Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


IRMANDADE / Oliver Bowden
IRMANDADE / Oliver Bowden

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

Os eventos ocorridos nos incríveis quinze minutos anteriores — que poderiam ter sido quinze horas, ou até mesmo dias, de tão longos que pareceram — surgiram outra vez na mente de Ezio enquanto ele camba­leava, confuso, saindo da Câmara sob a Capela Sistina.

Embora a memória parecesse um sonho, Ezio se lembrou de ter vis­to nas profundezas da Câmara um enorme sarcófago, aparentemente feito de granito. Quando ele se aproximou, o sarcófago começou a bri­lhar, mas com uma luz convidativa.

Ele tocou a tampa, que se abriu como se fosse leve como uma pluma. De dentro veio uma luz amarela e cálida, e dali se ergueu uma figura cujas feições Ezio não conseguiu distinguir, embora soubesse que estava olhando para uma mulher. Sua estatura era anormal. Ela usava um ca­pacete e trazia uma coruja no ombro direito.

A luz que a cercava o cegou.

— Saudações, profeta — disse ela, chamando-o pelo nome que tinha sido misteriosamente conferido a ele. — Tenho esperado por você há dez milhões de estações.

Ezio não se atreveu a olhá-la.

— Deixe-me ver a Maçã.

Humildemente Ezio a entregou.

— Ah. — A mão dela acariciou o ar sobre a Maçã, mas não a tocou. O objeto cintilava e pulsava. Os olhos da deusa atravessaram Ezio. — Precisamos conversar. — Ela inclinou a cabeça, como se estivesse refle­tindo sobre alguma coisa, e Ezio, levantando a dele, achou ter visto um traço de sorriso em seu rosto iridescente.

— Quem é você?

— Ah... tenho muitos nomes. Quando morri, era Minerva.

Ezio reconheceu o nome.

— Deusa da Sabedoria! A coruja em seu ombro. O capacete. É claro.

— Ele curvou a cabeça.

— Nós já não existimos mais. Os deuses que seus antepassados ado­raram, Juno, rainha dos deuses, e meu pai, Júpiter, o rei, que me trouxe à vida da própria testa. Eu era a filha, não de suas entranhas, mas de sua mente!

Ezio estava estupefato. Olhou para as estátuas alinhadas às paredes. Vênus. Mercúrio. Vulcano. Marte...

Houve um barulho como vidro se quebrando à distância ou como o som que uma estrela cadente faria: era a risada dela.

— Não, não deuses. Simplesmente viemos antes. Mesmo na época em que caminhávamos pelo mundo, a humanidade lutava para enten­der nossa existência. Éramos apenas mais avançados no tempo. — Ela fez uma pausa. — Mas, embora vocês talvez não nos compreendam, precisam compreender nosso aviso.

— Eu não entendo.

— Não se assuste. Desejo falar com você, mas também por meio de você. Você é o Escolhido deste tempo. O Profeta.

Ezio sentiu o calor de uma mãe envolver toda a sua exaustão.

Minerva ergueu os braços acima da cabeça e o teto da Câmara tor­nou-se o firmamento. O rosto cintilante assumiu uma expressão de in­finita tristeza.

— Escute e veja.

Ezio mal podia suportar a memória: ele tinha visto a Terra inteira e os céus que a cercavam até a Via Láctea, a galáxia, e sua mente mal pôde compreender a visão. Ele viu um mundo, este mundo, destruído pelo Homem, e uma planície varrida pelo vento. Mas então ele viu pessoas

— alquebradas, efêmeras, mas corajosas.

— Nós lhes demos o Éden — afirmou Minerva —, mas ele se tornou o inferno. O mundo ardeu até que nada restou além de cinzas. Mas nós os criamos à nossa própria imagem, e criamos vocês, não importa o que vocês fizeram, não importa quanta maldade cancerosa havia em vocês, por escolha, porque nós lhes demos escolha, para sobreviver! E nós re­construímos tudo. Depois da devastação, reconstruímos o mundo e ele se tornou, depois de eras imensuráveis, o mundo que vocês conhecem e habitam. Nós nos empenhamos para que tal tragédia jamais voltasse a se repetir.

Ezio tornou a olhar o céu. Um horizonte. Nele, erguiam-se templos e formas, entalhes na pedra semelhantes a escrituras, bibliotecas cheias de pergaminhos, navios, cidades, música e dança. Viu silhuetas e formas de civilizações antigas que ele não conhecia, mas que reconheceu como sendo obras de seus semelhantes.

— Agora, porém, meu povo está morrendo — continuou Minerva.

— E o tempo vai agir contra nós... A verdade será transformada em mito e lenda. Mas, Ezio, profeta e líder, embora você tenha a força física de um mero ser humano, sua vontade é como a nossa, e em você minhas palavras serão preservadas.

Ezio a olhava, em transe.

— Deixe também que minhas palavras tragam esperança — afir­mou Minerva. — Mas você precisa agir rápido, pois o tempo é cada vez mais curto. Proteja-se contra os Bórgia. Cuidado com a Cruz Templária.

A Câmara escureceu. Minerva e Ezio estavam sozinhos, banhados pelo brilho que se esvaía da luz cálida.

— Agora meu povo precisa deixar este mundo. Mas a Mensagem foi entregue. Depende de vocês agora. Não podemos fazer mais nada.

E então veio a escuridão e o silêncio, e a Câmara mais uma vez tornou-se uma sala subterrânea que não continha absolutamente nada.

E, ainda assim...

Ezio voltou a entrar na antecâmara, lançando um olhar para o corpo retorcido de Rodrigo Bórgia, o Espanhol, papa Alexandre VI, líder da facção dos Templários — ensanguentado em seus estertores finais. Ezio não conseguiu se convencer a dar o coup de grâce. O homem parecia estar morrendo por si mesmo. Pelo jeito, ele tinha se envenenado, sem dúvida com a mesma cantarella que tinha dado a tantos de seus inimi­gos. Bem, deixe que ele encontre o próprio caminho para o Inferno. Ezio não lhe concederia a misericórdia de uma morte fácil.

Ele deixou para trás a escuridão da Capela Sistina e foi para a luz do sol. Ao chegar ao pórtico, Ezio viu que muitos de seus amigos e companheiros Assassinos — membros da Irmandade, ao lado de quem ele tinha vivido tantas aventuras e sobrevivido a tantos perigos — o aguardavam.

 

 

 

 

Não se pode definir como virtude a matança dos próprios concidadãos, a traição aos amigos e a demonstração de falta de lealdade, de piedade, de consciência e de ideal moral: essas práticas podem conquistar poder ao príncipe, nunca a glória.

— Nicolau Maquiavel, O Príncipe.

Ezio parou por um momento, atordoado e desorientado. Onde ele esta­va? Que lugar era aquele? Conforme lentamente recuperava os sentidos, viu seu tio Mario se separar do grupo de amigos Assassinos e se aproxi­mar, tomando seu braço.

— Ezio, está tudo bem?

— Houve... houve uma luta... com o papa, com Rodrigo Bórgia. Eu o deixei morrendo.

Ezio tremia violentamente. Não conseguia se controlar. Teria sido real? Minutos antes — embora parecesse ter sido há uns cem anos — estivera envolvido em uma luta de vida e morte com o homem que mais odiava e temia, o líder dos Templários, a cruel organização empenhada em destruir o mundo que Ezio e os amigos da Irmandade dos Assassi­nos lutaram tão duramente para proteger.

Mas ele os tinha derrotado. Ezio tinha usado os grandes poderes da Maçã, um misterioso artefato, o sagrado Pedaço do Éden que lhe foi concedido pelos antigos deuses, para garantir que o investimento na humanidade não desaparecesse em meio ao derramamento de sangue e à iniquidade. E ele saiu vitorioso.

Ou não?

O que ele tinha dito? “Eu o deixei morrendo?” E, sem dúvida, Rodrigo Bórgia, o velho vilão que tinha conquistado o controle da Igreja e a gover­nou como papa, parecia de fato estar morrendo. Ele tinha tomado veneno.

Mas agora uma dúvida repugnante tinha se apoderado de Ezio. Ao demonstrar misericórdia, que residia no cerne do Credo dos Assassinos, e deveria, como ele sabia, ser concedida a todos, exceto àqueles cujas vidas colocariam em risco o resto da humanidade, teria sido ele, de fato, fraco?

Se fora, jamais demonstraria a própria dúvida, nem mesmo ao tio Mario, líder da Irmandade. Ele endireitou os ombros. Tinha deixado o velho morrendo por conta própria. Ezio o deixou com tempo suficiente para rezar. Não o tinha apunhalado no coração para se certificar de sua morte.

Um punho frio se fechou sobre o coração de Ezio enquanto uma voz clara disse em sua mente: Você deveria tê-lo assassinado.

Ezio se sacudiu para se livrar de seus demônios como um cachorro se livra da água depois de nadar. Mas seus pensamentos ainda se deti­nham na experiência mística que teve na estranha Câmara sob a Capela Sistina, no Vaticano. O prédio de onde ele tinha acabado de emergir, piscando sob a luz nada familiar do sol. Tudo ao seu redor parecia es­tranhamente calmo e normal. Os prédios do Vaticano estavam onde sempre estiveram, resplandecendo sob a luz brilhante. A memória de tudo que acabara de acontecer na Câmara voltou, e grandes ondas de recordações sobrecarregaram sua consciência. Tinha ocorrido uma visão, um encontro com uma estranha deusa — pois não havia outra forma de descrever a criatura —, que ele agora sabia se tratar de Mi­nerva, a deusa romana da Sabedoria. Ela lhe mostrou tanto o passado distante quanto o futuro longínquo de tal modo que Ezio agora odiava a responsabilidade que o conhecimento recém-adquirido colocava em seus ombros.

