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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


INVENCIVEL / Sherrilyn Kenyon
INVENCIVEL / Sherrilyn Kenyon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

INVENCIVEL

 

Justamente quando pensava que as coisas não podiam piorar…

O dia de Nick Gautier vai de melhor a melhor. Sim, sobreviveu ao ataque dos zumbis, apenas para despertar e encontrar a si mesmo escravizado a um mundo de mudança de formas e demônios que reclamam sua alma.

Seu novo diretor acredita, inclusive, que ele é pior valentão de que pensava o seu último treinador, que está tentando recrutá-lo para coisas que nem sequer podem ser mencionadas e a garota com quem não está saindo, mas está, tem segredos que o aterrorizam.

Mas, mais que isto, ele está sendo usado pelo mais sombrio dos poderes e se não descobrir como encarregar-se dos mortos até o final da semana, irá se transformar em um deles.

 

 

     Dizem que quando está a ponto de morrer, você vê sua vida inteira brilhar como um flash diante dos seus olhos.

     Mentiram.

     A única coisa que Nick Gautier podia ver brilhar eram as presas de vampiro de Kyrian Hunter. Essa visão horrível congelou-o no lugar onde estava, sob a elegante escada de mogno da entrada da enorme mansão de Kyrian, anterior à Guerra Civil.

     Vou morrer…

     Outra vez.     

     Sim, desde que tinha tentado ir à escola cerca de vinte e duas horas atrás, soube que o diretor havia sido devorado por um zumbi, todos seus companheiros estavam atrás dele.

     Agora, seu maldito chefe era um vampiro.

     Imaginava. Quanto ao seu salário, a menos que o diabo pudesse descontar, Nick nunca veria um centavo disso.

     Será que este dia jamais acabaria?

     Cara, agora, você é o único que está a ponto de chegar ao seu fim. Esse pensamento por fim dispersou o nevoeiro terrível em sua cabeça, que o mantinha imóvel.

     Corre, cara, corre!

     Não podia descer as escadas, porque era ali que Kyrian estava. O único lugar para correr era para cima, com sua mãe, que já tinha entrado no quarto que Kyrian emprestou para a noite. Ela ignorava completamente o fato de que estavam em perigo mortal e que seu sangue estava a ponto de ser drenado. Ele virou-se para avisá-la.

     — Nick! Espera!

     Que espere, uma merda! O vampiro já podia reservar alguns litros de sangue para si se pensava que Nick tinha alguma intenção de se transformar em Gasparzinho.

     Sou muito jovem, muito esperto e muito bonito para morrer. Sim, e alguma coisa a mais. O mundo precisa dele para melhorar a genética. Sem mencionar, que aos quatorze anos ainda não havia tido seu primeiro encontro. Esta noite, quase teve seu primeiro beijo. Ele deveria ter reconhecido que isso era como um sinal de que o apocalipse se aproximava e que sua morte era iminente.

     Quando Nick aproximou-se da parte superior da escada, Kyrian pulou de um único salto os seis metros que o separavam do chão e girou sobre o corrimão para aterrissar graciosamente diante dele, cortando-lhe a fuga. Os olhos negros de Kyrian brilharam nas sombras. Vestido completamente de negro e com mais de um metro e oitenta de altura, Kyrian era uma visão mortífera e impressionante, mesmo com seus cachos loiros de menino.

     Não havia maneira de passar por ele.

     Merda...

     Nick derrapou até parar. O que deveria fazer agora? Sua mãe estava em um quarto a poucos metros de Kyrian. Poderia avisá-la, mas a última coisa que queria era que Kyrian a matasse também. Talvez se ficasse quito, Kyrian sugasse apenas a ele.

     — Não é o que você pensa, Nick.

     Sim, certo.

     — Acho que você é um vampiro demônio sanguessuga que vai me matar, é isso o que penso.

     Antes que ele pudesse sequer piscar, Kyrian estendeu a mão e agarrou o pescoço de Nick com algum tipo de aperto mortal vulcaniano . Queria lutar, mas estava tão indefeso como um filhote erguido pela nuca. Com a força desumana que se espera dos mortos-vivos, Kyrian arrastou Nick, passando o quarto temporário de sua mãe e subiu até seu escritório.

     Como no resto da casa, as cortinas que iam do chão até o teto estavam fechadas para proteger contra o sol nascente, algo que deveria ter alertado Nick de que Kyrian era um vampiro desde o primeiro momento em que entrou na mansão. A madeira escura do escritório combinava perfeitamente com as paredes de cor verde escura. Sem perder velocidade, Kyrian jogou Nick sobre uma poltrona de couro vermelho escuro.

     Quando começou a correr, Kyrian bateu-lhe de novo.

     — Pare um minuto e escute. Sei que estou pedindo o impossível, mas pelo menos uma vez em sua vida, fecha a boca e presta atenção.

     — Não sou eu quem está falando.

     Kyrian grunhiu para ele.

     — Não se faça de esperto comigo.

     — Quer que eu seja estúpido?

     — Nick.

     Nick levantou as mãos.

     — Muito bem, mas não coma a minha mãe, ok? Ela teve uma vida bastante ruim sem necessidade de se tornar noiva do Drácula.

     — Eu não bebo sangue.

     Ele arqueou uma sobrancelha.

     — Sim, claro.

     — Sim, claro. Não bebo. Não sou um vampiro.

     E para o que ele queria essas estranhas presas?

     — Então, o que há com seu peculiar problema dental, hein? E nem tente me dizer que são falsos, senhor-ternos-Armani-e-carros-de-luxo, porque você não é do tipo que tem coisas falsas, e tudo o que isso diz de você é que tem dinheiro suficiente para arrumá-los, se quisesse. Sem mencionar o fato de que você não sai à luz do dia e, como fez o salto do ninja se não for um dos mortos-vivos?

     — Tenho talentos.

     — E eu vou embora. — Nick tentou escapar, e outra vez Kyrian o empurrou de volta à poltrona, o suficientemente forte para chamar sua atenção.

     — Você sabe sobre Acheron, e o aceita. Por que não confia em mim?

     Acheron Parthenopaeus era um gigante imortal... ou algo assim. Mas mesmo assim, ele não foi outra coisa senão agradável com Nick e sua mãe. E o mais importante...

     — Ele não tem presas.

     — Sim, ele as tem. Só que as esconde melhor do que eu. E ele também é meu chefe.

     Nick lhe replicaria que ele estava cheio de merda, mas a explicação em realidade tinha sentido de uma maneira estranha. Ash tinha mais de onze mil anos de idade e parecia excepcional que Kyrian o tivesse como amigo. Mas se o gigante imortal era o chefe de Kyrian…

     Isso se explicava.

     Entretanto, Nick não era um tolo, e não aceitava nada sem razão. Pelo que sabia, Kyrian estava mentindo sobre suas presas.

     — Que tipo de trabalho você faz?

     — Proteção de pessoas.

     — Como salvar meninos punks recebendo golpes até morrer por pessoas que supostamente são seus amigos? — Ou seja, eu recebendo um tiro de Alan e pisoteado no chão pelo Tyree e Mike duas semanas atrás. Foi assim como os dois se conheceram e o que o levou a trabalhar meio período para Kyrian depois da escola.

     Kyrian inclinou a cabeça para ele.

     — Exatamente.

     Nick relaxou um pouco quando lembrou o muito que devia a Kyrian. Se não fosse por ele, estaria morto agora mesmo.

     — Então você não vai atacar a minha mãe ou chupar o meu sangue?

     — Bons deuses, não. Não necessito dessa indigestão. Você já me causou bastante enxaqueca para uma noite. Não preciso de nada mais.

     Nick se recostou na poltrona de Kyrian, olhando para ele. Se Kyrian queria matá-lo, teve um monte de oportunidades. Ao contrário, tinha protegido tanto Nick quanto sua mãe e permitiu-lhes passar a noite em sua mansão.

     — Se quer saber o termo correto para mim, sou um Dark-Hunter.

     Nick digeriu essa palavra lentamente.

     — O que significa? Você caça as trevas?

     — Sim, Nick. Isso é exatamente o que eu faço. Não é apenas isto. — Agora, havia tanto sarcasmo que podia ser cortado com uma faca.

     Nick não achou graça.

     — Então você vai explicar isso ou não?

     — Somos guerreiros imortais que vendemos a alma à deusa Artemis. Por ela, lutamos e protegemos a humanidade de qualquer coisa que espreita na noite, caçando-os. Em geral, isso significa que rastreamos e matamos Daimons.

     — O que são?

     — Para colocarmos em termos que você possa relacionar, são vampiros que vivem das almas humanas. Em vez de sangue, eles tomam a alma dentro de seu corpo, e uma vez lá, começa a murchar e a morrer. Temos que matar aos Daimons antes que a alma se consuma por completo.

     — Não entendo. Por que tomar as almas?

     Kyrian deu de ombros.

     — É o que os alimenta. Eles têm que manter uma alma viva dentro deles ou morrem.

     Isso era brutal. Para eles e especialmente para a pessoa que eles matavam para conseguir isso.

     — Como eles tomam as almas? — perguntou Nick.

     — Não faço ideia. Uma vez perguntei a Acheron, e ele se negou a responder. Ele é bom nisso.

     — Então ele te ensinou isso também?

     Kyrian sorriu, não com o sorriso apertado do passado, a não ser com um em toda sua extensão que mostrava as presas.

     — Ele ensinou, com certeza.

     — Dou-lhe aprovação, então.

     Kyrian inclinou a cabeça, olhando-o como se esperasse que Nick corresse de novo.

     — Está tudo bem, então?

     Nick considerou isso. Provavelmente deveria estar aterrorizado e trancando a porta, mas Kyrian estava ali com ele, lutando contra os zumbis e protegendo seus amigos esta noite. Abriu a casa à sua mãe.

     Ele parecia bom…

     — Pode confiar nele. Pela primeira vez, Nick sabia de quem era aquela estranha voz profunda na sua cabeça.

     Ambrose, seu tio louco, quem jurou que estaria ali para ajudá-lo. Estranho, que todo mundo dissesse o mesmo. Mas…

     — Nick?

     Ambos pularam ao som da mãe do Nick, chamando-o do corredor.

     Kyrian foi para a porta e a abriu.

     — Estamos aqui, senhora Gautier.

     Ao entrar na sala, ela olhou ao redor com desconfiança, como se esperasse apanhá-los fazendo algo ilegal, imoral ou antinatural. Minúscula, pequena, bonita e com brilhantes olhos azuis, sua mãe sempre lembrava um anjo, especialmente quando não estava maquiada, algo que ele odiava. Seu cabelo loiro estava desalinhado e ela estava vestida com uma camiseta negra que chegava até os joelhos. Parecia que Kyrian a tinha emprestado para dormir. Aos vinte e oito anos, ela era muito jovem para ter um menino de sua idade. Mas isso nunca tinha importado. Sempre tinham sido os dois contra um mundo hostil.

     — Nick? Está tudo bem?

     — Tudo bem, mamãe.

     Lançou a Kyrian um olhar que dizia que não acreditava na resposta de Nick.

   — Tem certeza, querido?

     — Absolutamente. O senhor Hunter me dizia que amanhã tenho o dia livre porque hoje trabalhei até tarde. Não é verdade, senhor Hunter?

     Havia um brilho divertido nos olhos de Kyrian ao perceber que Nick tinha manipulado a situação a seu favor.

     — Sim, é correto.

     — Não pôde dizer-lhe isso aqui fora?

     Kyrian apertou os lábios em um esforço por não sorrir e expor os dentes.

     — Nick veio aqui dentro para jogar videogame. Estava justamente dizendo a ele que precisava ir para a cama.

     Oh, traidor.

     Lançando o cartão de censura familiar? Isso foi rude. Inconcebível. Se Nick não tivesse sido a vítima ele o aplaudiria por pensar rápido. Mas a última coisa que precisava era que sua mãe tivesse uma razão mais para castigá-lo.

     Ela dirigiu-lhe um olhar furioso.

     — Nicky.

     Nick levantou o braço em sinal de rendição.

     — Mamãe…

     — Não me chame mamãe, moço. Não posso acreditar que faça isto quando você me conhece bem. Leve sua bunda para a cama. Agora mesmo. Em marcha!

     Levantando da poltrona, Nick resmungou baixo e emitiu um rosnado de advertência a Kyrian. Ele o apanharia…

     Eventualmente.

     Kyrian deixou escapar um risinho malvado com os lábios fechados.

     — Mostrarei-lhe seu quarto.

     Sua mãe mostrou que não tinha a mesma opinião quando bloqueou a porta.

     — Ele pode dormir no meu quarto. Comigo.

     Kyrian soltou um suspiro de cansaço.

     — Perguntava-me de onde Nick tinha tirado esse caráter desconfiado. Você ensinou-lhe bem.

     Sua mãe alisou uma mecha de cabelo loiro e o recolheu atrás da orelha esquerda.

     — Sim, bem, eu vi o lado feio das pessoas muitas vezes. Sem querer te ofender, senhor Hunter.

     — Asseguro-lhe que vi um lado ainda mais feio deles do que você. Muitas vezes, para mim mesmo. Me chame Kyrian, por favor.

     Isso pareceu envergonhá-la. Fez um gesto para Nick.

     — Vamos, meu bem. O sol já se levantou. Você tem que dormir um pouco. Ainda está se recuperando do tiro.

     O que não ela sabia era que ele havia se curado, cortesia de alguns poderes que não queria que ela conhecesse. Se soubesse, com sua sorte, informaria às autoridades e ele terminaria nu em um laboratório de algum lugar como um experimento.

     — Tenho que ir à escola?

     — Como começa em menos de duas horas, não.

     — Não estará aberta hoje, de toda maneira — disse Kyrian, chamando a atenção de novo sobre ele. — A polícia ainda está investigando.

     Sua mãe franziu o cenho.

     — Como sabe?

   — Falei com um dos professores de Nick.

     — Qual? — Nick morria de vontade de saber qual membro do professorado devia evitar por medo de delatar que seu chefe tinha presas.

     — A senhora Pantall.

     Genial. Simplesmente genial. Ela nunca havia tido um bom conceito dele, de todos os modos. Era um dos membros do corpo docente que queria expulsá-lo. Mas não havia nada que pudesse fazer a respeito esta noite.

     Nick bocejou quando o cansaço o alcançou.

     Sua mãe estalou a língua.

     — Vê como você está cansado?

     Odiava quando sua mãe fazia perguntas estúpidas. Precisou conter-se com todas as suas forças para não replicá-la. Já havia se esquivado de muitas discussões esta noite. Não necessitava de outro Tribunal.

     Então, contendo a língua, seguiu-a de retorno ao seu quarto. Assim como o escritório de Kyrian, era enorme. Maior que o seu minúsculo apartamento, que ele detestava. E havia uma cama extra grande, razão pela qual sua mãe não o chutaria durante o sonho. Ela girava na cama como um frango assado, e ele aborrecia toda vez que tinham que compartilhar um lugar para dormir.

     Mas a cama com dossel parecia que facilmente podia aguentar uma família de dez pessoas. A peça mais perfeita para ele era o edredom azul e dourado que combinava com o papel de parede. Mesmo as coisas que pareciam folhas douradas, estavam realmente legais nas paredes. Ele tinha visto isso em programas de televisão... e filmes de terror.

     Sua mãe voltou-se para ele.

     — Como está o seu braço? Precisa de mais medicação?

     Nick teve que esforçar-se para não reagir à sua pergunta. Esqueceu-se disso outra vez. Merda. Melhor lembrar-se, do contrário, todo mundo ia querer saber como se curou tão rápido.

     — Está tudo bem.

     — Bom. Agora vem para cama.

     Nick foi para o outro lado e deslizou para dentro. No momento em que ele se acomodou, ela o abraçou e começou a mexer em seu curto cabelo castanho. Ele se encolheu e se contorceu, tratando de escapar. Infelizmente, ela era como areia movediça. Uma vez que fosse o suficientemente burro para estar ao seu alcance, acabou-se.

     — Mamãe! O que está fazendo?

     — Não posso abraçá-lo?

     Ele enrugou a cara com desgosto apenas ao pensar nisso.

     — Não sei por que se preocupa com o senhor Hunter quando é você quem sempre está me assediando sexualmente, mãe. Agh, não posso nem dormir sem que me apalpe?

     Ela bateu-lhe no traseiro. Não o bastante para machucar, mas apenas para chamar sua atenção.

     — Pare de dizer isso. Demonstrar meu afeto ao meu bebê não é assédio sexual. Você sabe, há muitas mães por aí que não têm nenhum senso de instinto maternal. — Aquelas que jogaram seus filhos para fora de casa por um único erro, como manter um bebê que eles não quiseram. Sua mãe não disse isso, mas ele sabia que quando ela vociferava sobre este tema era um discurso contra seus pais, que a tinham abandonado quando ela tinha a sua idade. — Seja feliz por ter uma mãe que te ama.

   Ele estava contente com isso. Muito, já que basicamente ela era a única pessoa na terra que ele tinha. Mas agora, que era mais alto que ela, era estranho quando tentava abraçá-lo como se fosse um bebê. Poderia ter mais de dois metros de altura como Acheron, e provavelmente ainda tentaria puxá-lo para o seu colo.

     — Sinto muito, mamãe. Estou muito cansado.

     — Eu sei, precioso. — Ela inclinou-se e afastou-lhe o cabelo do rosto, e beijou-lhe a bochecha. — Boa noite. Durma bem.

     — Você, também.

     Sem mais palavras, ela virou-se. Em seguida deslizou para tocar-lhe com os pés gelados. Ele protestaria, também, mas poderia ferir seus sentimentos outra vez.

   Mal posso esperar para ser maior e ter meu próprio lugar...

   Sei que agora odeia isso, Nick, mas saboreie. Prometo-lhe que você vai passar mais anos de sua vida desejando poder vê-la outra vez do que passará desejando que ela te deixe sozinho.

     Nick franziu o cenho ante a intrusão de Ambrose em sua cabeça.

     — Como é que te ouço?

     — Um dia eu te ensinarei esse poder. Você será capaz de projetar seus pensamentos em alguém, como faço.

     —Será que eu também vou poder ler os pensamentos de outras pessoas como você?

     — Sim, poderá.

     Isso era demais. Ele, definitivamente poderia acostumar-se em saber o que outras pessoas estavam pensando. Com certeza seria muito mais fácil pedir uma garota para sair com ele se soubesse que ela pensava que era um completo idiota fracassado.

     — Quando eu posso aprender?

     Ambrose se pôs a rir em sua cabeça.

     — Paciência, menino. Você ainda não aprendeu tudo o que deve saber para controlar os mortos. Ou o que precisa. Seu amigo nos levou a acelerar a aprendizagem desse poder. E embora tenha sobrevivido, você realmente não aprendeu muito sobre a parte de correr para evitar que o matassem. Antes que receba algum tiro sortudo, acho que devemos levar as coisas com mais calma. Aprenda a engatinhar, e então te ensinarei a voar. Literalmente.

     Os olhos do Nick se arregalaram diante dessa última parte.

     — Poderei voar? Sério?

     — Menino, você não tem nem ideia de que poderes se encontram dentro de você. Quais poderes vou ensiná-lo. Mas cuidado, terá muitos inimigos aproximando-se de você. Parthenopaeus é um deles.

     Nick franziu o cenho de novo.

     — Ash?

     — Sim. Ele não é o que parece, e se você tiver um pouco de cérebro na cabeça, e eu sei que tem, se manterá longe dele... antes que seja muito tarde.

   Mas ele realmente gostava de Acheron. Certamente alguém com quem era tão legal estar e era tão respeitoso com sua mãe não podia ser tão mau. Todo mundo tinha problemas. E porque ele e sua mãe tinham sido brutalmente julgados por muitos, Nick odiava fazer o mesmo com outros. Ele acreditava em simpatizar, não necessariamente em confiança, com todo mundo até que pessoalmente lhe davam uma razão para pensar o contrário.

     — Como atirar em mim quando digo que não quero viver uma vida de crime.

     Ele ouviu o som de exasperação de seu tio.

     — Durma, menino. Amanhã começará uma nova vida que você não pode imaginar.

     —Com as pessoas tentando me matar?

     — Sim. E isso inclui a sua mãe.

 

   Nick despertou com a sensação de sua mãe o estrangulando. Vestida com a camiseta negra com a que tinha dormido e jeans, ela estava de joelhos ao lado dele, torcendo seu pescoço.

     — Mamãe! O que está fazendo?

     Ela apertou.

     — Eu vou matar você. Você entende? Morto. Morto. Morto.

     Ele tossiu, tentando afastar-se dela.

     — O que eu fiz?

     Grunhindo, ela o soltou e recuou, então bateu em seu traseiro.

     — Por causa do golpe que você e esses teus amigos idiotas de ontem à noite, eu estou demitida. Espero que esteja contente. Mal posso me permitir ao luxo de nos alimentar e nos abrigar, agora. Depois de tudo, o que é que eu vou fazer sem um trabalho? Não terminei o ensino médio, não tenho experiência, a não ser como dançarina.

     Parecia que estava a ponto de chorar.

     — Você não tem ideia de quão terrível alguns clubes tratam as pessoas. Sei que eu odiava meu trabalho, mas foi o único que pude encontrar que pagassem acima do salário mínimo para alguém sem conhecimentos ou experiência em um trabalho real. Nem sequer posso trabalhar como caixa de loja, não entendo como funciona um computador ou fazer qualquer outra coisa. Peter não escutará uma desculpa. Ele disse que não se importa com o que aconteceu e como aconteceu. Estou demitida e nem sequer posso voltar para buscar o meu cheque. Ele o enviará pelo correio porque não quer voltar a me ver. Oh, Deus, o que vou fazer?

     — Senhora Gautier, ouvi dizer que há lugares na internet onde podem vender meninos a um bom preço. Nick ainda é bastante jovem, deverá conseguir o suficiente para tirá-la um pouco do apuro.

     Nick ficou boquiaberto diante da voz de Rosa do outro lado da porta quando ela passou por seu quarto. Normalmente, ele gostava do som do seu sotaque, mas neste momento...

     — Obrigado, Rosa. Apreciei isso.

     — De nada, mi hijo.

     Nick deslizou sobre a cama, tentando afastar-se de sua mãe antes que ela começasse a estrangulá-lo outra vez.

     — Kyrian disse que conhecia algumas pessoas que poderiam contratá-la.

     Ela o fulminou com o olhar como se realmente pudesse matá-lo.

     — Isso não vai tirá-lo da confusão que se meteu, senhor. Você e Bubba irão brigar novamente e provocar que eu perca outro trabalho? Sabe que a maioria dos chefes não gostam que os filhos tragam um bruto para carregá-los sobre os ombros quando deveriam estar trabalhando.

     — Mas foi para seu próprio bem.

     — Como a surra que estou a ponto de te dar.

     Nick saltou na cama, rodou sobre ela, e logo correu para a porta e para o corredor, onde esperava que fosse mais seguro.

     — Sou muito grande para que me bata.

     — Bem, está de castigo sem sair até que seus netos sejam velhos.

     — Algo difícil de fazer. Como vou ter netos se estou de castigo sem sair?

     — Precisamente essa é a questão, filhote do demônio. Você nunca vai sair do castigo. Nunca!

     A porta do fim do corredor abriu-se para mostrar um irritado Kyrian. Vestido com um par de calças negras de pijama e sem camiseta, fulminou-os com o olhar. Tinha o cabelo desgrenhado e uma boa sombra de barba no rosto. Mais do que isso, tinha uma constituição que Nick mataria por ter. Maldição, ninguém na escola voltaria a afrontá-lo novamente se ele tivesse músculos assim.

     Kyrian imobilizou a ambos com uma irritada carranca.

     — Pessoas, realmente preciso dormir. Vocês podem descer para gritar um com o outro? Ou melhor ainda, no pátio?

     Sua mãe acalmou-se imediatamente.

     — Sinto muito, senhor Hunter. Não foi nossa intenção perturbá-lo.

     Kyrian passou a mão pelo cabelo loiro, o que fez com que ele ficasse em pé. Nick poderia rir ou zombar dele, mas Kyrian não era tão ligado a ele quanto sua mãe. Seu chefe, na verdade, poderia matá-lo.

     — Não há problema. Agora, se for ajudar a pôr fim a esta briga e a salvar a vida do Nick antes que ele possa me pagar a dívida, faça uma chamada ao Santuário no Ursuline. Pergunte por Nicolette Peltier. É a proprietária e já falei sobre você. Ela me disse para chamá-la a qualquer momento e que estaria mais do que feliz em adicioná-la à folha de pagamento.

     — Mas…

     Ele levantou a mão em um gesto imperioso que, na verdade, silenciou a mãe de Nick. Uau! Ter esses malvados truques do Jedi! Se Nick tivesse feito isso, sua mãe realmente o teria surrado. Duro.

     — Não duvide. Faça uma chamada. Eu lhe asseguro, você vai adorar trabalhar para eles. — E com isso, desapareceu de novo em seu quarto negro como a noite e fechou a porta.

     Nick deixou escapar um suspiro de alívio. Ele sobreviveu a esta manhã.

     — Oh, nem pense. — Sua mãe virou seu repulsivo rosto para ele. — Ainda não está perdoado. Se vista. Você tem cinco minutos.

     — Para que?

     —Não discuta nem me responda. Não, se você quer viver até o meio-dia. Entre e vá tomar uma ducha. Agora!

     Pega. Junto. Late, Fido, late. Realmente odiava quando ela falava como se ele não fosse nada mais que um cão com o único propósito de obedecê-la em cada capricho.

     — Sabe, eu não sou um estúpido, mamãe. Posso entendê-la.

     — Aparentemente, não pode, porque agora restam apenas quatro minutos e trinta segundos antes que comecem a tocar sua música fúnebre.

     Com desejo infantil de lhe dar a língua, virou-se para o quarto e entrou no banheiro adjacente para obedecê-la e que não o castigasse mais tempo que o necessário.

     Embora nesse ritmo, parecia que ela estivesse procurando razões para castigá-lo.

     A síndrome do ninho vazio. Ela estava com medo que ele saísse de casa, então se aferrava mais forte a ele. Bem, isso provavelmente não se designasse assim, mas era como ele o chamava.

     Suspirando, tirou a roupa e começou a banhar-se.

     É obvio, levou mais de cinco minutos terminar e vestir-se. E quando ele abriu a porta que dava para o quarto, encontrou a sua mãe na cama, olhando-o com fúria.

     — O que foi? Eu corri.

     — Claro que sim. — Deslizou para fora da cama. — Nem sequer se barbeou.

     — Você disse que eu me apressasse, então não me incomodei em procurar uma navalha. Além disso, só tenho três cabelos. Não é que alguém possa vê-los, exceto você. —Mantinha a esperança que não demorassem para crescer e multiplicar-se. Mas até agora...

     Ela fez um som irritado que sempre lembrava uma chaleira deixando escapar vapor.

     — Vamos. Temos que pegar um bonde.

     — Aonde vamos?

     — Você ouviu o senhor Hunter. Temos que ir ao Santuário.

     — Ele disse para ligar.

   Ela revirou os olhos, algo pelo que também o teria castigado se ele tivesse feito isso para ela.

     —Não se pede um trabalho dessa maneira, Nick.

     — Mas…

     — Vamos!

     Ele não queria cruzar a cidade sem nenhum motivo. Por que tinha que vê-la candidatar-se a um emprego, afinal? Preferia que arrancassem seus olhos a ficar sentado aborrecido e olhando as luzes fluorescentes piscarem.

     — Não posso ficar aqui?

     — Não. Não aceitamos caridade, e você sabe disso. O senhor Hunter foi bastante amável para nos alojar durante a noite, mas nunca se deve alongar a estadia.

     — Mas…

     — Nick, faça o que eu digo.

        Rangendo os dentes, ele se dirigiu às escadas. Ele poderia muito bem engolir o “mas” de seu vocabulário, já que tudo o que parecia fazer era agir como um acelerador nuclear que fazia com que seu temperamento explodisse.

     Assim que chegou ao pé da escada cheirou algo delicioso... Algo que cheirava como autêntico, suculento, delicioso bacon, e fazia-sua-boca-encher-de-água-e-artérias endurecerem. Não aqueles de pedaços de bacon que sua mãe salvava dos potes de condimentos e adicionava aos ovos da manhã.

     Huum!

    Sem pensar conscientemente, ele foi em linha reta para a cozinha.

     Sua mãe o agarrou pelo braço.

     — Aonde vai?

     — Comida. Estou seguindo meu nariz.

     E o ronco do estômago.

     — Não — ela sussurrou para ele. — Que parte de “não caridade” você não entendeu?

     A parte que disse que não podia comer.

     Mas ele sabia que não devia discutir, especialmente quando tinha aquele olhar em seu rosto.

     — Tá bom. — dirigiu-se para a porta.

     Rosa virou-se na quina da parede e franziu o cenho.

     — Nick? Senhora Gautier? Não desejam comer antes de sair?

     Ele olhou para a sua mãe, esperando que mudasse de opinião.

     — Obrigada, Rosa, mas temos que ir a uma entrevista.

     O cenho franzido de Rosa se transformou em um sorriso amável. Da mesma altura que sua mãe, era uma bonita mulher de cabelo negro que mantinha em um coque e brilhantes olhos marrons.

     — Então me deixe que prepare algo para que levem.

     Sua mãe soltou-lhe o braço.

     — Não, obrigada. Não queremos dar-lhe nenhum trabalho.

     — Não é trabalho — assegurou-lhe Rosa. — Fiz a comida para vocês. Já comi, e o senhor Kyrian não se levantará até muito mais tarde. Se vocês não comem, terei que jogar no lixo.

     Nick deu à sua mãe o seu melhor olhar de súplica e fez beicinho. Era um gesto com o qual tinha conseguido muitas coisas e não tinha dilema moral em usá-lo.

     Viu a relutância em seus olhos. Ela realmente não gostava de aceitar nada de ninguém. As pessoas sempre esperam algo em troca quando faz isso. Nada na vida é de graça, Nick. Não aceite e não estará obrigado. Ele conhecia bem sua ladainha.

     Mas ele não via isso da mesma maneira.

     — Você sempre diz que não devemos desperdiçar a comida, mamãe.

    Ela respirou fundo antes de ceder.

     — Muito bem. Obrigada, Rosa.

     — É um prazer. Quer que eu…?

     — Comeremos na mesa. Não quero lhe dar mais trabalho.

     Nick quase correu até a cozinha, onde Rosa tinha preparado dois pratos sobre a ilha central. O aroma quente fez seu estômago se retorcesse ainda mais.

     — Oh, meu Deus! Temos panquecas e bacon! — Cheirava tão bem, que ele já babava.

     Rosa riu de sua ânsia. Ela não tinha ideia de como era para ele uma comida como esta.

     — Não quer melado? — perguntou ela enquanto ele pegava uma das panquecas e dava uma mordida.

     Nick tragou a comida de delicioso sabor.

     — Tem melado, também?

     Ela apontou para o balcão atrás dele, onde esperava estava uma enorme garrafa do Log Cabin. Oh sim, é disso que estou falando...

     Ele a pegou, abriu a parte superior e começou a afogar o prato.

     Sua mãe ficou muito mais sossegada quando comia sua comida.

     — Nick, não jogue tanto melado. Você não conseguirá saborear sua comida.

     Essa era a ideia.

     — Mamãe, é melado autêntico e não está diluído. — Algo que ela fazia para que durasse mais tempo, se tinham a sorte de conseguir algum.

     Seu rosto ficou vermelho.

     Rosa deu-lhe um tapinha na mão.

     — Está tudo bem, senhora Gautier. Entendo o que é ter que lutar para alimentar meu filho. Miguel e eu passamos muitos anos de vacas magras, antes de vir trabalhar para o senhor Kyrian. Comam o quanto quiser. A política do senhor Kyrian é que ninguém passe fome em sua casa.

     — Obrigada.

     Rosa inclinou a cabeça, em seguida aproximou um prato cheio de panquecas para Nick.

     — Mas come mais devagar e deixe algo para sua mãe. Se comer muito vai doer seu estômago.

     — Sim, mas valerá a pena. Estão deliciosos. Muito obrigado por fazê-los.

     Ela sorriu e entregou-lhe um guardanapo.

     — Fico feliz que você goste.

     — É mais que gostar. É como se todas as papilas gustativas na boca estivessem cantando e dançando. Aposto que se chegar perto poderá, inclusive, ouvi-las.

     E ficou ainda melhor quando entregou um copo de suco de laranja natural. Oh sim, ele estava no céu.

     No momento em que sua mãe terminou de comer, ele quase tinha devorado a maioria das panquecas.

     Balançando a cabeça, sua mãe o tirou pelo braço “ileso” e o separou do prato vazio.

     — Vamos, querido. Precisamos ir.

     Ele lambeu o mel dos dedos.

     Sua mãe enrugou o rosto com desgosto.

     — Nick, você tem um guardanapo. Por favor, use-o.

     — Sim, mas eu não quero desperdiçar isso. Está bom.

     Ela deixou escapar um suspiro de exasperação quando encontrou o olhar de Rosa.

     — Eu juro, Rosa, eu o ensinei melhor. Ele simplesmente não pegou ainda. Não foi por falta de esforço de minha parte.

     Ela riu.

     — Eu sei. Acredite, meu Miguel é igual.

     Ignorando-as, Nick comeu um último bocado antes de seguir sua mãe para fora da casa, rua abaixo, em direção à estação. Não falaram muito enquanto faziam o caminho pelo sofisticado e glamuroso distrito Garden, onde vivia Kyrian, para o outro lado do bairro francês, onde o bar e o restaurante, chamado Santuário, situava-se no número 688 da Ursuline. Algo que significava descer do bonde na Jackson Brewery e vencer alguns quarteirões em direção ao convento das Ursulines, que tinha dado nome à rua. Santuário estava só a um quarteirão de sua rua e não era tão longe de sua escola.

     Havia estado no lugar mais vezes que podia contar. Sua mãe disse-lhe que a turma dali poderia ser rude e ela não o queria ferido, então tecnicamente o proibiu. E essa declaração sempre o fez perguntar-se como sua mãe sabia que tipo de pessoas era, já que nunca tinha estado ali pelo que ele soubesse. Entretanto, nunca tinha perguntado.

     Isso entrava na categoria “não pergunte, porque só conseguirá uma estúpida resposta de pais”. Se todos seus amigos se atirarem de uma ponte... Porque eu disse isso. Então, enquanto viver sob meu teto... e assim sucessivamente.

     Santuário à parte, ao Nick sempre tinha adorado o bairro como uma fuga de seu desmantelado apartamento e da vizinhança. Havia algo que acalmava cada raiz Cajun dentro dele, a história, a beleza, a mistura de culturas, aromas, comida, e as pessoas. Não há nenhum lugar na terra como este. Não que ele tivesse estado em alguma outra parte, exceto Laurel ou Jackson, Mississipi, cada vez que tiveram que evacuar por causa dos furacões e então só tinha visto os estacionamentos de qualquer loja ou shopping, onde tinha acampado temporariamente seu enferrujado Yugo.

     Ele fez uma pausa, quando chegaram ao Café Du Monde que estava à margem do mercado francês e o aroma do café de chicória e pastéis redondos o acertou. Era a primeira vez em sua vida que o doce aroma não lhe apertava o estômago com pontadas de fome. Hoje, com o estômago completamente cheio, o apreciou e saboreou.

     Até que percebeu que estava ficando para trás.

     Apesar de que ser mais alto que sua mãe, teve que se apressar para alcançá-la. Para uma mulher pequena, podia arrastar forte sempre que quisesse.

     Por sorte, estava tão concentrada em seu destino que não percebeu que ele se atrasava.

     Ela cortou por Dumaine para Chartres. E à medida que se aproximavam da esquina de Chartres e Ursuline, finalmente reduziu a velocidade como se de repente ficasse apreensiva. Não que a culpasse. O Santuário, que ocupava um quarteirão, não só era enorme, mas também lendário. Todo mundo em Nova Orleans sabia que o lugar abria das oito da manhã até as três da madrugada. Dizia-se que tinha algumas das melhores comidas do mundo e alguns dos clientes habituais mais perversos.

     O edifício de tijolo vermelho de três andares tinha uma enorme placa pendurada sobre as portas estilo saloon. Era negra com uma motocicleta estacionada em uma colina e recortada pela lua cheia. A palavra SANTUÁRIO em letras brancas com um contorno nebuloso roxo. E na parte inferior direita do letreiro, em uma letra muito menor estava o slogan: LAR DOS UIVADORES.

     Mas não foi isso o que fez com que Nick hesitasse. Parado do lado de fora das portas havia uma enorme montanha de homem que se apoiava contra a parede. Ainda mais alto que Kyrian, tinha os braços como dois troncos de árvore e comprido cabelo loiro encaracolado puxado para trás em um rabo de cavalo. E enquanto o olhava fixamente, Nick viu em um flash em sua mente o segurança transformando-se em um grande e zangado urso.

     Ele era um dos metamorfos que Alex Peltier tinha lhe falado na noite anterior...

     Nick não tinha nem ideia de como sabia isso, mas sabia.

     Sua mãe o empurrou para cruzar a rua até onde o werebear estava em pé.

     Como se intuísse que Nick sentia seus poderes sobrenaturais, o urso estreitou um par de glaciais olhos azuis sobre eles.

     — Estão perdidos?

     Sua mãe tragou audivelmente.

     — Um... Kyrian Hunter disse-me para falar com Nicolette Peltier. Acredito que ela é proprietária deste estabelecimento.

     Ele encontrou o olhar de Nick com uma expressão curiosa, antes de tirar o walkie-talkie do cinturão e pressionar o botão.

     — Aimee? Mamãe está em seu escritório?

     — Sim, por quê?

     — Tenho dois humanos aqui fora que querem vê-la. Kyrian os enviou.

     Sua escolha de palavras divertiu Nick. Enquanto sua mãe o descartava como excêntrico, ele sabia melhor. O cara em frente a ele estava alertando ao resto de sua família que novos humanos estavam entrando. Código de Nice. Em seu rosto e ao mesmo tempo, o bastante inofensivo para voar abaixo do radar da maioria das pessoas.

     — Seja amável com eles, Remi, e não arranque suas cabeças de uma dentada. Mamãe sairá em seguida — disse a mulher por rádio.

     Remi abriu a porta de vaivém para eles.

     — Se querem entrar e esperar...

     Sua mãe sorriu.

     — Obrigada.

     Nick parou na porta para olhar o urso.

     — Alex está por perto?

     Remi estreitou o olhar sobre ele.

     — Como sabe sobre Alex? — Poderia haver mais suspeita ou desafio nesse tom?

     — Vamos juntos à escola.

     — Ah — e isso foi tudo o que ele disse.

     Tudo bem... É evidente que o urso não era uma pessoa matutina e não tinha nenhum desejo de lhe dizer onde encontrar a seu companheiro de classe. Optando por não irritar alguém que não era humano e que provavelmente poderia quebrar sua coluna vertebral ao meio, Nick entrou e se uniu a sua mãe, que estava em pé diante da primeira mesa redonda colocada com quatro cadeiras. Dado que ainda faltava uma hora e meia para o almoço, não havia muitos ocupantes na sala. Dois homens... não, um werepanther e um werehawk , estavam no bar, repondo estoque e limpando. Havia uma pessoa em uma mesa com um laptop e uma xícara de café. Duas mulheres que tomavam um café da manhã tardio e um homem maior lendo o jornal e tomando notas de algum tipo.

     Sua mãe deu-lhe um dólar.

     — Vá jogar um videogame, enquanto falo com a proprietária.

     Pensando que era estranho, mas muito grato pela raridade de ter dinheiro para esbanjar, Nick foi para a parte de trás do restaurante, onde as mesas de bilhar e os jogos recreativos estavam colocados contra a parede. À medida que se aproximava deles, avistou um menino alguns anos mais velho que ele que estava limpando as mesas. Não foram tanto os dreadlocks louros emaranhados que o fizeram parar, mas o pequeno macaco sentado no ombro do menino, comendo uma banana. O macaco mostrou os dentes para Nick antes de lhe fazer barulhos. O garçom alcançou ao macaco para acalmá-lo e isso o acomodou por completo.

     Nick queria ir e investigar o primata, mas algo no garçom o advertiu que mantivesse distância.

     Não, não, menino.

     Were Tigard. Um muito cruel e anti-social.

     Como posso saber disso apenas olhando-o?

     Ontem ele estava normal.

     Hoje...

     Era uma festa-monstro quando flashs das imagens dos metamorfos rondavam-lhe a mente. Ele não sabia seus nomes, mas sabia o que eram, mesmo se eles se faziam passar por humanos.

     O que está acontecendo?

     Sua cabeça dava voltas pela sobrecarga de informação. Mas com tudo isso havia uma entristecedora sensação de segurança. Não se sentia ameaçado pelos animais ao seu redor. Era como se fossem guardiões de algum tipo. Protetores, não predadores. Algo que parecia tão desatinado como um restaurante e um bar propriedade de uma família de metamorfos.

     — Ambrose? ¬— Chamou silenciosamente seu tio, precisando que alguém pudesse ajudá-lo a entender. — O que está acontecendo aqui? Estou vendo algumas coisas assustadoras. Pessoas que não são pessoas...

     — Lembre-se do que eu te disse, garoto. Você tem o poder da clarividência. A capacidade de ver o que está escondido.

     — Então ninguém será capaz de mentir para mim de novo?

     — Não. Isso é um poder diferente. A clarividência te permite ver a maioria dos seres sobrenaturais que tentam misturar-se no mundo humano.

     — O que quer dizer com “maioria”?

     — Há alguns demônios que são suficientemente poderosos para esconder-se. Assim como os deuses de nível superior e os que estão possuídos. Com o tempo, você será capaz de vê-los também. Mas isso vai necessitar de muito treinamento e disciplina.

     Por agora... era como viver em uma alucinação psicodélica ruim.

     — Apenas relaxe, Nick. Vá jogar videogame.

     Sentiu como Ambrose lhe deixava sozinho outra vez. Sem nada melhor para fazer, aproximou-se da máquina do Galaga . Uau, não tinha visto uma dessas em muito tempo. Algum veterano devia ter se afeiçoado a ela. Tirando seu dólar, converteu-o em fichas, em seguida jogou uma a uma e escutou a música característica. Mal começou a jogar quando uma sombra caiu sobre ele.

     Olhou para cima e congelou imediatamente. Santa Mãe...

     Esse cara devia ter mais de dois metros de altura. Uma versão maior do cara da porta, este tinha a expressão mais impiedosa que Nick jamais tinha visto.

     Vou morrer...

     — Quem disse que você poderia jogar em minha máquina?

     Nick sabia que era um homem dizendo isso, mas ele viu Grizzly Peltier em sua mente. Um enorme urso com sangue em seus olhos.

     — Uh...

     O homem riu e divertidamente empurrou seu braço.

     — Calma, garoto. Não molhe o chão. Eu só estava brincando com você.

     É mais fácil falar do que fazer, já que seu coração corria como Richard Petty em Daytona.

     Ele negou com a cabeça.

     — Sou Papa Bear Peltier. Você tem nome?

     — N-n-nick.

     — Prazer em conhecê-lo, N-n-nick — Ele tirou uma ficha de seu bolso e a estendeu para ele. — Desculpe se eu arruinei seu jogo. Mas eu adoro o olhar de choque na cara das pessoas na primeira vez que me conhecem. É uma coisa bela.

     Nick pegou a ficha, mas ainda não sabia o que pensar.

     — É um bom rapaz, menino. Agradeça pela ficha.

     — Hum, obrigado.

     Papa Bear deu-lhe uma palmada no ombro, e depois caminhou para o palco para que ele e outro cara que era uma cópia exata de Remi pudessem estirar os cabos elétricos no chão.

     — Fecha a boca, docinho. Papa só morde quem mostra os dentes primeiro.

     Virou-se para ouvir a voz suave, com sotaque ligeiramente acentuado para encontrar o que devia ser uma das mulheres mais lindas que jamais tinha visto. Alta, loira, e constituída com o tipo de curvas que os homens sonhavam, usava uma camiseta negra do Santuário que era o suficientemente apertada para deixá-lo realmente desconfortável.

     — Sou Aimee Peltier. Você deve ser Nick.

     Cara, ela tinha poderes melhores que ele.

     — Como você sabe meu nome?

     Ela se inclinou para falar em seu ouvido como se estivesse contando um grande secreto.

     — Sua mãe me disse isso no quarto de trás — sussurrou.

     Oh, claro idiota. Sentiu-se o maior estúpido por isso.

     — Vamos e o apresentarei ao pessoal que está agora acordado e funcionando.

     Inseguro sobre isso, Nick hesitou.

     — Por quê? — iria alimentar os ursos com ele ou algo assim?

     — Já que sua mãe vai trabalhar aqui e sua escola está na mesma rua, provavelmente você nos frequentará muito em um futuro próximo.

     — Oh. — Finalmente relaxado, permitiu que o levassem para o garçom com o macaco.

     — Wren, diga oi para o Nick.

     O garçom não respondeu nada mais diferente que um olhar baixo sob os tufos de cabelo retorcido.

     Aimee pegou no tranco.

     — Wren realmente não fala. Mas é um cara legal, e vive ao lado de nossa casa. Você o verá muito, já que não tem vida pessoal nem interesses fora. Basicamente, trabalha todo o tempo. — Ele coçou a cabeça do macaco. — E seu pequeno amigo peludo é Marvin. Marvin, diga oi para o Nick.

     O macaco saltou do ombro de Wren para o de Nick, assustando-o. Nick o agarrou e o abraçou enquanto Marvin lhe revolvia o cabelo e colocava um dedo pequeno parecido com couro na orelha.

     Wow!

     — Ele gosta de mexer no cabelo das pessoas. — Aimee estendeu a mão, e Marvin permitiu que ela o puxasse em seus braços para abraçá-lo. — Marvin é um pouco carente. Tenha à mão algum petisco e ele será seu novo melhor amigo. — Acariciou-lhe o nariz antes de devolvê-lo para Wren.

     Wren não disse nenhuma palavra quando Marvin empoleirou em seu ombro. Ele simplesmente foi trabalhar, limpando as mesas.

     Aimee levou Nick para longe.

     — Você conheceu o Remi quando chegou. Meu melhor conselho é que você aprenda a diferenciar aos quadrigêmeos.

     — Quadrigêmeos?

     Ela gesticulou para o palco, onde Papa e o sósia de Remi estavam trabalhando.

     — Tenho quatro irmãos que são quadrigêmeos idênticos. Quinn! —gritou.

     O werebear mais jovem levantou a vista.

     Ela sorriu e fez gestos para que ele voltasse para trabalho.

     — Esse, obviamente, é Quinn. Já imaginava, mas às vezes, raramente, entretanto, não posso distingui-lo de Cherif. Eles têm o mesmo corte de cabelo exato, de vez em quando fazem isso para nos incomodar. É normalmente um pouco mais baixo do que Remi e Dev. No caso de Dev poderá percebê-lo bastante fácil porque sempre está rindo e fazendo brincadeiras sarcásticas. Também tem uma dupla tatuagem de arco e flecha no braço, e é o que mais frequentemente está na porta. Ele tirou o dia de folga para passar um momento em Kenner para pegar uma moto que tinha pedido. — parou em seco e deu-lhe um olhar sinistro. — Se você ao se aproximar de um deles ouvir um grunhido saiba que é Remi. Ele tem um perpétuo SPM e arracará seu braço direito. Na verdade não tem que fazer nada além de respirar para encher- lhe o saco. Palavra de sábio.

     Fez uma nota mental enquanto ela o levava para o bar.

     — O loiro é Jasyn. Jasyn, cumprimente o Nick.

     O were Hawk inclinou a cabeça para ele.

     — O outro garçom encantador desta manhã é Justin.

     Cabelo negro, alto, e com uma aura de “vou chutar o teu traseiro tão forte, que arrotará o couro do meu sapato”. Outro que Nick tentaria evitar.

     Uma versão maior de Aimee saiu pela porta ao lado do bar. Fez uma pausa enquanto o olhava.

     Sentiu-se como se estivesse sob um microscópio enquanto ela o olhava dos pés à cabeça.

     Finalmente, estendeu-lhe a mão.

     — Bom dia, senhor Gautier. Sou Nicolette. Mas, por favor, me chame Mama Lo.

     — Mama Lo.

     Seu cenho franzido se transformou em uma expressão amável.

     — Bem-vindo à nossa família. Ouvi que trabalha para Kyrian.

     — Trabalho. Até que me demita.

     Ela pôs-se a rir.

     — Não precisa dar-lhe uma razão para que faça isso. Além disso, ele não se despede de seu povo. Mata-os.

     — Mamãe! — disse Aimee com um sorriso. — O pobre rapaz não sabe que está brincando.

     — Nick? O que está fazendo aqui?

     Voltou-se diante da chamada que veio da irmã de Alex, Kara, que também ia à escola com eles. Mesmo tão alta quanto ele, tinha o mesmo cabelo loiro que Aimee e Mamãe Lo.

     Aimee explicou sua presença, antes que ele tivesse a oportunidade.

     — Sua mãe vai trabalhar para nós, Kiki. Por que não o leva à cozinha? Tenho certeza de que os cookies de Morty já estão prontos.

     Cookies? Maldição, se continuasse assim, ficaria enorme.

     Mas valeria a pena.

     Nick deu um passo em direção à cozinha, em seguida parou quando um calafrio desceu-lhe pela coluna. Aqui havia algo e era malvado.

     Procurou na sala até que seu olhar encontrou a fonte de seu mal-estar. O homem entrou pela porta atrás das mulheres, levando uma bandeja de prata. Vestia uma camiseta negra e cinza de capuz. À primeira vista, parecia como qualquer menino em torno de 20 anos.

     Até que o olhar do Nick se encontrou com o dele. Sentiu como eletricidade o sacudindo. Não podia negar a intensidade da presença desta criatura.

     Ele era a Morte, e montava um cavalo pálido...

 

     Ok, a Morte não estava exatamente sobre um cavalo pálido. Ele o levava…

     Nick queria correr para a porta, mas conseguiu que os pés obedecessem. Era como se todas as articulações de seu corpo estivessem bloqueadas por uma força invisível.

     — Morty! — disse Kara com entusiasmo. — Seus ouvidos deviam estar queimando. Eu ia justamente buscá-lo.

