então Dúrlib deixava cair na mesa alguma jóia, quase sempre um anel ou um bracelete de ouro, e aí o abade concedia sem nenhum escrúpulo os favores que lhe pedia. Grimpow pensou que talvez tam­bém fosse assim que o abade se relacionasse com a dama de seus sonhos.

Já se preparavam para sair dos aposentos do abade quando o som seco de uma aldrava golpeando o portão principal do edifício ressoou como um trovão no meio da noite, deixando paralisados e mudos todos os habitantes da abadia.

Quem, além de malandros como vocês, pode flanar pelas montanhas em uma noite de inverno como esta? — perguntou o abade, intrigado com o estrondo.

Dúrlib e Grimpow cruzaram olhares sem saber o que responder.

Poderemos acabar com as dúvidas se formos averiguar — propôs Dúrlib depois de alguns segundos.

Mal tinham deixado o claustro quando novos golpes na porta voltaram a quebrar o silêncio. Ao mesmo tempo, e atrás da linha das colunas da galeria arqueada que estava diante deles, viram a sombra bojuda do irmão Brasgdo vindo correndo da cozinha, seguido por um pequeno grupo de criados que murmuravam alguma coisa em voz baixa.

O que está acontecendo? A que se deve tanto alarme, e por que nin­guém abre as portas da abadia? — perguntou o abade ao monge cozinheiro assim que chegou até eles.

Nenhum de nós, nem mesmo os serventes, se atreve a fazê-lo. Pelos ruí­dos das armaduras e dos relinchos dos cavalos que se ouvem atrás da porta, parece que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse chegaram à abadia trazendo seu terrível cortejo de desgraças — explicou o irmão Brasgdo, respirando como se estivesse prestes a se afogar por causa da corrida e do tremor que agitava seu corpo.

Ao ouvi-lo, Grimpow não teve nenhuma dúvida de que o irmão Brasgdo estava convencido de que o fantasma do cavaleiro que acreditava ter visto ca­valgando pelos arredores do monastério no dia anterior havia reunido a Santa Companha nas florestas das montanhas e se preparava para assaltar a abadia com sua lúgubre procissão de mortos e caveiras. A julgar pelo medo estam­pado no rosto de Dúrlib, ele também devia estar pensando em alguma coisa parecida. Grimpow, no entanto, teve o pressentimento de que os cavaleiros que aguardavam diante da porta da abadia eram mais sinistros e cruéis que todos os fantasmas imagináveis, pois eram seres de carne e osso.

Vamos dar nossas boas-vindas a quem quer que sejam os que batem à nossa porta com tanto ímpeto — disse o abade, encabeçando uma comitiva improvisada.

Um numeroso grupo de monges havia descido do dormitório e se reunira na grande sala de entrada da abadia. Todos esperavam alarmados e curiosos a chegada do abade e, ao vê-lo se aproximando pelo fundo da galeria abobadada, se afastaram para um lado formando um corredor estreito. Alguns monges carregavam velas acesas e outros tinham as mãos cruzadas sob o escapulário como se estivessem dispostos a entoar um canto de louvor aos recém-chegados.

Abram os portões das cavalariças! — ordenou o abade aos serventes.

O rugido dos ferrolhos cobriu o murmúrio dos monges, e sob a densa es­curidão da noite tornaram-se visíveis as silhuetas sombrias de seis ginetes embuçados em longas mantas, negros como seus cavalos, e com capuzes que ocultavam seus rostos atingidos pelo frio.

Quem de vocês é o abade? — gritou uma voz grave do alto de uma cavalgadura que remexia, inquieta, suas patas sobre a neve.

O abade avançou até ficar sob o lintel do portão aberto.

Eu sou o abade de Brínkdum, mas é o senhor quem deve nos dizer, an­tes de entrar na abadia, seu nome e os de seus acompanhantes.

Meu nome é Búlvar de Góztell, da Santa Ordem dos Dominicanos, inquisidor de Lyon e emissário do papa Clemente V! Em seu nome solicito hos­pedagem em sua abadia para mim e para os soldados do rei de França que me acompanham! — disse com solenidade o ginete, ao mesmo tempo em que tira­va seu capuz e deixava ver um rosto marcado por uma profusão de cicatrizes que uma barba curta e esbranquiçada dissimulava.

O irmão Brasgdo respirou aliviado ao ouvir as credenciais do frade domi­nicano, mas seu semblante roliço não demorou a ficar sombreado de novo depois que os recém-chegados cruzaram o portão da abadia e o monge cozi­nheiro notou que, atrás do último soldado, entrava sem ginete o mesmo cava­lo branco que ele vira montado pelo fantasma do cavaleiro morto que se diri­gia às montanhas.

 

                                 Uma história e uma lenda

Os serventes trataram de levar os cavalos aos estábulos; os monges volta­ram ao dormitório; o irmão Brasgdo acompanhou os soldados do rei até a cozinha para lhes dar alguma coisa de comer e de beber; o abade convidou Búlvar, o inquisidor, a seus aposentos, onde gozaria de uma ceia farta enquan­to lhe falava dos importantes motivos de sua visita; Dúrlib e Grimpow se reti­raram para descansar na sala dos peregrinos, e o silêncio voltou a reinar em todos os rincões da abadia.

Tombados sobre seus colchões e sem outra luz a não ser a de uma pequena lamparina a azeite que ardia sobre o chão, Dúrlib, que tinha a cabeça apoiada nas palmas das mãos entrelaçadas atrás da nuca e olhava para o teto abobadado como se estivesse observando o infinito, manifestou a Grimpow suas preocupações.

Você está pensando a mesma coisa que eu? — lhe perguntou.

Creio que sim.

O cavalo branco sem ginete puxado por um dos soldados pode ser o do cavaleiro morto — especulou Dúrlib.

O irmão Brasgdo tem certeza disso. Vi sua cara de terror quando o ca­valo passou na frente dele — disse Grimpow.

É possível que o animal tenha fugido da floresta assustado pelas feras e eles o tenham encontrado na parte baixa do vale — argumentou Dúrlib.

Ao perceber que o cavalo mancava, observei suas patas e vi algumas feri­das e manchas de sangue, como se fossem mordidas feitas por caninos de lobo.

Dúrlib remexeu-se em seu colchão, sentindo a picada de alguma pulga impiedosa.

Me preocupa que esse frade dominicano comece a fazer perguntas e o irmão Brasgdo solte a língua, sobretudo se tiver bebido alguns cântaros de vinho — disse.

Não creio que o irmão Brasgdo se atreva a contar a um inquisidor que viu o fantasma de um herege embrenhando-se nas montanhas — tranqüilizou-o Grimpow.

Temos também o abade, que achou estranhos os símbolos incompreen­síveis das moedas de prata.

Você tem razão, mas o abade também não vai querer falar ao emissário do papa a respeito de seus atos corruptos — disse Grimpow.

Talvez o frade dominicano e os soldados de sua escolta só estejam a caminho de Úllpens, e encontraram o cavalo no vale por pura casualidade — especulou Dúrlib como se não desejasse dar maior importância ao assunto.

Não — disse Grimpow. — Agora não tenho mais dúvida de que o inquisidor Búlvar de Góztell estava perseguindo o cavaleiro morto para quei­má-lo na fogueira, mas não consigo entender o motivo, embora suspeite de que, possivelmente, tenha muito a ver com a mensagem da carta lacrada e a pedra que carregava — disse Grimpow, fechando os olhos para se concentrar nas ima­gens que se desenharam, confusas, em sua mente, como se fosse um adivinho.

Você pode, de verdade, ver essas coisas que diz? — perguntou Dúrlib, ainda admirado e descrente das visões do amigo.

Só vejo imagens estranhas, Dúrlib, só isso — respondeu Grimpow, cansado.

Agora tente dormir um pouco. Eu irei falar com o monge encarregado dos estábulos para que nossos cavalos estejam prontos ao amanhecer, e apro­veitarei a oportunidade para tentar averiguar alguma coisa sobre esse frade dominicano e os motivos que o trouxeram até aqui.

Tenho medo, Dúrlib — disse Grimpow encolhendo-se debaixo da man­ta como se uma sombra sinistra tivesse desabado em cima dele.

Essa maravilhosa pedra que você tem pendurada no pescoço o protege­rá; agora durma, amanhã já não estaremos aqui — garantiu Dúrlib sem que nem ele nem Grimpow pudessem suspeitar de que se equivocava.

Dúrlib ficou em pé, pegou a lamparina e saiu da sala pela estreita escada que levava à cozinha da abadia, onde as vozes animadas dos soldados do rei de França voltavam a quebrar a regra do silêncio.

 

Envolvido pela escuridão, Grimpow tirou o amuleto do cavaleiro morto da bolsinha de linho e então sentiu próximo o leve resplendor de um rescaldo que parecia arder entre seus dedos. Abriu a mão e ali estava a pedra: viva, avermelhada e cintilante como uma estrela fugaz recém-caída do céu. A insó­lita luz da pedra foi crescendo entre seus dedos até iluminar a sala dos pere­grinos com tonalidades de fogo, deixando visíveis as nervuras do teto abobadado como se elas fossem o esqueleto de um animal gigantesco e milenar. Sem saber muito bem por que, intuiu nesse momento que nada mais voltaria a ser como antes. Recordou a aldeia de Óbernalt e o miserável casebre de seus pais, os anos de sua infância, quando cuidava de porcos e cabras, a labuta da colheita, seus adoidados jogos e disputas com as outras crianças da aldeia, suas risadas e seus prantos na taberna de seu tio Félsdron, o Irritado. Mas agora tinha certeza de que essa infância ficaria para sempre para trás, diluída em sua memória como fiapos de neblina arrastados pelo vento, e teve medo de não ser capaz de enfrentar os desafios difíceis e perigosos que a luz da pedra lhe anunciava. Afinal de contas, ele era apenas um garoto que estava começando a descobrir com Dúrlib a crueldade da existência dos homens.

Grimpow não sabia quanto tempo havia dormido. Só se lembrava de que em suas fantasias vislumbrara imagens confusas de tempos passados e futu­ros, que se misturavam sem sentido a uma profusão de rostos desconhecidos que lhe falavam em línguas remotas e estranhas, e alternavam suas palavras com infinitos números e símbolos incompreensíveis. Em seus sonhos chegara a ver com nitidez estrondos celestes que se multiplicavam por milhões de es­trelas do firmamento, cataclismos planetários que transformavam continen­tes e oceanos em formosas paisagens sem tempo, gelos eternos que cobriam o mundo sob céus enegrecidos por cinzas impenetráveis, epidemias que assola­vam a Terra, máquinas monstruosas e desapiedadas que lançavam baforadas de fogo no meio de explosões de horror, guerras que exterminavam milhões de homens, mulheres e crianças.

Até que de pronto sentiu que alguém o despertava desse pesadelo, e quase gritou de espanto ao ver diante de si, iluminado pela luz débil de uma candeia, o rosto enrugado e fúnebre de um velho monge a quem Grimpow não conhecia.

Vamos, vamos, levante! — instou-o o monge em voz baixa.

O que está acontecendo? — perguntou Grimpow sobressaltado, com os olhos ainda entrecerrados pelo sono.

Agora não há tempo para explicações. Você tem de sair daqui quanto antes — disse o monge, puxando-o para que se erguesse sem demora.

E Dúrlib? — insistiu Grimpow, ao perceber que o colchão de palha que havia ao lado do seu estava vazio.

Nos ocuparemos dele mais tarde, agora vamos.

O velho monge apagou com um sopro a luz da candeia que segurava em uma mão, agarrou o braço de Grimpow com a outra e começou a caminhar com agilidade no meio da escuridão, dirigindo seus passos à porta que levava ao pátio da igreja. Assustado e colado a seu corpo como se fosse sua própria sombra, Grimpow o seguia às cegas sem dizer nada. Deixaram a entrada da igreja pela esquerda e continuaram andando depressa até o fundo do pátio. Ali, o monge que o guiava como a um cego empurrou uma porta com o om­bro e conduziu-o por um corredor que, pelo tempo que levaram para percorrê-lo, Grimpow imaginou que fosse longo e lúgubre. No meio da mais profunda escuridão, Grimpow só conseguia ouvir o som de seus passos sobre as lajes de pedra da abadia e um rumor distante de água, como uma corrente subterrânea que corresse sob seus pés, misturado com o guincho agudo de ratazanas. Depois, pela aspereza das paredes que roçavam seu braço, percebeu que desciam uma escada estreita em caracol, até que, finalmente, se detiveram em um patamar. O velho monge voltou a acender a candeia que carregava em suas mãos ossudas e ásperas ligeiramente trêmulas. Grimpow viu, então, ater­rorizado, uma profusão de caveiras amontoadas umas sobre as outras, que pa­reciam olhá-lo com seus olhos invisíveis de uns nichos escavados de ambos os lados da parede de pedra.

Não se assuste — disse o monge —, são apenas crânios de mortos. Eles não se importam mais que uma pessoa como você venha perturbar seu re­pouso secular.

Indiferente ao terror do menino, o monge avançou alguns passos e girou uma das caveiras como se quisesse quebrar um pescoço inexistente. Diante dos olhos de Grimpow, esbugalhados pela surpresa e o medo, uma parte da parede à sua frente começou a deslizar ruidosamente, até revelar um buraco largo o bastante para que um corpo pudesse passar por ele sem dificuldade. Grimpow achou por um momento que estava diante das portas do próprio inferno, e lembrou-se de que Dúrlib lhe falara na floresta das montanhas da maldição do cavaleiro morto.

Para onde o senhor está me levando? Por que não me diz onde está meu amigo Dúrlib? — perguntou sem se atrever a mover um único músculo do corpo.

Estou apenas levando você a um lugar seguro — disse. — Agora me siga. Lá em cima eu lhe explicarei tudo.

O velho monge olhou para ele com tal bondade em seus olhos desprovi­dos de pestanas que todos os medos de Grimpow se dissiparam como se fosse por encantamento. Ao ver o monge tão perto dele, Grimpow calculou que devia ter mais de 80 anos; no entanto, falava e se movimentava com a agilidade de um noviço. Apenas o leve tremor de suas mãos e sua pele quei­mada e coberta de sulcos tão profundos como o abismo ao qual tinham aca­bado de descer denunciavam que já não era o homem forte e aguerrido que teria sido algum dia.

Grimpow resolveu segui-lo para averiguar quanto antes o que estava acontecendo. Queria saber por que devia se esconder naquele buraco tão recôndito e inacessível como uma tumba. Sem olhar para os lados, cruzou o corredor cercado de caveiras que o separava da entrada da pequena gruta aberta no muro e entrou em um espaço reduzido do qual saía uma escada tão estreita e retorcida como as que levam aos campanários das igrejas ou às torres dos castelos.

Subiu atrás do monge e chegaram a uma sala quadrada que tinha as pare­des forradas de estantes repletas de manuscritos e rolos de pergaminho. Não havia portas nem janelas, apenas um alçapão que mascarava o buraco negro da escada pela qual haviam chegado até ali. Um cheiro rançoso de ambiente fechado se misturava a um agradável aroma de flores secas, cuja origem Grimpow não pôde determinar.

Onde estamos? — perguntou Grimpow enquanto admirava as centenas de livros que os cercavam. Sentia a sensação de que poderia lê-los sem preci­sar abri-los. Era como se conhecesse cada uma das palavras que suas páginas abrigavam.

Em um aposento secreto da biblioteca da abadia de Brínkdum.

O monge colocou a candeia em uma mesa de madeira situada no centro daquele aposento insólito, pegou um pedaço de vela solto e o acendeu na chama. Depois, acendeu as lamparinas que pendiam de correntes presas ao teto, até que o aposento foi envolvido por uma cálida luz alaranjada. Apa­gou, então, o pedaço de vela fechando os dedos sobre a chama, e Grimpow pôde ver que o velho monge tinha as pontas tingidas de negro. Dias mais tarde soube que era devido à tinta que havia usado para copiar dezenas de livros ao longo de sua vida.

O fogo é o único inimigo desapiedado que você poderá encontrar aqui dentro. Precisa ter muito cuidado ao acender e apagar as lamparinas quando estiver sozinho — avisou a Grimpow, sentando-se com ar cansado na banqueta de uma escrivaninha situada num canto da sala.

Grimpow sentou-se diante do monge.

O senhor está pensando em me deixar trancado aqui? — perguntou, impressionado pela triste solidão do cativeiro que, sem saber ainda por que, o velho monge lhe anunciava.

Você estará melhor aqui do que atirado em uma masmorra infestada de ratazanas e baratas. Não conheço outro lugar mais confortável para deixá-lo a salvo dos cães de caça que chegaram esta noite à abadia — disse o monge.

E Dúrlib? O que aconteceu com ele? — perguntou Grimpow, angustiado.

O velho monge abaixou a cabeça e, pela compungida expressão de seus olhos, Grimpow soube que o que ia lhe dizer não era nada agradável.

Não sei exatamente, mas é muito provável que a estas horas seu amigo esteja encerrado em uma das masmorras que mencionei para ser interrogado por Búlvar de Góztell.

Ao ouvir isto, Grimpow sentiu como se a adaga do cavaleiro morto que trazia escondida na sua cintura tivesse sido cravada em suas entranhas, produzindo-lhe uma dor muito intensa. Pressentia, desde que encontrara o cadá­ver na neve e segurara a pedra, que alguma tragédia o esperava, e agora sabia exatamente qual era o motivo de seu desassossego.

O que o senhor acha que pode acontecer com Dúrlib? — perguntou, preocupado com a sorte de seu querido amigo.

Isso só Deus sabe.

Quem é o senhor? E por que acha que o inquisidor de Lyon e os solda­dos do rei de França podem se interessar por um pobre ladrão como Dúrlib ou por um garoto como eu, nascido na aldeia miserável de Óbernalt? — per­guntou Grimpow, intrigado.

O velho monge aspirou o ar como se fosse um peixe fora d'água, e Grimpow supôs que ele, por causa de sua idade avançada, padecia de alguma dificuldade respiratória.

Meu nome é Rinaldo de Metz. Nasci no dia 10 de setembro do ano de 1228. Sou bibliotecário desta abadia há mais de oito lustros. Se preferir, pode me chamar de irmão Rinaldo — disse o monge, orgulhoso de seu nome e sua origem.

Grimpow não entendeu como conseguiu fazer o cálculo, mas soube imediatamente que o ancião que lhe falava havia completado 85 anos. Apalpou instintivamente seu gibão e sentiu debaixo dele a empunhadura da adaga que Dúrlib havia lhe dado antes de enterrar o alforje do cavaleiro morto sob a cruz do caminho. Disse para seu íntimo que ela lhe bastaria para manter o monge bibliotecário a distância se ele tentasse causar-lhe algum dano. Neste momen­to passou por sua mente a disparatada idéia de que o irmão Rinaldo de Metz podia ser um louco, apesar de sua aparente cordura.

O senhor ainda não me disse o que a Inquisição pode querer da gente — insistiu Grimpow diante do silêncio do monge.

Informação sobre um cavaleiro templário que Búlvar de Góztell vem seguindo desde Lyon com o propósito de prender e que, ao que parece, che­gou ontem a estas montanhas fugindo de seus perseguidores. O frade domi­nicano e os soldados que o acompanham encontraram seu cavalo na entrada do vale, ferido nas patas por alguma fera: um lobo, um lince ou um urso, nin­guém sabe ao certo. O cavalo tinha um dos estranhos símbolos da Ordem do Templo marcado a fogo debaixo da sela.

Era a primeira vez que Grimpow ouvia falar de um cavaleiro templário e da Ordem do Templo, embora tivesse a impressão de que uma parte dele co­nhecia bem essa história.

O senhor está falando de um cavaleiro templário? — perguntou.

Sim, é isso. Você é muito jovem para ter ouvido falar deles, mas em um tempo não muito distante as façanhas dos Cavaleiros do Templo de Salomão eram conhecidas em todos os reinos da cristandade.

Nem Dúrlib nem eu sabemos nada desse cavaleiro templário do qual o senhor fala. Nunca vimos ninguém nas montanhas — mentiu Grimpow, inca­paz de contar ao irmão Rinaldo a verdade sobre a história do cadáver que ha­viam encontrado na neve, o tesouro que o cavaleiro morto levava em seu alforje, a pedra e a maneira como seu corpo desaparecera diante de seus olhos.

Você não precisa mentir para mim. Eu só estou tentando ajudá-lo a es­capar das guerras desse frade cruel. O inquisidor Búlvar de Góztell sabe que Dúrlib entregou ao abade algumas moedas de prata que exibiam estranhos símbolos do Templo em troca de um par de cavalos da abadia.

Como o senhor pode saber disso?

São poucas as coisas que acontecem entre os muros da abadia de Brínkdum das quais eu não tenha notícias — disse o velho monge com ar mis­terioso. — Mas isso não importa agora.

Então foi o abade que nos delatou? — quis saber Grimpow.

Isso mesmo — assentiu com leveza o irmão Rinaldo —, mas o abade só falou ao frade dominicano de Dúrlib, não de você.

Mas por que agiu assim?

Por temor de ser marcado com os ferros ardentes da Inquisição.

Grimpow sentiu uma vontade irreprimível de gritar de raiva ao imaginar o que poderia acontecer a Dúrlib nas mãos dos verdugos do inquisidor de Lyon. Ele não conhecia em detalhes o que era o Tribunal da Inquisição nem por que torturava e queimava vivos na fogueira os chamados hereges, mas, certa vez, o próprio Dúrlib lhe explicara que a Igreja perseguia até a morte bruxas, magos, sábios e todos os monges e frades mendicantes que não aceitavam suas rique­zas, suas doutrinas e suas crenças. Foi pouco tempo depois de conhecer Dúrlib, num aziago e caloroso dia de verão na cidade de Üllpens em que vi­ram um infeliz em cima de uma carreta; ele vestia trapos manchados de san­gue, tinha as mãos amarradas e sustentava debilmente uma cruz de madeira entre os dedos. Uma grande ferida aberta na cabeça deixava entrever uma massa disforme de miolos e sangue ressecado no meio de cabelos emaranha­dos; suas pernas quebradas pendiam de maneira insólita ao lado da banqueta à qual estava preso. Um par de tambores precedia a comitiva de soldados que o conduzia até a pira de lenha amontoada na praça onde foi queimado vivo entre gritos de horror do herege e alaridos de júbilo de todos os que assistiam ao martírio atroz.

Leve-me diante de Búlvar de Góztell e eu lhe contarei toda a verdade sobre esse cavaleiro templário que ele está procurando — disse Grimpow, ater­rorizado pela idéia de que seu amigo Dúrlib pudesse ter a mesma sorte que aquele infeliz.

O irmão Rinaldo olhou-o com compaixão.

E você acredita que isso evitará que vocês dois sejam mortos depois que lhe disser o que ele deseja saber? — perguntou, abrindo bem seus olhos sem pestanas.

Não sei, mas pelo menos impedirei que torturem Dúrlib. Não suporta­ria que lhe fizessem mal por minha culpa.

Você deve deixar de pensar em uma coisa que não está em suas mãos evitar. Dúrlib saberá se defender. Agora me diga uma coisa — disse o monge, ficando em silêncio por um instante como se não encontrasse a maneira de formular sua pergunta. Mas acabou dizendo: — Vocês assaltaram o cavaleiro templário nas montanhas para roubar-lhe as moedas de prata?

Por um instante, Grimpow pensou em mentir, em dizer que elas lhes havi­am sido oferecidas pelo cavaleiro em troca de sua ajuda para que saísse das montanhas, mas alguma coisa dentro dele obrigou-o a contar ao irmão Rinaldo a verdade a respeito do que acontecera.

Não. Encontrei-o estendido morto sobre a neve quase diante da nossa cabana quando voltava a ela depois de ter caçado alguns coelhos perto das cachoeiras do vale. Dúrlib disse que talvez tivesse se separado de seu cavalo e se perdido nas montanhas por causa da névoa. Deve ter morrido de frio durante a noite.

E vocês enterraram seu cadáver?

Grimpow voltou a negar, desta vez só com um movimento de cabeça, e acrescentou:

Eu sei que é difícil acreditar, mas não foi necessário. Estávamos pensan­do em vir à abadia para informar o abade sobre o nosso achado para que ele sepultasse o cavaleiro na igreja, mas de repente seu corpo se evaporou sobre a neve como se fosse um ser de outro mundo.

Um brilho estranho cintilou nos olhos do irmão Rinaldo.

Então é certo! — exclamou, abrindo exageradamente seus olhos sem pestanas.

O que o senhor quer dizer? — perguntou Grimpow, aturdido.

Que há um segredo.

Não estou entendendo. O senhor não está duvidando do que lhe contei?

Por que haveria de duvidar desse prodígio? Não é prodigioso que a cada manhã o sol saia no Oriente e depois se oculte no Ocidente? E não há, por acaso, mistério nas maravilhas da natureza, nos movimentos da Lua ou na quietude das estrelas?

Mas o que tudo isso tem a ver com a misteriosa desaparição do cavaleiro templário? — insistiu Grimpow, tomado pela confusão.

A antiga lenda do segredo dos templários é tão certa como a história que você me conta — disse o velho monge, entusiasmado. — Esse segredo é o que Búlvar de Góztell quer descobrir e por isso perseguia o cavaleiro que você encontrou morto nas montanhas.

De que lenda antiga o senhor está falando? — perguntou Grimpow, exatamente no instante em que em sua mente começaram a se esboçar imagens tênues de tempos remotos e terras distantes.

Antes de falar dessa lenda, diga-me se você encontrou outra coisa além de moedas junto ao cadáver do cavaleiro templário.

Mais uma vez Grimpow hesitou entre dizer a verdade ao irmão Rinaldo ou lhe mentir; optou, no entanto, por fazer um inventário dos objetos do alforje, mas não dizer nada sobre a pedra que o cavaleiro morto tinha em sua mão e agora estava oculta na bolsa de linho que pendia de seu pescoço.

Ao lado do cadáver havia um alforje que continha muitas moedas de prata, alguns anéis e outras jóias, duas adagas, uma mensagem lacrada e um lacre de ouro — disparou.

Um tesouro valioso, sem dúvida. Suponho que vocês o tenham escon­dido em um lugar seguro — elucubrou o monge. — Mas não é isso o que mais me interessa, eu renunciei há muitos anos às riquezas do mundo. Fale-me da mensagem e do lacre de ouro. Vocês quebraram o lacre?

Dúrlib quebrou, com esta adaga — explicou Grimpow, tirando o pu­nhal cheio de jóias de debaixo de seu gibão. — Continha símbolos que nem Dúrlib e eu pudemos compreender. Nenhum de nós dois sabe ler ou escrever — disse sem mentir de todo, mas reservando para si o conteúdo da mensa­gem que ele havia conseguido decifrar graças à pedra do cavaleiro morto.

Ao ver a adaga, os olhos do monge se dilataram, como se Grimpow lhe falasse de alguma coisa que ele havia esperado décadas e décadas para ouvir.

Essa adaga com o punho incrustado de safiras e rubis é, sem dúvida, a adaga de um cavaleiro do Templo — disse admirado. — A mensagem também está com você? — acrescentou com um gesto grave de expectativa em seu ros­to enrugado.

Nós a deixamos no alforje junto com o lacre de ouro.

Não importa, não importa. Tudo se encaixa com a mesma precisão com que a cada noite os astros aparecem no firmamento — murmurou para si.

O que o senhor está dizendo? — perguntou Grimpow.

Estava apenas pensando em voz alta — disse o irmão Rinaldo, abstraído em seus pensamentos.

Surpreendeu a Grimpow que o velho monge não lhe perguntasse pelo lu­gar em que Dúrlib e ele haviam escondido o tesouro do cavaleiro morto, e isso confirmou que não estava interessado nas moedas de prata nem nas jóias.

E o que o senhor me diz da antiga lenda que ia me contar? — perguntou Grimpow para tirá-lo de suas reflexões.

O irmão Rinaldo fechou os olhos e os manteve assim durante alguns se­gundos, como se estivesse se preparando para entrar nos abismos profundos de sua memória, onde encontraria a distante origem da lenda do segredo dos cavaleiros templários. Depois abriu lentamente os olhos sem pestanas.

Dois séculos atrás, exatamente no ano 1118, nove cavaleiros franceses e flamengos cansados da vida cavalheiresca resolveram vestir o hábito dos mon­ges e viajaram a Jerusalém, onde se apresentaram ao rei Balduíno II. O seu propósito era o de se converter em protetores dos peregrinos cristãos que, desde a primeira cruzada, acudiam em massa à Terra Santa para venerar o sepulcro de Cristo. Ali, hospedaram-se no antigo Templo de Salomão e dedi­caram um longo tempo à meditação e à oração, embora, segundo diz a lenda, sua verdadeira missão fosse a de descobrir dentro das ruínas do recinto sagra­do um segredo milenar de que já falavam antiqüíssimos manuscritos encon­trados pelos cruzados depois da conquista de Jerusalém. Ainda segundo a len­da, este segredo poderia conceder a quem os encontrasse todo o poder sobre o mundo, e até mesmo a imortalidade. Passados noves anos da chegada dos nove cavaleiros ao Templo de Salomão, seis deles regressaram à França levan­do consigo uma carreta gigantesca, e isso levou muita gente a pensar que eles haviam cumprido sua missão com êxito...

O interesse pela lenda que o irmão Rinaldo lhe contava levou Grimpow a interromper sua narração.

Eles descobriram o segredo que procuravam? — perguntou.

Ninguém nunca soube disso com certeza, mas na época muitas vozes disseram que os cavaleiros do Templo de Salomão haviam regressado à Fran­ça trazendo com eles a Arca da Aliança, à qual a Bíblia atribui um poder so­brenatural, e que uma vez ali voltaram a escondê-la dos olhos da humanidade em algum lugar desconhecido. Muitos outros, no entanto, asseguravam que aquilo que de fato os nove cavaleiros haviam encontrado nos estábulos do Templo de Salomão era o Santo Graal.

O Santo Graal?

O Santo Graal é o cálice em que Nosso Senhor bebeu o vinho durante a Última Ceia — esclareceu. — Diziam que este fabuloso recipiente possuía vir­tudes maravilhosas e inimagináveis para os homens.

E realmente foi assim? — perguntou Grimpow, intuindo que a pedra que ele possuía era uma coisa muito diferente daquilo de que o velho monge lhe falava.

Não sei — admitiu o monge. — A única coisa certa é que em pouco tempo a Ordem do Templo estava integrada por milhares de monges solda­dos, e se estendeu rapidamente por todos os reinos da Europa, estabelecendo em cada um deles uma profusão de donatarias, capelas e castelos. Os cavalei­ros templários adquiriram tanto poder e riqueza que até os reis acreditaram que eles haviam descoberto de fato um tesouro de valor incalculável.

Eram tão ricos e poderosos assim? — perguntou Grimpow, voltando a interrompê-lo.

Mais do que qualquer rei ou imperador tivesse sido até então. — Disse o irmão Rinaldo.

Então por que eles estão sendo perseguidos agora?

De acordo com o que me contaram alguns monges que chegaram à aba­dia vindos de Paris, há seis anos o rei de França, Felipe IV, apelidado de O Belo apesar da fealdade da sua cara de coruja, cegado por sua cobiça e crueldade, ordenou a seus soldados que prendessem todos os cavaleiros do Templo que viviam no reino, com a intenção nada nobre de apoderar-se de seus castelos, tomar seus tesouros e descobrir seus segredos. Centenas de cavaleiros templários curtidos em batalhas sangrentas foram encarcerados, humilhados e torturados até a morte. E injustamente acusados de negar Cristo, cuspir na cruz e adorar um ídolo diabólico ao qual chamavam de Bafomet. Muitos templários não resistiram aos terríveis suplícios, confessaram suas culpas à Inquisição e depois foram queimados sem piedade na fogueira. Até o próprio papa Clemente V, temendo a fúria do rei francês, pediu aos reis da cristandade que perseguissem qualquer templário que pudesse se esconder em seus domí­nios, sem mover uma palha para defender aqueles que durante quase dois sé­culos haviam ajudado tanto a seus antecessores nas cruzadas da Terra Santa.

É por isso que o inquisidor Búlvar de Góztell perseguia o cavaleiro templário que chegou a estas montanhas? — perguntou Grimpow, acreditando ter entendido tudo aquilo que o velho monge lhe relatava, e satisfeito ao com­provar que não havia se equivocado ao revelar a Dúrlib seu pressentimento de que o cavaleiro morto fugia da fogueira.

Em parte sim, mas, pelo que ouvi o frade dominicano Búlvar de Góztell contar ao abade esta noite — disse o monge remexendo-se na poltrona —, o último grande mestre do Templo, Jacques de Molay, que ainda continua preso na Torre de Paris junto a outros comendadores da Ordem, confessou a seus verdugos que o segredo descoberto pelos nove cavaleiros há duzentos anos no Templo de Salomão só era conhecido por um grupo de sábios que ninguém, nem mesmo ele próprio, havia chegado a ver algum dia.

E o senhor acredita que o cavaleiro desconhecido que morreu nas mon­tanhas perseguido pelo frade dominicano e os soldados do rei tinha alguma coisa a ver com esse segredo? — perguntou Grimpow para aclarar suas idéias.

O inquisidor Búlvar de Góztell está convencido de que sim — afirmou o irmão Rinaldo. — E, a julgar pela mensagem cifrada e o lacre de ouro que seu amigo Dúrlib e você encontraram no alforje do misterioso cavaleiro das montanhas, tampouco a mim restam dúvidas a respeito — acrescentou.

Mas e se toda essa lenda for falsa? — indagou Grimpow, não querendo admitir que as chaves do segredo dos templários pudessem estar no alforje que Dúrlib e ele haviam enterrado junto à cruz antes de chegar à abadia.

Salvo a coisa do segredo que os nove cavaleiros convertidos em monges soldados descobriram no Templo de Salomão há dois séculos, tudo o que lhe contei é tão certo como estarmos acordados a esta hora da noite. Trata-se de história, não de uma lenda — disse.

Ocorreu então a Grimpow uma coisa em que ele não havia pensado até aquele momento.

Não é verdade que o senhor foi um cavaleiro templário antes de optar por viver na clausura desta abadia? — indagou.

O rosto do velho monge se contraiu em um esgar de inquietação. Seus olhos se apertaram; seu olhar lambeu os manuscritos que se empilhavam nas estantes ao seu redor.

Sim, é verdade. Cheguei a ser um templário durante algum tempo, mas isso foi há tantos anos que minha memória idiota reluta em lembrar por que deixei de sê-lo — admitiu sem nenhum pesar.

Não seria porque não agrada ao senhor se lembrar do que fez naquela época? — disse Grimpow.

É possível — disse o monge, olhando para Grimpow como se estivesse diante de um profeta.

Grimpow percebeu um leve tremor nas mãos do irmão Rinaldo, que este se esforçou em dissimular cruzando-as sobre seu colo. Depois de alguns se­gundos de profundo silêncio, o monge começou a contar as peripécias de sua vida desde que, quando era apenas um menino pouco mais velho que Grimpow, ingressou na congregação que os cavaleiros do Templo tinham em sua pequena cidade natal de Metz, em Lorena, ao nordeste de França, seguindo as recomendações de um tio seu que era naquele momento comendador da ordem.

Disse-lhe que havia vivido na Terra Santa a partir dos 16 anos, defendendo dos infiéis, a golpes de espada, as fortalezas templárias de Safed, Trípoli, Da­masco, Gaza, Galiléia e Acre. Participara, também, da sétima e oitava cruza­das ao lado do rei de França Luís IX, que ia à frente dos exércitos cristãos e morreu, assim como outros membros da família real, vitimado pela peste negra às portas da cidade de Túnis no ano de 1270.

Nesse mesmo ano, cansado de ver tantos cadáveres, tantos corpos mu­tilados e tanto sangue inutilmente derramado em nome de Deus, decidi fu­gir do mundo, de suas crueldades e misérias, e vim me refugiar na isolada abadia de Brínkdum. Meu único propósito era o de passar o resto dos meus dias estudando os valiosos manuscritos de sua imensa biblioteca. Estes que você vê à sua volta são livros que foram proibidos pela Igreja e estão guarda­dos aqui há séculos, afastados do olhar curioso dos monges — concluiu, dei­xando escapar um suspiro.

O senhor leu todos eles? — perguntou Grimpow, olhando, admirado, ao seu redor.

Todos, sem exceção — disse orgulhoso —, e encerram tanta sabedoria que muitas vezes eu mesmo cheguei a duvidar da existência de Deus.

Não o compreendo — murmurou Grimpow.

Se a idéia de Deus como criador do céu e da Terra nos serve para expli­car tudo quanto nos cerca, torna-se difícil acreditar Nele quando o céu e a Terra podem chegar a se explicar por si mesmos. Muitos sábios começaram a conse­gui-lo, e suas engenhosas teorias estão nestes livros prodigiosos que são ta­chados pela Inquisição de heresias. Mas, mesmo admitindo que Deus exista, não voltarei jamais a acreditar no Deus guerreiro e impiedoso adorado por papas, reis e imperadores para saciar sua cobiça — disse exaltado. — Quando voltei da Terra Santa, comprovei que muitos frades pertencentes a ordens mendicantes pregavam a caridade e a pobreza, e por isso eram perseguidos e encarcerados. Até os primeiros cavaleiros templários foram partidários do cultivo da pobreza e da sabedoria durante sua longa estadia de nove anos em Jerusalém, mas a fundação da ordem e o transcorrer do tempo foram convertendo-os em guerreiros tão ambiciosos e arrogantes como seus inimigos de agora. Apenas alguns poucos se mantiveram fiéis aos seus princípios, e foram eles os únicos herdeiros do segredo dos nove cavaleiros do Templo de Salomão. A lenda que contei a você chama de Eleitos esse grupo de cavaleiros templários que jamais fizeram uso da espada.

Os Eleitos? — perguntou Grimpow, interessado no novo rumo que o seu diálogo com o velho monge tomava.

Um Eleito possui a inquietude da aprendizagem e do conhecimento; do conhecimento como uma força interior capaz de lhe revelar a realidade do mundo para criar os elos de uma cadeia de sabedoria que está fora e mais além da humanidade, e que o levará a desvendar o segredo dos sábios. Esse maravilhoso tesouro que ninguém ainda viu, e cujas portas estão fechadas para muitos, só é acessível a quem o procura seguindo os símbolos e os cami­nhos adequados.

O senhor também procura esse tesouro?

Já estou muito perto da morte para empreender aventuras que são pró­prias da juventude. Mas você ainda tem a possibilidade de chegar a desvendar o segredo dos sábios.

O senhor acredita, então, que o cavaleiro templário morto nas monta­nhas era um Eleito?

Sem sombra de dúvidas. E o destino também escolheu você — disse. — O fato de ter encontrado o cadáver na neve, junto ao lacre e à mensagem que portava, indica que deve ser você a pessoa que dará continuidade à missão que encomendaram ao cavaleiro e ele não pôde realizar.

Ao ouvir isto, Grimpow confirmou o que havia pensado quando seus de­dos sentiram, nas montanhas, o cálido contato da pedra. Soube ali que era ele quem devia dar continuidade à missão interrompida depois da desgraçada morte do cavaleiro templário, mas não tinha idéia de como fazer mais que procurar Aidor Bílbicum, o destinatário da mensagem do pergaminho, na dis­tante cidade de Estrasburgo.

E o que eu posso fazer para desvendar esse segredo? — perguntou, para sair do seu próprio aturdimento.

Em primeiro lugar, você terá de decifrar a mensagem da carta lacrada que encontrou com o cadáver do cavaleiro. Os templários usavam a cabala judaica e uma profusão de linguagens hieroglíficas ou cifradas que só aqueles que possuíam seus códigos podiam chegar a compreender. Apesar de ter sido durante muitos anos um deles, nem mesmo eu tenho certeza de que poderei ajudá-lo, mesmo tendo a mensagem cifrada diante dos meus olhos.

Grimpow não tinha mais nenhuma dúvida a respeito da sinceridade das palavras do irmão Rinaldo, e resolveu corresponder mencionando a mensa­gem da carta lacrada que ele havia interpretado graças à pedra. Pensou que talvez o velho monge pudesse ajudá-lo a averiguar o verdadeiro significado daquele texto enigmático que falava do céu, da escuridão e da luz.

E se eu dissesse ao senhor que interpretei a mensagem dessa carta la­crada assim que a vi?

O velho monge estremeceu e olhou para ele incrédulo, esperando que Grimpow continuasse a fazer suas revelações. Mas, diante de seu silêncio, per­guntou em voz baixa, temendo sua resposta:

Você teve uma visão sobrenatural?

Não sei muito bem o que é isso — respondeu Grimpow. — Mas ao olhar os símbolos estranhos do pergaminho eu compreendi o que diziam como se uma voz interior me revelasse magicamente seu verdadeiro significado.

É maravilhoso! — exclamou o irmão Rinaldo passando a mão na testa, como se suasse apesar do intenso frio que reinava no aposento.

A mensagem lacrada dizia apenas o seguinte: "No céu estão a escuridão e a luz. Aidor Bílbicum. Estrasburgo."

As feições do velho monge expressaram sua satisfação ao ouvir as palavras de Grimpow.

Uma contra-senha, uma pessoa e uma cidade — murmurou medi- tabundo.

E? — indagou Grimpow, esperando que o irmão Rinaldo dissesse algo além do que ele mesmo já sabia.

Tudo se encaixa, tudo se encaixa — disse, simplesmente. Depois repetiu em voz alta e melodiosa: — No céu estão a escuridão e a luz.

O que o senhor acha que isso pode significar? — perguntou Grimpow.

No céu estão a escuridão e a luz, a noite e o dia, as trevas e a claridade, a ignorância e a sabedoria — disse.

Eu também pensei em algo parecido.

Creio que é um código. Ao receber esta mensagem, esse tal de Aidor Bílbicum saberia o que deveria fazer. Mas o que eu não consigo ainda explicar é como você, um menino que nem sequer sabe ler ou escrever, pôde decifrar esse enigma.

E, ao dizer isto, levantou-se de seu assento, aproximou-se de uma estante que estava às suas costas e pegou um grosso manuscrito com iluminuras. Co­locou-o aberto sobre a mesa e aproximou a candeia acesa até que suas páginas adquiriram um verniz dourado.

Aproxime-se — disse a Grimpow, que esperava.

Grimpow obedeceu e ficou ao seu lado, sem deixar de olhar as páginas abertas do volumoso livro, no qual um texto escrito em duas colunas cingia quatro círculos iguais; em cada um deles estavam representadas cenas de an­jos e monges pintadas com vivas cores azuis e vermelhas, ao lado de uma ci­dade amuralhada delimitada em pão-de-ouro.

Você pode compreender o que se diz aqui? — perguntou o velho mon­ge, sem deixar de fitar os olhos de Grimpow, enquanto seu dedo indicador apontava o começo do texto, escrito em belos caracteres em latim.

E a muralha da cidade foi construída de jaspe e a própria cidade de ouro puro, semelhante ao vidro puro. As fiadas da muralha da cidade foram adornadas com todo tipo de pedras preciosas... — começou a ler Grimpow, como se o latim fosse a língua de seus pais e ele houvesse aprendido a falá-la desde seu nascimento.

É suficiente, é suficiente — murmurou o velho monge com o rosto visivelmente desfigurado pelo seu próprio espanto, ao mesmo tempo em que uma crepitação luminosa avivava seus olhos.

Dúrlib está convencido de que tudo o que aconteceu com a gente desde que encontramos o cadáver do cavaleiro morto nas montanhas foi obra do próprio diabo — comentou Grimpow.

Você conta coisas estranhas e extraordinárias, sem dúvida, e se eu não houvesse visto com meus próprios olhos você traduzir o texto em latim sem saber ler nem conhecer essa língua antiga, pensaria que se tratava apenas de fantasias de ingênuos comediantes e titereiros. Mas está claro que, trate-se de um milagre ou de um sortilégio, algo inexplicável ocorreu com você desde que encontrou esse misterioso cavaleiro morto nas montanhas. São muitos os que têm tachado os templários de magos e feiticeiros, afirmando que eles conseguiram suas riquezas por meio das más artes da magia. No entanto, depois de tudo o que você me contou e eu próprio vi, estou convencido de que seu segredo é muito mais fantástico e enigmático que um simples exorcismo de bruxos.

A única história que Grimpow ainda não havia contado ao irmão Rinaldo para que ele conhecesse todos os detalhes e a confirmasse, como esperava, era a do amuleto que o cavaleiro templário tinha em sua mão; uma história que fazia falta, pois ele supunha que a insólita pedra era a responsável pelos prodí­gios produzidos em sua mente. Mas nesse instante soaram os sinos da abadia chamando para as matinas.

Preciso ir agora, para que nem o abade nem o inquisidor Búlvar de Góztell sintam a minha falta ao ver meu banco vazio no coro da igreja duran­te a oração — disse o velho monge.

Levantou-se da mesa, e Grimpow viu que vasculhava com as mãos uma das prateleiras próximas, e depois outra, até que, subitamente, uma das estan­tes repletas de livros girou sobre o solo e deixou aberto diante deles um oco tão escuro como a noite.

O senhor voltará logo? — perguntou quando o velho monge estava prestes a passar ao outro lado; ao lado em que Grimpow supôs que ficava uma das salas da verdadeira biblioteca.

Eu o verei de novo depois da hora prima, tão logo amanheça. Tentarei lhe trazer alguma coisa de comer e alguma notícia do seu amigo Dúrlib — disse, detendo-se sob o lintel formado pelas estantes mais altas.

O senhor está se esquecendo da candeia — avisou-o Grimpow antes que ele partisse.

Mas o velho monge se virou de costas e saiu da sala secreta.

Meus olhos estão habituados a enxergar nas trevas.

Sua frágil imagem de ancião algo encurvado perdeu-se na escuridão; em instantes um som surdo voltou a fechar a estante aberta, e Grimpow ficou na mais completa solidão.

 

                           A quadratura do círculo

Ao acordar no dia seguinte, o que Grimpow mais desejava era ter notícias de Dúrlib. Havia passado quase toda a noite acordado, tiritando de frio sobre o incômodo e improvisado leito que, depois de apagar as lamparinas dependuradas e deixar acesa em um canto a diminuta luz de um candeia para não ficar completamente às escuras, preparou sobre a mesa do recinto cercado de livros e penumbras. Não deixara de pensar o tempo todo naquilo que o irmão Rinaldo havia lhe contado sobre os cavaleiros templários e seu segredo, e te­meu que também castigassem Dúrlib com terríveis tormentos para fazê-lo confessar tudo o que soubesse sobre o cavaleiro morto nas montanhas. Pare­cia-lhe claro que se Búlvar de Góztell havia encontrado o cavalo do templário na zona mais baixa do vale e vira as moedas que Dúrlib entregara ao abade, não teria a menor dúvida de que o fugitivo do Templo havia estado em conta­to com eles, e de que teriam informações sobre ele e seu paradeiro. Mas Grim­pow não tinha nenhuma certeza a respeito de uma coisa: não sabia se o frade dominicano também fora informado de sua presença na abadia. Aparente­mente, o abade só havia lhe falado de Dúrlib, querendo protegê-lo das temí­veis garras do inquisidor de Lyon.

Livrou-se das dúvidas passadas algumas horas, muito depois de soarem os sinos da torre e os monges terem acudido ao primeiro culto do dia. Para sua surpresa, não foi o irmão Rinaldo quem apareceu para vê-lo como havia pro­metido. Ao ouvir o ruído da parede de rocha girando ao fundo do alçapão soube que alguém entrava pelo oco cercado de caveiras que ele já conhecia. Sacou a adaga da cintura e ficou em estado de alerta, temendo que o inqui­sidor Búlvar de Góztell e seus esbirros estivessem indo buscá-lo. Prendeu a respiração enquanto passos lentos subiam pela escada em caracol, e suspirou aliviado ao ver que quem atravessava o alçapão revelando a metade de seu corpo de gigante era Kense, o criado meio retardado da abadia. Kense não entrou no recinto. Ficou parado na entrada, olhando para Grimpow tal qual um mocho que esquadrinha a escuridão para certificar-se de que viu o peque­no roedor que procurava. Depois tirou de uma taleiga um odre com água, um pedaço de pão, uma lingüiça e um par de maçãs doces, depositando tudo so­bre o solo. E, sem mais palavras, fechou de novo a tranca sobre sua cabeça e desapareceu escada abaixo com a mesma lentidão com que havia chegado.

Atormentado pela sede, Grimpow bebeu água do odre de couro até ficar saciado. Depois levou a comida à mesa que lhe havia servido de leito durante a noite e devorou o pão, a lingüiça e as maçãs como se fossem os mais esplên­didos manjares que jamais tivesse degustado.

A falta de luz natural naquele habitáculo fechado impedia-o de saber se o novo dia avançava, embora desconfiasse de que já fazia tempo que amanhece­ra. Voltou a acender com um toco de vela as lamparinas que pendiam do teto e entreteve-se espiando os títulos dos manuscritos entesourados naquele apo­sento secreto. Confirmou que podia ler todos eles sem nenhuma dificuldade, apesar de estarem escritos em latim, grego, hebreu e árabe, mas não se assom­brou mais com este feito prodigioso, tão natural para ele desde que tocara a pedra do cavaleiro morto. Muitos livros exibiam apenas textos escritos com delicadas e graciosas caligrafias, mas outros eram iluminados por preciosas miniaturas enfeitadas com motivos de plantas de cores vivas e abundante pão-de-ouro. Havia manuscritos sobre filosofia, astronomia e astrologia, sobre ana­tomia e medicina, sobre ervas medicinais, venenos, poções e exorcismos, so­bre magia, feitiços e bruxaria, sobre bestas, monstros, demônios, animais fantásticos e territórios distantes e exóticos, sobre geometria, aritmética e mineralogia, sobre física e alquimia. Grimpow sentiu-se fascinado pela possibili­dade de poder tocar e ler aquelas jóias da sabedoria tão misteriosas como an­tigas; a maioria delas havia sido escrita há centenas de anos, e muitas procediam dos mais diversos lugares do mundo conhecido.

Estava distraído na contemplação de uma lâmina que representava a for­ma circular das órbitas planetárias nos céus celestes, desenhada havia quase mil anos por um sábio chamado Leaffhar Solabba, quando ouviu um ruído do outro lado das prateleiras repletas de livros. Em instantes abriu-se a mesma estante pela qual saíra, na noite anterior, o irmão Rinaldo em direção às salas contíguas da biblioteca. Ao ver o velho monge entrar na sala secreta, Grimpow fechou o manuscrito e, ansioso por ouvir suas notícias, perguntou-lhe sem preâmbulos o que sabia de Dúrlib.

Esse seu amigo é mais esperto que uma raposa encurralada — disparou o irmão Rinaldo com um sorriso, voltando a fechar a estante aberta atrás dele.

Ele conseguiu escapar? — perguntou Grimpow, ansioso por ouvir uma resposta.

Ainda não, mas estou certo de que logo conseguirá. Quando os solda­dos do rei o detiveram ontem à noite nos estábulos da abadia quando estava conversando com o monge responsável pelas cavalariças, mostrou-se tão dó­cil e subserviente que o próprio Búlvar de Góztell pensou que havia encontrado ali seu melhor aliado para prender o cavaleiro templário que persegue, sem saber que já está morto.

Quer dizer que ele não foi maltratado? — perguntou Grimpow, expres­sando seu alívio com um suspiro.

Por enquanto está escapando habilmente do martírio. Dúrlib disse ao fra­de dominicano que na manhã de ontem havia se encontrado de fato, perto da sua cabana, com um cavaleiro sem cavalo que parecia ter se perdido nas monta­nhas por causa da névoa. Descreveu em detalhes os traços e as vestes do homem desconhecido e explicou-lhe que conversara com ele sobre o motivo de sua viagem, dizendo o cavaleiro que se dirigia ao norte para tratar de um assunto urgente que não admitia demora. Dúrlib garantiu ao inquisidor de Lyon que dissera ao cavaleiro que a abadia de Brínkdum ficava ali perto, sugerindo-lhe que nela poderia se prover sem dificuldades de uma montaria e de provisões para sua longa viagem; o cavaleiro lhe respondeu, então, que estava cansado, e disse que, ao cair do cavalo, havia machucado uma de suas costelas, e por isso rogou a Dúrlib, depois de lhe entregar algumas moedas de prata, que fosse ele quem alcançasse a abadia e adquirisse um par de cavalos para que pudesse continuar sua viagem. Ofereceu-lhe, além disso, a oportunidade de acompanhá-lo na condição de seu servente, se assim desejasse depois de seu regresso.

Quer dizer que Dúrlib convenceu o inquisidor Búlvar de Góztell de que o cavaleiro templário ainda está vivo! — exclamou Grimpow.

Assegurou-lhe sem nenhuma hesitação que encontraria o cavaleiro que perseguia deitado no colchão de sua cabana, esperando que ele regressasse com os cavalos e as provisões. E ele próprio se ofereceu para conduzir o frade dominicano e os soldados do rei até as montanhas, insistindo que não havia lugar onde o cavaleiro proscrito pudesse se esconder que ele, Dúrlib, não co­nhecesse. O inquisidor, seduzido pela idéia de poder aprisionar o templário fugitivo como se fosse uma fera caída numa armadilha, ordenou a Dúrlib que dormisse essa noite ao lado dos soldados na sala de hóspedes nobres da aba­dia, avisando-o de que hoje mesmo de manhã partiriam para as montanhas com o objetivo de capturar sem demora nem piedade sua valiosa presa.

E eles já partiram em direção à cabana?

Saíram há pouco tempo; eu mesmo os vi partindo das cavalariças. Dúrlib encabeçava a escolta com a arrogância de um guia briguento — disse, sorrindo.

Então estou certo de que Dúrlib saberá driblá-los na primeira curva do tortuoso caminho que leva às montanhas — afirmou Grimpow, convencido de que Dúrlib era suficientemente esperto para escapar da vigilância dos sol­dados em um território nevado e inóspito que ele conhecia como a palma de sua mão.

Búlvar de Góztell pode ter pecado por ingenuidade ao acreditar na his­tória inventada por seu amigo, mas não foi tão incauto a ponto de permitir que Dúrlib pudesse escapar assim que se visse livre, em campo aberto, e por isso amarrou suas duas mãos nas costas usando tiras de couro.

Foi o que o senhor viu?

Sim, vi; e apesar de cavalgar amarrado, seu amigo assoviava de felicidade como se estivesse sendo levado ao banquete de casamento de um monarca e carregasse as arras da cerimônia.

Saber que Dúrlib estava indo para as montanhas tranqüilizou-o; Grimpow não tinha dúvida de que seu amigo encontraria uma oportunidade para esca­par de seus captores e voltar depressa à abadia para buscá-lo. No entanto, tam­bém estava preocupado com o que o inquisidor Búlvar de Góztell poderia sa­ber a respeito dele, se é que sabia de alguma coisa.

O senhor acha que o frade dominicano também está procurando por mim?

Ele nem sabe que você está aqui. O abade só lhe falou de Dúrlib, para não envolver você no assunto das moedas de prata do cavaleiro templário, e seu amigo também não disse nada sobre sua presença na abadia — explicou o irmão Rinaldo.

Então serei obrigado a ficar trancado aqui durante muito tempo? — perguntou Grimpow, olhando ao redor para expressar sua ânsia em sair rapi­damente daquele recinto fechado e livrar-se da claustrofobia que sentia.

Pelo menos até que Búlvar de Góztell e os soldados deixem a abadia. Antes do meio-dia enviarei Rense com um colchão de palha e algumas man­tas de lã para que sua permanência aqui seja a mais agradável possível.

Podemos confiar nesse servente bronco? — perguntou Grimpow, que tinha medo do gigante que acabara de lhe trazer a comida.

Esse pobre diabo daria a vida por mim sem que eu lhe pedisse. Quando era apenas um menino, o abade encontrou-o moribundo em um cemitério abandonado e o trouxe à abadia para curá-lo de uma enfermidade rara de que padecia. Vive aqui desde então, como criado pessoal do abade.

E o que acontecerá quando o frade dominicano descobrir que foi enga­nado por Dúrlib? — indagou Grimpow, voltando ao assunto que mais o inte­ressava.

Se Dúrlib ainda estiver em seu poder quando isso acontecer, arrancará sua pele em tiras, lentamente, e depois o esquartejará e lançará os restos de seu corpo no chiqueiro para que seja devorado pelos porcos. Espero que ele consiga fugir antes que tenha de contar ao inquisidor a verdade sobre o que aconteceu com o cavaleiro templário nas montanhas. Se lhe falar de sua morte e da desaparição do cadáver sobre a neve, Búlvar de Góztell achará que está zombando dele diante de seu próprio nariz.

Mas foi isso o que realmente aconteceu! — exclamou Grimpow.

E você acha que alguém poderia acreditar nisso?

O senhor acreditou.

Eu acreditei em você, mas Búlvar de Góztell não acreditaria na desa­parição de um cadáver mesmo que a tivesse visto com seus próprios olhos. Esta manhã, durante o café no refeitório, o irmão Ássben me disse que conhe­ceu esse frade dominicano há alguns anos na cidade de Vienne, perto de Lyon, e há pouco, no scriptorium, me confessou que o inquisidor havia trabalhado na Terra Santa como espião do rei de França infiltrado entre os cavaleiros do Templo para observar seus ritos de iniciação e seus segredos. Ao que parece, Búlvar de Góztell foi um dos mais próximos colaboradores do último grande mestre, Jacques de Molay, a quem terminou traindo depois de seu regresso a Paris, acusando-o de ser um herege. Búlvar de Góztell virou, então, inquisidor da Ordem dos Dominicanos. A partir daí, dedicou-se de corpo e alma a perse­guir os templários que conseguiram escapar dos esbirros do rei de França, muitos dos quais fugiram para o outro lado da fronteira do norte, para a Ale­manha, e se refugiaram nos castelos do Círculo de Pedra sob a proteção do duque Gulf de Õstemberg e de seus fiéis cavaleiros.

O surgimento de novos fatos e personagens no relato do irmão Rinaldo avivou o interesse de Grimpow. Queria continuar ouvindo suas palavras.

Nunca ouvi falar desses castelos — disse.

Pelo que eu sei, embora jamais o tenha visto — continuou o velho mon­ge —, o Círculo de Pedra é formado por oito pequenos castelos, edificados muito perto uns dos outros nos cumes de montanhas rochosas e inacessíveis que rodeiam em uma linha imaginária perfeitamente circular a fortaleza do duque Gulf de Östemberg, localizada, por sua vez, em uma elevada e inexpug­nável crista de rocha que fica no próprio centro da circunferência...

O irmão Rinaldo explicou-lhe, então, que essa formação circular das defe­sas permitia, em tempos de guerra, a rápida ajuda de um castelo ao outro. Além disso, tornava extremamente difícil os assédios dos assaltantes, pois, aos inconvenientes próprios da orografia do terreno sobre o qual se alçavam, unia-se a circunstância de que o exército sitiante de um castelo ficava, por sua vez, cercado pelos castelos restantes. Estava aí incluída a própria fortaleza do duque de Östemberg. Assim, os assaltantes se convertiam em vítimas do pró­prio ataque. A estas complexidades se somava um sem-fim de passadiços fei­tos de rochas, mais um intrincado labirinto de túneis e galerias subterrâneas que levavam de um castelo ao outro, permitindo aos assediados iludir e enga­nar os atacantes como um coelho faz para escapar das raposas usando os mui­tos buracos de sua toca. O desenho circular da localização dos castelos havia sido sugerido aos antepassados do duque Gulf de Östemberg por um grande sábio em uma época de freqüentes guerras fronteiriças travadas com seus vi­zinhos do sul que cobiçavam apoderar-se daqueles prósperos territórios, atraí­dos pela fertilidade de suas terras e por suas riquezas. Desde então, todos os sucessores do duque Gulf de Östemberg haviam sido educados por sábios ca­valeiros templários, convertendo-se em seus melhores conselheiros e aliados. Segundo contam, um sábio antepassado do duque Gulf era apenas um meni­no quando já realizava complicados cálculos matemáticos, resolvia difíceis teoremas geométricos e localizava com precisão as constelações no céu. A pri­meira espada que seu pai lhe deu e os manuscritos que repousavam no labora­tório privado do sábio que teve como mestre foram os melhores companhei­ros de sua infância, e logo começou ele mesmo a elaborar suas próprias teorias sobre a álgebra dos polinômios e as equações. Também escrevia poemas, tam­bém conhecia a linguagem dos hieróglifos. Aos 20 anos chegou a construir no castelo de seu pai, para o assombro de todos, um observatório astronômico no qual ele e seu mestre passavam longas noites sem dormir, contemplando, maravilhados, o Universo.

O duque Gulf de Östemberg também é um Eleito? — perguntou Grimpow, recordando o que o irmão Rinaldo lhe dissera na noite anterior so­bre os sábios que conheciam o segredo que os nove monges templários ha­viam descoberto dois séculos atrás no Templo de Salomão em Jerusalém.

Isso ninguém sabe, mas todos os seus vassalos o consideram um grande sábio. E embora nunca tenha pertencido, pelo menos oficialmente, à Ordem do Templo, deve ter sido muito vinculado a ela por ter sido tutelado por um cavaleiro templário, e também pela forma circular da linha imaginária que une seus castelos.

E que relação os castelos do Círculo de Pedra guardam com os cavalei­ros templários? — perguntou Grimpow, interessado em averiguar quanto pu­desse sobre a insólita pedra que ele mesmo possuía e que havia pertencido antes ao cavaleiro morto nas montanhas.

Eu vou lhe mostrar graficamente.

O velho monge foi até uma pequena escrivaninha situada em um canto da sala fechada e sentou-se nela. Pegou uma pena de ave, empapou-a em um tinteiro e com o canto da sua mão esquerda alisou um pedaço de pergaminho não usado que estava estendido sobre uma carteira. Grimpow se aproximou do irmão Rinaldo e observou, com curiosidade, os movimentos lentos de sua mão, que, apesar de um leve tremor, traçava uma circunferência perfeita sobre o pergaminho.

 

— O círculo — começou a dizer o velho monge com solenidade — é uma das formas geométricas que encerra maiores enigmas. A continuidade de sua linha infinita representa a perfeição e a eternidade sem princípio nem fim que só pode ser encontrada no céu. Até a Lua e o Sol poente têm forma circular, como todos os astros do Universo.

Depois o velho monge fez uma pausa e desenhou debaixo do círculo um quadrado do mesmo tamanho.

E se o céu é o círculo...

A Terra é o quadrado — interrompeu-o Grimpow, sem saber muito bem por que fazia essa afirmação.

De fato — continuou o irmão Rinaldo, fitando os olhos de Grimpow com contida admiração —, se o céu infinito está representado pelo círculo, a finitude da Terra está simbolizada no quadrado, que é a forma geométrica oposta e limitada. Não é por acaso que os quatro lados iguais do quadrado se relacionam com os quatro pontos cardinais: o norte, o sul, o leste e o oes­te; e com as quatro estações do ano: a primavera, o verão, o outono e o in­verno, e com os quatro elementos essenciais da natureza: a água, a terra, o ar e o fogo. Além do mais, o quadrado, que é a Terra, pode estar contido no círculo, que é o céu, ambos compartilhando o mesmo centro cósmico.

E, ao dizer isto, desenhou com precisão um círculo e em seu interior um quadrado, de maneira que o centro do círculo fosse também o centro do quadrado.

Desta forma, o céu e a Terra formam um todo dual cuja última fusão é tão impossível como a quadratura do círculo, em cuja vã intenção de transfor­mação fracassaram todos aqueles que se empenharam em converter o círculo e o quadrado em uma única forma geométrica, porque isso seria tanto como unir a Terra ao céu e o homem a Deus — disse o irmão Rinaldo, satisfeito com a expectativa despertada em Grimpow, e esperando que ele se animasse a continuar observando sua explicação gráfica da origem templária dos castelos do Círculo de Pedra.

Pelas suas palavras, me parece que devo entender que os oito castelos do Círculo de Pedra simbolizam a perfeita combinação entre o celeste e o ter­reno, entre o divino e o humano. No entanto, o senhor garantiu que a quadratura do círculo é impossível, e no desenho anterior em que representou a integração da Terra ao céu, quer dizer, a integração do quadrado ao círculo, só estão presentes quatro pontos de união entre um e outro, e não oito, como teria de ser, pois são oito os castelos do Círculo de Pedra que rodeiam o centro comum no qual se situa a fortaleza do duque Gulf de Östemberg.

É isso mesmo, Grimpow, mas agora observe isto — disse o velho mon­ge, e começou a desenhar de novo um círculo e um quadrado em seu interior, que depois completou com um octágono situado entre as linhas do círculo e do quadrado.

Depois acrescentou complacente:

— Como você mesmo pode comprovar agora, quando tentamos enqua­drar o círculo aproximando-o em sua forma do quadrado, o que obtemos é uma nova figura geométrica de oito lados iguais cujo centro é compartilhado com o círculo e o quadrado. O octágono, como os oito castelos do Círculo de Pedra, representa, assim, a perfeita harmonia entre o céu e a Terra, a união equilibrada entre o divino e o humano, a complementaridade entre o espírito e a matéria, entre a alma e o corpo, entre o invisível e o visível.

Entre a escuridão e a luz! — disse Grimpow subitamente, recordando-se do texto simbólico da mensagem que o cavaleiro morto carregava em seu alforje.

Essa é sem dúvida a chave da mensagem, Grimpow, e por isso não me resta nenhuma dúvida sobre sua origem templária — afirmou o irmão Rinaldo, mas Grimpow duvidava de que fosse exatamente assim.

E como o senhor conseguiu desvendar o confuso enigma do significado do octágono e dos oito castelos do Círculo de Pedra? — perguntou Grimpow, sem afastar seus olhos da figura geométrica desenhada entre o círculo e o quadrado.

Eu fui averiguar, depois de ler alguns manuscritos nesta sala secreta. A forma octagonal de muitas torres e capelas da Ordem do Templo sempre ha­via chamado minha atenção, e quis saber qual poderia ser a razão de que a tivessem utilizado tanto em suas construções. Depois só tive de aplicar mi­nhas próprias conclusões aos oito castelos do Círculo de Pedra.

E mesmo sendo um cavaleiro templário o senhor não sabia disso?

Um cavaleiro templário como eu, entregue por juramento próprio à guerra e à oração, só deveria obedecer ao que lhe era ordenado e não podia fazer perguntas. Tampouco me preocupei em adquirir algum tipo de conheci­mento que não versasse sobre o uso da lança, do arco e da espada, até que cheguei a esta abadia.

Grimpow conversava com o velho monge, mas, enquanto isso ocorria, não podia deixar de imaginar que a resposta mais adequada a todo o mistério com o qual se deparara desde que encontrara o cavaleiro morto nas montanhas estivesse, provavelmente, na pedra que portava, aquela que agora estava pen­durada em seu pescoço. Pensou em falar a respeito dela, da pedra, ao irmão Rinaldo, mas uma silenciosa voz interior o aconselhava a guardar esse segredo só para ele, como os nove cavaleiros templários tinham guardado o segredo que haviam descoberto no Templo de Salomão há mais de duzentos anos.

E por que a palavra "pedra" aparece unida ao nome dos castelos do Cír­culo? — perguntou Grimpow, tentando conseguir mais uma pista sobre o que a pedra que o cavaleiro morto usava como amuleto poderia significar.

Nunca pensei nisso. Mas suponho que deve ser pela dureza das pedras de suas torres e muralhas — disse o velho monge sem muita convicção.

Todos os castelos são de pedra — replicou Grimpow diante da simplici­dade desse raciocínio.

Você tem razão, Grimpow, mas a resposta a esta pergunta, se é que exis­te alguma, você terá de procurá-la sozinho nos pergaminhos e manuscritos proibidos desta sala sem portas, aproveitando o fato de que deve permanecer encerrado nela durante algum tempo. Nestas estantes que estão às suas costas — disse, ficando em pé e apontando com o dedo indicador para trás de si — você poderá encontrar uma profusão de livros que tratam de mineralogia e alquimia, e alguns outros que falam da pedra filosofal. Talvez encontre neles alguma explicação razoável para a sua pergunta. Muitos templários foram grandes alquimistas que aprenderam na Terra Santa sua difícil arte com ára­bes depois de anos de estreita convivência com eles e com seus costumes. Há até quem garanta que foi mediante a transmutação de metais pobres em prata e ouro que a Ordem do Templo obteve suas riquezas e tesouros, mas esses assuntos nunca me interessaram, nem cheguei a acreditar neles.

E se fosse esse seu segredo? — perguntou Grimpow, movido pela curio­sidade que despertou nele ouvir falar da pedra filosofal.

Então você não deveria colocar nenhum esforço em encontrá-lo, por­que, se conseguir, provavelmente já não desejará destruí-lo. A tentação do ouro é muito mais perversa que a do diabo — disse, secamente. — Agora devo partir, logo será meio-dia e não quero perder o culto da sexta nem a comida. Voltarei quando regressarem o inquisidor Búlvar de Góztell e os soldados do rei de sua expedição pelas montanhas para contar o que aconteceu com seu amigo Dúrlib.

O senhor promete não me ocultar a verdade, por dura que seja? — ro­gou-lhe Grimpow.

Eu jamais mentiria — balbuciou o monge —, mas estou certo de que você ainda não me contou toda a verdade sobre o que sabe.

Grimpow ficou vermelho, e olhou envergonhado para o chão, tentando evitar a frieza dos olhos sem pestanas do velho monge.

Temo que o irmão Brasgdo se embebede e acabe contando ao frade dominicano que eu estou aqui na abadia. Ele também viu o cavaleiro tem­plário se embrenhando nas montanhas, embora tenha achado que se tratava de um fantasma que purgava suas culpas cavalgando sem destino no meio da névoa como alma penada — desculpou-se.

O irmão Brasgdo sabe conter sua língua quando teme que a cortem por usá-la — disse o velho monge, e saiu do aposento sem olhar para trás e rindo às gargalhadas.

O criado Kense voltou ao meio-dia, carregando um colchão de palha, al­gumas mantas e muita comida. Mas, seguindo seus hábitos, limitou-se a dei­xar tudo perto do alçapão sem pronunciar uma única palavra. Grimpow pen­sou que se havia algum fantasma vagando entre as sombras da abadia este era, sem dúvida, Kense. O rosto meio disforme e a boca desdentada do servente lhe causavam um medo atroz, mas seus olhos ainda conservavam uma expres­são de menino triste e desamparado, a mesma que levara o abade a salvar sua vida há muitos anos. De alguma maneira, Grimpow também devia a sua a Dúrlib, embora, ao contrário de Kense, ele não tivesse sido capaz de dar sua vida para salvar a de seu amigo. Sentiu-se um covarde por isso e desejou sair daquele quarto fechado para esperar diante das portas da abadia o regresso do inquisidor Búlvar de Góztell, e contar-lhe tudo quanto sabia sobre o cavaleiro morto nas montanhas, oferecendo-lhe a pedra mágica que possuía em troca da liberdade de Dúrlib. Procurou, inutilmente, no meio das estantes as alavan­cas secretas que permitiam abrir a porta invisível pela qual o velho monge entrava e saía em direção às salas contíguas da biblioteca. Mas nas prateleiras só havia manuscritos cobertos de pó e algumas teias de aranha que se gruda­vam em seus dedos como se tivessem caído na pegajosa armadilha de um monstro horrível e desapiedado que lhe mostrava faces de trevas. Tirou al­guns livros do lugar e reparou então no título de um antigo manuscrito que despertou poderosamente sua curiosidade. Estava escrito em latim, e o texto da capa, desgastada pelos anos, rezava assim:

 

                               LAPIS PHILOSOPHORUM

— A pedra filosofal! — exclamou, em voz alta.

Esqueceu imediatamente seus temores e foi folhear na mesa central da sala as páginas daquele livro inquietante, escrito por um autor desconhecido. Grimpow estava certo de que encontraria em suas grossas páginas de pergaminho algumas respostas a suas perguntas sobre a origem da pedra do cava­leiro morto; ardia de desejo de começar a desvendar aquele mistério.

Começou a ler o livro sem compreender muito bem o sentido de suas pa­lavras, mas, à medida que avançava na leitura, as imagens de uma longa histó­ria tão remota como o tempo, protagonizada por sábios de épocas passadas e países distantes, cujo maior empenho fora buscar a pedra filosofal, iam se es­boçando em sua mente. Pelo que Grimpow pôde compreender, o manuscrito tratava da sagrada arte da transmutação de metais em ouro. Ela era chamada de alquimia e explicava uma grande quantidade de métodos confusos empre­gados por aqueles sábios para conseguir criar em seus laboratórios o cobiçado lapis philosophorum, ao qual não apenas se atribuía a virtude de converter os mais reles minerais em ouro puro, mas também permitiria a quem o encon­trasse alcançar a sabedoria total e a imortalidade. Devido a tais milagres, os pro­cessos seguidos pelos alquimistas só eram acessíveis aos iniciados. Os mestres revelavam os segredos a seus discípulos numa tentativa de evitar que a pedra filosofal caísse em mãos de pessoas sem escrúpulos que usariam seu poder fantástico para enriquecer e dominar o mundo. Grimpow pensou, então, que talvez a pedra que ele possuía fosse a pedra filosofal da qual falava esse livro, e que os misteriosos cavaleiros templários a tivessem criado em seus laboratórios secretos a partir de algum manuscrito achado no Templo de Salomão. Por isso era cobiçada pelo papa e pelo rei de França, que queriam encher de ouro suas arcas vazias e esmagar com seus exércitos os de seus inimigos. Até pensou que fora a pedra que proporcionara à Ordem do Templo suas riquezas, e que o cavaleiro morto nas montanhas tinha a missão de escondê-la em algum lugar seguro para impedir que seus perseguidores se apoderassem dela depois que os templários torturados pelas mãos dos verdugos do rei nas masmorras de Paris revelaram a sua existência. Mas Grimpow não podia imaginar então o tamanho de seu equívoco, nem que a pedra mágica que estava em seu poder era muito mais fantástica que a pedra filosofal de que tratava o manuscrito.

Passou o resto da tarde com estas reflexões perambulando em sua mente. Estava convencido de que tinha em seu poder uma pedra mágica de extraordi­nário valor. E tinha a inquietação de quem sabia que essa pedra, aquela que esta­va com ele, era desejada com uma ambição sem limites pelos dois homens mais poderosos — e cruéis — da Terra. Algum tempo depois de os sinos da torre da abadia convocando para o culto vespertino terem soado, o irmão Rinaldo de Metz apareceu para vê-lo na sala em que estava enclausurado. Grimpow cal­culou que já havia anoitecido e, pela expressão do rosto do velho monge, adi­vinhou que lhe trazia notícias de Dúrlib, e que elas não eram boas. Assim que entrou no aposento fechado, o irmão Rinaldo se sentou em um banco perto da mesa, apoiou os cotovelos nela e disse, com voz sombria:

Dúrlib não voltou à abadia com Búlvar de Góztell e os soldados do rei.

Eles o mataram? — perguntou Grimpow, assustado e entristecido.

O velho monge mexeu lentamente a cabeça.

Não. O frade dominicano contou ao abade que Dúrlib tentou fugir atirando-se em um precipício, e morreu ao bater nas pedras.

Você tem certeza de que ele morreu? — perguntou Grimpow contendo o choro.