E com quem ele poderia compartilhar esse conhecimento? Como poderia explicar qualquer parte daquilo? Tudo parecia tão irreal.

Só o que Ezio sabia com segurança após a experiência — ou melhor, provação — era que a luta ainda não tinha acabado. Talvez um dia hou­vesse o momento em que ele poderia voltar a Florença, sua cidade natal, e sossegar com seus livros, beber com os amigos no inverno e caçar com eles no outono, perseguir meninas na primavera e supervisionar as co­lheitas em suas propriedades no verão.

Mas esse dia não seria hoje.

No fundo do coração, Ezio sabia que os Templários e todo o mal que eles representavam ainda não estavam derrotados. Ao enfrentá-los, Ezio combatia um monstro com mais cabeças que a Hidra e, como aquela besta, que fora morta por ninguém menos que Hércules, podia ser tudo, menos imortal.

— Ezio!

A voz de seu tio soou severa, mas serviu para acordá-lo do devaneio que o dominara. Ele tinha de se recuperar e pensar com clareza.

Havia um incêndio furioso na cabeça de Ezio. Ele disse o próprio nome, para se assegurar de si mesmo. Eu sou Ezio Auditore, de Floren­ça. Forte, um mestre das tradições dos Assassinos.

Ezio repassou os eventos: ele não sabia se tinha sonhado ou não. Os ensinamentos e as revelações da estranha deusa na Câmara tinham estremecido profundamente suas crenças e suposições. Era como se o próprio tempo tivesse sido posto de cabeça para baixo. Ao emergir da Capela Sistina, onde tinha deixado o maligno papa Alexandre VI apa­rentemente moribundo, Ezio semicerrou os olhos novamente diante da luz forte. Seus amigos Assassinos estavam ali reunidos, com os rostos sérios e marcados por uma feroz determinação.

O pensamento ainda o perseguia: ele deveria ter matado Rodrigo — ter se assegurado de seu fim? Ezio decidira não fazê-lo, e o homem pare­cera realmente determinado em tirar a própria vida, após fracassar na meta final.

Mas aquela voz cristalina ainda soava na mente de Ezio.

E mais: uma força surpreendente parecia atraí-lo de volta à capela — ele sentiu que havia alguma coisa incompleta.

Não Rodrigo. Não apenas Rodrigo. Embora Ezio fosse acabar com ele agora! Alguma outra coisa!

— O que houve? — indagou Mario.

— Preciso voltar — disse Ezio, percebendo novamente, com o estô­mago embrulhado, que o jogo não tinha acabado, e que a Maçã ainda não poderia deixar as suas mãos.

Assim que o pensamento o atingiu, Ezio foi tomado por um decisivo senso de urgência. Soltando-se dos braços protetores do tio, ele se apres­sou em voltar à escuridão. Mario, ordenando aos outros que ficassem onde estavam e se mantivessem alertas, seguiu o sobrinho.

Ezio alcançou rapidamente o lugar onde tinha deixado o agonizante Rodrigo Bórgia, mas o homem não estava lá! Um manto papal rica­mente decorado jazia em uma pilha no chão, manchado de sangue, mas seu dono tinha sumido. Novamente aquela mão, agora vestindo uma luva gélida de aço, se fechou sobre o coração de Ezio, parecendo esmagá-lo.

A passagem secreta para a Câmara estava, para todos os fins, fecha­da e quase invisível, mas quando Ezio se aproximou do ponto onde ele achava que ficava, ela se abriu suavemente com seu toque. Ele se virou para o tio e ficou surpreso ao ver o medo no rosto de Mario.

— O que há lá dentro? — perguntou o velho homem, esforçando-se para manter a voz firme.

— O Mistério — respondeu Ezio.

Deixando Mario na entrada da porta, ele seguiu pela passagem mal iluminada, esperando que não fosse tarde demais, e que Minerva tivesse previsto aquilo e o perdoasse. Com certeza Rodrigo não teria permissão para entrar ali. Mesmo assim, Ezio manteve preparada a lâmina oculta, que lhe fora legada pelo pai.

Dentro da Câmara, a grande figura humana, ainda que ao mesmo tempo de feições sobre-humanas — eram mesmo de uma estátua? —, segurava a cruz papal, também conhecida como Cajado.

Um dos Pedaços do Éden.

O Cajado estava aparentemente soldado à figura que o segurava, e, quando Ezio tentou soltá-lo, ela pareceu segurar com mais força e bri­lhar, assim como aconteceu com as inscrições rúnicas nas paredes da Câmara.

Ezio lembrara que, sem proteção, nenhuma mão humana deveria tocar a Maçã. As figuras então se viraram e afundaram no chão, deixan­do a Câmara completamente vazia, exceto pelo grande sarcófago e pelas estátuas que o cercavam.

Ezio deu um passo para trás, olhando rapidamente ao redor e hesi­tando antes de deixar aquele lugar. Ele sabia instintivamente que jamais voltaria ali. O que ele esperava? Que Minerva fosse se manifestar para ele novamente? Mas ela não lhe dissera tudo que havia para dizer? Ou pelo menos tudo que seria seguro que ele soubesse? A Maçã lhe tinha sido confiada. Combinados à Maçã, os outros Pedaços do Éden teriam concedido a Rodrigo a supremacia que ele buscava, e Ezio compreendia, na plenitude de seus anos, que tamanho poder reunido seria perigoso demais nas mãos dos homens.

— Está tudo bem? — A voz de Mario, ainda extraordinariamente nervosa, flutuou até Ezio.

— Tudo bem — respondeu Ezio, voltando à luz com uma curiosa relutância.

Uma vez junto ao tio, Ezio lhe mostrou silenciosamente a Maçã.

— E o Cajado?

Ezio balançou a cabeça.

— Melhor que fique nos braços da Terra do que nas mãos dos ho­mens — concluiu Mario, entendendo imediatamente. — Mas eu não preciso lhe dizer isso. Vamos lá! Não podemos nos demorar.

— Por que a pressa?

— Por tudo! Você acha que Rodrigo vai deixar que a gente simples­mente vá embora sem maiores problemas?

— Eu o deixei morrendo.

— Não é a mesma coisa que deixá-lo completamente morto, é? Vamos!

Então eles saíram da Câmara o mais rápido que puderam, e um ven­to frio pareceu segui-los.

 

— Onde estão os outros? — indagou Ezio, ainda espantado com as ex­periências recém-vividas enquanto cruzavam de volta a grande nave da Capela Sistina. Os Assassinos não estavam mais lá.

— Eu os dispensei. Paola voltou a Florença. Teodora e Antônio, a Veneza. Precisamos cobrir toda Itália. Os Templários estão enfraqueci­dos, mas não foram destruídos. Eles vão se reagrupar se nossa Irman­dade dos Assassinos não for vigilante. Eternamente vigilante. O resto de nosso grupo partiu na frente e vai nos esperar no quartel-general em Monteriggioni.

— Eles estavam de guarda.

— De fato, estavam, mas perceberam que haviam cumprido o dever deles. Ezio, não há tempo a perder. Nós todos sabemos disso — afirmou Mario, com expressão séria.

— Eu deveria ter acabado com Rodrigo Bórgia.

— Ele feriu você na luta?

— Minha armadura me protegeu.

Mario deu um tapinha nas costas do sobrinho.

— Falei de modo muito precipitado agora há pouco. Acho que você fez bem ao decidir que não o mataria sem necessidade. Eu sempre aconselhei a moderação. Você achou que ele estava praticamente mor­to, e pela própria mão. Quem sabe? Talvez ele estivesse fingindo, ou de repente ele fracassou na hora de se envenenar. De qualquer maneira, temos de lidar com a situação como ela é, e não desperdiçar energia ponderando aquilo que poderíamos ter feito. Afinal, nós mandamos você; um homem sozinho, contra um exército de Templários. Você fez mais do que a sua parte, Ezio. Temos de sair daqui. Temos trabalho a fazer, e a última coisa que precisamos é ser encurralados pelos guardas de Bórgia.

— Você não acreditaria nas coisas que eu vi, tio.

Então me faça o favor de não morrer, para que eu possa ouvir sua história. Ouça: deixei alguns cavalos à espera um pouco depois da Praça São Pedro, fora do território do Vaticano. Quando chegarmos até eles, poderemos sair daqui em segurança.

— Os Bórgia vão tentar nos deter, imagino.

Mario abriu um grande sorriso.

— É claro que vão; e eu espero que os Bórgia lamentem a perda de muitos homens esta noite!

Na capela, Ezio e o tio se surpreenderam ao depararem com vários sacerdotes, que tinham voltado para terminar a missa interrompida pelo confronto de Ezio contra o papa, no qual os dois batalharam pelo controle dos Pedaços do Éden que tinham descoberto.

Os sacerdotes os interpelaram com raiva, cercando-os e bradando:

— Che cosa fate qui? O que estão fazendo aqui? — gritavam eles. — Vocês profanaram a santidade deste lugar sacro!

