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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


HANNIBAL / Thomas Harris
HANNIBAL / Thomas Harris

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "VT"

 

 

  

 

 

 

                                         WASHINGTON, D. C.

 

Dá para crer que um dia assim hesitaria em começar...

O Mustang de Clarice Starling subiu a toda velocidade a rampa de entrada do Bureau de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo (BATF) na Massachusetts Avenue, uma sede alugada do reverendo Sun Myung Moon em nome da eco­nomia.

O grupo de ataque esperava em três veículos. Na frente um velho fur­gão disfarçado, e atrás dois furgões pretos da SWAT, esperando na gara­gem enorme.

Starling pegou a sacola de equipamento e correu para o primeiro veículo, um furgão branco e sujo com adesivos dos dois lados onde estava escrito Marcel’s caranguejos.

Pelas portas traseiras do furgão, abertas, quatro homens observavam-na chegar. Esguia no uniforme, ela se movimentava com rapidez sob o peso do equipamento, o cabelo brilhando debaixo das desagradáveis luzes fluores­centes.

— Mulheres. Sempre atrasadas — disse um policial de Washington, D. C. O agente especial John Brigham, do BATF, era o comandante.

— Ela não está atrasada, só passei o bip quando recebemos o chamado — disse Brigham. — Deve ter saído às pressas de Quantico. Oi, Starling, me passe a sacola.

Ela bateu em sua mão, num cumprimento rápido.

— Oi, John.

Brigham falou alguma coisa com o policial à paisana atarracado ao volan­te, e o furgão começou a andar antes que as portas de trás se fechassem, saindo para a tarde agradável de outono.

Clarice Starling, veterana em furgões de vigilância, passou encolhida sob o visor do periscópio e assumiu um lugar na parte traseira, o mais perto pos­sível do bloco de sessenta quilos de gelo seco que servia como ar-condiciona­do para quando eles tivessem de esperar com o motor desligado.

O velho furgão tinha aquele cheiro de jaula de macacos — de medo e suor — que nunca desaparece. Tinha usado muitos letreiros diferentes em seu tempo de serviço. As letras sujas e desbotadas sobre as portas tinham trinta minutos de idade. Os buracos de bala tapados com massa eram mais velhos.

As janelas traseiras eram espelhos unidirecionais, adequadamente man­chados. Starling podia ver os grandes furgões pretos da SWAT vindo atrás. Esperava que não tivessem de passar horas trancados nos furgões.

Os policiais a fitavam sempre que seu rosto se virava para a janela.

A agente especial do FBI Clarice Starling, 32 anos, sempre aparentava a idade que tinha, e sempre fazia com que essa idade parecesse uma coisa boa, mesmo no uniforme.

Brigham pegou sua prancheta no banco do carona, na frente.

— Por que você sempre pega esses serviços de merda, Starling? — per­guntou ele, sorrindo.

— Porque você vive me chamando.

— Para este eu preciso. Mas sempre vejo você cumprindo mandados com esquadrões de ataque, pelo amor de Deus. Eu não pergunto, mas acho que alguém em Buzzard’s Point odeia você. Deveria vir trabalhar comigo. Estes são os meus rapazes, os agentes Marquez Burke e John Hare, e este é o policial Bolton, do departamento de polícia de Washington.

Uma equipe de ataque composta pelo Bureau de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo, pela Administração Antidrogas da SWAT e pelo FBI era o produto forçado das restrições de orçamento numa época em que até a Academia do FBI tinha sido fechada por falta de verbas.

Burke e Hare pareciam agentes. O policial municipal, Bolton, parecia um escriturário. Tinha uns 45 anos, era gordo e mole.

O prefeito de Washington, ansioso para se mostrar firme contra as drogas depois de sua própria condenação por uso de narcóticos, insistiu para que a polícia municipal compartilhasse o crédito por cada grande batida na cidade de Washington. Daí a presença de Bolton.

— O bando de Drumgo está preparando material hoje — disse Brigham.

— Evelda Drumgo, eu sabia — reagiu Starling sem entusiasmo. Brigham assentiu.

— Ela abriu uma fábrica de ice ao lado do mercado de peixe Feliciana, perto do rio. Nosso informante disse que hoje ela está preparando um lote de cristais. E ela tem reservas para Grande Caimã esta noite. Não podemos esperar.

A meta-anfetamina cristalizada, chamada de “ice” nas ruas, produz um efeito rápido e forte, e é criminosamente viciante.

— A droga é negócio do DEA, mas nós precisamos pegar Evelda sob a acusação de transporte interestadual de armas. O mandado especifica duas submetralhadoras Beretta e algumas MAC 10, e ela sabe onde estão algumas outras. Quero que se concentre em Evelda, Starling. Você já lidou com ela antes. Esses rapazes vão lhe dar cobertura.

— Nós pegamos o serviço fácil — observou o policial Bolton com certa satisfação.

— Acho melhor você contar a eles sobre Evelda, Starling — disse Brigham. Starling esperou enquanto o furgão sacolejava sobre uns trilhos ferroviários.

— Evelda vai lutar contra vocês. Ela não gosta disso... ela já trabalhou como modelo... mas vai lutar contra vocês. Ela é viúva de Dijon Drumgo. Eu a prendi duas vezes sob acusação de formação de quadrilha, na primeira com Dijon.

“Na última vez Evelda tinha uma nove milímetros na bolsa, com três pen­tes, e uma faca de mola no sutiã. Não sei o que ela vai estar usando agora.

“Na segunda prisão pedi educadamente que se entregasse, e ela obedeceu. Depois, na cadeia municipal, ela matou uma presa chamada Marsha Valentine com um estoque feito de colher. De modo que não dá para saber... o rosto dela é difícil de decifrar. O júri considerou legítima defesa.

“Ela venceu o primeiro processo por formação de quadrilha e conseguiu se livrar do segundo. Algumas acusações de porte de arma foram abandona­das porque ela estava com filhos pequenos e o marido tinha acabado de ser morto no restaurante drive-in da Pleasant Avenue, talvez pelos Spliffs.

“Vou pedir a ela que se entregue. Espero que se entregue. Vamos fazer um show para ela. Mas escutem: se tivermos de dominar Evelda Drumgo, vou querer ajuda de verdade. Não se preocupem em vigiar minhas costas, quero que peguem pesado com ela. Cavalheiros, não creio que vocês vão assistir a uma luta na lama entre mim e Evelda.”

Houve um tempo em que Starling seria condescendente com aqueles ho­mens. Agora eles não gostavam do que estava dizendo, e ela já tinha visto coisas demais para se preocupar.

— Através de Dijon, Evelda Drumgo é ligada aos Trey-Eight Crips — disse Brigham. — Ela tem segurança da Crip, pelo que diz o nosso informan­te, e os Crips estão fazendo distribuição na costa. É uma garantia contra os Spliffs, principalmente. Não sei o que os Crips farão quando nos virem. Quan­do podem, eles não atravessam o caminho do FBI.

— Vocês devem saber — acrescentou Starling —, Evelda é HIV positiva. Dijon passou-lhe o vírus numa seringa. Ela descobriu enquanto estava presa e pirou. Naquele dia matou Marsha Valentine e lutou contra os guardas na cadeia. Se ela não estiver armada e quiser entrar na luta, vocês podem esperar ser atacados com qualquer líquido que ela tenha para jogar. Vai cuspir e morder, vai mijar e defecar em vocês se tentarem segurá-la, de modo que luvas e máscaras são fundamentais. Se a puserem numa radiopatrulha, quando encostarem a mão na cabeça dela, to­mem cuidado com alguma agulha no cabelo, e prendam os pés dela.

Os rostos de Burke e Hare estavam ficando compridos. O policial Bolton parecia infeliz. Ele apontou com a papada para a arma principal usada por Starling, um velho Colt 45, modelo do governo, com uma tira de fita adesiva no cabo, presa num coldre especial atrás do quadril direito.

— Você anda por aí com esse negócio engatilhado o tempo inteiro?

— Engatilhado e travado, cada minuto do meu dia — respondeu Starling.

— É perigoso — disse Bolton.

— Entre na mira e eu explico. Brigham interrompeu.

— Bolton, fui treinador de Starling quando ela foi campeã de pistola de combate durante três anos seguidos. Não se preocupe com a arma. Do que foi que aqueles caras da equipe de resgate de reféns, os Velcro Cowboys, a chama­ram quando você acabou com eles, Starling? Annie Oakley?

— Oakley Venenosa — disse ela e olhou pela janela.

Starling sentia-se invadida e solitária naquele furgão de vigilância feden­do a bode e cheio de homens. Chaps, Brut, alfazema, suor e couro. Sentia um pouco de medo, com o gosto de uma moeda sob a língua. Imagem mental: seu pai, que cheirava a tabaco e sabão forte, descascando uma laranja com o canivete, a ponta da lâmina quebrada, dividindo a laranja com ela na cozinha. As luzes traseiras da caminhonete de seu pai desaparecendo quando ele saiu na patrulha noturna que o matou. As roupas dele no armário. Sua camisa de dançar quadri­lha. Umas coisas bonitas no armário dela, que ela jamais usaria agora. Tristes roupas de festa em cabides, como brinquedos no sótão.

— Mais uns dez minutos — gritou o motorista. Brigham olhou pelo pára-brisa e verificou o relógio.

— Eis o plano. — Ele tinha um diagrama grosseiro desenhado às pressas com pincel atômico e uma planta borrada que lhe fora entregue pelo Registro de Imóveis. — O prédio do mercado de peixes fica numa fileira de lojas e armazéns ao longo do rio. A Parcel Street termina na Riverside Avenue, numa praça pequena diante do mercado de peixes. Vejam, o prédio do mercado de peixes dá fundos para a água. Há um cais que segue por toda a extensão dos fundos do prédio, aqui. Ao lado do mercado de peixes, no térreo, fica o labo­ratório de Evelda. A entrada é aqui pela frente, ao lado do toldo do mercado de peixes. Evelda terá pessoas vigiando, a uma distância de pelo menos três quarteirões, enquanto ela estiver preparando a droga. Eles já terão passado a informação a tempo de ela se livrar do material. De modo que... uma equipe de incursão do DEA, que vem no terceiro furgão, estará chegando ao cais num barco de pesca às quinze horas em ponto. Nós podemos chegar mais perto do que todo mundo neste furgão, vamos estar na porta da rua alguns minutos antes da batida. Se Evelda sair pela frente, nós a pegamos. Se ficar dentro, entramos pela porta da rua logo depois de eles atacarem pelo outro lado. O segundo furgão é o nosso apoio, com sete homens. Eles chegarão às quinze horas, a não ser que os chamemos primeiro.

— Como vamos passar pela porta? — perguntou Starling. Foi Burke quem falou:

— Se o negócio parecer calmo, arrombamos. Se ouvirmos tiros de revól­ver ou metralhadora, é “Avon chama”. — Burke deu um tapinha em sua es­pingarda.

Starling já vira isso ser feito antes — “Avon chama” é uma espingarda Magnum de três polegadas, carregada com chumbo fino para explodir a fe­chadura sem ferir as pessoas dentro.

— Os filhos de Evelda? Onde eles estão? — perguntou Starling.

— Nosso informante viu quando ela os deixou numa creche — disse Brigham. — Nosso informante sabe da situação da família, tipo... ele é bas­tante íntimo, tão íntimo quanto possível com sexo seguro.

O rádio de Brigham estalou em seu fone de ouvido e ele examinou a parte do céu que dava para ver pela janela traseira.

— Talvez ele só esteja cuidando do trânsito — disse no microfone preso ao pescoço. Em seguida, chamou o motorista. — A equipe dois viu um heli­cóptero de jornalismo há um minuto. Você viu alguma coisa?

— Não.

— É melhor que ele esteja cuidando do tráfego. Vamos nos preparar. Sessenta quilos de gelo seco não bastam para manter cinco seres humanos refrescados dentro de um furgão de metal num dia quente, especialmente se eles estão vestindo coletes à prova de bala. Quando Bolton levantou os bra­ços, demonstrou que um borrifo de Canoe não é o mesmo que um banho de chuveiro.

Clarice Starling havia costurado ombreiras por dentro da camisa do uni­forme para aliviar o peso do colete de kevlar, que ela esperava fosse à prova de bala. O colete tinha o peso adicional de uma placa de cerâmica nas costas e uma na frente.

Experiências trágicas haviam ensinado o valor da placa nas costas. Con­duzir uma batida com uma equipe que você não conhece, formada por pesso­as com vários níveis de treinamento, é um empreendimento perigoso. O fogo dos seus companheiros pode despedaçar sua coluna quando você entra na frente de um grupo novato e apavorado.

A três quilômetros do rio o terceiro furgão parou para deixar a equipe de incursão do DEA junto ao barco de pesca, e o furgão de apoio diminuiu a velo­cidade, mantendo uma distância discreta atrás do veículo branco e disfarçado.

A aparência do bairro ia piorando. Um terço das construções tinha portas e janelas com tábuas pregadas, e havia carros incendiados sobre caixotes junto ao meio-fio. Rapazes encostavam-se nas esquinas diante de bares e pequenos mercados. Crianças brincavam ao redor de colchões pegando fogo na calçada.

Se havia segurança de Evelda na rua, estava bem disfarçada entre as pesso­as do local. Ao redor das lojas de bebida e nos estacionamentos das mercea­rias, homens conversavam dentro de carros.

Um Impala conversível com amortecedores especiais, ocupado por qua­tro afro-americanos, entrou no tráfego e seguiu atrás do furgão. Os ocupantes faziam as rodas dianteiras do veículo saltarem acima do pavimento, mostran­do-se para as garotas pelas quais passavam, e o barulho do som do carro fazia zumbir a lataria do furgão.

Olhando pelo vidro unidirecional da janela de trás, Starling podia ver que os rapazes no conversível não eram ameaça — um bonde dos Crips é quase sempre um sedã poderoso, grande, ou um furgão, suficientemente velho para se fundir à vizinhança, com as janelas de trás indo até a parte de baixo. Leva uma equipe de três, algumas vezes quatro homens. Um time de basquete num Buick pode parecer sinistro se você não mantiver a mente na linha.

Enquanto esperavam que o sinal abrisse, Brigham tirou a cobertura do visor do periscópio e deu um tapa no joelho de Bolton.

— Olhe e veja se há alguma celebridade local na calçada — disse ele.

A lente objetiva do periscópio escondia-se num ventilador de teto. Só dava para ver dos lados.

Bolton fez um giro completo e parou, esfregando os olhos.

— Esse negócio sacode muito com o motor ligado. Brigham comunicou-se pelo rádio com a equipe do barco.

— Quatrocentos metros rio abaixo, e se aproximando — repetiu ele para sua equipe no furgão.

O furgão encontrou um sinal vermelho um quarteirão depois, na Parcel Street, e ficou na frente do mercado pelo que pareceu um longo tempo. O motorista se virou como se estivesse olhando o espelho da direita e falou pelo canto da boca com Brigham.

— Parece que não há muita gente comprando peixe. Lá vamos nós.

O sinal abriu às 2: 57 da tarde, exatamente três minutos antes da hora H. O velho furgão disfarçado parou diante do mercado de peixes Feliciana, num bom lugar junto ao meio-fio.

Na parte de trás, o grupo ouviu o barulho da catraca quando o motorista puxou o freio de mão.

Brigham cedeu o periscópio a Starling.

— Dê uma olhada.

Starling girou o periscópio pela frente do prédio. Mesas e balcões de peixe no gelo brilhavam debaixo de um toldo de lona sobre a calçada. Os vermelhos dos pesqueiros da Carolina estavam arrumados artisticamente em cardumes sobre o gelo picado, caranguejos mexiam as pernas em caixotes abertos, e lagostas subiam umas sobre as outras num tanque. O peixeiro esperto havia borrifado água sobre os olhos dos peixes maiores, para mantê-los brilhantes até a chegada da horda de donas de casa caribenhas que vinham farejar e espiar.

A luz do sol fazia um arco-íris nos respingos de água da mesa de limpar peixes do lado de fora, onde um homem de aparência latina, com antebraços enormes, cortava um tubarão azul com golpes graciosos de sua faca encurvada e lavava o peixe enorme com uma mangueira potente. A água sangrenta cor­ria pela sarjeta e Starling podia ouvi-la passando sob o furgão.

Starling observou enquanto o motorista falava com o peixeiro, fazia uma pergunta. O peixeiro olhou para o relógio, deu de ombros, apontou para uma lanchonete. O motorista ficou olhando o mercado durante um minuto, acen­deu um cigarro e saiu na direção do café.

Uma caixa de som no mercado tocava La Macarena, suficientemente alto para que Starling ouvisse com clareza no furgão; nunca mais na vida ela su­portaria aquela música.

A porta que interessava ficava à direita, uma porta dupla de metal, engastada também em metal e com um degrau de concreto.

Starling estava para largar o periscópio quando a porta se abriu. Um ho­mem branco e grande saiu, vestido com camisa havaiana e sandálias. Trazia uma sacola atravessada no peito. A outra mão estava atrás da sacola. Um ne­gro magro saiu atrás dele carregando uma capa de chuva.

— Atenção — disse Starling.

Atrás dos dois homens, com seu longo pescoço de Nefertiti e o rosto bo­nito visível acima dos ombros deles, saiu Evelda Drumgo.

— Evelda está saindo atrás de dois sujeitos, parece que os dois estão armados — disse Starling, que não conseguiu se afastar do periscópio suficientemente rá­pido para impedir que Brigham esbarrasse nela. Starling colocou o capacete.

Brigham estava falando no rádio:

— Força Um para todas as unidades. Hora de agir. Hora de agir. Ela está saindo por este lado, nós estamos indo.

— Vamos derrubá-los com o máximo de silêncio possível — disse Brigham. Em seguida destravou o revólver. — O barco vai chegar em trinta segundos, vamos lá.

Starling a primeira a saltar, as tranças de Evelda voando quando girou a cabeça na direção dela. Starling consciente dos homens ao seu lado, armas apontadas, gritando:

— Para o chão, para o chão!

Evelda se adiantando no meio dos dois homens.

Evelda estava carregando um bebê num suporte pendurado ao pescoço.

— Esperem, esperem, não quero encrenca — disse ela aos homens que estavam ao seu lado. — Esperem, esperem. — Ela se adiantou, postura régia, estendendo o bebê na frente do corpo ao máximo que o suporte permitia, com a manta pendurada por cima.

Dê-lhe um lugar aonde ir. Starling colocou a arma no coldre pelo tato, estendeu os braços, mãos abertas.

— Evelda! Desista. Venha para cá.

Atrás de Starling, o rugido de um grande motor V-8 e o guincho de pneus. Ela não podia girar. Que seja o pessoal de apoio. Evelda ignorando-a, andando na direção de Brigham, a manta do bebê flutuou enquanto a MAC 10 dispa­rava por trás, e Brigham caiu, o visor do capacete cheio de sangue.

O homem branco e grande largou a sacola. Burke viu a metralhadora dele e disparou um sopro de pó de chumbo inofensivo do cartucho Avon que estava em sua espingarda. Em seguida engatilhou de novo, mas não a tempo. O grandalhão disparou uma rajada, cortando-o na altura da viri­lha, abaixo do colete, girando na direção de Starling enquanto ela sacava e disparava duas vezes no meio de sua camisa havaiana antes que ele pu­desse atirar.

Tiros atrás de Starling. O negro magro deixou cair a capa de chuva de cima de sua arma e voltou para o prédio, enquanto um golpe parecendo um punho nas costas impulsionava Starling para a frente, arrancando-lhe o fôle­go. Ela girou e viu a nave de guerra dos Crips na rua, um sedã Cadillac, jane­las abertas, dois atiradores montados em estilo cheyenne nas janelas do outro lado, disparando por cima do veículo, e um terceiro no banco de trás. Fogo e fumaça saindo de três canos, balas atravessando o ar ao redor. Starling mergu­lhou entre dois carros estacionados, viu Burke sacudindo-se na rua. Brigham estava imóvel, uma poça esparramando-se de seu capacete. Hare e Bolton dis­paravam por entre veículos em algum lugar no outro lado da rua, onde vidro de carro virava pó batendo no chão e um pneu explodiu quando o fogo automático do Cadillac os obrigou a se abaixar. Com um dos pés na sarjeta cheia d’água, Starling esticou a cabeça para olhar.

Dois atiradores sentados nas janelas disparando por cima do teto do car­ro, o motorista atirando com uma pistola na mão livre. Um quarto homem no banco de trás tinha aberto a porta e estava puxando Evelda com o bebê. Ela carregava a sacola. Estavam disparando contra Bolton e Hare do outro lado da rua. Saiu fumaça dos pneus traseiros do Cadillac e o carro começou a se afastar. Starling se levantou, girando junto com o veículo, e atirou na têm­pora do motorista. Disparou duas vezes contra o atirador que se sentava na janela da frente e ele caiu de costas. Soltou o pente da 45 e colocou outro antes que o vazio batesse no chão, sem afastar os olhos do veículo.

O Cadillac foi raspando uma fileira de carros do outro lado da rua e pa­rou com um guincho ao lado deles.

Agora Starling caminhava na direção do Cadillac. Ainda havia um atira­dor sentado na janela de trás, os olhos arregalados e as mãos empurrando o teto do carro, o peito comprimido entre o Cadillac e um veículo estacionado. Sua arma escorregou do teto. Mãos vazias apareceram na janela traseira mais próxima. Um homem com um lenço azul na cabeça saiu com as mãos para o alto e correu. Starling ignorou-o.

Tiros da direita e o que corria caiu para a frente, de cara, e tentou se arrastar para debaixo de um carro. Lâminas de helicóptero estrondeando acima dela.

Alguém gritando no mercado de peixe:

— Fiquem abaixados, fiquem abaixados.

Pessoas debaixo dos balcões e água na mesa de limpar peixes, abandona­da, jorrando para o alto.

Starling avançando para o Cadillac. Movimento na parte de trás do carro. Movimento no Cadillac. O carro balançando, o bebê gritando lá dentro. Ti­ros de metralhadora e a janela de trás despedaçou-se e caiu para dentro.

Starling estendeu a mão e gritou sem se virar.

— PAREM. Cessar fogo. Vigiem a porta. Atrás de mim. Vigiem a porta da peixaria.

“Evelda. — Movimento na parte de trás do carro. O bebê gritando lá den­tro. — Evelda, ponha as mãos pela janela.

Agora Evelda Drumgo estava saindo. O bebê gritava. La Macarena marte­lava nos alto-falantes do mercado de peixe. Evelda estava fora do carro e caminhava na direção de Starling, a bela cabeça abaixada, os braços envolvendo o bebê.

Burke retorcia-se no chão entre eles. Tremores menores, agora que ele san­grara quase completamente. La Macarena estremecia junto com Burke. Al­guém chegou até ele arrastando-se e, deitado ao lado, pressionou o ferimento.

Starling estava com a arma apontada para o chão, na frente de Evelda.

— Evelda, mostre as mãos, ande, por favor, mostre as mãos.

Um volume na manta. Evelda, com suas tranças e olhos escuros de egíp­cia, levantou a cabeça e olhou para Starling.

— Ora, é você, Starling.

— Evelda, não faça isso. Pense no bebê.

— Vamos trocar líquidos corporais, sua puta.

A manta flutuou, golpeada pelo ar. Starling deu um tiro que atravessou o lábio superior de Evelda Drumgo, e a parte de trás de sua cabeça explodiu para fora.

Por algum motivo, Starling estava sentando-se no chão, com uma ponta­da terrível na lateral da cabeça, sem fôlego. Evelda também se sentava no chão, desmoronada sobre as próprias pernas, o sangue jorrando da boca e sobre o menino, cujos gritos soavam abafados junto ao corpo dela. Starling arrastou-se até lá e tentou abrir as fivelas escorregadias do suporte do bebê. Em segui­da, tirou a faca de mola do sutiã de Evelda, abriu-a sem olhar e cortou as cor­reias. O bebê estava escorregadio e vermelho, difícil de segurar.

Starling pegou-o e ergueu os olhos, angustiada. Podia ver a água jorrando no ar no mercado de peixe, e correu até lá carregando a criança ensangüenta­da. Jogou para longe as facas e as entranhas de peixe e colocou a criança na tábua de cortar e apontou para ela o jato forte da mangueira, aquela criança morena deitada sobre uma tábua de corte, branca, em meio às facas e às entra­nhas de peixe e com a cabeça de tubarão ao lado, sendo lavada de sangue HIV positivo, com o sangue de Starling caindo sobre ela, sendo lavado junto com o sangue de Evelda numa torrente única tão salgada quanto o mar.

Água voando, um arco-íris que zombava da Promessa de Deus em meio às gotículas, bandeira brilhante sobre a obra de seu martelo cego. Starling não podia ver qualquer buraco naquele menino. Nos alto-falantes, La Macarena martelando, uma luz estroboscópica aparecendo intermitente até que Hare afastou o fotógrafo para longe.


 

Um beco sem saída num bairro de classe trabalhadora em Arlington, Virgínia, pouco depois da meia-noite. O ar se move inquieto diante de uma frente fria. No cheiro de terra molhada e folhas, um grilo toca uma canção. Fica quieto quando uma vibração forte o alcança, o estrondo abafado de um Mustang 5. 0 com esca­pamentos de aço entrando no beco, seguido por um carro da polícia federal. Os dois carros param na entrada de veículos de um belo dúplex. O Mustang estreme­ce um pouco em ponto morto. Quando o motor silencia, o grilo espera um mo­mento e retoma sua canção, a ultima antes da geada, a última de sua vida.

Um oficial de justiça federal, uniformizado, sai do banco do motorista do Mustang. Ele contorna o carro e abre a porta do passageiro para Clarice Starling. Ela sai. Uma faixa de cabeça segura um curativo acima de seu ouvido. Iodo vermelho-alaranjado mancha seu pescoço acima do jaleco verde de hospital, que ela usa em vez de uma camisa.

Ela carrega seus objetos pessoais numa bolsa plástica com zíper — umas balas de hortelã e chaves, sua identificação como agente especial do FBI, um carregador contendo cinco pentes de munição, um pequeno frasco de gás Mace. Além da bolsa ela carrega um cinto e um coldre vazio.

O oficial entrega-lhe as chaves do carro.

— Obrigada, Bobby.

— Quer que eu e Pharon fiquemos um pouco com você? Ou prefere que eu chame Sandra? Ela está me esperando. Posso trazê-la daqui a pouco, se precisar de companhia...

— Não, vou entrar agora. Daqui a pouco Ardelia chega em casa. Obri­gada, Bobby.

O oficial entra no veículo onde seu parceiro está esperando, e quando vê Starling segura dentro de casa, o carro federal parte.

A lavanderia da casa de Starling está quente e cheira a amaciante de rou­pas. As mangueiras da máquina de lavar e da secadora são presas com braça­deiras de plástico normalmente usadas como algemas. Starling coloca seus objetos pessoais em cima da máquina de lavar. As chaves do carro fazem um barulho alto na tampa de metal. Ela tira um monte de roupa da máquina de lavar e enfia na secadora. Tira as calças do uniforme e joga na lavadora jun­to com o jaleco verde do hospital, o sutiã manchado de sangue, e liga a má­quina. Está usando meias, calcinha e um 38 especial com percursor blinda­do num coldre de tornozelo. Há hematomas lívidos nas suas costas, nas costelas, e uma abrasão no cotovelo. O olho e a bochecha do lado direito estão inchados.

A máquina de lavar está esquentando e começa a chacoalhar. Starling en­rola-se numa grande toalha de praia e vai arrastando os pés até a sala de estar. Volta com cinco centímetros de Jack Daniels num copo. Senta-se no tapete de borracha diante da máquina de lavar e se encosta nela, no escuro, enquan­to a máquina quente chacoalha e borbulha. Fica ali no chão, com o rosto vi­rado para cima, e solta alguns soluços secos antes que as lágrimas cheguem. Lágrimas escaldantes na bochecha, descendo pelo rosto.

O namorado de Ardelia Mapp trouxe-a para casa mais ou menos à meia-noite e quinze, depois de um longo passeio vindo de Cape May, e ela se des­pediu dele na porta. Mapp estava no seu banheiro quando ouviu a água cor­rendo, o barulho nos canos à medida que a máquina de lavar avançava em seu ciclo.

Foi até a parte de trás da casa e acendeu as luzes da cozinha que dividia com Starling. Dava para ver dentro da lavanderia. Dava para ver Starling sen­tada no chão, com a bandagem na cabeça.

— Starling! Ah, menina. — Ajoelhando-se rapidamente ao lado dela. — O que foi?

— Levei um tiro na orelha, Ardelia. Eles deram um jeito, no Hospital Water Reed. Não acenda a luz, certo?

— Certo. Vou preparar alguma coisa para você. Eu não ouvi... nós está­vamos escutando uma fita no carro... conte.

— John está morto, Ardelia.

— Não o Johnny Brigham! — Tanto Mapp quanto Starling tinham tido paixonites por Brigham quando ele era instrutor de tiro na Academia do FBI. Elas haviam tentado ler a tatuagem dele através da manga da camisa.

Starling confirmou com a cabeça e enxugou os olhos com as costas da mão, como uma criança.

— Evelda Drumgo e uns Crips. Evelda atirou nele. Pegaram Burke tam­bém, Marquez Burke, do BATE Nós fomos todos juntos. Evelda foi informa­da antes e o pessoal da TV chegou lá na mesma hora em que nós. Eu peguei Evelda. Ela não quis se entregar, Ardelia. Não quis se entregar e estava segu­rando um bebê. Nós atiramos uma na outra. Ela está morta.

Mapp jamais tinha visto Starling chorar antes.

— Ardelia, hoje eu matei cinco pessoas.

Mapp sentou-se no chão ao lado de Starling e passou o braço ao redor dela. Juntas encostaram-se na máquina de lavar que continuava funcionando.

— E o bebê de Evelda?

— Lavei o sangue dele, não tinha nenhum ferimento na pele, que eu pudesse ver. O hospital disse que fisicamente ele está bem. Vão entregá-lo à mãe de Evelda dentro de alguns dias. Sabe qual foi a última coisa que Evelda me disse, Ardelia? Ela disse: “Vamos trocar líquidos corporais, sua puta.”

— Deixe eu preparar alguma coisa para você.

— O quê? — perguntou Starling.


 

Com o cinza da madrugada chegaram os jornais e os primeiros noticiários de TV Mapp veio com alguns bolinhos quando ouviu Starling andando pela casa, e as duas assistiram juntas.

A CNN e as outras redes de TV haviam comprado o filme da câmera do helicóptero da WFUL-TV. Eram imagens extraordinárias, tomadas diretamen­te de cima.

Starling assistiu uma vez. Tinha de ver que Evelda havia atirado antes. Olhou para Mapp e viu raiva no rosto marrom da outra. Em seguida, Starling correu para vomitar.

— Isso é duro de ver — disse Starling quando voltou, com pernas trê­mulas e pálida.

Como sempre, Mapp foi imediatamente ao ponto.

— A sua pergunta é: como eu me sinto por você ter matado aquela mu­lher afro-americana que estava segurando aquele bebê? Esta é a resposta: ela atirou primeiro. Quero que você fique viva. Mas Starling, pense em quem está fazendo esta política insana aqui. Que tipo de imbecil colocou você e Evelda Drumgo juntas naquele lugar lamentável para vocês resolverem juntas o pro­blema das drogas usando umas porcarias de armas? O que há de inteligente nisso? Espero que você pense se quer continuar sendo marionete deles. — Mapp serviu um pouco de chá como pontuação. — Quer que eu fique com você? Eu tiro um dia de folga.


— Obrigada. Não precisa fazer isso. Telefone para mim.

O National Tattler, principal beneficiário da expansão dos tablóides es­candalosos nos anos 90, publicou uma edição extra que foi extraordinária até mesmo para os padrões dele. Alguém jogou-o contra a casa no meio da ma­nhã. Starling encontrou-o quando foi investigar a origem do barulho. Estava esperando o pior, e recebeu:

“ANJO DA MORTE: CLARICE STARLING, A MÁQUINA DE MATAR DO FBI”, gritava a manchete do National Tattler em letras Railroad Gothic, corpo 72. As três fotos da primeira página eram: Clarice Starling uniformizada disparando uma pistola calibre 45 numa competição, Evelda Drumgo curvada sobre seu bebê na rua, a cabeça inclinada como de uma Madona de Cimabue, com o cérebro explodido, e Starling de novo, colocando um bebê nu e marrom sobre uma tábua de cortar branca, no meio de facas, entranhas de peixe e a cabeça de um tubarão.

A legenda no meio das fotos dizia: “A agente especial do FBI Clarice Starling, que matou o assassino serial Jame Gumb, acrescenta pelo menos cinco marcas em sua arma. Uma mãe com um bebê no colo e dois policiais estão entre os mortos depois de uma batida atabalhoada contra um antro de drogas.”

A matéria principal cobria as carreiras de Evelda e Dijon Drumgo como traficantes, e o surgimento da gangue Crip na paisagem despedaçada pela guerra em Washington, D. C. Havia uma breve menção ao serviço militar do falecido policial John Brigham, e suas condecorações foram citadas.

Starling mereceu toda uma coluna lateral, debaixo de uma foto ingê­nua em que ela aparecia num restaurante, usando vestido decotado, o ros­to alegre.

Clarice Starling, agente especial do FBI, teve seus quinze minutos de fama quando matou a tiros o assassino serial Jame Gumb, o “Búfalo Bill”, no porão da casa dele, há sete anos. Agora ela pode enfrentar acusações interdepartamentais e um processo civil pela morte, na quinta-feira, de uma mãe de Washington acusada de fabricar anfetaminas ilegais. (Ver matéria principal na página 1)

“Este pode ser o fim da carreira dela”, disse uma fonte do Bureau de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo, agência co-irmã do FBI. “Não sabemos todos os deta­lhes de como isso aconteceu, mas John Brigham deveria estar vivo. Esta é a últi­ma coisa que o FBI precisa depois de Ruby Ridge”, disse a fonte, que não quis ser identificada.

A carreira pitoresca de Clarice Starling começou pouco depois de ela entrar para a Academia do FBI. Formada com honras em psicologia e criminologia pela Universidade da Virgínia, foi designada para entrevistar o louco assassino Dr. Hannibal Lecter, apelidado por este jornal de “Hannibal, o Canibal”, e com ele obteve informações importantes na busca de Jame Gumb e no resgate de sua re­fém, Catherine Martin, filha da ex-senadora pelo Tennessee.

A agente Starling foi campeã de tiros com pistola de combate durante três anos, antes de se retirar das competições. Ironicamente, o policial Brigham, que morreu ao lado dela, foi instrutor de armas de fogo em Quantico enquanto Starling estudou lá, e foi seu treinador nas competições.

Como disse um porta-voz do FBI, a agente Starling será retirada dos serviços de campo, sob licença remunerada, durante a investigação interna por parte do FBI. No final desta semana deve acontecer uma audiência no Departamento de Responsabilidade Profissional, a temível inquisição do FBI.

Parentes da falecida Evelda Drumgo disseram que abrirão um processo civil por perdas e danos contra o governo dos Estados Unidos, e contra Starling pessoal­mente. O filho de Drumgo, de três meses, visto nos braços da mãe nas imagens dramáticas do tiroteio, não se feriu.

O advogado Telford Higgins, que defendeu a família Drumgo em vários pro­cessos criminais, alegou que a arma da agente especial Starling uma pistola Colt 45 semi-automática e modificada, não era aprovada para o uso no trabalho po­licial na cidade de Washington. “É um instrumento mortal e perigoso, inadequa­do para o uso no trabalho policial”, disse Higgins. “Seu simples uso constitui um risco imprudente contra a vida humana”, observou o advogado.

O Tattler tinha comprado o número de telefone de Clarice Starling com um dos informantes dela e ficou ligando ininterruptamente até ela tirar o aparelho do gancho e ser obrigada a usar seu celular do FBI para falar com o escritório.

A dor na orelha e no lado inchado do rosto não era muito forte desde que ela não tocasse no curativo. Pelo menos não latejava. Dois comprimi­dos de Tylenol ajudavam. Ela não precisou do Percocet que o médico tinha prescrito. Cochilou encostada na cabeceira, o Washington Post caindo do lençol para o chão, com resíduo de pólvora nas mãos, lágrimas secas rígidas nas bochechas.


 

Você se apaixona pelo Bureau, mas o Bureau não se apaixona por você.

— DITADO DO SERVIÇO DE APOIO AO DESLIGAMENTO DO FBI

 

A academia de ginástica do FBI, no edifício J. Edgar Hoover, estava quase vazia de manhã cedo. Dois homens de meia-idade corriam devagar na pista interna. O barulho de um aparelho de musculação num canto mais distante e os gritos e impactos de um jogo de squash ecoavam no salão.

As vozes dos dois corredores não se projetavam muito. Jack Crawford corria com o diretor Tunberry, do FBI, a pedido deste. Tinham passado dos três quilômetros e estavam começando a bufar.

— Blaylock, da ATF, teve de ir às pressas para Waco. O negócio não vai acontecer agora, mas ele está acabado e sabe disso — falou o diretor. — Ele poderia muito bem notificar ao reverendo Moon a liberação do imóvel. — O fato de o Bureau de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo alugar um espaço em Washington com o reverendo Sun Myung Moon é fonte de diversão para o FBI. — E Farriday foi para Ruby Ridge.

— Não consigo entender isso — disse Crawford. Ele tinha servido em Nova York com Farriday nos anos 70, quando a Máfia fazia piquetes diante do escritório de campo do FBI na Terceira Avenida com a 69. — Farriday é um bom homem. Não foi ele quem determinou as regras de engajamento.

— Foi o que eu disse a ele ontem de manhã.

— Ele vai sair sem fazer alarde? — perguntou Crawford.

— Digamos apenas que ele vai manter seus benefícios. É uma época pe­rigosa, Jack.

Os dois homens estavam correndo com a cabeça inclinada para trás. O ritmo acelerou um pouquinho. Com o canto do olho, Crawford viu o diretor avaliando sua condição física.

— Você tem quantos anos, Jack? Cinqüenta e seis?

— É.

— Mais um ano para a aposentadoria obrigatória. Um monte de caras saem aos quarenta e oito, cinqüenta, enquanto ainda podem arranjar empre­go. Você nunca quis isso. Quis se manter ocupado depois da morte de Bella.

Quando Crawford não respondeu durante meia volta, o diretor viu que tinha falado o que não devia.

— Não quero ser superficial com relação a isso, Jack. Doreen estava di­zendo um dia desses: quanto...

— Ainda há algumas coisas para serem feitas em Quantico. Queremos melhorar o PACV na Internet, para que qualquer policial possa usá-lo, você viu isso no orçamento.

— Algum dia você quis ser diretor, Jack?

— Nunca pensei que esse fosse o meu tipo de serviço.

— Não é, Jack. Você não faz o gênero político. Nunca poderia ter sido diretor. Você nunca poderia ter sido um Eisenhower, Jack, ou um Omar Bradley. — O diretor Tunberry fez um gesto para que Crawford parasse, e os dois ficaram ofegando ao lado da pista. — Mas você poderia ter sido um Patton, Jack. Você é capaz de guiá-los através do inferno e ao mesmo tempo fazer com que o amem. É um dom que eu não tenho. Preciso forçá-los. — Tunberry olhou rapidamente ao redor, pegou sua toalha num banco e colo­cou-a sobre os ombros como a vestimenta de um juiz. Seus olhos estavam brilhantes.

Algumas pessoas precisam entrar em contato com a própria raiva para ser fortes, refletiu Crawford enquanto observava os movimentos labiais de Tunberry.

— Na questão da falecida Sra. Drumgo com sua MAC 10 e seu laborató­rio de anfetamina, morta enquanto segurava o bebê: a fiscalização judiciária quer um bode expiatório. Carne fresca, balindo. E a mídia também. O DEA precisa jogar alguma carne para eles. O BATF precisa jogar alguma carne para eles. E nós também precisamos. Mas no nosso caso eles podem se satisfazer com carne de segunda. Krendler acha que podemos entregar Clarice Starling e eles vão nos deixar em paz. Eu concordo. O BATF e o DEA assumem a culpa por planejar a batida. Starling puxou o gatilho.

— Contra uma assassina de policial que atirou primeiro contra ela.

— São as imagens, Jack. Você não entende, não é? O público não viu Evelda Drumgo atirar em John Brigham. Não viu Evelda atirar primeiro con­tra Starling. Você não vê se não souber para o que está olhando. Duzentos milhões de pessoas, um décimo das quais votam, viram Evelda Drumgo sen­tada na rua, numa postura protetora sobre o bebê, com o cérebro explodido. Não diga, Jack; eu sei que durante um tempo você pensou que Starling seria sua protegida. Mas ela tem a língua afiada, e começou errado com algumas pessoas...

— Krendler é um escroto.

— Escute o que estou dizendo e não diga nada até eu terminar. De qual­quer modo a carreira de Starling estava acabando. Ela receberá uma dispensa administrativa sem prejuízo, a papelada não parecerá pior do que se fosse por tempo de serviço. Ela conseguirá arranjar um emprego. Jack, você fez uma coisa fantástica no FBI, a Divisão de Ciência do Comportamento. Um monte de gente acha que se tivesse posto seus interesses um pouquinho na frente, seria muito mais do que chefe de seção, que você merece muito mais. Serei o primeiro a dizer isso. Jack, você vai se aposentar como subdiretor. Eu lhe ga­ranto.

— Quer dizer, se eu ficar de fora disso?

— No curso normal dos acontecimentos, Jack. Com paz em todo o rei­no, é isto que acontecerá. Jack, olhe para mim.

— Sim, diretor Tunberry.

— Não estou pedindo, estou dando uma ordem direta. Fique fora disso. Não desperdice tudo, Jack. Algumas vezes você só precisa virar o rosto. Eu já fiz isso. Escute, sei que é difícil, acredite que sei como você se sente.

— Como me sinto? Eu sinto que preciso de um banho de chuveiro.

 

Starling era uma dona de casa eficiente, mas não meticulosa. O seu lado do dúplex era limpo e ela conseguia encontrar tudo, mas as coisas tendiam a se empilhar — roupa lavada e não separada, mais revistas do que lugares para colocá-las. Era uma magnífica passadora de roupas de última hora, e não pre­cisava se embonecar, de modo que dava para o gasto.

Quando queria ordem, atravessava a cozinha compartilhada para o lado do dúplex ocupado por Ardelia Mapp. Se Ardelia estivesse lá, Starling rece­bia o beneficio de seus conselhos, que eram sempre úteis, ainda que algu­mas vezes mais duros de ouvir do que ela desejava. Se Ardelia não estivesse, era implícito que Starling poderia sentar-se na ordem absoluta da moradia de Mapp para pensar, desde que não deixasse coisa alguma. E hoje ela estava ali. Numa daquelas residências que sempre contêm sua ocupante, quer ela esteja lá ou não.

Starling ficou sentada olhando para a apólice de seguro de vida da avó de Mapp, pendurada na parede numa moldura feita à mão, como esteve na casa da fazenda onde a avó tinha trabalhado e no apartamento dos Mapp, num conjunto residencial durante a infância de Ardelia. Sua avó vendia legumes e flores e havia economizado os tostões para pagar os prêmios, e conseguiu pe­gar dinheiro emprestado usando a garantia da apólice para ajudar Ardelia no trecho final de sua passagem pela faculdade. Também havia uma foto da velha minúscula, sem fazer qualquer tentativa de sorrir acima da gola branca e engomada, um conhecimento ancestral brilhando nos olhos negros debaixo da aba do chapéu de palhinha.

Ardelia sentia o seu passado, encontrava força nele todos os dias. Agora Starling procurava a sua, tentava se reestruturar. O Lar Luterano em Bozeman a alimentou e vestiu, e lhe deu um modelo decente de comportamento, mas para aquilo de que precisava agora tinha de consultar seu sangue.

O que você possui quando vem de uma família branca e pobre? E de um lugar onde a Reconstrução só terminou na década de 1950? Se você descende de pessoas citadas nos campi universitários como caipiras ou, com condescen­dência, como proletários ou apalachianos brancos e pobres? Se até mesmo a nobreza insegura do Sul, que não via qualquer dignidade no trabalho físico, refere-se ao seu pessoal como pés-rapados, em que tradição você encontra um exemplo? Dizendo que nós fizemos com que eles se cagassem na primeira batalha em Buli Run? Que o bisavô agiu bem em Vickysburg, que um recanto em Shiloh é para sempre Yazoo City?

Há muita honra e mais senso em ter obtido sucesso com o que restou, fazendo alguma coisa com os míseros dezesseis hectares e uma mula enlameada, mas você precisa ser capaz de ver isso. Ninguém irá lhe dizer.

Starling havia obtido sucesso no treinamento para o FBI porque não ti­nha para onde voltar. Tinha sobrevivido a maior parte da vida em institui­ções, respeitando-as e jogando duro, segundo as regras. Sempre progrediu, conseguiu a bolsa, entrou para a equipe. Seu fracasso em progredir no FBI depois de um início brilhante era uma experiência nova e medonha para ela. Ficava batendo contra o teto de vidro da burocracia como uma abelha numa garrafa.

Teve quatro dias para chorar por John Brigham, morto diante de seus olhos. Há muito tempo, John Brigham tinha lhe pedido uma coisa e ela disse não. E depois ele perguntou se os dois poderiam ser amigos, e falava sério. Ela disse sim, e falou sério.

Teve de aceitar o fato de que havia matado cinco pessoas no mercado de peixes Feliciana. Repetidamente vislumbrava o Crip com o peito esmagado entre os carros, as mãos em garra sobre o topo do veículo enquanto a arma escorregava para longe.

Uma vez, em busca de alívio, foi ao hospital olhar o bebê de Evelda. A mãe de Evelda estava lá, segurando o neto, preparando-se para levá-lo para casa. Reconheceu Starling dos jornais, entregou o bebê para a enfermeira e, antes que Starling percebesse o que ela ia fazer, deu-lhe um tapa com força no rosto, no lado onde havia o curativo.

Starling não devolveu o tapa, mas apertou a velha contra a janela da ala da maternidade segurando seus punhos com força, até que ela parasse de lutar, o rosto distorcido de encontro ao vidro manchado de espuma e cuspe. Sangue escorria pelo pescoço de Starling e a dor a deixava tonta. Costuraram sua ore­lha de novo na Emergência, e ela recusou-se a dar parte contra a mulher. Uma auxiliar da Emergência informou ao Tattler e ganhou trezentos dólares.

Teve de sair mais duas vezes — para fazer os arranjos finais e comparecer ao enterro de John Brigham no Cemitério Nacional de Arlington. Os paren­tes de Brigham eram poucos e distantes, e nos últimos pedidos que tinha dei­xado por escrito, Brigham designou Starling para cuidar dele.

A extensão dos ferimentos no rosto exigiu um caixão fechado, mas ela ti­nha cuidado o melhor possível de sua aparência. Vestiu-lhe seu perfeito uni­forme azul dos fuzileiros, com a estrela de prata e as fitas das outras condeco­rações.

Depois da cerimônia, o oficial-comandante de Brigham mandou para Starling uma caixa contendo as armas pessoais do policial morto, os distinti­vos e alguns itens de sua mesa sempre atulhada, inclusive o passarinho do tempo que bebia num copo.

Em cinco dias Starling enfrentaria uma audiência que poderia arruiná-la. A não ser por uma mensagem de Jack Crawford, seu telefone do trabalho permaneceu mudo, e não existia mais Brigham para conversar.

Ligou para seu advogado na Associação de Agentes do FBI. O conselho dele foi para não usar brincos compridos ou sapatos que mostrassem os dedos dos pés durante a audiência. Todos os dias a televisão e os jornais apresenta­vam a história da morte de Evelda Drumgo, e sacudiam-na como um rato morto.

Ali, na ordem absoluta da casa de Mapp, Starling tentava pensar. O verme que destrói você é a tentação de concordar com seus críticos, de obter a aprovação deles. Um ruído se introduzia.

Starling tentou se lembrar das palavras exatas que tinha dito no furgão camuflado. Teria falado mais do que era necessário? Um ruído se intrometia.

Brigham lhe disse para colocar os outros em dia sobre Evelda. Será que ela exprimiu alguma hostilidade, disse alguma calúnia... Um ruído se intrometia.

Ela voltou a si e percebeu que estava escutando sua campainha na outra porta. Provavelmente um repórter. Também estava esperando uma ultimação judicial. Puxou para o lado a cortina da janela de Mapp e espiou para ver o carteiro voltando ao seu furgão. Abriu a porta da frente de Mapp e chegou perto dele, virando as costas para o carro da imprensa do outro lado da rua, onde havia uma lente teleobjetiva apontando enquanto ela assinava a ficha da carta registrada. O envelope era cor de malva, com trama sedosa no fino papel de linho. Distraída como estava, aquilo fez com que ela se lembrasse de algu­ma coisa. Voltando para dentro, longe do clarão do dia, olhou para o endere­ço. Uma letra elegante.

Acima do zumbido constante de medo na mente de Starling, soou um alerta. Ela sentiu a pele da barriga estremecer como se alguma coisa fria tives­se pingado por dentro da blusa.

Pegou o envelope pelos cantos e levou-o para a cozinha. Da bolsa tirou as luvas brancas de coleta de provas, eternamente presentes. Apertou o envelope contra a superfície dura da mesa da cozinha e tateou-o cuidadosamente. Ape­sar de o papel ser grosso, ela teria detectado o volume de uma bateria de reló­gio pronta para disparar uma folha de C-4. Sabia que deveria levá-lo a um fluoroscópio. Se abrisse, poderia ter encrencas. Encrencas. Certo. Dane-se.

Abriu o envelope com uma faca de cozinha e tirou a folha de papel sedoso. Soube de imediato, antes de olhar a assinatura, quem lhe escrevera.

Cara Clarice,

Venho seguindo com entusiasmo o curso de sua desgraça e de sua vergonha pública. A minha jamais me incomodou, a não ser pela inconveniência de ser encarcerado, mas talvez você careça da perspectiva.

Em nossas discussões na masmorra, ficou evidente para mim que seu pai, o vigilante noturno morto, tem grande importância em seu sistema de valores. Creio que o seu sucesso em pôr fim à carreira de costureiro de Jame Gumb a agradou mais porque você podia imaginar seu pai fazendo aquilo.

Agora você está mal com o FBI. Será que sempre imaginou seu pai à sua fren­te lá? Será que o imaginou como chefe de seção ou — ainda melhor do que Jack Crawford— SUBDIRETOR, assistindo ao seu progresso com orgulho? E agora você o vê envergonhado e esmagado pela sua desgraça? Pelo seu fracasso? O final lamentável e mesquinho de uma carreira promissora? Você se vê fazendo as tarefas domésticas às quais sua mãe foi reduzida, depois de os viciados terem enfiado uma bala no seu PAPAI? Hein? Será que seu fracasso irá se refletir neles? Será que as pessoas acreditarão para sempre, de modo equivocado, que seus pais eram escória branca, morando num trailer, no caminho dos tornados? Diga-me sinceramente, agente especial Starling.

Pense nisso um instante antes de prosseguirmos.

Agora vou mostrar uma qualidade que irá lhe ajudar: você não está cega pe­las lágrimas, tem capacidade de entender.

Eis um exercício que você pode considerar útil. Quero que faça isso fisica­mente comigo:

Tem uma frigideira de ferro preto? Você ê uma garota das montanhas do Sul, não imagino que não tenha. Coloque-a sobre a mesada cozinha. Acenda a luz.

Mapp havia herdado a frigideira de sua avó e costumava usá-la fre­qüentemente. Tinha uma superfície preta e vítrea que nenhum sabão jamais tocara. Starling colocou-a à sua frente, sobre a mesa.

Olhe na frigideira, Clarice. Incline-se sobre ela e olhe para baixo. Se era a frigideira de sua mãe, e pode muito bem ser, deve ter entre as moléculas as vibra­ções de todas as conversas tidas em sua presença. Todas as frases, as pequenas irritações, as revelações mortais, os anúncios cabais de desastre, os grunhidos e a poesia do amor.

Sente-se à mesa, Clarice. Olhe a frigideira. Se ela estiver bem curada, é como um poço preto, não é? É como olhar para um poço. Seu reflexo detalhado não está no fundo, mas paira ali, não é?A luz atrás de você. Ali está você num rosto negro, com uma aura como se seu cabelo estivesse pegando fogo.

Nós somos elaborações de carbono, Clarice. Você, a frigideira e o papai morto e enterrado, tão frio quanto a frigideira. Tudo ainda está lá. Escute. Como eles realmente eram e viviam — seus pais que lutavam tanto. As lembranças concre­tas, e não as imagens que incham seu coração.

Por que o seu pai não era xerife, unha e carne com o pessoal do tribunal? Por que sua mãe precisava limpar motéis para sustentá-la, mesmo tendo fracassado em manter toda a família junta até você crescer?

Qual é a sua lembrança mais nítida da cozinha? Não do hospital, da cozinha.

Minha mãe lavando o sangue do chapéu do meu pai.

Qual é a sua melhor lembrança da cozinha?

Meu pai descascando laranjas com seu canivete velho, de ponta quebrada, e passando os gomos para nós.

O seu pai, Clarice, era um guarda noturno. Sua mãe era uma camareira.

Uma grande carreira na polícia federal era esperança sua ou deles? Até que ponto seu pai se curvaria para se ajustar a uma burocracia rançosa? Quantos sa­cos ele lamberia? Alguma vez você o viu bajular ou puxar saco?

Seus supervisores demonstraram algum valor, Clarice? E quanto aos seus pais, eles demonstraram algum? Nesse caso, os valores são os mesmos?

Olhe para o ferro honesto e me diga. Você fracassou diante de seus familiares mortos? Eles gostariam de que você babasse ovos? Que visão eles tinham da forta­leza? Você pode ser tão forte quanto quiser.

Você é uma guerreira, Clarice. A inimiga está morta, o bebê em segurança. Você é uma guerreira.

Os elementos mais estáveis, Clarice, aparecem no meio da tabela periódica, mais ou menos entre o ferro e a prata.

Entre o ferro e a prata. Acho que isso é adequado para você.

Hannibal Lecter.

P.S. Ainda me deve algumas informações, você sabe. Diga se ainda acorda ouvindo os cordeiros. Qualquer domingo desses, coloque um anúncio na coluna de mensagens pessoais da edição nacional do Times, do International Herald-Tribune e do China Mail. Enderece a A. A. Aaron, de modo que seja o primeiro, e assine Hannah.

Lendo, Starling ouvia as palavras na mesma voz que tinha zombado dela, atravessando-a, sondando sua vida e a iluminando na ala de segurança máxi­ma do asilo de loucos, quando ela teve de trocar com Hannibal Lecter infor­mações de sua vida pelo conhecimento vital que ele tinha a respeito de Búfalo Bill. O som metálico daquela voz raramente utilizada ainda ecoava em seus sonhos.

Havia uma nova teia de aranha no canto do teto da cozinha. Starling fi­cou olhando para lá enquanto seus pensamentos desmoronavam. Feliz e la­mentando, lamentando e feliz. Feliz pela ajuda, feliz por ter visto um modo de se curar. Feliz e lamentando porque o serviço de redirecionamento de cor­respondências do Dr. Lecter em Los Angeles devia estar contratando funcio­nários baratos. Dessa vez eles tinham usado uma máquina de registro postal. Jack Crawford ficaria deliciado com a carta, bem como as autoridades do correio e o laboratório.

 

A câmara onde Mason passa a vida é silenciosa, mas tem sua própria pulsa­ção suave, o sibilar e o suspiro da máquina que lhe dá fôlego. É escura, a não ser pelo brilho do grande aquário, onde uma enguia exótica gira e gira num interminável número oito, com a sombra projetada movendo-se pelo quarto como uma fita.

O cabelo trançado de Mason fica num rolo grosso sobre a concha da máquina de respiração que cobre seu peito em cima da cama elevada. Um equipamento com tubos, como uma flauta de Pã, está suspenso diante dele.

A língua comprida de Mason escorrega para fora entre seus dentes. Ele gira a língua ao redor do último tubo e sopra com a pulsação seguinte do respirador.

Instantaneamente, uma voz responde de um alto-falante na parede.

— Sim, senhor?

— O Tattler.

O T inicial perde-se, mas a voz é profunda e sonora, uma voz de rádio.

— Na página um há...

— Não leia para mim. Ponha no monitor. — O PeoM desapareceram da fala de Mason.

A tela grande de um monitor elevado estala. Seu brilho azul-esverdeado fica cor-de-rosa quando aparece o cabeçalho do Tattler.

“ANJO DA MORTE: CLARICE STARLING, A MÁQUINA DE MATAR DO FBI, lê Mason, em meio a três sugadas lentas do respirador. Ele é capaz de dar um zoom nas fotos.

Um de seus braços está fora das cobertas. Ele tem algum movimento na mão. Como um pálido santola, a mão se mexe, mais pelo movimento dos dedos do que pela força do braço devastado. Como Mason não pode virar muito a cabeça para ver, o indicador e o dedo médio tateiam como antenas enquanto o polegar, o anular e o dedo mínimo fazem a mão prosseguir. Ela encontra o controle remoto, com o qual pode procurar detalhes e virar as páginas.

Mason lê devagar. O óculo sobre seu único olho produz um sibilo minús­culo duas vezes por minuto, borrifando umidade sobre a órbita sem pálpebra, freqüentemente embaçando as lentes. Ele demora vinte minutos para ler a matéria principal e a coluna do lado.

— Coloque o raio X — disse ao terminar.

Isso demorou um instante. A grande folha de filme de raio X exigia uma mesa de luz para aparecer bem no monitor. Ali estava uma mão humana, apa­rentemente danificada. E ali estava outra radiografia, mostrando a mão e o braço inteiro. Um apontador sobre o raio X mostrava uma fratura antiga no úmero, mais ou menos a meio caminho entre o cotovelo e o ombro.

Mason ficou olhando em meio a muitas respirações.

— Ponha a carta — disse por fim.

A letra elegante apareceu na tela, absurdamente grande na ampliação.

Cara Clarice, leu Mason, venho seguindo com entusiasmo o curso de sua des­graça e de sua vergonha pública... o simples ritmo da voz provocou nele pensa­mentos antigos que o fizeram girar, fizeram girar sua cama, seu quarto, arran­caram as crostas de seus sonhos indizíveis, fizeram o coração disparar adiante da respiração. A máquina sentiu sua agitação e preencheu os pulmões ainda mais depressa. Ele leu tudo, naquele ritmo doloroso, acima da máquina que se movia, como se cavalgasse. Mason não podia fechar o olho, mas quando terminou de ler, sua mente afastou-se de trás do olho durante um tempo, para pensar. O respirador diminuiu o ritmo. Em seguida ele soprou no tubo.

— Sim, senhor.

— Ligue para o senador Vellmore. Traga-me o fone de ouvido. Desligue o interfone.

Clarice Starling, disse a si mesmo, com a próxima respiração que a má­quina lhe permitiu. O nome não tinha consoantes explosivas e ele conseguia dizê-lo bastante bem. Nenhum dos sons se perdeu. Enquanto esperava o tele­fone, cochilou um momento, com a sombra da enguia arrastando-se sobre o lençol, sobre seu rosto e sobre o cabelo enrolado.

 

Buzzard’s Point, o escritório de campo do FBI para Washington e o Distrito de Columbia, tem esse nome — ponto dos abutres — por causa de uma reu­nião de abutres junto a um hospital da Guerra Civil que existiu na região.

Hoje a reunião é de autoridades de administração intermediária do De­partamento de Combate às Drogas, do Bureau de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo e do FBI para discutir o destino de Clarice Starling.

Starling estava sozinha, de pé sobre o tapete grosso da sala de seu chefe. Dava para ouvir a própria pulsação martelando sob a bandagem ao redor da cabeça. Acima da pulsação escutava as vozes dos homens, abafadas pela porta de vidro fosco de uma sala de reunião contígua.

No vidro está o grande brasão do FBI, entre folhas douradas, com seu lema: “Fidelidade, Bravura, Integridade.”

As vozes atrás do brasão subiam e desciam um tanto passionais; Starling podia ouvir seu nome quando nenhuma outra palavra soava clara.

A sala tinha uma bela vista para o Forte McNair, do outro lado da marina, onde os acusados de conspiração para o assassinato de Lincoln foram enfor­cados.

Starling visualizou fotos de Mary Surratt, passando por seu próprio caixão e subindo ao cadafalso no Forte McNair, parada com a cabeça coberta por um ca­puz sobre o alçapão, a saia amarrada nas pernas para impedir uma indecência quando ela caísse em direção ao estalo ruidoso e à escuridão.

 

Na sala ao lado, Starling ouviu as cadeiras sendo arrastadas para trás en­quanto os homens se levantavam. Agora vinham para esta sala. Alguns dos rostos ela reconheceu. Meu Deus, ali estava Noonan, o diretor-assistente de toda a Divisão de Investigações.

E ali estava sua nêmese, Paul Krendler, do Departamento de Justiça, com o pescoço comprido e as orelhas redondas no alto da cabeça, como orelhas de hiena. Krendler era um carreirista, a eminência parda por trás do secre­tário de Justiça. Desde que ela apanhou o assassino serial Búfalo Bill antes dele, num caso célebre sete anos atrás, Krendler pingava veneno na ficha pessoal dela a cada oportunidade, e vivia sussurrando nos ouvidos da Co­missão de Carreiras.

Nenhum daqueles homens esteve na linha de fogo com ela, deu uma ba­tida com ela, recebeu um tiro junto com ela ou tirou lascas de vidro do cabelo junto com ela.

Os homens não a olharam até que todos olhassem ao mesmo tempo, como uma matilha que volta a atenção subitamente para o aleijado do bando.

— Sente-se, agente Starling. — Seu chefe, o agente especial Clint Pearsall, esfregou o pulso grosso como se o relógio o machucasse.

Sem cruzar o olhar com Starling, ele fez um gesto para uma poltrona di­ante da janela. Num interrogatório, a poltrona não é o lugar de honra.

Os sete homens continuaram de pé, as silhuetas negras contra as janelas claras. Agora Starling não podia ver seus rostos, mas abaixo do clarão dava para ver as pernas e os pés. Cinco usavam os sapatos de solas grossas prefe­ridos pelos vaselinas do interior que tinham conseguido chegar a Washington. Um par de calçados Thom McAn com solas de borracha e um par de Florsheim rodeavam os sete. No ar um cheiro de graxa de sapato aquecida por pés quentes.

— No caso de você não conhecer todo mundo, agente Starling, este é o diretor-assistente Noonan, tenho certeza de que você sabe quem ele é; este é John Eldredge, do DEA, Bob Sneed, do BATF, Benny Holcomb é assistente do prefeito e Larkin Wainwright é examinador do nosso Departamento de Responsabilidade Profissional — disse Pearsall. — Paul Krendler, você co­nhece Paul, veio extra-oficialmente, representando o Departamento de Justi­ça. O fato de Paul estar aqui é um favor para nós, ele está e não está aqui, só para nos ajudar a não nos encrencarmos, se é que está me entendendo.

Starling sabia o que se dizia no serviço: um fiscal do governo é alguém que chega ao campo de batalha depois do final da luta e enfia a baioneta nos feridos.

As cabeças de algumas das silhuetas balançaram, cumprimentando. Os homens esticaram os pescoços e avaliaram a jovem diante da qual estavam reunidos. Durante alguns instantes, ninguém falou.

Bob Sneed rompeu o silêncio. Starling lembrava-se dele como o porta-voz do BATF que tinha tentado encobrir o desastre do caso da Seita Davidiana, em Waco. Ele era chapa de Krendler e também considerado um carreirista.

— Agente Starling, você viu a cobertura dada pelos jornais e pela televi­são, foi amplamente identificada como a atiradora que matou Evelda Drumgo. Infelizmente, foi meio crucificada.

Starling não respondeu.

— Agente Starling?

— Não tenho nada a ver com o noticiário, Sr. Sneed.

— A mulher estava com um bebê no colo, você pode ver o problema que isso cria.

— Não no colo, num suporte pendurado diante do peito, e os braços e as mãos estavam embaixo, sob uma manta, onde ela guardava a MAC 10.

— Viu o protocolo de autópsia? — perguntou Sneed.

— Não.

— Mas jamais negou que foi a pessoa que atirou.

— Acham que eu negaria porque vocês não recuperaram a bala? — Ela se virou para o chefe do Bureau. — Sr. Pearsall, esta é uma reunião amigável, certo?

— Totalmente.

— Então por que o Sr. Sneed está usando um microfone? A Divisão de Engenharia parou de fazer esses microfones em prendedores de gravatas há anos, ele está com um F-Bird no bolso do peito, gravando. Agora nós estamos usando microfones nos escritórios dos colegas?

O rosto de Pearsall ficou vermelho. Se Sneed estava usando microfone, esse era o pior tipo de traição, mas ninguém queria ser ouvido na fita man­dando Sneed desligá-lo.

— Nós não precisamos de qualquer atitude ou qualquer acusação de sua parte — disse Sneed, pálido de fúria. — Estamos aqui para ajudá-la.

— Ajudar a fazer o quê? A sua agência ligou para este departamento e conseguiu que eu fosse designada para ajudar vocês naquela batida. Dei duas chances a Evelda Drumgo para se render. Ela estava segurando uma MAC 10 debaixo da manta do bebê. Ela já tinha atirado em John Brigham. Eu gostaria que ela tivesse se entregado. Não se entregou. Ela atirou em mim. Eu atirei nela. Ela está morta. Talvez o senhor queira verificar o contador da sua fita agora, Sr. Sneed.

— Você tinha conhecimento prévio de que Evelda Drumgo estaria lá? — quis saber Eldredge.

— Conhecimento prévio? O agente Brigham me disse no furgão, enquan­to íamos para lá, que Evelda Drumgo estava preparando drogas num labora­tório, com guarda. Ele me designou para enfrentá-la.

— Lembre-se, Brigham está morto — disse Krendler. — Bem como Burke, ótimos agentes, os dois. Eles não estão aqui para confirmar ou negar qualquer coisa.

O estômago de Starling se revirou ao ouvir Krendler pronunciar o nome de John Brigham.

— Eu não me esqueço de que John Brigham está morto, Sr. Krendler, e ele era um bom agente, e um bom amigo. O fato é que ele pediu que eu lidas­se com Evelda.

— Brigham lhe passou essa tarefa, mesmo você e Evelda Drumgo tendo tido um entrevero antes — disse Krendler.

— Qual é, Paul! — disse Clint Pearsall.

— Que entrevero? — perguntou Starling. — Uma prisão pacífica. Ela havia lutado com outros policiais antes, em prisões. Ela não lutou comigo quando a prendi antes, e conversamos um pouco; ela era inteligente. Fomos educadas uma com a outra. Eu esperava ser capaz de fazer isso de novo.

— Você fez a declaração verbal de que iria “lidar com ela”? — perguntou Sneed.

— Obedeci às minhas instruções.

Holcomb, da prefeitura, e Sneed juntaram as cabeças. Sneed repuxou os punhos da camisa.

— Srta. Starling, temos informações do policial Bolton, do DP de Washington, de que você fez declarações graves a respeito da Sra. Drumgo no furgão a caminho do confronto. Gostaria de comentar isso?

— Segundo as instruções do agente Brigham, expliquei aos outros poli­ciais que Evelda tinha um histórico de violência, que geralmente andava ar­mada e que era soropositiva. Disse que lhe daríamos uma chance de se render pacificamente. Pedi ajuda física para dominá-la, caso necessário. Posso dizer que não houve muitos voluntários para o serviço.

