Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
Assalto à Galáxia
Os pos-bis pretendem aniquilar a Humanidade...
Estamos no ano 2.213 do calendário terrano. Quer dizer que para o homem do planeta Terra menos de cento e cinqüenta anos se passaram desde que o primeiro foguete de propulsão química conseguiu pousar na Lua, dando início à verdadeira navegação espacial.
Esse tempo, medido pelos padrões cósmicos, é extremamente curto, mas o Império Solar, criado e dirigido por Perry Rhodan, conseguiu transformar-se numa das vigas mestras do poder galáctico.
Naturalmente os terranos encontraram colaboradores importantes na execução da tarefa por eles mesmos proposta. Basta mencionar o arcônida Crest, o Ser energético de Peregrino, Atlan, Harno, os swoons e Gucky, o rato-castor. No entanto, a tarefa nunca poderia ser cumprida se não fosse a atividade altruísta e a capacidade de sacrifício de todos os terranos que traziam no coração o anseio de atingir as estrelas.
A nova ameaça vinda do intercosmo, ou seja, do espaço situado entre as galáxias, traz um problema quase insolúvel para os dirigentes. Como combater um grupo de agressores cujas espaçonaves são praticamente indestrutíveis?
O primeiro dado importante para a solução deste problema angustiante foi descoberto no laboratório galáctico do planeta Afzot. Kule-Tats, um biólogo ara, que até então se vira obrigado a trabalhar para os acônidas, toma o partido dos terranos. Kule-Tats e Van Moders, um robólogo jovem e genial do planeta Terra, passam a trabalhar em estreita colaboração e transformam-se em especialistas em matéria de pos-bis. E isso representa uma necessidade premente, pois os robôs positrônico-biológicos, também conhecidos como pos-bis, iniciam o Assalto à Galáxia...
Olf Stagge não estava satisfeito com seu destino.
O terrano, de vinte e três anos, de ombros largos e cabelos louro-acinzentados pertencia ao Exército de Mutantes. Era um homem decente e honesto, em quem se podia confiar; em poucas palavras: um bom sujeito. Em três anos conseguira avançar e graduar-se como cabo. Logo depois da promoção começou a fase do azar.
Era telepata e teleportador passivo: este último conceito fora firmado pelo Exército de Mutantes. Os cientistas davam um nome diferente à estranha faculdade de Olf Stagge. O fato é que só podia saltar se outro mutante saltasse ao mesmo tempo. Não precisava de contato físico com outro teleportador.
Olf já se conformara com o fato de não ser jamais chamado para participar de missões decisivas. No Exército de Mutantes não havia falta de telepatas, mas um homem ou uma mulher que conseguisse teleportar-se continuava a ser uma raridade.
John Marshall, chefe do Exército de Mutantes, gostava do escandinavo que atendia ao nome de Olf. Quando se verificaram os primeiros fracassos do cabo, pediu que ele comparecesse à sua presença. Stagge esperava uma repreensão áspera. Mas aconteceu justamente o contrário. Marshall usou uma linguagem calma e objetiva. Procurou ajudar Stagge a descobrir a causa da falha de seu dom telepático.
— O senhor está apaixonado, Stagge?
A pergunta tinha sua razão de ser. Olf Stagge era um homem vistoso, que atraía os corações femininos.
Mas Stagge respondeu laconicamente:
— Nunca soube o que é isso, chefe.
Separaram-se, nada satisfeitos com o resultado da palestra.
John Marshall não encontrava explicação para o fato de o telepata ter falhado por completo durante a operação realizada no sistema de Tuggt.
Olf Stagge acabara de voltar para Terrânia, depois de ter participado de mais uma operação. Seus colegas, que trabalhavam junto à Delegação Terrana no Sistema Azul, disfarçados em economistas, o haviam mandado embora.
— Sou um fracassado! — disse, aborrecido consigo mesmo, enquanto se dirigia ao lugar em que estava John Marshall, a fim de apresentar-se.
— O senhor não é nenhum fracassado — dissera John Marshall há poucos minutos, ao dispensá-lo. — Se não estou muito enganado, Stagge, o senhor está passando por uma fase de sua evolução. Temos de esperar para descobrir como e em que sentido se desenvolverão suas faculdades parapsicológicas. Não se submeta a nenhum exame psicológico profundo. Sua capacidade passiva de teleportação sofreu a mesma redução que a faculdade de ler os pensamentos alheios?
— Não.
— Pois então, Stagge! Anime-se. Tudo leva seu tempo. Não se entregue ao pânico.
Apesar dessas palavras o estado de ânimo de Olf Stagge encontrava-se no ponto mais baixo. Matutava, enquanto o planador voava em direção ao seu alojamento.
Enquanto ia a meio caminho, teve de fazer baldeação para outro veículo. Desceu antes de chegar à recepção do porto espacial de Terrânia e caminhou para a direita.
Dois homens vieram ao seu encontro. Teve a atenção despertada para os mesmos. Um deles, que devia ter aproximadamente a mesma idade que ele, tinha rosto de boxeador, enquanto o outro apresentava todas as características de um médico galáctico, ou seja, de um ara.
De repente os pensamentos daqueles dois homens tão diferentes penetraram em sua mente com uma clareza que nos últimos meses já não conhecera mais. Olf Stagge nem se deu conta de que sua faculdade telepática atuara sobre esses homens. Só quando teve conhecimento de um processo de intercâmbio hipertóictico, compreendeu o que acabara de fazer.
A palavra hiperimpotrônica, totalmente desconhecida, despertou sua curiosidade. Concentrou-se tão intensamente nos pensamentos dos dois que nem viu o homem que se aproximava. Sobressaltou-se quando se sentiu agarrado por duas mãos que o empurraram violentamente para o lado. Levantou os olhos e viu o rosto furioso de Reginald Bell.
— Será que o senhor não pode prestar atenção? Espere aí! O senhor não é Olf Stagge, o azarado?
Bell, o representante de Perry Rhodan, tinha a fama de possuir uma capacidade fantástica de identificar as pessoas.
— Sir — gaguejou Stagge, esforçando-se para ficar em posição de sentido.
— Caramba! — gritou Bell. — Deixe para lá. Onde andavam seus pensamentos?
O encontro um pouco violento não deixou de ser notado por algumas pessoas. Bell percebeu. Bastou um olhar seu para que as pessoas muito curiosas voltassem a circular.
Olf Stagge virou a cabeça para ver o ara e o homem com rosto de lutador de boxe. Mas os dois já haviam desaparecido.
Encontrou-os assim que recorreu à sua faculdade telepática. Estavam voando num planador e naquele momento conversavam a respeito de um certo engaste hipertóictico.
— Bem, por onde andaram seus pensamentos, Stagge? — voltou a perguntar Bell.
— Sir, de seis meses para cá minhas faculdades telepáticas diminuíram bastante e às vezes até falharam por completo. Mas agora, quando um homem com rosto de lutador de boxe...
— É Van Moders. Continue.
— E um ara...
— É Kule-Tats. Continue!
— Sim senhor. Estavam refletindo sobre “dentes” hipertóicticos.
O homem de cabelos ruivos muito curtos sorriu, satisfeito, e colocou a mão sobre o ombro de Stagge.
— Esses dentes não podem ser extraídos, Stagge. Mas o que me interessa não é isso. Gostaria de saber se o assunto entusiasmava o ara.
— Mais do que isso, sir. O ara sentia-se fascinado pelo assunto. Quase se poderia dizer que se dedicava a ele de todo coração.
— OK, Stagge. Faço votos de que os aras possuam um coração, no sentido em que o senhor acaba de empregar a palavra. De qualquer maneira, sua espionagem telepática foi bem proveitosa.
Olf Stagge não sabia o que significavam essas palavras. E nem pensou em ler na mente de Bell. Todos os mutantes conheciam a regra antiguíssima que proibia que os telepatas procurassem penetrar nos pensamentos dos homens mais importantes da administração.
Em todo o Exército de Mutantes só havia um elemento que ignorava essa regra sem o menor constrangimento. Era o Tenente Gucky, o rato-castor.
Kule-Tats, um especialista ara, seqüestrado por um grupo de agentes terranos, colocou-se espontaneamente ao serviço do império. E nem desconfiava de que ele e seus colaboradores eram controlados ininterruptamente pelos telepatas de Rhodan.
Esse controle era indispensável.
Kule-Tats era um médico galáctico. E, pelo que diziam as más línguas, os aras, bem como os saltadores e os superpesados, eram inimigos mortais do império.
Perry Rhodan não dava a menor importância a esse tipo de conversa. Acreditava que os aras, os saltadores e os superpesados possuíam suas boas qualidades, da mesma forma que os terranos. Se essas raças grandes e fortes ainda não eram amigas da Humanidade, elas poderiam vir a sê-lo amanhã, ou dali a dez ou cem anos. Na opinião de Rhodan valia a pena lutar por esse objetivo.
Kule-Tats era um dos maiores cientistas aras. Até pouco tempo atrás esse grande especialista, que por muitos anos era dado como desaparecido, trabalhara juntamente com alguns cientistas competentíssimos para os acônidas, no planeta Afzot, pertencente ao sistema de Frua. Mas, o que era mais importante para Rhodan, Kule-Tats realizara profundas pesquisas com o misterioso plasma celular, que formava a bio-substância dos pos-bis.
Kule-Tats afirmava que dedicava sua simpatia ao Administrador do Império Solar. No entanto, não poderia esperar que os terranos, tão desconfiados neste ponto, logo acreditassem nele. Por isso, sem que o cientista ara desconfiasse, seus pensamentos e os de seus colaboradores eram submetidos a controle telepático.
Todas as informações fornecidas à administração diziam que não era de esperar que o ara causasse complicações, e que sua conversão tivera origem numa convicção legítima.
Olf Stagge, que era telepata e teleportador passivo, nem desconfiava da importância que Reginald Bell atribuía às suas paraobservações.
Van Moders, o especialista mais jovem e mais competente na área do plasma celular dos pos-bis e na da Positrônica, compreendia cada vez melhor que, num aspecto de sua teoria do engaste hipertóictico, partira de um pressuposto errado.
Acabara de sair do planador juntamente com o ara. Estavam a poucos metros do setor de pesquisa. Caminharam em silêncio pelo corredor largo e bem iluminado. Kule-Tats lembrou-se dos laboratórios subterrâneos do planeta acônida Afzot. Comparou as instalações.
Em tamanho os laboratórios terranos não poderiam competir com as instalações gigantescas dos acônidas. Mas os próprios terranos e seu entusiasmo pela pesquisa levavam uma vantagem enorme sobre o pessoal de que dispunham os acônidas.
Kule-Tats, que até poucos dias atrás se mantivera cético, logo se mostrou disposto a mudar de opinião. O jovem com rosto de boxeador que se encontrava a seu lado realmente merecia sua admiração. E o cientista ara não deixou de admirá-lo, depois de se ter convencido de suas qualidades.
Mais uma vez o ara lançou um olhar indagador para seu companheiro. Van Moders notou.
— O que houve? — perguntou em intercosmo.
— Lamento que não nos tenhamos conhecido antes, Moders — confessou Kule-Tats.
Van Moders sentiu-se feliz com o elogio que essas palavras encerravam.
— Vamos falar com McParsons? Gostaria de verificar pessoalmente em que ponto estão as análises químicas do plasma.
O ara havia entregue aos terranos a fórmula química estrutural do bioplasma que se encontrava no corpo dos pos-bis. Entretanto ressaltara que a mesma não era completa.
Os cientistas terranos aceitaram e agradeceram. Mas os especialistas que cuidavam exclusivamente da elaboração da fórmula não tomaram conhecimento dos dados fornecidos pelo ara.
— Kule-Tats — dissera McParsons — já que sua fórmula não é completa, nem quero vê-la. Quem sabe se nos próximos dias não descobriremos aquilo que o senhor procurou encontrar em vão?
McParsons recebeu-os com um aceno de cabeça.
O cientista terrano levou os visitantes à sala de projeção. Comprimiu um botão e escureceu a sala. A imagem tridimensional de uma fórmula extremamente complicada apareceu numa área de dois por dez metros.
Algumas ramificações apareciam em vermelho, e outras em vermelho e preto. McParsons chamou a atenção para esse fato.
— Amanhã todas as ramificações serão pretas — disse.
Kule-Tats já estava familiarizado com o quadro estonteante das fórmulas encadeadas. Aquilo era a fórmula química do bio-plasma dos pos-bis.
Confirmou as palavras de McParsons com um gesto da cabeça. Estava perfeitamente disposto a acreditar no que dizia esse terrano. Ainda não conhecera nenhum fanfarrão nessa raça.
Arrastou Van Moders para a direita, onde se viam as últimas ramificações da fórmula em cinza. Para os cientistas terranos, tais traços representavam uma hipótese não demonstrada.
— Olhe, Moders! Esse trecho ATCG, esta ligação transversal formada por quatro álcalis nitrogenados não deveria estar aqui. Esta faixa não possui nenhuma conexão em que entre o nitrogênio. O código hereditário deve estar ausente. Se não estiver, o senhor talvez tenha razão. Nesse caso a bio-substância seria um produto artificial. Fico satisfeito em ver que McParsons já traçou a fileira hipotética.
Há dias as conversas entre Van Moders e o ara giravam exclusivamente em torno da bio-substância dos pos-bis. Moders continuava a afirmar que se tratava de um produto sintético, fabricado pelos próprios pos-bis, enquanto Kule-Tats insistia em dizer que a estrutura do plasma era tão complexa que o mesmo nunca poderia ser produzido sinteticamente.
Era a afirmativa de um contra a afirmativa de outro.
Na opinião de Van Moders, havia um fato que reforçava sua afirmativa. Ele mesmo fora membro do comando que descera em Frago, um planeta dos pos-bis, situado no espaço intercósmico. Observara, se bem que superficialmente, uma máquina controlada por robôs, da qual fluía o plasma, que era despejado numa gigantesca tina, e daí era conduzido...
Era nisso que estava pensando.
O fato de o ara afirmar que a ligação de nitrogênio não caberia nesse lugar dava-lhe o que pensar.
Se seguisse seu sentimento, chegaria à conclusão de que Kule-Tats estava com a razão. Totalmente. Acontecia que a falha da conexão ATCG tornava as coisas cem vezes mais complicadas. Se realmente fosse assim, seria totalmente impossível encontrar a fórmula completa até o fim do ano. E, o que era pior, nesse caso sua afirmativa, de que a bio-substância era produzida sinteticamente, não seria correta. Voltou a dirigir-se ao ara.
— Gostaria de chamar três ou quatro homens que estiveram comigo em Frago e que também viram o plasma sair da gigantesca máquina...
— Não contesto que o senhor tenha visto isso, Moders — disse Kule-Tats com a maior tranqüilidade. — Mas não acredito que uma máquina possa ser capaz de produzir essa matéria biológica. A substância é natural, Moders. Não me afasto dessa afirmativa.
Van Moders voltou a dirigir-se ao seu colega McParsons.
— Já vi tudo que desejava ver. Muito obrigado.
Quando saiu da sala de projeção, o ara seguiu-o, não insistindo e não fazendo o menor esforço para convencê-lo.
— Se é como o senhor diz, explique-me o que foi que eu vi em Frago, Kule-Tats.
Moders fez este pedido quando já se encontrava em seu gabinete. No recinto não havia o menor sinal de atividade científica de alto nível, com exceção do equipamento positrônico.
— Pode ser que a máquina melhore ou processe o plasma natural, Moders. Já pensou nessa possibilidade?
Kule-Tats viu seu jovem colega estacar. Moders não agüentou mais na poltrona. Corria de um lado para outro. De repente parou à frente do ara.
— Talvez o senhor tenha razão. Bem... Admitamos que sua hipótese seja verdadeira. Isso em nada afetará minha teoria do engaste hipertóictico. Para a validade dessa teoria é totalmente indiferente que a substância de que estejamos falando seja natural ou artificial. Mas, quanto aos pos-bis em si, esse novo ângulo de visão não deixa de assumir certa importância. No momento prefiro não me pronunciar sobre isso, Kule-Tats. Tenho de refletir bastante a este respeito.
— Não se esqueça de que a fórmula química é tão complicada que não podemos aceitar a idéia de que o material biológico seja uma substância artificial produzida pelos pos-bis.
Quando se viu só, Moders disse num gemido:
— Que substância infernal é esse plasma. Quase chega a ser tão ruim como os próprios pos-bis!
O aparecimento dos robôs bio-positrônicos vindos do espaço extragaláctico provocara um grande movimento no interior da Galáxia, que há um ano ainda representaria uma utopia.
A série de acontecimentos e, principalmente, as bizarras naves fragmentárias dos pos-bis, com seu tremendo poder de fogo e seus campos defensivos quase indestrutíveis, exigiam que as maiores potências da Via Láctea se congregassem numa união. Se cada uma agisse por si, acabariam mais dia menos dia sendo destruídas pela estranha raça de robôs.
Uma situação que há pouco tempo ainda teria sido considerada inconcebível passou a desenhar-se nitidamente. O Sistema Azul já não via nos terranos uma raça de bárbaros; passou a encarar esse povo relativamente pequeno como um parceiro de igual para igual. Restava ver se essa concepção penetrara profundamente na mente dos acônidas, ou se não passava de uma idéia das classes dominantes.
Perry Rhodan estava mais desconfiado que nunca.
— O chefe acha-se pessimista — observou o Marechal Solar Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, numa conversa a sós com Bell. — E conseguiu colocar-me na mesma linha de raciocínio, o que eu antes considerava praticamente impossível.
Bell interrompeu-o em tom contrariado:
— Pois quanto a mim, acho que um dia os acônidas nos prepararão uma que nos deixará tontos.
— Deixe isso por nossa conta, Bell — respondeu Mercant em tom ligeiramente irônico.
Mercant lembrou-se dessa palestra, enquanto estava sentado à frente do chefe e Bell fazia algumas anotações. Rhodan acabara de informá-los de que a delegação de dezoito especialistas acônidas, que fora enviada à Terra, recebera ordens expressas do Grande Conselho para em hipótese alguma entrar em contato com os arcônidas.
— Temos de aceitar este ponto — disse Rhodan. Notou a careta de Bell. — Não está de acordo, gorducho?
— De forma alguma. O Império de Árcon é uma realidade...
— Infelizmente. É uma realidade, mas não chega a ser um fator importante no jogo de forças, Bell. Mais alguma observação sobre este ponto?
— Atlan ficará felicíssimo quando souber da sua opinião.
— Você está enganado. As palavras que acabo de usar foram proferidas por ele mesmo. Mais alguma objeção, gordo?
Bell manteve-se num silêncio obstinado.
Rhodan prosseguiu:
— Deringhouse está procurando descobrir quais são as concessões que os acônidas estão dispostos a fazer. Não queremos que a aliança galáctica receba um golpe mortal, logo nas primeiras negociações, em virtude de uma desconfiança mútua. Forneci minhas instruções a Deringhouse.
— Vai pôr todas as cartas na mesa? E isso diante dos acônidas?! — perguntou Bell, exaltado.
Uma expressão de contrariedade surgiu nos olhos de Perry Rhodan. Num tom áspero que não costumava usar, disse a seu amigo Bell:
— Ora, Bell, já conduzi muitas negociações, e Deringhouse também. Acho que estaremos em condições de escolher o tom a ser usado perante a delegação acônida.
Realmente, a maneira pela qual Perry Rhodan conduzia as negociações era uma obra-prima. Deringhouse ateve-se estritamente às instruções recebidas. Não fazia promessas. Falava pouco. Deixava que os acônidas falassem. Sempre que tinha de dar uma resposta, esquivava-se para o terreno dos lugares-comuns.
No entender de todos, esta última parte era mais fácil de ordenar que de executar. No entanto, Deringhouse sabia que em algum lugar estava acontecendo alguma coisa que teria influência decisiva nos primeiros contatos.
Por ocasião das últimas instruções fornecidas ao seu marechal, Rhodan piscara alegremente os olhos e dissera:
— Meu caro Deringhouse, Atlan e eu tomaremos todas as providências para que, durante sua competição conosco, os próprios acônidas se coloquem em xeque-mate.
A seguir Rhodan lhe explicara seus planos. O sorriso de Deringhouse se tornara mais largo.
— Caramba! — disse depois de algum tempo, concordando integralmente com as idéias de Rhodan.
O Imperador Gonozal VIII — a única pessoa, além de Perry Rhodan, que havia recebido o ativador celular que prolongava a vida e que, ao contrário do que acontecia com vários outros terranos, não precisava dirigir-se ao planeta artificial Peregrino a cada sessenta e dois anos, a fim de receber a ducha celular — exercia as funções de comandante da frota espacial arco-terrana.
A maior armada espacial que a Via Láctea já havia visto estava estacionada na periferia da Galáxia, e também nas proximidades do grupo estelar M-13. O perigo agudo representado pelos pos-bis exigia a mobilização de todas as naves de guerra, muito embora Atlan e Rhodan soubessem perfeitamente que as frotas unidas não seriam capazes de evitar o desastre, caso a raça de robôs resolvesse concentrar o poder de suas naves fragmentárias num ataque aos mundos habitados da Via Láctea.
Atlan concordou imediatamente com o plano de Rhodan, quando este o chamou pelo hipercomunicador. Perry informou seu amigo arcônida sobre a proposta do Sistema Azul e as perspectivas de uma comunhão de interesses. O arcônida nem pestanejou, quando Rhodan o informou que o Sistema Azul se recusava terminantemente a permitir a presença de qualquer arcônida por ocasião dos contatos preliminares, até mesmo como simples observador.
— Sei perfeitamente, Perry — respondeu Atlan com a maior tranqüilidade — que para os acônidas não passamos de uma espécie de praga galáctica. Acontece que meu povo pagou um preço muito elevado por sua arrogância, e a mesma coisa acontecerá com esses idiotas do Sistema Azul. Tomara que ainda esteja vivo nesse dia. Tudo bem, bárbaro. Fico satisfeito que nem um menino em poder mostrar o espantalho aos acônidas. Antes que seus novos amigos vindos do Sistema Azul ponham o pé na Terra, as “coisas” estarão prontas para decolar.
O termo espantalho simbolizava três velhas supernaves arcônidas de mil e quinhentos metros de diâmetro que receberiam, em Árcon III, um horrível revestimento de chapas de aço, que lhes daria o aspecto das temíveis naves fragmentárias.
Finalmente chegou a mensagem vinda da Terra. As pseudonaves fragmentárias deveriam dirigir-se ao Sistema Azul. Atlan teve o maior prazer em transmitir a ordem de decolagem. Poderia confiar na tripulação das três naves. Os fortes comandos robotizados que se encontravam a bordo eram controlados por terranos...
As três naves — todas equipadas com neutralizadores estruturais de primeiríssima qualidade, que evitavam que por ocasião das Transições se propagasse qualquer onda de choque, por mais fraca que fosse — saíram em disparada, tendo como destino o sistema dos acônidas.
Deringhouse estava informado a este respeito. Os comandantes das três pseudonaves fragmentárias conheciam a agenda dos encontros que os acônidas e os humanos teriam em Terrânia para entabular as primeiras negociações. O momento de seu aparecimento no Sistema Azul seria adaptado a essa agenda.