Outros acusavam:

— Assassini! Deus os fará pagar pelos seus crimes!

Enquanto Mario e Ezio empurravam e forçavam passagem pela multidão enfurecida, os sinos da basílica começaram a soar o alarme.

— Você condena aquilo que não entende! — disse Ezio a um sa­cerdote que tentava bloquear o caminho. A maciez do corpo do sujeito o repeliu, e ele o empurrou para o lado com o máximo de gentileza possível.

— Temos de ir, Ezio — urgiu Mario. — Agora!

— Ele é a voz do Demônio! — urrou outro sacerdote.

Ezio e Mario conseguiram alcançar o grande pátio da igreja. Lá eles foram confrontados por um mar de batinas vermelhas. Parecia que todo o Colégio de Cardeais estava ali reunido, confuso, mas ainda sob o do­mínio do papa Alexandre VI, Rodrigo Bórgia, o capitão da Ordem dos Templários.

— Pois nós lutamos não contra carne e sangue — entoavam os car­deais. — Mas contra os principados, contra os poderes, contra os gover­nantes das trevas deste mundo, contra a perversidade nos lugares altos. Portanto tomai a armadura completa de Deus e o escudo da Fé, com os quais podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.

— O que houve com eles? — perguntou Ezio.

— Estão confusos. Buscam orientação — respondeu Mario, com se­veridade. — Vamos. Temos de sair antes que os guardas de Bórgia no­tem nossa presença. — Ele olhou de volta para o Vaticano. Armaduras cintilavam ao sol.

— Tarde demais. Lá vem eles. Depressa!

 

O mar vermelho formado pelas pomposas vestes dos cardeais se divi­diu quando quatro guardas dos Bórgia abriram caminho, perseguindo Ezio e Mario. O pânico tomou conta da multidão assim que os cardeais começaram a gritar de medo e alarme, e Ezio e o tio se viram cercados por uma arena humana. Os cardeais, sem saber para onde fugir, tinham inadvertidamente formado uma barreira. Talvez a coragem deles tives­se sido reforçada de modo inconsciente pela chegada de guardas forte­mente protegidos por couraças peitorais que reluziam ao sol. Os quatro guardas dos Bórgia desembainharam as espadas e entraram no círculo para enfrentar Ezio e Mario, que, por sua vez, empunhavam as próprias lâminas.

— Baixem as armas e rendam-se, Assassinos. Vocês estão cercados e em menor número! — gritou o líder, dando um passo à frente.

Antes que ele pudesse dizer mais uma palavra, Ezio saltou da pos­tura defensiva, com a energia retornando ao corpo cansado. O líder dos guardas não teve tempo de reagir, pois não esperava que o oponente ousasse enfrentá-lo diante de chances tão inferiores. O braço de Ezio que mantinha a espada girou em um borrão, com a lâmina assoviando enquanto fendia o ar. O guarda tentou em vão aparar o golpe com a própria espada, mas Ezio se moveu rápido demais. A arma do Assassino atingiu o alvo com precisão infalível, abrindo um corte no pescoço ex­posto do adversário e lançando um filete largo de sangue. Os outros três guardas ficaram parados, espantados com a velocidade do Assassino, três idiotas diante de um adversário tão habilidoso. Tal demora signifi­cou a morte para eles. A espada de Ezio mal tinha completado o primei­ro arco letal quando ele ergueu a mão esquerda, fazendo o mecanismo da lâmina oculta clicar enquanto a arma mortífera surgiu da manga da camisa. Ela se cravou entre os olhos do segundo guarda antes que ele pudesse mover um músculo em defesa.

Enquanto isso, Mario, despercebido, deu dois passos para o lado, fechando o ângulo de ataque sobre os dois últimos guardas, cuja atenção estava fixada na demonstração de violência que se desenrolava diante deles. Mais dois passos e chegou perto o bastante para enfiar a espada por sob a couraça do guarda mais próximo, com a ponta penetrando de forma grotesca no torso do sujeito. O rosto do homem se contorceu em confusa agonia. O horror brilhou nos olhos do último guarda quando ele se virou para fugir — tarde demais. A lâmina de Ezio o golpeou no flanco direito enquanto a espada de Mario cortava sua coxa. O homem caiu de joelhos, gemendo, e Mario lhe deu um chute.

Os dois Assassinos olharam em volta. O sangue dos guardas se es­palhava pelo chão pavimentado, manchando as bordas vermelhas das vestes dos cardeais.

— Vamos logo, antes que mais homens de Bórgia nos alcancem.

Eles brandiram as espadas para os cardeais aterrorizados, que fu­giram rapidamente dos Assassinos, abrindo uma trilha que os levaria para fora do Vaticano. Ouviram cavalos se aproximando, certamente trazendo mais soldados. Os dois abriram caminho à força para sudeste, correndo o mais rápido possível pela praça, se afastando do Vaticano e indo na direção do Tibre. Os cavalos que Mario tinha preparado para a fuga estavam amarrados bem perto da Santa Sé. Mas primeiro tinham de se virar para enfrentar os guardas papais que os seguiam montados e se aproximavam rapidamente. O trovejar dos cascos ecoava nos pa­ralelepípedos. Usando os alfanjes, Ezio e Mario conseguiram afastar os golpes de alabarda dos guardas.

Mario atingiu um guarda quando ele estava prestes a cravar a lança nas costas de Ezio.

— Nada mal para um velho — gritou Ezio, agradecido.

— Espero que você devolva o favor — respondeu Mario. — E pode deixar essa conversa de “velho” para lá!

— Eu não esqueci tudo que você me ensinou.

— Espero que não! Cuidado! — Ezio girou bem em tempo de cortar as pernas do cavalo de um guarda que chegou galopando e empunhan­do uma clava de aparência cruel.

— Buona questa! — gritou Mario. — Belo golpe!

Ezio saltou de lado, evitando mais dois perseguidores, e conseguiu derrubá-los das selas quando passaram, incapazes de parar a tempo. Mario, mais pesado e mais velho, preferiu ficar na posição que estava e golpear os inimigos antes de saltar. Mas, uma vez que alcançaram os limites da grande praça diante da catedral de São Pedro, os dois Assassi­nos rapidamente escalaram para a segurança dos telhados, subindo pe­las paredes irregulares das casas, tão ágeis quanto lagartos, e então saí­ram correndo por cima das construções, saltando pelos vãos das ruas, que formavam verdadeiros canyons. Não era fácil, e Mario quase não conseguiu completar um dos saltos, sendo forçado a agarrar as calhas com os dedos quando um dos pulos foi curto demais. Muito ofegante, Ezio deu meia-volta para ajudar o tio a subir, puxando-o para cima bem quando as flechas das bestas disparadas pelos perseguidores zuniram inúteis em direção ao céu.

Porém avançavam muito mais rápido que os guardas, os quais, ves­tindo pesadas armaduras e desprovidos das habilidades dos Assassinos, tentavam em vão acompanhá-los correndo pelas ruas abaixo. Gradual­mente, foram deixados para trás.

Mario e Ezio encerraram a fuga em um telhado com vista para uma pequena praça nos limites do Trastevere. Dois cavalos castanhos, gran­des e bravios, estavam selados e prontos para partir, ao lado de uma estalagem de aparência humilde, em cuja placa se lia “A Raposa Ador­mecida”. Um corcunda vesgo com um bigodão vigiava os animais.

— Gianni! — sussurrou Mario.

O corcunda olhou para cima e imediatamente soltou as rédeas que amarravam os cavalos a um enorme anel de ferro na parede da estala­gem. Mario logo pulou do telhado, aterrissando de cócoras, e em segui­da saltou para a sela do cavalo maior e mais próximo. O animal relin­chou e bateu o pé na terra, em uma tensa expectativa.

— Shh, Campione — disse Mario ao animal, e então se virou para o parapeito onde Ezio ainda aguardava e gritou: —Vamos! O que está esperando?

— Só um minuto, zio — respondeu Ezio, Virando-se para enfrentar dois guardas de Bórgia que tinham conseguido subir ao telhado com muito esforço e que agora apontavam pistolas engatilhadas de um tipo que Ezio, para sua surpresa, desconhecia. Onde diabos eles as tinham conseguido? Mas não havia tempo para perguntas. Ezio girou pelo ar contra eles, libertando a lâmina oculta e cortando elegantemente a ju­gular dos dois antes que pudessem atirar.

— Impressionante — comentou Mario, controlando o cavalo impa­ciente. — Agora mexa-se! Cosa diavolo aspetti?

Ezio se atirou do telhado e aterrissou perto do segundo cavalo, que estava sob o firme controle do corcunda, depois saltou do chão para a sela. O animal se empinou, agitado pelo súbito peso, mas Ezio o domi­nou imediatamente e o fez girar para seguir o tio, que já cavalgava veloz na direção do rio Tibre. Ao mesmo tempo, Gianni desapareceu estala­gem adentro e um destacamento de cavalaria de Bórgia surgiu virando a esquina e avançando sobre a praça. Cravando os calcanhares no flan­co do cavalo, Ezio disparou atrás do tio, e os dois avançaram em gran­de velocidade pelas ruas destruídas de Roma em direção ao rio lento e imundo. Às suas costas podiam ouvir os gritos dos guardas montados amaldiçoando os fugitivos, enquanto Mario e Ezio galopavam pelo labi­rinto de ruas antigas, lentamente deixando-os para trás.

