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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


HERANÇA DE FOGO / Nora Roberts
HERANÇA DE FOGO / Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

No centro desta obra apaixonante encontramos as irmãs Concannon, mulheres do nosso tempo, que vivem na mágica Irlanda, terra de colinas suaves e lendas antigas.

Herança de Fogo é a história de Maggie Concannon. Talentosa e rebelde, Maggie é uma artista que trabalha o vidro. As suas obras de arte são mais do que apenas objectos belos, são reflexos da sua verdadeira natureza. Até que um dia, Rogan Sweeney, dono de uma das galerias mais sofisticadas de Dublin, descobre o seu trabalho.

Se por um lado Rogan é um profissional e quer fazer dela uma artista conhecida e bem sucedida, por outro o seu coração atraiçoa-o pois está completamente apaixonado por aquela mulher rebelde e explosiva. Apesar de Maggie sentir o mesmo, uma relação entre ambos nunca poderá ser fácil… ou não houvesse um passado negro a assombrar o futuro.

 

 

 

 

 

                                     CAPÍTULO UM

 

Ele estaria no pub, é claro. Onde mais é que se aqueceria um homem esperto numa tarde gélida e ventosa? Em casa é que não seria, diante da própria lareira.

Não, Tom Concannon era um homem esperto, achava Maggie, e não estaria em casa.

O pai dela estaria no pub, no meio dos amigos e de risota. Era um homem que adorava rir, e chorar, assim como fantasiar sonhos im­prováveis. Alguns poderiam chamar-lhe tolo. Mas não a Maggie, isso nunca.

Ao levar a carrinha barulhenta a fazer a curva que ia dar à vila de Kilmihil, não se via vivalma na rua. Não admirava, já que passava bastante da hora de almoço e o dia não convidava a passear, uma vez que o Inverno se precipitava do Atlântico como um cão de caça do Hades gelado. Con­frontada com ele, a costa oeste da Irlanda tremia de frio e sonhava com a Primavera.

Avistou o Fiat desgastado do pai, entre outros veículos que reconhe­cia. Tim O’Malley tinha uma boa clientela naquele dia. Estacionou tão pró­ximo quanto possível da entrada do pub, que estava aninhado numa fila com várias lojas.

Ao descer a rua, o vento fustigava-lhe as costas, obrigando-a a en­colher-se dentro do casaco forrado e a puxar mais para baixo o gorro de lã preta. Uma coloração subia pelas suas faces como um blush. Por baixo do frio sentia-se o cheiro da humidade, como uma terrível ameaça. Ia nevar, pensou a filha do agricultor, antes de anoitecer.

Não se lembrava de uma noite de Janeiro mais agreste, ou de outra que parecesse tão empenhada em soprar a sua rajada gélida sobre o Conda­do de Clare. O pequeno jardim, defronte da loja, pelo qual passava apres­sada, sofrera bastante. O que restava dele fora enegrecido pelo vento e pelo gelo, jazendo agora miseravelmente no chão ensopado.

Ela lamentava por ele, mas as notícias que guardava dentro de si eram tão luminosas, que se perguntava como é que as flores não arrebitavam e floresciam como na Primavera.

No O'Malley's estava bastante quente. Sentiu que a aconchegava as­sim que abriu a porta. Conseguia cheirar a turfa a queimar na lareira, o seu coração vermelho incandescente a brilhar de alegria e o guisado que a mulher do O'Malley, Deirdre, servira ao almoço. E o tabaco, a cerveja, a névoa espessa que a fritura das batatas havia deixado no ar.

Viu primeiro Murphy, sentado a uma das mesas minúsculas, as bo­tas esticadas, ao mesmo tempo que do acordeão irlandês fazia brotar uma melodia que encontrava a doçura da sua voz. Os outros fregueses do pub ouviam, elevando os sonhos além da cerveja e do petisco. A música era triste, como eram as melhores da Irlanda, melancólica e graciosa como os ouvidos de um apaixonado. Era uma canção que carregava o seu nome e que falava sobre o envelhecimento.

Murphy viu-a, sorrindo um pouco. O cabelo negro caiu desalinhado sobre a sobrancelha, obrigando-o a sacudir a cabeça para trás, afastando-o. Tim O'Malley estava atrás do bar, um homem possante, cujo avental lhe dava a volta à cintura mesmo à justa. Tinha um rosto largo e vincado, os olhos desaparecendo entre pregas de carne quando se ria.

Estava a puxar o lustro aos copos. Ao ver Maggie, prosseguiu com a sua tarefa, sabendo que ela faria o mais correcto, esperando para fazer o pedido quando a canção terminasse.

Ela viu David Ryan, dando passas num dos cigarros americanos que o irmão lhe enviava todos os meses de Boston, e a aprumada Sra. Logan, a tricotar com lã cor-de-rosa, marcando com o pé o ritmo da melodia. Estava lá o velho Johnny Conroy, a rir sem dentes, a mão nodosa a segurar a mão também artrítica da sua mulher de cinquenta anos. Estavam sentados jun­tos, como recém-casados, perdidos na canção de Murphy.

A televisão por cima do bar estava sem som, mas a sua imagem bri­lhante e lustrosa mostrava uma telenovela britânica. As pessoas muito ele­gantes e de cabelo lustroso discutiam à volta de uma mesa imensa, ilumina­da por velas com castiçais de prata e fino cristal.

A sua história cintilante estava além, superando a distância de um país deste pequeno pub, com o seu bar gasto e as paredes enegrecidas pelo fumo.

O desdém que Maggie sentia pelas personagens deslumbrantes, exi­bindo-se na sua rica sala, fora célere e automático como um reflexo do joe­lho. Tal como uma súbita ponta de inveja.

Se algum dia fosse assim tão rica, pensava — é claro que, apesar disso, não queria mesmo saber — era certo que saberia o destino a dar à fortuna.

Foi nessa altura que o viu, sentado sozinho a um canto. Não à parte, nada disso. Era uno com a sala, tal como a cadeira em que estava sentado. Um dos braços pousado sobre as costas dessa cadeira, enquanto a outra mão segurava uma chávena que ela sabia conter chá forte traçado com uísque irlandês.

Era um homem imprevisível, cheio de hesitações e mudanças súbitas de humor, mas ela conhecia-o. De todos os homens que conhecera, não amara nenhum de coração tão aberto como amava Tom Concannon.

Não disse nada, caminhou até ele, sentou-se e aninhou a cabeça no seu ombro.

Sentiu emergir o amor que sentia por ele, um fogo que ardia até à medula, e que jamais esmorecia. O braço dele deixou a cadeira e abraçou-a com força. Os lábios tocavam a têmpora dela.

Quando a canção terminou, ela pegou-lhe na mão e beijou-a. — Sa­bia que estavas aqui.

— Como é que sabias que estava a pensar em ti, Maggie, meu amor?

— Talvez estivesse a pensar em ti. — Reclinou-se para sorrir para ele. Era um homem pequeno, mas bem constituído. Como um pequeno tou­ro, descrevia-se assim várias vezes, com uma das suas sonoras gargalhadas. Tinha rugas à volta dos olhos, que se acentuavam ou alisavam quando sor­ria. Tornavam-no, aos olhos de Maggie, ainda mais bonito. Outrora, o seu cabelo fora farto, de um ruivo glorioso. Com o passar do tempo tornara-se mais fino, e o grisalho sobrepusera-se ao fogo, como fumo. Para Maggie, ele era o homem mais maravilhoso do mundo.                

Era o pai dela.

— Pai, — disse ela. — Tenho novidades.

— Pois claro, dá para ver na tua cara.

Pestanejando, tirou-lhe o gorro e o cabelo dela espalhou-se, num ver­melho selvagem, pelos ombros. Ele sempre gostara de os contemplar, de os ver brilhar e crepitar. Ainda se lembrava de quando pegara nela pela primeira vez, o rosto enrugado pela fúria de viver, os punhos minúsculos cerrados e agitados. O cabelo que brilhava como uma moeda nova.

Não ficara desiludido por não ter um filho, tendo-se contentado com a dádiva de uma filha.

— Traz uma bebida à minha menina, Tim.  

— Prefiro um chá, — gritou ela. — Está um frio de rachar. — Agora que estava ali, queria dar-se ao luxo de, aos poucos, dar as novidades, sabo­reando-as. — É por isso que estás aqui a cantar e a beber, Murphy? Quem é que está a aquecer as tuas vacas?

— Elas mesmas, — ripostou ele. — E se este tempo continuar, vou ter mais vitelos na próxima Primavera do que alguma vez pensei, uma vez que o gado faz o mesmo que o resto do mundo numa longa noite de Inverno.

— Oh, sentam-se à lareira com um bom livro, é isso? — Disse Ma­ggie, fazendo a sala explodir em gargalhadas. Não era segredo nenhum, e apenas um ligeiro embaraço para Murphy, já que toda a gente conhecia o seu amor pela leitura.

— Já tentei passar-lhes o gosto pela literatura, mas aquelas vacas preferem ver televisão. — Bateu com o copo vazio. — Vim aqui à procura de paz e sossego, tu estás sempre com aquela fornalha a rugir como um trovão noite e dia. Porque é que não estás em casa, a brincar com o vidro?

— Pai. — Quando Murphy se dirigiu para o bar, Maggie voltou a pegar na mão do pai. — Tinha de te contar primeiro. Sabias que levei umas peças à loja do McGuiness, em Ennis, esta manhã?

— Ai, levaste? — Tirou o cachimbo, batendo com ele. — Devias ter-me dito que lá ias. Fazia-te companhia pelo caminho.

— Quis fazê-lo sozinha.

— Minha pequena eremita, — disse ele, fazendo um dedo escorregar pelo nariz dela abaixo.

— Pai, ele comprou-as. — Os olhos dela, tão verdes quanto os do pai, brilhavam. — Ele comprou quatro, todas as que levei. Pagou-mas logo na altura.

— Não me digas, Maggie, não me digas! — Levantou-se, arrastando-a com ele, fazendo-a girar pela sala. — Ouçam isto, senhoras e senhores. A minha filha, a minha Margaret Mary, vendeu os vidros dela em Ennis.

Seguiu-se um aplauso rápido e espontâneo e uma enxurrada de per­guntas.

— No McGuiness, — disse ela, disparando respostas. — Quatro pe­ças, e ele quer ver mais. Duas jarras, uma taça, e um... acho que se pode chamar à última um pisa-papéis. — Riu-se quando Tim pousou no balcão uísques para ela e para o pai.

— Então, está bem. — Ergueu o copo e fez um brinde. — Ao Tom Concannon, que acreditou em mim.

— Oh, não, Maggie. — O pai dela abanou a cabeça e viam-se-lhe lágrimas nos olhos. — A ti. Tudo graças a ti. — Tilintou o copo e deitou o uísque pela garganta abaixo. — Dá gás a essa caixa que chamas acordeão, Murphy. Quero dançar com a minha filha.

Murphy acedeu com uma giga. Ao som de gritos e bater de palmas, Tom guiou a filha à volta da sala. Deirdre voltou da cozinha, limpando as mãos ao avental. Com o rosto afogueado de cozinhar, puxou o marido para uma dança. Da giga para a dança escocesa, da dança escocesa para hornpipe, Maggie girava de parceiro em parceiro até lhe doerem as pernas.

A medida que mais gente entrava no pub, atraída pela música ou pela ideia de companhia, a notícia era divulgada. Ao cair da noite, toda a gente num raio de vinte quilómetros sabia a novidade.

Ansiara bastante por este tipo de fama. Mantinha o segredo de dese­jar ainda mais.

— Oh, já chega. — Afundou-se na cadeira e bebeu o chá frio. — O meu coração está prestes a explodir.

— Também o meu. De orgulho de ti. — O sorriso do Tom permane­cia cintilante, mas o olhar estava um pouco baço. — Devíamos ir contar à tua mãe, Maggie. E também à tua irmã.

— Conto à Brianna hoje à noite. — Mudou de humor ao ouvir falar na mãe.

— Então, está bem. — Ele debruçou-se, passando a mão pela face dela. — O dia é teu, Maggie Mae, e nada o deve estragar.

— Não, o dia é teu. Nunca teria soprado a primeira bolha de vidro se não fosses tu.

— Então podemos partilhá-lo, só nós dois por uns instantes. — Por um momento, ele sentiu-se abafado, tonto e quente. Pareceu-lhe sentir um pequeno clique atrás dos olhos antes de a sensação passar. Ar, pensou. Pre­cisava de apanhar ar. — Está-me a apetecer dar uma volta de carro. Quero sentir o cheiro do mar, Maggie. Vens comigo?

— Claro que sim. — Levantou-se imediatamente. — Mas lá fora está um gelo e um vento dos diabos. Tens a certeza que queres ir hoje às falé­sias?

— Tenho de lá ir. — Foi buscar o casaco, para depois enrolar um cachecol à volta do pescoço, e virou-se para o pub. Todos os tons escuros e fumarentos pareciam rodopiar, penetrando-lhe nos olhos. Achou, pesaro­samente, que estava um pouco bêbedo. Mas afinal de contas, era dia para isso. — Vamos dar uma festa. Vai ser amanhã à noite. Com boa comida, boa bebida e boa música, para festejar o sucesso da minha filha. Espero que apareçam todos os meus amigos.

Maggie esperou até chegarem lá fora, ao frio. — Uma festa? Pai, já sabes que ela não vai permitir.

— Ainda mando na minha própria casa. — Espetou o queixo, bas­tante parecido com o da filha. — Vamos dar uma festa, Maggie. Eu trato da tua mãe. Queres conduzir?

— Está bem. — Nem sequer valia a pena discutir, já sabia que era assim quando Tom Concannon tomava uma decisão. Estava grata por isso, de outra forma nunca teria viajado para Veneza nem aprendido numa fábrica de vidro. Nunca teria assimilado o que aprendera, e tudo o que sonhara, nem construído o seu próprio estúdio. Ela sabia que a mãe obrigara Tom a pagar miseravelmente tudo o que isso custara. Mas ele mantivera-se firme.

— Conta-me em que é que estás a trabalhar agora.

— Bom, é uma espécie de garrafa. Quero que fique muito alta, mui­to esguia. Afunilada, percebes, de baixo para cima, e depois abre. Mais ou menos como um lírio. E a cor deve ser muito delicada, como o interior de um pêssego.                                                                            

Ela conseguia vê-la, tão nítida como a mão que usava para a des­crever.

— Vês coisas lindas nessa tua cabeça.

— É fácil vê-las. — Lançou-lhe um sorriso. — O mais difícil é tor­ná-las reais.

— Hás-de torná-las reais. — Deu umas palmadinhas na mão dela e caiu no silêncio.

Maggie seguia pela estrada sinuosa e estreita na direcção do mar. Lá longe, para oeste, as nuvens corriam, os seus rastos chicoteados pelo vento e enegrecidas pela tempestade. Retalhos mais límpidos eram en­golidos, depois conseguindo libertar-se brilhando como jóias por entre o peltre.                                          

Viu uma taça, larga e profunda, salpicada por aquelas cores contras­tantes, e começou a imaginá-la na cabeça.

A estrada curvava, depois voltava a endireitar, enquanto ela conduzia a carrinha ruidosa pelas sebes amarelecidas pelo Inverno e de altura supe­rior à de um homem. Nas imediações da vila, à beira da estrada, havia um altar dedicado a Maria. O rosto da Virgem mostrava-se sereno perante o frio, os braços abertos num acolhimento generoso, flores de um plástico aberrante aos seus pés.

Um suspiro do pai fê-la olhar para ele. Pareceu-lhe algo pálido, com olheiras profundas debaixo dos olhos. — Pareces cansado, pai. Tens a certe­za que não queres que te leve a casa?

— Não, não. — Tirou o cachimbo, batendo com ele na palma da mão, ausente. — Quero ver o mar. Vem aí tempestade, Maggie Mae. Vai haver espectáculo nos penhascos em Loop Head.

— Vamos até lá.

Ao deixarem a vila, a estrada voltava a estreitar de forma alarmante, até que ela se viu a tentar passar a carrinha como se fosse algodão pelo bu­raco de uma agulha. Um homem, bastante encolhido do frio, arrastava-se na direcção deles, o cão fiel colado estoicamente aos seus calcanhares. Tanto o homem quanto o cão passaram da estrada para a berma assim que a car­rinha passou, abrandando, a centímetros das botas do homem. Ele acenou para Maggie e para Tom, cumprimentando-os.

— Sabes o que é que estive a pensar, pai?

— O quê?

— Se conseguisse vender mais umas peças... só mais umas... podia comprar outra fornalha. Quero trabalhar com mais cores, percebes. Se con­seguisse construir outra fornalha, podia trabalhar com mais fusões. As de tijolo refractário não são assim tão caras, a sério. Mas ia precisar de mais de duzentas libras.

— Tenho umas poupanças.                                  

— Não, outra vez não. — Nisto mostrara-se firme. — Amo-te por isso, mas desta vez farei tudo sozinha.

Revelando um melindre imediato, franziu o sobrolho fitando o ca­chimbo. — Gostava que me explicasses para que serve um pai, se não para apoiar os seus filhos? Não queres saber de roupas da moda nem de bugi­gangas, por isso se é tijolo refractário que queres, então é isso que vais ter.

— Pois vou, — ripostou ela. — Mas vou ser eu a comprá-lo. Preciso de ser eu a fazer isto. Não é dinheiro que quero. É confiança.

— Já me pagaste dez vezes o que devias. — Ele recostou-se, baixou a janela deixando uma brecha aberta, de forma que o vento assobiava ao passar, ao mesmo tempo que acendia o cachimbo. — Sou um homem rico, Maggie. Tenho duas filhas lindas, cada uma delas uma jóia. E apesar de um homem não precisar de mais nada, tenho uma boa casa e amigos com que posso contar.

Maggie reparou que ele não incluíra a mãe dela nos seus tesouros. — E tenho sempre o pote no final do arco-íris.

— Isso sempre. — Ele voltou a calar-se, a matutar. Passaram por pe­quenas cabanas de pedra, velhas, sem tecto e desertas à beira dos campos cinzentos esverdeados que se prolongavam, intermináveis, de uma beleza impraticável à luz do lusco-fusco. E ali uma igreja, de pé contra o vento que agora soprava implacável, tapada apenas por algumas árvores retorcidas e caducas.

Deveria ser uma paisagem triste e solitária, mas Tom achou-a bela. Não partilhava o amor que Maggie sentia pela solidão, mas quando obser­vava um cenário como este, um encontro de céu baixo e terrenos desertos, sem avistar a presença humana entre os dois, compreendia-a.

Através da brecha da janela que assobiava, conseguia sentir o cheiro do mar. Uma vez, sonhara que o navegava.

Uma vez, sonhara com muitas coisas.

Procurara sempre aquele pote de ouro, e sabia que a culpa por não o encontrar era dele. Desde que nascera que era agricultor, mas nunca o fora por gosto. Agora, perdera tudo, à excepção de alguns hectares de terra, apenas o suficiente para as flores e os vegetais que a filha Brianna cultivava com tanta destreza.

Demasiados esquemas, pensava agora que outro cenário lhe apertava no peito. A sua esposa, Maeve, tinha razão sobre isso. Ele sempre tivera demasiados esquemas, mas nunca revelara o bom senso ou a sorte de fazer com que funcionassem.

Embalados pelo som do tubo de escape, passaram por outro aglome­rado de casas e por um edifício cujo proprietário se gabava de ser o último pub até Nova Iorque. O ânimo do Tom melhorou ao vê-lo, como sempre acontecia.

— Vamos de barco até Nova Iorque, Maggie, beber uma pint? — Dis­se ele, como sempre.

— Eu pago a primeira rodada.

Ele riu-se. Sentiu-se invadir por uma certa ansiedade, quando ela es­tacionou a carrinha no final da estrada, que dava lugar à relva e às pedras e, por fim, ao mar picado pelo vento, que se espraiava até à América.

Saíram para um rugido de vento e água, que esmurrava furiosamente os dentes e os punhos da pedra negra. De braço dado, baloiçaram como bêbedos, depois rindo, começaram a andar.

— É de doidos vir aqui num dia destes.

— Pois, uma doidice pegada. Sente o ar, Maggie! Sente-o. Quer que levantemos voo daqui até à cidade de Dublin. Lembras-te quando fomos a Dublin?

— Vimos um malabarista a atirar ao ar bolas coloridas. Gostei tanto que aprendeste a fazê-lo.

A gargalhada dele explodiu como o próprio mar. — Oh, as maçãs que estraguei.

— Comemos tartes e bebemos cidra durante semanas.

— E eu pensava que podia ganhar uns trocos com a minha nova ha­bilidade e fui até à feira de Galway.

— E gastaste todo o dinheiro que ganhaste em presentes para mim e para a Brianna.

As cores voltaram ao seu rosto, reparou ela, e os olhos já brilhavam. De boa vontade, ela acompanhou-o pela relva até se entregarem às garras do vento. Ali ficaram à beira do poderoso Atlântico, com as suas ondas guerreiras a quebrarem implacáveis na rocha. A água batia, depois afasta­va-se de novo, deixando dezenas de cascatas a escorrer pelas fendas. Lá em cima, as gaivotas piavam e giravam, piavam e giravam, o som ecoando sem destino de encontro ao ribombar das ondas.

A espuma subia bem alto, branca como a neve na base, límpida como cristal nas gotas que flutuavam pelo ar gelado. Hoje nenhum barco cruzava a superfície do mar. As ondas de espuma branca navegavam sozinhas.

Ela perguntava-se se o pai vinha aqui muitas vezes porque a união entre mar e rochas simbolizava o casamento, como uma guerra aos olhos dele. E o casamento dele fora sempre uma batalha, a constante amargura e raiva das amarras da sua mulher para sempre no seu coração e, gradual­mente, oh, tão gradualmente, a desgastá-lo.

— Porque é que ainda estás com ela, pai?

— O quê? — Ele desviou a atenção do mar e do céu.

— Porque é que ainda estás com ela? — Repetiu Maggie. — Eu e a Brie já somos crescidas. Porque é que ficas onde não és feliz?

— Ela é minha mulher, — respondeu, simplesmente.

— Achas que isso é resposta que se dê? — Exigiu ela. — Porque é que tem de ser assim? Não existe amor entre vocês, nem se gostam, já chegou a esse ponto. Ela fez da tua vida um inferno desde que me lembro.

— És demasiado dura com ela. — Também se convencera disto, pensava ele. Por amar a filha tanto, não conseguira evitar o amor incon­dicional que ela sentia por ele. Um amor, que ele sabia, não deixara es­paço algum para compreender as desilusões da mulher que a dera à luz. — O que se passa entre mim e a tua mãe é assunto nosso. Um casamento é algo delicado, Maggie, um equilíbrio entre dois corações e duas expec­tativas. Por vezes, o fardo é demasiado pesado só de um lado e o outro não o consegue aliviar. Vais compreender quando tiveres o teu próprio casamento.

— Nunca me hei-de casar. — Exclamou ela, ríspida, como um voto perante Deus. — Nunca darei a ninguém o direito de me fazer tão infeliz.

— Não digas isso. Não digas. — Ele apertou-a com força, preocupa­do. — Não há nada mais precioso do que o casamento e a família. Nada no mundo.

— Se é assim, como é que pode ser uma prisão?

— Não devia ser. — A fraqueza tomou conta dele outra vez, e de uma só vez, sentiu o frio mesmo até aos ossos. — Não te demos um bom exem­plo, eu e a tua mãe, e lamento por isso. Mais do que possas imaginar. Mas há uma coisa que sei, Maggie, minha menina. Quando amas com todo o teu ser, não te arriscas só a ser infeliz. Arriscas-te a chegar ao céu.

Ela encostou a cara ao casaco do pai, procurando conforto no seu cheiro. Não lhe podia dizer que sabia, há anos que sabia, que ele nunca che­gara ao céu. E que ele nunca teria trancado a porta daquela prisão marital se não fosse por ela.

— Alguma vez a amaste?

— Amei. E foi tão intenso como uma das tuas fornalhas acesas. Foi aí que nasceste, Maggie Mae. Nasceste do fogo, como uma das tuas estatuetas mais finas e arrojadas. Por mais que esse fogo tenha arrefecido, pelo menos uma vez ardeu. Talvez se não tivesse ardido com tanta intensidade, com tanto ardor, o tivéssemos feito durar.

Algo no tom de voz dele a fez erguer de novo o olhar, estudando o rosto dele. — Havia outra pessoa.

Como uma lâmina açucarada, a memória era dolorosa e doce. Tom olhou de novo para o mar, como se conseguisse ver através dele e encon­trar a mulher que perdera. — Sim, houve uma. Mas não estava destinado.

Não era correcto. Deixa-me dizer-te, quando o amor aparece, quando a seta atinge o teu coração, nada o pode parar. Até sangrar se torna um prazer. Por isso, nunca digas nunca, Maggie. Quero para ti o que eu nunca tive.

Ela não lho disse, mas pensou. — Tenho vinte e três anos, pai, e a Brie é um ano mais nova. Sei o que diz a igreja, mas raios me partam se acredito que existe um Deus no céu que tem prazer em castigar um homem a vida toda por um erro.

— Um erro. — Ergueu o sobrolho. Tom enfiou o cachimbo entre os dentes. — O meu casamento não foi um erro, Margaret Mary, e não és tu que o vais dizer agora, nem nunca mais. Tu e a Brie são a prova disso. Um erro... não, um milagre. Já tinha mais de quarenta anos quando tu nasceste, não tinha qualquer intenção de começar uma família. Às vezes penso no que teria sido a minha vida sem vocês duas. Onde é que estaria agora? Um homem à beira dos setenta, sozinho. Sozinho. — Segurou a cara dela com as mãos em concha e fitou-lhe os olhos. — Dou graças a Deus todos os dias por ter encontrado a tua mãe, e que nós dois tenhamos feito algo que vai perdurar. De tudo aquilo que já fiz, e que ainda não fiz, tu e a Brianna são as minhas primeiras e verdadeiras alegrias. Não vamos falar mais de erros e de infelicidade, estás a ouvir?

— Amo-te, pai.

O rosto dele suavizou-se. — Eu sei. Acho que até demais, mas não me posso queixar. — Sentiu-se inundar de novo pela ansiedade, como um ven­to a sussurrar para que se apresse. — Há uma coisa que te quero perguntar, Maggie.

— O que é?      

Ele estudou o rosto dela, os dedos moldando-o como se de repente surgisse uma necessidade de memorizar cada traço — o teimoso queixo pontiagudo, a curva suave da maçã do rosto, os olhos tão verdes e inquietos como o mar que se quebrava lá em baixo.

— És forte, Maggie. Dura e forte, com um coração verdadeiro por baixo do aço. Sabe Deus como és inteligente. Não consigo compreender tudo aquilo que sabes, ou como é que o sabes. És a minha estrela cintilante, Maggie, tal como a Brie é a minha rosa fresca. Quero muito que as duas sigam os vossos sonhos. Quero-o mais do que consigo expressar. E quando os perseguirem, façam-no tanto por mim quanto por vocês.

O ruído do mar ribombava nos ouvidos dele, tal como a luz nos olhos. Por momentos, o rosto de Maggie ficou enevoado e desvaneceu-se.

— O que é? — Alarmada, agarrou-o. Ele ficara cinzento como o céu, e, subitamente, parecia horrivelmente envelhecido. — Estás doente, pai? Deixa-me levar-te para a carrinha.

— Não. — Era vital, por razões que desconhecia, que ficasse ali, apenas ali no extremo mais longínquo do seu país, e terminasse o que começa­ra. — Estou bem. É só uma ligeira pontada.

— Estás gelado. — De facto, o seu corpo duro mais parecia um saco de ossos gelados nas mãos dela.

— Ouve-me. — A voz dele era aguda. — Não deixes que nada te im­peça de ires onde tens de ir, de fazeres o que tens de fazer. Deixa a tua marca no mundo, mas que seja tão profunda que perdure. Mas não...

— Pai! — Uma onda de pânico explodiu dentro dela ao mesmo tem­po que ele, cambaleando, se deixou cair de joelhos. — Oh, Deus, pai, o que se passa? É o teu coração?

Não, não era o coração, pensava ele no meio de uma dor indistinta nebulosa. Conseguia ouvir aquele bater bem forte e rápido nos ouvidos. Mas sentia algo dentro dele que se quebrava, rebentava e se desvanecia.

— Não fiques seca, Maggie. Promete-me. Nunca vais perder o que trazes dentro de ti. Vais tomar conta da tua irmã. E da tua mãe. Promete-me isso.

— Tens de te levantar. — Tentou puxá-lo, afastando o medo. O ri­bombar do mar parecia agora uma tempestade que desabava, um pesadelo de tempestade que os arrastaria da falésia abaixo até às rochas pontiagudas.

— Estás a ouvir, pai? Agora tens de te levantar.

— Promete-me.

— Sim, prometo. Juro perante Deus, vou tomar conta delas, sempre. — Os seus dentes batiam; lágrimas cáusticas já corriam pelo rosto abaixo.

— Preciso de um padre, — arquejou ele.

— Não, não, só precisas de sair deste frio. — Mas ela sabia que, mes­mo ao pronunciá-lo, era mentira. Ele estava a escapar-se-lhe; não importa­va a força com que apertava o seu corpo de encontro ao dela, o que trazia dentro dele estava a escapar-se-lhe. — Não me deixes assim. Não assim. — Desesperada, perscrutou os campos, os caminhos batidos onde as pes­soas haviam caminhado ano após ano, para chegarem ali, onde eles estavam agora. Mas não havia nada, ninguém, por isso desistiu de gritar por ajuda. — Tenta, pai, tenta agora levantar-te. Levo-te a um médico.

Ele pousou a cabeça no ombro dela e suspirou. Agora já não havia dor, apenas dormência. — Maggie, — disse ele. Depois murmurou outro nome, um nome desconhecido, e pronto.

— Não. — Como se o quisesse proteger do vento que já não sentia, colocou os braços com toda a força à volta dele, embalando, embalando, embalando entre soluços.

E o vento trombeteou até ao mar, trazendo consigo as primeiras agu­lhas da chuva gelada.

 

 

                                         CAPÍTULO DOIS

 

O velório de Thomas Concannon seria motivo de conversa durante anos. Havia boa comida e boa música, uma vez que ele planeara a festa de home­nagem à filha. A casa onde passara os últimos anos de vida estava apinhada de gente.

Tom não fora um homem rico, poder-se-ia dizer, mas era um ho­mem cuja fortuna residia nos amigos.

Vieram da vila, e de outras vilas mais além. Das quintas, das lojas e das cabanas. Trouxeram comida, como os vizinhos costumam fazer em ocasiões deste tipo, e a cozinha ficou rapidamente atolada de pão, carnes e bolos. Beberam para celebrar a vida dele e cantaram a sua morte.

As lareiras ardiam bem quentes para afastar a ventania que sacudia as janelas e o desalento do luto.

Mas Maggie tinha a certeza que nunca mais se aqueceria. Sentou-se junto à lareira na salinha arrumada, enquanto as pessoas enchiam a casa ao seu redor. Nas chamas via as falésias, o mar fervilhante — e a si mesma, sozinha, amparando o pai moribundo.

— Maggie.

Alarmada, virou-se e viu Murphy agachado diante dela. Enfiou-lhe nas mãos uma caneca fumegante.                              

— O que é?

— Quase só uísque, com um pouco de chá para aquecer. — Os seus olhos revelavam generosidade e desgosto. — Agora bebe. Linda menina. Não queres comer nada? Fazia-te bem.

— Não consigo, — respondeu ela, mas fez o que lhe pedia e bebeu. Quase podia jurar que sentia cada gota ardente a descer garganta abaixo. — Não o devia ter levado até lá, Murphy. Devia ter reparado que estava doente.

— Isso é um disparate e sabes bem disso. Ele parecia bem e em forma quando saiu do pub. Afinal, tinha estado a dançar, ou não?

A dançar, pensava ela. Dançara com o pai no dia em que ele morreu. Será que, um dia, iria encontrar algum consolo nisso? — Mas se não nos tivéssemos afastado tanto. Tão isolados...

— O médico explicou-te tudo direitinho, Maggie. Não fazia diferença nenhuma. Foi o aneurisma que o matou, e foi piedosamente rápido.

— Sim, foi rápido. — A mão dela tremia, por isso voltou a beber. O tempo que passou depois é que demorou. O horrível tempo em que ela levara o seu corpo para longe do mar, com a respiração ofegante presa na garganta e as mãos geladas no volante.

— Nunca vi um homem tão orgulhoso como ele era de ti. — Murphy hesitou, descendo o olhar para as mãos. — Era como um segundo pai para mim, Maggie.

— Eu sei disso. — Esticou o braço, afastando o cabelo de Murphy do sobrolho. — Ele também sabia.

Então, agora, já era o segundo pai que perdia, pensou Murphy. E pela segunda vez sentia o peso do desgosto e da responsabilidade.

— Gostava que soubesses que se houver alguma coisa, seja o que for que precises, ou a tua família, só tens de me dizer.

— É muito bom ouvir-te dizer isso e saber que és sincero.

Ele voltou a erguer o olhar; os olhos dele, de um azul celta selvagem, encontraram os dela. — Sei que foi difícil quando ele teve de vender o ter­reno. E mais ainda porque fui eu que o comprei.

— Não. — Maggie pousou a caneca ao lado e com as suas mãos agar­rou as dele. — O terreno não era importante para ele.

— A tua mãe...

— Ela até culparia um santo por o comprar, — disse Maggie, brusca­mente. — Apesar de o dinheiro da venda lhe ter colocado comida no prato. Acho que foi mais fácil por teres sido tu. Eu e a Brie não invejamos nem um pedaço de relva teu, essa é que é a verdade, Murphy. — Ela obrigou-se a sorrir para ele, porque ambos precisavam. — Fizeste o que ele não foi capaz e o que simplesmente não quis fazer. Fizeste a terra dar fruto. Nunca mais te quero ouvir falar nesses termos.

Depois, olhou em redor como se tivesse acabado de sair de uma sala vazia para entrar noutra cheia. Alguém estava a tocar flauta e a filha de O'Malley, grávida do primeiro filho, cantava uma melodia suave e sonha­dora. Um murmúrio de risos alegres e livres atravessava a sala. Um bebé chorava. Homens encolhidos aqui e acolá, falando de Tom e do tempo, da égua doente de Jack Marley e do tecto da cabana dos Donovan que pinga­va.

As mulheres também falavam de Tom e do tempo, dos filhos, dos casamentos e dos velórios.

Ela viu uma mulher velha, uma prima idosa e afastada, com sapatos gastos e meias remendadas, que desfiava uma história para um grupo de pessoas mais novas de olhos esbugalhados, enquanto tricotava uma cami­sola.

— Ele adorava ter gente à volta dele, sabes. — Sentia-se o sofrimento, palpitante como uma ferida na sua voz. — Se pudesse, todos os dias enchia a casa. Ficava sempre admirado por eu preferir estar sozinha. — Respirou fundo e esperou que a voz lhe saísse casual. — Alguma vez ouviste falar de alguém chamado Amanda?

— Amanda? — Murphy franziu o sobrolho e pensou. — Não. Porque é que perguntas?

— Por nada. Devo ter percebido mal. — Maggie encolheu os ombros. Por certo que as últimas palavras do seu pai moribundo não seriam o nome de uma mulher estranha. — É melhor ir ajudar a Brie na cozinha. Obrigada pela bebida, Murphy. E pelo resto. — Deu-lhe um beijo e levantou-se.

É claro que não havia uma maneira fácil de atravessar a sala. Tinha de estar sempre a parar, para ouvir palavras de consolo, ou uma breve história sobre o pai, ou, no caso de Tim O'Malley, para ela própria o consolar.

— Jesus, vou ter saudades dele, — disse Tim, limpando as lágrimas impassivelmente. — Nunca um amigo me foi tão querido, nem nunca mais será. Ele brincava com a ideia de abrir um pub dele, sabes. Queria fazer-me concorrência.

— Eu sei. — Ela também sabia que não era uma brincadeira, mas sim outro sonho.

— Ele queria ser poeta, — acrescentou alguém, enquanto Maggie abraçava Tim, dando--lhe palmadinhas nas costas. — Dizia que apenas lhe faltavam as palavras para o ser.

— Tinha o coração de um poeta, — comentou Tim, abatido. — Ti­nha a alma e o coração de um, para ser mais exacto. Sobre esta terra nunca caminhou um homem melhor do que Tom Concannon.                

Maggie conversou com o padre sobre o funeral marcado para a ma­nhã seguinte, e por fim, escapou-se até à cozinha.

Estava tão apinhada quanto o resto da casa, as mulheres ocupadas a servir comida ou a fazê-la. Aqui, os sons e os aromas revelavam vida: cha­leiras a chiar, sopas a ferver, um presunto no forno. As crianças corriam por entre os pés, de forma que as mulheres — com aquela graça maternal com que já parecem ter nascido — as conseguissem contornar ou lhes dessem com a colher de pau, conforme a necessidade o ditasse.

O cãozinho bebé que Tom dera à Brianna no seu último aniversário ressonava satisfeito debaixo da mesa da cozinha. A própria Brianna estava ao fogão, o rosto composto, as mãos competentes. Maggie conseguia ver os sinais de desgosto nos seus olhos quietos e na boca suave, sem sorrir.

— Vou-te servir. — Uma das vizinhas vira Maggie e começava a em­pilhar comida. — E vais comer, senão já sabes.

— Só vim ajudar.

— Ajudas comendo um bocadinho. Há aqui o suficiente para um exército. Sabes que uma vez o teu pai me vendeu um galo. Dizia que era o melhor do condado e que ia deixar as galinhas felizes por muitos anos. Tinha uma maneira de ser, o Tom, que nos fazia acreditar no que dizia, apesar de sabermos que era um disparate. — Empilhava grandes porções de comida no prato ao mesmo tempo que falava, demorando-se a afagar uma criança, desviando-a do caminho sem quebrar o ritmo. — Bom, aca­bou por se revelar uma ave má como tudo, e nunca cantou em toda a sua vida miserável.

Maggie sorriu um pouco e disse o que se esperava dela, apesar de conhecer a história toda. — E o que é que fez ao galo que o pai lhe vendeu, Sra. Mayo?

— Torci-lhe o maldito pescoço e fiz um belo guisado. E dei ao teu pai uma tigela dele, ai pois dei. Ele disse que nunca tinha provado nenhum melhor em toda a vida. — Ela riu-se com satisfação e obrigou Maggie a aceitar o prato.

— E estava mesmo bom?

— A carne era rija e dura como cabedal velho. Mas Tom limpou a tigela toda. Deus o abençoe.

Por isso, Maggie comeu, por não haver mais nada que pudesse fazer a não ser viver e seguir em frente. Ouvia as histórias e contava algumas também. Quando o Sol se pôs, e a cozinha aos poucos foi ficando vazia, sentou-se e pegou no cãozinho ao colo.

— Ele era amado, — comentou Maggie.    

— Pois era. — Brianna permanecia de pé, ao lado do fogão, com um pano na mão e o olhar perdido. Já não havia mais ninguém para alimentar ou cuidar, nada que lhe mantivesse a mente e as mãos ocupadas. O desgosto inundava-lhe o coração como vespas iradas. Para aguentar um pouco mais, começou a arrumar os pratos.

Era esguia, mais parecendo um salgueiro, movendo-se de forma tranquila e controlada. Se tivesse havido dinheiro ou essa possibilidade, ela podia ter sido bailarina. O cabelo, de um dourado rosado e espesso, estava bem apanhado na nuca. Um avental branco cobria-lhe o vestido preto liso.

Em contraste, o cabelo de Maggie era um emaranhado fogoso à volta do seu rosto. Vestia uma saia que se esquecera de passar a ferro e uma ca­misola que precisava de ser remendada.

— O tempo não vai abrir amanhã. — Brianna esquecera-se da louça nas mãos e olhava pela janela para a fúria da noite.

— Não vai, não. Mas as pessoas hão-de vir, mesmo assim, como vie­ram hoje.

— Depois podemos recebê-las aqui. Temos tanta comida. Não sei o que lhe havemos de fazer... — A voz de Brianna quebrou.

— Ela chegou a sair do quarto?

Brianna ficou imóvel por momentos, recomeçando lentamente a em­pilhar os pratos. — Ela não está bem.

— Oh, Deus, isso não. O marido dela morreu e toda a gente que o conhecia esteve aqui hoje. Nem sequer consegue fazer um esforço para pa­recer que se importa.

— É claro que se importa. — A voz de Brianna endureceu. Achava que não conseguia aguentar uma discussão agora, não quando o coração lhe inchava como um tumor no peito. — Ela viveu com ele mais de vinte anos.

— E limitou-se a isso. Porque é que a defendes? Até agora.

A mão de Brianna exercia tamanha força num prato que ela se admi­rou por não se ter partido em dois. A voz dela permanecia perfeitamente calma, perfeitamente razoável. — Não estou a defender ninguém, apenas digo a verdade. Não podemos estar em paz? Pelo menos até o sepultarmos, não podemos estar em paz nesta casa?

— Nunca houve paz nesta casa. — Maeve falou da porta. O seu ros­to não estava devastado pelas lágrimas, mas mostrava-se frio, rígido e im­placável. — Ele assegurava--se disso. É tão certo como estar a fazê-lo agora mesmo. Apesar de estar morto, continua a dificultar-me a vida.

— Não fales dele. — A raiva que Maggie guardara todo o dia escapa­va-se, uma pedra retalhada contra vidro frágil. Levantou-se de rompante da mesa, obrigando o cão a correr à procura de abrigo. — Não te atrevas a falar mal dele.

— Falo como quiser. — Maeve agarrava com força o xaile que vestia, apertando-o bem junto ao pescoço. Era de lã e ela sempre quisera seda. — A única coisa que ele me trouxe foi desgosto enquanto foi vivo. Agora que morreu, ainda me dá mais.

— Não vejo lágrimas nenhumas nos teus olhos, mãe.

— E não vais ver. Não viverei nem morrerei hipócrita, mas hei-de sempre dizer a verdade de Deus. Ele vai para o diabo pelo que me fez hoje. — Os seus olhos, amargos e sofredores, passaram de Maggie para Brianna. — Tal como Deus não lhe há-de perdoar, eu também não o farei.

— Agora também conheces os pensamentos de Deus? — Intimou Maggie. — Será que as tuas leituras do livro de orações e o desfiar do rosário te deram acesso directo ao Senhor?

— Não blasfemes. — As faces de Maeve ficaram vermelhas de raiva. — Não te quero a blasfemar nesta casa.

— Falo como quiser. — Maggie ecoava as palavras da mãe com um sorriso amarelo. — Digo-te até que Tom Concannon não precisava dos teus perdões da treta.

— Basta. — Apesar de ter as entranhas às voltas, Brianna pousou a mão firme sobre o ombro de Maggie. Respirou longa e profundamente para se assegurar que a voz saía calma. — Já te disse, mãe, podes ficar com a casa. Não tens que te preocupar com nada.

— O quê? — Maggie voltou-se para a irmã. — O que é que se passa com a casa?

— Ouviste o que disseram na leitura do testamento, — começou Brianna, mas Maggie abanou a cabeça.

— Não assimilei nada. Conversa de advogado. Nem sequer prestei atenção.

— Deixou-lha a ela. — Ainda trémula, Maeve levantou um dedo e abanou-o em jeito de acusação. — Ele deixou-lhe a casa a ela. Tantos anos de sofrimento e sacrifício e ele até isso me tira.

 

— Ela só vai ficar satisfeita quando souber que tem um tecto firme sobre a cabeça sem ter de fazer nada para o manter, — disse Maggie, quando a mãe saiu do quarto.

Era bem verdade. E Brianna achava que conseguia manter a paz. Já tinha uma vida inteira de experiência. — Fico com a casa e ela pode viver cá. Consigo tratar das duas.

— Santa Brianna, — murmurou Maggie, sem qualquer malícia. — Havemos de tratar disso as duas. — A nova fornalha teria de esperar, pen­sou ela. Desde que McGuiness continuasse a comprar, ganharia o suficiente para manter as duas casas.      

— Andei a pensar... há pouco tempo conversei com o pai e estive a pensar... — Brianna hesitou.

Maggie colocou de lado os seus próprios pensamentos. — Diz lá.

— Precisa de algumas obras, eu sei, e já tenho pouco dinheiro do que a avó me deixou, e também há a hipoteca.

— Eu pago a hipoteca.

— Não, isso não é justo.

— É perfeitamente justo. — Maggie levantou-se para ir buscar o bule de chá. — Ele fê--lo para eu poder ir para Veneza, não foi? Hipotecou a casa e aguentou o veneno que a mãe lhe destilou para cima por causa disso. Gra­ças a ele, tive três anos de aprendizagem. E tenciono pagá-los.

— A casa é minha. — Brianna reafirmou o tom de voz. — E a hipo­teca também.

A irmã revelava um semblante meigo, mas Maggie sabia que Brianna podia ser teimosa como uma mula quando queria. — Bom, podemos dis­cutir sobre isso até à eternidade. Pagamo-la as duas. Já que não me deixas tratar disso por ti, Brie, deixa-me fazê-lo por ele. Preciso de o fazer.

— Haveremos de arranjar uma solução. — Brianna pegou na cháve­na de chá que Maggie lhe servira.

— Diz-me qual é a tua ideia.

— Está bem. — Parecia idiota. Só esperava que não soasse também. — Quero fazer da casa um B e B.

— Um hotel! — Abismada, Maggie ficou imóvel, fitando-a. — Que­res ter hóspedes a pagar para andarem a bisbilhotar por aí? Não vais ter privacidade nenhuma, Brianna, e vais trabalhar de manhã até à noite.

— Gosto de ter gente por perto, — disse Brianna, calmamente. — Nem toda a gente quer ser ermitã como tu. E acho que tenho jeito para dei­xar as pessoas à vontade. Corre--me no sangue. — Espetou o queixo. — O avô era dono de um hotel, não era, e a avó ficou a tomar conta depois dele morrer. Eu também sou capaz.

— Nunca disse que não eras capaz, só que não consigo imaginar por­que o queres fazer. Estranhos a entrar e a sair todos os dias. — Dava-lhe arrepios só de imaginar.

— Só tenho de esperar que apareçam. Os quartos lá de cima preci­sam de uma remodelação, é claro. — Os olhos de Brianna enevoaram-se ao pensar nos detalhes. — Alguma tinta, papel de parede. Um ou dois tapetes novos. E sabe Deus como a canalização precisa de obras. A verdade é que íamos precisar de outra casa de banho, mas acho que o armário lá em cima, ao fundo do corredor, ia servir. Podia arranjar aqui um pequeno aparta­mento junto à cozinha, para a mãe, assim não a iam perturbar. E aumentava um pouco o jardim, colocava um anúncio. Nada de muito grande, estás a ver. Tudo pequeno, com gosto e confortável.                            

— Queres fazê-lo, — murmurou Maggie, vendo uma luz brilhar nos olhos da irmã. — Queres mesmo.

— Quero sim. Quero muito.

— Então, trata disso. — Maggie segurou-lhe nas mãos. — Trata disso, Brie. Remodela os quartos e manda arranjar a canalização. Pendura um anúncio com os preços. Ele haveria de querer que o fizesses.

— Também acho que sim. Riu-se quando lhe falei nisso, daquela for­ma imensa que só ele.

— Sim, tinha uma grande gargalhada.

— Deu-me um beijo e brincou, dizendo que eu era neta de estalaja­deira e que seguia a tradição. Se começasse com uma coisa pequena, podia abrir já este Verão. Os turistas vêm especialmente aos condados ocidentais no Verão, e procuram um lugar confortável e simpático onde passar a noite. Até podia... — Brianna fechou os olhos. — Oh, ouve só esta conversa, para quem vai enterrar o pai amanhã.

— Era isso mesmo que ele gostaria de ouvir. — Maggie conseguiu voltar a sorrir. — Um grande plano como esse, haveria de te incentivar!

— Nós, os Concannons. — Brianna abanou a cabeça. — Somos mui­to bons a engendrar planos.

— Brianna, naquele dia na falésia, ele falou em ti. Disse que eras a rosa dele. Queria que desabrochasses.

E ela fora a sua estrela, pensava Maggie. Iria fazer o que fosse preciso para conseguir brilhar.

 

 

                                   CAPÍTULO TRÊS

 

Ela estava sozinha — como mais gostava. Da porta da cabana observava a chuva a cair nos campos do Murphy Muldoon, a bater furiosamente na relva e nas pedras ao mesmo tempo que o Sol brilhava, esperançoso, tei­mando, atrás dela. Havia a possibilidade de uma dúzia de climas diferentes no céu às camadas, todos breves e instáveis.

Era assim a Irlanda.

Mas, para Margaret Mary Concannon, a chuva era uma coisa boa. Muitas vezes, preferia-a ao golpe quente do Sol e ao brilho límpido de céus azuis sem nuvens. A chuva era uma cortina granulada suave, que a separava do mundo. Mais importante ainda, que mantinha o mundo lá fora, além da vista dos montes e campos e das luzidias vacas malhadas.

Apesar de a quinta, as vedações de pedra e a relva verde além do sal­picado de brincos-de-princesa já não pertencerem a Maggie nem à sua fa­mília, este canto com o pequeno jardim selvagem e húmido ar primaveril era dela.

Verdade seja dita, era filha de um agricultor. Mas ela não era agricul­tora. Nos cinco anos que passaram desde a morte do pai, ela dedicara-se a cuidar do cantinho dela — e da marca que ele lhe pedira para deixar. Talvez ainda não estivesse profunda o suficiente, mas continuava a vender o que fazia, agora em Galway e Cork, bem como em Ennis.

O que tinha, bastava-lhe. Talvez quisesse mais, mas sabia que os de­sejos, por mais profundos e sedutores que fossem, não pagavam as contas. Também sabia que algumas ambições, quando realizadas, traziam um pre­ço elevado.

Se de tempos a tempos ficasse frustrada ou insatisfeita, apenas tinha de se lembrar que estava onde era preciso e a fazer o que optara.

Mas em manhãs como esta, em que a chuva e o Sol guerreavam, pen­sava no pai, e nos sonhos que ele nunca vira realizados.

Ele morrera sem fortuna, sem sucesso e sem a quinta que, há gera­ções, fora cultivada e lavrada pelas mãos dos Concannon.

Ela não se ressentia por a maior parte da sua herança ter sido vendida para pagar impostos e dívidas, bem como as fantasias inflamadas do seu pai. Talvez houvesse uma certa emoção ou desgosto pelos montes e cam­pos em que correra outrora, com a arrogância e inocência da juventude. Mas isso era passado. De facto, ela não queria ter de trabalhar as terras, ou preocupar-se com elas. Ela não nutria o amor pelas coisas que crescem, que fascinava a sua irmã, Brianna. Era verdade, gostava do jardim, com as gran­des flores provocadoras e os aromas que delas emanavam. Mas as flores cresciam, apesar dos seus períodos de negligência.

Tinha a sua casa e tudo para além disso era exterior ao seu domínio, por isso, normalmente, era também exterior à sua mente. Maggie preferia não precisar de ninguém e, certamente, não precisar de nada que não pu­desse ter.

Sabia que a dependência e a ânsia por algo mais do que se tem levava à infelicidade e à insatisfação. Teve sempre o exemplo dos seus pais.

Demorando-se por instantes, passando a porta aberta para debaixo da chuva gelada, inalou o ar, a sua doçura húmida impregnada de Primave­ra, devido aos espinheiros negros em flor, que formavam uma sebe a leste, e às primeiras rosas que lutavam por florir, a oeste. Ela era uma mulher pequena, proporcionada por baixo das calças de ganga largas e da camisa de flanela. Em cima do cabelo pelos ombros, cor de fogo, usava um chapéu mole, tão cinzento quanto a chuva. Por baixo da aba, os seus olhos mostra­vam o verde temperamental e místico do mar.

A chuva molhava-lhe a cara, a curva macia da maçã do rosto e do queixo, a boca ampla e melancólica. Humedecia a tez ruiva e cremosa, unindo as sardas douradas espalhadas na curva do seu nariz.

Bebeu o chá forte do pequeno-almoço numa caneca de vidro dese­nhada por ela e ignorou o telefone que começara a tocar na cozinha. Igno­rar uma chamada era tanto uma política quanto um hábito, particularmen­te quando a sua mente estava concentrada no trabalho. Na sua cabeça uma escultura tomava forma, tão límpida como uma gota de chuva, pensava ela. Pura e macia, o vidro a fundir-se no vidro, bem no seu âmago.

A visão chamava-a. Ignorando o telefone que tocava, debaixo de chu­va, passou para a oficina, penetrando no bramido reconfortante da forna­lha do vidro.

No seu escritório em Dublin, Rogan Sweeney ouvia o telefone a tocar no auscultador e praguejava. Era um homem ocupado, demasiado ocupado para perder tempo com uma artista mal-educada e temperamental que se recusava a atender a chamada incisiva da oportunidade.

Tinha negócios a tratar, telefonemas a devolver, ficheiros para ler, nú­meros a ajustar. O que devia fazer, enquanto o dia ainda começava, era ir até à galeria e verificar a última remessa. As cerâmicas nativas americanas eram, afinal de contas, a menina dos seus olhos, tendo passado meses a escolher a melhor entre as melhores.

É claro que esse era um desafio já conquistado. Esta exposição em particular iria uma vez mais assegurar que a Worldwide era uma galeria internacional de topo. Entretanto, a mulher, a maldita teimosa mulher de Clare, moía-lhe o juízo. Apesar de ainda não a ter encontrado cara a cara, ela e o seu génio ocupavam demasiado a sua cabeça.

A nova remessa iria, é claro, receber tanto do seu talento, energia e tempo quanto fosse necessário. Mas um novo artista, em particular aqueles cujo trabalho captara totalmente a sua imaginação, estimulavam-no a ou­tro nível. A emoção da descoberta era tão vital para Rogan quanto o desen­volvimento cauteloso, o marketing e a venda das obras de um artista.

Ele queria a Concannon, em exclusivo, para as Galerias Worldwide. Tal como na maioria dos seus desejos, todos ponderados de forma razoável, não descansaria até a conseguir.

Fora educado para o sucesso — a terceira geração de mercadores prósperos que descobriram um meio inteligente de transformar pences em libras. O negócio que o avô fundara há sessenta anos florescia sob a sua di­recção — uma vez que Rogan se recusava a aceitar um não como resposta. Costumava atingir os seus objectivos debaixo de suor, charme, tenacidade ou qualquer outro meio que lhe parecesse adequado.

Margaret Mary Concannon e o seu talento desenfreado eram o seu mais recente e mais frustrante objectivo.

Não costumava ser um homem insensato e ficaria chocado e insulta­do por descobrir que era descrito dessa forma por muitas das pessoas que o conheciam. Se exigia horas esquecidas e trabalho duro dos seus funcio­nários, não exigia menos de si. Motivação e dedicação não eram apenas virtudes de Rogan, eram necessidades que haviam sido impregnadas nos seus ossos.

Podia muito bem ter entregado as rédeas da Worldwide a um gestor, vivendo confortavelmente dos lucros. Depois, podia viajar, não a negócios mas por prazer, gozando os frutos da sua herança sem suar a camisa.

Podia tê-lo feito, mas responsabilidade e sede de ambição eram-lhe direitos inatos.

E M. M. Concannon, artista vidreira, ermitã e excêntrica, era a sua obsessão.

Ia levar a cabo mudanças nas Galerias Worldwide, mudanças essas que se iriam reflectir na sua própria visão, celebrando o seu próprio país. M. M. Concannon seria o primeiro passo e raios o partissem se a teimosia dela o faria recuar.

Ela desconhecia — porque se recusava a ouvir, pensava Rogan, ameaçadoramente — que ele tencionava torná-la na primeira estrela irlandesa nativa da Worldwide. No passado, com o pai e o avô no leme, as galerias haviam-se especializado em arte internacional. Rogan não queria limitar a paleta, mas pretendia mudar a ênfase e dar a conhecer ao mundo o melhor da sua terra natal.                                      

Estava disposto a arriscar dinheiro e reputação para consegui-lo.

Se esta primeira artista fosse um êxito, como ele pretendia que acon­tecesse, o investimento estaria coberto, os seus instintos estariam justifica­dos e o seu sonho, uma galeria nova que exibisse obras exclusivamente de artistas irlandeses, tornar-se-ia realidade.

Para começar, queria Margaret Mary Concannon.

Aborrecido consigo mesmo, levantou-se da secretária antiga de carvalho, colocando-se à janela. A cidade espraiava-se diante dele, as ruas largas e as praças verdes, o reflexo prateado do rio e as pontes que o cruzavam.

Lá em baixo, o trânsito movia-se num fluxo contínuo, trabalhadores e turistas aglomerando-se na rua num fluxo colorido banhados pelo Sol. Pareciam muito distantes de si, ao caminharem em magotes ou aos pares. Observava um jovem casal abraçado, uma união casual de braços, o encon­tro dos lábios. Ambos traziam mochilas às costas e expressões de lascivo encanto.

Virou costas, com uma ligeira pontada de inveja.

Não estava habituado a sentir-se inquieto, como agora. Tinha tra­balho à sua espera na secretária, compromissos na agenda, contudo, não deitava mãos a nenhum deles. Desde a infância que se movimentava com o objectivo da educação para uma profissão, de sucesso em sucesso. Tal como se esperava dele. Tal como ele próprio esperava.                  

Perdera os pais havia sete anos, quando o pai sofrera um ataque car­díaco seguido de um acidente contra um poste de electricidade. Ainda se lembrava do terrível pânico, bem como da descrença quase dormente, que se apossara dele durante o voo de Dublin para Londres, para onde os pais haviam viajado em negócios, e do cheiro horrível e esterilizado do hospi­tal.

O pai morrera do impacto. A mãe sobrevivera por mais uma hora. Ambos partiram antes de ele chegar, muito antes de ele conseguir aceitar a realidade. Mas haviam-lhe ensinado muito antes de os perder — sobre a família e o orgulho no património, o amor à arte, o amor aos negócios e como os conjugar.

Aos vinte e seis anos dera por si dono da Worldwide e das suas su­cursais, responsável pelo pessoal, pelas decisões, pela arte confiada nas suas mãos. Durante sete anos trabalhara não só para fazer crescer o negócio, mas para o fazer brilhar. Fora mais do que suficiente para ele.

Esta sensação de incerteza, o dilema em si, sabia que encontrava as suas raízes naquela tarde ventosa de Inverno em que vira o trabalho da Maggie Concannon pela primeira vez.

A primeira peça, vislumbrada durante um chá obrigatório com a avó, iniciara-o nesta odisseia de possuir — não, pensou ele, desconfortável com a palavra. De controlar, corrigiu, queria controlar o destino daquela criação, bem como a carreira da artista. Desde essa tarde, conseguira comprar ape­nas duas peças dela. Uma era tão delicada como sonhar acordado, uma co­luna esguia, muito leve, atravessada por arco-íris luminosos e pouco maior que o alcance da sua mão, desde o pulso até à ponta do dedo.

A segunda, a que poderia admitir em privado o perseguira e enfei­tiçara, era um pesadelo violento, despoletado por uma mente apaixonada, num emaranhado turbulento de vidro. Devia ser assimétrica, pensava ago­ra ao estudar a peça na secretária. Devia ser feia, com a sua guerra selvagem de cores e formas, as gavinhas sôfregas encurvadas e, como garras, projec­tando-se da base bojuda.

Em vez disso, era fascinante e sexual, de forma inquietante. E fê-lo perguntar-se que tipo de mulher conseguiria criar ambas as peças com igual destreza e pujança.                                                                        

Desde que a comprara há pouco mais de dois meses que tentava, sem sucesso, contactar a artista e abordar o mecenato.

Por duas vezes conseguira falar com ela pelo telefone, mas a conversa da parte dela fora breve, roçando a grosseria. Não precisava de mecenas, muito menos de um homem de negócios de Dublin com demasiada edu­cação e pouco sentido de gosto.

Oh, aquilo doera.                                                        

Estava satisfeita, anunciara na sua pronúncia melodiosa do oeste, por criar ao seu próprio ritmo e vender as obras quando e onde lhe aprouvesse. Não via necessidade nos contratos dele, nem queria que ninguém lhe dis­sesse o que era para vender. As obras eram dela, ou não, por isso porque é que ele não voltava para os seus registos, que estava certa ele teria muitos, e a deixava em paz?

Que coisinha insolente, pensara ele, voltando ao ataque. Ali estava ele, a oferecer uma mão amiga, uma mão que inúmeros artistas fariam tudo para ter, e ela queria mordê-la.

Ia deixá-la em paz, desejava Rogan. Deixá-la a criar na obscuridade. Tinha a certeza que nem ele nem a Worldwide precisavam dela.

Mas, que raios, ele queria-a.

Num impulso, pegou no telefone e ligou para a secretária. — Eileen, cancela os meus compromissos durante os próximos dois dias. Vou fazer uma viagem.

Era coisa rara Rogan ter negócios nos condados ocidentais. Lembrava-se de umas férias em família na infância. Normalmente, os pais preferiam viagens a Paris ou Milão, ou uma escapadela ocasional à vivenda que tinham no mediterrâneo francês. Já fizera viagens que combinavam negócios e prazer. Nova Iorque, Londres, Bona, Veneza, Boston. Mas uma vez, quando tinha nove ou dez anos, foram de carro até à zona de Shannon para conhecerem o cenário selvagem e glorioso do oeste. Tinha recordações dispersas, das paisagens estonteantes das Falésias de Mohr, dos panoramas fascinantes e das águas cintilantes como jóias do Lago District, das vilas e do verde inter­minável das quintas.

Era maravilhoso. Mas também era inconveniente. Já se estava a arre­pender da decisão precipitada de fazer a viagem, especialmente porque as indicações que lhe haviam dado numa vila das redondezas o tinham levado a uma estrada inimaginável. O seu Aston Martin portara-se à altura, até mesmo quando a terra se transformara em lama devido à chuva incessante no caminho. O seu humor não se mostrava tão diplomata com as poças de lama quanto o seu carro.

Apenas a teimosia o impediu de voltar para trás. A mulher haveria de ouvir a voz da razão, por Deus. Ia assegurar-se disso. Se queria esconder-se no meio de tojos e pilriteiros, era problema dela. Mas a sua arte era dele. Ou viria a ser.

Seguindo as indicações que lhe haviam dado na estação de correios local, tinha de passar pelo bed-and-breakfast chamado Cabana Espinheiro Negro, com os seus jardins gloriosos e elegantes postigos azuis. Mais à fren­te havia compartimentos de pedra, abrigos para os animais, um celeiro, um telheiro com tecto de chapa onde um homem trabalhava num tractor.

O homem levantou a mão cumprimentando, depois voltou ao traba­lho enquanto Rogan manobrava o carro pela curva apertada. O agricultor era o primeiro sinal de vida, à excepção do gado, que vira desde que deixara a vila.

Como é que alguém sobrevivia neste lugar esquecido por Deus, gos­tava ele de saber. Preferia as ruas e lojas apinhadas de gente de Dublin à chuva incessante e aos campos sem fim, todos os dias da semana. Que se lixasse a paisagem.

Ela escondera-se bem, pensava ele. Mal conseguia ver o portão do jardim e da cabana caiada a branco atrás dele, apesar das sebes transbordantes de alfeneiros e brincos-de-princesa.

Rogan abrandou, apesar de já ir quase a passo de caracol. Havia uma pequena entrada para carros, ocupada por uma carrinha azul desmaia­do um pouco enferrujada. Estacionou o Aston branco vistoso atrás dela e saiu.      

Deu a volta ao portão, andou pelo pequeno carreiro por entre flores fartas e brilhantes, que baloiçavam à chuva. Bateu à porta, pintada de um magenta arrojado, com três pancadas sonantes, depois mais três, até que a impaciência o obrigou a procurar uma janela para espreitar lá para dentro.

Havia uma lareira a crepitar suavemente e uma poltrona bem junto dela. Um sofá curvo tapado por um tecido estampado floral, que oscilava entre os vermelhos, azuis e púrpuras, aninhava-se a um canto. Pensava que se tinha enganado na casa, se não fossem as peças trabalhadas por ela es­palhadas na pequena sala. Estatuetas e garrafas, jarras e taças na vertical, apoiadas ou reclinadas em todas as superfícies livres.

Rogan limpou a humidade da janela e espreitou o candelabro com vários braços colocado mesmo ao meio da lareira. Era feito de um vidro tão límpido, tão puro, que bem podia ser água congelada. Os braços curvavam para cima de forma fluida, a base era uma cascata. Sentiu a ânsia súbita, o clique interno que antecedia a aquisição.

Oh, sim, encontrara-a.

Agora só era preciso que atendesse a maldita porta.

Desistiu de tentar na frente da casa e deu a volta pela relva molhada, até às traseiras da cabana. Mais flores, crescendo livres como ervas dani­nhas. Ou, corrigiu ele, crescendo livres com ervas daninhas. Era óbvio que Miss Concannon não passava muito tempo a tratar dos canteiros.

Havia um alpendre ao lado da porta debaixo do qual estavam empi­lhados pedaços de relva. Uma bicicleta antiga com um pneu vazio estava aí encostada, juntamente com um par de galochas enlameadas até aos torno­zelos.            