     Seu olhar não se afastou de Nick.

     — Sério? Não admira que eu soubesse que devia sair, então. Devo ter ouvido todos vocês pedirem aos gritos os cookies da Morte.

     Nick viu o cavalo pálido, que não era maior que sua mão, erguer-se sobre suas patas na pilha de cookies. Sua cor era como nada que já tivesse visto antes. Uma estranha mistura de azul e branco, a cor parecia ser uma entidade viva por si mesma. O cavalo em miniatura soprou fogo de suas narinas antes de correr pelo braço de Morty e desaparecer no interior do bolso de sua camiseta.

     Que diabos?

     Mais do que isso, era a imagem do Morty vestido com uma armadura negra, brandindo uma espada. Seu cabelo negro chicoteava ao redor de seu rosto e ombros, enquanto seus olhos brilhavam em um vermelho feroz, vibrante e sua pele resplandecia como se fosse de bronze e não carne.

     Nick olhou ao seu redor para ver se algum dos weres percebia. Se o fizeram, não deram nenhuma indicação.

     — Quer um cookie, menino?

     Levou um segundo para perceber que a Morte estava falando com ele.

     — O que?

     — Quer. Um. Cookie?

   Ele poderia achar que o tom usado pela Morte supunha que era um imbecil.

     Quando a Morte oferece um cookie, ou qualquer outra coisa, recuse.

     Sim, definitivamente, essa ação parecia ser a mais sábia.

     Nick negou com a cabeça.

     — Acabo de comer. Muito, e ainda estou arrotando melado. Obrigado, mas não.

     O canto da boca da Morte curvou-se em uma diversão irônica.

     Kara franziu o cenho.

     — Devia prová-los, Nick. São deliciosos. Ninguém faz cookies com um sabor como estes.

     Provavelmente porque o arsênico era um ingrediente chave.

     Ele acariciou o estômago.

     — Tenho que cuidar da minha silhueta. Porque se não fizer isso, ninguém fará.

     A Morte riu enquanto entregava a bandeja a Kara.

     — Vamos, Nick, deixe-me mostrar-lhe ao redor.

     — Não é necessário. Estou bem.

     Completamente alheia ao feito de que Nick estava muito perturbado com sua cozinheira infernal, Aimee pegou um cookie do prato.

     — Essa é uma boa ideia. Divirtam-se vocês. Tenho que voltar para as folhas de pagamento, de qualquer maneira.

     Mamãe..., choramingou Nick em silêncio.

     Morty agarrou-lhe pelo braço e quase o arrastou através da porta giratória que dava para a cozinha, onde duas bestas gigantescas estavam limpando. Um deles era imensamente alto e calvo, de olhos escuros que não perdia nada. Tinha uma tatuagem na base do pescoço que parecia como uma espécie de pássaro irritado. O outro não era muito mais alto que Nick. Seu cabelo castanho foi cortado curto.

     Morte bateu-lhe na altura do ombro.

     — Nick, conheça meus dois companheiros. Pain e Suffering . — Pain era o grande, e Suffering o menor dos dois. — Terá que ignorar Suffering já que ele é mudo.

     — Mudo?

     — Mmm... você sabe. Sempre terá que sofrer em silêncio.

     Nick riria, mas tinha medo de que Pain o batesse por isso, e como ele era Pain, era melhor deixá-lo em paz.

     — Prazer em conhecer os dois. — Olhou a seu redor com nervosismo. — Oh, espera! Ouço minha mãe chamando. Melhor ver o que precisa. — Virou-se para sair, apenas para descobrir que suas as pernas estava presas outra vez.

     Morte se aproximou até ficar diante dele.

     — Não banque o idiota, Cajun. Nós não gostamos disso.

     Sim, e ele não gostava de estar apanhado na cozinha com demônios tampouco. Às vezes não conseguia o que queria.

     — O que você quer de mim?

     — Normalmente, seria sua vida e sua alma. — Suspirou profundamente. — Infelizmente, não posso tomar nenhuma agora mesmo. É um saco ser eu hoje. — Ele bateu no Nick com tanta força no ombro que o fez cambalear. — Fui enviado aqui para ensiná-lo.

     — Ensinar-me o que? — Morrer dolorosamente em um beco em algum lugar?

     — Como entender os presságios.

     Nick franziu o cenho.

     — Ahhh... o que?

     — Presságios — repetiu Morte. — A arte da adivinhação.

     Ok, isso não tinha nenhum sentido para ele.

     — Mas você é a Morte.

     A morte ofereceu-lhe um olhar zombador.

     — Eu sei, garoto. Acredite-me, isso não é algo que você esqueça. Mas há muitos agentes da morte, mensageiros por assim dizer. Eu sou só um. Em minha opinião, sou o melhor. Entretanto, há um montão mais por aí fora capazes de fazer o trabalho. Presumidos em sua maioria, com certeza. O suficiente para que a Morte possa tirar férias. — Piscou para ele ao mencionar o título de um filme que a mãe de Nick adorava.

     Sim, para a Morte não faltava trabalho.

     — Posso entender que no negócio da morte não pague muito bem, mas você atua como cozinheiro neste lugar.

     — Poderia pensar nisso, não? — A Morte saiu de seu corpo. Literalmente.

     Onde havia uma pessoa, de repente, havia dois. Só que um deles agora tinha o cabelo curto negro, um avental branco, e as tatuagens correndo por ambos os braços. Essa pessoa a ignorou enquanto ia para o forno.

     — Onde estão meus cookies? — Olhou ao seu redor e depois franziu o cenho quando viu Nick. — Quem é e o que faz aqui? Só o pessoal autorizado pode entrar na cozinha. Remi!

     Nick abriu e fechou a boca como um peixe. Apontou à Morte.

     — Ele não me pode ver, menino. Está achando que está louco por apontar para um nada.

     Genial. Isso era tudo o que precisava. Uma pessoa mais que pensava que ele estava drogado.

     — Morty?

     O cozinheiro parou em seco quando se encaminhava para a porta.

     — Sim?

     — Sou Nick. Aimee me disse que entrasse e me apresentasse. Minha mãe vai trabalhar aqui.

     Morty levantou a mão em sinal de advertência.

     — Fique aí. Não se mova. — Foi à porta e a abriu o suficiente como colocar a cabeça enquanto falava com outros. Nick podia ouvir sua voz apagada, mas não podia entender as palavras.

     A Morte riu maliciosamente.

     — Eu adoro fazer com que os humanos pensem que estão perdendo seu juízo. Nada é tão gratificante... além de ouvi-los negociar comigo por suas vidas. Sabe, uma vez me ofereceram minha própria ilha privada com um harém de virgens e três camelos. Tentador, mas um demônio tem que fazer o que um demônio tem que fazer. — A expressão em seu rosto disse que estava saboreando essa lembrança. Então ele bateu no ombro “ferido” de Nick. — Olhe isso...

     Morty voltou com um cenho franzido no rosto.

     — Como pude levar minhas bolachas lá fora sem saber?

     A Morte riu.

     — Olhe seu rosto. Eu amo isso.

     Nick clareou a garganta.

     — A metanfetamina é a morte, amigo. Jogue fora o crack.

     — O que? —Morty lhe olhou como houvesse esquecido que estava ali. — Hum, de qualquer maneira, Aimee me disse que você é legal. Ainda não recordo conhecê-lo. Não lembro.

     — Está bem. Todos temos… — Deslizou o olhar para a Morte, que continuava rindo, e teve que perguntar a si mesmo se não estava imaginando coisas, também—… nossos problemas. Direi-lhe que acredito que conheci muitas pessoas novas por um dia. Vou relaxar um momento.

     E que examinem minha cabeça, porque obviamente, estou tendo uma alucinação, provavelmente provocada por descobrir que meu chefe é uma aberração da natureza.

     Agora estou vendo monstros por toda parte.

     — Boa ideia — Morty se dirigiu à cozinha.

     A Morte passou o braço sobre os ombros de Nick.

     — Chame-me Grim ou mestre. Prefiro mestre, mas Grim funciona, já que me lembra quem e o que sou e o que acontecerá com você se irritar-me. Capisce?

     — Entendi.

     — Muito bem. A propósito, sabia que a palavra “capisce” é, na verdade, a palavra em latim para “eize”? Como em Carpe Diem ou, no caso de seu chefe noturno, Carpe Noctem. Aproveite a noite.

     Nick não sabia o que fazer com nada disso.

     — Fecha a boca, menino. O cozinheiro já pensa que você está louco. Lembre que neste momento você tem o privilégio de minha companhia.

     — Está bem.

     — Hmm. A resposta correta deveria ser Capisco. “Entendo”. Assim eu digo Capisce e você diz…

     Nick hesitou antes de responder.

     — Capisco.

     Grim deu-lhe uma palmada na bochecha.

     — Perfeito. Você pode ser ensinado. Torna meu trabalho muito mais fácil quando é realmente esperto. Você ficaria espantado com os idiotas que encontrei. Como George Carlin disse tão eloquentemente: Pense em quão estúpida a pessoa normal é e perceba que metade deles é mais estúpido que isso.

     Ele tinha um bom raciocínio.

     — Tento manter minha estupidez ao mínimo, já que minha mãe sempre me diz que pode ser mortal em altas doses.

     — Oh, ela tem razão. Acredite, eu sei. Para esse assunto, pode ser fatal até em pequenas doses. Lembre-se em algum momento de contar-lhe sobre a mulher que alegou que estar limpando seu gato.

         — Com quem você está falando?

     Nick sentiu que seu rosto corava pela pergunta de Morty.

     — Ainda estou na cozinha,não é? Acho que preciso continuar caminhando. Oh, olhe! Aí está a porta, vou usá-la agora mesmo. — E rapidamente fez sua saída.

     O pequeno grupo que tinha deixado antes se dispersou. Não havia ninguém, exceto os dois garçons que voltaram a repor o estoque atrás do bar.

     Nick parou ao lado deles.

     — Onde está minha mãe?

     Antes que eles pudessem responder, ela saiu da área do banheiro vestida com uma camiseta negra do Santuário igual à de Aimee. Por sorte, a dela era mais larga e a cobria totalmente. Seu rosto se iluminou no momento em que o viu. Ela praticamente dançou enquanto caminhava para ele.

     — Ei, querido!

     Esteve a ponto de perguntar-lhe se estava perdoado por fazer que a despedissem, mas decidiu que não era o melhor momento.

     — Parece feliz.

     —Oh, querido, eu estou. São tão agradáveis aqui. Todos eles. — Deslizou o olhar para a porta. — Bem, Remi é um pouco distante, mas vou ter que aceitar isso qualquer dia por parte de algumas das pessoas com as quais trabalharei no clube. Eles, inclusive, me darão um horário para que eu possa estar em casa com você à noite. E o melhor de tudo, me darão refeição gratuita e para você também, enquanto trabalhar aqui, e não só as sobras. Poderemos comer bifes se quisermos.

     — Contentarei-me com os cookies.

     — Sim, sei que sim. — Apertou-lhe a bochecha. — Tecnicamente já deveria estar trabalhando. Deveria ter deixado você na casa do senhor Hunter.

     — Tentei dizer-lhe isso.

         — Não me replique. — Ela deixou escapar um suspiro. — Sei que você ficará entediado aqui. Quero dizer, eles têm coisas para fazer. — Olhou para a área de jogos. — Porém provavelmente é melhor não tentar a sorte no primeiro dia.

     — Posso passar um momento com Bubba. É só descer a rua.

     Toda a alegria evaporou de seu rosto.

     — Esse é um nome que não quero voltar a ouvir de novo. Eu juro. Esse homem e suas palhaçadas... É ridículo.

     Ele tinha salvado também a vida de ambos a noite anterior. Se não fosse por Bubba, sua épica luta e sua habilidade de condução, hoje eles estariam mortos.

     Esse pensamento o fez olhar por cima do ombro de sua mãe aonde Grim os observava com uma expressão perplexa. Ele bateu ligeiramente no relógio.

   — Bubba estava correto, mamãe. Ele estava tentando ajudar.

     — Sim, bem, para a sua própria segurança pessoal, melhor se o mantiver afastado de mim, ou terá seus dois pais na prisão por assassinato. — Assim que as palavras saíram de sua boca, ela bateu a mão sobre os lábios e olhou ao redor assustada. — Não falemos disso aqui, de acordo? — sussurrou.

     —Eu não falo sobre o encarceramento lamentável e eterno desse homem a ninguém. Nunca.

     Sem ofensa, mas odiava o doador de esperma que o tinha gerado. Falando de pessoas das que não queria falar, seu pai era um assassino a sangue frio que tinha batido em ambos nas poucas semanas que tinha saído da cadeia. Se Nick não voltasse a vê-lo nunca, seria cedo.

     — Vá ficar com Bubba. Falarei com você mais tarde.

     — Tudo bem. Tem meu novo número de celular? — Isso pareceu-lhe imensamente melhor na cabeça do que quando saiu de sua boca, quando invocou sua imagem na prisão, vestido de laranja, sentado em um banco passando tempo em Angola como seu pai.

     — Não comigo. — Tirou um bloco de papel e uma caneta do bolso e o entregou a ele.

     Ele anotou o número e o devolveu.

     — Se precisar de mim, grite.

     Ela deu-lhe um beijo na bochecha.

     —Tome cuidado. Seja bom.

     — Sempre. — Nick virou-se e se dirigiu à porta. Por sorte Grim não falou com ele outra vez até que estivessem na rua e longe de Remi.

     —Aww, Nicky, isso foi tão doce. Sua mamãe o ama tanto.

     Nick congelou imediatamente.

     — Não zombe de minha mãe. Não fale mais dela a não ser em um tom reverente. Não me importa se você é a Morte, chutarei tanto seu traseiro que abrirei um segundo buraco, tio.

     Grim arqueou uma sobrancelha enquanto seus dois companheiros ficavam um passo atrás, como se lhe dessem espaço para amassar Nick em uma massa sangrenta.

     — Normalmente, eu daria motivo se você tentasse atrever-se. Alegre-se que haja uma dívida que me impede de matá-lo agora mesmo. Mas não me pressione. Embora tenha uma morte predeterminada, suas próprias decisões de livre arbítrio podem substituir isso. Ponha isso na balança e pense antes de tentar.

     Nick franziu o cenho.

     —O que quer dizer que tenho uma morte predeterminada?

     — Será que eu gaguejei?

     — Não.

     — Pareço-lhe uma enciclopédia?

     Nick franziu o cenho.

     — Não.

     — Então, você deveria entender o que eu digo, já que não falo em código. Cada criatura mortal nasce com um prazo de validade. Alguns imortais, também. Fixado pelo grande relojoeiro. Mas a estupidez excessiva e tendências idiotas podem encurtá-la. Irritar-me é uma forma realmente boa de reduzir a sua em três segundos a partir de agora.

     O gelo em sua voz enquanto falava fez com que Nick recuasse. Não que estivesse acostumado a isso. Nem muito menos. Sua mãe frequentemente dizia que era como um cão com seu osso. Porque cada vez que agarrava alguma coisa com os dentes, não o soltava até que um raio o acertasse. Era uma triste verdade.

     Entretanto, seu instinto de sobrevivência se impôs.

     — Então, o que fazemos, afinal?

     Grim deu-lhe um olhar zombador.

     — Vamos ao Bubba. Não é isso que sua mãe disse?

     — Sim, mas pensei…

     — Para a primeira lição, posso treiná-lo em qualquer lugar. Apenas lembre que não me verão. Você sim.

     Nick considerou isso.

     —Bubba então. — Era a única pessoa que nem sequer pestanejaria se Nick estivesse falando com um amigo “imaginário”. Que diabos, provavelmente se uniria a eles, também.

     — Então, quem o enviou para me treinar, afinal?

     Grim sorriu.

     — Não tenho liberdade para dizer-lhe isso.

     —Então, como sei que posso confiar em você?

     —Ainda está respirando, não é? Se um MOD se aproximar de você, o vê e você continua vivo, obviamente, estamos aqui para seu bem e não sua morte.

     — MOD?

     — Mensageiro da Morte. — No momento em que Grim pronunciou essas palavras, Nick viu uma imagem dele com as asas estendidas, os olhos vermelhos cintilantes, e seu rosto um esqueleto roxo brilhante.

     — Você gosta de assustar as pessoas, não é?

     A Morte sorriu.

     — É obvio. Eu adoro os sons do medo que fazem. Música para meus ouvidos.

     E nessa nota, Nick decidiu que seria melhor seguir adiante. Não, ele não estava seguro de poder confiar no Grim.

     Mas era melhor não zangá-lo. Assim virou para o baixo Royal e se dirigiu ao Triplo B, a única loja de computadores e armas no mundo, ao menos que Nick soubesse. E isso dizia tudo a respeito de Bubba, cujo logotipo era ele em pé em cima de um tiro, fumando com um computador e uma arma fumegante pendurada no ombro.

1-888-CA-BUBBA

SE NÃO PUDER ARRUMAR OS PROBLEMAS DE SEU COMPUTADOR DE UMA MANEIRA…

CUIDAREI DELES DE OUTRA

     Sim, Nick sabia de que maneira.

     — Triplo B? — Grim perguntou-lhe enquanto se aproximavam do letreiro que estava pendurado sobre a porta. O que significa isso?

     Nick arranhou a nuca.

     — Há certo debate a respeito. Alguns pensam que é por Big Bubba Burdette. Outros acreditam que é sinônimo do Big Balls and Brains.

     — O que Bubba disse?

     — Muda de assunto cada vez que alguém pergunta.

     Grim sorriu.

     — Já gostei dele.

     Nick reduziu a velocidade ao ver o estrago da noite anterior. A janela principal grande tinha fita adesiva sobre as vidraças quebradas. A porta principal, que havia sido arracanda de suas dobradiças, havia sido presa no lugar, e havia fuligem dos lança-chamas por toda parte.

     Sim, a noite anterior tinha sido muito divertida. Era um milagre que não estivessem todos na cadeia.

     Grim cruzou os braços sobre o peito enquanto observava o desastre.

     — Lembra-me o apocalipse. É vergonhoso que eu tenha perdido tudo o que aconteceu aqui.

     — Foi uma invasão de zumbis, e quase não escapamos com vida.

     Grim zombou.

     — O que é? Um artrítico? Os zumbis não se movem o suficientemente rápido para ser uma ameaça para ninguém. Entretanto, eles fazem grandes alvos, se ficarem entediados.

     — Eles não eram zumbis mortos-vivos... pelo menos não todos. Havia um grupo de demônios Mortent atrás de mim. Encontraram um jogo de vídeo game que meu amigo fez e que poderia reprogramar o cérebro humano e transformar uma pessoa em uma irracional máquina de matar. Usaram a minha equipe de futebol para vir atrás de nós e, confie em mim, esses meninos podem mover-se muito, muito rápido. Não queríamos matá-los, porque não era culpa deles.

     Grim franziu a testa como se as palavras de Nick lhe causassem dor.

     — Deixe-me dar-lhe um conselho gratuito, garoto. Sempre que algo o ataque, quebre-lhe o pescoço ou um duplo golpe. Nunca, nunca hesite. É imensamente melhor ser julgado por doze que carregado por seis.

     Ele tinha um ponto, mas Nick não era seu pai e ele não queria tirar a vida de ninguém. Especialmente, nenhum de seus companheiros de classe. Já era um pária suficiente sem que acrescentasse isso ao seu currículo.

     Grim puxou a corrente com cadeado que segurava a porta da frente desmantelada.

     — Alguma outra entrada?

     Nick tirou o celular e chamou Bubba.

     — Hey-oh? —Devido ao forte sotaque sulino de Bubba, a maioria das pessoas, quando o conheciam, pensava que ele era um estúpido. Mas Bubba era um pós-graduado summa cum laude do MIT e era sem dúvida o homem mais inteligente que Nick conheceu.

     Um pouco… não, muito louco, mas muito inteligente.

     — Oi, Bubba, é Nick. Minha mãe começou um novo trabalho no Santuário e queria que eu ficasse quieto até ela sair do trabalho. Já que você é a razão para que ela tenha sido demitida, perguntava-me se podia trabalhar na sua loja hoje?

     —Oh, inferno sim, traga sua pele cajun à porta de trás.

     — Estou aqui fora — Nick deslizou para a porta traseira que usualmente estava reservada para as entregas.

     Bubba já a tinha aberto quando ele o olhou.

     — Como você está?

     — Estou vivo, então não me queixo.

     — Desejaria que Mark pensasse da mesma forma. O menino não faz nada, mas chora toda manhã como uma garota.

     — Não estou chorando. Estou sofrendo, você é um insensível Cro-Mag.

     Com seu quase um metro oitenta e cinco de altura, com barba negra e cabelo curto escuro, Bubba era o epítome do que muitas pessoas chamariam de caipira. Mas a única coisa que Nick tinha aprendido em sua curta vida era que as pessoas raramente se ajustam aos estereótipos que outros queiram dar-lhes. Como mostra, enquanto Bubba amava a sua caminhonete, sua mãe, suas armas e camisas de flanela, ele também era um fã dos filmes de terror e um bobo para os filmes estrangeiros para garotas. De fato, o programa favorito de Bubba era Oprah, e ele o via fielmente todos os dias. Ai! Que dor, ou melhor dizendo, morte para qualquer que se interponha entre Bubba e sua televisão às quatro. Sua música preferida era punk ou alternativa, e nunca foi pego com um par de botas de Doc Martens.

     Assim como Bubba, Mark Fingerman também não era o que parecia. Sim, ele usava uma grande quantidade de camuflagem, mas isso era para evitar que os zumbis o vissem.

     Não pergunte.

     Mark acreditava em todas as criaturas paranormais. Inclusive na fada do dente.

     Mais uma vez, não pergunte.

     Mark poderia acabar com a paciência de Gandhi.

     Só um punhado de anos mais velho que Nick, Mark era o colega de trabalho de Bubba. Com o cabelo castanho desgrenhado e olhos brilhantes, Mark estava na loja com um balde e um esfregão. Neste momento estava sufocando o esfregão e chutando tanto o balde, que a água derramava pelo chão.

     Nick franziu o cenho.

     — O que está acontecendo?

     Mark estendeu a mão com o esfregão, tão obviamente odiado.

     — Faça a limpeza, amigo. Bem-vindo à festa. Estou feliz que tenha podido vir.

     Gemendo, Nick agarrou o esfregão. Ele discutiria, mas Bubba poderia matá-lo, como tinha feito com os últimos quatro computadores que o irritaram. As vísceras dos mais recentes se estendiam ainda ao longo da mesa de trabalho de Bubba.

     — Olhe — Mark levantou as mãos para a inspeção do Nick. — Estão ásperas e úmidas. Nunca terei mãos suaves outra vez.

     Nick bufou.

     — Você não está bem, não é?

     — Oh, por favor. Se eu estivesse bem da cabeça, acha que estaria trabalhando para Bubba? Especialmente pelo valor miserável que o bastardo paga? Bateram-lhe muito forte na cabeça ontem à noite?

     Nick esquivou-se da mão de Mark quando ele tentou tocar-lhe o cabelo.

     — Cara, não faça isso. — Ele olhou para Grim, que revirou os olhos.

     — Conheço este palhaço — disse Grim em um tom maléfico. — Ele continua me provocando com essas experiências de quase-morte. Um dia, o pegarei pelo traseiro, embora não tenha que fazer isso. Não se pode chamar e bater na minha porta para depois fechá-la na minha cara. Isso simplesmente não é certo.

     — Nick? — chamou Bubba — Por que não limpa a parte da frente da loja, enquanto Mark e eu continuamos recolhendo aqui?

     — Tudo bem.

     Ao sair dos fundos e dirigir-se à área de loja, percebeu o quanto os dois já tinham feito. Todos os escombros tinham sido recolhidos e a maioria dos vidros estilhaçados. Deviam estar limpando por horas.

     Por um minuto, Nick viu os eventos da noite passada passarem por sua cabeça. Foi horrível. Mas a única coisa boa foi que acidentalmente eles tinham encontrado uma maneira de corrigir os zumbis em humanos e devolvê-los à normalidade.

     A outra espécie...

     Essas tinham sido vulgares e desagradáveis de eliminar.

     Grim vagava ao redor olhando as prateleiras de computadores e laptops, assim como os periféricos e acessórios que estavam colocados no meio do chão. As paredes estavam cobertas do chão até o teto com uma das maiores seleções de armas no Sudeste. As vitrines separavam as armas de qualquer pessoa que pudesse entrar e pegar uma.

     Primeira regra de Bubba:

     Ninguém lida com uma arma em minha loja sem supervisão direta.

     O olhar de Nick se dirigiu involuntariamente ao quadro da mãe de Bubba pendurado na parede. Um retrato que tinha um tiro enorme, exatamente entre os olhos. O estômago desabou. Sim, isso foi por um triz.

     — Então, o que você vai me ensinar? — perguntou a Grim em um esforço para evitar pensar em como ele havia disparado na cabeça da mãe de Bubba. Ele tinha sorte de ainda estar respirando depois disso.

     — Como abrir sua mente e prestar atenção. O universo está sempre falando conosco. Às vezes os sinais estão na nossa cara, e outras vezes, são muito, muito sutis.

     —Sutis, como?

     Grim apontou a imagem da mãe de Bubba.

     — Vamos usar isso como um exemplo. Quando você o olha, não vê nada mais que um buraco em um quadro. Quando eu o olho, posso dizer exatamente quando e como você vai morrer, e não me refiro a Bubba vindo atrás de você por desfigurar a imagem de sua mãe. Mostra uma parte integrante do seu futuro... e o seu fim.

 

   A garganta de Nick apertou enquanto ele se dirigia para a imagem pendurada na parede a cerca de meio metro acima de sua cabeça. Ficou olhando o pó de marcas de queimaduras e buracos. Embora houvesse qualidade no estilo do teste de Rorschach , para ele não se parecia muito. Inclinou a cabeça, cerrou os olhos e tentou vê-lo como o quebra-cabeça “Onde está Wally?”

     Isso mostrava a data de sua morte? Esquecia que a metanfetamina era a morte. Morte era anfetamina. Isso simplesmente parecia uma grande confusão para ele.

     Franziu o cenho para Grim.

     — Está tirando um sarro de mim, não é?

     — Talvez sim. Talvez não. Vai ter que jogar comigo por um tempo para descobrir.

     Nick não estava seguro de que gostava da forma como Grim disse aquilo.

     — Por que quando você diz coisas assim, sinto-me como se estivesse apostando com minha vida?

     — Provavelmente porque está. Eu nunca jogo por menos.

     Agora, isso só o fez sentir tudo quente e macio por dentro.

     — Oh, goody!

     — Disse algo? — Mark enfiou a cabeça através da cortina que separava a parte dianteira da loja da traseira.

     — Uh, sim. Eu disse: oh! Ótimo! Quando conseguir limpar esta bagunça.

     Mark soltou uma risada malvada.

     — Eu tive essa mesma reação. Até tentei parar quando me apresentei esta manhã, mas Bubba não deixou. Disse-me que se tentasse sair encheria meu traseiro de chumbo grosso. É o único filho da puta que conheço o bastante louco o suficiente para fazer isso de verdade. Então aqui estou eu. Puto, mas vivo. É um bom dia. — Desapareceu atrás da cortina para voltar para o que ele e Bubba estavam trabalhando.

     Nick voltou-se para Grim.

     — Não tem amigos com quem passar um tempo?

     — Tenho. Mas o problema é que quando passo um tempo com meus amigos, normalmente fica feio para o resto de vocês. Especialmente quando estamos entediados. Nada nos entretém mais que as pragas, a guerra, a fome e massacre sangrentos.

     — Você Joga a D&D também, hein? Quem é seu DM?

     Grim estalou a língua.

     — A diferença entre meu grupo e o seu, é que nossos brinquedos são reais — De repente, o cavalo saiu correndo de seu bolso e subiu pelo braço para descansar no ombro.

   Truque fantástico. Horripilante, mas genial.

     — Então... é como seu macaco de estimação?

     O pequeno cavalo bufou chamas e relinchou para ele.

     — Calma, garota — Grim acariciou-lhe a cabeleira para acalmá-la. — Faria-lhe bem em se mostrar mais respeitoso. Ela pode entendê-lo e ela não tolera bem os insultos. Sinto muito, Flicka. Ele não quis sacudir seu freio.

     Nick começou a deixar tudo em ordem.

     Grim perseguiu seus passos.

     — A chave para tudo o que tenho que ensinar é que o universo e seus seres falam com você constantemente. Mas assim como o pequeno livro que você recebeu ontem à noite, raramente eles falam abertamente. Tem que descobrir isso por si mesmo e eu espero que não seja muito tarde. O poder da adivinhação é uma forma de você ouvir as advertências que o universo dá.

     Nick ficou rígido quando um calafrio desceu por sua espinha.

     — Como sabe sobre meu grimorio?

     Grim estalou os dedos, e o livro apareceu em sua mão. Pequeno e negro com um símbolo vermelho vibrante na frente que supunha ser o emblema pessoal de Nick, continha adivinhações que o tinham ajudado a sobreviver aos ataques da noite anterior. Tudo o que tinha que fazer era uma pergunta e deixar cair três gotas de sangue sobre ele, algo que ainda pensava que era asqueroso, entretanto. Seu sangue daria voltas e se moveria para formar as palavras e imagens na página e dar-lhe pistas.

     Dito isto, o livro era uma pequena lesma sarcástica e um pouco irritante. Não gostava de responder às perguntas que Nick fazia e respondia com um veneno que Nick desejava poder escapar e não continuar sendo castigado por toda vida.

     Cerrando os olhos no livro, Nick apalpou o bolso traseiro para ver se o livro na mão de Grim era uma cópia.

     Não era.

     A calça estava vazia…

     Bem, espere um minuto, não estava vazio, porque isso implicaria algo que definitivamente não era o caso, mas seus bolsos estavam. Esse era sem dúvida seu livro, e a Morte o estava manchando. Ele fulminou Grim com o olhar pelo roubo.

     Normalmente o recuperaria, mas surrupiar algo da Morte não parecia muito inteligente.

     A menos que fosse sua própria vida.

     Alheio e imune à raiva de Nick, Grim bateu ligeiramente no livro com a ponta do dedo.

     — Deixe-me voltar para o fato de que o universo nos fala constantemente. E este pequeno cachorro ladra forte. — Empurrou-o contra o peito do Nick.— Proteja-o com sua vida, porque nas mãos certas, é sua vida e sua morte. Você sangrou neste livro, e este é o mais pessoal dos bens que você já teve. Um mestre feiticeiro, bruxa, um demônio de nível superior ou qualquer outra entidade pode usá-lo para controlá-lo e destruí-lo. Na verdade, proteja todos os bens que você tem. Cada fio de cabelo. Cada partícula de pele e roupa. Não deixe que nunca ninguém se aproxime do que tenha ou possuirá. Você é especial, garoto. De maneira que você não pode conceber e terá que proteger suas costas cada segundo que deseje continuar respirando.

     Ele definitivamente não gostava como isso soava.

   — Você não é somente Mary Sunshine ?

     — Há uma razão pela qual me chamam Grim.

     Sim, sem brincadeira. Nick guardou o livro no bolso traseiro.

     — Então, como funciona esse lixo de adivinhação, afinal?

     — Pense nisso como o calafrio que desce pela coluna cada vez que alguém entra em seu túmulo. Essa sensação persistente que te diz que não faça algo, e quando você ignora, você desejaria não tê-lo feito.

     — Como me levantar da cama esta manhã.

     Grim girou os olhos.

     — Frik. Frak — Ele virou-se para os seus dois capangas. — Comecem a limpeza deste lugar, enquanto Nick e eu trabalhamos.

     Sem uma palavra ou hesitação, Pain pegou o esfregão de Nick. Suffering foi recolher os vidros.

     — Uau. Onde vocês estavam durante toda a minha vida?

     Pain arqueou uma sobrancelha enquanto esfregava o chão.

     — Andando de mãos dadas com você. Não percebeu?

     Nick ficou em silêncio ao perceber a verdade dessa declaração. Ele tinha andado de mãos dadas com Pain e Suffering (dor e sofrimento) desde seu nascimento. Amarga pobreza e o pior tipo de bullying. Diabos, ele inclusive tinha sido baleado por um de seus melhores amigos, com a intenção de matá-lo na sarjeta.

     Sim, definitivamente, eles tinham sido seus companheiros constantes.

     Olhou de novo para Grim.

     — Agora que pensei sobre isso, podemos deixá-los atrás?

     Grim parecia ofendido com sua pergunta.

     —Não, eles são meus melhores amigos.

     — Sim, mas não quero ter dor, e é obvio não quero sofrer.

     — Bem. A única maneira de evitá-los é morrer — Grim lhe dedicou um sorriso de esperança.

     Que gelou até a alma.

     — Ok, vamos mudar de assunto. — Ele apontou a parede atrás de Grim. — Oh, olhe! Uma galinha.

     Grim fez um som de frustração extrema.

     — Bem. Comecemos com algo, mesmo que você não possa estragar.

     — Que maneira de aumentar minha porcaria de confiança. Deveria ser voluntário no telefone de suicídios.

     — O que te faz pensar que não sou?

     Nick franziu a testa.

     — Ah cara, isso está errado em muitos níveis.

     — Je suis ce que je suis.

     Nick deu um passo atrás. A noite anterior tinha lhe ensinado a desconfiar de qualquer palavra estrangeira.

     — Isso é um feitiço?

     Grim negou com a cabeça.

     — É francês, Nick. Significa: Sou o que sou. Merda, garoto. Eduque-se. Leia um livro. Prometo-lhe que não é doloroso.

     — Certamente, eu discutiria isso. Viu minha lista de leituras para o verão? Não são mais que livros de garotas sobre partes do corpo e coisas de meninas que não quero nem discutir com minha professora de inglês. Talvez no vestiário dos meninos e talvez com um treinador, mas não com uma professora diante de outras garotas que não vão sair comigo. Ou pior ainda, sobre quanto nós homens cheiramos mal e como temos que ser eliminados e fuzilados porque somos uma afronta para a ordem social e natural. Mais uma vez, obrigado, Professor. Dê às garotas ainda mais razões para nos chutar quando falamos delas. Não é como se não fosse o suficientemente difícil chegar e ter a coragem de perguntar a uma e levar um fora. Pode dizer que o conteúdo é impróprio? E então eles me dizem que meu mangá é ruim. Ótiiimo. É pedir muito que tenhamos um livro, só um, na lista de leituras obrigatórias que diga: Ei, garotas. Os meninos são divertidos e estamos bem. Sério. Não somos psicopatas assassinos, animais sugadores de sangue. A maioria de nós somos malditamente decentes, e se nos dessem uma oportunidade, descobririam que não somos tão ruins.

     Grim deixou escapar um suspiro de aborrecimento.

     — Está delirando?

     — Talvez.

     Grim deu-lhe uma palmada nas costas com tanta força que ele tropeçou.

     — A puberdade é embaraçosa. É assim. Acostume-se. E olhe o lado positivo: Depois de sobreviver aos horrores da adolescência e às degradações, a idade adulta é fácil.

     Genial. Simplesmente genial.

     Nick zombou.

     — E para que conste, eu leio. Muitas coisas. Desta forma é como sei que pode ser doloroso. Muito, muito doloroso.

     Grim esfregou sua testa porque a cabeça começava a doer. Depois puxou a corrente de ouro ao redor de seu pescoço para expor um estranho pêndulo de hematita que tinha um crânio de ouro fixado. Estendeu-o para Nick.

     Nick hesitou antes de pegá-lo. Passou a mão pela fria pedra, notando que o crânio tinha os olhos feitos de rubis vermelho-sangue. A ponta da hematita era tão afiada, que provavelmente poderia usá-lo como estaca contra Kyrian no caso de seu chefe ficar muito brincalhão com ele.

     Épico. Legal.

     Também poderia usá-lo para furar o dedo, se tivesse que fazer uma pergunta ao seu livro. Sim, isto poderia ser usado de muitas formas.

     — O que você segura é uma das chaves do universo. — A voz do Grim desceu uma oitava. — Pode-se usar um pêndulo para responder perguntas, procurar coisas e…

     — Que tipo de coisas? Pode encontrar as chaves de minha mãe quando ela as perde?

     — Sim — disse Grim com os dentes apertados. — Também pode localizar pessoas que você procura.

     Ok, isso agora era útil. Nick o balançou para frente e para trás na corrente.

     — Como funciona?

     Grim o capturou em sua mão e utilizou a afiada ponta para apontar para ele.

     — Ele permite que você entre em contato com sua consciência superior. Com o tempo, você não vai precisar dele para fazer isso. Você será capaz de acessar a essa parte de você mesmo a qualquer momento que precise. Mas por agora, requer uma ferramenta para ajudá-lo a canalizar todo o DNA adolescente hormonal que está saltando de dentro de você. —Tocou a ponta do nariz de Nick. — A melhor parte disto é que a pedra mudará para satisfazer suas necessidades.

     — O que quer dizer?

     — Para perguntas simples, não importa o tipo de pedra que é. Você pode utilizar qualquer tipo de pêndulo, feito de qualquer substância. Um anel, uma vara, inclusive uma caneta ou um lápis. Mas à medida que progredimos para outras tarefas, o material de que é feito importará de forma exponencial. Este é de hematita porque esta é a pedra mais forte para proteção. Limita e desvia a negatividade. Algo que você precisa, garoto. E te protegerá. O mal e a negatividade gravitam em torno da hematita, e se é atacado muito forte, a pedra quebrará e o avisará enquanto desviará esses poderes para longe de você.

     Sim, Nick poderia ser muito negativo a maior parte dos dias. E isso era sem querer. Se se esforçasse, poderia estar realmente irritado.

     Grim deu-lhe as costas.

     — Pegue seu livro.

     Como Grim já o havia tirado do seu bolso sem tocá-lo, ele sabia que não devia demorar. Nick o pegou e o entregou.

     Grim o abriu em uma página em branco.

     Nick franziu o cenho quando palavras e letras apareceram magicamente com setas. De uma maneira estranha, lembrava um tabuleiro de Ouija . As duas flechas cruzadas, formando uma cruz em ângulo reto com as palavras Sim e Não destacadas.

     Não, espere. Elas estavam brilhando.

     — O que está fazendo? — perguntou para Grim.

     — Este é seu mapa do pêndulo. Ele responderá sim ou não para qualquer pergunta que faça. Tudo o que você tem que fazer é focar sua mente na pergunta e passar o pêndulo sobre a página. Com o tempo, poderá fazer perguntas mais complicadas e ele vai te esclarecer as respostas.

     — Impressionante — Nick fez o que ele sugeriu e revoou a pedra por cima das palavras. Cuidadosamente manteve a mão firme quando se concentrou na pergunta mais importante para a qual queria uma resposta. — Será que vou perder minha virgi… Ei!

     Grim arrebatou-lhe o pêndulo.

     — Deixa de ser estúpido e leve isso a sério.

     Nick olhou para ele.

     — Não posso trabalhar nisso se você arrancá-lo das minhas mãos.

     Ele o devolveu a contragosto e deu-lhe as costas.

     Nick envolveu a corrente ao redor do dedo indicador.

     — O que tem de ruim em perguntar isso, de qualquer maneira?

     — É uma preocupação estúpida.

        Porcaria. Foi a principal preocupação que teve durante o último ano… Bem, essa e se alguma vez seria capaz de comprar um carro.

     — O que você é? Assexuado ou algo assim?

     Pain riu, mas logo parou abruptamente quando a Morte sacudiu a cabeça na direção de seu companheiro.

     — Minha libido está muito bem, Nick. Entretanto, ocupa um distante segundo lugar diante da minha necessidade de matar as pessoas que me irritam.

     Normalmente, Nick zombaria dele por isso, mas ele tinha melhor critério.

     — Ótimo. — Retornou ao pêndulo e manifestou a segunda pergunta que mais frequentemente o preocupava: — Serei rico?

     No início, não aconteceu nada. Mas depois de uns segundos, começou a balançar ao longo da linha “Sim”. Algo que fez seu sangue correr.

     — Verdadeiramente rico?

     Balançou ainda mais forte.

     Oh sim, definitivamente ele balançou com essa.

     — Tão rico como Rockefeller?

     Grim o arrebatou outra vez.

     — Sim, moço, terá dinheiro. Podemos seguir em frente?

     — Suponho que sim, mas eu gostaria muito de investigar meu futuro não estando mais tão duro. Eu gosto desse pensamento. Muito.

     Grim suspirou profundamente.

     — Eu juro que você está me dando enxaqueca.

     — Minha mãe também sofre muito disso.

     — Imagino que sim ao estar perto de você.

     Nick segurou o pêndulo na mão.

     — O que mais ele pode fazer?

     — Neste momento… nada. Aprenda a primeira técnica, e ensinarei as outras. Não se pode fazer geometria até que entenda que um mais um é igual a dois. Além disso, vocês dois precisam se familiarizar um com o outro.

     Nick franziu o cenho.

     — O que? Estamos namorando?

     Grim ficou olhando para ele com uma expressão vazia durante vários segundos.

     — E agora que minha pressão arterial e a paciência violaram a válvula de segurança, vou tomar um descanso e deixá-lo aqui para limpar a bagunça. — Estalou os dedos. — Pain. Suffering. Vamos.

     Como dois mascotes obedientes, eles desapareceram ao seu lado, deixando cair o esfregão no chão com um golpe forte.

     Maldição. Não podiam ter terminado primeiro?

     — Isso é o que acontece por não manter sua estúpida boca Cajun fechada, rapaz.

         Sua mãe sempre dizia que noventa por cento da inteligência era saber quando calar. Um dia, ele aprenderia a escutar seus conselhos.

   Suspirando, foi para o esfregão e o pegou para terminar. Mas mal tinha começado quando ouviu que alguém batia na porta principal.

     Virou-se para dizer que Triplo B estava fechado, quando viu que era Caleb. Até ontem, tinha pensado que Caleb era simplesmente outro idiota privilegiado de sua escola. Bem, não era inteiramente verdade. Caleb nunca tinha sido mesquinho com ele, então realmente não merecia o status de idiota, embora ele tivesse ignorado Nick.

     Durante o caos de ontem à noite, Nick soube que Caleb Malphas, capitão da equipe de futebol e senhor Popularidade, era na realidade um demônio de alto nível (esqueceu o termo correto porque não era tão importante para ele) que tinha sido enviado para servir como guarda-costas de Nick.

     Isso não era frescura?

     Nick levantou as mãos e fez um gesto, indicando a Caleb que não havia nada que pudesse fazer para deixá-lo entrar.

     Caleb olhou para a direita e depois à esquerda antes de desintegrar-se na calçada. Ele transformou-se em uma fumaça vaporosa de cor vermelha que deslizou pela fresta das portas. Deslizou-se pelo chão como uma névoa estranha e voltou a remontar-se no Caleb diante de Nick.

     Ele arqueou uma sobrancelha para Nick.

     — Continua usando o braço, garoto, e todo mundo saberá que não está certo.

     Nick entregou-lhe o esfregão e colocou o braço na tipóia.

     — Estou trabalhando nisso.

     Sempre vestido impecavelmente em roupas de grife, Caleb tinha o cabelo escuro e olhos inteligentes. Possuía também o tipo de corpo e rosto pelos quais Nick mataria para ter. Musculoso e atraente galã de Hollywood. Embora Nick não fosse feio, ainda era desajeitado e sem jeito, como a maioria dos meninos de sua idade. Seu corpo estava crescendo tão rápido que ele nunca parecia saber onde estavam seus membros, pelo que sempre estava batendo em algo ou arranhando os joelhos. A pior parte era que na escola constantemente pisava nos pés das garotas cada vez que sentava no refeitório.

     É. Não é de admirar que não pudesse conseguir uma namorada.

     — Bem, como está se sentindo hoje? — perguntou-lhe Nick.

     — Como se tivesse o traseiro chutado por um grupo de demônios psicopatas. E você?

     — Um pouco melhor que isso. Mas só um pouco. O que o traz por aqui?

     — Tentei ligar para você, mas não obtive resposta. Depois de ontem à noite, fiquei preocupado. Tive medo de alguma coisa que você pudesse ter comido nas poucas horas que me atrevi a deixá-lo e ir me curar, então aqui estou eu para me assegurar que está respirando e continua fazendo isso.

     Curioso. Seu telefone não tinha tocado. Nick tirou o celular e comprovou. Com certeza, tinha uma chamada perdida. Hmmm. Grim deve tê-lo bloqueado. A Morte era uma besta. Mas fazia sentido. A Morte não desejava ser interrompida.

     Caleb fez um gesto com o queixo para Nick.

     — O que você está fazendo aqui?

     — Bubba e Mark têm que limpar.

     Caleb girou os olhos.

     — Ora. Deixe isso. — Estalou os dedos, e tudo voltou para a forma em que tinha estado antes da luta.

     Nick ficou boquiaberto, impressionado pelos poderes psíquicos de seu amigo demônio.

     — Cara, tenho que aprender a fazer isso. Mas devo mencionar que provavelmente isto não estaria acabado tão rápido usando o braço que se supõe que está ferido.

     Caleb resmungou antes de voltar a deixar as portas quebradas e suficientes danos para que parecesse uma limpeza normal.

     — Aliás, recebi uma chamada estranha esta manhã.

     — De quem?

     — O novo treinador de futebol.

     Nick esfregou o queixo com a notícia.

     — Cara, isso foi rápido.

     — Fala isso pra mim... ele me disse que a escola o chamou e ofereceu-lhe o trabalho ontem à tarde por causa das finais estaduais.

     Nick deixou escapar um assobio. Eles quase não permitiram que o antigo treinador fosse preso por matar seu diretor e já tinham contratado um substituto. Isso era tão frio.

     — O que mais ele disse?

     — Perguntou se eu conhecia você. Já que perdemos a metade da equipe devido ao ataque de zumbis, precisa de jogadores para substituição. — Caleb inclinou a cabeça para o braço do Nick. — Disse a ele que você se machucou e não pode jogar. Disse que neste momento, levaria um par de reservas só para completar a lista e as camisetas para não perder nos play-offs .

     — Definitivamente, posso esquentar um banquinho. Nisso sou o melhor, conforme diz minha mãe, de qualquer maneira.

     — O que? Como entrou aqui?

     Ambos se voltaram para ver Bubba olhando-os através da cortina.

     Caleb indicou Nick com o polegar.

     — Nick me deixou entrar.

     — Como? — Bubba se apressou para a porta para certificar-se de que continuava fechada com correntes.

     — Eu me coloquei através da abertura. Sou como um rato. Não ocupo muito espaço.

     Bubba fez uma careta suspeita.

     — Não faça isso outra vez. Poderia ter quebrado algo e então seus pais me processariam.

     — Sinto muito.

     Bubba olhou ao redor da loja limpa antes de voltar sua atenção para Nick.

     — Bom trabalho, pirralho. Parece ótimo aqui.

     — Caleb ajudou.

     — É uma maneira de arregaçar as mangas e fazer as coisas. Agora, se pudesse conseguir que Mark deixasse seu telefone e parasse de interromper o trabalho, poderíamos terminar antes que Oprah comece.

     Caleb trocou um sorriso divertido com Nick.

   — Bubba, o que fará quando seu programa for cancelado?

     — Cala a boca, menino. Isso é um sacrilégio nesta loja. Se você falar assim, eu o lançarei pela janela como um vagabundo no velho oeste.

     Caleb deu um passo para trás.

     — Considerando que quase fui assado vivo em seu SUV ontem à noite, não quero mais nenhuma outra lesão durante um tempo se eu puder evitar.

     Bubba apontou para ele.

     — Lembre-se disso. — Depois se virou e os deixou.

     Caleb balançou a cabeça.

     — Esse é um homem mais que estranho.

     — Diga isso a mim.

     Quando Caleb se aproximou, o pêndulo começou a esquentar. Tanto que Nick assobiou de dor. Tirou-o para fora.

     Os olhos do Caleb brilharam em sua brilhante forma amarelo alaranjada de demônio serpente.

     — De onde você tirou isso?

     Um nódulo frio criou-se no fundo do estômago do Nick ao contemplar o que significava essa reação.

     — Disseram-me que me protegeria de todo mal. Por que reagiu a você, Caleb? O que é que você não está contando?

     Assim que fez a pergunta viu o flash de uma imagem na mente.

     Era uma visão de Caleb matando-o.

 

     — O que você está fazendo, Ambrose?

     Ambrose se afastou do visionário espelho negro que estava utilizando para observar como o passado se desdobrava em uma direção completamente nova. Com um movimento da mão, tombou-o sobre a mesa esculpida de preto e cobriu o espelho com um tecido de seda negra enquanto enfrentava o último ser com quem queria tratar.

     Savitar.

     Nascido para ser uma espécie de corretivo para os deuses que poderiam abusar de seus poderes, Savitar era uma das poucas criaturas mais altas que Nick. Vestido com um par de calças tipo cargo cheia de bolsos e uma camisa de algodão azul aberta, Savitar cheirava como um ensolarado dia de praia. Normal para ele, já que vivia em uma ilha que se desvanecia, onde passava a maior parte dos dias surfando. Seu cabelo escuro tinha reflexos de sol, e seu rosto tinha ao menos três dias de barba ao redor do cavanhaque. Por causa de sua antiquísima idade, ele tinha nascido não muito depois do amanhecer dos tempos e seus poderes eram onipotentes, Savitar estava acostumado às pessoas borrando-se de medo no momento em que ele entrava em uma sala.

     Ambrose não era como a maioria das pessoas, não se impressionava nem um pouco com a quantidade de séculos de Savitar. Afastando-se da mesa, foi servir-se de uma bebida.

     Nem vinho, nem água, mas o sangue refrigerado de um demônio Perityle, de idade antiga e cheia dos nutrientes que necessitava para viver.

     Isto é, se alguém fosse tão estúpido para qualificar sua atual existência como viver.

     Ambrose tomou um gole e saboreou. Não o satisfez tanto como quando o demônio tinha suplicado por sua vida, mas ainda estava fresco e inebriante. Um leve sorriso curvou sua boca quando recordou do assassinato do demônio. Ele nunca entendeu como criaturas que eram tão brutais e desumanas para outros, esperavam que alguém mostrasse piedade para com eles quando tinham sido incapazes de poupar suas vítimas. Uma peculiar hipocrisia, certamente.

