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INCIDENTE EM ANTARES / Érico Veríssimo
INCIDENTE EM ANTARES / Érico Veríssimo

 

 

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 INCIDENTE EM ANTARES

 

ANTARES

Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da Paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape ricado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde – só Deus sabe ao certo quando – veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da Era Cenozóica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de car-tógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, n|o mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo Prefeito Municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O Pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da Matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente.

No entanto a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio.

 

O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia – fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade – não só no Estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos.

Tão insólitos, lúridos e tétricos – e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados – tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: “A troco de quê Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?”

Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaxia, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana.

 

O mais antigo documento escrito que se conhece referente ao lugar onde mais tarde viria a ser fundada essa comunidade da região missioneira do Rio Grande do Sul, encontra-se no livro do naturalista francês Gaston Gontran d’Auberville, intitulado Voyage Pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831). Escreveu o ilustre cientista em seu diário de viagem :

24 de abril. – Cruzamos esta manhã o Rio Uruguai, numa balsa, e entramos em território do Brasil. Estes campos verdes, duma beleza idílica, lembram os da nossa Provence. Aqui as pastagens são boas e o gado bovino, abundante. Os primeiros homens que encontramos, tanto os brancos como os índios, me olham com uma curiosidade meio desconfiada, que acho justificável, pois devem estranhar a minha indumentária, o meu aspecto físico e principalmente a minha bagagem: as gaiolas em que trago os pássaros vivos que apanhei no Paraguai e na Argentina, e os sacos e caixas cheios das plantas e pedras que venho colecionando desde o momento em que pisei terras do Novo Mundo.

Cerca das dez horas da manhã, chegamos a um lugarejo pertencente à comarca de São Borja e conhecido como Povinho da Caveira, formado por uma escassa dúzia de ranchos pobres, perto da barranca do rio. A pouca distância deles, situa-se a casa do proprietário destas terras, que me recebeu com certa cortesia. E um homem ainda jovem, de compleição robusta, cabelos e barbas castanhos e pele clara. Tem um ar autoritário, costuma falar muito alto, parece habituado a dar ordens e a ser obedecido. Chama-se Francisco Vacariano, nome provavelmente derivado da palavra “vaca” e que não me parece legítimo, mas adotado. A casa da estância de gado do Sr. Vacariano é apenas um rancho maior que os outros da povoação. Comunico-me com esse senhor no meu -precário espanhol, e ele me responde na mesma língua mas usando, uma vez que outra, palavras portuguesas.

Almoçamos ao meio-dia e o estancieiro nos serviu, numa grande marmita de ferro, pedaços de carne seca (aqui chamada “charque”) com farinha de mandioca, tudo misturado com gordura animal. O Sr. Vacariano imaginava que eu era uma espécie de mascate. Ficou desapontado quando verificou que eu não trazia tabaco, açúcar nem sal, gêneros de que carece no momento. Expliquei-lhe que sou um cientista e o meu hospedeiro pareceu não me dar crédito, pois acha impossível que um homem empreenda uma tão longa e penosa viagem apenas para apanhar bichos e juntar plantas e pedras.

Percebi que o Sr. Vacariano não confia nos “homens do outro lado do rio” nem parece gostar deles. Tal coisa não é para estranhar-se, se levarmos em conta que recentemente o Brasil esteve envolvido numa guerra com a Argentina pela posse da chamada Banda Oriental.

O meu guia, que é um homem loquaz e grande conhecedor desta região e desta gente, duma margem e outra do rio, assegurou-me que o meu hospedeiro não só herdou as sesmarias que a Coroa de Portugal concedeu ao seu avô, no início do povoamento desta província, como também se apossou pela força de algumas léguas de campo -pertencentes a outros estancieiros vizinhos, que pôs em fuga, sob ameaças. Contou-me ainda o dito guia que boa parte do rebanho de gado que o Sr. Vacariano hoje possui é formado de descendentes dos bois e vacas que o seu pai roubou na Argentina, aproveitando a confusão de tempos de desordens e lutas intestinos no país vizinho. O guia me pediu discrição absoluta, quanto a essas informações, pois, ao que diz, o Sr. Vacariano é um homem violento e vingativo.

Fui informado de que os índios deste pouoado pensam que sou um feiticeiro, e que o capataz do meu hospedeiro está convencido de que não passo de um bispo disfarçado que aqui veio, a mandado do Papa, para estudar a possibilidade do restabelecimento das reduções jesuíticas que outro-ra floresceram nesta região. O que, porém, mais me perturbou foram as palavras que o próprio Sr. Vacariano pronunciou, ao fim de nosso almoço. Reproduzo-as aqui, verbatim: “Sabe o que fiz com o último lotador de impostos que apareceu nestas terras’! Mandei matá-lo e atirei seu corpo no rio”. Felizmente, depois dessa ameaça soltou uma risada, deu-me uma palmada cordial nas costas e declarou que era um homem de boa-fé e portanto acreditava em que eu era mesmo um colecionador de plantas e passarinhos, pois “cada louco tem a sua mania”.

Passei a tarde herborizando nos arredores do povoado. A hora de recolher, o Sr. Vacariano prometeu proporcionar-me, ao amanhecer do dia seguinte, “um espetáculo inesquecível”.

Passei a noite quase sem dormir, por causa dos mosquitos.

 

25 de abril. – Antes do nascer do sol montamos a cavalo, meu hospedeiro e eu, e nos dirigimos para uma várzea, a uma escassa légua de sua estância, e apeamos perto dum bosque, onde ficamos à espera do clarear do dia. Quando o sol apareceu, vi diante de mim uma planície pantanosa cheia duma grande variedade de aves aquáticas. Mal consegui esconder o meu pasmo e o meu júbilo, pois aquilo se me afigurava o sonho dourado dum naturalista. No primeiro relance, pude perceber ali graciosas garças, íbis, grous, galinhas-d’agua, patos, narcejas, alguns exemplares dum pássaro que, à distância, me pareceu do gênero Francoli-nus, mas dum tamanho acima do comum. Tive im.pe.tos de correr na direção daquele congresso de aves e apanhar as que pudesse, mas o Sr. Vacariano me segurou o braço, di-zendo-me que esperasse, pois havia “algo e spedar que me queria mostrar. Pouco depois apontou para uma árvore des-folhada, a uns vinte metros de onde estávamos, e eu vi, em-poleirada num dos seus galhos, uma garça dum alvor deneve, de linhas elegantes, e que em dado momento voltou a cabeça na direção do sol nascente, perfilou-se, esticou o longo pescoço e soltou um assobio prolongado, duma suavidade indescritível, a um tempo bucólico e triste, lembrando o pífaro dum pastor. Era como se a ave estivesse cantando um hino ao dia nascente. Numa espécie de transe, eu pensava nas belezas que a imaginação criadora e dadivosa de Deus espalhou pelo universo, quando o Sr. Vacariano me disse que os índios chamavam àquela garça “flauta do sol”. (Tratava-se evidentemente de um exemplar da Ardea cyanoce-phala.)

Voltamos para a estância e durante o resto do dia colhi exemplares de gramináceas e solanáceas e outras plantas que encontrei naqueles prados paradisíacos. O meu hospedeiro pareceu ter simpatizado comigo, pois quando lhe pedi emprestadas duas juntas de bois, para substituir os animais cansados que haviam puxado nossa carreta até ali, ele acedeu prontamente ao vieu pedido.

A noite, depois do jantar, saímos ambos a caminhar nos arredores da casa da estância. Como para lhe pagar pelo formoso espetáculo da manhã, localizei no céu a constelação de Escorpião, que no hemisfério austral começa a aparecer no horizonte, a leste, depois de 15 de abril, mostrei ao Sr. Vacariano a bela estrela chamada Antares, e disse-lhe que, embora não parecesse, ela era maior do que o Sol. O meu hospedeiro olhou para a estrela em silêncio e mais tarde, quando chegamos a casa, murmurou: “Antares.... Bonito nome. Para mim quer dizer ‘lugar onde existem muitas antas’, bem como nestas terras perto do rio”. Pediu-me que escrevesse essa palavra, o que fiz, num pedacinho de papel, para o qual o Sr. Vacariano ficou olhando durante algum tempo, murmurando: “Bonito nome para um povoado... melhor que Povinho da Caveira”. Depois, guardando o papel no bolso, sorriu com seus fortes dentes de carnívoro e acrescentou: “Mas não acredito que essa estrela seja mesmo maior que o Sol”.

 

Outro documento, pouquíssimo conhecido mas também importante, sobre o que se poderia chamar de pré-história de Antares é uma carta escrita pelo P.« Juan Bautista Otero, S. J., ao provincial de sua ordem, em Buenos Aires. Conta o missionário nessa missiva, datada de 4 de dezembro de 1832, que cruzou o Rio Uruguai e chegou ao Povinho da Caveira onde pediu e obteve permissão do dono daquelas terras, um certo Sr. Francisco Bacariano (sic) para fazer casamentos e batizados. Eis um trecho da referida carta:

Aqui vivem muitos índios e índias em estado de indi-gência e, o que é ainda pior, em pecaminosa mancebia. Por outro lado, a ausência de mulheres da raça branca neste aldeamento leva os homens de origem portuguesa a servirem-se dessas indígenas para a satisfação de sua luxúria. O próprio Sr. Bacariano, segundo me informou pessoa digna de fé, é pai de quase uma dezena de filhos naturais com várias destas süvícolas, mas não os batiza nem legitima. Horroriza-me a idéia de que um dia quando adultas, essas criaturas venham, sem o saber, a cometer incesto. Este é, porém, um problema que por ora temos de deixar nas mãos misericordiosas de Deus. Assim, nestes últimos três dias tenho celebrado muitos casamentos e batizado grande número de pagãos, não só crianças como também adultos. Ontem, domingo, rezei uma missa ao ar livre, com apreciável concorrência. O Sr. Bacariano não me parece ter muito respeito pela nossa religião ou por qualquer outra, mas apesar disso me tem tratado com consideração e até facilitado o meu trabalho apostolar. Perguntei-lhe, com o devido respeito, se não pretendia casar-se, e ele me respondeu que, dentro de poucos meses, iria a Alegrete para contrair núpcias com uma moça, de nome Angélica, filha dum abastado estancieiro daquela localidade.

 

Que esse casamento se realizou, é fato fora de dúvida, pois seu registro se encontra nos velhos livros da Matriz de Alegrete.

Chico Vacariano teve com sua esposa legítima ao todo sete descendentes-, entre homens e mulheres. Para grande alegria sua, nasceu-lhe primeiro um filho macho, que recebeu o nome de Antônio Maria.

Um ano após o nascimento do primogênito, teve Francisco Vacariano de enfrentar um longo período de dificuldades e agruras, durante o qual se viu mais de uma vez na iminência de perder suas terras, seu gado e o resto de seus bens. Foi por ocasião da chamada Guerra dos Farrapos deflagrada por milhares de homens daquela província que se 3rgueram em armas contra o governo imperial, então nas mãos dum Regente, pois o príncipe Dom Pedro, herdeiro do trono, não atingira ainda a maioridade.

Francisco Vacariano jamais tomou uma posição definida nessa luta. Se por um lado estava convencido da justiça da causa revolucionária, por outro o fato de os rebeldes haverem proclamado a República do Piratini lhe causava um certo desagrado, que ele exprimiu à sua mulher nestas palavras: “Um imperador é uma espécie de pai que a gente tem. Numa república me parece que todo o mundo fica meio órfão...”.

Assim, Chico Vacariano – como mais tarde viria a dizer com malícia um de seus inimigos – tratou de “jogar com pau de dois bicos”. Abrigava altemadamente em suas terras ora tropas revolucionárias ora tropas legalistas. Atendeu as requisições de cavalos, gado e mantimentos que lhe faziam ambas as facções. De resto, como poderia dizer “não” a maiorias armadas?

O que muito o favoreceu nesse jogo dùplice foi o fato de o Povinho da Caveira ser uma localidade de difícil acesso, pouco lembrada pela revolução e completamente esquecida pelo resto do mundo. Mesmo assim, duma feita Chico Vacariano e seus familiares tiveram de cruzar o rio às pressas, refugiando-se durante mais de um ano na Argentina.

A guerra civil durou quase um decênio inteiro. Vacariano costumava dizer que aquela campanha era a principal responsável pelos seus primeiros cabelos brancos e pelas precoces rugas que lhe vincavam a face. Terminada definitivamente a luta, Chico voltou ao pago, reconstruiu a sua casa, que na sua ausência quase virará tapera, e tratou de refazer aos poucos o seu rebanho bovino e recuperar o seu prestígio pessoal naquela região. O tratado de paz entre os Farrapos e os Imperiais tinha sido firmado com tanta dignidade e patriotismo, de ambas as partes, que duma simples leitura de seus termos não se poderia deduzir quem tinha sido o vencedor e quem o vencido.

Nunca ninguém perguntou a Chico Vacariano, pelo menos cara a cara, de que lado havia ele pelejado durante a guerra civil. E esse foi um assunto que o senhor de Povinho da Caveira sempre evitou pelo resto de sua vida natural.

O Povinho foi elevado a vila por alvará de 25 de maio de 1853, data em que recebeu oficialmente o nome de An-tares. Pouca gente entendeu a razão dessa mudança ou o sentido da nova denominação. Muitos, como Chico Vacariano, imaginavam que Antares significava “lugar das antas”. Houve até quem pensasse tratar-se do nome de um general brasileiro, herói de alguma daquelas muitas guerras contra os castelhanos.

Durante mais de dez anos Francisco Vacariano – como havia já acontecido desde 1829 no primitivo Povinho – foi a autoridade suprema e inconteste na vila. Nem mesmo o governo provincial tentava intervir na vida daquela pequena comunidade ribeirinha, que ainda fazia parte do município de São Borja.

 

No verão de 1860 chegou ao conhecimento de Chico Vacariano que um certo Anacleto Campolargo, criador de gado e homem de posses, natural de Uruguaiana, ia comprar terras nas proximidades de Antares. Murmurava-se que esses Campolargos eram descendentes por linha reta dum tropeiro paulista que entrara um dia numa furna do cerro do Jarau – talvez na famosa Salamanca da antiga lenda – encontrando lá um fabuloso tesouro, pois de outro modo ninguém podia explicar como um modesto negociante de mulas andasse sempre com a sua guaiaca cheia de onças de ouro, rutilantes como sóis.

Mesmo sem jamais ter visto a cara de Anacleto Campolargo, o senhor de Antares fez o possível para que a transação não se consumasse. “Não quero intrusos por aqui!” – dizia. Ora, essas terras que Campolargo queria adquirir pertenciam a um chefe político de São Borja, homem influente, amigo íntimo do governador da província. Chico Vacariano não teve outro remédio senão “engolir o sapo”, segundo uma expressão sua.

Consumada a transação, Anacleto Campolargo mandou logo construir uma grande residência de alvenaria em Antares, na praça do Império, naquele tempo pouco mais que um potreiro onde cavalos e vacas pastavam.

A primeira vez em que Chico Vacariano e Anacleto Campolargo se defrontaram nessa praça, os homens que por ali se encontravam tiveram a impressão de que os dois estancieiros iam bater-se num duelo mortal. Foi um momento de trepidante expectativa. Os dois homens estacaram de repente, frente a frente, olharam-se, mediram-se da cabeça aos pés, e foi ódio à primeira vista. Chegaram ambos a levar a mão à cintura, como para arrancar as adagas. Nesse exato momento o vigário surgiu à porta da igreja, exclamando: “Não! Pelo amor de Deus! Não!”

Nenhum dos dois potentados parecia amar a Deus e muito menos ao vigário. Contiveram-se, porém, cada qual uma secreta razão particular, e depois retomaram ambos seu caminho, seguindo em sentidos opostos.

Foi assim que entre as duas dinastias antarenses, a dos Vacarianos e a dos Campolargos, começou uma feroz rivalidade, que deveria durar quase sete decênios, com períodos de maior ou menor intensidade, ao sabor de acontecimentos de ordem política, econômica ou puramente pessoal.

 

Pouco a pouco Anacleto Campolargo foi conquistando amigos e impondo-se ao respeito e à estima de boa parte da população antarense. Era o primeiro homem na história daquela comunidade que ousava enfrentar o “Chico Vaca” – como lhe chamavam pelas costas os seus desafetos. Agressivo, opiniático, autoritário, o patriarca do clã dos Vacarianos era um sujeito sem tato. Suas palavras em geral soavam como chicotadas. O maioral dos Campolargos, porém, sinuoso e macio, cultivava o murmúrio, sabia “manipular” suas emoções e modular o tom da voz de acordo com a sua conveniência e os seus propósitos. Tinha um ar paternal, freqüentemente chamava o interlocutor de “meu filho”, se estava diante dum jovem, ou de “meu chefe”, se falava com um ancião. (“Já provou deste fumo? Não? É especial. Tem palha? Pois faça um crioulo. Pode ficar com esse naco. Ora, obrigado por quê?”)

Homem de algumas letras, Anacleto Campolargo organizou na vila o Partido Conservador, o que bastou para que Chico Vacariano, até então um tanto indiferente em matéria de política, tratasse de organizar o Partido Liberal.

Assim, Antares passou a ter dois senhores igualmente poderosos. Era exatamente essa igualdade de forças que impedia as duas facções de se empenharem em batalhas campais de extermínio. Continuando uma velha tradição, nas missas de domingo e dias santos, os conservadores sentavam-se nos bancos da direita, à frente do altar-mor, e os liberais nos da esquerda. Em seus sermões, pregados com voz trêmula, o vigário fazia acrobacias de retórica para não dizer nada que pudesse, mesmo de leve, descontentar qualquer dos dois grupos. Quando alguém lhe perguntava em particular para qual dos dois proceres antarenses inclinavam-se as suas simpatias, o pároco sussurrava, olhando dum lado para outro, a medo-, “Deus é o meu único chefe e a Igreja a minha única política”. Neutralidade, entretanto, era uma palavra inexistente no vocabulário político e social de An-tares. O forasteiro que ali chegasse, mesmo para uma visita breve, era praticamente obrigado a tomar logo partido.

Tanto os Campolargos como os Vacarianos eram criadores de gado e de cavalos. Foi, porém, o velho Anacleto o primeiro que começou a criação de ovelhas naqueles campos. Chico Vaca havia muito possuía lavouras de trigo, li-nho e arroz, razão por que era o mais rico senhor de escravos em toda a região.

 

Quando o Brasil entrou em guerra com o Paraguai, Vacarianos e Campolargos enrolaram os seus estandartes tribais e, à sombra da bandeira do Império, lutaram juntos contra a “indiada de Solano Lopes”. Chico Vacariano queixou-se-. “Só não me agrada é que desta vez temos castelhanos peleando de nosso lado”. Referia-se às forças da Argentina e da República Oriental do Uruguai, que haviam formado com o Brasil a Tríplice Aliança, para enfrentar o temível ditador paraguaio.

Como Anacleto e Francisco tivessem já passado da idade militar, cada um deles mandou dois de seus filhos alistarem-se como Voluntários da Pátria.

A guerra durou de 1865 a 1870. Foram tempos de tristeza, apreensões e durezas para os habitantes de Antares. Só depois que a campanha terminou é que chegou à vila a notícia de que Antônio Maria, o primogênito de Chico Va-cariano, havia tombado morto na batalha de Lomas Valen-tinas. Os dois Campolargos voltaram vivos mas estropiados. Benjamim, o mais velho, que havia perdido um olho num combate corpo a corpo, trazia as divisas de major e uma medalha militar. Seu irmão Gaudêncio tivera de amputar um braço. Antão Vacariano, que deixara a mão esquerda enterrada em solo paraguaio, voltara feito coronel e também condecorado por atos de bravura.

Foram esses três antarenses recebidos em sua terra com honras de heróis. Cada qual contava as suas estórias da campanha – algumas horripilantes, outras pitorescas e até jocosas. Num ponto, porém, Benjamim Campolargo e Antão Vacariano discordavam. É que cada um deles reclamava para si a dúbia glória de ter matado com um pontaço de lança o ditador Solano Lopes, na batalha de Cerro-Corá. A História, porém, desmentiu ambos.

 

Graças aos bons ofícios e ao prestígio político de Ana-cleto Campolargo, amigo de figurões do governo da província, Antares foi separada de São Borja e elevada à categoria de cidade e sede de município, por Lei Provincial de 15 de maio de 1878. Ora, esse fora sempre um dos projetos mais caros a Chico Vacariano, agora já próximo dos oitenta anos. A idéia, porém, de que tudo se tinha conseguido por obra exclusiva de seu maior inimigo, deixou-o de tal maneira abalado que, uma semana antes de começarem os festejos com que se celebraria o grande evento, Chico Vaca caiu morto, fulminado pelo que um médico de São Borja diagnosticou como um “ataque de cabeça dos brabos”. Num gesto cavalheiresco, Anacleto transferiu os festejos para dezembro daquele ano, e até mandou em nome da família Cam-polargo uma coroa de flores para o defunto. Os Vacarianos recv saram a homenagem, vendo no gesto um intolerável “debique”.

Dezembro chegou, a cidade preparava-se para as grandes comemorações quando se espalhou a notícia de que o velho Campolargo, que estava na estância, fora picado por uma jararaca, tendo morrido em menos de meia hora, apesar das benzeduras de suas negras velhas e das ervas e un-güentos de seu curandeiro bugre.

Assim, quando entrou o ano de 1879, os dois grandes clãs de Antares tinham à sua frente novos chefes. Benjamim, o caolho, era o patriarca dos Campolargos e Antão, o maneta, o maioral dos Vacarianos – dois quarentões na força da vida. Ambos haviam jurado em silêncio, junto aos cadáveres paternos, continuar aquela luta de família até ao fim do Tempo.

 

Quando, anos mais tarde, a Princesa Isabel assinou o decreto em que se abolia a escravatura no Brasil, Antão Va-cariano disse a seus familiares que esse “ato de loucura” ia precipitar o fim do Império. Foi com relutância que, pelo menos formalmente, liberou seus escravos. Ora, Benjamim Campolargo, que havia alguns anos fundara o Grêmio Republicano de Antares, exultou com a notícia da Abolição, e mais tarde soltou vivas e foguetes ao saber que a República fora finalmente proclamada no Brasil.

Durante dias Antares esteve em pé de guerra. Mulheres e crianças foram proibidas de sair à rua. Na praça trocaram-se insultos e tiros. As vidraças do prédio do Grêmio Republicano foram partidas a pedradas e balaços por monarquistas enraivecidos. Um petardo explodiu contra a porta da residência dos Vacarianos. Houve cabeças quebradas e outros ferimentos corporais, leves uns, graves outros; morte, porém, nenhuma.

Fosse como fosse, o Império havia caído e os Vacaria-nos não tiveram outro remédio senão resignar-se. E, como faziam sempre que sofriam algum revés, fecharam a casa da cidade e refugiaram-se na estância, onde curtiram a sua vergonha, o seu despeito e o seu rancor. Antão verteu às escondidas algumas lágrimas quando soube que os republicanos haviam mandado o velho imperador para o exílio. “Este país está perdido!” – disse aos membros de sua família. – “O remédio agora é esperar a hora de fazer uma revolução e reconduzir o Velho ao trono.” Xisto, o primeiro Vacariano na ordem de sucessão, resmungou: “Essa república não se agüenta nas pernas. Dizem que o barulho já começou no Rio de Janeiro”.

Em 1890 a Matriz de Antares, cuja construção tinha sido iniciada havia vinte anos, foi inaugurada por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo. Benjamim Campolargo, Imperador Festeiro, mandou carnear seis de suas reses para dar churrasco ao povo, organizou uma quermesse e fez queimar fogos de artifício vindos da capital do Estado.

Os Vacarianos, que tinham prometido dar um sino de bronze para o novo templo, recusaram cumprir a promessa. Quando o vigário timidamente os interpelou, alegando que a Igreja nada tinha a ver com a política, Antão retrucou truculento: “Padre, nesse assunto nem Deus pode se dar o luxo de ser neutro!”

 

Os historiadores de Antares, que não são muitos, até hoje temem lembrar certos “fatos desagradáveis” da crônica desse município. Num ponto, porém, parecem todos de acordo. A revolução federalista, que irrompeu em 1893, foi sem a menor dúvida o mais cruel e sangrento período da luta hereditária entre as duas famílias antarenses rivais. Antão Vacariano e seus irmãos, filhos, cunhados e sobrinhos, partidários apaixonados do famoso tribuno do Império, Gaspar da Silveira Martins, tomaram o lado dos revolucionários e, num golpe de surpresa, apossaram-se de Antares. Os Cam-polargos, porém, não tardaram a reagir e, ajudados por forças republicanas vindas de São Borja, retomaram a cidade. O combate travou-se ao anoitecer. A tropa dos Vacarianos retirou-se, com algumas baixas, e em desordem. Antão, que tinha ficado para trás comandando uma dúzia de companheiros numa operação de retaguarda, para proteger a fuga do grosso de sua força, foi feito prisioneiro. Trazido à presença de Benjamim Campolargo, trocou com este palavras e frases virulentas. O comandante vencedor, porém, recobrou a calma e disse:

– Sou um homem de bem. Respeito o direito dos prisioneiros de guerra. Vou poupar a sua vida, apesar de todas as barbaridades que você e seus bandidos praticaram enquanto estavam de donos da cidade.

Antão Vacariano encarou firme o adversário e replicou :

– Não peço nem aceito favor de nenhum caolho filho da puta! Me soltem, me devolvam a minha adaga e venham de um a um, que eu mostro quem é macho e quem não é.

Benjamim sacudiu a cabeça e soltou a sua risadinha gutural.

– Não sou prevalecido. Não brigo com maneta. Como única resposta Antão escarrou-lhe na cara. E

neste ponto as versões divergem. Afirmam alguns cronistas que, cego de ódio, Benjamim tirou sua faca da bainha, precipitou-se sobre o inimigo e sangrou-o ali mesmo. Outros dizem que mandou um de seus homens degolar o prisioneiro mais tarde, a frio. A verdade é que Antão Vacariano foi assassinado naquela noite, e seu corpo, envolto num lençol, enterrado no cemitério local, numa sepultura rasa e sem marca.

 

A vingança dos Vacarianos não tardou. Meses depois, as forças federalistas, comandadas por Xisto, retomaram Antares e conseguiram prender Terézio, o mais novo dos Campolargos.

Xisto mandou reunir na praça os homens da cidade e ordenou que mulheres e crianças ficassem fechadas em suas casas. De mãos amarradas às costas, Terézio foi trazido à sua presença, em meio de grave silêncio. Ao redor dos dois adversários agrupavam-se aqueles guerreiros barbudos, sujos, suados e alguns até com a pele e as vestes ensangüentadas do último combate.

– É do conhecimento geral – bradou Xisto Vacariano – que os Campolargos assassinaram covardemente o meu mano Antão, que não teve nem o consolo de morrer como homem, peleando de arma na mão. Foi miseravelmente sangrado como um boi no matadouro. Pois agora chegou a nossa hora. Este Campolargo vai pagar pelos crimes do seu irmão e de todos os cachorros sarnentos de sua raça maldita!

Terézio estava livido. Mal moveu os lábios quando disse:

– Guerra é guerra. Não peço clemência.

– Não pedes nem te dou, corno filho duma grã-puta! Seguiu-se uma cena digna do pincel e da imaginação

dum Hieronymus Bosch. Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendurá-lo no galho duma árvore, com a cabeça a poucos centímetros do solo. Depois acercou-se de sua vítima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou às cegas no ânus, profundamente. Com a cara contraída de dor e vergonha, Terézio cerrou os dentes mas não deixou escapar o menor gemido.

Nenhum daqueles homens parecia saber ao certo o que Xisto pretendia fazer. Um deles cochichou ao ouvido dum companheiro: “Acho que o coronel vai dar uma lavagem de Pimenta e mostarda nesse ‘pica-pau’”.

Os planos de Xisto, porém, eram mais terríveis. Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: “Tragam o tempero pra salada!” e dois de seus homens, vindos do quintal do casarão dos Vacarianos, aproximaram-se, conduzindo com todo o cuidado, para não se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulição.

O céu estava azul e limpo. Uma brisa de primavera boba nas folhas das árvores e nas rosas de todo o ano que cobriam a cerca, ao lado da residência, agora deserta, dos Campolargos. Havia um grande silêncio na praça ensolarada.

Xisto murmurou: “Sabes o que vou te fazer, sacri-panta? Te incendiar as tripas”. A uma ordem sua, os dois homens começaram a despejar lentamente no funil todo o conteúdo da chaleira. Terézio Campolargo soltou um urro e começou a estrebuchar.

Apenas um homem, de todos quantos assistiam à cena, soltou uma risada. Os outros se mantiveram num silêncio taciturno. Romualdo, o mais moço dos Vacarianos, acercou-se do chefe da família e protestou: “Mas isso é uma barbaridade, mano!” Sem desviar o olhar da vítima, que continuava a berrar e espernear como um porco que está sendo sangrado, replicou: “Precisas aprender a lidar com o inimigo, menino. Se a coisa te faz mal ao estômago, toma um chàzinho de erva-doce e vai pra casa te deitar”.

A agonia de Terézio foi de curta duração. Quando suas convulsões cessaram, Xisto olhou para o céu, aliviado. Vieram contar-lhe então que o vigário, que estava na igreja, rezando, lhe pedia o corpo do jovem Campolargo para a encomendação e o sepultamento. Xisto sacudiu negativamente a cabeça. “Encomendar pra quê? Se esse ‘pica-pau’ tinha mesmo alma, a esta hora ela já entrou nos quintos do inferno.” Disse isto, voltou as costas para o cadáver e tornou à sua casa, onde o esperava um assado de paleta de ovelha, que ele comeu com a tranqüilidade dum justo.

 

Seis meses mais tarde os Campolargos retomaram An-tares num ataque de surpresa, à noite. Os Vacarianos retiraram-se com a sua tropa, deixando para trás, mortos ou feridos, vários companheiros. E quando, horas depois do combate, Xisto conseguiu reunir os seus homens no topo duma coxilha e começou a chamar pelos irmãos, deu pela falta de Romualdo e ficou frio. “Quem é que viu o Romualdo por último?” Ninguém se lembrava. Xisto deu-o por perdido, encolheu os ombros e pensou: na guerra como na guerra...

Mais tarde ficou-se sabendo que Romualdo na hora do inesperado ataque dos “pica-paus” estava na cama com uma china e, não tendo tempo de fugir, fora capturado.

Benjamim Campolargo esfregou as mãos num contentamento frenético. Tinha chegado a desejada hora de vingar a morte de Terézio.

No dia seguinte, por volta das oito da manhã (era já outono, dia frio e triste, céu cor de pêlo de capivara) Benjamim tratou de saber do vigário em que árvore seu irmão havia sido torturado. O padre deu-lhe a informação, mas disse: “Por tudo quanto existe de mais sagrado na vida, pelo amor de sua mãe e de seu falecido pai, eu lhe suplico que não sacrifique esse moço. Não foi ele quem matou o Terézio”.

Benjamim sorriu: “Padre” – disse ele com brandura – “eu lhe juro por Deus Nosso Senhor que não vou matar o Romualdo”. O sacerdote arregalou os olhos, surpreso. “Jura mesmo?” O outro ergueu a voz: “Juro! Aqui na frente dos meus companheiros! Pela honra da minha mãe, da minha mulher e das minhas irmãs, juro que vou soltar o moço, e vivo!” O vigário ficou pensativo, incrédulo ainda, mas nada disse. Lavou simbolicamente as mãos e voltou para a igreja.

Romualdo Vacariano foi trazido à presença de Benjamim Campolargo, que exclamou: “Tirem toda a roupa desse sujeitinho!” Três de seus homens obedeceram à ordem. “As botas também... Bom. Agora amarrem ele na mesma árvore onde penduraram o meu irmão. Assim não! Com a barriga contra o tronco, as pernas abertas... Isso!”

Um círculo duns cento e poucos homens formava uma espécie de muro ao redor da árvore. Como no dia da tortura e morte de Terézio, todas as mulheres e crianças tinham sido fechadas nas suas casas. Os companheiros entreolha-vam-se, sem saber ao certo o que seu chefe ia fazer. Benjamim chamou um dos seus companheiros, um negro alto e corpulento, e lhe disse:

– Elesbão, você é quem vai fazer o serviço no moço. O preto levou a mão à faca. Era um exímio degolador.

Benjamim sacudiu negativamente a cabeça.

– Não. O instrumento não é esse, mas o que você tem entre as pernas.

Elesbão não entendeu imediatamente o que o seu comandante queria. Quando compreendeu, murmurou, constrangido :

– Ora, coronel, eu nunca fiz dessas coisas.

– Mas vai fazet agora. E uma ordem.

– Por que logo eu?

– Porque sim.

– Aqui na frente de todo o mundo?

– É exatamente isso que eu quero: testemunhas. Elesbão olhou para o homem nu e depois para o seu comandante :

– Me prenda, coronel, me rebaixe de posto, mas uma coisa dessas eu não faço. Degolar é diferente...

Num átimo Benjamim examinou mentalmente a difícil conjuntura. Por um lado não podia ser desautorizado na frente dos seus próprios comandados; por outro, não queria castigar e talvez perder um companheiro do valor do Elesbão. Quem’ salvou a situação foi um caboclo parrudo e mal-encarado, o Polidoro, contumaz barranqueador de éguas, que se apresentou voluntário para executar a tarefa.

– Está bem – disse o chefe Campolargo. – Está na mesa. Sirva-se.

E o caboclo violentou Romualdo. Uns três ou quatro homens soltaram risadinhas. Outros, porém – a maioria – retiraram-se do local para não assistirem à cena degradante. Um capitão bigodudo chegou a gritar: “Isso não se faz a um macho, coronel! Por que não mata logo o miserável?” Benjamim, que saboreava o espetáculo, não deu a menor atenção ao protesto.

Consumado o ato, gritou: “Agora soltem a moça!” Dois soldados desamarraram Romualdo, que deu alguns passos, cambaleante, como se estivesse bêbedo, a cara aparvalhada. De repente soltou um urro, como um animal ferido de morte e, nu como estava, saiu a correr na direção do rio, atirou-se no chão, no alto da barranca, e rolou declive abaixo, até cair nágua. Pôs-se a nadar, e, a uns trinta metros da margem, deixou-se afundar. Seu corpo jamais foi encontrado.

Depois desses atos de violência e perversidade ninguém podia sequer imaginar que fosse um dia possível para Va-carianos e Campolargos voltarem a viver na mesma cidade. Terminada a revolução, com a vitória dos republicanos, Xisto Vacariano emigrou com todo o seu clã para a Argentina, onde permaneceu por dois anos. Durante essa longa ausência, um amigo seu, homem de bem e neutro em política, tomou conta da estância e dos outros negócios dos Vacarianos e, com o auxílio de amigos influentes, conseguiu evitar que os Campolargos se apossassem discriciona-riamente dos bens móveis, imóveis e semoventes de seus velhos adversários.

 

Em 1898 Xisto Vacariano’tomou um vapor em Buenos Aires e viajou até ao Rio de Janeiro onde – conta-se – se avistou com o senador Pinheiro Machado, figura prestigiosa da política nacional. Eram velhos conhecidos. Havia alguns anos, o prócer republicano hospedara-se na estância dos vacarianos e, à hora do jantar – conversa vai, conversa vem —, acabaram descobrindo que Pinheiro Machado, que ?e alistara com apenas dezesseis anos como Voluntário da ratria, durante a Guerra do Paraguai, havia servido no regimento de que Xisto Vacariano era oficial. Comemoraram a descoberta bebendo vinho do Porto e Xisto deu de presente ao futuro senador da República um de seus cavalos de purosangue e um par de estribos de prata feitos na Bélgica.

Xisto valia-se agora desta amizade para tentar resolver a sua situação e a de toda a sua família. Pinheiro Machado escutou-o com atenção e prometeu “amansar” os Campolar-gos, pelos quais – confessou – não morria de amores, apesar de eles serem seus correligionários. Mandou uma carta a Júlio de Castilhos – então Presidente do Estado – explicando-lhe a situação e pedindo a sua intercessão no assunto. Castilhos escreveu a Benjamim Campolargo reco-mendando-lhe fizesse “vista grossa” ao reaparecimento dos seus inimigos Vacarianos em Antares.

Benjamim levou alguns dias para “digerir” essa carta. Respondeu, porém, a ela declarando que faria como seu “prezado chefe e amigo” pedia. Tinha antes escrito ordenava mas passou a carta a limpo para trocar o verbo. Assim os Vacarianos foram voltando pouco a pouco para Antares. com todos os membros de suas famílias.

Naquelas primeiras semanas após a volta dos proscritos (termo usado por um jornalista republicano local) não só a população de Antares como a própria cidade – casas, muros, calçadas, plantas, pedras – pareciam viver em estado de extrema tensão, na expectativa do primeiro encontro físico entre um Campolargo e um Vacariano.

Xisto e Benjamim defrontaram-se uma tarde à frente do Grêmio Republicano. O primeiro pigarreou forte. O outro fuzilou o inimigo com um olhar de seu único olho válido. Nada disseram nem fizeram. Cada qual seguiu seu caminho e Antares e os antarenses respiraram desoprimidos.

 

Antares celebrou com grandes festas a entrada do século xx. Armou-se no centro da praça um carrossel, de propriedade dum espanhol residente em Uruguaiana. À tarde houve Cavalhadas e à noite quermesse. Acenderam-se fogueiras onde se assaram batatas-doces e lingüiças. Num grande tablado erguido à frente da Matriz, houve danças a noite inteira, ao som de músicas tocadas pelos melhores san-foneiros da cidade e redondezas. À meia-noite em ponto o sino da igreja rompeu a badalar festivamente, homens davam tiros de pistola para o ar, foguetes de lágrimas espocavam nas alturas, derramando sobre os telhados e o rio chuveiros de estrelas multicores. Homens, mulheres e crianças abraçavam-se gritando, chorando e rindo. Benjamim Campolar go, que assistia à festa da sacada de sua residência, desce« para a praça e confraternizou com o povo. Sentou-se con. a esposa à cabeceira duma mesa de cinqüenta metros de comprimento, ali ao ar livre, e deu início à grande ceia – carne de gado, ovelha e porco, galinhas e patos assados, pratarraços de arroz de carreteiro e, no firn, sobremesas feitas pelas melhores doceiras da cidade. E, a todas essas, dê-lhe vinho, dê-lhe cachaça, dê-lhe cerveja...

Os Vacarianos, esses celebraram o grande acontecimento em família, sem se misturarem com “a canalha republicana”.

A pessoa escolhida pelo intendente para falar em nome da municipalidade – um professor – saudou o século xx como a era da Luz e do Progresso, a qual, “mercê das novas invenções e descobertas do saber humano, haverá de proporcionar aos povos de todas as nações do Universo uma vida de conforto, fartara e harmonia, como nunca na História da Humanidade”.

Já quase ao clarear do dia, intoxicados de bebidas alcoólicas, dois machos do clã dos Campolargos – primos-irmãos ainda na casa dos vinte – estranharam-se, trocaram primeiro palavrões, depois bofetadas e finalmente facadas. Um deles recebeu um pontaço de faca no ventre (superficial) e o outro deixou no chão da praça um naco de seu braço esquerdo. O velho Benjamim teve de intervir pessoalmente, ajudado por dois irmãos, para evitar que o conflito se generalizasse num “pega pra capar” desastroso.

Ao saber do incidente, no dia seguinte, Xisto Vacaria-no sorriu e disse: “Começou bem pra nós esse tal de século xx”.

 

A esta altura da presente narrativa é natural que o leitor esteja inclinado a perguntar se não existiam em Antares homens de bem e de paz, com comportamento e sentimentos cristãos. A pergunta é pertinente e a resposta, sem a menor dúvida, afirmativa. Havia, sim, e muitos. Desgraçadamente seus ditos, feitos e gestos não foram recolhidos pela história oficial. Apenas uns poucos deles incorporaram-se à tradição oral da cidade e do municipio-, os restantes perderam-se para sempre no olvido.

Os livros escolares, cujo objetivo é ensinar-nos a história da nossa terra e do nosso povo, são em geral escritos num espírito maniqueísta, seguindo as clássicas antíteses – os bons e os maus, os heróis e os covardes, os santos e os bandidos.

Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truismo de que a História não pode ser escrita apenas em preto e branco.

Por motivos puramente de economia de espaço – uma vez que o objetivo desta narrativa é tecer um sumário pano de fundo histórico contra o qual apresentar oportunamente os macabros eventos daquela sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963 – estas páginas lamentavelmente têm seguido o espírito dos citados livros escolares, focando de preferência as duas grandes oligarquias que em Antares, durante cerca de setenta anos, disputaram o predomínio político, social e econômico. Ficaram assim na penumbra do segundo, do terceiro e do último plano todos aqueles que – para usar duma expressão de Spengler – não “fazem” mas “sofrem” a História, a saber: estancieiros menores, agricultores de minifúndios, membros das profissões liberais e do magistério e ministério públicos, funcionários do governo, comerciantes, artesãos e por fim essa massamorda humana composta de párias – brancos, caboclos, mulatos, pretos, curibocas, mamelucos – gente sem profissão certa, changadores, índios vagos, mendigos, “gentinha” molambenta e descalça, que vivia num plano mais vegetal ou animal do que humano, e cuja situação era em geral aceita pelos privilegiados como parte duma ordem natural, dum ato divino irrevogável.

 

Tinha razão o editorialista do semanário A Verdade (fundado em 1902) quando escreveu que o Progresso se aproximava de Antares com botas de sete léguas. Nos tempos em que a localidade era ainda conhecida pelo nome de Povinho da Caveira, Chico Vacariano, seu fundador, sempre que tinha de mandar um recado, verbal ou escrito, a uma pessoa que morasse longe, valia-se dum portador, dum “chas-que”, dum “próprio”. Em fins do século xix, Antares gozava já dos benefícios e facilidades do telégrafo, isso para não falar no serviço postal.

Estradas de ferro ligavam muitas cidades do Rio Grande do Sul umas às outras, e o apito de suas locomotivas assustava os bichos do campo e do mato, ao mesmo tempo que a fumaça de suas chaminés sujava aqueles ares puros. Não parecia otimismo exagerado esperar-se que dentro duns dez anos, no máximo, seus trilhos fossem estendidos até a Antares. Agora, na primeira década do novo século, surgia o telefone, que Xisto Vacariano afirmava ter sido inventado por Dom Pedro II, com a colaboração dum mecânico norte-americano, seu amigo particular. O primeiro a instalar na sua casa um desses aparelhos foi Benjamim Campolargo, que corria sempre na dianteira de seu rival, em matéria de empreendimentos progressistas.

Os “próprios” e os “chasques” continuavam ativos e uteis. As mulheres, as crianças e os velhos usavam como veículos de transporte a aranha, a diligência e outras carruagens de tração animal. Carretas ainda rechinavam, ronceiras puxadas por bois lerdos, através daquelas campinas. Os antarenses em sua maioria achavam – e nisso não eram diferentes de outros campeiros do Rio Grande do Sul – que o único meio de locomoção digno dum homem macho continuava a ser o cavalo. Em certos casos tinha-se a impressão de que esse animal era um prolongamento do corpo do cavaleiro, assim como a pistola ou o revólver faziam já parte da sua anatomia.

Quando se instalou em Antares a primeira usina elétrica, Xisto Vacariano, sentado à cabeceira de sua mesa à hora do jantar, disse aos filhos: “No Povinho, o avô de vocês vivia muito bem se alumiando com lâmpada de óleo de peixe e vela de sebo. A máquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Pra mim, lampião de querosene ou acetilene já é luxo demais. Ninguém me convence de mandar botar na minha casa a tal de luz elétrica. Dizem que esse negócio dá choque, pode até matar uma pessoa”.

Quando, no inverno de 1912, o intendente mandou instalar luz elétrica nas ruas da cidade, o velho Eusébio Reis, que durante mais de vinte e cinco anos exercera sozinho as funções de acendedor de lampiões, caiu numa tão grande depressão nervosa, que numa madrugada de julho enforcou-se num dos postes da iluminação moderna, e seu corpo amanheceu hirto, coberto de geada, balançando-se dum lado para outro, sacudido pelo vento gelado que soprava das bandas dos Andes.

Para surpresa geral, foi um Vacariano quem, em 1911, trouxe para Antares o primeiro automóvel, um Oldsmobile, que mandara vir de Buenos Aires. Depois de aprender a dirigir o veículo, um dos seus maiores prazeres era passear nele, de tolda arriada, pela cidade, apertando provocadora-mente na buzina de fonfom sempre que passava pela frente do solar dos Campolargos. Estes não tardaram em mandar buscar da Alemanha um automóvel Benz.

 

Como o Dr. Júlio de Castilhos estivesse seriamente enfermo, o bacharel em Direito Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, que havia sido seu chefe de polícia, sucedera-o em 1898 como Presidente do Estado, bem como no de chefe do Partido Republicano gaúcho. Castilhos faleceu em 1903, durante a operação de garganta a que fora submetido. Benjamim Campolargo, acompanhado de dois de seus filhos, embarcou às pressas para Porto Alegre, a fim de assistir às exéquias de seu chefe e amigo. Chegou tarde, mas aproveitou a oportunidade para visitar o Dr. Borges de Medeiros, que ainda não conhecia pessoalmente. Achou-o seco, formal mas digno. Ouviu, de várias pessoas importantes da capital, os maiores elogios ao caráter do presidente. Ninguém mais probo, ninguém mais justo, ninguém mais sábio – dizia-se. “Um verdadeiro varão de Plutarco” – afirmavam os edítorialístas de A Federação, o órgão oficial do Partido Republicano Rio-Grandense. Benjamim Campolargo, graças talvez a uma autovacina, voltou para Antares incontami-nado pelas virtudes morais de seu chefe. Continuou a perseguir a oposição, a coagir juizes, promotores e jurados. Governava despoticamente o município de Antares, onde os maragatos eram minoria. Tornou-se assim, como tantos outros chefes políticos municipais do Rio Grande do Sul, uma espécie de “príncipe eleitor”. Reeleito em 1903, 1913 e 1918, Borges de Medeiros exerceu durante vinte anos a sua “ditadura científica” de inspiração positivista, fechado no palácio do governo e quase divinizado como um Lama do Tibete.

Sem recursos humanos para enfrentar seus inimigos crônicos, os Vacarianos agora competiam com eles em outros terrenos que não o da política. Todos os fins de ano, quando se tratava de eleger uma nova diretoria para o Clube Comercial, a mais fina sociedade local, havia sempre uma chapa apresentada pelos Campolargos, a oficial, e outra pelos Vacarianos. O pleito era precedido de propaganda, cabala, pressões de toda sorte, e até de suborno. No dia da eleição os eleitores compareciam à sede do clube armados de punhais e revólveres, e era raro o ano em que não houvesse bate-boca, troca de insultos, de bofetadas e até de tiros.

Desde 1915 o futebol – “o salutar esporte bretão”, segundo um redator de A Verdade – tornara-se popular em Antares. Os Campolargos haviam fundado o Esportivo Mis-sioneiro e os Vacarianos favoreciam o Fronteira F. C. Não se tem notícia duma partida entre esses dois adversários que não haja terminado sem luta corporal entre seus torcedores, isso para não falar nas trocas de caneladas e pe-chadas entre os jogadores, em disputa da bola. Conta-se a seguinte estória, que parece ter sido já incorporada ao folclore futebolístico gaúcho. O Fronteira e o Missioneiro defrontavam-se numa partida decisiva de campeonato, o jogo aproximava-se do final e nenhuma das duas esquadras conseguira ainda marcar um ponto sequer. No último minuto do jogo, Pollito, atacante do Missioneiro – um argentino “contrabandeado” do outro lado do rio, a peso de ouro – driblou quase toda a defesa do Fronteira e ia na certa marcar um tento quando um Vacariano bombachudo que estava ali por perto saltou rápido para dentro do gramado, rebolou no ar o seu laço e pealou o castelhano, que caiu de costas, batendo com a nuca no chão. O goleiro do Fronteira saltou para agarrar a bola, mas um dos Campolargos alvejou-a com um tiro de revólver, e o balão se desinflou com um longo suspiro nas mãos do keeper, que soltou um berro de horror. O público invadiu o campo e então começou uma verdadeira batalha campal que durou mais de meia hora, pois soldados da polícia municipal, chamados para impor a paz, acabaram tomando partido e participando do entrevero.

 

A Primeira Guerra Mundial chegou a Antares principalmente através das páginas róseas do Correio do Povo. Pela primeira vez em mais de cinqüenta anos Campolargos e Vacarianos encontravam-se por assim dizer do mesmo lado, na mesma trincheira, alvejando simbolicamente um inimigo comum, os boches. Xisto e Benjamim admiravam a França, detestavam a Alemanha e consideravam o Kaiser um bandido desalmado, um bárbaro. Papagaiando frases de jornais e folhetos de propaganda, ambos afirmavam que os

Aliados deviam a qualquer preço “salvar a Civilização das garras sanguinárias dos hunos”.

A década de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto de ordem material como intelectual. Durante esse pós-guerra, o ritmo de construções de casas particulares acelerou-se. Os Vacarianos reformaram o seu casarão – “uma simples meia-sola”, disseram os seus desafetos. Os Campolargos construíram um sólido palacete de dois andares.

Em 1924 uma firma norte-americana instalou um frigorífico nos arredores da cidade – o que levou o editorialista do diário local a afirmar que Antares, até então um município exclusivamente agropastoril, começava auspiciosamente a industrializar-se.

O telégrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rádio – contribuíram decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa. Forasteiros também muito faziam pelo progresso social e cultural da cidade: magistrados, promotores públicos, funcionários do governo estadual e federal, caixeiros-viajantes... Era, porém, de lamentar que Antares não possuísse, como São Borja, uma guarnição militar federal, um batalhão que fosse.

Em 1925 os Vacarianos haviam comprado o primeiro sedan Chrysler que jamais sentou suas rodas nas ruas de Antares. Numa espécie de esperada represália, os Campolargos não tardaram a adquirir na Argentina um Studeba-ker preto que, na opinião de seus rivais, tinha o aspecto dum carro fúnebre.

Foi também nesse ano de 1925 que a polícia descobriu e prendeu o primeiro comunista da história de Antares, um certo Mário Pinho, um tipògrafo, natural de Santiago do Boqueirão, homem pálido e triste que se gabava de ter lido de fio a pavio, em tradução espanhola, O Capital de Karl Marx. O agente do “olho de Moscou” passou um mês na cadeia e, depois de solto, mudou-se para Santa Maria.

Nos bailes do Clube Comercial moças e rapazes das Melhores famílias locais dançavam o charleston, sob o olhar crítico das matronas. Num sarau de arte, no solar dos Cam-polargos, um forasteiro recitou versos modernos – que ninguém entendeu – de Oswald e Mário de Andrade. Antares, pois, atualizava-se, integrando-se na Era do jazz.

 

Em 1923 os partidários do Dr. Assis Brasil – aliança de maragatos com dissidentes do Partido Republicano – haviam feito a sua revolução, protestando contra mais uma reeleição do Dr. Borges de Medeiros, confirmada pela Assembléia estadual, mas considerada pela oposição uma farsa fraudulenta, pois o candidato oficial republicano – alegavam seus inimigos – não obtivera os três quartos da votação total exigidos nesse caso pela Constituição.

Xisto V acariano a princípio pensara em ficar sossegado em sua estância (não tinha muita simpatia pessoal por Assis Brasil), mas como lhe tivesse chegado aos ouvidos o rumor de que Benjamim Campolargo ia mandar prender todos os Vacarianos machos, decidiu “ir para a coxílha” com os filhos, irmãos, genros, netos, sobrinhos, amigos, peões e demais cumpinchas: cento e vinte homens ao todo. Embora já na quadra dos oitenta, Xisto mantinha-se ainda ereto em cima do cavalo, e sentia-se apto para enfrentar mais uma campanha em sua vida. Assim, os Vacarianos se juntaram às forças de Honório Lemes. Evidenciara-se desde o primeiro momento da revolução que o número de combatentes republicanos era consideravelmente maior e mais bem armado que o dos “bandoleiros”, pois o governo estadual, além de seus partidários civis que formavam as tropas irregulares, contava também com o apoio da sua Brigada Militar, força bem armada e aguerrida.

O velho Vacariano explicava aos seus comandados: “O Gen. Honório tem razão. O plano não é dar combate de frente aos ‘chimangos’, mas negacear, atacar de surpresa, fugir na hora do aperto e voltar depois quando menos nos esperarem. O nosso chefe conhece a Serra do Caverà como a palma de suas mãos. O inimigo não ousa atacar o homem no chão dele. Assim, vamos embromando esses borgistas para provocar uma intervenção federal. O Presidente da República não gosta do Borjoca. Está louco pra meter sua cucharra na nossa panela”.

Não se teve notícia de nenhum combate, nem mesmo duma escaramuça passageira, entre os guerreiros dos Vacarianos e os dos Campolargos.

A intervenção federal foi finalmente feita no Rio Grande do Sul e dela resultou um tratado de paz. Benjamim Campolargo cantou vitória, mas Xisto Vacariano disse: “Bobagem desse caolho caduco! Quem ganhou a parada fomos nós. Com meia dúzia de espingardas descalibradas, revólveres enferrujados e lanças de guajuvira, os assisistas conseguiram o que queriam: esse tratado que reforma a Constituição do Estado, que os castilhistas consideravam intocável, e proíbe a reeleição do Chimango!”

 

Em meados da década de ‘20 várias mudanças eram já visíveis e audíveis no modo de vida tanto dos Campolargos como dos Vacarianos. No começo do século, membros das gerações mais novas dessas duas poderosas famílias tinham sido mandados estudar em Porto Alegre. Muitos voltaram para casa depois de terminado pelo menos o curso ginasial, e alguns obtiveram até diplomas de doutor em Direito, Medicina ou Engenharia, embora poucos deles chegassem a exercer essas profissões. Fos%e como fosse, todos traziam para Antares uma visão mais larga do mundo e da vida, e uns poucos podiam até ser considerados, se não intelectuais, pelo menos “intelectualizados”. Haviam adquirido 0 hábito da leitura, da música, do teatro e alguns deles – pouquíssimos, é verdade – compravam pinturas para pendurar nas paredes de suas residências, nas quais até então só se viam tristes retratos de antepassados mortos, com solenes molduras douradas.

Um jovem Campolargo de maneiras civilizadas chegou a publicar no jornal da terra um poema de sua autoria. (O velho Vacariano leu-o em voz alta e comentou, seco e certo: “Esse menino é fresco”.)

Em maio de 1926 causou os comentários mais desencontrados na cidade a notícia de que o herdeiro do trono dos Campolargos, Zózimo, tinha embarcado para Buenos Aires com sua esposa e prima-irmã Quitéria, para assistirem a alguns espetáculos da temporada lírica do Teatro Colón.

Até fins do século anterior os Vacarianos e os Campolargos haviam cultivado deliberadamente a endogamia, não com a finalidade de manter a pureza de suas estirpes, mas por motivos práticos, principalmente de ordem econômica. Queriam evitar, no caso das heranças, não só a divisão das terras do clã como também complicações nos inventários. Esses casamentos entre primos e primas – quase sempre sem amor e nem mesmo desejo – eram não raro ajustados pelos pais dos jovens, em concílios familiares. Com raras exceções, finda a minguada lua-de-mel, a mulher ficava em casa a engordar, a ter filhos e a cuidar (ou não) deles, ao passo que o marido passava boa parte da noite no Clube Comercial, jogando pôquer, ou na casa da amante, com a qual, continuando uma tradição centenária, também tinha filhos, que não reconhecia legalmente. O advogado que, por morte dum Vacariano ou dum Campolargo, ousasse apresentar-se como patrono dum filho natural do falecido, arriscava levar um tiro ou uma surra exemplar.

Durante a segunda década do novo século, porém, membros de outras famílias locais e até mesmo forasteiros, haviam começado a entrar nas cidadelas dos Vacarianos e dos Campolargos, pela porta do casamento. O velho Benjamim observava alarmado a tendência das novas gerações de sua tribo a produzir mais rebentos do sexo feminino que do masculino. Quando ele morresse, Zózimo – filho que lhe nascera quando ele tinha já 56 anos – ocuparia o seu lugar. Mas... e depois? Seu sucessor tinha apenas quatro filhas. Era o diacho. E o olho legítimo de Benjamim Campolargo entristecia quando ele pensava nessas coisas.

Tanto ele como Xisto relutavam em aceitar a idéia de que já não eram os senhores absolutos e discricionários dentro de seus feudos. As gerações novas rebelavam-se contra as idéias dos seus maiores em matéria de costumes e rituais domésticos. Chegavam a criticar, por antiquados, os seus métodos de trabalho campeiro, vejam só aonde chegamos!

Assim, ao findar a década de ‘20 os dois senhores de Antares pareciam-se um pouco com os gliptodontes e os me-gatérios no fim do Pleistoceno, isto é, eram dois representantes de espécies animais em processo de extinção. Mas, como é de se supor tenha acontecido com os monstros ante-diluvianos, Xisto e Benjamim não pareciam ter consciência de seu drama.

 

A revolução militar irrompida em São Paulo, em 1924, contra o governo do Presidente Artur Bernardes, ecoou no Rio Grande do Sul em localidades muito próximas a Antares, como São Borja, São Luís e Santo Ângelo, onde se revoltaram respectivamente dois regimentos de cavalaria e um batalhão ferroviário, este último sob o comando dum capitão de Engenharia, Luís Carlos Prestes. O velho Campolar-go chegou a organizar um corpo de voluntários para defender a sua cidade, caso ela fosse atacada. Como, porém, os insurgentes de Prestes, depois de darem combate às forças legalistas, abandonaram o Estado, rumo de Catanduvas, onde deviam reunir-se aos rebeldes de São Paulo – Antares foi poupada aos desastres de mais uma guerra, e sua população continuou a viver a vidinha de sempre.

Um dia, no princípio do verão de 1925, apareceu sorrateiro em Antares um membro da prestigiosa família Vargas, de São Borja. Chamava-se Getúlio, tinha quarenta e dois anos de idade, era bacharel em Direito e ocupava então uma cadeira de deputado na Câmara Federal, como representante do Partido Republicano de seu Estado. Homem sereno, de feições e maneiras agradáveis, sabia usar a cabeça com lúcida frieza e possuía qualidades carismáticas ainda não de todo reveladas plena e publicamente. Dizia pouco mas perguntava muito. Frio, solerte, sabia jogar com dois fatores importantes na vida: o tempo e as fraquezas humanas.

Usou de artimanhas tais, que naquele dia conseguiu reunir Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo na casa dum amigo comum, homem apolitico e geralmente benquis-to na cidade.

Quando os dois sátrapas locais deram pela coisa, estavam já frente a frente, fechados a chave com o Dr. Getúlio numa sala de visitas que o calor de janeiro transformava num forno aceso, com a colaboração de cortinas de veludo, guardanapos de croche e tapetes felpudos. Um ventilador girava e zumbia, inócuo, em cima duma mesinha com tampo de mármore, ao lado dum vaso de alabastro com flores artificiais.

Os dois velhos inimigos naturalmente não se apertaram as mãos e nem sequer rosnaram a menor palavra um para o outro. Estavam ambos meio desarvorados. Aquilo então era coisa que se fizesse? Olhavam para Getúlio Vargas com uma expressão de censura em que se mesclavam surpresa e zanga. O deputado de São Borja, abrindo o seu sorriso mais sedutor, de excelentes dentes, convidou-os a sentarem-se, perguntando-lhes se queriam beber alguma coisa gelada. Nenhum dos dois queria. Sentaram-se com uma certa relutância pesada, cada qual na sua poltrona, separados por três metros de tapete. Getúlio Vargas acendeu com pachorra o seu charuto e por alguns instantes permaneceu silencioso a olhar, de um para outro, os dois velhos, como um árbitro que, no meio da arena, prepara-se para anunciar ao público a luta de boxe que se vai travar entre dois campeões de peso-pesado.

– Perdoem-me pela “traição” – disse ele. – Quando os fins são bons, às vezes temos de fechar os olhos à natureza dos meios. Foi essa a única maneira que encontrei para juntar numa mesma sala dois antigos adversários pessoais e políticos.

Fez uma pausa pontuada por baforadas da fumaça do charuto e pôs-se a andar dum lado para outro.

– Estou aqui a mandado de meu pai. O velho Manuel me fez portador dum pedido ao senhor, Cel. Xisto, e ao senhor, Cel. Benjamim. Os amigos hão de concordar em que os tempos estão mudando. O mundo se encontra diante da porteira duma nova Era. Essas rivalidades entre maragatos e republicanos serão um dia coisas do passado. Precisamos pacificar definitivamente o Rio Grande para podermos enfrentar unidos o que vem por aí...

Nenhum dos dois chefes antarenses perguntou o que era que vinha por aí. Mantiveram-se silenciosos e emburra-dos, bufando de calor. Getúlio ergueu a cabeça e soltou uma baforada de fumaça na direção do lustre de vidrilhos que pendia do centro do teto. Benjamim – que, por insistência de seus familiares, consentira em usar um olho de vidro para substituir o que perdera na Guerra do Paraguai – com o olho natural fit iva obsessivamente a escarradeira de louça pintada que tinha a seus pés. Xisto tamborilava nervosamente com os dedos de ambas as mãos nos braços da poltrona, enquanto seus lábios murchos e arroxeados se pre-gueavam, deixando escapar uma espécie de assobio que não passava duma ventosidade sem melodia.

– Pois o velho Manuel apela para os senhores – tornou a falar o emissário de São Borja – para que façam as pazes, apertem-se as mãos, esqueçam as diferenças e os agravos do passado e daqui por diante trabalhem juntos pelo progresso e pela grandeza de nossa terra. Não há nenhum desdouro nessa reconciliação, cuja iniciativa não partiu de nenhum dos prezados amigos aqui presentes. Foi um vizinho, um republicano, que se lembrou disso, com a melhor das intenções. Se não quiserem fazer as pazes em atenção ao meu pai ou a mim, reconciliem-se então pelo amor ao Rio Grande.

Getúlio continuou a falar sem ênfase oratória, macio e persuasivo. O Rio Grande estava destinado a cumprir no Brasil uma grande missão em prol da unidade nacional. Para isso, entretanto, era preciso primeiro recuperar a sua hegemonia política perdida após o assassinio do Senador Pinheiro Machado.

 

Não passou despercebido ao jovem deputado o efeito mágico produzido pelo nome de Pinheiro Machado no Cel. Xisto, que, ao ouvi-lo, pigarreou enquanto a pàlpebra de seu olho esquerdo tremia nervosamente.

– Quem governa o Brasil – prosseguiu Getúlio – são ora os mineiros ora os paulistas, a famosa fórmula “café com leite”. – Soltou uma risada. – Não é justo que o chimarrão tenha também a sua vez?

Falou durante mais dez minutos, concluindo assim:

– Pois agora me digam sinceramente que é que ganham sendo inimigos? Quem perde é Antares e o Rio Grande. – Voltou-se para Xisto Vacariano. – Autorizo ao senhor, coronel, a dizer publicamente, a quem quiser, que foi meu pai, que fui eu, dois republicanos, que o procuraram para fazer esta proposta de paz. Que me diz, Cel. Benjamim?

O maioral dos Campolargos parecia ainda hipnotizado pela escarradeira. Finalmente ergueu o olho bom para o “moço de São Borja” e murmurou: “Pôs é...”, vago mas já meio inclinado ao sim. O cacique dos Vacarianos, que até então estiverà sentado meio de lado, mexeu-se na poltrona e transferiu o peso do busto para o outro hemisfério das nádegas, e seu assobio sem música foi substituído por uma espécie de prolongado ronco, que tanto podia ser um princípio de assentimento como o rosnar do cachorro prestes a morder. Getúlio tornou a fazer um apelo:

– Vamos, apertem-se as mãos! O que passou, passou. Os dois anciãos levantaram-se com certa má vontade, aproximaram-se um do outro com passos arrastados e lentos e, sem se olharem cara a cara, trocaram o simulacro dum aperto de mãos. Getúlio então abraçou-os a ambos, agradeceu-lhes e felicitou-os pelo gesto, em seu nome e no de seu pai.

Seguiu-se um momento de constrangido silêncio em que nenhum dos dois adversários crônicos parecia querer ser o primeiro a dirigir a palavra ao outro. Por fim o Cel. Campolargo, fazendo um esforço sobre si mesmo, olhou enviesado para Xisto e murmurou:

– Como vai a sua patroa?

Apanhado de surpresa, pois havia mais de sessenta anos que não trocava uma palavra sequer com aquele Campolargo, Xisto ficou meio estonteado, como se tivesse sido abruptamente agredido pelo outro. Mas, recompondo-se, respondeu automaticamente:

– Bem. E a sua?

– Ué... morreu o ano passado. Não sabia? Benjamim encabulou. Tinha esquecido o óbito por completo.

– Desculpe! Meus pêsames. Getúlio Vargas interveio:

– Bom, vamos agora ao “tratado de paz”. Acho necessário, indispensável mesmo, que mandemos publicar não só no jornal local, como também no Correio do Povo, no Diário do Interior de Santa Maria e no Correio do Sul de Bagé uma declaração conjunta, assinada por ambos os amigos, explicando ao eleitorado do Rio Grande o motivo e o sentido desta reconciliação. – Levou a mão ao bolso interno do casaco. – Tenho aqui um manifesto já preparado. Vou ler para ver se os amigos estão de acordo com os seus termos ...

 

Momentos depois os dois velhos estavam em suas respectivas casas. Vacariano refletia, desapontado: “Acho que deixei me embrulhar por aquele deputadinho de borra”. Deu à família reunida para ouvi-lo a sua versão do encontro. Afirmou que tinha relutado muito, imposto condições, deixado bem claro que aquilo “não era casamento”, e que ele continuava a ser federalista, corno sempre.

Benjamim Campolargo não estava de todo descontente com o acordo que firmara. Getúlio Vargas bem podia ser o homem já escolhido pelo Dr. Borges de Medeiros para substituí-lo no governo do Estado. Talvez ele, Benjamim, tivesse acabado de atender a um pedido do futuro presidente do Rio Grande do Sul. Em casa também mentiu, dando a sua versão do fato. Ao fim do relato disse: “Me tragam álcool para eu me desinfetar. Toquei a mão dum Vacariano. Dizem que falta de vergonha é doença contagiosa”.

Pouco mais disse pelo resto de sua vida, que foi de apenas algumas horas, ^aquele mesmo dia teve um edema agudo de pulmão e faleceu ao anoitecer. Xisto, que logo após a reunião se havia retirado para a estância, morreu menos de uma semana mais tarde, com o ventre rasgado pela cornada dum boi xucro que seu lenço vermelho provocara. Antares entrou assim no seu Eoceno político.

Vacarianos e Campolargos – honrando o tratado de paz – trocaram-se condolências e custosas coroas de flores. Tibério fe ninguém nunca ficou sabendo ao certo por que o velho Xisto dera ao seu primogênito o nome dum imperador romano de tão equívoca fama) assumiu a chefia da família. Não houve problemas de inventário. Não apareceu nenhum advogado cabresteando filhos ou filhas naturais do velho Xisto, embora os houvesse às pencas.