Quando alcançaram a ilha Tiberina, cruzaram o rio por uma ponte instável que tremeu sob os cascos dos cavalos, e então deram meia-volta, seguindo para o norte pela rua principal. Esta levava para fora da cidadezinha esquálida que já fora a capital do mundo civilizado. Não pararam até irem longe e se assegurarem de que estavam fora do alcance dos perseguidores.

Perto do vilarejo de Settebagni, à sombra de um imenso olmo ao lado da estrada poeirenta que acompanhava o rio, frearam os cavalos e pararam para recuperar o fôlego.

— Essa foi por pouco, tio.

O velho deu de ombros e sorriu, um tanto dolorosamente. Do al­forje, Mario tirou um odre de vinho tinto grosseiro e entregou-o ao sobrinho.

— Tome — falou, lentamente recuperando o fôlego. — Vai ser bom para você.

Ezio bebeu e fez uma careta.

— Onde arranjou isso?

— É o melhor que podem servir na Raposa Adormecida — respon­deu Mario, com um largo sorriso. — Mas, quando estivermos de volta a Monteriggioni, você encontrará um melhor.

Ezio, sorrindo também, devolveu o odre ao tio. Mas então seu rosto assumiu uma expressão perturbada.

— O que o incomoda? — perguntou Mario, em tom mais gentil.

Lentamente, Ezio retirou a Maçã da bolsa onde a tinha guardado.

— Isto. O que eu vou fazer com isto?

Mario parecia sério.

— É uma responsabilidade bem pesada. Mas é uma que você terá que assumir sozinho.

— E como?

— O que o seu coração lhe diz?

— Ele me diz que eu deveria me livrar dela. Mas meu cérebro...

— Ela lhe foi confiada... por quaisquer que sejam os poderes que você encontrou na Câmara — disse Mario, solenemente. — Eles não a devolveriam aos mortais se não tivessem um propósito determinado para ela.

— Mas é um risco muito grande. Se ela cair nas mãos erradas de novo... — Ezio lançou um olhar preocupado para o rio moroso que fluía ali perto. Mario o observou com expectativa.

Ezio levantou a Maçã com a mão direita enluvada. Mas ainda as­sim hesitou. Ele sabia que não poderia jogar fora tamanho tesouro, e as palavras do tio o tinham convencido. Certamente Minerva não teria permitido que ele tivesse pegado a Maçã de volta sem motivo.

— A decisão deve ser apenas sua — afirmou Mario. — Mas, se você se sentir infeliz em ter a custódia dela agora, pode me entregar para que eu tome conta. Pode pegá-la de volta quando sua mente estiver mais calma.

Ezio ainda hesitava, mas então os dois ouviram, ao longe, o som forte dos cascos batendo no chão e o latido dos cães.

— Os bastardos não desistem fácil — disse Mario entre dentes cer­rados. — Vamos, me dê o artefato.

Ezio suspirou, mas recolocou a Maçã na bolsa de couro e a jogou para Mario, que a guardou rapidamente no alforje da sela.

— E agora — disse Mario —, temos de obrigar esses pangarés a entrar no rio e fazê-los nadar até o outro lado. Isso fará os malditos cães perderem nosso rastro, e, mesmo que os guardas sejam inteligen­tes o suficiente para atravessar o Tibre também, vamos despistá-los naqueles bosques ali. Vamos. Já quero estar em Monteriggioni a esta hora amanhã.

— E com que disposição acha que vamos ter de cavalgar?

Mario cravou os calcanhares nos flancos do cavalo e o animal empi­nou, com espuma nos cantos da boca.

— Muita, muita mesmo — respondeu. — Porque, de agora em dian­te, não teremos de lidar apenas com Rodrigo. Os filhos estão com ele; Cesare e Lucrécia.

— E eles são...?

— As pessoas mais perigosas que você vai conhecer na vida.

 

Era a tarde do dia seguinte quando o vilarejo murado de Monteriggioni apareceu no horizonte sobre a colina, coroado pela rocca de Mario. Eles tinham viajado mais rápido do que esperavam e agora reduziam o passo para poupar os cavalos.

—... e então Minerva me falou do sol — continuou Ezio. — Ela me falou de um desastre que aconteceu há muito tempo e predisse que ou­tro ainda estava por vir...

— Mas ainda vai demorar um bom tempo, vero? — retrucou Mario.

— Então não precisamos nos preocupar com isso.

— Si — concordou Ezio. — Eu me pergunto quanto trabalho ainda teremos pela frente. — Fez uma pausa, reflexivo. — Talvez acabe em breve.

— E isso seria assim tão ruim?

Ezio estava a ponto de responder quando foi interrompido pelo som de uma explosão; um tiro de canhão, vindo da cidade. Ele sacou a espa­da, erguendo-se na sela para olhar o topo das muralhas.

— Não se preocupe — exclamou Mario, rindo animadamente. — São apenas exercícios. Melhoramos nosso arsenal e instalamos novos canhões no alto das muralhas. Temos sessões diárias de treinamento.

— Bom, espero que não estejam mirando em nós.

— Não se preocupe — repetiu Mario. — Admito que os homens ainda precisam melhorar a pontaria, mas são espertos o suficiente para não atirar no chefe!

Pouco tempo depois, cavalgaram pelos portões principais da cidade e pela ampla rua principal, que levava à cidadela. Com a passagem deles, o povo se reuniu ao longo da rua, olhando para Ezio com uma mistura de respeito, admiração e afeto.

— Bem-vindo de volta, Ezio! — gritou uma mulher.

— Grazie, madonna. — Ezio sorriu de volta, inclinando a cabeça de leve.

— Três vivas para Ezio! — Soou a voz de uma criança.

Buon giorno, fratellino — respondeu o Assassino. Virando-se para Mario, comentou: — Como é bom voltar para casa.

— Acho que eles estão mais felizes em ver você do que a mim — dis­se Mario, sorrindo enquanto falava. De fato, uma bela porção daquela euforia, especialmente da parte dos mais velhos, era para ele.

— Estou ansioso para ver a velha morada da família — comentou Ezio. — Já faz muito tempo.

— De fato, e há duas pessoas ansiosas para ver você também.

— Quem?

— Você não consegue adivinhar? Não pode ter ficado tão ocupado com os deveres para com a Irmandade.

— É claro, minha mãe e minha irmã! Como elas estão?

— Bem. Sua irmã ficou muito infeliz quando o marido dela morreu, mas o tempo cura quase tudo, e acho que ela está bem melhor agora. Na verdade, ela está bem ali.

Eles tinham chegado ao pátio da residência fortificada de Mario e, enquanto desciam dos cavalos, a irmã de Ezio, Claudia, apareceu no alto da escadaria de mármore que levava à entrada principal. Assim que os viu, ela desceu correndo e se atirou nos braços de Ezio.

— Irmão! — gritou ela, enquanto o abraçava. — Você voltar para casa é o melhor presente de aniversário que eu poderia ter desejado!

— Claudia, minha querida — respondeu Ezio, abraçando-a com força. — É bom estar de volta. Como vai nossa mãe?

— Bem, graças a Deus. Está louca para ver você. Anda ansiosíssima desde que recebemos notícia do seu retorno. E sua fama chegou antes mesmo de você!

— Vamos entrar — sugeriu Mario.

— Há mais alguém que ficará feliz em vê-lo — Claudia continuou, tomando o braço do irmão e o acompanhando escadaria acima. — A Condessa de Forli.

— Caterina? Aqui? — Ezio tentou conter a empolgação na voz.

— Não sabíamos bem quando você chegaria. Ela e mamãe estão com a abadessa, mas estarão de volta ao pôr do sol.

Negócios primeiro — interrompeu Mario, sabiamente. — Vou convocar uma reunião do Conselho da Irmandade aqui, hoje à noite. Eu sei que Maquiavel está especialmente interessado em falar com você.

— Está acabado, então? — perguntou Claudia, com o olhar fixo no irmão. — O Espanhol está morto mesmo?

A expressão nos olhos cinzentos de Ezio se endureceu.

— Explicarei tudo na reunião desta noite — respondeu ele.

— Muito bem — concordou Claudia, mas seus olhos pareceram perturbados quando ela saiu.

— E, por favor, transmita minhas saudações à condessa quando ela chegar — pediu Ezio. — Falarei com ela e com nossa mãe esta noite. Mas antes tenho assuntos a resolver com Mario que não podem esperar.

Assim que ficaram sozinhos, o tom de Mario ficou sério.

— Você precisa se preparar bem para esta noite, Ezio. Maquiavel chegará ao pôr do sol e sei que terá muitas perguntas a lhe fazer. Va­mos debater as questões agora, e eu aconselho que você depois dê uma volta... Não fará mal se você der uma olhada em como anda a nossa cidade.

Depois de uma conversa muito séria com Mario no escritório dele, Ezio voltou a Monteriggioni. A questão do papa ter sobrevivido era um fardo muito pesado, e Ezio queria se distrair um pouco. Mario sugeriu que ele fosse ao alfaiate comprar novas roupas para substituir as que ele ainda usava, sujas da viagem. Foi, portanto, a primeira coisa que Ezio fez e, ao chegar, encontrou o alfaiate sentado de pernas cruzadas diante da bancada de trabalho, costurando uma capa brocada de um rico verde esmeralda.