     — Desde quando tenho que responder suas perguntas?

     A expressão do Savitar teria apavorado os próprios deuses. Mas já que Ambrose era seu castigo, não tinha nenhum efeito sobre ele.

     —Está manipulando poderes que não entende.

     Ambrose fulminou Savitar desde seus cabelos ondulados até os pés nus.

     — Acho engraçado como o inferno isso vindo de você.

     — Sim, e quando eu fiz isso, quase destruí o mundo.

     A ironia era que Ambrose estava, na verdade, tentando salvá-lo. Ele já sabia como acabaria o mundo. A data, o momento. Os gritos dos humanos quando perceberam que tudo estava acabando e que tudo o que uma vez tinham valorizado agora era completamente inútil.

     Nenhuma quantidade de apelos ou mudanças poderia ajudá-los.

     O tempo estava próximo. Podia sentir o último de sua humanidade deixando-o com o tique-taque de cada segundo que acontecia, e quando isso aconteceu...

O mundo estava condenado. Não havia ninguém que pudesse pará-lo.

     Nem sequer Savitar.

     — Sei o que estou fazendo.

     Savitar rangeu os dentes.

     — Não, Nick, não sabe.

     Nick. Savitar era o último daqueles que usavam seu verdadeiro nome, e o Chthonian só fazia isso quando queria obter toda a atenção de Ambrose.

     Ambrose voltou o olhar para trás, onde estava seu espelho coberto, e lembrou como eram as coisas quando era um menino. Se apenas pudesse retornar.

     Por um nanosegundo minúsculo.

     As menores decisões tomadas tiveram repercussões profundas. Dez minutos de espera poderiam salvar uma vida.

     Ou terminá-la.

     Um passo em falso na rua correta ou uma conversa aparentemente sem importância, e tudo mudou. Não era justo que cada vida fosse definida, arruinada, acabada e isso fosse feito por tais detalhes aparentemente inofensivos. Um importante acontecimento que mudasse a vida deveria vir com um sinal de alerta piscando que dissesse: ABANDONA TODA ESPERANÇA ou FIQUE A SALVO. Era uma brincadeira cruel que ninguém pudesse ver as curvas mais perigosas até que estivesse na beira, caindo ao abismo.

     Quando Ambrose começou a afastar-se, Savitar agarrou seu braço e puxou-o para o seu lado. Seus olhos lavanda flamejavam para um vermelho profundo.

     — Está despertando poderes e trazendo novos jogadores ao seu passado. Jogadores cujas ações nenhum de nós conhece. Ontem me perguntou por Nekoda. Você não se lembra dela porque não esteve originalmente em seu passado. Foi sua intromissão atual que a levou à sua porta quando você era um menino. E ela não é a única, não entende isso? Seu pai deveria morrer antes que você alcançasse a puberdade. Essa é a ordem natural, e esses eventos eram imperativos para seu crescimento e segurança. Agora ele está vivo quando deveria não estar, e você está acumulando poderes em uma idade em que…

     — Eu não deveria ter um irmão mais velho também. Não é?

     Savitar desviou o olhar.

     Exatamente...

     Acontecimentos que mudavam a vida. Desastres invisíveis. Pequenas coisas que se tornaram...

     Melhor não ir lá.

     Ambrose curvou o lábio.

     — Você, Acheron, Artemisa, meu pai, todos esconderam pequenos segredos de mim. Agora tento reparar seus erros.

     — E no processo, está cometendo alguns novos. Aqueles que nós não podemos prever ainda. Que eu não posso prever ainda. Entende o que estou dizendo?

     Ele entendia. E havia uma coisa que ele viu com mais clareza que tudo.

     — Então, não sei se o que estou fazendo é ruim.

     Savitar amaldiçoou.

     — Você não pode reescrever o passado. Ninguém pode. Não sem consequências terríveis.

     — Eu sou o Malachai — Nick zombou dele. — Não recebo ordens suas, Chthonian.

     Designados para serem a polícia da ordem natural e protetores dos homens, os Chthonians tinham sido agraciados com poderes que permitiriam assassinar um deus se fosse necessário.

     Mas esses poderes não funcionavam com criaturas como Nick. Nascido da parte mais escura do universo, os Malachai eram imunes a todos, exceto um.

     E que não estava aqui para deter-lhe do destino para o qual tinha nascido.

     A destruição final.

     Tic, tac.

     Savitar respirou profundamente.

     — Bem. Segure esse ego — ele apontou para o espelho de Ambrose. — O que você tem feito é descobrir seus poderes em uma idade em que era mais vulnerável. Por que acha que estavam escondidos, em primeiro lugar? O que tem feito é liberar as hordas do inferno sobre um menino que é incapaz de lutar contra elas.

     Mas Nick aprenderia. Ele conhecia si mesmo e seus instintos de sobrevivência. Nick não seria derrotado. Jamais.

     — Enviei-lhe um protetor.

     — Claro. Boa sorte com isso. Pergunte a Acheron o que acontece quando as pessoas mexem com o destino de outros, mesmo quando tudo o que estão tentando fazer é protegê-los… Oh, espere, esqueci. Você não pode mais fazer isso, não é? — O olhar de Savitar queimou-o com uma acusação que ele não queria sequer contemplar. — Agora mesmo, em Nova Orleans, um menino de quatorze anos está sendo perseguido.

     — Por?

     — Você conhece a resposta. Eles estão ali para emboscá-lo e fazê-lo sangrar. Acha que sofreste até agora? Basta esperar para ver o que desencadeou sobre si mesmo. E desta vez, não terá ninguém a quem culpar. Você fez isso apesar de todos nós tentando pará-lo — Savitar mostrou o talismã ao redor do pescoço de Ambrose. — Acha que entende daqueles poderes por causa do que você é e aos séculos que viveu. Não entende merda.

     Ele estava errado sobre disso. Ambrose entendia plenamente. Acima de tudo, ele sabia o que aconteceria se não mudasse.

     Honestamente, teria sido tão ruim que tivesse morrido quando criança?

     Parte dele perguntava-se se tudo isso era necessário para fazer com que a roda parasse de girar. Para impedir que chegasse ao final.

     O mais triste de tudo era que cada vez que tentava se matar, algo o tinha impedido.

     Exceto na única vez que foi a mais importante. Nada do que ele tinha tentado ainda tinha evitado que aquilo acontecesse.

     Um tiro.

     E tudo por causa da maldição de Acheron.

     Tinha que haver alguma maneira de quebrar isso.

     Ele acariciou o medalhão. Essa era sua última oportunidade. Após séculos de erros e erros de cálculo, se isto não funcionasse agora, tudo estaria terminado para todos eles. Não importava que sua vida acabasse. No que interessava a ele, sua vida acabou quando tinha vinte e quatro anos.

     Eram todos os outros que pagariam. Aqueles eram os únicos que estava tentando salvar. Os únicos a quem uma vez tinha amado. O inocente não merecia o que estava vindo para eles.

     Ajude-me.

     Ele estava escorregando e estava ficando mais escuro. Frio. Aterrorizante. Agora mesmo, ele não via um final alternativo. Nem mesmo com a sua intromissão. Cada caminho parecia levá-lo de volta a este tempo e lugar.

     De volta ao que estava por vir.

     Uma guerra a qual mundo não sobreviveria.

     Tentando não pensar no futuro que ele via tão claramente, Ambrose se serviu de outra bebida.

     — Nunca respondeu minha pergunta original. Quem e o que é Nekoda?

     Completamente estoico, Savitar encolheu os ombros.

     — A verdade? Não sei.

     Não sei. Essas palavras ecoaram em sua cabeça. A única coisa que tinha aprendido com o correr dos séculos ao lidar com Savitar. Sempre que o Chthonian dizia isso, tinha um único significado.

     E nunca era bom.

     Tranquem as escotilhas. As coisas vão ficar ainda mais sangrentas.

 

   Caleb deixou escapar um profundo som de supremo aborrecimento quando tentou manter Nick no chão úmido.

     — Acalme-se. Sou um demônio, Nick. A hematita não gosta da minha genética. Isso não quer dizer outra coisa senão que eu tenho uma herança familiar ruim.

     — Então por que estou tendo flashs de você me matando?

     — O que você comeu nesta manhã?

     Nick não gostava daquela resposta. Nem um pouco.

     — Eu vi o que aconteceu. Você estava sugando minha vida.

     Caleb revirou os olhos.

     — Oh, claro. Isso é definitivamente uma invenção da sua hiperatividade, o excesso de imaginação de Hollywood. Garanto-lhe isso. Não mato as pessoas dessa maneira. Leva muito tempo. Não me interesso por tortura. Prefiro uma morte rápida para que possa passar para algo mais gratificante.

     O estranho era que ele acreditava. A paciência não era uma virtude que Caleb praticasse.

     — Você tem certeza?

     — Cara, olhe para mim. Você acha que eu teria deixado ontem à noite que os demônios me atacassem por todos os lados para que você pudesse escapar se eu tivesse a intenção de matá-lo? Sério? Já tive bastante dor em minha existência. Chegando a este ponto, eu gostaria de evitá-la. Tira a cabeça de seu esfíncter e use seus três neurônios para pensar nisso.

     Nick passou a mão pelo cabelo quando finalmente se acalmou. Ontem à noite, Caleb superou-se e foi além. Ele estava certo. Nick não tinha razão para duvidar de sua lealdade.

     — Sinto muito. Já não sei mais o que pensar. Tenho todas estas coisas estranhas dentro de mim.

     — Isso se chama puberdade.

     — Além disso — disse Nick zombeteiro. — Na realidade, omito que esse seja meu único problema. É só que já não sei o que pensar.

         Porque cada pessoa ao seu redor não era quem ou o que acreditava que eram.

     — Está bem. Não o culpo por não confiar em mim. Serei honesto. Não vou traí-lo. Entretanto, se o trair, não quero enfrentar o demônio. Assim você está a salvo até que eu descubra uma forma de me libertar da minha escravidão.

     Bom, isso dizia muito de seu relacionamento.

     — Agradeço a honestidade.

     —Deveria, já que é uma raridade em mim. — Caleb bocejou. — Fico feliz em ver que ainda está respirando.

     — Feliz de estar respirando. — Especialmente porque tinha passado a última hora antes da chegada de Caleb entretendo a Morte.

     Não eram muitas as pessoas que podiam fazer essa declaração.

     Caleb apontou-lhe o braço.

     — Não esqueça a sua tipoia.

     — Você vai embora?

     — Não há necessidade de que eu esteja aqui. Você não está sob ameaça, e eu ainda estou exausto. Tenho que descansar. Não sou tão jovem como costumava ser.

     — Que idade você tem?

     Caleb riu.

     — Há muitos zeros e você acabará se cansando de contar. Bastante velho para saber o que faço e bastante jovem para fazer, de qualquer maneira. — Piscou para ele. — Vejo você mais tarde. — Evaporou-se literalmente diante dele.

     — Eu tenho que conseguir aprender esses poderes.

     Seria como fazer tudo o que quisesse? Teria todo o dinheiro, o tempo e os poderes que poderia sonhar? Não podia imaginar nada mais impressionante.

     Fechando os olhos, invocou uma imagem de si mesmo como adulto. Só que não viu a si. Viu Ambrose em sua mente. E não ficou feliz.

     Estranho. Ambrose estava em pé diante de uma gigantesca e ornamentada chaminé, onde ardia um enorme fogo. As chamas tremularam em um par de olhos que eram de um desumano verde. Com uma mão agarrado o beiral de pedra da lareira, olhava para o fogo perdido e triste. Aflito.

     — Não se transforme em mim, Nick.

     Não foi a voz de Ambrose que ouviu. Essa era profunda, sinistra e enviou-lhe um calafrio pela espinha.

     Estou perdendo a cabeça. Tinha que ser isso. Não havia outra explicação.

     — Ei, Nick. Preciso de uma mão.

     Piscou ao som do grito de Mark. Tirando tudo da mente, foi ajudá-lo.

     Horas se passaram enquanto eles colocaram tudo em ordem e repararam as paredes de gesso. Só depois das três, Nick deixou-os para ir ao Café Du Monde. Nekoda havia prometido encontrá-lo lá, após a escola. Mesmo com as aulas canceladas, esperava que ela aparecesse, e caso ocorresse, não queria que pensasse que a tinha deixado plantada.

     Não levou muito tempo para alcançar o pavilhão coberto que estava lotado com turistas e alguns moradores. Mundialmente famoso e tradicional desde meados do século dezenove, o Café Du Monde era uma visita obrigatória para todo mundo. Aberto vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana à exceção do Natal e durante os furacões, era um dos lugares favoritos de Nick. O menu era razoável (ok, era barato, razão pela qual ele podia dar-se ao luxo de ir ali para um prazer raro) e extremamente limitado: basicamente água, leite, refrigerantes, suco de laranja e café de chicória.

     Mas a verdadeira razão para que estivesse ali eram os beignets, aquelas rosquinhas polvilhadas de açúcar. Os donuts franceses não tinham buracos. Sujos como saíam, eram a coisa mais saborosa que já tivesse comido. Esqueça os cookies. Os beignets mandavam.

     Quando parou na esquina de St. Ann com Decatur, esperando que a luz mudasse para que pudesse cruzar a rua, viu três músicos tocando em frente ao café.

     — Ei, Nick — chamou o do trombone quando cruzou a rua e aproximou-se da entrada.

     Nick sorriu para o velho afro-americano que estava tocando jazz e zydeco nas ruas desde que podia lembrar. De noite, também tocava em vários clubes ao redor da cidade.

     — Oi, Lucas. Como vai?

     — Bem. Espero que a sua mãe também esteja bem.

     — Você sabe que eu cuido bem dela. Como vai sua filha? Vai bem no colégio? — A esposa do Lucas tinha morrido de câncer havia quatro anos, deixando-o sozinho para criar Kesha, que formou-se na primavera passada.

     Agora estava tendo aulas na Universidade de Louisiana, querendo ser uma pesquisadora de câncer algum dia.

     — Ela adora aquilo e eu estou tendo problemas para fazer com que venha me visitar. Dá para acreditar nisso? Nunca pensei que um dia ela iria sair. Agora duvido que retorne.

     Nick riu.

     — Tenho certeza de que logo estará em casa. Como não poderia?

     Thomas, o baterista, juntou suas baquetas fazendo-as soar para fazê-los saber que era hora de outra canção. Levantando o trombone, Lucas inclinou a cabeça para o Nick antes de unir-se a eles para tocar “Iko Iko”.

     Nick encolheu-se. Embora adorasse a canção, era uma daquelas que nunca falhava em grudar no ouvido. Ele a ouviria em sua cabeça ao menos durante os próximos três dias.

     Hey, now. Hey, now… Iko Iko unday… Viu! Já estava começando.

     Oh cara, alguém me dê um tiro.

     Quando olhou ao redor procurando uma mesa vazia, seu olhar capturou algo rosa e cremoso. Quando focou no rosto da garota, o estômago despencou para o sul. Com cabelo castanho suave e fantásticos e grandes olhos, era a garota mais bonita do mundo.

   Nekoda.

     E quando ela o reconheceu, o mais bonito sorriso que já tinha visto iluminou todo o seu rosto e provocou-lhe coisas que mal entendia. Tinha o corpo quente e frio ao mesmo tempo. Sua garganta secou e uma parte dele queria dar meia volta e correr para esconder-se.

     Sim, essa seria a coisa mais inteligente a fazer.

     Quando é que você já foi inteligente?

   Antes que soubesse o que estava fazendo, seus pés o levaram para a sua mesa.

     — Olá — disse ela, dirigindo-lhe uma adorável covinha.

     Como podia uma sílaba soar como um coro celestial? No entanto esse foi o som mais doce que já ouviu. E ainda enviou um calafrio que percorreu-lhe a espinha.

     — Oi.

     Diga algo mais. Rápido.

     Por que sua mente estava completamente em branco? Não era como se nunca tivesse falado antes com ela. Inferno, ela até o beijou na noite passada.

     Sim, e ainda podia sentir seus lábios.

     Esse era o problema, percebeu. Era tão estranho vê-la depois que se beijaram. Teria ele estragado tudo? Teria sido bom para ela?

     Ah droga, eu sou patético. Não sei nem falar com uma garota.

     Nesse ritmo, nunca teria uma namorada.

     Ela olhou em volta, nervosa.

     — Quer sentar-se? — Ela cuspiu as palavras como se estivesse tão incomodada quanto ele.

     Oh não. Não me diga que vai me dar aquele discurso do “vamos ser amigos”. Odiava essa porra.

     — Uh, claro. —Com as mãos trêmulas, retirou a cadeira de vinil e sentou-se.

     — Desculpe eu estar distante hoje. Minha mãe acordou muito cedo esta manhã e não estou totalmente acordado depois da noite passada. Depois Bubba fez com que eu o ajudasse a limpar a loja. Realmente eu poderia tirar uma soneca.

     Você está choramingando muito, e não fale sobre camas ou ela poderia pensar que você a está convidando para algo que poderia ofendê-la, ou poderia levar uma bofetada.

     — Como está se sentindo? — Sim, esse era um assunto seguro.

     Para ambos.

     — Feliz por estar viva.

     A garçonete veio tomar nota. Nick começou a dizer que lhe trouxesse água quando lembrou que pela primeira vez ele realmente tinha dinheiro de Kyrian e do Sr. Poitiers. Graças a Deus. Podia inclusive convidar Kody.

     — Dois beignets e um chocolate com leite para mim. — Olhou para Nekoda. — O que você gostaria de beber?

     — O leite parece bom. Tomarei isso também.

     A garçonete saiu.

     — Você já ouviu falar alguma coisa sobre o que aconteceu na escola? — ela perguntou.

     A escola era outro assunto seguro.

     — Ainda não. E você?

     — Nada, a não ser que temos um novo treinador.

     Ela pareceu tão chocada quanto ele ficou.

     — É mesmo?

     — Sim, assustador, não? Acho que substituíram o treinador antes que acabassem de limpar o sangue do corredor. — Nick se encolheu assim que ouviu essas palavras saindo de sua boca.

     Não fale de sangue com uma garota. Você é estúpido?

     Felizmente, ela mudou de tema por ele.

     — Como está seu braço?

     — Melhor. Nenhuma dor hoje.

     — Bom.

     Novamente, isso era estranho. Mas a única coisa pela que estava agradecido era o fato de que ela ainda fosse uma garota. Puro e simples. Não um metamorfo, nem um vampiro ou demônio. Só outra humana que fazia um lanche com ele. Era bom estar rodeado novamente de normalidade.

     — Então, você gosta de Nova Orleans? — perguntou a ela. — É diferente de onde viveu antes?

     — Muito diferente. Mas eu gosto. Exceto pelo calor. Não posso acreditar que ainda está quente, no fim de outubro.

     — Sim, bem, há um velho ditado. Se você não gostar do tempo, espere um minuto. Podemos passar do calor ao frio tão rápido com um sistema de centrifugação turbinada.

     Nekoda baixou a guarda quando riu do seu bom humor.

     É seu encanto demoníaco. Não caia nessa. Mas era difícil. Nick Gautier era encantador e doce. Adorável.

     Maravilhoso com olhos tão azuis, que deveriam ser um pecado e um espesso cabelo castanho que implorava para ser tocado. Aos quatorze anos, a promessa do homem no qual se transformaria já estava lá. As características esculpidas e a aguda inteligência. E mesmo se ele era magro, seu tônus muscular era perfeito e mostrava que com o tempo, seu corpo estaria perfeitamente definido.

     A melhor parte era que ele não tinha nem ideia de quão bonito era.

     Tímido e inseguro, ainda podia bater algumas das forças mais destrutivas já liberadas.

     Assim que crescesse, ele teria potencial para transformar-se no mal, em sua forma mais pura, mais fria. Nunca devia perder isso de vista.

     Ainda assim, seu sorriso era contagioso. Sua bondade, tocante.

     Quando ela foi pagar por seu consumo, ele a deteve e cuidou da conta. E ainda deixou gorjeta para a garçonete.

     Então ele desculpou-se e levou o troco para que pudesse deixá-lo cair na caixa do trombone dos músicos de rua. Não ficou nem um só centavo.

     Nekoda arqueou uma sobrancelha quando ele retornou e sentou-se.

     — Eu pensei que você fosse realmente pobre.

     Ele ruborizou profundamente.

     — Eu sou, mas tenho um novo trabalho onde me pagam bem, e acredito em partilhar a minha sorte sempre que tiver alguma. Lucas também ajuda a sua filha na escola. Imagino que ele necessita disso mais do que eu.

     — Isso é realmente gentil de sua parte.

     — Eu tenho momentos desses, mas não diga isso a ninguém. Deixe que seja o nosso segredo.

     Ela sorriu diante da sua sinceridade. Ele era tão diferente do Malachai com o qual tinha lutado uma vez. Como podia esse menino generoso ter se transformado no mais diabólico de todos os poderes? Era inconcebível e, no entanto, ali estava ele sentado…

     Carinhoso. Brincalhão. Perfeito.

     Mas pelo que sabia, ela poderia jurar que tinha identificado a pessoa errada. E, no entanto, de alguma forma, esse menino em frente a ela cresceria até transformar-se em um demônio que um dia acabaria com o mundo.

     Um demônio que ela teria que matar.

     Se ela tivesse um pouco de cérebro, faria isso agora mesmo, antes que esses poderes ficassem mais fortes. Mas tinha protocolos a seguir. Ainda havia uma chance de que ele pudesse ser salvo.

     Um pacto feito.

     Ela tinha que honrar o pacto, mesmo que ele fosse contra cada parte do seu ser. Como ele, ela tinha nascido um soldado. Seu único dever era proteger a ordem natural e acabar com todo e qualquer inimigo.

     Incluindo encantadores adolescentes.

     A riqueza de uma alma é medida pelo quanto pode sentir… a pobreza por tão pouco.

     Agora, nesse momento e lugar, a alma de Nick era rica e pura. Se eles pudessem mantê-lo dessa forma, não estaria perdido. Um instrumento que eles poderiam utilizar e um poder que poderiam aproveitar.

     Esse era o panorama que estavam pintando, e o fracasso não era uma opção.

     Nick teve a sensação de que Kody estava dissecando-o como um experimento mutante de laboratório.

     — Brotou-me uma nova cabeça?

     Ela piscou.

     — O que?

     — Parecia que você estava tentando me entender. Eu provavelmente não deveria dizer nada, mas me faz sentir realmente desconfortável.

     — Sinto muito. Não quis dar essa impressão. Eu só estava... Não importa. Algumas coisas que uma mulher tem que guardar para si mesma.

     — Ei, gente boa! O que estão fazendo à luz do dia?

     Nick sorriu com a aguda e ritmada voz que pertencia a Simi. Outra nova amiga que ele tinha conhecido na noite anterior. Ela tinha aparecido para ajudar a todos, e menino, ela conseguiu.

     — Olá, Simi. Quer juntar-se a nós?

     Seu cabelo era negro azeviche com linhas vermelhas. Hoje ela estava com duas altas tranças presas com tiras cravejadas que combinavam com o colar que tinha no pescoço. Com seu bom um metro oitenta e três, ela também calçava umas botas com plataforma que acrescentavam outros dez ou onze centímetros à sua altura. Sua minissaia escocesa roxa combinava com seu top rendado preto.

     Ela deixou-se cair na cadeira próxima a Kody e abriu sua bolsa em forma de caixão. Nick trocou um olhar franzido com Kody quando Simi tirou um babador de lagosta e o amarrou ao redor do pescoço. Depois tirou uma garrafa de molho picante.

     A garçonete se aproximou com um grande sorriso no rosto.

     — Olá, Simi. O de sempre?

     — Absolutamente, Tracy. Traga-os aqui até o estômago da Simi.

     A garçonete riu.

     — Garota, não sei onde os coloca. Juro que tem buracos nas pernas.

     — Ooo, Simi desejaria isso. Então ela poderia comer ainda mais. Huuum!

     Rindo, a garçonete voltou à cozinha.

     — Com que frequência você come aqui? — perguntou-lhe Nick.

     Simi tirou vários guardanapos do porta-guardanapos prateado e os colocou sobre o colo.

     — Sempre que estamos na cidade e Akri me permite.

     Akri. Também tinha mencionado esse nome ontem à noite, mas Nick não tinha nem ideia de quem seria, apesar de Simi agir como se devesse saber.

     — Quem é Akri?

     Ela soprou com irritação.

     — O pai de Simi. Meio-humano bobo, você não sabe nada?

     Nick abriu a boca para responder, mas no momento em que fez isso, ele o viu. Ele não tinha certeza. Foi um rápido disparo de imagens. Ele e Simi. Só que não era ele. Era outro tempo e lugar.

     Não, era aqui. Não, ele a viu como um demônio com asas negras e chifres. Sua cabeça girava quando tentou analisar o caleidoscópio que o deixou com o estômago revolto.

     — Nick? — perguntou Kody em tom preocupado. — Você está bem?

     Simi respondeu por ele.

     — Ele está bem. Só pirando porque Simi é um demônio e ele não sabia até agora. Estará bem em alguns momentos. —Ela segurava o copo de leite para ele.

     Nick piscou enquanto tentava se acalmar.

     — Estou sonhando?

     Kody ainda não tinha reagido à notícia de Simi. Na verdade, agia como se não tivesse ouvido. Talvez não tivesse. Talvez Simi fosse como Grim, e ele e Tracy eram os únicos que podiam vê-la e ouvi-la.

     Ainda assim, as imagens atravessaram sua cabeça, fazendo com que fosse difícil focar-se em algo. Ele mal podia respirar.

     Tenho que sair daqui.

     Com a cabeça pulsando, olhou para Kody.

     — Eu preciso... tenho que sair. Te pego mais tarde, ok?

     — Tem certeza que não precisa de mim para ajudá-lo? — perguntou Kody.

     — Não. Quero dizer, sim, tenho certeza. — Levantou-se e cambaleou afastando-se delas.

     Não sabia para onde ir, então ele se dirigiu ao único lugar seguro no qual podia pensar. Sua mãe.

***

   Kody arqueou uma sobrancelha quando viu o Nick afastar-se rapidamente delas.

     — Foi você ou fui eu quem o assustou?

     — De certeza que fui eu — disse Simi sorrindo abertamente. —Simi tem esse efeito ou é afeto sobre as pessoas? Afeto. Efeito. Qual é a diferença entre essas duas palavras e realmente, o que isso importa? Algumas pessoas ficam tão irritantes quando utilizam mal uma palavra. Mas eu gosto de fazer isso. A linguagem deveria ser divertida e desde que as pessoas saibam o que você quer dizer, que diferença faz? Realmente, realmente, realmente.

     Kody sacudiu a cabeça diante da Caronte. Simi pertencia a uma antiga raça de demônios que tinha sido criada para proteger os deuses atlantes. Agora, ela foi designada para vigiar um só deles.

     Acheron Parthenopaeus.

     Embora soubesse do antigo deus, nunca o conheceu. Por muitas razões. Uma delas era o fato de que Acheron não queria que ninguém soubesse sobre sua divindade. Era um segredo bem guardado e ela respeitava isso. A única razão para que conhecesse sua identidade era que tinham um amigo em comum. Um que, como Nick, podia ver a verdade sem importar o quanto alguém ou algo tentasse ocultá-lo. A garçonete retornou com dez pratos de beignets e um leite grande para Simi.

     — Ooo, a pessoa favorita de Simi é sempre a que lhe traz comida. Obrigada, Tracy.

     — De nada, Simi.

     Simi puxou um punhado de dinheiro e o estendeu.

     — Fique com o troco e divirta-se com ele.

     Pela expressão de Tracy, era óbvio que Simi havia dado uma gorjeta generosa.

     — Tem certeza?

     — Certamente. — Simi encharcou os beignet em seu molho picante.

     — Obrigada. — Tracy foi atender outra mesa.

     Nekoda encolheu-se quando Simi deu uma mordida. E dito isto...

     — Foi bom vê-la novamente, Simi. Mas acho que eu preciso ir.

     Simi limpou o pó do rosto.

     — De acordo, mas Nekoda-Akra tem que saber algo importante.

     — O que é?

     — Dizem que algo ruim veio para a cidade e montou tiro… não, loja. Essa é a palavra que Simi precisa.

     — Que tipo de mal?

     Simi lambeu os lábios antes de responder.

     — Akri não tem certeza. Você não pode sentir isso?

     Nekoda bufou.

     — Nesta cidade? Existe todo tipo de espíritos aqui, e muito deles são hostis.

     — É verdade, é por isso que Simi gosta de vir aqui. Eu como os maus e Akri fica feliz. Não há “não” Simi se for algo que rouba as pessoas. Simi pode comer tudo o que ela quer.

   Sim, Simi era um ser único.

     — Você acha que esse mal é Nick?

     Simi balançou a cabeça.

     — Não. O mal o está perseguindo.

 

   Nick parou do lado de fora do Café Mediterranean Greek em Decatur para recuperar o fôlego. Pelo menos as imagens tinham deixado de pular em sua cabeça e podia pensar com um pouco de clareza.

     Não muito, mas era melhor do que tinha estado quando deixou o Café Du Monde. Ao menos agora as pessoas ao seu redor pareciam normais.

     Cara, como os hippies dos anos sessenta tinham sobrevivido às drogas? Que idiota faria isso a si mesmo intencionalmente? Já era bastante ruim quando acontecia por acidente. Quem iria querer viver desta maneira se podiam parar isso?

     Nick esfregou os olhos e inalou profundamente, respirando com força.

     De repente, ouviu o som de uma campainha quando a porta do restaurante se abriu e saiu um lindo sonho.

     Por um segundo, pensou que ainda estava tendo alucinações quando Casey Woods, uma das animadoras de torcida de sua escola, parou na sua frente. Até que Nekoda entrasse na sua sala de aula, Casey era a única mulher para ele. Seu longo cabelo negro estava sempre escovado até que brilhasse, e suas curvas eram perigosas em roupas comuns, mas em seu uniforme de Cheerleader era material de lenda. Ele passou mais dias do que podia contar imaginando como seria fantástica a vida se a tivesse como namorada. Ao contrário dos Neandertais com os quais ela saía, ele realmente a trataria corretamente e a idolatraria.

     Infelizmente, ela nem sequer notava sua existência. Uma façanha impressionante, uma vez que ele havia sentado ao seu lado e à sua frente em várias aulas ao longo dos anos. Mas, ei, Casey era Casey, e uma garota popular não se incomodaria em notar o pobre e desajeitado bolsista que tinha invadido suas fileiras. De fato, quase ninguém em sua escola o via realmente como outra coisa que não uma meta a ser chutado e intimidado. Estava acostumado a isso.

     Vestida com um top rendado azul e jeans, sorriu-lhe quando o viu.

     — Ei, Nick. Você está bem?

     Oh, sim, tinha que estar em coma ou algo assim. A última vez que tinha estado tão perto assim de Casey, ela tinha argumentado com sua melhor amiga que não tinha nem ideia de quem era ele.

     — Uh, tudo bem.

     Ela franziu o cenho.

     — Você não parece bem. Parece um pouco verde. Vai vomitar?

     — Espero que não. — Porque isso era tudo o que precisava para que seu dia fosse ainda melhor.

     Vomitar em cima da rainha do baile de formatura. Sim, essa era a única coisa que faltava para dar-lhe o status de perdedor até o dia em que se formasse.

     Para completar sua surpresa, ela se aproximou e tocou sua testa.

     — Não tem febre. — estendeu-lhe sua garrafinha de água. — Aqui, tome um gole e veremos se ajuda.

     Atônito, ele endireitou-se.

     — E com você, está tudo bem?

     — É obvio. Por que pergunta isso?

     Porque ela nunca tinha sido assim tão amável com ele. Honestamente, era aterrorizante. Era o apocalipse?

     Estava a Morte disfarçada fodendo com ele? Isso sem dúvida faria sentido. Tinha que haver alguma terrível e asquerosa razão para que a senhorita sexy-arrogante estivesse falando como se importasse com ele.

     — Normalmente você e eu não andamos juntos.

     Ela sorriu.

     — Eu sei. Minha culpa. Mas agora que você anda com Tad, está tudo bem.

     Ah, isso o explicava. Tad Addams era um dos meninos ricos frescos. O irmão mais velho de Brynna, a amiga de Nick, o tinha levado ao colégio com Casey no outro dia.

     Cara, ela era superficial. A maioria das pessoas não admitiria isso sobre si mesmas. Ele teve que lhe dar crédito, ao menos era honesta.

     Ele recusou a água.

     — Estou bem. — Indicou o braço na tipoia. — A dor me pegou por um minuto. Mas estou melhor agora.

     — Oh, ok. — Agarrou a garrafa e a segurou contra seus seios — pensando bem, ele deveria ter aceitado. — A propósito, você já ouviu a última fofoca?

     — Que temos um treinador novo?

     Ela piscou com uma expressão vazia.

     — Temos um novo treinador?

     Obviamente essa não era a intriga que ela tinha ouvido.

     — Uh, sim. Caleb me falou dele.

     — Oh, não tinha ouvido isso. Bom. Sei que Stone e Rick estavam preocupados que nossa equipe caísse de divisão este ano com o treinador preso.

     Stone...

     Foi preciso toda sua força de vontade para Nick não curvar o lábio diante da menção desse porco. Não, cachorro. Ele só soube ontem à noite que Stone era um mutante de were lobo que tinha sido um porco em ambas as encarnações.

     Não querendo pensar em Stone e sua turma de imbecis, Nick levou Casey de volta à discussão original.

     — O que você ouviu?

     — Oh, houve uma série de roubos na escola. Tanya foi procurar sua tarefa desta manhã no escritório, e casualmente ouviu as secretárias falando sobre isso. Uns punhados de armários acabaram destruídos, e algumas coisas foram retiradas das salas de aula.

     — Não brinca?!

     — Ela disse que era uma cena feia. Espero que não tenha nada de valor em seu armário que valesse a pena roubar.

     Ele bufou. Sim, claro. Não possuía nada de valor.

     — Somente livros. Eles são livres para levar tantos quanto queiram.

     — Digo o mesmo. Oh, ela disse que temos um novo diretor que trouxeram de Baton Rouge. Seu nome é, atenção, Richard Head, podemos chamá-lo de Cabeça— ela começou a rir.

     Nick estremeceu quando viu o trem da detenção aproximando-se. Chefe Dick. Ah cara, era ruim ter um nome como esse e entrar no ensino médio. Deturpado, deturpado, deturpado.

     — E aposto que ele não tem senso de humor neste ponto.

     — Você já sabe. Mas por outro lado, pode chamá-lo de Dick Head sempre que queira e dizer que apenas está usando seu nome.

     — Certo. Cara, os pais dele deviam odiar isso.

     — Faz você pensar, não é?

     Fazia, de fato.

     — Bem, acho melhor eu ir. Preciso encontrar minha mãe no seu trabalho.

     Casey franziu o cenho.

     — Não pode ligar para ela?

     — É o seu primeiro dia de trabalho e não quero colocá-la em problemas. — Se fizesse que a despedissem outra vez em menos de vinte e quatro horas de perder seu último trabalho, ela o mataria sem hesitação. Melhor que enfiasse a cabeça na porta para ver o que ela estava fazendo, depois se dirigiria para o trabalho com Kyrian. — Te vejo depois.

     Ele começou a dirigir-se para o Ursuline.

     — Importa se eu caminhar com você?

     Os olhos se Nick arregalaram em um estado de total incredulidade, tipo hein?! Estava na zona do crepúsculo?

     Ela deu-lhe um sorriso que o aqueceu completamente.

     — Importa-se?

     — Uh, não.

     — Ótimo — Então fez o mais peculiar e impressionante de tudo: ela aproximou-se e envolveu o braço ao redor do seu de modo que pudessem caminhar de braço dado. — Então, Brynna me disse que tem um emprego. Não é muito jovem para estar trabalhando?

     Estou em algum universo alternativo? Seu demônio Doppelgänger iria caçá-los no beco e atacá-los como um personagem de videogame?

     — Tudo bem, Grim. O que está acontecendo?

     Grim não respondeu. Ninguém respondeu.

     Casey olhou para ele com expectativa com um par de olhos melosos que o faziam tremer por dentro.

     Vamos, Nick. Responda a sua pergunta.

     — Eu trabalho desde os doze anos.

     — Mesmo? — Seus olhos se iluminaram. — Isso é impressionante.

     Pela primeira vez em sua vida, ele realmente se sentiu orgulhoso.

     — Bem, eu sou o homem da casa e tenho que cuidar de minha mãe. Eu gostaria de comprar coisas bonitas, e não quero gastar o dinheiro dela, isso não me parece correto.

     — Sabe, é tão raro encontrar um menino que pensa dessa maneira. Nos últimos natais, Stone, deu-me de presente brincos que sua mãe tinha dado à sua irmã porque ela não os queria. Fiquei com tanta raiva quando descobri que não falei com ele durante duas horas seguidas.

     — Uau. Duas horas seguidas. Você realmente o castigou.

     Ela franziu o rosto para ele.

     — Está zombando de mim?

     — Eu nunca zombaria da rainha do baile, especialmente quando ela está me segurando. Por que está fazendo isso, a propósito?

     Ela esfregou sua mão para cima e para baixou cima por seus bíceps de uma maneira que realmente o deixava desconfortável.

     — Tem lindos braços. Viris.

     Sim, claro. Tinha braços iguais ao do monstro Espaguete Voador . Dificilmente viril. Mas bem magros e fibrosos.

     Ela começou a acariciar seus bíceps.

     Nick saltou para longe dela.

     — Hum, Casey. Eu estou mais ou menos vendo alguém — Embora não estivessem tecnicamente saindo juntos, tinha sentimentos por Nekoda, e não queria que ela pensasse que ele a estava traindo… embora nem sequer tinha saído uma única vez no momento.

     Ok, aquilo não tinha nenhum sentido.

     Ainda.

     Casey levou as mãos aos quadris.

     — Desde quando você tem uma namorada?

     — Você não tem namorado?

     — Não neste momento.

     Não tinha passado despercebido o convite em seu tom de voz ou em seus olhos.

     Era tão tentador… Mas uma coisa que sabia a respeito dela e Stone era que eles rompiam constantemente para voltar a namorar. A última coisa que precisava era dar ao Stone outra razão para assediá-lo.

     — Olhe, realmente tenho que ir.

     Antes que pudesse libertar-se, Casey tirou o telefone do seu bolso com algo que suspeitamente se parecia com uma apalpadela. Isso e o olhar quente em seu rosto enviaram um calafrio para ele. Ela colocou seu número de telefone e então acrescentou a sua marcação rápida.

     — Ligue-me qualquer dia — Desta vez quando deslizou o telefone de volta, não houve apalpada de sua parte. Erguendo-se na ponta dos pés, beliscou-lhe o queixo com os dentes e a língua. — Não me faça esperar muito, Nick. — A respiração dela disparou em sua orelha, incendou todo o seu corpo.

     Atônito, assustado e intrigado, não pôde mover-se enquanto ela rebolava rua abaixo. Ela lançou-lhe um olhar por cima do ombro e mordeu o lábio da maneira mais provocante que já tinha visto.

     Oh sim, definitivamente o mundo vai acabar. Tinha que haver um relógio de contagem regressiva em algum lugar. Porque coisas como esta não aconteciam a Nick Gautier. Seria mais verossímil que seus companheiros de sala se transformassem em zumbis para matá-lo do que Casey Woods aproximar-se dele.

     Por quê?

     Ontem ele era completamente invisível para ela. Hoje foi como se alguém o tivesse descoberto em meio ao território inimigo.

     Inseguro do que fazer com tudo isto, Nick se dirigiu ao Santuário. O lar do estranho dentro do estranho.

     — Não há normalidade em nenhum lugar?

     — Relaxe, menino.

     Nick deixou escapar um suspiro aliviado quando ouviu aquela voz familiar na cabeça.

     — Ambrose, mano. Onde você esteve?

     — Ocupado. Por quê? Sentiu minha falta?

     Na realidade não.

     — Eu tive apenas a mais sexy das garotas do colégio em cima de mim.

     — Casey Woods?

     — Sim. Como sabe?

     — Relaxe. Você vai acabar levando-a para seu baile de formatura.

     Nick arqueou uma sobrancelha diante da bomba que Ambrose tinha-lhe jogado.

     — Como sabe? — perguntou de novo.

     — Conheço um monte de coisas sobre você, Nick. Passado, presente e futuro. Casey não é uma das pessoas a quem você tem que temer. Ela será uma boa namorada na escola e uma amiga ainda melhor no futuro.

     Mas como, também, deixou-o com a boca aberta.

     — Será minha namorada?

     Ambrose riu em sua cabeça.

     — Conseguir mulheres não será seu problema. Mantê-las é outra coisa. E faça o que fizer, assegure-se de não tocar jamais em Simi. Nem sequer segure sua mão. Pense nela e em Tabitha Deveraux como irmãs.

     — Por quê?

     — Só faça o que eu digo!

     Dessa vez tinha o tom demoníaco de Ambrose. Esse profundo e gutural grunhido que realmente o fazia saltar. Um segundo depois, ouviu Ambrose suspirar.

     — Sinto muito, Nick. Mas há coisas que você tem que confiar em mim. Coisas que não posso explicar. Acredite-me quando digo que eu sou realmente a única pessoa em sua vida, além de sua mãe e Kyrian, que realmente te protegerão. Quando todo mundo se voltar contra você e tentar derrubá-lo, eu serei o único que nunca o trairá. Tem que acreditar nisso.

     — Isso é o que você diz, mas onde esteve durante toda a minha vida?

     — Sempre estive com você. Desde o momento em que nasceu. Nunca houve um momento em sua vida no qual eu não estivesse ao seu lado. Assim como agora. Eu vejo por você. Ouço o que você ouve e sinto o que sente.

     — Como?

     — Ensinarei esse poder com o tempo. Por agora, confia em mim. Um dia entenderá porque estive escondido todos esses anos e por que esperei que acontecessem certas coisas antes fazê-lo conhecer a minha presença.

     Sua mãe sempre dizia que a confiança era algo que você ganhava. E não era algo que se dava facilmente. Muito frequentemente, era uma ferramenta que seus inimigos usavam para feri-lo.

   — Não lhes dê nada, bebê. Não até que você não tenha escolha. O mundo é duro e frio. As pessoas podem ser boas e decentes, mas a maioria só olha para si mesma e fazem mal a todos quanto podem.

     O triste era que sabia que sua mãe não dizia coisas à toa. O criticar não estava em sua natureza, assim sempre que fazia isso, sabia prestar atenção nela.

     — Vá viver sua vida, Nick ¬—, disse-lhe Ambrose, entrando em seus pensamentos. — Aproveite seu dia e deixe de preocupar-se tanto. Veja sua mãe e vá trabalhar.

     Ele sentiu Ambrose partindo.

     Nick levantou o olhar para o perfeito céu azul. Era um dia lindo.

     — Eu sou comprovadamente louco. Estou vendo demônios em meus amigos, metamorfos, e ouvindo vozes de tios lunáticos.

     Como essa fazenda de loucos tinha chegado até ele?

     Suspirando, virou a esquina e cruzou a rua para o Santuário. Desta vez, ele viu diferenças nos porteiros. Enquanto que um parecia com Remi, tinha o cabelo abaixo dos ombros e um fácil sorriso que de alguma forma conseguia ser tão amigável quanto intimidante ao mesmo tempo. Como Aimee havia dito anteriormente, este tinha uma tatuagem de um duplo arco e flecha em seus bíceps.

     — Você deve ser Dev.

     Seu sorriso se ampliou.

     — E você deve ser a "dor no traseiro" Nick.

     — Hein?

     Uma onda de nervosismo apreensivo o atravessou.

     — Não culpe os mascotes. É apenas uma figura de linguagem. Sua mãe esteve falando de você o dia todo, menino. É seu assunto favorito.

     — Bem, estou tentando realmente não ser sua hemorroida favorita.

     Dev riu.

     — Ela disse que era afiado e divertido. Posso ver que tinha razão. Entra e sinta-se em casa.

     Sua simpatia o surpreendeu. Sobretudo porque tinha o pressentimento de que não eram assim com todo mundo. Como poderia ser? Tinham um segredo infernal que deviam esconder do público.

     Nick entrou no lugar. Estava repleto. Wren ainda estava limpando mesas, mas os garçons haviam sido substituídos. Havia dois clones mais do Dev, um que devia ser Cherif e o outro, Quinn. Mas o mais fantástico de tudo era a banda que estava fazendo uma prova de som no cenário.

     Hipnotizado, Nick andou até eles. Então esses eram os Howlers. Ele nunca tinha visto uma banda tocar ao vivo. Na verdade deviam estar fazendo algum tipo de prova.

     — Ei, Colt, seu microfone não está ligado — disse o cantor ao violonista.

     — Fiz isso de propósito, Angel. Não preciso cantar, de qualquer maneira. Não queremos limpar o local.

     O baterista riu enquanto ajustava os fones.

     Eram tão assustadores. Além do fato de que eram todos metamorfos, todos vestiam roupas que sua mãe jogaria no lixo. Jeans rasgados e camisetas esfarrapadas. E quando tocavam, era mágico.

     Oh, sim, ele queria estar em uma banda.

     — Oi, bebê.

     Ele se virou para o som da voz de sua mãe.

     — Ei, Mamãe. Como vai?

     Ela estava radiante e seu rosto iluminado.

   — Foi um dia fantástico. E para você?

     — Normal — Não era totalmente verdade, mas não precisava saber sobre suas estranhezas. Caso contrário, ela o proibiria de sair de casa até que tivesse noventa anos.

     Ela bagunçou o cabelo dele.

     — Falta uma hora para eu sair do trabalho.

     — Oh, está bem. Tenho que ir até Kyrian, de qualquer maneira. Tomarei um bonde.

     — Eu levarei você.

     Nick pulou ao som da profunda e assustadora voz de Acheron, atrás dele. Se isso não fosse o bastante aterrorizante, Acheron media mais de dois metros. Envolvido em negro gótico do topo de seu comprido cabelo à ponta de suas botas de motorista, tinha um aura de “eu o matarei pelo simples fato de você respirar” que era ainda mais intimidante que a do Grim.

   — Cara! Coloque um sino. Não se aproxima assim de um irmão de um jeito que ele se borre todo de susto.

     — Sinto muito. Não percebi que assustava você como uma menina.

     Nick endureceu de indignação.

     —Não há nenhuma menina aqui, chefão. Talvez você. Mas definitivamente não sou eu.

     Balançando a cabeça, Ash riu.

     Sua mãe olhou para ambos com ceticismo.

     — Tome cuidado com meu menino, Ash. Ele é tudo o que tenho, então, dirija como se levasse ovos.

     — Sim, senhora — Ash indicou a porta com a cabeça. — Você vem?

     — Depende. Você vai dirigir na super velocidade um ou dez? — Porque da última vez que Nick esteve no Porsche de Ash, o antigo imortal tinha feito coisas com o carro que não deveria ser capaz de se fazer.

     — Vou mantê-lo abaixo dos noventa.

     — Então tentarei não cravar as unhas no interior — Nick se despediu de sua mãe com a mão enquanto seguia Ash para a parte de trás onde seu Porsche negro tinha uma visão impressionante.

     Um dia, tinha que conseguir um daqueles para ele. É obvio, isso depois que ele conseguisse tirar a licença para dirigir. Por enquanto, entretanto, ele estava contente andando no de Ash.

     — Tenho que abrir de novo a porta para você? — perguntou Ash pressionando o botão para destravá-lo.

     Nick deu-lhe um olhar cômico.

     — Não, eu acho que posso controlar — Ele estava com medo de sujá-lo. Agora estava ficando um pouco acostumado.

     Assim que entrou e prendeu o cinto, voltou-se para olhar Acheron.

     — Kyrian disse que você tem presas. Você as tem?

     Ash baixou a cabeça, mas como ainda usava aqueles óculos de sol que nunca abandonavam seu rosto, Nick não podia ver seus olhos.

     — É importante?

     — Talvez.

     Ash abriu a boca, e com certeza, lá estavam elas.

     — Uau. Você é bom em escondê-las.

     — Você não tem nem ideia — girou o contato e ligou o motor.

     — Então, você alguma vez já bebeu sangue?

     Ash reduziu a marcha para contornar um táxi.

     — Do que vocês conversaram?

     — Kyrian disse que ele não bebia sangue. Perguntava-me se você também faria isso.

     Ash ignorou a pergunta enquanto reduzia a velocidade. Franzindo o cenho, Nick esperou para ver o que tinha captado a atenção do imortal Atlante. À direita, em um beco rua abaixo, reuniu-se a polícia e tinham isolado uma seção da rua. Infelizmente, tais visões tendiam a ser comuns em Nova Orleans.

     — Parece um roubo.

     — Não, Nick. É o cenário de um assassinato.

     — Como sabe?

     — Poderes psíquicos, lembra?

     Oh sim. Como poderia esquecer-se disso?

     Acheron puxou para o lado e estacionou o carro.

     — Fique aqui. Eu quero ver isso.

     Você sabe, para um imortal que viveu onze mil anos, Acheron podia ser um poderoso estúpido. Como se Nick fosse esperar no carro enquanto houvesse algo para ver.

     Deu tempo a Ash para que saísse da vista antes de abrir a porta do carro e dirigir-se para o cenário. Havia um punhado de turistas e aldeãos circulando, assim como também vários jornalistas e pessoas com câmeras. Nick esgueirou-se ao longo da borda até que pôde ver o contorno de onde estava o corpo, coberto por uma lona negra. A visão do sangue na rua era desconcertante. Cara, isso parecia brutal, e o fez perguntar-se o que tinha acontecido.

     — Já são quantos com este? — perguntou um dos oficiais ao outro.

     — O segundo em vinte e quatro horas.

     — Notificaram os pais?

     — Ainda não. Ninguém quer ter que ir bater na porta e dizer a alguém que seu filho de quatorze anos não voltará para o jantar. Droga. Eu odeio quando se trata de um garoto. Maldito insensato. Tenho um filho da mesma idade. Isto me faz querer ir para casa e abraçá-lo, e em seguida trancá-lo no quarto até que cresça.

     Essas palavras bateram fundo em Nick. A vítima tinha sua idade.

     E assim que esse pensamento lhe passou pela cabeça, sentiu o pêndulo ardendo em um nível incendiário.