Parece que sim. A raiva que o inquisidor Búlvar de Góztell sentia por ter sido enganado por uma manobra tão ingênua soa a uma confirmação. O frade dominicano teria preferido se vingar de seu amigo matando-o lentamente com as próprias mãos. Dúrlib adivinhou, provavelmente, o final que o esperava quan­do o inquisidor descobrisse o seu ardil, e optou por antecipar o desenlace fatal da tragédia que havia resolvido representar para sair com vida da abadia.

Apesar da certeza que o cruel inquisidor de Lyon pudesse ter, Grimpow resistia em aceitar que Dúrlib tivesse morrido. Dúrlib não dominava tanto ne­nhuma habilidade como a de enganar seus perseguidores fazendo-os acredi­tar no que lhe convinha. Dúrlib conhecia cada canto, cada beco, cada passa­gem estreita, cada abismo e cada fenda perigosa oculta sob a neve. Por isso, se havia resolvido se jogar no vazio em algum lugar das montanhas, calculara com precisão o salto para que caísse sobre alguma saliência das pedras que não pudesse ser vista pelo inquisidor Búlvar de Góztell e os soldados do rei.

É possível que Dúrlib tenha fugido simulando sua própria morte para o inquisidor — disse, querendo convencer a si mesmo com suas palavras; não ignorava que as mãos de Dúrlib estavam amarradas nas costas e que ele encontraria dificuldades para enfrentar sua nova situação nas montanhas, qualquer que fosse seu estado depois da queda.

Deus queira que as coisas tenham acontecido assim como você diz, Grimpow. Tomara que ele não tenha sofrido nenhum ferimento do qual não possa se recuperar. Caso tenha conseguido salvar sua vida, logo virá buscá-lo. Do contrário, nós mesmos iremos procurá-lo tão logo comece o degelo para enterrar seu corpo em uma sepultura cristã no cemitério dos serventes da aba­dia. Agora só nos resta esperar e desejar que Búlvar de Góztell abandone quanto antes os muros desta santa casa que, desde que os esbirros do rei che­garam, parece tremer como se o final dos séculos estivesse se aproximando.

O senhor acha que ele partirá logo?

Ele não disse ao abade nada a respeito quando conversaram na sala ca­pitular depois que voltou das montanhas, mas não creio que ficar aqui tenha alguma utilidade para ele, sobretudo se ainda acredita que o cavaleiro templário que perseguia está vivo e continua caminhando em direção às fron­teiras do norte. Se eu estivesse na pele dele, pensaria que o proscrito está indo para os castelos do Círculo de Pedra, querendo se refugiar na fortaleza do du­que Gulf de Östemberg, onde já estão seus irmãos foragidos.

As últimas palavras do irmão Rinaldo reconfortaram Grimpow. Ele ardia de desejo de sair da sua reclusão, mas também havia a possibilidade de que Dúrlib ainda estivesse vivo.

Eu vejo que você não perdeu tempo lamentando a sua solidão entre estas quatro paredes — disse o velho monge apontando o manuscrito chama­do lapis philosophorum que estava aberto sobre a mesa. — Você conseguiu averiguar alguma coisa sobre o que queria saber? — acrescentou.

Não exatamente. É um texto muito confuso e intrincado, mas pelo me­nos aprendi como se pode obter a pedra filosofal em um laboratório.

Você tem certeza disso? A alquimia é uma arte hermética e, por isso, nada nela é o que parece.

Acho que o véu de mistério que envolve muitos alquimistas não é mais que puro palavreado — disse Grimpow sem pudor.

É certo que entre os falsos alquimistas abundaram, e ainda abundam, charlatões, pilantras, gatunos e ladrões de feiras e mercados que oferecem receitas maravilhosas para a fabricação de ouro. Muitos deles acabam no patíbulo, pagando com sua vida pela própria ignorância e atrevimento. Mas há alguma verdade nessa vontade que muitos sábios de todos os tempos têm de adquirir um conhecimento exato dos segredos que regem o mundo. Esses são os verda­deiros alquimistas, os que buscam na pedra filosofal o ideal da sabedoria plena.

O senhor acredita que a pedra filosofal existe mesmo? — perguntou Grimpow.

Muitos textos antigos dizem que o chamado lapis philosophorum é uma força misteriosa que transforma um metal vulgar em um metal tão nobre como o ouro. Por isso, são muitos aqueles que sonham em poder fabricá-lo em seu laboratório por meio de um processo alquímico adequado. No entan­to, eu me inclino a pensar que essa transmutação não passa de uma alegoria, de um símbolo usado para ocultar seu verdadeiro significado, que não é outro além da busca da plenitude do conhecimento, a verdadeira e primordial es­sência do ser humano.

Quer dizer que o senhor acha que a verdadeira pedra filosofal não é uma pedra? — indagou Grimpow, louco para ouvir a resposta do velho mon­ge, pois sua argumentação era perfeitamente compatível com o que ele pró­prio pressentia desde o momento em que Dúrlib lhe dera o amuleto do cava­leiro morto nas montanhas.

Quem sabe? — disse o velho monge alçando seu olhar ao teto de ma­deira como se quisesse encontrar a resposta mais além dos telhados da abadia e estivesse se embrenhando mentalmente no infinito céu da noite. Depois prosseguiu com voz calma: — A única coisa certa é que nenhum sábio, alquimista ou não, jamais descreveu sua natureza exata, embora alguns eruditos da arte da transmutação afirmem que a pedra filosofal é tão vermelha como a lenha em brasa, e reluz na escuridão como se fosse astro.

Essa era uma coisa que Grimpow havia visto acontecer com a pedra ou o que quer que fosse o objeto mágico guardado na bolsinha de linho que carre­gava escondida amarrada em seu pescoço, e por isso perguntou:

O senhor tentou alguma vez elaborar a pedra filosofal a partir das ope­rações do processo alquímico descritas neste manuscrito? — perguntou, apontando o livro com os olhos.

Eu não teria a paciência necessária para suportar uma espera tão longa e incerta, apesar da minha simpatia pela astrologia, que, para ser estudada, exige muita paciência e muito tempo — disse sorrindo. — Mas posso jurar diante de Deus que o irmão Ássben, o monge herbolário, está tentando fazer isso há muitos anos em seu pequeno laboratório da enfermaria, usando todas as fórmulas, as receitas e os truques que encontrou nestes livros proibidos. E desde que eu o conheço, e isso faz muitos anos, nunca conseguiu obter mais que algumas tinturas de ouro que já haviam sido usadas há séculos por sacerdo­tes do antigo Egito em suas sepulturas e embalsamamentos. Isso para não men­cionar alguns licores formidáveis feitos a partir de ervas silvestres que o irmão Brasgdo garante que são o verdadeiro elixir da vida — concluiu rindo muito.

Poderei conversar com o irmão Ássben quando sair daqui?

Tenho certeza de que ele gostará muito de ter ao seu lado um discípulo jovem e apaixonado como você para compartilhar suas experiências no labo­ratório da enfermaria.

Depois o velho monge acionou o mecanismo oculto que abria a estante giratória e saiu do aposento secreto da biblioteca como um espectro que atra­vessa paredes sem ser visto nem ouvido.

 

                                       Um grito na noite

Grimpow ouviu o grito. Parecia o uivo distante de uma besta imunda. Mas só ficou sabendo o que havia acontecido na abadia na manhã seguinte. Quem lhe contou tudo foi o irmão Rinaldo.

Os sinos da torre soaram chamando para os ofícios da matina e todos os monges se reuniram no coro da igreja e ficaram aguardando, ainda sonolentos, a chegada do abade, quando, então, começariam a entoar o cântico dos salmos. A demora levou os noviços a começar a trocar olhares de estranheza e agitação que foram percebidos pelos monges mais velhos do monastério, al­guns recolhidos em suas orações, outros ainda imersos na profundidade dos sonhos que haviam acabado de interromper no dormitório. O irmão Rinaldo levantou-se de seu banco para calar, com um simples gesto de suas mãos, os murmúrios crescentes. E aí um grito dilacerado do criado Kense estilhaçou em mil pedaços o silêncio da abadia.

Todos os monges abandonaram seus assentos no coro da igreja e correram até o claustro cercados por um clamor de vozes confusas e alarmadas. E aí viram, diante dos aposentos abaciais, agitado por convulsões brutais, os olhos desorbitados de pânico, a agigantada figura do servente Kense. O irmão Rinaldo sacudiu o homem que parecia um moribundo enquanto lhe pergun­tava o que havia ocorrido. A única resposta que obteve foi um balbucio in­compreensível que se misturava às babas que fluíam da boca desdentada do criado. Um monge jovem entrou no gabinete do abade e voltou em instantes com o rosto transfigurado pelo medo.

— Degolaram o abade! Degolaram o abade! — gritava, enquanto se persignava como se tivesse visto a cara do próprio diabo.

O irmão Ássben entrou imediatamente no aposento, seguido pelo irmão Brasgdo e outros monges mais antigos. O resto se apinhou na porta, murmu­rando em voz baixa seu horror e esticando os pescoços para ver melhor a macabra cena do crime. O abade estava sentado na cátedra de seu escritório com a cabeça grotescamente inclinada sobre o ombro direito, uma careta de horror no rosto, e o branco dos olhos perdido no infinito. Um corte limpo abrira sua garganta em dois pedaços, deixando visíveis penduricalhos de car­ne e pele, e um incessante borbulhar de sangue empapava-lhe o hábito, gote­jando sobre um charco enegrecido no solo.

O irmão Rinaldo havia ficado do lado de fora, ocupado em atender às in­cessantes convulsões do pobre Kense. Depois de evitar com seus longos dedos que a epilepsia fizesse o criado engolir sua própria língua, mandou que os ser­ventes o levassem à enfermaria. Depois abriu caminho entre os monges que se aglomeravam diante da porta dos aposentos do abade. E viu, então, o irmão Ássben fechar os olhos do defunto, traçando com o polegar uma pequena cruz sobre suas pálpebras. Pensou que aquele crime abominável não tivera outro motivo que o de selar a boca do abade para sempre, e isso era uma coisa que ninguém mais que ele conhecia. Desde a chegada do emissário do papa e dos esbirros do rei de França à abadia, o irmão Rinaldo, suspeitando de que a visita do inquisidor de Lyon não era casual, havia espionado todas as suas conversas particulares com o abade. No princípio até temeu que fosse ele mesmo a pes­soa que o cruel frade dominicano procurava. Não estava preocupado com seu passado de cavaleiro templário, mas sim com as teorias heréticas dos frades rebeldes e mendicantes que ele mesmo havia defendido em vários livros escri­tos durantes os últimos anos na abadia. Mas agora não tinha nenhuma dúvida de quem havia sido o assassino do abade, nem de que o haviam degolado sem piedade para que não pudesse revelar a ninguém as intenções do papa e do rei de França de se apoderar do segredo dos sábios.

Logo depois o frade dominicano Búlvar de Góztell chegou aos aposentos do abade, acompanhado pelos soldados do rei. Ao ouvir o som metálico de seus passos sob a escura arcada do claustro, os monges se afastaram e entoa­ram um canto fúnebre pela alma do irmão assassinado. Parecia um sussurro de deuses no meio da noite.

É claro que a pessoa que fez isto sabe manejar com destreza uma adaga árabe — disse o inquisidor depois de contemplar com frieza e indiferença o pes­coço degolado do abade, ao mesmo tempo em que olhava ao seu redor como se estivesse esperando encontrar o homicida entre os monges presentes.

Como o senhor pode estar tão seguro de que o assassino degolou o aba­de com uma adaga árabe e não com um punhal cristão? — perguntou o irmão Rinaldo.

Se o senhor tivesse tido a oportunidade de ter lutado na Terra Santa saberia tão bem como eu como os infiéis degolam os cristãos.

O velho monge conhecia muito bem a crueldade usada por cristãos e muçulmanos para matar uns aos outros em nome da bondade de Deus, mas não disse nada sobre suas dramáticas experiências nas cruzadas.

O senhor está insinuando que o abade foi degolado por um monge des­ta abadia com a adaga de um infiel? — perguntou.

Muitos cruzados, entre eles os monges soldados da Ordem do Templo, aprenderam a matar seus inimigos degolando-os como faziam os temíveis guerreiros muçulmanos da seita dos hassassin, que só precisavam de um gol­pe de suas afiadas adagas para cortar o pescoço de um cavaleiro cristão.

A arrogância de Búlvar de Góztell não amedrontou o irmão Rinaldo.

Então não procure o assassino entre nós, e sim entre a gente das armas - provocou-o. — Que motivos poderíamos ter para matar nosso irmão maior? - acrescentou, desafiador.

O mesmo motivo que Caim teve para matar Abel — respondeu o frade dominicano, contendo sua ira e simulando uma bondade que não tinha. — Mas não se inquiete. O abade me avisou que havia visto perambulando pelos arredores da abadia o próprio templário fugitivo que estamos perseguindo desde Lyon. É sobre ele que recaem minhas suspeitas deste crime. A profundi­dade do corte feito no pescoço do abade — disse apontando a ferida aberta — não deixa nenhum lugar à dúvida.

Ninguém entrou nesta abadia depois que o senhor chegou, ao anoitecer, com os soldados que o acompanham — disse o velho monge.

Suponho que o senhor não ignora que os templários foram declarados hereges e proscritos pelo próprio papa Clemente. Sua perversa aliança com o Maligno lhes permite utilizar feitiços de bruxos e necromantes para aparecer e desaparecer a seu bel-prazer. Atravessam paredes e muros, emudecem pes­soas e falam com animais. Fazem um ancião ficar jovem e um homem virar mulher. Conversam com o diabo e entram e saem do inferno como entravam e saíam de suas fortalezas e donatarias.

Então como o senhor pretende prender esse templário foragido se fala dele como se fosse o próprio Satanás transformado em homem?

Para sua desgraça, o poder da magia negra é tão fugaz como o brilho de algumas estrelas no firmamento. Por isso, não pode fugir nem se esconder eternamente. Eu garanto que vou amarrar esse templário assassino nem que tenha de mover o céu e a Terra. Agora, como irmão mais próximo do abade, o senhor deveria cuidar da transferência do cadáver para a igreja e tomar providências para que os monges rezem pela salvação de sua alma durante toda a noite, antes de lhe dar amanhã uma sepultura cristã. Eu partirei ao amanhecer seguindo as pegadas do proscrito, e não vou parar de galopar meu cavalo até que o tenha alcançado — disse mal-humorado.

Os monges voltaram cabisbaixos e assustados ao coro da igreja, entoando uma oração à meia-voz, enquanto os irmãos Brasgdo e Ássben, ajudados por dois criados que haviam trazido uma padiola, levavam o corpo do abade à enfermaria para amortalhá-lo.

Pouco depois do alvorecer o irmão Rinaldo foi procurar Grimpow na sala secreta da biblioteca para lhe contar o que havia acontecido à noite na abadia. Depois, alegrou a expressão de seus olhos desprovidos de pestanas e disse ao menino que ele já podia sair sem temores de seu esconderijo.

O inquisidor Búlvar de Góztell e os soldados do rei já foram embora? — perguntou Grimpow sem conseguir acreditar que era verdade o que o monge bibliotecário lhe dizia.

Antes da aurora eles já estavam preparando suas selas nas cavalariças. Partiram na direção de Úllpens quando surgiram as primeiras luzes do dia. O frade dominicano não quis nem mesmo esperar pelo enterro do abade, mar­cado para depois do culto da terça.

Mesmo triste por não saber o que havia acontecido com Dúrlib e pela morte terrível do abade, Grimpow percebeu que seu ânimo recuperava o cálido alento da existência assim que sentiu seu rosto ser tocado pela carícia da brisa gelada do vale que se infiltrava pelas janelas abertas da biblioteca. Em breve sua liberdade recém-recuperada lhe permitiria averiguar uma coisa que circulava em sua cabeça desde que o irmão Rinaldo lhe dissera que Dúrlib havia se atirado em um precipício para fugir do inquisidor Búlvar de Góztell, encontrando a morte em sua tentativa desesperada de voltar a viver em liber­dade em suas montanhas. Imaginava que se Dúrlib houvesse tido a sorte de sair ileso de seu salto no vazio certamente teria ido até a cruz que indicava o caminho da abadia, onde eles haviam enterrado o alforje do cavaleiro morto. Resolveu, então, descer até a cruz do caminho na primeira oportunidade que tivesse de sair da abadia sem levantar suspeita. Queria confirmar se Dúrlib havia recuperado ou não o alforje que continha seu pequeno tesouro, a men­sagem lacrada e o lacre de ouro.

Cruzaram várias salas da biblioteca forradas de livros e avançaram por um corredor amplo e luminoso cujos grandes arcos abertos para o claustro per­mitiam ver um céu acinzentado e turvo. Não nevava, mas o frio intenso esti­mulou Grimpow como se tivesse lavado o rosto em um tanque de gelo. Desce­ram até o claustro e se encaminharam à igreja fazendo o mesmo percurso que Dúrlib e ele fizeram quando acompanharam o abade até seus aposentos na noite de sua chegada à abadia. Grimpow imaginou por um momento o san­gue do abade salpicado nas paredes e no chão de seu gabinete, e sentiu um profundo estremecimento. Até chegou a pensar outra vez que talvez a mágica pedra do cavaleiro morto não fosse o chamado lapis philosophorum de que tratava o manuscrito que havia lido na sala secreta da biblioteca, e sim, como Dúrlib lhe havia sugerido, um amuleto diabólico cujo malefício já havia cau­sado a morte de dois seres inocentes. No entanto, muito rapidamente confir­maria que também nisto se equivocava.

Na igreja, tudo estava preparado para o funeral do abade. Os cânticos dos monges soavam entre as naves do templo como o rumor melancólico de um coro de anjos. Os vitrais filtravam uma luz aprazível que lançava cintilações difusas sobre o rosto cadavérico do defunto, cujo corpo, vestido com o hábito pardo fechado pelo cíngulo branco de sua ordem religiosa, jazia estendido com as mãos juntas sobre um catafalco de madeira situado diante do altar. Tinha os olhos fechados, mas, apesar dos esforços do irmão Ássben em dissi­mular com uma maquiagem inventada por ele os vestígios de horror que ain­da impregnavam o rosto do abade, Grimpow pôde ver a rígida e pálida pele de seu rosto mortificado e a careta forçada de sua boca, torcida para um lado em um extravagante esgar de farsa, tragédia ou aflição. Quatro grandes círios ar­diam sobre altos candelabros de bronze colocados em cada um dos ângulos da capela ardente, e um odor penetrante de incenso flutuava sob as abóbadas da igreja como uma bruma invisível e perfumada.

Grimpow sentou-se ao lado dos serventes da abadia e ouviu com sincera devoção a missa de réquiem pela alma do abade assassinado. E também a dedi­cou em seu íntimo à salvação de seu querido amigo Dúrlib, se fosse o caso de ele ter de fato morrido ao despencar no abismo, como assegurara o frade domini­cano. Achou que se nada disso tivesse acontecido, os cânticos doces e belos que os monges entoavam não iriam lhe fazer mal.

— Requiem aeternam dona ei, Domine... — disse o irmão Rinaldo ao con­cluir a cerimônia.

Terminado o funeral, quatro serventes robustos colocaram o catafalco nos ombros e o cortejo fúnebre formado por uma fila dupla de monges encapuzados que carregavam grandes velas acesas começou a caminhar até o ce­mitério da abadia sem que os cantos e as rezas cessassem. Os irmãos foram em procissão da igreja até o pátio e subiram ao estreito e longo corredor abobadado que conduzia ao claustro. Depois entraram na sala capitular, onde um monge com olheiras marcadas e um nariz proeminente e redondo voltou a espargir água benta sobre o corpo sem vida do abade, enquanto recitava uma breve e doce pregação. Dali continuaram em completo silêncio por ou­tra galeria do claustro, entraram em um corredor que Grimpow não conhe­cia e, depois de passar por salas sombrias iluminadas por tochas, chegaram ao amplo jardim semeado de túmulos e cruzes, situado atrás da abside da igreja. Dois criados munidos de uma pá aguardavam junto a um buraco es­cavado na terra. Os monges se detiveram formando um círculo impreciso enquanto os serventes que carregavam o catafalco o depositavam sobre o solo. Depois colocaram o corpo sem vida do abade dentro da tumba, e a cobriram com terra até dar forma a um pequeno túmulo presidido por uma cruz de ferro. Alguns flocos caíam com lentidão de um céu que começava a ficar sombrio, anunciando que uma forte tempestade de vento e neve se aproximava das montanhas.

 

Enquanto os monges regressavam em silêncio aos seus afazeres, o irmão Rinaldo e o irmão Ássben, o monge herbolário, ficaram passeando entre os túmulos do cemitério e os altos ciprestes que o cercavam. Grimpow ficou per­to deles, atento ao que falavam.

Não sabia que um cavaleiro da proscrita Ordem do Templo estava vagando pelo vale a caminho das montanhas — disse o irmão herbolário, um monge magro e baixinho, de pele tão branca e brilhante como seu crânio ras­pado, e a quem a tonsura que lhe rodeava a cabeça e o nariz afilado davam um ar de bufão bondoso e risonho.

Nenhum monge sabia. E estou convencido de que nem mesmo o abade tinha notícias disso.

Mas Búlvar de Góztell garantiu ontem à noite que o abade havia visto o templário fugitivo perambulando pelos arredores da abadia.

Você chegou mesmo a acreditar na patranha do inquisidor de Lyon? — disse o irmão Rinaldo enquanto caminhava lentamente sobre a fina camada de neve que cobria o cemitério.

E quem mais poderia ter degolado o abade ontem à noite? — contestou o irmão Ássben com outra interrogação.

Seria melhor perguntar o que o abade poderia saber para que o assassi­nassem.

Não estou entendendo você — disse o monge herbolário detendo seus passos.

Búlvar de Góztell, o que agora é frade dominicano e inquisidor de Lyon, que você mesmo conheceu há anos em Vienne como noviço, conversou em particular com o abade em seus aposentos na noite de sua chegada à abadia e lhe explicou os importantes motivos que o faziam perseguir sem descanso o templário fugitivo.

Que motivos poderia ter para prendê-lo que não fossem os mesmos que nos últimos anos levaram às masmorras, ao martírio e à fogueira centenas de cavaleiros do Templo? — perguntou o monge herbolário.

Apoclerar-se de seus segredos e tesouros — murmurou o velho monge, olhando, dissimuladamente, ao seu redor, como se alguém pudesse ouvir o que falavam.

O rei de França já se apoderou há tempos das arcas repletas de prata e ouro que os cavaleiros templários guardavam na Torre do Templo de Paris. Foi a primeira coisa que fez depois de ordenar o aprisionamento de todos os freires. É verdade que há quem assegure que o grande mestre Jacques de Molay ordenou a seus cavaleiros mais fiéis, dias antes de sua detenção, que partissem com rumo desconhecido em uma carreta que saiu de madrugada de sua forta­leza, mas isso são mexericos ouvidos da boca de mendigos e alcagüetes.

Eu me referia ao mistério da lenda — esclareceu o velho monge.

Ao segredo que os nove cavaleiros descobriram há dois séculos no Tem­plo do rei Salomão em Jerusalém? — perguntou o irmão herbolário, escan­carando os olhos.

É isso mesmo. O inquisidor Búlvar de Góztell contou ao abade que o grande mestre Jacques de Molay declarou sob suplício que esse segredo estava em poder de um grupo de sábios que ninguém sequer conhecia.

Então a lenda é correta! — exclamou o irmão Ássben, afastando um floco de neve que havia pousado em seu nariz como se fosse uma frágil mari­posa branca.

Correta a ponto de justificar que o próprio inquisidor de Lyon venha até estas montanhas para perseguir o cavaleiro templário foragido — senten­ciou o velho monge.

Acreditam que é ele quem possui as chaves para desvendar o segredo?

Pelo que eu sei, era portador de uma mensagem enigmática.

Grimpow achou que o irmão Rinaldo ia contar ao irmão Ássben tudo quanto ele mesmo havia lhe revelado sobre a inexplicável desaparição do ca­valeiro morto nas montanhas, sobre as moedas, as adagas, as jóias, a mensa­gem lacrada e o lacre de ouro que levava em seu alforje. Mas o monge biblio­tecário não disse nada a respeito.

Me surpreende que você ainda esteja vivo, sabendo sobre este assunto tanto como o abade chegou a saber — disse o irmão herbolário, deixando es­capar um suspiro. — Você presenciou suas conversas com Búlvar de Góztell? — perguntou.

Não, mas não me pergunte como fiquei sabendo.

Os dois monges ficaram pensativos durante alguns instantes enquanto caminhavam, como se meditassem sobre o que haviam acabado de falar, ou pensassem no que iam dizer em seguida. Finalmente, o irmão Ássben disse:

No entanto... Há uma coisa que não consigo entender... — fez uma pausa e continuou: — Se foi o frade dominicano quem degolou o abade, como é que se explica o fato de ele ter chegado à galeria do claustro muito depois de nós?

É possível que o tenha assassinado e voltado depois, apressadamente, à galeria dos nobres — conjecturou o velho monge.

Quando eu entrei no gabinete do abade, ainda manava muito sangue de seu pescoço. Búlvar de Góztell não teve tempo suficiente para cometer o cri­me, ir até a hospedaria dos nobres e voltar de novo ao claustro como se nada tivesse acontecido.

O irmão Rinaldo se sobressaltou, como se toda a sua teoria sobre a culpa­bilidade do inquisidor de Lyon no crime do abade não fosse mais que um desvario. O argumento do pequeno monge herbolário era tão contundente como sensato, e não pôde deixar de pensar que talvez tivesse se equivocado em suas conclusões. Pela sombria expressão de seu rosto, Grimpow adivinhou que o velho monge estava suspeitando de que Dúrlib também poderia ter assassinado o abade. Se tivesse saído ileso de seu salto no precipício das montanhas, pode­ria ter regressado à abadia durante a noite e, depois de pular os muros de um dos jardins, chegado até os aposentos do abade, degolando-o com a adaga do cavaleiro morto. Como motivo, a vingança por tê-lo delatado ao frade dominicano. Mas esta idéia pareceu-lhe tão disparatada que formulou um novo raciocínio:

Você tem razão no que diz. Talvez Búlvar de Góztell não tenha degola­do o abade com suas próprias mãos. No entanto, estou certo de que foi ele quem ordenou a um de seus soldados que o assassinasse e depois se escondesse em algum lugar próximo aos aposentos, possivelmente na sala capitular, que não tem portas, até que tudo se acalmasse de novo. Ninguém perceberia se o frade dominicano estava ou não acompanhado por um soldado, e menos ain­da naquela situação. Ele surgiu no claustro pouco depois da nossa chegada, quando encontramos Kense debatendo-se como um possesso no chão.

É verdade — concordou o irmão herbolário. — No meio daquele horror e da agitação provocada por um crime tão atroz, não creio que algum monge se preocupasse em contar os cinco esbirros do rei que acompanhavam o inquisidor de Lyon. Além do mais, não deve ser ter sido por acaso que ele mesmo tenha culpado do crime uma pessoa que nunca entrou na abadia.

Por isso inventou a farsa dos poderes diabólicos dos templários.

Pelo que eu sei, alguns monges da abadia acreditaram nele, e andam assustados e temerosos de também serem degolados por esse cavaleiro templário. E cheguei a ouvir alguns noviços murmurando que foi Kense quem matou o abade em um ataque de loucura.

Jamais haviam visto um homem entrar em convulsão e gritar de manei­ra tão horrível. Por isso, é lógico que, em sua ignorância, possam suspeitar dele - mostrou-se compreensivo o monge bibliotecário.

Sim, mas o pobre Kense é apenas um infeliz a quem Deus privou da razão quando nasceu para que nunca entendesse as misérias dos homens. Sua percepção da realidade é tão limitada que é incapaz de odiar ou matar alguém - disse o irmão Ássben.

Ele não tinha nenhuma adaga na mão quando o encontramos. E con­fessou hoje da madrugada, antes da prima, que chegou a desmaiar ao ver o abade degolado. Não se lembrava de nada do que acontecera depois — argu­mentou o irmão Rinaldo, dirigindo-se à igreja no exato momento em que um vento gélido começava a soprar com força sobre a abadia, dobrando as copas dos ciprestes do cemitério com a mesma naturalidade com que Grimpow do­brava as pontas de seu arco.

 

Na cozinha, o irmão Brasgdo dava ordens aos serventes para que colocas­sem os talheres e os pratos sobre as mesas do refeitório. Era a hora do almoço. Uma panela gigantesca repousava sobre chapas colocadas no centro da larei­ra, lançando espessas nuvens de vapor que cheiravam a hortelã, e a simples idéia de saborear um guisado tão maravilhoso como o que imaginava borbulhando no fogo dava a Grimpow água na boca.

A fome sempre foi uma boa isca para pescar rufiões! — exclamou o monge cozinheiro, sorrindo com as maçãs do rosto infladas pelo calor, tão vermelhas como um carvão aceso, quando viu Grimpow entrar na cozinha.

Indicou-lhe com um gesto que se sentasse à mesa, e depois que os criados começaram a servir a comida dos monges no refeitório ele mesmo estendeu-lhe uma fumegante travessa de barro cheia de um guisado espesso, um pedaço de pão quente e um cântaro de água.

Sinto muito pelo que aconteceu com Dúrlib — disse, sentando-se ao seu lado. — Os soldados me contaram que ele despencou do precipício das montanhas.

Sim, foi o que me disse o irmão Rinaldo — assentiu Grimpow, de novo cheio de tristeza.

O irmão Brasgdo aproximou-se ainda mais de Grimpow e, para que nin­guém o ouvisse, lhe sussurrou no ouvido:

Está claro que o fantasma do cavaleiro começou a fazer das suas: um acidente fatal e um crime horrendo.

O senhor acredita que as duas desgraças foram obras do misterioso fan­tasma? — perguntou Grimpow para dar corda a seus temores.

Tão certo como que um dia a morte virá me buscar com sua foice com­prida e sua terrível face de caveira — murmurou o monge cozinheiro beijan­do um crucifixo que lhe pendia do pescoço. — Eu suspeitava de que esse fan­tasma fosse trazer a desgraça à abadia, mas não queria acreditar. Alguns frades afirmam que ouviram estranhos cicios e lamentos durante a noite, como sussurros afogados, e outros comentam que viram sombras sinistras deslizando pelos telhados da abadia. As calamidades apenas começaram — prosseguiu em voz baixa —, como quando, no final do milênio passado, se temia o fim do mundo e todas as pessoas corriam apavoradas para fugir da profecia que ga­rantia a chegada do Satanás, enquanto a peste, a fome e as guerras acabavam com a vida de meia humanidade — recitou, qual um profeta.

O irmão Brasgdo olhava para Grimpow com cara de pavor e, diante de seu silêncio, prosseguiu:

O inquisidor Búlvar de Góztell disse ontem que o abade, a quem Deus tenha em sua glória — fez uma pausa para persignar-se de novo —, havia sido degolado pelo cavaleiro templário que perambulava pelos arredores da aba­dia. Mas se equivoca se acredita que se trata de um ser de carne e osso como a gente. Esse espectro errante que, você sabe tanto como eu, vi há alguns dias cavalgando em direção às montanhas, veio saldar alguma dívida pendente com seu passado, e não irá embora deste vale encantado até que tenha com­pletado sua missão. Que Deus nos proteja da sua adaga assassina, antes que seja muito tarde! — exclamou.

E ao dizer isto tirou do bolso de sua batina uma pata de coelho e uma ca­beça de alho, tocando-os com as duas mãos como se acariciasse a sua própria salvação. Grimpow conteve sua vontade de rir ao comprovar, mais uma vez, os medos e as supersticiosas crenças do monge cozinheiro, e lhe perguntou:

O senhor está seguro de que a pata de coelho e o alho o protegerão da afiada adaga do fantasma?

Não conheço outro remédio mais eficiente contra as ameaças dos espí­ritos malignos, mas não conte nada disso ao irmão Rinaldo, ou ele me imporá como penitência por meu pecado que permaneça em silêncio mais de um ano inteiro, incluídas aí as horas de sono — disse o irmão Brasgdo como se esti­vesse se confessando.

Fique tranqüilo, senhor. Serei tão discreto e silencioso como o pobre Kense. Já se sabe se ele se recuperou da sua enfermidade? — perguntou Grimpow.

Há pouco lhe levei um prato. Ele está na enfermaria e dormia profun­damente, deitado no catre. Creio que o irmão Ássben lhe deu ontem à noite uma infusão de tília misturada com uma poção de seu laboratório que o deixou mais morto que vivo — disse o monge, soltando uma risadinha. — Mas também não se preocupe muito com ele. Kense é tão imortal como os deuses e, além do mais, tem a sorte de provar todos os licores e poções que o irmão herbolário elabora durante sua procura pelo elixir da vida. Não estra­nharia se sobrevivesse a todos nós e chegasse a alcançar a idade do mítico Matusalém, que, segundo conta a Bíblia, viveu 979 anos, e nem mesmo mor­to parecia um ancião.

É verdade que alguns monges pensaram que pode ter sido Kense quem degolou o abade num ataque de loucura? — perguntou Grimpow para provocá-lo, pois estava convencido de que se algum monge conhecia os boa­tos que se espalhavam como centelhas pela abadia esse era, sem dúvida, o ir­mão Brasgdo.

Essa calúnia só poderia provir de uma língua tão perversa e viperina como a que tentou Adão no Paraíso, e eu conheço algumas neste convento que mereceriam estar enclausuradas em um ninho de serpentes — disse o irmão Brasgdo, levando à boca uma das maçãs doces que acabara de ofere­cer de sobremesa a Grimpow. Depois a mordiscou com sua muralha de den­tes amarelos e prosseguiu: — Kense chegou a esta abadia quando já era qua­se um adulto. Não tinha pais nem os havia jamais conhecido. Ao que parece, sua mãe foi uma rameira que o abandonou ao nascer na gruta de uma velha bruxa, na periferia da aldeia de Corbéi. A velha feiticeira apiedou-se dele e o alimentou como pôde dando-lhe para mamar o leite de uma cabra tão decrépita como ela. Depois, quando Kense cresceu, os dois infelizes passa­ram a procurar sustento pedindo esmola nos dias de feiras e mercados e nas portas das igrejas. Mas, em lugar de sentir compaixão por ele, as pessoas fugiam assustadas para bem longe ao ver sua cara monstruosa e sua boca sem dentes. Quando chegou aqui, não sabia nem falar; só repetia sem parar, com balbucios incompreensíveis: "Esconda-se, esconda-se dos homens e de suas maldades!"

Por que dizia isso? — quis saber Grimpow, intrigado com o relato do monge.

Soubemos, tempos depois, que era a única coisa que ouvia a velha bruxa dizer. Quando ela morreu, Kense ficou sozinho na gruta, e foi um milagre que também não tivesse morrido de frio e de fome. Os vizinhos da comarca lhe causavam tanto medo que se escondeu nos bosques como a velha sempre ha­via lhe aconselhado, e não voltou a ser visto novamente em nenhuma aldeia próxima. Um dia encontraram uma mulher jovem brutalmente assassinada em uma granja do bosque de Áltforf, e foram atrás dele para enforcá-lo.

Pensaram que ele havia assassinado a jovem?

É sempre mais fácil culpar de um crime horribilis uma pessoa que não pode se defender da acusação.

Grimpow lembrou que essa mesma estratégia fora usada pelo inquisidor Búlvar de Góztell para acusar o cavaleiro templário de ter degolado o abade de Brínkdum, mas não comentou nada com o irmão Brasgdo, que, entusias­mado com sua própria verborragia, continuou:

Em sua fuga incansável, Kense chegou a se esconder em um cemitério abandonado e, como um morto vivo, permaneceu enfiado em um panteão de uma família nobre durante dias, até que o desespero da fome obrigou-o a sair de seu esconderijo. Só procurava comida nos arredores do cemitério depois que a noite caía, e quando conseguia encontrar alguma coisa, que eu saiba, alguns caracóis, minhocas, baratas, escaravelhos, um sapo, alguma ratazana, um gato ou um cão, voltava ao cemitério para devorá-los na escuridão, como uma besta das florestas.

Uma náusea correu atropeladamente pela garganta de Grimpow e agitou o guisado que com tanta doçura repousava em seu estômago, mas não o surpreendeu o que o monge cozinheiro contava a respeito de Kense, pois algumas vezes Dúrlib e ele também tiveram de engolir sem escrúpulos um bicho re­pulsivo para aplacar a fome que devorava suas entranhas.

Ele ainda come essas imundices? — perguntou Grimpow, contendo o asco.

Cheguei a surpreendê-lo algumas vezes caçando ratazanas nas cloacas, embora Kense me jure que só as caça por encomenda do irmão Ássben, que as usa nas experiências de seu laboratório para elaborar quem sabe que remédios e venenos.

Então, o senhor não acredita que o criado Kense possa ter assassinado o abade? — perguntou Grimpow, diante dos muitos rodeios feitos pelo irmão Brasgdo para responder à pergunta que mais o interessava.

O abade encontrou-o um dia estirado no meio de um caminho próxi­mo ao cemitério em que se escondia, sofrendo de um ataque do mal de São Vito, como aquele de que foi acometido ontem à noite. Colocou-o em seu cavalo e o trouxe à abadia para que vivesse aqui, como servente. Você acha que Kense poderia assassinar o santo homem que lhe salvara a vida? Esse pobre retardado é como uma criança inocente, incapaz de matar uma mos­ca se não for para comê-la — disse o monge cozinheiro, voltando a rir estrepitosamente.

E não levaria muito tempo para que Grimpow pudesse comprovar que Kense, o criado agigantado e retardado da abadia, continuava sendo uma cri­ança ingênua, apesar da sua cara horrível de monstro.

Voltou a vê-lo nessa mesma tarde na enfermaria, quando a tempestade de vento e neve açoitava os telhados e os largos muros da abadia com estrondo apocalíptico. O irmão Rinaldo lhe disse que, já que devia permanecer com os monges até que resolvessem o que seria de seu futuro diante da ausência de seu amigo Dúrlib, podia passar as tardes ajudando o irmão Ássben na enfer­maria, e dedicar as manhãs a estudar as matérias do trivium e do quadrivium na biblioteca. O velho monge lhe disse que, se não houvesse inconveniente, ele mesmo seria seu mestre, e Grimpow aceitou, encantado. No dia seguinte, Grimpow soube por que os eruditos chamavam de trivium as três artes da oratória: a gramática, a retórica e a dialética, e que o quadrivium versava sobre as quatro artes matemáticas: aritmética, harmonia, geometria e astronomia. E embora tivesse aprendido logo com o irmão Rinaldo os segredos da lingua­gem e da ciência, nada o fascinou tanto como os mistérios da alquimia que descobriu ao lado do monge herbolário em seu laboratório.

A enfermaria ficava na ala sudoeste da abadia, voltada ao meridiano para poder receber os cálidos raios do sol nas manhãs claras do inverno. O irmão Ássben costumava dizer que não havia medicina mais milagrosa que a da luz e do calor do astro rei. A sala dos noviços, que passavam parte da tarde rezan­do em uma pequena capela, ficava ao lado da enfermaria. Quando viram Grimpow passar, alguns dos monges mais jovens o olharam com curiosidade, e ele pôde apreciar em seus olhos nítidos relampejos de inveja de sua liberda­de. Sabiam que Grimpow não tinha nenhuma obrigação de assistir aos ofícios divinos de cada uma das horas litúrgicas, nem tinha de permanecer em silên­cio absoluto, nem devia ocupar-se dos trabalhos manuais da abadia, como eles faziam a cada manhã depois da hora prima. Era, pois, natural que se pergun­tassem o que fazia um garoto como Grimpow na abadia, e que sonhassem em gozar de uma vida tão livre como a sua, pois muitos deles haviam vestido o hábito de monge por capricho de seus pais mais que por verdadeira vocação religiosa ou convocação divina. Sobretudo depois de terem saboreado o mel do amor e da cavalaria, que tanto fascinavam os jovens nascidos, para sua sor­te, entre as muralhas nobres dos castelos de Úllpens.

Kense estava tombado em um catre da sala de entrada da enfermaria, sob uma janela ampla fechada com postigos de madeira, atrás dos quais se ouviam os rugidos do vento como se fossem aloucados guinchos de fantasmas. O criado parecia estar adormecido, mas, ao ouvir os passos de Grimpow, se sobressaltou, e, paradoxalmente, olhou-o assustado. Grimpow sorriu, comovido pela dramática história que o irmão Brasgdo acabara de lhe contar na cozinha, e para sua surpresa viu que o rosto de Kense também se contraía num sorriso tétrico, mas amável.

O irmão Ássben saiu ao seu encontro de uma sala contígua situada à sua direita, onde ficava a sala dos monges. Havia vários leitos alinhados sob as três janelas da enfermaria, mas apenas dois estavam ocupados por doentes. Em um deles cochilava um monge jovem com uma perna entalada, que, segundo Grimpow soube mais tarde, havia quebrado o tornozelo ao cair de uma escada na qual havia subido para consertar goteiras do telhado da igreja. No outro leito, Grimpow viu apenas um vulto coberto por mantas; ali jazia imóvel o corpo de um monge centenário e barbudo que, pela forma como olhava para o teto abobadado com os olhos fixos em um ponto invisível, supôs que esti­vesse cego. Era o irmão mais antigo da abadia, chamava-se Uberto de Alessandria, e estava havia vinte anos sem se mover e sem ver nada além de seus pen­samentos.

 

                           Mais além das estrelas

Um etéreo e penetrante cheiro de estanho e enxofre queimado impregna­va o laboratório alquímico do irmão Ássben, situado em um pequeno pátio contíguo à enfermaria. Era um recinto alongado e estreito que recebia a luz do dia de duas janelinhas redondas abertas nas paredes, e ao qual se ascendia por um arco de pedra fechado por um trabalhado portão de madeira talhada. Duas colunas rechonchudas suportavam um teto baixo e enegrecido pela fu­maça dos fornos; uma profusão de potes transparentes cheios de líquidos de todas as cores se amontoavam nas estantes, misturando-se sem ordem a uma grande variedade de garrafas, alambiques, provetas, cadinhos, redomas, baci­as, tigelas de barro e caldeiras de cobre. Alguns manuscritos e pergaminhos repousavam sobre uma mesa coberta de manchas escuras ao lado de um can­delabro de cinco braços curvados e várias penas e tinteiros. Tudo naquele apo­sento parecia revestido por uma pátina de mistério tão antiga como o tempo.

O pequeno monge herbolário não escondeu seu entusiasmo por ter Grimpow como seu discípulo. Assim que entrou em seu escritório, contou-lhe que havia muitos anos ele próprio aprendera com o irmão Uberto, o monge cego que jazia prostrado no leito da enfermaria, tudo quanto sabia sobre as enfermidades do corpo e da anima, e sobre as ervas, plantas, ungüentos, po­ções, beberagens e até venenos que, em pequenas doses, serviam para curá-las. E como um erudito entusiasmado pelo irreprimível desejo de mostrar seus conhecimentos médicos a quem nada sabia sobre eles, discorreu durante um longo tempo sobre tuberculose, gangrena, tumores, varíola, peste e lepra, clas­sificando-as de as mais terríveis armas da morte.

Depois, enquanto preparava um xarope de mel e menta que usaria para aliviar os fluxos pulmonares do monge centenário, assim como um ungüento de aloé misturado com manteiga para que a ferida da perna quebrada do ou­tro monge enfermo terminasse de cicatrizar, o irmão herbolário confessou a Grimpow que sua verdadeira vocação era a de ser um dia um grande conhe­cedor da misteriosa arte da alquimia, cujos arcanos também havia aprendido a decifrar seguindo os ensinamentos do irmão Uberto, antes que a fatal explosão de um alambique tivesse lhe lançado um enxame de estilhaços de vidro nos olhos, deixando-o cego para sempre.

Ele perdeu a vista enquanto procurava a pedra filosofal aqui neste labo­ratório? — perguntou Grimpow, interessado na história do enigmático mon­ge cego.

O irmão Uberto perdeu muito mais que isso. Desde o dia em que a luz desapareceu de seus olhos, desapareceu também sua ânsia de viver. Ele fica prostrado dia e noite em seu leito como um cataléptico. Nega a se levantar. Não atendia nem às ordens do abade para que o fizesse. E apesar de o abade tê-lo ameaçado com a excomunhão se continuasse a desobedecê-lo, nunca mais voltou a colocar os pés no chão, nem mesmo para ir às latrinas da en­fermaria.

Também não fala?

Apenas quando lhe apetece, e isso acontece raramente. A última vez em que o ouvi dizer algo, e quero lembrar que proferiu uma blasfêmia, foi no in­verno passado. Não esqueci porque também nevava muito. Creio que é o úni­co monge da abadia que cumpre fielmente nossa regra de silêncio.

Grimpow acompanhou o irmão Ássben até a sala dos enfermos e viu-o dar ao irmão Uberto de Alessandria um fluido pastoso e amarelado com uma colherzinha de metal. Então Grimpow fixou-se nas órbitas ressecadas dos olhos e na pele esbranquiçada do monge cego, enrugada por mais de uma centena de anos. Mesmo assim ele ainda conservava traços de um ho­mem sábio e nobre.

Você ficou surpreso de que não pareça tão velho, não é verdade? — per­guntou o irmão Ássben a Grimpow quando voltaram ao laboratório, depois de ter untado o bálsamo de aloé e manteiga na perna entalada do monge mais jovem.

Grimpow assentiu sem dizer nada e o monge herbolário continuou:

Pouco antes de sofrer o acidente que o privou do mais belo dos senti­dos, o irmão Uberto me disse que acreditava que, finalmente, havia conseguido elaborar o elixir da vida, e que o havia bebido, tentado pela idéia de alcançar a imortalidade, desafiando os preceitos da Igreja e sem temer o castigo de Deus por sua ousadia. Ao ficar cego tempos depois, os monges, inclusive o abade, acharam que Deus havia feito o alambique explodir por ele ter se atrevido a desafiar seu poder misericordioso.

Mas foi apenas um acidente, como Deus poderia ser tão cruel! — disse Grimpow, espantado.

O irmão Rinaldo e eu também pensamos a mesma coisa, mas da razão à superstição há apenas um passo, tão curto como o que separa a vida da morte.

E o irmão Uberto não lhes revelou nunca a fórmula que havia usado para fabricar a pedra filosofal? — perguntou Grimpow, como se ardesse de vontade de conhecer a resposta.

Não, jamais o fez, e se o tivesse feito não me teria servido para nada.

O irmão Rinaldo me disse que o senhor também procura o chamado lapis philosophorum, e que passa as noites em claro neste laboratório tentando encontrar a pedra filosofal.

O pequeno monge boticário sorriu com sua cara de bufão bondoso.

Meu querido Grimpow, o que importa aos verdadeiros alquimistas não é o resultado final do achado, mas sim a aprendizagem da procura. Por isso, cada alquimista deve escolher seu próprio caminho em seus esforços para en­contrar o ser genial ou sábio que habita dentro dele. E eu devo confessar que ainda não o encontrei.

Então, o senhor tenta transformar metais rústicos em puríssimo ouro? — perguntou Grimpow, confundido pela dissertação do monge.

Sim e não — disse. — É certo que faço experiências com metais para tentar torná-los tão puros como o ouro, mas não é a ambição o que me moti­va, nem é a riqueza o que desejo. Essa extraordinária pedra filosofal que todos os alquimistas ansiamos encontrar não é ouro, como, falsamente, asseguram muitos charlatães, mas sim uma coisa tão imaterial como a sabedoria. A ima­gem do ouro é apenas um símbolo, uma alegoria usada para representar a per­feição da alma que os verdadeiros alquimistas lutam para atingir por meio do conhecimento que o processo alquímico para a transmutação dos metais lhes proporciona, e que demonstra a capacidade que o ser humano tem de conhe­cer e desvendar os segredos da natureza. O que a alquimia tenta é dominar a matéria, transformá-la e criá-la como o próprio Deus fez ao criar o mundo. É por isso que cada época é diferente da que a precedeu e da que virá a seguir. É por isso que o futuro da nossa vida e o de toda a humanidade é tão incerto e apaixonante — disse, entusiasmado, o monge. Depois pigarreou e prosseguiu: — Qualquer de nossos achados será logo apequenado pelas invenções de muitos sábios que tornarão realidade quantos engenhos sua mente possa imaginar. A única coisa que deve nos importar é que tais prodígios sirvam ao desenvolvi­mento dos seres humanos e não à sua destruição. Por isso, nossos conheci­mentos, nossas investigações e nossas descobertas são guardados no mais ab­soluto dos segredos e só os iniciados podem ter ser acesso a eles. Os demais não os entenderiam, ou fariam um uso perverso deles, e alguns até mesmo achariam graça.

É por essa razão que a Igreja diz que os alquimistas são hereges?

— A Igreja e os reis se preocupam com que alguém possa, de fato, fabricar ouro puro e chegue a ser mais poderoso que o próprio papa, como aconteceu com a Ordem do Templo há muitos anos. Os templários foram tachados de hereges por causa do poder e das riquezas que alcançaram.

De novo os cavaleiros templários voltavam a entrar em cena e Grimpow não pôde evitar pensar na mágica pedra do cavaleiro morto que possuía e que, segundo o irmão Ássben acabara de lhe dizer, tinha muito a ver com a alqui­mia, com a pedra filosofal e com a Ordem do Templo de Salomão de Jerusa­lém. Mas teve de súbito o pressentimento de que talvez a pedra que ele guar­dava, se é que de fato era um mineral, como parecia, podia ser o princípio de todas as lendas forjadas ao longo dos séculos em torno da enigmática pedra filosofal, o lapis philosophorum, da qual todos haviam ouvido falar, mas de cuja existência ninguém tinha certeza, nem que significado ou utilidade en­cerrava. Mas ainda haveria de passar muito tempo até que Grimpow des­vendasse finalmente esse segredo.

 

A tempestade de vento e neve retardou em alguns dias seu propósito de descer até a cruz do vale que indicava o caminho da abadia para checar se Dúrlib havia desenterrado o alforje que guardava seu pequeno tesouro, como sinal inequívoco de que ainda estava vivo. Esse era seu segredo, apenas seu e de Dúrlib, pois mais ninguém conhecia o lugar em que o haviam escondido. No entanto, Grimpow não demorou a descobrir que os muros da abadia en­cerravam tantos segredos como almas que habitavam nela.

Uma manhã em que, perto da hora do meio-dia, os sinos da igreja ti­nham acabado de chamar os monges ao ofício da sexta, Grimpow ficara so­zinho na biblioteca estudando um tratado de astronomia escrito por um egípcio chamado Ptolomeu. Viu, então, o rosto deformado de Kense apare­cer atrás de uma coluna. O servente, com um gesto similar a um sorriso, lhe fazia sinais para que o acompanhasse. Deixou o manuscrito sobre a mesa e, sem poder conter sua curiosidade, seguiu Kense, colado a seu corpo como se fosse sua sombra.

Pelos sigilosos movimentos de seu corpo ao caminhar pelos corredores da biblioteca, assim como pela precaução que mostrava ao abrir e fechar as por­tas das dependências que cruzavam, Grimpow percebeu que Kense preferia que passassem despercebidos e ninguém soubesse para onde o levava. Desce­ram ao claustro, deixaram a um lado a sala capitular e os aposentos do abade e se encaminharam até a hospedaria dos nobres, onde Kense abriu uma portinhola que conduzia à casa dos criados, à horta e à granja. Um vento forte açoitava as árvores e lançava flocos de neve em redemoinho sobre suas cabe­ças, obrigando-os a apertar os olhos.

Aonde vamos? — gritou Grimpow, em uma inútil tentativa de conse­guir que o criado agigantado que caminhava depressa diante dele dissesse al­guma coisa, pois não obteve qualquer resposta.

Seguiu-o até que Kense entrou nas cavalariças, onde pelos menos uma dú­zia de cavalos de raça pura mastigava placidamente a forragem que transbor­dava de seus cochos, alheios à tormenta, ao frio e à fome. Todos eram negros como o azeviche, menos um de cor branca, que foi imediatamente reconhecido por Grimpow como a montaria do cavaleiro morto nas montanhas. Aproxi­mou-se do cavalo branco e sentiu em seu olhar que o animal se alegrava em vê-lo, como se já o conhecesse. Kense ficou ao seu lado e o cavalo relinchou assustado, ao mesmo tempo em que movia a cabeça de um lado ao outro sa­cudindo as crinas. Grimpow acariciou seu pescoço para acalmá-lo e então viu a cicatriz marcada em seu dorso. Era a marca a fogo de um símbolo que Grimpow já havia visto antes, na mensagem lacrada e no lacre de ouro do cavaleiro morto nas montanhas: a serpente que mordia o próprio rabo for­mando um círculo com seu corpo.

Eu achei que o inquisidor Búlvar de Góztell havia levado este cavalo — disse Grimpow, esperando que Kense decidisse falar finalmente com ele.

Mas Kense limitou-se a apontar as patas traseiras do animal, para que vis­se as bandagens que as envolviam. Grimpow imaginou então que as feridas causadas pelos caninos das feras que o atacaram no vale ainda não haviam cicatrizado, e que o inquisidor Búlvar de Góztell havia sido obrigado a deixar o cavalo nos estábulos da abadia, sem poder levá-lo consigo por estar man­cando ostensivamente. Grimpow se propôs a pedir ao irmão Rinaldo que lhe permitisse levar o animal para passear assim que parasse a tempestade de ven­to e neve, e agradeceu a Kense que o tivesse levado até ali para ver o cavalo. Ao ouvir as palavras de Grimpow, um sorriso de complacência se desenhou nos lábios de Kense, seguido de um balbucio que Grimpow não chegou a enten­der, até que o criado puxou a manga de seu gibão, insistindo para que voltasse a segui-lo. Então Grimpow compreendeu que não era o cavalo ferido que ele queria lhe mostrar.

Kense avançou até o final dos estábulos, onde havia uma montanha de pa­lha tão alta que seu cume chegava a tocar as robustas vigas do teto. Afastou a palha para um lado e abriu um alçapão, deixando visível um buraco tão negro e profundo como um poço seco. Com grande facilidade deslizou para seu in­terior, incentivando Grimpow para que o seguisse. Grimpow sabia que não tinha nada a temer daquele gigantão com cara de monstro e alma de criança, e seguiu-o sem hesitar, apesar da profunda escuridão em que se embrenhavam. O alçapão se fechou sobre suas cabeças e desceram sem ver nada por uma escadinha de ferro presa nas paredes do buraco. Uma vez lá embaixo, Kense apalpou pelos cantos e acendeu uma tocha que lhes permitiu ver, entre som­bras, o estreito túnel em que se encontravam. Ao final do longo corredor sub­terrâneo abriu-se uma gruta espaçosa no meio da qual corria um pequeno riacho de águas escuras; as paredes eram de rocha e estalactites pontiagudas brilhavam sobre suas cabeças como moluscos transparentes sob a luz da lua.

Kense se dirigiu até o que parecia uma antiqüíssima arca de madeira e fez sinais a Grimpow para que se aproximasse. Deu-lhe a tocha e ele levantou a tampa que fechava a arca como se estivesse se preparando para revelar um valioso tesouro, oculto durante séculos naquela gruta subterrânea. Grimpow aproximou a luz da tocha da arca aberta e ficou petrificado ao ver a magnífica espada que repousava sobre as vestes cuidadosamente dobradas de um cava­leiro. Perguntou a Kense se sabia a quem a espada pertencia, mas o criado se limitou a encolher os ombros e a sorrir-lhe com sua boca desdentada. Grim­pow não demorou a supor que talvez fossem essas as roupas que o irmão Rinaldo vestia quando, havia anos, chegara à abadia de Brínkdum para aban­donar sua condição de cavaleiro da Ordem do Templo, refugiando-se na soli­dão das montanhas. A espada tinha uma empunhadura dourada e repleta de pedras preciosas semelhantes às incrustadas nas adagas que o cavaleiro morto nas montanhas trazia em seu alforje. Um círculo gravado rematava a empunhadura; em seu interior havia uma cruz vermelha oitavada, e no centro da cruzeta formada pelo punho e a folha de ferro estava encaixado um peque­no medalhão com um ginete a galope agitando uma lança no ar. Grimpow devolveu a tocha a Kense e pegou a pesada espada com suas mãos. E ao conta­to da empunhadura com seus dedos, viu com nitidez uma sucessão de ima­gens nas quais aparecia o irmão Rinaldo de Metz com o rosto oculto atrás de um elmo com viseira e vestido com uma cota de malha e uma túnica branca que tinha uma grande cruz vermelha bordada na altura do peito, a mesma cruz que estava costurada no ombro do manto branco que lhe cobria as cos­tas; a mesma cruz que brasonava seu grande escudo e marcava o pequeno círculo que coroava o punho de sua espada. Montava um valoroso corcel negro que se debatia no meio de uma profusão de crianças e mulheres que gritavam enquanto fugiam envolvidos por chamas de fogo, e a quem o monge ia decapitando sem misericórdia com sua espada, embriagado de sangue, de ódio e de raiva. Então, incapaz de continuar suportando aquela horrível visão de san­gue e morte, Grimpow fechou os olhos e jogou a espada no chão, para o grande assombro de Kense, que o olhou aturdido e assustado, como se ele também tivesse vislumbrado com seus olhos de criança aquela matança macabra.

Depois da tempestade de vento e neve veio um dia claro e luminoso, em­bora frio. Os cumes das montanhas se recortavam no horizonte do norte como caninos afiados que pareciam querer devorar o céu a dentadas, e lá no alto o sol vagava parcimonioso do leste até o ocaso. A neve se comprimia so­bre os abetos até vergar seus galhos; mais ao sul, perto das cachoeiras, uma bandada de abutres traçava caprichosas espirais sobre o vale, pressagiando um suculento festim de carniça.

Grimpow disse ao irmão Rinaldo que iria aos estábulos para cuidar do ca­valo ferido do templário e saiu da abadia assim que os monges entraram no refeitório. A porta principal estava fechada, mas Kense o ensinara a chegar à horta e à granja, e dali só foi necessário pular uma pequena paliçada para se ver fora da abadia. Tinha a adaga do cavaleiro morto oculta sob seu manto de peles, e um enorme desejo de saber se Dúrlib havia voltado à cruz do caminho para recolher o alforje enterrado que guardava seu tesouro. Só tinha de acabar de descer uma ladeira coberta de neve, sob a qual seguia serpenteando o ca­minho. A cruz estava tão próxima que não demorou muito tempo para avistá-la em um clarão aberto entre os abetos. Muitas pegadas de lobo traçadas em ziguezague chamaram sua atenção enquanto descia enterrando suas pernas até os joelhos na neve. Alcatéias de lobos famintos desciam no inverno das montanhas para procurar suas presas entre os rebanhos de ovelhas das al­deias do vale, sobretudo depois de grandes nevascas como a que caíra du­rante os últimos dias. Sentiu fala de seu arco e de sua aljava, mas nem sequer se lembrou de pegá-los na sala dos peregrinos quando saía da abadia.

O pedestal de pedra sobre o qual se elevava a cruz do caminho estava co­berto de neve, que Grimpow foi afastando com as mãos até deixar de senti-las por causa do frio intenso. Depois pegou a adaga e escavou a terra para chegar ao alforje. Não foi difícil encontrá-lo, mas ao vê-lo no mesmo lugar em que Dúrlib o havia deixado achou que seu coração estava congelando da mesma forma como havia congelado o coração do cavaleiro morto nas montanhas. Se o alforje ainda estava ali, era evidente que Dúrlib não havia voltado para recolhê-lo, e isso significava que, de fato, havia morrido ao cair, como o inquisidor Búlvar de Góztell havia afirmado ao abade. Grimpow deixou esca­par, então, como uma correnteza incontrolável, todo o pranto que havia conti­do durante dias na abadia, na esperança de que Dúrlib continuasse vivo. E lembrou o dia em que o havia conhecido na taberna de seu tio Félsdron e resolvera partir com ele para percorrer o mundo, e como, com o lento trans­correr do tempo, Dúrlib foi se transformando no pai que sempre havia deseja­do e que nunca tivera, pois aquele que Grimpow chegara a conhecer quando era uma criança, e que morreu de varíola alguns anos antes em sua aldeia de Óbernalt, não era mais que um bêbado briguento que maltratava todos os dias sua mãe e insultava a ele e a suas irmãs com seu hálito pestilento de vinho rançoso e podre.

Mas quando, entre soluços, Grimpow tirou o alforje do buraco e o abriu, constatou que dentro dele não estavam nem as moedas de prata nem as jóias do cavaleiro morto. Rebuscou com suas mãos geladas a bolsa de couro para certificar-se de que seus olhos não o enganavam e descobriu junto ao pergaminho e ao lacre de ouro alguns raminhos de alecrim que antes não estavam ali. Um grito de alegria escapou-lhe da garganta e ouviu como o eco o repetia muito longe dele, sob as montanhas. E voltou a gritar com tanta força que se Dúrlib ainda estivesse escondido nos bosques próximos seguramente o ouviria. Grimpow não tinha mais a menor dúvida de que seu amigo Dúrlib estava vivo. Os raminhos de alecrim que acabara de encontrar no alforje eram a pro­va disso. Dúrlib devia recordar que aquele fora o amuleto que sua mãe pendu­rara no seu pescoço quando era uma criança, e usou os raminhos de alecrim como um sinal. Sem ter pensado nisso, Dúrlib também havia criado uma lin­guagem simples e secreta entre eles. Dúrlib sabia que Grimpow o entenderia e compreenderia que só ele poderia ter enfiado os raminhos de alecrim no alforje, levando as jóias e as moedas de prata. Grimpow pegou, então, a men­sagem lacrada e o lacre de ouro que Dúrlib lhe havia deixado e voltou a enfiar o alforje vazio no buraco. Tinha certeza de que Dúrlib regressaria para confirmar que ele havia recebido sua mensagem secreta, e para que não coubesse dúvida de que havia sido Grimpow quem havia aberto o alforje, pegou no buraco uma pequena pedra, semelhante em tamanho à do cavaleiro morto, e a introduziu na bolsa de couro. Pensou que assim Dúrlib também saberia compreender sua mensagem e não tardaria em voltar à abadia para encontrá-lo de novo.

E tal foi o júbilo de Grimpow que, quando voltou à abadia, correu direta­mente à cozinha para contar ao irmão Brasgdo a boa notícia. Mas, para sua surpresa, o monge cozinheiro já estava sabendo de tudo.

E como o senhor pode saber? — perguntou Grimpow, achando estranho.

O monge cozinheiro levou uma colher grande cheia de sopa aos lábios, provou com deleite um gole e voltou a enfiar a colher na caçarola que borbulhava sobre o fogo.

Dúrlib esteve aqui hoje de manhã depois da terça, quando todos os monges estavam ocupados em seus labores e você estudava com o irmão Rinaldo na biblioteca — disse, como se lhe fosse difícil falar disso.

E por que o senhor não me avisou? Sabia muito bem do meu desejo de voltar a vê-lo! — reprovou-o Grimpow, furioso, e percebeu que o irmão Brasgdo fazia seu olhar deslizar pelo chão da cozinha, tentando evitar os olhos faiscantes de Grimpow.

Dúrlib me rogou que não lhe dissesse que havia estado aqui até que tivesse partido de novo — disse, aflito. — Achou que era melhor que não o visse.

Como é possível que Dúrlib não quisesse me ver! Ele sabia que eu esta­va aguardando seu regresso! Tínhamos de continuar nossa viagem ao fim do mundo! Ele mesmo lhe contou na noite em que chegamos à abadia, o senhor se recorda? — perguntou Grimpow cheio de ira e de pesar.

O irmão Brasgdo se aproximou de Grimpow e apoiou sua mão rosada em seu ombro.

Grimpow, Grimpow, menino... — disse titubeante. — Seu amigo Dúrlib não quis que você continuasse levando a vida de vagabundo e pres­crito que ele arrastava como uma penitência eterna e maldita. Me disse que durante estes dias, depois de ter estado a ponto de morrer nas mãos do inquisidor Búlvar de Góztell, havia, na solidão das montanhas, pensado mui­to sobre seu futuro. E chegou à conclusão de que ao lado dele você nunca sairia da pobreza nem da ignorância, e acabaria um dia enforcado na praça de uma aldeia miserável qualquer.

Grimpow recordou então que, quando tocara pela primeira vez a pedra do cavaleiro morto nas montanhas, pressentiu que ocorreriam mudanças trági­cas e apaixonantes em sua vida, sentindo surgir em seu interior uma intensa inquietação pelo conhecimento de tudo quanto o cercava. Por isso estava feliz de ter chegado à abadia de Brínkdum e de haver conhecido ali o irmão biblio­tecário Rinaldo de Metz, que tanto podia lhe ensinar sobre a natureza e o cos­mos; mas, no fundo, ele continuava sendo o menino pícaro, alegre e rebelde que vagava livremente ao lado de Dúrlib por aldeias e estradas, sem outra in­quietação com relação ao futuro além da de manter a esperança de continuar vivo a cada novo amanhecer. Se tivesse podido escolher, jamais teria trocado as misérias e incertezas de sua vida ao lado de Dúrlib por todas as riquezas e sabedorias do mundo.

Mas eu nunca quis me afastar dele! Dúrlib é o meu único e verdadeiro amigo! — disse Grimpow entre soluços.

Dúrlib resolveu que era melhor para os dois que se separassem, agora que você havia se acostumado a viver sem sua companhia. Está convencido de que nesta abadia você aprenderá tudo quanto ele jamais poderia lhe ensinar, e poderá encontrar seu próprio caminho na vida. Pediu-me que lhe dissesse que nunca deixasse de procurar esse caminho mágico com o qual um dia sonhou e que se chegasse a encontrá-lo que se lembrasse dele como se estivesse ao seu lado.

Grimpow pensou que essa era uma maneira secreta de Dúrlib lhe dizer que, se algum dia decidisse dar prosseguimento à missão do cavaleiro morto nas montanhas, não deixasse de tentar, e que por isso ele não havia levado a mensagem nem o lacre de ouro. Supôs que para Dúrlib seriam suficientes as moedas de prata e as jóias para empreender uma nova vida afastada da pobreza.

Mas por que não me disse isso pessoalmente? Pelo menos teria podido me despedir dele — lamentou.

Temia que se voltasse a vê-lo não tivesse coragem suficiente para abandoná-lo na abadia — disse o irmão Brasgdo, um pouco mais animado.

Grimpow aceitou, resignado, que Dúrlib tivesse resolvido que não volta­riam a se ver, e evitou deixar transparentes seus sentimentos de tristeza, com os quais conviveria durante longos dias.

E Dúrlib não disse para onde estava pensando ir nem o que havia deci­dido fazer de agora em diante? — perguntou.

Só me disse que iria ver o mar, para comprovar se as sereias existem de verdade.

 

Quando, na manhã seguinte, Grimpow perguntou ao irmão Rinaldo se ele já havia visto o mar, os olhos sem pestana do velho monge foram inundados pela melancolia. E lhe explicou que o mar era como um lago imenso sem mar­gens, e que às vezes era verde como as esmeraldas, e outras, mais azul que o próprio céu; e lhe disse que o mar podia parecer adormecido quando estava calmo, ou ser tão terrível como o inferno quando suas ondas gigantescas se encrespavam para engolir sem piedade os navios que ousassem perturbá-las.

E o senhor chegou a ver alguma sereia no mar? — perguntou-lhe Grimpow, preocupado com a viagem que Dúrlib havia anunciado ao irmão Brasgdo.

Em minhas travessias marítimas, nunca tive a sorte de topar com algum desses seres com corpo de mulher e rabo de peixe de que os navegantes con­tam lendas fantásticas.

O irmão Rinaldo pediu-lhe que o desculpasse por um momento e saiu da sala da biblioteca em que Grimpow estudava um tratado sobre anatomia hu­mana escrito por um sábio árabe chamado Avicena. O velho monge dirigiu seus passos até a sala secreta dos livros proibidos e logo voltou com um volu­moso manuscrito que depositou sobre a escrivaninha e se intitulava Liber monstruorum. Abriu-o e folheou suas páginas até encontrar uma ilustração be­lamente pintada em que aparecia uma jovem de insólita beleza, cujas madeixas douradas caíam sobre seus ombros como uma cascata de filamentos de ouro. Seus olhos, de uma delicada cor cerúlea, pareciam desafiar o olhar de Grimpow, que se deleitava contemplando sem nenhum pudor seus grandes seios redon­dos, sentindo cócegas agradáveis e estranhas. Sob o umbigo, o corpo da sereia se transformava em um rabo resplandecente e prateado de um grande peixe marinho que repousava placidamente sobre as rochas de um precipício. Ao lado da imagem, uma coluna de texto escrito em latim dizia: "As sereias são donzelas marinhas que seduzem os navegantes com sua esplêndida figura e a doçura de seu canto. Da cabeça até o umbigo, têm corpo feminino, e são idên­ticas ao gênero humano; mas têm um rabo escamoso de peixe, que usam para se movimentar nas profundezas."

Sem que Grimpow afastasse seus olhos dos seios nus daquela jovem meta­de peixe e metade humana, o irmão Rinaldo lhe contou uma história que ha­via ouvido em alguma de suas viagens. Tratava-se de uma expedição de cruza­dos cristãos que se dirigiam por mar à Terra Santa, foram arrastados por uma tempestade até uma ilha desconhecida e ouviram com nitidez os murmúrios, os cantos e os risos das sereias. Seduzidos pela doçura de suas vozes, os cruza­dos cederam à tentação de amá-las, e nunca mais se soube deles, até que anos mais tarde um navio de mercadores venezianos chegou às costas da misteriosa ilha e encontrou os esqueletos dos cavaleiros, ataviados com suas melhores roupas de gala e jogados sobre as rochas do precipício.

Grimpow ficou inquieto ao ouvir esta lenda, pois se o objetivo de Dúrlib era procurar as sereias, temeu que encontrasse no mar a morte que havia con­seguido evitar nas montanhas. Mas o velho monge tranqüilizou-o, dizendo-lhe que acreditava que belas sereias como aquela que estava diante de seus olhos eram uma mera quimera, usadas para simbolizar os perigos da luxúria e da carne, que tantas infelicidades traziam aos homens desde que Adão fora tentado por Eva.

As muitas imagens desse bestiário despertaram a curiosidade de Grimpow, e ele passou a manhã entretido em sua contemplação, enquanto o irmão Rinaldo lhe falava com dissimulado entusiasmo de seres tão fantásticos como o unicórnio, o centauro, o dragão e o basilisco, um animal fabuloso com for­ma de serpente e galo que até podia matar um homem com um simples olhar. E lhe disse que todos esses seres e lendas não eram nada mais que fantasias criadas pelos seres humanos desde o princípio do mundo para representar por meio delas toda a magia e o mistério encerrados no Universo.

Nos dias que se seguiram, Grimpow pôde comprovar, por meio do estudo de muitos e velhos manuscritos da biblioteca da abadia, que os primeiros povoadores da Terra utilizaram essas mitologias de seres divinos e fantásticos para explicar as maravilhas que os rodeavam, estabelecendo no céu a morada dos deuses, na Terra a dos animais e dos homens, e em suas tenebrosas profundidades a dos monstros, dos diabos e dos demônios. Para eles, tudo o que ocorria em cada um desses mundos era caótico e fruto do azar, e só aos deuses era permitido pôr em ordem o devir incerto desses acontecimentos. No en­tanto, também aprendeu que depois da aparição da escritura há mil anos, alguns homens sábios mudaram sua percepção do Universo e da natureza, chegando à conclusão de que os fenômenos que os cercavam não eram uma conseqüência da caprichosa vontade dos deuses, mas que obedeciam a leis constantes que eram contidas nas próprias coisas, cuja essência última os seres humanos po­diam chegar a descobrir. Mas nada surpreendeu tanto Grimpow como estudar as teorias matemáticas de um sábio grego chamado Pitágoras, a quem, segundo lhe disse o irmão Rinaldo, os persas aprisionaram quase quinhentos anos antes de Cristo e, levado à Babilônia, aprendeu com magos que os números eram a essência da explicação de todas as coisas. Soube também que Pitágoras havia fundado em Crotona uma escola de jovens sábios que eram chamados de pitagóricos, cujos conhecimentos e ensinamentos se mantinham no mais es­trito segredo. E, então, recordou as imagens que havia vislumbrado dias antes em sonhos enquanto dormia na sala dos peregrinos da abadia, e nas quais ha­via visto uma profusão de números e fórmulas matemáticas misturadas a con­fusas teorias sobre a natureza e o Universo. Sem saber por que, Grimpow teve a suspeita de que a pedra do cavaleiro morto que ele possuía tinha muito a ver com aqueles misteriosos sábios da Antigüidade.

 

Pôde confirmar isso uma tarde em que nevava amenamente, quando foi ver, depois do almoço, o irmão Ássben na enfermaria. A abadia parecia ter recuperado havia dias sua tranqüila e silenciosa rotina, afastada da aflição e dos temores que o brutal assassinato do abade havia provocado entre os mon­ges. Todos haviam voltado a seus trabalhos e orações, inclusive o jovem monge que quebrara a perna na altura do tornozelo, pois quando Grimpow passou ao lado de seu catre notou que não estava mais na enfermaria.

Cruzava a sala dos monges enfermos para dirigir-se ao laboratório do ir­mão Ássben quando ouviu atrás dele uma voz grave, que o paralisou como uma picada de serpente.

— Essa pedra pode acabar o matando!

Grimpow girou a cabeça e constatou que não havia mais ninguém na sala da enfermaria além dele e do irmão Uberto de Alessandria. Desconfiou de que tivesse sido o monge cego quem lhe falara, pois as mantas que o prote­giam do frio também impediam que visse seu rosto.

O que o senhor quer dizer? Não o entendo — respondeu-lhe Grimpow, detendo-se junto ao catre do irmão Uberto de Alessandria.

Seu desconcerto flutuou no ar como uma nuvem enfeitiçada, que não se desvaneceu até que a voz do monge prostrado em seu leito desfez em cacos a sensação de encantamento.

A mim você não pode enganar — disse. — Desde a primeira vez que ouvi seus passos nesta sala, onde até a podridão da enfermidade é invisível para mim, soube que a pedra estava com você. Percebi na negra escuridão da minha cegueira sua luz como se fosse a cintilação de um astro nas trevas da noite. Desde então tenho esperado o momento adequado para poder falar com você a sós.

Não sei do que o senhor está falando, talvez esteja enganado — disse Grimpow, sem poder acreditar que o monge cego pudesse ter adivinhado que ele escondia a pedra na bolsa de linho que pendia de seu pescoço, sob o gibão.

Eu estou falando da pedra dos sábios, do lapis philosophorum, se você deseja chamá-la assim — disse o monge secamente.

Eu não tenho nenhuma pedra, e muito menos a pedra filosofal dos al­quimistas — insistiu Grimpow, ao mesmo tempo em que se sentava no catre vizinho para poder ver melhor o rosto inexpressivo do monge cego e centená­rio, quase oculto por suas longas barbas brancas.

Agora posso senti-la mais próxima; é inútil você se empenhar em negar a evidência — disse satisfeito.

O irmão Uberto de Alessandria mal movia os lábios ao falar, mantendo rígido todo o seu rosto e seu corpo, de maneira que quando se calava Grimpow tinha a impressão de que estava conversando com um morto.