Tinha recomeçado a bater à porta quando um som atrás dele o fez virar-se na direcção das sebes. O rumor, constante e baixo, mais parecia o mar. Conseguia ver o fumo a sair da chaminé para o céu carregado.

O edifício tinha várias janelas e, apesar do dia húmido e gelado, algu­mas estavam escancaradas. Não havia dúvidas que era a oficina dela, pen­sou Rogan, caminhando até lá, satisfeito por tê-la encontrado e confiante no resultado do seu encontro.

Bateu à porta e, apesar de não ter qualquer resposta, abriu-a com um empurrão. Teve alguns momentos para assimilar o choque de calor, os chei­ros intensos e a pequena mulher sentada numa grande cadeira de madeira, com um longo tubo entre as mãos.

Lembrou-se de fadas e feitiços.

— Feche a porta, maldito, olhe a corrente de ar.                  

Ele obedeceu automaticamente, irritado pela fúria incisiva da ordem. — Tem as janelas abertas.

— Ventilação. Corrente de ar. Idiota. — Não disse mais nada, nem sequer lhe dispensou um olhar. Encostou a boca ao tubo e soprou.

Ele observou a bolha a formar-se, fascinado como nunca. Um pro­cesso tão simples, pensava, apenas sopro e vidro fundido. Os dedos dela tra­balhavam no tubo, virando-o e voltando a virar, lutando contra a gravidade, usando-a, até ficar satisfeita com a forma.

Nem sequer se lembrava dele enquanto continuava a trabalhar. Afunilou a bolha, utilizando pinças para recortar um pequeno orifício mesmo abaixo da ponta do tubo. Ainda tinha muitos passos a dar, dezenas deles, mas já conseguia ver a peça concluída tão nitidamente como se a segurasse fria e sólida na mão.

Na fornalha, ela empurrava a bolha abaixo da superfície do vidro der­retido que ali se mantinha aquecido, para fazer a segunda camada. De re­gresso à bancada, enrolava a segunda camada num bloco de madeira para arrefecer o vidro e formar a «pele». O tempo todo, o tubo não parava, movi­mentando-se, estável e controlado pelas mãos dela, tal como as fases iniciais do trabalho haviam sido controladas pelo seu sopro.

Repetia o mesmo processo vezes sem conta, com uma paciência ines­gotável, completamente concentrada enquanto Rogan permanecia junto à porta, a observar. Ela utilizava pedaços maiores para dar forma, à medida que os contornos cresciam. Visto que com o passar do tempo ela não disse­ra uma palavra, ele despiu o casaco molhado e esperou.

A sala estava repleta de calor da fornalha. Parecia que as roupas eva­poravam no corpo. De uma forma sublime, isso parecia não a afectar, con­centrada no trabalho, agarrando de vez em quando uma nova ferramenta enquanto uma mão girava constantemente o tubo.

A cadeira onde estava sentada era obviamente artesanal, com um as­sento bem fundo e braços longos, com ganchos presos aqui e acolá para pendurar as ferramentas. À mão tinha baldes cheios de água ou areia ou então cera quente.

Pegou numa ferramenta, que parecia a Rogan um par de pinças gi­gantes pontiagudas, e colocou-as na ponta da jarra que estava a criar. Era como se a atravessassem, o vidro mais parecendo água, mas ela conseguia dar-lhe forma, alongando-o, adelgaçando-o.

Quando se levantou outra vez, ele começou a falar, mas um som emi­tido por ela, uma espécie de rosnar, fê-lo erguer o sobrolho mantendo-se em silêncio.

Tudo bem, pensava ele. Sabia ser paciente. Uma hora, duas horas, o tempo que fosse preciso. Se ela conseguia aguentar aquele calor infernal, então, por Cristo, ele também.

Ela nem sequer deu por nada, de tão imersa que estava. Juntou mais um pedaço, outra camada de vidro fundido, na lateral da jarra que estava a criar. Quando o vidro quente amoleceu a superfície, ela inseriu uma lima bicuda, coberta de cera, no vidro.

Suave, suave.

As chamas faiscavam debaixo da mão dela devido à cera que quei­mava. Agora tinha de trabalhar depressa para a ferramenta não ficar colada ao vidro. A pressão tinha de ser exactamente a correcta para conseguir o efeito pretendido. A superfície interna entrou em contacto com a externa, fundindo-se, criando a forma interior, o oscilar angelical. Vidro dentro do vidro, transparente e fluido.

Ela quase sorria.

Com cuidado, voltou a soprar a forma antes de alisar a base com uma pá. Prendeu a jarra a um pontel quente. Mergulhou a lima num balde de água, passando-a no contorno do gargalo da jarra. Depois, com um golpe de mestre que atordoou Rogan, bateu com a lima de encontro ao tubo de sopro. Com a jarra agora agarrada ao pontel, colocou-a dentro da fornalha para aquecer o rebordo. Passando a jarra para o outro forno para recozer, bateu no pontel com precisão com uma lima para quebrar o selo.

Regulou o tempo e a temperatura, dirigindo-se depois directamente para um pequeno frigorífico.

Era rasteiro ao chão, por isso ela teve de se dobrar. Rogan inclinou a cabeça a observá-la. As calças de ganga largas começavam a ficar justas em vários pontos interessantes. Ela endireitou-se, virando-se e atirando uma das latas de refrigerante que tirara na direcção dele.

Rogan apanhou o míssil por mero instinto antes que lhe batesse no nariz.

— Ainda aí? — Ela abriu a lata e bebeu longamente. — Deve estar a assar dentro desse fato. — Agora que o trabalho lhe saíra da cabeça e que libertara os olhos das muitas visões que lhe proporcionava, estudava-o.

Alto, magro, moreno. Bebeu outra vez. Cabelo com bom corte, tão negro como a asa de um corvo e os olhos tão azuis como o lago Kerry. Era agradável de se ver, pensava ela, batendo com o dedo na lata enquanto se entreolhavam. Ele tinha uma boca bonita, bem esculpida e generosa. Mas ela achava que não a usava com frequência para sorrir. Não com aqueles olhos. Azuis como eram, e atraentes, mostravam-se frios, calculistas e con­fiantes.

Um rosto de feições duras, com bons ossos. Bons ossos, boa cepa, costumava dizer a sua avó. E este, se não estava errada, tinha sangue azul por baixo do osso.

O fato tinha bom corte, provavelmente inglês. A gravata discreta. Conseguia distinguir botões de punho de ouro. E parecia um soldado, do tipo que se enchera de medalhas.

Sorriu para ele, satisfeita por se mostrar simpática agora que o traba­lho correra bem. — Está perdido?

— Não. — O sorriso fazia-a parecer uma fada, daquelas capazes de toda a espécie de magias e travessuras. Ele preferia o sobrolho carregado que ostentara enquanto trabalhava. — Vim de muito longe para falar con­sigo, Miss Concannon. Sou Rogan Sweeney.

O sorriso dela esbateu-se alguns níveis para uma expressão trocista. Sweeney, pensava. O homem que queria controlar o seu trabalho. — O con­vencido. — Ela usava o termo, nada lisonjeiro, para originários de Dublin. — Bom, você é bem teimoso, Sr. Sweeney, essa é que é a verdade. Espero que a condução tenha corrido bem para não perder a viagem.

— A condução foi péssima.

— Que pena.

— Mas não me parece que tenha perdido a viagem. — Apesar de preferir uma chávena de chá forte, abriu a lata de refrigerante. — Tem aqui um conjunto interessante.

Examinou a sala com a fornalha ruidosa, os fornos e bancadas, a salganhada de ferramentas de metal e madeira, as varetas, os tubos e as prate­leiras e armários que ele imaginava conterem os químicos.

— Tenho-me safado bem, como acho que já lhe tinha dito por tele­fone.

— Aquela peça em que estava a trabalhar quando entrei. Era linda. — Aproximou-se de uma mesa apinhada de esboços, lápis, carvão e giz. Pegou no esboço de uma escultura de vidro agora a recozer. Era delicada, fluida.

— Vende os seus esboços?

— Sou uma artista vidreira, Sr. Sweeney, não sou pintora.

Ele disparou um olhar na direcção dela, voltando a pousar o esboço. — Se você assinasse isto, era capaz de conseguir cem libras por ele.

Ela deixou escapar um rosnar de incredulidade e atirou a lata vazia para o caixote do lixo.

— E a peça que acabou agora mesmo? Quanto é que vai pedir por ela?

— E porque é que você tem alguma coisa a ver com isso?

— Talvez a queira comprar.

Ela pensou, sentando-se na borda de um banco e balouçando os pés. Ninguém lhe sabia dizer o valor do seu trabalho, nem mesmo ela própria. Mas um preço — tinha de ser tabelado um preço. Sabia bem disso. Artista ou não, ela tinha de comer.

A fórmula que usava para calcular os preços era incerta e flexível. Ao contrário das fórmulas que usava para fazer vidro e misturar as cores, tinha muito pouco que ver com ciência. Conseguia calcular o tempo gasto a pro­duzir a peça, o que sentia em relação a ela e levar em consideração o juízo que fazia do comprador.

A opinião que tinha de Rogan Sweeney ia-lhe custar bem caro.

— Duzentas e cinquenta libras, — decidiu. Só cem deviam-se aos botões de punho de ouro.

— Deixe-me passar-lhe um cheque. — Depois ele sorriu e Maggie apercebeu-se que estava grata por ele não costumar usar aquela arma mui­tas vezes. Letal, pensava, observando a forma como os lábios delineavam uma curva, os olhos escureciam. Todo ele era charme, leve e natural como uma nuvem. — Apesar de a ir guardar na minha colecção pessoal, por mo­tivos sentimentais, digamos, podia muito bem conseguir o dobro por ela na minha galeria.

— Admiro-me como ainda se mantém nesta actividade, Sr. Sweeney, a explorar os clientes dessa forma.

— Você subestima-se, Miss Concannon. — Nesta altura dirigiu-se a ela, como se soubesse que havia ganho a lotaria. Esperou até que ela atirasse a cabeça para trás, mantendo o nível do olhar a par com o dele. — É por isso que precisa de mim.

— Sei perfeitamente o que estou a fazer.

— Aqui, sim. — Ergueu um braço para abarcar a sala. — Já tive a excelente oportunidade de o testemunhar. Mas o mundo dos negócios é outro assunto.

— Não estou interessada em negócios.

— Precisamente, — retorquiu ele, voltando a sorrir como se ela tives­se respondido a uma pergunta particularmente espinhosa. — Eu, por outro lado, sou fascinado por eles.

Ela estava em desvantagem, sentada no banco com ele a pairar acima dela. Mas nem se importava. — Não quero que ninguém se intrometa no meu trabalho, Sr. Sweeney. Faço o que quiser, quando quiser, e tem corrido muito bem.

— Faz o que quer, quando quer. — Pegou numa forma de madeira que estava na bancada, como se admirasse o material. — E faz muito bem. Que desperdício seria se alguém com o seu talento simplesmente se deixas­se andar. Quanto a... intromissões no seu trabalho, não tenho qualquer in­tenção de o fazer. Apesar de ter achado muito interessante vê-la a trabalhar. — Os olhos dele passaram do molde de novo para ela com uma velocidade que a sobressaltou. — Deveras interessante.

Ela empurrou o banco, para se colocar de pé. Para ganhar o espaço necessário, afastou-o. — Não quero nenhum agente.

— Ah, mas precisa de um, Margaret Mary. Precisa muito de um.

— Parece conhecedor de todas as minhas necessidades, — balbuciou, começando a caminhar. — Um chico-esperto de Dublin com sapatos jano­tas.

O dobro, dissera ele; na cabeça dela repetia as palavras que ele pro­nunciara. O dobro do que ela pedira. E tinha de cuidar da mãe e as contas para pagar e, Jesus santíssimo, o preço dos químicos era obsceno.

— Só preciso de paz e sossego. E de espaço. — Deu meia volta na di­recção dele. A sua presença no estúdio abafava-a. — De espaço. Não preciso que ninguém como você apareça a dizer que precisamos de três jarras para a semana que vem, ou de vinte pisa-papéis, ou de meia dúzia de taças com pés cor-de-rosa. Não sou nenhuma linha de montagem, Sweeney. Sou uma artista.

Com muita calma, tirou do bolso um bloco e uma caneta de ouro e começou a escrever.

— O que é que está a fazer?

— Estou a tomar nota que você não deve receber encomendas de jarras, pisa-papéis ou taças com pés cor-de-rosa.

Ela deu um trejeito à boca antes de a conseguir controlar. — Não vou receber encomendas nenhumas.

Os olhos dele saltaram para os dela. — Parece-me que estamos enten­didos nesse ponto. Tenho uma ou duas fábricas, Miss Concannon, e sei a diferença entre uma linha de montagem e arte. Acontece que ganho a vida com as duas coisas.

— Óptimo para si. — Esbracejou antes de apoiar os punhos nas an­cas. — Parabéns. Para que é que ia precisar de mim?

— Não preciso. — Guardou a caneta e o bloco. — Mas quero-a.

Ela elevou o queixo. — Mas eu não o quero a si.

— Não, mas precisa de mim. E é aí que nos vamos entender. Eu faço de si uma mulher rica, Miss Concannon. Mais do que isso, famosa.

Posto isto, ele viu algo a brilhar nos olhos dela. Ah, pensou, ambição. Com cuidado, desferiu o golpe final. — As suas criações destinam-se ape­nas a ficar escondidas nas prateleiras e nos armários? Vender só algumas peças aqui e ali para se manter ocupada e empilhar o resto? Ou quer que o seu trabalho seja apreciado, admirado, até mesmo aplaudido? — A voz dele alterou-se, subtilmente, para um tom sarcástico tão leve que a apunhalou sem derramar gota de sangue. — Ou... tem medo que isso não aconteça?

Os olhos dela fundiram-se perante a verdade forjada. — Não tenho medo. O meu trabalho fala por si. Passei três anos a aprender numa casa vidreira em Veneza, suando como um moço que manobra o pontel. Foi lá que aprendi a técnica, mas não a arte. Porque a arte está dentro de mim. — Bateu com a mão no peito. — Está dentro de mim, e é o meu alento que sopro para o vidro. Quem não gostar do meu trabalho pode saltar direitinho para o inferno.

— É justo. Arranjo-lhe uma exposição na minha galeria e vamos ver quantos é que dão o salto.

Era atrevido, o maldito. Não se preparara para isso. — Para que um monte de snobes do mundo das artes possa torcer o nariz às minhas obras enquanto beberica champanhe.

— Está com medo.

Soltou um assobio entre os dentes e deu passadas sonoras até à porta. — Vá-se embora. Vá-se embora para eu poder pensar. Está a toldar-me as ideias.

— Voltamos a falar de manhã. — Foi buscar o casaco. — Talvez me possa recomendar um sítio para passar a noite. Aqui perto.

— Cabana Espinheiro Negro, ao fim da rua.

— Sim, passei por lá. — Vestiu o casaco. — Lindo jardim, bem tra­tado.

— Bonito e tudo sempre num brinquinho. Vai achar as camas macias e a comida boa. A proprietária é minha irmã e tem uma alma prática e caseira.

Ele ergueu o sobrolho pelo tom usado, mas não disse nada. — Pare­ce-me então que ficarei bastante confortável até de manhã.

— Agora, saia. — Ela abriu a porta, deixando antever a chuva. — De manhã ligo para a cabana se quiser voltar a falar consigo.

— Foi um prazer conhecê-la, Miss Concannon. — Apesar de ela não mostrar sinais de o fazer, ele pegou na mão dela, segurando-a ao mesmo tempo que a fitava nos olhos. — Maior ainda foi vê-la a trabalhar. — Num impulso que surpreendeu ambos, levou a mão dela aos lábios, demorando alguns instantes para sentir o sabor da pele dela. — Volto amanhã.

— Espere que seja convidado, — retorquiu ela, fechando a porta de forma audaz atrás dele.

 

 

                                         CAPÍTULO QUATRO

 

Na Cabana Espinheiro Negro, os scones estavam sempre quentes, as flores sempre frescas e a chaleira estava sempre ao lume. Embora a estação ainda não fizesse prever a chegada de hóspedes, Brianna Concannon colocou Rogan à vontade, no seu jeito sereno e eficiente, tal como fizera com todos os hóspedes que acolhera desde o primeiro Verão após a morte do pai.

Serviu-lhe um chá na sala de estar arrumada e luzidia, onde uma la­reira ardia alegremente e uma jarra cheia de frésias perfumava o ar.

— Vou servir o jantar às sete, se não achar inconveniente, Sr. Sweeney. — Já estava a pensar em formas de fazer render a galinha que planejara cozinhar, para conseguir alimentar mais uma pessoa.

— Está óptimo, Miss Concannon. — Bebeu o chá e achou-o perfeito, bastante diferente do refrigerante gelado, carregado de açúcar, que Maggie lhe atirara. — Tem aqui um belo lugar.

— Obrigada. — Era, senão o seu maior orgulho, talvez a sua única alegria. — Se precisar de alguma coisa, seja o que for, basta pedir.

— Acha que posso usar o seu telefone?

— Claro. — Ela começou a afastar-se para lhe dar privacidade, quan­do ele levantou a mão, um sinal de comando para quem quer que já tenha trabalhado a servir.

— Aquela jarra em cima da mesa... é obra da sua irmã?

A surpresa de Brianna pela pergunta mostrava-se apenas num rápido abrir de olhos. — Sim, é. Conhece o trabalho da Maggie?

— Conheço. Eu próprio tenho duas peças. E acabei de comprar outra ao mesmo tempo que estava a ser feita. — Voltou a beber chá, avaliando Brianna. Era tão diferente de Maggie, como uma peça dela era diferente da outra. O que significava, presumia ele, que eram iguais algures onde a visão não conseguia alcançar. — Acabo de chegar da oficina.

— Esteve na oficina da Maggie? — Só o verdadeiro choque podia ter levado Brianna a fazer uma pergunta daquelas a um hóspede, de forma tão incrédula. — Entrou?

— É assim tão perigoso?

Um sorriso vago passou pelo rosto de Brianna, iluminando a sua ex­pressão. — Você parece vivo e de saúde.

— Parece que sim. A sua irmã é uma mulher com imenso talento.

— Lá isso é.

Rogan reconheceu no comentário a mesma corrente profunda de or­gulho e mal-estar que vira na Maggie ao falar da irmã. — Tem mais peças dela?

— Tenho. Costuma trazer algumas quando lhe dá na veneta. Se não precisa de mais nada de momento, Sr. Sweeney, vou preparar o jantar.

Sozinho, Rogan recostou-se com o seu magnífico chá. Que par inte­ressante, pensou, as irmãs Concannon. Brianna era mais alta, mais magra e certamente mais amorosa que Maggie. O cabelo dela era de um dourado rosáceo, em vez de fogoso, e caía-lhe em caracóis suaves pelos ombros. Os olhos eram grandes, de um verde pálido, quase translúcidos. Serenos, acha­va ele, até um pouco distantes, como a sua maneira de estar. As feições eram mais finas, os membros mais suaves e cheirava a flores silvestres, em vez de a fumo e a suor.

No fim de contas, era muito mais o tipo de mulher que ele achava atraente.

Contudo, dava com os seus pensamentos a irem atrás de Maggie, com aquele corpo compacto, os olhos temperamentais e humor instável. Os artistas, pensou, com os seus egos e inseguranças, precisavam de orienta­ção, de pulso firme. Deixou que o olhar vagueasse pela jarra cor-de-rosa, de vidro ondulado da base até ao rebordo. Estava bastante ansioso por orientar Maggie Concannon.

— Então, ele está cá? — Maggie saiu da chuva e abrigou-se na cozinha quente e cheirosa.

Brianna continuou a descascar batatas. Já esperava pela visita. — Ele quem?                                                                            

— O Sweeney. — Passando para o balcão, Maggie agarrou uma ce­noura descascada e trincou-a. — Alto, moreno, bonito e rico como o diabo. Deves ter dado por ele.

— Na sala de estar. Podes levar uma chávena e fazer-lhe companhia no chá.

— Não quero falar com ele. — Maggie sentou-se em cima do balcão, cruzando os tornozelos. — O que queria, Brie, meu amor, era a tua opinião acerca dele.

— É educado e bem falante.                          

Maggie revirou os olhos. — Um acólito na igreja também é.

— E hóspede na minha casa...

— Que paga.                                                    

— E não faço intenção nenhuma, — continuou Brianna sem fazer uma pausa, — de dizer mal dele nas suas costas.                                      

— Santa Brianna. — Maggie roía a cenoura com força, agitando o caule. — E se eu te dissesse que ele está interessado em gerir a minha car­reira?

— Gerir? — Brianna deixou cair as mãos antes de voltar ao mesmo ritmo. Cascas caíam direitas no jornal que colocara em cima do balcão.

— Como assim?

— Financeiramente, para começar. Expor o meu trabalho nas gale­rias dele e convencer mecenas ricos a comprá-lo por grandes maquias de dinheiro. — Agitou o que restava da cenoura antes de acabar com ela. — O homem só pensa em fazer dinheiro.

— Galerias, — repetiu Brianna. — É dono de galerias de arte?

— Em Dublin e Cork. Tem interesses noutras em Londres e Nova Iorque. Paris também, acho eu. Provavelmente em Roma. Toda a gente do mundo das artes conhece Rogan Sweeney.

O mundo das artes estava tão distante da vida de Brianna quanto a lua. Mas ela sentiu um orgulho súbito e quente pela irmã, que o entendia. — E interessou-se pelo teu trabalho.

— Meteu o nariz aristocrata onde não devia, melhor dizendo. — Mag­gie roncou. — A telefonar-me, a mandar cartas, a exigir direitos sobre tudo o que eu fizesse. Hoje aparece à minha porta a alegar que preciso dele. Hah.

— E é claro que não precisas.

— Não preciso de ninguém.  

— Pois não. — Brianna pegou nos vegetais e colocou-os a escorrer no lava-louça. — Tu não, Margaret Mary.

— Oh, odeio esse tom, todo frio e superior. Pareces mesmo a mãe.

— Deslizou do balcão abaixo para atacar o frigorífico. E, por causa disso, sentiu uma culpa imensa. — Estamos muito bem assim, — acrescentou ao tirar uma cerveja. — As contas estão pagas, há comida na mesa e temos um tecto sobre as cabeças. — Fixou as costas rígidas da irmã e deixou escapar um suspiro de impaciência. — Já não pode voltar a ser o que era, Brie.

— Achas que não sei disso? — A voz cadenciada de Brianna ficou impaciente. — Achas que preciso de mais do que já tenho? Que não me contento com isto? — De súbito, terrivelmente triste, olhou pela janela na direcção dos campos em frente. — Não sou eu, Maggie. Não sou eu.

De rosto franzido, Maggie desceu o olhar para a cerveja. Era Brianna que sofria, Maggie sabia disso. Era Brianna que sempre estivera no meio. Agora, pensava Maggie, tinha a oportunidade de mudar isso. Só tinha de vender parte da sua alma.

— Ela tem andado a queixar-se outra vez?

— Não. — Brianna arrumou uma madeixa de cabelo no apanhado que fizera na nuca. — Nem por isso.

— Percebo pela tua expressão que ela tem estado com aquele humor... e que tem descarregado em ti. — Antes que Brianna pudesse falar, Maggie elevou a mão, abanando-a. — Ela nunca vai ser feliz, Brianna. Não a podes fazer feliz. O bom Deus sabe que eu também não. Ela nunca lhe vai perdoar por ele ter sido quem era.

— E o que é que ele era? — Exigiu Brianna, ao virar-se. — Exacta­mente, o que era o nosso pai, Maggie?

— Humano. Com defeitos. — Pousou a cerveja e foi ter com a irmã. — Maravilhoso. Lembras-te, Brie, quando ele comprou a mula e dizia que ia fazer uma fortuna com os turistas a tirarem-lhe fotografias de gorro, com o nosso velho cão sentado às costas?

— Lembro. — Brie ter-se-ia afastado, mas Maggie agarrou-lhe as mãos. — E lembro-me que ele gastou mais dinheiro a alimentar aquela maldita mula com mau feitio do que chegou a ganhar com o estratagema.

— Oh, mas foi divertido. Fomos às Falésias de Mohr e estava um dia de Verão tão lindo. Montes de turistas e a música a tocar. E o pai a segurar a estúpida da mula e o coitado do cão, o Joe, com tanto medo da mula como teria de um leão feroz.

Brianna acalmou-se. Era mais forte do que ela. — Pobre Joe, sentado a tremer de medo no lombo da mula. E depois, aquele alemão que apare­ceu, queria uma fotografia com o Joe e a mula.

— E a mula deu um coice. — Maggie riu-se e voltou a pegar na cerveja para gesticular um brinde. — E o alemão a gritar em três línguas diferentes enquanto corria ao pé-coxinho. E o Joe, aterrorizado, saltou para o chão e aterrou mesmo em cima de uma banca de golas de renda, e a mula desatou a correr, espantando os turistas. Oh, que cenário. As pessoas a gritar e a correr, as senhoras a bradar. Estava lá um violinista, lembras-te? Continuou a tocar uma melodia como se fôssemos todos desatar a dançar a qualquer momento.

— E aquele rapaz simpático de Killarney que apanhou a corda da mula e a trouxe de volta. O pai tentou vender-lhe a mula naquele mesmo instante.

— E quase conseguia. É uma boa recordação, Brie.

— Ele deixou muitas recordações divertidas. Mas não se pode viver apenas do riso.

— E não se pode viver sem rir, como ela. Ele estava vivo. Agora pare­ce que esta família está mais morta do que ele.

— Ela está doente, — disse Brianna, com brevidade.

— Tal como sempre, há mais de vinte anos. E vai continuar doente enquanto te tiver a ti a tomar conta dela.

Era verdade, mas por saber a verdade, no coração de Brianna não se alterava nada. — Ela é tua mãe.

— Lá isso é. — Maggie bebeu mais cerveja e pousou-a ao lado. O gos­to da levedura contrastava com o amargo da língua. — Vendi outra peça. Arranjo-te dinheiro até ao final do mês.

— Agradeço-te por isso. E ela também.

— O diabo é que agradece. — Maggie fitou o olhar da irmã com toda a paixão, raiva e dor a ferverem-lhe bem lá dentro. — Não o faço por ela. Quando houver o suficiente, contratas uma enfermeira e ela vai viver para casa dela.

— Não é preciso...

— É, sim senhor, — interrompeu Maggie. — Foi esse o acordo, Brie. Não vou ficar a ver-te fazer o que ela quer para o resto da vida. Uma enfer­meira e uma casa na vila.

— Se for essa a vontade dela.

— É o que lhe vai acontecer. — Maggie inclinou a cabeça. — Não dormiste ontem à noite por causa dela.

— Estava agitada. — Envergonhada, Brianna virou costas para ir pre­parar a galinha. — Outra das suas dores de cabeça.

— Ah, sim. — Maggie lembrava-se bem das dores de cabeça da mãe, e de como costumavam ser oportunas. Um argumento que Maeve vinha a perder: dores de cabeça instantâneas. Um passeio de família que não apro­vava: lá começava o latejar.

— Eu sei como ela é, Maggie. — Agora era a cabeça de Brianna que começava a doer. — Isso não faz dela menos minha mãe.

Santa Brianna, pensou Maggie de novo, mas com afecto. A irmã po­dia ser mais nova do que ela, já com vinte e oito anos bem contados, mas fora sempre Brianna a assumir as responsabilidades. — E não podes mudar o que és, Brie. — Maggie deu um abraço bem forte à irmã. — O pai dizia sempre que tu serias o anjo bom e eu o mau. Finalmente, acertou nalguma coisa. — Por momentos, fechou os olhos. — Diz ao Sr. Sweeney que passe amanhã de manhã pela cabana. Quero falar com ele.

— Então vais aceitar que ele seja o teu agente?

A frase fez Maggie hesitar. — Vou falar com ele, — repetiu, regressan­do outra vez à chuva.

Se Maggie tinha uma fraqueza, era a família. Essa fraqueza mantivera-a acordada até muito tarde à noite e despertara-a na madrugada gélida e lú­gubre. Para o mundo exterior, ela preferia fingir que só era responsável por si e pela sua arte, mas, por baixo dessa fachada, existia um amor constante pela família, bem como as obrigações consequentes, por vezes até amargas, que tudo isso trazia.

Em primeiro lugar, queria dizer que não a Rogan Sweeney, por prin­cípio. Arte e negócios, na cabeça dela, não podiam e não deviam mistu­rar-se. Em segundo lugar, queria dizer-lhe que não porque os do tipo dele — rico, confiante e de sangue azul — a irritavam. Em terceiro lugar, e mais importante, queria dizer-lhe que não porque o contrário seria admitir que não tinha destreza suficiente para tratar sozinha dos seus assuntos. Oh, era um sapo que teria de engolir.

Não lhe diria que não. Algures durante a noite longa e agitada, toma­ra a decisão de permitir que Rogan Sweeney fizesse dela uma mulher rica.

Não que não se conseguisse sustentar, e até bem, por sinal. Há mais de cinco anos que fazia isso mesmo. O bed-and-breakfast de Brianna corria suficientemente bem para conseguirem manter duas casas sem problemas de maior. Mas não tinham possibilidades de manter uma terceira.

A meta de Maggie, na verdade o seu Santo Graal, era acomodar a mãe numa casa independente. Se Rogan a conseguisse ajudar a limpar o caminho até essa meta, então faria negócio com ele. Até faria negócio com o próprio diabo.

Mas o diabo podia vir a arrepender-se da bagatela.

Na sua cozinha, com a chuva a cair suave e firme lá fora, Maggie fez um chá. E conspirou.

Tinha de lidar de forma inteligente com Rogan Sweeney, pensou. Com a dose certa de desdém artístico e sedução feminina. O desdém não traria qualquer problema, mas o outro ingrediente seria bem mais difícil.

Permitiu-se imaginar Brianna a cozinhar, a tratar do jardim, aninha­da com um livro junto à lareira — sem a voz lamuriosa e exigente da mãe delas para interromper a paz. Brianna ia-se casar, ter filhos. Era um sonho que sabia que a irmã mantinha trancado no seu coração. E assim permane­ceria, enquanto Brianna tivesse a seu cargo uma hipocondríaca crónica.

Ao mesmo tempo que Maggie não conseguia entender a necessidade que a irmã tinha de se amarrar a um homem e a meia dúzia de filhos, faria o que fosse necessário para ajudar Brianna a realizar esse sonho.

Era possível, possível mesmo, que Rogan Sweeney desempenhasse o papel de fada madrinha.

A batidela na porta da frente da cabana fora ríspida e impaciente. A fada madrinha, pensou Maggie ao atender a porta, não faria a sua entrada com pó de anjo e luzes coloridas.

Depois de abrir a porta, sorriu um pouco. Ele estava molhado, tal como no dia anterior, e tão elegante também. Ela perguntou-se se ele dor­miria de fato e gravata.                        

— Bom dia para si, Sr. Sweeney.

— E para si também, Miss Concannon. — Entrou, saindo da chuva e do torvelinho da neblina.

— Quer despir o casaco? Ali, junto à lareira, deve secar.

— Obrigado. — Despiu o casaco e ficou a vê-la pendurá-lo numa cadeira junto à lareira. Hoje ela estava diferente, pensou. Agradável. A mu­dança pô-lo alerta. — Diga-me, alguma vez pára de chover em Clare?

— Costumamos ter bom tempo na Primavera. Não se preocupe, Sr. Sweeney. Até um dublinense não se deve evaporar em água devido à chuva do condado oeste. — Lançou--lhe um sorriso rápido e sedutor, desviando o olhar de forma traquina. — Estou a fazer chá, se quiser.

— Aceito. — Antes que ela pudesse ir para a cozinha, ele impediu-a, pegando-lhe no braço com a mão. Não depositara a atenção nela, mas sim numa escultura em cima da mesa, ao lado deles. Era uma curva longa e sinuosa de um azul gelado profundo. Da cor de um lago do árctico. Vidro sobre vidro, em ondas no rebordo que escorriam para baixo, como gelo liquefeito.                    

— Uma peça interessante, — comentou ele.

— Acha? — Maggie contrariou o impulso de se soltar da mão dele. Segurava-a ao de leve, com um sentido de posse subtil que a punha ridicu­lamente desconfortável. Conseguia cheirá-lo, a suave água-de-colónia que despejara pelo rosto depois de se barbear, com resquícios de sabonete do duche que tomara. Quando ele passou a ponta do dedo pelo vidro curvo, ela reprimiu um arrepio. Por um instante de loucura, foi como se ele tivesse desenhado um percurso desde o pescoço dela até meio do corpo.

— Obviamente feminino, — murmurou ele. Apesar de manter os olhos no vidro, estava bem ciente da presença dela. A tensão emergente no seu braço, o tremor rápido que tentara disfarçar, o aroma obscuro e selva­gem do seu cabelo. — Poderoso. Uma mulher prestes a entregar-se sexual­mente a um homem.

Ficou perturbada, porque tinha acertado em cheio. — Como é que encontra poder na entrega?

Ele olhou para ela, os olhos azuis inertes pregados ao seu rosto. A mão dele permanecia leve no braço dela. — Não há nada mais poderoso do que uma mulher no instante que antecede a entrega. — Voltou a afagar o vidro. — É óbvio que tem consciência disso.            

— E o homem?

Nesse instante, ele sorriu, uma ligeira curvatura nos lábios. Agora agarrava-lhe no braço mais como uma carícia. Um pedido. Os seus olhos, divertidos, interessados, percorriam o rosto dela. — Isso, Margaret Mary, ia depender da mulher.

Ela não se moveu, assimilando a insinuação sexual, aceitando-a com um ligeiro aceno. — Bom, haja algo em que ambos concordamos. Sexo e poder normalmente dependem da mulher.

— Não foi nada disso que eu disse, ou quis dizer. O que a impele a criar algo assim?

— É difícil explicar a arte a um homem de negócios.

Quando ela poderia ter recuado, ele enrolou os dedos à volta do seu braço, apertando-o ainda mais. — Experimente.

Sentiu-se invadir por uma certa irritação. — O que surge, surge. Não há nenhum esquema, nenhum plano. Está relacionado com as emoções, com paixões e não com questões práticas ou lucro. Caso contrário, estaria a fazer cisnezinhos de vidro para as lojas de recordações. Jesus, que imagem.

O sorriso dele alastrou-se. — Horrível. Felizmente que não estou in­teressado em cisnezinhos de vidro. Mas aquele chá vinha a calhar.

— Vamos tomá-lo na cozinha. — Ela tentou afastar-se, mas de novo foi impedida por ele. Sentia que o mau génio lhe faiscava dos olhos, como raios. — Está a bloquear-me o caminho, Sr. Sweeney.

— Não me parece. Estou prestes a libertá-lo para si. — Soltou-a, seguindo-a em silêncio para a cozinha.

A cabana dela ficava a anos-luz do conforto do Espinheiro Negro. Não havia os aromas ricos dos cozinhados pairando no ar, nem almofadas fofas ou móveis em madeira lustrosos. Era espartano, utilitário e desarru­mado. Segundo ele, era por essa razão que a arte espalhada aqui ou acolá tinha um efeito tão marcante e arrasador.

Perguntava-se onde seria que ela dormia, e se a cama dela era tão macia e convidativa quanto aquela onde ele passara a noite. Também se perguntava se a iria partilhar com ela. Não, se, não, corrigiu-se. Quando.

Maggie pousou a chaleira em cima da mesa juntamente com duas grossas canecas de cerâmica. — Que tal a estadia na Cabana Espinheiro Negro? — Perguntou, ao mesmo tempo que servia.

— Gostei muito. A sua irmã é amorosa. E os cozinhados dela, me­moráveis.

Maggie descontraiu-se, juntando três generosas colheres de açúcar ao chá. — Brie é uma dona de casa de mão cheia. Hoje de manhã fez os bolinhos de passas?

— Comi dois.

Outra vez à vontade, Maggie riu-se e empoleirou um pé enfiado na bota em cima do joelho. — O nosso pai costumava dizer que a Brie herdou o ouro todo e eu o latão. Lamento, mas aqui não vai ter bolinhos com passas caseiros, Sweeney, mas é bem provável que consiga desencantar uma lata de biscoitos.

— Deixe estar.

— Provavelmente quer tratar já de negócios. — Amparando a caneca com ambas as mãos, Maggie inclinou-se para a frente. — E se eu lhe disses­se sem rodeios que não estou interessada na sua oferta?

Rogan pensou, bebericando o chá preto e forte. — Teria de lhe cha­mar mentirosa, Maggie. — Riu-se ao observar o fogo que se acendia nos olhos dela. — É que se não estivesse interessada, não teria concordado em falar comigo esta manhã. É claro que eu não estaria aqui a beber chá na sua cozinha. — Levantou a mão antes que ela pudesse falar. — No entanto, temos de admitir que você não se quer mostrar interessada.

Um homem inteligente, pensou ela, ligeiramente apaziguada. Os ho­mens inteligentes eram perigosos. — Não quero ser produzida, gerida ou orientada.

— Raramente queremos aquilo de que precisamos. — Ficou a obser­vá-la pelo rebordo da caneca, calculista até, ao mesmo tempo que apreciava o ligeiro rubor que parecia amaciar a pele dela, aprofundando o verde dos seus olhos. — Permite que me explique com mais clareza? A sua arte é do­mínio seu. Não tenho qualquer intenção de interferir de alguma forma com o que faz no seu estúdio. Crie aquilo que a sua inspiração lhe pedir, sempre que sentir essa inspiração para criar.

— E se o que eu criar não for do seu agrado?

— Já expus e vendi inúmeras peças que nunca teria em minha casa. O negócio é assim mesmo, Maggie. E tal como não irei interferir na sua arte, você não vai interferir nos meus negócios.

— Não terei voto na matéria quanto aos compradores?

— Nenhum, — respondeu, neutro. — Caso sinta uma ligação emo­cional a uma peça, terá de ultrapassar o problema, ou então fica com ela para si. Assim que estiver nas minhas mãos, é minha.

Ela cerrou o maxilar. — E qualquer pessoa com dinheiro pode com­prá-las.

— Exactamente.                                          

Maggie pousou a caneca com ruído e, levantando-se, deu alguns pas­sos. Tirava partido do corpo todo, um hábito que Rogan admirava. Pernas, braços, ombros, tudo em movimentos ritmados e exaltados. Ele bebeu o resto do chá e recostou-se para apreciar o espectáculo.

— Retiro algo de dentro de mim, crio-o, torno-o sólido, tangível, real e um idiota qualquer de Kerry ou Dublin ou, ainda, valha-me Deus, de Londres, entra e compra-o para o aniversário da mulher sem saber o que é, o que significa?

— Consegue desenvolver relações pessoais com toda a gente que compra as suas peças?

— Pelo menos sei para onde vão, quem as vais comprar. — Normal­mente. — Acrescentou, em pensamento.

— Tenho de lhe lembrar que comprei duas peças suas antes de nos conhecermos.

— Sim. E vejam só onde isso me levou.

Mau génio, pensou ele com um suspiro. Desde que trabalhava com artistas que não conseguia compreender. — Maggie, — começou, procu­rando o tom de voz mais razoável. — O motivo por que precisa de um agente é para eliminar essas dificuldades. Nem sequer vai ter de se preocu­par com as vendas, só com a criação. E sim, se alguém de Kerry ou Dublin, ou, valha-nos Deus, de Londres, entrar numa das minhas galerias e se inte­ressar por uma das suas peças, pode ficar com ela, desde que pague o preço. Sem currículo, sem referências acerca da sua personalidade. Lá para o final do ano, com a minha ajuda, será uma mulher rica.

— Acha que é isso que quero? — Insultada, furiosa, rodopiou à volta dele. — Acha, Rogan Sweeney, que pego no meu tubo todos os dias a pen­sar no lucro que vou encontrar na outra ponta?

— Não, não acho. É precisamente aí que eu entro. Você é uma artista excepcional, Maggie. Correndo o risco de inflamar um ego que já me pa­rece bastante titânico, tenho de admitir que fiquei cativado na primeira vez que vi o seu trabalho.

— Talvez tenha bom gosto, — retorquiu ela com um encolher de om­bros exaltado.

— Já me tinham dito. Quero dizer que o seu trabalho merece mais do que aquilo que está a fazer agora. Você merece mais do que está disposta a dar-se.

Ela encostou-se ao balcão, fitando-o, acanhada. — E você vai-me aju­dar a conseguir mais devido a esse coração bondoso.

— O meu coração não tem nada a ver com isso. Vou ajudá-la porque o seu trabalho vai trazer prestígio às minhas galerias.

— E ao seu caderninho de contas.

— Um dia vai ter de me explicar a raiz desse desdém pelo dinheiro. Entretanto, o seu chá está a arrefecer.

Maggie deixou escapar um suspiro profundo. Não estava a fazer nada para lhe agradar, recordou, regressando à mesa. — Rogan. — Permitiu-se sorrir. — Tenho a certeza que é muito bom no que faz. As suas galerias têm reputação de qualidade e integridade, no que tenho a certeza ser um reflexo da sua personalidade.

Ela era boa, pensou ele, passando a língua pelos dentes. Muito boa. — Gosto de pensar que sim.

— Sem dúvida que qualquer artista ficaria radiante por você pensar nele. Mas eu estou acostumada a tratar de tudo, a lidar com todos os aspec­tos do meu trabalho, desde fazer o vidro a vender a peça acabada, ou pelo menos a colocá-la nas mãos de alguém que conheço e confio para a vender. Mas a si, eu não conheço.

— Ou não confia em mim?

Ela levantou uma mão, depois deixou-a cair. — Seria louca se não confiasse nas Galerias Worldwide. Mas é difícil para mim imaginar um ne­gócio de tais dimensões. Sou uma mulher simples.

Ele riu-se tão depressa, com tanta vontade, que ela pestanejou. An­tes que ela pudesse recuperar, ele inclinava-se para a frente, pegando-lhe numa das mãos. — Oh, não, Margaret Mary. Se há coisa que não é, é simples. Prudente, obstinada, brilhante, com mau génio e linda. Mas simples, nunca.

— Eu acho que sou. — Soltou a mão e lutou por não se deixar seduzir. — E conheço-me melhor do que você hoje ou algum dia conhe­cerá.

— Sempre que termina uma escultura, é como se gritasse é isto que eu sou. Pelo menos hoje é assim. É isso que torna a arte verdadeira.

Ela não podia discutir com ele. Tratava-se de uma observação que não esperava de um homem com os antecedentes dele. Fazer dinheiro com a arte não queria dizer que a compreendesse. Aparentemente, ele compre­endia.

— Sou uma mulher simples, — repetiu ela, desafiando-o a contradizê-la outra vez. — E prefiro continuar assim. Se aceitar que seja meu agente, pode crer que haverá regras. As minhas.

Já a tinha na mão, e sabia disso. Mas um negociador astuto nunca era presunçoso. — Quais são? — Perguntou ele.

— Não farei qualquer publicidade, a não ser que me agrade. E tenho quase a certeza que isso não vai acontecer.

— Vai criar um certo mistério, não acha?

Ela quase sorriu antes de se recompor. — Nem pense que me vou aperaltar toda como uma travessa enfeitada para as exposições, e nem sei se irei a alguma.                                          

Desta vez ele espetou a língua com força na parte interna da maçã do rosto. — Tenho a certeza que o seu sentido de estilo vai reflectir a sua natureza artística.

Poderia ter sido um insulto, mas ela não tinha a certeza. — E não vou ser simpática para as pessoas se não quiser.

— Mau humor, artística mais uma vez. — Impeliu-a a brindar com o chá. — É capaz de aumentar as vendas.

Apesar de estar divertida, recostou-se e cruzou os braços por cima do peito. — Nunca, mas nunca mesmo, hei-de duplicar uma peça ou criar algo imaginado por outra pessoa.

Ele franziu o sobrolho, abanando a cabeça. — Isso é capaz de estragar alguns negócios. Eu tive uma ideia para um unicórnio, com um toque de folha dourada no chifre e nos cascos. De muito bom gosto.

Ela relinchou, depois desistiu e deu umas valentes gargalhadas. — Está bem, Rogan. Talvez, por um qualquer milagre, consigamos trabalhar juntos. Como é que fazemos?

— Vou mandar redigir os contratos. A Worldwide vai querer direitos exclusivos sobre a sua obra.

Aquilo fê-la vacilar. Parecia que estava a entregar uma parte de si. Talvez a melhor parte. — Direitos exclusivos sobre as peças que eu optar por vender.

— É claro.

Desviou os olhos dele, fitando a janela na direcção dos campos, ao longe. Uma vez, há muito tempo, eles, tal como a sua arte, haviam feito par­te dela. Agora faziam apenas parte de uma bela paisagem. — E que mais?

Ele hesitou. Ela parecia quase insuportavelmente triste. — Não vai mudar aquilo que faz. Não vai mudar aquilo que você é.

— Está enganado, — murmurou ela. Com um esforço, afastou aquele sentimento e voltou a pousar o olhar nele. — Continue. E que mais?

— Vou querer uma exposição, dentro de dois meses, na galeria de Dublin. Naturalmente, vou ter de ver o que tiver acabado e tratarei do transporte. Também vou precisar que me mantenha a par do que for terminando durante as próximas semanas. Colocaremos um preço nas peças e, o que quer que reste do inventário depois da exposição, será exibido em Dublin e nas nossas restantes galerias.

Ela respirou fundo, serenando. — Gostava muito que não se refe­risse ao meu trabalho como inventário. Pelo menos, não na minha pre­sença.

— Combinado. — Estalou os dedos. — É claro que vai receber uma lista detalhada das peças vendidas. Se quiser, pode dar a sua opinião sobre as que devem ser fotografadas para o catálogo. Ou então deixar isso connosco.

— E como e quando é que me pagam? — Indagou ela.

— Posso comprar as peças a pronto. Não levanto qualquer objecção, uma vez que confio totalmente no seu trabalho.

Ela lembrou-se do que ele dissera antes, sobre conseguir o dobro do que lhe havia pago pela escultura que terminara. Podia não ser uma mulher de negócios, mas não era parva.

— Qual é a outra opção?

— À comissão. Ficamos com a peça e, quando e se a vendermos, de­duzimos uma percentagem.

Parecia uma espécie de jogo, pensava ela. E preferia um jogo. — Qual é a percentagem?

À espera de uma reacção, ele manteve os olhos ao nível dos dela. — Trinta e cinco por cento.

A garganta dela projectou um som agudo. — Trinta e cinco? Trinta e cinco? Seu ladrão. Seu gatuno. — De rompante, afastou-se da mesa e pôs-se de pé. — Você é um abutre, Rogan Sweeney. Vá para o diabo mais os trinta e cinco por cento.

— Assumo todos os riscos, cubro todas as despesas. — Abriu as mãos, erguendo-as de novo. — Você limita-se a criar.

— Oh, como se bastasse ficar sentada à espera que a inspiração co­mece a cair, como gotas de chuva. Você não sabe nada, não percebe nada disto. — Recomeçou a andar, impregnando o ar de mau humor e energia.

— Deixe-me lembrar-lhe que, sem mim, não teria nada para vender. E o trabalho é meu, é no meu sangue, suor e lágrimas que vão gastar dinheiro. Fica com quinze por cento.

— Trinta.

— Diabos o levem, Rogan, vá roubar para a estrada. Vinte.

— Vinte e cinco. — Levantou-se para quase roçar a ponta dos pés nos dela. — A Worldwide vai ganhar um quarto do seu sangue, suor e lágrimas, Maggie, prometo-lhe.

— Um quarto. — Assobiou por entre os dentes. — Para si é esta a ideia de um homem de negócios, um caçador de arte.

— Que dá segurança financeira ao artista. Pense nisso, Maggie. O seu trabalho será visto em Nova Iorque, Roma e Paris. Quem o vir, nunca mais se irá esquecer.

— Oh, mas que engenhoso, Rogan, passando rapidamente do dinhei­ro para a fama. — Olhou para ele com o sobrolho carregado, para depois esticar o braço. — Vá para o diabo, mais a fama, fique mas é com os vinte e cinco por cento.

Era exactamente o que ele planeara. Pegou-lhe na mão, segurando-a. — Vamo-nos dar muito bem, Maggie.

O suficiente, esperava ela, para acomodar a mãe na vila e longe da Cabana Espinheiro Negro. — Caso contrário, Rogan, vou assegurar-me que paga por isso.

Como já lhe sentira o sabor uma vez, levou a mão dela aos lábios. — Vou arriscar.

Os seus lábios demoraram tempo suficiente para fazer acelerar o pul­so dela. — Se soubesse que ia tentar seduzir-me, devia ter sido mais esperto e começado ante de fazermos negócio.

A afirmação surpreendeu e irritou-o. — Prefiro não misturar assuntos pessoais com profissionais.

— Outra diferença entre nós. — Dava-lhe prazer verificar que arranhara a camada exterior improvavelmente educada. — As minhas vidas pessoal e profissional estão sempre a confundir-se. E faço a vontade a ambas quando me dá na veneta. A sorrir, puxou a mão. — Tal ainda não aconteceu… falando em termos pessoais. Eu aviso-o se e quando isso acontecer.

— Está a deitar-me a escada, Maggie?

Ela fez uma pausa como se pensasse no assunto. — Não, estou a tentar explicar. Agora venha comigo até à estufa para pode escolher o que quer levar para Dublin. — Virou-se para ir buscar um casaco ao cabide atrás da porta. — Talvez seja melhor levar o casaco. Seria uma pena molhar esse fato todo catita.

Por momentos fitou-a nos olhos, imaginando um motivo para se sentir imensamente insultado. Sem dizer uma palavra, deu meia volta e regressou à sala de estar, à procura do casaco.

Maggie aproveitou para sair e arrefecer o sangue debaixo da chuva gelada. Era ridículo, pensava, sentir impulsos sexuais só por lhe terem beijado a mão. Rogan Sweeney era suave, demasiado suave. Era uma sorte ele viver no extremo oposto do país. Mais sorte ainda ele não fazer o tipo dela.

Nada mesmo.

 

 

                                   CAPÍTULO CINCO

 

A relva alta ao lado da abadia em ruínas proporcionava uma belíssima úl­tima morada para os mortos. Maggie lutara para que o pai fosse ali sepul­tado, em vez de no chão limpo e frio ao lado da igreja da vila. Ela quisera paz e um toque de realeza para o pai. Pela primeira vez, Brianna discutira com ela até a mãe aceitar manter a boca fechada e lavar as mãos dos acon­tecimentos.

Maggie ia até lá só duas vezes por ano, no aniversário do pai e no dela. Para lhe agradecer a dádiva da vida. Nunca ia no aniversário da morte dele, nem sequer se permitia fazer esse luto em privado.

Também não trazia luto por ele agora, mas sentava-se na relva a seu lado, envolvendo os joelhos com os braços. O Sol lutava por entre camadas de nuvens, iluminando as campas, e o vento era fresco, cheirava a flores silvestres.

Não trouxera flores, nunca trazia. Brianna plantara relva por cima dele, assim, quando a Primavera aquecia a terra, a sua sepultura florescia de cor e beleza.

Botões ternos formavam-se nas prímulas. As extremidades pontia­gudas das columbinas, como fadas, oscilavam suavemente no meio de deli­cados salpicos de esporas e betónicas. Observou o voo de uma pega acima dos penedos, dirigindo-se para o campo. Mal-me-quer, pensou, procuran­do no céu, sem resultado, por outra que pedisse bem-me-quer.

Borboletas esvoaçavam por ali, finas asas batendo silenciosas. Ficou a observá-las por instantes, reconfortando-se nas cores e no movimento. Não tinha arranjado forma de o sepultar junto ao mar, mas disto, pensava ela, deste lugar, ele haveria de ter gostado.

Maggie encostou-se confortavelmente na parte lateral da lápide do pai e fechou os olhos.                    

Quem me dera que ainda estivesses aqui, pensou, para te poder contar o que estou a azer. Não que desse ouvidos aos teus conselhos. Mas seria bom ouvi-los.

Se Rogan Sweeney or um homem de palavra — e não me parece que seja outra coisa — vou ser uma mulher rica. Como haverias de gostar disso. Teríamos o suficiente para abrires o teu pub como sempre quiseste. Oh, que pobre agricultor eras, meu querido. Mas o melhor dos pais. O melhor de to­dos.

Ela estava a dar tudo por tudo para manter a promessa que lhe fizera, pensava. Tomar conta da mãe e da irmã, e seguir o seu sonho.

— Maggie.

Abriu os olhos e, olhando para cima, viu Brianna. Aprumada como tudo, pensou, estudando a irmã. O seu lindo cabelo muito bem apanhado, a roupa passada a ferro com perícia. — Pareces uma professora, — comentou Maggie, rindo-se da expressão de Brianna. — Daquelas bem bonitas.

— E tu pareces uma pedinte, — retorquiu Brianna, franzindo o so­brolho perante a escolha que a irmã fizera de uns jeans rasgados e uma camisola andrajosa. — Daquelas bem bonitas.

Brianna ajoelhou-se ao lado da irmã e entrelaçou as mãos. Não para rezar, mas só para que não as sujasse.

Ficaram por momentos sentadas em silêncio, enquanto o vento so­prava pela relva, flutuando pelas pedras dispersas.

— Um lindo dia para nos sentarmos numa sepultura, — comentou Maggie. Pensou que ele faria precisamente setenta e um anos. — As flores dele estão a florir muito bem.

— É preciso limpar as ervas daninhas. — E Brianna assim o fez. — Hoje de manhã encontrei dinheiro no balcão da cozinha, Maggie. É dema­siado.

— Fiz uma boa venda. Pões algum de parte.

— Preferia que o gozasses.

— E gozo, sabendo que estás cada vez mais perto de te livrares dela.

Brianna suspirou. — Para mim, ela não é um fardo. — Apanhando a expressão da irmã, encolheu os ombros. — Não tanto quanto pensas. Só quando ela se sente mal.

— O que é a maior parte do tempo. Brie, adoro-te.                

— Eu sei disso.

— O dinheiro é a melhor forma que arranjei de o demonstrar. O pai queria que eu te ajudasse a tomar conta dela. E sabe Deus que eu não con­seguia viver com ela como tu. Haveria de me mandar para o manicómio, ou então ia parar à prisão acusada de a assassinar durante o sono.

— Este negócio com Rogan Sweeney, fizeste-o por ela.

— Não fiz nada. — Maggie estremeceu só de pensar nisso. — Por cau­sa dela, talvez, que só por si é outra coisa completamente diferente. Quando ela estiver instalada e tu tiveres a tua vida de volta, podes casar-te e dar-me um rol de sobrinhas e sobrinhos.

— Podes ter filhos teus.

— Não me quero casar. — Confortável, Maggie voltou a fechar os olhos. — Não, a sério. Prefiro entrar e sair sempre que quiser e não ter de dar satisfações a ninguém. Vou estragar os teus filhos com mimos e eles virão a correr para casa da tia Maggie sempre que fores demasiado exigente com eles. — Abriu um olho. — Podias casar com o Murphy.

A gargalhada de Brianna ecoou lindamente pela erva alta. — Ele ia ficar chocado se soubesse.

— Sempre foi um querido contigo.

— Era sim, quando eu tinha treze anos. Agora, é um homem amo­roso e gosto tanto dele como de um irmão. Mas ele não tem aquilo que procuro num marido.

— Então já tens tudo pensado?

— Não pensei em nada, — disse Brianna, formal, — e vamos mudar de assunto. Não quero que faças negócio com o Sr. Sweeney porque sentes uma obrigação para comigo. Até podia pensar que era a melhor coisa para o teu trabalho, mas não te quero ver infeliz só porque achas que eu sou. Sabes que não sou.

— Quantas vezes tiveste de lhe dar a comida na cama este mês?

— Não costumo contar...

— Mas devias, — interrompeu Maggie. — Em qualquer dos casos, está feito. Assinei contrato há uma semana. Agora sou gerida por Rogan Sweeney e pelas Galerias Worldwide. Daqui a duas semanas vou ter uma exposição na galeria dele, em Dublin.

— Duas semanas. Tão rápido.

— Não me parece que ele seja homem que goste de perder tempo. Vem comigo, Brianna. — Maggie agarrou nas mãos da irmã. — Obrigamos o Sweeney a pagar um hotel de luxo, comemos nos restaurantes e fazemos compras idiotas.

Lojas. Comida que não fosse cozinhada por si. Uma cama que não tinha de ser feita. Brianna ansiava por isso, mas só por momentos. — Gos­tava muito de estar contigo, Maggie. Mas não a posso deixar assim.

— Uma treta, é que não podes. Jesus, ela consegue aguentar a própria companhia por alguns dias.

— Não posso. — Brianna hesitou, para depois se recostar penosa­mente de cócoras. — Caiu na semana passada.

— Magoou-se? — Os dedos de Maggie apertavam os da irmã. — Raios partam, Brie, porque é que não me contaste? Como é que foi?

— Não te contei porque afinal não foi nada de mais. Ela tinha vindo à rua, saiu sozinha enquanto eu estava lá em cima a arrumar os quartos. Pôs mal o pé, ao que parece. Magoou-se na anca, esfolou o cotovelo.

— Ligaste ao Dr. Hogan?

— Claro que sim. Ele disse que não era nada de preocupante. Que ela perdeu o equilíbrio, só isso. Se fizesse mais exercício, comesse melhor e tudo o resto, estaria mais forte.

— Quem é que não sabe disso? — Maldita mulher, pensou Maggie. E maldita era a culpa constante e insistente que vivia no seu coração. — E lá voltou ela para a cama, imagino. Claro que tem lá ficado desde então.

Os lábios de Brianna torceram-se num sorriso amarelo. — Ainda não consegui que se mexesse. Teima que tem um problema no ouvido interno e que quer ir a Cork, ver um especialista.

— Hah! — Maggie atirou a cabeça para trás e olhou o céu. — Típico! Nunca vi ninguém que tivesse tantas queixas como a Maeve Concannon. E ela traz-te bem presa, minha menina. — Agitou o dedo na direcção de Brianna.

— Não vou negar, mas não tenho coragem de cortar o mal pela raiz.

— Eu tenho. — Maggie levantou-se, esfregando os joelhos. — A res­posta é o dinheiro, Brie. É o que ela sempre quis. Sabe Deus como inferni­zou a vida dele só porque não era apegado a ele. — Num gesto de protecção, Maggie pousou a mão na lápide do pai.

— Isso é verdade, tal como ele também lhe infernizou a dela. Nunca vi duas pessoas tão desadequadas uma para a outra. Os casamentos nem sempre são feitos no céu, ou no inferno. Por vezes ficam-se pelo purgató­rio.

— E às vezes as pessoas são demasiado idiotas ou correctas para dei­xarem tudo para trás. — A mão na lápide esboçou uma carícia, caindo em seguida. — Prefiro idiotas a mártires. Põe o dinheiro de parte, Brie. Em breve teremos mais. Vou tratar disso em Dublin.

— Vais vê-la antes de partir?

— Vou, — respondeu Maggie, sinistra.

— Acho que vais gostar dela. — Rogan mergulhou o scone nas natas coa­lhadas e sorriu para a avó. — É uma mulher interessante.

— Interessante. — Christine Rogan Sweeney levantou uma perspicaz sobrancelha branca. Conhecia bem o neto, sabia interpretar cada nuance de tom e expressão. Contudo, quando o assunto era Maggie Concannon, ele mostrava-se misterioso. — De que forma?

Nem ele mesmo tinha a certeza e empatou um pouco enquanto me­xia o chá. — Ela é uma artista brilhante; a visão dela é extraordinária. Con­tudo, vive sozinha numa pequena cabana em Clare, e a decoração é tudo menos original em termos estéticos. É apaixonada pelo trabalho, mas tem relutância em mostrá-lo. Consegue ser uma pessoa charmosa e rude... e ambas parecem ser fiéis à sua natureza.

— Uma mulher contraditória.

— Muito. — Recostou-se, um homem completamente satisfeito na graciosa saleta, chávena Sèvres na mão, a cabeça encostada a uma almofada brocada de uma cadeira Rainha Ana. O lume ardia silenciosamente na la­reira. As flores e os scones bem frescos.

Ele apreciava estes chás ocasionais com a avó tanto quanto ela. A paz e a ordem da casa dela eram apaziguadoras, assim como ela com a sua per­pétua dignidade e beleza que se desvanecia suavemente.

Ele sabia que a avó tinha setenta e três anos e um imenso orgulho no facto de parecer dez anos mais nova. A sua pele era pálida como alabastro. Com rugas, é certo, mas as marcas da idade apenas ajudavam aquela sere­nidade no rosto. Os seus olhos eram de um azul brilhante, o cabelo macio e branco como a primeira queda de neve.

Ela tinha uma mente perspicaz, um bom gosto inquestionável, um coração generoso e um espírito seco, por vezes mordaz. Ela era, como Rogan já lhe dissera muitas vezes, a sua mulher ideal.

Era um sentimento que lisonjeava Christine tanto quanto a preocu­pava.

Ele só lhe falhara num aspecto: o de encontrar satisfação pessoal que fosse equivalente à profissional.

— Como estão a correr os preparativos para a exposição? — Pergun­tou ela.

— Muito bem. Seria mais fácil se a nossa artista do momento aten­desse o maldito telefone. — Colocou a irritação de lado. — As peças que já chegaram são lindas. Tens de passar pela galeria e ver com os teus próprios olhos.                                    

— Talvez faça isso. — Mas ela estava mais interessada na artista do que na arte. — Disseste que ela é uma jovem?

— Hmm?

— A Maggie Concannon. Mencionaste que ela era jovem?

— Oh, na casa dos vinte e muitos, acho eu. Jovem, certamente, à luz da temática do seu trabalho.

Céus, era como se lhe arrancassem um dente. — E vistosa, dirias tu? Como a... como é que ela se chamava... Miranda Whitfield-Fry, a que fazia esculturas de metal e usava aquelas jóias todas e os cachecóis às cores?

— Não é nada parecida com a Miranda. — Graças a Deus. Lembra­va—se, com um arrepio na espinha, da forma implacável e embaraçosa com que a mulher o perseguira. — A Maggie é mais do tipo botas e saia de algo­dão. O cabelo parece que foi golpeado com uma tesoura da cozinha.

— Nada atraente, então.

— Não, muito atraente... mas de uma forma invulgar.

— Máscula?

— Não. — Ele lembrava-se, desconfortável, daquele impulso sexual perverso, o seu aroma sensual, a sensação daquele tremor rápido e involun­tário debaixo da mão dele. — Longe disso.

Ah, pensou Christine. Ia de certeza arranjar tempo para conhecer a mulher que pusera aquele olhar carrancudo no rosto de Rogan. — Ela in­triga-te.

— Certamente, caso contrário não a teria contratado. — Apanhou o olhar de Christine e ergueu o sobrolho de forma idêntica. — São negócios, avó. Apenas negócios.

— Claro que sim. — Rindo para dentro, serviu-lhe mais chá. — Diz-me que mais é que tens feito.

Rogan chegou à galeria no dia seguinte às oito da manhã. Desfrutara de uma noite no teatro e de uma ceia tardia com uma companhia ocasional. Como sempre, achara a Patrícia charmosa e encantadora. Viúva de um ve­lho amigo, ela era, segundo a sua opinião, mais uma prima distante do que um encontro. Discutiram a peça de Eugene O'Neill enquanto degustavam salmão e champanhe, despedindo-se com um beijo platónico logo depois da meia-noite.

E não pregara olho.

Não fora a gargalhada suave ou o perfume subtil de Patrícia que o mantivera agitado.

Maggie Concannon, pensava ele. Naturalmente, a mulher estava-lhe sempre no pensamento, uma vez que a maior parte do seu tempo e esforços estava concentrada na sua eminente exposição. Não era surpresa nenhuma que ele pensasse nela — em especial porque era de todo impossível falar com ela.

A aversão que ela tinha ao telefone levara-o a recorrer aos telegramas, que «disparava» para oeste com uma regularidade intensa.

A única resposta que teve dela fora breve e directa: PARE CHATEAR.

Imagine-se, pensava Rogan ao destrancar as elegantes portas de vi­dro da galeria. Ela acusara-o de a chatear, como uma menina mimada e lamurienta. Ele era um homem de negócios, por amor de Deus, que estava prestes a dar à carreira dela um empurrão astronómico. E ela nem sequer se dignava a atender o raio do telefone e a ter com ele uma conversa razoável.

Estava habituado a artistas. Santa Maria sabia que ele tivera de lidar com as suas excentricidades, inseguranças e, muitas vezes, com as suas exi­gências infantis. Era esse o trabalho dele, para o qual se considerava apto. Mas Maggie Concannon estava a testar as suas capacidades, bem como a sua paciência.

Voltou a trancar as portas depois de entrar e inspirou o ar ligeiramente perfumado da galeria. Construído pelo seu avô, o edifício era grande e majestoso, um testemunho pungente à arte, de alvenaria gótica e balaustra­das esculpidas.

O interior consistia em dezenas de quartos, uns pequenos, outros grandes, todos fluindo para o seguinte em largas arcadas. As escadas su­biam em caracol de forma fluida para o segundo andar, que albergava um aposento de dimensões de um salão de baile, que incluía salinhas acolhedo­ras mobiladas com sofás antigos.