Ezio gostava do alfaiate, um camarada de boa índole apenas um pouco mais velho do que ele. O alfaiate o cumprimentou calorosamente.

— A que devo a honra? — perguntou.

— Acho que estou precisando muito de roupas novas — respondeu Ezio, um tanto pesaroso. — Diga-me o que você acha, e seja sincero!

— Mesmo que não fosse meu trabalho vender roupas, signore, eu diria que um novo traje faria do senhor um novo homem.

— Pensei a mesma coisa! Ótimo!

— Vou medir o senhor agora, e então poderá escolher as cores que preferir.

Ezio se submeteu ao trabalho atento do alfaiate e escolheu um ve­ludo cinza-escuro discreto para o gibão, com calças de lã combinando.

— Tem como ficarem prontas hoje à noite?

O alfaiate sorriu.

— Não se o signore quiser que fiquem bem-feitas. Mas podemos fa­zer uma prova mais ou menos amanhã ao meio-dia.

— Muito bem — concordou Ezio, torcendo para que não fosse de­cidido na reunião à noite que ele teria de deixar Monteriggioni naquele mesmo instante.

Ele estava atravessando a praça principal quando percebeu uma mu­lher atraente atrapalhada com uma grande caixa de flores vermelhas e amarelas, claramente pesada demais para que ela a levantasse. Naquela hora do dia, havia pouca gente por perto, e Ezio sempre teve dificulda­des em resistir a uma dama em apuros.

— Eu posso lhe ajudar? — perguntou ele, se aproximando. Ela sorriu.

— Sim, você é bem o homem de que eu preciso. Meu jardineiro de­veria ter buscado as flores para mim, mas a mulher dele está doente, então ele teve de voltar para casa. Como eu teria de passar por aqui de qualquer maneira, eu disse que as pegaria, mas a caixa é pesada demais para mim. Você acha que poderia...?

— É claro. — Ezio se abaixou e colocou a caixa sobre o ombro. — Tantas flores! Você é uma mulher de sorte.

— Ainda mais agora, que encontrei você.

Não restava dúvida de que ela estava flertando com ele.

— Vocè poderia ter pedido ao seu marido que a buscasse, ou a um dos seus empregados — comentou ele.

— Só tenho mais outra empregada, e ela é mais fraca do que eu — respondeu a mulher. — E marido eu não tenho.

— Entendo.

— Encomendei as flores para o aniversário de Claudia Auditore — disse a mulher, olhando para ele.

— Parece que será divertido.

— Com certeza. — Ela fez uma pausa. — De fato, se você quiser me ajudar mais um pouco, estou procurando alguém de classe para me acompanhar à festa.

— Você acha que eu tenho classe suficiente?

Ela estava ficando mais ousada.

— Sim! Ninguém mais nesta cidade anda com a mesma postura que você. Tenho certeza de que o irmão de Claudia, o próprio Ezio, ficaria impressionado.

Ezio sorriu.

— Você me lisonjeia. Mas o que você sabe sobre esse tal Ezio?

— Claudia, que é minha amiga íntima, acha que ele é o máximo. Mas ele raramente a visita e, pelo que eu percebi, é bem distante.

Ezio decidiu que era hora de abrir o jogo.

— É verdade... infelizmente, andei muito... distante.

A mulher ficou espantada.

— Ah, não! Você é Ezio! Não acredito. Claudia realmente disse que aguardavam por você. A festa era para ser uma surpresa para ela. Pro­meta que não lhe dirá nada.

— É melhor você me dizer o seu nome, afinal.

— Ah, é claro. Sou Angelina Ceresa. Agora prometa!

— E o que você fará para que eu me mantenha calado?

Ela o olhou com uma expressão maliciosa.

— Ah, tenho certeza de que posso pensar em várias coisas.

— Estou louco para ouvir quais seriam.

Chegaram à casa de Angelina, onde a empregada idosa abriu a por­ta. Ezio colocou a caixa de flores em um banco de pedra no pátio, então se virou para Angelina e sorriu.

— Agora você vai me contar?

— Mais tarde.

— E por que não agora?

— Signore, eu lhe garanto que a espera valerá a pena.

Mal sabiam eles que os eventos surpreenderiam ambos, e eles não se encontrariam de novo.

Ezio se despediu e, vendo que o dia estava terminando, partiu em direção à cidadela. Quando se aproximou dos estábulos, percebeu uma criança, uma menininha, vagando pelas ruas, aparentemente sozinha. Estava a ponto de falar com ela quando foi interrompido por gritos fre­néticos e pelo trovejar dos cascos de um cavalo. Mais rápido do que um pensamento, Ezio agarrou a criança e a levou para a segurança de um umbral de porta. Ele agiu bem a tempo. Um poderoso cavalo de guerra virou a esquina galopando, completamente paramentado, mas sem cavaleiro. Em uma perseguição bem menos veloz, veio o mestre de estábulos de Mario, um senhor de idade chamado Federico, a quem Ezio reconheceu.

— Torna qui, maledetto cavallo! — gritou Federico, inutilmente, para o animal que sumiu adiante. Vendo Ezio, pediu:

— O senhor poderia me ajudar, por favor? É o corcel favorito do seu tio. Eu estava pronto para tirar a sela e tratar dele quando alguma coisa o assustou. Ele é muito nervoso.

— Não se preocupe, vou tentar trazê-lo de volta.

— Obrigado, obrigado. — Federico enxugou a testa. — Estou fican­do velho demais para isso.

— Não se preocupe. Fique aqui e tome conta da criança. Acho que ela está perdida.

— Certamente.

Ezio saiu correndo atrás do cavalo, encontrando-o sem dificulda­de. O animal tinha se acalmado e estava pastando o feno carregado em uma carroça parada. Ele se assustou um pouco quando Ezio se aproximou, mas então o reconheceu e não fugiu mais. O Assassino pousou a mão reconfortante no pescoço do animal e o acariciou de modo tranquilizador antes de pegar a rédea e guiá-lo de volta por onde tinham vindo.

No caminho, Ezio teve mais uma oportunidade de fazer uma boa ação. Encontrou uma jovem, frenética de ansiedade, que calhou de ser a mãe da menina perdida. Ezio explicou o que tinha acontecido, tomando o cuidado de minimizar o perigo que a menininha tinha realmente corrido. Quando ele contou onde tinha deixado a menina, a mulher saiu correndo na frente, chamando o nome da filha — Sophia! Sophia! —, e então Ezio ouviu o grito em resposta — Mamma! Minutos depois ele se reuniu ao grupo e entregou as rédeas a Federico, que, agradecendo novamente, pediu-lhe que não contasse nada a Ma­rio. Ezio prometeu silêncio, e Federico conduziu o cavalo de volta ao estábulo.

A mãe ainda o esperava, com a criança. Ezio se virou para elas e sorriu.

— Ela quer agradecer — informou a mãe.

— Obrigada — disse Sophia, obediente, olhando Ezio com um ar de espanto e temor.

— Fique sempre com a sua mãe — respondeu Ezio, gentil. — Não a deixe mais sozinha assim, capisci?

A garotinha concordou com a cabeça, em silêncio.

Estaríamos todos perdidos sem o senhor e sua família tomando conta de nós, signore — afirmou a mãe.

— Fazemos o que está a nosso alcance — respondeu Ezio, mas seus pensamentos estavam perturbados quando entrou na cidadela. Mesmo que tivesse bastante segurança de que seria capaz de se defender, não estava empolgado com ter de encontrar Maquiavel.

Ainda restava algum tempo antes da reunião, e Ezio resolveu subir ao topo das muralhas para conferir os novos canhões, tanto para afastar os pensamentos sombrios sobre que rumo o encontro tomaria quanto para saciar a curiosidade natural. Mario estava muito orgulhoso com esses armamentos que tinha instalado. Havia vários, lindamente de­corados em bronze, cada um com uma pilha organizada de balas ao lado da roda. Os canhões maiores tinham canos com três metros de comprimento, e Mario tinha dito que pesavam cerca de nove tonela­das. Mas havia também peças menores, as colubrinas, mais fáceis de manusear, intercaladas com os maiores. Nas torres que pontilhavam as muralhas estavam os canhões conhecidos como sacres, montados em armações de ferro fundido, e falconetes leves em carrinhos de madeira.

Ezio se aproximou de um grupo de canhoneiros reunidos ao redor de um dos canhões maiores.

— Que belas feras — elogiou, passando a mão em um elaborado entalhe decorativo que rodeava o furo do pavio.

— São belas, de fato, messer Ezio — disse o líder do grupo, um sar­gento durão de quem Ezio se recordava da primeira visita a Monteriggioni, quando era mais jovem.

— Ouvi vocês treinando mais cedo. Posso tentar disparar um destes?

— O senhor poderia, certamente, mas estávamos atirando com um dos canhões menores hoje cedo. Os grandalhões são novos em folha. Parece que não aprendemos a carregá-los ainda, e o mestre-armeiro que deveria instalá-los foi embora.

— Você colocou homens à procura dele?

— Sim, senhor, mas não tivemos sorte até agora.

— Eu vou dar uma olhada também. Afinal, essas coisas não estão aqui para enfeitar, e nunca se sabe quando vamos precisar delas.