     O livro, também.

    Sibilando por essa dor, Nick tirou o livro do bolso traseiro e o abriu.

     — O que está acontecendo Lassie? Você vai dizer algo de bom ao Timmy?

     Na página onde tinha deixado cair seu sangue na noite anterior, as palavras se reorganizaram.

Olhe e você verá,

Aquilo que foi, nunca será.

Quando eles procuram um menino de sua idade.

Corre, idiota de merda, corre!

 

   Mesmo estando de acordo, no momento, Nick não ia discutir com o livro. Se ele dizia que corresse, correr é o que ele faria. Ele começou a ir para o carro, então parou.

     O lugar mais seguro seria com Acheron. Com seus épicos poderes Jedi, Ash seria capaz de destroçar qualquer um ou qualquer coisa que viesse atrás dele. E para sorte dele, Ash era tão alto, que era fácil encontrá-lo, até mesmo nesta multidão.

     Nick se dirigiu diretamente para ele tão rápido quanto pôde sem chamar a atenção da polícia. Suas experiências passadas mostraram que, mesmo sendo inocente nunca era bom captar sua atenção. Especialmente quando estava relacionado com alguém condenado a morte por homicídios múltiplos e havia um corpo perto no chão.

     Mau movimento.

     Ash olhou feio quando se ele o encontrou.

     — Gostaria de perguntar o que você acha que está fazendo, mas… você é um adolescente. Deveria ter pensado melhor antes de deixá-lo no carro sem vigilância. Da próxima vez, eu o selarei lá dentro. Provavelmente com tijolos. Talvez também com argamassa.

     Nick ignorou seu tom seco.

     — Então desde que você tenha certeza de que nada pode entrar e me matar, eu estarei bem com isso.

     Ash franziu o cenho.

     — Do que está falando?

     — O menino morto no chão. Quatorze, Ash. Quatorze. Eu tenho quatorze.

     — Sim.

     — Ash, eu tenho quatorze anos.

     — Entendi. Você tem quatorze anos. Estou muito orgulhoso de que saiba contar até esse número. É uma prova do moderno sistema educativo americano. Mas provavelmente devo assinalar que você não é o único. Disseram-me que você vai a uma escola com uma turma cheia de meninos de quatorze anos.

     Nick girou os olhos pelo sarcasmo. Não é de admirar que sua mãe queira machucá-lo por isso. Ele finalmente entendeu.

     — Sim, mas não estão mortos. Alguém está matando os meninos de quatorze anos de idade, e sou um deles. Os policiais disseram. Este é o segundo assassinado em um dia.

     — Sim, bem, dada a estupidez do adolescente médio, posso entender a urgência.

     — Você não é engraçado.

     — E você precisa se acalmar. A única pessoa que você deve ter medo que o matem, quando está perto de mim, sou eu.

     Um calafrio desceu-lhe pela espinha ao ouvir estas palavras que pareciam estranhamente proféticas. Era esta a sensação de premonição que Grim havia falado antes?

     Sem mencionar o fato de que o pequeno aviso de Ambrose ecoou-lhe na cabeça: Não confie em Ash… Ele não é o que parece.

     Ash colocou uma mão em cada um de seus ombros.

     — Nick, respira fundo e olhe ao seu redor. Está a salvo aqui. Há policiais em todos os lados. Está tudo bem.

     Não é o que seu livro havia dito. Ele quis dizer isso a Ash, mas algo dentro disse que se mantivesse calado.

     Pela primeira vez, decidiu escutar seus instintos.

     — Por que estão matando os adolescentes?

     Ash fez um gesto para o grafite de sangue que o assassino ou os assassinos tinham deixado na rua. Era um círculo ao redor do corpo com símbolos estranhos que nunca tinha visto antes.

     — Quem o matou estava caçando um demônio. Meu palpite é que eles pensaram que o menino na rua estava possuído, embora não sei por que eles o matariam.

     — Quem são eles?

     — Não tenho certeza. Estava tentando me centrar nisso quando você chegou correndo e quebrou minha concentração. Não é normal para mim estar cego para coisas assim, mas isto só mostra que este de demônios não são minha especialidade.

     Nick estava confuso com isso.

     — O que quer dizer?

     — Sou um Dark-Hunter, Nick. Não um demonologista. Há milhares de espécies de demônios em uma variedade de sistemas de crenças, e enquanto posso falar com fluidez em todas as línguas e costumes, alguns não tanto, mas alguns demônios do mundo são estranhos a mim, porque não devem sair frequentemente. Alguns são tão aterrorizantes que nem seu próprio povo fala deles ou os esqueceram. Como resultado, não sigo sua pista. Agora desejaria que tivesse feito.

     Isso fazia sentido. Nick olhou para o desenho estranho na rua.

     — E sobre esses símbolos? O que são?

     — Uma linguagem que estava morta antes que eu nascesse.

     Uau. Levando-se em conta a idade de Ash, se isso era anterior a ele… era assustador.

     — Como pode ser isso?

     — Ao contrário da errônea crença popular, eu não nasci com os dinossauros, Nick. Tão velho quanto sou, eu sei que muitos seres me fazem parecer um bebê. Quem fez isto poderia ser um deles, ou é algo ou alguém que teve contato recente com eles. — Olhou de novo para os símbolos. — Honestamente, não via esta escritura desde que passei pelas ruínas de Atlântida quando tinha sua idade.

     — Consegue lembrar-se de tanto tempo atrás?

     Um tic zangado começou na mandíbula de Ash.

     — Com uma clareza que desejaria que os deuses pudessem tirar de minha mente. —Houve muita dor oculta no tom do Ash. Kyrian havia-lhe dito que Ash não gostava de falar de seu passado. Pelo tom de sua voz, Nick imaginou que Ash não havia tido uma infância muito feliz.

     Por outro lado, devia ter sido terrível para Ash morrer tão brutalmente com vinte e um anos quando vendeu sua alma à deusa Artemisa por vingança.

     — Então, o que faremos? — perguntou-lhe Nick.

     — Dê-me mais uns minutos, então o levarei ao Kyrian.

     — Ash!

     Nick olhou em volta de Ash para ver um jovem afro-americano correndo para eles.

     Ash se virou para ele.

     — Ei, Tate. Está investigando?

     Ele concordou com a cabeça.

     — Eu estava com meu pai quando chegou o chamado. — Ele apontou para o médico legista, que estava falando com a polícia. Em seguida seu olhar foi para Nick.

     — Este é Nick Gautier. Está trabalhando para Kyrian e conhece nosso lado mais escuro.

   — Ah. — Sorriu ao Nick. — Tate Bennett. Prazer em conhecê-lo. — Ele parecia o suficientemente amigável quando estendeu a mão.

     Nick a estreitou.

     — Digo o mesmo.

     Tate inclinou-se para falar em voz baixa com Ash.

     — É uma coisa de demônios, não é?

     — Sim. Mas não acredito que um demônio o matou. Tenho certeza de que o assassino era um humano igual ao menino.

     Tate parecia confuso.

     — O que quer dizer?

     Ash fez um gesto para o círculo.

     — Isso é um feitiço de contenção e destruição. A espécie tem intenção de apanhar e debilitar um demônio, para que se possa acabar com ele facilmente.

     Tate arregalou os olhos.

     — O menino estava possuído?

     — Não acho. É uma vibração estranha. Não estou realmente seguro do que aconteceu. A única coisa que sei é que não é correto.

     O cenho do Tate se aprofundou.

     — Como você pode não saber o que aconteceu?

     Ash baixou seu tom ainda mais.

     — Isso é o que estou tentando dizer. Qualquer que seja o humano que fez isto, bloqueou-me e com esses símbolos… não sei. Mas acredito que o menino estava no lugar errado no momento errado. Apesar do fato de que o menino está morto, não acho que ele era o alvo. Acho que o assassino ia atrás de outra coisa. E você? Tem algo?

     — Só a descrição da vítima: Caucasiano. Masculino. Quatorze anos de idade. Acham que foi assassinado nesta manhã por volta das oito. Nenhuma identificação, mas tinha…

     — Ei, eu conheço esses sapatos.

     Tate e Ash se viraram para ele quando Nick apontou o corpo que agora estavam levantando. À medida que moviam o menino, a lona foi puxada para fora de seus pés.

     — O quê? — perguntou Ash.

     Nick inclinou a cabeça para o Converse verde limão decorado com um pincel atômico com que estavam fechando o saco com o corpo.

     —É Barry Thornton. Senta-se atrás de mim na sala.

     Tate deu um passo para ele.

     — Você tem certeza?

     — Sim. Os sapatos são característicos. Ninguém mais na escola desenha Pokemons na roupa. — Sem mencionar que o verde era bastante néon, e a maioria dos meninos preferia cores mais neutras.

     Tate considerou um segundo antes de falar.

     — Será que ele foi brincar com o oculto?

     Nick lançou a Tate um olhar agitado.

     — Voltemos para os Pokemons em seus sapatos, de acordo? É óbvio. Ele nem sequer jogava Dragões e Masmorras porque pensava que era satânico. Não acreditava em nada paranormal. — O que era irônico se você pensar na quantidade de seres sobrenaturais que foram até a escola. — Ele era o capitão do clube de xadrez e um estudante acima da média.

     Tate encontrou o olhar de Ash.

     — Por que alguém pensaria que ele era um demônio?

     Ash encolheu de ombros.

     — O mundo está louco, e você está me perguntando a motivação de um psicopata? Não faço perfis criminais.

     — Mas você é onisciente — recordou-lhe Tate.

     — Certo, e como minha imortalidade, tem suas limitações. Não consigo ver tudo, infelizmente. — Ash suspirou. — Nick disse que este era o segundo menino encontrado?

     — Sim. Houve um menino chamado Alistair Sloan encontrado ontem de noite.

     Ambos olharam para Nick.

     — Por que estão olhando para mim? Não sei nada dele.

     Ash bufou.

     — Você parece conhecer todos na cidade.

     — Bem, eu ando em volta. — Nick sorriu.

     Ash sacudiu a cabeça antes de voltar sua atenção para Tate.

     — Este evento não tem nenhum sentido.

     Tate esteve de acordo.

     — Pode ser um fanático em matança. Às vezes a porcaria estranha é humano. Sei que não acontece com frequência nesta cidade. Entretanto… de vez em quando, encontramos seres humanos dementes.

     Ash não parecia convencido.

     — Talvez.

     Tate fez um gesto por cima do ombro.

   — Melhor eu voltar para ele. Avise-me se descobrir algo.

     — Você, também.

     Assim que Tate se foi, Ash voltou-se para Nick.

     — Faça-me um favor.

     — Não lamber seu cinto de segurança?

     A expressão de Ash foi de confusão total.

     — Hein? De onde tirou essa aleatoriedade?

     — Quando eu era um menino, fiz isso uma vez no carro novo de minha tia Mennie. Agora cada vez que entro no carro e ela dirige, ela diz “faça-me um favor”, e é isso o que sempre se segue. Desculpe. Hábito.

     — Está bem. Se seus estranhos flashbacks terminaram, pode me emprestar um segundo de atenção?

     Nick se endireitou.

     —Totalmente.

     — Muito bem. Mantenha os olhos abertos, e não vá sozinho a nenhum lugar até que saibamos o que está acontecendo e por que alguém está matando os garotos de quatorze anos.

     — Está bem.

     Ash começou a se dirigir para o corpo, depois pareceu pensar melhor.

     — Eu o levarei à casa de Kyrian.

     — Por mim, tudo bem. — Gostou da ideia de estar seguro e vivo.

    Ash acenou para Tate para que ele soubesse que eles estavam saindo antes de levar Nick de volta ao Porsche negro brilhante. Nick subiu e atou o cinto de segurança enquanto Ash colocava o carro em marcha.

     Não falaram nada quando Ash o levou no restante do caminho para Garden District, onde filas e filas de casas construídas antes da guerra homenageavam e abrigavam algumas das pessoas mais ricas de Nova Orleans.

     Cara, o tamanho da casa de Kyrian não deixava de impressioná-lo. Era muito grande. No clássico estilo do renascentismo grego, do tipo que lembrava a Nick um bolo de casamento, com os pórticos envolventes, os floreios ornamentais e de cor branca. Ash abriu o portão e estacionou em frente aos degraus de mármore que levavam até a porta principal.

     Nick saiu e se dirigiu para as escadas. Quando começou a tocar a campanhinha, Ash materializou-se ao seu lado e abriu a porta.

     Ele arqueou uma sobrancelha.

     — Você foi criado em um celeiro? Não se pode entrar assim na casa de alguém.

     Ash riu.

     — Tenho um convite aberto para entrar sempre que estou aqui.

     — Sim, mas e se ele estiver nu ou algo assim?

     Ash o levou ao foyer.

     — Conheço Kyrian por mais de dois mil anos, e posso dizer honestamente que nunca o peguei nu nem uma vez em sua sala de estar. — A porta se fechou atrás deles sem que Ash ou Nick a tocassem. Algo que sempre irritava Nick quando Ash fazia isso. — Além disso, Rosa ainda está aqui. Sei que ele não está andando nu quando ela está em serviço.

     — Oh, sim. — Lá estava ela.

     Como se os tivesse ouvido chegar, Rosa entrou na sala em direção à cozinha.

     —Ah, Acheron, que bom vê-lo de novo.

     — Hola, Rosa. Kyrian ainda está lá em cima?

     — Sí.

     Enquanto Ash se dirigia ao primeiro andar, Nick se dirigiu à Rosa com um olhar de esperança no rosto.

     — Eu cheiro algo… doce?

     Ela riu.

     — Você vive em seu estômago, mi hijo. Vá, há cookies esperando por você.

     Nick fez uma saudação romana.

     — Rosa, sou seu servo eterno. Sempre que me alimentar com cookies, poderá pedir e eu farei sem nenhuma reclamação.

     — Bem. Tenho uma lista com suas tarefas no balcão ao lado da bandeja.

     Ah, cara. Nick engoliu um gemido. Este era seu trabalho, e ele não se queixaria. Pelo menos não para Rosa, fabricante de uma comida genial.

     Kyrian era outra questão. Ele estava sujeito ao caprichoso adolescente chorão.

     Nick se dirigiu à cozinha e pegou um cookie antes de olhar sua lista. Mastigando o biscoito, coçou o queixo.

  1. Trocar a lâmpada do banheiro no andar de cima.
  2. Conectar a Internet e procurar sapatos Ferragamo, depois enviar um e-mail a alguém chamado Kell para ver se era possível transformar os Ferragamo em armas.
  3. Pedir um casaco em substituição ao que foi rasgado. (Olhar o armário dos casacos). Verificar se coincide exatamente.
  4. Lavar carros.
  5. Tirar o lixo de Rosa.
  6. O mais importante, não queixar-se.

     Hmmm.

     — Rosa?

     Ela arqueou uma sobrancelha quando entrou na cozinha.

     — Sí?

     — Quantos carros tem Kyrian?

     Ela fez uma pausa para pensar nisso.

     — Acredito que há seis deles, mas não sei ao certo. Eu não vou à garagem.

     Seis. Kyrian queria que ele lavasse seis? Tinha perdido sua maldita cabeça? De jeito nenhum. Isso era demais. Levaria a toda a noite.

     Resmungando baixinho, Nick se dirigiu à garagem para ver o quão grande eram as coisas. Apesar do que Kyrian pensasse, não era um escravo. Ele tinha…

     Seus pensamentos se dispersaram ao abrir a porta.

****

     — Tem certeza de que não são ataques Daimon? — perguntou Kyrian a Acheron enquanto se encolhia em seu casaco.

     — Oh, sim. O que realmente odeio é que um dos meninos foi assassinado em nosso turno. Não quero que isso aconteça de novo. Então mantenha os olhos abertos esta noite para outros predadores que não Daimons.

     — Definitivamente. Falando do feto do demônio. Onde está Nick?

     Ash encolheu os ombros.

     — Ele veio comigo e isso foi a última vez que soube dele.

     — Sim, e eu estava esperando que ele se opusesse à sua lista de tarefas. — Kyrian fez uma pausa para escutar com sua audição psíquica. Ele franziu o cenho ao não ouvir nada. — Está muito tranquilo. É melhor eu me assegurar de que não está atormentando Rosa. Com minha sorte, ela tentará estrangulá-lo e eu terei que explicar o ferimento a sua excessivamente protetora e paranoica mãe.

     Acheron riu.

     — Não se preocupe, general. Eu vou salvá-lo antes do amanhecer.

     — Obrigado. — Deixando Acheron, Kyrian se dirigiu diretamente ao andar de baixo e procurou por sua dor, que nunca deixava de irritá-lo.

     Não havia sinal dele.

     Nem sequer no escritório de Nick. Onde poderia estar?

     Kyrian fez uma careta ao entrar na cozinha.

     — Onde está Nick? — perguntou a Rosa, que estava guardando pratos.

     Ela limpou as mãos em um pano de prato branco antes de responder.

     — Ele foi à garagem, e eu não o vi desde então.

     Estranho. Não havia som de água corrente ou qualquer outro sinal do menino que ele pudesse ouvir.

     Uma onda de pânico se apoderou dele. Tinha o assassino sobrenatural encontrado o menino? Poderia Nick estar morto, neste momento?

     Ele correu para a porta e a abriu, então congelou diante da última coisa que esperava encontrar.

     Nick sentado nas escadas, completamente em estado letárgico. Estava olhando para frente como se tivesse sido congelado em seu lugar.

     — Nick? Você está bem?

     Ele não respondeu.

     Kyrian se aproximou, até parar diante dele. Estalou os dedos diante do seu rosto.

     — Garoto?

     Nick piscou antes de encontrar o olhar de Kyrian.

     — Não sou digno — disse em tom ofegante.

     Perplexo com seu comentário, Kyrian o olhou fixamente.

     — O quê?

     Nick fez um gesto para seus carros.

     — Cara, isso é uma Ferrari, Lamborghini, Bugatti, Alfa Romeo, Aston Martin e Bentley. E não estou falando dos modelos baratos. Eles estão no mais alto do mais alto do mais alto de sua categoria, completamente equipados. Juro, isso é acabamento de ouro autêntico no Bugatti. Aqui há mais dinheiro em metal do que meu cérebro pode calcular. Oh, meu Deus! Eu nem deveria estar respirando o mesmo ar.

     Kyrian riu de seu tom reverente.

     — Está tudo bem, Nick. Preciso de você para limpá-los.

     — Você perdeu sua sempre encantadora cabeça? E se eu arranhá-los?

     — Você não fará isso.

     — Não, mas poderia. Aqueles não são carros, Kyrian. São obras de arte. Estou falando de meios de transporte sérios.

     — Eu sei, e eu os dirijo todo o tempo.

     — Não, não, não, não, não. Não posso tocar em algo tão fino. Não posso.

     Kyrian socou-lhe no ombro.

     — Sim, pode. Eles não mordem e precisam ser lavados.

     Nick deixou escapar um som de satisfação.

     — Eu deveria pagá-lo por isso.

     Kyrian bufou.

     — Então eu descontarei isso do seu salário. — Estendeu a mão para ajudar Nick a levantar-se. — Vamos.

     Nick lhe permitiu puxá-lo para colocá-lo de pé, mas ainda estava intimidado pelos carros ao seu redor. Nunca tinha pensado em ver um em sua vida, muito menos tocá-lo. Estes eram excelentes.

     — Quanto dinheiro você ganha, afinal?

     — Obviamente, muito.

     — Cara, faça de mim um Dark-Hunter.

     Algo frio e doloroso cintilou através dos olhos de Kyrian.

     — Nunca brinque a respeito disso, Nick. Nunca queira transformar-se no que sou. Está tudo bem do lado de fora, mas dois mil anos são difíceis. Toda minha família se foi há tempos, e embora tenha meus irmãos Dark-Hunters e Acheron, não é o mesmo. Daria tudo o que tenho e inclusive mais se eu pudesse ver meus pais mais uma vez. Dizer a meu pai que sinto muito por coisas que lhe disse. Nunca, jamais, deixe sua mãe depois de uma briga. Faça o que fizer, não deixe que as últimas palavras que lhe diga sejam dolorosas.

     — Você brigou com seu pai?

     Ele concordou com a cabeça.

     — Acheron tem um ditado, que é muito verdadeiro. Há algumas coisas que não se podem corrigir. A vida é toda sobre arrependimentos. Não deixe que esses remorsos façam mal a alguém que realmente o ama. Mantenha-os ao mínimo. Já é bastante ruim quando você tem que levá-los através de uma única vida. Quando tem que levá-los por muitas outras, é brutal.

     Nunca tinha pensado dessa maneira. Ainda assim, daria tudo para ter uma vida eterna com este tipo de riqueza. Diabos, eu me conformaria com que fosse por dez minutos.

     — Não se preocupe em terminar todos os carros esta noite. Pode fazer o Lamborghini e deixar o resto para amanhã. Apenas certifique-se de fazer o resto da lista.

     — Farei isso.

     Kyrian inclinou a cabeça para ele antes de voltar para dentro.

     Nick caminhou três passos para olhar mais de perto o Bugatti. Sim... esse sim era um carro.

     — Gostaria de abraçá-lo, mas não quero deixar meus óleos corporais em sua pintura.

     Mas quando Nick olhou para dentro da janela fumê, não viu o interior do carro. Viu algo que se parecia mais à interpretação de um filme. Hipnotizado, ele chegou mais perto para ver mais claramente.

     Era uma batalha na casa de Kyrian. Ele viu seu chefe com uma mulher que se parecia muito com uma versão mais velha de Tabitha Devereaux, só que ela tinha o cabelo castanho escuro e estava vestida com uma camisola. Havia Daimons loiros com presas atacando-os na escada. Kyrian estava tentando mantê-los afastados da mulher que estava atrás dele, no patamar, com uma espada.

     Havia outro Dark-Hunter ali. Um que ele não reconheceu. Nem sequer tinha certeza de como sabia que era um Dark-Hunter e, entretanto, sabia.

     O desconhecido foi decapitado pelos Daimons.

     Ele estremeceu com horror e fechou os olhos. Quando os abriu de novo, a cena tinha mudado.

     Desta vez, ele viu algo muito pior…

     Ele era o garoto da rua que foi morto enquanto um homem encapuzado absorvia algum tipo de energia que jorrava para fora de seu peito como um espetáculo de luzes laser. Mas eram os olhos de Nick, o que mais o enfeitiçaram. Eram de cor negra sólida, como algo saído de um filme de terror, e em sua mão aberta, apoiado em sua palma, estava o colar de diamantes que Nekoda sempre usava…

     Seu destino está moldado por opções, não por acasos. Tome cuidado com as decisões que você toma, não importa quanto sejam pequenas, porque estas serão sua salvação...

     Ou sua morte.

 

         Nick esteve deprimido durante vários dias enquanto as visões o perseguiam. Com a ajuda de Grim, estava tentando aperfeiçoar sua habilidade para ver se podia conseguir mais alguma coisa ou ver mais claramente. Mas não era fácil. Muito parecido com a clarividência, ia e vinha por seu próprio desejo, não por sua vontade.

     Malditos poderes desobedientes.

     Grim continuava prometendo que ele poderia controlá-los com a prática.

     Ele era muito mais otimista que Nick. É obvio, ele não era a única alucinação ou tolice.

     No momento, era um agravante a mais em uma vida que já era irritante. A puberdade era ruim o suficiente com seu corpo fazendo coisas que ele não queria que fizesse em momentos inconvenientes. Agora sua mente estava fazendo isso, também. Um minuto estava bem; no seguinte via alguém “normal” transformar-se em algo que não era, ou tinha algum flash psicodélico de um acontecimento por vir.

     Estava ficando tão ruim, que sua mãe tinha começado novamente com a inquisição das drogas cada vez que estava por perto. Neste ritmo, ela estaria atrás dele com um frasco de amostra para que mijasse dentro.

     As únicas boas notícias era que não tinham encontrado mais meninos assassinados pelo que quer que fosse que haviam matado os outros dois.

     E Nick não estava morto.

     Ainda.

     Mas vieram os questionamentos quando entrou no pátio da escola para encontrar Stone e sua equipe de puxa-sacos esperando por ele.

     Genial. Era só que ele precisava. Outra suspensão. Cada vez que Stone aproximava-se dele, acabava na sala do diretor, e nunca correu bem para ele. Era um fato, como a mijada que indevidamente se seguia à levantada de pata de um cão.

     Com efeito, quando ele se aproximava do primeiro degrau que conduzia à porta do edifício de tijolo vermelho, Stone, que era um bruto enorme de soco lento Cro-Mag , deu um passo adiante para bloquear-lhe o caminho.

     Stone cruzou os braços musculosos e olhou abaixando seu nariz para Nick. Algo que realmente lhe tirava do sério.

     — Não estou de bom humor — Imbecil. Nick conteve o insulto que queria realmente cuspir e tentou passar apenas roçando. Sempre é melhor evitar uma briga.

     Tarde demais. O restante de seu Merd (rebanho de imbecis) cercou Nick. Ele sentiu sua pressão arterial subir ainda mais quando invadiram seu espaço pessoal “porque estamos fazendo uma manobra idiota”. Nick apertou os dentes, tentando manter o temperamento sob controle.

     Algo que não ajudou quando Stone o empurrou.

     — Alguém esteve roubando nossas coisas dos armários, Gautier. Só posso pensar em uma pessoa que esteja tão desesperada. — Deu-lhe um olhar zombador sobre a camisa havaiana azul cafona que a mãe de Nick o fez usar e o jeans desbotado. Os dois haviam sido comprados numa casa de caridade ao preço incrível de um dólar cada um.

     Nick bufou ao insulto de Stone.

     — Eu não sei. Os rumores por todo o vestiário das garotas é que vocês estão tão duros que foram a um asilo de idosos tentando conseguir um encontro para o baile de formatura.

     Stone gritou de raiva. Ele começou a avançar, só para que Caleb saísse do nada para empurrá-lo de volta.

     Maldito, o demônio podia mover-se. Não admira que fosse a estrela da equipe de futebol.

     Por outro lado, Caleb tinha uma vantagem injusta. Força sobre-humana e séculos de formação de soldado.

     Caleb zombou de Stone.

     — É muito cedo para que eu tenha que lavar o sangue de minha roupa, Blakemore. Mas estou disposto a sentir o cheiro de sangue se for o que se necessita para que aja como humano. — Um comentário histérico, dado o fato que Stone era um Were Lobo.

     — O que está acontecendo aqui?

     Nick recuou quando um enorme urso de homem avançou para separá-los.

     Ele zombou dos dois combatentes.

     —Stone? Caleb? Não se atrevam a começar a lutar. Farei com que corram em círculos até que caiam. A última coisa que precisamos é que um jogador seja suspenso. Já estamos a ponto de ter que renunciar. Neste momento, não posso me permitir o luxo de perder nem um só homem. Ouviram-me?

     Caleb levantou as mãos em sinal de rendição.

     — Não estava procurando problemas, mas também não vou correr. Se me empurrarem, empurro de volta.

     O treinador balançou a cabeça.

     — Blakemore, pegue suas meninas e saia. Agora.

     Franzindo os lábios, Stone arrancou com sua turma de valentões de zoológico atrás dele.

     O treinador estreitou os olhos para Nick.

     — Quem é você? —Escória, chupador de cão. Ele não disse essas palavras, mas estava implícito no tom.

     Obrigando-se a não dizer ou fazer nada para conseguir uma detenção, falou com cuidado.

     — Nick Gautier.

     O reconhecimento acendeu os olhos de azul profundo do treinador. Na realidade parecia impressionado.

     — Você foi da primeira linha no ano passado. O que aconteceu?

     Nick deu de ombros.

     — A boca do Stone, foi o que aconteceu. Precisava que a fechassem, e eu me excedi muito com isso.

     O treinador roçou o queixo.

     — Seu arquivo diz que foi expulso da equipe por sua atitude.

     — O arquivo está equivocado. Fui chutado da equipe pela atitude do Stone. A minha foi muito boa. Ainda é, para ser honesto.

     O homem fez um som que poderia ser uma risada. Ou um grunhido.

     — Tem interesse em jogar outra vez?

     Nick fez um gesto com o braço que estava na tipoia.

     — Não posso. Ainda estou me recuperando. O doutor não quer que faça nada para forçá-lo.

     Uma desculpa que estava usando para tudo o que valia a pena. Que funcionou com sua mãe, mas nem tanto com Kyrian, que era um tirano desumano. Cada vez que dizia algo, Kyrian sempre replicava com: Rapaz , eu estripei homens que se queixavam menos que você. Agora, mova-se.

     E aparentemente, o treinador era desta última categoria, também.

     — Sim, mas posso acrescentá-lo à lista. Inclusive se não jogar. É um jogador legítimo. Vamos, Gautier. Necessito apenas de mais três camisas, e estaremos preparados para as eliminatórias. Faça isso pela escola ou, se não isso, faça-o por Malphas. Ele trabalhou duro este ano. Você vai privá-lo de uma partida pelo campeonato por causa de uma insignificante lesão?

     Insignificante lesão? Ele foi baleado e quase espancando até a morte por pessoas que pensava que eram seus amigos.

     Olhou para Caleb.

     Vá em frente e diga sim. Ficará mais fácil para eu manter um olho em você, se treinar comigo.

     Odiava quando Caleb e Ambrose brincavam em sua cabeça. Mas Caleb tinha razão. Já que por sua culpa Caleb estava na equipe em primeiro lugar, o mínimo que podia fazer era voltar. Para não falar que ele ficava bem com a camiseta negra e dourada, que o mantinham afastado das horríveis camisas que sua mãe insistia que usasse. Pelo menos nos dias de partida.

     — Tudo bem. Farei isso.

     — Ótimo. — O treinador sorriu. —Vou trazer uma camisa para você e o verei depois da escola.

     Nick abriu a boca para dizer-lhe que iria trabalhar, mas o treinador foi embora antes que pudesse fazer algo mais que abrir a boca. Encontrou o olhar de Caleb.

     — Kyrian vai me matar.

     — Não, não vai. Estou certo que entenderá.

     Nick desejou ter esse tipo de confiança. Em qualquer acontecimento. Mas não tinha. A vida e os empurrões basicamente a tinham arrancado quando tinha dois anos. Talvez três. Com um suspiro, começou a subir as escadas com Caleb um passo atrás dele. Ao entrar no prédio, parecia que todos estavam conversando a respeito dos artigos que foram roubados quando a escola estava fechada.

     Havia momentos em que ser pobre era uma bênção. Como não ter nada para roubar...

     Ainda assim, ele lembrou uma vez há alguns anos quando sua mãe tinha esbanjado e comprou duas cadeiras de jardim por cinco dólares no Walmart. Maldição, se alguém não as tivesse roubado da varanda dos fundos de seu desmantelado condomínio. Sua mamãe tinha chorado durante uma semana, e se pudesse pôr as mãos no ladrão, ele passaria a eternidade mancando. Que tipo de ser humano rouba cadeiras de plástico de jardim de alguém que era tão obviamente pobre? Certamente havia um canto especial no inferno esperando com seu nome gravado em uma placa.

     — Oi, Nick.

     Ele congelou em seu armário quando Nekoda aproximou-se.

     — Olá, Kody. Como você está?

     Ela dedicou-lhe aquele sorriso que nunca deixava de esquentar seu corpo até um nível equatorial.

   — Melhor agora que eu o vejo. Tentei te ligar ontem à noite, mas você não respondeu. Recebeu minha mensagem?

     Nick franziu o cenho.

     — Meu telefone não tocou. — Puxando-o para fora, comprovou o registro de chamadas. — Olhe. — Levantou-o para que ela o visse.

     — Estranho. Liguei três vezes.

     Isso era estranho.

     — Pode haver algo em nosso condomínio. — Além do fato que vivia em uma perpétua nuvem triste e estava infestado de baratas do tamanho de seu punho. Era provavelmente também mais uma Boca do Inferno, o que não permitia nenhum tipo de recepção que não fosse por duas latas unidas por uma longa corda. — Desculpe. Eu perdi isso. Você precisava de alguma coisa?

     — Só queria falar com você.

     Não sabia por que, mas essas palavras fizeram que ficasse ruborizado. Mesmo se ele continuava tendo pesadelos com ela havia algo que o atraía. Ela era irresistível, e tinha o sabor de seu beijo marcado constantemente nos lábios. Ele daria qualquer coisa para ter outro.

     — Nick! Acabo de ouvir!

     Antes que pudesse identificar quem estava falando, Casey se jogou em seus braços e o lançou contra os armários.

     — Está na equipe de futebol outra vez! Estou tão feliz por você. Agora pode ser meu acompanhante de volta para casa. Não será genial?

     Sentia-se como um camundongo apanhado entre dois gatos ao ver o olhar de irritação no rosto de Nekoda.

     Casey não deu atenção.

     — Quando terá sua camiseta? Fica tão sexy vestindo-a.

     Ajude-me. Sua voz soou como uma mosca na cabeça.

     Sem dizer uma palavra, Nekoda girou e seguiu pelo corredor.

     — Kody! — Ele tentou segui-la, mas Casey o impediu.

     — Não quer falar com ela, Nick. É uma perdedora.

     Sim, claro. Ela também foi a única pessoa de sua escola que o tinha visitado quando esteve no hospital. Sim, ok, ela esteve lá como voluntária, mas fez questão de ir ao seu quarto todos os dias para animá-lo. E ela não tinha porque fazer isso.

     Ele tentou afastar-se de Casey. Era como uma aranha de velcro. Aonde fosse ela estava ali, agarrando-se a ele. Não sabia como escapar dela sem machucá-la.

     Frustrado, deu-lhe um olhar feroz.

     — O que há com você?

     — Nada. Só quero passar tempo com você, Nick.

     — Desde quando?

     — Você está trabalhando para Kyrian Hunter agora. É um de nós.

     Não estava tão certo de que queria ser um deles. Devido à forma com que o tinham tratado, tinha aprendido há muito tempo que não queria ser parte do grupo. Não gostava da forma como funcionavam. Se ser um deles significava ser cruel com alguém, ele preferia ser um pária social.

     — Olhe, não estou em nenhum filme adolescente. A popularidade não me vai subir à cabeça, para que eu esqueça meus amigos. Não se pode jogar por terra os anos de ignorância com apenas um gesto de bondade. Agora, desculpe-me. — Decisivo, ele passou junto dela para ir atrás de Kody.

     Mas já era muito tarde. Não havia nem sinal dela em nenhum lugar.

     Fantástico. Sentia-se como um miserável ainda maior. Droga, eu sou um idiota…

     — Nick? — Casey pegou sua mão, surpreendendo-o ao atrever-se a tocá-lo, o imundo. — Sinto muito se o tratei mal no passado ou feri seus sentimentos. Como qualquer outra pessoa, eu posso ser egoísta às vezes e não ver o que está diante do meu rosto. Talvez minha mãe tenha razão e tenho que levantar a vista do meu telefone de vez em quando. — Ela olhou para ele por baixo de suas pestanas, no que seria a mais visão mais sexy que jamais viu no rosto de uma garota viva. — Você tem razão. Não o vi antes. Meu engano. Mas eu o vejo agora. Não pode me perdoar por ser estúpida?

     Aquelas palavras inesperadas tocaram uma parte dele que era desconhecida e estranha. Então lembrou o que Ambrose havia dito. Casey seria uma boa namorada enquanto ele estivesse na escola.

     E ele ainda queria Kody para esse papel. Ela era a única que tinha sido gentil quando ele precisou. Ela era a única com quem ele gostava de falar.

     Quatorze anos, e não posso chegar ao tempo de um dia com uma só garota. Agora estou dividido entre duas delas...

     A garota mais popular por quem havia suspirando desde que era um menino e outra que apenas entrou em seu mundo e o virou do avesso.

     A vida não era justa. E ele não tinha nem ideia do que devia fazer. Escutar Ambrose, ou escutar seu intestino…

     — Vamos — disse Casey, puxando-o seu braço. — Eu o levarei à aula.

 

   Grim parou ao sentir uma leve brisa beijar-lhe a pele fria. Era uma presença que conhecia desde o início dos tempos. Cruel e insensível, ela era sua melhor amiga.

     E sua pior inimiga.

     Juntos eles tinham causado mais destruição do que um tornado de magnitude F5 em um longo fim de semana de duração.

     Isso foi só em seus bons tempos. Nos maus… Bem, os cientistas afirmavam que um F6 era impossível. Com seus poderes combinados, não só era possível, como também inclusive essa categoria era insignificante em comparação com os danos que ele e Laguerre Wynter podiam fazer.

     — Laguerre... O que a traz por aqui?

     Ágil, sexy e vibrante, entrou em seu domínio privado como se fosse dela. Com abundantes cachos castanhos escuros que caíam até a cintura, ela era finamente formada. Como sempre, seus lábios eram vermelhos brilhantes combinando com a calça e a jaqueta. No momento em que brilhou ao seu lado, o fogo na lareira de mármore negro queimou, atirando brasas pelo chão de madeira ébano.

     Ela tinha esse efeito sobre a maioria das coisas.

     — Queria que soubesse que estou facilitando as coisas.

     Essas palavras encheram-lhe de mau pressentimento. Sempre que Laguerre facilitava algo, nunca era bom. Não para ele e especialmente para o seu alvo.

     — O que quer dizer?

     Ela franziu o rosto.

     — Existe muita bondade em Nick Gautier. Não importa o muito que abusemos dele, ele não vai mudar. Portanto temos que fazer algo para purificá-lo.

     — Não pode matar sua mãe. — Todos sabiam que era a única maneira infalível de desencadear as partes mais escuras dos poderes e da alma de Gautier. Se Cherise Gautier morresse, ele estaria além da redenção e seria mais fácil de transformar-se. Mas...

     — Ela está fora dos limites para nós. — Quem quer que a matasse teria uma morte brutal garantida, e nem sequer ele, a própria Morte, era imune.

     Wynter passou a longa unha vermelha pela mandíbula.

     — Sim, mas há outras maneiras de fazer com que mude e nos assegurarmos que esteja ao nosso lado nesta batalha.

     Não que ele não tivesse podido identificar. A fortaleza de Nick era devidamente impressionante. Quanto mais estava ao redor do menino, mais duvidava sobre sua capacidade para corrompê-lo, inclusive com a ajuda da fonte original.

     — Ele tem que terminar seu treinamento antes que seja de utilidade para nós.

     — Talvez, mas se ele tiver um motivo para mudar, ele poderia abraçar esses poderes ainda mais e utilizá-los onde lhe dissermos.

     Grim não estava tão seguro.

     — Ele ainda é ingênuo. Realmente acredita em finais felizes.

     Ela encolheu os ombros com indiferença.

     — Então vamos ter que tirar essas falsas esperanças.

     Se alguém podia, essa era a Guerra. Matar as aspirações das pessoas era sua especialidade.

     —O que tem em mente?

     Com um sorriso maligno, ela afastou-se dele para esquentar as mãos junto ao fogo.

     — Já tenho a minha pessoa no lugar. Alguém em quem Nick confia, que não é o que ele pensa.

     — O que quer dizer?

     Ela riu.

     — Conjurei a um velho cúmplice nosso que se comprometeu a nos ajudar com nossa busca. Um que é agora corpóreo no reino humano.

     Isso explicava os adolescentes mortos que tinham sido descobertos pela polícia. Sacrifícios feitos para conseguir colocar seu homem no meio das coisas.

     — E nosso amigo prometeu que a vida de Nick será virada do avesso. Antes que tudo seja dito e feito, seus amigos verdadeiros serão assassinados e ele será nosso. — Voltou-se para ele com outro sorriso maligno. — Então controlaremos o mundo mais uma vez, e nem sequer os antigos poderes poderão nos deter.

     Grim devolveu-lhe o sorriso. Isso era definitivamente algo em que ele poderia fincar os dentes.

 

   Nick sentou-se na aula de Inglês, desnorteado. Por que isso era mesmo um tema de discussão? Sério? Ele falava inglês, fluentemente na maioria dos dias, a primeira coisa na manhã ou realmente a última na noite. Isso, como tudo o que eles o obrigavam a sofrer no colégio, era uma épica perda de tempo. Completamente irrelevante. Seria, honestamente importante, em cem anos se ele houvesse ou não lido Moby Dick?

     Teria alguma vez uma oferta de emprego no qual o pedissem para fazer um diagrama de uma frase ou escolher um gerúndio?

     — Deixa de reclamar, Nick. Você deveria tentar ser um demônio imortal que vive desde a aurora dos tempos e ter que sentar-se com esta merda, quando o Inglês não é nem sequer minha língua nativa. E se você realmente pensa que fala com fluidez, cara, eu sei então o que é um gerúndio.

     Nick olhou com desconfiança para Caleb, que estava sentado ao seu lado na outra fila, fazendo essa coisa assustadora de fundir-se com sua mente.

   — Claro, mas esse punhado de anos é só um pontinho luminoso em sua longuíssima vida. Na minha ele é uma porcentagem significativa.

     Caleb zombou em sua cabeça.

     — Olha aí, você está usando algumas coisas que aprendeu. Matemática. Que conceito? Talvez não seja um desperdício, afinal.

     Nick bufou.

     — Olhe quem saiu do coma. Tem algo a dizer à classe?

     Piscando, Nick focou na professora.

     Que tática utilizar? Melhor não dizer nada. Se não fazia outra coisa, pelo menos passaria longe da detenção.

     — Hum, o que?

     A senhora Richardson caminhou para ele olhando-o como uma troll amarga que era. Ela odiava ensinar, e todo mundo sabia. Sua parte favorita do trabalho era envergonhar ou depreciar seus alunos cada vez que os obrigava a abrir a boca.

     — Estamos aborrecendo você, senhor Gautier?

     Cara, era impressionante como ela fazia com que seu nome soasse como um insulto. Ele gostaria de dominar esses diabólicos truques humanos.

     Mas primeiro, tinha que sair da frigideira e esperava evitar o fogo.

     — Não estou aborrecido. Espirrei, sinto muito.

     — Isso foi uma patética desculpa para um espirro.

     Eu juro que ela deveria argumentar diante da Corte Suprema.

     — Eu estava tentando não incomodar a classe com ele.

     Ela estreitou seu olhar incluso mais, como se soubesse que ele estava mentindo, mas não tão positivamente que lhe chamasse a atenção por isso.

     — Então talvez você gostaria de nos dar seu ponto de vista sobre a necessidade do Ahab por vingança?

     Na realidade preferia que não. Mas sabia que tinha que fazer isso, já que as oportunidades de que ela o deixasse escapar agora rivalizavam com as que ele ardesse por combustão espontânea em seu assento, então respondeu honestamente.

     — Foi uma estupidez.

     Ela arqueou uma sobrancelha.

     — Estúpido em que sentido? Do jeito que você e seus amigos passam todo o tempo jogando videogame e alimentando-se em uma sociedade consumista inútil? Ou uma estupidez como daquelas de vocês que pensam que podem cochilar e mandar mensagens de texto em minha sala e ainda passar?

     Estúpida como você quando acreditou na vendedora que lhe disse que esse vestido cairia bem em você? Era difícil morder esse comentário, mas sabia que era melhor isso a que o vomitá-lo.

     Só a ela era permitido ser venenosa na sala. Todos os outros estariam suspensos.

     Limpando a garganta, Nick coçou o pescoço, desconfortável com o fato de que todo mundo estivesse olhando para ele agora. Um punhado ria dissimuladamente. Mais dois o desprezavam e uma garota rodou os olhos como se ele fosse deficiente mental. Odiava ser o centro de atenção. Por que os professores tinham que fazer isso com ele? Era como se estivessem decididos a selecionar os meninos que menos queriam participar ou esperavam até saber qual era o pior momento para enviar um cara ao conselho. Não podiam deixá-lo voar sob o radar? Ao menos por um ou dois dias?

     Não, vamos humilhar Nick ainda mais. Porque precisamos afrontá-lo, já que a vida não o suga o suficiente.

     Nick preparou-se para o ridículo antes de defender sua posição.

     — Bem… ele deixou que aquilo arruinasse sua vida. Estava tão obcecado por ir atrás de uma coisa que o feria que perdeu a perspectiva de todo o resto. Isolou-se de todos e de tudo. Paranoico. Sentia como se não pudesse confiar em ninguém ao seu redor exceto em si mesmo. No final, perdeu tudo, inclusive sua vida. E por quê? Total estupidez, se me perguntar isso.

     — Então está me dizendo que se fosse Ahab, você o deixaria ir e seguiria em frente com sua vida? Inclusive se fosse a pessoa que mais amava sobre a terra a que fosse assassinada e você ficasse com uma ligeira deformidade por isso?

     — Absolutamente. Porcarias acontecem a todo mundo. Coloque-se como um adulto e enfrente isso. Tem que deixá-lo ir e seguir adiante.

     Ela tocou a bochecha com o lápis enquanto considerava o que ele tinha tirado do livro.

     — Interessante ideia. Ingênua e imatura, mas interessante — olhou para Caleb. — E você, senhor Malphas? O que tem a que acrescentar à opinião mal concebida do senhor Gautier? O que você tira do livro, caso realmente o tenha lido em vez de ver um filme como a senhorita Harris.

     Tina escapuliu deslizando em sua mesa. Richardson nunca ia deixar viver a pobre garota.

     Caleb se inclinou para trás e cruzou os braços sobre o peito, presunçoso da maneira de alguém que provavelmente tivesse lido cada livro que tivesse sido escrito.

     — Vejo-o como um paralelismo do Édipo Rei.

     — Intrigante. Continue.

     Caleb bocejou antes de responder.

     — Mesmo que alguém possa ver a maldição que pesa sobre eles ou conheçam seu destino, não podem mudá-lo ou detê-lo. A profecia é a profecia. Acontecem coisas que não podemos controlar. É quando você tenta impedi-las que realmente começam as asneiras da vida.

     — Explique-se.

     — Bem, Ahab foi advertido repetidamente por várias pessoas que se não deixasse sua obsessiva busca, morreria. Como diz Starbucks: É uma viagem doente! Começou mal, continuou mal. “Deixe-me enquadrar os estaleiros enquanto possamos, velho, e aproveitar o vento favorável que nos levará rumo à pátria, onde poderemos iniciar logo outra viagem melhor que esta”. — Caleb olhou para Nick. — Ahab não escutou e morreu por que era estúpido.

     Nick riu.

     Até que sua professora o fulminou com o olhar.

     Encolhendo-se, ficou sério imediatamente.

     — Interessante resumo, senhor Malphas. — dirigiu-se ao grupo. — Hora de redação, classe. Espero que todos tenham suas leituras em dia. Se não, eu logo saberei e vocês se arrependerão. E não tentem sequer me jogar seus pais em cima de mim. Se eu receber um telefonema a respeito de tratá-los injustamente, deduzirei automaticamente trinta e cinco pontos de sua nota final. E dez pontos de cada um, só como medida de prevenção.

     Ignorando-a, Nick queria saber por que Caleb havia tão obviamente dirigido as últimas palavras para ele. Ele podia ser um montão de coisas na vida, mas nunca tinha sido um idiota. Especialmente quando sua vida estava em questão. A obsessão não era coisa sua. Ele acreditava em jogar com as probabilidades…

     Oh, espere. Caleb sabia de seu desejo de ir atrás de Alan para atirar contra ele?

     Sim, está bem, não tinha sido tão fácil deixá-lo ir. Mas aquela pessoa desprezível havia atirado nele. Atirado nele. E o teria matado, também, sem pensar duas vezes, se Kyrian não o tivesse parado, e Alan teria espancado dois anciões inocentes. Alguém tinha que deter aquele animal. Ir atrás de Alan não era uma obsessão. Era um serviço público.

     De repente, o interfone soou, fazendo que vários meninos, incluindo Nick, saltassem em seus assentos.

     — Senhora Richardson? Poderia enviar Nick Gautier ao escritório?

     O estômago do Nick bateu no chão. Essas convocatórias nunca eram boas, ao menos não quando dizia respeito a ele.

     O que eu fiz agora?

     Realmente não era essa a questão. Do que estão me culpando agora? Ele era a única pessoa que nunca podia sair com qualquer coisa sem que o pegassem. E ele era o único que servia de exemplo para todo mundo. Ou pior, era totalmente inocente do assunto e o culpavam de qualquer maneira e ainda continuava sendo um exemplo.

     Ela curvou os lábios para ele enquanto falava com o interfone.

     — Ele está a caminho.

     Nick pegou sua mochila, apenas para o caso de que surgisse uma expulsão, depois se foi. Alguém jogou uma bola de papel contra ele enquanto Richardson escrevia as tarefas na placa invisível de costas para eles. É obvio que ela perdeu isso.

     Se Nick tivesse feito isso, ela teria girado e o teria pego no momento com a mão levantada.

     Ignorando o insulto, que ele tinha certeza que vinha de algum assecla de Stone, e o fato do muito que isso o chateava, pendurou a mochila no ombro e iniciou a Marcha Fúnebre de Bataan para o escritório. Droga, isso poderia ir mais longe? Poderia transformar-se em algo pior?

     Posso ter um dia no colégio sem que seja obrigado a ir ao escritório? Só um? Realmente era pedir muito?

     Com o estômago encolhido, abriu a porta e caminhou até o longo balcão de madeira clara. A secretária, que era da idade de sua mãe, mas longe de ser tão atraente, dedicou-lhe um franzido de lábios presunçoso.

     — O senhor Head quer vê-lo.

     É obvio. Por que mais estaria ali? Não era como se estivesse fazendo a entrega.

     Nick foi até a porta atrás do balcão, que estava ligeiramente entreaberta, e bateu no vidro embaçado que brilhava com o nome do novo diretor.

Richard HEAD

DIRETOR

     — Entre.

     Nick empurrou a porta abrindo-a de modo que pudesse entrar na Câmara da Condenação. O interior era ainda mais escuro e sombrio. Por alguma razão, as luzes fluorescentes nessa sala emitiam uma cinza vertigem que pairava sobre tudo como um manto macabro.

     — Feche-a em seguida.

     Sim, aquele tom indicava que sua situação era ruim. Nick obedeceu, então foi até a cadeira em frente à mesa de madeira escura.

     Estranho, todos os vestígios de Peters haviam sido removidos, e os artigos pessoais de Head estavam por toda parte como se ele tivesse sido diretor ali durante anos. Era algo arrepiante quando pensava sobre isso.