Seria ali que exibiria as obras de Maggie. No salão de baile ficaria uma pequena orquestra. Enquanto os convidados apreciavam a música, o champanhe e os canapés, podiam circular à volta das peças estrategicamen­te colocadas. Iria destacar as peças maiores e mais arrojadas, exibindo as mais pequenas em cenários mais intimistas.

Na sua imaginação, registando as imagens mentalmente, caminhou ao longo da galeria inferior na direcção do escritório e dos armazéns.

Encontrou o gerente da galeria, Joseph Donahoe, a servir café na kitchenette.

— Chegaste cedo. — Joseph sorriu, mostrando o reluzir de um dente de ouro. — Café?

— Aceito. Quis verificar o andar das coisas lá em cima antes de ir para o escritório.

— Está a evoluir bem. — Assegurou-lhe Joseph. Apesar de os dois homens já terem uma certa idade, o cabelo branco de Joseph estava a ficar ralo no topo. Compensava a perda deixando-o crescer o suficiente para o prender num longo rabo-de-cavalo. Partira o nariz uma vez, devido ao im­pacto caprichoso de um taco de pólo, por isso tinha um ligeiro desvio para a esquerda. O resultado era um certo ar de pirata enfiado num fato Savile Row.

As mulheres adoravam-no.

— Pareces um pouco cansado.

— Insónias, — explicou Rogan, bebendo o café simples. — A remes­sa de ontem já foi desembalada?

Joseph vacilou. — Estava com receio que perguntasses. — Ergueu a chávena e murmurou para dentro dela. — Ainda não chegou.

— O quê?

Joseph revirou os olhos. Trabalhava para Rogan há mais de uma dé­cada e conhecia aquele tom. — Não chegou ontem. Tenho a certeza que vai chegar esta manhã. Foi por isso que vim hoje tão cedo.

— O que é que aquela mulher pretende? As instruções que lhe dei foram muito específicas, muito simples. Devia ter enviado as últimas peças esta noite.

— É uma artista, Rogan. Provavelmente teve um golpe de inspiração e continuou a trabalhar, quando devia ter enviado as peças. Temos muito tempo.

— Comigo, nem pense que vai engonhar. — Afogueado, Rogan pe­gou no telefone da cozinha, num movimento brusco. Não teve de procurar o número de Maggie na agenda de endereços. Já o sabia de cor. Golpeou os botões e ouviu o telefone a tocar. A tocar... — Criatura irresponsável.

Joseph tirou um cigarro ao mesmo tempo que Rogan batia com o auscultador. — Temos mais de trinta peças, — disse ele, ao acender um is­queiro de esmalte trabalhado. — Sem contar com este último carregamen­to, já é suficiente. E as obras, Rogan. Até uma mão velha e exausta como a minha fica deslumbrada.

— Não é bem essa a questão, pois não?

Joseph expeliu o fumo, apertando os lábios. — Na verdade, é sim.

— Concordámos em quarenta peças, não trinta e cinco, nem trinta e seis. Quarenta. E por Deus, quarenta é o que teremos.

— Rogan... onde é que vais? — Perguntou, assim que Rogan saiu como um raio da cozinha.

— Para a porcaria de Clare.

Joseph deu mais um bafo no cigarro e esboçou um brinde no ar com a chávena de café. — Bon voyage.                                    

O voo fora curto e não dera ao temperamento de Rogan tempo suficiente para se acalmar. O facto de o céu exibir um azul glorioso, o ar balsâmico, não mudava nada. Quando bateu com a porta do carro alugado e se dirigiu para o Aeroporto de Shannon, ainda estava a amaldiçoar Maggie.

Quando chegou à cabana dela, estava a ferver em pouca água.

O atrevimento da mulher, pensava, ao mesmo tempo que estacava diante da porta dela. Obrigara-o a largar o trabalho, as suas obrigações. Será que se achava a única artista que ele representava?

Bateu à porta até lhe doer o punho. Ignorando as boas maneiras, em­purrou a porta. — Maggie! — Gritou, passando da sala de estar para a cozi­nha. — Maldita sejas. — Sem parar, saiu pela porta das traseiras e dirigiu-se para a oficina.

Devia ter adivinhado que estaria ali.

Ela espreitou por cima de uma bancada de trabalho e de uma monta­nha de papel cortado às tiras. — Óptimo. Bem preciso de uma ajuda com isto.

— Porque raio é que não atende a porcaria do telefone? Porque é que tem essa maldita coisa se a ignora sempre?

— Muitas vezes pergunto o mesmo. Passe-me o martelo, sim?

Ele tirou-o da bancada, tomou-lhe o peso por instantes, enquanto a imagem assaz agradável de lho atirar à cabeça lhe percorria a mente. — Onde raio é que está a minha encomenda?

— Está aqui mesmo. — Passou a mão pelo cabelo desalinhado antes de lhe tirar o martelo. — Estou agora mesmo a empacotá-la.

— Devia ter chegado a Dublin ontem. — Bom, isso é impossível por­que ainda nem a enviei. — Com movimentos hábeis e rápidos, começou a martelar pregos na caixa que estava no chão. — E se fez esta viagem toda para ver como andam as coisas, permita que lhe diga que não tem mais o que fazer do seu tempo.

Ele levantou-a do chão e largou-a em cima da bancada. O martelo bateu no cimento, falhando por pouco o pé dele. Antes que ela recuperasse o fôlego para lhe cuspir para cima, já a mão dele lhe agarrava o queixo.

— Tenho muito mais onde gastar o meu tempo, — disse, calmo. — E tomar conta de uma mulher irresponsável e desmiolada interfere com os meus compromissos. Tenho uma equipa na galeria, cujos horários são pen­sados cautelosa, até meticulosamente. A única coisa que tinha de fazer era seguir as instruções e enviar a porcaria da mercadoria.

Com força, afastou a mão dele. — Não quero saber dos vossos com­promissos ou horários. Você contratou uma artista, Sweeney, não uma mal­dita funcionária de escritório.

— E que capricho artístico a impediu de seguir uma indicação pura e simples?                                

Cerrou os dentes, pensou até em esmurrá-lo, mas apontou simples­mente. — Aquele.

Ele desviou o olhar, ficando paralisado. Só mesmo a cegueira causada pelo acesso de fúria o impedira de a ver ao entrar na oficina.

A escultura estava na outra extremidade da sala, com uns bons no­venta centímetros de altura, com cores de sangue retorcendo-se, em formas sinuosas. Um emaranhado de membros, certamente, pensava ele, frontalmente sexual, maravilhosamente humana. Dirigiu-se até ela para a estudar de um ângulo diferente.

Quase que conseguia distinguir rostos. Pareciam derreter-se na ima­ginação, deixando apenas a sensação de realização absoluta. Era impossível ver onde começava uma forma e terminava outra, tão completa, tão perfei­ta onde se uniam. Era, achava ele, uma celebração do espírito humano e da sexualidade animalesca.

— Como é que lhe chamou?

— Rendição. — Ela sorriu. — Parece que me inspirou, Rogan. — Fus­tigada pela energia recente, empurrou o banco. Parecia delirante, tonta e sentia-se gloriosa.

— Demorei uma eternidade a acertar com as cores. Não ia acreditar na quantidade de material que voltei a fundir e deitei fora. Mas conseguia-a ver, perfeitamente, e tinha de ser exacta. — Riu-se e pegou no martelo para pregar outro prego. — Não sei quando foi a última vez que dormi. Há dois, três dias. — Riu-se de novo, passando as mãos pelo cabelo despenteado. — Não estou cansada. Sinto-me incrível. Cheia de uma imen­sa energia. Não consigo parar.

— É magnífica, Maggie.

— É a melhor obra que já fiz. — Voltou-se para a estudar outra vez, batendo com o martelo na palma da mão. — Provavelmente a melhor que alguma vez farei.

— Vou arranjar uma caixa de madeira. — Ele lançou-lhe um olhar por cima do ombro. Ela estava pálida como cera, reparou, devido ao cansa­ço que o cérebro em turbilhão ainda teria de transmitir ao seu corpo. — E trato do envio pessoalmente.

— Eu estava agora a fazer uma. Não demora muito.

— Você não é de confiar.

— Claro que sou. — A sua disposição era tão festiva, que nem sequer se ofendeu. — E seria mais rápido para mim construir uma do que para si mandar fazer outra. Já sei as dimensões.

— Quanto tempo?

— Uma hora.

Ele acenou. — Vou telefonar a pedir um camião. Presumo que o seu telefone funcione.

— O sarcasmo... — a rir, foi ter com ele — ainda tomará conta de si. Tal como essa gravata impecavelmente aprumada.

Antes que qualquer um deles tivesse hipótese de pensar, ela agarrou na gravata dele e puxou-o. A sua boca quente colou-se à dele, assolando-o na imobilidade. A mão livre escorregou-lhe pelo cabelo, agarrando-o assim que o seu corpo se aproximou. O beijo crepitou, faiscou, fumegou. Depois, tão rápido como começara, afastou-se dele.

— Um pequeno capricho, — disse ela, sorrindo para ele. O seu cora­ção saltava como um coelho no peito, mas podia pensar nisso mais tarde. — A culpa é da privação de sono e do excesso de energia. Agora...

Ele agarrou-lhe o braço antes que ela pudesse ir-se embora. Não ia fugir assim tão facilmente, pensou. Não o ia paralisar num minuto e no seguinte virar-lhe as costas.

— Também tenho um capricho meu, — murmurou ele. Ao deixar que a mão deslizasse pela parte de trás do pescoço dela, observou que os seus olhos registavam uma certa surpresa. Ela não resistiu. Pareceu-lhe ver uma réstia de divertimento no seu rosto antes de unir a boca à dela.

A diversão desvaneceu-se rapidamente. O beijo era macio, doce, sumptuoso. Tão inesperado quanto pétalas de rosa no calor da fornalha, arrefecia, serenava e excitava ao mesmo tempo. Ela achou ter ouvido um ruído, algo entre um queixume e um suspiro. O facto de ter sido expelido pela sua própria garganta em chamas surpreendeu-a.

Mas não se afastou, nem sequer quando o som voltou, baixo, abando­nado e enganador. Não, não se afastou. A boca dele era demasiado astuta, demasiado delicada e persuasora. Ela aceitou-a e deixou-se absorver.

Maggie parecia derreter-se de encontro a ele, grau a grau, bem de­vagar. A primeira explosão de calor amadurecera, transformando-se num lume baixo e demorado. Ele esquecera-se de que estivera zangado, ou que fora desafiado, sabendo apenas que estava vivo.

Ela já provara a escuridão, misteriosa, e nisso a boca dele era rica. A sua mente concentrava-se em tomar, conquistar, arrebatar. O homem civi­lizado que havia nele, o que fora educado para seguir um rígido código de ética, recuava, abismado.

A cabeça dela baloiçava. Pousou uma mão na bancada de trabalho, em busca de equilíbrio, enquanto as pernas vacilavam. A um longo suspiro seguiu-se outro, ajudando-a a aclarar a visão. Viu-o a olhar fixamente para ela, num misto de fome e choque no olhar.

— Bom, — começou ela, — isto de certeza que dá algo em que pen­sar.                                                            

Seria tolice desculpar-se pelos seus pensamentos, convencia-se Rogan. Seria ridículo culpar-se pelo facto, de a sua imaginação desenhar ima­gens eróticas e vívidas em que a atirava ao chão, rasgando flanelas e ganga. Não fizera nada disso. Apenas a beijara.

Mas pensava ser possível, até preferível, culpá-la.

— Temos uma relação de negócios, — comentou ele, sóbrio. — Seria insensato e até destrutivo deixar que alguma coisa interfira com isso, nesta altura.

Ela inclinou a cabeça, baloiçando-se para trás sobre os saltos dos sa­patos. — E dormirmos juntos só ia confundir as coisas?

Maldita seja por o fazer parecer um idiota. Maldita seja duas vezes por o deixar abalado e muito, muito carente. — Nesta altura, acho que nos devemos concentrar no lançamento da tua exposição.

— Hmm... — Ela afastou-se sob o pretexto de arrumar a bancada de trabalho. Na verdade, precisava de um momento para arrumar as ideias. Não era nada promíscua e certamente que não ia saltar para a cama com todos os homens por quem se sentisse atraída. Mas gostava de se ver a si mesma como independente o suficiente, livre e esperta o suficiente para escolher os amantes com aprumo.

Escolhera, apercebia-se agora, Rogan Sweeney.

— Porque é que me beijaste?

— Porque me irritaste.

A boca dela larga e generosa desenhava um arco. — Já que parece que faço isso com alguma regularidade, vamos passar bastante tempo de boca fechada.

— É uma questão de controlo. — Ele sabia como soava rígido e ceri­monioso, odiando-a por isso.

— Tenho a certeza que costumas nadar nele. Eu não. — Lançou a cabeça para trás, cruzando os braços sobre o peito. — Se eu decidir que te quero, o que é que vais fazer em relação a isso? Renegar-me?

— Duvido que chegue a tanto. — A imagem trouxe uma pontada de humor e desespero. — Ambos precisamos de nos concentrar no negócio em mãos. Este pode ser o ponto de viragem na tua carreira.

— Sim. — Seria sensato lembrar-se disso, pensava ela. — Então po­demos usar-nos um ao outro, profissionalmente.

— Podemos melhorar-nos um ao outro, profissionalmente, — corri­giu ele. Céus, como precisava de apanhar ar. — Vou lá dentro telefonar por causa do camião.

— Rogan. — Ela esperou até que ele chegasse à porta, ficando de cos­tas para ela.— Gostava de ir contigo.                    

— Para Dublin? Hoje?

— Sim. Quando o camião chegar já estarei pronta. Só tenho de parar num sítio, em casa da minha irmã.

Ela valia tanto quanto a sua palavra. A mercadoria iniciava a sua viagem e ela mal teve tempo para lançar uma mala para as traseiras do carro alugado do Rogan.                                                                              

— Se me deres só mais uns dez minutos, — disse ela, quando Rogan começou a descer a rua estreita, — tenho a certeza que a Brie tem chá ou café feitos.

Não bateu à porta, mas entrou e dirigiu-se logo à cozinha, nas trasei­ras. Brianna estava lá, com um avental branco atado à volta da cintura e as mãos cobertas de farinha.

— Oh, Sr. Sweeney, olá Maggie. Desculpem a confusão. Temos hós­pedes e estou a fazer tartes para o jantar.

— Estou de partida para Dublin.

— Já? — Brianna foi buscar um pano da louça para tirar a farinha das mãos. — Pensei que a exposição fosse na semana que vem.

— E é. Vou mais cedo. Ela está no quarto?

O sorriso educado de Brianna endureceu um pouco nos cantos. — Está. Porque é que não vou lá dizer-lhe que estás aqui?

— Eu mesma digo-lhe. Talvez possas servir um café a Rogan.

— Claro. — Lançou um olhar preocupado a Maggie enquanto esta saía da cozinha, entrando nos aposentos ao lado. — Se quiser ficar à vonta­de na salinha, Sr. Sweeney, trago-lhe já um café.

— Não se incomode. — A sua curiosidade adensou-se. — Tomo uma chávena aqui mesmo, se não estiver a atrapalhar. — Acrescentou ele, com um sorriso fácil. — E, por favor, chame-me Rogan.                          

— Toma-o simples, se bem me lembro.

— Tem boa memória. — E estás uma pilha de nervos, observou ele, vendo Brianna ir buscar uma chávena e um pires.

— Tento lembrar-me dos gostos dos meus hóspedes. Quer uma fatia de bolo? É uma delícia de chocolate que fiz ontem.

— A memória dos seus cozinhados dificulta qualquer recusa. — Sen­tou-se à mesa de madeira gasta. — Faz tudo sozinha?

— Faço, eu... — Ouviu a primeira voz exaltada e atrapalhou-se. — Faço tudo. A lareira está acesa na salinha. Tem a certeza que não fica lá mais confortável?

O troar de vozes na sala ao lado aumentou, trazendo um rubor de embaraço às faces de Brianna. Rogan limitou-se a erguer a chávena. — Com quem é que ela está a gritar desta vez?

Brianna procurou sorrir. — Com a nossa mãe. Não se dão lá muito bem.                                    

— Será que a Maggie se dá bem com alguém?

— Só quando lhe convém. Mas tem um coração maravilhoso e ge­neroso. Só que o guarda com muita cautela. — Brianna suspirou. Se Ro­gan não se envergonhava com a gritaria, ela também não. — Vou cortar o bolo.

— És sempre a mesma. — Maeve fitava a filha mais velha de olhos franzidos.

— Tal e qual o teu pai.

— Se achas que isso é um insulto, estás enganada.

Maeve fungou e passou a mão pelas mangas de renda da camisa de noite. Os anos e os seus próprios descontentamentos haviam-lhe roubado a beleza do rosto. Estava flácido e pálido, com rugas marcadas bem fundo à volta da boca franzida. O cabelo, outrora dourado como a luz do Sol, revelava um cinzento desmaiado e estava puxado para trás de forma desa­linhada num rolo apertado.

Estava refastelada em cima de uma montanha de almofadas, a Bíblia numa mão e uma caixa de chocolates na outra. A televisão na outra ponta do quarto murmurava baixinho.

— Então, é Dublin? A Brianna contou-me que te vais embora. Estoi­rar dinheiro em hotéis, imagino.

— O dinheiro é meu.

— Oh, e fazes com que eu não me esqueça disso. — A amargura cres­cia ao mesmo tempo que Maeve se sentava na cama. Durante toda a sua vida, outra pessoa controlara sempre os cordões à bolsa, os pais, o marido e, agora, a mais humilhante de todas, a própria filha. — Só de pensar em tudo o que ele desperdiçou contigo, a comprar vidro, a mandar-te para aquele país estrangeiro e para quê? Para que possas brincar aos artistas e te armares em superior a todos nós?

— Ele não desperdiçou nada comigo. Deu-me a oportunidade de aprender.

— Enquanto eu ficava na quinta, a trabalhar até me sangrarem as mãos.

— Nunca trabalhaste um único dia da tua vida. Era a Brianna que fazia tudo enquanto tu ficavas na cama com um achaque atrás do outro.

— Achas que gosto de ser frágil?

— Oh, sim, — exclamou Maggie com desprezo. — Parece-me que adoras.

— É a minha cruz. — Maeve pegou na Bíblia, apertou-a contra o peito como um escudo. Já pagara pelo seu pecado, pensava. Já pagara por ele mais de cem vezes. No entanto, se o perdão viera, não se podia dizer o mesmo do consolo. — Isso e uma filha ingrata.

— E devo estar grata de quê? Por passares os dias todos a queixares-te? Por tornares bem claro a insatisfação para com o meu pai e a desilusão em relação a mim, em todas as palavras, em cada olhar?

— Dei-te à luz! — Gritou Maeve. — Quase morri para te dar vida. E por te trazer na barriga, casei com um homem que não me amava, que eu também não amava. Sacrifiquei tudo por ti.

— Sacrificaste? — Indagou Maggie, esgotada. — Que sacrifícios é que fizeste?

Maeve procurou refúgio na raiva amarga do seu orgulho. — Mais do que imaginas. E a minha recompensa foi ter filhas que não me amam.

— Achas que por teres engravidado e casado para me dares um nome devo relegar tudo o que fizeste? Tudo o que não fizeste? — Como, por exem­plo, amares-me só um bocadinho, pensou Maggie, pondo implacavelmente a mágoa para trás das costas. — Tu é que foste responsável, mãe. Eu fui o resultado, não a causa.

— Como te atreves a falar comigo dessa maneira? — O rosto de Maeve faiscou, de tão quente, os dedos enterrados nos cobertores. — Nunca tiveste nenhum respeito, bondade ou compaixão.

— Não. — Como sentia os olhos a picar, a voz de Maggie saiu ríspida como um chicote. — Foi essa falha que herdei de ti. Só vim aqui hoje para te dizer que não vais abusar da Brie enquanto estiver fora. Se souber que o fizeste, paro de enviar dinheiro.

— Tiravas-me a comida da boca?

Maggie debruçou-se para bater com a mão na caixa de chocolates. — Tirava. Podes crer que sim.

— Honra o teu pai e a tua mãe. — Maeve apertou a Bíblia ainda mais. — Estás a violar um mandamento, Margaret Mary, e a encomendar a tua alma ao inferno.

— Prefiro abdicar do meu lugar no céu a viver como uma hipócrita na terra.

— Margaret Mary! — Gritou Maeve quando Maggie chegou à porta. — Nunca hás-de conseguir nada. És tal e qual como ele. Deus amaldiçoou-te, Maggie, por teres sido concebida fora do sacramento do matrimónio.

— Em minha casa nunca vi sacramento de matrimónio nenhum, — retorquiu Maggie. — Apenas a agonia causada por ele. E se alguém pecou na minha concepção, não fui eu.

Bateu com a porta, encostando-se para trás por instantes, acalman­do-se.

Era sempre a mesma coisa, pensava. Não podiam estar juntas no mes­mo quarto sem desatarem aos insultos. Já sabia, desde os seus doze anos, porque é que a mãe não gostava dela, porque a condenara. A sua mera exis­tência era o motivo pelo qual a vida de Maeve passara de um sonho para uma dura realidade.

Um casamento sem amor, um bebé de seis meses e uma quinta sem agricultor.

Fora isso que a mãe lhe atirara à cara quando Maggie alcançara a pu­berdade.

Fora isso que impossibilitara um perdão entre as duas.

Endireitando os ombros, voltou para a cozinha. Não sabia que nos olhos ainda mostrava o brilho da ira, ou que o rosto estava pálido. Foi ter com a irmã e beijou-a intensamente na face.

— Ligo-te de Dublin.

— Maggie. — Havia tanto a dizer e nada a dizer. Brianna apenas lhe apertou as mãos. — Quem me dera poder ir contigo.

— Podias, se quisesses muito. Rogan, estás pronto?

— Estou. — Levantou-se. — Adeus, Brianna. Obrigado.

— Acompanho-vos... — Brianna estacou assim que a mãe a chamou.

— Vai ver o que ela quer, — disse Maggie, saindo de casa à pressa. Com um puxão, tentava a porta do carro de Rogan, quando ele lhe pousou a mão no ombro.

— Estás bem?

— Não, mas não quero falar sobre isso. — Num esforço final, conse­guiu abrir a porta e entrou.

Rapidamente, ele deu a volta pela frente do carro e entrou para o lu­gar do motorista. — Maggie...

— Não digas nada. Nada mesmo. Não há nada que possas fazer ou dizer que mude velhos hábitos. Limita-te a conduzir e deixa-me estar. Seria um grande favor que me fazias. — Depois, começou a chorar, intensamen­te, com amargura, enquanto ele lutava entre a ânsia de a reconfortar e o desejo de cumprir o pedido dela.

Acabou por conduzir, sem dizer nada, mas segurando-lhe na mão. Estavam a aproximar-se do aeroporto quando ela deixou de soluçar e des­contraiu os dedos tensos. Olhando de soslaio, viu que ela dormia.

Não acordou quando ele a levou ao colo para o avião da empresa, nem quando a acomodou no lugar. Nem sequer acordou durante todo o voo enquanto ele a observava. E pensava.

 

 

                                                 CAPÍTULO SEIS

 

Maggie acordou às escuras. A única coisa que sabia naqueles primeiros mi­nutos ébrios era que não estava na sua própria cama. O cheiro dos lençóis, a própria textura não correspondia. Não era preciso dormir em finas roupas de cama de linho com frequência para reconhecer a diferença, nem para reparar no aroma subtil e agradável a verbena que emanava da almofada em que enterrara o rosto.

À medida que um pensamento desconfortável lhe zumbia na cabeça, esticou o braço com cautela para se certificar que era a única ocupante da cama. O colchão oscilava, um autêntico lago de lençóis macios e confortá­veis cobertores. Um lago vazio, graças a Deus, pensou ela, rolando para o meio da cama.

A última memória vívida que tinha era a de chorar até não poder mais no carro de Rogan, e da sensação de vazio que a deixara a vaguear como um ramo partido num riacho.

Uma boa expiação, decidira, uma vez que se sentia incrivelmente me­lhor — calma, tranquila e limpa.

Era tentador deixar-se embalar pela escuridão em lençóis macios, com aromas suaves. Mas decidira que era melhor descobrir onde estava e como chegara até ali. Depois de escorregar até à borda da cama, às apalpa­delas, procurou a madeira macia da mesa-de-cabeceira, passando os dedos pelo fio até encontrar o candeeiro e o interruptor.

A luz tinha uma sombra suave, uma tonalidade dourada quente que iluminava de forma subtil um enorme quarto com tecto trabalhado, ele­gante papel de parede botão de rosa e a própria cama, imensa com quatro postes.

A autêntica rainha das camas, pensou com um sorriso. Que pena que estivera demasiado cansada para a apreciar.

A lareira no extremo oposto do quarto estava apagada, mas perma­necia limpa como uma moeda nova, e pronta a acender. Rosas cor-de-rosa de pé alto, frescas como uma manhã de Verão, enfeitavam uma jarra Waterford num ramo majestático ao lado de um conjunto de escovas de prata e lindas garrafinhas às cores com rolhas de fantasia.

O espelho por cima reflectia Maggie, desgrenhada e de olhos incha­dos no meio dos lençóis.

Pareces um pouco deslocada, minha menina, decidiu ela e, resmungando, puxou as mangas da camisa de noite de algodão. Parecia que alguém tivera o bom senso de lhe mudar a roupa antes de a meter na cama real.

Talvez uma empregada, ou o próprio Rogan. Não interessava muito, pensou de forma prática, uma vez que já estava consumado e ela certa­mente beneficiara disso. Segundo todas as probabilidades, as suas roupas estariam penduradas de forma graciosa no armário de pau-rosa entalhado. Estava tão deslocada ali, decidiu com um estalido da língua, como estava no lago glorioso de lençóis de linho macios.

Se estivesse num hotel, era certamente o melhor em que algum mece­nas a hospedara. Levantou-se aos trambolhões, tropeçando até à porta mais próxima num farto tapete Aubusson.

A casa de banho era tão sumptuosa quanto o quarto, toda em azu­lejos cor-de-rosa e marfim brilhantes, uma imensa banheira apetrechada para imersão e um chuveiro à parte, construído num bloco de vidro on­dulado. Com um suspiro de pura avidez, despiu a camisa de noite e ligou o chuveiro.

Era o céu, a água quente a bater na parte de trás do pescoço, dos om­bros, como os dedos firmes de um massagista experiente. Bem diferente das míseras pingas espremidas do seu chuveiro em casa. O sabonete cheira­va a limão e deslizava sobre a sua pele como seda.

Viu com algum divertimento que os poucos produtos de toilette ha­viam sido dispostos na generosa bancada ao lado dos lavatórios em forma de concha. O seu roupão, tal como estava, pendia num cabide de metal ao lado da porta.

Bom, alguém tomara conta dela, apercebeu-se, e de momento não encontrava motivos para se queixar.

Após cerca de quinze minutos debaixo da água bem quente esticou o braço, apanhando uma das toalhas grossas dobradas por cima de um seca­dor de toalhas. Era suficientemente grande para se embrulhar do peito até à barriga das pernas.

Penteou o cabelo molhado para não cair para o rosto, usou o creme que estava num frasco de cristal, depois trocou a toalha pelo roupão de flanela esfarrapado.

Descalça e curiosa, começou a explorar.

O quarto dela ficava ao fundo de um grande corredor. Luzes baixas lançavam sombras pelo chão reluzente e pelo rodapé vermelho régio. Não ouviu som algum ao vaguear na direcção das escadas que curvavam gracio­samente para cima, levando a outro piso, e para baixo. Ela escolheu ir para baixo, deixando que os dedos brincassem com o corrimão polido.

Era óbvio que não era hóspede de um hotel de luxo, mas sim de uma casa privada. A casa de Rogan, concluiu, com um vislumbre invejoso pela arte que adornava o foyer e o corredor principal. O homem tinha um Van Gogh e um Matisse, apercebeu-se, ao ficar com água na boca.

Encontrou a sala de estar principal, com as janelas amplas abertas para a noite tranquilizante, uma sala de espera, as cadeiras e sofás dispos­tos em grupos de conversa. Do outro lado do corredor estava o que ela imaginava chamar-se a sala da música, uma vez que era dominada por um grande piano e uma harpa dourada.

Era tudo lindo, com obras de arte suficientes para manter Maggie entretida durante dias. Mas, de momento, tinha outra prioridade.

Perguntava-se quanto tempo teria de procurar até encontrar a cozi­nha.

A luz debaixo de uma porta chamou-lhe à atenção. Ao olhar lá para dentro, viu Rogan sentado atrás de uma secretária, os papéis dispostos em pilhas arrumadas à sua frente. Era uma sala com dois pisos, a secretária dele no primeiro e degraus que levavam a uma pequena sala de estar. As paredes estavam repletas de livros.

Quilómetros deles, pensou ela num olhar rápido, numa sala que chei­rava a cabedal e a cera de abelha. A sala estava decorada a tons de vinho e madeiras escuras que combinavam com o homem tanto quanto com a literatura.

Ela observou-o, interessada na forma como ele perscrutava a página à sua frente, tomando notas breves e decisivas. Ele estava, pela primeira vez desde que se conheciam, sem fato ou gravata. Claro que já os tivera vesti­dos, imaginou ela, mas agora tinha o colarinho desabotoado, as mangas da camisa gomada enroladas até aos cotovelos.

O cabelo, reluzindo em tons negros à luz do candeeiro, estava algo desalinhado. Como se tivesse passado as mãos impacientes por ele enquan­to trabalhava. Voltou a fazê-lo enquanto ela o observava, passando os de­dos, agitando um pouco.

Estava a trabalhar em algo que o absorvia plenamente, a um ritmo constante, sem distracções o que, de certa forma estranha, a fascinava.

Não era homem para deixar a mente vaguear, pensou ela. O que esco­lhia fazer era realizado com a máxima concentração e mestria.

Ela lembrava-se da forma como a beijara. Concentração e mestria, certamente.

Rogan leu a cláusula seguinte da proposta e franziu o sobrolho. A terminologia não era a correcta. Uma modificação... fez uma pausa, pen­sando, riscando uma frase e escolhendo novas palavras. A expansão da sua fábrica em Limerick era crucial para o seu plano estratégico e tinha de ser implementada antes do final do ano.

Criaria centenas de empregos e, com a construção de apartamentos a preços razoáveis, que estava nos planos de uma filial da Worldwide, muitas famílias poderiam também ter uma casa.

Uma sucursal da empresa podia subsidiar directamente uma outra, pensou ele. Seria uma pequena mas importante contribuição para manter os irlandeses — infelizmente, a maior exportação do seu país — na Irlan­da.

A sua mente girava à volta da cláusula, quase a reduzindo a tábua rasa, quando deu por si a dispersar. Algo chamava a atenção do seu cérebro, distraindo-o do assunto em mãos. Rogan olhou na direcção da porta e viu que não era alguma coisa, mas antes alguém.

Ele deve tê-la sentido ali de pé, descalça e ensonada, de roupão cin­zento maltrapilho. O cabelo dela estava penteado para trás, um fogo ver­melho brilhante, num estilo que devia ser severo mas, em vez disso, era fulminante.

Descomposto e ao natural, o rosto dela parecia marfim com um ru­bor cor-de-rosa emergente. As pestanas estavam húmidas à volta dos olhos sonolentos.

Ele teve uma reacção rápida, violenta e humana. Até mesmo quando se sentiu inundar de calor, teve necessidade de o verificar, implacavelmente.

— Desculpa interromper. — Ela lançou-lhe um sorriso rápido e atre­vido que torturava a sua libido já activa. — Andava à procura da cozinha. Estou meia esfomeada.

— Não admira. — Obrigou-se a pigarrear. Tinha a voz rouca, de uma sensualidade tão sonolenta quanto os olhos dela. — Quando foi a última vez que comeste?

— Não tenho a certeza. — Encostando-se preguiçosa à ombreira da porta, bocejou. — Acho que foi ontem. Ainda estou um bocado perdida.

— Não, ontem dormiste. O dia todo, desde a altura em que saímos de casa da tua irmã, e o resto do dia seguinte.                    

— Oh. — Encolheu os ombros. — Que horas são?                  

— Pouco depois das oito... de terça-feira.

— Bom. — Entrou na sala e enroscou-se numa grande poltrona de cabedal em frente da secretária dele, como se já lhe fizesse companhia ali há anos.

— Costumas dormir sempre trinta horas seguidas?

— Só quando estou a pé tempo demais. — Esticou os braços bem alto para afastar a dormência que começara a sentir. — Às vezes uma peça agarra-nos pelo pescoço e só nos larga quando a tivermos acabado.

Decidido, desviou o olhar da pele que a abertura no roupão revelava, olhando para baixo cegamente para os papéis à sua frente. Ficou chocado que pudesse reagir como um adolescente num turbilhão hormonal. — É perigoso, na tua profissão.

— Não, porque não fico cansada. É como se ficasse alerta de uma ma­neira insustentável. Quando tu trabalhas tempo demais, perdes o controlo. Tens de parar, descansar. Isto é diferente. Quando acabo, caio para o lado e deixo-me estar a dormir até não querer mais. — Sorriu outra vez. — A cozinha, Rogan? Estou esfomeada.                                        

Em vez de responder, ele foi buscar o telefone e marcou um número. — Miss Concannon já acordou, — declarou. — Gostava de comer qualquer coisa. Na biblioteca, por favor.

— Que máximo, — comentou ela, assim que ele pousou o ausculta­dor. — Mas podia ter ido fazer uns ovos mexidos e não incomodava os teus empregados.

— São pagos para se incomodarem.

— Claro. — A voz dela ficou seca como pó. — Que presunçoso deves ser, com tantos empregados às tuas ordens a qualquer hora. — Agitou a mão antes que ele pudesse responder. — É melhor não falarmos sobre isso de estômago vazio. Diz-me, Rogan, como é que fui parar lá acima àquela cama enorme?

— Fui eu que te pus lá.

— A sério? — Se ele estava à espera que ela corasse ou gaguejasse, enganou-se. — Então tenho de te agradecer.

— Estavas a dormir como uma pedra. A determinada altura até tive de te encostar um espelho à boca para ver se estavas viva. — Agora estava certamente, viva e vibrante à luz do candeeiro. — Queres um brandy?

— É melhor não, ainda não comi.

Ele levantou-se, foi ao aparador e serviu um copo solitário da garrafa de vidro. — Estavas transtornada quando nos viemos embora.

Ela esticou o pescoço. — Aí está uma forma diplomática de abordar a questão. — A choradeira não a envergonhara. Era simples emoção, paixão, tão real e humana quanto o riso ou o desejo. Mas ela lembrava-se que ele lhe dera a mão e não desperdiçara palavras ocas para acalmar a tempestade. — Desculpa se ficaste numa situação desagradável.

Era verdade, mas ele encolheu os ombros. — Não querias falar no assunto.

— Não queria e não quero. — Respirou fundo devido à rispidez na voz. Ele não merecia tamanha descortesia depois de tanta amabilidade. — Não tem nada a ver contigo, Rogan, são só velhos desentendimentos familiares. Como hoje estou um pouco lamechas, deixa-me dizer-te que foi reconfortante ter a tua mão na minha. Nunca pensei que fosses do tipo generoso.

Os olhos dele saltaram de encontro aos dela. — Parece-me que não nos conhecemos assim tão bem para generalizar.

— Sempre achei que fazia juízos rápidos e correctos, mas talvez te­nhas razão. Então, diz lá... — apoiou um cotovelo no braço da poltrona, apoiando o queixo no punho — quem és tu, Rogan Sweeney?

Ficou aliviado, uma vez que a chegada do jantar dela adiara a res­posta. Uma empregada aprumada, de farda, trazia um carrinho de servir, parando-o à frente de Maggie num ligeiro murmúrio, entre o tilintar de talheres de prata. Esboçou uma pequena vénia quando Maggie lhe agrade­ceu, para depois desaparecer no momento em que Rogan lhe disse que não precisava de mais nada.

— Ah, que cheirinho. — Maggie atacou a sopa primeiro, um caldo rico e consistente onde nadavam pedaços de vegetais. — Queres provar?

— Não, já comi. — Em vez de dar a volta pela secretária, ele sentou-se na poltrona ao lado da dela. Era estranhamente acolhedor, apercebeu-se, sentar-se ao lado dela enquanto comia, tendo em seu redor a casa tão sosse­gada. — Visto que regressaste ao mundo dos vivos, talvez te apeteça passar pela galeria de manhã.

— Umm. — Acenou, com a boca cheia de pão tostado. — Quando?

— Às oito... tenho compromissos a meio da manhã, mas posso levar--te e deixar um carro à tua disposição.

— Um carro à minha disposição. — Divertida, tapou a boca com a mão enquanto ria. — Oh, até me podia habituar a isso rapidamente. E o que é que faria com o carro à minha disposição?

— O que quisesses. — Deus sabia porque é que a reacção dela o irri­tava tanto, mas era um facto. — Ou então podes passear a pé por Dublin, se preferires.

— Estamos um bocadinho irritados esta noite, não? — Passou da sopa para a entrada de galinha doce. — O teu cozinheiro é maravilhoso, Rogan. Achas que ele, ou ela, me dá a receita para a Brie?

— Ele, — retorquiu Rogan. — Estás à vontade para tentar. Ele é fran­cês, insolente e com tendência para birras.

— Então, temos tudo em comum, excepto a nacionalidade. Conta--me, vou para um hotel amanhã?

Ele pensara nisso, e bastante. Era óbvio que para ele seria mais con­fortável se ela ficasse instalada numa suite em Westbury. Mais confortável, pensara, e mais enfadado. — Podes ficar no quarto de hóspedes, se quise­res.

— Mas que bela ideia. — Ela estudou-o ao espetar uma pequena batata nova. Apercebeu-se que ali, parecia descontraído. Muito mais o rei complacente do castelo. — Vives sozinho nesta casa enorme?

— Sim. — Ergueu uma sobrancelha. — Isso preocupa-te?

— Se me preocupa? Oh, queres dizer, porque podes vir bater à mi­nha porta numa noite de luxúria? — Riu-se, deixando-o furioso. — Te­nho capacidade para dizer sim ou não, Rogan, tal como tu se eu fosse bater à tua. Só perguntei porque acho que são divisões a mais para um homem só.

— É a casa da minha família, — comentou ele, rígido. — Toda a vida vivi aqui.

— E que belo lugar. — Empurrou o carrinho para trás e foi até ao apa­rador. Abriu a garrafa de vidro para cheirar. Suspirou ao sentir o fino aroma do uísque irlandês. Depois de se servir de um copo, regressou e cruzou as pernas sobre o braço da poltrona. — Sláinte, — exclamou, bebendo o uís­que de um só trago. Sentiu um fogo bom e forte a escorrer pela garganta.

— Queres outro?

— Um chega. Como dizia o meu pai, um aquece a alma, dois aque­cem o miolo. Está-me a apetecer manter a cabeça fria. — Pousou o copo vazio no carrinho, mudando para uma posição mais confortável. O roupão de flanela amarrotado abriu-se na curva do joelho. — Não respondeste à minha pergunta.

— Qual foi?

— Quem és tu?

— Sou um homem de negócios, como fazes questão de estar sempre a lembrar. — Recostou-se, fazendo um evidente esforço para não deixar a mente ou o olhar prender-se nas pernas nuas dela. — Terceira geração. Nascido e criado em Dublin, com amor e respeito pela arte incutidos desde o berço.

— E esse amor e respeito cresceram com a ideia de fazer disso lucro.

— Precisamente. — Agitou o brandy, bebeu e aparentou ser exacta­mente o que era. Um homem confortável com a sua própria riqueza e sa­tisfeito com a vida. — Se fazer lucro tem a sua própria vertente satisfatória, existe outra, uma satisfação mais espiritual que advém do desenvolvimento e da promoção de um novo artista. Em especial, quando se acredita nele apaixonadamente.

Maggie tocou com a língua no lábio superior. Ele estava demasiado confiante, decidira ela, demasiado seguro de si próprio e do seu lugar no mundo. Todas aquelas certezas absolutas pediam um certo abalo.

— Então, estou aqui para te satisfazer, Rogan?

Ele encontrou os seus olhos divertidos, acenando. — Não tenho dú­vidas disso, Maggie, eventualmente. A todos os níveis.

— Eventualmente. — Ela não quisera de todo levá-los para terrenos tão instáveis, mas parecia irresistível, ali sentada com ele naquela sala silenciosa com o corpo tão descontraído, a mente tão alerta. — Escolhes tu a hora e o sítio, imagino?

— Acho que é costume ser o homem a escolher quando avançar.

— Hah! — Irritada, debruçou-se para lhe espetar um dedo no peito. Quaisquer pensamentos que tivera acerca de um possível romance desva­neceram-se em fumo. — Enfie os seus costumes no chapéu, que lhe ficam tão bem. Não alinho neles. Se calhar era bom saberes que, ao aproximarmo-nos do século vinte e um, as mulheres fazem as suas próprias escolhas. A verdade é que já as vimos fazer desde a noite dos tempos, as suficiente­mente espertas, e os homens só agora é que nos estão a acompanhar. — Re­clinou-se com impacto na poltrona. — Vou ter-te, Rogan, à hora e no lugar que eu quiser.

Ficou surpreendido com uma afirmação tão incrível que o excitara e o deixara desconfortável ao mesmo tempo. — O teu pai tinha razão, Maggie, ao recomendar que te dedicasses ao latão. Tens lata e de sobra.

— E qual é o problema? Oh, conheço bem os da tua laia. — A sua voz coloriu-se de desprezo. — Gostas que a mulher fique sentadinha e calada, a divagar, a realizar os teus caprichos, com segurança e esperan­ça, enquanto o seu coração romântico bate desesperadamente no peito, para que olhes duas vezes na direcção dela. Em público será bem com­portada como uma santa, dos seus lábios cor-de-rosa nunca sairá uma palavra amarga. Claro que, quando te decidires por aquela hora e aquele lugar, ela vai-se transformar numa verdadeira tigresa, submetendo-se às tuas fantasias mais lascivas, até que as luzes se voltem a acender e ela se transforme num camafeu.

Rogan esperava para ter a certeza que ela tinha acabado, ocultando depois um sorriso no brandy. — Resumiste tudo muito bem.

— Parvalhão.

— Víbora, — retorquiu ele, com satisfação. — Queres sobremesa?

Na sua garganta o riso sufocava, por isso libertou-o. Quem diria que ela viria a gostar dele? — Não, maldito. Não vou voltar a afastar a pobre em­pregada da televisão e dos joguinhos amorosos com o mordomo, ou com quem quer que passe as noites.

— O meu mordomo tem setenta e seis anos, parece-me a salvo dos joguinhos amorosos da empregada.

— Mal sabes tu. — Maggie levantou-se de novo, vagueando na direc­ção de uma parede de livros. Ordenados alfabeticamente por autor, repa­rou, quase rosnando. Já devia saber. — Como é que ela se chama?

— Quem?

— A empregada.

— Queres saber o nome da minha empregada?

Maggie passou o dedo por um volume de James Joyce. — Não, quero ver se tu sabes o nome da tua empregada. É um teste.

Ele abriu a boca, voltando a fechá-la, grato por Maggie se encontrar de costas. Que diferença fazia que soubesse o nome de uma das suas em­pregadas? Coleen? Maureen? Raios! Era o mordomo que tratava dos em­pregados domésticos. Bridgit? Não, maldição, era...

— Nancy. — Achava ele... tinha quase a certeza. — É muito recente. Acho que está cá há cinco meses. Queres que a chame outra vez para a apresentar?

— Não. — Casualmente, Maggie passou de Joyce para Keats. — Era só por curiosidade, nada mais. Diz-me Rogan, tens aqui mais alguma coisa que não seja os clássicos? Sabes, um bom policial com que possa passar umas horas?

A biblioteca que Rogan tinha de primeiras edições era considerada uma das melhores do país, mas ela criticava-a por não ter um bom cordel. Com algum esforço, serenou as ideias e a voz. — És capaz de encontrar algumas obras da Dame Agatha.

— Os britânicos. — Encolheu os ombros. — Regra geral, são pouco sanguinários... a não ser quando estão a saquear castelos, como os malditos cromwelianos. O que é isto? — Debruçou-se, espreitando. — Este Dante está em italiano.

— Parece que sim.

— Consegues ler, ou é só para te exibires?              

— Safo-me bastante bem.

Passou por ele, na esperança de algo mais contemporâneo. — Em Veneza, não apanhei tanto da língua quanto gostaria. Muito calão, pouco do socialmente correcto. — Lançou-lhe uma olhadela por cima do ombro e sorriu. — Os artistas são um grupo colorido em qualquer país.

— Já tinha reparado. — Levantou-se e foi até à outra estante com livros. — Aqui deves encontrar o que procuras. — Estendeu a Maggie uma cópia do Dragão Vermelho, de Thomas Harris. — Parece que um monte de gente é assassinada de forma horrível.

— Fantástico. — Meteu o livro debaixo do braço. — Então, dou já as boas-noites, para que possas voltar ao trabalho. Agradeço-te a cama e a comida.

— Não tens de quê. — Voltou a sentar-se atrás da secretária, pegou numa caneta e passou-a pelos dedos, enquanto a observava. — Gostava de sair às oito em ponto. A sala de jantar fica ao fundo do corredor, à esquerda. O pequeno-almoço é servido a partir das seis.

— Garanto-te que a essa hora não me vão servir, mas estarei pronta às oito. — Num impulso, foi ter com ele, apoiou as mãos nos braços da sua poltrona e chegou o rosto bem perto do dele. — Sabes, Rogan, somos pre­cisamente o que não precisamos ou queremos... a nível pessoal.

— Não podia concordar mais. A nível pessoal. — A pele dela, macia, suave e branca, onde a flanela se separara junto ao pescoço, cheirava a pe­cado.

— É por isso que, na minha opinião, vamos ter um relacionamento tão fascinante. Quase sem chão para caminharmos, não achas?

— Só um pequeno nicho. — O olhar dele desceu até à boca dela, de­morando-se, voltando a subir. — E bastante instável.

— Gosto de escaladas perigosas. — Debruçou-se um pouco mais, só um milímetro, e puxou-lhe o lábio inferior com os dentes.

Uma lança de fogo penetrou-lhe bem fundo nas entranhas. — Prefiro ter os pés bem assentes na terra.

— Eu sei. — Ela chegou-se para trás, deixando-o com o lábio dor­mente e o estômago a ferver. — Primeiro, vamos tentar à tua maneira. Boa-noite.

Ela saiu da sala com passos breves, sem olhar para trás. Rogan espe­rou até ter a certeza que ela estava bem longe, antes de levantar as mãos e de as esfregar pela cara.

Cristo todo poderoso, a mulher estava a dar-lhe uma quantidade de nós, nós escorregadios e emaranhados de pura luxúria. Não acreditava em agir por pura luxúria, pelo menos não desde a adolescência. Afinal de con­tas, era um homem civilizado, de bom gosto e berço.

Respeitava as mulheres, admirava-as. Certamente que desenvolvera relacionamentos que haviam culminado na cama, mas tentara sempre es­perar até que a relação se desenvolvesse antes de fazerem amor. De forma razoável, mútua e discreta. Não era um animal, para ser guiado apenas pelo instinto.

Nem tinha a certeza absoluta se gostava de Maggie Concannon como pessoa. Então, que tipo de homem seria se fizesse aquilo por que mais an­siava neste momento? Se desatasse a correr escada acima, abrisse a porta do quarto dela de par em par e a possuísse forte e feio.

Um homem satisfeito, pensou, com um ar sinistro.

Pelo menos até de manhã, quando tivesse de a enfrentar, a si mesmo e aos negócios que tinha de fechar.

Talvez fosse mais difícil seguir pelo caminho mais longo. Talvez so­fresse, acalentando a certeza que ela esperava que assim fosse. Mas quando chegasse a altura de a levar para a cama, levaria a melhor.

Isso, sem dúvida, valia alguma coisa.

Até mesmo, pensava ele ao empurrar os papéis para o lado, uma mi­serável noite sem dormir.

Maggie dormira como um bebé. Apesar das imagens invocadas pelo ro­mance que Rogan lhe dera, caíra no sono logo depois da meia-noite e dor­mira divinalmente até quase às sete.

Carregada de energia e antecipação, procurou a sala de jantar e reju­bilou-se ao ver um pequeno-almoço irlandês quente e completo no apara­dor.

— Bom dia, Miss. — Apressada, a mesma empregada que a servira na noite anterior surgiu vinda da cozinha. — Posso trazer-lhe alguma coisa?

— Não, obrigada. Eu sirvo-me. — Maggie foi buscar um prato à mesa e dirigiu-se aos aromas tentadores no aparador.

— Quer que sirva café ou chá, Miss?

— Chá seria óptimo. — Maggie levantou a tampa de uma salva de prata e cheirou satisfeita as grossas tiras de bacon. — Nancy, não é?

— Não, Miss, sou a Noreen.

Falhaste o teste, Fidalgo Sweeney, pensou Maggie. — Se não se impor­ta, Noreen, diga ao cozinheiro que nunca na vida comi uma refeição tão boa como a da noite passada.

— Com todo o prazer, Miss.

Maggie passeou de travessa em travessa, enchendo o prato. Tinha por hábito saltar refeições, de tão indiferente que era para com os próprios cozinhados. Mas quando tinha disponível comida em tais quantidades, e comida de boa qualidade, ela aceitava o desafio.

— O Sr. Sweeney vai fazer-me companhia ao pequeno-almoço? — Perguntou enquanto levava o prato para a mesa.

— Ele já comeu, Miss. O Sr. Sweeney toma o pequeno-almoço todos os dias às seis e meia, em ponto.

— Um animal de hábitos, não acha? — Maggie piscou o olho à em­pregada e barrou a torrada quente com compota fresca.

— Sim, é, — respondeu Noreen, corando um pouco. — Fiquei de lembrá-la, Miss, que ele estará pronto para partir às oito.

— Obrigada, Noreen, não me vou esquecer      

— Se precisar de alguma coisa, basta tocar.

Silenciosa como um rato, Noreen afastou-se de volta para a cozinha. Maggie permitiu-se um pequeno-almoço que achava ser digno de uma rai­nha e folheou um exemplar do Irish Times, que fora impecavelmente do­brado ao lado do prato dela.

Que modo de vida mais confortável, achava ela, com empregados à distância de um estalar de dedos. Mas será que Rogan não enlouquecia ao saber que eles andavam sempre pela casa? Que nunca estava sozinho?

A própria ideia fê-la estremecer. Ela enlouqueceria, decidira Maggie, sem solidão. Olhou ao redor da sala com os lambris escuros e brilhantes, o reluzir dos dois lustres de cristal, o faiscar das pratas no aparador antigo, o cintilar da porcelana e do vidro Waterford.

Sim, até neste cenário luxuriante, ela se sentiria completa e furiosa­mente louca.

Demorou a tomar a segunda chávena de chá, leu o jornal de fio a pavio e limpou o prato até à última migalha. Algures na casa, um relógio bateu as horas. Ainda pensou em servir-se de mais bacon, mas achou-se uma glutona e resistiu.

Demorou alguns instantes a estudar a arte nas paredes. Havia uma aguarela que achava particularmente delicada. Dando uma última volta, bem demorada, pela sala, encetou o caminho até à porta, descendo depois o corredor.

Rogan estava no foyer, imaculado de fato cinzento e gravata azul-marinho. Olhou para ela, olhou para o relógio. — Estás atrasada.

— Estou?

— Já passa das oito.

Ela ergueu as sobrancelhas, vendo que ele estava a falar a sério, para com alguma legitimidade soltar um cacarejo. — Devia ser flagelada.

Ele olhou-a de cima a baixo, desde as botas a meio da perna com meias pretas à máscula camisa branca que chegava a meio da coxa, aperta­da na cintura com dois cintos de cabedal. Pedraria brilhante e translúcida reluzia-lhe nas orelhas e, desta vez, colocara um pouco de maquilhagem. Contudo, não se incomodara a usar relógio.                                    

— Se não usas relógio, como é que podes chegar a horas?

— Nisso tens razão. Talvez seja por isso que não tenho.

Ainda a observá-la, tirou um bloco de notas e a caneta.

— O que é que vais fazer?

— Vou tomar nota que temos de te arranjar um relógio, além de um atendedor de chamadas e um calendário.

— Mas que generoso, Rogan. — Esperou que ele abrisse a porta e a guiasse lá para fora. — Porquê?

— O relógio para seres pontual. O atendedor de chamadas para que eu consiga deixar uma mísera mensagem quando ignorares o telefone, e o calendário para que saibas que raio de dia é quando fizer uma encomen­da.

Ele mordera a última palavra, como se fosse carne dura, pensou Mag­gie. — Já que estás de humor tão refinado esta manhã, vou arriscar dizer-te que nada disso me vai fazer mudar um milímetro. Sou irresponsável, Ro­gan. Basta perguntares a quem restar da minha família. — Deu meia volta, ignorando o seu assobio de impaciência e examinando a casa.

Era fronteiriça a um lindo jardim, banhado pela sombra e dedicado a S. Estêvão, viria ela a saber, edificada com orgulho, algo altiva, em contraste com um céu azul de fantasia.

Apesar de a pedra ser antiga, as linhas eram graciosas como o corpo de uma mulher jovem. Revelava uma combinação de dignidade e elegância que Maggie sabia ser apanágio apenas dos ricos. Cada janela, das muitas existentes, brilhavam como diamantes ao Sol. O relvado, macio e verde, abria alas para um acolhedor jardim dianteiro, cuidado como uma igreja com o dobro da formalidade.

— Tens aqui um lindo lugar. Não sei se sabes, mas ao entrar nem reparei nele.

— Eu sei disso. Vais ter de esperar pela visita guiada, Margaret Mary. Não gosto de me atrasar. — Deu-lhe o braço e quase a arrastou para o carro que os aguardava.

— Será que és repreendido por chegares atrasado? — Como ele não respondeu, ela riu-se, recostando-se para apreciar a viagem. — Costumas acordar mal disposto, Rogan?

— Não estou mal-disposto, — disparou ele. Ou não estaria, pensou, se tivesse dormido mais de duas horas. E a responsabilidade disso, malditas sejam todas as mulheres, recaía somente nos ombros dela. — Tenho muito que fazer hoje.

— Oh, era só para confirmar. Impérios a construir, fortunas a con­quistar.

Aquilo bastava. Não sabia porquê, mas o ligeiro tom de desdém despoletara a última réstia de controlo. Guinou o volante para a berma da es­trada, o que levou o condutor que guiava atrás dele a buzinar de forma gros­seira. Agarrando Maggie pelos colarinhos, deixou-a pendurada no assento e colou a boca à dela.

Ela não esperara aquela reacção. Mas isso não significava que não a podia apreciar. Ajustaria contas com ele quando não estivesse tão controla­do, tão engenhoso. Até podia sentir a cabeça a andar à roda, mas a sensação de poder mantinha-se. Não havia ali qualquer sedução, apenas necessida­des básicas, numa fricção como dois pólos positivos que ameaçavam fazer faísca.

Ele empurrou-lhe a cabeça para trás e mergulhou na sua boca. Só uma vez, prometera a si mesmo. Só uma vez para aliviar alguma da tensão traiçoeira que se aninhara no seu interior, como uma cobra.

Mas beijá-la não trouxera alívio. Em vez disso, a completa e ansiosa resposta dela, o seu imenso vigor, pressionara-o ainda mais até não conse­guir respirar.

Por momentos, foi como se fosse sugado para dentro de um túnel forrado a veludo, sem ar. Ficou aterrorizado ao pensar que talvez nunca mais precisasse ou quisesse luz.

Afastou-se bruscamente, agarrando com força o volante. Voltou à es­trada, como um bêbedo a tentar seguir por uma linha recta.

— Presumo que isto foi resposta a alguma coisa. — A voz dela estava invulgarmente calma. Não fora o beijo que a acalmara, mas sim a forma como terminara.

— Ou fazia isto ou esganava-te.

— Prefiro que me beijem a que me estrangulem. Mesmo assim, pre­feria que não ficasses tão zangado por me quereres.

Estava mais calmo, concentrado na estrada e a compensar o tempo perdido por causa dela naquela manhã. — Já me expliquei. A altura não é apropriada.

— Não é apropriada. E quem é que sabe o que é próprio?

— Prefiro conhecer a pessoa com quem durmo. Partilhar afecto e respeito.

Ela franziu os olhos. — Há uma grande distância entre um beijo na boca e uma cambalhota nos lençóis, Sweeney. Vou provar-te que não sou do género de saltar para o colchão num piscar de olhos.

— Nunca disse...

— Oh, não disseste? — Estava ainda mais insultada, por saber a rapi­dez com que teria saltado para um colchão com ele. — Pelo que percebi, já decidiste que sou daquelas fáceis. Bom, não te vou explicar o meu passado. E quanto a afecto e respeito, ainda serei eu a ensinar-te o que isso é, rapaz.

— Óptimo. Então, estamos de acordo.

— Estamos de acordo que podes ir para o inferno. E o nome da tua empregada é Noreen.

Isto distraíra-o o suficiente para desviar a atenção da estrada, de olhar perdido. — O quê?

— A tua empregada, seu parvo, seu aristocrata de nariz empinado. Não se chama Nancy. Chama-se Noreen. — Maggie cruzou os braços e, resoluta, olhou pela janela.

Rogan limitou-se a abanar a cabeça. — Agradeço-te muito por teres esclarecido isso. Sabe Deus a vergonha que seria se tivesse de a apresentar aos vizinhos.

— Snobe de sangue azul, — rezingou ela.

— Víbora de língua bifurcada.

Acomodaram-se num silêncio magoado durante o resto da viagem.

 

 

                                         CAPÍTULO SETE

 

Era impossível não ficar impressionado com a Galeria Worldwide, em Du­blin. A própria arquitectura valia uma visita ao lugar. O certo é que já ti­nham aparecido fotografias do edifício em dezenas de revistas e livros de arte por todo o mundo, como um exemplo gritante do estilo georgiano que fazia parte do legado arquitectural de Dublin.

Apesar de Maggie já a ter visto reproduzida em páginas brilhantes, ao avistá-la, a sua imensa grandeza a três dimensões, cortava-lhe a respi­ração.

Passara horas do seu tempo livre durante o estágio em Veneza à pro­cura de galerias. Mas nenhuma se comparava ao esplendor da de Rogan.

Contudo, não teceu qualquer comentário enquanto ele destrancava as imponentes portas frontais e gesticulava para ela entrar.

Teve de resistir ao reflexo de esboçar um gesto cerimonioso, perante o sossego que mais se assemelhava ao de uma igreja, o jogo de luzes, o ar perfumado na sala principal. A exposição com o tema Nativos Americanos estava linda e meticulosamente montada — as taças de cerâmica, os mara­vilhosos cestos, as máscaras rituais, chocalhos e contas dos xamanes. Nas paredes viam-se desenhos à partida primitivos e sofisticados. A atenção e admiração de Maggie prenderam-se num vestido de pele de gamo, de cor creme, adornado com contas e pedras macias e brilhantes. Rogan pedira que o pendurassem como uma tapeçaria. Os dedos de Maggie urgiam para lhe tocarem. — Impressionante — foi tudo o que disse.

— Fico encantado por aprovares.                                

— Nunca vi obras nativas americanas sem ser em livros e coisas que tais. — Debruçou--se sobre um jarro de água.

— Foi por isso mesmo que trouxe a exposição para a Irlanda. Dema­siadas vezes damos importância à história e cultura europeias e esquecemo-nos que o mundo é mais do que isso.

— Custa a crer que as pessoas que criaram isto fossem os selvagens que vemos nos filmes antigos do John Wayne. Mas afinal, — ela sorriu ao endireitar-se — os meus antepassados também eram selvagens, andavam nus e pintavam-se de azul antes de correrem aos gritos para a batalha. São essas as minhas origens. — Inclinou a cabeça estudando-o, o homem de negócios perfeitamente polido. — De nós os dois.

— Pode dizer-se que estas tendências se tornam mais diluídas nalguns do que noutros com o passar dos séculos. Há anos que não me dá vontade de me pintar de azul.

Ela riu-se, mas ele já estava a olhar outra vez para o relógio.

— Vamos usar o segundo andar para as tuas obras. — Dirigiu-se para as escadas.

— Por alguma razão especial?

— Por várias razões especiais. — Com uma onda quente de impa­ciência a tremeluzir à sua volta, fez uma pausa até que ela se juntou a ele na escadaria. — Prefiro que uma exposição destas tenha um ambiente de ocasião especial. As pessoas tendem a apreciar arte, ou pelo menos sentem-na mais acessível, se estiverem descontraídas, a divertirem-se. — Parou no cimo das escadas, erguendo o sobrolho perante a expressão no rosto dela. — Tens algum problema com isso?

— Gostava que as pessoas levassem o meu trabalho a sério, e que não achassem que faz parte da festa.

— Asseguro-te que o vão levar a sério. — Em especial, com os preços que ele tencionava praticar, com a estratégia que queria aplicar. — Se bem que o marketing do teu trabalho é, no final de contas, a minha especialida­de. — Virou-se, abrindo as portas duplas, para depois recuar e deixar que Maggie entrasse primeiro.

Ela praticamente ficou sem voz. A sala linda e enorme estava inunda­da de luz que entrava da clarabóia abobadada ao meio do tecto. Iluminava o chão escuro e polido, devolvendo reflexos deslumbrantes, quase espelha­dos, das obras que Rogan escolhera expor.                                  

Em todos os seus sonhos, nas suas mais loucas e secretas expectati­vas, ela nunca imaginara que as suas obras seriam expostas de forma tão sensível ou tão grandiosa.

Pedestais com bases imponentes, de um mármore branco cremoso, preenchiam a sala a toda a volta, colocando o vidro ao nível do olhar. Rogan escolhera apenas doze peças para decorar o espaço grandioso. Um golpe de mestre, apercebeu-se ela, uma vez que tornava cada peça ainda mais única. Ali, bem no centro da sala, reluzindo como gelo a derreter nas entranhas do fogo, estava a Rendição de Maggie.

Sentiu uma ligeira dor no coração ao examinar a escultura. Alguém a compraria, sabia disso. Dentro de dias, alguém pagaria o preço que Rogan pedisse, roubando-a para sempre, de forma definitiva da vida dela.

O preço a pagar por querer algo mais, pensou, aparentemente era perder o que já se tinha. Ou talvez aquilo que se era.

Como ela não disse nada, limitando-se a caminhar pela sala a bater com as botas, Rogan enfiou as mãos nos bolsos. — As peças mais pequenas estão expostas naquela que chamamos as salas de estar superiores. É um espaço mais íntimo. — Fez uma pausa, à espera de alguma resposta, emi­tindo um assobio entre dentes ao perceber que não a teria. Maldita mulher, pensou. O que é que queria? — Vamos ter uma orquestra na exposição. De cordas. É claro, também champanhe e canapés.

— Claro, — retorquiu Maggie. Manteve-se de costas para ele, pergun­tando-se porque estaria numa sala tão magnífica com vontade de chorar.

— Queria pedir-te para compareceres, só por um bocado. Não tens de fazer nem dizer nada que comprometa a tua integridade artística.

O coração dela batia demasiado forte para conseguir captar o tom irritado que ele deixara transparecer. — Parece-me... — Não conseguia en­contrar uma palavra. Não conseguia mesmo. — Bem, — disse, sem convic­ção. — Parece-me tudo bem.

— Bem?

— Sim. — Voltou para junto dele, bastante séria e, pela primeira vez em tempos recentes, aterrorizada. — Tens um bom sentido de estética.

— Um bom sentido de estética, — repetiu ele, espantado pela res­posta neutra. — Bom, Margaret Mary, fico muito contente. Só foram precisas três semanas terrivelmente difíceis e os esforços combinados de mais de uma dúzia de profissionais qualificados para que tudo isto pare­cesse «bem».

Ela passou uma mão trémula pelo cabelo. Será que ele não conseguia ver que ela estava sem fala, que estava totalmente deslocada e assustada como um coelho que dá de caras com um cão? — O que queres que diga? Fiz o meu trabalho e confiei-te a minha arte. Tu fizeste o teu e utilizaste-a. Estamos ambos de parabéns, Rogan. Agora talvez eu devesse dar uma olha­dela às tuas salas mais íntimas.

Ele avançou, bloqueando-lhe o caminho quando começava a diri­gir-se para a porta. A fúria que sentia crescer dentro dele era tão forte, tão intensa, que o surpreendia não derreter o vidro em amálgamas de brilho e cor                                                                              

— Sua camponesa ingrata.

— Eu, camponesa? — As emoções turbilhonavam dentro dela, con­traditórias e assustadoras. — Tens razão quanto a isso, Sweeney. E se sou ingrata porque não caio a teus pés e te beijo as botas, então ingrata serei. Não quero nem espero nada de ti que não seja o previsto nos teus malditos contratos, com a porcaria das cláusulas exclusivas, e de mim não terás mais do que isso.