Ezio prosseguiu, continuando o circuito das muralhas. Ele mal tinha andado vinte ou trinta metros quando ouviu um grunhido ba­rulhento vindo de uma cabana de madeira que tinha sido construída no topo de uma das torres. Perto dela havia uma caixa de ferramen­tas, e quando o Assassino se aproximou, os grunhidos se tornaram roncos.

Estava escuro e quente dentro da cabana, e cheirava espantosamente a vinho rançoso. Conforme os olhos se acostumaram à penumbra, Ezio logo distinguiu a silhueta de um homem grande em mangas de camisa não muito limpas, esparramado em uma pilha de palha. Ezio cutucou o homem com o pé, mas conseguiu apenas fazer com que ele engasgasse, semiacordado, e então se virasse para a parede.

— Salve, messere — disse Ezio, sacudindo o homem de novo, com menos delicadeza dessa vez, usando o bico da bota.

O homem virou a cabeça para Ezio e abriu um dos olhos.

— O que foi, amigo?

— Precisamos que você instale os novos canhões nas muralhas.

— Hoje não, companheiro. Amanhã.

— Você está bêbado demais para fazer seu trabalho? Não acho que o capitão Mario ficará muito feliz se souber disso.

— Chega de trabalho por hoje.

— Mas nem está tão tarde. Você sabe que horas são?

— Não. Nem dou a mínima. Faço canhão, não relógio.

Ezio se agachou para conversar com o homem, que por sua vez tinha se sentado e agraciava Ezio com um vendaval de bafo forte de alho e vinho Montalcino barato, enquanto arrotava de forma abundante. Ezio se levantou.

— Precisamos dos canhões prontos para serem disparados, e preci­samos disso agora — disse Ezio. — Você quer que eu encontre alguém mais capaz que você?

O homem se levantou rapidamente.

— Não tão rápido, amigo. Nenhum outro homem vai botar as mãos nas minhas armas. — Ele se apoiou em Ezio enquanto recuperava o fôlego. — Você não entende... alguns desses soldados não têm o menor respeito pela artilharia. Coisas modernas para esse bando, é claro, eu admito, mas, veja bem. Eles esperam que um canhão funcione como por mágica, simples assim! Como se não fizesse sentido tentar extrair o melhor desempenho das armas.

— Podemos conversar enquanto andamos? — perguntou Ezio. — O tempo não para e nos espera, sabe?

— Veja bem — continuou o mestre-armeiro. — Essas coisas que temos aqui são armamentos de primeira classe. Nada além do melhor para o capitão Mario, mas eles ainda são muito simples. Botei as mãos em um desenho francês para uma arma de mão. Eles a chamam de “ma­tadora de ferro forjado”. Muito espertos. Pense bem: um canhão de mão. É o futuro, camarada.

Então eles alcançaram o grupo reunido em volta do canhão.

— Pode cancelar a busca — anunciou Ezio, animado. — Aqui está ele.

O sargento olhou o armeiro de cima a baixo.

— E ele dá conta do serviço?

— Posso estar com as roupas meio surradas e gastas — retorquiu o armeiro —, mas sou um homem de coração pacífico. Nestes tempos, preciso encorajar o guerreiro adormecido dentro de mim para perma­necer vivo. Portanto, beber é o meu dever. — Ele empurrou o sargento para fora do caminho. — Vamos ver o que temos aqui...

Depois de examinar o canhão por alguns momentos, entretanto, ele se virou para os soldados.

— O que vocês andaram fazendo? Andaram mexendo neles, não é? Graças a Deus que não dispararam nenhum deles, poderiam ter matado todo mundo. Não estão prontos ainda. Temos de fazer uma boa limpeza nos canos primeiro.

— Talvez nós nem precisemos mais de canhões, com você por perto —    comentou o sargento. — É só você baforar nos inimigos!

Mas o armeiro estava ocupado com uma vara de limpeza e chuma­ços de algodão áspero e oleoso. Depois que acabou, ele se levantou, ajei­tando as costas doloridas.

— Pronto, está resolvido — anunciou, Virando-se para Ezio e con­tinuando. — Bote esses camaradas para carregar o canhão... pelo me­nos isso eles sabem fazer, Deus sabe que levaram uma eternidade para aprender... E então pode disparar. Olhe lá no morro. Montamos alguns alvos por lá, nivelados com o canhão. Comece mirando em algo na mes­ma altura, assim, se o canhão explodir, pelo menos não levará a sua cabeça junto.

— Parece bem seguro — disse Ezio.

— Pode tentar, messere. Aqui está o pavio.

Ezio tocou o pavio aceso no furo. Por um longo momento nada aconteceu, e então ele saltou para trás quando o canhão pulou e rugiu. Ao verificar os alvos, Ezio viu que a bala acertou um deles.

— Muito bem — cumprimentou o armeiro. — Perfetto! Pelo menos uma pessoa aqui sabe atirar, além de mim.

Ezio mandou os homens recarregarem e então disparou de novo. Mas dessa vez errou.

— Não se pode vencer todas — disse o armeiro. — Volte ao ama­nhecer. Vamos praticar de novo, e você terá uma chance de treinar sua mira.

— Eu voltarei — concordou Ezio, sem saber que ele só dispararia um canhão novamente em uma batalha de verdade.

 

Quando Ezio entrou no grande vão da cidadela de Mario, as som­bras da noite já estavam se espalhando, e os servos acendiam tochas e velas para dispersar as trevas. O clima sombrio combinava com o humor cada vez mais soturno de Ezio, conforme a hora da reunião se aproximava.

Estava tão imerso nos próprios pensamentos que inicialmente não percebeu a pessoa parada perto da enorme lareira, a silhueta pequena, mas forte, reduzida pela proximidade das enormes cariátides que ladea­vam a chaminé. Então levou um susto quando a mulher se aproximou, tocando-lhe o braço. Ezio imediatamente a reconheceu, e o semblante dele se suavizou em uma expressão de puro prazer.

Buona sera, Ezio — disse ela. Um tanto mais tímida do que o normal, ele pensou.

— Buona sera, Caterina — respondeu ele, curvando-se para a con­dessa de Forli. A antiga intimidade tinha ficado no passado, embora nenhum dos dois a tivesse esquecido. E, quando ela tocou o braço dele, os dois sentiram a química do momento, pensou Ezio. — Claudia me contou que você estava aqui, e eu estava ansioso para vê-la. Mas... — he­sitou Ezio. — Monteriggioni é longe de Forli e...

— Não fique você pensando que eu vim de tão longe só por sua causa — retrucou ela com um traço da antiga rispidez, mesmo que ele pudesse ver por seu sorriso que ela não estava falando tão sério. Foi então que ele percebeu que ainda se sentia atraído por aquela mulher ferozmente independente e perigosa.

— Estou sempre disposto a servi-la, madonna, de qualquer maneira que eu possa — afirmou Ezio, com absoluta sinceridade.

— Algumas maneiras são mais difíceis do que outras — retrucou ela, com uma nota de dureza na voz.

— O que houve?

— Não é uma questão simples — continuou Caterina Sforza. — Vim em busca de uma aliança.

— Conte-me mais.

— Temo que o seu trabalho ainda não esteja encerrado, Ezio. Os exércitos papais estão marchando em Forli. Meus domínios são peque­nos, mas, felizmente, ou infelizmente para mim, ficam em uma área de extrema importância estratégica para quem os controlar.

— E você deseja minha ajuda?

— Minhas tropas sozinhas serão insuficientes. Seus condottieri se­riam um grande reforço à minha causa.

— É um assunto que terei de discutir com Mario.

— Ele não vai recusar.

— Eu também não negaria uma proposta sua.

— Ao me ajudar, vocês não estariam apenas me fazendo uma boa ação, mas enfrentando as forças do mal contra as quais nós sempre es­tivemos unidos.

Enquanto eles falavam, Mario apareceu.

— Ezio, contessa, estamos reunidos e esperando por vocês — disse ele, com o rosto excepcionalmente sério.

— Vamos conversar mais sobre isso — assegurou Ezio. — Tenho de participar de uma reunião que meu tio convocou. Terei de me explicar, eu acho. Mas, depois, vamos marcar de nos vermos.

— A reunião também me diz respeito — disse Caterina. — Vamos entrar?

 

O aposento era muito familiar a Ezio. Ali, na parede interna agora ex­posta, as páginas do Grande Códex estavam ordenadas. A escrivaninha geralmente coberta por mapas estava limpa e, ao seu redor, sentados em rígidas cadeiras de espaldar reto, estavam os membros da Irmandade dos Assassinos que se reuniam em Monteriggioni, além dos membros da família Auditore que estavam inteirados da causa. Mario sentou atrás da escrivaninha, e em uma das pontas estava um homem reservado, ves­tido com cores escuras e de aparência ainda jovem apesar das profundas rugas de expressão marcadas na testa, alguém que tinha se tornado um dos associados mais próximos de Ezio, mas também um de seus críticos mais incansáveis: Nicolau Maquiavel. Os dois homens se cumprimenta­ram com um aceno discreto de cabeça enquanto Ezio ia falar com Clau­dia e com a mãe, Maria Auditore, matriarca da família desde a morte do pai. Maria abraçou com força o único filho sobrevivente, como se a própria vida dependesse disso. Então, a mãe fitou-o com olhos brilhan­tes depois que ele se afastou e se sentou ao lado de Caterina, diante de Maquiavel, que, por sua vez, se levantou, olhando de forma questiona- dora para o Assassino. Claramente, não haveria nenhum prólogo pouco direto à questão do momento.