O comandante Baltass, que dirigia o supergigante revestido de aço que trazia o número 2, soltou uma estrondosa gargalhada ao ouvir o pedido de socorro que o Grande Conselho enviou aos mercadores galácticos e aos superpesados.
— Mostrem o espantalho aos acônidas — dissera Atlan numa mensagem pessoal, enviada aos oficiais terranos, pouco antes das naves decolarem de Árcon III.
O comandante Baltass mantinha contato de rádio com seus colegas, chamados de Mengs e Ikuto. O distorçor e o condensador funcionavam à potência máxima, a fim de que os acônidas não tivessem a menor possibilidade de decifrar suas mensagens.
Os terríveis monstros de lata aproximaram-se do primeiro planeta habitado dos acônidas à distância de um tiro de radiações, deram três voltas em torno do mesmo e tomaram o rumo do planeta seguinte, que era o décimo terceiro de um total de quinze planetas, e gravitava a uma distância de 3,2 anos-luz em torno de um sol gigantesco.
Também neste mundo seu aparecimento provocou uma reação de pânico. Mas nem um único tiro de radiações foi disparado pelos numerosos e poderosíssimos fortes acônidas.
Os saltadores responderam prontamente ao pedido de socorro do Sistema Azul. Comunicaram ao Grande Conselho que nem pensavam em arriscar suas preciosas frotas.
A central dos superpesados transmitiu a seguinte mensagem para Sphinx, o mundo central do Império Acônida:
— A destruição da frota de guerra de Totztal pelos monstros cúbicos constitui prova evidente do poder de fogo dessas naves. Não estamos em condições de prestar qualquer ajuda.
O sistema de rastreamento das três naves disfarçadas mostrou que os gigantescos transmissores de matéria dos acônidas, que constituem o único meio de transporte interestelar do Sistema Azul, funcionavam ininterruptamente.
Por certo o aparecimento de três veículos espaciais que pareciam ser naves dos pos-bis levara os acônidas a realizar esforços febris para evacuar os planetas.
O comandante Baltass disse pelo rádio ao seu colega Mengs, que capitaneava a nave 1:
— Tenho pena dos cidadãos inocentes nos quais metemos tamanho susto. O homem do povo sempre recebe uma carga mais pesada do que ele consegue suportar.
Mengs não concordou:
— Baltass, lamento tanto quanto o senhor, mas não devemos esquecer a finalidade da operação que estamos realizando. No presente caso, o ditado de que o fim justifica os meios encontra plena justificativa. O Sistema Azul tem de transformar-se em nosso aliado, e precisa concordar em que nós, os terranos, mantenhamos relações amistosas com o Império de Árcon.
— Não há dúvida, Mengs. Quando recebemos ordem de decolar compreendi perfeitamente por que deveríamos desempenhar o papel de espantalho. Se o perigo dos pos-bis não fosse tão real e iminente, o chefe nunca teria ordenado uma demonstração deste tipo. Apesar disso não me sinto muito à vontade quando penso no medo que devem sentir os acônidas, especialmente as mulheres e as crianças.
As horríveis espaçonaves deram cinco voltas em torno do planeta e até se arriscaram a descer a dez mil metros.
Não foi disparado um único tiro. As fortalezas dos acônidas mantiveram-se em silêncio. Suas guarnições estavam perfeitamente informadas sobre o poder de fogo das naves fragmentárias, e sobre seus campos defensivos praticamente indestrutíveis.
Menos de uma hora se havia passado desde o momento em que as três naves haviam surgido no Sistema Azul, espalhando o pavor, quando a delegação acônida de dezoito membros, que se encontrava em Terrânia, foi informada dos acontecimentos por meio de uma mensagem de hiper-rádio expedida pelo Grande Conselho.
Naturalmente Deringhouse, de pronto, colocou à disposição dos acônidas todos os meios para que os delegados pudessem manter contato direto com seu governo.
As negociações sofreram um adiamento de duas horas.
Nessas duas horas, três gigantescas espaçonaves realizavam transições que as levavam de um planeta do Sistema Azul a outro. De todos os lugares em que apareciam eram irradiados pedidos de socorro endereçados ao planeta Sphinx. A central desse planeta só podia pedir calma e dar ordens para que as naves não fossem atacadas em hipóteses alguma.
Bell encontrava-se em companhia de Perry Rhodan, quando Deringhouse entrou e informou sobre o êxito fulminante da Operação Espantalho.
Bell, um homem de aspecto grosseiro, que pela primeira vez ouvia falar sobre isso, manifestou dúvidas semelhantes às de Baltass, comandante da nave número 2.
Rhodan fitou seu amigo.
— Muito obrigado por suas ponderações, Bell. Quando concebi o plano, pensei nas conseqüências que deveriam resultar de sua execução. Também me lembrei das mulheres e crianças acônidas. E justamente porque me lembrei delas é que dei ordem para executar a operação. Será que você não compreende — passou a falar mais alto — que nós, os habitantes da Via Láctea, mal teremos tempo para mobilizar todos os recursos contra os pos-bis? Temos de obrigar os acônidas a serem nossos aliados. Se os mesmos desconfiarem de que os terranos podem enfrentar a raça de robôs e suas naves, eles se mostrarão indiferentes. É bom que você compreenda, gorducho, que a vida de todos nós depende de que as raças mais avançadas da Galáxia se unam numa aliança. A existência de todos está em jogo. Será que numa situação de emergência como esta não tenho o direito de acelerar as tendências para a união? Você acha que estou agindo sob a inspiração de um egoísmo crasso? Será que meus atos não reverterão em benefício de todas as inteligências da Via Láctea?
— Está bem — disse Bell. — Mas quero falar sobre outra coisa. Há algumas horas conversei com Van Moders e Kule-Tats. A estes dois aplica-se o velho ditado; eles se procuraram e se encontraram. O ara insiste em suas opiniões, e nosso Moders não lhe fica para trás. Quando os dois conversam sobre suas pesquisas, tem-se a impressão de que falam uma língua desconhecida. Você sabe o que vem a ser uma infecção mecânica num robô pos-bi?
Bell riu ao notar a expressão de perplexidade nos rostos dos outros.
— Consolem-se comigo. Sei o que significa o termo mecânico e também sei o que vem a ser uma infecção, mas a união dos dois conceitos me parece um absurdo Acontece que os dois especialistas falam sobre isso como se fosse a coisa mais natural deste mundo. Aliás, eles querem falar com você às dezoito horas, Perry.
Rhodan refletiu.
— Está bem. Quero que você lhes explique que não estou interessado em prolongadas explicações especializadas, e muito menos quero ouvir falar numa infecção mecânica. Poderia cuidar disso, Bell?
— De qualquer maneira terei de falar com eles. Mas é bom que você se prepare para algumas surpresas desagradáveis. Outra coisa, Perry. Mandei que Olf Stagge, o azarado, servisse junto aos aras, e retirei os outros telepatas.
— Não é o homem que tem aquele estranho dom telepático? — perguntou Deringhouse.
— Isso mesmo — respondeu Rhodan. — Mas ele não merece o apelido que Bell lhe deu. John Marshall deu-me informações a seu respeito. Bell, não quero que um homem que fez coisas extraordinárias fique sujeito a repreensões desse tipo, somente porque de repente seu desempenho diminuiu por alguma razão desconhecida. Será que você nunca aprende a ser um bom condutor de homens? Será que não consegue ajudá-los?
Bell estava em ótima forma. As recriminações de Perry não o atingiam. Seus Olhos brilharam.
— Ora, Perry, até cheguei a usar o apelido de azarado na presença de Olf Stagge. Isso aconteceu há poucos dias, no pomo espacial. Hoje mandei-o para junto dos aras e. pedi-lhe que não voltasse a bancar o azarado. E hoje de manhã Olf Stagge manifestou os seus cordiais agradecimentos porque eu o chamei de azarado. Diz que desde o momento em que o chamei assim seu dom telepático chegou a um máximo nunca antes alcançado.
Via-se perfeitamente que Perry Rhodan não estava acreditando nestas palavras.
A conversa foi interrompida por um chamado vindo da sala de conferências. A delegação acônida mandava perguntar se o Marechal Deringhouse estava disposto a prosseguir nas negociações.
Três homens olharam desconfiados para seus cronômetros. Uma hora antes do momento combinado os acônidas insistiam no reinicio da conferência!...
Antes que alguém pudesse proferir uma palavra, ouviu-se o sinal de urgência. Allan D. Mercant, o chefe da Segurança, queria falar com Perry Rhodan. Bell desligou o sistema de interfone normal. Os acônidas teriam de esperar pela resposta.
Os contornos projetados na tela que se encontravam à sua frente estabilizaram-se. A cabeça de Mercant apareceu na mesma. Havia um riso matreiro no rosto do chefe da Segurança.
— Sir — principiou. — Os saltadores recusaram-se socorrer os habitantes do Sistema Azul. A central dos superpesados aludiu à destruição da frota de guerra de Toztal. Nem pensam em criar o menor embaraço para as três naves fragmentárias que penetraram no sistema. Chamei para transmitir-lhe estas informações.
Rhodan agradeceu e desligou. Depois disso entrou pessoalmente em contato com os acônidas e informou-os de que Deringhouse reabriria a conferência dentro de dez minutos.
Passou a dirigir-se ao marechal.
— Daqui em diante nossa base de negociações é bem mais ampla, mas o senhor não deve fazer nenhuma concessão. Deixe que os acônidas falem. Se de repente eles se acharem “investidos de poderes” mais amplos que até agora, avise-me. Só poderei falar com os acônidas a partir de amanhã. Realce esse fato vez por outra, dizendo que lamenta muito. Até mesmo junto aos arrogantes seres isso causa uma boa impressão.
Os três supergigantes disfarçados em naves fragmentárias, que até então vinham operando em conjunto no interior do Sistema Azul, passaram a agir separadamente.
Baltass, que comandava a nave número 2, saiu do hiper-espaço a sessenta minutos-luz de Sphinx, mundo central dos acônidas, e aproximou-se do planeta a 0,75% da velocidade da luz.
Todos os setores ficaram em regime de prontidão rigorosíssima. Baltass tinha de contar com a possibilidade de que as fortificações do planeta em que ficava a sede do governo tentassem destruir a monstruosa caixa, usando fogo concentrado.
Os campos defensivos da nave agüentariam alguns impactos, mas se os acônidas conseguissem manter fogo concentrado sobre determinado ponto do envoltório energético, este desmoronaria sob o efeito prolongado.
Atlan mandara que agisse por sua própria conta e risco, mas que evitasse em quaisquer circunstâncias que o disfarce fosse descoberto.
Baltass, um homem de trinta e dois anos, que costumava comandar um grupo de naves de guerra da classe Stardust, tinha suas dúvidas. Talvez estivesse arriscando demais.
— Milborn — gritou pelo sistema de intercomunicação, dirigindo-se ao oficial de controle de tiro. — Não perca os nervos.
Milborn, um jovem tenente, tinha muita semelhança com o Capitão Brazo Alkher.
— Pergunta dirigida ao comandante: O que vêm a ser nervos? — disse em tom frio.
Baltass sorriu. Desligou sem dizer uma palavra.
A nave 2 corria velozmente em direção ao planeta Sphinx. A esfera iluminada que se encontrava embaixo da nave crescia rapidamente. Parecia cair em sua direção. A distância que os separava daquele mundo diminuía com uma rapidez assustadora.
Cem mil quilômetros!
O supergigante 2 utilizou todas as energias disponíveis para reduzir a elevada velocidade com que realizava sua viagem abaixo da barreira da luz. Em relação à densidade da atmosfera de Sphinx, a velocidade que a caixa horrível com suas saliências, reentrâncias, arestas, áreas irregulares, abaulamentos e outras deformações absurdas desenvolvia ao penetrar no envoltório atmosférico ainda era muito elevada.
Se os acônidas, habitantes do mundo principal do sistema, esperavam que o tremendo perigo vindo do espaço também daria algumas voltas em torno de seu planeta, eles se sentiriam decepcionados.
A nave desceu a cinco mil metros. Aproximou-se à velocidade de mach 2. Freou, reduzindo-a a pouco menos de mach 1. A essa velocidade passou a pouca altura sobre a capital. O estrondo que a nave produziu ao atravessar a barreira do som não deixou inteira uma única vidraça.
Milhões de acônidas viram a cinco mil metros de altura uma das caixas terrificantes, de cuja força destrutiva se contavam verdadeiros milagres no Sistema Azul.
Os canhões de radiações mantiveram-se em silêncio. Os inúmeros fortes, que Perry Rhodan já conhecia, não dispararam um único tiro. O monstro desapareceu, desenvolvendo a velocidade de mach 1.
No momento em que Baltass foi avisado de que num raio de trezentos quilômetros não havia uma única habitação humana, pôs os propulsores a funcionar subitamente com a potência máxima.
O rugido que se propagou na densa atmosfera e as gigantescas massas de ar que se deslocaram para todos os lados quando a espaçonave, acelerando fortemente, voltou a dirigir-se para o espaço livre, provocou um estrondo que se fez ouvir a milhares de quilômetros dali.
— Recorremos à guerra psicológica para encontrar amigos! Santo Deus! Será que os acônidas estão cegos? Até parece que o chefe tem de usar estes meios para obrigá-los a fazerem aquilo que lhes convém.
— O que foi que o senhor disse? — indagou o imediato.
— Será que eu lhe fiz alguma pergunta? — retrucou Baltass, em tom áspero.
— Sem dúvida. Ouvi o senhor falar em guerra psicológica...
— Ah, sim! — interrompeu Baltass. — Apenas estava pensando em voz alta. Assuma o comando. O senhor conhece a rota.
O homem magro, de mais de dois metros de altura, no qual se reconhecia à primeira vista um médico galáctico, não se abalou quando Rhodan lhe pediu em tom ligeiramente exaltado:
— Kule-Tats, faça o favor de provar isso.
Van Moders interveio na palestra:
— Sir — disse — vejo-me obrigado a fazer uma retificação.
— Ah, é? — o chefe lançou um olhar penetrante para Bell, Mercant e Marshall. — Quer fazer uma retificação? — preferiu não recorrer as suas faculdades parapsicológicas para ler os pensamentos de Van Moders.
— Sim, senhor. Enganei-me, quando estive em Frago. Kule-Tats provou meu engano. A máquina instalada no planeta dos robôs, que despejou quantidades enormes de plasma na gigantesca tina, não pode ter produzido a bio-substância. Por enquanto a elaboração maquinal do tecido só tem uma explicação, mas ainda terá de ser reforçada por outras experiências. Na gigantesca máquina que encontramos no planeta Frago não se realizava nenhum processo de produção, mas apenas uma elaboração do plasma, destinada a estimular a divisão de seus núcleos celulares.
Rhodan respirava fortemente. Compreendia a importância da informação que Van Moders acabava de lhe dar. Mas essa informação trazia consigo uma série de novas perguntas. Será que Kule-Tats já estava em condições de dar resposta a algumas dessas indagações? Rhodan formulou uma questão nesse sentido.
O ara encontrava-se num estado de euforia igual ao que experimentara quando, depois de alguns dias de lutas íntima, resolveu colocar sua capacidade à disposição do Império Solar. Essa euforia exprimia-se em sua postura, em seus gestos e em suas palavras. Desde o dia em que fora pesquisar entre os acônidas, poucas vezes se encontrara com pessoas simpáticas.
E aqui falava de igual para igual. Os terranos não faziam distinções. Pouco lhes importava quem fosse a pessoa com quem estavam conversando.
Kule-Tats olhou para Perry Rhodan de frente. Lembrou-se dos boatos sobre este homem que corriam entre as estrelas do Império de Árcon. Segundo esses boatos, o administrador era um homem traiçoeiro e possuído do demônio. Mas ele, Kule-Tats, sabia que não era assim. Naquele momento, a idéia de encontrar-se à frente de Perry Rhodan embriagava-o.
— Sir — principiou, falando em intercosmo. — Tive de constatar, juntamente com meu colega Moders e com o bioquímico McParsons, que a bio-substância dos pos-bis não pode ser um produto sintético. A fórmula estrutural do plasma, que se abre em espiral, é tremendamente complicada. Levaremos vários anos para desvendá-la até as últimas ramificações.
“Só neste ponto vejo-me obrigado a contestar a teoria de Van Moders, relativa ao engaste hipertóictico e à hiper-impotrônica. Daqui em diante teremos que partir do pressuposto de que o plasma é natural. Teve sua origem em alguma forma de vida. A quantidade de que dispomos em Terrânia constitui parte de um todo vivo. Pode-se dizer que é uma parte minúscula de um grande conjunto.”
Rhodan parecia cada vez mais tenso, enquanto ouvia as palavras do cientista ara. Bell não conseguiu dissimular o sobressalto. Allan D. Mercant, o chefe da Segurança Solar, fitava Kule-Tats com uma expressão de fascínio. John Marshall empalidecera um pouco.
— Kule-Tats, o senhor já pensou nas conclusões que podem ser extraídas daquilo que acaba de insinuar? — perguntou Rhodan, em tom enfático.
Van Moders colocou-se ao lado do ara.
— Sir — principiou. — Realizamos uma série de ensaios, com quantidades variáveis de plasma. À medida que aumentava o plasma que se encontrava no interior de um recipiente, suas vibrações individuais tornavam-se mais intensas...
Não conseguiu prosseguir. Rhodan ergueu-se de repente. Havia um brilho nervoso em seus olhos cinzentos. Seu rosto parecia uma máscara; mantinha os lábios firmemente cerrados.
— Sir — começou o ara, inclinando a cabeça, como se quisesse pedir desculpas por fazer uso da palavra. — Tomei a liberdade de realizar a série de ensaios segundo o esquema acônida. Graças à genial capacidade de aprendizado de seus micro técnicos, os swoons, pude assistir a um verdadeiro milagre. Em um dia terrano pudemos dispor dos aparelhos que ainda tinham de ser construídos.
“Sir, a vida a que me refiro em conexão com a bio-substância é idêntica à vida de uma cultura microbiana dependente de soluções nutrientes. O que assusta em tudo isso é o fato de que nas grandes massas de plasma se nota certo grau de individualidade. Não quero molestá-lo com números sem vida ou com curvas, diagramas ou medições incompreensíveis. Em seu conjunto, o resultado da interpretação dos dados disponíveis é o seguinte: à medida que cresce a massa da bio-substância, seu caráter de personalidade autônoma sobressai cada vez mais.”
— Qual tende a ser seu tamanho, Kule-Tats... Moders? — perguntou Rhodan, com a voz retumbante.
O ara falou baixo, mas em tom seguro:
— Tende a ser muito grande, sir, de uma grandeza quase inconcebível.
— Algumas toneladas?
— Não podemos utilizar estes padrões. Talvez tenhamos de partir de um limite inferior a alguns milhões de toneladas ou de metros cúbicos. Não dispomos de qualquer ponto de referência para nossos cálculos.
— Não venha me dizer que já pensou numa estrela de plasma — disse Rhodan, em tom áspero.
“Caramba”, meditou Bell, “Perry está agindo como se fosse um membro da Inquisição. Tomara que esses especialistas não estejam com a razão quando falam num gigante de plasma. Com os laurins em cima de nós e os pos-bis diante de nossa porta, era só isso que faltava!”
O jovem especialista respondeu em tom inabalável:
— Já pensei nessa possibilidade, sir, mas o que adianta isso? Se partirmos dessa concepção fantástica e se considerarmos a quantidade de plasma que possuímos, chego à conclusão de que o perigo representado por essa raça de robôs ou pelos “invisíveis” não passa de uma bagatela.
Bell ouvia-o, perplexo, e pensou: “Esse sujeito está maluco!”
O sujeito era Van Moders, o especialista mais competente nessa área que o Império Solar possuía.
Rhodan ouviu as palavras de Moders sem pestanejar.
— Há um ponto que ainda não entendo, Moders. Como é que a bio-substância se conserva viva? Há algumas semanas o senhor andou falando em certo engaste e numa coisa chamada hiper-impotrônica, mas o plasma que se encontra em nosso poder não mantém qualquer contato com o conjunto positrônico. Por que apesar de tudo isso o plasma não morre?
A expressão de perplexidade com que Van Moders e Kule-Tats se entreolharam falava por si. Rhodan não repetiu a pergunta.
Dali a uma hora os dois cientistas retiraram-se. Rhodan, Bell, Mercant, Deringhouse e Marshall iniciaram suas considerações.
— Senhores, continuo a afirmar que no planeta dos pos-bis, denominado Frago, devem existir quantidades gigantescas de plasma. Pelo que dizem, a enorme máquina descoberta por nosso comando, que despejava plasma na gigantesca tina, não produz a bio-substância, mas estimula de alguma forma inexplicável seu processo de cisão celular, que talvez seja tão violento que, desde a entrada na máquina até a saída, a quantidade do plasma, é multiplicada por dez, por cem e talvez mesmo por mil.
“São apenas teorias, mas as mesmas já se aproximam da área do provável. O que é pior é a descoberta da individualidade do plasma celular, que pode trazer conseqüências muito mais graves. Essa característica não indica que existe um ser misterioso em forma plasmática? Bem, o que me dizem sobre isso?”
Allan D. Mercant ergueu ligeiramente a cabeça e disse:
— Chefe, a Segurança Solar nunca teve motivo para queixar-se de falta de trabalho, mas se ainda nos atribuírem a tarefa de sair à procura do ser de plasma, meus homens ficarão alguns meses sem dormir.
O rosto de Rhodan descontraiu-se um pouco.
— Pois nesse caso não tenho a lhe dizer mais nada, Mercant!
Bell revelou sua característica de homem sério e responsável, que poucas pessoas conheciam.
— Não deveríamos comprometer-nos depressa demais com os acônidas. A descoberta dos cientistas abriu novas perspectivas que podem subverter por completo nosso programa político.
— De acordo, Bell — disse Perry, e depois dirigiu-se a Deringhouse. — Quando o senhor esteve pela última vez com os acônidas, estes ainda não haviam sido autorizados pelo Grande Conselho a celebrar um tratado de governo para governo?
— Ainda não. Mas o chefe da delegação deixou entrever que esperavam receber os poderes necessários dentro de alguns dias, assim que os diversos setores do Grande Conselho tenham fixado sua posição por escrito.
— Dias! — Rhodan estava pensando em voz alta. — Ainda não sei que atitude devemos tomar. Deringhouse, depende do senhor que os acônidas fiquem sentidos conosco ou não. Mas não podemos iniciar os debates finais sobre uma licença que de certa forma já existe. O que pensa da situação?
Deringhouse falou sem rebuços:
— Acho que a mesma é miserável.
Rhodan soltou uma gargalhada.
— Neste caso estamos de acordo, Deringhouse. As três naves “mascaradas” que enviamos ao Sistema Azul ainda estão por lá?
— Foram chamadas de volta há duas horas e dez minutos — informou Bell.
— Acho que já discutimos tudo. Preocupações não nos faltam. Parece que por hoje podemos...
A grande estação de hipercomunicação de Terrânia transmitiu um alarma. Rhodan não conseguiu completar a frase.
A tela começou a tremeluzir. O rosto de Atlan surgiu na mesma. O arcônida devia ver em sua tela os visitantes que se encontravam em companhia de Rhodan.
Falou em inglês.