Quanto a Zózimo, o único descendente macho do falecido Benjamim por linha reta, era um homem sem nenhuma vocação para a liderança. Tinha terminado o curso gi-nasial e feito dois anos de Direito. Gostava de ler, era meio indolente – homem de boa paz. Ficou desconcertado quando se viu feito patriarca do clã dos Campolargos. Respondeu a essa situação com eólicas intestinais que duraram uma semana. Por sorte ou desgraça sua – e neste particular as opiniões em Antares dividiam-se – sua mulher Quitéria, uma Campolargo tanto por parte de pai como de mãe, era uma criatura enérgica e inteligente, senhora de razoáveis leituras, e até duma certa astúcia política, de maneira que, depois da morte do velho Benjamim, embora Zózimo empunhasse, sem o menor garbo, o cetro de patriarca, D. Quita – como ela gostava de ser chamada, pois detestava, por antigo, o nome avoengo que recebera em batismo – passara a ser a “eminência parda”, o “poder por trás do trono”.

Eram bastante cordiais suas relações com a mulher de Tibério Vacariano, D. Briolanja, conhecida na intimidade como Lanja – outra que também não gostava do próprio nome de sabor arcaico. Nunca haviam tido nenhum atrito. Visitavam-se. Estimavam-se até. Trocavam-se receitas de doces, bolos e tricô. Lanja era o tipo da dona de casa, ocupada e preocupada com os filhos, os netos e os deveres domésticos, isso para não falar na sua devoção ao marido. Pode-se afirmar que as boas relações humanas entre essas duas damas contribuíram, mais que qualquer outro fator, para a consolidação da paz entre Campolargos e Vacarianos.

 

Quando em novembro de 1926 chegou a Antares a notícia de que Getúlio Vargas havia sido feito Ministro da Fazenda do gabinete de Washington Luís, que sucedera Artur Bernardes na presidência da República, Tibério Vacariano sorriu e, como se estivesse falando dum foguete, disse a um amigo: “Lá se foi o Baixinho! Vai subir muito alto antes de estourar”.

Não se enganava. Getúlio Vargas foi eleito presidente de seu próprio Estado quando Borges de Medeiros chegou ao termo de seu quinto mandato. Graças ao seu espírito conciliatório e à sua habilidade política, conseguiu o novo governante criar no Rio Grande um tão ameno clima político, que tornou possível a aliança de libertadores com republicanos numa Frente Única que apoiou a candidatura de Vargas à presidência da República, resultante duma desavença entre os políticos de São Paulo e os de Minas Gerais – pois estes não aceitavam o candidato que Washington Luís havia indicado intransigentemente para substituí-lo.

Consumada a Aliança Liberal em todo o Brasil, maragatos e pica-paus, cerrando fileiras no Rio Grande do Sul, de braços dados, Tibério Vacariano exclamou: “Esse Getú-lio nasceu mesmo com o rabo virado pra Lua!” E atirou-se com entusiasmo à propaganda eleitoral do “homenzinho de São Bor ja”. (“Que diria o falecido Xisto se me visse trabalhando pela candidatura dum republicano?”)

No dia das eleições nacionais ajudou os pica-paus a falsificar atas, fazendo todos os defuntos do cemitério local votar no seu candidato. Andava de mesa eleitoral em mesa eleitoral, oferecendo sugestões no sentido de aumentar fraudulentamente o número de votos favoráveis a Getúlio Vargas. (“Imaginem eu, um maragato, querendo ensinar o Padre-Nosso ao vigário”, brincava ele com os republicanos, mestres em fraudes daquela espécie.) Os fiscais do candidato oficial, em geral funcionários públicos federais que exerciam essa função a contragosto, faziam vista grossa a todas essas bandalheiras.

 

Quando em 1930 o Congresso Nacional proclamou a vitória eleitoral do candidato de Washington Luís, Tibério Vacariano berrou na praça de Antares-. “Fomos esbulhados! Esses ladrões só nos podiam vencer em eleições fraudulentas! Agora só há um caminho: a revolução!”

E aqueles meses durante os quais os jornais falavam com insistência duma “arrancada” das forças do Rio Grande do Sul para derrubar o autocrata que ousava impor à nação um candidato próprio – foram tempos de impaciência, tanto para Campolargos como para Vacarianos, cavalos de guerra que mordiam o freio e escarvavam o chão. indoceis, e só não se precipitavam em épico galope rumo da capital federal porque suas rédeas estavam em mãos indecisas. “No Rio e em São Paulo já fazem troça de nós. Dizem que somos parlapatões, que a nossa decantada bravura é pura farofa!”

Zózimo Campolargo, esse parecia já disposto a aceitar o fato consumado. De resto, o Dr. Borges de Medeiros, chefe de seu partido, não lhe parecia nada entusiasmado com a idéia duma subversão da ordem. E Zózimo assim se deixou ficar na sua vidoca, lendo lenta e interminavelmente os jornais, indo de vez em quando ao cinema (gostava especialmente dos filmes de cow-boys), tomando o seu chi-marrão habitual e relendo romances de Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e Eça de Queiroz.

Tibério, porém, não se conteve. Embarcou para Porto Alegre, confabulou com o próprio Getúlio Vargas, achou-o vago, ambíguo e ficou irritado: “Mas como é o negócio, Presidente? Vamos ou não vamos?” O Homem sorriu: “Devagar com o andor, coronel”. Tibério voltou para Antares decepcionado. Depositava agora as suas esperanças bélicas em Oswaldo Aranha, figura fascinante que lhe parecia mais gauchamente afoito que o precavido e manhoso político de São Borja.

Em princípios de outubro daquele ano, quando lhes chegou finalmente a esperada senha telegràfica (“O que é que há?”) Tibério tinha já organizado a sua tropa. E alegrava-lhe o coração ver entre seus soldados mais lenços vermelhos do que brancos.

Um dia lhe chegou a ordem de marchar. E uma das maiores decepções de sua vida foi que a batalha campal de Itararé – que poderia ter sido uma das maiores da História do Brasil, não chegou a travar-se.

Havia, porém, um Vacariano entre os membros da Legião Bento Gonçalves que, depois da vitória da revolução, amarraram seus cavalos no obelisco da Av. Rio Branco. Como observou alguém, não bastara aos gaúchos derrubar o governo federal: era preciso também, numa afirmação de machismo guasca, ridicularizar aquele símbolo fálico da cidade São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

Zózimo Campolargo seguira também rumo de Itararé com o Corpo Provisório de Antares, comandado por Tibério Vacariano. Não levava a sério o seu uniforme caqui nem as suas divisas de major. Não se considerava diminuído e, muito menos, engrandecido por servir sob as ordens dum Vacariano. Tudo aquilo lhe era indiferente. E que muito do que nele parecia pura apatia era um pouco ceticismo e um certo horror à teatralidade.

Em 1932, quando os paulistas fizeram a sua revolução, exigindo uma Constituição nova para o país e eleições presidenciais – pois lhes parecia que o “governo provisório” de Vargas estava ficando crônico – Tibério Vacariano de novo formou seus batalhões, “para defender a legalidade”, segundo ele – “para forrar o poncho”, murmuravam à so-capa seus desafetos, que conheciam todas as tramóias que o filho de Xisto fazia com as suas famosas “requisições de guerra”.

Zózimo Campolargo, entretanto, simpatizava com a revolução constitucionalista. Nada, porém, podia – nem mesmo queria – fazer de concreto a favor dela. Limitava-se a escutar às escondidas o noticiário sobre a guerra civil divulgado pelas estações de rádio dos revoltosos.

Entre os muitos bens e obrigações que lhe haviam cabido por morte do pai, herdara também, embora a contragosto, a fidelidade política que o velho Benjamim votava ao Dr. Borges de Medeiros, e da qual ele, Zózimo, participava duma maneira apenas intelectual, morna e distante. Quando se divulgou a notícia de que o velho chefe republicano, num gesto simbólico mas dum grande sentido moral, havia “ido para a coxilha” de armas na mão, cumprindo um compromisso assumido com os revolucionários paulistas – Zózimo Campolargo, que gostava de imaginar-se um homem liberto de mitos e símbolos – julgou-se no dever de juntar-se ao ídolo político de seu falecido pai. Preparou-se para isso, mas com tão pouco entusiasmo e tamanho vagar, que na véspera de deixar Antares para ir ao encontro do pequeno grupo que acompanhava o Dr. Borges de Medeiros, chegou-lhe a notícia de que o histórico varão da propaganda republicana havia sido feito prisioneiro por tropas fiéis a Getúlio Vargas, depois do combate de Cerro Alegre.

Como na cidade era bastante conhecida a sua posição ante aquela guerra civil, Zózimo Campolargo não hesitou em cruzar o rio, buscando asilo na Argentina. D. Quitéria, porém, permaneceu em Antares, para tomar conta da família e de seus negócios, e de vez em quando ia a Buenos Aires visitar o marido. Tibério Vacariano fazia vista grossa a essas idas e vindas. Gostava dos Campolargos. Dizia aos íntimos que nesse casal era a mulher quem carregava os cojones. Zózimo voltou para Antares em princípios de 1933. Quando ele e Tibério se encontraram na rua pela primeira vez, apertaram-se as mãos, abraçaram-se e o Vacariano, com um risinho entre sarcástico e afetuoso, perguntou:

– Ué? Onde andou metido todo esse tempo? Na estância?

 

Quando em 1934 o Brasil adotou uma nova Constituição e Getúlio Vargas foi eleito Presidente da República pela Assembléia Constituinte, por um período de quatro anos, Tibério Vacariano fez sua primeira visita ao Rio de Janeiro. Teve um rápido colóquio com o Presidente, que o recebeu com afabilidade, no Palácio do Catete, declarandc-lhe: “O senhor, coronel, é o meu homem de confiança em Antares”. Tibério aproveitou a oportunidade para conseguir com o chefe da nação bons empregos em repartições públicas federais para alguns de seus parentes e amigos. Fez esses pedidos como quem quer dar a entender que ele, Vacariano, não queria nada para si mesmo, pois “Deus me livre, Prendente, de abusar duma amizade...”.

Passou um mês na capital federal, conheceu-lhe a vida noturna, fez relações, insinuou-se nos bastidores da política e ficou estonteado quando teve uma visão do mundo dos negócios e especialmente do submundo das negociatas. Guardou a impressão de que o Rio era como uma daquelas localidades do Far West americano – que ele conhecia de fitas de cinema – nos tempos da corrida para o ouro. Na capital do Brasil havia ouro à flor do solo. Os primeiros faiscadores – vindos de todos os quadrantes do país – mexiam no cascalho das repartições públicas e principalmente no dos ministérios. Alguns haviam já encontrado veios riquíssimos. Era uma luta de apetites, choques de interesses, um torneio de prestígio, um jogo de “pistolões”. Muitos dos capitães e soldados da revolução que levara Vargas ao poder, cobravam agora o seu soldo de guerra. Um amigo de Tibério, um gauchão cínico, que ganhara um lucrativo cartório, lhe disse um dia, comentando aquele “garimpo” alucinado: “Para conseguir o que quer, Tibé, essa gente é capaz de tudo, até de usar meios decentes e legais”.

Tibério Vacariano voltou para casa com a cabeça cheia de planos efervescentes. Concluíra que havia chegado a sua hora de “tirar o pé do lodo”, isto é, livrar-se por uns tempos da vidinha pacata, segura mas medíocre e monótona que levava em Antares. Afinal de contas um homem só vive uma vez. Tinha já entrado na quadra dos quarenta, sentia-se em pleno meio-dia da vida. O Rio de Janeiro fervia permanentemente de fêmeas jovens e apetitosas, algumas delas fáceis. Pela primeira vez Tibério havia atentado na beleza do cenário da grande metrópole. “Ota cidade linda!” – costumava dizer aos amigos.

Em Antares encontrou tantos problemas e tarefas ato-caiados à sua espera, que se deixou envolver por eles e pela rotina, e acabou guardando seus projetos cariocas em alguma recôndita gaveta de seu ser. Algumas vezes, porém, quando estava em cima dum cavalo, na estância, parando rodeio ou simplesmente cruzando uma invernada, passavam-lhe pelo campo da memória imagens fugidias como essas que a gente mal vê pela janela dum trem em movimento. O Corcovado... a pedra da Gávea... ondas batendo na pedra do Arpoador... as areias de Copacabana... caras, coxas, seios, pernas, nádegas de mulheres, sob pára-sóis coloridos... peles reluzentes de óleo de coco... e o sol e o mar e as montanhas... “Pota que me pariu! Que é que eu estou fazendo aqui neste fim de mundo, fedendo a creolina e levando esta vida de baguai?”

Nessas ocasiões Tibé Vacariano entregava-se a algo que tinha todo o jeito duma saudade. Precisava voltar àquela “California”!

 

E voltou mesmo, em 1938, depois de proclamado o Estado Novo, que lhe pareceu um “golpe genial do Baixinho” para continuar no poder sem os trambolhos do Congresso e dos partidos políticos. Antes de embarcar, conversou longamente com Zózimo, que o escutou num silêncio entre tristonho e constrangido:

– Precisas compreender, homem, que os tempos mudaram. – E, num tom quase de colegial lendo um editorial de jornal, acrescentou: – É preciso reformar as velhas estruturas chamadas democráticas liberais. O Getúlio compreendeu a coisa. Somos um país subdesenvolvido de analfabetos e indolentes. É indispensável unificar e organizar a nação com punho de ferro. Vê o caso da Itália... O Mussolini acabou com a anarquia, implantando a ordem e o respeito à autoridade, e os trens já partem e chegam dentro do horário.

– Não sabia que tinhas aderido ao fascismo – sorriu Zózimo.

– Qual fascismo qual nada! Sou um realista e como tal simpatizo com os regimes autoritários. Sempre simpatizei, tu sabes.

– Mesmo no tempo do Dr. Borges de Medeiros?

– Ó homem, estamos na era do avião e do rádio e tu me vens com o borgismo! Naquela época eu era pouco mais que um rapazola inexperiente. E se me meti na revolução de ‘23 foi só para seguir o meu velho pai. Mas não desconverses. O Hitler reergueu a Alemanha, aboliu todos os partidos (menos o dele, naturalmente), botou pra fora do país os judeus que, como se sabe, são os culpados dessas guerras e intrigas políticas e financeiras internacionais, homens gananciosos e sem pátria.

– Também não sabia que tinhas virado racista.

– Racista eu? Ora, não sejas bobo. Sabes como trato a minha negrada. Eles me adoram. Mamei nos peitos duma negra-mina. Me criei no meio de moleques pretos retintos. Quando leio esses casos de ódio racial nos Estados Unidos, comento a coisa com a Lanja e lhe digo que no Brasil a gente, graças a Deus, não tem esses problemas, pois aqui o negro conhece o seu lugar.

Logo ao chegar ao Rio, em maio de 1938, a primeira coisa que Tibério fez foi visitar Getúlio Vargas e reafirmar-lhe a sua solidariedade pessoal e política. Nessa ocasião o ditador lhe disse: “Pois me alegro de ver que o amigo compreendeu o espírito do Estado Novo, que no fundo é puro castilhismo”. Tibério, que havia herdado do pai uma antipatia invencível pela figura de Júlio de Castühos e por suas idéias políticas, limitou-se a dizer: “Mas é claro, Presidente, só não vê isso quem não quer!”

Naquele mesmo ano o chefe do clã dos Vacarianos comprou um apartamento na Av. Atlântica com o auxílio dum empréstimo conseguido rapidamente no Banco do Brasil, graças a um cartão com umas palavrinhas do Homem. Pretendia dali por diante passar uma parte do ano no Rio e a outra em Antares, evitando assim – explicava – os invernos úmidos das barrancas do Uruguai, que já começava a sentir nos ossos.

 

Em 1940 estava já funcionando a máquina que ele montara para ganhar dinheiro. Associado a um primo seu e amigo íntimo, formado em Direito, Tibério abrira um escritório de advocacia administrativa e começara a vender a mais curiosamente abstrata das mercadorias: influência. Era um negócio em que não empatava nenhum capital em dinheiro. Jogava com o seu prestígio pessoal, suas boas relações com indivíduos colocados em postos-chave na engrenagem governamental. Sabia-se que ele tinha trânsito livre no Catete e em vários ministérios, e isso lhe valia boas comissões pagas com muito boa vontade por quem quer que estivesse interessado em movimentar requerimentos encalhados no mar de sargaço das repartições públicas.

Esquentado, autoritário – a princípio cometeu o erro de empregar nessas gestões o que ele chamava de “sistema gaúcho” e ir levando tudo e todos por diante “a grito no mais...”. O primo foi franco com ele: “Olha, Tibé, não te esqueças que não estás na tua estância onde mandas e desmandas, gritas com os teus peões e eles baixam a cabeça e te obedecem. Esse negócio de bancar o valentão não dá resultado aqui no Rio. Os nortistas, os nordestinos e os mineiros são, sem dúvida alguma, tão machos como nós e nos levam a vantagem de serem muito mais espertos e habilidosos. Ou tu mudas de tática ou acabamos dando com os burros nágua”.

Tibério não gostou da crítica mas procurou aproveitar a lição. Mudou de método. Aos poucos aprendeu a pacienta, a blandícia, a sinuosidade. Recalcou suas cargas de cavalaria ancestrais. Pode-se até dizer que no Rio completou 0 seu aprendizado de pedestre. Não esqueceu, entretanto, flue de vez em quando, em casos extremos, quando todos os outros recursos se esgotam, dava bom resultado segurar “o sacripanta” pelas lapelas, apertá-lo contra uma parede e rosnar: “Te quebro a cara, cafajeste!” Gestos violentos como esse, porém, se foram tornando cada vez mais raros.

Aos quarenta e dois anos, era Tibério Vacariano um homem alto e corpulento, de cabeça leonina, cara larga dum moreno claro, olhos meio enviesados e escuros, denunciando antepassados bugres, denúncia essa confirmada pelos malares um pouco salientes e pela basta cabeleira negra e lisa. Trajava com essa “elegância da fronteira”, de que era exemplo típico o Dr. José Antônio Flores da Cunha – camisas e gravatas de seda, ternos de linho branco, chapéu panama. Era um bom contador de “causos”. Suas anedotas e relatos picarescos, temperados aqui e ali com castelhanismos oportunos, faziam sucesso, contribuindo para que o filho do falecido Xisto Vacariano se tornasse uma figura popular em certos círculos sociais do Rio de Janeiro, onde era considerado um “boa bola”. Tinha fama de generoso, pois as pessoas não chegavam a perceber bem que suas dádivas eram mais verbais que concretas. Tibério sabia administrar muito bem a sua “generosidade”, exercendo-a apenas com pessoas que lhe estavam sendo ou pudessem um dia vir a ser-lhe úteis.

Era visto com freqüência na madrugada dos cassinos, na companhia de belas mulheres. Jogava roleta com alguma sorte. Teve uma amante húngara, que acabou abandonando “por cara”.

Além da advocacia administrativa, ganhava dinheiro em transações imobiliárias e ocasionalmente no câmbio negro. A Segunda Guerra Mundial proporcionou-lhe oportunidades para bons negócios, uns lícitos, outros ilícitos. Habituara-se a viver à sombra do Banco do Brasil, do qual conseguia empréstimos para amigos e sócios, e para si mesmo. E, como tantos de seus pares, já possuía, num banco de Zurique, uma conta corrente numerada, cada vez mais gorda em dólares.

Em 1931 entrara no que considerava um verdadeiro “negócio da China”. Estabeleceu uma “fábrica” de seda nos arredores de Antares. Constava ela apenas dum grande barracão de madeira às margens do Uruguai, sem nenhuma máquina, apenas com mesas e prateleiras, e uma porta que dava para o rio e três na fachada. À noite vinham da margem argentina barcas carregadas de peças de seda, de origem vária, e que eram levadas para a “fábrica”, onde uns cinco ou seis empregados as enrolavam em rótulos Seda Flor da Fronteira – Indústria Nacional e depois as expediam para muitas partes do Estado e para Santa Catarina e Paraná. Os guardas aduaneiros protegiam esse contrabando. Eram “gente do Tibé”, todos bem remunerados pelo caudilho.

Ano após ano, mal entrava o mês de novembro, Tibério punha-se a caminho do Rio Grande do Sul, de Antares e das suas terras, onde tornava a ser o estancieiro, o patrão, o homem que manda, desmanda e grita. Aliviava assim o peito e a cabeça de todos os impropérios e ímpetos agressivos reprimidos durante seus meses de “atividade civilizada” no Rio de Janeiro, no convívio com gente do asfalto e da areia da praia.

De quando em vez, durante o verão, ia à cidade para conversar com seus amigos e prepostos. O prefeito de Antares era um primo-irmão seu, pois o interventor federal não nomeava ninguém para cargos públicos dentro daquele município sem antes consultar o seu cacique.

Quando, em fins de abril ou princípios de maio de cada ano, embarcava de volta à capital federal, Tibério Va-cariano, ao vestir a sua roupa de linho ou tropical, enver-gava também a sua “personalidade carioca”. Já se habituara a esse tipo de vida, e achava até um sabor esquisito nessa duplicidade. D. Briolanja, que detestava o Rio de Janeiro com um provincianismo talvez animado por uma centelha de orgulho farroupilha, via com resignada apreensão as transformações por que passava o marido. Nada dizia, porém. Tinha o hábito, que mais parecia um vício, do silêncio. Voltava-se inteira para os filhos e os sobrinhos e para as suas atividades de dona de casa. Sabia também que, se interpelasse o marido por causa daquela sua vida de cassinos e aventuras eróticas (recebia às vezes cartas anônimas) ele lhe perguntaria, como já fizera uma vez: “Por acaso está te faltando alguma coisa, Lanja?”

 

Quando em 1943 um grupo de intelectuais e políticos mineiros publicou um manifesto pedindo a volta do Brasil ao regime democrático, Tibério Vacariano interpretou isso como a primeira fissura visível no baluarte do Estado Novo, cujos fundamentos – sentia ele – estavam sendo aos poucos solapados pelo trabalho subterrâneo de seus inimigos. A própria História – como lhe havia dito um amigo de boas letras – conspirava contra o regime getulista, cujas contradições eram demasiado visíveis e haviam ficado ainda mais gritantes quando, no ano seguinte, o Brasil mandou uma Força Expedicionária à Itália, para lutar ao lado dos americanos, em nome da democracia, contra o totalitarismo hitlerista, enquanto Getúlio Vargas mantinha ern casa uma versão paternalista de fascismo.

Foi com certa apreensão – e já pensando na sua retirada, caso houvesse uma radical mudança de ventos políticos – que Tibério Vacariano viu entrar o ano de 1945. Em janeiro leu nos jornais a notícia de que se havia reunido o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, do qual resultará um memorial em que se reclamava publicamente a volta do país ao regime democrático. Tibério era um inveterado ledor de jornais e de vez em quando lia livros – de preferência biografias e crônicas políticas – mas em seu espírito, por alguma razão misteriosa, jamais tinha presente com clareza a relação existente entre livro e autor, como a de causa e efeito. Quando se referia a alguma pessoa incor-rigivelmente sonhadora, destituída de senso comum, costumava dizer: “E um poeta!” Estava já convencido de que os escritores em sua maioria inclinavam-se politicamente para a esquerda, sendo portanto “uns chatos”. Pois agora até esses escrevinhadores – que nem sequer constituíam uma classe pois não tinham sindicato – haviam deitado manifesto, reclamando não só completa liberdade de expressão como também eleições presidenciais por sufrágio universal e com voto secreto!

O que deu a Tibério uma idéia de como o Departamento de Imprensa e Propaganda – o famigerado D.I.P. – começara a “dormir nas palhas” foi o ter ele permitido que os jornais publicassem uma entrevista com José Américo de Almeida, e na qual o amigo do falecido João Pessoa se manifestava claramente favorável à realização de eleições presidenciais e declarava, com todas as letras, que nesse pleito dois homens havia no Brasil que não podiam ser candidatos: ele próprio e o Dr. Getúlio Vargas.

O ditador, que fazia muito andava silencioso, marom-bando, concedeu à imprensa uma entrevista coletiva na qual procurou justificar a sua discutida Constituição de ‘37, da autoria do Prof. Francisco Campos. Quando lhe perguntaram se pretendia ser candidato à reeleição, desconversou.

Falava-se, pois, e escrevia-se livremente sobre a “rede-mocratização do Brasil”. Os jornais aos quais o D.I.P. dera um dedinho de liberdade tomavam toda a mão, alguns já exigiam o braço e cedo a imprensa acabaria agarrando o corpo inteiro...

Os universitários, que tinham fundado a União Brasileira de Estudantes, realizaram no Rio um agitado comício popular pró-democracia. Seus colegas no Recife fizeram idênticas demonstrações mas a polícia lá reagira contra eles com grande violência, matando um estudante e um operário.

 

Em abril de 1945 o governo de Getúlio Vargas concedeu anistia a todos os presos políticos do país, inclusive ao chefe comunista Luís Carlos Prestes, encarcerado havia quase nove anos.

As eleições presidenciais haviam sido marcadas oficialmente para o dia 2 de dezembro daquele mesmo ano. Um dia um amigo “liberalòide” de Tibério encontrou-o no saguão de um dos ministérios e saudou-o de longe com um gesto de mão e estas palavras: “A procissão está na rua, meu velho!” Tibério sacudiu a cabeça, num assentimento, e ficou pensando: “Que a procissão está na rua eu sei. Só não sei ainda que santo, que irmandade vou seguir”.

Um dos candidatos à presidência da nação já público e notório era o Brig.ro Eduardo Gomes, com o qual Tibério antipatizava por causa de sua reputação de homem impoluto, espécie de vestal do Exército e da Democracia. (A palavra democracia começava a fazer-lhe mal ao estômago.) Um novo partido, a União Democrática Nacional, formado principalmente por elementos antigetulistas, havia decidido adotar oficialmente a candidatura do Brigadeiro. Um segundo candidato surgira na pessoa do Gen. Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra do governo de Getúlio Vargas, com cujo beneplácito – já publicamente anunciado pelo próprio ditador – ele contava. (Tibério via nesse apoio um gesto de diabólica habilidade política, ao mesmo tempo de sutil humorismo e, bem no fundo, de “vingança”, como se o Baixinho pensasse assim: “Ah! Me acham ruim? Pois elejam o Dutra para ver o que é bom”.)

Para Tibério o Gen. Dutra “não cheirava nem fedia”. Era sem dúvida um cidadão honrado. Mas quantos milhões de homens decentes existiriam no território nacional mas sem competência para dirigir a nação? Outro aspecto da questão sucessória que impressionava o Cel. Vacariano era o fato de que o salafrário do Getúlio – e aqui o adjetivo salafrário tinha uma conotação positiva e afetuosa – contava ainda com a estima e a admiração de grande parte do povo brasileiro.

Um dia teve uma audiência de cinco minutos com o ditador e. depois de tratar do assunto que o levara até ele, perguntou-lhe de chofre: “Presidente, por que o senhor não se candidata em dezembro? As massas estão do seu lado. A sua eleição seria uma barbada”. O são-borjense mostrou os belos dentes no seu já lendário sorriso despistador e murmurou: “Quem sabe, coronel?” E em seguida como que se sumiu, envolto na fumaça azulada de seu longo charuto. E não tocou mais no assunto.

A Grande Guerra havia terminado. Hitler estava morto e o nazismo, aniquilado. A Força Expedicionária Brasileira em breve começaria a voltar à pátria. O Partido Comunista Brasileiro agora funcionava legalmente e realizara já um grande comício Os estudantes continuavam politicamente ativos. Os mineiros ainda conspiravam. A candidatura do Gen. Dutra contava com o apoio oficial do Partido Social Democrático, formado de elementos conservadores, forças que até então, dum modo ou de outro, haviam colaborado com Getúlio Vargas em todo o país, e que tinham grande força nas pequenas cidades das zonas rurais.

Talvez o mais certo – concluiu Tibério, pensando na sabedoria dum ditado gaúcho – seria apostar no “cavalo do comissário”, que nunca perde carreira.

Em agosto daquele ano um amigo seu, getulista dos quatro costados, lhe disse:

– Coronel, acabamos de fundar o Partido Trabalhista Brasileiro. Vai ser o mais poderoso do Brasil, o partido das massas, do operariado, do homem comum, do povo. Seja um dos nossos! O P.T.B. vai lutar contra essa idéia desastrosa das eleições presidenciais em dezembro. Queremos uma Constituinte com Getúlio ainda no poder.

– Mas esse é o programa do Partido Comunista!

E daí? Se a idéia é boa, por que não apoiá-la?

– Com comunistas não vou nem pro Céu.

– Mas quem lhe disse que comunista entra no Céu?

– Queres que te fale com franqueza? As coisas estão de tal modo confusas que já não sei mais a quantas andamos. Depois que li nos jornais que o governo dos Estados Unidos permitiu que as tropas russas chegassem a Berlim primeiro que as deles, e depois que vi numa fotografia soldados soviéticos e americanos confraternizando... bom, não duvido de mais nada. Se me disserem que Deus Nosso Senhor deu uma guinada para a esquerda, eu acredito...

Tibério Vacariano via agora, para onde quer que se voltasse, cartazes e letreiros nas paredes e muros: Queremos Getúlio! – Abaixo as Eleições de Dezembro! – Constituinte com Getúlio. Os termos queremismo e queremista pareciam ter entrado definitivamente para o dicionário político brasileiro.

Por outro lado o Brigadeiro empolgava as chamadas elites, atraía os elementos intelectuais da nação, ao mesmo tempo que sua figura física e sua auréola de bom filho e bom católico fascinava mulheres de todas as idades. A cara do Gen. Dutra – achava Tibério – não ajudava o homem eleitoralmente. Mas um dia, por acaso, entreouviu um certo Dr. Fernando Carneiro, homem de aguda inteligência, dizer numa roda: “Ganha o Gen. Dutra. É que o eleitor brasileiro tem uma curiosa confiança e até uma certa predileção afetuosa pelos homens fisicamente feios”. Quanto ao Baixinho, continuava calado, e muitos imaginavam que ele tinha escondida na manga uma carta – um ás – que jogaria no momento oportuno.

Tibério Vacariano tratou de preparar cuidadosamente a sua retirada. Fazia já alguns anos que tinha fechado a sua “fábrica de seda” às margens do Rio Uruguai. Não queimou propriamente pontes, mas queimou papéis. Quando menino aprendera, em teatros mambembes e circos de cavalinhos, que existem principalmente dois tipos de mágicos: os sujos e os limpos. Os primeiros trabalhavam tão mal, que seus truques ficavam visíveis e risíveis, e os pobres coitados eram vaiados pelo público. Os segundos tinham tal habilidade, tal destreza, que as suas prestidigita-ções pareciam verdadeiros milagres. Tibério gabava-se de ser um “mágico limpo”. Procurava fazer as suas trapaças sem ficar com o rabo preso na ratoeira. Por princípio jamais escrevia cartas ou mesmo bilhetes. Negava-se terminante-mente a assinar compromissos escritos, até mesmo os rigorosamente legais. Com ele era tudo “no papo”. Mesmo assim, encontrou documentos que precisava destruir, por perigosos.

Quando em setembro daquele ano de 1945 voltou para Antares, ao vê-lo chegar na maciota, antes do tempo, os maldizentes murmuraram: “O navio deve estar mesmo afundando, pois os ratos já começaram a abandoná-lo...”.

 

Tibério Vacariano encontrava-se ainda na estância em outubro de 1945 quando ouviu pelo rádio a notícia de que o Exército havia forçado Getúlio Vargas a renunciar. Escutou também, e com um risinho sardònico – murmurando de quando em quando: “Pois sim...” – “Essa eu não engulo.” – “Agora é que vens nos contar isso?” – a leitura da proclamação em que o Gen. Goes Monteiro justificava o golpe de Estado, assumindo plena responsabilidade por ele.

No dia seguinte saiu para o campo, com “uma coisa no peito”. Sentia pena do Dr. Getúlio. O baque devia ter sido duro para o seu amor-próprio...

Um sobrinho seu veio da cidade para lhe comunicar que o ex-ditador já se encontrava no município de São Bor-ja, na sua estância do Itu.

– O senhor vai visitá-lo? – perguntou o rapaz. Tibério lançou-lhe um olhar enviesado:

– Não sei ainda.

Estava em dúvida. Sentia que a sua obrigação era ir ver o homem a quem tantos favores e atenções devia. Concluiu, entretanto, que numa conjuntura como aquela, o melhor era fazer como certos animais na hora do perigo: fingir de morto. Justificava-se perante si mesmo e os outros: “O Dr. Getúlio deve estar cercado de queremistas trabalhistas e sevandijas. Se eu visito o Homem agora, todo mundo vai pensar que isso é um ato de solidariedade política. Nessa eu não caio”. Deixou-se ficar em suas terras.

Voltou para Antares em meados de novembro e promoveu uma reunião do diretório local do Partido Social Democrático, do qual era presidente. Encontrou um dia Zózimo Campolargo na Praça da República, abraçaram-se, trocaram-se nacos de fumo em rama, prepararam os seus palhieiros e sentaram-se num banco, à sombra dum platano, para conversar e fumar.

– Sempre adversários, hem, Zózimo?

Pois é. Me fizeram presidente do diretório da U.D.N. Coisas da Quita, que continua uma grande politiqueira... E por falar em política, já foste visitar o Dr. Getúlio?

– Não. Por que perguntas?

– Ele não era teu amigo?

Era e é. Mas eu separo o homem do político. São duas coisas diferentes.

– Desde quando? – sorriu Zózimo. – Desde que ele caiu?

– Ora, vai-te à merda!

– Dela sairemos se o Brigadeiro for eleito.

– Mas não vai ser. Ganha o Gen. Dutra. Aposto um Poleango. (Era assim que Tibério pronunciava, como muitos outros gaúchos, Polled Angus.)

– Então é por isso que estás no P.S.D., não? Ou queres me fazer crer que é por convicções políticas?

– Falar em convicções políticas nesta altura dos acontecimentos é a maior bobagem deste mundo. Em matéria de idéias a tua U.D.N. e o meu P.S.D. são cavalos da mesma raça, filhos da mesma égua e do mesmo garanhão, com o mesmo pêlo e as mesmas manhas, só que com nomes diferentes. E ou não é? Confessa.

Zózimo sacudiu negativamente a cabeça.

– A U.D.N. é vinho de outra pipa – replicou. – O P.S.D. está minado de getulistas e oportunistas. O Dr. Getúlio está recomendando a seus partidários que votem no Gen. Dutra, mas presta bem atenção, Tibé, ele faz isso sem o menor entusiasmo. E ao mesmo tempo acertou a sua própria candidatura ao Senado e à Câmara federais pelo P.T.B. e pelo P.S.D. E uma duplicidade inédita na nossa vida política, acho.

Tibério, com o cigarro apertado entre os dentes, olhava fixamente para a Matriz, murmurando:

– Ê. O Getúlio nunca fecha as suas portas nem as suas janelas. Pelo menos com tranca. É um feiticeiro.

– Feiticeiro? Não sei. Talvez a feitiçaria dele esteja nas nossas fraquezas, ambições e superstições. Em qualquer caso, as urnas vão ter a última palavra. Acho que o teu amigo está politicamente liquidado.

– Não sei... não sei... até o dia 2 de dezembro muita coisa pode ainda acontecer.

– Estás vendo? Isso é que eu chamo de superstição e fraqueza. No fundo és um queremista!

De súbito, mudando o tom de voz, Tibério Vacariano disse :

– O Pe. Gerôncio me disse que a Matriz anda precisando duns consertos e duma pinturinha.

– O Brasil também, Tibé, o Brasil também.

 

Quando a eleição do Gen. Eurico Gaspar Dutra foi confirmada pelo Congresso, muitos jornais em todo o país reconheceram que o apoio de Getúlio Vargas havia sido decisivo para essa vitória. O próprio ex-ditador fora eleito por expressivo número de votos não só deputado federal como também senador.

“Eu não me enganava” – refletiu Tibério Vacariano. – “O prestígio do Homem é ainda uma coisa séria. Ele ainda é trunfo no baralho político.” Pediu a um amigo comum que sondasse o Dr. Getúlio para saber como ele receberia uma visita sua. A sondagem foi feita e a resposta veio, clara e curta. O Dr. Getúlio Vargas não o receberia.

Em fins de 1947, Tibério um dia comentou entre amigos que o Gen. Dutra, na sua opinião, havia feito uma coisa certa e outra errada. A certa era ter posto o Partido Comunista Brasileiro fora da lei. A errada, ter proibido os jogos de azar em todo o território nacional. Alguém objetou que o jogo, além de ser uma imoralidade, era a perdição das criaturas. Tibério fitou o moralista com os seus olhinhos malaios e disse: “Olhe, moço, mais desgraça tem acontecido aos homens por causa de mulher do que por causa de jogo. Você então acha que devia haver uma lei proibindo homem de gostar de mulher, e vice-versa?”

Na volta de um de seus invernos cariocas Tibério contou aos amigos que costumavam reunir-se todos os dias às dez da manhã, na Farmácia Imaculada Conceição, de propriedade de um dos genros de Zózimo Campolargo, num grupo de chimarrão conhecido na cidade como “a rodinha da Imaculada”:

– Vocês diziam que havia corrupção no tempo do Getúlio, não é? Pois fiquem sabendo que as negociatas e as roubalheiras continuam neste governo do Gen. Dutra e dizem até que a coisa agora é pior, só que mais escondida. O Presidente, que é um homem de bem, não sabe da missa a metade. Durante a guerra acumulamos reservas em ouro na importância de mais de setecentos milhões de dólares. Já não temos quase mais nada. Gastamos tudo comprando sobras de guerra e outras porcarias que os Estados Unidos nos impingiram.

– Ora, coronel, isso é exagero.

– Exagero qual nada! – vociferou o Vacariano, segurando a cuia como uma granada de mão prestes a ser atirada contra a “cambada de ladrões” que cercava o novo Presidente. – Nunca falta um sem-vergonha filho da mãe disposto a vender a pátria por trinta dinheiros. Nossa situação econômica e financeira é uma calamidade.

Alguém arriscou um resmungo:

– Afinal de contas, coronel, o general foi eleito pelo seu partido.

– Bom, mas com a gente do Brigadeiro a coisa ia ser ainda pior.

Os outros freqüentadores da “rodinha da Imaculada” entreolharam-se significativamente, mas em silêncio. Todos conheciam muito bem o Cel. Tibério Vacariano, flor do patriciado rural de Antares.

 

Quando em 1950 Getúlio Vargas aceitou a sua candidatura à presidência da República, o caso foi debatido às dez de certa manhã pelos tomadores de mate da Farmácia Imaculada Conceição. Disse Zózimo Campolargo:

Ë uma loucura. O Getúlio perdeu a noção da realidade. Nunca na História do Brasil ou de qualquer outro país, que eu me lembre, um ditador expulso do poder pelo seu próprio exército voltou ao governo eleito pelo povo.

Tibério Vacariano escutou estas palavras sem dizer água, amaciando esquírolas de fumo na palma da mão. Pouco depois, já de crioulo aceso entre os dentes, os olhos entrecerrados, murmurou: “Não sei... não sei... Acho que o Baixinho tem parte com o demônio. O eleitorado trabalhista está aumentando”. Ali mesmo em Antares, às quase três centenas de operários do Frigorífico Pan-Americano somavam-se agora os trabalhadores da Cia. Franco-Brasilei-ra de Lãs, estabelecida na periferia da cidade, fazia dois anos. Havia ainda o pessoal das indústrias menores. Calculava-se que pelo menos noventa por cento desse proletariado em idade eleitoral estava inscrito no P.T.B. e obedeciam todos à chefia dum tal Geminiano Ramos, homem de escassos trinta anos e que, além de ter fama de marxista, usava bi-godões à Stalin. Como o Partido Comunista Brasileiro estivesse fora da lei, Geminiano – operário de folha-corrida policial ainda limpa – infiltrara-se no Partido Trabalhista Que, no dizer de Tibério, era uma espécie de “sala de espera do comunismo”.

A União Democrática Nacional tentava de novo a fortuna nas urnas com o nome do Brig.r° Eduardo Gomes. O Partido Social Democrático, por insistência do Gen. Eurico Dutra, apresentara um candidato eleitoralmente inexpressivo, o Dr. Cristiano Machado, praticamente só conhecido em seu estado natal, Minas Gerais. “Esse inocente vai ser jogado na fogueira!” – profetizou Tibério.

Um dia na “rodinha da Imaculada”, poucas semanas antes da eleição, lançou um desafio geral:

– Aposto dois bois Poleangos com cada um de vocês como o Getúlio ganha a eleição, e de rebenque erguido.

No meio do silêncio que se seguiu, Zózimo Campolargo falou sereno:

– Não sou homem de apostas.

Tibé teve vontade de dizer-. “Não és homem de nada. Um água-morna dominado pela mulher”. Mas engoliu essas palavras com um sorvo quente de chimarrão.

 

Uma noite, uma semana antes da eleição, da janela de seu palacete, mas invisível para quem estivesse na rua, o patriarca dos Vacarianos assistiu ao último comício de propaganda do P.T.B., que se realizava na Praça da República. Os oradores falaram de dentro do coreto da banda de música. Alto-falantes colocados nos quatro ângulos da praça, ampliavam-lhes as vozes. “Papai” – disse uma das filhas de Tibério – “a praça está preta de gente.” Ele sacudiu a cabeça, num assentimento impaciente: “Estou vendo, menina” – disse. D. Lanja, procurando consolá-lo, murmurou: “É, mas mais da metade dessa gente decerto não vota. São curiosos”.

O marido buscou consolo num palheiro, enquanto ouvia os oradores, “papagaios queremistas” que repetiam as promessas e críticas de seu candidato. Nos seus discursos durante toda a sua campanha presidencial, Getúlio Vargas abstivera-se de atacar diretamente a figura respeitável do Presidente da República, mas dissera horrores dos desastrosos erros da política cambial de seu Ministro da Fazenda, que levava o país à bancarrota. Como Vargas, os oradores daquele comício apontavam os defeitos e injustiças da “democracia liberal capitalista” e falavam até – como tinham mudado os tempos! – em “democracia socialista de trabalhadores”. O povo reagia a essas frases com o mais frenético entusiasmo: gritos, urros, aplausos, vivas e morras.

– Veja você, Lánja – disse Tibério, atirando uma baforada da acre fumaça de seu crioulo em pleno rosto da esposa. – Quem diria que eu ia viver para testemunhar uma cena dessas! Oradores na praça, na frente da minha casa, falando em “democracia socialista” e atacando o capitalismo. Tudo obra do Getúlio! O mal que esse homenzinho tem feito ao Brasil com as suas leis sociais e as demagogias trabalhistas! Está tudo demudado. Meu pai e seus correligionários federalistas nunca conseguiram fazer nesta cidade um miserável comício durante os vinte e cinco anos da ditadura borgista.

Na praça a turba bradava ritmadamente: Ge-tú-lio! Ge-tú-lio! Quando de novo se fez silêncio para que outro orador falasse, Tibério se deu o luxo duma reminiscência em voz alta:

– Uma vez, em 1922, reunimos uns gatos-pingados nesta mesma praça pta fazer propaganda da candidatura do Dr. Assis Brasil, até que um pouco sem entusiasmo, porque meu pai não ia muito com a cara do homem de Pedras Altas. Pois bem. O velho Benjamim mandou seus capangas dissolverem o comício a rabo-de-tatu e facão. Em poucos minutos a praça se esvaziou... Quando dei pela coisa, estava só com meu pai e uns três ou quatro companheiros, de revólveres arrancados, no centro da praça, cercado pelos apaniguados do velho Campolargo. Se não fosse a intervenção do juiz de comarca, na certa eles nos liquidavam, porque eram maioria e nós estávamos dispostos a morrer brigando. No entanto agora essa canalha está aí atacando o regime, com todas as garantias legais. O Getúlio entregou o Brasil pra eles numa bandeja de ouro.

“A vitória será nossa!” – gritava na praça o orador, o industriário Geminiano Ramos. Tibério Vacariano fez um rapido exame de consciência e achou-se culpado. Na realidade, não fizera nada pelo candidato de seu partido. Durante a campanha adotara a técnica do “corpo mole”. Que diabo! Que entusiasmo a gente pode ter por um candidato desconhecido? Cristiano Machado ia ser sacrificado, espécie de Cristo político. Seu partido o havia abandonado quase por completo, pelo menos no Rio Grande do Sul. Mais uma vez se ia provar como era fantasticamente poderoso o fascínio que o “homenzinho de São Borja” exercia sobre muitos daqueles líderes do P.S.D.

No dia das eleições, quando chegou a sua hora de votar, ele próprio, Tibério Vacariano, hesitou por um instante dentro da cabina. (Não se habituava com o voto secreto, que chamava de “voto de covarde”.) E para não “embromar” a marcha da eleição, soltou um “que bosta!” e, num impulso sentimental, votou em Getúlio Vargas. Deixou a cabina meio desenxabido, como quem sai dum quarto de banho completamente nu para entrar inadvertidamente numa sala cheia de senhoras.

 

Getúlio Vargas tomou posse do cargo de Presidente da República em janeiro de 1951. No inverno desse mesmo ano Tibério Vacariano foi ao Rio de Janeiro e tentou mais uma vez reaproximar-se do Homem. Viu, porém, todas as suas tentativas frustradas, tanto as diretas como as indiretas. Ante essa repulsa obstinada, teve as mais variadas reações. A primeira foi de revolta: “Pois o pitoco que se lixe! Posso viver muito bem sem a amizade dele!” A segunda foi de estranheza: “Ué! Dizem que o Getúlio é um homem frio, sem rancores, perdoou até ao João Neves da Fontoura pelo Acuso... Que é isso comigo?” Houve depois um momento em que se sentiu vítima duma injustiça. (“Andariam me intrigando com o Presidente?”) A seguir consolou-se com a idéia, ou esperança, de que um dia o Gegê havia de precisar dele, Tibério, e seria então o primeiro a mandar-lhe emissários de paz. A todas essas o senhor de Antares sentia-se ferido no seu amor-próprio, e arrependia-se de haver-se rebaixado a pedir a Getúlio Vargas que o recebesse de novo. Isso produzia nele um constrangimento não só perante todos quantos sabiam da estória como também perante si mesmo. O diabo era que se ele, Tibério, era indulgente e compreensivo consigo mesmo, os seus desafetos, ao contrário, jamais lhe perdoavam os erros e além disso tinham uma memória de elefante.

Da janela de seu apartamento da Av. Atlântica às vezes ficava olhando para o mar, pata aquele belo mar com o qual, em todos os seus muitos anos de Rio de Janeiro, jamais tivera a menor intimidade. Gabava-se até, com um certo orgulho de campeiro, de nunca ter sequer molhado as pontas dos dedos dos pés na água do oceano. Nascera e criara-se à beira do Uruguai, onde vezes sem conta nadara, pescara e navegara de caique. Nas suas terras não podia ver lagoa, açude, sanga ou arroio que não sentisse gana de pelar-se, atirar-se nágua e dar umas braçadas ou uns mergulhos. “Sou peixe de água doce” – costumava dizer. E agora que não era mais persona grata do governo, que deixara de ser vaqueano nos labirintos daqueles ministérios e repartições públicas, chegava à conclusão de que peixe de rio não pode mesmo viver em água salgada.

Poucos dias antes de voltar para casa, Tibério Vacaria-no foi por puro acaso apresentado a um jovem industrial chinês, recém-chegado dos Estados Unidos, um certo Mr. Chang Ling, que ele passou logo a chamar de “seu Jango Lins”. Tratava-se de um dos muitos homens de negócio que tinham conseguido fugir de Changai antes de esta cidade cair em poder dos comunistas. Trouxera consigo a família, os seus móveis mais preciosos, uma carta de crédito (possuía no Chase Manhattan Bank de Nova Iorque uma conta Pessoal com um apreciável saldo credor) e o seu know-how. Queria instalar no Brasil uma fábrica de óleos comestíveis de soja e amendoim.

Mal viu na sua frente aquele homem franzino, baixo e amarelentoTibério teve uma inspiração e convidou-o para almoçar no Bife de Ouro, juntamente com o seu intérprete, um rapaz brasileiro que sabia inglês, e que andava pajeandò Mr. Ling através do emaranhado da selva carioca. O primeiro prato não havia sido ainda servido e já o Cel. Vacariano, voltando-se para o intérprete, pedia:

– Diga aí pro seu Lins que descobri o lugar ideal para a fábrica dele.

A tradução foi feita. O chinês sorriu e quis saber onde era.

– Conta pro moço – continuou o Cel. Tibério – que sou meio dono duma cidade do Rio Grande do Sul que tem nome de estrela (ouvi dizer que chinês gosta muito de estrela) nas barrancas do Rio Uruguai, justamente na zona da soja.

Fez uma pausa para que o intérprete traduzisse as suas palavras para aquela língua bárbara. O chinês continuava a sorrir.

– Diga também que sou plantador de soja, e da boa! E se ele quiser estabelecer o negócio dele em Antares, eu arrumo tudo: o terreno para a fábrica, material de construção a preço baixo e mais ainda: cinco anos de isenção de impostos municipais! O prefeito da cidade é meu sobrinho e eu tenho na mão a Câmara de Vereadores.

O chinês escutou, sacudindo de quando em quando a cabeça, a enumeração de todas essas promessas e depois disse algo em voz baixa ao intérprete, que se voltou para o maioral de Antares :

– Mr. Ling quer saber das suas condições.

– As minhas condições? Ora, quero apenas contribuir para o progresso industrial da minha cidade, que diabo!

Na realidade pretendia fazer o chin assinar oportunamente um compromisso de compra de toda a sua safra anual de soja, esperava vender-lhe um de seus próprios terrenos para a construção do edifício da fábrica e, se possível, ainda por cima ganhar de presente algumas ações da companhia, em troca de todos esses “favores”.

Enquanto o tradutor falava, Mr. Chang Ling tomava notas numa pequena caderneta de capa azul, que depois guardou no bolso do casaco.

– Então? – perguntou Tibério Vacariano, olhando para o intérprete, que a seguir confabulou em voz baixa com o chinês.

– Mr. Ling lhe agradece por tudo, inclusive pelo delicioso almoço, e declara que, quanto ao negócio, vai ainda pensar.

Tibério Vacariano pagou a conta do restaurante com a certeza de que havia perdido naquele encontro tempo e dinheiro. Enganava-se. Três meses mais tarde Mr. Chang Ling apareceria em Antares com a mulher e seus cinco filhos e mais três compatriotas seus, especialistas na fabricação de óleos comestíveis.

Menos de um ano mais tarde inaugurava-se em Antares a Cia. de Óleos Sol do Pampa, da qual Tibério Vacariano possuía 500 ações que não lhe haviam custado um vintém. Conseguira impingir ao chinês um de seus muitos terrenos situados na periferia da cidade. Tinha agora comprador certo para toda a sua produção de feijão-soja. Mas manda a verdade que se diga que cumpriu todas as promessas que fizera no Bife de Ouro ao “seu Jango Lins”.

 

Em dezembro daquele ano de 1951, aconteceu a Tibério algo que lhe mudou a vida por completo, fazendo-o esquecer as humilhações a que o Presidente o submeteu.

Um dia o telefone de sua casa tüintou, e ele pegou o fone, já irritado, como sempre, pois não se havia habituado ainda àquela engenhoca, pela qual tinha uma má vontade atávica.

– Pronto! – gritou como quem espera ouvir e dizer desaforos.

 – É o Cel. Tibério? – perguntou uma voz melíflua de mulher.

– Quem deseja falar com ele?

A Venusta.

Ao ouvir o nome da caftina, Tibério olhou instintivamente dum lado para outro para verificar se havia alguém mais na sala ou proximidades. Pigarreou e disse-.

– Um momento. – Largou o fone e foi fechar a porta. Não haveria perigo de outra pessoa escutar a conversação, pois aquele era o único aparelho existente no casarão. – Pronto. Pronto!

– É a Venusta.

– Já ouvi! Mas você não devia telefonar pra minha ca,sa, ora essa! Já lhe disse isso mil vezes.

– Não fique brabo, coronel. É um assunto importante. Tenho um presente de Natal pro senhor. ..

Ele escutava, desconfiado. Aquilo só podia ser um subterfúgio para um pedido de dinheiro. Havia anos ele ajudara Venusta, uma prostituta aposentada, a montar o bordel mais fino de Antares. emprestando-lhe dinheiro a juro baixo e prazo longo.

– Que negócio é esse de “presente”? – indagou, cauteloso.

– Eu não me esqueço do que o senhor fez por mim, Cel. Tibério.

– Está bem, está bem, fale baixo. E não precisa pronunciar o meu nome.

– Estou sozinha aqui em casa. Descobri a rapariga mais linda do mundo. Dezessete aninhos, coronel! O senhor vai ficar maravilhado.

– Novinha, hem? – Soltou uma risada áspera de ta-bagista. – E você vai enrolar a menina em papel celofane e memandar por portador, hem? Quanto vai me custar essa brincadeira?

– Não estou pensando em negócio. – Como Venusta ceceava, a palavra negócio soou quase como negófio. – Não sou mal-agradecida.

– Como é a moça? Ruiva? Muito branca? Morocha?

– Morena jambo. Mas não adianta descrever pelo telefone. O senhor tem que ver ela pessoalmente.

– Onde está a bichinha?

– Aqui comigo, guardadinha no refrigerador – disse a alcoviteira com uma risadinha despudorada. – Olhe, coronel, a menina caiu na vida não faz nem uma semana.

Logo que botei o olho nela pensei no senhor. É órfã de pai e vivia com a mãe. Agora está comigo há dois dias e não foi mais pra cama com ninguém. Não deixei. Reservei ela pro senhor. Venha ver. Se não gostar, fica o dito pelo não dito.

E se eu gostar?

– É sua.

– Está bem. Hoje de noite apareço aí.

Ao jantar tomou apenas uma sopa leve. Depois disse à mulher que ia ao clube e provavelmente voltaria tarde. Saiu de casa a pé, mas entrou num carro de aluguel do outro lado da praça e pediu ao motorista que o deixasse à esquina duma determinada rua, na parte baixa da cidade.

O bordel da Venusta ficava numa ruela pouco iluminada e tinha nos fundos do seu pequeno quintal um portão que dava para um terreno baldio – espécie de entrada secreta ou pelo menos discreta, geralmente usada pelos senhores respeitáveis da cidade que queriam entrar naquela casa de rendez-vous sem serem vistos. Tibério apertou o botão da campainha da porta dos fundos. Venusta em pessoa veio recebê-lo, recendente a Tabu, com um vestido de algodão estampado, a cara exageradamente pintada, os cabelos oxigenados de fresco. Era uma cinqüentona de carnes balofas e muito alvas, que Tibério tinha levado algumas vezes para a cama nos tempos em que ela era moça e não de todo destituída de atrativos. Subiram uma pequena escada e entraram num corredor estrategicamente mal-iluminado e por fim pararam diante da porta dum quarto.

– A menina está lá dentro à sua espera, coronel. Ela já sabe quem o senhor é e está até meio nervosinha.

– Mas eu ainda não sei direito quem ela é...

– Ora, ninguém de circunstância. O pai era ferroviário e morreu esmagado por um trem, há uns quatro anos... acho que o senhor se lembra do fato. A mãe costura pra fora. Gente muito pobre. Um caixeiro-viajante fez mal pra menina e desapareceu. A mãe descobriu a coisa e botou a boca no mundo. A moça então veio pra cá, mas ninguém ainda sabe que ela está comigo. Acho que é fácil acomodar a velha com uns cobres. Deixe a coisa por minha conta.

– Essa estória está me cheirando mal. A menina é menor, a mãe pode me incomodar, fazer chantagem. Não sei... Tenho muitos inimigos. Não sei... Nunca falta um rábula filho da mãe pra pegar uma causa dessas e me extorquir dinheiro... Não sei.

Ficou ali na frente da porta murmurando “não sei... não sei...”. Mas seu corpo sabia, da cabeça aos pés, sabia com uma intensidade que aumentava com o passar dos minutos, o sangue batendo-lhe com força nas fontes, toda a sua virilidade já agressivamente esculpida, intumescida e latejante.

– Está bem – disse por fim, com voz opaca. – Já não estou pensando mais com a cabeça, mas com outra parte do corpo. Seja o que os anjos quiserem.

Venusta abriu a porta e ele penetrou no quarto como um Miúra que entra na arena.

 

Mais tarde, naquela mesma noite, no leito conjugai, com Lanja a seu lado, ressonando tranqüilamente, Tibério recordou a hora que passara com a rapariga. Que fêmea mais bem-feita de corpo! Uma potranca de raça – cabocla de pele acetinada cor de areia úmida, seios miúdos, quadris estreitos, delicada como uma flor... Em cima dela sentira-se com vinte anos menos. E, depois de descarregar a sua primeira e furiosa onda de desejo, ficara ofegante e feliz, deitado ao lado da criaturinha.

Onde nasceste?

– No Cacequi.

– Como é o teu nome?

– Me chamo mesmo Cleopatra, mas me tratam por Cleo.

– Bonito nome, Cleo...

E então ele pusera-se a apalpá-la devagarinho, para sentir nos dedos a contextura daquela epidemie, a elasticidade daqueles músculos, o desenho daquele corpo. Chegara a inventar um brinquedo:

– Nunca ouviste a estória da Salamanca do Jarau?

– Nunca.

– Pois era uma vez um campeiro, de nome Blau Nunes. Tinha aprendido com o fantasma dum padre renegado o caminho da furna do Jarau, onde existia um tesouro escondido, e guardado pelos bichos e assombrações mais horríveis. ..

– Credo!

– Faz de conta que aqui vai o Blau Nunes...

Com os dedos indicador e médio da mão direita imitou as pernas dum homem a caminhar. Blau Nunes percorreu o braço e o ombro de Cleo, devagarinho, pisando forte.

– De repente Blau avista um cerro...

E os dedos de Tibério escalam o seio direito de Cleo e quando chegam ao cume dessa macia elevação brincam com seu mamilo – “Uma pedra?” – e a rapariga se retorce, cosquenta. “Ai! Ai! Ai!”

– Então Blau Nunes desce do cerro e começa a andar por uma linda várzea...

E agora os dedos de Tibério caminham pelo ventre levemente côncavo da menina, com lenta volúpia.

– De repente Blau Nunes avista um capão...

– Não!

E ela ergue as pernas, cruza as coxas, num movimento instintivo de defesa, procurando esconder sua furna. Mas Blau Nunes continua a andar... lá dentro está a entrada da Salamanca, do tesouro...

E os dedos de Tibério – antes, as pernas de Blau Nunes – penetram no capão e encontram a boca da furna. “Ai!” – suspira ela. – “Ai!”. Blau Nunes está alucinado.

– Onças de ouro! – exclama Tibério. – Dobrões de ouro! Jóias!

E Cleo se retorce toda, rindo, excitada.

Tibério Vacariano levantou-se num prisco. Lanja acordou, alarmada.

Que foi, Tibé? Estás sentindo alguma coisa?

Sentado na cama, meio ofegante, ele murmurou:

– Não é nada. Perdi o sono.

– Decerto tornaste muito café.

– Pois é. O calor também está brabo. Mas não é nada, Lanja. Dorme. Eu me arranjo...

Levantou-se, acendeu um cigarro, começou a passear pela casa, de pijama, sem destino certo. A imagem de Cleo não lhe saía da mente. O cheiro dela estava nas suas narinas, nos seus dedos, na sua pele, entranhado em todo o seu corpo. Abriu a janela que dava para a praça e debruçou-se nela. Vaga-lumes lucilavam por entre árvores e arbustos. Ti-bério olhou para o céu e viu o Cruzeiro do Sul bem por cima da Matriz. O vento morno chegava-lhe às narinas com um cheiro de campo queimado, de mistura com recordações de infância e adolescência.

Ali na janela o Cel. Vacariano pensou na sua idade. Cinqüenta e sete na cacunda! Não se podia dizer que fosse já um velho, mas moço, moço mesmo não era mais. Imaginou Cleo instalada na pensão da Venusta, recebendo qualquer homem que tivesse dinheiro para pagar o preço que a caftina nedia pelo seu esplêndido corpo. A idéia lhe era intolerável.

Voltou para a cama e só conseguiu adormecer madrugada alta. Levantou-se às oito horas, sentindo-se um tanto desmoralizado por ter “queimado o assado”, pois entre seus hábitos supersticiosos estava o de saltar da cama antes do sol nascer.

A primeira imagem que lhe veio à cabeça ao despertar foi a de Cleo, como a figura dum sonho bom.

Tornou a procurar a rapariga na noite daquele dia. E noutra manhã, barbeando-se no quarto de banho, conversou em silêncio consigo mesmo, puteou-se afetuosamente, examinou a própria cara no espelho, com um cuidado entre realista e tolerante. “Bonito sei que não sou, mas – que diabo! – há no mundo gente mais feia que eu.”

Tudo aquilo que sentia com relação à moça – refletiu – devia ser conseqüência da idade crítica. Sim, os homens tinham também o seu climatèrio. Ouvira esta palavra pela primeira vez da boca de seu médico carioca. O seu climatèrio finalmente chegara, e com que força!

Decidiu fazer de Cleo sua amante exclusiva, montar casa para ela. Convenceu a mãe da rapariga a vir morar com a filha, arranjou tudo com a colaboração da Venusta. Quando um novo ano entrou o Cel. Vacariano tinha o que em língua de advogado se chama de “mulher teúda e man-teúda”. Sentia-se feliz e remoçado. Se Lanja desconfiava de alguma coisa, pelo menos não dava nenhuma demonstração disso.

E agora, cada vez que Tibério queria fazer amor com a amante, bastava dizer-lhe: “Vamos brincar de Salamanca?” Blau Nunes passou a ser uma personagem importante na vida de ambos. E muitas vezes Tibério Vacariano pensou num remoto antepassado seu que, segundo uma lenda da família, tinha um dia entrado na furna encantada do Jarau e andava sempre com as guaiacas cheias de onças de ouro.

 

Em meados do inverno de 1954, Tibério Vacariano passou duas semanas no Rio, tratando de negócios. Revisitou o cenário de suas aventuras estado-novistas, reencontrou amigos e conhecidos, ouviu boatos e confidencias em torno da situação política nacional, e um dia esteve a pique de quebrar a cara dum sujeitinho que fingiu não reconhecê-lo na rua. (O calhorda devia-lhe favores!)

De volta a Antares, contou as “novidades” aos amigos da roda de chimarrão da Imaculada, e uma noite visitou com a mulher a casa dos Campolargos, pois pelo telefone prometera a Quita, sua “inimiga íntima”, um relatório verbal sobre sua viagem “à Corte”, do ponto de vista político - que era o único que realmente interessava a mulher de Zózimo.

Quando estavam os dois casais acomodados na sala de visitas dos Campolargos, sob o olhar vigilante do falecido Benjamim, ali presente num retrato a óleo de meio-corpo – os homens acenderam os seus palheiros, após o café, e as mulheres apanharam os seus trabalhos de tricô, baixaram a cabeça e puseram-se a movimentar as agulhas.

Durante alguns minutos falou-se do rigor daquele inverno – a umidade agravava o reumatismo de D. Briolanja e não fazia nenhum bem à asma de D. Quitéria – e depois cavou-se um silêncio, seguido da esperada pergunta da senhora da casa:

E então... como vai o teu “amigo”?

Tibério, as mãos trançadas contra o volumoso ventre, as pernas abertas, como se estivesse cavalgando a poltrona e não sentado nela, disse:

– O Getúlio está jodido.

– Tibé! – exclamou Lanja, erguendo brusca a cabeça, as orelhas subitamente avermelhadas. Zózimo sorriu ca-nhestro. Quita, porém, soltou uma risadinha em que se notava um leve ronrom de gato. Costumava dizer a amigos e familiares que não tinha medo nem vergonha de palavras.

– Diga por que, Tibé – pediu ela. – Mas não me venhas com potocas.

– Ué!? Por que eu havia de mentir?

– Sempre puxas brasa para a tua sardinha pessedista que, por sinal, já está podre.

Tibé sorriu, remexeu-se na cadeira, cocou disfarçada-mente uma das virilhas e começou:

– O governo está enfrentando uma crise brabíssima. Acho que este vai ser ou, melhor, já está sendo o pior ano de toda a vida política do Getúlio.

– Começou com o manifesto dos coronéis – disse Zózimo, enquanto Tibé era sacudido por um repentino acesso de tosse bronquítica, que lhe tingiu a cara duma escura purpura, fazendo-o lacrimejar. Quando pôde de novo falar, disse com voz meio apagada:

– Deve ter sido duro para o Homem demitir o seu filho político e espiritual do Ministério do Trabalho. A oposição exigiu a cabeça do Jango Goulart...

Zózimo lembrou a campanha que desde o início do ano fazia o Estado de São Paulo, que chamava Jango de alter ego de Getúlio Vargas e acusava-o de chefe do “peronismo brasileiro”.

E por acaso não será? – perguntou Quita. – O Getúlio e o Jango é que encorajam os operários a fazerem greves e ameaças. Não se tem mais sossego neste país. E depois, onde se viu fazer um aumento de 100% nos salários mínimos?

– Ó Quita – interveio Zózimo, com sua habitual cordura. – Como é que os trabalhadores podem viver com esses salários de fome?

– Vivem – replicou a esposa. – Deus é grande. Vivem e se reproduzem como coelhos.

– Bom – continuou Tibério – o que a oposição afirma e certos jornais de responsabilidade glosam, é que o Getúlio mesmo provoca toda essa inquietação social para criar um clima de confusão do qual ele pessoalmente possa tirar proveito. Dizem que está procurando pretextos para evitar as eleições presidenciais e continuar no poder.

Quitéria ergueu a cabeça:

– A solução mais decente, por legal, foi a que propôs na Câmara a bancada da U.D.N. O impeachment. E se a coisa não saiu foi porque os deputados do teu P.S.D., Tibé, se juntaram com os do P.T.B. para derrotar a moção ude-nista. Te lembras da mensagem que o Getúlio apresentou ao Congresso, em março passado? Foi dum nacionalismo tão exagerado, que assustou meio mundo. Com esse seu anti-americanismo, ele vai acabar levando o Brasil pro lado de Moscou...

– Esperem! – exclamou Tibério. – Vocês não sabem do melhor... ou do pior. Sei de fonte segura que o Getúlio anda apático, desinteressado de tudo e de todos, mal lê os papéis que assina, cochila nas audiências e nas reuniões do Ministério. Enfim, não é o mesmo homem de outros tempos.

– Está velho... – murmurou Quita, de cabeça baixa, como se dissesse um segredo às suas agulhas e ao seu fino »o de lã.

– Não é isso – protestou Tibério. – Afinal de contas ele tem só setenta e dois anos... que diabo! O que está acontecendo é que o Homem anda desiludido, desencantado. Descobriu finalmente que não tem amigos, que está cercadode aproveitadores sem escrúpulos, com raras exceções.

– Quem semeia ventos – sentenciou a dona da casa – colhe tempestades. O diabo é que nesse caso a tempestade cai sobre a cabeça de todos os brasileiros.

– A U.D.N. – prosseguiu o Cel. Vacariano – desde o princípio do ano abriu as suas baterias contra o Catete. Vocês têm lido os artigos do Carlos Lacerda? Que panfletário! Que mestre da violência verbal! Seus escritos estão demolindo pouco a pouco o governo do Getúlio. Palavra de honra, se esse moço tivesse dito na imprensa sobre a minha pessoa a metade do que disse sobre o Getúlio, eu tomava um avião, ia ao Rio e metia-lhe um balaço em cada olho, palavra.

Sem erguer a cabeça, Quita troçou:

– Deixa de prosa, Tibé. O Lacerda não ia gastar pólvora em chimango.