Conseguia sentir as lágrimas quentes a tentarem romper, prontas a cair. Estava certa que se não saísse rapidamente da sala, os seus pulmões iriam simplesmente rebentar devido à pressão. No desespero de fugir, deu-lhe um encontrão.

— Deixa-me dizer-te o que espero. — Ele agarrou-lhe o ombro, fa­zendo-a girar. — E o que vou ter.

— Peço desculpa, — disse Joseph da porta. — Não queria interrom­per.

Não podia estar mais divertido, ou mais fascinado, ao observar o pa­trão, sempre de cabeça fria, a expelir fogo e raiva na direcção de uma mu­lher pequena, de olhar perigoso, cujos punhos já levantara como se fosse para um combate.

— Não tem importância. — Usando de toda a sua força de vontade, Rogan soltou o braço de Maggie e recuou. Num piscar de olhos, passara da fúria à serenidade. — Eu e a Miss Concannon estávamos agora mesmo a discutir as condições do nosso contrato. Maggie Concannon, Joseph Donahoe, o conservador da galeria.

— É um prazer. — Transbordando charme, Joseph avançou para pe­gar na mão de Maggie. Apesar de estar um pouco trémula, deu-lhe um beijo lascivo, intenso, deixando antever o brilho dos dentes de ouro num sorriso. — É um autêntico prazer, Miss Concannon, conhecer a pessoa por trás do génio.

— O prazer também é meu, Sr. Donahoe, conhecer um homem tão sensível à arte, e ao artista.

— Deixo a Maggie nas tuas mãos extremosas, Joseph. Tenho com­promissos.

— É uma honra que me concedes, Rogan. — Os olhos de Joseph bri­lhavam, enquanto segurava levemente a mão de Maggie na dele.    

O gesto não passara despercebido a Rogan, nem o facto de Maggie não encetar qualquer esforço para pôr termo ao contacto. Na verdade, ela sorria de forma sedutora para Joseph.

— Só tens de dizer ao Joseph quando precisares do carro, — declarou Rogan, rígido. — O motorista está à tua disposição.

— Obrigada, Rogan, — retorquiu ela, sem olhar para ele. — Mas te­nho a certeza que o Joseph me vai manter ocupada por algum tempo.

— Não me recordo de forma melhor para passar o dia, — acrescen­tou Joseph, rapidamente. — Já conhece as salas de estar, Miss Concannon?

— Ainda não. Pode chamar-me Maggie, se preferir.

— Com certeza. — Com a mão ainda na dela, Joseph guiou-a até à porta. — Acho que vai gostar do que fizemos aqui. Com a exposição apenas a alguns dias, queremos assegurar que fica satisfeita. São bem-vindas todas as sugestões que achar por bem fazer.

— Já mudámos para melhor. — Maggie fez uma pausa, olhando por cima do ombro para o local onde Rogan permanecia de pé. — Não deixes que atrapalhemos os teus negócios, Rogan. Tenho a certeza que são urgentes. — Com um trejeito da cabeça, lançou um olhar a Joseph. — Conheço um Francis Donahoe, de perto de Ennis. É comerciante e tem algumas parecenças consigo na zona dos olhos. Por acaso não são aparentados?

— Tenho primos em Clare, do lado do meu pai e da minha mãe. São os Ryans.

— Conheço montes de Ryans. Oh. — Parou, suspirando, ao mesmo tempo que passava por uma arcada e entrava numa salinha aprumada, adornada com uma lareira e uma poltrona de dois lugares, para namora­dos. Várias das suas peças mais pequenas, incluindo a que Rogan comprara no dia em que se conheceram, adornavam as mesas antigas.

— Acho que é um cenário bastante elegante. — Joseph entrou para acender as luzes escondidas em nichos. O vidro ganhou vida debaixo dos feixes, parecendo pulsar. — O salão de baile causa uma impressão estonte­ante. Por sinal, bastante delicada.

— Sim. — Ela voltou a suspirar. — Importa-se que me sente um pou­co, Joseph? A verdade é que fiquei sem fôlego. — Acomodou-se na poltrona de namorados e fechou os olhos. — Quando era pequena, o meu pai com­prou um bode, com ideias de fazer criação. Um dia de manhã, estava eu com ele no campo, distraí-me um bocado e ele deu-me um coice. Acertou-me em cheio no traseiro e eu dei cá um voo. Senti-me exactamente assim quando entrei naquela sala ali. Como se alguém me tivesse dado um coice no traseiro, que até levantei voo.

— Está nervosa, não está?

Abriu os olhos e viu compreensão no rosto de Joseph. — Estou assus­tada de morte. E raios me partam se vou deixar que ele se aperceba. É tão convencido, não acha?

— É seguro de si, o nosso Rogan. E tem razões para isso. Tem um sentido apuradíssimo para comprar a peça certa ou para patrocinar o artis­ta certo. — Um homem curioso, que apreciava um bom mexerico, Joseph pôs-se mais confortável sentando-se ao lado dela. Esticou as pernas, cru­zando-as pelos tornozelos numa postura que convidava à descontracção e à confidência. — Reparei que vocês os dois trocavam umas cabeçadas, por assim dizer, quando os interrompi.            

— Parece que não temos muito em comum. — Maggie esboçou um ligeiro sorriso. — É abusador, o nosso Rogan.

— É verdade, mas normalmente é tão subtil que não percebemos que está a gozar connosco.

Maggie assobiou entre dentes. — Comigo não foi nada subtil.

— Eu reparei. Interessante. Sabe, Maggie, não acho que esteja a co­meter alguma inconfidência empresarial se lhe dissesse que o Rogan estava determinado a assinar contrato consigo pela Worldwide. Trabalho para ele há mais de dez anos e não me lembro de o ver assim tão empenhado em relação a nenhum artista.

— Deveria sentir-me lisonjeada. — Ela suspirou e voltou a fechar os olhos. — E fico, na maior parte das vezes, quando não estou ocupada numa zaragata por ele ser tão mandão. Vai de príncipe a camponês.

— Está habituado a que tudo corra como ele quer.

— Bom, mas não me vai levar à maneira dele. — Abriu os olhos e levantou-se. — Pode mostrar-me o resto da galeria?

— Com todo o prazer. Talvez me possa contar a história da sua vida.

Maggie inclinou a cabeça e estudou-o. Um intriguista, pensou ela, com olhos sonhadores e maneiras de pirata. Sempre apreciara um amigo intriguista. — Então está bem, — disse ela, dando-lhe o braço enquanto caminhavam para a próxima arcada. — Era uma vez um agricultor que queria ser poeta...

Havia demasiadas pessoas em Dublin para o gosto de Maggie. Mal se podia dar um passo sem esbarrar com alguém. Era uma cidade bonita, não podia negá-lo, com a sua linda baía e os campanários pontiagudos. Conseguia apreciar a magnificência da sua arquitectura, toda em tijolo vermelho e pe­dra cinzenta, o charme das fachadas das lojas coloridas.

O motorista, Brian Duggin, dissera-lhe que os primeiros dublinenses tinham um sentido de ordem e beleza tão apurado quanto o seu sentido de lucro. Por isso, achava ela, a cidade era ideal para Rogan, tanto quanto ele era para ela.

Recostou-se no carro silencioso para admirar os estonteantes jardins fronteiriços e as cúpulas de cobre, os jardins sobranceiros e o movimentado rio Liffey, que dividia a cidade em duas.

Sentia o pulso acelerar ao ritmo do que se passava à sua volta, como reacção às multidões e à pressa. Mas a correria excitava-a apenas de forma breve, antes de a extenuar. O mero número de pessoas na O'Connell Street, onde toda a gente parecia ter uma pressa desesperada de chegar a alguma parte, fê-la ansiar pelas ruas ociosas e sossegadas do oeste.

Ainda assim, achou a vista da Ponte O'Connell espectacular, os bar­cos ancorados nos cais, a cúpula majestosa dos Four Courts a brilhar ao Sol. O motorista parecia feliz por obedecer ao pedido que ela fizera de apenas conduzir, ou de ficar estacionado à espera enquanto ela passeava pelos par­ques e praças.

Parou na Grafton Street, no meio de lojas interessantes, e comprou um alfinete para a Brianna, uma meia-lua simples de prata, com uma curvatura cravejada de pedrinhas de granadas. Iria com certeza, pensou Maggie ao guardar a caixa no bolso, agradar ao gosto tradicional da irmã.

Para si, ponderou bastante a compra de um par de brincos, espirais compridas de ouro, prata e cobre, no cimo e na ponta decorados com opa­las cor de fogo. Não devia gastar dinheiro em bugigangas tão frívolas. Não devia mesmo, lembrava-se, uma vez que não tinha garantia nenhuma de vender mais peças.

No entanto, é claro que comprou os brincos e mandou o orçamento para o inferno.

Para terminar o dia, visitou museus, passeou junto ao rio e tomou chá numa pequena loja na Praça Fitz William. Passou a última hora a contem­plar a luz do Sol e os reflexos na Ponte Half Penny, desenhando num bloco que comprara numa loja de arte.

Já passava das sete quando regressou a casa de Rogan. Ele saiu da saleta e impediu-a de alcançar as escadas.

— Já me perguntava se não tinhas pedido ao Duggin que te levasse de volta para Clare.

— Passou-me pela cabeça uma ou duas vezes. — Puxou para trás o cabelo desalinhado. — Há anos que não vinha a Dublin. — Pensou no malabarista que vira e, claro, no pai. — Já me esquecera de como era baru­lhenta.

— Presumo que ainda não tenhas comido.                                

— Ainda não. — Sem contar com o biscoito que acompanhara o chá.

— O jantar vai ser servido às sete e meia, mas posso pedir que adiem para as oito, se nos quiseres fazer companhia para uns cocktails.            

— Nos?                                                                  

— A minha avó. Está ansiosa por te conhecer.

— Oh. — O humor de Maggie caiu a pique. Mais alguém para conhe­cer, com quem falar, com quem estar. — Não vos quero empatar.

— Não há problema. Se quiseres mudar de roupa, estamos na saleta.

— Mudar para quê? — Resignada, enfiou o bloco de desenho debai­xo o braço. — Lamento, mas deixei toda a minha roupa de cerimónia em casa. Mas se a minha aparência te envergonha, posso levar um tabuleiro para o meu quarto.

— Não ponhas palavras na minha boca, Maggie. — Agarrando-a com firmeza pelo braço, Rogan conduziu-a até à saleta. — Avó. — Dirigia-se à mulher sentada regiamente na poltrona brocada de costas altas. — Gostaria de te apresentar Margaret Mary Concannon. Maggie, Christine Sweeney.

— É um prazer imenso. — Christine ofereceu uma mão de ossos fi­nos, adornada por uma safira reluzente. Condizia com as que pendiam das suas orelhas. — Sou eu a responsável pela sua vinda, minha querida, já que fui eu quem comprou a primeira peça sua que intrigou o Rogan.

— Obrigada. Então é coleccionadora?

— Corre-me no sangue. Por favor, sente-se. Rogan, traz algo para a menina beber.

Rogan dirigiu-se às garrafas cintilantes. — O que queres tomar, Mag-gie?

— O mesmo que vocês. — Resignada em ser cordial por uma ou duas horas, Maggie pôs de lado o bloco de desenhos e a bolsa.

— Deve ser maravilhoso ter a primeira grande exposição, — co­meçou Christine. Bom, a rapariga era fantástica, pensou. Toda creme e fogo, tão cativante de camisa e collants quanto dezenas de mulheres gostariam, carregadas de diamantes e sedas.

— Para ser sincera, Sra. Sweeney, é bastante difícil imaginá-la. — Aceitou o copo de Rogan e esperou que o conteúdo chegasse para a animar numa noite de conversa fiada.

— Diga-me o que achou da galeria.

— É maravilhosa. Uma catedral da arte.

— Oh. — Christine esticou o braço de novo, apertando a mão de Maggie. — Como o meu Michael haveria de gostar de a ouvir dizer isso. É exactamente o que ele queria. Sabe, é que ele era um artista frustra­do.

— Não. — Maggie lançou um olhar a Rogan. — Não sabia.

— Queria pintar. Tinha a visão, mas não a aptidão. Por isso, criou a atmosfera e os meios para celebrar os outros que a tinham. — O macio fato de seda fumado de Christine roçou ao recostar-se. — Era um homem fantástico. O Rogan sai a ele, na aparência e no temperamento.

— Deve estar muito orgulhosa.

— Estou. E tenho a certeza que a sua família também deve estar mui­to orgulhosa da vida que escolheu.

— Não sei se orgulhosa será bem o termo. — Maggie bebeu um pou­co, descobrindo que Rogan lhe servira xerez, lutando para não fazer uma careta. Felizmente, o mordomo entrou no momento certo para chamar para o jantar.

— Mas que oportuno. — Grata, Maggie pousou o copo ao lado. — Estou esfomeada.

— Então podemos ir entrando. — Rogan ofereceu o braço à avó. — O Julien ficou encantado por apreciares os cozinhados dele.

— Oh, ele é um cozinheiro fantástico, essa é que é a verdade. Não teria coragem de lhe dizer que por ser tão má cozinheira, tenho o maior prazer em comer tudo o que não tenha de preparar.

— Não lhe faremos essa inconfidência. — Rogan puxou uma cadeira para Christine, e depois para Maggie.

— Pois não, — concordou Maggie. — É que concordei em tentar tro­car algumas receitas da Brie pelas dele.

— A Brie é a irmã de Maggie, — explicou Rogan enquanto era ser­vido o prato de sopa. — Ela tem um B-e-B em Clare e, por experiência própria, posso assegurar que os cozinhados dela são excelentes.

— Então, a sua irmã é uma artista na cozinha, em vez de no estúdio.

— Pois é, — concordou Maggie, encontrando-se muito mais confor­tável na companhia de Christine Sweeney do que esperara. — É um toque mágico que a Brianna tem com o fogão e com a casa.

— Em Clare, diz você. — Christine acenou enquanto Rogan lhe ofe­recia vinho. — Conheço bem a zona. Eu própria sou de Galway.

— A sério? — Surpresa e prazer encheram o rosto de Maggie. Lem­brava-a ainda mais das saudades que tinha de casa. — De que zona?

— Da cidade de Galway. O meu pai era armador. Conheci o Michael através dos negócios que tinha com o meu pai.

— A minha avó... do lado da minha mãe... era de Galway. — Apesar de na maioria das vezes Maggie preferir comer a falar, estava a apreciar a combinação de comida e conversa excelentes. — Viveu lá até casar. Deve ter sido há uns sessenta anos. Era filha de um comerciante.

— Que engraçado. Como é que se chamava?

— Chamava-se Sharon Feeney antes de casar.

— Sharon Feeney. — Os olhos de Christine começaram a brilhar, de forma tão profunda e cintilante quanto as suas safiras. — Filha de Colin e da Mary Feeney?

— Sim. Então, conhecia-a?

— Oh, sim. Vivíamos a cinco minutos uma da outra. Eu era um pou­co mais nova do que ela, mas passávamos tempo juntas. — Christine piscou o olho a Maggie, olhando depois para Rogan, tentando que ele entrasse na conversa. — Estava loucamente apaixonada pelo tio-avô da Maggie, Niall, e usava a Sharon descaradamente para estar perto dele.

— Tenho a certeza que não precisavas de fazer muito para teres a atenção de qualquer homem, — comentou Rogan.

— Oh, as tuas palavras são muito doces. — Christine riu-se e deu umas palmadinhas na mão dele. — Tenha cuidado ao pé dele, Maggie.

— Comigo não costuma gastar muito açúcar.

— Sabes que se dissolve com vinagre, — retorquiu Rogan num tom bastante prazenteiro.

Decidida a ignorá-lo, Maggie voltou a atenção para Christine. — Há anos que não vejo o meu tio, mas ouvi dizer que quando era novo, era um homem bem bonito, que tinha muito jeito com as senhoras.

— Era pois, e tinha com certeza. — Christine riu-se de novo, num tom jovem e alegre. — Passei muitas noites a sonhar com o Niall Feeney quando era nova. A verdade é que... — dirigiu o olhar brilhante para Rogan, com uma ponta de engano que Maggie admirava — ...se o Michael não tivesse aparecido e não me tivesse arrebatado, tinha lutado até à morte para casar com o Niall. Interessante, não é? Vocês dois podiam ser primos se as coisas tivessem corrido de outra forma.

Rogan olhou de soslaio para Maggie, levantando o copo de vinho. Só conseguia pensar no horror. No absoluto horror.

Maggie guinchou e mexeu a sopa. — Sabe que o Niall nunca se casou e vive solteiro em Galway, Sra. Sweeney, você partiu-lhe o coração.

— Gosto de pensar que sim. — A beleza profunda, tão evidente no rosto de Christine Sweeney, foi realçada por um rubor subtil. — Mas a triste verdade é que o Niall nunca reparou em mim.

— Era cego, então? — Perguntou Rogan, ganhando um sorriso cin­tilante da avó.

— Não era cego. — Maggie suspirou devido ao aroma do prato de peixe que fora colocado à sua frente. — Mas talvez fosse um homem mais tolo do que a maioria.

— E diz que nunca se casou? — A pergunta de Christine, reparou Rogan, com o sobrolho ligeiramente carregado, parecia demasiado ca­sual.

— Nunca. A minha irmã tem trocado correspondência com efe. — Uma faísca atrevida brilhava no olhar de Maggie. — Vou-lhe pedir que a mencione na próxima carta. Vamos ver se a memória dele está melhor do que as decisões da juventude.

Apesar de o sorriso dela ser algo sonhador, Christine abanou a cabe­ça. — Já passaram cinquenta anos desde que troquei Galway por Dublin, e pelo Michael. Doce Mary.

A ideia dos anos a passar trouxe uma leve tristeza, a mesma que po­deria sentir ao avistar um navio a sair do porto. Ainda sentia falta do mari­do, apesar de ele ter morrido há mais de doze anos. Num gesto automático que Maggie achou comovente, Christine pousou a mão em cima da mão do Rogan.

— A Sharon casou-se com um hoteleiro, não foi?

— Foi, sim, e ficou viúva nos últimos dez anos da vida dela.

— Que pena. Mas tinha a filha para a consolar.

— A minha mãe. Mas não sei se foi de grande consolo. — Os restos de amargura interferiram com o sabor delicado da truta na boca de Maggie. Lavou-os com o vinho.

— Escrevemo-nos durante vários anos depois da Sharon casar. Ela tinha muito orgulho na menina dela. Maeve, não é?

— Sim. — Maggie tentou imaginar a mãe uma menina, mas não con­seguiu.

— Uma criança adorável, disse-me a Sharon, com um fantástico ca­belo louro. Tinha um temperamento dos diabos, segundo ela, e uma voz de anjo.

Maggie engoliu à pressa, engasgando-se. — Uma voz de anjo? A mi­nha mãe?

— Sim. A Sharon dizia que ela cantava como uma santa e que queria ser profissional. Acredito que chegou a ser, por uns tempos. — Christine fez uma pausa, para pensar, enquanto Maggie se limitava a olhar. — Sim, sei que foi. Aliás, ela foi a Gort cantar, mas eu não consegui ir vê-la. Tinha uns recortes que a Sharon me mandou, já devem ter passado uns bons trinta anos. — Sorriu, curiosa. — Ela já não canta?

— Não. — Maggie deixou sair um ligeiro suspiro abafado. Nunca ouvira a mãe levantar a voz para outra coisa que não fosse queixume ou crítica. Cantora? Profissional, com uma voz de anjo? Deviam estar a falar de pessoas distintas.

— Bom, — prosseguiu Christine, — imagino que foi feliz ao consti­tuir família?

Feliz? Decerto que era uma Maeve Feeney Concannon diferente da que a criara. — Acho que sim, — disse Maggie, lentamente, — fez as opções dela.

— Como todos nós. Sharon fez as dela ao casar e partir de Galway. Devo dizer que senti muito a falta dela, mas ela amava o seu Johnny e o hotel.

Com um esforço, Maggie deitou os pensamentos em relação à mãe para trás das costas. Mais tarde haveria de os ir buscar, com cautela. — Lem­bro-me do hotel Gran’s da minha infância. Eu e a Brie trabalhámos lá num Verão, éramos miúdas. Nas limpezas e a fazer recados. Não gostei muito.

— Uma sorte para o mundo da arte.

Maggie reconheceu o elogio de Rogan. — Talvez, mas para mim foi de certeza um alívio.

— Nunca te perguntei como é que te interessaste por vidro.

— A mãe do meu pai tinha uma jarra... de vidro veneziano, em forma de flûte, de um verde pálido e esfumado. Da cor das folhas novas. Achei-a a coisa mais linda que já tinha visto. Ela disse-me que fora feita com sopro e fogo. — Maggie sorriu ao recordar--se, perdendo-se no momento, tanto que os olhos se tornaram tão nebulosos quanto a jarra que descrevera. — Era como um conto de fadas. Através do sopro e do fogo, criar algo que se podia segurar nas mãos. Então, ela deu-me um livro que tinha fotografias de uma casa vidreira, dos trabalhadores, dos tubos, das fornalhas. Acho que, a partir desse momento, não havia mais nada que eu quisesse tanto quanto fazer as minhas peças.

— Foi o mesmo com o Rogan, — murmurou Christine. — Muito jovem ainda, já estava bastante seguro do que queria da vida. — Deixou que o olhar passeasse da Maggie para o neto, e outra vez para ela. — E agora vocês encontraram-se.

— Parece que sim, — concordou Rogan, tocando para que trouxes­sem o prato seguinte.

 

 

                                      CAPÍTULO OITO

 

Maggie não conseguia ficar longe da galeria. Não parecia haver motivo ne­nhum para ficar. Joseph e o resto da equipa eram bastante acolhedores, che­gando até a pedir-lhe a opinião sobre algumas exposições.

Por muito que lhe tivesse agradado, não conseguia superar o instinto que Rogan tinha para os pormenores e o posicionamento. Deixou que os funcionários cumprissem as ordens dele e acomodou-se discretamente, fa­zendo esboços das obras de arte nativas americanas.

Sentia-se fascinada: os cestos e os adornos para a cabeça, as contas meticulosas, as máscaras de rituais intrincadas. Ideias e visões assolavam-lhe a mente como gazelas, saltando, voando, obrigando-a a passá-las para o papel.

Preferia embrenhar-se no trabalho a qualquer outra coisa. Sempre que levava tempo demais a pensar, a mente dela voltava ao que Christine lhe contara sobre Maeve. Quantas camadas, perguntava-se, estariam abaixo da superfície das vidas dos pais que ela ignorava? A mãe com uma carrei­ra, o pai que amava outra mulher. E os dois encurralados, por causa dela, numa prisão que lhes negara os desejos mais íntimos.

Decidira não procurar mais e, contudo, tinha medo, medo que o que descobrisse só lhe provasse ainda mais que não conhecera mesmo as pes­soas que a haviam criado. Não os conhecera de todo.

Por isso, ignorou essa necessidade e atacou a galeria. Como ninguém levantara objecções, usou o escritório de Rogan como estúdio temporário. A luz era boa e como a sala estava aninhada nas traseiras do edifício, raramente a perturbavam. Espaçosa é que não era nada. Era óbvio que Rogan decidira usar todos os espaços que conseguisse encontrar para expor arte.

Ela não poderia discutir com uma decisão daquelas.

Tapou a secretária de nogueira brilhante com uma folha de plástico e grossas folhas de jornais. Os esboços a carvão e lápis que fizera eram apenas o começo. Trabalhava agora juntando laivos de cor. Escolhera al­guns acrílicos numa loja perto da galeria, mas muitas vezes a sua impa­ciência com as imperfeições dos materiais obrigara-a a usar outros que estivessem mais à mão, mergulhando o pincel em borras de café e cinzas das beatas, ou a desenhar linhas mais ousadas com baton ou lápis para os olhos.

Considerava os seus esboços um mero primeiro passo. Ao mesmo tempo que se achava uma artesã bastante boa, Maggie nunca haveria de ser mestre na arte do pincel e da tinta. Tratava-se apenas de uma forma de manter a visão viva da concepção à execução. O facto de Rogan ter conse­guido que vários dos seus esboços fossem emoldurados e pendurados para a exposição, envergonhava-a mais do que lhe agradava.

Ainda assim, lembrava-se que as pessoas comprariam qualquer coisa se as convencessem da sua qualidade e valor.

Tornara-se cínica, pensava, franzindo os olhos ao estudar o seu traba­lho. E calculista também, a amealhar lucros antes de os concretizar. Deus a ajudasse, deixara-se apanhar na teia de sonhos que Rogan tecera, sabendo que ia odiar-se, ainda mais do que o odiava a ele, se voltasse para casa fra­cassada.

Será que o fracasso lhe corria nas veias? Perguntava-se. Seria como o pai, falhando a atingir um objectivo de extrema importância para ela? Estava tão embrenhada no trabalho e nos seus pensamentos mais tene­brosos, que assobiou de surpresa e irritação quando a porta do escritório se abriu.

— Saia! Saia! Será que tenho de trancar a maldita porta?

— Tiraste-me as palavras da boca. — Rogan fechou a porta atrás de si. — Que raio é que estás a fazer?

— Uma experiência de física nuclear, — explodiu ela. — O que é que te parece? — Frustrada pela interrupção, soprou a franja dos olhos e fitou-o. — O que é que estás a fazer aqui?                                              

— Parece que esta galeria, que inclui este escritório, me pertence.

— Como me poderia esquecer. — Maggie mergulhou o pincel numa mistura de tinta que espalhara numa velha tábua. — Não, quando as pri­meiras palavras que saem da boca de toda a gente aqui são Sr. Sweeney isto, e Sr. Sweeney aquilo. — Inspirada por este pequeno prelúdio verbal, coloriu o papel grosso que prendera a outra tábua.

Enquanto o fazia, o olhar dele desceu do seu rosto para as mãos, deixando-o por momentos sem palavras. — O que é que estás a magicar? — Abismado, debruçou-se. A sua preciosa e bem-amada secretária estava coberta de jornais sujos de tinta, frascos com pincéis e, a não ser que ele se tivesse enganado no cheiro intenso, garrafas de aguarrás. — És louca. Tens noção que esta secretária é uma Jorge II?

— É uma peça robusta, — respondeu ela, sem respeito algum pelo rei inglês falecido. — Estás a tapar-me a luz. — Distraída, acenou-lhe com a mão salpicada de tinta. Ele evitou-a por instinto. — E está bem protegida, — acrescentou. — Pus uma folha de plástico por baixo do jornal.

— Bom, assim já não há qualquer problema. — Agarrou uma mão cheia de cabelo dela e apertou, ferozmente. — Se querias uma porcaria de um estirador, — disse, ao ficarem nariz com nariz, — tinha-te arranjado um.

— Não preciso de um estirador, só de um pouco de privacidade. Por isso, se não apareceres muito por aqui, como tens feito de forma brilhante nos últimos dois dias... — Deu-lhe um encontrão para o incitar. Ambos desceram o olhar para os borrões vermelhos que ela transferira para a sua lapela às riscas.

— Oops, — exclamou ela.

— Idiota. — Franziu os olhos em duas fendas azul-cobalto, quando ela se riu.

— Desculpa. A sério. — Mas a desculpa foi diluída por uma garga­lhada abafada. — Sou caótica a trabalhar e esqueci-me das mãos. Mas pelo que já vi, deves ter um armazém cheio de fatos. Este não te vai fazer falta.

— Isso pensas tu. — Rápido como uma serpente, mergulhou os de­dos na tinta e passou-os pela cara dela. O seu guincho de surpresa foi inten­samente satisfatório. — As cores fazem parte de ti.

Ela passou as costas da mão pelo rosto e espalhou a tinta ainda mais. — Com que então, queres brincar? — A rir, foi buscar um tubo de amarelo canário.

— Não te atrevas, — disse ele, dividido entre a raiva e a diversão. — Faço-te engoli-lo, tubo e tudo.

— Uma Concannon jamais ignora um desafio. — O riso dela alar­gou-se enquanto se preparava para apertar. A retaliação de ambos os lados foi interrompida quando a porta do escritório se abriu.

— Rogan, espero que não estejas... — A mulher elegante de fato Channel estacou, os olhos de um azul pálido esbugalhados. — Peço desculpa. — Obviamente desorientada, alisou a onda macia de cabelo negro. — Não sabia que estavas... ocupado.        

— A tua interrupção é oportuna. — Frio como uma brisa de Prima­vera, Rogan rasgou uma tira do jornal e tentou limpar a tinta dos dedos. — Acho que estávamos prestes a fazer figura de parvos.

Talvez, pensou Maggie, pousando o tubo de tinta com uma ridícula sensação de arrependimento. Mas teria sido divertido.

— Patrícia Hennessy, gostava de te apresentar Margaret Mary Con­cannon, a nossa artista convidada.

Isto? Pensara Patrícia, apesar de as feições frágeis, de boa linhagem, não revelarem mais do que cordial interesse. Esta mulher esborratada de tinta, de cabelo desgrenhado, era a M. M. Concannon? — Muito prazer em conhecê-la.

— Igualmente, Miss Hennessy.

— Senhora, — retorquiu Patrícia com o sorriso mais vago. — Mas, por favor, chame-me Patrícia.

Como uma rosa única emoldurada, pensava Maggie, Patrícia Hennessy era encantadora, delicada e perfeita. Achava também, ao estudar o seu rosto oval elegante, que era infeliz. — Não vos quero empatar mais. Tenho a certeza que quer falar a sós com o Rogan.

— Não se apressem por minha causa. — O sorriso da Patrícia esbo­çou-lhe uma curva nos lábios, mas mal lhe tocou nos olhos.

— Estive lá em cima com o Joseph, a admirar o seu trabalho. Tem um talento incrível.

— Obrigada. — Maggie arrancou o lenço que Rogan tinha no bolso.

— Não... — A ordem morreu nos lábios dele enquanto ela mergulha­va o linho irlandês em aguarrás. Com algo que se assemelhava a um rosnar, ele tirou-lho e esfregou os vestígios de tinta das mãos. — O meu escritório parece ter sido temporariamente transformado nas águas-furtadas de um artista.

— Nunca na minha vida trabalhei numas águas-furtadas, — anun­ciou Maggie, deliberadamente a acentuar o sotaque irlandês. — Irritei-o por ter conspurcado solo consagrado, como pode ver. Se já conhece o Ro­gan há algum tempo, vai reconhecer que ele é um homem picuinhas.

— Não sou picuinhas, — disse ele entre dentes.

— Oh, claro que não. — Respondeu Maggie, revirando os olhos. — É um homem selvagem, tão imprevisível quanto as cores da aurora.

— Sentido de organização e controlo geralmente não é considerado um defeito. Normalmente uma total falta dele é que é.

Haviam-se voltado um para o outro de novo, de forma efectiva, sem intenção, deixando Patrícia de parte, apesar de estarem numa sala pequena. Sentia-se a tensão no ar, e isso era óbvio para Patrícia. Não conseguia es­quecer a altura em que ele a desejara intensamente. Não conseguia esquecer porque estava apaixonada por Rogan Sweeney.

— Desculpa se vim em má altura. — Detestava que a sua voz pare­cesse rígida e formal.

— De maneira nenhuma. — O esgar de Rogan transformou-se fa­cilmente num sorriso sedutor quando se voltou para ela. — É sempre um prazer ver-te.

— Passei por cá pensando que estarias despachado do trabalho por hoje. Os Carneys convidaram-me para beber um copo e gostava que te jun­tasses a nós.

— Desculpa, Patrícia. — Rogan desceu o olhar para o lenço estraga­do, para depois o largar em cima das folhas de jornal espalhadas. — Com a exposição amanhã, tenho um monte de pormenores a verificar.

— Disparate. — Maggie lançou a Rogan um largo sorriso amarelo. — Não quero empatar a tua vida social.

— Não é por tua causa... é que tenho outras obrigações. Diz à Marion e ao George que lamento imenso.

— Tudo bem. — Patrícia ofereceu a face para Rogan beijar. O cheiro a aguarrás contrastava, para depois anular, o seu delicado perfume floral.

— Foi um prazer conhecê-la, Miss Concannon. Estou ansiosa por amanhã à noite.

— Chame-me Maggie, — disse ela, com um calor que provinha da compreensão feminina inata. — E obrigada. Esperemos que corra bem. Te­nha um bom dia, Patrícia. — Murmurou Maggie entre dentes, enquanto limpava os pincéis. — Ela é adorável, — comentou, assim que Patrícia saiu. — Uma velha amiga?

— Exactamente.

— Velha amiga casada.

Perante a insinuação, ele limitou-se a erguer uma sobrancelha. — Uma velha amiga viúva.

— Ah.

— Uma resposta muito importante. — Por motivos que ele não con­seguia explicar, ficou na defensiva. — Conheço a Patrícia há mais de quinze anos.

— Bem, como és lento, Sweeney. — Apoiando uma anca na secre­tária, Maggie batia com o lápis nos lábios. — Uma linda mulher, de óbvio bom gosto... uma mulher do teu estatuto, devo acrescentar, e durante quin­ze anos, não te fizeste a ela.

— Não me fiz? — O tom dele congelou, como geada numa janela. — Uma expressão particularmente deselegante, mas ignorando a tua frase extremamente infeliz de momento, como é que sabes que não o fiz?

— Essas coisas notam-se. — Encolhendo os ombros, Maggie saiu de cima da secretária. — As relações íntimas e as platónicas emitem sinais completamente diferentes. — O olhar dela suavizou-se. Afinal de contas, ele era apenas um homem. — Aposto que imaginas que são dois amigos fantásticos.

— Claro que sim.

— Seu palerma. — Sentiu um afluxo de empatia por Patrícia. — Ela está perdida de amores por ti.

A ideia, bem como a forma casualmente confidente como Maggie a apresentara, apanharam-no de surpresa. — Isso é absurdo.

— A única coisa absurda é não fazeres a menor ideia. — Enérgica, começou a recolher os utensílios. — A Sra. Hennessy tem a minha simpa­tia, ou parte dela. Para mim já é difícil oferecê-la quando eu própria estou interessada em ti, e não me agrada a ideia de andares a saltar da cama dela para a minha.

Ela era, pensou ele, exasperante, a mulher mais maldita. — Esta con­versa é ridícula e tenho muito trabalho à minha espera.

Foi algo cativante, a forma como a voz dele conseguiu adquirir um tom formal. — E a culpada sou eu, por isso talvez seja melhor não te em­patar mais. Vou espalhar estes desenhos na cozinha a secar, se não te im­portares.

— Desde que não fiquem no meu caminho. — E quem os fez tam­bém, pensou. Cometeu o erro de olhar para baixo, concentrando-se. — O que é que temos aqui?                                                

— Uma certa confusão, como tu próprio disseste, mas vou limpar tudo num instante.

Sem dizer palavra, ele pegou num dos desenhos dela pelas extremi­dades. Conseguia ver claramente o que a inspirara, como tencionava apli­car a arte nativa americana e transformá-la em algo ousado e unicamente próprio dela.

Não importava o quanto ou como ela o exasperava, de todas as vezes ele ficava abismado com o seu talento.

— Vejo que não perdes tempo.

— É uma das poucas coisas que temos em comum. Queres dar-me a tua opinião?

— Acho que compreendes o orgulho e a beleza muito bem.

— Um bom elogio, Rogan. — Ela sorriu, ao fazer o comentário. — Muito bom.

— O teu trabalho expõe-te, Maggie, tornando-te ainda mais confusa. Sensível e arrogante, compassiva, impiedosa. Sensual e única.

— Se queres dizer que sou inconstante, não vou discutir. — Sentiu de novo aquele impacto, rápido e doloroso. Perguntava-se se algum dia ele olharia para ela como olhava para as suas obras. E no que surgiria entre os dois quando, e se, isso acontecesse. — Não vejo isso como um defeito.

— Só torna mais difícil viver contigo.

— Ninguém tem de passar por isso, excepto eu mesma. — Ergueu uma mão, desconcertando-o ao passá-la pelo rosto dele abaixo. — Estou a pensar em dormir contigo, Rogan, e ambos sabemos disso. Mas eu não sou a tua certinha Sra. Hennessy, à procura da orientação de um marido.

Ele enrolou os dedos à volta do pulso dela, surpreso e sombriamente satisfeito ao ver que o pulso dela batia descompassado. — Andas à procura de quê?

Devia ter uma resposta. Devia tê-la na ponta da língua. Mas perde­ra-a algures entre a pergunta e a batida forte e rápida do próprio coração.

— Assim que descobrir, digo-te. — Inclinou-se para a frente, apoiada nos bicos de pés para passar a boca pela dele. — Por agora isto basta.

Tirou-lhe o desenho e recolheu os restantes.

— Margaret Mary, — disse ele, quando ela se dirigiu para a porta.

— Se fosse a ti, limpava a tinta da cara.

Ela torceu o nariz, entortando os olhos para ver as manchas verme­lhas. — Raios partam, — rezingou, batendo com a porta ao sair.

A despedida pode ter amaciado o orgulho dele, mas não estava segu­ro e temia amargamente que ela o conseguisse rejeitar com tão pouco es­forço. Simplesmente não havia tempo para as complicações que ela causaria na sua vida pessoal. Caso houvesse, bastaria arrastá-la para uma qualquer sala silenciosa e despejar toda a frustração, luxúria e fome louca para dentro dela, até atingir a purificação.

Era certo que já assumira o controlo dela por uma vez, ou pelo menos da situação, por isso, agora voltaria a encontrar o equilíbrio.

Mas havia prioridades, sendo a primeira, por contrato legal e obriga­ção moral, a arte dela.

Desceu o olhar até um dos desenhos que ela esquecera. Parecia feito à pressa, com uma falta de cuidado brilhante, com pinceladas céleres e cores ousadas, exigindo atenção.

Como a própria artista, era impossível de ignorar.

Deliberadamente, ele voltou-lhe as costas e começou a caminhar para sair. Mas a imagem permanecia, assolando-lhe o cérebro tal como o gosto dela permanecera, assolando-lhe os sentidos. — Sr. Sweeney. Senhor.

Rogan parou na sala principal, soltando um suspiro. O homem ma­gro e grisalho que ali estava, segurando um portefólio desfeito, conhecia-o bem.

— Aiman. — Cumprimentou o homem mal vestido de forma tão educada, como se ele fosse um cliente coberto de sedas. — Há muito tempo que não te via.

— Tenho andado a trabalhar. — Um tique nervoso apoderou-se do olho esquerdo de Aiman. — Tenho muito trabalho novo, Sr. Sweeney.

Talvez tivesse andado a trabalhar, pensou Rogan. Era certo que esti­vera a beber. Os sinais estavam todos lá, as maçãs do rosto ruborizadas, os olhos raiados de vermelho, as mãos trémulas. Aiman mal chegara aos trinta anos, mas a bebida tornara-o velho, frágil e desesperado.

Permaneceu do lado de dentro da porta, desviado para o lado, para que os visitantes da galeria não se distraíssem com a sua presença. Os olhos suplicavam a Rogan. Enrolava e desenrolava os dedos à volta do velho por­tefólio de cartão.

— Gostaria muito que tivesse tempo de dar uma olhadela, Sr. Sweeney.

— Tenho uma exposição amanhã, Aiman. Das grandes.

— Eu sei. Li no jornal. — Nervoso, Aiman lambeu os lábios. Gastara o único dinheiro que ganhara a vender na rua no pub, na noite anterior. Sabia que era de loucos. Pior ainda, sabia que era estúpido. Agora, precisava desesperadamente de cem libras para a renda, senão ia parar ao meio da rua dentro de uma semana.

— Posso deixá-los aqui, Sr. Sweeney. Volto na segunda-feira. Fiz... fiz algumas coisas bem boas. Queria que fosse o primeiro a ver.

Rogan não perguntou se Aiman não tinha dinheiro. A resposta era óbvia e a pergunta só iria humilhá-lo. Outrora, revelara-se uma esperança, recordava Rogan, antes de o medo e de o uísque darem cabo dele.

— O meu escritório de momento está a rebentar pelas costuras, — disse Rogan, meigo. — Vamos até lá acima para eu ver o que trazes aí.

— Obrigado. — Os olhos raiados de sangue de Aiman brilharam com um sorriso, de esperança tão patética quanto as lágrimas. — Obrigado, Sr. Sweeney. Não lhe vou tomar muito tempo. Prometo.

— Ia agora mesmo beber um chá. — Discretamente, Rogan deu o braço a Aiman para o apoiar enquanto subiam as escadas. — Quer fazer-me companhia enquanto vemos o seu trabalho?

— Teria muito gosto, Sr. Sweeney.

Maggie escondeu-se para que Rogan não a visse a observá-los, ao dar a curva das escadas. Ela tivera a certeza, certeza absoluta, que ele ia escorra­çar o desgraçado do artista porta fora. Ou, pensou, pediria a algum dos seus subalternos para fazer o trabalho sujo. Em vez disso, convidara o homem para tomar chá e guiara-o escada acima, como um convidado bem-vindo.

Quem diria que Rogan Sweeney albergava tamanha bondade dentro dele?

Compraria alguns dos quadros também, percebeu ela. O suficiente para que o artista mantivesse o seu orgulho, bem como uma ou duas refei­ções no estômago. O gesto foi mais impressionante para ela, mais impor­tante do que uma dúzia de concessões e donativos que imaginava a Worldwide fazia anualmente.

Ele importava-se. Esta concretização envergonhava-a tanto quanto lhe agradava. Ele importava-se da mesma forma com as mãos humanas que criavam a arte como com a própria arte.

Regressou ao escritório dele para o arrumar, bem como tentar assi­milar esta nova faceta de Rogan com todas as outras.

Vinte e quatro horas depois, Maggie estava sentada à beira da cama no quarto de hóspedes de Rogan. Tinha a cabeça entre os joelhos e amaldi­çoava-se por estar terrivelmente mal-disposta. Era humilhante admitir, até para si mesma, que os nervos a podiam dominar. Mas era impossível negá-lo, com o horrível sabor do vómito ainda na garganta e o corpo a tremer de arrepios.

Não importava, tentava convencer-se. Não importava nada o que eles iam pensar. O que conta é o que eu penso.

Oh Deus, oh Deus, porque é que me deixei arrastar para isto?

Com respirações longas e profundas, levantou a cabeça. Uma onda de tonturas atingiu-a, levando-a a ranger os dentes. No espelho alto gi­ratório do outro lado do quarto, foi confrontada com a sua própria ima­gem.

Apenas trazia vestida a roupa interior, a pele branca contrastando drasticamente por baixo das rendas pretas que escolhera. O rosto ostentava um ar pastoso, os olhos raiados de vermelho. Deixou escapar um gemido arrepiante ao voltar a baixar a cabeça.

Estava num estado lastimável. Só ia fazer figura de idiota. Era feliz em Clare, não era? Era lá que pertencia, sozinha e livre. Apenas ela e os seus vidros, com os campos silenciosos e as neblinas matinais. Era lá que estaria, se não fosse Rogan Sweeney cheio de palavrinhas mansas convencendo-a a partir.

Era o demónio, pensava, esquecendo de forma bastante conveniente que começara a mudar de ideias acerca dele. Era um monstro, que per­seguia artistas inocentes para levar a cabo as próprias ambições. Haveria de lhe chupar o tutano, para depois a deitar fora como um tubo de tinta vazio.

Se tivesse forças para o enfrentar, já o tinha assassinado.

Quando um suave bater soou na porta, ela fechou os olhos com força. Vá-se embora, gritou ela mentalmente. Vá-se embora e deixe-me morrer em paz.

Bateram outra vez, seguindo-se uma pergunta serena. — Maggie, querida, já está quase pronta? — Era a Sra. Sweeney.

Maggie pressionou as palmas das mãos nos olhos doridos e abafou um grito. — Não, não estou. — Lutou para que a voz soasse seca e decidida, mas saiu num gemido. — Nem sequer vou sair.

Com a leveza da seda, Christine deslizou para dentro do quarto. — Oh, querida. — Imediatamente maternal, foi ter com Maggie e pôs o braço por cima dos ombros dela. — Está tudo bem, querida. São só nervos.

— Estou bem. — Mas Maggie deixou o orgulho de lado e virou o rosto para o ombro de Christine. — Só não vou.

— Claro que vai. — Animada, Christine levantou o rosto de Maggie, colocando-o ao nível do dela. Sabia exactamente que cordelinhos tinha de puxar, e assim fez, impiedosamente. — Não quer que pensem que tem medo, pois não?

— Não tenho medo. — Maggie ergueu o queixo, mas a náusea subiu como azeite no estômago. — Apenas não estou interessada.

Christine sorriu, afagou o cabelo de Maggie e esperou.

— Não os consigo encarar, Sra. Sweeney, — deixou sair. — Não con­sigo. Vou humilhar-me e odeio isso mais do que tudo. Preferia que me en­forcassem.

— Compreendo perfeitamente, mas não vai nada humilhar-se. — Pe­gou na mão gelada de Maggie. — É verdade que você está tanto em expo­sição quanto o seu trabalho. É essa a tolice do mundo das artes. Vão ficar intrigados consigo, falar de si e especular. Deixá-los.

— Não é só isso... embora seja uma parte. Não estou habituada a que fiquem intrigados comigo e não me parece que vá gostar, mas é o meu tra­balho... — Apertou os lábios. — É o que tenho de melhor, Sra. Sweeney. Se acharem que vale a pena. Se não for suficientemente bom...

— O Rogan acha que é.

— Percebe lá ele, — murmurou Maggie.

— É verdade. Ele percebe. — Christine inclinou a cabeça. A pequena precisava de ser apaparicada, decidiu. Apaparicar nem sempre era simpá­tico. — Quer que desça e lhe diga que está demasiado receosa, demasiado insegura para estar presente na exposição?

— Não! — Desamparada, Maggie tapou a cara com as mãos. — Ele encurralou-me. Aquele homem víbora. — O ganancioso maldito... descul­pe. — Começando a ficar dura, Maggie baixou as mãos.

Christine obrigou-se a abafar o riso. — Não faz mal, — disse ela, so­briamente. — Agora, espere aqui que vou lá abaixo dizer ao Rogan para começar sem nós. Já cavou uma trincheira no corredor de tanto andar de um lado para o outro.

— Nunca vi ninguém tão obcecado com as horas.

— É uma mania dos Sweeney. O Michael enlouqueceu-me com isso, que Deus o tenha. — Deu umas palmadinhas na mão de Maggie. — Volto já para a ajudar a vestir-se.

— Sra. Sweeney. — Desesperada, Maggie puxou a manga de Christi­ne. — Não lhe podia apenas dizer que morri? Podiam transformar a expo­sição num lindo velório. Segundo a regra, um artista morto é mais lucrativo do que vivo.

— Está a ver? — Christine soltou os dedos de Maggie, que a aperta­vam. — Já se sente bem melhor. Agora despache-se e vá lavar a cara.

— Mas...

— Hoje estou a substituir a sua avó, — disse Christine, com firmeza. — Acho que a Sharon haveria de querer que assim fosse. E eu disse para ir lavar a cara, Margaret Mary.

— Sim, senhora. Sra. Sweeney? — Sem sítio para onde fugir, Maggie levantou-se ainda a tremer. — Não lhe vai contar... quero dizer, agradecia que não dissesse ao Rogan que eu...

— Numa das noites mais importantes da sua vida, uma mulher tem direito a demorar a vestir-se.

— Também acho. — Um sorriso vago desenhou-se nos lábios de Ma­ggie. — Faz-me parecer uma idiota frívola, mas antes isso do que a alter­nativa.

— Deixe o Rogan comigo.

— Só há mais uma coisa. — Viera a adiar isto, admitiu Maggie. Era melhor encará-lo agora, que se sentia o mais em baixo possível. — Acha que consegue encontrar aqueles recortes de que falou? Aqueles sobre a mi­nha mãe?

— Acho que sim. Até já devia ter pensado nisso. Claro, havia de gos­tar de lê-los.                                                                                      

— Sim, gostaria. Agradeço-lhe imenso.

— Vou arranjá-los para si. Agora componha o rosto. Eu empato o Rogan. — Lançou um sorriso arrasador a Maggie antes de fechar a porta.

Quando Christine o encontrou, Rogan ainda andava furiosamente de um lado para o outro no foyer. — Onde diabo é que ela está? — Exigiu saber no momento em que avistou a avó. — Há duas horas que está lá em cima a enfeitar-se.

— É claro que está. — Christine esboçou um gesto grandioso. — A impressão que deixar esta noite é vital, não é?

— É importante, naturalmente. — Se desse uma impressão errada, os sonhos dele escorreriam pelo cano abaixo juntamente com os de Maggie. Ele precisava dela ali, agora, e pronta para arrasar. — Mas porque é que demora tanto? Só tem de se vestir e arranjar o cabelo.

— És solteiro há demasiado tempo, meu querido, se acreditas pia­mente num disparate desses. — Afectuosa, Christine esticou o braço para lhe ajeitar a gravata, já perfeita. — Mas que bonito ficas de fato.

— Avó, estás a fazer tempo.

— Não, nada disso. — Radiante, limpou-lhe as lapelas impecáveis. — Só vim cá abaixo dizer-te para ires andando sem nós. Assim que a Mag­gie estiver pronta, vamos lá ter.

— Ela já devia estar pronta.

— Mas não está. Além disso, que impacto teria se ela chegasse um pouco tarde e fizesse uma entrada triunfal? Sei que gostas do drama desse tipo de acontecimento, Rogan.

Havia alguma verdade naquilo. — Então, está bem. — Olhou para o relógio, praguejando um pouco. Se não saísse dentro de um minuto, era certo que chegaria atrasado. Era responsabilidade sua aparecer, recordava-se, para tratar de pormenores de última hora, por mais que quisesse es­perar para ser ele a acompanhar Maggie até à galeria. — Deixo-a nas tuas mãos mais do que habilitadas. O carro volta para vos apanhar assim que eu chegar. Vê se ela chega dentro de uma hora, está bem?

— Podes contar comigo, querido.

— Conto sempre. — Beijou-a na face, recuando. — Já agora, Sra. Sweeney, ainda não lhe disse o quanto está bonita.

— Pois não. Fiquei bastante decepcionada.

— Como sempre, serás a mulher mais linda na galeria.

— Apoiado. Agora, despacha-te e deixa a Maggie comigo.

— Com prazer. — Lançou um olhar escada acima ao dirigir-se para a porta. Não foi um olhar gentil. — Desejo-te boa sorte com ela.

Enquanto a porta se fechava, Christine soltou um suspiro. Era possí­vel que precisasse de toda a sorte que conseguisse.

 

 

                                           CAPÍTULO NOVE

 

Nenhum detalhe fora descurado. A iluminação estava perfeita, realçando e contornando as curvas e espirais do vidro. A música, uma valsa agora, fluía tão suavemente como lágrimas de felicidade pela sala. Taças de champanhe borbulhante enchiam as travessas de prata, levadas com graciosidade por empregados de libré. O tilintar do cristal e o murmúrio das vozes exercia um imenso contraponto com o choro dos violinos.

Numa palavra, estava perfeito, sem faltar um único detalhe. Excepto, pensava Rogan sinistro, a própria artista.

— Está maravilhoso, Rogan. — Patrícia estava a seu lado, elegante num vestido branco justo com contas de vidro cintilantes. — É um sucesso esmagador.

Ele voltou-se para ela, a sorrir. — Parece que sim.

Demorou os olhos nos dela bastante tempo, com bastante intensi­dade, para que ela se sentisse desconfortável. — O que foi? Tenho o nariz sujo?

— Não. — Ele levantou a taça rapidamente, amaldiçoando Maggie por lhe inundar a mente de pensamentos ridículos, levando-o a ficar de pé atrás com uma das suas amigas mais antigas.

Apaixonada por ele? Que absurdo.

— Desculpa. Parece que a minha mente andava a vaguear. Não ima­gino porque é que a Maggie se está a demorar.

— Tenho a certeza que deve estar quase a chegar. — Patrícia pousou a mão no braço dele. — Entretanto, toda a gente está deslumbrada com os nossos esforços combinados.

— É uma sorte. Ela atrasa-se sempre, — acrescentou ele, já sem fôle­go. — Tem um sentido de tempo infantil.

— Rogan, querido, estás aí. Estou a ver que a minha Patrícia te en­controu.

— Boa noite, Sra. Connelly. — Rogan pegou na mão delicada da mãe de Patrícia. — Fico encantado em vê-la. Sem a sua presença, não há exposi­ção numa galeria que seja um sucesso.

— Bajulador. — Satisfeita, alisou a estola de marta. Anne Connelly agarrava-se tanto à sua beleza quanto à sua vaidade. Considerava ser dever da mulher manter uma boa aparência, ao mesmo tempo que cuidava da casa e gerava filhos. Anne nunca, mas nunca negligenciava os seus deveres, e, como resultado disso, tinha uma pele macia e o corpo jovem de uma rapariga. Travava uma batalha constante contra a idade e, há meio século, que saía vitoriosa.

— E o seu marido? — Continuou Rogan. — O Dennis não veio con­sigo?

— Naturalmente, apesar de estar por aí algures a fumar um dos seus charutos e a discutir finanças. — Sorriu enquanto Rogan fazia sinal a um empregado, para lhe oferecer uma taça de champanhe. — Até a simpatia que nutre por ti não muda a apatia que sente em relação à arte. Estas obras são fascinantes. — Gesticulou para a escultura ao lado deles, uma explosão de cor, uma base em espiral que terminava em forma de cogumelo. — Ao mesmo tempo, lindas e perturbadoras. A Patrícia contou-me que ontem conheceu a artista por breves instantes. Estou deserta por fazer o mesmo.

— Ela ainda não chegou. — Rogan ocultou com elegância a sua im­paciência. — Acho que vai achar a Miss Concannon tão contraditória e interessante quanto a sua obra.

— E, tenho a certeza, tão fascinante. Não te temos visto muito ulti­mamente, Rogan. Tenho insistido bastante com a Patrícia para te levar lá a casa. — Lançou à filha um olhar dissimulado, que falava por si.

Faz alguma coisa, rapariga. Não deixes que ele te escape.

— Lamento, mas tenho andado tão obcecado com a realização ur­gente desta exposição que acabei por negligenciar os amigos.

— Estás perdoado, desde que possamos contar contigo para jantar na próxima semana.                                                                     

— Adoraria. — Rogan aproveitou o olhar de Joseph. — Desculpem-me por um minuto, sim?

— Tens de ser assim tão óbvia, mãe? — Murmurou Patrícia para den­tro do vinho, enquanto Rogan deslizava entre a multidão.

— Alguém tem de ser. Valha-me Deus, rapariga, ele trata-te como a uma irmã. — Abrindo um sorriso ao ver alguém conhecido do outro lado da sala, Anne continuou a falar em voz baixa. — Um homem não se casa com uma mulher que trata como irmã, e está na hora de voltares a casar. É impossível arranjares um par melhor. Continua na brincadeira e vais ver se alguém não o fisga mesmo debaixo do teu nariz. Agora sorri, está bem? Será que tens sempre de parecer que ainda estás de luto?

Empenhada, Patrícia forçou uma curva nos lábios.

— Conseguiste falar com elas? — Perguntou Rogan, ao puxar Joseph para um canto.

— Pelo telefone do carro. — O olhar de Joseph varreu a sala, passou por Patrícia, demorou-se, para depois seguir caminho. — Estão a chegar a qualquer altura.

— Mais de uma hora de atraso. Típico.

— Seja como for, vais ficar contente em saber que já vendemos dez peças e temos pelo menos, tantas ofertas pela Rendição.

— Essa peça não está à venda. — Rogan estudou a escultura vistosa que estava bem no meio da sala. — Primeiro vai fazer uma tournée pelas galerias de Roma, Paris e Nova Iorque, mas, juntamente com as outras pe­ças que escolhemos, não está à venda.

— Tu é que sabes, — disse Joseph, com facilidade. — Mas deixa-me dizer que o General Fitzsimmons nos ofereceu vinte e cinco mil libras por ela.

— A sério? Certifica-te de que isso se saiba, está bem?

— Conta com isso. No entretanto, tenho feito sala a alguns críticos de arte. Acho que devias... — Joseph seguiu o olhar de Rogan, que escure­ceu ao observar com atenção algo por cima do seu ombro. Joseph virou-se, vendo a razão do olhar esbugalhado do patrão, soltando um ligeiro assobio. — Pode ter-se atrasado, mas está de arrasar.

Joseph olhou para trás, para Patrícia, e reparou pela sua expressão que também ela vira a reacção de Rogan. Nutrindo uma afeição muito grande por ela, sabia por experiência própria o que era amar alguém que o via apenas como amigo.

— Achas que devo levá-la a dar uma volta pela sala? — Perguntou Joseph.

— O quê? Não... não. Eu faço isso.

Rogan nunca pensou que Maggie pudesse ficar assim — insinuante, maravilhosa e sensual como o pecado. Escolhera o preto, uniforme e sem adornos. O vestido adquiria todo o estilo do corpo que cobria. Ia desde o pescoço até aos tornozelos, mas ninguém poderia dizer que era formal, não com os botões pretos brilhantes que pendiam a todo o comprimento, os botões que deixara ousadamente desapertados até à curva do decote e ao cimo de uma coxa esguia.

O cabelo era uma coroa de fogo emaranhada, enrolada casualmente à volta do rosto. Ao aproximar-se, ele viu que os olhos dela já examinavam, apreciavam e absorviam tudo na sala.

Mostrava-se intrépida, desafiadora e totalmente em controlo.

E assim era... agora. A pilha de nervos servira para a envergonhar tanto que os vencera apenas com a força de vontade.

Ali estava ela. E pretendia ter sucesso.

— Estás proibitivamente atrasada. — A queixa era uma última linha de defesa, revelada num sussurro enquanto lhe pegava na mão e a levava aos lábios. Os seus olhos encontraram-se. — E incrivelmente bonita.

— Aprovas o meu vestido?

— Não era bem essa a palavra que escolheria, mas sim, aprovo.

Nessa altura, ela sorriu. — Estavas com medo que viesse de botas e jeans rasgados.

— Não com a minha avó de guarda.

— Ela é a mulher mais maravilhosa do mundo. Tens muita sorte em tê-la.

A força emocional da afirmação, mais do que as palavras, levou Rogan a estudá-la com curiosidade. — Eu sei disso.

— Não deves saber. A sério que não, uma vez que nunca te viste pri­vado dela. — Respirou fundo. — Bom. — Já se sentiam imensos olhos so­bre ela, dúzias deles, brilhando de curiosidade. — Tenho de entrar na boca do lobo, não é? Não te preocupes, — disse ela, sem lhe dar oportunidade para falar. — Vou comportar-me. O meu futuro depende disso.

— Isto é apenas o começo, Margaret Mary.

Enquanto ele a levava pela sala, no meio de luz e cor, ela já receava que ele tivesse razão.

E ela comportou-se. A noite parecia correr bem, com apertar de mãos, acei­tação de elogios, respostas a perguntas. A primeira hora passara a correr como num sonho, entre o glamour do vinho, o brilho das taças e o reluzir das jóias. Era fácil andar à deriva, Maggie sentindo-se um pouco arredada da realidade, algo desligada, tanto quanto um actor numa peça de produ­ção sumptuosa.

— Esta, ah esta. — Um homem careca, com um bigode pendente e sotaque britânico exagerado, comentava uma peça. Apresentava uma série de hastes azuis brilhantes presas a um globo de vidro transparente. — Chamou-lhe Aprisionados. A sua criatividade, a sua sexualidade, numa luta para se libertarem. A eterna contenda do Homem, afinal de contas. É triunfante, assim como a sua melancolia.

— São os seis condados, — disse Maggie, com simplicidade.

O homem careca pestanejou. — Perdão?

— Os seis condados da Irlanda, — repetiu com um brilho rebelde e travesso no olhar. — Aprisionados.

— Estou a ver.

Ao lado deste aspirante a crítico, Joseph abafou uma gargalhada. — Acho o uso da cor aqui bastante impressionante, Lorde Whitfield. A sua transparência cria uma tensão por resolver entre a delicadeza e a ousadia da peça.

— Exactamente. — Acenou Lorde Whitfield, pigarreando. — Real­mente extraordinária. Com a vossa licença.

Maggie observou-o a bater em retirada com um largo sorriso. — Bom, acho que ele não vai a correr comprá-la para a pôr no seu covil, não acha, Joseph?

— Que mulher malvada, Maggie Concannon.

— Sou irlandesa, Joseph. — Piscou-lhe o olho. — Das rebeldes.

Ele riu-se com prazer e, passando-lhe o braço pela cintura, acompa­nhou-a pela sala. — Ah, Sra. Connelly. — Joseph apertou Maggie ligeira­mente para lhe fazer sinal. — Maravilhosa, como sempre.

— Joseph, tem sempre uma palavra doce. E aqui... — Anne Connelly desviou a atenção de Joseph, que considerava ser um mero factoto de Mag­gie. — Aqui temos a força criadora. Estou encantada em conhecê-la, minha querida. Sou a Sra. Dennis Connelly... Anne. Penso que conheceu a minha filha, Patrícia, ontem.

— Sim, conheci. — Maggie achou o aperto de mão de Anne tão deli­cado e macio quanto um pincel de cetim.

— Ela deve andar por aí com o Rogan. Fazem um lindo casal, não acha?

— Deveras. — Maggie ergueu o sobrolho. Conhecia um aviso quan­do o ouvia. — Mora em Dublin, Sra. Connelly?

— É verdade. Apenas a algumas casas da mansão Sweeney. A minha família faz parte da sociedade de Dublin há gerações. E você é dos conda­dos do oeste?                                                        

— Sim, de Clare.

— Uma paisagem magnífica. Todas aquelas aldeias encantadoras e exóticas, com os telhados de colmo. Ouvi dizer que na sua família são agri­cultores? — Anne ergueu a sobrancelha, obviamente divertida.

— Eram.

— Isto deve ser muito excitante para si, em especial com as suas ori­gens rurais. Tenho a certeza que apreciou a sua visita a Dublin. Vai regressar em breve?

— Acho que em muito breve.

— Aposto que sente falta do campo. Dublin pode ser bastante confu­sa para quem não está habituado à vida na cidade. Quase como uma terra estranha.

— Pelo menos percebo a língua, — disse Maggie, equavelmente. — Espero que tenha uma noite agradável, Sra. Connelly. Dá-me licença?

Se Rogan pensava que ia vender àquela mulher alguma coisa criada por Maggie Concannon, pensava Maggie ao afastar-se, estava muito enga­nado.

Que se lixassem os direitos exclusivos. Preferia partir tudo em bo­cados até ficar em pó a ver alguma das peças nas mãos de Anne Connelly.

Dirigira-se a ela como se fosse uma leiteira saloia com o cabelo cheio de palha.

Refreou o seu mau génio ao sair do salão de baile, na direcção de uma das salas de estar. Todas estavam apinhadas de gente, a conversar, sentadas, rindo, trocando opiniões sobre ela. A cabeça começou a palpitar enquanto descia as escadas. Ia até à cozinha buscar uma cerveja, para ter alguns mi­nutos de paz.

Entrou de rompante, estacando de imediato ao avistar um homem corpulento a fumar um charuto e a embalar uma pilsner.

— Apanhado, — disse ele, com um sorriso tímido.

— Então já somos dois. Vim cá abaixo buscar uma cervejinha bem calma.

— Eu vou buscar uma. — Galante, aliviou o seu volume da cadeira e tirou uma garrafa. — Não quer que apague o charuto, pois não?

A súplica na sua voz fê-la rir. — De todo. O meu pai costumava fu­mar o cachimbo mais horrível do mundo. Um pivete que subia aos céus. Eu adorava.

— Só pode ser boa rapariga. — Foi buscar a cerveja e um copo. — Odeio estas coisas. — Esticou o polegar na direcção do tecto. — A minha mulher é que me arrasta.

— Também odeio.

— Mas o trabalho parece-me muito bonito, — comentou ele, en­quanto ela bebia. — Como as cores e as formas. Não que eu perceba alguma coisa disso. A minha mulher é que é a perita. Mas gostei do que vi, por isso, deve ser suficiente, acho eu.

— E eu também.

— Toda a gente tenta sempre explicar tudo nestes eventos da treta. No que o artista estava a pensar e tal. Simbolismo. — Enrolou a língua com a palavra, como se fosse uma iguaria estranha que ainda não estivesse pronto a provar. — Não faço ideia de que diabo estão a falar.

Maggie decidiu que o homem estava meio bêbedo e que o adorava. — Nem eu.

— É isso! — Ergueu o copo e bebeu de um só trago. — Nem eles. São uns intrujões. Mas se dissesse isso à Anne, a minha mulher, ela dava-me um daqueles olhares.

Franziu os olhos, baixando as sobrancelhas com ar mal-humorado. Maggie explodiu de riso.

— Mas afinal, quem é que quer saber o que eles pensam? — Maggie apoiou o cotovelo na mesa e o queixo no punho. — Até parece que a vida de alguém depende disto. — A não ser a minha, pensou, afastando o pen­samento. — Não acha que acontecimentos destes são só uma desculpa para as pessoas se arranjarem todas e se armarem em importantes?

— Completamente. — Tão assertivo fora o argumento dele que bateu com o copo com força no dela. — Quanto a mim, sabe o que queria estar a fazer hoje à noite?