Acho que o senhor está delirando. É melhor que eu vá avisar ao irmão Ássben para que venha medicá-lo — disse Grimpow para evitar suas palavras.

Meu único delírio foi ter desejado tanto essa pedra que cheguei a en­louquecer por causa dela — respondeu, enfaticamente.

Eu estou vendo que é verdade que o senhor perdeu o juízo, pois fala da pedra filosofal como se ela fosse uma bela dama à qual tivesse entregado seu amor.

Não a teria desejado tanto se tivesse se tratado de uma mulher. Sempre fui conseqüente com relação aos meus votos de castidade e jamais me senti tentado pelos prazeres da carne — disse o monge.

No entanto, o senhor procurou a pedra filosofal até perder a visão por causa dela; não foi tão conseqüente com seus votos de pobreza. O que o se­nhor pensava em fazer com o ouro que obteria em vosso laboratório? — per­guntou Grimpow para provocá-lo, pois lhe pareceu evidente que se o monge podia adivinhar que ele possuía a pedra dos sábios, também devia saber mui­to sobre ela.

O ouro não é nada se comparado ao poder de Deus! — disse exaltado, remexendo-se pela primeira vez sob as mantas. Depois se acalmou e prosse­guiu: — Houve um tempo em que eu possuí o lapis philosophorum com o coração puro de um discípulo excepcional. Não havia pergunta que eu não soubesse responder, nem segredo que não pudesse desvendar em minha mente. Era como haver subido aos confins do céu e ter se colocado junto ao próprio Deus para deleitar-se na contemplação de um Universo sem misté­rios, onde tudo era explicável e compreensível, como foi em seu princípio para o Criador.

Sua descrição não pareceu desacertada a Grimpow, pois, ao estudar os manuscritos da biblioteca, ele próprio havia sentido o poder mágico da pedra como se ela lhe revelasse de uma única vez todos os conhecimentos da humanidade, os já sabidos e os que ainda haveriam de ser descobertos do futuro. Era, pois, indubitável que o irmão Uberto de Alessandria sabia muito bem do que falava.

Então, o senhor conseguiu alcançar a sabedoria total? — perguntou Grimpow, enquanto observava por uma janela a tarde descer sobre o vale en­volto em cores de fogo.

Não toda, mas sim a suficiente para não desejar outra coisa na minha vida. Enquanto usei a pedra com o espírito de alcançar a sabedoria, escrevi, incansavelmente, sobre todos os ramos do conhecimento, desde a astronomia até a matemática e a geometria, a filosofia, a alquimia, a botânica, a mineralogia, a harmonia... Os mais precisos raciocínios e as teses mais complexas esta­vam ao alcance da minha pena como os frutos de uma árvore ao alcance de minha mão. E tudo se devia à pedra filosofal. Ela era meu verdadeiro impulso, e minha única inspiração.

Pelo menos o senhor chegou a ser um sábio. Vi na biblioteca muitos dos livros que escreveu — disse Grimpow.

Sim, poderia dizer que cheguei a ser um sábio que cometeu a mesma torpeza que o mais mesquinho dos ignorantes.

O senhor se enganou em alguma coisa?

Me tornei ambicioso e desejei usar a pedra para obter ouro e alcançar a imortalidade. A idéia de viver cercado de riquezas em todas as épocas vindou­ras, de chegar a presenciar com meus próprios olhos o futuro do mundo sem que meu corpo envelhecesse com a passagem do tempo me obcecou tanto que cheguei a trair todos os meus princípios e crenças.

E o que aconteceu então? — perguntou Grimpow, intrigado.

As pedras que consegui fabricar se desfaziam em pó entre meus dedos quando as tirava do matraz. Levado pela minha soberba e pela minha cobiça, me tranquei no laboratório da abadia e passei dias e noites inteiros sem dor­mir, até que uma manhã, ansioso por antecipar a transmutação, aqueci tanto o alambique que o fiz explodir diante de meus olhos, e perdi para sempre o ma­ravilhoso dom da visão.

Eu sei, o irmão Ássben me contou o que aconteceu com o senhor, mas isso foi apenas um acidente que poderia ter acontecido com qualquer alquimista — disse Grimpow, para consolá-lo.

É possível — aceitou o monge cego e centenário —, mas a única coisa certa é que meus olhos secaram, e com isso todas as minhas ambições. Faz mais de vinte anos que vivo neste catre, sem ver mais luz que a da minha men­te e sem mais companhia que a das minhas recordações. Ao longo destes anos, não tenho feito outra coisa do que pensar na pedra filosofal para tentar desen­tranhar seu mistério, e agora sei que é impossível fabricá-la em outro laborató­rio que não seja o da alma. Se você se esquecer disso, ela acabará com você como acabou comigo e com tantos outros que cobiçaram possuí-la a qualquer preço, pois nela estão o bem e o mal, como em todas as coisas da vida.

Por que o senhor diz que é impossível fabricar a pedra filosofal em um laboratório? Não é esta a própria razão de ser da alquimia? — perguntou Grimpow, pois não conseguia compreender seu raciocínio.

Isso é o que dizem as lendas e os confusos textos escritos por aqueles que jamais chegarão a conhecer o verdadeiro segredo dos sábios. Você deveria saber disso tão bem como eu — disse.

Não, não sei — admitiu Grimpow, confuso. — Por que o senhor não me diz?

O monge cego pareceu hesitar, mas ao cabo de alguns instantes de profun­do silêncio disse:

A única pedra filosofal que existe e que sempre existiu é a que há mais de dois mil anos esteve em poder dos magos da Babilônia, do Egito, da Grécia... É a pedra que os antigos sábios, como Tales de Mileto, Pitágoras, Homero, Parmênides, Ptolomeu, Sócrates, Platão, Aristóteles..., possuíram e todos os discípulos que os sucederam em suas escolas e sociedades secretas. Nunca, desde então, os seres humanos se esforçaram tanto para explicar o mundo. Nosso tempo, no entanto, é um tempo escuro e podre, dominado pelo medo e as superstições, a fome e a pobreza, a enfermidade e a morte — pro­clamou, como um profeta abatido.

Ouvir da boca do irmão Uberto de Alessandria os nomes dos sábios gre­gos cujos manuscritos Grimpow também havia estudado na biblioteca da abadia produziu nele uma grande sensação de alegria e confirmou que a pe­dra que ele possuía tinha muito a ver com eles, como já havia suposto dias antes. E assim perguntou:

E como a pedra chegou às mãos desses sábios?

Se isso fosse conhecido, não haveria nenhum segredo a desvelar. E du­vido muito de que eles próprios tivessem sabido disso alguma vez. A solu­ção desse enigma está mais além das estrelas — concluiu o irmão Uberto de Alessandria, e Grimpow nunca mais voltou a ouvir sua voz.

 

                                 O ouro dos alquimistas

Os dias passaram com a mesma lentidão com que caem as folhas de outo­no, e com eles se foi o inverno, chegou a primavera e começou o degelo que anunciava o calor do verão. Já não havia sinais de neve na abadia, e nos prados próximos não tardou a brotar a relva, que pintou de um verde intenso as en­costas das montanhas.

Com a chegada da primavera, também mudaram as rotinas diárias de Grimpow na abadia. Continuava estudando na biblioteca todas as manhãs, desde a prima até a terça, ao lado do irmão Rinaldo, mas depois corria para os estábulos, encilhava o cavalo do templário, que resolvera chamar de Astro de­vido à cor branca de seu pêlo e ao brilho de seus olhos cerúleos, e cavalgava até as cascatas do vale, ou subia pelos glaciais gelados para ficar observando o horizonte. Sentia tanta falta de Dúrlib que não perdia a esperança de voltar a encontrá-lo armando suas armadilhas para caçar coelhos nos bosques próxi­mos, como costumava fazer todas as manhãs quando viviam na cabana. Des­de que se afastara de seu lado, Grimpow não havia passado um único dia sem recordá-lo. Pensava que desse modo jamais se esqueceria de seu rosto, como havia ocorrido com o de sua mãe e suas irmãs; não conseguia ver em sua men­te a imagem delas por mais que se esforçasse em recordar seus traços doces e suas risadas enlouquecidas. Sentia-se como uma criança órfã abandonada à própria sorte, apesar das atenções e dos cuidados que todos os monges da aba­dia lhe dedicavam, especialmente o irmão Brasgdo, o cozinheiro, que cuidava dele como se fosse um noviço nobre e delicado ao qual nada devia faltar.

No entanto, Grimpow não era mais que um menino ao qual a abadia de Brínkdum havia dado refúgio entre seus muros de pedra sem lhe exigir em troca que professasse os votos da ordem. Os monges tomaram esta decisão quando se reuniram, depois do assassinato do abade, na sala capitular para nomear seu sucessor e debater outros assuntos da abadia, entre eles o futuro de Grimpow como noviço. Alguns monges sugeriram que ele vestisse o hábito pardo e respeitasse a regra do silêncio e as horas litúrgicas como qualquer um dos monges mais jovens da abadia, mas o irmão Rinaldo achou mais oportuno que pelos menos durante alguns meses Grimpow dedicasse seu tempo aos es­tudos na biblioteca e ajudasse o irmão Ássben na enfermaria. Depois, se fosse esse seu desejo e vocação, que tomasse o hábito de noviço até professar livre­mente os votos da ordem. A proposta do irmão Rinaldo foi aceita por todos e ratificada pelo novo abade, um monge de aspecto sereno, olhos cinza e tonsura esbranquiçada, muito respeitado na abadia por sua sensatez e bondade. E, embora Grimpow não estivesse presente nas deliberações do capítulo, pôde ouvir os debates dos monges de uma sala contígua, onde, segundo o irmão Rinaldo havia lhe revelado, existia um ponto na parede de pedra que permitia a quem aproximasse o ouvido dele conhecer de viva-voz tudo o que era dito na sala capitular. Grimpow soube, então, que em todas as salas da abadia, in­clusive nos aposentos do abade, havia um ponto secreto de sonoridade que só o irmão Rinaldo conhecia; e este ponto permitia ouvir as conversas das salas contíguas sem que fosse necessário estar presente nelas. O velho monge con­fessou-lhe que fora assim que havia podido descobrir as intrigas do inquisidor Búlvar de Góztell e também suas confissões sobre o cavaleiro templário e o segredo dos sábios ao abade degolado. O irmão Rinaldo conhecia este insólito recurso acústico desde que ele lhe fora revelado pelo seu antecessor no cargo de bibliotecário pouco antes de morrer. E este, por sua vez, soubera dele por intermédio do anterior, como também este o soubera de seu predecessor, e assim até a própria criação da abadia, cujas câmaras, esquinas, galerias, corre­dores e buracos secretos estavam descritos em uma série de mapas enrolados e guardados na sala secreta da biblioteca. Grimpow não teve dúvida de que também havia sido assim que o segredo dos sábios fora transmitido de um a outro, geração a geração, e se perguntou se, por acaso, o cavaleiro morto nas montanhas havia sido o último deles, e se ninguém além dele conhecia agora a existência da pedra que levava pendurada no pescoço. Foi assim que Grimpow se viu cercado de segredos, alguns dos quais não demorou a des­vendar, ao passo que outros lhe pareceram tão insondáveis como a cúpula do firmamento nas noites estreladas que se seguiram.

 

Assim que os céus noturnos ficaram repletos de nuvens densas e tormentas, o irmão Rinaldo começou a sair depois do culto do completório para con­tinuar observando os astros de uma colina próxima à abadia. Havia muitos anos que estava escrevendo um volumoso tratado astronômico intitulado Theorica Planetarum e, segundo garantiu a Grimpow, queria terminar sua magna obra antes que Deus decidisse chamá-lo para o seu lado. Grimpow o acompanhava a cada noite e o ajudava a carregar o astrolábio, um curioso artefato mecânico feito de latão que permitia realizar diversas observações sobre a posição dos astros na esfera celeste, e cujo manejo Grimpow não de­morou a aprender seguindo as demonstrações do velho monge. O astrolábio do irmão Rinaldo era formado por um anel do qual pendia um disco metá­lico em cuja borda estava gravada uma circunferência graduada de 0 a 360 graus; em uma banda interior, havia outra circunferência subdividida nas 24 horas do dia, sobre a qual se superpunha uma régua giratória que permitia apontar o objeto celeste observado; outros discos se superpunham ao primei­ro e tinham diversas utilidades de acordo com o desejo do astrônomo, con­tendo uma escala para medir os ângulos em graus. O astrolábio era preso por um anel e, suspenso na posição vertical, era apontado para o astro cuja posi­ção e altura no horizonte da noite queria se medir. Depois de fazer suas ob­servações, o irmão Rinaldo elaborava tábuas nas quais ia distribuindo suas anotações sobre o astro observado, sua posição e a hora. No dia seguinte as informações eram transferidas para o manuscrito astronômico que redigia em latim sobre seu púlpito do scriptorium, onde outros monges traduziam, copia­vam ou ilustravam magníficos textos antigos.

Numa noite sem lua, enquanto Grimpow contemplava da colina algumas estrelas fugazes que cruzavam o céu tão velozes e tão diminutas como pirilampos, o irmão Rinaldo desenrolou um pergaminho que trazia na mão. Era um precioso planisfério circular no qual estava representada a abóbada do céu.

Aqui estão apontadas todas as estrelas que você agora está vendo com seus olhos. Sente-se e comprove você mesmo comparando o céu e o mapa.

Grimpow fez o que o irmão Rinado lhe sugeriu e, uma vez sentado sobre a úmida grama da colina, levantou com seu braço o planisfério até ter à vista o verdadeiro céu estrelado da noite, e a representação circular que dele lhe havia dado o velho monge, repleta de pontos fosforescentes como se tivesse captu­rado todo o firmamento entre suas mãos. Ao lado de cada ponto aparecia, igualmente visível devido à luminescência das letras em que estavam escritos, o nome de cada estrela unida por linhas retas aos demais astros de sua conste­lação. Grimpow não demorou a localizar a intensa luz do planeta Vênus nos dois céus, e depois encontrou Saturno, e Júpiter, e as estrelas Betelgeuse e Bellatriz na constelação de Orion; e a estrela Castor, ao leste, e Rígel, a oeste. E enquanto observava um firmamento real e outro fictício, Grimpow viu cruzar diante de seus olhos dezenas de cintilações que revoluteavam no céu como desorientados bichinhos de luz.

Não é prodigioso? — disse o irmão Rinaldo, sentando-se ao seu lado.

A que o senhor está se referindo? — perguntou Grimpow, pois não sa­bia o que o velho monge queria dizer exatamente.

A abóbada do firmamento.

Em noites passadas, Grimpow havia tido oportunidade de deleitar-se contemplando o céu estrelado até sucumbir ao encantamento de sua beleza como um jovem enamorado diante da donzela de seus sonhos. Aprendera na biblio­teca tudo quanto fora escrito sobre a Terra, o Sol, a Lua, os planetas, os satéli­tes e as estrelas, e sabia quanto mistério a escuridão do Universo encerrava. Mas sabia também, sem ter ainda uma noção precisa a respeito, que o ser hu­mano chegaria a compreendê-lo um dia em toda a sua plenitude, mesmo que para isso tivessem de transcorrer milhares de anos. Até sabia que assim como o astrolábio permitia calcular a posição dos astros, outras máquinas gigantes­cas e ainda desconhecidas levariam o homem até as estrelas.

Um dia os homens viajarão pelas esferas celestes com a mesma natura­lidade com que hoje cavalgam sobre seus cavalos — atreveu-se a dizer sem deixar de olhar para o céu estrelado da noite.

Isso que você está dizendo é um sacrilégio. Só Deus pode habitar o cos­mos etéreo — disse o irmão Rinaldo, olhando para Grimpow de soslaio como se fitasse um endemoniado. Depois meditou um instante e acrescentou: — Mas talvez você tenha razão, há olhos que podem ver mais além do nosso tempo, embrenhando-se no futuro mais distante como fizeram os profetas, e os seus parecem gozar dessa natureza privilegiada desde que você encon­trou o cadáver do cavaleiro das montanhas. Não sei por que me surpreendo com o que diz.

Não é uma questão de profecia, mas sim de ciência — esclareceu Grimpow. — Há coisa de mais de um mês, antes que o inverno terminasse, conversei com o irmão Uberto de Alessandria na enfermaria e ele me disse algo que me ajudou a compreender essas coisas.

Você conversou com o irmão Uberto? Faz anos que ele não fala com ninguém. Bem, desde que ficou cego no laboratório da enfermaria. O que foi que ele lhe disse? — perguntou, com vivo interesse, o irmão Rinaldo.

Me falou da pedra filosofal e dos sábios, e me garantiu que a misteriosa origem do chamado lapis philosophorum está mais além das estrelas.

Esse velho centenário continua sendo um biruta. Mais além das estrelas só há Deus! — exclamou o monge, incomodado com a afirmação de Grimpow.

O senhor mesmo me disse na sala secreta da biblioteca que era difícil acreditar em Deus porque o homem já havia começado a explicar a si mesmo e a tudo quanto o cerca — replicou Grimpow.

O irmão Rinaldo pareceu ficar nervoso.

O fato de eu às vezes achar difícil acreditar em Deus não significa que chegue a negá-lo. Se deixasse de acreditar Nele não poderia continuar vivendo.

A vida de um monge perde o sentido se não rezar todos os dias para enaltecer a grandeza de Deus.

Talvez não haja tanta diferença no que estamos falando, e o que para o senhor é Deus para mim não é mais que sabedoria. Afinal de contas, uma coisa e outra têm o mesmo significado, ainda que visto de uma maneira di­ferente: para o senhor, Deus criou o mundo sem explicá-lo, e para mim a sabedoria explica o mundo sem tê-lo criado — disse Grimpow.

Me parece que durante estas semanas você aprendeu mais que seria conveniente para um garoto de sua idade. Mas não se esqueça de que sempre tropeçará em uma pergunta para a qual não encontrará resposta...

Grimpow esperou que o irmão Rinaldo terminasse de fazer uma de suas anotações em suas tábuas estelares para que lhe dissesse que pergunta era a que não tinha nenhuma resposta, mas o monge bibliotecário permaneceu ca­lado e mergulhado em suas observações do imenso céu que os cobria, como se Grimpow não estivesse ao seu lado.

Qual é a pergunta sem resposta? — insistiu, diante do silêncio do irmão.

Onde está o começo, qual foi o princípio? Se você não crê em Deus, jamais poderá explicá-lo.

Mas tampouco acreditando em Deus se responde a essa pergunta, ape­nas se acrescenta outra: quem criou Deus? E se admitimos que Deus foi cria­do pelos homens para explicar o mundo, não deixa de ser um contra-senso pensar que Deus também criou os homens — argumentou Grimpow, conten­te de poder manter um debate sobre assuntos tão complexos.

É correto, mas pelo menos Deus serve de consolo para minha ignorância.

A sua ignorância não impede de perceber a falta de sentido de seus ar­gumentos — disse Grimpow, sabendo que alguma coisa que estava além de si mesmo falava por ele.

Os olhos do velho monge não dissimularam seu cansaço. Haviam chegado à colina há menos de duas horas, e os dois estavam intumescidos pelo frio e pela umidade do orvalho que empapava a relva e seus mantos de lã.

De volta à abadia, Grimpow pensou que devia tudo quanto havia aprendido na biblioteca ao irmão Rinaldo, ajudado pela inexplicável influência da pedra, e que talvez tivesse se excedido em suas afirmações. O irmão Rinaldo era, sem dúvida, um erudito, embora permanecesse ancorado nos conhecimentos de épocas passadas, como uma barcaça encalhada na margem de um rio seco. No entanto, o que Grimpow estava descobrindo com seus estudos na biblioteca era que os conhecimentos da humanidade sobre a natureza e o cosmos haviam evoluído com o tempo, passado da religião e da superstição à ciência e à razão, e que estas não tinham mais limites que os da imaginação.

— Sim, talvez você tenha razão — prosseguiu o irmão Rinaldo de Metz —, a mente e a imaginação dos seres humanos são misteriosas e surpreendentes. Sem elas, nada do que o homem conseguiu saber sobre si mesmo e sobre o Universo teria sido possível. Prive os seres humanos dos sonhos e da imaginação e você terá diante de si o mais torpe, desvalido e primitivo animal da Terra.

 

Essa noite Grimpow demorou a conciliar o sono. Desde que o inquisidor Búlvar de Góztell deixara a abadia, tinha passado a ocupar um colchão no dormitório dos monges noviços, e quando foi deitar todos já dormiam, saben­do que logo os sinos da torre voltariam a soar chamando para o ofício da pri­ma. Em silêncio, encolheu-se sob as mantas, e recordou tudo quanto lhe havia ocorrido desde o dia em que encontrara o cavaleiro morto nas montanhas e seu misterioso amuleto. Agora sabia muito mais que naquela época, não ape­nas sobre a natureza e o Universo, mas também sobre a misteriosa pedra que trazia pendurada no pescoço. Havia chegado à conclusão de que a pedra pro­digiosa era mais antiga que alguém pudesse jamais imaginar, e que havia sido transmitida ao longo dos séculos, de geração a geração, no mais absoluto se­gredo, até chegar às mãos do cavaleiro morto nas montanhas. Até duvidava de que este cavaleiro fosse, na verdade, um cavaleiro templário, como o inqui­sidor Búlvar de Góztell havia assegurado ao abade antes que ele fosse assassi­nado. Grimpow tinha certeza de que se tratava de um sábio, alheio às armas, às guerras e às religiões. No entanto, lhe parecia verossímil a lenda dos nove cavaleiros do Templo de Salomão e do valioso objeto que descobriram e tras­ladaram para a França nove anos depois de sua chegada a Jerusalém, ocultando-o mais tarde dos olhos da humanidade, segundo o irmão Rinaldo havia lhe contado. A pedra que ele possuía guardava relação com essa descoberta, esta­va certo disso, mesmo não sabendo exatamente como. E achava evidente que o papa e o rei de França cobiçassem possuir sua pedra a qualquer preço, sem renunciar para isso nem mesmo ao assassinato. Em suas reflexões, Grimpow também havia descartado que a pedra filosofal que os alquimistas pretendi­am fabricar em seu laboratório fosse a mesma que ele possuía, mesmo que as lendas e os manuscritos que se referiam ao lapis philosophorum pudessem ser uma deformação da verdadeira história da pedra dos sábios que estava em seu poder, e com a qual tiveram muito a ver os magos da Babilônia, Egito e Grécia, há mais de mil anos. Entre essas elucubrações iniciais, só lhe restava confir­mar se sua pedra podia converter em ouro um metal tão pobre como o chum­bo, e foi constatar isso uma tarde no laboratório da enfermaria, enquanto o irmão Ássben assistia ao culto vespertino.

Na tarde em que levou a cabo sua experiência, o irmão Ássben havia lhe mostrado um dos muitos métodos do processo alquímico, usando para isso um velho manuscrito intitulado Physika kai Mystika, atribuído a um sábio gre­go chamado Demócrito, que o pequeno monge herbolário deixou aberto so­bre a mesa do laboratório para seguir suas instruções.

Nós imaginaremos que estamos na antiga Grécia e que entramos no labo­ratório de um dos primeiros alquimistas conhecidos — disse o irmão Ássben, enquanto preparava o forno e o matraz que usaria para iniciar a transmutação.

Depois pegou em uma estante quatro potes de vidro e tirou de cada um deles uma pequena quantidade de chumbo, de estanho, de cobre e de ferro.

Estes são os minerais que nos restam depois de os dois metais nobres, o ouro e a prata, e o insólito metal de transição, o mercúrio, terem sobrado dos sete metais conhecidos.

Colocou os metais no matraz e, por efeito do calor do fogo do forno, eles começaram a fundir-se até formar uma pasta negrusca, sem brilho nem apa­rência metálica, na qual só eram visíveis diminutas bolinhas de ferro que des­prendiam um intenso cheiro de chamuscado.

Uma vez que tenhamos amalgamado os metais até obter um caldo es­pesso chamado pelos alquimistas de "a matéria primigênia" — continuou —, que é negra como a noite da qual nasce o dia...

Ou como a escuridão do céu da qual surge a luz — disse Grimpow, lem­brando o texto da mensagem escrita em símbolos hieroglíficos da carta lacra­da que o cavaleiro morto nas montanhas portava.

Sim, é isso, e me alegra saber que você está entendendo — disse o mon­ge herbolário, sem saber que Grimpow se referia a outros assuntos, e conti­nuou: — Mas agora temos de ir mais além, e acrescentaremos à pobreza de nossa mistura de metais um pouco da beleza da prata.

E ao dizer isso pegou outro pote, e com uma minúscula colher de latão tirou um pouco de pó de prata e introduziu-o no matraz, misturando a pasta lentamente.

Agora esperaremos que esta semente de prata faça seu efeito e frutifique no ventre de nosso matraz assim como a semente de uma rosa frutifica na terra até converter-se em flor, e assim o oculto se tornará manifesto — disse. — E enquanto meditamos em nossa alma filosófica sobre a semente que dá vida ao inanimado, acrescentemos um pouco desse estranho metal que nem é líquido nem é sólido, mas que é capaz de penetrar em todos...

Mercúrio — disse Grimpow, pois assim havia lido em um manuscrito da sala secreta da biblioteca, e o irmão Ássben se sobressaltou como se hou­vesse pronunciado uma blasfêmia.

De fato, Grimpow — admitiu assombrado o monge herbolário, enru­gando seu bondoso rosto de bufão ao mesmo tempo em que submergia a mas­sa pastosa do matraz em um banho de mercúrio. — Mas para aclarar o tom da massa até branqueá-la completamente também poderíamos ter usado um pouco de estanho fundido, e mesmo alguns gramas de arsênico.

Grimpow observou que a pasta negrusca e disforme com a qual o irmão Ássben deu início ao processo alquímico, fundindo metais tão pobres como o chumbo, o estanho, o cobre e o ferro, ia se convertendo pouco a pouco diante de seus olhos em uma peça de prata tão perfeita como bela, que crescia lenta­mente da mesma forma que o pão incha ao ser fermentado pela levedura.

Esta prata, que apesar de sua aparência nobre é tão falsa como o foi Judas, seria capaz de enganar ao próprio tesoureiro do papa em sua fortaleza de Avignon — disse, sorrindo, o monge herbolário, orgulhoso da rápida transmutação que havia conseguido.

Depois tirou com uma pinça fina e longa a peça de prata do matraz e in­troduziu-a em uma bacia cheia de água fria, produzindo um fluxo de vapor que aos poucos se extinguiu com um débil cicio. Envolveu a peça esfriada em um pano de algodão e esfregou-a até que estivesse completamente seca.

Só nos resta a feliz culminação de nossa Grande Obra — disse, deixan­do escapar um suspiro de incredulidade —, acrescentando um pouco de se­mente de ouro e introduzindo a peça de prata no theion hydor ou "água divi­na", chamada por muitos alquimistas também de "água dos deuses".

Isso transformará a falsa peça de prata em uma verdadeira peça de ouro? — perguntou Grimpow, incapaz de aceitar que o irmão Ássben pudesse fabricar a pedra filosofal dos alquimistas em seu laboratório.

O monge herbolário era consciente de suas limitações na arte da trans­mutação e, enquanto voltava a introduzir a falsa peça de prata no matraz até fundi-la de novo, acrescentando-lhe depois uma insignificante porção de pó de ouro que extraíra de um saquinho que guardava escondido em uma gaveta de sua mesa, admitiu:

Se conseguir fabricar as doses devidas de água divina, talvez consiga obrar o prodígio, mas até agora não obtive mais que uma aparente tintura amarelada, que não passaria por ouro nem diante do mais ingênuo dos ho­mens. É bem verdade, entretanto, que em algumas das minhas tentativas de obter a água dos deuses usando outros ingredientes consegui elaborar um li­cor esverdeado tão sadio e saboroso que o irmão Brasgdo chegou a confundi- lo com o verdadeiro elixir da vida.

Grimpow recordou o que o irmão Rinaldo havia lhe contado sobre a pai­xão do irmão Brasgdo pelos licores — ele já conhecia amplamente o amor do irmão cozinheiro à aguardente, ao vinho e à cerveja; enquanto isso, o monge herbolário pegava um alambique rechonchudo em um banco próximo à mesa e o colocava sobre outro forno aceso. Depois verteu uma garrafa de vinagre no alambique e pouco a pouco, à medida que o vinagre começava a ferver, foi acres­centando alguns pedaços de cal e cristais de enxofre misturados com casca de limão, mel de abelha, pimentões picantes, noz moscada e sândalo, até inundar o laboratório com um agradável e soporífero cheiro de deliciosas frutas ácidas.

Enquanto esperavam que a água divina adquirisse as qualidades necessárias para obrar o prodígio da transmutação definitiva da prata em ouro por meio da destilação, o irmão Ássben contou a Grimpow que um antigo mestre de alquimistas chamado Zósimo obtinha a água prodigiosa destilando ovos de galinha no alambique. E lhe disse que ele também o havia tentado, mas não conseguira mais que cozinhá-los, da mesma maneira que o irmão Brasgdo o fazia em sua cozinha, colocando-os para ferver no banho de Maria, a Judia, uma mulher alquimista da qual se dizia que possuía uma grande sabedoria, e a quem se atribuía a invenção do alambique, com o qual teria conseguido fabri­car a pedra filosofal há mais de sete séculos.

Agora estou seguro de que os ovos dos quais fala Zósimo em suas obras não são mais que símbolos, e ninguém além dele e de seus discípulos conhe­cia com certeza seu verdadeiro significado.

Isso era algo que Grimpow já sabia, pois nos manuscritos que havia lido na biblioteca abundavam as referências a figuras simbólicas que representavam o processo alquímico, como o Sol, a Lua, os planetas, os amantes, os dragões ou as serpentes. Até o símbolo dos alquimistas era uma serpente que mordia o próprio rabo formando um círculo, e era chamada de Ouroboros, idêntica ao símbolo marcado a fogo no dorso do cavalo do suposto templário morto nas montanhas e ao lacre de ouro que portava.

Quando a água divina ficou livre de todas as suas impurezas, o pequeno monge herbolário verteu em um recipiente o prodigioso líquido do alambi­que, e com gestos cerimoniosos cheios de expectativas e de esperanças intro­duziu nele a peça de prata.

Esperaram um pouco, até que transcorreu o tempo marcado por quatro vol­tas de um relógio de areia que o irmão Ássben colocara junto ao recipiente, e a peça falsa de prata começou a adquirir lentamente uma leve cor amarelada.

Este é o ouro alquímico? — perguntou Grimpow, descrente.

Chamar assim esta prata falsa e amarelada é conceder-lhe uma virtude que, lamentavelmente, não possui — disse decepcionado o monge herbolário.

Nesse momento, soaram os sinos da torre da abadia chamando para o ofí­cio vespertino, e o irmão Ássben dirigiu-se à igreja para ocupar seu lugar no coro, deixando a peça de prata no recipiente. Grimpow ficou sozinho no labo­ratório arrumando os potes e instrumentos que estavam espalhados sobre os bancos e a mesa, e depois aproveitou a oportunidade que lhe era dada pela solidão para realizar sua própria experiência sem que ninguém o observasse. Pegou a pedra da bolsinha de linho que pendia de seu pescoço e introduziu-a na água dos deuses que o monge herbolário havia preparado com tanto esme­ro. Então a pedra se iluminou como a pedra de um vulcão em erupção, a água divina começou a ferver de novo como a água de um caldeirão de bruxa, e a peça de prata amarelada adquiriu uma preciosa cor dourada e refulgente, mais intensa que a cor dourada do sol que brilha nos céus.

 

Grimpow havia conseguido pouco a pouco se acostumar com a ausência de Dúrlib e, embora não passasse um único dia sem que se lembrasse dele, consolava-se pensando que se não tivesse sido desse modo jamais teria aprendido tudo o que sabia naquele momento. Dizia a si mesmo que se Dúrlib tomara a decisão de se separarem, isso havia sido, precisamente, para que ele pudesse dedicar seu tempo aos estudos sob as instruções do irmão Rinaldo de Metz. Mas alguma coisa dentro de Grimpow, mais intensa que a força da ra­zão, o impelia a abandonar a abadia de Brínkdum para tentar desvendar quan­to antes possível o segredo dos sábios.

Alguns dias antes, um noviço chamado Pobé de Lánforg — filho do conde de Lánforg, dono e senhor de um rico condado situado ao sudoeste da comarca de Üllpens —, com quem Grimpow havia entabulado uma sincera amizade devido à proximidade de seus colchões no dormitório coletivo, lhe propusera que fugissem juntos da abadia. Prometeu-lhe que o nomearia seu escudeiro assim que chegassem ao castelo de seu pai, nas planícies de Lánforg, onde se proveriam de cavalos e armas para empreender as mais intrépidas aventuras pelos caminhos do mundo. Pobé era um jovem noviço inquieto e engraçado, de cabelos negros como o carvão e olhos cintilantes como cinzas, a quem seu pai havia obrigado a tomar os hábitos da ordem no princípio do outono como castigo por suas contínuas malfeitorias e sua conduta imprópria com as donzelas do castelo. O conde confiava que uma estadia prolongada de seu filho mais novo na abadia não apenas haveria de lhe ensinar a submeter-se a uma rígida disciplina e a dominar seus impulsos amorosos e guerreiros. Achava que também poderia ser-lhe útil para encontrar na oração e no trabalho a me­lhor maneira de servir a Deus e, de passagem, à sua nobre e numerosa família, repleta de damas e cavaleiros, e com poucos clérigos, bispos ou abades.

O noviço Pobé de Lánforg já havia completado 17 anos e garantia a Grim­pow com ilimitado entusiasmo que a primavera não haveria de terminar sem que ele tivesse deixado a abadia, aproveitando a chegada dos peregrinos do nordeste da Alsácia que a cada ano cruzavam o desfiladeiro das montanhas a caminho da distante cidade de Compostela, pois, conforme ouvira dizer, na Espanha os infiéis ainda eram combatidos, e havia reis e nobres necessitados de jovens cavaleiros mercenários capazes de conduzir seus exércitos à vitória. Segundo contou a Grimpow uma noite em que ambos padeciam do ingrato mal da insônia e permaneciam submersos no cansativo ir e vir de um sonho frágil, as terras da Espanha conquistadas dos muçulmanos eram repartidas entre os cavaleiros que capitaneavam as batalhas, e nelas se elevavam fortale­zas cujas torres alcançavam o céu para comemorar tais façanhas. Pobé de Lánforg não estava disposto a renunciar a tais honras e grandezas, e se Grimpow não o acompanhasse, lhe dizia, procuraria outro escudeiro que qui­sesse gozar do privilégio de servi-lo.

Em outra época, Grimpow não teria hesitado um instante em converter-se em fiel escudeiro do fantasioso e promissor cavaleiro, mas assim como o novi­ço desejava dirigir-se até o sul para alcançar a glória eterna dos heróis, Grimpow queria empreender sua viagem até o norte, para ser fiel a seu propó­sito de alcançar a imortalidade dos sábios.

Eu partirei da abadia esta mesma noite, depois que todos os monges tiverem ido deitar. Ainda há tempo de você vir comigo — sussurrou-lhe o no­viço Pobé de Lánforg ao ouvido uma manhã em que Grimpow estudava sozi­nho na biblioteca, enquanto o irmão Rinaldo transcrevia no scriptorium as notas de suas tábuas astrológicas para seu manuscrito Theorica Planetarum.

O senhor está louco? Os salteadores dos caminhos o aprisionarão antes que tenha abandonado o vale, e se descobrirem quem é exigirão um resgate de seu pai, o conde, sob a ameaça de cortar sua cabeça se não ceder às suas exi­gências. Conheço bem essa classe de ladrões assassinos. Eles não têm piedade nem de seus próprios filhos, pode acreditar em mim — advertiu-o Grimpow em voz tão baixa que o noviço nem sequer chegou a ouvi-lo.

Não agüento nem um dia a mais o silêncio dessa clausura, que tanto se parece com a tumba de um cemitério. As matinas e as rezas não foram feitas para uma alma como a minha, que não deseja mais que pegar seu cavalo e sua espada e cavalgar sem rumo até conquistar o coração de sua desco­nhecida amada — disse Pobé, desesperado e poético como um trovador.

Espere pelo menos até que possa fugir incorporando-se a alguma ca­ravana de peregrinos, como tinha planejado. O senhor sabe que não tarda­rão em chegar à abadia, aproveitando o degelo das montanhas — insistiu Grimpow.

Pobé de Lánforg mexeu a cabeça de um lado a outro.

Amanhã poderia ser demasiadamente tarde. Fora destes muros estão me aguardando a liberdade e a glória, e não estou muito seguro de que tão delica­das damas estejam dispostas a conceder-me uma espera mais prolongada. A cada dia ouço suas doces vozes prometendo-me mil gozos e aventuras, e deci­di entregar-me sem demora a seus delicados braços de deusas, antes que mi­nha alma emurcheça entre os cânticos e orações da abadia — disse o noviço, fazendo seus olhos relampejar como o rescaldo de uma fogueira.

Não era essa a primeira vez em que Pobé de Lánforg falava a Grimpow dos gozos do amor, da doçura dos beijos e da suavidade das carícias de uma donzela. As palavras do noviço o fizeram recordar da imagem das sereias, de seus seios redondos e desnudos. Suas vozes enfeitiçadas encheram seus pen­samentos de desejos e de ilusões, a ponto de também ter se sentido tentado a fugir com Pobé de Lánforg da abadia de Brínkdum essa mesma noite. Tinha vontade de partir quanto antes possível em busca de aventuras e namoricos, cuja chamada retumbava em seus ouvidos com o estrépito de um trovão em uma noite de tormenta. Afinal, era com isso que Grimpow havia sonhado sempre. Queria converter-se em escudeiro de um cavaleiro andante e percor­rer o mundo de torneio em torneio como os heróis dos romances que os trovadores cantavam nas praças e nos mercados. Não havia sido outro seu pro­pósito e o de Dúrlib quando decidiram partir em busca do finis mundi depois de encontrar o cadáver do cavaleiro nas montanhas. No entanto, agora que tinha a oportunidade de fugir da abadia e descobrir uma vida nova repleta de aventuras ao lado do noviço Pobé de Lánforg, uma voz interior o adver­tia de que seú destino era outro e que não devia precipitar-se em tomar uma decisão tão arriscada e transcendente.

E aonde o senhor está pensando em ir? — perguntou, finalmente, Grimpow.

Irei em direção ao sudoeste e chegarei ao castelo de Lánforg para des­pedir-me de minha mãe antes de partir para a Espanha.

Seu pai o mandará de volta à abadia escoltado por seus soldados tão logo o veja aparecer em sua fortaleza.

Eu lhe asseguro que nem morto regressarei a este cemitério.

Aqui não se está tão mal — alegou Grimpow sinceramente, pois conhe­cia de sobra a dureza da vida errante.

Você diz isso porque é livre como os pássaros, embora goste de passar os dias cercado de manuscritos inúteis, que de nada servem à fama de um cavaleiro andante, e muito menos aos deveres de um bom escudeiro. Se você vier comigo não lamentará jamais — disse o noviço Pobé de Lánforg, com uma arrogância que se diluiu em súplica.

Deixe-me pensar. Não estou muito seguro de que o destino nos lance a vagar pelos mesmos caminhos do mundo, nem de que seja a mesma a nature­za das façanhas que nos aguardam — respondeu Grimpow, assaltado por dú­vidas pungentes.

Você tem até depois do ofício das completas para se decidir. Se quando a última tocha do claustro apagar você não estiver nos estábulos, suporei que resolveu renunciar a ser meu escudeiro e partirei da abadia sem olhar para trás, para não voltar nunca mais.

Essa noite ninguém dormiu no colchão de palha do noviço Pobé de Lánforg, e quando, antes do amanhecer, os sinos da torre da abadia chamaram para o ofício das matinas, Grimpow intuiu que uma grande agitação tomaria conta da igreja tão logo todos os monges vissem que o banco do coro que lhe era destinado estava vazio. Por isso correu a avisar o irmão Rinaldo, antes que o rumor de um novo crime se propagasse entre os assustadiços monges da abadia com a mesma rapidez com que o fogo se propaga em um restolho. Mas já era muito tarde quando Grimpow chegou à cozinha para pedir ao monge cozinheiro que entrasse na igreja e dissesse ao abade e ao irmão Rinaldo que precisava falar com eles privadamente a respeito de um assunto urgente. Al­guns noviços haviam percebido que Pobé de Lánforg não passara a noite no dormitório e estavam aterrorizados, pensando que o fantasma do cavaleiro templário o havia assassinado.

É certo que o degolaram como ao abade anterior! — exclamou o irmão Brasgdo ao ver Grimpow entrar na cozinha, sem lhe dar tempo de avisá-lo sobre o ocorrido.

O que o senhor está dizendo? — perguntou Grimpow.

Você ainda não está inteirado? O jovem noviço Pobé de Lánforg desa­pareceu. Ninguém o viu desde o final das completas da noite de ontem, e esta manhã tampouco assistiu às matinas. Todos estão procurando-o pela abadia, e todos temem que o tenham assassinado — disse aturdido o monge.

Ao ver o rosto do irmão Brasgdo mais alarmado que se tivesse visto di­ante de seus olhos o fantasma do cavaleiro das montanhas, Grimpow disse, zombeteiro:

Pois já pode desistir de enterrá-lo sendo tão jovem, porque Pobé de Lánforg está mais vivo e feliz que o senhor mesmo.

O que você disse?

Ele partiu ontem à noite da abadia. Queria trocar sua ordem religiosa pela ordem da cavalaria e os gozos do amor — disse Grimpow, dando risadas.

O monge cozinheiro largou uma panela de leite na mesa, limpou as mãos em seu hábito pardo e murmurou com indiferença:

Sempre suspeitei de que esse noviço rebelde era um bastardo... Mas me diga, como você sabe que ele fugiu da abadia?

Ele mesmo me disse. Até me propôs que partisse com ele e me conver­tesse em seu escudeiro, anunciando-me que não se conheceriam proezas como as nossas em todos os reinos da cristandade.

Quando seu pai, o conde, souber que o filho pródigo que desejava trans­formar em bispo fugiu da abadia, o jovem Pobé terá de se ocupar de uma úni­ca proeza: a de salvar seus ossos do espancamento.

O conde de Lánforg é tão severo assim? — quis saber Grimpow, ante as aziagas premonições do monge cozinheiro.

Contam dele que era capaz de derrubar um urso com um único soco e que ninguém jamais teve a coragem de contrariar seus desejos, por temor de ser traspassado pela afiada folha de sua espada como se fosse um pedaço de carne defumada acossada por um espeto.

Grimpow não soube se o irmão Brasgdo brincava, ou se exagerava com o propósito de se aproveitar de sua ingenuidade, pois assim que acabara de di­zer estas palavras o abade e o irmão Rinaldo entraram na cozinha murmurando alguma coisa entre eles.

Se está faltando um cavalo nos estábulos, é certo que foi levado pelo noviço — Grimpow ouviu o velho monge dizer ao abade.

Grimpow se aproximou deles e lhes contou o que sabia. Ao ouvir seu rela­to, o abade franziu o cenho para expressar sua contrariedade. O duque de Lánforg não só era um ardoroso devoto de São Dustan, o monge peregrino cujas relíquias estavam guardadas na cripta úmida e escura da abadia, como contribuía a cada ano com generosas doações para o sustento dos monges. Assim, a fuga do noviço rebelde trazia um sério risco à continuidade de suas muitas doações de obras.

Os dois monges abandonaram a cozinha e dirigiram-se ao coro da igreja comentando entre eles os acontecimentos, e Grimpow ficou a sós com o ir­mão Brasgdo, que se ocupava em elaborar deliciosos queijos de cabra agitan­do com suas mãos gorduchas o conteúdo de um recipiente repleto de leite fresco.

É verdade que o conde de Lánforg visita a abadia com freqüência? — perguntou ao monge cozinheiro, enquanto se posicionava ao seu lado e o aju­dava a envolver o queijo em finos panos de linho.

Costuma vir à abadia, acompanhado de seu séqüito, várias vezes na pri­mavera e algumas outras no verão, quando não faz frio no vale e a dor da gota que tortura sua perna desde que eu guardo na memória se torna mais supor­tável. Sempre o ouvi dizer que cada vez que reza a São Dustan na cripta da igreja abacial e toma as beberagens de ervas que o irmão Ássben elabora suas terríveis dores melhoram tanto que, se não fosse pelas muitas obrigações e pelas dores de cabeça que a defesa de seu condado lhe impõem, viria viver na abadia para desfrutar diariamente de tais milagres.

O conde de Lánforg acredita mesmo que São Dustan se preocupa com seus ataques de gota? — perguntou Grimpow.

Embora você seja um descrente, para não chamá-lo de herege — disse o irmão Brasgdo mirando-o de viés com benevolência —, os milagres de São Dustan são conhecidos em toda a cristandade, e você terá a oportunidade de confirmar isso quando os primeiros peregrinos chegarem à abadia.

Agora Grimpow compreendia por que o noviço Pobé de Lánforg tinha tanta pressa em abandonar a abadia antes que seu pai, o conde, chegasse a ela para fazer suas curas de primavera. Mas ainda ignorava que dentro de pouco tempo ele também partiria, e que voltaria a encontrar o jovem no castelo do barão Figüeltach de Vokko, armado de lança e espada como um nobre cavaleiro.

 

                             O Sol quis namorar a Lua

Os primeiros peregrinos vindos do norte começaram a se hospedar na abadia no início do mês de abril, e com eles chegaram às primeiras notícias. Diziam que o grande mestre da Ordem do Templo havia sido queimado vivo na fogueira ao lado de outros cavaleiros templários, e que Jacques de Molay havia lançado uma maldição contra o papa e o rei de França, assegurando-lhes que morreriam antes de se completar o prazo de um ano. Grimpow não deu muita atenção então a essas notícias, e tampouco os monges da abadia fizeram qualquer comentário sobre elas, embora tempos depois fossem saber da sua importância.

Em um dia de céus nublados e negruchos que se fendiam nas garras lumi­nosas de incessantes raios e trovões, Grimpow observou, da janela da bibliote­ca, a chegada à abadia de um grupo de nobres engalanados com vestimentas de cores vistosas, seguido de seu cortejo de pajens e serventes. Atraído pelo bulício, desceu ao claustro e dali se dirigiu à hospedaria para ajudar Kense e outros criados que já se ocupavam da acomodação dos recém-chegados, sob as ordens incessantes e excitadas do irmão Brasgdo. O monge cozinheiro não parava de gesticular e bambolear sua barriga de um lado a outro, enquanto se desfazia em reverências e saudações diante das damas e donzelas que desciam dos carros. Grimpow ia lhe perguntar o que podia fazer para ser útil naquela agitação de idas e vindas de baús e cofres quando viu uma garota de olhos tão claros e transparentes como duas gotas de água cristalizada descendo de uma carreta engalanada com grinaldas de flores. A jovem percebeu a presença do jovem que a observava abobalhado, e lhe dedicou um sorriso que fez Grimpow ficar corado; seus pensamentos voaram com o mesmo ímpeto e a dispersão de uma bandada de pássaros surpreendidos em seus mais plácidos sonhos. Sentia, pela primeira vez na vida, uma palpitação amorosa agitar seu ser; seu sangue fervilhava intensamente dos pés à cabeça, fazendo-o tremer como um junco à mercê de um vento, de um furacão. Foi nesse instante que Grimpow compreendeu tudo o que o noviço Pobé de Lánforg lhe havia falado sobre o amor e os transtornos que trazia à alma, e desejou que aquele encontro mági­co com a menina dos olhos de água se perpetuasse até a eternidade. No en­tanto, o irmão Brasgdo percebeu a troca de olhares entre os dois jovens e or­denou a Grimpow que voltasse à biblioteca e se ocupasse de seus estudos an­tes que o diabo cruzasse seu caminho e o tentasse com sentimentos impuros e pecaminosos. Grimpow obedeceu rangendo os dentes e voltou à biblioteca, mas, mesmo assim, passou a tarde olhando estupidamente para o infinito e imerso em doces ilusões enquanto perambulava incessantemente pela hospe­daria dos nobres. Apesar de seus esforços, não conseguiu voltar a ver a jovem divindade que parecia ter surgido diante de seus olhos vinda do nada para evaporar-se logo depois no ar, tal e qual o cadáver do cavaleiro morto se desva­necera na montanha. E apesar de não ter voltado a vê-la, Grimpow passou as noites seguintes acordado até a madrugada, refrescando seus pensamentos no belo rosto daquela menina misteriosa cuja voz ele achava que ouvia em seus sonhos, como se fosse o embriagante canto da sereia mais bela jamais vista.

 

Muitos peregrinos chegavam a Brínkdum em grandes caravanas que se di­rigiam a Santiago de Compostela. Eles cruzavam as montanhas dos Alpes no sentido nordeste sul, seguindo a rota que ligava a comarca de Üllpens ao ca­minho que levava até a distante abadia francesa de Vezelay, onde se juntavam a outros peregrinos que vinham da Alemanha ou de Paris para fazer penitên­cias e purificar seus pecados prostrando-se diante do túmulo do apóstolo compostelano nas ainda mais distantes terras da Espanha. Mas também havia peregrinos das comarcas próximas que chegavam à abadia atraídos pela fama das grutas milagrosas e da caveira de São Dustan, conservada em um sarcófago de mármore branco na cripta da igreja abacial. São Dustan foi o primeiro monge ermitão a chegar ao vale de Brínkdum numa época em que só lobos e ursos habitavam os bosques, e construiu uma pequena ermida de madeira para viver nela sua solidão, afastado de todo contato humano. As lendas dizi­am que seu verdadeiro nome era Dustan de Guillol e teria peregrinado a Jeru­salém na época da primeira cruzada, ao lado de Pedro, o Ermitão, e seu exérci­to de pobres famintos, aventureiros e fugitivos que esperavam encontrar na Terra Santa o fim de suas misérias e a eterna salvação de sua alma, embora, para sua infelicidade, só tivessem encontrado a face da morte escondida atrás dos sinistros véus das epidemias, da fome e das espadas afiadas dos muçulma­nos. Dustan de Guillol havia sido um dos poucos sobreviventes a voltar desse inferno para contar suas penúrias, e percorria aldeias e cidades montado em um burro como seu mestre, com o rosto consumido e os pés descalços, enquan­to predicava a guerra santa contra os infiéis com gritos dilacerados que entusi­asmavam todos os que os ouviam. Mas um dia Dustan de Guillol desapareceu dos caminhos e ninguém nunca mais soube dele, até que um grupo de mon­ges que cruzava as montanhas encontrou sua precária ermida no meio de um bosque, e seus ossos descarnados amontoados em seu catre. Deslumbrados com a beleza das montanhas, esses monges decidiram ficar no vale de Brínkdum para abrigar o esqueleto do ermitão na cripta da abadia que se propuseram a construir para venerá-lo, e ela logo alcançou fama de milagrosa em toda a comarca de Üllpens graças às relíquias do santo predicador das cruzadas nela guardadas. No princípio, construíram a abadia no mesmo lugar em que estava a ermida, mas as freqüentes avalanches de neve obrigaram os monges a trans­feri-la para a sua localização atual.

Grimpow não deixava de se surpreender com o fato de a Igreja transfor­mar em santo quem estava tão empenhado em matar seus semelhantes. E por isso, na manhã seguinte, enquanto esperava ver de novo pela janela da biblio­teca a menina de olhos de água no meio da buliçosa correria do grupo de peregrinos que se preparava para continuar seu caminho até Compostela, per­guntou ao irmão Rinaldo:

Se Deus prega na Bíblia o amor entre todos os homens, por que a Igreja defendeu as cruzadas para conquistar a Terra Santa matando os infiéis?

A pergunta de seu discípulo surpreendeu o velho monge, e ele não ocultou como era desagradável ter de responder a essa espinhosa questão.

O irmão Brasgdo me contou que São Dustan passou metade da vida montado em um burro, proclamando pelas aldeias e cidades que Deus havia falado com ele e inflamara seu espírito para que exortasse todos os cristãos da Terra a libertar os lugares santos de Jerusalém, matando, para isso, todos os infiéis que cruzassem seu caminho e se opusessem ao seu objetivo — insistiu Grimpow.

O irmão Brasgdo é um linguarudo incapaz de manter a boca fechada, a não ser quando teme que a costurem por causa de suas palavras — disse o velho monge, irritado.

Foi mesmo assim, então? — insistiu Grimpow, entristecido ao ver que a caravana de peregrinos se distanciava da abadia sem que tivesse voltado a ver a menina de olhos de água.

O irmão Rinaldo meditou durante alguns instantes e depois lhe disse:

Há três séculos, a cristandade caiu nas mãos de um fanatismo religioso difícil de justificar, e se propôs a recuperar o Santo Sepulcro do poder dos muçulmanos que o pisoteavam sem nenhum respeito. Deus quis assim.

E a quem Deus comunicou seu desejo de que se sacrificassem tantas vidas em seu nome? — perguntou Grimpow, consciente de que voltaria a constranger o irmão Rinaldo.

Deus falou aos cristãos por meio do papa Urbano II, que era na época sua cabeça visível na Terra. Depois do primeiro milênio, todos queriam acor­rer a Jerusalém porque acreditavam que ali estava o reino celeste, mas os pe­regrinos eram atacados impunemente pelos muçulmanos, que os matavam e hu­milhavam sem nenhum temor. O papa convocou, então, todos os nobres e cavaleiros para que empunhassem suas espadas em defesa dos peregrinos. "Ide, irmãos de Cristo, ide atacar os inimigos de Deus que têm usurpado o Santo Sepulcro do Senhor!", gritou o papa ao proclamar a primeira cruzada no concílio de Clermont, no ano 1095 — e, ao dizer isso, o velho monge pareceu recuperar toda a vitalidade e a força de seus tempos de cavaleiro templário.

O senhor me disse que participou da oitava cruzada. Foram tantas as­sim? — quis saber Grimpow.

Os muçulmanos nunca deixaram de fustigar e atacar nossas fortalezas na Terra Santa, e foi necessário voltar a recuperá-las uma e outra vez usando os poderosos exércitos que chegavam de todos os reinos da Europa. Foram quase dois séculos de lutas sangrentas e intermináveis — disse o irmão Ri­naldo com pesar.

Por isso o senhor matou aquelas mulheres e crianças, decapitando-os com sua espada de cavaleiro templário — disse Grimpow, sabendo que estava cravando um punhal no coração do velho monge, mas precisava que ele mes­mo lhe confirmasse as imagens que havia vislumbrado ao segurar a espada que o criado Kense lhe havia mostrado na gruta subterrânea da abadia.

Ao ouvir a afirmação de Grimpow, o semblante do irmão Rinaldo se trans­formou em uma máscara desolada e incrédula.

Como você pode saber disso? — murmurou com os lábios trêmulos, como se houvesse visto no brilho dos olhos de Grimpow a cara do diabo.

Kense me levou até a gruta subterrânea da abadia e me mostrou a sua espada e as suas vestimentas de cavaleiro templário. Quando segurei a espada, vi aquela matança em minha mente com a mesma nitidez com que agora es­tou vendo o senhor.

O velho monge suspirou abatido, mas mesmo assim disse:

Responderei à sua pergunta se você me jurar ser tão sincero como eu ao responder à que eu vou lhe fazer.

É justo — aceitou Grimpow.

Naquela época, eu estava convencido de que alcançaria o céu matando aquelas criaturas indefesas, porque era a vontade de Deus acabar com todos os infiéis, mesmo que fossem apenas mulheres e crianças — disse afligido por suas recordações.

O senhor ficou tão cego a ponto de acreditar em tais mentiras? — re­provou-o Grimpow.

O fanatismo turva o entendimento do homem mais cordial, mas acredite que paguei em dobro por minhas culpas — concluiu desolado o velho monge.

Grimpow não compartilhou sua resposta, mas as explicações foram sufi­cientes para saber o que desejava, e assim disse:

O senhor pode me fazer sua pergunta.

Você ajudou de alguma forma o irmão Ássben a conseguir transmutar metais não-nobres em ouro puro em seu laboratório? — E ficou olhando-o fixamente nos olhos como se quisesse confirmar se a sua resposta era sincera.

Sim — disse Grimpow, simplesmente, esperando que essa breve afirma­ção também fosse suficiente para o monge bibliotecário.

Pois você quase enlouqueceu o irmão Ássben, que, ao ver ouro tão puro em seu alambique, acreditou que havia encontrado a fórmula definitiva da transmutação alquímica, e agora vive desesperado em seu laboratório tentan­do repeti-la dia e noite, mas sem êxito. Como você conseguiu realizar tal faça­nha?

Grimpow pensou em ocultar do velho monge que havia usado a pedra do cavaleiro morto nas montanhas, mas fizera um juramento e era obrigado a cumpri-lo sem reservas. E assim tirou a pedra da bolsa de linho que lhe pen­dia do pescoço e mostrou-a ao irmão Rinaldo, que a olhou fascinado como se tivesse lhe mostrado uma relíquia de Vera Cruz.

Introduzi esta pedra na água dos deuses que o irmão Ássben preparou no alambique.

Você permite que eu a veja? — pediu-lhe, estendendo sua mão.

Grimpow lhe ofereceu a pedra, temeroso do que pudesse fazer com ela, mas o monge bibliotecário apenas aproximou-a de seus olhos para vê-la me­lhor, e murmurou:

Então só se trata disso.

O que o senhor quer dizer?

Este insignificante mineral é, sem dúvida, a verdadeira pedra filosofal mencionada por todas as lendas e manuscritos. A única capaz de converter o chumbo em ouro e o homem em sábio — disse o monge. — Onde você a conseguiu? Estava em poder do cavaleiro templário? — acrescentou ao mesmo tempo em que devolvia a pedra a Grimpow.

Sim, foi assim. Ela estava na mão do cavaleiro morto nas montanhas quando Dúrlib e eu o encontramos sobre a neve — confessou. — Dúrlib acre­ditou que se tratava de um simples amuleto e disse para eu ficar com ela. Dis­se que essa pedra se uniria ao meu destino.

E não se enganou. Dúrlib logo se convenceu de que seu destino era mui­to diferente do dele, e por isso partiu, deixando você na abadia. Aqui você aprendeu tudo o que eu poderia ensinar-lhe e não tenho dúvida de que na sua pouca idade você é mais sábio que muitos sábios que conheci no decorrer de minha longa vida, mas talvez tenha chegado o momento de empreender seu próprio caminho até a cidade de Estrasburgo, e procurar ali esse tal de Aidor Bílbicum que aparece na mensagem da qual você me falou. Talvez ele possa ajudá-lo a desvendar o segredo dos sábios, com o qual essa misteriosa pedra que você possuiu deve ter muito a ver.

Às vezes sinto como se a própria pedra estivesse me impelindo a deixar a abadia — disse Grimpow.

Se você deixar a abadia e fizer o que, de fato, dita o seu coração, os obs­táculos que encontrar serão apenas um estímulo para que siga adiante, mas se ficar com a gente e fizer o que não deseja, o menor obstáculo que precisar enfrentar significará seu fracasso. A escolha deve ser exclusivamente sua. Eu aceitarei sua decisão.

 

Quando o irmão Rinaldo disse ao irmão Brasgdo que Grimpow havia de­cidido deixar imediatamente a abadia, ele se sentiu tão desolado e entristecido como quando soubera que o abade havia sido assassinado.

Pensei que Grimpow ficaria com a gente como noviço e que depois pro­fessaria os votos da ordem. Alguém tão sábio como ele poderia chegar a ser abade, bispo, e até mesmo papa — disse, em um lamento.

Seu interesse por Grimpow é elogiável, mas o azar reservou a este menino uma missão mais importante de todas as que você possa imaginar. Grimpow aprendeu muito durante estes meses sobre grandes mistérios cujas origens remon­tam ao princípio do mundo, e que ainda haverão de ser desvendados antes de servir para engrandecer a humanidade. Seu destino está mais além das estrelas.

O que você quer dizer? — perguntou o monge cozinheiro.

Não me faça perguntas que eu não posso responder e cujas respostas precisariam ser explicadas em mais de cem noites de vigília, sem que ao final você conseguisse compreender muito mais que está ouvindo agora.

Não estou conseguindo entendê-lo, Rinaldo — repetiu o irmão Brasgdo.

Compreender esse mistério o perturbaria mais que o desconhecimento que você lamenta. Leve-me a sério e esqueça rapidamente as palavras que ou­viu dos meus lábios.

 

Depois de longos e tediosos dias de chuvas e tormentas primaveris, che­gou à abadia um ginete solitário com aspecto de aventureiro montado em um belíssimo cavalo negro cujo pêlo cintilava como as águas de um lago sob a luz da lua cheia. Com um andar parcimonioso e desengonçado, cavalgava ao lado de uma mula carregada de grandes alforjes e taleigas, sobre os quais esta­vam amarradas as peças de uma velha armadura. Ao contrário da maioria dos peregrinos, que chegava do norte, o ginete provinha do sul.

Grimpow viu-o subir pela senda uma manhã em que havia saído bem cedo para caçar coelhos com seu arco, e correu ao seu encontro sem hesitar, postando-se sobre um barranco que se elevava junto ao caminho. Era um homem jovem e fornido, de feições serenas, em cuja face direita se abria uma covinha quando falava ou sorria. Sua vestimenta estava um tanto deteriora­da, mas havia algo nele que lhe conferia a aparência atrevida de um cavaleiro sem terras nem possessões. Uma longa espada com empunhadura dourada pendia-lhe do cinto, e Grimpow pôde ver sobre a mula seu escudo, brasonado com um sol sobre campo azul e uma lua cheia sobre campo negro, símbolos evidentes de sua vinculação com a alquimia, que a Grimpow recordaram um poema que o irmão Ássben lhe havia recitado no laboratório da enfermaria quando realizavam suas experiências para transformar o chumbo em ouro, e que dizia assim:

 

                 Quis o Sol namorar a Lua

                 E seguiu sua trilha pelo céu infinito.

               "Aproxime-se bela dama e admire meu valor,

                 Não fuja de meu lado nem ignore minha voz.

                 Eu sou o rei do dia — disse o Sol —,

                 E a luz e o calor são meus melhores dons."

               "Lua rainha da noite sou eu,

                 E escuridão e silêncio ofereço ao amor."

               "Ame-me então, Lua desejada,

                 Doce mel de meu amargo penar."

               "O amarei sem dúvida, oh Sol afortunado!

                 Oportuno consolo a meu eterno vagar."

 

Ao chegar ao lugar em que estava, o ginete deteve suas cavalgaduras e, di­rigindo seus olhos ao arco que Grimpow tinha em sua mão, perguntou-lhe:

Você caçou muito, rapaz?

Não, ainda não encontrei nenhum coelho por aqui, devem ter se afoga­do todos nas últimas chuvas — respondeu Grimpow.

Você tem certeza de que sabe manejar esse arco? — perguntou o cava­leiro, deixando que um sorriso se desenhasse em seus lábios.

Grimpow não respondeu à pergunta. Limitou-se a tirar uma flecha da aljava que pendia das suas costas, colocou-a no arco e apontou para uma flor violeta que a brisa mexia a uns sessenta passos de distância. Esticou o arco e quando soltou a corda a flecha silvou no ar, cortando o talo da flor como se tivesse cortado com um canivete afiado um ser tão invisível como o vento.

Não está mal — disse, rindo, o ginete. — Acabei de cruzar logo ali com um cabrito perdido. Talvez se você procurá-lo naquele matagal possa caçá-lo — acrescentou ao mesmo tempo em que virava a cabeça e apontava um lugar indeterminado no vale situado às suas costas.

Se o senhor não se incomoda, eu o acompanharei até a abadia e anun­ciarei sua chegada ao abade.

Você vive na abadia de Brínkdum?

Há apenas seis meses. Cheguei aqui no início do inverno passado.

Como você se chama?

Meu nome é Grimpow, da aldeia de Óbernalt. E o senhor, quem é?

Eu me chamo Salietti, Salietti de Estaglia.

Uma águia voava acima dos abetos, com suas grandes asas abertas desdo­bradas e um coelho moribundo entre suas garras.

O senhor é italiano?

Sim, sou.

Na abadia vive um monge cego e centenário que nasceu em Alessandria, no condado italiano do Piemonte. Seu nome é Uberto — disse Grimpow.

Ouvi falar dele e de suas teorias alquímicas — disse o ginete, segurando as rédeas de seu inquieto cavalo.

O senhor é alquimista? — perguntou Grimpow, interessado.

Não, mas meu pai o foi, e às vezes me falava de alguns monges que tam­bém procuravam o grande segredo da pedra filosofal. Uberto de Alessandria foi muito famoso entre os alquimistas de sua época.

Ouvir essas palavras da boca daquele ginete desconhecido produziu ligei­ras cócegas no estômago de Grimpow.

E para onde o senhor está indo? — perguntou, para mudar de assunto.

Vou até o norte, estou a caminho da cidade de Estrasburgo. Tenho a intenção de participar dos torneios de primavera dos castelos da Alsácia pro­movidos pelo barão Figüeltach de Vokko em sua fortaleza.

O senhor está pensando em combater nas justas! — disparou Grimpow, fascinado, pois, por um momento, cruzou em sua mente a idéia de partir da abadia com o ginete recém-chegado, e poder chegar à cidade de Estrasburgo para procurar por Aidor Bílbicum e entregar-lhe a mensagem enigmática la­crada que o cavaleiro morto nas montanhas portava.

Esse é o meu desejo, e espero vencer em bom confronto todos os cava­leiros que enfrentarem minha lança. Tenho ouvido os arautos de Figüeltach de Vokko apregoarem que o vencedor elegerá a rainha do torneio entre todas as damas que estiverem assistindo às justas, e espero encontrar ali a princesa de meus sonhos — disse, sorrindo.

Por um instante, Grimpow viu nos olhos do cavaleiro Salietti de Estaglia o rosto do noviço Pobé de Lánforg, a quem também fervia o sangue com tais afãs cavalheirescos.

Então o senhor precisa de um escudeiro que o sirva fielmente e o ajude a carregar suas armas nos torneios — sugeriu Grimpow, sem refletir.

Você gostaria de vir comigo?

A coisa que mais quero na vida é ser seu escudeiro — respondeu, entusiasmado.

Salietti lhe disse que, se era esse o seu verdadeiro anseio, poderia se consi­derar, desde aquele instante, nomeado para seu novo cargo. E dito isso, desa­tou o cinto de couro que prendia sua espada à cintura, desembainhou-a, e com ela deu um leve golpe no ombro de Grimpow, enquanto dizia com afetada solenidade:

Com este toque de minha espada, que é símbolo da nobre submissão às leis da cavalaria, nomeio-o meu escudeiro!

Depois lhe entregou a pesada espada para que começasse a cumprir sem demora seus deveres de portar as armas de um cavaleiro, e ao tocá-la Grimpow pressentiu que um mundo novo se abria diante de seus olhos, en­volvido por nebulosas tragédias e mistérios apaixonantes.

 

                                                                     Os Castelos do Círculo

 

                       A árvore dos enforcados

O dia da partida chegou, e os monges se despediram de Grimpow e do cavaleiro Salietti de Estaglia com silenciosos acenos de adeus, empapados pelas lágrimas contidas do irmão Brasgdo. Grimpow também lamentou ter de abandonar os muros de pedra que durante os últimos meses haviam sido seu refúgio, mas sabia que devia continuar a missão inacabada do cavaleiro morto nas montanhas, e a presença do cavaleiro Salietti lhe oferecia uma oportunidade única de chegar à cidade de Estrasburgo que não podia des­perdiçar de maneira alguma. O irmão Rinaldo não só não colocou qualquer empecilho para que Grimpow partisse com o cavaleiro Salietti de Estaglia, como até se mostrou satisfeito ao ouvir de seus próprios lábios que já o ha­via nomeado seu escudeiro, em uma breve, porém solene, cerimônia. Antes de partir, o velho monge chamou Grimpow à biblioteca e lhe disse que o irmão Uberto de Alessandria conhecia na cidade de Estrasburgo o dono de uma pousada chamado Junn, o Coxo, que poderia ajudá-lo a encontrar Aidor Bílbicum.

Sua pousada se chama O Olho do Dragão Verde e fica muito perto da antiga praça de Estrasburgo, na qual estão construindo agora a nova catedral. Você não terá dificuldades em encontrá-la. Diga que vai da parte do irmão Uberto de Alessandria.

Depois levou aquele que havia sido seu discípulo até as cavalariças. Grimpow viu que Kense estava na porta. O servente olhava para ele com olhos cheios de lástima, como se ele também não quisesse que se fosse da abadia, mas quando Grimpow foi se despedir dele, saiu correndo e desapareceu atrás da marquise das cocheiras com a discrição de uma doninha. Entraram nos estábulos e o irmão Rinaldo se dirigiu diretamente ao cavalo branco do cava­leiro morto nas montanhas, que Grimpow havia batizado há algum tempo com o nome de Astro.

O novo abade me autorizou a presenteá-lo com este cavalo — disse o velho monge. — Se você vai cumprir a missão que seu antigo amo deixou inacabada, será melhor que o cavalo dele também vá com você.

Grimpow agradeceu ao irmão Rinaldo tudo quanto havia feito por ele, e colocou as rédeas e a sela no cavalo Astro. O animal relinchou de satisfação, como se adivinhasse que não voltaria a se separar mais de seu novo dono.

Não se esqueça nunca de que a procura da sabedoria é um longo e tor­tuoso caminho. Tomara que você a encontre algum dia, e tenha a sorte de des­vendar finalmente o segredo dos sábios. Provavelmente, quando isso ocorrer, eu já estarei no outro mundo, gozando a paz eterna dos céus, ou ardendo por séculos nas profundezas do inferno — concluiu o velho monge, com um sor­riso que fez brilhar seus olhos sem pestanas.

O cavaleiro Salietti de Estaglia esperava por Grimpow diante das portas da abadia, montado sobre sua cavalgadura e ao lado de uma mula carregada com a armadura e as provisões que o irmão Brasgdo havia lhes preparado para sua longa viagem. Ao ver o seu escudeiro chegar puxando as rédeas de Astro, exclamou, entre risos:

Espera-se que seja o escudeiro quem deva esperar pelo seu senhor!

Desta vez é preciso desculpá-lo, sr. Salietti, e considerar a mim como o responsável pelo atraso de seu pajem — disse o irmão Rinaldo, também dan­do risadas.

Grimpow subiu de um salto no dorso de Astro, e disse orgulhoso:

Podemos partir quando quiser, meu sr. Salietti.

Um silencioso coro de monges lhes deu adeus, sacudindo os braços no ar, e dos olhos do irmão Brasgdo escaparam algumas lágrimas que ele tentava conter enrugando o rosto gorducho enquanto acariciava sua pata de coelho com as mãos.

Acabavam de colocar-se em marcha quando a voz do pequeno monge herbolário, de quem Grimpow havia sentido falta em sua despedida, levan­tou-se entre os frades que já se retiravam para as suas ocupações.

Esperem um momento! — gritou. Depois, o irmão Ássben correu até eles e, entregando-lhe uma pequena bolsa de couro, disse a Grimpow em voz baixa: — É possível que seja mais útil para você que para mim; depois de pensar muito, cheguei à conclusão de que talvez a peça de ouro que encontrei em meu laboratório seja mais sua que minha. Voltei a fundi-la e a transformei em pequenas pepitas douradas que talvez lhe façam falta em sua viagem.

O senhor é muito generoso — disse Grimpow, agradecido.

Não mais que você foi comigo — acrescentou o monge herbolário, e ficou olhando como os dois ginetes se afastavam da abadia sem que seu sorri­so de alegre e bondoso bufão desaparecesse de seu rosto.

Quando começaram a ascender até as montanhas para cruzar os Alpes oci­dentais por uma estreita garganta situada no nordeste, um manto de nuvens cobriu o sol, escurecendo os cumes ainda nevados até deixá-los envoltos em sombras. Grimpow olhou pela última vez para trás de sua montaria e soube que entre aqueles muros de pedra avermelhada da abadia ficava encerrado seu passado, como um sonho inquietante e agridoce que só sobrevive na me­mória. Ali havia visto pela última vez seu querido amigo Dúrlib, ali havia se escondido do cruel inquisidor Búlvar de Góztell, ali haviam assassinado o aba­de, ali havia aprendido tudo quanto agora sabia, incluindo a lenda do segredo dos sábios e a possível origem templária do cavaleiro morto nas montanhas. Agora todos esses sentimentos e recordações ficavam para trás, e só devia olhar para a frente a fim de continuar seu caminho sem tropeços e averiguar quem era Aidor Bílbicum, o que significava o texto da mensagem lacrada, o que era exatamente a pedra filosofal que ele possuía e que relação ela tinha com o segredo dos sábios que o papa e o rei de França tanto desejavam possuir.

Você está preocupado com alguma coisa, Grimpow? — perguntou-lhe Salietti, que cavalgava a seu lado com a majestade de um monarca sem reino.

Não, estava apenas pensando que jamais voltarei a ver este vale — respondeu.

Oh, vamos, não diga uma coisa dessas. O futuro é incerto e caprichoso como uma tempestade de verão. Talvez você volte algum dia à abadia — dis­se Salietti.

Mas Grimpow sabia que jamais voltaria.

O senhor nem ao menos me perguntou o que foi que me disse o monge herbolário ao se despedir de mim não faz muito tempo — comentou Grimpow, para mudar o rumo da conversa.

Eu não gosto de me imiscuir nos assuntos do meu escudeiro — mur­murou Salietti.

Acho que é melhor o senhor guardar esta bolsinha de couro — ofereceu-lhe.

Salietti esticou sua mão e pegou a bolsa, olhando-a com curiosidade.

Do que se trata?

Veja o senhor mesmo.

Salietti soltou as rédeas de seu cavalo e desfez o nó da fita que fechava a bolsa. Abriu-a e remexeu nela com seus dedos até tirar um punhado de pepi­tas de ouro, tão pequenas e redondas como grãos de milho tostado.

Pelas barbas defumadas de um alquimista! — exclamou, soltando um longo assovio propagado pelo eco das montanhas. — Aqui há uma pequena fortuna — acrescentou feliz.

O senhor pode considerá-la sua. Afinal de contas, é o senhor o cavaleiro e eu sou apenas seu escudeiro. Não ficaria bem que fosse eu quem carregasse suas riquezas — explicou Grimpow, irônico.

Um bom cavaleiro jamais privaria seu escudeiro de seu patrimônio; mas, se você prefere que seja eu quem custodie esta bolsa de ouro, posso lhe dizer que nunca encontrará melhor guardião para tão nobre missão, queri­do Grimpow. Juro pela minha honra e pelas três faces do mítico cão Cérbero que defenderei seu ouro com minha espada e, se for preciso, com minha própria dignidade de cavaleiro — disse Salietti, enquanto guardava a bolsa sob seu gibão.

O que o senhor acha de a gente comprar em Üllpens roupas adequadas à sua linhagem e uma nova armadura? Essa sua, mais abaulada e oxidada que as caçarolas da cozinha do irmão Brasgdo, não é digna de um cavaleiro como o senhor, e, além do mais, desmerece o orgulho de um rico escudeiro como o seu — disse Grimpow, rindo.

Aceitarei, com muito prazer, desde que você não se empenhe em fazer com que eu também troque a minha espada por outra mais nobre. Esta, que chamo de Atenéia, me salvou a vida muitas vezes, e é a melhor espada com que pode sonhar um bom cavaleiro andante — disse Salietti, levando as mãos ao cinto.