     Um dia você foi comido por um colega de trabalho, e no seguinte o mundo segue adiante como se você nunca tivesse existido. Ninguém mais falava de Peters.

     Havia sido apagado por completo. Um calafrio desceu pela coluna de Nick. Apesar de Peters ter sido um idiota, era decepcionante perceber o pouco que o mundo se importava com quando você se foi.

     Enquanto isso, lá estavam eles…

     Um homem de meia idade, com a cabeça calva, o novo diretor parecia ainda mais severo do que era Peters. Será que eles eram enviados a um campo de treinamento especial para dar-lhes toda essa pomposa condescendência que girava em suas bocas?

     Ele fulminou Nick por cima do aro de seus óculos marrons.

     — Você sabe por que está aqui?

     Você precisa de alguém para dar uma patada e eu tirei a sorte grande? Ele guardou essa sugestão para si mesmo.

     — Não senhor.

     — Pense, Gautier. Pense.

     Sou o humano mais infeliz que já nasceu e a quem vocês gostam de ferrar?

     Morder o sarcasmo de volta era muito mais fácil dizer do que fazer.

     — Sinto muito, senhor. Nenhuma pista.

     Head deixou um Nintendo portátil sobre sua mesa.

     — Olhe, algo familiar?

     Droga. O que ele esperava que lhe respondesse? É obvio que o reconhecia. A maioria de seus colegas de sala tinha um. Eram comuns e frequentemente decorados pelos proprietários, onipresentes.

     O cenho franzido de Head se intensificou.

     — Um gato comeu sua língua, menino?

     Não, foi a confusão. Ainda não tinha nenhuma ideia do que estava acontecendo. Mas antes que pudesse falar, bateram na porta.

     O novo diretor a abriu.

     — Estou interrompendo?

     — Sim — o tom do Head tinha sido ainda mais frio do que seu sorriso.

     O treinador o ignorou.

     — Gautier. Que bom que está aqui. Estava a ponto de ir procurá-lo. — Entrou e estendeu a sua camiseta.

     Nick deveria estar animado, mas dadas as circunstâncias, ia esperar para comemorar.

     — Talvez queira adiar isso — disse Head em um tom direto.

     O treinador franziu o cenho.

     — Por quê?

     — Estou prestes a enviar este pequeno ladrão à prisão, e a última coisa que precisamos é que prendam outra pessoa vestido em uma das camisetas do nosso colégio.

     Nick engasgou. Prisão? Por quê? Por respirar?

     — O que ele fez? — perguntou o treinador.

     Sim, o que eu fiz?

     — Roubar. Isto — sustentou o Nintendo — foi encontrado em seu armário. Pertence a…

     — Kyl Poitiers. Ele o emprestou ao Nick na aula de ginástica.

     — O quê?

   Nick estava tão atônito quanto o diretor, que refletia a palavra que estava gritando em sua mente. Ninguém havia emprestado nada a ele, e definitivamente ele não o tinha roubado. Mas sabia que era melhor calar-se até que entendesse o que estava acontecendo. Qualquer coisa poderia e seria usada contra ele.

     O treinador gesticulou para Nick.

     — Vi o Kyl entregar para ele.

     Head ainda resistia em acreditar isso.

     — Está equivocado. O número de série está em minha lista de objetos roubados, e isso pertence a Bryce Parkington.

     — Mais vez, eu sei o que vi na minha aula. Se é roubado, Poiters está culpando Nick. Mas isso é pouco provável. Está certo que o número está correto?

     — É óbvio que estou certo. O número está aqui mesmo. — Head comparou os dois números, então amaldiçoou em voz baixa. — Bem, isso é estranho. Juro que os números antes coincidiam.

     O treinador deu de ombros.

     — É um engano comum. Acontece com o melhor de nós. Além disso, esses números são tão pequenos nos dispositivos, é fácil confundi-los. — Fez um gesto para Nick.— Vamos, Gautier. Eu o levarei de volta para a sala.

     Head continuava resmungando olhando de um lado para o outro com os números de série, tentando fazer com que coincidissem.

     — Espere — disse quando o treinador alcançou a porta. Estendeu o Nintendo ao Nick — Você pode devolvê-lo, já que não é um dos objetos roubados. — Então seu tom acentuou-se novamente. — E que não me deixe pegá-lo jogando na sala ou no corredor, ou eu o confiscarei.

     — Sim, senhor. — Nick agarrou o console de jogos e fez uma saída rápida.

     Continuava sem ter nem ideia do que estava acontecendo, mas não ia abrir a boca e meter-se em problemas agora que se livrou deles. Especialmente desde que era inocente de qualquer delito.

     Logo que saíram do escritório e entraram no corredor, longe de qualquer que pudesse ouvi-los por acaso, o treinador o parou.

     — Aposto que você está se perguntando o que está acontecendo, não é?

     — Estou muito confuso. Definitivamente.

     O treinador agarrou o Nintendo das mãos de Nick e jogou com ele.

     — Eu fiz uma exploração no seu arquivo escolar. É realmente impressionante.

     Nick tinha um mau pressentimento de que ele não estava falando de suas notas ou da pontuação de seus exames.

     — Como assim?

     — Você tirou no vestibular a nota mais alta que qualquer menino jamais tirou. É o único que fez cem por cento e também obteve as bonificações das três perguntas corretas. Você sabia disso?

     De acordo. Pelo menos uma vez ele estava equivocado. Uma onda de orgulho o encheu. Isso significava alguma coisa, já que essa era uma das melhores escolas do país, para não dizer do estado da Louisiana, e mais difícil de entrar ainda que a própria Ben Franklin High.

     — Não. — Haviam-lhe dito que ele tinha feito um teste realmente bom e lhe deram uma bolsa de estudo completa, mas ninguém havia dito que a pontuação tinha sido perfeita.

     Uau. Não admira que sua mãe se retorcesse quando pensava que ele estava afrouxando.

     — Mas isso não foi o que encontrei de mais fascinante. É de seu outro recorde que queria falar.

     Seu estômago afundou. Aqui vamos nós…

     Perdedor. Imbecil. O histórico de golpes de sua família. Você não tem nenhuma esperança de futuro, então poderíamos jogá-lo agora, direto na sarjeta que o gerou. Tinha ouvido isso mais vezes do que podia contar de mais pessoas do que podia nomear. Peters em particular tinha um prazer sádico em deixá-lo saber que não tinha nenhum futuro absolutamente.

     — No último ano, — continuou o treinador— você esteve em trinta e cinco brigas. Trinta e cinco, menino, isso tem que ser um recorde. Descontando os dias em que esteve ausente, isso seria uma a cada três dias na escola. O fato de que ainda seja um estudante aqui, mesmo com sua pontuação nos exames e cursos, é a coisa mais incrível que ouvi falar. Dei aulas em muitas escolas ao longo dos anos e nunca vi ninguém que fosse pior encrenqueiro. Realmente impressionante.

     Isso aniquilou cada parte do orgulho que, temporariamente, Nick houvesse tido. Sabia que parecia ruim, mas não era culpa completamente dele. Não importava o quanto o insultavam, o que era a cada hora, era quando se metiam com sua mãe que virava Donkey Kong. Infelizmente, Stone sabia, e então chamava sua mãe de nomes desumanos e dizia coisas horríveis sobre seu caráter. Apesar de uns poucos enganos que todo mundo cometia, sua mãe era uma santa, e quebraria a cara de qualquer um que dissesse o contrário, o que aparentemente acontecia a cada três dias que estava na escola.

     Suspirando, Nick devolveu-lhe a camisa.

     — Suponho que quer isto de volta.

     O treinador se negou a pegá-la.

     — Não. Tenho outra proposta para um menino com suas … habilidades.

     Nick não precisava do pêndulo ou do seu livro para ver aonde isto iria. Suas tripas diziam que ele não gostaria, e quando o treinador falou, ele confirmou essa suspeita. Em voz alta.

     — Tenho um grupo de meninos que me fazem favores. Eu gostaria que você se unisse a nosso grupo de elite.

     Oh, sim, claro. Não obrigado. Havia alguns grupos dos quais não queria fazer parte, e esse soava como um que tinha que estar no topo de sua lista.

     — Cara, eu não faço nada perverso. De fato…

     — Não é nada disso, Nick. — estendeu-lhe o Nintendo. — Nós conseguimos coisas.

     Quem diria… O treinador era parte disso?

     Isso não era possível. Por que faria uma coisa dessas?

     Por outro lado, os roubos não começaram até que o treinador tivesse chegado. Considerando isso, estranhamente fazia sentido. Uma renda suplementar para um empregado mal pago. Todos os professores que conhecia se queixavam do seu salário, e a maioria procurava outros modos de aumentar seus ganhos.

     Entretanto, isso era excessivo.

     — Você rouba — acusou Nick.

     O treinador franziu o rosto.

     — Essa é uma palavra muito feia. Nós simplesmente o encontramos e tomamos emprestado. Afinal de contas, as pessoas nunca devolvem o que pedem emprestado e os meninos ricos e esnobes daqui têm muito, nem sequer agradecem por isso. Mamãe e Papai substituem suas coisas sem pensar duas vezes, e reivindicam o seguro. É assim, não é? Pense nisso como Robin Hood. Você está aliviando os ricos do que não merecem e dando aos que necessitam. Nós.

     Nick negou com a cabeça para o argumento que o treinador usava. A semântica não podia justificar. Isso era roubar, pura e sinceramente. Roubar era roubar e isso estava errado.

     Sua mãe o tinha educado melhor que isso.

     — Esqueça. Não sou um ladrão.

     Ele começou a partir, mas o treinador o parou.

     — Você nos ajudará, Gautier. Se não fizer isso, vou me assegurar que o próximo item que encontrarem em seu armário te proporcione uma condenação mais longa na prisão do que por isso. — Balançou o Nintendo em seu rosto. — E com o Diretor Dick desejando chamar os policiais e ter um bode expiatório para aplacar as chamadas dos zangados pais exigindo-lhe que pegue o ladrão, ninguém vai lamentar seu sacrifício.

     Nick sentiu seu pânico crescer. Ele sabia que era verdade. As pessoas desta escola não pestanejariam ao vê-lo partir e pensariam que isso era exatamente o que merecia um criminoso. Ninguém jamais acreditaria nele, o menino pobre da escola, não tinha estado o bastante desesperado para fazer isso.

     — Você não se atreveria.

     — Experimente. Todo mundo já pensa que você é um mentiroso e um ladrão. Noventa por cento dos estudantes e cem por cento dos professores estão convencidos de que você trapaceou para entrar. Considerando isso, você realmente acha que acreditariam em você ao invés de mim? Afinal, é ver para crer.

     Nick queria negar isso, mas sabia que era verdade. Muitos de seus companheiros de sala o odiavam e havia quem adoraria vê-lo pelas costas. Enviá-lo para a cadeia seria como ganhar na loteria.

     Isso mataria sua mãe.

     Não vá para a cadeia, Nicky. Faça o que fizer, não seja como seu pai. Trabalhei muito duro e me sacrifiquei muito para vê-lo chegar a esse final. Ela havia dito isso tantas vezes que era como um zumbido constante em sua cabeça.

     — Por que faz isso comigo?

     O treinador deu-lhe um sorriso cruel.

     — Porque você tem as habilidades que eu preciso. Tenho uma lista de itens e muito pouco tempo para reuni-los. Se eu falhar, não vai querer saber o que acontecerá com você. Isso eu prometo. Mas se me ajudar… eu o recompensarei enormemente.

     Por que precisava da ajuda de Nick para roubar?

     — O que é? Você tem problemas com jogo ou algo assim?

     — Você é um menino inteligente. É uma dívida que tenho que pagar e uma pela qual farei tudo o que for para saldá-la. Você me ajuda e eu te ajudo.

     E se não fizesse, o idiota o enviaria para a cadeia. Estremeceu só de pensar.

     Então ele teve uma ideia.

     — E se eu empresto o dinheiro que você necessita? Pode pagar aos seus credores, apostadores ou o que quer que sejam e todos seríamos felizes.

     O treinador sacudiu a cabeça.

     — Meus itens são muito específicos. O dinheiro não faria nenhum bem a nenhum de nós e não pagará minha dívida. Ou mantê-lo fora da prisão.

     — Olhe, não quero ser um ladrão.

     — Ok. Como eu disse, pegue-os emprestados. Não me importo em saber como consiga o que preciso enquanto os itens estejam em minha posse e sejam os exatos, e quero dizer os mesmos, artigos de minha lista das pessoas que eu disser. Você entende? Não pode haver nenhuma substituição absolutamente.

     Nick concordou. Se ele pudesse tomá-los emprestados, não seria tão ruim. Só que ele sabia que o treinador não os devolveria…

     Cara, como ele começou a se meter nestas coisas?

     O treinador deu-lhe um pedaço de papel dobrado.

     — Você tem seis dias, Gautier. Depois disso, eu vou fazer com que o senhor Head esteja muito feliz no que cabe a você.

     Fabuloso.

     Nick observou o treinador ir embora. Com o coração pulsando, desdobrou o papel e o leu. Atônito, sentiu que sua mandíbula caía ao ver o que o treinador queria que ele roubasse seus companheiros de sala.

     Mas um dos artigos em particular o sobressaltou.

     O treinador queria que ele roubasse o solitário diamante do colar de Nekoda.

     De maneira nenhuma. Não farei isso. Não tinha intenção de ferir Kody. De maneira nenhuma ou forma. Não faria isso.

     O treinador podia torrar, pelo que o importava.

     E ele manteve essa resolução até a sexta aula, quando a polícia chegou e prendeu Dave Smithfield tirando-o de sua sala.

     Dave chorava como um bebê enquanto o algemavam e liam seus direitos.

     — Eu não tomo drogas, juro! Alguém plantou isso no meu armário. Estou dizendo a verdade. Por que não acreditam em mim? Não fiz isso. Não fiz!

     Negaram-se a escutá-lo quando o arrastaram para fora da escola enquanto Nick e o resto olhavam horrorizados.

     Até que ele encontrou o sorriso satisfeito do treinador Devus e a advertência em seu olhar. Então soube a verdade. O treinador havia plantado aquilo no armário e provavelmente também chamado a polícia.

     E mais tarde naquela noite, após o treino de futebol, enquanto Nick via as notícias na casa de Kyrian, ele descobriu o quão doente poderia ser realmente o seu novo treinador.

     O rosto da comentarista estava triste enquanto lia o teleprompter.

     — Esta noite aconteceu uma tragédia na ala juvenil. Um estudante de quatorze anos do St. Richards High School, David James Smithfield, que foi detido esta tarde após terem sido encontradas drogas em seu armário no colégio, foi encontrado morto em sua cela há uma hora. As autoridades esperam os resultados da autópsia, mas ao que tudo aponta, eles acreditam que foi um suicídio…

     Sim, claro. Nick teve um mau pressentimento a respeito disso quando tirou o pêndulo do bolso. Dave não era o tipo de pessoa que se suicidaria. Muito menos depois de ser preso. Conhecia o menino durante anos. Sempre despreocupado, Dave nunca envolveu-se em algo imoral ou ilegal. E tão pequena como era a escola, Nick saberia se o tivesse feito.

     Com o coração acelerado, Nick abriu o livro sobre a mesa e passou o pêndulo pela página.

     Sustentando a corrente do modo que Grim havia ensinado, concentrou-se na pergunta.

     — O treinador foi responsável pela morte do Dave?

     Sem hesitação, ele oscilou sobre o sim. Com energia. Então começou a mover-se em um estranho padrão que não conseguia identificar. Incapaz de decifrá-lo, virou a página e se assegurou de que nem Rosa nem Kyrian o viram utilizá-lo.

     — Tudo bem, livro. Diga-me o que está acontecendo. — Utilizou o pêndulo para picar o dedo antes de deixar cair três gotas de sangue.

     Elas salpicaram brilhantes contra o branco, antes de começar a misturarem-se e moverem-se como uma exótica serpente. Nick viu como as palavras surgiam sobre as páginas.

         O que vem fácil, vai fácil.

O futuro é algumas vezes difícil de saber.

Mas se você não o seguir até o fim… De sua vida em breve você irá se despedir.

     O estômago encolheu-se tanto que podia formar um diamante.

     — Seguir até o fim o quê? O que o treinador quer ou as minhas convicções?

     A página ficou completamente vermelho sangue brilhante, e depois explodiu, literalmente. As palavras se reagruparam em um movimento ainda mais fluido.

         Através da névoa a luz brilhará.

         Então sua a resposta será.

     Que porcaria isso queria dizer? Por que mesmo ele estava usando essa coisa inútil?

     Nick grunhiu.

     — Estúpido e idiota livro. Você não vai me responder, não é?

Você tem a resposta que procurava.

Não importa o que você faça, sentir-se-á perturbado.

A vida nunca é fácil, não importa o que eles digam.

E cada decisão deve cuidadosamente meditar.

Ao final, as consequências serão tuas e só você tem que confrontá-las.

Então pense muito devagar e com a carreira tome cuidado.

     Que carreira?

     Agora tinha uma enxaqueca por tentar decifrar tudo isso. Mas uma coisa seguia lhe dando voltas na cabeça. Uma coisa a que tinha que ter resposta.

     — O treinador matou Dave?

Essa resposta já chegou até você.

Perguntar outra vez, não vai influenciar o resultado.

Mas, sim, o treinador não é o que aparenta.

E você está no coração de todos os seus planos.

     Aquilo Nick entendeu perfeitamente. Transformaria-se em um dos instrumentos do treinador. Apenas o pensamento o deixava enjoado. Não queria fazer isso.

     — Há alguma maneira de evitar que ele roube?

Pergunte ao seu coração o que desejas.

E os insultos de outros jamais tema.

     O problema era que não temia os insultos de ninguém. Tinha sido alimentado com eles desde seu nascimento. O que temia era que seu treinador o enviasse à prisão durante a maior parte de sua vida adulta.

     Ou pior, que ele o matasse como tinha feito com o Dave.

     Com esse pensamento veio a lembrança da visão que havia tido. Uma em que jazia morto enquanto segurava o colar de Kody.

     O mesmo colar que o treinador queria que ele roubasse…

     E Grim pensava que seu instrumento de premonição não funcionava.

 

   Nick sabia que precisava pressionar o treinador. Ele disse anteriormente que havia ensinado em muitas escolas. Se tivesse feito dos roubos um hábito, então era lógico que não seria capaz de permanecer em um lugar muito tempo sem que as pessoas o apanhassem. Ou um de seus alunos o descobriria e o delataria. Isso explicaria o porquê estava tão disposto a pegar e mudar-se na metade de ano.

     Enquanto Nick esperava que Kyrian descesse e aprovasse o pedido de um novo casaco, ele fez uma pesquisa online que deu em nada. Principalmente porque não era especialista em busca de pessoas. Precisava de alguém com muito mais experiência com o computador.

     Pegou o telefone e ligou para Bubba.

     — Você ligou para 1800, Companhia Autorizada Bubba. Sinto muito, não estou disponível para atender neste momento. Estou bem enrolado, atendendo algum pesadelo de computador ou estou fora libertando o mundo de seus predadores zumbis. De qualquer maneira, deixe uma mensagem, e assim que matar o que me aflige, responderei-lhe o quanto antes. Obrigado por ligar, e tenha um bom dia.

     Nick balançou com a cabeça enquanto ria. Pelo menos uma vez por semana, Bubba mudava sua mensagem. Como o homem mantinha um próspero negócio apesar da sua loucura estava além da compreensão de Nick. Apesar disso, Bubba era extremamente divertido.

     Depois de desligar, discou o número de Mark.

     — Aqui é Fingerman. Ah, você está falando com minha voz e não comigo! Infelizmente eu estou fora, com Bubba e não com uma mulher porque sou um burro. Não digo o que estou fazendo, mas se tratarem-se dos meus pais, asseguro-lhes que não estou fazendo nada ilegal ou imoral, e não estou fazendo mal a nenhum animal de fazenda. Entretanto, por favor, reservem o dinheiro da fiança porque vocês sabem como são as coisas que Bubba me coloca, e eu posso precisar disso logo. Todos os outros, deixem uma mensagem e logo que retorne a uma área onde haja cobertura outra vez, retornarei a chamada. Mesmo se eu tiver que fazê-la do além. Obrigado.

     Animais de fazenda? Agora Nick sabia o que Mark queria dizer quando falou que derrubar vacas tinha sido um passatempo seu na escola secundária (interrompido abruptamente quando uma vaca caiu em cima dele e quebrou sua perna em três lugares), mas a maneira que tinha para expressar isso...

     Sim, Mark precisava de um redator de correio de voz.

     Nick suspirou enquanto considerava suas outras opções.

     Espera... Conhecia outro aficionado em computação.

     Madaug St. James. Se houvesse alguém para apostar dinheiro em uma disputa com Bubba no que se tratava de computadores, esse era Madaug. Seu companheiro de sala nasceu com um teclado em uma mão e um modem no cérebro.

     Além disso, Madaug o devia por salvar sua pele dos zumbis que o idiota tinha criado e depois soltado sobre todos eles.

     Rolou através de seus contatos até que chegou ao número correto e o discou.

     — Alô?

     Nick deixou escapar um suspiro de alívio por ter chegado finalmente até uma pessoa ativa.

     — Madaug?

     — Sim?

     — Nick Gautier. Hummm... tenho um pequeno problema para o qual preciso de um pouco de ajuda.

     — Trabalho de casa?

     — Mais ou menos.

     — Que tipo de trabalho?

     — Conhece o novo treinador?

   Madaug grunhiu.

     — O troglodita que deixou o Stone profanar minhas calças de ginástica e depois até escreveu-me porque não as usei depois? Sim, eu o conheço, ele pode sufocar estrangulado em um suspensório que não seja o dele.

     Bem, obviamente Madaug tinha problemas de sobra em Educação Física.

     — O que precisa que eu faça? Isso envolve algum tipo de vingança contra ele?

     Nick concordou com a cabeça embora Madaug não pudesse vê-lo através do telefone.

     — Se o que eu estou pensando é verdade, isso é uma afirmativa. Eu queria saber se você poderia fazer uma verificação de antecedentes sobre ele e descobrir onde ensinou no passado e como foi seu registro nessas escolas.

     — Isso parece tedioso. Por que quer que faça isso?

     — Porque acho que está escondendo algo.

     — Como o que? — perguntou Madaug.

     — Não estou seguro. Basta dizer que acredito que ele tem alguns esqueletos no armário que podem ser interessantes e úteis para os dois.

     Madaug fez uma pausa como considerando isso. Depois de um minuto, concordou em ser cúmplice de Nick.

     — Muito bem. Mas vai custar caro.

     — Me custar o que? — Nick estava horrorizado. — Cara, você me deve. Em grande escala. Assim fecha a sessão de Doom e ajuda um irmão.

     Madaug estalou.

     — Como sabia o que eu estava fazendo?

     Simples. Era tudo o que ele fazia. Se alguma vez perguntasse como foi o seu dia, sua resposta era sempre seu relatório sobre o progresso no Doom como, por exemplo, quantas criaturas tinha matado e quantas zonas tinha aberto.

     — Um palpite.

     — Tudo bem. Vou começar e chamo se encontrar algo interessante.

     — Obrigado, M. Agradeço por isso.

     — Quando quiser. — Madaug desligou.

     Nick colocou o telefone de lado quando ouviu passos que se aproximavam do escritório. Acabava de retornar ao carrinho da compra online quando Kyrian entrou.

     — Ei, chefe. Tenho o casaco pronto. Só preciso de um método de pagamento.

     — Gaveta superior à direita.

     Nick a abriu, esperando ver um dos cartões de crédito de Kyrian. Em vez disso, era um com o nome Nick sobre ele.

     Totalmente atordoado, não conseguia respirar enquanto olhava fixamente o A. Nicholas GAUTIER do cartão VISA. Uau, isso era a coisa mais legal que já tinha visto.

     Kyrian se aproximou e fechou a boca de Nick com o dedo indicador.

     — Tem um limite de mil dólares, e é apenas para compras das empresas. Se demonstrar ser responsável, vou te dar um pessoal dentro de uns meses com um limite superior. De acordo?

     — Sim, senhor. — Incrivelmente emocionado, Nick inseriu os números nos campos e terminou comprando o casaco de Kyrian. — Também falei com Kell, e ele disse que não teria problema em pôr as lâminas nos Ferragamos se isso é o que você quer.

     — Fantástico. Quando os sapatos chegarem, assegure-se de que lhes sejam enviados.

     — Está bem. — Nick fez uma pausa para ver como Kyrian abria a cortina para olhar para fora, no pátio escuro, algo que era muito incomum para ele. Para não falar, que ele estava com um ar de melancolia. — Algo errado, chefe?

     Kyrian hesitou antes de responder.

     — Não tenho certeza. Tenho um… Não sei. Mau pressentimento, suponho.

     Suas palavras fizeram com que Nick tivesse um também.

     — Sobre mim?

     Ele negou com a cabeça.

     — Ash citaria a canção, “Há uma lua ruim a nascer”. Tenho a sensação de que invoca algo que deve ser deixado sozinho. — encontrou o olhar de Nick. — Por que não deixa que eu o leve para casa esta noite?

     Sim tudo bem, o estranho comportamento de Kyrian começava a assustá-lo um pouco.

     — Claro. — Outro temor o atravessou. — Encontraram ao outro menino assassinado?

     — Não. Não é isso. Sentiria-me melhor assegurando-me de que você e sua mãe estejam seguros. Pegue suas coisas e eu o levo agora.

     Não discutiria isso. Nada melhor que voltar para casa mais cedo. Colocou os livros de novo na mochila, e depois a jogou por cima do ombro.

     — Rosa já foi embora?

     — Há aproximadamente uma hora. Você jantou?

     — Oh, sim. Nunca tinha comido um peru Tetrazzini antes. Estava realmente bom.

     — Você quer levar algum para casa, para sua mãe?

     A generosidade de Kyrian nunca deixava de surpreendê-lo. O homem sempre estava pensando em outras pessoas. Ainda bem que não cravei as estacas nele quando descobri suas presas.

     — Posso?

     — É óbvio.

     Nick se dirigiu à cozinha de Kyrian bem atrás dele. Enquanto tirava o recipiente e contemplava a existência pouco ortodoxa de seu patrão, um pensamento o atingiu.

     — Como você mantém o anonimato hoje em dia? As pessoas não desconfiam do fato de você não envelhecer?

     — Ironicamente, é mais fácil agora que no passado. As pessoas de hoje não querem acreditar no paranormal. Antes, havia um sério problema com Bubba e a multidão com seus forcados.

     Nick riu.

     — Sei que não refere a Bubba Burdette, mas a imagem em minha cabeça...altamente divertida.

     Kyrian sorriu antes de continuar a explicação.

     — É por isso que os Dark-Hunters têm Escudeiros humanos.

     Que era o que Nick se tornaria assim que tivesse idade suficiente para fazer o juramento diante do conselho. Eram seres humanos que dedicavam sua vida a proteger seus chefes imortais e o mundo que a humanidade como um todo não estava disposta a aceitar.

     — Com vocês vêm e vão durante o dia, diminui a curiosidade das pessoas. Nossa propriedade também encontra-se registrada em nome do Escudeiro.

     —Ah, entendi. Assim ninguém sabe que você existe.

     — Exatamente. Regra número um. Seja uma parte do mundo, mas não participe dele.

     Nick franziu o cenho.

     — Regra número um?

     — Quando somos criados e Acheron vem nos treinar, nos dá a todos um manual do Dark-Hunter. Tem uma lista de regras que temos que aceitar, e essa é uma das primeiras coisas que Acheron nos ensina.

     Dark-Hunters com um manual. Quem diria? Mas, então fazia sentido que houvesse um código de conduta a cumprir.

     O que fez Nick perguntar-se sobre o passado de Kyrian e suas experiências.

     — O mundo mudou muito?

     Kyrian encolheu de ombros.

     — Os brinquedos são imensamente melhores. Mas as pessoas não mudaram em nada. As mesmas preocupações, as mesmas obsessões. Roupas diferentes. Século diferente.

     Ele fazia soar tão simples, mas Nick tinha a sensação de que era justamente o contrário. Não havia como dizer todas as mudanças e as maravilhas que Kyrian tinha vivido. A descoberta da eletricidade, de voar, a televisão, o papel higiênico.

     — Deve ser assustador viver tanto tempo.

     — Às vezes. — Kyrian pôs de novo o recipiente na geladeira enquanto Nick segurava a tampa no prato para sua mãe.

     — Alguma vez teve uma esposa e filhos? — perguntou-lhe Nick.

     Kyrian hesitou como se a pergunta o incomodasse.

     — Tinha esposa. Desejava as crianças.

     Parte de Nick disse que ele se calasse, mas queria entender a estranha reação de Kyrian.

     — Você sente falta dela?

     Seus olhos escureceram de raiva.

     — Sem ofensa, não quero falar dela.

     Aquilo dizia muito a Nick sobre Kyrian e a relação com sua esposa. Perguntou-se se foi ela quem o tinha traído e o fez transformar-se em um Dark-Hunter. Cara, o que quer que tivesse feito sua esposa ao traí-lo, era o suficientemente ruim para negociar sua própria alma em busca de vingança.

     — Sinto muito. Não vou falar dela nunca mais.

     O semblante de Kyrian suavizou-se.

     — Tome cuidado a quem entrega seu o coração, Nick. Certifique-se de que quando oferecer o seu, obtenha o dela em troca.

     — Sim, mas como você sabe? — Obviamente Kyrian tinha sido enganado.

     Como Nick poderia evitar isso quando alguém tão inteligente e perito como Kyrian tinha sido tomado?

     Kyrian suspirou.

     — Esse é o truque. As pessoas enganam e mentem. Quanto mais têm, mais planejam tomar e mais frequentemente tentam. O mundo é um lugar feio, e as pessoas, aparentemente em sua maioria, pensam que é melhor e mais fácil tirar de outros que ganhá-los eles mesmos.

     Nick franziu o cenho diante da amargura na voz do Kyrian.

     — Então, por que você luta para nos proteger?

     Kyrian deu-lhe um meio sorriso estranho.

     — Porque cada vez que eu penso que não vale a pena, que as pessoas merecem a miséria de suas vidas, encontro alguém que me faz repensar isso.

     — Como quem?

     Ele revirou o cabelo de Nick quando saíram da cozinha e foram para o Lamborghini de Kyrian.

     — Um espertinho Cajun que venera o chão que sua mãe caminha. Um que estava disposto a dar sua vida para proteger dois estranhos de seus melhores amigos, mesmo quando ele precisava de dinheiro para comer. Uma mulher que está disposta a humilhar-se para alimentar seu filho. Outra que enfrentou um cartel de drogas para proteger sua família e seu pequeno povoado. Esse tipo de amor me lembra o humano que uma vez eu fui. As pessoas como você, sua mãe e Rosa merecem alguém que as proteja.

     Nick pensou nisso quando uma sensação de calor precipitou-se através dele. Ninguém jamais havia dito nada amável a ele, especialmente, não alguém tão respeitável e decente. Kyrian era o tipo de homem que ele queria ser.

     — O que você era quando foi humano? — perguntou-lhe.

     — Um antigo General grego.

     — Sério? — Por alguma razão, isso o surpreendeu.

     Kyrian inclinou a cabeça enquanto saía da garagem e se dirigia ao apartamento de Nick.

     — Ganhou alguma grande batalha?

     — Oh, sim. Eu era o flagelo de Roma. Eu e meu amigo e mentor Julian Augusto a defendemos e lutamos como máquinas. Durante nossa vida humana, nos trataram com atenção como heróis gregos, e contaram nossas histórias durante séculos após termos morrido.

     Isso era realmente impressionante.

     — Morreu em batalha?

     Kyrian deixou escapar uma risada amarga.

     — Dificilmente. Não havia nenhum homem vivo que pudesse me derrotar. Nenhum.

     De repente, Nick entendeu, quando lembrou a única coisa que aprendeu de seu pai preso.

     — Nunca é um inimigo de fora quem o derruba. É sempre o inimigo interior.

     Ele assentiu com a cabeça.

     — Proteja suas costas, Nick. É por onde você não vê que estão chegando. É em quem você confia que a traição é mais letal. Eles conhecem sua fraqueza e sabem como acertar o ponto mais baixo. É quando você lhes dá as costas e a guarda está baixa que eles se movem para matá-lo.

     Seu pai havia-lhe dito o mesmo.

     — Sinto muito.

     Kyrian encolheu de ombros antes de girar à direita.

   — Não sinta. Todo mundo sofre ao menos uma traição em sua vida. É o que nos une. O truque é não deixar que destruam sua confiança nos outros quando isso acontece. Não deixe que arrebatem isso de você também.

     Nick assentiu com a cabeça.

     — Você acha que se casará outra vez?

     — Não, os Dark-Hunters não estão autorizados até o momento e nem têm namoradas. O casamento está absolutamente fora de cogitação.

     — E os filhos?

     — Eu estou morto, Nick. Sem capacidade de procriar.

     Nick encolheu-se em concha com horror.

     — Então vocês não podem…?

     — Eu não disse isso — replicou Kyrian como se estivesse completamente ofendido. — Podemos dormir com alguém. Apenas não podemos fecundá-las.

     Ah, bom. Isso fazia sentido.

     — Pode contrair alguma enfermidade?

     — Não.

     Nick ficou em silêncio enquanto contemplava o que seria ser imune à enfermidade. Viu a velocidade do tráfego diante deles quando Kyrian dobrou entrando em seu bairro. Dilapidado e desmantelado com carros avariados e gramas marrons, era um claro contraste com os terrenos imaculados que Kyrian pisava.

     Suspirando, Nick viu o lúgubre, deteriorado duplex que ele e sua mãe chamavam de casa.

     Kyrian estacionou em frente.

     — Até amanhã.

     — Sim. Tome cuidado.

     — Sempre. Chame se precisar de algo.

     Nick concordou com a cabeça enquanto abria a porta e saía. Não se moveu até que Kyrian se foi, então deu a volta e se dirigiu até a calçada rota que conduzia até sua casa.

     Menyara saiu ao seu encontro para dar-lhe boas-vindas. Pequena e bonita, tinha sido a parteira que o trouxe ao mundo. Por razões que nunca entendeu, acolheu sua mãe assim que ficou grávida dele. A tia Mennie esteve com ele toda a vida e era a única família que ele e sua mãe tinham. Vestida com uma saia branca solta e a parte superior de cor azul clara, tinha seu cabelo puxado para trás com um lenço branco.

     — Olá, tia Mennie.

     Ela abraçou-o enquanto ele se aproximava dela.

     — Onde esteve querido?

     — No trabalho. Mamãe está em casa?

     Ela concordou com a cabeça.

     — Eu estava indo checar se ela queria ver televisão esta noite.

     Como não tinham um aparelho próprio, frequentemente Mennie deixava que eles assistissem em sua casa. Também compartilhava seu telefone com eles.

     Nick abriu a porta de seu pequeno apartamento, que era basicamente de dois quartos. O pequeno quarto de sua mãe e depois a "grande" sala que tinha uma área para a cozinha na mesma área. Na parede do fundo estava seu quarto, que consistia em mantas de cor azul penduradas em um fio. Sua mãe e Mennie tinham feito para ele assim que chegou à puberdade para que pudesse ter algum grau de privacidade.

     Sua mãe estava sentada no único tamborete do balcão de café da manhã, lendo o jornal. Levantou a vista e sorriu à sua entrada.

     Nick deixou cair a mochila na porta antes de cruzar a pequena área para abraçá-la.

     — O que está fazendo?

     Mennie fechou a porta, depois se moveu para unir-se a eles.

     — Estava olhando para ver se podia haver um apartamento para alugar no bairro.

     Ele não sabia quem estava mais surpreso pelas inesperadas palavras de sua mãe. Ele ou Menyara.

     — Sério?

     Mennie arqueou uma sobrancelha, mas não disse nada.

   — Não tenho nada contra você, Menyara — apressou-se em dizer sua mãe, — você sabe o quanto te amo e como sou agradecida por tudo o que tem feito.

     — Mas quer estar mais perto do trabalho. — O sotaque crioulo de Mennie era mais denso do normal.

   Sua mãe concordou com a cabeça.

     — E a escola de Nick. Ele sempre tem que correr para alcançar o bonde. Eu gostaria que não tivesse que começar o dia em pânico.

     — O diabo está sentado sobre pedaços de gelo, não é? — perguntou-lhe Nick.

     Ela riu.

     — Não, querido. É que... você não acreditaria nas gorjetas das pessoas no Santuário. Oh, meu Deus, não tinha nem ideia. Entre meu salário e as gorjetas, estou fazendo quatro vezes mais dinheiro que antes.

     Nick deu-lhe um sorriso de esperança.

     Ela torceu o rosto para ele.

     — Muito bem. Tanto você como Bubba estão perdoados por provocar minha demissão.

     — Sério?

     — É óbvio. De fato, estava pensando em convidar você e Mennie para jantar fora esta noite para celebrar.

     Isso parecia muito bom, mas havia um pequeno problema.

     — Estou cheio. Rosa fez peru Tetrazzini que está incrivelmente delicioso. Trouxe um pouco para você, também. Ainda há suficiente para Mennie. — Retornou à sua mochila para tirá-lo.

     Assim que colocou a camiseta no chão sua mãe aspirou bruscamente.

     Nick congelou ao som que em geral anunciava que ele está metendo-se em problemas.

     — Alguma coisa errada?

     — O que faz com isso? — Mostrou a camiseta.

     Baixou o olhar para ela e perguntou-se por que sua presença tinha provocado aquela reação.

     — O treinador me quer de volta na equipe.

     Sua mãe pareceu cética.

     — Fala sério?

     — Sim. Faltam dois caras para a equipe, então...

     — Não parece feliz por isso — disse Menyara.

     Esse era o único inconveniente de Mennie. Tinha o dom da clarividência e sabia muitas coisas que ele não contava.

     Ele deu a ambas um falso sorriso. A última coisa que precisava era que descobrissem o que o treinador queria dele. Deus o ajudasse se Mennie percebia isso.

     — Estou feliz.

     — Nicky. Eu sou sua mãe. Não minta para mim. O que há de errado?

     Seu treinador era um psicopata, era isso o que estava errado, mas não podia dizer-lhe isso. Se dissesse, ela iria marchar até a diretoria e causaria um escândalo que a levaria presa, com certeza. Quando se tratava dele, sua mãe tendia a perder toda a sanidade.

     — Não é nada. Eu prometo.

     Ela lhe dirigiu um olhar que dizia que não estava convencida. Felizmente, Mennie a distraiu enquanto tirava as sobras e levou o recipiente à cozinha.

     Assim que terminaram de comer, Mennie e sua mãe foram ver televisão enquanto ele ficava com o pretexto de fazer a lição de casa.

     Não era uma mentira completa. Estava trabalhando em algo que envolvia a escola.

     Assim que teve certeza de que não seria incomodado, ligou para Madaug outra vez.

     — O que foi? — Cara, Madaug nem sequer se incomodou em dissimular sua irritação por ter sido interrompido.

     — Encontrou alguma coisa? — perguntou-lhe Nick.

     — Não.

     — Nada?

     — Você está perdendo meu tempo, Nick. Não descobri nada. Este cara é um completo fantasma. Não há antecedentes sobre o que se possa encontrar. Não há uma escola neste país que tenha um treinador Devus, e com um nome incomum, deveria ser bastante fácil de encontrar. Certo?

     Nick sentou-se, tentando digerir. Madaug estava certo. Não deveria haver nenhum problema para encontrar informação sobre um cara com um nome assim.

     — Está falando sério?

     — Sim. O único treinador Devus que posso encontrar é um que treinou em Tech Georgia em, observe isso, 1890.

     — 1890? — Nick ficou boquiaberto. — Por assim dizer, mais de cem anos, 1890?

     — Sim. Foi o treinador principal no primeiro jogo de rivalidade entre a Universidade da Georgia e a Tech Georgia para a Taça do Governador. Tech derrotou os Dawgs por 28-6. Eles conseguiram isso... e no dia seguinte, toda a equipe, inclusive o treinador, morreram em um incêndio que teve início no prédio onde estavam celebrando sua vitória.

     — Isso é péssimo. — Era alguma coisa que aconteceria com ele. A asquerosa sorte Gautier era material para lenda.

     — E não é, entretanto? De qualquer maneira, esse é o único Devus que posso encontrar.

     Isso não fazia qualquer sentido.

     — Você me disse que ele foi treinador durante anos. Tem que ter um histórico de treinamento em alguma parte.

     — Não é possível encontrar nem um rastro disso, e acredite-me, eu procurei. Inclusive pirateei os registros da escola. Seu currículo não está online. Sem isso, estou preso. Não sei mais onde procurar. Eu acertei mais paredes neste ponto do que um camundongo cego em um labirinto de laboratório com paredes movediças.

     Apenas Madaug, cujos pais eram cientistas, proporiam isso como exemplo.

     Nick suspirou quando a repugnância o invadiu. Temia o que estava por vir, mas sabia que isso significava apenas uma coisa.

     Teria que procurar no escritório do treinador e ver se podia encontrar algo sobre seu passado. Merda. Merda. Merda. Como eu sempre conseguia me meter nestas coisas?

     Se tudo o que tinha feito em sua vida anterior justificava a miséria desta, esperava gostar de cada minuto dela.

     Vamos, Nick. Pensa. Tem que haver outra maneira.

     Infelizmente, não havia. Era isso. Ele teria que entrar e rezar para que não fosse pego.

     — Muito bem — disse Nick, — vou procurar mais informação para você amanhã. Obrigado por procurar isso para mim.

     — De nada. E tome cuidado. Não sei por que, mas ele me assusta.

     Dado ao fato de que Nick tinha certeza de que o treinador tinha matado seu companheiro de sala, Devus não o enchia exatamente de calor e luz do sol.

     — Boa noite, M.

     — Tchau.

     Nick desligou, então ligou para Caleb, que respondeu ao segundo toque.

     — Você está morrendo? — Era uma nota de esperança no tom de Caleb? Ou ele estava sendo paranoico?

     —Não — respondeu Nick, rezando pela paranoia, mas tinha certeza de que Caleb tinha esperança de que ele estivesse à beira da morte.

     Caleb deixou escapar um profundo suspiro.

     — Então, por que está me chamando?

     — Queria saber se você sabia algo sobre Devus.

     — Além de que é nosso novo treinador?

     — Sim, Caleb. Algo um pouco mais que isso.

     — Na verdade não. Por quê?

   Nick hesitou, depois decidiu que era a única criatura em que ele podia confiar a verdade.

     — Ele ameaçou-me mais cedo.

     Caleb materializou-se diante dele ainda com o telefone na mão.

     —O que quer dizer, com ameaçá-lo? — disse no tom de demônio.

     Agora estava a serviço. Completamente surpreso com a repentina aparição, Nick olhou o telefone na mão do Caleb, depois, voltou o olhar para ele novamente. Sim, está bem, sabia que Caleb tinha poderes demoníacos e tal, mas, maldição...

     Impressionante.

     Desligou o telefone, já que, obviamente, não precisava mais dele para conversar com Caleb.

     — Ele disse que se não roubasse algumas coisas para ele, teria que me colocar na cadeia.

     Caleb bufou.

     — E você acreditou em algo tão estúpido?

     Ofendido até a alma, Nick olhou para ele.

     — Estúpido ou não, eu tenho certeza de que foi ele quem incriminou Dave e depois o matou naquela mesma noite enquanto estava na cadeia.

     Caleb rodou os olhos, o que desencadeou seu temperamento.

     — Nick, realmente? Sua paranoia deve estar registrada em uma sala da fama em algum lugar.

     — Não sou paranoico — grunhiu. — Use seus poderes e veja. Estou dizendo a verdade.

     Caleb dedicou-lhe um olhar de irritação antes de fechar os olhos e concentrar-se.

     Sentindo-se arrogante, Nick cruzou os braços sobre o peito e tamborilou com o pé. Agora a verdade sairia e seria vingado e um demônio perigoso lhe devia uma desculpa enorme.

     Um Caleb ia servir uma parte enorme de torta de humildade.

     Após alguns minutos, Caleb abriu os olhos.

     — Não recebo nada.

     O medo passou por Nick. Tinha a sensação de que isso não era bom, e que ia ter que colocar a torta da humildade de novo no forno.

     — O que quer dizer? —perguntou apreensivo.

     O olhar frio de Caleb o atravessou.

     — O treinador é humano. Eu sei muito bem, mas…

     A esperança voltou, enquanto mentalmente ele colocava uma luva de cozinha e recolocava a torta de novo no forno.

     — Mas, o que? — perguntou-lhe Nick.

     Caleb encolheu os ombros.

     — É como se ele fosse um fantasma.

     — Um fantasma?

     — Não exatamente. Os espectros são aparições com a forma de alguém que viveu.

     Nick tentava entender.

     — Como uma imagem posterior?

     — É a analogia mais próxima. Mas ao contrário de uma imagem posterior, um fantasma em geral aparece exatamente antes que alguém morra, para a pessoa que está marcada para morrer.

     Agora isso era algo que Nick não queria ouvir.

     — Você só me fez arrepiar de medo.

     — A mim também. — Caleb hesitou antes de falar outra vez. — Estive ao redor de um monte de fantasmas, e com ele não sinto como um deles, no entanto. É uma sensação estranha. Como humano envolvido no mal.

     — Oh, ótimo. Nosso treinador é um fodido enroladinho em pele satânica.

     Caleb deixou escapar um som de frustração.

     — Você sabe que não se pode lidar com você quando está com esse humor. Deixe-me fazer um pouco de investigação e volto a falar com você.

     — Estarei aqui... a menos que o treinador me mate.

     Caleb pareceu divertir-se pouco com sua tentativa de humor.

     — Não saia pela porta, e se ele aparecer, ligue-me.

     — Sempre que os dedos funcionem.

     Com um olho vibrando de aborrecimento, Caleb desapareceu em uma nuvem de fumaça vermelha.

     Sozinho e preocupado, Nick considerou tudo o que estava acontecendo. Nada disso era um bom presságio para ele. De fato, sentiu as chamas lambendo seu traseiro. Tinha que tirar ao treinador de suas costas. Isso era a primeira providência.

     Queria mais respostas, pensou em consultar seu livro de novo, mas a última coisa que precisava era outra enxaqueca.

     Não, isso era algo que podia investigar por sua conta. Estava certo disso. Sentado sobre o estrado de sua cama, tirou a lista de roubos do treinador e deu uma olhada nos itens novamente.

     Abaixo do colar de Kody estava o anel de classe de Stone. Sim...como funcionaria isso. Podia ver agora em sua mente. Ele caminharia até Stone, sorridente. Ei, Stone. Você se importaria em me entregar seu anel feito do verdadeiro ouro 24 quilates? Um que tem um diamante verdadeiro nele. Basta fingir que sou sua garota e me dê isso.

     O were lobo o estriparia.

     Mas pela razão daquilo estar na lista, sabia que Stone não fazia parte do “grupo selecionado” do treinador. A pergunta era, quem mais tinha sido recrutado, e por que tinham sido escolhidos? Devus sabia sobre seu passado criminoso? Nick odiava essa parte sobre si mesmo. O desespero o tinha motivado a fazer algumas coisas das quais não se orgulhava, tal como vigiar policiais, enquanto seus "amigos" roubavam em uma loja. Naquele momento, parecia um delito inofensivo, um crime sem vítimas e fez um monte de dinheiro que tinha ajudado sua mãe com as contas. Convenceu-se de que não estava prejudicando uma pessoa real, somente alguma corporação inofensiva mundial que não se preocupava com pessoas como ele. Ele disse a si mesmo que alguns grupos do mundo se alimentavam de pessoas como ele e riam enquanto faziam isso. Essa tinha sido sua justificativa.

     Em sua última visita para ver seu pai em Angola, tinha mudado a maneira de pensar enquanto escutava alguns dos outros detentos tentando justificar seus crimes. A última coisa que queria era ser um deles, sentado na prisão, culpando o mundo por suas decisões erradas. Nada valia a sua liberdade e o respeito a si mesmo, especialmente não o dinheiro, e certamente não ferindo alguém. Se pudesse devolver um pouco do que Alan tinha roubado, faria isso. Infelizmente, havia usado o dinheiro para comprar comida.

     Mas um dia...

     Ele iria pagar cada moeda a todos os que tinham sido roubados.

     Não havia maneira do treinador saber sobre disso. Já que a culpa era muito dura para ele, Nick raramente pensava nisso, e nenhuma vez, jamais contou isso a uma única alma exceto Tyree e Alan, que estavam ali com ele. Como não foram à escola, o treinador não poderia ter falado com eles.

     Ele não sabe.

     Entretanto, de alguma maneira, ele tinha escolhido Nick entre o rebanho para esse terrível plano. Voltando a olhar a lista, encolheu-se. O treinador queria alguma coisa de quase todo mundo dos dois primeiros períodos.

     Que estranha variedade, no entanto. Relógios, anéis, colares, e duas escovas de cabelo. Por que escovas para o cabelo? Como poderia o treinador obter dinheiro com isso?

     O telefone tocou, surpreendendo-o. Tentando acalmar-se, atendeu.

     Era Caleb.

     — Onde está Menyara?

     — Na porta ao lado com minha mãe, por que?

     — Me faça um favor e vá ficar com elas.

     — Alguma razão em particular?

     — Sim. Acabo de cruzar com um Guarda Fringe.

     Nick franziu o cenho para um termo que não compreendia.

     — Um quê?

     — Guarda Fringe, — repetiu Caleb— são caçadores de recompensas que vão atrás de outros seres sobrenaturais. Neste caso, estão buscando um demônio que se esconde no corpo de uma criança.

     — O que isso tem a ver comigo? Tenho um demônio pendurando perto de mim, —“Caleb” — mas não um em mim.

     A provocação era dura no seu tom.

     — Ele estava procurando um menino de quatorze anos de idade, Nick. Acho que agora sabemos quem matou os outros adolescentes que você e Ash viram.

     Um tremor de medo desceu por sua espinha. Tinha o demônio em si, ou simplesmente tinha tentado entrar?

     — Mas não estou possuído.

     Caleb amaldiçoou.

     — Quer deixar de discutir comigo, Nick, e só fazer isso? Eles não são o tipo de criatura que você gostaria de conhecer por conta própria, e onde há um, em geral há mais, e não são reconhecidos por sua misericórdia ou humanidade. Assim faz o que eu disse e não fique sozinho. A última coisa que quero é ser interrogado por um.