— Até parece que meu equipamento de hipercomunicação vai queimar, Perry. Seus satélites de grande alcance que se encontram no espaço extragaláctico informam que neste momento está sendo travada uma gigantesca batalha espacial no setor GER quarenta e cinco barra Verde dezoito barra MJK dois. Distância de M-13, oitenta e dois anos-luz. Transições, irrupções energéticas intensíssimas, inclusive algumas curvas em queda. A batalha começou há cerca de dois minutos. Já fixou o local em seu mapa estelar?
Rhodan já o havia fixado. Enquanto Atlan pronunciava as primeiras frases, Bell ligara o projetor do mapa. O setor periférico da Galáxia que o arcônida indicara com tamanha precisão apareceu em imagem tridimensional.
Mais uma vez voltou-se a ouvir a voz do imperador.
— A batalha vem-se deslocando a 0,7% da velocidade da luz em direção a MJK sete. O diabo deve estar solto por lá. Nossos rastreadores registram volumes inconcebíveis de energia. Há indicações inequívocas da presença de pos-bis. Com quem estarão brigando os robôs? Será que é com os laurins?
— Acho que você deveria averiguar, Atlan — sugeriu Rhodan. — Se for como você diz, deve ser conveniente intervir na luta com a frota de Árcon, e isso a favor dos pos-bis.
— Você não pode sair daí, bárbaro? — perguntou o arcônida.
— Não posso: a delegação acônida está aqui.
Atlan piscou os olhos. Lembrou-se da Operação Espantalho.
— Acabo de receber outra notícia do satélite HUP-88, Perry. HUP encontra-se a uma hora-luz do local em que está sendo travada a batalha espacial. Existe uma probabilidade de noventa por cento de que o número das naves empenhadas na luta seja de trezentas a quatrocentas unidades. Se apenas metade dessas naves forem dos pos-bis, seria interessante saber de que armas dispõem esses laurins.
A Segurança Solar constatara que quase sempre vinham tentando, e ainda tentavam, escutar as palestras de Rhodan ou do imperador, mas até então ninguém conseguira romper as medidas de segurança.
Os impulsos irregulares de condensadores e distorçores sincronizados desfaziam cada palavra, cada som, em uma série de ruídos indecifráveis. Por isso os dois homens responsáveis pelos destinos de seus impérios podiam conversar à vontade, como se estivessem a sós, um em frente do outro.
Rhodan informou o arcônida sobre os resultados mais recentes das pesquisas com o plasma celular dos pos-bis.
— Isso é uma loucura! — exclamou Atlan, aludindo às perspectivas que se abriam com as hipóteses dos especialistas.
Assim que Rhodan concluiu seu relato, o Imperador Gonozal VIII fez uma pergunta:
— Seus cientistas disseram algo a respeito da solene pergunta: “Vocês são vivos de verdade?”
— Não, Atlan.
— Nesse caso gostaria que sua estação me ligasse com os cientistas. Perry, acho que já sei qual é o sentido da pergunta dos pos-bis.
— Mandarei transferir a ligação, Atlan. Com estas palavras a palestra entre o administrador e o imperador chegou ao fim.
Kule-Tats assumiu automaticamente uma posição de respeito ao ver o rosto de Atlan projetado na tela. Para o médico galáctico Atlan era o Imperador Gonozal VIII. Desde sua chegada a Terrânia admirava-se constantemente de que os homens sempre o chamassem simplesmente de Atlan em suas palestras, e raramente o designassem como Imperador Gonozal.
Atlan conhecia o especialista terrano. E reconheceu Kule-Tats pela figura típica de ara. Apenas por uma questão de cautela perguntou a uma distância de trinta mil anos-luz:
— O senhor é Kule-Tats?
— Sim, majestade!
Atlan, que nunca se sentira muito bem como imperador de seu povo degenerado, e que tinha um verdadeiro pavor pelas maneiras da corte, fez um gesto enérgico.
— Kule-Tats, os terranos costumam chamar-me de Atlan. Quero que o senhor faça a mesma coisa.
— Perfeitamente, ma... Mister Atlan — gaguejou o ara.
Van Moders não abandonou sua posição descontraída. Fitou a tela com uma expressão de curiosidade. O arcônida não iria entrar em contato com eles se não tivesse um motivo para isso.
Logo souberam por que o imperador queria falar com eles.
— Será que a pergunta “Vocês são vivos de verdade?” alude apenas aos seres artificiais, isto é, aos robôs, ou diz respeito também a outras formas de vida que, em hipótese alguma, podem ser identificadas com os laurins? A resposta a esta indagação poderá assumir a maior importância — observou Atlan. — Os senhores já refletiram sobre esta pergunta dos pos-bis?
Van Moders e Kule-Tats não compreenderam por que o arcônida atribuía tamanha importância a esse ponto.
Perguntas e respostas foram transmitidas em rápida sucessão pelo hipercomunicador. Dúvidas foram removidas, mas a pergunta central de Atlan ficou sem resposta.
— Se é assim, terei de correr o risco. Mas será que o simples fato de que o plasma dos pos-bis mostra forte semelhança com a molécula DNS do homem não representa uma resposta?
O ara contraditou-o imediatamente.
— Mister Atlan, no caso não podemos falar em semelhança, muito menos numa forte semelhança. A molécula DNS parece, faço questão de ressaltar o parece, ter alguma semelhança com a bio-substância dos pos-bis.
O arcônida não estava interessado em ouvir uma preleção científica. A situação era precária demais.
— Pare, Kule-Tats — interrompeu. — Vamos voltar à minha pergunta. O grau de semelhança não permite alguma conclusão sobre o sentido da pergunta que os pos-bis costumam formular? Quero que digam apenas sim ou não.
Não disseram sim, e também não disseram não.
— Bem, nesse caso terei de experimentar.
Com isso a palestra chegou ao fim. Atlan desligara. Dois especialistas entreolharam-se com uma expressão pensativa.
Kule-Tats foi o primeiro a voltar a falar:
— Descobriu alguma pista, Moders?
Moders sacudiu a cabeça.
— Não tenho nenhuma pista; talvez, uma idéia. Preste atenção...
O dia já estava raiando em Terrânia quando Van Moders e Kule-Tats concluíram sua palestra.
A frota arcônida, comandada por terranos, deslocava-se velozmente em vôo linear em direção ao setor periférico da Galáxia, onde há algumas horas rugia uma batalha espacial.
Os oficiais de tiro também eram terranos, enquanto os postos subalternos eram ocupados por robôs arcônidas.
Todas as naves estavam em regime de prontidão rigorosíssima. As guarnições das estações de rastreamento haviam sido dobradas. Quatro oficiais estavam de serviço junto ao grande rastreador em alto relevo. Esse aparelho permitia a observação do espaço normal na direção do deslocamento da nave, embora a gigantesca frota voasse pela zona de libração do semi-espaço.
A nave capitania de Atlan era um veículo do último tipo, produzido em série. A gigantesca esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro possuía os propulsores lineares mais potentes. Mas, enquanto voava em formação, era tão lenta quanto a mais lenta das naves.
Na verdade, seria tolice dizer que um Vôo pelo semi-espaço, que podia atingir velocidades milhares de vezes superiores à da luz, era lento. No entanto, um kalup de baixa potência havia de produzir uma aceleração menor que um artefato gigantesco do mesmo tipo.
O grande grupo de naves do arcônida levou pouco menos de onze horas para atingir o setor periférico da Galáxia, em que forças desconhecidas travavam uma batalha violentíssima. Os potentes neutralizadores evitaram a ocorrência de qualquer abalo estrutural por ocasião do retorno ao Universo normal. Literalmente, podia-se dizer que os aparelhos do arcônida surgiram do nada a três milhões de quilômetros da nave pos-bi mais próxima, em meio às estrelas muito distantes.
Os conversores de símbolos da sala de comando haviam sido programados. Tratava-se de um aparelho que permitia a transcrição de diversas línguas em símbolos dos pos-bis, e, de outro lado, transformavam os estranhos impulsos transmitidos por meio de símbolos em textos redigidos em linguagem comum.
A extrema confiabilidade dessas obras-primas dos cientistas e técnicos terranos era devida em parte aos pequeninos swoons, conhecidos como os microtécnicos do cosmos.
Os conversores de símbolos entraram em funcionamento assim que a nave capitania retornou ao espaço normal.
Os pos-bis pediam socorro a alguma central situada no espaço extragaláctico. A mensagem era repetida ininterruptamente.
— Ligue para a transmissão! — ordenou Atlan.
Uma longa fita perfurada foi introduzida no aparelho por um dispositivo automático e transmitiu ininterruptamente a mensagem redigida em símbolos, dirigida às naves fragmentárias:
— Somos vivos de verdade. Viemos para ajudar a verdadeira vida. Somos amigos.
O potente equipamento de telecomunicação transmitiu a mensagem às distantes naves fragmentárias.
— Laurins, sir! — disse alguém em voz alta, esse aviso fora dirigido a Atlan.
Eram os invisíveis! Eles mesmos eram invisíveis, e geralmente suas naves em forma de pingo também o eram! Esses fantasmas vindos do nada só se tornavam visíveis em telas especiais...
Mais de cem naves dos laurins disparavam com todos os canhões de radiações de que dispunham contra onze naves cúbicas dos pos-bis.
Os invisíveis eram inumanos, não por serem invisíveis, mais porque seu princípio de vida devia repousar em outra base, jamais imaginada pelos povos da Via Láctea. Só no momento em que era atingido por um forte raio energético, o laurin aparecia por alguns segundos, e, durante o processo apavorante de sua morte, viam-se seus contornos humanos. Mas não se conseguia tocá-lo.
Os laurins pareciam ser inimigos ferrenhos dos pos-bis, e eram tão misteriosos quanto estes.
Atlan transmitiu pelo rádio o sinal de ataque. Todas as naves de guerra dispunham dos aparelhos especiais e das telas que tornavam visíveis as naves em forma de pingo.
Nas espaçonaves esféricas — fortemente armadas — estavam sendo realizados os cálculos positrônicos destinados aos oficiais de tiro. A frota arcônida aproximava-se vertiginosamente do campo de batalha. Dentro de alguns segundos colocou-se em posição de tiro.
No momento em que a nave capitania de Atlan abriu fogo com as torres de canhões polares, os oficiais contiveram a respiração...
Porém uma nave fragmentária desmanchou-se numa nuvem atômica!
Mais uma vez os laurins provavam que dispunham de meios que lhes permitiam destruir os campos defensivos relativistas das naves fragmentárias.
A frota arcônida cercou os laurins de forma tenaz. O espaço parecia abrir-se numa confusa grade de radiações. Os gigantes em luta disparavam ininterruptamente.
Os tripulantes da nave de Atlan interessaram-se menos pelo curso da batalha que pelo comportamento das dez naves cúbicas. Será que estas haviam recebido a mensagem simbólica permanente? E estariam dispostas a aceitar o fato de que um grupo de naves desconhecidas viera em seu auxílio?
— Tomara que os comandantes dos pos-bis sejam tão inteligentes quanto supomos — disse o Imperador de Árcon.
— Não subestime os pos-bis, sir. Uma única nave disparou contra nós, e isso mesmo apenas por alguns segundos. Depois disso passou a interessar-se apenas pelos laurins — gritou alguém que trabalhava na observação das telas de imagem.
O fogo de quarenta supercouraçados da ala esquerda concentrou-se num grupo de duas dezenas de “naves-pingo.” O espaço ficou profusamente iluminado. Uma trilha energética da largura de uma via expressa de Árcon II, brilhando em todas as cores do arco-íris, parecia ligar quarenta naves gigantescas com o grupo dos laurins.
O quadro transformou-se num caos e logo depois metamorfoseou-se em minúsculos sóis. Em poucos segundos, estes cresceram tremendamente e perderam em luminosidade. Cada um desses sóis representava uma nave dos laurins que explodia.
“Chegaram à conclusão de que viemos para ajudá-los”, pensou Atlan. “Tomara que os pos-bis se mostrem agradecidos pelo que acabamos de fazer”.
Os cubos de aspecto terrificante com seu tremendo poder de fogo não atacaram o pequeno grupo de naves arcônidas, nem mesmo quando este teve de atravessar suas linhas, passando a cinco quilômetros das naves dos robôs.
Atlan observava ininterruptamente. Dificilmente perdia algum detalhe importante. Em plena batalha de vida ou morte conseguiu reunir forças para estudar o comportamento dos pos-bis.
Sua intervenção unilateral representava uma experiência arriscada. Sabia tão bem quanto Perry Rhodan que tremendo perigo aquela raça de robôs representava para a Via Láctea. Se não conseguissem transformá-los em amigos ou ao menos obter sua neutralidade, os biopositrônicos acabariam dominando toda a Galáxia.
Atlan estava usando o poder de fogo de sua poderosa frota para convencer os pos-bis, nos quais predominavam os sentimentos, de que ele representava a verdadeira vida, que a respeitava e até chegava a defendê-la.
O conversor de símbolos continuava a transmitir pelo hipercomunicador a mensagem codificada endereçada ao comandante de plasma de uma das naves fragmentárias. A mesma frase era martelada continuamente para dentro da massa de plasma:
— Nós somos vivos de verdade!
Ao que parecia, a tentativa fora bem-sucedida.
A intervenção do gigantesco grupo de naves arcônidas estava produzindo seus primeiros resultados. A ala esquerda da linha de ataque dos laurins desintegrou-se. Quando se desmancharam sob a violência dos raios concentrados, as naves-pingo produziram um terrível fogo de artifício.
Mas os laurins não se limitavam a oferecer resistência. Constantemente voltavam a atacar as naves fragmentárias com uma fúria inconcebível.
Mais uma vez os invisíveis registraram a derrubada de uma nave. E mais uma vez provaram que até mesmo o fantástico campo defensivo dos pos-bis podia ser destruído. Dali a mais alguns segundos o terceiro cubo explodiu.
Das onze naves só sobravam oito...
Mas foi este o último êxito alcançado pelos invisíveis. Nada puderam fazer contra a superioridade a que de repente se viram expostos.
Outro grupo numeroso da frota arcônida chegou ao local da batalha. Os laurins receberam fogo de todos os lados. Em alguns minutos perderam mais da metade de suas naves. De repente as que restavam fugiram. Mudaram de rumo e saíram em disparada, em direção ao espaço extragaláctico.
Os tremendos abalos estruturais indicavam que haviam fugido para o hiperespaço.
— Estou curioso para ver o que acontecerá daqui em diante — disse Atlan em inglês.
O conversor de símbolos continuava a enviar a mensagem codificada pelo hiper-comunicador.
Nada aconteceu. Oito naves pos-bis mantinham-se imóveis diante de uma gigantesca frota arcônida. Em certos lugares, a distância entre as unidades era muito pequena.
O arcônida olhou para o relógio de bordo. Havia alguma coisa nos robôs que o incomodava. Mas não sabia dizer o que era.
— Ora essa! — disse um tanto contrariado. — Se esses pos-bis sabem aprender, isso se torna muito difícil para eles. Quem dera que os robôs ao menos respondessem à nossa mensagem em símbolo. Alô, sala de rádio! Como estão as coisas por aí?
A pergunta fora formulada pelo sistema de intercomunicação. Atlan não gostou nem um pouco da resposta que ouviu.
— Sir, uma dessas caixas continua a irradiar um pedido de socorro em linguagem simbólica.
— Ainda? — perguntou Atlan, embora indagação fosse supérflua.
— Ainda, sir! — veio a resposta em tom seguro.
O arcônida pôs-se a refletir. Não estava disposto a assumir um risco ainda maior.
Suas naves receberam ordem para retirar-se, caso isso se tornasse necessário e, para entrarem na zona de libração, mesmo que as condições não fossem favoráveis.
Em todas as belonaves os computadores entraram em funcionamento. Calcularam os dados necessários para uma série de alternativas e os transmitiram ao banco positrônico de dados.
A espera já durara duas horas. O grupo de naves dos pos-bis mantinha-se imóvel, guardando sempre a mesma distância da frota arcônida. Fazia dez minutos que a sala de rádio transmitira uma informação:
— Sir, há um minuto não se ouve mais o pedido de socorro dos pos-bis.
— E então? — perguntara Atlan.
— Não há outras novidades, sir.
Mais uma vez Atlan experimentou uma sensação indefinida, que lhe causava certo nervosismo. Nessa situação, a ausência de Perry Rhodan chegava a ser dolorosa. Provavelmente este, com sua segurança intuitiva, tomaria a decisão acertada.
De repente o espaço escuro que os cercava transformou-se numa grade de radiações...
Mais de quinhentas naves fragmentárias, protegidas por seus terríveis campos relativistas, todos regulados para o tempo atual, surgiram em meio à frota arcônida! Até mesmo com uma concentração de naves como esta, a localização por meio do rastreamento estrutural tornou-se impossível. Graças às características dos campos relativistas, não se verificavam abalos estruturais no espaço cósmico.
De repente, as fúrias do inferno pareciam estar às soltas. Numa questão de segundos, os terríveis raios conversores dos pos-bis destruíram três cruzadores da classe Cidade. Quando isso aconteceu, a ordem de retirada imediata já havia sido transmitida.
Os bancos de dados dos computadores positrônicos transmitiram as cifras armazenadas ao sistema de pilotagem automática. Centenas de conjuntos, unidades energéticas e máquinas uivaram ao mesmo tempo em cada uma das naves.
Todas as torres de canhões de radiações dispararam com a capacidade máxima. A frota arcônida defendia-se com todas as forças, mas os comandantes das diversas unidades não descobriram a menor chance.
O grupo de naves arcônidas não tinha condições de resistir à concentração de mais de quinhentas naves fragmentárias. Havia uma nítida inferioridade em armamentos face aos robôs.
— Soltem mensagem em símbolo! — Ordenou Atlan, enquanto sua nave capitania escapou de um impacto direto de raio conversor.
As naves dos pos-bis, que haviam irrompido do hiperespaço como uma tormenta, não reagiram à mensagem. Até parecia que seu fogo se tomara mais intenso.
Só havia um recurso: a fuga!
O espaço linear com sua zona de libração representava a única salvação.
O grande grupo de naves desapareceu em condições pouco favoráveis.
Algumas centenas de seres humanos respiraram aliviados, quando suas naves alcançaram o semi-espaço. As perdas ficaram restritas aos três cruzadores da classe Cidade, mas outras dezesseis naves informaram terem sofrido avarias leves ou graves, produzidas por impactos de radiações.
Atlan passou os olhos pela sala de comando. Só viu rosto contrariados. Algumas pessoas puseram-se a praguejar.
— O que diz o rastreador relativista? — perguntou o imperador.
— Os pos-bis não estão nos seguindo, sir.
Atlan não aceitou de pronto a afirmativa. Lançou um olhar penetrante para o oficial.
— Por certo o senhor quer dizer que os pos-bis não nos seguiram no semi-espaço. Mas seria capaz de dizer qual é o caminho que os robôs tomaram no hiperespaço?
— Sir — objetou o imediato — não aceito suas suspeitas. Acho...
Atlan interrompeu-o com um gesto violento.
— Pense antes de falar. Na minha opinião não há nada de que os pos-bis não sejam capazes.
Sentia-se abatido, porque sua tentativa desesperada de comunicar-se com as naves dos pos-bis por meio de uma mensagem simbólica, que de início parecia ser bem-sucedida, de repente revelou ser um fracasso total.
A frota arcônida fugia desabaladamente pela zona de libração do semi-espaço, em direção ao grupo estelar M-13, situado no setor Hércules, em cujo centro brilhava o sol de Árcon, derramando sua luz sobre os três planetas mais importantes do império.
As espaçonaves não seguiram diretamente em direção ao grupo estelar. Sua rota o tangenciava.
Quando os kalups silenciaram, as naves foram retornando ao Universo normal e o oceano de estrelas do grupo M-13 já começava a cintilar nas telas panorâmicas.
Não se via o menor sinal dos pos-bis.
As naves frearam até reduzir para 0,5% da velocidade da luz. Uma tensão terrível espalhou-se entre os tripulantes. Será que as quinhentas naves fragmentárias os tinham seguido? Ou teriam as mesmas mudado de rumo quando as naves esféricas desapareceram no semi-espaço?
— Estamos livres deles! — arriscou-se a dizer prematuramente um dos homens que se encontravam na nave capitania de Atlan.
— Infelizmente, não! — exclamou o arcônida.
Mais uma vez o sistema de rastreamento estrutural não registrara o aparecimento das naves fragmentárias, em virtude dos campos relativistas que as protegiam. Contudo a ampliação repentina da tela panorâmica mostrou a frota dos pos-bis!
Atlan sentiu os olhares vindos de todos os lados antes mesmo de vê-los. Todos aguardavam suas instruções. Mas não havia nenhuma ordem a ser dada. Sentia-se perplexo como nunca antes em sua longa vida.
Defender-se com o número reduzido de espaçonaves de que dispunha parecia-lhe impossível, face ao seu saber e à sua experiência. Mas, por outro lado, o grupo estelar M-13 não poderia ser entregue sem luta aos robôs biopositrônicos.
— Alarma para todas as frotas!
Era só o que podia fazer no momento.
Mais uma vez os oficiais que se encontravam na sala de comando fitaram-no. Esperavam que o imperador de Árcon tomasse outras medidas, além da mobilização de todas as naves esféricas.
Atlan virou-se e fitou seus homens. Cada um deles teve a impressão de que o imperador lhe lançava um olhar penetrante.
— Nunca afirmei que sou mais inteligente que os senhores. Meu saber teve origem nas experiências colhidas num lapso de dez mil anos. Acontece que para mim os pos-bis são uma novidade completa, da mesma forma que para os senhores. Só posso acompanhar suas esperanças de que logo aconteça um milagre que contenha esses robôs.
Foi interrompido pelo sistema de intercomunicação.
— Sir, as frotas foram alarmadas. Transmitimos as coordenadas. As unidades foram informadas a respeito das naves fragmentárias.
Mais uma vez Atlan voltou a admirar os terranos. O oficial de serviço na sala de rádio resolvera, por iniciativa própria, redigir a mensagem de alarma, de tal forma que todos os comandantes fossem informados sobre os acontecimentos que se desenrolavam na periferia do grupo estelar M-13.
As naves fragmentárias aproximaram-se velozmente.
Atlan inclinou-se sobre o microfone. Ligou para a sala de rádio.
— Transmita um pedido de socorro a Perry Rhodan. Não se esqueça de mencionar que os pos-bis provavelmente estão informados sobre o grupo M-13 e sobre a vida existente no interior do mesmo. É só.
Olf Stagge, o homem que possuía o dom passivo da teleportação, voltou a introduzir-se por via telepática nos pensamentos de Kule-Tats. O ara continuava a ser vigiado. Perry Rhodan não podia assumir o menor risco, embora em sentimento confiasse no cientista.
Os pensamentos que o escandinavo conseguiu atingir eram-lhe totalmente incompreensíveis. À medida que prosseguia sua escuta telepática, aquilo lhe infundia cada vez mais temor.
Eram pos-bis e mais pos-bis. Efeitos diversos, conexões, moléculas e processos positrônicos desempenhavam o papel principal nos pensamentos. Stagge não compreendia o que uma coisa tinha a ver com a outra.
Interrompeu apressadamente o contato.
Stagge, que se encontrava em seu quarto, procurou estabelecer outras comunicações telepáticas.