O senhor conhece a mitologia grega? — perguntou Grimpow ao ouvir o nome da deusa da guerra.

Quando tinha sua idade, tive um mestre que me ensinou muitas coisas interessantes — disse, com indiferença.

Atenéia era a deusa da guerra para os gregos — disse Grimpow.

Mas também era considerada a deusa da razão, presidia as artes e a lite­ratura, e tinha muita relação com a filosofia — discursou Salietti, e Grimpow não teve mais dúvidas de que seu novo amigo e "senhor" era mais sábio que dizia, embora também fosse mais pobre que um mendigo.

Continuaram subindo e cruzaram verdes prados nos quais, no verão, os pastores nômades acendiam suas fogueiras para proteger os rebanhos da co­biça dos lobos, passaram ao lado de altas cascatas de água que se precipitavam como longas caudas de cavalo em um abismo de rochas e espuma branca, ro­dearam geleiras glaciais na quais se abriam enormes fendas e abismos insondáveis e caminharam a pé puxando as rédeas de suas montarias por estreitos desfiladeiros sem fundo, até que, finalmente, passaram sob os cumes pontia­gudos das montanhas e então, no outro lado de uma abrupta garganta, apare­ceu a cidade de Üllpens, cercada de muralhas que se alçavam sobre uma ex­tensa planície.

Quando chegaram às portas da cidade, o sol ainda não havia caído. Alguns carros carregados de feno cruzavam a ponte fortificada sem que os soldados posicionados sobre a pequena torre de guarda lhes cortassem a passagem. Também ninguém lhes perguntou aonde iam nem de onde vinham, embora o abade de Brínkdum, por sugestão do irmão Rinaldo de Metz, tivesse lhes dado um salvo-conduto dirigido ao bispo de Estrasburgo, documento que lhes permitiria entrar e sair sem dificuldades de qualquer cidade ou castelo em que necessitassem se hospedar.

As ruas de Üllpens estavam desoladas a essa hora da tarde, e só perto da praça ouviram uma gritaria que o cavaleiro Salietti atribuiu aos mercadores que apregoavam em voz alta, diante de suas desengonçadas tendinhas, as vir­tudes de suas quinquilharias.

Grimpow também achava que era isso, mas seu espanto alcançou a dimen­são de um delírio quando entraram na praça e ele viu seu amigo Dúrlib dependurado como um espantalho na árvore dos enforcados de Üllpens, en­quanto a multidão reunida ao redor ria e gritava, dominada pela excitação e a loucura de presenciar o espetáculo de uma execução pública. O corpo seminu e ensangüentado de Dúrlib balançava em pequenos círculos como se fosse um pêndulo, seus olhos ainda abertos estavam fora de órbita, e a língua pendia de sua boa aberta como se zombasse dos verdugos. Grimpow fechou os olhos e conteve seu horror apertando os punhos até cravar as unhas nas palmas das suas mãos.

Você conhecia esse homem? — lhe perguntou Salietti, aturdido pelo re­pentino pranto de seu escudeiro.

A duras penas Grimpow conseguiu dizer-lhe que aquele pobre infeliz que acabavam de enforcar era Dúrlib, um homem que havia sido para ele como um pai antes de ter ido viver na abadia de Brínkdum.

Vamos embora daqui, já não podemos fazer nada para ajudá-lo — disse Salietti, afetado pela dor de Grimpow.

Grimpow se sentia incapaz de sair do lugar, por mais que desejasse pegar a espada de Salietti e esporear seu cavalo para atacar aquela multidão que não parava de gritar e de rir diante da cena macabra do corpo sem vida de seu amigo.

Vamos, Grimpow, eu acho que você ainda tem muitas coisas para me contar — disse Salietti, puxando as rédeas de Astro.

Saíram da praça por um beco baixo e arqueado e passaram ao lado de uma velha igreja em ruínas. Mais adiante, em uma ruela estreita de pequenas casas que deixavam ver nas fachadas sua armação de madeira, encontraram uma taberna aberta onde uma mulher magra e com o rosto devorado pela varíola limpava cântaros de barro sobre um balcão seboso. Salietti desceu do cavalo e pediu a Grimpow que descesse do seu. Depois pegou as rédeas de Astro e o amarrou, ao lado de sua montaria e da mula carregada com a armadura, em uma argola de ferro que pendia ao lado da porta.

A mulher fitou-os com desconfiança. Limpou as mãos em um trapo e lhes perguntou como era que não estavam na praça desfrutando o enforcamento.

Toda a cidade está reunida ali, revoluteando ao redor do cadáver como corvos em busca de carniça — disse a mulher. — Ver os outros morrer parece divertido, e assim se esquecem de que também chegará a hora em que terão eles mesmos de prestar contas ao Céu — acrescentou, com voz nasalada.

Salietti fez um gesto para que Grimpow se sentasse a uma mesa situada sob uma janela e pediu à mulher um pouco de aguardente. Depois disse:

O que fez este homem para que o tenham justiçado com tanto estrondo?

A mulher pareceu ter gostado da curiosidade de Salietti.

Pelo que eu sei, estava bêbado há várias noites, alardeando aqui e ali possuir o tesouro de um misterioso cavaleiro que havia encontrado morto nas montanhas, perto da abadia de Brínkdum, e quando alguns soldados do con­de foram prendê-lo, desembainhou sua espada e cortou a orelha de um, o bra­ço de outro, e por pouco matou outro deles. Alguns dizem que não era mais que um ladrão que chegou a Üllpens há alguns meses esbanjando moedas de prata cunhadas por esses servos do diabo chamados de templários, e que fi­cou louco ao perder sua fortuna com tão pouca prudência e menos proveito — disse a mulher, sem nenhuma emoção, enquanto enchia um copo pequeno de aguardente. Depois levantou a cabeça apontando para Grimpow e pergun­tou: — O que há com o menino?

Só está um pouco indisposto. Isto o ajudará a recuperar-se depressa — respondeu Salietti ao mesmo tempo em que oferecia a aguardente ao seu escudeiro.

Grimpow bebeu o líquido sem vontade. Não conseguiu parar de pensar em Dúrlib e em seu destino infeliz, que havia lhe dado uma rasteira e o levado a acabar a vida na árvore dos enforcados de Üllpens, a mesma a que ele sem­pre se referia em suas imprecações e maldições. Via e revia a imagem do cor­po dependurado na árvore como se fosse um pesadelo interminável, enquan­to pensava nas muitas vezes em que ele mesmo havia lhe anunciado sua morte sem que Grimpow acreditasse nele, e recordou o que lhe dissera no dia em que o conhecera e fugira com ele da taberna de seu tio Félsdron: "Minha liber­dade só me servirá para acabar enforcado um dia na praça de qualquer aldeia miserável." E Dúrlib não havia se enganado, embora Grimpow não pudesse compreender então o que poderia ter lhe ocorrido depois de ter abandonado as montanhas com as moedas de prata e as jóias do cavaleiro morto que en­contraram na neve. Grimpow teria preferido que tudo tivesse sido como lhe anunciara o irmão Brasgdo no dia em que Dúrlib esteve na abadia para lhe di­zer que partia, que iria ver o mar e comprovar se as sereias existiam de fato. Mas esse belo sonho já não seria mais possível. Grimpow conhecia Dúrlib, e sabia que às vezes se embebedava e provocava brigas e disputas entre as víti­mas de suas patranhas, embora jamais pudesse imaginar que fosse chegar a perder o juízo até enlouquecer, depois de ter perdido também as jóias e as moedas de prata.

Com o desassossego que estes pensamentos lhe causavam, Grimpow ouviu Salietti perguntar à mulher da cara picada se conhecia algum lugar onde ele e seu escudeiro pudessem passar a noite e dar algo de comer a seus cavalos.

— Os cavalos e a mula poderiam ficar nos estábulos e, se vocês quiserem, podem ficar em um quarto do sótão. Também poderia lhes oferecer alguma coisa para jantar e fazer um bom caldo para o menino para que acabe de ressuscitar; não parece que a aguardente tenha feito um grande efeito no seu escudeiro.

Salietti se mostrou de acordo com a taberneira e olhou para Grimpow espe­rando que aceitasse passar a noite naquele pestilento e mísero tugúrio. Grimpow mostrou sua concordância com um leve assentimento, desejando fi­car logo a sós com seu sofrimento e poder dormir quanto antes para acalmá-lo.

O quarto da taberna era uma pocilga situada no sótão sob um empinado teto de vigas mofadas por causa das goteiras, e sem outro mobiliário além de uma banqueta e um par de catres tão duros quanto o chão. Para sua sorte, Grimpow não demorou a adormecer, depois de a senhora da taberna ter lhe trazido uma sopa quente com pão de alho e um par de ovos chamuscados. Nem percebeu que Salietti saiu do quarto assim que ele se deitou.

Na manhã seguinte, enquanto Grimpow continuava abatido e ocultava seu rosto sob a manta, Salietti lhe contou que depois do anoitecer havia ido pro­curar alguém que enterrasse o cadáver de Dúrlib, para evitar que o deixassem dependurado na praça durante dias e apodrecesse ao relento bicado pelos cor­vos. Convencer o coveiro lhe custara duas pepitas de ouro e quase toda a noite em vigília, pois teve de esperar que a praça ficasse deserta para cortar a corda da árvore sinistra e carregar o corpo sem vida de Dúrlib em uma carreta até chegar ao cemitério, situado atrás de umas casuchas grudadas nas muralhas.

Segundo havia averiguado, era certo que Dúrlib passara alguns meses en­trando e saindo da cidade de Üllpens vestido como um fidalgo disposto a entregar sua fortuna ao azar dos jogos de dados e cartas, embebedando-se nas tabernas e nos bordéis, e provocando violentos conflitos com seus rivais. A história que contava sobre um cavaleiro que havia encontrado morto nas montanhas da abadia de Brínkdum durante o inverno chegou aos ouvidos do bispo, que, alertado a respeito da fuga de um cavaleiro templário perseguido pelo inquisidor Búlvar de Góztell, mandou os soldados do conde de Üllpens prenderem-no. Dúrlib matara um dos esbirros quando ia ser preso, e ferira gravemente outros antes de cair desfalecido sobre o solo por causa da intensi­dade dos lances do combate e do número de soldados que o cercavam. O con­de ordenou que lhe dessem cem chibatadas na praça e depois o enforcassem na árvore que sempre servia de patíbulo às execuções públicas dos assassinos e ladrões da comarca de Üllpens.

Grimpow não pôde evitar se sentir culpado pela morte de seu amigo. Se não tivesse encontrado o cavaleiro morto nas montanhas, nada teria aconteci­do, como tampouco nada teria sucedido se, em lugar de ficar na abadia, Grimpow tivesse partido com Dúrlib para Estrasburgo, como era seu propó­sito depois de ter lido a mensagem lacrada que o cavaleiro morto portava. Re­provou-se por haver aceitado que se separassem, e que por causa disso Dúrlib tivesse se sentido derrotado pela sua solidão, procurando se refugiar da falta de sentido da vida no jogo e nas bebedeiras que sua pequena fortuna lhe per­mitia. Então Grimpow quis se desfazer da pedra do cavaleiro morto que trazia pendurada no pescoço como se ela fosse uma maldição que já havia causado a morte do cavaleiro das montanhas, a do abade de Brínkdum e a de seu bom amigo Dúrlib. Mas alguma coisa dentro de Grimpow resistia a acreditar que a pedra fosse a verdadeira causa de tantas desgraças. Pensou, também, que se Salietti e ele tivessem chegado antes a Üllpens, talvez tivessem podido ajudá-lo, mas quando falou de seu azar a Salietti, expressando em voz alta as suas reflexões, este lhe respondeu:

O azar é um misterioso jogo de dados, semelhante àquele pelo qual seu amigo Dúrlib era tão apaixonado. Um jogo incerto e irremediável que come­çamos a jogar assim que nascemos e no qual apostamos cada vez que respira­mos, sem saber se a sorte será propícia aos nossos desejos, às nossas descober­tas, às nossas ilusões ou aos nossos sonhos. E nesse jogo ilusório e fantástico que nos faz esquecer de nossos próprios medos, avançamos a cada dia, esco­lhendo ou descartando os números da fortuna ou do infortúnio, ainda que, apesar de todo empenho para evitar as armadilhas do destino, isso seja tão inútil como o pranto diante da morte.

Pelo menos o pranto é um consolo — respondeu Grimpow, enquanto Salietti abria a portinhola da janelinha e deixava entrar no sótão alguns raios de sol que, embora tímidos e sem brilho, conseguiram deslumbrar Grimpow.

Então o faça, chore a morte de seu amigo até que não lhe reste uma única lágrima nos olhos. Mas quando acabar, pense que você tem de conti­nuar vivendo, e alegre-se pensando que seu amigo Dúrlib também continuará vivo em suas recordações.

Grimpow levantou-se do catre com um único salto, disposto a descer aos estábulos para preparar suas montarias e partir imediatamente na direção da cidade de Estrasburgo.

Irei encilhar os cavalos — disse.

Espere um pouco — deteve-o Salietti levantando o braço. — Se vamos continuar juntos a nossa viagem, é necessário que antes conversemos com franqueza de homem para homem, esquecendo que eu sou um cavaleiro e você meu escudeiro. A partir de agora não haverá nenhuma diferença entre nós dois, a não ser aquela que convenha a ambos para seguir adiante — e ao dizer isso ficou em silêncio, esperando, com as sobrancelhas alçadas em um gesto de interrogação, que Grimpow manifestasse sua concordância com essa proposta.

De acordo — aceitou Grimpow mais animado, sentando-se de novo no catre.

Salietti se sentou diante dele e o olhou fixamente nos olhos.

— Quem era, de verdade, seu amigo Dúrlib? — perguntou.

Grimpow lhe disse que Dúrlib era um ladrão e um enganador, e lhe contou quando e como o conhecera, e por que passavam os invernos nas montanhas da abadia de Brínkdum.

Salietti assentiu, dando-se por satisfeito com suas explicações.

E que história é essa que seu amigo contava sobre o cavaleiro que havia encontrado morto nas montanhas?

Então Grimpow lhe falou do cadáver que encontraram na neve, do peque­no tesouro que levava em seu alforje: as moedas de prata, as jóias e as bijuterias, as adagas com as empunhaduras incrustadas com safiras e rubis, a mensa­gem lacrada e o lacre de ouro; disse-lhe que o corpo daquele cavaleiro morto sobre a neve desaparecera diante de seus olhos de um modo tão súbito como incompreensível. Depois lhe explicou que ele havia conseguido decifrar os estranhos símbolos da mensagem lacrada, e lhe falou do propósito de Dúrlib e dele de procurar Aidor Bílbicum na cidade de Estrasburgo, e de tudo quanto ocorrera depois da chegada do inquisidor Búlvar de Góztell e dos soldados do rei à abadia: a fuga de Dúrlib, o assassinato do abade, seu aprendizado na biblio­teca e sua conversa com o monge cego e centenário Uberto de Alessandria, que estava há mais de vinte anos prostrado em seu leito.

E o que aconteceu com a pedra? — disparou, de repente, Salietti.

Que pedra? — respondeu Grimpow, fingindo ignorar do que ele falava.

Juramos que seríamos sinceros... — disse Salietti franzindo o cenho e convidando Grimpow com seu gesto a não lhe ocultar a verdade.

Grimpow tirou a pequena pedra da bolsinha de linho que levava presa no pescoço e ofereceu-a.

Não estou muito certo de que isto seja exatamente uma pedra — disse, para justificar suas dúvidas.

Salietti pegou a pedra entre suas mãos e Grimpow notou que ela não mu­dava de cor, nem adquiria a tonalidade avermelhada e cintilante que havia vis­to ao tocá-la pela primeira vez com seus dedos.

O irmão Uberto de Alessandria foi quem me disse que você tinha en­contrado o lapis philosophorum, ou a pedra filosofal dos sábios, se você prefe­re chamá-la assim — disse Salietti.

O irmão Uberto? — perguntou Grimpow, sem dissimular sua surpresa, e lembrou que Salietti lhe dissera ao chegar à abadia que conhecia o monge cego. Além do mais, o Sol e a Lua que brasonavam seu escudo eram símbolos alquímicos claros que não passariam despercebidos a nenhum iniciado. — Então o senhor... digo, você... você — titubeou Grimpow à medida que elevava sua voz para manifestar seu aborrecimento —, você não é um cavaleiro, mas um enganador como Dúrlib, um grande velhaco disposto a me enganar.

Salietti deu uma gargalhada.

Não creio ser mais velhaco que você, que tampouco me falou de suas misteriosas intenções. Mas você não deve se preocupar comigo, só vim para ajudá-lo.

Foi o irmão Uberto quem mandou chamá-lo? — quis saber Grimpow com premência na voz.

Foi o irmão Rinaldo de Metz quem enviou um criado de sua confiança com uma mensagem na qual me pedia que fosse à abadia de Brínkdum para dali viajar com você a Estrasburgo. O irmão Uberto havia falado com ele, de­pois de muitos e muitos anos de silêncio, e os dois resolveram que você não podia partir sozinho em busca do segredo dos sábios. Quando o encontrei no caminho da abadia, entendi que era você o menino do qual eles haviam me falado, embora não imaginasse que você mesmo tornaria as coisas tão fáceis para mim, manifestando-me, sem hesitação, seu desejo de converter-se em meu escudeiro.

E por que eles escolheram você? — perguntou Grimpow, ainda descon­certado.

Como eu lhe disse quando nos conhecemos, e nisso não menti, meu pai sempre foi um bom amigo do monge Uberto de Alessandria, pois ambos com­partilharam muitas de suas descobertas e experiências alquímicas desde que fora seu discípulo na Universidade de Pádua. Meu pai costumava vir a cada dois anos visitá-lo na abadia depois que ficara cego, acompanhado por mim desde que faço uso da razão. O irmão Uberto e o irmão Rinaldo me conhe­ciam bem, e sabiam que eu havia estudado em Pádua e em Paris, apesar de minha vocação pelas armas e do título de duque que recebi de meu avô Iacopo de Estaglia, depois que meu pai se recusou a aceitar uma herança carregada de dívidas. Por esses motivos, os dois monges decidiram de comum acordo que eu podia ser a pessoa idônea para acompanhá-lo e protegê-lo em sua viagem.

Espero que você pelo menos saiba alguma coisa sobre o segredo dos sábios — disse Grimpow, feliz de que o irmão Uberto e o irmão Rinaldo hou­vessem escolhido a ele para acompanhá-lo em sua viagem.

Salietti ficou em pé e olhou pela janelinha o céu azul da cidade de Üllpens, girando a misteriosa pedra entre seus dedos.

Não muito mais que você sabe. A mensagem enigmática está com você? — perguntou.

Grimpow abriu um bolso dissimulado entre as costuras de seu gibão, tirou a mensagem dobrada do cavaleiro morto nas montanhas e ofereceu-a. Salietti examinou-a atentamente e passou a pedra sobre ela como se esperasse enten­der os estranhos símbolos em que estava escrita.

É incrível que você tenha chegado a interpretar sozinho esta linguagem cifrada — murmurou, pensativo, depois de comprovar que ele não conseguia decifrar o significado da mensagem apesar de ter a pedra mágica em suas mãos.

Grimpow se limitou a encolher os ombros e disse depois:

Foi a pedra que me permitiu decifrá-la, tenho certeza disso, mas não me pergunte por que, pois não saberia responder.

E você tem certeza do que é dito aqui? — insistiu Salietti.

"No céu estão a escuridão e a luz. Aidor Bílbicum. Estrasburgo." Não esqueci estas palavras desde a primeira vez que as li. Suponho que o irmão Rinaldo terá informado você de que desde que encontrei essa pedra possuo a rara habilidade de compreender qualquer língua, por mais antiga que seja.

Ele me disse alguma coisa a esse respeito, mas fica difícil acreditar que este mineral tão insignificante possa obrar em você tais prodígios — disse Salietti, ao mesmo tempo em que devolvia a pedra e a mensagem.

O irmão Rinaldo está convencido de que o cavaleiro morto nas monta­nhas era um cavaleiro da Ordem do Templo, e que esta pedra é uma parte do segredo que os nove cavaleiros templários descobriram no Templo de Salo­mão de Jerusalém há duzentos anos e que depois trasladaram para a França, escondendo-o em algum lugar desconhecido.

É muito possível — aceitou Salietti sem muita convicção. — Mas isso é, precisamente, o que temos de averiguar.

A mulher da taberna lhes indicou onde poderiam encontrar um comerci­ante de tecidos para trocar seu pobre vestuário por outro mais adequado à nobreza do duque de Estaglia e seu escudeiro. Salietti lhe pagou por sua amabilidade e hospedagem com uma pepita de ouro, e a mulher lhes devolveu algumas moedas de prata, depois de beijar a mão de Salietti como se fosse uma relíquia embalsamada de um santo milagreiro.

Ataviados com elegantes botas, cinturões, camisas, calças e gibões capazes de deslumbrar o próprio sol que iluminava seus passos pelas ruas, apresenta­ram-se à mais renomada oficina de armas de Úllpens, onde foram recebidos por um homem rechonchudo, de cara tão gordurosa e brilhante como a calva de seu crânio, a quem todos chamavam de maese Ailgrup.

Bem-vindo, senhor! — disse maese Ailgrup, reclinando com dificuldade seu corpo redondo em uma profunda reverência. Diga-me o que deseja e eu farei quanto estiver ao meu alcance para servi-lo.

Salietti correspondeu à cortesia do mestre armeiro com uma leve inclina­ção de sua cabeça.

Necessito de uma boa armadura para combater nas justas — disse, en­quanto deslizava seu olhar por um conjunto de armaduras de grande beleza, cujas placas lisas e brunidas pendiam de grandes painéis de veludo vermelho encostados nas paredes. Grimpow também olhava boquiaberto uma nutrida coleção de espadas que repousavam em umas vitrines de cristal quando Salietti levantou seu braço e apontou uma armadura elaborada com leves pla­cas de aço que brilhavam como raios de uma lua prateada. Tinha um elmo rematado por um sol do qual pendia uma crista amarelada como um jorro de ouro, e estava provido de uma viseira curva com amplos respiradouros.

Então tenha a certeza de que escolheu a melhor armaria de Üllpens. Nossas couraças de aço não apenas são apreciadas por garantir a integridade do cavaleiro que a porta, mas também são admiradas como verdadeiras obras de arte.

Posso provar aquela armadura que está ali, maese Ailgrup? Parece a mais sólida e ligeira para combater nos torneios — disse Salietti sem rodeios apontando um dos painéis.

Sem dúvida o senhor sabe o que procura.... — interrompeu-se o mestre armeiro.

Salietti, Salietti de Estaglia, mas se preferir, pode me chamar de duque — disse Salietti, sem arrogância.

Se o senhor Salietti está pensando em participar das justas dos castelos de Alsácia, a armadura que escolheu o ajudará a alcançar a glória da vitória. Será admirado por todas as damas e pelos mais valorosos cavaleiros — disse, em tom de adulação, maese Ailgrup. — Eu posso lhe assegurar que não encon­trará em toda a cidade de Úllpens outra armadura mais original e moderna, tão leve como uma pluma e tão resistente como um diamante — acrescentou, enquanto a recolhia com uma longa vara de madeira rematada por um gan­cho e desprendia uma a uma as placas da armadura escolhida por Salietti.

Depois as foi depositando sobre uma mesa de grandes dimensões en­quanto descrevia em detalhes as virtudes de cada peça da armadura, desde o elmo que protegia a cabeça e a viseira que cobria o rosto, ao barbote que cobria o queixo e a boca, ao gorjal que protegia da garganta ao tórax, às braceleiras, aos guantes e aos escarpins. Uma verdadeira parafernália de peças, correias e ajustes que o escudeiro Grimpow precisaria conhecer quando chegasse o momento de ajudar Salietti a vestir-se de cavaleiro armado para combater nos torneios. Enquanto colocava com paciência e esmero cada peça da armadura sobre o corpo de Salietti sem que Grimpow perdesse ne­nhum detalhe de sua destreza, mestre Ailgrup lhe perguntou:

O senhor também está pensando em se unir ao exército de Figüeltach de Vokko?

Salietti e Grimpow se olharam sem compreender.

Ao exército de Figüeltach de Vokko? — perguntou Salietti, titubeante.

Já vejo que ainda não chegaram à Itália os rumores da guerra — disse maese Ailgrup, tão loquaz como um barbeiro.

Devo confessar que não, e, até onde sei, os arautos de Figüeltach de Vokko anunciavam apenas a comemoração das justas dos castelos da Alsácia para celebrar, como todos os anos, as festas de primavera, convidando todos os cavaleiros do norte da Itália que desejassem participar de seus famosos tor­neios — disse Salietti.

Maese Ailgrup baixou a voz, sabendo do interesse que suas palavras despertariam em seu nobre cliente.

É melhor que meu senhor duque de Estaglia esteja prevenido. Este ano as justas não são mais que uma desculpa para reunir na fortaleza do cobiçoso barão Figüeltach de Vokko todos os cavaleiros possíveis e exigir que se unam sem vacilar à sua nova cruzada.

A palavra "cruzada" retumbou na mente de Grimpow e o fez aguçar o ou­vido, pois o mestre armeiro falava com tanta leveza que mal se podia ouvir sua voz, misturada às vezes a um distante soar de martelos golpeando metais sobre uma bigorna.

Por acaso Figüeltach de Vokko está pensando em capitanear um novo exército para conquistar a Terra Santa? — perguntou descrente Salietti.

Um risinho pouco educado escapou dos lábios inflados de maese Ailgrup.

Oh, não, senhor Salietti! — disse. — Desta vez não será uma cruzada contra os infiéis do Oriente, mas sim contra os hereges dos castelos do Círcu­lo de Pedra, aqueles que ficam do outro lado da fronteira que separa os terri­tórios de Figüeltach de Vokko da Alemanha. — Fez uma pausa para forçar a colocação de uma placa sobre o ombro direito de Salietti, respirou como se estivesse se asfixiando, e continuou: — Segundo meus confidentes, todos no­bres cavaleiros como o senhor pode imaginar pela natureza de meu ofício, o próprio rei de França assistirá aos torneios, e ali proclamará a Santa Cruzada contra os castelos dos protetores dos cavaleiros proscritos do Templo.

Ao ouvir isto, Grimpow lembrou-se de tudo o que o irmão Rinaldo lhe havia contado na abadia de Brínkdum sobre os castelos do Círculo de Pedra, e a proteção que o duque Gulf e seus fiéis cavaleiros davam aos templários fugidos de toda a França depois da perseguição ordenada pelo rei Felipe, o Belo. E teve de morder a língua para não intervir na conversa ao recordar que sua humilde condição de escudeiro ignorante obrigava-o a permanecer em completo silên­cio. Grimpow acreditou, no entanto, que Salietti não ficaria calado como um bobalhão, e não desperdiçaria a ocasião para provocar quanto pudesse o armeiro Ailgrup, aproveitando seu caráter afável e perigosamente indiscreto.

As notícias vindas de Paris — disse o armeiro, e baixou tanto o tom de sua voz que Grimpow teve de se aproximar mais de Salietti para entender o que dizia — asseguram que o grande mestre do Templo, ao lado de outros de seus preceptores e comendadores, foi queimado numa fogueira diante da ca­tedral de Notre Dame, e que antes de morrer lançou uma terrível maldição ao papa e ao rei de França, assegurando que ambos morreriam antes de um ano. Por isso, os rumores indicam que não são os templários fugitivos que o rei Felipe busca, mas sim o segredo que os nove cavaleiros do Templo de Salomão encontraram em Jerusalém há dois séculos, porque só esse segredo seria ca­paz de exorcizar a maldição.

E que têm a ver os castelos do Círculo de Pedra com o segredo dos templários? — indagou Salietti, fingindo desconhecer qualquer detalhe desse assunto, enquanto acomodava a armadura sacudindo os braços e as pernas.

Maese Ailgrup pegou o elmo e alçou-lhe a viseira.

Há quem acredite que os nove cavaleiros que encontraram o tesouro no Templo de Salomão o trouxeram para a França e o ocultaram na fortaleza si­tuada no próprio centro da circunferência formada pelos castelos do Círculo de Pedra. Nove cavaleiros e nove castelos inexpugnáveis — disse o armeiro, piscando um olho a Salietti para sugerir o duplo sentido de suas palavras.

Entendo. Onde melhor do que nos nove castelos do Círculo de Pedra se poderia guardar um segredo tão valioso e cobiçado? — concluiu Salietti, para fazer ver a maese Ailgrup que havia compreendido suas insinuações, e que não necessitava ouvir nenhuma resposta à sua pergunta.

O mestre armeiro alçou o elmo e colocou-o sobre a cabeça de Salietti, cujo aspecto, ataviado com sua reluzente armadura de cavaleiro, era tão majestoso como em tempos distantes devia ter sido o do primeiro duque de Estaglia. Depois disse:

Agora o senhor Salietti está em condições de decidir em que lado vai combater com sua nova e impecável armadura. — E um sorriso de compla­cência e malícia se desenhou em seu rosto.

 

                                       A maldição do ermitão

Para chegar a Estrasburgo, ainda faltavam várias jornadas de caminho. Salietti ardia em desejos de combater nas justas de primavera convocadas por Figüeltach de Vokko para sua fortaleza. De vez em quando voltava a examinar de novo a nova armadura que a mula carregava em seu lombo, como se adivi­nhasse que aquelas placas de metal polidas que cintilavam sob o sol como o ouro dos alquimistas no cristal de um alambique haveriam de lhe salvar a vida. O anúncio que maese Ailgrup lhe havia feito da cruzada que o rei de França se propunha a anunciar contra os castelos do Círculo de Pedra não deixava de inquietá-lo. Sobretudo depois de saber que o segredo dos sábios que Grimpow e ele buscavam poderia estar oculto na fortaleza do duque Gulf, ou em qual­quer um dos outros oito castelos do Círculo de Pedra que o protegiam, como aparentemente faziam crer todos os rumores. Salietti não era tão ingênuo a ponto de dar crédito aos mexericos, mas o que maese Ailgrup havia lhe dito não deixava de ser razoável: "Nove cavaleiros para nove castelos." Que sentido podia ter se não o de que o próprio rei de França fosse encabeçar uma nova cruzada contra os castelos do Círculo de Pedra, conhecendo a lenda de que eram inexpugnáveis? E se era assim, e o segredo dos sábios estava realmente oculto em alguma daquelas fortalezas, que significado teria a misteriosa pe­dra que Grimpow possuía, e quem era o cavaleiro que morrera nas monta­nhas e cujo cadáver havia se desvanecido sobre a neve como um espectro in­visível? E ainda mais, o que significava a enigmática mensagem lacrada e quem era Aidor Bílbicum? Todas estas interrogações assaltavam os pensa­mentos de Salietti enquanto cavalgavam em silêncio pelas planícies de Üllpens, até que deteve seu cavalo e disse:

Creio que devemos começar pelo princípio.

Grimpow deteve o cavalo Astro a seu lado e olhou para Salietti sem enten­der o que ele queria dizer.

Não estou entendendo. Você quer que regressemos de novo à abadia de Brínkdum? — perguntou, rindo.

Eu me refiro ao segredo dos sábios. Procuramos uma coisa que não sa­bemos o que é, nem para que serve, nem onde pode estar escondida — refle­tiu em voz alta, e começou a cavalgar de novo.

Creio que o seu raciocínio foi muito inteligente — brincou Grimpow.

Mas o que é que a gente sabe? — disse Salietti, indiferente ao sarcasmo de seu novo amigo, e sua pergunta ficou pendurada no ar como o açor que planava sobre eles.

Sabemos que possuímos um misterioso objeto capaz de obrar prodígios impossíveis de explicar — salientou Grimpow sua primeira certeza.

Um misterioso objeto que é muito parecido com uma pedra — acres­centou Salietti.

Uma pedra que parece ter sua origem nos primórdios da humanidade - continuou Grimpow.

Uma humanidade que um dia descobriu no lapis philosophorum a sabe­doria — prosseguiu Salietti com o que parecia ser um ingênuo e divertido jogo de palavras enlaçadas, cuja rapidez ia crescendo a cada volta.

Uma sabedoria que foi cultivada pelos sábios.

Sábios que transmitiram seus conhecimentos aos iniciados.

Iniciados que guardaram seus conhecimentos em segredo — disse Grimpow.

Um segredo que há dois séculos foi descoberto pelos nove cavaleiros.

Nove cavaleiros que fundaram a Ordem dos Templários.

Templários que o rei de França persegue há seis anos como proscritos - destacou Salietti.

Proscritos que se refugiaram nos castelos do Círculo.

Castelos do Círculo aos quais se dirigia o cavaleiro morto.

Cavaleiro morto que fugia do inquisidor Búlvar de Góztell e que porta­va um lacre de ouro, uma misteriosa pedra e um pergaminho.

Pergaminho que contém uma mensagem.

Mensagem que fala de Aidor Bílbicum e da cidade de Estrasburgo — disse Grimpow.

Cidade de Estrasburgo a que nós nos dirigiremos depois de participar dos torneios.

Torneios convocados por Figüeltach de Vokko para que o rei de França anuncie sua nova cruzada.

Cruzada que aspira apoderar-se do segredo dos sábios — advertiu Salietti.

Segredo dos sábios relacionado com nossa pedra, que nós também pro­curamos e que supostamente está custodiado pelos nove castelos do Círculo.

Círculo que com esta brincadeira com palavras nós acabamos de fechar, deixando claro o pouco que sabemos e o muito que ainda ignoramos — con­cluiu Grimpow, e os dois começaram a rir como nenhum deles lembrava ter feito havia muito tempo.

 

A planície de Üllpens estava coberta por extensos vinhedos e plantações de trigo, e pequenas aldeias salpicavam a paisagem às margens de um rio lar­go que corria em ziguezague entre espessas alamedas como uma longa ser­pente de água em movimento. Em ambos os lados do horizonte, o terreno se ondulava em suaves colinas, sobre cujos cumes se alçavam pequenos castelos de pedra avermelhada que a distância pareciam preguiçosos e adormecidos vigias dos caminhos. Muitos senhores da comarca de Üllpens participariam, como faziam todos os anos, dos torneios das festas de primavera dos castelos da Alsácia, e alguns já haviam se colocado em marcha em direção à fortaleza de Figüeltach de Vokko, acompanhados por suas damas, escudeiros e criados, e carregando seus pavilhões, armas e estandartes. O equipamento de Grimpow, no entanto, era escasso, e seu cortejo era formado apenas pela mula que carrega­va a armadura, o escudo, o estandarte e as galas da cavalgadura que exibiam o brasão do duque de Estaglia.

Detiveram-se ao chegar a um cruzamento de caminhos que seguiam em direção aos quatro pontos cardinais e em cujo centro havia uma ermida sem guarda nem portas que servia como lugar de oração aos caminhantes e pere­grinos. Era uma igreja diminuta e alargada, com um pórtico arqueado que sustentava duas colunas redondas. Junto à ermida, havia um poço e um bebe­douro para os cavalos. O velho ermitão que cuidava da capela estava tomando sol sentado em um banco de pedra, e sustentava em sua mão esquerda um longo bastão que se curvava no extremo ao modo de báculo, mas tinha sua mão direita cortada na altura da munheca.

O velho ermitão sorriu ao vê-los, deixando a descoberto o único dente que pendia de sua dentadura. Vestia um longo saião esfarrapado preso à cintura por um cíngulo de junco, estava descalço e parecia ser mais louco que cordato.

Fujam, fujam agora que ainda há tempo de evitar a cólera de Deus, fi­lhos malditos do diabo, ou então entrem nesta santa ermida e prostrem-se de joelhos diante da cruz do martírio e supliquem à divina clemência do Senhor o perdão por seus pecados! — gritou, enquanto Grimpow e Salietti se aproxi­mavam do bebedouro para dar de beber aos cavalos.

O velho ermitão ficou em pé e, levantando seu báculo ao céu e engrossando a voz, continuou sua litania, enquanto os fitava, desafiador.

As trombetas do Apocalipse ressoam no céu, e na Terra os gusanos se retorcem sob as tumbas para esconder-se da luz que tudo vê! O fogo eterno está pronto para queimar suas almas! Arderão no inferno! Traidores da fé! Escravos da luxúria! Servidores da gula e da avareza! Ouçam o anúncio do fim! A foice da morte fará rolar na lama sua arrogância de deuses, e suas cabe­ças serão esmagadas sem piedade sob os cascos de vossos cavalos! De nada servirão suas lanças nem suas espadas! As profecias se cumprirão! Arrepen­dam-se e rezem comigo! — concluiu, prostrando-se de joelhos diante deles em um estado de êxtase simulado, enquanto mastigava entre os lábios uma pregação incompreensível.

Salietti dirigiu um olhar compassivo ao velho ermitão e falou com Grimpow em voz baixa.

Está apenas representando sua comédia de falso profeta para ganhar uma boa esmola — disse.

Houve um tempo em que Grimpow e Dúrlib também haviam fingido se­rem cegos ou aleijados para conseguir ganhar uma esmola nas portas das igre­jas ou nas praças dos mercados. O menino sabia que por causa da pobreza e da fome muitos velhacos e vagabundos flanavam famintos por caminhos e al­deias, e não hesitavam em recorrer a qualquer ardil ou patranha para levar um pedaço de pão à boca. Mas Grimpow pareceu vislumbrar no olhar daquele ermitão uma tristeza que apequenava todas as suas outras misérias.

Ele não estava falando com nós dois — disse.

Salietti olhou à sua volta.

Então com quem? Aqui não há mais ninguém, além da mula e dos cavalos.

Falava aos cavaleiros templários. Talvez em seu delírio nos tenha con­fundido com eles.

—E o que o leva e pensar uma coisa dessas? — perguntou Salietti, intrigado.

As palavras que pronunciou.

Não sei a que você se refere. O que ele disse não é mais que diria um profeta do Apocalipse.

O que disse é tudo aquilo de que acusaram os cavaleiros templários para condená-los como hereges — disse Grimpow, entusiasmado com seu raciocí­nio. — Por isso, aos nos ver, nos aconselhou que fugíssemos imediatamente, pois ainda temos tempo de evitar a perseguição. Por isso mencionou os filhos malditos do diabo, os gusanos que se escondem da luz que tudo vê, o fogo do inferno em que arderão suas almas, os traidores da fé, os escravos da luxúria, os servidores da gula e da avareza, a morte que fará rolar sua arrogância de deuses pela lama, e disse que suas cabeças serão esmagadas por seus próprios cavalos, sem que suas lanças e suas espadas lhes sejam de alguma serventia — explicou.

Salietti se sentiu aturdido pela contundência de sua interpretação.

Você tem razão, Grimpow. Os templários foram acusados de adorar o diabo, de esconder-se debaixo da terra como gusanos para celebrar seus ritos ocultando-se dos olhos do Deus que a tudo vê, de ser traidores da fé, de haver cometido o pecado da luxúria realizando atos obscenos entre eles, de comer carne em vigília e de haver acumulado riquezas até chegar a acreditar serem deuses.

E é certo que foram esmagados pelo próprio papa e o próprio rei que, com seus cavalos, os haviam reverenciado no passado — acrescentou Grimpow —, sem que suas lanças e suas espadas lhes servissem para escapar de arder na fogueira.

Grimpow apeou de seu cavalo Astro, deixou-o recuperando-se no bebe­douro e aproximou-se do ancião que continuava de joelhos diante deles com o olhar perdido no infinito. Ajudou-o a se levantar e caminhou ao seu lado até o banco de pedra situado perto da ermida. Muito perto dali, uma amoreira projetava sua ampla sombra sobre o sol, e entre seus galhos se ouvia um vigo­roso piar de pássaros.

Como o senhor se chama? — perguntou Grimpow ao velho ermitão.

Que importa o meu nome! — disse, aos berros.

Ao ajudá-lo a se sentar no banco de pedra, Grimpow percebeu que sob a nuca tinha marcada a ferro incandescente uma cruz oitavada como a que ha­via visto na capa branca e na espada do irmão Rinaldo de Metz na gruta sub­terrânea da abadia.

O senhor é um cavaleiro templário? — lhe perguntou.

Por acaso a Ordem do Templo ainda existe? — respondeu o ancião, fi­tando o vazio.

Depois de se sentar ao seu lado, Grimpow contemplou o que restava de sua mão direita. Uma maçaroca de pele enrugada e podre.

Como o senhor perdeu sua mão? — insistiu Grimpow.

Eles a cortaram para que eu não pudesse mais empunhar uma espada — respondeu o ancião.

Salietti se aproximou sorrateiramente e ficou em pé diante deles dando as costas ao sol que começava a declinar no oeste. Grimpow lhe fez um gesto com os olhos para que não o interrompesse, e ele assentiu.

Quem são eles? — continuou Grimpow.

Os verdugos do rei de França — disse o ancião.

O senhor foi torturado?

O velho ermitão assentiu, humilhado.

Não tivemos oportunidade de nos defender. Entraram ao raiar da auro­ra na Torre do Templo de Paris como raposas em um curral, aprisionaram a todos e levaram nossos documentos e tesouros. Agora já não resta nada além de cadáveres calcinados de centenas de templários que arderam nas fogueiras e nem sequer foram enterrados em terra sagrada como teria sido seu desejo. — O velho ermitão falava sozinho, levado pela maré de suas tristes recorda­ções, e Grimpow deixou que continuasse. — Eu fui separado dos demais e me enfiaram numa masmorra cheia de água e infestada de ratazanas, onde per­maneci encerrado sem ver a luz durante anos, submetido aos mais horríveis tormentos. Diziam que eu sabia de coisas que eles queriam conhecer e esta­vam dispostos a arrancá-las com as tenazes da Inquisição.

Como o senhor conseguiu escapar do cativeiro?

Pensaram que eu já havia ficado suficientemente louco para que nin­guém acreditasse em mim, e o inquisidor Búlvar de Góztell, de quem eu havia sido mordomo-mor enquanto esteve na Ordem do Templo, resolveu ser benévolo comigo e me deixou escapar depois que eu lhes entreguei o que queriam. Desde então vaguei sem rumo até encontrar abrigo nesta ermida abandonada e sem outro dono a não ser os peregrinos, e aqui aguardarei o fim dos meus dias, cuja chegada anseio tanto como o deserto aguarda o frescor da chuva — disse, com voz débil. — Levantaram contra nós as piores calúnias que podem ser concebidas e assassinaram nossos irmãos só porque queriam conhecer nosso segredo.

Salietti sobressaltou-se como se uma faísca houvesse sacudido seu corpo, mas não moveu uma pálpebra.

De que segredo o senhor fala? — perguntou.

Daquele que a lenda assegura que os nove cavaleiros encontraram em Jerusalém antes de fundar a Ordem do Templo, há mais de duzentos anos.

Os olhos de Salietti não se afastavam de Grimpow, temendo que o velho ermitão voltasse ao seu estado anterior de loucura.

Suponho que o senhor conheça esse segredo — insinuou Grimpow.

Não — disse, e calou-se como se não desejasse continuar recordando alguns fatos que tantos sofrimentos haviam lhe causado.

O senhor quer dizer que não existia nenhum segredo? — interveio Salietti.

Quero dizer que os nove cavaleiros do Templo não descobriram ne­nhum segredo, apenas se limitaram a transportar alguma coisa de Jerusalém a Paris por encomenda de uma sociedade secreta de sábios, em troca de signifi­cativas somas de ouro. Sua missão foi apenas a de proteger o valioso conteúdo de uma misteriosa carreta dos assaltos dos muçulmanos, e garantir sua chega­da à França. Nem sequer sabiam o que transportavam. Ninguém nunca soube.

Salietti pareceu ficar desanimado com a resposta do velho mendigo, mas o que ele dizia confirmava as suspeitas de Grimpow de que o cavaleiro morto nas montanhas não era um templário em fuga, mas um sábio perseguido.

Como o senhor chegou a saber dessas coisas?

Na fortaleza do Templo de Paris, existiam antigos pergaminhos que confirmavam essa história: cartas, contratos, recibos de pagamento. Eu era o encarregado de guardá-los, até que eles me torturaram e eu acabei confessando onde estavam escondidos.

Aparecia nesses pergaminhos o nome dessa sociedade secreta de sá­bios? — quis saber Salietti, espantado com seu encontro casual com o velho ermitão.

Ouroboros — disse, divertindo-se com a pronúncia da palavra.

"Sim!", gritou Grimpow para si mesmo, e também viu que os olhos de Salietti se dilatavam, como se soubesse tanto como ele do que o velho ermitão estava falando.

O senhor se refere à serpente que morde o próprio rabo? — perguntou Grimpow.

O ancião assentiu.

E o senhor chegou a conhecer algum membro dessa sociedade secreta? — continuou.

Ninguém os conhece, são tão invisíveis como fantasmas. Podem estar em qualquer lugar e passar despercebidos diante dos olhos mais perspicazes. São como sombras, como espectros silenciosos.

Os documentos que o senhor chegou a conhecer mencionavam o lugar onde está escondido o segredo dos sábios? — indagou Salietti.

Não, esses pergaminhos só mencionavam um simples pacto comercial entre os nove cavaleiros e a enigmática sociedade chamada Ouroboros. São contadas muitas histórias a respeito desse segredo, mas ninguém jamais con­seguiu encontrá-lo, nem descobrir do que se trata, nem onde está escondido.

Então, por que o rei de França está atrás dele? — perguntou Grimpow.

Ele acredita que se conseguir se apoderar desse segredo não haverá em toda a Terra nenhum poder que possa se equiparar ao seu, e que, inclusive, alcançará a imortalidade, esconjurando assim a maldição que o grande mestre do Templo Jacques de Molay lhe lançou na fogueira antes de morrer. Já sei que vocês também estão atrás desse segredo, posso ler em seu pensamento. São muitos aqueles que o procuram há séculos, e muitos também os que perde­ram a vida tentando desvendar o mistério. Todos se esqueceram da velha mal­dição, mas ela está aí, como uma fera entre as trevas, pronta para devorar sem piedade os curiosos que se atrevem a perturbar seu sono eterno.

A maldição? O senhor se refere à maldição do grande mestre do Tem­plo? — perguntou Salietti.

O velho ermitão abriu os olhos e os girou até deixá-los em branco.

Não, a maldição de que falo é tão antiga como o tempo. Malditos os que ousarem penetrar na essência do mistério, porque as portas que conseguirem abrir se fecharão para sempre atrás deles! — gritou, sem deixar de fitar o vazio.

Salietti e Grimpow trocaram uma pergunta mentalmente sobre como po­deriam encontrar o segredo dos sábios e o velho ermitão pareceu compreen­dê-los sem que tivessem de pronunciar uma palavra.

Se vocês querem chegar até ele, terão de aprender a interpretar a lingua­gem da pedra — respondeu, sem olhá-los.

A pedra filosofal, é a ela que o senhor se refere, ao lapis philosophorum? — perguntou Grimpow.

Mas o velho ermitão entrecerrou os olhos e começou a balbuciar um sem-fim de palavras sem sentido, como se tivesse entrado em um transe que logo o devolveria a seu antigo estado de loucura, do qual, talvez, pensou Salietti, não houvesse nunca saído.

Fujam, fujam agora que ainda há tempo de evitar a cólera de Deus, fi­lhos malditos do diabo, ou então entrem nesta santa ermida e prostrem-se de joelhos diante da cruz do martírio e supliquem à divina clemência do Senhor o perdão por seus pecados!

Grimpow e Salietti viram sua sombra desaparecer no pórtico da igreja como se estivesse se embrenhando em um túnel onde o tempo não existisse, e sua voz se afogou no silêncio como o dia que começava a afogar-se nas som­bras da noite.

 

                                       O bandido sanguinário

Ao anoitecer acamparam em um páramo imenso desprovido de qualquer vegetação rasteira mas, ao mesmo tempo, arborizado. No horizonte dos qua­tro pontos cardeais não existia nada além de uma longuíssima linha reta na qual se uniam a negritude do céu e os confins da Terra. A abóbada celeste era visível em toda a sua extensão. Parecia a metade de uma esfera oca e transpa­rente que se alçara sobre a meseta até se perder na infinitude de um firmamento salpicado de estrelas. Não havia lua, e tudo o que havia ao seu redor fora devorado pela escuridão. Sem acender o fogo, jantaram lingüiças um tan­to ressecadas, pedaços de pão e queijo e cachos de uva que haviam colhido durante a manhã nos extensos vinhedos que cruzaram.

Sobre eles cintilavam as constelações como se fossem enxames de pirilampos que tivessem tido seus incansáveis vôos noturnos subitamente paralisa­dos. Salietti colocou um alforje sob a cabeça de Grimpow e cobriu seu corpo com uma manta. Uma brisa leve proveniente do norte percorria invisível a planície, arrastando um murmúrio de sons confusos e distantes, que se mistu­ravam ao canto dos grilos e ao coaxar das rãs dos charcos próximos.

O irmão Uberto de Alessandria me disse que as respostas às perguntas sobre o segredo dos sábios estão mais além das estrelas — disse Grimpow, sem deixar de contemplar o belo e imenso céu da noite que tinha diante de seus olhos.

Bem, isso é só uma metáfora, uma maneira de mencionar o mistério que envolve tudo e que não conhecemos. O irmão Uberto gostava muito de desvelar os enigmas do cosmos e da matéria. Passava horas observando o céu e o interior de seus alambiques tentando resolvê-los. É lógico que ele acreditava que as respostas a todas as perguntas que os seres humanos consideram inalcançáveis estão mais além das estrelas. Mas você também não deve se sur­preender com isso, Grimpow. A terra em que pisamos também chegou das estrelas há milhões de séculos, e ainda continua aqui, girando a cada dia ao redor do Sol, para nosso próprio espanto. Eu me recordo de que quando era um menino como você, meu pai costumava me dizer que não há nada mais misterioso que o Universo, e eu ficava olhando todas as noites, abobalhado, para o céu, aprendendo a localizar Mercúrio, Vênus, Júpiter e Saturno entre as constelações do Zodíaco. E imaginava que um belo dia eu mesmo chegaria a tocar as estrelas com minhas mãos — disse Salietti, apontando Vênus com Atenéia, como se o astro que piscava lá em cima, no meio das estrelas, fosse a ponta cintilante de sua espada.

Não sei — titubeou Grimpow. — Quando conversei com o irmão Uberto de Alessandria na enfermaria, tive a impressão de que ele sabia muito mais sobre a pedra filosofal que estava me dizendo.

Não sei a que você se refere — murmurou Salietti.

Grimpow pegou a pedra e contemplou-a de novo, como se fosse a primei­ra vez que a estivesse vendo.

O irmão Uberto soube que eu possuía esta pedra sem que a houvesse visto antes. Adivinhou que desprendia uma insólita luz e conseguiu vê-la ape­sar da sua cegueira — explicou.

Talvez tenha se tratado apenas de uma simples intuição, de uma capaci­dade sensorial adquirida por ele na escuridão profunda de seus pensamentos ao longo de tantos anos sem ver nada. Muitos cegos chegam a desenvolver uma audição tão fina que podem até ouvir de longe as pisadas do mais discre­to e silencioso dos gatos.

Acho que era algo mais que isso. E agora que penso nisso, quase poderia jurar que o irmão Uberto foi um dos sábios que resguardaram o segredo do lapis philosophorum.

Por que você acredita nisso? — perguntou Salietti, olhando com vivo interesse a cor avermelhada que a pedra ia adquirindo nas mãos de Grimpow sob o infinito firmamento das estrelas.

Quando falei com ele, me disse coisas às quais então eu não dei impor­tância, mas que só um sábio pertencente a essa sociedade secreta chamada Ouroboros poderia conhecer.

Essa sociedade secreta é tão antiga que pode ser que nem sequer exista mais — sugeriu Salietti, deixando escapar um bocejo de cansaço e de sono.

Alguma coisa me diz que esse grupo de sábios ainda continua existindo em algum lugar e que o irmão Uberto de Alessandria teve muito a ver com eles.

Meu pai me falava freqüentemente dele quando eu era um menino — disse Salietti, meditabundo. — Eles se conheceram na Universidade de Pádua, onde o irmão Uberto ministrava aulas de filosofia e astronomia defendendo teses revolucionárias sobre a infinitude do Universo, teses que contradiziam as teorias aristotélicas das esferas e o geocentrismo de Ptolomeu. O monge de Alessandria, como meu pai o chamava, assegurava sem vacilar que a Terra era redonda e que todos os planetas giravam ao redor do Sol, o que lhe angariou não poucos inimigos no seio da Igreja, empenhada em sustentar a tese de que a Terra era o centro do Universo e que todos os céus giravam em torno dela. Durante muitos anos, viajou pela Espanha, onde foi mestre de reis e príncipes, viveu em Paris como professor da universidade e depois partiu para a Inglaterra, chegando a escrever em Londres mais de cinqüenta livros sobre todos os ramos do conhecimento. Também viajou pela Ásia e África, dominando todas as línguas e escritas daqueles territórios exóticos, e esteve a ponto de morrer esquartejado nas mãos de tribos selvagens. Todos o con­sideravam um grande sábio, é certo, até que, ao completar 70 anos, foi acu­sado de heresia pelo Santo Ofício, levado a Roma e submetido a julgamento. E se não fosse pelo fato de ter se retratado a tempo de suas idéias, não tenha dúvidas de que o teriam queimado em uma fogueira para que ardesse vivo como os pecadores mortos que ardem eternamente no inferno. Humilhado e cansado, refugiou-se na abadia de Brínkdum, e seu nome ficou, desde en­tão, no mais completo esquecimento — concluiu Salietti, deixando escapar um suspiro.

Depois de ouvir Salietti, Grimpow sentiu um tremor percorrer seu corpo e se sentou no chão duro do páramo.

Claro! — exclamou diante do olhar atônito de Salietti. — Agora estou vendo tudo nitidamente.

Salietti também se levantou e cravou seus olhos nos de Grimpow.

Será que você é um outro alucinado? — perguntou, aturdido.

Você não entende? O irmão Uberto teve, durante muitos anos, esta mes­ma pedra em suas mãos. Ele foi o encarregado de guardá-la e ao lacre de ouro da sociedade secreta dos sábios com o símbolo do Ouroboros, e quando che­gou o momento de entregá-la a seu discípulo para que fosse o novo guardião do segredo, resistiu a afastar-se dela. Ele mesmo me disse isso na enfermaria da abadia, sem que eu me desse conta naquele momento daquilo que ele esta­va querendo me dizer. Viu-se tentado a alcançar a imortalidade cercado de riquezas, e traiu os princípios e crenças que antes tanto respeitara. Depois se arrependeu e devolveu a pedra ao seu curso secreto. Mas se empenhou, inutil­mente, em fabricar outra pedra igual a esta em seu laboratório, como preten­diam os alquimistas, mesmo tendo consciência de que isso não era mais pos­sível. Por isso me disse que esta pedra poderia até me matar, como chegou a privá-lo da visão e da razão.

Talvez o irmão Uberto estivesse se referindo à própria maldição da qual o velho ermitão nos falou hoje de manhã — disse Salietti.

Eu também pensei a mesma coisa. Desde que encontrei esta pedra, só aconteceram à minha volta desgraças e desgraças: a morte do cavaleiro que a portava nas montanhas, minha separação de Dúrlib, sua execução na forca como ele sempre me havia anunciado, o assassinato do abade de Brínkdum, a guerra que se avizinha contra os castelos do Círculo de Pedra, a cegueira do irmão Uberto — disse Grimpow, abatido por tantos infortúnios.

Se você vê as coisas dessa maneira, terá de culpar essa misteriosa pedra por todas as desgraças que têm afligido a humanidade desde que ela começou a habitar este prodigioso planeta — disse Salietti, sorrindo. — O cavaleiro morto nas montanhas morreu congelado pelo frio; o abade de Brínkdum foi degolado por um esbirro do inquisidor Búlvar de Góztell para que não pudes­se revelar a ninguém as intenções do papa e do rei de França de se apodera­rem do segredo dos sábios; seu amigo Dúrlib morreu enforcado como temia porque esse é o fim mais provável dos ladrões que matam com sua espada soldados a serviço de nobres, mesmo que seja para se defender, e a guerra que se anuncia é uma mera conseqüência da ambição desmedida de senhores tão poderosos como o rei e o barão Figüeltach de Vokko. Quanto à cegueira do irmão Uberto, foi apenas um acidente, e foram os cristais de seu alambique e não sua pedra que o deixaram cego. Não há nenhuma maldição atrás de todos esses acontecimentos, que teriam acontecido da mesma maneira mesmo que você não tivesse encontrado a pedra.

Tomara que você tenha razão e tudo tenha sido fruto do azar, mas acre­dito que também haja alguma verdade nas palavras que o velho ermitão disse sobre a maldição que aqueles que ousarem penetrar a essência do mistério arrastarão pela vida.

A julgar por sua evidente loucura, não acredito que nada do que o ermitão nos disse sobre essa maldição, os templários e a sociedade secreta de sábios chamada Ouroboros seja correto. Provavelmente, ouviu falar das len­das e fantasias que os trovadores contam nas praças das aldeias, e ele mesmo as recria em seu desvario, como se realmente fossem verdades — murmurou Salietti, voltando a se deitar e a observar o céu.

Eu não acho que tenha mentido — opinou Grimpow. — O Ouroboros é o símbolo do lacre de ouro e do lacre do pergaminho que o cavaleiro morto nas montanhas portava, e o velho ermitão tinha gravada a fogo sob sua nuca a cruz oitavada dos templários. Tenho certeza disso.

Você a viu? Por que não comentou comigo esse detalhe? — perguntou Salietti, levantando-se de novo.

Eu achei que você também a havia visto. E o horrível coto de sua mão falava por si só das torturas a que foi submetido.

Sim, os verdugos da Inquisição ganharam uma merecida fama de assas­sinos, e não há invenção nenhuma nos cruéis tormentos que usaram para in­terrogar os cavaleiros da Ordem do Templo — acrescentou Salietti.

Pelo menos sabemos agora que os templários não tiveram nada a ver com o segredo dos sábios, a não ser a ação de trasladá-lo de Jerusalém a Paris para protegê-lo do assalto dos muçulmanos.

Se isso está correto, parece evidente que foram os membros dessa socie­dade secreta de sábios que o encontraram em Jerusalém — observou Salietti.

E só eles sabiam onde o esconderam na França — acrescentou Grimpow.

Mas, segundo a teoria, pelo menos um deles conservou a pedra que você possui agora, e a transferiu a seu discípulo antes de morrer, e este ao seu, até que chegou às mãos do irmão Uberto de Alessandria.

Assim é, e o cavaleiro morto nas montanhas devia ser o último detentor da pedra, e provavelmente um antigo discípulo do irmão Uberto, ou um discí­pulo de um discípulo deste — disse Grimpow, tentando ordenar suas refle­xões em voz alta.

E se esse tal de Aidor Bílbicum de Estrasburgo for o sábio que deveria receber a pedra para continuar ocultando-a? — sugeriu Salietti, tão empe­nhado quanto Grimpow em buscar respostas a suas muitas perguntas.

É possível — admitiu Grimpow. — Mas, então, que sentido tem o fato de o cavaleiro das montanhas ter sido perseguido pelo inquisidor Búlvar de Góztell?

Acho quase certo que os astutos cães de caça do rei de França consegui­ram descobrir o rastro da sociedade secreta dos sábios nos impiedosos inter­rogatórios a que submeteram os cavaleiros templários, como observou o ve­lho ermitão quando nos falou dos pergaminhos que ele guardava na Torre do Templo de Paris — disse Salietti.

O que parece certo é que esse velho ermitão não estava tão louco como parecia. Você se lembra do que nos disse que deveríamos fazer para encontrar o segredo dos sábios? — perguntou Grimpow.

Ele nos disse que deveríamos aprender a interpretar a linguagem da pe­dra — murmurou Salietti, vencido pelo sono.

É isso — disse Grimpow, olhando a luz avermelhada que cintilava em sua mão. — Mas qual é essa linguagem, e como poderemos aprender a interpretá-la? — perguntou sem ter outra resposta que não fossem os prazerosos roncos do nobre duque de Estaglia, que dormia profundamente ao lado de seu amigo.

Antes da aurora, as estrelas ainda pigmentavam o céu da noite, mas, len­tamente, uma luz pálida e celeste foi crescendo pelo lado do Ocidente até fazê-las desaparecer. Depois o sol invadiu o horizonte com sua poderosa es­fera de fogo e, quando eles voltaram ao caminho, seus raios dourados reina­vam sobre a imensidão do páramo que se estendia a seus pés como um oce­ano de terra estéril e parda. Cavalgaram durante muitas léguas em linha reta no sentido norte. Salietti aproveitou para contar a Grimpow a respeito de sua vida de estudante nas universidades de Pádua e Paris. Tinha o entusias­mo de quem sente saudade de um passado feliz que agora só sobrevivia nas recordações.

No meio da manhã, a paisagem começou a mudar diante deles. Lá longe se adivinhava um perfil de altas colinas e bosques profundos, que não tardaram a alcançar debaixo de um calor sufocante. Cavalgavam evitando trilhas e ca­minhos que desciam até o sul para não encontrar as caravanas de peregrinos que se dirigiam à fortaleza do barão Figüeltach de Vokko a fim de participar das justas de primavera nos castelos da Alsácia.

Quando penetraram nas sombras de um denso bosque de faias e matagais, foram recebidos por um sopro de ar fresco que agitava fora de compasso as copas das árvores. Nada quebrava o silêncio, nem sequer o silvo dos pássaros ou a correria dos esquilos sobre a folharada que cobria o solo. Mesmo os pas­sos de suas montarias pareciam afundar na densa calma que os envolvia. E aí uma voz grave soou sobre suas cabeças como se fosse o próprio Deus quem lhes falava.

Detenham os cavalos e joguem as armas no chão se não quiserem hos­pedar uma flecha envenenada entre os olhos!

Surpreendidos pela voz de origem desconhecida, Salietti e Grimpow pu­xaram as rédeas dos cavalos, detendo-os imediatamente. Acariciando o pesco­ço de seu cavalo, Salietti desapertou o cinto e deixou que sua espada desembainhada desabasse no solo, enquanto Grimpow se desfazia de seu arco e de sua aljava, deixando-os cair ao lado das patas de Astro.

Os olhos de Salietti perscrutaram entre os galhos das árvores, sem conse­guir ver nada além das copas agitadas pelo vento.

Agora desçam dos cavalos e afastem-se deles! — voltou a gritar a voz.

Fizeram o que a voz lhes ordenava, e Salietti gritou ao vazio:

Vocês são tão valentes que se sentem obrigados a ocultar seus rostos entre as sombras do bosque?

Durante um momento, não houve nenhuma resposta à pergunta de Salietti, como se aquela voz incerta só houvesse sido um eco ou um rumor que o vento arrastara. Mas, aos poucos, um grupo de bandoleiros armados com arcos que superava uma dúzia foi caindo das árvores próximas e os foi cercando até formarem um círculo fechado em torno deles. Eram homens ru­des de longas barbas e olhar grosseiro que vestiam calças e gibões esfarrapados.

Um dos bandidos se adiantou ao grupo de salteadores e aproximou-se de Sa­lietti. Tinha uma longa barba ruiva, um olho azul e o outro negro, seu nariz era imenso e redondo, picado de varíola, e seu corpo robusto como um carvalho.

Digam-me quem são vocês e o que os trás ao bosque de Oppernái — disse com a mesma voz grave que os recebera na sua chegada.

Meu nome é Salietti de Estaglia e quem me acompanha é Grimpow, meu escudeiro. Estamos indo para a fortaleza do barão Figüeltach de Vokko, para participar dos torneios de primavera dos castelos da Alsácia.

O caminho do norte fica a várias léguas daqui. Se você é um cavaleiro, por que cavalga atravessando os campos como se fosse um proscrito?

Nós nos perdemos ontem à noite e voltamos para tentar encontrar o caminho — explicou Salietti, sem afastar os olhos dos bandidos que esta­vam se apossando das rédeas de seus cavalos e recolhendo suas armas atira­das ao chão.

Pois, para nossa sorte, você escolheu a rota mais adequada, meu senhor Salietti! — disse o bandido, soltando uma gargalhada. — Se vocês carregam jóias ou moedas de prata e ouro, será melhor irem entregando-as já, antes que eu me disponha a arrancar à força até os piolhos que se escondem em seus cabelos. Ficaremos com tudo o que vocês têm a título de pagamento do im­posto devido por quem cruza este bosque de Oppernái sem ter licença de seu dono — disse o robusto salteador, piscando seu olho azul de maneira incontrolada.

Nossa única fortuna são nossos cavalos, nossa mula e nossas armas. Se você nos privar delas, será o mesmo que nos condenar à mais completa misé­ria — disse Salietti.

Vocês sempre poderão se juntar ao nosso bando — ironizou o bandido. — Aqui, todos os mendigos e miseráveis da sua nova condição são bem rece­bidos. E agora tirem as roupas e deixem-nas ao lado dessa árvore — acrescen­tou, com um esgar de brutalidade que mal se conseguia ver atrás de suas desgrenhadas barbas vermelhas.

Você quer que nós fiquemos nus? — perguntou Grimpow indignado, embora não o surpreendesse os métodos usados pelos salteadores de estrada para despojar suas vítimas.

Se você prefere que eu o faça, menino pequeno, além de lhe arrancar a camisa e o gibão com minhas próprias mãos, despelarei você como a um coe­lho e pregarei os pedaços de sua pele nas árvores para atrair os ursos e as for­migas — disse, irritadiço, o homem que parecia ser o chefe dos salteadores.

Salietti fez um gesto a Grimpow para que obedecesse ao bandido e os dois começaram a despojar-se de seus luxuosos atavios até ficarem completamente desnudos. Grimpow não se preocupava com a possibilidade de encontrarem com ele o lacre de ouro nem a mensagem lacrada nem a bolsa com as pepitas douradas que o irmão Ássben havia lhe dado quando partia da abadia, pois Salietti os havia escondido dentro da sela de seu cavalo, em um lugar difícil de localizar. Mas quando um dos bandidos se deu conta da bolsa de linho que pendia do seu pescoço, aproximou-se de Grimpow e com um puxão arran­cou-a, sem mais nem menos.

O que você carrega aí dentro? — perguntou, exibindo sua dentadura suja e melada.

Apenas um amuleto que minha mãe pendurou há muito tempo no meu pescoço para me proteger de espíritos tão maus como o de vocês. Se você ficar com ele, será vítima de uma terrível maldição que fará com que arraste essa sua barriga gorda pela terra como uma lagartixa pestilenta — disparou Grimpow, numa tentativa de assustar o salteador.

O bandido, impressionado pela ingênua ameaça de Grimpow, entregou a bolsa ao salteador ruivo, que a abriu com receio.

Ora! Trata-se apenas de uma pedra e de um pouco de alecrim. Minha avó também costumava conjurar o azar com esse tipo de fetiches. A velha aca­bou ardendo numa pira de lenha com outras velhas bruxas de sua aldeia acu­sadas de serem responsáveis por uma epidemia que matou todos os porcos, ovelhas, vacas e cabras da comarca — murmurou com desdém, jogando de novo a Grimpow a bolsa com o alecrim, e ficando com a pedra. — Espero que vocês tenham coisas mais valiosas que isto — acrescentou, olhando a pedra com curiosidade —, se não quiserem que Drusklo queime a planta dos seus pés na fogueira do nosso acampamento até que eles fiquem tão vivamente ver­melhos como as próprias brasas que ardem nela — disse, rindo, provocando um coro de murmúrios jocosos de seus companheiros.

Drusklo? Você disse Drusklo, o Sanguinário? — perguntou Grimpow ao ouvir esse nome.

Você ouviu bem, garoto. Por acaso você o conhece? — perguntou o ban­dido ruivo.

Não, não — negou Grimpow —, mas a fama dele na comarca de Üllpens é tanta que até os trovadores enaltecem e relatam suas matanças. Parece até que são façanhas de um herói legendário — acrescentou inquieto com seu fu­turo e o de sua pedra, enquanto um par de foragidos pegava as roupas de Salietti e revistava cuidadosamente até suas dobras e pregas mais recônditas sem encontrar nada.

Depois foram revistar as roupas de Grimpow e quando um deles sacudiu as calças caiu no chão a pequena adaga com safiras e rubis que Dúrlib havia lhe dado nas montanhas depois de encontrá-la no alforje do cavaleiro morto.

Ora, ora, ora, achamos um pequeno tesouro! — exclamou o bandido que segurava a adaga diante dos olhos, hipnotizado pelas jóias incrustadas na empunhadura do punhal.

Dê-me essa adaga! — gritou o ruivo, ao mesmo tempo em que lhe arre­batava a arma das mãos com um tapa. O bandido examinou a adaga e não pôde conter sua alegria. Encarou Grimpow, levantou-a acima da cabeça, e aí lhe perguntou: — De onde você tirou esta jóia?

Salietti se antecipou e respondeu por Grimpow:

Fui eu mesmo quem a deu ao meu escudeiro para que a guardasse para o caso de precisar se defender de algum réptil ao entrar no bosque — mentiu.

Esta adaga pertenceu a algum daqueles infiéis que os cavaleiros das cru­zadas matavam na Terra Santa — contestou-o o bandido. — Eu as conheço bem, pois eu mesmo viajei quando era jovem em busca da fortuna para aque­las terras, e só graças à divina providência consegui salvar meu pescoço das afiadas adagas dos hassassin, depois de uma terrível emboscada. Drusklo se alegrará ao ver este butim, seus cavalos e sua armadura impecável. Até é possí­vel que seja generoso com vocês e lhes conceda a vida em troca de cortar seus dedos e orelhas — disse, voltando a rir como se estivesse bêbado.

O líder da banda de foragidos ordenou que vestissem suas botas e suas calças. Depois empurrou suas costas bruscamente, ordenando que começas­sem a andar, sempre na mira dos arcos de seus homens. Salietti fingia mostrar-se dócil e assustadiço e piscou malandramente um olho para Grimpow insinuando que encontraria depressa uma maneira de recuperar tudo aquilo que os foragidos lhes haviam roubado.

Caminharam durante algum tempo seminus na direção oeste, até o lugar onde o sol declinava com lentidão encoberto por cinzentas nuvens pesadas que anunciavam ao longe uma tormenta. O bosque foi ficando cada vez, a cada passo, mais denso e impenetrável, até que acabou cobrindo completa­mente suas cabeças com sua densa malha de galhos entrelaçados. Os bandi­dos os proibiram de falar entre eles, mas Salietti se aproximou de Grimpow e perguntou, sussurrando, se era verdade que conhecia o tal salteador de estra­das chamado Drusklo, o Sanguinário. Grimpow assentiu sem chamar a aten­ção dos bandidos, que seguiam de perto seus passos e observavam cada um de seus movimentos. Grimpow sabia muito bem quem era Drusklo, o Sanguiná­rio. Esse terrível apelido não apenas não desmerecia sua fama de bandido impiedoso, mas também era um reflexo fiel da crueldade com que destripava suas vítimas, abrindo suas barrigas de cima a baixo com sua afiada faca de açougueiro, deixando depois que sangrassem como porcos. Seu amigo Dúrlib pertencera ao bando de Drusklo e o havia abandonado por diferenças surgi­das entre eles em torno do caráter cada vez mais violento e sanguinário de suas ações. As divergências acabaram levando-os a um duelo de espadas. Drusklo foi ferido seriamente e jurou vingar-se de Dúrlib, embora ele tivesse poupado sua vida depois de tê-lo desarmado e deixado-o, portanto, à mercê de sua espada. Não haviam voltado a se encontrar desde então. Dúrlib havia contado a Grimpow que quando Drusklo era um menino matara com uma flechada no coração um senhor que o esbofeteara durante uma caça à raposa porque soltara os cães antes que tivesse recebido ordens para que o fizesse. Conseguiu escapar e se refugiou na floresta, mas quando voltou na noite da­quele mesmo dia à aldeia de seus pais encontrou-os e a seus dois irmãos me­nores pendurados diante da porta de sua casa miserável com os olhos arran­cados e as tripas fora do abdome. Enlouquecido, Drusklo se uniu a um bando de camponeses rebeldes e com o tempo virou líder de um nutrido grupo de ladrões, mendigos, frades renegados, assassinos e proscritos. Assaltavam igre­jas, abadias, aldeias, granjas e pequenos castelos, queimavam fazendas e plan­tações, e aterrorizavam caminhantes e peregrinos, esquartejando-os sem pie­dade e abandonando seus corpos à beira das estradas.

Em um clarão do bosque ardia uma fogueira, e chegou até a eles o odor da carne queimada de cervos que estavam sendo assados na brasa. Ao redor viam-se algumas choças feitas com peles e galhos secos, e muitos homens armados com longos pedaços de madeira e grandes arcos saíram ao seu en­contro para vê-los chegar seminus e assustados. Alguns riam e se divertiam com o aspecto dos recém-chegados. Outros os olhavam com a curiosidade de seres primitivos que jamais haviam visto um nobre manietado seguido pelo seu escudeiro.

Salietti supôs que o primeiro que vinha em sua direção era Drusklo, pois trazia presa às costas uma gasta capa de seda de cor grená e portava sobre sua emaranhada cabeleira uma desengonçada coroa de latão enferrujado que lhe conferia um ar altaneiro de rei destronado. Tinha uma parte de seu rosto queimada, embora suas profundas cicatrizes estivessem escondidas atrás de uma espessa barba esbranquiçada. Antes de vê-lo, Grimpow chegou a pensar que seria mais jovem, talvez da idade de Dúrlib, mas seu aspecto era o de um ho­mem envelhecido, cujos músculos, no entanto, mantinham o vigor de uma ju­ventude perdida. Seus olhos eram tão frios e negros que pareciam esculpir na sua cara todo o ódio que Drusklo havia armazenado desde que sua família fora assassinada.

O senhor se considera um rei e trata desse modo a um cavaleiro? — provocou-o Salietti assim que se viu diante dele.

As leis deste reino não têm nada a ver com as normas da cavalaria. Aqui neste bosque prevalecem as regras das bestas. Agora você é como um cervo encurralado à espera do momento em que será devorado pelos lobos. E nós somos isso, lobos que devoram os homens que ousam entrar no bosque de Oppernái, onde, como você pode ver, eu sou o rei da manada, e eles meus fiéis vassalos — disse Drusklo com sarcasmo, espalhando o olhar pelos bandidos que o cercavam.

O bandido ruivo entregou a adaga a Drusklo com um gesto de medo e submissão.

Eles só tinham isso, e esta pedra que o menino trazia dependurada no pescoço — disse, mostrando o estranho minério ao chefe.

Drusklo não deu importância ao minério, mas olhou a adaga sem dissimu­lar sua admiração pelas jóias que adornavam a empunhadura.

De onde vocês são? — perguntou o bandido sem levantar os olhos da arma.

Meu nome é Salietti, duque de Estaglia.

Você é italiano?

Da região do Piemonte.

E o que o trás a estas terras tão distantes das suas?

Estamos indo à fortaleza do barão Figüeltach de Vokko para participar dos torneios de primavera dos castelos da Alsácia, se o senhor não vir nenhum inconveniente.

Drusklo afastou os olhos da adaga, apontou com ela para o coração de Salietti e ficou ensimesmado durante um instante. Depois apoiou a ponta da arma no peito do duque até penetrar sua pele sem feri-lo, e o mirou fixamente nos olhos.