Clint Pearsall fez um esforço:

— Depois que o carro dos atiradores da Crip bateu e um criminoso fu­giu, você pôde ver o carro balançando e pôde ouvir o bebê chorando dentro do carro?

— Gritando — disse Starling. — Levantei a voz para que todo mundo parasse de atirar e deixei a cobertura.

— Isso vai contra o procedimento — disse Eldredge. Starling ignorou-o.

— Eu me aproximei do carro em posição preparada, arma esticada, cano baixo. Marquez Burke estava morrendo no chão entre nós. Alguém saiu cor­rendo e fez uma compressa nele. Evelda saiu com o bebê. Pedi que ela me mostrasse as mãos, falei algo do tipo “Evelda, não faça isso”.

— Ela atirou, você atirou. Ela caiu imediatamente? Starling confirmou com a cabeça.

— As pernas dela desmoronaram e ela se sentou na rua, inclinada sobre o bebê. Estava morta.

— Você pegou o bebê e correu para a água. Exibiu preocupação — disse Pearsall.

— Não sei o que exibi. Ele estava coberto de sangue. Eu não sabia se o bebê era soropositivo ou não, sabia que ela era.

— E pensou que sua bala poderia ter acertado o bebê — disse Krendler.

— Não. Eu sabia onde a bala pegou. Posso falar à vontade, Sr. Pearsall? Quando ele não a encarou, ela prosseguiu.

— A batida foi uma confusão medonha. Isso me colocou numa posição em que eu tinha a escolha de morrer ou de atirar numa mulher que segurava uma criança. Eu escolhi, e o que tive de fazer me deixou arrasada. Atirei numa mulher carregando uma criança. Os animais inferiores não fazem isso. Sr. Sneed, talvez o senhor queira verificar a contagem do seu gravador de novo, para ver o ponto em que admito isso. Eu me ressinto tremendamente por ter sido co­locada naquela posição. Ressinto-me pelo modo como me sinto agora. — Ela visualizou Brigham deitado de rosto para o chão na rua, e foi longe demais. — Ver vocês todos fugirem disso me deixa com o estômago revirado.

— Starling... — Pearsall, angustiado, olhou-a no rosto pela primeira vez.

— Sei que você ainda não teve a chance de redigir seu 302 — disse Larkin Wainwright. — Quando nós revisarmos...

— Sim, senhor, eu tive — disse Starling. — Uma cópia está indo para o Departamento de Responsabilidade Profissional. Tenho uma cópia comigo, se os senhores não quiserem esperar. Anotei tudo que vi e que fiz. Veja só, Sr. Smith, o senhor já tinha tudo o tempo todo.

A visão de Starling estava um pouco clara demais, sinal de perigo que ela reconhecia, e conscientemente baixou a voz.

— A batida deu errado por alguns motivos. O informante do BATF mentiu sobre a localização do bebê porque ele estava desesperado para que a batida acontecesse antes da data do júri de instrução que ele teria de enfrentar em Illinois. E Evelda Drumgo sabia que estávamos indo. Ela saiu com o di­nheiro numa sacola e a droga em outra. Seu bip ainda mostrava o número da estação de TV WFUL. Ela recebeu o aviso cinco minutos antes de chegarmos lá. O helicóptero da WFUL chegou lá conosco. Requisitem uma lista das li­gações telefônicas da WFUL e veremos quem vazou a notícia. É alguém cujos interesses são locais, cavalheiros. Se o BATF tivesse feito o vazamento, como fizeram em Waco, ou se o DEA tivesse feito o vazamento, teriam feito isso para a mídia nacional, e não para a TV local.

Benny Holcomb falou em nome da prefeitura:

— Não há evidência de que qualquer pessoa do governo municipal ou do Departamento de Polícia de Washington tenha deixado vazar alguma coisa.

— Solicitem as listas e verifiquem — disse Starling.

— Você está com o bip de Drumgo? — perguntou Pearsall.

— Ele está guardado na sala de propriedades em Quantico.

O bip do diretor-assistente Noonan soou. Ele franziu a testa ao olhar o número, pediu licença e saiu da sala. Minutos depois, convocou Pearsall para juntar-se a ele lá fora.

Wainwright, Eldredge e Holcomb olharam pela janela para o Forte McNair, com as mãos nos bolsos. Poderiam muito bem estar esperando numa unidade de tratamento intensivo. Paul Krendler captou o olhar de Sneed e fez um ges­to para que ele se virasse na direção de Starling.

Sneed pôs a mão nas costas da poltrona de Starling e inclinou-se sobre ela.

— Se o seu testemunho numa audiência for que, enquanto estava pres­tando serviço temporário cedida pelo FBI, sua arma matou Evelda Drum­go, o BATF está preparado para assinar uma declaração de que Brigham lhe pediu que prestasse... atenção especial em Evelda para prendê-la pacifica­mente. Sua arma matou-a, é nesse ponto que o seu serviço vai ter de assumir. Não haverá uma disputa entre agências com relação a regras de enfrenta-mento, e não teremos de levar a público qualquer declaração compro­metedora ou hostil que você tenha feito no furgão, sobre que tipo de pessoa ela era.

Starling viu Evelda Drumgo por um instante, saindo pela porta, saindo do carro. Viu o porte de sua cabeça e, apesar da tolice e do desperdício da vida de Evelda, viu a decisão que ela tinha tomado de pegar seu filho e enfrentar seus atormentadores e não fugir daquilo. Starling inclinou-se perto do micro­fone na gravata de Sneed e disse claramente:

— Estou perfeitamente satisfeita em reconhecer o tipo de pessoa que ela era, Sr. Sneed. Ela era melhor do que o senhor.

Pearsall voltou para a sala sem Noonan e fechou a porta.

— O diretor-assistente Noonan voltou para o escritório dele. Cavalhei­ros, peço para interrompermos esta reunião, e entrarei em contato com vocês individualmente pelo telefone.

A cabeça de Krendler levantou-se. Subitamente ele estava alerta ao cheiro de política.

— Precisamos decidir algumas coisas — começou Sneed.

— Não, não precisamos.

— Mas...

— Acredite, Bob, não precisamos decidir coisa alguma. Eu entro em con­tato com você. Ah, Bob?

— Sim?

Pearsall agarrou o fio atrás da gravata de Sneed e puxou para baixo com força, fazendo estalar os botões da camisa dele e arrancando fita adesiva de sua pele.

— Se vier se encontrar de novo comigo com um microfone, enfio o pé na sua bunda.

Nenhum deles olhou para Starling, enquanto saíam, a não ser Krendler.

Indo em direção à porta, deslizando os pés para não ter de olhar para onde ia, ele usou a articulação extrema de seu pescoço comprido para virar o rosto em direção a ela, como uma hiena faria junto de um rebanho, tentando espiar um candidato. Fomes misturadas atravessaram seu rosto; era da natureza de Krendler apreciar a perna de Starling e ao mesmo tempo ver onde poderia cortar o tendão-de-aquiles.

 

A Divisão de Ciência do Comportamento é a seção do FBI que trata dos assassinatos em série. Nos seus escritórios no porão o ar é frio e imóvel. Nos últimos anos os decoradores, com suas paletas de cor, tentaram alegrar o espa­ço subterrâneo. O resultado não é mais bem-sucedido do que os cosméticos de uma funerária.

O escritório do chefe da seção permanece com o marrom e o castanho originais, com as cortinas de xadrez cor de café nas janelas altas. Ali, rodeado por seus dossiês infernais, Jack Crawford estava sentado e escrevendo em sua mesa.

Uma batida e Crawford ergueu a cabeça para uma visão que lhe agradava — Clarice Starling estava na porta.

Crawford sorriu e levantou-se. Ele e Starling costumavam conversar de pé; era uma das formalidades tácitas que haviam imposto ao seu relaciona­mento. Os dois não precisavam se apertar as mãos.

— Ouvi dizer que você foi ao hospital — disse Starling. — Uma pena termos nos desencontrado.

— Fiquei feliz porque deixaram você sair tão depressa. Conte como está sua orelha, está bem?

— Está ótima se você gosta de couve-flor. Eles disseram que vai desinchar, a maior parte. — A orelha de Starling estava coberta pelo cabelo. Ela não se ofereceu para mostrar.


Um pequeno silêncio.

— Eles estavam colocando em mim toda a culpa pela batida, Sr. Crawford, pela morte de Evelda Drumgo, por tudo. Pareciam hienas, e de repente o negócio parou e eles foram embora. Alguma coisa os tirou de lá.

— Talvez você tenha um anjo, Starling.

— Talvez. O que isso lhe custou, Sr. Crawford? Crawford balançou a cabeça.

— Feche a porta, por favor, Starling. — Crawford encontrou um lenço de papel embolado no bolso e limpou os óculos. — Eu teria feito isso, se pudesse. Sozinho não tinha como. Se a senadora Martin ainda estivesse no cargo, você teria alguma cobertura... Eles desperdiçaram o John Brigham na­quela batida; simplesmente jogaram-no fora. Teria sido uma vergonha se ti­vessem desperdiçado você como desperdiçaram John. Eu me senti como se estivesse empilhando você e John em cima de um jipe.

As bochechas de Crawford ficaram vermelhas, e ela se lembrou do rosto dele no vento cortante junto à sepultura de John Brigham. Crawford jamais falou com ela sobre a guerra que ele travava.

— O senhor fez alguma coisa, Sr. Crawford. Ele assentiu.

— Fiz alguma coisa. Não sei até que ponto você vai ficar satisfeita. É um serviço.

Um serviço. Serviço era uma boa palavra no dicionário particular dos dois. Significava uma tarefa específica e imediata e limpava o ar. Eles jamais fala­vam, se fosse possível, sobre a complicada burocracia central do FBI. Crawford e Starling eram como missionários médicos, com pouca paciência para teolo­gia. Cada um se concentrava muito no único bebê que tinha à frente, sabendo e não dizendo que Deus não faria coisa alguma para ajudar. Que Ele não se incomodaria em mandar chuva nem para que cinqüenta mil crianças africa­nas vivessem.

— Indiretamente, Starling, seu benfeitor é seu missivista recente.

— O Dr. Lecter. — Há muito tempo ela tinha percebido o desgosto de Crawford em ouvir o nome pronunciado.

— Sim, o próprio. Durante todo esse tempo ele escapou de nós, saiu limpo e escreveu uma carta para você. Por quê?

Fazia sete anos desde que o Dr. Hannibal Lecter, conhecido assassino de dez pessoas, escapara da custódia policial em Memphis, tirando mais cinco vidas nesse processo.

Era como se Lecter tivesse desaparecido da terra. O caso permanecia em aberto no FBI, e permaneceria em aberto para sempre, ou até que ele fosse apanhado. O mesmo se aplicava no Tennessee e em outras jurisdições, mas não havia qualquer força-tarefa designada para persegui-lo, apesar de paren­tes de suas vítimas terem chorado lágrimas furiosas diante da Assembléia Legislativa do Tennessee e exigido ação.

Volumes inteiros de conjecturas eruditas sobre sua mentalidade estavam disponíveis, a maioria escrita por psicólogos que jamais tinham sido expostos ao doutor pessoalmente. Alguns textos de psiquiatras que ele havia espicaçado foram publicados em jornais da classe, que aparentemente achavam que ago­ra era seguro divulgá-los. Alguns disseram que suas aberrações iriam levá-lo inevitavelmente ao suicídio, e que era provável que ele já estivesse morto.

Pelo menos no ciberespaço o interesse pelo Dr. Lecter permanecia bastan­te vivo. O chão úmido da Internet fazia brotar teorias sobre Lecter como se fossem cogumelos, e os avistamentos do doutor se rivalizavam em número com os de Elvis. Impostores empesteavam as salas de chat, e no pântano fosforescente do lado escuro da rede, fotografias policiais de seus ultrajes eram traficadas para colecionadores de souvenires odiosos. Em popularidade só per­diam para a execução de Fou-Tchou-Li.

Só havia um sinal do doutor depois de sete anos — sua carta a Clarice Starling quando ela estava sendo crucificada pelos tablóides de escândalos.

A carta não tinha impressões digitais, mas o FBI estava com bastante cer­teza de que era genuína. Clarice Starling tinha certeza absoluta.

— Por que ele fez isso, Starling? — Crawford parecia quase com raiva dela. — Eu nunca fingi entendê-lo mais do que aqueles psiquiatras idiotas. Diga-me você.

— Ele achou que o que tinha acontecido comigo iria... me destruir, iria me desiludir com relação ao Bureau, e ele gosta de ver a destruição da fé. É o que lhe dá mais prazer. É como os desmoronamentos de igreja que ele costu­mava colecionar. A pilha de entulho na Itália quando a igreja desmoronou sobre todas as avós naquela missa especial e alguém enfiou uma árvore de Natal em cima da pilha. Ele adorou aquilo. Eu o divirto, ele brinca comigo. Quando eu o estava entrevistando ele gostava de apontar furos na minha educação. Ele acha que sou bastante ingênua.

Crawford falou a partir de sua própria idade e de seu isolamento quan­do disse:

— Já imaginou que ele poderia gostar de você, Starling?

— Acho que eu o divirto. As coisas o divertem ou não. Se não...

— Alguma vez você sentiu que ele gostava de você? — Crawford insistia na distinção entre pensamento e sentimento como um batista insiste no mer­gulho total.

— Conhecendo-me por muito pouco tempo, ele disse algumas coisas verdadeiras a meu respeito. Acho que é fácil confundir compreensão com sim­patia; já que queremos tanto a simpatia. Talvez aprender a fazer essa distinção seja parte do crescimento. É duro e medonho saber que alguém pode enten­der você mesmo sem gostar. Quando a gente vê a compreensão usada como a ferramenta de um predador, é o pior. Eu... eu não tenho idéia do que o Dr. Lecter sente por mim.

— Que tipo de coisa ele lhe disse? Se é que você não se importa em contar.

— Disse que eu era uma caipirazinha ambiciosa e agitada, e que meus olhos brilhavam como pedras baratas. Disse que eu usava sapatos baratos, mas que eu tinha algum gosto, um pouquinho de gosto.

— Isso impressionou você como sendo verdadeiro?

— É. Talvez ainda seja. Melhorei meus sapatos.

— Starling, acha que Lecter poderia estar interessado em ver se você iria entregá-lo quando ele mandou uma carta de encorajamento?

— Ele sabia que eu iria entregá-lo, é melhor que saiba disso.

— Ele matou seis pessoas depois de ser condenado. Ele matou Miggs no manicômio por ter jogado sêmen no seu rosto, e mais cinco pessoas ao fugir. No clima político atual, se o doutor for apanhado, vai receber pena de morte. — Crawford sorriu ante o pensamento. Ele fora pioneiro no estudo do assas­sinato em série. Agora estava diante da aposentadoria compulsória, e o mons­tro que mais o desafiara continuava livre. A perspectiva da morte do Dr. Lecter o agradava enormemente.

Starling sabia que Crawford havia mencionado o ato de Miggs para atrair sua atenção, para levá-la de volta àqueles dias terríveis em que estava tentando interrogar Hannibal, o Canibal, na masmorra do Manicômio Judiciário de Baltimore. Na época em que Lecter brincava com ela enquanto uma garota se encolhia no poço de Jame Gumb, esperando para morrer. Geralmente Crawford procurava atrair sua atenção quando estava chegando ao ponto, como fazia agora.

— Você sabia, Starling, que uma das primeiras vítimas do Dr. Lecter ain­da está viva?

— O rico. A família ofereceu uma recompensa.

— Sim, Mason Verger. Ele está atrelado a um aparelho de respiração em Maryland. Seu pai morreu este ano e lhe deixou a fortuna dos frigoríficos. Além disso, o velho Verger deixou para Mason um senador dos Estados Uni­dos e um membro do Comitê de Supervisão Judiciária do Senado, que sim­plesmente não conseguia resolver as coisas sem ele. Mason diz que tem uma coisa que pode nos ajudar a encontrar o doutor. Ele quer falar com você.

— Comigo?

— Você. É isso que Mason quer, e de repente todo mundo concorda em que é realmente uma boa idéia.

— Isso é o que Mason quer, depois de o senhor ter sugerido a ele?

— Eles iam jogá-la para escanteio, Starling, iam limpar o chão com você como se fosse um trapo. Você teria sido desperdiçada como John Brigham. Só para salvar alguns burocratas do BATE Medo. Pressão. É só isso que eles en­tendem agora. Fiz alguém telefonar para Mason e dizer a ele como ficaria di­fícil a caçada a Lecter se você fosse posta para escanteio. Qualquer outra coisa que tenha acontecido, para quem Mason possa ter ligado depois disso, não quero saber. Provavelmente para o senador Vellmore.

Há um ano Crawford não teria jogado desse modo. Starling procurou no rosto dele algum traço da loucura que algumas vezes surge em pessoas que vão se aposentar em breve. Não viu, mas ele parecia cansado.

— Mason não é bonito, Starling, e não estou falando apenas do rosto. Descubra o que ele tem. Traga para cá, e nós trabalharemos com isso. Final­mente.

Starling sabia que durante anos, desde que tinha se formado na Academia do FBI, Crawford estava tentando trazê-la para a Divisão de Ciência do Com­portamento.

Agora que era veterana do Bureau, veterana de muitas tarefas laterais, dava para ver que seu triunfo inicial ao pegar o assassino em série Jame Gumb teve uma parcela na destruição de sua carreira no Bureau. Ela era uma estrela em ascensão que atravancava o caminho. No processo de pegar Gumb, tinha fei­to pelo menos um inimigo poderoso e provocou o ciúme de vários de seus contemporâneos do sexo masculino. Isso, e um certo temperamento do con­tra, resultou em anos dando batidas, atuando em esquadrões investigando assaltos a banco, e anos efetuando prisões, vendo Newark do outro lado do cano de uma espingarda. Por fim, considerada irascível demais para trabalhar com grupos, ela era uma agente técnica, grampeando telefones e carros de gângsteres e de gente que divulgava pornografia infantil, mantendo vigilân­cias solitárias ouvindo os resultados dos grampos. E vivia sendo emprestada, quando outra agência precisava de uma ajuda confiável numa batida. Ela era forte, rápida e cuidadosa com a arma.

Crawford viu isso como uma chance para Starling. Presumiu que ela sem­pre quisera caçar Lecter. A verdade era mais complicada do que isso.

Agora Crawford a estava estudando.

— Você nunca tirou essa pólvora da bochecha.

Grãos de pólvora queimada do revólver do falecido Jame Gumb marca­vam seu malar com um ponto negro.

— Nunca tive tempo.

— Sabe como os franceses chamam uma pinta, uma mouche, assim no alto da bochecha? Sabe o que isso significa? — Crawford tinha uma bibliote­ca considerável sobre tatuagem, simbologia corporal, mutilações rituais.

Starling balançou a cabeça.

— Eles chamam isso de “coragem”. Você pode usar essa. Se eu fosse você, não tiraria.

 

Há uma beleza enfeitiçante em Muskrat Farm, a mansão da família Verger perto do rio Susquehanna, no norte de Maryland. A dinastia dos donos de frigorífico comprou-a na década de 1930, quando vieram de Chicago para estar mais próximo de Washington, e podiam se dar a esse luxo. A perspicácia comercial e política permitira que os Verger ganhassem os contratos para for­necer carne ao exército americano desde a Guerra Civil.

O escândalo da “carne embalsamada” na Guerra Hispano-americana mal tocou os Verger. Quando Upton Sinclair e os caçadores de corruptos investi­garam as condições perigosas dos frigoríficos de Chicago, descobriram que vários empregados dos Verger tinham caído inadvertidamente dentro da ba­nha de porco, sido enlatados e vendidos como pura banha Durhams, predile­ta dos padeiros. A culpa não recaiu sobre os Verger. A questão não lhes custou sequer um contrato com o governo.

Os Verger evitavam esses embaraços potenciais e muitos outros subornando políticos — seu único contratempo foi a aprovação da lei de inspeção de car­nes em 1906.

Hoje os Verger abatem 86 mil cabeças de gado por dia, e aproximada­mente 36 mil porcos, um número que varia ligeiramente de acordo com a estação do ano.

Os gramados recém-cortados de Muskrat Farm, o tumulto dos lilases ao vento, não cheiravam de modo algum a curral de gado. Os únicos animais são


pôneis para as crianças que visitam o lugar, e divertidos bandos de gansos pastando nos gramados, com os traseiros balançando, cabeças baixas junto à grama. Não há cães. A casa, o celeiro e os terrenos ao redor estão próximos do centro de seis milhas quadradas de floresta nacional, e permanecerão assim perpetuamente, com permissão especial garantida pelo Departamento do In­terior.

Como muitos enclaves dos excessivamente ricos, Muskrat Farm não é fácil de encontrar na primeira vez em que se vai lá. Clarice Starling pegou um acesso errado, na via expressa. Voltando pela estrada secundária, encon­trou primeiro a entrada de serviço, um grande portão trancado com corren­te e cadeado na cerca alta que envolvia a floresta. Para além do portão, uma estrada de terra desaparecia sob as árvores em arco. Não havia interfone. Três quilômetros adiante, ela encontrou a guarita, uns cem metros depois de uma bela entrada de veículos. O guarda uniformizado tinha o nome dela na prancheta.

Mais três quilômetros de um caminho bem cuidado levaram-na à fazenda.

Starling parou seu Mustang trovejante para deixar um bando de gan­sos atravessar o caminho. Pôde ver uma fila de crianças montadas em gor­dos pôneis Shetland saindo de um belo celeiro a quatrocentos metros da casa. A construção principal diante dela era uma Stanford White — man­são cheia de estilo, acomodada elegantemente entre morros baixos. O lu­gar parecia sólido e fecundo, província de sonos agradáveis. Aquilo atraía Starling.

Os Verger tiveram o bom senso de deixar a casa como era, com a exceção de um único acréscimo, que Starling ainda não podia ver, uma ala moderna que se projeta da elevação leste como um membro extra grudado num grotes­co experimento médico.

Starling estacionou abaixo de uma varanda central. Quando o motor foi desligado, pôde ouvir a própria respiração. No espelho viu alguém chegando a cavalo. Agora os cascos ressoavam no calçamento ao lado do carro enquanto ela saía.

Uma figura de ombros largos, com cabelos curtos e louros desceu da sela e entregou as rédeas a um cocheiro sem olhar para ele.

— Leve-o de volta — disse a figura numa voz profunda e áspera. — Eu sou Margot Verger. — Numa inspeção mais próxima, era uma mulher estendendo a mão, com o braço esticado na altura do ombro. Sem dúvida, Margot Verger fazia musculação. Abaixo do pescoço nodoso, os ombros enormes e os braços faziam esticar o tecido da camisa de tênis. Seus olhos tinham um bri­lho seco e pareciam irritados, como se ela sofresse de uma escassez de lágri­mas. Usava calças de montaria, de sarja, e botas sem esporas.

— Que carro é esse? — perguntou ela. — Um velho Mustang?

— É um 88.

— De cinco litros? A suspensão parece meio rebaixada.

— É. É um Mustang Roush.

— Você gosta dele?

— Muito.

— Quanto ele faz?

— Não sei. O bastante, acho.

— Você tem medo dele?

— Respeito. Eu diria que uso com respeito.

— Você sabia a respeito desse carro, ou simplesmente comprou?

— Eu sabia o bastante para comprar num leilão de material confiscado de traficantes, quando vi o que era. Mais tarde, fiquei sabendo mais.

— Você acha que ele venceria o meu Porsche?

— Depende de que Porsche. Srta. Verger, preciso falar com seu irmão.

— Vão terminar de limpá-lo nuns cinco minutos. Nós podemos come­çar lá em cima. — As calças de sarja faziam ruído nas coxas grandes de Margot Verger enquanto ela subia a escada. Seu cabelo que parecia de milho recuara o suficiente para fazer Starling se perguntar se ela tomava esteróides e se tinha de prender o clitóris com fita adesiva.

Para Starling, que tinha passado a maior parte da infância num orfanato luterano, a casa parecia um museu com seus vastos espaços e as traves pinta­das, e as paredes cheias de retratos de pessoas mortas e de aparência importan­te. Nos patamares havia peças de esmaltado chinês e longas passadeiras marroquinas seguiam pelos corredores.

Há uma mudança abrupta de estilo na nova ala da mansão Verger. A moderna estrutura funcional é alcançada através de portas duplas de vidro fosco, incongruentes no corredor em abóbada.

Margot Verger parou junto à porta. Encarou Starling com seu olhar bri­lhante, irritado.

— Algumas pessoas têm problema para falar com Mason — disse ela. — Se isso incomodá-la, ou se você não suportar, mais tarde posso colocá-la a par de qualquer coisa que tenha esquecido de perguntar a ele.

Há uma emoção comum que todos reconhecemos e que ainda não tem nome — a antecipação feliz de ser capaz de sentir desprezo. Starling viu-a no rosto de Margot Verger. Tudo que falou foi:

— Obrigada.

Para surpresa de Starling, o primeiro cômodo na ala era uma sala de brin­quedos grande e bem equipada. Duas crianças negras brincavam em meio a enormes animais de pelúcia, uma montada num carrinho elétrico e a outra empurrando um caminhão. Havia uma variedade de triciclos e carrinhos estacionados nos cantos, e o centro era uma área ampla com o chão acolchoado.

Num dos cantos da sala de brinquedos, um homem alto com uniforme de enfermeiro estava sentado num sofá de dois lugares lendo a Vogue. Havia uma quantidade de câmeras de vídeo nas paredes, algumas no alto, outras ao nível do olhar. Uma câmera alta no canto acompanhava Starling e Margot Verger, com as lentes girando para focalizar.

Starling tinha passado do ponto em que a visão de uma criança de pele escura partia seu coração, mas teve uma consciência aguçada daquelas crian­ças. Sua atividade alegre com os brinquedos era agradável de ver, enquanto ela e Margot Verger atravessavam a sala.

— Mason gosta de olhar as crianças — disse Margot Verger. — Elas fi­cam apavoradas em vê-lo, a não ser as menorezinhas, de modo que ele faz a coisa assim. Depois elas vão andar de pôneis. São crianças que estão sob os cuidados da assistência social de Baltimore.

O quarto de Mason Verger só pode ser alcançado passando-se pelo seu banheiro, uma instalação digna de um spa, que ocupa toda a largura da ala. Tem aparência institucional, todo de aço, cromo e tapete industrial, com boxes de chuveiro de portas largas, banheiras de aço inoxidável com equipamentos de içamento acima, mangueiras laranja enroladas, saunas e vastos armários de vidro com ungüentos da farmácia de Santa Maria Novella, em Florença. Q ar no banheiro ainda estava cheio de vapor, do uso recente, e os cheiros de bálsamo e gualtéria pairavam no ar.

Starling podia ver luz debaixo da porta da câmara de Mason Verger. A luz se apagou assim que a irmã dele tocou na maçaneta.

Uma área de estar no canto da câmara de Mason Verger era fortemente ilu­minada por cima. Uma reprodução passável de The Ancient of Days, de William Blake, estava pendurada acima do sofá — Deus medindo com seus calibres. A pintura estava envolta em pano preto para comemorar o falecimento recente do patriarca dos Verger. O resto do cômodo permanecia no escuro.

Da escuridão vinha o som de uma máquina trabalhando ritmicamente, suspirando a cada golpe.

— Boa tarde, agente Starling — uma voz sonora, mecanicamente am­plificada.

— Boa tarde, Sr. Verger — disse Starling para a escuridão, sentindo a luz quente acima da cabeça. A tarde estava em algum outro lugar. A tarde não estava ali.

— Faça o favor de sentar-se. — O f fricativo de faça tinha sido perdido. Terei de fazer isso. Agora está bem. Agora é o que tem de ser.

— Sr. Verger, a discussão que teremos se caracteriza como um depoimento e precisarei gravá-la. Tudo bem para o senhor?

— Certamente. — A voz vinha por entre os suspiros do aparelho, e o t sibilante não soava na palavra. — Margot, acho que pode nos deixar agora.

Sem olhar para Starling, Margot Verger saiu num sussurro da calça de montaria.

— Sr. Verger, eu gostaria de prender este microfone à sua... roupa, ou ao seu travesseiro, se o senhor não se incomodar, ou posso chamar uma enfer­meira para fazer isso, se preferir.

— De modo algum — disse ele, sem o m. Em seguida esperou a energia da próxima exalação mecânica. — Você mesma pode fazer, agente Starling. Estou aqui.

Não havia interruptores de luz que Starling pudesse encontrar de imedia­to. Ela pensou que enxergaria melhor não tendo o clarão nos olhos, e foi para o escuro, estendendo uma das mãos, em direção ao cheiro de gualtéria e bálsamo.

Estava mais perto da cama do que pensava quando ele acendeu a luz. O rosto de Starling não mudou. Sua mão segurando o microfone com prendedor recuou bruscamente, talvez dois centímetros.

Seu primeiro pensamento foi separar as sensações no peito e na barriga; era a observação de que as anomalias na fala dele resultavam da ausência total de lábios. Seu segundo pensamento foi a percepção de que ele não era cego. Seu único olho azul encarava-a através de uma espécie de monóculo que ti­nha um tubo para manter o olho úmido, já que não possuía pálpebra. Quan­to ao resto, há anos cirurgiões tinham feito o possível com enxertos de pele expandida sobre os ossos.

Mason Verger, sem nariz e sem lábios, sem tecido mole sobre o rosto, era todo dentes, como uma criatura do oceano profundíssimo. Habitua­dos como estamos às máscaras, o choque de vê-lo é retardado. O choque vem com o reconhecimento de que aquilo é um rosto humano com uma mente por trás. Aquilo remexe nossas entranhas com o movimento, a ar­ticulação do maxilar, a virada do olho para nos encarar. Para ver nosso rosto normal.

O cabelo de Mason Verger é bonito e, estranhamente, é a coisa mais di­fícil de se olhar. Preto com tiras de grisalho, é arrumado numa trança sufi­cientemente comprida para chegar ao chão se estivesse para trás, passando sob o travesseiro. Hoje o cabelo trançado está num rolo comprido sobre o peito, acima do respirador que parece um casco de tartaruga. Cabelo huma­no abaixo daquela ruína de beleza, as trancas brilhando como escamas superpostas.

Debaixo do lençol, o corpo há muito paralisado de Mason Verger esten­dia-se para o nada sobre a alta cama hospitalar.

Diante de seu rosto ficava o controle que parecia uma flauta de Pã ou uma gaita de plástico claro. Ele enrolou a língua ao redor de um tubo e soprou com o fôlego seguinte do aparelho de respiração. A cama respondeu com um zumbido, virou-o ligeiramente para encarar Starling e aumentou a elevação de sua cabeça.

— Agradeço a Deus pelo que aconteceu — disse Verger. — Foi minha salvação. Você aceitou Jesus, Srta. Starling? Você tem fé?

— Fui criada numa atmosfera religiosa, Sr. Verger. Tenho o que isso dei­xa com a gente. Agora, se o senhor não se importa, vou prender isto na fronha. Não vai atrapalhar aqui, vai?

A voz de Starling soou rápida demais, como de uma enfermeira, não com­binando com ela.

Sua mão ao lado da cabeça dele, a visão das duas carnes juntas, não a aju­dou, tampouco a pulsação dele nos vasos sangüíneos esticados sobre os ossos para dar sangue ao rosto; a palpitação regular fazia com que parecessem ver­mes engolindo.

Aliviada, ela soltou o cabo do microfone e voltou para a mesa, onde esta­va o gravador e um outro microfone.

— Aqui é a agente especial Clarice M. Starling, FBI número 5143690, tomando depoimento de Mason R. Verger, número de seguro social 475989823, em sua casa na data carimbada acima, sob juramento e atesta­do. O Sr. Verger reconhece que recebeu imunidade com relação a qualquer processo por parte da Promotoria dos Estados Unidos no distrito 36, e das autoridades locais num memorando anexo, devidamente atestado. Agora, Sr. Verger...

— Quero lhe contar sobre o acampamento — interrompeu ele com a exalação seguinte. — Foi uma maravilhosa experiência infantil para a qual voltei, em essência.

— Podemos chegar a isso, Sr. Verger, mas pensei que...

— Ah, nós podemos chegar a isso agora, Srta. Starling. Veja só, tudo tem a ver. Foi como conheci Jesus, e jamais lhe direi alguma coisa mais importante do que isso. — Ele fez uma pausa para a máquina suspirar. — Foi um acam­pamento cristão, pelo qual meu pai pagou. Ele pagou pela coisa inteira, todos os cento e vinte e cinco acampados no lago Michigan. Alguns eram desafortu­nados, e seriam capazes de fazer qualquer coisa por uma barra de chocolate. Talvez eu tenha me aproveitado disso, talvez tenha sido duro com eles se não aceitassem o chocolate e fizessem o que eu queria. Não estou escondendo coisa alguma, porque agora está tudo bem.

— Sr. Verger, vamos olhar algum material com o mesmo...

Ele não estava escutando, só esperando que a máquina lhe desse fôlego.

— Eu tenho imunidade, Srta. Starling, e está tudo bem agora. Recebi imunidade de Jesus, recebi imunidade da Promotoria dos Estados Uni­dos, recebi imunidade da Promotoria de Owing Mills, aleluia. Sou livre, Srta. Starling, e agora está tudo bem. Estou certo para com Ele e agora está tudo bem. Ele é o Jesus Ressuscitado e no acampamento o chamáva­mos de O Reisus. Ninguém vence o Reisus. Nós tornamos aquilo um ne­gócio contemporâneo, sabe, o Reisus. Eu O servi na África, aleluia. Eu O servi em Chicago, louvado seja Seu nome, e eu O sirvo agora e Ele me levantará desta cama, derrotará meus inimigos e os trará diante de mim, e ouvirei as lamentações de suas mulheres, e agora está tudo bem. — Ele engasgou com saliva e parou, os vasos sangüíneos na frente de sua cabeça escuros e pulsando.

Starling levantou-se para chamar uma enfermeira, mas a voz dele a impe­diu antes que ela chegasse à porta.

— Estou bem, agora está tudo bem.

Talvez uma pergunta direta fosse melhor do que tentar guiá-lo.

— Sr. Verger, o senhor tinha visto o Dr. Lecter antes de o tribunal designá-lo para ser seu terapeuta? O senhor o conhecia socialmente?

— Não.

— Vocês dois faziam parte do conselho da Filarmônica de Baltimore.

— Não, o meu cargo era apenas porque nós contribuíamos financeira­mente. Eu mandava meu advogado quando havia uma votação.

— O senhor jamais fez uma declaração durante o julgamento do Dr. Lecter. — Starling estava aprendendo a dosar o tempo de suas perguntas para que ele tivesse fôlego para respirar.

— Eles disseram que tinham o bastante para condená-lo seis vezes, nove vezes. E ele impediu tudo isso alegando insanidade.

— O tribunal o considerou insano. O Dr. Lecter não alegou coisa alguma.

— Considera essa distinção importante?

Com a pergunta, Starling sentiu pela primeira vez a mente dele, preênsil e aguçada, diferente do vocabulário que usava com ela.

A grande enguia, agora acostumada à luz, levantou-se das pedras do aquá­rio e começou o círculo incansável, uma fita ondulada de marrom, com um belo padrão de manchas irregulares cor creme.

Starling tinha consciência constante dela, movendo-se no canto da visão.

— É uma Muraena Kidako — disse Mason. — Há uma ainda maior em cativeiro em Tóquio. Esta é a segunda em tamanho. Seu nome comum é Moréia Brutal, gostaria de ver por quê?

— Não — disse Starling e virou uma página em suas anotações. — En­tão, durante a terapia que fez por ordem do tribunal, Sr. Verger, o senhor con­vidou o Dr. Lecter à sua casa.


— Agora não tenho mais vergonha. Vou lhe contar praticamente tudo. Eu me livraria daquelas acusações infundadas de molestação se cumprisse quinhentas horas de serviço comunitário, trabalhasse no canil e fizesse tera­pia com o Dr. Lecter. Pensei que se conseguisse envolver o doutor em algu­ma coisa ele me daria alguma folga na terapia e não violaria minha condicio­nal se eu não aparecesse o tempo todo, ou se chegasse meio drogado nas consultas.

— Isso foi quando o senhor tinha a casa de Owings Mills.

— É. Eu havia contado tudo ao Dr. Lecter, sobre a África, sobre Idi, tudo. Disse que mostraria a ele parte do meu material.

— O senhor iria mostrar...

— Minha parafernália. Meus brinquedos. Ali no canto está a pequena guilhotina portátil que eu usei para Idi Amin. Você pode colocá-la na parte de trás de um jipe, ir a qualquer lugar, o povoado mais distante. Montar em quinze minutos. O condenado leva uns dez minutos para montá-la usando um sarilho. Pouco mais se for uma mulher ou uma criança. Não tenho vergo­nha disso, porque estou limpo.

— O Dr. Lecter veio à sua casa.

— Eu o atendi à porta vestindo adereços de couro, você sabe. Para ver se causava alguma reação. Não vi reação nenhuma. Estava preocupado com a possibilidade de ele ter medo de mim, mas ele não parecia ter. Medo de mim; agora isso é engraçado. Eu o convidei para o andar de cima. Mostrei a ele. Eu tinha adotado alguns cães do abrigo, dois cães que eram amigos, e deixava os dois juntos numa jaula com bastante água, mas sem comida. Estava curioso com o que finalmente aconteceria. Mostrei a ele meu equipamento de laço corrediço, você sabe, asfixia auto-erótica, você meio que se enforca, mas não de verdade, é bom enquanto você... você entende?

— Entendo.

— Bom, ele pareceu não entender. Perguntou como funcionava e eu dis­se: você é um psiquiatra estranho em não saber disso, e ele disse... e nunca esquecerei do sorriso dele. Ele disse: “mostre”. Eu pensei: agora peguei você!

— E você mostrou a ele.

— Não sinto vergonha disso. Nós crescemos com nossos erros. Estou limpo. — Por favor, continue, Sr. Verger.

— Por isso baixei o nó corrediço na frente do meu espelho grande, co­loquei-o no pescoço e fiquei segurando a alavanca de liberação na minha mão, e com a outra fiquei me masturbando e atento à reação dele, mas não dava para perceber coisa alguma. Em geral consigo ler as pessoas. Ele estava sentado numa poltrona no canto do cômodo. Tinha as pernas cruzadas e os dedos trançados sobre o joelho. Em seguida, ele se levantou e enfiou a mão no bolso do paletó, todo elegante, como James Mason pegando um isquei­ro, e disse: “Quer um pouco de nitrito de amila?” Eu pensei: uau! Se ele me der um pouco agora vai ter que dar para sempre, para manter sua licença. Estou feito. Bom, se você ler o relatório, vai saber que era muito mais do que nitrito de amila.

— Pó-de-anjo com mais algumas anfetaminas e um pouco de ácido — disse Starling.

— E foi uau mesmo! Ele foi até o espelho em que eu estava me olhando, chutou a parte de baixo e pegou um estilhaço. Eu estava voando. Ele veio, me deu o pedaço de vidro e me olhou nos olhos, e sugeriu que talvez eu gostasse de arrancar a pele de meu rosto com ele. Em seguida soltou os cachorros. Eu os alimentei com meu rosto. Dizem que demorou muito tempo para tirar tudo. Não lembro. O Dr. Lecter quebrou meu pescoço com o nó da forca. Eles pegaram meu nariz de volta quando abriram o estômago dos cachorros no canil, mas o enxerto não funcionou.

Starling demorou mais do que o necessário para arrumar os papéis sobre a mesa.

— Sr. Verger, a sua família ofereceu a recompensa depois de o Dr. Lecter ter escapado da prisão em Memphis.

— É, um milhão de dólares. Um milhão. Nós anunciamos no mundo inteiro.

— E também se ofereceu para pagar por qualquer tipo de informação relevante, não somente pela prisão e a condenação. Vocês deveriam comparti­lhar essa informação conosco. Já fizeram isso.

— Não exatamente, mas não havia coisa boa para ser compartilhada.

— Como sabe? Vocês seguiram alguma pista?

— Só o bastante para saber que não valiam a pena. E por que devería­mos... vocês nunca nos contaram coisa alguma. Nós recebemos uma informa­ção de Creta que não valeu nada. E uma do Uruguai que nunca pudemos confirmar. Quero que entenda. Isto não é vingança, Srta. Starling. Eu perdoei o Dr. Lecter assim como o nosso Salvador perdoou os soldados romanos.

— Sr. Verger, o senhor deu a entender ao meu departamento que pode­ria ter alguma coisa agora.

— Olhe na gaveta da mesinha de canto.

Starling pegou as luvas de algodão branco em sua bolsa e calçou-as. Na gaveta havia um grande envelope de papel pardo. Era rígido e pesado. Tirou um raio X e o estendeu diante da luz forte sobre sua cabeça. O raio X era de uma mão esquerda que parecia ferida. Ela contou os dedos. Quatro mais o polegar.

— Olhe os metacarpos, sabe do que estou falando?

— Sei.

— Conte as articulações.

Cinco articulações. Contando com o polegar, essa pessoa tinha seis dedos na mão esquerda. Como o Dr. Lecter.

— Como o Dr. Lecter.

O canto onde deveria estar o número e a origem do raio X tinha sido cortado.

— De onde isso veio, Sr. Verger?

— Do Rio de Janeiro. Para descobrir mais, preciso pagar. Muito. Você pode me dizer se é o Dr. Lecter. Preciso saber se devo pagar.

— Tentarei, Sr. Verger. Faremos o máximo. O senhor tem o pacote no qual veio o raio X?

— Margot colocou num saco plástico, ela vai lhe dar. Se não se importa, Srta. Starling, estou exausto e preciso de alguns cuidados.

— O senhor receberá notícias de meu departamento, Sr. Verger. Starling não saíra há muito tempo do cômodo quando Mason Verger encostou o dente no tubo da extremidade e disse:

— Cordell?

O enfermeiro que estava na sala de brinquedos entrou e leu para ele algo de uma pasta onde estava escrito departamento de bem-estar infantil, cida­de de Baltimore.

— Franklin, não é? Mande Franklin entrar— disse Mason e apagou sua luz.

O menininho estava parado sozinho sob a luz forte da área de estar, for­çando a vista para a escuridão enorme.

E veio a voz sonora:

— Você é Franklin.

— Franklin — disse o garotinho.

— Com quem você mora, Franklin?

— Com mamãe, Shirley e Stringbean.

— Stringbean fica lá o tempo todo?

— Ele vem e vai.

— Você disse “ele vem e vai”?

— É.

— Mamãe não é sua mãe de verdade, é, Franklin?

— É minha mãe adotiva.

— Não é a primeira mãe adotiva que você teve, é?

— Não.

— Você gosta da sua casa, Franklin?

Ele se iluminou.

— Nós temos a Gatinha. Mamãe faz bolinhos no forno.

— Há quanto tempo você está lá, na casa da mamãe?

— Não sei.

— Você já fez aniversário lá?

— Uma vez eu fiz. Shirley fez Kool-Aid.

— Você gosta de Kool-Aid?

— De morango.

— Você ama a mamãe e Shirley?

— Amo, hã, e a Gatinha.

— Você quer morar lá? Você se sente seguro quando vai dormir?

— Hã-hã. Eu durmo no quarto com Shirley. Shirley é uma garota grande.

— Franklin, você não pode mais morar lá com mamãe, Shirley e a Gati­nha. Você tem de ir embora.

— Quem diz isso?

— O governo. Mamãe perdeu o emprego e a aprovação como mãe ado­tiva. A polícia encontrou um cigarro de maconha na sua casa. Você não vai poder mais ver mamãe depois deste fim de semana. Não vai poder mais ver Shirley nem a Gatinha depois deste fim de semana.

— Não — disse Franklin.

— Ou talvez elas só não queiram mais você, Franklin. Há alguma coisa errada com você? Você tem algum machucado ou alguma coisa feia? Acha que a sua pele é escura demais para que elas amem você?

Franklin levantou a camisa e olhou para sua barriguinha marrom. Balan­çou a cabeça. Estava chorando.

— Você sabe o que vai acontecer com a Gatinha? Qual é o nome da Gatinha?

— Ela chama ela de Gatinha, é o nome dela.

— Sabe o que vai acontecer com a Gatinha? Os policiais vão levar a Ga­tinha para o depósito público e o médico de lá vai dar uma injeção nela. Você já recebeu alguma injeção na creche? A enfermeira já deu uma injeção em você? Com uma agulha brilhante? Eles vão dar uma injeção na Gatinha. Ela vai fi­car muito apavorada quando olhar para a agulha. Eles vão enfiar a agulha e a Gatinha vai sentir dor e morrer.

Franklin pegou a beira da camisa e levantou-a na frente do rosto. Enfiou o polegar na boca, algo que não fazia há um ano, desde que a mamãe lhe pe­dira.

— Venha aqui — disse a voz vinda do escuro. — Venha aqui e vou lhe dizer como você pode impedir que a Gatinha receba uma injeção. Você quer que a Gatinha leve uma injeção, Franklin? Não? Então venha cá, Franklin.

Franklin, com os olhos jorrando, chupando o polegar, adiantou-se lenta­mente para o escuro. Quando estava a menos de dois metros da cama, Mason soprou sua gaita e as luzes se acenderam.

Por uma coragem inata, ou pelo desejo de ajudar a Gatinha, ou pelo co­nhecimento desamparado de que não tinha mais para onde fugir, Franklin não estremeceu, não correu. Ficou firme e olhou para o rosto de Mason.

A sobrancelha de Mason teria se franzido, se ele tivesse sobrancelha, dian­te desse resultado decepcionante.

— Você pode impedir que a Gatinha leve a injeção se você mesmo der um pouco de veneno de rato para a Gatinha — disse Mason. O T não soou, mas Franklin entendeu.

Franklin tirou o polegar da boca.

— Você é um bicho-papão mau e velho — disse Franklin. — E é feio também. — Em seguida girou e saiu da câmara, atravessando o corredor cheio de mangueiras enroladas, de volta à sala de brinquedos.

Mason observou-o pelo vídeo. O enfermeiro olhou para o garoto, olhou-o atentamente enquanto fingia ler sua Vogue. Franklin não se importava mais com os brinquedos. Foi sentar-se debaixo da girafa, olhando para a parede. Era tudo o que ele podia fazer para não chupar o polegar.

Cordell observou-o atentamente procurando lágrimas. Quando viu os ombros do menino sacudindo-se, o enfermeiro foi até ele e enxugou gentil­mente as lágrimas com gaze esterilizada. Em seguida, colocou as gazes úmidas na taça de martíni de Mason, que esfriava na geladeira da sala de brinquedos, ao lado do suco de laranja e das Cocas.

 

Não era fácil encontrar informações médicas sobre o Dr. Hannibal Lecter. Quando se considera seu absoluto desprezo pela instituição médica e pela maioria dos profissionais de medicina, não é surpreendente que ele jamais ti­vesse tido um médico pessoal.

O Manicômio Judiciário de Baltimore, onde o Dr. Lecter foi mantido até sua desastrosa transferência para Memphis, era agora um prédio depredado esperando a demolição.

A polícia estadual do Tennessee tinha sido a última guardiã do Dr. Lecter antes de sua fuga, mas lá eles afirmaram que jamais tinham recebido seus re­gistros médicos. Os policiais que o haviam trazido de Baltimore para Memphis, agora falecidos, tinham trazido o prisioneiro, e nenhum registro médico.

Starling passou um dia ao telefone e diante do computador, depois fez uma busca nas salas de depósito de provas em Quantico e no edifício J. Edgar Hoover. Ficou subindo pela gigantesca sala de provas do Departamento de Polícia de Baltimore, empoeirada e fétida, durante toda uma manhã, e passou uma tarde enlouquecedora lidando com a coleção Hannibal Lecter, não cata­logada, na biblioteca jurídica Fitzhugh Memorial, onde o tempo se imobiliza enquanto os zeladores tentam localizar as chaves.

No final ela ficou com uma única folha de papel — o exame físico super­ficial feito no Dr. Lecter quando ele foi preso pela primeira vez pela polícia estadual de Maryland. Não havia qualquer histórico médico anexo.

Inelle Corey tinha sobrevivido à transferência do Manicômio Judiciário de Baltimore e passado para coisas melhores na Comissão Estadual de Hospi­tais de Maryland. Não queria ser entrevistada por Starling em seu escritório, por isso as duas se encontraram numa cafeteria do térreo.

A prática de Starling era chegar cedo às reuniões e observar de longe o ponto de encontro. Corey foi absolutamente pontual. Tinha uns 35 anos, era gorda e pálida, sem maquiagem ou jóias. O cabelo ia quase até a cintura, como ela usava no segundo grau, e calçava sandálias brancas com meias para varizes.

Starling pegou pacotinhos de açúcar no balcão e olhou enquanto Corey sentava-se à mesa em que haviam combinado.

Você pode ter a idéia errada de que todos os protestantes são parecidos. Não é bem isso. Assim como uma pessoa do Caribe freqüentemente pode identificar uma ilha específica, Starling, criada por luteranos, olhou para sua mulher e disse para si mesma: Igreja de Cristo, no máximo talvez uma Nazarena.

Starling tirou suas jóias, uma pulseira simples e um brinco de ouro, e co­locou na bolsa. Seu relógio era de plástico, tudo bem. Não podia fazer muita coisa quanto ao resto da aparência.

— Inelle Corey? Quer um pouco de café?— Starling estava trazendo dois copos.

— Pronuncia-se Eynelle. Eu não bebo café.

— Eu bebo os dois, quer alguma outra coisa? Sou Clarice Starling.

— Não quero nada. Quer me mostrar alguma foto?

— De modo algum — disse Starling. — Srta. Corey... posso chamar você de Inelle?

A mulher deu de ombros.

— Inelle, preciso de ajuda numa questão que na verdade não a envolve pessoalmente. Só preciso de orientação para encontrar alguns registros do Manicômio Judiciário de Baltimore.

Inelle Corey fala com precisão exagerada para exprimir retidão ou raiva.

— Nós passamos por tudo isso com a Comissão Estadual, na época do fechamento, Srta...

— Starling.

— Srta. Starling. Você descobrirá que nenhum paciente saiu daquele hospital sem uma pasta. Descobrirá que nenhuma pasta saiu daquele hospital sem ser aprovada por um supervisor. Quanto aos falecidos, o departamento de saúde não precisava das pastas deles, o Bureau de Estatísticas Vitais não queria as pastas deles e, pelo que sei, as pastas mortas, isto é, as pastas dos falecidos, continuaram no hospital de Baltimore depois de meu afastamento, e eu fui praticamente a última a sair. O material dos evadidos ia para a Polícia Municipal e o Departamento do Xerife.

— Evadidos?

— Isso é quando alguém foge. Algumas vezes os internos fugiam.

— O Dr. Hannibal Lecter seria considerado um evadido? Você acha que os registros dele podem ter ido para a polícia?

— Ele não foi um evadido. Ele jamais foi considerado evadido de nossas instalações. Ele não estava sob nossa custódia quando fugiu. Fui lá embaixo e olhei para o Dr. Lecter uma vez, mostrei-o para minha irmã quando ela esteve aqui com os meninos. Eu me sinto meio malévola e fria quando penso nisso. Ele provocou um daqueles outros para jogar um pouco de — ela baixou a voz — porra em cima de nós. Sabe o que é isso?

— Já ouvi a palavra — disse Starling. — Por acaso foi o Sr. Miggs? Ele tinha boa pontaria.

— Afastei isso da minha mente. Lembro de você. Você foi ao hospital e falou com Fred, o Dr. Chilton, e desceu lá naquele porão com Lecter, não foi?

— Foi.

O Dr. Frederick Chilton era diretor do Manicômio Judiciário de Baltimore, que desapareceu enquanto estava de férias depois da fuga do Dr. Lecter.

— Você sabe que Fred desapareceu.

— É, ouvi falar.

A Srta. Corey produziu lágrimas rápidas, brilhantes.

— Ele era meu noivo — disse ela. — Ele sumiu e depois o hospital foi fechado, foi como se o teto tivesse caído em cima de mim. Se eu não tivesse minha igreja, não suportaria.

— Sinto muito. Agora você tem um bom emprego.

— Mas não tenho Fred. Ele era um homem ótimo, ótimo. Nós tínhamos um amor, um amor que não se encontra todo dia. Ele foi eleito Rapaz do Ano em Canton, quando estava no segundo grau.

— Deixe-me fazer uma pergunta, Inelle. O Dr. Frederick mantinha os registros na sala dele, ou na recepção, onde ficava sua mesa...

— Ficavam nos armários de parede da sala dele, e eram tantos que tínha­mos outros arquivos grandes na área de recepção. Estavam sempre trancados, claro. Quando nos mudamos, eles foram colocados temporariamente na clí­nica de metadona, e um bocado de material ficou circulando de um lado para o outro.

— Alguma vez você viu e manuseou o dossiê do Dr. Lecter?

— Claro.

— Lembra de ter visto algum raio X nele? As radiografias eram arquiva­das junto com os relatórios médicos ou separadamente?

— Junto. Eram arquivados juntos. Eles eram maiores do que as pastas, e isso atrapalhava. Tínhamos um aparelho de raio X, mas não havia radiologista em tempo integral para manter um arquivo separado. Honestamen­te, não lembro se havia um raio X no material dele ou não. Havia uma fita de eletrocardiograma que Fred costumava mostrar às pessoas. O Dr. Lecter, nem quero chamá-lo de doutor, estava todo preso no eletrocardiógrafo quan­do pegou aquela pobre enfermeira. Veja bem, foi uma coisa maluca. A pul­sação dele nem aumentou muito quando atacou a mulher. Ele teve o ombro destroncado quando todos os auxiliares, você sabe, o agarraram e arranca­ram de cima dela. Tiveram de fazer um raio X por causa disso. Eles teriam causado muito mais do que um ombro destroncado se eu tivesse alguma coisa a dizer a respeito.

— Se você pensar em algum lugar, em algum lugar em que possa estar o dossiê, você me telefonaria?

— Faremos o que chamamos de busca global — disse a Srta. Corey, sa­boreando a palavra —, mas não creio que encontraremos alguma coisa. Mui­to material foi simplesmente abandonado, não por nós, mas pelo pessoal da clínica.

Os copos de café tinham o tipo de borda grossa que faz o líquido escorrer pelos lados. Starling ficou olhando Inelle Corey afastar-se pesadamente como se fosse a própria opção do inferno, e tomou meio copo com o lenço enfiado debaixo do queixo.

Starling foi voltando a si. Sabia que estava cansada de alguma coisa. Tal­vez fosse de besteiras, pior do que de besteiras, talvez da falta de estilo. Da indiferença às coisas que agradam ao olhar. Talvez ansiasse por um pouco de estilo. Até mesmo um estilo de rainha do esnobismo era melhor do que nada, era uma declaração, quer você quisesse ouvi-la ou não.

Examinou-se em busca de esnobismo e decidiu que tinha muito pouca coisa para esnobar. Depois, pensando em estilo, lembrou-se de Evelda Drumgo, que tinha muito. Com esse pensamento, outra vez Starling desejou ardente­mente sair de si mesma.

 

E assim Clarice Starling voltou ao lugar onde tudo começou para ela, o Ma­nicômio Judiciário Estadual de Baltimore, agora defunto. O velho prédio mar­rom, casa da dor, está acorrentado e trancado, cheio de pichações e esperando os tratores da demolição.

O lugar já vinha afundando há anos antes de seu diretor, o Dr. Frederick Chilton, desaparecer durante as férias. Revelações subseqüentes de des­perdício e má administração e a decrepitude do prédio logo fizeram com que o legislativo cortasse as verbas. Alguns pacientes foram levados para outras instituições estaduais, alguns morreram e outros caminhavam pe­las ruas de Baltimore como zumbis da Thorazine num programa mal con­cebido de ambulatório externo, que levou mais de um deles a morrer con­gelado.

Esperando na frente do velho prédio, Clarice Starling percebeu que tinha esgotado primeiro as outras possibilidades porque não queria voltar a esse local.

O zelador estava 45 minutos atrasado. Era um homem velho e atarracado, usando um dos sapatos com sola de plataforma, barulhento, e um corte de cabelo do Leste europeu que podia ter sido feito em casa. Seu peito chiava enquanto ele ia guiando-a até uma porta lateral, alguns degraus abaixo da calçada. A fechadura tinha sido arrancada por ladrões, e a porta estava presa com uma corrente e dois cadeados. Havia teias de aranha nos elos da corren­te. O capim que crescia nas rachaduras dos degraus pinicava os tornozelos de Starling enquanto o zelador procurava as chaves. O final de tarde estava com céu pesado, a luz granulosa e sem sombras.

— Não conheço bem esse prédio, só verifico os alarmes de incêndio — disse o homem.

— O senhor sabe se há algum papel guardado aqui? Algum arquivo, al­gum registro?

Ele deu de ombros.

— Depois do hospital, a Clínica de Metadona ficou aqui alguns meses. Eles colocaram tudo no porão, umas camas, uns lençóis, não sei o que era. Aqui é ruim para minha asma, o mofo, mofo muito ruim. Os colchões nas camas estavam mofados, mofo ruim nas camas. Não dá para respirar lá em­baixo. As escadas são ruins para a minha perna. Eu mostraria para a senho­ra, mas...?

Starling teria gostado de companhia, mesmo dele, mas o sujeito iria fazer com que ela andasse devagar.

— Agora pode ir. Onde fica a sua sala?

— No final do quarteirão, onde antigamente ficava o departamento de licença para motoristas.

— Se eu não voltar em uma hora... Ele olhou para o relógio.

— Eu devo sair em meia hora. De jeito nenhum.

— O que o senhor fará por mim é esperar pelas suas chaves em sua sala. Se eu não voltar em uma hora, ligue para o número que está neste cartão e mostre para eles aonde eu fui. Se não estiver lá quando eu sair; se tiver fecha­do a sala e ido para casa, informarei pessoalmente ao seu supervisor amanhã de manhã. Além disso... além disso, o senhor passará por uma auditoria do imposto de renda e sua situação será revista pelo Bureau de Imigração e... Naturalização. Está entendendo? Eu gostaria de uma resposta, senhor.

— Eu esperaria pela senhora, claro. Não precisa dizer essas coisas.

— Muito obrigada, senhor.

O zelador pôs as mãos grandes no corrimão para içar-se ao nível da calça­da, e Starling ouviu seu passo irregular afastar-se até o silêncio. Ela empurrou a porta e entrou num patamar da escada de incêndio. Janelas altas e gradeadas no poço da escada deixavam entrar a luz cinzenta. Ela pensou se deveria tran­car a porta, e decidiu dar um nó na corrente pelo lado de dentro, de modo que pudesse abri-la se perdesse a chave.

Nas idas anteriores ao asilo, para entrevistar o Dr. Hannibal Lecter, ela ti­nha entrado pela porta principal, e agora demorou um tempo para se orientar.

Subiu a escada de incêndio até o andar principal. As janelas de vidro fosco cortavam a luz do dia, e o cômodo estava em semi-escuridão. Com sua lanter­na pesada, Starling encontrou um interruptor e acendeu a luz, três lâmpadas ainda funcionando numa luminária quebrada. As extremidades partidas dos fios de telefone estavam sobre a mesa de recepção.

Vândalos com latas de tinta spray haviam entrado no prédio. Um falo de três metros de altura, com testículos, decorava a parede da sala de recepção, junto com a inscrição: a mãe de faron toca punheta em mim.

A porta da sala do diretor estava aberta. Starling parou na entrada. Foi ali que ela havia chegado em sua primeira tarefa para o FBI, quando ainda estava em treinamento, ainda acreditava em tudo, ainda pensava que se a pessoa pudesse fazer o serviço, se pudesse resolvê-lo, seria aceita, independentemen­te de raça, credo, cor, nacionalidade ou se era ou não gente fina. De tudo isso lhe restava apenas um ponto de fé. Ela acreditava que poderia fazer o serviço.

Ali, Chilton, o diretor do hospital, tinha lhe estendido a mão gordurosa e dado em cima dela. Ali ele tinha trocado segredos, espiado e, acreditando ser tão inteligente quanto Hannibal Lecter, tomado as decisões que permitiram Lecter escapar com um banho de sangue tão grande.

A mesa de Chilton continuava na sala, mas não havia cadeira, já que era suficientemente pequena para ser roubada. As gavetas estavam vazias, a não ser por um Alka-Seltzer esmagado. Dois arquivos permaneciam na sala. Ti­nham fechaduras simples e a ex-agente técnica Starling abriu-as em menos de um minuto. Um sanduíche ressecado num saco de papel e alguns formulários para a clínica de metadona estavam na gaveta de baixo, junto com refrescante bucal e um tubo de tônico capilar, um pente e algumas camisinhas.

Starling pensou no porão do asilo, parecido com uma masmorra, onde o Dr. Lecter tinha vivido durante oito anos. Não queria descer até lá. Podia usar seu celular e pedir uma unidade da polícia municipal para descer com ela. Podia pedir ao escritório de campo de Baltimore para mandar outro agente do FBI com ela. A tarde cinzenta já ia avançada, e não havia como, mesmo agora, evitar a hora do rush em Washington. Se esperasse, seria pior.

Apoiou-se na mesa de Chilton, apesar da poeira, e tentou decidir. Será que realmente achava que poderia haver dossiês no porão, ou será que se sen­tia atraída ao primeiro lugar em que tinha visto Hannibal Lecter?

Se a carreira de Starling no serviço policial tinha lhe ensinado alguma coisa sobre si própria, era o seguinte: ela não buscava emoções, e ficaria feliz se nunca sentisse medo de novo. Mas poderia haver documentos no porão. Ela poderia descobrir isso em minutos.

Dava para lembrar o barulho das portas de segurança máxima quando tinha descido lá há anos. Para o caso de alguém fechar uma delas dessa vez, depois que ela passasse, ligou para o escritório de campo de Baltimore, disse onde estava e combinou telefonar de volta dentro de uma hora, para dizer se havia saído.

As luzes estavam funcionando na escada interna, onde há anos Chilton a havia levado até o porão. Ali ele explicara os procedimentos de segurança usa­dos com Hannibal Lecter, e ali ele havia parado, debaixo daquela luz, para mostrar a foto na carteira, a foto da enfermeira cuja língua o Dr. Lecter havia comido durante uma tentativa de exame físico. Se o ombro do Dr. Lecter ti­nha sido deslocado enquanto o dominavam, certamente haveria um raio X.

Um sopro de ar na escada tocou sua nuca, como se houvesse uma janela aberta em algum lugar.

Havia uma caixa de hambúrguer do McDonalds no patamar e guardanapos de papel espalhados. Um copo sujo de feijão. Comida para viagem. Al­guns cagalhões e guardanapos de papel no canto. A luz terminava no final da escada, antes da grande porta de aço para a ala dos violentos, agora aberta e presa com um gancho junto à parede. A lanterna de Starling tinha cinco pi­lhas tamanho D e lançava um facho bastante amplo.

Apontou-a para o corredor comprido da antiga unidade de segurança máxima. Havia alguma coisa grande na extremidade mais distante. Era fantasmagórico ver as portas das celas abertas. O chão estava cheio de papel de pão e copos. Sobre a antiga mesa do auxiliar havia uma lata de refrigerante, escurecida pelo uso como cachimbo de crack.

Starling apertou os interruptores atrás do posto do auxiliar de enferma­gem. Nada. Pegou seu telefone celular. A luz vermelha parecia muito forte em meio à escuridão. O telefone era inútil no subterrâneo, mas ela falou alto para ele.

— Barry, coloque a caminhonete na entrada lateral. Traga uma luz de serviço. Você vai precisar de uns carrinhos para levar esse material escada aci­ma... Sim, desça.

Em seguida, gritou para a escuridão:

— Atenção aí. Sou da polícia federal. Se vocês estão morando aqui ile­galmente, estão livres para sair. Não vou prendê-los. Não estou interessada em vocês. Se voltarem depois de eu terminar meus negócios, isso não me in­teressa. Vocês podem sair agora. Se tentarem interferir comigo sofrerão sérios danos pessoais quando eu acertar uma bala na sua bunda. Obrigada.

Sua voz ecoou pelo corredor onde tantos haviam falado sem parar até fi­carem roucos e mordiam as barras quando ficavam sem dentes.

Starling lembrou-se da presença tranqüilizadora do grande auxiliar de enfermagem, Barney, quando ela tinha vindo entrevistar o Dr. Lecter. A cor­tesia curiosa com que Barney e o Dr. Lecter se tratavam mutuamente. Nada do Barney agora. Alguma coisa da época de escola chocou-se na sua cabeça e, por disciplina, ela se obrigou a lembrar.

 

Passos ecoam na memória.

Descendo a passagem que não tomamos

Em direção à porta que jamais abrimos

Para o jardim de rosas.

Jardim de rosas, certo. Sem dúvida isto não era de jeito algum o jardim de rosas.

Starling, que em editoriais recentes tinha sido encorajada a odiar sua arma tanto quanto a si própria, descobriu que o toque da pistola não era odioso quando ela estava inquieta. Segurou a 45 de encontro à coxa e começou a andar pelo corredor, atrás da lanterna. E difícil vigiar os dois flancos ao mesmo tem­po, e é imperativo não deixar alguém atrás de você. Água pingava em algum lugar.

Camas desmontadas e empilhadas nas celas. Em outras, colchões. A água ficava no centro do corredor e Starling, sempre preocupada com os sapatos, pisava num lado e no outro da poça estreita enquanto seguia. Lembrou-se do conselho de Barney há anos, quando todas as celas estavam ocupadas.

Fique no meio.

Arquivos, certo. No centro do corredor, bem no final, um verde-oliva opaco no facho da lanterna.

Ali estava a cela que tinha sido ocupada pelo Múltiplo Miggs, pela qual mais odiava passar. Miggs, que sussurrava imundícies para ela e arremessava fluidos corporais. Miggs, que o Dr. Lecter matou instruindo-o a engolir a pró­pria língua vil. E quando Miggs morreu, Sammie passou a morar na cela, Sammie, cuja poesia o Dr. Lecter encorajava com um efeito espantoso sobre o poeta. Mesmo agora ela podia ouvir Sammie uivando seus versos.

 

                   QUERO IR PRA JERUSALÉM

                   QUERO IR COM O MAIORAL

                   POSSO IR COM JESUS ALÉM

                   SE EU FOR UM CARA LEGAL

 

Ela ainda tinha o laborioso texto em craiom, em algum lugar. Agora a cela estava cheia de colchões empilhados e trouxas de roupas de cama.

E finalmente, a cela do Dr. Lecter.

A mesa forte onde ele costumava ler ainda estava aparafusada no chão no meio do cômodo. Não havia mais as prateleiras que guardavam seus livros, mas os suportes continuavam presos às paredes.

Starling deveria ir para os arquivos, mas estava fixa na cela. Ali teve o en­contro mais notável de sua vida. Ali foi espantada, chocada, surpreendida.

Ali ouviu coisas a respeito de si própria, tão terrivelmente verdadeiras que seu coração ressoava como um sino grande e profundo.

Queria entrar. Queria entrar. Queria como queremos saltar de varandas altas, como o brilho dos trilhos nos tentam quando ouvimos o trem que se aproxima.

Starling girou a lanterna, olhou para a parte de trás da fileira de arquivos, passou a luz pelas celas próximas.

A curiosidade fez com que atravessasse a passagem. Ficou no meio da cela onde o Dr. Hannibal Lecter tinha passado oito anos. Ocupou o espaço dele, onde o viu de pé, e esperou sentir arrepios, mas não sentiu. Colocou o revól­ver e a lanterna sobre a mesa dele, com cuidado para que a lanterna não rolas­se, e pôs as mãos chapadas sobre a mesa, e debaixo das mãos sentiu apenas migalhas.