Em muitas de suas “investidas”, entrou em meio aos sonhos das pessoas. Esses homens, que se haviam deitado para dormir algumas horas, ocupavam-se até em sonho com o enigma dos pos-bis e procuravam desvendar o mistério dos robôs parcialmente biológicos.
Sonhavam com seu trabalho. O escandinavo balançou a cabeça.
Sem que o quisesse, atingiu as emissões mentais do plasma.
Procurou em vão detectar impulsos de ódio. Seu esforço para encontrá-los tornou-se cada vez mais intenso. Não conseguiu.
Olf Stagge sentiu-se inseguro. Não ouvira todo mundo dizer que o plasma portador de sentimentos desenvolvia, antes de mais nada, um ódio profundo contra tudo que fosse orgânico? Onde estavam os impulsos correspondentes?
Ao que parecia, o plasma sentia-se muito bem. O que o escandinavo conseguiu captar foram sensações inequívocas de bem-estar.
“Devo estar louco”, pensou. “Isto não pode estar certo. É justamente por causa do plasma que os pos-bis odeiam tudo que é orgânico. Por que a massa de plasma de que a Terra dispõe para fins de experiência iria experimentar sentimentos contrários?”
Olf Stagge suspendeu a vigilância telepática e deitou para dormir. Quando o sono era mais profundo, foi despertado pelo rugido de gigantescos propulsores. Grandes unidades da frota espacial terrana estavam decolando.
Contrariado com o barulho infernal, disse para si mesmo:
— Será que essa gente não poderia ter escolhido outra hora para decolar?
Apesar do barulho, logo adormeceu de novo.
Acordou ao amanhecer. Havia uma estranha inquietação no setor residencial. Quando saiu para o corredor, meio sonolento, o robólogo Van Moders estava passando. No mesmo instante, Stagge lembrou-se das sondagens telepáticas que fizera durante a noite.
— Um instante, mister Moders — disse, dirigindo-se ao cientista, mas este não queria que ninguém o detivesse.
— Não tenho tempo — respondeu.
Acontece que na opinião de Olf Stagge suas observações deviam ser muito importantes para o robólogo.
— Trata-se do plasma estocado, mister Moders. Aquilo pensa exclusivamente em termos de alegria e bem-estar...
Moders estacou abruptamente.
— O senhor tem muita coisa a dizer? — perguntou em tom insistente. — Se tem, fale logo. Não posso perder tempo.
— Demorarei alguns minutos.
— Não posso perder tanto tempo. Viajarei com o chefe. Quer saber de uma coisa? Vista-se bem depressa e vá depois para a nave capitania. Informarei o administrador de que o senhor se encontra a bordo. Ocuparei a cabina quatrocentos e trinta e cinco, no convés C. Até logo mais.
Olf Stagge, que era membro do Exército de Mutantes, possuía treinamento militar, e por isso sabia vestir-se rapidamente. E não era só. Nunca se esquecia de levar as coisas importantes que pertenciam ao equipamento-padrão de cada tipo de ação.
Quando chegou à Teodorico — a nave capitania de Perry Rhodan, que tinha mil e quinhentos metros de diâmetro — as grandes comportas já estavam fechadas. Subiu pela rampa de passageiros, entrou na nave e apresentou-se à sentinela, que era um robô.
— Pode passar — disse o homem-máquina, depois que Stagge se identificara.
O mutante subiu rapidamente pelo grande elevador antigravitacional. Quando se encontrava na metade do caminho, ouviu os motores da protuberância equatorial entrarem em funcionamento. No mesmo instante, o gigantesco envoltório esférico passou a emitir um zumbido.
A decolagem era iminente. Stagge compreendeu que chegara no último instante.
Ao entrar à cabina quatrocentos e trinta e cinco, situada no convés C, encontrou Van Moders entretido numa palestra com Kule-Tats.
— O homem é este, Kule-Tats — disse o robólogo, apontando para o mutante.
Stagge penetrou nos pensamentos do ara. Constatou que os mesmos estavam carregados de tensão e curiosidade. Com um gesto, Van Moders convidou o mutante a sentar-se. No mesmo instante, a Teodorico decolou.
Olf Stagge esteve a ponto de iniciar seu relato, mas lembrou-se de que o ara não devia saber que entre os terranos havia gente capaz de ler pensamentos.
“Quanta coisa mister Moders já terá contado ao colega? Será que revelou o segredo?”, pensou temeroso.
Levantou-se de um salto.
— Queiram desculpar, mas esqueci de apresentar-me a mister Marshall. Peço-lhes que aguardem alguns minutos.
No mesmo instante tateou os pensamentos de Moders. Leu aborrecimento e incredulidade.
Olf Stagge saiu da cabine como um ladrão preso em flagrante. Assim que chegou ao primeiro cruzamento do corredor ligou seu equipamento de comunicação e perguntou onde poderia encontrar John Marshall.
— Não está a bordo — informou uma voz metálica.
— Perplexo, Stagge empreendeu uma ação desesperada. Ligou para a cabina de Moders e, modificando a voz, disse:
— Mister Moders, apresente-se ao chefe. Dali a alguns segundos, Moders saiu da cabina. Assim que chegou ao cruzamento do corredor, seus passos foram interceptados por Olf Stagge. Em palavras rápidas, este explicou tudo. Moders disse em tom de alarma:
— Volte à minha cabina. Realmente cometi o erro de contar tudo. Caramba! Só pensei no plasma celular e nos pos-bis; esqueci-me por completo das malditas normas de segurança. Quero que o diabo as carregue!
Stagge respondeu em tom deprimido:
— Não poderei deixar de relatar o incidente, mister Moders.
Moders tranqüilizou-o com um gesto.
— Isso não me quebrará as pernas e muito menos custará minha cabeça. Kule-Tats não pressentiu ou não levou a mal a vigilância dos seus pensamentos.
Depois de voltar à cabina de Moders, Stagge apresentou seu relato. Suas observações pareciam assumir uma importância extraordinária. Moders e Kule-Tats fitavam-se constantemente com uma expressão séria.
— Vamos repetir, Stagge — interrompeu Moders. — O senhor tentou sondar os fluxos emocionais. O que descobriu?
De repente, o alto-falante berrou:
— Mister Moders e Kule-Tats, façam o favor de comparecer à presença do chefe. Encontra-se na cabina cento e nove.
— Venha comigo, Stagge. Não prossiga agora. Ouviremos sua história juntamente com Perry Rhodan.
A cabina cento e nove era ocupada por Deringhouse. Rhodan encontrava-se em companhia do marechal. O robólogo já o havia informado de que Stagge se encontrava a bordo. Por isso não se admirou ao ver três pessoas passarem pela porta.
Stagge voltou a apresentar seu relato. O chefe e Deringhouse também o ouviram com um interesse cada vez maior. Quando o mutante concluiu sua exposição, Rhodan dirigiu-se aos dois especialistas:
— Então, o que me dizem?
Kule-Tats manteve-se em silêncio, enquanto Moders disse:
— Sir, neste momento não se pode exigir que nos pronunciemos sobre isso. Se as observações de Stagge forem corretas, devemos refletir sobre o caso.
— Tem alguma dúvida? — perguntou Rhodan, em tom de espanto.
— De forma alguma. Acontece que um mutante também pode enganar-se no seu parassetor.
— Não pode, não — interrompeu Rhodan. — Um mutante nunca se engana nas observações realizadas em seu parassetor.
— Está bem, sir, mas isso nos obriga, a mim e a Kule-Tats, a dirigirmos outras perguntas a Olf Stagge.
— Pois não. Sentem nessas poltronas. Deringhouse e eu ficaremos ouvindo.
Mas não resultaram maiores novidades da palestra.
Van Moders levantou-se. Era um sinal de que considerava encerrada a conversa. Formulou mais uma pergunta.
— Stagge, será que o senhor notou algum sinal de inteligência no plasma?
— Notei — disse o mutante como quem não desconfia de nada.
Moders deixou-se cair na poltrona. Kule-Tats fitou o mutante com uma expressão de curiosidade.
— Pela Grande Via Láctea — disse Moders num gemido, passando as mãos pelo cabelo. — Os pos-bis e seu plasma celular ainda me deixarão louco.
— Se é que os pos-bis lhe darão tempo para perder a razão — observou Rhodan.
Havia um tom estranho em sua voz. Moders lembrou-se da delegação acônida que se encontrava em Terrânia. Corriam boatos sobre um tratado entre o Império Solar e o Sistema Azul. Se esses boatos fossem verdadeiros, certos fatores de perigo deveriam ter levado Perry Rhodan a realizar o vôo com a Teodorico. Da observação que acabara de fazer concluía-se que seu avanço pelo espaço devia ter alguma ligação com os pos-bis.
Van Moders logo descobriu o que ainda não sabia, quando hesitou com a resposta e fitou o chefe com uma expressão indagadora.
— Um grupo de mais de quinhentas naves fragmentárias encontra-se nas imediações de M-13 e ataca nossas frotas unidas. Sabe lá o que é o poder de fogo de quinhentas naves fragmentárias?
O robólogo fez que sim.
— O Imperador Gonozal VIII entrou em combate com as naves-pingo dos laurins. Transmitiu para a Terra, pelo rádio, todos os dados que colheu sobre essa raça. Tais dados estão depositados em nosso arquivo de bordo. Peça que lhe forneçam as informações mais recentes. Talvez o senhor ou Kule-Tats possa fazer alguma coisa com isso.
O ara compreendeu a insinuação de Rhodan, que queria ser deixado a sós com Deringhouse. Mas Moders formulou mais uma pergunta:
— Sir, como vem se desenvolvendo a batalha nas proximidades de M-13? Que tipo de reação os cérebros plasmáticos de comando esboçaram diante da mesma?
Os olhos cinzentos de Rhodan obscureceram-se.
— Moders, o senhor formulou a teoria do impulso para o aprendizado que constituiria uma das características dos pos-bis. E eles mostraram-se dispostos a aprender... Praticamente observamos isso quando usamos nossos raios narcotizantes, durante a batalha de Salorat. Contudo Atlan informa, agora, que nossas frotas não conseguem mais nada com os raios narcotizantes. Portanto Moders, sua teoria já deixou de ser uma teoria. A capacidade de aprendizado dos pos-bis é um fato concreto.
O epsalense Jefe Claudrin, comandante da Teodorico, saiu da sala de rádio.
— Aquilo é uma tremenda confusão! — disse, dirigindo-se ao imediato, sem mencionar o motivo.
Os homens que trabalham na sala de rádio começaram a transpirar. Não era por causa do sistema de climatização da nave, mas por causa da avalancha de notícias... Todos os receptores do sistema de hiper-rádio estavam funcionando, mas não eram suficientes para receber as notícias ao mesmo tempo. O transmissor vivia repetindo em diversas faixas o sinal:
Repetir a mensagem! Repetir a mensagem!...
O controle positrônico realizava um registro exato das mensagens.
— Ora essa! — exclamou o segundo-oficial de rádio. — O que está acontecendo na periferia da Galáxia? Já é o oitavo satélite que não responde.
Oito luzes vermelhas acenderam-se num painel. Embaixo de cada uma delas lia-se uma designação em código, composta de letras e algarismos. Era o nome de um satélite.
A nona luz vermelha acendeu-se.
Os homens que se encontravam na sala de rádio não perderam o auto-controle, mas estavam condenados à impotência, enquanto na periferia da Via Láctea ou nas profundezas do espaço extragaláctico, na direção da nebulosa de Andrômeda, nove estações espaciais deixaram de responder.
Isso significava que as estações haviam sido destruídas!
Outras trinta estações deram o alarma. Anunciaram que haviam sido localizadas por naves fragmentárias.
A décima luz vermelha acendeu-se, deixando claro que a destruição dos satélites não era nenhum jogo do acaso. Agindo com uma coerência que ultrapassava em muito o comportamento normal dos robôs, as naves fragmentárias estavam abrindo uma brecha retilínea no anel triplo das estações de observação terranas.
— É uma via de penetração — disse Meis, numa raiva impotente. — Até parece que esses monstros de plasma sabem perfeitamente qual é o alcance de cada estação.
Dali a um minuto não se comentava mais nada a respeito da ação dos biopositrônicos.
Atlan estava chamando a Teodorico. Desejava uma ligação com o chefe.
Os homens da equipe de rádio acompanharam a palestra. A testa de alguns deles realmente estava coberta de suor.
As naves fragmentárias haviam atacado um planeta colonial situado na periferia do Império de Árcon. Atlan não conseguira expulsar os agressores.
— Os canhões de raios narcotizantes não produzem o menor efeito.
Atlan começou pela frase mais importante da mensagem e depois prosseguiu:
— Os druufs vindos de um outro universo foram anjos em comparação com estas criaturas, bárbaro. Os pos-bis levam a gente ao desespero. Já se adaptaram à nossa tática de concentrarmos o fogo de várias naves num só ponto de seus campos relativistas. Não sei como, mas o fato é que conseguem impedir que oito ou dez raios os atinjam no mesmo lugar. Por outro lado, seus raios conversores transformam nossa vida num inferno. Por enquanto não houve perdas totais, mas mais de setenta naves de diversas classes tiveram de retirar-se com avarias mais ou menos graves.
Os homens que se encontravam na sala de rádio entreolharam-se. A Teodorico deslocava-se velozmente pela zona de libração do semi-espaço. O kalup rugia no interior da nave. O alto-falante mantinha-se em silêncio. Perry Rhodan estava falando com o arcônida desesperado.
A voz de Atlan voltou a soar:
— Está bem, Perry; aguardo sua chegada.
Com isso a palestra de hipercomunicação chegou ao fim, mas nem assim o ruído no interior da sala de rádio diminuiu. Ouviram-se pedidos de socorro de mundos coloniais do Império Arcônida, situados na periferia do grupo estelar M-13.
O texto da mensagem sempre era o mesmo:
Naves fragmentárias. Monstros espaciais. Ataques de canhões de radiações de efeitos fulminantes. O fogo dos fortes planetários é ineficaz.
Era a invasão!
No interior da sala de comando, um homem calvo disse ao seu vizinho:
— Neste momento não gostaria de estar na pele do chefe!
— Acontece que também não me sinto muito à vontade na minha pele — respondeu o outro. — Olhe! Outro pedido de socorro de um planeta! Como é mesmo o nome? Elkas! Nunca ouvi falar nele.
Usando um transmissor de matéria de construção acônida, Atlan saiu de sua nave e compareceu a bordo da Teodorico.
Rhodan aguardou-o na sala de comando, onde estava instalado o terminal do aparelho. Os dois homens cumprimentaram-se com um aperto de mão. O arcônida de estatura elevada, que era o único homem, além de Perry Rhodan, que possuía um ativador celular, aparelho que lhe conferia uma imortalidade relativa, cumprimentou Claudrin com um gesto da cabeça e, dirigindo-se a Rhodan, perguntou:
— Onde estão Bell, Mercant e os membros de sua equipe pessoal?
— Em Terrânia — respondeu Rhodan, enquanto caminhavam em direção à escotilha principal. — Confiei-lhes a tarefa desagradável de, com toda cortesia e rapidez, fazer com que a delegação acônida volte ao Sistema Azul.
Quando já se encontravam no convés em que ficava a cabina de Perry, o arcônida parou.
— Como é mesmo? — perguntou. — Não está mais interessado numa aliança firme com os acônidas?
— Estou mais interessado que nunca, mas no momento ainda não me sinto em condições de celebrar um tratado com eles. Não tenho tempo nem paciência para isso. Logo verão que nossa situação ficará desesperadora, a não ser que aconteça um milagre.
O arcônida soltou uma risada irônica.
— Acho que você voltou a praticar o pessimismo de conveniência, meu caro.
— Por enquanto. Mas faço votos de que nossos especialistas em pos-bis não ajam da mesma forma. Van Moders e Kule-Tats estão a bordo. No momento interpretam as observações colhidas durante a luta defensiva com os laurins.
— Ah, é? Será que é dali que você espera um milagre, Perry? Pois eu já não espero mais. Tinha esperança de que minha mensagem simbólica permanente e minha intervenção em favor dos pos-bis os convencesse de que havíamos vindo como amigos. E por algum tempo a situação no espaço sem estrelas parecia confirmar minhas esperanças. Mas, de repente, uma armada de naves fragmentárias surgiu e tentou transformar as unidades de meu grupo em pequenos sóis. Perry, o comportamento desses robôs ultrapassa minha capacidade de compreensão.
Atlan acabara de sair das linhas de combate. Estava em melhores condições que qualquer outra pessoa para avaliar as chances que tinha a frota solar-arcônida de, com mais de cem mil naves esféricas, sair vitoriosa da luta contra um inimigo numericamente inferior.
Rhodan não formulou nenhuma pergunta a este respeito.
Quando entraram em seu camarote, Deringhouse já havia separado as notícias mais importantes chegadas no entretempo. Rhodan e Atlan leram-nas.
O chefe entrou em contato com a sala de rádio.
— Transmita a seguinte mensagem pela faixa interestelar dos mercadores galácticos, pelas faixas dos aras, dos ekhônidas, e outras.
O texto era o seguinte:
— Rhodan, o administrador, chamando os povos do Império de Árcon. O Grande Império está sendo atacado pelas naves de uma raça de robôs. As frotas unidas do Sistema Solar e de Árcon procuram afastar o inimigo. O resultado da batalha é incerto, pois os robôs dispõem de armas contra as quais não possuímos nenhuma defesa. Não podemos dispensar nenhuma nave de guerra, mas precisamos de mais cem mil espaçonaves, a fim de evacuar em poucas horas os planetas do Grande Império que são ameaçados pelo inimigo. O Imperador Gonozal VIII, que dirige a batalha junto ao grupo estelar M-13, espera que os povos de Árcon não se transformem em traidores do império a que pertencem.
Rhodan, o administrador, também espera receber auxílio de todos os lados. Esse auxílio terá de vir imediatamente, pois, do contrário, milhões de vidas humanas serão destruídas.
Habitantes do Grande Império, entrem em ação e ajudem! Tudo que fizerem será feito para sua proteção.
Perry Rhodan.
Administrador do Império Solar.
— Transmita a mensagem em caráter permanente, com a potência máxima. Duração: quinze minutos, tempo padrão. Utilizem todas as faixas principais. Todos os povos, por menores que sejam, devem ser atingidos. Alguma dúvida?
— A mensagem também será enviada aos acônidas? — perguntou Atlan.
— Isso não é necessário — respondeu Rhodan. —Seus serviços de escuta captam tudo. — Voltou a sentar. — Que resultado você espera do meu apelo?
— A salvação de milhões de seres humanos, meu caro. Mas será que valerá a pena? Isso não representará apenas o adiamento de algo que mais dia menos dia terá de acontecer?
— O que é?
— O que é? — repetiu Atlan em tom exaltado, ignorando o olhar de espanto de Rhodan. — O raio conversor representa a arma definitiva. Não temos nada com que possamos enfrentá-la. Nossos foguetes de ogivas nucleares são tão lentos que serão destruídos pelos raios conversores no início de sua trajetória. E os campos defensivos das naves fragmentárias só podem ser rompidos por meio de oito ou dez tiros de radiações que atinjam simultaneamente o mesmo ponto. É de desanimar...
— Ainda não, arcônida. Até parece que você não é mais o mesmo. Onde está a coragem e vitalidade que o conservou de pé durante dez mil anos na Terra? Os pos-bis e suas caixas não são indestrutíveis. Não se esqueça de que os laurins sabem destruí-las. Para mim, o raio conversor não é uma arma definitiva. Nunca acreditei na existência de uma arma definitiva, e nunca acreditarei. Isso não existe. Depois de qualquer arma virá outra, ainda mais terrível... e depois outra...
— Acontece que não temos absolutamente nada, Rhodan! — disse o arcônida, falando novamente em tom exaltado. — Temos mais de cem mil espaçonaves e nos vemos às turras com um número ridículo de quinhentas. Essas naves nem deveriam existir mais. Mas como estão as coisas na realidade? Nem sequer estamos em condições de evitar que o inimigo ataque e destrua planetas habitados. Isto é a realidade, meu caro, e ela não nos permite que tenhamos a esperança de um milagre. Nem temos tempo para isso.
Rhodan lançou um olhar penetrante para Deringhouse. Atlan olhou para o chão. O arcônida estava muito nervoso.
— Perry — principiou de novo — se você soubesse como tivemos de fugir dos pos-bis! Esses robôs do demônio nunca param de aprender. E, à medida que nos compreendem melhor, mais perigosos se tornam. Seus comandantes de plasma celular devem tê-los abrigado atrás de campos energéticos desconhecidos, graças aos quais não foram atingidos pelos raios de nossos canhões narcotizantes. Pense bem, Perry! Os robôs levaram muito pouco tempo para criar uma defesa contra nossa arma narcotizante. Santo Deus, nem mesmo você com seu exército gigantesco de técnicos e engenheiros seria capaz disso.
— Arcônida...! — esta palavra parecia ter muito peso. — Exponha em poucas palavras quais são seus receios.
— Eles nos esmagarão — disse Atlan, levantando os olhos.
— Quer um cigarro, Atlan?
Foi a única resposta de Rhodan. O arcônida estendeu a mão, mas voltou a recolhê-la e fitou Rhodan em cheio.
— Você vê uma saída, alguma possibilidade?
Não teve necessidade de prosseguir. Rhodan sacudiu a cabeça.
— Atlan, você é arcônida. Deringhouse e eu somos terranos. E um terrano que se entrega geralmente morre na sua desesperança.
— Perry, no momento não estou interessado em saber quem é o quê. Há algumas horas os fatos estão com a palavra, e eles nos dizem que não temos nada com que possamos enfrentar as naves fragmentárias. Elas já nos deram muito trabalho, e hoje tornaram-se quase invencíveis.
Outra notícia alarmante foi transmitida. Os pos-bis haviam recebido reforços vindos do espaço. O número das novas levas de naves fragmentárias era desconhecido.
Ao mesmo tempo chegaram notícias vindas do Grande Império. Os povos de Árcon estavam levando a sério o apelo de Rhodan. O administrador nunca usara esta linguagem num pedido de socorro, e por isso compreenderam que os habitantes do império corriam um perigo terrível.
A central dos superpesados informou que as naves de todos os clãs se dirigiam às áreas de perigo ou aos setores atacados.
Os mercadores galácticos transmitiram uma mensagem. Estes seres, que colocavam o lucro pecuniário acima de todas as coisas, deviam ter realizado uma conferência-relâmpago em que resolveram colocar seus interesses pessoais em segundo plano. Pediram que lhes indicassem os planetas a que deveriam enviar suas gigantescas frotas a fim de salvar seus habitantes da destruição pelos pos-bis.
— Deringhouse, transmita a ordem de decolagem aos nossos coordenadores.
Atlan sacudiu a cabeça; parecia pensativo.
— Será que ainda verei o dia em que vocês terranos não tiverem organizado alguma coisa? Por que existem coordenadores em sua nave, Perry? Quando saiu de Terrânia, você não poderia ter imaginado que os pos-bis atacariam mundos coloniais arcônidas.
— É verdade. Acontece que há alguns anos andei pensando sobre o que aconteceria se alguns planetas tivessem de ser evacuados com extrema rapidez. Ora, se todas as naves terranas, a partir da classe Cidade, têm a bordo um coordenador, que é um computador positrônico construído especialmente para esse caso...