— O quê?

— Estar sentado na poltrona, com os pés na almofada e um uísque ir­landês no copo, a ver televisão. — Suspirou, arrependido. — Mas não podia desiludir a Anne, ou o Rogan, por assim dizer.

— Então, conhece o Rogan?

— É como se fosse meu filho. Tornou-se num bom homem. Ainda não tinha vinte anos quando o vi pela primeira vez. Eu e o pai dele tínha­mos negócios em comum, e o rapaz mal podia esperar para se juntar a nós. — Gesticulou vagamente para abarcar a galeria. — Esperto como um alho.

— Em que negócios trabalha?

— Na banca.

— Desculpem. — Uma voz feminina interrompeu-os. Olharam para ver Patrícia de pé junto à porta, com as mãos unidas, elegantemente.  

— Ah, ali está o meu amor.

Enquanto Maggie observava, de olhos esbugalhados, o homem es­forçou-se por sair da cadeira, enrolando Patrícia num abraço que chegaria para uma mula. A reacção de Patrícia, em vez de severa rejeição ou fria repulsa, foi uma gargalhada rápida e musical.

— Papá, vais-me partir ao meio.

— Papá? Pensou Maggie. Papá? Era o pai da Patrícia Hennessy? Ma­rido da Anne? Este homem maravilhoso era casado com aquela... aquela mulher bloco de gelo? Só provava ainda mais, decidira, que as palavras até que a morte nos separe eram as sílabas mais idiotas que os seres humanos algum dia foram obrigados a pronunciar.

— Apresento-lhe a minha menina. — Com orgulho óbvio, Dennis fez Patrícia girar. — Uma beldade, não acha? A minha Patrícia.

— Sim, de facto. — Maggie levantou-se, sorrindo. — Que bom vê-la de novo.

— Igualmente. Parabéns pelo sucesso estrondoso da sua exposição.

— Da sua exposição? — Indagou Dennis, confuso.

— Não nos chegámos a apresentar. — Rindo agora, Maggie deu um passo em frente, oferecendo a mão a Dennis. — Sou Maggie Concannon, Sr. Connelly.

— Oh. — Por momentos, não disse nada, enquanto moía o cérebro a tentar lembrar-se se dissera algo insultuoso. — Foi um prazer, — conseguiu dizer, ao mesmo tempo que o cérebro desistiu.

— Foi mesmo. Obrigada pelos melhores dez minutos que passei des­de que entrei por aquela porta.

Dennis sorriu. Esta mulher parecia bastante humana, para uma artis­ta. — Gosto muito das cores e das formas, — comentou, esperançoso.

— Esse é o melhor elogio que já me fizeram a noite toda.

— Papá, a mãe anda à tua procura. — Patrícia limpou a cinza que caíra na lapela dele. O gesto, que ela usara inúmeras vezes com o pai sem se dar conta, acertara em cheio no coração de Maggie.

— É melhor ir ter com ela. — Olhou para trás para Maggie e quando ela se riu para ele, ele devolveu o sorriso. — Espero que nos voltemos a en­contrar, Miss Concannon.

— Eu também.

— Não quer subir connosco? — Perguntou Patrícia.

— Não, ainda não, — respondeu Maggie, não querendo socializar mais com a mãe de Patrícia.

O brilho no olhar desvaneceu-se no momento em que os passos de­les desapareceram no chão polido. Sentou-se, sozinha, no chão da cozinha inundado de luz. Ali havia sossego, tanto sossego que quase se convencia que o edifício estava completamente vazio, à excepção dela.

Queria acreditar que estava sozinha. Mais do que isso, queria acre­ditar que a tristeza que subitamente sentira era apenas porque sentia falta da solidão dos seus campos verdes e das colinas silenciosas, as horas in­termináveis de silêncio, apenas com o rumor da fornalha e da sua própria imaginação que a guiava.                                                            

Mas não era só isso. Nesta noite, uma das mais maravilhosas da sua vida, não tinha ninguém. Nenhuma das pessoas tagarelas e fabulosas que estavam lá em cima a conhecia, se preocupava com ela, a compreendia. Não havia ninguém lá em cima à espera de Maggie Concannon.

Tinha-se a si própria, pensou, levantando-se. E era só isso que era preciso. O seu trabalho fora bem recebido. Não era difícil decifrar todas aquelas frases extravagantes e pomposas. A tribo de Rogan gostava do que ela fazia, e isso era o primeiro passo.

Estava bem encaminhada, dizia de si para si enquanto saía da cozi­nha. Apressava-se a calcorrear o caminho que levava à fama e fortuna, o caminho que escapara aos Concannon nas últimas duas gerações. E faria tudo sozinha.

A luz e a música cintilavam pela escadaria abaixo como pozinhos de perlimpimpim ao longo da curva de um arco-íris. Parou ao fundo da es­cada, a mão agarrando o corrimão com força, o pé no primeiro degrau. Depois, com um trejeito, virou-se para sair rapidamente, para a escuridão exterior.

Quando o relógio bateu a uma, Rogan deu um puxão na gravata preta ele­gante e praguejou. Raio da mulher, pensou, ao caminhar pela saleta escura, merecia que a matassem. Desvanecera-se como fumo no meio de uma festa apinhada de gente, organizada em seu benefício. Havia-o deixado, lembra­va-se com um ressentimento em ebulição, a inventar desculpas idiotas.

Devia saber que não era de esperar que uma mulher com um tempe­ramento daqueles se comportasse de forma razoável. Era óbvio que não lhe deveria ter dado um destaque tão proeminente nas suas próprias ambições, nas esperanças que almejava para o futuro dos seus negócios.

Como raio esperaria construir uma galeria dedicada à arte irlandesa, quando a primeira artista irlandesa que seleccionara pessoalmente, bem apresentada e exposta, fugira da sua própria inauguração como uma crian­ça irresponsável?

Agora já a noite ia a meio e ele não soubera nada dela. O sucesso ma­ravilhoso da exposição, a sua própria satisfação de um trabalho bem feito, estavam ensombrados como o precioso céu do condado do oeste, de onde ela vinha. Agora, só podia esperar.

E preocupar-se.

Ela não conhecia Dublin. Com toda a sua beleza e encanto, também havia zonas perigosas para uma mulher sozinha. E havia sempre a possibi­lidade de acontecer um acidente — só de pensar nisso, abateu-se sobre ele uma dor de cabeça esmagadora, na nuca.

Já fora duas vezes para junto do telefone, para ligar aos hospitais quando ouviu o trinco da porta de entrada. Deu meia volta e apressou-se para o corredor.

Estava a salvo e, debaixo da luz do candelabro do foyer, conseguia ver que nada de mal lhe tinha acontecido. Visões de assassinatos assolaram-lhe a cabeça a latejar.

— Onde raio é que andaste?

Ela esperava que ele tivesse ido sair para algum clube da alta-roda, brindar com uns amigos. Mas como não o fizera, ofereceu-lhe um sorriso e encolheu os ombros. — Oh, por aí. A tua Dublin é uma linda cidade à noite.

Enquanto a fitava, cerrou as mãos num punho firme. — Queres dizer que andaste a fazer turismo até à uma da manhã?

— Já é assim tão tarde? Devo ter perdido a noção das horas. Bom, então talvez seja melhor dar as boas-noites.

— Nem penses. — Avançou na direcção dela. — Vais é dar-me uma explicação sobre o teu comportamento.

— Não me parece que tenha de me explicar a ninguém, mas se quise­res ser mais claro, talvez abra uma excepção.

— Hoje à noite, juntaram-se quase duzentas pessoas em tua homena­gem. Foste incrivelmente mal-educada.

— Não fui nada. — Mais cansada do que queria admitir, passou por ele entrando na saleta, descalçou os sapatos de salto alto miseravel­mente desconfortáveis e apoiou os pés exaustos no banco enfeitado com borlas. — A verdade é que fui tão incrivelmente educada que os dentes quase me caíram da boca. Rezo a Deus para não ter de sorrir a mais nenhuma maldita alma durante um mês. Agora não me importava de tomar um daqueles brandies, Rogan. A esta hora da noite, está um frio danado lá fora.

Ele reparou pela primeira vez que ela não trazia nada por cima do fino vestido preto. — Onde é que pára o teu agasalho?

— Não levei nenhum. Vais ter de anotar isso no teu bloco de notas. Comprar um agasalho decente para a Maggie usar à noite. — Esticou o braço para pegar no copo que ele lhe servira.

— Bolas, tens as mãos frias. Não tens juízo nenhum.

— Já aquecem. — Ela arqueou as sobrancelhas enquanto ele dava passadas largas até à lareira, colocando-se de cócoras para a acender. — En­tão, hoje não tens empregados?

— Cala-te. A única coisa que não tolero hoje é sarcasmo da tua parte. Já tive mais do que a minha dose.

As chamas ganharam vida, alimentando-se ávidas da madeira seca. Com a mudança de luz, Maggie reparou que o rosto dele estava rígido de raiva. A melhor forma de enfrentar o mau humor, sempre pensara, era igualá-lo.

— Não devo ter sido eu a dar-te essa dose. — Bebeu o brandy, teria suspirado pelo calor bem-vindo da bebida se não estivesse a trocar olhares com Rogan. — Fui à tua exposição, não fui? Com a roupa certa, com um sorriso idiota e correcto estampado na cara.

— A exposição era tua, — ripostou ele. — Sua pirralha ingrata, ego­ísta e imprudente.

Por mais que sentisse o corpo estafado, não podia permitir que ele falasse assim com ela. Levantou-se rígida e encarou-o. — Não te vou contrariar. Sou exactamente o que dizes, e já mo disseram muitas vezes na vida. Felizmente para ambos, só tens de te preocupar com o meu tra­balho.

— Fazes alguma ideia do tempo, do esforço e da despesa que despen­di para conseguir montar esta exposição?

— É a tua obrigação. — A voz dela era firme como a sua postura.

— Como fazes questão de me lembrar sempre. E eu estive lá, fiquei mais de duas horas, a trocar impressões com estranhos.

— É melhor aprenderes que um mecenas nunca é um estranho e que essa falta de educação nunca é boa ideia.

O tom calmo e controlado atravessou-lhe a armadura protectora como uma espada. — Nunca concordei em ficar a noite toda. Precisava de ficar sozinha, só isso.

— Para andares a vaguear pelas ruas toda a noite? Sou responsável por ti enquanto cá estiveres, Maggie. Por amor de Deus, estive quase para chamar a polícia.

— Não és responsável por mim, eu é que sou. — Mas ela conseguia ver agora que não era apenas a raiva que escurecia os olhos dele, mas tam­bém preocupação. — Peço desculpa se te deixei preocupado. Só fui dar uma volta.

— Saíste para dar um passeio e foste-te embora da tua primeira gran­de exposição sem água vai nem água vem?

— Sim. — O copo saltou da mão dela caindo com impacto no chão de pedra, antes que se apercebesse. O vidro estilhaçado voou como balas. — Tinha de sair! Não conseguia respirar. Não conseguia aguentar. Todas aquelas pessoas, a olhar para mim, para o meu trabalho, e a música, as lu­zes. Estava tudo tão lindo, tão perfeito. Não sabia que ia ficar tão assustada. Pensava que já tinha ultrapassado isso desde aquele dia em que me mos­traste a sala, e as minhas peças dispostas como num sonho.

— Ficaste com medo.    

— Sim, sim, maldito sejas. Estás satisfeito por ouvir isto? Fiquei ater­rorizada quando abriste a porta, olhei lá para dentro e vi o que tinhas feito. Mal conseguia falar. Foste tu o responsável, — disse ela, furiosa. — Abriste a caixa de Pandora e deixaste sair todas as minhas esperanças, medos e ne­cessidades. Não podes saber como é ter necessidades, terríveis, nem sequer pensas que devias tê-las.

Agora, ele estudava-a, marfim e fogo num vestido preto justo. — Oh, mas tenho, — disse ele, baixinho. — Tenho. Devias ter-me dito, Maggie. — A voz dele agora era meiga, ao mesmo tempo que avançava na direcção dela.

Ela lançou ambas as mãos ao ar para o repelir. — Não, não faças isso. Não ia suportar que fosses carinhoso agora. Especialmente quando não sei se o mereço. Não fiz bem em deixar-te daquela maneira. Fui egoísta e in­grata. — Deixou cair as mãos indefesas junto ao corpo. — É que não tinha ninguém que me apoiasse no cimo daquelas escadas. Ninguém. E fiquei destroçada.

De repente, ela parecia tão delicada, por isso ele fez o que ela lhe pedira e não lhe tocou. Receava que, se o fizesse, mesmo com meiguice, ela se pudesse partir nas suas mãos. — Se me tivesses dito como era importante para ti, Maggie, teria trazido a tua família.

— Não ias conseguir trazer a Brianna. Sabe Deus que não podes tra­zer o meu pai de volta. — Quebrara-se-lhe a voz, envergonhando-a. Com um som estrangulado, tapou a boca com a mão. — Estou exausta, só isso. — Lutou uma amarga batalha para controlar a voz. — Demasiado desperta por causa de toda a excitação. Devo-te um pedido de desculpas por ter saí­do daquela maneira, e também gratidão por todo o trabalho a que te deste por minha causa.

Ele preferia quando ela estava enraivecida ou a chorar, a esta delica­deza afectada. Não tinha outra opção senão responder à altura. — O mais importante é que a exposição foi um sucesso.

— Sim. — Os seu olhos brilharam à luz da lareira. — Isso é o mais importante. Agora, se me dás licença, vou-me deitar.

— Claro. Maggie? Só mais uma coisa.

Ela voltou-se. Ele estava de pé à frente da lareira, as chamas crepitan­tes douradas atrás dele. — Sim?

— Eu estava lá para te apoiar, no cimo das escadas. Talvez da próxima vez te lembres disso e fiques satisfeita.

Ela não respondeu. Ele ouviu apenas o roçar do seu vestido enquanto ela se apressava pelo corredor, subindo as escadas, depois o trinco rápido da porta do seu quarto a fechar-se.

Ele fitou a lareira, observando um toro que se partia, cortado pelas chamas e pelo calor. O fumo subiu uma vez, atiçado pelo vento. Continuou a olhar enquanto uma chuva de faúlhas batia no resguardo, espalhando-se na pedra, esmorecendo.

Ela era, apercebeu-se, tão caprichosa, birrenta e brilhante quanto aquela lareira. Tão perigosa quanto elementar.

E ele estava, bastante desesperadamente, apaixonado por ela.

 

 

                                                   CAPÍTULO DEZ

 

— Desapareceu como? — Rogan saltou da secretária e trespassou Joseph com um olhar de indignação. — É claro que ela não desapareceu.

— Olha que sim. Passou pela galeria para se despedir há cerca de uma hora. — Metendo a mão no bolso, Joseph tirou um envelope. — Pe­diu-me que te entregasse isto.

Rogan pegou nele, atirando-o para cima da secretária. — Queres di­zer que voltou para Clare? Na manhã a seguir à exposição?

— Sim, e com uma pressa danada. Nem tive tempo para lhe mostrar as críticas. — Joseph começou a brincar com a argola de ouro pendurada na orelha. — Reservou voo para Shannon. Disse que só tinha tempo para se despedir e que ficasse com Deus, deu-me o bilhete para ti, beijou-me e saiu outra vez a correr. — Ele sorriu. — Foi como se tivesse sido atingido por um pequeno tornado. — Encolheu os ombros, deixando-os cair. — Desculpa, Rogan, se soubesse que querias que ela ficasse, tinha tentado impedi--la. Te­nho a certeza que não ia conseguir, mas podia ter tentado.

— Não importa. — Ele voltou a sentar-se devagar na cadeira. — Como é que ela te pareceu?

— Impaciente, apressada, distraída. O normal. Queria voltar para casa, foi só isso que me disse, voltar ao trabalho. Não tinha a certeza se sa­bias, por isso pensei em passar por cá para te contar pessoalmente. Tenho uma reunião com o General Fitzsimmons, ia agora para lá.

— Obrigado. Devo passar pela galeria por volta das quatro. Dá cum­primentos meus ao general.

— Serão entregues, — disse Joseph com um sorriso cintilante. — A propósito, ele deu mais cinco mil pela Rendição.

— Não está à venda.

Rogan pegou no bilhete que estava na secretária depois de Joseph ter fechado a porta atrás dele. Ignorando o trabalho, Rogan rasgou o envelope com o abre-cartas com cabo de ébano. O papel creme que provinha do seu próprio quarto de hóspedes aparecia riscado pela letra apressada e bonita de Maggie.

 

                       Caro Rogan,

Imagino que fiques transtornado por me ir embora deforma tão abrupta. Preciso de estar em casa e voltar ao trabalho, e não vou pedir desculpa por isso. Vou agradecer-te. Aposto que vais começar a rogar-me pragas, mas aviso-te desde já que faço intenção de as ignorar, pelo menos por algum tempo. Por favor, dá cumprimentos meus à tua avó. E não me importava que pensasses em mim de vez em quando.

                   Maggie

 

Oh, só mais uma coisa. Talvez estejas interessado em saber que levo para casa meia dúzia de receitas do Julien — é assim que se chama o teu cozinheiro, caso não saibas. Ele acha que sou encantadora.

Rogan leu a carta outra vez antes de a pôr de lado. Foi melhor assim, decidiu. Seriam ambos mais felizes e mais produtivos com a imensidão da Irlanda a dividi-los. Certamente, ele seria. Era difícil ser produtivo perto de uma mulher por quem se está apaixonado, quando ela se apresentava frustrante a todos os níveis.

Com sorte, por pouca que fosse, estas emoções que haviam crescido dentro dele iriam acalmar e desvanecer com o tempo e a distância.

Por isso... ele dobrou a carta e pô-la de lado. Estava contente por ela ter voltado, satisfeito por terem cumprido a primeira fase dos planos que ti­nha para a carreira dela, feliz por ela lhe ter dado, inadvertidamente, tempo para lidar com as suas próprias emoções confusas.

Que inferno, pensava ele. Já sentia a falta dela.

O céu ostentava a cor de um ovo de pisco, límpido como um riacho de montanha. Maggie sentou-se no pequeno banco na porta da entrada, com os cotovelos apoiados nos joelhos, limitando-se a respirar. Além do portão do seu jardim e do carreiro de entrada, dos brincos-de-princesa em flor, conseguia vislumbrar o verde luxuriante da colina e do vale. Mais longe ainda, uma vez que o dia estava tão límpido, tão claro, avistava as distantes montanhas negras.

Observou uma pega a atravessar a sua linha de visão, desenhando um voo picado. Seguiu caminho a direito como uma seta, até a própria sombra se perder no verde.            

Uma das vacas de Murphy mugiu, ao que outra respondeu. Ouvia-se o murmúrio de um eco que podia vir do tractor dele, bem como o bramido pajecido com o mar, que provinha das fornalhas, que acendera assim que chegara. As flores mostravam-se brilhantes ao Sol, begónias vermelhas ví­vidas emaranhadas nas túlipas de botões tardios e os elegantes rebentos de esporeiras. Conseguia sentir o aroma do rosmaninho e do tomilho, além do perfume forte das rosas silvestres que oscilavam como bailarinas na brisa suave e doce.

Um espanta-espíritos que ela fizera de restos de vidro tocava melo­diosamente por cima da sua cabeça.

Dublin, com as suas ruas movimentadas, parecia muito distante.

No serpentear da estrada lá em baixo no vale, ela avistou uma carri­nha vermelha, pequena e reluzente como um brinquedo, a avançar, virar num cruzamento e subir na direcção de uma cabana.

Vai tomar chá a casa, pensou, deixando sair um suspiro de pura sa­tisfação.

Primeiro ouviu o cão, aquele ladrar do fundo da garganta que ecoava, depois o roçar nas ervas que lhe dizia que acabara de apanhar um pássaro. A voz da irmã flutuava no ar, divertida, indulgente.

— Deixa o coitadinho em paz, Con, seu grande rufia.

O cão voltou a ladrar e, momentos depois, saltou o portão do jardim. A língua de fora, de felicidade, quando viu Maggie.

— Sai já daí, — ordenou Brianna. — Queres que ela chegue a casa e veja que deste cabo do portão do jardim, e... Oh. — Parou, pousando a mão sobre a cabeça enorme do cão ao ver a irmã. — Não sabia que tinhas volta­do para casa. — O sorriso entrou primeiro, assim que ela abriu o portão.

— Acabei de chegar. — Maggie passou os minutos seguintes a ser cumprimentada pelo Concobar, aos pulos e a receber as suas lambidelas excessivas, até ele responder à ordem de Brianna para que se sentasse. E logo se sentou, com as patas da frente em cima dos pés de Maggie, como se se quisesse assegurar que ela não saia dali.

— Fiquei com algum tempo livre, — começou Brianna. — Por isso, pensei em vir até cá tratar do jardim.

— Parece-me estar bem assim.    

— Pensas sempre isso. Trouxe pão que fiz esta manhã. Ia guardá-lo no teu congelador. — Com uma sensação estranha, Brianna estendeu-lhe o cesto. Tinha acontecido alguma coisa, percebeu. Havia algo por trás do olhar calmo e sereno da irmã. — Como estava Dublin?

— Apinhada de gente. — Maggie pousou o cesto no banco a seu lado. O aroma que emanava por baixo do pano impecável era tão tentador que ela o levantou e partiu um naco quente de pão integral. — Barulhenta. — Arrancou um pedacinho de pão e atirou-o. Concobar apanhou-o no ar, engolindo-o inteiro. — Mas que ganancioso me saíste, não? — Atirou-lhe outro pedaço antes de se levantar. — Tenho uma coisa para ti.

Maggie entrou em casa, deixando Brianna de pé no carreiro. Quando voltou, entregou a Brianna uma caixa e um envelope.

— Não te devias ter incomodado... — Começou Brianna, sem terminar. Apercebeu-se que se sentia culpada. Nada mais do que uma imen­sa culpa. Aceitando-a, abriu a caixa. — Oh, Maggie, é lindo. A coisa mais linda que já tive. — Segurou no alfinete à luz do Sol e observou-o a brilhar. — Não devias ter gasto dinheiro.

— É meu para gastar, — disse Maggie, concisa. — Espero que lhe dês uso não só com o avental.

— Não ando sempre de avental, — disse Brianna, calma. Voltou a guardar o alfinete com cuidado dentro da caixa, guardando-a no bolso. — Obrigada. Maggie, gostava de...

— Ainda não viste o resto. — Maggie sabia o que a irmã gostava, e não queria ouvir. Agora pouco importava arrepender-se por não ter ido a Dublin à inauguração.

Brianna estudou o rosto da irmã, sem encontrar sinais de meiguice. — Então, está bem. — Abriu o envelope, tirando uma folha de papel. — Oh! Meu Deus! — Por mais lindo e brilhante que fosse o alfinete, não era nada comparado com aquilo. Ambas sabiam disso. — Receitas. Tantas. Soufflés e doces, e... oh, vejam só este frango. Deve ser maravilhoso.

— Pois é. — Maggie abanou a cabeça perante a reacção de Brianna, quase suspirando. — Já as provei. E essa sopa... o segredo são as ervas, se­gundo me disseram.

— Onde é que as arranjaste? — Brianna mordeu o lábio inferior, ana­lisando as páginas escritas à mão, como se fossem tesouros de outras eras.

— Foi o cozinheiro de Rogan. É francês.

— Receitas de um chef francês, — comentou Brianna, com respeito.

— Prometi-lhe que, em troca, lhe enviavas uma quantidade seme­lhante das tuas.

— Das minhas? — Brianna pestanejou, como se tivesse acordado de um sonho. — Mas ele não deve querer as minhas.

— Quer sim, e muito. Fartei-me de elogiar o teu guisado irlandês e a tarte de frutos silvestres. Dei-lhe a minha palavra de honra que lhas envia­vas.

— Claro que envio, mas não consigo imaginar... obrigada, Maggie. É um presente maravilhoso. — Brianna avançou para a abraçar, mas recuou, desencorajada pela frieza da reacção de Maggie. — Não me queres contar como tudo correu? Bem tentei imaginar, mas não consegui.

— Correu bastante bem. Estavam lá muitas pessoas. O Rogan parece saber como lhes despertar o interesse. Havia uma orquestra e empregados vestidos de branco, que serviam flûtes de champanhe e travessas de prata cheias de aperitivos chiques.

— Deve ter sido lindo. Estou tão orgulhosa de ti.

Os olhos de Maggie gelaram. — Estás?

— Sabes que sim.

— Só sei que precisava de ti lá. Raios partam, Brie, precisava de ti lá.

Con ganiu, como reacção ao grito, e olhava inquieto da Maggie para a dona.

— Se pudesse, tinha lá estado.

— Nada, a não ser ela, te impediu. Só te pedi uma noite da tua vida. Uma. Não tinha lá ninguém, nem família, nem amigos, ninguém que me amasse. Porque a preferiste a ela, como sempre, em vez de a mim, ao pai, até a ti própria.

— Não foi uma questão de preferência.

— É sempre uma questão de preferência, — disse Maggie, friamente. — Deixaste que ela matasse o teu coração, Brianna, tal como matou o dele.

— Isso é cruel, Maggie.

— Podes crer que é. Ela seria a primeira a dizer-te que sou mesmo cruel. Cruel, marcada pelo pecado e condenada ao demónio. Bom, ainda bem que sou má. Preferia o inferno sem hesitar a ter de me ajoelhar so­bre brasas e a sofrer em silêncio para alcançar o céu, como tu. — Maggie recuou, enrolando os dedos para agarrar com força a maçaneta da porta. — Bom, passei a noite sem ti, sem ninguém, e até se passou bem. Acho que já devem ter vendido alguma coisa. Entrego-te o dinheiro daqui a algumas semanas.

— Desculpa se te magoei, Maggie. — O orgulho de Brianna endure­ceu-lhe a voz.— Não quero saber do dinheiro.

— Mas quero eu. — Maggie fechou a porta.

Durante três dias, ninguém a incomodou. O telefone não tocou, ninguém veio bater à porta. Mesmo se tivesse havido uma convocatória, ela tê-la-ia ignorado. Passava quase todos os minutos acordada na vidreira, a refinar, a aperfeiçoar, dando forma às imagens na sua cabeça e no bloco de esboços, transformando-as em vidro.

Apesar de Rogan atestar o valor que tinham, ela pendurara os esbo­ços com molas ou presos a ímanes, de forma que um canto do estúdio mais parecia uma câmara escura, com fotografias a secar.

Já se queimara duas vezes com a pressa, uma delas de tal forma que a obrigara a parar para aplicar os primeiros socorros. Agora, sentada na cadeira, com cuidado e meticulosamente, transformava o esboço de um escudo apache na sua própria visão.

Era um trabalho duro e traiçoeiramente exigente. Sangrando a cor na cor, a forma na forma tal como queria, exigia centenas de viagens à janela de inspecção do forno.

Mas aqui, pelo menos, sabia ser paciente.

Chamas quentes e esbranquiçadas lambiam as portas abertas da for­nalha, deixando escapar o calor. A ventoinha do exaustor rugia como um motor para que o fumo cobrisse o vidro, e não os seus pulmões, de uma tonalidade iridescente.

Durante dois dias trabalhou com químicos, misturando e fazendo experiências como um cientista louco, até aperfeiçoar as cores que preten­dia. Cobre para o turquesa escuro, ferro para o rico amarelo dourado, mag­nésio para um púrpura real, azulado. O vermelho, o verdadeiro rubi que ela queria, dera-lhe trabalho, como a qualquer artista vidreiro. Estava agora a trabalhar nele, a ensanduichar aquela secção entre duas camadas de vidro transparente. Voltara a usar cobre, com agentes redutores na fusão para as­segurar uma cor pura. Apesar de ser intoxicante e potencialmente perigoso, até mesmo sob condições controladas, ela escolhera o cianeto de sódio. Mesmo assim, era preciso revestir o vidro para evitar que o vermelho adquirisse um tom visceral.

Era soprada a primeira massa da nova secção, rodada e depois cuida­dosamente retirada do ferro. Ela usava umas pinças compridas para moldar o vidro fundido e mole numa forma levemente subtil.

O suor pingava para a fita de algodão que atara à volta da testa, en­quanto trabalhava a segunda massa, repetindo todo o processo.

Uma e outra vez, caminhava para a janela de inspecção para voltar a aquecer, não só para manter o vidro quente, mas também para evitar cho­ques térmicos que podiam partir uma qualquer peça, bem como o coração da artista.                                                                              

Para não escaldar as mãos, molhava o tubo com água. Só a ponta tinha de se manter quente.                                        

Queria que a parede do escudo fosse suficientemente fina para que a luz pudesse passar, sendo refractada através dela. Isto exigia mais viagens para voltar a aquecer e um manuseamento paciente e cauteloso das ferra­mentas, para alisar e concretizar a curva subtil que imaginara.

Horas depois do primeiro sopro, colocou a peça no forno para recozer e bateu com o pontel.

Só quando acertou a temperatura e o temporizador é que começou a sentir as cãibras nas mãos, os nós nos ombros e no pescoço.

E o vazio no estômago.

Hoje não ia comer enlatados, decidira. Iria festejar com uma refeição e uma pint de cerveja no pub.

Maggie não se perguntou o motivo, depois de ansiar pela solidão, que a levava agora a procurar companhia. Estava em casa há três dias e não fa­lara com ninguém, excepto com Brianna. Mesmo nesse caso, fora breve e irada.

Maggie sentia-se arrependida agora, arrependida por não se ter es­forçado mais por compreender a situação de Brianna. A irmã encontra­va-se sempre no meio, a desafortunada segunda filha de um casamento falhado. Em vez de se lançar contra a irmã, devia ter aceitado a imensa disponibilidade que ela revelava para a mãe de ambas. Também devia ter contado a Brianna o que Christine Sweeney lhe confidenciara. Seria interes­sante apreciar a reacção de Brianna perante as novidades acerca do passado da mãe.

Mas isso teria de esperar. Queria desfrutar de uma hora bem passa­da com as pessoas que conhecia, degustando uma refeição quente e uma cerveja gelada. Decerto que lhe afastaria o pensamento do trabalho que a monopolizava há dias, bem como do facto de ainda não ter tido notícias de Rogan.

Como a noite estava agradável e queria pôr de lado o mau humor, pegou na bicicleta e começou a pedalar os cinco quilómetros que a separa­vam da vila.

Haviam começado os longos dias de Verão. O Sol estava brilhante e agradavelmente quente, mantendo muitos agricultores ainda nos campos, muito depois da hora do jantar. A estrada sinuosa e estreita era ladeada de ambos os lados por sebes altas que não reconfortavam e que davam a Mag­gie a sensação de estar a descer um imenso túnel, de aromas doces. Passou por um carro, acenou ao condutor e sentiu a brisa que ele provocara a bater nos jeans.

Pedalando com força, mais por divertimento do que por estar com pressa, saiu do túnel de sebes para surgir na pura beleza incomensurável do vale.

O Sol reflectia no telhado de zinco de um celeiro, encandeando-a. Agora a estrada parecia mais suave, senão mais larga, mas ela abrandou, apenas para apreciar a brisa de fim de tarde e os resquícios da luz do Sol.

Sentiu o aroma das madressilvas, do feno, da doce relva cortada. O seu humor, que andara lunático e inquieto desde que chegara, começava a serenar.

Passou pelas casas com roupa estendida e crianças a brincar no pá­tio, pelas ruínas de castelos, ainda majestáticos com as pedras cinzentas e lendas sobre espectros que os habitavam, um testemunho do modo de vida que ainda perdurava.

Virou numa curva, sentindo o brilho intenso do rio que fluía pela erva alta, afastando-se dele na direcção da vila.

As casas eram agora mais compostas e apresentavam-se mais aglo­meradas. Algumas das mais recentes faziam-na suspirar de desilusão. À luz do seu olhar de artista, eram quadradas e simples, normalmente com cores monótonas. Apenas os jardins, luxuriantes e vívidos, as salvavam da feal­dade.

A última curva longa levava-a até ao centro da vila. Passou pelo talho, pela farmácia, pela pequena mercearia de O'Ryan e pelo minúsculo hotel que já pertencera ao seu avô.

Maggie parou para examinar o edifício por instantes, tentando ima­ginar a mãe quando, ainda menina, ali vivera. Uma rapariga amorosa, se­gundo a história de Christine Sweeney, com uma voz angelical.

Se era verdade, porque houvera tão pouca música em casa? E por­que, perguntava-se Maggie, nunca se havia mencionado, nem sequer numa mera insinuação, o talento de Maeve?

Haveria de perguntar, decidiu Maggie. E não havia sítio melhor do que o O'Malley’s.

Enquanto descia da bicicleta para o passeio, Maggie reparou numa família de turistas a passear a pé, a filmar, e bastante satisfeita por registar em vídeo uma típica vila irlandesa.

A mulher segurava a pequena e inteligente câmara, rindo enquanto prestava atenção ao marido e aos dois filhos. Maggie deve ter entrado na filmagem, porque a mulher levantou a mão, acenando.

— Boa tarde, Miss.

— Igualmente.

Honra lhe seja feita, Maggie nem sequer pestanejou quando a mulher murmurou para o marido, — Não tem um sotaque maravilhoso? Pergunta--lhe sobre a comida, John. Estou deserta por a filmar mais um bocadinho.

— Ah... desculpe.

O turismo não fazia mal nenhum à vila, decidira Maggie, voltando para trás para alinhar no jogo. — Posso ajudá-lo nalguma coisa?

— Se não se importar. Queríamos encontrar um sítio para comer na cidade. Se nos pudesse recomendar algum.

— Não me importo nada de fazer isso. — Como eles pareciam tão maravilhados com ela, carregou ainda mais no sotaque do oeste. — Agora, se quiserem uma coisa elegante, o melhor a fazer será irem de carro por esta estrada mais uns, oh, quinze minutos e vão encontrar o rei das refeições no Castelo Dromoland. Vai-lhe aliviar a carteira, mas as suas papilas gustativas vão subir ao céu.

— Não viemos vestidos para restaurantes chiques, — intrometeu-se a mulher. — Na verdade, esperávamos encontrar alguma coisa aqui mesmo na vila.

— Se estiverem com disposição para petiscos do pub — ela piscou o olho aos dois filhos, que olhavam para ela como se tivesse saído de um OVNI cheio de luzes a piscar — vão gostar do O'Malley's. Tenho a certeza. Os palitos que ele faz são tão bons quanto os dos outros.

— Ela quer dizer batatas fritas, — traduziu a mulher. — Chegámos hoje de manhã, da América, — contou ela a Maggie. — Lamento não saber­mos muito sobre os costumes locais. As crianças podem entrar nos bares... pubs?

— Estamos na Irlanda. As crianças são bem-vindas em qualquer lado, em todos me’mo. O O'Malley's é ali. — Gesticulou na direcção do edifício baixo e torto com tons escuros. — Eu própria vou 'té lá. Vão ficar contentes por lhe servir, e à sua família, uma refeição.

— Obrigada. — O homem olhava esbugalhado para ela, as crianças fitavam-na e a mulher esquecera-se de lhe tirar a câmara da cara. — Vamos experimentar.

— Espero que comam bem, e que apreciem o resto da estadia. — Maggie deu meia volta e deambulou pelo passeio abaixo, entrando no O'Malley's. Estava escuro, fumarento e cheirava a cebolas fritas e cerveja.

— Como tens passado, Tim? — Perguntou Maggie, sentando-se no bar.

— Vejam só quem haveria de aparecer. — Tim sorriu para ela en­quanto virava uma pint de Guinness. — E tu, como estás, Maggie?

— Bem, e esfomeada como um urso. — Trocou cumprimentos com um casal sentado a uma mesa do tamanho de um selo, atrás dela, e com os dois homens que tiravam cervejas no bar. — Arranjas-me uma das tuas bifanas, Tim, com uma dose de palitos, e bebo uma pint de Harp enquanto espero.

O proprietário espetou a cabeça na direcção das traseiras do bar e gritou o pedido de Maggie. — Então conta lá, como foi a Cidade de Dublin? — Perguntou ele, enquanto lhe servia uma pint.

— Já te conto. — Apoiou os cotovelos em cima do bar e começou a descrever a viagem aos clientes do bar. Ao mesmo tempo, a família ameri­cana entrou e arranjou uma mesa.

— Champanhe e fígado de ganso? — Tim abanou a cabeça. — Não é de espantar? E toda aquela gente foi ver os teus vidros. O teu pai ia ficar muito orgulhoso de ti, menina Maggie. Orgulhoso como um pavão.

— Espero que sim. — Fungou com força quando Tim lhe pôs o prato à frente. — Mas a verdade é que prefiro as tuas bifanas a um quilo de fígado de ganso.

Ele riu-se com vontade. — Esta é a nossa menina.

— E descobri que a avó do homem que está a gerir as coisas por mim era amiga da minha avó, a Vó O'Reilly.

— Estás a falar a sério? — Suspirando, Tim esfregou a barriga. — O mundo é mesmo pequeno.

— Pois é, — concordou Maggie, tornando o assunto casual. — Ela é de Galway e conheceu a avó quando eram pequenas. Durante anos cor­responderam-se, quando a avó se mudou para aqui, para terem notícias, sabem?

— Que bom. Não há melhor amigo que um velho amigo.

— A avó escrevia-lhe a contar sobre o hotel, a família. Até mencionou que a minha mãe costumava cantar.

— Oh, isso foi há muito tempo. — Recordando-se, Tim foi buscar um copo para limpar. — Antes de nasceres, para ser exacto. A verdade é que, agora que penso nisso, ela cantou aqui neste mesmo pub uma das últi­mas vezes antes de desistir.

— Aqui? Pediste-lhe que cantasse aqui?

— Pedi, sim. Ela tinha uma voz doce, a Maeve. Viajou pelo país intei­ro. Quase não a vi durante, oh, mais de dez anos, diria eu, depois veio passar uma temporada. Parece-me que a Sra. O'Reilly estava doente. Por isso, per­guntei à Maeve se ela não gostaria de cantar uma ou duas noites, não que o nosso bar fosse tão bom como alguns de Dublin e Cork, ou Donnegal, onde ela já actuara.

— Ela actuou? Durante dez anos?

— Bom, não sei se, a princípio, ela levava aquilo a sério. Maeve estava ansiosa por partir, desde que me lembro. Não era feliz a fazer camas num hotel de uma vila como a nossa, e não fazia segredo disso. — Piscou o olho para retirar a maldade das palavras. — Mas as coisas corriam bem quando ela voltou e cantou aqui. Depois, ela e o Tom... bom, só tinham olhos um para o outro no momento em que ele entrou e a ouviu cantar.

— E depois de casarem, — indagou Maggie, cautelosa, — ela não voltou a cantar?

— Já não queria. Nem sequer falava disso. Na verdade, já passou tan­to tempo, agora que falas nisso, que já me tinha esquecido.

Maggie duvidava que a mãe se tivesse esquecido, ou que pudesse fazê-lo. Como é que ela se sentiria se a vida desse uma volta tal que ela ti­vesse de abdicar da arte, perguntava-se. Zangada, triste, ressentida. Desceu o olhar para as mãos, pensou em como seria se não as pudesse voltar a usar. No que é que se tornaria se, de repente, agora que estava prestes a deixar a sua marca, lhe tirassem tudo?

Se abandonar a carreira não servia de desculpa para os anos amargos que passara com a mãe, pelo menos era um motivo.

Maggie precisava de tempo para pensar, para falar com Brianna.

Brincou com a cerveja e começou a juntar as peças da mulher que fora a sua mãe com a personalidade da mulher em que se tornara.

Quanto de ambas, imaginava Maggie, teria Maeve passado para a fi­lha?

— Vamos a comer essa bifana, — ordenou Tim, ao fazer deslizar ou­tra pint pelo bar. — Não é só para olhar.

— Vou comer. — Para mostrar que tinha razão, Maggie deu uma bela dentada. O pub estava quente e reconfortante. Amanhã tinha tempo, decidira, para limpar o sótão dos sonhos perdidos. — Arranjas-me outra pint, Tim?

— Isso posso fazer, — disse ele, levantando depois a mão quando a porta do pub se abriu outra vez. — Bom, esta é a noite dos forasteiros. Por onde tens andado, Murphy?

— A sentir a tua falta, rapaz. — Ao ver Maggie, Murphy sorriu e jun­tou-se a ela no bar. — Espero poder sentar-me com uma celebridade.

— Talvez deixe, — retorquiu ela. — Mas só desta vez. Então, Murphy, quando é que vais fazer a corte à minha irmã?

Era uma velha piada, mas ainda arrancava gargalhadas aos clientes habituais do pub. Murphy bebeu da caneca de Maggie e suspirou. — Minha querida, sabes que no meu coração só tenho lugar para ti.

— Sei é que és um patife. — Arrancou-lhe a cerveja da mão.

Ele era um homem bonito ao jeito selvagem, em forma, forte e expos­to aos elementos, como um carvalho ao Sol e ao vento. O seu cabelo escuro enrolava-se junto ao colarinho, por cima das orelhas, e os olhos eram azuis, como a garrafa de cobalto que tinha na oficina.

Não era refinado como Rogan, pensou ela. Rude como um cigano, era o Murphy, mas tinha um coração grande e doce como o vale que ela amava. Maggie nunca tivera um irmão, mas Murphy era o que mais se aproximava de o ser.

— Casava contigo amanhã, — declarou ele, inundando o pub, à ex­cepção dos americanos que observavam avidamente, de sonoras gargalha­das. — Se me quisesses.

— Podes ficar descansado, então, já que não estou inclinada para o teu lado. Mas dou-te um beijo para que o possas lamentar ainda mais.

Cumpriu à letra a sua promessa, beijando-o demorada e ardentemen­te, até que se separaram, trocando sorrisos. — Tiveste saudades minhas? — Perguntou Maggie.

— Nem um bocadinho. Quero uma pint de Guinness, Tim, e o mes­mo que a nossa celebridade está a comer. — Roubou-lhe uma batata frita. — Ouvi que tinhas voltado.

— Oh. — A voz dela arrefeceu um pouco. — Viste a Brie?

— Não, ouvi que tinhas voltado, — repetiu. — A tua fornalha.

— Ah.

— A minha irmã mandou-me uns recortes, de Cork.

— Mmm. Como está a Mary Ellen?

— Oh, está bem. O Drew e as crianças também. — Murphy meteu a mão no bolso, franziu o sobrolho, procurou no outro. — Ah, está aqui. — Tirou dois recortes de jornal dobrados. — Mulher de Clare triunfa em Dublin, — leu. — «Margaret Mary Concannon impressionou o mundo das artes numa exposição das Galerias Worldwide, em Dublin, no sábado à noite».

— Deixa-me ver isso. — Maggie tirou-lhe o recorte da mão. — «Miss Concannon, uma artista vidreira independente, arrancou louvores e elogios aos convidados da exposição com as suas esculturas e esboços arrojados e complexos. A própria artista é uma jovem mulher diminuta...» diminuta, haha! — Comentou Maggie.

— Dá-o cá. — Murphy arrancou-lhe o recorte e continuou a ler em voz alta. — «Uma jovem mulher diminuta, de talento e beleza excepcio­nais». Hah, para ti, — acrescentou Murphy, gozando com ela. — «A rui­va de olhos verdes, de feições de marfim e um charme considerável, apre­sentou-se tão fascinante quanto a sua obra para este amante das artes. A Worldwide, uma das mais conceituadas galerias do mundo, considera-se afortunada por expor a obra de Miss Concannon.

"Acho que ela ainda agora começou a dar largas à sua imaginação", afirmou Rogan Sweeney, presidente da Worldwide. "Trazer a obra de Miss Concannon para a atenção mundial é um privilégio"».

— Ele disse isso? — Tentou tirar-lhe o recorte outra vez, mas Murphy segurou-o longe dela.

— Disse. Está aqui preto no branco. Agora, deixa-me acabar. As pes­soas querem ouvir.

Realmente, o pub caíra em silêncio. Todos os olhos estavam postos em Murphy, enquanto ele acabava de ler a crítica.

— «A Worldwide vai fazer uma tournée com várias peças de Miss Concannon durante o próximo ano, e vai ficar com outras, seleccionadas pessoalmente pela artista e pelo Sr. Sweeney, em exposição permanente em Dublin». — Satisfeito, Murphy pousou o recorte no balcão do bar, levando Tim a esticar o pescoço para ver.

— E tem fotografias, — acrescentou, desdobrando o segundo recorte. — Da Maggie com feições de marfim e algumas peças de vidro elegantes. Não tens nada a dizer, Maggie?

Ela deixou sair um longo suspiro, que lhe soprou o cabelo. — Acho que o melhor a dizer é «bebidas para todos os meus amigos».

— Estás muito calada, Maggie Mae.

Maggie sorriu ao ouvir o nome que o pai lhe costumava chamar. Es­tava mais do que confortável na carrinha de Murphy, com a bicicleta empo­leirada na caixa aberta e o motor a roncar, como faziam todas as máquinas de Murphy, como um gato satisfeito.

— Acho que estou um bocadinho bêbeda, Murphy. — Espregui­çou-se e suspirou. — E até estou a gostar bastante da sensação.

— Bom, tu mereces. — Estava bem mais do que só um bocadinho bêbeda, e era por isso que ele carregara a bicicleta na carrinha, antes que ela tentasse impor-se. — Estamos todos muito orgulhosos de ti, e quanto a mim, vou passar a olhar para a garrafa que me deste com mais respeito.

— Já te disse que é uma jarra de flores, não é uma garrafa. Põe lá den­tro raminhos bonitos ou flores silvestres.

Porque é que alguém haveria de trazer ramos, bonitos ou não, para dentro de casa, ele não conseguia perceber. — Então, vais voltar para Du­blin?

— Não sei... não, pelo menos por enquanto. Lá não consigo trabalhar e agora é só o que me apetece fazer. — Riu-se ao avistar um emaranhado de tojos, prateados agora devido à lua crescente. — Ele nunca agiu como se fosse um privilégio.

— O quê?                        

— Oh, pois não, era sempre como se eu é que fosse a privilegiada por ele olhar duas vezes para o meu trabalho. O grande e poderoso Sweeney a dar uma oportunidade de fama e fortuna a uma artista pobre e lutadora. Bom, achas que eu pedi fama e fortuna, Murphy? É isso que quero saber. Achas que pedi?

Ele já conhecia o tom, a bofetada beligerante e defensiva, por isso respondeu com cautela. — Não sei, Maggie. Não queres?

— Claro que sim. Pareço-te alguma idiota? Mas pedir? Não, nunca pedi. Nunca lhe pedi coisa nenhuma, excepto no início para me deixar em paz. E achas que deixou? Hah! — Cruzou os braços sobre o peito. — Nem por isso. Tentou-me, Murphy, e o próprio diabo não poderia ter sido mais matreiro e persuasivo. Agora fui apanhada, percebes, e não posso voltar atrás.

Murphy mordeu os lábios e parou devagar junto ao portão dela. — Bom, e será que queres voltar atrás?

— Não. E o pior é isso. Quero exactamente o que ele diz que posso ter, e quero tanto que me dói o coração. Mas também não quero que as coisas mudem, o inferno é esse. Quero que me deixem em paz para trabalhar e pensar, para ser apenas. Não sei se posso ter as duas coisas.

— Podes fazer o que quiseres, Maggie. És demasiado teimosa para te ficares por menos.

Ela riu-se e virou-se para lhe dar um beijo molhado. — Oh, adoro-te, Murphy. Não queres correr comigo pelos campos e dançar ao luar?

Ele sorriu, afagando-lhe o cabelo. — Porque é que não te vou guardar a bicicleta e te ponho na cama?

— Eu faço isso sozinha. — Saltou da carrinha, mas ele foi mais rápi­do. Levantou a bicicleta e pousou-a na estrada. — Obrigada por me trazer a casa, Sr. Muldoon.

— O prazer foi meu, Miss Concannon. Agora, ponha-se na cama.

Ela entrava no portão levando a bicicleta a pé, quando ele começou a cantar. Parando já dentro do jardim, ficou a ouvir a voz dele, forte e doce como a de um tenor, que se elevava na noite silenciosa e desaparecia.

— Só, tão só, junto à espuma perdida pelo mar, tão só num salão cheio de gente. O salão está contente, as ondas sempre a rebentar e o meu coração que teima em andar ausente.

Ela sorriu um pouco e terminou a canção mentalmente. — Voa para longe, noite e dia, para os tempos de alegria que não voltam mais.

Slievenamon, assim se chamava a balada, ela sabia. Mulher da Mon­tanha. Bom, ela não estava no cimo da montanha, mas achava que com­preendia a alma da canção. O salão em Dublin alegrara-se, contudo, o seu coração andara ausente. Ficara sozinha. Completamente sozinha.  

Levou a bicicleta para as traseiras, mas, em vez de entrar, Maggie afastou-se da casa. Era verdade que estava um pouco embriagada e a sua passada não estava lá muito firme, mas não queria desperdiçar uma noite daquelas na cama. Sozinha na cama.

Bêbeda ou sóbria, de dia ou de noite, ela conseguia encontrar um caminho na terra que outrora lhe pertencera.

Ouviu o piar da coruja e o ruído de algo que caçava ou se escondia na noite, nas ervas altas a leste. Lá em cima, a lua, que estava agora cheia, brilhava como um lampião aceso num imenso mar de estrelas. A noite par­tilhava segredos à sua volta. Um regato a oeste murmurou em resposta.

Era isto em parte que ela desejava. Do que precisava tanto como res­pirar era da glória da solidão. Campos verdes a dançar ao vento em seu redor, agora prateados pela luz da lua e das estrelas, com apenas um brilho ténue ao longe, que era o candeeiro da cozinha de Murphy.

Ela lembrava-se de caminhar por ali com o pai, a sua mão de menina aninhada e quente na dele. Ele não falava de plantar ou cultivar, mas dos sonhos. Sempre, falava sempre dos sonhos.

Nunca chegou a encontrar o dele.

Era bastante triste, pensava ela, que começasse agora a perceber que a mãe encontrara o dela, só para o perder novamente.

Como seria, perguntava-se, ter aquilo que se desejava ali tão perto e deixá-lo escapar por entre os dedos? Para sempre.

Não era exactamente isso que ela tanto receava?

Deitou-se de costas na relva, a cabeça a andar à roda por ter bebido demais e imaginado demasiados sonhos. As estrelas rodopiavam na sua dança celestial e a lua, brilhante como uma moeda de prata, olhava para ela, lá em baixo. O ar feito doce pelo cantar do rouxinol. E a noite pertencia-lhe.

Sorriu, fechou os olhos e adormeceu.

 

 

                                     CAPÍTULO ONZE

 

Foi a vaca que a acordou. Os enormes olhos líquidos estudavam a figura adormecida, aninhada no pasto. As vacas pensam em muito pouco, além de na comida e em termos de as mungir. Ela cheirou uma, duas vezes a face de Maggie, roncou e depois começou a comer erva.

— Oh, valha-me Deus, que barulho é este?

Com a cabeça a latejar como se tocassem um enorme tambor, Mag­gie rebolou, indo embater com força na pata dianteira da vaca, abrindo os olhos turvos e raiados de sangue.

— Santo Jesus Cristo! — O guincho de Maggie ecoou na sua cabeça como um gongo, obrigando-a a tapar os ouvidos como se estivessem prestes a explodir, enquanto se afastava. A vaca, tão espantada quanto ela, mugiu e revirou os olhos. — O que é que estás aqui a fazer? — Mantendo a cabeça entre as mãos, Maggie conseguiu pôr-se de joelhos. — O que é que estou aqui a fazer? — Quando caiu para trás, batendo com os quadris, ela e a vaca estudaram-se, curiosas. — Devo ter adormecido. Oh! — Numa lamentável defesa contra a fúria da ressaca, passou as mãos dos ouvidos para os olhos. — Oh, que preço a pagar por uma bebida a mais. Vou sentar-me aqui por uns minutos, se não te importas, até ter forças para me levantar.

A vaca, a seguir a um derradeiro revirar de olhos, começou a pastar novamente.

A madrugada estava límpida e quente, repleta de sons. O zumbido do tractor, o ladrar do cão, a melodia dos pássaros giravam na cabeça tortura­da de Maggie. A boca sabia como se tivesse passado a noite a comer numa turfeira, as roupas ensopadas pela orvalhada matinal.

— Bom, até é agradável apagarmo-nos num campo destes como um vagabundo bêbedo.

Pôs-se de pé, baloiçou um pouco e gemeu. A vaca agitava a cauda no que podia ser interpretado como simpatia. Com cuidado, Maggie espre­guiçou-se. Como não sentiu os ossos a estalar, tratou ela do resto dos nós e deixou que os olhos examinassem o campo.

Mais vacas pastavam, desinteressadas pela visitante humana. No campo adjacente, conseguia ver o círculo de pedras erguidas, antigas como o ar, que os locais chamavam Marco dos Druidas. Lembrava-se agora de ter dado a Murphy um beijo de boa-noite e, com a canção dele ecoando baixinho na cabeça, de vaguear ao luar.

O sonho que tivera, ao dormir debaixo da luz prateada, voltou com tal nitidez, num tal arrebatamento, que se esqueceu da dor de cabeça e da rigidez nas articulações.

A lua, a brilhar intensamente, pulsando como o bater de um coração, inundava o céu e a terra cá em baixo de uma fria luz branca. Depois ardera, quente como uma tocha, até as cores a preencherem, vermelhos e azuis de sangue, dourados tão maravilhosos que, até a dormir, a haviam levado às lágrimas.

Ela subira, mais e mais, até conseguir tocá-la. Era macia, sólida e fria ao tomá-la nas mãos em concha. Vira-se naquela esfera, e no fundo, bem lá no fundo daquelas cores ondulantes, encontrara o seu coração.

A visão que girava na sua cabeça era mais do que uma consequência da ressaca. Induzida por ela, correu campo fora, deixando as vacas plácidas a pastar e a madrugada com o canto dos pássaros.

Numa hora estava no estúdio, desesperada por transformar a visão em realidade. Não era necessário nenhum esboço, não com a imagem gra­vada de forma tão explícita na sua mente. Não comera nada, nem precisava. Com a emoção da descoberta a cintilar sobre ela como um manto, fez a primeira massa.

Alisou-a no mármore para arrefecer e concentrar. De seguida, so­prou.

Quando aquecia e voltava a ficar moldável, ela passava a bolha por corantes em pó. Voltava a entrar nas chamas até que a cor se derretesse na parede do recipiente.

Repetia o processo vezes sem conta, juntando vidro, fogo, sopro, cor. Girando e girando o tubo contra ou a favor da gravidade, alisando a esfera brilhante com pás para manter a forma.

Uma vez o recipiente transferido do tubo para o pontel, aquecia-o bastante na janela de inspecção. Aí usava uma vara molhada, fazendo força com ela na boca da peça para que a pressão do vapor alargasse a forma.

Todas as energias estavam ali concentradas. Ela sabia que a água na vara ia evaporar. A pressão podia abrir fendas nas paredes do recipiente. Agora daria jeito um ajudante com o pontel, alguém que facultasse outro par de mãos, para trazer as ferramentas, ir buscar mais vidro, mas nunca contratara ninguém para essa tarefa.

Começou a falar sozinha, baixinho, uma vez que se via obrigada a fazer ela própria as viagens, de volta para a fornalha, para a bancada, para a cadeira.

O Sol já ia mais alto, atravessando as janelas e coroando-a numa au­réola de luz.

Foi assim que Rogan a viu assim que abriu a porta. Sentada na cadeira, com uma bola de cor derretida debaixo das mãos e a luz do Sol a cercá-la.

Dispensou-lhe um olhar de relance. — Tira a porcaria do casaco e da gravata. Preciso das tuas mãos.

— O quê?

— Bolas, preciso das tuas mãos. Faz exactamente o que eu disser e não fales comigo.

Não tinha a certeza se conseguia. Não costumava ficar aparvalha­do, mas naquele instante, com o crepitar do lume, os raios de Sol, ela parecia uma espécie de deusa implacável e cruel a criar novos mundos. Ele pousou a pasta a um canto e despiu o casaco.

— Segura aqui com firmeza, — disse ela, levantando-se da ca­deira. — Viras o pontel como eu estou a fazer. Vês? Devagar, de forma constante. Não dês safanões nem pares, senão mato-te. Preciso de um aplique.

Ele ficou tão surpreendido por ela lhe confiar o trabalho que se sentou na cadeira sem dizer nada. O tubo estava quente nas mãos dele, mais pesado do que esperara. Ela manteve o dela por cima do dele até sentir que ele lhe apanhara o jeito.

— Não pares, — avisou-o. — Acredita, a tua vida depende disso. Ele não duvidava. Ela foi até à fornalha, recolheu massa para um apli­que e voltou.

— Viste como fiz aquilo? Não tem nada de especial. Da próxima vez, quero que vás lá tu. — Quando a parede amoleceu, ela pegou na pinça e pressionou-a de encontro ao vidro.

— Agora faz tu. — Tirou-lhe o tubo da mão e continuou a trabalhar nele. — Se tirares demasiado, depois posso desbastá-lo.

O calor da fornalha cortou-lhe a respiração. Enfiou o tubo lá dentro, seguindo as bruscas instruções dela, girando-o debaixo do vidro fundido. Observou o vidro a fundir e a unir--se, como lágrimas quentes.

— Trá-lo cá pela parte de trás da bancada, à direita. — Antecipando-o, foi buscar um par de pinças e assumiu o controlo do pontel, exactamen­te quando ele o inclinou na direcção dela.

Repetiu o processo, fazendo saltar faíscas de cera, fundindo vidro com vidro, cor na cor. Quando ficou satisfeita com o desenho interno, vol­tou a soprar o recipiente, dando-lhe de novo a forma de uma esfera, mol­dando-o através do ar.

O que Rogan viu foi um círculo perfeito, talvez do tamanho de uma bola de futebol. O interior do orbe de vidro transparente explodia de cores e formas, fluindo e vibrando com elas. Se fosse um homem espiritualista, di­ria que o vidro ganhara vida e respirava tal como ele. As cores rodopiavam, incredulamente vivas, no centro, para depois fluírem nas tonalidades mais delicadas ao percorrerem a peça.

Sonhos, pensou ele. É um círculo de sonhos.

— Traz-me aquela lima, — irrompeu ela.

— A quê?

— A lima, bolas. — Ela já começara a mudar-se para uma bancada forrada com um revestimento à prova de fogo. Enquanto apertava o pontel num torno de madeira, estendeu o braço, como um cirurgião a pedir um bisturi. Rogan bateu com uma lima na mão dela.

Ele ouvia a respiração lenta e ritmada parar, a reter o ar, assim que ela deu com a lima na liga de vidro. Bateu com o pontel. A bola rolou confortavelmente para cima do forro da bancada. — Luvas, — ordenou ela. — Aquelas pesadas que estão na cadeira. Depressa.

Com o olhar ainda fixo na bola, num ápice calçou as luvas. Oh, como lhe queria pegar. Agarrá-la com as palmas das mãos despidas, como fize­ra no sonho. Em vez disso, escolheu uma forquilha de metal, forrada de amianto, levando a esfera para o forno a recozer.

Acertou o temporizador, ficando um minuto imóvel, com o olhar perdido no espaço.

— É a lua, percebes, — disse baixinho. — Influencia as marés, no mar, mas também a nós. Caçamos segundo ela, fazemos as colheitas e dor­mimos com ela. Se tivermos sorte, até a podemos segurar nas mãos e so­nhar com ela.

— Como é que lhe vais chamar?

— Não vai ter nome. Todos devem ver o que mais quiserem. — E como se também ela tivesse saído de um sonho, levou a mão à cabeça. — Estou cansada. — Vacilou um pouco para trás para se sentar na cadeira, deixando tombar a cabeça.                                    

Estava pálida como a cal, reparou Rogan, exangue do brilho de ener­gia que a cobria enquanto trabalhava. — Voltaste a trabalhar a noite intei­ra?

— Não, esta noite dormi. — Sorriu de si para si. — No campo do Murphy, debaixo do brilho da lua cheia.

— Dormiste num campo?

— Estava bêbeda. — Bocejou, depois riu-se e abriu os olhos. — Um bocadinho. E a noite foi esplêndida.          

— E quem é, — perguntou Rogan, ao passar para junto dela, — o Murphy?

— Um homem meu conhecido. Que ficaria bastante surpreendido por me encontrar a dormir no seu pasto. Podes trazer-me uma bebida? — Quando ele ergueu a sobrancelha, ela riu-se. — Um refrigerante, se faz favor. Ali no frigorífico. E serve-te, — acrescentou, ao vê-lo aceder ao seu pedido. — Davas um ajudante de pontel bastante satisfatório, Sweeney.

— Não tens que agradecer, — disse ele, assumindo que ela o fizera. Enquanto ela abria a lata que ele lhe trouxera, examinou a sala. Não estivera parada, reparou. Havia várias peças novas arrumadas a um canto, as inter­pretações que fizera da exposição nativa americana. Examinou um prato pouco fundo e de boca larga, decorado com cores escuras e baças.

— Que belo trabalho.

— Mmm. É uma experiência que acabou bem. Combinei vidro opaco e transparente. — Voltou a bocejar, profundamente. — Depois, fumei-o.

— Fumaste-o? Esquece, — comentou ele, ao ver que ela estava pres­tes a embarcar numa explicação complicada. — De qualquer forma, não ia compreender o que dissesses. Química nunca foi o meu forte. Ficarei satisfeito só com o produto final.

— Era agora que devias dizer que o achas fascinante, tal como eu.

Olhou para trás de relance, fitando-a, e torceu os lábios. — Tens an­dado a ler as críticas, não é? Que Deus nos ajude. Porque é que não vais descansar? Falamos depois. Eu levo--te a jantar.

— Não fizeste este caminho todo para me levares a jantar.

— Seria um prazer, de qualquer forma.

Havia nele algo de diferente, decidiu ela. Uma ligeira alteração algures nas profundezas daqueles maravilhosos olhos azuis. O que quer que fosse, ele trazia-o sob controlo. Algumas horas com ela deviam tratar do assunto, concluíra Maggie, sorrindo para ele.

— Vamos até lá a casa, tomar um chá e comer qualquer coisa? Assim, já me podes dizer porque vieste.

— Para começar, foi para te ver.

Alguma coisa no seu tom de voz lhe dizia para aguçar os seus instin­tos. — Bom, já me viste.

— Pois é. — Foi buscar a pasta e abriu a porta. — Esse chá vinha a calhar.

— Óptimo, podes fazer a infusão. — Olhou por cima do ombro ao sair para a rua. — Se souberes como.

— Acho que sim. O teu jardim está maravilhoso.

— A Brie tratou dele enquanto estive fora. O que é isto? — Bateu com o pé numa caixa de cartão largada na porta das traseiras.

— Trouxe algumas coisas comigo. Os teus sapatos, por exemplo. Deixaste-os na saleta.

Entregou-lhe a pasta e levou a caixa para a cozinha. Depois de a largar em cima da mesa, olhou à volta da cozinha.

— Onde está o chá?

— No armário por cima do fogão.

Enquanto ele punha mãos à obra, ela abriu a caixa. Momentos depois estava sentada, a segurar a barriga de tanto rir.

— Parece que nunca te esqueces de nada. Rogan, se não atendo o telefone, porque é que achas que vou ouvir um atendedor de chamadas, idiota?

— Porque te mato se o não fizeres.

— Assunto arrumado. — Ela levantou-se outra vez e tirou um calen­dário de parede. — Impressionistas franceses, — murmurou, estudando os quadros, um para cada mês. — Bom, pelo menos é bonito.

— Usa-o. — Disse ele, simplesmente, colocando a chaleira ao lume. — E o atendedor, e isto. — Ele próprio pôs a mão dentro da caixa e tirou um grande estojo de veludo. Sem cerimónias, abriu-o, revelando um relógio de ouro fino, o mostrador de âmbar rodeado de diamantes.

— Céus, não posso usar isso. É um relógio de senhora. Ia-me esque­cer que o tinha posto e tomava banho com ele.

— É à prova de água.

— Vou parti-lo.

— Então compro-te outro. — Pegou-lhe no braço, começando a de­sabotoar-lhe o punho da camisa. — Mas que raio é isto? — Indagou ao ver uma ligadura. — O que é que aconteceu?

— Queimei-me. — Ela ainda tinha o olhar fixo no relógio e não via a luz furiosa nos olhos dele. — Descuidei-me um pouco.

— Raios partam, Maggie. Não tens o direito de te descuidares. Ne­nhum, mesmo. Será que agora tenho de me preocupar que te possas quei­mar toda?

— Não sejas ridículo. Até parece que magoei a mão. — Ela teria afas­tado a mão, mas ele agarrava-a com força. — Rogan, tem dó, uma artista vidreira queima-se de vez em quando. Não é fatal.

— Claro que não, — disse ele, severo. Obrigou-se a ocultar a raiva que sentia pelo descuido dela e apertou-lhe o relógio no pulso. — Não gosto de saber que não foste cuidadosa. — Soltou-lhe a mão, enfiando as suas nos bolsos. — Então, não é nada grave?

— Não. — Observou-o, ponderada, enquanto ele se dirigia para a chaleira a apitar. — Queres que prepare umas sanduíches?