     — Por quê?

     — Nick, eu juro... pare de agir como um menino de três anos na hora de deitar-se e arrasta essa bunda para a casa ao lado ou irei ali e arrasto-o eu mesmo, e você não gostará da experiência.

     — Está bem. Acalme-se. Coloque seus chifres para dentro. Estou indo — desligou o telefone.

     Ao contrário de Caleb, não tinha certeza de que Mennie era o suficientemente forte para lutar contra algo assim. Embora fosse uma sacerdotisa vodu com algumas habilidades bastante impressionantes, não queria colocá-la em perigo. No entanto, tinha um monte de símbolos de proteção em sua casa. Pelo menos podia fazer uso deles.

     Colocando o braço de volta na tipóia, levantou-se e se dirigiu para a porta.

   Saiu para a rua, e em seguida fechou a porta. Enrugando o nariz, franziu os lábios. Uau! O que era aquele fedor? Eram ovos podres misturados com fertilizantes e um pingo de vômito. Agh, cheirava como Stone tendo outro acidente na aula de Química. Levou a mão ao nariz e se dirigiu para o apartamento de Mennie.

     Mas no momento que fez isso, uma sombra caiu sobre ele e agarrou-lhe por trás.

 

   Amaldiçoando, Nick virou-se, pronto para a briga. Então congelou no lugar e piscou duas vezes só para ter certeza de que não estava tendo alucinações.

     Não estava.

     Alto, com o cabelo emaranhado, envolto em camisa de flanela e jeans, Mark, que mais uma vez estava encharcado com cheiro de urina de pato, estava em pé na varanda com a risada danificada de uma hiena.

     — Rapaz, devia ter visto sua cara. Não o tinha visto assustado como um coelhinho desde que tentou entrar na loja antes que os zumbis comessem seus miolos. Oh, meu Deus. Se tivesse uma câmera, teria feito fortuna.

     Indignado pelo susto inútil que o idiota havia-lhe dado, Nick olhou fixamente para ele.

     — Você é um babaca! Isso não é engraçado.

     — Tem razão sobre isso. Engraçado é o engraçado, garoto.

     Ele continuou rindo até que Nick esteve disposto dar-lhe um chute em um lugar onde deixaria uma impressão duradoura. Era uma boa coisa que estivesse em dívida com Mark, ou definitivamente cederia a esse impulso.

     Nick grunhiu profundamente.

     — De qualquer maneira o que você está fazendo aqui, além de empestear minha varanda e me esfolar dez anos de vida?

     Mark secou os olhos.

     — Lo siento pela urina, mi amigo, mas melhor prevenir do que remediar quando se está no pântano. Esse é meu lema. — Finalmente, ele deixou de sorrir e foi direto ao assunto. — Eu vi que tinha chamado, e tentei ligar de volta, mas fiquei sem bateria. Então fui ao carro para carregá-la. Infelizmente, tinha usado o carregador do carro para amarrar meu porta-luvas e fechá-lo, o que o destruiu, e quando o conectei para usá-lo, começou um pequeno incêndio elétrico no jipe, o fogo foi para uma pilha de papéis e queimou completamente o assento do passageiro antes que eu pudesse usar a Coca-cola para extingui-lo... essa coisa não é tão boa para apagar incêndios como vocês acham. Bem, de qualquer forma, aqui estou. O que você precisava?

     Só Mark ou Bubba poderiam colocar fogo em seus carros com um carregador de bateria. Nick riria se não fosse tão: a) típico de sua sorte e b) patético.

     — Hum, sim, sobre isso… — Nick coçou o braço na tipoia. — Já me encarreguei disso.

     Mark fez uma careta.

     — Esta me dizendo que queimei meu jipe sem uma boa razão? Cara, isso é péssimo. Pelo menos me diga que havia um zumbi em seu corpo ou algo tentando matá-lo.

     — Não. Lamento.

     Mark murmurou baixinho.

     Mas enquanto Nick olhava fixamente para o Jeep de Mark, que tinha marcas de queimado na janela do lado do passageiro, ocorreu-lhe um pensamento estranho. Esta poderia ser a única pessoa, além de Caleb, que realmente poderia ajudá-lo com isto.

     Pelo menos era a única pessoa o suficientemente insana para tentar. Todos outros tentariam fazê-lo entrar na razão.

     Mark também era a única pessoa, além de Mennie e Caleb, que ele sabia que poderia mantê-lo a salvo de qualquer ataque sobrenatural. De fato, Mark vivia para combater algo que percebesse como não-humano.

     — Você não iria querer fazer um pouco de missão de reconhecimento comigo, não é mesmo?

     Isso animou Mark.

     — Que tipo de missão?

     — Bom, era a razão para a qual eu o chamava. Tenho um professor na escola que é um enigma estranho.

     Uma das sobrancelhas do Mark disparou para o norte.

     — Como assim? Um enigma zumbi ou enigma normal?

     — Não acredito que ele seja um zumbi.

     Entretanto, a estas alturas não descartaria nada. Psicopata era a melhor aposta. Ainda assim, isto era Nova Orleans, e tinha aprendido realmente rápido sobre um monte de moradores que ele nem sequer suspeitou que existissem. Então o treinador podia ser algum tipo de zumbi sem que ele soubesse.

   E pensar que, seis meses atrás, ele tinha pensado que Bubba e Mark eram os habitantes mais bizarros de Louisiana.

     Como logo tudo muda.

     Agora, era o que mais queria!

     Nick voltou a prestar atenção à discussão que travavam.

     — Ele me disse que tinha ensinado em um montão de escolas, mas Madaug não conseguiu encontrar nada sobre ele. E eu quero dizer nada. Não há uma só escola onde ele tenha ensinado ou qualquer outra coisa. É como se não tivesse existido até que meu colégio o contratou.

   — Neoludita — Mark balançou a cabeça em aprovação. — Eu gosto disso. Simplesmente poderia significar que o homem tem cérebro. Eu estou dizendo a você, Nick, um dia todos vamos ficar viciados em um servidor maciço e nos transformar em nada mais que bytes em uma sequência de dados. Mesmo a nossa primitiva e individualista essência se reduzirá a um código binário simples. Já pode ter acontecido e agora tudo o que somos são atores jogando em um episódio de Rod Serling subscritos permanentemente. De fato…

     Nick estalou os dedos frente ao rosto de Mark.

     — Pode voltar comigo para a realidade por um segundo? Eu meio que preciso de você aqui na terra por mais uns poucos minutos.

     — Claro. Não é que eu goste de estar aqui, já que ainda estou esperando que minha nave-mãe retorne. Mas, o que precisa?

     Nick respirou profundamente procurando paciência. Às vezes, manter a Bubba e Mark centrados em uma tarefa era como tratar com uma manada de gatos com transtorno por déficit de atenção em uma fazenda de ratos.

     — Bem, o novo treinador é... — Não queria contar ao Mark da chantagem ou o roubo do anel. Embora confiasse em Mark de modo irrestrito, não confiava nele para não ir à porta do treinador, chutá-la e entrar, depois arrastá-lo até o quintal e bater-lhe até tirar-lhe o muco por ameaçar as pessoas. Mark não gostava dos perseguidores ou dos abusadores de nenhum tipo, e considerava bater em um deles como um valioso serviço público. — Alguma coisa nele não está bem. Posso sentir isso. — Isso era algo que Mark podia entender e aceitar. — Eu queria saber se você não se importaria em passar na sua casa para ver o que lhe parece. Isso poderia me dar alguma pista a respeito de quem “e o que” ele é. Afinal, eu sei quanto você gosta de fazer um perfil das pessoas.

     Isso despertou muito mais o interesse do Mark.

     — Você sabe onde ele mora?

     Nick concordou.

     — Sim, eu sei. — Era uma das poucas coisas que o treinador havia lhe dito depois do treinamento.

     O asqueroso queria que Nick levasse o roubo para sua casa de forma que o treinador não fosse apanhado com ele no campus.

     Mas se Nick fosse apanhado, estava bem. Queimar o menino, queimar o menino.

     —Está bem, então. — Mark concordou. — Estou farto de caçar zumbis esta noite, e desde que minha mulher me liberou. — Queimando tudo o que Mark possuía e jogando para fora, mas essa era uma outra história. — Eu farei isso. Estou dentro. — desceu da varanda.

     Nick impediu-o por um momento.

     — Deixe-me dizer à minha mãe aonde eu vou. — Porque se não fizesse isso, ela armaria o tumulto quando voltasse.

     Aproximou-se e abriu a porta do apartamento de Menyara.

     Mennie e sua mãe já estavam acomodadas no sofá, debaixo de uma grossa manta de cor vermelha e negra, com todas as luzes apagadas enquanto comiam batatas fritas e molho.

     Sua mãe levantou a vista em expectativa.

     — Ei, mamãe? Posso ter uns minutos para uma missão com Mark?

     Ela estreitou o olhar para ele.

     — Mark, o louco?

     Mark colocou a cabeça pela porta para sorrir para ela.

     — Eu ouvi isso, Cherise.

     O rosto de sua mãe flamejou. De fato, ela estava mais perto da idade do Mark do que ele. Sem mencionar que Mark tinha trabalhado uma vez na porta do clube onde sua mãe costumava dançar, e foi assim como Nick o conheceu.

     Baixando a batata frita de volta no saco, ela limpou a garganta e dirigiu-lhe um olhar envergonhado.

     — Não sabia que você estava aí. Sinto muito.

     Mark riu bem-humorado.

     — Está tudo bem. Já me chamaram de coisas muito piores. Pelo menos você não insultou a minha família. Mas não se preocupe. Não vou fazer nada muito estranho esta noite.

     — Por favor, não faça.

     Mark trocou um olhar divertido com Nick.

     — Não se preocupe, Cher. Eu o protegerei com a minha vida.

     — Ótimo — advertiu ela. — Porque isso é o que vou tirar de você se permitir ainda que seja um só cabelo de sua cabeça seja machucado. Estou falando muito sério, Mark. Não há rincão no inferno que você possa encontrar onde não vou te caçar, arrastá-lo para fora, e torturá-lo até que sangre a meus pés. Esse menino é minha vida, e não quero que volte aqui aos pedaços. Então não tente nenhuma de suas tolices com ele por perto. Falo sério.

     — Sim, senhora.

     Quando Nick começou a sair, sua mãe apontou um dedo em advertência para ele.

     — Não volte tarde. Você tem escola amanhã.

     Ele repetiu as últimas palavras de Mark.

     — Sim, senhora.

     Então, fechou a porta.

     Uau, para uma pequena mulher de bolso, ela podia ser mais aterrorizante do que um urso alvoroçado com esteroides. Mesmo Mark parecia abalado por suas ameaças.

     Descendo as escadas, seu discurso retórico insano recordou-lhe a severa advertência de Caleb.

     — Ei, Mark, você sabe o que é um Guarda Fringe?

     — Claro. O que acha que sou? Um estúpido? Quem não sabe o que são?

     Nick dirigiu-lhe uma careta mal-humorada.

     Só para constar, o idiota era eu. Graças ao Caleb, entretanto, não tinha que admitir isso.

     — Você já lutou com um?

     Mark coçou o bigode.

     — Não pessoalmente. Pelo que ouvi sobre eles, não acho que eu gostaria. Embora tenha uns amigos que já tivessem lutado. Por quê?

     — Um amigo me disse que se encontrou com um ontem à noite e que eu devia tomar cuidado.

     Mark deu-lhe um olhar tão penetrante que se sentiu como se o tivesse atravessado por completo.

     — Ele disse-lhe que você se escondesse, não é?

     — Como soube?

     — Posso ler sua linguagem corporal, Nick. Você ficou com medo de repente. Que outra coisa disse seu amigo?

   — Que eu devia permanecer em áreas protegidas.

     Mark fechou a distância entre eles e tirou algo debaixo da camisa. Nick demorou um segundo para perceber que era um pendente de prata com um símbolo similar ao que estava em seu livro de magia, o Grimoire.

     — Use isto. A menos que o próprio diabo venha atrás de você, ele o protegerá.

     Nick enrugou o rosto ao captar o aroma da urina de pato, o que quase o fez vomitar.

     — Tem certeza?

     Mark se endireitou.

     — Ainda estou respirando, não é?

     — Eu acho que sim, mas com todo esse fedor sobre você, é difícil dizer. Deus sabe que neste momento estou tentando com todas as forças não respirar. E poderia entender se você teve que deixar de fazer isso.

     Mark coçou a sobrancelha com o dedo médio.

     — Então, confie em mim, aposte suas fichas. Eu já passei por situações difíceis. Nada vai passar por cima dele para machucá-lo. Apostei minha vida nisso muitas vezes em um dia.

     Nick não chegava a compartilhar a fé de Mark. Ok, talvez o colar fosse um placebo, mas por alguma razão o fazia sentir-se melhor tê-lo posto. E quando Mark o colocou ao redor do seu pescoço, ele jurou que sentiu uma pequena faísca.

     Agora ele me pegou fazendo isso…

     Se isto se mantinha assim, acabaria pegando a tarefa do pântano com Mark e Bubba, esperando no bote enquanto eles procuravam os mortos-vivos. Por favor, diga-me que terei coisas melhores a fazer quando for adulto.

     Sem outra queixa, seguiu Mark foi para o Jipe.

     — Quando você conseguiu isso?

     Mark o deixou entrar pelo lado do motorista para que ele pudesse subir no assento traseiro que estava em bom estado. Nick tentou ignorar o cheiro de papel e vinil queimado.

     Bem, pelo menos anulou o aroma de urina de pato.

     Mark entrou e fechou a porta.

     — Sempre foi meu veículo de apoio. É o que meu pai comprou por meu aniversário de dezesseis anos. Não há muito que ver nele. Ainda assim, o lançaria contra qualquer coisa. Ela é tão confiável como se fosse nova e mais rápida do jamais acreditaria.

     O tanque de óxido nitroso preso entre os assentos dianteiros provavelmente tinha muito a ver com isso. O bom é que essa coisa não incendiou. Caso contrário, eles estariam raspando pedaços de Mark na calçada.

     Mark baixou as janelas antes de arrancar com Nick preso no meio do assento traseiro com o cinto de segurança de forma que pudesse inclinar-se para frente e dar-lhe instruções.

     Não demorou muito tempo antes que se dirigissem a Frenchmen, onde seu treinador tinha uma casa de aluguel. A típica edificação estreita como centenas de outras em Nova Orleans, tinha uma demão de pintura branca. As persianas verdes estavam abertas para o jardim, de forma que ele e Mark podiam ver facilmente o interior onde Devus estava sentado olhando o mesmo programa que sua mãe e Menyara estavam assistindo. O que acontecia com as pessoas mais velhas e os programas de notícias? Eles estavam apegados a ele, e embora Nick podia vê-los, não era seu gênero favorito.

     Suspirando com frustração, Nick percebeu que isto tinha sido um exercício inútil. Não havia nada aqui que ele pudesse usar.

     Nada.

     Apenas outra casa idêntica da fileira com um Toyota comum no caminho de entrada.

     Mark estremeceu.

     — Caramba! Não tem a aparência de alguém que jogaria stripp pôquer para perder? Por que nunca pode ser uma peça fina de mulher como Angelina Jolie? Ah, sempre tem que ser o homem que você menos gostaria de ver nu.

     — Ange-quem?

     Mark franziu o cenho.

     —Oh, vamos lá. Você sabe. Hackers – Piratas de Computador.

     Nick bufou. Esse era o filme favorito de todos os tempos de Mark, e por alguma razão que não fazia sentido para ninguém mais além de Mark. As referências a ele sempre apareciam nas conversas de Mark.

     Enquanto isso, Mark continuava reclamando.

                   — Se você for sentar na sua sala de estar em cuecas, o mínimo que poderia fazer é cobrir as janelas. Velhote... sério? Não acredito que possa levá-lo até a casa, Nick. Estou cego pela neve por causa dos quilômetros e quilômetros de carne branca exposta.

     Nick riu.

     De repente, Mark ficou em silêncio e inclinou a cabeça enquanto olhava fixamente para a varanda.

     — Isso é estranho.

     Nick inclinou-se para frente, tentando ver o que tinha captado a atenção de seu amigo.

     — O que?

     — Estou tendo um déjà vu.

     A maioria das pessoas não prestaria atenção a isso, mas com Mark... Isso pode ser sério.

     — O que está acontecendo?

     Mark negou com a cabeça.

     — Não sei. É… Eu conheço seu treinador. Ele é familiar para mim por alguma razão, mas não sei o por que.

     — Você foi a alguma das escolas que ele ensinou? — perguntou-lhe Nick esperançoso. Se ele tivesse ido, então isso poderia lhes dar alguma muito necessitada informação sobre a besta.

     Mark considerou isso.

     — Talvez. O que ele ensina e treina?

     — História e futebol.

     — Não. — Esticou essa única palavra. — Não acho que alguma vez tenha me ensinado história, e sei que jamais foi um de meus treinadores. Seus rostos estão gravados para sempre em minha memória.

     Essa informação apanhou Nick desprevenido. Isso era algo que Mark nunca tinha mencionado antes.

     — Jogava bola?

     Mark endureceu como se a pergunta o ofendesse.

     — Uh, sim. Fui primeira-fila quarterback de campo titular até a universidade. Fui à escola com uma bolsa completa, também, quero que saiba. Eu teria sido um profissional se não houvesse destruído o joelho em meu segundo ano.

     Nick estava surpreso e impressionado.

     — Nunca soube que jogava bola.

     — Uh, sim. Olá? Eu nasci para isso. De onde acha que eu tiro todos os meus bons movimentos evasivos de zumbis? Meu tio foi, inclusive, um dos treinadores que trabalhou com o Bear Bryan.

     Uau. Isso era realmente impressionante.

     — Sério?

     Ele concordou.

     — Meu verdadeiro pai era um treinador também.

     Esta era a primeira vez que Mark falava sobre seu pai, além de dizer que foi embora. Bubba havia dito que o pai de Mark morreu de câncer quando ele tinha sete anos. Sua mãe se casou de novo dois anos depois, e Mark havia sentido tão traído por ambos que não falava sobre seu pai até hoje. Bubba dizia que a dor ainda era muito crua para ele.

     Mark continuava olhando fixamente para o treinador no sofá.

     — Ele é tão familiar. Eu posso ver seu rosto, com clareza. Simplesmente não posso lembrar onde. Mas é em algum lugar estranho. Algum lugar onde passei um montão de tempo. Se eu pudesse me lembrar.

     — Talvez você jogou em uma equipe onde ele era o treinador?

     — Talvez. — Mark grunhiu. — Qual é o nome dele?

     — Devus.

     — Seu primeiro nome?

     — Treinador.

     Mark dirigiu-lhe uma expressão de dor.

     — Posso ver que sua educação não foi desperdiçada.

     — Ouça, agora… estou ofendido. Nunca me ocorreu perguntar qual era seu nome. Realmente não me importava. — A quem importaria? Já que Nick não tinha permisão de utilizar o primeiro nome dos professores, para que desperdiçar espaço no cérebro para armazená-lo? Poderia chutar para fora algo que realmente necessitasse, como a habilidade para jogar Donkey Kong. Isso sim seria trágico.

     Mark não disse nada. Limitou-se a soltar um som de profunda irritação.

     Enquanto ele resmungava, Nick devolveu seu olhar ao sofá e tentou usar seus poderes para ver se podia pegar alguma coisa.

     Não havia nada ali. Estava tão vazio como a rua escura. O que fazia sentido para ele, já que não acreditava que o treinador fosse um poço muito profundo, de qualquer maneira.

     — Pode captar algo fora de sua própria casa?

     — Não realmente. Não há nada mais aqui. Tudo é tão genérico como seu Toyota branco.

     — Ótimo. Melhor me levar para casa, então. Não quero que minha mãe mate nenhum de nós.

     Sem mais nenhuma palavra, Mark arrancou o Jipe de novo e desceu a rua.

    

   Após uma noite de sonhos inquietos onde se viu forçado a roubar contra a sua vontade, Nick despertou completamente exausto. Sentia-se como se não tivesse dormido. Grogue e com uma dor de cabeça que não ia embora, vestiu-se e dirigiu-se à escola.

     Pela primeira vez, chegou cedo. O que era bom já que queria dar uma olhada na mesa de Devus sem que o pegassem. Nesta hora da manhã, o treinador estava no ônibus a serviço. Ele devia ter uns bons quinze minutos para bisbilhotar.

     Pelo menos essa era sua ideia até que encontrou a porta do treinador fechada.

     Maldito seja tudo… Olhou para o teto frustrado.

     — Dar um tempo era pedir muito?

     Dito isso, Nick não estava isento de algumas habilidades. Uma delas era a habilidade de abrir uma fechadura com bastante rapidez. Havia sido um presente de um dos “companheiros de quarto” de seu pai que tinha pensado que seria engraçado ensinar um menino de seis anos a entrar em qualquer lugar.

     Mesmo se ele não fizesse isso, era uma habilidade que Nick nunca tinha permitido que se atrofiasse.

     Apenas para o caso.

     Cinco minutos mais tarde, estava dentro do escritório. Certificando-se de permanecer afastado das câmeras e de manter as luzes apagadas, começou primeiro pelas gavetas da mesa.

    Nada.

     Apenas as coisas típicas que alguém esperaria encontrar no escritório de um treinador. Livro de notas. Apito. Canetas. Lápis. Clipes de Papel. Agenda. Passe de corredor. Livros de jogos. Horários. Listas. Programação de jogadores.

     E então algo lhe ocorreu. Algo que estava dando voltas nas bordas da mente na noite passada na casa do treinador, mas aqui no escritório, era epicamente claro.

     Não havia nada de pessoal no escritório inteiro. Nenhuma foto, um troféu, certificado.

     Nem sequer um Altoid, a famosa uma marca de pastilhas de hortelã.

     Nada.

     Contratado ao mesmo tempo que Devus, o diretor Dick já havia tomado conta do escritório de Peters e fez dele seu próprio lugar. Pela aparência era como se o treinador pudesse renunciar e sair direto pela porta sem empacotar nem um só item.

     Literalmente.

     Na noite passada sua casa estava da mesma maneira. Estéril e impessoal. Onipresente. Sem nada especial. Igual ao próprio treinador. Tudo era esquecível.

     Agora tudo fazia sentido.

     Uau. Devus devia ter se endividado com algo bastante sério que o mantinha correndo constantemente. Que tipo de enorme dívida de jogo tinha acumulado? Devia ser alta para ele viver com este tipo de medo o tempo todo. Um medo que nem sequer lhe permitia escolher o tipo de carro já que dirigia um que não se destaca na estrada. Tudo nele era um manual para desaparecer.

     Não era surpreendente que não pudessem encontrar nenhum rastro dele.

     Ele devia permanecer fora da rede para evitar os agiotas ou bandidos cobradores. Nick quase sentiu pena do homem. Se Devus não era o assassino desumano que o estava chantageando, ele teria sido. Por assim dizer, para Nick realmente não importaria entregá-lo a quem fosse que estivesse atrás dele.

     Sacudindo a cabeça, ele fechou a gaveta.

     — O que está fazendo aqui, Gautier?

     O coração de Nick pulou diante da profunda voz de barítono do treinador vindo de trás.

     Ah, merda. Estou morto.

 

   Tratando de agir da forma mais normal possível, Nick virou-se, embora estivesse tremendo tanto que ele se perguntou se o treinador podia ouvir os joelhos batendo e o coração acelerado.

     Vamos, Nick. Pense. Não estrague isso.

     Mas em sua mente, tudo o que ouvia era o som da sirene da polícia vindo para buscá-lo. Enquanto isso, uma imagem dele pendurado morto em uma isolada cela da prisão dançava em sua cabeça. Ah,merda, não permita que seus poderes psíquicos o atrapalhem agora. Não quando ele realmente não os queria.

     O pânico aumentou.

     Nick obrigou-se a afastar o terror e escolheu a tática mais simples.

     Uma desavergonhada mentira.

     — Esperando por você, Treinador.

     O olhar de Devus estreitou-se perigosamente.

     — Como entrou aqui?

     Bem, hora de passar dois níveis rapidamente. Salve sua pele enquanto pode. Tragou com força antes de responder:

     — A porta estava aberta.

     Apesar de que ele a tinha aberto primeiro, mas era verdade. Estava aberta quando entrou. Menos um detalhe importante.

     Normalmente esta mentira o teria incomodado. No entanto, novas regras se aplicavam quando se tratava com um lunático homicida.

     Devus cortou a distância entre eles até ficar frente a frente com Nick para poder intimidá-lo. Empurrou seu ombro contra o do Nick e o fulminou com o olhar.

     — Está mentindo, rapaz. Sempre fecho com chave.

     Essa não era uma tática inteligente para usar com um tosco Cajun cujo pai era um criminoso de carreira atualmente sentado no corredor da morte. Um que estava acostumado a enfrentar o pior tipo de pessoas e nunca recuar, não importava o que.

     Nem sequer quando lhe apontavam uma arma carregada.

     Como sua mãe tantas vezes disse, os Gautier não fogem. Às vezes queria fazer isso. Às vezes devia fazer. Mas os Gautier não fogem.

     Nunca.

     Nick ficou nas pontas dos pés para nivelar a diferença de altura e se endureceu quando a ira superou o medo… e provavelmente a prudência também…

     — Eu a abri sem qualquer problema.

     Na realidade essa era a verdade.

     E isso enfureceu Devus.

     — Por que estava aqui, menino? O que estava procurando?

     Como não podia admitir a verdade, Nick soltou a única mentira que lhe ocorreu.

     — Perdi a lista que você me deu ontem. E precisava procurar outra.

     O rosto inteiro de Devus ficou vermelho brilhante. Para Nick isso lembrava uma panela de pressão a ponto de explodir.

     — Como pôde ter perdido a lista? Como isso é possível?

     Nick deu de ombros com uma despreocupação que não sentia.

     — Mamãe diz que eu perderia a cabeça a não ser que estivesse pegada nos meus ombros. Suponho que tem razão, não é?

     Devus o agarrou pela frente de sua odiosa camisa havaiana amarela e o segurou com os dois punhos apertados.

     — Escute-me, pequeno vândalo. O tempo está acabando, e se pensa que eu vou poupá-lo, pense novamente. Preciso que comece hoje imediatamente. Se não tiver cinco desses objetos em minhas mãos às três, juro-lhe que o verei detido às quatro. Você está me ouvindo? E sabe o que acontece aos meninos desta escola que são enviados à prisão…

     Um frio calafrio e uma premonição desceu por toda a extensão de sua espinha ao olhar nos olhos do Devus e a crispação de suas linhas de expressão. Se tivesse alguma dúvida antes sobre o suicídio de Dave, isso se dissipou.

     O treinador era um psicopata.

     E tinha assassinado Dave.

     Estou morto. Como podia sair disto?

     Uma batida soou na porta um instante antes que Casey entrasse.

     — Treinador Devus?

     O treinador o jogou sobre a mesa literalmente antes de parar entre Nick e Casey.

     — O que foi? — grunhiu.

     Fazendo uma careta, Nick se endireitou para observar o enfrentamento.

     A favor de Casey estava o fato de que ela não retrocedeu nem se acovardou ao seu tom furioso. Vestida com um par de jeans justo e uma camiseta vermelha de animadora, ela estava excepcionalmente bonita hoje. Piscou dessa maneira vaga que Nick estava começando a suspeitar que fosse encenado, e sorriu.

     — A Senhora Dale queria que lhe pedisse a programação de sexta-feira de noite para assegurar-se da hora em que deve nos encontrar no ônibus. Não podem jogar os playoffs sem as animadoras, sabe? Somos uma parte vital da motivação da equipe, e estivemos trabalhando duro em novos gritos para o jogo. — Piscou para Nick. — É garantido que vamos levantar a moral dos jogadores.

     Nick não se atreveu a comentar sobre isso.

     O treinador grunhiu antes de ir à sua mesa e abrir a última gaveta que Nick tinha procurado. Será que eu coloquei tudo em seu lugar? Se algo estava fora de lugar, o treinador não percebeu graças à intromissão de Casey. Devus tirou uma folha de papel, depois fechou de repente a gaveta.

     — Já entreguei isto a ela.

     Casey encolheu os ombros.

     — Ela disse que se extraviou.

     O treinador dirigiu seu olhar a Nick.

     — Isso está acontecendo muito ultimamente.

     Ignorando a indireta, Casey empinou-se na mesa para tirar-lhe o papel das mãos.

     — Obrigado, treinador Devus. — Depois olhou diretamente para Nick. — Importaria-se em me ajudar um minuto? Preciso de alguém alto ou pelo menos mais alto do que eu. —Sorriu para Devus. — Não incomoda que eu o tome emprestado, não é treinador?

     Seu grunhido se aprofundou quando ele arrancava um pedaço de papel da pracheta. Dobrando-o, entregou-o para Nick.

     — É melhor lembrar o que você está fazendo, rapaz. Está me ouvindo?

     Nick assentiu e antes que pudesse parar, a parte suicida de sua personalidade deixou escapar.

     — Eram três para as cinco, não é?

     Suas narinas inflamaram.

     — Cinco. Para. As. Três. É melhor que se lembre disso.

     — Entendido. — Nick meteu o papel no bolso traseiro enquanto amaldiçoava o treinador em silêncio.

     — Obrigado, treinador Devus — disse Casey, mantendo a porta aberta para Nick, que se sentiu mal durante todo o encontro.

     Como iria sair dessa?

     Casey o guiou através do ginásio. Mas ao invés de dirigir-se para lá, empurrou-o para o oco onde mantinham as máquinas de venda automática para assim ter um pouco de privacidade já que os estudantes estavam chegando à escola.

     — Você está bem? — A preocupação em sua voz o desconcertou. Se não a conhecesse, pensaria que ela sentia algo por ele, mas isso era impossível.

     — Sim. Por quê?

     Ele viu o pânico em seus olhos quando ela olhava para a sala de Devus.

     — Pensei que ele ia machucá-lo, Nick. O que você fez?

     Como se fosse o suficientemente burro para responder. Bem, havia ocasiões em que era muito estúpido.

     Hoje não era um desses dias.

     — Não foi nada.

     — Nick — ela o repreendeu, — que não foi nada! Isso foi pura e espantosa raiva, e teve sorte de que ele não quebrasse novamente o seu braço.

     Ele não estava se recuperando de uma fratura. Tinha recebido um tiro, mas não queria falar disso com ela, então tentou passar por ela. Antes que conseguisse, ela colocou a mão no seu bolso. A próxima coisa que soube é que ela tinha tirado o papel e estava lendo.

     Seu estômago se encolheu enquanto tentava recuperar o papel.

     — Dê-me isso.

     Ela se moveu como um menino de três anos evitando que seus pais lhe tirassem um brinquedo.

     — O que é isto?

     Irritado e zangado, ele parou de persegui-la. Não fazia sentido se ela continuava afastando-o do seu alcance. Tudo o que estava conseguindo era zangá-lo ainda mais.

     — É meu. Agora, devolva-me isso.

     Ela arqueou uma sobrancelha.

     — Vamos lá, não é nada.

     — Nada? — perguntou em dúvida. — Tem um montão de coisas significativas. O anel de grife do Stone? Tem alguma ideia de quanto seus pais pagaram por ele? De fato, o joalheiro telefonou para seu pai para certificar-se de que não era um engano e que eles queriam pedir algo tão caro.

     Nick sussurou:

     — Não fale sobre isto em voz alta, ok?

     Ela se aproximou dele e baixou a voz.

     — Nick, diga-me o que está acontecendo ou irei ao diretor com isto. Eu juro que vou.

     Isso era tudo o que precisava. Podia imaginar a situação com tanta clareza como o dia.

     NICK: Oh, sim, senhor Dick, essa é a lista de roubos que o treinador me entregou. Se não fizer isso, ele me matará. (Parecia uma loucura para alguém que soubesse que não era. Imagina como soaria para alguém que o odiava).

     TREINADOR: Gautier mentiroso pedaço de lixo. Você sabe como eles são. Vêm ao mundo como inúteis ladrões.

     DIRETOR: Sim, são todos canalhas calculistas preparados para roubar tudo o que não esteja preso com pregos.

     TREINADOR: Então, permita-me chamar a polícia para você.

     DIRETOR: Muito bem. Sentarei aqui apenas para vigiá-lo enquanto você a chama.

     Sim, seria alguma variante dessa cena. Mas não importa a cena exata, o final sempre seria o mesmo.

     Ele morto na cadeia.

     Não obrigado.

     — Casey. — Tentou de novo fazê-la voltar à razão — Isto é entre o treinador e eu. Deixe-me em paz e devolva o papel.

     Ela conteve a respiração entre dentes enquanto afastava a folha dele.

     — Não sou muito boa nisso. Especialmente quando vejo algo que se parece com uma lista de compras, e não pense nem por um minuto que não sei nada sobre elas.

     É óbvio que ela sabia disso. O Shopping era a sua vida.

     Estou ferrado.

     — Por favor, estou implorando que você esqueça que viu isso.

     — Por quê?

     Ele não tinha outra opção a não ser pelo menos um pouco honesto com ela.

     — Porque se não fizer isso, terei muitos problemas.

     E morto pela manhã. Estremeceu com o simples pensamento.

     Ela fulminou-o com o olhar debatendo-se em acreditar ou não.

     — Algo me diz que você já tem muitos problemas. O treinador quer você roubando para ele também, não é verdade?

     A mandíbula de Nick afrouxou diante das últimas palavras que esperava ouvir sair de sua boca.

     — O quê?

     Ela deu uma arrogante sacudida de cabeça.

     — Não sou tão estúpida como a pessoas pensam, sabia? Mas quando todos acreditam que você é, surpreenderia-se sobre o que falam à sua volta.

     — Como quem está roubando para ele?

     Ela balançou a cabeça.

     — Escutei-os falar disso uns dias atrás.

     Seu coração acelerou ao pensamento de ter alguém que pudesse corroborar sua história com o diretor. Se pudesse ter um par de mascotes da escola que o respaldassem, tinha uma oportunidade de levar a treinador diante da justiça.

     — Quem?

     — Dave e Barry.

     Seu estômago afundou. Isso não era bom. Nada bom.

     — Barry Thornton?

   Ela concordou com a cabeça.

     Ambos mortos. Oh, sim, tudo fazia sentido agora. O treinador usava quem podia, depois os matava para evitar que o delatassem. Não é de admirar que Ash houvesse dito que o ataque ao Barry não parecia certo.

     Não era.

   Não era nada mais que a crueldade humana de um covarde que estava tentando cobrir seus rastros. Que cão...

     — Conhece mais alguém? — perguntou-lhe, esperando salvar um pouco do seu plano.

     —Não, só eles.

     Maldita seja ela por esmagar suas esperanças de novo.

     De repente, os olhos dela se arregalaram.

     — Não acha que ele tem algo a ver com suas mortes, não é?

     Absolutamente, mas não ia começar a difamar um funcionário da escola quando não tinha nada para avalizar suas suspeitas.

   — Por que diz isso?

     —Bom, eles roubaram para ele e agora ambos estão mortos. A que outra conclusão poderia chegar?

     Que Nick estava ferrado e que provavelmente muito em breve ele os acompanharia à tumba.

     Ele quis chorar quando se deu conta o quão inevitável era isso. Iria morrer como um pobre, andarilho virgem…

     Por que, Senhor? Por quê?

     Ela o empurrou dentro de uma sala de aula, longe da multidão de estudantes que estava crescendo rapidamente enquanto as pessoas entravam pela porta traseira da escola.

     — Bem, escuta. Tenho uma ideia. E se eu ajudá-lo?

     Seu cérebro automaticamente retornou ao pensamento anterior. Não, não sou tão sortudo. Ela não tinha nem ideia de por que ele temia morrer muito jovem. Ele devia estar interpretando mal suas intenções.

     — Ajudar-me a fazer o que?

     — A obter o que você precisa.

     Oh, sim claro…

     — Você está louca? — gritou-lhe. — Não pode fazer isso, Casey.

     — É óbvio que posso. Não quero vê-lo assassinado. Não é justo.

     Não podiam estar mais de acordo. Entretanto, também não queria que ela morresse por fazer uma boa ação. Não havia necessidade de ambos assombrando o ginásio.

     — Talvez pudéssemos ir até o diretor. Eu sei que não vai acreditar em mim, mas com você ali, ele…

     — Não tenho provas. Por que ele me escutaria?

     Nick encolheu os ombros.

     — Você vem de uma boa família. Por que mentiria?

     — Não sei. O treinador poderia dizer-lhe que estamos dormindo juntos ou alguma outra mentira. Sabe como são os adultos. Eles nunca acreditam nos meninos de nossa idade, e estão sempre esperando que nos metamos em apuros ou com drogas. Sempre que algo acontece, eles imediatamente culpam aos games que jogamos, os desenhos animados que assistimos, a música que escutamos ou a algo oculto que seja lucrativo como culpar a D&D e RPG.

     Ela tinha razão. A maioria dos adultos fazia isso, mas ele sabia que Kyrian e Ash acreditariam nele.

     E sua mãe talvez…

     Bubba e Mark acreditariam nele definitivamente, mas dado que eles também acreditavam no Pé Grande, o homem das neves, em homenzinhos verdes e na fada do dente, ninguém nunca acreditaria neles. De fato, tê-los a bordo seria um risco.

     Embora não havia nada que nenhum deles pudesse fazer sem provas. Tudo se reduzia a essa única palavra. A única maneira de apanhar ao treinador seria em flagrante e mostrar ao diretor e a todos os outros o maluco demente que ele era.

     — Temos de encontrar outros estudantes que ele esteja chantageando.

     Casey franziu o cenho.

     — Como?

     — Não tenho nem ideia. Mas você conhece todos na escola. Não pode investigar? Como descobriu sobre Barry e Dave?

     — Da mesma maneira que descobri você. Por acidente. Eles estavam falando e eu estava passando.

     Isso não ajudava. Eles não tinham tempo para que ela “acidentalmente” descobrisse todos os estudantes que Devus estava perseguindo. Ela teria que caminhar pelos corredores como uma autômata sem cérebro, que fizesse um relatório e os pusessem na detenção.

     O relógio corria como o coração delator, e ele tinha que roubar objetos e entregar ao treinador antes que a escola terminasse as aulas, ou literalmente sua cabeça estaria sobre o tronco. Já podia sentir a queda da guilhotina.

     Finalmente, por mais que o odiasse, tinha que concordar com a estúpida ideia de Casey. Não podia fazer isso sozinho e sobreviver.

     Arderei por isso...

     — Está bem, Casey. Não vamos roubar nada, está bem? Vamos pedi-los emprestados, e eu me assegurarei de devolvê-los uma vez que tudo estiver terminado. Você entendeu?

     — Se você diz. — Olhou para a lista e selecionou seus objetos. — Posso conseguir a escova de cabelo de Shannon e o anel de Stone sem nenhum problema.

     Não é que duvidasse dela, mas...

     — Sério?

     Ela concordou.

     — Supõe-se que Stone e eu estamos namorando. Eu sorrio ao imbecil e ele me dará isso. Para ele não importa todo o dinheiro que seus pais pagaram por isso. Para ele é só algo que fica em uma caixa ou que me marca como sua propriedade. Eu odeio toda essa coisa territorial que ele faz. Tenho sorte de que não esteja me marcando de uma maneira mais pessoal.

     Agh. Era um pensamento que ele sequer queria contemplar. Onde estava aquele branqueador olho mental quando precisava dele?

     Não o suficientemente perto. Obviamente.

     — O que mais?

     — Posso pedir emprestada a escova de Shannon sem nenhum problema também.

     Bem. Isso deixava a Nick encarregar-se de sua parte da associação.

     — Posso perguntar ao Mason se pode me emprestar suas anotações de história.

     Sua caligrafia era uma das coisas que o treinador precisava por alguma razão. Não fazia sentido para Nick, mas longe dele tentar educar a um homem com um título universitário.

     — O que mais? —perguntou-lhe ela.

     Nick olhou de novo e viu outro objeto fácil de obter.

     — Michael sempre esquece um de seus cachecóis na cafeteria. Aposto que posso conseguir um desses nos achados e perdidos.

     Por que um cachecol? Não tinha nem ideia. Talvez fosse a manta do corpulento homem de segurança, e precisasse dela para os dias de jogo.

     No que diz respeito ao assunto, talvez o treinador fosse apenas estranho.

     Casey apontou outro objeto da lista.

     — Posso conseguir o colar de Kody.

     Nick recuou diante de sua oferta. Essa era a única coisa que não tinha intenção de tomar.

     — Absolutamente não.

     — Não?

     — Não — repetiu com firmeza.

     Ela bateu o pé como se fosse um menino.

     — Por quê? Você quer roubá-lo?

     Não, mas também não queria que ela se tornasse uma criminosa também. Quão estranho seria dar uma entrevista no baile de graduação com uma escolta policial? Havia coisas que um menino não queria experimentar, e isso estava quase no topo de sua lista.

     — Não estamos roubando, Casey. Estamos pedindo emprestado.

     — Bem. Pedirei “emprestado” — ela zombou fazendo aspas no ar com os dedos em volta da palavra — seu colar.

     E antes que Nick pudesse protestar por essa declaração, ela foi embora.

     Volta, sua...

     Mas não havia nada que pudesse fazer. Ela o deixou na poeira.

     Aborrecido, ele desejou poder chamá-la sem começar uma cena. Infelizmente, havia muitos estudantes no prédio agora para que ele pudesse usar seus poderes.

     E mais estavam chegando pelas portas.

     Bem. Ele lidaria com Casey depois. Agora ele tinha um cachecol a encontrar e algumas anotações para pedir emprestado.

***

   A senhora Grider manteve seus pequenos olhos redondos e brilhantes nele enquanto ele escavava na grande caixa de itens não reclamados que a escola mantinha na sala da recepção.

     — Tem certeza que esse é seu cachecol? Não recordo de que alguma vez tivesse um. Parece-me que também não tem nenhum casaco. Tudo o que lembro são jeans esfarrapados, horríveis camisas de turista que vendem barato em Goodwill e sapatos gastos.

     Nick se encolheu diante da memória inigualável desta nazista na aparência e aspecto Com 904 anos, sua memória deveria estar diminuindo, ou assim se pensa. Mas aparentemente as únicas coisas que ela tinha perdido eram sua personalidade e decência humana.

     — Bem, senhora Grider, se você lembrasse tudo o que pertence a cada um nesta escola, não seria necessário um departamento de objetos perdidos, não é verdade?

     Ela o fulminou com o olhar.

     — É melhor que isso seja seu. Estou fazendo uma anotação sobre o que é e quem o leva.

     É óbvio que está fazendo.

     — Se alguém vier procurá-lo, vou dizer exatamente quem a levou.

     Com um sorriso falso, Nick colocou o cachecol na mochila e caminhou até a porta. As coisas que faço por você, mamãe. Se dependesse dele, deixaria esta escola e iria para uma onde não seria um pária. Uma onde ele fosse normal e o resto das pessoas fossem os fenômenos. Mas sua mãe queria que ele tivesse a melhor educação possível.

     Assim aqui estava ele.

     No inferno durante três anos e meio ou mais.

     Mais uma vez, obrigado mamãe.

     Enquanto se dirigia para seu armário para trocar os livros, algo se moveu rapidamente para a direita. Sempre em guarda de que Stone ou seus amigos o colocassem numa armadilha, Nick saltou para a esquerda e…

     Nada.

     Franzindo a testa pela confusão, percorreu com a vista a parede e não viu nenhum rastro do que fosse que tivesse visto. Estranho. Um giro lento no meio do corredor não lhe revelou nada mais que muito estudantes movendo-se ao redor dele.

     Mas enquanto procurava, tudo ficou mais lento como a repetição de uma jogada. O pêndulo no bolso esquentou ao mesmo tempo em que sentia que o colar de Mark vibrava.

   Seus ouvidos zumbiam, e um aroma tóxico encheu a cabeça.

     — É melhor que não você seja de novo, Mark. — Não estava de humor para isso.

     Não tinha terminado de dizer essas palavras quando as luzes na escola se apagaram. Os gritos de seus companheiros eram ensurdecedores e densos… abrandou-se para coincidir com a velocidade normal de um caracol.

     Do nada, um raio atravessou-lhe o peito, pegando-o pelos pés e lançando-o através do corredor.

 

   Nick não conseguia respirar. Sentia como se seus pulmões estivessem em colapso. Bateu tão forte na parede acima dos armários, que não tinha certeza como não atravessou o concreto e triturou cada osso do corpo. Sem nada que o segurasse, caiu da parte superior da parede, direto no chão.

     Atordoado e provando seu sangue, ficou deitado sobre um monte de destroços até que alguma coisa o agarrou pela camisa e o empurrou contra a parede. Segurou-o ali com um punho invisível que o deixou pendurado.

     — Você é o único? — A grossa e monstruosa voz não estava falando em inglês, e, no entanto, ele o entendeu de alguma maneira. — Você é o único?

     O único o quê?

     A sangrar em seus sapatos? Confere.

     A amassar a parede? Confere.

     A chutar seu traseiro demoníaco...

     Altamente improvável.

     Nick bateu com as palmas das mãos sobre as garras da criatura, tentando desviar seu corpo. Era inútil e ele considerou pisar em seus óculos de Clark Kent.

     — Deixe-me ir!

     Aproximou-se de seu corpo bulboso e fedorento para poder examiná-lo. Em seguida ele deslizou contra algo úmido e viscoso. O que foi isso?

     Um nariz?

     Oh, sim, a coisa definitivamente estava farejando-o.

     — Uh, que asco! Afaste-se de mim! O que é você?

     — É algo horrível. Nick, abaixe-se.

     Ele sequer teve tempo de escapar do alcance daquela coisa, antes que Caleb o atacasse a uma velocidade demoníaca completa. No momento em que fez isso, a criatura perdeu todo interesse em Nick quando girava para enfrentar Caleb.

     Nick jogou-se no chão em uma área de relativa segurança para poder entender o que estava acontecendo.

     Caminhando de costas como um durão total, Caleb o rodeou, obrigando-o a girar para mantê-lo em sua linha de visão. Vestido com uma armadura dourada de guerra que o cobria por completo à exceção de seus brilhantes e malvados olhos de serpentes, Caleb era uma visão impressionante. Especialmente com a envergadura do que tinha sobre suas costas. Duas espadas embainhadas cruzavam seus ombros, mas por seus movimentos, Nick apostava que Caleb podia tê-las desenhadas na besta mais rápido que alguém pudesse dizer Liu Kang. Sim, está bem, ele parecia mais com Kano. Mas... Liu Kang soava mais frio.

     — Malphas... — A criatura pronunciou seu nome como um insulto. —Ouvi dizer que o Malachai tinha um cachorrinho... Quem sonharia que fosse você?

     Caleb estremeceu.

     — Agora, isso me doeu no meu lugar mais macio, Bricis. Sério? Era necessário acrescentar esse insulto?

     Ignorando-o, Bricis agitou o queixo em direção a Nick.

     — É ele o único?

     Caleb bateu em seu peitoral duas vezes para chamar a atenção da criatura de volta para ele.

     — Neste momento, eu sou o único com quem você precisa preocupar-se.

     Bricis foi para o pescoço de Caleb. Caleb apanhou sua mão, depois o chutou contra a parede. Segurando-o pelo braço, Caleb o retorceu e conduziu sua cabeça até a parede, contra os armários. Grunhindo, escapou do seu controle e com as costas das mãos deu-lhe um duro de reverso.

     Os dois foram um para o outro como Jet Li e Jackie Chan em um histórico jogo da morte, esfaqueando, batendo, investindo e esquivando. Era uma dança bonita e macabra em uma música que só eles podiam ouvir. Nick estava assombrado com suas habilidades.

   Cara, o que ele daria para ter um pouco disso...

     Pelo menos esse era seu pensamento até que Caleb apunhalou Bricis, fatiando seus braços. No momento em que jorros de sangue fedorento caíam ao chão, transformavam-se em ajudantes demoníacos quem corriam para Caleb. Isso não era bom.

     Não ia permitir que seu amigo caísse para protegê-lo. Hora de sujar as mãos.

     Sim, claro. No que ele estava pensando? Isto não era como enfrentar um treinador humano. Você está por conseguir que chutem seu traseiro até a Idade Média. Talvez até a Idade da Pedra. Essas coisas tinham dentes como piranhas. E estavam mastigando Caleb.

     Homem ou rato, Nick?

     Escapar.

     Como se ele pudesse. A covardia não estava nele. Respirando profundamente para preparar-se para a dor adicional que ia sofrer, Nick correu para eles. Pegou o primeiro com o punho no estômago e nas tripas. Ele riu como se tivesse feito cócegas. Ah, diabos. Isto ia doer, seria muito ruim.

     Mas quando se equilibrou sobre ele, algo milagroso ocorreu. A mesma força que tinha tomado controle dele quando tinha lutado contra os Mortents, retornou com força.

     — Não, Nick! Pare! — gritou Caleb.

     É mais fácil dizer que fazer. Qualquer que fosse o poder, irradiava através dele, levantando seu cabelo e cobrindo-o como uma suave e confortante manta de luz. Era como se uma parte dele ansiasse por isso e mamasse da mesma maneira que um bebê anseia por sua mamadeira. Precisava disto… sem importar o que isto fosse.

     Caleb falou em um idioma que ele não podia decifrar. De repente, uma capa apareceu em suas mãos. Em um segundo, Nick estava pairando no corredor, derrotando os jovens demônios, e no momento seguinte havia sido arremessado dentro de um armário.

     — Ei! — gritou para Caleb. — Eu não sou Madaug! Por que fez isto? — Lá fora, ele ouvia a luta continuar entre Caleb e Bricis e seus asseclas sanguinários.

     — Aonde ele foi Malphas? — perguntou Bricis, como se não pudesse ouvir Nick gritando com ele.

     Caleb tirou suas espadas e as retorceu ao redor de seu corpo em uma impecável e bela exibição de poder e habilidade.

     — Ele não é da sua conta. Não é o que você pensa.

     Bricis bufou uma negação.

     — Você não o defenderia a menos que ele fosse.

     — Você não me conhece. Absolutamente.