Talvez possamos chegar a um acordo.

Salietti deslizou seu olhar até Grimpow sem compreender que acordo Drusklo, o Sanguinário, poderia lhe oferecer, mas o menino se limitou a per­manecer em silêncio, como cabia a um fiel escudeiro sempre que estivesse di­ante de grandes assuntos que deveriam ser resolvidos pelo seu senhor.

Se o senhor deseja que negociemos como cavaleiros, e não como as bes­tas que mencionou para nos amedrontar, deve ordenar a seus homens que nos desamarrem e devolvam nossas vestimentas.

O impiedoso chefe dos bandidos fez um gesto ao ruivo para que cortasse as amarras das mãos de seus reféns, e outro foragido se apressou a lhes entre­gar seus gibões, cintos e camisas.

E a minha espada, meus cavalos, minha armadura? — perguntou Sa­lietti, depois de acomodar seu gibão e acariciar a pele dos pulsos, finalmente livre das ataduras.

Falaremos disso mais tarde. Agora me diga uma coisa: o que você sabe da guerra a respeito da qual murmuram todos os caminhantes e peregrinos que se dirigem ao norte?

Segundo as notícias que tenho, o barão Figüeltach de Vokko, aliado ao rei de França e abençoado pelo papa Clemente, se prepara para assaltar os castelos do Círculo para prender todos os templários foragidos que encontra­ram abrigo nas fortalezas do duque de Östemberg e de seus fiéis cavaleiros. Pensa em aproveitar os torneios da primavera para convocar todos os nobres dos territórios vizinhos a participar da sua cruzada. É provável que até o pró­prio rei de França esteja presente.

E você tem a intenção de se unir aos exércitos do barão de Figüeltach de Vokko para assaltar os castelos do Círculo de Pedra?

O rosto de Salietti se contraiu como se Drusklo, o Sanguinário, estivesse submetendo-o a um questionário que precisaria responder corretamente para não perder a vida. Não sabia mais da guerra que se anunciava que aquilo que maese Ailgrup, o mestre armeiro de Üllpens, lhe havia contado, mas o dilema que devia resolver em segundos era se respondia afirmativamente à pergunta sobre sua intenção de unir-se ao exército que o barão de Vokko estava recru­tando, e não sabia que resposta o bandido desejava ouvir.

Sim, sem dúvida — disse Salietti, decidido. — É com esse propósito que venho de tão longe. Meu ducado em Piemonte é um ducado sem fortuna e espero ganhar fama, honrarias e riquezas combatendo nas justas e na cruzada contra os castelos do Círculo — acrescentou.

Ouvi dizer que o barão Figüeltach de Vokko está disposto a conceder seu perdão a todos os bandos de foragidos que se unirem ao seu exército para combater os protetores dos templários — disse Drusklo diante do olhar cheio de expectativa de seus homens.

Então, o que o impede de acorrer à fortaleza durante as justas, implorar ao barão o indulto de suas malfeitorias e oferecer-lhe seus serviços e os de seu bando? — perguntou Salietti, que ainda não havia compreendido as intenções do bandido.

Drusklo cofiava a barba, inquieto, como se o que fosse dizer lhe causasse uma profunda repulsa. Mas acabou confessando:

Quando eu era apenas um menino, matei o avô dele, e até hoje os solda­dos do barão Figüeltach de Vokko nos perseguem pelas florestas e montanhas.

Não tenho muita certeza de que esteja propenso a admitir que façamos parte de seu exército de mercenários.

Os olhos de Salietti relevaram sua contrariedade.

Mas isso aconteceu há muito tempo e, pelo que eu sei, o barão Figüeltach de Vokko não tem nenhum escrúpulo ou receio quando se trata de estabelecer alianças que possam lhe ser úteis.

É exatamente este o acordo que eu quero propor a você — disse Drusklo, a quem os anos, as misérias de sua vida de proscrito e sua própria crueldade pareciam haver desgastado até consumi-lo de cansaço.

O senhor pode ser mais explícito? Não o compreendo. — disse Salietti.

Drusklo se mostrava nervoso e pouco afeito a se humilhar.

Se você me jurar sobre sua espada que transmitirá minha mensagem ao barão Figüeltach de Vokko assim que chegar à sua fortaleza, deixarei que con­tinuem o seu caminho pelo bosque de Oppernái sem que você e seu escudeiro sofram dano algum.

O que devo dizer em seu nome ao barão? — perguntou secamente Salietti.

Diga, simplesmente, que imploro humildemente seu perdão, e que só os meus homens e eu somos capazes de enfrentar os grandes desafios que os cas­telos do Círculo apresentam a quem quiser instalar catapultas em seus arre­dores. Ele saberá compreender como poderemos ser úteis a ele e a seu exército se quiser ganhar essa guerra.

Grimpow teria desejado que a resposta de Salietti fosse negativa, e que não aceitasse nenhum tipo de aliança com o bandido sanguinário. Até esperava que Salietti, o orgulhoso duque de Estaglia, saísse daquele atoleiro como cabia a um cavaleiro digno e valoroso: usando sua espada para deixar claro quem era que impunha condições ali.

E o que acontecerá com minhas armas e nossas montarias?

Você poderá levar sua espada e sua armadura.

E minha adaga e a pedra do menino? — insistiu Salietti.

A adaga ficará comigo, e eu juro que a devolverei se voltarmos a nos ver combatendo contra os castelos do Círculo sob os estandartes do barão. Quan­to ao assunto da pedra, você precisa resolvê-lo com Blakestown. É lei entre os proscritos que as peças do butim que não tenham valor fiquem com aqueles que as obtêm, e só pode apropriar-se dela contra sua vontade quem os vença em duelo, a menos que este se recuse a se bater — disse, olhando para o ban­dido ruivo.

O bandido que tinha um olho azul e o outro preto abriu a boca e soltou uma estrepitosa gargalhada.

Se o nobre cavaleiro Salietti de Estaglia deseja que seu escudeiro recu­pere este amuleto, terá de tirá-lo ele mesmo de mim — disse, em desafio.

E, ao dizer isto, um clamor de vozes e gritos explodiu nas gargantas dos bandidos, incentivando Blakestown, o Perigoso, a quebrar os ossos do cavaleiro italiano que havia ousado atravessar seus bosques.

Escolha a arma — disse Salietti, aceitando enfrentar uma longa pan­cadaria.

Lutaremos com nossos bastões. Espada é coisa de cavaleiro, e esta é uma briga de vilões.

Os gritos aumentaram, um par de bandidos entregou seus longos bastões aos contendores, e logo foi criado um pequeno círculo em volta deles. Mas antes que se postassem em seus lugares para se enfrentar, Grimpow pulou dentro do círculo e gritou:

A pedra é minha, sou eu quem deve reclamá-la e defendê-la!

Os bandidos ficaram mudos ao ouvir o menino, até que um deles disse alguma coisa relativa à sua estatura e todos se dobraram de rir.

O menino tem razão — disse Drusklo, o Sanguinário. — Se o amuleto é dele, ele é o único que pode reclamá-lo, e para isso não precisa neste bosque da permissão de seu senhor, pois não há entre nós normas de vassalagem que impeçam um escudeiro de ser tão livre como um cavaleiro. Que o menino escolha o tipo de desafio e a sorte decida o destino dessa pedra!

Grimpow voltou-se para Salietti e, com os olhos, implorou-lhe que não interviesse na disputa.

Penduraremos a pedra no galho mais baixo daquela árvore — disse Grimpow, apontando para a frente —, e ela será daquele que conseguir cortar primeiro a corda com uma flecha disparada a cinqüenta passos de distância.

Blakestown sorriu exibindo seus dentes amarelos e aceitou o desafio de Grimpow com satisfação.

A linha de homens que formava o círculo se abriu em silêncio até formar duas linhas paralelas. Drusklo pegou a pedra, atou-a na ponta de uma corda bem fina e pendurou-a em um galho da árvore que o intrépido escudeiro ha­via apontado, enquanto Salietti tomava o arco e a aljava das mãos de um ban­dido mal-humorado e os entregava a Grimpow.

Drusklo regressou ao círculo dos bandidos contando cinqüenta passos e, arrastando um bastão sobre a terra, traçou uma linha perpendicular à sua po­sição. A pedra oscilava ao longe como um pêndulo minúsculo que mal podia se ver a distância.

O primeiro a disparar seu arco será Blakestown, como corresponde ao desafio. Se cortar a corda, a pedra será dele, e, se não for assim, o menino terá a oportunidade de recuperá-la — proclamou Drusklo, afastando-se para um lado.

O bandido ruivo ficou diante da linha, fechou seu olho azul e alçou o arco à altura dos ombros. Respirou fundo e esticou a corda diante do olhar impaci­ente de seus companheiros. Salietti cruzou os dedos em um involuntário ges­to de superstição e Grimpow fechou os olhos. O bordão soou como a corda surda de um bandolim e uma flecha silvou no ar perdendo-se no mato sem tocar nem o cordão nem a pedra.

Os bandidos lamentaram estrepitosamente o fato de o Perigoso não ter acertado o tiro, comentando entre eles como o petardo, cuja esteira de vento teria até chegado a balançar o alvo, havia passado perto da corda. Blakestown golpeou o ar com as mãos para expressar seu aborrecimento, e Salietti e Grimpow suspiraram aliviados.

Chegou a vez de Grimpow, e ao se postar em posição de tiro diante da linha traçada na terra sentiu sobre si o peso de todos os olhares. Um silêncio que parecia ter detido o tempo sobrevoou o bosque, e Salietti deu uma pisca­dela para transmitir ao menino segurança no disparo. Grimpow levantou o arco até que seu centro estivesse diante de seu único olho aberto, e começou a esticá-lo lentamente até que a corda e a pedra apareceram com nitidez em seu ponto de mira. Conteve a respiração durante um instante e soltou o bordão, ouvindo suas vibrações retumbarem em seu ouvido. A flecha foi disparada com tal força que se tornou invisível para Grimpow, mas, a cinqüenta passos de distância, viu cair a pedra da árvore como se fosse a amêndoa mais bela que alguém jamais tivesse encontrado. E os gritos de júbilo de Salietti ressoa­ram sobre os lamentos dos bandidos, enquanto Drusklo, o Sanguinário, de­volvia a Grimpow a pedra que estava unida a seu destino.

 

                               Chamas sobre Cornill

Grimpow e Salietti abandonaram o bosque de Oppernái depois de uma suculenta refeição de cervo assado e cogumelos cozidos, sem outra baixa em seu equipamento do que a preciosa adaga do cavaleiro morto.

Você está pensando em levar ao barão Figüeltach de Vokko a mensa­gem do mais sanguinário dos bandidos que aterrorizam estas terras, o mais cruel de todos e de todos os tempos? — perguntou-lhe Grimpow enquanto cavalgavam com calma entre montículos de matagal entremeados por gran­des árvores, tentando encontrar de novo o caminho do norte, que não devia estar muito distante deles.

Eu dei a Drusklo minha palavra de cavaleiro, e um cavaleiro que tenha orgulho de sê-lo não pode deixar de cumprir um juramento.

Mas esse bandido e um assassino! — protestou Grimpow. — Se nos dei­xou sair do bosque com vida foi por querer obter o perdão do barão, apesar de ter matado seu avô.

Talvez eu também possa tirar algum proveito da minha conversa com o barão Figüeltach de Vokko, e espicaçá-lo até obter alguma informação sobre seu plano de assaltar os castelos do Círculo.

Você acredita mesmo que a guerra começará depois dos festejos?

Vamos saber daqui a pouco.

Cavalgaram durante um bom tempo em fila e em silêncio e, à medida que avançavam, a paisagem ia mudando de aspecto como os répteis mudam de pele, assumindo as cores da terra e das plantações, dos bosques e dos montes, dos pântanos e dos páramos. Grimpow se perguntava a respeito do que os aguardaria ao chegar à fortaleza do barão Figüeltach de Vokko, e se algum dia conseguiriam atravessar também as portas da cidade de Estrasburgo. Não sa­bia nem se Junn, o Coxo, o amigo do irmão Uberto, cuja pousada se chamava O Olho do Dragão Verde, ainda continuava vivo. Estava certo de que fazia muitos e muitos anos que o irmão Uberto não saía da abadia, e era provável que seu amigo não vivesse mais na cidade de Estrasburgo, como o velho mon­ge acreditava. A correria dos últimos dias quase conseguira fazer com que Grimpow se esquecesse de que devia procurar o segredo dos sábios. A única pista de que ele e Salietti dispunham estava escrita na mensagem lacrada do cavaleiro morto nas montanhas. Se Junn, o Coxo, os ajudasse a encontrar Aidor Bílbicum em Estrasburgo, talvez fosse desvendado, finalmente, todo o mistério, e sua missão terminaria quando lhe entregasse a mensagem, o lacre de ouro e a pedra. Ele saberia o que devia fazer com ela, como deviam ter sabido todos os sábios que a possuíram antes de Grimpow, e o próprio cava­leiro que a portava quando o encontrou morto nas montanhas. Naquele dia Grimpow soube que havia algo mágico nela, uma coisa que não era deste mundo, algo enigmático e prodigioso capaz de transformar em sábio um me­nino como ele. Mas também sabia que, apesar dos muitos conhecimentos so­bre a natureza e o cosmos que havia adquirido na biblioteca da abadia de Brínkdum, ainda faltava muita coisa para aprender e descobrir. Às vezes até duvidava de que realmente existisse algum segredo a desvendar que não fosse a verdadeira essência da pedra que ele possuía. A própria pedra não era por acaso todo um enigma? Quem, onde, como e quando a encontraram? Por que uma estranha luz emanava dela? Por que lhe permitia compreender línguas desconhecidas e aprender tudo o que lia? Como transformava metais pobres em ouro? Tratava-se, realmente, da pedra filosofal? Sua pedra era o verdadeiro e único lapis philosophorum das lendas e tratados de alquimia? Quem era o ca­valeiro morto que a possuía e que desaparecera na neve como desaparece um sonho? Por que estava sendo perseguido pelo inquisidor Búlvar de Góztell? O cavaleiro era membro da sociedade secreta de sábios chamada Ouroboros? Tinha algo a ver com a sociedade dos cavaleiros da Ordem do Tem­plo? Por que o papa e o rei de França queriam se apoderar da pedra? Por que queriam assaltar os castelos do Círculo em companhia do barão Figüeltach de Vokko? Quem era Aidor Bílbicum? O que significava a mensagem "No céu estão a escuridão e a luz"?

Todas essas perguntas se atropelavam em sua mente quando alcançaram uma elevação de onde se podia ver o caminho do norte ziguezagueando de novo entre extensos vinhedos e suaves colinas.

Uma densa fumaceira se alçava a distância até confundir-se com as nuvens cinzentas que repousavam comprimidas no horizonte. O vento soprava revol­to do oeste imitando murmúrios de vozes inquietantes e o céu possuía o bri­lho metálico típico de um entardecer fosco e frio. Salietti se assustou e se er­gueu sobre o cavalo, olhando para longe como se estivesse à procura de algum sinal que lhe permitisse descobrir o que estava acontecendo.

— Há fogo na aldeia de Cornill e pressinto que o ar arrasta lamentos de morte e gritos de batalha. Vamos até lá para ver o que está acontecendo — disse, sentando-se de novo sobre sua montaria e esporeando-a para fazê-la galopar colina abaixo.

Grimpow imitou-o, esporeando seu cavalo Astro e puxando a mula para forçá-la a seguir seus passos. Aguçou o ouvido e ouviu a distância o dobrar dos sinos da torre de uma igreja tocando o sinal de alerta. Seu coração palpi­tava tão depressa como o do pobre animal que despencava colina abaixo fus­tigado por seus gritos e assovios.

Arre, arre! Arre, mula!

Assim que chegaram às cercanias da fumaceira, viram que muitas casas e estábulos da aldeia de Cornill ardiam no meio de afiadas línguas de fogo que se agitavam sobre os telhados de palha como fantasmas envolvidos em uma macabra dança do inferno. Alguns homens e mulheres tentavam, inutilmente, apagar aquele incêndio devastador, jogando baldes de água que outros abasteciam com dificuldades em um poço. Salietti aproximou seu cavalo de um ho­mem calvo e forte que vestia um avental de ferreiro. A pele do sujeito brilhava de suor sob um céu de fumaça negra, e dirigiu-se a ele aos gritos para que conseguisse ser ouvido no meio do estrépito.

O que aconteceu? — perguntou.

Um grupo de soldados do barão Figüeltach de Vokko entrou na aldeia antes do entardecer procurando a pousada em que se hospedava um homem chamado Gurielf Lábox, que chegou há poucos dias a Cornill acompanhado de sua filha. Os dois foram arrancados aos supetões de casa, manietados, enfiados em um carro e levados embora. Durante a fuga, o grupo aproveitou para incendiar a aldeia e nossas lavouras.

O senhor sabe por que eles foram presos?

O comandante dos soldados nos disse que as nossas casas estavam sen­do queimadas porque a aldeia tinha acolhido um mago, um desses adoradores das estrelas que estão sendo perseguidos pela Inquisição — disse o homem com aspecto de ferreiro, afastando com seu braço nu o suor que gotejava de sua testa.

Esse homem tem algum amigo na aldeia, alguém que o conheça bem? — perguntou Salietti enquanto seu cavalo esperneava, tão assustado como Astro e a mula por causa da proximidade do fogo.

Pergunte ao pároco da igreja. Talvez ele possa lhe dizer alguma coisa.

As casas dos dois lados da rua ardiam e os cavalos se recusavam a avançar entre as muralhas de fogo que os cercavam. Muito perto, atrás dos telhados, aparecia, no meio de nuvens de fumaça e cinza, a torre da igreja de Cornill. As chamas crepitavam no ar, enquanto o anoitecer se inflamava com a cor de fogo de um crepúsculo sinistro. Grimpow olhava com tristeza os movimentos de­sesperados dos homens, mulheres e crianças que lutavam para evitar que aquelas fogueiras destrutivas acabassem com tudo o que possuíam. Quando vivia na cabana das montanhas, o fogo sempre havia sido para ele um motivo de alegria e felicidade. Até havia aprendido com o irmão Ássben no laborató­rio da abadia de Brínkdum as virtudes do fogo alquímico, capaz de fundir metais e prepará-los para a transmutação que os elevaria da impureza à per­feição. Mas o fogo que estava contemplando agora era um fogo impiedoso e devastador, capaz de devorar com suas chamas todos os sonhos dos homens.

Por que você quer saber quem era o homem que os soldados de Figüeltach de Vokko prenderam na aldeia? — perguntou Grimpow a Salietti quando estavam a caminho da igreja.

Se, como o ferreiro afirma, é verdade que ele foi preso por observar as estrelas, deve ser algum sábio astrônomo, e não um necromante, embora a Igreja prefira chamá-los de bruxos e magos para acusá-los de serem hereges e justificar sua perseguição.

Você está achando que esse astrônomo pode ter algo a ver com o segre­do dos sábios? — indagou Grimpow para conhecer os pensamentos de Salietti, que pareciam coincidir plenamente com os seus.

Não haveria nada de estranho se assim fosse, tendo em conta que esse segredo é, precisamente, o que o papa e o rei de França desejam conhecer, e estou quase certo de que esse também é o motivo pelo qual prenderam esse sábio que acusam de ser necromante. E já que nós estamos atrás da mesma coisa, não será perda de tempo averiguar tudo o que seja possível sobre Gurielf Lábox. Se foi levado para a fortaleza do barão Figüeltach de Vokko, talvez possamos falar com ele e obter alguma pista confiável dessa sociedade secreta de sábios chamada Ouroboros — disse.

Sem saber por que, Grimpow começou a suspeitar nesse momento de que seu bom amigo e senhor Salietti de Estaglia não estava sendo tão sincero com ele como deveria ser.

Na praça da igreja, o pároco mandava um grupo de camponeses afastar as vigas que ardiam junto a um muro lateral do velho edifício de madeira e pe­dra. Era um homem magro de tez pálida e olheiras profundas. Vestia um lon­go hábito negro amarrado à cintura por um cíngulo branco cheio de nós. E, tomado pelo desespero, gritava e agitava as mãos incessantemente.

Por sorte, a igreja parecia ter ficado a salvo da voracidade das línguas de fogo. Salietti apeou de seu cavalo e ajudou os homens a retirar as vigas soltas do teto de algumas casas que já haviam servido de pasto para as chamas. De­pois, se aproximou do pároco e fez uma ligeira reverência diante dele.

Agora não posso atendê-los, voltem em outro momento — disse o cléri­go, sem prestar atenção no cavaleiro que o saudava.

Indiferente ao desdém do pároco, Salietti se aproximou ainda mais.

Sei que o senhor precisa atender aos seus paroquianos numa hora tão infeliz para eles, mas preciso falar de uma coisa urgente.

O pároco levantou a cabeça e olhou para Salietti.

A respeito de que o senhor quer me falar? — perguntou.

Do sábio Gurielf Lábox.

Os soldados do barão Figüeltach de Vokko acabam de levá-lo e à sua filha.

Eu sei — disse Salietti, muito seguro de si. — Eu vim precisamente a Cornill com a intenção de avisá-lo de que iriam prendê-lo por ordem do inquisidor Búlvar de Góztell.

As palavras de Salietti deixaram Grimpow estupefato, pois não sabia se eram fruto de sua imaginação ou se o que dizia era realmente verdade.

O senhor mesmo pode ver que chegou atrasado a este espetáculo de fogos e desgraça. Mas diga-me: quem o envia?

Sinto não poder lhe dizer, faz parte do segredo.

O segredo? — repetiu o pároco a modo de interrogação, franzindo a testa.

Salietti assentiu, e Grimpow temeu que voltasse a se encontrar em apuros, pois ignorava até onde poderia levar essa nova patranha, se é que o era.

Eu o entendo — disse o pároco, pensativo. Manteve brevemente o olhar fixo nos olhos de Salietti e por fim perguntou: — O senhor é amigo de Gurielf Lábox?

Digamos que quero ajudá-lo, mas para isso preciso saber se poderei en­contrar nesta aldeia aquilo de que preciso.

O pároco olhou para a mula e para o brasão do escudo de Salietti que esta­va atado ao seu lombo, e observou atentamente o sol sobre o céu azul e a lua cheia sobre o céu negro pintados nele.

O seu escudo é um mistério — murmurou.

Não para os que sabem compreender — disse Salietti, enigmático.

As dúvidas do clérigo pareceram se desvanecer.

Deixem aqui as suas montarias e acompanhem-me até lá dentro. Será melhor conversar na sacristia.

Deixaram os cavalos e a mula amarrados em umas argolas que pendiam ao lado do pórtico da igreja e entraram na úmida escuridão do templo sagrado de Cornill, por cujas janelas sem vidraças ainda entravam infinitas fagulhas que revoluteavam no ar como se fossem pequenas andorinhas negras. Era uma igreja antiga de dimensões medianas, com uma nave central e duas me­nores em ambos os lados, separadas por grossas colunas e amplas arcadas, e repletas de pequenos altares de virgens e santos. A luz de alguns círios acesos diante do altar maior rasgava a escuridão e iluminava o esquálido corpo de um Cristo crucifixado que parecia ter surgido magicamente das sombras.

O interior daquela igreja mergulhada na penumbra pareceu a Grimpow tão cheio de símbolos e mistérios como os manuscritos dos alquimistas. Cada imagem, cada quadro, cada escultura e cada capitei das colunas tinha um sig­nificado que a maioria das pessoas ignorava, mas que o pároco, como todo bom erudito, provavelmente conhecia, assim como Grimpow conhecia a insó­lita linguagem da alquimia.

Já na capela, uma sala abobadada de teto baixo e pequenas janelas fecha­das em uma de suas paredes de pedra, o pároco acendeu as velas de um can­delabro de quatro braços situado sobre uma mesa. De um lado pendiam os ornamentos sagrados que o clérigo vestia para celebrar a missa, enfeitados com debruns bordados em ouro; sobre um aparador de madeira talhada, re­pousava uma bandeja com uma jarra de cobre. O pároco tirou de uma gaveta três cálices do mesmo metal e encheu-os com o líquido que estava na jarra.

E um licor de ameixa feito por mim, muito suave e saudável para horas como estas, quando as sombras se apossam do mundo e os terrores da noite nos acossam — disse ao oferecer os cálices aos seus inesperados convidados.

Salietti bebeu um longo gole até esvaziar o cálice, enquanto o pároco e Grimpow beberam pausadamente do seu, divertindo o paladar com o agradá­vel sabor de ameixas.

Negras são as horas que se anunciam, sem dúvida — confirmou Salietti. — Suponho que o senhor não ignora as intenções do barão Figüeltach de Vokko, que quer assaltar os castelos do Círculo — disse depois de relamber os lábios.

O pároco estalou a língua e assentiu.

Em toda a Alsácia não se fala de outra coisa. Os pregoeiros do barão vão de aldeia em aldeia e de cidade em cidade anunciando o recrutamento de sol­dados para seu exército em troca de bons pagamentos e privilégios. Estão até prometendo indultar os crimes dos rebeldes e bandidos que se escondem nas florestas e montanhas caso eles vierem a se unir às suas tropas de mercenári­os. Creio que nunca se há visto desde as cruzadas um exército tão numeroso como o que Figüeltach de Vokko está se preparando para reunir para assaltar a fortaleza do duque Gulf de Östemberg — disse o clérigo, animado pelo licor.

Sim, e o rei de França aliou-se ao barão porque acredita que o segredo dos templários está escondido nos castelos do Círculo — disparou Salietti para conquistar a confiança do pároco.

Eu achava que era porque o duque Gulf tinha abrigado os cavaleiros da Ordem do Templo em seus castelos, descumprindo a bula do papa Clemente que ordenava que eles fossem perseguidos e entregues à Inquisição — disse o clérigo.

Um reduzido grupo de templários foragidos e desesperançados pela humilhação e a derrota de sua ordem não justifica uma guerra. Esse é apenas o pretexto de que o rei de França necessita para entrar na fortaleza do duque Gulf de Óstemberg e procurar em suas galerias subterrâneas o segredo que tanto anseia possuir — argumentou Salietti. — Foi por esse motivo que pren­deram Gurielf Lábox, pois acreditam que sábios como ele sabem onde o se­gredo está escondido.

O senhor me jura que será discreto com o que me disponho a contar?

O senhor não encontrará nas tumbas do cemitério de Cornill um cadá­ver menos falante que eu, e eu lhe juro por minha honra de cavaleiro — sen­tenciou Salietti, cruzando os dedos polegar e indicador, levando-os aos lábios e beijando-os como se beijasse o crucifixo.

E o seu escudeiro? — disse o pároco, dirigindo um olhar sutil de des­confiança a Grimpow.

O senhor pode confiar em Grimpow tanto quanto em mim, que sou seu senhor, pois entre ele e eu já não existem segredos — disse Salietti com a mes­ma solenidade de seu juramento.

O pároco voltou a encher os cálices de bronze com o licor da jarra e beberam de novo, deleitando-se com seu extraordinário sabor como se degustas­sem o néctar dos deuses.

Há algumas semanas veio me ver, desde Paris, um ancião que eu não conhecia, portando uma carta selada com o lacre da sede papal de Avignon e dirigida a este humilde pároco da aldeia de Cornill que sou eu. O senhor pode imaginar meu estupor e minha alegria ao vê-la. Nela me confirmavam a visita do cavaleiro Gurielf Lábox, portador da missiva, e me ordenavam que lhe per­mitisse acessar todos os arquivos da paróquia, na qual poderia se mover com total liberdade conforme seus desejos a qualquer hora do dia e da noite, sem que eu o molestasse nem lhe fizesse nenhuma pergunta. Devia apenas ajudá-lo no que necessitasse e me pedisse. Também me rogavam que procurasse um alojamento para ele e sua filha, pois seu estado de saúde era precário e ela deveria cuidar dele. Por último, me ordenavam que mantivesse essa carta e os motivos que a justificavam no mais absoluto segredo, como também devem ter avisado ao senhor. Suponho que o senhor saiba do que se trata, e o que procurava nos arquivos da igreja o nobre ancião, ao qual, devo confessá-lo, me une agora um sincero apreço — concluiu o pároco.

Salietti tomou mais um gole do licor e pigarreou para sacudir o nó que havia se formado em sua garganta.

Como o senhor pode supor, a natureza secreta da minha missão não me permite revelar nada do que sei a respeito disso tudo, mas uma vez que o cavaleiro Gurielf Lábox foi preso sem que saibamos ainda se encontrou nesta igreja o que procurava, creio que o senhor deveria me mostrar os documentos do arquivo que ele examinava para que eu possa fazer meu informe ao papa antes de partir amanhã para a fortaleza do barão Figüeltach de Vokko e tentar resgatar o prisioneiro das garras de seus captores.

Se assim o desejar, eu os colocarei à sua disposição agora mesmo. O senhor poderá estudá-los durante o tempo que quiser; enquanto isso, eu vol­tarei à praça para atender aos aldeões que perderam suas casas no incêndio — sugeriu o pároco.

E ao dizer isso pegou o candelabro e lhes fez um sinal para que o seguis­sem a um aposento contíguo à sacristia, ao qual se chegava por uma pequena arcada desprovida de porta.

O arquivo da igreja de Cornill não era mais que um habitáculo quadrado de apenas três corpos de comprimento por dois de largura, com uma peque­na escrivaninha situada no centro e prateleiras que iam até o teto de uma das paredes.

Aqui estão todos os documentos que foram gerados por esta paróquia desde sua construção no tempo dos visigodos — disse o clérigo, deixando o candelabro sobre a mesa. — Há cartapácios repletos de atas de batismo, matri­mônios, óbitos, compras, doações, gastos com reformas, visitas de nobres e reis, nomeações de párocos e enterros. Como pode ver, a passagem dos ho­mens por este mundo é efêmera, e não fosse pela redenção eterna que nos espera no Reino dos Céus, nossa vida ficaria reduzida a um monte de docu­mentos que um dia alguém queimará, como os soldados de Figüeltach de Vokko queimaram as casas desta aldeia. O senhor pode examiná-los quanto quiser. Eu os verei depois — disse, e saiu do arquivo murmurando em voz bai­xa, como se estivesse fazendo um sermão: — Pobre Gurielf Lábox.

Grimpow ardia de desejos de ficar a sós com Salietti para que ele lhe expli­casse como havia conseguido arrancar do pároco da igreja informações sobre o que Gurielf Lábox fazia na perdida aldeia de Cornill, e se havia mentido ao dizer que sua missão era avisá-lo de que iam prendê-lo. E assim, tão logo ou­viu os passos do clérigo perdendo-se no fundo da sacristia, lhe perguntou:

Você sabia que Gurielf Lábox havia chegado a esta aldeia como enviado do papa e que iam prendê-lo?

Não tinha a menor idéia a respeito disso — afirmou Salietti, abstraído em um volumoso livro que acabara de pegar na estante e no qual figuravam as nomeações de todos os párocos da igreja desde há mais de três séculos.

Então, como você conseguiu persuadir o pároco para que acreditasse que também é um enviado de Sua Santidade?

Pensei que se lhe falasse do segredo não seria obrigado a lhe dar expli­cações, e que o pároco não duvidaria de que temos algumas coisas a ver com a missão que trouxe Gurielf Lábox até esta aldeia. Afinal de contas, estou con­vencido de que esse ancião buscava o mesmo que a gente — respondeu, en­quanto folheava as páginas do livro com rapidez, deslizando seu dedo indica­dor sobre uma interminável relação de nomes.

Eu acreditava que o papa também havia se aliado ao rei de França na busca do segredo dos sábios.

E é assim, mas embora joguem juntos esta partida de xadrez, cada um tentará ganhá-la por sua conta. Os espiões do papa provavelmente descobri­ram que nesta igreja se esconde uma coisa suficientemente valiosa para que um de seus especialistas em resolver enigmas viesse buscá-lo.

Gurielf Lábox?

Ele mesmo.

Terá encontrado aqui o segredo? — perguntou Grimpow, incrédulo.

É isso o que estou tentando descobrir, se você deixar por um momento de importunar-me com sua fieira de perguntas. Pegue um dos livros de visi­tas de nobres e reis e veja se algum nome lhe diz alguma coisa — disse Salietti, zangado e tenso como Grimpow nunca o vira antes.

Examinaram todos os documentos que cochilavam no arquivo cobertos por uma pátina de pó e esquecimento, sem que encontrassem nada que pu­desse ajudá-los a saber o que Gurielf Lábox procurava.

E possível que esse sábio não tenha sequer olhado estes documentos — disse Grimpow, desanimado.

Mas é evidente que procurava alguma coisa aqui. Se não for assim, para que veio a esta aldeia com a carta da sede papal de Avignon dirigida ao pároco?

É possível que aquilo que buscava esteja na própria igreja — sugeriu Grimpow.

Você tem razão, Grimpow, vamos dar uma procurada — disse Salietti, mas antes de fechar o livro que examinava viu que a ponta de uma pequena folha de pergaminho assomava entre suas páginas. — O que é isto? — per­guntou, olhando o texto escrito na folha com perfeita caligrafia.

 

           Se passares ao Vale de Sol, abrir-se-á

           a cripta sem cadáver

           na qual dorme a história.

           Viaja à cidade da mensagem

           E pergunta ali por quem não existe,

           Então ouvirás a voz das sombras.

 

Fala de uma cripta, e ela deve estar na igreja — disse Grimpow. — E a cidade da mensagem pode ser Estrasburgo. Talvez fosse isto o que Gurielf de Lábox procurava.

Ou talvez Gurielf de Lábox esperasse por alguém e tenha lhe deixado esta nota escrita, temendo que pudesse lhe acontecer alguma coisa — ponde­rou Salietti.

Se tiver sido assim como você diz, me ocorre que estas palavras eram dirigidas ao cavaleiro morto nas montanhas que portava uma mensagem com o nome da cidade de Estrasburgo.

E quem pode ser quem não existe? — perguntou Salietti, pensando em Aidor Bílbicum, cujo nome também aparecia na mensagem lacrada que o ca­valeiro morto nas montanhas portava.

Vamos procurar a cripta da igreja. Suspeito de que se passarmos por esse enigmático Vale de Sol, chegaremos a conhecer muito mais da história que ainda parece estar adormecida em uma tumba. Depois viajaremos até a cidade de Estrasburgo, que é a cidade que aparece na mensagem. Ali pergun­taremos por quem não existe, e talvez ouçamos a voz das sombras. Tudo se encaixa — disse Grimpow.

Quando entraram na nave lateral da igreja vindo da sacristia, sentiram-se cercados por um mar de confusão disposto a engoli-los como as tempestades do oceano engolem os navios com suas ondas gigantescas. Ao seu redor, tudo estava tão silencioso como escuro, e ao aproximar a luz do candelabro das imagens de virgens e santos que repousavam sob arcos com uma quietude e uma palidez de cera, perceberam o peso gelado de seus olhares como se fos­sem fantasmas. Percorreram sem falar as três naves da igreja, examinando cada lajota do chão, cada canto, cada buraco; examinaram as sepulturas de alguns nobres que flanqueavam o presbitério, as pias de água benta, a capela de batismo, os púlpitos e os altares, mas não encontraram nada que chamasse sua atenção, até que atrás do altar-mor encontraram uma escada estreita que levava à cripta.

Os párocos da igreja devem estar enterrados aqui — disse Salietti, fran­zindo o cenho para mostrar que não achava agradável descer até as tumbas àquela hora da noite.

Grimpow também não achava especialmente agradável entrar em um lu­gar tão lúgubre sem outra luz que não fosse a do candelabro, mas, desde que vira as caveiras amontoadas diante da entrada secreta da biblioteca da abadia de Brínkdum, havia poucas coisas que pudessem assustá-lo.

As criptas sempre foram lugares adequados para ocultar mistérios, por isso é melhor descer — disse Grimpow, sem muito entusiasmo.

Salietti aproximou o candelabro da estreita entrada da cripta, e sua tênue luz iluminou a abóbada e os degraus que desciam em espiral até um poço de trevas.

Eu irei na frente — disse Salietti, e abaixou a cabeça para não bater no teto baixo da escalinata.

Ao chegar à cripta, a chama das velas se agitou como se um ser invisível houvesse dado um sopro tentando apagá-las, e suas sombras tremeram nas úmidas paredes de pedra.

O teto abobadado continuava bastante baixo, mas pelo menos podiam ficar em pé sem temer que suas cabeças batessem nele. Um corredor tenebroso se abria diante deles e continuava à direita seguindo a linha curva de uma circun­ferência. Grimpow imaginou que a cripta estava situada sob a abside da igreja.

À sua direita, se abriam sucessivos arcos sustentados por colunas, e em cada arco eram visíveis sarcófagos de mármore colocados de forma radial e perpendicular à circunferência traçada pela galeria. Salietti dirigiu a luz do candelabro a cada um dos sarcófagos, sobre os quais repousavam as esculturas de oito homens vestidos com túnicas luxuosas. Todos tinham cabelos longos e longas barbas, e seus braços estavam cruzados sobre o peito como se estives­sem alegremente adormecidos. Neles não havia nenhuma inscrição, nenhum nome, nem qualquer data de sepultamento.

Estas tumbas têm muitos séculos — disse Salietti.

Quando terminaram de percorrer a circunferência, uma idéia assaltou a mente de Grimpow.

A base da cripta é um octágono! — exclamou, recordando o desenho da impossível quadratura do círculo que o irmão Rinaldo de Metz havia lhe mostrado na sala secreta da abadia de Brínkdum.

Explicou a Salietti o significado do octágono e dos castelos do Círculo, tal como o irmão Rinaldo havia contado a ele, e acrescentou que muitas fortale­zas e capelas dos cavaleiros templários tinham forma octagonal para repre­sentar a fusão entre o céu e a Terra, a harmonia entre o divino e o humano, que compartilham um único centro comum no Universo.

Mas esta igreja nunca foi uma igreja dos cavaleiros do Templo de Salomão — ponderou Salietti.

Por isso deve ter alguma relação com o segredo dos sábios. E isso devia ser exatamente o que o ancião Gurielf Lábox investigava — disse Grimpow, voltando a embrenhar-se instintivamente em um dos arcos e dirigindo-se ao centro circular da cripta.

Salietti o seguiu, iluminando seus passos com a luz do candelabro, e Grimpow não pôde conter sua alegria ao ver uma inscrição talhada em um círculo central da cripta cercado pelas oito tumbas como se fossem oito cava­leiros que a custodiassem sem escudos nem armas.

Aqui está! — gritou, sentindo o espanto de Salietti a seu lado.

Ambos cravaram seus olhos nos símbolos talhados dentro de um círculo sobre o solo de pedra. Eram semelhantes aos símbolos que apareciam na men­sagem lacrada do cavaleiro morto e Grimpow não teve nenhuma dificuldade em interpretá-los.

O que significam esses símbolos? — perguntou Salietti com impaciência.

Grimpow trazia em suas mãos um pedaço de pergaminho e um carvão que havia trazido do arquivo da igreja; aproximou-se da luz do candelabro e escreveu:

 

               PASSA AO VALE DE SOL

               ISTERIMOS

 

Este é o mesmo Vale de Sol de que fala a nota de Gurielf Lábox, se é que foi ele quem a escreveu — disse.

É possível que só se trate de um epitáfio comum a todas estas tumbas sem nome — disse Salietti, ainda aturdido por sua descoberta.

Mas está escrito com os mesmos símbolos que aparecem na mensagem lacrada do cavaleiro morto nas montanhas — argumentou Grimpow.

Salietti ficou abstraído, olhando a inscrição talhada na rocha. Depois disse:

Talvez nesta cripta não estejam enterrados os antigos párocos da igreja, mas os oito sábios que protegiam o segredo. Por isso, suas tumbas são tão an­tigas e carecem de nomes e das datas dos sepultamentos.

Você está pensando que o segredo do sábio pode estar debaixo desta rocha? — perguntou Grimpow.

É apenas uma hipótese, embora essa inscrição, PASSA AO VALE DE SOL, pareça referir-se ao trânsito Mais Além depois da morte. O Vale de Sol pode ser algo parecido com o Éden ou Paraíso, para onde, segundo todas as religiões, vão as almas dos mortos, e onde reina uma luz eterna e dourada. E pode ser também que ISTERIMOS não seja mais que o nome do sábio que escreveu esse epitáfio — especulou Salietti.

Ou talvez esse Vale de Sol seja o lugar em que está escondido o segredo dos sábios, e só passando por ele seja possível encontrá-lo — observou Grimpow.

Em qualquer caso, está claro que se trata de um novo enigma, difícil de interpretar. Eu me pergunto se Gurielf Lábox teria conseguido abrir a cripta antes que os soldados do barão Figüeltach de Vokko o prendessem.

Isso não saberemos nunca, a não ser que falemos com ele — disse Grimpow.

Espero que os verdugos da Inquisição não consigam arrancar-lhe o que sabe. Se o torturarem e falar a respeito do que procurava nesta igreja, os esbirros do barão ou do rei de França não tardarão a voltar.

Permaneceram ensimesmados em seus próprios pensamentos e temores, tentando dar logo uma explicação razoável para aquela misteriosa inscrição. Grimpow até chegou a pensar que Vale de Sol talvez fosse uma metáfora como a empregada pelos alquimistas, e que agora o Sol, em lugar do ouro alquímico, fosse a luz da sabedoria, como rezava a frase da mensagem do cavaleiro morto nas montanhas, que dizia "No céu está a escuridão e a luz", e cujo significado tampouco ainda conseguira decifrar. Mas se estava convencido de alguma coisa era de que naquela cripta havia algo mais que essa inscrição talhada na rocha.

E caso se trate de um criptograma? — especulou Salietti, repentinamente.

Grimpow recordou de quando o irmão Rinaldo de Metz lhe falara, na aba­dia de Brínkdum, a respeito das mensagens cifradas usadas desde a Antigüi­dade para ocultar mistérios.

Você se refere a uma escrita em código?

Exatamente.

Mas a inscrição já está escrita em uma linguagem hieroglífica que nin­guém que não a conheça pode chegar a decifrar — disse Grimpow.

Às vezes mensagens ocultas estão protegidas por vários sistemas de es­crita em código. Este poderia ser um desses casos nos quais para se chegar à solução final do enigma é necessário decifrar todos os criptogramas que o protegem.

Nesse momento, chegou até eles o barulho de um tropel de gente entrando na igreja.

Os aldeões estão entrando na igreja. É possível que muitos deles passem a noite aqui para se proteger da intempérie, já que suas casas foram incen­diadas. Precisamos sair daqui. Não podemos despertar a curiosidade destas pessoas — disse Salietti.

Mas e a inscrição?

Continuaremos analisando-a lá em cima, na sacristia. Agora vamos, depressa.

Voltaram a subir as estreitas escadas da cripta e correram para a sacristia, situada muito perto deles, à direita do altar-mor. Ao fundo da igreja, junto ao portão de entrada, um grupo de pessoas cercava o pároco, que dava instru­ções para que pegassem os bancos da nave central de maneira a improvisar catres, separando as mulheres e as crianças do grupo dos homens. Alguns ti­nham mantas e peles, e todos pareciam desfeitos pelo cansaço e a tristeza.

Na sacristia, Salietti voltou a se servir de um cálice de licor, enquanto Grimpow folheava um livro intitulado Manual dos ofícios divinos, escrito por um frade chamado Guillermo Durando, no qual não encontrou nada que lhe parecesse interessante. Ambos tentavam encontrar uma solução para o enig­ma da cripta. Aquela inscrição podia significar qualquer coisa, mas também podia significar exatamente o que dizia: PASSA AO VALE DE SOL. Esta parte da inscrição tinha sentido em si mesma, sobretudo quando se levava em conta que a cripta é um lugar de sepultamento e que a morte, segundo todas as cren­ças, é a passagem para a vida eterna, como Salietti havia ponderado. No en­tanto, a palavra ISTERIMOS não significava nada que eles pudessem compre­ender. Era certo que podia se tratar do nome do autor do epitáfio, mas também podia ser a chave para averiguar o significado completo do criptograma, como Aidor Bílbicum parecia ser a chave para compreender a mensagem do perga­minho do cavaleiro morto nas montanhas. Grimpow se sentia perdido em meio ao emaranhado de raciocínios, e em sua mente se repetia uma e outra vez a palavra ISTERIMOS como se fosse o golpear incessante das batidas de seu coração.

A entrada do pároco na sacristia arrancou Grimpow de suas reflexões. Perguntou-lhes se haviam encontrado alguma coisa interessante nos arquivos e Salietti negou com a cabeça.

Nesses documentos não há nada além de nomes e contas da igreja. Se­ria mais fácil encontrar a agulha de um curtidor no palheiro de um granjeiro — disse.

Eu disse a mesma coisa a Gurielf Lábox quando lhe mostrei o arquivo. Nessas prateleiras não há nada além de nomes e números, eu lhe disse, mas Lábox se empenhou em examinar cada documento como se procurasse o mis­tério do Santo Graal — sentenciou o pároco, com um sorriso.

A palavra ISTERIMOS lhe diz alguma coisa? — perguntou Grimpow, deixando de lado a obrigação de silêncio que lhe impunha sua condição de escudeiro.

O pároco repetiu a palavra em voz alta e franziu o cenho para manifestar sua estranheza.

É um nome grego, talvez? — perguntou, ficando pensativo como se hou­vesse entrado em um transe prazeroso. Mas ao cabo respondeu: — Não, nunca a ouvi, nem creio que esse nome apareça nos documentos guardados no arquivo.

Quem está enterrado nos oito sarcófagos que rodeiam o círculo central da cripta? — indagou Salietti, como se fosse um inquisidor amável.

O pároco olhou para baixo, pegou o cíngulo de seu hábito e suas mãos brincaram com os nós.

Esta igreja não é diferente de qualquer outra — disse. — Em todas as igrejas, santuários, capelas, ermidas ou catedrais vocês encontrarão algo que ninguém sabe explicar e cuja verdadeira origem e significado só são conheci­dos pelos seus construtores. A cripta desta igreja já estava aí muitos anos antes que o templo cristão fosse construído sobre ela, e essas tumbas têm pelo me­nos três séculos.

Não há nenhum nome escrito nas lápides e, a julgar pelas esculturas que repousam sobre elas, tampouco parece que seus habitantes tivessem ori­gem nobre. Além do mais, carecem de escudos, de armaduras e de armas, e sua aparência é a de eruditos mergulhados em um doce sono — disse Salietti.

Grimpow se lembrou, subitamente, do cavaleiro morto nas montanhas, e recordou também que ao ver a serenidade que seu rosto gelado expressava chegara a pensar que talvez a morte fosse um sonho plácido e eterno.

Nenhum documento dos arquivos menciona os nomes desses defuntos. Eu mesmo confirmei isso quando, há cinco anos, passei a ser o encarregado da paróquia — esclareceu o pároco.

E o que o senhor me diz da inscrição talhada no círculo central da cripta? — perguntou Grimpow.

Gurielf Lábox passava horas inteiras na cripta tentando decifrar essa inscrição. Que eu saiba, ninguém o conseguiu até agora. São símbolos estra­nhos e antigos que podem significar qualquer coisa. Pode se tratar até de sim­ples marcas dos pedreiros que construíram esta igreja; como é sabido, eles ru­bricam suas obras com os símbolos de suas lojas.

Não, esses símbolos ocultam um mistério, tenho certeza disso, e Gurielf Lábox tinha a missão de decifrá-lo — assegurou-lhe Salietti.

Talvez com suas rezas e um pouco de descanso vocês consigam dar luz a essas intrigas que tanto os inquietam — disse o pároco.

Depois se desculpou com Salietti por não poder lhe oferecer um aposento adequado à sua condição de cavaleiro no qual pudesse passar a noite com dignidade, e lamentou que o fogo houvesse destruído a pousada da aldeia, pois era a casa em que se hospedavam Gurielf Lábox e sua filha e fora a primeira a ser incendiada. Mas lhes ofereceu como albergue a despensa da igreja, que ficava atrás da sacristia e não havia sido afetada pelas chamas, e encaminha­ram-se até lá depois de recolher suas montarias, que os esperavam, impacien­tes e famintas, na praça.

 

Quando acordou depois de ouvir o canto de um galo anunciando a aurora, uma nova palavra se repetia na mente de Grimpow como se houvesse estado pensando nela durante toda a noite: MISTÉRIOS. Ficou em pé de um salto e sacudiu Salietti para arrancá-lo de seu sono profundo.

O que está acontecendo? — perguntou Salietti, remexendo-se em seu leito de palha.

Mistérios! — exclamou Grimpow, exaltado.

Sim, sim, já sei que estamos cercados de mistérios. Eu também não dei­xei de pensar neles e só consegui dormir a sono solto um par de horas durante toda a noite — balbuciou Salietti, ainda sonolento.

Você não entende? Mistérios é um anagrama de ISTERIMOS. Basta mudar a letra M de lugar e colocá-la no começo da palavra. O resultado é MISTÉRIOS.

Salietti levantou-se como se tivessem jogando em cima dele um balde de água fria.

Você decifrou o criptograma? — perguntou incrédulo.

Creio que sim — disse Grimpow.

Pegou o pedaço de pergaminho em que havia feito suas anotações na noite anterior e voltou a mostrar o texto da inscrição a Salietti.

 

                 PASSA AO VALE DE SOL

                 ISTERIMOS

 

Quando substituímos ISTERIMOS por MISTÉRIOS... — disse.

Continuamos tendo dois enigmas para resolver: PASSA AO VALE DE SOL E MISTÉRIOS — interrompeu-o Salietti, afastando com a mão a cabeça de seu cavalo, que se distraía lambendo-lhe o rosto.

Mas pelo menos sabemos que no VALE DO SOL estão os MISTÉRIOS. Só temos de averiguar onde fica esse lugar. Tenho certeza de que ali encontra­remos o segredo dos sábios que procuramos.

Se é que ele não foi encontrado antes por Gurielf Lábox e a esta hora seus captores, o barão Figüeltach de Vokko e o rei de França, já estão procu­rando por ele. Partamos agora mesmo para a fortaleza do barão, antes que seja muito tarde — disse Salietti, pegando sua espada e prendendo-a ao cinto.

Estavam prontos para abandonar o celeiro da igreja de Cornill quando uma idéia passou diante dos olhos de Grimpow como uma flechada.

Um momento — disse. — O VALE DE SOL não existe.

Salietti parou bruscamente e se virou.

E como você pode garantir uma coisa dessas? — perguntou, confundido pela afirmação súbita de Grimpow.

Porque se invertemos a ordem da palavra SOL, poderemos obter também LOS, e então o criptograma fica assim: PASSA AO VALE DOS MISTÉRIOS.[1]

O VALE DOS MISTÉRIOS! — exclamou Salietti. — Você não sonha mal, é possível que tenha encontrado a solução do enigma. Vamos, pois, pro­curar este vale.

Não acredito que seja tão simples — disse Grimpow.

Eu tampouco, mas aqui já não há nada a fazer.

Eu me referia ao criptograma.

Você já resolveu o criptograma. O seu significado está claro: PASSA AO VALE DOS MISTÉRIOS. É aí que devemos procurar o segredo dos sábios. Talvez esse tal de Aidor Bílbicum de Estrasburgo possa nos dizer algo a res­peito se conseguirmos falar com ele.

Grimpow não prestava atenção às palavras de Salietti.

Deve haver algo mais escondido entre as letras deste criptograma. Aqueles que o fizeram protegeram o enigma com símbolos e ocultaram nele uma mensagem complicada que devia ser decifrada por completo para que seu verdadeiro significado fosse compreendido — refletiu em voz alta.

Mas agora está claro. A mensagem oculta tem sentido: PASSA AO VALE DOS MISTÉRIOS.

Então Grimpow recordou o texto da mensagem do cavaleiro morto nas montanhas: "No céu estão a escuridão e a luz!", e viu uma cintilação de luz no meio da escuridão.

Descobri, descobri! — gritou.

Ainda há mais? — perguntou Salietti, abandonando as rédeas de seu cavalo e olhando aturdido para seu amigo inteligente.

Sim, há algo mais. O mistério está em PASSA AO VALE.

Isso eu já disse antes! — protestou Salietti. — Temo que este cripto­grama esteja transtornando seu juízo. Vamos deixá-lo de lado agora. Precisa­mos sair já desta despensa.

Os olhos de Grimpow estavam cravados no texto original do criptograma que ele mesmo havia copiado no pedaço de pergaminho.

Quero dizer que as palavras AO e VALE também são anagramas, e não significam o que parecem.

Salietti tentou trocar mentalmente a ordem das letras de AO e VALE para encontrar outras palavras com um significado diferente, mas Grimpow se antecipou na solução do enigma.

A palavra AL também pode ser LA, e a palavra VALLE também pode ser LLAVE.[2]

Você é incrível! — disse Salietti, entusiasmado com as conclusões de Grimpow.

Então, debaixo de sua anotação do criptograma original, PASA AL VALLE DE SOL ISTERIMOS,[3] Grimpow escreveu:

 

                   PASSA A CHAVE DOS MISTÉRIOS[4]

 

E teve a certeza de que aquele obscuro criptograma havia sido definitiva­mente decifrado.

E onde está a chave dos mistérios, e por onde há que passá-la? — per­guntou Salietti, desencantado de novo diante daquilo que acreditava ser outro enigma confuso e difícil.

É nossa pedra! — afirmou Grimpow, sem hesitar.

A pedra? — repetiu Salietti.

Sim, a pedra filosofal. O lapis philosophorum dos sábios é a chave de todos os mistérios da natureza e do cosmos. Temos de passar nossa pedra, a chave dos mistérios, sobre a inscrição talhada na cripta.

Você é genial, Grimpow! — elogiou-o Salietti por sua perspicácia.

Não sou eu, é a pedra — disse Grimpow, convencido da fragilidade de seus méritos.

 

                               A chave dos mistérios

Não havia ninguém na igreja. Os bancos da nave central haviam sido colo­cados de novo em ordem e um forte cheiro de incenso purificava o ar no meio das cintilações dos círios acesos no altar. Procuraram o pároco na sacristia, mas também não estava ali, e assim pegaram um candelabro, acenderam as velas para iluminar seu caminho até as tenebrosas profundidades da cripta e saíram da sacristia perguntando-se que novo mistério os estaria esperando quando passassem a pedra sobre a inscrição, e se por acaso encontrariam ali o segredo dos sábios.

Parados de novo diante da inscrição talhada no círculo central da cripta, Grimpow tirou a pedra da bolsa de linha que lhe pendia do pescoço, agachou-se até ficar de joelhos e aproximou a pedra dos símbolos escritos sobre o cír­culo. Então, aquele prodigioso mineral começou a mudar lentamente de cor, até adquirir a aparência de um carvão aceso. Passou suavemente a pedra sobre a inscrição, repetindo mentalmente as palavras: PASSA A CHAVE DOS MISTÉRIOS, e os sinais talhados no círculo transformaram-se em símbolos avermelhados e incandescentes, de uma cor tão insólita e intensa que pare­ciam ter sido escritos a fogo.

No entanto, nada aconteceu diante deles.

O que está acontecendo agora? — perguntou Salietti inquieto, pois es­perava que se, como acreditavam, sua pedra era a verdadeira e única pedra filosofal, o mítico e autêntico lapis philosophorum, a chave dos mistérios a que se referia o criptograma, alguma coisa surpreendente e mágica deveria ocor­rer diante de seus olhos quando passassem a pedra sobre a inscrição.

Não sei. Não sei o que mais podemos fazer — disse, simplesmente, Grimpow, fazendo eco ao seu próprio desencanto.

Talvez a nossa pedra filosofal não seja a chave dos mistérios, ao contrá­rio do que você havia pensado — lamentou Salietti.

Ou talvez a pedra não deva ser passada apenas sobre a inscrição! — respondeu Grimpow, sentindo um súbito relampejo em sua mente.

Alçou, instintivamente, os olhos à abóbada que ficava a dois palmos da cabeça de Salietti e a alguns mais da sua e o viu ali, no centro ao qual confluíam as nervuras radiais do teto abobadado da cripta.

O Ouroboros!

O símbolo da serpente que morde o próprio rabo, o mesmo símbolo do lacre de ouro e da mensagem lacrada que o cavaleiro morto nas montanhas portava, estava talhado sobre a inscrição da cripta sem que até aquele mo­mento eles tivessem se dado conta disso.

Dê-me a pedra, eu a passarei pelo símbolo do Ouroboros. Só preciso esticar meu braço — disse Salietti mais animado.

Mas, ao passar a pedra sobre o símbolo, também não aconteceu nada.

Eu mesmo vou tentar — disse Grimpow, voltando a pegar a pedra das mãos de Salietti.

E assim que colocou a pedra sob o signo do Ouroboros, um raio de luz que parecia fogo celeste surgiu do centro da abóbada da cripta e projetou-se sobre a inscrição. Ouviram ao seu lado o rangido de uma rocha e ao voltar os olhos viram que um dos sarcófagos girava sobre seu centro, como se a escura porta do próprio inferno estivesse se abrindo diante deles.

Está claro que essa pedra, ou o que seja o lapis philosophorum dos sá­bios, escolheu você — disse Salietti.

O que você quer dizer? — perguntou Grimpow.

Que esta pedra só manifesta sua essência mágica quando está em suas mãos. Ela precisa de você para ser o que é, e ficou claro agora que é ela que elege quem deve possuí-la — disse Salietti, enfaticamente.

E se outro a tivesse encontrado? — indagou Grimpow.

Creio que não teria encontrado mais que uma pedra avermelhada sem nenhum valor.

Então Grimpow recordou uma a uma as palavras que o irmão Rinaldo lhe dissera na sala oculta da biblioteca da abadia de Brínkdum: "Um Eleito possui a inquietude da aprendizagem e do conhecimento como se fosse uma força interior capaz de revelar-lhe a realidade do mundo para criar os elos de uma cadeia de sabedoria que está fora e mais além da humanidade, e que o levará a desvendar o segredo dos sábios. Esse maravilhoso tesouro que ninguém ainda viu, e cujas portas estão fechadas para muitos, só é acessível a quem o procura seguindo os sinais e os caminhos adequados."

Você acredita... Acredita que o segredo dos sábios possa estar ali? — titubeou Grimpow, sacudido pela emoção.

Se não olharmos lá dentro não saberemos nunca — disse Salietti, e, aproximando a luz do candelabro do sarcófago aberto, enfiou sua cabeça num buraco negro e sinistro.

Você consegue ver alguma coisa? — perguntou Grimpow.

Aqui não há nem um único osso — disse Salietti, enquanto apalpava a cavidade com suas mãos, temendo deparar-se com um esqueleto desfeito. Mas depois acrescentou: — Espere um momento, parece que há alguma coisa aqui.

O que é? Vamos, me diga! — disse Grimpow, impaciente.

Creio que se trata apenas de um velho manuscrito — murmurou Salietti sem muito entusiasmo, ao mesmo tempo em que tirava a cabeça do sarcófago e entregava a Grimpow um livro antiqüíssimo coberto de pó.

Grimpow soprou a capa e uma espessa nuvem de pó cinzento flutuou di­ante de seus olhos. Depois passou a manga de seu gibão sobre o velho manus­crito e as capas douradas brilharam com intensidade mágica. Era um livro de uma beleza excepcional, com um fecho de ouro e reforços, também dourados, na encadernação. No centro, havia um desenho do Ouroboros, a serpente que mordia o próprio rabo, e, sobre ele, um título escrito com os mesmos símbolos hieroglíficos que Grimpow já conhecia. O Ouroboros era igual ao do lacre de ouro e ao da mensagem lacrada do cavaleiro morto nas montanhas, e idêntico ao símbolo sobre o qual tivera de passar a chave dos mistérios para conseguir que o sarcófago se abrisse.

O que diz o título do manuscrito? — quis saber Salietti.

A essência cósmica da pedra! — exclamou Grimpow cheio de satisfação, pois o velho manuscrito que tinha em suas mãos poderia permitir-lhes, final­mente, averiguar o que era exatamente a pedra filosofal que possuía; devia conter, também, os códigos de que precisavam para encontrar os segredos dos sábios, onde quer que estivessem escondidos.

Salietti também não dissimulou sua alegria com o achado, e sorria de feli­cidade, pois havia entendido a importância que o título do velho manuscrito podia ter para sua busca.

O nome do autor está escrito na capa? — perguntou, inquieto.

Creio que sob o título do manuscrito aparece o nome de alguém cha­mado Muciblib Rodia. Pelo menos foi isso o que eu li — disse Grimpow.

Esse nome tem sonoridade de uma língua estranha, mas há algo nele que não consegue me convencer.

Salietti pediu a Grimpow o pedaço de pergaminho e o carvão que usara para anotar suas deduções sobre a inscrição talhada na cripta e escreveu o nome que seu amigo havia pronunciado:

 

                     MUCIBLIB RODIA

 

Creio que desta vez você se esqueceu de uma coisa importante — disse Salietti, dissimulando um sorriso malicioso.

Diga-me você — pediu-lhe Grimpow, para não carregar um novo enig­ma e uma nova intriga.

Você deve lê-lo ao contrário.

Grimpow fez o que Salietti lhe recomendara e sua surpresa foi tal que gri­tou de alegria.

Aidor Bílbicum! Foi escrito por Aidor Bílbicum!

Assim é — disse Salietti, com o orgulho pela sua descoberta dançando em seus olhos.

O que o levou a pensar que se tratava de um novo criptograma? — per­guntou Grimpow.

Você pode chamar de simples intuição, se preferir — respondeu, com displicência. — E agora, vamos dar uma olhada no manuscrito antes que as velas do candelabro sejam consumidas e a gente fique sem luz.

Não era um manuscrito volumoso, pois só tinha oito espessas páginas de pergaminho, mas Grimpow só precisou dar uma simples olhada nos seus símbolos para se dar conta de que aquele velho livro era mais belo e enigmático que todos os tratados herméticos escritos pelos alquimistas.

— Leia alguns desses símbolos em voz alta, assim saberemos pelo menos do que trata o manuscrito — pediu-lhe Salietti.

Grimpow abriu o livro e começou a leitura:

 

A primeira vez que falei com aquele misterioso sábio pensei que estava louco. Conheci-o por caprichos do universo em uma das mi­nhas viagens ao outro lado do mar, quando navegávamos em uma robusta galera à vela que comercializava sedas e especiarias daque­las costas exóticas. Soprava naquela noite uma brisa cálida de poen­te e a quietude das ondas convidava a permanecer na coberta do navio, contemplando a estrelada cúpula do firmamento e seus bri­lhos prodigiosos. Sem dúvida, a ausência da lua me parecia uma oca­sião propícia para meus olhos se refestelarem mais uma vez nas cons­telações do Zodíaco, e me dispus a localizá-las sem demora apontando para o céu com meu báculo. Acabara de localizar o signo de Áries no quadrante do oeste, pois estávamos perto do equinócio da primavera, quando pressenti, atrás de mim, a presença de alguém que me observava. Girei minha cabeça para descobrir a face do meu inusitado acompanhante e então o vi como se impossíveis raios de lua iluminassem seu rosto, ou como se a própria lua estivesse pen­durada em seus olhos. Era um homem de estatura normal, fartas barbas e longos cabelos que me olhava com curiosidade, acreditan­do, talvez, que era eu quem iniciaria o ritual da cortesia e lhe expli­caria logo os motivos de minhas observações e achados na majesto­sa abóbada da noite. E eu me dispunha a me apresentar quando ele mesmo pronunciou meu nome e me disse que se desejasse poderia me levar até um castelo que alçava suas muralhas entre as estrelas que eu observava com tanto interesse. Não me surpreendeu que co­nhecesse meu nome, pois, sendo passageiro como eu naquela galera, poderia tê-lo ouvido de algum dos marinheiros, ou de mim mesmo ao me apresentar aos chefes da tripulação antes de zarpar do porto e dar começo à nossa travessia. Mas ao ouvir suas palavras acreditei que aquele homem delirava como um alucinado por causa das mui­tas jornadas que levávamos navegando por aqueles mares, expostos à impiedade do sol, ao vaivém da nave e ao rude açoite dos ventos. Sorri-lhe para dissimular meu estupor diante da insensatez de seu oferecimento, pois não só me pareceu descortês tornar evidente seu desvario como temi de sua loucura algum arrebatamento de ira que o levasse a acabar me lançando sem compaixão pela borda, para servir de pasto à voracidade dos tubarões que são tão abundantes naquelas águas profundas. Optei por seguir sua corrente e deixar-me arrastar pela aprazível maré de sua fantasia, e lhe respondi que aceitaria com muito prazer um vôo tão arriscado e inusitado, se não fosse por ter de arribar na costa para visitar um bom amigo e grande conhecedor dos céus, com quem pensava discutir alguns assuntos relativos aos movimentos planetários e suas órbitas elípticas ao re­dor do Sol. Pensei que, com tal explicação, mais que certa, meu acom­panhante se daria por satisfeito e me permitiria continuar em mi­nhas ocupações, deixando para melhor oportunidade a visita às estrelas que sem rubor me propunha. Mas, contra as minhas previ­sões, mostrou-se compreensivo com minhas desculpas, e me elogiou por serem tão excelsos os motivos que as justificava, pois esses assuntos também ocupavam seu tempo, e acreditava estar em con­dições de me ilustrar, se eu assim o desejasse, sobre a composição química dos corpos celestes ou a medição das distâncias estelares. Aceitei comprazido sua sugestão, que não exigia nenhum abandono da galera nem nenhum vôo disparatado pelos céus noturnos, e que a julgar pelo anunciado de sua dissertação me pareceu mais adequada à origem do nosso diálogo. Meu interlocutor começou então um loquaz discurso sobre o Universo, sustentado em teorias e funda­mentos tão sólidos e originais que não pude fazer menos que observá-lo abobalhado. E tal foi minha surpresa ao ouvi-lo que fui eu quem acreditou estar enlouquecendo repentinamente ou sendo vítima de uma desapiedada alucinação, pois jamais em parte alguma do mun­do, das muitas que havia visitado seguindo os impulsos de minha paixão pela astronomia, havia ouvido a exposição de idéias tão avan­çadas e corretas sobre a ciência dos astros. De maneira que me rendi diante do resplendor de sua erudição, e lhe roguei que me permitis­se gozar de sua companhia durante o tempo de nossa viagem, e, inclu­sive, acompanhá-lo como seu ajudante a qualquer lugar que fosse. O misterioso sábio acolheu com gozo minhas palavras, e continuamos em agradável prática até bem entrada a madrugada. Informou-me, então, de que também ele tinha o propósito de alcançar as costas às quais navegávamos, pois pensava em explorar nessas terras um paraí­so desconhecido habitado por seres surpreendentes e mágicos. Ao ouvir isso, duvidei mais uma vez de sua cordura, mas haviam sido tão gratas e esplêndidas suas dissertações anteriores que logo esqueci meus re­ceios e continuei atento à sua narração até que senti nos olhos a pulsante coceira do cansaço e o plácido convite do sono. Despedimo-nos num instante, mas não sem prometer-nos antes que, no dia seguinte, con­tinuaríamos desfrutando de nossa apaixonante conversa. Depois, já no camarote da popa, me entreguei ao doce abraço da sonolência, deixei voar bem alto minhas fantasias cósmicas, e adormeci profun­damente. E muito perto das estrelas, ainda ouvi o compassado chapinhar das ondas que acariciavam a galera, entre belos rumores de algas, sereias e tritãos...

 

Até agora parece apenas a história de uma viagem fantástica — disse Salietti.

Desconfio de que este seja apenas o princípio; parece-me que este velho manuscrito de Aidor Bílbicum conta a história da pedra, do segredo dos sábi­os e de como desvendá-lo. Embora também me tenha parecido ler nas entreli­nhas que para isso teremos de resolver ainda muitos enigmas. Talvez se en­contrarmos Aidor Bílbicum em Estrasburgo ele possa nos ajudar a sair deste labirinto.

Então voltemos à igreja. A luz das velas está se apagando e ainda temos de encontrar a forma de voltar a fechar este sarcófago. No caminho à fortaleza do barão Figüeltach de Vokko você me contará a respeito da tal da essência cósmica da pedra de que trata este manuscrito. Eu não posso compreender os símbolos hieroglíficos que usaram para escrevê-lo e que você consegue ler como se fosse a língua que ouve falar desde seu nascimento.

Grimpow passou a chave dos mistérios no símbolo do Ouroboros situado no centro da abóbada da cripta, tal como havia feito para abrir o sarcófago, e a tumba se fechou com um zumbido surdo, devolvendo à escuridão o esqueleto invisível que lhes havia entregado seu valioso tesouro. Mas se Grimpow estava seguro de alguma coisa, era a de que aquele esqueleto invisível já não tinha de guardar nenhum segredo.

Não poderiam dizer o mesmo do pároco de Cornill, apesar de sua amabilidade e disposição de ajudá-los em sua incerta procura, pois temiam que houvesse mandado um aviso por algum mensageiro à fortaleza de Figüeltach de Vokko e que logo chegariam à aldeia esbirros para prendê-los como ha­viam feito com Gurielf Lábox e sua filha. Mas seus temores se dissiparam ao encontrá-lo de novo na sacristia, preparando seus ornamentos litúrgicos para a missa do meio-dia, sem que o afligisse nenhuma preocupação, nem ocultasse algum ressentimento.

As suas rezas na igreja tiveram algum resultado? Vocês encontraram o que procuravam na cripta? — lhes perguntou, enquanto colocava um escapulário ao redor do pescoço.

Na cripta desta igreja não há nada além de ossos de mortos! — disse Salietti, com voz destemperada.

O pároco vestiu a casula e se remexeu nela como se lhe picasse o corpo.

Se vocês estão procurando ouro, melhor teriam feito procurando-o em Avignon nas arcas do papa ou no laboratório de algum alquimista — disse rindo.

Mas seu rosto se transformou tão logo seus olhos se cravaram em um pu­nhado de pepitas douradas que Salietti lhe oferecia.

Vocês encontraram um tesouro? — perguntou assustado.

Não, por mais que nós quiséssemos. Esse ouro lhe foi enviado pelo papa, para agradecer pela sua ajuda e sua discrição. Com ele o senhor poderá con­sertar a igreja, socorrer os aldeões mais necessitados e ajudá-los a reconstruir as casas devastadas pelo incêndio.

O pároco ia pegar as pepitas de ouro das mãos de Salietti quando este as afastou subitamente de seu alcance.

Antes o senhor deve fazer um juramento — disse com severidade.

Um juramento?

Deve jurar diante da cruz que carrega em seu peito que não falará com ninguém de Gurielf Lábox nem de nós dois... — Fez uma pausa. — Ouça-me bem... Com ninguém, por mais que acredite que a pessoa conheça nosso segredo.

O pároco pegou o crucifixo, levou-o aos lábios e beijou-o com devoção.

Eu juro! — disse, precipitadamente.

Se faltar ao seu juramento, que Deus encha suas tripas com gusanos até que, ainda vivo, devorem suas entranhas, e se o respeitar, que lhe dê muita sorte durante uma vida longa e saudável como lhe apraz conceder-lhe — disse Salietti, enquanto entregava ao pároco o punhado de pepitas de ouro.

Vão sem preocupações. Eu lhes asseguro que os gusanos não devorarão meu corpo até que esteja morto, e nem assim jamais direi que vi vocês em parte alguma, nem ao senhor nem ao seu escudeiro.

 

Notícias inquietantes

Depois de abandonar a aldeia de Cornill sob um sol que empalidecia atrás de um véu de nuvens esponjosas, comeram sobre seus cavalos uns pedaços de presunto de javali e uma fogaça de pão que o pároco havia lhes dado; haviam sido presenteados também com um odre cheio de seu saboroso licor de amei­xas. A paisagem que os envolvia era de suaves colinas recobertas de fagáceas e mimosas, e o caminho ao norte corria suavemente sob a sombra fresca das árvores que o ladeavam.

Enquanto comiam sem se deter, repassaram detalhadamente os últimos acontecimentos de sua viagem, que começava a dar os primeiros frutos de sua incerta procura. Agora tinham em seu poder não apenas a pedra filosofal, o lapis philosophorum, ou a chave dos mistérios, como rezava a inscrição da cripta da igreja da aldeia de Cornill, mas também o misterioso manuscrito de Aidor Bílbicum, A essência cósmica da pedra, que haveria de lhes servir para compreender muitos enigmas que até então ignoravam. Mas também sabiam que a pedra, o manuscrito e o segredo dos sábios eram cobiçados pelo papa e pelo rei de França, e que cada um desejava possuí-los antes do outro, com a urgência de quem pressente a proximidade da morte. A maldição que o gran­de mestre do Templo Jacques de Molay lhes havia lançado da fogueira, asse­gurando-lhes que morreriam antes de um ano, os havia precipitado a buscar sem descanso o segredo que se atribuía aos templários, com o claro propósito de evitar uma morte anunciada e alcançar de passagem a imortalidade. O se­gredo dos sábios era o único exorcismo possível para a maldição que o último cavaleiro templário queimado na fogueira havia inoculado em suas veias, como a mordida envenenada de uma cobra em agonia.

Salietti disse que o papa e o rei de França haviam pensado na seguinte fra­se ao tomar conhecimento da maldição do templário: "Antes viver eternamente do que morrer rapidamente."

E sabendo que o tempo corre mais depressa que um cavalo disparado, os dois homens mais poderosos da Terra haviam determinado a seus melhores espiões que procurassem os segredos dos sábios para evitar que fosse outro quem o encontrasse primeiro. Grimpow supôs que por essa razão o papa havia enviado Gurielf Lábox à aldeia de Cornill, e que por esse mesmo motivo o rei teria ordenado ao barão Figüeltach de Vokko que o fizesse prisioneiro. No en­tanto, o papa e o rei de França ignoravam que eram o cavaleiro Salietti de Estaglia e seu jovem escudeiro que possuíam a pedra, e que se algo parecia claro era que sem a chave dos mistérios era impossível desvendar o segredo dos sábi­os, qualquer que fosse o lugar onde estivesse escondido. Assim o confirmava sem dúvida o próprio manuscrito de Aidor Bílbicum sobre a essência cósmica da pedra, e ninguém além dele sabia tanto sobre ela e sobre o segredo.