— Para mim basta — disse Atlan, levantando os braços como quem quer render-se. — Você andou pensando... E, com base nesses pensamentos, você deu ordem para construir um computador positrônico especial, a ser utilizado caso ocorresse essa hipótese. Perry, você é um exemplar!
Rhodan interrompeu-o com um gesto. Não gostava desses elogios derramados.
O alarma soou na Teodorico. Jefe Claudrin, que se encontrava na sala de comando, chamou.
— Sir, afasto-me conforme foi ordenado.
— O senhor poderá agir conforme melhor lhe parecer — respondeu Rhodan.
— OK, sir!
— Com isso a palestra com o comandante teve fim.
— Quer dizer que as naves fragmentárias já chegaram até aqui — constatou Deringhouse, que separava ininterruptamente as notícias recebidas de acordo com sua importância.
— Alguma novidade, Deringhouse? — perguntou Atlan, em tom preocupado.
— Só temos novidades desagradáveis, sir, mas estas não têm a menor importância, em comparação com a catástrofe.
O Kalup da nave começou a rugir. A nave capitania fazia os preparativos necessários para recolher-se à zona de libração do semi-espaço. Não havia como livrar-se das três naves fragmentárias. Rhodan, Atlan e Deringhouse quase não lhes deram a menor atenção.
O último pegou uma mensagem que acabara de chegar. Soltou um assobio e passou-a adiante com um gesto apressado. O chefe e Atlan a leram.
Uma nave fragmentária acabara de cruzar o sistema de Árcon! Os gigantescos fortes espaciais não conseguiram destruir a nave inimiga.
— Esses robôs devem ser uma criação do inferno! — exclamou o arcônida, em tom furioso. — Agem com certo método. Que indivíduo diabólico terá inventado esses seres?
Não deixava de ter sua razão. Essas indagações já haviam sido formuladas por todas as pessoas que tinham entrado em contato com os pos-bis e suas espaçonaves.
— Vocês são vivos de verdade?
Deringhouse repetiu em tom pensativo esta pergunta aparentemente dogmática. Ainda não se tinha certeza sobre o significado da mesma. Qualquer das numerosas alternativas que haviam sido elaboradas poderia ser correta. A tentativa de Atlan, que queria reforçar sua teoria pelos fatos, ao tomar o partido dos pos-bis contra os invisíveis, fora reduzida ao absurdo em virtude do aparecimento da grande frota de naves fragmentárias.
O arcônida disse a mesma coisa que Van Moders dissera há algumas horas:
— Se fico pensando nesse plasma celular, ainda acabarei enlouquecendo! Trata-se de uma substância orgânica que, segundo dizem, tem certa semelhança com o plasma humano, mas provoca uma atuação que praticamente é contrária à sua natureza.
— Segundo a teoria de Moders — disse Rhodan, com a maior tranqüilidade — o plasma dos robôs, preso ao engaste hipertóictico, mantém uma disposição hostil face à parte positrônica. Ao contato, uma parte fere a outra.
Atlan interrompeu-o com um gesto violento. Passou a falar em inglês.
— Não quero saber de hipertóictica e hiperimpotrônica. Como são os comandantes de plasma que dirigem essas caixas gigantescas? As gigantescas quantidades de plasma também agem sobre um dispositivo positrônico?
— Naturalmente — respondeu Perry Rhodan, surpreso com esta pergunta do arcônida.
— O que é mais forte, Perry, o plasma ou o dispositivo positrônico?
No mesmo instante, Rhodan fez uma ligação com Moders e Kule-Tats. Repetiu a pergunta de Atlan. O alto-falante transmitiu o ruído de uma respiração pesada. A seguir ouviu-se a voz do ara:
— Sir, conceda-nos uma hora.
Rhodan concedeu o tempo solicitado pelos especialistas. Não valeria a pena apressá-los. E também não valeria a pena abandonar o semi-espaço ao qual se recolhera a nave capitania. E não valeria a pena tentar um ataque contra uma nave fragmentária. Só lhes restava esperar. Esperar um milagre, no qual Atlan não acreditava mais.
O comodoro Park estava desesperado.
O envoltório de seu supercouraçado retumbava. A Gustavo Adolfo parecia um sol monstruoso, ao disparar raios energéticos de um metro de espessura em todas as direções. Cercada por seis naves fragmentárias, a gigantesca esfera defendia-se com todos os meios de que dispunha.
Há poucos minutos a Gustavo Adolfo estivera só no espaço adjacente a M-13, num raio de várias horas-luz. Como sempre acontecia quando surgiam as naves pos-bis, o rastreador estrutural falhara e não detectou as seis caixas que penetraram no Universo normal.
Agora o gigante do espaço travava uma luta desesperada contra o inimigo seis vezes superior em número. O Comodoro Park não perdeu tempo: irradiou imediatamente um pedido de socorro. Bastou um olhar para que reconhecesse que sua nave não tinha a menor chance.
O primeiro-oficial de armas, que se encontrava na sala de comando de tiro, deu ordem para que as novas superbombas terranas de quinhentos gigatons fossem disparadas em série. Sabia perfeitamente que isso era o melhor meio de exprimir sua impotência.
Não havia como levar as novas superbombas ao alvo com a rapidez necessária. Os pos-bis desviavam suas naves fragmentárias numa manobra rapidíssima e talvez chegassem mesmo a deleitar-se com o belo fogo de artifício que surgia por ocasião da explosão das bombas.
O tiro em série representava um desperdício enorme de munições, que apenas trazia a esperança de que uma única das bombas pudesse explodir no campo defensivo de uma nave fragmentária.
O Comodoro Park ouvira a ordem de seu oficial de armamento e não a vetara. Acompanhou atentamente a batalha projetada na grande tela panorâmica. Não ouvia mais o uivo vindo das profundezas da nave.
Viu raios que deslizavam sobre a tela que representava o olho-gigante da Gustavo Adolfo.
“São as bombas de quinhentos gigatons”, pensou. “Cada uma delas custou uma pequena fortuna.”
Uma terrível pancada de fogo estourou junto ao envoltório energético que protegia a Gustavo Adolfo.
— Raio de conversão! — gritou uma das pessoas que se encontravam na sala de comando.
“É o fim”, foi o pensamento que o Comodoro Park conseguiu conceber antes que o chão começasse a tremer sob seus pés.
Só depois disso ouviu o estrondo.
Foi um impacto, mas não um impacto direto. O potente campo defensivo da gigantesca nave arrancou da trajetória o raio conversor dos pos-bis e a bomba que se materializou com o mesmo, e fez com que esta explodisse a certa distância do supercouraçado.
O piloto positrônico de emergência iniciou imediatamente a manobra de desvio. O gigante esférico de mil e quinhentos metros de diâmetro correu vertiginosamente pela coordenada verde. No interior da nave, os neutralizadores de pressão rugiram como se estivessem em desespero. Tiveram de eliminar a pressão do deslocamento, que atingiu o máximo da capacidade.
Park, que viu o grupo estelar M-13 deslizar pela tela panorâmica, fechou os olhos, ofuscado.
— Atingimos um! — rejubilou-se o oficial de armamento em sua central de comando de tiro, falando pelo sistema de intercomunicação.
O disparo em série por ele ordenado fora bem-sucedido. Uma das horríveis caixas desmanchou-se numa explosão atômica.
Mais uma vez o espaço escuro abriu-se. Outra nave fragmentária foi rasgada em pedaços. Desta vez não se ouviu nenhum grito de júbilo vindo da sala de comando de tiro.
No mesmo instante a Gustavo Adolfo penetrou no semi-espaço.
As notícias vinham chegando. O setor 16 do convés H sofrera graves avarias. Havia quatorze mortos ou desaparecidos. Oito depósitos de peças sobressalentes para os reguladores gravitacionais, injetores de combustível e gazelas haviam sido destruídos.
Os setores danificados foram hermeticamente isolados. Os comandos de robôs incumbidos dos reparos estão colocados em movimento. Dentro de alguns minutos será divulgada a lista dos mortos e desaparecidos. Fim da mensagem.
Quando ouviu a notícia, o Comodoro Park já se encontrava junto à escotilha. Deixou que o elevador antigravitacional B-33 o levasse para baixo. Saiu do poço a menos de cinqüenta metros dos depósitos de peças.
Um jovem tenente apresentou-lhe um relato. Ainda não se dispunha da lista dos prejuízos. Park fechou o capacete espacial.
— Abra a escotilha. Antes disso transmita uma mensagem circular de advertência, para que o número de vítimas não se torne ainda maior.
Park teve de esperar mais de um minuto, até que outra escotilha se fechasse atrás dele e todos os homens anunciassem que estavam preparados.
A escotilha à sua frente abriu-se lentamente. A dez metros do lugar em que estava, viu uma confusão de suportes, fios e paredes metálicas rasgadas, que deixavam livre a vista para o semi-espaço. O farol de seu traje espacial iluminou-se, lançando sua luz para o teto. O convés que ficava acima dele não era seguro e o chão que se estendia sob seus pés apresentava fendas que pareciam perigosas. Park não perdeu tempo. Pelo rádio de capacete transmitiu uma ordem para que os respectivos setores dos conveses, situados acima e abaixo dele, fossem evacuados imediatamente. O trabalho seria executado por robôs.
Dali a quinze minutos estava de volta à sala de comando.
— Avise o quartel-general da Frota Solar em Terrânia de que a Gustavo Adolfo terá de ser recolhida ao estaleiro 3-17 da Lua terrana. O imperador também será avisado. Desligo.
Olhou para trás e viu o oficial de armas.
— Permita que lhe dê os parabéns — disse, dirigindo-se ao jovem de olhos azuis e ombros largos.
— Não há motivo para isso, sir — confessou o oficial com toda franqueza. — Caso a Gustavo Adolfo não tivesse se desviado tão rapidamente pela coordenada verde, não acertaríamos um único tiro... Porém duas naves dos pos-bis literalmente voaram para dentro das nossas trajetórias de tiro.
— De qualquer maneira dou-lhe meus parabéns, Low. Se o senhor não tivesse dado ordem para os disparos em série, a esta hora não haveria duas naves pos-bis a menos. Não me esquecerei disso.
A terrível raça de robôs vinda do espaço extragaláctico parecia tornar-se mais inteligente a cada hora que passava. Os pos-bis adaptavam-se cada vez melhor à tática dos terranos.
Atlan, que voltara a assumir o comando da frota, achou que sua tarefa deveria consistir principalmente em evitar de qualquer maneira que os pos-bis devastassem planetas ainda não evacuados.
Não compreendeu por que estava conseguindo. Mas, ao ouvir as constantes notícias sobre perdas de naves de todas as classes, deu-se conta do preço que as frotas unidas estavam pagando pela salvação de milhões de seres humanos.
Os superpesados, que até então haviam representado uma página nada gloriosa na História de Árcon, mostraram que eram melhores que sua reputação. Suas naves cilíndricas, bem armadas, cujo poder de fogo não ficava atrás do dos cruzadores pesados terranos, atacavam as terríveis caixas com tamanha audácia que Atlan se viu obrigado a pedir-lhes que agissem com cautela.
Mas os superpesados não deram importância à sua recomendação.
Cabia-lhes proteger o planeta Fudol, que era o terceiro do total de oito planetas pertencentes ao sistema de Gkurrsy.
Aproximaram-se com pouco mais de três mil naves cilíndricas e literalmente se precipitaram sobre os quatro monstros fragmentários que se preparavam para atacar o mundo colonial. Conheciam os raios conversores dos pos-bis, mas também conheciam a única possibilidade de destruir as caixas quase inexpugnáveis, protegidas por campos relativistas.
Perderam trinta e oito naves e destruíram dois cubos. Já acreditavam que não demorariam em ver destruídas as duas naves dos pos-bis que ainda restavam, quando de repente os robôs receberam auxílio. Um grupo de sessenta “naves-caixa” lançou-se furiosamente sobre os superpesados.
Nem pensaram em fugir... Os saltadores anunciaram pelo hiper-rádio a chegada de uma gigantesca frota, que evacuaria os mais de dezessete milhões de colonos que residiam em Fudol.
O grupo de naves de guerra dos superpesados era comandado pelo patriarca Zoge. Mais de duzentos clãs estavam reunidos no grupo. Quando descobriu a chegada de mais de sessenta naves inimigas, nem pestanejou. Limitou-se a transmitir uma mensagem pelo telecomunicador:
— Quem fugir cometerá suicídio!
Estas palavras eram muito duras, mas correspondiam à mentalidade dos superpesados, que viviam da luta.
Nenhuma das naves cilíndricas afastou-se do campo de batalha. Destemidas, aproximaram-se do forte grupo inimigo. Zoge teve uma idéia maluca. Resolveu executar transições.
Sua nave realizou um salto de dez minutos-luz. O computador positrônico da mesma havia fornecido dados excelentes. Saiu do hiper-espaço bem no meio das caixas dos pos-bis. Suas armas estavam ligadas para a regulagem automática.
— Oh, deuses! — gritou o arrojado Zoge e bateu na tecla de transição.
A nave desapareceu imediatamente; a face externa de seu envoltório protetor arrastou verdadeiras cascatas de energia pura para o hiperespaço.
Duas das repugnantes naves dos robôs deixaram de existir, apesar dos campos relativistas. O superpesado conseguira acertá-las com impactos diretos de duas bombas-foguete de cem gigatons de energia. Fugiu da infernal fogueira atômica que eclodira nas imediações de sua nave, mas não das naves fragmentárias que restavam.
Transmitiu sua experiência pelo rádio.
Três naves cilíndricas saltaram ao mesmo tempo. Duas delas voltaram e anunciaram a derrubada de três naves dos robôs. A terceira nave cilíndrica devia ser dada como perdida.
Dali a meia hora o ânimo combativo dos pos-bis entrou em colapso!
De início apenas umas poucas naves tomaram a direção do espaço, afastando-se de Fudol com tremenda aceleração. Quando os superpesados resolveram, a pequena distância, realizar suas arriscadas transições com trinta naves ao mesmo tempo, aparecendo do nada nas proximidades dos pos-bis e fazendo as armas de controle automático dispararem imediatamente, isso foi demais até mesmo para os pos-bis!
De repente o grupo de naves dissolveu-se, mas só parte das unidades saiu em direção ao espaço. Uma formação de dez naves precipitou-se sobre Fudol. Não deu a menor atenção ao fogo de radiações que as fortalezas espaciais do mundo colonial despejaram sobre ela. Os tiros energéticos resvalaram de encontro aos campos relativistas das naves.
De repente os superpesados ouviram a voz de Zoge. O patriarca, que era um dos mais velhos, rejuvenescera em meio a essa situação. Demonstrando o arrojo de um rapaz de vinte anos, expôs seu plano em poucas palavras. Chamou seus melhores amigos pelo nome, pedindo seu apoio. Não tolerava qualquer objeção. Sabia que naquele momento tudo era uma questão de minutos, talvez de segundos.
Dezoito chefes de clã saíram em perseguição das naves fragmentárias com seus grupos de couraçados. Mais de trezentas naves cilíndricas penetraram nas camadas mais densas da atmosfera de Fudol. Irradiavam ininterruptamente sua posição pelos transmissores. Os fortes espaciais do planeta eram informados constantemente sobre sua rota.
Eram mais rápidas que as naves fragmentárias, pois estas pareciam manobrar cautelosamente.
A nave capitania de Zoge voava na ala direita do grupo. Contemplava a tela com uma calma apavorante. As naves fragmentárias eram retratadas sob a forma de pontos. Seu tamanho aumentava constantemente. Depois de terem chegado à altitude de pouco menos de dez mil metros, as naves dos superpesados mudaram de rumo. Pareciam fugir para o espaço.
O grande transmissor de Zoge estava funcionando. O superpesado examinou o medidor de amplitudes e soltou uma risada feroz. Naquele momento mais quatrocentas naves saíram do espaço e tomaram a direção das caixas infernais dos robôs.
Pelo plano de Zoge, os pos-bis ficariam expostos ao fogo de salvas comandadas pelo rádio, vindo de dois lados ao mesmo tempo.
Um grito ressoou pela sala de comando.
— Terranos!
Quatro supercouraçados da frota terrana aproximavam-se velozmente pela coordenada vermelha.
— Quero a faixa das naves solares! — trovejou a voz de Zoge.
A faixa de ondas foi estabelecida. Zoge informou os terranos em poucas palavras.
— Acompanharemos seu grupo, Zoge. Final.
Zoge, que pela primeira vez na história dos superpesados colaborou com as unidades de Perry Rhodan, guardou seus pensamentos para si. A frase lacônica “Acompanharemos seu grupo, Zoge. Final”, impressionara-o bastante.
O fato de o Império Solar dominar a maior parte da Via Láctea ou exercer sua influência político-econômica sobre a mesma já não o espantava.
Zoge sentia orgulho pelo grande computador positrônico de sua nave capitania. Fazia apenas dois minutos que mandara instalar a moderna aparelhagem. Agora, que estavam envolvido numa luta de vida ou morte, as despesas revertiam em seu benefício e no de todos os superpesados.
Naquela batalha o computador funcionava como central de comando e sincronizava as manobras das diversas unidades.
Assim que os dados ficaram disponíveis, as naves estelares passaram a desenvolver a aceleração máxima.
Dois grupos inimigos corriam um em direção ao outro. Um terceiro grupo, também formado por superpesados, investia sobre os pos-bis, vindo da direção oposta.
Raios ofuscantes cortaram o negrume do espaço.
Os quatro gigantes esféricos do Império Solar também estavam disparando. Além dos desintegradores e das armas térmicas, usaram os raios narcotizantes, embora não esperassem que estes produzissem qualquer resultado.
As naves fragmentárias retribuíram o fogo com seus raios conversores. Na primeira investida atingiram oito naves cilíndricas, que se transformaram em pequenos sóis. Mas, de repente, o fogo dos pos-bis cessou. Os superpesados rejubilavam-se em centenas de naves cilíndricas. Viam as feias caixas esfacelarem-se, e não compreenderam por que o comandante terrano gritava com a voz rouca, procurando superar sua gritaria:
— Suspendam o fogo! Não atirem mais!
Em meio ao júbilo frenético, ninguém o compreendeu. A décima nave fragmentária desfez-se em pedaços. Não havia mais uma única nave pos-bi nas proximidades de Fudol. O gigantesco grupo de naves dos saltadores pôde descer no planeta e recolher seus milhões de habitantes.
O comandante do grupo terrano de supercouraçados dirigiu algumas palavras de despedida ao patriarca Zoge. Depois disso virou-se, contrariado. Fitou o co-piloto.
— O senhor compreendeu o que acaba de acontecer, Molk?
— Naturalmente, sir — respondeu o co-piloto. — Foi apenas graça aos nossos raios narcotizantes que as naves fragmentárias de repente deixaram de disparar contra os superpesados.
O comandante fez que sim.
— Minha opinião também é essa. Quer dizer que, em algumas naves dos pos-bis, os comandantes de plasma ainda não foram protegidos contra os raios narcotizantes. Acho que o chefe estará interessado em saber disso — virou a cabeça em direção ao microfone. — Faça o favor de estabelecer uma ligação de hiper-rádio com o chefe. Rápido.
Dali a alguns minutos Perry Rhodan estava informado.
Van Moders voltara a abusar de suas forças. Estava próximo ao colapso nervoso. Descontrolado, gritou para Olf Stagge, que atravessou no seu caminho. O mutante fez uso de seu dom telepático e deduziu dos pensamentos de Moders o que estava acontecendo com o cientista.
A bio-substância encerrada em todos os pos-bis levara-o à beira do desespero.
— Por que me olha com uma expressão tão estúpida? — berrou.
Olf Stagge não perdeu o autocontrole.
— Acabo de lembrar-me de uma coisa, mister Moders. Trata-se de um detalhe de minhas observações que deixei de relatar ao senhor e a Kule-Tats.
Moders continuara a caminhar pelo convés da Teodorico. Não ouvia o que seu interlocutor dizia. Parecia um bêbado. Olf Stagge correu atrás dele.
— Mister Moders, a bio-substância que se encontra na Terra está sendo guardada num só recipiente ou em vários?
— Qual é a finalidade da pergunta? — questionou e passou a mão pelos olhos injetados de sangue.
A pele do rosto do cientista estava pálida.
— Acho que os montes de plasma se comunicam entre si, naturalmente de forma paramecânica.
— O quê? — Moders ativou suas últimas reservas de energia.
Seus olhos arregalados fitaram o mutante com uma expressão de verdadeira perplexidade. Stagge notou que seu interlocutor teve de fazer um grande esforço para refletir.
— Então o senhor acha que o plasma estabeleceu comunicação por via paramecânica? Sim, está guardado em seis recipientes. Santo Deus, minha cabeça está estourando. Quando se lembrou disso? — indagou Moders, confuso.
Stagge só deu atenção às passagens mais importantes.
— Lembrei-me quando o senhor estava berrando para mim, mister Moders.
— Quem berrou com o senhor? Eu? Por quê? Ora, tanto faz. Conte logo. Como foi mesmo?
Olf Stagge começou a falar em tom de perplexidade:
— Não estou em condições de oferecer um relato preciso, mister Moders. Os sentimentos que a gente consegue captar, sentimentos alheios, nunca podem ser definidos exatamente. Mas não é o que importa. Mister Moders, a bio-substância comunicou algo que pode ser designado como bem-estar, alegria ou felicidade a outras porções de plasma...
— Mas como? — voltou a esbravejar Van Moders.
— Por via paramecânica. O senhor terá de contentar-se com esta resposta, pois é só o que posso dizer. Quem não é telepata nunca será capaz de compreender como nós captamos impulsos dessa espécie.
— Deixe para lá! — disse Moders. — Prossiga. O que houve depois?
— Até este momento não sabia que a bio-substância está sendo guardada em vários recipientes. Naquela noite tive a impressão de ter penetrado numa palestra das porções de plasma. Outras porções respondiam. Ao menos tive a impressão de que estavam dando uma resposta...
— Que diabo! Qual foi a resposta, Stagge? Será que o senhor quer que eu enlouqueça?
Moders falava em tom muito exaltado, como quem está prestes a sofrer um colapso.
— Os outros plasmas irradiaram sentimentos; seus próprios sentimentos — respondeu Stagge com uma voz que parecia ter força hipnótica. — Esses sentimentos não eram idênticos aos sentimentos da primeira porção. Eram semelhantes; tinham mais ou menos a semelhança que existe entre o vermelho-escuro e o vermelho-claro. Mas não havia um sentimento que fosse igual ao outro. O senhor compreende o que captei?
Van Moders contemplou-o como se fosse uma das maravilhas mundiais. Finalmente disse:
— Stagge, tenho vontade de abraçá-lo. Poderia fazer-me um favor? Leve-me à enfermaria de bordo, pois não conseguirei chegar lá só. Depois de me ter entregue lá, procure Kule-Tats. Acorde-o. Conte-lhe o que observou. Diga-lhe que o espero na enfermaria. Essa bio-substância! Esse plasma maldito! Essa droga do inferno...
Três médicos cuidaram de Moders.
Dali a dez minutos o cientista estava dormindo. O chefe foi informado. Não ficou alegre ao receber a notícia. Estava em seu camarote e disse ao médico que o informara sobre o estalo de Moders:
— Diga a Moders, assim que ele acorde, que não tenho lugar para colaboradores que gastam suas forças com tamanha leviandade.