     Bricis riu enquanto ele e seus asseclas batiam em Caleb com tudo o que tinham. Nick lutou para livrar-se da capa e voltar à briga, mas quanto mais lutava para escapar, mais apertada ficava ao redor dele. Quando tentou chamar Caleb de novo, o pano cobriu-lhe a boca e o sufocou. O que…?

     Zangado e desesperado, não tinha outra escolha que engolir essa humilhação enquanto Caleb lutava sozinho.

     Eu tenho que fazer alguma coisa. Espere. Ele sabia.

     — Ambrose!

     — Eu sei o que você quer Nick e não posso interferir.

     Embora soubesse que seria inútil, Nick continuou lutando.

     — O que quer dizer com não pode interferir?

     — Há regras, e se eu intervier por Caleb, eu colocaria mais risco para você. Sem ofender, mas você significa muito mais para mim do que ele.

     — Eu não me importo. Caleb é meu amigo. Não quero vê-lo ferido por tentar me ajudar.

     Ambrose bufou.

     — Caleb não é seu amigo. Nunca cometa esse engano ou vai se arrepender.

     Nick não acreditou nem por um segundo. Ele o conhecia bem.

     — Como sei que não é você quem está mentindo?

     Ele podia sentir a presença de desgosto do Ambrose com ele.

     — Temos que jogar este jogo de novo? Estou cansado disto. Não é de admirar que Kyrian sempre perdesse a paciência. Agora me surpreende que nunca o tenha matado.

     Isso lhe enviou um calafrio.

     — O que quer dizer?

     — Paciência, Nick, paciência. Caleb pode cuidar disso sozinho. Acredite em mim. Ele lutou em batalhas maiores, mais cruéis e mais significativas.

     Não parecia assim para ele. Parecia-lhe um banho de sangue.

     Nick se inclinou para frente para poder olhar pelas frestas do metal. Havia sangue por todo o corredor e sobre as paredes. Saíam da armadura de Caleb provenientes de numerosas feridas.

     — Olhe garoto, não posso permanecer aqui. Quanto mais fico, mais perigoso ficará.

     — Covarde! — Mas era muito tarde. Ambrose já tinha ido. — Sim, corra. Você é igual ao seu irmão, escória inútil! Deixando um amigo morrer por você. Você me enoja!

     Mesmo assim, Ambrose não respondeu.

     Bom. Não é que significasse algo para Nick, de todo modo. Seu tio foi talhado do mesmo tecido perverso que seu pai. Mereciam-se o um ao outro.

     De repente, tudo estava tranquilo novamente lá fora. Inclinando-se para frente, teve que cerrar os olhos para ver o que estava acontecendo.

     Uma gigante mancha verde crepitava contra a parede mais oposta, ardendo lentamente contra os blocos de concreto azul celeste. Entre a forma sangrenta de Caleb e a mancha verde, manchas púrpuras marcavam o desgastado chão de ladrilhos. Ofegando e agarrando firmemente uma espada ensanguentada, Caleb olhou diretamente para ele. Ele colocou suas asas enquanto sua armadura fundia-se em roupas. Suas escamas voltavam a ser pele humana. A última coisa a mudar foram aqueles horripilantes olhos de serpentes que brilhavam com muita luz.

   Caleb passou as mãos pelo cabelo antes de cortar a distância até o armário e abri-lo.

     Nick caiu a seus pés.

     Com um som de desgosto, Caleb olhou fixamente para ele.

     — Isso era realmente necessário?

     Nick tentou responder, mas o pano ainda estava em sua boca.

     — Sei que vou me arrepender disso, mas… — Estalou os dedos e Nick foi libertado.

     Nick levantou-se preparado para estrangulá-lo enquanto afastava o tecido.

     — O que acha que…? — Parou quando percebeu que Caleb estava gravemente ferido. — Cara, você está bem?

     — Preciso de um minuto para acalmar a dor antes de liberar os outros.

     — Liberar…? — Mais uma vez Nick duvidou quando percebeu que os estudantes ao seu redor estavam se movendo tão devagar agora, que mal podia perceber. Pareciam presos a um túnel do tempo de algum tipo. — O que está acontecendo?

     — É o mesmo conceito que algum dia vai permiti-lo voar. Você pode manipular o tempo e mover-se através do seu fluxo invisível. Eu os fiz ir mais devagar para que pudéssemos lutar e para evitar que enlouquecessem ou fossem feridos.

     Nick estava aterrorizado pelo que ele descreveu. Eles realmente podiam fazer isso?

     Diversão perversa.

     Exceto pela mancha na parede. Ele inclinou a cabeça para ela.

     — O que foi aquilo?

     Caleb inclinou-se contra a parede.

     — Fringe Hunter. Um desagradável, também.

     — Ele me queria?

     — Não. — Caleb passou a mão pela testa úmida. — Estava atrás de outro.

     — Não foi isso que ele disse. Ele ficava me perguntando se eu era o único.

     Caleb cerrou os olhos.

     — Isso é algo que está além de você. Ele não teria ido atrás de você se não você não tivesse exposto a si mesmo.

     Perdão? Eu realmente acredito que me mantive em minhas calças.

     — E o que isso significa?

     Caleb gesticulou para os restos.

     — Você não pode usar seus poderes a menos que esteja ao redor de alguém que possa protegê-lo. Diabos Nick! Você poderia ter morrido. Não entende isso? Quando eu te disser uma coisa, você tem que ouvir. Idiota.

     Lembrou o que Ambrose havia dito sobre a lealdade de Caleb.

     — Por que você se importa?

     Caleb curvou os lábios em uma expressão que era puramente demoníaca.

     — Não me importo. Realmente. Se você morre, eu sou livre. Para mim, esse será um grande dia.

     — Então, por que me protege?

     Caleb afastou o olhar dele como se a visão do Nick o deixasse doente. Mas Nick queria respostas, e não ia parar se até que obtivesse algumas.

     — O que é que não está me contando?

     — É como um filme ruim, Nick. Você nasceu como a mais bendita e maldita de todas as criaturas. Uma abominação que nunca deveria ter sido criada, e ainda assim, está aqui. Como uma criança desprotegida que não tem conhecimento do mundo que o criou. Sem o conhecimento do poder e a destruição que é capaz. Que está destinado a matar a todos que o amam. Todos que você ama.

     O coração acelerou pelo que Caleb havia descrito.

     Não, não era verdade. Ele recusou-se a acreditar. Nunca mataria as pessoas que amava. Não estava nele.

     — Você está mentindo — acusou-o.

     — É verdade. É uma praga, Nick. Uma ferida no…

     — Pare, Malphas! Não se atreva.

     Nick ficou boquiaberto diante do tom indignado de Kody. Estupefato além da crença, ele girou para vê-la aproximar-se deles pelo corredor sul.

     Por que ela não estava congelada como o resto da escola? Em vez disso, ela estava se movendo tão livremente quanto eles.

     Caleb zombou quando ela se uniu a eles.

     — Eu sugiro que você nos deixe. Isto não é da sua conta.

     Ela zombou de sua breve dispensa.

     — Claro que é da minha conta. O que está tentando fazer?

     — Ele precisa saber a verdade. Sem que a minimizem ou embelezem. A simples e pura verdade do que é que ele vai fazer. Se fôssemos inteligentes, nós o mataríamos agora, fazendo um favor ao mundo.

     Ela gesticulou para Caleb.

     — Você está ouvindo a si mesmo?

     — Como se você não fosse cortar-lhe o pescoço se lhe fosse ordenado isso. Vamos, Nekoda. Diga a ele para quem você trabalha.

     O pânico escureceu seus olhos quando ela se negou a encontrar seu olhar.

     Isto não era bom. Justo quando ele pensava que podia confiar em alguém, eles passavam a ser… o quê?

     — Kody? Você também é um demônio? —perguntou Nick, desesperado por saber com o que ele estava lidando agora.

     — Não — disse Caleb em um tom sufocado. — Ela é algo que faz que nós pareçamos amáveis.

     Nick tragou com força a essa revelação. Havia algo pior que um demônio? Esse pensamento lhe dava muito que refletir.

     — O que é então?

     Caleb a olhou com um sorriso malicioso.

     — A humanidade não tem uma palavra para ela. Ela é absoluta agonia.

   Kody o olhou fixamente.

     — E você, o que é?

     — Em uma palavra? Condenado.

     Nick já tinha escutado o suficiente.

     — E eu vou embora. — Antes que pudesse mover-se, ambos jogaram suas mãos e o congelaram no lugar.

     Este sentimento de ser uma mosca apanhada em uma armadilha estava ficando velho. Se continuassem assim, ele começaria a cobrar aluguel pelo tempo que lhe roubavam com bobagens.

     Kody sacudiu a cabeça.

     — Não era assim que eu queria que ele se soubesse sobre mim. Era para eu estar incógnita. Obrigado por me delatar, Malphas.

     Ele deu-lhe uma fingida reverência.

     — É um prazer. Qualquer coisa para arruinar seu dia.

     Ela deu um olhar significativo para a sua virilha.

     — Sim e eu estou a ponto de arruinar suas noites, menino amante. Para toda a eternidade.

     Caleb bufou.

     — Alguma novidade? Não que eu tivesse tempo livre, de qualquer maneira.

     — Não entendo onde você está com a cabeça — disse ela em um tom aborrecido. —Como pode ser tão frio depois de tudo?

     — Estou cansado, Nekoda. Ao contrário de você, eu não tenho um descanso nessa minha existência infernal. E não vejo por que estamos fazendo esta dança ridícula quando ambos sabemos como termina esta obra. Profecia é profecia. Nada muda isso. Nada.

     Ela discordou.

     — E a vontade humana é a força mais poderosa jamais criada. Há aqueles nascidos para ter sucesso e aqueles que estão determinados a vencer. Os primeiros caem nisso, e os últimos lutam por isso custe o que custar. Eles não serão negados. Nada os intimida.

     Caleb pôs os olhos em branco.

     — Realmente acredita nesta besteira?

     — Sim.

     — Olhe nos meus olhos e diga-me que nunca teve uma única dúvida.

     Ela olhou para ele franzindo o rosto.

     — É claro que eu tenho. Sem a dúvida não pode haver fé.

     Sacudindo a cabeça, Caleb caminhou ao redor dela.

     — E me adoecem seus pequenos e sucintos ditados. Realmente. Troca de música, querida.

     Kody não tentou parar Caleb que se afastava deles.

     — O que está acontecendo, Kody? Quem é você? O que está fazendo aqui?

     Parecia deprimida.

     — Pense em mim como um guardião.

     — Do quê?

     — Não posso dizer-lhe isso. É proibido.

     Como parecia ser tudo naqueles dias. Realmente estava se aborrecendo de não ter respostas reais.

     — Está aqui para me matar?

     Ela negou com a cabeça.

     — Sou uma observadora que informa de seu progresso a outros.

     — O quê?

     — É verdade, Nick. Como Caleb, estou aqui para cuidar de você, mas por uma razão completamente diferente. Temos que nos assegurar que permanece humano e que seus sentimentos não murchem e nem morram.

     — Por quê?

     — Porque quando você deixar de se importar com tudo e com todos, Nick, você se transformará em um boneco e em um escravo de um dos poderes mais obscuros jamais criado. Quando isso acontecer, você destruirá o mundo.

 

   Não é todo o dia que você descobre que está destinado a destruir o mundo. E enquanto as palavras se chocavam contra Nick, ele se sentiu lento e perdido como as pessoas que o rodeavam e que apenas se moviam no espaço. Parecia que ele iam em câmara lenta, tentado alcançá-los.

     — O que você está dizendo? — ele perguntou para Kody, tentando controlar esse momento.

     — É verdade, Nick. É por isso que tantas criaturas estão atrás de você agora. Se puderem capturá-lo enquanto você é frágil, poderão aproveitar seus poderes e utilizá-los para seu próprio benefício.

     — Não vou deixar que eles façam isso.

     Ela inclinou a cabeça para ele.

     — Estamos aqui para nos assegurar disso. Caleb e eu somos seus protetores. Ele de seu corpo e eu de sua mente.

     Hein? Além do fato de que ele era louco, não havia nada errado com sua mente. Por que necessitava de seu próprio protetor?

     — Isso não faz sentido.

     — É óbvio que sim. Pense nisto por um segundo. Sua bondade e seu livre-arbítrio são as únicas coisas que o impedem de te quebrar e torná-lo apático. Você deve se aferrar a essa parte, sempre.

     — E se não fizer isso?

     — Você sabe a resposta.

     Ele mataria todo mundo, e todas as pessoas ao seu redor deixariam de existir. Ele negou com a cabeça.

     — Não acredito que eu goste disto. Não quero este poder. Leve-o para longe de mim.

     — Não posso. Ninguém pode. E agora, você também não tem o poder. Não é mais que um embrião.

     Talvez houvesse tempo. Talvez...

     — Então eu não vou aprender.

     Se nunca abraçasse seus poderes, eles não poderiam ser usados por ninguém, nem sequer por ele. Isso deveria proteger a todos.

     Kody não lhe deu trégua.

     — Você tem que aprender. Se você se negar, sua mão será forçada de um modo ou de outro, e todos os que você ama pagarão o preço. Você tem que se tornar forte o suficiente para proteger-se a si mesmo e a quem o rodeia. É a única esperança que vocês têm. É a única esperança que qualquer um de nós tem. Não entende isso, Nick?

     — Não, não entendo. — ele sentia como se o mundo inteiro estivesse desabando sobre ele. Havia um diretor que morria de vontade para enviá-lo à cadeia. Um treinador que queria matá-lo. Um chefe que era um vampiro assassino imortal. Seus dois melhores amigos eram insanos e sua pseudo namorada acabava de dizer-lhe que ele era a bomba final que acabaria com o mundo.

     Eu não sou suficientemente velho para lidar com isso.

     Ele era só um garoto.

   Incapaz de respirar, ele encontrou o olhar de Kody.

     — Quero voltar a ser normal outra vez. Esquecer tudo isto. Quero passar horas jogando irresponsavelmente jogos de videogame…

     — Nick, você nunca foi irresponsável, e sabe disso.

     Era verdade. Mas...

     Ele poderia aprender. Estava disposto a fazer isso.

     Pare com isso. Desde que nasceu ele teve que cuidar de sua mãe. Olhar por ela.

     E...

     O feitiço de seus colegas de sala quebrou-se. Num piscar de olhos, tudo voltou ao normal com uma rajada forte e raivosa. Nenhum deles sabia da batalha que havia sido travada no meio deles enquanto corriam pelo corredor, tentando ir à aula antes do próximo toque do sino. Nenhum deles via os restos já fadados a nada mais que em uma má lembrança.

     Exceto ele.

     Nick sabia, e ele nunca seria normal novamente.

     É mentira. Ela está brincando com você.

     Mas no fundo, ele sabia bem. Isso não era uma mentira. Ele sentia como a verdade.

     Eu não vou fazer isso. Não vou.

     Você disse o mesmo sobre roubar e o que está fazendo?

     Levando em conta o estímulo adequado, qualquer um era capaz de tudo. Bubba havia batido nessa ideia repetidamente. Mesmo Madre Teresa podia mudar para o lado da violência se os botões corretos fossem pulsados.

     Entretanto, Nick nunca esteve muito seguro dessa analogia...

     — Preciso descansar por um minuto.

     Kody moveu-se em direção a ele.

     — Você quer que eu pare…?

     — Não! — ele retrucou, apavorado pelo que ela poderia fazer. — Não quero nenhum tipo de abracadabra ou qualquer outra coisa. Só quero me sentar aqui por um minuto e pensar.

     O sino soou.

     Tinha que ir à aula e começar seu dia. Ele tinha uma lista de coisas que roubar para seu treinador...

     Isso era ridículo, levando-se em conta tudo o que estava acontecendo.

     — Posso ser assassinado? — perguntou-lhe, questionando exatamente quem e o que era.

     — Oh, sim.

     — O que acontece se eu morrer?

     — Honestamente, não estamos completamente certos. Além de que os poderes de seu pai continuarão a crescer até que…

     —O-o-o qu-quê? Meu pai?

     Ela balançou a cabeça.

     — De onde você acha que veio tudo isto? Você nasceu para ser o substituto de seu pai. Uma vez que esteja a salvo, ele terá que se render.

     — Render-se ou morrer?

     —Se ele não se render de boa vontade, ele vai ser morto.

     Bem, isso explicava porque o homem o odiava tanto. Porque não podia suportar nem olhar para ele. Fora tudo o que tinha aprendido, na verdade isso o fazia sentir-se um pouco melhor. Pela primeira vez em sua vida, compreendeu seu pai.

     E…

     — As coisas que meu pai disse à polícia a respeito dos demônios que o atacavam…

     — Tudo isso é verdade e estas forças estarão agora atrás de você, também.

     — Mova-se Gautier, vagabundo inútil.

     Stone o empurrou com força enquanto passava.

     Nick começou a ir atrás dele, só para encontrar Kody no caminho.

     — Esse é o tipo de reação que o fará fracassar. Levará seus inimigos à sua porta. Stone realmente vale a pena?

     Não.

     Talvez?

     — E a minha mãe?

     — Você já sabe a resposta.

     Ele era seu protetor, também. Sempre o homem da casa.

     — E se eu morrer…

     — Seu pai teria outro filho. Um que não teria a sua humanidade. Sua mãe é o que faz de você especial, Nick. A próxima mulher de Adarian não seria ela. Seu filho não seria você. Todos nós somos o ponto culminante de uma parte transcendental de nossos pais e seu passado. Uma parte vital das circunstâncias com as quais fomos criados. Tudo o que acontece conosco, bom ou mau, deixa uma impressão duradoura em nossas almas. Você leva uma parte disso, e poderá reescrever completamente algo essencial de nós. Em geral, não são as coisas grandes as que nos moldam. São as pequenas, no dia a dia, o que nos fazem ser quem somos. Quem seremos.

     A cabeça latejava, tentando digerir tudo aquilo.

     — Estou tão aflito.

     — A maioria de nós está, Nick. Apesar de por fora aparentemente estarmos calmos e tranquilos, quase todos nós mal nos penduramos em nossas unhas. Sabe por que Bubba vê Oprah todos os dias?

     — Ele é louco?

     Ela negou com a cabeça lentamente.

     — Era o programa favorito de sua esposa, e ela morreu enquanto o via.

     Essa notícia o deixou perplexo, quase tanto como a notícia sobre quem era ele realmente.

     — Bubba era casado?

     — Bubba era pai.

     Ele ficou boquiaberto. Bubba um pai? Como era possível que não soubesse disso?

     — Ela o deixou?

     — Não voluntariamente. Ela voltou para casa doente do trabalho, estava cuidando do bebê quando alguém invadiu sua casa e os assassinou. Bubba chegou em casa do trabalho e os encontrou, teve uma crise nervosa logo depois. Renunciou à alta tecnologia, seu altamente remunerado posto de trabalho e abriu sua loja para poder oferecer ao mundo a segurança e as armas que precisassem para proteger aqueles que amavam. É por isso que ronda de noite, em busca de outros predadores dispostos a tirar vidas de inocentes. É por isso que ele não pode dormir e por que parece tão obcecado. Ele é.

     E isso explicava as aulas gratuitas de sobrevivência que dava à noite. As aulas de autodefesa em que recrutava tantas mulheres e meninos como podia conseguir. A razão pela que mantinha todo mundo à distância às vezes.

     Tudo fazia sentido agora.

   Nick sentiu-se mal pelo que ela descreveu.

     — Nada disso era uma decisão pequena. Tudo parece muito importante por aqui.

     — Você está olhando para uma grande imagem que é feita de pequenos pontinhos. Como a pintura de um piquenique na praia. À distância, parece uma imagem bem definida, mas de perto podem-se ver todos os pequenos pontos que dão uma maior ilusão. A esposa de Bubba decidiu sair cedo do trabalho e ir diretamente para casa e não ao médico. Decidiu pegar seu bebê na babá e esperar para ir ao supermercado. Ela tinha pedido a Bubba que voltasse para casa cedo, também, mas ele decidiu que precisava trabalhar. Se apenas uma dessas pequenas variáveis mudasse, toda a sua vida seria completamente diferente.

     — Ou não?

     Kody arqueou uma sobrancelha.

     — Se ela tivesse deixado ao bebê com sua babá, ainda assim estaria morta. Como isso mudaria alguma coisa?

     — Com um bebê para alimentar, Bubba não teria se dedicado à sua loja. Teria se dedicado ao menino, e ele seria o centro de seu mundo.

     — Como você sabe isso?

     — Olhe em seu coração, e você saberá a resposta.

     Ele olhou, mas não estava disposto a aceitá-lo ainda.

     Kody inclinou-se para sussurrar-lhe ao ouvido.

     — Se você não tivesse ido ver sua mãe na noite em que você levou um tiro... se tivesse ido à sua casa depois do trabalho como você deveria ter feito, não teria conhecido Kyrian. Sua mãe ainda estaria…

     — Eu entendo.

     Se ele enfrentasse Alan, Kyrian também não teria salvado sua vida. Kyrian o teria jogado com o resto da gentalha.

     Uma pequena decisão.

     Uma vida alterada por esse evento.

     — Como é que vamos saber quando chegam esses momentos importantes?

     — Por isso você deve aprender seus poderes. Você já ouviu os refrões, e eles são absolutamente verdadeiros. Um homem prevenido vale por dois. Conhecimento é poder. Ao compreender o mundo que o rodeia e sobreviver às tentações, você poderá dominar qualquer coisa. Inclusive a si mesmo.

     — Mestre do meu próprio destino.

     — Precisamente.

     — Mestre do seu destino, senhor Gautier? — A senhora Richardson zombava enquanto se aproximava deles. — A única coisa da qual será mestre é do castigo. Você está atrasado. Os dois. — Entregou a ambos as notas de atenção. — Agora, vão para a sala antes que Cinderela transforme isso em suspensões.

     Nick deixou escapar um suspiro de frustração. Perfeito.

     Kody lhe apertou a mão.

     — Você vai ficar bem, Nick. Você tem a mim e ao Caleb aqui. Nós não o abandonaremos.

     — Você ainda não me disse o que você é.

     — Sou sua amiga. Isso é o que importa.

     Não é o inimigo de fora o mais letal. Não sabia por que esse pensamento passou por sua cabeça, mas passou. Era seu subconsciente tentando dizer-lhe algo?

     Ou era a paranoia?

     Maldição, por que a vida era tão dura? Por que todas as decisões tinham que ser difíceis? Incapaz de lidar com isso ele se dirigiu à sua sala enquanto tentava assimilar isso.

     Mas ao final, voltou para as mesmas perguntas. Poderia algo que tinha sido concebido na escuridão jamais ser usado para o bem? Que mal ele fez a alguém?

     Foi seu nascimento ou sua vida?

     Eles controlam a direção de seu destino ou fez alguma outra coisa?

     Um cara podia perder a cabeça tentando resolver tudo aquilo.

     Definitivamente sentia que estava ficando louco. E enquanto isso estava recolhendo itens para uma causa que ele sabia ser errado. Estou tomando uma decisão errada.

     Mas qual outra opção ele realmente teria?

     Não podia ir para a prisão, e não podia permitir que o treinador continuasse saqueando as pessoas. Alguém tinha que detê-lo. Por enquanto, ele continuaria a jogar, e de algum jeito encontraria as provas que precisava para colocar fim à corrupção do treinador.

     Depois encontraria uma maneira de parar a sua.

 

   Às três da tarde, Nick estava no escritório de Devus, sentindo-se ainda pior do que estava pela manhã. Não sabia o porquê, mas era como se estivesse vendendo seus irmãos. Oferecendo seus colegas para o abate.

     O quão estúpido era isso?

     Entretanto, não podia evitar a sensação.

     — O que você tem Gautier?

     — Um caso grave de indigestão, senhor — respondeu com sarcasmo. Algo que não agradava o Treinador Predador.

     — Devo chamar o diretor, então?

     — Não. — Nick esvaziou os bolsos sobre a mesa. Tinha a escova para o cabelo, duas amostras de anotações de dois estudantes da lista, o cachecol, e…

         Ele hesitou com o anel de grife que Casey deu-lhe após o almoço, ele havia dito que adiasse a busca pelo colar de Kody. Ela não tinha ideia do que o pequeno desafio poderia lhe causar, e ele não queria que Kody a estripasse no corredor e a transformasse em outra mancha na parede.

     Nick olhou o pesado anel na mão que brilhava na penumbra da sala. A pedra brilhante no centro era tão vermelha como sangue, rodeada de pequenos diamantes que piscavam para ele. Ao contrário dos outros itens que sua consciência poderia descartar, este era sem dúvida um roubo, e a culpa o rasgou. Sentia-se como seu pai e ele odiava ao treinador, por havê-lo causado essa sensação.

     Eu não vou ser esse homem.

     Mas neste momento. Neste único instante.

     Ele era.

     Fazendo uma careta, Nick o puxou para fora. Por muito que Devus quisesse, não entregaria o material a ele durante o horário escolar.

     Devus sorriu enquanto o aplaudia.

     — Bom garoto. Compraste-te um indulto. Agora, saia e acaba a lista, ou eu acabarei contigo.

     Ele conseguia muito prazer causando dor. Como meu pai. A comparação realmente o devorou. Infelizmente, não havia nada que pudesse fazer. Em quinze minutos, estaria fora da escola e ele tinha que apressar-se para ir para o cemitério de St. Louis para sua próxima lição com Grim.

     Nick virou-se para ir embora, mas o treinador o deteve.

     — Direi algo, Gautier. Por que não falta à prática de hoje e certifica-se de que terei mais quatro itens pela manhã?

     — Ou o que?

     O tom do treinador dava a entender que definitivamente havia um ultimato ali.

     — Você é um garoto inteligente. Acho que sabe a resposta.

     Vou para a cadeia e morro.

     — Posso fazer uma pergunta?

     — Qual?

     — Por que você me escolheu para isto?

     — Você é um desperdício patético, sem nada a perder. Se morrer amanhã, ninguém sequer saberia que você se foi.

     Nick apertou os dentes. Isso não era verdade. A vida de sua mãe estaria destruída. Nunca seria a mesma. Enquanto o resto do mundo continuaria, ela não conseguiria. Ele sabia disso. E nesse momento, percebeu algo perfeitamente. Quantas vidas tocavam uma vida. Não sempre com um grande impacto, mas em pequenas maneiras.

     Se morresse, Liza teria que fazer suas entregas, sozinha. Sim, ela poderia fazer isso sem ele, mas ela sempre afirmou que gostaria de passar uns minutos conversando com ele enquanto ele fazia isso. Ela esperava suas visitas. Mennie não tinha ninguém para tirar seu lixo ou limpar o pátio. Kyrian não teria alguém para quebrar a cara, e Acheron não teria um amigo humano que sabia tudo a respeito sobre seu ser sobrenatural.

     Não eram as grandes coisas. Eram as pequenas coisas da vida as que realmente importavam.

     Inclinou-se sobre a mesa.

     — Você está errado, treinador.

     O treinador olhou para ele com um sorriso presunçoso.

     — Como assim?

     Nick devolveu-lhe o desprezo com um sorriso pomposo que acendeu a ira do treinador.

     — Asseguro-lhe que se seus lixeiros deixassem de recolher seu lixo, sentiria falta deles rapidamente e iria querê-los de volta. Se não há vida, não importa o que você pense, tudo é insignificante. Todo mundo tem um propósito. Inclusive você.

     Devus balbuciou enquanto Nick se virou e o deixou. Pela primeira vez em sua vida, Nick se sentia como se estivesse experimentando o mundo real tal e como era realmente. Como se lhe tivessem arrancado uns tampões dos olhos e visse a luz do sol em todo seu esplendor natural.

     Lindo. Impressionante.

     E embora não estivesse seguro sobre seu futuro, neste momento, estava muito contente em estar vivo.

     Assim que o sino soou, Nick pegou sua mochila e foi para o cemitério para o encontro com Grim. Kody e Caleb praticamente o tinham evitado depois de seu encontro matutino com o Guarda Fringe. Kody parecia triste.

     A raiva de Caleb era tão potente, que o assustou. Havia algo mais em jogo com o demônio que o que o deixavam ver. E já que Nick não podia lutar contra ele sem morrer, decidiu deixar ao demônio até solucionar tudo o que o estava devorando.

     Não demorou muito tempo para caminhar os poucos quarteirões até o cemitério, localizado na parte noroeste do bairro, a uma quadra mais à frente entre a Conti Street e St. Louis on Basin. O muro branco de gesso que o rodeava se estendia pelo bairro inteiro protegendo a grande cidade dos mortos, onde mais de cem mil ex-habitantes de New Orleans haviam sido enterrados. Algumas das pessoas mais notáveis da cidade jaziam ali.

     Devido ao fato de Nova Orleans estar tão abaixo do nível do mar e por haver corpos enterrados que tinham uma maneira desagradável de voltar para a terra dos vivos, a cidade se viu forçada a encontrar outra maneira de lidar com os defuntos. Acima dos túmulos e das tumbas de terra haviam sido erguidos mausoléus, o que levou esta área a ser conhecida como de cidade dos mortos. O mais grotesco era que a maioria das tumbas compartilhava espaços, geralmente por uma só família, mas às vezes em grupos como o enorme monumento italiano no centro. Assim que alguém morria, seus restos eram colocados em cima de alguém que já havia se decomposto. Essa era a razão pela qual na cidade havia uma lei segundo a qual nenhuma tumba podia ser aberta durante um ano inteiro e um dia, para que se assegurasse que os corpos tivessem tempo suficiente para uma completa decomposição, antes que a próxima pessoa fosse adicionada. Não se sabia o que se fazia se necessitassem de uma tumba antes que o tempo transcorresse, e ele não queria saber.

     Algumas perguntas realmente não necessitam resposta e essa, definitivamente, era uma delas.

     Afastando para longe o pensamento, dirigiu-se até o portão de ferro negro que se abria para que os visitantes e grupos de turistas, assim como os entes queridos pudessem ter acesso ao cemitério durante o dia.

     Honestamente, o cemitério era lindo em um tipo assustador de forma. Os túmulos elaborados e as estátuas estavam em todas as direções, algumas lhe diminuindo. Embora a maioria fossem brancas, outras eram de cores vivas, e todo tipo de imagens e decorações de ferro forjado haviam sido usados para dar sabor e beleza às criptas.

     — Buuu!

     Nick amaldiçoou quando Grim apareceu atrás dele e deu-lhe um susto de morte.

     — Não faça isso!

     — Estamos nervosos?

     — Estamos em um cemitério, você sabe.

     Grim riu.

     — Claro que sei. É um de meus lugares favoritos.

     — Sim, bem, não é o meu. Não quero fazer um hábito isso de passar muito tempo aqui. Calculo que um dia vou ser um residente permanente, então não há necessidade de apressar-se e visitá-lo, enquanto eu não seja.

     — Eu adoro sua forma de ver as coisas, garoto. Agora me siga.

     Nick o seguiu até que percebeu que Grim não tinha uma sombra. E ele tinha três.

     — O que…?

     Grim parou para olhá-lo por cima do ombro.

     — O que?

     Nick mostrou as sombras.

     — O que há com você?

     — Você conhece os meus amigos. Pain e Suffering estavam nervosos, então eu os releguei ao status de sombra durante o dia.

     Ele continuou avançando.

     Nick não estava certo de que gostasse disso, mas sabia que não devia discutir. Recuperando o ritmo, fechou a distância entre eles. Grim não parou outra vez até que chegou à extremidade traseira, onde um dos sarcófagos recordou uma mesa ao Nick. Imagens de morte e anjos estavam esculpidos em pedra por toda a intricada obra de pedra.

     —Acho que isso servirá para nossa próxima lição. — Grim deslizou a mão sobre a superfície, sem tocá-la. Um pano apareceu, protegendo a superfície enegrecida. — Muito melhor — estendeu a mão para Nick. — Esteve praticando?

     — Por todo o bem que não me tem feito. Sim. — Entregou-lhe o pêndulo e o livro a Grim.

     — Já fez amizade com o pêndulo?

     — Do tipo unilateral, se me pergunta isso, mas sim. Eu acredito que sim.

     Grim suspirou irritado.

     — Muito bem. Hoje queria mostrar-lhe como se pode localizar alguém com seu pêndulo.

     — Não seria mais fácil ligar para eles?

     Enviou-lhe um olhar zombador.

     — E se o telefone não funcionar, Nick? Ou se você não tem seu número? Melhor ainda, o que acontece realmente se você não sabe quem está procurando, mas ainda assim precisa encontrá-lo?

     — Por que eu iria perder tempo procurando alguém que não conheço?

     Grim cerrou os dentes.

     — Por que você desperdiça tempo jogando jogos de videogames sem sentido por horas a fio?

     — Porque isso é divertido.

     — E isto pode salvar vidas.

     Sim, ok, isso poderia ser melhor que dominar Mario.

     Talvez.

     Quando Grim abriu o livro em uma página em branco, um turista virou a esquina e engasgou. Depois se retirou rapidamente. Um diabólico sorriso iluminou seu rosto.

     — Espere um momento.

     Nick franziu o cenho enquanto a Morte se transformava em um vapor cinza escuro e fazia uma rápida saída. Uns segundos depois, ele ouviu um grito seguido do som de pés correndo.

     Quando Grim voltou, estava radiante de satisfação.

     — Ah, o medo. Como eu amo esse aroma.

     — Você é tão doente, Grim.

     — E um dia, você aprenderá a ter prazer nas pequenas coisas também.

     Sim, mas depois do que aprendeu sobre si mesmo hoje, esperava que não fosse prejudicar os outros. Mesmo ligeiramente.

     — Agora, onde estávamos?

     — Encontrar coisas perdidas.

     — Sim, sim. — Grim voltou, e um mapa de Nova Orleans apareceu no livro.

     — Como consegue que ele faça isso para você? Sempre que tento algo assim, responde-me malcriado.

     — Assim como uma criança, o livro sabe que pode ir longe com sua malcriação. Eu não tenho amor ou tolerância por ele. Se me irritar, queimo-o, sem reservas.

     Ah, a intimidação funcionava. Quem diria?

     — Agora — disse Grim, chamando a atenção de volta para o mapa. —Diga-me alguém que você gostaria de encontrar.

     O problema era que sabia onde viviam todos aqueles que eram importantes para ele.

     Todos, exceto Kody.

     — Nekoda — disse ao pêndulo. — Mostre-me onde está Nekoda.

     Grim entregou-lhe a corrente.

     Nick pairou sobre o mapa, e não aconteceu nada.

     — Isto é um desperdício.

     — Não. Aprender nunca é um desperdício. O que está fazendo neste momento é descobrir como não acender uma lâmpada.

     — Huh?

     Grim balançou a cabeça.

     — Já disse isso antes e direi outra vez. Eduque-se, garoto. Muito bem, o pêndulo não está funcionando. Às vezes é necessário um acelerador para ajudá-lo.

     — Como gasolina?

     — Sim, Nick. Vamos pôr o livro e seu pêndulo no fogo e depois usá-los porque somos muito inteligentes.

     — Pare com o sarcasmo, ok? Eu tive um dia realmente ruim.

     — Você continua reclamando e posso assegurar-lhe que vai piorar.

     Nick clareou a garganta quando lembrou a si mesmo que este não era alguém para ter por perto.

     — Desculpe. Você estava dizendo?

     — Você tem alguma coisa de Nekoda?

     — Humm, sim. Tenho o Nintendo que ela me emprestou e um lápis. Por quê?

     — Tem alguma coisa com você?

     — Ambos.

     — Dê-me o Nintendo, já que é mais exclusivamente dela. Sempre que estiver fazendo algo como isto, você quer um artigo que signifique algo para a pessoa que você procura. Tais coisas podem dizer muito e o ajudam imensamente.

     Tal como seu livro e o pêndulo que Grim disse que protegesse com a sua vida...

     Oh, não! Uma sensação muito ruim o atravessou.

     Nick mordeu o lábio, enquanto segurava o pêndulo na mão.

     — Você quer dizer que esse tipo de coisa pode ser utilizado para controlar alguém, certo?

     — Sim.

     — Pode fazer algo mais?

     Grim assentiu.

     — Muitas coisas.

     — Por exemplo?

     Grim considerou um momento antes de responder.

     — Pode se utilizado para ligá-los a um feitiço. Manipulá-los. Há coisas que você poderia fazer para o bem, como ajudar com a motivação ou recuperar algo que perdeu, mas poucos fazem isso. Geralmente é reservado para ferir alguém. Por quê?

     — Por que acho que finalmente entendo o que Devus esteve fazendo.

     — Quem?

     — Não importa.

     Ainda assim não fazia sentido. Devus sabia onde todos viviam. Tudo o que tinha que fazer era ter acesso aos arquivos dos estudantes.

     O que significava que Devus devia utilizar os objetos roubados para controlá-los ou manipulá-los. Mas para que? A equipe de futebol podia ser por causa dos playoffs, mas Kody e os que não estavam na equipe...

     Algo não estava certo. Precisava de mais informação.

     — Está prestando atenção, Nick?

     — É óbvio. Indiscutivelmente. Continue.

     Grim fez uma careta antes de continuar.

     — Está bem, pode…

     — Pode-se utilizar o item para testar alguma coisa?

     — Não me interrompa — grunhiu Grim. — Ou vou te esfolar vivo.

     — Sinto muito. Mas pode?

     Grim soltou um suspiro comprido de sofrimento.

   — É por isso que não tenho filhos e por isso passei a eternidade evitando-os a todo custo. — Ele encontrou o olhar de Nick. — Sim, pode usar o item para testar algo pessoal sobre o proprietário.

     — Como o que?

     — Qualquer coisa. O que cozinham? São inteligentes? Vão morrer por me irritar? etc..

     — Certo, eu não gosto desta última.

     — Eu realmente não me importo. — Grim pegou o Nintendo.

     O telefone de Nick começou a tocar.

     Amaldiçoando, Grim o fulminou com o olhar.

     — Desculpe. Esqueci-me de colocá-lo na vibração. — Nick olhou o número. Era Mark. — Hum. Preciso atender esta chamada. Pode ser?

     — Oh, é óbvio. Vá em frente e atrase a Morte por isso. É um movimento inteligente de sua parte.

     Esse sarcasmo era o mais espesso de todos.

     Nick sabia que era uma estupidez provocar o ser, mas…

     Ele atendeu ao telefone.

     — Onde você está? — perguntou Mark.

     — No número um do St. Louis. Por quê?

     — Acabo de lembrar onde vi seu treinador. E menino, você não vai acreditar nisso.

     E menino, se você não desligar o telefone não vai viver para puxar outro fôlego…

 

     Você já irritou a Morte? Não recomendo que você tente nem sequer no menor nível.

     Basta dizer que Grim Reaper – o Anjo da Morte – não tem muita paciência, e se você tiver tido a sorte de encontrar com ele, a melhor forma de sobreviver seria ter nascido do mal supremo e fazer com que ele tema que você estrague os seus poderes ao desbloqueá-los tanto quanto você teme em estragar os seus próprios poderes ao deixá-los livres.

     Só isso pode salvar sua vida.

     Nick fez o que pôde para prestar atenção, mas sua curiosidade sobre a descoberta de Mark estava lhe matando. Embora morresse de vontade de saber o que eles acharam, não queria morrer para saber. Se isto fazia algum sentido. E se não ficasse atento e parasse de ficar remexendo-se, até poderia transformar-se em uma mancha na passarela de cascalho sob seus pés.

     Esta foi a lição mais longa de sua vida. Esqueça as aulas de Richardson. O pêndulo começava a trazer-lhe lágrimas de tédio aos olhos.

     No momento em que terminaram, sentiu como se tivesse sido torturado numa roda de tortura. O pior era que Grim negou-se a ensinar-lhe o que ele realmente queria saber.

     — Estamos trabalhando sobre meu horário, menino. Não o seu. Você me segue. Eu não danço a música de ninguém exceto a minha. — Realmente. Grim seria um pai incrivelmente irritante.

     Argh. Mas agora que acabaram Nick estava correndo a toda velocidade para Triplo B para alcançar Mark e Madaug.

     No momento que chegou à loja, estava ofegante e exausto. E sua mochila pegou uns mil ou dois mil quilos extras em algum lugar pelo caminho. Pelo menos não era verão. Isso teria feito com que a corrida fosse excruciante.

     Abrindo a porta que agora estava totalmente reparada e em um adequado funcionamento, dirigiu-se para o balcão.

    Bubba saiu da sala de trás para cumprimentá-lo.

     — Oh, é você, Nick. Pensei que poderia ser um cliente pagante. Deveria saber.

     — Obrigado Bubba. Eu também te amo.

     Ele revirou os olhos antes de perambular de volta para as cortinas.

     — Mark está no escritório com Madaug. Disseram-me para encaminhá-lo para lá assim que chegasse.

     Nick parou um momento enquanto olhava Bubba fechar a carcaça de um computador, e em seguida levá-lo para a estante até que os proprietários os reclamassem. Tinha que dar crédito a Mark e Bubba, enquanto jogava uma olhada ao redor da área de trás. Eles fizeram um trabalho incrível, de voltar a montar a loja. Quase não havia sinais de que houvesse sido quebrada, nem queimada, disparada e atacada com machado.

     Melhor não lembrar isso a Bubba, já que havia sido Nick que o empunhava.

     — Disseram a você por que queriam me ver?

     Bubba puxou o próximo computador que esperava para ser reparado e o enganchou nos periféricos, então começou a inicializar um programa de diagnóstico.

     — Não, e não me importa. Enquanto vocês meninas não queimem minha loja, estou feliz na minha ignorância.

     Nick decidiu não questionar nada disso, dado o dano que já tinham causado, mas enquanto se aproximava da porta do escritório, recordou o que Kody havia dito sobre o passado de seu amigo. Havia algo de verdade nisso?

     Não pergunte isso, Nick. Não pergunte.

     Mas como era típico nele, sua boca saiu sem consultar seu senso comum ou o cérebro.

     — Bubba? Posso perguntar uma coisa?

     — Claro.

     — Você já foi casado?

     Não havia dúvida sobre a dor em seu rosto por trás dessa questão tão normal. Agonia. A autoaversão. Que horríveis eram essas quatro palavras, uma pergunta inofensiva podia provocar muita dor em alguém.

     Bubba limpou a garganta antes de responder.

     — Sim, eu fui. Há muito tempo.

     Tendo-lhe ferido inadvertidamente, Nick queria que Bubba se sentisse melhor, mas não sabia como. Não deveria ter perguntado. Não deveria. E depois de ver a reação de Bubba, sabia que Kody dizia a verdade. O homem estava devorado pela culpa.

     — Sinto muito, Bubba.

     — Pelo que?

     — Parece muito zangado de repente. Não pretendia trazer lembranças dolorosas. Sinto muito.

     Bubba engoliu seco enquanto virou-se para encará-lo.

     — Nick… Espero que algum dia você encontre uma mulher que o ame como Melissa me amava. Faça o que fizer rapaz, não vire as costas para ela. Se ela disser que precisa de você para alguma coisa, não importa o quanto estúpido pareça ou o prazo que tenha, vá e faça isso. Foda-se o trabalho ou qualquer outra coisa. No final, as únicas coisas que importam são as pessoas em sua vida. Os que fazem a vida valer a pena e cujos sorrisos iluminam seu mundo. Não os afaste nunca de seu lado por amigos de tempos prósperos. Todo o resto é fachada barata que você pode substituir. Mas uma vez que aquelas pessoas se foram…

     Ele fez uma careta.

     — Você não pode comprar o tempo de volta, Nick. Nunca. Essa é a única coisa na vida que você não pode ter mais, e é a única coisa que acabará com você, sem piedade, quando se vai. Não tem piedade por nenhuma alma, nem por nenhum coração. E todos esses idiotas que dizem que fica mais fácil com o tempo estão mentindo, são uns burros estúpidos. Perder alguém que você realmente ama nunca fica mais fácil. Você só consegue umas poucas horas a mais sem se quebrar. Isso é tudo… isso é tudo.

     As lágrimas o sufocaram com a dor que ele ouvia na voz da Bubba. Era estranho para ele demonstrar este tipo de emoção. O grande Bubba Bardette era um homem-urso rosnando. Enorme. Duro como os pregos. Nunca deixava que nada o perturbasse.

     E leal até o fim.

     Todo mundo merecia um amigo como ele.

     Quem teria pensado em algum momento que a imponente besta poderia estar obcecada por uma coisa tão humana como a perda de sua mulher e de seu filho?

     Sem pensar, Nick aproximou-se e o abraçou com força.

     Bubba arrepiou-se.

     — Rapaz, o que está fazendo? Perdeu a cabeça?

     Nick balançou a cabeça.

     — Parecia que você precisava de um abraço.

     — Então liga para Tyra Banks e peça que ela o faça, que eu estou pronto para isso. Não quero nenhum adolescente desajeitado esfregando-se contra mim. Deus.

     — Ok, ok. Entendi, velho resmungão.

     Bubba zombou.

     — Não tão velho. Não tão sábio. Mas ainda assim cheio de veneno para bater na sua bunda se você não me deixar em paz com meu trabalho. Agora saia e me deixe com o pouco cabelo que me resta.

     Nick dirigiu-se ao escritório, mas antes que ele abrisse a porta, Bubba o parou.

     — Ei, Nick? Você é um bom garoto. Não deixe que ninguém te diga o contrário. Vejo como você vem aqui, alguns dias depois da escola com os ombros caídos pelo peso do mundo e toda a sua miséria. Mas não deixe roubarem sua vida, rapaz. Eu sei sobre o seu pai e como você anda por aí carregando seu fantasma nas costas o tempo todo. Mas esses são os pecados e crimes dele, não os seus. — Bubba bateu no peito duas vezes. — Você tem o que conta aqui. Tudo o que precisa e mais um pouco. Mais coração e bondade do que qualquer um que eu já tenha conhecido. Não deixe ninguém tirar isso de você. Está me ouvindo?

     — Obrigado, Bubba.

     Ele inclinou a cabeça, e depois voltou a trabalhar.

     Sentindo-se melhor do que se sentiu durante todo o dia, Nick abriu a porta para encontrar Madaug e Mark inclinados sobre a mesa de Bubba com o que pareciam centenas de páginas impressas espalhadas por toda parte. Estavam tão concentrados no que tinham encontrado que nem sequer o ouviram entrar.

     — Olá, pessoal. O que é tudo isto?

     Mark olhou-o com os olhos tão amplos, que pareciam pratos.

     — Segure seus cadarços que você está prestes a ser expulso de seus sapatos.

     — Suponho que você encontrou algo bom?

     — Não apenas bom, — disse Madaug. Seus cachos loiros estavam rígidos sobre sua cabeça como se tivesse puxado para cima, algo que fazia sem perceber, toda vez que se concentrava em um assunto — é incrível.

     Era difícil levá-lo a sério com os óculos tortos e tão machados, com impressões digitais que Nick se perguntou como não andava pelas paredes. Estranhamente isso lembrou a Nick a comédia favorita de sua mãe, Meu primo Vinny, quando Joe Pesci interrogava a testemunha sobre o que tinha visto através das janelas do trailer, infestada de criminosos.

     Alheio a isso, Madaug revolveu a pilha de jornais diante dele. Vestia um moletom cinza que o engolia inteiro, sem dúvida de seu irmão maior Eric, um novo gótico. Madaug sorriu ao encontrar o que estava procurando. Ele o empurrou no rosto de Nick.

     Nick jogou a cabeça para trás e tirou dele para poder mantê-la a uma distância normal, visível. Franziu o cenho. Era um velho time de futebol, vestido com roupas antigas.

     Maldição, os jogadores pareciam velhos e não estudantes universitários. Que dificuldades tiveram seus antecessores?

     — O que você vê? — perguntou Mark.

     — Futebol.

     — Sim, e? — instigou.

     Antes que Nick pudesse responder, Madaug mostrou o homem na parte de trás à esquerda.

     — Conheça o treinador Walter Devus.

     Uau. O cara era um sósia do treinador de sua escola. Devia ser seu bisavô ou algo assim.

     — Eu sabia que o tinha visto antes. — Mark bateu na folha. —Quando joguei nos Tech, tinham uma parede de honra para todas as equipes, e este estava pendurado por… bem, algum lugar onde passei muito tempo com um certo professor de biologia. Mas isso não importa. Sabia que o tinha visto, e eu estava certo. O sapo velho estava ali o tempo todo, olhando-me com aqueles olhos redondos, gananciosos. — Sorriu para Madaug. — Viu o que acontece quando você bate com a cabeça ao sair do banho? Lembrança total.

     Nick riu, e depois fez uma pergunta aleatória, que lhe ocorreu.

     — Quantos anos você tem, afinal?

     Mark franziu o cenho diante da súbita mudança de assunto.

     — Hum?

   — Pensei que teria vinte e um ou algo assim. Só me dei conta de que não tinha idade suficiente para fazer tudo isto.

     — O quê? Há algum manual Gautier não escrito no qual se diga o que uma pessoa pode ou não pode fazer com sua vida? Sério? Meu aniversário é em novembro, então estava um ano à frente dos meus colegas de classe, e me graduei quando tinha dezessete anos. Estourei meu joelho direito antes de completar dezenove anos e dupliquei minhas aulas para me graduar aos vinte. E para que conste, tenho quase vinte e três anos. É o suficientemente para você, ou quer meu currículo inteiro, também?

     — Desculpe. Não fique tão irritado. É só curiosidade. Pensei que havia me dito que era mais jovem.

     — Quer ver minha licença?

     Nick levantou as mãos em sinal de rendição. Ele podia ter jurado que Mark havia lhe dito que era mais jovem, mas então, ele poderia ter se confundido com ele mesmo. Mark era ruim assim.

     Madaug deixou escapar um assobio para chamar sua atenção.

     — E isto é um pouco mais importante que os antecedentes de Mark. — Empurrou outro pedaço de papel no rosto de Nick. — Lembra-se que eu te disse que Devus treinou a equipe do Tech contra Georgia?

     — Sim, e no dia seguinte todos morreram. — Agora Nick estava segurando o artigo que falava sobre isso.

     — Exatamente. — Mark deu-lhe uma terceira folha de papel com outra equipe de futebol nela. A data desta foto era de um ano mais tarde e…

     Merda…

     Era Devus de novo. Desta vez, sentado em frente aos jogadores. Nick olhou incrédulo.

     Certamente havia algum engano.