Na primeira parte do manuscrito, que Grimpow havia lido a Salietti na cripta da igreja de Cornill, Aidor Bílbicum narrava seu encontro com um mis­terioso sábio a quem havia conhecido em uma de suas viagens ao Oriente poucos anos antes da primeira cruzada da Terra Santa. Segundo relatava Aidor Bílbicum em outras páginas de seu manuscrito, o misterioso sábio ha­via lhe revelado mistérios surpreendentes sobre a natureza e o cosmos, misté­rios que nenhum ser humano podia então imaginar. E havia lhe entregado uma estranha pedra caída das estrelas, com a qual não apenas era possível transformar o chumbo em ouro, mas também permitia alcançar a sabedoria total e a imortalidade. Mais: havia lhe mostrado em uma gruta subterrânea do Templo de Salomão de Jerusalém um insólito objeto que, ao contato com a pedra, permitia realizar prodígios inimagináveis. Pouco tempo depois, esse misterioso sábio sem nome desapareceu, e Aidor Bílbicum não voltou a vê-lo nunca mais. Ao regressar à França, Aidor Bílbicum fundou em segredo uma pequena escola de sábios a qual denominou de Ouroboros, e escolheu a ima­gem de uma serpente que mordia o próprio rabo formando um círculo como símbolo da infinitude e da desordem. Passado o tempo, Aidor Bílbicum vol­tou a Jerusalém e, ao lado de outros sete sábios de sua escola a quem mostrou o insólito objeto que ali se encontrava oculto, planejou trasladá-lo à França para estudá-lo com atenção. Naquela época, também estavam em Jerusalém nove cavaleiros franceses e flamengos que haviam viajado à Terra Santa para proteger e auxiliar os peregrinos, aos quais o rei Balduíno II havia dado abrigo nos estábulos do Templo de Salomão. Colocados em contato com eles, Aidor Bílbicum e seus discípulos lhes encomendaram a tarefa de proteger com suas espadas o transporte do mágico objeto envolto em peles de cordeiro até Paris. Em troca, lhes entregariam uma grande quantidade de ouro. Sete dos nove ca­valeiros aceitaram a missão, pois era seu propósito regressar à França para fun­dar uma ordem de cavalaria que protegesse os peregrinos da Terra Santa do ata­que dos muçulmanos, e, chegado o dia, uma caravana partiu de Jerusalém com destino a um lugar incerto de Paris. Uma vez ali, e assombrados pelo infinito poder daquele objeto prodigioso, Aidor Bílbicum e seus discípulos resolveram ocultá-lo em lugar seguro e manter em segredo sua existência. Ninguém além deles deveria conhecer a natureza mágica daquele prodígio. Os anos passaram e os sábios da sociedade Ouroboros foram morrendo um a um, sendo enter­rados em uma velha cripta octagonal da aldeia de Cornill, onde Aidor Bílbicum havia nascido.

Mas o nome dele não constava do arquivo da igreja da aldeia de Cornill. Eu olhei o cartapácio de nascimentos e batismos desde a primeira página — observou Salietti.

É possível que Aidor Bílbicum não fosse seu verdadeiro nome, mas sim um pseudônimo atrás do qual ocultava sua verdadeira identidade — sugeriu Grimpow.

Sim, é possível — disse Salietti. — Mas continue. A história que você está contando sobre Aidor Bílbicum me parece interessante.

Só ele continuava vivo — prosseguiu Grimpow —, pois como detentor da estranha pedra que o misterioso sábio lhe dera não apenas havia se conver­tido em um grande sábio, mas seu corpo também gozava da imortalidade dos deuses. Aidor Bílbicum sabia, no entanto, que devia transferir a pedra a um de seus discípulos, como havia lhe advertido o misterioso sábio, pois, se não fi­zesse assim, a pedra o destruiria e o arrastaria à morte. Aidor Bílbicum procu­rou então um jovem a quem ensinou tudo o que sabia, revelando-lhe o lugar onde estava escondido o objeto mágico, do qual lhe falou longamente para que soubesse de sua existência. Chegou o momento em que Aidor Bílbicum, cansado de sua imortalidade, decidiu pôr fim à sua vida e descansar em paz eternamente, e entregou a pedra a seu discípulo, pedindo-lhe que enterrasse seu corpo junto a seu manuscrito no mesmo sarcófago da cripta da aldeia de Cornill onde também repousavam os sete sábios da sociedade secreta Ouroboros. Por isso são oito as tumbas da cripta, e por isso o manuscrito esta­va em uma delas. O sarcófago que abrimos devia ser o de Aidor Bílbicum — acrescentou Grimpow.

Mas então Aidor Bílbicum está morto! — exclamou Salietti, algo confu­so, pois no sarcófago da cripta não havia nenhum esqueleto.

A julgar pelo que diz o manuscrito, parece que sim.

Isso significa que não poderemos encontrá-lo em Estrasburgo, e que a mensagem do cavaleiro morto nas montanhas é desprovida de sentido. Um morto não pode ler uma mensagem de outro morto, e muito menos em uma cidade diferente daquela em que um deles está enterrado há séculos — refletiu.

Talvez o texto da mensagem seja apenas uma contra-senha, ou um novo criptograma. Não sei — admitiu Grimpow, enquanto pensava em como pode­ria se livrar do emaranhado de idéias que se acumulavam em seu pensamento. — Em todo caso, o manuscrito explicava onde o segredo dos sábios está es­condido, mas parece que lhe falta a última página e um mapa fantástico. Aidor Bílbicum pensou que talvez chegasse um tempo em que seria conveniente que o prodigioso objeto encontrado no Templo de Salomão voltasse a ser encon­trado por outros sábios, e deixou descrito o modo de procurá-lo, embora o tivesse feito com a escrita hieroglífica da sociedade secreta Ouroboros, e, além do mais, protegido-o com um sem-fim de enigmas. Tudo está aqui, salvo o mapa e a última página, como lhe disse — garantiu Grimpow, apontando para o livro que sustentava em suas mãos enquanto cavalgavam.

Mas se Aidor Bílbicum não está em Estrasburgo, o que vamos procurar ali? — disse Salietti.

O verdadeiro princípio do fim — disse Grimpow. — Se estivermos procurando Aidor Bílbicum apesar de ele estar morto, talvez possamos encontrar em Estrasburgo os códigos necessários para desvendar os enigmas que este manuscrito encerra. Esse deve ser o significado da nota que Gurielf Lábox deixou escrita no arquivo da igreja de Cornill. Só viajando à cidade da mensagem e perguntando ali por quem não existe poderemos ouvir a voz das som­bras — acrescentou.

O que esta voz poderá nos dizer? — perguntou Salietti.

Se não estou enganado — disse Grimpow —, nos ensinará a desvendar o mistério da essência cósmica da pedra.

 

A caminho da fortaleza do barão Figüeltach de Vokko, alcançaram as co­mitivas de alguns cavaleiros que também se dirigiam ao norte para participar dos torneios de primavera nos castelos da Alsácia. Grimpow se sentiu fascina­do pelo colorido e a pompa majestática dos cortejos e suas caravanas. As car­ruagens das damas e suas donzelas estavam engalanadas com grinaldas de flo­res e fitas de seda, as pontas das lanças cintilavam sob o sol intenso, e uma profusão de bandeirolas e estandartes ondeavam sobre as montarias de um nutrido grupo de soldados e cavaleiros.

O passo dos cavalos de Grimpow e Salietti era mais rápido que o dos cor­tejos dos nobres, e logo ultrapassaram as carretas de serventes, pavilhões, ar­maduras, armas e provisões. Alguns meninos os saudaram com alvoroço ao passar perto deles, sacudindo suas mãos no ar, e ao chegar à altura das carrua­gens, Grimpow observou como algumas jovens donzelas cochichavam, ocul­tando seus rostos ruborizados pelas amáveis reverências de Salietti. Os solda­dos, no entanto, os observaram com receio e menoscabo, e os cavaleiros se mantiveram eretos e arrogantes em suas montarias enquanto conversavam animadamente entre eles, indiferentes ou alheios à sua presença.

Apenas um cavaleiro de porte nobre que cavalgava solitariamente diante do cortejo, seguido a curta distância por seu escudeiro, os saudou cortesmente quando se preparavam para ultrapassá-lo. Não era um ancião, mas tampouco era possível dizer que fosse um homem jovem: tinha olhos cinza, nariz reto, cabelos de uma curiosa cor acinzentada, a mesma de suas sobrancelhas e de sua barba bem cortada, aparados na nuca, e usava um gorro comprido do qual sobressaia uma pluma de faisão. Suas vestes eram elegantes, embora pareces­sem opacas por causa da poeira que as cobria, e a empunhadura da sua espada era robusta e dourada nas pontas.

Parece que conheço o brasão do seu escudo. O senhor também está indo para a fortaleza do barão Figüeltach de Vokko? — perguntou a Salietti.

Salietti puxou as rédeas de seu cavalo para acompanhar o passo da monta­ria do cavaleiro e se adiantou a Grimpow, que acomodou o do seu ao do outro escudeiro, um jovem de pele escura que se limitou a olhá-lo com indiferença.

Esse é de fato meu destino, como suponho que também seja o seu, se­nhor...

Rhádoguil, Rhádoguil de Cúrnilldonn. E o senhor, como se chama? — perguntou o cavaleiro.

Salietti de Estaglia, neto do duque Iacopo de Estaglia.

Então é estrangeiro.

Sim, nascido na região italiana do Piemonte.

E cruzou as pontiagudas montanhas dos Alpes para acudir aos torneios?

Para um cavaleiro desejoso de aventuras e façanhas, as montanhas alpi­nas são como gigantes que é preciso vencer em duras batalhas — disse Salietti.

O cavaleiro riu ostensivamente.

O senhor tem razão, amigo meu. E já que está falando de aventuras, de façanhas e batalhas, diga-me se também tem intenção de combater na nova cruzada do barão Figüeltach de Vokko e do rei de França contra os castelos do Círculo.

Ainda não tinha notícias da guerra que se anuncia quando saí do Piemonte, e ouvi alguma coisa sobre essa cruzada durante o caminho, mas não consigo entender muito bem as razões que a justificam. Segundo eu sei, o barão aliou-se ao rei de França para dar caça aos templários foragidos nas for­talezas do duque Gulf de Östemberg e de seus fiéis cavaleiros. Estou equivo­cado? — disse Salietti.

Ha! Loucura! — disse com desprezo o cavaleiro. — O rei de França sabe muito bem o que procura tão longe de seu luxuoso palácio de Paris. E embora pareça manter suas intenções escondidas nas pregas de sua mente retorcida, todos sabem que deseja arrasar os castelos do Círculo como já fez há seis anos com a Torre do Templo em Paris para saqueá-la e encontrar o segredo dos templários.

Mas o segredo dos templários não passa de uma lenda. Quem pode ga­rantir que esteja escondido na fortaleza do duque Gulf de Östemberg? — in­dagou Salietti, fingindo não acreditar na apaixonante história que ele próprio e Grimpow estavam desvendando e que, segundo suas averiguações, não se tratava do segredo dos templários e sim dos sábios.

O cavaleiro se remexeu na sela da sua montaria e acomodou a bainha de sua espada na nádega.

Meu amigo — disse —, quando um grande mestre da Ordem do Templo, a quem acusam de ter mantido tratos com o diabo e de dominar a arte da necromancia, anuncia ao rei e ao papa enquanto agoniza entre as chamas de uma fo­gueira que morrerão antes de um ano, algo de verdade há em sua ameaça.

E se a maldição do grande mestre do Templo, Jacques de Molay, for fal­sa? As pessoas hoje em dia são muito dadas a inventar histórias de magia e feitiços e depois ficam acreditando nelas como se fossem verdadeiras — disse Salietti.

Se o senhor acredita em minha palavra, pode ter certeza de que essa maldição é tão real como o fato de estar falando agora comigo. Eu mesmo presenciei sua execução na fogueira no dia 18 de março passado, diante do átrio da catedral de Notre Dame, na ilha dos Judeus de Paris, e ouvi o grande mestre do Templo proclamar sua maldição com voz severa e forte. Quando o grande mestre da Ordem do Templo Jacques de Molay agonizava no meio da crepitação das chamas que o devoravam, e todos os que estavam ali presentes pensávamos que ia exalar o último suspiro, alçou a voz e gritou: "Eu amaldiçôo meus assassinos e os convoco para que antes de que transcorra um ano prestem conta de seus crimes contra a Ordem do Templo diante do sagrado tribunal de Deus!" E sua maldição já começou a se cumprir.

Não estou entendendo o senhor — disse Salietti, desconcertado pelas últimas palavras de Rhádoguil de Cúrnilldonn.

Segundo um mensageiro informou ontem mesmo aos cavaleiros que cavalgam às nossas costas, o papa Clemente V morreu há apenas alguns dias no castelo de Roquemaure, perto de Avignon.

O que o senhor está dizendo? — perguntou Salietti, alarmado.

Exatamente o que o senhor ouviu. Ao que parece, sentiu-se indisposto, começou a sofrer dores intensas e acabou retorcendo-se e vomitando sangue como se suas entranhas tivessem arrebentado.

Então a maldição foi cumprida fielmente? — disse Salietti, tomado pelo desconcerto.

O senhor tem por acaso alguma dúvida? — perguntou o cavaleiro com ar misterioso.

Bem, não tenho nenhuma confiança nos assuntos de maldições, feitiços e sortilégios — admitiu Salietti, pensativo.

O cavaleiro voltou a rir.

Eu tampouco, meu amigo, eu tampouco. O que matou o papa não foi um feitiço, e sim um veneno — murmurou, impassível.

O assombro de Salietti crescia a cada momento, pois não tinha certeza se o que o cavaleiro lhe dizia era porque realmente o sabia ou porque assim supunha.

Como pode assegurar isso? — perguntou Salietti.

Porque só uma poção empeçonhada pode causar uma morte tão sangren­ta e horrível, e porque está claro como a água que se trata de uma vingança.

Uma vingança...? Uma vingança de quem? Há seis anos os cavaleiros templários que conseguiram se livrar das masmorras e da fogueira abandona­ram a França, fugindo os do sul até a Espanha e Portugal e os do norte para os castelos do Círculo de Pedra e a Alemanha.

Ainda restam na França templários dispostos a defender a honra de sua ordem. O rei Felipe sabe disso, e depois da morte do papa Clemente está mais assustado que um porco em época de matança. Teme correr a mesma sorte, e sabe que se não encontrar a tempo o segredo dos templários, o desejado elixir da vida que proporciona a imortalidade conforme contam as lendas, é muito possível que esteja morto antes da próxima primavera.

Salietti não dissimulou seu assombro ao ouvir as palavras do cavaleiro, que pareciam tão sensatas como verdadeiras.

Tenho entendido que o rei de França assistirá aos torneios de primavera dos castelos da Alsácia — disse.

Esse era seu propósito, e já estava a caminho. Mas, segundo informou ontem o mensageiro a esses cavaleiros — esclareceu, olhando para trás para apontar os nobres do cortejo —, tão logo teve notícias da morte do papa, vol­tou a Paris, com o rabo metido entre as pernas como se fosse um cachorro humilhado.

Esses cavaleiros? O senhor não faz parte do mesmo cortejo? — pergun­tou Salietti.

Oh, não! Achava que já havia lhe contado — disse o cavaleiro, desculpando-se pela omissão. — Meu escudeiro e eu cavalgamos sozinhos para a fortaleza do barão Figüeltach de Vokko. Ontem, antes do entardecer, alcança­mos esta caravana, e nos unimos a ela para passar a noite.

O senhor vai participar das justas?

Não, não tenho o costume de me bater em duelos. Meu escudeiro e eu tínhamos uma missão a cumprir, que agora só poderemos levar a cabo em parte.

Por que está me falando de tudo isso? Se as coisas são como o senhor diz, está colocando sua vida em perigo — atreveu-se a dizer Salietti, temendo que Rhádoguil de Cúrnilldonn fosse um templário disfarçado de nobre cavaleiro que tinha a missão de assassinar o rei de França se fosse assistir aos torneios.

Não se inquiete. Já lhe disse que conheço o brasão do seu escudo.

O vento soprou e a noite começou a cair, e alguns cúmulos de nuvens, in­flados e esponjosos como flores de algodão comprimidas, assomavam atrás dos cumes das montanhas próximas.

 

                                   Há magia nas estrelas

A fortaleza do barão Figüeltach de Vokko se alçava sobre montanhas que dominavam toda a planície da Alsácia. Era um espantoso e gigantesco castelo, repleto de guaritas inacessíveis, portas falsas, antemuros, vigias e altíssimas torres de merlão, muitas das quais eram redondas e estavam cobertas com telhados que pareciam capuzes negros de cinza. A porta principal estava cerca­da por torres de ameias, e era protegida por uma grade alta e uma ponte levadiça que cruzava o fosso onde arautos do barão, cercados por estandartes e um grupo de músicos, davam as boas-vindas aos cortejos dos cavaleiros que paravam diante das muralhas e lhes designavam um par de criados: um para levar os nobres e suas damas a seus aposentos e outro para que tratasse de conduzir os carros e as cavalgaduras aos estábulos.

No interior do castelo, a atividade era ainda mais intensa. Centenas de ca­valeiros e soldados ataviados com cotas de malha e elmos cintilantes se mo­viam de um lado a outro entre as muralhas e as torres, e por todos os cantos ardiam grandes tochas e piras, cujas línguas de fogo pareciam querer fugir com o vento.

Tinham acabado de entrar na fortaleza quando Grimpow teve de dar um salto acrobático para evitar que um cavaleiro que cobria seu rosto com um elmo aterrorizante o esmagasse debaixo dos cascos de seu cavalo encabritado. Grimpow não podia deixar de olhar de um lado ao outro, fascinado pelo bulício reinante, enquanto um criado os conduzia a pé por uma ampla esplanada em direção a seus aposentos e outro levava os cavalos e a mula carregada com a armadura até as baias.

Quem é esse cavaleiro que fustiga assim seu cavalo? — perguntou Salietti ao pajem que os acompanhava e carregava, assim como Grimpow, um par de alforjes.

Ninguém sabe, salvo o arauto que o recebeu esta manhã na entrada do castelo. O cavaleiro lhe mostrou seu título de nobreza com o elmo cobrindo seu rosto, e manifestou seu desejo de manter sua identidade incógnita até o final dos torneios — respondeu. — Desde que chegou, não tem feito outra coisa do que entrar e sair da fortaleza para que ninguém o reconheça, e todos se perguntam quem é. A cada ano chegam aos torneios dos castelos de Alsácia muitos nobres aventureiros sem fortuna, que chamam a atenção dessa e de outras maneiras mais insólitas e extravagantes — disse, lamentando-se. — Mas estou certo de que o senhor não é como eles; basta olhá-lo para saber que é um dos aspirantes a vencer os lances das justas, e talvez possa ser quem vai eleger a rainha do torneio.

E você, como se chama? — perguntou Salietti ao pajem, um rapaz orelhudo e com dentes de roedor um pouco mais velho que Grimpow.

Pode me chamar de Guishval, senhor.

Pelo tom adulador de Salietti, Grimpow percebeu que havia, sem ter pro­curado, encontrado aquele que seria seu melhor informante sobre tudo o que acontecia entre as sólidas muralhas da fortaleza do barão Figüeltach de Vokko.

Se o senhor precisar de qualquer coisa, é só me pedir — disse Guishval. E, ao passar ao lado de um poço, exclamou: — Olhe, ali está meu senhor Figüeltach de Vokko.

Ao lado do poço, um nobre ricamente ataviado dava ordens a seus cavalei­ros. Era um homem mais jovem que Grimpow havia imaginado. Não tinha barba, e seus cabelos negros se moviam levemente ao vento. Seus olhos pos­suíam o fulgor de um ser impiedoso, e sua voz e seus gestos eram tão severos como seu olhar. Um longo manto de veludo negro adornado com franjas de ouro pendia de seus ombros, e, sobre seu blusão branco, um urso empinado bordado em negro lhe cobria o peito. Levava uma grande espada presa à cin­tura, cuja empunhadura cintilava como se um manojo de pedras preciosas ti­vesse sido fundido com o aço.

Fizeram uma reverência ao chegar ao seu lado e continuaram cruzando o pátio de armas. Passaram ao lado das marquises e das cozinhas, e entraram em uma torre guardada por dois soldados ataviados com cota de malha e elmo, que afastaram suas lanças à sua passagem. Em seus escudos tinham pintado como brasão o mesmo urso empinado que ondeava ao vento em todos os estan­dartes da fortaleza. Depois subiram por umas escadas estreitas até o primeiro andar da torre e chegaram, finalmente, a uma sala de paredes largas e tetos bai­xos, na qual se alinhava uma vintena de confortáveis leitos com colchões de pa­lha estendidos aos seus pés. A sala parecia tão buliçosa como o pátio, pois mui­tos participantes das justas já haviam chegado ao castelo e acomodavam seus alforjes e vestimentas ao lado das camas que lhes haviam sido destinadas.

Estes são seus aposentos, a cama para o senhor e o colchão de palha para seu escudeiro — explicou Guishval sem necessidade, pois a Grimpow pareceu evidente que era ele quem teria de dormir no chão. — Poderão deixar os alforjes sobre este banco. Aqui há uma tina com água; as latrinas ficam lá embaixo, no fundo do pátio. Meu senhor, o barão, deseja que aproveitem a estada em sua fortaleza. O jantar será servido dentro de duas horas, no grande salão de armas. Ao amanhecer, os arautos anunciarão as parelhas de contendores, e depois serão celebradas as justas — recitou o criado, como se fosse o pregoeiro do reino.

Bem, Guishval, você é muito amável — voltou a cumprimentá-lo Salietti.

O criado se preparou para partir e esboçou uma reverência.

Aguarde um momento — disse Salietti, abaixando a voz para não ser ouvido pelos outros cavaleiros que estavam se lavando ou trocando as roupas empoeiradas da viagem.

Diga-me, Guishval, você já viu alguma vez o brilho de uma pepita de ouro?

Guishval olhou meio atrapalhado para Salietti, e depois se voltou para Grimpow, como se lhe perguntasse pelo bom senso do cavaleiro ao qual servia.

Não, senhor — disse, com timidez. — O único ouro que eu vi em minha vida é o do lacre do meu senhor barão, e o das jóias e dos braceletes que as damas do castelo exibem.

Talvez eu possa lhe dar de presente uma pepita de ouro, em pagamento pelos seus serviços — murmurou Salietti ao ouvido de Guishval.

O criado se sobressaltou como se lhe tivessem cravado um punhal nas costas.

O que precisarei fazer? — perguntou, com os olhos escancarados.

No momento, bastará que me diga se há alguns dias um velho e sua filha foram trazidos presos à fortaleza — disparou Salietti, sem titubear.

Antes de responder, Guishval passeou o olhar de um lado a outro para as­segurar-se de que ninguém os observava.

Não devo falar disso. Se meu senhor, o barão, souber que soltei a língua não hesitará em cortá-la para lançá-la a seus cães — disse assustado.

Pode confiar que ele nunca ficará sabendo, eu juro pela minha honra de cavaleiro — tranqüilizou-o Salietti.

O velho e a filha chegaram aqui há dois dias, escoltados pelos soldados do barão. Podem acreditar se eu lhe disser que nunca vi uma jovem tão bela — disse Guishval.

Estão trancafiados nas masmorras do castelo? — insistiu Salietti, ansio­so por conhecer a resposta.

Não, senhor — balbuciou o criado. — O ancião chegou muito doente, foi encerrado em um quartinho da torre da guarda e morreu ontem à noite. Hoje de manhã baixaram sua mortalha ao ossário que fica ao lado das masmorras, sem dedicar-lhe nenhuma missa nem cerimônia, e ali deixaram o ca­dáver como se fosse um proscrito. Segundo os mexericos dos soldados, se tra­tava de um mago ou de um necromante.

Desta vez foi Salietti quem se sentiu atingido por um punhal invisível. E embora se esforçasse para dissimular o desconsolo que inundou sua alma, afundando-o na mais profunda melancolia, Grimpow percebeu pelo brilho aquoso de seus olhos que o ancião Gurielf Lábox não era para Salietti um sim­ples desconhecido. Então confirmou que havia algo que Salietti lhe ocultava, como havia suspeitado quando chegaram à aldeia de Cornill e um ferreiro lhes dissera que os soldados de Figüeltach de Vokko tinham prendido um mago adorador das estrelas chamado Gurielf Lábox.

A filha do ancião sabe que ele está morto?

Creio que sim, pois, desde que seu pai faleceu ontem à noite, não pára de chorar, desconsolada. Seu nome é Weienell.

Onde esta dama está agora?

Está trancafiada sob chave em uma alcova da torre de honra. Meu senhor, o barão de Vokko, ficou fascinado por sua beleza assim que a viu, e desconfio que esteja tentando conquistar seu amor, apesar de tê-la feito prisioneira.

Grimpow percebeu que o coração de Salietti voltava a sobressaltar-se.

Quem guarda a chave dessa alcova? — perguntou, angustiado.

Quem guarda a chave é meu senhor barão em um pequeno cofre que fica em seu gabinete.

Salietti tirou duas pepitas de ouro da bolsa que trazia oculta sob o cinto e as entregou dissimuladamente ao criado.

Obrigado, Guishval, por sua ajuda. Não deixe que ninguém veja estas pepitas, pois pensariam que você as roubou de alguém. Mas ainda precisarei que você me preste outros serviços.

Se precisar de mim, basta me mandar um aviso pelo seu escudeiro. Es­tou sempre nos estábulos, e estarei pronto para servi-lo, senhor — disse o cria­do com alegria, e sem deixar de lhe fazer reverências enquanto saía.

Quando Grimpow e Salietti ficaram sozinhos, puseram em ordem seus alforjes e lavaram as mãos e os rostos na tina de água. Salietti se despiu, sa­cudiu as roupas cobertas de poeira e as deixou sobre a cama. Tirou de um alforje calças novas, uma camisa e um elegante gibão que haviam comprado na cidade de Üllpens, e voltou a se vestir como se fosse à cerimônia de investidura de um cavaleiro.

Creio que você não foi sincero comigo no sótão da taberna de Üllpens, quando, depois de encontrar Dúrlib enforcado, juramos que não haveria mais segredos entre nós — disse Grimpow chateado.

As palavras do amigo que, naquela sala, fingia ser seu escudeiro, pegaram Salietti de surpresa.

Não sei do que está falando, Grimpow. Você sabe de mim tanto quanto eu sei de você — respondeu-lhe em voz baixa, enquanto cingia a espada no cinto.

Eu estou falando de Gurielf Lábox e de sua filha. Você já os conhecia. Por isso nossa ida à aldeia de Cornill não foi casual. Você sabia que eles esta­vam ali, embora não imaginasse que iriam ser detidos pelos soldados do ba­rão, não é verdade? — indagou Grimpow, enérgico.

Salietti fitou seus olhos com ternura.

Não posso falar disso agora, Grimpow, mas não é o que você está pensando.

Não soube por que, mas Grimpow não pôde evitar que algumas lágrimas corressem livres pelo seu rosto. Talvez fosse por causa do esgotamento da viagem, da tensão vivida durante todos aqueles meses, da influência da pedra mágica que tinha em seu poder, do medo das incertezas que ainda os aguardavam na fortaleza do barão, da morte do ancião que ele nem sequer conhe­cera, do mistério do segredo dos sábios que ainda precisavam desvendar ou, simplesmente, pelo fato de estar se sentindo mais uma vez vilmente traído por quem acreditava que fosse seu melhor amigo.

Ora, vamos, Grimpow, não pretendo magoá-lo! É só que não posso falar a respeito disso neste momento. É uma história longa e complicada, mas eu garanto que lhe contarei tudo mais tarde. Agora temos outros assuntos mais importantes para resolver.

As palavras de Salietti o consolaram e Grimpow voltou a ficar mais anima­do. Chegou a pensar que estava sendo injusto com ele ao externar suas críti­cas, pois Salietti podia ter suas razões para não ter lhe contado tudo sobre sua vida, seu passado ou suas intenções ao acompanhá-lo em sua viagem em bus­ca do segredo dos sábios. Afinal de contas, pensou, há na mente de cada ho­mem lugares reservados só para seus pensamentos mais ocultos, seus desejos, seus sonhos ou suas maldades.

Sinto muito, não era minha intenção fazer-lhe nenhuma crítica.

Salietti aceitou suas desculpas com um sorriso e piscou um olho.

Não se preocupe. Ande, termine de se lavar, iremos dar uma volta na for­taleza antes do jantar. Espero que hoje possamos comer algo quente e saboroso.

Você tem algum plano para chegar até a filha de Gurielf Lábox? — per­guntou Grimpow, sabendo que este era agora o único pensamento que fervi­lhava na mente de Salietti.

Ainda não, antes tenho um assunto urgente a tratar com o barão Figüeltach de Vokko. Você já se esqueceu?

Você está pensando em lhe transmitir a mensagem do bandido Drusklo, o Sanguinário?

Fiz um juramento, e um cavaleiro honrado sempre cumpre suas pro­messas. Além do mais, é possível que quando falar com ele possa tomar-lhe a chave da alcova que está guardada no cofre de seu gabinete.

Mas você não vai se meter sozinho na boca do lobo! — exclamou Grim­pow, preocupado com as intenções que adivinhava nos olhos de Salietti.

Só assim poderei saber se os seus caninos estão mesmo afiados.

Salietti se aproximou do banco em que haviam deixado seus alforjes e tirou de um deles um maço grosso de cartas que Grimpow não havia visto até então.

Você pensa em jogar baralho com o barão? — perguntou.

Não — disse Salietti, pondo-se a rir. — Trata-se de curiosas cartas pin­tadas com diversos motivos alegóricos que em alguns países do Oriente são usadas para adivinhar o futuro. Muitos nobres e muitas damas se mostram fracos diante das incertezas de seu próprio destino e desejam conhecê-lo e antecipar-se a seu devir como se desse modo pudessem evitá-lo. Figüeltach de Vokko é um deles; tem verdadeira paixão pelas práticas divinatórias. Mas estou certo de que nunca ouviu falar da adivinhação que é feita por meio deste simples jogo de cartas. Penso em lhe dar estas de presente para ganhar sua confiança.

E o que eu farei enquanto isso?

Tenho uma tarefa para você. Ainda estão com você o carvão e o pedaço de pergaminho que pegou na sacristia da igreja de Cornill?

Sim, estão guardados no meu alforje.

Pegue-os, é para escrever uma coisa importante.

Grimpow pegou o carvão e cortou um pedaço do pergaminho que Salietti lhe pedia, pois não queria se separar de suas anotações sobre a enigmática inscrição da cripta que tanto havia lhe custado decifrar. Salietti pediu-lhe que desse a volta e se inclinasse para que suas costas servissem de escrivaninha, embora Grimpow tenha imaginado que o fazia também para que ele não pu­desse ver o que escrevia.

Não se preocupe, eu deixarei você ler depois de escrever — disse Salietti, adivinhando seus pensamentos.

Apoiou-se sobre as costas de Grimpow e, com uma caligrafia mais apro­priada a um monge copista que a um cavaleiro andante, escreveu:

 

           Há magia nas estrelas e feitiço nas noites de lua cheia.

          Contemple-as e encontrarás nelas teus sonhos.

 

É para ela? — perguntou Grimpow depois de Salietti permitir que ele lesse a mensagem que havia escrito.

Sim.

Trata-se de um novo criptograma, de outra mensagem em código? — disse.

Não exatamente, mas ela entenderá.

E você não vai colocar seu nome?

Meu nome não lhe diria nada — disse Salietti, enfastiado com as per­guntas do escudeiro. — E agora me ouça atentamente. Enquanto eu tento falar com o barão, você irá aos estábulos simulando que está indo apenas cuidar dos nossos cavalos. Ali, você encontrará Guishval e, sem que ninguém perce­ba, lhe dê outra pepita de ouro. Diga-lhe que é um presente meu, com o pedi­do de que faça esta mensagem chegar quanto antes às mãos da filha do ancião Gurielf Lábox.

 

De todos os enigmas, mistérios e segredos que havia conhecido e ainda lhe restavam por conhecer desde que encontrara o cavaleiro morto nas monta­nhas, nenhum intrigava tanto Grimpow nesse momento como o assunto que Salietti trazia nas mãos. E enquanto caminhavam sob a luz das tochas entre uma profusão de soldados, cavaleiros, escudeiros, criados, carros e cavalgaduras que iam e vinham das múltiplas dependências disponibilizadas na fortale­za para acolher a todos os participantes das justas, Grimpow se perguntava sem cessar quem realmente seria Gurielf Lábox, por que procurava na igreja de Cornill o segredo dos sábios, que relação tinha com Salietti, e o que impul­sionava seu amigo a se preocupar tanto com sua filha cativa. Tampouco deixa­va de dar voltas em sua cabeça o texto da mensagem que Salietti havia lhe dado para que Guishval a fizesse chegar, e se perguntava se, por acaso, não teria algo a ver com a bela dama, da qual Salietti, como o barão, também teria se enamorado. Mas se era assim, onde, como e quando a havia conhecido, pois desde que haviam partido juntos da abadia de Brínkdum não tinham falado com outras damas e mulheres que não fosse a dona da taberna imunda da cidade de Üllpens.

 

                                     A carta da morte

Depois de perambular durante um bom tempo por úmidas galerias e es­treitas escadas encaracoladas, Salietti chegou ao grande salão de armas do cas­telo. Um numeroso grupo de nobres e damas elegantemente vestidas com de­licados vestidos e enfeites formava um círculo em volta do barão Figüeltach de Vokko, que conversava animadamente com todos. Tudo estava pronto para o jantar, e muitos cavaleiros ocupavam seus assentos nas longas mesas que ocupavam o recinto, adornado com vistosos tapetes, pomposos troféus de caça, longos estandartes que pendiam do teto e uma profusão de escudos de armas cruzados por lanças e espadas. A iluminação das lamparinas e das piras pare­ciam sóis repletos de círios acesos; em uma das paredes laterais ardia uma grande lareira, na qual seria possível assar um veado inteiro.

Salietti se aproximou de um cavaleiro que dava ordens a alguns arautos vestidos em trajes de gala e lhe perguntou:

O senhor é o alcaide da fortaleza?

Sim — disse com uma leve reverência, à qual Salietti respondeu com o esboço de outra. — Diga-me em que posso ajudá-lo, cavalheiro...

Meu nome é Salietti de Estaglia. Veja, sei que neste momento o barão está muito ocupado com seus afazeres de anfitrião dos torneios. Mas o senhor teria a bondade de lhe dizer que desejo falar com ele em particular a respeito de um assunto urgente, que certamente ele gostará de conhecer?

Anunciarei a sua intenção ao barão, meu senhor, tão logo nos sentemos à mesa, pode ficar tranqüilo — disse o alcaide, e, fazendo outra reverência, afastou-se em direção a outro grupo de arautos que aguardava suas ordens.

Salietti se sentiu feliz por ter lançado a isca tal e como havia se proposto, e disse a si mesmo que só lhe restava esperar que o barão mordesse o anzol. Pensou, então, que talvez Rhádoguil de Cúrnilldonn, o cavaleiro que Grimpow e ele haviam encontrado no caminho da fortaleza e que tinha lhe falado tão abertamente do envenenamento do papa Clemente V e dos temo­res do rei de França de sofrer a mesma sorte, talvez já houvesse chegado ao castelo, e o procurou entre os convidados. Acreditou reconhecê-lo em um ca­valeiro de igual aspecto que bebia com gosto de um cântaro de cerveja, mas quando se aproximou dele com o propósito de saudá-lo e sentar-se à sua mesa, percebeu que havia se confundido. Um pajem se deu conta de que Salietti es­tava perdido e lhe indicou o lugar onde devia sentar-se, junto a um grupo de jovens cavaleiros que alardeavam suas habilidades com a lança e a espada, en­tre piadas e risadas estridentes.

Trombetas anunciaram o começo do jantar, e um tropel de serventes co­meçou a sair das cozinhas, carregando bandejas repletas de faisões, cordeiros e cervos assados, saladas, frutas, pastéis. Diante de tais manjares, o apetite de Salietti despertou depois de longos dias de malcomer durante a viagem, e se dedicou de corpo e alma a devorar com ferocidade toda a comida que caía em suas mãos, sem prestar atenção à algazarra dos jovens cavaleiros que o acom­panhavam. Imaginou que, sentados àquelas mesas, estariam todos os nobres da Alsácia, Lorena, Borgonha, e observou seus rostos, suas dentições, suas bar­bas, seus olhares, seus risos e seus gestos, como se todo o salão houvesse fica­do subitamente em silêncio e as imagens passassem lentamente diante de seus olhos, até que seu olhar se cruzou com os olhos do barão Figüeltach de Vokko, que o olhavam fixamente enquanto escutava o que o alcaide da fortaleza, sentado à sua direita, lhe sussurrava ao ouvido. Salietti esboçou uma sauda­ção inclinando a cabeça, e o barão correspondeu, intrigado. À esquerda do barão estava sentado um frade dominicano que tinha barba ruiva e o rosto marcado por profundas cicatrizes, e Salietti não teve dúvidas de que devia se tratar do cruel inquisidor Búlvar de Góztell.

Antes que terminasse o jantar, o barão tomou a palavra e com gestos grandiloqüentes fez um discurso dirigido aos cavaleiros, convocando-os a participar da guerra contra os castelos do Círculo. Falou-lhes das heresias dos templários e da necessidade de queimá-los na fogueira. Depois, alguns saltimbancos entraram na grande sala de armas lançando longas línguas de fogo pela boca, enquanto davam saltos surpreendentes e faziam acrobacias ao rit­mo de uma música trepidante executada por trombetas e tambores. Os cava­leiros levantaram seus cântaros e fizeram longos brindes no ar; as damas aplaudiram entre cochichos e risos, fascinadas pelo espetáculo.

Salietti percebeu que o barão se levantava da mesa e saía por trás do es­trado em direção aos seus aposentos.

"Figüeltach de Vokko está impaciente em me conhecer", disse Salietti para si mesmo, "e logo mandará um de seus arautos vir ao meu encontro para me conduzir até seu gabinete", continuou, deleitando-se com suas elucubrações de adivinho.

O arauto não demorou a aproximar-se da mesa.

Desculpe-me, senhor, o barão deseja vê-lo em particular. Tenha a bon­dade de me seguir — disse o arauto ao ouvido de Salietti.

Entre, entre! E seja bem-vindo! — disse o barão Figüeltach de Vokko ao ver Salietti entrar na ampla sala em que esperava, deambulando inquieto di­ante de um luxuoso tapete que exibia a figura bordada de um urso empinado ladeado pelas cabeças empalhadas de dois cervos gigantescos.

Salietti se inclinou no umbral da porta, ao mesmo tempo em que sorria amavelmente. E embora tenha simulado sentir respeito e admiração pelo ho­mem que tinha diante de si, o certo é que uma irreprimível sensação de des­prezo e raiva tomou conta dele.

O alcaide me informou que o senhor deseja falar comigo em particular de algo que considera ser de meu interesse.

Sim, é isso, senhor. Meu nome é Salietti, neto do duque Iacopo de Estaglia, da região italiana do Piemonte.

O barão fez um gesto de assentimento.

Deve ser grande a importância do que o senhor tem a me dizer, caso contrário não teria feito uma viagem tão longa só para vir falar comigo.

Bem, essa é uma coisa que só o senhor poderá avaliar. Meu primeiro propósito ao vir até a sua fortaleza era o de participar dos torneios dos caste­los da Alsácia, cuja fama e renome, como o senhor bem sabe, chega a cada ano ao norte da Itália.

Certo. A cada ano são mais numerosos os cavaleiros de Trieste, Pádua ou Bolsano que chegam para celebrar conosco as justas das festas de primavera, e isso nos compraz imensamente — disse o barão, mostrando-se cordial e falante, mas Salietti sabia que essa sua amabilidade só era a estratégia de um vilão.

Durante a viagem, alguns cavaleiros cujo cortejo também se dirigia à sua fortaleza me informaram de que o senhor tem a intenção de assaltar den­tro em breve os castelos do Círculo para capturar os templários rebeldes a quem seu eterno inimigo, o duque Gulf de Östemberg, deu asilo, contrariando as bulas ditadas pelo papa Clemente V, tristemente falecido há alguns dias.

Lamentamos todos sua perda. E quanto a meu propósito de assaltar os castelos do Círculo, o senhor não está enganado — disse o barão com arrogância.

Espero que me seja permitido unir-me ao seu exército.

O barão se aproximou de Salietti e passou o braço por cima de seu ombro.

Claro, sem dúvida o senhor será bem recebido entre meus cavaleiros, e asseguro-lhe que juntos conseguiremos uma vitória que os trovadores canta­rão em suas romanças enquanto tiverem memória, mas até agora ainda não ouvi nada de seus lábios que tenha despertado vivamente meu interesse, como me foi anunciado — disse o barão, sutilmente.

Salietti entendeu a indireta e decidiu não fazer mais rodeios.

O senhor tem razão, mas estou certo de que o terceiro motivo da minha visita o encherá de satisfação. O nome de Drusklo, o Sanguinário, significa alguma coisa para o senhor?

Diga-me antes por que está me fazendo essa pergunta.

Ele me fez seu prisioneiro no bosque de Oppernái.

O senhor se deixou capturar por esse bandido e seus sequazes?

Uma espada pouco pode servir diante de um bando de proscritos ar­mados com arcos-e-flechas. Nem sequer pude vê-los, pois estavam escondi­dos no meio das árvores. Mas quando Drusklo soube que eu me dirigia à vos­sa fortaleza, me deixou em liberdade em troca de que lhe jurasse que lhe solicitaria em seu nome o perdão de seus crimes.

Esse bandido não é apenas um sanguinário, mas também um insolente! Como se atreve a pedir-me perdão depois de ter assassinado meu avô? Meu pai passou anos tentando capturá-lo, e desde que ele morreu tampouco eu deixei de procurá-lo para vingar-me — disse, sombrio e ressentido.

Agora o senhor terá a oportunidade de se vingar. Ele acredita que pode­rá lhe ser útil no assalto aos castelos do Círculo. Faça com que venha, ofere­cendo-lhe o indulto no caso de se unir ao vosso exército, e enforque-o assim que cair em suas mãos, pendurando-o como se fosse um troféu na torre mais alta da fortaleza — disse Salietti, mostrando-se impiedoso.

O barão ficou pensativo, mas Salietti não sabia se era porque pensava se Drusklo, o Sanguinário, poderia ser realmente útil aos seus propósitos ou por­que estava saboreando a idéia de justiçá-lo.

Deixe-me pensar. Não gostaria de tomar uma decisão precipitada.

O senhor só precisará mandar um mensageiro ao bosque, e em poucos dias ele estará aqui, humilhado aos seus pés. Eu cumpri meu juramento, mas antes de partir ainda queria lhe fazer um obséquio.

Um obséquio? — perguntou Figüeltach de Vokko, com viva curiosidade.

Sei do seu interesse pelas práticas divinatórias, e pensei que gostaria de conhecer estas cartas. Fique com elas, talvez sirvam para evitar desígnios do destino que não lhe sejam favoráveis — disse Salietti, tirando o maço de cartas de debaixo de seu gibão.

Figüeltach de Vokko ia pegar as cartas quando Salietti fingiu que escapa­vam de suas mãos e as deixou cair dissimuladamente no chão. O barão se agachou para pegá-las e Salietti se desfez em desculpas, enquanto com uma mão pegava as cartas e com outra apalpava sobre a mesa, abria um pequeno cofre e procurava a chave da alcova em que estava trancafiada a filha de Gurielf Lábox. Mas não a encontrou.

Depois de recolherem as cartas do chão, o barão as examinou uma a uma com inusitada curiosidade.

Você é um adivinho? — perguntou, fascinado pela beleza dos naipes.

A adivinhação do futuro é em mim um dom inato, que eu mesmo ve­nho procurando desenvolver desde minha infância — explicou Salietti, divertindo-se com sua brincadeira.

Onde você as conseguiu? — perguntou secamente.

Eu as comprei de um bufarinheiro da cidade de Veneza, onde estive no outono passado. O mesmo bufarinheiro que me as vendeu explicou-me seu significado e me falou de sua origem. Ao que parece, encontrou-as, entre ruí­nas de um país distante, ao lado de um pergaminho que falava delas, quando estava fuçando no meio das tumbas de uma necrópole à procura das jóias com as quais aquelas pessoas enterravam seus mortos. Assegurou-me que essas cartas possuem poderes inexplicáveis, como se tivessem olhos invisíveis capa­zes de ver mais além da realidade e do tempo. Se o senhor quiser, posso lhe mostrar como são interpretadas.

As rudes mãos do barão foram deslizando as cartas uma a uma entre seus dedos, como se quisesse habituar-se a seu tato. Durante um tempo permane­ceu em silêncio, ocultando o fascínio que sentia por ter aquelas exóticas car­tas em seu poder.

O senhor tem certeza de que este é um método apropriado para adivi­nhar o futuro?

Não apenas o futuro, barão, mas também o passado — disse, com fir­meza, Salietti. — Sente-se e me permita fazer uma demonstração.

Figüeltach de Vokko e Salietti se acomodaram à mesa sobre a qual o barão despachava os assuntos cotidianos com seus vassalos, enquanto a luz de tochas lançava furtivas sombras sobre suas cabeças.

Salietti repartiu as 22 cartas sobre a mesa, criando quatro filas horizontais de cinco unidades cada uma, precedidas e seguidas de uma única carta colo­cada no centro. Suas respectivas figuras ficavam viradas para baixo, de manei­ra que vistas de cima pareciam todas iguais. No reverso de cada carta, duas espadas de prata se cruzavam sobre um sol poente, deitado diante de um límpido céu azul.

A expectativa do barão fez com que se esquecesse de que ainda devia cumprimentar seus convidados antes que se retirassem para descansar em seus aposentos.

Levante a carta que mais vos agrade — pediu Salietti, com cortesia.

Figüeltach de Vokko escorregou seu olhar pela superfície da mesa como se buscasse um enigma velado entre aquelas imagens repetidas, que ainda permaneciam mudas diante de seus olhos. Mas, finalmente, se deteve em uma carta, que pegou com decisão, virando-a no mesmo lugar em que estava depositada.

Os enamorados! — exclamou Salietti, ao ver as figuras de um homem e uma mulher de mãos dadas sob um sol radiante. — O senhor não poderia ter começado melhor.

A sorte do amor vai sorrir para mim? — perguntou o barão, apatetado.

Não duvide disso. Esta é uma carta esplêndida, que anuncia alegria, bem-estar e paixão. Mesmo que seu amor não esteja sendo correspondido agora, segundo vejo no desencanto de seus olhos, esta carta apregoa a grandes vozes que esses conflitos amorosos se desvanecerão muito depressa, dando passagem a um amor imperecível. Em pouco tempo, sua felicidade será a mais elevada.

O barão sorriu satisfeito e escolheu uma nova carta. Era a imagem formo­samente pintada de uma pirâmide partida no ápice por um raio, cuja visão pareceu mergulhar Salietti em um transe profundo.

Diante do silêncio de Salietti, o barão perguntou, impaciente:

O que o senhor está vendo?

Salietti ainda demorou a responder, mas acabou dizendo, com voz misteriosa:

Vejo que a terra tremerá sob a intensa luz de sua espada, que, como um raio caído do céu, fulminará inacessíveis torres e muralhas. E eu o vejo levantando-se vitorioso depois de cruentas batalhas que mudarão o curso da histó­ria. O passado só será uma triste recordação comparado à glória que o aguar­da. Agora tire outra carta que diste ao menos duas filas, contadas em qualquer direção, da primeira, e deixe-me vê-la.

O barão, com o rosto iluminado pela sorte, pegou e virou sua terceira car­ta, e nela viu uma roda de carro com estranhos símbolos aderidos ao redor que não compreendeu. Salietti se antecipou à sua pergunta e disse:

Esta é a roda da fortuna. Parece que esta noite a sorte lhe é propícia.

E qual é seu significado? — quis saber Figüeltach de Vokko, sem demora.

O rosto de Salietti insinuou a bondade de sua resposta.

O senhor está procurando uma coisa que se oculta, com insistência, aos seus olhos; algo que lhe tem sido negado injustamente há muito tempo. Não sei — titubeou. — Talvez um precioso tesouro... Não! — retificou Salietti sa­cudindo a cabeça, depois de um longo e reflexivo silêncio. — Creio que é algo mais valioso.

Mais valioso que um tesouro? — perguntou o barão, sem dissimular sua ansiedade.

Sim, é algo polido e brilhante que muitos homens desejam possuir e procuram desesperadamente, mas só alguns eleitos chegam a encontrar.

Os olhos do barão se agitaram em suas órbitas.

O senhor disse alguns eleitos?

Sim — afirmou Salietti, como se suas palavras chegassem a tirar suas forças. — Não sei quem são, mas estão aqui, na carta, em um destes símbolos incompreensíveis. Talvez o senhor saiba melhor do que estou lhe falando. Ten­te se lembrar — acrescentou.

O barão se esforçou para recordar, mas não sabia quem poderiam ser os eleitos, a menos que se tratasse dos templários.

Já o vejo com nitidez! — exclamou Salietti, sobressaltado, atraindo de novo a atenção do barão. — Isso que o senhor procura é algo perfeito, algo que não pode igualar-se de nenhuma outra forma imaginável. É um grande objeto feito de um metal mais precioso que o ouro.

E eu o encontrarei? — perguntou o barão contendo a respiração.

Pegue outra carta a seu bel-prazer, nela encontraremos a resposta para sua pergunta — disse Salietti, enquanto se deliciava com o papel de adivinho que havia assumido com tanto prazer.

O barão hesitou em que carta escolher, e sua mão se mexeu sobre a mesa com indecisão. Quando ao final a deteve sobre a escolhida, virou a carta e viu que nela estava pintada uma cruz de caminhos entre um denso arvoredo. Sentia-se fascinado diante daquelas cartas prodigiosas.

Deixe-me ver — disse Salietti para aumentar a tensão do momento. De­pois prosseguiu: — Quando o senhor pôde escolher o caminho adequado para encontrá-lo, optou pelo caminho que o distanciava dele. Ainda vejo que tam­bém agora está sendo assaltado por dúvidas.

Mas me diga se eu encontrarei esse tesouro — insistiu o barão brusca­mente, crendo sem reparos nos augúrios do falso adivinho.

Lamento dizer que jamais vai encontrá-lo, porque esse tesouro não está no lugar onde o senhor acha que está, nem em nenhum outro que possa vir a encontrar.

Destruirei seus castelos até dar com o último buraco em que esses mal­ditos templários possam tê-lo escondido! — gritou o barão, arrastado pelo seu próprio desespero.

Não sei do que o senhor fala, mas pegue outra carta se quiser saber algo mais sobre seu futuro — disse Salietti.

A mão de Figüeltach de Vokko vacilou no ar e foi pousar sobre a última carta da segunda fila, como se quisesse terminar de uma vez com a fatalidade que se lhe anunciava.

Maus presságios cruzam agora vosso destino — murmurou Salietti com ar misterioso.

O que o senhor está querendo dizer? Seja mais explícito — exigiu o ba­rão, franzindo o cenho.

Esta é uma carta de guerras e desolação. O senhor deve evitar se expor ao perigo, pois se anunciam terríveis batalhas que semearão os campos de cadáveres. Embora também veja que o senhor disporá de um grande exército.

Mais de 15 mil homens — disse o barão, com arrogância.

No entanto, são poucos os ginetes que vislumbro — acrescentou Salietti, para provocá-lo.

Cerca de cinco mil homens armados a cavalo e mais de quinhentos ca­valeiros já partiram para as fronteiras do norte, para esperar meu exército e iniciar a guerra. Por acaso o senhor acha que são insuficientes para assaltar os castelos do Círculo?

Intuo que vai precisar de mais que isso para atingir vosso objetivo.

Também disporemos de máquinas de guerra jamais vistas nestas terras, e de um grupo de mercenários chegados do sul aos quais não há rochas nem muralhas que possam se opor.

Será melhor que o senhor escolha outra carta, talvez ela possa tirar-nos da obscuridade que agora o envolve. Eleja a que mais o apraz — sugeriu Salietti.

O barão pegou, irritado, a carta solitária da última fila, e descobriu com horror que nela estava pintada a figura da morte.

 

                             Lanças e espadas

Ao despertar, Grimpow se sentiu contente de que Salietti estivesse em sua cama, pois não havia voltado a vê-lo desde que partira na noite anterior para falar com o barão Figüeltach de Vokko.

Onde você esteve ontem à noite? Quando resolvi dormir você ainda não havia voltado... — perguntou a Salietti, ao mesmo tempo em que se espreguiçava.

Foi uma noite longa e muito proveitosa para mim, acredite — disse Salietti em voz baixa. — Ceei fartamente e passei longas horas com o barão, conversando sobre seu futuro e suas intenções de atacar os castelos do Círcu­lo de Pedra. Uma parte do exército já está perto das fronteiras do norte, e es­pera ali a chegada do barão com seus soldados e cavaleiros, tão logo termi­nem os torneios. Consegui logo ganhar sua confiança, e ele me deu uma informação muito valiosa, embora não tenha encontrado a chave da alcova onde está trancafiada a filha de Gurielf Lábox. Você precisava ter visto a cara dele enquanto lhe falava de seus projetos de guerra e do valioso objeto que procurava sem encontrar.

Você falou com ele do segredo dos sábios? — perguntou-lhe Grimpow enquanto lavava o rosto na tina de água que lhes havia sido destinada.

Com tanta clareza como estou falando com você agora. E me perguntou se o encontraria logo.

E o que você lhe disse?

Eu lhe disse a verdade, que nunca o encontrará, pois não está onde ele suspeita, e que o procura por caminhos equivocados. Mas sua cara de réptil fi­cou pálida como a cera quando ele mesmo escolheu a carta da morte.

A morte? — indagou Grimpow.

Sim, é uma carta à qual atribuem vários significados segundo as supos­tas visões do adivinho. Eu lhe disse que para ele essa carta significava uma sombra de incerteza, pois podia chegar a encontrar a morte nas batalhas que se avizinham. Mas nesse momento não lhe menti.

Não o entendo.

Se atacar logo os castelos do Círculo de Pedra, sua morte será tão certa como minha palavra, e não haverá adivinho nem força que possa evitá-la.

Eu também fiz ontem à noite algumas descobertas interessantes nas co­zinhas — disse Grimpow com ares de auto-suficiência.

Me alegra saber que você não perdeu tempo enquanto eu arriscava a vida enganando o barão com minhas cartas. Entregou a mensagem a Guishval, como eu lhe pedi? — quis saber Salietti, enquanto vestia de novo as roupas de viagem e deixava as de gala para as celebrações da noite.

Vamos tomar o café-da-manhã, eu não jantei fartamente como você, e a fome está devorando meu estômago.

Enquanto caminhavam, Grimpow contou a Salietti o que havia feito na noite anterior. Disse que havia procurado Guishval nos estábulos, e que ele estava ali junto com outros jovens criados do barão, que bebiam às escondidas cântaros de cerveja enquanto cuidavam dos cavalos.

Ao me ver, ficou tão contente que parecia ter visto seu anjo da guarda. Entreguei-lhe a pepita de ouro, como você tinha me orientado, e lhe expliquei o que devia fazer com a mensagem. Guishval guardou rapidamente o ouro, mas me disse que não sabia como fazer para que a carta chegasse à prisionei­ra, pois um soldado vigiava constantemente a porta da alcova; um soldado avisado pelo barão de que responderia com sua vida se alguém conseguisse ultrapassá-la. Ocorreu-me, então, que a cativa devia jantar, e que haveria al­guém nas cozinhas encarregado de levar-lhe o alimento, ao que Guishval me respondeu que era uma servente que ele conhecia, e nunca trairia as ordens do barão por maior que fosse a quantidade de ouro que lhe oferecessem. E acrescentou que se eu me atrevesse, ele poderia cuidar de distrair a servente quando estivesse preparando a cesta, enquanto eu ocultava a mensagem na comida. Assim fizemos, e durante um bom tempo Guishval ficou me con­tando que é filho de um falcoeiro do barão, e que não há segredo nenhum na arte de cetraria que ele não domine. Deste modo, passamos o tempo va­gando pelas cozinhas principais, sem deixar de observar a cesta que aguar­dava sobre uma mesa. Até que finalmente chegou a servente, uma mulher madura e rude, de cara rosada e gestos ácidos e mal-humorados, e se pôs a preparar a comida: um peixe, pão, um pouco de queijo e uma jarra de água. Quando a cozinheira se preparava para partir, Guishval se aproximou dela, afastando-a da cesta com alguma história dele, e eu aproveitei a oportunidade para esconder a missiva.

E onde você a escondeu? — perguntou Salietti, temeroso de que a men­sagem não tivesse chegado a seu destino.

Deixei-a flutuando sobre a água da jarra.

Você deixou a mensagem na água! — exclamou Salietti espantado, conseguindo chamar a atenção de alguns cavaleiros que caminhavam perto deles.

Não me ocorreu outro lugar melhor — disse Grimpow, abaixando de novo a voz. — O que é escrito com esse tipo de carvão não se dilui na água — esclareceu.

Você poderia tê-la camuflado no miolo do pão — murmurou Salietti.

Pensei assim primeiramente, mas depois me dei conta de que sua triste­za pela morte do pai talvez tivesse tirado seu apetite, e que nem sequer pro­vasse a comida — justificou sua decisão.

Salietti ficou pensativo.

Sim, talvez sua idéia não tenha sido tão disparatada. É mais premente aplacar a sede, por piores que sejam nossos pesares, e se Weienell bebeu água da jarra, é certo que encontrou a missiva — reconheceu Salietti quando che­garam ao grande pátio dos estábulos, onde alguns serventes ofereciam um li­geiro café-da-manhã aos cavaleiros e seus escudeiros.

Pegaram algumas fatias de pão e de carne assada e foram degustá-las num canto.

E o que mais você descobriu? — perguntou Salietti, destroçando um pedaço de carne com os dentes.

O inquisidor Búlvar de Góztell está na fortaleza — disse Grimpow.

Eu sei, vi-o ontem durante o jantar na sala de armas, sentado à direita do barão. Soube que era ele pela descrição que o irmão Rinaldo de Metz me havia feito, antes de partirmos da abadia. Não creio que haja muitos rostos tão sinistros como o desse frade dominicano.

Também apurei que Gurielf Lábox morreu quando era interrogado pelo inquisidor Búlvar de Góztell. Não suportou as torturas do verdugo — acrescentou Grimpow, sem que lhe agradasse falar desse terrível assunto.

Você tem certeza disso? — indagou Salietti, horrorizado.

É o que sabem os criados do castelo. Dizem que ontem nas rodas de soldados não se falava de outra coisa. Asseguraram que os gritos do ancião eram ouvidos em toda a torre da guarda. Depois se fez silêncio, e no dia se­guinte tiraram o cadáver e o enterraram nas masmorras.

Esse Búlvar de Góztell é um assassino! — disparou Salietti, mordendo a língua para não gritar diante dos cavaleiros que ocupavam o pátio dos es­tábulos.

Um dos criados me contou que ele mesmo havia presenciado a discus­são do frade dominicano com seu senhor Figüeltach de Vokko, porque o inquisidor também queria a filha do ancião, acusando-a de ser uma feiticeira, enquanto o barão se opunha rotundamente a isso. Por isso a tem trancafiada em uma alcova próxima de seus aposentos. Todos os que a viram parecem assombrados com sua extraordinária beleza, e as línguas maledicentes dizem que enfeitiçou o senhor da fortaleza, valendo-se da magia negra para apode­rar-se de seu espírito.

Esses rumores devem ter sido propagados pelo inquisidor Búlvar de Góztell deliberadamente, para tentar debilitar o barão e assim conseguir que entregue a dama a seus verdugos — argumentou Salietti.

Você acredita que Gurielf Lábox confessou sob tortura o que buscava na igreja da aldeia de Cornill?

Creio que não; se o houvesse feito, o frade dominicano não estaria aqui agora.

Mas Gurielf Lábox era portador de uma carta com o selo do papa, como poderia um Inquisidor persegui-lo? — disse Grimpow para aclarar seus pensamentos.

Essa carta era falsa — disse Salietti —, olhando para o chão. — Agora recolhamos os cavalos e minha armadura.

Grimpow ia perguntar a Salietti como ele sabia desse detalhe quando soa­ram as trombetas na torre, e o retumbar dos tambores anunciou que as justas começavam.

Os pavilhões dos cavaleiros contendores se erguiam sobre a planície como grandes setas coloridas enfeitadas com vistosos e flamejantes escudos de ar­mas. Dezenas de armaduras cintilavam sobre as inquietas cavalgaduras, que não paravam de relinchar e coicear, esperando que o torneio começasse. Uma bruma transparente flutuava sobre as muralhas do castelo, e, na platéia, o ba­rão Figüeltach de Vokko e o inquisidor Búlvar de Góztell, acompanhados pe­los nobres mais influentes e as damas mais distintas da Alsácia, presidiam os festejos sob um pavilhão coberto com veludos luxuosos de cor púrpura. To­dos comentavam em pequenos círculos os prodígios de que haviam sido tes­temunhas durante a farta ceia da noite anterior, e alguns garantiam que o rei de França havia abastecido as arcas do barão com milhares de pedras de ouro puro. O barão havia prometido repartir seus tesouros com todos os cavaleiros que se somassem a seu exército para conquistar os castelos do Círculo de Pe­dra, e eram poucos os que queriam ficar à margem de tão substanciosa parti­lha. E assim toda a planície fervia de cavaleiros ansiosos para demonstrar suas habilidades com a lança e a espada, e ganhar um lugar de honra ao lado do barão Figüeltach de Vokko. Também estava em jogo a eleição da rainha das justas de primavera dos castelos da Alsácia, e muitos jovens desejavam gozar do privilégio de coroar sua amada.

Quando chegaram ao campo das justas, o torneio ainda não havia come­çado. Os arautos começavam a chamar os primeiros contendores por seus nomes e títulos, e Salietti e seu escudeiro ainda deviam esperar sua vez den­tro do cercado reservado aos cavaleiros. Salietti estava radiante com a arma­dura que o maese Ailgrup lhe vendera na cidade de Üllpens, e a quem Grimpow acreditou reconhecer no meio da multidão que se espremia nas arquibancadas. Centenas de serventes, criados, aldeões e camponeses con­templavam o espetáculo das inclinadas ladeiras das muralhas, formando uma algaravia festiva e alegre.

A multidão explodiu em vivas quando as trombetas anunciaram a pri­meira justa. Dois ginetes saíram a campo, exibindo seus brasões nas galas que seus cavalos vestiam e em seus escudos. Estavam com as viseiras dos elmos levantadas e as lanças sem ponta colocadas em posição vertical sobre as montarias. Ocuparam suas posições contrapostas, baixaram suas viseiras e suas lanças, e no meio de um clamor de grito bateram com as esporas e lançaram seus cavalos ao galope até que chegaram com violência ao centro da arena, dividida por uma vala de madeira de baixa altura para evitar que os cavalos se chocassem no embate. O impacto foi brutal, e um dos cavalei­ros conseguiu derrubar seu adversário no primeiro lance do combate, dei­xando-o tão ferido que teve de ser retirado do campo com a ajuda de vários escudeiros. O cavaleiro vencedor se dirigiu à tribuna real e levantou sua lan­ça em sinal de triunfo no meio da gritaria de seus seguidores. Depois, com passo lento, se retirou do campo das justas e se dirigiu até seu pavilhão para aguardar a segunda rodada de combates.

Os cavaleiros continuaram enfrentando-se de dois em dois. Era raro que suportassem sobre suas montarias mais de um par de desafio de seus contendores. As damas ofereciam belos lenços de seda aos vencedores de cada contenda, e estes os exibiam com orgulho, presos nas pontas de suas lanças como se fossem relíquias preciosas.

Grimpow conseguiu ver, no meio da multidão que gritava nas ladeiras, o criado Guishval, por quem sentia uma simpatia especial desde que ambos ha­viam conseguido fazer chegar à alcova da filha de Gurielf Lábox a mensagem de Salietti. Guishval conseguira um lugar privilegiado na ladeira, diante da tri­buna do barão, posicionando-se à altura do centro da arena das justas para não perder o espetacular choque de lanças, e aclamava o vencedor de cada contenda com o entusiasmo de um jovem escudeiro que aguardava fascinado pelo triunfo final de seu senhor. Grimpow lhe fez um gesto com a mão e, ao vê-lo, Guishval abandonou seu posto como se houvesse recordado de súbito que tinha algo importante a lhe dizer.

Passou seu corpo sob a cerca que os rodeava, e quando chegou perto deles, Guishval olhou para o cavaleiro Salietti com admiração e lhe disse, quase sem respiração.

O senhor a viu?

Salietti se sobressaltou.

A quem?

A dama cativa. Está ali, ao lado do barão — disse, apontando para a tribuna do campo das justas.

Salietti e Grimpow viraram as suas cabeças simultaneamente. Entre o ba­rão e o alcaide da fortaleza, estava sentada uma jovem dama de cabelos negros presos num coque enfeitado por um diadema. Ela parecia ter o seu olhar per­dido no infinito por causa de sua tristeza. O barão, no entanto, parecia encan­tado por tê-la ao seu lado, e se esforçava para animá-la comentando os lances do torneio.

Você tem certeza de que é ela? — perguntou Salietti, ainda descrente, pois seus olhos jamais haviam pousado em um rosto tão belo e tão delicado. Grimpow também repousou seu olhar na jovem Weienell, e compreendeu por que todos os cavaleiros do torneio pareciam ter sucumbido diante de tanta beleza. Depois olhou para Salietti e viu em sua cândida expressão a mesma imagem do amor que ele havia descoberto na abadia de Brínkdum quando se vira de súbito diante da menina de olhos de água.

Você por acaso conhece uma dama mais bela? Eu já lhes disse que não encontrariam outra igual em toda a Alsácia, nem em todo o reino de França — disse Guishval, cheio de orgulho.

Salietti parecia desconcertado.

Então, se esta jovem é mesmo a filha de Gurielf Lábox, estou certo de que leu minha missiva. Por isso deve ter pedido ao barão que lhe permitisse acompanhá-lo durante a celebração dos torneios. Sabe que a mensagem que encontrou na cântaro de água só pode ser de alguém que quer ajudá-la, e o único modo de sair da alcova na qual está trancafiada é mostrando-se com­placente com os desejos do barão, apesar da dor que sente pela morte de seu pai e da presença do inquisidor Búlvar de Góztell na tribuna — disse.

Me alegra ter-lhe sido útil mais uma vez, meu senhor — disse Guishval, sorridente.

Sim, Guishval, você não pode imaginar quanto. Falaremos depois, e me lembre de que lhe devo outra pepita de ouro.

Guishval disse a Grimpow que se ele quisesse, no final do torneio o levaria para ver os falcões e os açores do barão. E já estava indo para a ladeira quando um novo cavaleiro entrou na arena das justas.

Evite a espada do ginete que está entrando na liça — sussurrou ao ouvi­do de Salietti.

Salietti olhou para a entrada da arena e viu a imponente figura de um ca­valeiro ataviado com galas negras de combate que tinha pintada em seu escu­do uma torre cruzada pela asa de um corvo, e cujo elmo também estava rema­tado pela diminuta cabeça de um pássaro desconhecido. Seu cavalo estava ajaezado com uma longa manta negra que lhe cobria até a cabeça e só deixava ver os olhos grandes e negros do animal.

Quem é esse cavaleiro? — perguntou Salietti, intrigado.

É o temível Váldigor de Róstvol. Contam a seu respeito histórias que deixariam gelado o cavaleiro mais hábil e atrevido. Agora é a mão direita do barão; também é um grande amigo do inquisidor Búlvar de Góztell; os dois não só lhe ofereceram grandes somas de ouro para que se una a eles na guerra contra os castelos do Círculo, mas chegaram a lhe prometer a própria fortaleza do duque Gulf como recompensa.

Váldigor de Róstvol derrubou seu oponente com a mesma facilidade com que se derruba um espantalho, e passeou pela arena das justas exibindo, orgu­lhoso, seu triunfo e os símbolos de seu estandarte. Os soldados o aclamavam, os cavaleiros lhe rendiam honras, as damas lhe manifestavam sua admiração com dissimulados sorrisos de cumplicidade, e o próprio barão mostrou da tribuna sua satisfação pelo triunfo de seu aliado, enquanto Salietti se remexia nervoso sob sua armadura, como se estivesse a ponto de sofrer um ataque do mal de São Vito, daqueles que tanto afligiam a Kense, o criado da abadia de Brínkdum.

Quantas justas faltam para que chegue a nossa vez? — perguntou a Grimpow, exatamente no momento em que as trombetas chamavam os contendores seguintes.

Mais duas justas e o senhor terá oportunidade de bater-se. Seu rival é o cavaleiro que ontem quase esmaga minha cabeça com seu cavalo, aquele que ocultava o rosto atrás de seu elmo.

Então vingarei essa afronta com o primeiro golpe de minha lança — disse Salietti, rindo, sem deixar de olhar para a bela dama que quase enlanguescia de melancolia na tribuna do barão, muito perto do inquisidor Búlvar de Góztell, que a olhava com ódio e desconfiança.

Antes que os arautos os chamassem, Salietti montou em seu cavalo, engalanado com o sol sobre o céu azul e a lua sobre o céu negro em quadros alternados de seu brasão. Depois, colocou o elmo rematado também por um sol e um ramalhete de plumas douradas como o ouro, e quando pediu ao seu amigo que lhe entregasse seu robusto escudo brasonado e a lança, Grimpow sentiu orgulho de ser seu escudeiro.

Grimpow pegou as rédeas de sua cavalgadura e a conduziu até a entrada da arena das justas. Os arautos pronunciaram o nome do duque de Estaglia, e Salietti olhou para a tribuna para adivinhar se o rosto de Weienell se sobressaltara ao ouvi-lo. Mas a jovem permaneceu indiferente às vozes dos arautos e ao bulício, e manteve o olhar fixo na arena ainda vazia. As trombetas soaram, e Salietti e o cavaleiro desconhecido tomaram suas posições um diante do ou­tro, fazendo seus cavalos relinchar. Ambos esporearam seus animais e investi­ram a galope com a lança em riste e o olhar oculto atrás das viseiras de seus elmos. As pontas de suas lanças impactaram nos escudos com um estrondo de gongo, e farpas saltaram pelos ares sem que nenhum dos contendores fosse derrubado de sua montaria. Um grito prolongado escapou em uníssono da boca da multidão, enquanto os dois cavaleiros regressavam a suas posições de partida. Grimpow entregou a Salietti uma nova lança, e então viu que o rosto de Weienell mudava de cor, e que seus olhos se cravavam no sol e na lua pinta­dos no escudo de Salietti, como se tivesse reconhecido seu significado e visse neles a única luz de esperança. Salietti ergueu seu cavalo até que sacudisse as patas no ar e repetiu a investida, desta vez com menos sorte para o cavaleiro desconhecido, que recebeu tal golpe da lança de Salietti na cabeça que ela es­teve a ponto de ser arrancada do pescoço antes que seu corpo caísse de braços sobre a terra. Grimpow começou a dar saltos de alegria e Guishval gritava en­tusiasmado lá na ladeira. A bela filha de Gurielf Lábox sentiu que o sangue voltava a correr em suas veias quando viu que o cavaleiro que havia vencido a disputa se aproximava da tribuna, levantava a viseira do elmo e lhe pedia que pendurasse seu lenço na ponta de sua lança.

O cavaleiro vencido ainda continuava estendido no solo sem que nenhum escudeiro saísse em sua ajuda, e Grimpow correu para ajudá-lo querendo evi­tar que fosse asfixiado pelo elmo. Ajudou-o a livrar-se dele, e quando seu rosto ficou a descoberto, Grimpow viu, espantado, que era o jovem Pobé de Lánforg, o noviço que havia fugido da abadia.

— Você está ferido? — perguntou-lhe.

Mas Pobé de Lánforg limitou-se a olhá-lo como se estivesse tendo visões por causa do golpe que havia recebido na cabeça e, depois de ter aberto um pouco os olhos, caiu desmaiado nos braços de Grimpow.

Salietti ainda participou de outra justa depois do meio-dia, da qual tam­bém saiu vitorioso, apesar de ter estado a ponto de cair de seu cavalo por cau­sa de um tropeço do animal no exato momento em que as lanças e os escudos se chocavam brutalmente. Mas conseguiu manter-se firme sobre sua monta­ria e garantiu sua participação nas justas que decidiriam, no dia seguinte, quem seria o único vencedor do torneio.

 

                                     A rainha dos torneios

Depois das justas da tarde foi oferecido um banquete no grande salão de armas da fortaleza. O barão Figüeltach de Vokko não ocultava sua satisfação por ter a seu lado a bela jovem Weienell, e conversava animadamente com Váldigor de Róstvol e com Búlvar de Góztell sobre o brilho das liças e os pre­parativos da guerra, enquanto Salietti vagava em volta do barão esperando ter oportunidade de falar com a filha de Gurielf Lábox para lhe dizer que em bre­ve a libertaria de seu cativeiro.

Grimpow passou o tempo com Guishval nos cercados onde as aves de caça do barão dormitavam com a cabeça coberta por capuzes de couro, e ficou ad­mirado diante da majestade dos falcões, águias-reais e açores que o pai de Guishval adestrava. E se surpreendeu quando Guishval vestiu uma grossa luva de couro preto, pegou um belo falcão-peregrino negro na gaiola e tirou-lhe o capuz para que seus olhos vivazes da cor de mel pudessem ver Grimpow.

— Este é o meu favorito — disse Guishval, passando sua mão pelas suaves plumas do animal. — Quando o torneio terminar o deixaremos voar da torre — acrescentou.

O falcão mexeu o pescoço, desconfiado, mas também deixou que Grimpow acariciasse sua cabeça e o grosso bico, as potentes garras e as asas alargadas e pontiagudas. Grimpow sempre havia sonhado em possuir um dia um falcão como aquele, e se sentiu feliz ao lado de Guishval, a quem já consi­derava um novo amigo. Pela primeira vez desde havia muito tempo voltava a se encontrar com um menino de sua idade, alguém que era como ele próprio tinha sido antes de encontrar a pedra do cavaleiro morto nas montanhas de Brínkdum: um jovem que jamais havia visto um manuscrito com iluminuras nem sabia o nome de nenhum sábio que tivesse escrito algum deles, mas que sorria incansavelmente pela simples felicidade de estar vivo. E Grimpow pen­sou que ele também devia se sentir como uma pessoa afortunada porque, de algum modo mágico, seus sonhos infantis de ser escudeiro haviam se tornado realidade. Agora era o escudeiro de seu senhor Salietti de Estaglia, e ambos participavam das justas de primavera dos castelos da Alsácia com a intenção de ganhá-las e eleger a rainha dos torneios; nem sequer se recordava da pedra do cavaleiro morto nas montanhas de Brínkdum, nem da procura do segredo dos sábios que ainda os aguardava.

Depois Grimpow se entreteve no pátio dos estábulos do castelo, ganhando apostas de arco-e-flecha de outros jovens escudeiros que viam assombrados como ele nunca errava o alvo: um frango depenado que balançava num ga­lho como um enforcado.

Onde você aprendeu a usar o arco desse jeito? — lhe perguntou um escudeiro de cabelos loiros e rosto cheio de sardas.

Nas montanhas, caçando coelhos — respondeu Grimpow, com indife­rença.

Acho que você seria um bom arqueiro. Você nunca pensou em se alistar em algum exército como soldado?

Tenho certeza de que o barão o acolheria no seu mais seleto grupo de arqueiros — acrescentou outro, de olhos apagados e nariz aquilino.

Eu sou escudeiro, não saberia fazer outra coisa — disse Grimpow, ao mesmo tempo em que elevava o arco diante dos olhos. Depois puxou a corda com as pupilas fixas no alvo, soltou-a, a flecha cruzou o ar com um silvo de chicote e foi atravessar o peito do frango que pendia da árvore.

Pois se você manejasse a lança e a espada como maneja o arco, não de­moraria em se transformar em cavaleiro. Eu mesmo espero chegar a ser um algum dia, com o beneplácito de meu senhor — disse o louro.

Vou pensar — murmurou Grimpow sem convicção, estendendo a mão para que os escudeiros que o acompanhavam lhe entregassem as moedas que haviam apostado, na ingênua crença de que Grimpow erraria um tiro a mais de cem pés de distância.

O do olhar triste e nariz aquilino tentou imitar a pontaria de Grimpow, mas errou seu disparo e fez seus amigos caírem na gargalhada.