Rhodan lembrava-se perfeitamente do motivo por que Van Moders se excedera tanto, mas não podia deixar de lembrar-se de que certa vez já sofrerá um esgotamento total.
— Procure entrar em contato com o ara Kule-Tats — ordenou Rhodan, dirigindo-se ao médico. — Se o estado do mesmo for semelhante ao de Moders, cumpra o seu dever médico. Aguardo suas informações.
O médico esteve a ponto de desligar, quando voltou a ouvir a voz de Rhodan.
— Um momento! — disse o mesmo. — Peça a Olf Stagge que compareça à minha presença. Obrigado. Final.
Stagge apareceu.
Rhodan ouviu-o com o maior interesse.
— Graças a essa sua informação, Moders conseguiu superar seu estado de esgotamento mental? — perguntou finalmente.
— Sim, senhor. Disse, entre outras coisas, que estava com vontade de me abraçar. Parecia estar alegre.
— Não lhe disse por que sua notícia; pode ser valiosa?
— Não. Pediu-me que entrasse imediatamente em contato com o médico galáctico Kule-Tats, a fim de informá-lo sobre o resultado das minhas observações.
— O senhor não vai fazer nada disso. É provável que Kule-Tats também esteja próximo ao esgotamento total. Nesse caso, os médicos lhe darão um hipnotizante que o mergulhará num bom sono. Fico-lhe muito grato, Stagge. O senhor está se recuperando. Tenho a impressão de que sua fase de azar chegou ao fim.
— Espero que sim, sir — disse Stagge e retirou-se.
Naquele momento nem desconfiava de que uma avalancha de dimensões galácticas rolava com velocidade crescente em direção ao Império de Árcon.
Desde o tempo das lutas contra os druufs, vindos de outro universo, a Frota Solar nunca mais registrara tamanhas perdas em homens e naves.
Fazia dois dias que Atlan, chefe das frotas unidas, não fornecia nenhum relato da situação.
— Não vale a pena! — afirmou.
As notícias só falavam em perdas e novos planetas destruídos pelas naves fragmentárias.
Nem sequer se conhecia o número exato desses perigosos “caixotes” que se encontravam no interior do grupo estelar M-13. Será que ainda eram quase quinhentas? Ou teria seu número crescido para vários milhares? Não era possível localizar essas naves no momento em que penetravam no hiperespaço ou saíam do mesmo, e por isso logo se perdeu o controle de seu número.
Por enquanto ainda se conseguira evitar o pior. A terrível raça de robôs não conseguiu devastar nenhum planeta antes que o mesmo fosse evacuado.
Mas as frotas tiveram de pagar um preço elevadíssimo por isso. E, o que era pior, os pos-bis adaptavam-se cada vez melhor à tática das naves esféricas. Há uma hora mais de duzentas naves fragmentárias aproximaram-se simultaneamente do planeta Yxt, situado no sistema de Dress, a fim de destruir sua superfície na primeira investida. Foi só por um feliz acaso que mais de três mil naves dos superpesados e um grupo de mais de dezoito mil naves cilíndricas dos saltadores aproximavam-se de Yxt.
Diante de tamanha concentração de espaçonaves, os pos-bis mudaram repentinamente de rumo para, numa obstinação típica dos robôs, lançar-se contra esses grupos de naves.
Os superpesados enviaram um pedido de socorro pelo hiper-rádio. Atlan enviou sete grupos de couraçados, cada um composto de duzentas a trezentas naves.
A batalha em torno do planeta ainda prosseguia, mas as naves dos saltadores já haviam pousado em Yxt e recolheram a população dominada pelo pânico. Todo mundo só queria salvar a vida. O resto de repente não valia mais nada.
O planeta já se transformara num deserto de fogo. Não havia mais o menor vestígio de oxigênio em sua atmosfera. O incêndio atômico estava envolvendo esse corpo celeste.
Aquilo era obra dos pos-bis, os monstros vindos do espaço vazio situado entre as galáxias.
E a batalha em torno de M-13 estava entrando no quarto dia. Rhodan e Atlan sabiam como terminaria essa luta: com a vitória dos robôs. A não ser que acontecesse um milagre...
Durante oito horas Van Moders e Kule-Tats ficaram mergulhados num profundo sono hipnótico. Agora estavam sentados novamente em seu laboratório. Não se preocupavam com aquilo que estava acontecendo na Teodorico.
O jovem especialista terrano reclinou-se profundamente na poltrona e pronunciou-se da seguinte forma sobre uma sugestão do cientista ara:
— Quer expulsar o diabo com belzebu? Não, Kule-Tats, acho que seria loucura rematada procurar entrar em contato com os invisíveis. Os laurins são piores que essa raça de robôs. Leu os últimos cálculos de probabilidades sobre eles? O grande centro de computação positrônica de Vênus afirma que existe uma probabilidade de noventa e oito por cento de que os laurins não têm nenhum parentesco biológico conosco nem com os pos-bis. Por enquanto não encontramos nenhuma explicação física sobre sua invisibilidade. Apesar de tudo isso, o senhor acha que devemos solicitar o auxílio dos laurins na luta contra os pos-bis? O senhor não pode estar falando sério, Kule-Tats.
— Um homem que morre afogado agarra-se até mesmo a uma palha, Moders — disse o médico galáctico em tom de desânimo. — Não tenho mais nenhuma esperança...
— Acontece que eu tenho, Kule-Tats. Que diabo! Por que os povos do Império de Árcon desanimam tão depressa? Nos últimos duzentos anos já teríamos deixado de existir algumas centenas de vezes, se tivéssemos desanimado uma vez que fosse.
— Bem, vocês são terranos, Moders.
O jovem cientista respirava com dificuldade. Não encontrou nenhum argumento para contrapor às palavras de Kule-Tats.
“Vocês são terranos!”, repetiu mentalmente. “Até parece que isso é uma coisa toda especial. Talvez seja mesmo.”
Moders apressou-se em mudar de assunto.
— O que acha das observações de Stagge?
O ara manteve-se em silêncio.
— Acordei meia hora antes do senhor — prosseguiu Moders. — Se não estou muito enganado, nosso computador positrônico “transpirou” quando lhe forneci meus cálculos. Veja isto.
Entregou uma pequena pilha de chapas perfuradas ao colega.
O médico galáctico arregalou os olhos. Respirava apressadamente. Conferia repetidamente uma folha com a outra. Ao que parecia, havia alguma coisa de que não gostava.
— Dê uma olhada nisto, Moders. O senhor usou a fórmula de Kallos. A mesma nunca deve ser usada na presença de elementos positrônicos, quando se quer realizar o cálculo de plasma. Sempre produzirá algum resultado, mas nesse resultado será falso. Deixe-me fazer os cálculos com a fórmula de Gultre. Como sabe, trata-se de uma fórmula destinada ao cálculo de probabilidade da imortalidade dos grupos genéticos...
Era a vez de Moders lançar um olhar de perplexidade para seu colega. Kule-Tats já estava sentado à frente do computador positrônico e o abastecia com os dados ordenados segundo a fórmula de Gultre.
O enorme aparelho trabalhou em silêncio. Dois homens esperavam ansiosamente pelo resultado. A primeira folha perfurada apareceu da fenda. Depois foram saindo uma após a outra.
Finalmente surgiu a trigésima folha.
— Pela grande Via Láctea! — exclamou Moders. — Será que isso nunca tem fim? — seus cálculos realizados com a utilização, entre outras, da fórmula de Kallos, haviam produzido nove folhas.
Depois de expelir a trigésima oitava folha, o computador positrônico encerrou suas atividades. Uma luz verde acendeu-se. Era o sinal de que o problema fora resolvido.
O silêncio reinou no interior do laboratório. Dois homens juntaram seus saberes. Examinaram as folhas perfuradas uma após a outra. Uma atividade intensa desenvolvia-se em suas mentes.
Depois de examinar a trigésima quarta folha, Van Moders percebeu, numa espécie de clarividência, qual seria o resultado final:
— Kule-Tats, este é o milagre pelo qual estávamos esperando! — gritou em tom de júbilo.
O ara não deixou que o entusiasmo de Moders o contaminasse. Examinou as fórmulas uma após a outra. Finalmente largou a última folha. Fitou Moders. Seus olhos brilhavam. Num gesto camarada, que no Império de Árcon poderia ser interpretado de forma totalmente diversa e não era considerado muito fino, deu uma palmada no ombro do colega. O ara estremeceu.
— Vamos falar com o chefe! — disse Moders em tom de triunfo, sem desconfiar de que com estas palavras explicara ao ara de que forma este deveria interpretar seu gesto impulsivo.
Quando Moders chamou Rhodan pelo intercomunicador, o administrador estava realizando uma importante palestra de hiper-rádio com Atlan.
— Venha imediatamente — disse Rhodan. Depois voltou a dirigir-se a Atlan. — Chamarei mais tarde. Se não estou muito enganado, meus especialistas acabam de fazer uma descoberta muito importante.
O imperador de Árcon não teve possibilidade de dizer mais uma única palavra. Rhodan desligou imediatamente.
Enfim, Moders e Kule-Tats apareceram. O ara tomou a palavra, face à insistência de Moders.
Parado ao lado de sua escrivaninha, Rhodan permaneceu imóvel. Ouviu com a maior atenção o relato do médico galáctico.
— Precisamos experimentar, sir — concluiu Kule-Tats. — Nossos cálculos não permitem a crença do êxito, apenas a esperança.
— Tolice! — interrompeu Van Moders, esquecendo-se de que se encontrava à frente do homem mais poderoso da Galáxia. — Teremos êxito. Mas para termos toda certeza quero apresentar a seguinte sugestão...
À medida que falava, o espanto do ara crescia cada vez mais. E era a quinta vez que Perry Rhodan acenava a cabeça para Moders.
— Excelente! — disse Rhodan em tom impulsivo. — Os senhores fizeram um trabalho formidável...
Moders achou que deveria interromper o administrador.
— Sir, não somos nós que fazemos jus aos seus agradecimentos. Quem nos colocou na pista correta foi Olf Stagge. Se não tivesse feito suas observações sobre os plasmas que se comunicam por via para-mecânica, nunca teríamos alcançado este resultado.
Enquanto Kule-Tats e Moders caminhavam pelo convés, para voltar ao seu laboratório, o ara disse em tom pensativo:
— Sinto uma grande admiração por ele. E também sinto uma grande admiração pelo senhor, Moders, e por todos os terranos!
— Será que somos algo de especial? — perguntou Van Moders, cujos pensamentos já se ocupavam com a experiência que seria realizada no mesmo dia.
Lançou um olhar de espanto para Kule-Tats. Caminhava mais depressa que seu colega. Acabara de ter uma nova idéia sobre a bio-substância dos pos-bis. A teoria deveria ser reforçada por meio do computador positrônico.
Reginald Bell ficara em Terrânia. Rhodan lhe confiara a tarefa ingrata de explicar à delegação acônida por que o administrador havia saído da Terra, contrariando os acordos celebrados.
Bell era um diplomata todo especial. Apresentou-se pessoalmente ao chefe da delegação acônida e explicou-lhe que o chefe teve de participar de uma operação. Lamentava não poder cumprir os prazos, já que uma grande frota dos pos-bis havia penetrado na Via Láctea.
O chefe da delegação não acreditou em suas palavras e fez algumas observações impróprias sobre os terranos em geral e sobre Perry Rhodan em especial. Na oportunidade, o acônida demonstrou uma arrogância inconcebível.
— Meu caro Soolas — respondeu Bell, em tom nada convencional — os acônidas que fizeram do senhor um diplomata ainda deveriam receber o castigo merecido. Até parece que o senhor ainda não se deu conta de que os terranos não vivem mais em cima das árvores. Se dentro de uma hora o senhor não se mostrar disposto a retirar a observação que acaba de fazer, com manifestações de profundo sentimento, conversarei pessoalmente com o Grande Conselho. Quer apostar que este concordará em falar comigo? Muito bom dia, Soolas.
Foi este o discurso diplomático de Bell. Há muitos decênios havia feito um discurso semelhante em Pequim, a fim de unir vários grupos de interesses políticos diversos.
Antes que o prazo chegasse ao fim, Soolas voltou à sua presença e retirou a observação que fizera sobre Perry Rhodan e os terranos.
— Sairemos imediatamente de Terrânia — disse ao concluir.
— Pois não — respondeu Bell com a maior amabilidade. — Permite que, ao despedir-me dos senhores, forneça as notícias mais recentes sobre os acontecimentos que se desenrolam na Galáxia?
Soolas teria de ouvi-lo, mesmo que não quisesse.
Bell mandou desfiar as notícias vindas do grupo estelar M-13. Não lhe escapou o sorriso cínico do chefe da delegação. O abismo que se abria entre os acônidas e os arcônidas era tão grande que dificilmente poderia ser superado. Para os acônidas, os arcônidas sempre seriam considerados traidores da raça ancestral, e por isso não lhes desejavam nada de bom.
Enquanto as notícias eram apresentadas, Bell dirigiu-se ao acônidas:
— Meu caro Soolas, mesmo que o senhor não goste dos arcônidas, não deverá desejar que sejam destruídos pelos pos-bis. Aquilo que hoje pode acontecer ao Império de Árcon, amanhã poderá atingir o Sistema Azul ou o Império Solar. Vivemos todos na mesma Galáxia, Soolas. Quando estiver apresentando seu relato ao Grande Conselho, não se esqueça disso. E nunca mais se atreva a chamar Perry Rhodan de mentiroso.
“Sou seu amigo. E agora desejo ao senhor e à sua delegação uma boa viagem para Sphinx. Ou será que está interessado em ouvir outras notícias do Império de Árcon?”
Soolas não estava interessado. Já sacrificara boa parte de sua arrogância. Tornara-se mais humano: estava com medo.
Duas horas depois, os acônidas haviam saído de Terrânia e da Terra.
Dali em diante, Bell acompanhou com preocupação crescente os acontecimentos que se desenrolavam no Império de Árcon. Praguejava contra o azar que o obrigara a permanecer na Terra, a fim de desempenhar as funções de representante de Perry.
Fazia dois dias que Gucky, o rato-castor, o evitava. Mostrando-se ofendido, a pequena criatura se teleportara ao notar que Reginald Bell não achava graça em suas piadas.
Hoje, quando já se haviam passado quatro dias desde a batalha em torno dos planetas coloniais de Árcon, que acarretara perdas tão graves, Gucky sentou-se de repente a seu lado. Apoiando a cabeça de rato-castor na mão, fitou o gordo com uma expressão muito séria.
— Alguma novidade, amigo Bell?
— O que foi que você disse, seu anão de enfeite? Não sou seu “amigo Bell?”. Entendido?
Gucky penetrou nos pensamentos de Bell. Isso trouxe-lhe a compreensão a respeito do mau humor de seu interlocutor e o perdoou generosamente, coisa que não costumava fazer.
— Quer dizer que lá em cima as coisas estão assim. Não é de admirar que você esteja com medo, “mister” Bell — disse em tom seco.
A expressão “lá em cima” representava uma alusão ao grupo estelar M-13, e a afirmativa de que Bell estava com medo era um tanto exagerada. Mas, ao fazer essa observação, o rato-castor confessara sem rebuços que penetrara nos pensamentos de Bell e, conforme se sabia, isso era terminantemente proibido.
O rosto de Bell ficou vermelho.
— Tenente Guck...
O rato-castor interrompeu-o com a voz fina e estridente:
— Você não me mete medo, gorducho. Por que se mostra tão insuportável? Se eu contar a Perry como você tratou o tal do Soolas, o chefe ficará furioso. E se eu lhe contar o que você andou pensando durante a última palestra, Perry sentirá vergonha por você. Se quiser obedecer aos ditames da minha consciência, não poderei deixar de contar tudo isso a Perry.
— Você tem uma consciência? Eu também tenho. E sabe o que a mesma me diz? Ela diz...
Mais uma vez Gucky interrompeu-o com a voz fina.
— Reginald Bell, você nunca será homem fino, muito embora há dias sua consciência o acuse pela maneira como tratou a delegação dos acônidas. De qualquer maneira, o chefe ficará sabendo. Mas não vim para discutir com você; apenas quero saber as últimas notícias.
— Você costuma espionar descaradamente os cérebros de todo mundo; por que desta vez não procede da mesma forma?
Os olhos inteligentes do rato-castor fitaram prolongadamente seu nervoso interlocutor.
— Bell, você realmente está com medo!
— Dê o fora daqui! — berrou Reginald Bell. — E não apareça nos próximos dias. Você fica proibido de pôr os pés nesta casa.
Gucky não deu a menor atenção às palavras de Bell.
— Se você está com medo, isso é um sinal de que as coisas estão ruins não apenas para Atlan, mas também para nós.
O receptor do sistema de intercomunicação deu um estalido. A grande estação de hiper-rádio de Terrânia estava chamando.
— Sir, o chefe quer falar com o senhor.
O rosto marcante de Rhodan apareceu na tela. Perry, fez um gesto para cumprimentar Bell, e também Gucky. Depois disso começou a falar. Viu que os olhos dos outros se iluminaram. Depois de ter dado suas instruções, completou:
— Por enquanto não temos motivo para esperar resultados muito bons da experiência que vamos fazer. Há alguns minutos Kule-Tats voltou a ponderar que as chances são de cinqüenta por cento. Não quero que ninguém saiba da nossa palestra. Nem mesmo os especialistas que trabalham com o plasma devem ser informados a respeito.
— Tudo bem, Perry Irei assim que puder. O Marechal Julian Tifflor está em Terrânia desde ontem. Mandarei que cuide dos negócios do governo na qualidade de comissário. Você concorda?
— Se estivesse no seu lugar, sem dúvida teria encontrado uma maneira mais adequada de despedir a delegação dos acônidas! — estas palavras traziam um tom inconfundível de repreensão e contrariedade. — Você provocou o chefe da delegação...
O homem mais poderoso do Império Solar não conseguiu prosseguir. O rato-castor piou seu protesto:
— É mentira! Sei como foi. Espionei os pensamentos de Bell enquanto ele estava realizando a palestra com os acônidas, chefe. Aquele sujeito do Sistema Azul tornou-se muito atrevido. Chamou você indiretamente de mentiroso. Bell apenas lhe deu a resposta que merecia. Cheguei a admirar o gorducho pela maneira como ele se controlou até mesmo em pensamento. É verdade que não é nenhum diplomata nato. Mas, de forma alguma, pode-se dizer que tenha provocado Soolas. Juro, chefe!
Bell não pôde deixar de espantar-se. “Que sujeito esperto”, pensou.
Rhodan, que se encontrava em sua nave capitania, respondeu em tom sério:
— Gucky, atribuo às palavras o valor de um relato dos acontecimentos. Tem alguma retificação a fazer?
— Desde quando você me considera um mentiroso notório, Perry? — Perguntou Gucky, em tom indignado. — Acredita que por causa deste gorducho eu arriscaria uma discussão com você? Bell não provocou o tal do Soolas, e é só.
— O caso está liquidado. Vamos encerrar este assunto. Eu os espero. Apressem-se. Desta vez tudo está em jogo. O perigo dos druufs nunca chegou a ser tão grave como o representado pelos pos-bis.
A tela voltou a apagar-se. A palestra com a Teodorico chegara ao fim. Bell virou a cabeça para o rato-castor, mas este já havia desaparecido.
Reginald Bell esteve a ponto de informar o chefe do Exército de Mutantes, contudo o próprio Marshall entrou em contato com ele.
— Gucky já me avisou — anunciou. — Dentro de vinte minutos estarei na nave com os mutantes solicitados. Apenas gostaria de fazer uma pergunta de rotina. Viajaremos na Olymp?
— Isso mesmo — confirmou Bell.
O rato-castor fizera uma leitura perfeita dos seus pensamentos. Bell soltou uma risada e disse:
— Tenho que ordenar pessoalmente ao comandante da Olymp que prepare a nave para a decolagem. Até logo mais, Marshall.
Quando fez uma ligação com o comandante da Olymp a fim de transmitir-lhe a ordem de preparar a nave esférica para a decolagem, John o interrompeu:
— Sir, Gucky já esteve aqui e transmitiu sua ordem.
Bell preferiu não dizer mais nada.
— Que sujeitinho ladino! — disse para si mesmo, quando já tinha desligado.
Sorriu. Lembrou-se de como o pequeno o defendera perante Perry.
— Mas ainda ensinarei boas maneiras a Soolas e farei com que deixe de caluniar os outros...
Às 11:18 h, tempo padrão, a Olymp decolou do porto espacial de Terrânia. Destino: Grupo estelar M-13, posição da Teodorico.
Gucky, o eterno tenente da Frota Solar, apareceu no lugar em que estavam Moders e Kule-Tats. O cientista ara sobressaltou-se.
Um ser de um metro de altura materializou-se de repente em meio a uma massa de ar turbilhonante. Era um animal. Acontece que esse animal dirigiu-lhe a palavra num intercosmo impecável e chamou-o pelo nome.
O ara lançou um olhar de perplexidade para seu colega. Este não esboçou a menor reação. Aceitou o súbito aparecimento do rato-castor como uma coisa natural.
— Quando foi que você chegou, Gucky? — perguntou.
“Então o nome desta criatura é Gucky”, pensou Kule-Tats, ainda estupefato. “E Moders fala com ele como se fosse um ser humano.”
O rato-castor empertigou-se.
— Represento apenas a vanguarda. O resto da Tropa estará a bordo da Teodorico dentro de dez minutos. Não seria conveniente tranqüilizar Kule-Tats? Ele acha que sou uma variante do macaco-camundongo do planeta Lutin. É uma criatura com a qual não quero ter nada em comum.
Kule-Tats arregalou os olhos e recuou diante daquele ser terrível, que além de tudo ainda sabia ler seus pensamentos.
Van Moders logo se desincumbiu da tarefa. Apresentou Gucky a Kule-Tats.
— Tenente do Exército de Mutantes; telepata, telecineta e teleportador — disse.
— Ele tem inteligência? — perguntou o ara, em tom de espanto.
Dali em diante, Gucky entrou na palestra.
— Escute aí, essa pergunta é um tanto atrevida. Só lhe digo uma coisa: Perry é meu melhor amigo. Tudo entendido?
Moders sorriu. Gucky exibiu o solitário dente-roedor, o que era um sinal de não estar zangado com a pergunta do ara, que desejava saber se ele, Gucky, possuía inteligência.
Kule-Tats ficou devendo a resposta à última pergunta de Gucky. Transformou-se em simples ouvinte e não parava mais de espantar-se. Seu colega conversava em tom sério com aquela criatura, que lhe parecia mais simpática a cada minuto que passava.
— Os pêlos de minha nuca já se arrepiam quando penso na tarefa que nos foi confiada, Van — disse o rato-castor, sacudindo o corpo.
— Quer dizer que é uma tarefa horrível — disse Moders com uma risada. — Compreendo. Será que vocês darão conta da mesma?
Gucky empertigou-se. Aumentou dez centímetros.
— É claro que sim, Van. Já conseguimos coisas muito piores. Mas agora peço-lhe que me dê licença. Preciso cumprimentar Perry.
Disse estas palavras e desapareceu.