– Mas não acredito – observou Zózimo – que o Getúlio tenha obtido qualquer resultado financeiro pessoal com esses negócios de crédito irregulares do Banco do Brasil e essas outras indecências de que está sendo acusado pela U.D.N.

Tibé reacendeu o palheiro e disse:

– Em matéria de dinheiro o Getúlio é um homem honesto. Mas finge que não vê certas safadezas que se fazem a seu redor. A sua técnica é a de corromper para governar. E nunca se roubou tanto, nunca se fez tanta negociata à sombra do Getúlio e em nome dele como neste seu atual quatriênio. Parece que no Catete todo o mundo está dançando uma espécie de galope final.

Neste ponto Quitéria ergueu os olhos sem mover a cabeça, e esse seu gesto eqüivalia a dizer: “Olhem só quem está falando em negociatas...”

Tibério põe-se de pé, subitamente animado-.

– Ah! Ainda não contei o melhor a vocês. A grande figura desta República é o negro Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do Getúlio.

– Dizem que está rico... – murmurou Lanja.

– Milionário – reforçou Quita. – Que vergonha! Temos no Brasil uma Eminência Negra!

E nesta infeliz República – prosseguiu Tibério – o Gregório tem mais força que muito ministro. Escutem esta, que é muito boa... Um dia tive de ir ao Catete...

– Não me digas que foste outra vez procurar o Ge-túlio pra fazer as pazes com ele! – interrompeu-o a dona da casa.

– Deixa o Tibé falar, Quita – pediu Zózimo.

– Qual pazes qual nada! Vamos falar com franqueza. Se o governo do Homem está por um fio, a troco de que santo havia eu de entrar agora nessa canoa furada? Bom, mas é que precisei movimentar um requerimento e fui ao Catete me entender com um oficial de gabinete com quem tenho ainda boas relações. Entrei no palácio, me meti por uns corredores meus velhos conhecidos e de repente, sem saber como. me vi na sala onde o Gregório costuma dar as suas audiências... E que vejo? Lá estava o crioulo como um potentado africano, sentado numa cadeira, com uma toalha amarrada ao pescoço, um barbeiro escanhoando o rosto dele, uma manicura ao lado polindo as suas unhas... O negrão estava cercado pelos seus pistoleiros, moços de recado, enfim, pelos membros da sua corte. Quando me viu entrar, nem se dignou a me dar bom dia. Também fingi que não tinha visto ele e fiz meia volta. Um de seus apaniguados estava dizendo qualquer coisa sobre o João Goulart e, antes de sair, ouvi o Gregório dizer em voz alta, com um ar de superioridade: “O Jango é um premário!”

As mulheres pareciam mais entretidas nos seus trabalhos de agulha que nas estórias de Gregório Fortunato. Mas Zózimo sacudiu a cabeça dum lado para o outro, exprimindo a sua consternação ante tudo aquilo.

E o- pior – continuou Tibério – é que senadores e outros figurões da República adulam o negrão, mandam-lhe presentes e bilhetinhos com pedidos.

– Pobre do Dr. Getúlio! – suspirou Lanja, que sem-pre tivera uma afeição quase maternal pelo homenzinho de São Bor ja.

O olho bom do retrato de Benjamim Campolargo parecia contemplar o grupo que ali estava na sala, com a mesma fixidez meio perplexa com que, havia quase trinta anos, fitara uma escarradeira de louça pintada, no dia em que o jovem deputado Getúlio Vargas, com sua lábia e a sua simpatia pessoal, persuadira-o a apertar a mão de seu arqui-inimigo, Xisto Vacariano. Como se também tivesse pensado nesse remoto acontecimento, Tibério ergueu a cabeça, mirou demoradamente o retrato do patriarca dos Campolargos e, sem tirar o cigarro da boca, disse:

– Este mundo velho dá cada voltai

Nenhum dos presentes contestou estas palavras.

 

                Foi na casa da amante que, em princípios daquele frio e chuvoso agosto, Tibério Vacariano ouviu, pelo rádio que tinha sobre a mesinha de cabeceira, uma notícia urgente que o deixou estarrecido. No Rio de Janeiro dois desconhecidos haviam atentado contra a vida de Carlos Lacerda, à frente de sua casa, na Rua Toneleros, tendo assassinado um oficial da aeronáutica, o Maj. Rubens Florentino Vaz, que estava em companhia do diretor da Tribuna da Imprensa. Lacerda recebera num dos pés um ferimento sem gravidade, e os assaltantes haviam fugido.

                Tibério, que estava deitado ao lado de Cleo, conduzindo Blau Nunes numa das suas andanças ereto-anatômicas pelo corpo da rapariga, ergueu-se rápido, exclamando: “A Ia fresca! A Ia fresca 1” E assim nu como estava, sentou-se na beira da cama para escutar o resto da notícia. Lacerda tinha visto ambos os assaltantes, que haviam escapado num automóvel. O estúpido crime causara indignação geral e havia já grande agitação nos meios políticos, militares e populares do Rio de Janeiro.

                “É o fim do Getúlio”‘ – refletiu Tibério enqu?nto se vestia, depois duma excursão quase frustrada à furna do Jarau, da qual aquela vez trouxera não dobrões de ouro, mas escassas moedas de cobre azinhavrado. “Agora estão perdidos. . . Mexeram com os milicos. . . É o mesmo que bolir em casa de marimbondos. E o fim.” E tocou para casa.

                No dia seguinte o assassinio do Maj. Vaz e o atentado contra a vida de Carlos Lacerda eram o assunto único na “rodinha da Imaculada”. Mais notícias haviam chegado. Um dos telegramas resumia um editorial do jornal O Globo: Getúlio Vargas atingiu ontem, pela força dos imprevistos, um dos pontos decisivos da sua carreira política. Ou S. Ex.a reconhece com suas providenciais antenas esse clamor de justiça que rompe de todas as bocas, não se fazendo nem por omissão cúmplice de seus amigos ou com estes submerge na renúncia aos deveres contraídos com o povo nas urnas em 1950. Não lhe restam senão poucas horas para optar.

                Os membros habituais da “rodinha” estavam excitados. Logo que Tibério chegou à farmácia – o chimarrão se tomava a um canto, no fundo do laboratório – perguntas lhe foram atiradas, como dardos. Que era que ele pensava da situação? Quem tinha sido o mandante do atentado? Que aconteceria agora que dois mil oficiais aviadores se haviam reunido no Clube da Aeronáutica para estudar o caso e tinham decidido conduzir um inquérito próprio, paralelamente ao que estava sendo feito pelo Ministério da Justiça?

                Tibério sentou-se, pegou a cuia, procurou esquentar ao seu contato as mãos enregeladas, deu o primeiro chupão na bomba de prata, provou o mate e finalmente disse com ar profético :

                – Aposto como o Getúlio não passa o próximo Natal no Rio. Antes de dezembro está de volta à estância do Itu, deposto pelas Forças Armadas!

                – Mas achas que foi ele o mandante do atentado?

                – Não. Conheço bem o Presidente. Não seria capaz duma barbaridade dessas. Estou certo de que alguém do seu grupo de áulicos mandou fazer o serviço no Lacerda com a intenção de ser agradável ao Velho. Um dos mandatários errou a pontaria e matou o pobre do Maj. Vaz. Serviço mui porco.

                O proprietário da farmácia, que aviava uma receita, metido no seu imaculado guarda-pó branco, disse em voz alta:

                – Deus escreve direito por linhas tortas.

                – Torta era a pontaria do bandido – retorquiu Tibério. – E não vejo por quê Deus havia de ser mais do lado do Lacerda que do major. Reconheço que às vezes Deus tem também uma pontaria miserável, Ele que me perdoei

– Mas quem foi o mandante? – tornou a perguntar um dos amigos.

Aventaram-se nomes. Benjamim Vargas? Gregório Fortunato? Luterò Vargas? Quem? Quem?

Tibério devolveu a cuia ao companheiro que estava perto da chaleira dágua quente, e, com um sorriso pícaro, improvisou:

– Hoje cedinho escrevi o nome do autor do atentado num pedacinho de papel que botei dentro dum envelope lacrado e depois fechei no cofre. Vou abrir esse envelope no dia em que o pessoal da Aeronáutica agarrar os criminosos e descobrir o nome do mandante.

Houve um silêncio geral, pois as “farsas” do Tibério eram demasiadamente conhecidas daquela companhia.

– Por que não nos dizes agora esse nome? – perguntou um dos mais assíduos membros do grupo.

– Se vocês quiserem fazer uma aposta comigo, que cada um escreva um nome num papel, meta esse papel num envelope e depois entregamos todos os envelopes ao gerente do Banco da Província para serem abertos no dia em que a Justiça divulgar a identidade do autor intelectual do atentado. Aposto com cada um de vocês dois bois Poleangos.

– Tu de novo com os teus Poleangos! – exclamou Zózimo, com ar cansado. – Aposto como estás blefando, isso sim. Mas não vou pagar pra ver.

 

Lucas Faia, diretor de A Verdade, tinha mandado instalar uma sereia à frente da redação de seu jornal. Sempre que havia uma notícia importante relativa ao crime, ele fazia funcionar essa sereia e em breve atraía uma pequena multidão à frente do quadro-negro em que ele pregava um papel com os dizeres do último telegrama recebido pelo jornal. Foi assim que a população de Antares acompanhou dia a dia, quase hora a hora, o desenvolvimento das investigações.

Um membro da guarda pessoal do Presidente da República tinha sido identificado como o chefe dos assaltantes. Os oficiais das Forças Aéreas haviam publicado uma nota violenta contra o governo. Na Câmara, deputados da oposição pronunciavam veementes discursos sugerindo o afastamento de Getúlio Vargas da Presidência da República. A guarda pessoal do Presidente tinha sido dissolvida. O “tenente” Gregório Fortunato havia sido submetido a um longo interrogatório. As investigações da Aeronáutica continuavam numa fúria febril mas metódica. Fora finalmente descoberto e preso o motorista do carro’ que dera fuga aos assaltantes logo após o crime. Havia agitações populares nas ruas do Rio de Janeiro. Tinha-se a impressão de que grande parte do povo responsabilizava indiretamente Getúlio Vargas pelo crime.

O noticiário de rádio do dia 12 reproduzia trechos do interrogatório de Gregório que, a certa altura, dissera: “Doutor, eu sou um negro muito posudo. Sou muito esquisito e só me meto naquilo que me diz respeito”. À pergunta “Você meteu a mão nisso, Gregório?” respondeu: “Não. Tenho matado peleando. Não sou homem que possa ser assalariado para matar alguém”. O noticiário informava também que, nos intervalos do interrogatório, Gregório lia o Fouché de Stefan Zweig, o seu livro predileto.

– Além de bandido, pernóstico! – comentou Tibério vacariano.

Na tarde do dia 14, a sereia de A Verdade tornou a soar para anunciar a notícia de que o Gen. Eurico Gaspar Dutra achava aconselhável a renúncia de Vargas. Houve protestos da parte de populares getulistas à frente da redação do diário antarense. Guardas da polícia municipal tiveram de intervir para separar um udenista e um trabalhista que, depois de se filho-da-putearem abundantemente, estavam já de revólver na mão.

Passaram-se os dias. Pelos noticiários dos jornais e das estações de rádio, ficava claro que as investigações da polícia tinham recuado para um segundo plano e quem realmente conduzia a busca dos criminosos eram os oficiais das Forças Aéreas. Um dos suspeitos tinha sido localizado, caçado e acuado como um animal, numa zona pantanosa, por cento e setenta membros da Aeronáutica, e fora capturado vivo ao cabo de vinte horas de implacável perseguição.

Dentro em pouco chegava-se à conclusão de que o mandante do atentado fora mesmo Gregório Fortunato, o anjo da guarda negro do Presidente.

Uivou a sereia de A Verdade e lá estava no quadro-negro uma notícia sensacional. O Ministro da Aeronáutica achava que os políticos tinham meios legais para obrigar o Presidente a deixar o poder. O Governador do Estado de Pernambuco manifestava-se também a favor da renúncia de Getúlio Vargas. O Ministro da Guerra havia determinado prontidão rigorosa para o Exército. No Rio tinham curso os boatos mais desencontrados.

Num discurso feito em Belo Horizonte, havia menos de duas semanas, Getúlio Vargas declarara que não renunciaria, e que havia de cumprir o seu mandato até ao fim.

No dia 22 de agosto um grupo de oficiais das Forças Aéreas encabeçado pelo Brig.ro Eduardo Gomes publicou um manifesto em que se exigia a renúncia do Presidente da República.

Getúlio, porém, recusava abandonar o seu posto, dizendo-. “Daqui só saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho, razões para temer a morte”.

 

– Eu não disse? – exclamou Tibério Vacariano certa manhã, ao chegar à “rodinha da Imaculada”. – Eu ia ganhar a aposta. O mandante foi mesmo o negro Gregório, como escrevi no papel. ..

A notícia do resultado final do inquérito fora noticiada por todos os rádios e jornais da nação. A sereia de A Verdade gritava de instante a instante.

– O Getúlio vai ser deposto pelas Forças Armadas – afirmou Tibério entre dois goles dum chimarrão quentíssi-mo. – E a coisa não demora. E questão de dias ou mesmo de horas.

– Não se esqueçam – disse alguém – que o Presidente declarou que do palácio só sairá morto.

– É o que vai acontecer – disse Zózimo, e todos olharam para ele surpresos. – O Getúlio não é homem de se deixar depor pela segunda vez. Vai oferecer resistência e morrer brigando de arma na mão. É meu inimigo político mas faço justiça ao seu brio e à sua coragem.

Vacariano, porém, ficou pensativo, olhando fixamente para o rótulo dum vidro de làudano que estava na prateleira do laboratório, a seu lado. Depois sussurrou, como se contasse um segredo:

– Esse homenzinho é do diabo. É capaz de descobrir ainda uma saída. Por exemplo, dar a cabeça do Gregório e de outros à Aeronáutica e à opinião pública... e continuar no Catete...

– Impossível! – reagiu calorosamente um antigetu-lista. – O “pai dos pobres” foi há pouco vaiado pelo povo nas ruas do Rio. Vocês já esqueceram isso? O prestígio do Homem acabou-se. O país inteiro está contra ele. O feitiço finalmente virou contra o feiticeiro.

Naquele exato instante um freguês entrou na farmácia e pediu um vidro de elixir paregórico. O sino da Matriz começou a dobrar finados. Quem teria morrido? Um dos mateadores disse um nome vagamente conhecido dos membros do grupo. “Coitado!” – murmurou um destes, mais por automatismo que por verdadeira compaixão. E continuaram a discutir o destino de Getúlio Vargas. E quando de novo se fez silêncio, ouviu-se o uivo triste e agourento do vento de agosto.

 

Naquela madrugada, como de hábito debruçado numa das janelas do fundo de seu palacete, Tibério Vacariano esperava o amanhecer. Lembrou-se dum dito canalha de sua infância: “O sol nasce todos os dias por detrás do cemitério de Antares e ao anoitecer se põe na Argentina”.

Meio encolhido no seu pijama de pelúcia, com uma manta de lã enrolada no pescoço, era com um certo gosto de tropeiro que oferecia a cara à mordida gelada e úmida do ar do alvorecer. Era bom sentir no còncavo da mão e nos dedos o calor da cuia de chimarrão e mais saboroso ainda chupar a velha bomba que herdara do velho Xisto, reter na boca, meio queimando a língua, o mate escaldante e depois deixar o amargo descer devagarinho, faringe e esòfago abaixo, e ir aquecer-lhe o peito, como um poncho para uso interno.

A geada branqueava os telhados. Galos cantavam em quintais próximos e distantes e, como sempre acontecia nessa hora, Tibério pensou nas incontáveis alvoradas de sua vida, na cidade e no campo, e por alguns instantes lhe passaram pela mente as imagens de seu pai, de seus irmãos e de outros amigos mortos que estavam sepultados lá em cima da coxilha e que não podiam mais ver a luz do dia. Essa era a única hora em qu’j às vezes ele pensava na sua própria morte, principalmente agora que tinha entrado na casa dos sessenta.

Quando o sol já apontava acima dos telhados, Tibério, seguindo um velho ritual, comeu na cozinha o seu pedaço de churrasco gordo e o seu naco de lingüiça cobertos de farinha de mandioca, sob o olhar entre terno e crítico da cozinheira, a mulata Dráusia, que estava com os Vacarianos havia mais de quarenta anos. Tibério tomou uma xícara de café preto, como aperitivo para o cigarro, preparou um palheiro com voluptuoso vagar e, pouco antes das sete horas, já de crioulo fumegante preso entre os dentes, dirigiu-se para o escritório, acendeu o rádio, sentou-se diante dele e ficou à espera do primeiro noticiário da manhã. Sabia que Getúlio Vargas passara aquela madrugada no Palácio do Catete discutindo com o Ministério e altas autoridades militares a sua situação, que se agravara depois que alguns generais e almirantes haviam aderido ao manifesto dos brigadeiros, exigindo a renúncia do chefe da nação. A primeira notícia de que o Presidente havia aceito a imposição fora em breve desmentida. O Catete estava isolado. O Exército, ainda em prontidão. Circulavam boatos de que Getúlio Vargas ia mandar ao Congresso um pedido para o estabelecimento do estado de sítio no país. Havia já tumulto nas ruas: o povo exigia justiça.

Tibério esfregava as mãos com frenético vigor, movia os pés metidos em pantufas de lã, pigarreava, resmungava, inspirava a fumaça do cigarro e depois a expelia pelo nariz com uma força que dava uma idéia do seu nervosismo. Ecoavam no casarão os primeiros ruídos domésticos da manhã. A criadagem começava a pôr-se em movimento. O dono da casa gritou “Raspa daqui pra fora!” quando viu uma das chinocas entrar no escritório de espanador em punho.

De repente soaram as fanfarras do Repórter Esso, e a voz bem timbrada do seu locutor fez-se ouvir, com entonação dramática:

Rio. Urgente. O Sr. Getúlio Vargas acaba de licenciar-se da presidência da República pelo período de três meses.

“O quê?” – exclamou Tibério. O locutor, porém, não lhe respondeu, continuando:

No decorrer da dramática reunião do Ministério, esta madrugada, o Sr. Getúlio Vargas repeliu a proposta de renúncia que lhe foi transmitida pelo Gen. Zenóbio da Costa, Ministro da Guerra, em nome dos chefes militares. Em certo momento, voltando-se para o Gen. Mascarenhas de Morais, o Presidente declarou com voz firme: “Já que os senhores não decidem, eu vou decidir. Desde que a situação se mantenha calma, eu pedirei uma licença. Entretanto, se os rebeldes vierem até à porta do Palácio do Catete, só me levarão morto”. A notícia da licença do Presidente Getúlio Vargas foi anunciada às quatro horas e quarenta e cinco minutos da manhã de hoje. Assumirá a chefia do governo o Vice-Presidente, Sr. ]oão Café Filho.

Tibério andava agora dum lado para outro, diante de rádio, já desatento às palavras do locutor e murmurando: “Não é possível! Licença de três meses? Qual! Isso é sinônimo de renúncia. O Getúlio está liquidado. Ou então tem algum plano diabólico pra voltar ao Catete de novo nos braços do povo, contra o Exército, contra tudo!”

Desejou falar com alguém. Dirigiu-se apressado para o seu quarto de dormir e verificou que Lanja ainda estava no bom do sono. Não quis acordá-la. Vestiu-se. Barbeou-se, mas com mão de tal modo incerta, que arranhou uma das faces. Do aparelho de rádio agora saíam músicas alegres, entremeadas de anúncios.

 

Quando, cerca das oito e meia da manhã, tornou a soar a charanga do Repórter Esso, Tibério teve um sobressalto e correu para junto do rádio, com um mau pressentimento a apertar-lhe o peito, diiïcultando-lhe a respiração. De novo a voz do locutor:

Rio. Urgente. O Presidente Getúlio Vargas acaba de suicidar-se com um tiro no coração, às oito horas e vinte e cinco minutos, em seus aposentos particulares do Palácio do Catete.

Tibério ficou estonteado. Não conseguiu entender as palavras que a seguir o locutor pronunciou. Deu uma volta sobre si mesmo, deixando o cigarro cair. Teria ouvido direito? O Getúlio tinha metido uma bala no coração... Santo Deus! Era o fim do mundo... Sentou-se, afrontado, esforçando-se por escutar o repórter, que continuava a falar: ... foi encontrado um bilhete do próprio punho do Presidente: “A saìiha de meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que desejava”.

Lentas lágrimas escorriam pelo rosto do velho Tibério Vacariano. Saiu a vaguear pela casa e acabou entrando outra vez no seu quarto. A mulher agora estava fechada no quarto de banho, em cuja porta ele bateu. “Que é?” – perguntou ela. “Lanja, o Getúlio se suicidou.” Um grito: “Quê?” E ele: “O Repórter Esso acaba de noticiar que o Dr. Getúlio meteu uma bala de revólver no coração. Está morto”. Curto silêncio. Depois se ouviu um pranto convulsivo vindo de dentro do quarto de banho. Tibério encaminhou-se para a cozinha.

Olhou para a cozinheira e, quase como quem faz uma queixa, disse:

– Dráusia, imagine que desgraça. O Dr. Getúlio se suicidou. ..

– Não pode ser! – reagiu ela, os olhos já assustados. – Não pode ser! Ele não ia nos fazer uma coisa dessas.

– Mas fez. O rádio acaba de dar a notícia. Meteu uma bala no coração às oito e vinte e cinco da manhã. Não faz nem meia hora.

Por alguns instantes a mulata ficou calada. Seus olhos aos poucos se foram enchendo de lágrimas. Depois, com voz quase inaudível, disse:

– O corpo do Dr. Getúlio deve estar ainda quente... – Ficou um instante como que estuporada. – Eu dava tudo na vida pra poder agora encostar a minha mão na testa dele...

Tibério já lhe tinha voltado as costas para sair da cozinha, quando ouviu Dráusia perguntar a si mesma: “E agora, que vai ser dos pobres?”

Sentiu um súbito e perverso despeito, que o levou a dizer, também baixinho, como se o cadáver do Presidente estivesse na sua casa:

– Os pobres vão continuar tão pobres como no tempo em que ele estava vivo.

Foi nesse momento que o telefone tilintou. Correu para o aparelho, segurou o fone, levou-o ao ouvido e, sem a agressividade habitual, disse: “Pronto”.

– É o Tibério?

– É...

– Aqui é a Quita. Escutaste a notícia?

– Que barbaridade! Pr a mim foi como um coice de mula na boca do estômago. Ainda estou meio tararaca. Pobre país!

– Pobre homem!

– Foi o que ele ganhou por não ter sabido escolher os seus amigos.

– Te lembras da frase do Getúlio quando viu a prova de que o Gregório, um simples capanga, tinha dinheiro para comprar uma estância dum dos seus filhos? “Tenho a impressão de que estou sobre um mar de lama.” E a lama respingou o pobre do homem e ele, então, quis se lavar no próprio sangue.

– Quando ouvi a notícia da licença, pensei cá comigo: isso não fica assim. Imaginei que o Getúlio ia recuar para dar um bote mais forte na hora oportuna. Te confesso que pensei em tudo, menos em suicídio.

– Isso mostra como a gente nunca chega a conhecer direito as pessoas. Mas Tibé, uma coisa não me sai da cabeça... Este é um dos momentos mais trágicos da vida do Brasil. A nossa História não é rica em dramas pessoais.

– O exílio do Imperador, talvez...

– Mas não! Dom Pedro II não governava propriamente. E, depois, tinha as suas distrações, olhava a Lua no seu telescópio, tinha as obras completas do Victor Hugo autografadas pelo autor. E privilégios, honrarias. Conheceste o quarto onde o Getúlio vivia e agora se matou?

– Vi uma vez, rapidamente...

– É a coisa mais impessoal e fria deste mundo. Nenhum quadro nas paredes. Nenhum vaso com flores. (Só conheço o lugar por fotografias, mas é o quanto basta.) Vê bem, Tibério, usa a imaginação. O Getúlio passou a noite em claro. Assinou o pedido de licença e se recolheu aos seus aposentos, vestiu o pijama, e ficou sozinho, Tibé, sozinho, andando dum lado para outro, decerto já compreendendo que não tinha sido licenciado, mas de novo deposto. Pra um homem de vergonha como ele isso deve ter sido urna coisa brutal... E o pior loi a sua desilusão de tudo e de todos. Já imaginaste a hora em que ele escreveu o bilhete de despedida... o momento em que se vestiu... e se deitou... e pegou o revólver. . e encostou o cano no peito, à altura do coração... ? Para quem teria sido o seu último pensamento?

– Uma barbaridade, Quita...

– Mas o que não me sai mesmo da cabeça é a solidão do Homem... passeando dum lado para outro, de madrugada, de pijama... sozinho naquele quarto horrível... Nessa hora pagou todos, todos os seus pecados. ..

– Uma coisa bárbara!

– Isso chega a parecer tragédia grega, Tibé.

– O quê?

– Tragédia grega.

– Ah, pois é...

– O homem traído, desmoralizado, sem ninguém... na rua o povo, pra quem ele era uma espécie de Deus, já meio virado contra ele... Tibé, precisas consultar o teu médico.

– Eu? Por que, mulher?

– Pelo telefone a gente percebe que a tua respiração não está nada boa. Sentes alguma dor no peito?

– Dor mesmo não sinto. Mas a notícia me deixou meio sem fôlego.

– Todo mundo ficou abafado. O Zòzimo se sentiu mal quando ouviu o Repórter Esso. Botei ele na cama e dei-lhe um calmante. Como foi que a Lanja reagiu?

– Soltou o pranto.

– Pois é. Parece que é assim que o Brasil inteiro está reagindo. Somos todos uns sentimentais, Tibé. Um povo como o nosso adora as meias soluções, as compressas dágua quente. Nada é sério mesmo, neste país. Quando alguém como o Getúlio adota uma solução final, irremediável, todos perdem a cabeça. Não sei se será um bem ou um mal. Seja como for, que Deus tenha piedade da alma do Presidente.

– Amém – murmurou Tibério, automaticamente.

– Bueno. Vai tomar alguma coisa,» homem. Consulta

o teu “veterinário” e pergunta o que é que ele te receita.

Tua respiração está muito ruim. Lembranças pra Lanja!

Depois eu telefono pra ela. Não há de ser nada. Deus é grande e o Brasil tem de continuar.

 Tibério repôs o fone no lugar. Aquela conversa com a velha amiga não lhe tinha feito nenhum bem. Agora não lhe saía da cabeça a imagem de Getúlio, de pijama, as mãos às costas, andando dum lado pra outro no seu quarto frio e triste. Sozinho, sozinho, na derradeira madrugada de sua vida.

Nesse momento o uivo já agora agourento da sereia de A Verdade engolfou toda a cidade e foi também ouvido do outro lado do rio.

 

Muitas vezes a sereia do diário local soou durante aquele dia e o seguinte. E as notícias que seu redator afixava no quadro-negro tinham um caráter quase apocalíptico.

Nas ruas da capital federal o povo amotinado pedia vingança pela morte de Getúlio Vargas. Registravam-se choques entre a polícia e o povo. Soldados e tanques do Exército patrulhavam o centro da cidade.

A pior situação, porém, era a de Porto Alegre. Mal se havia divulgado a notícia do suicídio do Presidente, seus adeptos – primeiro às centenas e mais tarde talvez aos milhares – reuniam-se em vários pontos do centro da cidade, improvisando comícios cujos oradores incitavam o povo contra os partidos e jornais antigetulistas e contra os “agentes do imperialismo ianque”, responsabilizando-os todos pelo dramático gesto do Chefe da Nação. Os manifestantes percorriam aos gritos as ruas do centro, empunhando retratos de Getúlio Vargas e bandeiras nacionais. Os cinemas, cafés, bares e restaurantes haviam fechado as suas portas. A fúria da multidão atingiu seu paroxismo quando ela atacou a sede dos diretórios da U.D.N. e do P.S.D., arrombando-as. atirando para a rua seus móveis e utensílios, quebrando-os e prendendo-lhes fogo. O consulado americano e a filial do First National City Bank foram também invadidos e depredados. As instalações do Diário de Notícias e das Emissoras Associadas tinham sido igualmente destruídas e incendiadas. A mesma sorte tivera o jornal Estado do Rio Grande.

Toda a casa comerciai onde se lesse o nome americano ou América incitava a fúria destruidora dos manifestantes, mesmo que se tratasse de firmas nacionais.

O Governador do Estado entregou ao general comandante da Zona Militar do Sul o controle da situação. No momento em que um grupo de manifestantes destruía a sede do Partido Social Progressista, nos altos dum café, uma patrulha do exército interveio. Quando, saqueada por completo a sede do P.S.P., começava a destruição do próprio café, um oficial interpelou um dos manifestantes e foi por este atacado e jogado ao chão. Alguns sargentos deram tiros com cartuchos de festim para assustar os amotinados, mas como estes continuassem ainda enfurecidos e agressivos, os soldados abriram fogo contra eles com balas de verdade, matando duas pessoas e ferindo dez.

As ruas centrais de Porto Alegre apresentavam um espetáculo impressionante, com a fumaça e as chamas dos incêndios, o seu pavimento e as suas calçadas cheias de móveis e papéis incinerados – o lixo, em suma, daquelas brutalidades.

Noticiava-se que também em São Paulo e Minas Gerais tinha havido depredações e motins de rua.

Sob ponchos e guarda-chuvas os antarenses liam essas notícias e depois iam para os cafés comentá-las, beber e em muitos casos brigar. O delegado de polícia de Antares nessa noite mandou patrulhas com armas embaladas percorrerem as ruas da cidade, com recomendação de manter a ordem a qualquer preço.

A sereia de A Verdade tornou a uivar às dez da noite. A notícia agora vinha do Rio e contava que desde as vinte e uma horas milhares de pessoas desfilavam pelo fèretro de Getúlio Vargas, que estava sendo velado no andar térreo do Palácio do Catete. Gente das mais variadas camadas sociais queria ver pela última vez o seu Presidente. Vestido de escuro, estava Getúlio Vargas estendido dentro dum esquife comuma meia tampa de vidro que lhe deixava visível a parte superior do corpo. Havia em seu semblante uma grande serenidade, e nos seus lábios uma expressão que chegava quase a parecer um sorriso. Alguém lhe tinha posto entre dedos um rosário, do qual pendia uma cruz. Notava-se uma grave tristeza na fisionomia de todos os que passavam pelo fèretro, e os que não podiam beijá-lo tentavam pelo menos tocá-lo, nem que fosse apenas com a ponta dos dedos. Algumas pessoas romperam em crise de pranto. Não poucas desfalecer am.

Sabia-se agora com certeza que o corpo do Presidente ia ser sepultado no cemitério de sua cidade natal, para onde seria transportado num avião especial na manhã do dia seguinte.

 

Nessa manhã, passada a emoção das primeiras vinte e quatro horas que se haviam seguido à dramática notícia, Tibério Vacariano podia já analisar a situação com o seu olho frio de político. Compareceu como de costume à reunião das dez no laboratório da Farmácia Imaculada Conceição, na qual, como era de se esperar, o assunto exclusivo era o suicídio do Presidente Vargas e as reações que o fato provocara em todo o país.

Tibério tirou do bolso um recorte de jornal que reproduzia na íntegra a já famosa “carta testamento”, da qual Getúlio Vargas entregara uma cópia a João Goulart, logo após assinar o seu pedido de licença.

– Vocês leram direito esta carta? – perguntou o Cel. Vacariano ao chegar à roda. – É um documento infernal. Representa o último e maior golpe político do Homem. Custou-lhe a vida, é verdade, mas foi mais uma vitória do mago de São Borja. Escutem...

Pôs os óculos, pigarreou e leu a carta inteira, dando ênfase especial à seguinte passagem: Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida V&’ ra entrar na História.

Tibério Vacariano tornou a repor no bolso o recorte je jornal e os óculos.

– Estão vendo? – disse. – O Getúlio com esta carta varre a sua testada, salva-se como homem e como estadista, encontra uma saída honrosa para uma situação pessoal difícil, apresenta-se como um mártir do povo, candidata-se à História, vinga-se dos inimigos atirando nos ombros e na consciência deles o seu próprio cadáver, e ao mesmo tempo (prestem bem atenção ao que estou dizendo!) ao mesmo tempo entrega ao João Goulart e ao P.T.B, um programa político e uma bandeira de guerra. E como têm força essas bandeiras ensangüentadas! Já pensaram como o Jango vai explorar daqui por diante, em seu proveito, esse testamento? Porque podem dizer o que quiserem do herdeiro político do velho Getúlio, mas burro ele não é. E um zorro que aprendeu as artimanhas políticas de seu mestre e protetor.

Poucos minutos mais tarde A Verdade recebia um telegrama do Rio de Janeiro. A maior massa humana jamais vista nas ruas da capital federal acompanhara aquela manhã o esquife com o corpo de Getúlio Vargas, do Palácio do Catete até ao Aeroporto Santos Dumont. O povo tinha insistido em empurrar, durante todo o trajeto, a carreta militar sobre a qual fora colocado o fèretro.

Um dos companheiros da roda de chimarrão perguntou a Tibério :

– Como é? Vais ou não vais ao enterro do Getúlio?

– Não sei ainda. Por que perguntas?

– O homem era teu amigo, não era?

– Era, mas...

Calou-se, tirou a faca cuja bainha trazia presa na cava do colete, começou a amaciar com sua lâmina a palha para fazer um cigarro. O outro insistiu, com um brilho malicioso nos olhos :

– Mas quê... ?

 – Olhadisse de repente o Cel. Vacariano, com as ventas já palpitantes. – Vá ou não vá, não é da conta de ninguém. Sou dono do meu nariz, faço o que entendo.

– Está bom, Tibé. Não precisas ficar brabo. Perguntei só por perguntar. Aceitas mais um amargo?

Quando em casa a mulher lhe fez a mesma pergunta, ele foi franco:

– Talvez a minha obrigação seja ir, Lanja. Devo favores ao Dr. Getúlio, gostaria de lhe prestar uma última homenagem. Mas estou pensando... Vamos que um dos parentes ou amigos do morto me veja, me desacate, me faça qualquer desfeita. Tu sabes que não sou homem de trazer desaforo pra casa. Vou ter de armar um forrobodó e pode ser o diabo.

Não foi. À hora do almoço notou que havia nas doze pessoas sentadas à sua mesa – filhos, sobrinhos, cunhados

– um curioso silêncio. Desconfiou que todos o miravam “dum jeito meio esquisito”. De repente resmoneou: “Neste país basta um homem morrer para logo ser promovido a santo. O Getúlio tinha muitas qualidades mas também tinha muitos defeitos. O estrangeiro que examinar a situação do Brasil hoje terá a impressão de que nosso povo ficou de repente órfão de pai...”.

O silêncio continuou em torno da mesa patriarcal.

– Por amor de Deus! – exclamou o velho Vacariano.

– Quando eu morrer não me santifiquem. Sou um homem cheio de defeitos e de alguns deles até me orgulho. Quem duvidar que pergunte à Lanja...

Pegou com ambas as mãos uma costela de carneiro, meteu-lhe o dente e arrancou-lhe a carne, com pelanca e tudo, numa espécie de afirmação de autoridade e independência. No silêncio que se seguiu, ouviu-se a voz calma e terra-a-terra da matriarca dos Vacarianos:

– Estás com a cara toda respingada de farinha, Tibé.

 

Em 1955 o P.S.D. e o P.T.B. elegeram Juscelíno Ku-bitschek de Oliveira Presidente e João Belchior Goulart

Vice-Presidente da República. O Congresso Nacional reconheceu a validade dessas eleições, que se haviam efetuado com apreciável regularidade.

Tibério Vacariano que, com escasso entusiasmo, acompanhara a facção dissidente de seu partido no apoio eleitoral ao Gen. Juarez Távora, candidato da U.D.N. – apareceu certa noite na casa dos Campolargos numa espécie de visita de “pêsames políticos”. Zózimo recebeu-o com um aperto de mão chocho.

– Como vais, Tibé?

O velho Vacariano atirou o chapéu para cima dum consolo e disse:

– Com os trabalhistas de novo no poder, estamos fritos.

Quitéria tricoteava na sala de visitas, sentada na sua cadeira de balanço avoenga. Tibério apertou-lhe a pequena mão carnuda, que sempre lhe dava a impressão dum passarinho gordo e morno. Sentou-se.

– Então – perguntou a dona da casa – muito abatido?

O Cel. Vacariano fez uma careta:

– Feliz não estou. Sabia que íamos ser derrotados. Mineiro não perde parada. – Desatou um riso inaudível mas visível no movimento convulsivo dos ombros e do ventre, e na expressão picara da face. – A segunda aliança política da história de Antares entre Campolargos e Vacaria-nos (pois a primeira foi em ‘30) fracassou...

– Não há de ser nada – encorajoü-o Quita. – Vamos ganhar a próxima eleição daqui a cinco anos.

– Estarei vivo até lá? – perguntou Tibé, com fingida dúvida, pois estava certo de que chegaria à casa dos oitenta.

– Ora, Tibé, para morrer basta estar vivo. Mas acho que para desgraça nossa ainda vais muito longe...

Foi neste ponto da conversação que o Cel. Vacariano percebeu a palidez e o desânimo de Zózimo, que estava de pé ao lado da cadeira da esposa, sempre na sua atitude de Príncipe consorte.

– Ó homem, que é que há contigo?

Antes que o marido abrisse a boca, Quitéria respondeu-.

– Nada sério. O Dr. Falkenburg diz que é anemia.

– O Dr. Falkenburg é um charlatão – retrucou Ti-bério.

– Tibé, não recomece essa velha discussão. O Dr. Lázaro não é melhor que ele. Seja como for, o mês que vem vou levar o Zózimo a Buenos Aires ou ao Rio para um especialista tirar essa coisa toda a limpo. E não se fala mais nisso! Como vai a Lanja? Por que não veio?

– Ficou em casa com os netos.

Fez-se um silêncio, que Tibério rompeu para dizer com ar e voz de conspirador:

– Não sei se vocês já ouviram o boato... – Quitéria tirou os óculos e suas mãos caíram-lhe no regaço. – Dizem que o golpe vem aí... – sussurrou o visitante.

– Velho tramposo! – interrompeu-o Quitéria. – Não sabe perder.

– Confesso que não sei nem quero aprender.

A voz tão pálida e cansada quanto a face, Zózimo interveio :

– Não acredito nesses boatos.

– Na minha opinião esta é a hora certa para o golpe – afirmou Tibério.

Quitéria ergueu os olhos para ele:

– Golpe de quem contra quem?

– Das Forças Armadas, para impedir que o Juscelino e o Jango tomem posse!

– Mas se eles foram eleitos pela maioria do povo e reconhecidos pelo Congresso! Estamos numa democracia, homem de Deus!

– Qual democracia! – replicou o Cel. Vacariano. – Vivemos numa cafajestocracia, isso é que é. Se dependesse de mim, eu puxava na corrente da descarga para toda essa porcaria ir-se cano abaixo...

Quitéria tornou a baixar os olhos para o seu tricô, murmurando:

– Não te esqueças de ir junto... Tibério soltou uma risada breve:

– Mas vocês não compreenderam ainda – replicou – que se não tomarmos o poder agora estamos perdidos?

Quem vai governar mesmo no próximo qüinqüênio é o Jan-go e o maluco do cunhado dele, o Leonel Brizola. Os dois, mancomunados, continuarão manobrando os sindicatos, encorajando as greves, fazendo passar mais e mais leis favoráveis aos seus eleitores e “peiegos”, aumentando o salário mínimo, em suma, estrangulando cada vez mais as classes produtoras. Vamos acabar no socialismo!

– Que Deus nos livre – acrescentou, rápida, Quitéria. Fez-se um silêncio. Zózimo sentou-se e cerrou os olhos,

como se tivesse sentido uma súbita tontura. Quitéria ficou por um instante a observar o seu visitante e depois, sem tom polêmico, tornou a falar:

– Sabes duma coisa, Tibé? Estás ficando cada vez mais parecido com o velho Xisto. Principalmente de temperamento. Autoritário e intolerante.

Tibério lançou um olhar oblíquo para o retrato do velho Benjamim.

– O teu tio e sogro não era nenhuma flor que se cheirasse.

– Quando é que vais criar juízo, sossegar o pito e cuidar dos teus netos?

– Os netos não são meus, são da Lanja. E, depois, quem quer falar de mim! Quitéria Campolargo, a maior politiqueira da zona missioneira!

– Há política e política. Acho que é um dever cívico a gente ter um interesse ativo na política do seu país. Mas tu, Tibé, tu és um doente. Tens de estar sempre serrando de cima, mandando e desmandando, tramando intrigas...

– Tenho a política no sangue.

– Política e sífilis.

Tibério soltou uma risada bonachona. Sua amizade com a matriarca dos Campolargos alimentava-se desses insultos. Era com um ar de troça que se diziam duras verdades um sobre o outro.

Fez-se um silêncio. De cabeça caída sobre o peito, Zózimo agora cochilava, e de sua boca entreaberta saía um leve ronco rascante. Tibério olhou para o amigo e pensou: “Aposto como esse não vai longe...”.

Quando chegou a Antares a notícia de que as Forças Armadas, sob o comando do Ministro da Guerra, tinham acabado de dar um golpe de Estado, Tibério Vacariano exultou, saiu para a rua, fez um comício mirim na praça, e bravateou durante o chimarrão das dez. O país estava salvo!

Sua alegria, porém, foi de curta duração, pois em breve se esclareceu que a finalidade daquele movimento militar fora a de garantir a posse dos candidatos eleitos. Tratava-se, em suma – alegavam os seus autores – dum “golpe preventivo”.

Ao saber disso, Tibério soltou um palavrão, entrou no seu jipe e tocou para a estância, onde passou o verão inteiro no convívio das vacas que – segundo ele próprio agora dizia – lhe mereciam mais confiança que os políticos e os generais.

 

Já nos primeiros meses do governo de Kubitschek o Cel. Vacariano pôde verificar que não se realizava a sua previsão de que o novo Presidente ia ser facilmente manobrado por Jango Goulart e Leonel Brizola, os herdeiros políticos de Getúlio Vargas. Perdeu os seus Poleangos simbólicos apostados na “roda da Imaculada”, sentiu-se ferido no seu orgulho de profeta político, mas no íntimo rejubilou-se por ver que J.K. não aceitava o freio e o buçal petebistas. Quando, porém, Juscelino Kubitschek começou a pôr em prática o slogan plataforma de sua campanha eleitoral – “Cinqüenta anos âe desenvolvimento em cinco” – Tibério, arraigado conservador, ficou alarmado.

Passou o resto daquele qüinqüênio a criticar o Presidente. Tudo quanto ele fazia parecia-lhe errado ou supérfluo. Falar mal de Juscelino Kubitschek e dos seus ministros e colaboradores passou a ser para o velho político an-tarense uma espécie de pão de cada dia, do qual participava também a sua amiga Quitéria Campolargo. Comunicavam-se quase diariamente pelo telefone:

Ó Quita, você viu a última do Juscelino?

Se vi. Esse mineiro vai levar o país à ruína. Já estamos sentindo na carne e no bolso as conseqüências dos seus desatinos.

Certa manhã: depois de ler um editorial de A Verdade no qual Lucas Faia elogiava o Presidente Kubitschek por estar procurando incutir na nação brasileira a idéia de que ela tinha “um encontro marcado com o Destino, e um grande papel a representar no palco da História”, Tibério Vaca-riano tirou-se de seus cuidados e invadiu – o termo é exatamente este – invadiu a redação do jornal local, embara-fustou de chapéu na cabeça pelo escritório de seu diretor e, sem dizer-lhe “Bom dia” nem o habitual “Que tal?”, vociferou: “Você também já se vendeu pro Juscelino? Quanto está recebendo dele? Qual encontro com o Destino qual nada! Estamos é com um encontro marcado com a inflação, a bancarrota, a miséria e a anarquia!”

Lucas Faia levantou-se, mas sem perder o sorriso nem os bons modos:

– Sente-se, coronel. Vamos discutir o assunto tomando um cafezinho.

Acercou-se da porta que dava para a sala da redação e gritou:

– Ó Jucá, manda trazer dois cafés bem bons. E depressa!

Tibério continuava de pé, com o número de A Verdade na mão e dava-lhe repetidos tapas, como se quisesse castigar fisicamente o editorial.

– Nunca vi tanta besteira junta. É o teu pior escrito nestes últimos vinte anos!

– Sente, por favor, coronel. Não vamos brigar. O senhor está em sua casa.

Tibério sentou-se, mas sem tirar o chapéu. Reacendeu o cigarro que tinha, morto, a um canto da boca e esse gesto de certo modo pareceu acalmá-lo um pouco.

– O senhor sabe, coronel, como eu acato as suas opiniões... Como forte acionista d A Verdade, o meu ilustre amigo tem todo o Direito de dizer o que está e o que não está certo na orientação do jornal. Então acha que o Presidente Kubitschek está fazendo um mau governo?

– Mau? Péssimo. Perigosíssimo. O país não agüenta as loucuras desse homem. Onde se viu construir uma capital a todo vapor, remetendo o material por via aérea? Então você acredita mesmo que ele vai inaugurar essa tal cidade antes do fim do mandato?

Lucas Faia continuava aparentemente sereno.

– Coronel, eu acredito, mas posso estar errado. Agora, há alguém que nunca se engana. Só essa entidade poderá dizer a última palavra no caso.

– Quem é?

– A História.

– Não é pessoa das minhas relações...

– Coisas que hoje parecem ousadia, loucura, amanhã serão consideradas não só sensatas... como até (como direi?)... modestas, tímidas.

– Você está doido. Mande examinar essa cabeça o quanto antes.

Veio o café. Vacariano bebeu o seu em goles curtos e sôfregos, pôs a xícara em cima da mesa e disse, menos exaltado:

– É o que acontece quando um bando de eleitores analfabetos leva à presidência da República um ex-médico urologista da Força Policial de Minas Gerais.

– Mais um cafezinho, coronel?

– Ó Lucas, não me amole mais com esse café, que por sinal estava requentado.

– O senhor está muito pessimista... – sorriu o jornalista. Tinha uma voz macia e vagamente nasalada, como num defluxo crônico.

Tibério lutava agora um pouco com a própria respiração. O suor escorria-lhe pelas faces.

– Lucas, você sabe que não sou pessimista. O que sou é um homem com as patas plantadas na terra. Não vou com fantasias. E há uma coisa que já ficou bem clara nessa estória toda. Com esses seus negócios e empreendimentos do arcc-da-velha o Juscelino está dando a seus amigos, afilhados e sócios a oportunidade de enriquecer ilicitamente.

Lucas pensou nas grandes, incontáveis patifarias que o homem que tinha na sua frente havia praticado na vida – a famosa “fábrica de seda”, as operações de câmbio negro, o contrabando de pneumáticos de automóvel nos últimos anos da Grande Guerra – e continuou a sorrir um falso sorriso de mau ator. Não queria indispor-se com o velho, mesmo que tivesse coragem para tanto. Sem ser o melhor dos amigos, Tibério Vacariano era o pior dos inimigos.

 

A 21 de abril de 1960, no último ano de seu governo, o Presidente Kubitschek inaugurou Brasília oficialmente. Poucos dias depois, Zózimo Campolargo morreu de leucemia num hospital do Rio de Janeiro.

Exatamente ürês dias antes do falecimento do marido de Quitéria, Tibério Vacariano – que se encontrava então na cidade que até ao fim de sua vida ele se obstinaria em chamar de “capital federal” – foi visitar o amigo na casa de saúde onde ele estava internado havia meses.

Tinha um horror supersticioso a hospitais, que considerava verdadeiras antecâmaras da morte, com seus cheiros de desinfetantes e de febre, as suas brancuras frias e metálicas lembrando bisturis, a solidão silenciosa dos corredores onde as pessoas pareciam já fantasmas de si mesmas. Costumava dizer: “Não me lembro de ter passado mais de um dia de cama em toda mi perra vida, mas se eu vier a adoecer gravemente, não rne levem pra nenhum hospital: quero morrer na minha casa, na cama onde meu pai me fez e a “linha mãe me pariu”.

O quarto de Zózimo era imaculadamente limpo e ciato. O doente, agora de cabelos completamente encanecidos, detido num pijama branco, sumia-se pálido no alvor das cpbertas e dos lençóis, como um camaleão exangue. Quitéria, vestida de negro, estava sentada ao lado da cama, fazendo tricô com grossas agulhas brancas. A única nota viva no ambiente era dada por um vaso cheio de rosas amarelas, em cima duma’mesinha de cabeceira.

Tibério entrou meio desajeitado, com bovina lentidão, e apertou a mão fria e flácida que o amigo lhe estendeu.

– Que é isso, homem? Querendo entregar a rapadura?

– E o fim; Tibério. A última cena do último ato.

– Qual fim, qual nada! E tu como vais, Quita? – Inclinou-se e abraçou a amiga, beijando-lhe a testa.

– Vai-se indo como Deus quer – respondeu ela em voz ba’xa. – Senta o tundá naquela cadeira. E tira o chapéu, ir-al-educado!

Ele obedeceu. Podia ver agora a paisagem, enquadrada pela janela: encostas de morros cobertas de ricos e variados verdes, manchadas aqui e ali pelo roxo das flores de quaresmeira. Era um dia claro, de céu limpo, e uma leve brisa trazia fragrâncias silvestres para dentro do quarto.

“Que é que vou dizer?” – pensava o visitante. Sabia que o amigo estava perdido. Sua morte era questão apenas de dias ou talvez mesmo de horas. Tibério sentia que a voz se lhe trancava na garganta. Quitéria salvou-o do embaraçoso silêncio.

– Como vai a campanha política?

– Acesa. A corrida vai ser braba em outubro.

– Vocês já se decidiram?

– O diretório regional do P.S.D. do Rio Grande do Sul, como sabes, vai apoiar Jânio Quadros. Não quero criar problemas para os meus correligionários. Vou trabalhar por esse moço, mas sem entusiasmo. , . Nem conheço ele direito.

– Quem conhece direito os outros ou a si mesmo? – balbuciou o enfermo.

Quitéria encolheu os ombros:

– O Tibério talvez prefira trabalhar pelo Ademar de Barros, que é lobo da sua alcatéia...

O Cel. Vacariano riu com os ombros e com o ventre, mas sua cara continuou séria e de sua boca não escapou o menor sonido. Pouco depois, disse:

– Não quero nada com o Ademar, mas o Gen. Teixeira Lott me parece um homem decente.

– Parece e é. Mas tem como Vice-Presidente na sua chapa o Jango Goulart. Os trabalhistas vão votar nos dois. E não é preciso ser muito inteligente para saber o que acontecerá se essa chapa vencer. O Gen. Lott vai ser fatalmente dominado pelos nacionalistas do Brizola. E de novo teremos o P.T.B. no poder. Precisamos nos livrar duma vez por todas do espectro do Getúlio. O Jânio Quadros me parece a única saída... embora não me pareça o candidato ideal.

– Não sei... – murmurou o Cel. Vacariano. – O Jânio não será também cria do Getúlio? É um desconhecido, quero dizer, um político meio verde, sem experiência. Há poucos anos era um modesto professor completamente desconhecido, depois conseguiu eleger-se vereador em São Paulo e parece que se distinguiu como bom galo de rinha. Mais tarde foi eleito deputado pelo Paraná... Agora quer dar um pulo pra presidência da República. Será que tem pernas pra tanto?

– Mas não esqueças a obra dele como governador de São Paulo.

– Ora, São Paulo é um Estado rico, relativamente fácil de governar. Basta ter um bom secretariado. E o Jânio teve... Mas não vamos discutir mais esse assunto. Já prometi trabalhar pelo moço e vou cumprir a promessa.

Zózimo ergueu o braço e apontou com o dedo para um jornal que estava em cima duma cadeira.

– õ Tibé, você leu o Correio da Manhã de hoje? Traz uma reportagem muito interessante sobre Brasília.

Tibério olhou rápido para o jornal e depois para o amigo, dizendo:

– Não li nem vou ler. Sou contra Brasília. Essa “inauguração” foi fraudulenta como quase tudo quanto o Jusce-lino tem feito. A cidade não está nem nunca ficará pronta. Vai ser como a Sé de Braga. Nenhum Presidente poderá governar o país daquele cafundó...

Zózimo esboçou um sorriso e Tibério, confrangido, teve uma antevisão da caveira de seu amigo.

– Qual, Tibé! Não adianta a gente querer tapar o sol com uma peneira. Nosso tempo passou. Estamos velhos e atrasados. – Falava baixo, fazendo longas pausas respiratórias. – O mundo hoje é dos jovens... dos que têm coragem de fazer coisas, não apenas de conservar o que temos de bom ou de “aceitável”. O Brasil, comparado com as outras nações, é um país moço. Um potrò que vai disparar... acho até que já disparou... Os da nossa geração, Tibé, não se agüentam em cima dele nem agarrados no “santo-antônio”.

– Nunca na vida caí de cavalo. E sou domador.

– Era – zombou D. Quitéria.

Zózimo calou-se, fatigado, e permaneceu um instante de olhos cerrados. Quando tornou a falar, foi com voz tão débil, que Tibério, para ouvi-lo melhor, teve de arrastar sua cadeira para perto do leito.

– Nós... nós lá no Rio Grande não iremos... iremos nunca para diante... sem primeiro enterrar definitivamente certos cadáveres simbólicos... Gaspar Martins, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros... Getúlio Vargas... e outros, outros...

Tibério, que não gostou da inclusão do nome do conselheiro Gaspar Martins, ídolo da sua juventude, entre os “mitos” que deviam ser esquecidos, protestou:

– Você quer então matar as nossas tradições?

– Não. Eu quero que os homens da nossa... da nossa geração compreendam que seu tempo passou... que não podemos continuar olhando para trás... recordando as nossas cargas de cavalaria... Sepé Tiaraju... As “califór-nias” do Chico Pedro... Bento Gonçalves... Tempos novos chegaram, estão sempre chegando... Pedem outra espécie de gente... gente capaz de ousar... de olhar para a frente, enxergar longe... homens com um pé no presente e outro no futuro.

O Cel. Vacariano voltou-se pára a amiga:

– Estás de acordo com o teu marido?

Quitéria Campolargo encolheu os ombros num gesto de dúvida:

– Não sei... acho que um passado como o nosso não se bota fora como a água suja dum banho. Eu sou tradicionalista, o que não quer dizer que seja atrasada... O Zózimo e eu aqui sozinhos todos estes meses temos discutido muito esses problemas e outros. – Sorriu tristemente. —

Foi preciso esse homem adoecer pra abrir o “falador”. Antes ele pagava para ficar calado.

– Também tu nunca deixavas o teu marido abrir a boca...

– Pode ser. Mas agora estamos finalmente botando a nossa conversa em dia.

Zózimo tornou a sorrir um sorriso que já parecia ter algo de além-túmulo.

– É que compreendi que tenho pouco tempo de vida pela frente. Depois... depois dessas transfusões todas, quando o sangue que me corre nas veias não é mais o meu velho sangue, mas o de centenas de doadores... acho que muitas outras pessoas, que nunca vi, estão falando agora pela minha boca...

 

Por alguns instantes Tibério quedou-se a contemplar uma das quaresmeiras que enfeitavam os morros, e lembrou-se com preguiçosa saudade duma paineira que havia perto da casa de sua estância, em Antares.

-- Eu já preveni a Lanja, os meus filhos e o meu médico. Se um dia por desgraça eu precisar duma transfusão, não quero que me metam nas veias sangue de negro, nem de judeu ou de comunista.

– Por que, velho burro? Que diferença faz?

– Eu cá sei o que quero dentro deste corpo. E vou dizer outra coisa pra vocês dois. Eu cá só me aposento depois de morto, e assim mesmo sob protesto. Sei que meu dia vai chegar. Deus me bota na compulsória e me leva para a invernada do Nunca Mais, que é uma campanha sem fim nem princípio. Mas enquanto eu estiver vivo, hei de espernear, gritar, queimar até o último cartucho defendendo o que me pertence, o que herdei de meu pai (tanto terras e títulos e gado, como tradições), o que meu pai herdou de seu pai, de seu bisavô, trisavô, etc., etc... Ninguém põe a mão no que é meu sem a minha licença. Não aceito essas idéias modernas de socialismo, comunismo e sei lá quê mais.

Fez-se um novo silêncio. De fora vinham vozes humanas. De vez em quando se ouvia o zumbido do elevador do hospital. Tombou uma pétala de uma das rosas. Quitéria soltou um suspiro. Zózimo agora parecia adormecido. Ti-bério pensou em Cleo com uma saudade tátil.

– Neste quarto, Tibé – disse Quitéria – dentro destas quatro paredes o Zózimo e eu temos falado em assuntos em que nunca tínhamos tocado antes. Nossa morte, por exemplo...

– Pois não lhes gabo o gosto – resmungou Tibério.

– Tibé, tens fama de valente. Vives contando bravatas, proezas em revoluções e duelos... patacoadas! No entanto tens medo de pensar na tua morte, tens horror a encarar a realidade. – Tirou os óculos, limpou-lhes as lentes com um lencinho, e depois prosseguiu-. – Que esperas mais da vida? Os nossos filhos estão criados, não precisam mais de nós. Mais que isso: não querem saber de nós, de nossas idéias, de nossas manias, de nossa maneira de pensar e viver. Acho que todo homem vê sua cara todas as manhãs no espelho, na hora de se barbear. Que é que o espelho diz? Diz que o tempo passa sem parar. E que essas manchas que a gente tem no rosto (tu, eu, o Zózimo, todos os que chegam à nossa idade), essas manchas pardas são bilheti-nhos que a Magra escreve na nossa pele. Eu leio todos os dias esses recados, mas tu, Tibé, tu és analfabeto ou então te fazes de desentendido.

Zózimo escutava, de olhos cerrados e lábios entrea-bertos.

– O Zózimo não ignora o estado dele – continuou Quitéria. – Nenhum de nós se faz ilusões. Sabemos que todos um dia teremos de morrer. Gente melhor que nós tem morrido. A Virgem Maria, por exemplo, Napoleão Bonaparte. .. Morrer não é privilégio de ninguém. Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estúpidos. Uma das coisas que aprendi com a velhice foi fazer as pazes com a minha morte. Quando a Moura Torta bater na minha porta eu digo: “Entre, comadre, tome um mate. Ah, não quer? Então vamos embora”.

Fez uma pausa, olhou por alguns segundos o quadro que a janela emoldurava e depois, voltando-se para o amigo, disse:

– O que acontece é que tu és um homem sem fé, sem religião. Eu acredito em Deus e na Outra Vida, que deve ser melhor que esta. Reconheço meus defeitos, mas não tenho sido a pior das esposas nem a pior das mães ou das sogras. Tenho feito as minhas caridades. Rezo todas as noites. Vou à missa todos os domingos e me confesso todas as semanas. Estou certa que, depois da nossa morte, o Zózimo e eu vamos nos encontrar de novo em algum lugar.

– Pobre homem! – exclamou Tibério. – Não vai se livrar de íi nem na Eternidade.

Quitéria repôs os óculos e recomeçou a movimentar as agulhas e o fio de lã. Tibério olhou para o doente e teve a impressão de que o seu peito não se movia mais. Estaria morto?

– Quita, o teu marido parece que está dormindo. É melhor eu ir embora...

O enfermo abriu os olhos.

– Não, Tibé. Fica mais uns minutinhos... Este é o nosso último encontro.

– Ora, homem!

– Sabes duma coisa curiosa? Aqui nesta cama... todos estes meses... têm-me acontecido coisas esquisitas... Às vezes não sei se estou dormindo ou acordado... Esta fraqueza me deixa leve... leve, como uma sombra num sonho... Às vezes volto ao tempo de menino... me vejo, me sinto pescando, nadando ou passeando de caique no nosso rio... (É sempre verão, com um sol daqueles da nossa infância!) Ontem... ontem eu tinha doze anos... estava brincando na barranca do Uruguai quando ouvi um tiroteio... Era de tardezinha. Me escondi atrás do tronco de urna árvore e fiquei espiando um combate entre contrabandistas e guardas aduaneiros... Fiquei assustado, tremendo, o coração batendo mais depressa... um homem caiu nágua, baleado... a água ficou vermelha de sangue... vi que ele ia morrer afogado, então me atirei no rio... foi quando a

Quita me segurou pelos ombros, me sacudiu... Eu estava já com os pés para fora da cama...

– Sonho – disse Tibé.

– Sonho? – duvidou o doente. – Talvez. Mas eu acho que não cheguei a dormir de verdade... Fiquei assim no meio do caminho... entre dormindo e acordado... Um dia destes o velho Benjamim me apareceu, ficou sentado naquela cadeira, pitando o seu crioulo... cheguei até a sentir o cheiro da fumaça... vi o brilho de seu olho de vidro. .. Minha mãe também andou por aqui. Sonhos, tu di-zes. E... Talvez. Com todo esse sangue alheio no corpo, qualquer dia vou começar a sonhar sonhos de outras pessoas . ..

Quita não levantava os olhos de seu tricô. Fez-se novo silêncio. Tibé ergueu-se.

– Preciso ir andando. Tenho umas providências a tomar. – Segurou a mão do amigo e disse-. – Até qualquer dia, companheiro. Eu ainda volto aqui antes de ir embora.

– Não. Não voltes mais, Tibé. O fim de um homem não é nenhum espetáculo bonito.

O Cel. Vacariano soltou um suspiro de relutante aquiescência.

– Está bem.

– Podes dizer adeus. Não vamos nos ver mais.

– Estás impossível, Zózimo! Qualquer dia destes vou te levar de volta a Antares, e ainda havemos de tomar muitos chimarrões.

Zózimo Campolargo sacudiu a cabeça dum lado para outro sem erguê-la do travesseiro.

– Só volto para Antares dentro dum caixão... – sorriu tristemente. – Desta vez quem aposta dois Polean-gos sou eu.

Lágrimas rebentaram subitamente nos olhos de Tibé-rio Vacariano, que as enxugou desajeitadamente com os dedos grossos e de pontas manchadas de nicotina. Depois, sem se despedir de Quitéria, precipitou-se, fungando, pelo longo corredor do hospital, rumo do elevador.

 

Quitéria Campolargo fretou um avião para levar para Antares o esquife com o corpo do marido. Tibério Vacariano acompanhou-a na viagem.

A viúva de Zózimo manteve-se muito digna, a face impassível, os olhos secos. Reprimiu a sua dor e não “deu espetáculo” em sua casa, no velório, no momento em que fecharam o caixão do companheiro. Algumas das pessoas que estavam na câmara ardente, e que de certo modo esperavam a cena, como se por força duma tradição ou duma lei não escrita tivessem direito a presenciar essas explosões de dor, .como uma espécie de recompensa por terem comparecido à cerimônia – inconscientemente umas, consoiente-mente outras – sentiram-se ludibriadas. As quatro filhas de Zózimo, porém, de certo modo salvaram a situação fornecendo o elemento de tragédia que faltava àquela câmara mortuària. Beijaram desesperadamente o rosto do defunto, romperam em gritos, choros e exclamações, uma delas desmaiou nos braços do Dr. Falkenburg e foi carregada para o seu quarto. Vendo tudo isso, algumas senhoras e até alguns cavalheiros encontraram um bom motivo para desatar o pranto, o que muito os reconfortou.

Quitéria acompanhou o cortejo fúnebre até ao cemitério. Diante do mausoléu de granito negro da família, houve três discursos: um do secretário da prefeitura, em nome do prefeito e do povo de Antares, o outro do representante do diretório local da U.D.N. e o terceiro do presidente do Clube Comercial, do qual Zózimo era sócio fundador, benemérito e remido. Quitéria manteve a cabeça erguida e os olhos secos. O céu estava toldado, fazia um friozinho prematuro e o sudoeste – que os antarenses chamavam de “vento castelhano”, com um ressentimento mitológico – soprava insistente, produzindo uma musiquinha crepitante nas folhas das coroas artificiais.

 

Em princípios de setembro, o Dr. Jânio Quadros, acompanhado de alguns próceres políticos da U.D.N. e do P.S.D. de Porto Alegre, fez uma visita de seis horas a Antares. Dois dias antes de sua chegada já se via em muros e paredes da cidade a frase que costumava precedê-lo aonde quer que ele fosse.- Jânio vem aí!

A conselho de Tibério Vacariano o candidato foi à mansão dos Campolargos apresentar seus respeitos a D. Quité-ria, que estava de luto fechado, e manifestar seu pesar por não lhe ter conhecido o marido, de quem todos diziam tão belas coisas. Referindo-se ao símbolo da campanha de Jânio Quadros, a viúva disse:

– Doutor, o que este país precisa mesmo é de ser varrido de toda a sua sujeira. Use a sua vassoura sem piedade. Nós estaremos aqui na retranca, apoiando o seu governo.

Ao despedir-se, Jânio beijou-lhe respeitosamente a mão, o que muito sensibilizou a matrona dos Campolargos. À noite, à hora do comício ela ficou sentada discretamente na sua sacada, olhando para a praça atopetada de gente. Não só o largo, como as ruas e becos adjacentes, estavam tomados pelo público. Sentia-se na atmosfera, como emanações eletrizantes, o entusiasmo daquele povo. Muitos haviam trazido vassouras, que agitavam acima de suas cabeças. Outros sacudiam lenços brancos. (“Que saudade do Brigadeiro!” – suspirou D. Quitéria.) Quando Jânio Quadros subiu para dentro do coreto, de onde ia falar, cercado dos membros mais importantes de sua comitiva, a multidão prorrom-peu em gritos: “Jâ-nio! Jâ-nio! Jâ-nio!” O candidato ergueu os braços, a luz dum combustor refletiu-se nas lentes, de seus óculos, dando a impressão de que ali estava um super-homem com olhos de fogo.

Jânio Quadros fez um eloqüente discurso, emocionando o público, que o interrompia a intervalos para aplaudir e gritar ritmadamente: “Jâ-nio! Jâ-nio!” Prometeu combater a inflação, a injustiça, o nepotismo e a ineficiência burocrática. Declarou que não tinha compromissos com nenhum partido político. Era um homem livre. Como Abraão Lincoln, se eleito, governaria com o povo, para o povo e pelo povo!

 

Mais tarde, duas horas antes de embarcarem de volta a Porto Alegre, Jânio Quadros e os membros da sua caravana foram recebidos no palacete do Cel. Vacariano. Houve um momento em que o dono da casa segurou o seu candidato pelo cotovelo e disse-lhe ao ouvido:

– Preciso ter um particular com o senhor. Jânio sorriu:

Onde e quando?

– Agora. Vamos pro meu escritório.

Foram. Sentaram-se. Por alguns segundos Tibério com um olho fechado e outro aberto cozinhou o seu candidato em água fria. Não tinha conseguido formar um juízo claro sobre aquele cidadão. No físico, na maneira de portar-se e nas idéias ele não lembrava nenhum dos políticos que ele, Tibério, tinha catalogados na galeria da memória. O velho chefe antarense tinha ainda as suas desconfianças e reservas com relação ao moço do Mato Grosso...