— Como quiseres.                      

— Não disseste quanto tempo ias ficar.

— Volto esta noite. Queria falar contigo pessoalmente em vez de ten­tar apanhar-te pelo telefone. — De novo assumindo o controlo, acabou de fazer o chá e levou o bule para a mesa. — Trouxe os recortes que pediste à minha avó.

— Oh, os recortes. — Maggie não tirava os olhos da pasta. — Sim, foi muito simpático da parte dela. Vou lê-los depois. — Quando estivesse sozinha.

— Está bem. Também havia outra coisa que te queria dar, pessoal­mente.

— Outra coisa. — Ela cortou uma fatia de pão da Brianna. — Hoje é o dia dos presentes.

— Isto não entra na categoria dos presentes. — Rogan abriu a pasta e tirou um envelope. — És capaz de querer abrir isto agora.

— Então, está bem. — Sacudiu as mãos, para abrir o envelope. Teve de se apoiar nas costas de uma cadeira para manter o equilíbrio, ao ler a quantia no cheque. — Maria, mãe de Deus.

— Vendemos todas as peças em que pusemos preço. — Mais do que satisfeito pela reacção dela, ficou a vê-la afundar-se na cadeira. — Diria que a exposição teve bastante sucesso.

— Todas as peças, — repetiu ela. — Por tanto dinheiro.

Pensou na lua, nos sonhos, nas mudanças. Fraca, deitou a cabeça so­bre a mesa.

— Não consigo respirar. Os meus pulmões sucumbiram. — De facto, ela mal conseguia falar. — Não consigo recuperar o fôlego.

— Claro que consegues. — Ele foi por trás dela, para lhe massajar os ombros. — Inspira e expira. Faz isso durante um minuto para recuperares.

— São quase duzentas mil libras.

— Mesmo quase. Com o interesse gerado pela tournée das tuas obras, colocando apenas algumas no mercado, podemos aumentar o preço. — O som estrangulado que ela emitiu fê-lo rir. — Inspira e expira, Maggie, que­rida. Sopra o ar e volta a inspirá-lo. Vou tratar de enviar estas peças que acabaste. Vamos marcar a tournée para o Outono, porque já tens muitas prontas. Podes querer tirar uns dias para te divertires. Tirar umas férias.

— Umas férias. — Ela voltou a sentar-se. — Ainda não consigo pen­sar nisso. Não consigo pensar em nada.

— Tens tempo. — Fez-lhe uma festa na cabeça, depois andou à volta dela para servir o chá. — Queres jantar comigo hoje, para comemorar?

— Sim, — murmurou ela. — Nem sei o que dizer, Rogan. Nunca imaginei sequer que... nem consigo acreditar. — Pressionou as palmas das mãos de encontro à boca. Por momentos, ele receou que ela começasse a chorar, mas a boca dela emitiu uma gargalhada, selvagem e jubilante. — Es­tou rica! Sou uma mulher rica, Rogan Sweeney. — Deu um salto da cadeira para o beijar, para rodopiar a seguir. — Oh, sei que para ti é uma gota de água no oceano, mas para mim... para mim, é a liberdade. É o partir das correntes, quer ela queira quer não.

— Do que é que estás a falar?

Ela abanou a cabeça, a pensar em Brianna. — Sonhos, Rogan, sonhos maravilhosos. Oh, tenho de lhe contar. Imediatamente. — Agarrou no che­que e, num impulso, enfiou-o no bolso traseiro das calças. — Fica aqui, por favor. Bebe o teu chá, prepara alguma coisa para comer. Usa o telefone, já que gostas tanto dele. Faz o que quiseres.

— Onde é que vais?

— Não me demoro. — Tinha asas nos pés ao dar meia-volta, voltando a beijá-lo. Com a pressa, os lábios dela não acertaram nos dele, apanhando-lhe o queixo. — Não vás. — Num ápice, ela corria porta fora, atravessando os campos.                                        

Respirava como um motor a vapor quando passou o muro de pedra que delimitava a propriedade de Brianna. Nessa altura, já ficara sem fôlego mui­to antes de começar a correr. Por pouco não pisou os amores-perfeitos da irmã — um pecado que ela pagaria bem caro — e derrapou pelo estreito caminho de pedras que abria alas entre as flores aveludadas.

Inspirou uma golfada de ar para gritar, mas acabou por não o des­perdiçar, porque avistou Brianna no carreiro verde a seguir ao jardim, a estender roupa no estendal.

Com molas na boca, lençóis molhados nas mãos, Brianna trazia o olhar perdido além da dança das columbinas e das margaridas, enquanto Maggie premia as palmas das mãos, de encontro ao peito. Sem dizer nada, Brianna pendurou o lençol com destreza e começou a prendê-lo com mo­las.

Ainda se viam no rosto da irmã sinais de mágoa, observou Maggie. E de raiva. Tudo bem temperado com a dose especial de orgulho e controlo de Brianna. O cão ladrou alegremente e avançou, parando apenas quando Brianna lho ordenou. Voltou, lançando a Maggie o que só poderia ser um olhar de lástima, para junto dos pés da dona. Ela tirou mais um lençol do cesto a seu lado, sacudiu-o e pendurou-o impecavelmente a secar.

— Olá, Maggie.

Então, o vento soprava frio para estes lados, matutou Maggie, ani­nhando as mãos nos bolsos de trás. — Olá, Brianna. Tens hóspedes?

— Sim. De momento, estamos cheios. Um casal americano, uma fa­mília inglesa e um rapaz da Bélgica.

— Praticamente as Nações Unidas. — Fungou, elaboradamente. — Tens tartes no forno.

— Já estão feitas, estão a arrefecer no parapeito da janela. — Como odiava qualquer tipo de confronto, Brianna manteve os olhos no que estava a fazer, ao mesmo tempo que falava. — Pensei no que disseste, Maggie, e quero pedir desculpa. Devia ter lá estado para te apoiar. Devia ter arranjado uma forma de ir.

— Porque não o fizeste?

Brianna soltou um suspiro rápido, o único sinal aparente de agitação. — Não facilitas nada, pois não?

— Não.

— Tenho obrigações... não só para com ela. — Retorquiu ela, antes que Maggie pudesse falar. — Com esta casa. Não és a única a ter ambições, ou sonhos.

As palavras acaloradas que queimavam na língua de Maggie arrefe­ceram, entrando no esquecimento. Ela virou-se para analisar as traseiras da casa. A tinta era fresca e branca; as janelas, abertas para a tarde de Verão, brilhavam. Cortinas de renda esvoaçavam, românticas como o véu de uma noiva. As flores preenchiam o chão e saltavam dos vasos e das latas de tinta.

— Fizeste um bom trabalho com a casa, Brianna. A avó teria apro­vado.

— Mas tu não.

— Estás enganada. — Desculpando-se à sua maneira, pousou a mão no braço da irmã. — Não afirmo que perceba como o fazes, ou o que te leva a isso, mas não me cabe a mim fazer juízos de valor. Se este lugar é o teu sonho, Brie, deste-lhe um brilho imenso. Desculpa por ter gritado contigo.

— Oh, já estou habituada. — Apesar do tom resignado, era óbvio que amuara. — Se quiseres esperar até eu acabar isto, sirvo-te um chá. Tenho um bocadinho de bolo para acompanhar.

O estômago vazio de Maggie respondeu avidamente, mas abanou a cabeça. — Não tenho tempo. Deixei o Rogan à espera lá na cabana.

— Deixaste-o? Devias tê-lo trazido contigo. Não se deixa um convi­dado plantado dessa maneira.

— Ele não é um convidado, é... bom, não sei o que lhe podemos cha­mar, mas isso não importa. Quero mostrar-te uma coisa.

Apesar de o seu sentido de decoro estar ofendido, Brianna pegou na última fronha. — Está bem, mostra lá. Depois vai ter com o Rogan. Se não tiveres comida em casa, trá-lo cá. Afinal de contas, o homem fez este cami­nho todo desde Dublin, e...

— Importas-te de não te preocupares com o Sweeney? — Interrom­peu Maggie, impaciente, tirando o cheque do bolso. — Podes olhar para isto?

Com uma mão no estendal, Brianna olhou de relance para o papel. Deixou cair o maxilar, bem como a mola que mordia, direita para o chão. A fronha voou atrás dela.

— O que é isso?

— É um cheque, ou és cega? Um cheque grande, gordo e lindo. Ele vendeu tudo, Brie. Tudo o que pôs à venda.

— Por tanto dinheiro? — Brianna ficou de boca aberta a olhar para tantos zeros. — Por tanto? Como é que pode ser?

— Sou um génio. — Maggie agarrou nos ombros de Brianna e fê-la girar. — Não lês as minhas críticas? Tenho uma profundidade inexplorável de criatividade. — A rir, arrastou Brianna para uma dança divertida. — Oh, e também disseram qualquer coisa sobre a minha alma e a minha sexuali­dade. Ainda não decorei tudo.

— Maggie, espera. Tenho a cabeça a andar à roda.

— Ela que ande. Estamos ricas, não percebes? — Caíram as duas ao chão ao mesmo tempo, Maggie a guinchar de riso e o Con a saltar em cír­culos frenéticos à volta delas. — Posso comprar aquele torno para vidro que queria, e tu podes ter o fogão novo que andas a fingir que não precisas. E vamos tirar umas férias. Em qualquer parte do mundo, qualquer mesmo. Vou comprar uma cama nova. — Deitou-se de costas na relva para lutar com o Con. — E tu podes construir uma ala nova no Espigueiro Negro, se quiseres.

— Não ia dar conta do recado. Simplesmente não ia conseguir.

— Vamos procurar uma casa. — Levantando-se de novo, Maggie enganchou o braço à volta do pescoço do Con. — Do tipo que ela quiser. Contratamos alguém para fazer recados e tratar dela.

Brianna fechou os olhos e lutou contra o primeiro sinal de culpa pela alegria. — Ela pode não querer...

— Vai ser como ela quiser. Ouve-me. — Maggie agarrou as mãos de Brianna, apertando-as. — Ela há-de ir, Brie. E vão tomar bem conta dela. Terá aquilo que quiser. Amanhã vamos a Ennis falar com o Pat O'Shea. Ele vende casas. Podemos instalá-la com todas as condições possíveis, o mais rápido possível. Prometi ao pai que daria o meu melhor por vocês duas, e é isso que vou fazer.

— Não terás consideração nenhuma? — Maeve apareceu no carreiro do jardim, com um xaile sobre os ombros apesar do Sol quente. O vestido por baixo estava engomado e passado a ferro, pelas mãos de Brianna, Mag­gie não duvidava. — Aqui na rua a gritar e a guinchar enquanto uma pessoa tenta descansar? — Aconchegou o xaile e espetou o dedo para a filha mais nova. — Levanta-te do chão. O que é que se passa contigo? Mais pareces uma maria-rapaz, ainda por cima com hóspedes dentro de casa.

Brianna levantou-se com rigidez, sacudindo as calças. — Está um dia lindo. Talvez te queiras sentar um pouco ao Sol.

— Fazia-me bem. Chama esse cão horroroso.

— Senta-te, Con. — Protectora, Brianna pousou a mão na cabeça do cão. — Queres que te traga um chá?

— Sim, e vê se fazes a infusão como deve ser, desta vez. — Maeve arrastou-se até à cadeira e à mesa que Brianna pusera junto ao jardim. — Aquele rapaz, o belga, subiu as escadas a correr duas vezes hoje. Tens de lhe dizer para ter cuidado com o barulho. É isto que acontece quando os pais deixam os filhos a passear sozinhos pelo país fora.

— Vou já servir o chá. Maggie, ficas?

— Não para o chá. Mas quero falar com a mãe. — Lançou um olhar de aço, para evitar algum argumento. — Consegues estar pronta para irmos a Ennis amanhã por volta das dez, Brie?

— Eu... sim, estarei pronta.

— O que se passa? — Exigiu saber Maeve, assim que Brie se dirigiu para a porta da cozinha. — O que é que vocês duas estão a planear?

— O teu futuro. — Maggie sentou-se na cadeira ao lado da mãe, es­ticando as pernas. Quisera abordar o assunto de forma diferente. Depois do que já aprendera, esperava que ela e a mãe conseguissem encontrar um caminho além das velhas mágoas. Mas as angústias e culpas antigas já se faziam sentir dentro dela. Ao lembrar-se da lua da noite anterior e do que pensava acerca dos sonhos perdidos, foi directa ao assunto. — Vamos com­prar-te uma casa.

Maeve emitiu um som de repulsa e puxou a franja do xaile. — Que disparate. Estou bem aqui, com a Brianna a tomar conta de mim.

— Tenho a certeza que sim, mas isso vai acabar. Oh, vou contratar quem te faça companhia. Não tens que ficar preocupada, porque não vais ter de aprender a tratar de ti. Mas nunca mais vais usar a Brie.

— A Brianna compreende as responsabilidades de uma filha para com a mãe.                                                                                   

— Mais do que devia, — concordou Maggie. — Já fez tudo ao seu alcance para te ver satisfeita, mãe. Não foi suficiente, e talvez eu tenha co­meçado a perceber agora.

— Tu não percebes nada.

— Talvez, mas gostava de perceber. — Respirou fundo. Apesar de não conseguir tocar a mãe, física ou emocionalmente, a voz dela serenou. — A sério que gostava. Desculpa por tudo de que abdicaste. Só soube que cantavas há...

— Não fales disso. — A voz de Maeve gelou. A sua pele já pálida fi­cou ainda mais branca, com o choque da dor que jamais esquecera, jamais perdoara. — Não te admito que fales desses tempos.

— Só queria dizer que lamentava.

— Não quero a tua piedade. — Com os lábios apertados, Maeve desviou o olhar. Não conseguia suportar que lhe atirassem o passado à cara, que sentissem pena porque ela pecara e perdera o que era mais importante. — Não voltes a falar nesse assunto comigo.

— Está bem. — Maggie inclinou-se para a frente até que o olhar de Maeve se prendeu no dela. — Mas posso dizer isto. Culpas-me pelo que perdeste, e talvez isso te console de alguma forma. Não posso desejar não ter nascido. Mas posso fazer o que estiver ao meu alcance. Terás uma casa, das boas, e uma senhora respeitável e competente para cuidar de ti, alguém que espero possa ser tua amiga e te faça companhia. Farei isto pelo pai e pela Brie. E por ti.

— A única coisa que fizeste por mim na vida foi fazeres-me infeliz.

Então as coisas não seriam nada calmas, percebeu Maggie. Não en­contrariam uma nova abordagem. — Já me disseste vezes sem conta. Va­mos arranjar um lugar que fique perto o suficiente para que a Brie te possa ir visitar, porque ia querer fazê-lo. Eu também tratava de mobilar a casa, ao teu gosto. Vais ter uma mesada... para comida, roupa, para o que precisares. Mas Deus é minha testemunha que vais sair desta casa para a tua antes do final do mês.

— Sonhos de papel. — A voz dela saiu brusca e depreciativa, mas Maggie sentiu um certo frisson de medo. — Como o teu pai, estás cheia de sonhos vazios e de esquemas parvos.

— Nem vazios, nem parvos. — De novo, Maggie tirou o cheque do bolso. Desta vez, teve a satisfação de ver os olhos da mãe ficarem arregala­dos e vazios. — Sim, é verdadeiro, e é meu. Ganhei-o. Ganhei-o porque o pai tinha fé em mim e me deixou aprender, deixou-me tentar.

Os olhos de Maeve saltaram para os de Maggie, calculistas. — O que ele te deu também me pertencia.

— O dinheiro de Veneza, para a escola e arranjar um tecto sobre a minha cabeça, tudo bem. O mais que ele me deu não teve nada que ver contigo. E hás-de receber a tua parte. — Maggie voltou a guardar o cheque. — Assim, fico sem te dever nada.    

— Deves-me a tua vida, — cuspiu Maeve.

— A minha vida nada significava para ti. Posso saber o motivo, mas não muda a forma como me sinto por dentro. Vê se percebes, vais sem queixumes, sem fazeres dos teus últimos dias com a Brianna um inferno para ela.

— Não vou nada. — Maeve procurou no bolso um lencinho debrua­do a renda. — Uma mãe precisa do consolo da sua filha.

— O teu amor pela Brianna é igual ao que sentes por mim. Ambas sabemos isso, mãe. Ela pode achar o contrário, mas aqui, agora, pelo menos sejamos sinceras. Brincaste com o coração dela, e sabe Deus como ela merece todo o amor que tiveres nesse coração frio. — Após respirar fundo, jogou o trunfo que tinha guardado há cinco anos. — Queres que lhe conte porque é que o Rory McAvery partiu para a América e lhe desfez o coração?

As mãos de Maeve gesticularam certos trejeitos. — Não sei do que é que estás a falar.

— Oh, sabes sim. Chamaste-o à parte quando viste que o namoro estava a ficar sério. Disseste-lhe que, em boa consciência, não podias deixar que ele entregasse o coração à tua filha. Não quando ela já dera o corpo a outro. Convenceste-o, e ele até era só um rapaz, que ela andara a dormir com o Murphy.

— É mentira. — Maeve espetou o queixo, mas via-se o medo nos olhos. — És uma filha má e mentirosa, Margaret Mary.

— Tu é que és mentirosa, e pior ainda, muito pior do que isso. Que espécie de mulher rouba a felicidade aos do seu próprio sangue, por ela não sentir nenhuma? Foi o Murphy que me contou, — disse Maggie, secamen­te. — Depois de ele e o Rory andarem à pancada forte e feio. O Rory não acreditou quando ele negou. Porque haveria de acreditar, se a própria mãe da Brianna lhe contara a história com lágrimas nos olhos?

— Ela era muito nova para casar, — retorquiu Maeve, com rapidez. — Não queria que ela cometesse o mesmo erro que eu, que arruinasse a vida daquela forma. O rapaz não era o certo para ela, acredita. Nunca have­ria de chegar a lado nenhum.

— Ela amava-o.

— O amor não enche barriga. — Maeve cerrou os punhos, torcendo o lenço lá dentro. — Porque é que não lhe contaste?                    

— Por achar que a ia magoar ainda mais. Pedi ao Murphy para não dizer nada, conhecendo o orgulho da Brianna, e como ficaria dila­cerada. Talvez tivesse ficado zangada por ele acreditar em ti, que não a amasse o suficiente para descobrir a mentira. Mas agora vou-lhe contar. Vou entrar naquela cozinha e contar-lhe agora. E se for preciso, arrasto o desgraçado do Murphy até aqui para ser minha testemunha. Vais ficar sem ninguém.

Ela não sabia que o sabor da vingança podia ser tão amargo. Perma­neceu frio e desagradável na língua de Maggie, enquanto prosseguia. — Se fizeres o que te digo, não lhe conto nada. E prometo que não te faltarei com nada enquanto fores viva e que farei o que puder para que estejas satisfeita. Não te posso devolver o que tiveste, ou quiseste ter antes de engravidares de mim. Mas posso dar-te algo que te pode fazer mais feliz do que alguma vez foste, desde essa altura. A tua própria casa. Só tens de aceitar a minha oferta para teres tudo o que sempre quiseste — dinheiro, uma boa casa e uma empregada para te servir.

Maeve uniu os lábios com força. Oh, aquilo dilacerava-lhe o orgulho de regatear com a rapariga. — Como é que sei que vais manter a tua pala­vra?

— Porque te garanto. Porque juro tudo o que já disse pela alma do meu pai. — Maggie levantou-se. — Vais ter que te contentar com isso. Diz à Brianna que venho cá buscá-la amanhã às dez. — E com estas palavras, Maggie deu meia volta e afastou-se.

 

 

                               CAPÍTULO DOZE

 

Não teve pressa no regresso, preferindo outra vez ir pelos campos em vez de pela estrada. Pelo caminho apanhou flores, as ulmeiras e as valerianas que se banhavam ao Sol por entre a erva. As vacas bem alimentadas de Murphy, as tetas cheias e prontas para serem mungidas, pastavam despreocupadas, enquanto ela saltava os muros de pedra que separavam o pasto do campo arado e o campo do feno de Verão.

Depois, avistou o próprio Murphy, em cima do tractor, acompanha­do dos jovens Brian O'Shay e Dougal Finnian, a ceifarem o feno que baloi­çava. Chamavam-lhe comhair, em irlandês, mas Maggie sabia que, aqui no oeste, a palavra significava mais do que a sua tradução literal, "ajuda". Sig­nificava comunidade. Aqui, homem nenhum estava sozinho, não quando o assunto era a ceifa, ou abrir um canal na turfeira, ou até a sementeira na Primavera.

Se hoje o O'Shay e o Finnian estavam a trabalhar a terra de Murphy, amanhã, ou depois de amanhã, ele estaria a trabalhar a deles. Ninguém ti­nha de pedir. O tractor ou o arado, ou até mesmo um bom par de mãos e costas fortes, haveriam de surgir e o trabalho aparecia feito.

Os muros de pedra podiam separar os campos de um homem dos de outro, mas o amor pela terra unia-os.

Ela levantou a mão para responder ao cumprimento dos três agricul­tores e, a colher flores, continuou para casa.

Uma gralha esvoaçava acima da sua cabeça, num queixume intenso. Momentos depois, Maggie viu o motivo, ao encontrar Con a abrir caminho pela borda do feno, com a língua pendurada de felicidade.

— Outra vez a ajudar o Murphy, não é? — Baixou-se para lhe fazer uma festa no pêlo. — Que belo agricultor me saíste. Vai lá, então.

Com uma sinfonia de latidos de quem se acha muito importante, Con correu de volta para o tractor. Maggie ficou a olhar em volta, o dourado do feno, o verde do pasto com as vacas ociosas e as sombras deixadas pelo Sol no círculo de pedras que gerações de Concannons, e agora o Murphy, deixaram intacto por tempos insondáveis. Ela reparou no castanho farto da terra onde haviam sido semeadas as batatas. Por cima de toda a imensidão, um céu azul como uma centáurea azul em pleno esplendor.

Uma gargalhada rápida saltou-lhe da garganta e deu por si a correr o resto do percurso.

Talvez fosse o puro prazer do dia, juntamente com a excitação vertigi­nosa do seu primeiro grande sucesso, que lhe fizera o sangue bombear mais depressa. Ou até o som dos pássaros a cantar, como se os seus corações se fossem partir, ou o aroma das flores silvestres, colhidas pelas suas próprias mãos. Mas quando parou mesmo à porta de casa e olhou para a cozinha, fi­cou sem fôlego mais rapidamente do que se trepasse pelos campos acima.

Ele estava sentado à mesa, elegante no fato inglês e sapatos feitos à medida. A pasta aberta, a caneta cá fora. Sorriu ao vê-lo trabalhar ali, no meio da confusão, numa rude mesa de madeira que ele podia ter usado como lenha em casa.

O Sol penetrava pelas janelas e pela porta aberta, lançando raios dou­rados ao bater na caneta, enquanto ele escrevia com a mão delicada. De­pois, bateu com os dedos nas teclas de uma calculadora, hesitando, voltan­do a bater. Conseguia ver-lhe o perfil, a linha subtil de concentração entre as sobrancelhas negras espessas, o contorno firme da boca.

Pegou no chá, bebendo enquanto estudava as contas. Voltou a pousá-lo. Escrevia, lia.            

Estava muito elegante. E belo, pensava ela, numa forma tão unica­mente masculina, competente e preciso como a maquinazinha útil que ele usava para fazer contas. Não era homem para correr pelos campos solaren­gos ou deitar-se a sonhar à luz da lua.

Mas ele era mais do que ela imaginara a princípio, muito mais, per­cebia agora.

Sentiu-se dominar por um desejo avassalador de desapertar aquele nó de gravata cuidadoso, desabotoar o colarinho apertado e descobrir o homem no seu interior.

Maggie raramente repelia os seus desejos.

Entrou em silêncio. Assim que a sua sombra caiu sobre os papéis dele, já se sentava ao seu colo, apertando a boca na dele.

Choque, prazer e luxúria trespassaram-no como uma seta de três pontas, todas aguçadas, todas certeiras. A caneta deslizara-lhe dos dedos, levando as mãos ao cabelo dela, antes de conseguir respirar. No turbilhão, sentiu o puxão na gravata.

— O que foi? — Conseguiu indagar numa espécie de lamúria. A ur­gência da dignidade levou-o a pigarrear e a empurrá-la para trás. — O que se passa?

— Tu sabes... — Ela marcou as palavras pregando beijos leves por todo o seu rosto. Apercebeu-se que ele cheirava a perfumes caros, a bons sabonetes e lençóis de linho engomados. — Sempre achei que as gravatas eram um acessório idiota, uma espécie de castigo para o homem por sim­plesmente ser homem. Não te sufoca?

Na verdade não, excepto agora que tinha o coração a sair pela boca. — Não. — Afastou-lhe as mãos, mas já não havia nada a fazer. Por baixo dos dedos rápidos dela, a gravata desapertou-se e o colarinho abriu-se. — O que é que estás a fazer, Maggie?

— Devia ser bastante óbvio, até para um dublinense. — Riu-se para ele, os olhos verdes matreiros. — Trouxe-te flores.

As pobres estavam esmagadas entre eles. Rogan olhou para baixo, vendo as pétalas amassadas. — Muito bonitas. Imagino que devam precisar de água.

Ela lançou a cabeça para trás, a rir. — Contigo, há que tratar sempre das prioridades, não é? Mas Rogan, de onde estou sentada, parece evidente que não estás só a pensar em ir buscar uma jarra.

Ele não podia negar a sua reacção óbvia e bastante humana. — Até conseguias excitar um morto, — murmurou, fazendo força com as mãos sobre as ancas dela, para a levantar. Ela aproximou-se ainda mais, torturan­do-o.

— Tenho a certeza que me fizeste um elogio. Mas não estás morto, pois não? — Voltou a beijá-lo, tirando partido dos dentes para provar que tinha razão. — Estás a pensar que tens trabalho a fazer e que não tens tem­po a perder?

— Não. — Ainda tinha as mãos nas ancas dela, mas havia enterrado os dedos e começara a massajar. Ela cheirava a flores silvestres e a fumo. Tudo o que via era o seu rosto, a pele branca com o rubor cor-de-rosa, salpi­cos de sardas douradas, as profundezas dos seus olhos verdes. Encetou um esforço heróico para nivelar a voz. — Mas estou a pensar que isto é um erro. — Na sua garganta ouviu-se um gemido quando ela lhe passou os lábios pela orelha. — Que existe uma altura e um lugar certos.

— E que deves ser tu a escolhê-los, — murmurou ela enquanto os dedos ágeis lhe desabotoavam o resto da camisa.

— Sim... não. — Valha-me Deus, o que é que um homem devia pen­sar? — Que ambos devemos escolhê-los, depois de estabelecermos algu­mas prioridades.

— Neste momento só tenho uma prioridade. — Ela cruzou as mãos sobre o peito dele, esmagando-lhe pétalas de flores por toda a pele.

— Vou ter-te agora, Rogan. — O riso dela regressou, baixo e desafiador, antes de mergulhar os lábios nos dele. — Força, vê se consegues repelir-me.

Ele não quisera tocar-lhe. Era o seu último pensamento coerente an­tes de subir as mãos e de as encher com os seios dela. O gemido gutural dela espalhou-se pela sua boca como vinho, rico e inebriante.

Nessa altura, já ele lhe arrancava a camisa e se afastava da mesa em simultâneo. — Que se lixe, — murmurou com a boca colada na dela, ávida, levantando-a.

Ela enrolou os braços e as pernas à volta dele como um cordão de seda, a camisa pendurada por um braço, onde os botões ainda estavam apertados. Por baixo, trazia uma camisola de algodão simples, tão erótica para ele quanto rendas de ébano.

Era pequena e leve, mas da forma como o sangue lhe latejava no cé­rebro, sabia que podia até levantar uma montanha. A boca atarefada dela nunca parava, correndo da face para o maxilar, para a orelha e regressando, enquanto ecoava gemidos sensuais na garganta.

Ele saiu da cozinha, tropeçando num tapete solto e batendo com as costas dela na ombreira da porta. Ela riu-se, agora sem fôlego, apertando as pernas ainda mais à volta dele.

Os seus lábios voltaram a unir-se num beijo ávido e desesperado. Como a ombreira da porta e as próprias pernas a seguravam, ele libertou a boca para a colar ao seio dela, chupando voraz através do algodão.

O prazer que ela sentia, obscuro e adverso, trespassava-lhe o corpo como uma lança. Isto era imenso, apercebeu-se ela assim que o sangue que lhe corria nas veias começou a vibrar como um motor. Muito mais intenso do que ela esperara. Não se poderia ter preparado para aquilo. Mas não havia volta possível.

Girando, ele afastou-se da parede.

— Depressa, — foi tudo o que ela conseguiu dizer, assim que ele co­meçou a subir as escadas. — Depressa.

As suas palavras pulsavam ao ritmo do sangue dentro das veias. De­pressa. Depressa. Encostado ao coração ribombante dele, o dela respondia furiosamente. Com Maggie agarrada a ele como um ouriço, Rogan tinha de saltar os degraus, deixando um rasto de flores partidas pelo caminho.

Virou infalivelmente à esquerda, na direcção do quarto, onde o Sol inundava tudo de tons dourados e a brisa fragrante levantava as cortinas abertas. Caiu com ela em cima dos lençóis já desalinhados.

Se foi a loucura que tomou conta dele, também a dominou a ela. Da parte de ambos, não havia pensamento ou necessidade de carícias meigas, de palavras doces ou mãos vagarosas. Lançaram-se um ao outro, impru­dentes como animais, arrancando as roupas, puxando, esticando, pontapeando os sapatos, na ânsia constante de alimentar beijos violentos.

O corpo dela era como um motor, atestado para a competição. Con­torceu-se, rolou e deslizou, com a respiração golpeada por arquejos arden­tes. Costuras rasgadas, ânsias exploradas.

Ele tinha as mãos macias. Se a ocasião fosse outra, poderiam ter es­corrido pelo corpo dela como água. Mas, de momento, elas agarravam, magoavam e pilhavam, arrancando um prazer incomensurável que tres­passava o corpo dela, como os raios dilaceram o céu tenebroso. Ele voltou a encher as mãos com os seios dela e agora, sem barreiras, levou os mamilos duros à boca.

Ela gritou, não de dor pelo roçar duro dos dentes e da língua dele, mas de glória enquanto o primeiro orgasmo, severo e perverso, a atingia como um golpe.

Não esperara que a atingisse tão rápido e com tanta intensidade, nem experimentara o abandono que lhe foi imediato, no rescaldo da tempesta­de. Antes de conseguir recuperar do espanto, novas ânsias dilaceravam-na por dentro.

Falou em gaélico, quase recordando as palavras que não sabia reter dentro do coração. Nunca acreditara, nunca, que o desejo a podia engolir, deixando-a trémula. Mas estremeceu às mãos dele, sob a urgência selvagem da sua boca. Durante outro interlúdio atordoante, ficou totalmente vulne­rável, os ossos derretidos e a mente descontraída, abismada pela rendição causada pelo assombro do seu próprio clímax.

Ele nem sentiu a mudança. Apenas sabia que ela vibrava debaixo dele como um arco disparado. Estava húmida e quente, numa excitação insuportável. O corpo dela era macio, suave, flexível, todas as reentrân­cias e curvas eram dele para explorar. Conhecia apenas o desejo deses­perado de conquista, de posse, deleitando-se com o sabor da sua carne até parecer que a essência dela corria pelas suas veias como o próprio sangue.

Agarrou-lhe na mão magoada e possuiu-a, até ela gritar outra vez o nome dele como um gemido no ar.

O quarto girava como um carrossel à volta dela que, soltando as mãos das dele, lhe entrelaçou os dedos no cabelo. De novo o desejo trespassava-a, vorazmente. Ergueu as ancas.

— Agora! — A intimação saltara-lhe da garganta. — Rogan, por amor de Deus...

Mas ele já mergulhara dentro dela, fundo e intenso. Ela arqueara-se para trás, para cima, numa recepção gloriosa enquanto o prazer aspergia pelo corpo num relâmpago lancinante e em fusão. O corpo dela encontrou o dele, encompassando os ritmos, toque por toque desesperado. Ele não sentiu as unhas dela a arranhar as costas.

Com a visão turva e nublada, observou-a, viu cada sensação avas­saladora passar pelo seu rosto. Não era suficiente, pensou ele, ainda ton­to. Até mesmo quando o arrependimento tentava espreitar pela arma­dura brilhante da paixão, ela abriu os olhos e voltou a pronunciar o seu nome.

Então, ele afogou-se naquele mar verde e, enterrando o rosto no fogo do cabelo dela, rendeu-se. Com um último raio de desejo glorioso, esgotou-se dentro dela.

Em qualquer espécie de guerra, existem baixas. Ninguém, achava Maggie, conhecia a glória, a dor ou o preço da batalha melhor do que os irlandeses. E se, como ela receava bastante de momento, o seu corpo ficasse paralisado para o resto da vida como resultado daquela pequena guerra maravilhosa, não faria contas aos prejuízos.

O Sol ainda brilhava. Agora que o coração cessara de bater como um trovão dentro da sua cabeça, ouvia o chilrear dos pássaros, o rumor da for­nalha e o zumbido de uma abelha a rondar a janela.

Deixou-se ficar atravessada na cama, a cabeça fora do colchão e pen­durada devido à gravidade. Doíam-lhe os braços. Talvez por ainda estarem enrolados como ligaduras à volta de Rogan, que estava deitado em cima dela, inerte como morto.

Ao suster a respiração, sentia o bater agitado do coração dele. Era, de­cidira, de admirar que não se tivessem matado um ao outro. Reconfortada com o peso dele, e pela sensação do cérebro dormente, ficou a ver o Sol a dançar no tecto.

A mente dele começava a ficar lúcida aos poucos, a névoa vermelha a dissipar, desaparecendo por completo até se aperceber totalmente da luz suave e do pequeno e quente corpo debaixo dele. Voltou a fechar os olhos e permaneceu imóvel.                    

Que palavras escolheria dizer? Perguntou-se. Se lhe dissesse que des­cobrira, para próprio espanto e confusão, que a amava, porque é que ela haveria de acreditar? Proferir agora essas palavras, quando estavam ambos ainda inertes, saciados e atordoados devido ao sexo, não ia agradar nada a uma mulher como Maggie, ou poderia fazê-la ver a crua verdade contida nelas.                                                                                                                            

O que haveria a dizer, depois de um homem ter possuído uma mu­lher, mergulhando nela como um animal? Oh, não havia dúvidas que ela tinha gostado, mas isso não alterava em nada o facto de ele ter perdido o controlo total da mente, do corpo, do que quer que separasse o civilizado do selvagem.

Pela primeira vez na vida, possuíra uma mulher sem subtileza, sem solicitude e, pensava ele num sobressalto, sem pensar nas consequências.

Começou a mover-se, mas ela murmurou em protesto e apertou ain­da mais o corpo de encontro ao dele.

— Não te vás embora.                        

— Não vou. — Percebeu que ela não tinha a cabeça apoiada e, colo­cando a mão em concha debaixo dela, rolou para inverterem as posições. Quase os lançou para a outra berma da cama. — Como é que consegues dormir numa cama deste tamanho? Mal cabe aqui um gato.

— Oh, para mim chega bem. Mas estava a pensar em comprar ou­tra, agora que tenho dinheiro para gastar. Uma das grandes, como aquela em tua casa.

Ele pensou numa de quatro postes da Chippendale, naquela casa minúscula e sorriu. Depois, os pensamentos regressaram e tiraram-lhe o sorriso do rosto. — Maggie. — A expressão dela brilhava, os olhos semi-cerrados. No rosto trazia estampado um ligeiro sorriso presunçoso.

— Rogan, — disse ela no mesmo tom curioso, rindo depois. — Oh, não vais começar a dizer que lamentas ter devassado a minha honra ou alguma coisa desse género? Se a honra de alguém foi devassada, afinal de contas, foi a tua. E não me arrependo nem um bocadinho.

— Maggie, — repetiu ele, tirando-lhe o cabelo despenteado da cara. — Que mulher me saíste. É difícil arrepender-me da desonra, ou por ser desonrado quando... — Não aguentara. Levantara-lhe a mão enquanto fa­lava, começara a beijar-lhe os dedos, quando o olhar aterrou nas marcas escuras no braço dela. Espantado, começou. — Magoei-te.

— Mmm. Agora que falas nisso, estou a começar a sentir. — Rodou o ombro. — Devo ter batido com muita força na ombreira da porta. O que é que ias dizer?

Ele saiu de cima dela. — Lamento imenso, — disse, num tom de voz estranho. — Não tenho desculpa. Pedi-la seria inadequado, tendo em conta o meu comportamento.

Ela inclinou a cabeça, olhando profundamente para ele. Era a educa­ção, pensou ela de novo. De que outra forma poderia um homem nu em pêlo, sentado numa cama desalinhada parecer tão digno. — O teu compor­tamento? — Repetiu ela. — Diria antes que foi mais o nosso comportamen­to, Rogan, e que ambos participámos bem nele. — Rindo para ele, puxou-se para cima e prendeu os braços à volta do seu pescoço. — Achas que algu­mas nódoas negras me farão murchar como uma rosa, Rogan? Não vão, prometo, especialmente porque foram merecidas.

— A questão é que...

— A questão é que andámos às cambalhotas um com o outro. Agora, pára de agir como se eu fosse uma florzinha frágil que não consegue admi­tir que gostou de uma boa e quente sessão de sexo. É que gostei bastante e tu, meu querido amigo, também.

Ele passou a ponta do dedo pela subtil nódoa negra, acima do pulso dela. — Preferia não te ter deixado marcada.

— Bom, não me parece que seja uma marca permanente.

Não seria. Mas havia mais qualquer coisa, na falta de atenção dele, que podia ser. — Maggie, nem sequer pensei nisso, e certamente que não parti hoje de Dublin a pensar que ia acabar assim. Agora é tarde para pen­sar em ser responsável. — Frustrado, passou a mão pelo cabelo. — Achas que te posso ter engravidado?

Ela pestanejou, sentando-se em cima dos quadris. Deixou sair uma longa expiração. Nascimento de fogo. Lembrava-se do pai lhe ter dito que o dela fora um nascimento de fogo. E fora esse o único significado. — Não. — Disse ela, neutra, as emoções demasiado confusas e instáveis para que as pudesse explorar. — A altura não é a melhor. E sou responsável por mim, Rogan.

— Devia ter-me precavido. — Estendeu a mão para passar os nós dos dedos pelo rosto dela. — Deixaste-me zonzo, Maggie, sentada no meu colo com as flores silvestres. Ainda me deixas zonzo agora.

O sorriso dela voltou, iluminando-lhe primeiro o olhar, depois dese­nhando uma curva nos lábios. — Vinha pelos campos do terreno da minha irmã, a caminho de casa. O sol brilhava, o Murphy estava a ceifar o campo e as flores cobriam-me os pés. Não me sentia tão feliz desde que o meu pai morreu há cinco anos. Depois, vi-te na cozinha, a trabalhar. E é possível que também tenha ficado zonza.

Voltou a ajoelhar-se, descansando a cabeça no ombro dele. — Tens de voltar para Dublin hoje à noite, Rogan?

Todos os minutos e pormenores entediantes da sua agenda passaram pelo cérebro dele, como um rio. O cheiro dela, misturado com o seu, en­volvia tudo como uma bruma. — Posso desmarcar alguns compromissos, partir de manhã.

Ela recostou-se, sorrindo. — E preferia não ir jantar fora.

— Vou cancelar a reserva. — Olhou à volta do quarto. — Não tens telefone aqui em cima?

— Para quê? Para me tocar aos ouvidos e acordar-me?

— Nem sei porque perguntei. — Ele afastou-se para alisar as calças do fato cheias de vincos. — Vou lá abaixo, fazer uns telefonemas. — Olhou para trás, para onde ela estava ajoelhada no meio da cama estreita e desali­nhada. — Uns telefonemas bem rápidos.

— Podem esperar, — gritou ela, atrás dele.

— Não quero ser interrompido por nada até amanhã de manhã. — Apressou-se a descer, colhendo sentimentalmente ulmeiras desfeitas pelo caminho.

Lá em cima, Maggie esperou cinco minutos, depois seis, antes de saltar da cama. Pensou em vestir o roupão que fora lançado descuidadamente para cima de uma cadeira, depois, murmurando, desceu as escadas sem ele.

Ainda estava ao telefone, o auscultador aninhado no ombro enquan­to tomava notas na agenda. A luz, agora mais suave, espraiava-se a seus pés. — Adia isso para as onze. Não, para as onze, — repetiu. — Estou de volta ao escritório lá para as dez. Sim, e contacta o Joseph, está bem, Eileen? Diz--lhe que vai chegar outra encomenda de Clare. O trabalho da Concannon, sim. Eu...

Ouviu o ruído atrás dele, olhando para trás. Maggie parecia uma deusa coroada de chamas, toda pele de alabastro, curvas sinuosas e olhos sábios. A voz da secretária dele zumbia-lhe ao ouvido como uma mosca irritante.

— Quê? O quê? — Os olhos dele, a sua expressão espantada a prin­cípio, depois mais quentes, desciam de alto a baixo. Voltando a subir para se prenderem no rosto de Maggie. — Trato disso quando chegar. — Os músculos do estômago tremeram quando Maggie avançou, dirigindo-se ao fecho das calças. — Não, — pediu ele com a voz estrangulada. — Hoje já não me podes contactar. Estou... — Por entre os dentes soltou um suspiro assim que Maggie lhe tocou com os dedos compridos, de artista. — Valha-me Deus. Amanhã, — disse ele, com uma réstia de controlo. — Vemo-nos amanhã.

Bateu com o auscultador no telefone, onde vacilou e escorregou, indo bater no balcão.

— Interrompi o teu telefonema, — começou ela, rindo-se depois, as­sim que ele a puxou mais para perto.                                          

Acontecia tudo outra vez. Ele quase podia ficar de fora a observar o animal interior a apossar-se dele. Com um grito desesperado, puxou-lhe a cabeça para trás pelo cabelo e atacou-lhe o pescoço, a boca. Sentia uma necessidade avassaladora de a possuir, como uma droga fatal que lhe pene­trava nas veias, acelerando o ritmo cardíaco e toldando a mente.

Ia magoá-la de novo. Mesmo sabendo disso, não conseguia parar. Com um gemido, em parte de fúria, em parte de triunfo, empurrou-a para a mesa da cozinha.

Tirou partido da satisfação obscura e perversa de a ver a arregalar os olhos, de surpresa. — Rogan, os teus papéis.

Ele levantou-lhe as ancas da borda de madeira, sustentando-as com as mãos. Os seus olhos brilhavam como os de um guerreiro nos dela, ao mesmo tempo que entrava dentro dela.

Ela sacudiu a mão, derrubando a chávena em cima do pires e empur­rando ambos para o meio do chão. A porcelana estilhaçou-se, até mesmo quando a mesa aos solavancos lhe atirou a pasta aberta para o chão.

Parecia uma explosão de estrelas diante dos olhos de Maggie, ao entregar-se em delírio. Sentia a madeira dura nas costas, o suor que emergia deixando-lhe a pele escorregadia. Quando enlaçou as pernas mais alto e o obrigou a penetrar mais fundo, podia jurar que o sentira tocar-lhe o cora­ção.

De seguida não sentiu nada, a não ser o vento selvagem que a lançava alto, e mais alto, exacerbando aquele pico lancinante. Desesperada, tentava respirar como uma mulher que se afoga, expelindo em seguida um gemido longo e lânguido.

Depois, momentos depois, quando achou que já conseguia falar, ani­nhou-se nos braços dele. — Já fizeste os telefonemas todos? Ele riu-se e levou-a para fora da cozinha.

Era muito cedo quando ele a deixou. Aguaceiros com Sol lançavam arco-íris ondulantes no céu matinal. Sonolenta, oferecera-se para lhe fazer o chá da manhã, mas deixara-se dormir de novo. Por isso, ele fora sozinho para a cozinha.

Encontrara no armário um frasco miserável com café instantâneo endurecido. Apesar de ter hesitado, Rogan contentara-se com ele, e com o único ovo que ela tinha no frigorífico.

Começava a arrumar, tentando pôr as coisas em ordem, os papéis espalhados, quando ela entrou aos tropeções na cozinha. Trazia os olhos inchados e sonolentos, quase sem conseguir cumprimentá-lo enquanto se dirigia para a chaleira.

Era uma vez, pensou ele, as despedidas dos amantes.

— Utilizei a que parecia ser a tua última toalha limpa.

Ela voltou a grunhir e serviu-se de um chá.

— E acabou a água quente a meio do duche.

Desta vez, limitou-se a bocejar.

— Já não tens ovos.

Ela resmungou, o que parecia algo como — As galinhas de Murphy.

Ele bateu com os papéis juntos e guardou-os na pasta. — Deixei os recortes que querias em cima do balcão. Hoje à tarde vai passar por cá um camião para levar a encomenda. Tens de a embalar antes da uma hora.

Percebendo que não ia ter resposta, fechou a pasta. — Tenho de ir. — Aborrecido, avançou na direcção dela, pegou-lhe no queixo com firme­za e beijou-a. — Também vou ter saudades tuas.

Já ele tinha saído porta fora quando ela teve noção do que acontece­ra e correu atrás dele. — Rogan! Por amor dos santos, espera um minuto. Ainda mal abri os olhos.

Ele virou-se ao mesmo tempo que ela lhe saltou para cima. Desequi­librado, quase caíram ambos em cima do canteiro das flores. Depois, agar­rando-a com força, roubaram o fôlego um do outro com um beijo, debaixo da chuva macia e luminosa.

— Vou ter saudades tuas, bolas. — Apertou o rosto contra o ombro dele, suspirando.

— Vem comigo. Atira uma roupas para dentro da mala e vem comi­go.

— Não posso. — Recuou, surpreendida pela pena que sentia em ter de recusar. — Tenho de tratar de algumas coisas. E eu... não consigo traba­lhar em Dublin.

— Não, — concordou ele, algum tempo depois. — Também acho que não.

— Podes voltar? Daqui a um ou dois dias?

— Agora não é possível. Dentro de umas duas semanas, talvez pos­sa.

— Bom, não é assim tanto tempo. — Parecia uma eternidade. — Po­demos ambos tratar da nossa vida, e depois...

— E depois. — Atirou-lhe um beijo. — Pensa em mim, Margaret Mary.

— Vou pensar.

Ficou a vê-lo partir, levando a pasta para dentro do carro, a dar à ig­nição, a entrar na estrada de marcha atrás.

Ali permaneceu bastante tempo, até depois de o ruído do carro ter desaparecido, até a chuva parar e o Sol coroar a manhã.              

 

 

                                       CAPÍTULO TREZE

 

Maggie atravessou a sala de estar vazia, olhando demoradamente pela ja­nela principal, para depois inverter o caminho que fizera. Era a quinta casa que levara em conta numa semana, a única que não estava ocupada por vendedores esperançosos e a última que tencionava visitar.

Ficava nos subúrbios de Ennis, um pouco mais afastada do que Brianna gostaria — e não o suficiente para o gosto de Maggie. Era nova, o que trabalhava a seu favor, uma casa tipo caixote com as divisões todas no mesmo piso.

Dois quartos, imaginou Maggie ao atravessá-la outra vez. Uma casa de banho, uma cozinha com sala de jantar, uma área para sala de estar, com bastante luz e uma lareira em tijolo impecável.

Deu uma última olhadela, com os punhos apoiados nas ancas. — É isto mesmo.

— Maggie, tem de certeza as dimensões certas para ela. — Brianna mordia o lábio enquanto examinava a sala vazia. — Mas não devíamos es­colher uma mais perto de casa?

— Porquê? De qualquer forma, ela odeia o sítio onde mora.

— Mas...

— E esta fica perto de mais lojas. De mercearias, da farmácia, de lu­gares para ir comer fora, caso lhe apeteça.

— Ela nunca sai.

— Já está na altura. E como tu não vais saltar de cada vez que ela esta­lar os dedos, vai ter de ser, não achas?

— Eu não salto. — Com a coluna rígida, Brianna foi até à janela. — Para ser sincera, ela vai-se recusar a mudar para cá de qualquer forma.

— Não se há-de recusar. — Não, pensava Maggie, com a espada que lhe vou apontar entre ela e a parede. — Se por momentos abdicares dessa culpa que adoras deitar sobre ti, tens de admitir que é o melhor para todos. Ela vai ser mais feliz na casa dela... ou tão feliz quanto uma mulher da na­tureza dela pode ser. Podes deixá-la levar o que quiser lá de casa, se isso te alivia a consciência, ou então dou-lhe dinheiro para comprar coisas novas. Acho que ela ia preferir assim.

— Maggie, a casa não tem graça nenhuma.

— Tal como a nossa mãe. — Antes que Brianna pudesse retorquir, Maggie foi ter com ela e passou o braço por cima dos seus ombros tensos.

— Podes fazer um jardim, mesmo ali junto à porta. Pintávamos as paredes ou colocávamos papel de parede, ou o que fosse preciso.

— Podia ficar bonita.

— Ninguém é mais adequado para fazer essas coisas do que tu. Le­vanta o dinheiro que for preciso até vocês duas ficarem satisfeitas.

— Não é justo, Maggie, que tenhas de suportar todas estas despe­sas.

— É mais justo do que pensas. — Chegara a altura, decidira Maggie, de falar com Brianna sobre a mãe delas. — Sabes que ela costumava cantar? Profissionalmente?

— A mãe? — A ideia era tão rebuscada, que Brianna se riu. — Onde é que foste buscar essa história?

— É verdade. Soube por acaso, e já verifiquei se era verdade. — Pro­curando na mala, Maggie tirou os recortes amarelados. — Podes ver com os teus próprios olhos, até a elogiaram algumas vezes.

Sem fala, Brianna examinou o recorte de jornal, com o olhar fixo na fotografia pouco nítida. — Cantou em Dublin, — murmurou ela. — Tinha vida própria. «Uma voz tão límpida e doce como os sinos da igreja na ma­nhã de Páscoa», diz aqui. Mas como é que pode ser? Ela nunca falou disto. Nem o pai.

— Pensei bastante sobre isso nos últimos dias. — Virando costas, Maggie caminhou de novo até à janela. — Ela perdeu algo que queria, e ficou com outra coisa que não queria. Este tempo todo tem-se castigado, e a todos nós.

Abismada, Brianna pousou os recortes. — Mas ela nunca cantou em casa. Nem uma nota sequer. Nunca.  

— Acho que ela não ia suportar, ou então considerava a própria recu­sa como uma penitência do pecado que cometera. Provavelmente, ambos. — Maggie sentiu-se inundar de um cansaço e lutou por tentar ignorá-lo. — Estou a tentar desculpá-la por isso, Brie, a imaginar como deve ter fica­do devastada quando soube que estava grávida de mim. E, como ela era, a única solução que encontrou foi o casamento.

— Foi errado da parte dela culpar-te, Maggie. Sempre foi. Hoje isso não é menos verdade.

— Talvez. Ainda assim, consigo compreender melhor o motivo de nunca me ter amado. De nunca me vir a amar.

— Já... — Com cautela, Brianna dobrou os recortes e guardou-os na sua bolsa. — Já falaste com ela sobre isto?

— Já tentei. Ela nem quis ouvir. Podia ter sido diferente. — Maggie rodopiou para trás, amparando o fardo de culpa que não conseguia ignorar. — Podia ter sido. Como não podia ter a carreira que queria, ainda assim tinha a música. Será que precisava de repudiar tudo por não poder ter o que queria?

— Não sei a resposta. Algumas pessoas não se satisfazem com menos que isso.

— Não podemos mudar nada, — comentou Maggie, firme. — Mas podemos dar-lhe isto, vamos todos dar-lhe isto.

Como o dinheiro se gastava num ápice, pensava Maggie alguns dias depois. Parecia que quanto mais se tinha, mais se precisava. Mas a escritura da casa estava agora no nome de Maeve, e os pormenores, as dezenas deles que implicavam montar uma casa, estavam a ser tratados, um por um.

Era uma pena que os pormenores da sua própria vida parecessem ficar suspensos no limbo.

Quase não falara com Rogan, pensava ao sentar-se na mesa da co­zinha. Oh, ele enviara mensagens através da Eileen e do Joseph, mas raras vezes se incomodara a contactá-la directamente. Ou a regressar, como dis­sera que faria.

Bom, não havia problema, pensava ela. De qualquer forma, estava ocupada. Tinha uma quantidade de esboços que estava a transpor para vi­dro. Se porventura se atrasou a começar nessa manhã, era só porque ainda não decidira a que projecto se dedicaria primeiro.

De certeza que não era por estar à espera que o raio do telefone to­casse.

Levantou-se e caminhava para a porta quando viu Brianna pela jane­la, com o cão dedicado a segui-la.

— Óptimo. Ainda bem que te apanhei antes de começares a traba­lhar. — Brianna pegou no cesto que trazia debaixo do braço, ao entrar na cozinha.

— Vieste mesmo a tempo. Está tudo a correr bem?

— Bastante. — Rápida e eficiente, Brianna destapou os muffins a fu­megar que trouxera consigo. — Termos encontrado a Lottie Sullivan foi como uma dádiva de Deus. — Sorriu, ao pensar na enfermeira reforma­da que haviam contratado para fazer companhia a Maeve. — Ela é sim­plesmente maravilhosa, Maggie. Parece que já faz parte da família. Ontem, quando eu estava a trabalhar nos canteiros da frente da casa, a mãe só se queixava em como o ano já ia avançado para plantar e da tinta da fachada ter a cor errada. Oh, só para ser do contra. A Lottie só se ria, discordando com tudo o que ela dizia. Juro-te, as duas estavam a divertir-se à grande.

— Quem me dera ter assistido. — Maggie abriu um muffin ao meio. Só o aroma que emanava, bem como a imagem que Brianna lhe colocara na cabeça, quase a fizeram adiar o trabalho dessa manhã. — Descobriste um tesouro, Brie. A Lottie vai mantê-la na linha.

— É melhor do que isso. Ela gosta mesmo de o fazer. Sempre que a mãe diz alguma coisa horrível, a Lottie desata a rir, pisca o olho, e depois vai à vida dela. Nunca pensei dizê-lo, Maggie, mas acho mesmo que isto vai resultar.

— Claro que vai resultar. — Maggie atirou um pedaço de muffin ao Con, que esperava, ansioso e paciente. — Perguntaste ao Murphy se ajuda­va na mudança da cama e das outras coisas que ela quer?

— Nem foi preciso. Já se soube que lhe compraste uma casa perto de Ennis Por acaso, já passaram lá por casa uma dúzia de pessoas nas últimas duas semanas. O Murphy já ofereceu as costas e a carrinha.

— Então vamos mudá-la perfeitamente com a Lottie antes do final da próxima semana. Comprei uma garrafa de champanhe, e vamos embebe­dar-nos quando tudo estiver resolvido.

Brianna torceu os lábios, mas a voz parecia sóbria. — Não vejo moti­vo para comemorar.

— Então apareço lá em casa, só por acaso, — retorquiu Maggie, com um sorriso irónico. — Com uma garrafa de espumante debaixo do braço.

Apesar de Brianna retribuir o sorriso, o seu coração não fora sincero. — Maggie, tentei abordar o assunto de ela cantar. — Lamentou ver a luz que se perdia no olhar da irmã. — Achei que devia.

— Claro que devias. — Perdendo o apetite pelo muffin, Maggie atirou o resto ao Con. — Tiveste mais sorte do que eu?

— Não. Ela não quis falar comigo, só se chateou. — Não valia a pena contar os impropérios verbais um por um, pensou Brianna. Se o fizesse, apenas serviria para disseminar mais rapidamente a infelicidade. — Fe­chou-se no quarto, mas levou os recortes com ela.

— Bom, isso já é alguma coisa. Talvez a possam consolar. — Mag­gie deu um salto quando o telefone tocou, levantando-se da cadeira tão depressa que Brianna ficou de boca aberta. — Estou. Oh, Eileen, não é? — A desilusão na sua voz não deixava margem para dúvidas. — Sim, tenho as fotografias que enviou para o catálogo. Parecem-me bastante bem. Talvez devesse dizer pessoalmente ao Sr. Sweeney que... oh, numa reunião. Não, não faz mal, pode transmitir-lhe que as aprovei. Não tem de quê. Adeus.

— Atendeste o telefone, — comentou Brianna.

— Claro que atendi. Tocou, não tocou?

O tom agressivo na voz da irmã levou Brianna a arquear as sobrance­lhas. — Estavas à espera de um telefonema?                  

— Não. Porque é que achaste que sim?

— Bom, pela forma como foste a correr, como se fosses tirar uma criança da frente de um carro.

Oh, tê-lo-ia feito? Pensava Maggie. Teria feito aquilo? Era humilhan­te. — Não gosto que o maldito aparelho se ponha a tocar-me aos ouvidos, só isso. Tenho de ir trabalhar. — Em jeito de despedida, saiu apressada da cozinha.

Não se importava minimamente se ele telefonava ou não, convencia-se Maggie. Talvez já tivessem passado três semanas desde que ele voltara para Dublin, talvez só tivesse falado com ele duas vezes em todo aquele tempo, mas isso não lhe importava nada. Estava demasiado ocupada para se incomodar com conversas da treta ao telefone, ou a entretê-lo, se viesse fazer-lhe uma visita.

Tal com ele afirmara, para mal dos seus pecados, acrescentou ela em silêncio, batendo com a porta da oficina.

Não precisava da companhia de Rogan Sweeney, nem de ninguém. Tinha-se a si mesma.

Maggie pegou no tubo e pôs mãos à obra.

A sala de jantar formal dos Connelly haveria de lembrar Maggie, se tivesse sido convidada, de um cenário que vira na telenovela pirosa, que passara na televisão no dia em que o pai morrera. Tudo brilhava, luzia e cintilava. Vi­nho vintage do melhor dava uma tonalidade dourada aos copos de cristal, que projectavam arco-íris nas faces laterais. Velas, finas e brancas, combina­vam a elegância da luz espraiada do candelabro de cinco fileiras.

As pessoas à volta da mesa adornada com uma toalha de renda pare­ciam tão polidas quanto a sala. Anne, vestida de seda cor de safira e com os diamantes da avó, era a imagem da anfitriã graciosa. Dennis, corado devido à farta refeição e à companhia ainda melhor, cintilava ao olhar para a filha. Patrícia estava particularmente bonita, tão delicada quanto as pérolas cor-de-rosa pastel e cremes que ostentava.

À sua frente, Rogan bebia o vinho e lutava por não deixar a mente vaguear para oeste, na direcção de Maggie.

— É tão agradável desfrutar de uma refeição sossegada, em família. — Anne espetava a porção miserável de faisão que tinha no prato. A balan­ça avisara-a que engordara um quilo no último mês, e isso não podia ser. — Espero que não estejas desiludido por não termos convidado um grupo, Rogan.

— Claro que não. É um prazer, dos raros para mim, nos dias que correm, passar uma noite calma com amigos.

— Era exactamente isso que dizia ao Dennis, — continuou Anne.

— Há meses que mal nos vemos. Tens trabalhado demais, Rogan.

— Um homem nunca trabalha demais quando faz o que gosta, — co­mentou Rogan.

— Ah, tu e o trabalho. — Anne riu-se com subtileza, quase resistindo a dar um pontapé astuto ao marido por baixo da mesa. — Demasiados ne­gócios tornam um homem tenso, acho eu. Especialmente se não tiver uma esposa que o amoleça.

Sabendo bem qual seria o rumo da conversa, Patrícia fez o que pôde para mudar de assunto. — Tiveste um sucesso incrível com a exposição de Miss Concannon, Rogan. Ouvi dizer que a arte nativa americana também foi muito bem recebida.

— Sim, ambas as afirmações são verdadeiras. A arte americana vai mudar-se esta semana para a galeria de Cork, e a de Maggie... de Miss Con­cannon... vai em breve para Paris. Este último mês, ela terminou algumas peças fantásticas.

— Já via algumas. Acho que o Joseph anda a cobiçar o globo. Aquele cheio de cores e formas no interior. É mesmo fascinante. — Patrícia pousou as mãos no colo, enquanto serviam a sobremesa. — Pergunto-me como é que o fez.

— Por acaso, estava lá quando ela o fez. — Lembrava-se do calor, da fusão de cores, da crepitação das faúlhas. — E mesmo assim, não to consigo explicar.

O olhar dele colocou Anne em alerta total. — Conhecer demais o processo artístico pode arruinar a diversão, não achas? Tenho a certeza que para a Miss Concannon não passa de rotina. Patrícia, ainda não nos con­taste sobre o teu pequeno projecto. Como é que está a correr o centro de tempos livres?

— Está a correr muito bem, obrigada.

— Imaginem, a nossa pequena Patrícia a inaugurar um centro de tempos livres. — Anne sorriu de forma indulgente.

Rogan apercebeu-se, com sentimentos de culpa, que ainda não lhe perguntara como estava a correr o projecto há semanas. — Então, já encon­traste uma localização?

— Sim, já encontrei. É uma casa mesmo ao pé de Mountjoy Square. O edifício precisa de renovação, é claro. Já contratei um arquitecto. Os ter­renos são bastante adequados, com imenso espaço para zonas de recreio. Espero tê-lo pronto para receber crianças na próxima Primavera.

E conseguia imaginá-lo. Os bebés e os que ainda gatinhavam, cujas mães precisassem de um lugar de confiança onde deixar os filhos enquanto trabalhavam. As crianças mais velhas que viriam depois da escola e antes do fim do expediente. Iria atenuar uma certa dor, pensava ela, e o vazio que sentia dentro dela. Ela e Robert não haviam tido filhos. Sempre tiveram a certeza que ainda havia muito tempo para isso. Era claro.

— Estou certa que o Rogan te vai ajudar com a gestão do projecto, Patrícia. — Prosseguiu Anne. — Afinal de contas, não tens experiência ne­nhuma.

— É minha filha, não é? — Observou Dennis, piscando o olho. — Então, há-de correr tudo bem.

— Tenho a certeza que sim. — De novo, Anne esticou-se para tocar com o pé na canela do marido.

Esperou até se encontrar na saleta com a filha, enquanto os homens se demoravam a beber vinho do porto na sala de jantar — um costume que Anne se recusava a aceitar e que estava ultrapassado. Dispensou a emprega­da que levara o carrinho com o café, para encurralar a filha.

— Estás à espera de quê, Patrícia? Estás a deixar o homem escapar por entre os dedos.

— Por favor, não comeces. — Patrícia já sentia o martelar incessante de uma dor de cabeça em curso.

— Imagino que queiras ficar viúva o resto da tua vida. — De olhos irados, Anne deitou natas na chávena. — Digo-te que já passou tempo su­ficiente.

— Já me dizias isso assim que fez um ano que o Robert morreu.

— E é a pura verdade. — Anne suspirou. Odiara ver o sofrimento da filha, ela própria chorara bastante, não só pela perda do genro que amava, mas pela dor que não conseguira afastar dos olhos de Patrícia. — Querida, por mais que todos desejemos que não seja assim, o Robert morreu.

— Eu sei disso. Já aceitei e estou a tentar seguir em frente.

— Inaugurando um centro de tempos livres para os filhos dos ou­tros?                                                                                                                

— Sim, em parte. Faço isso por mim, mãe. Por precisar de trabalhar, da satisfação que isso me dá.

— Já desisti de tentar conversar contigo sobre isso. — Num gesto apa­ziguador, Anne ergueu as mãos. — Se é isso que queres, de verdade, então é também o que eu quero.

— Obrigada pelo apoio. — O rosto da Patrícia serenou ao debruçar-se para beijar a face da mãe. — Sei que só queres o melhor para mim.

— É verdade. Por isso mesmo é que quero o Rogan para ti. Não, não me vires a cara, menina. Não podes afirmar que também não o queres.

— Gosto dele, — disse Patrícia, com cautela. — Muito. Sempre gos­tei.

— E ele de ti. Mas estás a retrair-te, com demasiada paciência, à es­pera que ele dê o próximo passo. E enquanto esperas, ele tornou-se distraído. Até uma cega consegue ver que ele não está só interessado na arte daquela mulher, a Miss Concannon. E ela não me parece do tipo de esperar, — acrescentou Anne, abanando o dedo no ar. — Oh, não mesmo. Encon­tra um homem com o berço e as posses do Rogan e agarra-o num abrir e fechar de olhos.

— Duvido muito que o Rogan se deixe apanhar, — disse Patrícia, secamente. — Ele sabe o que faz.

— Em muitos assuntos, sim, — concordou Anne. — Mas os homens têm de ser guiados, Patrícia. Seduzidos. Ainda não te dispuseste a seduzir Rogan Sweeney. Tens de fazer com que ele te veja como mulher, não como a sua amiga viúva. Quere-lo, não queres?

— Eu acho...

— Claro que queres. Agora, trata de ele te querer também.

Patrícia mal falou quando Rogan a levou a casa. Para a casa que partilhara com Robert, a casa de que não podia abdicar. Já não entrava numa divisão à espera de o encontrar à sua espera, ou sofria aqueles agudos golpes de dor em momentos estranhos, quando subitamente se lembrava da vida que tiveram juntos.