No geral, o efeito foi decepcionante. A cela estava tão vazia de seu ex-ocu­pante como a pele descartada de uma cobra. Então Starling pensou que tinha entendido alguma coisa: a morte e o perigo não precisam vir com armadilhas. Elas podem chegar no hálito doce de seu amado. Ou numa tarde ensolarada no mercado de peixes com La Macarena tocando numa caixa de som.

Aos negócios. Havia quase três metros de arquivos, quatro arquivos no total, até a altura do queixo. Cada um com cinco gavetas, com uma única fechadura de quatro pinos ao lado da gaveta de cima. Nenhuma estava trancada. Todas cheias de dossiês, alguns gordos, todos em pastas. Velhas pastas de pa­pel marmorizado que tinham ficado frouxas com o tempo, e outras novas, de papel pardo. Dossiês sobre a saúde de homens mortos, datando da fundação do hospital em 1932. Estavam aproximadamente em ordem alfabética, com algum material empilhado atrás das pastas nas gavetas compridas. Starling folheou rapidamente, segurando a lanterna pesada no ombro, caminhando com os dedos da mão livre através das pastas, desejando ter trazido uma lan­terna pequena que pudesse segurar entre os dentes. Assim que percebeu a or­ganização das pastas, podia pular gavetas inteiras, passando pelos Js, pelos muito poucos Ks, chegando ao L e bam: Lecter, Hannibal.

Tirou a pasta comprida de papel pardo, tateou imediatamente em busca da rigidez de um negativo de raio X, colocou a pasta em cima das outras e abriu-a para encontrar a história da saúde do falecido I. J. Miggs. Que droga. Miggs iria perturbá-la do outro lado da sepultura. Colocou a pasta em cima do armário e foi depressa até os Ms. A pasta de papel pardo de Miggs estava lá, em ordem alfabética. Vazia. Erro de arquivamento? Será que alguém por aci­dente colocou os registros de Miggs na pasta de Hannibal Lecter? Ela folheou todos os Ms procurando um dossiê sem pasta. Voltou para os Js. Consciente de um incômodo cada vez maior. O cheiro do lugar a incomodava ainda mais. O zelador estava certo, era difícil respirar neste local. Estava na metade dos Js quando percebeu que o fedor ia... aumentando rapidamente.

Um barulho fraco na poça, atrás, e ela girou, com a lanterna preparada para um golpe, a mão entrando rápida no blazer, em direção à coronha da arma. Um homem alto, vestido em trapos imundos, estava no facho da luz, com um dos pés enormes e inchados na água. Uma das mãos dele estava esticada ao lado do corpo. A outra segurava um pedaço de prato quebrado. Uma das pernas e os dois pés estavam enrolados com tiras de lençol.

— Olá — disse ele, a língua grossa cheia de sapinho. A quase dois metros de distância Starling podia sentir o mau hálito. Atrás do paletó a mão dela afastou-se da pistola para o spray de Mace.

— Olá — disse Starling. — Por favor, pode ficar ali encostado nas barras?

O homem não se mexeu.

— Você é Jesus? — perguntou ele.

— Não — disse Starling. — Não sou Jesus. — A voz. Starling lembrava-se da voz.

— Você é Jesus! — O rosto dele estava se retorcendo. Aquela voz. Ande, pense.

— Olá, Sammie — disse ela. — Como vai? Eu estava pensando agora mesmo em você.

O que é que tinha o Sammie? A afirmação, apanhada depressa, não estava exatamente em ordem. Colocou a cabeça da mãe no prato da coleta enquanto as pessoas na igreja cantavam “Dê o melhor que você tem para o senhor”. Disse que era a melhor coisa que ele tinha. A Igreja Batista de algum lugar. Com raiva, disse o Dr. Lecter, porque Jesus demora tanto.

— Você é Jesus? — perguntou Sammie, dessa vez implorando Ele en­fiou a mão no bolso e pegou uma guimba de cigarro, boa, com mais de cinco centímetros. Colocou-a no pedaço de prato e estendeu-a em oferenda.

— Sammie, sinto muito, eu não sou. Eu...

Sammie subitamente lívido, furioso porque ela não é Jesus, a voz ressoan­do no corredor úmido.

 

                         QUERO IR PRA JERUSALÉM

                         QUERO IR COM O MAIORAU

 

Ele ergueu o pedaço de prato, a ponta afiada parecendo uma picareta, e deu um passo na direção de Starling, agora com os dois pés na água e o rosto contorcido, a mão livre agarrando o ar entre os dois.

Ela sentiu os arquivos duros nas costas.

— VOCÊ PODE IR COM JESUS ALÉM... SE FOR UM CARA LEGAL — recitou Starling, alto e claro como se gritasse para ele de um lugar distante.

— É — disse Sammie, calmo, e parou.

Starling enfiou a mão na bolsa, encontrou sua barra de chocolate.

— Sammie, eu tenho um Snickers. Você gosta de Snickers?

Ele ficou quieto. Ela colocou o Snickers numa pasta de papel pardo e es­tendeu-a como ele havia estendido o prato.

Ele deu a primeira mordida antes de tirar a embalagem, cuspiu o papel e mordeu de novo, comendo metade da barra.

— Sammie, mais alguém esteve aqui embaixo?

Ele ignorou a pergunta, colocou o resto da barra de chocolate no prato e desapareceu atrás de uma pilha de colchões em sua antiga cela.

— Que diabo é isso? — Uma voz de mulher. — Obrigada, Sammie.

— Quem é você? — gritou Starling.

— Não é da sua conta.

— Você mora aqui com Sammie?

— Claro que não. Só estou aqui namorando. Você não podia deixar nós sozinhos?

— Podia. Responda a minha pergunta. Há quanto tempo você está aqui?

— Duas semanas.

— Alguém mais esteve aqui?

— Uns vagabundos que Sammie expulsou.

— Sammie protege você?

— Mexa comigo e você vai descobrir. Eu consigo andar muito bem. Consigo coisa para comer, ele tem um lugar seguro para comer. Um monte de gente faz trato desse jeito.

— Algum de vocês dois participa de um programa de auxílio em algum lugar? Querem participar? Posso dar uma ajuda.

— Ele já fez tudo isso. Você vai para o mundo, faz aquela merda toda e volta pras coisas que conhece. O que você tá procurando? O que quer?

— Uns documentos.

— Se não está aí, alguém roubou. É preciso ser inteligente pra descobrir isso?

— Sammie? — disse Starling. — Sammie? Sammie não respondeu.

— Ele tá dormindo — disse a amiga.

— Se eu deixar um dinheiro aqui, vocês vão comprar comida?

— Não, vou comprar bebida. A gente pode achar comida. Não pode achar bebida. Não deixe a maçaneta prender na sua bunda quando sair.

— Vou colocar o dinheiro na mesa.

Starling sentia vontade de correr, lembrava-se de quando deixou o Dr. Lecter, lembrava-se de se abraçar enquanto ia na direção do que, na época, era a ilha calma do organizado posto de Barney.

À luz da escada, pegou uma nota de vinte dólares na carteira. Colocou o dinheiro sobre a mesa arranhada e abandonada de Barney e prendeu-o com uma garrafa de vinho vazia. Desdobrou uma bolsa de compras de plástico e colocou dentro a pasta de Lecter contendo os registros de Miggs e a pasta vazia de Miggs.

— Tchau. Tchau, Sammie — gritou para o homem que girara pelo mundo e voltara para o inferno que conhecia. Queria lhe falar que esperava que Jesus viesse em breve, mas parecia idiota demais para dizer.

Subiu de novo para a luz, para continuar seu giro pelo mundo.

 

Se existem paradas no caminho do inferno, elas devem se parecer com a en­trada de ambulâncias do Hospital Geral da Misericórdia de Maryland. Acima do uivo agonizante das sirenes, dos uivos dos agonizantes, do barulho das maças gotejantes, dos gritos e berros, as colunas de vapor saindo dos bueiros, tingi­das de vermelho por um grande letreiro de néon anunciando emergência, sobem como o pilar de fogo de Moisés na escuridão e transformam-se em nuvem no dia.

Barney saiu do vapor, encolhendo os ombros fortes para dentro do pa­letó, a cabeça redonda e de cabelos curtos inclinada para a frente enquanto percorria a calçada cheia de rachaduras em direção ao leste, em direção à manhã.

Estava 25 minutos atrasado na saída do trabalho — a polícia tinha trazi­do um cafetão drogado, que gostava de brigar com mulheres. Tinha sido ba­leado e o enfermeiro-chefe lhe pediu que ficasse. Eles sempre pediam a Barney que ficasse quando recebiam um paciente violento.

Clarice Starling olhava para Barney de dentro do capuz de seu casaco e deu-lhe uma dianteira de meio quarteirão do outro lado da rua antes de colocar a bolsa de lona no ombro e ir atrás. Quando ele passou pelo estacio­namento e pelo ponto de ônibus, ela ficou aliviada. Seria mais fácil seguir Barney a pé. Não tinha certeza de onde ele morava, e precisava saber antes que ele a visse.


A vizinhança atrás do hospital era calma, ocupada por operários e com mistura racial. Um bairro onde você colocava uma tranca de direção no carro mas não precisava levar a bateria para casa à noite, e onde as crianças podiam brincar do lado de fora.

Depois de três quarteirões, Barney esperou que um furgão liberasse um cruzamento e virou para o norte numa rua de casas estreitas, algumas com escadas de mármore e jardins bem arrumados na frente. As poucas vitrines vazias estavam intactas, com os vidros limpos. As lojas começavam a abrir e havia algumas pessoas na rua. Caminhões estacionados durante a noite nos dois lados da rua bloquearam a visão de Starling durante meio minuto, e ela alcançou Barney antes de perceber que ele havia parado. Estava diante dele, do outro lado da rua, quando o viu. Talvez ele também a tivesse visto, não dava para ter certeza.

Ele estava parado com as mãos no bolso do paletó, a cabeça para a fren­te, olhando por baixo das sobrancelhas para alguma coisa que se movia no centro da rua. Havia um pombo morto na rua, uma das asas balançada pela brisa dos carros que passavam. O companheiro do pássaro morto o rodeava repetidamente, inclinando um olho na direção dele, a cabeça pe­quena balançando a cada passo dos pés rosados. Rodeando e rodeando, com o murmúrio baixo dos pombos. Vários carros e um furgão passaram. O pássaro sobrevivente mal se desviava do tráfego com curtos vôos de úl­timo minuto.

Talvez Barney tivesse erguido o olhar para ela, Starling não tinha certeza. Precisava continuar, ou seria vista. Quando olhou por sobre o ombro, Barney estava agachado no meio da rua, o braço erguido para o trânsito.

Ela virou a esquina, saindo de vista, tirou o casaco com gorro, pegou na bolsa de lona um suéter, um boné de beisebol e uma bolsa de ginástica, e se trocou rapidamente, enfiando o casaco e a bolsa de lona na bolsa de ginástica, e escondendo o cabelo no boné. Acertou o passo com algumas faxineiras que iam para casa e virou de novo a esquina para a rua de Barney.

Ele estava com o pombo morto nas mãos. O parceiro do pássaro voou com barulho de asas até os fios de eletricidade e ficou vigiando. Barney colocou o pássaro morto num gramado e ajeitou suas penas. Ergueu o rosto largo para o pássaro que estava no fio e disse alguma coisa. Quando ele continuou seu cami­nho, o sobrevivente do casal desceu e continuou a circular o corpo, andando no meio da grama. Barney não olhou para trás. Quando subiu a escada de um pequeno prédio de apartamentos, cem metros adiante, e pegou as chaves, Starling correu por meio quarteirão para alcançá-lo antes que abrisse a porta.

— Barney. Oi.

Ele virou na escada sem muita pressa e encarou-a. Starling havia esqueci­do que os olhos de Barney eram estranhamente separados. Viu a inteligência que havia neles e sentiu o pequeno estalo eletrônico da conexão.

Ela tirou o boné e deixou os cabelos caírem.

— Sou Clarice Starling. Lembra? Eu...

— A agente federal — disse Barney, sem expressão. Starling juntou as mãos e confirmou com a cabeça.

— Bom, é, eu sou a agente. Barney, preciso falar com você. É só infor­mal, preciso perguntar umas coisas.

Barney desceu a escada. Quando parou na calçada diante de Starling, ela ainda precisava erguer a cabeça para olhá-lo. Não se sentia ameaçada por seu tamanho, como um homem ficaria.

— Só para constar, agente Starling. você concorda que ainda não leu os meus direitos? — A voz dele era alta e áspera como a do Tarzan de Johnny Weismuller.

— Totalmente. Eu não li seus direitos. Reconheço.

— Que tal dizer isso para a sua bolsa?

Starling abriu a bolsa e falou para dentro dela, numa voz alta como se ali dentro houvesse um bicho-papão:

— Eu não li os direitos de Barney, ele não tem consciência de seus di­reitos.

— Há um café bastante bom ali adiante — disse Barney. — Quantos chapéus você tem nessa bolsa? — perguntou ele enquanto caminhavam.

— Três.

Quando passou o furgão com placas de deficiente físico, Starling perce­beu que os ocupantes a olhavam, mas os deficientes costumam sentir tesão, como é de seu direito. Os rapazes que ocupavam um carro no cruzamento seguinte também a olharam, mas não disseram nada por causa de Barney. Qualquer coisa que se estendesse das janelas teria atraído a atenção instantâ­nea de Starling — ela estava atenta para a vingança dos Crips, mas os olhares de cobiça podem ser suportados.

Quando entrou com Barney na cafeteria, o furgão entrou de ré num beco para manobrar e voltou para a direção de onde viera.

Tiveram de esperar a liberação de um reservado na lanchonete cheia en­quanto o garçom gritava em indiano para o cozinheiro, que manuseava a car­ne com pinças compridas e uma expressão de culpa.

— Vamos comer — disse Starling quando se sentaram. — Por conta do Tio Sam. Como vão as coisas, Barney?

— O serviço é bom.

— O que você faz?

— Sou auxiliar de enfermagem.

— Eu achava que agora você seria um enfermeiro registrado, ou talvez estivesse estudando medicina.

Barney deu de ombros e estendeu a mão para o bule de leite. Em seguida, olhou para Starling.

— Eles sacanearam você por ter atirado em Evelda?

— Veremos isso. Você a conhecia?

— Vi uma vez, quando levaram o marido dela, Dijon, para a Emer­gência. Ele estava morto, sangrou até morrer antes mesmo de ser posto na ambulância. Estava vazando líquido intravenoso transparente quando chegou. Ela não queria deixá-lo e tentou brigar com as enfermeiras. Eu precisei... você sabe... mulher bonita, e forte também. Não foi trazida para cá depois do...

— Não, ela foi declarada morta no local.

— Foi o que pensei.

— Barney, depois de você entregar o Dr. Lecter ao pessoal do Tennessee...

— Não foram educados com ele.

— Depois de você...

— E agora estão todos mortos.

— É. Os guardiães conseguiram ficar vivos por três dias. Você durou oito anos cuidando do Dr. Lecter.

— Foram seis anos; ele estava lá antes de eu chegar.

— Como conseguiu isso, Barney? Se não se importa de eu perguntar, como conseguiu durar tanto com ele? Não foi só por ser educado.

Barney olhou para o próprio reflexo na colher, primeiro convexo, depois côncavo, e pensou por um instante.

— O Dr. Lecter tinha modos perfeitos, não era rígido, era tranqüilo e elegante. Eu estava fazendo uns cursos por correspondência, e ele comparti­lhou sua mente comigo. Isso não quer dizer que ele não me mataria a qual­quer segundo se tivesse chance; uma qualidade numa pessoa não exclui qual­quer outra. Elas podem existir lado a lado, as boas e as terríveis. Sócrates disse de modo muito melhor. Num local de segurança máxima você não pode se dar ao luxo de esquecer isso, nunca. Se mantiver isso em mente, você está bem. Talvez o Dr. Lecter lamente ter me mostrado Sócrates. — Para Barney, que não tinha a desvantagem da educação formal, Sócrates era uma experiência nova, com a qualidade de um encontro.

— A segurança era uma coisa separada da conversa, uma coisa totalmen­te diferente — disse ele. — A segurança jamais era pessoal, mesmo quando eu tinha de trancar a correspondência dele ou amarrá-lo.

— Você conversava muito com o Dr. Lecter?

— Algumas vezes ele passava meses sem dizer nada, e algumas vezes a gente conversava; tarde da noite, quando os gritos diminuíam. De fato, eu fazia aqueles cursos por correspondência e não sabia de nada, e ele me mostrou todo um mundo, literalmente, de coisas: Suetônio, Gibbon, aquilo tudo.

Barney pegou seu copo. Estava com uma mancha de iodo alaranjado num corte recente nas costas da mão.

— Alguma vez você pensou que quando ele escapasse poderia vir atrás de você?

Barney balançou a cabeça enorme.

— Uma vez ele me disse que, sempre que fosse “factível”, preferia comer os rudes. “Os rudes desbragados”, era como ele dizia. — Barney riu, uma vi­são rara. Tinha dentes pequenos de bebê, e sua diversão parecia um tanto ma­níaca, como a alegria de um bebê quando sopra a papinha na cara de um tio que faz graça.

Starling se perguntou se ele não tinha ficado tempo demais no subterrâ­neo com os pirados.

— E você? Alguma vez se sentiu... assustada depois de ele ter fugido? Pensou que ele poderia vir atrás de você? — perguntou Barney.

— Não.

— Por quê?

— Ele disse que não faria isso.

Essa resposta pareceu estranhamente satisfatória para ambos. Os ovos chegaram. Barney e Starling estavam famintos e comeram duran­te alguns minutos. Depois...

— Barney, quando o Dr. Lecter foi transferido para Memphis, pedi que você tirasse os desenhos dele da cela, e você trouxe para mim. O que aconte­ceu com o resto do material: livros, papéis? O hospital não tem nem mesmo os registros médicos dele.

— Houve uma reviravolta enorme. — Barney fez uma pausa, batendo com o saleiro na palma da mão. — Houve uma grande reviravolta, você sabe, no hospital. Fui despedido, um monte de gente foi mandada embora, e o material se espalhou. Não dá para dizer...

— O que foi? Não pude ouvir o que você disse por causa do barulho aqui. Ontem à noite descobri que o exemplar anotado e autografado pelo Dr. Lecter do Dicionário de Cozinha de Alexandre Dumas apareceu num leilão particular em Nova York há dois anos. Foi comprado por dezesseis mil dólares por um colecionador particular. O certificado de propriedade usado pelo vendedor estava assinado por “Cary Phlox”. Você conhece “Cary Phlox”, Barney? Espe­ro que conheça, porque foi ele quem preencheu sua ficha de emprego no hos­pital onde você está trabalhando, só que assinou “Barney”. Também foi ele quem preencheu sua declaração de imposto de renda. Desculpe se perdi o que você estava dizendo antes. Quer recomeçar? Quanto ganhou pelo livro, Barney?

— Mais ou menos dez — disse Barney, olhando direto para ela. Starling assentiu.

— O recibo diz dez e quinhentos. Quanto ganhou por aquela entrevista para o Tattler depois da fuga do Dr. Lecter?

— Mil e quinhentos.

— Legal. Bom para você. Você inventou toda a baboseira que contou para aquelas pessoas.

— Eu sabia que o Dr. Lecter não ia se importar. Ele ficaria desapontado se eu não os sacaneasse um pouco.

— Ele atacou aquela enfermeira antes de você ir para o manicômio?

— Foi.

— O ombro dele foi deslocado.

— Foi o que eu soube.

— Foi tirado um raio X.

— Provavelmente.

— Eu quero o raio X.

— Hummm.

— Eu descobri que os autógrafos de Lecter estão divididos em dois gru­pos, os escritos a tinta, ou antes do encarceramento, e os a craiom ou caneta de ponta de feltro, do asilo. O craiom vale mais, mas creio que você sabe dis­so. Barney, acho que você está com todo esse material e pensa em ir se desfa­zendo aos poucos, no comércio de autógrafos.

Barney deu de ombros e ficou quieto.

— Acho que você está esperando que ele volte a ser uma notícia impor­tante. O que você quer, Barney?

— Quero ver cada Vermeer do mundo antes de morrer.

— Será que preciso perguntar o que fez você se interessar por Vermeer?

— Nós falávamos sobre muita coisa no meio da noite.

— Falavam sobre o que ele gostaria de fazer se ficasse livre?

— Não. O Dr. Lecter não se interessa por hipóteses. Não acredita em silogismo, em síntese, ou em qualquer absoluto.

— Em que ele acredita?

— No caos. E você nem precisa acreditar nisso. É evidente por si. Starling queria ser indulgente com Barney por enquanto.

— Você fala isso como se acreditasse. Mas o seu serviço no manicômio era manter a ordem. Você era o principal encarregado da ordem. Você e eu estamos no negócio da ordem. O Dr. Lecter nunca se afastou de você.

— Já expliquei isso.

— Porque você jamais baixou a guarda. Ainda que de certo modo vocês confraternizassem...

— Eu não confraternizava. Ele não é fraterno com ninguém. Nós discu­timos questões de interesse mútuo. Pelo menos a coisa era interessante para mim quando eu descobria a respeito.

— Alguma vez o Dr. Lecter zombou de você por não saber de algo?

— Ele zombou de você?

— Não — disse ela, para não ferir os sentimentos de Barney, como se reconhecesse pela primeira vez o elogio implícito no escárnio do monstro. — Ele poderia ter zombado de mim, se quisesse. Sabe onde está o material, Barney?

— Há alguma recompensa para encontrá-lo?

Starling dobrou seu lenço de papel e colocou-o debaixo do prato.

— A recompensa é eu nio acusá-lo por obstrução da justiça. Já lhe dei uma folga antes quando você colocou um microfone na minha mesa no hospital.

— Aquele microfone pertencia ao falecido Dr. Chilton.

— Falecido? Como você sabe que ele é o falecido Dr. Chilton?

— Bom, ele já está sete anos atrasado. Eu não o espero para breve. Deixe-me fazer uma pergunta: o que satisfaria você, agente especial Starling?

— Quero ver o raio X. Quero o raio X. Se há livros do Dr. Lecter, quero vê-los.

— Digamos que encontremos o material. O que aconteceria com ele depois?

— Bom, a verdade é que não tenho certeza. Talvez a Promotoria Federal pegue tudo como prova para a investigação da fuga. E depois vai ficar mofando no de­pósito. Se eu examinar o material e descobrir que não há nada de útil nos livros, e se eu disser isso, pode afirmar que o Dr. Lecter deu tudo para você. Ele está ausen­te há sete anos, de modo que você pode fazer uma reivindicação judicial. Ele não tem parentes conhecidos. Eu recomendaria que qualquer material inócuo lhe fos­se entregue. Você deve saber que minha recomendação está na parte mais baixa da escala de valores burocrática. Provavelmente você não ficaria com o raio X ou as fichas médicas, já que, como Mo eram dele, ele não poderia dar.

— E se eu explicar que não tenho esse material?

— O material de Lecter vai ficar realmente difícil de vender porque va­mos divulgar um boletim a respeito e alertar o mercado de que confiscaremos tudo e abriremos processo pela receptação e posse. E conseguirei um manda­do de busca e apreensão para sua casa.

— Agora que você sabe onde é minha casa.

— E posso lhe dizer o seguinte: se entregar o material, não sofrerá qual­quer represália por tê-lo pegado, considerando o que teria acontecido com ele caso o deixasse no lugar onde estava. Quanto a prometer que você irá tê-lo de volta, não posso garantir. — Starling remexeu na bolsa, fazendo uma pausa. — Sabe, Barney, tenho a sensação de que você não tem um diploma de medi­cina porque talvez não consiga se prender às coisas. Talvez tenha o rabo preso em algum lugar. Está vendo? Agora veja só: eu nunca procurei sua ficha poli­cial, nunca verifiquei.

— Não, só olhou meu imposto de renda e minha ficha de emprego. Es­tou emocionado.

— Se você tiver uma ficha, talvez a promotoria federal daquela jurisdi­ção possa dar uma palavra e apagar os registros.

Barney usou um pedaço de torrada para limpar o molho do prato.

— Já terminou? Vamos andar um pouco.

— Eu vi Sammie. Lembra que ele ficou com a cela de Miggs? Ele ainda mora lá — disse Starling quando os dois saíram.

— Pensei que o lugar tivesse sido condenado.

— E foi.

— Sammie está participando de algum programa?

— Não, ele só mora lá, no escuro.

— Acho que você deveria denunciá-lo. Ele é meio diabético, vai morrer. Sabe por que o Dr. Lecter fez Miggs engolir a língua?

— Acho que sim.

— Ele o matou por ter ofendido você. Esse foi o motivo específico. Não se sinta mal, ele poderia ter feito aquilo, de qualquer modo.

Continuaram passando pelo prédio de Barney até o gramado onde o pom­bo ainda rodeava o corpo do companheiro morto. Barney tentou afastá-lo com as mãos.

— Ande — disse ao pássaro. — Já chega de velório. Vai ficar andando por aí até um gato te pegar. — O pombo voou para longe, assobiando. Os dois não puderam ver para onde ele foi.

Barney pegou o pássaro morto. O corpo de plumas macias escorregou facilmente para dentro de seu bolso.

— Sabe, uma vez o Dr. Lecter falou um pouco sobre você. Talvez na úl­tima vez em que conversei com ele, uma das últimas vezes. O pássaro me fez lembrar. Quer saber o que ele disse?

— Claro — disse Starling. Seu desjejum revirou um pouco no estômago e ela estava decidida a não recuar.

— Estávamos conversando sobre comportamento herdado. Ele estava usando a genética dos pombos roladores como exemplo. Eles voam alto e fi­cam rolando de costas para se mostrar, caindo em direção ao chão. Há os roladores rasos e os roladores profundos. Não se pode cruzar dois roladores profundos, caso contrário a prole vai rolar até o chão, bater e morrer. O que ele disse foi: “A policial Starling é uma roladora profunda, Barney. Espero que um dos pais dela não tenha sido.”

Starling teve de pensar um pouco naquilo.

— O que você vai fazer com o pássaro?

— Depenar e comer. Venha até em casa e eu lhe dou o raio X e os livros. Enquanto carregava o pacote comprido para o carro, Starling ouviu o pombo sobrevivente chamar uma vez, das árvores.

 

Graças à consideração de um louco e à obsessão de outro, agora Starling ti­nha, por um tempo, o que sempre quis, uma sala no corredor subterrâneo onde ficava a Divisão de Ciência do Comportamento. Era amargo ter conse­guido desse modo.

Ela nunca esperou ir direto para a seção de elite da Ciência do Compor­tamento quando se formou na Academia do FBI, mas acreditava que poderia merecer um lugar lá. Sabia que passaria vários anos primeiro em escritórios de campo.

Starling era boa no serviço, mas não era boa na política, e demorou anos para ver que jamais iria para a Ciência do Comportamento, apesar dos dese­jos de seu chefe, Jack Crawford.

Um dos principais motivos permaneceu invisível para ela até que, como um astrônomo localizando um buraco negro, ela encontrou o subsecretário Paul Krendler através da influência nos corpos ao redor. Krendler jamais a perdoou por ter encontrado o assassino serial Jame Gumb antes dele, e não podia suportar a atenção da imprensa sobre ela, causada por isso.

Uma vez Krendler ligou para sua casa numa noite chuvosa de inverno. Ela atendeu o telefone vestida de roupão e com chinelos de coelhinho, o cabelo enrolado numa toalha. Iria se lembrar para sempre da data, porque foi na primeira semana da operação Tempestade no Deserto. Na época, Starling era uma agente técnica, tinha acabado de voltar de Nova York, onde trocara o rádio da limusine dos representantes do Iraque na ONU. O novo rádio era exatamente igual ao antigo, a não ser que transmitia as conversas do carro para um satélite do Departamento de Defesa. Tinha sido uma manobra arriscada numa garagem particular, e ela ainda estava tensa.

Durante um segundo louco, pensou que Krendler tinha ligado para dizer que ela havia feito um bom serviço.

Lembrava-se da chuva batendo na janela e da voz de Krendler ao telefone, a fala meio engrolada, ruídos de bar ao fundo.

Convidou-a para sair. Disse que poderia passar lá em meia hora. Ele era casado.

— Acho que não, Sr. Krendler — disse ela e apertou o botão de grava­ção de sua secretária eletrônica, que fez o bip obrigatório por lei e a linha emudeceu.

Agora, anos depois e na sala que desejava merecer, Starling escreveu com caneta seu nome num pedaço de papel e prendeu com fita adesiva à porta. Não foi engraçado, e ela arrancou de novo o papel e jogou-o no lixo.

Havia uma correspondência em sua bandeja de entrada. Era um questio­nário do Livro Guiness de Recordes Mundiais, que estava se preparando para citá-la como tendo matado mais criminosos do que qualquer outra policial feminina na história dos Estados Unidos. A palavra criminosos estava sendo usada deliberadamente, explicava o editor, já que todos os mortos tinham muitas condenações por crimes e três estavam com vários mandados de pri­são. O questionário foi para o lixo, junto com seu nome.

Estava há duas horas pesquisando no computador, soprando madeixas de cabelo para longe do rosto, quando Crawford bateu na porta e enfiou a cabeça.

— Brian ligou do laboratório, Starling. O raio X de Mason e o que você pegou com Barney combinam. É o braço de Lecter. Eles vão digitalizar as imagens e compará-las, mas Brian disse que não há dúvida. Vamos mandar tudo para o arquivo de Lecter no PACV.

— E quanto a Mason Verger?

— Vamos contar a verdade. Você e eu sabemos que ele não vai partilhar informações, Starling, a não ser que consiga alguma coisa a partir da qual ele próprio possa agir. Mas se tentarmos pegar agora a pista que ele conseguiu no Brasil, ela vai se evaporar.

— Você me disse para deixar isso de lado, e eu deixei.

— Você estava fazendo alguma coisa aqui.

— O raio X de Mason veio pela DHL Express. A DHL pegou o código de barras e a informação da etiqueta e descobriu a localização do remetente. Fica no Hotel Ibarra, no Rio. — Starling levantou a mão para impedir qual­quer interrupção. — Isso tudo são fontes de Nova York, por enquanto. Não foi feita qualquer indagação no Brasil.

— Mason faz seus negócios por telefone, uma quantidade enorme, atra­vés da mesa telefônica de um serviço de apostas esportivas em Las Vegas. Você pode imaginar o volume de ligações que eles recebem.

— Será que eu quero saber como você descobriu isso?

— Estritamente legítimo — disse Starling. — Bom, bastante legítimo; eu não deixei coisa alguma na casa dele. Consegui os códigos para olhar na lista telefônica dele, só isso. Todos os agentes técnicos os têm. Digamos que ele obstrui a justiça. Com a influência dele, durante quanto tempo teríamos de implorar por um mandado de busca? De qualquer modo, o que você po­deria fazer com ele se ele fosse condenado? Mas ele está usando um serviço de apostas esportivas.

— Sei — disse Crawford. — A Comissão de Jogos de Nevada poderia grampear o telefone ou espremer o serviço de apostas para o que precisamos saber, ou seja, para onde são dados os telefonemas.

Ela assentiu.

— Eu deixei Mason em paz, como você disse.

— Dá para ver. Você pode dizer a Mason que esperamos ajudar através da Interpol e da embaixada. Diga-lhe que precisamos mobilizar gente por lá e começar a estrutura para a extradição. Lecter provavelmente cometeu cri­mes na América do Sul, de modo que é melhor o extraditarmos antes que a polícia do Rio comece a procurar nos fichários de canibalismo de lá. Se é que ele está na América do Sul. Starling, você se sente mal em falar com Mason?

— Preciso entrar no clima. Você me fez passar por isso quando pega­mos aquela andarilha na Virgínia Ocidental. O que estou dizendo, “andarilha”? Ela era uma pessoa chamada Fredericka Bimmel, e, sim, Mason me deixa enojada. Um monte de coisas me deixa enojada ultimamente, Jack.

Starling surpreendeu-se e ficou em silêncio. Nunca antes tinha se dirigido ao chefe de seção, Jack Crawford, por seu primeiro nome, jamais havia plane­jado chamá-lo de “Jack”, e isso chocou-a. Estudou o rosto dele, um rosto notoriamente difícil de ser decifrado.

Ele assentiu, com o sorriso torto e triste.

— Eu também, Starling. Quer uns dois comprimidos de antiácido para mastigar antes de falar com Mason?

Mason Verger não se incomodou em atender ao telefonema de Starling. Uma secretária agradeceu pelo recado e disse que ele ligaria mais tarde. Mas não ligou pessoalmente. Para Mason, vários degraus acima de Starling na lista de notificação, os raios X que combinavam eram.notícia velha.

 

Mason sabia que o raio X era realmente do braço do Dr. Lecter muito antes de Starling ser informada, porque suas fontes no Departamento de Justiça eram melhores do que as dela.

Mason foi informado através de um e-mail assinado com o codinome Token 287. Este é o segundo codinome do senador Parton Vellmore na Comissão Judiciária do Senado. O escritório de Vellmore recebera um e-mail de Cassius 199, o segundo codinome do próprio Paul Krendler, do Departamento de Justiça.

Mason estava empolgado. Não achava que o Dr. Lecter estivesse no Bra­sil, mas o raio X provava que agora o doutor tinha um número normal de dedos na mão esquerda. Essa informação se misturava com uma nova pista vinda da Europa, sobre o paradeiro do doutor. Mason acreditava que a infor­mação tinha vindo de dentro de algum serviço policial italiano, e era a dica mais forte sobre Lecter que ele teve em anos.

Não pretendia partilhar sua pista com o FBI. Graças a sete anos de esfor­ço implacável, acesso a dossiês confidenciais federais, muitas mexidas de pauzinhos, nenhuma restrição internacional e grandes gastos de dinheiro, Mason estava adiante do FBI na perseguição de Lecter. E só passava informa­ções para o Bureau quando precisava mamar em suas fontes.

Para manter as aparências, instruiu a secretária para ficar incomodando


Starling em busca de novidades. A ordem de Mason era ligar para ela pelo menos três vezes por dia.

Imediatamente, Mason transferiu cinco mil dólares para seu informante no Brasil, pedindo para descobrir a fonte do raio X. A verba de contingência que ele mandou para a Suíça era muito maior, e estava preparado para man­dar mais ainda quando tivesse informações importantes.

Acreditava que sua fonte na Europa tinha encontrado o Dr. Lecter, mas já havia sido enganado muitas vezes e aprendeu a ser cuidadoso. Logo viriam provas. Até lá, para aliviar a agonia da espera, Mason se preocupava com o que aconteceria depois que o médico estivesse em suas mãos. Esses arranjos também vinham sendo feitos há muito tempo, porque Mason era um estu­dante do sofrimento...

As escolhas de Deus para infligir sofrimento não são satisfatórias para nós, tampouco são compreensíveis, a não ser que a inocência O ofenda. Sem dúvida Ele precisa de alguma ajuda para dirigir a fúria cega com que flagela a Terra.

Mason passou a entender seu papel em tudo isso no 12° ano de sua para­lisia, quando se transformou em algo mirrado debaixo do lençol e sabia que jamais se levantaria de novo. Seus alojamentos na mansão de Muskrat Farm foram terminados e ele tinha meios, mas não meios ilimitados, porque Molson, o patriarca dos Verger, ainda comandava.

Era o Natal do ano em que o Dr. Lecter tinha fugido. Sujeito ao tipo de sentimentos que em geral surgem no Natal, Mason desejava amargamente ter arranjado para que o Dr. Lecter fosse morto no asilo; sabia que em algum lugar o Dr. Lecter circulava pela Terra, andando acima e abaixo dela, e muito provavelmente se divertindo.

O próprio Mason estava sob seu respirador, com um lençol macio cobrin­do tudo, uma enfermeira ali perto parecendo inquieta, desejando poder se sentar. Algumas crianças pobres tinham sido levadas para cantar em Muskrat Farm. Com permissão do médico, as janelas de Mason foram abertas breve­mente para o ar límpido e, abaixo das janelas, segurando velas nas mãos em concha, as crianças cantavam.

As luzes estavam apagadas no quarto de Mason, e no ar negro acima da fazenda as estrelas pairavam próximas.

“Ó cidadezinha de Belém, tão imóvel estás!”

Tão imóvel estás. Tão imóvel estás.

A zombaria do verso pesava sobre ele. Tão imóvel estás, Mason!

As estrelas de Natal do lado de fora da janela mantinham seu silêncio su­focante. As estrelas não lhe diziam nada quando ele as encarava com seu olho implorante, por trás do monóculo, quando fazia gestos para elas com os de­dos que era capaz de mover. Mason achava que não poderia respirar. Se esti­vesse sufocando no espaço, pensava, a ultima coisa que veria seriam as estrelas lindas, silenciosas e sem ar. Estava sufocando agora, pensou, seu respirador não conseguia manter o ritmo, ele tinha de esperar para respirar, as linhas de seus sinais vitais, verde-natal, nos monitores, formando picos, pinheirinhos na floresta negra dos monitores. Picos de suas batidas cardíacas, pico sistólico, pico diastólico.

A enfermeira se assustou, em vias de apertar o botão de alarme, em vias de pegar a adrenalina.

Zombaria dos versos, tão imóvel estás, Mason.

E então uma epifania no Natal. Antes que a enfermeira pudesse apertar a campainha ou pegar um medicamento, os primeiros arrepios ásperos da vin­gança de Mason roçaram sua mão pálida e fantasmagórica, como um caran­guejo, e começaram a acalmá-lo.

Nas comunhões de Natal, por toda a terra, o devoto acredita que, através do milagre da transubstanciação, come o corpo e o sangue de Cristo. Mason começou os preparativos para uma cerimônia ainda mais impressionante, sem transubstanciação necessária. Começou os arranjos para que o Dr. Hannibal Lecter fosse comido vivo.

 

A educação de Mason foi estranha, mas perfeitamente adequada à vida que seu pai visualizava para ele e à tarefa que ele se propunha agora.

Na infância esteve num colégio interno para o qual seu pai contribuía com grandes quantias, e onde suas ausências freqüentes eram desculpadas. Duran­te semanas o velho Verger conduzia a verdadeira educação de Mason, levando o garoto aos currais e aos matadouros que eram a base de sua fortuna.

Molson Verger foi pioneiro em muitas áreas da criação de gado, particu­larmente na área da economia. Suas primeiras experiências de alimentação barata para o gado são comparáveis às de Batterham, cinqüenta anos antes. Molson Verger adulterava a dieta dos porcos com farinha de pêlo de porco, pena de frango moída e estéreo numa quantidade considerada ousada na épo­ca. Foi visto como um visionário imprudente nos anos quarenta, quando pri­meiro tirou a água potável dos porcos, e depois os fazia beber uma bebida alcoólica feita de estéreo animal fermentado, para apressar o ganho de peso. O riso parou quando seus lucros começaram a aumentar, e os concorrentes apressaram-se em copiá-lo.

A liderança de Molson Verger na indústria de embutidos de carne não parou aí. Ele lutou bravamente, e com verbas próprias, contra a lei de abate humanitário, seguindo estritamente o ponto de vista da economia, e conse­guiu se sustentar com argumentos legais, apesar disso ter lhe custado muito dinheiro dado para o legislativo. Com Mason a seu lado, supervisionou ex­periências em larga escala para determinar quanto tempo era possível privar os animais de comida e água antes de serem abatidos sem perda significativa de peso.

Foi a pesquisa genética patrocinada pelos Verger que finalmente chegou às linhagens suínas belgas, de musculatura dupla, sem as concomitantes per­das que assolavam os belgas. Molson Verger comprava reprodutores em todo o mundo, e patrocinava uma quantidade de programas de reprodução no es­trangeiro.

Mas, basicamente, os matadouros são um negócio que envolve pessoas, e ninguém entendia disso melhor do que Molson Verger. Ele conseguia dobrar a liderança dos sindicatos quando estes tentavam se aproveitar de seus lucros com exigências de salário e segurança. Nessa hora seus relacionamentos sóli­dos com o crime organizado serviram-lhe bem durante trinta anos.

Na época, Mason tinha uma grande semelhança com o pai, as sobrance­lhas escuras e brilhantes acima de olhos azuis-claros, de açougueiro, e o con­torno do couro cabeludo inclinado na testa, descendo da direita para a es­querda. Freqüentemente, de modo afetuoso, Molson Verger gostava de segurar a cabeça do filho e simplesmente senti-la, como se estivesse confirmando a paternidade do filho através da fisionomia, assim como podia sentir o rosto de um porco e dizer, pela estrutura óssea, sua origem genética.

Mason aprendia bem e, mesmo depois de seus ferimentos o terem confi­nado a essa cama, era capaz de tomar boas decisões de negócios a ser implementadas por seus lacaios. Foi idéia do filho Mason conseguir com que o governo dos Estados Unidos e as Nações Unidas abatessem todos os porcos nativos do Haiti, alegando o perigo de transmissão de gripe suína africana. Em seguida, ele pôde vender ao governo grandes porcos brancos americanos para substituir os suínos nativos. Os grandes suínos esguios, diante das condi­ções do Haiti, morriam o mais rápido possível, e tinham de ser substituídos repetidamente a partir do rebanho de Mason, até que os haitianos substituí­ram seus porcos pelos animais pequenos e fortes da República Dominicana.

Agora, enquanto construía os motores de sua vingança com toda uma vida de conhecimento e experiência, Mason se sentia como Stradivarius ao se apro­ximar da bancada de trabalho.

Que riqueza de informações e recursos possuía em seu rosto sem face! Deitado na cama, compondo na mente como o surdo Beethoven, ele se lembrava de ter caminhado pelas feiras de suínos com o pai, verificando a concor­rência, o canivetezinho de prata de Molson, sempre pronto para sair de seu colete e penetrar no lombo de um porco para verificar a profundidade da gordura, afastando-se do guincho ultrajado, digno demais para ser questiona­do, a mão de volta ao bolso, o polegar marcando o lugar na lâmina.

Mason teria rido, se tivesse lábios, ao lembrar-se do pai furando um por­co 4-H concorrente, que pensava que todo mundo era amigo, enquanto a criança que era sua dona chorava. O pai da criança vindo furioso e os capan­gas de Molson levando-o para fora da barraca. Ah, houve tempos bons, en­graçados.

Nas feiras de suínos Mason tinha visto porcos exóticos de todo o mundo. Para seu novo objetivo, ele juntou os melhores que viu.

Começou o programa de cruzamento imediatamente após a epifania na­talina, e o centralizou numa pequena instalação para cruzamento de porcos que os Verger possuíam na Sardenha, litoral da Itália. Escolheu o lugar pela distância e pela conveniência com relação à Europa.

Mason acreditava — corretamente — que a primeira parada do Dr. Lecter fora dos Estados Unidos, depois de fugir, seria a América do Sul. Mas sempre esteve convencido de que a Europa era o lugar onde um homem com os gostos do Dr. Lecter iria se estabelecer— e ele contava com vigilantes todos os anos no Festival de Musica de Salzburgo e em outros acontecimentos culturais.

Foi por isso que Mason mandou seus reprodutores para a Sardenha, para preparar o teatro da morte do Dr. Lecter:

O gigantesco porco da floresta, Hylochoerus meinertzhageni, de seis tetas e 38 cromossomos, bom produtor de alimentos, onívoro oportunista, como o homem. Dois metros de comprimento nas famílias das terras altas, pesa cerca de 275 quilos. O gigantesco porco da floresta é a nota fundamental de Mason.

O clássico porco selvagem europeu, S. scrofa scrofa, 36 cromossomos em sua forma mais pura, sem verrugas faciais, cheio de pêlos e grandes presas, um animal grande, rápido e feroz, capaz de matar uma víbora com os cascos afia­dos e comer a cobra como se fosse uma lingüiça. Quando excitado, cruzando, ou protegendo os filhotes, ataca qualquer coisa que o ameace. As porcas têm doze tetas e são boas mães. No S. scrofa scrofa, Mason encontrou seu tema e a aparência facial adequada para proporcionar ao Dr. Lecter uma última visão infernal dele próprio sendo consumido. (Ver Harris on thepig, 1881.)

Comprou o porco da ilha Ossabaw pela agressividade, e o Jiaxing negro pelos altos níveis de estradiol.

Houve uma nota falsa quando ele introduziu um Babirusa, Babirousa babyrussa, do leste da Indonésia, conhecido como porco-cervo, pelo tamanho exagerado das presas. Era um reprodutor lento, com apenas duas tetas, e, com cem quilos, custou-lhe muito em tamanho. Mas não se perdeu tempo, já que havia outras linhagens paralelas que não incluíam o Babirusa.

Na dentição, Mason tinha pouca variedade para escolher. Quase toda a espécie tinha dentes adequados à tarefa, três pares de incisivos afiados, um par de caninos longos, quatro pares de pré-molares e três pares de molares fortes, superiores e inferiores, num total de 44 dentes.

Qualquer porco comerá um homem morto, mas para comer um homem vivo é necessário um pouco de educação. Os empregados de Mason na Sardenha estavam se encarregando da tarefa.

Agora, depois de um esforço de sete anos e muitas gerações de animais, os resultados eram... notáveis, n

 

Com todos os atores, menos o Dr. Lecter, em seus lugares nas montanhas Gennargentu, na Sardenha, Mason preocupou-se em registrar a morte do doutor para a posteridade e seu prazer pessoal. Os arranjos tinham sido feitos há muito tempo, mas agora devia ser dado o alerta.

Ele realizou esse negócio delicado pelo telefone, através da central telefô­nica de sua casa de apostas legítima, perto das Castaways, em Las Vegas. Seus telefonemas eram fiapos minúsculos perdidos no grande volume de ação a cada fim de semana por lá.

A voz radiofônica de Mason, sem as consoantes explosivas e as fricativas, ricocheteava da Floresta Nacional perto da costa de Chesapeake até o deserto, e voltava atravessando o oceano, primeiro até Roma:

No apartamento do sétimo andar de um prédio na Via Archimede, atrás do hotel de mesmo nome, o telefone está tocando, o tilintar áspero e duplo de um telefone tocando em italiano. No escuro, vozes sonolentas.

— Cosa? Cosa ce?

— Accendi la luce, idiota.

O abajur da mesinha-de-cabeceira se acende. Há três pessoas na cama. O rapaz mais próximo do telefone pega-o e entrega-o a um homem corpulento no meio. Do outro lado está uma garota loura, de vinte e poucos anos. Ela ergue um rosto sonolento para a luz, depois deixa-se cair de novo.

— Pronto, chi? Chi parla?

 

— Oreste, meu amigo. É Mason.

O homem corpulento ajeita-se, sinaliza para o rapaz pedindo um copo de água mineral.

— Ah, Mason, meu amigo, desculpe, eu estava dormindo. Que horas são aí?

— É tarde em todo o lugar, Oreste. Lembra o que eu disse que faria por você e o que você deveria fazer por mim?

— Bem, claro.

— Chegou a hora, meu amigo. Você sabe o que eu quero. Quero um conjunto de duas câmeras, quero som de melhor qualidade do que nos seus filmes de sexo, e você precisará levar sua própria eletricidade, de modo que quero um gerador muito longe do local de filmagem. Também quero umas belas tomadas da natureza, para quando editarmos, e sons de pássaros. Quero que verifique a locação amanhã e ajeite tudo. Você pode deixar o material lá, eu resolvo a segurança, e você pode voltar para Roma até a hora da filma­gem. Mas esteja preparado para aparecer com um aviso de duas horas. En­tende isso, Oreste? Há um depósito esperando por você no Citybank, no EUR, entendeu?

— Mason, neste momento eu estou filmando...

— Você quer fazer isso, Oreste? Você disse que estava cansado de fazer filmes de sacanagem, filmes de assassinatos e aquela merda histórica para a RAI. Você realmente quer fazer uma coisa diferente, Oreste?

— Quero, Mason.

— Então vá hoje. O dinheiro está no Citybank. Eu quero que você vá.

— Para onde, Mason?

— Sardenha. Pegue um avião até Cagliari. Tem alguém lá que vai se en­contrar com você.

O próximo telefonema foi para Porto Torres, na costa leste da Sardenha. A ligação foi breve. Não havia muito a dizer porque a maquinaria estava esta­belecida há muito tempo, e era tão eficiente quanto a guilhotina portátil de Mason. Também era mais legítimo ecologicamente, mas não tão rápido.

 

                                         FLORENÇA

 

Noite no coração de Florença, a velha cidade iluminada artisticamente.

O Palazzo Vecchio erguendo-se da praça escura, totalmente iluminado, intensamente medieval com suas janelas em arco e as ameias como dentes de abóbora do Dia das Bruxas, a torre do sino subindo para o infinito no céu negro.

Morcegos caçarão mosquitos diante do mostrador luminoso do relógio até a alvorada, quando as andorinhas voam espantadas pelos sinos.

O investigador-chefe Rinaldo Pazzi, da Questura, capa de chuva preta em contraste com as estátuas de mármore fixadas em atos de estupro e assassina­to, saiu das sombras da Loggia e atravessou a praça, o rosto pálido virando-se como um girassol para a luz do palácio. Parou no lugar onde o reformador Savonarola foi queimado e olhou para as janelas onde seu antepassado encon­trou o sofrimento.

Ali, daquela janela alta, Francesco de’ Pazzi foi jogado nu com um laço ao redor do pescoço para morrer retorcendo-se e girando de encontro à parede áspera. O arcebispo enforcado ao lado de Pazzi, com todas as suas vestes sa­gradas, não deu qualquer conforto espiritual; olhos esbugalhados, louco en­quanto engasgava, o arcebispo trincou os dentes na carne de Pazzi.

Naquele domingo, 26 de abril de 1478, toda a família Pazzi foi rebaixada por ter matado Giuliano de’ Mediei e ter tentado matar Lorenzo, o Magnífi­co, na catedral, durante a missa.

Agora Rinaldo Pazzi, um Pazzi dos Pazzi, odiando o governo tanto quan­to seu ancestral, desonrado e infeliz, ouvindo o machado descer sibilante, chegou a esse lugar para decidir a melhor maneira de usar uma sorte singular:

O investigador-chefe Pazzi acreditava ter encontrado Hannibal Lecter vi­vendo em Florença. Teve a chance de recuperar sua reputação e desfrutar as honras do serviço capturando o bandido. Além disso, Pazzi teve a chance de vender Hannibal Lecter a Mason Verger em troca de mais dinheiro do que podia imaginar — se o suspeito realmente fosse Lecter. Claro, Pazzi também estaria vendendo sua honra esfarrapada.

Não era à toa que Pazzi chefiava a Divisão de Investigação da Questura — ele era talentoso e na juventude tinha sido impulsionado por uma fome lupina de ter sucesso na profissão. Também levava as cicatrizes de um homem que, na pressa e no calor da ambição, uma vez havia medido seu talento com a lâmina.

Escolheu esse lugar para lançar a sorte porque certa vez tinha experimenta­do ali um momento de epifania que o tornou famoso, e que depois o arruinou.

O sentimento italiano de ironia era forte em Pazzi: como era adequado sua revelação fatídica ter acontecido debaixo dessa janela, onde o espírito fu­rioso de seu antepassado ainda podia girar contra a parede! Neste mesmo lu­gar ele poderia mudar para sempre a sorte dos Pazzi.

Foi a caçada de outro assassino serial, Il Mostro, que tornou Pazzi famoso e depois deixou os corvos picarem seu coração. Aquela experiência tornou possível sua nova descoberta. Mas resolver o caso de Il Mostro teve gosto de cinza amarga na boca de Pazzi, e agora o inclinava na direção de um jogo perigoso fora da lei.

Il Mostro, o monstro de Florença, foi predador de amantes na Toscana durante dezessete anos, entre as décadas de 1980 e 90. O monstro se aproxi­mava furtivamente de casais abraçados nas muitas estradinhas da Toscana. Era seu costume matar os amantes com uma pistola de pequeno calibre, arrumá-los num quadro cuidadoso, com flores, e expor o seio esquerdo da mulher. Seus arranjos tinham uma familiaridade estranha, deixavam um sentimento de déjà vu.

Além disso, o monstro pegava troféus anatômicos, a não ser na única vez em que trucidou dois alemães homossexuais, de cabelos compridos, aparen­temente por engano.

A pressão pública para a Questura pegar Il Mostro foi intensa, e acabou tirando do cargo o predecessor de Rinaldo Pazzi. Quando Pazzi assumiu como investigador-chefe, parecia um homem lutando contra abelhas, com a imprensa enxameando sua sala sempre que tinha permissão, e fotógrafos espreitando na Via Zara atrás da sede da Questura, por onde ele tinha de sair para pegar o carro.

Os turistas que estiveram em Florença no período devem se lembrar dos cartazes pregados em toda a parte, com o olho vigilante que alertava os casais contra o monstro.

Pazzi trabalhou como um possesso.

Ligou para a Divisão de Ciência do Comportamento do FBI americano, pedindo ajuda para fazer o perfil do assassino, e lia tudo que pudesse encon­trar sobre os métodos usados pelo FBI para estabelecer os perfis.

Usava medidas preventivas: algumas estradas e cemitérios usados para encontros de amantes tinham mais policiais do que amantes sentados em pa­res nos carros. Não havia policiais femininas suficientes para ir junto. Duran­te o tempo de calor duplas do sexo masculino se revezavam usando peruca, e muitos bigodes foram sacrificados. Pazzi estabeleceu o exemplo raspando seu próprio bigode.

O monstro tinha cuidado. Ele atacava, mas suas necessidades não o força­vam a atacar com freqüência.

Pazzi percebeu que nos anos anteriores houve longos períodos em que o monstro simplesmente não atacou — um intervalo de oito anos. Avaliou isso. Dolorosamente, laboriosamente, tentando conseguir ajuda de funcionários de todas as agências que podia ameaçar, confiscando o computador do sobrinho para usar junto com a única máquina da Questura, listou cada criminoso do norte da Itália cujos períodos de prisão coincidiam com os hiatos na série de assassinatos do Il Mostro. O número era de 97.

Pazzi confiscou um velho Alfa-Romeo GTV de um ladrão de banco apri­sionado e, fazendo mais de cinco mil quilômetros no carro por mês, olhou pessoalmente 94 dos condenados e os interrogou. Os outros estavam incapa­citados ou mortos.

Praticamente não havia provas nas cenas dos crimes para ajudá-lo a di­minuir a lista. Nenhum líquido corporal do assassino, nenhuma impressão digital.

Um único cartucho de bala foi recuperado de um local de assassinato em Impruneta. Era uma Winchester-Western calibre 22, com marcas de extrator combinando com uma pistola semi-automática Colt, possivelmente uma Woodsman. As balas em todos os crimes eram calibre 22, da mesma arma. Não havia marcas de silenciador nas balas, mas um silenciador não poderia ser descartado.

Pazzi era um Pazzi, e acima de tudo ambicioso, e tinha uma esposa jo­vem e adorável que sempre queria mais. Os esforços lhe custaram dez quilos de seu corpo magro. Membros mais jovens da Questura observavam em particular a semelhança dele com o personagem de desenho animado, o Coiote Wile.

Quando uns engraçadinhos colocaram um programa de morph no com­putador da Questura, que trocava os rostos dos Três Tenores pelos de um jumento, um porco e um bode, Pazzi ficou olhando para o morph durante minutos e sentiu seu próprio rosto indo e voltando para as feições do ju­mento.

A janela do laboratório da Questura tem uma guirlanda de alho para manter longe os espíritos malignos. Depois de visitar e interrogar seus últi­mos suspeitos sem qualquer solução, Pazzi ficou parado naquela janela, olhando para o pátio poeirento, e entrou em desespero.

Pensou na jovem esposa, nos tornozelos bonitos e rígidos dela e no trecho de penugem na parte de trás da cintura. Pensou em como os seios estreme­ciam e balançavam quando ela escovava os dentes, e como ela ria ao vê-lo es­piando. Pensou nas coisas que queria lhe dar. Imaginou-a abrindo os presen­tes. Ele pensava na mulher em termos visuais; ela também era perfumada e maravilhosa de se tocar, mas o visual era a primeira coisa em sua lembrança.

Pensou no modo como queria aparecer aos olhos dela. Certamente não em seu papel atual de objeto de zombaria da imprensa — o quartel-general da Questura em Florença localiza-se num ex-hospício, e os cartunistas se apro­veitavam enormemente deste fato.

Pazzi imaginava que o sucesso vinha como resultado da inspiração. Sua memória visual era excelente e, como muitas pessoas cujo sentido primário é a visão, ele pensava na revelação como o desenvolvimento de uma imagem, primeiro borrada e depois clareando-se. Meditava do modo como a maioria de nós procura um objeto perdido: revemos a imagem na mente e comparamos essa imagem com o que vemos, renovando mentalmente a imagem mui­tas vezes por minuto, e girando-a no espaço.

Então um atentado político, uma bomba atrás do Museu Uffizi, atraiu a atenção da polícia e o tempo de Pazzi para longe do caso do Il Mostro durante um curto período.

Ao mesmo tempo que trabalhava no importante caso da bomba no mu­seu, as imagens criadas pelo Il Mostro permaneciam na mente de Pazzi. Ele via os quadros do monstro na periferia da visão, assim como olhamos para o lado de um objeto para vê-lo no escuro. Particularmente, ele se demorava no casal encontrado morto na carroceria de uma pick-up em Impruneta, os corpos arrumados cuidadosamente pelo monstro, enfeitados com guirlandas de flo­res, o seio esquerdo da mulher exposto.

Pazzi deixara o Museu Uffizi no início de uma tarde e estava atravessando a Piazza Signoria, ali perto, quando uma imagem de um mostruário de pos­tais saltou em sua direção.

Sem ter certeza de onde a imagem vinha, ele parou no lugar exato em que Savonarola fora queimado, virou-se e olhou ao redor. Turistas apinhavam a praça. Pazzi sentiu um frio na espinha. Talvez tudo estivesse na sua cabeça, a imagem, o tranco em sua atenção. Voltou alguns passos e veio andando de novo.

Ali estava: um pequeno cartaz, sujo de cocô de mosca e deformado pela chuva, da Primavera de Botticelli. A pintura original estava atrás dele, no Museu Uffizi. Primavera. A ninfa enfeitada por guirlandas à direita, o seio esquerdo exposto, flores caindo de sua boca enquanto o pálido zéfiro saía da floresta em direção a ela.

Ali. A imagem do casal morto na carroceria da pick-up, com guirlandas de flores, flores na boca da garota. Igual. Igual.

Ali, onde seu ancestral havia girado, engasgado de encontro à parede, veio a idéia, a idéia magistral que Pazzi procurava, e era uma imagem criada há quinhentos anos por Sandro Botticelli — o mesmo artista que por quarenta florins tinha pintado na parede da prisão Bargello a imagem de Francesco de’ Pazzi enforcado, com laço no pescoço e tudo. Como Pazzi podia resistir a essa inspiração, com sua origem tão deliciosa?

Precisou sentar-se. Todos os bancos estavam cheios. Foi obrigado a mos­trar seu distintivo e requisitar o lugar de um homem velho cujas muletas ele honestamente só viu quando o veterano levantou-se sobre o único pé e reagiu alto e com grosseria.

Pazzi estava empolgado por dois motivos. Encontrar a imagem que Il Mostro usava era um triunfo, porém muito mais importante, Pazzi tinha visto uma cópia da Primavera em seus interrogatórios dos suspeitos de crime.

Ele fez mais do que instigar a memória; inclinou-se, folheou-a e convi­dou-a. Voltou ao Uffizi e ficou parado diante da Primavera original, mas não por muito tempo. Foi até o mercado público e tocou o focinho do porco de bronze, 77 Porcellino. Foi de carro até o Ippocampo e, encostado no capo do veículo empoeirado, com o cheiro de óleo quente no nariz, ficou olhando as crianças jogarem futebol...

Viu primeiro a escada na mente, e o patamar acima, a parte superior do cartaz da Primavera aparecendo enquanto ele subia; podia voltar e ver a mol­dura da porta por um segundo, mas nada da rua, e nenhum rosto.

Conhecendo os processos de interrogatório, ele se questionou, indo para os sentidos secundários:

Quando viu o cartaz, o que você ouviu?... Panelas fazendo barulho numa cozinha do andar térreo. Quando você subiu até o patamar e ficou parado diante do cartaz, o que você ouviu.M televisão. Uma televisão numa sala de estar. Robert Stack fazendo o papel de Eliot Ness em Gli Intoccabili. Sentiu cheiro de algo cozinhando? Sim, cozinhando. Sentiu cheiro de alguma outra coisa? Eu vi o car­taz. NÃO. Não o que você viu. Você sentiu cheiro de alguma outra coisa? Eu ainda podia sentir o cheiro do Alfa, quente dentro, ainda estava no meu nariz, cheiro de óleo quente, quente da... da Raccordo, indo rápido na auto-estrada Raccordo para onde? San Casciano. Também ouvi um cão latindo, em San Casciano, um ladrão de residências e estuprador chamado Girolamo não-sei-das-quantas.

Naquele momento em que a conexão é feita, naquele espasmo sináptico de conclusão em que o pensamento atravessa o fusível vermelho, está o nosso prazer mais agudo. Rinaldo Pazzi teve o melhor momento de sua vida.

Dentro de uma hora e meia Pazzi estava com Girolamo Tocca sob custó­dia A mulher de Tocca jogou pedras no pequeno comboio que levou seu marido.

 

Tocca era suspeito digno de sonho. Na juventude tinha cumprido nove anos de prisão pelo assassinato de um homem que ele apanhou abraçando a noiva numa estrada deserta. Também foi acusado de molestar sexualmente as filhas e de outros abusos domésticos, e cumpriu sentença de prisão por estupro.

A Questura praticamente destruiu a casa de Tocca tentando encontrar provas. No final o próprio Pazzi, dando uma busca no terreno de Tocca, en­controu um cartucho de arma que foi uma das poucas peças de prova física usadas pela Promotoria.

O julgamento foi uma sensação. Aconteceu num prédio de alta segurança chamado de Bunker, onde nos anos 70 aconteciam julgamentos de terroris­tas, em frente à redação do jornal La Nazione em Florença. O júri, cinco ho­mens e cinco mulheres, condenaram Tocca a partir de praticamente prova nenhuma, a não ser seu caráter. A maior parte do público acreditava que ele era inocente, mas muitos diziam que Tocca era um maluco que merecia estar na cadeia. Com 65 anos, recebeu uma sentença de quarenta anos em Volterra.

Os seis meses seguintes foram de ouro. Nos últimos quinhentos anos ne­nhum Pazzi foi tão célebre em Florença, desde que Pazzo de’ Pazzi voltou da primeira cruzada com lascas de pedra do Santo Sepulcro.

Rinaldo Pazzi e sua linda esposa ficaram ao lado do arcebispo no Duomo quando, no tradicional ritual de Páscoa, aquelas mesmas lascas sagradas fo­ram usadas para acender o pombo artificial, movido a rojão, que voou da igreja ao longo de um fio para fazer explodir uma carroça de fogos de artifício dian­te da multidão que aplaudia.

Os jornais reproduziram praticamente cada palavra de Pazzi enquanto ele dava crédito, com motivo, aos seus subordinados pelo enorme esforço que eles haviam feito. A signora Pazzi foi consultada em questões de moda, e ela realmente parecia maravilhosa nas roupas que os costureiros a encorajaram a usar. O casal foi convidado para chás pródigos nos lares dos poderosos, e jan­taram com um conde em seu castelo, rodeados por armaduras.

Pazzi foi mencionado para um cargo político, elogiado acima do barulho geral do Parlamento italiano e recebeu a incumbência de chefiar o esforço cooperativo da Itália com o FBI americano contra a Máfia. Esse mandado, e uma bolsa para estudar e participar de seminários de criminologia na Univer­sidade de Georgetown, levaram o casal Pazzi a Washington, D.C. O inspetor-chefe passou bastante tempo na Divisão de Ciência do Comportamento em Quantico, e sonhou em criar uma Divisão de Ciência do Comportamento em Roma.

Então, depois de dois anos, o desastre: numa atmosfera mais calma, uma corte de apelação, não sem pressão pública, concordou em rever a condena­ção de Tocca. Pazzi foi trazido de volta para enfrentar a investigação. Entre os ex-colegas que deixara para trás, muitos estavam sacando suas facas contra ele.

Um júri de apelação cancelou a condenação de Tocca e repreendeu Pazzi, dizendo ao tribunal acreditar que ele tinha plantado a prova.

Seus antigos aliados em altos postos fugiram como fugiriam de um mau cheiro. Ele ainda era uma autoridade importante na Questura, mas sem pos­sibilidades de ascensão, e todo mundo sabia disso. O governo italiano move-se devagar, mas em breve o machado cairia.

 

Foi no tempo medonho e desgastante em que Pazzi esperava pelo machado que viu pela primeira vez o homem conhecido entre os eruditos de Florença como Dr. Fell...

Rinaldo Pazzi, subindo a escada do Palazzo Vecchio numa tarefa mesqui­nha, uma das muitas que lhe eram passadas por seus ex-subordinados na Questura enquanto desfrutavam sua queda. Pazzi via apenas as pontas de seus sapatos na pedra desgastada, e não as maravilhas da arte ao redor, enquanto subia ao lado da parede coberta de afrescos. Há quinhentos anos seu ancestral tinha sido arrastado por essas escadas acima, sangrando.

Num patamar, ajeitou os ombros como o homem que era, e forçou-se a encarar os olhos das pessoas nos afrescos, algumas delas parentes. Já podia ouvir o barulho no Salão dos Lírios acima, onde os diretores da Galeria Uffizi e do Comitê de Belas-Artes estavam se reunindo.

O serviço de Pazzi hoje era o seguinte: o antigo curador do Palazzo Capponi estava desaparecido. Acreditava-se que o velho tinha fugido com uma mulher, com o dinheiro de alguém ou ambas as coisas. Nas últimas quatro reuniões mensais ele tinha deixado de se encontrar com seus colegas ali e no Palazzo Vecchio.

Pazzi foi mandado para continuar com a investigação. O investigador-chefe Pazzi, que depois da bomba no museu tinha feito palestras sobre segurança para esses mesmos diretores de rostos cinzentos da Uffizi e os membros do rival Comitê de Belas-Artes. Agora precisava aparecer diante deles com a im­portância reduzida, para fazer perguntas sobre a vida amorosa de um curador. Não estava ansioso por isso.

Os dois comitês formavam uma assembléia cheia de disputas e irritações de parte a parte — há anos eles não conseguiam sequer concordar num ponto de encontro, já que ninguém parecia disposto a se reunir na sede do outro. Em vez disso, reuniam-se no magnífico Salão dos Lírios do Palazzo Vecchio, cada membro acreditando que a sala magnífica era adequada à sua eminência e distinção. Uma vez estabelecidos ali, recusavam-se a se reunir em qualquer outro lugar, ainda que o Palazzo Vecchio estivesse passando por uma de suas milhares de restaurações, com andaimes, panos cobrindo as obras de arte e maquinaria no andar debaixo.

O professor Ricci, velho colega de escola de Rinaldo Pazzi, estava no sa­guão do lado de fora da sala, tendo um ataque de espirros por causa do pó de reboco. Quando se recuperou o suficiente, revirou os olhos lacrimejantes para Pazzi.

— La solita arringa — disse Ricci. — Eles estão discutindo como sem­pre. Você veio por causa do sumiço do curador do Capponi? Neste momento estão brigando pelo cargo dele. Sogliato quer o cargo para o sobrinho. Os eruditos estão impressionados com o curador temporário que eles nomearam há meses, o Dr. Fell. Querem mantê-lo.