— Primeiro, talvez eu lhe deva um pedido de desculpas — começou Maquiavel. — Eu não estava presente na Câmara, e assuntos urgentes me-levaram a Florença antes que eu pudesse analisar corretamente o que se passou lá dentro. Mario nos apresentou a versão dele, mas só a sua é completa.

Ezio se levantou e falou de modo simples e direto.

— Entrei no Vaticano e me deparei com Rodrigo Bórgia, papa Ale­xandre VI, e o confrontei. Ele possuía um dos Pedaços do Éden, o Ca­jado, e o usou contra mim. Consegui derrotá-lo e, usando os poderes combinados da Maçã e do Cajado, obtive acesso à Câmara Secreta, dei­xando-o do lado de fora. Ele estava desesperado e me implorou que eu o matasse, mas eu não o fiz. — Ezio fez uma pausa.

— E então, o que aconteceu? — perguntou Maquiavel, enquanto os outros observavam em silêncio.

— Dentro da Câmara havia muitas coisas estranhas, coisas com as quais nem podemos sonhar em nosso mundo. — Visivelmente como­vido, Ezio se obrigou a continuar em tons neutros. — Uma visão da deusa Minerva surgiu diante de mim. Ela falou de uma terrível tragédia que recairia sobre a humanidade, em algum tempo futuro. Mas também falou de templos perdidos que podem, quando encontrados, nos levar a algum tipo de redenção e nos ajudar. Ela pareceu invocar um espec­tro, que tinha algum laço estreito comigo, mas que conexão seria essa, eu não sei dizer. Após o aviso e as previsões, ela sumiu. Saí e vi o papa agonizando, ou assim achei. Ele parecia ter tomado veneno. Depois algo me compeliu a voltar. Eu peguei a Maçã, mas o Cajado, que pode ter sido outro Pedaço do Éden, foi engolido pela terra. Estou feliz porque a Maçã, que entreguei à custódia de Mario, mesmo sozinha, já é mais do que eu gostaria de ter para ser responsável.

— Incrível! — gritou Caterina.

— Mal posso imaginar tais maravilhas — acrescentou Claudia.

— Então, a Câmara não continha a terrível arma que temíamos, ou, pelo menos, os Templários não ganharam o controle dela. Isso pelo me­nos é uma boa notícia — declarou Maquiavel, neutro.

— E quanto à deusa, Minerva? — indagou Claudia. — Ela lhe pare­ceu... como nós?

— A aparência dela era humana, e também sobre-humana — con­tou Ezio. — Suas palavras provaram que ela pertencia a uma raça muito mais antiga e grandiosa do que a nossa. O resto de seu povo morreu há muitos séculos. Ela esteve esperando por aquele momento por um longo tempo. Eu queria ter palavras para descrever a magia que ela executou.

— E o que são esses templos que ela mencionou? — perguntou Mario.

— Eu não sei.

— Ela disse que deveríamos procurar por eles? Como saber o que procurar?

Talvez devêssemos... Talvez a busca nos mostre o caminho.

— A busca tem de ser realizada — afirmou Maquiavel de forma su­cinta. — Mas primeiro temos de abrir o caminho até ela. Fale-nos do papa. Você disse que ele não morreu?

— Quando eu voltei, a veste dele estava no chão da capela. Ele, no entanto, tinha desaparecido.

— E ele fez alguma promessa? Demonstrou arrependimento?

— Nem um nem outro. Estava determinado a conquistar o Poder. Quando viu que não iria alcançá-lo, desabou.

— E você o deixou morrendo.

— Não seria eu a matá-lo.

— Você deveria tê-lo feito.

— Não estou aqui para debater o passado. Tomei a decisão certa. Agora temos de discutir o futuro. O que teremos de fazer.

— O que teremos de fazer se tornou ainda mais urgente graças ao seu fracasso em eliminar o líder dos Templários quando teve a chance.

Maquiavel ofegou e então relaxou um pouco. — Muito bem, Ezio. Você sabe que todos nós o temos na mais alta estima. Não teríamos de maneira alguma chegado tão longe assim sem seus vinte anos de devo­ção à Irmandade dos Assassinos e ao nosso Credo. E uma parte de mim aplaude você por não ter matado quando considerou que seria desneces­sário fazê-lo. Isso também está de acordo com nosso código de honra. Mas você cometeu um erro de julgamento, meu amigo, e isso significa que temos uma tarefa imediata e perigosa à nossa frente. — Ele fez uma pausa, examinando todos os presentes com olhos de águia. — Nossos espiões em Roma relatam que Rodrigo é, de fato, uma ameaça menor. Ele está pelo menos com o espírito um tanto abatido. Há um ditado que afirma que é menos perigoso lutar com a cria do leão do que com o velho leão moribundo. Mas, no caso de Bórgia, as posições foram trocadas. O filho de Rodrigo, Cesare, é o homem que vamos enfrentar de agora em diante. Armado com a vasta fortuna que Bórgia reuniu por métodos jus­tos ou imundos, na sua maioria imundos — Maquiavel se permitiu um sorriso irônico —, ele comanda um grande exército de tropas altamente treinadas e, com ele, aspira conquistar toda a Itália, a península inteira, e não pretende parar nas fronteiras do reino de Nápoles.

— Ele não ousaria... jamais conseguiria fazê-lo! — rugiu Mario.

— Cesare ousaria e conseguiria — repreendeu Maquiavel. — É ma­lévolo até o fundo da alma, e é um Templário tão dedicado quanto o pai, o papa, jamais foi, mas é também um excelente e completamente impie­doso soldado. Sempre quis ser soldado, mesmo quando o pai fez dele o cardeal de Valência quando tinha apenas 17 anos. Mas também sabe­mos que ele renunciou ao cargo, o primeiro cardeal a fazê-lo em toda a história da Igreja. Os Bórgia tratam nossa terra e o Vaticano como se fossem seu feudo particular. Agora o plano de Cesare é esmagar o norte primeiro, para subjugar Romagna e isolar Veneza. Também pretende extirpar e destruir todos nós, os Assassinos restantes, já que Cesare sabe que, no fim, somos os únicos capazes de detê-lo. Aut Cesar, aut Nihil, esse é o lema dele, “ou você está comigo, ou está morto”. E saibam que esse louco acredita mesmo nisso.

— Meu tio mencionou uma irmã — comentou Ezio.

Maquiavel se virou para ele.

— Sim, Lucrécia. Ela e Cesare são... como posso dizer? Muito próxi­mos. Uma família muito unida; quando não estão ocupados matando os outros irmãos e irmãs, maridos e esposas que lhes forem inconvenien­tes, estão... copulando.

Maria Auditore não pôde conter um grito de repulsa.

— Temos de nos aproximar com todo o cuidado necessário para abordar um ninho de víboras — concluiu Maquiavel. — E Deus sabe onde e quando eles atacarão em seguida.

Ele fez uma pausa e bebeu meio copo de vinho.

— E agora, Mario, eu deixo vocês. Ezio, logo nos reencontraremos, tenho certeza.

— Você já está de partida?

— O tempo é essencial, bom Mario. Cavalgo para Roma esta noite. Adeus.

A sala ficou em silêncio após a partida de Maquiavel. Depois de uma longa pausa, Ezio comentou, amargo:

— Ele me culpa por não ter matado Rodrigo quando tive a chance.

— Ezio olhou em volta. — Todos vocês me culpam!

Qualquer um de nós poderia ter tomado a mesma decisão que você — respondeu sua mãe. — Você tinha certeza de que ele estava morrendo.

Mario se aproximou e passou o braço sobre os ombros do sobrinho.

Maquiavel reconhece o seu valor, todos nós reconhecemos. E mesmo com o papa fora do caminho, ainda assim teríamos de lidar com a cria dele...

— Mas, se eu tivesse cortado a cabeça, poderia o corpo ter sobrevivido?

— Temos de lidar com a situação real, meu bom Ezio, não com a si­tuação que poderia ter sido. — Mario lhe deu uns tapas nas costas. — E, agora, teremos um dia bem movimentado amanhã. Sugiro que a gente vá jantar e se prepare para dormir cedo!

O olhar de Caterina se encontrou com o de Ezio. Ele teria imagi­nado, ou havia mesmo uma centelha do velho desejo ali? Ezio deu de ombros mentalmente. Talvez estivesse apenas imaginando.

 

Ezio comeu pouco, apenas pollo ripieno com legumes grelhados, e tomou o chianti misturado com água. Houve pouca conversa durante o jantar, e ele respondeu à sequência de perguntas da mãe de for­ma educada, mas lacônica. Depois de toda a tensão que se acumulou com a espera pela reunião, e que agora tinha se dissipado, Ezio esta­va muito cansado. Mal tivera chance de descansar desde que deixa­ra Roma, e agora parecia que ainda levaria um bom tempo até que pudesse realizar a muito antiga ambição de passar algum tempo na velha casa de Florença, lendo e caminhando pelas colinas irregulares das cercanias.