Era apenas uma casa que guardava boas recordações.

Mas será que queria viver ali sozinha para o resto da vida? Será que queria passar os dias a tomar conta dos filhos das outras mulheres, enquan­to ela não tinha nenhuns para lhe iluminarem a vida?

Se a mãe tivesse razão e Rogan fosse mesmo o que ela queria, então que mal podia fazer um jogo de sedução?

— Não queres entrar um pouco? — Perguntou, enquanto ele a acom­panhava até à porta. — Ainda é cedo e não tenho sono nenhum.          

Ele pensou na sua casa vazia e nas horas que faltavam para começar o dia de trabalho. — Só se me arranjares um brandy.

— No terraço, — concordou ela, entrando.

A casa reflectia a elegância discreta e o bom gosto certeiro de quem lá vivia. Apesar de sempre se ter sentido ali em casa, Rogan pensava na cabana minúscula e na cama estreita e desalinhada de Maggie.

Até o copo de brandy o lembrava de Maggie. Pensou na forma como ela estilhaçara um contra a lareira, num rasgo de paixão. E na encomenda que chegara dias depois, com o que ela fizera para substituir o outro.

— Está uma noite linda, — comentou Patrícia, atraindo a atenção dele, que flutuava.

— O quê? Oh, sim. Pois está. — Girou o brandy no copo, mas não bebeu.

Uma lua em quarto crescente dominava o céu, mistificada pelas nu­vens, depois brilhando branca e fina à medida que a brisa as dissipava. O ar estava quente e fragrante, perturbado apenas pelo som abafado do trânsito além do parapeito.

— Conta-me mais sobre a escola, — começou ele. — Quem é o ar­quitecto que escolheste? — Ela mencionou o nome de uma firma que ele aprovava. — O trabalho deles é muito bom. Nós já trabalhámos com eles.

— Eu sei. Foi o Joseph que mos recomendou. Ele tem sido uma ajuda preciosa, apesar de me sentir culpada por o distrair do trabalho.

— Ele consegue muito bem fazer meia dúzia de coisas ao mesmo tempo.

— Nunca se parece importar que eu passe pela galeria. — Testando-o, Patrícia aproximou-se dele. — Tenho sentido a tua falta.

— As coisas têm andado frenéticas. — Ajeitou-lhe o cabelo atrás da orelha, um gesto antigo, um velho hábito de que nem se dava conta. — Te­mos de recuperar o tempo perdido. Há semanas que não vamos ao teatro, não é?

— Não. — Ela apanhou a mão dele, segurando-a. — Ainda bem que temos tempo agora. Só para nós.

Um sinal de aviso ecoou-lhe na cabeça. Ignorou-o, achando ridículo e sorriu para ela. — Temos de fazer mais coisas. Porque é que eu não passo pela propriedade que compraste, para dar uma olhadela?

— Sabes como valorizo a tua opinião. — O coração batia-lhe no peito ligeiro, rápido. — Como te valorizo.

Antes que pudesse mudar de opinião, inclinou-se para a frente e pres­sionou a boca de encontro à dele. Se acaso houve algum alarme nos olhos dele, ela recusou-se a vê-lo.

Desta vez não fora nenhum beijo doce e platónico. Patrícia enrolou os dedos no cabelo dele e deixou-se mergulhar. Ela queria, desesperadamente, voltar a sentir alguma coisa.                                              

Mas os braços dele não a envolveram. Os seus lábios não aqueceram. Ali ficou ele, imóvel como uma estátua. Não era prazer, nem era desejo que estremecia entre ambos. Era o ar gelado do choque.

Ela recuou, viu o espanto e, pior, muito pior, o arrependimento no seu olhar. Magoada, afastou-se dele.

Rogan pousou o brandy por beber. — Patrícia.

— Não. — Franziu os olhos com força. — Não digas nada.

— Claro que vou dizer. Tenho de o fazer. — As mãos hesitaram por cima dos ombros dela e, por fim, reconfortaram-na. — Patrícia, sabes o quanto eu... — Que palavras haveria a escolher? Pensou, aflito. Que pala­vras possíveis? — Gosto de ti, — disse, odiando-se em seguida.

— Fiquemos por aí. — Entrelaçou as mãos até lhe doerem os dedos. — Já me humilhei o suficiente.

— Nunca pensei... — Voltou a condenar-se e, por se sentir tão mi­serável, condenou Maggie por ter razão. — Patty, — disse, confuso. — La­mento.

— Tenho a certeza que sim. — A voz dela estava fria de novo, apesar de ele ter usado a antiga alcunha dela. — E eu também, por te colocar nesta situação tão desagradável.

— A culpa é minha. Devia ter percebido.

— Por que razão? — Gelada, soltou-se das mãos dele, virando as cos­tas. À luz das estrelas, o rosto dela era frágil como o vidro, os olhos tão inex­pressivos. — Estou sempre lá, não estou? Vou aparecendo, sempre disponí­vel para qualquer noite que tenhas livre. Pobre Patrícia, sem ter o que fazer, a sonhar com os seus projectozinhos para se manter ocupada. A jovem viú­va que se satisfaz com uma festa na cabeça e um sorriso indulgente.

— Isso não é verdade. Eu não sinto isso.

— Não sei o que tu sentes. — Levantou a voz, guinchou, assustando ambos. — Não sei o que eu sinto. Só sei que quero que te vás embora, antes que digamos algo que nos envergonhe a ambos, mais do que já estamos.

— Não te posso deixar assim. Por favor, vamos entrar e sentar-nos. Podemos conversar.      

Não, pensou ela, ia desatar a chorar e pôr fim à sua mortificação. — Estou a falar a sério, Rogan, — disse ela, determinada. — Quero que te vás embora. A única coisa que temos a fazer é dar as boas-noites. Conheces o caminho. — Passou por ele, entrando em casa.                                

Malditas sejam todas as mulheres, pensava Rogan ao entrar na galeria, na tarde seguinte. Malditas, pela capacidade inquietante de fazerem um ho­mem sentir-se culpado, carente e idiota.

Ele perdera uma amiga, alguém que lhe era muito querido. Perdera-a, pensava, por estar cego em relação aos sentimentos dela. Sentimentos, recordava-se com crescente indignação, que Maggie vira e compreendera num piscar de olhos.

Subiu as escadas sem cerimónia, furioso consigo mesmo. Porque é que não fazia ideia como lidar com duas das mulheres mais importantes para ele?

Partira o coração de Patrícia, despreocupadamente. E Maggie, que Deus a amaldiçoasse, tinha o poder de partir o dele.

Será que as pessoas nunca se apaixonavam por alguém disposto a corresponder?

Bom, não seria parvo o suficiente para lançar os seus sentimentos aos pés de Maggie, para que ela os esmagasse. Não agora. Não depois de tam­bém ele ter esmagado os de alguém inadvertidamente. Podia ficar muito bem sozinho, obrigado.

Entrou na primeira sala de estar e franziu o sobrolho. Haviam coloca­do mais algumas das peças dela em exposição. Um mero vislumbre do que iria em tournée nos próximos doze meses. O globo que ela criara diante dos seus olhos brilhava na sua direcção, parecendo conter todos os sonhos que ela alegara estarem lá aprisionados, sonhos que agora zombavam dele, ao fitar as suas profundidades.

Sentia o mesmo quando ela não atendeu o telefone na noite ante­rior. Talvez precisasse dela naquele momento, em que a culpa miserável em relação a Patrícia se apossava dele. Precisara de ouvir a voz dela, para se sentir embalado. Em vez disso, ouvira a sua própria voz, nítida e precisa no atendedor de chamadas. Ela recusara-se a fazer uma gravação sua. Por isso, em vez de uma conversa tranquila, talvez até íntima, pela noite dentro, dei­xara uma mensagem brusca que iria, sem dúvida, aborrecer Maggie tanto quanto o aborrecera a ele.

Céus, como a queria.

— Ah, exactamente o homem que queria encontrar. — Alegre como um pisco, Joseph entrou na sala. — Vendi a Carlotta. — O sorriso de satis­fação de Joseph transformou-se em curiosidade quando Rogan se voltou. — O dia corre mal?

— Já tive melhores. A Carlotta, dizes tu? A quem?

— A uma turista americana que entrou aqui esta manhã. Ela ficou absolutamente maravilhada com a Carlotta. Vamos enviá-la... isto é, o qua­dro... para um lugar chamado Tucson.

Joseph sentou-se no canto da poltrona de dois lugares e acendeu um cigarro, para comemorar. — A americana disse que adora nus primitivos e a nossa Carlotta certamente que era primitiva. Eu também aprecio bastante nus, mas a Carlotta nunca fez o meu género. Demasiado larga de anca... e nas pinceladas. Bom, digamos que o artista não era nada subtil.

— Era um óleo excelente, — comentou Rogan, distraído.

— No seu género. Mas como prefiro algo um pouco menos óbvio, não lamento nada ver a Carlotta partir para Tucson. — Tirou um pequeno cinzeiro com tampa do bolso e bateu com o cigarro. — Oh, e aquela série de aguarelas, do escocês? Chegou há uma hora. É um trabalho magnífico, Rogan. Acho que descobriste outra estrela.

— Pura sorte. Se não tivesse ido àquela fábrica em Inverness, nunca teria visto os quadros.

— Um artista de rua. — Joseph abanou a cabeça. — Bom, não por muito tempo, isso posso garantir. Existe uma qualidade maravilhosamente mística no trabalho, algo frágil e austero. — O dente brilhou, ao sorrir. — E também tem um nu, para compensar a perda da Carlotta. Tenho de admitir que é mais do meu agrado. Ela é elegante, algo delicada e com uma expres­são algo triste. Apaixonei-me perdidamente.

Calou-se, coçando o pescoço à volta do colarinho ao ver Patrícia na porta de entrada. O seu coração estremecia, desesperado. Está fora do teu alcance, rapaz, tentava lembrar-se. Bastante fora de alcance. O sorriso dele era fogoso como uma rosa.

— Olá, Patrícia. Que bom ver-te.

Rogan virou-se, decidindo que devia ser flagelado, por lhe ter impos­to aquelas olheiras debaixo dos olhos.

— Olá, Joseph. Espero não estar a incomodar.

— De maneira nenhuma. Aqui, a beleza é sempre bem-vinda. — Pe­gou-lhe na mão, beijou-a e chamou idiota a si mesmo. — Queres um chá?

— Não, não te incomodes.

— Não há problema nenhum. Estamos quase a fechar.

— Eu sei. Pensei... — Patrícia reuniu forças. — Joseph, importas-te? Preciso de ficar a sós com Rogan.

— Claro que não. — Idiota. Parvalhão. Imbecil. — Vou até lá abaixo. Deixo a chaleira ao lume, para o caso de mudares de ideias.

— Obrigada. — Esperou até que ele saísse, para depois fechar a porta. — Espero que não te importes por ter aparecido, uma vez que já estão quase a fechar.                                                                                          

— Não, claro que não. — Rogan não estava preparado, outra vez, des­cobrira, para lidar com a situação. — Fico feliz por teres vindo.

— Não ficas nada. — Ela sorriu um pouco ao falar, para serenar os ânimos. — Aí estás tu, pensando desesperadamente em algo para dizer, numa forma de te comportares. Já te conheço há muito tempo, Rogan. Po­demos sentar-nos?

— Sim, claro. — Começou por lhe oferecer a mão, mas depois dei­xou-a cair ao lado do corpo. Perante o gesto, Patrícia ergueu o sobrolho. Sentou-se, cruzando as mãos sobre o colo. — Vim pedir desculpa.

Agora a sua aflição era total. — Por favor, não faças isso. Não é pre­ciso.

— É preciso, sim. Vais ter a amabilidade de me ouvir.

— Patty. — Ele também se sentou, com o estômago às voltas. — Fiz-te chorar. — Agora era demasiado óbvio, tão perto um do outro. Por mais habilidosa que fosse a maquilhagem, ele conseguia ver os sinais.

— Sim, fizeste. E quando acabei de chorar, comecei a pensar. Pela minha cabeça. — Suspirou. — Tenho tido pouca prática em pensar pela minha cabeça, Rogan. A mamã e o papá sempre foram muito atenciosos. Tinham demasiadas expectativas. Eu sempre tive medo de não conseguir corresponder.

— Isso é absurdo...

— Pedi que me ouvisses, — disse, num tom que o obrigou a olhá-la com surpresa. — E vais ouvir. Sempre estiveste por perto, desde quando eu tinha, o quê... catorze, quinze anos? E depois apareceu o Robbie. Estava tão apaixonada que não precisava de pensar, nem havia tempo para isso. Tudo girava à volta dele, e em montarmos casa juntos, construir um lar. Quando o perdi, pensei que também ia morrer. Sabe Deus como o quis.

A única coisa que Rogan podia fazer era pegar-lhe na mão. — Eu também gostava dele.

— Eu sei que sim. E foste tu que me ajudaste a ultrapassar. Ajudaste-me no luto, e depois a dar a volta por cima. Contigo podia falar do Robbie, e rir ou chorar. Para mim, foste o melhor dos amigos, por isso era natural que te amasse. Pareceu-me sensato esperar até que me visses como uma mulher, em vez de como uma velha amiga. Então, não seria natural para ti apaixonares-te por mim, e pedir-me em casamento?

Ele movia os dedos inquietos debaixo dos dela. — Se tivesse prestado mais atenção...

— Mesmo assim não ias ver nada que eu não quisesse que visses, — acabou ela. — Por motivos que prefiro não abordar, decidi que eu própria daria o próximo passo, a noite passada. Quando te beijei, esperava sentir, oh, um monte de estrelas e feixes de luz. Meti na cabeça que te ia beijar, porque pensava que era tudo por que ansiara, toda aquela excitação e ar­rebatamento, maravilhoso e aterrador. Queria tanto senti-los de novo. Mas não senti.

— Patrícia, não é que eu... — Interrompeu-se, franzindo o olhar. — Desculpa?

Ela riu-se, confundindo-o ainda mais. — Quando acabei o meu vale de lágrimas bem merecido, pensei naquela situação toda. Não foste só tu quem foi apanhado de surpresa, Rogan. Apercebi-me que não senti nada quando te beijei.

— Nada de nada, — repetiu ele, passados alguns instantes.

— Nada, a não ser embaraço por nos ter colocado a ambos numa si­tuação bastante caricata. Percebi que, apesar de te amar muito, não estou de maneira nenhuma apaixonada por ti. Foi apenas como beijar o meu amigo mais íntimo.

— Estou a ver. — Era ridículo sentir-se como se a sua virilidade tives­se sido impugnada. Mas ele era, afinal de contas, um homem. — Mas que sorte, não achas?

Ela conhecia-o bem. Rindo, pressionou a mão dele no rosto. — Ago­ra insultei-te.

— Não, nada disso. Estou aliviado por termos esclarecido tudo. — O seu olhar doce levou-o a praguejar. — Está bem, raios partam, até me insul­taste. Ou pelo menos beliscaste o meu orgulho masculino. — Ele devolveu o sorriso. — Amigos?

— Sempre. — Ela deixou escapar um suspiro longo. — Nem imagi­nas como estou aliviada, agora que isso ficou arrumado. Sabes, acho que vou fazer companhia ao Joseph para o chá. Queres juntar-te a nós?

— Desculpa. Acabámos de receber uma encomenda de Inverness, a que quero dar uma vista de olhos.                                          

Ela levantou-se. — Sabes, tenho de concordar com a mãe numa coisa. Andas a trabalhar demais, Rogan. Isso começa a ver-se. Tens de tirar uns dias para descansar.

— Daqui a um ou dois meses.

A abanar a cabeça, debruçou-se para o beijar. — Dizes sempre isso. Quem me dera acreditar que desta vez o dizes com convicção. — Inclinou a cabeça, sorrindo. — Parece-me que a tua vivenda no sul de França é um lu­gar excelente não só para descansar, mas também para inspiração criativa. As cores e as texturas sem dúvida que agradariam a um artista.

Ele abriu a boca, fechando-a logo em seguida. — Conheces-me mes­mo bem demais, — murmurou ele.

— Pois conheço. Pensa nisso. — Deixou-o a matutar e desceu até à cozinha. Uma vez que Joseph estava na galeria principal com alguns clien­tes mais demorados, começou ela mesma a tratar do chá.                

Joseph entrou na altura exacta em que ela estava a servir a primeira chávena. — Desculpa, — disse ele. — Eles não se despachavam, nem se deixaram seduzir a ponto de largarem uma única libra. E eu a pensar que ia acabar o dia a vender aquela escultura de cobre. Sabes, aquela parecida com azevinho, mas fugiram de mim.          

— Bebe um chá e consola-te.

— É o que vou fazer. Já... — Ele parou quando ela se virou e viu o seu rosto bem iluminado. — O que se passa? O que aconteceu?

— Nada. — Levou as chávenas para a mesa, quase deixando-as cair quando ele lhe puxou o braço.

— Estiveste a chorar, — comentou, com a voz tensa. — E estás com olheiras.

Com um suspiro impaciente, ela pousou as chávenas a abanar. — Por que razão é que a cosmética é tão cara, se não cumpre o seu objectivo? Uma mulher não se pode deleitar num imenso vale de lágrimas se não puder depender da sua maquilhagem. — Começou a sentar-se, mas as mãos dele permaneciam firmes nos ombros dela. Surpreendida, ergueu o olhar para ele. Ficou atrapalhada com o que viu nos seus olhos. — Não é nada... a sério. Uma parvoíce qualquer. Estou... agora estou bem.

Ele não pensou. Claro que já a tivera nos braços. Já haviam dançado juntos. Mas agora não havia música. Apenas ela. Lentamente, ele ergueu a mão, acariciando o polegar suavemente sobre as sombras subtis debaixo dos olhos dela. — Ainda sentes a falta dele. De Robbie.

— Sim, vou sentir sempre. — Mas o rosto do marido, tão amado, co­meçava a desvanecer-se. Só via Joseph. — Não estive a chorar por causa do Robbie. A sério que não. Não sei exactamente porque é que estive a chorar.

Era adorável, pensou ele. Os olhos tão gentis e confusos. E a pele — antes nunca se atrevera a tocá-la desta forma — era como seda. — Não deves chorar, Patty, — ouviu-se a dizer. Depois, estava a beijá-la, a boca entrando na dela como uma seta, a mão mergulhando naquela onda macia de cabelo.

Perdeu-se, afogando-se no perfume dela, ardendo quando ela abriu os lábios de surpresa, permitindo que ele a provasse, intensa e de corpo inteiro.

O corpo dela cedeu, num ondular delicado de fragilidade que des­pertava carências insustentáveis e conflituosas. Tomar, proteger, confortar e possuir.

Foi o suspiro dela, em parte de choque, em parte de deleite, que o despertou como um balde de água fria.

— Eu... peço desculpa. — Mastigou as palavras, para depois ficar rí­gido de arrependimento quando ela se limitou a olhar para ele. As emoções fervilhavam insalubres dentro dele, ao mesmo tempo que recuava. — Não tenho desculpa possível.

Deu meia-volta e afastou-se antes que a cabeça dela parasse de andar à roda.

Ela foi atrás dele, com o seu nome nos lábios. Depois estacou, empur­rando com a mão o coração acelerado e deixando que as pernas trémulas a depositassem numa cadeira.

Joseph? A mão deslizou do seio para o rosto corado. Joseph, pensou de novo, abismada. Mas era ridículo. Não passavam de amigos casuais que partilhavam o afecto por Rogan e pela arte. Ele era... bom, o mais parecido do que sabia ser um boémio, decidira ela. Encantador, certamente, como comprovaria qualquer mulher que entrasse na galeria.

E fora apenas um beijo. Só um beijo, convencia-se ela, ao estender o braço para pegar na chávena. Mas a mão tremia-lhe e entornou chá em cima da mesa.

Um beijo, apercebeu-se num sobressalto, que lhe trouxera o monte de estrelas, os feixes de luz, e a imensidão daquela excitação e arrebatamen­to, maravilhoso e aterrador por que ansiara.

Joseph, pensou novamente, correndo cozinha fora para ir ter com ele.

Conseguiu encontrá-lo lá fora e passou por Rogan a correr, quase sem falar.

— Joseph!

Ele parou, praguejando. Agora é que era, pensou ele amargamente. Ela ia descompô-lo ao máximo e, — uma vez que ele não fora suficiente­mente rápido na saída — pior ainda, em público. Resignado em enfrentar a fera, virou-se atirando as madeixas de cabelo por cima do ombro.

Ela parou apenas a alguns milímetros à frente dele. — Eu... — esque­ceu-se completamente do que ia dizer.

— Tens todos os motivos para estares zangada, — disse ele. — Não importa nada eu não querer... isto é, que só quis... bolas, o que é que estavas à espera? Entras aqui tão linda e triste. Tão perdida. Deixei-me levar e peço desculpa por isso.

Ela sentira-se perdida, apercebia-se agora. Perguntava-se se ele com­preenderia como seria saber onde estava e acreditar que sabia para onde ia, mas estar perdida mesmo assim. Ela achava que ele podia.

— Queres jantar comigo?

Ele pestanejou, recuando. — O quê?

— Queres jantar comigo? — Repetiu ela. Sentiu-se tonta, quase ousa­da. — Esta noite. Agora.

— Queres ir jantar? — Falou lentamente, com uma pausa entre cada palavra. — Comigo? Esta noite?

Parecia perplexo, tão desconfiado, que ela se riu. — Sim. Na verdade, não, não é nada disso que quero fazer.

— Então está bem. — Ele acenou rigidamente e começou a descer a rua.

— Não quero ir jantar, — gritou ela, alto o suficiente para fazer voltar algumas cabeças. Quase ousada? Pensou ela. Oh, não, completamente ou­sada. — Quero que me beijes outra vez.

Aquilo fê-lo parar. Virando-se, ignorou o piscar de olho e o comen­tário aprovador de um homem com uma camisa às flores. Como um cego que abre caminho às apalpadelas, avançou na direcção dela. — Não sei se percebi bem.

— Então vou dizê-lo claramente. — Ela engoliu uma réstia de or­gulho tolo. — Quero que me leves para casa contigo, Joseph. E quero que me beijes outra vez. E a não ser que esteja muito enganada em relação ao que ambos sentimos, quero que faças amor comigo. — Deu o último passo na direcção dele. — Percebeste, e concordas com a ideia?

— Se concordo? — Segurou o rosto dela nas mãos, fitando intensa­mente os olhos dela. — Perdeste o juízo. Graças a Deus. — Riu-se e tomou-a de encontro a ele. — Oh, se concordo, querida Patty. E bastante.

 

 

                                     CAPÍTULO CATORZE

 

Maggie encontrava-se debruçada sobre a mesa da cozinha, a cabeça no meio dos braços cruzados.

O dia da mudança tinha sido um inferno.

A mãe queixara-se constantemente, incansável, de tudo, desde a chu­va que caía sem parar até às cortinas que Brianna pendurara na grande ja­nela da frente da casa nova. Mas valera a pena aquele dia miserável para ver, finalmente, Maeve instalada em casa própria. Maggie cumprira a palavra e Brianna estava livre.

No entanto, Maggie não antecipara a onda de culpabilização que a atingira quando Maeve desatara a chorar — de costas dobradas, o rosto enterrado nas mãos e as lágrimas quentes céleres a escorrer entre os dedos. Não, ela não esperara sentir-se culpada ou ter tanta pena de uma mulher que ainda mal parara de a amaldiçoar quando desatou aos soluços.

Acabara por ser Lottie, com uma vivacidade contagiante e impertur­bável a tomar o controlo da situação. Acompanhou Brianna e Maggie até à rua, dizendo-lhes que não se preocupassem, não, que não se preocupas­sem com nada, uma vez que as lágrimas eram tão naturais quanto a chuva. E que lugar adorável era aquele, continuara a conversa, ao mesmo tempo que lhes fazia sinais com o cotovelo e as conduzia até lá fora. Como uma casa de bonecas e igualmente cuidada. Ficariam bem. Confortáveis como gatos.

Quase que as enfiou dentro da carrinha de Maggie.

Estava feito, e fora o acertado. Mas nessa noite, não se abririam gar­rafas de champanhe.

Maggie deitara abaixo um copo de uísque e deixara-se abater por uma quantidade de emoções extenuantes em cima da mesa, enquanto a chuva batia no telhado e o crepúsculo lhe acentuava a melancolia.

O telefone não a acordou. Tocava, exigente, enquanto ela passava pelas brasas. Mas a voz de Rogan atravessou-lhe a fadiga e sobressaltou-a, pondo termo ao sono.

— Espero ter notícias tuas pela manhã, visto não ter nem tempo nem paciência para te ir aí buscar.

— O quê? — Atordoada, piscou o olho como uma coruja e olhou à volta da sala escura. Podia jurar que ele estivera ali mesmo, a descompô-la.

Chateada por lhe terem interrompido a sesta, e por essa interrupção lhe recordar que estava com fome e que em casa não havia comida suficiente para satisfazer um pisco, levantou-se da mesa.

Ia a casa de Brie, decidira. Atacar-lhe a cozinha. Talvez se pudessem animar mutuamente. Tinha ido buscar um boné quando viu a luzinha ver­melha, impaciente, no atendedor de chamadas.

— Que chatice de um raio, — resmungou, mas fustigou os botões até rebobinar a cassete, para a pôr a funcionar.

— Maggie. — De novo, a voz de Rogan enchia a sala. Fê-la sorrir ao perceber que tinha sido ele a acordá-la, afinal de contas. — Porque raio é que nunca atendes esta coisa? É meio-dia. Quero que telefones assim que chegues do estúdio. Estou a falar a sério. Preciso de falar contigo sobre uma coisa. Por isso... tenho saudades tuas. Bolas, Maggie, tenho saudades tuas.

A mensagem acabou, mas antes que pudesse sentir uma certa pre­sunção, começou outra.

— Achas que não tenho mais nada que fazer senão perder tempo a falar com esta maldita máquina?

— Não acho, — respondeu ela, — mas foste tu que a puseste cá.

— São agora quatro e meia e tenho de passar pela galeria. Talvez não me tenha explicado bem. Tenho de falar contigo, hoje. Estou na galeria até às seis, depois podes encontrar-me em casa. Não quero saber se estás cheia de trabalho. Raios te partam por estares tão longe.

— O homem passa mais tempo a amaldiçoar-me do que a fazer outra coisa, — murmurou ela. — E tu estás tão longe de mim quanto eu estou de ti, Sweeney.

Como se lhe respondesse, a voz dele ouviu-se outra vez. — Sua pir­ralha irresponsável, idiota e insensível. Achas que devo ficar preocupado, a imaginar que te atiraste pelos ares com os químicos e pegaste fogo ao cabe­lo? Graças à tua irmã, que atende o telefone, sei perfeitamente que estás aí. São quase oito horas e tenho um jantar de negócios. Agora, ouve-me bem, Margaret Mary. Vem para Dublin e traz o passaporte. Não vou perder nem mais um minuto a explicar porquê, faz apenas o que te digo. Se não conse­guires arranjar voo, posso enviar o avião para te ir buscar. Espero ter notí­cias tuas até de manhã, uma vez que não tenho nem tempo nem paciência para te ir buscar pessoalmente.

— Vir-me buscar? Como se conseguisses. — Ali ficou por momentos, a franzir o sobrolho para o atendedor. Então devia pôr-se a caminho de Dublin? Só porque ele assim o exigia. Nem pediu por favor ou com bons modos, só que fizesse o que lhe mandava.

O gelo abundaria no inferno antes de ela lhe dar essa satisfação.

Esquecendo a fome, saiu de rompante da sala e subiu as escadas. Ir para Dublin, matutou. A lata do homem, a dar-me ordens.

Com um safanão, arrancou a mala de dentro do armário e deitou-a para cima da cama.

Será que pensava que ela estava tão ansiosa por vê-lo que largaria qualquer coisa para sair a correr quando ele quisesse? Havia de perceber que não era assim. Oh, sim, decidira ela ao atirar a roupa para dentro da mala. Ela ia mostrar-lhe que não era assim pessoalmente. Cara a cara.

Duvidava que ele lhe agradecesse por isso.

— Eileen, preciso que Limerick me envie por fax aqueles números corrigi­dos antes do final do dia. — Atrás da secretária, Rogan verificava uma linha da lista, massajando a tensão acumulada na base do pescoço. — E gostaria de ver o relatório sobre a construção assim que chegar.

— Disseram que estaria cá ao meio-dia. — Eileen, uma morena ele­gante que geria o escritório de forma tão competente quanto o marido e os três filhos, tomou nota. — Tem uma reunião às duas horas com o Sr. Greenwald. É sobre as alterações no catálogo de Londres.

— Sim, não me esqueci. Ele vai querer martínis.

— Vodka, — corrigiu Eileen. — Com duas azeitonas. Acha bem uma tábua de queijos para não desfalecer?

— É melhor. — Rogan tamborilou os dedos na secretária. — Não ligaram de Clare?

— Nada de manhã. — Lançou-lhe um olhar rápido e curioso por cima dos óculos. — Tratarei de o informar assim que Miss Concannon li­gar.

Ele emitiu um som, o equivalente vocal de um encolher de ombros.

— Se não se importa, pode passar a chamada de Roma.

— É para já. Oh, e tenho na minha secretária o rascunho da carta para Inverness, caso a queira aprovar.

— Óptimo. E é melhor ligarmos para Boston. Que horas são lá? — Começava a verificar o relógio quando uma mancha colorida junto à porta o impediu. — Maggie.

— Sim. Maggie. — Com um trejeito, atirou a mala para o chão e apoiou os punhos fechados sobre as ancas. — Tenho de lhe dar uma pala­vrinha, Sr. Sweeney. — Amordaçou o mau génio o suficiente para acenar para a mulher que se levantava da cadeira à frente da secretária de Rogan.

— Você deve ser a Eileen.

— Sim. É um prazer conhecê-la finalmente, Miss Concannon.

— É muito simpática. Deixe-me dizer-lhe que me parece muitíssimo bem, para alguém que trabalha para um tirano. — Levantou a voz ao pro­ferir a última palavra.                                                                    

Eileen torceu os lábios. Pigarreou, fechando o bloco de estenografia. — É muito simpática. Precisa de mais alguma coisa, Sr. Sweeney?

— Não. Não me passe chamadas.

— Sim, senhor. — Eileen saiu, fechando a porta discretamente atrás dela.

— Então. — Rogan recostou-se na cadeira, batendo com a caneta na palma da mão. — Recebeste a minha mensagem.

— Recebi.

Ela atravessou a sala. Não, pensou Rogan, ela bamboleou-se pela sala, com as mãos ainda em punho sobre as ancas, os olhos dardejantes.

Não tinha vergonha de dizer que ficava com água na boca só de a ver.

— Quem, neste mundo, pensas que és? — Ela bateu com as palmas das mãos na secretária dele, abanando as canetas. — Assinei um contrato de trabalho contigo, Rogan Sweeney e sim, dormi contigo... para minha grande infelicidade. Mas nada disso te dá o direito de me dares ordens ou de me tratares mal a cada cinco minutos.

— Há dias que não falo contigo, — lembrou-lhe ele. — Então, como é que te posso ter tratado mal?

— Pelo horroroso do atendedor de chamadas... que eu atirei para o lixo ainda esta manhã.

Com muita calma, ele tomou nota no bloco.

— Não comeces.

— Só estou a anotar que precisas de substituir o atendedor de chama­das. Já vi que não tiveste problemas em arranjar voo.

— Não tive problemas? Só me tens trazido problemas desde o mo­mento em que entraste na minha casa vidreira. Só problemas. Achas que podes controlar tudo, não só o meu trabalho, o que já é suficientemente mau, mas a mim também? Estou aqui para te dizer que não podes fazer isso. Eu não... onde raio é que vais? Ainda não acabei.

— Não pensei que tivesses acabado. — Continuou na direcção da porta, trancando-a e voltando.

— Destranca a porta.

— Não.                                                                                                            

O facto de ele estar a sorrir quando voltou na direcção dela não aju­dou a acalmá-la. — Não me ponhas as mãos em cima.

— É o que vou fazer. Na verdade, estou prestes a fazer algo que nunca fiz nos doze anos que trabalho neste escritório.

O coração dela começou a bater mais depressa na garganta. — Não vais. Não.

Finalmente, pensava ele, conseguira chocá-la. Ficou a observar o olhar dela a desviar-se para a porta, para depois tentar impressioná-lo. — Podes vingar-te de mim só quando eu tiver acabado contigo.

— Acabado comigo? — Assim que ela lhe acertou com o punho fe­chado, ele já esmagava a boca de encontro à dela. — Larga-me, seu bruta­montes de mãos de presunto.

— Tu gostas das minhas mãos. — E usou-as para lhe puxar a camiso­la para cima. — Foste tu que me disseste.

— É mentira. Não vou permitir uma coisa destas, Rogan. — Mas a recusa terminou num gemido, assim que os lábios dele a ferver lhe per­correram o pescoço. Depois, — Vou deitar o tecto abaixo, de tanto gritar, — assim que recuperou o fôlego.

— À vontade. — Ele mordeu-a, não com muita meiguice. — Gosto quando gritas.

— Raios te partam, — murmurou ela e deixou-se ir quando ele a deitou no chão.            

Fora rápido e excitante, uma união frenética que acabara mal começara. Mas a rapidez não diminuíra a intensidade. Ficaram juntos por mais algum tempo, os membros ainda a vibrar. Rogan virou a cabeça para lhe depositar um beijo no maxilar.

— Ainda bem que passaste por cá, Maggie.

Ela reuniu as forças necessárias para lhe bater com o punho no om­bro. — Sai de cima de mim, seu bruto. — Tê-lo-ia empurrado, mas ele já se movia, arrastando-a com ele até ficar atravessada no colo dele.

— Está melhor?

— Do que o quê? — Ela sorriu, lembrando-se depois que estava furio­sa com ele. Empurrando-o, sentou-se no tapete e compôs a roupa. — Tens cá um descaramento, Rogan Sweeney.

— Por te ter arrastado para o chão?

— Não. — Puxou os jeans. — Seria idiota dizer isso, quando é óbvio que gostei.

— Bastante óbvio.

Ela lançou-lhe um olhar glaciar enquanto ele se levantava e lhe ofere­cia ajuda, estendendo a mão.

— Isso não faz sentido nenhum. Quem é que pensas que és, a dar-me ordens, a dizer-me o que fazer sem modos nenhuns?

Ele dobrou-se e levantou-a do chão. — Estás aqui, não estás?

— Estou aqui, sua besta, para te dizer que não vou tolerar uma coisa destas. Já passou quase um mês desde que saíste da minha porta todo contente,e...  

— Sentiste a minha falta.

Ela assobiou. — Não senti nada. Já tenho coisas que cheguem para me ocupar o tempo. Oh, endireita essa gravata idiota. Pareces um bêbedo.

Ele fez-lhe a vontade. — Sentiste a minha falta, Margaret Mary, ape­sar de não te dares ao trabalho de o dizer das vezes que consegui falar con­tigo ao telefone.

— Não gosto de falar ao telefone. Como achas que consigo dizer al­guma coisa a alguém que não estou a ver? E estás a mudar de assunto.

— Qual é o assunto? — Ele encostou-se confortavelmente à secretá­ria.

— Não recebo ordens de ninguém. Não sou um dos teus emprega­dos, é bom que te convenças disso. Anota nessa tua agenda de cabedal toda janota, caso te venhas a esquecer. Mas nunca mais voltes a dizer-me o que fazer. — Deixou sair um suspiro curto, de satisfação. — Agora que me fiz entender, vou à minha vida.

— Maggie. Se não tinhas intenção de ficar, porque é que trouxeste a mala?

Ele apanhara-a. Pacientemente, esperou até que a irritação, o desâni­mo e a confusão desaparecessem do rosto dela.

— Talvez tenha ideias de ficar em Dublin por um ou dois dias. Posso ir e vir sempre que me apetecer, ou não?

— Mmm. Trouxeste o passaporte?

Observou-o, prudente. — E se tiver trazido?

— Óptimo. — Ele andou à volta da secretária, sentando-se. — Assim ganhamos tempo. Pensei que tinhas sido teimosa e que o tivesses deixado em casa. Seria uma chatice voltar para ir buscá-lo. — Recostou-se, a sorrir. — Porque é que não te sentas? Queres que peça um chá à Eileen?

— Não me quero sentar e não quero chá nenhum. — Cruzando os braços, virou-lhe as costas e fitou o Georgia O'Keeffe pendurado na parede. — Porque é que não voltaste?

— Houve uma série de motivos. Primeiro, fiquei atolado em trabalho. Tive uma série de assuntos que quis resolver, para poder ter algum tempo livre depois. Segundo, quis afastar-me de ti por algum tempo.

— Oh, a sério? — Manteve os olhos presos nas cores fortes. — Ora vejam só.

— Por não querer admitir o quanto queria estar contigo. — Esperou, abanando a cabeça. — Estou a ver que não vou ter resposta. Nada do tipo também-queria-estar-contigo?

— Mas queria. Não que não tenha vida própria. Mas em certos mo­mentos estranhos, pensei que gostava de ter a tua companhia.

Parecia que ele tinha de se contentar com aquilo. — Estás prestes a consegui-la. Queres sentar-te, Maggie? Temos algumas coisas para conversar.

— Está bem. — Virou-se para ele, sentando-se à frente da secretária. Ele ficava perfeito ali, pensou. Digno, competente, no comando. Não se pa­recia nada com um homem que embarcava numa cambalhota selvagem no tapete do escritório. A ideia fê-la sorrir.

— O que foi?

— Estava só a imaginar o que a tua secretária deve estar a pensar, ali fora.

Ele ergueu a sobrancelha. — Tenho a certeza que presume que esta­mos a ter uma conversa de negócios civilizada.

— Hah! Pareceu-me uma mulher sensível, mas tu preferes acreditar nisso. — Satisfeita pela forma como os olhos dele se pregaram na porta, apoiou o tornozelo em cima do joelho. — Então, sobre que negócios é que vamos conversar?

— Ah... o teu trabalho tem sido excepcional nas últimas semanas. Como sabes, retivemos dez peças da primeira exposição com o objectivo de as levar em tournée no próximo ano. Gostava de ficar com algumas das tuas peças mais recentes em Dublin, mas o resto já está a caminho de Paris.

— Já me tinha dito a tua muito eficiente e muito sensível Eileen. — Começou a bater com os dedos no tornozelo. — Não me fizeste vir de Du­blin para te repetires, nem eu acho que me chamaste aqui para uma sessão de sexo escaldante no tapete do escritório.

— Pois não. Preferia ter discutido os planos contigo ao telefone, mas tu nunca te dás ao trabalho de devolver as minhas chamadas.        

— Não estive em casa a maior parte do tempo. Podes ter direitos ex­clusivos sobre o meu trabalho, mas não sobre mim, Rogan. Tenho vida pró­pria, como já te expliquei.

— Inúmeras vezes. — Conseguia sentir-se invadir pelo mau génio. — Não estou a interferir na tua vida. Estou a gerir a tua carreira. E com esse intuito, vou viajar para Paris e supervisionar a exposição, e a inau­guração.

Paris. Ainda nem sequer estava com ele há uma hora e já estava a falar em partir. Perturbada pelo ribombar do próprio coração, falou com aspereza. — É de admirar como é que manténs os negócios à tona, Rogan. Diria que podias contratar pessoas capazes de lidar com pormenores como esse, sem teres de controlar o que eles andam a fazer.

— Garanto-te que tenho pessoas muito competentes. Acontece que tenho imenso interesse no meu trabalho e que gosto de tratar pessoalmente desses pormenores. Quero que as coisas corram bem.

— O que significa que têm de ser feitas à tua maneira.

— Precisamente. E quero que venhas comigo.

O comentariozinho sarcástico que fugira da boca dela desvaneceu--se. — Contigo? Para Paris?

— Sei que provavelmente tens alguma objecção artística, ou até mo­ral, quanto à promoção do teu trabalho, mas saíste-te muito bem na inau­guração de Dublin. Seria vantajoso que aparecesses, nem que apenas por instantes, na tua primeira exposição internacional.

— A minha primeira exposição internacional, — repetiu ela, abisma­da, à medida que a frase se afundava na sua cabeça. — Eu não... eu não sei falar francês.

— Não há problema. Dás uma olhadela à galeria de Paris, lanças um pouco de charme e vais ter imenso tempo para ver a cidade. — Esperou pela resposta dela, mas a única coisa que teve foi um olhar vazio. — Então?

— Quando?

— Amanhã.

— Amanhã. — A primeira onda de pânico levou-a a pressionar a mão sobre o estômago. — Queres que vá contigo para Paris amanhã?

— A não ser que já tenhas algum compromisso inadiável.

— Não, não tenho.

— Então, está combinado. — O alívio foi quase brutal. — Depois de ficarmos satisfeitos com o êxito da inauguração de Paris, gostava que fosses comigo para sul.

— Para sul?

— Tenho uma vivenda no Mediterrâneo. Quero ficar a sós contigo, Maggie. Sem distracções, sem interrupções. Só tu.

Ela encontrou os olhos dele. — Estiveste a trabalhar sem parar estas semanas todas para poderes fazer isto?

— Sim.

— Não teria gritado contigo se mo tivesses explicado.

— Primeiro tive de o explicar a mim mesmo. Queres vir?

— Sim, irei contigo. — Ela sorriu. — Bastava perguntares.

Uma hora depois, ela entrou pela galeria adentro, mas parou e estremeceu de frustração por ter de esperar que Joseph acabasse de atender uma cliente. Enquanto ele esbanjava charme para uma mulher com idade para ser mãe dele, Maggie vagueou pela sala principal, reparando que a exposição dos índios americanos havia sido substituída por uma selecção de esculturas de metal. Intrigada pelas formas, perdeu o sentido de urgência, ao admirar as peças.

— Um artista alemão, — disse Joseph, atrás dela. — Este trabalho em especial parece-me ser tanto visceral quanto alegre. Uma celebração das forças elementares.

— Terra, fogo, água e a sugestão do vento na plumagem do cobre. — Ela fez uso de um sotaque afectado, para se assemelhar ao dele. — Bastante poderoso no escopro, mas com um mistério latente que sugere a sátira.

— E pode ser teu por apenas duas mil libras.

— Uma pechincha. Que pena não ter onde cair morta. — Virou-se, a rir, e beijou-o. — Estás com bom aspecto, Joseph. Quantos corações já partiste desde que te deixei?

— Nem um. Já sabes que o meu te pertence.

— Hah! Ainda bem para ambos que eu sei que és um tangas. — Tens um minuto?

— Para ti, dias. Semanas. — Beijou-lhe a mão. — Anos.

— Um minuto chega. Joseph, o que preciso de levar para Paris?

— Uma camisola preta justa, uma mini-saia e saltos bem altos.

— Há-de chegar o dia. A sério, estou de partida e não faço ideia do que vou precisar. Tentei falar com a Sra. Sweeney, mas ela hoje não está.

— Então, sou a tua segunda escolha. Que grande desgosto. — Fez sinal a um dos empregados para tomar conta da sala. — A única coisa que precisas em Paris, Maggie, é de um coração romântico.

— Onde é que o posso comprar?

— Já tens o teu. Não consegues escondê-lo de mim, já vi o teu traba­lho.

Ela fez uma careta, depois deu-lhe o braço. — Agora ouve, não ia confessar isto a qualquer um, mas nunca viajei. Em Veneza só tinha de me preocupar com os estudos e em não vestir nada que fosse inflamável. E em pagar a renda. Já que vou viajar para Paris, não quero fazer figura de parva.

— Nem penses. Vais com o Rogan, presumo, e ele conhece Paris tão bem como os locais. Só tens de ser um pouco arrogante, algo enfadada e vais-te adaptar lindamente.

— Vim ter contigo a pedir conselhos de moda. Oh, é humilhante admitir, mas não posso ir com este aspecto. Não que me queira pintar como um manequim, mas também não quero parecer a prima saloia do Rogan.

— Hmm. — Joseph levou o assunto a sério, passando-lhe a mão pelas costas para uma análise demorada e atenta. — Acho que vais bem como estás, mas...

— Mas?        

— Compra uma blusa de seda, bastante decotada, mas macia. Com cores vivas, minha menina, os pastéis não te ficam bem. Calças do mesmo género. Usa a intuição para as cores. Aposta nos contrastes. E aquela mini-­saia é o máximo. Tens aquele vestido preto?

— Não o trouxe comigo.

Estalou a língua, como uma tia solteirona. — Deves estar sempre preparada. Está bem, esquecemos esse, por isso desta vez aposta nas lante­joulas. Algo que ofusque o olhar. — Bateu na escultura junto a eles. — Es­tes tons metálicos ficam-te bem. Não queiras o clássico, prefere o arrojado. — Satisfeito com a imagem, acenou com a cabeça. — O que te parece?

— Confuso. Tenho vergonha de admitir que essas coisas são impor­tantes.

— Não há nisto nada de vergonhoso. É apenas uma questão de apre­sentação.

— Pode ser, mas agradecia que não falasses nisto ao Rogan.

— Considera-me teu confessor, querida. — Ele olhou por cima do ombro dela e Maggie viu a alegria inundar-lhe o olhar.

Patrícia entrara, hesitante, atravessando depois os ladrilhos brilhan­tes. — Olá Maggie. Não sabia que vinhas a Dublin.

— Nem eu. — Que mudança ocorrera? Perguntava-se Maggie. A tristeza sombria desvanecera-se, a reserva frágil. Foi preciso apenas um ins­tante, vendo a forma como os olhos de Patrícia faiscavam com os de Joseph, para ter a resposta. Aha, pensou. Então, o vento andava a soprar para estes lados.

— Desculpem interromper. Só queria dizer ao Joseph... — Patrícia parou de repente. — Ah, isto é, estava de passagem e lembrei-me daquele assunto que discutimos. A reunião das sete?

— Pois. — Joseph mergulhou as mãos nos bolsos para as manter lon­ge dela. — Das sete horas.

— Lamento, mas terá de ser às sete e meia. Tenho outra coisa combi­nada. Quis certificar-me que não ia perturbar a agenda.

— Vou ajustá-la.

— Óptimo. Isso é óptimo. — Ali ficou por momentos, fitando-o to­lamente antes de se lembrar de Maggie e das boas maneiras. — Vais ficar muito tempo na cidade?

— Na verdade, não, vou-me embora amanhã. — Com aquela elec­tricidade toda no ar, pensou Maggie, era de admirar que as esculturas não derretessem. — Para ser sincera, estou de partida agora.

— Oh, não, por favor, não te vás embora por minha causa. Tenho de ir andando. — Patrícia lançou mais um olhar demorado na direcção de Joseph. — Tenho pessoas à minha espera. Só queria... bom, adeus.

Maggie esperou um segundo. — Vais limitar-te a ficar aí? — Sibilou para Joseph, enquanto Patrícia se dirigia para a porta.

— Hmm? O quê? Dá-me licença. — Correu para a porta em dois segundos. Ela viu Patrícia voltar-se, corar, sorrir. Depois, caíram nos braços um do outro.

O coração romântico que Maggie renegava, inflamou-se. Esperou até Patrícia sair e Joseph ficar imóvel a olhar para ela, como se tivesse sido atin­gido por um raio.

— Com que então, o teu coração pertence-me, não é?

O olhar esgazeado desapareceu. — Ela é linda, não é?

— Sem dúvida.

— Já estava apaixonado por ela há tanto tempo, antes mesmo de ela se casar com o Robbie. Nunca pensei, nunca acreditei... — Riu-se um pou­co, ainda tonto de amor. — Pensei que gostava do Rogan.

— Também eu. Está na cara que a fazes feliz. — Deu-lhe um beijo na face. — Fico contente por ti.

— É que... estamos a tentar manter segredo. Pelo menos até... por uns tempos. A família dela... quase aposto que a mãe dela não me vai aprovar.

— A mãe dela que vá para o inferno.

— A Patrícia disse quase o mesmo. — Um sorriso assomou-lhe aos lábios só de se lembrar. — Mas não quero ser motivo de problemas. Por isso, gostava que não comentasses com ninguém.

— Nem com o Rogan?

— Trabalho para ele, Maggie. É meu amigo, sim, mas trabalho para ele. A Patrícia é viúva de um dos seus maiores amigos, uma mulher com quem ele próprio já saiu. Muita gente pensava que ela se casaria com ele.

— Não me parece que o Rogan fizesse parte desse grupo.

— Seja como for, prefiro ser eu a contar-lhe, quando chegar a altura certa.

— Tu é que sabes, Joseph. Tu e a Patrícia. Por isso, podemos trocar confidências.                                                                                    

— Fico-te muito agradecido.

— Não há necessidade disso. Se o Rogan for bota de elástico e desa­provar, é porque merece ser enganado.

 

 

                                       CAPÍTULO QUINZE

 

Paris era quente, sufocante e apinhada de gente. O trânsito era abominável. Carros, autocarros, motocicletas guinchavam, guinavam e aceleravam, os condutores debruçados, num desafio mútuo para duelos rodoviários inter­mináveis. Ao longo dos passeios, as pessoas andavam e ondulavam numa parada pedestre colorida. As mulheres que vestiam aquelas mini-saias que Joseph parecia apreciar tanto eram esguias, enfadadas e impossivelmente chiques. Os homens, igualmente na moda, observavam-nas das pequenas mesas dos cafés, onde beberricavam vinho tinto ou café puro bem forte.

Por todo o lado se viam flores — rosas, gladíolos, malmequeres, bocas-de-lobo, begónias saltando das bancas dos vendedores, despontando nas margens, jorrando dos braços de jovens raparigas, cujas pernas brilha­vam como lâminas ao Sol.

Os rapazes passavam de patins com metros de pão dourado a esprei­tar das sacolas. Amontoados de turistas apontavam máquinas fotográficas como se fossem metralhadoras que desfizessem a vista do obturador sobre a vida parisiense.

E havia cães. A cidade parecia um autêntico canil, passeando presos por trelas, fugindo pelos becos, correndo à frente das lojas. Até o rafeiro mais reles parecia exótico, maravilhosamente estrangeiro e arrogantemente francês.

Maggie absorvia tudo aquilo a partir da sua janela sobre a Place de la Concorde.

Estava em Paris. O ar repleto de sons e aromas, de luzes fortes. E o seu amante dormia como uma pedra na cama, atrás dela.                    

Ou assim pensava.

Há algum tempo que a via a estudar Paris. Ela debruçou-se da janela enorme, sem reparar na camisa de noite de algodão que lhe deslizava pelo ombro. Mostrara-se bastante indiferente para com a cidade quando che­garam na noite anterior. Os seus olhos pasmaram-se perante o exuberante lobby do Hôtel de Crillon, mas não tecera qualquer comentário quando fizeram o check-in.

Pouco mais dissera quando entraram na suite sumptuosa e sublime, afastando-se ao ver Rogan dar uma gorjeta ao bagageiro.

Quando ele lhe perguntou se o quarto lhe agradava, limitou-se a en­colher os ombros e a dizer que servia bem.                                    

Aquilo fê-lo rir e arrastá-la para a cama.

Mas ele reparava que, agora, ela já não estava tão blasé. Conseguia ver a plenitude do entusiasmo que a envolvia, enquanto observava a rua, absorvendo a vida pululante da cidade. Nada mais seria do seu agrado do que lhe oferecer Paris.

— Se te debruçares um pouco mais, és capaz de parar o trânsito.

Sobressaltou-se e, tirando o cabelo dos olhos, olhou para trás para onde ele estava deitado, entre os lençóis amarrotados e uma montanha de almofadas.

— Uma bomba não conseguiria parar aquele trânsito. Porque é que se querem matar uns aos outros?

— É uma questão de honra. O que achas da cidade à luz do dia?

— Está cheia de gente. Pior do que Dublin. — Depois enterneceu-se e sorriu para ele. — É amorosa, Rogan. Como uma velhota com mau feitio que quer levar a dela avante. Lá em baixo está um vendedor com um ocea­no de flores. E sempre que alguém pára para ver ou comprar, ele ignora as pessoas, como se perdesse a dignidade ao reparar que estão ali. Mas aceita o dinheiro delas e conta cada moeda.

Rastejou para a cama e espreguiçou-se em cima dele. — Sei exacta­mente como ele se sente, — murmurou ela. — Nada te torna mais irritadiço do que vender o que amas.

— Se ele não as vendesse, acabariam por morrer. — Ele pegou-lhe no queixo. — Se não vendesses o que amas, parte de ti também morre­ria.

— Bom, a parte que precisa de comer morreria com certeza. Vais chamar aqueles empregados chiques e pedir que nos tragam o pequeno-almoço?

— O que queres comer?

Os olhos dela dançaram. — Oh, tudo. A começar por isto... Levantou os lençóis e caiu em cima dele.

Algum tempo depois, ela saiu do chuveiro, embrulhando-se no luxuoso roupão branco que estava pendurado atrás da porta. Deu com Rogan sen­tado à mesa junto à janela da salinha, a servir café e a ler o jornal.

— O jornal está em francês. — Cheirou um cesto com croissants. — Lês francês e italiano?

— Mmm. — As sobrancelhas estavam concentradas no suplemento financeiro. Estava a pensar em ligar ao seu corretor.

— O que mais?                                                                

— O que mais o quê?

— O que mais é que lês... falas? Línguas, quero dizer.          

— Um pouco de alemão. O suficiente de espanhol para me safar.

— Gaélico?

— Não. — Voltou a página, passando os olhos pelas notícias dos lei­lões de artes. — E tu?

— A minha avó paterna falava, por isso aprendi. — Movimentava os ombros, inquieta, ao mesmo tempo que barrava geleia num croissant fumegante. — Não falo muito bem, excepto as asneiras. Não te conseguiria arranjar a melhor mesa num restaurante francês.

— Tem muito valor. Perdemos uma quantidade imensa do nosso pa­trimónio. — Ele pensava nessa questão com alguma frequência. — É uma pena que só existam alguns povoados na Irlanda onde se consegue ouvir falar irlandês. — Uma vez que aquilo o lembrara de uma ideia que andara a magicar, dobrou o jornal e pousou-o ao lado. — Diz alguma coisa em gaélico.

— Estou a comer.

— Diz alguma coisa para eu ouvir, Maggie, na língua antiga.

Ela emitiu um ligeiro som de impaciência, mas fez-lhe a vontade. Era musical, exótico e tão estranho para ele quanto o grego.

— O que é que disseste?

— Que o teu rosto é agradável de ver logo pela manhã. — Sorriu. — É uma língua tão útil para a sedução como para dizer asneiras, como vês. Agora diz-me tu alguma coisa em francês.

Ele fez mais do que falar. Debruçou-se, tocou os lábios ao de leve nos dela e murmurou, — Me réveiller à côté de toi, cést le plus beau de tous les rêves. — O coração dela deu uma volta longa e lenta no peito.

— O que quer dizer?

— Que acordar a teu lado é mais maravilhoso do que num sonho.

Ela baixou o olhar. — Bom. Parece que o francês é uma língua mais dada a sons bonitos do que o inglês corrente.

A sua reacção feminina rápida, espontânea, foi ao mesmo tempo di­vertida e sedutora. — Emocionei-te. Já devia ter tentado o francês há mais tempo.                                                                                   

— Não sejas parvo. — Mas ele de facto tinha-a emocionado, profun­damente. Ela combateu a fraqueza incómoda atacando a refeição. — O que é que estou comer?                          

— Ovos Benedict.

— É bom, — disse ela, com a boca cheia. — Um pouco pesado, mas bom. O que é que vamos fazer hoje, Rogan?

— Ainda estás a corar, Maggie.

— Não estou nada. — Ela lançou-lhe um olhar franzido, desafiador. — Gostava de saber quais são os planos. Imagino que desta vez os vais discutir comigo primeiro, em vez de te limitares a arrastar-me como um cão idiota.

— Estou a começar a ficar afeiçoado a essa víbora que chamas de língua, — comentou ele, agradavelmente. — Provavelmente estou a enlou­quecer. E antes que me voltes a morder, acho que ias gostar de conhecer um pouco da cidade. Sem dúvida que vais gostar do Louvre. Por isso, deixei a manhã livre para um passeio, ou compras, ou o que quiseres fazer. Depois, passamos pela galeria lá mais para o fim da tarde.

A ideia de penetrar no grande museu agradou-lhe. Voltou a encher a chávena de Rogan e aqueceu a sua chávena de chá. — Acho que me apetece passear. Quanto às compras, quero encontrar alguma coisa para oferecer à Brie.

— Também devias comprar alguma coisa para a Maggie.

— A Maggie não precisa de nada. Além disso, não tenho dinheiro.

— Isso é absurdo. Não deves negar-te a um ou dois presentes. Foste tu que o ganhaste.

— Já gastei o que ganhei. — Fez uma careta por cima da chávena. — Será que têm o desplante de chamar chá a isto?

— Já o gastaste, como? — Pousou o garfo. — Há cerca de um mês passei-te um cheque com seis algarismos. É impossível que já o tenhas es­banjado.

— Esbanjado? — Gesticulou perigosamente com a faca. — Pareço-te esbanjadora?

— Santo Deus, não.                    

— Então o que queres dizer com isso? Que não tenho gosto nem estilo para gastar bem o meu dinheiro?

Ele levantou a mão, num gesto apaziguador. — Não quer dizer nada disso. Mas se já gastaste o dinheiro que te dei, gostava de saber como.

— Não gastei nada, e para já não tens nada a ver com isso.

— Tenho a ver contigo. Se não conseguires gerir o teu dinheiro, posso fazê-lo por ti.

— Nem penses. Afinal, seu pomposo, forreta de um raio, o dinheiro é meu, não é? E já se foi, pelo menos a maior parte. Por isso, trata de vender o meu trabalho e de me arranjares mais.

— É precisamente isso que vou fazer. Agora, diz-me, onde o gastas­te?

— Gastei-o. — Furiosa, envergonhada, afastou-se da mesa. — Tenho despesas, ou não? Precisava de algum material e caí na patetice de comprar um vestido.

Ele entrelaçou as mãos. — Gastaste, num mês, quase duzentas mil libras em material e num vestido.

— Tinha de saldar uma dívida, — explodiu ela. — E porque é que tenho de ter dar explicações? Na porcaria do contrato, não diz nada sobre dar-te explicações sobre onde gasto o dinheiro.

— O contrato não tem nada a ver com isto, — disse ele, paciente, por conseguir perceber que era mais mortificação do que raiva o que a movia. — Estou-te a perguntar para onde foi o dinheiro. Mas é óbvio que não tens nenhuma obrigação legal de me contar.

O tom sensato que adoptara apenas espicaçou mais a humilhação dela. — Comprei uma casa à minha mãe, apesar de saber que nunca me vai agradecer por isso. E também tive de a mobilar, ou não? Senão, ela ainda levava tudo e mais alguma coisa da casa da Brianna. — Frustrada, passou ambas as mãos pelo cabelo e soltou-o em tufos selvagens. — E tive de con­tratar a Lottie, e tratar de lhes arranjar um carro. E vou ter de lhe pagar to­das as semanas, por isso dei à Brie o suficiente para seis meses de ordenado, para a comida, e coisas dessas. Depois, ainda paguei a hipoteca, apesar de saber que a Brie vai ficar furiosa quando descobrir que a paguei. Mas era obrigação minha, uma vez que o pai hipotecou a casa por minha causa. Por isso, está feito. Cumpri a promessa que lhe fiz e não admito que me venhas dizer o que devo ou não fazer com o meu dinheiro.

Começara a andar apressada pelo quarto enquanto falava, parando agora junto à mesa onde Rogan permanecia sentado, em silêncio, pacien­temente.

— Posso resumir? — Perguntou ele. — Compraste uma casa à tua mãe, mobilaste-a, compraste um carro e contrataste quem lhe fizesse com­panhia. Pagaste uma hipoteca, o que vai desagradar à tua irmã, mas que achas ser responsabilidade tua. Deste à Brianna o suficiente para sustentar a vossa mãe por seis meses, compraste materiais. E com o que sobrou, com­praste um vestido.

— Isso mesmo. Foi o que eu disse. Qual é o mal?

Ali ficou, a tremer de raiva, os olhos aguçados e brilhantes, prontos para a batalha. Ele podia, imaginava, dizer-lhe que admirava a sua incrível generosidade, a sua lealdade para com a família. Mas duvidava que ela apre­ciasse o esforço.

— Isso explica tudo. — Voltou a pegar no café. — Vou pedir que te façam um adiantamento.

Não tinha a certeza de conseguir falar. Quando o fez, a voz saiu como num assobio arriscado. — Não quero a porcaria do teu adiantamento. Não quero. Hei-de ganhar para o meu sustento.

— Mas isso já tu fazes... e bem. Não se trata de caridade, Maggie, nem mesmo de um empréstimo. É uma transacção de negócios pura e simples.

— Que se lixem os negócios. — Agora o seu rosto ficou cor-de-rosa, da vergonha. — Só posso aceitar um tostão que tenha sido ganho. Acabei de pagar as dívidas, não posso voltar a fazer o mesmo.

— Céus, como és teimosa. — Tamborilou os dedos na mesa, ao pen­sar na reacção dela, tentando compreender aquele aparato apaixonado. Se era de orgulho que tão desesperadamente precisava, ele podia ajudá-la a mantê-lo. — Muito bem, então vamos fazer isto de forma completamente diferente. Já tivemos bastantes ofertas pela Rendição, as quais recusei.

— Recusaste?

— Mmm. Acho que a última foi de trinta mil.      

— Libras! — A palavra explodiu da boca dela. — Ofereceram trinta mil libras pela peça e tu recusaste? Estás doido? Para ti, pode parecer uma ninharia, Rogan Sweeney, mas eu podia viver fartamente desse dinheiro por mais de um ano. Se é assim que geres...

— Cala-te. — E por tê-lo dito de forma tão casual, tão despreocupa­da, ela acedeu. — Recusei a oferta porque queria comprar eu a peça, depois de a levarmos na tournée. Simplesmente, vou comprá-la agora e vai seguir na tournée como parte integrante da minha colecção particular. Fechamos a trinta e cinco mil.

Mencionou o montante como se fossem trocos casualmente largados numa secretária.

Algo dentro dela estremecia como o coração de um pássaro assusta­do. — Porquê?

— Eticamente, não a posso comprar para mim pela mesma quantia oferecida por um cliente.

— Não, quero saber porque é que a queres?                      

Ele cessou os cálculos mentais e levantou o olhar para ela. — Porque é um trabalho lindo e íntimo. E porque sempre que o vejo, lembro-me da primeira vez que fiz amor contigo. Não a querias vender. Achas que não vi isso na tua cara no dia em que ma mostraste? Achas mesmo que não perce­bi o quanto te doeu teres de abdicar dela?

Incapaz de falar, ela limitou-se a abanar a cabeça e afastou-se.

— Era minha, Maggie, mesmo antes de teres acabado. Tanto, parece-me, quanto era tua. E mais ninguém há-de ficar com ela. Nunca quis que outra pessoa a comprasse.

Ainda em silêncio, caminhou até à janela. — Não quero que me pa­gues por ela.        

— Não sejas absurda...

— Não quero o teu dinheiro, — disse ela, ansiosa, enquanto podia. — Tens razão... a peça é muito especial para mim, e gostava muito que a aceitasses. — Soltou um sopro longo, a olhar intensamente através do vidro. — Gostava de saber que é tua.

— Nossa, — disse ele num tom que a fez colar o olhar ao dele, como um íman. — Como estava destinado que fosse.

— Nossa, então. — Suspirou. — Como é que posso ficar zangada contigo? — Perguntou ela, baixinho. — Como é que posso resistir ao efeito que exerces sobre mim?

— Não podes.                

Ela receava que ele conseguisse resistir. Mas pelo menos podia mar­car pontos quanto a um assunto de somenos importância. — Agradeço-te por me ofereceres um adiantamento, mas não quero. É importante para mim ficar apenas com o fruto do meu trabalho, quando o terminar. O que tenho chega bem. Por agora, isso é suficiente. Já foi feito o que era necessá­rio. A partir de agora, o que vier será para mim.                

— É apenas dinheiro, Maggie.

— É muito fácil falar quando tens mais do que alguma vez precisaste. — Os nervos na voz dela, tão parecida com a da mãe, fizeram-na parar, gelada. Respirou fundo e deixou sair o que guardava no coração. — Na mi­nha casa, o dinheiro era como uma ferida aberta... a falta dele, a habilidade que o meu pai tinha para o perder, a minha mãe constantemente a exigir mais. Não quero depender de libras para ser feliz, Rogan. Assusta-me e fico envergonhada ao pensar que isso pode acontecer.

Então, pensou ele enquanto a estudava, era por isso que lutara com ele este tempo todo. — Não me disseste uma vez que não pegavas no tubo todos os dias a pensar no lucro que te podia dar na outra extremidade?

— Sim, mas...                  

— Pensas nisso agora?                                                        

— Não. Rogan...                                              

— Estás a lutar contra fantasmas, Maggie. — Levantou-se para ir ter com ela. — A mulher que és já decidiu que o futuro será diferente do pas­sado.                        

— Não posso andar para trás, — murmurou ela. — Mesmo se quises­se, não podia andar para trás.