Pazzi deixou o amigo batendo nos bolsos em busca de lenços de papel, e entrou na câmara histórica com o teto de lírios dourados. Panos pendurados em duas das paredes ajudavam a abafar o barulho.

O adepto do nepotismo, Sogliato, tinha a palavra, e a mantinha através do volume:

— A correspondência de Capponi remonta ao século XIII. O Dr. Fell poderia segurar em sua mão, em sua mão não-italiana, um bilhete do pró­prio Dante Alighieri. Será que ele o reconheceria? Creio que não. Vocês o examinaram para avaliar seu italiano medieval, e não negarei que a lin­guagem dele é admirável. Para um straniero. Mas ele é familiarizado com as personalidades da Florença pré-renascentista? Creio que não. E se ele encontrasse na Biblioteca Capponi um bilhete de... de Guido de Cavalcanti, por exemplo. Será que ele reconheceria? Creio que não. Poderia falar dis­so, Dr. Fell?

Rinaldo Pazzi examinou a sala e não viu qualquer pessoa que ele reconhe­cesse como o Dr. Fell, mesmo tendo examinado uma roto do homem há menos de uma hora. Não viu o Dr. Fell porque o doutor não estava sentado com os outros. Pazzi escutou a voz primeiro, depois localizou-o.

O Dr. Fell estava de pé, imóvel, ao lado da grande estátua de bronze de Judite e Holofernes, de costas para o homem que tinha a palavra e para o gru­po. Falou sem se virar, e era difícil saber de que figura vinha a voz. De Judite, com a espada para sempre erguida para golpear o rei bêbado, de Holofernes, agarrado pelo cabelo, ou do Dr. Fell, esguio e imóvel ao lado das figuras de bronze de Donatello. Sua voz atravessava o barulho como um laser cortando fumaça, e os homens que falavam sem parar ficaram quietos.

— Cavalcanti respondeu publicamente ao primeiro soneto de Dante em La Vita Nuova, onde Dante descreve seu estranho sonho com Beatrice Portinari. Talvez Cavalcanti também tenha feito algum comentário particu­lar. Se ele escreveu a algum Capponi, teria de ser para Andréa, que era mais literário do que seus irmãos. — O Dr. Fell virou-se para encarar o grupo quando quis, depois de um intervalo desconfortável para todos, menos para ele. — O senhor conhece o primeiro soneto de Dante, professor Sogliato? Conhece? Ele fascinou Cavalcanti, e vale o senhor dedicar seu tempo. Em parte diz:

“As primeiras três horas da noite haviam quase passado

O tempo em que cada estrela brilha sobre nós

Quando Amor me apareceu de súbito

E eu ainda estremeço com a lembrança.

Amor me pareceu alegre, enquanto segurava

Meu coração nas mãos, e nos seus braços

Minha dama dormia, envolta num véu.

Então ele acordou-a e, trêmula e obediente,

Ela comeu o coração ardente;

Chorando, eu o vi partir para longe.”

— Ouçam como ele faz uso do italiano vernacular, o que ele chamava, vulgari eloquentia do povo:

“Allegro mi sembrava

Amor tenendo

Meo core in mano, e ne le braccia avea

Madonna involta in un drappo dormendo.

Poi la svegliava, e desto core ardendo

Leipaventosa umilmente pascea

Appreso gir lo ne vedea piangendo.”

Nem mesmo os florentinos mais briguentos poderiam resistir aos versos de Dante ressoando naquelas paredes forradas de afrescos, no claro sotaque toscano do Dr. Fell. Primeiro aplausos, e depois, por aclamação com os olhos úmidos, os membros confirmaram o Dr. Fell como curador do Palazzo Capponi, deixando Sogliato fumegante. Pazzi não podia dizer se a vitória agradava ao doutor, porque ele virou as costas de novo. Mas Sogliato não ter­minara.

— Se ele é tão especialista em Dante, que fale sobre Dante ao Studiolo. — Sogliato sibilou o nome como se fosse a Inquisição. — Deixe-o enfrentá-los extempore, na próxima sexta-feira, se ele puder.

O Studiolo, que tinha recebido este nome por causa de uma sala particular ornamentada, era um grupo pequeno e feroz de estudiosos que havia arruina­do várias reputações acadêmicas e se reunia com freqüência no Palazzo Vecchio. Preparar-se para eles era visto como uma tarefa considerável, apresentar-se diante deles um perigo. O tio de Sogliato apoiou sua moção, e o cunhado de Sogliato pediu uma votação, que sua irmã registrou imediatamente. Foi apro­vada. A indicação permanecia, mas, para mantê-la, o Dr. Fell precisava satis­fazer ao Studiolo.

Os comitês tinham um novo curador para o Palazzo Capponi, não sen­tiam falta do antigo, e não deram muita importância às perguntas desanima­das de Pazzi sobre o desaparecimento do sujeito. Pazzi comportou-se admiravelmente.

Como qualquer bom investigador tinha avaliado as circunstâncias em busca de vantagens. Quem iria se beneficiar com o desaparecimento do ve­lho curador? O curador desaparecido era um solteirão, um estudioso res­peitável e quieto, de vida ordeira. Tinha algumas economias, não muitas. Tudo que possuía era seu cargo e com ele o privilégio de morar no sótão do Palazzo Capponi.

Ali estava o novo indicado, confirmado pela diretoria depois de um inter­rogatório sobre história florentina e italiano arcaico. Pazzi havia examinado os formulários de candidatura do Dr. Fell, e as fichas do Serviço Nacional de Saúde.

Pazzi aproximou-se dele enquanto os membros da diretoria fechavam as pastas para ir embora.

— Dr. Fell.

— Sim, Commendatore?

O novo curador era pequeno e esguio. Seus óculos eram escuros na meta­de superior da lente e as roupas escuras maravilhosamente cortadas, mesmo para a Itália.

— Eu gostaria de saber se o senhor conheceu seu antecessor. — As ante­nas de um policial experiente estão sempre afinadas para a faixa do medo. Observando cuidadosamente o Dr. Fell, Pazzi registrou calma absoluta.

— Nunca me encontrei com ele. Li várias de suas monografias na Nuova Antologia. — O toscano tranqüilo do doutor era tão claro quanto sua recitação. Se havia algum traço de sotaque estrangeiro, Pazzi não pôde identificar.

— Sei que os policiais que iniciaram a investigação verificaram o Palazzo Capponi em busca de algum bilhete, uma nota de despedida, de suicídio, e não encontraram coisa alguma. Se o senhor encontrar alguma coisa no meio dos papéis, qualquer coisa pessoal, mesmo que seja trivial, poderia telefonar para mim?

— Claro, Commendator Pazzi.

— Os objetos pessoais dele ainda estão no Palazzo?

— Em duas malas, com um inventário.

— Vou mandar... vou passar por lá e pegá-las.

— Poderia me telefonar primeiro, Commendatore? Eu posso desarmar o sistema de segurança antes de sua chegada, e lhe economizar tempo.

O sujeito é calmo demais. Ele deveria me temer um pouco. Ele pede que eu telefone antes de ir.

O comitê havia irritado Pazzi. Ele não podia fazer coisa alguma a respeito. Agora sentia-se cutucado pela presunção desse sujeito. Cutucou de volta.

— Dr. Fell, posso lhe fazer uma pergunta pessoal?

— Se o serviço exigir, Commendatore.

— O senhor tem uma cicatriz relativamente nova nas costas da mão es­querda.

— E o senhor tem uma nova aliança de casamento na sua: La VitaNuova? — o Dr. Fell sorriu. Tinha dentes pequenos, muito brancos. No instante de surpresa de Pazzi, antes que ele decidisse ficar ofendido, o Dr. Fell levantou a mão com a cicatriz e prosseguiu: — Síndrome do túnel do carpo, Commendatore. A História é uma profissão perigosa.

— Por que o senhor não declarou síndrome do túnel do carpo nos for­mulários do Serviço Nacional de Saúde quando veio trabalhar aqui?

— Minha impressão, Commendatore, é que os danos só são relevantes se estamos recebendo pagamento por deficiência física; eu não estou. Tampouco sou deficiente.

— Então a cirurgia foi feita no Brasil, seu país de origem?

— Não foi na Itália, não recebi coisa alguma do governo italiano — dis­se o Dr. Fell, como se acreditasse ter respondido completamente.

Os dois foram os últimos a sair da sala de reuniões. Pazzi tinha chegado à porta quando o Dr. Fell dirigiu-se a ele.

— Commendator Pazzi?

O Dr. Fell era uma silhueta preta de encontro à janela alta. Atrás dele, à distância, erguia-se o Duomo.

— Sim?

— Creio que o senhor é um Pazzi dos Pazzi, estou certo?

— Sim. Como sabia? — Pazzi consideraria extremamente grosseira uma referência à cobertura recente nos jornais.

— O senhor lembra uma figura dos rondeis de Delia Robbia na capela de sua família em Santa Croce,

— Ah, aquele era Andréa de’ Pazzi, representado como João Batista — disse Pazzi, com um pequeno toque de prazer em seu coração ácido.

Quando Rinaldo Pazzi deixou a figura esguia parada na sala do conselho, sua última impressão foi da extraordinária imobilidade do Dr. Fell. Muito em breve ele acrescentaria outras impressões.

 

Agora que o contato incessante deixou-nos calejados para tudo que é obs­ceno e vulgar, é instrutivo saber o que ainda nos parece maligno. O que ainda golpeia a gordura viscosa de nossa consciência submissa com força bastante para atrair nossa atenção?

Em Florença foi a exposição chamada Instrumentos de Torturas Atrozes, e foi ali que Rinaldo Pazzi encontrou pela segunda vez o Dr. Fell.

A exposição, mostrando mais de vinte instrumentos clássicos de tortura com ampla documentação, foi montada no intimidante Forte di Belvedere, uma fortaleza dos Mediei, do século XVI, que guarda a muralha sul da cida­de. A mostra recebeu uma multidão enorme e inesperada; a excitação saltava como uma truta dentro das calças do público.

O prazo programado era de um mês. A exposição de Instrumentos de Torturas Atrozes permaneceu seis meses, igualando o público da Galeria Uffizi e superando o do Museu do Palazzo Pitti.

Os promotores, dois taxidermistas fracassados que anteriormente sobre­viviam comendo as entranhas dos troféus que montavam, tornaram-se milio­nários e fizeram uma turnê triunfal pela Europa com a mostra, usando seus novos smokings.

Os visitantes vinham principalmente em casais, de toda a Europa, apro­veitando as extensas horas em fila no meio dos engenhos de dor, para ler cui­dadosamente em qualquer uma das quatro línguas a proveniência e o modo de uso dos equipamentos. Ilustrações de Dürer e outros, junto com diários da época, esclareciam o público em questões como os detalhes da tortura na roda. Escrito em inglês numa placa:

Os príncipes italianos preferiam quebrar suas vítimas no chão, usando uma roda com aro de ferro como agente de pressão, e blocos debaixo dos membros, como está sendo mostrado, ao passo que no norte da Europa o método popular era amarrar a vítima na roda, quebrar seus membros com uma barra de ferro e depois passá-los através dos raios ao redor do perímetro da roda, com as várias fraturas propor­cionando a flexibilidade exigida, enquanto a cabeça ainda fazendo barulho e o tronco permaneciam no centro. Este último método era um espetáculo mais satisfatório, mas a recreação poderia acabar rapidamente se um pedaço de osso entrasse no coração.

A exposição de Instrumentos de Torturas Atrozes não podia deixar de atrair um conhecedor do que há de pior na humanidade. Mas a essência do pior, a verdadeira assa-fétida do espírito humano, não é encontrada na Donzela de Ferro ou na lâmina afiada; a Feiúra Básica é encontrada nos rostos da multidão.

Na semi-escuridão daquela grande sala de pedra, debaixo das gaiolas dos condenados penduradas no alto, estava o Dr. Fell, conhecedor de rostos, se­gurando os óculos na mão cicatrizada, encostando a ponta da armação nos lábios, o rosto fascinado enquanto olhava as pessoas passando.

Rinaldo Pazzi viu-o ali.

Pazzi estava na segunda tarefa mesquinha do dia. Em vez de jantar com a mulher, passava pela multidão para colocar novos alertas para os casais sobre o Monstro de Florença, que ele não conseguira pegar. Um daqueles cartazes estava colado acima da sua mesa, colocado ali pelos novos superiores, junto com outros cartazes de procurados de todo o mundo.

Os taxidermistas, cuidando juntos da bilheteria, ficaram satisfeitos em acrescentar um pouquinho do horror contemporâneo à sua mostra, mas pe­diram que o próprio Pazzi colocasse o cartaz, já que nenhum dos dois parecia disposto a deixar o outro sozinho com o dinheiro. Alguns moradores da cida­de reconheceram Pazzi e o vaiaram em meio ao anonimato da multidão.

Pazzi apertou tachinhas nos cantos do cartaz azul, onde aparecia o olho único, vigilante, num quadro de avisos perto da saída, onde atrairia mais aten­ção, e virou uma luz da exposição para cima dele. Observando os casais que saíam, Pazzi podia ver que muitos estavam excitados, esfregando-se uns con­tra os outros no meio da turba. Não queria ver mais um arranjo montado, não queria ver mais sangue e flores.

Queria falar com o Dr. Fell — seria conveniente pegar os objetos do curador desaparecido enquanto estava tão perto do Palazzo Capponi. Mas, quando se virou do quadro de avisos, o doutor havia desaparecido. Não estava na mul­tidão que saía. Havia apenas a parede de pedra junto à qual ele estivera, de­baixo da gaiola onde se encontrava um esqueleto em posição fetal, ainda im­plorando para ser alimentado.

Pazzi ficou chateado. Abriu caminho pela multidão até sair, mas não en­controu o doutor.

O guarda na saída reconheceu Pazzi e não disse coisa alguma quando ele passou por cima da corda e deixou o caminho, indo para o terreno escuro do Forte di Belvedere. Foi até o parapeito, olhando para o norte, por sobre o Amo. A velha Florença estava aos seus pés, a grande corcova do Duomo, a torre do Palazzo Vecchio erguendo-se em meio à luz.

Pazzi era uma alma muito velha, retorcendo-se na ponta de uma lança de circunstâncias ridículas. Sua cidade zombava dele.

O FBI americano terminara de enfiar a faca nas suas costas, dizendo na imprensa que o perfil feito pelo FBI para Il Mostro não se parecia sequer um pouco com o homem que Pazzi prendera. La Nazione acrescentou que Pazzi “carregara Tocca para a prisão”.

A última vez em que Pazzi prendera o cartaz azul do Il Mostro tinha sido na América; foi um triunfo orgulhoso que ele pendurou na parede da Divisão de Ciência do Comportamento, e ele o autografara a pedido dos agentes do FBI americano. Todos sabiam a seu respeito, admiravam-no, convidavam-no. Ele e a esposa tinham sido convidados de muitos no litoral de Maryland.

De pé no parapeito escuro, olhando para sua cidade antiga, ele sentiu o cheiro do ar salgado da baía de Chesapeake, viu a esposa na praia, calçando os tênis brancos novos.

Havia uma imagem de Florença na Divisão de Ciência do Comportamen­to, em Quantico, que lhe mostraram como uma curiosidade. Era a mesma vista que tinha diante de si agora, a velha Florença vista do Belvedere, a me­lhor vista que há. Mas não em cores. Não, era um desenho a lápis, sombreado a carvão. O desenho estava numa foto, no fundo de uma foto. Era uma fotografia do assassino serial americano, o Dr. Hannibal Lecter. Hannibal, o Ca­nibal. Lecter desenhara Florença de memória, e o desenho estava pendurado em sua cela no asilo, um lugar tão triste quanto este.

Quando foi que baixou sobre Pazzi aquela idéia que vinha amadurecen­do? Duas imagens, a Florença real à sua frente e o desenho do qual ele se lem­brava. Colocando o cartaz do Il Mostro há minutos. O cartaz de Mason Verger mostrando Hannibal Lecter na parede da sala de Pazzi, com a imensa recom­pensa e os alertas:

O dr. lecter precisará esconder a mão esquerda, e talvez tente alterá-la cirurgicamente, já que seu tipo de polidactilia, o surgimento de dedos extras perfeitos, é extremamente raro e instantaneamente identificável.

O Dr. Fell segurando os óculos junto aos lábios com a mão cicatrizada.

Um desenho detalhado desta vista na parede da sala de Hannibal Lecter.

Será que a idéia veio a Pazzi enquanto ele olhava para a cidade de Florença abaixo, ou para a escuridão acima das luzes? E por que o que a atraíra fora o cheiro da brisa salgada em Chesapeake?

Estranhamente, para um homem visual, a conexão chegou com um som, o som que uma pedra faria caindo num poço.

Hannibal Lecter tinha fugido para Florença. Plop.

Hannibal Lecter era o Dr. Fell.

A voz interior de Rinaldo Pazzi lhe disse que ele poderia ter enlouquecido na gaiola de seu sofrimento; sua mente frenética poderia estar trincando os dentes contra as barras como o esqueleto na gaiola da exposição.

Sem ter lembrança de se mexer, ele se viu no Portão da Renascença, que ia do Belvedere para a íngreme Costa di San Giorgio, uma rua estreita que ser­penteia e mergulha até o coração da velha Florença em menos de oitocentos metros. Seus passos pareciam levá-lo por sobre os pedregulhos íngremes inde­pendentemente da vontade. Ia mais rápido do que desejava, olhando sempre à frente em busca do homem chamado Dr. Fell, porque este era o caminho para a casa dele — na metade do caminho Pazzi entrou na Costa Scarpuccia, sempre descendo, até chegar à Via de’Bardi, perto do rio. Perto do Palazzo Capponi, lar do Dr. Fell.

Bufando por causa da descida, encontrou um lugar à sombra da luz da rua, a entrada de um prédio de apartamentos em frente ao Palazzo. Se alguém viesse, ele poderia se virar e fingir que estava apertando uma campainha.

O Palazzo estava escuro. Pazzi podia ver acima da grande porta dupla a luz vermelha de uma câmera de vigilância. Não tinha certeza se ela funciona­va o tempo inteiro, ou se era ligada apenas quando alguém tocava a campai­nha. Ficava bem dentro da entrada coberta. Pazzi não acreditava que ela pu­desse captar a imagem ao longo da fachada.

Esperou meia hora, ouvindo a própria respiração, e o doutor não chegou. Talvez estivesse lá dentro, sem luzes acesas.

A rua estava vazia. Pazzi atravessou rapidamente e ficou perto da parede. Fracamente, um som fino veio de dentro. Pazzi encostou a cabeça nas barras frias da janela para ouvir. Um cravo, as Variações Goldberg, de Bach, bem tocadas.

Pazzi precisava esperar, espreitar e pensar. Era cedo demais para estragar sua busca. Precisava decidir o que fazer. Não queria bancar o idiota outra vez. Enquanto recuava para a sombra do outro lado da rua, seu nariz foi a última coisa a desaparecer.

 

O mártir cristão São Miniato pegou sua cabeça cortada na areia do anfiteatro romano de Florença e levou-a debaixo do braço até a montanha do outro lado do rio, onde, segundo a tradição, está enterrado em sua igreja esplêndida.

Sem dúvida, o corpo de São Miniato, ereto ou não, passou pela rua antiga onde estamos agora, a Via de’ Bardi. Agora a noite chega, e a rua está vazia, o padrão em leque das pedras do calçamento brilhando numa garoa de inverno que não é suficientemente fria para matar o cheiro dos gatos. Estamos em meio aos palácios construídos há seiscentos anos pelos príncipes mercadores, fazedores de reis e eminências pardas da Florença renascentista. A pouca dis­tância, do outro lado do rio Amo, estão as espiras cruéis da Signoria, onde o monge Savonarola foi enforcado e queimado, e aquele grande açougue de Cristos crucificados, o Museu Uffízi.

Esses locais familiares, comprimidos numa rua antiga, congelados na bu­rocracia da Itália moderna, são por fora arquitetura de prisão, mas contêm espaços grandes e graciosos, salões altos e silenciosos que ninguém jamais vê, com cortinas de seda apodrecendo, manchadas de chuva, onde obras menores dos grandes mestres da Renascença estão penduradas no escuro há anos, e são iluminadas pelos raios depois que as cortinas desmoronam.

Aqui, atrás de vocês, está o palácio dos Capponi, uma família distinta durante mil anos, que rasgou o ultimato de um rei francês na cara dele e pro­duziu um papa.

Agora as janelas do Palazzo Capponi estão escuras, atrás de seus portões de ferro. Os aros para as tochas estão vazios. Naquele vidro velho e craquelado está um buraco de bala dos anos 40. Chegue mais perto. Encoste a cabeça no ferro frio como fez o policial, e ouça. Você pode ouvir fracamente um cravo. As Variações Goldberg, de Bach, tocadas não perfeitamente, mas mui­to bem, com uma compreensão envolvente da música. Tocadas não perfei­tamente, mas tremendamente bem; talvez haja uma ligeira rigidez na mão esquerda.

Se você acreditasse que não corre risco, entraria lá dentro? Entraria nesse lugar tão proeminente em sangue e glória, seguiria seu rosto através do escuro cheio de teias, em direção ao barulho exótico do cravo? Os alarmes não po­dem nos ver. O policial molhado, espreitando na porta, não pode nos ver. Venha...

Dentro do saguão o escuro é quase absoluto. Uma comprida escada de pedra, o corrimão frio debaixo de nossa mão que escorrega, os degraus côncavos pelas centenas de anos de passos, irregulares sob nossos pés enquanto su­bimos na direção da música.

A alta porta dupla do salão principal guincharia e uivaria se tivéssemos de abri-la. Para você ela está aberta. A música vem do canto mais distante, e do canto vem a única luz, luz de muitas velas escorrendo vermelha através da porta pequena de uma capela no canto do salão.

Vamos até a música. Temos uma leve consciência de passar por grandes grupos de móveis cobertos de pano, formas vagas não totalmente imóveis à luz das velas, como um rebanho adormecido. Acima de nós, as alturas da sala desaparecem na escuridão.

A luz brilha avermelhada sobre um cravo ornamentado, e sobre o homem conhecido pelos eruditos da Renascença como o Dr. Fell, o doutor elegante, de costas retas enquanto se inclina para a música, a luz refletindo-se no cabelo e nas costas do roupão de seda xadrez com um brilho que faz parecer pelúcia.

A tampa erguida do cravo é decorada com uma cena intricada de um ban­quete, e as pequenas figuras parecem um enxame à luz das velas, acima das cordas. Ele toca de olhos fechados. Não precisa da partitura. À frente, no su­porte em forma de lira, está um exemplar do tablóide americano de escânda­los, o National Tattler. Está dobrado para mostrar apenas o rosto na primeira página, o rosto de Clarice Starling.

Nosso músico sorri, termina a peça, repete uma vez a sarabanda por seu próprio prazer, e a última corda tangida por uma pena vibra até o silêncio no grande salão, ele abre os olhos, cada pupila com um ponto de luz vermelha no centro. Ele inclina a cabeça para o lado e olha para o jornal. Levanta-se sem qualquer ruído e leva o tablóide americano para a minúscula capela ornamen­tada, construída antes da descoberta da América. Enquanto o segura à luz das velas e o desdobra, os ícones religiosos acima do altar parecem ler o tablóide sobre seus ombros, como se estivessem numa fila de mercearia. O tipo é Railroad Gothic, de corpo 72. Diz: “anjo da morte: Clarice Starling, a má­quina de matar do FBI. “

Rostos pintados em agonia e beatitude ao redor do altar desaparecem quando ele sopra as velas. Ao atravessar o grande salão ele não precisa de luz. Um sopro de ar enquanto o Dr. Hannibal Lecter passa por nós. A grande porta estala, fecha-se com um ruído oco que podemos sentir no chão. Silêncio.

Passos entrando em outro cômodo. Nas ressonâncias deste lugar as pare­des parecem mais perto, o teto ainda alto — sons agudos ecoam tardios de cima — e o ar imóvel segura o cheiro de pergaminho e velas apagadas.

O barulho de papel no escuro, os estalos de uma poltrona. O Dr. Lecter senta-se numa grande poltrona da famosa Biblioteca Capponi. Seus olhos refle­tem a luz vermelha, mas não brilham vermelhos no escuro, como alguns de seus prisioneiros teriam jurado. A escuridão é completa. Ele está meditando...

É verdade que o Dr. Lecter criou a vaga no Palazzo Capponi removendo o antigo curador — um processo simples que exigiu alguns segundos de tra­balho no velho e uma moldagem modesta de dois sacos de cimento — mas assim que o caminho estava livre ele conseguiu o cargo facilmente, demons­trando ao Comitê de Belle Arti uma capacidade lingüística extraordinária, traduzindo à primeira vista o italiano medieval e o latim dos manuscritos mais densos em letras góticas.

Encontrara uma paz que iria preservar — praticamente não matara nin­guém, a não ser seu predecessor, durante o período em que morava em Flo­rença. Seu cargo como tradutor e curador da Biblioteca Capponi é um prê­mio considerável para ele por vários motivos:

Os espaços, a altura das salas do palácio, são importantes para o Dr. Lecter depois de anos confinado num espaço pequeno. Mais importante, ele sente uma ressonância com o lugar; é o único prédio particular que ele já viu e que se aproxima, em dimensão e detalhes, ao palácio de memórias que mantém desde a juventude.

Na biblioteca, essa coleção única de manuscritos e correspondências que remontam ao início do século XIII, ele pode se dar ao luxo de uma certa cu­riosidade a respeito de si próprio.

O Dr. Lecter acreditava, a partir de fragmentados registros familiares, que descendia de um certo Giuliano Bevisangue, uma temível figura do século XII na Toscana, e dos Maquiavel, bem como dos Visconti. Este era o lugar ideal para pesquisa. Apesar de ter uma certa curiosidade abstrata na questão, ela não se relacionava com o ego. O Dr. Lecter não precisa de um reforço con­vencional. Seu ego, como sua cota de inteligência, e o grau de sua racionalidade, não são mensuráveis por meios convencionais.

De fato, não há consenso na comunidade psiquiátrica de que o Dr. Lecter deva ser considerado um homem. Há muito ele tem sido visto pelos seus pa­res na psiquiatria, muitos dos quais temem sua pena ácida nos jornais da clas­se, como algo totalmente Estranho. Por conveniência, eles o chamam de “mons­tro”.

O monstro está sentado na biblioteca negra, a mente pintando cores no escuro, e um ar medieval atravessando sua cabeça. Está pensando no policial.

Estalo de um interruptor, e uma luz baixa se acende.

Agora podemos ver o Dr. Lecter sentado numa mesa de refeitório do sé­culo XVI na Biblioteca Capponi. Atrás dele está uma parede cheia de manus­critos em escaninhos e grandes livros encadernados de tecido remontando a oitocentos anos. Uma correspondência do século XIV com um ministro da República de Veneza está empilhada diante dele, segura por um pequeno molde feito por Michelangelo como estudo para o seu Moisés de chifre, e diante do tinteiro há um computador laptop ligado para pesquisa on line com a Univer­sidade de Milão.

Em vermelho e azul luminosos em meio às pilhas de pergaminho casta­nho e amarelo está um exemplar do National Tattler. E ao lado dele, a edição do La Nazione de Florença. O Dr. Lecter pega o jornal italiano e lê o último ataque contra Rinaldo Pazzi, provocado por uma declaração do FBI sobre o caso do Il Mostro. “Tocca jamais se ajustou ao nosso perfil”, dizia um porta-voz do FBI. La Nazione citava a formação de Pazzi e seu treinamento na América, na famosa Academia de Quantico, e dizia que ele não deveria ter se enganado tão facilmente. O caso do Il Mostro não interessava em absoluto ao Dr. Lecter, mas o passado de Pazzi sim. Que infelicidade ele encontrar um policial treinado em Quantico, onde Hannibal Lecter era um caso estudado com afinco.

Quando o Dr. Lecter fitou o rosto de Rinaldo Pazzi no Palazzo Vecchio e ficou suficientemente perto para cheirá-lo, teve certeza de que Pazzi não sus­peitava de coisa alguma, mesmo tendo perguntado sobre a cicatriz na sua mão. Pazzi nem mesmo tinha um interesse sério nele com relação ao desapareci­mento do curador.

O policial o viu na exposição de instrumentos de tortura. Teria sido me­lhor encontrá-lo numa exposição de orquídeas.

O Dr. Lecter tinha consciência de que todos os elementos da epifania es­tavam presentes na cabeça do policial, entrechocando-se aleatoriamente com os milhares de outras coisas que ele sabia.

Será que Rinaldo Pazzi deveria se juntar ao falecido curador do Palazzo Vecchio no fundo do poço? Será que o corpo de Pazzi deveria ser encontrado depois de um aparente suicídio? O La Nazione ficaria satisfeito em tê-lo pro­vocado até a morte.

Agora não, refletiu o monstro, e voltou-se para seus grandes rolos de pergaminho.

O Dr. Lecter não se preocupava. Estava se deliciando com o estilo de es­crita de Neri Capponi, banqueiro e emissário a Veneza no século XV, e lia suas cartas, em voz alta de vez em quando, por seu próprio prazer, tarde da noite.

 

Antes do amanhecer Pazzi tinha nas mãos as fotografias tiradas para o visto de trabalho do Dr. Fell, junto com as certidões negativas de seu permesso di soggiorno nos arquivos dos Carabinieri. Além disso Pazzi recebera as excelen­tes fotos reproduzidas a partir do cartaz de Mason Verger. Os rostos eram se­melhantes, mas se o Dr. Fell era o Dr. Hannibal Lecter, fora feito algum tra­balho no nariz e nas bochechas, talvez injeções de colágeno. As orelhas pareciam promissoras. Como Alphonse Bertillon há cem anos, Pazzi examinou as ore­lhas com sua lente de aumento. Pareciam iguais.

No computador obsoleto da Questura, ele digitou seu código de acesso à Interpol para o Programa de Apreensão de Criminosos Violentos, do FBI americano, e baixou o volumoso dossiê Lecter. Xingou seu modem lento e ten­tou ler o texto turvo na tela até que as letras saltaram em sua vista. Conhecia a maior parte do caso. Duas coisas fizeram-no prender o fôlego. Uma antiga e uma nova. A atualização mais recente citava um raio X indicando que Lecter provavelmente fizera cirurgia na mão. O item antigo, a imagem de um relató­rio da polícia do Tennessee escrito à mão, observava que enquanto matava seus guardas em Memphis, Hannibal Lecter ouvia uma fita com as Variações Goldberg.

O cartaz divulgado pela rica vítima americana, Mason Verger, encorajava os informantes a ligar para o número do FBI. Dava o alerta padrão sobre o fato de que o Dr. Lecter andava armado e era perigoso. Também era fornecido um número de telefone particular — logo abaixo do parágrafo sobre a recompensa gigantesca.

A passagem aérea de Florença a Paris é ridiculamente cara, e Pazzi teve de pagar do próprio bolso. Não confiava em que a polícia francesa lhe daria uma conexão telefônica sem se intrometer, e não conhecia outro modo de conse­guir. De uma cabine telefônica da American Express, perto da Ópera, ele te­lefonou para o número particular do cartaz de Mason. Presumia que o telefo­nema seria rastreado. Pazzi falava inglês bastante bem, mas sabia que o sotaque iria denunciá-lo como italiano.

A voz era masculina, americana, muito calma.

— Poderia declarar o assunto, por favor?

— Talvez eu tenha informações sobre Hannibal Lecter.

— Sim, bem, obrigado por ter telefonado. O senhor sabe onde ele está agora?

— Acho que sim. A recompensa continua de pé?

— Sim, continua. Que prova tem de que é ele? O senhor deve entender que recebemos muitos telefonemas falsos.

— Posso dizer que ele fez cirurgia plástica no rosto e operou a mão es­querda. Ainda é capaz de tocar as Variações Goldberg. Tem documentos brasi­leiros.

Uma pausa. E depois:

— Por que não ligou para a polícia? Eles exigem que eu o encoraje a fazer isso.

— A recompensa vale em todas as circunstâncias?

— A recompensa é em troca de informações que levem à prisão e à con­denação.

— A recompensa seria paga em... circunstâncias especiais?

— O senhor está falando de um prêmio especial pelo Dr. Lecter? Digamos, no caso de alguém que normalmente não poderia receber uma recompensa?

— Sim.

— Nós dois estamos indo em direção ao mesmo objetivo. Fique no telefo­ne, por favor, enquanto faço uma sugestão. É contra a convenção internacional e a lei dos Estados Unidos oferecer um prêmio pela morte de alguém, senhor. Fique no telefone, por favor. Posso perguntar se está ligando da Europa?

— Sim, estou, e é só isso que vou lhe dizer.

— Bom, escute. Sugiro que entre em contato com um advogado para discutir a legalidade desse tipo de prêmio e que não tome qualquer atitude ilegal contra o Dr. Lecter. Posso recomendar um advogado? Em Genebra há um excelente para esses assuntos. Posso lhe dar um número para telefonar sem precisar pagar tarifa? Eu o aconselho a telefonar para ele e ser franco.

Pazzi comprou um cartão telefônico e fez a ligação seguinte de uma cabine na loja de departamentos Bon Marche. Falou com uma pessoa que tinha uma voz seca e sotaque suíço. Levou menos de cinco minutos.

Mason pagaria um milhão de dólares americanos pela cabeça e as mãos do Dr. Hannibal Lecter. Pagaria a mesma quantia por informações que levas­sem à sua prisão. Em particular pagaria três milhões de dólares pelo doutor vivo, sem perguntas, com discrição garantida. Os termos incluíam cem mil dólares adiantados. Para se candidatar ao adiantamento, Pazzi teria de forne­cer uma impressão digital positivamente identificável do Dr. Lecter, a impres­são teria de ser sobre um objeto, e não uma cópia. Se fizesse isso, ele teria o resto do dinheiro à sua disposição num cofre de banco na Suíça.

Antes de sair do Bon Marche para o aeroporto, Pazzi comprou um penhoar para a mulher, de moiré de seda pêssego.

 

Como você se comporta quando sabe que as honras convencionais não pas­sam de lixo? Quando passa a acreditar, junto com Marco Aurélio, que a opi­nião das gerações futuras não valerá mais do que a atual? Nesse caso será pos­sível se comportar bem? Será desejável se comportar bem?

Agora Rinaldo Pazzi, um Pazzi dos Pazzi, investigador-chefe da Questura florentina, tinha de decidir quanto valia sua honra, ou se há uma sabedoria mais duradoura do que as considerações de honra.

Chegou de Paris na hora do jantar e dormiu um pouco. Queria perguntar à mulher, mas não podia, mas recebeu conforto dela. Ficou acordado por lon­go tempo depois, depois de a respiração dela se acalmar. Tarde da noite, desis­tiu do sono e foi caminhar e pensar.

A avareza não é desconhecida na Itália, e Rinaldo Pazzi se embebera sufi­cientemente em seu ar nativo. Mas seu consumismo e sua ambição natural haviam crescido na América, onde cada influência é sentida mais rapidamen­te, inclusive a morte de Jeová e a ascensão de Mamon.

Quando Pazzi saiu das sombras da Loggia e parou no lugar onde Savonarola fora queimado na Piazza Signoria, quando ergueu os olhos para a janela do Palazzo Vecchio todo iluminado, onde seu ancestral morrera, acreditou que estava deliberando. Não estava. Já havia decidido.

Nós designamos um momento para a decisão, para dignificar o processo como o resultado de um pensamento racional e consciente. Mas as decisões são feitas de sentimentos amalgamados; freqüentemente eles são mais um amontoado do que uma soma.

Pazzi decidira quando entrou no avião para Paris. E decidira há uma hora, depois de a esposa, com seu penhoar novo, ter se mostrado apenas obediente­mente receptiva. E minutos depois quando, deitado no escuro, estendeu a mão para acariciar-lhe o rosto e dar-lhe um beijo terno de boa-noite, e sentiu uma lágrima debaixo da palma. Então, sem perceber, ela comeu seu coração.

Honras de novo? Outra chance de suportar o hálito do arcebispo enquanto as lascas sagradas eram golpeadas para acender o foguete na bunda do pombo de pano? Mais elogio dos políticos cujas vidas privadas ele conhecia bem de­mais? De que valeria ser conhecido como o policial que apanhara o Dr. Hannibal Lecter? Para um policial, o crédito tem vida curta. Era melhor vende-lo.

O pensamento rasgou e golpeou Rinaldo, deixou-o pálido e decidido, e quando o Rinaldo visual lançou sua sorte, ele estava com dois cheiros mistu­rados na mente, o da mulher e o do litoral de Chesapeake.

vendê-lo. vendê-lo. vendê-lo. vendê-lo. vendê-lo. vendê-lo.

Francesco de’ Pazzi não golpeou com mais força em 1478, quando lançou Giuliano no chão da catedral, quando em seu frenesi esfaqueou a própria coxa.

 

A ficha de impressões digitais do Dr. Hannibal Lecter é uma curiosidade, e uma espécie de objeto de culto. O original está emoldurado na parede da Seção de Identificação do FBI. Segundo o costume do FBI para imprimir as mãos de pessoas com mais de cinco dedos, ele tem o polegar e quatro dedos adja­centes na parte da frente do cartão, e o sexto no verso.

Cópias do cartão de impressões rodaram a terra assim que o doutor es­capou, e a impressão do polegar aparece ampliada no cartaz de procura-se, divulgado por Mason Verger, com um número suficiente de pontos indica­dos para que um examinador minimamente treinado possa fazer a compa­ração.

Captar impressões simples não é uma habilidade difícil, e Pazzi era extre­mamente capaz disso, e podia fazer comparações aproximadas para se certifi­car. Mas Mason Verger exigia uma impressão digital recente, no objeto e não retirada, para que seus especialistas examinassem com independência; Mason já fora enganado antes com impressões antigas retiradas há anos nos locais dos primeiros crimes do Dr. Lecter.

Mas como conseguir as impressões digitais do Dr. Fell sem alertá-lo? Aci­ma de tudo, não devia alarmar o doutor. O sujeito poderia desaparecer e Pazzi ficaria sem coisa alguma.

O doutor não saía com freqüência do Palazzo Capponi, e um mês se pas­saria antes da próxima reunião do Belle Arti. Tempo demais a esperar para plantar um copo d’água na casa dele, já que o Comitê jamais fornecia esse tipo de amenidades.

Uma vez que decidira vender Hannibal Lecter a Mason Verger, Pazzi ti­nha de trabalhar sozinho. Não podia se dar ao luxo de atrair a atenção da Questura para o Dr. Fell conseguindo um mandado para entrar no Palazzo. E o prédio era muito bem defendido com alarmes, para que ele o invadisse e tirasse impressões digitais.

A lata de lixo do Dr. Fell era muito mais limpa e mais nova do que as outras do quarteirão. Pazzi comprou uma lata nova e, na calada da noite, tro­cou as tampas das duas. A superfície galvanizada não era ideal e, num esforço que durou a noite inteira, ele conseguiu um pesadelo pontilhista de impres­sões que jamais poderia decifrar.

Na manhã seguinte, apareceu de olhos vermelhos na Ponte Vecchio. Numa joalheria em cima da velha ponte comprou um bracelete de prata largo, mui­to polido, e o suporte de veludo onde o objeto ficava exposto. No setor de artesãos ao sul do Amo, nas ruas estreitas em frente ao Palazzo Pitti, pediu que outro joalheiro raspasse o nome do fabricante do bracelete. O joalheiro se ofereceu para aplicar uma cobertura antimanchas sobre a prata, mas Pazzi recusou.

Temível Solliciano, a cadeia florentina na estrada para Prato.

No segundo andar da divisão feminina, Romula Cjesku, inclinada sobre um tanque de lavar roupas, ensaboava os seios, lavando-se e enxugando-se cuidadosamente antes de colocar uma blusa de algodão limpa. Outra cigana, voltando da sala de visitas, falou em romani enquanto passava por Romula. Uma ruga minúscula apareceu entre os olhos de Romula. Seu rosto bonito manteve o ar solene de sempre.

Ela tinha permissão de sair da ala às oito e meia da manhã, mas quando se aproximou da sala de visitas um carcereiro a interceptou e levou-a para uma sala de entrevistas particular, no andar térreo da prisão. Lá dentro, em vez da enfermeira de sempre, Rinaldo Pazzi estava segurando seu bebê.

— Olá, Romula — disse ele.

Ela foi direto até o alto policial e não houve dúvida de que ele iria entre­gar a criança imediatamente. O bebê queria mamar e começou a esfregar o nariz na mãe.

Pazzi apontou com o queixo para um biombo no canto da sala.

— Há uma cadeira ali atrás. Podemos conversar enquanto você dá de mamar para ele.

— Conversar sobre o quê, dottore?

O italiano de Romula era passável, bem como o francês, inglês, espanhol e romani. Ela falava sem afetação — sua capacidade teatral não havia evitado esses três meses de cadeia por ter batido carteiras.

Foi para trás do biombo. Num saco plástico escondido nas roupas do bebê havia quarenta cigarros e 65 mil liras, pouco mais de 41 dólares, em notas velhas. A cigarra tinha uma escolha a fazer. Se o policial colocara aquilo no bebê, poderia acusá-la quando ela pegasse o contrabando, e revogaria todos os seus privilégios. Deliberou um momento, olhando para o teto enquanto o bebê mamava. Por que ele se incomodaria com isso? Ele tinha a vantagem, de qualquer modo. Romula pegou o saco e escondeu-o na roupa de baixo. A voz do homem veio do outro lado da tela.

— Você é um incômodo aqui, Romula. Mães que estão amamentando na cadeia são uma perda de tempo. Há pessoas doentes aqui para que as en­fermeiras cuidem. Você não odeia entregar seu bebê quando acaba a hora de visita?

O que ele podia querer? Ela sabia quem ele era, um chefe, um pezzo da novanta, um sacana calibre noventa.

O negócio de Romula era ganhar a vida na rua, e bater carteiras fazia par­te disso. Estava com 35 anos, gasta, e tinha antenas como uma grande mariposa-luna. Esse policial — ela o examinou por cima da tela — olha só como ele é arrumado, o anel de casamento, os sapatos brilhando, morava com a mulher mas tinha uma boa empregada — o colarinho fica onde foi posto, depois de ter sido passado a ferro. Carteira no bolso do paletó, chave no bolso direito da frente da calça, dinheiro no bolso esquerdo da frente da calça, dobrado, provavelmente com um elástico. O pau no meio. Ele era magro e masculino, uma pequena couve-flor na orelha e uma cicatriz de um soco perto da linha dos cabelos. Não iria lhe pedir sexo — se fosse essa a idéia, não teria trazido o bebê. O sujeito não era gran­de coisa, mas ela não acreditava que ele reivindicasse sexo das mulheres da cadeia. Melhor não olhar seus olhos escuros e amargos enquanto o bebê estava mamando. Por que tinha trazido o bebê? Porque ele quer que ela veja seu poder, sugerir que poderia tirá-lo. O que ele quer? Informação? Ela diria qualquer coisa que ele quisesse sobre quinze ciganos que jamais tinham existido. Tudo bem. O que posso conse­guir com isso? Veremos. Vamos mostrar um pouquinho do que sou.

Observou o rosto dele enquanto saía de trás do biombo, com metade do mamilo aparecendo ao lado do rosto do bebê.

— Está quente ali atrás — disse ela. — O senhor poderia abrir uma janela?

— Posso fazer melhor do que isso, Romula. Eu poderia abrir a porta, e você sabe disso.

Silêncio na sala. Lá fora o barulho de Solliciano como uma dor de cabeça constante, oca.

— Diga o que quer. Há coisas que eu faria de boa vontade, mas não tudo.

Seu instinto lhe dizia, corretamente, que ele iria respeitá-la pela bravata.

— É somente la tua solita cosa, a coisa que você faz sempre — disse Pazzi. — Mas quero que faça de um modo especial.

 

Durante o dia eles vigiaram a frente do Palazzo Capponi a partir da janela fechada num apartamento do outro lado da rua — Romula, e uma cigana mais velha que ajudava com o bebê e talvez fosse prima dela, e Pazzi, que fica­va o máximo de tempo possível longe de sua sala na Questura.

O braço de madeira que Romula usava em sua profissão esperava numa cadeira do quarto.

Pazzi conseguira a permissão de usar durante o dia o apartamento de um professor que dava aula na Escola Dante Alighieri, ali perto. Romula insistiu numa prateleira para ela e o bebê na pequena geladeira.

Não precisaram esperar muito. Às nove e meia da manhã do segundo dia, a ajudante de Romula sibilou da cadeira junto à janela. Um buraco preto apareceu do outro lado da rua, quando uma das enormes portas do palácio girou para dentro.

Ali estava ele, o homem conhecido em Florença como Dr. Fell, pequeno e magro nas roupas pretas, esguio como um vison enquanto testava o ar junto à entrada e olhava a rua nas duas direções. Em seguida, apertou um controle remoto para acionar os alarmes e fechou a porta com sua grande maçaneta de ferro fundido, cheia de ferrugem e impossível de reter impressões digitais. Carregava uma sacola de compras.

Ao ver o Dr. Fell pela primeira vez através da fresta da janela, a cigana mais velha agarrou a mão de Romula como se quisesse impedi-la, fitou-a no rosto e deu-lhe uma sacudida rápida enquanto o policial não estava olhando.

Pazzi soube de imediato para onde ele estava indo.

No lixo do Dr. Fell Pazzi vira os distintos papéis de embrulho da loja de comidas finas, a Vera dal 1926, na Via San Jacopo, perto da Ponte Santa Trinità. Agora o doutor ia naquela direção enquanto Romula vestia o casaco e Pazzi vigiava a janela.

— Dunque, são compras — disse Pazzi. Ele não conseguia se impedir de repetir as instruções para Romula pela quinta vez. — Vá indo, Romula. Espe­re deste lado da Ponte Vecchio. Você vai pegá-lo voltando, carregando a saco­la cheia. Estarei meio quarteirão na frente dele, você me verá primeiro. Eu vou ficar perto. Se houver algum problema, se você for presa, eu cuido disso. Se ele for a algum outro lugar, volte ao apartamento. Eu ligo para você. Ponha este passe no pára-brisa de um táxi e venha me procurar.

— Eminenza — disse Romula, elevando o título honorífico no irônico estilo italiano —, se houver um problema e outra pessoa me ajudar, não o machuque, meu amigo não vai pegar nada, deixe ele ir embora.

Pazzi não esperou o elevador, desceu correndo a escada vestindo um so­bretudo sebento, usando boné. É difícil acompanhar alguém em Florença porque as calçadas são estreitas e a vida não vale coisa alguma na rua. Pazzi tinha um motorino velho junto ao meio-fio, com uma dúzia de vassouras amarradas. A motoneta deu partida na primeira tentativa e, num sopro de fumaça azul, o investigador-chefe seguiu pela rua, o pequeno veículo saltan­do sobre as pedras do calçamento como um burrico a pleno trote.

Pazzi ia devagar, o tráfego feroz buzinava para ele. Comprou cigarros, matou o tempo ficando para trás, até ter certeza de para onde o Dr. Fell ia. No final da Via de’ Bardi o Borgo San Jacopo era de mão única, vindo na direção dele. Pazzi abandonou a motoneta na calçada e seguiu a pé, virando o corpo magro de lado para atravessar a multidão de turistas na extremidade sul da Ponte Vecchio.

Os florentinos dizem que a Vera dal 1926, com sua riqueza de queijos e trufas, cheira como os pés de Deus.

Sem dúvida, o doutor se demorou lá dentro. Estava fazendo uma seleção das primeiras trufas brancas da estação. Pazzi podia ver as costas dele através da vitrine, atrás do maravilhoso mostruário de presuntos e massas.

Virou a esquina e voltou, lavou o rosto na fonte que jorrava água de um rosto com bigode e orelhas de leão.

— Você precisaria se barbear, para o meu gosto — disse à fonte, por cima da bola fria de seu estômago.

O doutor estava saindo com alguns pacotes leves na sacola. Começou a voltar pelo Borgo San Jacopo na direção de casa. Pazzi adiantou-se pelo outro lado da rua. A multidão na calçada estreita forçou Pazzi a ir para o calçamen­to, e o espelho de uma radiopatrulha dos Carabinieri esbarrou dolorosamen­te em seu relógio de pulso.

— Stronzo! Analfabeto!— gritou o motorista pela janela, e Pazzi jurou vingança. Quando chegou à Ponte Vecchio, conseguira uma dianteira de qua­renta metros.

Romula estava numa porta, o bebê aninhado no braço de madeira, a ou­tra mão estendida para as pessoas a mão livre preparada debaixo das roupas largas para bater outra carteira que iria se somar às mais de duzentas que ela roubara durante a vida. No braço escondido estava o bracelete de prata, largo e bem polido.

Num instante a vítima passaria em meio à multidão, saindo da velha pon­te. Assim que saísse da multidão para a Via de’ Bardi, Romula iria ao seu en­contro, fazer o que devia e misturar-se na torrente de turistas que atravessa­vam a ponte.

Romula tinha um amigo na multidão, com quem poderia contar. Não sabia coisa alguma sobre a vítima, e não confiava em que o policial fosse protegê-la. Giles Prevert, conhecido em algumas fichas da polícia como Giles Dumain ou Roger LeDuc, mas conhecido localmente como Gnocco, espera­va na multidão ao sul da Ponte Vecchio. Gnocco vinha se exaurindo com seu vício, e o rosto começava a mostrar o crânio por baixo, mas ele ainda era musculoso e forte, e podia ajudar Romula caso o roubo desse errado.

Vestido como um funcionário público, podia se misturar à multidão, apa­recendo de vez em quando como se a multidão fosse um rebanho urbano. Se a vítima pretendida agarrasse Romula e a segurasse, Gnocco poderia tropeçar, cair sobre a vítima e ficar embolado com ela, desculpando-se profusamente até que Romula estivesse longe. Já fizera isso antes.

Pazzi passou por ela, parou numa fila de fregueses de uma loja de sucos, de onde poderia ver.

Romula saiu do vão da porta. Avaliou com olhar experiente o tráfego na calçada entre ela e a figura esguia que vinha em sua direção. Era capaz de se movimentar maravilhosamente em meio à multidão com um bebê na frente do corpo, apoiado no braço falso, feito de madeira e lona. Tudo bem. Como sempre, ela iria beijar os dedos da mão visível e estendê-la para o rosto dele, para colocar o beijo ali. Com a mão livre, iria cutucar as costelas dele, perto da carteira, até que o homem agarrasse o seu pulso. Em seguida, iria se soltar dele.

Pazzi prometera que aquele homem não podia se dar ao luxo de segurá-la para a polícia, que ele desejaria se livrar dela. Em todas as suas tentativas para bater uma carteira, ninguém jamais fora violento com uma mulher seguran­do um bebê. Freqüentemente, a vítima achava que era outra pessoa ao lado que enfiava a mão no seu paletó. A própria Romula denunciara vários passantes inocentes como batedores de carteira, para não ser apanhada.

Romula moveu-se com a multidão na calçada, liberou o braço escondido mas o manteve sob o braço falso que aninhava o bebê. Podia ver o homem chegando em meio ao campo de cabeças que balançavam, a dez metros e se aproximando.

Madonna! O Dr. Fell estava se desviando no meio da multidão, indo com a torrente de turistas para cima da Ponte Vecchio. Ele não ia para casa. Ela forçou caminho na multidão, mas não pôde alcançá-lo. O rosto de Gnocco, ainda à frente do doutor, olhava-a, interrogativo. Ela balançou a cabeça e Gnocco deixou-o passar. Não adiantaria coisa alguma se Gnocco batesse a carteira dele.

Pazzi rosnava ao lado dela, como se fosse sua culpa.

— Vá para o apartamento. Eu telefono para você. Está com o passe de táxi para a Cidade Velha? Vá. Vá!

Pazzi pegou sua motoneta e empurrou-a atravessando a Ponte Vecchio, por sobre o Amo opaco como jade. Pensou que perdera o doutor, mas ali es­tava ele, do outro lado do rio, sob a arcada ao lado do Lungarno, espiando por um instante por cima do ombro de um desenhista, e em seguida prosseguindo com passos rápidos e leves. Pazzi achou que o Dr. Fell estaria indo para a Igreja de Santa Croce, e seguiu a alguma distância em meio ao tráfego infernal.

 

A Igreja de Santa Croce, dos franciscanos, com o vasto interior ressoando em oito línguas enquanto as hordas de turistas passavam atrás dos guarda-chuvas brilhantes de seus guias, procurando moedas de duzentas liras no escuro para que pudessem pagar pela iluminação, durante um precioso minuto em suas vidas, dos grandes afrescos nas capelas.

Romula entrou, vindo da manhã luminosa, e teve de parar perto ao túmulo de Michelangelo enquanto seus olhos ofuscados se ajustavam. Quando pôde ver que estava parada sobre um túmulo no chão, sussurrou: “Mi dispiace”, e saiu rapidamente de sobre a lápide; para Romula, a multidão de mortos debaixo do chão era tão real quanto as pessoas acima, e talvez mais influente. Era filha e neta de leitores de espíritos e mãos, e via as pessoas acima do piso, e as pessoas abaixo, como duas multidões separadas pelo plano mortal. As de baixo, sendo mais inteligentes e mais velhas, tinham a vantagem na opinião dela.

Olhou ao redor procurando o sacristão, um homem com grande precon­ceito contra ciganos, e refugiou-se na primeira coluna, sob a proteção da “Madonna dei Latte”, de Rossellino, enquanto o bebê focinhava seu seio. Pazzi, espreitando perto do túmulo de Galileu, encontrou-a lá.

Ele apontou com o queixo para os fundos da igreja onde, do outro lado do transepto, luzes fortes e câmeras proibidas espocavam como raios através da escuridão vasta e alta enquanto os temporizadores comiam notas de du­zentas liras e alguma ficha ocasional, ou 25 centavos australianos.

Repetidamente Cristo nascia, era traído, e os cravos eram pregados en­quanto os grandes afrescos apareciam sob luz brilhante e mergulhavam de novo numa escuridão fechada e apinhada, enquanto a enorme quantidade de pere­grinos segurava guias de turismo que eles não podiam enxergar, e o odor de corpos e de incenso subia cozinhando no calor das lâmpadas.

O Dr. Fell estava trabalhando na Capela Capponi, no transepto da es­querda. A gloriosa Capela Capponi fica em Santa Felicita. Esta, refeita no século XIX, interessava ao Dr. Fell porque ele podia olhar para o passado, através da restauração. Estava fazendo uma cópia, esfregando carvão num papel fino sobre uma inscrição em pedra, tão gasta que nem mesmo a iluminação oblíqua era capaz de fazê-la aparecer.

Olhando através de seu pequeno monóculo, Pazzi descobriu por que o doutor saíra de casa apenas com a bolsa de compras — ele mantinha seu material de arte atrás do altar da capela. Por um momento pensou em chamar Romula e deixar que ela fosse embora. Talvez ele pudesse pegar impressões digitais nos materiais de arte. Não, o doutor estava usando luvas de algodão para não sujar as mãos com o carvão.

Na melhor das hipóteses seria uma situação incômoda. A técnica de Romula destinava-se à rua. Mas Romula era óbvia, e nem de longe algo que um crimi­noso temeria. Era a pessoa com menor probabilidade de fazer com que o dou­tor fugisse. Não. Se o doutor a agarrasse, iria entregá-la ao sacristão, e Pazzi poderia intervir mais tarde.

O homem era louco. E se ele a matasse? E se matasse o bebê? Pazzi fez-se as duas perguntas. Será que lutaria com o doutor caso a situação parecesse letal? Sim. Será que estava disposto a arriscar um ferimento menor em Romula e na criança para conseguir o dinheiro? Sim.

Eles teriam simplesmente de esperar até que o Dr. Fell tirasse as luvas para ir lanchar. Andando de um lado para o outro ao longo do transepto, houve tempo para Pazzi e Romula sussurrarem. Pazzi identificou um rosto na mul­tidão.

— Quem a está seguindo, Romula? É melhor me dizer. Eu já vi o rosto dele na cadeia.

— Meu amigo. Só para bloquear o caminho, se eu precisar correr. Ele não sabe de nada. Nada. É melhor para o senhor. O senhor não precisa se sujar.

Para passar o tempo, os dois rezaram em várias capelas, Romula sussur­rando numa língua que Rinaldo não entendia, e Pazzi com uma lista extensa de coisas pelas quais rezar, particularmente a casa no litoral de Chesapeake e outra coisa na qual não deveria pensar na igreja.

Doces vozes do coral que ensaiava, erguendo-se acima do ruído geral.

Um sino, estava na hora de fechar para o meio-dia. Sacristãos saíram, sa­cudindo as chaves, prontos para esvaziar as caixas de moedas.

O Dr. Fell levantou-se de seu trabalho e saiu de trás da Pietà de Andreotti na capela, tirou as luvas e vestiu o paletó. Um grupo grande de japoneses, apinhado na frente do santuário, com o suprimento de moedas exaurido, estava perplexo no escuro, ainda sem saber por que precisavam sair.

Pazzi cutucou Romula, desnecessariamente. Ela sabia que chegara a hora. Beijou o topo da cabeça do bebê apoiado no braço de madeira.

O doutor vinha. A multidão iria forçá-lo a passar perto dela e, com três passos longos, a cigana foi ao encontro dele, parou à sua frente, esten­deu a mão na área de visão dele, para atrair o olhar, beijou os dedos e se preparou para colocar o beijo no rosto dele, com o braço escondido pron­to para o roubo.

Luzes se acenderam quando alguém na multidão encontrou uma moeda de duzentas liras e, no momento de tocar o Dr. Fell, Romula olhou no rosto dele e sentiu-se sugada para os centros vermelhos dos dois olhos, sentiu o gi­gantesco vácuo frio puxar seu coração contra as costelas, e sua mão se afastou do rosto dele para cobrir o do bebê. Ela ouviu a própria voz dizendo: “Perdonami, perdonami, signore.” Depois virou-se e fugiu, enquanto o doutor a olhava durante um longo instante, até que a luz se apagou e ele era de novo uma silhueta contra as velas numa capela e, com passos rápidos e leves, seguiu seu caminho.

Pálido de raiva, Pazzi encontrou Romula apoiando-se na fonte, banhando a cabeça do bebê repetidamente com água benta, banhando os olhos do menino para o caso de ele ter olhado para o Dr. Fell. Xingamentos ásperos travaram-se em sua boca quando ele olhou o rosto chocado da mulher.

Os olhos dela estavam enormes na escuridão.

— Aquele é o demônio — disse ela. — Shaitan, filho da manhã, eu o vi agora.


— Vou levar você de volta para a cadeia — disse Pazzi.

Romula olhou o rosto do bebê e suspirou, um suspiro de matadouro, tão profundo e resignado que era terrível de ouvir. Tirou a larga pulseira de prata e lavou-a em água benta.

— Ainda não — disse ela.

 

Se Rinaldo Pazzi tivesse decidido cumprir seu dever como agente da lei, poderia ter detido o Dr. Fell e descoberto rapidamente se ele era Hannibal Lecter. Dentro de meia hora poderia ter obtido um mandado para tirar o Dr. Fell do Palazzo Capponi e nenhum dos alarmes do palácio teriam impedido. Por sua própria autoridade poderia ter apreendido o Dr. Fell sem acusá-lo, por tempo suficiente para determinar sua identidade.

Impressões digitais tiradas no quartel-general da Questura revelariam se o Dr. Fell era o Dr. Lecter. Exames de DNA confirmariam a identificação.

Agora todos esses recursos eram negados a Pazzi. Uma vez que decidira vender o Dr. Lecter, o policial tornou-se um caçador de recompensa, fora-da-lei e sozinho. Nem mesmo os informantes sob seu controle lhe eram úteis, porque se apressariam em dedurar o próprio Pazzi.

Os atrasos frustravam-no, mas ele estava decidido. Teria de se virar com aquelas porcarias de ciganos...

— Gnocco faria isso por você, Romula? Você pode encontrá-lo?

Os dois estavam na sala do apartamento emprestado na Via de’ Bardi, do outro lado do Palazzo Capponi, doze horas depois do acontecido na Igreja de Santa Croce. Um abajur pequeno iluminava o quarto até a altura da cintura. Acima da luz, os olhos pretos de Pazzi brilhavam na semi-escuridão.

— Eu mesma vou fazer, mas não com o bebê — disse Romula. — Mas você precisa me dar...

— Não. Não posso deixar que ele veja você duas vezes. Gnocco faria isso por você?

Romula estava sentada, curvada sobre o vestido comprido e brilhante, os seios grandes tocando as coxas, com a cabeça quase nos joelhos. O braço de madeira estava largado numa poltrona. No canto estava sentada a mulher mais velha, provavelmente prima de Romula, segurando o bebê. As cortinas esta­vam fechadas. Espiando através de uma fresta minúscula, Pazzi podia ver uma luz fraca no alto do Palazzo Capponi.

— Eu posso fazer, posso mudar minha aparência para ele não me reco­nhecer. Eu posso...

— Não.

— Então Esmeralda pode fazer.

— Não. — Esta voz veio do canto, a mulher mais velha falando pela primeira vez. — Eu cuido do seu bebê, Romula, até que eu morra. Mas nunca tocaria em Shaitan. — Seu italiano era praticamente ininteligível para Pazzi.

— Sente-se direito, Romula — disse Pazzi. — Olhe para mim. Gnocco faria isso por você? Romula, você vai voltar para Solliciano esta noite. Faltam seis meses de pena para cumprir. É possível que na próxima vez em que você tirar dinheiro e cigarros das roupas do bebê você seja apanhada... eu poderia garantir seis meses a mais, por causa da última vez em que você fez isso. Eu poderia facilmente declarar que você é uma mãe inadequada. O Estado fica­ria com o bebê. Mas se eu conseguir as impressões, você vai ser solta, vai rece­ber dois milhões de liras e sua ficha vai desaparecer, e eu a ajudo com um visto para a Austrália. Gnocco faria isso por você?

Ela não respondeu.

— Você poderia encontrar Gnocco? — Pazzi soltou o ar pelo nariz. — Senti, junte suas coisas, você pode pegar seu braço falso no depósito dentro de três meses, ou talvez no ano que vem. O bebê terá de ir para o asilo dos enjeitados. A velha pode visitar essa coisa lá.

— Essa coisa? Está chamando meu filho de essa coisa, commendatore? O nome dele é... — Ela balançou a cabeça, não querendo dizer o nome da cri­ança para esse homem. Romula cobriu o rosto com as mãos, sentindo os dois pulsos latejarem de encontro às bochechas, e depois falou por trás das mãos. — Eu posso encontrá-lo.

— Onde?

— Na Piazza Santo Spirito, perto da fonte. Vai haver uma fogueira, e alguém terá vinho.

— Vou com você.

— Melhor não. O senhor vai arruinar a reputação dele. O senhor tem Esmeralda e o bebê aqui; sabe que vou voltar.

A Piazza Santo Spirito, uma bela praça na margem esquerda do Amo, mal freqüentada à noite, a igreja escura e trancada naquela hora, barulho e cheiro de comida da Casalinga, a trattoria popular.

Perto da fonte, o brilho de uma pequena fogueira e o som de um vio­lão cigano, tocado com mais entusiasmo do que talento. Há um bom can­tor de fado na multidão. Assim que o cantor é descoberto, é empurrado para a frente e lubrificado com vinho de várias garrafas. Começa com uma canção sobre o destino, mas é interrompido com pedidos de uma música mais alegre.

Roger LeDuc, também conhecido como Gnocco, está sentado na beira da fonte. Fumou alguma coisa. Seus olhos estão turvos, mas ele vê Romula imediatamente, na parte de trás da multidão, do outro lado da fogueira. Compra duas laranjas num vendedor e segue-a para longe da cantoria. Os dois param debaixo de um poste, longe do fogo. Ali a luz é mais fria do que a da fogueira, pintalgada pelas folhas que restavam num bordo resistente. A luz é esverdeada contra a palidez de Gnocco, as sombras das folhas parecen­do hematomas móveis em seu rosto enquanto Romula olha para ele, com a mão em seu braço.

Uma lâmina salta de seu punho como uma linguazinha brilhante e ele descasca as laranjas, a casca pendendo numa tira comprida. Dá a ela a primei­ra, e Romula põe um gomo na boca enquanto ele descasca a segunda. Os dois falam rapidamente em romani. Uma vez ele deu de ombros. Ela entregou-lhe um telefone celular e mostrou os botões. Em seguida, a voz de Pazzi soou no ouvido de Gnocco. Depois de um momento, Gnocco dobrou o telefone e o colocou no bolso.

Romula pegou algo pendurado numa corrente ao pescoço, beijou o pe­queno amuleto e pendurou-o no pescoço do homenzinho encurvado. Ele olhou para o objeto, dançou um pouco, fingindo que a imagem santa o queimava, e recebeu um pequeno sorriso de Romula. Ela tirou a pulseira larga e colo­cou-a no braço dele. Coube facilmente. O braço de Gnocco não era mais grosso do que o dela.

— Você pode se encontrar comigo dentro de uma hora? — perguntou Gnocco.

— Sim.

 

Novamente noite e o Dr. Fell está na vasta sala de pedra da exposição de Instrumentos de Torturas Atrozes no Forte di Belvedere, encostado tranqüilo na parede debaixo das jaulas suspensas dos condenados.

Está registrando aspectos de danação nos rostos ávidos dos voyeurs, que se comprimem ao redor dos instrumentos de tortura e uns contra os outros numa frottage quente e arregalada, pêlos eriçando-se nos antebraços, bafo quente nas nucas e nos rostos dos outros. Algumas vezes o doutor encosta um lenço perfumado no rosto, protegendo-se de uma overdose de perfumes e cio.

Os perseguidores do doutor esperam no lado de fora.

Horas passam. O Dr. Fell, que jamais prestou mais do que uma atenção passageira à exposição em si, parece não se fartar da turba. Alguns sentem sua atenção e ficam constrangidos. Freqüentemente mulheres na multidão olham-no com interesse especial antes que o movimento de pés arrastados na fila da exposição as force a prosseguir. Uma bagatela paga aos dois taxidermistas que administram a exposição permite que o doutor fique à vontade, intocável por trás das cordas, imóvel encostado à pedra.

Do lado de fora da saída, esperando junto ao parapeito numa garoa cons­tante, Rinaldo Pazzi mantém sua vigília. Está acostumado a esperar.

Pazzi sabia que o doutor não iria a pé para casa. Debaixo da colina atrás do forte, numa pequena praça, o automóvel do Dr. Fell o esperava. Era um Jaguar Saloon preto, um elegante Mark II, de trinta anos, brilhando na garoa, o melhor que Pazzi já vira, e tinha placas da Suíça. Sem dúvida, o Dr. Fell não precisava trabalhar em troca de um salário. Pazzi anotou o número da placa, mas não podia se arriscar a passá-lo para a Interpol.

Na íngreme Via San Leonardo, entre o Forte di Belvedere e o carro, Gnocco esperava. A rua mal iluminada tinha altos muros de pedra de ambos os lados, protegendo as vilas por trás. Gnocco encontrara um nicho escuro na frente de um velho portão, onde podia ficar fora do caminho dos turistas que desciam do forte. A cada dez minutos o celular no bolso vibrava de encontro à sua coxa, e ele tinha de confirmar que estava no posto.

Alguns turistas seguravam mapas e programas sobre a cabeça, protegendo-se da chuva fina, enquanto desciam pela calçada estreita e apinhada, com gente se derramando pela rua, diminuindo a velocidade dos poucos táxis que desciam do forte.