     Alinhou as fotos uma ao lado da outra e as comparou. Enquanto fazia isso, Madaug trouxe páginas com as fotos ampliadas para que ele pudesse ver todos os detalhes de seus rostos.

     Sim, não havia como negar isso. Eram todos o mesmo homem.

     — Como pode ser?

     Mark esfregou o queixo.

     — Aparentemente, esse é seu modus operandi. O treinador parece levar uma equipe para uma vitória e um campeonato. Então no dia seguinte à vitória, todos os jogadores e o treinador morrem. — Entregou mais páginas ao Nick. — Ano após ano, após ano.

     Nick negou com a cabeça.

     — Não, não, não. Não é possível. Por que iria deixá-los fotografa-los e manter os registros? Além disso, por que conserva o mesmo nome? Não seria estúpido?

     — Ele não mantém o mesmo nome o tempo todo — disse Mark. — Se olharmos para as matérias e, acredite em mim, nós olhamos, há uma lista de nomes que ele vai reciclando. Acho que Walter Devus era seu verdadeiro nome, mas honestamente não sabemos. Ele usou muito ao longo do século passado.

     Bom, isso fez mais sentido. Se você quer se esconder, não pode sempre ser você.

     — Está bem, mas por que faria as fotos? — Especialmente se você não quer que as pessoas saibam que você é imortal.

     Nick percebeu que Kyrian não tinha uma só fotografia de si mesmo escondida em algum lugar. Nem sequer um quadro, busto. Nada.

     — Eu voto por fanfarrona arrogância. — Madaug tirou outro documento no qual tinham listado todas as escolas onde Devus tinha ensinado. — Pense nisto. Até agora, as fotos não eram muito claras e se danificavam com facilidade. Uma vez que você deixou sua pequena cidade, as chances de que a próxima tenha visto sua fotografia são bastante escassas. É apenas agora que temos Photoshop e computadores que podemos limpar as imagens e compará-las. Mais que isso, temos bibliotecas online, arquivos e depositários onde se pode extrair a informação mais obscura imaginável. Hoje já não há esconderijos e uma vez que se conecta à Internet, estará lá para sempre, à espera de que alguém tropece nela. Então se lembre disso na próxima vez em que for fotografado suspirando por alguém e quiser que isso seja postado em algum lugar.

     Por que todo mundo tem que continuar fazendo isso?

     Um pequeno erro...

     Humilhação sem fim.

     Mark chamou sua atenção ao tema em questão.

     —E uma vez que descobrimos seu modus operandi, foi fácil começar a procurar uma equipe do campeonato de futebol que ganhasse um dia e no seguinte estivesse morta. Cada ano, como um relógio, sempre há uma equipe. O lugar de celebração varia: Universidade, escola até a Liga Infantil. Mas é sempre a mesma sequência de acontecimentos.

     Essa notícia o deixou enjoado mais que as outras. Liga Infantil?

     — Ele mata meninos? — Assim que ele disse isso, percebeu quão estúpida era a questão. É óbvio que ele matava meninos. Dave estava estendido em um necrotério neste momento por causa dele. — Temos que parar isso.

     — Nós sabemos — disseram em uníssono.

     Nick fez um gesto aos jornais que os rodeava.

     — Vamos levar isto à polícia e…

     — Não podemos.

     Olhou assombrado para Mark.

     — O que quer dizer com não podemos? Nós temos provas...

     — Nada — Madaug entregou-lhe outros artigos. — Durante a era gângster, quando a mídia estava explodindo e a cobertura nacional começou a crescer junto com imagens de telejornais que eram mostradas nos cinemas de todo o país, Devus desapareceu e deixou de ter imagem pública. Também aprendeu a matar um treinador existente e intervir apenas o tempo suficiente para ganhar o campeonato e, supostamente, morrer com sua equipe. Sem dúvida para evitar quaisquer relacionamentos de longo prazo ou perguntas.

     — Ou a cobertura da mídia — adicionou Mark.

     Talvez, mas Nick voltava para uma coisa.

     — Então, como você sabe que é ele?

     Madaug dedicou-lhe um olhar incrédulo.

     — Sério? Você está me perguntando isso? Quais são as probabilidades de que a cada ano em todo o país, uma equipe e seu treinador morram em estranhas circunstâncias quando vão direto para a final do campeonato? Uma escola ou centro de recreação está desesperado por um substituto com experiência. Do nada, aqui vem o senhor Idade Média, com mais ou menos a mesma descrição. Ele permanece por quatro semanas, apenas o tempo suficiente para os jogos do campeonato, e leva a sua equipe à vitória. E enquanto ainda estavam bêbados pelos louros, zás! — Ele deu uma palmada nas mãos. — Todos eles morrem. Realmente acha que é só uma coincidência?

     Bem... Não.

     — Não quando você coloca dessa maneira. Mas um policial nunca vai acreditar.

     — Você acha? — Mark suspirou. — Ninguém acreditaria em nós. Todos pensariam que estamos bêbados. Então, a questão é, como vamos impedi-lo de matar novamente sem ir às autoridades?

     — Envio-lhe meus zumbis?

     Mark lançou um olhar assassino para Madaug.

     — Sei que você não se atreveria, considerando o que quase aconteceu com sua família.

     — Era uma brincadeira, Mark. Acredite em mim, parei de manipular os padrões do cérebro humano.

     Ignorando-os, os pensamentos de Nick começaram a juntar-se até que começaram a encaixar.

     Você pode usar itens pessoais como um feitiço. Pense nele como um míssil que procura calor. Se quiser que algo aconteça a alguém em particular, pegue um item dele e pode usá-lo como ponto de referência. É o mesmo princípio com o qual funciona o pêndulo.

     As palavras de Grim o perseguiam. Agora ele entendeu a sua lista. O treinador precisava de itens específicos de todos os jogadores de futebol.

     Mas então o que ele fazia com eles após o jogo terminar e os proprietários fossem assassinados? Sua casa e escritório estavam vazios e ele mudava-se constantemente, dessa forma mantê-los não parecia viável. Talvez ele os jogasse fora depois?

     Não importava.

     O mais importante era quebrar o ciclo, especialmente desde que Nick estava no time e não queria morrer.

     Pensei que você não queria viver.

     Bem, isso era verdade, mas isso não significava que ele queria morrer. Só queria que sua vida se acalmasse um pouco e voltasse para a normalidade. Não voar de cabeça para LoucuraVille.

     O celular de Madaug tocou. Ele o pegou e sobressaltou-se.

     — Merda. É meu irmão mais novo.

     — Isso é tão ruim? — Perguntou Mark.

     — Hum, sim. A voz de Ian é tão aguda ao telefone que eu juro que se a engarrafássemos e colocássemos em uma granada, poderíamos fazer fortuna como traficantes de armas. Limparia mais espaços e causaria mais dor que uma bomba de hidrogênio. Vivo cada dia esperando que esse menino chegue à puberdade e sua voz baixe a um nível humano.

     Nick estava a ponto de dizer que ele estava exagerando quando Madaug atendeu e pode ouvir por si mesmo a verdade da questão.

     Oh, sim. Isso poderia quebrar os cristais. O grito de um demônio se comparava com o do menino. E nem sequer o tinha na orelha. Estava em pé a vários metros de distância.

     Mesmo Mark estava sobressaltado.

     — Tudo bem. Tudo bem — disse Madaug a seu irmão mais novo. — Pare de choramingar, pirralho. Estarei em casa mais tarde e corrijo isso. Eu farei, mas se não deixar de me chatear com isso, apagarei o disco rígido do Eric e direi a papai que foi você que fez isso — Madaug desligou enquanto Ian choramingava de maneira muito aguda na outra extremidade. Ele olhou para Nick. — Você tem muita sorte por ser filho único.

     — Na verdade, não. Se eu disser a alguém que não me toque ou culpe meu irmão de quebrar algo, é um bilhete só de ida para uma camisa de força.

     — Sabia que meu retorcido irmão realmente tem uma dessas? Eric a tingiu de negro e a pendurou na parede. Mais uma vez, eu digo que você tem sorte em ser filho único. Oh, ter o bendito silêncio e não ser forçado a suportar horas intermináveis de Bauhaus tocando fora do buraco negro de Eric e “Baby Rock” cantada por Ian, o Pirata, que anda pela casa com um periquito no ombro dele e empurra meu rosto toda noite para que eu o acaricie ou vai me tirar os olhos a bicadas enquanto durmo.

     Nick não queria rir, mas não podia evitar. E pensar que sua queixa maior eram os sutiãs de sua mãe secando em uma corda sobre a banheira. Ele tinha certeza de que estaria em terapia por anos lidando com isso.

     Mark bateu palmas para chamar sua atenção.

     —Muito bem, pessoal. Foco. Temos que encontrar a maneira de deter Devus para sempre. Coloquemos nossa cabeça no jogo e paremos este psicopata.

 

   Walter Devus estava em pé diante de seu espelho, olhando fixamente o rosto que não havia mudado em mais décadas das que podia contar.

     O que tinha acontecido?

     Mas no fundo sabia. Cobiça. Vaidade. Orgulho. Faça a sua escolha. Combinavam-se em uma mistura tóxica que o levou a cometer o pior engano de sua vida.

     E para que?

     Para quinze minutos de fama como Andy Warhol?

     Só que isto não era para ser tão curto. Era para ter durado uma vida.

     Cuidado com o que você pede. Você pode conseguir.

     Especialmente quando se trata de coisas que é melhor deixar em paz. Se apenas pudesse voltar no tempo, teria se segurado e parado.

     Mas já era muito tarde para isso. A sorte estava lançada. A roda girando.

     Passaria a eternidade em servidão, recolhendo almas para seu mestre. Desconhecidas, anônimas, obscuras. As coisas que ele queria desesperadamente evitar.

     Era engraçado como seus medos se manifestavam e tomavam o controle de sua vida.

     Não tinha esperança em encontrar uma saída para sua escravidão.

     Até que chegou aqui. Nova Orleans. Terra da magia negra e o lugar de nascimento do paranormal. Podia senti-lo como uma corrente oculta que corria pela cidade como algo vivo, que respirava.

     E aqui em seu coração estava o mais escuro de todos.

     O Malachai. Se pudesse encontrar o jovem a tempo, seu mestre o deixaria em liberdade.

     Seria livre.

     Walter saboreou essa palavra. Ser humano outra vez. Para poder permanecer em um lugar e criar raízes. Algo que tinha sido como uma maldição para um homem jovem.

     Agora era o paraíso.

   Ainda esperançoso, ele continuou a executar seus experimentos nos itens que seus “garotos” tinham reunido. Enquanto o Guarda Fringe procurava o demônio que tinha escapado, ele estava atrás do Malachai que eles não sabiam da existência.

     Ele tinha certeza de que o Malachai estava em sua escola disfarçado como um estudante. Foi uma sensação que teve no momento que tinha entrado no prédio.

     Mas quem?

     Procurou nos arquivos até reduzir a pesquisa aos suspeitos mais prováveis. Até agora, não era nenhum deles.

     Seu cronômetro disparou, alertando-o que havia terminado.

     Com o coração disparado, foi verificar o último lote. Mordendo o lábio com medo, tirou o anel de graduação de Stone da tigela.

     Ainda intacto. Ainda perfeito.

     Stone não era o Malachai. Estava tão certo disso, devido à sua crueldade e arrogância. Mas não, ele estava errado de novo.

     Completamente agitado, passou para a outra tigela. Não tinha nenhuma expectativa. Puxando a corda, ele paralisou.

     Não apareceu nada. Poderia ser?

     Com atenção voltou a agitar com fúria. Ele colocou em uma peça de toalha, mas em seu lugar...

     Enxofre.

Brimstone.

     — Encontrei-o. Agora é meu! — estava prestes a desencadear uma legião de castigo sobre o menino.

     Deveria ter reconhecido o nome. Deveria saber. Que estúpido ele foi por não vê-lo. Mas ele viveu tempo suficiente para saber o quanto essas coisas eram enganosas.

   O Malachai vivia à vista de todos. Fazendo alarde de sua presença com descuidado abandono.

     Mas não mais por muito tempo.

     Por fim, Walter Devus seria humano outra vez. E o Malachai não mais.

 

     — Você quer que eu faça o que? Que parte estúpida sua se arrastou até seu esfíncter e morreu?

     Zangado e ofendido, Nick cruzou os braços sobre o peito enquanto enfrentava Caleb em seu condomínio degradado. Embora estivessem os dois sozinhos, já tivera o suficiente da atitude do demônio por um dia.

     O que estava errado com ele? Desde que Nick tinha sido atacado na escola, Caleb estava diferente com ele. Parecia que o demônio odiava o ar que respirava. Nick não era o único que tinha um problema. Caleb também o tinha.

     — Precisamos saber com o que estamos lidando, Caleb. Caso contrário, eu não pediria que fizesse isto.

     Caleb grunhiu.

     — Você está lidando é com um demônio realmente puto que continua se perguntando por que está arriscando o pescoço por um idiota como você. Estou cansado, Nick. Não conseguiu entender na nossa discussão anterior?

     — Pensei que o que tivemos foi uma briga.

     — Não, isto é o inferno, — ele zombou— e eu estou preso nele. E estou farto de você. Ouviu? Por que você não luta suas próprias batalhas? Quer informação, move sua bunda preguiçosa e vá buscá-la.

     Desejando ter a força para enfrentá-lo e não acabar com as tripas arrancadas, Nick se surpreendeu com o seu assim chamado protetor, que de repente se transformou em péssimo cruzamento entre um desordeiro e um pai abusivo.

     — E você acha que algo tenha se arrastado até meu…

     — Afaste-se dele, Nick.

     Nick arregalou os olhos quando Caleb se manifestou ao lado de… Caleb.

     Os dois ficaram lado a lado na frente de seu dormitório improvisado. Mesma altura. Mesmo cabelo. Mesmos olhos. Mesma roupa negra e lábios curvados. A única diferença era que o recém-chegado parecia sofrer muita dor.

     E sangrava pelo canto da boca.

     Ah sim, isto era como aquela cena do Exterminador, parte 2, quando o cyborg de cromo mal toma o controle do guarda de segurança do bem.

     Exceto que o autêntico Caleb não era em geral todo quente e macio. Algo que os fazia ainda mais difícil de distinguir.

     — Qual de vocês é real? — perguntou Nick.

     — O que manca, bobo — Simi brilhou ao lado do Nick e apoiou-se em seu ombro. — Não pode ver a diferença entre o Malphas lindo e o falso fodido feio?

     Na verdade, não. Se Caleb não estivesse mancando e sangrando, ele não teria nenhuma pista.

     Nick franziu o cenho.

     — O que está acontecendo?

     Com seu cabelo roxo brilhante, combinando com seu batom, puxado em tranças, Simi deixou escapar um som adorável impossível de descrever.

     — Esses demônios desagradáveis o encontraram. Mais ou menos. Veja, há uma grande recompensa por sua cabeça — ela passou a mão por seu cabelo para enfatizar suas palavras. — E se alguns desses intermediários podem encontrá-lo, o levarão para que seu senhor coma seu cérebro, e assim conseguirem ser postos em liberdade. Assim ganham as duas partes. Bem, não você, porque provavelmente iria ficar machucado ao comerem seu cérebro. Embora Simi tenha quase certeza de que o matariam primeiro. — Fez uma pausa para pensar nisso com uma expressão estranhamente bonita. — Por outro lado, alguns não, porque gostam do som dos gritos enquanto morrem. Pergunto-me se os cérebros gritam. Hmm... Simi vê uma expulsão chegando. Não, um ex...

     — ...perimento?

     — Essa é a palavra — Sorrindo, tocou-lhe a ponta do nariz. — Experimento. Obrigada, akri-Nicky. É bom que use o cérebro, enquanto ainda tem um. Simi está muito orgulhosa de você.

     — Você não está ajudando o meu pânico, Simi.

     — Oh. — Sorriu para ele. — Desculpe. Simi ficará silenciosa. Até que chegue a hora de já não estar silenciosa. Silêncio. Eu gosto dessa palavra. Já notou que algumas palavras são muito bonitas de dizer? — Ela sorriu como uma boneca bonita. — Simi silenciosa. — Seu rosto ficou pálido quando tocou com o dedo indicador seu lábio inferior e franziu a boca. — Oh, espere, não. Ao Simi não gosta da forma que isso soa. Bah! Uma Simi silenciosa não é uma coisa boa.

     — Sim? —grunhiu Caleb. — Uma mão, por favor? — O Caleb bom estava preso em uma chave pelo outro Caleb.

     Nick começou a se adiantar.

     O Caleb bom estendeu a mão e o parou.

     — Não se machuque.

     — Sinto-me como um ioiô.

     — É melhor do que como eu me sinto, amigo. Confie em mim.

   O Caleb mau se retirou no momento que Simi entrou na briga. Encaminhou-se para a porta, mas Simi jogou sua mão e colocou o que parecia ser uma corda pegajosa ao seu redor. Ela o fez cambalear para ela como um pescador preparado para um filete de peixe-espada.

     — Oh, não. — Disse Simi. — Não podemos permitir isso. Aonde vai, senhor calças malvadinhas? Você não pode ferir as pessoas e depois fugir. Isso é rude. — Virou-se para olhar Caleb. — Simi pode fazer um churrasco, ou ele está na lista de comidas de “Não Simi”?

     Caleb olhou para o demônio friamente.

     — Bon appetit, baby.

     Desta vez, quando Simi sorriu, Nick viu que seus dentes eram serrilhados e afiados. Com um grito de prazer, ela desapareceu com o demônio a reboque.

     Nick piscou várias vezes enquanto tentava digerir tudo o que estava acontecendo.

     — Simi é um demônio.

     — Sim.

     Simi era um demônio. Ele repetia em sua cabeça.

     Bem, sem dúvida isso explicava muito de sua esquisitisse. Mas ainda assim...

     Nick estava horrorizado.

     — Para que fique claro, eu conheço alguém que não é um demônio ou uma aberração?

     — Sim, conhece. Não tenho certeza se Bubba e Mark seriam os últimos ou não, entretanto. Estou muito cansado mentalmente para classificá-los. Você descobre isso e estarei de acordo com os decimais Dewey. — Caleb caiu no sofá com um gemido. — Você está bem?

     — Talvez, mas minha mãe vai matá-lo se vir sangue no seu sofá.

     Caleb olhou a mancha grande que se estendia pelo edredom onde estava estirado.

     — Eu vou limpá-lo antes de ir. Só preciso deitar aqui um minuto. Você não tem nem ideia da dor que estou por dentro. E… — Estreitou o olhar sobre Nick. —Quem disse a você?

     Hum, isso era casual.

     — Disse-me o que?

     — Sobre seu destino.

     Ele estava falando sério?

     — Cara. Foi você.

     Caleb amaldiçoou e depois fez uma careta.

     — Não fui eu, Nick. Esse Fringer estúpido me agarrou e me jogou em Lataya.

     Nick não tinha nem ideia do que ele estava falando.

   — Quem é esse?

     —Não é uma pessoa. É um lugar. Pense nisso como um calabouço para demônios onde seus poderes ficam aniquilados.

     Um calafrio passou por ele quando percebeu que tinha passado um tempo com seus inimigos e não tinha nem ideia disso.

   Sim, isso foi terrível e preocupante.

     — Então, quando foi a última vez que falei com você?

     Caleb lambeu o sangue dos lábios.

     — Quando tirei você do armário e o desembrulhei.

     — O que realmente me fodeu, para que saiba. Você é o que merecia ser jogado... —Nick mudou de tom ao ver as feridas profundas no corpo do Caleb. Feridas que tinha recebido por ele. Tudo isso colocado em perspectiva o fez sentir-se tanto zangado como agradecido. — Ok, eu sei que você não merecia isso, mas ainda assim... eu não gosto de ser jogado dentro de armários. Só para futuras referências, ok?

     — Anotado.

     Nervoso sobre tudo o que tinha acontecido, Nick passeou ao redor do sofá.

     — Então, o que está acontecendo com tudo isto?

     — Isto é o que estava tentando dizer, garoto. Os Fringe Hunters podem apanhá-lo de qualquer maneira se quiserem. Isso é o que os faz tão mortíferos. Neste assunto, não deveriam poder entrar neste condomínio, já que se supõe que está protegido por coisas que eles ainda... — Seus olhos brilharam como monstruosos olhos de serpente — Você o convidou a entrar?

     — Pensei que fosse você.

     Ele inclinou-se para trás com um gemido.

     — Nick... temos que conseguir polir seus poderes. Sua inteligência não está onde precisa estar. Juro que vou amarrá-lo a Simi até que seus olhos estejam abertos a todo o resto. Ela é o melhor de todos que já vi. Ninguém passa por cima dela.

     Ele percebeu que, assim como Remi e o resto dos ursos, ela se escondia de sua vista.

     — De onde ela vem?

     — Seu povo são os chamados Charonte, são originários da Lemuria, mas depois se mudaram para outros lugares dos quais não posso falar com você.

     — Por quê?

     — Simplesmente não posso, Nick, ok? Agora, por favor, me dê um segundo para ficar aqui em silêncio e sangrar.

     Isso era o mínimo que podia fazer, já que ele era a única razão pela qual Caleb ficou ferido.

     — Quer tomar algo?

     — Sangue humano seria fabuloso. Mas como duvido que você seja doador, deixe-me sofrer mais um minuto.

     Nick andou para cima e para baixo enquanto tentava compreender o quanto seu mundo se tornou assustador.

     — Não, Nick — sussurrou Caleb atrás dele. — O mundo sempre foi assustador. Você foi sortudo estando a salvo dele. Essa é a parte mais triste da infância, realmente. Quando esse céu cintilante é arrancado por algo horrível você é deixado com a verdade nua e crua. Quando o mundo deixa de ser seguro e você vê seu lado horrível. Você, como a maioria dos humanos, teme os demônios. Mas não somos os piores predadores que existem aí fora. Você sabe o que somos. São os que atraem você com bondade ou que atacam pelas costas. Esses são monstros muito piores que nós. Todo este tempo, você pensava que sabia. Todos sabemos. Mas agora você o viu.

     — E não posso voltar atrás.

     Caleb negou com a cabeça.

     Nick parou para olhá-lo.

     — Você alguma vez foi um menino?

     — Muito poucas criaturas têm a sorte de ter nascido adultos. Todos nós sofremos durante a infância e a adolescência.

     — Você aproveitou a sua? — perguntou Nick, querendo saber.

     —Algumas partes. Mas cresci em um lugar e época muito diferente. Você não pode sequer imaginar.

     Não, ele imaginou que não poderia.

     Os olhos do Caleb voltaram à sua aparência humana.

     — Mas houve alguém que foi bom comigo. Alguém que eu não supunha que haveria bondade. O que sei, aprendi com ele. Você deveria estar feliz em me conhecer depois do que ele fez. Garanto-lhe que a Sombra com a qual tratou era muito mais amável do que eu teria sido antes.

     — Mas não quer ser meu protetor.

     — Eu nunca disse isso.

     — Suas expressões dizem.

     Caleb riu.

     — Você não sabe ler as entrelinhas, garoto. É muito ruim interpretando a impaciência. Sou assim com todas as criaturas. Quero minha liberdade. E por isso vou direto ao ponto. Foi o que desejei em todos estes incontáveis séculos. Mas minha liberdade se perderia se eu permitisse que você fosse tragado pela escuridão.

     — Você disse que a profecia não poderia ser combatida.

     Caleb se levantou do sofá e limpou o sangue com um golpe de mão.

     — Desde quando você presta atenção na aula? E sobretudo em Moby Dick?

     Nick encolheu de ombros.

     — Aparentemente eu sou atento. Quem diria? — Ele ficou sério quando encontrou o olhar sinistro de Caleb e a horrível realidade de seu futuro caiu sobre ele como ganchos de aço. — Acha que posso me salvar?

   — Não estaria aqui se não acreditasse. Eu ficaria fora, construindo um bunker muito profundo.

     — O que acontecerá se você tiver razão. O que acontece se eu não puder lutar contra isso?

     — Essa é a pergunta errada, Nick. E se você puder...?

 

   Não havia muitas pessoas que recebessem discursos inspiradores de demônios. Nick se considerava afortunado nesse sentido.

     Ou amaldiçoado.

     — Vamos, Nick —disse a si mesmo— Concentre-se.

     Ele, supostamente tinha todos estes poderes inexplorados à espera de serem cuidadosamente desencadeados. Já era hora que aprendesse a usá-los.

     Quase uma hora atrás, outro menino de quatorze anos, foi encontrado morto a apenas três quadras ao norte do Santuário, no mesmo estilo, com o peculiar emblema ao redor de seu corpo.

     Seu treinador planejava entregar todas as suas almas ao seu chefe como a cereja em um sundae de chocolate caseiro especial para que Devus pudesse seguir adiante e repetir seus crimes novamente e novamente.

     Bom, Nick Gautier não era uma cereja e não era tolo.

     Honestamente, já não sabia o que era, mas não podia ficar parado e deixar alguém morrer ou se tornar uma vítima. Não, se podia evitar. Era o momento de lutar, e a luta era a única coisa que ele entendia bem.

     — Você pode fazer isto. — Ele apertou o punho com força ao redor do cordão e pensou tão duro quanto pôde.

     Foi inútil. As lições do Grim eram mais irritantes que úteis. Frustrado, ele começou a baixar a mão, só para sentir uma presença quente ao seu lado. A sala estava banhada com uma luz suave e brilhante que parecia emanar a sensação de amor e acolhimento de uma mãe. Era tão reconfortante, que ele queria perder-se nela.

     Kody apareceu ao seu lado com os pés enfiados embaixo dela.

     — Você pode fazer isto, Nick.

     Ela sorriu para ele, e suas entranhas dançaram. Deus, se não era a garota mais bonita que ele jamais tinha visto. Sempre parecia tão doce e acolhedora.

     — Olá — sussurrou, com certo medo de que estivesse sonhando e ela desaparecesse.

     O sorriso dela se ampliou.

     — Olá.

     Kody sabia qual era seu trabalho. Manter Nick no caminho reto ou entregar sua cabeça em uma bandeja aos poderes que a tinham enviado. Mas toda vez que olhava aqueles olhos azuis escuros, ela perdia uma parte de si mesma para eles.

     Uma parte de si mesma para ele.

     Era um homem difícil de não amar. Todo esse poder envolvido no corpo de alguém que ainda era inseguro e vulnerável. Alguém que sempre colocava as necessidades dos outros acima das suas. Ele não usaria seus poderes para servir a seus próprios interesses. Era para proteger os outros que estava sentado aqui completamente frustrado.

     Ela fechou as mãos ao redor das dele.

     — Você está tentando forçá-lo.

     — Preciso que ele funcione. Não tenho tempo para besteira.

     Ela dirigiu-lhe um olhar em repreensão. Seus irmãos sempre foram como ele, também, às cegas forçando seu caminho com força cada vez que corriam para o lado oposto.

     Você viu o que conseguiram com isso.

     Ela obrigou-se a deixar sua dor de lado. Isto não era sobre eles e sobre a estupidez que havia condenado os dois e arruinou suas vidas. Uma estupidez que quase acabou com o mundo.

     Isto era sobre Nick e sua idiotice atual.

     — E se estivesse construindo uma estante de livros e quebrado uma unha no meio, porque não controla isso, o que você teria?

     — Lascas.

     Ela sorriu.

     — De fato.

     Nick estremeceu quando ela se inclinava contra ele e segurava as mãos dele entre as suas. Tinha a pele mais suave que jamais havia sentido. Como veludo quente.

     — Feche os olhos.

     Sua respiração fez cócegas em sua pele quando a obedecia.

     — Agora, imagine em sua mente o que você quer saber e escute o universo quando ele te fala.

     Ele tentou, mas nesse momento tudo o que realmente podia concentrar-se era em quão bom era senti-la contra ele.

   Oh sim, sou um pervertido.

     — Você está recebendo alguma coisa?

     Hum, sim, mas não estava disposto a ir para lá.

     — Nunca vou conseguir fazer este trabalho.

     Ela deixou cair suas mãos entrelaçadas, e em seguida, pegou a hematita na palma da mão como se quisesse testar seu peso.

     — Talvez o pêndulo não seja seu.

     — O que quer dizer?

     — Todo mundo é diferente. O que funciona para um nem sempre funciona para outro. — Ela estendeu as mãos em frente dela e colocou-as de modo que formaram uma bola em seu colo. Sussurrou em uma linguagem bonita que ele não pôde decifrar. No entanto, era uma que poderia escutar durante todo dia. Especialmente com a cadência doce da musical voz dela.

     Enquanto observava, uma estranha luz azul emanava de suas mãos. Pulsava como eletricidade, depois formou redemoinhos ao seu redor até que começou a criar uma forma. Após um minuto, a névoa se transformou em um espelho cinza escuro, quase negro. Mas a superfície não era de cristal. Parecia mais iridescente e fluida.

     Ela estendeu-a para ele.

     — É um espelho de vidência. Experimente.

     Ainda cético, ele o tomou em suas mãos.

     — O que eu faço com ele?

     — É uma janela para o universo. Esvazie sua mente e olhe através dele. Ele o mostrará tudo o que precisa saber e tudo o que você procura.

     Com sua sorte, a única coisa que ele mostraria era que tinha algo preso entre os dentes.

     Ou pior. Algo saindo do seu nariz.

     Envergonhado por esse simples pensamento de horror, ele fez o que ela disse. No momento em que fez isso, imediatamente viu o espelho começar a fumegar. Começou a deixá-lo cair, mas Kody não permitiu.

     — Está bem, Nick. Cuidado.

     Seu ceticismo desapareceu quando as figuras começavam a tomar forma e a movimentarem-se. No início não conseguia identificá-las, mas uma por uma elas clarearam até que pôde ouvir vozes em sua cabeça. Uau! Era como assistir TV ou uma câmera de circuito fechado. Viu pessoas que conhecia e algumas que não. Uma cena rapidamente se misturava a outra, mudando e mudando tão rápido, que era vertiginoso.

     — O que eu estou vendo?

     — Seu dispositivo. — Ela colocou as mãos sobre as imagens. — Isto é com o que você será mais forte. Aquilo que falou com você no momento em que você o tocou. Seu dom de vidência não é adivinhação.

     Ao fim, havia algo que realmente podia fazer. As lições de Grim tinham começado a fazer sentir-se deficiente e inadequado. Mas isto...

     Isto ele entendia. Foi como quando ele olhou na janela do carro de Kyrian.

     A luz da sala ficou mais brilhante.

     Franzindo o cenho, encontrou-se com o olhar de Kody.

     — Por que a luz da sala está viva?

     — É meu escudo que está ao nosso redor. Já que não está acostumado a seus poderes, cada vez que realmente os toca e fluem através de você, você envia um sinal de localização a outros de nosso tipo. Foi por isso que Caleb o jogou no armário. Porque você é tão forte, os seres sobrenaturais se sentem atraídos a você. Mas você não tem os conhecimentos necessários para proteger-se e lutar contra eles ainda. O que significa que por agora você é um presente saboroso. Se o matarem enquanto é frágil, eles podem absorver esses poderes e usá-los para si mesmos.

     Oh, ótimo!

     — Isso seria ruim.

     — Extremamente ruim, dependendo de quem o matasse.

     Essas palavras o apunhalaram novamente enquanto suas inseguranças o engoliam inteiro. Não estou preparado para isso... Ele olhou para ela e reconheceu a única coisa que nunca tinha admitido para outra alma viva.

     — Estou com medo, Kody.

     — Você deveria ter. Mas ao mesmo tempo, você tem a mim, ao Caleb e a Simi, e faremos todo o possível para ajudá-lo. Não vamos deixar que lhe façam mal.

     Se ele tivesse a mesma fé em si mesmo. Mais que isso, não sabia em quem podia confiar realmente. Todo mundo lhe dizia que confiasse em alguém. Seu intestino tinha sua própria opinião.

     E tudo isso o confundia.

     — Como você lida com tudo isto? — perguntou a ela, precisando saber quanto tempo levaria para ele sentir-se normal outra vez.

     — Nasci sabendo quem e o que sou. Você é como uma criança que acaba de se tornar autoconsciente. Enquanto fala e caminha, ainda não sabe que o queimador do fogão deixará uma cicatriz ou que as facas cortarão você. Tem que ser ensinado sobre os perigos do nosso mundo. Os predadores e serpentes estão à espreita, esperando a oportunidade de afundar suas presas em você. — Colocou as duas mãos sobre o espelho. — Você é mais forte que qualquer um que já conheci, Nick. E eu acredito em você.

     Quando ela falava assim, ele quase podia acreditar em si mesmo, também.

     Apertando-lhe a mão, ele tomou o espelho dela e o estudou de novo. Viu seu próprio reflexo num primeiro momento, e depois as imagens retornaram. Apareceram escuras e ambíguas. Em seguida, mais focadas. Com mais clareza.

     Levou um minuto perceber que estava vendo o passado. Como Kody havia dito, era como se estivesse vendo através de uma janela ou uma mosca proverbial na parede.

     Viu Devus em um velho traje vitoriano sentado em uma mesa grande e redonda no que parecia ser um escritório de algum tipo com vários homens que riam dele.

     — O segundo melhor é tudo o que você sempre será, Walter. Poderia muito bem aceitar isso.

     Devus inclinou-se com uma careta.

     — Asseguro a você, Theodore, ganharemos o jogo. Pode apostar seus milhões nisso.

     Theodore sacudiu a cinza de seu charuto para Devus enquanto lançava um olhar zombeteiro aos outros.

     — Você sempre foi um sonhador, meu rapaz. Sempre um sonhador. — O ancião se levantou e fez um gesto para que os outros que o seguissem. O que eles fizeram. Suas ações lembravam a um grupo de cachorrinhos seguindo seu líder.

     Devus estava tão chateado, que parecia estar à beira das lágrimas. De repente, começou a atirar coisas e derrubar os móveis da sala. Rasgou livros encadernados em couro de suas prateleiras e arrancou seu próprio cabelo.

     — Vou ganhar — grunhiu com os dentes apertados. — Nem que eu tenha que matar todos os jogadores da equipe para isso... vou ganhar.

     Quando foi quebrar o espelho na parede, ficou paralisado. Ali olhando para ele estava seu próprio reflexo, mas com uma expressão tranquila, não a enlouquecida que usava na atualidade.

     — Será que você quis dizer isso que disse? — perguntou-lhe.

     Ele soltou o peso de papel de mármore que tinha a intenção de atirar no espelho.

     — Sobre o que?

     — Mataria a todos os jogadores para ganhar?

     Ele gaguejou durante vários segundos, os olhos realmente em pânico.

     — Quem é você?

     — Sou alguém que pode fazer isso acontecer. Mas preciso saber se você realmente está falando sério. Do contrário, estou perdendo meu tempo, e isso é algo que nunca farei.

     A imagem começou a desaparecer.

     — Não! Espere!

     Quando ele voltou com uma sobrancelha arqueada, Devus passou a língua pelos lábios.

     — Eu-eu-eu quis dizer isso.

     — Então prove.

     — Como?

     — Se disse isso realmente, vou precisar que você me traga um coração. Um recém-tirado do corpo de um menino de quatorze anos.

     Devus exclamou com horror:

     — Não. Eu não posso.

   — É uma pena, então. A satisfação de ganhar será de outro. — A imagem desapareceu.

     — Volta!

     Não voltou.

     Devus se sentou, movendo a cabeça, arranhando o vidro para ver se talvez tivesse imaginado.

     — Eu fiquei louco. Eu sei. E ainda...

     Nick podia ver as engrenagens trabalhando na mente de Devus enquanto ele debatia o que fazer. Não podia acreditar que o treinador sequer tivesse considerado isso. O homem estava louco?

     Tinha que estar.

   A fumaça de seu espelho formou redemoinhos novamente, e mostrou outras imagens. Horríveis imagens.

     Horrorizado e enojado, Nick virou a cabeça enquanto o treinador perseguiu uma garota inocente que fazia o caminho de casa depois de seu trabalho em uma fábrica. Em um beco escuro no centro de Atlanta, o treinador a estrangulou cruelmente, depois extraiu seu coração.

     Por um momento, Nick pensou que iria vomitar. Como alguém podia ser tão frio? Tão brutal? Qualquer simpatia que pudesse ter tido por Devus se foi, e em seu lugar havia uma dura e fria condenação.

     Devus havia tirado sua última vida. Esta loucura ia parar aqui e agora.

     Kody viu como Nick lutava para não ficar doente. Enquanto manteve a cabeça voltada para as ações horripilantes do treinador. Isso lhe deu esperança. Ele não sentia curiosidade ou interesse na brutalidade, absolutamente. Estava revoltado, como qualquer pessoa normal estaria.

     De fato, não assistiu novamente até que o treinador havia retornado ao espelho com o coração da menina dentro de uma caixa de madeira. E, mesmo assim, Nick se encolheu.

     Por favor, deixe-me salvá-lo, Nick. Por favor. Fique assim para que não tenha que matá-lo. Ela tinha bastante sangue em suas mãos. Não queria mais.

     Kody voltou sua atenção para o treinador quando ele fazia um pacto que nunca deveria ter feito.

     Devus abriu a tampa para mostrar ao seu espelho encantado o que tinha feito. Não tinha perdido o brilho de orgulho em seus olhos. A arrogante esperança de um homem que iria conseguir seu objetivo a todo custo.

     — Isto é suficientemente bom?

     A imagem no espelho sorriu.

     — Perfeito. Melhor do que esperava.

     — Então diga-me o que fazer para ganhar.

     — Terá que reunir um objeto único e muito pessoal de cada um dos jogadores. — A imagem no espelho aproximou uma mão de Devus para entregar-lhe uma bolsa de veludo vermelho. — Ponha seus artigos aqui dentro.

     Devus pegou e concordou com a cabeça quando o braço se dobrava de volta ao espelho.

     — E depois?

     — Você queimará absinto e arsênico misturado com manjericão e cedro. Coloque as cinzas na bolsa com os itens pessoais de seus jogadores e depois, às três da manhã do dia em que jogará, você as espalhará sobre o coração que tomou como sacrifício. Então, desde que mantenha a caixa com você por todo o dia, será invencível. Nada poderá prejudicá-lo, e a má sorte não cairá sobre você. Sua equipe jogará como nunca jogou antes e sairão vitoriosos.

     — Você promete?

     — Sim, mas não fique tão feliz, treinador. Pois tudo isto vem com um preço muito alto.

     Devus franziu o cenho confuso.

     — Já matei a uma menina. O que mais há?

     A imagem do espelho estalou a língua.

     — O coração é só o catalisador para que seus jogadores dêem o melhor de si. Isso não tem nada a ver com seu pagamento.

     Ele engoliu em seco, com medo.

     — E isso seria?

     — Sua vida.

     Seu rosto ficou completamente branco.

     — O quê?

   — Terá fama, treinador. Assim como você queria. Uma brilhante vitória sobre seus adversários. Serei até gentil e darei-lhe uma noite para desfrutar dessa vitória. Mas até o meio-dia do dia seguinte, você e seus jogadores devem morrer juntos. Imagine a cobertura das notícias então. Oh, a tragédia dos campeões morrendo na esteira de seu grande êxito. Será lendário. Repetidas vezes.

     Devus tragou com força.

     — Não é isso que quero. Não assinei por isso.

     Não havia piedade nos olhos do espelho.

     — Sim, você concordou. Deveria ter perguntado as condições antes de realizar o pacto. Alguma vez lhe disseram que deve ler as letras miúdas?

     As mãos de Devus tremiam incontrolavelmente.

     — Não é justo.

     — A vida nunca é. Mas não se desespere. Ao contrário de seus jogadores, você não ficará morto.

     — O que quer dizer?

     — Esse é seu pacto, Walter. Enquanto você recolher as almas para mim, não tomarei a sua. Entretanto, se você deixar de me entregar à equipe vencedora ao meio-dia, sofrerá tormentos inimagináveis pelo resto da eternidade. Você entende?

     Ele acenou com a cabeça.

     — Bom. Agora, seja um bom menino e não perca seu coração.

 

   Nick se afastou da cena com um nó no estômago e uma fúria quente. Como o treinador se atreveu a fazer um pacto assim. E para quê? Vaidade?

     Nunca entenderia.

     Kody suspirou, chamando sua atenção sobre ela.

     — Bem, agora sabemos como tudo começou.

     Nick abriu a boca para respondê-lo, mas antes de pudesse, as imagens começaram a reproduzir-se na cabeça. Elas chegaram rápidas e furiosas, como tinham feito no espelho. E assim como no espelho, ele não tinha controle sobre elas. Isso o fez enjoar e sentir náuseas.

     Ah, a dor...

     Ofegando, estendeu-se no chão e pressionou a palma da mão sobre os olhos, tentando aliviar um pouco do sofrimento. Sentia como se seu cérebro fosse literalmente explodir.

     — Nick? — Kody conteve o fôlego bruscamente quando o viu convulsionando-se no chão. O que estava acontecendo? O que ela devia fazer?

     Ela não sentia que ele fosse atacado por alguma coisa, e, no entanto, era isso o que parecia. E se ela tivesse, involuntariamente, despertado algo dele? O simples pensamento a aterrorizava.

     — Nick? — tentou de novo.

     Mais uma vez mais ele não respondeu.

     Ela reforçou a proteção no quarto, apenas para o caso de precisar. Era tão forte agora, que nada poderia rompê-la. Pegou a cabeça de Nick em seu colo e o abraçou esperando que o que fosse o deixasse ir.

     Nick ouviu a voz da menina na cabeça. Julianne... Estava falando com ele em um tom que parecia com o irmão de Madaug. Estridente e dolorosa.

     — Liberte-me — pediu-lhe. — Por favor. Não quero ferir ninguém. Quero descansar e ficar sozinha. Por que ele não se vai? Tem sido assim há tanto tempo, e estou muito cansada.

     Era a menina que Devus havia assassinado. Ela...

     Algo espesso e quente correu por suas veias. Não foi como das outras vezes quando seus poderes se apoderaram dele. Esta era diferente. Dessa vez, ele sentiu que tinha controle sobre ela. Como se pudesse canalizá-los e dirigi-los.

     Fechando os olhos e tentou concentrar-se.

     Kody ficou sem fôlego e se afastou ao ver uma aura de cor laranja engolir todo o corpo do Nick. Era a essência de um demônio, e fez com que se arrepiasse o pêlo da nuca.

     Quando ele abriu os olhos para olhar para ela, já não estavam mais azuis. Eram de uma lavanda vibrante. Do tipo que não pertencia a um humano.

     — Você tem que ensinar-me como ressuscitar aos mortos. — Sua voz era grave e profunda, e não parecia em nada com o Nick que conhecia.

     Ela piscou duas vezes enquanto pensava sobre seu pedido.

     — É proibido.

     Sua voz se acalmou na sua cadência normal, quando se levantou para encará-la.

     — Não, não é. É pouco aconselhável. Mas a única maneira de parar isto é a menina enfrentar seu assassino. Ela quer ser livre, e acho que devemos deixá-la ser livre.

     Kody negou com a cabeça.

     — Não podemos fazer isso, Nick. Você não é forte o suficiente, e não tem nem ideia das portas que se abrirão. As portas não se fecham facilmente.

     Ela está mentindo para você.

     Nick gemeu quando uma voz desconhecida encheu sua cabeça.

     — Quem é você?

     Ele não disse.

     Mas ele havia sentido e, honestamente, ele estava cansado de ter a Grand Central Station do Metrô de Nova York, dentro da cabeça. Pessoas, coisas, animais. Fora! O terminal está fechado ao público. Vão assombrar outro lugar.

     Kody colocou a mão em sua testa para verificar se tinha febre.

     — Sou eu, Kody. Você está bem?

     Ela deu-lhe um olhar de descrédito.

     — Não falava com você. Ouço vozes em minha cabeça.

     — E o que é o que elas dizem?

     Ele bateu em sua própria orelha, em um esforço de tentar limpá-la.

     — Não posso explicar, exatamente. Eu... meus poderes estão despertando. Posso senti-los. Eles… — Suas palavras terminaram com um grunhido feroz quando seu estômago se retorceu até que não conseguia respirar.

     Kody entrou em pânico ao ver seus olhos mudarem de novo. Sua pele estava marmoreando e formando redemoinhos. Ela tinha que fazer algo rápido ou o perderia.

     — Olhe para mim, Nick!

     Ele a ignorou.

     Ela tinha que acalmá-lo e obrigar seus poderes a recuar. Conseguir que seus pensamentos se centrassem em algo além de sua dor. Sem pensar duas vezes, ela o beijou.

     Nick estremeceu com a sensação da boca de Kody na sua. E enquanto saboreava esses lábios carnudos, suaves, uma calma inexplicável se apoderou de todo o seu ser. Sentia-se como se estivesse flutuando. Colocando seu rosto em suas mãos, deixou que o calor de sua boca o acalmasse até que conseguisse pensar com clareza de novo.

     Em apenas um ato, tinha sido curado da dor de cabeça e ancorado de volta à realidade.

     Recuando, ele a olhou.

     — Obrigado.

     Ela inclinou a cabeça.

     — Quando quiser. Agora, pode me explicar o que você ouviu?

     — Não. Na verdade, não sei. No princípio era a garota assassinada, Julianne.

     Ela pareceu pouco convencida.

     — Tem certeza de que era ela?

     — O que quer dizer?

     — É extremamente simples para um demônio aparecer como uma pessoa morta. É preciso muito pouca energia, e é uma maneira fácil de motivar as pessoas a fazer coisas. Ver alguém sob a aparência de um ser querido ou uma criança, faz com que a maioria faça qualquer coisa que lhe for pedido. Pense nisso como um truque.

     Nick não se importou com esse pensamento, mas ao menos ele entendia onde ela queria chegar.

     — Você tem razão. Podia estar mentindo. Mas não acho. Uma coisa que aprendi em minha vida é que nada é fácil. — E o espelho do Devus ainda alertou-o de que não perdesse o coração da menina. — Estou lhe dizendo, Kody. A chave para isto é a menina em cuja morte isso começou.

     Podia ver a relutância nos olhos dela antes que desaparecesse.

     — Você tem razão. Para desfazer algo, em geral deve-se ir ao ponto de partida. Mas...

     — Mas, o que?

     — Você está falando de necromancia, Nick. Isso não é algo para brincar, e não se pode aprender em poucas horas ou dias. Os necromantes são uma raça completamente diferente.

     — Como assim?

     — Para fazer o que fazem, eles perdem uma parte de sua alma o tempo todo. E você está falando da parte mais escura do mal. Não é só a reanimação do recipiente que faz mover o corpo outra vez. Tem que reunir a alma, o que significa que terá que arrancá-la de onde quer que esteja. E voltar a nascer. Não acredito que nada e nem ninguém possa tocá-la. Mas, de novo, não sei. Eu não vou lá. Por muito boas razões.

     Ele suplicou com o olhar.

     — Mas você conhece alguém que faz.

     Ela manteve-se firme em sua convicção para evitar esta catástrofe.

     — Não, não conheço.

     — Mas sabe de alguém que conhece alguém.

     Sua persistência era tão chata quanto ele era brincalhão e bonito. Ugh! Ela era como um trem descarrilando, e não havia nada que pudesse fazer para pará-lo.

     Se ela sabia algo a respeito do Nick, era que ele era teimoso. Não havia nada que ela pudesse fazer para mudar isso.

     — Nós dois conhecemos esse alguém. Vamos, pegue seu casaco e vamos à casa de Caleb.

 

   Passeando em frente ao seu gigante hall de mármore, que era tão trabalhado que fez o de Kyrian parecer um mendigo, Caleb olhou para Nick e depois para Kody.

     — Vocês perderam a cabeça completamente? Eu juro que não posso deixá-los sozinhos nem três segundos sem que vocês saiam e se machuquem. — Ele estreitou o olhar sobre o Nick. — Esperava esta estupidez de você, mas você… — Voltou-se para Kody— sabe melhor.

     Ela encolheu os ombros sem poder fazer nada.

     — Tentei dizer a ele. Não me escutou. Um teimoso. Você sabe.

     Enfrentando Nick, Caleb fez um gesto em direção a ela.

     — Escute-a, Nick.

     Nick não estava tentando ser difícil. Realmente. Ele entendia seu pânico e preocupações, e estava agradecido por isso. Mas ele sabia o que tinha visto e ouvido.

     — Vocês dois escutem-me pelo menos uma vez. Talvez eu não esteja tão versado nisto como vocês, mas sei o que vi. Vocês e todos os outros ficam me dizendo que para aprender meus poderes... arr... aprender de meus poderes. — Ele imitou um papagaio antes de continuar em seu tom normal. — E então quando aprendo, dizem-me que não sei do que estou falando. —Levantou as mãos em sinal de rendição. — Muito bem. Vocês ganharam. Eu desisto. Continuem vocês. Eu vou para casa. Recolherei todos meus objetos pessoais, e quanto a você, Caleb, se acabar morto porque o treinador tem seu suspensório ou qualquer outra coisa que eu não roubei, mas alguém o fez, não me chame. Já acabei e vou esconder-me em um bunker até que tudo isto termine. — Encaminhou-se para a porta, mas no momento em que chegou, ela fechou-se em seu rosto.

     — Eu odeio você, Nick — disse Caleb arrastando as palavras.

     — O sentimento é mútuo, demônio.

     Com um suspiro de irritação, Caleb virou-se para Kody.

     — Você realmente acha que isso é sábio?

     — Absolutamente, não. Mas não tenho uma ideia melhor. E você?

     — Sinto-me como se estivesse a ponto de entrar numa sátira dos Monty Python —murmurou Caleb enquanto pegou seu telefone e começou a ligar. Ele os fulminou com o olhar enquanto tocava, tocava e tocava.

     Fazendo uma careta pela demora, Nick olhou para Kody.

     — Os necromantes não têm um correio de voz?

     Ela deu de ombros.

     — Olá — disse Caleb finalmente — É Malphas… Sim, é um longo tempo e eu preciso um favor. Está muito longe de Nova Orleans?

     Nick podia ouvir uma voz profunda no outro extremo, mas não conseguia distinguir nenhuma palavra solta.

     — Muito bem. Eu o verei então — Caleb desligou o telefone e continuou a fazer careta de desgosto para eles. — Ele estará aqui em algumas horas.

     — De onde ele vem? — perguntou-lh