Ouvira os mais inquiétantes rumores a respeito do Dr. Jânio. Seus inimigos diziam-no um farsante, um demagogo, e havia até quem afirmasse que seu truque eleitoreiro preferido era o de fingir de homem humilde-, ia para os comícios com o colarinho desabotoado, frouxo o nó da gravata, a roupa amassada e lá pelas tantas puxava do bolso um sanduíche embrulhado em papel e punha-se a comê-lo em publico, tudo para dar uma impressão de simplicidade, como quem diz: “Não sou nenhum grã-fino, sou como vocês. Votem em mim”. Contava-se também que, quando governador de São Paulo, sempre que no seu gabinete queria livrar-se dum importuno, da pergunta indiscreta dum repórter ou de qualquer outra situação embaraçosa, Jânio Quadros simulava desmaio^, tonturas... Era um ator consumado – afirmava-se.

Seria verdade tudo quanto se dizia dele? A cara do cristão – concluía Tibério – não confirmava nem desmentia essas estórias. Com seus cabelos escuros e lisos, uma mecha a cair de vez em quando sobre a testa (coisa que ele parecia explorar teatralmente), o bigode, os óculos de aros grandes e redondos, o homem tanto podia ser um caixeiro-viajante como um bancário ou um fiscal do imposto de consumo. Tudo, menos um candidato à presidência da República. A Lanja tinha ficado encantada com o moço. “Imagina, Tibé, que ele fala bem como gaúcho. Parece até nascido e criado aqui na fronteira.. Deus queira que ele seja eleito!” “Não sei” – pensava o marido – “não sei.” O juiz de Direito de Antares afirmava que Jânio tinha “carisma”. E ele, Tibério, nem sequer se dera o trabalho de ir procurar no dicionário o significado dessa palavra, que jamais ouvira em toda a sua vida. Mas pelo tom com que o magistrado a pronunciara, a coisa parecia boa.

– Estou às suas ordens, coronel – disse o candidato, cruzando as pernas.

– Doutor, sou um homem de sessenta e sete anos e ando metido em política desde que me tenho por gente.

– Coronel, fique certo de que conheço muito bem sua biografia.

Tibério não conseguiu descobrir se essas palavras eram um elogio, um insulto ou uma ironia.

– Pois é... Tenho tido as maiores decepções com os candidatos em que votei. Só espero que, se vencer, o senhor não nos desiluda, não seja como os outros,

Jânio Quadros franziu a testa:

– Não compreendo – disse, escandindo bem as sílabas à maneira do falar quadrado da fronteira do Rio Grande do Sul. – Não sei que é que o amigo quer dizer com isso.

– Vamos dar nomes aos bois. Não caia nas garras do P. T. B. Não se meta com os socialistas, com essa cambada da esquerda.

Jânio sorriu enigmaticamente.

– Meu caro Cel. Vacariano, o senhor ouviu o meu discurso. Se eleito, pretendo cumprir à risca tudo quanto tenho prometido ao povo durante esta campanha memorável.

– Pois é, mas as pessoas quando chegam “lá em cima” em geral mudam, esquecem as promessas feitas nos discursos e nas entrevistas. Noutras palavras, tenho medo de que o senhor atire a sua vassoura para um canto e não varra a casa.

– Pois, coronel, se o senhor pensa assim vai ter uma surpresa. Pretendo usar a vassoura, e com muito vigor. Agora, o meu caro amigo pode discordar de mim na definição da palavra “sujeira”. O que me parece sujo pode parecer-lhe limpo, e vice-versa. Mas duma coisa pode ficar certo: no meu governo não pretendo ter compadres nem afilhados. Pensarei com a minha cabeça, governarei com as minhas idéias e os meus ideais, serei senhor da minha vontade. Não tenho compromissos com partidos políticos ou grupos econômicos ou financeiros.

– Pois se assim é, não temos motivos para apreensões... não é? Mas eu gostaria que o senhor me fizesse umas promessas, agora.

A coisa soava como um pedido de pagamento adiantado por um apoio eleitoral.

Jânio mirou longamente o dono da casa e depois ergueu-se :

– Meu amigo, nenhum candidato que se preze pode fazer a quem quer que seja promessas particulares de ordem política, financeira, econômica ou de qualquer outra natureza. Meu compromisso é com o povo brasileiro, não só com os que me elegerem como também com os que votarem contra mim.

– O senhor pode me achar desconfiado, doutor, mas aqui na fronteira temos um ditado muito bom: O diabo sabe muito mais por velho do que por diabo.

– Conheço-o – replicou Jânio. – Mas o meu prezado companheiro não deve descontar a possibilidade da existência dum diabo que também saiba coisas, apesar de jovem. ..

– Claro que não! – riu-se Tibério. – Há de tudo neste mundo velho.

À porta do escritório, pouco antes de voltar à companhia dos outros convivas, o candidato encarou o anfitrião e disse;

– O que lhe posso garantir, coronel, é que, se assumir a presidência da República, eu não os decepecionarei.

Tibério deu-lhe uma palmadinha no ombro, sacudindo vagarosamente a cabeça e murmurando: “Muito bem, muito bem... “. E continuou sem saber o que pensar daquele singular espécime humano.

 

O Cel. Vacariano mandou soltar foguetes à frente da sede do diretório do P.S.D. quando as estações de rádio confirmaram a vitória de Jânio Quadros nas eleições presidenciais, com quase seis milhões de votos – “o mais cabal triunfo eleitoral da história da República dos Estados Unidos do Brasil”, como afirmaria Lucas Faia no editorial de A Verdade no número do dia seguinte.

Os estrondos dos foguetes ainda atroavam os ares de Antares quando Tibério Vacariano saiu de casa, trocando abraços e parabéns com os amigos que encontrava na praça, e foi fazer uma visita especial à sua amiga Quitéria Cam-polargo.

– Estamos finalmente no poder, Quita! – exclamou ao vê-la sentada na sua cadeira de balanço, manipulando com a sua habitual destreza as agulhas de tricô.

Deu-lhe efusivas palmadinhas nas costas. A viúva de Zózimo mal ergueu a cabeça e não interrompeu nem por um segundo o seu trabalho.

– Mas que é isso, menina? Não estás contente?

– Não sei, Tibé.

– Que bicho te mordeu?

– Primeiro, o Jango Goulart foi eleito vice-presidente na chapa do Jânio. Isso quer dizer que os getulistas continuam ainda mandando...

– Mas o Jânio é um homem de autoridade. O Jango não tira farinha com ele. Queres apostar?

– Dois Poleangos? Não aposto nada. Mas escuta. Em segundo lugar... não sei, esse tal de Jânio Quadros no princípio me entusiasmou, mas depois comecei a notar nele umas coisas esquisitas.

– Como por exemplo...

– Umas bobagens que disse em entrevistas. Depois, aquela viagem a Cuba, ao Fidel Castro, quando já era candidato. Isso me deixou de pé atrás... E, agora, três meses antes da posse, em vez de ficar no país compondo o seu ministério, o homem vai se tocar pra Europa. Acho que esse sujeito é um demagogo da pior espécie.

– Mas está eleito, e com o nosso voto.

– Paciência. Queres um cafezinho?

– Que pergunta! Temos de comemorar de algum jeito a nossa vitória. No fim de contas, não devemos ser tão pessimistas.

Veio o café em pequenas xícaras douradas, e ambos cr tomaram lentamente, recordando frases do falecido Zózimo.

Tibério estava de tal modo entusiasmado com a vitória de seu candidato que, para pasmo geral da família e dos amigos, resolveu “dar um pulo” a Brasília para assistir à posse do Presidente que ajudara a eleger. Passou três dias na chamada “nova capital”. Quando voltou para Antares, um dos filhos lhe perguntou:

– Que tal Brasília?

– Uma bosta. Não sei por que escolheram aquele lu-gar pra essa tal de Novacap. Decerto muita gente andou ganhando dinheiro por baixo do poncho na transação. Não vi nada que justificasse a escolha. Naquelas paragens só existem arbustos minguados, nenhuma árvore de mérito.

Terra porosa. É como se Brasília tivesse sido construída em cima dum cupim. E sabem duma coisa? Naquele deserto nem passarinho tem!

E que nos diz do Jânio?

– Temos que primeiro esperar, para ver o que o homem faz.

Não contou que vinha já desiludido com o seu candidato. Tentara apertar-lhe a mão, dizer-lhe duas palavrinhas mas não conseguira aproximar-se nem trinta metros do Homem. Tivera a impressão de que o ex-vereador de São Paulo “já estava com o rei na barriga”. Disse em voz alta aos familiares :

– Vou dar ao novo Presidente um crédito a prazo longo e juro baixo.

– Quantos meses? – perguntou um dos sobrinhos.

– Bueno, sou um homem generoso. Dou-lhe um ano. Não lhe passou sequer pela cabeça a suspeita de que o novo governo nacional não ia durar nem sete meses.

 

No dia 25 de agosto de 1961, exatamente sete anos e um dia depois do suicídio de Getúlio Vargas, chegou a An-tares a notícia de que Jânio Quadros acabava de apresentar ao Congresso Nacional a sua renúncia ao cargo de Presidente da República. D. Briolanja Vacariano, com palpita-ções de coração, fez o que nunca jamais fizera em toda a sua vida de esposa exemplar: acordou o marido da sesta vinte minutos antes da hora marcada e deu-lhe a notícia. Sentado na cama, estremunhado, olhos piscos, cara aparvalhada, Tibério pediu a repetição da estória. Ficou depois olhando fixamente para os dedos dos pés e de súbito ergueu-se soltando um grito: “Não! Não pode seri É boatot Não pode ser!” E rompeu a andar estonteado pelo quarto, no seu pijama de pelúcia azul-celeste. “Não é possível! É o fim do mundo! O homem está doido varrido!”

Vestiu-se às pressas, meio dispnéico, e saiu para a rua. A Praça da República fervilhava de gente, grupinhos aqui e ali, todos comentando “a renúncia”. Havia uma espécie de estupor geral. Por que foi? Por que não foi? Pode ser mentira. Não, não é, todas as estações de rádio de Porto Alegre estão divulgando o fato. Alguém informou que a Radio El Mundo de Buenos Aires acabava de dar a notícia em caráter urgente.

Tiberio Vacariano estava perturbado. “Agora temos de engolir o Jango Goulart como Presidente” – pensava. – ‘É o fim da picada! É o fim da picada!” E repetindo esta frase ele atravessou a praça em diagonal e entrou na sede do diretório do P.S.D., onde só encontrou caras alarmadas e in-terrogativas. Um de seus correligionários disse: “Segundo a Constituição o Jango tem de assumir”. “A Constituição que vá pro diabo!’Não podemos deixar o herdeiro do Getúlio tomar de novo o poderi” Alguém falou em “legalidade’ e Ti-bério, apalpando o revólver na cintura, disse por entre dentes: “A legalidade está aqui”. A um canto alguém murmurou-. “Acho que o Carlos Lacerda derrubou mais um Presidente”. “E em pleno vôo...” – acrescentou outro. – “Que pontaria infernal!”

Realmente, havia algum tempo, Lacerda, alarmado ante o perigoso comportamento de Jânio Quadros, começara a atacá-lo pela imprensa, pelo rádio e pela televisão.

A sereia de A Verdade soava a intervalos, e ondas de populares aproximavam-se da redação do diário local para ler “a última”. Os Ministros militares pareciam atônitos ante o gesto de Jânio Quadros, que apresentara a sua renúncia cedo, pela manhã, e já às onze horas embarcava para São Paulo com a família.

Que pretendia o Homem da Vassoura com essa demissão? Por que havia confiado a carta de renúncia a seu Ministro da Justiça, com a recomendação de que o explosivo documento não devia ser entregue ao Congresso antes das três da tarde?

Nasciam em Antares os boatos mais desencontrados. Ora, um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por

quem em suma, um recém-nascido de genitores ignorados.

Um popular acha-o “engraçadinho” ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros e assim o bastardinho vai sendo ama-mentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto – tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular – começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e às vezes até pânico entre a população, apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou.

 

No dia seguinte, no seu editorial assinado, em A Verdade, Lucas Faia escreveu que a inesperada notícia da renúncia de Jânio Quadros causara em Antare.s um impacto quase tão violento como o produzido pela primeira bomba atômica, a que explodira sobre Hiroxima em agosto de 1945. Embora muitas pessoas de bom-senso achassem que o jornalista tinha sido um tanto exagerado na comparação, dum modo geral reconhecia-se que, depois do suicídio de Getú-lio Vargas – ocorrido num outro agosto, mês de desgosto – a renúncia de Jânio era o acontecimento mais sensacional e dramático da vida política brasileira dos últimos tempos.

Um pormenor que dava um tempero folhetinesco à situação era o fato de que o Vice-Presidente da República, Dr. João Belchior Goulart, se encontrava então ausente do Brasil, pois havia sido mandado pelo Presidente Quadros à China Comunista, numa importante missão econômica.

Já se conhecia a íntegra da mensagem que o Chefe de Estado demissionário dirigira ao povo brasileiro. Tibério

Vacariano leu-a na sede do diretório local do P.S.D., no número do Correio do Povo chegado naquele dia. Achou-a fraca, chocha, nada convincente.

– Não tem grandeza! – exclamou, dando uma palmada na página do jornal que tinha estendido sobre a mesa, à sua frente. – Não tem drama e, pior que isso, não tem pé nem cabeça.

O secretário do diretório, um homem de meia-idade, todo em tons de cinzento – os olhos, os cabelos, a roupa e até a pele – disse:

– O Jânio sempre me pareceu um político sem convicções ideológicas: uma espécie de “órfão da tempestade” no nosso mundo político.

Outros correligionários foram aos poucos chegando e reunindo-se ao grupo que cercava o Cel. Vacariano, que continuava a comentar o manifesto.

– Ouçam esta frase. Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Que significa isto? Que reação? Por que não fala claro? Nestes sete meses cumpri o meu dever... Bolas! Não fez mais do que a sua obrigação. Tenho-o cumprido dia e noite.

Dia e noite? – repetiu o vice-presidente do diretório, que entrava na sala naquele exato momento, encolhido dentro dum sobretudo cor de «chumbo, uma manta de lã enrolada no pescoço, as faces cobertas por uma barba grisalha de dois dias, os olhos lacrimejantes, pois acabava de deixar a cama onde “uma gripe filha da mãe” o mantivera durante quase uma semana. – Dia e noite? – repetiu, desenrolan do a manta e revelando a camisa de pelúcia, sem gravata – Ouvi dizer que ultimamente o Jânio vivia metido no cinema do palácio, com uma garrafa de uísque ao lado, e ali ficava horas e horas, bebendo e vendo filmes de Far West, um em cima do outro. Um louco! – voltou a cabeça na direção da copa. – ó Iibório! Me traz uma cachacinha com mel e suco de limão. Ainda estou com a maldita gripe no corpo. Bom dia para todos!

Tibério Vacariano continuava a olhar para o jornal, co-mo que hipnotizado pelo manifesto. O secretário cinzento murmurou :

– A coisa toda não pode ser tão simples assim. Há muita invencionice, muita inveja, muita mentira no meio de tudo isso. Digam o que disserem, nesses sete meses o Jânio se impôs ao respeito da nação. Tinha presença, tinha autoridade. Ninguém batia na barriga dele. Mantinha seus subordinados e até os seus ministros a uma distância respeitosa.

Tibério deu outra palmada no Correio do Povo, bradando:

– Mas um Ministro de Estado não é um moço de recados! – Leu: – Forças terríveis se levantaram contra mim e me infamam ou me intrigam, até com a desculpa de colaboração. Mas que forças são essas? Por que não diz claro ou se cala para sempre?

O homem do sobretudo cor de chumbo bebeu um gole da batida que o Libório acabava de lhe trazer, estralou os beiços e disse:

– Eu cá ninguém me tira da cabeça que foram os Ministros militares que forçaram o homem a renunciar. E sabe qual foi a gota que fez o copo transbordar? A Ordem do Cruzeiro do Sul que o Jânio deu ao cubano barbudo... como é mesmo o nome dele? O Che Guevara!

– Outras boas razões tinham as forças armadas para botar esse psicopata no olho da rua – disse Tibério. – Mas escutem o que escreve o “mártir”: Saio com um agradecimento aos amigos que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e de forma especial às forças armadas, cuja conduta exemplar em todos os instantes e oportunidades não canso de proclamar. Agora me digam, depois desta declaração, em que ficamos?

O convalescente da gripe disse com voz ainda encatar-rada :

– Ficamos com o Dr. João Belchior Goulart na presidência da República dos Estados Unidos do Brasil.

Tibério deu outra palmada no jornal.

– Essa é que não! O Jango como nosso Presidente? Núncaras!

– Mas qual é a alternativa? – perguntou um homem gordo, que limpava as unhas com a ponta dum canivete.

– Uma nova eleição – disse o coronel. – Ou a guerra civil, se os janguistas se opuserem à solução eleitoral.

Um curto silêncio. Tibério acendeu um palheiro. O homem cinzento murmurou:

– Palavra que o sujeito me iludiu!

– Qual! – exclamou o gripado. – Percebi logo que ele era bolado dos cascos. Onde se viu um Presidente andar com aquela camisa indiana para fora das calças e obrigar seus auxiliares a usar no. trabalho esse uniforme ridículo?

– Ora, isso não tinha a menor importância. Podiam andar até pelados no palácio, contanto que fizessem boas coisas. E fizeram. Nossa burocracia pela primeira vez estremeceu desde que se proclamou a República. A inflação estava sendo pela primeira vez combatida a sério.

– Mas onde se viu governar com bilhetinhos? – perguntou Tibério. – E depois vocês devem convir que o Jânio fez um mundo de besteiras. Por exemplo, andou pelo Egito e veio de lá elogiando o nasserismo. Queria que a China Comunista fosse admitida na O.N.U. Inventou que o Brasil precisava de reatar suas relações com a Rússia Soviética. Estava tão voltado para a esquerda que os nacionalistas e os comunistas, que não votaram nele, já estavam elogiando a sua política...

O homem que limpava as unhas sorriu quase sonhadoramente ao dizer:

– Eu até que simpatizava com essa política externa independente que o Jânio procurou seguir, que diabo!

– Política independente? – exclamou Tibério Vaca-riano. – O Brasil está endividado até aos gorgomilos, praticamente hipotecado aos Estados Unidos e ainda queria dar-se o luxo de fazer parte desse tal de Terceiro Mundo. Chegamos a namorar até essas novas republiquetas africanas. Redículo!

– E... – concordou o homem do sobretudo cor de chumbo – o Jânio fez muitas bobagens. Por exemplo, essa estória de proibir o uso de biquínis nas praias... e corridas de cavalos nos dias de semana.

 – E rinhas de galo... – acrescentou Tibério, tossin-do estas palavras com baforadas de fumaça.

O gripado soltou uma risada rouca.

– Isso foi o que mais te enfureceu, hem, Tibé? Além de aficionado do esporte, és o maior criador de galos de briga em todo o Estado. Esse decreto te doeu no bolso.

-- Não é isso —<, replicou o patriarca dos Vacarianos. – A roisa toda é dum redículo de matar. O país devendo dois bilhões de dólares e o homem lá em cima fantasiado de indiano, vendo fitas de cow-boy, bebendo uísque e se preocupando com miudezas...

– Como se explica então a renúncia? – perguntou o gordo do canivete.

Tibério Vacariano ergueu-se, deu alguns passos ao redor da mesa e depois interpretou:

– Bom, no meu entender a coisa toda não passou duma farsa mal representada... O Jânio arquitetou um golpe. .. Não podia governar com minoria no Congresso, sentia-se de mãos amarradas. Escreveu então a carta de renúncia... que não era pra valer. Vai então entrega a carta ao seu’Ministro da Justiça pra ele apresentar o documento ao Congresso de tal jeito que ela não pudesse ser submetida aos deputados e por eles julgada em definitivo, no mesmo dia. Depois chamou os Ministros, militares e disse: “Fechem ou amordacem esse Congresso de borra, me dêem poderes extraordinários senão eu renuncio e vocês terão de engolir o Jango Goulart”. Mas, como se viu, a coisa não funcionou como ele esperava. O Congresso pegou o pião na unha. Aceitou logo a renúncia e fechou a questão. O Jânio ficou no aercporto de Cumbica esperando que o povo brasileiro se erguesse e o levasse de volta ao governo, de charola... Não apareceu ninguém.

– O tiro lhe saiu pela culatra.

– Isso nem foi tiro de verdade. Jânio usou uma dessas pistolinhas de brinquedo que a gente aperta no gatilho e em vez de tiro sai um leque colorido que se abre. Uma palhaçada que vai custar muito caro ao Brasil.

O homem de tons cinzentos sacudiu a cabeça.

– Não. Tudo isso é simples demais para ser verdade. Acho que tão cedo não vamos saber o que realmente aconteceu ... Daqui a uns cinqüenta anos... talvez.

E então o homem de sobretudo cor de chumbo pediu mais uma cachacinha com mel. Tibério cuspiu no chão o seu toco de cigarro. E a sereia de A Verdade começou a uivar.

 

Nos dez dias que se seguiram, a sereia do jornal local soou repetidamente, “fazendo a cidade vibrar de expectativa, apreensão, curiosidade, temor ou esperança” – no dizer de Lucas Faia.

Durante esse tempo realmente a situação política nacional tornou-se muito tensa, e a guerra civil parecia iminente. As forças armadas de terra e ar mantinham-se em rigorosa prontidão.

O presidente da Câmara dos Deputados assumiu provisoriamente a chefia da nação, horas depois da renúncia de Jânio Quadros, e um de seus primeiros atos foi o de mandar uma lacônica mensagem ao Congresso, comunicando aos representantes do povo que, por motivos de segurança nacional, os Ministros militares se opunham à volta de João Goulart ao Brasil.

Foi decretado o estado de sítio para todo o território brasileiro, para evitar as demonstrações públicas. Manifestações houve, porém, e muitas, principalmente em Porto Alegre, que estava em pé de guerra, o Palácio do Governo transformado em fortaleza, guarnecido por soldados da Brigada Militar e cercado por trincheiras de sacos de areia. O Governador Leonel Brizola, cunhado de João Goulart, dramaticamente de metralhadora portátil a tiracolo, fazia as suas proclamações por intermédio da imprensa e duma cadeia de estações de rádio, afirmando repetida e categoricamente à nação que não aceitaria nenhum golpe, e que ele estava decidido a resistir pelas armas.

Quitéria Campolargo ouvia-o ou lia-o e depois comenta-va “O diabo da subversão e da desordem de repente se transformou no ermitão da legalidade e da democracia”.

No dia 27 de agosto, ao tomar um vapor rumo de Londres, Jânio Quadros, fortemente emocionado, disse: “Fui obrigado a renunciar. Um dia voltarei, como Getúlio”. Tibé-rio Vacariano limitou sua crítica a essa frase a uma única palavra: “Fiteiro!” Depois procurou sintonizar no seu rádio uma estação que não pertencesse à Cadeia da Legalidade, de Brizola. Como não conseguisse, apagou o aparelho e saiu para a rua.

Sabia-se que sérias discussões e consultas se processavam em segredo nos meios militares. Se por um lado os Ministros da Guerra, da Aeronáutica e da Marinha não queriam dar posse ao vice-presidente, por outro nada podiam fazer de drástico e definitivo porque não contavam com o apoio de todos os comandos militares do país e nem mesmo com a maioria no Congresso. A opinião nacional estava dividida. Criara-se um impasse perigoso que talvez só pudesse ser resolvido por meios violentos.

No palacete dos Vacarianos as velas do velho oratório agora estavam sempre acesas e D. Lan ja rezava duas vezes por dia para a santa de sua devoção, pedindo-lhe que intercedesse junto a Deus para que o Todo-Poderoso não permitisse que mais uma guerra entre irmãos fosse deflagrada no Brasil. “Não adianta rezar” – disse-lhe o marido. – “Deus, me palpita que é neutro nessa questão da legalidade’, mas acho que a opinião dos santos, como a dos nossos comandantes militares, está dividida. Te digo ainda mais, Lanja, desconfio que já existe infiltração comunista na Corte Celeste.”

Disse estas palavras, acendeu o rádio e então os sons dum dos dobrados marciais de Brizola encheram-lhe a casa, vibrantes e insolentes, e o velho Vacariano berrou um palavrão e em seguida tocou-se para o diretório do P.S.D., onde teve o dissabor de encontrar muitos companheiros favoráveis à tese da legalidade da posse de Goulart.

– Tenho horror a esse homem – explicou um deles. – Mas precisamos ser coerentes, Tibé. Quando nos convém, invocamos a Constituição. Quando não convém, estamos prontos a rasgá-la.

Tibério ficou a olhar por alguns instantes para a cara do companheiro e depois, sem descerrar os dentes que apertavam o cigarro, resmungou: “Pois eu, meu velho, já vou começar a reunir gente. Acho que dessa enrascada só saímos a bala. A guerra civil é inevitável!”

Cinco dias depois não tinha conseguido juntar nem sequer cinqüenta homens. Ficou desapontado e esse desapontamento transformou-se em irritação quando leu no jornal local que os janguistas de Antares tinham oferecido a Leonel Brizola, para “a defesa da Legalidade”, um contingente de setecentos e cinqüenta homens, que só esperavam armas, munições e ordens de combate.

– Os tempos mudaram, Tibé – disse-lhe uma noite com triste resignação um seu correligionário. – Há muitos anos que estamos em minoria. Já não temos a força e o prestígio de antigamente. Um mundo novo está nascendo e os velhos como nós estão sobrando.

– Fresco mundo! – replicou o patriarca dos Vacarianos.

Voltou para casa, ligeiramente cabisbaixo. A Praça da República, como de costume naqueles dias agitados, estava cheia de gente, principalmente homens e – o que era pior – em sua quase totalidade, partidários do P.T.B. Tibério avistou o líder proletário Geminiano Ramos falando alto e gesticulando a uma esquina, no meio duns dez ou doze companheiros. Apalpou o revólver que trazia à cintura e pensou: “Se algum felho da pota me fizer qualquer provocação, traco-lhe bala”. Em vez de seguir o trajeto mais curto para a sua casa, fez acintosamente uma volta a fim de passar bem junto do grupo onde o Geminiano pontificava. Cruzou pelos “inimigos” a passo lento esperando, chegando até a desejar que alguém lhe desse alguma indireta ou soltasse alguma “risadinha debochada”. Nada disso, porém, aconteceu. Geminiano, ao vê-lo, saudou-o: “Boa noite, coronel!” O Primeiro ímpeto de Tibério foi o de levar a mão ao revólver. Conteve-se, porém, em tempo e bateu com dois dedos na aba do chapéu, e respondeu à saudação com um ronco. E continuou o seu caminho, meio derrotado.

 

Quando, dias mais tarde, noticiou-se que chefes políticos e militares haviam encontrado uma solução para a crise nacional na adoção do sistema parlamentar para o Brasil, com Jango Goulart na presidência, D. Quitéria Campolargo exclamou: “É pior a emenda que o soneto!”

– Mas está se vendo que isso é um ardil dos dois cunhados para tomarem o governo. O parlamentarismo com gente dessa laia não pode funcionar direito.

Como quem acompanha os episódios duma novela de aventuras, o povo de Antares seguiu pelo noticiário da imprensa e das estações de rádio, o complexo e cauteloso itinerário da volta de Jango Goulart da China Comunista. De Singapura, onde recebera a notícia da renúncia de Jânio Quadros, o Vice-Presidente voou para Paris, onde se encontrou com a comissão parlamentar brasileira que para lá viajara às pressas para lhe expor a fórmula conciliatória, que João Goulart estudou e finalmente aceitou. De Paris o filho espiritual de Getúlio Vargas e seus assessores voaram para Nova Iorque, de onde seguiram, via costa do Pacífico, para Montevidéu e finalmente para Porto Alegre. “O zorro é desconfiado como o mestre dele” – comentou um libertador. – “Pelas dúvidas, entrou no Brasil pelo Rio Grande.”

No dia 7 de setembro de 1961 o Dr. João Belchior Goulart prestava juramento como Presidente da República e o Brasil adotava o regime parlamentar. O novo Presidente nomeou o seu primeiro-ministro, que por sua vez formou o seu primeiro gabinete.

Alguém em Antares disse a Tibério:

– Como antigo maragato, deves estar satisfeito. Tuas idéias parlamentaristas finalmente triunfaram.

O velho Vacariano mirou-o longamente, com o crioulo preso entre os dentes amarelados, e não tomou conhecimento da ironia.

– A esta hora – disse – os restos do conselheiro Gaspar Martins devem estar se revolvendo na tumba. Aposto dois Poleangos como daqui por diante o Jango não descansa enquanto não levar este pobre país de volta ao presidencialismo.

Não se enganava. A 6 de janeiro de 1963 um plebiscito popular devolveu a Jango Goulart plenos poderes presidenciais. A experiência parlamentar no Brasil durara escassamente dezesseis meses e fora um fracasso.

 

Que tipo de cidade era Antares e que espécie de gente a habitava e governava ao tempo em que ocorreu o macabro incidente que em breve se vai narrar? Os estudiosos talvez encontrem respostas satisfatórias a essas perguntas na obra intitulada Anatomia duma Cidade Gaúcha de Fronteira, da autoria dum grupo de professores e alunos do Centro de Pesquisas Sociais, da Universidade do Rio Grande- do Sul, publicado em forma de livro em 1965 mas baseado, todo ele, em dados colhidos entre a segunda semana de fevereiro e meados de março de 1963. É que, embora a comunidade estudada apareça na monografia sob o nome imaginário de Ribeira, trata-se na realidade de Antares. Esse trabalho, que foi financiado pela Ford Foundation, teve como diretor e orientador o professor de Sociologia Martim Francisco Terra, da U.R.G.S., ajudado por um especialista em Ciências Políticas, um outro em Estatística e um terceiro em Economia. A equipe de pesquisadores era mista, num total de onze pessoas, em sua maioria alunos do último ano de Ciências Sociais, e contava com um “apêndice não acadêmico” – um fotógrafo profissional.

Conta-se que – embora não haja nenhuma prova certa de que isso tenha realmente acontecido – quando a equi-pe se reuniu para escolher a comunidade fronteiriça que ia ser objeto do aludido estudo, arrolaram-se os nomes de seis cidades gaúchas de nossa fronteira com o Uruguai e a Argentina, e discutiram-se os prós e os contras de cada uma delas, Duas foram consideradas demasiadamente estagnadas e logo postas de lado. Outras duas foram eliminadas por parecerem um tanto “sofisticadas” e por isso pouco representativas da sua região. Assim, restaram na competição apenas São Borja e Antares. O fato de a primeira dessas comunidades ser o feudo da família Vargas, tendo portanto implicações políticas delicadas, determinou sua exclusão, de sorte que Antares permaneceu sozinha na arena. Nenhum membro do grupo ficou mais feliz com isso do que Xisto, neto do Cel. Tibério Vacariano, e um dos discípulos mais dedicados do Prof. Terra.

– Bom – disse um dia o diretor do projeto – começaremos o nosso trabalho de campo a partir da segunda semana de fevereiro próximo. Esses meses de verão não só coincidem com as nossas férias como também com as dos estudantes de Antares que freqüentam universidades aqui em Porto Alegre, em São Paulo ou no Rio. Acho que esses jovens, em geral filhos de estancieiros ricos, são tão importantes como transmissores de idéias, atitudes morais e hábitos novos quanto... digamos, os pássaros e o vento no processo de polinização.

Olhou em torno e, vendo faces com expressões maliciosas, sorriu:

– Sei que acabo de dizer um enorme lugar-comum. Mas... que diabo! Esse é um direito que a Constituição não nega nem ao Presidente da República.

Tirou os óculos de grossos aros escuros, bafejou-lhes as lentes e pôs-se a limpá-las cuidadosamente com a ponta da gravata. Era esse um hábito seu muito conhecido dos amigos e alunos. O que estes últimos mais admiravam naquele mestre de quarenta e cinco anos era a sua honestidade intelectual, o seu humor em tom menor, e o seu saudável ceticismo quanto à exatidão “científica” das chamadas Ciências Sociais. Fumador de cachimbo, Martim Francisco costumava dizer que cachimbar era para ele mais um gesto que propriamente um vício ou um prazer, pois o ato de preparar o cachimbo, enchê-lo de fumo, acendê-lo lentamente com o isqueiro, tirar as primeiras baforadas fornecia pausas providenciais em situações difíceis, tanto durante as aulas como em diálogos na vida social. Era uma maneira de encher certos silêncios embaraçosos que de vez em quando se abrem como buracos inesperados no meio das conversações. Oferecia outra hipótese: o seu fascínio pelo cachimbo não seria uma reminiscência nostálgica e bovarista de sua adolescência de leitor das proezas de Sherlock Hohnes?

 

Xisto Vacariano Neto voltou a Antares em dezembro daquele agitado ano de 1961 incumbido de preparar o espírito de seus conterrâneos para o estudo a que iam ser submetidos. Conversou com o pai e depois com o avô, conseguindo convencê-los de que aquela pesquisa ia dar uma certa notoriedade a Antares. O Cel. Vacariano confabulou com o prefeito, que ficou alvoroçado, imaginando a publicidade que o projeto forçosamente ia trazer para a sua comuna e – claro – também para sua própria pessoa. A Câmara de Vereadores aprovou unanimemente a idéia de facilitar tudo à equipe universitária. Os clubes Rotary e Lions ofereceram espontaneamente a sua colaboração. É a diretoria da Associação Comercial como que se embandeirou em arco, pensando nos possíveis resultados econômicos que todo aquele “barulho” ia propiciar direta ou indiretamente a Antares.

Assim, na segunda semana de fevereiro do ano seguinte, chegaram à “Jóia do Uruguai” – cognome inventado por Lucas Faia para a sua cidade – os membros do grupo do Prof. Martim Francisco Terra. A princípio foram todos foco da atenção popular, olhados com curiosidade – simpatica, desconfiada ou neutra – seguidos na rua, examinados obliquamente nos cafés e restaurantes, encarados abertamente nas ruas ou espiados furtivamente por frestas de janelas e portas... Como era de se esperar, não tardaram os antarenses a dar aos forasteiros uma alcunha: “os gafanhotos”. Por quê? Ora, vinham em bando, no verão, em tempo de seca e com um jeito de praga. Diga-se, porém, a favor de boa parte daquela população, que ela tratou os membros do Centro de Pesquisas Sociais com a sua “jamais desmentida hospitalidade”, no dizer do diretor de A Verdade, que dedicou uma página inteira de seu jornal à “simpática caravana acadêmica”. O Clube Comercial abriu ás suas tradicionais portas a todos os professores e pesquisadores da equipe, isto é, todos menos o estudante de sociologia negro. (“Os senhores compreendem, não é por mal, não somos racistas, Deus nos livre!, mas é que durante toda a história desta sociedade nunca entrou em sua sede nenhuma pessoa de cor.”) Ao saberem dessa exceção, os “gafanhotos” recusaram terminantemente pôr os pés no clube, até mesmo para uma rápida visita.

Com a ajuda de seu cachimbo e de seu discípulo Xisto, o chefe do grupo conseguiu matar no nascedouro o baile e o banquete com que a sociedade local pretendia homenageá-los. Convenceu os próceres locais de que a maior homenagem que os antarenses poderiam prestar ao seu grupo seria, primeiro, tratar os seus membros como gente de casa; segundo, responder com a maior franqueza e paciência ao questionário que lhes ia ser apresentado. Nada mais.

Numa reunião informal, a que compareceram os grandes da terra, o Prof. Martim Francisco explicou (Lucas Faia mandou taquigrafar a fala do professor e reproduzi-la integralmente no número de A Verdade do dia seguinte) que a intenção da equipe era a mais séria e honesta possível, e que o estudo seria feito de acordo com as técnicas estatísticas mais modernas de amostragem, baseadas na teoria da probabilidade.

– Mas afinal de contas – perguntou um dos próceres – que é que os senhores desejam mesmo descobrir?

– Bom – hesitou Martim Francisco – queremos saber que tipo de cidade é Antares, como vive a sua população, qual o seu nível econômico, cultural e social, os seus hábitos, gostos, opiniões políticas, crenças religiosas, as suas... vamos dizer, superstições, em suma... tudo!

Tibério lançou na cara do sociòlogo uma dessas perguntas desnorteantes que ele costumava chamar de “pealo seco”:

– Pra quê?

– Ora, coronel... – sorriu Martim Francisco. E antes de falar encheu o bojo do cachimbo de fumo, apertou-o com o polegar e depois ficou por algum tempo aparentemente entretido na operação de acendê-lo, mas na realidade pensando numa resposta à pergunta do soba de Antares.

 

O trabalho dos universitários começou no dia seguinte. O falatório na cidade, a respeito deles, esse tinha já começado havia alguns dias. Cartas anônimas andavam já a circular em apreciável quantidade. Certo dia a cidade amanheceu cheia de boletins verdes, postos debaixo de portas, atirados de sacadas sobre as calçadas, distribuídos por meninos e meninas, de mão em mão, nas ruas e nas casas de comércio. Povo de Antares! Pais e mães de familial Alerta! Os inimigos estão já dentro de nossos muros! Protegei a vossa intimidade. Fechai as vossas portas e os vossos corações a esses forasteiros curiosos e indiscretos, agentes do comunismo internacional ateu e dissolvente. O Prof Martim Francisco Terra, o chefe dessa quadrilha vermelha disfarçada, está fichado no D.O.P.S. como marxista confesso. Defendamos a nossa crença em Deus, na Pátria, na Família e na Propriedade! Assinava esse apelo Um Patriota.

Um dos mais antigos comunistas da cidade disse um dia numa roda de correligionários: “O projeto está sendo financiado pela Fundação Ford. Está claro que nesse negócio todo anda o dedo da C.I.A. Não devemos colaborar com esses lacaios do Departamento de Estado”. Um comerciante encontrou na rua um colega e murmurou-lhe ao ouvido: Abre o olho, chê! Cuidado com os ‘gafanhotos’. Eles andam fazendo perguntas sobre preços, lucros, impostos, etc... Está claro que são espiões do pessoal do imposto de renda. A mim ninguém engana, que não nasci ontem”.

Ao fim de cada dia de trabalho toda a equipe se reunia numa sala que havia alugado para ser seu quartel-general, num edifício de apartamentos, à Rua do Comércio, e então cada pesquisador contava das vicissitudes do dia, da desconfiada resistência de alguns antarenses ante o questionário. O que finalmente os convencia a fazer o que os membros da equipe lhe pediam era o fato de eles não serem obrigados a assinar seus nomes depois de preencherem o formulário. Nessas reuniões diárias, um que outro pesquisador mostrava Uma carta anônima recebida naquele dia – ameaças veladas ou claras, denúncias, insinuações maldosas, insultos... A carta era lida em voz alta, provocando risos e comentários humorísticos.

– Paciência, meus filhos! – dizia Martim Francisco. E em seguida determinava as atividades para o dia seguinte.

E assim, durante cerca de cinco semanas, os pesquisadores conseguiram uma rica amostragem, de acordo com seus planos. Responderam ao questionário representantes da alta burguesia e da chamada “aristocracia rural”; comerciantes, funcionários públicos, donas de casa, estudantes, barbeiros, artesãos, garçons de cafés, bares e restaurantes, membros das profissões liberais, professores, empregados do comércio, motoristas de caminhões e automóveis de aluguel, etc... Xisto Vacariano, por conta própria e com a permissão de Martim Francisco, entregou-se a uma “pesquisa secreta” em torno dos hábitos sexuais da população de Antares, mas com um cuidado particular, pois o assunto era melindroso. Foi de início repelido por umas duas ou três senhoras de suas relações, que ficaram escandalizadas e ofendidas ante suas perguntas “indecentes”. Mas uma noite, conversando com Venusta, no seu bordel elegante, Xisto, o neto do velho Tibério, pediu champanha e começou a beber com a caftina, que congregou a seu redor algumas de suas “meninas”, &s quais, devidamente estimuladas pela bebida, abriram o bico e contaram das peculiaridades sexuais de seus clientes – posições e estímulos preferidos, extravagâncias, perversões ... Xisto anotou tudo e depois levou as suas “amostras a Martini Francisco, que sorriu, dizendo: “Excelente! Mas não podemos usar este material no nosso estudo. Causaríamos um escândalo dos diabos. Sugiro que escrevas um livro: O Kamasutra de Antares. Te garanto que vai ser um best-seller! Teu avô poderia escrever o prefácio!”

 

Independentemente de suas atividades profissionais, os “gafanhotos” faziam relações no plano humano com os habitantes de Antares, eram convidados para almoçar, jantar ou para festínhas em muitas casas de família. Um dos professores – solteiro e jovem – começou um namoro com a filha dum estancieiro. Uma das investigadoras teve uma proposta de casamento dum comerciante viúvo, cin-qüentão, calvo e rico. (Não aceitou.) Quanto aos namoros e namoricos, era tão pronunciada a predileção das moças antarenses pelos forasteiros, que momento houve em que o chefe do projeto temeu que os rapazes da terra se reunissem para linchar e expulsar da cidade os competidores indesejáveis.

Nas suas horas de folga Martim Francisco costumava conversar com o Pe. Pedro-Paulo, o jovem capelão da Vila Operária, com quem fizera boas relações. Ficaram muitas vezes sentados num banco da Praça da República, na calma do entardecer, à hora em que os pardais começavam a sua algazarra dentro e em torno dum alto plàtano, à frente da Matriz. Falavam na vida e na morte, em Deus, em livros, política nacional e internacional, pássaros, árvores, pinturas e outra vez no problema da finitude humana. Quase todas as noites, antes de ir para a cama, registrava de me-m°na no seu jornal íntimo aqueles diálogos, bem como as estórias que ouvira sobre as pessoas mais interessantes que ia conhecendo na cidade. O que ele não sabia era que o Pe. Pedro-Paulo também mantinha um diário em que o nome dele, Martim Francisco Terra, agora começava a aparecer com freqüência, e sob a mais favorável das luzes. A primeira nota que o sacerdote fez no seu jornal sobre o professor começava assim: Creio que hoje descobri um irmão

Os plátanos e os cinamomos começavam já a perder suas folhas amareladas e as paineiras estavam em plena floração, quando o trabalho de campo da equipe universitária terminou e os seus componentes se prepararam para deixar Antares. Dessa vez os “gafanhotos” não conseguiram nem mesmo tentaram livrar-se dum baile de despedida no Clube Caixeiral – que admitia em sua sede gente de cor – e dos almoços do Lions e do Rotary.

No dia do embarque da equipe, os moços que formavam o que Lucas Faia chamava de jeunesse dorée antaren-se exultaram. Muitas meninas, porém, ficaram tristes. E o Anjo da Verdade, que assinava algumas das cartas anônimas que circulavam na cidade, mandou um bilhete ao diretor de A Verdade revelando que duas ou três “mocinhas da nossa comunidade” tinham sido engravidadas e outras tantas defloradas e prostituídas pelos “gafanhotos vermelhos”.

Xisto Vacariano, que, depois que os companheiros se foram, permaneceu em Antares por mais uma semana, viu essa carta e comentou sorrindo: “Pelo que vejo, o Anjo da Verdade foi contaminado pelo espírito estatístico da nossa equipe”.

 

Todos os dados colhidos em Antares foram processados pelo Prof. Martim Francisco, ajudado por dois colegas, no computador eletrônico da Universidade de São Paulo. E durante todo o resto daquele ano de 1962 a equipe entregou-se à redação final do estudo, com a colaboração especial dum antropólogo – este último um tanto relutante por causa duma velha querela pessoal com a Sociologia, que ele considerava apenas uma modesta “ancila da Antropologia”.

O grupo encarregado de dar forma definitiva à obra a conselho de seu diretor tratou de eliminar todas as “enxun-dias” estilísticas dos manuscritos semifinais, a fim de que o resultado fosse um livro magro. À primeira edição em língua portuguesa devia seguir-se outra em língua inglesa.

Quando o Prof. Martim Francisco entregou os originais da Anatomia duma Cidade Gaúcha de Fronteira ao representante da Ford Foundation no Brasil, surgiu uma dificuldade que pôs em perigo a publicação desse trabalho em forma de livro. O Prof. Terra foi acusado anonimamente de comunista militante às autoridades policiais do Rio Grande do Sul, o que na opinião de muitos tornava a sua amostragem suspeita de parcialidade. Fizeram-se as investigações de rotina. Chamado ao Departamento de Ordem Política e Social, Martim Francisco teve a ocasião de verificar que a suspeita mais séria que havia contra sua pessoa baseava-se no fato de ele ter pronunciado na Universidade Federal, havia dois anos, uma série de conferências sob o título geral de Marxismo e Humanismo. Num memorial dirigido ao governador do Estado, ao general comandante do Terceiro Exército, ao reitor da Universidade do Rio Grande do Sul e ao representante da Ford Foundation, vários próceres de Antares manifestaram a sua apreensão quanto aos possíveis resultados “dum estudo planejado e dirigido por um indivíduo de tendências esquerdistas e portanto suspeito de parcialidade partidária, pois seu objetivo naturalmente era o de, por todos os meios, legítimos ou ilegítimos, desacreditar o sistema capitalista vigente na nossa comunidade”. Os signatários do memorial aproveitaram a oportunidade para “em benefício da verdade, reforçar a denúncia feita contra o diretor do aludido projeto, recordando atitudes, frases e idéias do Prof. Martim Francisco Terra, testemunhadas por anta-renses da maior idoneidade morar. O fato que mais despertara a suspeita dos habitantes de Antares quanto às verdadeiras intenções do Prof. Terra fora o interesse exagerado que ele demonstrava pela favela conhecida popularmente pelo nome de Babilônia, e que fora incontáveis vezes visitada por ele próprio e seus colaboradores, estudada e fotografada de todos os ângulos, tendo sido dezenas dos marginais nela residentes submetidos a questionários verbais que haviam sido gravados em fitas magnéticas.

A publicação dos resultados da amostragem foi sustada enquanto duraram essas investigações de natureza policial. Martim Francisco não perdeu a serenidade nem o bom-hu-mor. Escreveu uma carta ao reitor de sua universidade com cópias para o comandante do Terceiro Exército, o representante da Ford Foundation e o prefeito de Antares. Eis um trecho da missiva: “O computador que utilizamos para o processamento de todos os dados que colhemos em Antares (que no livro aparece sob o nome de Ribeira) é de fabricação americana e portanto acima de qualquer suspeita de es-querdismo. Considero também absolutamente insuspeitos os meus colegas e os estudantes que tomaram parte nessas pesquisas. E eu, que não sou americano nem russo nem comunista nem paranóico, estou disposto a consentir que meu nome seja omitido por completo do corpo do livro, não só como diretor como até como colaborador do trabalho, pois o que na minha opinião realmente importa é que ele seja publicado sem mais delongas”. O reitor da universidade considerou a carta insolente. O prefeito e outras pessoas gradas de Antares acharam-na cínica. Não se conhece a opinião do Terceiro Exército, mas o representante da Ford Foundation, amigo pessoal e admirador de Martim Francisco, riu-se de toda aquela farsa e mandou os originais para o prelo.

 

Em março de 1963 a versão original da Anatomia foi lançada no Brasil. Équando no ano seguinte Martim Francisco recebeu o primeiro exemplar da tradução americana, o governo de João Goulart havia sido derrubado e os militares estavam no poder.

Certa manhã em sua casa, à hora do café, o professor folheou o volume, cheirou-lhe as páginas – hábito muito seu – e depois entregou-o a Matilde, sua mulher, que estava sentada à mesma mesa, e continuou a leitura do jornal, que a chegada do livro interrompera. Havia na última página do matutino uma notícia informando que desde a irrupção da revolução vitoriosa de 31 de março, 378 pessoas tinham t’do seus direitos políticos suspensos, 10 000 funcionários haviam sido demitidos ou obrigados a se demitirem e que estavam em processo cerca de 5 000 investigações que envolviam umas 40 000 pessoas em todo o território nacional. Martim Francisco releu a notícia para a mulher, dessa vez em voz alta. Ela ficou um instante pen-sativa, olhando para o marido, e depois perguntou:

E tu... não estarás também sendo investigado?

– É possível e até provável – murmurou ele sem tirar o cachimbo da boca nem desviar o olhar da página do jornal.

E falas com essa calma...

– Que queres que eu faça? Que saia para rua gritando e chorando? Ou que meta uma bala na cabeça? Não cometi nenhum crime.

Ela sorriu, sacudindo lentamente a cabeça. Conhecia o marido e a sua fleuma. Tornou a olhar para a capa do livro.

– Que te parece agora esse trabalho? – perguntou.

Graficamente é um doce. Bom papel, boa impressão, boa capa. Quanto ao conteúdo, bem... acho que tem tabelas e gráficos demais. Fiz o possível para dar um certo frêmito de vida a esse estudo, mas tive de ceder muito terreno à estatística e à econometria.

Ela se ergueu, acercou-se do marido e começou a passar a mão pelos seus cabelos. Como o amava, habituara-se a gostar da fragrância de guaco da fumaça de seu cachimbo. Sempre acariciando a cabeça de seu homem, tornou a olhar para o volume:

– Sinceramente, achas que Antares está retratada fielmente nas páginas dessa Anatomia?

– Matilde, minha querida, queres que te fale com franqueza? Esse livro está para a Antares de verdade assim como um passarinho empalhado está para um passarinho vivo.

O professor pôs-se de pé e enfiou o casaco. Olhou o relógio: tinha vinte minutos para fazer a pé o percurso até à universidade.

Beijou a mulher, tornou a apalpar e cheirar o volume recém-chegado e depois disse, sorrindo:

E a verdade é que hoje sou persona non grata em Antares.

 

Como era de se esperar, os pró-homens de Antares haviam detestado o livro que, no ano anterior, fora discutido a portas fechadas numa reunião convocada pelo prefeito especialmente para esse fim.

– Abusaram da nossa hospitalidade! – exclamou o Maj. Vivaldino batendo na mesa com o punho cerrado. – Foram tratados a vela de libra, entraram nas nossas casas, na nossa intimidade e depois nos apunhalaram pelas costas. Temos de fazer alguma coisa, não acha, Cel. Vacariano?

O velho encolheu os ombros. Era o único daquela ilustre companhia que não parecia preocupado com as conclusões da Anatomia.

– Que importância pode ter um livro? – perguntou. – Andei folheando essa droga. Não entendi nem a metade do que eles escreveram aí... Essas tabelas, esses números, essas palavras arrevesadas são de morte. Quem é que vai ler essa bosta?

– Mas a obra – observou o Prof. Lábindo Olivares, diretor do Ginásio Nacional – vai ser distribuída pela Fundação Ford a todas as bibliotecas do Brasil, dos Estados Unidos e possivelmente de muitos outros países da América Latina.

– Ora, eles falam aí de Ribeira e não da nossa cidade!

– Bem, coronel, foi amplamente divulgado pelos jornais, pelo rádio e pela televisão que Ribeira é uma espécie de pseudônimo de Antares.

Lucas Faia sugeriu:

– Devíamos mandar publicar em todos os jornais importantes do país um memorial rebatendo essas infâmias sobre a nossa terra e a nossa gente.

– Vamos, vamos! – disse, conciliador, o Dr. Paiva, o novo advogado da prefeitura. – Não se trata propriamente de infâmias. E essas conclusões foram tiradas dos questionários...

Os três exemplares da Anatomia que haviam chegado a Antares andavam agora à roda, de mão em mão.

– Vejam a página 165 – pediu o Mendes, secretário do prefeito. – Somos apresentados como uma cidade prosaica, opaca (este é o termo que eles usam), como um povo sem imaginação e, além de tudo, desconfiado, sempre “com um pé atrás”. Numa nota ao pé da página se explica que esta expressão foi encontrada em 10% do total dos questionários.

O velho Vacariano desatou a rir:

– Imaginem se eles tivessem publicado a coisa que o meu neto, o Xistinho, escreveu sobre os “hábitos sexuais” dos homens de Antares. Imaginem que o felho da pota tinha lá umas “amostras” que, pelos sinais, se referiam a gente muito nossa conhecida...

O diretor de A Verdade chamou a atenção dos presentes para outro trecho do livro:

– Página 230. Observem o tom de ironia deste capítulo intitulado O Boi e a Máquina em que se pretende estudar o “impacto que uma indústria incipiente está produzindo num município agropastoril”‘.

O prefeito tirou o livro das mãos de Lucas Faia, um tanto abruptamente, abriu-o numa outra página e disse:

– No capítulo Hábitos e Tabus Alimentares esses canalhas criticam a maneira como nós comemos em Antares. Prestem bem a atenção nesta tirada e me digam se não é coisa de comunista: “Os pobres não comem porque não têm dinheiro para comprar gêneros alimentícios. Os remediados comem pouco e mal. Os ricos comem demais e errado”.

O dedo indicador de Vivaldino Brazão percorria a página. – Ah! Aqui está a frase que eu procurava: “Durante o forte do verão, nos dias de maior calor, devoram feijoadas completas”. Pois isso é comigo, senhores. Num gesto de boa vontade convidei o Prof. Martim Francisco para almoçar na minha casa e lhe ofereci uma feijoada. E o ingrato se valeu disso para me ridicularizar. Ó Dr. Lázaro!

O homenzinho que estava sentado a um canto da sala, quase a cochilar, teve um sobressalto:

– Pronto, major!

E esse negócio de colesterol de que eles falam aqui é certo mesmo?

– Não li ainda o livro, major. Mas todo alimento que contém gordura animal tende a aumentar o colesterol no nosso sangue, produzindo a artériosclérose. Vivo dizendo isso aos meus clientes, inclusive ao senhor, mas ninguém me leva a sério.

– Ah! – riu seco o Cel. Vacariano. – O meu pai só comia carne gorda e coisas fritas em banha de porco. No entanto morreu com mais de oitenta e cinco anos, não de enfarto, mas da chifrada dum touro xucro.

O prefeito umedeceu a ponta do indicador na língua e pôs-se a folhear rapidamente o livro infame, até encontrar o que procurava.

E agora, meu amigos, chegamos ao trecho desta obra que mais me irritou. É o capítulo dedicado à Babilônia (por sinal enorme, desproporcional ao resto do volume). E ilustrado com fotografias horrorosas! Não tiveram nem o cuidado de inventar outro nome para a favela. Vejam esta descrição apaixonada, parcial e eu diria até política: “Homens, mulheres e crianças aqui vivem – se a isto se pode chamar viver – na mais terrível promiscuidade, num plano mais animal do que humano, em malocas feitas com pedaços de caixotes e de latas... sem o mais elementar serviço sanitário... bebendo a água poluída duma lagoa próxima ... pisando nas próprias fezes... etc... etc... e comendo o que catam nos monturos de lixo da cidade”. Ah! Ouçam agora esta: “O visitante que se aproxima desse arraial da miséria e da desesperança sente de longe o fedor que dele se exala, mesmo nos dias sem vento...” Vamos ver mais adiante... aquil “No verão as crianças dessa aldeia fantasma morrem como moscas, de disenteria e desidratação. Encontram-se aqui, entre os grandes e os pequenos, casos crônicos de tuberculose e outras doenças propiciadas pela subnutrição. Dá pena ver os olhos entre espantados e tris-tonhos dessas criaturinhas esqueléticas que, quase todas, sofrem de ancilostomíase. . sempre cercadas de enxames de moscas, precoces candidatas à vala comum.” Senhores, não parece que estamos lendo a descrição da aldeia mais miserável da Índia ou da Bolívia? E isto deve ter sido escrito pessoalmente pelo próprio Prof. Terra, o comunista!

– Mas isso é literatura e não sociologia! – exclamou o Prof. Libindo.

E literatura barata – acrescentou Lucas Faia. – Estilo indigente.

E demagógico – disse o Dr. Paiva.

O Pe. Gerôncio sacudiu lentamente a cabeça dum lado para outro, os olhos baixos.

E viram o que os ordinários disseram da religião em Ribeira? – perguntou o Mendes. – Afirmaram com gráficos estatísticos que a nossa igreja católica está perdendo terreno para o espiritismo e para os cultos afro-brasilei-ros, principalmente para a Linha Branca de Umbanda.

 

Comentaram-se outros trechos do livro. Um gerente de banco achou baixo demais o rendimento per capita dos habitantes de Antares indicado pela amostragem. Um comerciante considerou insultuoso o que se escreveu sobre a arquitetura da cidade e sobre os seus hábitos sociais.

– Ó Mendes. Me faça o favor de ler o que está na página 340, na parte de cima.

O secretário leu:

– “O que mais impressiona o forasteiro nos habitantes de Ribeira é uma nítida tendência para o prosaismo, isto é, uma certa pobreza de imaginação e fantasia. O mau gosto que se nota na decoração das casas das famílias remediadas e mesmo das abastadas é flagrante.”

– Mais adiante!

– “Um jovem estudante, filho de tradicional família do município, assim opina sobre a sua terra e a sua gente: ‘O Rio Grande do Sul é o Estado mais reacionário do Brasil, e Ribeira a cidade mais reacionária do Rio Grande do Suf. Tornamos a perguntar: ‘Refere-se só ao reacionarismo político?’. E o rapaz: ‘Não. Reacionarismo em tudo. Veneramos morbidamente um passado e uma tradição já mortos, se é que de fato um dia existiram mesmo, e somos incapazes de sair dos trilhos da rotina e erguer a cara para o sol do futuro’. Um outro declara: ‘Ainda se cultua entre nós o machismo como se mantivéssemos no Brasil o monopólio da coragem e da virilidade’.”

O Dr. Paiva observou:

– Isso me cheira a frase inventada por um dos professores.

O prefeito de novo agarrou o volume, procurou uma página, achou-a e disse:

– Vou mandar chamar o Britinho da Livraria Excelsior e passar um pito nele. Só pode ter sido esse idiota quem disse as inconveniências que aparecem no capítulo intitulado Livros e Literatura. Ouçam: “Conversamos longamente com o único livreiro da cidade, que nos confessa estar à beira da falência comercial. Disse-nos ele, textualmente, pois suas palavras foram gravadas em ‘tape’, com a sua permissão: ‘Nosso povo não tem o hábito da leitura. Os que aqui gostam de ler não têm dinheiro para comprar livros, e quando compram custam a pagar ou não pagam nunca. Os que têm dinheiro em geral não gostam de ler. Há por aí uns intelectualóides que quando precisam de livros mandam buscá-los diretamente de Buenos Aires, do Rio de Janeiro e até de Paris. O que a maioria de nosso povo aprecia mesmo são as revistas com estórias de quadrinhos e as novelas de rádio. Se o livro desaparecesse da face da Terra acho que o povo de Antares nem chegaria a dar pela coisa”.

– Essa obra também afirma – disse Lucas Faia – que não temos arte popular.

– O que é verdade... – murmurou o juiz de Direito.

– Mas em quantas regiões do Rio Grande – perguntou o Prof. Iibindo – encontramos boa arte popular? Por que havia de Antares aparecer agora nessa monografia como sendo, por assim dizer, a única cidade do nosso Estado pobre em expressões folclóricas?

O presidente do Clube Comercial pediu a atenção dos presentes para o capítulo dedicado à vida social de Antares ou, melhor, de Ribeira.

– Afirmam esses senhores que o nosso clube é um “reduto fechado” do patriciado rural e da alta burguesia. Chegam a insinuar que somos racistas, que não aceitamos como sócios pessoas de cor nem judeus.

– O que é verdade – replicou Mendes. O prefeito franziu a testa para o seu secretario, censurando-o paternalmente pela sua intervenção infeliz.

– Segue-se um estudo – continuou o presidente do Clube Comercial – sobre o que eles chamam “sementes de racismo”. Não há dúvida: esse tal Prof. Martim Francisco Terra é mesmo um lacaio de Moscou.

E dizer-se que lhe corre nas veias o sangue dos Terras de Santa Fé! – suspirou o Pe. Gerôncio. – Um dia esse moço me visitou e eu lhe mostrei a árvore genealògica dos Terras Cambarás, fundadores de Santa Fé. O Prof. Martim Francisco vem a ser tataraneto de Horácio Terra, que em fins do século XVIII afastou-se do tronco da família, estabeleceu-se em Rio Pardo, casou-se com uma moça da vila e lá formou um forte e frutuoso ramo da árvore dos Terras. Contei tudo isto ao professor e ele não me pareceu muito entusiasmado. Nunca ouviu falar na velha Ana Terra, que até hoje é venerada em Santa Fé, a cidade que ela ajudou a fundar. Era uma pioneira na acepção exata do termo, mulher corajosa, de virtudes altíssimas. Pois o nosso sociólogo ficou frio diante de tudo isso!

– Comunista não se importa com genealogia – sentenciou o Mendes.

– Nem com tradição – acrescentou o prefeito. – Há nessa droga de livro um capítulo em que se descreve o nosso Centro de Tradições Gaúchas Chimarrão da Saudade.

Ou eu me engano ou esses universitários fizeram ironia com o nosso tradicionalismo. É um desaforo.

Quem tinha um livro aberto agora era Lucas Faia:

E esta? Diz aqui que “o português que se fala em Ribeira, como acontece aliás em maior ou menor grau nas nossas cidades da fronteira com a Argentina e o Uruguai, está inçado de castelhanismos. O falar ribeirense é seco e quadrado (‘depôs’ e ‘pôs’ em vez de ‘depois’ e ‘pois’, etc). ‘Buenas’ é uma saudação comum, assim como o ‘ciao’ italiano, este de uso mais recente. Aqui muitas vezes se agradece dizendo ‘gracias!’ Para o ribeirense ‘acender’ é ‘prender’, como em espanhol. E o emprego da interjeição ‘chê’ está muito generalizado aqui “.

O prefeito fechou o seu volume com violência, produzindo um ruído fofo, e atirou-o com desprezo e rancor em cima de sua mesa de trabalho. Olhou em torno e perguntou:

– Em resumo, na opinião dos ilustres amigos, que devemos fazer diante de todas essas... esses... insultos e mentiras? Aprovam a idéia de publicarmos um protesto nos jornais?

– Não – disse o Dr. Paiva. – Seria chamar a atenção e o interesse de muita gente sobre esse livro que, de outro modo, passaria completamente despercebido. Qualquer coisa que divulgarmos a respeito na imprensa escrita, no rádio ou na televisão serviria de propaganda para essa obra. Por outro lado não temos bases para processar judicialmente seus autores porque, vejam bem, nessas quase quinhentas páginas não se menciona uma vez sequer o nome Antares. Itaqui, Quarai, Livramento, São Borja e Uruguaiana também poderiam muito bem vestir a carapuça...

Houve um silêncio curto, cortado de pigarros, tosses, arrastar de pés e ranger de cadeiras. Lucas Faia falou:

– Bom, senhores, como diretor e redator-chefe de A Verdade não posso deixar de escrever um artigo veemente contra esses caluniadores, sob pena de passar por covarde ou indiferente E vou pedir aos nossos leitores que boicotem esse livro, e evitem até tocar com a ponta dos dedos a sua capa... que aliás está unu beleza, diga-se de passagem.

O prefeito ergueu-se, deu um puxão nas pontas do casaco, e disse:

– Proponho que o Prof. Martim Francisco Terra e os demais membros de sua equipe sejam declarados oficialmente pessoas não gratas a An tares.

A moção foi secundada pelo juiz e aprovada por unanimidade. O Maj. Vivaldino declarou a sessão encerrada e, ao despedir-se dos amigos à porta de seu gabinete, sugeriu

– Não seria má idéia comprar uns trinta. ou vinte... ou mesmo dez exemplares desse livro e queimá-los todos numa solenidade em praça pública, numa manifestação de protesto contra as mentiras que ele contém,

O Mendes tocou com a ponta dos dedos os carnudos ombros do seu chefe:

– Major, seria um auto-de-fé muito caro. O senhor viu o preço de cada volume? E, de resto, não temos verba.

O vigário, consultado, não concordou com a idéia do prefeito.

– Castiguemos esses moços com o nosso perdão – disse evangelicamente.

 

Em Porto Alegre, numa tarde de maio do ano de 1964, Martim Francisco e Xisto saíram juntos do edifício da universidade em uma de cujas salas se havia reunido toda a equipe que trabalhara na Anatomia, para que cada um apresentasse a sua crítica ao “produto acabado”. Dirigiram-se ambos para o parque, nesse tipo de passo lento e descom-promissado de quem não tem hora marcada para nada nem destino certo, e que, fatalmente, acaba levando a confidencias. Havia alguns dias Xisto Vacariano submetera à apreciação de seu mestre um ensaio de sua autoria intitulado A Hora do Tecnocrata.

Meninos e meninas brincavam perto de um dos lagos. Muitos deles passavam pedalando suas bicicletas. Um balão amarelo, perseguido por uma criança de seus dois anos. caiu perto de Martim Francisco, que não resistiu à tentação de bater nele, de leve, com o pé.

– A propósito, – disse o professor, embora não tivesse visto no balão ou na criança nenhuma relação direta com o que ia dizer – li o teu ensaio. Gostei. .. mas com uma reserva.

Xisto sorriu, baixou a cabeça para não ser atingido por um bumerangue lançado por um adolescente de camiseta vermelha.

– Pode me dizer qual é a reserva?

– Ora, nada sério. O ensaio me pareceu muito bem craniado. Só notei que estás demasiadamente fascinado pela tecnologia. Daí a aceitar sem reservas a tecnocracia é um passo muito curto.

E que mal há nisso, num país em processo de desenvolvimento como o nosso? O Brasil precisa mais de cientistas e técnicos do que de helenistas, latinistas e estetas ...

– De acordo, até certo ponto... Mas deixa também um lugarzinho na tua Sociedade Nova para os humanistas. A Filosofia não é tão inútil como parece. E o homem necessita de música, de poesia e – que diabo! – precisa também aprender a usar bem o lazer que um dia a ciência, ajudada pela técnica, lhe há de proporcionar. Em suma, a técnica nos fornece os meios. O humanismo nos orienta quanto aos fins. E não concebo humanismo sem ciência.

– Mas não haverá muita conversa fiada em torno de humanismo?

– Há conversa fiada em torno de tudo. Até (e principalmente) de Deus.

Martim Francisco fez a sua proverbial pausa para acender lentamente o cachimbo. Depois retomou a palavra.

– Te dou um exemplo de muita tecnocracia e nenhum humanismo: Hitler e a sua camarilha, que causaram talvez a maior mortandade e destruição da História. Durante a era hitlerista os humanistas alemães emigraram. Os tecnocratas ficaram com as mãos e as patas livres.

– Bom, espero que o mundo tenha aprendido a lição. ..

– Qual, Xisto! Não aprendeu. A gente esquece com facilidade. As gerações se sucedem. Cada governo escreve a História de acordo com as suas conveniências. E eu acho, meu caro, que cada um de nós tem nas suas mais remotas cavernas interiores um troglodita adormecido que, submetido a um certo tipo de estímulo, vem rapidamente à tona de nosso ser e se transforma num déspota totalitário capaz de todas as bestialidades. E nunca faltará um falso humanista para inventai” uma teoria filosófica com o objetivo de coonestar todas as monstruosidades cometidas pelo “homem das cavernas”.

– Não sou assim tão pessimista.

– Mas escuta... Quando o Presidente Truman e os generais do Pentágono se reuniram, no maior sigilo, para decidir se lançavam ou não a primeira bomba atômica sobre uma cidade japonesa aberta... imaginas que eles convidaram para essa reunião algum humanista, artista, cientista, escritor ou sacerdote?

Xisto replicou:

– Eu tinha apenas quatro anos quando a Grande Guerra terminou. Mas está claro que tenho lido muito a respeito. Vou lhe responder... Quem ordenou o bombardeio de saturação de Dresden, cidade aberta, sem instalações militares, durante essa mesma guerra (e nesse bombardeio está provado que morreu mais gente do que no de Hiroxima) não foi um tecnocrata nem mesmo o Estado Maior do exército britânico, mas sim Sir Winston Churchill em pessoa, um humanista. Sua justificativa foi a de acelerar a “guerra psicológica”.