Sob a câmara abobadada onde estavam os instrumentos de tortura, o Dr. Fell finalmente afastou-se da parede onde estivera encostado, revirou os olhos para o esqueleto na jaula no alto, como se os dois compartilhassem um segre­do, e atravessou a multidão em direção à saída.

Pazzi viu-o emoldurado na porta, e de novo sob uma luz forte no pátio. Seguiu-o a alguma distância. Quando teve certeza de que o doutor estava descendo em direção ao carro, abriu o celular e alertou Gnocco.

A cabeça do cigano saiu do colarinho como se fosse a de uma tartaruga, olhos fundos, mostrando, como uma tartaruga, o crânio debaixo da pele. Ele enrolou a manga acima do cotovelo e cuspiu na pulseira, enxugando-a com um trapo. Agora que a prata estava polida com cuspe e água benta, ele man­teve o braço atrás do corpo, debaixo do casaco, para que ficasse seco enquanto espiava o morro acima. Uma coluna de cabeças vinha descendo. Gnocco abriu caminho na turba e saiu para a rua, onde poderia andar contra a corrente e poderia ver melhor. Sem alguém para ajudar, teria de fazer sozinho o esbarrão e o roubo — o que não era problema, já que ele queria fracassar no roubo. vinha o homem magro — perto do meio-fio, graças a Deus. Pazzi estava trin­ta metros atrás do doutor, descendo.

Gnocco fez um gesto hábil, saindo do meio da rua. Aproveitando um táxi que se aproximava e saltando como se quisesse sair do tráfego, olhou para trás a fim de xingar o motorista e esbarrou de barriga com o Dr. Fell, os dedos enfiando-se dentro do casaco do doutor. E sentiu o braço agarrado num aper­to terrível, sentiu um golpe e se retorceu para longe, livre, o Dr. Fell pratica­mente não diminuindo o passo e prosseguindo na torrente de turistas. Gnocco estava livre e afastando-se.

Pazzi alcançou-o quase de imediato, no nicho em frente ao portão de fer­ro. Gnocco se curvou brevemente, em seguida se empertigou, respirando com dificuldade.

— Consegui. Ele me agarrou. O comuto tentou me dar um soco nos bagos, mas errou.

Pazzi se abaixara, apoiando-se num dos joelhos, e estava cuidadosamente tentando tirar a pulseira do braço de Gnocco quando o cigano sentiu uma coisa quente e molhada descer pela perna e, enquanto ajeitava o corpo, um jorro quente de sangue arterial se projetou de um rasgo na frente de suas cal­ças, batendo no rosto e nas mãos de Pazzi, enquanto ele tentava tirar o bracelete segurando apenas pelas bordas. Sangue espirrando em toda a parte, no rosto de Gnocco enquanto ele se curvava para olhar, as pernas cedendo. Des­moronou contra o portão, agarrou-se a ele contra uma das mãos e apertou o trapo contra o lugar onde a perna se juntava ao corpo, tentando estancar a sangria da artéria femural cortada.

Com a sensação gélida que sempre tinha em ação, Pazzi rodeou Gnocco com o braço e o manteve virado para longe da turba, manteve-o jorrando san­gue através das barras do portão, e depois deitou-o vagarosamente de lado.

Pazzi pegou o telefone celular e falou como se estivesse chamando uma ambulância, mas não ligou o telefone. Desabotoou a capa e abriu-a como um gavião envolvendo a presa. A multidão prosseguia atrás dele, sem pa­recer curiosa. Pazzi tirou a pulseira de Gnocco e a colocou numa pequena caixa que trazia. Em seguida, colocou o telefone celular de Gnocco no bolso.

Os lábios de Gnocco se moveram:

— Madonna, che freddo.

Com um grande esforço, Pazzi tirou a mão de Gnocco do ferimento, segu­rou-a como se quisesse consolá-lo, e deixou que ele sangrasse. Quando teve certeza de que Gnocco estava morto, largou-o deitado junto ao portão, a ca­beça pousada no braço como se dormisse, e misturou-se à multidão em movi­mento.

Na praça, Pazzi olhou para o estacionamento vazio, enquanto a chuva começava a molhar as pedras do calçamento onde esteve o Jaguar do Dr. Lecter.

Dr. Lecter — Pazzi não pensava mais nele como o Dr. Fell. Era o Dr. Hannibal Lecter.

A prova suficiente para Mason podia estar no bolso da capa de Pazzi. A prova suficiente para Pazzi pingava de sua capa sobre seus sapatos.

 

A estrela da manha ia desaparecendo sobre Gênova por causa da luz no leste quando o velho Alfa de Rinaldo Pazzi chegou ao cais. Um vento frio agitava as águas do porto. Num cargueiro ancorado alguém estava soldando, fagulhas alaranjadas caindo num chuveiro sobre a água preta.

Romula ficou no carro, protegida do vento, com o bebê no colo. Esme­ralda estava espremida no pequeno banco traseiro do cupê berlinetta, com as pernas viradas de lado. Não falara de novo desde que se recusara a tocar em Shaitan.

Estavam tomando café preto e grosso em copos de papel e comendo pasticcini.

Rinaldo Pazzi entrou no escritório da Companhia de Navegação. Quan­do saiu de novo o sol estava alto, brilhando cor de laranja no casco manchado de ferrugem do cargueiro Astra Philogenes, que terminava de ser carregado junto ao cais. Sinalizou para as mulheres no carro.

O Astra Philogenes, de 27 mil toneladas, registro grego, podia carregar le­galmente doze passageiros sem um médico de bordo na rota para o Rio. Ali, segundo Pazzi explicou a Romula, elas iriam fazer baldeação para Sydney, na Austrália, baldeação supervisionada pelo comissário do Astra. A passagem es­tava paga e não era reembolsável. Na Itália, a Austrália é considerada uma al­ternativa atraente, onde se pode conseguir empregos, e tem uma grande po­pulação cigana.


Pazzi prometera a Romula dois milhões de liras, cerca de 250 dólares ao câmbio atual, e entregou o dinheiro num envelope gordo.

A bagagem das ciganas tinha muito pouca coisa. Uma pequena valise e o braço de madeira de Romula, guardado num estojo de trompa de orquestra.

As ciganas estariam no mar, e sem possibilidades de ser contatadas, du­rante a maior parte do mês.

— Gnocco também vai — disse Pazzi a Romula pela décima vez —, mas não pôde vir hoje. — Acrescentou que Gnocco entraria em contato com elas através da posta-restante do correio central de Sydney. — Vou manter a pro­messa que fiz a ele, como fiz com vocês — disse quando elas pararam ao pé da rampa de embarque, com o sol da manhã lançando as sombras compridas dos três pela superfície áspera do cais.

No momento da partida, quando Romula e o bebê já estavam subindo a rampa, a velha falou pela segunda e última vez para Pazzi.

Com olhos negros como azeitonas Kalamata, ela o encarou.

— Você deu Gnocco a Shaitan — disse em voz baixa. — Gnocco está morto.

Curvando-se rígida, como se fosse decepar a cabeça de uma galinha, Es­meralda cuspiu cuidadosamente na sombra de Pazzi e subiu depressa a ram­pa, atrás de Romula e da criança.

 

A caixa de entrega da DHL Express tinha sido bem preparada. O técnico em impressões digitais, sentado junto a uma mesa sob as luzes quentes da área de estar do quarto de Mason, tirou cuidadosamente os parafusos com uma chave de fenda elétrica.

A pulseira de prata, larga, estava num suporte de veludo, de joalheiro, de modo que as superfícies externas da jóia não tocassem em coisa alguma.

— Traga aqui — disse Mason.

Teria sido muito mais fácil tirar a impressão digital da pulseira na Seção de Identificação do Departamento de Polícia de Baltimore, onde o técnico trabalhava durante o dia, mas Mason estava pagando em dinheiro uma quan­tia muito elevada e insistiu em que o serviço fosse feito diante de seus olhos. Ou diante de seu olho, refletiu o técnico azedamente enquanto colocava o bracelete, com o suporte, num prato de porcelana seguro por um auxiliar de enfermagem.

O auxiliar segurou o prato diante do óculo de Mason. Não podia pousá-lo no rolo de cabelos sobre o coração de Mason, porque o respirador fazia seu peito se mover constantemente para cima e para baixo.

A pulseira grossa estava manchada com uma crosta de sangue, e partículas de sangue seco caíram dela sobre o prato de porcelana. Mason examinou-a com seu olho por trás do monóculo. Não tendo carne no rosto, ele não tinha expressão, mas o olho estava brilhante.


— Faça o serviço — disse ele.

O técnico tinha uma cópia da frente da ficha do Dr. Lecter no FBI. A sexta impressão, que se encontrava no verso, e a identificação, não estavam reproduzidas.

Ele aplicou o pó entre as crostas de sangue. O pó para impressões digitais Sangue de Dragão, que ele preferia, tinha uma cor muito próxima do sangue seco na pulseira, de modo que usou um preto, aplicando-o cuidadosamente.

— Temos impressões — disse ele, parando para enxugar a cabeça debai­xo das luzes quentes da área de estar. A luz era boa para fotografia, e ele tirou fotos das impressões no lugar, antes de destacá-las para comparação micros­cópica. — Dedo médio e polegar da mão esquerda, combinando em dezesseis pontos; seria aceita no tribunal — disse por fim. — Não há dúvidas, é o mesmo sujeito.

Mason não estava interessado em tribunal. Sua mão pálida já se arrastava sobre a colcha em direção ao telefone.

 

Manhã ensolarada numa pastagem nas montanhas Gennargentu, no centro da Sardenha.

Seis homens, quatro sardos e dois romanos, trabalham debaixo de um telheiro construído de madeira cortada da floresta ao redor. Os sons baixos que eles fazem parecem ampliados no vasto silêncio das montanhas.

Atrás do telheiro, pendurado em caibros que ainda estão soltando a casca, está um espelho gigantesco com moldura rococó dourada. O espelho está suspenso acima de um curral com dois portões, um dando para a pastagem. O outro portão é partido ao meio horizontalmente, de modo que a parte de cima e a de baixo podem ser abertas em separado.

A área atrás desse portão é pavimentada com cimento, mas o resto do curral está coberto de palha limpa como se fosse um cadafalso.

O espelho, com moldura de querubins esculpidos, pode ser inclinado para dar uma visão superior do curral, assim como um espelho de uma escola de culinária permite que os alunos tenham a visão superior do fogão.

O cineasta, Oreste Pini, e o capataz sardo de Mason, um seqüestrador profissional chamado Cario, sentiram uma aversão mútua desde o início.

Cario Deogracias era um homem atarracado, ostentoso, que usava um chapéu alpino com um tufo de pêlos de javali preso à faixa. Tinha o hábito de mastigar a cartilagem de um par de dentes de porco que ele mantinha no bolso do colete.

Cario era um exímio praticante da antiga profissão sarda do seqüestro, e também um vingador profissional.

Se você tivesse de ser seqüestrado para exigência de resgate, os italianos ricos lhe diriam que é melhor cair nas mãos dos sardos. Pelo menos são pro­fissionais e não irão matá-lo por acidente, ou pânico. Se seus parentes paga­rem, você pode ser devolvido sem ferimentos, sem ser estuprado e sem ser mutilado. Se não pagarem, seus parentes podem esperar recebê-lo aos peda­ços pelo correio.

Cario não estava satisfeito com os arranjos elaborados de Mason. Era experiente no ramo, e há vinte anos já dera um homem para os porcos co­merem na Toscana — um nazista aposentado, conde de mentira, que obri­gara crianças de uma aldeia toscana, meninas e meninos, a manter relações sexuais com ele. Cario foi contratado pelo serviço e pegou o homem em seu próprio jardim, a três quilômetros da Badia di Passignano, e o deu de co­mer a cinco enormes porcos domésticos numa fazenda abaixo do Paggio alie Corti, mas para isso teve de deixar os animais sem ração durante três dias. O nazista lutava contra as amarras, implorando e suando com os pés no curral, e mesmo assim os suínos estavam tímidos quanto a começar a comer seus dedos que se retorciam até que Cario, com uma pontada de culpa por violar o contrato, deu ao nazista uma gostosa salada com as verduras predi­letas dos porcos, em seguida cortou sua garganta para facilitar o trabalho deles.

Cario era alegre e enérgico por natureza, mas a presença do cineasta o incomodava. Havia tirado o espelho de um bordel que ele possuía em Cagliari, segundo as ordens de Mason, só para agradar a esse pornógrafo, Oreste Pini.

O espelho era um favor para Oreste, que usara espelhos como um instru­mento predileto em seus filmes pornográficos e em um genuíno filme de tor­tura — no qual uma pessoa foi morta diante da câmera — que ele fizera na Mauritânia. Inspirado pela advertência impressa no retrovisor de seu carro, foi pioneiro no uso de reflexos deformados para fazer com que alguns objetos parecessem maiores do que o normal.

Oreste deveria usar duas câmeras e som de boa qualidade, como exigira Mason, e deveria conseguir filmar de primeira. Mason queria um close do rosto sem interrupções, afora todo o resto.

Para Cario, ele parecia embromar interminavelmente.

— Você pode ficar aí falando comigo que nem uma mulher, ou pode olhar o ensaio e perguntar o que não entender — disse Cario.

— Eu quero filmar o ensaio.

— Va benne. Arrume a sua merda e vamos começar logo. Enquanto Oreste colocava as câmeras no lugar, Cario e os três sardos si­lenciosos que estavam com ele faziam seus preparativos.

Oreste, que adorava dinheiro, sempre ficava espantado com o que o di­nheiro pode comprar.

Numa mesa comprida num dos lados do telheiro, o irmão de Cario, Matteo, desembrulhou uma trouxa de roupas usadas. Escolheu na pilha uma camisa e calças, enquanto os outros dois sardos, os irmãos Piero e Tommaso Falcione, empurravam uma maca de ambulância lentamente até o telheiro. A maca estava manchada e era velha.

Matteo tinha a postos vários baldes de carne moída, uma quantidade de galinhas mortas ainda com penas e umas frutas podres, já atraindo moscas, e um balde de tripas e intestinos de boi.

Pôs uma calça caqui sobre a maca e começou a enchê-la com as galinhas, um pouco de carne e fruta. A seguir pegou um par de luvas de algodão e en­cheu-as com carne moída e bolotas de carvalho, preenchendo cada dedo cuida­dosamente, e as colocou nas extremidades das pernas da calça. Escolheu uma camisa e abriu-a sobre a maca, enchendo-a com tripa e intestinos e melhorando os contornos com pão, antes de abotoá-la e enfiar as abas cuidadosamente den­tro da calça. Um par de luvas cheias foi colocado nas extremidades das mangas. O melão que ele usou como cabeça estava coberto com uma rede de cabelo cheia de carne moída, e dois ovos cozidos ocupavam o lugar dos olhos. Quando ter­minou, o resultado parecia um manequim frouxo, de aparência melhor na maca do que alguns suicidas quando são virados, depois de saltar de um prédio. Como toque final, Matteo borrifou uma colônia pós-barba extremamente cara na frente do melão e nas luvas postas nas extremidades das mangas.

Cario apontou com o queixo para o magro assistente de Oreste, que esta­va inclinado sobre a cerca, estendendo o microfone por cima do curral, me­dindo o alcance.

— Diga a esse babaca que, se ele cair, eu não vou pegá-lo. Finalmente, tudo estava pronto. Piero e Tommaso dobraram os pés da maca até a posição mais baixa e empurraram-na para o portão do curral.


Cario trouxe da casa um gravador e um amplificador. Unha uma quanti­dade de fitas, algumas das quais ele próprio fizera enquanto cortava as orelhas de vítimas de seqüestro para mandar pelo correio aos parentes. Cario sempre tocava as fitas para os animais enquanto eles comiam. Não precisaria das fitas quando tivesse uma vítima de verdade para proporcionar os gritos.

Os velhos alto-falantes estavam pregados aos postes debaixo do telheiro. O sol estava brilhante sobre o pasto agradável que descia até o bosque. A cerca forte que rodeava o pasto prosseguia penetrando na floresta. No silêncio do meio-dia, Oreste podia ouvir um besouro zumbindo sob as telhas.

— Você está pronto? — perguntou Cario. Oreste ligou a câmera fixa.

— Giriamo — gritou para seu cinegrafista.

— Pronti! — veio a resposta.

— Motore! — As câmeras estavam rodando.

— Partito! — O som rodava junto com o filme.

— Azione! — Oreste cutucou Cario.

O sardo apertou o play de seu gravador e teve início uma gritaria infernal, soluços, rogos. O cinegrafista estremeceu ao ouvir o som, depois controlou-se. Os berros eram medonhos, mas formavam uma abertura adequada para os rostos que saíram do bosque, atraídos pelos gritos que anunciavam o jantar.

 

Viagem de ida e volta a Genebra num dia, para ver o dinheiro.

O avião para Milão, um turbo-hélice barulhento da Aerospatiale, deco­lou em Florença no início da manhã, girando sobre os vinhedos com as largas fileiras separadas como se fossem uma maquete da Toscana. Havia algo de er­rado nas cores da paisagem — as novas piscinas ao lado das vilas dos estran­geiros ricos estavam com o azul errado. Para Pazzi, olhando pela janela do avião, as piscinas tinham o azul leitoso dos olhos de um inglês velho, um azul deslocado entre os ciprestes escuros e as oliveiras prateadas.

O ânimo de Rinaldo Pazzi subia junto com o avião, sabendo que não envelheceria ali, dependendo da vontade de seus superiores na polícia, ten­tando se manter para conseguir a aposentadoria.

Tivera um medo terrível de que o Dr. Lecter desaparecesse depois de matar Gnocco. Quando Pazzi viu de novo a luz de trabalho na Santa Croce, sentiu uma espécie de salvação; o doutor acreditava estar em segurança.

A morte do cigano não causou qualquer marola na calma da Questura, e acreditou-se que era relacionada a drogas — felizmente havia seringas descar­táveis no chão ao redor dele, uma visão comum em Florença, onde as seringas eram gratuitas.

Ia ver o dinheiro. Pazzi insistira nisso.

O Rinaldo Pazzi visual lembrava-se completamente das visões: a primeira vez em que vira seu pênis ereto, a primeira vez em que viu o próprio sangue, a primeira mulher que viu nua, o borrão do primeiro punho que veio golpeá-lo. Lembrava-se de ter caminhado casualmente numa capela lateral de uma igreja em Siena e olhado o rosto de Santa Catarina de Siena, inesperadamen­te, a cabeça mumificada na touca imaculadamente branca, repousando num relicário com a forma de uma igreja.

A visão de três milhões de dólares teve o mesmo impacto sobre ele.

Trezentos maços de notas de cem dólares em números não-seqüenciais.

Numa saleta austera como uma capela, no Crédit Suisse de Genebra, o advogado de Mason Verger mostrou o dinheiro a Rinaldo Pazzi. Foi trazido do cofre em quatro caixas fundas, com placas de latão onde estavam gravados números. O Crédit Suisse também forneceu uma máquina de contar, uma balança e um funcionário para operá-las. Pazzi dispensou o funcionário. Pou­sou as mãos uma vez no topo do dinheiro.

Rinaldo Pazzi era um investigador muito competente. Durante vinte anos encontrara e prendera artistas da fraude. Parado na presença daquele dinhei­ro, ouvindo os arranjos, não detectou qualquer tom de falsidade; se ele entre­gasse Hannibal Lecter, Mason iria lhe dar o dinheiro.

Sentindo um jorro de doçura, Pazzi percebeu que aquelas pessoas não es­tavam brincando — Mason Verger iria realmente pagar. E ele não tinha qual­quer ilusão quanto ao destino de Lecter. Estava vendendo o homem para a tortura e a morte. Para crédito de Pazzi, ele reconhecia consigo mesmo o que estava fazendo.

Nossa liberdade vale mais do que a vida do monstro. Nossa felicidade é mais importante do que o sofrimento dele, pensava com o egoísmo frio dos desgraçados. Difícil era saber se o “nosso” era um plural majestático ou se significava Rinaldo e a esposa, e talvez não houvesse uma única resposta para isso.

Naquela sala limpa e suíça, arrumada como uma touca de freira, Pazzi fez o voto final. Virou-se de costas para o dinheiro e assentiu para o advogado, Sr. Konie. O advogado tirou da primeira caixa cem mil dólares, contou-os e en­tregou a Pazzi.

O Sr. Konie falou brevemente ao telefone e entregou o aparelho a Pazzi. — Esta linha é codificada — disse ele.

A voz americana que Pazzi ouviu tinha um ritmo peculiar, as palavras apressadas num único fôlego e depois uma pausa, e as consoantes explosivas não existiam. Aquele som deixou Pazzi ligeiramente tonto, como se estivesse se esforçando para respirar junto com a pessoa que falava. Sem qualquer preâmbulo, a pergunta:

— Onde está o Dr. Lecter?

Pazzi, com o dinheiro numa das mãos e o telefone na outra, não hesitou.

— Ele é uma das pessoas que estuda o Palazzo Capponi em Florença. Ele é o... curador.

— Por favor, poderia mostrar sua identificação para o Sr. Konie e entre­gar a ele o telefone? Ele não dirá o seu nome no telefone.

O Sr. Konie consultou uma lista no bolso e disse algumas palavras em código, pré-combinadas, para Mason, depois devolveu o telefone a Pazzi.

— O senhor receberá o resto do dinheiro quando ele estiver vivo nas nossas mãos — disse Mason.— Não é necessário pegar o doutor, mas precisa identificá-lo e colocá-lo nas nossas mãos. Também quero sua documentação, tudo o que conseguiu sobre ele. O senhor estará de volta a Florença esta noite? Receberá ins­truções esta noite para uma reunião perto de Florença. A reunião acontecerá no máximo amanhã à noite. Lá o senhor receberá instruções do homem que pegará o Dr. Lecter. Ele perguntará se o senhor conhece um florista. Diga que todos os floristas são ladrões. Está entendendo? Quero que coopere com ele.

— Não quero o Dr. Lecter na minha... eu não o quero perto de Florença quando...

— Entendo sua preocupação. Não se preocupe. Ele não estará lá. A linha emudeceu.

Depois de alguns minutos preenchendo uma papelada, dois milhões de dólares foram postos à disposição de Pazzi para quando estivessem cumpridas as estipulações. Mason Verger não poderia pegar o dinheiro de volta, mas poderia liberá-lo para Pazzi. Um funcionário do Crédit Suisse, convocado à sala de reunião, informou a Pazzi que o banco iria cobrar dele um juro nega­tivo para facilitar um depósito ali, se ele convertesse para francos suíços e pa­gasse três por cento de juros compostos apenas sobre os primeiros cem mil francos. O funcionário deu de presente a Pazzi uma cópia do artigo 47 da Bungdesgesetz über Banken und Sparkassen, que regulamentava o sigilo bancá­rio, e concordou em fazer uma transferência eletrônica para o Royal Bank da Nova Escócia, ou para as ilhas Caimãs, imediatamente depois da liberação dos fundos, se esse fosse o desejo de Pazzi.


Com a presença de um tabelião, Pazzi garantiu à esposa o acesso alterna­tivo à conta, no caso de sua morte. Concluídos os negócios, apenas o funcio­nário do banco suíço estendeu a mão. Pazzi e o Sr. Konie não se olharam di­retamente, apesar de o Sr. Konie ter dado um adeus da porta.

O último trecho da viagem para casa, o avião de Milão se desviando de uma tempestade, a hélice do lado de Pazzi parecendo um círculo escuro con­tra o céu cinza. Raios e trovões enquanto se balançavam acima da velha cida­de, o campanário e a cúpula da catedral debaixo deles agora, luzes se acenden­do no crepúsculo antecipado, um clarão e um barulho como os que Pazzi lembrava da infância, quando os alemães explodiram as pontes do Amo, pou­pando apenas a Ponte Vecchio. E por um clarão tão curto quanto o de um relâmpago ele se lembrou de ter visto na infância um traidor capturado, acorrentado à Madona das Correntes, para rezar antes de ser morto a tiros.

Descendo através do cheiro de ozônio dos raios, sentindo o reboar dos trovões na estrutura do avião, Pazzi, dos antigos Pazzi, voltou à sua cidade ancestral com objetivos tão velhos quanto o tempo.

 

Rinaldo Pazzi preferiria manter vigilância constante sobre sua presa no Palazzo Capponi, mas não podia.

Em vez disso, ainda em êxtase pela visão do dinheiro, teve de enfiar-se nas roupas de cerimônia e se encontrar com a mulher num concerto há muito antecipado, da Orquestra de Câmara de Florença.

O Teatro Piccolomini, uma cópia reduzida do glorioso Teatro La Fenice de Veneza, feito no século XIX, é uma caixa de jóias barroca, de ouro e veludo, com querubins desafiando as leis da aerodinâmica no teto esplêndido.

Além disso, é bom o teatro ser lindo, porque os artistas freqüentemente precisam de toda a ajuda possível.

É injusto, mas inevitável, que a música em Florença seja julgada pelos padrões altíssimos da arte na cidade. Os florentinos são um grupo grande e bem informado de amantes da música, típicos da Itália, mas algumas vezes carecem de artistas musicais.

Pazzi enfiou-se na cadeira ao lado da mulher, em meio aos aplausos de­pois da abertura.

Ela deu-lhe o rosto perfumado. Ele sentiu o coração crescer por dentro, olhando-a no vestido de noite, suficientemente decotado para emitir uma fragrância quente dos seios, com a partitura da música na elegante capa Gucci que Pazzi lhe dera.

— Eles ficam cem por cento melhores com o novo violista — sussurrou ela na orelha de Pazzi. O excelente tocador de viola da gambá fora trazido para substituir um músico terrivelmente inepto, primo de Sogliato, que estranhamente desaparecera há algumas semanas.

O Dr. Hannibal Lecter olhou de um camarote no alto, sozinho, imaculado com a gravata branca, o rosto e a frente da camisa parecendo flutuar na caixa escura emoldurada pelas douradas esculturas barrocas.

Pazzi avistou-o quando as luzes se acenderam brevemente após o primeiro movimento, e num instante, antes que o policial pudesse olhar para outro lado, a cabeça do doutor girou como a de uma coruja, e os olhos dos dois se encon­traram. Pazzi espremeu involuntariamente a mão da mulher, com força bas­tante para que ela o encarasse. Depois disso, manteve os olhos resolutamente no palco, sentindo as costas da mão quentes contra a coxa da mulher, enquanto ela segurava sua mão.

No intervalo, quando Pazzi virou-se do bar para entregar uma bebida à esposa, o Dr. Lecter estava parado ao lado dela.

— Boa noite, Dr. Fell — disse Pazzi.

— Boa noite, Commendatore — disse o doutor. Ele esperou com uma ligeira inclinação da cabeça até que Pazzi teve de fazer a apresentação.

— Laura, deixe-me apresentar o Dr. Fell. Doutor, esta é a signora Pazzi, minha esposa.

A signora Pazzi, acostumada a ser elogiada por sua beleza, achou o que veio em seguida curiosamente encantador, apesar de seu marido não con­cordar.

— Obrigado por este privilégio, Commendatore — disse o doutor. Sua língua vermelha e pontuda apareceu por um instante antes de ele se curvar sobre a mão da signora Pazzi, os lábios talvez mais perto da pele do que é o costume em Florença, sem dúvida suficientemente perto para que ela sentisse a respiração dele.

Os olhos dele se ergueram antes da cabeça.

— Creio que a senhora gosta particularmente de Scarlatti, signora Pazzi.

— Gosto sim.

— Foi agradável vê-la acompanhando a partitura. Praticamente ninguém mais faz isso. Espero que isto aqui possa interessá-la. — Ele tirou um caderno de baixo do braço. Era uma antiga partitura em pergaminho, copiada à mão.

— Isto é do Teatro Capranica em Roma, de 1688, o ano em que a peça foi escrita.

— Meraviglioso! Olhe só, Rinaldo!

— Marquei num papel transparente algumas diferenças da partitura moderna enquanto o primeiro movimento era tocado — disse o Dr. Lecter.

— Talvez a senhora ache divertido continuar no segundo. Por favor, pegue. Posso recuperá-lo depois com o Sr. Pazzi. Pode ser, Commendatore?

O doutor olhando profundamente, profundamente enquanto Pazzi res­pondia.

— Se é do seu agrado, Laura — disse Pazzi. Um instante de pensamento.

— O senhor vai se apresentar ao Studiolo, doutor?

— Sim, na sexta-feira à noite. Sogliato mal pode esperar para me desa­creditar.

— Eu precisarei estar na Cidade Velha. Então, devolvo a partitura. Laura, o Dr. Fell vai ter de mostrar o que sabe para os dragões do Studiolo.

— Tenho certeza de que vai se sair muito bem, doutor — disse ela, ofere­cendo-lhe os grandes olhos escuros; dentro dos limites da compostura, mas quase escapando.

O Dr. Lecter sorriu, com seus pequenos dentes brancos.

— Madame, se eu fabricasse Fleur du Ciei, iria oferecer-lhe o Cape Diamond para usar junto. Até sexta à noite, Commendatore.

Pazzi certificou-se de que o doutor voltara ao seu camarote. Não olhou para ele de novo até que se despediram com um aceno distante, na escada do teatro.

— Eu lhe dei aquele Fleur du Ciei pelo seu aniversário — disse Pazzi.

— Sim, e eu adoro, Rinaldo — disse a signora Pazzi. — Você tem um gosto maravilhoso.

 

Impruneta é uma antiga cidade toscana onde foram feitas as telhas do Duomo. Seu cemitério é visível à noite das vilas no topo dos morros a qui­lômetros de distância, por causa dos lampiões eternamente acesos nas se­pulturas. A luz ambiente é fraca, mas o suficiente para que os visitantes achem o caminho entre os mortos, ainda que seja necessária uma lanterna para ler os epitáfios.

Rinaldo Pazzi chegou às cinco para as nove com o pequeno buquê de flo­res que planejava colocar numa sepultura qualquer. Caminhou lentamente por um caminho de cascalho entre os túmulos.

Sentiu a presença de Cario, apesar de não vê-lo.

Cario falou do outro lado de um mausoléu mais alto do que uma pessoa.

— O senhor conhece um bom florista na cidade?

A voz parecia de um sardo. Isso era bom, talvez ele soubesse o que estava fazendo.

— Todos os floristas são ladrões — respondeu Pazzi.

Cario veio rapidamente de trás da estrutura de mármore, sem espiar antes.

Para Pazzi ele pareceu feroz, baixo, atarracado e forte, ágil nas extremida­des. Usava colete de couro e tinha um tufo de pêlo de javali no chapéu.

Pazzi avaliou que teria uns oito centímetros a mais do que Cario no tama­nho do braço, e dez a mais na altura. O peso devia ser aproximadamente o mesmo. Cario não tinha um dos polegares. Pazzi achou que poderia encontrar sua ficha nos registros da Questura com uns cinco minutos de trabalho. Os dois estavam iluminados por baixo, pelos lampiões da sepultura.

— A casa dele tem bons alarmes — disse Pazzi.

— Eu olhei. O senhor precisa apontá-lo para mim.

— Ele terá de comparecer a uma reunião amanhã à noite, sexta-feira. Pode estar pronto até lá?

— Está bom. — Cario queria provocar o policial um pouco, estabe­lecer seu controle. — O senhor é capaz de andar com ele, ou tem medo? O senhor terá de fazer aquilo por que é pago. O senhor irá apontá-lo para mim.

— Não fale bobagem. Farei o que estou sendo pago para fazer, e você também. Ou você pode se aposentar como michê em Volterra. Como preferir.

Enquanto trabalhava, Cario era tão imune aos insultos quanto aos choros de dor. Viu que julgara errado o policial. Abriu as mãos.

— Diga o que preciso saber — falou, movendo-se para ficar ao lado de Pazzi, como se os dois estivessem pranteando juntos diante do pequeno mau­soléu. Um casal passou pelo caminho, de mãos dadas. Cario tirou o chapéu e os dois ficaram de cabeça baixa. Pazzi colocou suas flores na porta do túmulo. Do chapéu quente de Cario veio um cheiro, um cheiro rançoso, como salsi­cha de um animal inadequadamente castrado.

Pazzi ergueu o rosto para afastar o odor.

— Ele é rápido com a faca. Golpeia baixo.

— Ele tem revólver?

— Não sei. Nunca usou um, que eu saiba.

— Eu não quero ter de tirá-lo de um carro. Quero que ele esteja na rua, sem muita gente ao redor.

— Como vai dominá-lo?

— Isso é problema meu. — Cario colocou um dente de animal na boca e mastigou a cartilagem, de vez em quando fazendo o dente se projetar entre os lábios.

— É problema meu também — disse Pazzi. — Como fará isso?

— Vou atordoá-lo com uma arma de impacto, jogar uma rede em cima, depois posso lhe dar uma injeção. Preciso verificar os dentes dele rápido, para o caso de ter veneno sob uma coroa.

— Ele precisa fazer uma palestra numa reunião. Começa às sete no Palazzo Vecchio. Se na sexta-feira ele trabalhar na Capela Capponi, em Santa Croce, terá que caminhar de lá até o Palazzo Vecchio. Conhece Florença?

— Conheço bem. Você pode me dar um passe de veículo para a Cidade Velha?

— Posso.

— Eu não vou tirá-lo da igreja. Pazzi assentiu.

— É melhor que ele apareça na reunião. Depois, provavelmente, não sen­tirão falta dele por duas semanas. Tenho motivos para caminhar com ele até o Palazzo Capponi depois da reunião...

— Não quero pegá-lo em casa. É terreno que ele conhece e eu não. Ele estará alerta, vai olhar ao redor quando chegar junto à porta. Quero que este­ja na calçada aberta.

— Então escute: nós vamos sair pela porta da frente do Palazzo Vecchio, o lado da Via dei Leoni estará fechado. Seguiremos pela Via Neri e vamos atravessar o rio na Ponte alie Grazie. Há árvores na frente do Museu Bardini, do outro lado, bloqueando as luzes da rua. É um lugar calmo nessa hora, quando a escola está fechada.

— Então digamos em frente ao Museu Bardini, mas talvez eu faça antes se tiver chance, mais perto do Palazzo, ou mais cedo no dia, se ele desconfiar e tentar fugir. Talvez a gente esteja numa ambulância. Fique com ele até que ele seja acertado, e então afaste-se rapidamente.

— Quero que ele esteja fora da Toscana antes que qualquer coisa aconteça.

— Acredite, ele sairá da face da Terra, começando pelos pés — disse Cario, sorrindo de sua piada particular, projetando o dente de porco através do sorriso.

 

Manhã de sexta-feira. Um pequeno cômodo no sótão do Palazzo Capponi. Três das paredes pintadas de branco estão nuas. Na quarta há uma grande Madona da escola de Cimabue, do século XIII, gigantesca no quarto peque­no, a cabeça inclinada em direção ao angulo da assinatura como a de um pás­saro curioso, e os olhos amendoados olhando para uma pequena figura ador­mecida debaixo do quadro.

O Dr. Hannibal Lecter, veterano de catres de prisões e asilos, está deitado imóvel nessa cama estreita, as mãos sobre o peito. Seus olhos se abrem e, de súbito, ele está totalmente desperto, o sonho com a irmã Mischa, há muito morta e digerida, penetrando sem emendas na vigília atual: perigo na época, perigo agora.

Saber que está em perigo não perturbou seu sonho mais do que ter mata­do o batedor de carteira.

Vestido para o dia agora, esguio e perfeitamente arrumado no terno de seda escura, ele vira os sensores de movimento para o topo da escada de servi­ço e desce para os grandes espaços do palácio.

Agora está livre para se mover através do vasto silêncio dos muitos cômo­dos, no que para ele é sempre uma liberdade inebriante, depois de tantos anos confinado a uma cela de porão.

Assim como as paredes cobertas de afrescos da Santa Croce ou do Palazzo Vecchio são cheias de alma, o ar da Biblioteca Capponi ressoa de presença para o Dr. Lecter, enquanto trabalha na grande parede cheia de escaninhos com manuscritos. Escolhe pergaminhos enrolados, sopra a poeira, cujos grãos dançam num raio de sol como se os mortos, que agora são pó, viessem lhe contar o destino deles e o dele. Trabalha com eficiência, mas sem pressa indevida, colocando algumas coisas em sua pasta, juntando livros e ilustra­ções para a palestra que fará esta noite no Studiolo. Há muitas coisas que ele gostaria de ler.

O Dr. Lecter abre seu laptop e, conectando-se pelo Departamento de Criminologia da Universidade de Milão, verifica a homepage do FBI na Internet, no endereço vvww.fbi.gov, como qualquer cidadão particular pode fazer. Fica sabendo que a audiência do subcomitê judiciário sobre a ação de Clarice Starling contra uma quadrilha de drogas ainda não foi marcada. Ele não tem os códigos de acesso que precisaria para olhar seu próprio dossiê no FBI. Na página dos mais procurados, seu rosto antigo o encara, flanqueado pelo de um terrorista e o de um incendiado.

O Dr. Lecter pega o tablóide colorido numa pilha de pergaminhos e olha para a foto de Clarice Starling na primeira página, toca o rosto dela com o dedo. A lâmina brilhante aparece em sua mão como se tivesse brotado para substituir o sexto dedo. Esse tipo de canivete é chamado de Harpia, e tem uma lâmina serrilhada na forma de uma presa de águia. Corta com tanta fa­cilidade o National Tattler quanto cortou a artéria femural do cigano — a lâ­mina penetrou no cigano e saiu tão rapidamente que o Dr. Lecter nem preci­sou enxugá-la.

O Dr. Lecter corta a imagem do rosto de Clarice Starling e cola num pe­daço de pergaminho em branco.

Pega uma caneta e, com facilidade fluida, desenha no pergaminho o corpo de uma leoa alada, um grifo com o rosto de Starling. Abaixo escreve em sua caligrafia distinta: Alguma vez você pensou, Clarice, por que os filisteus não a entendem? É porque você é a resposta para a charada de Sansão: você é o mel na leoa.

A quinze quilômetros de distância, estacionado escondido atrás de um alto muro de pedra em Impruneta, Cario Deogracias examinava o equipa­mento, enquanto seu irmão Matteo treinava uma série de golpes de judô na grama macia com os outros dois sardos, Piero e Tommaso Falcione. Os dois Falcione eram rápidos e muito fortes — Piero jogou como profissional du­rante pouco tempo no time de futebol de Cagliari. Tommaso já estudara para ser padre e falava um inglês razoável. Algumas vezes rezava com suas vítimas.

O furgão Fiat branco de Cario, com placas de Roma, fora alugado legal­mente. Para serem grudados nas laterais já estavam a postos letreiros onde se lia: ospedale della misericórdia. As paredes e o piso estavam cobertos com acolchoados usados em mudança, para o caso de a vítima lutar dentro do veí­culo.

Cario pretendia realizar o projeto exatamente como Mason desejava, mas se o plano desse errado e ele precisasse matar o Dr. Lecter na Itália e abortar a filmagem na Sardenha, nem tudo estava perdido. Sabia que po­deria esquartejar o Dr. Lecter e ter sua cabeça e suas mãos em menos de um minuto. Se não tivesse tanto tempo assim, poderia pegar o pênis e um dos dedos, que com testes de DNA serviriam de prova. Lacrados em plás­tico e guardados dentro de gelo, estariam nas mãos de Mason em menos de 24 horas, permitindo a Cario uma recompensa além dos pagamentos normais.

Bem guardada atrás dos bancos estava uma pequena motosserra, torqueses de cabo comprido, uma serra cirúrgica, facas afiadas, sacos plásticos com zíper, um torno Black & Decker para manter os braços do doutor imóveis e um caixote da DHL Express com pagamento de entrega pré-pago, avalian­do o peso da cabeça do Dr. Lecter em seis quilos e suas mãos em um quilo cada uma.

Se Cario tivesse a chance de registrar em vídeo um esquartejamento de emergência, confiava em que Mason faria um pagamento extra para ver o Dr. Lecter esquartejado vivo, mesmo depois de ter entregue o milhão de dólares pela cabeça e as mãos do doutor. Com esse objetivo trouxera uma boa câmera de vídeo, uma fonte de luz e tripé, e ensinara a Matteo os rudimentos de ope­ração.

Seu equipamento de captura recebera atenção igual. Piero e Tommaso eram especialistas com a rede, agora dobrada com tanto cuidado quanto um pára-quedas. Cario tinha uma seringa hipodérmica e uma arma de dardos carrega­da com acepromazina, um tranqüilizante para animais, suficiente para derru­bar em segundos uma fera do tamanho do Dr. Lecter. Cario dissera a Rinaldo Pazzi que começaria com uma arma de impacto, que estava carregada e pron­ta, porém se tivesse a chance de colocar a agulha hipodérmica em alguma parte das nádegas ou das pernas do Dr. Lecter, a arma de impacto não seria neces­sária.

Os seqüestradores só precisariam ficar com o cativo na parte continental da Itália durante cerca de quarenta minutos, o tempo necessário para levá-lo até o aeroporto em Pisa, onde um avião-ambulância estaria esperando. O cam­po de aviação de Florença ficava mais perto, mas ali o tráfego aéreo era menor e um vôo particular mais perceptível.

Em menos de uma hora e meia estariam na Sardenha, onde o comitê de recepção do doutor estava ficando cada vez mais empolgado.

Cario pesara tudo em sua cabeça inteligente e maldosa. Mason não era idiota. Os pagamentos eram organizados para que nenhum dano acontecesse com Rinaldo Pazzi — custaria dinheiro a Cario matar Pazzi e tentar reivindi­car toda a recompensa. Mason não queria o incômodo gerado por um polici­al morto. Melhor fazer a coisa como Mason queria. Mas Cario sentia comichões por todo o corpo em pensar o que poderia ter conseguido com alguns golpes da serra caso ele próprio tivesse encontrado o Dr. Lecter.

Experimentou a motosserra. Ela deu a partida no primeiro puxão.

Conversou brevemente com os outros e foi para a cidade num pequeno motorino, armado apenas com uma faca, um revólver e uma seringa hi­podérmica.

O Dr. Hannibal Lecter saiu cedo da rua barulhenta para a Farmácia di San­ta Maria Novella, um dos lugares mais perfumados da Terra. Ficou parado al­guns minutos com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados, captando os aromas de sabonetes, loções e cremes maravilhosos, e dos ingredientes nas salas de trabalho. O porteiro estava acostumado com ele, e os vendedores, normal­mente dados a uma certa arrogância, tinham-lhe grande respeito. As compras do cortês Dr. Fell, nos meses em que estava em Florença, não totalizariam mais de cem mil liras, porém as fragrâncias e essências eram escolhidas e combinadas com uma sensibilidade espantosa e gratificante para aqueles mercadores do aro­ma, que vivem de acordo com o nariz.

Foi para preservar esse prazer que o Dr. Lecter não alterara seu nariz com qualquer rinoplastia além das injeções de colágeno externas. Para ele, o ar era pintado com perfumes tão distintos e vividos quanto cores, e era capaz de identificá-los em camadas como se fossem veladuras num quadro. Ali nada havia que lembrasse a cadeia. Ali o ar era música. Ali havia lágrimas pálidas de olíbano esperando para ser extraído, bergamota amarela, sândalo, canela e mimosa em concerto, sobre as notas de sustentação do âmbar-gris genuíno, almíscar, castor e essência do veado almiscarado.

Algumas vezes o Dr. Lecter tinha a ilusão de que podia sentir cheiro com as mãos, os braços e as bochechas, que o odor o envolvia. Que podia sentir cheiro com o rosto e o coração.

Por motivos anatômicos, o cheiro faz brotar a memória mais rapidamente do que qualquer outro sentido.

Ali o Dr. Lecter tinha fragmentos e clarões de memória, parado sob a luz suave das grandes lâmpadas artdeco da farmácia, respirando, respiran­do. Ali nada havia da cadeia. A não ser — o que era? — Clarice Starling, por quê? Não o L’Air du Temps que ele captara quando ela abriu a bolsa perto das barras da jaula no manicômio. Não era isso. Aqueles perfumes não eram vendidos nesta farmácia. Tampouco era a loção de pele que ela usava. Ah. Sapone di mandorle. O famoso sabão de amêndoa da farmácia. Onde ele sentira esse cheiro? Memphis, quando ela ficara parada do lado de fora da cela, quando ele tocou brevemente o dedo dela pouco antes da fuga. Starling, então. Texturas limpas e ricas. Algodão seco ao sol e passa­do a ferro. Clarice Starling, então. Envolvente e saborosa. Tediosa na se­riedade e absurda nos princípios. Rápida em citar os ditados da mãe. Ummmm.

Por outro lado, as más lembranças para o Dr. Lecter eram associadas a odores desagradáveis, e ali na farmácia talvez ele estivesse mais distante do que jamais estivera das masmorras fétidas e negras que havia por trás de seu palá­cio da memória.

Contrariamente ao seu costume, o Dr. Lecter comprou uma boa quanti­dade de sabonetes, loções e óleos de banho naquela sexta-feira cinzenta. Al­guns ele levou e mandou a farmácia despachar o resto, fazendo ele mesmo as etiquetas de entrega em sua letra elaborada.

— O dottore gostaria de incluir um bilhete? — perguntou o funcionário.

— Por que não? — respondeu o Dr. Lecter e enfiou o desenho do grifo dobrado dentro da caixa.

A Farmácia di Santa Maria Novella é ligada a um convento na Via Scala, e Cario, sempre devoto, tirou o chapéu para se esgueirar debaixo de uma imagem da virgem perto da entrada. Ele percebera que a pressão do ar das portas internas do saguão fazia com que as portas exteriores se abrissem se­gundos antes de uma pessoa sair. Isso lhe dava tempo para se esconder e espiar cada vez que um cliente saía.

Quando o Dr. Lecter saiu com sua pasta fina, Cario estava bem escondido atrás de uma barraca de cartões-postais. O doutor partiu. Quando passou pela imagem da virgem, sua cabeça se ergueu, as narinas se abriram enquanto ele olhava para a estátua e testava o ar.

Cario pensou que poderia ser um gesto de devoção. Perguntou-se se o Dr. Lecter era religioso, como costuma acontecer com os loucos. Talvez pudesse fazer o doutor xingar Deus no final — isso agradaria a Mason. Primeiro teria de mandar o piedoso Tommaso para longe, claro.

No final da tarde, Rinaldo Pazzi escreveu uma carta para a esposa, in­cluindo seu esforço na criação de um soneto, composto no início do na­moro, e que na época ele fora tímido demais para mandar. Colocou junto os códigos necessários para pegar o dinheiro na Suíça, além de uma carta para ela mandar a Mason, caso este tentasse negar a liberação da quantia. Colocou a carta onde ela só encontraria se estivesse examinando seus per­tences.

Às seis horas foi até o Museu Bardini em seu pequeno motorino, que acorrentou a um corrimão de ferro onde os últimos alunos do dia estavam pegando suas bicicletas. Viu o furgão branco com letreiros de ambulância estacionado perto do museu, e achou que poderia ser o de Cario. Havia dois homens sentados dentro. Quando Pazzi virou as costas, sentiu o olhar deles.

Tinha bastante tempo. As luzes da rua já estavam acesas e ele caminhou devagar em direção ao rio, através das sombras negras e úteis sob as árvores do museu. Atravessando a Ponte alie Grazie, olhou durante um tempo para o Arno que se movia lentamente, e ruminou os últimos pensamentos lon­gos que teria tempo de desfrutar. A noite seria escura. Bom. Nuvens baixas corriam para o leste por cima de Florença, passando perto da torre cruel do Palazzo Vecchio, e a brisa fazia girar a areia e excrementos de pombo que tinham virado pó na praça à frente da Santa Croce, por onde Pazzi passava agora, os bolsos pesados com uma Beretta 380, um cassetete de couro chato e uma faca para enfiar no Dr. Lecter, caso fosse necessário matá-lo de ime­diato.

A Igreja de Santa Croce fecha às seis da tarde, mas um sacristão deixou Pazzi entrar por uma porta pequena perto da frente. Não queria perguntar ao homem se o “Dr. Fell” estava trabalhando, de modo que foi cuidadosa­mente ver. As velas nos altares junto às paredes lhe davam luz suficiente. Seguiu pela grande extensão da igreja até que pôde enxergar o braço direito da estrutura em forma de cruz. Era difícil ver se o Dr. Fell estava na Capela Capponi, para além das velas votivas. Andando em silêncio pelo transepto direito, procurando. Uma grande sombra se afastou da parede da capela, e por um segundo a respiração de Pazzi parou. Era o Dr. Lecter, encurvado sobre a lâmpada no chão, trabalhando em suas cópias. O doutor levantou-se, espiou para o escuro como uma coruja, a cabeça virando, o corpo imó­vel, iluminado por baixo pela luz de trabalho, a sombra imensa atrás. Em seguida, a sombra se encolheu pela parede da capela enquanto ele se curva­va de novo para a tarefa.

Pazzi sentiu o suor escorrer pelas costas debaixo da camisa, mas seu rosto estava frio.

Ainda faltava uma hora para a reunião no Palazzo Vecchio, e Pazzi queria chegar atrasado.

Em sua beleza severa, a capela que Brunelleschi construíra para a família Pazzi na igreja de Santa Croce é uma das glórias da arquitetura renascentista. Ali o círculo e o quadrado estão reconciliados. É uma estrutura separada do lado de fora do santuário da Santa Croce, ao qual se pode chegar somente através de um claustro em arcos.

Pazzi rezou na Capela Pazzi, ajoelhado na pedra, observado pela figura parecida com ele no rondei de Delia Robbia no alto. Sentiu que as orações eram comprimidas pelo círculo de apóstolos no teto, e pensou que talvez elas poderiam ter escapado para o claustro escuro atrás dele e flutuado dali até o céu aberto e Deus.

Com esforço, visualizou algumas coisas boas que poderia fazer com o dinheiro que recebera em troca do Dr. Lecter. Viu-se junto com a esposa entregando moedas para algumas crianças de rua, e alguma espécie de aparelhagem médica que os dois doariam a um hospital. Viu as ondas da Galiléia, que para ele se pareciam com as da baía de Chesapeake. Viu a mão rosada e bonita da esposa ao redor de seu pau, apertando-o para inchar ainda mais a cabeça.

Olhou ao redor, e não vendo pessoa alguma, disse em voz alta para Deus: — Obrigado, pai, por permitir que eu remova este monstro, monstro dos monstros, de vossa Terra. Obrigado em nome das almas cuja dor nós pouparemos. — Não está claro se esse “nós” era um plural majestático ou uma referência à parceria entre Pazzi e Deus, e talvez não haja uma resposta simples.

A parte dele que não era sua amiga disse-lhe que ele e o Dr. Lecter haviam matado juntos, que Gnocco era vítima de ambos, já que Pazzi não fez coisa alguma para salvá-lo, e ficou aliviado quando a morte fez sua boca parar.

Havia um certo conforto na oração, refletiu Pazzi ao deixar a capela — enquanto saía do claustro escuro teve a sensação clara de que não estava so­zinho.

Cario esperava sob a aba do telhado do Palazzo Piccolomini e acertou o passo com o policial. Os dois disseram muito pouca coisa.

Passaram por trás do Palazzo Vecchio e confirmaram que a saída dos fun­dos, para a Via dei Leoni, estava trancada, e as janelas acima fechadas.

A única porta aberta era a entrada principal do Palazzo.

— Nós vamos sair por aqui, descer a escada para a Via Neri — disse Pazzi.

— Meu irmão e eu estaremos do outro lado da praça, na Loggia. Va­mos ficar a alguma distância atrás de vocês. Os outros estão no Museu Bardini.

— Eu os vi.

— Eles também viram você.

— A arma de impacto faz muito barulho?

— Não muito, não como uma pistola, mas você vai ouvir, e ele cairá rá­pido. — Cario não lhe disse que Piero atiraria com a arma de impacto das sombras na frente do museu, enquanto Pazzi e o Dr. Lecter ainda estivessem na luz. Cario não queria que Pazzi tentasse se afastar do doutor e o alertasse antes do tiro.

— Você precisa confirmar com Mason que o pegou. Precisa fazer isso esta noite — disse Pazzi.

— Não se preocupe. Esse escroto vai passar a noite implorando a Mason pelo telefone — disse Cario, olhando de lado para Pazzi, esperando vê-lo desconfortável. — A princípio ele implorará que Mason o poupe, depois de um tempo irá implorar para morrer.

 

Chegou a noite, e os últimos turistas foram mandados embora do Palazzo Vecchio. Muitos, sentindo o peso do castelo medieval nas costas enquanto se espalhavam pela praça, tiveram que se virar e olhar uma última vez para os parapeitos que lembravam dentes de lanternas de Dia das Bruxas, lá no alto.

Refletores se acenderam, lavando a pedra áspera, afiando as sombras de­baixo das altas ameias. Enquanto as andorinhas iam para seus ninhos, os pri­meiros morcegos apareceram, mais perturbados na sua caçada pelos guinchos de alta freqüência das ferramentas dos restauradores do que pela luz.

Dentro do Palazzo o serviço interminável de conservação e manutenção aconteceria durante mais uma hora, a não ser no Salão dos Lírios, onde o Dr. Lecter conferenciava com o chefe da equipe de manutenção.

O chefe, acostumado à penúria e às exigências difíceis do Comitê de Belle Arti, achou o doutor cortês e extremamente generoso.

Minutos depois, seus trabalhadores estavam guardando o equipamento, levando as grandes enceradeiras e os compressores para perto das paredes e enrolando os cabos elétricos. Rapidamente montaram as cadeiras dobráveis para a reunião do Studiolo — só era necessária uma dúzia — e abriram as ja­nelas para afastar o cheiro de tinta, cera e material de dourar.

O doutor insistiu num pódio adequado, e um móvel grande como um, púlpito foi encontrado na antiga sala de Niccolò Maquiavel, adjacente ao salão, e trazido sobre um carrinho grande, junto com o projetor de slides do palácio.

A pequena tela que veio com o projetor não agradou ao Dr. Lecter, e ele mandou-a embora. Em vez disso, tentou mostrar as imagens em tamanho natural num dos panos que protegia uma parede que estava sendo restaurada. Após ajustar o pano e alisar as dobras, descobriu que serviria muito bem.

Em seguida, marcou o lugar em vários tomos pesados que estavam sob o pódio, e parou junto à janela de costas para a sala, enquanto os mem­bros do Studiolo, com seus ternos escuros e empoeirados, chegavam e sen­tavam-se, o tácito ceticismo dos eruditos evidente enquanto tiravam as cadeiras do semicírculo e as arrumavam numa configuração que mais pa­recia um júri.

Olhando pela janela alta, o Dr. Lecter podia ver o Duomo e o campaná­rio de Giotto, escuro contra o oeste, mas não o amado batistério de Dante, abaixo deles. Os refletores virados para cima impediam que visse o escuro da praça onde os assassinos o esperavam.

Assim, com os mais renomados estudiosos da Idade Média e da Renas­cença acomodados em suas cadeiras, o Dr. Lecter compôs na mente a palestra que faria. Demorou pouco mais de três minutos para organizá-la. O assunto era o Inferno de Dante e Judas Iscariotes.

Bem de acordo com o gosto do Studiolo pela pré-Renascença, o Dr. Lecter começou com o caso de Pier delia Vigna, filólogo do reino da Sicília, cuja avareza o fez merecer um lugar no Inferno de Dante. Durante a primeira meia hora, o doutor os fascinou com as intrigas da vida real por trás da queda de delia Vigna.

— Delia Vigna foi posto em desgraça e cegado por trair a confiança do imperador através de sua avareza — disse o Dr. Lecter, aproximando-se do assunto principal. — O peregrino de Dante encontrou-o no sétimo nível do inferno, reservado para os suicidas. Como Judas Iscariotes, ele morreu enfor­cado.

“Judas, Pier delia Vigna e Ahitophel, o ambicioso conselheiro de Absalão, estão ligados em Dante pela avareza que ele viu neles e pela morte subseqüen­te por enforcamento.

“A avareza e o enforcamento estão ligados na mente antiga e medieval: São Jerônimo escreve que o próprio sobrenome de Judas, Iscariotes, significa “dinheiro”, ou “preço”, enquanto o padre Origen diz que Iscariotes deriva da expressão hebraica “por sufocação” e que o nome dele significa “Judas o Sufo­cado”.

De seu pódio, o Dr. Lecter olhou por cima dos óculos em direção à porta.

— Ah, Commendator Pazzi, bem-vindo. Como está mais perto da porta, poderia fazer a gentileza de diminuir as luzes? O senhor irá se interessar por isto, Commendatore, uma vez que já existem dois Pazzi no Inferno de Dante... — Os professores do Studiolo soltaram risinhos secos. — Camicion de’ Pazzi, que assassinou um parente, e ele está esperando a chegada de um segundo Pazzi. Mas não é o senhor, é Carlino, que será colocado ainda mais baixo no inferno por traição aos Guelfos Brancos, o partido do próprio Dante.

Um pequeno morcego voou através de uma das janelas abertas e fez al­guns círculos sobre as cabeças dos professores, acontecimento comum na Toscana e ignorado por todos.

O Dr. Lecter retomou sua voz de discurso.

— Avareza e enforcamento, então, são ligados desde a antigüidade, e a imagem aparece repetidamente na arte. — O Dr. Lecter apertou o interrup­tor que estava segurando e o projetor foi ligado, lançando uma imagem sobre o pano que cobria a parede. Numa rápida sucessão, outras imagens se segui­ram enquanto ele falava: — Aqui está a representação mais antiga que se co­nhece da crucificação, esculpida numa caixa de marfim na Gália, mais ou menos em 440 d.C. Inclui a morte de Judas por enforcamento, o rosto virado para cima, em direção ao galho que o sustenta. E aqui, num relicário de Mi­lão, do século IV, e num díptico de marfim do século IX, está Judas enforca­do. Ele ainda está olhando para cima.

O pequeno morcego passou diante da tela, caçando insetos.

— Neste painel das portas da catedral de Benevento vemos Judas enfor­cado com as entranhas caindo do corpo enquanto São Lucas, o médico, o descrevia nos Atos dos Apóstolos. Aqui ele está enforcado e assediado por harpias; sobre ele, no céu, está o rosto de Caim na lua; e aqui ele está represen­tado pelo Giotto de vocês, de novo com vísceras pendendo para fora.

“E finalmente aqui, de uma edição do século XV do Inferno, está o corpo de Pier delia Vigna pendurado de uma árvore ensangüentada. Não enfatizarei o paralelo óbvio com Judas Iscariotes.

“Mas Dante não precisava desenhar ilustrações; é o gênio de Dante Alighieri fazer Pier delia Vigna, agora no inferno, falar em sussurros tensos e tosses si­bilantes, como se ainda estivesse enforcado. Ouçam enquanto ele conta que arrastou, junto com os outros condenados, seu próprio cadáver para pendu­rar numa árvore de espinheiro:

 

“Surge in vermena e in pianta silvestra:

l’Arpie, pascendo poi de le sue foglie,

fanno dolore, e al dolor fenestra.”

 

O rosto normalmente branco do Dr. Lecter ruboriza enquanto ele cria para o Studiolo o gorgolejo das palavras do agonizante Pier delia Vigna, e enquanto ele aperta o controle remoto, as imagens de delia Vigna e de Judas com as entra­nhas para fora alternam-se no grande campo do pano pendurado.

 

“Come l’altre verrem per nostre spoglie,

ma non però ctíalcuna sen rivesta,

ché non ègiusto aver ciò chom si toglie.

 

“Qui le strascineremo, e per la mesta

selva saramo i nostri corpo appesi,

ciascuno alprun de 1’ombra sua molesta.

 

“De modo que Dante lembra, em sons, a morte de Judas na morte de Pier delia Vigna, pelos mesmos crimes de avareza e traição.

“Ahitophel, Judas, e o Pier delia Vigna de vocês. Avareza, enforcamento, autodestruição, com a avareza tendo tanta importância quanto o enforcamento para a autodestruição. E o que diz o anônimo suicida florentino em seu tormento no final do canto?

 

“Io feigibetto a me dele mie case.

 

“E eu... eu fiz de minha própria casa meu patíbulo.

“Na próxima ocasião talvez vocês gostassem de discutir Pietro, o filho de Dante. Incrivelmente, ele foi o único dos primeiros escritores que liga­ram Pier delia Vigna a Judas no canto treze. Creio também que seria interessante abordar a questão do mastigar em Dante. O conde Ugolino, mas­tigando a nuca do arcebispo, Satã com seus três rostos mastigando Judas, Brutos e Cássio, todos traidores como Pier delia Vigna. Obrigado pela sua gentil atenção.”

Os eruditos aplaudiram-no entusiasticamente, ao seu modo baixo e poei­rento, e o Dr. Lecter manteve as luzes reduzidas enquanto se despedia deles, cada um por seu nome, segurando livros nos braços para não ter de apertar as mãos. Enquanto saíam da luz suave do Salão dos Lírios, eles pareciam carre­gar o feitiço da palestra.

O Dr. Lecter e Rinaldo Pazzi, agora sozinhos na grande câmara, podiam ouvir observações sobre a palestra começando a ser feitas entre os estudiosos que desciam a escada.

— O senhor diria que salvei meu emprego, Commendatore?

— Não sou um erudito, Dr. Fell, mas qualquer um pode ver que os im­pressionou. Doutor, se for conveniente, posso caminhar com o senhor até sua casa e pegar os objetos de seu predecessor.

— São duas malas, Commendatore, e o senhor já está com sua pasta. Vai querer carregá-las?

— Mandarei uma radiopatrulha me pegar no Palazzo Capponi — Pazzi insistiria, se fosse necessário.

— Ótimo — disse o Dr. Lecter. — Vai demorar um minuto, é só pegar as coisas.

Pazzi assentiu e foi com seu telefone celular até a janela alta, jamais afas­tando os olhos de Lecter.

Dava para ver que o doutor estava perfeitamente calmo. Dos andares de baixo vinham sons de ferramentas elétricas.

Pazzi digitou um número, e quando Cario Deogracias atendeu, ele disse:

— Laura, amore, vou chegar em casa daqui a pouco.

O Dr. Lecter pegou os livros no pódio e os colocou numa sacola. Em se­guida, virou-se para o projetor; o ventilador ainda zumbia, a poeira nadava no facho de luz.

— Deveria ter mostrado este a eles, não consigo imaginar por que esque­ci. — O Dr. Lecter projetou outro desenho, um homem nu pendurado de­baixo das ameias do palácio. — Isso irá interessá-lo, Commendator Pazzi, dei­xe-me vez se posso melhorar o foco.

O Dr. Lecter mexeu na máquina, em seguida se aproximou da ima­gem na parede, a silhueta negra sobre o tecido, do mesmo tamanho do enforcado.

— Está conseguindo ver isto? Não dá para ampliar mais. Foi aqui que o arcebispo o mordeu. E debaixo está escrito o nome dele.

Pazzi não chegou mais perto do Dr. Lecter, mas enquanto se aproximava da parede sentiu cheiro de alguma substância química, e por um instante pen­sou que fosse algo que os restauradores usavam.

— Consegue ver as letras? Diz: “Pazzi”, junto com um poema grosseiro. Este é o seu ancestral, Francesco, enforcado do lado de fora do Palazzo Vecchio, debaixo destas janelas — disse o Dr. Lecter. Ele sustentou o olhar de Pazzi através do facho de luz entre os dois. — Quanto a um assunto relacionado, signore Pazzi, devo lhe confessar: estou pensando seriamente em comer a sua mulher.

O Dr. Lecter puxou para cima de Pazzi o grande pano que cobria a pare­de. Pazzi lutou contra o tecido, tentando descobrir a cabeça enquanto o cora­ção afundava no peito. O Dr. Lecter veio rapidamente por trás, apertando seu pescoço com força terrível e colocando uma esponja encharcada em éter sobre o pano que cobria seu rosto.

Sacudindo-se com força, com os pés e os braços emaranhados no pano, Rinaldo Pazzi ainda pôde colocar a mão na pistola enquanto os dois caíam juntos no chão. Tentou apontar a Beretta para trás do corpo, debaixo do pano cheio de dobras, apertou o gatilho e deu um tiro atravessando a própria coxa enquanto afundava para um redemoinho negro...

O disparo da pequena 380 por baixo do pano não fez muito mais barulho do que as marteladas nos andares de baixo. Ninguém subiu a escada. O Dr. Lecter trancou as grandes portas do Salão dos Lírios...

Enquanto voltava à consciência, Pazzi sentiu uma certa náusea e algo que o amordaçava, o gosto de éter na garganta e um peso no peito.

Descobriu que ainda estava no Salão dos Lírios, e que não podia se mexer. Rinaldo Pazzi estava amarrado com o pano e cordas, rígido como um relógio de parede, preso ao carrinho alto que os trabalhadores tinham usado para trans­portar o pódio. Sua boca estava presa com fita adesiva. Uma bandagem havia estancado o sangramento do tiro na coxa.

Observando, encostado ao púlpito, o Dr. Lecter lembrou-se de si próprio, amarrado de modo semelhante quando o transportavam pelo manicômio, sobre um carrinho.

— Está me ouvindo, signore Pazzi? Respire fundo enquanto pode, e cla­reie a cabeça.

As mãos do Dr. Lecter estavam ocupadas enquanto ele falava. Ele havia trazido uma grande enceradeira para a sala e estava trabalhando com o fio grosso e cor de laranja, fazendo um nó de enforcado na extremidade do fio. O cabo coberto de borracha guinchou enquanto ele fazia as treze voltas tradicionais.

Completou o nó de enforcado com um puxão e o colocou sobre o púlpi­to. A tomada se projetava das voltas na extremidade do nó.

A arma de Pazzi, suas algemas de plástico, o conteúdo de seus bolsos e de sua pasta estavam em cima do pódio.

O Dr. Lecter examinou os papéis. Colocou no bolso da camisa o arquivo dos carabinieri contendo sua permesso di soggiorno, sua licença de trabalho e as fotos e os negativos de seu rosto novo.

E ali estava a partitura musical que havia emprestado à signora Pazzi. Pe­gou a partitura e bateu com ela nos dentes. Suas narinas se abriram e ele ins­pirou profundamente, o rosto perto do de Pazzi.

— Laura, se é que posso chamá-la de Laura, deve usar um maravilhoso creme para as mãos à noite, signore. Escorregadio. Frio a princípio, e depois quente. Cheiro de flores de laranja. Laura, Vorange. Hummmm. Não comi nada o dia inteiro. Na verdade o fígado e os rins serviriam para um jantar imediatamente, esta noite, mas o resto da carne deve ficar pendurado por uma semana no tempo frio que está fazendo agora. Não vi a previsão do tempo, o senhor viu? Acho que isto significa “não”.

“Se me disser o que preciso saber, Commendatore, seria conveniente para mim partir sem minha refeição; a signora Pazzi permanecerá intocada. Vou lhe fazer as perguntas e então veremos. Pode confiar em mim, sabe, apesar de eu imaginar que o senhor considere difícil confiar, conhecendo a si próprio.

“No teatro percebi que o senhor tinha me identificado, Commendatore. O senhor se mijou quando me inclinei sobre a mão da signora? Quando a polícia não veio, estava claro que o senhor tinha me vendido. Foi para Mason Verger que me vendeu? Pisque duas vezes para dizer sim.

“Obrigado, imaginei que fosse. Uma vez liguei para o número que está no cartaz dele, de longe daqui, só para diversão. Os homens dele estão esperando lá fora? Hum-hum. £ um deles cheira a salsicha de porco podre? Sei. O se­nhor contou a meu respeito para alguém na Questura? Isso foi uma piscada só? Achei que sim. Agora quero que pense um minuto e diga qual é o seu código de acesso para o computador da PACV em Quantico.