Você ouviu falar da guerra que se avizinha? — perguntou a Grimpow, alheio aos risos que o envolviam.

Suponho que tanto quanto você — disse Grimpow.

Eu não acredito nessa história que contam sobre o fabuloso tesouro dos cavaleiros templários — disse outro escudeiro, meio alto e ruivo.

Os sentidos de Grimpow gostaram de ouvir isto.

Que história é essa? — perguntou, como se não soubesse do que falava, devolvendo seu arco a um dos rapazes e sentando-se sobre pedras que havia perto deles.

Dizem que alguns cavaleiros da Ordem do Templo encontraram há muito tempo um valioso tesouro na Terra Santa e o esconderam na fortaleza do duque Gulf de Östemberg — explicou o louro, e abaixou a voz como se temesse que alguém o ouvisse. — O barão Figüeltach de Vokko deseja se apo­derar desse tesouro, e por isso vão assaltar os castelos do Círculo de Pedra do outro lado da fronteira, tão logo terminem as justas. É por isso que estamos todos aqui, e é por isso que o temível Váldigor de Róstvol, que, segundo as más línguas, era amigo dos templários, se juntou ao barão.

E como você pode saber uma coisa dessas? — grunhiu Guishval.

Ouvi o meu senhor contar depois das últimas jornadas da tarde. Tam­bém o ouvi dizer que o cavaleiro Váldigor de Róstvol jurou por sua honra que ganhará o torneio, e nomeará rainha das festas de primavera a bela dama que o barão tem cativa. Todos os cavaleiros se enamoraram dela como se fosse a princesa de seus sonhos — disse o escudeiro, provocando risinhos maliciosos de seus companheiros.

Váldigor de Róstvol só é um bravateiro! Ele jamais poderá vencer meu senhor Salietti de Estaglia! — disparou Grimpow.

Aposto o que você quiser que Váldigor de Róstvol vai derrubar o seu senhor Salietti no primeiro lance do torneio — disse com arrogância o louro, ficando em pé para deixar ver que era muito mais alto que Grimpow.

Grimpow ia responder a esse desafio, mas o escudeiro se aproximou dele e lhe deu um empurrão no peito que o fez cair de costas sobre um monte de estrume de cavalo.

Você pode ser muito valente com o arco, mas com os punhos não é mais que um covarde — disse o escudeiro, lançando no ar uma cusparada de desprezo.

Os punhos de Grimpow se crisparam e, impulsionado pela ira, levantou-se e avançou sobre o garoto louro, e os dois se engalfinharam em um vigoroso abraço que acabou fazendo-os rolar pelo chão. Os outros garotos fizeram um círculo em volta dos lutadores rindo e gritando, enquanto Guishval tentava tirar Grimpow daquela confusão. Mas, nesse instante, passou diante deles um jovem cavaleiro que, ao ver a disputa dos escudeiros, resolveu separá-los antes que o sangue aflorasse em seus rostos.

Pobé! — gritou Grimpow ao ver o jovem cavaleiro que acabara de tirar seu inimigo de cima dele.

Pobé de Lánforg, o noviço que havia fugido da abadia de Brínkdum, ficou gelado ao ouvir seu nome. E ao ver o rosto do garoto que lhe estendia a mão para que o ajudasse a se levantar do chão, exclamou:

Grimpow! É você!

Grimpow assentiu, tão mudo de assombro como o jovem cavaleiro.

O que você faz aqui, envolvido em briguinhas de plebeus? — perguntou Pobé de Lánforg, olhando de viés para Guishval e os outros garotos que, ate­morizados diante da presença do cavaleiro, se afastaram para um lado sem dizer palavra.

Eu achei que tinha visto você na arena das justas, depois de ter sido derrubado da minha cavalgadura na liça, mas, quando despertei no pavilhão do campo ao lado de um médico que queria me submeter a uma sangria, pen­sei que tudo havia sido uma alucinação minha por causa do golpe forte que recebi na cabeça — disse Pobé, rindo.

Pois você está vendo agora que sou eu mesmo, em carne e osso — acres­centou Grimpow, também rindo.

O antes noviço e agora cavaleiro Pobé de Lánforg recuou um passo para olhar Grimpow de cima a baixo.

Mas como é possível! Nem mesmo vendo você na minha frente posso acreditar. Jamais poderia ter imaginado que voltaríamos a nos encontrar!

O destino não quis que seguíssemos juntos o mesmo caminho, mas foi benévolo ao permitir que as nossas vidas se cruzassem de novo.

Venha, acompanhe-me e me conte o que aconteceu em Brínkdum quando o abade e o irmão Rinaldo de Metz descobriram que o rebelde noviço Pobé de Lánforg havia fugido da abadia — disse, colocando seu braço ao re­dor dos ombros de Grimpow.

Grimpow começou a caminhar ao lado do jovem cavaleiro Pobé de Lánforg e lhe contou, animadamente, o que havia acontecido.

Muitos monges e noviços da abadia, incluindo o irmão Brasgdo, o cozi­nheiro, chegaram a temer que você tivesse sido assassinado pelo fantasma do cavaleiro que vagava pelas montanhas, mas o abade e o irmão Rinaldo suspei­taram logo em seguida de que você havia fugido, levando o cavalo que faltava nas baias. Quando expliquei ao monge cozinheiro que você queria servir à ordem da cavalaria e entregar-se aos gozos do amor, ele deu um grito aos céus, afirmando que você era um bastardo — disse Grimpow, rindo às gargalhadas. — Depois, o irmão Brasgdo me falou com severidade de seu pai, o conde de Lánforg, e me garantiu que você não tardaria a voltar para a abadia, moído a cacetadas por sua rebeldia.

Meu pai acabou perdoando minhas malfeitorias de jovem transviado, embora não tenha permitido que eu viesse com ele e meus irmãos a estes tor­neios dos castelos da Alsácia, de onde partirão junto com o barão Figüeltach de Vokko para assaltar a fortaleza do duque Gulf onde os templários estão escondidos. Mas com a cumplicidade de um servente da minha mãe que sem­pre teve por mim uma estima especial, consegui enfiar uma velha armadura em um dos carros e chegar escondido até aqui em uma das carruagens do cortejo. É por isso que não queria que ninguém conhecesse minha identidade até poder demonstrar à minha família que podia combater nas justas como qualquer cavaleiro. Meu pai, que estava sentado na tribuna perto do barão, descobriu meu ardil assim que fui derrubado no torneio, mas agora está tão orgulhoso de mim como dos outros meus irmãos — relatou.

Então, você também vai participar da guerra? — perguntou Grimpow.

Sim, até que enfim vou poder realizar meus sonhos de cavaleiro, bran­dindo minha espada nas batalhas — proclamou, com ares de trovador, ao mes­mo tempo em que levava a mão à empunhadura da espada que lhe pendia do cinto. — Mas e você? Ainda não me contou como chegou a esta fortaleza.

Durante um longo passeio por diversos pátios e corredores do castelo de- bilmente iluminados por tochas, Grimpow contou ao jovem cavaleiro Pobé de Lánforg como conhecera seu senhor Salietti de Estaglia.

Meu senhor Salietti tinha intenção de participar das justas de primavera dos castelos da Alsácia, para depois ir visitar o bispo da cidade de Estrasburgo e unir-se mais tarde ao exército do barão para combater também na guerra, e por isso resolvi partir com ele — mentiu, entediado.

Então poderemos continuar a nos ver, e se alguma vez você tiver vontade de servir a outro cavaleiro, não se esqueça de que ardo de desejo de que seja meu escudeiro — disse Pobé de Lánforg, animado.

Eu levarei isso em conta — respondeu, simplesmente, Grimpow, imediatamente entristecido pelas gratas recordações de sua estadia com os monges da abadia.

Chegaram perto do portão de entrada da torre de honra, em cujo grande salão de armas se celebrava o banquete dos nobres, e o cavaleiro Pobé fez um gesto de despedida. Mas se lembrou de alguma coisa e disse:

Ah! Você se lembra do inquisidor Búlvar de Góztell, o frade dominicano que chegou à abadia perseguindo o cavaleiro templário que degolou o abade de Brínkdum?

Sim, me pareceu tê-lo visto sentado na tribuna ao lado do barão duran­te as justas — murmurou Grimpow com um fio de voz.

Eu tive a oportunidade de cumprimentá-lo. E, ao lhe dizer que havia sido noviço na abadia de Brínkdum, se mostrou muito satisfeito em me co­nhecer, e não parou de fazer perguntas sobre os monges e seus costumes. Que­ria saber, sobretudo, do irmão bibliotecário Rinaldo de Metz. Chegou a me dizer que é um maldito herege que um dia ainda queimará na fogueira, se os seus muitos anos não o matarem antes.

Essa é uma injúria que o irmão Rinaldo de Metz não merece! — protes­tou Grimpow.

O jovem cavaleiro Pobé de Lánforg se sentiu perturbado diante da violên­cia das palavras de Grimpow.

Nunca compreendi o motivo de sua simpatia por esse velho monge. De qualquer maneira, direi ao frade dominicano que você também está aqui. Te­nho certeza de que se interessará em conversar com você — disse.

Grimpow titubeou ao ouvir as intenções do jovem cavaleiro Pobé Lánforg.

É melhor não fazer isso. Eu também fugi da abadia sem permissão dos monges, e não gostaria que o inquisidor me obrigasse a voltar a Brínkdum de novo — justificou-se.

Você tem razão. Certamente ele mandaria você voltar imediatamente para os monges, para ter um espião ali — disse Pobé de Lánforg, rindo. — Agora tenho de ir. Acredito que voltaremos a nos ver logo.

E virando-se de costas, o cavaleiro Pobé de Lánforg se dirigiu à entrada da torre, onde, entre risos e cochichos, duas jovens damas, tão belas como as se­reias que Grimpow havia visto em um livro proibido da abadia de Brínkdum, o esperavam.

 

Enquanto isso, no grande salão de armas da fortaleza, um grupo de trovadores enfeitados com refinados sombreiros de largas plumas interpretava sua­ves romanças com seus alaúdes, vielas, címbalos e flautas, e os nobres e as da­mas dançavam diante deles para grande felicidade de todos os cavaleiros.

Salietti não deixou de flanar discretamente em torno da bela Weienell e do barão Figüeltach de Vokko durante toda a noite, até que aproveitou uma oca­sião em que a filha do assassinado Gurielf Lábox ficou sozinha e abordou-a sem rodeios.

Há magia nas estrelas — disse, estendendo-lhe sua mão com uma leve reverência, como sinal inequívoco de que devia conceder-lhe a próxima dança.

E feitiço nas noites de lua cheia — respondeu a jovem Weienell, rubori­zada e surpreendida diante da súbita presença do cavaleiro desconhecido, pensando que se tratava, sem dúvida alguma, do mesmo que havia feito che­gar à sua alcova uma mensagem oculta em um jarra de água.

A jovem tinha os cabelos presos na nuca, e da testa escapavam umas mé­dias que contrastavam com a ternura de seu olhar. Tinha os olhos pigmentados com o verdor das esmeraldas e lábios finos que prometiam revelar a quem os beijasse o delicado sabor das cerejas. Sua voz era quente como um sopro de brisa, e seu orgulho parecia sólido como uma fortaleza. E desde esse mágico instante Salietti sonhou com beijos de trovador, mariposas coloridas, piscadelas de lua e cintilações de pirilampos.

Amanhã mesmo eu a libertarei de seu cativeiro — murmurou em voz baixa, enquanto os dois deixavam seus corpos serem levados pelo ritmo ca­denciado da melodia, como se representassem o sutil cortejar amoroso dos faisões.

Quem é você? — perguntou a jovem, deixando seus lábios abertos com um sorriso amável que tentava dissimular seu espanto.

Me considere um bom amigo que sofreu tanto como você a morte de seu pai — disse Salietti emocionado, sentindo o delicado toque da pele de Weienell em sua mão.

Como é o seu nome?

Me chamo Salietti de Estaglia.

Os olhos da jovem se umedeceram de lágrimas e cintilaram como se neles brilhassem todas as estrelas do firmamento.

Contenha o choro, eu lhe peço — rogou-lhe Salietti. — Ninguém deve suspeitar de que desejo ajudá-la.

Como está pensando em fazê-lo? O barão não se afasta do meu lado nem por um instante, e à noite um de seus soldados guarda a porta de minha alcova como se guardasse um tesouro.

Você não deve se surpreender com isso. Você é a mais preciosa jóia com que um cavaleiro pode sonhar — disse Salietti, sorrindo, incapaz de dissimu­lar o amor que começava a sentir pela jovem.

Prefiro morrer mil vezes antes de continuar cativa nesta fortaleza — sussurrou Weienell, abaixando o tom de sua voz ao dar-se conta de que o ba­rão Figüeltach de Vokko e o inquisidor Búlvar de Góztell os observavam.

Limite-se a fingir que a companhia do barão não a desagrada, e peça-lhe você mesma que permita que o acompanhe amanhã às justas e às celebra­ções. Eu cuidarei do resto — concluiu Salietti, muito seguro de si.

Tenha cuidado, quem quer que você seja — sussurrou-lhe Weienell ao ouvido, acentuando com uma leve genuflexão o final da música.

Salietti se apressou em se retirar, mas, antes que se afastasse do lado da jovem, o barão Figüeltach de Vokko e o inquisidor Búlvar de Góztell já esta­vam ao lado deles.

Permita-me que o apresente ao enviado do papa e inquisidor de Lyon, Búlvar de Góztell, que nos honra com sua presença nos torneios — disse Figüeltach de Vokko.

Salietti inclinou seu corpo em sinal de respeito, e o frade dominicano lhe ofereceu o luxuoso anel que enfeitava sua mão para que o beijasse.

O barão me falou maravilhas de você, e me disse que também está pen­sando em se unir ao nosso exército na santa cruzada contra os templários re­beldes que se escondem como ratazanas nos castelos do Círculo — disse, com voz grave.

Também ouvi contar de suas façanhas como inquisidor, e me alegra sa­ber que o senhor é implacável contra as heresias que percorrem o mundo — mentiu Salietti, sem nenhum pudor, sentindo o peso do olhar de Weienell so­bre o seu. — E agora, se me permitem, vou retirar-me aos meus aposentos. Amanhã me aguardam duros combates e não quero deixar de ter a oportuni­dade de eleger a rainha do torneio — acrescentou, e se dispôs a ir embora.

Aguarde um instante! — disse o barão, pegando cordialmente em seu braço e afastando-o para um lado.

O senhor tem algo a me dizer? — perguntou Salietti, com a alma parti­da em dois pedaços ao ver que Weienell estava sozinha com o inquisidor.

Você conversou a meu respeito com a dama? — perguntou Figüeltach de Vokko.

Não tenha dúvida, barão. Aconselhei-a a ser amável e dócil com quem agora é seu único protetor — disse Salietti.

Você acha mesmo que ela me amará, como suas prodigiosas cartas anunciaram? — insistiu o nobre.

Dê-lhe tempo, seu coração ainda está despedaçado pela morte do pai, mas logo se recuperará de sua tristeza e descobrirá que tem diante dela o gran­de amor de sua vida. Não se canse de distraí-la, e procure fazer com que assis­ta amanhã às últimas justas. Isso a ajudará a sair de sua letargia — discursou Salietti, consciente do jogo duplo de suas palavras.

O inquisidor Búlvar de Góztell não chegou a conhecer o conteúdo da con­versa do barão com Salietti, mas tampouco estava convencido de que aquele cavaleiro italiano fosse realmente quem dizia ser.

 

Na manhã seguinte, o número de espectadores que chegaram à fortaleza, desejosos de presenciar os torneios, era ainda maior. Era domingo, e as pesso­as de todas as aldeias próximas haviam abandonado suas rotinas e seus afaze­res para acudir em tropel e presenciar o espetáculo, ocupando qualquer lugar livre de onde pudessem ver a arena das justas. As escadarias e as ladeiras das muralhas estavam apinhadas de homens, mulheres, crianças e velhos, e no meio da multidão perambulava uma corte de equilibristas, saltimbancos, titereiros, comediantes, bufões e trovadores que faziam as delícias de nobres e vilões. A maioria comia e bebia, ria ou cantava em coro, enquanto alguns alei­jados e vagabundos pediam esmola e eram expulsos dali pelos soldados. Em cada liça, a vitória do cavaleiro mais forte ou astuto era celebrada com vivas e aplausos, enquanto o derrotado abandonava a arena por seus próprios pés ou sobre maças, entre insultos, gritos e longos assovios. Salietti havia saído incó­lume das eliminatórias e conquistara a simpatia de muitos espectadores por sua habilidade com o cavalo e a lança, mas ninguém havia levado a multidão ao delírio como o cavaleiro Váldigor de Róstvol. Ambos foram proclamados pelos arautos como os melhores cavaleiros das justas, e finalmente chegou o esperado momento da última liça, da qual sairia o único vencedor do torneio.

O cavalo de Salietti havia se esgotado nos ferozes embates das liças ante­riores, e no último momento decidiram substituí-lo por Astro, o cavalo bran­co de Grimpow, que foi engalanado com as mantas blasonadas do duque de Estaglia quando as vozes dos arautos anunciaram que dentro de instantes se iniciaria a última justa do torneio.

Você acha que Búlvar de Góztell poderá reconhecer o cavalo que ele mesmo levou até a abadia de Brínkdum quando perseguia seu ginete? — per­guntou Grimpow, preocupado.

Com as galas que lhe cobrem até a cabeça, nem mesmo você poderia reconhecê-lo — contestou Salietti, cujo pensamento parecia perdido entre nebulosas preocupações. Não pensava apenas em como poderia vencer Váldigor de Róstvol e ganhar o torneio, mas sim, sobretudo, em libertar Weienell de uma vez e para sempre das imundas garras do barão. Mas não disse nada a Grimpow, para não inquietar também a ele.

Não pude falar com você antes a respeito disso, mas ontem à noite encon­trei o cavaleiro que você venceu na primeira justa, esse cuja identidade ninguém conhecia e que ocultava seu rosto sob o elmo. Seu nome é Pobé de Lánforg, filho do duque de Lánforg, e era noviço na abadia de Brínkdum, de onde fugiu poucas semanas antes de você ter chegado — explicou.

Salietti pegou a sela de seu cavalo e a colocou sobre Astro.

E o que está acontecendo com esse noviço, cavaleiro, ou o que quer que seja? — perguntou impaciente, querendo saber o que Grimpow desejava lhe dizer.

Ele estava na abadia quando o inquisidor Búlvar de Góztell chegou perseguindo o cavaleiro morto nas montanhas e assassinou o abade de Brínkdum — disse em voz baixa. — Ao vê-lo na fortaleza, Pobé de Lánforg apresentou-se a ele, e, durante suas conversas, o frade dominicano não parou de fazer per­guntas sobre os monges, em especial sobre o irmão Rinaldo, e a estas horas é possível que também tenha dito ao inquisidor que eu estive com ele na abadia, estudando com o velho monge bibliotecário.

Por que você está pensando nisso agora? — disse Salietti, sem dar im­portância aos temores de Grimpow.

Porque acabo de ver Pobé de Lánforg falando com o inquisidor de Lyon na tribuna, e ambos olharam para nós dois como dois linces podem olhar para sua presa.

Salietti virou a cabeça em direção à tribuna e viu um cavaleiro jovem conversando com o enviado do papa.

Agora não podemos fazer nada — disse, sem revelar seus temores.

Salietti pensou que se o frade dominicano podia suspeitar deles, agora não só teria de encontrar a forma de libertar Weienell das garras do barão Figüeltach de Vokko, mas, além disso, precisaria procurar uma maneira de livrar eles pró­prios dos ferros candentes do inquisidor Búlvar de Góztell. E por mais voltas que desse na cabeça, não sabia como ia conseguir essa façanha.

Desejo que você ganhe o torneio, aconteça o que acontecer depois — disse Grimpow, emocionado.

Colocarei todo o meu empenho para consegui-lo, meu querido amigo. Eu o farei por você e por Weienell, ainda que seja a última coisa que faça nesta vida. Agora me ajude a subir em Astro, e cumpra com suas obrigações de es­cudeiro — lhe ordenou, revolvendo-lhe o cabelo com sua mão de aço.

Um arauto do barão convocou os dois últimos contendores do torneio, pronunciando com pompa seus nomes e títulos de nobreza, e os dois cavalei­ros entraram triunfalmente na arena no meio do clamor das trombetas e do rufar dos tambores. As pessoas gritavam, emocionadas, acompanhando com aplausos o passo lento das cavalgaduras que davam uma volta de honra no campo das justas para apresentar suas lanças ao barão Figüeltach de Vokko. A jovem Weienell só conseguiu a duras penas conter as lágrimas ao ver parar diante da tribuna o cavaleiro que lhe havia prometido libertá-la de seu cativei­ro, pois no mais fundo do seu coração intuía que algo a unia a ele desde sua infância, embora sua memória não conseguisse recordá-lo.

Quando os cavaleiros se situaram frente a frente, cessou o estrépito e se fez um silêncio tão profundo que era possível ouvir a respiração agitada dos ca­valos no meio das batidas metálicas das armaduras. Os animais bufavam e se mexiam inquietos, cravando suas patas na terra sob pequenas nuvens de poei­ra, enquanto aguardavam que seu ginete acionasse as esporas para lançar-se a galope solto contra seu oponente.

O cavaleiro Salietti de Estaglia puxou as rédeas da sua cavalgadura, a fez erguer-se sobre suas patas traseiras, ficando empinada, e depois de um relincho de Astro o esporeou com força até lançá-lo com força contra seu rival, que também partiu enfurecido da sua posição ao seu encontro. Os olhos de todos estavam postos no centro da arena das justas, esperando que se produzisse o brutal impacto das lanças contra as defesas dos cavaleiros. Váldigor de Róstvol mantinha sua lança firme diante de seu objetivo, e quando golpeou o escudo de Salietti sua lança se partiu em dois com o estrondo de uma árvore abatida por um raio. Grimpow e Guishval fecharam os olhos nas suas respectivas po­sições, temendo que Salietti tivesse sido derrubado. No entanto, ele não pare­ceu afetado pelo golpe. Continuava ereto sobre seu cavalo, com sua lança intacta e ameaçadora.

Os dois cavalos seguiram a toda até o final da arena das justas e voltaram imediatamente às suas posições. O escudeiro de Váldigor de Róstvol lhe entregou uma nova lança, e este a enristou enquanto esporeava com violência seu cavalo. Os cavaleiros se enfrentaram de novo com brutalidade, mas desta vez Salietti acertou em cheio e conseguiu derrubar, limpamente, Váldigor de Róstvol, que, ao cair de sua montaria, produziu um estrépito semelhante ao da queda de cem caçarolas.

Houve um instante de bulício enlouquecido na multidão e Grimpow gri­tava e dava saltos de felicidade, mas, ao ver que Váldigor de Róstvol, ainda ferido e aturdido, se levantava e desembainhava com fúria sua espada, a ex­pectativa criada calou a boca dos que gritavam e os afundou de novo em um estado de profundo silêncio. Salietti desceu de seu cavalo, empunhou sua es­pada e atacou Váldigor de Róstvol com intensos golpes de seu braço, enquan­to este respondia ao ataque com a fúria de um animal ferido. A luta sobre a arena foi longa e encarniçada, sem nenhuma concessão ao desmaio nem à tré­gua, embora os dois cavaleiros parecessem esgotados e houvessem sido feri­dos pelas lâminas das espadas. Ambos se esforçavam para infligir ao outro um golpe decisivo, embora não mortal, que era respondido com inusitado brio pelo adversário. Até que Salietti fez girar no ar sua espada Atenéia e arremeteu com tal força contra Váldigor de Róstvol que a espada deste se partiu em dois, e seu corpo tombou sobre a terra como se fosse uma marionete à qual cortam os fios invisíveis que a sustentam.

Os nobres e plebeus que lotavam a arena das justas também ficaram abati­dos pela derrota de seu herói. Ninguém se atrevia a dizer nada, e só Grimpow dava saltos e gritos de alegria. Pulou a vala de madeira que cercava a arena das justas e correu até o lugar em que seu cavalo Astro revolvia com tranqüilidade a terra do campo. Acariciou-o e lhe disse algo em voz baixa que ninguém mais ouviu. Depois entregou as rédeas a Salietti, e viu os fios de sangue que corriam por suas mãos.

Você está ferido? — perguntou, assumindo sua condição de escudeiro.

Não é nada, rapaz, não é nada — disse Salietti, esgotado.

Salietti embainhou sua espada e se aproximou da tribuna presidida pelo barão Figüeltach de Vokko e o inquisidor e enviado do papa, Búlvar de Góztell.

O silêncio e a expectativa voltaram a se apoderar do campo das justas, à espera da eleição da rainha dos torneios de primavera dos castelos da Alsácia. A cada ano, a rainha dos torneios era tratada como uma verdadeira deusa du­rante vários dias de festejos, e sua eleição era tão esperada como as colheitas de trigo em tempos de fome.

Como vencedor do torneio, cabe a vós, cavaleiro Salietti de Estaglia, a honra de eleger aquela que será nossa rainha dos festejos de primavera! — proclamou, solenemente, o barão.

As trombetas soaram, a multidão gritou de júbilo durante um bom tem­po, mas, ao rufar dos tambores, um silêncio profundo voltou a dominar o ambiente.

Pode dizer o nome da dama de sua escolha e trazê-la à tribuna para ser coroada rainha! — gritou o barão, sustentando com as mãos uma coroa de ouro repleta de pedras preciosas.

Meu senhor, a dama de minha eleição não pode ser outra do que aquela cuja beleza deslumbrou todos os cavaleiros que participaram das justas e ao senhor mesmo. Ao elegê-la, creio fazer eco ao sentimento de todos os presen­tes, e espero que seja também um orgulho para o senhor ouvir seu delicioso nome, que não é outro que Weienell! — gritou Salietti observando a multidão que o cercava, e que, ao ouvir o nome da eleita, o repetiu em voz alta e não parou de ecoá-lo.

Grimpow sorriu para si mesmo ao comprovar os dons de malandro exibi­dos por Salietti, cujo aspecto era agora como o de um faisão que mostra orgu­lhoso o melhor colorido de sua plumagem. Tão sensatas foram as palavras de seu amigo que o próprio Figüeltach de Vokko se sentiu homenageado pela escolha, pois pensava que o cavaleiro e adivinho italiano havia nomeado a sua amada rainha da primavera para incentivá-la a ficar na fortaleza. Mas a jovem Weienell parecia tão aturdida como emocionada.

Suba então a esta tribuna e coloque-lhe você mesmo esta coroa real — disse, satisfeito, o barão.

Salietti se livrou do elmo, devolveu a Grimpow as rédeas de Astro e se diri­giu à tribuna, aclamado pela multidão. Mas quando o barão ia lhe entregar a coroa, o inquisidor Búlvar de Góztell gritou:

Talvez o cavaleiro Salietti de Estaglia deva nos explicar antes de onde tirou essa cavalgadura!

O campo das justas voltou a emudecer, e todos olharam para o cavalo que o frade dominicano apontava com o braço esticado. Grimpow se aproximou de Astro e o acariciou para tranqüilizá-lo, como se o próprio animal reconhe­cesse a temível voz do inquisidor.

O que o senhor está insinuando? — perguntou o barão, que não com­preendia aonde o frade dominicano queria chegar com suas exigências.

O senhor mesmo o comprovará se algum de seus soldados retirar as galas desse cavalo — disse, arrogante, Búlvar de Góztell.

Salietti tentou tranqüilizar Grimpow e Weienell com o olhar, enquanto um soldado se aproximava de Astro e, apesar dos protestos de Grimpow, lhe arrancava as mantas brasonadas que cobriam o corpo do animal.

A multidão começou a se impacientar, pois não entendia nada do que ocorria, quando o inquisidor Búlvar de Góztell contemplou as marcas a fogo do cavalo e voltou a falar.

Aqui os senhores têm a prova! Salietti de Estaglia é...! — Mas antes que o inquisidor terminasse a frase, o zumbido de uma flecha lançada de algum lugar oculto cruzou o ar como um raio invisível e foi cravar-se no peito do barão Figüeltach de Vokko.

A multidão ficou paralisada, como se a flecha que ninguém havia visto ser lançada e que ferira mortalmente o barão houvesse adormecido também a eles, ou os tivesse intimidado a ponto de temer que um novo dardo se cravasse no seu peito ou entre seus olhos caso se movessem. Os cavaleiros empunharam suas espadas, mas nenhum se atreveu a desembainhá-la, por temor de ser o alvo de arqueiros escondidos em algum lugar das torres ou das muralhas da fortaleza.

Salietti não sabia de onde havia saído a flecha que ferira mortalmente Figüeltach de Vokko, mas aproveitou o momento de desconcerto para sacar o punhal que ocultava sob sua armadura, e com um rápido movimento da mão colocou sua folha afiada no pescoço do emissário do papa. Com um assovio chamou seu cavalo, e depois ordenou a um dos soldados que aproximasse da tribuna o cavalo do barão.

Você sabe montar? — perguntou a Weienell.

Em lugar de responder-lhe, a jovem rasgou o vestido e pulou da tribuna na montaria.

Grimpow demorou a compreender o que ocorria, mas, ao ver Weienell montada no cavalo do barão, deu um salto acrobático sobre Astro e se prepa­rou para fugir tão logo Salietti o ordenasse.

Com o corpo do inquisidor Búlvar de Góztell servindo de escudo, Salietti desceu da tribuna e lhe ordenou que subisse no cavalo. Depois advertiu aos cavaleiros e à multidão que qualquer um que se movesse poderia ser alvo das flechas e, em seguida subiu na garupa de seu cavalo, pegou as rédeas e, man­tendo o emissário do papa diante de si, gritou:

- Se alguém nos seguir, cortarei o pescoço deste porco!

 

                                         No final, a verdade

Fugiram do campo das justas a galope desenfreado, perguntando-se em silêncio quem havia disparado a flecha que ferira mortalmente o barão. E quando cruzavam um rio de águas profundas próximo da fortaleza, Salietti deteve seu cavalo e o aproximou da borda da ponte de pedra. Grimpow e Weienell se postaram ao seu lado, adivinhando as intenções de seu amigo.

O que você está pensando em fazer? — balbuciou, trêmulo, o inquisidor Búlvar de Góztell, cujo rosto havia se contraído de medo.

Espero que saiba nadar! — respondeu Salietti, e com um empurrão lan­çou o frade dominicano no rio, como se estivesse se desfazendo de um saco de lixo.

Vamos, antes que os soldados do barão nos alcancem! — disse Grim­pow, enquanto o emissário do papa se debatia na água, dando tapinhas no ar para evitar que a corrente o tragasse.

Voltaram a montar, esporearam seus cavalos e cavalgaram velozmente pela beira do rio para não deixar rastro algum de sua fuga.

Quando os três ginetes chegaram às proximidades da cidade de Estras­burgo, já havia começado a anoitecer. Um crepúsculo de céus avermelhados ardia no horizonte e uma bruma acinzentada flutuava sobre o Reno como o vapor de um caldo espesso. Weienell sentou-se sobre a relva úmida da mar­gem sem dizer nada, cobriu seu rosto com as duas mãos e chorou desconsolada a morte de seu pai.

Salietti se aproximou dela, pegou-a pela mão para que ficasse em pé e abra­çou-a com ternura.

Seu pai foi um grande amigo do meu, e ambos perderam a vida por procurar a sabedoria — sussurrou-lhe ao ouvido. — Quando você era apenas uma criança, eu vivi alguns anos na casa de seus pais em Paris, e costumava suportar com resignação suas travessuras enquanto estudava no sótão. Ainda me lembro daquela casa repleta de velhos livros, e das noites em que seu pai e eu ficávamos observando o céu estrelado do bairro dos escrivães de Paris. Você era muito pequena para poder se lembrar, mas seu pai costumava me dizer então que havia magia nas estrelas, e feitiço nas noites de lua cheia, e que se as contemplasse, encontraria nelas meus sonhos.

Weienell passou a manga de seu vestido nos olhos e fitou Salietti.

A mim também costumava dizer essas mesmas palavras a cada noite quando me levava para a cama — disse, com um leve sorriso que voltou a iluminar seu olhar. — Por isso, quando encontrei a mensagem dentro da jarra de água, soube que alguém muito próximo dele queria me ajudar. Até cheguei a pensar que ele próprio havia escrito a mensagem, e que ainda estava vivo. Mas nunca teria podido imaginar que seria você, aquele jovem que brincava comigo na minha infância e cujo nome havia esquecido completamente, quem me libertaria do barão e desse inquisidor assassino — disse, entre soluços, abraçando-se de novo a Salietti.

Grimpow também sentiu que algumas lágrimas lhe resvalavam pela face.

Alguém terá de acabar de me explicar toda essa confusão — disse, dei­xando escapar um suspiro.

Eu já avisei a você que era uma história longa e complicada, Grimpow — disse Salietti. — Mas vamos sentar sobre essas pedras, suponho que Weienell e você estão ardendo de desejo de conhecê-la, e melhor será que eu a conte sem demora, antes que anoiteça.

Sentaram-se na beira do rio, sob olmos altíssimos e sobre rochas cobertas de musgo, à espera de que o negro manto da noite os cobrisse ao entrar na cidade de Estrasburgo.

Meu pai se chamava como meu avô, Iacopo de Estaglia — começou a dizer Salietti ante o olhar cheio de expectativas de Weienell e de Grimpow. — Meu avô sempre desejou que meu pai fosse um cavaleiro intrépido, digno de herdar seu arruinado ducado do Piemonte, para devolver-lhe o esplendor que os Estaglia haviam gozado em outros tempos. No entanto, meu pai sentiu des­de pequeno uma intensa vocação para os estudos, e logo se destacou por seus conhecimentos em todas as áreas do saber, desde a aritmética até a filosofia, a física ou a astronomia; e ao cumprir 15 anos, partiu para Paris, apesar dos protestos de meu avô, para estudar em sua recém-fundada universidade, que, afastada das influências do papa, gozava de grande liberdade acadêmica. Ali conheceu um monge, também nascido no Piemonte, chamado Uberto de Alessandria, de cuja amizade com meu pai já lhe falei na taberna da cidade de Úllpens — disse, olhando para Grimpow. — Convertido em discípulo do sábio monge, ambos viajaram incansavelmente, até que meu pai se instalou em Paris e conheceu aquela que depois seria minha mãe. O fato é que dentro de pouco tempo nasci eu, e me colocaram o nome de Salietti, e nos mudamos para viver em Lyon, em cuja universidade meu pai dava aulas de filosofia, e, com freqüência, acompanhado por mim, visitava o monge Uberto de Alessan­dria na abadia de Brínkdum, onde este havia se refugiado para escapar da Inquisição. — E Grimpow recordou que Salietti também já havia contado al­guma coisa sobre isso quando conversaram sobre as suspeitas de Grimpow de que o monge cego e centenário houvesse sido um dos detentores da pedra. — Meu pai também quis fazer de mim um jovem sábio e, tempos mais tarde, quando completei 16 anos, me enviou de novo a Paris como discípulo de um estudioso do cosmos chamado Gurielf Lábox, sob cuja responsabilidade me deixou — disse Salietti, olhando para Weienell com um sorriso. — No entanto, meu pai percebeu que por minhas veias corria o sangue dos verdadeiros Estaglia. Por isso, quando fiz 18 anos decidiu mandar-me viver com meu avô, para que ele tratasse de me dar a instrução devida a um cavaleiro apaixonado pelas armas, ao mesmo tempo em que prosseguia meus estudos na próxima cidade de Pádua, onde continuei vivendo até que depois da morte de meu avô herdei seu ducado por renúncia de meu pai.

Quando chegaram a este ponto, Salietti fez uma pausa e disse:

Eu lhes contei tudo isso porque só assim poderão compreender o que me disponho a relatar em seguida, e que é o que realmente importa.

"No final do inverno passado", prosseguiu Salietti, "estando eu em meu palacete do ducado de Estaglia no Piemonte italiano, recebi uma estranha mensa­gem sem nenhuma marca nem selo no lacre que a encerrava. Abri-a com verda­deira curiosidade, temendo que se tratasse de alguma brincadeira de meus amigos de Pádua, e comprovei com estupor que se tratava de uma missiva do irmão bibliotecário da abadia de Brínkdum, chamado Rinaldo de Metz. Ele di­zia que estava me escrevendo a pedido do irmão Uberto de Alessandria, ante a impossibilidade de este o fazer de seu próprio punho e letra, por encontrar-se cego e prostrado em sua cama há mais de vinte anos, como eu já sabia. Em sua missiva, o irmão Rinaldo de Metz me comunicava o falecimento de meu pai nas montanhas próximas à abadia..."

Seu pai era o cavaleiro que eu encontrei morto nas montanhas? — per­guntou Grimpow, admirado.

Sim, é isso mesmo, Grimpow — admitiu Salietti com pesar —, lamento não ter lhe dito antes, mas agora você vai entender por que me vi obrigado a lhe mentir.

Então seu pai era o detentor da pedra! — exclamou Grimpow, prestes a sofrer um desmaio.

E ao ouvir a palavra "pedra", Weienell fez cara de quem não entendia do que falavam, apesar de ter compreendido tudo quanto Salietti lhes havia relatado.

Vocês estão falando de que pedra? O que essa pedra tem a ver com seu pai e com o meu? — perguntou querendo conhecer uma coisa da qual seu pai nunca havia lhe falado.

Você entenderá tudo se deixar que eu continue — disse Salietti, tentan­do pôr um pouco de ordem na agitação que suas palavras haviam causado.

De acordo, prossiga com sua história — concordou Grimpow, ao mes­mo tempo em que tirava a pedra da bolsa de linho presa ao seu pescoço e a oferecia a Weienell, que a pegou em sua mão com a delicadeza de quem rece­be a seus cuidados uma jóia preciosa e delicada.

Como eu estava dizendo, nessa missiva o irmão Rinaldo de Metz me comunicava a morte de meu pai, e me urgia a trasladar-me sem demora à aba­dia de Brínkdum, aproveitando o degelo das montanhas, para tratar de um assunto de transcendental importância. Eu sabia que na primavera se cele­bram na fortaleza do barão Figüeltach de Vokko os torneios dos castelos da Alsácia, e posto que ia me dirigir até o norte, coloquei minha armadura em uma mula com o propósito de buscar fama e fortuna nessas terras, encilhei meu cavalo e empreendi rapidamente o caminho até a abadia. Depois de uma semana de viagem pelas íngremes montanhas dos Alpes, cheguei a Brínkdum e encontrei você na estrada da abadia, ansioso por converter-se em escudeiro de algum cavaleiro andante...

Grimpow voltou a interrompê-lo.

Então, quando você chegou a Brínkdum ainda não sabia que missão teria de empreender, e mesmo assim foi me nomeando seu escudeiro — disse.

Vi em seus olhos tanta gana por aventuras que me pareceu divertido dar corda no seu brinquedo — justificou-se Salietti, rindo.

Você se divertiu à minha custa?

Só no começo. Quando entrei na abadia e você me levou ao irmão bibliotecário Rinaldo de Metz, ele me conduziu ao irmão Uberto de Alessandria, que continuava prostrado no mesmo leito da enfermaria onde eu o havia visto na minha juventude. O irmão Rinaldo me deixou a sós com o irmão Uberto, e foi tanta a emoção do monge cego ao sentir minha presença a seu lado que seus olhos se umedeceram como se voltassem a se encher de lágrimas apesar de sua cegueira. Disse-me que havia sentido a morte de meu pai como a de um filho de seu próprio sangue, e que precisava me falar de um segredo que poucos conheciam. Foi então que me explicou que meu pai possuía uma pe­dra prodigiosa que as lendas chamavam de pedra filosofal, o lapis philosophorum, mas que, realmente, era muito mais que isso. Disse-me que ele também possuíra essa pedra, que havia recebido de seu mestre, e que fora ele quem a havia dado a meu pai quando era seu discípulo em Pádua. Essa pedra, me explicou, permitia alcançar a sabedoria e até mesmo a imortalida­de, mas ninguém devia possuí-la por muito tempo, para que outros também percebessem seus prodígios e pouco a pouco fossem desvendando os mistérios da natureza e do cosmos. E acrescentou que os detentores da pedra e outros sábios próximos deles haviam feito parte, ao longo dos séculos, de uma socie­dade secreta chamada Ouroboros, que agora estava correndo o risco de desa­parecer, pois a pedra havia caído em mãos de um menino chamado Grimpow, que vivia na abadia.

Grimpow sentiu desejos de voltar a interromper Salietti, mas o relato de seu amigo lhe parecia tão apaixonante que esperou para ouvir o que ainda tinha a dizer.

Me disse então que você havia encontrado o cadáver de meu pai na neve e que um gatuno com o qual você vivia em uma cabana das montanhas lhe havia dado a pedra, acreditando que se tratava de um amuleto. Depois me dis­se que o cadáver de meu pai havia se evaporado sobre a neve, porque todos os que possuem a pedra ou morrem com ela em suas mãos ou partem deste mundo sem deixar rastro de seus corpos para viver eternamente em um cas­telo que alça suas muralhas celestes até as estrelas, onde, ao fim, gozam do eterno dom da imortalidade.

Esse é o mesmo castelo das estrelas que Aidor Bílbicum menciona em seu manuscrito! — exclamou Grimpow, voltando a desorientar Weienell, que seguia fielmente o relato de Salietti.

O irmão Uberto me disse que havia um objeto mais prodigioso que a pedra, que alguns antigos sábios da sociedade Ouroboros haviam encontrado no Templo de Salomão de Jerusalém. Por sua encomenda, alguns cavaleiros templários o haviam transportado até a França, onde foi, finalmente, escondido pelos sábios para que ninguém alheio à sociedade Ouroboros pudesse algum dia encontrá-lo. Ao longo dos três últimos séculos, todos os sábios da socieda­de Ouroboros souberam da existência desse segredo, que seus primeiros mes­tres esconderam por seu prodigioso poder, embora tivessem deixado algumas pistas escritas em código que permitiriam que algum dia fosse encontrado para o bem de toda humanidade.

"O irmão Uberto me assegurou então que esse momento havia chegado, pois a ignorância e a superstição haviam se apropriado do mundo. Era neces­sário, por isso, desvendar o segredo para que a sabedoria acabasse com o obs­curantismo religioso e fanático da Igreja, que não só perseguia e mandava queimar na fogueira os sábios, mas também havia se proposto apropriar-se da pedra e do prodigioso objeto do qual me falava. Por essa razão haviam prendido e torturado um sábio que, sob terríveis tormentos, revelara o nome de meu pai e ainda que ele era o último detentor da pedra e responsável pela sociedade Ouroboros. O emissário do papa encarregado de descobrir o segredo dos sá­bios, me disse, era o inquisidor de Lyon, Búlvar de Góztell, um traidor dos templários que havia inculcado no rei de França a idéia de que eram estes que escondiam o segredo nos castelos do Círculo. Meu pai conseguiu fugir a tem­po de Lyon e se dirigiu à abadia de Brínkdum para tentar se refugiar nela, mas se perdeu no meio da névoa e se extraviou nas montanhas, morrendo de frio. Depois me disse que eu devia continuar a missão de meu pai e recuperar a pedra, pois sem ela era impossível desvendar o segredo."

Grimpow começava a confirmar seus temores de que Salietti o havia traído.

Você pensava em me tomar a pedra? Essa era a missão que devia cum­prir? — perguntou, aborrecido e ofendido, a Salietti.

Salietti abaixou a cabeça, humilhado, e Grimpow pegou a pedra das mãos de Weienell e colocou-a bruscamente nas de Salietti.

Pode ficar com ela, pode ficar com esta maldita pedra para sempre! — gritou Grimpow entre soluços e começou a chorar, desconsolado.

Essa não era a primeira vez que Grimpow se sentia traído. Por essa razão, não pôde conter as lágrimas ao descobrir quais eram as verdadeiras intenções de Salietti, e o modo como o havia enganado quando lhe dissera na taberna da cidade de Üllpens que deviam falar sinceramente, de amigo para amigo, pois não haveria mais nenhum segredo entre eles. Dúrlib também era seu amigo, e o deixou abandonado na abadia de Brínkdum como se seus sentimentos não importassem, ou como se ele fosse um garoto insensível ao sofrimento. A Grimpow a misteriosa pedra que acabara de entregar a Salietti importava muito pouco. A teria entregado de bom grado se a tivesse pedido, e até teria lhe dado sua própria vida se tivesse sido necessário. Ele teria dado tudo por um amigo, mas agora confirmava de novo que quem acreditava em seus ami­gos devia saber que eles não estavam dispostos a fazer o mesmo por ele, e sentiu-se o ser mais infeliz da Terra.

Você me enganou! — gritou Grimpow, dominado pela ira.

Era necessário que o fizesse — reconheceu Salietti, com cuidado.

E agora que a pedra está em seu poder, o que você pensa em fazer? Vai me matar como mataram o abade de Brínkdum ou Gurielf Lábox? Me entre­gará ao inquisidor Búlvar de Góztell para que me torture e me queime vivo em uma fogueira? É isso que pensava em fazer comigo depois de arrebatar-me a pedra dos sábios? Eu achava que você era meu amigo — concluiu Grimpow, sem parar de soluçar.

Weienell viu nos olhos de Salietti quanto ele apreciava Grimpow, e resol­veu não intervir nessa disputa. Salietti se aproximou de Grimpow para consolá-lo, mas este se afastou de seu lado.

Ora, vamos, Grimpow, sinto muito, sinto de verdade, me perdoe! Se o enganei, foi para sua própria segurança. Como eu poderia pensar em prejudicá-lo de alguma maneira? — indagou Salietti, triste. — No princípio sim era minha missão me apoderar da pedra e me desfazer de você, mas quan­do o conheci e comprovei o muito que você sabia sobre todos os grandes mis­térios da vida, me dei conta de que essa pedra fazia parte da sua alma, e mudei de opinião. Não sei por que, mas soube que sem você a missão que o irmão Uberto de Alessandria me encomendou para desvendar o segredo dos sábios seria uma tarefa impossível. Eu mesmo disse isso a você, ou não se lembra mais? Na cripta da igreja de Cornill eu lhe disse que a pedra havia elegido a você, e por isso resolvi protegê-lo e ajudá-lo a encontrar o segredo para que fosse você, e não eu, quem continuasse a missão que meu pai, detentor da pe­dra, havia deixado inacabada. O irmão Uberto me contou que também havia enviado um mensageiro a um sábio, cujo nome não me disse para protegê-lo, com o qual eu deveria me encontrar na aldeia de Cornill, onde estaria me es­perando. Ele devia ajudar-me a desvendar o segredo dos sábios, e as primeiras pistas das quais eles tinham notícias por intermédio de alguns manuscritos antigos indicavam que a procura do segredo deveria ser iniciada nessa igreja. Eu nem sequer sabia o que deveria procurar ali quando chegamos e vimos as casas incendiadas. Temi, então, que houvesse acontecido algo, e quando o fer­reiro me disse o nome do ancião que os soldados do barão haviam levado pre­so junto com a filha, não me restou a menor dúvida de que se tratava do velho amigo de meu pai com quem eu próprio havia vivido em Paris.

O rosto de Salietti parecia ter envelhecido durante o lapso de tempo em que esteve lhes contando essa história, e o de Grimpow se sentiu um pouco mais reconfortado.

Agora vocês já sabem de tudo — disse, tão cansado como quando ter­minou a última justa do torneio.

Weienell se aproximou de Grimpow e pegou na sua mão.

Meu pai nunca me falou da pedra, nem dessa sociedade chamada Ouroboros, nem do segredo dos sábios. Ele sempre foi muito reservado com seus estudos e descobertas. Mas por motivo de algumas de suas viagens, eu, sim, o ouvi dizer à minha mãe que houve um tempo em que tivera o hábito de se reunir com outros homens sábios nesses castelos do Círculo dos quais vocês falaram.

Você sabe se seu pai encontrou alguma coisa na igreja da aldeia de Cornill? — perguntou Grimpow, com o coração ainda encolhido, enquanto limpava as lágrimas dos olhos com a manga de seu gibão.

Não sei — disse Weienell. — Meu pai não queria que eu o acompanhasse nessa viagem iniciada em Paris, mas estava muito doente e eu me empenhei em vir para cuidar dele. Minha mãe havia morrido fazia alguns anos, e desde que ficara sozinho seu coração havia se debilitado muito, e mal saía da nossa casa. Quando recebeu a mensagem da qual você falou — disse, referindo-se a Salietti —, pareceu rejuvenescer subitamente, e só me lembro do que me disse: "Daqui a pouco, a luz do conhecimento voltará a iluminar o universo dos homens."

Ele sabia que o manuscrito de Aidor Bílbicum que nós encontramos na cripta estava escondido na igreja de Cornill, por isso me deixou a mensagem entre os arquivos da paróquia, isso é certo — afirmou Salietti.

Mas sem a pedra era impossível abrir o sarcófago, o pai de Weienell não teria podido encontrar nada até que você chegasse à aldeia e a entregasse a ele — ponderou Grimpow.

Então a página do manuscrito de Aidor Bílbicum que falta deve estar em alguma parte. Vamos a Estrasburgo, talvez nessa cidade esteja o que bus­camos — disse Salietti, ficando em pé, decidido.

Quem é Aidor Bílbicum? — perguntou Weienell, temendo que ainda restassem muitos detalhes dessa história por conhecer.

- Monte em seu cavalo, vamos lhe explicar ao longo do caminho — disse Salietti, quando o negro manto da noite já os cobria.

 

                                     A pousada de Junn, o Coxo

Junn, o Coxo, ainda dormia quando ouviu fortes batidas na porta princi­pal de sua pousada. Levantou-se às cegas, acendeu uma vela iluminando sua alcova, calçou o sapato que igualava suas pernas e foi ver quem importunava seu descanso a uma hora daquelas da noite. Abriu uma janela da fachada prin­cipal da casa, ao lado da qual pendia uma placa de latão que exibia a cabeça de um dragão verde, e olhou para os recém-chegados com olhos apertados e des­confiados. Na rua estava tudo escuro, e só avistou a imagem difusa de três ginetes erguidos sobre seus cavalos que o observavam imóveis diante dele.

Grimpow ia lhe dizer que tinham sido enviados pelo irmão Uberto de Alessandria, mas Salietti se adiantou a suas palavras.

Você não é mais capaz de reconhecer os amigos, querido Junn? — disse Salietti ao ver a diminuta cabeça do dono da pousada assomar na janela aberta.

Salietti, é você? — murmurou Junn do alto, sem dissimular sua alegria.

Grimpow voltou a se surpreender ao perceber que Salietti também conhe­cia Junn, o Coxo, mas desta vez não desconfiou das intenções de seu amigo.

Quem poderia molestá-lo a estas horas a não ser um cavaleiro andante tresnoitado e que não tem um lugar onde dormir, nem moedas para pagar uma pousada decente — declamou Salietti, como se interpretasse uma comédia.

Espere um instante, amigo, vou abrir em seguida o portão da bodega para que seus cavalos possam entrar.

Junn voltou a fechar a janela e correu quanto lhe permitia sua perna defei­tuosa pelos corredores e as escadas da casa até chegar ao pátio da bodega onde se empilhavam um sem-fim de barris de carvalho, que armazenavam vinho suficiente para suportar vários anos sem colheita. Abriu as folhas do portão do pátio e disse:

Vamos, entrem depressa, antes que todos os vizinhos acordem e fiquem espiando de suas casas, perguntando-se pelos motivos deste alvoroço.

Salietti puxou as rédeas de seu cavalo e, assim que entrou no pátio, correu para ajudar Junn a fechar o portão da bodega. Depois os amigos se abraçaram, e Salietti disse:

Venha, antes de mais nada quero lhe apresentar meus amigos.

Já percebi que você não está sozinho — disse Junn, seguindo com difi­culdade os rápidos passos de Salietti.

Grimpow e Weienell apearam de suas cavalgaduras e se postaram diante de Salietti à espera das apresentações, e Junn se mostrou risonho e satisfeito diante da inesperada visita dos recém-chegados. Saudou-os cordialmente e disse:

Passemos à taberna, tomaremos um pouco de vinho enquanto vocês me contam a que se deve esta agradável surpresa. Também prepararei alguma comida, é provável que vocês estejam com fome, e não é de bom gosto dormir ouvindo os protestos de um estômago descontente — acrescentou, rindo.

A taberna estava na penumbra e desprendia um cheiro agridoce, mistura de mosto e cevada. Junn colocou a vela que portava sobre uma mesa coberta por uma grossa pátina de sujeira, e convidou seus acompanhantes a se senta­rem ao redor. Depois pegou no armário uns cântaros, encheu-os de vinho e os deu a Salietti para que os servisse. Junn entrou na cozinha e pouco depois voltou com uma bandeja de queijo, acompanhada de grandes pedaços de pão de centeio.

E agora me conte, Salietti, em que posso ajudá-los?

Salietti comeu um pedaço de queijo e outro de pão, e começou as suas explicações.

Antes quero lhe transmitir os cumprimentos de alguém que você tam­bém conhece, o irmão Uberto de Alessandria — disse.

Foi ele quem nos aconselhou que viéssemos vê-lo — disse Grimpow, desejoso de conhecer logo qual era a relação que Salietti tinha com o dono da pousada.

Junn esboçou uma careta de satisfação ao recordar imagens de outros tempos.

O velho Uberto ainda vive! Faz mais de vinte anos que não o vejo. Onde está agora?

Na abadia de Brínkdum — esclareceu Salietti, sem lhe dar detalhes de sua prostração e de sua cegueira.

E seu pai, como está o incansável Iacopo de Estaglia? — quis saber Junn.

Morreu no inverno passado — disse Salietti. — Mas, se você não se im­porta, falarei disso em outro momento.

Eu sinto muito, sinto de verdade, e suponho que você deve ter seus mo­tivos para não querer me falar disso agora — disse Junn, entristecido. — Ain­da me recordo do dia em que me deu umas botas como estas — acrescentou, mostrando sob a mesa sua perna mais curta —, providas de um salto de ma­deira para aliviar meu defeito. Nunca conheci ninguém mais talentoso que seu pai. Mas me diga que assunto o traz à cidade de Estrasburgo.

Grimpow e Weienell permaneciam em silêncio, devorando o queijo e o pão entre pequenos goles de vinho.

Precisamos que nos dê hospedagem em sua pousada e que nos ajude a encontrar na cidade um homem chamado Aidor Bílbicum — disse Salietti.

Aidor Bílbicum? — repetiu pensativo o hospedeiro. — Não me lembro de ter ouvido alguma vez esse nome.

Acreditamos que fazia parte de uma sociedade secreta de sábios chama­da Ouroboros — disse Grimpow.

Isso tornará tudo mais difícil — murmurou Junn, coçando a cabeça. — Em Estrasburgo, são muitos os grêmios de artesãos e comerciantes que se reú­nem em lojas secretas para tratar de seus assuntos, sobretudo desde que co­meçaram a construir a nova catedral. Depois há os joalheiros, os metalúrgicos, os alquimistas, os magos e os necromantes, e, há alguns anos, os templários. Nenhum desses grupos deseja que os nomes daqueles que pertencem a essas sociedades herméticas sejam conhecidos. Muitos de seus membros dedicam suas vidas a isso, e usam nomes imaginários para informar a respeito de suas reuniões e mistérios.

Sabemos que não será fácil encontrá-lo, e ainda há outro detalhe que você precisa conhecer. Aidor Bílbicum está morto, morreu há quase dois sécu­los, segundo a informação de que dispomos — disse Salietti.

Então, só poderá encontrá-lo no cemitério! — exclamou Junn zom­bando do próprio pensamento, o que provocou um sorriso de cortesia de Weienell.

Achamos que se perguntarmos por ele alguém poderá se interessar em saber quem o procura e por que — explicou Grimpow.

Também devo avisá-lo de que estamos sendo perseguidos pelos solda­dos do barão Figüeltach de Vokko — destacou Salietti. — É possível que nossa presença em sua pousada possa lhe trazer algum problema.

Junn se remexeu em seu assento e arregalou seus diminutos olhos, interes­sado na história que Salietti lhe contava.

Você sabe que eu faria qualquer coisa por você — disse, servindo-se em seguida de outro cântaro de vinho.

Eu sei, Junn, eu sei. De qualquer maneira, o mais provável é que a estas horas nossos perseguidores acreditem que nos refugiamos nos castelos do Círculo, achando que eu sou um cavaleiro templário.

Você, um cavaleiro templário? — perguntou descrente o hospedeiro.

É isso no que pelo menos acredita um inquisidor chamado Búlvar de Góztell, a quem encontramos na fortaleza de Figüeltach de Vokko durante os torneios de primavera dos castelos da Alsácia — esclareceu Grimpow.

Salietti contou a Junn as peripécias de sua viagem desde que haviam che­gado à fortaleza do barão Figüeltach de Vokko, e de seu propósito de libertar Weienell de seu cativeiro.

Se feriram mortalmente o barão, só podem tê-lo feito os templários como vingança por suas intenções de assaltar os castelos do Círculo em com­panhia do exército do rei de França — disse Junn ao ouvir o relato de Salietti.

Não tenho a menor dúvida a respeito, pois as plumas das flechas eram pretas e brancas, como as cores do estandarte da proscrita Ordem do Templo — argumentou Salietti.

Está bem — disse Junn. — Vamos deixar para amanhã estes assuntos, an­tes que consigam perturbar nosso sonho. Vocês devem estar cansados da via­gem e, além do mais, já é tarde. Sigam-me, eu vou levá-los aos seus aposentos.

Junn voltou a pegar a vela que ainda ardia sobre a mesa e os conduziu por um corredor curto até a escura escada que subia aos quartos da pousada. Com a mesma vela que levava na mão, Junn foi acendendo pequenas buchas que pendiam do teto, e as trevas que os envolviam se transformaram em um am­plo corredor repleto de portas dos dois lados.

Eu vou lhe dar o mesmo quarto em que seu pai se hospedava quando vinha a Estrasburgo. Talvez você também se lembre dele, embora fosse muito inquieto para prestar atenção nessas coisas. Ele gostava dele porque da janela dá para ver o rio e as três torres da ponte, e quando o sol sai seus raios chegam até o próprio leito.

Junn foi acomodando cada um de seus convidados no quarto que lhe correspondia, entregando-lhes uma vela acesa, e se despediu deles desejando um bom descanso em sua casa. Depois voltou à sua alcova, enfiou-se na cama e logo estava dormindo.

No entanto, os novos moradores da pousada O Olho do Dragão Verde demoraram a conciliar o sono. Grimpow apagou a vela com um sopro e permaneceu com os olhos abertos na escuridão como se o mundo inteiro fosse visí­vel para ele sem necessidade de luz. Agora estava em Estrasburgo e um tempo novo começava a deslizar pelo lento relógio de sua vida. Não importava o que tivesse deixado para trás: a cabana das montanhas, seu amigo Dúrlib, a abadia de Brínkdum, os monges, as longas horas de estudo na biblioteca, as noites contemplando o céu com o irmão Rinaldo, as comidas do amável e assustadiço irmão Brasgdo, as experiências químicas do irmão Ássben e as misteriosas palavras do monge centenário Uberto de Alessandria. Por um instante imagi­nou o que teria sido de sua vida se tivesse continuado vagando pelos cami­nhos com Dúrlib ou se houvesse decidido ficar na abadia de Brínkdum como noviço para professar os votos religiosos da ordem. Mas em poucos meses havia aprendido que a existência, como os ciclos da natureza, está repleta de contrastes que se alternam, mudam e se repetem até conformar um círculo mágico dificilmente explicável. Estava certo de que ainda tinha muito a apren­der e muitos enigmas a decifrar antes de encontrar e desvendar o segredo dos sábios. A prodigiosa pedra que possuía fez com que visse assim desde o primeiro momento em que a teve em suas mãos, e agora se sentia tão unido a ela que parecia fazer parte de sua mente e de seu corpo.

Salietti também parecia dormir em seu cômodo aposento da pousada de Junn, o Coxo, mas sua imaginação vagava por inóspitos campos de batalha, terrores de homens e amores próximos. Temia o trágico futuro que os aguar­dava nos castelos do Círculo de Pedra, mas, ao mesmo tempo, sentia a presen­ça de Weienell a poucos passos dele, e acreditava poder ouvir sua agitada res­piração à espera de um encontro prometido e desejado. E Weienell, com os olhos fechados e a mente ainda desperta, recordava, deitada na alcova, de seu passado recente e da imagem de seu pai, do sofrimento de seu cativeiro e da tristeza de sua morte. No entanto, uma palpitação de esperança se agitava em seu peito pela liberdade recuperada e pelo seu encontro com Salietti, cujo amor intuía eterno. E quando Weienell ouviu que a porta de seu aposento se abria e que Salietti pronunciava em voz baixa seu nome para evitar que se assus­tasse, soube que nessa noite sem lua seus corpos nus se fundiriam sobre seu leito, entre intermináveis carícias e infinitos beijos.

 

Na manhã seguinte, Junn, o Coxo, lhes trouxe notícias tão frescas como as trutas e o pão recém-assado que serviria no café-da-manhã. Estavam senta­dos na taberna, ainda embalados pelo sono, quando o hospedeiro lhes disse:

Na cidade de Estrasburgo, as notícias são tão velozes como o vento do norte.

Que novidades você nos traz? — perguntou Salietti.

Em toda a cidade não se fala de outra coisa. O assunto é a flecha que feriu o barão.

Ele continua vivo? — perguntou Weienell, com a esperança de que o barão Figüeltach de Vokko não tivesse morrido, pois, apesar de tê-la aprisio­nado em sua fortaleza, havia sido ele quem evitara que o inquisidor Búlvar de Góztell a entregasse aos seus verdugos.

Para sorte dele, a flecha se cravou no ombro esquerdo, muito perto do coração, mas sem chegar a atingi-lo. Só está ferido, e muito furioso com o ca­valeiro italiano que venceu o torneio e, além do mais, lhe arrebatou a dama de seus sonhos. Até garantem que alguns trovadores já preparam seus romances sobre estes fatos para recitá-los nas aldeias, praças e mercados, como uma das mais belas baladas jamais conhecidas.

Grimpow e Weienell olharam para Salietti, pois não o imaginavam como herói de um drama amoroso cantado pelos trovadores.

Sabe-se quem disparou a flecha que feriu o barão? — perguntou Grimpow, a quem essa dúvida não deixava de rodar na cabeça com o ruidoso bater de asas de um marimbondo incômodo.

Não, mas ninguém duvida de que foi um cavaleiro templário disfarçado de aldeão que vagava por uma das torres do castelo. Ao que parece, atacou um dos arqueiros do barão, vestiu suas roupas de soldado e postou-se em um minarete da torre que ficava diante da tribuna.

Conseguiram prendê-lo? — insistiu Grimpow.

Junn fez uma careta com os lábios.

Ainda não, e provavelmente não vão consegui-lo até que os exércitos do barão e do rei de França arrasem os castelos do Círculo, para onde se supõe que tenha fugido.

Eu sei quem disparou a flecha que feriu o barão Figüeltach de Vokko — disse Salietti, conseguindo atrair todos os olhares.

Você viu alguém disparar o arco? — perguntou Junn.

Não, mas falei com ele quando estávamos perto da fortaleza do barão e ultrapassamos os cortejos de alguns nobres que seguiam o nosso mesmo caminho.

Você se refere ao cavaleiro Rhádoguil de Cúrnilldonn? — disse Grimpow.

Sim, o mesmo que me informou da morte do papa Clemente V por envenenamento, e do medo do rei de França de que fosse cumprida a maldição que o grande mestre do Templo proclamou na fogueira instantes antes de morrer entre as chamas, dizendo que os dois se apresentariam em breve dian­te do tribunal de Deus. Rhádoguil de Cúrnilldonn me disse que ia à fortaleza do barão porque tinha uma missão a cumprir. Não devia ser por acaso que seu escudeiro levava cruzado nas costas um grande arco e, junto à sua sela, uma aljava cheia de flechas rematadas por plumas brancas e pretas. Pensavam,pos­sivelmente, em assassinar o rei Felipe IV durante os torneios, e quando esse retornou a Paris decidiram acabar com seu aliado Figüeltach de Vokko para que sua viagem não fosse em vão — disse Salietti.

Também chegaram a Estrasburgo rumores dessa maldição e as notícias da morte do papa. Não me surpreenderá se, muito depressa, ambos estiverem fazendo parte de outra lenda trágica e misteriosa — sentenciou Junn.

Além do mais, esse cavalheiro lhe disse que conhecia o brasão de seu escudo, você se lembra disso? — acrescentou Grimpow.

Sim, é verdade — confirmou Salietti.

Junn coçou o queixo.

Os templários sempre foram grandes conhecedores da alquimia e dos alquimistas. E se esse cavaleiro do qual vocês falam é um templário, sabia que o sol do seu brasão representa o ouro, e a lua, a prata. Até é possível que conhecesse seu pai e seu avô, o duque de Estaglia, pois a desaparecida Ordem do Templo tinha contatos e aliados em todas as partes do mundo. Por isso será difícil que acabem definitivamente com eles.

E o que se diz na cidade a respeito do começo da guerra? — perguntou Weienell.

Diante da impossibilidade de fazê-lo ele mesmo por causa de sua ferida, o barão Figüeltach de Vokko ordenou ontem a Váldigor de Róstvol que se pu­sesse à frente de seus soldados e cavaleiros e partisse esta madrugada até as fronteiras do norte, onde os aguarda o numeroso exército do rei de França. Seu propósito é deflagrar esta mesma noite o assalto aos castelos do Círculo.

Mais de cinco mil ginetes armados e centenas de cavaleiros estão desejosos de arrasar os castelos do Círculo para apoderar-se de seus tesouros e segredos, como já fizera o rei de França na fortaleza do Templo de Paris — sentenciou Salietti.

Se Figüeltach de Vokko e o rei de França desejam entrar na fortaleza do duque Gulf de Õstemberg, terão antes de acabar com seus fiéis cavaleiros dos castelos do Círculo, e isso não conseguirão jamais.

Todos ficaram em silêncio, como se uma sombra de inquietude sobrevoasse o teto esfumaçado da taberna.

Então, a guerra já começou — disse Grimpow, cabisbaixo.

Temo que sim, garoto, e nós pouco poderemos fazer para evitá-la — afirmou Junn.

Salietti ficou em pé.

Vamos nos ocupar agora do que viemos buscar. Ainda temos de encon­trar a quem não existe e ouvir a voz das sombras — disse Salietti, usando as mesmas palavras que Gurielf Lábox, pai de Weienell, deixara escritas em um cartapácio do arquivo da igreja de Cornill.

Estou vendo que você está usando a mesma linguagem misteriosa de seu falecido pai — concluiu Junn, rindo.

Acharam que seria perigoso caminhar juntos pelas buliçosas ruas de Estrasburgo, pois, segundo as notícias de Junn, todos na cidade já sabiam que eram três os ginetes — uma dama linda, um cavaleiro italiano e seu jovem escudeiro — que haviam fugido da fortaleza do barão Figüeltach de Vokko depois que os templários tentaram assassiná-lo, de modo que decidiram criar dois grupos, dividindo a cidade em setores para não investigarem, redundan­temente, os mesmos lugares. Salietti e Weienell iriam ao bairro dos artesãos e comerciantes, enquanto Grimpow e Junn percorreriam as praças e as obras da nova catedral para conversar com os mestres-de-obras e os pedreiros, além de visitar alguns alquimistas que Junn conhecia na zona dos canais.

 

                             A voz das sombras

A cidade de Estrasburgo ainda conservava sua majestade e o esplendor original, apesar dos saques e dos incêndios que em outros tempos a haviam assolado por causa dos conflitos sucessórios e de fronteira. Parecia surgir da espessa bruma que durante os invernos cobria o rio que a cruzava, em cujas margens abundavam grandes casas com estrutura de madeira e telhados de ardósia que se estendiam até as próprias muralhas da cidade, presididas por três torres colossais levantadas sobre um delta do Reno como se fossem suas guardiãs. Muitas pontes cruzavam de um lado a outro os canais de água, e sobre elas transitavam as cavalgaduras e as carruagens que, vindas de aldeias distantes, a cada dia acorriam à cidade para vender suas mercadorias nas fei­ras e mercados.

Durante dois dias, Salietti e Weienell percorreram sem descanso a cidade de norte a sul e de leste a oeste, embrenhando-se nos bairros dos curtidores de pele, dos ourives, dos escrivães, dos ferreiros, dos tecelões, carpinteiros, sapateiros e joalheiros. Perguntavam a todos os homens e mulheres que cruzavam seu caminho se conheciam Aidor Bílbicum, mas só obtinham como resposta olha­res severos de desconfiança e negativas categóricas, que em alguns casos adquiriam matizes depreciativos e grosseiros. Parecia que todos se assustavam ao ouvir esse nome, ou que temessem comprometer sua vida se falassem com os forasteiros.

Tampouco Junn e Grimpow conseguiram obter alguma pista do homem que procuravam.

— Se, como Salietti e você dizem, esse tal Aidor Bílbicum não existe, não sei como esperam encontrá-lo. E se ninguém conhecê-lo? E se ninguém sou­ber de nada a seu respeito? — disse Junn a Grimpow, resfolegando de cansaço depois de ter falado com um boticário que tinha sua casa em uma esquina da praça da catedral, e cuja botica, situada no andar de baixo, cheirava a enxofre e estanho queimado, ervas medicinais, especiarias, ungüentos e xaropes, como o laboratório em que o irmão Ássben fazia suas experiências alquímicas na abadia de Brínkdum. A Grimpow não restou sombra de dúvida de que esse boticário também era um alquimista, e pensou que talvez pudesse lhe dar al­guma pista de Aidor Bílbicum que lhes permitisse, finalmente, ouvir a voz das sombras mencionada na nota que Gurielf Lábox deixara para Salietti na igreja de Cornill. Mas não só o nome não sugeriu nada ao boticário como chegou a temer que Junn fosse um espião da Inquisição, apesar de se conhecerem há muitos anos, e se mostrou muito econômico em suas palavras.

Se ninguém sabe nada dele, jamais poderemos encontrar o que procu­ramos — disse Grimpow.

E o que é que vocês procuram, além desse sábio que não existe? — per­guntou Junn, franzindo o cenho.

A sabedoria, Junn, a sabedoria — respondeu Grimpow, admirando com verdadeiro assombro a magnífica catedral de Estrasburgo, sob a qual trabalhavam centenas de aprendizes, oficiais e mestres construtores, tentando terminar a roseta da fachada. Grimpow sabia que para edificar aquele templo descomunal de inigualável beleza era necessário aplicar complexos conhecimentos físicos e surpreendentes cálculos matemáticos, que as lojas de cons­trutores mantinham no mais estrito segredo, e que só eram conhecidos por homens sábios chamados de arquitetos. E, ao olhar as imensas esculturas que adornavam o pórtico central, teve o pressentimento de que talvez, na escuri­dão daqueles milagrosos muros de pedra, chegasse a ouvir a voz das sombras.

Na praça da catedral, conversaram com alguns pedreiros que talhavam grandes blocos de pedra junto a altíssimos andaimes dos quais pendiam uma profusão de polias, correntes e cordas para levá-los até o segundo andar, aci­ma das abóbadas. Nenhum deles havia jamais ouvido falar do nome de Aidor Bílbicum, mas Grimpow se deu conta de que cada pedreiro talhava nos blocos de pedra alguns símbolos diferentes dos outros, como se fossem marcas pes­soais que lhes permitiriam identificar suas obras. Esses símbolos não só lhe recordaram os símbolos que apareciam na mensagem que o pai de Salietti portava quando morreu nas montanhas. Tinha certeza de que a linguagem hieroglífica usadas pelos sábios da sociedade secreta Ouroboros havia sido elaborada por meio da tradução do alfabeto para um sem-número de sím­bolos diversos copiados dos pedreiros, cada um dos quais correspondia a uma determinada letra. E isso significava que os sábios da sociedade secreta Ouroboros estavam muito vinculados aos construtores das catedrais, pensou Grimpow.

Também visitaram o bairro dos canais, onde muitos moinhos de água gi­ravam suas pás no ar como se fossem gigantescos braços, sem que ali conse­guissem descobrir nada. Aidor Bílbicum era tão invisível como um fantasma.

A noite os surpreendeu quando regressavam à pousada para voltar a se encontrar com Weienell e Salietti. Ao lado de um largo canal de água, cruza­ram com uma procissão fúnebre cercada por tochas. Sobre um desengonçado estrado de madeira, um grupo de homens com os rostos mascarados carrega­va um esqueleto coberto por negros véus de seda que deixavam ver a horrível face de uma caveira. Um ruído ensurdecedor de bumbos e tambores acompa­nhava o cortejo, seguido por uma multidão mascarada que pulava e gritava agitando tochas no ar.

Celebram a Noite dos Sortilégios. Enterram o esqueleto do inverno um mês depois do equinócio para homenagear a plenitude da primavera — disse Junn, detendo seus passos para contemplar o buliçoso ir e vir das tochas e dos rostos mascarados que dançavam e pulavam ao seu redor. Grimpow se entreteve olhando um grupo de acrobatas que dançava girando bolas de fogo pre­sas por longas correntes como se fossem pequenos sóis em contínuo movi­mento, e nem sequer se deu conta de que havia se afastado de Junn. E quando foi procurá-lo, olhando na ponta dos pés sobre as cabeças, não o encontrou.

Foi então que Grimpow se deu conta de que uma mulher jovem, cujo rosto se ocultava atrás de um manto que lhe cobria a cabeça, caminhava em sua direção. Tinha um olhar intenso e perturbador, e grandes aros balançavam junto a seus olhos, tão negros como a noite.

Aproxime-se, menino, e deixe-me ler o futuro em suas mãos, pois só eu sei ver nelas o destino que o aguarda — disse a jovem com uma voz adocicada que quase o hipnotizou.

Grimpow se aproximou ainda mais dela e lhe estendeu uma das mãos. Não soube por que, mas nesse instante se sentiu atraído por aquela voz como se tivesse ouvido o canto das sereias de que o irmão Rinaldo de Metz havia lhe falado na abadia de Brínkdum. Também se lembrou de Salietti e de como ria ao lhe descrever a cara estúpida que o barão Figüeltach de Vokko fizera ao ouvi-lo falar de seu futuro usando o estranho jogo de cartas que possuía. E, no entanto, agora era ele próprio quem se deixava seduzir por uma idéia tão ab­surda como a de que poderia conhecer o porvir que estaria escrito de um modo invisível em sua mão. Então tentou resistir e ir embora correndo da­quele lugar enfeitiçado, mas, ao sentir o delicado toque dos dedos da jovem sobre sua pele, um intenso calafrio lhe sacudiu o corpo, despertando nele des­conhecidas fantasias e desejos.

Você tem mãos de príncipe — disse a mulher em um sussurro —, mas não vejo nelas uma origem nobre.

Sou membro de uma caravana de pastores nômades — mentiu Grim­pow, seduzido pelos olhos negros que o fitavam sem pestanejar.

Grimpow permaneceu em silêncio, absorto na contemplação da jovem que parecia ver nas linhas de sua mão os indecifráveis sulcos de seu passado.

Há também em você antigas tristezas, pesares e defuntos e amargos prantos esquecidos.