– Bom, Sir Winston não é exatamente a minha idéia de humanista. E decerto ordenou o bombardeio de Dresden Para apressar a queda do nazismo e assim salvar o humanismo. E cá estamos enredados em palavras...

 

Sentaram-se num banco, sob uma pérgula, tornaram a recordar pessoas e cenas de Antares, comentaram a reação desfavorável dos antarenses à Anatomia e por fim Xisto indagou :

E agora... quais são os seus planos?

– Talvez emigrar...

– Como? Está falando sério? – Martim Francisco sacudiu a cabeça numa lenta afirmativa. – Mas por quê?

– Você leu com atenção o Ato Institucional do novo governo?

– Sim... quero dizer, com relativa atenção.

E as notícias de hoje nos jornais?

– Por alto. Mas... emigrar por quê?

– Já li a inscrição na parede. Estamos (e os próprios responsáveis pelo novo governo não negam) num regime autoritário. Esta pode bem ser a oportunidade para corrigir alguns de nossos muitos defeitos políticos, econômicos e sociais mas (veja bem) também pode ser a hora do mons-trinho das cavernas... dum lado e de outro.

– Aaah! Acho que o senhor está dramatizando demais a situação.

– Pode ser. Mas pelo rumo que as coisas políticas estão tomando, é de se esperar que mais tarde ou mais cedo eu esteja no número dos professores que, sob os mais variados pretextos ou sem nenhum pretexto, serão afastados da universidade por algum Ato Adicional ou decreto, sei lá!

– Afastados? Mas por quê?

– Suspeitos de esquerdismo ou de não colaboração voluntária com o movimento de 31 de março... A mim não me perdoarão jamais por ter feito aquela série de conferências em torno dos aspectos humanistas dos primeiros escritos de Marx. Como sabes, não vivo em odor de santidade política: sou o que muitos chamam de “liberal es-querdizante”. Ou simplesmente de “comunista mascarado”.

– Mas é ridículo!

– Pense na História e me diga quando, em que tempo o ridículo não andou de braço dado com o sublime. Acho que vamos entrar numa era de denúncias. Será a “hora do dedo duro”. Teremos uma caça às bruxas. E eu sou geralmente considerado uma bruxa!

– Não acredito. A situação política que essa revolução derrubou era caótica e perigosamente permissiva.

– De acordo, mas ela admitia, tolerava a discussão livre, e eu tinha a esperança de que um ponto de vista liberal prevalecesse um dia, estabelecendo a sua ordem.

– Mas... por que emigrar? O senhor poderá continuar trabalhando no Brasil. Há outras universidades e colégios.

– Um dia teremos todos os caminhos barrados. Tudo indica que essa revolução, que já está sendo contestada, continuará a encontrar uma resistência cada vez mais forte. E é natural que a contestação provoque a repressão e a repressão mais contestação. Lamentarei mas não me surpreenderei se qualquer dia entrarmos numa era de terrorismo.

– No Brasil? Não acredito.

E por que não? Chegamos ao fim de nossa adolescência nacional. Somos o único país da América Latina com jeito e possibilidade de vir a ser mesmo uma nação de importância mundial. A festa acabou. Temos de tomar nosso destino em nossas próprias mãos com a maior seriedade e decisão. Não seremos mais tratados como meninos irresponsáveis, mas como adultos. Ninguém nos dará mais presentes. O preço de ficar adulto é bastante alto, não nos iludamos ...

Fez-se um silêncio. Xisto olhava para o Auditório. Martini Francisco tinha em seus pensamentos Matilde e suas duas filhas.

– Mas emigrar para onde? – perguntou o discípulo.

– Não sei. Eu gostaria de ir para a Europa, mas vejo mais possibilidade de trabalho e tenho melhores relações humanas nos Estados Unidos.

– Sim, e lá existe plena liberdade de pensamento e expressão.

                – Até quando?

                Xisto atirou no chão o seu cigarro e apagou-o com a sola do sapato, num gesto um tanto impaciente.

                – Será que um dia não vai haver mais em toda a Terra um lugar em que um homem possa ser dono pelo menos do seu nariz, dizer o que pensa, ter uma quota razoável de liberdade? Talvez em alguma ilha deserta do Pacífico.. .

                – Não te iludas. Nem numa ilha deserta poderemos fugir à História. Um dia quando estiveres estendido na areia, nu e comendo a tua banana gratuita, um país qualquer que está querendo entrar para a “família nuclear”, testará uma bomba atômica e te levará pelos ares em pedaços. . .

                – Nunca vi o senhor tão trágico.

                Martim Francisco sorriu:

                – Os pessimistas, meu caro, estão muito mais protegidos neste mundo que os otimistas. Divertem-se menos, concordo. Mas vamos embora. A Matilde está me esperando com as meninas no lago dos barcos.

                Ergueram-se ambos e começaram a caminhar lentamente para as bandas do zoológico.

                – Sabe duma coisa, professor? Eu gostaria de um dia, se possível, ler o jornal que o senhor manteve durante sua estada em Antares.

                – Será publicado somente cinqüenta anos após a minha morte – replicou Martim Francisco, com fingida solenidade. – Mas, falando sério, é um diário desalinhavado, superficial e redigido sem muita preocupação com a forma. O que me levou a escrevê-lo foi o fato de que, no fundo, o que eu sou mesmo é um romancista frustrado.

                – Pois eu dava um braço para poder ler esse diário.

                – Não vale a pena perder um fio de cabelo por tão pouca coisa. Te asseguro que esse jornal não tem nada de extraordinário. . .

 

                Sim, o chamado Jornal de Antares, do Prof. Martim Francisco Terra, na realidade nada tem de extraordinário. Como, porém, menciona ou comenta pessoas e lugares que viriam a ser envolvidos no controvertido “incidente” de 13 de dezembro de 1963, será interessante transcrever a seguir, em itálico, algumas de suas páginas.

 

                Antares. O nome me encanta e intriga. Como se explica que, nesta região onde outrora foram as reduções jesuí-ticas, encontra-se hoje uma cidade com nome de estrela e não de santo? Na opinião do P.e Gerôncio, o velho vigário da Matriz local, a denominação deste lugar vem possivelmente de terem existido aqui antigamente muitas antas, que vinham beber água no rio, e que a semelhança entre o nome deste lugar e o da estrela da constelação de Escorpião é pura coincidência. A explicação não me convence. Acho que por aqui passou ou aqui viveu há mais de cem anos alguém, talvez algum estrangeiro, que tinha noções de Astronomia.

                Tenho a impressão de que já vivi nesta cidade: o déjà vu. Numa outra vida? Tolice. Nasci no Rio Pardo e lá passei a minha infância e parte da adolescência. Descubro parecenças entre ambas essas comunidades ribeirinhas. Isso explica tudo.

 

                A Associação Comercial de Antares afirma que a sede do município tem 20 000 habitantes, aos quais o prefeito acrescenta, com ardor cívico, mais cinco mil. Creio que tudo isso é bairrismo estatístico. Não creio que a cidade de Antares tenha mais de 15 000 almas, quando muito. Desde a sua fundação este foi um município agropastoril. Começou a industrializar-se não faz muito.

                Sinto já cócegas nos dedos para escrever e usar na Anatomia um capítulo intitulado A Vaca e a Máquina, mostrando os possíveis atritos entre a pecuária e a indústria. Imagino uma vaca passeando pelas dependências do Frigorifico Pan-Americano e observando como se transformam os animais de sua espécie em corned beef, caldos concentrados, etc. Talvez um diálogo entre essa vaca falante e pensante e o gerente do frigorífico (um americano de quase dois metros de altura, que conheci esta manhã). Ou da vaca com as máquinas. Exponho a idéia a um de meus colegas, que responde: “Isso não é sociologia, mas fantasia”. Creio que ele tem razão. Mas assim mesmo vou tentar o capítulo. Ë preciso amenizar o estudo. Penso também no choque de interesses políticos e sociais trazidos pela indústria. Os partidos de centro aqui já perdem para o trabalhista em número de eleitores.

Curioso: o romancista semi-anestesiado dentro de mim desperta em Antares. O que me tem impedido até hoje de “cometer” um romance é que, bom e ávido leitor de livros desse genero, geralmente me achico (como se diz por aqui) diante dos gigantes da ficção e ponho o meu romancista interior de novo a dormir. Humildade ou orgulho às avessas?

Quando moço escrevi contos. Relendo-os, convenço-me de que o mundo não perdeu nenhum grande criador de fic-ções. Mas a verdade é que esta cidade, esta gente, este ritmo de vida me estão acordando e avivando a “paixão espúria”. Encontro na rua, no cinema, nos restaurantes e cafés tipos que por assim dizer se me oferecem como personagens.no-velescas. O esquisitão que mora no andar superior do so-bradinho com fachada de azulejo, numa das quadras da praça, e que toca no piano coisas de Beethoven e Chopin. O meu barbeiro, um siciliano retaco, mal-encarado mas amável, e que tem o sugestivo nome de Jesualdo Aspromon-te. Um teuto-brasileiro, Egon Sturm, ex-campeão gaúcho de tiro ao alvo, e que, pelo que me contam dele, tem muito de paranóico; uma espécie de Fuehrer potencial. A rica figura do chefão do vasto clã dos Vacarianos, fundadores da cidade, e que se chama Tibério. (Seu pai não devia conhecer muito bem a biografia dos imperadores de Roma.) A velha Quitéria, matriarca dos Campolargos.

A cidade mesma poderia ser uma “personagem”. Feioca mas com uma certa graça antiga e missioneira. Seu forte, na minha opinião, são os telhados de telha colonial, cobertos de liquens dourados ou duma prata esverdeada, formando desenhos e combinações de cores que lembram telas de pintores abstracionistas. E também as suas incontáveis (o nosso estatístico protestaria com boa razão contra a palavra “incontável’, pois todo objeto pode ser contado) meiáguas de fachada caiada, janelas e portas com ombreiras de madeira cinzenta meio roídas de cupim. E as ruas, os becos, todos calçados de pedra-ferro irregular e com nomes saborosos (os antigos, pois os modernos são de pessoas) como Beco das Almas, Travessa do Contrabando, Rua do Salso, Rua das Camélias, Largo do Jasmim, etc...

Como toda cidade pequena que se preza, Antares tem a sua Rua do Comércio e a sua Voluntários da Pátria. E duas praças, uma delas a “enteada” da família, a gata borralhei-ra, fica na extremidade norte, é mal cuidada, cercada de casas velhas e baixas, o chão de terra entregue às formigas, às urtigas e às guanxumas. Mas a outra, a da República, a filha dileta da comunidade – com lagos artificiais, belas árvores e flores, canteiros de relva, um coreto no centro – essa é considerada a sala de visitas da cidade. As ruas a seu redor têm pavimento de cimento asfàltico. Neste largo ficam as residências e edifícios mais importantes da cidade: os palacetes dos Vacarianos e Campolargos, mansões de dois pisos, enormes, com muitas janelas e com platibandas ornamentadas de compoteiras, esculturas e guirlandas em alto e baixo-relevo. Em torno da Praça da República vemos também a Matriz, de construção relativamente recente mas de risco antigo, e de sabor colonial português. E nessa praça também que se erguem – cada qual com a sua “cara” – o edifício da prefeitura municipal, o do cinema, o do Clube Comercial c uma das duas mais importantes casas de comércio locais.

Nosso fotógrafo tem andado por aí a apanhar flagrantes de rua e figuras humanas. Pedi-lhe que fotografasse em cores a fachada de algumas casas, particularmente a do so-bradinho de azulejos que, por alguma razão misteriosa, não só me agrada como também me enternece.

 

Mal chegamos a Antares e já nos querem envolver nas brigas locais. Esta cidade em matéria de rivalidades tem um caráter -por assim dizer binàrio. No futebol ou se é do Fronteira F. C. ou do S. C. Missioneiro, e não há como escapar. Na vida social, ou se é do Clube Comercial ou do Clube Caixeiral. Já me perguntaram se pertenço ao grupo do Dr. Lázaro Bertioga ou ao do Dr. Erwin Falkenburg, os dois médicos mais importantes e antigos da terra, inimigos de morte um do outro. Cada um deles tem grande número de clientes devotados que de certo modo são também soldados duma legião, a qual, se necessário, é capaz de ir à guerra contra a facção inimiga.

Conheci pessoalmente o Dr. Lázaro, um homenzinho baixo, calvo, com cabelos grisalhos, penteados cuidadosamente a escova, nos lados da cabeça, rosto redondo e rosado, sempre sorridente. Um sujeito amável, desses de quem se costuma dizer que são “serviçais”. Seus clientes o adoram, não só porque acreditam nas suas qualidades de médico, como também porque se sentem protegidos pelos seus ares carinhosamente patentais. Alguém me diz que o Dr. Lázaro goza duma espécie de santidade leiga, que lhe foi conferida pela sua clientela. Ele próprio parece carregar com um certo orgulho satisfeito esse halo de santidade. É proprietário do maior hospital da cidade, o Salvator Mundi, que conta com uma pequena ala para indigentes, subvencionada vela prefeitura.

Quanto ao Dr. Erwin Falkenburg – proprietário do Hospital Repouso – conheço-o apenas de longe. É um tipo empertigado, que lembra um oficial prussiano reformado. Usa pince-nez, tem um cachaço nédio, olhos verdoengos e metálicos, e um sorriso de canto de boca que me parece de desdém ou ironia. D. Quitéria o adora, deposita nele uma confiança ilimitada e costuma dizer que, acima do Dr. Falkenburg, só Deus. Seus inimigos põem em dúvida a legitimidade de seu diploma. E o que contribui para que alguns desconfiem ainda mais do doutor teuto-brasileiro é o fato de ele usar o hipnotismo no tratamento de certas moléstias nervosas.

Pitoresca figura, a do velho Yaroslav, o fotógrafo Iam-be-lambe que faz ponto perto do coreto da Praça da República. Entre 65 e 70 anos. Estatura mediana, faces rubicun-das, péra curta e pontuda, olhos claros e um nariz que lembra o do avô no famoso quadro de Ghirlandaio que está hoje no Museu do Louvre. É natural da Tcheco-Eslováquia, está no Brasil há cinqüenta anos e em Antares há vinte e cinco. A sua câmara é uma caixa velhíssima, relíquia da infância da fotografia. Descubro que Yaroslav tem um grande orgulho profissional. Quando travo relações com ele, acha-se comigo o fotógrafo da nossa equipe. O lambe-lambe não demonstra o menor interesse pela moderníssima objetiva alemã que o nosso colaborador traz a tiracolo.

O velho tcheco é conhecido na cidade como o Rei dos Passarinhos. Vem sempre para a praça com os bolsos cheios de alpiste e migalhas, que espalha a seu redor e ali fica esperando que os pássaros venham bicá-los. Pombas pousam-lhe na cabeça, no ombro, e comem das suas mãos de dedos corroídos de ácido. Yaroslav sorri, feliz. Parece conhecer pessoalmente cada uma das aves que freqüentam esta praça.

É vegetariano e isso talvez explique os vagos verdes que imagino ver na sua péra, nos seus cabelos e nos seus olhos, que sugerem distâncias de tempo e espaço. Yaroslav não é nada loquaz, mas sinto uma misteriosa riqueza nos seus silêncios. Confessa que odeia os italianos em geral e o Jesualdo Aspromonte em particular. “Mas por quê?” – que-ro saber. Ele explica: “Porque os italianos, esses bárbaros, comem passarinhos. E o Jesualdo tem canários, pintassilgos e cardeais presos em gaiolas”. O lambe-lambe me mostra al-guns de seus pequenos amigos alados. Tem as suas noções de ornitologia. Pergunto-lhe que pensa de Antares e por que se encontra aqui há tanto tempo. Encolhe os ombros e murmura: “Há navios que andam por todos os mares da Terra mas um dia encalham, enferrujam e se resignam a não continuar a viagem. Quer tirar um retrato?”

Meu fotógrafo e eu nos recostamos nas grades do coreto, Yaroslav ajusta a sua câmara, mete a cabeça debaixo do pano preto, diz “Atenção”, aciona o obturador e “Pronto!” – grita. Cinco minutos depois mostra-nos a fotografia. Quero pagar-lhe pelo postal. Ele sacode a cabeça numa enérgica negativa, dizendo: “Vai por conta da casa”.

Insisto-.

– Mas você não me disse o que pensa de Antares... Por algum tempo o lambe-lambe fica pensativo. Depois responde, vago:

– Ora, é um banco de areia como qualquer outro. Navio encalhado não pode ter luxos...

Apertamo-nos as mãos. Creio que ficamos amigos.

 

O Maj. Vivaldino Brazão, prefeito municipal, convidou-me para almoçar em sua casa. Mai cheguei (um domingo mormacento) o anfitrião me anunciou, iluminado: “Vamos ter uma feijoada completa!” Meu estômago contraiu-se em pânico. Sorri amarelo. Balbuciei um “ahi” de mal fingido entusiasmo.

Residência decorada com um mau gosto de novo-ríco. Espécie de barroco antarense. Sou o único convidado e isso me alarma um pouco, pois sinto que vou ser muito vigiado, muito visado pelas atenções dos donos da casa. Transpiro profusamente. O prefeito tira o casaco e me convida a fazer o mesmo. Faço. Vamos para a mesa e eu enfrento o primeiro prato: uma salada de peixe e batatas coberta por uma grossa camada de -maionese feita em casa e na qual deve ter sido empregada pelo menos uma dúzia de ovos.

D. Solange, a anfitrioa, é uma mulher alta e corpulenta, de cabelos evidentemente oxigenados, rosto pintado corn exagero. É simpática mas me trata com excessiva cerimônia-

O marido toma a palavra e entra numa espécie de delírio autobiográfico, sem a menor provocação de minha parte. Quinto filho duma família de lavradores de Passo Fundo. Aos dezoito anos sentou praça na Brigada Militar do Estado e serviu em Porto Alegre. Breve foi promovido a cabo, depois o. terceiro, segundo e finalmente primeiro-sargento. Fez todos os cursos preparatórios e entrou para a Faculdade de Agronomia e Veterinária, onde obteve com paixão um diploma. Deixou a B. Aí., andou trabalhando em várias estâncias, juntou uns cobres, casou-se com uma moça pobre (o pai de D. Solange era coletor estadual em Osório e tinha oito filhos). Apaixonado pela política, Vivaldino acabou eleito deputado estadual pelo P.S.D. de’ Antares, sob a proteção do Cel. Tibério Vacariano – “é hoje, o amigo vê, tenho a minha casa, a minha posição e, afinal de contas, modéstia à parte, ser prefeito de Antares não é tão pouca coisa...”.

Sacudo a cabeça, concordando. O peixe está excessivamente salgado e a maionese tem vinagre demais. Moscas esvoaçam em torno dos pratos, colam-se no meu rosto, nas minhas mãos. O calor aumenta. Um bochorno adormenta a cidade.

– Um pouco de vinho, doutor? – pergunta a anfitrioa. – É chileno, não é. Vivi?

Aceito o vinho. Fazemos um brinde, batemos os cálices.

O Maj. Vivaldino aparenta uns quarenta e oito anos, estatura abaixo da mediana, duma gordura musculosa muito encontradiça em motoristas de caminhões de carga. Cara carnuda, pele clara, bochechas coradas, bigode castanho, cabelos já ralos, uma voz atenorada e um par de olhos vivos, disseram-me que é homem de grande coragem pessoal. Sabe usar com oportunidade – já notei – o que eu chamaria de “a sua risada de galpão” – uma risada de garganta, em hê aspirado, franca, cascateante, espécie de chocalho folga-zão, com um certo quê de debochado, no sentido em que esta palavra é usada popularmente entre nós.

A senhora do prefeito faz tudo para ser a perfeita dona de casa. Dá ordens à copeira mulata, que está uniformizada Vem a terrina cuja tampa a D. Solange levanta, tendo o cuidado de enristar refinadamente o dedo mínimo quando lhe segura a asa. Um vapor sobe da terrina, daquele nearodaços de lingüiça de porco, de charque e sei lá quê mais. Que fazer? Se como dessa feijoada vou ficar fora de combate durante dois dias no mínimo. Reúno toda a coragem cívica de que disponho, e digo: “A senhora não repare, D. Solange, mas sou um desses infelizes a quem Deus deu uma vesícula preguiçosa. Entre as comidas que meu médico me proíbe está a feijoada. Infelizmente (menti) porque este é o meu prato predileto”.

– Que lastimai – exclamou o anfitrião. – Mas coma um pouquinho só para provar, professor. Dizem que o que é bom nunca faz mal. (De novo a risadinha de galpão.)

– Vou mandar lhe fazer um bife na chapa, doutor – diz D. Solange. – Bem passado, mal passado ou ao ponto!

– Não se incomode – replico. – Vou comer arroz com um pouco de caldo da feijoada.

Mas o bife vem em poucos minutos. O prefeito felizmente esquece a minha presença por alguns instantes e se põe a comer feijoada com o belo e saudável apetite de quem deixou lá fora o seu caminhão carregado de madeira, após uma viagem de seis horas ininterruptas.

– Se o Vivaldino me tivesse dito que o senhor não podia comer feijoada – queixa-se D. Solange, segurando o seu garfo com o mindinho sempre em riste – eu tinha mandado fazer uma galinhazinha com ervilhas ou um pato com maçã.

– Ora, D. Solange, o bife está excelente. E o que importa mesmo é a companhia.

– Por falar em companhia – diz o prefeito, com o bigode reluzente de caldo de feijoada – a prefeitura está pensando em contratar os serviços duma firma...

E entra na descrição dum interminável projeto de melhoramentos urbanos ao qual não presto a menor atenção porque a cabeça começa a me doer e latejar. Sinto o suor escorrer-me em verdadeiros rios pelas “bacias” tropicais de meu peito e das minhas costas.

Durante cerca de trinta minutos o prefeito de Antares enumera as boas coisas que sua administração tem feito e está fazendo na cidade. Compreendo, então, que o homem está tentando influenciar o diretor do projeto de amostragem, e talvez candidatando-se a personagem dessa espécie de romance coletivo para o qual a minha equipe está começando a colher dados.

Vivaldino Brazão só se cala quando vem a sobremesa.

A Solange é uma doceira de mão cheia – diz, esfregando as mãos, e com os olhinhos animados duma gula meio infantil.

Papos-de-anjo nadam em calda espessa, crivados de cravos. Os doces de laranja lembram dorsos de elefantes. Os quindins são dum amarelo de Van Gogh nos seus dias de maior alucinação. E a criada traz um flan moreno feito com leite condensado.

– Não me diga que também não come doce! – exclama o major.

Sirvo-me dum quindim. Depois da sobremesa o dono da casa me diz:

– Agora vou lhe mostrar uma coisa. Já lhe contaram que sou um orquidófilo amador?

Respondo que não. Levantamo-nos. O major me toma do braço e me leva para o seu orquidário, um pavilhão de teto abobadado e paredes de vidro, nos fundos da casa. Vejo orquídeas em profusão, em vasos, em cima de prateleiras, ou pendentes do teto. Vivaldino parece um sacerdote na sua catedral. O homem que devorou uma tonelada de feijoada e que ainda tem partículas de quindins e papos-de-anjo no bigode agora se transfigura, como um místico, e vai me mostrando as suas orquídeas mais raras, como quem mostra relíquias sagradas. Fala em voz baixa, como temendo despertar suas flores desta sesta de verão. “Passo aqui as tardes de sábado e os domingos inteiros, fazendo os meus enxertos, meus cruzamentos. A coisa é mesmo que um jogo. A gente fica curioso para ver o resultado, a ‘cara’ com que a nova flor vai sair. Olhe esta aqui. E um exemplar rarís-simo. Me custou um dinheirão. Sabe donde veio? Da índia. Sim senhor, da Índia. Já empatei uma fortuna neste orquidário. A Solange às vezes me pergunta que lucro tiro com estas orquídeas. Respondo que o lucro é o meu prazer. Uns fazem versos. Outros pintam. Outros compõem música. Eu

coleciono orquídeas, brinco com elas, faço esses cruzamentos. . “

Estou tão surpreso que não sei que dizer. “O meu sonho, professor” – continua o prefeito de Antares – “o meu ideal é visitar a Colômbia e o Himalaia, que são os lugares do mundo onde çxiste a maior variedade de orquídeas.” Muda de tom: “O Prof. Libindo me garante que a palavra orquídea vem do grego e significa testículo. Ë verdade mesmo?” Respondo que é. Vivaldino exclama: “Que barbaridade! Uma flor tão delicada com um nome dessesl”

O orquidófilo amador me conduz para um outro setor de seu orquidário. “Aqui estão as espécies brasileiras. Aquela ali é uma catléia. A outra, uma léliã. A seguinte... não, a outra... essa! É a brassavola, conhecida popularmente como ‘rabo-de-rato’. Esta aqui é a ‘rabo-de-tatu, mas o nome científico dela é cyrtopodium. Ah! Veja ali aquela outra beleza! Nome científico oncidium, mas prefiro o popular: ‘chuva-de-ouro’. Pois, amigo Terra, este orquidário é a minha vida. Não tenho filhos. Cá para nós, confidencialmente, o Solange tem ùtero infantil. ]á levei-a aos melhores médicos de Buenos Aires. Não tem remédio. Então, como compensação, faço as minhas orquídeas terem filhos, promovo casamentos entre elas. Sou avô de quase todas estas flores que o amigo está vendo aquir

 

Visito com Xisto a redação e as oficinas de A Verdade. O diretor do jornal é um tipo curioso. Dá uma impressão de fluidez, é um homem que, como os líquidos, toma a forma do vaso que os contém, isto é, da pessoa com quem fala ou a quem serve. Meia-idade, alto (em termos brasileiros) moreno, calvo, pele oleosa, vaselina na voz, nos gestos e nas idéias. Sua alcunha na cidade é Lucas Lesma porque – explicam – a lesma é um animal capaz de arrastar-se sobre o fio duma navalha sem se cortar e sem cair para um lado nem vara outro. Conta-se aue Lucas F aia tem vassado avida a rastejar incólume sobre o gume da espada afiadíssi-jna da política e de mil outras contendas municipais. “Um molusco” – dizem os seus inimigos. “Um espírito conciliador” – corrigem os seus amigos. “Um puíhal” – opina Barcelona, agudo como a sua sovela de sapateiro.

Lucas recebe-nos festivamente, com os maiores elogios à nossa equipe e ao “trabalho de beneditinos” que estamos realizando, etc... etc...

Mostra-nos a sua linotipo nova, a sua impressora plana e apresenta-nos “o seu braço direito e o seu braço esquerdo”. O direito é o Ferreirinha, “pau para toda obra”, e que exerce as funções de secretário-geral, redator, revisor e, quando necessário, paginador. É um homenzinho franzino, gris, angu-loso e asmàtico que ganha um salário de miséria.

O “braço sinistro” de Lucas é o “príncipe” do jornal, um dos rapazes.mais adulados da cidade. Chama-se Vitorio Natal e é cronista social. Sua crônica diária, a Passarela, é geralmente muito lida e apreciada. As mulheres do café society local enchem o colunista de presentes e mimos: gravatas, perfumes franceses, abotoaduras de punho, pratos de doce, camisas, calças, sapatos... Seu telefone é o mais ativo da redação. Funciona o dia inteiro. “Olha, Vitorio, tu sabes que vamos a Buenos Aires este mês fazer compras? Pois é. Se quiseres dar uma noticiazinha...” – “Voltei ontem do Rio e comprei dois modelos bacanas do Dener.” – “Vamos receber amanhã para jantar aqui em casa o Embaixador Gouvea. Conheces? Te esperamos às oito e meia. Trajo de passeio, mas escuro.” Vitorio, que me parece um sujeito inteligente e malicioso, diverte-se com as damas locais. Todos os anos seleciona as Dez Mais Elegantes da sociedade antarense e organiza também um concurso para eleger “o Brotinho do Ano”.

Tem gestos adamados e usa calças Lee apertadas que lhe modelam as nádegas redondas e inquietas. Conta-nos: Quando está se aproximando a data em que escolho ‘as Oez Mais’, começo a receber dessas grã-finas insinuações Pelo telefone ou em bilhetinhos... e presentinhos, docinhos, o diabo! É uma graça! Quando o jornal publica a minha lis-ta das ‘Dez’, só falta as escolhidas me botarem no colo e me beijocarem. Sou o maior! As não escolhidas me viram a cara na rua, me cortam o cumprimento, me mandam cartas anônimas, um inferno. Mas eu me divirto. Porque am dia elas voltam às boas e o carrossel continua a girar, porque elas precisam de mim. Umas ridículas!”

Pergunto-lhe que pensa de Antares e ele me responde com uma de suas rabanadas:

– Olha, filho, isto aqui é pura várzea. Gente sem classe. Temos uns meninos que estudam em Porto Alegre ou São Paulo, bebem uísque Chivas Regai, dizem que lêem Proust e Kafka, têm carros ingleses ou alemães e vão de vez em quando a Buenos Aires. O resto (perdoem a minha cadelice), o resto é pecuário.

O cronista tem preso ao pescoço, por uma corrente dourada, uma medalha de metal com o seu símbolo astroló-gico, o escorpião. Percebendo a direção de meu olhar, ele pega a medalha e diz:

– É o meu signo. Assino a minha coluna com o pseudônimo de Scorpio. Dizem que sou venenoso.

Xisto se abre num sorriso moleque:

E tu sabes onde o escorpião guarda o veneno1} – pergunta.

O cronista responde rápido:

– No rabo. Tu deves saber tão bem como eu porque também és escorpião.

– Mas macho – retruca o meu amigo. Vitorio solta uma risadinha musical:

– Nunca se sabe, meu querido, nunca se sabe. E sempre é tempo pra mudar cuando Ia dicha es buena.

O Ferreirinha lança um olhar enviesado para o cronista social, e julgo ver um ódio assassino em seus olhos levemente estrábicos.

Quando saímos da redação, Scorpio de súbito me aperta o braço.

– Olhe só aquela morena...

Olho na direção que ele me indica. Uma vistosa fêmea está descendo de seu carro para a calçada. Pele creme, cabelos muito negros, e os olhos (percebo quando passa a dois passos de mim) verdes. “Que mulher aço!” – murmura Xisto. E ficamos os quatro ali parados a olhar para a morena que se afasta rebolando as ancas e – aposto! – consciente de que a estamos observando. “Quem é? – pergunto.

– Essa mulata – diz Scorpio – não me dá confiança. Não lê a minha coluna. Também... não sabe português.

– Mas quem é?

– Chama-se Dominique, é haitiana, casada com M. Du-plessis, gerente da Cia. Franco-Brasileira de Lãs.

Penso no estudo que Moreau de St. Méry, escritor francês do século xvni, fez da mistura de sangue europeu e africano no Haiti e concluo que acabo de ver o que ele chama de sang-mêlé, isto é, uma mulher com um oitavo de sangue negro.

– Sabe da melhor? – pergunta-me o cronista social. – Um dia essa senhora quis porque quis ver uma sessão de macumba aqui em Antares. O marido relutou mas acabou indo. Lá pelas tantas, excitada pelos cantos e pelo batuque, Mme Duplessis tirou os sapatos, soltou os cabelos, entrou na roda e, menino, foi um escândalo, o santo desceu sobre a haitiana e ela começou a gritar, a estrebuchar e a tirar a roupa... Se o marido não interviesse a tempo e não arrastasse a bichinha para fora, ela acabava nuinha no terreiro. Depois disso a “melhor sociedade local” isolou a crioula.

E você contou essa estória na sua coluna? – perguntou Xisto.

– Tentei, mas aqui o meu chefe não deixou sair a notinha.

Lucas resmungou:

– Pois sim que eu ia perder os anúncios da Franco-Brasileira!

 

Descobri ontem que já conhecia (como se conhece uma figura de lenda) o morador do andar superior do sobradinho de azulejos da Praça da República, o “maestro” Menandro Olinda. Há vários anos, quando eu era ainda estudante universitário e costumava visitar sanatórios vara doentes mentais, fiz boas relações com um conhecido psiquiatra, que um dia me mostrou a singular criatura que passeava sozinha, falando consigo mesma, pelos jardins da instituição, e tocando algo com suas mãos longas num piano invisível. O médico me contou – pedindo-me a máxima reserva – o caso desse paciente, cujo nome não me quis revelar, mas que mais tarde vim a descobrir.

Se algum dia alguém escrever a história do Teatro São Pedro, de Porto Alegre, desde a sua inauguração até aos nossos dias, certamente verá na noite da estréia do pianista Menandro Olinda um dos seus episódios mais dramáticos. E agora aqui em Antares vou anotando as coisas que me contam sobre esse solitário. Quem me fala dele com conhecimento de causa é ]esualdo Aspromonte, proprietário da bar-bearia Bela Sicilia, instalada no andar térreo do sobradinho. Outro que também me fornece subsídios preciosos a respeito é o sapateiro Barcelona, verdadeira enciclopédia de conhecimentos antarenses passados, presentes e principalmente secretos. Preencho as lacunas da estória usando a imaginação, mas com rédea curta.

Filho único e serôdio dum casal da classe média. O pai vivia do arrendamento de um campo seu. A mãe, uma rígida professora pública. Ele manso e terno, desses tipos que vivem em surdina. Ela uma disciplinadora autoritária e quase uma fanática religiosa. Ambos apaixonados pelo filho.

Desde os seis anos Menandro revelou grande talento pianistico. Quando completou o oitavo aniversário, um professor de música local declarou-o excepcional e começou a dar-lhe lições de piano. Quando o aluno completou quatorze anos o mestre antarense aconselhou os Olindas a mandarem o filho estudar em Porto Alegre. O casal mudou-se para a capital do Estado e matriculou o rapaz no Conservatório de Música. Um dia o diretor do Conservatório aconselhou os Olindas a levarem o “prodígio” – então com dezoito anos – para aperfeiçoar-se com um grande mestre, em Buenos Aires. O pai de Menandro vendeu o seu campo para apurar o dinheiro de que necessitava para as despesas de viagem e a permanência no estrangeiro. E assim passaram os três cerca de cinco anos na capital da Argentina.

Finalmente, com vinte e três anos completos, Menan-dro preparou-se para o seu concerto de estréia no Teatro São Pedro de Porto Alegre. Seu forte eram os românticos. Seu preferido, Beethoven. Seu cavalo de batalha, a Appassionata. Durante um ano inteiro estudou exaustivamente o seu programa, fechado em casa, a mãe sentada numa cadeira perto do piano, como um cão de fila. Quando ele parava, cansado, ela insistia: “Outra vez! Vamos, Nandinho!” O rapaz não tinha amigos. À noitinha costumava sair sozinho a caminhar pela praça e a conversar com seus fantasmas. No dia seguinte, às seis da manhã, a mãe o despertava, servia-lhe o café e dizia: “Para o piano!” Muitos dos vizinhos costumavam despertar todas as manhãs ao som de estudos de Chopin ou mesmo dos belos acordes iniciais da Appassionata. O barbeiro Jesualdo, que tem bom ouvido, já sabia de cor – podia até assobiar – trechos do programa do virtuoso, composto de estudos, prelúdios e noturnos de Chopin, sonatas de Schubert e Schumann e da Appassionata. A um repòrter de A Verdade que então o entrevistou, Me-nandro Olinda confiou seus planos. Faria a sua estréia no São Pedro em setembro de 1935 – durante as comemorações do Centenário da Guerra dos Farrapos – numa homenagem ao velho teatro, à capital de seu Estado e à memória do Gen. Bento Gonçalves com o qual (sua mãe lhe assegurava) os Olindas tinham um remoto mas honroso parentesco. E depois, maestro? Bom, depois ele daria um concerto no Rio, outro em Montevidéu e outro em Buenos Aires. Começaria então a ser conhecido mundialmente. A sua grande meta eram os grandes centros da Europa: Paris, Roma, Viena, Londres, Amsterdam...

A imprensa de Porto Alegre começava já a escrever sobre o “novo gênio musical gaúcho”, o jovem Paderewsky (segundo um jornal) o novo Brailovsky (segundo outro). Um cronista de arte, a quem Menandro deu uma audição priva-<fa da Appassionata, declarou que sua interpretação dessa Peça de Beethoven era tão perfeita quanto a de Backhaus.

Chegou a noite do concerto de estréia. (Visualizo a ce-na.) O São Pedro completamente lotado, com cadeiras ex-tras colocadas nos corredores da platéia. O Gen. Flores da Cunha e outros membros do seu governo no camarote oficial. O artista, envergando pela primeira vez uma casaca feita pelo melhor alfaiate da cidade, entra no palco, nervosíssimo, as mãos geladas e úmidas dum suor frio que também lhe goteja da testa, lhe escorre pelo rosto e ao longo da espinha. É recebido com fortes aplausos. Senta-se ao piano, ajeita o banco, enxuga as mãos com um lenço, espera que os aplausos cessem e os retardatários se acomodem nos seus lugares. Cerra os olhos por alguns segundos, e quando os abre avista a sua mãe sentada numa cadeira, nos bastidores, à sua frente, bem como nos tempos em que ele era adolescente e ela o obrigava a tocar escalas a tarde inteira, sob sua vigilância implacável.

Menandro sente de súbito a memória bloqueada, como se nunca em sua vida tivesse tocado o primeiro número daquele programa – um estudo de Chopin. Ele é agora um menino de treze anos, está fechado no seu quarto, ouve passos no corredor e estremece, corre para a porta a fim de certificar-se de que está realmente fechada a chave.

Começa a tocar, mas tão afobado, que não consegue interpretar o estudo com a pureza habitual. Quando dá o último acorde, os aplausos são fracos. Menandro olha de novo para a mãe. “As escalas, Nandinhol Depois podes ir brincar com as tuas bonecas. As escalas. Não! Dal capo... Isso!”

Interpreta Schumann um pouco melhor do que tocou o primeiro número. Os aplausos continuam frios. O coração de Menandro bate descompassado, um espasmo cerra-lhe a garganta. Que se estará passando com os seus dedos, com as suas mãos, com os seus pulsos? Chega ao fim da primeira parte do programa e se retira do palco, não com o. dignidade habitual, mas depressa, quase a correr, como quem foge. Seu médico vai procurá-lo no camarim, dá-lhe um calmante. Mas lá está a sua mãe, abrindo a porta do quarto do menino solitário: “Vamos, Nandinho. Está na hora da missa”. Cruzam a praça. O pai, que caminha encur-vado e devagar, arrastando os pés, fica dois passos para trás. A mãe pergunta: “Ontem confessaste todos os teus pecados ao vigário?” “Confessei, mamãe.” “Todos mesmo? Ele sente um calorão nas orelhas e no pescoço, um formigueiro no corpo. “Quem toma comunhão sem estar limpo de pecados, meu filho, vai para o inferno.”

Menandro agora ali no camarim decide cancelar o resto do concerto. “Devolvam ao público o dinheiro dos ingressos! Façam o que entenderem, mas eu não vou tocar mais!” O empresário lhe replica que isso é impossível, que ele, Menandro, tem de continuar, que tudo vai sair bem... O pianista ergue-se, trêmulo, encaminha-se para o palco, onde é recebido com raros aplausos. Torna a sentar-se ao piano. Olha para os bastidores e lá está sua mãe, que lhe faz sinais com’a cabeça, tentando encorajá-lo.

Uma sonatina de Schubert, clara e alegre. Ele a executa passavelmente bem e isso lhe dá um pouco de coragem. Mas agora vem a Appassionata! Menandro volta a cabeça na direção da platéia e sente uma vertigem. Depois olha para as próprias mãos já pousadas sobre o teclado. Mas naquele dia ele tinha esquecido de fechar a porta, e sua mãe usava em casa pantufas de lã... A porta se abriu de repente. “Minha Nossa Senhora! O que é que estás fazendo, meu fi-Iho7 Que horror! Que vergonha! Que pecado! Deus vai te castigar, fazer secar esses dedos, paralisar essas mãos!” E ele se revolvia na cama, a sua seiva a esguichar-lhe do corpo num estertor de prazer misturado com susto e vergonha.

A mãe desatou num choro convulsivo: “O meu filho! O meu filhinho que eu pensei que era inocente e puro! Ai que vergonha! Deus vai te castigar!” Fez meia volta e se foi batendo com a porta. E ele, Menandro, rompeu a chorar, pensou em suicidar-se, fugir de casa... Como ia ter coragem de encarar de novo a mãe... o pai?

O público espera, impaciente. Menandro ataca a Appassionata. Sente, porém, que suas. mãos estão agora paralisadas, que seus dedos não obedecem ao seu cérebro. Ergue-se de súbito, derrubando a banqueta, e sai quase a correr do palco e no camarim põe-se a chorar, a soluçar e a dizer incoerências. Dois dias depois, a conselho do médico, os pais 0 internaram num sanatório para doenças mentais, onde ete permaneceu três anos. Durante esse tempo a sua mãe “morreu. O pai continuou em Porto Alegre, visitava-o todas as semanas, conversavam sentados num banco do jardim do sanatório, falavam em flores, na casa de Antares, e Menandro jamais perguntava pela mãe, cujo falecimento ignorava.

Quando o médico lhe deu alta, ele voltou para Antares, em companhia do pai. Lá estava, na sua sala, o piano que ele não ousou abrir por muito tempo. Ninguém na cidade lhe falava no concerto nem no fato de ele ter passado todos aqueles anos num hospício.

Seu pai morreu em 1942. A casa ainda lhe pertencia, de sorte que Menandro a herdou. Começou a dar lições de piano e passou a viver disso e do aluguel do andar térreo de seu sobradinho. Tornou-se um dos tipos populares da cidade. Nunca, porém, esqueceu o fracasso de seu concerto de estréia. Continuou a estudar piano, preparando a sua volta.

É um homem de ordinário silencioso e retraído, mas pode dum momento para outro tornar-se loquaz e gregario: confia à primeira pessoa pue encontra o seu projeto de fazer ainda uma carreira de concertista, “retornar aos palcos do mundo”, honrar o nome de Antares e do Brasil. Alguns o escutam com paciência e o tratam até com bondade. A maioria, porém, foge dele. Muitos o ridicularizam. E, corno nos velhos tempos, ainda hoje, à tardinha, o professor de piano faz a sua caminhada solitária pela praça, olha os passarinïios, contempla as flores, troca duas palavras com o fotógrafo ambulante, entra na igreja, ajoelha-se, reza, torna a sair e volta para casa.

 

Quem me leva à residência de Menandro Olinda é o Pe Pedro-Paulo. Disse ao maestro que eu queria conhecê-lo pessoalmente e o pobre homem ficou lisonjeado. Subimos o velha e estreita escada que cheira a mofo de porão, e cujos degraus rangem ao peso dos que sobem ou descem. O professor nos recebe à sua porta, abraça-me como a um velho amigo, mas quando lhe quero apertar a mão ele sacode a cabeça negativamente: “Desculpe, mas não costumo apertar a mão de ninguém. Tenho de poupá-las. São a minha fortuna. Com elas quero ainda conquistar o mundo”. Dá-me outro abraço apertado do qual suas mãos não participam. “Entrem. Sentem-se. Esta é a vossa casa. Desculpem a desordem. É a caverna dum eremita.”

Curioso. Conheço esta sala. Talvez duma peça de teatro. Ou dum romance. Cheiro de bolor e tempo. -O tapete, de tipo persa, muito poído e desbotado. Móveis antigos. O piano de cauda a um canto. Retratos de gente morta nas paredes. Um par de daguerreótipos. A máscara de gesso de Beethoven, cópia da de bronze que está na escultura de Fernando Corona, na Praça da Matriz de Porto Alegre. Poeira nos móveis. Num ângulo da sala, uma pilha de partituras para piano. Uma estante de tipo art nouveau com livros. Um diva com uma coberta de veludo grená. Velhas cadeiras estofadas de brocado cor de ouro velho, mas já muito seboso e esfiapado.

– Venha ver a vista aqui da sacada! – convida-me o professor. Aproximo-me dele. Um ranço de suor muitas vezes dormido exala-se do corpo deste homem alto e descarnado, de rosto longo, testa olímpica e pele alva. Seus cabelos, com grandes entradas, são ralos, já meio grisalhos, compridos e esfarripados.

Avisto a Praça da República, as paineiras floridas, as torres da Matriz, gente andando pelas calçadas, namorados sentados nos bancos, o fotógrafo lambe-lambe postado perto do coreto.

Voltamos para a sala. Os olhos do professor estão fitos em. mim, como se ele estivesse procurando avaliar-me, tentando descobrir que espécie de homem sou.

– Então – diz – o senhor e seus alunos estão estudando a nossa cidade e o nosso povo, hem? Muito bem. Muito bem. Muito bem. Admiro a cultura. Mas acho que não pode haver cultura onde não houver também música, a rainha das artes.

– Professor, o senhor será também entrevistado opor-tunamente. Esta visita é (digamos assim) social.

– Muito obrigado, muito obrigado. Sou um homem pouco visitado. Todo mundo me evita nesta terra. Aqui o nosso amigo o Pe. Pedro-Paulo – e ao pronunciar estas palavras ele pousa de leve as mãos nos ombros do capelão da Vila Operária – é dos poucos que têm paciência comigo.

– Ora – protesta o padre. – Por que paciência? Sou seu amigo.

– Não sou tão lunático – diz o maestro – que não perceba que o povo de Antares me èonsidera um... lunático. Sinto isso no jeito como me olham e falam comigo. Tenho um ouvido muito agudo, ouço até os cochichos das pessoas quando passo. Riem-se de mim. Trocam dichotes a meu respeito.

Pedro-Paulo e eu estamos sentados, mas o professor caminha na nossa frente, dum lado para outro, em passadas largas e pausadas, as mãos “guardadas” nos bolsos do casaco.

– Mantenho cá minhas conversas com Beethoven. Um diálogo muito antigo, que começou na minha adolescência. Ele era também um solitário. E dizem que intratável. Mas eu não sou intratável, sou, padre? Mas... li tudo quanto se tem escrito sobre o Mestre. Conheço a vida dele melhor do que a minha própria. O senhor não vai acreditar, doutor, mas uma das biografias de Beethoven que li me impressionou tanto, que quando cheguei ao capítulo em que ele percebe que está surdo (dou-lhe minha palavra de honra como isto é verdade!) passei quase um mês surdo também. Tive de consultar um especialista. Era surdez completa. Não podia nem ouvir as coisas que eu mesmo tocava nesse piano. Os senhores acreditam?

Encara-me:

– O senhor naturalmente conhece o meu drama... Fico sem saber que dizer, mas Menandro Olinda prossegue:

– Tive uma crise nervosa durante o meu primeiro concerto. Minhas mãos ficaram de repente paralisadas. Coisa puramente psíquica. O doutor me explicou que foi um trauma de infância. Imagine, em pleno palco do Teatro São Pedro, na noite de meu primeiro concerto l Praga da minha mãe. Bom, mas isso não vem ao caso. O importante é que estou me preparando para uma volta. Para um coming back, como se diz em inglês, um retour, compreende?

Pedro-Paulo e eu nos entreolhamos furtivamente. Pergunto:

– Quando pretende dar o seu próximo concerto?

– Tem de ser o ano que vem, o mais tardar. Já entrei na casa dos cinqüenta... bom, mas isso não é velhice quando a gente pensa num Rubinstein. Estudo dez horas por dia. Minha pièce de résistence é a Appassionata. A paixão da minha vida. Quero triunfar exatamente no mesmo palco em que fracassei. E com a mesma peça. Tenho escrito várias cartas ao administrador do São Pedro, pedindo uma data para a minha rentrée. Não me responde. Escrevi também ao diretor da Escola de Belas-Artes. Ninguém responde. Neste país ninguém escreve cartas, depois todos culpam o serviço postal. Mas vou mudar o programa. Incluir alguma coisa do nosso Villa-Lobos, por exemplo. Mas insisto na Appassionata, que vai ser o fecho de ouro do concerto. Questão de amor-próprio. Sim, e de amor à sonata também.

Faz-se um silêncio. Sinto-me constrangido, com uma grande pena do pobre homem. Só agora atento bem nas suas mãos. Em geral um ser humano possui mãos, pés, cabeça, braços. No caso de Menandro Olinda tem-se a impressão de que as mãos são partes móveis de sua anatomia: são objetos que ele “carrega” consigo, com o maior cuidado, como jóias que à noite, antes de ir para a cama, guarda num estojo.

– Se eu não conseguir voltar – diz ele com voz fosca

– minha vida está acabada, sem sentido. – Encara-me. – Doutor, isto é uma cidade sem alma, sem música. Ninguém gosta da boa música em Antares. Ponha isso no seu estudo.

– Faz um silêncio, olha para as próprias mãos e murmura: – Vou dar-lhes a oportunidade de se reabilitarem.

– Para Napoleão Bonaparte – diz o Pe. Pedro-Paulo

– a música não passava dum ruído como outro qualquer.

– Estão vendo? Isso prova a minha velha teoria. Quem não gosta de música não pode ter bom coração. Napoleão não gostava... e era um paranóico, um assassino.

Como estou examinando com curiosidade os daguerreó-tipos, Menandro resolve mostrar-me fotografias de seus pais, num álbum com capa de v eludo e fecho prateado.

Essa é a minha mãe quando solteira... – Eu volto lentamente as páginas de papelão onde estão colados retratos antigos em tom de sépia. – Este é o meu velho. Ao lado dele, a minha mãe de novo, logo depois de casada. Aqui está ela quando grávida. O senhor deve estar notando que os olhos de todas as fotografias da minha genitora estão furados. Eu lhe explico. Foi uma travessura minha quando tinha treze anos. Peguei um prego... bom, mas isso não vem ao caso. Era uma bela mulher, não?

 

Visitei a Matriz, na esperança de lá ver alguma imagem ou outra qualquer peça de escultura feita nas reduções jesuíticas. Não encontrei nada. O que não foi trocado ou vendido – dizem – foi roubado. Uma pena!

Quando o vigário me avistou dentro do templo, veio ao meu encontro, levou-me à casa paroquial e aproveitou a oportunidade para me mostrar os seus “estudos históricos”, escritos a mão com pena de aço em papel almaço. Leu-me trechos de seus ensaios biográficos sobre figuras históricas do Rio Grande do Sul. Tudo muito ingênuo e convencional.

Quando deixei a igreja o velho me acompanhou até ao centro da praça. É um homem de setenta e poucos anos, embora aparente mais idade na sua magreza pálida, nos olhos líquidos, nas costas encurvadas e no caminhar hesitante. Apóia-se no meu braço, faz perguntas sobre meus títulos acadêmicos, o trabalho da minha equipe, e quer saber da “verdadeira” finalidade do nosso estudo. Falamos depois no problema do mal e do pecado no mundo moderno, e na situação atual da Igreja Católica. O P.« Gerôncio diz que respeita e estima João XXIII – um verdadeiro candidato à canonização – mas acha (“Deus me perdoe!”) que no seu pontificado a Igreja avançou demais em suas reformas.

– Meu caro professor – diz o pároco com a sua voz débil – igreja sem latim, sem o velho ritual e com todas essas novidades... padre sem batina, música profana. .. não, não é mais a Igreja de Cristo. Vamos acabar na nudez seca do protestantismo. E é uma tristeza! O Pe. Pedro-Paulo (o senhor o conhece porque já os vi juntos) é desses sacerdotes jovens, “pra frente”, como diz o vulgo. Imagine, permite que uns meninos boêmios e esquisitos toquevi música de jazz nas suas missas. Pois é. Onde vamos parar com essas modernices? E cá para nós (conto com a sua discrição) para o meu gosto, o Pe. Pedro-Paulo preocupa-se demais com política. Já leu até Marx e Lénine, isso para não falar em outros comunistas ateus. Ë um bom moço, reconheço, dedicado à sua paróquia, muito querido dos operários, não nego. Mas acho que está deslumbrado com todas essas reformas da nossa Madre Igreja. Agora me diga, doutor, será que. ele e os outros que pensam do mesmo jeito estão certos e eu errado, por velho e casmurro? Não sei. Não sei.

Falamos na “dissolução dos costumes” e eu lhe digo que nossa equipe está estudando também esse fenômeno em Antares.

– O problema é universal – murmura o pároco. – A coisa vem de Sodoma e Gomorra. Qual! Vem de mais longe ainda. Onde está o homem está o diabo e o pecado. Mas reconheço que tem havido períodos da História, por exemplo, a Idade Média, em que as criaturas se preocupavam mais com o destino da sua alma e com o temor e o respeito ao Criador.

– Acha Antares em matéria de imoralidade pior que outras comunidades que conhece? – indago.

– Ao contrário, acho melhor que muitas. Nasci em São Borja, depois que fui ordenado o meu bispo me mandou para cá. Tenho passado longos períodos fora daqui, em outras paróquias, tanto na zona da campanha como na da serra. Mas volto sempre para cá.

Estávamos agora no centro da praça, junto do coreto. O velho apontou para as bandas do nascente:

– A minha próxima paróquia será a que está lá em cima da coxilha, professor. Lá repousarão os meus restos mortais. E então a Outra Vida, a vida de verdade, começarápara a minha alma. – Olhou-me nos olhos com uma expressão de desconfiança. – O senhor parece que não é um crente...

– Não, não sou, padre.

Bateu-me afetuosamente no braço e sussurrou:

– Vou rezar pelo senhor. Seja caridoso para com os antarenses nesse seu estudo. Ninguém é perfeito.

Apertou-me a mão longamente, fez meia volta e se foi, de volta para a casa paroquial.

 

Travei conhecimento com mais uma “personagem”, o Prof. Libindo Olivares, diretor do Ginásio Nacional. Tem fama de grande helenista, latinista, matemático e filósofo. Uma espécie de sábio local. Cinqüentão, alto e magro como um Quixote sem bigodes nem barbicha, mas já com uma bar-riguinha volumosa que dá a impressão de que não foi “projetada” para o seu arcabouço de magro. Depreendo de nossa conversa em sua casa, ontem, e do que já me contaram dele, que se trata dum mitômano cujas mentiras tendem sempre a um auto-engrandecimento social e principalmente cultural. Gosta que os otitros acreditem que é íntimo de celebridades mundiais. Afirma ter correspondência com Jean-Paul Sartre de quem – faz questão de afirmar – diverge política e filosoficamente, “o que não prejudica em nada a nossa amizade e mútua admiração”. Trocou cartas com João XXIII. François Mauriac é seu amigo do peito e começa sempre as suas cartas com um mon très cher ami Libindo. Quando alguém pede para ver qualquer dessas cartas, o Prof. Olivares alega que elas estão guardadas na caixa-forte dum banco local ou nas mãos dum encadernador, em Porto Alegre, que as está enfeixando todas num volume com capei de couro e letras de ouro.

O professor é solteirão, vive numa pequena casa da Rua das Missões. Existem suspeitas quanto à sua heteros-sexualidade.

Visitei-o anteontem à tardinha. Ele me mostrou seus livros e me expôs a “sua filosofia” – curiosa mescla de neopositivismo, neo-hegelianismo, e neoplatonismo, se tal “neo-coquetel” é possível e viável.

– Quase todas as noites – contou-me ele – tenho aqui a meus pés dezenas de rapazes. São meus discípulos. Vêm pedir-me conselhos, orientação cultural, fazer-me confidencias. E eu lhes empresto livros, dou-lhes idéias... Gosto de viver entre os moços. São argila que, devidamente trabalhada, poderá transformar-se um dia em urnas, vasos e ânfo-ras de grande beleza.

– Professor, o senhor sabe que estamos fazendo um levantamento social, político e econômico de Antares... não?

– Sei, mas permita-me dizer que não acredito muito nesse sistema de amostragem. Nem na econometria.

– Respeito a sua opinião, mas gostaríamos de ter um de nossos questionários preenchidos pelo senhor.

– Poderei fazer isso, não me custa. Acontece, porém, que não sou uma pessoa representativa de nenhum grupo. Sou aqui considerado um. .. como direi? Um original, um solitário, um homem de idéias próprias.

– De acordo – respondo. – Estive olhando as lombadas de seus livros e estou admirado ante o ecletismo de suas leituras. Aí nessas prateleiras vejo até obras sobre ocultismo, cabala, zen-budismo, parapsicologia.

Sua boca rasgada e de desenho incerto move-se num sorriso de satisfação.

– Sou o que o vulgo chama “um curioso”. Homo sum; nihil humani a me alienum puto. Aqui muito em segredo, tenho feito experiências com isso que os americanos conhecem pelas iniciais E.S.P.: percepção extra-sensorial.

– Com bons resultados?

– Excelentes!

– Publicou alguma monografia a respeito?

– Não, meu caro. Pouca gente sabe que me dedico a essas coisas. Nesta terra tudo que sai da área católica ou protestante é considerado espiritismo ou macumba. Temo que acabem pensando que sou uma espécie de feiticeiro, reputação péssima para o diretor do Ginásio Nacional. Sobre E.S.P. tenho um livro já pronto, à espera de editor. Como o senhor sabe, o Brasil não tem editores à boa maneira européia. Temos apenas uma indústria de livros, quero dizer, mercadores cujo único objetivo é ganhar dinheiro, jamais ajudar a cultura. Possuo também outras obras inéditas em fundos de gaveta. Um estudo sobre Sócrates, outro sobre o Século de Ouro da Grécia. E um longo ensaio sobre Platão. E por falar em editores, a Livraria Gallimard de Paris me pediu para ver os originais desse meu estudo sobre Platão. E por falar em Gallimard, meu caro Prof. Terra, quando mocinho li Marcel Proust completo. Escrevi-lhe um dia, em francês, uma carta apaixonada de fã e recebi dele uma resposta muito simpática. Pauvre Marcel! O que eu daria para ter podido beijar as mãos que escreveram À la Recherche du Temps Perdu.

Faço as contas mentalmente e apanho o Prof. Libindo numa colossal mentira. Se ele tem apenas cinqüenta anos como diz e aparenta, e se Proust morreu em 1922, o Libin-dinho leu a obra de seu ídolo e lhe escreveu essa carta quando tinha apenas nove anosí

Esta manhã um de meus pesquisadores (22 anos) entrevistou o Prof. Libindo, que o esperou com uma de suas “encenações”. O estudante foi introduzido na casa por um mulatinho efeminado, de grandes olhos brilhantes e negros, que o levou até à porta da casa que dá para um pátio interno. “Não faça barulho, moço, que o patrão está meditando.”

Sentado no chão, de pernas cruzadas à maneira oriental, os braços em xis sobre o peito, Libindo estava imóvel, olhando intensamente para um pessegueiro. O meu colaborador esperou com paciência (contou-me ele) uns bons dez minutos. Por fim tossiu timidamente, Libindo teve um estremecimento e pareceu acordar de seu transe zen-budista, voltou-se brusco para a porta, ergueu-se dizendo: “ah!”, e veio apertar a mão do visitante. Tinha a sua nudez cobertapor um manto branco, possivelmente um lençol. Levou o meu colaborador para a sua sala de visitas, explicando:

– Eu estava tentando identificar-me com o pesseguei-ro ser o pessegueiro, transformar-me nessa árvore, integrar-me na sua natureza.

– Interessante. Conseguiu?

– Quase. Estava na última etapa. A sua tosse me chamou a isto que se convencionou chamar de “realidade”.

– Sinto muito, professor.

– Não tem importância, õ Manezinho! Traga-nos limonadas geladas. Ou o amigo prefere cerveja. .. ou mesmo café? Não? Mas... como eu dizia, é possível pelo método zen-budista a gente identificar-se com as coisas inanimadas. Às pessoas em sua maioria não acreditam nisso. O meu amiguinho acredita?

– Ora, professor, tudo é possível.

– Tenho correspondência com um dos mais notáveis zen-budistas do Japão.

– O senhor sabe japonês?

– Alguma coisa. Correspondemo-nos ora em francês ora em inglês. – Solta uma risada curta. – O homenzi-nho se confessa encantado por trocar cartas com alguém que vive nestes confins do Brasil, numa cidade com nome de estrela.

Apanhou o questionário, leu algumas das perguntas, fazendo de quando em quando “humt e sorrindo só com um canto da boca.

– Esta pergunta sobre religião, meu caro, não pode ser respondida com um sim ou com um não... nem com sinais. Eu teria de escrever um longo ensaio, um livro inteiro para explicar o meu conceito vertical de religião: primeiro definir o vocábulo, depois ir às mais profundas fontes do sentimento religioso. Sou um eclético. Em tudo, sim, não se escandalize, inclusive em sexo. Como moço inteligente que é, o senhor deve já ter lido alguma coisa sobre os andróginos. Nunca leu Platão? Fedro? O Banquete? E o Gorydon de Gide?

Nesse exato momento sentou-se subitamente ao lado do Pesquisador, que, lembrando-se de certas estórias que ouvira sobre o diretor do Ginásio Nacional, achou de bom aviso erguer-se e olhar o relógio:

– Bom, Prof. Libindo. Tenho um compromisso... e o senhor é um homem ocupado. Talvez queira voltar para a sua meditação. Deixo-lhe o questionário... preencha-o quando tiver tempo.

E bateu em retirada.

 

D. Quitéria Campulargo convidou-me para tomar chá na sua mansão. Uma das grandes damas da cidade. Anda aí pelos setenta anos. Baixinha, gordota, pele dum moreno carregado e fosco, parece-se de vulto com a Rainha Vitória. Quanto ao rosto, achatado, miúdo, e de nariz curto, lembra o focinho dum cachorrinho pequinês: não lhe falta nem o ar entre azedo e pugnaz desses pequenos animais. Mas D. Quita – como é conhecida entre os íntimos – começou a falar. Tem uma voz autoritária mas melodiosa, que sabe fazer-se envolvente e aliciante quando ela quer. Não tardei a sentir-me como diante duma das muitas tias que tenho em Rio Pardo e que visito de três em três anos.

D. Quitéria é uma mulher lúcida e bem informada sobre política estadual, nacional e internacional. Tem uma admiração ilimitada pelo Presidente John F. Kennedy, cujo retrato autografado vejo numa moldura de prata em cima dum piano de cauda, a dois passos de onde estou sentado. “Quero bem a esse menino” – diz D. Quita – “como se ele fosse de meu sangue. Quem me dera ele fosse meu genro... pelo menos.” (Contaram-me que esta senhora que tem quatro filhas e nenhum filho, e que detesta os genros, apesar [ou por causa] disso exige que eles vivam, cada qual com sua família, no casarão onde a matriarca dos Campolargos reina despótica.) “Meu consolo são os netos” – exulta ela, quando a criada entra com a bandeja de chá e uns pratos cheios de bolinhos e biscoitos. – “Tenho quinze.” Estremeçon interiormente. Imagino quinze crianças de várias idades correndo e gritando dentro deste casarão, num dia de chuva. “Estão todos agora na estância, onde costumam passar o verão. Sirva-se desses biscoitos. Recomendo-lhe os bolinhos de coalhada. Gosta? Então coma. E uma velha receita de família”

Bolinho de coalhada... Dou uma dentada num deles, mastigo, degusto e então o milagre proustiano da madeleine – que importa seja uma paródia? – se opera. Je portait à mes lèvres une cuillerée du thé où j’avais laissé s’amoller un morceau de madeleine... Certes ce qui palpite ainsi au fond de moi, ce doit être l’image, le souvenir visuel, que, lié à cette saveur, tente la suivre, jusqu’ à moi...

Tenho treze anos, férias de verão, estou orgulhoso porque fiz a minha primeira viagem de trem sozinho. Vim do Rio Pardo a Santa Fé para visitar os meus parentes Terra Cambará. Tia Maria Valéria agora me aparece (onde estava escondido dentro de mim este fantasma magro, de voz seca e olhos de azeviche...).Em que gaveta do meu ser, em que sótão da minha memória inconsciente, em que arca secreta estariam armazenadas, apanhando o pó do tempo e da vida, todas estas lembranças? Mastigo e engulo o bolinho de D. Quita, e imagens do sobrado dos Cambarás me afloram à consciência – cheiro de frituras vindo da cozinha do sobrado, o vulto duma mulher bonita e triste (Sílvia?) casada não me lembro com que parente meu... o bafo de mofo do porão da casa... a estória que alguém (quem?) me contou do cadáver dum recém-nascido, que, durante a revolução de ‘93, teve de ser sepultado na terra do porão porque o Sobrado estava sitiado pelos maragatos... E a velha Maria Valéria dizendo: “Coma mais um bolinho de coalhada, você bem que precisa de mais uns quilos!” E aquela água-furtada onde eu me refugiava às vezes quando me atacava a saudade de casa e um dia atocaiei a bugrinha que fazia a limpeza matinal daquela parte do casarão.

Tenho a impressão de que todas essas imagens com °s respectivos sons, cheiros, impressões táteis me passaram Pela cabeça em poucos segundos.

D. Quita fala então “nas indecências de nossa época”. Está escandalizada e alarmada ante a licenciosidade dos tempos modernos, a rebeldia da juventude, e a expansão da pornografia em revistas, livros, filmes, peças de teatro..,

– Sei que a senhora gosta de ler – digo.

– Muito. Não se ria se eu lhe disser que o romance mais bonito que li em toda a minha vida foi a Joana Eira da Cariota Bronte. Conhece? Uma jóia. Acho que li esse livro umas vinte vezes. Devorei também todo o Walter Scott e o Alexandre Dumas. Nunca suportei o Zola nem o Flaubert. Mas gostava do Tolstoi. Ahi leio também os modernos. Estrangeiros e nacionais, naturalmente.

– Já leu Jorge Amado?

– Por alto. É bandalho e comunista.

E o nosso Erico Veríssimo?

– Nosso? Pode ser seu, meu não é. Li um romance dele que fala a respeito do Rio Grande de antigamente. O Zózimo, meu falecido marido, costumava dizer que por esse livro se via que o autor não conhece direito a vida campei-ra, é “bicho de cidade”. Há uns anos o Veríssimo andou por aqui, a convite dos estudantes, e fez uma conferência no teatro. Fui, porque o Zózimo insistiu. Não gostei, mas podia ter sido pior. Quem vê a cara séria desse homem não é capaz de imaginar as sujeiras e despautérios que ele bota nos livros dele.

– A senhora diria que ele também é comunista?

D. Quitéria, que mastigava uma broinha de milho – e mais que nunca parecia um pequinês – ficou pensativa por um instante.

– O Prof. Libindo costuma dizer que, em matéria de política, o Erico Verissimo é um inocente útil.

Voltamos a falar na dissolução dos costumes.

– Essas idéias modernas me assustam um pouco, mas não sou dessas velhas que vivem dizendo que a gente antiga era toda santa. Se era, como é que o senhor explica todos esses filhos naturais que andam por aí? É que hoje em dia as coisas são feitas às claras, à luz do sol, debaixo do nariz da gente. Essas moças, mesmo em Antares, que é uma cidade pequena, parece que perderam por computo o pudor.

– Sei que a senhora é presidente duma sociedade chamada Legionários da Cruz...