O Dr. Lecter abriu seu canivete Harpia.

— Vou tirar a fita adesiva e o senhor poderá dizer. — O Dr. Lecter esten­deu o canivete. — Não tente gritar. Acha que consegue não gritar? Pazzi estava rouco por causa do éter.

— Juro por Deus que não sei o código. Não consigo pensar no número inteiro. Podemos ir até o meu carro, eu tenho papéis...

O Dr. Lecter girou Pazzi de frente para a tela e ficou passando para a fren­te e para trás as imagens de Pier delia Vigna enforcado e Judas enforcado com as entranhas para fora.

— O que acha, Commendatore? Entranhas para fora ou para dentro?

— O código está na minha caderneta de anotações.

O Dr. Lecter segurou a caderneta na frente do rosto de Pazzi até ele en­contrar a anotação, no meio de números de telefone.

— E é possível se conectar remotamente, como convidado?

— Sim — grasnou Pazzi.

— Obrigado, Commendatore. — O Dr. Lecter inclinou o carrinho para trás e empurrou Pazzi até as grandes janelas.

— Escute!’Em tenho dinheiro, cara! Você vai precisar de dinheiro para fu­gir. Mason Verger não vai desistir nunca. Nunca vai desistir. Você não pode ir para casa pegar dinheiro, eles estão vigiando sua casa.

O Dr. Lecter pegou duas tábuas do andaime e colocou-as como uma ram­pa sobre o peitoral baixo, e empurrou Pazzi, sobre o carrinho, até a sacada do lado de fora.

A brisa estava fria no rosto molhado de Pazzi. Falando rapidamente agora:

— Você nunca sairá vivo deste prédio. Eu tenho dinheiro. Eu tenho cento e sessenta milhões de liras em dinheiro vivo, cem mil dólares! Deixe-me telefo­nar para minha mulher. Eu digo para ela pegar o dinheiro e colocar no meu carro, e deixar o carro na frente do palácio.


O Dr. Lecter pegou o nó de forca em cima do palpito e levou para fora, arrastando o fio laranja. A outra extremidade estava presa com uma série de voltas ao redor da enceradeira pesada.

Pazzi ainda estava falando:

— Ela vai telefonar para mim pelo celular quando estiver lá fora, e depois vai deixar o dinheiro para você. Tenho o passe da polícia, ela pode vir de carro pela praça até a entrada. Ela vai fazer o que eu disser. O carro solta fumaça, cara, você pode olhar para baixo e ver que ele vai estar ligado, a chave vai estar dentro.

O Dr. Lecter inclinou Pazzi para a frente, de encontro à balaustrada da sacada, que chegava à altura das suas coxas.

Pazzi podia olhar para a praça embaixo e identificar, por entre os refleto­res, o lugar onde Savonarola foi queimado, onde ele havia jurado vender o Dr. Lecter para Mason Verger. Olhou para o alto, para as nuvens baixas, colo­ridas pelos refletores, e esperava, demais, que Deus pudesse ver.

Para baixo é a direção medonha, e ele não podia deixar de olhar para lá, esperando, contra o bom senso, que os fachos dos refletores dessem alguma substância ao ar, que de algum modo eles iriam sustentá-lo, que ele poderia se agarrar nos fachos de luz.

A borracha laranja do nó corrediço estava fria em seu pescoço, e o Dr. Lecter parado perto dele.

— Arrivederci, Commendatore.

Movimento rápido da Harpia na frente de Pazzi, outro movimento cor­tou sua ligação ao carrinho e ele se inclinou, passou por cima da balaustrada levando atrás o fio laranja, o chão subindo rapidamente, a boca livre para gri­tar, e dentro do salão a enceradeira disparou pelo piso até se chocar contra a balaustrada. Pazzi sacudiu-se com a cabeça para cima, seu pescoço se quebrou e as entranhas se projetaram para fora.

Pazzi e seu prolongamento balançando e girando na frente da parede áspera do palácio iluminado, sacudindo-se em espasmos póstumos mas sem sufocar, morto, a sombra gigantesca projetada na parede pelos refletores, balançando, com as entranhas balançando embaixo num arco mais curto, mais rápido, sua masculinidade se projetando das calças rasgadas numa ereção de morte.

Cario saindo rapidamente de um portal, Matteo ao lado, atravessando a praça em direção à entrada do palácio, empurrando turistas, dois dos quais estavam com câmeras de vídeo apontadas para o castelo.

— É um truque — disse alguém em inglês enquanto ele passava cor­rendo.

— Matteo, cubra a porta dos fundos. Se ele sair, simplesmente mate-o e corte-o — disse Cario, pegando o telefone celular enquanto corria. Entrando no palácio agora, subindo a escada até o primeiro andar, depois o segundo.

As grandes portas do salão estavam escancaradas. Dentro, Cario apontou a arma para a figura projetada na parede, correu para a varanda, deu uma busca em segundos no escritório de Maquiavel.

Usou o celular para entrar em contato com Piero e Tommaso, que espera­vam no furgão em frente ao museu.

— Vão à casa dele, cubram a frente e os fundos. Simplesmente matem-no e cortem-no.

Cario discou de novo.

— Matteo?

O telefone de Matteo zumbiu no bolso do peito quando ele parou, respi­rando ofegante, diante da porta dos fundos do palácio, que estava trancada. Havia examinado o telhado e as janelas escuras, experimentado a porta, a mão debaixo do paletó, apoiada na pistola à cintura.

Abriu o telefone.

— Pronto!

— O que você está vendo?

— A porta está trancada.

— O telhado?

Matteo olhou para cima de novo, mas não a tempo de ver os postigos da janela acima dele se abrirem.

Cario ouviu um farfalhar e um grito no telefone, e saiu correndo, descen­do a escada, caindo num patamar, levantando-se de novo e correndo, passan­do pelo guarda em frente a entrada do palácio, pelas estátuas que flanqueavam a portaria, virando a esquina e agora indo a toda em direção aos fundos do palácio, empurrando alguns casais. Ali atrás estava escuro, ele corria, o celular guinchando como uma pequena criatura em sua mão. Uma figura atravessou correndo a rua à sua frente, envolvida em branco, corria cegamente no cami­nho de um motorino. A motoneta derrubou-a, a figura se levantou de novo e se chocou com a vitrine de uma loja do outro lado da rua estreita, bateu con­tra o vidro, virou-se e correu cegamente, uma aparição em branco, gritando:

“Cario, Cario”, grandes manchas se espalhando no pano que o cobria, e Cario pegou o irmão nos braços, cortou a algema de plástico que rodeava seu pesco­ço, prendendo o pano sobre a cabeça, o pano que era uma máscara de sangue. Descobriu Matteo e viu que ele estava muito cortado, no rosto, no abdome, tão fundo no peito que o ferimento parecia sugado para dentro. Cario dei­xou-o por tempo suficiente para correr até a esquina e olhar dos dois lados, depois voltou para junto do irmão.

Com sirenes se aproximando, luzes piscando e preenchendo a Piazza Signoría, o Dr. Lecter ajeitou os punhos da camisa e caminhou até uma gelatería na Piazza dei Giudici, ali perto. Havia motocicletas e motorinos enfileirados no meio-fio.

Aproximou-se de um rapaz vestido de couro que dava partida numa gran­de Ducatti.

— Meu jovem, estou desesperado — disse ele com um sorriso triste. — Se eu não chegar à Piazza Bellosguardo em dez minutos, minha mulher vai me matar. — E mostrou ao jovem uma nota de cinqüenta mil liras. — Isto é o que minha mulher vale para mim.

— É só isso que o senhor quer? Uma carona? O Dr. Lecter mostrou-lhe as mãos abertas.

— Uma carona.

A motocicleta rápida costurava as linhas de trânsito na Lungarno, com o Dr. Lecter curvado atrás do jovem motociclista, tendo na cabeça um ca­pacete extra que fedia a laquê e perfume. O motociclista sabia para onde estava indo, disparando pela Via de’ Serragli em direção à Piazza Tasso, e saiu na Via Villani, pegando a viela minúscula ao lado da igreja de São Fran­cisco de Paula, que leva para a estrada serpenteante que sobe até Bellosguardo, o elegante bairro residencial no morro ao sul, de onde se vê Florença. O grande motor Ducatti ecoava nos muros de pedra ao lado da rua com um som que parecia lona sendo rasgada, que agradava ao Dr. Lecter enquanto ele se inclinava nas curvas e tentava suportar o cheiro de laquê e perfume barato no capacete. Pediu que o rapaz o deixasse na entrada da Piazza Bellosguardo, não longe da casa do conde Montalto, onde vivera Nathaniel Hawthorne. O motociclista enfiou o pagamento no bolso do peito da ja­queta de couro e a luz traseira da motocicleta foi se afastando rapidamente pela estrada cheia de curvas.

Estimulado pela corrida, o Dr. Lecter caminhou mais quarenta metros até o Jaguar preto, pegou as chaves atrás do pára-choque e deu partida no motor. Estava com uma ligeira queimadura de tecido na mão, onde a luva se esfregou quando ele jogou o pano sobre Matteo e saltou sobre ele da janela do primei­ro andar do palácio. Passou um pouco de Cicatrine, um ungüento antibacteriano da Itália, e sentiu-se melhor de imediato.

O Dr. Lecter procurou em meio às suas fitas de música enquanto o motor esquentava. Decidiu-se por Scarlattí.

 

A ambulância aérea ergueu-se acima dos telhados vermelhos e virou para o sudoeste em direção à Sardenha, enquanto a torre inclinada de Pisa aparecia acima da asa numa curva mais inclinada do que o piloto teria feito se levasse um paciente vivo.

A maca destinada ao Dr. Hannibal Lecter tinha, em vez disso, o corpo de Matteo Deogracias, que ia esfriando. Cario, o irmão mais velho, estava senta­do junto ao cadáver, a roupa dura de sangue.

Cario Deogracias fez o enfermeiro colocar fones de ouvido e aumentar o volume da música enquanto falava no celular com Las Vegas, onde um codificador retransmitia sua ligação para o litoral de Maryland...

Para Mason Verger, noite e dia são praticamente a mesma coisa. Por acaso ele estava dormindo. Até mesmo as luzes do aquário estavam apagadas. Sua cabeça estava virada sobre o travesseiro, o único olho sempre aberto, como os da grande enguia, que também estava dormindo. Os únicos sons eram o sibilo regular do respirador, o borbulho suave do oxigenador do aquário.

Acima desses ruídos constantes veio outro som, suave e urgente. O zum­bido do telefone mais particular de Mason. Sua mão pálida caminhou sobre os dedos como um caranguejo para apertar o botão do telefone. O alto-fa­lante ficava debaixo do travesseiro, o microfone perto da ruína que era seu rosto.


Primeiro Mason ouviu o avião no fundo, e depois uma canção enjoativa, Gli innamorati.

— Estou aqui. Diga.

— Foi um jogo sangrento — disse Cario.

— Conte.

— Meu irmão Matteo está morto. Agora estou com a mão em cima dele. Pazzi também está morto. O Dr. Fell matou os dois e fugiu.

Mason não respondeu de imediato.

— Você deve duzentos mil dólares ao Matteo — disse Cario. — Para a família dele. — Os contratos com os sardos sempre implicavam benefícios pelas mortes.

— Entendo.

— Vai rolar uma tremenda merda por causa do Pazzi.

— É melhor que Pazzi estivesse com alguma sujeira — disse Mason. — Eles vão aceitar se ele estiver sujo. Ele estava sujo?

— A não ser por isto, não sei. E se rastrearem o Pazzi até você?

— Posso cuidar disso.

— E eu preciso cuidar de mim mesmo — disse Cario. — Isto aqui é de­mais. Um investigador-chefe da Questura morto, não posso me livrar desse negócio.

— Você não fez nada, fez?

— Nós não fizemos nada, mas se a Questura colocou meu nome nisso... Porca Madonna! Eles vão me vigiar pelo resto da vida. Ninguém vai aceitar pagamento meu, não vou poder aparecer na rua. E quanto ao Oreste? Ele sa­bia quem deveria filmar?

— Não creio.

— A Questura terá identificado o Dr. Fell amanhã ou depois de amanhã. Oreste vai somar dois e dois assim que vir o noticiário, simplesmente pela questão de tempo.

— Oreste está sendo bem pago. Oreste é inofensivo para nós.

— Talvez para você. Mas ele vai ser julgado em Roma no mês que vem por um caso de pornografia. Agora ele tem algo para barganhar. Se já não sabe disso, deveria chutar algumas bundas. Você precisa de Oreste?

— Eu falo com ele — disse Mason cuidadosamente, os tons ricos de um anunciante de rádio saindo de seu rosto devastado. — Cario, você ainda está no jogo? Você quer encontrar o Dr. Fell agora, não quer? Você precisa encontrá-lo por causa do Matteo.

— Sim, mas à sua custa.

— Então mantenha a fazenda de pé. Consiga certificados de vacina de gripe suína e cólera para os porcos. Arranje caixotes de embarque para eles. Você tem um passaporte bom?

— Tenho.

— Estou falando de um passaporte bom, Cario, não uma merda qual­quer do Trastevere.

— Eu tenho um bom.

— Você terá notícias minhas.

Ao encerrar a ligação dentro do avião barulhento, sem querer Cario aper­tou o botão de discagem automática do celular. O telefone de Matteo fez um barulho alto em sua mão morta, ainda preso no aperto do espasmo cadavérico. Por um instante Cario pensou que o irmão levaria o telefone ao ouvido. Vendo que Matteo não poderia atender, Cario apertou o botão de desligar. Seu rosto se contorceu e o enfermeiro não conseguia olhar para ele.

 

A Armadura do Diabo, com seu capacete chifrudo, é uma esplêndida peça italiana do século XV que desde 1501 está pendurada no alto da parede da Igreja de Santa Reparata, ao sul de Florença. Além dos graciosos cornos, na forma de chifres de camurça, os punhos pontudos das luvas estão presos no lugar dos sapatos, nas extremidades das grevas, sugerindo os cascos fendidos de Satã.

Segundo a lenda local, um rapaz que usava a armadura tomou o nome da Virgem em vão enquanto passava pela igreja, e descobriu que depois disso não podia tirar a armadura até que pedisse perdão a Nossa Senhora. Como agradecimento, ele doou a armadura para a igreja. É uma presença impressio­nante, e passou por uma grande prova quando um obus de artilharia explo­diu na igreja em 1942.

A armadura, com as superfícies superiores cobertas por uma camada de poeira que parecia feltro, olha para o pequeno santuário agora enquanto uma missa vai chegando ao final. O incenso sobe, passa através da viseira vazia.

Apenas três pessoas estão ali, duas mulheres idosas, ambas vestidas de pre­to, e o Dr. Hannibal Lecter. Todos os três tomam a comunhão, ainda que o Dr. Lecter encoste os lábios na taça com alguma relutância.

O padre termina a bênção e se retira. As mulheres partem. O Dr. Lecter continua com suas devoções até ficar sozinho no santuário.

Da galeria do órgão o Dr. Lecter pode estender a mão sobre o parapeito e, inclinando-se entre os chifres, levantar a viseira empoeirada do capacete da Armadura do Diabo. Lá dentro, um anzol passado sobre a aba do gorjal sus­pende um barbante e um pacote que está pendurado dentro da couraça, onde ficaria o coração. Cuidadosamente, o Dr. Lecter retira-o.

Um pacote: passaportes brasileiros da melhor qualidade, identificação, dinheiro, talões de cheque, chaves. Ele o coloca sob o braço, por dentro do paletó.

O Dr. Lecter não gosta de lamentar, mas lamenta estar deixando a Itália. Havia coisas no Palazzo Capponi que ele gostaria de ter encontrado e lido. Gostaria de tocar o cravo e talvez compor... poderia ter cozinhado para a viú­va Pazzi, quando ela superasse o sofrimento.

 

Enquanto o sangue ainda caía do corpo suspenso de Rinaldo Pazzi para fri­tar e soltar fumaça nos quentes refletores debaixo do Palazzo Vecchio, a polí­cia convocou o corpo de bombeiros para retirá-lo.

Os pompieri usaram uma extensão sobre o caminhão de escadas. Sempre práticos, e certos de que o enforcado estava morto, demoraram-se para retirar Pazzi. Era um processo delicado, exigindo que levantassem até o corpo as vísceras suspensas e o enrolassem com uma rede, antes de prender uma corda para baixá-lo ao chão.

Assim que o corpo chegou aos braços estendidos dos que estavam no chão, o La Nazione tirou uma foto excelente que fez muitos leitores se lembrarem das grandes pinturas de Cristo sendo baixado da cruz.

A polícia deixou o laço da forca no pescoço até que pudessem ser tiradas impressões digitais, depois cortou o grosso fio elétrico no centro do laço, para preservar a integridade do nó.

Muitos florentinos achavam que a morte fora um suicídio espetacular, decidindo que Rinaldo amarrara as próprias mãos como um suicida de ca­deia, ignorando o fato de que os pés também estavam amarrados. Na primei­ra hora a rádio local informou que Pazzi cometera haraquiri com uma faca, além de se enforcar.

De imediato a polícia sabia que não fora assim — as amarras cortadas na sacada e o carrinho, a arma de Pazzi que estava faltando, testemunhas contando sobre Cario ter entrado correndo no palácio e a figura ensangüentada e envolta num pano correndo cegamente atrás do Palazzo Vecchio lhes diziam que Pazzi fora assassinado.

Então o público italiano decidiu que Il Mostro matara Pazzi.

A Questura começou com o desventurado Girolamo Tocca, que uma vez fora acusado de ser Il Mostro. Pegaram-no em casa e o levaram enquanto a mulher uivava de novo na rua. Seu álibi era sólido. Ele estava bebendo um Ramazzotti num café, à vista de um padre. Tocca foi solto em Florença e teve de voltar de ônibus para San Casciano, pagando a própria passagem.

Os funcionários do Palazzo Vecchio foram interrogados nas primeiras horas, e o interrogatório se espalhou para os membros do Studiolo.

A polícia não pôde localizar o Dr. Fell. Ao meio-dia do sábado a atenção foi atraída para ele. A Questura lembrou-se de que Pazzi fora designado para investigar o desaparecimento do predecessor do Dr. Fell.

Um funcionário dos Carabinieri disse que nos últimos dias Pazzi estivera examinando uma permesso disoggiorno. Os registros de Fell, inclusive suas fotos, os negativos e impressões digitais tinham sido entregues a alguém que usara um nome falso, assinado com o que parecia ser a letra de Pazzi. A Itália ainda não informatizara seus registros em todo o país, e os vistos ainda são manti­dos em nível local.

Os registros de imigração revelaram o número do passaporte de Fell, o que chamou a atenção no Brasil.

Mesmo assim a polícia não percebeu a verdadeira identidade do Dr. Fell. Eles tiraram impressões digitais dos nós da forca e do pódio, do carrinho e da cozinha no Palazzo Capponi. Com uma quantidade de artistas disponíveis, um desenho do Dr. Fell foi preparado em minutos.

Domingo de manhã, hora da Itália, um perito em impressões digitais em Florença havia determinado laboriosamente, ponto por ponto, que as mes­mas impressões estavam no pódio, na forca e nos utensílios da cozinha do Dr. Fell no Palazzo Capponi.

A impressão do polegar de Hannibal Lecter, no cartaz pendurado na sede da Questura, não foi examinada.

As impressões digitais da cena do crime foram para a Interpol no domin­go à noite, e chegaram à sede do FBI em Washington, D.C., junto com ou­tros sete mil conjuntos de impressões digitais tiradas em cenas de crimes. Submetidas ao sistema de classificação de impressões digitais automatizado, as impressões de Florença registraram um choque de tamanha magnitude que um alarme audível soou na sala do diretor-assistente encarregado da seção de identificação. O policial de plantão na noite viu o rosto e os dedos de Hannibal Lecter se arrastarem para fora da impressora e ligou para o diretor-assistente em casa, que ligou primeiro para o diretor, e depois para Krendler, no Depar­tamento de Justiça.

O telefone de Mason tocou à 1:30 da madrugada. Ele fingiu estar surpre­so e interessado.

O telefone de Jack Crawford tocou à 1:35. Ele grunhiu várias vezes e ro­lou para o lado vazio, assombrado, de sua cama matrimonial onde a falecida esposa, Bella, costumava ficar. Estava frio ali, e ele pareceu pensar duas vezes.

Clarice Starling foi a última a saber que o Dr. Lecter matara de novo. Depois de desligar o telefone, ficou deitada por vários minutos no escuro, e seus olhos ardiam por algum motivo que ela não percebia, mas não chorou. Deitada no travesseiro e olhando para cima, podia ver o rosto dele na escuridão. Era o rosto antigo do Dr. Lecter, claro.

 

O piloto da ambulância aérea não queria descer no escuro na pista curta e não controlada de Arbatax. Pousaram em Cagliari, reabasteceram e espera­ram até o amanhecer, depois voaram pela costa num nascer do sol espetacular que dava um tom falso de rosa ao rosto morto de Matteo.

Um furgão com um caixão esperava na pista de Arbatax. O piloto discu­tiu por causa de dinheiro e Tommaso interveio antes que Cario lhe desse um tapa no rosto.

Três horas subindo as montanhas e eles estavam em casa.

Cario caminhou sozinho até o telheiro de madeira rústica que construíra com Matteo. Tudo estava preparado ali, as câmeras no lugar para filmar a morte de Lecter. Cario ficou parado abaixo da obra das mãos de Matteo e olhou para si mesmo no grande espelho rococó acima do curral. Olhou ao redor para as madeiras que os dois haviam serrado juntos, pensou nas grandes mãos quadradas de Matteo segurando a serra, e um grito enorme escapou dele, um grito de seu coração angustiado, suficientemente alto para ecoar nas árvores. Rostos com presas compridas apareceram entre os arbustos da pastagem.

Piero e Tommaso, também irmãos, deixaram-no a sós.

Pássaros cantavam no pasto de montanha.

Oreste Pinni saiu da casa abotoando a braguilha com uma das mãos e acenando com o celular na outra.

— Então vocês perderam o Lecter. Que azar.

Cario parecia não ouvi-lo.

— Escute, nem tudo está perdido. Isso ainda pode dar certo — disse Oreste Pinni. — Estou com Mason aqui. Ele vai querer um simulado. Algo que possa mostrar a Lecter quando pegá-lo. Já que estamos com tudo pronto, temos um corpo... Mason disse que era apenas um capanga que você contra­tou. Mason disse que poderíamos simplesmente, ah, simplesmente jogá-lo por debaixo da cerca quando os porcos vierem, e tocar a música. Aqui, fale com Mason.

Cario virou-se e olhou para Oreste como se ele tivesse acabado de chegar da Lua. Finalmente, pegou o celular. Enquanto falava com Mason, seu rosto se desanuviou e uma certa paz pareceu baixar sobre ele.

Cario fechou o celular.

— Prepare-se — disse ele.

Cario falou com Piero e Tommaso e, com a ajuda do cameraman, levaram o caixão até o telheiro.

— Você não vai querer isso tão perto a ponto de entrar em quadro — disse Oreste. — Vamos filmar os animais se juntando, e depois seguimos em frente.

Vendo a atividade no telheiro, os primeiros porcos saíram do abrigo.

— Giriamo! — gritou Oreste.

Eles vieram correndo, os porcos selvagens, marrons e prateados, grandes, chegando à altura da cintura de um homem, com peito fundo, pêlos compri­dos nas costas, movendo-se com a velocidade de um lobo sobre os cascos pe­quenos, olhos pequenos e inteligentes nos rostos infernais, músculos maciços no pescoço debaixo da cordilheira de pêlos eriçados, capazes de levantar um homem nas grandes presas.

— Pronti! — gritou o cameraman.

Eles não comiam há três dias, outros vinham agora numa fileira que avan­çava, sem se incomodar com os homens atrás da cerca.

— Motore! — gritou Oreste.

— Partito! — gritou o cameraman.

Os porcos pararam a três metros do telheiro numa fila cerrada, uma flo­resta de cascos e presas, a porca grávida no centro. Balançavam para a frente e para trás como uma fileira de atacantes no futebol americano, e Oreste en­quadrou-os com as mãos.

— Azione! — gritou ele para os sardos, e Cario, vindo por trás, cortou-o na fenda entre as nádegas e o fez gritar, agarrou-o pelos quadris e lançou-o de cabeça no curral. Os porcos atacaram. Oreste tentou se levantar, apoiou-se num dos joelhos e a porca golpeou suas costelas, derrubando-o esparramado. Em seguida, estavam todos em cima dele, rosnando e guinchando. Dois ani­mais arrancaram sua mandíbula e a dividiram como um osso da sorte. Mes­mo assim Oreste quase conseguiu ficar de pé e, em seguida estava caído de costas outra vez, a barriga exposta e aberta, os braços e as pernas balançando acima das costas dos animais, Oreste gritando sem o maxilar, sem poder for­mar palavras.

Cario ouviu um tiro e se virou. O cameraman abandonara a câmera e ten­tava fugir, mas não foi suficientemente rápido para escapar ao tiro de Piero. Agora os porcos estavam se acomodando, arrastando coisas para longe.

— Azione é o caralho — disse Cario e cuspiu no chão.

 

                                           PARA O NOVO MUNDO

 

Um silencio cauteloso rodeava Mason Verger. Seus empregados tratavam-no como se ele tivesse perdido um bebê. Quando perguntavam como se sen­tia, ele dizia:

— Como se tivesse acabado de pagar um monte de dinheiro para um carcamano morto.

Depois de várias horas de sono, Mason mandou que trouxessem crianças para a sala de brinquedos junto à sua câmara, e quis conversar com uma ou duas das mais perturbadas, mas não havia crianças perturbadas para ser trazidas imediatamente, e nem tempo para que seu fornecedor nas favelas de Baltimore perturbasse algumas para ele.

Não tendo isso, mandou seu auxiliar Cordell mutilar carpas ornamentais e jogá-las para a enguia, até que a enguia não pudesse comer mais e entrasse para dentro da sua pedra, a água nublada de rosa e cinza, cheia de escamas douradas e iridescentes.

Tentou atormentar sua irmã Margot, mas ela foi para a sala de musculação e durante horas ignorou os bips que ele passava. Ela era a única pessoa em Muskrat Farm que ousava ignorar Mason.

Um curto trecho de filme feito por um turista, muito cortado, e mostran­do Rinaldo Pazzi, passou no noticiário de televisão de sábado à noite, antes que o Dr. Lecter fosse identificado como o assassino. Áreas borradas da ima­gem poupavam detalhes anatômicos para os espectadores.


Imediatamente, a secretária de Mason estava ao telefone para conseguir o filme não editado. O material chegou por helicóptero quatro horas depois. O filme tinha uma origem curiosa:

Dos dois turistas que estavam filmando o Palazzo Vecchio no momento da morte de Rinaldo Pazzi, um entrou em pânico e a câmera balançou para longe no momento da queda. O outro turista era suíço e se mantivera firme durante todo o episódio, até mesmo fazendo uma panorâmica para a corda que balançava.

O cinegrafista amador, um funcionário de patentes chamado Viggert, teve medo de que a polícia pegasse o filme e que a RAI, a televisão italiana, o con­seguisse de graça. Ligou imediatamente para seu advogado em Lausanne, fez os arranjos para garantir os direitos autorais sobre as imagens e, depois de uma guerra de tarifas, vendeu-os para a ABC em troca de pagamento por cada exibição. Os primeiros direitos para divulgação nos Estados Unidos foram para o New York Post, seguido pelo National Tattler.

Instantaneamente, o filme ocupou seu lugar entre os espetáculos clássicos de horror — Zapruder, o assassinato de Lee Harvey Oswald e o suicídio de Edgar Bolger — mas Viggert iria se arrepender amargamente de ter vendido tão rápido, antes de o Dr. Lecter ser acusado do crime.

A cópia do filme das férias de Viggert estava completa. Vemos a família suíça Viggert orbitando obedientemente os bagos do Davi na Academia, ho­ras antes dos acontecimentos no Palazzo Vecchio.

Examinando o vídeo com seu olho único, Mason tinha pouco interesse no caro pedaço de carne que se retorcia na extremidade do fio elétrico. A pe­quena aula de história que o La Nazione e o Corriere de la Sera publicaram sobre os dois Pazzi pendurados pela mesma janela com uma diferença de 520 anos também não lhe interessou. O que o atraiu, o que ele passou repetida­mente, foi o movimento da câmera pelo fio que se sacudia, até o balcão onde uma figura esguia estava parada numa silhueta turva contra a luz fraca de dentro, acenando. O Dr. Lecter acenava para Mason com o pulso, como as pessoas dão bye bye para uma criança.

— Bye bye — respondeu Mason de sua escuridão. — Bye bye — a pro­funda voz radiofônica tremendo de fúria.

 

A identificação do Dr. Hannibal Lecter como o assassino de Rinaldo Pazzi deu alguma coisa séria para Clarice Starling fazer, graças a Deus. Ela se tornou a ligação de fato entre o FBI e as autoridades italianas. Era bom estar se esfor­çando numa tarefa.

O mundo de Starling mudara desde o tiroteio contra a quadrilha de trafi­cantes. Ela e os outros sobreviventes do mercado de peixes Feliciana foram mantidos numa espécie de purgatório administrativo, dependendo de um rela­tório do Departamento de Justiça para um subcomitê judiciário do Senado.

Depois de encontrar o raio X de Lecter, Starling ficara marcando passo como funcionária temporária altamente qualificada, tendo de comparecer à Academia Nacional de Polícia, em Quantico, para substituir instrutores do­entes ou em férias.

Durante o outono e o inverno Washington estivera obcecada com um escândalo na Casa Branca. Os frívolos reformadores usavam mais saliva do que a triste pecadora, e o presidente dos Estados Unidos engolira mais sapos do que de costume na tentativa de evitar o impeachment.

Nesse circo, a pequena questão do massacre no mercado de peixes Feliciana foi posta de lado.

Dia a dia crescia dentro de Starling um conhecimento penoso: o serviço federal jamais seria o mesmo para ela. Estava marcada. Seus colegas exibiam cautela no rosto quando a encontravam, como se ela estivesse com algo contagioso. Starling era suficientemente jovem para que este comportamento a surpreendesse e desapontasse.

Era bom estar ocupada — os pedidos de informações sobre Hannibal Lecter, feitos pelos italianos, chegavam aos montes na Divisão de Ciência do Comportamento, geralmente em duplicata — uma cópia era mandada para o Departamento de Estado. E Starling respondia de boa vontade, atu­lhando as linhas de fax e mandando os dossiês de Lecter por e-mail. Estava surpresa ao ver como o material periférico se espalhara nos sete anos desde a fuga do doutor.

Seu pequeno cubículo no porão da Divisão de Ciência do Comporta­mento estava atulhado de papéis, faxes da Itália, cópias de documentos italianos.

O que poderia mandar e que fosse de maior valor para os italianos? O item que interessava a eles era o pedido feito pelo computador da Questura, alguns dias antes da morte de Pazzi, para ter acesso ao dossiê de Lecter no PACV em Quantico. A imprensa italiana ressuscitou com ele a reputação de Pazzi, afirmando que este estava trabalhando em segredo para capturar o Dr. Lecter e recuperar sua honra.

Por outro lado, pensava Starling, que informação sobre a morte de Pazzi poderia ser útil aqui, caso o doutor voltasse aos Estados Unidos?

Jack Crawford não costumava estar na sala para aconselhá-la. Ficava mui­to no tribunal e, à medida que sua aposentadoria se aproximava, depunha em muitos casos abertos. Cada vez mais tirava licenças e quando estava na sala parecia cada vez mais distante.

A idéia de não ter seu conselho provocava surtos de pânico em Starling.

Em seus anos no FBI, Starling vira muita coisa. Sabia que se o Dr. Lecter matasse de novo nos Estados Unidos as trombetas da flatulência soariam no Congresso, um rugido enorme surgiria no Departamento de Justiça, e num instante começaria a sanha para cortar cabeças. A alfândega e a patrulha de fronteira seriam os primeiros a sofrer por tê-lo deixado entrar.

A jurisdição local onde o crime ocorresse exigiria tudo que se relacionasse com Lecter, e o esforço do FBI iria centrar-se no Bureau local. Depois, quan­do o doutor atacasse de novo em outro lugar, tudo se movimentaria.

Se Lecter fosse apanhado, as autoridades brigariam pelo crédito como ursos ao redor de uma foca ensangüentada.

O serviço de Starling era se preparar para a eventualidade da vinda dele, quer viesse algum dia ou não, deixando de lado todo o conhecimento caute­loso do que aconteceria ao redor da investigação.

Fez a si mesma uma simples pergunta que soaria piegas para os carreiristas do serviço: como poderia fazer exatamente o que havia jurado? Como pode­ria proteger os cidadãos e pegá-lo, se ele viesse?

Obviamente, o Dr. Lecter tinha bons documentos e dinheiro. Ele era bri­lhante em se esconder. É só ver a elegante simplicidade de seu primeiro escon­derijo depois da fuga de Memphis — ele se hospedou num hotel quatro estre­las perto de uma grande clínica de cirurgia plástica em St. Louis. Metade dos hóspedes tinha o rosto coberto por bandagens. Ele cobriu o próprio rosto e viveu em grande estilo com o dinheiro de um defunto.

Em meio às centenas de pedaço de papel, ela estava com os recibos do serviço de quarto do hotel em St. Louis. Astronômicos. Uma garrafa de Bâtard-Montrachet custando 125 dólares. Como o gosto deve ter sido bom depois de todos aqueles anos de comida da cadeia!

Ela pedira cópias de tudo que havia em Florença, e os italianos manda­ram. Pela qualidade da impressão, pensou que eles deviam fazer cópias com alguma espécie de soprador de fuligem.

Não havia ordem em lugar algum. Ali estavam os papéis pessoais do Dr. Lecter tirados do Palazzo Capponi. Algumas anotações sobre Dante em sua letra familiar, um bilhete para a faxineira, um recibo de duas garrafas de Bâtard-Montrachet e alguns tartufi bianchi da mercearia florentina Vera dal 1926. O mesmo vinho de novo, e o que era a outra coisa?

O Bantam New College Italian &English Dictionary de Starling informou-lhe que tartufi bianchi eram trufas brancas. Ela telefonou para o chefes, um bom restaurante italiano em Washington e perguntou a respeito. Teve de des­ligar o telefone depois de cinco minutos enquanto ele falava sem parar sobre o gosto das iguarias.

Gosto. O vinho, as trufas. Gosto em todas as coisas era uma constante nas vidas do Dr. Lecter na América e na Europa, entre sua vida como um bem-sucedido médico e um monstro fugitivo. Seu rosto podia ter mudado, mas os gostos não, e ele não era um homem que negasse prazeres a si próprio.

Gosto era uma área sensível para Starling, porque tinha sido na área do gosto que o Dr. Lecter a tocara pela primeira vez, elogiando-a pelo livro de bolso e zombando de seus sapatos baratos. De que foi que a havia chamado? De uma caipirazinha bem lavada e com um pouco de gosto.

Foi o gosto que ficou lhe provocando comichões na ronda cotidiana de sua vida institucional, com seus equipamentos puramente funcionais em ar­ranjos utilitários.

Ao mesmo tempo, sua fé na técnica estava morrendo e deixando espaço para outra coisa.

Starling estava cansada da técnica. A crença na técnica é a religião dos negócios perigosos. Para enfrentar um bandido armado num tiroteio ou lutar contra ele na poeira é preciso acreditar que a técnica perfeita, o treinamento duro, garantirão que você seja invencível. Isso não é verdade, particularmente nos tiroteios. Você pode avaliar as chances a seu favor, mas se entrar num número suficiente de tiroteios, num deles você será morto.

Starling já vira isso.

Tendo passado a duvidar da religião da técnica, para onde poderia ir?

Em suas dificuldades, na monotonia incômoda de seus dias, ela começou a olhar para a forma das coisas. Começou a dar crédito a suas reações viscerais às coisas, sem quantificá-las ou restringi-las a palavras. Mais ou menos nessa época percebeu uma mudança em seus hábitos de leitura. Antes ela teria lido uma legenda antes de olhar para uma foto. Agora não. Algumas vezes sim­plesmente não lia legenda.

Durante anos lera às escondidas publicações sobre moda, sentindo-se culpada como se fossem pornografia. Agora começava a admitir para si própria que havia algo naquelas fotos que lhe dava fome. Dentro da moldura de sua mente, galvanizada pelos luteranos contra a ferrugem corruptora, ela sentia-se como se estivesse cedendo a uma perversão deli­ciosa.

De qualquer modo, com o tempo, ela teria chegado à sua tática, mas foi ajudada pelo mar de mudanças por dentro: isso apressou-a na direção da idéia de que o gosto do Dr. Lecter pelas coisas raras, coisas que tinham um merca­do pequeno, poderiam ser a barbatana dorsal do monstro, cortando a super­fície e tornando-o visível. Usando e comprando listas computadorizadas de clientes, Starling poderia descobrir uma de suas identidades alternativas. Para fazer isso, precisava conhecer suas preferências. Precisava conhecê-lo melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.

De que coisas eu sei que ele gosta? Ele gosta de música, vinho, livros, comida. E gosta de mim.

O primeiro passo no desenvolvimento do gosto é estar preparado para dar crédito à própria opinião. Nas áreas de comida, vinho e musica, Starling teria de seguir os precedentes do doutor, procurando o que ele usava no passado, mas pelo menos numa área ela era pelo menos igual a ele. Automóveis. Starling era fanática por automóveis, como poderia comprovar qualquer pessoa que visse o seu carro.

O Dr. Lecter possuíra um Bentley turbinado antes de cair em desgraça. Turbinado, não envenenado. Turbinado sob medida com um ventilador de deslocamento positivo tipo Rootes, de modo que não tinha retardamento de turbo. Ela percebeu rapidamente que o mercado de Bentleys feitos sob enco­menda é tão pequeno que o doutor correria um certo risco para voltar a ele.

O que Lecter compraria agora? Starling entendia o sentimento do qual ele gostava. Um V8 aspirado de grande deslocamento, e sem picos. O que ele compraria no mercado atual?

Sem dúvida, um Jaguar XJR seda turbinado. Ela passou faxes para os distri­buidores de Jaguar das costas leste e oeste pedindo relatórios semanais de venda.

De que outra coisa o Dr. Lecter gostava e sobre a qual Starling conhecia muito?

Ele gosta de mim, pensou.

Com que rapidez ele reagira às dificuldades pela qual ela estava passando! Mesmo considerando o atraso de usar um serviço tortuoso de correspondência para lhe escrever. Uma pena que a máquina de registro postal não servisse como pista — ficava num lugar tão público que qualquer ladrão poderia usá-la.

Com que rapidez o National Tattler chegava à Itália? Foi naquele jornal que ele viu a encrenca de Starling, um exemplar foi encontrado no Palazzo Capponi. Será que o tablóide escandaloso tinha um site na Internet? Além disso, se ele possuía um computador na Itália, poderia ter lido um resumo do tiroteio no site público do FBI. O que poderia ser descoberto no computador do Dr. Lecter?

Nenhum computador estava listado entre os objetos pessoais no Palazzo Capponi.

Mesmo assim, ela vira alguma coisa. Pegou as fotos da biblioteca do Palazzo Capponi. Ali estava uma imagem da linda mesa onde ele escrevera para ela. Sobre a mesa estava um computador. Nas fotos seguintes o objeto desaparecera.

Com seu dicionário, Starling compôs com enorme dificuldade um fax para a Questura em Florença:

Fra le cosepersonali del dottor Lecter, cè un computer portatile?

E assim, com pequenos passos, Clarice Starling começou a perseguir o Dr. Lecter pelos corredores do gosto dele, com mais confiança em suas pisadas do que era totalmente justificável.

 

Cordell, o assistente de Mason Verger, com um exemplo emoldurado sobre a mesa, reconheceu de imediato a letra distinta. O timbre era do Hotel Excelsior em Florença, Itália.

Tal como acontece com um número cada vez maior de pessoas ricas na era do Unabomber, Mason tinha seu próprio fluoroscópio para correspondência, semelhante ao usado no correio dos Estados Unidos.

Cordell calçou luvas e verificou a carta. O fluoroscópio não mostrou qual­quer fio ou bateria. Seguindo as instruções rígidas de Mason, ele usou uma copiadora para copiar a carta e o envelope, segurando-os com pinças, e tro­cou de luvas antes de pegar a cópia e entregar a Mason.

Na letra familiar e elaborada do Dr. Lecter:

 

           Caro Mason,

Obrigado por ter oferecido uma recompensa tão gigantesca pela minha cap­tura. Eu gostaria que você a aumentasse. Como um sistema de alerta antecipado, o prêmio funciona melhor do que um radar. EU inclina as autoridades de toda a parte a abrir mão de seu dever e me procurar particularmente, com os resultados que você vê.

Na verdade, estou escrevendo para refrescar sua memória na questão de seu antigo nariz. Na sua inspiradora entrevista contra as drogas, publicada há algum tempo no Ladies’ Home Journal, você afirma que deu o seu nariz, junto com o resto do rosto, para alimentar os cachorros, Skippy e Spot, que viviam abanando o rabo aos seus pés. Não foi bem assim: você mesmo o comeu, como aperitivo. Pelo som crocante quando você mastigou, eu diria que tinha uma consistência seme­lhante à de moela de galinha — “tem gosto de galinha!”, foi seu comentário na hora. Eu me lembrei desse som num bistrô, quando um francês comia salada de moela.

Você não lembra disso, Mason?

Por falar em galinha, na terapia você me contou que, enquanto subvertia crianças carentes no seu acampamento de verão, ficou sabendo que o chocolate irrita a sua uretra. Também não se lembra disso, lembra?

Você não acha provável que tenha me contado todo tipo de coisas de que não se lembra agora?

Há um paralelo inevitável entre você e Jezebel, Mason. Sendo um aplicado estudante da Bíblia, você irá se lembrar de que os cães comeram o rosto de Jezebel, bem como o resto do corpo, depois que os eunucos a atiraram pela janela.

O seu pessoal poderia ter me assassinado na rua. Mas você me queria vivo, não é?Pelo aroma dos seus capangas, é óbvio que você planejava me divertir. Mason, Mason. Já que quer tanto me ver, deixe-me lhe dar algumas palavras de consolo, e você sabe que jamais minto.

Antes de morrer, você verá meu rosto.

                   Sinceramente, Dr. Hannibal Lecter.

 

  1. Mas eu me preocupo com a possibilidade de você não viver tanto assim, Mason. Você deve evitar as novas cepas de pneumonia, pois é muito suscetível (e continuará). Eu recomendaria uma vacinação imediatamente, junto com inje­ções de imunização para hepatite A e B. Não quero perdê-lo antes da hora.

Mason parecia meio sem fôlego quando terminou de ler. Esperou, espe­rou, e depois de um bom tempo disse alguma coisa a Cordell, mas ele não conseguiu ouvir.

Cordell se inclinou para perto e foi recompensado com um jorro de cuspe quando Mason falou de novo:

— Telefone para Paul Krendler. E entre em contato com o treinador dos porcos.

 

O mesmo helicóptero que trazia diariamente jornais italianos para Mason Verger também trouxe o subsecretário Paul Krendler a Muskrat Farm.

A presença maligna de Mason, de seu quarto escuro com os aparelhos sibilando e suspirando, e da enguia sempre se movendo já incomodaria Krendler o bastante, mas além disso ele teve de assistir repetidamente ao vídeo da mor­te de Pazzi.

Por sete vezes Krendler observou os Viggert em volta do Davi, viu Pazzi mergulhar e suas entranhas caírem. Pela sétima vez, Krendler esperou que as entranhas do Davi também caíssem.

Finalmente, as luzes fortes se acenderam no alto da área de estar, acima da cabeça de Krendler, fazendo seu couro cabeludo brilhar através do corte à escovinha, com pêlos que iam rareando.

Os Verger têm uma compreensão sem paralelo da glutonice, de modo que Mason começou com o que Krendler queria para si próprio. Mason falava do escuro, as frases medidas pelos golpes de seu respirador.

— Não preciso ouvir... toda a sua plataforma... quanto dinheiro será necessário?

Krendler queria falar em particular com Mason, mas não estavam sozi­nhos no quarto. Uma figura de ombros largos, fantasticamente musculosa, pairava numa silhueta negra contra o aquário luminoso. A idéia de um guar­da-costas ouvindo-os enervou Krendler.


— Eu preferiria que ficássemos só nós dois. Você se importaria em pedir que ele saísse?

— Esta é minha irmã, Margot — disse Mason. — Ela pode ficar. Margot saiu do escuro, com as calças de ciclista sibilando.

— Ah, desculpe — disse Krendler, meio se levantando da poltrona.

— Olá — disse Margot. Mas, em vez de tomar a mão estendida de Krendler, pegou duas nozes na tigela sobre a mesa e, apertando-as juntas na mão até esta­larem ruidosamente, voltou para a semi-escuridão na frente do aquário, onde presumivelmente comeu-as. Krendler pôde ouvir as cascas caindo no chão.

— Certo, vamos ouvir isso — disse Mason.

— Para eu derrotar Lowenstein no vigésimo sétimo distrito, um mínimo de dez milhões de dólares. — Krendler cruzou as pernas e olhou para algum ponto no escuro. Não sabia se Mason podia vê-lo. — Vou precisar disso apenas para a mídia. Mas eu lhe garanto que ele é vulnerável. Estou em posição de saber.

— Qual é o negócio dele?

— Digamos apenas que a conduta dele foi...

— Bom, é dinheiro ou boceta?

Krendler não se sentia confortável em dizer “boceta” na frente de Margot, ainda que isso não parecesse incomodar Mason.

— Ele é casado e tem um caso antigo com uma pessoa da Corte Estadual de Apelações. Essa pessoa deu algumas sentenças em favor de contribuintes dele. Provavelmente as sentenças são coincidência, mas quando a TV condená-lo é só disso que precisarei.

— Essa pessoa é uma mulher? — perguntou Margot.

Krendler confirmou com a cabeça. Sem ter certeza se Mason podia vê-lo, acrescentou:

— É. Uma mulher.

— Que pena — disse Mason. — Seria melhor se ele fosse veado, não é, Margot? Mesmo assim, você não pode jogar essa merda no ventilador, Krendler. Ela não pode partir de você.

— Montamos um plano que oferece aos eleitores...

— Você próprio não pode jogar a merda — repetiu Mason.

— Só vou me certificar de que o Conselho da Magistratura saiba onde procurar, de modo que a coisa fique grudada em Lowenstein quando bater nele. Você está dizendo que pode me ajudar?

— Posso ajudar com metade.

— Cinco?

— Não vamos simplesmente jogar a palavra assim: “cinco”. Digamos com o respeito que a coisa merece: cinco milhões de dólares. O Senhor me abençoou com esse dinheiro. E com ele farei a Sua vontade: você só irá recebê-lo se Hannibal Lecter cair limpo nas minhas mãos. — Mason respirou durante alguns segundos. — Se isso acontecer, você será o Sr. Deputado Krendler do vigésimo sétimo distrito, sem qualquer dúvida, e a única coisa que lhe pedirei é que se oponha à lei de abate humanitário. Se o FBI pegar Lecter, se os poli­ciais o agarrarem em algum lugar e ele acabar ganhando uma injeção letal, foi bom conhecer você.

— Não posso fazer nada se uma jurisdição local pegá-lo. Ou se o pessoal de Crawford tiver sorte e pegá-lo, não posso controlar isso.

— Em quantos estados com pena de morte o Dr. Lecter poderia ser acu­sado? — perguntou Margot. Sua voz era áspera mas profunda como a de Mason, devido aos hormônios que tomara.

— Três estados. Ele cometeu múltiplos homicídios em primeiro grau em cada um deles.

— Se ele for preso, quero que seja processado ao nível estadual — disse Mason. — Nada de acusação de seqüestro, violações de direitos civis, nenhu­ma violação interestadual. Quero que ele saia com vida. Quero-o numa pri­são estadual, e não numa penitenciária federal de segurança máxima.

— Preciso perguntar por quê?

— Não, a não ser que você queira que eu diga. Isso não tem a ver com a lei de abate humanitário— disse Mason e deu um risinho. A conversa o exau­rira. Fez um gesto para Margot.

Ela levou uma prancheta até a luz e leu o que havia anotado.

— Queremos tudo o que você conseguir, e queremos antes que a Divisão de Ciência do Comportamento receba. Queremos os relatórios da Ciência do Comportamento assim que forem preenchidos, e queremos os códigos de acesso do PACV e do Centro Nacional de Informações sobre Crimes,

— Você teria de usar um telefone público cada vez que acessasse o PACV — disse Krendler, ainda falando para o escuro, como se a mulher não estives­se lá. — Como poderia fazer isso?

— Eu posso fazer isso — disse Margot.

— Ela pode fazer — sussurrou Mason do escuro. — É programadora de aparelhos de musculação de academias. É o negociozinho dela, para que não precise viver à custa do irmão.

— O FBI tem um sistema fechado, e parte dele é criptografada. Você teria que se conectar como host, exatamente como eu disser, e baixar as informações para um laptop programado no Departamento de Justiça— disse Krendler. — Então, se o PACV esconder um rastreador na sua máquina, ele simplesmente voltaria para o Departamento de Justiça. Compre um laptop veloz, com um modem veloz, em dinheiro vivo, num fornecedor que trabalhe com grande vo­lume, e não mande pelo correio qualquer certificado de garantia. Consiga um zip drive também. Fique fora da Internet com ele. Vou precisar dele de uma hora para outra, e vou querê-lo de volta quando tiverem terminado. Vocês terão notícias minhas. Certo, é isso. — Krendler levantou-se e juntou seus papéis.

— Não é exatamente isso, Sr. Krendler... — aparteou Mason. — Lecter não precisa aparecer. Ele tem dinheiro para se esconder para sempre.

— Como ele tem dinheiro? — perguntou Margot.

— Ele tinha clientes velhos e muito ricos — disse Krendler. — Conseguiu que passassem para seu nome uma grande quantidade de dinheiro e ações, e es­condeu tudo muito bem. O Imposto de Renda não conseguiu descobrir. Eles exumaram os corpos de dois dos benfeitores para ver se Lecter os havia matado, mas não puderam descobrir coisa alguma. Os exames de toxina deram negativo.

— De modo que ele não vai ser preso num assalto à mão armada, ele tem dinheiro — disse Mason. — Você precisa atraí-lo para fora do esconderijo. Pense em maneiras.

— Ele deve saber de onde veio o ataque em Florença — disse Krendler.

— Claro que sim.

— Então ele vai estar atrás de você.

— Não sei — disse Mason. — Ele gosta de mim como sou. Fique pen­sando, Krendler. — Mason começou a cantarolar.

Tudo o que o subsecretário Krendler ouviu foram murmúrios enquanto saía pela porta. Mason costumava cantarolar hinos enquanto estava planejan­do: Você tem a melhor isca, Krendler, mas discutiremos isso depois de você ter feito um depósito bancário incriminador — quando você me pertencer.

 

Apenas a família permanece no quarto de Mason, irmão e irmã.

Luz e música suaves. Música do norte da África, um oud e percussão. Margot está sentada no sofá, cabeça baixa, cotovelos nos joelhos. Poderia ser uma arremessadora de martelo descansando, ou uma halterofilista descansan­do na academia depois de malhar. Respira um pouco mais rápido do que o aparelho de Mason.

A música termina e ela se levanta, vai até a cama dele. A enguia tira a ca­beça do buraco na rocha artificial para ver se do céu prateado e ondulado poderá chover carpas de novo esta noite. A voz áspera de Margot está o mais suave possível.

— Você está acordado?

Num instante Mason tornou-se presente atrás de seu olho sempre aberto.

— Está na hora de falar a respeito do... — uma respiração sibilante — ...do que Margot quer? Sente-se aqui no colo do Papai Noel.

— Você sabe o que quero.

— Diga.

— Judy e eu queremos ter um neném. Nós queremos ter um neném Verger, o nosso neném.

— Por que não compra uma criança chinesa? São mais baratas do que leitões.

— É uma coisa boa a fazer. Talvez façamos isso.


— O que papai dirá... Para um herdeiro, confirmado como meu descenden­te no Laboratório Cellmark ou num equivalente através de exame de DNA, todas as minhas propriedades indo para o meu filho amado, Mason, depois de minha morte. Filho amado, Mason, sou eu. Na ausência de um herdeiro, o único beneficiário será a Convenção Batista Sulista com cláusulas especificas relativas à Universidade Baylor em Waco, Texas. Você realmente deixou papai puto com esse negócio de botar as aranhas para brigar, Margot.

— Talvez você não acredite, Mason, mas não é pelo dinheiro; bom, é um pouquinho, mas você não quer um herdeiro? Seria seu herdeiro também, Mason.

— Por que você não encontra um sujeito legal e dá uma trepadinha com ele, Margot? Não creio que tenha esquecido como é.

A música marroquina cresce de novo, as repetições obsessivas do oud no ouvido dela, como fúria.

— Eu me estraguei, Mason. Fiz meus ovários encolherem com todas as coisas que tomei. E quero que Judy faça parte disso. Ela quer ser a mãe natu­ral. Mason, você disse que se eu o ajudasse... você me prometeu um pouco de esperma.

Os dedos de aranha de Mason fizeram um gesto.

— Sirva-se. Se ainda estiver aí.

— Mason, há todas as chances de que você ainda tenha esperma viável, e poderíamos dar um jeito de colhê-lo sem dor...

— Colher meu esperma viável? Parece que você andou falando com alguém.

— Só com a clínica de fertilidade, é confidencial. — O rosto de Margot se suavizou, mesmo à luz fria do aquário. — Nós poderíamos ser realmente boas para uma criança, Mason, fizemos curso de criação de filhos, Judy vem de uma família grande e tolerante, e há um grupo de apoio para casais de mulheres que querem ter filhos.

— Você costumava me fazer gozar quando éramos crianças, Margot. Me fazia gozar que nem um morteiro. E rapidinho também.

— Você me machucou quando eu era pequena, Mason. Você me machu­cou e deslocou o meu cotovelo, me obrigando a tornar o outro... ainda não consigo levantar mais de quarenta quilos com o braço esquerdo.

— Bom, você não queria pegar o chocolate. Eu disse que vamos falar a respeito, irmãzinha, quando esse serviço terminar.

— Vamos só fazer um exame em você agora— disse Margot. — O dou­tor pode tirar uma amostra indolor...

— Que indolor! Não posso sentir nada lá embaixo, de qualquer modo. Você poderia chupar até ficar com a cara azul e não seria como foi na primeira vez. Mas já mandei pessoas fazerem isso e nada acontece.

— O médico pode tirar uma amostra indolor, só para ver se você tem esperma móvel. Judy já está tomando Clomid. Estamos mapeando o ciclo dela, há muita coisa a fazer.

— Não tive o prazer de conhecer Judy em todo esse tempo. Cordell diz que ela tem as pernas arqueadas. Há quanto tempo vocês têm um caso, Margot?

— Cinco anos.

— Por que não traz ela aqui? Nós poderíamos... fazer alguma coisa, por assim dizer.

Os tambores do norte da África terminam com um golpe final e deixam um silêncio que ressoa no ouvido de Margot.

— Por que não resolve sozinho sua pendência com o Departamento de Justiça? — disse ela perto do buraco do ouvido dele. — Por que não tenta entrar numa cabine telefônica com a porra do seu laptop? Por que não paga a mais uns carcamanos de merda para pegar o sujeito que transformou sua cara em comida de cachorro? Você disse que ia me ajudar, Mason.

— E vou. Só preciso pensar no momento certo,

Margot esmagou duas nozes e deixou as cascas caírem sobre o lençol de Mason.

— Não demore demais para pensar, meu doce. — As calças de ciclista sibilaram como vapor quando ela saiu do quarto.

 

Ardelia Mapp cozinhava quando sentia vontade, e quando cozinhava o resul­tado era extremamente bom. Seus ancestrais eram uma mistura de jamaicanos e gullah, e no momento Mapp estava fazendo galinha marinada, salpicando com um pimenteiro escocês que ela segurava cuidadosamente pela haste. Re­cusava-se a pagar a mais para comprar galinhas já em pedaços, e deixara Starling ocupada com o cutelo e a tábua de carne.

— Se você deixar os pedaços inteiros, Starling, eles não vão pegar o tem­pero como pegam se você cortá-los — explicou, não pela primeira vez. — Aqui — disse ela, pegando o cutelo e partindo um pedaço com tanta força que lascas de sangue se grudaram em seu avental. — Assim. O que você está fazendo jogando esses pescoços fora? Ponha essa coisinha bonitinha de volta aqui.

E um minuto depois:

— Estive no correio hoje. Fui mandar os sapatos para minha mãe — dis­se Mapp.

— Eu também estive no correio, poderia ter levado os sapatos.

— Você ouviu alguma coisa no correio?

— Não.

Mapp assentiu, sem surpresa.

— Disseram que eles estão interceptando a sua correspondência.

— Quem?


— Diretriz confidencial do inspetor postal. Você não sabia disso, sabia?

— Não.

— Então descubra de algum outro modo. Não podemos denunciar meu colega do correio.

— Certo. — Starling pousou o cutelo por um momento. — Meu Deus, Ardelia.

Starling estivera junto ao balcão do correio comprando selos, sem perce­ber coisa alguma nos rostos fechados dos funcionários, a maioria deles afro-americanos, vários dos quais ela conhecia. Sem dúvida, alguém queria ajudá-la, mas havia uma grande chance de sofrer penalidades criminais e perder a aposentadoria. Sem dúvida, a tal pessoa confiava mais em Ardelia do que em Starling. Junto com a ansiedade, Starling sentiu um clarão de felicidade por ter recebido um favor da rede de informações afro-americana. Talvez isso ex­pressasse um julgamento tácito de legítima defesa na morte de Evelda Drumgo.

— Agora pegue aquelas cebolinhas e esmague com o cabo da faca e me entregue aqui. Esmague tudo — disse Ardelia.

Quando terminou os preparativos, Starling lavou as mãos, foi para a or­dem absoluta da sala de Ardelia e sentou-se. Ardelia apareceu dentro de um minuto, secando as mãos numa toalha de pratos.

— Que tipo de babaquice infernal é essa? — perguntou Ardelia.

Era costume das duas xingar antes de abordar alguma coisa verdadeira­mente maligna, um equivalente do final do século a assobiar no escuro.

— Não entendo porra nenhuma — disse Starling. — Quem é o filho da puta que está remexendo minha correspondência? Esse é que é o negócio.

— A sala do inspetor postal é o máximo aonde o meu pessoal pode ir.

— Não é o tiroteio, não é Evelda. Se estão olhando minha correspon­dência, tem de ser por causa do Dr. Lecter.

— Você entregou tudo que ele já lhe mandou. Você e Crawford cuida­ram disso.

— Verdade. Se é o DRP do Bureau que está me vigiando. Posso desco­brir, acho. Se é o DRP do Departamento de Justiça, não sei.

O Departamento de Justiça e sua subsidiária, o FBI, têm Departamentos de Responsabilidade Profissional separados, que teoricamente cooperam en­tre si e algumas vezes entram em choque. Esses conflitos são conhecidos inter­namente como concursos de mijo à distância, e algumas vezes os agentes apanhados no meio se afogam. Além disso, o secretário do Departamento de Jus­tiça, um cargo de indicação política, pode entrar no jogo a qualquer momen­to e tomar conta de um caso importante.

— Se eles sabem de alguma coisa que Hannibal Lecter está aprontando, se acham que ele está perto, precisam deixar que você saiba para se proteger. Starling, alguma vez você... sentiu-o por perto?

Starling balançou a cabeça.

— Não me preocupo muito com ele. Não desse modo. Eu me acostumei há muito, e nem penso. Sabe daquela sensação de chumbo, aquela sensação cinza e pesada quando você está com medo de alguma coisa? Nem tenho isso. Simplesmente acho que eu saberia, se tivesse um problema.

— O que você faria, Starling? O que faria se o visse na sua frente? De súbito? Você tem isso na cabeça? Meteria o cacete nele?

— No instante em que pudesse tirá-lo de dentro da braguilha, eu enfia­ria o porrete na bunda dele.

Ardelia gargalhou.

— E depois?

O sorriso de Starling desapareceu.

— Isso é com ele.

— Você seria capaz de atirar nele?

— Para manter minhas tripas no lugar, está brincando comigo? Meu Deus, espero que isso nunca aconteça, Ardelia. Eu ficaria feliz se ele voltasse para a cadeia sem que ninguém mais ficasse machucado, inclusive ele. Mas vou lhe dizer, algumas vezes acho que, se algum dia ele for acuado, eu gostaria de ser a primeira a partir para cima dele.

— Nem diga isso.

— Comigo ele teria uma chance melhor de sair vivo. Eu não atiraria nele só por medo. Ele não é o lobisomem. O negócio simplesmente ficaria por conta dele.

— Você tem medo dele? É melhor que tenha muito medo.

— Sabe o que é de dar medo, Ardelia? É de dar medo quando alguém conta a verdade. Eu gostaria de vê-lo escapar da pena de morte. Se ele conse­guir isso, e se for posto numa instituição, há bastante interesse acadêmico para fazer com que seja muito bem tratado. E não vai ter problemas com colegas de quarto. Se ele estivesse em cana, eu agradeceria pelo bilhete que me mandou. Não se pode desperdiçar um homem que é suficientemente maluco para dizer a verdade.

— Há um motivo para alguém estar monitorando sua correspondência. Eles têm uma ordem judicial que está em algum lugar, lacrada. Ainda não estamos sendo vigiadas pela polícia, nós saberíamos — disse Ardelia. — Eu não estranharia nada se esses filhos da puta soubessem que ele está vindo e não contassem a você. Fique atenta amanhã.

— O Sr. Crawford teria contado à gente. Eles não podem montar grande coisa contra Lecter sem colocar a mim e o Dr. Crawford dentro.

— Jack Crawford é passado, Starling. Você tem um ponto fraco aí. E se eles montarem alguma coisa contra você! Por saber o que diz, por não ter dei­xado Krendler dar em cima de você? E se alguém quiser sacanear você? Ei, agora estou falando sério sobre dar cobertura para a minha fonte.

— Há alguma coisa que possamos fazer pelo seu colega do correio? Nós precisamos fazer alguma coisa?

— Quem você acha que vem jantar?

— Certo, Ardelia!... Espere um minuto, pensei que eu vinha jantar.

— Você pode trazer alguém.

— Eu gostaria.

— Sem problema, garota. Na verdade o prazer é meu.

 

Quando criança Clarice Starling se mudou de uma casa de tábuas que gemia ao vento para o Orfanato Luterano, com seus sólidos tijolos vermelhos. A mo­radia modesta do início de sua infância tinha uma cozinha quente onde ela podia dividir uma laranja com o pai. Mas a morte sabe onde ficam as casas pequeninas, onde vivem pessoas que fazem trabalho perigoso em troca de pouco dinheiro. Seu pai saiu de casa na velha caminhonete para a patrulha noturna que o matou.

Starling foi embora de sua casa adotiva montada numa égua, enquanto estavam matando os cordeiros, e encontrou uma espécie de refugio no Orfa­nato Luterano. As estruturas institucionais, grandes e sólidas, fizeram-na sen­tir-se em segurança a partir de então. Os luteranos podiam ser escassos em calor e laranjas, e pródigos em Jesus, mas as regras eram as regras, e se você as entendesse, tudo estava bem.

Enquanto o desafio fossem os exames competitivos e impessoais, ou fazer o serviço na rua, ela sabia que podia garantir seu lugar. Mas Starling não tinha dom para a política institucional.

Agora, enquanto saía de seu velho Mustang no início do dia, as altas fa­chadas de Quantico não eram mais o grande seio de tijolos de seu refugio. Na atmosfera febril do estacionamento, até mesmo as portas pareciam tortas.

Queria ver Jack Crawford, mas não havia tempo. As filmagens na Hogan’s Alley começaram assim que o sol se ergueu.

A investigação do massacre no mercado de peixes Feliciana exigia uma «constituição filmada, na área de tiro de Hogan’s Alley, em Quantico, avaliando-se cada tiro, cada trajetória.

Starling tinha de fazer seu papel. O furgão disfarçado que eles usaram era o original, com massa ainda não pintada tapando os últimos buracos de bala. Repetidamente eles saíram do velho furgão, repetidamente o agente que fazia o papel de John Brigham caía de cara e o que fazia Burke se retor­cia no asfalto. O processo, usando munição barulhenta de festim, deixou-a exausta.

Terminaram no meio da tarde.

Starling pendurou seu equipamento da SWAT e encontrou Jack Crawford na sala dele.

Voltara a se dirigir a ele como Sr. Crawford, e ele parecia cada vez mais vago e distante de todo o mundo.

— Quer um Alka-Seltzer, Starling? — disse ele quando a viu parada jun­to à porta. Crawford ingeria uma quantidade enorme de remédios no trans­correr do dia. Além disso, estava tomando Ginkgo Biloba, Saw Palmetto, erva-de-são-joão e aspirina infantil. Tomava tudo numa determinada ordem, sobre a palma da mão, a cabeça recuando como se estivesse engolindo uma dose de bebida alcoólica. Nas últimas semanas começara a pendurar o paletó do terno no escritório e a vestir uma suéter que sua falecida esposa, Bella, tinha tricota­do. Parecia muito mais velho do que qualquer lembrança que ela tivesse do próprio pai.

— Sr. Crawford, parte da minha correspondência está sendo aberta. Eles não são muito bons em fazer isso. Parece que estão tirando a cola com vapor de uma chaleira.

— Sua correspondência está sendo examinada desde que Lecter lhe es­creveu.

— Eles só passavam os pacotes pelo fluoroscópio. Isso estava bem, mas posso ler minha própria correspondência pessoal. Ninguém me disse nada.

— Não é o nosso DRP que está fazendo isso.

— E também não é um pé-rapado qualquer, Sr. Crawford. É alguém suficientemente grande para conseguir um mandado de interceptação Título Três sob sigilo.

— Mas parece que são amadores que estão abrindo? — Ela ficou quieta tempo suficiente para que ele acrescentasse: — É melhor que você tenha per­cebido desse modo, não é, Starling?

— Sim, senhor.

Ele comprimiu os lábios e assentiu.

— Vou ver isso. — Em seguida, arrumou seus frascos de remédio na ga­veta de cima da mesa. — Vou falar com Karl Schreimer, do Departamento de Justiça, vamos resolver isso.

Schreimer não valia coisa alguma. Os boatos diziam que iria se aposentar no final do ano, todos os colegas de Crawford estavam se aposentando.

— Obrigada, senhor.

— Alguém nas suas aulas para policiais é muito promissor? Vale a pena falar com alguém que está sendo recrutado?

— Na perícia, ainda não posso dizer; eles são tímidos comigo com rela­ção a crimes sexuais. Há uns dois atiradores muito bons.

— Esses já nos deram mais do que o bastante. — Ele encarou-a rapida­mente. — Não estou falando de você.

No final daquele dia representando a morte de John Brigham, Starling foi até o túmulo dele no Cemitério Nacional de Arlington

Pousou a mão na lápide, ainda áspera do cinzel. De repente, teve nos lábi­os a sensação clara de beijar a testa dele, fria como mármore e áspera de pól­vora, quando se aproximou pela última vez do caixão e colocou na mão do amigo morto, debaixo da luva branca, a ultima medalha que ela recebera como campeã de pistola de combate.