— Não, não podes. Vais sempre andar para a frente. — Beijou-a ao de leve na sobrancelha. — Agora, vais-te vestir, Maggie? Deixa-me dar-te Paris.

Foi o que fez. Durante quase uma semana deu-lhe tudo o que a cidade tinha para oferecer, desde a magnificência de Notre Dame até à intimidade dos cafés sombrios. Comprou-lhe flores do vendedor ambulante pouco falador todas as manhãs, até a suite cheirar a jardim. Passearam junto ao Sena, ao luar, Maggie de sapatos na mão e a brisa do rio a afagar as faces. Dançaram em discotecas ao som de música americana pouco comercial e jantaram manjares e vinhos gloriosos no Maxime.

Ela observou-o a examinar atentamente a arte de rua, sempre à pro­cura de outro diamante em bruto. Apesar de ele franzir o sobrolho quando ela comprou um quadro de péssima qualidade da Torre Eiffel, ela limitou-se a rir e a dizer que a arte estava na alma, não só na execução.

As horas que passou na galeria de Paris foram igualmente excitantes para ela. Enquanto Rogan encomendava, dirigia e dispunha, ela via o seu trabalho a resplandecer sob os seus olhos vigilantes.

Era um investimento, dissera ele. Ela não podia negar que ele cui­dava bem dos seus interesses. Mostrava-se tão apaixonado e atencioso com a arte dela durante aquela tarde quanto com o corpo dela durante as noites.

Quando terminou e a última peça foi colocada a brilhar debaixo dos projectores, ela pensou que a exposição era, sem dúvida, resultado do esfor­ço dele tanto quanto fora do dela.

Mas a parceria nem sempre significava harmonia.

— Bolas, Maggie, se vais continuar fechada aí muito mais tempo, va­mos chegar atrasados. — Pela terceira vez em largos minutos, Rogan batia à porta do quarto, que ela trancara.

— E se me continuas a chatear, ainda nos vamos atrasar mais, — gri­tou ela. — Vai-te embora. Ou melhor ainda, vai andando sozinho para a galeria. Posso ir lá ter quando estiver pronta.

— Não és de confiar, — murmurou ele, mas os ouvidos dela estavam bem apurados.

— Não preciso de ama-seca, Rogan Sweeney. — Estava sem fôlego de lutar para chegar ao fecho do vestido, lá em baixo. — Nunca vi um homem tão dominado pelos ponteiros do relógio.

— E eu nunca vi uma mulher mais desatenta às horas. Queres des­trancar a porta? É muito irritante estar para aqui a gritar.

— Está bem, está bem. — Quase deslocando o braço, conseguiu aper­tar o vestido. Enfiou os pés nuns ridículos sapatos com saltos de bronze, amaldiçoou-se por ser tola o suficiente para aceitar os conselhos de Joseph. E girou a chave no trinco. — Não tinha demorado tanto tempo se fizessem roupa feminina com a mesma consideração com que fazem a dos homens. Os vossos fechos são fáceis de alcançar. — Parou, ajeitando a bainha curta do vestido. — Então? Achas que estou bem?

Ele não disse nada, limitando-se a girar os dedos para indicar que queria que ela desse uma volta. Revirando os olhos para o céu, ela acedeu.

O vestido não tinha alças, quase sem costas, com uma saia que subia sedutoramente até meio da coxa. Brilhava, bronze, cobre, dourado, com faíscas fogosas a cada fôlego. O cabelo espelhava o tom, de modo a que ela parecesse a chama de uma vela, esguia e brilhante.

— Maggie. Cortas-me a respiração.

— A costureira não foi muito generosa com o material.

— Admiro o teu sentido de poupança.

Como ele não parava de olhar, ela ergueu as sobrancelhas. — Disseste que estávamos com pressa.

— Mudei de ideias.

Ergueu ainda mais as sobrancelhas quando ele avançou na direcção dela. — Estou-te a avisar, se me obrigares a tirar o vestido, a responsabilida­de de voltar a entrar nele será tua.

— Por mais sedutora que seja essa imagem, vai ter de esperar. Tenho um presente para ti e parece que o destino guiou a minha mão. Acho que isto vai combinar bem com o teu vestido.

Procurou no bolso de dentro do smoking e tirou uma caixa de veludo fininha.

— Já me compraste um presente. Aquele enorme frasco de perfume.

— Esse era para mim. — Inclinou-se para cheirar o seu ombro nu. O perfume fumado podia ter sido criado a pensar nela. — Sem dúvida que foi para mim. Este é para ti.

— Bom, uma vez que é demasiado pequeno para ser outro atendedor de chamadas, vou aceitar. — Mas quando abriu a caixa, o esgar morreu-lhe na garganta. Rubis, quadrados flamejantes deles, rodeados de diamantes brancos ardentes, num colar de três voltas apertado por torcidos de ouro cintilante. Não era nenhuma ninharia delicada, mas sim um clarão ousado, um clarão relampejante de cor, calor e brilho.

— Algo que te lembre Paris, — disse Rogan enquanto o retirava da caixa. O colar escorreu como sangue e água pelos dedos dele.

— São diamantes, Rogan, não posso usar diamantes.

— Claro que podes. — Levou-lho ao pescoço, os olhos fixos nos dela enquanto apertava o fecho. — Sozinhos, talvez não. Pareceriam frios e não te iam ficar bem. Mas com as outras pedras... — Recuou para assimilar o efeito. — Sim, está perfeito. Pareces uma deusa pagã.

Ela não parava de levar a mão lá acima, de a passar pelas pedras pre­ciosas. Sentia-as quentes de encontro à pele. — Não sei o que te dizer.

— Diz obrigada, Rogan. É lindo.

— Obrigada, Rogan. — O sorriso dela aflorou e espalhou-se. — É muito mais do que apenas lindo. É maravilhoso.

— Tal como tu. — Debruçou-se para a beijar, e depois deu-lhe uma palmada no traseiro. — Agora, vamos a despachar, senão vamos chegar atrasados. Onde está o teu agasalho?

— Não tenho nenhum.

— Típico, — murmurou, empurrando porta fora.                      

Maggie achava que estava a lidar com a segunda inauguração com muito mais ligeireza do que lidara com a primeira. O estômago já não dava tantas voltas, o seu mau génio estava menos vincado. Se uma ou duas vezes pen­sou em fugir, ocultou-o bem.

Se por acaso se consumia com algo que não podia ter, lembrava-se que por vezes o sucesso tinha de ser suficiente, só por si.

— Maggie.

Virou-se de costas para as divagações de sotaque acentuado de um francês, cujos olhos raramente haviam deixado o seu decote, para fitar es­tupefacta a irmã:

— Brianna?

— Podes crer. — A sorrir, Brianna envolveu a irmã espantada num abraço. — Já devia cá estar há uma hora, mas houve um atraso no aeropor­to.

— Mas como? Como é que vieste até aqui?

— O Rogan mandou o avião buscar-me.

— Rogan? — Assoberbada, Maggie examinou a sala até o encontrar. Ele apenas sorriu para ela, depois para Brianna, antes de voltar a atenção para uma mulher enorme coberta de rendas fúchsia. Maggie levou a irmã para um canto da sala. — Vieste no avião do Rogan?

— Já achava que te ia decepcionar outra vez, Maggie. — Mais do que levemente assoberbada pela visão do trabalho de Maggie a cintilar num salão cheio de estranhos exóticos, Brianna deslizou a mão, pegando na da irmã. — Tentei imaginar como conseguir vir cá ter. A mãe está bem com a Lottie, claro, e sabia que podia deixar o Con com o Murphy. Até perguntei à Sra. McGee se não se importava de tomar conta do Espinheiro Negro por um ou dois dias. Mas ainda faltava o meio de transporte.

— Quiseste vir, — disse Maggie, baixinho. — Quiseste vir.

— Claro que quis. Não queria mais nada a não ser estar contigo. Mas nunca imaginei que fosse assim. — Brie fitava o empregado de casaco bran­co, que lhe oferecia champanhe numa bandeja de prata. — Obrigada.

— Não pensei que fosse importante para ti. — Para limpar as emo­ções da garganta, Maggie bebeu profundamente. — Estava mesmo agora aqui a pensar que gostava que te importasses.

— Tenho orgulho em ti, Maggie, muito orgulho. Já te tinha dito.

— Não acreditei em ti. Oh Deus. — Sentiu as lágrimas a subirem e, pestanejando, afastou-as furiosamente.

— Devias ter vergonha, com tão pouca consideração pelos meus sen­timentos, — brincou Brie.

— Nunca mostraste grande interesse, — ripostou Maggie.

— Mostrei todo o interesse que podia. Não percebo o que fazes, mas isso não significa que não tenha orgulho por o fazeres. — Serena, Brianna inclinou a taça, bebendo. — Oh, — murmurou, olhando para o vinho borbulhante, — mas é maravilhoso. Quem haveria de pensar que algo teria este sabor?

Com uma gargalhada espontânea, Maggie beijou a irmã com força na boca. — Jesus nos salve, Brie, o que é que estamos aqui a fazer? As duas a beber champanhe em Paris?

— Eu cá tenciono aproveitar bem. Tenho de agradecer ao Rogan. Achas que o posso interromper por instantes?

— Só depois de me contares o resto. Quando é que lhe telefonaste?

— Não telefonei, foi ele que ligou. Há uma semana.

— Ele ligou-te?

— Sim, e antes de lhe conseguir dar os bons-dias, já ele me estava a dizer o que devia fazer e como.

— O Rogan é assim.

— Disse que ia mandar o avião e que eu devia ir ter com o motorista dele ao aeroporto, em Paris. Tentei dizer alguma coisa, mas ele enrolou-me. O motorista depois levava-me para o hotel. Alguma vez tinhas visto um sítio assim, Maggie? Parece um palácio.

— Quase engoli a língua quando entrei. Continua.

— Depois, devia arranjar-me e o motorista trazia-me até aqui. E foi o que fez, apesar de eu achar que me ia matar pelo caminho. E tinha isto no quarto do hotel, com um bilhete dele a dizer que ia gostar muito se eu o vestisse. — Passou com a mão pelo fato de noite de seda azul fumado, que trazia vestido. — Não ia aceitar, mas ele pediu de uma forma tão especial que me ia sentir mal-educada se não aceitasse.

— Ele é bom nisso. E ficas linda com ele.

— Sinto-me linda dentro dele. Confesso que a minha cabeça ainda está às voltas dos aviões e dos carros, e de tudo isto. Tudo isto, — repetiu, olhando à volta da sala. — Estas pessoas, Maggie, estão todas aqui por tua causa.

— Ainda bem que tu estás. Queres dar uma volta para os poderes encantar, por mim?

— Já estão encantados, basta olhar para vocês duas. — Rogan chegou junto delas e pegou na mão de Brianna. — É um prazer vê-la de novo.

— Obrigada por ter tratado de tudo. Nem sei como lhe hei-de agra­decer.

— Acabou de o fazer. Não se importa que a apresente às pessoas? O Sr. LeClair... ali, o homem de aspecto algo flamejante, junto ao Momentum da Maggie? Acaba de me confessar que se apaixonou por si.

— É óbvio que se apaixona com facilidade, mas terei muito gosto em conhecê-lo. Também gostava de dar uma olhadela por aí. Nunca vi o traba­lho da Maggie exposto desta forma.

Passaram apenas alguns minutos até Maggie conseguir chamar Rogan à parte outra vez. — Não me digas que tenho de circular, — disse ela antes mesmo que ele o fizesse. — Preciso de te dizer uma coisa.

— Desde que o digas depressa. Não me fica bem monopolizar a ar­tista.

— Não vou demorar a dizer-te que este foi o gesto mais lindo que alguém já fez por mim. Nunca o vou esquecer.

Ele ignorou a distracção do francês rápido que uma mulher proferia por cima do ombro dele e levou a mão de Maggie aos lábios. — Não te queria ver infeliz de novo, e foi muito simples tratar da vinda de Brianna até cá.

— Pode ter sido simples. — Lembrava-se do artista andrajoso com que ele subira a escadaria elegante da galeria. Isso também havia sido sim­ples. — Não é por isso que é menos generoso. E para te mostrar o que sig­nifica para mim, não só vou ficar aqui a noite toda, até o último convidado passar por aquela porta, mas também vou falar com cada um deles.

— Com simpatia?

— Com simpatia. Não importa quantas vezes vou ouvir a palavra vis­ceral.                                                                                   

— Linda menina. — Beijou-lhe a ponta do nariz. — Agora vai tra­balhar.

 

 

                           CAPÍTULO DEZASSEIS

 

Se Paris a havia deixado deslumbrada, o sul de França com as imensas praias e as montanhas cobertas de neve deixaram-na estupefacta. Não ha­via o burburinho do trânsito, ali na vivenda resplandecente de Rogan so­branceira às adormecidas águas azuis do Mediterrâneo, sem multidões a correr para as lojas e os cafés.

As pessoas que preenchiam a praia de pequenos pontos faziam parte do quadro que envolvia a água e a areia, barcos a baloiçar e um céu inter­minável e sem nuvens.

O campo, que ela conseguia ver de um dos muitos terraços que em­belezavam a vivenda, espraiava-se em impecáveis latifúndios quadrados, separados por muros de pedra como os que ela via da sua porta, em Clare. Mas ali, o chão elevava-se nas encostas em socalcos, dos pomares em repre­sas solarengas ao verde mais alto das florestas e aos sopés dos magníficos Alpes.

O terreno de Rogan era abundante de flores e ervas aromáticas a des­pontar, exótico com oliveiras e buxos e o reluzir das fontes. O sossego só era perturbado pelo clamor das gaivotas e pela música da água a quebrar na areia.

Satisfeita, Maggie deleitava-se deitada numa das chaises almofadadas, num terraço banhado pelo Sol, a fazer esboços.

— Imaginei que te ia encontrar aqui. — Rogan saiu para o terraço, depositando um beijo, casual e íntimo, no alto da cabeça dela.

— É impossível ficar lá dentro num dia como este. — Ela esticou-se na direcção dele até que ele pegou nos óculos de sol que ela atirara para cima da mesa, fazendo-os deslizar pelo nariz dela. — Já acabaste o que es­tavas a fazer?

— Por agora. — Ele sentou-se ao lado dela, ajeitando-se para não lhe tapar a vista. — Desculpa ter demorado tanto. Parecia que um telefonema ia dar a outro.                                                                

— Não faz mal. Gosto de estar sozinha.

— Já reparei. — Ele espreitou o bloco de notas. — Uma paisagem marítima?

— É irresistível. E pensei em desenhar um pouco da paisagem, para que a Brie pudesse ver. Ela adorou estar em Paris.

— Lamento que ela só tenha ficado um dia.

— Um dia lindo. Nem posso acreditar que passeei pela Margem Es­querda com a minha irmã. As irmãs Concannon em Paris. — Ainda se ria só de pensar nisso. — Ela não se vai esquecer, Rogan. — Colocando o lápis atrás da orelha, Maggie pegou na mão dele. — E eu também não.

— Já me agradeceram, as duas. A verdade é que só fiz alguns telefo­nemas. Por falar nisso, o que me monopolizou até agora era de Paris. — Es­ticando o braço, Rogan escolheu uma uva cristalizada do cesto de frutas diante deles. — Recebi uma oferta, Maggie, do Conde de Lorraine.

— De Lorraine? — Com os lábios cerrados, procurou na memória. — Ah, o velhote magrinho, de bengala, que falava baixinho.

— Sim. — Rogan divertia-se ao ouvi-la descrever um dos homens mais ricos de França como um velhote magrinho. — Ele gostaria de te en­comendar um presente para o casamento da neta, em Dezembro próximo.

Os quadris dela levantaram-se por instinto. — Não aceito encomen­das, Rogan. Desde o início que deixei isso bem claro.

— Pois foi. — Rogan tirou outra uva e colocou-a na boca de Maggie, para que se calasse. — Mas a minha obrigação é informar-te dos pedidos que surjam. Não estou a sugerir que concordes, apesar de ser uma grande mais valia para ti, e para a Worldwide. Estou simplesmente a cumprir os meus deveres enquanto teu agente.

A fitá-lo, Maggie engoliu a uva. O seu tom de voz, reparara ela, estava tão coberto de açúcar quanto a uva. — Não vou fazê-lo.

— A decisão é tua, naturalmente. — Com um gesto, fez menção de esquecer o assunto. — Queres que toque a pedir algo fresco para bebe/? Talvez uma limonada, ou chá gelado?

— Não. — Maggie tirou o lápis da orelha e bateu com ele no bloco. — Não estou interessada em encomendas personalizadas.

— E porque estarias? — Respondeu ele, sensato. — A tua exposição de Paris teve tanto êxito quanto a de Dublin. Tenho a certeza que assim vai continuar em Roma, e assim por diante. Já estás bem lançada, Margaret Mary. — Baixou-se e beijou-a. — Não que o pedido do conde tenha alguma coisa que ver com encomendas personalizadas. Ele está disposto a deixar tudo nas tuas mãos.

Cautelosa, Maggie puxou os óculos para baixo e estudou-o por cima deles. — Estás a tentar convencer-me com falinhas mansas.

— Nada disso. — Mas, é claro, que estava. — No entanto, é melhor acrescentar que o conde, que por acaso é um connaisseur de arte bastante respeitado, está disposto a pagar generosamente.

— Não estou interessada. — Voltou a colocar os óculos no sítio, pra­guejando em seguida. — Generosamente, quanto?

— Mais ou menos o equivalente a cinquenta mil libras. Mas sei como és intransigente em relação ao dinheiro, por isso não penses mais nisso. Disse-lhe que era improvável que estivesses interessada. Queres ir até à praia? Dar um mergulho?

Antes que ele se levantasse, Maggie agarrou-o pelo colarinho. — Oh, saíste-me cá um dissimulado, não é, Sweeney?

— Quando é preciso.

— E eu é que escolho o que fazer? O que me apetecer?

— Claro. — Passou o dedo pelo seu ombro nu, que estava a começar a adquirir a tonalidade de um pêssego ao sol. — Excepto...

— Ah, lá vamos nós.

— Azul, — disse o Rogan, sorrindo. — Ele quer azul.

— Azul, dizes tu? — Uma gargalhada começou a estremecer dentro dela. — Algum tom em especial?

— Igual aos olhos da neta dele. Ele alega que são de um azul igual a um céu de verão. Parece que ela é a sua favorita e depois de ver o teu tra­balho em Paris, só ia ficar satisfeito se fizesses algo só para ela com as tuas próprias mãos maravilhosas.

— Essas palavras são dele ou tuas?

— Um pouco de ambos, — respondeu Rogan, beijando uma das suas mãos maravilhosas.

— Vou pensar nisso.

— Tinha esperança que o fizesses. — Deixando de se preocupar em tapar-lhe a vista, debruçou-se para lhe mordiscar os lábios. — Mas pensa nisso mais tarde, está bem?

— Excusez-moi, monsieur. — Um empregado de feições meigas apa­receu na ponta do terraço, as mãos caídas junto ao corpo e os olhos discre­tamente direccionados para o mar.

— Oui, Henri?                                                                    

— Vous et mademoiselle, voudriez-vous déjeuner sur Ia terrasse maintenant?

— Non, nous allons déjeuner plus tard.

— Três bien, monsieur. — Henri desapareceu, silencioso como uma sombra, para dentro de casa.                                          

— O que é que ele queria? — Perguntou Maggie.

— Queria saber se queríamos almoçar. Eu disse que comíamos mais tarde. — Quando Rogan começou a inclinar-se outra vez, Maggie impediu-o com uma mão de encontro ao peito dele. — Algum problema? — Mur­murou Rogan. — Posso voltar a chamá-lo e dizer que afinal podemos co­mer já.                                

— Não, não quero que o chames. — Ficava desconfortável ao pensar no Henri, ou em quaisquer outros empregados, escondidos a um canto, à espera para servir. Serpenteando, levantou-se da chaise. — Nunca queres estar sozinho?

— Nós estamos sozinhos. Foi exactamente por isso que te quis trazer para cá.

— Sozinhos? Deves ter seis pessoas em frenesim pela casa. Jardinei­ros e cozinheiros, criadas e mordomos. Se estalasse os dedos agora mesmo, um deles ia aparecer a correr.

— É exactamente esse o objectivo de ter empregados.

— Bom, eu não os quero. Sabes que uma daquelas empregadinhas quis lavar a minha roupa interior?

— Porque a função dela é cuidar de ti, não por querer bisbilhotar as tuas gavetas.

— Eu posso cuidar de mim. Rogan, quero que os mandes embora. A todos.

Ao ouvir aquilo, levantou-se. — Queres que despeça a criadagem?

— Não, por amor dos santos, não sou nenhum monstro, a despejar pessoas inocentes para o meio da rua. Quero que os dispenses, só isso. De férias, ou o que lhe quiserem chamar.

— É claro que posso dar um dia de folga ao pessoal, se é isso que queres.

— Um dia não, a semana toda. — Soprou, ao ver como ele estava confuso. — Para ti não faz sentido nenhum, e porque é que faria? Estás tão habituado a eles que nem os vês.

— Ele chama-se Henri, o cozinheiro é o Jacques, a criada que tão amavelmente se ofereceu para lavar a tua lingerie é a Marie. — Ou, quem sabe, pensou ele, Monique.

— Não quero armar discussão. — Ela avançou, com as mãos a pro­curar as dele. — Não consigo descontrair-me como tu, com todas estas pes­soas a andar de um lado para o outro. Não estou habituada a isto... nem me parece que o queira fazer. Faz isto por mim, por favor, Rogan. Dá-lhes uns dias de folga.

— Espera aqui um instante.

Quando ele se afastou, ela ficou sozinha no terraço, a sentir-se idio­ta. Ali estava ela, pensava, a espreguiçar-se num vivenda do Mediterrâneo com tudo aquilo que podia desejar ao alcance da mão. E mesmo assim, não estava satisfeita.

Ela mudara, apercebera-se. Nos curtos meses em que conhecia Ro­gan, mudara. Agora não só desejava mais, como cobiçava mais daquilo que não tinha. Queria a calma e o prazer que o dinheiro trazia, e não só para a sua família. Queria para si também.

Usara diamantes e dançara em Paris.

E queria voltar a fazê-lo.

Sim, bem lá no fundo, permanecia aquela necessidade palpitante de ser apenas ela própria, de não precisar de nada nem de ninguém. Se perdes­se isso, pensou Maggie com um certo pânico, haveria de perder tudo.

Foi buscar o bloco de esboços, desfolhando as páginas. Mas, por um instante, um aterrador instante, a mente dela ficou tão em branco quanto a folha à sua frente. Depois, começou a desenhar freneticamente, com uma intensidade violenta, expulsa de dentro dela como uma rajada de vento.

Desenhou-se a si mesma. As duas partes, enroladas uma na outra, tentavam separar-se para os lados para se tentarem unir depois, em deses­pero. Mas como poderiam fazê-lo, se uma era tão oposta à outra?

Arte apenas pela arte, solidão pela sanidade, independência pelo or­gulho. E do outro lado — ambição, ânsias e necessidades.

Fitou o esboço acabado, estupefacta por aquilo ter saído de dentro de si de forma tão fluida. E agora que saíra, ela sentia-se estranhamente calma. Talvez fossem aquelas duas forças opostas que faziam dela quem era. E talvez, se ela algum dia estivesse mesmo em paz, ela fosse menos do que poderia ser.

— Já se foram embora.

Com a mente ainda a divagar, os olhos vazios fixaram-se em Rogan. — O quê? Quem é que se foi embora?

Meio a rir, ele abanou a cabeça. — A criadagem. Era o que tu querias, não era?

— A criadagem? Oh. — A mente desanuviou-se, assentando. — Dis­pensaste-os? A todos?

— Sim, apesar de só Deus saber como é que vamos comer nos próxi­mos dias. Ainda assim... — Ele cedeu, quando ela saltou para os seus bra­ços. Como se ela tivesse saído disparada como uma bala, ele atirou-se para trás, equilibrando-se para que não se enfiassem pela porta de vidro biselado atrás dele, quase atirando-os por cima do parapeito.

— És um homem maravilhoso, Rogan. Um homem principesco.

Ele virou-a nos seus braços e olhou assustado para o declive sobre o parapeito. — Quase me tornei num homem morto.                    

— Estamos sozinhos? Completamente?

— Estamos, e ganhei a eterna gratidão de todos, a começar pelo mor­domo. A empregada de quarto chorou de alegria. — Como ele achou que faria, com o bónus de férias que lhe dera, bem como ao resto dos emprega­dos. — Agora foram todos para a praia ou para o campo, ou para onde quer que os seus corações os levem. E temos a casa toda só para nós.

Ela beijou-o, com força. — E estamos prestes a usar cada centímetro dela. Podemos começar por aquele sofá no quarto, ali mesmo.

— Ai sim? — Divertido, ele não protestou quando ela começou a de­sabotoar-lhe a camisa. — Estás cheia de exigências hoje, Margaret Mary.

— A história dos criados foi um pedido. O sofá é uma exigência.

Ele franziu o sobrolho. — A chaise está mais perto.

— Pois está. — Ela riu-se enquanto ele a deitava. — Pois está.

Nos cinco dias que se seguiram, apanharam banhos de sol no terraço, pas­searam na praia ou deram umas braçadas ociosas na piscina, que mais pa­recia uma lagoa, embalados pela música das fontes. Comiam refeições mal confeccionadas na cozinha e à tarde davam passeios pelo campo.

Também havia, segundo Maggie, demasiados telefones.

Deviam estar a desfrutar de umas férias, mas Rogan tinha sempre os negócios à distância de um telefone ou de um fax. Primeiro era qualquer coisa sobre uma fábrica em Limerick, depois algo sobre um leilão em Nova Iorque, e sussurros ininteligíveis sobre uma propriedade que andava à pro­cura para adicionar outra filial às Galerias Worldwide.

Aquilo podia tê-la aborrecido, se não tivesse começado a ver o traba­lho dele como parte da sua identidade, tanto quanto o trabalho dela fazia parte de si. Diferenças à parte, ela não podia reclamar por ele passar uma ou duas horas fechado no escritório, quando ele aceitava facilmente que ela ficasse absorta nos seus esboços.

Se ela acreditasse que um homem e uma mulher podiam encontrar o tipo de harmonia necessária para durar uma vida inteira, até podia acredi­tar que a encontrara com Rogan.                                                  

— Deixa-me ver o que fizeste.

Com um bocejo de satisfação, Maggie entregou-lhe o livro de esbo­ços. O Sol estava a pôr-se, as cores desmaiadas a varrer o céu ocidental. Entre eles, a garrafa de vinho que ele escolhera na adega, aninhada num balde de prata cheio de gelo. Maggie ergueu o copo, bebeu e recostou-se para apreciar a sua última noite em França.

— Vais andar ocupada quando chegares a casa, — comentou Rogan enquanto estudava cada esboço. Como é que vais escolher aquele em que vais trabalhar primeiro?

— Será ele a escolher-me. Por mais que goste deste ócio todo, estou em pulgas para voltar e acender a fornalha.

— Posso mandar emoldurar os que fizeste para a Brianna. Estão bastante bons, para esboços simples a carvão. Gosto especialmente... — Hesitou, ao virar a página e deparar-se com algo completamente dife­rente de um esboço do mar ou de uma paisagem. — E o que é que temos aqui?

Quase demasiado preguiçosa para se mover, ela deu uma olhadela. — Oh, sim, esse. Não costumo fazer retratos, mas esse foi irresistível.

Era ele, deitado em cima da cama, o braço pendurado como se esti­vesse à procura de alguma coisa. À procura dela.

Tomado de surpresa e não muito satisfeito, franziu o sobrolho ao ver o esboço. — Desenhaste isto quando eu estava a dormir.

— Bom, não te queria acordar e estragar o momento. — Escondeu o riso atrás do copo. — Estavas a dormir tão bem. Talvez o queiras pendurar na galeria de Dublin.

— Estou despido.

— Nu é mais a palavra, deixa-me que te diga. Quando se trata de arte. E tens um ar bastante artístico nu, Rogan. Assinei-o, como podes ver, para que possas pôr-lhe um bom preço.

— Não me parece.

Ela espetou a língua na bochecha. — Como meu agente, tens a obri­gação de colocar o meu trabalho no mercado. É o que passas a vida a dizer. E este, se me dás licença, é um dos meus melhores desenhos. Repara na luz e na forma como brinca nos músculos do teu...

— Estou a ver, — disse ele, numa voz estrangulada. — Tal como o resto das pessoas ia ver.

— Não é preciso tanta modéstia. Tens um corpo elegante. Acho que o registei ainda melhor neste aqui.

O sangue dele limitou-se a gelar. — Há outro?

— Sim. Vamos ver. — Esticou-se para conseguir virar as páginas. — Ora cá está. Vê-se um bocadinho mais... de contraste quando estás de pé, parece-me. E também vem ao de cima mais um pouco daquela arro­gância.

Ficou sem palavras. Ela desenhara-o de pé no terraço, com um braço apoiado no parapeito atrás dele, o outro a segurar um copo de brandy. E um sorriso — um sorriso especialmente presunçoso — no rosto. Era a única coisa que ostentava.

— Não posei para isto. E nunca estive nu no terraço a beber brandy.

— Liberdade artística, — disse ela, despreocupada, maravilhada por o ter desorientado daquela forma. — Conheço o teu corpo o suficiente para o desenhar de cor. Teria estragado o tema completamente, se tivesse inclu­ído roupa.

— O tema? Qual é?

— O dono da casa. Pensei em dar-lhe esse título. Aos dois, para ser sincera. Podes vendê-los em conjunto.

— Não os vou vender.

— E porque não? Já agora, gostava de saber? Já vendeste outros desenhos meus que não estavam tão bons quanto estes. Os que não queria que vendesses, mas como os havia assinado, vendeste-os à mesma. Quero que coloques estes no mercado. — Os olhos dela dançaram. — Na verdade, insisto, porque acho ser um direito meu, em termos de contrato.

— Então compro-os eu.

— Quanto é que ofereces? O meu negociante diz que a minha tabela está a subir.

— Estás a fazer chantagem comigo, Maggie.

— Oh, sim. — Esboçou um brinde na direcção dele e depois bebeu mais vinho. — Vais ter de pagar o que eu pedir.

Ele olhou de soslaio para o esboço outra vez, antes de fechar o bloco com firmeza. — E qual é?

— Deixa-me ver... acho que se me levassem lá para cima e se fizessem amor comigo até nascer o luar, conseguíamos chegar a um acordo.

— Tens um sentido de negócio perspicaz.

— Aprendi com um mestre. — Ela tentou levantar-se, mas ele aba­nou a cabeça e pegou-lhe ao colo.

— Não quero que aconteçam falhas num negócio destes. Acho que as tuas condições diziam que querias que te levassem lá para cima.

— Correctíssimo. Parece que é por isso que preciso de um agente.

— Enrolou nos dedos uma madeixa de cabelo dele, enquanto ele a levava para dentro de casa. — É claro que sabes que se não ficar satisfeita com o resto das condições, o negócio fica sem efeito.

— Vais ficar satisfeita.

No cimo das escadas ele parou para a beijar. E a resposta dela, como sempre, foi rápida e urgente e, como sempre, acelerou o fluxo sanguíneo dele. Entrou no quarto, onde a luz suave do pôr-do-sol abria caminho pelas janelas. Em breve, a luz daria lugar ao lusco-fusco.

A sua última noite a sós não seria vivenciada na escuridão.

Com esta ideia no pensamento, ele pousou-a em cima da cama e quando ela o quis abraçar, ele afastou-se para acender velas. Encontravam--se espalhadas pelo quarto todo, algumas grossas, outras muito estreitas, todas ardidas em vários tamanhos. Maggie ajoelhou-se na cama enquanto Rogan acendia os pavios e criava uma dança de luz dourada.

— Romântico. — Ela sorriu e sentiu-se estranhamente emocionada. — Parece que uma pitadinha de chantagem valeu bem a pena.

Ele parou, com um fósforo aceso entre os dedos. — Será que não fui romântico o suficiente contigo, Maggie?

— Estava só a brincar. — Ela atirou para trás o cabelo acariciado pela brisa. A voz dele soara demasiado séria. — Não preciso de romance. Fico satisfeita com a luxúria sincera.

— É isso que nós temos? — Pensativo, levou o fósforo ao pavio e, com um abanão, apagou-o. — Luxúria.

A rir, ela estendeu os braços. — Se parasses de andar a passear no quarto e viesses para aqui, eu mostrava-te exactamente o que nós temos.

Ela estava estonteante, à luz das velas, com as derradeiras cores do dia a jorrarem pelas janelas, ao lado da cama. O cabelo de fogo, a pele beijada pelos dias ao Sol e os olhos atentos, trocistas e inquestionavelmente sedu­tores.

Noutros dias e noutras noites, ele teria mergulhado naquele convite, aceitando-o, entregando-se na tempestade de fogo que conseguiam fazer acontecer. Mas mudara de humor. Caminhou devagar na direcção dela, pe­gando-lhe nas mãos antes que estas o conseguissem puxar, ansiosas para a cama com ela, levando-as aos lábios, ao mesmo tempo que olhava para ela.

— Não foi isso que combinámos, Margaret Mary. Eu devia fazer amor contigo. Já é altura. — Manteve as mãos dela nas dele, guiando-lhe os braços para junto do corpo, enquanto caía sobre ela para brincar com os seus lábios. — Está na altura de deixares que o faça.

— Que parvoíce é essa? — A voz não lhe saíra firme. Ele beijava-a como já fizera antes, devagar, carinhoso, e com a maior concentração. — Já te deixei fazer o que querias montes de vezes.

— Não desta forma. — Sentiu as mãos dela dobrar de encontro às dele, o corpo dela a retrair-se. — Tens assim tanto medo do afecto, Maggie?

— Claro que não. — Não conseguia respirar, contudo, conseguia-se ouvir, sentindo que aflorava lenta e forte aos seus lábios. Todo o seu corpo estava dormente, apesar de ele mal lhe tocar. Algo fugia ao seu controlo. — Rogan, não quero...                                                          

— Ser seduzida? — Apartou os lábios dos dela, deixando-os percor­rer o rosto lascivamente.

— Não, não quero. — Mas inclinou a cabeça para trás, assim que ele lhe deslizou a boca pelo pescoço.                                  

— Estás prestes a ser.

Ele soltou-lhe as mãos para a puxar para mais perto de si. Desta vez, não houve nenhum beijo ardente, mas uma possessão inascapável. Os bra­ços dela pareciam incredulamente pesados, enquanto os enrolava à volta do pescoço dele. Apenas conseguia ficar a segurar-se, ao mesmo tempo que ele lhe afagava o cabelo, o rosto, com dedos meigos que mais pareciam um sussurro sustentado no ar.

A boca dele voltou para a dela num beijo sumptuoso, molhado e profundo, que parecia interminável, até ela ficar maleável como cera nos seus braços.

Ele enganara ambos, apercebeu-se Rogan ao deitá-la na cama. Ao permitir que apenas o fogo se apoderasse deles, impedira-os de sentir toda a plenitude do calor, do carinho.

Esta noite seria diferente.

Esta noite iria levá-la a atravessar um labirinto de sonhos que antece­de as chamas.

O sabor dele penetrou nela, maravilhando, exaltando-lhe a sensibili­dade. A avidez que tanto fizera parte do seu acto de amor transformara-se numa paciência ociosa a que ela não conseguia resistir nem recusar. Muito antes de ele lhe abrir a blusa e de passar as pontas dos dedos macios e pers­picazes pela pele, já ela flutuava.

Lentamente, ela desceu as mãos pelos ombros dele. Prendia e soltava a respiração à medida que ele passava a língua por ela, procurando sabores ínfimos e secretos, demorando-se neles. Saboreando. Perdendo-se naquela longa sensação de arrebatamento, estava consciente de cada ponto sensível que ele despertava, da atracção imensa e silenciosa ascendendo do seu inte­rior. Tão diferente de uma explosão. Tão mais devastador.

Ela murmurou o seu nome quando ele lhe colocou a mão em concha na cabeça, erguendo o seu corpo que se derretia para o dele.

— És minha, Maggie. Mais ninguém te pode deixar assim.

Ela devia ter levantado objecções a esta nova exigência de exclusivi­dade. Mas não conseguia. A boca dele já viajava pela dela de novo, como se precisasse de anos, décadas para concluir a exploração.

A luz das velas tremeluzia como num sonho no olhar dela, já pesado. Conseguia cheirar as flores que apanhara ainda naquela manhã e que colo­cara junto à janela, num vaso azul. Ouvia a brisa a anunciar a noite mediterrânica, com os aromas das flores em botão e da água, na sua vigília. Sob os dedos e os lábios dele, a pele dela tornava-se mais macia e os músculos estremeciam.

Como é que podia não ter percebido o quanto a queria desta forma? Todos os fogos se extinguiram, deixando apenas brasas incandescentes e fumo disperso. Ela movia-se por baixo das mãos dele, desamparada, inca­paz de fazer alguma coisa que não fosse absorver o que ele lhe dava, seguir para onde a levava. Até mesmo quando o sangue bombeava na cabeça dele, nos quadris, manteve as carícias suaves, brincando, à espera dela, a observá-la a contorcer-se de uma sensação avassaladora para a seguinte.

Quando ela estremeceu, quando um novo gemido suspirado escapou por entre os seus lábios, ele voltou a pegar-lhe nas mãos, envolvendo-as com as dele, para se libertar e a conduzir até ao limite.

Arqueando o corpo, ela pestanejou. Ele observava enquanto o pri­meiro golpe de veludo lhe cortava a respiração. Depois, ela voltou a serenar, lânguida e esgotada. O prazer dela revolvia-se dentro dele.

O Sol pusera-se. As velas derreteram-se. Ele voltou a levá-la mais alto, a um pico ainda mais elevado que a fez gritar, perdendo as forças. O eco foi-se desvanecendo em suspiros e murmúrios. Quando o coração dela estava tão preenchido que, também ele, parecia chorar, ele mergulhou dentro dela, guiando-a ternamente enquanto a lua subia.

Talvez tenha adormecido. Ela sabia que tinha sonhado. Quando voltou a abrir os olhos, a lua já ia alta e o quarto estava vazio. Lânguida como um gato, pensou em voltar a aninhar-se. Mas enquanto se ajeitava na almofada, sabia que não ia conseguir dormir sem ele.

Levantou-se, flutuando um pouco como se a sua mente estivesse ine­briada pelo vinho. Encontrou um roupão, um agasalho de seda fina que Rogan insistira em lhe oferecer. Assentava com suavidade na sua pele, en­quanto começava a procurá-lo.

— Já adivinhava que estarias aqui.

Ele estava na cozinha, de pé em tronco nu diante do fogão lustroso, na cozinha brilhante preta e branca. — Tens o estômago a dar horas?

— Tal como o teu, minha menina. — Apagou o lume por baixo da caçarola antes de se virar. — Ovos.

— E que mais havia de ser? — Era a única coisa que ambos con­seguiam confeccionar com competência. — Não me admirava nada que amanhã voltássemos para a Irlanda a cacarejar. — Como ele se sentiu es­tranhamente desconfortável, ela passou a mão pelo cabelo uma, duas vezes.

— Devias ter-me obrigado a levantar-me para os fazer.

— Obrigar-te? — Foi buscar pratos. — Seria a primeira vez.

— Quero dizer que eu podia tê-los feito. Afinal de contas, acho que não cumpri o meu papel há pouco.

— Há pouco?

— Lá em cima. Na cama. Não cumpri a minha parte.

— Um acordo não se discute. — Deitou os ovos nos pratos. — E do meu ponto de vista, saíste-te muito bem. Tive imenso prazer em ver-te de­sabrochar. — Um prazer que tencionava sentir de novo, muito em breve. — Porque é que não te sentas a comer? A lua ainda vai estar alta durante algum tempo.

— Imagino que sim. — Mais à vontade, ela fez-lhe companhia à mesa. — Com isto até posso repor as energias. Sabes, — disse ela, com a boca cheia. — Não fazia ideia que o sexo nos podia enfraquecer tanto.

— Não foi apenas sexo.

Ela parou o garfo a meio caminho dos lábios, ao tomar atenção ao tom de voz dele. Por baixo de uma certa irritação, sentiu mágoa, e arrependeu-se por ser ela a culpada. Surpreendeu-se por ter essa capacidade. — Não foi isso que quis dizer, Rogan. Não dessa forma tão impessoal. Quando duas pessoas gostam uma da outra...

— Acho que gostar de ti é pouco, Maggie. Estou apaixonado por ti.

O garfo escorregou-lhe dos dedos e caiu em cima do prato. O pânico arranhou-lhe a garganta com presas agudas e ansiosas. — Não estás nada.

— Estou. — Disse ele, calmo, apesar de se censurar por se declarar numa cozinha bastante iluminada, a comer ovos feitos à pressa. — E tu estás apaixonada por mim.

— Não é... não estou... não me podes dizer o que sinto.

— Posso, se és demasiado tola para seres tu a dizê-lo. O que se passa entre nós é muito mais do que mera atracção física. Se não fosses tão cas­murra, paravas de fingir que é só isso.

— Não sou casmurra.

— És sim, mas já descobri que essa é uma das coisas que gosto em ti. — Agora, com os pensamentos mais frios, mostrava-se satisfeito por voltar a assumir o controlo. — Podíamos ter abordado este assunto num ambiente mais propício, mas como te conheço, isso pouco importa, estou apaixonado por ti e quero casar contigo.

 

 

                                     CAPÍTULO DEZASSETE

 

Casamento? Tinha a palavra entalada na garganta, ameaçando sufocá-la. Não se atrevia a repeti-la.

— Enlouqueceste.

— Acredita que já pensei nessa possibilidade. — Pegou no garfo e comeu, aparentando sanidade mental. Mas a mágoa, inesperada e rude, deixara marcas. — És teimosa, bastante mal-educada, só pensas no teu um­bigo e és muito temperamental.

Por momentos, a boca dela parecia a de um peixe. — Ai, sou?

— Podes ter a certeza que sim, e um homem devia estar louco para querer um contrapeso destes para o resto da vida. Mas... — serviu o chá que estivera a preparar — aqui tens. Acho que é tradição ser na igreja da noiva, por isso casamos em Clare.

— Tradição? Esquece as tradições, Rogan, e vai dar uma volta mais elas. — Seria pânico que sentia, subindo pela espinha como gelo picado? Certamente que não, convencia-se. Só podia ser mau génio. Não tinha nada a recear. — Não vou casar contigo nem com ninguém. Nunca.

— Isso é absurdo. É claro que vais casar comigo. Combinamos linda­mente um com o outro, Maggie.

— Ainda agora era teimosa, temperamental e mal-educada.

— E és. Mas combina comigo. — Pegou-lhe na mão, ignorando a resistência que fazia e levou-a aos lábios. — Combina maravilhosamente comigo.

— Bom, mas comigo não. Nada mesmo. Talvez tenha amolecido pe­rante a tua arrogância, Rogan, mas isso está a mudar a cada segundo que passa. Vê se me entendes. — Soltou a mão da dele. — Não vou ser mulher de ninguém.                          

— A não ser minha.

Ela assobiou um praguejo. Como ele se limitou a rir, ela tentou valer-se do mau feitio. Uma discussão, pensou, podia ser satisfatória, mas não resolveria nada. — Trouxeste-me aqui para isto, não foi?

— Não, na verdade não foi. Por acaso pensei que precisava de mais tempo antes de lançar os meus sentimentos aos teus pés. — Com muito cuidado e de forma bastante deliberada, colocou o prato de lado. — Sa­bendo muito bem que mos devolverias com um pontapé. — Manteve os olhos fixos nos dela, nivelados, pacientes. — Sabes, é que já te conheço muito bem, Margaret Mary.

— Não conheces. — Deixou transparecer a raiva e o pânico que não queria admitir, deixando espaço para a tristeza. — Tenho motivos para manter o meu coração intacto, Rogan, para não levar em conta a hipótese de casamento.

Num interesse apaziguador, compreendeu que não era casar com ele que a repugnava, mas o casamento em si. — Quais são?

Ela desceu o olhar para a chávena. Após alguns momentos de hesi­tação, adicionou os habituais três cubos de açúcar e mexeu. — Perdeste os teus pais.

— Sim. — Franziu o sobrolho. Certamente que este não era o golpe que esperava que ela fosse desferir. — Há quase dez anos.

— É duro perder alguém da família. Rouba-nos um enorme escudo de segurança, expõe-nos perante a fria inevitabilidade da morte. Amava-los?

— Muito. Maggie...

— Não, gostava que ouvisses o que tenho a dizer sobre isto. É impor­tante. Eles amavam-te?

— Sim, amavam.

— Como é que sabes? — Agora bebia, segurando na chávena com ambas as mãos. — Porque te deram uma vida boa, um bom lar?

— Não tinha nada que ver com o conforto material. Sabia que me amavam porque o sentia, porque o mostravam. E percebia que havia amor entre os dois também.                                                               

— Havia amor na tua casa. E riso? Havia riso, Rogan?

— Bastante. — Ele ainda se lembrava. — Fiquei destroçado quando eles morreram. Foi tão imprevisível, tão brutalmente imprevisível... — A voz dele esmoreceu, para depois voltar a ganhar força. — Mas a seguir, quando o pior havia passado, fiquei feliz por terem partido juntos. Um deles ficaria moribundo com a morte do outro.

— Não fazes ideia da sorte que tens, do privilégio que tiveste por cres­cer num lar com amor e feliz. Eu nunca soube o que isso era. Nunca saberei. Não havia amor entre os meus pais. Só conheci raiva, censura, culpa e havia obrigação, mas nada de amor. Consegues imaginar como foi, crescer numa casa em que as pessoas que te haviam dado vida não se importavam uma com a outra? Que só ali estavam porque o casamento era uma prisão que os amordaçava, por questões de consciência e religiosas?

— Não, não consigo. — Pôs a mão por cima da dela. — Lamento que tu consigas.

— Quando ainda era uma menina, jurei que nunca seria trancada numa prisão daquelas.                                                                              

— O casamento não é só uma prisão, Maggie, — disse ele, meigo. — O dos meus pais foi uma maravilha.

— E podes ter um assim, um dia. Mas eu não. Fazemos o que conhe­cemos, Rogan. Não podes alterar as tuas origens. A minha mãe odeia-me.

Ele teria protestado, mas ela dissera-o de forma tão despreocupada, tão simples, que ele não conseguiu.

— Antes de nascer, já ela me odiava. O facto de me trazer no ventre arruinou-lhe a vida, e ela está sempre a lembrar-me disso. Estes anos todos nunca percebi muito bem as consequências, até que a tua avó me contou que a minha mãe teve uma carreira.

— Uma carreira? — Tentou lembrar-se. — Quando cantava? O que é que isso tem que ver contigo?

— Tudo. Que escolha tinha, senão abdicar da carreira? Que carreira lhe restava, sendo uma mulher solteira, grávida num país como o nosso? Nenhuma. — Gelada, tremeu e deixou escapar um suspiro trémulo. Doía dizê-lo em voz alta daquela forma, dizê-lo bem alto. — Ela queria algo para si. Compreendo isso, Rogan. Sei o que é ter ambições. E também posso imaginar, bem demais, como terá sido vê-las desfeitas. Percebes, é que eles nunca se tinham casado se eu não tivesse sido concebida. Um momento de paixão, de desejo, só isso. O meu pai já tinha mais de quarenta anos e ela passara dos trinta. Acho que ela sonhava com o romance e ele viu aquela mulher amorosa. Naquela altura era amorosa. Há fotografias. Era amorosa antes da amargura acabar com tudo. E eu fui a causa de tudo, a bebé de sete meses que a humilhou e arruinou os seus sonhos. E os dele também. Sim, os dele.

— Não te podes culpar por teres nascido, Maggie.

— Oh, eu sei. Achas que não sei disso? Aqui em cima? — Subita­mente feroz, bateu na cabeça. — Mas no coração... não percebes? Sei que a minha própria existência e cada fôlego meu sobrecarregou as vidas de duas pessoas, mais do que é suportável. Sou o produto de mera paixão, e sempre que ela olhava para mim, lembrava-se de que tinha pecado.

— Isso não só é ridículo, é uma parvoíce.                    

— Talvez seja. O meu pai disse que a amou um dia, ao entrar no O'Malley's, ao ver Maeve, ao ouvi-la, deixando voar o seu coração român­tico.

Mas despenhara-se num ápice. Causando danos em ambos.

— Tinha doze anos quando ela me contou que tinha sido concebida fora do casamento. É esta a expressão que usa. Talvez se estivesse a aper­ceber que eu começava a transformar-me gradualmente de menina em mulher. Começava a olhar para os rapazes, e assim. Já treinara técnicas de sedução com o Murphy e com um ou outro rapaz da vila. Ela apanhou-me uma vez, em pé no celeiro com o Murphy, a experimentarmos um beijo. Só um beijo, mais nada, junto ao feno numa tarde quente de verão, os dois jovens e curiosos. Foi o meu primeiro beijo, e foi lindo... macio, tímido e inofensivo. E ela descobriu-nos.

Ao fechar os olhos, Maggie reviveu a cena de forma bastante nítida. — Estava vestida de branco, branco marfim, e gritava e esperneava, arras­tando-me para dentro de casa. Disse que era malvada, e pecadora, e como o meu pai não estava em casa para a impedir, deu-me uma sova.

— Uma sova? — O choque obrigou-o a levantar-se da cadeira. — Es­tás a dizer que ela te bateu porque beijaste um rapaz?

— Ela bateu-me, — disse Maggie, neutra. — Não se ficou pelas costas da mão a que já me habituara. Pegou num cinto e deu-me com ele de tal forma que pensei que morria. Enquanto o fazia, gritava as escrituras e bra­dava aos céus sobre as marcas do pecado.

— Não tinha o direito de te tratar assim. — Ajoelhou-se diante dela, envolvendo o seu rosto com as mãos.

— Não, ninguém tem esse direito, mas isso não é impedimento. Na­quela altura, pude ver o ódio nela e o medo também. Acabei por perceber que tinha medo que eu acabasse como ela, com um bebé no ventre e um coração vazio. Sempre soube que ela não me amava como as mães devem amar os filhos. Sabia que ela era menos severa, mais meiga com a Brie. Mas só naquele dia percebi porquê.

Já não conseguia ficar sentada. Levantando-se, foi até à porta que dava para um pequeno pátio pavimentado com pedras, adornado com potefc de barro cheios de sardinheiras.

— Não tens de continuar a falar desse assunto, — disse Rogan, atrás dela.

— Deixa-me acabar. — O céu estava repleto de estrelas, a brisa um murmúrio suave atravessando as árvores. — Ela disse-me que eu estava marcada. E bateu-me para que me apercebesse do fardo que uma mulher carrega por ser ela a ter filhos.

— Que maldade, Maggie. — Incapaz de ocultar as próprias emoções, fê-la girar, as mãos apoiadas com força nos ombros dela, os olhos de um azul gelado e furioso. — Eras só uma menina.

— Se era, deixei de ser nesse dia. É que percebi, Rogan, que ela queria dizer exactamente aquilo.

— Foi uma mentira, e das piores.

— Não para ela. Para ela era a mais pura verdade. Dizia-me que era a sua cruz, que Deus me enviara como castigo pela noite de pecado. Acredi­tava piamente nisso e sempre que olhava para mim, lembrava-se. Que até a dor e o sofrimento de me ter dado à luz não foram suficientes. Por minha causa, era prisioneira num casamento que desprezava, ligada a um homem que não conseguia amar e mãe de uma criança que nunca quis. E, como vim a descobrir recentemente, a desgraça para tudo o que sempre quis. Tal­vez a desgraça de tudo aquilo que era.

— Ela é que devia ter sido açoitada. Ninguém tem o direito de abusar de uma criança dessa forma e, pior ainda, usar uma qualquer visão distor­cida de Deus como instrumento.

— Tem graça, o meu pai disse quase a mesma coisa quando chegou a casa e viu o que ela tinha feito. Pensei que lhe ia bater. Foi a única vez na vida que o vi à beira de um acto violento. Tiveram uma discussão horrível. Ficar ali a ouvir foi pior ainda do que a sova em si. Subi para o quarto para fugir daquilo tudo e a Brie veio atrás de mim com pomada. Tratou de mim como uma mãe pequenina, o tempo todo a dizer coisas sem sentido, enquanto os gritos e os insultos ecoavam pelas escadas. — Tinha as mãos a tremer.

Não levantou objecção quando Rogan a abraçou, mas os olhos per­maneceram secos, a voz calma. — Nessa altura pensei que ele se ia embo­ra. Disseram tantas coisas horríveis um ao outro, que pensei que ninguém ia conseguir viver debaixo do mesmo tecto depois daquilo. Pensava que se ele nos levasse, se eu e a Brie pudéssemos ir embora com ele, para qualquer sítio, tudo voltaria a ficar bem. Depois, ouvi-o dizer que também estava a pagar algum castigo. Que estava a pagar por ter acreditado que a amava e a queria. Que ia pagar até ao dia da sua morte. Claro que não se foi embo­ra.

Maggie afastou-se novamente. Recuou. — Ficou mais de dez anos e ela nunca mais me tocou. De forma nenhuma. Mas nunca mais ninguém se esqueceu daquele dia — acho que nenhum de nós quis fazê-lo. Ele tentou compensar dando-me mais, amando-me mais. Mas não conseguia. Se a ti­vesse deixado, se tivesse pegado em nós e ido embora, as coisas teriam mu­dado. Mas ele não podia, por isso vivemos naquela casa, como pecadores no inferno. Eu sabia que por mais que ele me amasse, havia alturas em que deve ter pensado que se não fosse... se eu não tivesse existido, seria livre.

— Achas mesmo que a culpa é dos filhos, Maggie?

— Pelos pecados dos pais... — Abanou a cabeça. — É uma das ex­pressões preferidas da minha mãe. Não, Rogan, não culpo os filhos. Mas não muda as consequências. — Respirou fundo. Sentia-se melhor por ter falado. — Nunca hei-de arriscar entrar numa prisão dessas.

— És uma mulher demasiado esperta para achares que o que aconte­ceu aos teus pais vai acontecer a toda a gente.

— A toda a gente, não. Um dia, agora que não está sujeita às exigên­cias da minha mãe, a Brie vai-se casar. É uma mulher que pretende consti­tuir família.

— E tu não.

— Não, — disse ela, mas as palavras soaram vazias. — Tenho o meu trabalho e preciso de estar sozinha.

Ele agarrou-lhe o queixo. — Tens medo.

— Se tiver, tenho razões para isso. — Libertou-se dele. — Que espécie de esposa ou mãe daria, tendo em conta as minhas origens?

— No entanto, acabaste de dizer que a tua irmã será as duas coisas.

— Afectou-a de forma diferente do que me afectou a mim. Ela tem tanta necessidade das pessoas e de uma casa como eu tenho de passar sem elas. Tinhas razão quando disseste que era teimosa, mal-educada e egoísta. Sou mesmo.

— Talvez fosses obrigada a isso. Mas és muito mais, Maggie. És com­passiva, leal e amorosa. Não me apaixonei apenas por essa parte de ti, mas sim por tudo. Quero passar a minha vida contigo.

Algo tremia dentro dela, frágil como um cristal afagado por uma mão descuidada. — Não ouviste nada do que eu disse?

— Cada palavra. Mas sei que não me amas apenas. Precisas de mim.

Ela arrastou ambas as mãos pelo cabelo, os dedos enterrados e a pu­xar, revelando frustração. — Não preciso de ninguém.

— Claro que precisas. Tens é medo de o admitir, mas isso é compre­ensível. — Ele lamentava, amargamente, a criança que ela fora. Mas não podia permitir que isso mudasse os planos que tinha para ela. — Trancas­te-te numa prisão, Maggie. Quando admitires o que desejas, a porta há-de abrir-se.                                                                                                       

— Estou satisfeita com as coisas como estão. Porque é que tens de as mudar?

— Porque quero mais do que apenas alguns dias ou um mês contigo. Quero uma vida contigo, ter filhos teus. — Passou a mão pelo cabelo dela, envolvendo a parte de trás do pescoço. — Porque és a primeira e a única mulher que já amei. Não te vou perder, Maggie. E não vou deixar que me percas.

— Já dei tudo o que podia, Rogan. — A voz dela tremia, mas conse­guiu controlar-se. — É muito mais do que alguma vez dei a alguém. Con­tenta-te com aquilo que te posso dar, porque, se não o fizeres, terei de ter­minar tudo.

— Eras capaz?

— Terei de o fazer.

Quando chegou à base do pescoço dela, ele apertou as mãos, soltan­do-as depois e deixando-as cair. — Teimosa, — disse, com um rasto de divertimento a ocultar a dor. — Bom, também eu sou. Posso esperar que venhas ter comigo. Não, não me digas que não o farás, — continuou, assim que ela abriu a boca para protestar. — Se o fizeres, só vais dificultar mais as coisas para ti. Vamos deixar tudo como está, Maggie. Com uma modifica­ção.

O alívio que sentira transformou-se em prudência. — O quê?

— Amo-te. — Puxou-a para os seus braços, cobrindo a boca dela com a dele. — Vais ter de te habituar a ouvi-lo.

Ela estava contente por chegar a casa. Em casa podia saborear a solidão, desfrutar da sua própria companhia e dos dias longos, enormes em que a luz se agarrava ao céu até às dez horas. Em casa, não tinha de pensar em nada, a não ser no trabalho. Para o provar, ofereceu-se três dias na casa vidreira, três dias sem interrupções.

Estava produtiva, satisfeita com os resultados que via a arrefecer no forno para recozer. E estava, pela primeira vez desde que se lembrava, so­zinha.

Convencera-se disso, pensou ela ao observar o crepúsculo crescer e aprofundar-se, assumindo de forma maravilhosa os tons da noite. Ele ali­ciara-a a apreciar a sua companhia, a apreciar o bulício das cidades e das pessoas. Fizera com que ela quisesse mais. Ela desejava-o demais.

Casamento. Estremecia só de pensar, enquanto ia à mesa da cozinha buscar o que precisava. Pelo menos isso ele nunca a haveria de convencer a desejar. Tinha a certeza que, com o passar do tempo, ele haveria de ver as coisas à sua maneira. Senão...

Foi até lá fora, fechando a porta. Era melhor não pensar em possibili­dades. Acima de tudo, Rogan era um homem sensível.

Seguiu o carreiro até casa de Brianna, bem devagar ao mesmo tem­po que a noite se instalava à sua volta. Uma bruma ténue rodeava os seus pés e a brisa sustinha um arrepio de aviso murmurado através das árvores.

Como um lampião de boas-vindas, a luz na cozinha de Brianna bri­lhava em contraste com a noite. Maggie segurava os esboços que emoldu­rara e acelerou o passo.

Ao aproximar-se, um rosnar baixo soou das sombras do sicómoro. Maggie chamou baixinho e respondeu-lhe um ladrar contente. Con irrom­peu das sombras, atravessando a bruma, e teria saltado para cima dela para demonstrar o seu amor e devoção se ela não tivesse estendido a mão para o impedir.

— Preferia que não me deitasses ao chão, obrigada. — Fez-lhe festas na cabeça, no pescoço, ao mesmo tempo que a sua cauda oscilante rasgava o fino nevoeiro em farrapos. — A guardar a princesa de noite, não é? Bom, vamos entrar e procurá-la.

Assim que Maggie abriu a porta da cozinha, Con entrou disparado como uma mancha de pêlo e músculos. Parou do outro lado da sala, junto à porta que ia dar ao corredor, com a cauda a abanar.

— Será que está lá fora? — Maggie pousou os esboços e avançou na direcção da porta. Do outro lado ouviu vozes, risos suaves, um sotaque bri­tânico. — Ela tem hóspedes, — disse a Con, desiludindo bastante o cão ao afastar-se da porta. — Não a vamos incomodar, por isso vais ter de me atu­rar. — Mantendo uma réstia de esperança, foi até ao armário onde Brianna guardava os biscoitos de Con. — Afinal, que truque é que vais fazer para mim, rapaz?

Con fitava o biscoito que ela tinha na mão, mordendo o lábio. Com uma dignidade contida, caminhou devagar na direcção de Maggie, sentou-se e levantou uma pata.

— Muito bem, meu lindo.

Com o petisco preso entre os dentes, Con correu para o tapete diante da lareira da cozinha, percorreu três círculos e deitou-se com um suspiro de satisfação.

— Eu também já comia qualquer coisa.

Uma olhadela breve pela cozinha revelou um tesouro. Uma forma com pão de gengibre, metade já comido, repousava debaixo de um pano protector. Maggie comeu uma fatia enquanto a chaleira aquecia, sentando-se para comer outra a acompanhar uma chávena de chá caseiro.        

Quando Brianna entrou, Maggie estava a raspar as migalhas do pra­to.

— Já me perguntava quando é que ias aparecer. — Brianna baixou-se para fazer festas ao cão, que se levantara para se encostar às pernas dela.

— Teria vindo mais cedo se soubesse que isto estava à minha espera. Já vi que tens hóspedes.

— Sim, um casal de Londres, um estudante de Derry e duas senhoras amorosas de Edimburgo. Como foram as férias?

— O lugar era lindo, quente, dias solarengos, noites quentes. Fiz-te alguns desenhos para veres por ti. — Gesticulou na direcção deles.

Brie pegou nos quadros e o seu rosto iluminou-se de alegria. — Oh, são maravilhosos.

— Achei que ias gostar mais deles do que de um postal.

— Claro que sim. Obrigada, Maggie. Tenho ali uns recortes da tua exposição de Paris.

Maggie ficou surpreendida. — Oh, como é que os arranjaste?

— Pedi ao Rogan que os enviasse. Queres ver?

— Não, agora não. Só vou ficar com dores de estômago e o meu tra­balho está a correr tão bem.

— Vais a Roma quando a exposição for para lá?

— Não sei. Ainda não pensei nisso. Ainda parece tudo muito distan­te.

— Como num sonho. — Brianna suspirou ao sentar-se. — Ainda mal posso acreditar que estive em Paris.

— Agora podes viajar mais, se quiseres.

— Mmm. — Talvez existissem lugares que gostasse de conhecer, mas a casa impedia-a. — A Alice Quinn teve um menino. Vão chamar-lhe David. Foi baptizado ontem. Chorou o tempo todo durante a ceri­mónia.

— E a Alice provavelmente entrou em alvoroço como um pássaro a esvoaçar.

— Não, pegou no pequeno David e acalmou-o, depois levou-o para o adormecer. O casamento e a maternidade mudaram-na. Ias achar que não é a mesma Alice.

— O casamento muda sempre as pessoas.

— Muitas vezes para melhor. — Mas Brianna sabia no que Maggie estava a pensar. — A mãe está boa.

— Não perguntei nada.

— Não, — retorquiu Brianna, calma. — Mas sou eu que te digo. A Lottie convenceu-a a sentar-se no jardim todos os dias e a passear.

— A passear? — Apesar de tudo, o interesse de Maggie foi espicaça­do. — A mãe, a passear?

— Não sei como ela consegue, mas a Lottie sabe levá-la. Na minha última visita, a mãe estava a segurar lã enquanto a Lottie a enrolava em no­velos. Quando entrei, atirou-a ao chão e começou a resmungar, queixando-se que a mulher ainda a havia de mandar para a cova. Disse que despediu a Lottie duas vezes, mas que ela não se foi embora. A mãe queixou-se o tempo todo, enquanto a Lottie se baloiçava na cadeira, a sorrir e a enrolar o novelo de lã.

— Se a mulher conseguir afastar a Lottie...

— Não, deixa-me acabar. — Brianna debruçou-se, os olhos a dançar. — Ali fiquei, a inventar desculpas e à espera do pior. Passado um bocado, a Lottie parou de se baloiçar. — «Maeve», — disse ela, — «pára de atazanar a rapariga. Pareces uma gralha.» E ela devolveu-lhe o novelo e disse-me que estava a ensinar a mãezinha a tricotar.

— Ensiná-la a... oh, esse dia ainda está para vir.

— O problema é que a mãe continuou a resmungar até não poder mais e a discutir com a Lottie. Mas ela parecia estar a gostar. Tinhas razão quanto a ela ter a sua própria casa, Maggie. Ela pode ainda não ter percebi­do, mas é mais feliz ali do que foi a maior parte da sua vida.

— O importante é que saiu daqui. — Inquieta, Maggie levantou-se para passear à volta da cozinha. — Não quero que te iludas a pensar que o fiz por ter um coração bondoso.

— Mas fizeste-o, — retorquiu Brianna, baixinho. — Se não queres que mais ninguém saiba além de mim, a decisão é tua.

— Não vim aqui para falar sobre ela, mas para ver como é que tens passado. Já te mudaste para o quarto junto à cozinha?

— Já. Fico com mais um quarto livre lá em cima para os hóspedes.

— Tens mais privacidade.                                                          

— Isso também. Arranjei sítio para uma secretária para tratar da con­tabilidade e das papeladas. Gosto de ter uma janela com vista para o jardim. O Murphy disse que me podia pôr lá uma porta, se eu quisesse, para poder entrar e sair sem ter de passar pelo resto da casa.

— Óptimo. — Maggie pegou num frasco de passas, voltando a pou­sá-lo.