– Sou. Depois que o ]ango Goulart fez esse plebiscito indecente e obrigou o país a voltar ao presidencialismo... e o Comando Geral dos Trabalhadores começou a instigar greves, e esses estudantes esquerdistas da U.N.E., em vez de estudarem, andam por aí viajando para Cuba, para a China Comunista e para os países do outro lado da Cortina de Ferro, aprendendo a técnica de agitação e das guerrilhas, enfim, depois de tudo isso achei que devíamos reagir de algum modo. Todos os dias tapo o nariz e leio nos jornais os discursos e entrevistas do Leonel Brizola, que repete como um disco quebrado essa coisa de remessa dos lucros das empresas estrangeiras, espoliação, reforma agrária, entre-guismo, etcetera e tal... Bom, um dia pensei assim: o povo brasileiro não é de esquerda, mas de centro. Ora, acontece que a maioria de nossa população é acomodatícia, preguiçosa e vai se deixando levar, E no dia em que a gente abrir bem os olhos isto aqui já virou república soviética, o senhor não acha... ou também é da esquerda?

Limito-me a sorrir. E ela continua:

– Vai então convoquei uma reunião de amigas e amigos, pessoas que podiam ajudar no empreendimento. Fizemos depois uma reunião grande, no teatro, com as autoridades, pessoas gradas, etcetera e tal. Mais um pouquinho de chá”?

Aceito. Sirvo-me. Como outro bolinho de coalhada e penso que, daqui a uns anos, quando tornar a sentir este gosto, possivelmente vou me lembrar de D. Quita sentadinha na sua cadeira de balanço, nesta tarde de verão, abanando-se com um leque recendente a sàndalo.

– O senhor não imagina as discussões que houve nessa primeira reunião – diz ela, sorrindo e deixando aparecer por entre os lábios arroxeados um dente pontudo e cor de marfim velho. – Sempre que o nosso juiz de Direito, o Dr. Quintiliano, e o Prof. Libindo se encontram, acabam atracados numa discussão. Não se fumam. Um embirra com o outro e cada qual quer ser mais sabichão e levar sempre a melhor. Não estou aborrecendo o senhor com essas estórias?

– Mas qual, D. Quita! Ao contrário.

– Pois é. Depois que vi todos sentados expus a finalidade da iiossa sociedade... clube, grupo ou coisa que o valha. Fui logo dizendo que não propunha a criação dum centro recreativo, mas duma frente ativa de luta, dum corpo militante para enfrentar não só os pelegos do Jango e do Brizola como também todos os tipos de esquerdismo, viessem de onde viessem...

– Compreendo.

– ... e que a nossa guerra não era só política como religiosa e moral. Precisávamos combater também a dissolução de costumes.

– Como foi recebida a idéia?

– Ora, o senhor sabe como é cidade pequena. A coisa toda fica muito na conversa fiada. Perde-se tempo em detalhes sem importância. Todos aceitaram a minha sugestão para o nome do grupo: Legionários da Cruz. Nosso lema (segundo a proposta não me lembro de quem) devia ser Deus, Pátria e Família... o que não é nenhuma novidade. O Dr. Quintiliano então se levantou e pediu que acrescentássemos Lei e Ordem. O Cel. Tibério pulou e gritou: “E Propriedade!” Vi que ia começar a inana. Ora, o Prof. Li-bindo, que estava esperando uma oportunidade para dar um quinau no juiz, disse com aquele jeitão suficiente dele: “Meu caro magistrado, quem defende a Pátria defende precipuamente a Lei e a Ordem, contidas ambas no vocábulo oceânico Pátria”. (Me lembro direitinho das palavras que ele usou, tenho boa memória.) O Dr. Quintiliano, vermelho como um camarão, não se entregou: “Pois se a coisa é assim” – disse – “bastaria então que no lema dos Legionários da Cruz se falasse apenas em Deus, pois a idéia de Deus, na sua universalidade incomensurável, abrange tudo: Ele próprio, as suas leis, a sua ordem cósmica e moral, a Pátria, a Família, a Humanidade”. E o Tibério berrou de novo: “E a Propriedadef

D. Quitéria soltou uma risadinha que lhe saiu da boca com um borrifo de broinha esfarinhada:

Depositei minha taça vazia em cima da mesinha, a meu lado.

– O senhor já ouviu dizer que daqui a três semanas o Leonel Brizola vai discursar num comício trabalhista e nacionalista aqui na Praça da República? Pois é. Vai. Mas tome nota das minhas palavras. Nesse dia todas as mulheres católicas de Antares, tendo à frente as Legionárías da Cruz, vão dissolver esse comício!

– Dissolver? – estranhei. – Mas a senhora já pensou no que -pode acontecer! Estamos numa democracia... defeituosa, reconheço, mas – que diabo! – democracia. Cada partido tem o direito de fazer propaganda de suas idéias.

D. Quitéría empertigou-se na sua cadeira, como que -procurando crescer em estatura física.

– Sim, mas o direito e a liberdade têm limites, moço. Um líder político pode fazer a sua propaganda mas não pregar abertamente a subversão da ordem, o fechamento do Congresso, o socialismo, a reforma agrária!

Percebi que tinha mexido num ninho de marimbondos.

– Mas que é que as Legionárias pretendem fazer de concreto se esse comício trabalhista se realizar?

– Sairemos da igreja para a praça cantando com toda a força de nossos pulmões o Queremos Deus. Vamos fazer tanto barulho, que ninguém poderá ouvir o Brizola e os outros oradores!

– Mas eles provavelmente falarão com o auxílio de microfones e amplificadores...

– Quebraremos o microfone e os alto-falantes. Mandaremos apagar as luzes da praça. A cidade ficará às escuras. Temos gente nossa na usina elétrica...

– Mas vai ser uma guerra, D. Quitéria! – disse eu, esforçandotne para ficar sério.

– Vai ser mais um combate, doutor. A guerra mesmo, essa começou no dia em que o Jango Goulart assumiu a presidência da República.

– Mas as senhoras estão preparadas para... digamos, para enfrentar a reação não só verbal como também física dos trabalhistas?

– Estamos por tudo. Se nos desacatarem, levam com rosários e cruzes e estandartes na cabeça... e em outras partes.

Dessa vez não pude evitar uma risada. E a velha, as narinas palpitantes, a respiração acelerada, continuou:

– Nossos maridos, nossos filhos, nossos homens, enfim estarão armados ao nosso lado, prontos para o entrevê-lo. Tome nota do que estou lhe dizendo. É o que vai acontecer se o Brizola tiver o topete de fazer sua pregação comu-no-nacionalista na frente da casa dos Campolargos e da Matriz!

Pôs a mão espalmada no peito arfante, depois abriu uma caixinha de metal dourado, tirou dela um comprimido cor de chocolate e pô-lo debaixo da língua.

– Não pense que sou uma reacionária, moço – disse, pouco depois, em voz mais baixa e serena. – Sei que os tempos mudaram e que vão mudar ainda mais. As contradições estão liquidando aos poucos a nossa classe. E a indústria, como bem disse o outro dia o Dr. Falkenburg, o meu médico, e a tal de tecnologia estão mudando a face da vida e até da moral. Dia virá em que teremos de dividir nossas terras, eu sei. Mas não há de ser a demagogia do Jango ou do Brizola que vai nos assustar. A coisa tem de ser feita direito, quando a sua hora for chegada. Não sou dessas que gostam do dinheiro pelo dinheiro. Resta-me pouco tempo de vida. Deus nunca me deu filho macho. Tenho quatro filhas. Sei que os maridos delas estão esperando a minha morte para agarrarem a minha fortuna, e se soltarem no mundo, cada qual para o seu lado. Que me importa? Meu corpo estará então no mavsoléu da família, minha alma com Deus.

Não resisti à tentação de fazer uma pergunta maliciosa.

– É verdade que o Cel. Tibério Vacariano é o presidente de honra dos Legionàrie« da Cruz?

– Ê, mas foi eleito contra o meu voto. O Tibé e a pobre da Lanja, mulher dele, são meus velhos amigos, apesar de nossos antepassados terem sido inimigos de morte durante mais de sessenta anos. Olhe, moço, eu lhe proíbo de fazer uso público do que eu lhe disse hoje nesta sala, ouviu1? O Tibério é um velho chineiro e désfrutável. Viveu metido em negociatas durante o Estado Novo e os outros Estados que se seguiram. Tem duas mulheres, o salafrário, a legítima e a amante. No entanto aceitou cinicamente a presidência de honra dos Legionários. É como eu lhe digo. Essas contradições vão acabar destruindo a nossa sociedade. Acendemos uma vela a Deus e outra ao diabo. Mas o senhor não acredita em Deus nem. no diabo, não?

– Não, D. Quita, sinto muito, mas não acredito.

Pois devia. Eles existem. E cá entre nós, que ninguém nos ouça, eles não residem, como se diz, Deus no Céu e o Tinhoso no inferno. Eles estão também aqui embaixo junto com a gente, a todas as horas do dia e da noite. Tome nota do que estou lhe dizendo.

(Diálogo transcrito de memória, mas creio que com passável exatidão.)

 

Visitei ontem o Pe. Pedro-Paulo na Vila Operária. Fui logo dizendo: “Não venho em caráter profissional. Não tenho nenhum gravador escondido nos bolsos. Não trago formulários. Dou revista...”

Ele sorri. Apertamo-nos as mãos. Quantos anos terá este homem? Perto de trinta, creio. Ou trinta já feitos. Estatura pouco acima da mediana. Moreno, mas com uns olhos dum azul de cobalto. No Rio Grande do Sul creio que os padres em sua maioria (os estatísticos que me perdoem esta súbita invasão de seu território) vêm da zona colonial, e são de sangue italiano ou alemão. O Pe. Pedro-Paulo tem por um lado avós lituanos, o que explica a cor de seus olhos e certos traços de seu rosto – perigosamente bonitos para um padre. A cabeleira basta e negra e a cor da tez lhe vieram de sua avó índia – conforme ele me explica. Sei que este jovem padre faz sucesso cam as mulheres, que, ao vê-lo passar, murmuram: “Que pão! Que pena ele ser padre! Que desperdício!”

Pedro-Paulo me mostra a Vila, a capela, o campo de esportes, a escola primária, o ginásio, o Centro Social, com a sua já razoavelmente boa biblioteca. O padre está em mangas de camisa, com calças de brim caqui e sandálias.

Depois da visita ficamos conversando sentados em cadeiras preguiçosas à sombra de árvores, bebendo refrescos e comendo figos gelados. Falamos em livros, política nacional e internacional. Puxo a conversa para os problemas atuais da Igreja Católica.

– Só agora a Igreja está voltando às suas origens – diz o sacerdote – isto é, à sua pureza original. Por muitos séculos ps príncipes da Santa Madre cortejavam e serviam reis, duques, presidentes, ministros, senadores, generais, milionários. Voltamos as costas ao povo. Conservamos um ranço medieval. Por um lado dizíamos que nosso reino não era deste mundo mas por outro nos apegávamos a tesouros e pompas terrenos. Tratávamos de convencer os pobres de que era necessário contentarem-se com a má sorte que Deus lhes dera na terra a fim de merecerem o reino dos céus e receberem, com juros, a sua recompensa por tantos anos de sofrimentos e de necessidades neste “vale de lágrimas”.

Descascando um figo, ele conclui:

– Daqui a muitos anos os historiadores talvez possam dizer que as reformas por que a nossa Igreja está passando agora foram tão (ou mais) importantes do que as da Reforma protestante.

– É possível. – E quase sem pausa de transição digo: – Tu naturalmente sabes que és conhecido em Antares como o Padre Vermelho.

Sei, e isso até me diverte. Assim também era chamado Vivaldi, o meu compositor favorito. Il prete rosso. .. embora no caso dele o rosso se referisse à cor de seus cabelos. Eu sei que em Antares sou considerado um comunista por causa de meu interesse pela causa dos operários... e tarn-bém pelas minhas leituras e opiniões.

– Como são tuas relações com o Pe. Gerando?

– Boas, mas meio cerimoniosas. Gosto do velho. É uma boa alma, mas tem horror a mudanças, de qualquer natureza. Um amigo meu oferece uma boa explicação metafórica para pessoas desse tipo. São como cegos (diz ele) que aprenderam durante anos e anos a topografia da casa onde moram, a posição de cada móvel, de cada objeto e assim podem mover-se com facilidade, sem colisões, como se pudessem ver claro. Um dia surge um sujeito... um “maluco”, dirão eles, e começa a renovar a casa, mudar a posição dos móveis e dos utensílios, abrir novas portas e janelas, e quando o nosso pobre cego tenta fazer suas caminhadas habituais, começa a chocar-se com obstáculos inesperados, a ferir-se, a sentir perigosas correntes de ar. .. e fica tomado de pânico ou de um sentimento de revolta. Esse é o caso de muitos escritores e pensadores católicos da atualidade não só no Brasil como no resto do mundo. E veja bem: os “móveis” da Igreja, a sua “decoração”, tinham para esses “cegos” um caráter sagrado, intocável.

– O vigário sabe que os jovens te procuram para confessar-se e pedir conselhos. E que muitos habitantes da cidade preferem as missas aqui na tua capela às da Matriz. Estou informado de que o bispo desta diocese, e possivelmente o arcebispo metropolitano, já receberam uma das famosas cartas anônimas de Antares denunciando o “padre comunista”.

– Ah! Quanto a isso não tenho a menor dúvida. Estou já com o espírito preparado para o que der e vier. Dia virá em que me mandarão cantar noutra freguesia... na pior que puderem encontrar...

– Que pensas de Antares? Esta pergunta tem. um tom um tanto profissional... mas vá!

– Não é diferente da maioria das outras cidades pequenas do nosso Estado. Vocês, com a pesquisa que estão fazendo, é que poderão dizer alguma coisa que não seja mera avaliação a olho nu. O que me impressiona aqui é a enorme defasagem que existe, por exemplo, entre os estancieiros ricos e a gente descalça e subalimentada. Fiquei feliz quando me disseram que você e o seu grupo estão dando muita atenção a essa horrenda favela chamada Babilônia. Acha sinceramente que poderá publicar em liuro todas as fotos desse lugar e seus habitantes?

– Claro que sim. A Ford Foundation me deu luz verde. Do contrário eu me negaria a levar para diante esta amostragem. Mas... que me dizes da tua gente, quero dizer, dos habitantes desta vila?

– Boa, dum modo geral. Claro, temos de tudo... os nossos problemas, as nossas diferenças, rivalidades pessoais e de grupo. Mas nada sério. A maioria pertence ao P.T.B. Há alguns elementos bastante politizados. Outros apenas votam e se consideram membros do partido trabalhista.

E é natural que vejam em ti uma figura paterna.

– Bom... creio que é o caso, e isso me assusta um pouco. Para ser honesto devo confessar que não estou preparado, amadurecido para essa função paterna.

– Quem está ?

– Às vezes tenho um trabalho danado para conter os mais exaltados em assuntos políticos. Em breve o Brizola vem fazer um comício na Praça da República e outro aqui na Vila. Só de pensar nisso estremeço. Está claro que ele vai falar contra a remessa de lucros e contra os entreguis-tas... e contra a espoliação da nossa economia... E, acima de tudo, a favor da reforma agrária. Pessoalmente nada tenho contra essas idéias. Mas não esqueça que quem manda aqui são ainda os estancieiros, o chamado patriciado rural.

– O velho Tibério (ele próprio me confessou isso claramente) é a favor duma ditadura militar como último recurso para salvar o que ele chama de “democracia brasileira”. Diz que estamos precisando, mais que nunca, “da espada de Caxias”. Perguntou-me se eu não estava de acordo com ele. Respondi que se as Forças Armadas usassem a espada do Pacificador corriam o risco de, por engano, acabar cometendo haraquiri.

E o velho Vacariano sabe o que é haraquiri?

– Não. Nem me dei o trabalho de lhe explicar...

– Pois o delegado de Antares, Inocêncio Pigarço, que é um homem cruel, um torturador de prisioneiros políticos, costuma dizer que o Jango e o Brizola estão cutucando o dragão com vara curta.

– Acho que o delegado tem razão. Se esse dragão despertar e resolver entrar em ação... bom, muita coisa vai acontecer. Nossos políticos profissionais, gente pela qual não tenho a menor simpatia, costumam apelar periodicamente ao Exército a fim de tomarem o poder. Os militares os ajudam e depois se encolhem. É possível que desta vez o dragão resolva ficar no poder e devorar não só as esquerdas como os próprios políticos profissionais do centro. As carnes destes na minha opinião estão podres... mas o dragão deve ter um estômago de aço...

Não sei como, a conversa envereda para rumos filosóficos. Discutimos o caráter predatório do homem, a sua tremenda capacidade de agressão. Lembro ao padre o troglodita adormecido dentro de cada um de nós. Ele sacode negativamente a cabeça e diz:

E não haverá sempre ao lado do troglodita um anjo? Um Calibã e um Ariel? Sou otimista com relação ao homem. Não penso em Hitler sem me lembrar também de Mozart. Acho que o homem é um animal agressivo, não há dúvida, mas a diferença entre ele e o lobo é que a criatura humana pensa, é ao mesmo tempo sujeito e objeto, tem a capacidade de ver o seu lado negativo e deplorá-lo. Não ignora que tem um futuro. Tem também a consciência de sua finitude. É – salvo as aberrações – capaz de compaixão, de contrição e de amor. E a crise do mundo moderno não será principalmente a falta de amor?

Como mais um figo e de repente me sinto com dez anos no quintal da casa paterna em Rio Pardo, e moscar-dos zumbem no ar, e da cozinha vem um cheiro doce de melado e eu penso, feliz, “que bom! estão fazendo rapa-durinhas de coco”.

– Me diga uma coisa, professor. Embora o senhor seja ainda um homem moço, nossa diferença de idade é duns quinze anos pelo menos. Sei que visitou a Europa e os Estados Unidos, e que suas leituras são mais variadas e sistemáticas que as minhas. Vou lhe fazer uma pergunta que lhe pode parecer tola. Ao cabo de quarenta e cinco anos de vida, de conviver com tantas pessoas em tantos países diferentes, a que conclusões filosóficas chegou... quero di’ zer, que é que pensa da vida? Se achar a pergunta pueril, não responda...

– Olha, o que eu sou mesmo... digamos assim, é ainda um “aprendiz perplexo”. Mas acho que pelo menos descobri as coisas de que gosto e as que detesto ou me deixam indiferente. E isso não é pouco.

– Por exemplo...

– Prefiro a saúde à doença, o amor ao ódio, a liberdade à escravidão, a persuasão à violência. Sei que esta não é uma resposta completa... mas que diabo!

– Imagino que não acredita em Deus...

– Sou um agnóstico. Detesto esta palavra, que a rigor não exprime nada. Trata-se duma espécie de neutralidade de que muitas pessoas se orgulham mas que a mim me constrange.

– Mas é um cristão, isso se pode ver.

– Serre a menor dúvida. O Cristo homem é uma das minhas figuras favoritas da História.

– Isso! O importante é ser cristão. Mas dum cristianismo militante e não apenas teórico, “simpatizante”. Sempre digo ao vigário da Matriz de Antares: “Padre, continue rezando pelos seus mortos que eu continuarei lutando pelos nossos vivos. Nossa Igreja é também deste mundo”.

Olho para o rosto enérgico do padre, que está com a testa franzida, os punhos cerrados, e tenho a impressão de que tem o sangue muito quente.

– Posso te fazer uma pergunta pessoal?

– Por que não? Seja o que for.

– Eu gostaria de saber se a tua fé em Deus e na Igreja é realmente forte e permanente. Não tens dias ou horas de dúvida?

Ele sorri, fica alguns segundos em silêncio e depois responde:

– Sou um homem, e portanto cheio de defeitos e fraquezas. Minha carne com muita freqüência grita de fome, às vezes com uma força que me estonteia. Claro, muitas vezes tenho as minhas dúvidas. Não faz muito atravessei um período de tão forte crise espiritual que escrevi uma longa carta a um monsenhor que admiro e estimo, contando-lhe tudo. Usei nessa carta confessional a expressão: “sinto que minha fé está presa apenas por um fio”. Sabe o que ele me respondeu? Que se regozijava por saber que a coisa era assim, pois não confiava muito nas chamadas “fés inabaláveis” dessas que julgam poder deslocar montanhas. São demasiadamente teatrais para serem profundas – escreveu o monsenhor. “O fio que prende a sua fé deve ser do melhor aço e portanto resistente e ao mesmo tempo flexível. Fé sem flexibilidade, fé sem dúvida pode acabar em fanatismo.” Terminou a carta assim: “Reze a Deus, peça-lhe para que faça esse fio resplandecer sempre na Sua luz”.

 

O INCIDENTE

Pouco depois da meia-noite, naquela quarta-feira, 11 de dezembro de 1963, Tibério Vacariano entrou no centro telefônico de Antares para tentar comunicar-se diretamente com o Palácio do Governo, em Porto Alegre.

– Tem defeito na linha, coronel – informou-lhe a operadora.

– Eu espero. Não saio daqui sem falar com o governador.

Mandou buscar em casa cuia, bomba, erva, chaleira, fogareiro – aboletou-se na melhor cadeira da agência, preparou um mate e ali ficou, a chimarrear e a fumar palheiros, durante horas e horas, resmungando coisas para si mesmo e de vez em quando esporeando a moça com frases assim: “Continue tentando”. – “Esse negócio sai ou não sai?” _ «Não durma!”

O tempo passava. A operadora cabeceava de sono. A intervalos quase reguläres o coronel ia até ao fundo da casa pata esvaziar a bexiga, deixando na parede traseira do prédio efêmeras pinturas murais. Às três da madrugada j&andou buscar em casa um café preto e forte, para ajudá-10 a vencer a própria sonolência.

Pouco após o raiar do dia a operadora teve um estremecimento.

– Porto Alegre está atendendo! – exclamou. – Alô! Aqui é Antares. Tenho um chamado urgente para o Palácio do Governo. Alô? Eu sei que são cinco da manhã, mas tente a ligação, pelo amor de Deus!

Tibério Vacariano, que cabeceava de sono, ficou de repente desperto e ergueu-se lépido. A telefonista voltou para ele um olhar turvo, emoldurado por pálpebras intumescidas.

– O Palácio está respondendo – disse com a voz era-pastada de sono. – Pegue aquele telefone, coronel. ..

Tibério agarrou sofregamente o fone do aparelho indicado, levou-o ao ouvido e gritou:

– Alô! Palácio do Governo? Hem? Não estou ouvindo nada... Alô? Aqui é o Cel. Tibério Vacariano. Preciso falar com a maior urgência com o governador... Hem? Eu sei que o homem está dormindo. Mas acorde ele. É uma questão de vida ou de morte. Quê? Fale mais alto. Já disse que é o Cel. Vacariano, chefe político de Antares... Me responsabilizo pelo que acontecer. Depressa, homem!

Ficou esperando alguns minutos, impaciente, chupando o cigarro apagado, de quando em quando lançando para as pernas da telefonista – que agora dormia sentada, os braços sobre a mesa, a cabeça aninhada neles – um olhar quase tão morto como o fogo do seu palheiro. Ouviu confusos rumores longínquos, cortados de zumbidos e assobios. Finalmente, uma voz humana.

– É o governador. E aí quem fala?

– O Cel. Tibério Vacariano, de Antares. Desculpe le tirar da cama a esta hora, governador, mas a situação é muito séria.

– Que é que há, coronel?

– Hoje ao meio-dia vai ser declarada uma greve geral em Antares: indústria, comércio, transportes, força elétrica, serviços... tudo! A cidade vai parar por completol

– Lá ontem alguma coisa a esse respeito no Correio do Povo.

Vacariano cuspiu longe o toco de cigarro, num borrifo de saliva. Cuspia simbolicamente nas bochechas daquele governador de ordinário pachorrento e agora, ainda por cima de tudo, estonteado de sono.

– Mas, doutor, estamos diante duma calamidadeI Já imaginou uma cidade parada, sem luz, sem água, sem transportes? Greve gerall

– Pois é... Sinto muito.

– Precisamos agir sem demora.

– De que jeito? A nossa Constituição reconhece o direito dos trabalhadores à greve.

– Mas isso não é mais uma greve e sim um princípio de revolução, parte duma conspiração política esquerdista para tomar o poder pela força.

Fez-se uma pausa na conversação, como se a ligação tivesse sido subitamente cortada. De novo, porém, Vacaria-no ouviu a voz grave que o sono tornava mais espessa:

– Não há nada que meu governo possa fazer dentro da legalidade.

– Pois então faça fora da legalidade.

– Alô? Fale mais alto, coronel.

– Mande a legalidade pro diabo! – vociferou Tibério. – Envie tropas da Brigada Militar para Antares e obrigue esses, mequetrefes a voltarem ao trabalho. O aumento que eles pedem é absurdo. A greve é dos trabalhadores das indústrias locais. Os outros apenas se solidarizaram com eles. Coisas que os chefes do P.T.B. e os comunas meteram na cabeça dos operários.

– Coronel, o senhor esquece que estamos numa democracia.

– Democracia qual nada, governador I O que temos no Brasil é uma merdocracia.

– Alô?! A ligação está péssima.

– Eu disse que estamos numa mer-do-cra-ci-a, entendeu?

Novo hiato na conversação. A telefonista ressonava.

– O senhor está muito excitado, coronel – veio de novo a voz. – O governo federal é trabalhista. Estamos em niinoria.

– Minoria coisa nenhuma! O que nos falta é cojones, como dizem os castelhanos.

– Calma, meu amigo. As coisas podem resolver-se duma hora para outra dentro da lei. Prometo-lhe conversar hoje mesmo com o Ministro do Trabalho e...

– A situação não é mais para conversas, mas para ação. Quer que eu fale com franqueza? Chegou a hora do Exército Nacional entrar em cena, empolgar o poder em nome do povo, da tranqüilidade geral e da justiça. O Brasil neste momento é um trem sem freios que se precipita a toda a velocidade para o abismo. E o pior é que o maqui-nista e o foguista estão loucos, loucos varridos!

Houve um silêncio, ouviu-se um pigarro distante. Por fim ficou mais clara a voz do governador:

– Há certos assuntos, coronel, que a gente não pode tratar por telefone. Passe muito bem!

Tibério repôs o fone no lugar com tanta fúria, que a telefonista despertou num sobressalto, pisca-piscando.

– Conseguiu falar, coronel?

Tibério não respondeu. Enquanto metia num saco de lona os petrechos de chimarrão, resmungava: “Garanto como ele agora volta pra cama e vai dormir até às oito. Quando acordar para o café vai pensar que este telefonema foi um sonho. Enquanto isso os comunas, os brizolistas e os pelegos do Jango Goulart estão se preparando para tomar conta da nossa cidade. É o fim da picada!”

Precipitou-se para fora do centro telefônico sem sequer agradecer à operadora.

 

Ao meio-dia em ponto a greve geral começou. Os operários do Frigorífico Pan-Americano, os da Cia. Franco-Brasileira de Lãs e os da Cia. de óleos Comestíveis Sol do Pampa abandonaram como de costume seus postos para o almoço, mas não voltaram para o turno da tarde. O mesmo aconteceu com os encarregados da Usina Termoelétrica Municipal, que cortaram a luz da cidade, com exceção dados cabos que forneciam energia aos dois hospitais. Bancários, empregados de hotéis, cafés, bares e restaurantes, bem como caixeiros de casas comerciais, recusaram-se a retornar ao trabalho, solidarizando-se com os industriários, embora eles próprios não tivessem no momento reivindicações salariais específicas. Os motoristas que dirigiam carros de propriedade alheia, abandonaram-nos na rua quando ouviram o sino da Matriz bater as primeiras badaladas do meio-dia.

Desde havia três dias as donas de casa tinham acorrido aos supermercados, aos mercadinhos, às mercearias, às padarias e às fiambrerias para comprar mantimentos, pre-venindo-se contra a carência de alimentos que fatalmente viria com a greve geral. Antares, em suma, parecia uma cidade prestes a ser sitiada por um inimigo implacável.

Ali pelas duas da tarde, nas vias centrais e na Praça da República, notava-se um movimento humano desusado para o dia e a hora. A greve geral era o assunto quase exclusivo das conversas. Comadres trocavam impressões das janelas de suas casas, dum lado para outro da rua. Formavam-se grupos às esquinas e no meio das quadras, nas calçadas ou nos sendeiros da praça, cujos bancos estavam todos ocupados. Velhos e velhas, debruçados nas janelas de suas casas, mostravam nas faces – principalmente nos olhos – o pavor de antigas revoluções, a lembrança de imemoriais degolamentos. Ninguém parecia sentir o calor abafado da tarde. Ficavam sob o olho ardente do sol a discutir e gesticular. Um vereador do P.S.D. atracou-se a socos com um colega seu do P.T.B. Rara era a janela das casas residenciais que não emoldurasse um ou dois vultos humanos que observavam a rua e trocavam impressões com os que passavam pela calçada.

Duplas de guardas municipais andavam dum lado para outro, atentos, procurando evitar brigas ou intervindo quando elas irrompiam e, tentando, mas sem resultado, evitar que se formassem aglomerações que pudessem degenerar perigosamente em comícios políticos. Perto da Matriz um homem gritava, de dedo erguido e revólver na cintura: “Se as autoridades tivessem um pingo de vergonha e coragem, elas acabavam essa greve de borra em dois tempos, a rabo-de-tatu ou a bala!” A igreja aos poucos se enchia de fiéis – quase todos do sexo feminino – que vinham orar e fazer promessas aos santos ou santas de sua devoção. Uma devota de Santa Rita de Cássia prometeu jejuar durante três dias inteiros se a greve geral abortasse.

Pesava sobre a cidade uma- atmosfera de princípio de fim de mundo.

 

Na redação de A Verdade, às quatro da tarde, Lucas Faia preparava o seu editorial para o próximo número, em cuja primeira página negrejaria uma manchete em caixa aita e tipo grosso: Greve Geral em Antares.

Lucas Lesma passava repetidamente os dedos pela calva reluzente, mordia a caneta. Que dizer da greve? Em que termos comentá-la? Atacar os grevistas por terem agredido tão violentamente a cidade, trazendo o desconforto e a inquietação para seus habitantes? Esse fora o seu primeiro impulso. Sabia que as classes produtoras de Antares haviam de aplaudir seu editorial... Mas a idéia de que os trabalhadores pudessem empastelar a redação de seu jornal fazia-o hesitar. Lucas Lesma suava copiosamente, de quando em quando passava pela face acobreada de caboclo o lenço en-cardido. Mas... se os militares dessem um golpe de Estado e derrubassem o governo de Goulart... em que posição ia ele ficar por não se ter manifestado no devido tempo contra aquela greve? Diabo de profissão!

Fazia vários minutos que estava ali sentado à sua mesa, sem casaco, olhando para o ventilador parado, a caneta esferográfica entre os dedos longos, de unhas roídas. O mais que havia conseguido escrever até então fora o título do editorial, Greve Geral. (Podia fazer uma aliteração -.Grave Greve Geral.) Contentava-se com fazer bordados nas letras do título, sombreá-las, dando-lhe uma ilusória terceira dimensão, como se com esses arabescos pudesse resolver o seu impasse. Talvez o mais sábio fosse redigir um editorial objetivo – equidistante em matéria ideológica tanto dos operários como dos patrões, um editorial anòdino, nem contra nem a favor da greve...

Uma voz aflautada interrompeu a confusa corrente de seus pensamentos:

– Ó seu Lucas, minha Passarela sai ou não sai no número de amanhã?

– Você é quem sabe, filho.

O cronista social, que alisava a longa cabeleira e de quando em quando ajeitava a camisa cor de salmão, explicou:

– É que com todo esse negócio da greve acho que ninguém estará muito interessado nas fofoquinhas da nossa society. E como vamos imprimir o jornal sem força elétrica?

– Você é quem sabe... – repetiu o diretor, desinteressado, sem olhar para Scorpio.

Este, porém, deu uma rabanada e aproximou-se da mesa do chefe, quase num passo de bale.

– Ah! Eu sabia que tinha uma boa para lhe contar...

– Depois..,

– Não, seu Lucas, escute esta, que vale a pena. Bufando de calor, irritado, Lucas largou a caneta e

olhou para o cronista:

– Conte, então, mas depressa.

– Ontem à tarde encontrei no supermercado uma das nossas grã-finas fazendo o rancho para enfrentar a greve geral. Estava toda assustadinha, sem jóias, sem pintura, mal vestida, parecia até uma cozinheira. .. O ano passado eu a coloquei entre “as Dez Mais” de Antares. Quando me viu, só faltou me abraçar e beijar. Me puxou para um lado e me contou que cancelou a viagem que ia fazer a Buenos Aires em maio... e que resolveu não fazer festa de debutante para a filha, que completa quinze anos em janeiro... E que vai entrar para o grupo de damas do Comercial que estão fazendo casaquinhos e meias de lã para as criancinhas pobres da Babilônia... ah!... e que vai obrigar o marido a vender um dos carros da família... E sabe por que toda essa transformação?

Lucas Lesma, que ainda pensava no editorial, sacudiu negativamente a cabeça.

– Está assustadíssima com esse movimento brizolista, janguista e nacionalista e sei mais quê. Acha que vem aí um governo socialista. Chegou a me dizer que se fizerem a reforma agrária e se os ricos tiverem de perder o que possuem será muito triste... mas que é que se vai fazer? E me disse, quase chorando, que é preferível “que se vão os anéis, mas que fiquem os dedos”...

Nesse momento veio do fundo da sala da redação a voz apocalíptica do Ferreirinha, que sofria um de seus piores dias de asma:

– Nem os dedos ficarão, menino!

Lucas Faia, agoniado, amassou o papel que tinha em cima da mesa e jogou-o com raiva dentro do cesto, a seus pés.

 

O prefeito convocou uma reunião especial da Câmara Municipal, que era formada de mais de um terço de vereadores trabalhistas. A greve geral foi discutida. Houve alter-cação, muita gente falando ao mesmo tempo, trocas de desaforos, tiradas demagógicas e – como era de se esperar – nenhum resultado prático. O presidente encerrou a sessão.

Às cinco da tarde daquele mesmo dia, o Maj. Vivaldino Brazão recebeu no seu gabinete, no edifício da prefeitura, uma delegação formada de três operários, encabeçada por Geminiano Ramos, e que devia encontrar-se com os gerentes das três companhias atingidas em cheio pela greve. Estavam estes últimos sentados no mesmo sofá: Mr. Jefferson Monroe III, com as longas pernas estendidas, fumava um L&M. O prefeito de vez em quando lançava um olhar fascinado para os sapatos ciclópicos do americano, conhecidos na cidade como “a frota americana do Alto Uruguai”-

Ao lado do diretor do frigorífico encontrava-se M. Jean-François Duplessis, da Franco-Brasileira, o qual, na opinião do Maj. Vivaldino, estava com o jeito “um tanto debochado”, como se não estivesse levando aquela reunião a sério. O colarinho desabotoado, o nó da gravata frouxo, as meias ésbeiçadas dobradas sobre os sapatos empoeirados, o francês fumava com ar entediado um Gauloise de pontas babadas e quase desfeito, e de vez em quando bocejava musicalmente. À sua esquerda, corretamente vestido, muito escovado e limpo, Mr. Chang Ling parecia um aluno comportado sentado em sua carteira escolar, os olhos oblíquos e escuros fitos no professor, isto é, no prefeito. Não podia, porém, disfarçar a sua inquietação ante a maneira como às vezes o francês esgrimia no ar o seu cigarro, espalhando cinzas ao seu redor.

– Senhores – disse Vivaldino Brazão, quando viu gregos e troianos sentados frente a frente, em silêncio – a situação é extremamente grave. A nossa cidade não pode suportar sem prejuízos talvez irreparáveis as conseqüências duma greve geral prolongada...

Calou-se, olhou em torno, escrutou as faces. A do americano rosada, juvenil, escoteira, os cabelos em crew cut, os olhos dum azul limpo e vazio. A do francês sardenta e aborrecida. A do chinês lembrando uma máscara asiática com um sorriso inefável de imagem arcaica. E esses três semblantes estavam voltados para o dele. Quanto aos operários, Vivaldino não olhava muito para as suas caras, demasiadamente conhecidas em Antares.

– Assim sendo – prosseguiu – faço um apelo aos senhores representantes das indústrias e aos senhores delegados dos grevistas aqui presentes, para que entrem o mais depressa possível num acordo, a fim de que mulheres, crianças e velhos não venham a sofrer os desastres duma greve geral, isso para não falar nos ruinosos efeitos que essa greve vai causar à economia do nosso município.

Novo silêncio. Seis pares de olhos focados no prefeito. O francês teve um acesso de tosse bronquítica de tabagista. O americano encolheu-se instintivamente e voltou o rosto para fugir aos micróbios gálicos. O chinês limitou-se a ali-sar o friso das calças.

Geminiano ergueu-se. Era apenas uns cinco centímetros mais baixo do que o americano, porém mais corpulento. Sua cabeçorra de abundantes cabelos castanhos e crespos lembrava a de certos mercadores ricos da Amsterdam do século xvn que tinham retratos pintados por artistas como Franz Hals: rosto carnudo e rubicundo, olhos empapuçados, dum cinzento mineral, lábios vermelhos e polpudos, sugerindo sensualidade. O prefeito detestava aquele líder operário insolente e autoritário que, apesar de viver pregando democracia e igualdade social, tinha uma indisfarçável vocação para ditador.

– Como todo mundo sabe – disse Geminiano com o vozeirão que era de se esperar daquela boca flamenga – esta greve é dos trabalhadores do frigorífico aí do mister (e fez com a cabeça um sinal na direção do americano), dos operários da Franco-Brasileira e do pessoal da Cia. de Óleos Comestíveis do “seu” Changue. Todos os outros companheiros aderiram ao movimento num gesto de solidariedade de classe. Bueno, para não encompridar demais a conversa, os cavalheiros que estão sentados nesse sofá receberam há semanas um documento contendo as nossas reivindicações salariais bem claras. Pedimos um aumento que nos parece mais que justo, em vista da inflação galopante. A resposta que recebemos foi um não redondo. Dias depois esses senhores quiseram negociar. Nos sentamos em roda duma mesa e a contraproposta que eles nos fizeram foi ridícula. Assim sendo, entramos em greve e só voltaremos ao trabalho depois que nossas condições forem aceitas. Já recebemos telegramas de solidariedade irrestrita tanto do Comando Geral Trabalhista como da União Nacional de Estudantes.

O prefeito suspirou fundo, pensou nas suas orquídeas, em cuja companhia talvez não pudesse passar aquele fim-de-semana, se a maldita greve se prolongasse.

Jefferson Monroe III movimentou as pernas, e os dois encouraçados negros pareceram tomar uma formação de combate.

– Eu... aaa... – gaguejou, buscando a palavra que queria – aaa...

O francês, que não conseguia esconder a sua impaciência, cruzava e descruzava as pernas. De repente tirou o cigarro da boca, num gesto brusco, polvilhando de cinza a lapela esquerda do casaco de Mr. ling, que a limpou discretamente com seus finos dedos de mandarim.

– Os senhores sabem muito bem – disse M. Duplessis – que, a não ser Mr. Chang, que é o proprietário único de sua indústria, nós, Mr. Monroe e eu, somos apenas gerentes de filiais.

Jefferson Monroe III pareceu recuperar a voz:

– Quando hemos recebido vosso memorial, consultamos imediatamente nossa matriz em São Paulo, e a resposta que ganhamos foi negativa. O aumento demandado pelos operários é demasiadamente alto.

– Precisamente – reforçou o francês, passando os dedos por entre os seus já ralos cabelos cor de cenoura. – Os senhores leram as respostas de nossos superiores. Personalmente nada podemos fazer.

O chinês continuou refugiado atrás da sua trincheira de silêncio. Ainda de pé, Geminiano lançou um olhar, primeiro na direção de seus dois companheiros, e depois voltou-se para o prefeito, dizendo:

– Major, nossa decisão foi tomada e não voltaremos atrás. A greve vai continuar até ao momento em que obtermos – corrigiu-se em seguida – obtivermos o aumento e as outras vantagens que pedimos em nosso memorial.

Um pensamento esvoaçou como uma borboleta colorida na cabeça do prefeito. Na Sibéria existe uma espécie de orquídea chamada calypso bulbosa. Olhou para Geminiano:

– Você deve estar lembrado de que eu lhe aconselhei tentar primeiro o dissídio coletivo. Teria sido mais prático e mais justo.

E o major se lembra de que nossa resposta foi negativa. Estamos cansados de panos quentes.

Em que parte do mundo se encontraria aquela orquídea completamente escarlate que ele vira reproduzida numa enciclopédia, em cores? Sophronites grandeflora. As orquídeas não falavam nem faziam greve. Vivaldino olhava fixamente para o rosto de Geminiano. Não havia dúvida, aquele operário tinha envergadura de chefe, era inteligente, obstinado e atrevido. Lembrou-se de que nos tempos de rapazote, quando ainda um entusiasta de Stalin, Geminiano usava um basto bigodão, que havia mandado rapar depois que o ditador russo fora expurgado post-mortem por Nikita Kruschev.

– Cavalheiros – disse o prefeito, procurando dar à voz um tom de grave autoridade paternal – em nome das vinte e cinco mil almas que vivem em Antares, faço um apelo aos representantes patronais e líderes operários aqui presentes para que entrem em acordo dentro do mais curto prazo possível. – Dirigiu o olhar para os homens do sofá. – Os senhores me façam a fineza de consultar mais uma vez, e com urgência, vossas matrizes, pondo-as ao corrente da calamitosa situação desta comunidade. E aos trabalhadores (e neste momento Vivaldino olhou para a cara polpuda de Geminiano e esbofeteou-a em pensamentos) peco boa vontade e espírito comunitário, para que possamos pôr fim a este impasse... Quanto a mim, prometo entrar hoje mesmo em comunicação com o Governador do Estado e, se possível, com o Ministro do Trabalho.

– De que jeito? – exclamou Geminiano, glorioso. – A estação de rádio não funciona por falta de força elétrica...

– Não se preocupe – replicou o prefeito, já vermelho de cólera. – O problema e meu!

Ergueu-se, puxando num gesto decidido as abas do casaco e dando assim a entender que a reunião estava terminada. Quando os visitantes começaram a erguer-se, Vivaldino Brazão satisfez mais uma vez seus pruridos oratórios:

– Quero que todos saibam que o governo municipal está preparado para repelir com energia qualquer tentativa de subversão da ordem, qualquer ato de violência, venha ele de onde vier. Tenho forças suficientes para fazer cumprir a lei, mas seria para mim o dia mais triste da minha vida aquele em que ,eu tivesse de mandar fazer fogo contra os meus concidadãos. Creio que estamos entendidos.

– Senhor maior – disse Jefferson Monroe HI. – Estamos num verdadeiro quandário. (Existe esta palavra em português?) Well, sei que meus chefes não podem aceitar as demandas exageradas de nossos operários. Creio que vamos ter greve por muito tempo, sinto muito dizer. Mas prometo fazer o meu melhor...

– Faça, mister, faça, por favor.

Ao apertar a mão do prefeito, o francês murmurou:

– Vosso Presidente sendo o chefe trabalhista – M. Duplessis soltou uma interjeição pneumàtica tipicamente francesa: pff! – não vejo como a balança possa pender para o nosso lado...

– Mas faça o que puder, monsieur.

O Maj. Brazão deteve por um instante o chinês à porta do gabinete, para lhe perguntar, com certa ternura na voz:

– Me diga uma coisa, Mr. Chang, existem muitas variedades de orquídeas na China?

 

Cerca das quatro da tarde, ao despertar duma prolongada sesta, pesado e azedo, Tibério Vacariano deu com D. Briolanja ao lado da cama, toda desfeita em pranto.

– Que foi que houve, mulher?

Os olhos injetados, o rosto tumefato, D. Lan ja balbu-ciou:

– A Quita teve um ataque do coração. Está malíssi-ma. Uma das meninas me telefonou ind’agorinha dizendo que a mãe começou a sentir umas pontadas no peito logo depois que ouviu a notícia de que a greve geral tinha estourado ...

Tibério sentou-se na cama, bocejou, e começou a calçar os sapatos, taciturno.

– A primeira vítima... – murmurou. – E não será a última. Canalhas!

– A coisa é tão séria, Tibé, que o Dr. Falkenburg chegou ao ponto de chamar o Dr. Lázaro para uma conferência médica.

– Então o negócio está mesmo preto. Temos que ir até lá imediatamente. Aqueles genros da Quita são umas bestas sem iniciativa e as mulheres deles umas débeis mentais.

Terminou de vestir-se, botou o revólver no coldre, preso ao cinto, enfiou o chapéu na cabeça, com a aba puxada sobre os olhos – mau sinal 1 – pegou a mulher pelo braço d disse: “Vamos embora!”

A praça fervilhava de gente, mais que nas manhãs de domingo, à hora da saída da missa das onze. Tibério caminhava olhando firme para a frente, mal respondendo aos cumprimentos que vinham dum lado e de outro. Levava na boca o fel da pesada sesta, no peito a tristeza que lhe causava a doença da velha amiga, e no corpo inteiro um ódio suficientemente intenso para abranger todas as formas de esquerdismo imagináveis. De vez em quando, de lábios apertados, sussurrava: “Felhos da pota”.

Estava o casal Vacariano já quase junto do coreto da praça quando o Dr. Lázaro lhe surgiu pela frente.

– Então, doutor? – perguntou Tibério. – Como vai a Quita?

O médico baixou tristemente a cabeça.

– Sinto muito ter de dar-lhes uma tristíssima notícia. D. Quitéria acaba de expirar. Fizemos o possível, o Dr. Falkenburg e eu. Enfarto do miocàrdio.

Agarrada ao braço do marido, D. Lanja rompeu a chorar em soluços convulsivos.

– Nada de espetáculo – disse-lhe o marido. – Se você tivesse morrido, garanto que a Quita saberia portar-se como uma dama. Pelo menos em público...

– Sabe duma coisa esquisita, coronel? – disse o Dr. Lázaro. – D. Quitéria é a sexta pessoa que morre hoje na cidade.

– Não diga! Quais foram as outras?

O médico fez com a cabeça um sinal na direção do sobradinho de azulejos.

– O Prof. Menandro suicidou-se esta madrugada.

– Enforcou-se?

– Não. Cortou as veias dos pulsos.

– Engraçado, para mim ele sempre teve cara de quem ia se enforcar... Mas como é que ainda não me tinham contado?

– O corpo só foi encontrado há meia hora...

E quem são os outros?

– O Barcelona é um deles...

– Esse vai em boa hora. Deus é grande. Quem mais?

– Os restantes são gentinha, com exceção do Joãozi-nho Paz, que faleceu no hospital. Fui eu quem assinou o atestado de óbito.

D. Lanja olhou para a igreja e murmurou:

– Santo Deus, que está acontecendo com a nossa cidade? Seis mortos num só dia.

Tibério encolheu os ombros:

– Meu pai me contou que na revolução de ‘93 só num dia morreram quinze pessoas num combate, aqui mesmo nesta praça. E durante a gripe espanhola, em ‘18, houve um dia em que dez antarenses bateram as botas...

O Dr. Lázaro despediu-se do casal, dizendo que ia para casa dormir um pouco, pois havia passado a noite em claro atendendo a vários de seus pacientes que não passavam bem.

Os Vacarianos continuaram a andar na direção do pa-lacete dos Campolargos, diante do qual começavam a formar-se grupos de curiosos e de amigos da família enlutada.

– Erga a cabeça – sussurrou Tibério à mulher. – Você não é católica? Pois então. Imagine a Quita no Céu, entre os anjos, mais feliz que nós nesta terra entregues ao Jango Goulart, ao Leonel Brizola e aos seus pelegos...

Entraram no prédio que, daquele momento em diante, para o repórter de A Verdade passaria a ser a “casa mortuària”. D. Lanja dirigiu-se imediatamente para o quarto da morta. Queria ajudar as meninas a prepararem a sua amiga Quita para a Grande Viagem. Tibério deixou-se ficar na sala de visitas, abraçando e dando pêsames, frio e de má vontade, aos pastranas dos genros da defunta, que apresentavam aos visitantes caras tristonhas, mas que no fundo – sabia Tibério – deviam estar felizes, pois, com a morte da velha não só se livrariam da ditadura da sogra como também entrariam na posse de todos os bens materiais do mais rico ramo da árvore dos Campolargos.

 

Na opinião dos mais antigos habitantes de Antares, o velório de D. Quitéria foi o mais concorrido de quantos havia memória na crônica da cidade. As salas do primeiro andar do casarão passaram as primeiras horas da noite de quarta-feira abarrotadas de gente. Quando os galos começaram a cantar, anunciando um novo dia, grande ainda, excepcional mesmo, era o número de pessoas que mantinham a vigília. Segundo um dos genros da defunta, dentista de profissão e estatístico amador, a criadagem do palacete serviu durante toda a noite oitocentas e quatro xícaras pequenas de café, cento e cinqüenta e duas taças de chá, trezentos e oitenta sanduíches de presunto e queijo, trinta bandejas de doces, e cento e cinco tigelinhas com sorvete (abacaxi e limão). Ao raiar do dia, dois peões da estância vieram preparar churrascos para o “último pelotão”.

Tibério e Lanja estavam entre os amigos fiéis que viram a primeira luz do novo dia entrar pelas janelas escancaradas para o nascente e iluminar a face de sombria cera da morta, que lá estava no seu caixão forrado de seda branca.

Durante aquela noite, a intervalos, Tibério aproximara-se do esquife e ab se deixara ficar, olhando longamente para a velha amiga defunta. De vez em quando tocava-lhe a testa fria com as pontas dos dedos. Depois saía, em busca de ar fresco, ia caminhar no jardim dos fundos da casa. Fazia um calor opressivo na câmara ardente, onde umas velhotas da geração de Quitéria Campolargo mantinham-se sentadas em cadeiras enfileiradas contra uma das paredes, formando uma espécie de friso móvel e falante.

A romaria à mansão dos Campolargos havia começado ao anoitecer. Os quatro genros andavam dum lado para outro, solícitos, recebendo abraços de pêsames, mas já assustados, pensando nos perigos daquela aglomeração de homens e mulheres – alguns de pouca ou nenhuma intimidade da família, outros completamente desconhecidos – naquela mansão cheia de objetos finos, raros e caros, estatuetas, relógios de ouro e prata, vasos, camafeus, medalhas, cinzeiros. Tinha sido um erro imperdoável não terem escondido todas aquelas preciosidades antes que começasse a romaria. Os quatro genros, porém, foram pouco a pouco metendo alguns desses objetos nos bolsos e levando-os das salas da frente para as dos fundos, e fechando-os a chave em arcas e cômodas.

Houve, porém, um momento em que tiveram de interromper esse trabalho, pois mal se livravam dum abraço já eram envolvidos por outro. O genro veterinário estava consolando um velho amigo de D. Quita, que chorava no seu ombro, quando viu entrar na câmara ardente D. Filadélfia, a mais notória cleptômana municipal, trazendo como sempre pendente dum braço a sua famosa bolsa de pano bordado, o terror dos proprietários de lojas da cidade. Descendia essa senhora duma família antarense tradicional e era casada com um coletor federal aposentado, homem sério e pacato, a quem a doença dela causava freqüentes vexames.

O veterinário desvencilhou-se do velho carpidor e foi prevenir discretamente os cunhados: “Alerta” – cochichou. – “D. Filadélfia acaba de chegar. É preciso ficar de olho nela”. Lembrou-se da medalha militar que o velho Benjamim Campolargo ganhara na Guerra do Paraguai e que estava no seu estojo de veludo roxo, dentro dum armário de vidro, cercado de camafeus. O dentista lembrou-se, num susto, de que esse armário se achava aberto, pois sua chave havia desaparecido inexplicavelmente.

A cleptômana abriu caminho por entre a massa humana suarenta aglomerada na sala, aproximou-se duma mesi-nha com tampo de mármore, onde havia vários objetos decorativos, abriu a bolsa, deu um piparote numa colher, cujo bojo era feito duma moeda de prata do tempo do Império, fazendo-a cair dentro da bolsa entreaberta. Olhou dum lado para outro para verificar se alguém lhe havia percebido o gesto... Com outro piparote fez tombar dentro-- da bolsa um pequeno cinzeiro de nácar. Nesse instante alguém em algum lugar da sala bateu com o cotovelo num vaso de cerâmica, que caiu e se partiu em cacos. Algumas pessoas estremeceram. Pela primeira vez em toda a sua vida Quitaria

Campolargo não fez o menor movimento de susto ou irritação, como acontecia sempre que ouvia em casa o ruído de vidro ou louça que se parte. Continuou quietinha no seu caixão de pau-marfim com ornamentos de bronze, que mandara fazer para si mesma na melhor casa de pompas fúnebres de Antares, pouco depois da morte do marido. Ao redor do esquife as coroas e os ramilhetes de flores se iam acumulando aos poucos.

À meia-noite D. Filadélfia empalmou uma caixa de rape de louça pintada que, assegurava o dentista, era austríaca e datava de 1810. Depois ficou junto do caixão contemplando com olhos úmidos e tristes a face da falecida.

 

Tibério Vacariano achava-se no jardim, sentado a uma mesa de ferro, sozinho, pensando em coisas... A noite estava morna, o ar quedo e impregnado da fragrância das madres-silvas e dos jasmineiros. Tibério chamou uma das mulati-nhas da casa e pediu-lhe uma xícara de café, enquanto em pensamentos lhe acariciava os seios pontudos. (Que estaria fazendo a Cleo àquela hora?) O café veio sem demora. Tomou um gole e fez uma careta. Requentado! Acendeu um palheiro, tragou a fumaça, soltou-a pelo nariz. Havia no jardim outros homens, que conversavam, alguns em voz alta, contando estórias alegres. Um deles aproximou-se do coronel, que o espantou com sua cara amarrada e o seu silêncio. Estava irritado, infeliz. Sentia a morte da amiga. Com quem é que ia agora brigar com gosto? Quitéria era a única pessoa em toda Antares que tinha a coragem de dizer-lhe verdades e de contradizê-lo. Além de tudo ele sentia aquela greve geral como um insulto dirigido à sua pessoa, à sua autoridade, à sua fazenda. E as suspeitas de que Cleo pudesse àquela hora estar na cama com outro homem – possivelmente um rapazola – causavam-lhe um sentimento de frustração, de revolta misturada com vergonha.

Cerca das onze e meia da noite, o Maj. Vivaldino Brazão desceu para o jardim dos Campolargos e aproximou-se de Tibério. Trazia uma cara de mau agouro. Sentou-se pesadamente junto do amigo e fitou nele o olhar entre espantado e triste.

– Aposto como me trazes más notícias. Desembucha logo.

– O Cícero Branco morreu.

– Quê? – Vacariano entesou o busto, como que galvanizado, e com um gesto brusco do braço jogou longe a xícara e o pires, que se partiram nas lajes.

– Não pode ser! – exclamou. – Faz menos de duas horas que eu vi o Cícero aqui no velório, olhando o corpo da Quita. Ele até falou comigo. Me lembro bem das palavras dele. “Antares perdeu uma grande dama.” ó Vivaldino, você está brincando, não está?

O prefeito sacudiu a cabeça numa negativa desalentada, ao mesmo tempo em que passava o lenço pelo rosto reluzente de suor.

– Coronel, com essas coisas a gente não brinca. Estou lhe dizendo que o Cícero Branco morreu. Não faz nem meia hora. O corpo ainda deve estar quente.

– Mas como foi isso, homem de Deus?

– Quando ele saiu daqui, foi direito pra casa e no meio da praça teve um troço e caiu de repente. A mulher, que ia com ele, começou a gritar. Umas pessoas que andavam por ali botaram o Cícero dentro dum auto e levaram ele para o hospital, aonde o corpo chegou já sem vida.

– Coração?

– Derrame cerebral. Fulminante. É a sétima pessoa que morre hoje em Antares.

Os dois homens ficaram a mirar-se num silêncio omi-noso.

E ele lhe entregou a letra? – indagou Vacariano, temendo já a resposta que ia ouvir.

– Tinha prometido entregar hoje de manhã...

– Mas entregou ou não?

– Não.

– Mas por quê?

– Porque teve de ir inesperadamente a São Borja tratar de negócios. Voltou ao anoitecer e disse que nos entregava o documento amanhã de manhã.

– Estamos jodidos e mal pagos – murmurou Tibério.

E judicialmente a gente não pode fazer nada sem se comprometer.

– Isso eu sei, homem. Mas precisamos resolver logo esse problema. Eu vou ter um particular com a viúva, o quanto antes. Ela precisa saber que do dinheiro que o marido tem nos bancos no nome dele, mais de um terço nos pertence.

– Mas acha que ela vai querer perder essa bolada?

– Dá-se um jeito. O importante é agir antes que um advogado se meta no assunto. Temos conosco aquele documento assinado pelo Cícero declarando que é nosso sócio e que essas promissórias, etc– etc... você sabe bem como é a coisa.

– Acho perigoso revelar tudo isso à viúva.

– Quem tem medo de perigo – retrucou Tibério, entre duro e jocoso – não tem o direito de estar vivo.

Novo silêncio. Vaga-lumes pontilhavam de verde o ar da noite. Tibério Vacariano começou a falar baixinho, como para si mesmo:

– 1963... Ano ímpar, ano de azar. Não rima mas é verdade.

– Não acredito nessas coisas, coronel, como não acredito em almas do outro mundo.

– Melhor pra você. Eu meio que acredito em números. Meu pai morreu em 25. Em 35 perdi uma tropa inteira naquele desastre da ponte... Minha mãe faleceu em 1921. Meu irmão Porfírio, em 1923. Sofri daquela eólica de rim em 1939. O Jânio Quadros renunciou em 1961. E agora tudo isso... A morte da Quita, do Cícero, a greve geral, as loucuras do Jango e do Brizola... toda essa anarquia nacional...

 

Às dez da manhã do dia seguinte a cidade inteira já sabia que, desde o nascer do sol, o cemitério local estava interditado pelos grevistas, os quais, formando uma barreira humana – uns trezentos e cinqüenta ou quatrocentos homens de braços dados – não tinham permitido que fossem enterradas as cinco pessoas falecidas na véspera.

“Mas que pretendem eles com essa atitude tão antipática?” – perguntava-se. A resposta era, quase invariavelmente: “Fazer pressão sobre os- patrões para conseguir o que querem”.

Inocêncio Pigarço, delegado de polícia de Antares, queria romper a linha dos grevistas a bala. O prefeito, porém, repeliu a idéia. Não só procurava evitar derramamento de sangue, como também sabia que o município não dispunha de guardas em número suficiente para enfrentar os pare-distas.

– Que se faz então? – quis saber o delegado. – Parlamentar com os desordeiros? Não contem comigo para essa palhaçada.

– Não – respondeu Vivaldino Brazão. – Vamos esperar. Estou certo de que os operários não terão o topete de impedir o sepultamento duma dama como D. Quitéria Cam-polargo. A prova dos nove portanto vai ser tirada hoje de tarde, à hora do enterro da velha.

Às quatro horas da tarde o fèretro de Quitéria Campo-largo foi conduzido a pulso de sua casa até à Matriz e colocado em cima dum catafalco, à frente do altar-mor. Nesse curto trajeto dezenas de pessoas das mais representativas de Antares disputaram a honra de segurar-lhe as alças ou pelo menos de tocá-las, num gesto simbólico. Rezou-se uma missa de corpo presente. No dizer de D. Briolanja Vacariano a igreja estava tão cheia que não cabia nela nem mais um suspiro. Todos os assentos estavam ocupados, e havia gente de pé nos corredores entre as duas fileiras de bancos, e ainda nos espaços laterais, sob as naves, e também no fundo do templo.

Encostado numa coluna, mas vestido de escuro, à burguesa – fatiota completa com colarinho e gravata – o cronista social de A verdade tomava mentalmente nota da maneira como estavam vestidas as figuras mais destacadas do café society de Antares presentes àquela cerimônia fúnebre. Junto da pia batismal, logo à entrada da igreja, dois senhores calvos, de meia-idade, discutiam em cochichos a legítima de D. Quitéria: concordavam quanto à extensão e à qualidade dos campos das estâncias, a quantidade aproximada de gado bovino e de cavalos, tinham dúvidas quanto ao valor dos títulos que a falecida possuía e discrepavam quanto aos imóveis de propriedade da defunta. Ambos, porém, estavam de perfeito acordo num ponto: os quatro genros, em matéria de dinheiro, podiam ficar despreocupados pelo resto de suas vidas, os felizardos!

Com lágrimas nos olhos e na voz, o Pe. Gerôncio Albuquerque fez o elogio da defunta – a mais fiel das esposas, a mais extremosa das mães, a mais dedicada das amigas: incomparável dama de caridade, grande patriota, protetora dos pobres e dos desamparados – e encomendou sua alma a Deus.

Terminada a missa, o caixão, coberto com a bandeira dos Legionários da Cruz, foi carregado para fora da Matriz pelos parentes mais chegados da defunta e colocado no carro fúnebre. Havia tanta gente à frente da igreja que os guardas municipais tiveram de intervir, a fim de abrir alas para as damas e os cavalheiros que se encaminhavam para os seus carros. Vendo aquela multidão de criaturas humildes que se acotovelavam no afã de se aproximarem do caixão de Quitéria Campolargo, para tocá-lo nem que fosse apenas com a ponta dos dedos, como se se tratasse dos restos mortais duma santa – um ancião que descia as escadas do templo amparado no braço da filha, murmurou, os lábios trementes: “Que consagração!”

Formou-se finalmente o cortejo. À frente ia a Banda Municipal Carlos Gomes, vinte e dois músicos que, a um sinal do Lucas Faia – encarregado pelo prefeito e pela família enlutada de dirigir a procissão – romperam a tocar algo que poucos na multidão conseguiram identificar como a Marcha Fúnebre de Chopin, pois, embora as duas clarinetas e os dois pistons conseguissem emitir sons que se pareciam com o da conhecida composição, uns trombones alucinados tomavam a liberdade de enxertar notas que o compositor jamais escrevera para aquela peça, um flautim frenético entrava em tremolos desesperados, talvez com a louvável intenção de simular soluços, enquanto uma tuba roncava como um animal ferido no fundo duma toca, e um tambor surdo, coberto de crepe, tentava, mas em vão, marcar a cadência da marcha. Lucas Faia aproximou-se do maestro e recomendou: “Devagar, chefe, para o povo poder acompanhar a pé o enterro!”

A poucos metros atrás da banda, vinham trinta e três garbosos cavalarianos, escolhidos a dedo, e pertencentes ao Centro de Tradições Gaúchas Chimarrão da Saudade, do qual D. Quita havia sido sócia fundadora, além de mecenas e “prenda honorária”. Comandava o grupo o Nico, sobrinho-neto de Tibério Vacariano, rapaz melenudo de nariz grande, cara pequena e bastos bigodões negros, que lhe desciam espessos pelos cantos da boca, dando-lhe ares dum façanhudo guerreiro tàrtaro. Estava ele ladeado por dois companheiros, um dos quais empunhava a bandeira brasileira presa a um mastro de guajuvira e o outro uma bandeira do Rio Grande do Sul amarrada à lança que o avô de D. Quitéria usara na Guerra dos Farrapos.

Os outros cavalarianos formavam seis filas de cinco centauros cada uma. Pareciam um museu vivo da indumentária gauchesca. Viam-se no grupo campeiros do Rio Grande do Sul trajados não só à maneira de princípios do século passado, lembrando gravuras antigas (xiripás coloridos, ce-roulas de renda de crivo, botas de anca de potrò, vinchas ao redor das cabeças) como também gaúchos de épocas mais recentes, de bombachas, botas de fole e chapéus de abas largas. Estavam todos bem montados, em belos cava-los aperados a capricho – e suas facas, pistolas, estribos e esporas reluziam ao sol daquela tarde de verão.

Poucos metros atrás dos rapazes tradicionalistas rodava o coche fúnebre, seguido de dois outros carros abertos atestados de coroas de flores naturais e artificiais. Seguiam-se, em solene lentidão, os automóveis que traziam autoridades municipais, estancieiros, comerciantes, industriais e outros membros da alta burguesia local: Mercedes, Impalas, Cadillacs, Oldsmobiles. Chryslers e outros carros caros. Lucas Faia tivera o cuidado de colocar todas essas viaturas na sua ordem hierárquica, pois as menores, de origem inglesa, francesa e principalmente os Volkswagen, eram os últimos da longa fileira. Fechava o cortejo a massa humana que se arrastava anônima e a pé. (Os pesquisadores do Prof. Mar-tim Francisco Terra que, fazia poucos meses, tinham estudado a anatomia de Antares, na certa não deixariam de anotar aquele escalonamento social em termos de veículos.)

 

O cortejo fez a volta da praça, e depois entrou na Rua Voluntários da Pátria, que o levaria em linha reta e em suave aclive, até ao topo da colina onde se achava a cidade dos mortos.

Era uma tarde luminosa. Uma brisa morna trazia até à cidade o cheiro acre de macegas queimadas. D. Filadélfia, sentada ao lado do marido, no Chevrolet da família, olhou para o firmamento azul e límpido e suspirou: “Que beleza de céu! Parece uma taça de porcelana”. O ex-coletor, amargurado por causa do comportamento indigno da esposa no velório de Quitéria Campolargo, murmurou: “Graças ao bom Deus essa taça não cabe na tua bolsa”.

Quando o cortejo se achava já próximo do cume da colina, o Pe. Gerôncio olhou para a esquerda, avistou o casario pardo da Babilônia e choramingou: “Os pobres de Antares perderam a sua mãezinha”. Isso bastou para que D. Lanja desatasse de novo o pranto.

Tibério remexia-se, inquieto, esticando o pescoço para enxergar o caminho por cima dos ombros do chofer, pro- curando ver se os operários continuavam a bloquear a entrada do cemitério. Estava armado, pronto para o que desse e viesse.

De repente o cortejo estacou. Tibério viu o Nico trazer seu cavalo a galope até junto do carro do prefeito.

– Que é que há, moço? – perguntou este último.

– Os grevistas continuam fechando o cemitério. Estão formados numa fila dupla. Calculo que são uns quatrocentos... ou mais.

As ruas que partiam do coração da cidade, colina acima, terminavam todas numa esplanada, no centro da qual ficava a necrópole. Muitos prefeitos haviam prometido transformar aquele espaço num parque ou num jardim, mas até agora o planalto continuava abandonado às ervas daninhas e às formigas.

– Quais são as ordens? – perguntou o patrão do C.T.G.

– Tocar pra diante! – disse o prefeito. – Os homens descem na frente do cemitério, mas as mulheres devem ficar nos carros. – Olhou para o moço crinudo: – Leve os seus gaúchos e forme com eles uma fila simples na frente dos grevistas... mas não muito perto. Digamos... uns cinqüenta ou sessenta metros. Se houver provocação, que não parta da nossa gente. Entendido?

– Entendido – respondeu o rapaz, dando de rédea e voltando a galope para retomar o comando do seu piquete.

O cortejo continuou a marcha.

– Que foi que houve? – perguntou D. Briolanja ao marido.

– Nada! – respondeu Tibério, seco. – Fique quieta e pare de chorar.

– Minha Nossa Senhora! – exclamou ela. – Deus parece que se esqueceu de Antares.

– Nada de pânico! – repreendeu-a o marido, cujas narinas palpitavam na excitante expectativa dum entrevero. - E o senhor, vigário, também não se alarme. Acho melhor não descer do carro. Fique com as damas.

– Ora essa, coronel, não sou nenhum covarde.

– Desculpe. Como o senhor ainda usa “saia” eu me enganei. Então venha.