Agora caíam folhas em Arlington, salpicando o terreno apinhado. Com a mão na lápide de John Brigham, olhando para os hectares de sepulturas, Starling se perguntou quantos como ele tinham sido desperdiçados pela estu­pidez, pelo egoísmo e pela barganha de homens velhos e cansados.

Quer acredite em Deus ou não, se você for um guerreiro, Arlington é um lugar sagrado, e a tragédia não é morrer, e sim ser desperdiçado.

Ela sentia uma ligação com relação a Brigham que não era menos forte por os dois não terem sido amantes. Abaixada sobre um dos joelhos, ao lado da lápide, ela lembrou. Ele pediu-lhe alguma coisa gentilmente e ela disse não, e então ele perguntou se os dois poderiam ser amigos, e falou a sério, e ela disse sim, e falou a sério.

Ajoelhada em Arlington, ela pensou na sepultura do pai muito longe. Não a visitava desde quando se formara na faculdade, quando foi até a sepultura contar-lhe. Imaginou se estaria na hora de voltar.

O pôr-do-sol através dos galhos negros de Arlington era tão laranja quan­to a laranja que ela dividiu com o pai; o clarim distante a fez estremecer, com a lápide fria debaixo da mão.

 

Podemos vê-lo através do vapor de nossa respiração — na noite clara sobre a Terra Nova um brilhante ponto de luz pairando em Órion, depois passando devagar lá no alto, um Boeing 747 enfrentando um vento de frente de 160 quilômetros por hora em direção oeste.

Lá na terceira classe, onde viajam os pacotes de turismo, os 52 participan­tes da Old World Fantasy, uma viagem por onze países em dezessete dias, es­tão voltando para Detroit e Windsor, no Canadá. O espaço para os ombros é de cinqüenta centímetros. O espaço para os quadris entre os braços das pol­tronas é de cinqüenta centímetros. Isso é cinco centímetros a mais de espaço do que um escravo tinha em Middle Passage.

Os passageiros estão recebendo sanduíches gelados de carne escorregadia e queijo processado, e respiram os peidos e as exalações uns dos outros num ar economicamente reprocessado, uma variação do princípio de estrume e bebi­da alcoólica estabelecido pelos mercadores de gado e de porcos nos anos 50.

O Dr. Hannibal Lecter está no centro da fileira do meio da terceira classe, com crianças de ambos os lados e uma mulher segurando um bebê, junto ao corredor. Depois de tantos anos em celas e amarras, o Dr. Lecter não gosta de ficar confinado. Um joguinho de computador no colo do menino ao lado faz um barulho incessante.

Como muitos outros espalhados nos lugares mais baratos, o Dr. Lecter usa um distintivo amarelo brilhante com CAN-AM TOURS escrito em grandes letras vermelhas e, como os turistas, usa imitações de agasalhos esportivos. Seu agasalho tem a insígnia do Toronto Maple Leafs, um time de hóquei. Por debaixo da roupa, uma quantidade considerável de dinheiro está presa ao corpo.

O Dr. Lecter passou três dias com o grupo de turistas, tendo comprado seu lugar com um corretor em Paris que vendia cancelamentos de última hora por motivo de doença. O homem que deveria estar na sua poltrona foi para a casa no Canadá num caixão, após o coração ter falhado ao subir a cúpula da Catedral de São Pedro.

Quando chegar a Detroit, o Dr. Lecter deve enfrentar o controle de pas­saporte e a alfândega. Ele pode ter certeza de que as autoridades alfandegárias e da Imigração em cada grande aeroporto do mundo ocidental foram alertadas para identificá-lo. Onde sua foto não está grudada à parede do setor de con­trole de passaportes, está esperando sob o botão de alarme de cada computa­dor da Alfândega e da Imigração.

Com tudo isso, ele acha que pode desfrutar de uma certa sorte: as fotos que as autoridades estão usando poderiam ser de seu rosto antigo. O passa­porte falso que usou para entrar na Itália não tem uma ficha correspondente no país de origem para proporcionar sua imagem atual: na Itália, Rinaldo Pazzi tentara simplificar a própria vida e satisfazer Mason Verger pegando o arqui­vo dos Carabinieri, inclusive a foto e o negativo usado no permesso de soggiorno e na licença de trabalho do “Dr. Fell”. O Dr. Lecter encontrou-os na pasta de Pazzi e destruiu.

A não ser que Pazzi tivesse tirado fotos do “Dr. Fell” de algum esconderi­jo, há uma boa chance de que não exista qualquer imagem do rosto atual do Dr. Lecter no mundo. Não é muito diferente do rosto antigo — um pouco de colágeno acrescentado ao redor do nariz e das bochechas, cabelo modificado, óculos — mas é suficientemente diferente se não for atraída atenção para ele. Para a cicatriz nas costas da mão foi usado um cosmético durável e um bronzeador.

No Aeroporto Metropolitano de Detroit ele espera que o Serviço de Imi­gração divida os recém-chegados em duas filas, com passaportes americanos e estrangeiros. Ele escolhera a cidade de fronteira para que a fila de passaportes estrangeiros estivesse cheia. Esse avião está repleto de canadenses. O Dr. Lecter acha que pode passar junto com o rebanho, desde que o rebanho o aceite. Ele percorreu alguns locais históricos e algumas galerias com esses turistas, voou na mesma classe do avião, mas há limites: não pode comer aquela lavagem junto com eles.

Cansados e com os pés doloridos, com nojo das próprias roupas e das dos companheiros, os turistas se refocilam nos sacos de refeição, e tiram dos san­duíches a alface preta de frio.

Não querendo atrair atenção, o Dr. Lecter espera até que os outros passa­geiros tenham engolido aquela comida lamentável, espera até que tenham ido ao banheiro e que a maioria adormeça. Lá na frente passa um filme velho. Mesmo assim, ele espera com a paciência de uma píton. Ao seu lado, o meni­no adormeceu sobre o jogo de computador. Na parte superior do avião largo, as luzes de leitura vão se apagando.

Então, e só então, com um olhar furtivo ao redor, o Dr. Lecter tira de baixo da poltrona à frente seu lanche, embalado numa elegante caixa amarela enfeita­da de marrom, vinda da Casa Fauchon, o serviço de bufê francês. Está amarrada com duas fitas de gaze de seda em cores complementares. O Dr. Lecter fez uma provisão de patê de foie gras com trufas maravilhosamente aromáticas e figos da Anatólia ainda chorando das hastes cortadas. Também tem meia garrafa de um St. Estephe do qual gosta muito. O laço de seda cede com um sussurro.

O Dr. Lecter está para saborear um figo, segura-o diante dos lábios, as nari­nas se abrem para o aroma, decidindo se irá comê-lo inteiro numa gloriosa mordida ou apenas a metade, quando o jogo de computador ao seu lado solta um bip. E de novo. Sem virar a cabeça, o doutor esconde o figo e olha para o garoto ao lado. Os cheiros de trufa, foie gras e conhaque saem da caixa aberta.

O garotinho fareja o ar. Seus olhos estreitos, brilhantes como os de um roedor, deslizam de lado para o lanche do Dr. Lecter. Ele fala com a voz cor­tante de um irmãozinho competitivo:

— Ei, moço. Ei, moço. — Ele não vai parar.

— O que é?

— É uma daquelas refeições especiais?

— Não é.

— O que é que o senhor tem aí, então? — O garoto virou o rosto para o Dr. Lecter numa expressão de lisonja. — Me dá um pedaço?

— Eu gostaria muito — respondeu o Dr. Lecter, percebendo que debai­xo da cabeça grande do garoto o pescoço tinha apenas a grossura de um filé de porco. — Mas você não gostaria. É fígado.

 

— Salsichão de fígado! Que incrível! Minha mãe não vai se importar. Manhê! — Criança desnaturada, que adora salsichão de fígado e ou geme ou grita.

A mulher que segurava o bebê junto ao corredor despertou de súbito.

Viajantes na fileira da frente, com as cadeiras inclinadas para trás a ponto de o Dr. Lecter poder sentir o cheiro dos cabelos, olham através da fenda en­tre as poltronas.

— Nós estamos tentando dormir aqui.

— Manheeê, posso comer um pedaço do sanduíche dele?

O bebê no colo da mãe acordou e começou a chorar. A mãe enfiou um dos dedos na parte de trás da fralda, voltou com resultado negativo, e deu uma chupeta ao bebê.

— O que o senhor está tentando dar a ele, moço?

— É fígado, madame — disse o Dr. Lecter o mais baixo possível. — Eu não dei...

— Salsichão de fígado, meu preferido, eu quero, ele disse que eu poderia ter um pouco se... — A criança esticou a última palavra num gemido de partir a cabeça.

— Moço, se o senhor vai dar alguma coisa para o meu filho, será que eu podia ver?

A aeromoça, com o rosto inchado de um cochilo interrompido, parou ao lado da poltrona da mulher enquanto o bebê uivava.

— Está tudo bem aí? Posso lhe trazer alguma coisa? Esquentar uma mamadeira?

A mulher pegou uma mamadeira com tampa e entregou à aeromoça. Em seguida, acendeu a luz de leitura e, enquanto procurava um bico, gritou para o Dr. Lecter:

— Poderia passar para mim? Se o senhor está oferecendo para o meu fi­lho, quero ver. Sem ofensa, mas é que ele tem estômago delicado.

Normalmente deixamos nossas crianças pequenas na creche, em meio a estranhos. Ao mesmo tempo, em nossa culpa, criamos paranóia com relação aos estranhos e incutimos medo nas crianças. Em momentos assim, um mons­tro genuíno precisa tomar cuidado, até mesmo um monstro tão indiferente às crianças quanto o Dr. Lecter.

Ele passou a caixa da Fauchon para a mãe.

— Ei, belo pão — disse ela, cutucando-o com o dedo que tinha entrado na fralda.

— Madame, pode ficar com ele.

— Eu não quero a bebida — disse ela e olhou ao redor esperando uma gargalhada. — Eu não sabia que deixavam a gente trazer a própria bebida. Isso é uísque? Eles deixam você beber isto no avião? Acho que vou ficar com esta fita, se o senhor não quiser.

— Senhor, o senhor não pode abrir esta bebida alcoólica no avião — dis­se a aeromoça. — Vou guardá-la para o senhor, pode pedir de volta na saída.

— É claro. Muito obrigado — disse o Dr. Lecter.

O Dr. Lecter podia superar o ambiente onde se encontrava, podia fazer tudo aquilo desaparecer. O barulho do jogo de computador, os roncos e peidos não eram coisa alguma comparados aos gritos infernais que ele conhecera nas alas de criminosos violentos. A poltrona não era mais apertada do que as amarras. Como fizera tantas vezes em sua cela, recostou a cabeça, fechou os olhos e se retirou para o alívio no silêncio de seu palácio da memória, um lugar que, na maior parte, é bastante bonito.

Durante esse curto tempo, o cilindro de metal que uiva para o leste contra o vento contém um palácio de mil cômodos.

Como uma vez visitamos o Dr. Lecter no Palazzo Capponi, agora iremos com ele ao palácio de sua mente...

O saguão é a capela normanda de Palermo, severa, linda e eterna, com uma única lembrança da mortalidade no crânio gravado no piso. A não ser que esteja com grande pressa para pegar informações no palácio, o Dr. Lecter costuma parar aqui como faz agora, para admirar a capela. Mais atrás, distan­te e complexa, luminosa e escura, fica a vasta estrutura criada pelo Dr. Lecter.

O palácio da memória era um sistema mnemônico bem conhecido dos antigos eruditos, e muita informação foi preservada neles através da Idade das Trevas, enquanto vândalos queimavam os livros. Como os eruditos anterio­res, o Dr. Lecter armazena em seus milhares de cômodos uma quantidade enorme de informações associada a objetos. Mas, diferentemente dos antigos, o Dr. Lecter tem um segundo objetivo para esse palácio; algumas vezes ele vive ali. Passou anos em meio às coleções exóticas, enquanto seu corpo estava amarrado numa ala para criminosos violentos, com gritos fazendo as barras de aço zumbirem como a harpa do inferno.

O palácio de Hannibal Lecter é vasto, até mesmo para os padrões medie­vais. Traduzido para o mundo tangível, ele poderia rivalizar com o palácio Topkapi em Istambul, em tamanho e complexidade.

Nós o alcançamos enquanto os chinelos rápidos de sua mente passam do saguão para o grande salão das estações. O palácio é construído segundo as regras descobertas por Simonides de Ceos, e elaborado por Cícero quinhen­tos anos depois; é arejado, com teto alto, mobiliado com objetos e quadros vividos, marcantes, algumas vezes chocantes e absurdos, e freqüentemente belos. As obras expostas são bem espaçadas e bem iluminadas como num grande museu. Mas as paredes não têm as cores neutras dos museus. Como Giotto, o Dr. Lecter pintou afrescos nas paredes de sua mente.

Ele decidiu pegar o endereço da casa de Clarice Starling enquanto está no palácio, mas não tem pressa, por isso pára ao pé de uma grande escadaria onde estão os bronzes do Riace. Esses grandes guerreiros de bronze, atribuí­dos a Fídias, resgatados do fundo do mar em nosso tempo, são a peça cen­tral de um espaço coberto de afrescos que poderia desenrolar toda a obra de Homero e Sófocles.

Se quisesse, o Dr. Lecter podia mandar que os rostos de bronze declamas­sem versos de Meleagro, mas hoje ele só quer olhá-los.

Mil cômodos, quilômetros de corredores, centenas de fatos ligados a cada objeto que decora cada cômodo, um descanso agradável esperando o Dr. Lecter sempre que opta por se retirar para lá.

Mas isto compartilhamos com o doutor: nas abóbadas de nossos corações e nossos cérebros, o perigo espera. Nem todas as câmaras são adoráveis, claras e altas. Há buracos no piso da mente, como no piso de uma masmorra medie­val — calabouços fétidos, celas em forma de garrafa, na rocha sólida, com o alçapão no topo, onde as pessoas esqueciam. Deles nada escapa em voz baixa para nos tranqüilizar. Um tremor, alguma traição de nossos guardas, e fagulhas de lembrança fazem disparar os gases nocivos — coisas presas há anos voam livres, prontas para explodir em dor e nos levar a um comportamento perigoso...

Temerosos e maravilhados, seguimos enquanto ele anda com passo leve e rápido ao longo do corredor que criou, através de um perfume de gardênias, a presença de grandes esculturas nos pressionando, e a luz das pinturas.

Seu caminho vira à direita, passando por um busto de Plínio e subin­do a escada até o salão dos endereços, um cômodo cheio de estátuas e pin­turas numa ordem fixa, bem espaçadas e bem iluminadas, como Cícero recomenda.

Ah... a terceira alcova a partir da porta, à direita, é dominada por uma pintura de São Francisco dando uma mariposa de comer a um estorninho — starling, em inglês. No chão à frente da pintura há uma imagem de ta­manho real em mármore pintado: um desfile no Cemitério Nacional de Arlington, liderado por Jesus, com 33 anos, dirigindo uma caminhonete Ford modelo T 1927, conhecido como “tin lizzie”, com J. Edgar Hoover de pé na carroceria usando um tutu de bailarina e acenando para uma multidão invisível. Ao lado dele, Clarice Starling marcha carregando um rifle Enfield 308 sobre o ombro.

O Dr. Lecter parece satisfeito em vê-la. Há muito tempo obteve o endere­ço da casa de Starling com a Associação de Alunos da Universidade da Virgínia. Ele guarda o endereço naquele quadro vivo, e agora, para seu próprio prazer, pega os números e o nome da rua onde Starling mora.

Tindal, 3327

Arlington, VA, 22308

O Dr. Lecter pode se movimentar com velocidade espantosa pelos vastos salões de seu palácio da memória. Com seus reflexos e a força, a capacidade de apreensão e velocidade da mente, o Dr. Lecter está bem armado contra o mundo físico. Mas há lugares ali dentro aonde ele não pode ir em segurança, onde as regras de lógica de Cícero, de espaço e de luz ordenados, não se aplicam...

Decidiu visitar sua coleção de tecidos antigos. Para uma carta que está escrevendo a Mason Verger, ele quer rever um texto de Ovídio falando sobre óleos faciais perfumados, que está ligado à tecelagem.

Prossegue caminhando sobre uma interessante passadeira Kilim de trama lisa, em direção ao salão de teares e têxteis.

No mundo do 747 a cabeça do Dr. Lecter está encostada na poltrona, os olhos estão fechados. A cabeça balança suavemente enquanto a turbulência sacode o avião.

No fim da fila o bebê terminou a mamadeira e ainda não dormiu. Seu rosto fica vermelho. A mãe sente o corpinho se tensionar dentro do cobertor, depois relaxar. Não há dúvida do que aconteceu. Ela não precisa enfiar o dedo na fralda. Na fila da frente alguém diz “Meu Deus!”.

Outra camada de cheiro é acrescentada ao fedor de vestiário de atletas do avião. O garotinho sentado ao lado do Dr. Lecter, acostumado aos hábitos do bebê, continua a comer o lanche do Fauchon.

Dentro do palácio da memória os alçapões se abrem, os calabouços bocejam seu fedor medonho...

Alguns animais conseguiram sobreviver ao fogo de artilharia e metralha­dora que deixou mortos os pais de Hannibal Lecter e destruiu a vasta floresta que cercava sua propriedade.

O grupo de desertores que usava a remota cabana de caça comia o que podia encontrar. Uma vez acharam um pequeno cervo em estado miserável, magro, com uma flecha espetada, e que conseguira encontrar comida debaixo da neve e sobre­viver. Guiaram-no para o acampamento para não ter de carregá-lo.

Hannibal Lecter, com seis anos, ficou olhando através de uma fenda no celeiro enquanto eles traziam o animal que resistia e revirava a cabeça para se livrar da corda amarrada no pescoço. Eles não queriam disparar um tiro, e conseguiram derrubá-lo golpeando as pernas finas e partiram sua garganta com o machado, xingando uns aos outros em várias línguas para que trouxessem uma tigela antes que o sangue fosse desperdiçado.

Não havia muita carne no animal magro, e em dois dias, talvez três, com seus sobretudos compridos, os hálitos fedendo e soltando vapor, os desertores vieram pela neve até a cabana de caça, para destrancar o celeiro e de novo escolher entre as crianças aninhadas sobre a palha.

Nenhuma havia congelado, por isso pegaram uma viva.

Tatearam a coxa, o braço e peito de Hannibal Lecter, e em vez dele escolheram sua irmã, Mischa, e a levaram. Para brincar, disseram. Ninguém que era levado para brincar voltava.

Hannibal agarrou-se a Mischa com toda a sua força, agarrou-se a Mischa com o braço magro até que os homens bateram a porta pesada do celeiro contra ele, deixando-o atordoado e quebrando seu braço.

Levaram-na pela neve ainda manchada de sangue do cervo.

Ele rezou demais para ver Mischa outra vez, a oração consumia sua mente de seis anos, mas não abafou o som do machado. Sua oração para vê-la de novo não ficou totalmente desatendida — ele viu alguns dos dentes de leite de Mischa na fossa fétida que seus captores usavam, entre a cabana onde dormiam e o celeiro onde mantinham as crianças cativas, que eram seu sustento em 1944, depois do colapso da frente oriental.

Desde essa resposta parcial à sua oração, Hannibal Lecter não se incomo­dou com qualquer consideração sobre a divindade, além de reconhecer como suas modestas atividades de predador empalideciam diante das de Deus, que em ironia não tem rival, e cuja malícia arbitrária está além de qualquer medida.

Neste avião em alta velocidade, a cabeça balançando suavemente no en­costo da poltrona, o Dr. Lecter está suspenso entre a última visão de Mischa atravessando a neve ensangüentada e o som do machado. Está seguro ali, e não pode suportar. No mundo do avião brota de seu rosto suado um grito curto, fino e agudo, penetrante.

Passageiros se viram, alguns acordam. Alguns, na fileira à sua frente, estão rosnando:

— Garoto, meu Deus, qual é o problema com você? Meu Deus!

Os olhos do Dr. Lecter se abrem, olham direto em frente, há uma mão sobre ele. É a mão do garotinho.

— O senhor teve um pesadelo, não foi? — A criança não está amedron­tada, nem se importa com as reclamações das filas na frente.

— Eu também tenho pesadelos um monte de vezes. Não estou rindo do senhor.

O Dr. Lecter respirou várias vezes, a cabeça apoiada no encosto. Em se­guida sua compostura voltou, como se a calma rolasse do alto da testa para cobrir o rosto. Ele inclinou a cabeça para o garoto e disse num tom de voz confidencial:

— Você está certo em não comer esta lavagem, sabe? Nunca coma isso.

As companhias aéreas não fornecem mais papel timbrado. Num perfei­to controle sobre si mesmo, o Dr. Lecter pegou vários papéis timbrados de hotel no bolso do peito e começou uma carta para Clarice Starling. Primei­ro esboçou o rosto dela. Agora o desenho está numa coleção particular da Universidade de Chicago e disponível aos estudiosos. Nele Starling parece uma criança, e seu cabelo, como o de Mischa, está grudado ao rosto com lágrimas...

Podemos ver o aeroplano através do vapor de nossa respiração, um bri­lhante ponto de luz no céu claro da noite. Veja-o atravessar a estrela Polar, para além do ponto sem volta, seguindo agora num grande arco em direção ao amanhã no Novo Mundo.

 

As pilhas de papéis, dossiês e disquetes no cubículo de Starling alcançavam uma massa crítica. Sua requisição de mais espaço não foi atendida. Chega. Com a ousadia dos condenados, ela exigiu uma sala espaçosa no porão em Quantico. A sala estava destinada a se tornar o laboratório fotográfico particular da Di­visão de Ciência do Comportamento assim que o Congresso destinasse algu­ma verba. Não tinha janelas, mas havia uma quantidade de prateleiras e, ten­do sido construída para ser um laboratório fotográfico, dispunha de cortinas duplas de blecaute em vez de uma porta.

Algum anônimo vizinho de sala imprimiu um cartaz em letras góticas onde estava escrito Casa de Hannibal e pregou-o com alfinete na cortina da entra­da. Com medo de perder a sala, Starling levou o cartaz para dentro.

Quase de imediato encontrou uma quantidade enorme de material na Biblioteca de Justiça Criminal da Columbia College, onde mantinham uma Sala Hannibal Lecter. A faculdade tinha documentos originais do trabalho médico e psiquiátrico do doutor, e transcrições de seu julgamento e dos pro­cessos contra ele. Na primeira visita à biblioteca Starling esperou 45 minutos enquanto os funcionários caçavam sem sucesso as chaves da Sala Lecter. Na segunda ocasião encontrou um indiferente aluno de pós-graduação encarre­gado do material, ainda não catalogado.

A paciência de Starling não estava melhorando na sua quarta década de vida. Com o chefe de seção Jack Crawford apoiando-a na Promotoria Federal, conseguiu uma ordem judicial para levar toda a coleção da faculdade para a sua sala no porão em Quantico. Oficiais de justiça federais fizeram a mu­dança num único furgão.

A ordem judicial criou ondas, como ela temia. Finalmente, as ondas trou­xeram Krendler...

No final de duas longas semanas, Starling estava com a maior parte do material da biblioteca organizado em seu precário Centro Lecter. No final de uma tarde de sexta-feira, ela lavou o rosto e as mãos do pó e da sujeira dos livros, apagou as luzes e sentou-se no chão, no canto, olhando para os livros e papéis que ocupavam muitos metros de prateleira. É possível que tenha co­chilado por um momento...

Um cheiro despertou-a, e ela teve consciência de que não estava sozinha. Era cheiro de graxa de sapato.

A sala estava em semi-escuridão, e o subsecretário Paul Krendler movia-se devagar ao longo das prateleiras, espiando os livros e as fotos. Não se incomo­dara em bater — não havia onde bater nas cortinas, e Krendler não era incli­nado a bater em portas, especialmente de agências subordinadas. Ali, naquele porão de Quantico, estava definitivamente visitando uma favela.

Uma parede da sala era dedicada ao Dr. Lecter na Itália, com uma grande foto de Rinaldo Pazzi pendurado na janela do Palazzo Vecchio com as entra­nhas fora do corpo. A parede oposta era destinada a crimes nos Estados Uni­dos, dominada por uma fotografia tirada pela polícia, mostrando o arqueiro caçador que o Dr. Lecter matara há anos. O corpo estava pendurado num painel com ganchos e tinha todos os ferimentos das ilustrações medievais do Homem Ferido. Muitos dossiês de casos estavam empilhados nas prateleiras junto com registros civis de processos criminais abertos contra o Dr. Lecter por famílias das vítimas.

Os livros pessoais do Dr. Lecter, de seu trabalho como médico, estavam numa ordem idêntica ao arranjo de seu antigo consultório psiquiátrico. Starling os arrumara examinando com uma lente de aumento fotos que a polícia fizera no consultório.

Boa parte da luz na sala escura vinha através de um raio X da cabeça e do pescoço do doutor, que brilhava numa caixa de luz presa à parede. A outra luz vinha de um computador numa mesa de canto. O tema do protetor de tela era “Criaturas Perigosas”. De vez em quando o computador rosnava.

Ao lado da máquina estavam os resultados da compilação de Starling. Os pedaços de papel arduamente reunidos, recibos, notas de despesas que revelavam como o Dr. Lecter levara sua vida privada na Itália — e na América, antes de ser mandado para o manicômio. Era um catálogo aproximado de seus gostos.

Usando um scanner como mesa, Starling arrumou um cenário que tinha sobrevivido da casa dele em Baltimore — louça, prata, cristais, guardanapos de um branco radiante, uma vela — meio metro quadrado de elegância em contraste com as coisas grotescas penduradas na sala.

Krendler pegou a grande taça de vinho e bateu nela com a unha.

Ele jamais sentira a carne de um criminoso, jamais lutara com um no chão, e pensava no Dr. Lecter como uma espécie de bicho-papão da mídia e uma oportunidade. Podia ver sua própria foto associada a um arranjo assim no Museu do FBI, logo que Lecter estivesse morto. Podia ver o enorme valor de campanha. Aproximou o nariz do perfil em raio X do crânio amplo do dou­tor, e quando Starling falou com ele, deu um pulo suficiente para manchar o raio X com oleosidade do nariz.

— Posso ajudá-lo, Sr. Krendler?

— Por que está sentada aí no escuro?

— Estou pensando, Sr. Krendler.

— O pessoal do Congresso quer saber o que estamos fazendo com rela­ção a Lecter.

— Isto é o que estamos fazendo.

— Coloque-me em dia, Starling. Coloque-me em dia rapidamente.

— O senhor não preferiria que o Sr. Crawford...

— Onde Crawford esta?

— O Sr. Crawford está no tribunal.

— Creio que ele está perdendo o pique. Você não acha?

— Não, senhor, não acho.

— O que está fazendo aqui? Recebemos uma reclamação da faculdade onde você pegou esse material todo. A situação poderia ter sido abordada de um modo melhor.

— Nós juntamos aqui tudo o que pudemos encontrar com relação ao Dr. Lecter, tanto objetos quanto registros. As armas dele estão na Seção de Armas de Fogo e Instrumentos, mas temos duplicatas. Temos tudo que restou dos papéis pessoais dele.

— Qual é o sentido disso? Você está pegando um tarado ou escrevendo um tratado? — Krendler fez uma pausa para guardar essa rima em seu cartu­cho verbal. — Se, digamos, um figurão do Partido Republicano numa sindicância judiciária me perguntar o que você, agente especial Starling, está fazendo para pegar Hannibal Lecter, o que devo lhe contar?

Starling acendeu todas as luzes. Podia ver que Krendler ainda estava com­prando ternos caros ao mesmo tempo que economizava dinheiro nas cami­sas e gravatas. As protuberâncias de seus pulsos peludos se projetavam dos punhos.

Starling olhou um instante através da parede, para além da parede, para o sempre, e se recompôs. Obrigou-se a ver Krendler como uma turma de alu­nos na Academia de Polícia.

— Sabemos que o Dr. Lecter tem uma identidade falsa muito boa — começou ela. — Deve ter pelo menos mais uma identidade sólida, talvez vá­rias. Ele é cuidadoso nesse sentido. Não vai cometer um erro idiota.

— Prossiga.

— Ele é um homem de gostos muito cultivados, alguns exóticos, na co­mida, no vinho, na música. Se vier para cá, vai querer essas coisas. Terá de consegui-las. Não vai recusá-las a si mesmo.

“O Sr. Crawford e eu examinamos os recibos e os papéis que restaram da vida do Dr. Lecter em Baltimore, antes de ele ser preso pela primeira vez, e os recibos que a polícia italiana pôde fornecer, processos de credores depois de sua prisão. Fizemos uma lista de algumas coisas das quais ele gosta. Pode ver aqui: no mês em que o Dr. Lecter serviu o pâncreas do flautista Benjamin Raspail a outros membros da diretoria da Orquestra Filarmônica de Baltimore, ele comprou duas caixas de bordeaux Château Petrus a três mil e seiscentos dólares por caixa. Comprou cinco caixas de Bâtard-Montrachet a mil e cem dólares a caixa, e uma variedade de vinhos mais baratos.

“Ele pediu o mesmo vinho no serviço de quarto em St. Louis depois de fugir, e comprou-o na Vera dal 1926 em Florença. É um negócio mui­to raro. Estamos verificando importadores e comerciantes para informar sobre vendas.

“No Iron Gate em Nova York ele encomendou patê de foie gras categoria A, a duzentos dólares o quilo, e no Grande Central Oyster Bar comprou os­tras verdes do Gironde. A refeição para a diretoria da Filarmônica começou com essas ostras, seguido por pâncreas, um sorvete e depois... o senhor pode ler aqui na Town & Country o que eles comeram. — Ela leu rapidamente em voz alta. — O notável guisado escuro e brilhante, cujos ingredientes jamais foram determinados, sobre arroz ao açafrão. O gosto era sombriamente empolgante, com grandes tons graves que só poderiam ser a redução vasta e cuidadosa que o fond pode dar. Nenhuma vítima jamais foi identificada como parte do guisado. Blablablá, a coisa continua... aqui o artigo descreve em detalhes o distinto serviço de mesa que ele usou. Estamos verificando compras em cartão de cré­dito nos fornecedores de porcelana e cristal. Krendler fungou.

— Veja, aqui neste processo judicial, ele ainda deve um candelabro Steuben, e a Galeazzo Motor Company, de Baltimore, abriu um processo para retomar o Bentley dele. Estamos rastreando vendas de Bentleys, novos e usa­dos. Não existem muitos. E as vendas de Jaguares turbinados. Mandamos faxes para fornecedores de caça para restaurante, perguntando sobre compras de javalis, e emitiremos um boletim uma semana antes de as perdizes de pernas vermelhas chegarem da Escócia.

Ela digitou no teclado e consultou uma lista, depois se afastou da máqui­na quando sentiu o hálito de Krendler perto demais, atrás dela.

— Pedi verbas para comprar a cooperação de alguns dos principais cam­bistas que vendem ingressos para eventos culturais em Nova York e São Fran­cisco... há umas duas orquestras e quartetos de cordas dos quais ele gosta par­ticularmente. Prefere a sexta ou sétima fileira, e sempre se senta junto do corredor. Distribuí as melhores fotos que temos dele ao Lincoln Center, ao Kennedy Center e às principais salas de filarmônicas. Talvez o senhor pudesse nos ajudar a conseguir isso no orçamento do Departamento de Justiça, Sr. Krendler. — Quando ele não respondeu, ela continuou: — Estamos verifi­cando novas assinaturas de alguns jornais culturais que ele assinava no passa­do: antropologia, lingüística, Physical Review, matemática, música.

— Ele contrata prostitutas sadomasoquistas, esse tipo de coisa? Prostitutos? Starling podia sentir o deleite de Krendler com a pergunta.

— Não que saibamos, Sr. Krendler. Ele foi visto com várias mulheres bonitas em concertos em Baltimore, há anos, duas delas figuras proeminentes nas festas de caridade locais. Anotamos as datas de aniversários delas, para rastrear compras de presentes. Que saibamos nenhuma jamais foi incomoda­ da, e nenhuma jamais concordou em falar sobre ele. Não sabemos coisa algu­ma sobre suas preferências sexuais.

— Sempre achei que ele fosse homossexual.

— Por que diz isso, Sr. Krendler?

— Toda essa frescura de arte. Musica de câmara e comida metida a besta. Não é nada pessoal, se é que você tem simpatia por esse tipo de gente, ou amigos assim. O que importa, o que estou exigindo de você, Starling, é o se­guinte: é melhor que eu veja alguma cooperação aqui. Não existem pequenos feudos. Quero cópias de cada 302, quero cada cartão de ponto, quero cada pista. Está entendendo, Starling?

— Sim, senhor. Junto à porta, ele disse:

— Certifique-se de que sim. Talvez você tenha a chance de melhorar sua situação aqui. Sua suposta carreira precisaria de toda a ajuda possível.

O futuro laboratório fotográfico já estava equipado com exaustores. Olhando-o no rosto, Starling ligou-os, sugando para fora o cheiro de sua loção após barba e sua graxa de sapato. Krendler passou pelas cortinas sem dizer adeus.

O ar dançava na frente de Starling como o tremular do calor na área de exercícios de tiro.

No corredor Krendler ouviu a voz de Starling atrás dele.

— Vou acompanhá-lo até lá fora, Sr. Krendler.

Krendler estava com um carro e um motorista esperando. Ele ainda não se encontrava no nível de transporte executivo onde tinha de se conformar com um seda Mercury Grand Marquis.

Antes que ele pudesse chegar ao carro, sob o dia claro, ela disse:

— Espere, Sr. Krendler.

Krendler virou-se, tentando imaginar o que seria. Poderia haver um bri­lho de algo ali. Uma rendição irada? Sua antena se ergueu.

— Estamos aqui ao ar livre — disse Starling. — Nenhum equipamento de escuta ao redor, a não ser que o senhor esteja com um. — Atacou-a uma ansiedade à qual não podia resistir. Para trabalhar com os livros empoeirados estava usando uma camisa de brim frouxa sobre um bustiê apertado.

Não deveria fazer isso. Foda-se.

Ela soltou os fechos da blusa e abriu-a.

— Vê, não estou usando um gravador. — Também não estava usando sutiã. — Talvez esta seja a única vez em que conversaremos em particular, e quero lhe fazer uma pergunta. Há anos venho fazendo o serviço e toda a vez que pôde, o senhor me sacaneou. O que há com o senhor, Sr. Krendler?

— Será bem-vinda para conversar comigo sobre isso... eu arrumo um horário para você, se quiser...

— Estamos falando agora.

— Deduza você, Starling.

— É porque eu não quis sair com o senhor? Foi quando eu disse para o senhor voltar para a sua esposa em casa?

Ele encarou-a de novo. Ela realmente não estava usando um gravador.

— Não tente ser mais do que é, Starling... esta cidade está cheia de bocetas caipiras.

Ele entrou ao lado do motorista e bateu no painel. O carro grande se afas­tou. Seus lábios se moveram, como se ele quisesse ter emoldurado aquilo: “bocetas caipiras como você”.

Havia muita falação política no futuro de Krendler, pelo que acreditava, e ele queria afiar seu caratê verbal e pegar o jeito de morder com o som.

 

— Poderia funcionar, tenho certeza— disse Krendler para o escuro cheio de zumbidos onde estava Mason. — Há dez anos não teria sido possível, mas ela pode movimentar listas de clientes naquele computador como se fosse merda passando por dentro de um ganso. — Ele se remexeu do sofá sob as luzes for­tes da área de estar.

Krendler podia ver Margot silhuetada contra o aquário. Agora estava acos­tumado a dizer palavrões na frente dela, e gostava disso. Apostava que Margot queria ter um pau. Sentia vontade de dizer pau na frente de Margot, e pensava num modo:

— Foi assim que ela estabeleceu os campos de interesse e emparelhou as preferências de Lecter. Provavelmente ela seria capaz de lhe dizer para que lado da cueca ele bota o pau.

— Por falar nisso, Margot, faça entrar o Dr. Doemling — disse Mason. O Dr. Doemling estivera esperando na sala de brinquedos em meio aos gigantescos animais de pelúcia. Mason podia vê-lo no vídeo examinando o escroto de pelúcia da grande girafa, assim como os Viggert haviam orbitado o Davi. Na tela ele parecia muito menor do que os brinquedos, como se tivesse se comprimido, para conseguir se enfiar numa infância que não era a sua.

Visto sob as luzes da área de estar de Mason, o psicólogo era uma pessoa seca, extremamente limpa mas escamosa, com caspa seca no couro cabeludo cheio de pintas e uma chave da Phi Beta Kappa na corrente do relógio. Sen­tou-se diante de Krendler, do outro lado da mesinha de centro, e parecia fa­miliarizado com a sala. Havia um buraco de bicho na maçã virada para o seu lado na tigela de frutas e nozes. O Dr. Doemling virou o buraco para outro lado. Atrás dos óculos, seus olhos acompanharam Margot com um espanto beirando o pasmo quando ela pegou mais duas nozes e voltou para seu lugar perto do aquário.

— O Dr. Doemling é chefe do Departamento de Psicologia na Universi­dade de Baylor. Ele ocupa a Cátedra Verger — disse Mason a Krendler. — Perguntei a ele que tipo de ligação pode haver entre o Dr. Lecter e a agente do FBI Clarice Starling. Doutor...

Doemling adiantou-se na sua poltrona como se ela fosse um banco de testemunhas, e virou a cabeça para Mason como viraria para um júri. Krendler podia vê-lo com a atitude prática, cautelosa, de uma testemunha especializa­da que ganhava dois mil dólares por dia.

— O Sr. Verger obviamente conhece minhas qualificações, o senhor gos­taria de ouvi-las? — perguntou Doemling.

— Não — respondeu Krendler.

— Revisei as anotações de Starling relativas às entrevistas que ela fez com Hannibal Lecter, as cartas que ele mandou para ela e o material que o senhor enviou para mim, falando do passado de ambos — começou Doemling.

Krendler encolheu-se diante disso, Mason falou:

— O Dr. Doemling assinou um contrato de sigilo.

— Cordell colocará os seus slides num monitor quando o senhor quiser, doutor — disse Margot.

— Primeiro algumas informações. — Doemling consultou suas notas. — Nós sabeeemos que Hannibal Lecter nasceu na Lituânia. Seu pai era um conde, título que remontava ao século X, sua mãe uma italiana nascida na classe alta, uma Visconti. Durante a retirada alemã da Rússia, alguns panzers nazistas que passavam atiraram contra a propriedade deles perto de Vilnius, e mataram os pais e a maioria dos empregados. Depois disso, as crianças desa­pareceram. Eram duas, Hannibal e a irmã. Não sabemos o que aconteceu à irmã. O fato é que Lecter era um órfão, como Clarice Starling.

— Coisa que eu contei a você — disse Mason impaciente.

— Mas o que o senhor concluiu a partir disso? — perguntou o Dr. Doemling. — Não estou propondo uma espécie de solidariedade entre dois órfãos, Sr. Verger. Isto não tem a ver com solidariedade. A solidariedade não entra aqui. E a misericórdia é largada sangrando na poeira. Escutem. O que uma experiência comum de se ser órfão dá ao Dr. Lecter é simplesmente a capacidade de entendê-la e, em última instância, de controlá-la. Tudo isto tem a ver com controle.

“A tal de Starling passou a infância em instituições, e a partir do que vocês me contam ela não evidencia qualquer relação pessoal estável com um ho­mem. Ela mora com uma ex-colega de escola, uma jovem afro-americana.

— Isso é muito provavelmente uma coisa sexual — disse Krendler.

O psiquiatra nem sequer se dignou a olhar para Krendler, que foi auto­maticamente desconsiderado.

— Nunca se pode dizer com certeza por que alguém mora com outra pessoa.

— É uma das coisas que se escondem, como diz a Bíblia— disse Mason.

— Starling parece bem gostosa, para quem gosta de trigo integral — su­geriu Margot.

— Acho que a atração parte de Lecter, não dela — disse Krendler. — Vocês a viram, ela é bastante fria.

— Ela é fria, Sr. Krendler? — Margot pareceu estar se divertindo.

— Você acha que ela é lésbica, Margot? — perguntou Mason.

— Como eu posso saber? O que quer que ela seja, ela trata disso como coisa pessoal; foi a minha impressão. Acho que ela é durona, e mantém aquela cara de poucos amigos. Mas eu não diria que é fria. Nós não conversamos mui­to, mas foi o que captei da conversa. Isso foi antes de que você precisasse que eu o ajudasse, Mason; você me tirou da reta, lembra? Não creio que ela seja uma mulher fria. As garotas com a aparência de Starling precisam manter uma certa distância porque os panacas ficam dando em cima delas o tempo todo.

Nesse ponto Krendler sentiu que Margot o encarou um pouco além do necessário, ainda que ele só pudesse vê-la em silhueta.

Que curiosas, as vozes nesta sala. O tom cauteloso e burocrata de Krendler, a fala pedante de Doemling, os tons profundos e sonoros de Mason com suas consoantes explosivas mal pronunciadas e as sibilantes escorrendo, e Margot, voz rouca e baixa, falada com dureza como um cavalo se ressentindo contra o freio na boca. Debaixo de tudo isso, a aparelhagem ofegante que proporciona respiração a Mason.


— Eu tenho uma idéia sobre a vida particular dela, com relação à apa­rente fixação no pai — prosseguiu Doemling. — Vou abordar isso em breve. Bom, nós temos três documentos do Dr. Lecter relativos a Clarice Starling. Duas cartas e um desenho. O desenho é o do relógio da crucificação que ele fez enquanto estava no manicômio. — O Dr. Doemling ergueu os olhos para a tela. — O slide, por favor.

De algum lugar fora da sala, Cordell colocou o desenho extraordinário no monitor do alto. O original é em carvão sobre papel de embrulhar carne. A cópia de Mason foi feita numa copiadora heliográfica, e as linhas têm um tom azulado de hematoma.

— Ele tentou patentear isso — disse o Dr. Doemling. — Como podem ver, aqui está Cristo crucificado num mostrador de relógio, e seus braços gi­ram para dizer a hora, como nos relógios do Mickey Mouse. É interessante porque o rosto, a cabeça pendendo para a frente, é de Clarice Starling. Ele desenhou na época das entrevistas. Aqui está uma fotografia dela, vocês po­dem ver. Cordell, não é? Cordell, ponha a foto, por favor.

Não havia dúvida, a cabeça de Jesus era a de Starling.

— Outra anomalia é que a figura está pregada na cruz através dos pulsos, e não das palmas das mãos.

— Isto é necessário — disse Mason. — É preciso passar o prego através dos pulsos e usar grandes arruelas de madeira, caso contrário eles afrouxam e começam a soltar. Idi Amin e eu descobrimos isso do modo mais difícil, quando reencenamos esse negócio na Páscoa em Uganda. Nosso Salvador na verdade foi pregado através dos pulsos. Todas as pinturas sobre a crucificação estão erradas. É uma tradução errada da Bíblia hebraica para a latina.

— Obrigado — disse o Dr. Doemling sem sinceridade. — A crucifica­ção representa claramente um objeto de veneração destruído. Observem que o braço que forma o ponteiro dos minutos está no número seis, cobrindo re­catadamente as partes pudendas. O ponteiro das horas está no nove, ou pou­co depois. Nove é uma referência clara à hora tradicional em que Jesus foi crucificado.

Margot não conseguiu evitar uma interferência.

— E quando a gente junta seis e nove, percebam que o resultado é sessenta e nove, uma figura popular na relação sexual. — Em resposta ao olhar afiado de Doemling, ela quebrou suas nozes e as cascas caíram com barulho no chão.

— Agora vamos pegar as cartas do Dr. Lecter para Clarice Starling. Cordell, poderia colocá-las? — O Dr. Doemling pegou um ponteiro a laser no bolso. — Vocês podem ver que a letra, fluente e elaborada, executada com uma caneta-tinteiro de ponta quadrada, é tão regular como se fosse escrita a máquina. Esse tipo de letra é encontrado nas bulas papais da Idade Média. É muito bonita, mas estranhamente regular. Nada há de espontâneo aqui. Ele está planejando. Ele escreveu esta primeira pouco depois de ter escapado matando cinco pessoas. Vamos ler o texto:

Bom, Clarice, os cordeiros pararam de gritar?

Você me deve uma informação, você sabe, e é disso que eu gostaria.

Um anúncio na edição nacional do Times e do International Herald-Tribune no dia primeiro de cada mês servirá. Melhor colocá-lo no China Mail também.

Não me surpreenderei se a resposta for sim e não. Por enquanto os cordeiros vão parar. Mas, Clarice, você se julga com toda a misericórdia da balança das masmorras em Threave; você terá de aprender repetidamente a merecer o silêncio abençoado. Porque é a dificuldade que a impulsiona, ver a dificuldade, e a difi­culdade não terminará, jamais.

Não tenho planos de acabar com você, Clarice, já que o mundo é mais inte­ressante com você nele. Certifique-se de estender a mim a mesma cortesia...

O Dr. Doemling empurrou os óculos sem aro para o topo do nariz e pigarreou.

— Este é um exemplo clássico do que chamei, em minha obra publicada, de avunculismo; algo que está começando a ser citado amplamente na litera­tura profissional como Avunculismo de Doemling. Possivelmente será incluído no próximo Diagnosticai and Statistical Manual. Pode ser definido para os leigos como o ato de se posicionar como um patrono sábio e atento para conseguir um objetivo pessoal.

“Pelas anotações do caso percebo que a pergunta sobre os gritos dos cor­deiros refere-se a uma experiência da infância de Clarice Starling, os cordeiros que eram abatidos no rancho em Montana, a casa onde ela nasceu — prosse­guiu o Dr. Doemling em sua voz seca.

— Ela estava trocando informações com Lecter— disse Krendler. — Ele sabia alguma coisa sobre o assassino serial Búfalo Bill.

— A segunda carta, escrita sete anos mais tarde, é uma carta de condo­lências e apoio — disse Doemling. — Ele provoca-a com referências aos pais, a quem ela aparentemente venera. Chama o pai dela de “guarda noturno morto” e a mãe de “camareira”. E em seguida investe-os de qualidades excelentes que ela pode imaginar que eles tivessem, e prossegue listando essas qualidades para desculpar os fracassos dela na carreira. Isso tem a ver com cair nas graças dela, tem a ver com controle.

“Creio que a tal de Starling pode ter tido uma ligação duradoura com o pai, uma imago, que a impede de formar com facilidade relacionamentos se­xuais e pode incliná-la em direção ao Dr. Lecter numa espécie de transferên­cia, que em sua perversidade ele aproveitaria de imediato. Na segunda carta ele a encoraja de novo a contatá-lo através de um anúncio pessoal, e dá um codinome.

Meu Deus, o sujeito não parava! A inquietação e o tédio eram tortura para Mason porque ele não podia se remexer.

— Certo, ótimo, bom, doutor — interrompeu Mason. — Margot, abra a janela um pouco. Tenho uma nova fonte a respeito de Lecter, Dr. Doemling. Alguém que conhece Starling e Lecter e viu os dois juntos, e esteve mais perto de Lecter do que qualquer outra pessoa. Quero que o senhor fale com ele.

Krendler remexeu-se no sofá, as entranhas começando a estremecer en­quanto via para onde aquilo estava indo.

 

Mason falou no seu interfone e uma figura alta entrou na sala. Era tão musculoso quanto Margot, e estava vestido de branco.

— Este é Barney— disse Mason.— Ele foi encarregado da ala de prisio­neiros violentos no Manicômio Judiciário de Baltimore, durante seis anos, en­quanto Lecter esteve lá. Agora trabalha para mim.

Barney preferiria ficar na frente do aquário com Margot, mas o Dr. Doemling quis que ficasse na luz. Ele ocupou um lugar ao lado de Krendler.

— Barney, não é? Agora, Barney, qual é sua formação profissional?

— Sou EPL.

— O senhor é um enfermeiro prático licenciado*. Bom para o senhor. Só isso?

— Tenho diploma de Ciências Humanas do United States Correspondence College— disse Barney, sem expressão.— E um certificado de freqüência da Cummings Scholl of Mortuary Science. Sou qualificado como auxiliar de legista. Trabalhei nisso durante a noite enquanto fazia a escola de enfermagem.

— Você cursou a escola de enfermagem trabalhando como auxiliar de necrotério?

— Sim, removendo corpos de locais de crime e ajudando em autópsias.

— E antes disso?

— Estive no Corpo de Fuzileiros Navais.


— Sei. E enquanto estava trabalhando no Manicômio Judiciário você viu Clarice Starling e Hannibal Lecter interagindo; o que quero dizer é: você viu os dois conversando?

— Pareceu-me que eles...

— Comecemos com exatamente o que você viu, e não o que você pensou sobre o que viu. Podemos fazer isso?

Mason interrompeu:

— Ele é inteligente o bastante para dar uma opinião. Barney, você co­nhece Clarice Starling?

— Sim.

— Você conheceu Hannibal Lecter durante seis anos.

— Sim.

— O que havia entre eles?

A princípio Krendler teve dificuldade para entender a voz aguda e rouca de Barney, mas foi Krendler quem fez a pergunta pertinente:

— Lecter agia de modo diferente nas entrevistas com Starling, Barney?

— Sim. Na maior parte das vezes ele simplesmente não reagia aos visi­tantes. Algumas vezes ele abria os olhos por tempo suficiente para insultar algum acadêmico que estivesse tentando captar seu cérebro. Ele fez um pro­fessor visitante chorar. Ele era duro com Starling, mas reagia a ela mais do que à maioria das pessoas. Ele se interessava por ela. Ela o intrigava.

— Como?

Barney encolheu os ombros.

— Ele dificilmente via mulheres. Ela é realmente bonita...

— Não preciso da sua opinião sobre isso — disse Krendler. — É só isso que você sabe?

Barney não respondeu. Olhou para Krendler como se os hemisférios es­querdo e direito do cérebro de Krendler fossem dois cães amarrados juntos. Margot quebrou outra noz.

— Prossiga, Barney — disse Mason.

— Eles eram francos um com o outro. Ele consegue desarmar os outros, nesse sentido. A gente tem a sensação de que ele não vai anuir com relação à mentira.

— De que ele não vai o quê? — perguntou Krendler.

— Anuir — disse Barney.

— A-N-U-I-R — disse Margot Verger no escuro. — Admitir, baixar a cabeça, Sr. Krendler.

Barney prosseguiu:

— O Dr. Lecter disse algumas coisas desagradáveis sobre ela, e depois algumas coisas agradáveis. Ela pôde enfrentar as coisas ruins e depois desfru­tar as boas, sabendo que não era besteira. Ele a achava encantadora e diver­tida.

— Você pode julgar o que Hannibal Lecter achava “divertido ? — pergun­tou o Dr. Doemling. — Como pode dizer isso, enfermeiro Barney?

— Ouvindo-o rir, Dr. Doemling. Nós aprendemos isso na escola de en­fermagem, numa aula chamada “A Cura e a Aparência Alegre”.

Ou Margot fungou ou o aquário atrás dela fez o barulho.

— Fique frio, Barney. Conte o resto — disse Mason.

— Sim, senhor. Algumas vezes eu e o Dr. Lecter conversávamos tarde da noite, quando o lugar ficava calmo. Conversávamos sobre os cursos que eu estava fazendo e outras coisas...

— Você estava fazendo algum curso de psicologia por correspondência, por acaso? — teve de dizer Doemling.

— Não, senhor, não considero que psicologia seja ciência. Nem o Dr. Lecter. — Barney prosseguiu rapidamente, antes que o respirador de Mason lhe permitisse fazer uma censura. — Só posso repetir o que o doutor me disse; ele podia ver no que ela estava se tornando. Ela era encantadora, como um filhote de animal, um filhote que vai crescer para virar um grande felino. Um filhote com quem você não poderá brincar mais tarde. Ela possuía a honesti­dade do filhote, dizia ele. Tinha todas as armas, em miniatura e crescendo, e tudo que ela sabia até então era brincar de luta com outros filhotes. Isso o divertia.

“O modo como o negócio começou entre os dois revela alguma coisa. No início ele foi cortês, mas praticamente a desconsiderou. Depois, quando Starling estava saindo, outro prisioneiro jogou sêmen no rosto dela. Isso per­turbou o Dr. Lecter, deixou-o embaraçado. Foi a única vez em que eu o vi perturbado. Ela também percebeu e tentou usar aquilo contra ele. Acho que ele admirou a audácia dela.

— Qual foi a atitude dele com relação ao outro prisioneiro, o que jogou o sêmen? Eles tinham algum tipo de relacionamento?

— Não exatamente. O Dr. Lecter simplesmente matou-o naquela noite.

— Eles estavam em celas separadas? — perguntou Doemling. — Como ele fez isso?

— Separados por três celas, em lados opostos do corredor. No meio da noite, o Dr. Lecter falou com ele durante um tempo, e depois mandou que ele engolisse a própria língua.

— Então Clarice Starling e Hannibal Lecter se tornaram... amigos? — perguntou Mason.

— Dentro de uma espécie de estrutura formal — disse Barney. — Eles trocavam informações. O Dr. Lecter deu idéias sobre o assassino serial que ela estava caçando, e ela pagou por isso com informações pessoais. O Dr. Lecter me disse que pensava que Starling podia ter coragem demais para seu próprio bem, um “excesso de zelo”, foi como ele definiu. Achava que ela poderia tra­balhar perto demais da beira do abismo se achasse que sua tarefa exigisse isso. E uma vez ele disse que ela tinha “a praga do gosto”. Não sei o que significa.

— Dr. Doemling, ele quer trepar com ela, matá-la, comê-la ou o quê? — perguntou Mason, exaurindo as possibilidades que ele podia ver.

— Provavelmente todas as três hipóteses — disse o Dr. Doemling. — Eu não gostaria de prever a ordem em que ele quer realizar esses atos. Este é o fardo do que posso lhe dizer. Não importa como os tablóides... e as mentalidades dignas dos tablóides... possam querer romantizar isso e tentar transfor­mar o caso em A bela e a fera. O objetivo dele é a degradação de Starling, o sofrimento e a morte dela. Ele reagiu a ela duas vezes, quando ela foi insulta­da com o sêmen no rosto e quando foi ofendida pelos jornais, após ter atirado naquelas pessoas. Ele vem disfarçado de mentor, mas é a perturbação que o excita. Quando a história de Hannibal Lecter for escrita, e vai ser, isso será registrado como um caso de Avunculismo de Doemling. Para atraí-lo ela preci­sa estar perturbada.

Um franzido aparecera no espaço largo e flexível entre os olhos de Barney.

— Posso colocar uma coisa aqui, Sr. Verger, já que me perguntou? — Ele não esperou a permissão. — No manicômio, o Dr. Lecter reagiu a Starling quando ela se manteve firme, ficou ali parada enxugando o rosto e fez o seu serviço. Nas cartas ele a chama de guerreira, e lembra que ela salvou aquela criança no tiroteio. Ele admira a coragem e a disciplina dela. E diz que não tem planos de acabar com ela. Uma coisa que ele não faz é mentir.

— Este é exatamente o tipo de raciocínio de tablóide do qual eu estava falando — disse Doemling. — Hannibal Lecter não tem emoções como ad­miração ou respeito. Ele não sente calor ou afeto. Esta é uma ilusão românti­ca, e mostra os perigos de ter pouca informação.

— Dr. Doemling, o senhor não se lembra de mim, lembra? — disse Barney. — Eu estava encarregado da ala quando o senhor tentou falar com o Dr. Lecter. Um monte de gente tentou, mas foi o senhor quem saiu choran­do, pelo que lembro. Depois ele resenhou seu livro no American Journal of Psychiatry. Eu não poderia culpar o senhor se a resenha o fez chorar.

— Já basta, Barney — disse Mason. — Providencie meu almoço.

— Um autodidata de meia tigela, não há coisa pior — disse Doemling quando Barney saiu da sala.

— O senhor não me disse que havia entrevistado Lecter, doutor — disse Mason.

— Na época ele estava catatônico, não havia o que conseguir.

— E isso fez o senhor chorar.

— Não é verdade.

— E o senhor desconsidera o que Barney diz.

— Ele estava tão enganado quanto a garota.

— Barney provavelmente também sente tesão por Starling — disse Krendler.

Margot riu consigo mesma, mas suficientemente alto para que Krendler ouvisse.

— Se você quer tornar Clarice Starling atraente para o Dr. Lecter, deixe que ele a veja perturbada— disse Doemling. — Deixe que o dano que ele vir sugira o que ele poderia fazer. Vê-la ferida de algum modo simbólico irá incitá-lo do mesmo modo que vê-la se masturbando. Quando a raposa ouve um coelho gritar, ela vem correndo, mas não para prestar socorro.

 

— Eu não posso entregar Clarice Starling— disse Krendler quando Doemling saiu. — Posso lhe dizer onde ela está e o que está fazendo, mas não posso controlar as tarefas do Bureau. E se o Bureau colocá-la como isca, eles vão lhe dar cobertura, pode acreditar.

Krendler apontou o dedo em direção à escuridão de Mason, para enfatizar.

— Você não pode interferir nessa ação. Você não poderia sair dessa co­bertura e interceptar Lecter. A tocaia entregaria o seu pessoal imediatamente. Segundo: o Bureau não vai partir para a ação a não ser que ele faça contato de novo com ela, ou que haja evidência de que ele está perto; Lecter escreveu para ela antes, e nunca se aproximou. Seriam necessárias no mínimo doze pessoas para tocaiá-la, isso sai caro. Seria melhor se você não a tivesse tirado da berlinda no caso do tiroteio. Vai ser uma confusão, reverter tudo e tentar colocá-la naquilo de novo.

— Deveria, seria, poderia — disse Mason, conseguindo pronunciar o S bastante bem. — Margot, procure o jornal de Milão, o Corriere delia Sera, o exemplar de sábado, um dia depois de Pazzi ser morto, verifique o primeiro item na coluna de recados pessoais, leia para nós.

Margot levantou a folha para a luz.

— Está em inglês, dirigido a A. A Aaron. Diz: Entregue-se para as autori­dades mais próximas. Os inimigos estão perto. Hannah. Quem é Hannah?


— É o nome da égua que Starling tinha na infância — disse Mason. — É um aviso de Starling para Lecter. Na carta ele disse como ela poderia entrar em contato.

Krendler estava de pé.

— Que droga. Ela não poderia saber do que aconteceu em Florença. Se ela sabia disso, deve saber que estou mostrando o material para você.

Mason suspirou e perguntou-se se Krendler era suficientemente esperto para ser um político útil.

— Ela não sabia de nada. Coloquei o anúncio no La Nazione, no Corriere delia Sera, e no International Herald-Tribune, para ser publicado um dia de­pois de partirmos para cima do Lecter. Desse modo, se falhássemos, ele pensa­ria que Starling tentou ajudá-lo. Continuaremos a ter uma ligação com ele através de Starling.

— Ninguém viu isso.

— Não. Exceto talvez Hannibal Lecter. Talvez ele agradeça a ela, por correspondência, pessoalmente, quem sabe? Agora, escute: você ainda está verificando a correspondência dela?

Krendler assentiu.

— Sem dúvida. Se ele mandar alguma coisa, você ficará sabendo antes dela.

— Ouça atentamente, Krendler: pelo modo como esse anúncio foi enco­mendado e pago, Clarice Starling jamais poderia provar que não o colocou, e isso é crime. É atravessar os limites. Você pode se aproveitar disso contra ela, Krendler. Você sabe como o FBI caga e anda quando você está por baixo. Você pode ser carne de cachorro. Ela não vai conseguir sequer um porte de arma. Ninguém vai vigiá-la, a não ser eu. E Lecter saberá que ela está por aí, sozi­nha. Primeiro tentaremos algumas outras coisas.— Mason fez uma pausa para respirar e depois continuou:— Se não funcionarem, faremos como Doemling diz, e iremos “perturbá-la” com este anúncio. Perturbá-la, que inferno, você pode parti-la ao meio com isso. Guarde a metade que tem a boceta, é o meu conselho. A outra metade é o diabo da honestidade. Nossa! Eu não pretendia blasfemar.

 

Clarice Starling correndo sobre folhas secas num parque estadual da Virgínia a uma hora de sua casa, um local predileto, sem sinal de qualquer outra pes­soa nesse dia de semana de outono, uma folga extremamente necessitada. Corria por um caminho familiar nos morros cobertos de florestas ao lado do rio Shenandoah. O ar era aquecido pelo sol da manhã nos topos, e nos vales fica­va subitamente frio. Algumas vezes o ar era quente em seu rosto e frio nas pernas ao mesmo tempo.

Nesses dias a terra não estava totalmente imóvel debaixo de Starling en­quanto ela andava; parecia mais firme quando corria.

Starling correndo pelo dia claro, clarões luminosos de luz dançando atra­vés das folhas, o caminho pintalgado e em outros lugares listrado com as som­bras dos troncos ao sol baixo da manhã. À sua frente três cervos começaram a correr, duas fêmeas e um macho com chifres grandes, liberando o caminho num salto único de levantar o coração, as caudas brancas erguidas brilhando na semi-escuridão da floresta profunda. Animada, Starling também saltou.

Imóvel como uma figura numa tapeçaria medieval, Hannibal Lecter estava sentado entre as folhas secas no morro acima do rio. Podia ver 150 metros do caminho, o binóculo protegido contra o reflexo com um envoltório de papelão feito em casa. Primeiro viu os cervos saltar e passar por ele subindo o morro, e depois, pela primeira vez em sete anos, viu Clarice Starling inteira.

Abaixo do binóculo seu rosto não mudou de expressão, mas as narinas se abriram inspirando profundamente, como se pudessem captar o cheiro dela a essa distância.

A respiração trouxe-lhe o cheiro de folhas secas com um leve toque de canela, das folhas mofando por baixo, e das sementes da floresta apodrecendo suavemente, um sopro de bolotas de coelho a metros de distância, o almíscar selvagem e profundo de uma pele de esquilo em frangalhos debaixo das fo­lhas, mas não o cheiro de Starling, que ele poderia ter identificado em qual­quer lugar. Viu os cervos saltando à frente, viu-os pulando muito depois de terem sumido da visão dela.

Starling ficou em seu campo de visão por menos de um minuto, correndo com facilidade, sem lutar contra o chão. Uma mochila mínima no alto dos ombros com uma garrafa d’água. Com a luz da manhã por trás borrando sua silhueta como se ela tivesse sido salpicada de pólen. Acompanhando-a, o bi­nóculo do Dr. Lecter captou um clarão de sol sobre a água atrás dela, que o deixou vendo pontos luminosos durante minutos. Ela desapareceu enquanto o caminho se afastava para baixo, e sua nuca foi a última coisa que ele viu, o rabo-de-cavalo balançando como a cauda de um cervo.

O Dr. Lecter continuou imóvel, não fez qualquer tentativa de segui-la. Tinha claramente na cabeça a imagem de Starling correndo. Ela correria em sua mente enquanto ele quisesse. A primeira visão real em sete anos, sem con­tar as fotos nos tablóides, sem contar vislumbres distantes de uma cabeça num carro. Ele se recostou nas folhas com as mãos atrás da cabeça, observando a folhagem rala de um bordo estremecer de encontro ao céu, céu tão escuro que era quase púrpura. Púrpura, púrpura, o ramo de muscardíneas selvagens que ele colhera enquanto subia para esse lugar era púrpura, começando a murchar a partir das frutas gordas, poeirentas, ele comeu várias, espremeu algumas na palma da mão e lambeu o suco como uma criança lamberia a mão escancara­da. Púrpura, púrpura.

Púrpura a berinjela na horta.

Não havia água quente na cabana de caça durante o meio do dia, e a babá de Mischa levava a velha banheira de cobre para a horta junto à cozinha, para que o sol aquecesse o banho da menina de dois anos. Mischa ficava sentada na banhei­ra brilhante, em meio aos legumes sob o sol quente, com borboletas brancas ao redor. A água dava apenas para cobrir as pernas gorduchas, mas seu irmão solene, Hannibal, e o grande cachorro, recebiam ordens estritas de vigiá-la enquanto a babá entrava para pegar uma manta.

Para alguns dos serviçais Hannibal Lecter era uma criança assustadora, assus­tadoramente intensa, que sabia das coisas de um modo sobrenatural, mas não as­sustava a velha babá, que conhecia seu serviço, e não assustava Mischa, que colo­cava as mãos de bebê em forma de estrela na bochecha dele e ria para seu rosto. Mischa estendeu a mão para além dele, em direção à berinjela, que a menina adorava olhar ao sol. Seus olhos não eram castanhos como os do irmão Hannibal, e sim azuis, e enquanto olhavam para a berinjela, seus olhos pareciam atrair a cor da planta, escurecer com ela. Hannibal Lecter sabia que a cor era a paixão da irmã. Depois de ela ser carregada de volta para dentro edea ajudante de cozinha vir reclamando para virar a água da banheira na horta, Hannibal ajoelhava-se ao lado da fileira de pés de berinjela, a superfície das bolhas de sabão do banho cheias de reflexospurpúreos e verdes, até explodirem no chão coberto de ladrilhos. Pegava seu pequeno canivete e cortava a haste de uma berinjela, lustrava-a com o lenço, sentindo o legume quente do sol nos braços, quente como um animal, até o quarto de Mischa e colocava onde ela poderia ver. Mischa adorava o púrpura es­curo, adorava a cor aubergine enquanto viveu.

Hannibal Lecter fechou os olhos para ver de novo os cervos saltando na frente de Starling, para vê-la saltando pelo caminho, traçada em ouro com o sol por trás, mas este era o cervo errado, era o pequeno cervo com a flecha, esforçando-se, esforçando-se contra a corda amarrada no pescoço enquanto os homens o guiavam até o machado, o pequeno cervo que eles comeram antes de comer Mischa. E não conseguiu mais ficar imóvel e se levantou, as mãos e a boca manchadas das moscardíneas purpúreas, a boca curvada para baixo como uma máscara grega. Procurou Starling lá embaixo no caminho. Respirou fun­do pelo nariz e captou o cheiro limpo da floresta. Olhou para o lugar onde Starling havia desaparecido. O caminho dela parecia mais luminoso do que a floresta ao redor, como se ela tivesse deixado um lugar brilhante para trás.

Subiu rapidamente até o cume da encosta e desceu pelo outro lado, em direção ao estacionamento de um camping próximo, onde deixara sua pick-up. Queria sair do parque antes que Starling voltasse ao automóvel que estava a três quilômetros de distância, no estacionamento principal, perto da cabine do guarda que estava fechada durante a estação.

Seriam pelo menos quinze minutos antes que ela pudesse correr até o carro.


O Dr. Lecter estacionou ao lado do Mustang e deixou o motor ligado. Teve várias oportunidades de examinar o carro dela no estacionamento de uma mercearia perto de onde Starling morava. Foi o adesivo de desconto anual para o Parque Estadual, no pára-brisa do velho Mustang de Starling, que alertou Hannibal Lecter para este lugar, e ele tinha comprado mapas do parque e o explorado à vontade.

O carro estava trancado, rebaixado sobre as rodas largas como se estivesse dormindo. O carro dela o divertia. Era ao mesmo tempo extravagante e terri­velmente eficiente. Na maçaneta cromada, mesmo se curvando para perto, ele não sentiu cheiro algum. Desdobrou uma haste de aço e enfiou-a na porta acima da tranca. Alarme? Sim? Não? Clic. Não.

O Dr. Lecter entrou no carro, no ar que era intensamente Clarice Starling. O volante era grosso e coberto de couro. Tinha a palavra MOMO no centro. Ele olhou para a palavra com a cabeça inclinada como a de um papagaio, e seus lábios formaram as sílabas “MO MO”.