A jovem deslizava seu dedo indicador sobre a mão de Grimpow com a leveza de uma carícia, produzindo-lhe um formigamento prazeroso, e Grim­pow se perguntou se por acaso seriam assim as doces carícias do amor a res­peito das quais o noviço Pobé de Lánforg tanto lhe havia falado, e que ele mes­mo ansiava conhecer.

Minha mãe morreu há muito tempo — voltou a mentir Grimpow, sen­tindo que seus pêlos se eriçavam.

No entanto, não é a solidão que o acompanha. Aqueles que agora estão com você o protegem e deslizam pela sua história como um nó corrediço que vai e vem pela corda de uma existência afortunada.

Não a entendo — disse Grimpow.

São muitos os que velam por você, embora nem sempre estejam suficientemente perto para ajudá-lo — explicou a mulher. Depois forçou um longo silêncio, fechou os olhos como se quisesse ver mais além da realidade e, final­mente, disse: — Em sua mente se amontoam perguntas confusas que não têm respostas, e você espera poder encontrá-las na contemplação do Universo.

Quem é você? O que deseja de mim? — balbuciou Grimpow, aturdido.

Apesar do estrondo dos tambores, Grimpow achou que toda a cidade ha­via emudecido e que só a voz da jovem desconhecida era audível para ele. Até o enlouquecido bulício das pessoas com tochas e rostos mascarados que dan­çavam ao seu redor lhe pareceu silencioso e mudo como se fosse uma ilusão. Via seus gestos desmedidos, suas corridas ligeiras e a agitação de suas mãos sob as luzes das tochas; no entanto, não ouvia nada que não fossem as pala­vras sussurradas e embriagadoras daquela jovem desconhecida.

Vá à catedral e dê três batidas na porta da direita, onde estão as escultu­ras das três virgens sábias — disse a jovem, sem soltar sua mão. — Uma pes­soa que você anda procurando quer falar com você. Mas vá sozinho; se al­guém acompanhá-lo ou segui-lo, você não voltará a encontrá-lo. — E ao dizer isso deslizou sua mão sobre a de Grimpow como se quisesse lhe oferecer sua última carícia e se perdeu no meio da enlouquecida multidão que dançava ao seu redor.

 

Do canal, Grimpow podia ver a silhueta da catedral de Estrasburgo debilmente iluminada pela luz da lua. Tentou encontrar Junn, mas a multidão que o cercava era uma massa impenetrável de corpos desprovidos de rostos que pareciam ter enlouquecido no fragor de um ritual demoníaco, consentido pelo bispo como desafogo das almas pecaminosas.

Afastou-se da multidão aos empurrões e embrenhou-se em umas ruas so­litárias e escuras, enquanto pensava se não lhe haviam preparado uma arma­dilha para se apossar da pedra. Perguntar por Aidor Bílbicum em toda a cida­de lhes pareceu a única maneira de encontrar quem não existe, mas não era menos certo de que desse modo estavam pregando em voz alta que eram eles que possuíam a pedra e procuravam o segredo dos sábios. E se, como Junn lhe garantira, havia em Estrasburgo mais sociedades secretas que eles poderiam imaginar, qualquer um podia ter se dado conta de seu ardil e, portanto, tentar se apoderar da pedra com uma argúcia semelhante à que eles haviam usado. Os velhacos eram numerosos em todas as partes, e só precisava confessar-lhes seu desejo de falar com Aidor Bílbicum para que o emboscassem e lhe arran­cassem tudo quanto sabia sobre a pedra e o segredo dos sábios.

Com estas incertezas vagando em seu pensamento, Grimpow chegou di­ante do pórtico da catedral, onde a única luz era a de algumas tochas que ar­diam nas esquinas da praça. Olhou à sua direita e viu esculpidas as figuras de três mulheres que estavam de pé junto a um homem, e que deviam ser as vir­gens sábias que a mulher desconhecida lhe indicara. Aproximou-se do portal e golpeou-o com força três vezes seguidas, seguindo o ritmo das intensas bati­das de seu coração. Não sabia o que podia esperá-lo dentro da catedral, mas já não podia voltar sobre seus passos. Se fosse embora agora, era possível que não voltasse a ter a oportunidade de ouvir a voz das sombras, e sua procura pelo segredo dos sábios fosse interrompida para sempre.

A porta se abriu com um chiado oxidado sem que ninguém viesse ao seu encontro. Grimpow esperou um momento, inclinando a cabeça para tentar enxergar nas trevas que se adivinhavam atrás da porta, mas não viu sinal de que alguém o estivesse aguardando. Então viu a leve cintilação de uma luz que começou a piscar no interior da catedral e entrou decidido, apesar do tremor que sacudia suas pernas. Devia ter avisado a Salietti, pensava consigo mesmo, embora a mulher tivesse sido muito explícita em sua advertência: se alguém o acompanhasse ou o seguisse, não voltaria a encontrá-lo.

A chama débil de um círio aceso iluminava o centro da nave cercada pela penumbra. Grimpow se aproximou da luz e seu rosto se tornou visível sob a alta abóbada da catedral. Então ouviu uma voz surgir das sombras.

— A quem você procura? — perguntou a voz de um homem, retumbando em meio ao silêncio.

Grimpow, tranqüilizado e satisfeito ao ouvir uma voz que provinha das sombras, olhou em sua volta, tentando, inutilmente, localizar sua origem.

Procuro Aidor Bílbicum — disse, simplesmente.

Voltou a ouvir-se a voz, como se o eco prolongasse suas palavras:

Aidor Bílbicum não existe mais, morreu há séculos.

Eu sei — admitiu Grimpow.

Eu achava que era Iacopo de Estaglia quem viria.

Iacopo de Estaglia morreu no inverno passado nas montanhas próxi­mas da abadia de Brínkdum — explicou Grimpow, com serenidade.

Houve um instante de quietude, que Grimpow aproveitou para fazer uma pergunta.

Quem era a mulher que me disse que viesse?

Uma jovem disfarçada de feiticeira para passar despercebida na Noite dos Sortilégios — respondeu a voz das sombras, e em seguida indagou: — Por que deseja ver Aidor Bílbicum?

Tenho uma mensagem para ele.

Pois pode transmiti-la a mim — disse a voz, e a Grimpow pareceu que era a voz de um ancião venerável.

No céu estão a escuridão e a luz.

Você passou no Vale de Sol.

Sim, na cripta da igreja de Cornill.

E como conseguiu fazê-lo?

Passei a chave dos mistérios sobre a inscrição e sobre o símbolo.

E o que aconteceu?

Abriu-se a cripta sem cadáver onde dorme a história.

Grimpow sabia que a voz que lhe falava era a de um ser humano que não queria revelar sua imagem, e não a de um fantasma, mas algo o fazia desejar sair quanto antes daquela catedral vazia.

A pedra está com você? — perguntou a voz.

Sim — confessou Grimpow sem titubear. — O senhor a deseja? — acrescentou.

Não, a pedra escolheu você — respondeu a voz.

E o que devo fazer?

Interpretar os símbolos do segredo como tem feito até agora. Atrás des­se círio você encontrará o texto completo da página que faltava ao manuscrito de Aidor Bílbicum.

Onde estava escondido?

Encontrei-o num escritório de um escrivão desta cidade, há muito tempo.

Gurielf Lábox também morreu — disse Grimpow.

Então somos agora apenas dois os que ainda permanecem com vida — afirmou a voz das sombras. — Por isso é você quem deve encontrar o segredo dos sábios e fazer com que ele chegue ao conhecimento de outros, para que a luz da sabedoria ilumine a humanidade, e não a escuridão da superstição e da ignorância.

Grimpow se aproximou do candelabro que sustentava o círio, e atrás dele, sob o chão de pedra da catedral, encontrou uma folha de pergaminho. Aproxi­mou a chama e leu o texto completo:

 

Siga o trajeto do símbolo e procure a câmara lacrada onde o tempo é vida ou é morte. Mas só se alcançar a imortalidade conseguirás ver o Caminho Invisível. Ele o conduzirá até a ilha de Ipsar, habitada por seres fantásticos e monstros; enfrente o diabo, e a seus pés encontrarás as últimas palavras. Depois cruze as colunas do trânsito e entre no labirinto. Ali semeie a semente e verás crescer a flor.

 

— Mas isto é um novo criptograma! — exclamou Grimpow, sem que a voz das sombras lhe respondesse.

Metidos em um barril

 

Voltando à pousada de Junn pelas estreitas e escuras ruas que cercavam a catedral de Estrasburgo, Grimpow cruzou com alguns soldados que pareciam estar celebrando a seu modo a Noite dos Sortilégios. Um deles entoava uma melodia que Grimpow tinha ouvido seu amigo Dúrlib cantar certa vez na ca­bana dos bosques de Üllpens, e os outros caminhavam balançando seus cor­pos, os elmos enviesados sobre suas cabeças e as espadas que pendiam de suas cinturas roçando o chão. Passou a seu lado sem olhá-los, temendo que alguém pudesse reconhecê-lo, mas os soldados estavam tão embriagados que só viam as casas movendo-se para cima e para baixo, como se navegassem no meio de um mar encrespado e turbulento.

Na taberna situada no andar de baixo da pousada, vários grupos de cam­poneses, artesãos e pedreiros bebiam vinho em gigantescos cântaros que leva­vam à boca com gesto decidido, até que o vinho se escorresse pelos cantos de seus lábios.

Grimpow entrou em silêncio, desceu as escadas que separavam a taberna da rua, e avistou Junn atrás do balcão; o Coxo conversava com um homem de aspecto rude e andrajoso. Ao vê-lo entrar, Junn deixou por um instante a com­panhia do homem e aproximou-se de Grimpow.

Começava a temer que houvesse acontecido alguma coisa com você — murmurou, enquanto limpava as mãos num pano seboso que pendia da cadeira.

Encontrei quem não existe! — disse Grimpow, louco para contar a al­guém o que lhe havia acontecido.

Aidor Bílbicum? Você sozinho? — perguntou Junn, descrente.

Grimpow respondeu com outra pergunta.

Onde estão Weienell e Salietti? Preciso vê-los quanto antes — disse nervoso.

Quando chequei à taberna e lhes disse que o havia perdido na multidão que celebrava a Noite dos Sortilégios no bairro dos canais, saíram para procurá-lo, mas não devem demorar a voltar. Será melhor que você suba para a pousada e os espere em seu quarto. Ao lado da escada há uma vela — disse Junn, vol­tando para o lado do homem com quem conversava.

Grimpow abriu uma porta desengonçada que ficava muito perto do bal­cão, andou às cegas por um corredor estreito e apalpou sobre um buraco aber­to na parede até que encontrou a luminária. Acendeu o bastão da vela, e apa­gou o fósforo com um sopro leve. A vela criou ao seu redor uma auréola de luz que iluminava seu rosto no meio da penumbra e, acompanhado por suas pró­prias sombras projetadas nas paredes, subiu até seu quarto. Abriu a porta, en­trou cuidadosamente e empurrou o ferrolho para fechá-la.

Com a vela acesa acendeu outra que estava no chão, ao lado da cama. De­pois se sentou no apoio da janela e tirou de debaixo do gibão a folha que a voz das sombras lhe havia deixado na catedral. Estava se preparando para ler de novo o texto enigmático quando um par de golpes leves soou na porta. Sentiu que seu coração se contraía, e ao abrir viu diante dele os rostos preocupados de Weienell e Salietti.

Pode-se saber onde você se meteu? Você nos deu um susto mortal — disse Salietti, visivelmente aborrecido.

Grimpow não deu importância aos protestos de seu amigo.

Encontrei quem não existe, e ouvi a voz das sombras! — disse, atropeladamente, com um sorriso de satisfação nos lábios.

Como? — perguntou Weienell.

Agora vou lhes contar o que aconteceu, mas antes vejam isto — disse Grimpow, maravilhado, oferecendo-lhes a página que faltava ao manuscrito de Aidor Bílbicum.

Salietti se esqueceu da sua contrariedade, pegou a página do pergaminho e a aproximou da luz da vela, enquanto Weienell espiava com curiosidade por cima de seu ombro.

E o que significa este texto? Ele parece estar todo escrito em código — murmurou Salietti, sem compreender nada do que lia.

E o que você esperava? Aidor Bílbicum já o advertira em seu manuscri­to, você está lembrado? "Aquele que procurar o segredo dos sábios há de ver entre as trevas que dominam o caos os enigmas indecifráveis" — recitou Grimpow de memória.

Grimpow tem razão — disse Weienell. — Agora pelo menos vocês sa­bem que tipo de enigmas devem enfrentar para encontrar o que procuram.

Salietti fitou Weienell nos olhos.

Você quer dizer o que procuramos. Você também faz parte disto, deve­mos isso ao seu pai e ao meu — disse.

Então me deixe examinar melhor esse misterioso texto — disse Weienell, aceitando o desafio de Salietti, e feliz por se sentir uma a mais do grupo. E depois de contemplar o criptograma, acrescentou: — Creio que neste texto há três etapas com diferentes enigmas em cada uma delas. A primeira corresponde a esta parte:

 

Siga o trajeto do símbolo e procure a câmara lacrada onde o tempo é vida e é morte. Mas só se alcançar a imortalidade conseguirás ver o Caminho Invisível.

 

A segunda etapa — continuou —, está presente nestas linhas daqui:

 

Ele o conduzirá até a ilha de Ipsar, habitada por seres fantásticos e monstros; enfrente o diabo, e a seus pés encontrarás as últimas palavras.

 

E a terceira e última — disse muito segura de si — é esta outra:

 

Depois cruze as colunas do trânsito e entre no labirinto.

Ali semeie a semente e verás crescer a flor.

 

Salietti não pôde dissimular que estava enamorado de Weienell, e suas pa­lavras foram tão doces como uma calda açucarada:

De acordo, temos diante de nós todos os enigmas que precisamos resol­ver para encontrar o segredo dos sábios, mas, agora, como devemos interpre­tar tudo isso? — perguntou.

Começando pelo princípio — disse Weienell. — Meu pai sempre dizia que essa é a melhor maneira de enfrentar um mistério.

Então a primeira coisa que temos de averiguar é onde está a câmara lacrada, na qual o tempo é vida e é morte — afirmou Salietti.

E para isso temos de seguir o trajeto do símbolo — acrescentou Weienell, começando a se apaixonar por aquele texto repleto de enigmas que, certamen­te, devia ter uma solução lógica.

Eu acho que sei onde está a câmara lacrada onde o tempo é vida e é morte — disse Grimpow. — Estive pensando nisso enquanto vinha para cá. O símbolo não pode ser outro a não ser o Ouroboros, a serpente que morde o próprio rabo, e se seguirmos seu trajeto o que obteremos é... — interrompeu-se, esperando que Weienell ou Salietti completassem seu raciocínio.

Ambos ficaram pensativos, e foi Weienell quem antecipou a resposta.

Um círculo! O símbolo do Ouroboros traça um círculo em seu trajeto desde a cabeça até o rabo mordido pela serpente — exclamou satisfeita.

Salietti sentiu orgulho de Weienell.

A câmara lacrada está nos castelos do Círculo! — concluiu Grimpow, e todos se felicitaram por sua correta interpretação, embora uma sombra de inquietude tenha se desenhado no rosto de Salietti.

 

Grimpow acordou sobressaltado. Estava empapado de suor e em sua men­te ainda fervilhavam as imagens desbotadas de um sonho inacabado e estra­nho. Havia tido um pesadelo terrível, no qual vira com absoluta nitidez o cor­po ensangüentado de Salietti estendido no meio de centenas de cadáveres. Grimpow permanecia em pé, ao seu lado, observando como o inquisidor Búlvar de Góztell se aproximava e lhe arrebatava a pedra das mãos sem que ele fizesse qualquer coisa para impedi-lo. O frade dominicano ria às gargalha­das e ordenava a seus soldados que levassem o menino aos verdugos. Então, viu a si mesmo atado a um cavalo de tortura, e seu próprio grito de horror o arrancou do sono, enquanto suava e ofegava como um moribundo.

O salto de madeira que igualava as pernas de Junn golpeava o chão do cor­redor com um martelar cadenciado que chegou aos ouvidos daqueles que ain­da dormiam na pousada. Grimpow deu um pulo da cama, abriu o ferrolho da porta e viu que Salietti também aparecia no corredor vindo da alcova de Weienell.

Está acontecendo alguma coisa? — perguntou Salietti ao hospedeiro, que estava visivelmente nervoso e assustado.

Vocês têm de partir de Estrasburgo sem perda de tempo! O inquisidor chamado Búlvar de Góztell chegou à cidade acompanhado de uns esbirros do barão e estão procurando por vocês. Até prenderam alguns mestres constru­tores da catedral e alguns magos e alquimistas para interrogá-los, pensando que tenham lhes dado abrigo em suas casas.

Eu devia ter matado esse frade dominicano quando o tive em minhas mãos — sussurrou Salietti entre os dentes.

Vou descer ao pátio da bodega para preparar os cavalos — disse Grim­pow, enquanto se vestia com precipitação na própria porta do quarto.

Vocês não podem sair da cidade a cavalo. Há soldados revistando to­dos os que entram ou saem pelas pontes fortificadas. Prepararei minha car­roça com seus cavalos e ocultarei vocês dentro de tonéis vazios que guardo na bodega.

Se você conseguir nos tirar da cidade, poderemos continuar sozinhos nosso caminho até os castelos do Círculo, uma vez que tenhamos nos afasta­do de suas portas — disse Salietti.

Os castelos do Círculo? Você está pensando em fugir de uma fogueira para se meter dentro do próprio inferno! O assalto aos castelos já começou, e ouvi dizer que, embora ferido, o barão Figüeltach de Vokko está à frente de seu exército ao lado de Váldigor de Róstvol. Já conseguiram tomar os três cas­telos do oeste, e os fiéis cavaleiros do duque Gulf que os defendiam se retira­ram para sua fortaleza.

Tentaremos chegar pelo desfiladeiro do leste. Se partirmos agora, esta­remos lá antes do anoitecer — insistiu Salietti.

Antes do meio-dia, Junn havia preparado a carroça com os três cavalos de seus hóspedes e o seu, emparelhando-os de dois em dois, e havia colocado o falso carregamento de vinhos sobre a carreta. Tratava-se de uma partida de seis barris, três deles normais e outros três preparados com um fundo duplo suficientemente amplo para ocultar em seu interior uma pessoa sentada de cócoras. Depois, Grimpow, Weienell e Salietti foram se enfiando de um em um no interior dos barris, com o desconforto de quem teme ser enterrado vivo em um sarcófago pançudo e redondo. Junn cobriu os tonéis com suas respectivas tampas e lacrou-os com gordura para que parecessem hermeticamente fechados. Depois subiu à boléia, chicoteou os cavalos e saiu do pá­tio da pousada.

A carreta cruzou rapidamente o bairro dos artesãos e a desolada rua dos escrivães e livreiros, em outros tempos célebre e buliçosa, e vazia desde que haviam começado as perseguições da Inquisição. Logo depois, passaram ao lado do cemitério de Estrasburgo, deixando à sua direita uma longa fileira de ciprestes, longos e delgados como as agulhas das torres que se divisavam so­bre suas copas.

Mais adiante cruzou a ponte fortificada com três torres que se elevavam sobre o delta do Reno, e preparou-se para sair da cidade pela porta do nordes­te, guardada por uma patrulha de soldados armados com lanças e espadas. Junn deteve a carreta atrás de outros carros que estavam sendo revistados meticulosamente pelas sentinelas das torres, desceu do seu posto com dificul­dade por causa de seu defeito e simulou estar indo verificar o estado do seu carregamento de barris. Olhou para um lado e para o outro, e como os solda­dos continuassem entretidos com a inspeção dos carros que o precediam, car­regados de trigo, feno, verduras, aves e porcos, fingiu que esticava as cordas que prendiam a mercadoria com a qual conversava.

Fiquem em silêncio e prendam a respiração tanto quanto possam. Va­mos sair de Estrasburgo e os soldados vão revistar o carro — disse Junn, em voz baixa.

Assim que terminou de dizer isso, viu que o sargento da guarda, um ho­mem corpulento de rosto avermelhado e avinagrado, se aproximava da carro­ça acompanhado por dois de seus soldados. Junn se dirigiu a eles tornando mais ostensivo seu defeito.

Então é o aleijado Junn, o Coxo! Por acaso o barão o envia para que refresque com seus vinhos aguados a sede de seus soldados? — disse com pre­guiça o sargento ao reconhecer o recém-chegado, e em seguida tirou o elmo e passou o antebraço pela testa para limpar o suor.

No interior dos barris fechados, Grimpow, Weienell e Salietti contiveram a respiração ao ouvir a voz rouca do militar, e fecharam os olhos para conjurar o medo que sentiam no meio da espessa escuridão de seus esconderijos de madeira.

Nos tempos que correm, o barão Figüeltach de Vokko tem assuntos mais importantes de que tratar antes de se preocupar em saciar sua sede com meu vinho, velho preguiçoso — exclamou Junn, satisfeito com sua boa sorte, pois o sargento da guarda com quem falava costumava aparecer com freqüên­cia em sua taberna.

Vamos, me mostre o que está levando aí dentro, e diga-me quem é o destinatário de carregamento tão precioso — disse o sargento ao chegar à par­te traseira da carreta.

Levo uma encomenda de seis barris do meu melhor vinho a um comer­ciante de tecidos da vizinha cidade de Isbroden, e se você abri-los perderei minha mercadoria pelo caminho. Eles estão lacrados para evitar que o líquido divino se derrame — disse Junn, rindo dissimuladamente. — Mas se você de­seja testar a qualidade de seu conteúdo, pode ficar com um destes odres que levo de amostra, e com os quais no meu regresso penso em celebrar o negócio alegrando minha própria goela — acrescentou, enquanto puxava as lonas que cobriam o carro e deixava à vista os seis barris e os odres de vinho.

O sargento coçou a cabeça como se pensasse em algo, ou pelo menos foi isso que pareceu a Junn.

A ver. Vamos comprovar o que diz este coxo, que é um esperto engana­dor de bêbados — disse, finalmente, o sargento, fazendo um sinal a seus sol­dados para que pegassem o odre cheio de vinho.

Um dos soldados entregou sua lança a outro, pegou o odre, tirou-lhe a tampa e bebeu um longo gole.

É bom — disse, simplesmente, o soldado, e ofereceu o odre de vinho ao sargento.

Este, imitando-o, levantou o odre como se alçasse a bexiga inflada de um cordeiro e se deleitou com um longo gole. Depois passou a mão pelo canto dos lábios até usufruir da última gota de vinho que escorria por eles e disse:

Vamos aceitar o presente, e agora suba na carroça e se mande daqui antes que eu decida ficar também com seus barris.

A conversa foi ouvida pelos que se escondiam no bojo dos barris, e todos deixaram escapar um suspiro de alívio.

Junn voltou à boléia e se preparou para tocar os cavalos sem mais demora, mas antes perguntou ao sargento:

O que está acontecendo em Estrasburgo para haver tanta animação pe­las ruas?

Estão procurando três proscritos que fugiram da fortaleza do barão Figüeltach de Vokko depois que um arqueiro o feriu de morte. Dizem que um deles é o cavaleiro que venceu os torneios de primavera dos castelos da Alsácia, e que a dama que o acompanha é uma belíssima feiticeira.

E você acredita nessas lendas? — perguntou Junn.

Eu não acredito em nada que meus olhos não vêem e, quando estou bêbado, nem sequer nisso — disse o sargento, soltando uma gargalhada que soou dentro dos barris como o rugido de uma tormenta.

Junn açoitou os cavalos e passou lentamente por debaixo da última torre da ponte fortificada, deixando para trás a cidade de Estrasburgo e seus temo­res de que fossem descobertos.

Pegaram o caminho da vizinha cidade de Ísbroden, que levava ao norte, e quando haviam se afastado o suficiente da ponte fortificada, Junn deteve a carreta ao lado de um páramo cercado por uma vegetação muito alta. Desceu da boléia e se apressou em puxar as lonas que cobriam os barris. Depois subiu na parte de trás da carroça e tirou a falsa tampa do primeiro tonel, ajudado por braços que empurravam lá de dentro. Weienell, um pouco desorientada pelo balanço da viagem, ofereceu a cabeça à luz do sol que brilhava sobre eles, ficou em pé e pulou para fora do barril, ajudada por Junn.

Pensei que não iria sair nunca mais deste poço escuro! — exclamou, depois de aspirar o ar como se fosse a primeira vez que o fizesse.

Vamos, me ajude a destampar os outros barris — disse Junn.

Salietti e Grimpow pularam com alegria de seus esconderijos parecendo filhotes de raposa que tivessem descoberto a saída da toca materna. Retiraram seus cavalos das parelhas da carreta deixando apenas o de Junn, e agradece­ram ao homem por tudo o que fizera por eles. Antes de partir, Salietti pegou a bolsa de couro na qual guardava as pepitas de ouro e entregou um punhado delas a Junn.

Talvez você deva passar algum tempo longe de Estrasburgo. Isto vai ajudá-lo a viver sem preocupações até que possa regressar de novo à sua cida­de, sem temer que o inquisidor Búlvar de Góztell o asse vivo em um espeto como se fosse um cordeiro — disse.

Você sabe que não precisa me pagar por minha ajuda. Seu pai e você teriam feito a mesma coisa por mim. Mas tampouco desprezarei o ouro que você me oferece para evitar que eu tenha uma morte tão lenta e terrível como a que esse frade me daria. Irei ao sul, a Mulhouse, para visitar meu irmão, que não vejo há muitos anos. Suponho que ainda esteja vivo, e, se não for assim, talvez fique ali uma temporada para ajudar sua família. Tinha 11 filhos e não era mais que um criador de porcos.

Todos se abraçaram, e Junn lhes desejou boa sorte em sua busca da sabe­doria, embora não conseguisse compreender como poderiam encontrar um tesouro tão impalpável.

 

                                       A câmara lacrada

Da saída do desfiladeiro era possível divisar a densa fumaceira que emer­gia dos três castelos do Círculo situados ao oeste. Milhares de ginetes, dimi­nutos como uma praga de formigas, se movimentavam pelo vale, avançando em direção à fortaleza do duque Gulf de Östemberg sem que ninguém saísse ao seu encontro para impedir que avançassem.

— O exército do barão Figüeltach de Vokko arrasou os primeiros castelos do Círculo e abriu uma grande brecha através da qual se prepara para sitiar a fortaleza do duque. Se não nos apressarmos, chegarão antes que possamos atravessar suas portas — disse Salietti ereto sobre seu cavalo, enquanto Grimpow e Weienell contemplavam a beleza do vale que agora tinham diante de seus olhos.

A mata cobria uma extensa pradaria, cruzada a leste e a oeste pelas águas transparentes de um caudaloso rio, e dela emergiam oito titânicos penhascos com os cumes rematados pelos castelos do Círculo. No centro, sobre uma alta meseta cercada por lisas paredes de rocha, alçava-se a grande fortaleza do du­que Gulf de Östemberg, envolvendo uma intrincada cidadela com suas torres e muralhas.

Esporearam seus cavalos e desceram ao vale com a rapidez de um estam­pido antes que alguns cavaleiros do barão que os haviam visto galopar desde longe começassem a persegui-los.

O único acesso possível à meseta penhascosa sobre a qual se levantava a fortificação do duque Gulf de Östemberg estava voltado para o leste, onde a curva do terreno descia vertiginosamente até fundir-se com o vale. Um fosso largo e profundo protegia esta zona das muralhas, dominadas por um castelete eleva­do situado diante da ponte levadiça. Atrás ficavam duas torres de ameias enor­mes, separadas por um amplo arco aberto na muralha que abrigava o rastelo e as duas pesadas portas que davam acesso à pequena fortaleza situada na parte mais baixa da rocha. Na abóbada e nos muros do túnel que unia a primeira à segunda porta, um conjunto de armadilhas e engenhosos dispositivos de de­fesa estava pronto para deter o inimigo que tivesse conseguido chegar com vida até ali, superando os primeiros obstáculos da entrada: correntes cruzadas para impedir a passagem das cavalgaduras, posições para arqueiros e orifícios na abóbada para bombardear os atacantes com azeite fervente e pesados mís­seis de pedras redondas. Superada esta primeira linha de defesa, um caminho muito íngreme conduzia até a entrada da verdadeira fortaleza, cujas torres e muralhas se alçavam sobre os precipícios da imensa rocha. Uma fortaleza so­bre outra fortaleza.

No entanto, os recém-chegados ao cume da colina pelo caminho que ser­penteava desde o vale não tiveram nenhuma dificuldade para entrar no caste­lo do duque Gulf de Östemberg. Assim que as sentinelas das torres que flanqueavam a entrada viram que se tratava de um cavaleiro e de dois jovens escudeiros que fugiam de uma tropa avançada de guerreiros do barão Figüeltach de Vokko, fizeram soar as trombetas e toda a guarda se preparou para abrir as diversas portas do castelete e descer a ponte levadiça.

Já dentro da pequena fortaleza inferior, Salietti se apresentou ao capitão da guarda e pediu para ser recebido imediatamente pelo duque. Mas ainda expli­cava os motivos de sua visita ao capitão quando se aproximou deles um cava­leiro que Salietti e Grimpow já conheciam.

— Depois de sua precipitada fuga da arena das justas do barão Figüeltach de Vokko, não esperava voltar a vê-los, e menos ainda aqui, neste refúgio de templários que agora ferve no fragor da guerra — disse às suas costas uma voz grave.

Os recém-chegados giraram suas cabeças e encontraram o enigmático ca­valeiro Rhádoguil de Cúrnilldonn, com quem Salietti havia compartido parte de sua viagem nas cercanias da fortaleza do barão Figüeltach de Vokko. Havia sido ele quem lhe dissera que o papa Clemente V morrera envenenado e quem lhe contara que tinha uma missão a cumprir na fortaleza do barão que não era exatamente a de combater nas justas. Por isso Salietti suspeitou de que só ele ou seu escudeiro tivessem podido disparar a flecha com as cores do Templo que ferira o barão Figüeltach de Vokko, ato que lhes permitira fugir de sua fortaleza levando como refém o inquisidor Búlvar de Góztell.

O cavaleiro Rhádoguil de Cúrnilldonn vestia uma cota de malha coberta por um longo blusão branco, preso à cintura pela correia de sua espada. Sobre o peito, trazia bordada a grande cruz vermelha da Ordem do Templo, e uma longa capa lhe caía dos ombros com a mesma cruz bordada do lado esquerdo. Grimpow observou-o atentamente, e lembrou-se de que havia encontrado vestimentas iguais àquela na gruta subterrânea da abadia de Brínkdum quan­do o criado Kense lhe mostrara a espada templária que o irmão Rinaldo de Metz havia usado nas cruzadas.

O que os traz aqui? — perguntou o cavaleiro templário, depois de es­tender seu braço para cumprimentar Salietti e de fazer um sinal com sua mão ao capitão para que os deixassem falar a sós.

Fomos obrigados a fugir de Estrasburgo para evitar que o inquisidor Búlvar de Góztell nos aprisionasse — explicou Salietti, enquanto se refazia de sua surpresa.

Se você não tivesse se colocado diante do meu alvo, eu mesmo teria acabado com esse frade dominicano cravando uma flecha no meio de seus olhos. O que você fez com ele, depois de levá-lo do campo das justas como refém?

Atirei-o nas águas do Reno, acreditando que seria tragado pela corrente — disse Salietti, lamentando não ter acabado de uma vez e para sempre com o cruel inquisidor.

Teria feito melhor cravando-lhe um punhal no coração — disparou o templário com uma gargalhada, ao mesmo tempo em que apoiava seu pesado braço no ombro de Salietti.

Weienell e Grimpow permaneciam ao lado dos cavalos, contentes por ter chegado à fortaleza antes de terem sido alcançados pelos ginetes do barão Figüeltach de Vokko. Os dois queriam começar a procurar a câmara lacrada da fortaleza do Círculo onde o tempo era vida e era morte, segundo rezava o manuscrito de Aidor Bílbicum. E não sabiam se chegariam a encontrá-la antes que os exércitos do barão e do rei de França assaltassem a fortaleza para arrebatar-lhes o segredo dos sábios, que desejavam possuir tanto quanto eles. Du­rante o caminho até os castelos do Círculo, Grimpow contara a Weienell a lenda dos nove cavaleiros templários e do mágico objeto que havia dois sécu­los fora transportado do Tempo de Salomão de Jerusalém até a França, e ago­ra lhe explicava os rumores que asseguravam que o segredo dos sábios estava oculto na fortaleza do duque. No entanto, eles sabiam que fosse o que fosse que estivesse escondido entre aquelas muralhas, não devia ser o segredo dos sábios. Segundo o manuscrito de Aidor Bílbicum, ainda tinham de chegar à misteriosa ilha de Ipsar, habitada por seres fantásticos e monstros, para en­frentar o diabo e encontrar a seus pés as últimas palavras, e sabiam que tam­bém teriam de cruzar as colunas do trânsito para entrar no labirinto e semear ali a semente que lhes permitiria ver crescer a flor. Grimpow não havia deixa­do de pensar no significado do complexo criptograma, embora suspeitasse de que, se conseguissem alcançar a imortalidade na câmara lacrada que procura­vam, poderiam ver, finalmente, o Caminho Invisível que os conduziria até o se­gredo dos sábios. Sua maior inquietação, no entanto, era o pesadelo que o havia despertado com um sobressalto durante a noite anterior na pousada de Junn, e no qual havia visto o corpo de Salietti ensangüentado no meio de centenas de cadáveres. Alguma coisa dentro dele mesmo que não saberia explicar o fa­zia temer que esse pesadelo fosse muito mais que um sonho ruim.

Vi que os primeiros castelos do Círculo foram arrasados pelos exércitos do barão e do rei de França — disse Salietti.

Para nossa desgraça foi assim, de fato, apesar da feroz resistência dos cavaleiros e dos soldados do duque Gulf. No entanto, mil homens pouco po­dem fazer diante de mais de seis mil ginetes armados e de máquinas de guerra descomunais. Por sorte, todos os habitantes dos castelos estão agora a salvo nesta fortaleza inexpugnável — comentou sem muito entusiasmo Rhádoguil de Cúrnilldonn. — E agora venham comigo, eu os levarei ao duque Gulf de Östemberg, que sente grande curiosidade em conhecê-los. Está na torre de honra da fortaleza, observando com seus cavaleiros o avanço das tropas do barão pelo vale e preparando as defesas para o longo assédio que nos aguarda.

O duque Gulf de Östemberg sabe algo a meu respeito? — perguntou Salietti, fitando de novo o cavaleiro templário com estupor.

Naturalmente, e, segundo comentou comigo, ele próprio chegou a co­nhecer seu pai, Iacopo de Estaglia, pois era um grande amigo seu — disse o cavaleiro templário, voltando a deixar Salietti gelado. — Quando cheguei à fortaleza depois de tentar acabar com a vida do barão Figüeltach de Vokko diante da impossibilidade de assassinar o rei de França, relatei-lhe tudo o que havia presenciado de sua fuga do campo das justas e do resgate da bela jovem que os acompanha. Ao vê-los há alguns instantes do alto da torre esporeando suas cavalgaduras como se estivessem sendo perseguidos pelo próprio diabo, desci imediatamente para determinar que as portas fossem abertas sem de­mora. Vocês podem acreditar quando lhes digo que o duque Gulf também se sente muito feliz por poder recebê-los em seu castelo, embora em um mo­mento tão trágico como este.

Salietti não ignorava que seu pai havia viajado com freqüência a Estras­burgo, pois ele mesmo o havia acompanhado em algumas de suas viagens quando era um jovem estudante. Mas nunca havia imaginado que seu pai e o duque Gulf se conhecessem. Se era assim, pensou, provavelmente Weienell ti­nha razão quando dissera a Grimpow e a ele que seu pai costumava se reunir com outros sábios nos castelos do Círculo de Pedra.

Ascenderam à fortaleza superior por um caminho tão estreito que só a du­ras penas os cavalos podiam passar lado a lado. Atravessaram o túnel de en­trada depois que a guarda subiu o rastelo e entraram em um amplo pátio de armas. Uma multidão de soldados e cavaleiros subia e descia das muralhas, tomando posições em seus postos de defesa ao pé da rocha colossal, aguar­dando a iminente chegada dos exércitos do barão e do rei de França. Deixa­ram os cavalos no pátio, pegaram seus alforjes e subiram à torre.

Dos altos merlões da torre de honra, o duque Gulf de Östemberg olhava com feição amarga e preocupada o avanço inevitável de seus inimigos. Os três castelos do Círculo de Pedra situados a oeste haviam sido rapidamente toma­dos pelos cavaleiros do barão Figüeltach de Vokko, e agora ardiam diante de seus olhos como grandes tochas acesas no horizonte. Seus cavaleiros e vassalos haviam procurado refúgio na fortaleza, e se espalhavam por todos os cantos, preparando flechas, afiando espadas e enchendo barris de água para apagar os incêndios.

O barão de Östemberg devia ser apenas alguns anos mais velho que Salietti, mas seus olhos azuis e sua barba esbranquiçada e aparada lhe confe­riam um ar de majestosa serenidade e sabedoria.

Vocês chegam em uma hora trágica, que marcarão com sangue indelével a barbárie da ignorância — disse o duque Gulf ao ver chegarem Salietti e os dois jovens que o acompanhavam, precedidos por Rhádoguil de Cúrnilldonn.

Se é necessário defender sua fortaleza das bestas que a ameaçam, me alegra ter chegado em tempo de poder combater com minha espada ao seu lado e ao de seus cavaleiros — respondeu Salietti, inclinando o corpo em leve reverência.

Weienell e Grimpow ficaram um pouco atrás, esperando que Salietti os apresentasse.

Seja bem-vindo aos castelos do Círculo de Pedra, como sempre o foi seu pai, Iacopo de Estaglia, embora ele jamais tenha esgrimido outra espada que não fosse a da sua afiada sabedoria.

Eu ignorava que meu pai tivesse visitado algumas vezes sua fortaleza — disse Salietti.

Seu pai foi um grande amigo do meu e de outros sábios que se reuni­am em uma sala deste castelo várias vezes ao ano, embora isso tenha sido há muito tempo — explicou o duque com saudades de um tempo distante e afortunado.

Ao ouvir falar de uma sala onde os sábios se reuniam, Salietti, Grimpow e Weienell sentiram um calafrio percorrer-lhes a pele. Acreditavam que a câma­ra lacrada era algo que eles teriam de se esforçar para descobrir, e, no entanto, agora parecia estar ao alcance de suas mãos sem que tivessem de buscá-la.

O cavaleiro Rhádoguil de Cúrnilldonn me disse que o senhor mesmo chegou a conhecer meu pai — prosseguiu Salietti com suas indagações.

Eu era ainda menino quando seu pai me deu de presente um curioso artefato de cristal que transformava em grandes as coisas diminutas e que, co­locado perpendicularmente aos raios de sol, fazia arder qualquer objeto sobre o qual se dirigisse sua maravilhosa luz azulada — disse o duque, sorrindo.

Então o senhor também deve ter conhecido um sábio chamado Gurielf Lábox — disse Salietti, diante dos olhos cheios de expectativas de Weienell.

Sim, é verdade, ele era outro dos sábios com os quais meu pai se reunia na sala da qual estou falando — confirmou o duque.

Salietti fez um sinal a Weienell e Grimpow para que se aproximassem e apresentou-os ao duque. Depois falou da morte de seu pai nos bosques neva­dos de Üllpens, e da morte do pai de Weienell nas mãos do inquisidor Búlvar de Góztell. O duque expressou a ambos suas condolências e acrescentou:

Estou certo de que este encontro em um momento tão dramático para os castelos do Círculo não é fortuito, e ao menos servirá para honrar a memó­ria de seus pais. Acompanhem-me, quero lhes mostrar a sala em que se reu­niam esses homens, e lhe contarei uma história de que nunca falei a ninguém.

O duque Gulf deixou o cavaleiro Rhádoguil de Cúrnilldonn no comando de suas tropas e abandonou a torre acompanhado pelos recém-chegados. Des­ceram em silêncio até sair ao pátio de armas, onde continuava o buliçoso ir e vir dos soldados pelos merlões das torres, vigiando os lentos movimentos de milhares de ginetes que se aproximavam da fortaleza pelo oeste do vale. Gulf de Östemberg estava consciente de que não devia abandonar seu posto na tor­re. Afinal, era o senhor do castelo que muito em breve seria assediado por um exército implacável. No entanto, acreditava que havia chegado o momento de cumprir um antigo juramento, e um intenso e profundo sentimento de ami­zade, cuja origem incerta não podia determinar, o impulsionou a descer até a sala na qual em outra época se reuniam os sábios, e onde ele não havia voltado a entrar desde a morte de seu pai. Também Weienell e Salietti achavam que alguma coisa os unia ao duque Gulf de Östemberg, uma coisa tão imperceptí­vel como a história comum de seus pais e sua inquietação diante da sabedoria. Mas eles descobririam muito depressa que estavam todos unidos pela esque­cida lenda de um mesmo segredo.

No fundo do pátio das armas, o duque Gulf destrancou uma porta de ferro enquistada em um pequeno arco, pegou uma tocha que pendia de uma argola no muro, acendeu-a e todos desceram por estreitos degraus encaracolados que desembocavam em uma pequena sala redonda. O recinto estava completa­mente vazio, e seu teto era uma abóbada semi-esférica que em outra época devia simular a abóbada celeste. Mas naquele lugar havia algo que chamou a atenção de Grimpow, Weienell e Salietti assim que entraram nele. Diante do arco da entrada, no centro da parede circular, destacava-se um relevo de gran­des letras talhadas na rocha e escritas em latim:

 

                     TEMPUS ET VITA

                     TEMPUS ET MORTIS

 

"Tempo e vida, tempo e morte", pensaram os três acompanhantes do du­que consigo mesmos, sem ter nenhuma dúvida de que a câmara lacrada onde o tempo é vida e é morte, segundo dizia a folha do manuscrito de Aidor Bílbicum, estava muito perto deles.

O duque Gulf também percebeu logo que o texto talhado na rocha havia atraído de uma maneira poderosa a atenção de seus três acompanhantes, es­pecialmente do garoto chamado Grimpow, que olhava para as letras escritas em latim como se pudesse ver mais além de seu significado aparente.

É dessa misteriosa inscrição que eu queria lhes falar, antes que seja mui­to tarde — disse o duque com voz solene. E diante do silêncio tenso de seus acompanhantes, prosseguiu: — Um de meus antepassados mais distantes, Atberol de Õstemberg, foi, na juventude, discípulo de um sábio chamado Aidor Bílbicum. Este sábio, levado por sua paixão pela astronomia, viajou há dois séculos para o Oriente, onde, ao que parece, um misterioso sábio entre­gou-lhe uma pedra prodigiosa que era chamada pelas lendas de lapis philosophorum. Revelou-lhe, também, o lugar do Templo de Salomão de Jeru­salém em que estava escondido um objeto maravilhoso cujo poder era tão as­sombroso que poderia chegar a ser cobiçado por todos os reis e imperadores da Terra Santa. Então, ele e outros sábios de uma sociedade secreta chamada Ouroboros fizeram um pedido a um grupo de nove cavaleiros que se autode­nominavam de templários porque se hospedavam nos estábulos do Templo de Salomão. Queriam que eles protegessem uma carreta que levaria o objeto prodigioso até a França do assalto de muçulmanos e bandidos. Em troca desse serviço, receberiam uma grande quantia em ouro. Quando o objeto chegou à França, a sociedade secreta de sábios chamada de Ouroboros escondeu-o em um lugar desconhecido. Os cavaleiros templários, por sua vez, fundaram a Ordem do Templo, em homenagem ao Templo do Rei Salomão de Jerusalém, onde haviam vivido durante muitos anos como monges soldados encarrega­dos de defender peregrinos...

Até onde o senhor nos contou, e a não ser o fato de que seu antepassado Atberol de Östemberg foi um dos fundadores da sociedade secreta de sábios chamada Ouroboros, já conhecemos essa história, narrada pelo próprio Aidor Bílbicum em um manuscrito intitulado A essência cósmica da pedra — interrompeu-o Salietti. — Mas continue, pois creio que o senhor conhece os elos que estão faltando para completar essa lenda fantástica.

De fato, a história virou lenda quando os cavaleiros da Ordem do Tem­plo obtiveram tanto poder e tantas riquezas a ponto de despertar a inveja de papas, reis e imperadores. Todos chegaram a acreditar que, na verdade, os nove cavaleiros do Templo de Salomão de Jerusalém haviam encontrado um tesouro de valor incalculável. Mas antes quero lhes dizer que meu antepassado Atberol de Östemberg, na qualidade de discípulo predileto do sábio Aidor Bílbicum, foi encarregado, quando ele morreu, de providenciar seu sepulta- mento em uma cripta desconhecida...

Salietti voltou a interrompê-lo.

Esta cripta fica na igreja de Cornill, ao norte da cidade de Üllpens — disse.

Estou vendo que não me equivoquei ao supor que a pedra está com vocês. Certamente estão interessados em saber o que ainda tenho a lhes dizer.

"Meu antepassado Atberol de Õstemberg também recebeu a pedra de Aidor Bílbicum. E depois de enterrar o corpo de seu mestre junto ao manus­crito que vocês conhecem, escondeu em algum misterioso lugar deste castelo os códigos que levam ao segredo dos sábios. Atberol de Östemberg não disse a ninguém onde havia escondido esses códigos, mas, quando seus filhos adqui­riram o uso da razão e puderam discernir a respeito do que ouviam, obrigou-os a jurar que jamais contariam essa história a alguém, a menos que um ho­mem sábio chegasse à fortaleza sem nenhum motivo aparente que justificasse sua visita. Então teriam de trazê-lo a esta sala e deixá-lo aqui sozinho durante o tempo de que precisasse, não devendo se surpreender se não voltassem a vê- lo sair de novo."

Estas palavras assustaram Grimpow. Ele não conseguia compreender o que queria dizer exatamente o duque ao afirmar que não voltariam a ver quem ficasse a sós nessa sala. Chegou, inclusive, a imaginar que a pessoa pudesse desaparecer subitamente, como desaparecera diante de seus olhos o corpo do pai de Salietti quando ele o encontrara morto nas montanhas.

Mas Atberol de Östemberg também obrigou seus filhos a jurar — con­tinuou o duque — que contariam a seus filhos a mesma história que ele lhes havia contado, exigindo-lhes que fizessem o mesmo juramento. Enfim, deve­ria sempre existir um duque de Östemberg que conhecesse a história e per­mitisse aos futuros possuidores da pedra encontrar o segredo dos sábios quando chegasse o momento. Sei que meu pai, como os seus, foi um desses sábios, e que a sociedade secreta Ouroboros se reunia nesta sala. Eu fiz ao meu pai o mesmo juramento que Atberol de Östemberg exigiu de seus fi­lhos, e agora o cumpri — concluiu o duque Gulf.

O senhor teme que o barão Figüeltach de Vokko consiga assaltar a for­taleza e encontre os códigos que levam ao segredo dos sábios escondido por seu antepassado? — perguntou Salietti.

O barão Figüeltach de Vokko e o rei de França, movidos pela ambição e pelo medo da morte, perseguem apenas uma quimera. Eles acreditam que o tesouro da lenda dos templários está escondido aqui, e é isso o que procuram. Estou certo de que algum sábio templário deve ter lhes revelado a existência desta sala sob a insuportável dor da tortura a que foram submetidos pelos verdugos do papa e do rei de França. Eu lhes confesso que eu mesmo, tentado por essa lenda, procurei o tesouro em todos os cantos do castelo, e não encontrei nada além desse enigmático texto escrito em latim que fala do tempo, da vida e da morte. Entre estas paredes vazias, não houve mais que sabedoria, e a vocês, como detentores da pedra, cabe encontrar o que resta dela. Agora lhes peço que me desculpem. O exército comandado pelo barão Figüeltach de Vokko já chegou às portas da fortaleza, e temos de dar-lhe a recepção que sua ousadia merece. Acredito que voltaremos a nos ver em breve — concluiu o duque, preparando-se para voltar à torre de honra.

Espere — disse Salietti. — Eu irei com o senhor. Como já disse antes, usarei minha espada e a sua para defender os castelos do Círculo dessas bes­tas. Eu não sou um sábio, jamais o fui, e não creio que jamais chegarei a sê-lo. Meu lugar como cavaleiro está na batalha, esse foi sempre meu único sonho.

Weienell e Grimpow se sentiram confusos e desolados. Se Salietti não os acompanhasse e eles chegassem a entrar na câmara lacrada, era possível que nunca mais voltassem a vê-lo.

 

                             Tempo e vida, tempo e morte

Quando ficaram sozinhos na sala que em outros tempos havia sido o pon­to de encontro dos sábios da sociedade secreta Ouroboros, Grimpow pegou a tocha e examinou as paredes para ver se tinham alguma rachadura. Mas as paredes de pedra da sala eram tão lisas e tão polidas que pareciam feitas de uma única peça. Weienell seguia seus passos, embora estivesse pensando nas vezes em que seu pai ocupara um lugar naquela sala misteriosa, conversando sobre suas próprias informações e descobertas a respeito da astronomia com outros sábios, entre os quais os pais de Salietti e do duque Gulf de Östemberg. E se perguntava se, por acaso, seu pai e os outros sábios teriam chegado a sa­ber, alguma vez, que estavam reunidos ao lado da câmara lacrada mencionada pelo manuscrito de Aidor Bílbicum.

A câmara lacrada onde o tempo é vida e é morte tem de estar aqui, te­nho certeza disso. Esse é o sentido do texto em latim talhado na parede. Mas não sei como poderemos abrir essa câmara — disse Grimpow, aproximando a luz da tocha da inscrição e lendo-a de novo em voz alta.

 

                         TEMPUS ET VITA

                         TEMPOS ET MORTIS

 

"Tempo e vida, tempo e morte" — repetiu Weienell, tão intrigada quanto Grimpow. Os dois lutavam para entender o verdadeiro significado daquelas palavras enigmáticas.

Grimpow entregou a tocha a Weienell, tirou a pedra da bolsa de linho que carregava no pescoço e passou a chave dos mistérios sobre o texto, assim como fizera com a inscrição talhada na cripta da igreja de Cornill. Acreditava que para abrir a câmara lacrada teria de usar o mesmo método empregado no sarcófago da cripta em que ele e Salietti haviam encontrado o manuscrito de Aidor Bílbicum, mas não demorou a perceber que a chave dos mistérios não poderia abrir as paredes de pedra que os cercavam como se formassem um círculo impenetrável.

Certamente Atberol de Östemberg, o antepassado do duque Gulf, era tão esperto e engenhoso como seu mestre, e idealizou um sistema de proteção do enigma ainda mais complexo e sofisticado que o criptograma que Salietti e eu elucidamos na escura cripta da igreja de Cornill — disse Grimpow, como se falasse consigo mesmo. — Mas tenho a impressão de que as palavras TEMPUS ET VITA, TEMPUS ET MORTIS não têm um significado diferente daquilo que expressam.

Eu também não acredito que este texto contenha anagramas, e que mu­dando a ordem de suas letras chegaremos a um texto diferente. A solução des­te enigma parece estar em seu próprio significado — disse Weienell.

Então se deu conta de que no interior do O da palavra MORTIS havia um pequeno símbolo. O símbolo do Ouroboros.

Olhe para isso! É o símbolo do Ouroboros — exclamou Weienell, aproximando ainda mais a tocha para que as sombras do relevo da letra não os impedisse de ver seus detalhes.

Grimpow ficou na ponta dos pés para apreciar melhor o símbolo do Ouroboros, e confirmou que se tratava de um relevo em negativo da serpente que morde o próprio rabo, igual à gravada no lacre da mensagem em poder do cavaleiro morto nas montanhas. Então uma idéia relampejou em sua men­te, permitindo que visse de novo a luz no meio da escuridão.

O lacre! O código para abrir esta câmara está no lacre de ouro! Por isso a folha do manuscrito de Aidor Bílbicum fala da câmara lacrada — exclamou entusiasmado.

E de que lacre de ouro você está falando? — perguntou Weienell, que não conseguia entender a que Grimpow podia estar se referindo.

Do lacre que o pai de Salietti carregava em seu alforje quando eu o en­contrei morto nas montanhas de Üllpens, muito perto da abadia de Brínkdum — disse, enquanto abria o alforje que pendia de seu ombro e pegava o lacre de ouro com o símbolo do Ouroboros. — A câmara foi lacrada com este mesmo selo, e só ele pode conseguir que volte a se abrir. Por isso o pai de Salietti, Iacopo de Estaglia, carregava a pedra, a mensagem e o lacre de ouro. Ninguém que não possuísse esses três objetos poderia encontrar jamais o segredo dos sábios. A pedra, a chave dos mistérios — explicou —, permitia abrir a cripta onde dormia a história da sociedade secreta Ouroboros —, a mensagem cifra­da continha o código para procurar quem não existe e ouvir a voz das som­bras, e este selo é a única coisa que pode abrir a câmara lacrada onde o tempo é vida e é morte. Está entendendo agora? — perguntou.

Weienell assentiu, embora não estivesse muito convencida. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Grimpow aproximou o lacre de ouro do pequeno símbolo gravado na pedra, e um zumbido surdo fez tremer o solo da sala. O bloco de pedra em que estava talhado o texto TEMPUS ET VITA, TEMPUS ET MORTIS começou a girar diante deles. E a porta da câmara lacrada se abriu.

A primeira a entrar foi Weienell, que carregava a tocha, e ficou maravilha­da ao ver a beleza daquela misteriosa câmara, cuja porta voltou a se fechar bruscamente assim que Grimpow passou para o lado de dentro. Era uma gran­de sala octagonal que tinha as laterais completamente decoradas com oito pin­turas diferentes. Nos vértices de cada lado do octágono havia oito perfumadores que Weienell iluminou com a tocha, enquanto olhava, admirada, para o teto. A sala estava coberta pela representação de uma abóbada celeste pontilhada de estrelas e parecia tão transparente como o infinito céu da noite.

Mas antes que pudessem deleitar-se na contemplação daquela sala prodi­giosa, uma comporta se abriu em um dos lados e começou a despejar uma torrente de areia muito fina, que se espalhava sobre o solo como se fosse uma corrente de água dourada.

É uma armadilha! A câmara lacrada é uma armadilha! — gritou Grimpow aterrorizado ao perceber que aquela areia fluida como ouro líquido acabaria enterrando-os vivos se não conseguissem decifrar logo o enigma que ocultava.

Weienell olhou para o buraco aberto, e tentou tranqüilizar Grimpow, ape­sar de seu próprio medo.

Agora compreendo o texto em latim que está na entrada, e as palavras de Aidor Bílbicum quando afirmava em seu manuscrito que na câmara lacrada o tempo é vida e é morte — disse Weienell. Esta câmara é como um relógio de areia que mede o tempo que teremos para resolver o enigma. Se conseguir­mos desvendá-lo antes de o tempo transcorrer, salvaremos nossas vidas, mas se não conseguirmos, a passagem do tempo nos levará à morte. "Tempus et vita, tempus et mortis." Por isso o duque Gulf disse que seu antepassado adver­tiu-o de que não deveria se surpreender se não voltasse a ver sair quem ficasse a sós na sala onde se reuniam os sábios — acrescentou. Um esgar trágico es­boçou-se em seu rosto.

Grimpow também compreendeu o significado que Weienell atribuía ao texto da entrada escrito em latim, e mediu com os olhos o pedaço de chão que a areia já havia coberto. Calculou que ainda dispunham de pelo menos duas horas até que a areia chegasse à sua cintura. Mas Grimpow também se lem­brou da maldição de que lhes falara o ermitão que Salietti e ele encontraram em uma pequena capela situada em um cruzamento de caminhos à saída da cidade de Üllpens, quando lhes disse: "Malditos os que ousarem penetrar na essência do mistério, porque as portas que conseguirem abrir se fecharão para sempre atrás deles." E temeu que aquela maldição, como a que o grande mes­tre dos templários lançara da fogueira contra o papa e o rei de França, tivesse começado a se cumprir.

No centro da câmara se destacava uma grande mesa, também octagonal, sobre cuja superfície estava pintada a rosa-dos-ventos. Em cada um dos oito lados da mesa havia uma figura de pedra sentada em uma cadeira de espaldar alto, também de pedra. Eram imagens, talhadas em tamanho natural, de oito sábios que vestiam amplas togas e tinham as duas mãos apoiadas sobre a mesa, e sustentavam entre elas uma grande letra de bronze. Weienell contemplou aquelas esculturas como se fossem seres de carne e osso aos quais faltasse ape­nas um sopro de vida para que começassem a se mover, e até tentou encontrar nelas o rosto de seu pai. Mas aqueles rostos de olhos profundos e longas bar­bas não lhe recordaram ninguém que ela tivesse conhecido. Grimpow tam­bém não conseguiu reconhecer nenhum dos sábios, embora também tivesse procurado a imagem inesquecível do rosto gelado do cavaleiro morto que en­contrara na neve e que acabou descobrindo que era o pai de Salietti. No entanto, entre as oito figuras havia uma cujas feições se assemelhavam muito aos tra­ços do duque Gulf, embora fossem as de um homem velho.

Creio que estas estátuas de pedra representam as imagens dos oito fun­dadores da sociedade secreta Ouroboros que encontraram e esconderam o se­gredo dos sábios — especulou Grimpow, mais calmo, começando a tentar dar um sentido razoável àquela cena que parecia parada no tempo. Um tempo pa­ralisado naquelas imagens de pedra; um tempo que, no entanto, não deixava de correr para eles dentro do insólito relógio de areia em que a câmara lacrada havia se transformado, um espaço onde poderiam encontrar a vida ou a mor­te. Mas pelo menos já sabiam que tudo dependia da sua capacidade de conse­guir resolver a tempo o complicado enigma presente em todos os elementos daquela misteriosa sala.

Se quisermos sair daqui com vida, precisaremos analisar cada um dos elementos possíveis do enigma, e seguir um método que nos ajude a resolvê- lo — propôs Grimpow.

Então comecemos pelo princípio, como sempre me aconselhou meu pai. Está claro que no centro da câmara temos uma mesa octagonal e a figura de um sábio sentado em cada uma de suas pontas. Também é evidente que cada um deles sustenta uma letra em sua mão.

É verdade — disse Grimpow, dando-se conta de que Weienell era mais sábia que ele supunha. — Havia pensado que talvez essas letras correspondam às iniciais de seus nomes, mas não vejo no meio delas nenhuma letra A de Aidor Bílbicum, nem de Atberol de Östemberg, que são os únicos nomes dos primeiros membros da sociedade Ouroboros que conhecemos. Farei um de­senho da mesa e das letras que cada sábio sustenta, talvez isso nos ajude a enxergar mais claramente as trevas deste enigma — observou Grimpow, en­quanto tirava um pedaço de pergaminho e um carvão de seu alforje e come­çava a desenhar um esboço da composição da mesa.

 

Sobre a mesa está pintada a rosa-dos-ventos, que assinala os quatro pon­tos cardeais — disse Weienell. — Se você prestar atenção, verá que o sábio senta­do ao norte sustenta a letra N, o sábio sentado ao sul sustenta a letra S, o que está sentado ao este está com a letra E, e o que está sentado a oeste tem entre suas mãos a letra O — concluiu Weienell, orgulhando-se de seu raciocínio.

É fantástico, Weienell, eu não havia me dado conta disso — admitiu Grimpow. — Parece claro que os sábios querem orientar nossa procura.

Depois, temos as pinturas que decoram cada um dos lados do octágono que formam as paredes da sala — observou Weienell, enquanto Grimpow tra­balhava em seu desenho. — Se começarmos pela que corresponde ao norte assinalado pela rosa-dos-ventos, onde fica a Estrela Polar que serve de guia aos navegantes, e seguirmos da esquerda para a direita, que é o sentido em que gira a Terra sobre seu eixo segundo as teorias astronômicas dos sábios de Ouroboros, poderemos observar que a primeira pintura é uma massa informe e negra que parece flutuar no meio do nada. Na segunda, um grupo de plane­tas gira em um universo imaginário. Na terceira, só há estrelas. Na quarta, uma bola de fogo parece representar o Sol. Na quinta cena, temos um jardim belíssimo cheio de vida. Na sexta, está desenhada uma linda rosa. Na sétima, um homem seminu de rosto primitivo observa sentado o ramo partido de uma árvore que arde. E, finalmente, na oitava aparece uma serpente morden­do seu próprio rabo — concluiu Weienell.

Grimpow havia memorizado cada uma das oito cenas que Weienell des­crevera com tanta perspicácia, e começou a vislumbrar uma possível solução para aquele imenso e confuso hieróglifo.

— E sobre nossas cabeças temos a cúpula do céu — disse, ao mesmo tem­po em que avançava em seu desenho da mesa onde sábios estavam sentados.

E

Grimpow se aproximou de Weienell e lhe mostrou de novo o resultado de seu esboço.

 

Os olhos de ambos vagaram por aquele desenho impreciso, mas suficiente para permitir-lhes analisá-lo atentamente, embora tivessem consciência de que o rio incessante de areia inundava a câmara lacrada e já cobria seus torno­zelos. Ficaram em silêncio durante um bom tempo, observando e meditando sobre todos os elementos do enigma que os envolvia como um véu de trevas onde a luz jamais entraria. Mas Grimpow teve uma idéia e propôs a Weienell que o ajudasse a checar seu sentido.

Estou pensando que talvez o código esteja nas letras que os lábios sus­tentam em suas mãos — disse, e se aproximou do que estava com a letra O que indicava o oeste na rosa-dos-ventos. Pegou-a e descobriu que estava solta nas mãos da estátua de pedra.

Weienell admirou Grimpow por sua perspicácia.

E o que você acha que isso pode significar? — perguntou.

Que estas letras devem ser retiradas das mãos dos sábios de uma em uma seguindo uma ordem lógica — raciocinou Grimpow, fascinado pela pos­sibilidade de que seu raciocínio estivesse correto.

É possível que cada letra tenha alguma relação com a pintura que há atrás dela nos muros do octágono que dá forma à câmara lacrada.

Dê-me um exemplo — pediu Weienell, um pouco confusa.

— Preste atenção no desenho da mesa que eu acabei de fazer — disse, co­locando de novo o pedaço de pergaminho diante dos olhos de Weienell.

 


A rosa-dos-ventos aponta para o norte — prosseguiu —, e o sábio sentado desse lado da mesa octagonal sustenta a letra N, como você percebeu. Procu­remos na pintura que está atrás dela uma palavra que comece com N. É ape­nas uma idéia, mas talvez assim possamos encontrar algo. Repita a descrição que você fez da primeira cena.

Weienell levantou os olhos do desenho e voltou a olhar para a pintura situada ao norte, atrás do sábio que sustentava a letra N.

Trata-se de uma massa informe e negra que parece flutuar no meio do nada.

Segundo a minha teoria, você disse duas palavras que contêm o N: "ne­gra" e "nada" — salientou Grimpow, escrevendo as duas palavras em seu peda­ço de pergaminho.

Agora vejamos a cena da pintura seguinte, indo da direita para a esquerda no sentido de rotação da Terra sobre seu eixo. Como você a descreveu?

Um grupo de planetas gira em um universo imaginário.

Bem, creio que este método pode funcionar. Você disse "planetas" e "universo", mas se observarmos o desenho, comprovaremos que nenhum dos sábios sustenta uma letra P, ao passo que um deles tem sim entre suas mãos a letra U — e Grimpow anotou "universo".

É verdade! — exclamou Weienell, sentindo de novo o sangue correr por suas faces geladas.

Agora descreva a cena seguinte.

Na terceira pintura, só há estrelas — disse, precipitadamente, sabendo que o tempo continuava correndo no implacável relógio de areia em que esta­vam aprisionados.

Então aqui é fácil, pois há apenas a letra E. Ela é sustentada por um dos sábios, exatamente aquele que está no ponto cardeal do este indicado pela rosa-dos-ventos na mesa octagonal — disse Grimpow, escrevendo em suas notas a palavra "estrela", consciente de que o caminho que resolvera seguir para resolver esse complicado enigma era o correto, embora ainda não sou­besse até onde os conduziria.

Na quarta, uma bola de fogo parece representar o Sol — disse Weienell, entusiasmada com suas interpretações das pinturas que decoravam a câmara lacrada.

Você disse "bola", "fogo" e "sol", mas, dessas três palavras, só o S de "sol" está entre as letras que os sábios sustentam, neste caso o sábio situado ao sul da rosa-dos-ventos. — E a palavra "sol" foi adicionada às notas de Grimpow.

A quinta cena representa um jardim belíssimo cheio de vida.

O J de "jardim" também não está nas mãos de um dos sábios. Mas te­mos o V de "vida"! — exclamou Grimpow, escrevendo a palavra "vida" e intuindo que seu método para decifrar o enigma era, sem dúvida, o correto.

Na sexta pintura está desenhada uma linda rosa.

E Grimpow escreveu rapidamente "rosa", querendo chegar ao final, pois a areia continuava entrando na câmara lacrada e começava a se aproximar perigosamente da altura da mesa octagonal. Se a areia chegasse a cobrir as letras que os sábios sustentavam em suas mãos, todos os esforços se tornariam inú­teis, e só lhes restaria esperar até que a areia os enterrasse vivos.

Na sétima, um homem seminu de rosto primitivo observa sentado o ramo partido de uma árvore que arde — disse Weienell, alarmada pela dificul­dade que pressentia naquele hieroglifo.

Grimpow também se sobressaltou.

Você disse "homem", "rosto", "primitivo", "ramo" e "árvore", mas nenhuma das primeiras letras dessas palavras está entre as letras que os sábios susten­tam. Só há um R de "rosto" e "ramo". Temos de buscar outra interpretação que se adeqüe ao nosso método — disse Grimpow, preocupado com a possibilidade de que tudo quanto haviam conseguido até aquele momento não tivesse ne­nhuma utilidade.

Weienell fechou os olhos para se concentrar. Mas não conseguia encontrar nenhuma palavra que começasse pela letra I e fizesse sentido.

Só nos restam um O, e está claro que a última pintura, a da serpente que morde seu próprio rabo, é o símbolo do Ouroboros, cuja letra O é sustentada pelo sábio situado no ponto oeste da rosa-dos-ventos. De maneira que só nos resta a letra I — repetiu nervoso.

Weienell voltou a olhar a sétima cena, repetindo mentalmente a letra I vá­rias vezes. Finalmente, exclamou:

Inteligência! O homem primitivo pintado observa o ramo partido da árvore que arde, e descobre o fogo porque é um ser inteligente! — concluiu aos gritos.

Sim, sim! Conseguimos, conseguimos — disse Grimpow, e mostrou a Weienell a relação de palavras que haviam resultado de sua interpretação das pinturas hieroglíficas que decoravam a câmara lacrada, onde o tempo era vida e era morte.

 

                   NADA

                   UNIVERSO

                   ESTRELAS

                    SOL

                   VIDA

                   ROSA

                   INTELIGÊNCIA

                   OUROBOROS

 

É a história da sabedoria humana, é a história da pedra, do lapis philosophorum, da chave dos mistérios e da sociedade secreta dos sábios que a guardaram e esconderam! — gritou Grimpow, emocionado. — Nessas pala­vras estão resumidos milhões de anos de mistério: do Nada surgiu o Universo, que se povoou de Estrelas, e entre elas está o Sol, que fez nascer a Vida, simbo­lizada pela Rosa, a mais bela flor que jamais existiu e cuja beleza o homem é capaz de apreciar por sua Inteligência, que é o que cultivaram os sábios em sua sociedade secreta Ouroboros. E se unirmos as letras iniciais de cada uma dessas palavras teremos:

 

                   NUESVRIO

 

E, ao dizer isto, Grimpow começou a retirar uma a uma as letras de bronze que os sábios sustentavam em suas mãos e foi colocando-as diante deles sobre o chão de areia que já estava quase enterrando a mesa octagonal da rosa-dos-ventos. Mas só aconteceu uma coisa: a areia começou a jorrar com mais inten­sidade e rapidez. Weienell pediu a Grimpow que colocasse rapidamente as le­tras em seu lugar; para seu alívio, quando a última letra foi devolvida ao seu sábio o fluxo de areia tornou-se mais lento, parecendo seguir o ritmo caden­ciado de um relógio mortal.

Os dois, cheios de angústia, não paravam de pensar, temendo que aqueles instantes fossem os últimos que lhes restavam de vida, mas Weienell se aproximou do sábio que sustentava a letra U e começou a compor a mágica palavra que lhes permitiria sair da câmara lacrada onde o tempo era vida e era morte.

 

                   UNIVERSO

 

Grimpow abraçou Weienell e levantaram ao mesmo tempo os olhos para a abóbada do céu que os cobria, e contemplaram maravilhados a infinita beleza da cúpula celeste pintada no teto, enquanto o centro da mesa octagonal se abria como por encantamento, e de suas entranhas brotava um pequeno cofre dourado em cujo interior Grimpow e Weienell encontraram o mapa mais fan­tástico que jamais poderiam ter imaginado.

A porta da câmara lacrada voltou a se abrir, e Grimpow se lembrou do texto da folha que faltava ao manuscrito de Aidor Bílbicum que recebera na catedral de Estrasburgo da voz das sombras:

 

Siga o trajeto do símbolo e procure a câmara lacrada onde o tempo é vida ou é morte. Mas só se alcançar a imortalidade conseguirás ver o Caminho Invisível.

 

E agora o Caminho Invisível estava diante de seus olhos repletos de lágrimas.

 

                               O assalto à fortaleza

O exército do barão Figüeltach de Vokko e do rei de França tomava posi­ções ao redor da meseta rochosa para sitiar a fortaleza dos castelos do Círculo, impedindo que alguém pudesse entrar ou sair dela. Também cortaram o aces­so ao rio que cruzava o vale, postando um grupo de cavaleiros sobre uma pon­te de pedra.

Ao pé da imensa rocha, os soldados levantavam as tendas e as máquinas de guerra. Já estavam acontecendo as primeiras escaramuças nas muralhas do castelo. Uma tropa avançada de escaladores tentava atingir algumas sali­ências das paredes da montanha, mais próximas da entrada inferior da for­taleza. Os arqueiros do duque Gulf de Östemberg postados nos merlões dis­pararam seus arcos e bestas e fizeram os primeiros atacantes recuar. Alguns morreram na tentativa, e muitos deles foram feridos antes que conseguis­sem despencar nas pedras.

Salietti estava ao lado do duque Gulf e de seus cavaleiros nos merlões da torre de honra. Todos vigiavam os movimentos das hostes do barão Figüeltach de Vokko que começavam a subir a pé, às centenas, pela face no­roeste da montanha, lugar onde nem os arcos nem as bestas disparadas da fortaleza alcançavam. Mesmo assim, de vez em quando, seguindo as ordens de Rhádoguil de Cúrnilldonn, centenas de flechas disparadas das muralhas subiam aos ares e, traçando uma parábola, caíam como se fosse uma chuva de aguilhões envenenados.

Vocês conseguiram ver o Caminho Invisível? — perguntou Salietti a Grimpow e a Weienell assim que chegaram perto dele, sorrindo como duas crianças felizes.

Não sei se alcançamos a imortalidade, mas pelo menos conseguimos sair com vida da armadilha que estava escondida na câmara lacrada — disse Weienell.

Afastaram-se para um canto da torre. Weienell contou a Salietti da surpre­sa que Grimpow e ela tiveram quando, finalmente, conseguiram entrar na câ­mara lacrada onde o tempo era vida e era morte; e lhe contou, também, como haviam resolvido o enigma que lhes permitira voltar a sair daquele mortífero relógio de areia e ver, finalmente, o Caminho Invisível.

Está aqui! — disse Grimpow, maravilhado, mostrando a Salietti o insó­lito mapa que estava guardado no cofre que emergira da mesa octagonal da câmara depois de Weienell ter formado a palavra "Universo" com as letras que os sábios sustentavam.

Mas aqui não há nenhum caminho que possa levá-los a encontrar o Caminho Invisível! — exclamou Salietti.

Weienell franziu o cenho, esquecendo-se do Caminho Invisível.

O que você quer dizer? Por que está falando de levá-los em vez de levar-nos? Por acaso você não é um de nós? — perguntou, entristecida porque adi­vinhava a resposta.

Decidi ficar aqui, ao lado do duque Gulf e de seus cavaleiros, até o fim da guerra — disse Salietti, e uma cintilação de tristeza brilhou em seus olhos.

Mas esta guerra não é sua! Você não pode nos abandonar agora! Vie­mos até aqui para procurar a câmara lacrada — protestou Grimpow, incapaz de aceitar que tivesse de se separar de seu melhor amigo.

Salietti aproximou-se de Grimpow e colocou uma das mãos sobre seu ombro.

Você foi o melhor escudeiro que um cavaleiro jamais poderia ter dese­jado, Grimpow, e Weienell é para mim o mais belo dos sonhos que poderia encontrar contemplando as estrelas ou as noites de lua cheia. Mas esta guerra é tão minha como do duque Gulf de Östemberg. O pai dele, como o meu, foi um grande sábio, e esta é uma guerra da ignorância e da superstição contra o conhecimento e a sabedoria. O exército do barão Figüeltach de Vokko e do rei de França que sitia a fortaleza não tem outra intenção do que a de se apoderar do segredo que nossos pais, o meu, o do duque Gulf e o seu, Weienell, guarda­ram e protegeram para um dia engrandecer a humanidade. Eles só o procuram para satisfazer sua própria cobiça e sua vontade de ter ainda mais poder. Se eu fosse embora daqui sem ter lutado pelo mesmo ideal pelo qual morreram meu pai, o seu e tantos outros, me sentiria o ser mais abominável da Terra.

Nesse instante o duque Gulf se aproximou deles com o gesto grave de quem intui o trágico destino que aguarda ao cavaleiro.

Me alegra constatar que o que quer que tenham encontrado na sala dos sábios não impediu que eu voltasse a ver vocês de novo — disse o duque Gulf.

Grimpow se aproximou ainda mais do duque e lhe apresentou o mapa do Caminho Invisível que Weienell e ele haviam encontrado na câmara lacrada de sua fortaleza.

Este mapa pertence ao senhor. Foi escondido pelo seu antepassado Atberol de Östemberg e o senhor é seu único dono. É isso o que o barão Figüeltach de Vokko e o rei de França procuram e é o que esperam encontrar depois de assaltar os castelos do Círculo de Pedra. Talvez o senhor possa evi­tar esta guerra entregando-o a eles — disse.

O duque Gulf pegou o mapa, examinou-o com curiosidade durante alguns momentos e sorriu, impressionado com as palavras pronunciadas pelo menino.

— Querido Grimpow, quem pode conseguir convencer uma horda de fa­náticos apaixonados pela morte de que suas idéias são equivocadas? Se eu ofe­recesse este mapa ao barão Figüeltach de Vokko e ao próprio rei de França assegurando-lhes que neste belo pergaminho está o caminho que conduz ao tesouro que procuram, possivelmente ririam de mim e não acreditariam, por mais verdadeiras que fossem minhas palavras. Este mapa foi idealizado e es­condido por sábios que jamais se importaram com a riqueza porque, para eles, não havia maior tesouro do que a sabedoria. Weienell e você, apesar de sua idade, demonstraram que são os únicos que merecem possuir este mapa. São vocês que devem descobrir o segredo dos sábios e salvar a humanidade da ignorância que a afoga no meio da lama das falsas cren