O cortejo de novo parou, dessa vez já na esplanada, a uma quadra do cemitério. Vacariano abriu a porta do seu carro e precipitou-se para o grupo que se formara junto da carruagem fúrlebre: os quatro genros da morta, o prsfeito, o juiz de Direito, o Prof. Libindo, o Dr. Lázaro, o Dr. Falkenburg, o Lucas Faia e outras pessoas representativas da sociedade local. Agora podiam ver melhor os grevistas, que estavam mesmo de braços enlaçados, formando uma cadeia, e err. fila dupla, em toda a extensão do muro fronteiro do cemitério. Nico calculara certo: seriam uns quatrocentos e poucos homens. Tibério reconheceu, à frente deles, o vulto imponente de Geminiano Ramos, ladeado por dois companheiros.

O delegado Inocêncio Pigarço aproximou-se do Maj. Vivaldino, seguido por vinte guardas da polícia municipal.

– Me dê luz verde – disse – e eu arrebento essa linha a bala!

O prefeito, o juiz. Tibério Vacariano e o vigário entreo-lharam-se, em silêncio. Os quatro genros de Quitéria Cam-polejgo, a curta distância do grupo das “autoridades”, estavam encolhidos e pálidos de medo.

– Não – disse o Maj. Brazão. – Nada de violência, delegado. Vamos tirar o caixão do carro e caminhar para o cemitério como se nada de anormal estivesse acontecendo. .Agiremos depois de acordo com as circunstâncias.

Os outros concordaram com acenos de cabeça. Vacariano de instante a instante apalpava o revólver que trazia agora no bolso direito do casaco.

E você, Inocêncio – acrescentou o prefeito – você nos siga com seus homens, mas não façam nem digam nada sem ordem minha. Não me desobedeçam!

O delegado, com um brilho mau nos olhos, não disse palavra, voltou as costas para o major e foi dar instruções aos seus guardas. Os quatro genros, atemorizados, pegaram nas alças do caixão da sogra e puxaram-no do carro fúnebre e, após um instante de hesitação, começaram a andar, muito devagar, na direção da entrada da necrópole. O povinho que acompanhara o cortejo fúnebre, estava agora também na esplanada à frente do cemitério, formando um semi-círculo irregular, espécie de anfiteatro em cuja arena estava por se representar o que o Prof. Libindo Olivares imaginava pudesse ser uma rústica tragédia grega e Lucas Faia, uma comédia provinciana macabra.

Geminiano e seus companheiros começaram a movimentar-se na direção das autoridades. (“Que alvo! – pensou Tibério, olhando para o vulto do chefe dos grevistas. – Que alvo! Um tiro naquela pança era fácil de acertar...”)

Os genros caminhavam em passadas cada vez mais lentas e hesitantes. Geminiano ergueu o braço:

– Alto lá, minha gente! Façam o favor de largar no chão esse esquife, que a nossa conversa vai ser meio demorada.

Vivaldino estacou, abriu as pernas, pôs as mãos nos quadris, ergueu a cabeça, autoritário, e bradou:

– Com ordem de quem... ?

Epa lá, major! – interrompeu-o o vozeirão de Geminiano. – Não nos venha com gritos e bravatas. O melhor é a gente discutir a coisa direitinho na calma. Para principiar, não precisamos licença de ninguém pra parar na frente do cemitério.

Os genros depositaram o fèretro da sogra no chão, esmagando algumas formigas que ali caminhavam em fila dupla, na mesma direção mas em sentido contrário, e na mais rigorosa neutralidade.

– Mas, afinal de contas, que é que vocês querem? – indagou o prefeito.

– O cemitério está fechado. Este cadáver não pode ser sepultado.

– Mas isso é uma barbaridade! O cemitério pertence ao município!

– Os coveiros estão em greve.

– Ridículo! São empregados públicos. E onde está o zelador do cemitério?

– Em casa e em greve também.

Tibério Vacariano, já respirando acelerado, continha-se a custo. Queria precipitar-se sobre Geminiano e esbofe-teá-lo. Mas o Dr. Lázaro segurou-lhe o braço e disse:

– Calma, coronel. Tenha paciência. Não perca as estribeiras. Pense no seu coração.

– Nesta hora o único órgão que funciona no meu corpo são os testículos.

– Onde estão os coveiros? – perguntou o prefeito. Geminiano voltou a cabeça para trás e fez um sinal

com a mão. Três vultos destacaram-se da fileira de grevistas e deram alguns passos à frente. Vinha com eles um homem moço, vestido de alpaca cinzenta, com colarinho clerical. Era o Pe. Pedro-Paulo, capelão da Vila Operária. Va-cariano voltou-se para o velho vigário, que estava a poucos passos atrás dele, e resmungou: “Está vendo quem vem vindo lá... quem está do lado dos grevistas? O safado do Padre Vermelho. Esse comunista filho duma grandessíssima...” Engasgou-se antes de terminar o insulto. “Calma, coronel” – murmurou o Dr. Lázaro.

Os três coveiros aproximaram-se de Geminiano e permaneceram a seu lado. Eram homens magros de pele e vestes encardidas, em mangas de camisa e calças remendadas. Recendiam a suor muitas vezes dormido. Um deles estava de pés no chão e os outros dois calçavam velhas alpargatas.

– Eis os seus “funcionários”, Maj. Vivaldino. Estão em trajo de gala, como todos podem ver.

– Mas que negócio é esse? – perguntou o major, dirigindo-se aos coveiros. – Vocês são empregados da prefeitura. Abram já-já a porta do cemitério e sepultem o caixão da D. Quitéria Campolargo. E uma ordem do prefeito!

Os três homens olhavam para o chão, sem coragem de encarar seu chefe.

– Eles também querem um aumento – disse o Pe. Pedro-Paulo. – Vivem com um salário de fome. Todos os três têm famílias numerosas. Há anos que ganham o mesmo ordenado miserável.

E isso será da sua conta? – gritou o Cel. Vacariano, olhando com rancor para o jovem padre.

– Isso é da conta de toda a população de Antares – replicou Pedro-Paulo.

O prefeito continuava a encarar o líder grevista-.

– Mas que é que vocês industriários têm a ver com os coveiros?

– Eles aderiram à nossa greve. Nós os protegeremos até o fim.

– Não acredito! – exclamou Tibério. – Esses homens estão sendo forçados a se meterem na greve. Eles nem sequer sabem direito o significado dessa palavra.

– Sabem melhor do que você! – retrucou Geminiano.

Tibério Vacariano desvencilhou-se de seu médico, atirou-se contra o líder grevista, já de revólver em punho. Geminiano quebrou o corpo, segurou a mão direita de seu agressor, ergueu-a para o ar e em poucos segundos desarmou-o. Depois, sem dizer palavra, encostou-lhe na cara a mão espalmada e empurrou-o com força, fazendo-o cair sentado no chão. O delegado de polícia avançou, também de pistola na mão, seguido do patrão do Chimarrão da Saudade, mas o prefeito os conteve com gritos e gestos. O chapéu caído no solo, a seu lado, ofegante, babando-se de ódio, Tibério Vacariano olhava para Geminiano que, com a maior pachorra, tirava as balas do seu revólver – relíquia paterna, companheiro de incontáveis pelejas, jamais caído em mãos inimigas. O jornalista, o professor e o juiz procuravam conter o delegado e o patrão do C.T.G., que insistiam em investir contra Geminiano e seus companheiros, fosse como fosse. Pedro-Paulo continuava ao lado dos coveiros.

Geminiano meteu as balas no bolso e depois atirou a arma aos pés do patriarca da família Vacariano, que já agora se erguia, ajudado pelo seu médico.

– Guarde essa porcaria, velho bobo! E convença-se de que os tempos mudaram. Antares não é mais propriedade sua. – Voltou-se para o prefeito. – E agora vamos conversar como gente grande. E de igual pra igual. Os senhores já viram que não temos medo de caretas.

– Major – gritava Inocêncio – dê a ordem e nós abriremos caminho a bala!

– Essa eu pago pra ver! – sorriu o chefe dos grevistas. – Somos uns quatrocentos aqui, e estamos armados. Temos mais gente na cidade também armada e disposta a tudo.

– É uma sedição! – exclamou o juiz de Direito.

O delegado repôs sua arma no coldre, com certa relu-tância. O patrão do C.T.G. aproximou-se do prefeito e disse-lhe ao ouvido:

Meus cavalarianos estão dispostos a fazer uma carga contra os grevistas. Só esperamos uma ordem sua.

Um companheiro que lhe seguira no encalço, atirou-lhe água fria no entusiasmo:

– Escuta, chê, te lembra que nossos revólveres estão descarregados. E alguns companheiros trazem garruchas que não funcionam há quase cem anos.

– Pois então – replicou o Nico – vamos de adaga, faca, pata de cavalo e rebenque.

O Prof. Iibindo segurou-lhe o braço:

– Calma, calma. Com violência não arranjamos nada. E citou uma frase latina.

– Mas estamos sendo desmoralizados na frente do povo de Antares! – exclamou o rapaz.

– Espere – disse o prefeito – a razão está do nosso lado.

O Dr. Lázaro tentou levar o Cel. Tibério de volta para o seu automóvel, mas não conseguiu. O velho pedia balas, de calibre 38 – quem tinha balas para lhe dar? Quem tinha vergonha na cara para reagir?

Por um instante uma orquídea passou grácil e veloz pelo pensamento de Vivaldino Brazão.

– Mas, afinal de contas, que pretendem os senhores grevistas com essa atitude insólita? – perguntou o juiz de Direito.

– Aumentar nossa pressão sobre os patrões e fazer triunfar a nossa causa.

O magistrado fez um sinal na direção do esquife.

– Mas que é que essa senhora tem a ver com a greve?

– Com a nossa, nada. Mas com a dos coveiros, muito. Foi nesse momento que o Prof. Libindo, que andara

aflito dum lado para outro acalmando os ânimos com citações de Goethe, Confúcio e Platão, interveio:

– Está bem. Senhor prefeito, sugiro que s’è dispensem os coveiros. Nós mesmos sepultaremos D. Quitaria.

Geminiano sacudiu vigorosamente a cabeça flamenga.

– Nada feito! Resolvemos em assembléia geral, anteontem, que só permitiremos o sepultamento, seja de quem for, depois que os patrões atenderem às reivindicações salariais de todos nós.

– Mas isso é uma chantagem, além dum acinte, duma vergonha! – reagiu o prefeito.

Pedro-Paulo apontou para o nascente, na direção da Babilônia.

– Acinte? Vergonha? E aquela favela que é? O orgulho de Antares?

Tibério Vacariano, que havia recobrado fôlego, olhou colérico para o capelão da Vila Operária:

– Um sacerdote de Deus metido com comunistas 1

– Eles não são comunistas, coronel, são grevistas – disse Pedro-Paulo.

Tibério voltou-se para o Ps Gerôncio, que estava de cabeça baixa como que atento à marcha das formigas:

– Vigário, envie uma denúncia ao bispo desta diocese e consiga que mandem esse padre subversivo para longe daqui!

– O senhor bispo – respondeu o vigário em voz baixa – está bem informado das atividades e idéias do Pe. Pedro-Paulo.

– Pois eu já não confio mais nos bispos. .. – retrucou Vacariano. – Nem no Papa. Estão todos a soldo de Moscou !

 

O juiz de Direito olhou para Pedro-Paulo:

– É estranho que o senhor tenha concordado com a decisão que os grevistas tomaram de impedir os sepultamen-tos. É um ato sacrilego.

– Eu não concordei, ao contrário! – explicou o capelão. – Estou ao lado dos grevistas nas suas reivindicações trabalhistas. Fiz o que pude para evitar... isto. Mas não consegui convencê-los. Sinto muito.

O Pe. Gerôncio olhava agora tristemente para o esqui-fe, murmurando:

– Todos os mortos merecem o nosso respeito. Ricos e pobres. Brancos e pretos. Devemos venerar os mortos.

– É curioso – retrucou Pedro-Paulo – estranho que haja tanto respeito pelos mortos e tão pouco pelos vivos. – Encolheu os ombros. – Claro! É fácil ser justo e compreensivo para com os que morrem. Basta enterrá-los... e eles nos deixam em paz. Agora, é difícil compreender e ajudar os vivos vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano, ano após ano...

O sol caía para as bandas do grande rio e sua luz aos poucos se abrandava.

O prefeito olhou firme para Geminiano :

– Faço-lhes mais um apelo. Deixem-nos sepultar essa santa senhora.

– Nossa resposta é não. Já temos cinco caixões en-fileirados diante do cemitério. Num deles está o corpo dum proletário, dum velho companheiro de luta. Como vêem não abrimos exceção para ninguém.

– Essa é a sua última palavra?

– E, Pedra e cal.

– Mas a solução para a greve pode demorar – observou o Prof. Libindo. – Esses cadáveres não podem permanecer tanto tempo insepultos. É um perigo.

– Podem, sim – replicou Geminiano. – Os mortos não reclamam. Os mortos têm uma paciência inesgotável.

O prefeito reuniu seus companheiros – o Cel. Tibério, o juiz, o padre, o jornalista, o professor e algumas pessoas gradas, inclusive os quatro genros da defunta – e confa-buloü com eles. Depois de alguns minutos voltou-se para Geminiano, dizendo em voz alta, como se estivesse discursando para a multidão:

– Senhoras e senhores, resolvemos, sob protesto, levar o esquife de D. Quitéria de volta para a cidade e esperar o desenvolvimento dos acontecimentos. E desde já responsabilizo os grevistas, na pessoa do Sr. Geminiano Ramos, pelo que possa acontecer em conseqüência de toda essa loucura inaudita. (O prefeito disse inaudita.)

Geminiano sorriu com malícia:

– Eu já esperava esse truque. Nossa resposta é negativa. Vocês levam o esquife pra cidade e enterram ele noutra parte... na estância da finada, por exemplo. O caixão vai ficar é aqui com os outros cinco. Guardaremos o corpo de D. Quita como refém.

Houve entre os pró-homens de Antares um fundo silêncio de espanto e indignação. O Pe Pedro-Paulo aproximou-se do líder operário:

Gemini ano, quem sabe podemos chegar a um acordo menos...

– Nada disso, padre! Temos de dar duro. O senhor não conhece direito essa gente.

– Pense na impopularidade que essa atitude dos grevistas vai trazer para a causa da greve.

– Estou cumprindo as decisões da assembléia geral. O senhor estava na reunião e ouviu tudo. A idéia não foi minha. Nem sua. Foi da maioria. E vai ser cumprida.

 

O povo seguia a cena num silêncio ominoso.

Lucas Faia, postado entre Geminiano e Vivaldino, discursou:

– Distintas autoridades! Senhores! Amigos! Temos que usar do bom-senso numa situação como esta. As recri-minações ficam para depois. Ou para nunca. Somos todos irmãos. Ninguém é perfeito. O importante, me parece, é evitar o sangue e a violência. Assim, proponho que deixemos o esquife de D. Quitéria aqui esta noite sob a custódia dos grevistas, a cuja dignidade apelamos. É possível que amanhã de manhã ou mesmo esta noite tenhamos respostas satisfatórias para os operários, vindas das matrizes do Frigorífico e da Franco-Brasileira.

A proposta foi recebida em silêncio pelo prefeito e seus amigos. O Cel. Vacariano sacudiu negativamente a cabeça, murmurando: “Por mim, abria-se caminho a bala e pata de cavalo. Os rapazes do Chimarrão da Saudade estão dispostos. Faremos como nas guerras antigas. Na do Paraguai e na de 35 a cavalaria gaúcha arrebentou muitos quadrados inimigos. Não transijo com cafajestes”.

Lucas Lesma esperou que o velho terminasse de falar, e depois continuou:

– Geminiano – disse, aproximando-se do líder grevista. – Você me conhece há muitos anos. Meu jornal não tem sido desfavorável às suas causas. E você sabe que sou amigo do proletariado sem ser inimigo dos patrões. Sou um homem sem partido nem paixões.

– Vamos, Lucas, diga logo o que é que você quer.

– Você me garante, sob palavra de honra, que este esquife não será violado esta noite?

– Ora, homem, deixe de besteiras, não existem entre nós necrófilos nem vampiros.

De novo o prefeito, o juiz, o vigário, o médico, o delegado e o Cel. Vacariano confabularam em voz baixa. Este último propôs voltar para a cidade, reunir os seus “caboclos”, armá-los, tornar à esplanada e romper as fileiras proletárias usando da maior violência possível, “pra que isso sirva de escarmento a esses bandidos comunistas”. O vigário limitou-se a baixar a cabeça, mas o juiz disse:

– Como estamos em minoria, acho a proposta do Lucas aceitável. É a única coisa sensata que podemos fazer no momento. Voltemos para as nossas casas e demos tempo ao tempo.

E assim ficaremos desmoralizados pelo resto da vida – criticou-o o patriarca dos Vacarianos.

– Coronel, – explicou o prefeito – perderemos esta batalha mas ganharemos a guerra. Não seja assim tão pessimista.

Uma catléia acenou-lhe de longe, em seus pensamentos. Vivaldino voltou-se para Geminiano:

– Onde deixamos o esquife?

– Junto com os cinco que lá estão perto do muro do cemitério.

– Vocês o carregam?

– Não. Carreguem vocês que são donos da defunta. Os quatro genros, que suavam frio, tornaram a segurar as alças do caixão da sogra, ergueram-no e encaminharam-se com passos incertos e cambaleantes de bêbedos rumo do cemitério. Na fileira dos grevistas abriu-se um pequeno claro para deixá-los passar.

– Onde colocamos o fèretro? – perguntou o genro farmacêutico.

– Perto desse aí. É o caixão dum indigente. Não tenham receio. Pobreza não é doença contagiosa.

Os genros obedeceram. Lançaram um rápido olhar para o belo esquife da sogra e depois se afastaram rápidos, voltando para o seu grupo.

Quando o Maj. Vivaldino se encaminhava para o seu carro, seguido pelos companheiros, a multidão, que até então se mantivera um tanto distante das personagens principais do drama, aproximou-se dele, cercando-o. Antes de entrar no seu Mercedes o prefeito aproveitou a oportunidade para fazer um pequeno discurso:

– Há momentos na vida dum homem público – disse com voz grave, erguendo a mão direita com o indicador teso – em que seu maior ato de coragem é o de passar por fraco, por covarde aos olhos do povo. Mas que ninguém interprete mal o que acaba de acontecer, é o que eu desejo e espero! Isso não vai ficar assim! Tão certo como existe um Deus no Céu, hei de responsabilizar os grevistas na pessoa de seu chefe Geminiano Ramos, não só por desacato às autoridades constituídas como também por esse sacrilégio infame de impedir o sepultamento de uma das damas mais ilustres e queridas de nossa sociedade. Os senhores foram testemunhas da nossa paciência e da nossa tolerância. Não permiti que a minha polícia atirasse nos grevistas para evitar uma... um massacre. Mas quero comunicar ao povo de Antares que tenho forças suficientes para abafar qualquer tentativa de subversão da ordem, venha de onde vier. Tenho dito.

Calou-se. Ouviu-se um vago “muito bem” no meio da multidão. Não houve, porém, aplausos. Vivaldino tornou a apresentar condolências aos quatro genros. (“Os senhores viram. Fizemos o possível. Mas tenham paciência. A coisa não fica assim.”) Abraçou um a um os quatro homens de preto, os quais em seguida se dirigiram em silêncio, luto no corpo e nas faces, rumo de seus carros, onde as respectivas esposas os esperavam aflitas.

No momento em que eles passavam por dois sujeitos que estavam sentados em cima duma pedra, um destes, o que picava um pedaço de fumo em rama, murmurou para o outro:

– Viste a cara dos genros da velha Quita?

– Vi. Coitados.

– Coitados? Coitado de mim que não recebo os meus vencimentos há três meses e estou devendo a meio mundo. A “tristeza” desses quatro sujeitos nada tem a ver com a morte da sogra. A velha era uma tirana.

– Que é, então?

– Estão preocupados porque D. Quitéria foi enterrada com as suas jóias mais preciosas.

– Não diga, chê!

– Pois é. Um anel com um diamante do tamanho dum grão-de-bico. Um broche de rubis. Um colar de pérolas legítimas. Uns brincos não sei bem de quê... parece que de esmeralda. E uma pulseira de ouro maciço. Jóias de família.

– Bá!

– É para você ver... Esses caras estão preocupados porque dentro daquele caixão vão ficar abandonados centenas de milhões de cruzeiros...

– Pô!

 

O piquete do C.T.G. pôs-se em movimento. O patrão recomendou aos companheiros que não tocassem os ginetes a galope para a coisa toda não dar a impressão de retirada e derrota. A banda de música fazia muito se havia dispersado, pois o seu maestro tinha um horror neurótico às balas perdidas. Os automóveis do cortejo também se puseram em movimento, rumo do centro da cidade.

Dentro do seu Cadillac, sentado entre a esposa chorosa e o Dr. Lázaro, que lhe tomava o pulso, Tibério Vacariano ainda of egava. “Nunca...” – murmurou – “nunca em toda a minha vida... nunca nenhum homem me derrubou... nunca me encostou a mão na cara... nunca... nunca nenhum filho da mãe me desarmou... nunca nestes setenta anos da minha vida... Canalha! Ele me paga... Não perde por esperar...” O Dr. Lázaro continuava segurando entre o polegar e o indicador o pulso do seu ilustre cliente, enquanto olhava para o próprio relógio-pulseira. O padre voltou para o seu amigo uma face consternada. “Que tal, doutor?” – perguntou. O Dr. Lázaro disse: “O pulso está voltando ao normal. D. Lanja, bote este homem na cama imediatamente. O essencial agora é o repouso. Vou receitar um tranqüilizante”.

– Não tomo essa bosta!

– Toma, sim – murmurou sua mulher, maternal. – É pro teu bem, Tibé.

– Hoje ele não deve jantar, só pode tomar líquidos – tornou o médico. – Faça-lhe um caldo de galinha. Nada de café nem de cigarro. Repouso e dieta.

Tibério, a cabeça atirada para trás contra o respaldo, rosnava: “Um calhorda qualquer... na frente de toda aquela gente. E nenhum dos meus filhos presentes pra me ajudar. Se eu não meter uma bala no meio da testa daquele bolchevista me considero desonrado. Não posso mais andar na rua sem morrer de vergonha e tristeza”.

– Coronel – reclamou o Dr. Lázaro – se o senhor continua assim, acho que tenho de levá-lo para o hospital.

– Hospital? Eu? Nunca. Só se me carregarem amarrado!

– Pois então faça o que o doutor está te recomendando – interveio a esposa.

– A cama é só por hoje – explicou o médico. – Amanhã talvez o senhor já possa se levantar. Vamos bater logo um eletrocardiograma.

– Já me vem você com o seu gramofone. Meu pai viveu mais de oitenta e cinco anos sem precisar dessas frescuras.

Fez-se um silêncio dentro do automóvel. Estavam já perto da Praça da República. Via-se muita gente nas calçadas. “Por que é que estão me olhando?” – perguntou Tibé-rio. – “Decerto sabem que um operário sujo me desarmou e me derrubou. Decerto estão fazendo troça de mim.” Lágrimas rebentaram-lhe nos olhos e escorreram-lhe pelas faces.

 

Geminiano concluiu que, se tivessem de ficar ali junto aos féretros, seria desagradável para seus companheiros revezarem-se durante a noite inteira na guarda da entrada do cemitério. O melhor que podiam fazer para evitar que durante a madrugada “o inimigo” se infiltrasse na esplanada e viesse sepultar os seus mortos, era deixar grupos de quatro homens montando guarda à boca de cada uma das ruas que davam para o pequeno planalto.

Foi o que se fez. Quando a noite caiu – morna, estrelada, pingada de vaga-lumes e rascada de grilos – o alto da colina estava completamente deserto de humanidade viva. Numerosas turmas de formigas faziam serão. Lagartos corriam por entre macegas e caraguatás. Aves noturnas fre-chavam o ar em vôos curtos, acomodavam-se nas árvores ou nos túmulos, eventualmente bicavam insetos ou vermes.

Cerca das três da madrugada, um vulto humano saiu de seu esconderijo – um valo encoberto pela copa de árvores – e caminhou meio agachado na direção do cemitério. O seu nome? Nem ele mesmo se lembrava, direito, pois tinha usado muitos em sua vida, um para cada cidade onde operava. Estava sendo procurado pela polícia de muitos municípios por delitos de furto e roubo. Soubera à tardinha que o mais fino dos sete esquifes insepultos continha uma defunta ricaça, coberta de jóias valiosas. Fizera o seu plano e metera-se no valo, antes do sol sumir-se. Agora, se conseguisse fazer o “serviço” rapidamente e fugir para o estrangeiro, poderia ir vendendo as jóias aos poucos, com a maior precaução. Um cúmplice o esperava com um cavalo enci-lhado, numa das muitas encruzilhadas nas vizinhanças de Antares. Ele tentaria cruzar o rio perto da divisa com o Estado de Santa Catarina e tentar a sorte na Argentina ou mesmo no Paraguai.

Continuou a andar com toda a cautela, parando de quando em quando para olhar em torno e ficar atento aos ruídos da noite. Levava no bolso do casaco uma lanterna elétrica e no das calças um pé-de-cabra. Era a primeira vez que ia espoliar um cadáver. O principal era não chamar a atenção dos operários que guardavam as entradas das ruas, a uns duzentos metros dos muros do cemitério. Só acenderia a lanterna quando o caixão estivesse já aberto e ele precisasse localizar as jóias no corpo da defunta.

Seu coração batia sereno. Tinha bons nervos. Se não tivesse, não poderia exercer aquela profissão.

Chegou a uma das esquinas do cemitério e sondou com o olhar a entrada das ruas fronteiras. A cidade estava às escuras. À fraca luz da lua não divisou nenhum vulto humano. Felizmente a uns dez metros à frente do muro principal do cemitério estendia-se um longo renque de cinamo-mos copados, que produziam uma zona de sombra onde ele poderia trabalhar sem ser percebido. Teria o cuidado de esconder a luz da lanterna com o próprio corpo.

Sempre colado ao muro (boa idéia, ter vestido a roupa clara) o ladrão aproximou-se dos sete esquif es. O primeiro deles, bem à frente do portão da entrada, era preto e havia sido trazido às cinco da tarde. O seguinte – o claro e pequeno – era o que procurava. Ajoelhou-se ao pé dele, de-satarraxou-lhe a tampa e, contendo a respiração, ergueu-a, fazendo-a depois escorregar de mansinho para um lado. Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a. Focou primeiro as mãos da morta, pois ouvira falar no famoso solitário de brilhante- Opa! Naqueles dedos cor de cera de abelha não viu nenhum anel. Os pulsos estavam sem pulseiras. Iluminou o peito da defunta e não viu nenhum broche. No pescoço, nenhum colar... Numa relutância supersticiosa focou o rosto do cadáver da dama e estremeceu. Os olhos dela estavam abertos, seus lábios começaram a mover-se e deles saiu primeiro um ronco e depois estas palavras, nítidas: “Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma”. O ladrão soltou um grito abafado, ergueu-se rácido, deixou cair a lanterna acesa e o pé-de-cabra, e rompeu a correr na direção dos campos desertos...

 

Quando viva, Quitéria Campolargo gostava de ficar às vezes contemplando o céu da noite – “garimpando estrelas”, como ela própria costumava dizer. Era uma espécie de jogo divertido que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as constelações – Orion, o Cão Maior, o Sagitário, o Triângulo Austral, o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul que, por misteriosas artes do coração e da memória, ela não considerava uma constelação universal, mas parte do patrimônio brasileiro. Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas humanas, ela procurava no céu o Escorpião e, se ele já estivesse visível, localizava a estrela An-tares, pensava no seu diâmetro mais de quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronômicas com as mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida. E sempre que se sentia melancólica ou entediada e vinham dizer-lhe que alguém a chamava ao telefone, respondia: “Diga que não estou em casa, que fui para Aldebarã...”.

Agora, estendida no seu esquife, D. Quitéria está de olhos abertos e parece contemplar um pedaço do firmamento da madrugada. Apalpa as contas do rosário, que tem entre as mãos enlaçadas, e seus lábios se movem formando as palavras duma prece.

Um vaga-lume esvoaça no campo de sua visão e acaba pousando na ponta de seu nariz. Ela o enxota com um movimento de cabeça. Depois, agarrando ambas as bordas do caixão, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno – a solidão da esplanada e da noite, e aquela mancha luminosa e redonda num muro branco...

Retomando a prece do princípio, num sussurro – Pai Nosso que estais no Céu – ela se vai aos poucos levantando – santificado seja o Vosso nome – e por fim fica numa posição perpendicular ao esquife – venha a nós o Vosso reino – depois ergue a perna direita por cima da borda do caixão e estende o pé devagarinho, como quem experimenta a medo a temperatura da água duma banheira – seja feita a Vossa vontade – e a sola de um de seus sapatos toca o chão, seus dedos apertam a cruz do rosário – assim na Terra como no Céu... Ao terminar o Padre-Nos-so, está já fora do esquife, ambos os pés no chão, os olhos fitos num outro caixão – esse negro, com alças prateadas, e no qual ela se põe a bater de leve com o bico dos sapatos.

Durante alguns minutos a defunta fica a olhar em torno – para a esplanada, o céu, o muro do cemitério, a lanterna acesa caída no chão... Depois se põe de joelhos e nessa posição, lentamente, faz a volta do esquife vizinho, desatarraxando-lhe a tampa, que tenta em vão erguer, terminada a operação. Bate três vezes com o punho cerrado na tampa do caixão negro, cujo ocupante responde, após segundos, com três batidas semelhantes. D. Quitéria vê a tampa que ela desaparafusou erguer-se lentamente e por fim cair para um lado. Um homem de estatura mediana e vestido de escuro sai do seu fèretro, dá alguns passos com uma rigidez de boneco de mola, olha a seu redor, inclina-se, apanha a lanterna, passeia a sua luz pelo muro do cemitério, depois pela copa dos cinamomos, projeta-a contra a esplanada e por fim foca o rosto da dama, que continua ajoelhada.

– D. Quitéria Campolargo! – exclama o desconhecido. – Que honra! Que prazer!

– Quem é o senhor?

– Vamos ver se me reconhece...

Volta o feixe luminoso da lanterna sobre o próprio rosto.

– Estou conhecendo... mas não tenho a certeza.

– O Dr. Cícero Branco!

– Mas a sua cara está diferente.

– A morte, que eu saiba, nunca melhorou a cara de ninguém.

– O que me despistou foi essa mancha arroxeada no lado direito de seu rosto... Mas quando foi que o senhor. .. faleceu?

– Ontem, se não me falha a memória.

– Coração?

– A mancha que a senhora vê pode ser um sinal de que fui fulminado por uma hemorragia cerebral maciça. Eu ia atravessando a praça quando de repente tudo ficou escuro.

D. Quitéria põe-se de pé, ergue a cabeça para o céu.

– Pela posição do Cruzeiro do Sul acho que são três horas da madrugada. Como se explica que estamos ainda insepultos e abandonados fora dos muros do cemitério?

Cícero encolhe os ombros.

– É isso que me intriga. Mas estou também curioso por saber como foi que a senhora conseguiu sair de seu es-quife...

– Ora, eu estava serena no sono da morte quando de repente vi uma luz fortíssima. Imaginei que fosse o olho luminoso de Deus e disse-. “Aqui estou, Senhor, em Vossas mãos entrego a minha alma!”. Ouvi um grito de susto, a luz caiu e entrevi o vulto dum homem que saía disparando. ..

– Possivelmente um desses profanadores de cemitérios ...

– Talvez tenha sido isso mesmo, um ladrão... – Põe-se a apalpar os dedos, o pulso, o peito, o pescoço, as orelhas. – Ai! Fui roubada, doutor! O bandido levou todas as minhas jóias! – Levanta-se. – Fui roubada! Meu Deus! Jóias antigas de família...

– Desculpe-me, D. Quitéria, mas asseguro-lhe que a senhora foi posta no seu esquife sem nenhuma das suas jóias, nem mesmo a aliança de casamento.

– Como é que o senhor sabe?

– Simples. Fui ao seu velório prestar-lhe uma homenagem. Por sinal levei-lhe um ramo de gladíolos vermelhos e amarelos, que eu mesmo depositei junto de seu corpo. Fiquei algum tempo a seu lado. Seu amigo Tibério Vacariano é testemunha desse fato. Conversamos a seu respeito, fizemos os maiores elogios (aliás muito merecidos) à sua pessoa. Mas repito, sob palavra de honra, que não vi no seu corpo nenhuma jóia.

– Mas eu deixei com minhas filhas e meus genros disposições escritas muito claras: queria trazer comigo para a sepultura todas as jóias que herdei de meus antepassados ...

– As suas disposições não foram então cumpridas.

– Tratantes! Gananciosos!

Ela sai a caminhar devagarinho dum lado para outro, arrastando os pés, com as mãos na cintura.

– D. Quitéria, eu não os censuro. Seria um desperdício sepultar nesse caixão algumas centenas de milhões de cruzeiros...

– Mas não basta o que lhes deixo em terras, casas, títulos, dinheiro, sim, e outras jóias de valor?

Cícero Branco encolhe os ombros:

– A cobiça humana não tem limites, minha senhora.

– Bom, quero lhe agradecer por ter ido ao meu velório. Obrigada pelos gladíolos.

– Não me agradeça. Já que estamos mortos e não somos mais personagens da comédia humana, posso ser absolutamente franco e confessar-lhe que a homenagem que lhe prestei teve uma finalidade utilitária. Eu queria agradar a sua família, pois estava de olho no inventário de seus bens.

– Bom, já que estamos no jogo da verdade... nunca simpatizei com o senhor.

– Ora, por quê?

– Porque sempre o tive na conta dum advogado chi-canista e desonesto.

– Ninguém jamais me acusou de incompetente.

– Não vejo nenhuma incompatibilidade entre a competência e a honestidade.

– D. Quitéria, com o devido respeito à sua pessoa, conheço tão bem a história da sua família, que poderia escrever sobre os Campolargos um livro de arrepiar os cabelos. Seu tio e sogro Benjamim não era nenhum santo. Aí nesse cemitério estão enterradas umas oito ou dez pessoas que ele mandou matar ou matou com as suas próprias mãos. Quanto a roubalheiras, peculatos e abigeatos, os Campolargos só perdem para os Vacarianos...

– Bastai – exclama a velha. – Basta! Se não estamos sepultados, enterremos pelo menos o passado de nossas famílias.

Tira a lanterna bruscamente da mão do advogado e faz incidir seu raio luminoso sobre os outros cinco caixões ali enfileirados.

– Quem são esses?

– Gentinha sem importância, com exceção de dois...

– Por que não os tiramos para fora desses... dessas caixas?

– Estou lhe prevenindo que não são pessoas da sua classe...

– Bobagem! Morto não tem classe. Além disso, estou curiosa para ver as caras desses viventes, quero dizer, desses mortos.

– Seja feita a sua vontade. Tenha então a bondade de sentar-se.

Quitéria senta-se na cabeceira do próprio esquif e, o rosário sempre entre os dedos e começa a balbuciar uma oração muito antiga, que no tempo de menina aprendeu de sua avó numa noite de tempestade.

O Dr. Cícero começa a abrir o primeiro dos outros féretros. Em poucos momentos tem a seu lado o vulto dum homem mais alto que ele. Ambos entram numa altercação em surdina. Cícero ilumina’ com a luz da lanterna a cara do terceiro defunto e depois a própria.

– Você também por aqui?

– Pois é. Coisas da vida. Depois eu explico. Me ajude a abrir os outros quatro caixões.

O próximo, de qualidade ordinária, é feito de tábuas rústicas, pregadas. O advogado apanha do chão o pé-de-cabra que o ladrão deixou cair, e começa a forçar as tábuas da tampa, enquanto o outro homem desatarraxa o esquife seguinte. Dentro de poucos minutos D. Quitéria Campolargo tem diante de si, naquela faixa de sombra mais escura que a noite, seis vultos.

– Bom! – diz o Dr. Cícero. – Enfileirem-se contra o muro, que eu quero fazer as apresentações...

– Quem é você para me dar ordens? – protesta o homem alto de voz grave e áspera.

– Ó criatura! – replica o advogado. – Você não compreende que estamos todos mortos e que essas susceti-bilidades dos vivos acabaram-se para nós? Mas se você ainda vai atrás de palavras, reformulo o meu pedido: “Façam a fineza de se enfileirarem naquele muro por alguns instantes ...”

Todos obedecem e ficam de costas para o muro do cemitério, como diante dum pelotão de fuzilamento.

 

Como um mestre-de-cerimônias, Cícero faz o raio de luz da lanterna elétrica iluminar o rosto do primeiro homem da fila, o mais alto de todos: uma face eqüina, a pele dum moreno de cigano, cabelos e bigodões grisalhos, a arcada dentária muito saliente, os dentes amarelados e fortes.

– Este é o José Ruiz^ vulgo Barcelona.

– O sapateiro comunista! – exclama D. Quitéria.

– Alto lá, minha senhora! – protesta o apresentado, erguendo a mão. – Não confunda anarco-sindicalismo com comunismo. Considero isso um insulto às nossas idéias!

– De que morreu? – quer saber a matriarca dos Cam-polargos.

– Não sei nem me interessa – replica o sapateiro.

– Eu posso esclarecer – intervém o advogado. – Duma ruptura de aneurisma.

Os lábios arroxeados do sapateiro se arreganham: a dentuça fica descoberta até às gengivas descoradas, e ele começa a rir baixinho, enquanto esfrega o peito com ambas as mãos.

– Isso tinha de acontecer mais tarde ou mais cedo. Cícero foca um dos esquifes:

– Veja, Barcelona. Você deve o seu caixão, que não é nada mau, a uma gentileza da prefeitura municipal.

– Alto lá! Antes de mais nada, não sou nenhum indigente. Não peço nem aceito favores do poder constituído. Como não tenho herdeiros e sou viúvo, o governo vai ficar com a minha casa e a minha oficina. Esse caixão vagabundo custou uma ninharia. A prefeitura lucra com a minha morte!

– Vamos ao defunto seguinte... – diz Cícero.

– Não use essa palavra horrenda – pede D. Qui-téria. – Diga “pessoa”.

O raio de luz mostra agora um homem de cabeça grande, rosto alongado, ombros estreitos, pele duma palidez de cera. Está metido numa casaca que lhe assenta muito .mal. As calças lhe ficam a meia canela. A camisa é branca, de colarinho mole, sem gravata. Seus pés estão metidos em sapatos amarelos.

– O Prof. Menandro Olinda! – exclama D. Quitéria.

– Ele mesmo – confirma o advogado. – Suicidou-se abrindo as veias dos pulsos.

As mãos do pianista, com os pulsos envoltos em ata-duras, pendem-lhe abandonadas de cada lado do corpo, como entidades independentes de sua pessoa física.

D. Quitéria meneia a cabeça, estralando a língua entre os dentes, num sinal de reprovação.

– Então isso é coisa que um cristão faça, maestro? – repreendeu-o ela com ar professoral. – O suicídio é um grande pecado contra as leis de Deus.

Olinda tem os olhos revirados para o céu, a cabeça atirada para trás contra o muro.

– Vamos ao seguinte – ordena a velha.

– O seguinte é do sexo feminino – explica Cícero, iluminando o rosto duma mulher.

– Cruzes! – exclama D. Quita. – Que é isso?

É uma mulher descalça que aparenta mais de cinqüenta anos, duma magreza quase esquelética, metida num camisolão dum pano grosseiro de hospital de indigentes.

– Essa é a Erotildes, que entre 1925 e 1945, por sua graça e beleza, foi das prostitutas mais famosas de Antares.

Era a fêmea mais procurada do bordel da Venusta, a carne mais cara daquele perfumado açougue humano. Erotildes virou a cabeça de muita gente na nossa cidade, até de homens casados, senhores considerados virtuosos. D. Quita, seu amigo Tibério Vacariano teve Erotildes como amante exclusiva durante quatro anos...

– Cinco – corrige a mulher, sôfrega.

– Com o passar do tempo sua carne foi baixando de qualidade e de preço. Erotildes caiu tanto de categoria que aos quarenta e poucos anos andava pelas ruas caçando homens, vendendo o corpo a qualquer preço... Cinco mil-réis, não, Erotildes?

– Até dois – murmura ela, baixando a cabeça. – Eu não queria morrer de fome.

D. Qui teria rebate:

– Mas será que você nunca pensou em procurar um trabalho decente, menina?

Barcelona dá um passo à frente e protesta:

– Afinal de contas, isto é uma apresentação ou um julgamento? Termine duma vez esta farsa, Dr. Cícero!

– De que foi que essa mulher morreu? – quer saber D. Quitéria. E Erotildes apressa-se a informar, com certa faceirice:

– Tísica.

– Mas hoje em dia ninguém mais morre disso. Com todos esses antibióticos...

– É verdade – diz o advogado – mas Erotildes estava recolhida à ala dos indigentes do Hospital Salvator Mundi. O Dr. Lázaro alegava que na farmácia do hospital nem em nenhuma outra da cidade existia estreptomicina. Prometeu mandar buscar o remédio fora, mas pelo visto esqueceu...

– Adiante! – comanda a velha senhora.

A luz revela agora o rosto dum homem todo manchado de equimoses, com um dos olhos quase fora das órbitas. Tem-se a impressão de que foi espancado com violência e de que o braço direito, todo quebrado, está preso ao corpo apenas por um barbante.

– Este é o João Paz, jovem inteligente e idealista. Levou muito a sério o sobrenome e tornou-se um pacifista ardoroso. Organizou em Antares um comício contra a participação dos Estados Unidos na tentativa de invasão de Cuba. A polícia dissolveu-o a pauladas. Joãozinho foi preso, passou uma semana na cadeia, foi solto... tornou a ser preso. Bom, é uma estória muito comprida.

– De que morreu? – indaga D. Quita.

– De embolia pulmonar, no Salvator Mundi.

– Mentira! – brada João Paz. – Fui torturado e assassinado na cadeia municipal pelos carrascos do delegado Inocêncio Pigarço!

O Dr. Cícero faz um gesto de contrariedade resignada.

– Ó Joãozinho, tenha paciência, isto é apenas uma apresentação perfunctória. Depois darei os pormenores da sua biografia.

O raio de luz mostra agora a cabeça dum homúnculo de idade indefinida, tipo bugróide, bochechas túmidas de cachaceiro, a pele com algo que lembra o couro curtido, os olhos injetados.

– Santo Deus! – exclama D. Quitéria. – Que é “isso”!?

– O maior beberrão de Antares – diz o advogado – o nosso famoso Pudim de Cachaça.

O homem sorri, mostrando os dentes podres.

– Boa noite, dona! – diz, inclinando a cabeça em direção da dama. Depois, pondo as mãos em pala sobre os olhos, como protegendo-os da luz da lanterna, pergunta ao mestre-de-cerimônias: – Doutor, do que foi que eu morri?

– Só pode ter sido de cirrose do fígado – diz D. Quitéria.

– Essa seria a causa mortis esperada, mas o nosso Pudim não morreu de morte natural. Foi assassinado.

– Qual! – sorri o cachaceiro. – Eu assassinado? Nunca tive inimigo na vida. E quem é que ia gastar pólvora com este chimango velho? Quem foi que me matou?

– A tua mulher.

– A Natalina? Não acredito. O senhor está brincando comigo, doutor. Minha mulher não é capaz de matar nem uma mosca.

– Talvez, mas botou na tua comida uma dose de veneno que dava para liquidar um cavalo.

Por um instante Pudim de Cachaça mantém a boca aberta, num espanto.

– Não acredito! – diz por fim, meneando a cabeça. – Dessa ninguém me convence.

– Eu vi o resultado da necropsia.

– Fale língua brasileira, doutor.

– Pudim, na polícia um médico abriu o teu estômago e descobriu arsênico no que tu tinhas comido ao almoço.

– Pode ser. Mas a Natalina não tem nada a ver com isso.

– Mas se ela confessou, homem!

Por um instante Pudim de Cachaça fica em silêncio, passando a mão pelo queixo mal coberto por uma barba rala e dura de caboclo.

– Mas por quê? Por quê?

– Declarou ao delegado que estava cansada de te agüentar. Contou que, além de ter de trabalhar como uma escrava para te sustentar, tu às vezes chegavas em casa alta madrugada, embriagado, e batias nela.

A cabeça baixa,. Pudim risca o chão com a ponta do dedo grande dum dos pés descalços.

– É verdade? – pergunta D. Quitéria, com matriarcal austeridade.

Ele hesita mas por fim balbucia:

– É, dona. Sempre fui uma peste. Pobre da Natalina! Tomara que não botem ela na cadeia.

– Já está presa – informa o advogado. – Vai ser julgada no mês que vem.

– Que bosta! – exclama o cachaceiro. – Me desculpe, dona, o nome feio m’escapou. ...

Cícero Branco faz incidir o raio da lanterna sobre o rosto da ricaça:

– Pois, amigos, aqui temos conosco D. Quitéria Cam-polargo, uma das damas mais ilustres, senão a mais ilustre, da sociedade de Antares.

– Dona Quita! – exclama o Barcelona. – Quem diria! Muita meia-sola c salto botei em sapatos seus e de sua gente. Nestes meus quase trinta anos de Antares tenho ferrado os cascos de mais de metade dos membros da burguesia local.

Os cinco defuntos cercam Quitéria Campolargo. Ero-tildes inclina-se sobre ela e murmura:

– A senhora não imagina a honra que é pra mim estar aqui ao seu lado.

A velha encolhe-se, recuando o busto, brusca.

– Não fale com a boca em cima da minha cara, mulher!

Barcelona solta uma risada:

– Não me diga que a senhora tem medo dos bacilos da tuberculose...

– Tome nota, Joãozinho – sorri o advogado. – Nem na morte a gente se livra dos reflexos condicionados...

Erotildes toca de leve, tímida, o ombro de Cícero.

– Posso fazer uma pergunta, doutor?

– Ora essa! Pode.

– Estamos no Céu ou no Inferne?

– Nem num lugar nem noutro. Estamos todos do lado de fora do cemitério de Antares, insepultos.

Pudim de Cachaça, que há alguns segundos olha atentamente na direção da cidade, murmura:

– Já repararam? Não se vê nenhuma luzinha em Antares... Nem nas ruas nem nas janelas. Sabem o que eu acho? Fomos abandonados aqui porque houve uma peste que liquidou toda a população da cidade. Ou então os argentinos invadiram o Brasil e mataram a nossa gente. Ou quem sabe os russos, os chineses e os americanos começaram uma guerra atômica e destruíram a humanidade.

– Ah! – exclama Barcelona de repente, dando uma palmada na própria testa. – Já sei... Está tudo claro. A greve continua...

– Mas que é que nós temos a ver com essa greve? – pergunta D. Quitéria.

– Na véspera da minha morte, tomei parte na assembléia geral dos industriados (com direito de voz mas não de voto) e discutimos todos os meios de pressionar os patrões e as autoridades para conseguirmos os objetivos dos grevistas. Pedi a palavra e sugeri que metessem os coveiros na greve geral e que não permitissem nenhum sepultamento no cemitério enquanto os patrões não dessem ganho de causa aos operários. Agora tudo está explicado!

E não tem vergonha de nos contar isso agora?

– Só um homem com sangue espanhol nas veias podia ter tido uma idéia como essa – gaba-se o sapateiro. – Meus avós e meus pais nasceram na terra de Cervantes e Unamuno.

– Pois o feitiço virou contra o feiticeiro – disse D. Quita. – Você nunca esperou ser vítima de seu próprio estratagema. Bem feito!

– Vítima, distinta dama? Ora, pra mim tanto faz apodrecer debaixo da terra como em cima dela. Sou materialista. – Apalpa-se. – Só não esperava apodrecer com consciência...

E a sua icéia foi aceita na assembléia? – pergunta Cícero, apagando a lanterna.

– Por unanimidade, apesar do Pe. Pedro-Paulo, que é um inocente, ter falado durante quase meia hora contra ela.

Uma ave noturna – morcego ou coruja? – esvoaça por cima dos muros do cemitério e atufa-se na folhagem dum dos cinamomos.

Pudim de Cachaça apalpa cuidadosamente o estômago, murmurando:

– Me costuraram mal e porcamente.

Erotildes passa a mão pelos cabelos num gesto em que há um resquício de coquetismo.

Barcelona senta-se no chão, fica por um momento de cabeça baixa e depois diz:

– Será que estamos mesmo mortos?

– Ponha a mão no coração e veja se ele bate – sugere o advogado.

O sapateiro espalma a manopla sobre o peito e fica atento por um instante.

– Não bate. – Segura o pulso com o polegar e o indicador. – Não tenho pulso.

– Eu não respiro – diz João Paz. Cícero segura o ventre com ambas as mãos:

– Sinto que os saprófitas já estão em plena atividade nas minhas entranhas...

– Se somos mesmo cadáveres, como se explica que estamos aqui falando, trocando opiniões e idéias... com a memória funcionando... – indaga D. Quita, interrompendo a oração para os perdidos no mar, mas conservando o rosário entre os dedos.

– Minha senhora – responde o advogado – eu não explico. Confesso que não sou versado em ocultismo, teologia ou espiritualismo. De tanatologia conheço apenas o que um advogado que se preza deve conhecer... No mais, tenho lido livros da minha especialidade. Há milênios os melhores cérebros que a humanidade tem produzido vêm se debruçando sobre os mistérios da vida e da morte. Ninguém, que eu saiba, disse ainda a palavra definitiva.

Menandro olha para as estrelas, cantarolando a frase inicial da Appassionata.

Cícero cita: “A vida é um longo hábito...”.

– A vida é um vício – diz Barcelona.

– No meu caso – murmura o professor de piano – um vício solitário e triste.

D. Quitéria olha para o céu:

– Viver, para muitos, às vezes parece até uma espécie de cacoete.

 

– Acho que estamos filosofando demais – queixa-se Barcelona. – Precisamos fazer alguma coisa!

– Que pressa é essa? – pergunta o advogado. >– Temos diante de nós o resto da vida, quero dizer, da morte... da eternidade, se é que a eternidade pode ter resto. E por falar nisso, que horas serão? – Acende a lanterna e ilumina o próprio pulso. – Minha extremosa esposa decerto achou que o meu Omega de ouro era um relógio bom demais para eu trazer para a sepultura...

– O meu relógio sumiu-se na delegacia – diz João Paz. – A esta hora deve estar no pulso do homem que me assassinou.

– Empenhei o meu há vinte anos – suspira Erotildes – e nunca mais tive dinheiro pra tirar ele do prego.

Barcelona apalpa os bolsos:

– Acho que alguém afanou o Patek-Philip que herdei do meu pai...

– Nunca tive relógio na vida – confessa Pudim de Cachaça. – Pra falar a verdade, nunca me preocupei com o tempo.

D. Quita consulta suas estrelas:

– Deve ser quase quatro da madrugada.

– Que horas serão no relógio de Deus? – pergunta a ninguém Menandro Olinda. – Que dia será hoje no Seu calendário?

Barcelona põe-se a andar lentamente ao longo do muro do cemitério. O Prof. Menandro senta-se no seu caixão e coloca ambas as mãos sobre as próprias coxas com o cuidado de quem deita em seus berços duas crianças adormecidas. Vaga-lumes pousam “na cabeça de Erotildes, e ali ficam como uma efêmera tiara de diamantes.

De pé, encostado no tronco de um dos cinamomos, João Paz murmura:

– Tenho a impressão de que somos passageiros sem bagagem, que perderam um trem e estão esperando o próximo, que ninguém sabe quando vai passar. Como nossos bilhetes estão em branco, não sabemos qual é o nosso destino.

– Ah! Isso é que não! – rebate D. Quitéria. – Os hereges, os ateus, esses não sabem para onde vão. Mas quem tem fé em Deus e na sua Igreja conhece o seu destino depois da morte.

Barcelona acerca-se da dama e, com sua voz grave e meio rouca, diz:

– A senhora passou a vida inteira pagando o preço dessa passagem para o Céu com obras de caridade, missas, rezas, promessas...

– Não seja mal-educado, Barcelona! – repreende-o o advogado. – Devemos respeitar as convicções alheias.

Barcelona passa as mãos pela cabeleira hirsuta.

– Me diga uma coisa, D. Quitéria, agora que a senhora está morta... já viu Deus, como lhe prometia a sua Igreja, o seu padre e os seus livros de reza?

– Estúpido! Ignorante! Minha alma está a caminho de Deus. O que você tem aqui é o meu corpo, que os vermes já estão roendo. Como é que vou fazer um renegado, um anarquista, um atirador de bombas, um subversivo compreender essas coisas espirituais?

O sapateiro solta uma risada líquida, que soa como um gargarejo:

– Está bom, D. Quitéria, não vou discutir com a senhora. Estamos todos agora no mesmo barco.

– Mas graças a Deus em camarotes separados – replica a velha.

– Prometo-lhe não me esquecer de minha condição de passageiro de segunda ou terceira classe – sorri sardònico o sapateiro.

Pudim olha para Erotildes.

E nós, moça, estamos no porão do navio.

O Dr. Cícero aproxima-se de João Paz e murmura:

– Pelo que estamos ouvindo, nem depois de mortas as pessoas perdem o gosto da metáfora.

– A vida bem pode ser uma metáfora do estro de Deus – diz o Prof. Menandro, mas em voz baixa, como para não despertar as suas filhas adormecidas.

D. Quitéria ergue-se, aproxima-se do professor de piano e senta-se a seu lado.

– Me diga uma coisa, professor. Como foi que o senhor teve a coragem de matar-se? Não sabe que só Deus é capaz de nos dar vida e só Ele tem o direito de nos tirar essa vida?

O pianista olha para as próprias mãos e, depois de curto silêncio, fala.

– Foi a hora do diabo, D. Quitéria... Eu estava em casa sozinho e desesperado. Tentei tocar a Appassionata, e mais uma vez falhei. Compreendi que tinha estado me iludindo a mim mesmo todos estes anos, fingindo acreditar na possibilidade dum novo concerto público e da fama. E a quem cabia a culpa de meu fracasso? A minhas mãos, essas ingratas! D. Quita, procure me compreender. O que fiz não foi propriamente suicidar-me, mas castigar as minhas mãos. Se eu quisesse me matar mesmo, tomaria veneno... ou meteria uma bala no crânio. Mas não! Cortei os pulsos com uma navalha. Assassinei as minhas mãos. Uma se prestou para matar a outra. Além de tudo, são fratricidas... D. Quitéria sacode a cabeça dum lado para outro.

– Está errado – disse – está tudo errado – repete – erradíssimo. Não compreendeu então que, cortando as veias, ia morrer dessangrado?

– Não sei, não sei... Eu estava confuso. Depois que seccionei as veias dos pulsos senti a dor, e quando vi sangue tive um momento de pânico. Mas logo a calma me voltou ... Deitei-me no sofá e fiquei olhando os objetos da minha sala... O retrato de meus pais... o piano, a máscara mortuària de Beethoven... a estante de livros, as partituras de música, o velho tapete... Quanto mais sangue eu perdia, mais fraco ficava, mais se esfumava a minha visão... E então tudo me pareceu um sonho estranho. Vi a minha vida passar, desde o princípio... como projetada por uma lanterna mágica na minha memória... Me senti primeiro no ùtero de minha mãe, encolhido, confortável, protegido, mãozínhas fechadas... Lembrei-me do momento exato em que nasci, deixando aquele ninho morno e entrando neste mundo. A senhora está duvidando, não? Depois eu já estava num berço... no dia em que ergui os braços e descobri as minhas mãos... Que surpresa! Aquelas coisas que se moviam... os meus primeiros brinquedos. Depois (a senhora me perdoe, D. Quitéria) quando adolescente, usei estas mesmas mãos para propósitos indecentes... sexuais, a senhora compreende? Pelo resto da vida minhas mãos foram minhas amantes... Prostituíram-me. Eu sentia remorsos, queria livrar-me delas, mas as desavergonhadas não me deixavam em paz e aproveitavam a hora em que eu dormia para me excitarem. Enquanto eu morria me lembrei também da primeira vez em que bati com o indicador da mão direita numa tecla de piano... e o resto, as primeiras lições, o curso em Buenos Aires... as pessoas que conheci na casa de meu professor... E uma noite no teatro Colón... assistindo a um concerto de Artur Schnabel. Ah!... e eu cada vez mais fraco... e gelado... Bem no fim revi, senti aquela noite terrível, no palco do São Pedro, eu tentando tocar a Appassionata... e as minhas mãos me atraiçoando em público... E depois a vaia... a vaia das galerias, os apupos, os assobios, os gritinhos... e, pior que a vaia, o silêncio caridoso da platéia... E então, ali no sofá da minha sala, que Deus me perdoe, senti que morrer devia ser doce... ficar livre para sempre da vergonha, da angústia, da solidão... de tudo!

D. Quitéria escutou-o em silêncio e depois perguntou.-

– Mas o senhor não sabe que os suicidas não podem entrar no Céu?

– D. Quitéria, eu tive em Antares uma amostra do inferno. A incompreensão, o sarcasmo, a impiedade dos an-tarenses me doíam fundo. O inferno não pode ser pior que Antares.

– Acho que o senhor está sendo injusto com a sua cidade e os seus conterrâneos.

A velha lançou para o maestro um olhar duro, quase inimigo:

E o senhor sabe que, como suicida, não pode ser sepultado em campo-santo?

Ele encolheu os ombros ossudos e começou a cantarolar o trecho duma sonata de Mozart. E seus dedos se movimentaram de leve, crianças que se agitavam no berço, como a se debaterem num sonho.

 

Afastados do grupo, agora João Paz e Cícero Branco estão frente a frente.

– Você sabe exatamente o que me aconteceu – diz o primeiro. – Por que não contou a verdade aos outros, seu canalha indecente, corrupto, covarde!?

– Joãozinho, contenha-se. Não me diga esses nomes feios. Você sabe que não posso nem sequer encabular, pois o sangue cessou de me correr nas veias.

– Você sempre foi um assalariado do velho Vacariano e do Vivaldino Brazão. O testa-de-ferro das negociatas desses dois crápulas. O factotum. Como é que você pode ser assim tão insensível, tão amoral?

– Ora, menino, um ser humano não é uma moeda apenas, com verso e reverso. É um poliedro, com milhares de faces. E há milhares de maneiras de ver uma pessoa, um ato, um fato. Você no fundo é tão maniqueísta e religioso quanto D. Quita, que acredita na moral absoluta. Em suma: estou diante dum socialista que ainda não se livrou da nomenclatura moralista burguesa.

– Não desconverse. Você sabe muito bem que não morri de pneumonia no hospital, mas fui, isso sim, assassinado na prisão. Você nega isso?

– Não.

E você também sabia muito bem que eu não cometi nenhum crime.

– Um momento! Não tenho o dom da ubiqüidade nem o da onisciência. Nem o próprio prefeito sabe de tudo quanto se passa na sua delegacia. Houve uma denúncia... O delegado Inocêncio é um fanático da justiça e um técnico. .. Ele afirma que você é o chefe em Antares do “grupo dos onze”. Queria saber o nome dos outros dez guerrilheiros potenciais. Interrogou você pelos métodos normais, aceitos pelas nossas leis, mas você recusou falar...

– Como é que eu ia confessar uma coisa que não sabia? Nunca tive nada a ver com esse grupo, se é que ele existe mesmo em Antares.

– Seja como for, o Inocêncio Pigarço não teve outra alternativa senão recorrer aos seus “métodos especiais”.

– Por que não diz a palavra exata: tortura?

– Ora, como advogado, cultivo quando me convém o hábito do eufemismo.

– Confesse que foi sua a idéia de transferir o meu cadáver para o hospital, em segredo, e lá simular uma morte natural.

– Confesso. Mas você poderia ter evitado a tortura e a morte se revelasse os nomes dos guerrilheiros de Antares.

– Mas eu não sabia de nenhum! E se soubesse, não os denunciaria!

– Ora, existem pelo menos uns sessenta comunistas fichados na polícia em Antares. Você poderia ter apontado dez deles como integrantes do grupo... e safar-se com vida.

– Isso seria uma indignidade! Eu jamais pagaria esse preço pela minha pele.

– Todo homem tem um preço. Não se faça de santo, João Paz. Qual é o seu?

– A justiça. A verdade.

– Abstrações. Você não saberia definir nenhuma dessas palavras. E mesmo agora nós aqui estamos todos numa situação em que as palavras têm muito pouco ou nenhum valor.

Cícero foca o rosto de João Paz com a luz da lanterna.

– Não pense, Joãozinho, que eu tenha ficado insensível ao que eles fizeram a você e ao que têm feito a muitos outros. Quando um homem como eu se mete com gente da laia do Vivaldino e do Tibério, fica tão enredado, tão comprometido, que o remédio é continuar, senão está perdido. Eu não queria saber do que se passava na delegacia do Ino-cêncio. A princípio costumava ter um peso na consciência, dormia mal, me recriminava, prometia a mim mesmo romper com a camarilha. Mas o dinheiro, que para alguns cheira mal, para mim tinha um perfume paradisíaco. O dinheiro e o sucesso. E a boa vida. Mas... você não acha que isto não é conversa própria para defuntos?

Faz menção de afastar-se, mas João Paz agarra-lhe o braço, detendo-o.

– Que foi que eles fizeram com minha mulher, depois que me assassinaram?

– O Inocêncio mandou prendê-la para interrogá-la.

– Ela foi maltratada... grávida como está?

– João Paz, você quer saber da verdade ou prefere uma resposta piedosa?

– Quero a verdade. Sempre quis.

– Tudo indica que foi ameaçada de tortura...

Com o punho direito fechado João Paz golpeia a cara de Cícero, que quase cai ao solo.

– Canalha! Pústula! Bandido!

– Não senti nada – diz o advogado. – Nem física nem moralmente. Acho seu gesto tão ridículo e absurdo quanto a nossa situação de mortos insepultos.

– Os bandidos do Inocêncio podem ter assassinado o nosso filho que ainda não nasceu...

– Poucas horas antes de morrer eu vi a Rita na delegacia. Inocêncio soltou-a e em seguida o Dr. Lázaro a examinou. O bebê estava vivo.

– Não acredito.

D. Quitaria ergue-se, depois de dar duas palmadinhas consoladoras no ombro do suicida, e diz em voz alta, como quem se dirige a uma assembléia:

– Precisamos fazer alguma coisa!

Cícero Branco congrega os outros seis cadáveres:

– Companheiros, não é por estar morto que vou deixar de ser o que fui em vida: um advogado. Estive arquitetando um plano...

– Fale! – ordena D. Quitéria.

– Qual é o nosso objetivo? O de sermos sepultados dignai.iente, como é de nosso direito e de hábito, numa sociedade cristã.

– O doutor falou pouco mas bem! – exclama Pudim de Cachaça.

– Escutem com a maior atenção. Você aí, Joãozinho, aproxime-se e escute também. A idéia é simples. Amanhã pela manhã marcharemos todos sobre a cidade para protestar...

– Uma greve contra os grevistas! – entusiasma-se D. Quitéria.

– Se o fim da marcha é esse – intervém Barcelona – não contem com este defunto.

– Espere – diz o advogado, tocando o braço do sapateiro. – Usemos de todas as nossas armas. Primeiro, a nossa condição de mortos. Sejamos mais vivos que os vivos.

- Como?

– Impondo à população de Antares a nossa presença macabra. Se não nos enterrarem dentro do prazo que vamos impor, empestaremos com a nossa podridão o ar da cidade.

– Que coisa horrorosa, doutor! – diz Erotildes, ajeitando os cabelos num gesto faceiro.

– Por que não se põe em votação a proposta do Dr. Cícero? – pergunta o sapateiro.

– Bom – faz o advogado. – Não direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto é uma... uma tanatocracia. (E os sociólogos do futuro terão de forçosamente reconhecer este novo tipo de regime.) Preciso saber se todos vocês me aceitam como advogado, caso em que terão de me passar uma procuração verbal para eu agir em nome do grupo.

D. Quitéria sacode a cabeça num movimento afirmativo. Erotildes, Pudim e Menandro a imitam. Barcelona, porém, hesita:

– Primeiro quero conhecer melhor o plano.

– Simples. Descemos juntos pela Rua Voluntários da Pátria rumo da Praça da República. Lá nos dispersaremos, cada qual poderá voltar à sua casa... Para isso teremos algumas horas. O essencial (prestem a maior atenção!) é que quando o sino da Matriz começar a dar as doze badaladas do meio-dia, haja o que houver, todos devem encaminhar-se para o coreto da praça, sentar-se nos bancos em silêncio e ficar à minha espera.

E que é que você vai fazer? – quer saber João Paz.

– Vou primeiro à minha casa buscar uns papéis importantes ... Depois me dirigirei à residência do prefeito para lhe entregar um ultimato verbal... ou nos enterram dentro do prazo máximo de vinte e quatro horas ou nós ficaremos apodrecendo no coreto, o que será para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higiênico, estético... e moral, naturalmente.

Barcelona passa a manopla pela cara e diz:

– O Maj. Vivaldino vai alegar que não pode fazer nada em nosso favor por causa da greve. E é a? que eu quero que você me faça agora, aqui, uma promessa: a de exigir que os patrões atendam às reivindicações dos grevistas.

Cícero sorri.

– Eu estava pensando nisso, não para ajudar a greve, que não me interessa, nem para ganhar sorrisos de além-túmulo, de Marx e Lénine. Um advogado esperto usa de todos os recursos, decentes ou indecentes, para ganhar a sua causa. E esta, amigos, é uma causa em que eu também sou meu próprio constituinte. – Volta-se para João Paz. – Como é? Ainda não tenho a sua “procuração”...

– Não confio em você. Os seus reflexos condicionados o levarão a fazer o que o prefeito e o Cel. Vacariano ordenarem.

– João Paz, o seu idealismo lhe embota «s idéias. Ouça isto: se o prefeito e os grandes da cidade tomarem contra nós alguma medida drástica, prometo denunciar em público todas as suas patifarias, roubalheiras e banditismos.

– Ah! Se eu pudesse acreditar na sua palavra! O advogado olha em torno.

– Tenho procuração de todos?

Os outros seis mortos sacodem afirmativamente as cabeças.

– Muito bem. Agora só nos resta esperar o nascer do sol.

E os sete mortos voltam a deitar-se nos seus esquifes e ali ficam, de olhos abertos, à espera dum novo dia.

 

Na manhã seguinte, o sol já alto, os operários que se revezaram durante a noite, guardando a boca da Rua Voluntários da Pátria, encaminham-se para o cemitério.

– O mau cheiro agora deve estar insuportável – resmunga um deles.

– Não carece chegar muito perto dos caixões – diz outro. – Uns trinta metros, quando muito...

– Qual! A brisa se encarrega de trazer a f eden tina até às nossas ventas.

O homem que caminha à frente do grupo volta a cabeça para trás:

– Acho que está tudo em ordem. Só nos resta esperar os companheiros que vão nos render. Estou com uma fome das brabas.

Um operário gordo e baixo, que fuma nervosamente seu cachimbo, faz alto, puxa um pigarro e diz:

– Esperem um momento. Tenho uma coisa pra contar a vocês...

Os outros interrompem a marcha.

– Que é?

– Quando eu estava de vigília, ali entre três e quatro da madrugada, vi uma luz na frente do cemitério, perto dos caixões...

– Luz? Impossível. Decerto eram vaga-lumes.

O gordo sacode a cabeça numa veemente negativa.

– Não. Parecia mais a luz duma lanterna elétrica. Acendia, andava dum lado pra outro, depois apagava e outra vez acendia...

Um dos companheiros dá uma risadinha forçada.

– Aposto que você dormiu em serviço e sonhou tudo isso.