Recostou-se no banco, olhos fechados, respirando, as sobrancelhas levan­tadas, como se estivesse ouvindo um concerto.

Então, parecendo ter vontade própria, a ponta rosada de sua língua apare­ceu, como uma pequena cobra abrindo caminho para sair do rosto. Sem jamais alterar a expressão, como se não tivesse consciência dos próprios movimentos, ele se inclinou para a frente, encontrou pelo cheiro o volante de couro, e colo­cou a língua curva ao redor dele, envolvendo com a língua reentrâncias para os dedos na parte interna do volante. Sentiu o gosto do local lustroso, o ponto das duas horas, onde a palma da mão dela costumava se apoiar. Depois se recostou no banco, a língua de volta para onde morava, e sua boca fechada moveu-se como se ele saboreasse um vinho., Respirou fundo e prendeu o fôlego enquanto saía e trancava o Mustang de Clarice Starling. Não exalou, segurou-a na boca e nos pulmões até que sua velha pick-up estivesse fora do parque.

 

Um velho axioma da ciência do comportamento é que os vampiros são territorialistas, ao passo que os canibais se espalham pelo país.

A existência nômade exercia pouca atração sobre o Dr. Lecter. Seu sucesso em evitar as autoridades devia-se muito à qualidade das identidades falsas e do cuidado que tinha em mantê-las, e em seu acesso imediato ao dinheiro. O movimento aleatório e freqüente nada tinha a ver com isso.

Com duas identidades alternativas estabelecidas há muito, cada uma de­las com crédito excelente, e mais uma terceira para lidar com veículos, ele não teve problemas em montar um ninho confortável nos Estados Unidos uma semana depois de chegar.

Escolhera Maryland, cerca de uma hora de viagem ao sul da fazenda de Mason Verger, a Muskrat Farm, e razoavelmente conveniente para a música e o teatro em Washington e Nova York.

Nada nos negócios visíveis do Dr. Lecter atraía atenção, e cada uma das suas identidades principais teria tido boa chance de sobreviver a uma auditoria padronizada. Depois de visitar um de seus cofres em Miami, ele alugou de um alemão, durante um ano, uma casa agradável e isolada no litoral de Chesapeake. Usando dois telefones num apartamento barato na Filadélfia, que repassavam as ligações diretamente, ele era capaz de obter boas referências sempre que necessárias, sem deixar o conforto de sua casa nova.

Sempre pagando em dinheiro, rapidamente obteve com cambistas in­gressos para a sinfônica e para as apresentações de balé e ópera que lhe inte­ressavam.

Dentre as características desejáveis da casa nova estava uma generosa gara­gem dupla com uma oficina, e boas portas que se abriam verticalmente. Ali o Dr. Lecter estacionava seus dois carros, uma pick-up Chevrolet de seis anos, com uma estrutura tubular e um torno preso à carroceria, que ele comprou de um bombeiro e pintor de paredes, e um seda Jaguar turbinado, para o qual ele fez um leasing numa. empresa de Delaware. A pick-up oferecia uma aparência diferente de um dia para o outro. O equipamento que ele podia colocar na carroceria ou na estrutura tubular incluía uma escada de pintor, tubos, PVC, uma churrasqueira e um tanque de butano.

Com os arranjos domésticos adiantados, ele se deu ao luxo de uma sema­na de musica e museus em Nova York, e mandou catálogos das exposições mais interessantes para seu primo, o grande pintor Balthus, na França.

Na Sothebys em Nova York comprou dois excelentes instrumentos musi­cais, ambos raridades. O primeiro era um cravo flamengo do final do século XVIII, quase idêntico ao Dulkin de 1755 do Smithsonian, com um teclado superior para permitir a execução de Bach. O instrumento era um digno su­cessor do gravicembalo que ele tivera em Florença. A outra compra foi um antigo instrumento eletrônico, um theremin, construído nos anos 30 pelo próprio professor Theremin. Há muito tempo o theremin tinha fascinado o Dr. Lecter. Na infância ele havia construído um. É um instrumento tocado com os gestos das mãos vazias num campo eletrônico. Através do gesto é pos­sível evocar a voz do instrumento.

Agora ele estava totalmente acomodado e podia se divertir...

Depois da manhã passada na floresta o Dr. Lecter voltou para casa, nesse agradável refugio no litoral de Maryland. A visão de Clarice Starling corren­do sobre as folhas caídas no caminho estava bem estabelecida no palácio de memória da sua mente. Para ele é uma fonte de prazer, alcançável em menos de um segundo a partir do saguão. O Dr. Lecter vê Starling correndo, e tal é a qualidade de sua memória visual que ele pode procurar novos detalhes na cena, pode ouvir os cervos de cauda branca, grandes e saudáveis, saltando encosta acima, passando por ele, pode ver os calos nos cotovelos dos animais, um carrapicho de capim no pêlo da barriga do que está mais próximo. Guar­dou essa lembrança numa sala ensolarada do palácio, o mais distante possível do pequeno cervo ferido...

De novo em casa, de novo em casa, a porta da garagem bancando com um zumbido quieto atrás de sua pick-up,

Quando a porta se levantou de novo ao meio-dia, o Jaguar preto saiu, le­vando o doutor vestido para a cidade.

O Dr. Lecter gostava muito de fazer compras. Foi diretamente para a Hammacher Schlemmer, fornecedora de acessórios finos para o lar, esportes e equipamento de culinária, e ali se demorou. Ainda com o clima da floresta, usou uma trena de bolso para verificar as dimensões de três grandes cestos de piquenique, todos de vime laqueado, com tiras de couro costuradas e sólidos fechos de latão. Por fim, escolheu o cesto de tamanho médio, já que só preci­sava levar coisas para uma pessoa.

Dentro do cesto havia uma garrafa térmica, copos, louça forte e talheres de aço inoxidável. O cesto já vinha com os acessórios e você era obrigado a comprá-los. Em paradas sucessivas na Tiffany e na Christofle, o doutor pôde substituir os pesados pratos de piquenique por porcelana francesa Gien pintada com pa­drões campestres, com folhas e pássaros. Na Christofle obteve um conjunto de talheres de prata do século XIX, da sua preferência, em padrão Cardinal, com a marca do fabricante estampada na concha das colheres, e o rabo-de-rato de Paris na parte inferior dos cabos. Os garfos eram bastante curvos, com dentes bem espaçados, e as facas tinham uma empunhadura agradável e comprida. As peças se ajustavam à mão como uma boa pistola de duelo. Em termos de cristais, o doutor ficou em dúvida quanto aos tamanhos para seus copos de aperitivo, e escolheu um ballon chaminé para conhaque, mas quanto aos copos de vinho não havia dúvida. O doutor escolheu Riedel, que comprou em dois tamanhos com bastante espaço para o nariz dentro da borda.

Na Christofle também encontrou um serviço de mesa em Unho branco, e maravilhosos guardanapos de damasco, com uma minúscula rosa de damas­co, como uma gota de sangue, bordada no canto. O Dr. Lecter pensou em se fartar de damasco, e comprou seis guardanapos, para que estivesse sempre equipado, à medida que as peças tivessem de ser lavadas.

Comprou dois bons fogareiros a gás portáteis, de 35 mil BTUs, do tipo que restaurantes usam para cozinhar à mesa, uma exótica frigideira de cobre e uma fait-tout de cobre para preparar molhos, ambas feitas para a Dehillerin de Paris, e dois batedores. Não pôde encontrar facas de cozinha de aço-carbono, que ele preferia ao aço inoxidável, também não conseguiu encontrar algu­mas das facas de uso especial que ele fora forçado a deixar na Itália.

A última parada foi numa empresa de suprimentos médicos, não muito longe do Mercy General Hospital, onde encontrou após barganha uma serra de autópsia Stryker quase nova em folha, que podia ser presa muito bem no cesto de piquenique, no lugar onde antes ficariam as garrafas térmicas. Ainda estava na garantia e vinha com lâminas de uso geral e cranianas, além de uma chave craniana, para praticamente completar sua batterie de cuisine.

As portas duplas do Dr. Lecter estão abertas para o ar límpido da manhã A baía se estende cinza e prata sob a lua e as sombras móveis das nuvens. Ele serviu-se com um copo de vinho de seu novo jogo de cristal e colocou-o sobre um castiçal ao lado do cravo. O buquê do vinho se mistura ao ar salgado, e o Dr. Lecter pode desfrutá-lo sem sequer tirar as mãos do teclado.

Ele já possuiu cravos, virginais e outros antigos instrumentos de teclado. Prefere o som e a sensação do cravo; como não é possível controlar o volume das cordas tangidas por penas, a música chega como uma experiência, súbita e inteira.

O Dr. Lecter olha para o instrumento, abrindo e fechando as mãos. Apro­xima-se do cravo recém-adquirido como se aproximaria de uma bela desco­nhecida usando uma observação leve e interessante — toca uma ária escrita por Henrique VIII, “Verde cresce o azevinho”.

Encorajado, ensaia a “Sonata em si bemol maior” de Mozart. Ele e o cra­vo ainda não são íntimos, mas as respostas do instrumento às suas mãos lhe dizem que em breve os dois irão se unir. A brisa se eleva e as velas dançam, mas os olhos do Dr. Lecter estão fechados para a luz, seu rosto está erguido e ele toca. Bolhas voam da mão de Mischa, em forma de estrela, enquanto ela as solta com acenos na brisa acima da banheira e, quando ele ataca o terceiro movimento, voando leve através da floresta, Clarice Starling corre, corre com o barulho das folhas debaixo dos pés, o barulho do vento alto nas árvores, e os cervos saltam à frente dela, um macho e duas fêmeas, saltando sobre o cami­nho como salta o coração. Subitamente o chão está mais frio, e os homens maltrapilhos empurram o pequeno cervo para fora da floresta, o animal está com uma flecha, esforçando-se contra a corda enrolada no pescoço, os homens empurrando-o, ferido, para não terem de carregá-lo até o machado, e a música pára com um ruído plangente sobre a neve, o Dr. Lecter agarrando as bordas do banco de piano. Ele respira fundo, respira fundo, coloca as mãos no teclado, força uma frase, depois duas, que terminam em silêncio.

Ouvimos brotar dele um grito agudo e crescente que pára tão abrupto quanto a música. Ele fica sentado durante longo tempo com a cabeça inclina­da sobre o teclado. Levanta-se sem qualquer som e sai da sala. Não é possível dizer onde ele está na casa escura. O vento de Chesapeake ganha força, chicoteia as chamas das velas até que elas se apagam, canta através das cordas do cravo no escuro — agora uma música acidental, agora um grito fino de muito tempo atrás.

 

Exposição Regional de Facas e Armas de Fogo, no auditório do Memorial de Guerra. Hectares de mesas, uma planície de armas, principalmente pistolas e fuzis de assalto. Os fachos vermelhos de miras a laser piscam no teto.

Poucos verdadeiros fãs da vida ao ar livre vêm à exposição de armas, por uma questão de gosto. Hoje em dia as armas são pretas, e as exposições de arma são sem graça, sem cor, tão sem alegria quanto a paisagem interna de muitos que as freqüentam.

Olhe para esta multidão: atarracados, forçando as vistas, irritados, gor­dos, de coração resinoso. Eles são o principal perigo contra o direito de um cidadão particular possuir uma arma de fogo.

As armas que preferem são armas de assalto com produção em massa, de construção barata a partir de moldes e destinadas a proporcionar alto poder de fogo para tropas ignorantes e destreinadas.

Em meio às barrigas de cerveja, ao branco frouxo e pastoso dos atiradores que vivem longe do sol, movia-se o Dr. Hannibal Lecter, imperialmente esguio. As armas de fogo não o interessavam. Foi diretamente para o mostruário do principal mercador de facas da exposição.

O nome do mercador é Buck, e ele pesa 160 quilos. Buck tem um monte de espadas de fantasia e cópias de itens medievais e bárbaros, mas tem as melhores facas de verdade, e também cassetetes, e num instante o Dr. Lecter identificou a maioria dos itens que estavam na sua lista, coisas que ele tivera de deixar na Itália.

— Posso ajudá-lo? — Buck tem bochechas amigáveis e uma boca amigá­vel, e olhos malignos.

— Sim. Vou querer aquela Harpia, por favor, e uma Spyderco reta, serrilhada, com lâmina de quatro polegadas, e aquela de esfolar, ali atrás.

Buck juntou o material.

— Quero uma serra boa para caça. Não esta, a boa. Deixe-me ver aquele cassetete de couro chato, o preto... — Dr. Lecter avaliou a curvatura do cabo. — Vou querer este.

— Mais alguma coisa?

— Sim. Gostaria de uma Spyderco Civilian, não estou vendo aqui.

— Não é muita gente que conhece. Eu nunca tenho mais de uma no es­toque.

— Só preciso de uma.

— São duzentos e vinte dólares, posso vendê-la para o senhor por cento e noventa com a caixa.

— Ótimo. O senhor tem facas de cozinha de aço-carbono?

Buck balançou sua cabeça enorme.

— O senhor terá de encontrar isso numa loja de usados. É onde compro as minhas. É possível amolar uma dessas com a parte de baixo de um prato.

— Faça um pacote e estarei de volta para pegá-lo dentro de alguns minutos. Não era comum que pedissem a Buck que fizesse um pacote, e ele o fez com as sobrancelhas erguidas.

Tipicamente, essa exposição de armas não era uma exposição, era um ba­zar. Havia algumas mesas com objetos empoeirados da Segunda Guerra Mundial, que começavam a parecer antiquíssimos. Era possível comprar fuzis M-l, máscaras de gás com o vidro dos óculos craquelado, cantis. Havia os estandes de sempre com objetos nazistas. Era possível comprar um verdadeiro cartucho de gás Zyklon B, se isso fosse de seu gosto.

Não havia praticamente coisa alguma das guerras da Coréia ou do Vietnã, e absolutamente nada da Tempestade no Deserto.

Muitos dos compradores usavam roupa camuflada, como se só estivessem brevemente de volta das frentes de combate para comparecer à exposição de armas, e havia mais roupas camufladas à venda, inclusive a vestimenta com­pleta para um atirador de elite ou um arqueiro caçador que precisasse se es­conder inteiramente.

Uma grande subdivisão da exposição era dedicada ao equipamento para caça com arcos.

O Dr. Lecter estava examinando essa vestimenta quando percebeu uni­formes por perto. Pegou uma luva de arqueiro. Virando-se para segurar a marca do fabricante diante da luz, pôde ver que os dois policiais ao seu lado eram do Departamento de Caça e Pesca da Virgínia, que mantinham um estande de conservação da natureza na exposição.

— Donnie Barber— disse o mais velho dos dois guardas, apontando com o queixo.— Se alguma vez você levá-lo ao tribunal, me avise. Eu adoraria tirar aquele filho da puta da floresta de uma vez por todas. — Os dois estavam observando um homem de cerca de trinta anos na outra extremidade da mostra de arcos. Ele estava de frente para os dois, assistindo a um vídeo. Donnie Barber usava roupa camuflada, a blusa amarrada na cintura. Usava uma camiseta caqui, sem manga, para mostrar as tatuagens, e um boné de beisebol virado ao contrário.

O Dr. Lecter afastou-se devagar dos policiais, olhando para vários objetos expostos. Parou num mostruário de miras a laser para pistolas, a um corredor de distância, e através de uma treliça cheia de coldres pendurados, observou o vídeo que atraía a atenção de Donnie Barber.

Era um vídeo sobre a caça de cervos com arco e flecha.

Aparentemente alguém fora da câmara estava atormentando um cervo ao longo de uma cerca, através de um terreno coberto de mato, enquanto o caça­dor pegava o arco. O caçador estava atento a qualquer som. Sua respiração ficou mais rápida. Ele sussurrou para o microfone.

— O negócio não vai ficar melhor do que está.

O cervo saltou quando a flecha o acertou, e bateu duas vezes na cerca antes de pular por cima do arame e se afastar correndo.

Olhando, Donnie Barber sacudiu-se e rosnou para a flechada.

Agora o caçador do vídeo estava para esfolar o cervo. Começou pelo que ele chamou de “ANNus”,

Donnie Barber parou o vídeo e voltou repetidamente para o momento da flechada, até que o concessionário falou com ele.

— Foda-se, babaca— disse Donnie Barber. — Eu não compraria merda nenhuma de você.

No estande ao lado ele comprou algumas flechas amarelas, de pontas lar­gas e com uma barbatana fina como navalha atravessando a ponta. Havia uma urna de concurso e, com sua compra, Donnie Barber recebeu um cupom. O prêmio era uma licença de dois dias para caçar cervos.

Donnie Barber preencheu seu cupom e enfiou-o na urna. Ficou com a caneta do vendedor enquanto desaparecia com o pacote comprido no meio da multidão de rapazes vestidos com roupas camufladas.

Assim como os olhos de um sapo captam movimento, os olhos do vende­dor percebiam qualquer pausa na multidão que passava. O homem na frente dele agora estava absolutamente imóvel.

— Esta é a sua melhor besta? — perguntou o Dr. Lecter ao vendedor.

— Não. — O homem pegou uma caixa debaixo do balcão. — Esta é a melhor. Gosto mais da recurva do que da composta, se você tiver de carregá-la a tiracolo. Tem um molinete que você pode acionar com uma furadeira elé­trica ou usar no manual. O senhor sabe que não pode usar uma besta para caçar cervos na Virgínia a não ser que seja deficiente? — disse o homem.

— Meu irmão perdeu um braço e está ansioso para matar alguma coisa com o outro — disse o Dr. Lecter.

— Ah, saquei.

Em cinco minutos, o doutor comprou uma besta excelente e duas dúzias de quadrelos, as flechas curtas e grossas usadas com esse tipo de arma.

— Faça um pacote — disse o Dr. Lecter.

— Preencha este cupom e talvez o senhor ganhe uma caça ao cervo. Li­cença de dois dias — disse o vendedor.

O Dr. Lecter preencheu o cupom para o sorteio e enfiou-o na urna. Assim que o vendedor começou a falar com outro cliente, o Dr. Lecter virou-se de novo para ele.

— Irmão! — disse ele. — Esqueci de colocar o número do meu telefone no cupom do sorteio. Posso?

— Claro, vá em frente.

O Dr. Lecter tirou a tampa da urna e pegou os dois cupons de cima. Acres­centou mais uma informação falsa ao seu e olhou longamente para a tira que estava embaixo, piscando uma vez, como uma máquina fotográfica sendo acio­nada.

 

A sala de musculação de Muskrat Farm é toda em preto e cromado high-tech, com um ciclo completo de máquinas Nautilus, pesos avulsos, equipa­mento de aeróbica e um bar de sucos.

Barney praticamente terminara sua sessão, ia esfriando numa bicicleta, quan­do percebeu que não estava sozinho. Margot Verger tirava seus agasalhos no canto. Usava short elástico e uma camiseta curta por cima de um sutiã esportivo, e ago­ra acrescentou um cinturão para levantamento de peso. Barney ouviu ruído de pesos no canto. Ouviu-a respirando enquanto fazia aquecimento.

Barney estava pedalando a bicicleta sem qualquer resistência, enxugando a cabeça com uma toalha, quando ela se aproximou entre duas seqüências.

Margot olhou para os braços dele, olhou para os dela. Eram praticamente iguais.

— Quanto você faz no supino? — perguntou ela.

— Não sei.

— Acho que sabe.

— Uns cento e sessenta e cinco, mais ou menos.

— Cento e sessenta e cinco? Não creio, garotão. Não creio que consiga le­vantar cento e sessenta e cinco no supino.

— Talvez você esteja certa.

— Tenho uma nota de cem dólares que diz que você não consegue levan­tar cento e sessenta e cinco.


— Aposta contra o quê?

— Contra cem dólares, que diabo você pensa? E vou ficar de olho. Barney encarou-a e franziu a testa elástica.

— Certo.

Os dois colocaram as placas. Margot contou as do lado que Barney havia colocado, como se ele pudesse enganá-la. Ele reagiu contando com cuidado elaborado as que Margot havia colocado.

Deitado no banco, agora, com Margot de pé junto à sua cabeça, usando os shorts elásticos. O ponto de junção entre as coxas e o abdome da mulher era cheio de nós como uma moldura barroca, e seu torso maciço parecia chegar quase ao teto.

Barney acomodou-se, sentindo o banco nas costas. As pernas de Margot cheiravam a ungüento frio. As mãos dela pousavam de leve sobre a barra, unhas pintadas de coral, mãos elegantes para ser tão fortes.

— Pronto?

— Sim. — Barney empurrou o peso em direção ao rosto dela, que estava curvada sobre ele.

Não foi muito difícil. Ele pousou o peso no suporte à frente de Margot. Ela tirou o dinheiro da bolsa de ginástica.

— Obrigado — disse Barney.

— Eu faço mais agachamentos do que você — foi só o que ela disse.

— Eu sei.

— Como sabe?

— Eu posso mijar de pé.

A nuca maciça dela ficou ruborizada.

— Eu também.

— Cem pratas? — perguntou Barney.

— Me faça uma vitamina — disse ela.

Havia uma tigela de frutas e nozes no bar. Enquanto Barney preparava vitaminas no liquidificador, Margot pegou duas nozes e quebrou-as na mão.

— Você pode fazer só com uma noz, sem ter outra contra a qual espre­mer? — perguntou Barney. Ele quebrou dois ovos na borda do liquidificador e os jogou dentro.

— Você consegue? — perguntou Margot e entregou-lhe uma noz. A noz estava na mão aberta de Barney.

— Não sei. — Ele limpou o espaço à sua frente sobre o balcão e uma laranja rolou para o lado de Margot. — Opa, desculpe.

Ela pegou-a no chão e recolocou na tigela.

O punho grande de Barney fechou-se. Os olhos de Margot foram do pu­nho dele para o rosto, depois para um e para outro, enquanto o pescoço dele ficava encordoado com a força, o rosto vermelho. Ele começou a tremer, de seu punho saiu um som fraco, estalado. Margot ficou perplexa, ele moveu o punho trêmulo para cima do liquidificador e o barulho ficou mais alto. Uma gema e uma clara de ovo caíram no liquidificador. Barney ligou o aparelho e lambeu as pontas dos dedos. Margot riu, mesmo sem querer.

Barney colocou as vitaminas em copos. Vistos da outra extremidade da sala, eles poderiam ser praticantes de luta-livre ou halterofilistas de duas divi­sões diferentes.

— Parece que você precisa fazer tudo que os homens fazem, não é? — perguntou ele.

— Não algumas das coisas idiotas.

— Gostaria de entrar para o Clube do Bolinha? O sorriso de Margot desapareceu.

— Não me venha com piadinhas machistas para cima de mim, Barney. Ele balançou a cabeça enorme.

— Me desafie.

 

Na casa de Hannibal os arranjos de objetos cresciam, enquanto dia após dia Clarice Starling tateava, abrindo caminho pelos corredores do gosto do Dr. Lecter: Rachel DuBerry era um pouco mais velha do que Dr. Lecter, e o conhece­ra quando atuava como patrona da Sinfônica de Baltimore. Era muito boni­ta, como Starling podia ver nas fotos da Vogue da época. Isso ocorreu dois maridos ricos atrás. Agora ela era a Sra. Franz Rozencranz, da Tecelagem Rozencranz. Sua secretária social completou a ligação.

— Agora simplesmente mando o dinheiro para a orquestra, minha cara. Estamos muito distantes para que eu me envolva ativamente — disse a Starling a Sra. Rozencranz, née DuBerry. — Se é alguma questão sobre impostos, pos­so lhe dar o número de nossos contadores.

— Sra. Rozencranz, quando participava da comissão da filarmônica e da Westover School, a senhora conheceu o Dr. Hannibal Lecter.

Um silêncio considerável.

— Sra. Rozencranz?

— Acho melhor eu pegar o seu número e ligar para você de volta através da mesa telefônica do FBI.

— Sem dúvida.

Quando a conversa foi retomada:

— Sim, conheci Hannibal Lecter socialmente há anos, e desde então a imprensa acampou na minha porta. Ele era um homem extraordinariamente encantador, absolutamente singular. Do tipo que deixava uma garota arrepi­ando, se é que sabe o que quero dizer. Levei anos para acreditar no outro lado dele.

— Alguma vez ele lhe deu algum presente, Sra. Rozencranz?

— Em geral eu recebia um bilhete no aniversário, mesmo depois de ele estar sob custódia. Alguma vezes um presente, antes de ficar incomunicável. Ele dá os presentes mais exóticos.

— E o Dr. Lecter deu o famoso jantar de aniversário para a senhora. Com os anos dos vinhos combinando com sua data de nascimento.

— Sim — disse ela. — Susie disse que foi a festa mais notável desde o Baile Preto e Branco de Truman Capote.

— Sra. Rozencranz, se tiver notícias dele, poderia por favor ligar para o número do FBI que vou lhe dar? Outra coisa que gostaria de lhe perguntar é se tem alguma data que seja especial para o Dr. Lecter. E também preciso pedir sua data de nascimento.

Um gelo distinto ao telefone.

— Imagino que esta informação lhe seja facilmente disponível.

— Sim, senhora, mas há algumas incoerências entre as datas de seu segu­ro social, sua certidão de nascimento e sua carteira de motorista. Na verdade, nenhuma delas é igual à outra. Desculpe, mas nós estamos rastreando enco­mendas de mercadorias de alto nível com relação aos aniversários dos notóri­os conhecidos do Dr. Lecter.

— “Notórios conhecidos”. Agora eu sou uma “notória conhecida”, que termo medonho. — A Sra. Rozencranz deu um risinho. Ela era de uma gera­ção de coquetéis e cigarro, e tinha voz profunda.

— Agente Starling, quantos anos tem?

— Trinta e dois, Sra. Rozencranz. Farei trinta e três dois dias antes do Natal.

— Só direi, com toda a gentileza, que espero que você tenha uns dois “notórios conhecidos” na sua vida. Eles realmente ajudam a passar o tempo.

— Sim, madame, e a sua data de nascimento?

A Sra. Rozencranz finalmente deu a informação correta, caracterizando-a como “a data com a qual o Dr. Lecter é familiarizado”.

— Se é que posso perguntar, senhora, eu posso entender a mudança no ano, mas por que no mês e no dia?

— Eu queria ser de Virgem, combina melhor com o Sr. Rozencranz. Na época estávamos namorando.

As pessoas que o Dr. Lecter conhecera enquanto morava numa jaula viam-no de um modo um tanto diferente:

Starling resgatara Catherine, filha da ex-senadora Ruth Martin, do porão infernal da casa do assassino serial Jame Gumb. E, se não tivesse sido derrota­da na eleição seguinte, a senadora Martin poderia ter feito muito por Starling. Foi calorosa com ela ao telefone, deu-lhe notícias de Catherine, e quis saber notícias dela.

— Você nunca me pediu nada, Starling. Se algum dia quiser um emprego...

— Obrigada, senadora Martin.

— E quanto àquele desgraçado do Lecter, não, eu teria notificado ao Bureau, claro, se tivesse ouvido falar dele. E colocarei o seu número aqui, perto do tele­fone. Charlsie sabe como cuidar da correspondência. Espero não ter notícias dele. A última coisa que aquele sacana falou para mim em Memphis foi “eu adoro a sua roupa”. Ele fez a coisa mais cruel que alguém já me fez, sabe o que foi?

— Sei que ele atormentou a senhora.

— Quando Catherine estava desaparecida, quando estávamos desespera­dos e ele disse que possuía informações sobre Jame Gumb. Eu estava implo­rando e ele me perguntou, ele olhou no meu rosto com aqueles olhos de co­bra e perguntou se eu havia amamentado Catherine. Queria saber se eu havia amamentado com meus seios. Eu disse que sim. E então ele disse: “trabalho de dar sede, não é?” Aquilo simplesmente trouxe tudo de volta, eu segurando-a quando ela era bebê, com sede, esperando que ela ficasse cheia, aquilo me rasgando mais do que qualquer coisa que eu já tivesse sentido, e ele simples­mente sugou minha dor.

— De que tipo era, senadora Martin?

— De que tipo... perdão?

— Que tipo de roupa a senhora estava vestindo, a que agradou ao Dr. Lecter?

— Deixe-me pensar... um conjunto Givenchy azul-marinho, muito bem cortado — disse a senadora Martin, um pouco incomodada com as priorida­des de Starling. — Quando você mandá-lo de novo para a cadeia, venha me ver, Starling, vamos cavalgar um pouco.

— Obrigada, senadora, lembrarei disso.

Dois telefonemas, cada qual abordando um lado do Dr. Lecter, um mos­trava seu encanto, o outro suas escamas. Starling anotou:

Datas dos vinhos combinando com aniversários, coisa que já estava em seu pequeno programa. Fez uma anotação para acrescentar Givenchy à lista de mercadorias caras. Como um ultimo pensamento anotou amamentação ao seio, sem qualquer motivo que pudesse imaginar, e não havia tempo para pensar nisso porque seu telefone vermelho tocava.

— É da Ciência do Comportamento? Estou tentando entrar em contato com Jack Crawford. Aqui é o xerife Dumas, do condado de Clarenton, Virgínia.

— Xerife, sou assistente de Jack Crawford. Ele está no tribunal hoje. Eu posso ajudá-lo. Sou a agente especial Starling.

— Preciso falar com Jack Crawford. Temos um sujeito no necrotério que foi cortado para ser comido, estou falando com o departamento certo?

— Sim, senhor. Aqui é a comi... Sim, senhor, sem dúvida. Se me disser exatamente onde está, vou para aí e alertarei o Sr. Crawford assim que ele termi­nar o testemunho.

O Mustang de Starling queimou pneu suficiente em segunda marcha para fazer o fuzileiro naval que montava guarda em Quantico franzir a testa para ela, balançar o dedo e se controlar para não rir.

 

O necrotério do condado de Clarenton, no norte da Virgínia, fica ligado ao hospital através de um corredor curto com exaustor no teto e largas portas duplas em cada extremidade, para facilitar o acesso dos mortos. Um policial do xerife estava parado diante dessas portas para impedir a entrada dos cinco repórteres e cinegrafistas que se apinhavam em volta.

Atrás dos repórteres, Starling ficou na ponta dos pés e levantou o distinti­vo bem alto. Quando o policial viu e confirmou com a cabeça, ela mergulhou através do grupo. Flashes espocaram e uma luz para filmagem se acendeu atrás dela.

Silêncio na sala de autópsia, apenas o barulho de instrumentos colocados numa bandeja de metal.

O necrotério do condado tem quatro mesas de autópsia, de aço inoxidá­vel, cada qual com sua própria balança e sua pia. Duas das mesas estavam cobertas, os lençóis estranhamente deformados pelos restos que havia por baixo. Uma necropsia de rotina do hospital estava acontecendo na mesa mais próxi­ma das janelas. O patologista e sua assistente faziam algo delicado e não er­gueram a cabeça quando Starling entrou.

O guincho fino de uma serra elétrica preencheu a sala, e num instante o patologista colocou cuidadosamente de lado o tampo de um crânio, levantou um cérebro nas mãos em concha e em seguida colocou-o na balança. Ele sus­surrou o peso para o microfone que usava, examinou o órgão no prato da balança, cutucou-o com um dedo enluvado. Quando viu Starling por cima do ombro de sua assistente, largou o cérebro na cavidade aberta do peito do cadáver, jogou as luvas de borracha numa lata de lixo como um garoto atiran­do tiras de elástico e rodeou a mesa até ela.

Starling achou meio arrepiante apertar a mão dele.

— Clarice Starling, agente especial do FBI.

— Sou o Dr. Hollingsworth, legista, patologista hospitalar, cozinheiro chefe e lavador de garrafas. — Hollingsworth tinha olhos azuis luminosos, brilhantes como ovos bem descascados. Falou com a assistente sem afastar os olhos de Starling. — Marlene, passe um bip para o xerife e para a UTI cardía­ca e descubra aqueles restos, por favor.

Segundo a experiência de Starling, os legistas costumavam ser inteligen­tes, mas com freqüência eram tolos e incautos na conversa casual e gostavam de contar vantagem. Hollingsworth acompanhou o olhar de Starling.

— Está se perguntando sobre aquele cérebro? Ela assentiu e mostrou as mãos abertas para ele.

— Nós não somos descuidados aqui, agente especial Starling. É um fa­vor que eu faço ao papa-defuntos não colocando o cérebro de volta no crânio. Neste caso eles vão ter o caixão aberto e um velório demorado, e não é possí­vel impedir que o material do cérebro escorra para o travesseiro, por isso en­chemos o crânio com alguma coisa e fechamos de volta, e coloco uma trava em cima das duas orelhas, para que a parte superior do crânio não escorregue. A família recebe o corpo inteiro de volta, todo mundo fica feliz.

— Entendo.

— Diga se entende aquilo. — Atrás de Starling, a assistente do Dr. Hollingsworth havia retirado os lençóis que cobriam as mesas de autópsia.

Starling virou-se e viu tudo numa única imagem que perduraria enquan­to vivesse. Lado a lado, nas mesas de aço inoxidável, estavam um cervo e um homem. Do cervo se projetava uma flecha amarela. A flecha e as galhadas do cervo tinham levantado a cobertura do lençol como se fossem paus de uma barraca.

O homem tinha uma flecha amarela, mais curta e mais grossa, atravessan­do a cabeça de lado a lado, sobre as pontas das orelhas. Ainda usava uma peça de vestuário, um boné de beisebol virado ao contrário, preso à cabeça pela flecha.

Olhando-o, Starling sentiu uma crise absurda de riso, e reprimiu-a tio rápido que poderia parecer perplexidade. A posição semelhante dos dois cor­pos, de lado em vez de na posição anatômica, revelava que tinham sido corta-dos.de modo quase idêntico, o lombo e os rins removidos com precisão e eco­nomia junto com os pequenos filés que ficam abaixo da coluna vertebral.

Os pêlos de cervo sobre aço inoxidável. A cabeça elevada pelas galhadas sobre o bloco de metal que servia de travesseiro, a cabeça virada e o olho bran­co como se tentasse olhar para trás, para a flecha brilhante que o havia mata­do. Deitada de lado sobre o próprio reflexo naquele lugar de ordem obsessiva, a criatura parecia mais selvagem, mais estranha aos homens do que um cervo jamais pareceu na floresta.

Os olhos do homem estavam abertos, um pouco de sangue saía de seus condutos lacrimais como se fosse choro.

— É estranho vê-los juntos — disse o Dr. Hollingsworth. — Os cora­ções pesavam exatamente a mesma coisa. — Ele olhou para Starling e viu que ela estava bem. — Uma diferença no homem é que dá para ver onde as coste­las curtas foram separadas da coluna e os pulmões puxados por trás. Quase parecem asas, não é?

— A Águia Sangrenta — murmurou Starling, depois de pensar um mo­mento.

— Nunca vi isso antes.

— Nem eu — disse Starling.

— Há um termo para isso? De que foi que você chamou?

— Águia Sangrenta. Aparece na literatura em Quantico. É um costume sacrificai nórdico. Cortar através das costelas curtas e puxar os pulmões para fora, amassá-los para fazer com que pareçam asas. Havia um neoviking fazen­do isso em Minnesota nos anos 30.

— Você vê muito disso... não quero dizer disso, mas desse tipo de coisa.

— Algumas vezes sim.

— Está um pouco fora da minha linha. Nós recebemos mais assassinatos comuns... pessoas que levam tiro ou facada... mas quer saber o que acho?

— Gostaria muito, doutor.

— Acho que o homem... o documento de identidade diz que ele se cha­ma Donnie Barber... matou o cervo ilegalmente ontem, um dia antes do iní­cio da temporada; sei que foi então que ele morreu. A flecha combina com o resto de seu equipamento de caça com arco. Ele estava cortando o animal às pressas. Eu não fiz teste de antígeno no sangue nas mãos dele, mas é sangue de cervo. Ele só ia pegar o que os caçadores de cervo chamam de costado, e co­meçou a fazer um serviço às pressas, esse corte pequeno e serrilhado aqui. Em seguida teve uma grande surpresa, esta flecha através da cabeça. Da mesma cor, mas um tipo diferente de flecha. Sem chanfro na parte de trás. Você reco­nhece?

— Parece um quadrelo de besta — disse Starling.

— Uma segunda pessoa, talvez a pessoa com a besta, terminou de retalhar o cervo, fazendo um serviço muito melhor, e depois, por Deus, fez o mesmo com o homem. Olhe com que precisão a pele está refletida aqui, como as incisões são decisivas. Nada é desperdiçado ou perdido. Michael DeBakey não po­deria fazer melhor. Não há qualquer sinal de interferência sexual em qualquer dos dois. Eles simplesmente foram cortados para servir como comida.

Starling tocou os lábios com os nós dos dedos. Por um segundo o patolo­gista pensou que ela estava beijando um amuleto.

— Dr. Hollingsworth, os fígados estavam faltando?

Houve um tempo pequeno antes que ele respondesse, olhando por cima dos óculos.

— O fígado do cervo está faltando. Aparentemente o fígado do Sr. Barber não era grande coisa. Foi parcialmente tirado e examinado, há uma incisão ao longo da veia porta. O fígado tem cirrose e é descolorido. Continua no cor­po, gostaria de ver?

— Não, obrigada. E quanto ao timo?

— A moleja, sim, está faltando nos dois casos. Agente Starling, ninguém disse o nome ainda, disse?

— Não — replicou Starling —, ainda não.

Veio um sopro de ar da porta e um homem esguio e abatido, com paletó de tweed esporte e calça caqui, ficou parado junto à porta.

— Xerife, como vai o Carleton? — perguntou Hollingsworth. — Agen­te Starling, este é o xerife Dumas. O irmão do xerife está lá em cima, na UTI cardíaca.

— Ele está se segurando. Dizem que continua estável, que ele está “pro­tegido”, o que quer que isso signifique. — Em seguida, o xerife gritou para fora. — Entre aqui, Wilburn.

O xerife apertou a mão de Starling e apresentou o outro homem.

— Este é o policial Wilburn Moody, ele é um guarda-caça.

— Xerife, se o senhor quiser ficar perto de seu irmão, nós poderíamos subir — disse Starling.

O xerife Dumas balançou a cabeça.

— Eles só vão me deixar vê-lo daqui a uma hora e meia. Sem ofensa, moça, mas eu mandei chamar Jack Crawford. Ele vem?

— Ele está retido no tribunal, estava no banco de testemunhas quando chegou seu telefonema. Espero que tenhamos notícias dele em breve. Nós realmente apreciamos que o senhor tenha telefonado tão rápido.

— O velho Crawford foi meu professor na Academia Nacional de Polí­cia em Quantico, há milênios. É um sujeito incrível. Se ele mandou você, deve saber o que está fazendo. Quer continuar?

— Por favor, xerife.

O xerife pegou um bloco de anotações no bolso do paletó.

— O indivíduo aqui com uma flecha na cabeça é Donnie Leo Barber, branco, trinta e dois anos, reside num trailer no Trails End Park, em Cameron. Que eu saiba, não tem emprego. Foi expulso da Força Aérea há quatro anos. Tem uma carcaça de avião e aluga o motor com a FAA Já foi mecânico de avião. Já pagou multa por disparar arma de fogo nos limites da cidade, pagou multa por invadir área proibida na última temporada de caça. Admitiu ser culpado de caçar cervos no condado de Summit. Quando foi isso, Wilburn?

— Há duas temporadas ele conseguiu a licença de volta. O sujeito é co­nhecido do departamento. Não se incomoda em procurar a caça depois de atirar. Se ela não cair, ele só espera outra e... uma vez...

— Conte o que você encontrou hoje, Wilburn.

— Bom, eu estava indo pela estrada rural 47, mais ou menos um quilô­metro e meio a oeste da ponte, por volta das sete desta manhã quando o velho Peckman sinalizou para eu parar. Ele estava respirando com dificuldade e se­gurando o peito. Ele só conseguia abrir e fechar a boca e apontar para o mato. Eu andei, há... não mais do que cento e cinqüenta metros na mata fechada, e ali estava esse tal de Barber, esparramado de encontro a uma árvore com uma flecha atravessada na cabeça e aquele cervo ali, também flechado. Eles esta­vam mortos pelo menos desde ontem.

— Ontem de manhã cedo, eu diria, pela temperatura — disse o Dr. Hollingsworth.

— Bom, a temporada só abriu esta manhã— disse o guarda-caça. — Esse tal de Donnie Barber tinha um equipamento de subir em árvore, que ele ain­da não havia montado. Parecia que tinha ido para lá ontem, se preparar para hoje, ou então foi caçar ilegalmente. Não sei por que outro motivo ele levaria o arco, se estava só preparando o lugar. E aí veio esse belo cervo e ele simples­mente não resistiu. Já vi gente fazer isso um monte de vezes. Esse tipo de com­portamento é tão comum quanto rastros de porcos. E aí o outro pegou ele enquanto ele estava cortando o bicho. Não consegui saber nada pelos rastros, caiu uma chuva tão forte que a trilha simplesmente desapareceu...

— Foi por isso que tiramos algumas fotos e retiramos os corpos — disse o xerife Dumas. — O velho Peckman é dono da floresta. Esse tal de Donnie tinha uma licença legítima de caça, para começar hoje e durando dois dias, com a assinatura de Peckman. Peckman sempre vendia uma licença por ano, e ele anunciava, tinha alguns corretores. Donnie também tinha uma carta no bolso de trás, dizendo Parabéns, você ganhou uma licença de caça ao cervo. Es­ses papéis estão molhados, Srta. Starling. Nada contra os seus colegas, mas estou me perguntando se vocês não deveriam fazer a coleta de digitais no seu laboratório. Nas flechas também, o negócio todo estava molhado quando chegamos lá. Tentamos não tocar em nada.

— A senhorita quer levar essas flechas, agente Starling? Como gostaria que eu as tirasse? — perguntou o Dr. Hollingsworth.

— Se o senhor segurá-las com retratores e serrar junto à pele do lado da pena e puxar o resto, eu mando para o meu departamento — disse Starling, abrindo sua maleta.

— Não creio que ele tenha lutado, mas você quer raspas internas das unhas?

— Eu preferiria cortar as unhas para fazer teste de DNA Não preciso de que sejam identificadas por dedo, mas separe as de cada mão, por favor, doutor.

— Vocês podem fazer PCR-STR?

— Eles podem, no laboratório principal. Teremos alguma coisa para o senhor, xerife, em três ou quatro dias.

— Vocês podem identificar aquele sangue de cervo?— perguntou o guar­da Moody.

— Não, só podemos dizer se é sangue animal — disse Starling.

— E se encontrassem a carne de cervo na geladeira de alguém — sugeriu o guarda Moody. — Vocês gostariam de saber se a carne veio daquele cervo, não é? Algumas vezes nós precisamos identificar cervos através do sangue para um processo de carne ilegal. Cada cervo é diferente do outro. A gente não pensa nisso, não é? Nós precisamos mandar o sangue para Portland, Oregon, para o Departamento de Caça e Pesca do Oregon. Eles podem dizer, se a gen­te esperar o suficiente. Eles voltam com um “Este é o cervo número 1”, ou então chamam de “cervo A”, com o número do caso, você sabe, cervos não têm nome. Isso nós sabemos.

Starling gostou do velho rosto de Moody, marcado pelo tempo.

— Vamos chamar este de “cervo fulano de tal”, guarda Moody. É útil saber sobre o Oregon. Talvez tenhamos de fazer alguns negócios com eles, obrigado — disse ela, e sorriu para ele até que ele ruborizou e ficou reme­xendo o chapéu.

Quando ela curvou a cabeça para remexer na bolsa, o Dr. Hollingsworth examinou-a pelo prazer que isso lhe dava. O rosto de Starling se iluminou por um momento, ao falar com o velho Moody. A pinta em sua bochecha parecia pólvora queimada. Ele quis perguntar, mas decidiu não fazê-lo.

— Em que vocês colocaram os papéis, não foi em plástico, não é? — perguntou ela ao xerife.

— Sacos de papel pardo. Um saco de papel pardo nunca estraga muito o material — o xerife esfregou a nuca com a mão e olhou para Starling. — Você sabe por que chamei o seu departamento: porque eu queria Jack Crawford aqui. Fico feliz por você ter vindo, agora que lembro quem você é. Ninguém falou “canibal” do lado de fora desta sala porque a imprensa iria botar a flo­resta abaixo num instante. Eles só sabem que pode ter sido um acidente de caça. Talvez tenham ouvido dizer que um corpo foi mutilado. Eles não sabem que Donnie Barber foi cortado para ser comido. Não há muitos canibais as­sim, agente Starling.

— Não, xerife. Não muitos.

— É um trabalho medonhamente bem-feito.

— Sim, senhor.

— Talvez eu esteja pensando nele porque aparece tanto nos jornais. Você acha que isso parece coisa de Hannibal Lecter?

Starling ficou olhando uma aranha de pernas compridas se esconder no dreno da mesa de autópsia que estava vazia.

— A sexta vítima do Dr. Lecter foi um arqueiro caçador— disse Starling.

— Ele o comeu?

— Aquele, não. Deixou-o pendurado num gancho e com todo tipo de ferimento. Deixou-o parecendo uma ilustração de medicina medieval chama­da Homem Ferido. Ele é interessado em coisas da Idade Média.

O patologista apontou para os pulmões espalhados nas costas de Donnie Barber.

— Você disse que isto era um ritual antigo.

— Creio que sim — disse Starling. — Não sei se o Dr. Lecter fez isso. Se fez, a mutilação não é um fetiche, esse tipo de arranjo não é uma coisa com­pulsiva nele.

— O que é, então?

— É uma extravagância — disse ela, tentando ver se os dissuadia com a palavra exata. — É uma extravagância, e foi isso que o fez ser apanhado na última vez.

 

O laboratório de DNA era novo, cheirava a novo, e o pessoal era mais jovem do que Starling. Era algo com que teria de se acostumar, pensou com um te­mor. Muito em breve ela estaria um ano mais velha.

Uma moça com um crachá onde estava escrito A. BENNING assinou o recebimento das duas flechas que Starling trouxe.

A Benning tivera algumas más experiências em receber material de pro­vas, a julgar por seu alívio evidente quando viu os dois mísseis presos cuida­dosamente com arame encapado à prancha de evidências de Starling.

— Você não vai querer saber o que vejo algumas vezes quando abro essas coisas — disse A Benning. — Você precisa entender que não posso lhe dizer coisa alguma em, digamos, cinco minutos...

— Não — retrucou Starling. — Não há material de referência do Dr. Lecter. Ele escapou há muito tempo e os artefatos foram poluídos, manusea­dos por mais de cem pessoas.

— O tempo do laboratório é valioso demais para examinar cada amos­tra, como, por exemplo, catorze pêlos tirados de um quarto de motel. Se você me trouxer...

— Escute — disse Starling. — Depois fale. Eu pedi que a Questura na Itália me mandasse uma escova de dentes que eles acham que pertencia ao Dr. Lecter. Você pode tirar da escova algumas células epiteliais das bo­chechas. Faça um exame integral e repetições curtas seguidas. Esse quadrelo esteve na chuva, duvido que você consiga muita coisa com ele, mas olhe aqui...

— Desculpe, acho que não entendeu... Starling forçou um sorriso.

— Não se preocupe, A. Benning, nós vamos nos dar bem. Veja, as duas flechas são amarelas. O quadrelo é amarelo porque foi pintado à mão, não foi um trabalho malfeito, mas está meio irregular. Olhe aqui, com que se parece isto debaixo da tinta?

— Talvez um pêlo do pincel?

— Talvez. Mas olhe como é curvo na direção de uma das extremidades e tem um pequeno bulbo na ponta. E se for uma pálpebra?

— Se tiver o folículo...

— Certo.

— Olhe, eu posso fazer o exame... três cores ao mesmo tempo... na mes­ma linha no gel e conseguir para você três áreas de DNA de uma vez. O tribu­nal exige treze áreas, mas dois dias bastarão para saber se é ele.

— A. Benning, eu sabia que você poderia me ajudar.

— Você é Starling. Quer dizer, a agente especial Starling. Eu não queria começar com o pé esquerdo. Vejo um monte de materiais realmente feios que os policiais mandam. Essa reação não tem coisa alguma a ver com você.

— Eu sei.

— Eu pensava que você fosse mais velha. Todas as garotas, as mulheres, sabem a seu respeito, quero dizer, todo mundo sabe, mas você é meio... — A Benning olhou para o outro lado — meio especial para nós. — A. Benning ergueu seu polegarzinho gorducho. — Boa sorte com o Outro. Se não se importa de eu dizer isso.

 

Cordell, o mordomo de Mason Verger, era um homem grande com feições exageradas que poderia ter sido bonito, se tivesse mais animação no rosto. Tinha 37 anos e jamais poderia trabalhar de novo nas empresas de saúde da Suíça, ou ter qualquer emprego lá que o pusesse em contato íntimo com crianças.

Mason pagava a ele um grande salário para se encarregar de sua ala, com a responsabilidade de cuidar dele e alimentá-lo. Descobrira que Cordell era absolutamente confiável e capaz de qualquer coisa. Cordell testemunhara atos de crueldade em vídeo — enquanto Mason entrevistava criancinhas — que teriam levado qualquer outra pessoa à fúria ou às lágrimas.

Hoje Cordell estava um pouco preocupado com a única questão que lhe era sagrada, o dinheiro.

Ele deu sua batida familiar na porta e entrou no quarto de Mason. Estava completamente escuro, a não ser pelo aquário luminoso. A enguia soube que ele estava ali e levantou-se do buraco, esperando.

— Sr. Verger?

Um momento enquanto Mason acordava.

— Preciso mencionar uma coisa. Tenho de fazer um pagamento extra em Baltimore esta semana, para a mesma pessoa de quem falamos antes. Não é nenhum tipo de emergência, mas seria prudente. Aquela criança negra, o Franklin, comeu um pouco de veneno de rato e esteve em condição crítica no início desta semana. Ele está dizendo à madrasta que foi sua sugestão que ele envenenasse o gato para impedir que a polícia o torturasse. Por isso o garoto deu o gato a um vizinho e tomou ele mesmo o veneno de rato.

— Isto é absurdo — disse Mason. — Eu não tive coisa alguma a ver com isso.

— Claro que é absurdo, Sr. Verger.

— Quem está reclamando, a mulher com quem você pega as crianças?

— Ela é uma das pessoas que têm de ser pagas imediatamente.

— Cordell, você não interferiu com o sacaninha, não é? Eles não encon­traram coisa alguma nele no hospital, encontraram? Eu vou descobrir, você sabe.

— Não, senhor. Na sua casa? Nunca, eu juro. O senhor sabe que eu não sou idiota. Adoro meu trabalho.

— Onde está o Franklin?

— No Hospital da Misericórdia de Maryland. Quando ele sair vai para um orfanato. O senhor sabe que a mulher com que ele morava foi expulsa da lista dos lares de adoção por fumar maconha. Ela é uma das que está recla­mando do senhor. Talvez tenhamos de lidar com ela.

— Crioula viciada, não deve ser muito problema.

— Ela não tem com quem ficar. Acho que precisa ser tratada com cuida­do. Com luvas de pelica. A funcionária do serviço social quer que ela feche a boca.

— Vou pensar nisso. Vá em frente e pague a moça do serviço social. — Mil dólares?

— Simplesmente certifique-se de que ela só receba isso.

Deitada no sofá de Mason no escuro, as bochechas rígidas com lágrimas secas, Margot Verger ouvia Cordell e Mason falando. Estivera tentando fazer Mason ser razoável quando ele adormeceu. Obviamente Mason pensava que Margot tinha ido embora. Ela abriu a boca para respirar baixinho, tentando soltar o ar no mesmo ritmo do respirador dele. Uma pulsação de luz cinzenta entrou no quarto quando Cordell saiu. Margot ficou deitada no sofá. Espe­rou quase vinte minutos, até que a bomba se acomodasse no ritmo do sono de Mason, antes de sair do quarto. A enguia viu-a sair, mas Mason não.

 

Margot Verger e Barney vinham passando tempo juntos. Não falavam muito, mas assistiam a jogos de futebol na sala de recreação, Os Simpsons e concertos algumas vezes na TV educativa. E juntos acompanharam Eu, Claudius. Quando o turno de Barney fez com que ele perdesse alguns episódios, os dois enco­mendaram a fita.

Margot gostava de Barney, gostava de sentir-se colega dele. Ele era a única pessoa que ela conhecia e que era legal assim. Barney era muito inteligente, e havia nele uma coisa meio espiritual. Ela gostava disso também.

Margot tivera uma boa formação em ciências humanas, bem como em informática. Barney, autodidata, tinha opiniões que iam do infantil ao pene­trante. Ela era capaz de proporcionar contexto para ele. A educação de Margot era uma planície ampla e aberta, definida pela razão. Mas a planície ficava no topo de sua mentalidade, assim como o mundo da terra plana repousa numa tartaruga.

Margot Verger fez Barney pagar pela piada sobre se agachar para fazer xixi. Ela acreditava que tinha pernas mais fortes do que as dele, e o tempo provou que estava certa. Fingindo dificuldade com pesos menores, ela o atraiu para uma aposta em exercícios de agachamento, e ganhou seus cem dólares de volta. Além disso, usando a vantagem de seu peso menor, venceu-o em flexões com apenas um braço, mas só vencia com o braço direito, já que o esquerdo era mais fraco devido a um ferimento de infância resultante de uma luta com Mason.

Algumas vezes à noite, depois do turno de Barney com Mason, os dois malhavam juntos, ajudando-se. Era uma malhação séria, praticamente em si­lêncio, a não ser pela respiração. Algumas vezes só diziam boa-noite, enquan­to ela pegava a bolsa de ginástica e desaparecia em direção aos alojamentos familiares, fora dos limites para os funcionários.

Nessa noite, ela chegou ao ginásio preto e cromado vindo diretamente do quarto de Mason, com lágrimas nos olhos.

— Ei, ei — disse Barney. — Você está bem?

— É só merda de família, o que é que posso dizer? Estou bem.

Ela malhou feito um demônio, com peso demais, repetições demais. A certa altura, Barney veio e pegou um haltere com ela e balançou a cabeça.

— Você vai acabar distendendo alguma coisa.

Margot ainda estava pedalando numa bicicleta ergométrica quando ele parou e foi para baixo do chuveiro quente da sala de musculação, deixando a água levar o dia comprido pelo ralo abaixo. Era um banheiro comunitário, de academia, com quatro chuveiros no alto e mais alguns extras ao nível da cin­tura e das coxas. Barney gostava de abrir dois ao mesmo tempo e convergir os jorros para seu corpo grande.

Logo estava envolto numa névoa densa que afastava tudo, menos o barulho da água na cabeça. Barney gostava de pensar no chuveiro: nuvens de vapor. As nuvens. Aristófanes. O Dr. Lecter explicando sobre o lagarto mijando em Sócrates. Ocorreu-lhe que, antes de ficar preso sob o martelo implacável da lógica do Dr. Lecter, alguém como Doemling poderia ter feito gato e sapato dele.

Quando ouviu outro chuveiro sendo aberto, prestou pouca atenção e con­tinuou a se esfregar. Outras pessoas usavam a sala, mas principalmente de manhã cedo e no final da tarde. A etiqueta masculina é prestar pouca atenção a outras pessoas que tomem banho num banheiro atlético comunitário, mas Barney imaginou quem seria. Esperou que não fosse Cordell, que lhe dava arrepios. Era raro outra pessoa usar essas instalações à noite. Quem, diabo, seria? Barney virou-se para deixar a água bater na nuca. Nuvens de vapor, frag­mentos da pessoa ao lado aparecem entre os vagalhões como fragmentos de afresco numa parede. Aqui um ombro forte, ali uma perna. Uma mão bonita esfregando um pescoço e um ombro musculosos, unhas cor de coral, era a mão de Margot. Aqueles dedos dos pés tinham unhas pintadas. Aquela era a perna de Margot.

Barney recolocou a cabeça contra o jato pulsante do chuveiro e respirou fundo. Ao lado a figura se virando, esfregando-se de modo metódico. Lavan­do o cabelo agora. Aquela era a barriga chata e ondulada de Margot, os seios pequenos apoiados nos grandes peitorais, mamilos erguidos para o jato d’água, aquela era a virilha de Margot, cheia de nós na junção entre corpo e coxa, e aquela tinha de ser a boceta de Margot, emoldurada num corte estilo mohawk, louro.

Barney respirou o mais fundo que pôde e prendeu o fôlego... podia sentir que estava desenvolvendo um problema. Ela brilhava como um cavalo, bom­beada até o limite pela malhação intensa. À medida que o interesse de Barney ficou mais evidente, ele virou-lhe as costas. Talvez pudesse simplesmente ignorá-la até que ela fosse embora.

A água do chuveiro ao lado se fechou. Mas agora veio a voz dela.

— Ei, Barney, quanto está valendo o jogo dos Patriots?

— Com... com o meu bookmaker você pode conseguir Miami e cinco e meio. — Ele olhou por cima do ombro. Ela estava se enxugando logo além do alcance do chuveiro de Barney. Seu cabelo estava grudado na cabeça. O rosto parecia fresco agora, e as lágrimas haviam sumido. Margot tinha pele excelente.

— Então você vai apostar? — disse ela. — O bolo que estão fazendo na sala de Judy...

Barney não conseguiu prestar atenção ao resto. O corte mohawk de Margot, cravejado de gotas, emoldurava o rosa. O rosto de Barney ficou quente e ele teve uma tremenda ereção. Estava perplexo e perturbado. Aquela sensação gélida veio sobre ele. Jamais sentira atração por homens. Mas, apesar de todos os másculos, Margot certamente não era um homem, e ele gostava dela.

Afinal de contas, que merda era essa de entrar no chuveiro com ele?

Fechou a água e encarou-a, molhado. Sem pensar a respeito, colocou a mão grande no rosto dela.

— Pelo amor de Deus, Margot — falou, com a respiração densa na gar­ganta.

Ela olhou para baixo, para ele.

— Que droga, Barney. Não...

Barney esticou o pescoço e se inclinou para a frente, tentando beijá-la suavemente em qualquer lugar do rosto sem tocá-la com o membro, mas tocou mesmo assim. Enquanto se afastava, ela olhou para baixo, para o fio de líquido cristalino que se esticava entre ele e sua barriga lisa, e acertou-o no peito largo com um antebraço digno de um zagueiro de futebol americano, os pés de Barney perderam o apoio e ele caiu sentado no chão do banheiro.

— Seu escroto de merda— sibilou ela. — Eu devia saber. Veado! Pegue essa coisa e enfie...

Barney se levantou e saiu do chuveiro, vestindo as roupas molhadas, e saiu da sala de musculação sem dizer uma palavra.

O alojamento de Barney ficava num prédio separado da casa, nos antigos estábulos cobertos com telha de ardósia que atualmente eram garagens com apartamentos na parte de cima. Tarde da noite ele estava sentado catando milho no laptop, trabalhando num curso de correspondência pela Internet. Sentiu o chão tremer quando alguém sólido veio subindo a escada.

Uma batida leve na porta. Quando ele abriu, Margot ficou ali parada, usando um suéter e um boné de malha.

— Posso entrar um minuto?

Barney olhou para os pés durante alguns segundos antes de se afastar da porta.

— Barney. Olha, desculpe pelo que aconteceu. Eu meio que entrei em pânico. Quero dizer, eu fiz merda e depois entrei em pânico. Eu estava gos­tando de nós sermos amigos.

— Eu também.

— Eu achava que podíamos ser, você sabe, colegas.

— Margot, qual é! Eu disse que seríamos amigos, mas não sou um eunuco. Você entrou comigo na porra do chuveiro. Você pareceu boa, não posso evitar isso. Você entra no chuveiro nua e eu vejo juntas duas coisas de que realmente gosto.

— Eu e uma boceta — disse Margot. Os dois ficaram surpresos ao rir juntos.

Ela veio e deu-lhe um abraço que poderia ter machucado um homem menos forte.

— Olhe, se eu quisesse um cara, teria de ser você. Mas essa não é a mi­nha. Realmente não é. Não é agora e nunca será.

Barney confirmou com a cabeça.

— Eu sei. É só que o negócio fugiu ao controle. Eles ficaram quietos durante um minuto, abraçados.

— Quer tentar ser amigo? — perguntou ela. Ele pensou durante um minuto.

— É. Mas você vai ter de me ajudar um pouco. O trato é o seguinte: eu vou fazer um tremendo esforço para esquecer o que vi no chuveiro, e você não vai mostrar mais aquilo para mim. E também não me mostre nenhum peito, já que estamos falando nisso. Que tal?

— Eu posso ser um bom colega, Barney. Venha até em casa amanhã. Judy cozinha, eu cozinho.

— É, mas talvez você não cozinhe melhor do que eu.

— Veremos.

 

O Dr. Lecter ergueu uma garrafa de Château Pétrus para a luz. Um dia antes ele a pusera de pé, para o caso de ter algum sedimento. Em seguida, olhou para o relógio e decidiu que estava na hora de abrir o vinho.

Isto era algo que o Dr. Lecter considerava um risco sério, maior do que ele gostava de correr. Não queria ser apressado. Queria desfrutar a cor do vinho numa garrafa de cristal. E se, depois de tirar a rolha cedo demais, ele decidisse que não havia mais o hálito sagrado do vinho para ser perdido na garrafa de cristal? A luz revelou um pouco de sedimento.

Tirou a rolha com cuidado, como se estivesse fazendo trepanação num crânio, e colocou o vinho no instrumento especial para derramar, que usava uma rosca sem fim para inclinar a garrafa pouco a pouco. Que o ar salgado trabalhasse um tempo, e então ele decidiria.

Acendeu um fogo de carvões grandes e serviu-se de uma bebida, Lillet, e um pedaço de laranja sobre gelo, enquanto pensava no fond em que vinha tra­balhando há dias. O Dr. Lecter seguia a orientação inspirada de Alexandre Dumas para fazer seu caldo. Havia apenas três dias, depois de voltar da caça ao cervo, acrescentara à panela do caldo um corvo gordo que vinha se alimentando de frutinhas de junípero. Pequenas penas pretas nadam nas águas calmas da baía. As penas primárias ele guardou para fazer plectros para o seu cravo.

Então o Dr. Lecter esmagou outras frutas de junípero e começou a amas­sar cebolinhas numa panela de cobre. Com um nó cirúrgico bem-feito, amarrou um maço de ervas finas com um barbante de algodão e jogou o caldo por cima, na panela. O filé que o Dr. Lecter levantou da tigela de cerâmica estava escuro do marinado, pingando. Ele o enxugou e virou a extremidade pontuda em sua direção, e o amarrou para tornar o diâmetro constante em toda a ex­tensão da carne. Com o tempo o fogo estava adequado, com uma área bem quente. O filé sibilou sobre a grelha, e uma fumaça azul atravessou o jardim, movendo-se como se acompanhasse a musica nos alto-falantes do Dr. Lecter. Ele estava tocando a comovente composição de Henrique VIII, “Se o verda­deiro amor reinasse”.

Mais tarde naquela noite, com os lábios manchados pelo vermelho Château Pétrus, um pequeno copo de cristal de Château d’Yquem cor de mel sobre o candelabro, o Dr. Lecter toca Bach. Em sua mente Starling corre sobre as fo­lhas. O cervo salta à frente dela e sobe correndo a encosta passando pelo Dr. Lecter, que está sentado imóvel no morro. Correndo, correndo, ele está na “Segunda Variação” das Variações Goldberg, a luz da vela brincando sobre suas mãos móveis — um lampejo na música, um clarão de neve ensangüentada e dentes sujos, dessa vez não mais do que um relâmpago que desaparece com um som distinto, um toe sólido, uma flecha de besta atravessando um crânio — e temos a floresta agradável de novo, a música que flui; e Starling, delineada numa luz polinizada, corre para longe das vistas, seu rabo-de-cavalo balan­çando como a cauda de um cervo e, sem outra interrupção, ele toca o movi­mento até o final, e o silêncio doce em seguida é tão rico quanto o Château d’Yquem.

O Dr. Lecter ergue o copo diante da vela. A chama lampeja por trás como o sol lampejou sobre a água, e o próprio vinho é da cor do sol invertia! sobre a pele de Clarice Starling. O aniversário dela está chegando, refletiu o doutor. Ele se perguntou se ainda havia uma garrafa de Château d’Yquem para o ani­versário dela. Talvez fosse necessário um presente para Clarice Starling, que dentro de três semanas teria vivido tanto quanto Cristo.

 

No momento em que o Dr. Lecter levantou o vinho para a vela, A. Benning, que trabalhava até tarde no laboratório de DNA levantou o último gel para a luz e olhou para as linhas de eletroforese pintalgadas de vermelho, azul e amarelo. A amostra era de células epiteliais da escova de dentes trazida do Palazzo Capponi no malote diplomático italiano.

— Hmmmm hum hum hum — fez ela e ligou para o número de Starling em Quantico.

Eric Pickford atendeu.

— Oi, posso falar com Clarice Starling, por favor?

— Ela já foi embora e eu sou o encarregado. Em que posso ajudá-la?

— Você tem o número do bip dela?

— Ela está no outro telefone. O que é?

— Poderia dizer a ela que é Benning, do laboratório de DNA? Por favor, diga que a escova de dentes e a pálpebra da flecha combinam. É o Dr. Lecter. E peça para ela me telefonar.

— Passe o número da sua extensão. Claro, vou dizer a ela agora. Obrigado. Starling não estava na outra linha. Pickford ligou para Paul Krendler em casa.

Quando Starling não ligou para A Benning no laboratório, a técnica fi­cou um pouco desapontada. A. Benning dedicara um bocado de horas extras. Foi embora muito antes de Pickford ter ligado para Starling em casa.


Mason soube uma hora antes de Starling. Falou brevemente com Paul Krendler, demorando-se, deixando que as respirações chegassem. Sua mente estava muito clara.

— Está na hora de afastar Starling, antes que eles comecem a pensar em agir e a coloquem como isca. É sexta-feira. Você tem o fim de semana. Come­ce a se mexer, Krendler. Dê a dica aos carcamanos sobre o anúncio e tire-a a tempo, está na hora de ela ir. E... Krendler?

— Eu gostaria que nós simplesmente...

— Só faça isso. E quando você receber aquele outro cartão-postal das Caimãs, haverá um número novo escrito debaixo do selo.

— Certo, eu vou... — disse Krendler e ouviu o sinal de linha.

A conversa curta foi estranhamente cansativa para Mason. Finalmente, antes de afundar num sono entrecortado, chamou Cordell e disse:

— Mande buscar os porcos.

 

É mais complicado mover fisicamente um porco semi-selvagem contra a von­tade do que seqüestrar um homem. Os porcos são mais difíceis de segurar do que os homens, e os grandes são mais fortes do que um homem, e não podem ser intimidados com uma arma. Deve-se considerar as presas se você quiser manter a integridade de seu abdome e suas pernas.

Os porcos com presas grandes estripavam instintivamente quando luta­vam com as espécies que andavam de pé, como homens e ursos. Naturalmen­te eles não cortam os tendões da vítima, para impedir seus movimentos, mas podem rapidamente aprender esse comportamento.

Se você precisar manter o animal vivo, não pode atordoá-lo com choque elétrico, já que os porcos tendem à fibrilação coronária fatal.

Cario Deogracias, o mestre dos porcos, tinha a paciência de um crocodi­lo. Ele tinha experimentado sedação com os animais, usando a mesma acepromazina que planejara usar com o Dr. Lecter. Agora sabia exatamente o quanto era necessário para aquietar um porco selvagem de cem quilos, e os intervalos de dosagem que iriam mantê-lo quieto até mesmo por catorze ho­ras sem qualquer efeito colateral duradouro.