— Aonde foi ele, Moders? — perguntou o ara, estupefato.
— Foi cumprimentar o chefe.
— Será que Gucky também aparece na frente de Perry Rhodan sem fazer-se anunciar?
— Naturalmente — disse Moders, com um sorriso. — Não podemos aplicar os padrões normais a Gucky. Nas situações de emergências, quando se tem de exigir os maiores esforços, o pequeno ajuda com suas energias paranormais, sem medir sacrifícios...
Alguém bateu à porta. John Marshall, chefe dos mutantes, entrou. O ara só descobrira que Perry Rhodan possuía um exército de mutantes e que o grupo era dirigido por Marshall, um homem magro, que era o melhor telepata depois de Gucky, quando já se encontrava a bordo da Teodorico.
Marshall foi diretamente ao assunto. Moders expôs em palavras rápidas a tarefa dos telepatas. O ara admirou-se com a tranqüilidade do mutante e com sua inteligência.
— O senhor não acha que a experiência tem um ponto muito fraco? — perguntou Marshall.
— Por quê? — Moders fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— Porque ainda não nos apossamos de nenhuma nave fragmentária, mister Moders. Os telepatas podem preparar tudo para a experiência, mas depois disso surgirá o grande problema. Será que conseguiremos levar a missão até o fim? Andei me informando, e fiquei apavorado ao saber que, depois da batalha na área do planeta Salorat, os robôs criaram um excelente sistema de defesa contra nossos canhões narcotizantes.
Moders fez um gesto afirmativo.
— Perfeitamente. O chefe falou conosco a esse respeito. Há duas horas, aproximadamente, alguns milhares de espaçonaves estão à procura de uma nave fragmentária dos pos-bis que ainda não tenha sido equipada com o sistema protetor contra os raios narcotizantes. Temos notícias de que ainda existem naves fragmentárias cujas centrais de plasma podem ser paralisadas biologicamente por meio do bombardeio narcotizante. Acontece que não sabemos onde estão. Por isso grande número de naves solares foi retirado da frente de combate, na intenção de encontrar uma dessas naves pos-bis e apresá-la.
John Marshall levantou-se.
— Façamos votos de que tudo dê certo — disse. Ao chegar à porta, virou-se. — Mister Moders e Kule-Tats, qual é sua opinião pessoal sobre Olf Stagge?
Marshall ficou satisfeito ao notar que os dois cientistas só tinham coisas boas a dizer sobre o jovem.
Enquanto caminhava em direção aos camarotes de seus mutantes, Marshall resolveu que o telepata e teleportador passivo Stagge participaria da operação... caso esta viesse a ser realizada.
Atlan voltou a conversar com Rhodan.
— Perdôo todos os pecados que os saltadores e os superpesados têm cometido, bárbaro. Se não estivesse com o perigo dos pos-bis grudado na nuca, até poderia rejuvenescer com a esperança de finalmente ter encontrado amigos arrojados, dispostos a ajudar meu império. Os superpesados e os saltadores fazem coisas incríveis. Perry. Suas perdas em naves e tripulantes são tremendas. Nunca pensei que os mercadores galácticos fossem capazes de agir com tamanho altruísmo. Mas, quando vejo que, apesar de tudo, perdemos um planeta após o outro por causa desses “caixões infernais”, que transformam as superfícies planetárias em desertos, quase chego a me desesperar. Vamos sendo empurrados inexoravelmente para o centro. Já vejo chegar o momento em que não poderemos evacuar mais os planetas atacados.
Muito embora estivesse desesperado, Atlan ainda não havia perdido todas as esperanças.
Estava informado sobre a experiência que Rhodan pretendia iniciar. Mas também se achava ciente de que até então as naves empenhadas na busca ainda não havia colocado fora de ação uma única nave fragmentária por meio de seus raios narcotizantes.
E estavam procurando há mais de oito horas.
— Como vai o estado de ânimo a bordo das naves empenhadas na luta, Atlan?
— O estado de ânimo? — repetiu Atlan com uma risada. — Seus terranos cumprem o dever com a mesma coragem que os arcônidas costumavam demonstrar há dez mil anos nas lutas pelo império. Admiro seus homens.
“O chefe há de encontrar uma solução, é o que ouço todo mundo dizer. Centenas de milhares de homens depositam suas esperanças em você. E bilhões e mais bilhões de habitantes do Império de Árcon confiam em sua capacidade.”
— Quando deverá chegar o momento em que não será mais possível evacuar um único planeta, Atlan? — perguntou Rhodan.
— Se as coisas continuarem no mesmo ritmo, deveremos realizar a última evacuação dentro de oitenta horas, tempo padrão.
— Atlan, volte a avisar todas as unidades de que, em hipótese alguma, deverão destruir qualquer nave fragmentária que tenha sido paralisada por meio de raios narcotizantes.
Os olhos de Atlan iluminaram-se.
— Você me infunde nova coragem, bárbaro. Realmente acredita que ainda haja algumas dessas caixas infernais que não dispõem do novo sistema protetor?
— Infelizmente dez dessas naves foram destruídas. Os superpesados agiram com um entusiasmo excessivo ao defenderem o planeta Fudol. É neste fato que fundo minha esperança — confessou com certo otimismo Rhodan.
Assim que a palestra de hipercomunicação chegou ao fim, Perry olhou para um ponto distante. O Administrador do Império Solar refletia mais uma vez sobre a situação, e procurava encontrar uma solução para as indagações que permaneciam sem resposta.
Bell entrou e arrancou Rhodan das reflexões.
— Os telepatas estão trabalhando há algumas horas. Não puderam usar o dispositivo de reforço. John percebeu em tempo. A bio-substância parece ser alérgica ao mesmo. Marshall até chega a afirmar que ela guarda ressentimentos — disse Reginald Bell.
— Isso está cada vez mais confuso! — exclamou Rhodan. — Qual é a opinião de Kule-Tats e de Moders? Já foram informados?
— Até parece que você ficou meio louco, Perry — disse o gordo no tom petulante que lhe era peculiar. — Nem sequer chegaram a admirar-se com a notícia. Só perguntaram se o plasma celular é guardado num recipiente.
— E então? É guardado num recipiente?
— Ora essa! Você faz as mesmas perguntas que Moders, Perry. Sim, o plasma está acondicionado num recipiente.
— E guarda rancor... Ficou zangado, porque os telepatas usaram o dispositivo de reforço das vibrações paramentais?
Bell, que já se acomodara, começou a escorregar de um lado para outro em sua poltrona.
— Você ainda acabará arruinando minha pressão com a pergunta que acaba de formular. Não é possível respondê-la com a exatidão que você deseja. Marshall e Stagge acreditam que das vibrações captadas se pode deduzir que o plasma ficou zangado com o uso do dispositivo de reforço, e não consegue esquecer-se disso. Além do mais, Marshall diz ter descoberto sinais de inteligência.
— Os especialistas também foram informados sobre este ponto?
— Naturalmente. Por que está interessado nestes detalhes?
— Porque no momento só me interesso por um problema: os pos-bis. Por causa deles não temos tempo para pensar em outra coisa. Acabo de falar com Atlan. O almirante receia que, dentro de oitenta horas, se veja obrigado a suspender as evacuações, caso os pos-bis continuem a avançar pelai área de influência arcônida com a mesma velocidade que têm desenvolvido até agora, destruindo um planeta após o outro.
— Santo Deus... — disse Bell de repente, em tom exaltado, e levantou-se.
Rhodan interrompeu o amigo.
— Bell, se considerarmos que poucos dos planetas arcônidas são autárquicos, então haveremos de compreender que em muitos deles já surgiram dificuldades de abastecimento. Sob o ponto de vista técnico, será difícil utilizar todas as naves mercantes para fins de evacuação. No momento em que isso fosse feito, a estrutura estatal de Árcon desmoronaria. Com isso estaríamos abrindo aos pos-bis o caminho que leva para o coração de Árcon.
— Neste momento tudo depende da experiência de que acabamos de falar. Faço votos de que os comandos de busca localizem uma nave fragmentária que possa ser paralisada por meio de raios narcotizantes. Tomara! Tomara ainda que, se isso acontecer, a experiência produza os resultados esperados por Moders e Kule-Tats — disse Bell.
Fitou Perry com uma expressão indagadora, mas o administrador manteve-se em silêncio. Não teve nenhum comentário diante das palavras de Bell.
Só lhe restava esperar — conforme acontecia com todas as pessoas que estavam informadas sobre a experiência.
Fazia quatro horas que Atlan, que se encontrava na frente de combate, enviara a última mensagem pelo hipercomunicador. Fora uma notícia breve.
Planeta Colten do sistema Laser em chamas. Nenhuma perda entre a população durante o transporte. Na frota, 14 naves totalmente perdidas, 38 com avarias leves ou graves. Segue relação.
Atlan.
As naves empenhadas na busca ainda não haviam registrado nenhum êxito.
Será que as dez naves fragmentárias destruídas sobre Fudol foram as últimas unidades dos pos-bis, cujos comandantes de plasma ainda não puderam ser protegidos contra os efeitos dos raios narcotizantes?
— Veja a mensagem, chefe! — gritou alguém pelo sistema de intercomunicação de bordo.
O computador positrônico da sala de rádio levou alguns segundos para transmitir o texto. Jefe Claudrin acompanhou a transmissão.
A Tóquio, uma nave da classe Cidade, acabara de paralisar um monstro dos pos-bis por meio de raios narcotizantes, num local distante do teatro da luta.
A Teodorico, desde o momento em que várias naves da Frota Solar haviam saldo à busca de um “caixão” que se encontrasse nessas condições, se locomovia com 0,7% da velocidade da luz entre as estrelas de Árcon, ativou o Kalup e penetrou no semi-espaço. Jefe Claudrin sabia que naquele momento mais uma vez tudo seria uma questão de segundos.
O grupo de mutantes que participaria da operação recebeu ordem para entrar em regime de prontidão.
A tarefa de Gucky, Tako Kakuta e Ras Tschubai consistiria em teleportar o plasma guardado num recipiente da nave fragmentária.
Há várias horas o tal plasma havia sido influenciado ininterruptamente pelos telepatas. John Marshall soubera enfeixar os fluxos paramentais dos telepatas, fazendo com que atuassem com um máximo de intensidade sobre a área muito restrita em que se encontrava a bio-substância. Avançara passo a passo. Imaginava que qualquer pressa excessiva colocaria em risco o resultado da experiência. A simples utilização do amplificador, que aumentava o desempenho energético dos fluxos volitivos parapsicológicos, por pouco não frustrara a experiência no estágio inicial.
Levaram mais de três horas para fazer com que o plasma esquecesse a utilização do aparelho. Depois de terem constatado que o plasma não irradiava mais nenhuma vibração que exprimisse contrariedade, iniciaram sua tarefa propriamente dita.
Todos os telepatas sabiam que dali em diante teriam que dar o máximo de si.
Suas energias telepáticas martelavam constantemente esta mensagem sobre a bio-substância: “Nós somos vivos de verdade. Ajudaremos a verdadeira vida.”
Moders e Kule-Tats, que nas últimas três horas não se haviam arriscado a abandonar a sessão, viram a energia dos mutantes esgotar-se. Pela primeira vez compreenderam o que significava fazer atuar as faculdades parapsicológicas durante várias horas com o desempenho máximo.
Gucky estava agachado ao lado de John Marshall. Seu pêlo estava fosco e mantinha-se imóvel. A um metro dos dois, um telepata achava-se praticamente deitado sobre o recipiente esférico no qual estava guardada a bio-substância. O suor corria pelo rosto do mutante e pingava sobre o revestimento da esfera. As pernas do telepata tremiam e sua cabeça balançava de um lado para outro.
Oito dos melhores mutantes esforçaram-se para influenciar o plasma. Durante as primeiras horas ainda tiveram de defender-se das hiper-radiações da substância biológica, o que representava uma carga que quase ultrapassava os limites do suportável.
John Marshall conseguira uma coisa quase inacreditável ao integrar todos os fluxos paramentais por meio de sua energia psíquica, dirigindo-os sobre um ponto determinado da bio-substância, como se fosse a luz de um holofote.
À medida que o plasma ia sendo irrigado por via parapsicológica, mais tranqüilo se tornou Marshall. O tratamento parecia produzir um notável bem-estar na misteriosa substância. Olf Stagge, o único que num passado recente conseguira, como telepata, um contato de cem por cento com a bio-substância, ainda desta vez foi incumbido de examinar constantemente a disposição do plasma.
Marshall interrompeu a sessão no momento em que o alarma rugia na Teodorico e a nave mergulhava na zona de libração do semi-espaço. Três telepatas sofreram um colapso. Moders avisou a enfermaria da nave. Dali a pouco, o, grande recinto contíguo ao hangar 4 ficou repleto de médicos.
— Façam a dopagem! — disse Marshall com a voz débil, apontando para Gucky, Olf Stagge e ele mesmo.
— Aqui não se costuma dopar ninguém — respondeu o Dr. Benthuys, em tom áspero. — Essas coisas aconteciam há duzentos anos, mas hoje não acontecem mais. O senhor deveria...
Marshall, que se sentia exausto, não suportou a fala professoral do médico.
— Faça o que quiser, mas não fale. Coloque-nos em boas condições. Rápido!
Moders pôs a mão no braço de Benthuys, o médico.
— Não faça nenhuma tolice, doutor. A existência de todas as raças inteligentes da Galáxia está em jogo. Entendido?
O médico compreendeu.
Marshall, Stagge e Gucky estavam acomodados em poltronas articuladas, reguladas para a posição horizontal. Cada mutante ficou ao cuidado de três médicos. Injeções foram aplicadas. Eram estimulantes da circulação pertencentes à farmacopéia dos aras. Kule-Tats e Moders cuidaram para que os médicos não permanecessem um minuto além do que era exigido pelo estado dos três pacientes.
O medicamento injetado agiu em poucos minutos. Marshall foi o primeiro a se levantar. Gucky, que fisicamente era o mais fraco, levou dez minutos para recuperar-se.
Um robô que se encontrava a seu lado entregou-lhe um traje espacial feito sob encomenda. Kakuta, Tschubai, Marshall e Stagge já estavam prontos para entrar em ação.
Rhodan surgiu... Aproximou-se dos homens que se preparavam para uma tarefa perigosa. Ninguém seria capaz de dizer se voltariam com vida.
— O recipiente esférico não é pouco prático, John? — perguntou Rhodan, dirigindo-se a Marshall.
— No formato atual sim, chefe. Acontece que lhe podemos dar qualquer forma, desde que seja submetido a um processo de aquecimento eletromagnético.
— Como é que o plasma reage ao aquecimento? — indagou Rhodan.
Moders interveio na palestra.
— Sir, a bio-substância nem toma conhecimento disso.
— Obrigado.
Pretendia perguntar mais alguma coisa, mas nesse mesmo instante os contornos da imagem projetada na grande tela estabilizaram-se. A figura bizarra de uma nave fragmentária apareceu.
— O kalup ainda está funcionando! — piou Gucky.
— Estamos vendo a nave de perto por causa da ligação em alto-relevo, pequeno — explicou Rhodan. — Quem participará da operação? O senhor também, Stagge?...
Foi passando os olhos pelos homens que envergavam seus trajes espaciais. Os capacetes estavam jogados para trás.
O olhar de Rhodan fez com que Olf Stagge se sentisse embaraçado. Seu rosto revelava o que estava pensando: “O chefe não confia na minha capacidade.”
Mas Perry Rhodan não seria capaz de desencorajar um homem que estava prestes a participar de uma missão perigosa. Colocou a mão no ombro de Stagge e disse:
— Houve um mal-entendido, Stagge. Estava pensando apenas na sua faculdade passiva de teleportação.
— Sir, Mr. Marshall também não é nenhum teleportador, mas participa da operação.
A voz de Olf Stagge tremia ligeiramente. Receava que o chefe pudesse resolver no último instante excluí-lo do grupo que participaria da operação.
— Desejo-lhe boa sorte, Stagge — dizendo isto, Rhodan voltou a fitar os mutantes um após o outro, cumprimentando-os com um aceno de cabeça, e dirigiu-se à porta.
— Aqui só possa incomodar, Marshall. Entre em contato telepático comigo assim que tiver chegado lá.
A seguir, saiu.
A Teodorico voltou ao Universo normal, nas proximidades da nave fragmentária biologicamente paralisada.
Gucky, Kakuta, Tschubai e Stagge seguraram as alças dos recipientes esféricos em que estava guardado o plasma. John Marshall colocou os braços sobre os ombros de Ras Tschubai, cruzando as mãos por baixo do queixo do teleportador negro.
— O que está acontecendo agora? — perguntou Kule-Tats, soltando um grito.
O lugar em que pouco antes vira cinco pessoas e um recipiente esférico estava vazio.
— Neste momento estão na nave dos pos-bis — disse Moders, dirigindo-se ao colega. — Tomara que por lá não haja mais nenhum robô em atividade.
Van Moders conhecia muito bem esses monstros metálicos de comando semibiótico, tão feios quanto as naves em que serviam.
— E se houver, Moders?
Moders fitou prolongadamente o cientista ara. Por fim respondeu em tom hesitante:
— Tudo depende de quem atire primeiro. Pode ser que a gente tenha sorte, mas as reações dos pos-bis são rápidas e eficientes. Tomara que nada aconteça aos homens que participam da operação. Não sei o que está se passando comigo. Não costumo ser atacado por pressentimentos. Kule-Tats, estou muito preocupado com os mutantes que se encontram na nave dos pos-bis...
Quando se teleportaram para a nave dos pos-bis, os mutantes estavam preparados para qualquer eventualidade.
Cada fase da operação fora discutida demoradamente. Cada participante conhecia sua tarefa e sabia que perigos desconhecidos o aguardavam na nave fragmentária.
Suas cabeças ainda zumbiam com o estrondo que o recipiente esférico provocara ao bater no chão metálico. Os microfones externos de seus capacetes espaciais haviam transmitido o ruído. Os homens que participavam da operação e Gucky encontravam-se num ambiente indescritível. O interior da nave parecia tão absurdo quanto seu aspecto exterior.
O recipiente em que estava guardado o plasma ainda balançava quando John Marshall e Ras Tschubai liquidaram três robôs com suas armas portáteis.
— Estão ouvindo os pedidos de socorro? — gritou Olf Stagge pelo rádio, em meio ao chiado dos raios e do estrondo das explosões.
Ele os ouvia em base paramental. De todos os lados vinha o grito estereotipado:
— Amem o interior! Salvem o interior!
Os mutantes conheciam o significado dessa mensagem. Neste ponto já conheciam os robôs semi-orgânicos. Para os pos-bis, a salvação do interior representava a destruição de seus corpos e da nave. Seria aquilo o produto da lógica dos robôs ou da lógica de uma massa de plasma?
Não se ocuparam com essa indagação. Deviam levar sua bio-substância para junto do comandante da nave.
Tinham de chegar lá pelo caminho mais rápido!
O comandante de cada nave fragmentária era uma gigantesca massa de plasma guardada em seis recipientes esféricos. Essa substancia orgânica, ligada a elementos positrônicos, provocava todas as funções da nave, inclusive o comando dos robôs, na parte em que as tarefas destes não estavam contidas nas respectivas programações individuais.
Achavam-se numa sala de máquinas cheia de aparelhos desconhecidos. Mais de quarenta metros acima deles havia um teto, que não era formado por uma superfície lisa; estava cheio de reentrâncias arredondadas e saliências pontudas.
Estavam cercados de conjuntos bizarros. Em alguns lugares os aparelhos chegavam até o teto. Ao que parecia, nenhum desses aparelhos funcionava. Os mutantes estavam cercados por um silêncio ameaçador.
— Onde será que fica a sala de comando? — perguntou Marshall, dirigindo-se aos teleportadores.
— Vou dar uma olhada — piou Gucky e desapareceu.
Ras Tschubai teleportou-se quase no mesmo instante.
Tinham de agir com muita rapidez. O plasma influenciado por via telepática por certo também recebia os paraimpulsos que insistiam constantemente no apelo do amor e da salvação. Kule-Tats e Moders haviam aludido à possibilidade de a bio-substância se identificar com os elementos sentimentais do comandante de plasma, assim que se encontrasse a bordo da nave fragmentária.
Tschubai voltou. Segurava um desintegrador em cada mão. Seu rosto parecia uma máscara.
— John, por quanto tempo duram os efeitos dos raios narcotizantes?
A pergunta parecia preocupante. Deixou de ser respondida em virtude do reaparecimento de Gucky.
— A sala fica três conveses acima deste, a uns duzentos metros para o interior da nave.
— Não fale tanto, Gucky — disse Marshall em tom insistente. — Indique o alvo.
Voltaram a saltar. Desta vez Kakuta levou Marshall. Olf Stagge transformava-se num teleportador ativo no instante em que algum mutante que estivesse perto dele se concentrava para o salto.
Chegaram à sala de comando. Mais uma vez o recipiente bateu no chão com um grande estrondo. Viram à sua frente uma das seis abóbadas. Cada uma delas continha algumas toneladas de bio-substância.
O rádio de capacete transmitiu o ruído da respiração tranqüila de Marshall. John acabara de ligar o aquecimento eletromagnético do recipiente esférico. Este conservou sua forma.
— Gucky, comprima a substância contra a parede.
O rato-castor pôs em ação suas energias telecinéticas. O gigantesco recipiente flutuou em direção à abóbada, como se estivesse sendo movido pela mão de um fantasma, tocou na mesma e foi gradativamente perdendo a forma, para encostar-se à superfície abobadada numa área superior a um metro quadrado.
Marshall entrou em contato mental com Rhodan.
— Chegamos à sala de comando, chefe. O recipiente de plasma acaba de ser encostado a uma das abóbadas. A bordo, tudo parece estar bem. Alguma pergunta, sir?
— Não — respondeu o impulso débil de Rhodan.
A ligação telepática foi interrompida. Marshall notou a ausência de Ras Tschubai, mas não se preocupou com o teleportador, que era um elemento ponderado.
— Mr. Marshall — disse Olf Stagge, com a voz um tanto rouca. — Nosso plasma comunica-se com a massa que exerce o comando da nave!
Stagge dispunha de uma estranha capacidade teleportadora, e sua força telepática também não era normal. Tal anormalidade ficou mais uma vez provada neste momento. Ele foi o único que fez a constatação sobre o plasma!
Marshall captava certas vibrações, mas não estava em condições de dizer se naquele momento o plasma por eles trazido estava “conversando” com a bio-substância da nave fragmentária.
A mesma coisa aconteceu com Gucky. A pequena criatura sacudiu a cabeça sob o capacete transparente.
Tschubai rematerializou-se entre eles.
— John, os robôs estão acordando. Ao que parece, a Tóquio reduziu o bombardeio de raios narcotizantes a um mínimo.
Marshall já sabia. A informação de Olf Stagge, de que as massas de plasma estavam “conversando”, fizera com que desconfiasse disso.
Tschubai estava preocupado.
— Sozinho não consigo, John. Mande que um homem me acompanhe. Tenho a impressão de que descobri o centro de comando dos raios conversores.
— Se for verdade, Ras...
Marshall fitou-o com uma expressão de dúvida. O rosto de Tschubai não exprimia a menor insegurança. John Marshall tomou uma decisão:
— Leve Stagge.