– Não dormi. Nem mesmo me sentei. Passei todo o tempo pitando e caminhando de lá pra cá, com o olho sempre no cemitério.

– Mas se viu essa tal luz, por que não nos avisou?

– Ora... fiquei com medo que vocês quisessem ir até lá pra tirar a coisa a limpo. Achei melhor calar o bico.

– Covarde.

– De vivo não tenho medo. mas com defunto não quero nada.

– Vamos embora!

Retomam a marcha, mas tornam a estacar. O terror lhes contorce subitamente as faces e aperta-lhes os peitos e as gargantas. E que todos vêem os sete defuntos erguerem-se um a um de seus caixões, com uma lentidão de quem desperta com relutância dum sono natural.

“Minha Nossa!” – grita um dos operários. Faz meia volta e rompe a correr na direção do rio. Os outros o seguem, resfolgantes, contagiando com o seu horror os companheiros que guardam as outras bocas de rua, os quais também se precipitam em pânico em todas as direções, menos na do cemitério...

 

À luz amarelenta dum sol de seca, os mortos se entre-examinam em silêncio. O Dr. Cícero Branco é o primeiro a falar.

– Sete úteros abertos – murmura ele, abarcando com um gesto os esquifes. – Sete criancinhas recém-nascidas.

Barcelona sorri, descobrindo as presas de lobisomem.

– Fetos podres – diz.

– Vocês estão horríveis! – exclama D. Quitéria Cam-polargo, fazendo um esgar de nojo.

– A senhora não está propriamente uma beleza – replica o sapateiro.

– Felizmente não posso me enxergar...

– Se quer um espelho – avança o Dr. Cícero, numa paródia de galanteio – posso oferecer-lhe minhas pupilas.

Como única resposta Quitéria volta-lhe as costas e fica a examinar a figura de Erotildes, que dos sete defuntos é o que tem o aspecto mais cadavèrico. A pele apertada sobre os ossos descarnados de sua face é como um papel de livida seda, através do qual já se pode quase ver a caveira. A morte aplicou-lhe umas sutis pinceladas do seu azinhavre nas narinas, e ao redor dos olhos.

Cícero Branco, cuja cabeça semelha uma enorme berinjela machucada, baixa o olhar ao longo do próprio corpo e diz:

– Não sei por que me mandaram para a sepultura dentro deste smoking ridículo e bolorento! E com colarinho duro de pontas viradas e gravata borboleta... E sapatos de verniz. Minha mulher tem cada idéia!

Em seguida sua atenção concentra-se na matriarca do clã dos Campolargos, cujo rosto cor de iodo lhe dá a aparência duma mulata, como se a morte lhe houvesse trazido para a pele toda uma remota ancestralidade africana. Suas mãos agora se movem no ar, em movimentos mal coordenados, tentando apanhar o moscardo que esvoaça diante de seus olhos baços.

A epidemie quase tão branca quanto o muro caiado do cemitério, contra o qual aperta as nádegas, para evitar que lhe caiam as calças – Menandro Olinda, imóvel, segue com uns olhos vazios de estátua o vôo irisado duma libélula.

Pudim de Cachaça está acocorado, examinando de perto as formigas industriosas que passam em longas filas por entre seus pés descalços e que começam a subir-lhe pelos pés, pernas e coxas, por dentro das calças. Com sua gordura balofa de cachaceiro, as pálpebras tão intumescidas que quase lhe escondem os olhos de esclerótica amarela, ele parece um desses cachorros mortos inchados que às vezes passam pelo rio, levados pela correnteza.

Barcelona chama a atenção de D. Quitéria para os sinais de tortura que João Paz tem em todo o corpo:

– Veja como trabalha a sua polícia, dona. Está se vendo que o delegado Inocêncio aproveitou bem a sua “bolsa de estudos” com a polícia do Estado Novo.

Cícero intervém como um frio juiz de paz.

– Está bem, Barcelona. Guarde a sua demagogia para mais tarde. Precisamos agora tratar de nossa vida ou, se preferirem, da nossa morte. O problema continua o mesmo: queremos ser sepultados dignamente. Creio que está na hora de começar a nossa marcha. A caminho, pois, companheiros!

– Que horas serão? – pergunta Pudim de Cachaça.

– Estou ouvindo os sinos da Matriz – diz Quitéria Campolargo. – Deve ser a missa das sete...

– Pois então, amigos e romanos, desçamos sobre An-tares – convida o advogado. – Proponho que D. Quitéria Campolargo abra a marcha.

– Por quê? – protesta o sapateiro. – Por que é rica?

– Não. Porque é uma dama.

– Vejo outra pessoa do sexo feminino no nosso grupo...

– Sim, mas você não pode comparar D. Quitéria com essa... essa...

– Diga logo o nome sem medo. Puta, não é? Pois para mim não vejo muita diferença entre as duas. Mulher sempre mereceu todo o meu respeito, independentemente de sua profissão e da sua condição social.

– Ai. Barcelona! – exclama o Dr. Branco. – Estou começando a desconfiar que você ainda vai me dar muito trabalho...

– Tudo dependerá da sua atuação. Se você se intimidar diante dos figurões de Antares, eu entro com o meu jogo bruto. Mas onde está o nosso professor?

Volta a cabeça: Menandro continua com o corpo como que colado ao muro do cemitério.

– Vamos, maestro!

O pianista encaminha-se para o grupo.

Mal, porém, dá o segundo passo, as calças tombam-lhe aos pés, ele estaca e ali fica, imóvel, completamente nu da cintura para baixo, as vergonhas à mostra e cobertas de formigas. Parece hesitar em pedir qualquer auxílio às suas mãos assassinadas. Erotildes desata a rir. D. Quita vira o rosto. Barcelona aproxima-se do artista e, como uma ama-seca, ergue-lhe as calças, murmurando: “Esqueceram-se do suspensório... mas quem é que podia imaginar que o corpo deste defunto ia voltar à posição vertical?”. Desfaz-se do próprio cinto e passa-o ao redor da cintura do outro, afive-lando-o no último ilhó. – Pronto!

– Muito obrigado, Barcelona – murmura o maestro. – Você é um homem bom. E dizer-se que eu o conheço há mais de trinta anos e não tinha ainda notado isso!

O sapateiro encolhe os ombros:

– As pessoas que vivem olhando para o céu perdem, as boas coisas da terra.

– Não me diga que você se inclui entre essas boas coisas – observa Quitéria.

– Não sou das piores, dona, não sou das piores.

– Avante! – comanda o advogado. Oferece o braço à matriarca dos Campolargos, que o recusa, altiva, pondo-se a caminhar lentamente, lançando o pânico entre as formigas, cujas fileiras disciplinadas ela varre com a fimbria do vestido. Cícero Branco marcha um passo atrás dela. João-zinho e Barcelona ladeiam o maestro, como uma guarda de honra. Erotildes e Pudim de Cachaça deixam-se ficar naturalmente para trás, fechando a marcha.

 

D. Clementina, viúa, católica praticante e doceira profissional, mora na meiágua de fachada azul-celeste, a segunda casa à direita de quem desce a Rua Voluntários da Pátria. Tomou hoje a sua comunhão na missa das seis, já comeu o seu mingau matinal, deu alpiste aos seus canários e pintassilgos e agora se encaminha cantarolando para a única janela de sua sala de visitas, levando nas mãos um vaso de argila com um pé de gerànio florido. Antes de depor o vaso no peitoril, debruça-se para fora, diz bom dia ao vizinho da direita, que como de hábito está sentado num mo-cho à frente de sua residência, tomando chimarrão e lendo o jornal do dia – depois olha para a esquerda, divisa um grupo que vem descendo pelo meio da rua, em marcha lenta e silenciosa – Ué? bloco de carnaval em dezembro?... coisa de estudantes... mas seu coração, sentindo o horror daquela visão uma fração de segundo mais rapidamente que o seu cérebro, dispara... Ao reconhecer naquelas faces cadavéricas as fisionomias de sua freguesa Quitéria Campo-largo e do Dr. Cícero Branco... santo Deus! – D. Clementina abre a boca, solta um vagido, sente que o mundo se vai aos poucos apagando, deixa cair o vaso, que se parte em cacos contra o soalho, suas pernas se vergam e ela tomba, primeiro de joelhos e depois de borco.

O homem que mateia ergue a cabeça, olhando a rua por cima do jornal, empurra os óculos para a testa, semi-cerra os olhos para melhorar o foco de sua visão, e, de súbito, reconhecendo os componentes do lùgubre cortejo põe-se a tremer, a boca entreaberta, a água uo mate a escorrer-lhe das comissuras dos lábios, queixo abaixo. Um ronco lhe escapa do fundo da garganta, ele sente como se uma facada lhe rasgasse o peito, deixa cair a cuia e o jornal, curva-se sobre si mesmo e, como em câmara lenta, vai escorregando do mocho até tombar inteiro na calçada, batendo com a cabeça nas lajes, contra as quais se quebram as lentes de seus óculos.

Os defuntos continuam a caminhar pelo meio da rua. D. Quitéria, que observou a cena com o rabo dos olhos, murmura: “Lá se foi o velho Viridiano!” O Dr. Cícero sussurra por entre dentes: “Firme! Olhem para a frente, não digam nem façam nada, aconteça o que acontecer. Isto é apenas o princípio”.

João Paz manqueja, o braço quebrado balouçando dum lado para outro, como um pêndulo. Barcelona parece atento a tudo quanto se passa em torno, a dentuça exposta num feliz sorriso de ogro que acaba de entrar num berçário. O advogado de instante a instante puxa as pontas da negra borboleta da gravata, como se estivesse num salão de festas. Nos braços que o pianista leva cruzados contra o peito, aninham-se suas mãos, como dois bebês num berço. Erotildes e Pudim de Cachaça caminham lado a lado, de mãos dadas – crianças perdidas numa cidade desconhecida.

Duma outra casa próxima parte um grito lancinante de mulher. Ouve-se o ruído duma janela que se fecha com força, e o tinir de vidros estilhaçados.

O dono da padaria Universo sobe a Voluntários da Pátria, dirigindo a sua Kombi. Ao ver o grupo no meio da rua põe-se a buzinar freneticamente, e quando percebe que o bando não lhe abre caminho, mete a cabeça para fora do carro e berra: “Saiam da frente, seus palhaços! O carnaval ainda não chegou!” – e é nesse momento que ele reconhece alguns dos defuntos e, tomado de pânico, mete o pé com força no acelerador, torce bruscamente para um lado a roda da direção, o auto sobe na calçada e esbarra com violência e estrondo contra a parede dum prédio. O padeiro solta um urro, a respiração bruscamente cortada, duas costelas quebradas, e ali fica encurvado sobre o guidão, resfolgando forte, salivando sangue, o pavor nos olhos, enquanto pelas suas narinas entra um cheiro adocicado de carne humana decomposta.

 

Essa marcha dos mortos rumo do centro de Antares seria descrita mais tarde em prosa barroca por Lucas Faia: Foi na última sexta-feira 13 deste cálido e, já agora, trágico dezembro. O dia amanheceu luminoso, de céu limpo e translúcido, e a nossa cidade, o rio e as campinas em der-redor semelhavam o interior duma imensa catedral plate-resca, toda laminada pelo ouro dum sol que mais parecia um ostensòrio suspenso no altar do firmamento. As cigarras cantavam nus árvores e as formigas trabalhavam na terra, bem como na fábula do grande La Fontaine. Tudo parecia em paz no mundo. Era mais um dia na vida de Antares – pensavam decerto os que despertavam para a faina cotidiana. Mas ai! Mal sabiam eles do algido horror que os esperava!

Segundo o testemunho dos grevistas que guardavam a boca das ruas que, por assim dizer, deságuam como rios de pedra no estuário da esplanada do campo-santo local, seriam cerca de sete horas da manhã quando, ao se aproximarem do cemitério, eles viram, estupefatos uns, incrédulos outros, erguerem-se de seus féretros os sete mortos que estavam insepultos por culpa desses mesmos grevistas. Tomados de pânico os operários romperam em fuga desabalada. Um deles tombou vítima dum colapso cardíaco, felizmente não fatal.

A brónzea voz do sino da nossa Matriz chamava os fiéis para a missa das sete quando os sete mortos, em sinistra formatura, desceram sobre a cidade, ao longo da popular Rua Voluntários da Pátria, semeando o susto, o pavor e o pânico. Pareciam – segundo o depoimento de várias pessoas idôneas ouvidas pelo nosso repórter – figuras egressas dum grotesco museu de cera.

Testemunhas visuais (e olfativas!) do fato são unânimes em afirmar que os defuntos se moviam de maneira rígida, como bonecos de mola a que alguém – Dews ou o diabo? – tivesse dado corda. E seus olhos, fitos num ponto indefinível do horizonte, estavam cobertos duma espécie de película que para uns parecia viscosa e brilhante e para outros fosca. Causou estranheza o fato de seus corpos não produzirem nenhuma sombra. Não foram poucos os cidadãos antarenses que recusaram dar crédito ao que viam, julgando-se vítimas duma alucinação. Mortos ressurrectos? Fantasmas? Era incrível! Pavoroso! Algo de inédito não só nos anais desta comuna como também nos da Humanidade! E aquilo acontecia na nossa querida e pacata Antares! Éramos, entretanto, obrigados a dar crédito a pelo menos três de nossos sentidos – o da visão, o da audição e o do olfato – já que nada podíamos dizer dos dois restantes, pois ninguém havia tocado os corpos daqueles mortos ambulantes e muito menos – perdoe-se-me a brutal alusão – provado de suas carnes putrefatas. E mesmo agora, passada a crise, ao escrever as presentes linhas, este jornalista ainda se pergunta se tudo não foi apenas um sonho mau sofrido por toda uma população, ou, antes, um pesadelo que oprimiu nossa cidade como uma nuvem de escuro chumbo.

Só na Voluntários da Pátria o fúnebre cortejo causou mais de vinte vítimas, das quais as primeiras foram a veneranda viúva D. Clementina Montenegro e o Sr. Viridiano Fonseca. A primeira desmaiou de susto, e ao despertar entrou numa crise de nervos da qual ainda não se restabeleceu. O segundo sofreu um ataque cardíaco, sendo recolhido ao Hospital Salvator Mundi, onde se encontra num estado que ainda inspira cuidados. O sinistro bando, a todas essas, caminhava implacavelmente, em marmóreo silêncio tumular, para o centro da cidade, deixando para trás uma fétida esteira pestilencial, que em breve inundou todas as ruas adjacentes, de tal maneira ativa e nauseante que este homem de imprensa teve, e ainda hoje tem, a impressão de que, como diria Lady Macbeth, no drama do imortal Shakespeare, nem todos os perfumes da Arábia conseguirão jamais limpar nossa cidade dessa fedentina cadavèrica.

Uma senhora grávida, cujo nome a ética nos obriga a omitir, ao ver de sua janela a passagem dos sete defuntos ficou tão apavorada, que deu prematuramente à luz o seu bebé. (E graças ao bom Deus, mãe e filho passam bem.) Estamos seguramente informados de que o Sr. Mário Oregano, proprietário do mercado Nova Itália, ao avistar D. Quité-ria Campolargo toda vestida de preto, achou-a de tal maneira parecida com a sua falecida progenitora, que se encontra enterrada no pequeno cemitério de sua aldeia natal, perto de Nápoles, que se precipitou para ela em desatado pranto, exclamando “Mamma mia! Mamma mia!” – e só não a abraçou e beijou porque não pôde suportar o mau cheiro que se evolava dela e de seus macabros companheiros.

Seria longo enumerar os horrores daquela fatídica manhã, mas não nos furtamos ao desejo de narrar o caso que se nos afigura talvez o mais impressionante de todos. O Sr. Egon Sturm, cerealista local e campeão de tiro ao alvo, ao ver passar o cortejo, teve um acesso de fúria, apanhou a sua carabina, subiu correndo à água-furtada de sua casa e lá de cima pôs-se a alvejar os sete defuntos com balázios certeiros que, segundo se afirma, atingiram a cabeça e o tórax de vários deles, sem contudo fazer-lhes a menor mossa, pois os impactos das balas naqueles corpos pareciam mais leves que o pousar duma mosca. E por falar em moscas, um enorme enxame destas acompanhava, zumbindo, os defuntos, como negros e miniisculos anjos da guarda. Dantesco espetáculo!

Não saberíamos dizer quanto tempo a notícia do terrível acontecimento levou para espalhar-se pelo resto da cidade. O que sabemos de fonte segura é que o nosso constante leitor e antigo assinante, Sr. Ocário da Luz, coletor das rendas federais neste município, ao ver os mortos parados fl esquina da Rua Voluntários da Pátria com a Praça da República, precipitou-se para a igreja, onde naquele exato momento o Pe. Geróncio Albuquerque pregava o seu sermão. Dando visíveis mostras de irritação por ver o citado senhor subir a escada do púlpito e interromper-lhe a predica, o vigário escutou-o de má vontade, sacudindo negativamente a cabeça, com ar incrédulo. Por fim, levando em consideração (como ele próprío nos declararia mais tarde) o fato de ser o Sr. Ocário da Luz um homem de bem e de responsabilidade, decidiu ir ver o fenômeno de perto. Recomendou aos fiéis que permanecessem quietos em seus lugares, desceu do púlpito e. paramentado como estava, saiu do temploe encaminhou-se para o grupo, que continuava parado à esquina, convencido, o nosso bom pároco, de que se tratava duma “brincadeira de rapazes marotos”. A brisa da manhã, porém, trouxe-lhe ao olfato o cheiro da morte e em breve o nosso querido Pe. Gerôndo reconheceu o corpo da sua velha amiga Quitéria Campolargo, e o do Dr. Cícero Branco, e mais o do Prof. Menandro Olinda... Estacou, traçou no ar um sinal da cruz na direção dos inortos, abriu a boca para dizer alguma coisa mas seus lábios começaram a tremer e deles não saiu o menor som. O vigário caiu de joelhos, pálido de horror, ambas as mãos segurando o peito. Nesse instante passava pelo local o Sr. Tranqüilino Almeida, chefe dos guardas aduaneiros locais, homem de reconhecida coragem pessoal. Mesmo depois de dar pela presença dos mortos e de identificá-los todos, manteve a sua calma e, tirando do cinto o revólver e apontando-o para a macabra farandola, correu em socorro do vigário, ajudou-o a erguer-se e, ampa-rando-o com o braço esquerdo em torno da sua cintura, e sempre com o revólver voltado para os defuntos, foi recuando lentamente, de costas, conseguindo assim arrastar o sacerdote para dentro da igreja. Já então a terrível notícia se ia divulgando aos poucos entre os fiéis e um crescente zum-zum cortado de soluços começava a encher o recinto da matriz. O vigário sentou-se num dos degraus do altar, o sa-cristão trouxe-lhe um copo dágua, do qual o nosso Pe. Ge-rôncio mal conseguiu beber um gole, tal era o tremor de suas mãos e de seu queixo. O Sr. Tranqüilino levou algum tempo para perceber que entrara na casa do Senhor de chapéu na cabeça e revólver em punho. Teve um estremecimento, descobriu-se e guardou rápido a arma. Ao recobrar a voz, o padre acercou-se do microfone, ergueu os braços e bradou: “Sete mortos acabam de ressuscitar e sair de seus caixões. E o Juízo Final! Deus Todo-Poderosó vai começar o julgamento dos vivos e dos mortos. Arrependei-vos de vossos pecados enquanto é tempo! Ó Senhor, tende piedade de nós. Oremos! Oremos! Todos de joelhos. Oremos!”

O clamor então foi geral. Mulheres romperam a gritar, algumas rojaram-se ao chão e rolaram em ataques histéricos, uma delas rasgou as próprias vestes, ficando seminua e escabelada. Não poucas foram as que desfaleceram. Muitos homens choravam, ao passo que uns poucos, os mais calmos, tentavam, mas em vão, pôr alguma ordem naquele pandemônio, se é que se pode usar esta palavra em se tratando dum templo católico. Algumas mulheres prosternaram-se diante da imagem da padroeira da nossa cidade e uma senhora já idosa foi vista metendo as mãos em concha na pia e enchendo-as de água benta, que derramava sobre a própria cabeça, esfregando com ela as faces, a testa, as mãos, como se quisesse assim lavar-se de todos os seus pecados. E o padre continuava a gritar: “É o Juízo Final! Arrependei-vos enquanto é tempo! Orai! Orai! Orai!” Muitos, de joelhos, oravam, de mãos postas, voltados para o altar-mor. De súbito ouviu-se um canto estrídulo. Era uma dama (cujo nome pedimos aos nossos leitores vènia para omitir) que nos temvos de moça possuía uma voz de soprano bastante apreciável, tendo dado até um concerto no Teatro São Pedro de Porto Alegre. Agora, de pé em cima dum banco, ela entoava, um tanto trêmula e desafinadamente mas com bravura operática, a Ave-Maria, de Gounod. Com lágrimas a rolarem pelas faces alguns homens e mulheres, velhos inimigos, reconciliavam-se, esqueciam velhos e novos agravos, abraçavam-se, beijavam-se, enfim, faziam as pazes cristãmente. Muitas pessoas encaminhavam-se para o confessionário, onde a presença do Pe. Gerôncio foi exigida, primeiro com calma e depois aos gritos. E no afã de disputarem um lugar na fila dos que queriam confessar-se, as vessoas acotovelavam-se, empurravam-se e dois homens chegaram a atracar-se aos socos e rolaram pelo chão, agarrados numa luta que parecia de morte. (Mais uma vez nos permitimos não citar nomes.) E como se toda aquela confusão não bastasse, o sacristão teve a infeliz idéia de correr para o campanário, pendurar-se na corda do sino e fazê-lo bimbalhar como num alarme de incêndio. Isso, como era de se esperar, aumentou a exacerbação e o desespero daquela pobre gente, que não ousava sair para a ,rua. O Sr. Tranqüilino Almeida correu para a torre, ordenou ao sacristão que parasse de tocar o sino, e como o homem, fora de si, recusasse obedecer-lhe, o guarda aduaneiro segurou-o pela cintura, ergueu-o no ar, levando-o assim até à sacristia, onde o atirou em cima duma cadeira.

 

Mal o sino cessa de badalar, Cícero olha para os companheiros e diz:

– Bom. Nossa presença, ao que parece, já foi notada na cidade. Agora, que cada um faça o que entender: que vá rever os seus afetos ou assombrar os seus desafetos. Repito que o importante é que ao meio-dia em ponto todos venham sentar-se nos bancos do coreto da praça e lá me fiquem esperando quietos e, se possível, em silêncio. – Volta-se para D. Quitéria. – Que pretende fazer a senhora?

– Dar um sustinho nos meus genros e nas minhas filhas.

– Posso acompanhá-la?

– Não. Conheço o caminho.

Os sete mortos separam-se. A praça está deserta. As janelas e portas das casas, em derredor, fechadas. D. Quitéria lá se vai, gingando e ao mesmo tempo rígida, como uma imagem carregada em andor. Um cachorro sem dono a segue, de longe, depois estaca e, com o rabo entre as pernas, o focinho erguido para o céu, começa a ganir agonicamente.

A matrona dos Campolargos está agora diante de seu palacete, cujas portas e janelas se acham cerradas. Ela entra pelo portão lateral, atravessa o jardim deserto de humanidade – mas lá estão as suas rosas queridas, ela as acaricia com as pontas dos dedos – e vai direito à porta dos fundos, sobe os três degraus que levam ao corredor, segue ao longo deste em passadas inaudíveis, passa sem ser vista pela porta da cozinha, onde as suas negras conversam animadamente, preparando o café da manhã, e segue silenciosa rumo da sala de jantar, de onde vem um rumor de vozes masculinas e femininas.

Escondida atrás da folha duma porta entreaberta, a velha fica a espiar e ouvir suas quatro filhas e seus quatro genros, que se acham sentados em torno da mesa, no centro da qual se vê um escrínio aberto, o interior forrado de ve-ludo cor de ametista, com um espelho na parte interna da tampa. Ao redor do escrínio estão enfileiradas as jóias que a morta queria levar consigo para o túmulo: o anel de brilhante, o colar de pérolas, os brincos de esmeraldas, o broche de rubis, a pulseira de ouro maciço... Um dos genros, o veterinário, levanta-se, boceja, estira os braços espregui-çando-se, depois acende um cigarro, solta uma baforada de fumaça, olha para o velho relógio de pêndulo e diz, azedo.

– Quase oito da manhã! Parece mentira que passamos a noite em claro, discutindo, e não chegamos a nenhuma conclusão. Acho que agora pelo menos podíamos tomar café. Estou morto de sono e de fome.

– O café já vem – anuncia, seca, sua mulher.

O comerciante passa a mão pelos cabelos ralos, dizendo:

– Eu fiz uma proposta sensata, mas meus queridos cunhados e minhas queridas cunhadas a recusaram. Acham que por eu ser homem de negócios tenho de ser necessariamente desonesto.

O farmacêutico dá de ombros:

– A idéia de discutir esses problemas agora não foi minha. Sempre achei que devíamos esperar a abertura do testamento...

– Ah, meu caro! – interrompe-o o veterinário. – Não sabemos que tipo de testamento a velha Quita fez. Pode ter deixado um pedaço de campo para cada agregado, para cada peão. Vocês sabem que ela não morria de amores por nós. Podemos ter uma surpresa desagradável quando o testamento for lido. Vocês sabem que a minha preocupação maior é a estância. Já fiz a minha proposta. Arrendo a parte de vocês nesses campos. Não podemos nem devemos dividir as terras da família!

– Isso tudo nós sabemos – diz uma das filhas. —-O problema agora são estas jóias. Não vão aparecer no testamento porque todo o mundo imagina que mamãe as levou consigo para a sepultura.

O dentista, que nos últimos minutos esteve a fazer cálculos na sua caderneta de capa preta, ergue a cabeça e diz com ar professoral;

– Tenho aqui uma fórmula capaz de resolver o nosso problema !

– Qual fórmula qual nada! – reage o veterinário. – Já me vem você com a sua matemática protética.

A mulher do comerciante apanha o colar com ambas as mãos, examina-o com amor, longamente, e declara:

– Eu já disse que estas pérolas são minhas e de mais ninguém !

A esposa do dentista protesta:

– Engraçadinha! E por quê?

– Vocês se lembram daquele réveillon de 31 de dezembro, um ano antes de eu me casar? Pois a mamãe me fez ir ao baile com o colar e disse que estas pérolas combinavam muito bem com o tom da minha pele.

– Ah, é? – replica a outra. – Você tem provas de que ela disse mesmo isso?

– Ora, provas não tenho. Mas se minha palavra não basta então vai-te à merda!

– Meninas! – intervém o farmacêutico. – Que é isso? Não sei como, depois de passarem uma noite em claro, vocês ainda têm forças para brigar. Eu estou me entregando...

– Ninguém quer escutar a minha proposta? – tenta mais uma vez o dentista.

A mulher do veterinário pega o anel, enfia-o no dedo e afasta a mão para contemplá-lo melhor.

– A mamãe sempre dizia que este anel tinha de ser meu porque sou a filha mais velha.

– Mentirosa! – reage a mulher do comerciante. – Nunca ouvi a velha dizer isso.

– Disse, sim. Vocês podem ficar com o resto, que não me interessa. Quero o solitário!

O dentista ergue-se, faz com o olhar um inventário das jóias que estavam no escrínio.

– Onde está a aliança? – pergunta. – Há pouco eu a vi ali perto do broche.

Todos se entreolham, trocando-se suspeitas.

– Decerto D. Filadélfia andou por aqui – graceja o veterinário.

– Estou falando sério – replica o dentista. – Onde está a aliança da velha? É de ouro maciço.

O veterinário avança para o cunhado:

– Será que você está insinuando que algum de nós botou essa coisa no bolso, seu sacamuelas?

– Sacamuelas é a mãe! – revida o dentista, recuando um passo e pondo os óculos no bolso, pronto para uma troca de socos.

– Por amor de Deus, rapazes! – intervém o farmacêutico, colocando-se entre os dois cunhados e apaziguando-os. – Acho que estamos irritados pelo cansaço e pela falta de sono. Vamos deixar a discussão para outro dia.

– Mas onde está a aliança? – insiste o dentista. – Se alguém quiser me revistar, estou às ordens. Mas todos, inclusive as mulheres, têm de ser também revistados.

O veterinário, homem de porte atlético, segura com ambas as mãos as lapelas do odontólogo, quase o ergue no ar e grita-lhe na cara:

– Que é que você está insinuando?

O dentista livra-se do agressor como pode, entrincheira-se num canto da sala, atrás duma cadeira, e dali diz:

– Estou apenas enunciando um fato. Desapareceu uma das jóias. A menor de todas.

– Pois então – sugere a esposa do farmacêutico – vamos revistar todo mundo.

Uma das mulheres começa a fungar repetidamente, franzindo o nariz:

– Vocês não estão sentindo um fedor de rato morto?

– Não desconverse! – encanzina o dentista. – Onde está a aliança?

O comerciante, que continua sentado, mete disfarçada-mente a mão no bolso, tira dele a aliança, depois inclina o busto e finge que apanha algo do chão.

– Ora! Vejam só! Tinha caído no soalho – diz, sorrindo amarelo, e repondo o anel sobre a mesa.

Outra das mulheres põe-se também a fungar:

– Deve ser mesmo algum bicho podre. Mas rato não é. Quem sabe é algum gato morto no porão?

O dentista olha enviesado para o comerciante.

– Como é que o anel podia ter caído sem ninguém ouvir o barulho?

O outro encolhe os ombros:

– Se você acha que eu tinha roubado essa porcaria, pouco me importa a sua opinião. Agora que a velha morreu, graças a Deus podemos todos nos separar, cada qual vai para a sua casa viver a sua vida e eu não serei mais obrigado a ver a sua cara todos os dias.

Agora é o farmacêutico quem franze o nariz, funga e faz uma careta:

– O fedor também não me parece de gato morto. Que será?

– Cachorro? – sugere uma das mulheres.

Faz-se um silêncio cortado de bocejos. O farmacêutico vai até à janela em busca de ar puro.

– Mas em que ficamos? – pergunta o veterinário.

– O mau cheiro está cada vez mais forte – queixa-se uma das mulheres. – Está me revoltando o estômago. O curioso é que começou há pouco...

– Querem ou não querem ouvir a minha proposta? – exclama o dentista, como que esquecido das ofensas sofridas, impessoal como um computador eletrônico.

– Está bem – concorda o farmacêutico. – Venha lá essa famosa fórmula.

– Não agüento mais... – geme a mulher do comerciante, que aos poucos vai empalidecendo. – Acho que vou vomitar.

– Vomitaremos todos – comenta o marido – depois que ouvirmos a fórmula mágica do nosso Einstein.

O dentista senta-se, ajeita os óculos, abre a sua caderneta e diz:

– A solução é duma simplicidade infantil. Para efeito de testamento essas jóias não existem. Logo temos que resolver o seu destino aqui e agora, entre nós. Proponho que façamos uma avaliação do preço de cada uma dessas jóias. Em caso de dúvida, usaremos o critério democrático do voto. Bom. Por exemplo – aponta para uma das cunhadas – se você fica com o colar de pérolas e minha mulher com os brincos, aquela a quem tocar a jóia de maior valor fica devendo à outra a diferença de preço, que poderá ser paga em dinheiro ou em... em gado, por exemplo, ou letras de câmbio, ações de banco... etc...

– Muito difícil – interrompe-o o veterinário.

– Eu quero o colar de pérolas – insiste a mulher do comerciante.

– Mas que fedentina!

– O solitário é meu. Dou escândalo se vocês não me derem esse anel.

O suor escorre pelo rosto dos homens. O dentista começa a andar em torno da sala, fungando como um perdi-gueiro, e tentando localizar o mau cheiro.

Quitéria Campolargo aparece subitamente à porta da sala e diz:

– Não se incomodem, meninos e meninas. Só vim buscar as minhas jóias.

A filha mais moça solta um grito. A mais velha cai de joelhos e brada:

– A mamãe foi enterrada viva!

– Socorro! – grita o farmacêutico, que sai correndo da sala, rumo do jardim, enquanto a mulher do comerciante rola no chão debatendo-se em guinchos, num ataque de histeria.

– O mau cheiro – diz a velha Quita – é muito do meu cadáver, mas é mais dos pensamentos de vocês, seus trapaceiros ordinários! Pedi para ser enterrada com estas jóias e vocês não cumpriram a minha ordem. Faz tempo que estou ouvindo essa discussão indigna, ali atrás da porta. Ninguém até agora teve para comigo nenhuma palavra de respeito, de carinho ou de saudade. Está todo mundo com o sentido no meu testamento.

O dentista acha-se estendido no chão, sem sentidos. O veterinário e o comerciante paralisados de espanto, incapazes duma palavra ou dum gesto.

A defunta aproxima-se da mesa e vai pondo as jóias uma a uma dentro do escrínio, depois põe a caixa debaixo do braço, dirige-se para o lavabo social, despeja todo o seu conteúdo no vaso sanitário, puxa a corrente da descarga, longamente, muitas vezes, depois volta para a sala e exclama:

– Pronto! A divisão está feita. O Rio Uruguai herdou as minhas jóias.

 

O Dr. Cícero Branco encontra-se agora dentro de sua própria residência, cujas janelas estão ainda fechadas. Silêncio e penumbra. No pequeno vestíbulo da entrada, põe-se diante do espelho oval do cabide, mas o vidro não lhe reflete a imagem. Mesmo assim ele ajeita a gravata e limpa com as pontas dos dedos a poeira de suas lapelas de seda.

O relógio da sala de jantar começa a bater lentamente a hora. Depois da oitava badalada, de novo a quietude. O advogado sai a caminhar ao longo do corredor que leva ao seu escritório. Pára diante do quarto conjugai, fica um instante como à escuta, depois, com um cuidado de gatuno, torce a maçaneta da porta e vai empurrando esta devagarinho até abrir um vão pelo qual se insinua na peça. Sempre pisando de leve, encaminha-se para a janela que dá para a rua, e abre-lhe as venezianas, deixando entrar o sol. Efigê-nia Branco, sua mulher, está na cama com um homem, ambos completamente nus e descobertos. Deitada sobre o lado esquerdo, o corpo meio arqueado, ela forma com as coxas, o ventre e os seios uma espécie de recôncavo no qual se aninha, numa posição quase fetal, um jovem que aparenta quando muito vinte anos, e que ela enlaça com os braços. As pálpebras da viúva de Cícero palpitam à repentina intensidade da luz, e ao cabo de alguns segundos se abrem. Efigênia vê aquele vulto negro contra a janela iluminada, solta um gritinho e põe-se de joelhos na cama, os olhos piscos, o susto no rosto, os seios murchos pendentes como duas jacas brancas.

– Bom dia, Efigênia – diz Cícero com irônica bran-dura. – Lembra-se de mim? O Ciei...

Ela está como que siderada. O rapaz também desperta, e dando por aquela presença estranha no quarto, salta da cama, alarmado, e cola-se à parede, numa atitude defensiva. Só então Efigênia reconhece o marido. “Cícero! Meu Deus... mas você morreu!” – e põe-se a gritar e a rolar sobre o leito como uma possessa, a puxar os cabelos e ao mesmo tempo a rir e soluçar, ficando nas posições mais grotescas até que, exausta, deixa-se cair em decùbito dorsal, os peitos arfando, Vs mãos crispadas sobre o lençol, o olhar fixo no teto, enquanto de sua boca entreaberta se escapa um estertor líquido.

Cícero volta-se para o rapaz que, pálido, agora treme da cabeça aos pés.

– Apresento-me. Dr. Cícero Branco. Corno póstumo. Não, minto. Eu já era enganado por minha mulher, quando vivo. Existe nesta cidade uma apreciável cadeia de cartas anônimas que me mantinha informado das atividades adul-terinas dessa distinta dama, com detalhes de lugar, hora e nome do macho. E você? Acho que não o conheço... ou conheço? Pare de tremer, menino! Não lhe vou fazer nenhum mal físico ou moral. Se o meu mau cheiro o incomoda, molhe um lenço na água-de-colônia que está ali em cima do toucador e tape o nariz com ele.

Efigênia continua estendida na cama. Cícero estuda o rapaz com um cuidado de artista plástico.

– Louro, hem? Quase imberbe. Musculatura... pas-sável. Um Apoio de peso-galo. Estudante, presumo. Pois é. Minha mulher gosta de meninos. Tem a sua grande safra anual durante as férias de verão, quando os estudantes de Antares voltam de Porto Alegre e outros centros. – Olha para os órgãos genitais do rapaz. – Bom, para ser franco, a natureza não foi lá muito generosa com você. O David de Miguel Ângelo sofre da mesma exigüidade viril. Mas a sua juventude, a sua cara de anjo devem garantir o seu sucesso com certas mulheres que já entraram na menopausa.

Aproxima-se da cama, inclina-se um pouco sobre a viúva, fica um instante a examiná-la e depois diz:

– Perdeu os sentidos. Quando eu sair, Romeu, trate de reviver esta sua Julieta faisandée. Há um frasco de sais de amoníaco no armarinho do quarto de banho.

O rapaz cai de joelhos e cobre o rosto com as mãos.

– Que é isso, homem? – exclama Cícero. – Controle-se. Não tenho mais direitos nem legais nem morais sobre essa senhora. Ela está viúva. Pode dormir com quem quiser. Ah! A propósito, como foi o ato ou os atos? Satisfatórios?

Conseguiram o orgasmo simultâneo, que sempre foi o sonho da Efigênia? Desgraçadamente nunca lhe pude proporcionar esse gozo em comunhão. Ejaculação precoce, você compreende... O velho Freud explica essas coisas no seu jargão. E por falar em Freud, você sabe que a minha viúva tem idade para ser sua mãe? Pois tem. Você cometeu uma espécie de incesto branco... sem trocadilho, longe de mim! Mas deve ter sido algo de sensacional possuir a viúva dum sujeito cujo corpo ainda não foi sepultado, hem? E no próprio tàlamo conjugal! Quase um ato de necrofilia...

O moço está agora completamente estendido no chão, o corpo reluzente de suor.

– Levante-se, menino. Eu me retiro. Vou tratar do meu sepultamento definitivo. Reviva a sua fêmea, convença-a, se puder, de que tudo foi um pesadelo... Infelizmente a minha podridão vai ficar por algum tempo neste quarto. .. Mas façam o amor assim mesmo. Será très exotique, très Marquis de Sade. Você deve saber um pouco de francês... ou não sabe?

Sempre na ponta dos pés Cícero Branco deixa o quarto e dirige-se para o seu escritório, abre-lhe ambas as janelas, senta-se à sua mesa de trabalho, apanha uma caneta-tintei-ro e começa a escrever numa folha de papel em branco. O silêncio na casa continua.

 

Vinte minutos mais tarde Cícero Branco, depois de assustar as raras pessoas que encontrou na rua ou debruçadas nas suas janelas, entra no cartório do velho Aristarco. O notário, sentado à sua mesa, examina uns papéis. Ergue a cabeça, põe-se de pé de maneira tão brusca que derruba a cadeira em que está acomodado, engole em seco e fica olhando para o defunto.

Aristarco amigo, sei que você é médium vidente, por isso não acredito que tenha medo de almas do outro mundo.

O notário move os lábios formando palavras inaudí-veis, como um ator dum filme cuja trilha sonora cessa de funcionar. Tira o lenço do bolso e limpa tremulamente o suor que lhe escorre pela testa e pelas faces. Por fim consegue falar:

– Alma você não él – E com estas palavras recua, franzindo o nariz. – É um cadáver em franco processo de putrefação.

– Apodrecer é o destino de toda carne... o que é uma bela frase.

Aristarco parece ter recuperado a calma.

– Sou médium, sim, talvez o médium vidente mais conhecido da Região Missioneira. E um Kardecista convicto. Há mais de quarenta anos leio tudo quanto me cai nas mãos sobre espiritismo. Nunca tive notícia dum caso como esse... sete mortos erguendo-se de seus féretros... Sei que você morreu, li seu atestado de óbito, vi seu cadáver no velório.

E então? Como explica o fenômeno? Aristarco sacode a cabeça dum lado para outro.

– Não quero me comprometer com nenhuma interpretação. Mas posso dizer, com minha experiência de médium e de estudioso do espiritualismo, que nunca vi em toda a minha vida, nem creio possível, tamanho desperdício de ectoplasma.

– Não aceita então o testemunho de seus sentidos?

– Sei que tenho na minha frente um cadáver que se move e que fala. Mas não um espírito, isso não.

– Está bem. Não vim aqui lhe pedir explicação para o que me aconteceu, mas sim para me valer de seus serviços profissionais.

– Não compreendo...

– Você reconhece em mim um homem que em vida se chamou Cícero Soeiro Branco?

– Reconheço e dou fé.

– Você tem ou não em seus livros um espécime de minha firma?

– Tenho.

– É o que me basta. – Cícero tira do bolso um envelope e de dentro do envelope duas folhas de papel de ofício, que coloca em cima da mesa do notário. – Quero que reconheça a minha assinatura nestes documentos.

O notário olha do papel para o defunto, indeciso.

– De que se trata?

– Não é da sua conta. A assinatura é ou não é autêntica?

– É!

– Pois então aplique na parte de baixo do documento o seu carimbo e o seu jamegão. Ah! Mas ponha a data de 10 de dezembro.

– Isso não posso fazer.

E por que não?

– Porque sou um profissional honrado. Hoje é 13.

E quem é (me diga!), quem é que pode afirmar que eu não comparci ao seu cartório terça-feira 10, ante-véspera de minha morte?

– Deus.

– Deus vai fazer vista grossa a esse pecadilho, já que o documento tem uma finalidade nobre.

– Duvido.

– É engraçado, Aristarco. Você se gaba tanto de sua honestidade, me nega um pequeno favor e no entanto (lembra-se?) na estória dos bens daquela viúva do Herval Seco em 1958 você reconheceu direitinho uma firma falsificada.

Aristarco baixa a cabeça, tosse, nervoso, passa o lenço pela calva e murmura:

– Sim, mas sob a pressão das ameaças do Cel. Tibé-rio, do prefeito e... das suas!

– Pois considere-se agora também ameaçado. Vamos! Reconheça essas firmas. Não tenho tempo a perder.

Aristarco, aniquilado, ergue a cadeira do chão, torna a sentar-se à mesa, olha por alguns instantes para o papel, depois, sempre sacudindo a cabeça dum lado para outro, faz o que Cícero lhe exige.

 

Barcelona consegue entrar na sua meia-água, no Beco do Sono, arrombando uma das janelas laterais e saltando para dentro de seu quarto de dormir de viúvo solitário. A cama está desfeita. No soalho, junto dela, os seus chinelos. Atirado sobre uma cadeira, seu pijama zebrado. Em cima da mesinha-de-cabeceira, uma pilha de livros, que agora ele folheia rapidamente-, obras de Sorel e Bakunin em espanhol, em brochuras amarelentas e sovadas.

Passa para a oficina, abre a sua única janela, examina um por um os seus instrumentos de trabalho – a torquês, o martelo, o alicate, a lixadeira, a sovela... Acaricia as formas, pega um pedaço de couro curtido e com a faca afia-díssima corta-lhe um pedaço, ao acaso. Senta-se no seu mo-cho e por alguns minutos fica sorrindo e batendo tachas numa sola, continuando exatamente o trabalho que fazia quando seu aneurisma rebentou. Depois põe em movimento a máquina de costura. Olha para a prateleira, vê alguns sapatos enfileirados, agarra o maior deles, uns sapatões enormes de homem, apanha o pedaço de papel que está dentro de um deles e lê: Jefferson Monroe III. “Ianque filho duma mãe” – murmura – “agente da CIA! Eu devia te devolver estas lanchas com uma bomba dentro!”

Sai de casa pela janela arrombada, dirige-se vagarosamente para a praça, atravessando-a em diagonal, e vai direito à sede da delegacia de polícia, onde fica também a cadeia municipal.

À porta do prédio, um guarda armado de mosquetão barra-lhe a entrada.

– Que é que você quer?

– Dizer umas verdades ao teu chefe. Sai da frente, porco!

Reconhecendo o defunto, o soldado empalidece, deixa cair a arma e foge rua em fora. Os outros membros da guarda, vendo o morto, também rompem a correr em pánico. Barcelona segue ao longo do corredor, atravessa o pátio interno cercado por uma galeria, vai direito ao escritório do delegado de polícia e abre a porta devagarinho.

Inocêncio Pigarço, em mangas de camisa, está sentado à sua mesa de trabalho, falando ao telefone, de costas para a porta. O sapateiro fica a escutá-lo, sem produzir o menor ruído:

– Não, Cel. Tibério. Acho que tudo isso não passa duma brincadeira estúpida desses estudantes em férias. Todos os dezembros eles fazem das suas. No ano passado saíram à rua quase pelados... Onde se viu morto ressuscitar? Ora essa!... Hem?... Não. Só sei que muita gente jura que viu os defuntos. Mas essa eu não engulo. Preciso primeiro ver. Andei há pouco pela praça e não enxerguei ninguém, vivo ou morto. Sei que a cidade está começando a entrar em pânico. São esses malditos boatos. Nessa coisa toda pode andar dedo de comunista. Como? Não diga! Então os genros da D. Quitéria lhe afirmaram que a velha está em casa, sentada numa cadeira de balanço? E já podre? Devem estar bêbedos ou loucos varridos.

Barcelona sorri e espera, com uma das mãos segurando a maçaneta da porta.

– Não – continua Inocêncio – ainda não telefonei ao prefeito, porque achei que não devia incomodar o homem tão cedo com tolices desse calibre. Está bom. Vou sair de novo para fazer averiguações e tomar as providências que se fizerem necessárias. Depois lhe comunicarei o resultado... Até logo, coronel! Recomendações à sua senhora... Quê? Eu posso imaginar. Amiga de D. Quita como ela era... Prometo esclarecer tudo em menos de duas horas e trancafiar na cadeia os responsáveis por essa brincadeira de mau gosto.

Inocêncio solta um suspiro de impaciência, repondo o fone no lugar e põe-se a fungar, fazendo caretas. Volta-se, reconhece Barcelona, ergue-se brusco, recua três passos, com a mão no revólver que tem à cintura, os olhos arregalados de susto.

– Barcelona... você morreu!

– Pois é, pústula! Estou morto e podre. Você está vivo e mais podre que eu. Podre de alma. Podre de coração.

O delegado recuou e está agora junto da janela, como se quisesse saltar para a rua.

– Você foi enterrado vivo!

– Não. Sou um defunto legítimo e portanto estou livre da sociedade capitalista e dos seus lacaios como você, seu canalha ordinário, bandido, assassino, filho duma gran-dessíssima puta!

Inocêncio, num esforço para se dominar, vencendo a náusea e o espanto, consegue dizer ainda:

– Você não me intimida! Considere-se preso!

O sapateiro solta uma gargalhada, e pelos cantos de sua boca escorre um líquido viscoso e pardo. O delegado grita:

– Cabo da guarda! Miguelito! Palrhiro! Socorro!

– É inútil. Teus soldados são uns covardes. Fugiram quando me reconheceram.

O suor escorre pelo rosto do delegado, empapa-lhe a camisa. Sufocado, ele desabotoa o colarinho, afrouxa,a gravata, sacode frenético a cabeça dum lado para outro, como para afugentar da mente aquela visão.

– Que é que você quer comigo? – pergunta, ofe-gante.

– Te estragar o dia. Te empestar os pulmões e a consciência, bandido. Torturaste e assassinaste o João Paz. Terás de prestar conta disso ao povo, mais tarde ou mais cedo.

– Não se aproxime de mim – exclama o delegado, empunhando agora o revólver. – Vá embora, senão eu atiro.

– Atira, galinha! Não podes matar um morto! Inocêncio Pigarço puxa o gatilho. Um estampido seco

enche a sala. Rindo e avançando lentamente, Barcelona repete: “Atira de novo!” E Inocêncio dá mais quatro tiros, que varam o corpo do sapateiro.

Por fim, percebendo que detonou a última bala, atira a arma contra Barcelona, mas erra o alvo. E então, para não ser tocado pelo defunto, corre para um canto do escritório, acocora-se na posição duma múmia índia dentro duma urna. Seu estômago se contrai e ele vomita convulsivamente sobre o peito, as calças, o sapato, o chão. enquanto um verde bilioso lhe vai tingindo a cara.

Barcelona aproxima-se do delegado, baixa o olhar e diz:

– Valeu a pena morrer só para ver este espetáculo. Estou satisfeito!

Faz meia volta, encaminha-se para a porta, sai para o corredor, e quando começa atravessar o pátio, os soldados da guarda, agora entrincheirados no parapeito da galeria, começam a atirar com seus mosquetes contra ele. Sem acelerar o passo, sorrindo e jogando beijos com os dedos para um lado e outro, Barcelona dirige-se para a porta da rua, sob os fogos cruzados.

 

Vivaldino Brazão, que havia terminado de tomar o seu café matinal, estava no seu orquidário, ainda de pijama, examinando uma habenaria, quando o telefone tilintou. Encaminhou-se para a sala onde estava o aparelho, ergueu o fone e ouviu a voz excitadíssima de seu secretário:

– Prefeito! Uma coisa inacreditável, horrorosa, aconteceu! Os sete mortos que ficaram sem sepultura, levantaram-se esta manhã de seus caixões e desceram sobre a cidade!

– Ó Mendes, você já está bêbedo a esta hora do dia?

– Pela luz que me alumia, só tomei uns mates, major! Várias pessoas já viram os defuntos. O vigário, o Tranqüili-no... o... o velho Ocário da coletoria... e outros... muitos outros!

– Rapaz, tome um café bem forte. E não me amole mais a paciência com essas bobagens. Ora, onde se viu?

– Está aqui o delegado. Ele vai lhe falar.

– Pronto! É o Inocêncio?

– Ele mesmo, major.

– Não estou reconhecendo a tua voz. Que é que há?

– O que o Mendes acaba de lhe contar é verdade.

– Tu também? Pensam que não tenho mais quê fazer?

– Major, dou-lhe a minha palavra de honra...

– Mas você viu mesmo com os seus olhos algum desses... desses defuntos?

– O Barcelona há pouco invadiu em pessoa o meu escritório para me insultar. Descarreguei o meu revólver em cima dele. Acertei todos os tiros, mas o homem nem se mexeu... Depois meus guardas o crivaram de balas no pátio da delegacia e ele continuou caminhando e rindo...

– Será um caso de cara... cata (como é a coisa?) catalepsia?

– Não, major. O homem está morto mesmo. Fedia como um cachorro podre. Os outros andam espalhados por aí. E o pânico já começou na cidade. D. Quita está na casa dela, sentada na sua cadeira de balanço. As filhas e os genros (sei de fonte segura) fugiram para a estância. Os vizinhos do Prof. Menandro viram o homem entrar na casa dele e depois ouviram o som do piano...

– Impossível! Vocês estão todos vendo fantasmas. Nos meus tempos de piá, quando eu ajudava um irmão do Cel. Tibério a fazer tropas, muitas vezes dormimos em cemitérios, nos descampados. Nunca vi alma do outro mundo. Cansei de passar a noite em casa com fama de assombrada. Nunca vi nada de anormal. Morto não volta.

Curto silêncio. Depois, a voz soturna de Inocêncio Pi-garço:

– Mas esses voltaram, major. Dou-lhe a minha palavra de honra.

Vivaldino começa a suar,’enxuga a testa com a manga do pijama.

– Eu ainda acho que vocês todos estão sendo vítimas duma... – Não termina a frase. Porque sente uma súbita podridão espalhar-se na sua sala. Volta-se rápido e vê o Dr. Cícero Branco, que pergunta:

E agora acredita?

Vivaldino deixa cair o fone. Recua uns passos, sem tirar os olhos da “aparição”. Seus lábios tremem quando ele balbucia :

– Cícero... mas você... você está morto!

– Não nego. E daí?

– Co... como se explica?...

– Não se explica.

– Que é que você quer?

– Eu e mais seis defuntos, que represento como advogado, queremos ser sepultados, como é de nosso direito. Infelizmente, por falta de tempo, não pude trazer procurações assinadas pelos meus constituintes.

Vivaldino deixa-se cair pesadamente numa poltrona forrada de veludo. O suor empapa o casaco de seu pijama de seda creme. Cícero Branco afasta-se para um canto da sala.

– Estou sendo tão polido quanto possível, não me aproximando mais de você, major. Reconheço que minha presença não é das mais agradáveis ao sentido da visão e principalmente ao do olfato.

O prefeito tira do bolso um lenço e tapa com ele o nariz e a boca. Está duma palidez mortal, a respiração irregular.

– Por amor de Deus, Cícero, vá embora! Minha mulher ainda está dormindo... Se ela acorda e vê você, pode sofrer um colapso fatal. A Solange é muito doente.

– Minha missão é rápida e simples. Venho falar com o prefeito de Antares e não com o meu velho amigo e cliente Vivaldino Brazão. Exijo em nome de meus constituintes e no meu próprio que sejamos enterrados imediatamente.

O prefeito sente um espasmo de estômago e por alguns segundos luta com uma ânsia de vômito, e começa a suar frio.

Im... impossível – tartamudeia. – Vocês talvez ignorem que, se ficaram insepultos, foi... foi por culpa dos grevistas.

– Sabemos disso. Mas não estamos interessados diretamente na greve. Descubra um meio de nos sepultar decentemente e sem tardança.

O prefeito sacode a cabeça numa afirmativa aflita, e de novo se curva sobre si mesmo, apertando o estômago com uma das mãos e a garganta com a outra.

Cícero Branco continua no seu canto:

– Reúna a câmara municipal, se puder, pois desconfio que os vereadores fugirão todos da cidade quando souberem da nossa’uisita. Convide ao seu gabinete os próceres locais. Em suma, descubra um jeito rápido de atender à nossa justa reivindicação.

Arque jante, e falando através do lenço com que agora cobre o nariz e a boca, Vivaldino diz:

– É questão de tempo, Cícero. Compreenda a minha... a minha situação. Amanhã se resolve a greve, dum modo ou de outro, e vocês todos serão sepultados, como de direito...

Cícero sorri, sacudindo a cabeça negativamente.

– Não podemos esperar, sinto muito. Olhe, preste bem atenção ao que vou dizer. Dou-lhe o prazo de... – Lança um olhar para o relógio de parede. – Oito e meia... Dou-lhe um prazo de quase quatro horas. Ao meio-dia em ponto os sete mortos estarão sentados no coreto da praça à espera dum despacho favorável ao requerimento verbal que acabo de lhe apresentar.

– Só quatro horas?

– Por que não? Eu morri em questão de segundos.

– Mas... mas se os grevistas...

– Se eles insistirem em barrar nosso sepultamento, peça forças federais e use da violência a bem da comunidade.

– Não posso fazer uma coisa dessas...

– Está pensando na sua reeleição, naturalmente... Compreendo.

Oh! Não é isso... Cícero, pelo amor de Deus!

– Pois então convença os patrões a aceitar as condições dos grevistas.

– Mas isso também leva tempo...

O advogado cncaminha-se para a porta, vagarosamente.

– Bom. Esperamos a resposta ao meio-dia em ponto. No coreto da praça.

Vivaldino tira por um instante o lenço da boca e do nariz.

E se chegarmos a um impasse?

– Pior para Antares. Nesse caso não teremos outra alternativa senão ficar apodrecendo no coreto e empestando o ar da nossa amada cidade. C’est dommage!

Já com a mão na maçaneta da porta, Cícero volta-se: – Peça em meu nome desculpas às suas belas orquídeas, Vivaldino, por eu ter poluído o ar que elas respiram. E apresente também à sua senhora as minhas escusas, pois não vai ser fácil espantar o meu cheiro desta casa. Recomendo-lhe defumações de alfazema e benjoim ou, se o catolicismo de D. Solange preferir, incenso. Ciaof

 

Menandro Olinda entra no sobradinho de azulejos e sobe lentamente a estreita escada que leva ao andar superior, que ele ocupava quando vivo. Suas mãos pendem ao longo do corpo, oscilantes, mas ele não as usa para segurar o corrimão. Os degraus rangem. Um rato furtivo passa assustado por entre seus pés. Na casa toda, um silêncio antigo, recendente a mofo.

No patamar lá em cima ele faz alto, olha para a porta de sua morada por alguns segundos, depois aproxima-se dela, empurra-a suavemente com os ombros, abrindo-a, pois o trinco não funciona há vários anos e a fechadura só teve chave em tempos imemoriais.

O pianista entra na sala sombria, abre a porta da sacada com um dos pés e o interior se ilumina de sol. Depois põe-se a andar dum lado para outro – quarto de dormir, cozinha, quarto de banho – examinando móvel por móvel, objeto por objeto, utensílio por utensílio, como que fazendo um inventário mental de suas posses terrenas. Torna à sala, diz algo baixinho à máscara de Beethoven e ao retrato ama-relento de seus pais e por fim olha longamente para o sofá onde se deitou depois de haver cortado as veias dos pulsos. No tapete ao pé do diva escureja uma larga mancha de sangue.

Aproxima-se do piano, que tem o teclado descoberto, senta-se no banco giratório, olha para a partitura que está na estante e seus lábios se movem quando ele lê: SONATA, dedicata al Conte Francesco von Brunswick, Op. 57. Composta nel 1803-04, publicata in febbraio 1807 presso il “Bureau des arts et de Tindustrie” di Lipsia.

Suas mãos, como dotadas de vontade própria, erguem-se e pousam sobre o teclado. O pianista, com os olhos postos na partitura, murmura cariciosamente: sottovoce e misterioso. Seus dedos começam a move-se, tocando a frase inicial ia sonata:

 

O som do piano enche a sala, escapa-se pela janela. O maestro ergue-se, corre para a sacada e exclama:

– Povo de Antares! Fariseus e filisteus! Povos do mundo! Ouvireis agora a Appassionata, de Ludwig van Beethoven, interpretada de além-túmulo pelo virtuoso Menandro Olinda!

Faz uma curvatura para a praça deserta, torna a encaminhar-se para o piano ajustando abotoaduras imaginárias de punhos engomados invisíveis e volta-se dum lado para outro, respondendo a consultas. “Scala di Milano? Peccato, signor impresàrio. Impossibile! Salle Pleyel, à Paris’? Oh non, non, non, je le regrette, monsieur. Conzertgebaum, Amsterdam? Nein! Bolshoi de Moscou? Nyet! A explicação é simples. Tenho de tocar a Appassionata para Deus Nosso Senhor numa audição especial. Com a vossa licença. ..”

Torna a sentar-se no banco ao piano, erguendo as abas da casaca, como fez há vinte e oito anos passados no palco do Teatro São Pedro, em Porto Alegre. Depois olha para as próprias mãos, beija-as repetidamente e então recomeça a tocar a sonata, dal capo, soluçando convulsivamente, mas de olhos secos.

 

Quando lhe vêm contar que Erotildes voltou à cidade na companhia de outros seis defuntos insepultos, Rosinha pensa assim: “Aposto que ela vem me visitar...” Mas não diz nada a ninguém. Veste o seu melhor vestido, calça os seus sapatos menos velhos, pinta-se e – tudo isso feito – senta-se na cama de ferro que ambas por muito tempo partilharam, e ali se queda, ouvindo o tique-taque do despertador em cima da mesinha-de-cabeceira, ao lado duma vela acesa, metida num castiçal de latão.

É uma alcova improvisada, estreita e curta, debaixo duma escada, nos fundos duma casa muito velha, pertencente à viúva dum pedreiro. Mal cabe nela a cama, um baú, um lavatório de ferro e uma cadeira com assento e respaldo de palha trançada.

A velha lhes alugou o cubículo sem ignorar a profissão das “meninas”. Impôs, porém, uma condição rígida-. “Não me tragam machos para dentro de casa, senão eu mando vocês embora!” Assim, elas tinham que andar pelas ruas caçando homens e, quando conseguiam agarrar algum, iam fazer o amor com eles em terrenos baldios, sobre a terra ou a grama (e quantas vezes se haviam deitado seminuas ou completamente nuas em cima de urtigas ou plantas espinhosas!) ou então de pé, às pressas, em algum ângulo de muro, em ruas desertas.

Rosinha espera, com os olhos fitos no relógio. O ponteiro pequeno está pertinho das oito e o grande não muito longe dele. “Ai meu Deus!” – suspira ela, olhando a seu redor. A alcova cheira permanentemente a mofo, nunca recebe a luz do sol, e quando alguém sobe ou desce a velha escada é como se estivesse pisando na cabeça do pobre vivente que está deitado nesta cama.

São quase oito e meia quando Rosinha ouve passos muito leves no corredor. Entesa o busto e fica à escuta. Seu coração rompe a bater acelerado. Seus olhos fixam-se na porta. Um breve silêncio. Depois a porta começa a abrir-se devagarinho, e as suas dobradiças enferrujadas rangem quase musicalmente. À luz da vela, contra o fundo escuro do corredor, ali está agora a sua amiga Erotildes, que mais parece um fantasma dentro do camisolão de hospital que lhe serve de mortalha. Rosinha ergue-se, as mãos apertando uma a outra. Erotildes sorri, mostrando os dentes escuros e pontiagudos e faz: “Oh!” bem como nos seus tempos de viva. Rosinha engole em seco e depois responde como costumava fazer quando se encontravam naquele cochicholo, terminada a caçada da noite: “Oh!”

Erotildes olha em torno e depois encara de novo a companheira.

– Como vais?

– Mais ou menos. E tu?

– Morta.

– Como foi que voltaste?

– Não sei. Mas o Dr. Cícero está providenciando pra enterrar a gente. O advogado, te lembras? E tu sabes quem está no nosso grupo? Uma grã-fina, a D. Quitéria Campo-largo. Imagina só que chique!

Rosinha sacode a cabeça lentamente, imaginando... Depois baixa os olhos e murmura:

– Tu me desculpas por eu ter ficado com o teu vestido, as tuas meias, o teu sapato... e as outras bugigangas?

– Ora, que bobagem! Defunto não precisa mais dessas coisas.

– Tu não te ofendes se eu espalhar um pouco de perfume?

– Ora! Não me importo. Sei que estou fedendo. Mas que é que tu queres? Morta há quase três dias... Ou dois? Nem me lembro.

Rosinha apanha um frasco de loção (Violetas de Parma) e põe-se a perfumar o ambiente apertando freneticamente no vaporizador. Depois afasta-se da amiga morta o mais que pode naquele reduzido espaço.

– Como vai a tua tosse?

– Menina, onde é que tu viste morto tossir?

Ah, é mesmo. Também não sentes mais pontadas no pormão, né?

– Não sinto mais nada.

Novo silêncio. Rosinha aponta para os pés descalços de Erotildes :

– Quando te botaram no caixão fui eu quem te arrumei direitinho, te penteei, botei ruge na cara, batom nos beiços, e até te pintei as unhas dos pés... Não notaste?

– Notei. Muito obrigado. Novo silêncio.

E agora? – pergunta Rosinha.

– Temos que estar todos os sete ao meio-dia em ponto no coreto da praça. Ordens do Dr. Cícero.

– Então senta, menina. É cedo ainda.

– Não carece. Estou bem de pé.

A morta ajeita os cabelos com os magros dedos.

– Devo estar medonha.

– Nem tanto.

– Podes falar com franqueza. Não ligo...

– Bom, a doença te deixou meio magra e pálida. A morte não te ajudou em nada. Mas pra mim, viva ou morta, tu és sempre a Erotildes.

– Engraçado não teres medo de mim... Vim pela rua assustando meio mundo. Vi uma mulher desmaiar de susto na minha frente. Um pintor de parede me enxergou, soltou um grito e caiu da escada (Deus queira que não tenha se machucado muito). Até os gatos e os cachorros fogem de mim. E tuT nem água...

– Havia de ter graça eu ter medo de ti.

Erotildes apanha o castiçal e põe-se na frente do pequeno espelho com moldura de lata dourada que pende dum prego cravado na parede. Move a luz da chama da vela dum lado para outro, murmurando:

– Que é que há com este espelho? Não me enxergo nele.

– Decerto está te estranhando – diz a outra com uma risadinha nervosa. – Deve estar meio assustado, o coitado.

Rosinha apanha de novo o vidro de loção e aciona-lhe o vaporizador, E de novo, naquele ar quente e abafado, o perfume das violetas de Parma entra num corpo-a-corpo com o cheiro de carne decomposta que envolve Erotildes, como uma aura.

A morta repõe o castiçal em cima da mesinha, depois volta-se para a amiga:

– Como vai o negócio?

– Muito mal. Cada vez pior. Eu sempre digo: o que falta pra Antares é uma boa guarnição miütar.

– Não tens nenhum amiguinho fixe?

– Eu? Nesta idade? Dou graças quando consigo pescar um homem por noite. Cobro uma miséria e assim mesmo levo muito beiço. Tu sabes como é a coisa. Ninguém quer pagar adiantado.

Rosinha baixa a cabeça e conta:

– Ontem de noite uns meninos me agarraram a força e me levaram pra um terreno baldio. Uns cinco ou seis... Primeiro me tiraram toda a roupa, até me rasgaram um vestido quase novo. Me derrubaram, se puseram em mim, não houve porcaria que não fizessem comigo. Depois foram embora dando risadas e não me deram um mísero vintém.

– Conhecidos?

– Alguns acho que conheço de vista. Meninos de boas famílias.

– Às vezes são os piores.

– Mas não sei por que fizeram isso, logo comigo! Não precisavam me agarrar a unha, me maltratar. Se dissessem que estavam sem dinheiro, eu dava de graça. Mas não. Pareciam uns animais. Em vez de virem de um a um, vinham de dois e até de três. Uns porcos!

Erotildes fita na amiga os olhos gelatinosos e diz baixinho:

– Pois eu te digo que estou contente por ter morrido. A gente fica livre pra sempre de todas essas tristezas e vergonhas.

– Já pensei em morrer. Em tomar veneno. Mas não tive coragem...

– É pecado a gente se suicidar. Vai pro inferno.

– Mas o inferno não será aqui mesmo?

De súbito Rosinha desata o choro. Erotildes ergue a mão como para acariciar a cabeça da amiga., mas hesita em tocá-la.

– Não há de ser nada – murmura. – Não hai bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe, como dizia a minha falecida mãe.

Erotildes pega o vaporizador e borrifa a própria cara de perfume. Depois diz:

– Bom, já te vi. Tenho ainda quase três horas livres pela frente. Acho que vou ver a Irmã Bonifácia, aquela enfermeira que foi tão boa comigo quando eu estava no hospital. Até logo, Rosinha, Deus te ajude!

Encaminha-se para a porta.

– Erotildes? Tu já viste Deus? A morta se volta:

– Ainda não. Decerto só vou ver Ele quando me enterrarem como cristão.

Rosinha limpa tremulamente as lágrimas do rosto com as pontas dos dedos.

– Vou te pedir um favor...

– Qual é?

– Diz pra Deus que me dê uma boa morte, já que não me deu uma boa vida.

 

Depois de separar-se de seus companheiros, Pudim de Cachaça, envolto numa nuvem de moscas, encaminha-se para o setor de Antares popularmente conhecido por Zona Estragada, e que fica a noroeste da cidade, perto das barrancas do rio. Passou primeiro pela sua própria casa, que encontrou fechada, assustou os vizinhos (“Que é isso, minha gente? Não me conhecem mais?”) e depois saiu em busca de seu melhor amigo, companheiro de pileques, serenatas e farras com raparigas.

– Por onde andará o Alambique? – pergunta ele a um sujeito que está parado a uma esquina. O homem, recon