Os dois entreolharam-se ligeiramente. Tschubai saltou, levando o escandinavo. O protesto de Gucky veio tarde demais.
— Perdemos nosso elemento de contato com o plasma. John, teria sido preferível se eu saltasse com Ras.
— E quem comprimiria o plasma contra a abóboda? Eu?
— Você sempre encontra uma boa culpa — piou Gucky.
O rato-castor deixou girar a luz do holofote e abriu o feixe, a fim de ver a maior área possível da sala de comando.
Rhodan entrou em contato com Marshall. Gucky acompanhou a palestra travada no plano parapsicológico.
— A nave fragmentária acaba de transmitir uma mensagem. Trata-se de uma consulta dirigida a uma estação desconhecida. Nossa nave transmite com a potência máxima: “Nós somos vivos de verdade. Ajudamos a verdadeira vida.” Por enquanto não recebemos nenhuma resposta. Como está a situação a bordo?
— Por enquanto tudo bem. Tschubai diz ter descoberto a central de comando dos raios conversores. Saltou para lá juntamente com Stagge, a fim de tomar as necessárias precauções.
— Diga-lhes que tenham cuidado, Marshall. Não assuma um risco excessivo. Espere até que os homens do comando cheguem à nave dos pos-bis. Não se esqueça de que o sistema de localização dos robôs responde com uma precisão extrema à presença da vida orgânica. Tenha cuidado, Marshall. Final.
— Pela grande Via Láctea — piou Gucky pelo rádio de capacete. — Até parece que Perry se esqueceu de que já realizamos milhares de missões.
Quando Marshall estava preste a falar, um feixe de raios atravessou a sala de comando.
O japonês Kakuta disparara sua arma de radiações. Um robô, que anunciara sua chegada por meio dos ruidosos passos metálicos, acabara de ser destruído por Kakuta, que se encontrava junto à segunda abóbada. O japonês apontara propositalmente a arma para o lugar em que a bio-substância estava guardada atrás do envoltório metálico.
— O sistema de localização dos pos-bis voltou a reagir intensamente a tudo quanto é orgânico — disse Tako Kakuta.
Voltou a colocar-se alguns metros atrás dos dois companheiros. O feixe bem aberto de seu farol iluminava a parte dos fundos da sala de comando.
Rhodan tornou a chamar.
— Comandos serão transportados em planadores espaciais. Abram comportas. Cuidado.
Marshall não podia dispensar Gucky. Tako teve de saltar. Sabia onde ficava a comporta. Quando uma nave fragmentária foi derrubada no planeta Mecânica, os cientistas terranos fizeram um exame minucioso dos destroços.
Marshall gesticulou e o teleportador saltou. O chefe do Exército de Mutantes ficou a sós com Gucky na gigantesca sala de comando da nave fragmentária.
— E o campo relativista, John? acha que os planadores espaciais conseguirão atravessá-lo?
— Até parece que você está ficando velho, pequeno — disse Marshall em tom de recriminação. — Será que já se esqueceu de que o campo defensivo das naves dos pos-bis é desligado assim que qualquer comporta seja aberta?
Gucky não respondeu. Ativou suas faculdades telepáticas. Não conseguiu ficar sossegado diante do fato de Olf Stagge obter um bom contato com o plasma. As vibrações confusas irromperam sobre ele. Gucky já conhecia os impulsos de ódio dos pos-bis, mas aquilo que estava captando agora lhe era estranho. Quase no mesmo instante teve a impressão de que estava identificando os impulsos.
— John! — exclamou o rato-castor, perplexo. — Nosso plasma tenta informar à unidade de comando dos pos-bis de que nós o tratamos muito bem.
Marshall não acreditou no que dizia o rato-castor. Sem sentir-se muito entusiasmado, deixou que suas forças telepáticas agissem. Recuou, surpreso. A informação de Gucky era correta. As vibrações que o atingiam só podiam exprimir aquilo que o rato-castor depreendera das mesmas.
— Marshall! — chamou Rhodan por via telepática. — Acabamos de receber uma indagação vinda do espaço intergaláctico. Alguém quer saber quem somos e se pertencemos à verdadeira vida. Final.
Gucky também ouviu a mensagem. Ele e Marshall não tiveram tempo para alegrar-se com o êxito quase total da experiência. O sistema de localização dos robôs devia ter voltado à atividade na nave, isto é, na parte em que reagia à presença da vida orgânica.
Agora, um homem e um rato-castor ouviram que os pos-bis estavam chegando!
Os robôs penetraram na sala de comando, vindos de três lados.
Gucky praguejou. Usou a telecinese para colocar o recipiente com o plasma no topo da abóbada. Sua mãozinha tocou em John Marshall, e logo os dois executaram um salto de algumas centenas de metros no interior da nave fragmentária.
— Apaguem os faróis! — ordenou Marshall.
Gucky não teve tempo para cumprir a ordem. Com um jogo violentíssimo de sua energia telecinética atirou cinco pos-bis contra a parede mais próxima, colocando-os fora de ação.
— Tomara que estas criaturas nojentas não tenham contado ao plasma da sala de comando quem somos — disse Gucky.
— Não invente coisas, Gucky — objetou Marshall. — Está conseguindo estabelecer contato com Ras e Stagge? Não consigo penetrar em seus pensamentos. Você consegue?
Gucky sacudiu a cabeça.
Alguma desgraça devia ter acontecido na central de comando dos raios conversores.
Ras Tschubai e Olf Stagge rematerializaram-se no meio de robôs. Os pos-bis, cuja bio-substância continuava paralisada em virtude dos raios narcotizantes, não tomaram conhecimento do aparecimento dos dois mutantes.
Alguma coisa alertou interiormente a Olf Stagge, quando este viu sob a luz ofuscante do farol os monstruosos homens-máquina que o cercavam. Ras Tschubai fez como se os robôs semi-orgânicos nem existissem. Espremeu-se entre eles e dirigiu-se para a esquerda, onde havia um pos-bis muito grande e outros quatro em torno deste. Todos se mantinham imóveis diante da parede que parecia ser um painel de comando.
— Proteja minhas costas — disse pelo rádio de capacete, dirigindo-se a Stagge. — Há pouco estive nos recintos contíguos. Por lá os robôs já estavam acordando. E aqui não demorarão a movimentar-se. Até lá preciso colocar a central em condições de funcionamento. Não confio muito nesta máquina grande.
Mal concluiu sua fala, o raio de um desintegrador atingiu o grande robô e desmanchou-o.
Olf Stagge cerrou os lábios. Os robôs que o cercavam reagiram à destruição do colega.
— Tomara que dê certo, Tschubai! — disse.
Ras concluiu seu trabalho: destruiu também as quatro máquinas auxiliares robotizadas.
Mais de vinte pos-bis que se encontravam na central de comando dos raios conversores entraram em movimento. Foi uma movimentação desorganizada. Seus cérebros positrônicos deviam ter registrado a destruição de cinco máquinas. Ao que tudo indicava, o bloqueio narcótico que paralisava seu plasma celular impedia-os de agir em conformidade com sua programação.
Stagge recuou. Não teve tempo para observar o que Ras Tschubai estava fazendo. Segurando uma arma de radiações em cada mão, manteve-se em expectativa num canto, cercado por estranhas máquinas.
De repente descobriu um paraimpulso.
“É uma porção de plasma que desperta!”, pensou. “Devia ser uma grande porção de bio-substância, por isto produz vibrações muito fortes.”
O microfone externo de seu capacete transmitiu o ruído de explosões que só podiam ter sido provocadas por Ras Tschubai. No mesmo instante sentiu-se atingido por uma vaga de ódio. O impulso investiu sobre ele com toda força. Era tão intenso que Stagge ficou reduzido à inatividade por alguns segundos.
Assim que se libertou do estado de perplexidade, atirou...
“O biomaterial dos pos-bis voltou à atividade de um instante para outro! Isso deve ter alguma ligação com os fortes impulsos de ódio,” pensou, enquanto seis homens-máquina grotescos eram destruídos por seu fogo de radiações.
Ouviu Tschubai soltar um grito, enquanto caminhava de costas entre as máquinas, a fim de escapar aos robôs que se aproximavam do canto em que se encontrava.
Os intensos impulsos de ódio atingiam-no ininterruptamente. A luz do holofote foi refletida por uma superfície metálica que saltava para a frente. Não o desligou.
Suas costas bateram num obstáculo. Será que o caminho que possibilitava a fuga tinha chegado ao fim? Arriscou-se a olhar para trás e... viu uma abóbada semelhante às seis outras que se encontravam na sala de comando da nave fragmentária. Esta era muito menor.
Olf Stagge compreendeu de onde vinham os impulsos de ódio. E compreendeu mais alguma coisa. A comunicação entre o plasma que se encontrava perto dele e as seis abóbadas da sala de comando fora interrompida, ou então a grande quantidade de bio-substância, que exercia as funções de chefe de setor de comando dos raios conversores, tomava decisões autônomas.
— Tschubai! — gritou pelo rádio de capacete.
O teleportador negro não respondeu. Stagge viu um feixe de raios mortais à sua frente. Passara a alguns centímetros dele. Atirou-se para trás, voltou a bater na abóbada e, de repente, captou por meio de sua faculdade telepática a seguinte paramensagem:
— Nós amamos o interior! Salvamos o interior!
Olf Stagge sentiu-se dominado pelo pânico.
Devia impedir que os pos-bis destruíssem o plasma celular que se encontrava na abóbada. A destruição da matéria orgânica teria conseqüências graves. Representaria, para o biomaterial que se encontrava na sala de comando, a demonstração lógica de que os organismos que haviam afirmado através de mensagens simbólicas que eram “vivos de verdade” e ajudavam “a verdadeira vida”, na verdade eram inimigos dela.
“Tenho que protegê-lo,” pensou Olf Stagge. “Não posso permitir que os pos-bis destruam o conteúdo desta abóbada.”
Sabia perfeitamente quanta coisa dependia da experiência dos robólogos. Teve a impressão de que o destino da Via Láctea se encontrava em suas mãos.
Olf Stagge, o escandinavo louro e de ombros largos, abandonou seu abrigo, reconheceu os alvos e atirou com ambas as armas ao mesmo tempo.
“Não devem aproximar-se do plasma! Não devem mesmo!”, era só o que pensava.
Pos-bis explodiam à sua frente. Os tiros de radiações descarregavam sua energia nas paredes, nas máquinas, no soalho e no teto, mas não atingiram Olf Stagge.
Teve a impressão de que sua luta desesperada com os robôs já durara algumas horas. Na verdade apenas dois minutos se haviam passado.
A sorte favoreceu-o.
Quando olhou em torno, Olf Stagge não descobriu um único robô capaz de entrar em ação. Todos jaziam no chão, destruídos.
O farol lançava raios fantasmagóricos pelo recinto. O mutante voltou a certificar-se de que realmente havia destruído todos os robôs. De repente uma idéia genial surgiu em sua cabeça. Reunindo todas as energias paramentais, irradiou uma ordem dirigida ao plasma:
— Entre em contato com a verdadeira vida das seis abóbadas:
Depois de repetir dez vezes o comando telepático, notou que suas energias paramentais diminuíam. A preocupação com Ras Tschubai obrigou-o a interromper a experiência com a bio-substância. Não tinha a menor esperança de que o plasma fosse entrar em contato com o comandante.
De repente viu Ras Tschubai à sua frente. Ajoelhou-se, deitou o mutante de costas e viu um rosto transformado em máscara.
— Foi uma arma de choque! — disse em tom de alívio.
Stagge receara encontrar o cadáver de Ras Tschubai.
No momento em que o escandinavo colocava a mão no seletor de freqüência de seu rádio de capacete, a fim de informar Marshall, ouviu uma escotilha abrir-se abruptamente às suas costas.
Viu o pos-bi, mas não chegou a ver o raio.
Stagge caiu morto em cima de Ras Tschubai.
O mutante morreu durante a fração de segundo em que a gigantesca quantidade de plasma da sala de comando comunicava à bio-substância da pequena abóboda:
— Eles são vivos de verdade, ajudam a verdadeira vida!
A bio-substância que se encontrava na sala de comando não conseguiu impedir o disparo de radiações no setor de controle, mas evitou que o outro ser orgânico, que também jazia imóvel — Ras Tschubai — fosse destruído.
De repente um silêncio de morte passou a reinar no recinto. O pos-bis manteve-se imóvel na escotilha aberta; e imóveis também permaneceram os dos feixes de luz do farol, que desenhavam círculos luminosos no teto acidentado.
As pessoas que se encontravam na Teodorico e na Tóquio ainda não sabiam que Olf Stagge estava morto. Naquele momento foi transmitida a notícia de que o campo relativista da nave fragmentária não existia mais, e que uma de suas comportas fora aberta.
— Conseguiremos!... — gritou Jefe Claudrin.
A sala de comando da nave capitania estava repleta de técnicos que trabalhavam sob a direção de Van Moders e Kule-Tats. Os telepatas, que haviam trabalhado durante horas seguidas, a fim de influenciar o plasma trazido da Terra por meio de suas capacidades parapsicológicas, mantinham-se nos fundos da sala, à espera do momento em que voltariam a entrar em ação.
Kule-Tats irradiava uma tranqüilidade que dominava todo o ambiente. Perry Rhodan felicitou-se porque esse especialista se colocara a serviço da ciência terrana. Moders estava nervoso. Rhodan compreendia perfeitamente. Afinal, o robólogo era muito jovem. Ainda não possuía experiência da vida. A carga psicológica das últimas semanas era-lhe demais.
Os robôs de trabalho voltaram a trazer outros aparelhos. Os técnicos cuidavam dos controles. O saber acônida, arcônida e terrano transformara-se numa unidade harmoniosa. Mais uma vez se via que, por sua natureza, os três povos eram, na verdade, um só povo gigantesco.
Rhodan limitava-se a observar. De repente fechou os olhos. Gucky acabara de entrar em contato telepático com ele.
— Perry, Olf Stagge está morto. Ras foi atingido por uma arma de choque. Um pos-bi está parado na escotilha que dá para o setor de controle dos raios conversores e não se mexe mais. Deve ter sido ele quem matou Stagge. Aqui existe um subcomandante plasmático. Se entendo bem as vibrações transmitidas por ele, sua mensagem ininterrupta é a seguinte: Aqui existe verdadeira vida, a verdadeira vida está aqui. Não compreendo. Vou me teleportar com Ras para a enfermaria e saltarei imediatamente de volta para a nave fragmentária.
Rhodan não deixou perceber que sentia bastante a morte do mutante Stagge.
— Pronto! — disse um técnico.
O último teste acabara de ser concluído. Logo se veria se a Teodorico conseguiria estabelecer contato de hiper-rádio com a misteriosa estação situada no intercosmo, por intermédio do comandante de plasma da nave dos pos-bis.
O conversor de símbolos, posto a funcionar pelo grande computador positrônico, transformou as frases redigidas em linguagem terrana numa série de símbolos usados pelos pos-bis.
— Nós amamos o interior! Nós salvamos o interior!
— A mensagem está sendo transmitida — disse Kule-Tats.
Do sistema de observação espacial veio a informação:
Planadores espaciais entrando na comporta da nave fragmentária.
Um dos alto-falantes da sala de comando emitiu um estalido. O serviço de rádio da Teodorico avisou:
— Sir, há uma mensagem de hipercomunicação de Atlan.
Num Instante Rhodan colocou-se junto ao microfone.
— Armazenar a mensagem — disse com a voz tranqüila. — Avisem o Imperador Gonozal VIII de que, no momento, não posso falar com ele.
Por certo a mensagem já estava sendo transmitida, pois o oficial de serviço no setor de rádio atreveu-se a informar:
— Sir, a mensagem de Atlan fala em perdas consideráveis de naves...
Rhodan já havia interrompido a ligação pelo intercomunicador, mas a última notícia produziu o efeito de uma bomba. Os homens que se encontravam na sala de comando pareciam preocupados.
Perdas consideráveis? Isso significava que as naves fragmentárias desfechavam ataques ainda mais violentos contra as frotas arcônidas e terranas. E também significava que as mensagens de rádio, transmitidas à estação situada no espaço extragaláctico, não tinham nenhuma influência sobre os acontecimentos que se desenrolavam no setor M-13.
Finalmente, significava que no último instante, a tentativa de dialogar com a raça de robôs fracassara.
Como tantas vezes, Perry Rhodan irradiava calma e confiança, embora já não tivesse muitas esperanças.
O contato telepático de Marshall atingiu-o.
— Chefe, as vibrações dos comandantes de plasma estão sofrendo modificações. Diga aos nossos telepatas que estabeleçam imediatamente contato.
Os telepatas, que haviam ouvido a mensagem, agiram imediatamente.
Moders estava parado ao lado de Kule-Tats. Os dois contemplavam um estranho aparelho.
— A estação está respondendo — cochichou Moders. — Santo Deus, será que ainda conseguiremos?
— Vocês são vivos de verdade?
— Vocês ajudam a verdadeira vida?
A tradutora acabara de fornecer a decifração dos símbolos recebidos. Bell gemeu. Moders também. O especialista parecia desesperado.
— Que perguntas sensatas! Qual será a finalidade dessas eternas repetições?
— Não perca a cabeça, Moders... — interveio Rhodan.
Mais uma vez foram interrompidos pela sala de rádio:
— Sir, Atlan quer falar com o senhor com urgência. Os pos-bis aproximam-se de dezoito mundos coloniais...
Os ocupantes da sala de comando prenderam a respiração, quando Rhodan repreendeu o zelo excessivo do oficial de rádio.
— Se eu lhe digo que estou ocupado, disse tanto para o Imperador Atlan como para o senhor. Não quero ser incomodado mais.
Com o rosto tranqüilo, voltou a dirigir-se aos especialistas.
— Sugiro a seguinte resposta, isso naturalmente se os senhores, que são entendidos no assunto, estiverem de acordo: “Porque somos vivos de verdade, amamos o interior. Ajudamos a verdadeira vida e salvamos o interior.” Então, estão de acordo?
Moders e Kule-Tats entreolharam-se. Finalmente fizeram um gesto afirmativo. E assim foi transmitida a resposta sugerida por Rhodan e dirigida à estação desconhecida no espaço intergaláctico.
O porta-voz dos telepatas aproximou-se de Rhodan.
— Sir, parece que nossas tentativas de influenciar o plasma foram bem-sucedidas. Ele comunica ao comandante de biomassa que amamos o interior. Foi pelo menos como interpretamos as vibrações.
— Quer dizer — perguntou Bell — que o plasma afirma ter sido bem tratado na Terra?
O telepata não queria chegar a este ponto. Confirmou apenas indiretamente a suposição de Reginald Bell, com a restrição de que era perfeitamente possível que os complicados paraimpulsos do plasma não fossem bem compreendidos.
O ar tremeu à sua frente. Gucky estava de volta, provavelmente em virtude de uma decisão arbitrária de sua parte. Abrindo a viseira do capacete espacial, piou:
— Não tenho mais nada a fazer por lá, pois nossos homens estão em toda parte.
— John sabe que você está aqui, Gucky? — perguntou Rhodan, em tom enfático.
— Não, Perry...
— Nesse caso recomendo-lhe que se teleporte de volta para a nave fragmentária.
— Daqui a pouco, chefe, mas antes disso tenho de dar-lhe algumas informações — disse Gucky sem abalar-se. — Andei conversando com o plasma do centro de controle dos raios conversores, isso provavelmente por intermédio da massa celular que se encontra na sala de comando. O oficial plasmático de comando de tiro tem plena liberdade de ação em qualquer nave dos pos-bis. Se Olf Stagge não lhe tivesse sugerido que entrasse contato com o comandante para falar a respeito dos seres orgânicos, isto é, a nosso respeito, o oficial de tiro já teria disparado seus raios conversores contra nós. Mas ele não conseguiu evitar que Stagge fosse morto por um pos-bi.
A resposta do espaço intergaláctico ainda estava demorando. A informação de que o mutante Stagge estava morto produziu um certo pesar em Bell.
— O quê? Stagge está morto?! — berrou Bell, fora de si.
Lembrou-se do dia em que Olf Stagge esbarrara nele, no porto espacial de Terrânia. Na ocasião chamara-o de azarado. Agora estava arrependido por ter usado essa expressão. Dirigiu-se a Perry.
— Quer dizer — disse com a voz rouca — que é só graças a Olf Stagge que podemos comunicar-nos com os pos-bis?
— Isso mesmo, gorducho. Devemos isso a um único homem que teve a idéia certa no momento exato. Você não acha que sua morte, justamente nesse momento de triunfo, representou uma verdadeira tragédia?
A pergunta não seria respondida. Nem Rhodan nem Bell espantaram-se com o fato de Gucky ter desaparecido de novo. A vida estava continuando...
A estação desconhecida dos pos-bis, situada entre as galáxias, continuava envolta no silêncio.
A grande escotilha abriu-se. Eram os dois oficiais que haviam dirigido, a bordo da nave capitania, a atuação do comando que se dirigia à nave fragmentária. Queriam apresentar seu relatório.
— Algum incidente? — perguntou Rhodan, quando ainda se encontravam na escotilha.
— Nenhum, sir.
— Obrigado. Nesse caso prefiro que seu relato me seja apresentado em outra oportunidade.
Os dois oficiais fizeram meia-volta. A espera enervante pela resposta de uma estação de rádio semibiológica — situada no nada — prosseguiu.
— Não quer entrar em contato com Atlan? — perguntou Bell.
— Não. Afinal, não posso interferir nos acontecimentos. Estas palavras podem parecer muito duras, mas é isto mesmo. Se esta tentativa de estabelecer contato oficial com a raça de robôs não for bem-sucedida, todas as inteligências da Via Láctea podem preparar-se para morrer. Por isso mesmo a coisa mais importante que temos a fazer no momento é justamente aquilo que estamos fazendo, mesmo que neste momento milhões de seres humanos estejam sendo mortos pelo fogo das naves fragmentárias. Aqui temos...
— Chefe, a resposta está chegando!
O ara Kule-Tats adaptara-se com uma rapidez extrema. Sem que o quisesse, acabara de chamar Rhodan de chefe, conforme costumavam fazer seus colaboradores mais chegados.
O silêncio reinava na sala de comando.
Todos prenderam a respiração e olharam para a tradutora. A voz metálica do dispositivo positrônico devia falar logo.
Ainda não estava falando.
A que a mensagem simbólica era inextricavelmente complicada?
Ouviu-se, então, primeiro um ruído rouco. Finalmente a voz metálica falou:
— Amem a verdadeira vida, que assim vocês serão vivos de verdade!
Ouviu-se um gemido. Qual seria o sentido oculto da expressão verdadeira vida?
— E agora? — Bell não conseguiu controlar-se mais. — Como vamos continuar?
A pergunta fora dirigida a Rhodan. Este fitou os dois especialistas, que haviam afirmado várias vezes que compreendiam os processos intelectuais dos robôs. Agora estava na hora de provarem que realmente era assim.
O rosto de Moders exalava triunfo.
— Vencemos, sir! Ven...
O intercomunicador transmitiu um grito vindo da sala de rádio. O oficial de serviço entrou correndo.
— Armistício! Armistício! As caixas não disparam mais... pararam há alguns segundos! Santo Deus, as naves fragmentárias suspenderam seus ataques...
Kurt Brand
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