Assim que pôde fazê-lo sem parecer rude, Ezio pediu licença a todos e partiu para o quarto, um aposento grande, silencioso e pouco ilumi­nado em um dos andares superiores, com vista para o campo, em vez de para a cidade. Ao chegar lá e dispensar o servo, Ezio se permitiu abrir mão do jeito austero que sustentara durante o dia, e o próprio corpo se abateu, com ombros caídos e um andar mais suave. Seus movimentos se tornaram lentos e deliberados, atravessando o quarto até a banheira que tinha sido preparada pelo servo. Quando se aproximou, chutou as botas, despiu-se e parou por um momento, nu, com as roupas embola­das nas mãos, diante de um espelho de corpo inteiro que ficava ao lado da banheira de cobre. Ezio encarou o reflexo com olhos cansados. Onde tinham ido parar aquelas longas quatro décadas? Ele se endireitou. Esta­va mais velho, até mesmo mais forte, e certamente mais sábio, mas não podia negar a profunda fadiga que sentia.

Ezio jogou as roupas na cama. Debaixo dela, em um baú de olmo trancado, estavam as armas secretas do códex que Leonardo da Vinci construíra para ele. Ezio iria verificar as armas bem cedo no dia seguin­te, depois do conselho de guerra que tinha marcado com o tio. A lâmina oculta original jamais saía do braço dele, a não ser quando ficava nu, e então estava sempre ao alcance da mão. Ele sempre a usava, tinha se tornado parte do corpo.

Com um suspiro de alívio, Ezio entrou no banho. Imerso até o pes­coço em água quente, inspirando o vapor suavemente perfumado, fe­chou os olhos e soltou um longo e lento suspiro de alívio. Paz, afinal. E era melhor ele aproveitar bem as poucas horas pacíficas que lhe seriam concedidas.

Ele cochilou e começou a sonhar quando o mais suave dos ruídos, a porta sendo aberta e fechada atrás da pesada tapeçaria, o fez acordar, alerta como um animal selvagem. Silenciosamente, a mão de Ezio bus­cou a lâmina e, com um gesto muito familiar, prendeu-a ao pulso. De­pois, em um movimento leve, ele se levantou e ficou de pé na banheira, pronto para agir e olhando na direção da porta.

— Bem — disse Caterina, sorrindo ao se aproximar —, você certa­mente não diminuiu nem um pouco com o passar dos anos.

— Você leva vantagem sobre mim, contessa — sorria Ezio. — Você está completamente vestida.

— Espero que possamos fazer algo para mudar isso. Mas estou esperando.

— Esperando o quê?

— Que você me diga que não precisa mesmo ver pessoalmente. Que você me diga que, mesmo sem ver meu corpo nu, você tem certeza de que a natureza foi tão gentil comigo quanto foi com você, e talvez até mais. — Seu sorriso se abriu diante da confusão de Ezio. — Mas eu me lembro bem de que você nunca foi tão bom com elogios quanto era em livrar o mundo dos Templários.

— Venha cá!

Ezio a puxou para si, soltando o cinto da saia de Caterina enquanto os dedos dela primeiro voaram até a braçadeira da lâmina, soltando-a, e depois para os cordões do espartilho. Segundos depois, ela estava com ele na banheira, seus lábios colados e braços e pernas entrelaçados.

Eles não demoraram no banho, logo saíram e secaram-se um ao ou­tro com as ásperas toalhas de linho deixadas pelo servo. Caterina tinha trazido um frasco de óleo de massagem perfumado e o tirou de um bolso do vestido.

Agora, deite-se na cama — disse ela. — Quero garantir que você estará pronto para mim.

— Certamente você pode ver que eu estou.

— Então me satisfaça. E satisfaça a você.

Ezio sorriu. Aquilo era melhor do que o sono. O sono podia esperar.

O sono, Ezio descobriu, foi obrigado a esperar três horas, até que, finalmente, Caterina se enroscou em seus braços. Ela adormeceu an­tes dele, que ficou observando-a por um tempo. Sem dúvida a natureza tinha sido generosa com ela. O corpo esguio embora curvilíneo, com quadris estreitos, ombros largos e seios pequenos mas perfeitos, de fato ainda parecia aquele de uma jovem de 20 anos. Os cabelos ruivos finos e delicados que fizeram cócegas no peito de Ezio quando ela se deitou sobre ele ainda tinham aquele mesmo perfume que o enlouquecera há tantos anos. Uma ou duas vezes, no meio da madrugada, ele acordou e percebeu que ela tinha rolado para longe dele e, quando Ezio a trou­xe de volta para seus braços, ela se aninhou com um pequeno suspiro de prazer e fechou a mão no antebraço dele, mas não acordou. Ezio se perguntou mais tarde se essa não tinha sido a melhor noite de amor da vida dele.

Eles dormiram até tarde, é claro, mas Ezio não estava interessado em dispensar mais momentos de amor em troca de treinos de canhão, mes­mo que uma parte de sua mente o condenasse pela escolha. Enquanto isso, era possível ouvir ao longe os sons de marcha — homens barulhen­tos em ritmo acelerado — e gritos de ordens, seguidos do estrondo de um canhão.

— Prática de artilharia com os novos canhões — explicou Ezio, quando Caterina parou e o olhou com curiosidade. — Manobras. Mario é um capitão exigente.

As pesadas cortinas com grandes bordados cobriam as janelas e impediam que quase toda luz entrasse, e assim o quarto permanecia confortável na penumbra. Nenhum servo foi incomodá-los. Logo, os gemidos de prazer de Caterina abafaram qualquer outro ruído. As mãos de Ezio apertaram suas nádegas fortes, e ela o puxava com urgência para dentro de si, quando o ato de amor foi interrompido por algo mais do que um simples rugido de canhão.

Subitamente, a paz e a suavidade do quarto foram interrompidas. As janelas explodiram com um poderoso rugido, levando parte da parede externa de pedra junto, no que uma enorme bala de canhão penetrou o quarto e pousou, incandescente, a centímetros da cama. O piso cedeu um pouco sob o peso do projétil.

Ezio tinha se jogado protetora e instintivamente sobre Caterina ao primeiro sinal de perigo e, naquele momento, os amantes se transfor­maram em colegas e profissionais. Afinal, se quisessem continuar sendo amantes, teriam de sobreviver primeiro.

Saltaram da cama, vestindo-se rapidamente. Ezio percebeu que, além do delicioso frasco de óleo, Caterina tinha escondido uma adaga muito útil, com fio serrilhado, debaixo das saias.

— Que droga é essa? — gritou Ezio.

— Vá e encontre Mario — disse Caterina, apressada.

Outra bala de canhão atingiu o quarto, estilhaçando as vigas acima da cama recentemente desocupada e quebrando-a em pedaços.

— Minhas tropas estão no pátio principal — disse Caterina. — Vou encontrá-las e contornar os fundos da cidadela para ver se conseguimos flanquear os invasores. Informe a Mario da minha decisão.

— Obrigado — disse Ezio. — Fique fora de vista.

— Pena que não tenho tempo para me trocar — disse ela, rindo. — Da próxima vez será melhor se marcarmos em um albergo, hein?

— Acho melhor garantirmos que haverá uma próxima vez — retru­cou Ezio, rindo também, mas de forma tensa, enquanto afivelava o cinto com a espada.

— Pode apostar! Arrivederci! — gritou Caterina, correndo do quar­to sem se esquecer de soprar um beijo para ele.

Ezio olhou para a cama arruinada. As armas do códex — a lâmina dupla, a lâmina envenenada e a pistola — estavam todas enterradas de­baixo da cama, muito provavelmente destruídas. Pelo menos ele ainda tinha a lâmina oculta. Mesmo in extremis, Ezio jamais a esqueceria. A última herança do pai assassinado.

 

Ezio não fazia ideia de que horas eram, mas a experiência dizia a ele que os ataques geralmente começavam ao amanhecer, quando as víti­mas ainda estavam confusas, esfregando o sono dos olhos. Ele teve sorte porque o treinamento que recebeu, mesmo já tendo alcançado seus 40 anos, tinha dado a ele a agilidade e a atenção de um gato selvagem.

Uma vez do lado de fora, sobre as ameias, ele esquadrinhou a paisa­gem ao redor. A cidade abaixo dele estava em chamas em muitos quar­teirões. Ele viu a alfaiataria queimando, bem como a casa de Angelina. A pobre Claudia não teria mais uma festa de aniversário naquela noite.

Ezio se abaixou para escapar de outra bala de canhão que atingiu as muralhas. Pelo amor de Deus, o que eram as armas que os inimigos ti­nham trazido? Como conseguiam recarregar e atirar tão rápido? Quem estaria por trás disso?

Por entre a fumaça e a poeira, Ezio viu Mario se aproximando e se esquivando dos destroços de um prédio que caía. Ezio saltou das mura­lhas, aterrissando agachado, e correu até o tio.

— Tio! Che diavolo...?

Mario cuspiu.

— Eles nos pegaram de surpresa. São os Bórgia!

— Fottere!

— Subestimamos Cesare. Eles devem ter marchado para o leste du rante a noite.

— O que devemos fazer?

— O mais importante é evacuar a cidade; levar os que ainda estão vivos. Temos de conter os invasores até que o povo esteja a salvo. Se to­marem a cidade com as pessoas ainda aqui dentro, matarão todos: para os Bórgia, os habitantes de Monteriggioni são Assassinos ou colabora­dores dos Assassinos.

— Conheço a rota de fuga. Deixe comigo.

— Bom homem. Vou reunir os defensores e dar uma lição em nos­sos inimigos. — Mario fez uma pausa. — Bem, vamos enfrentar os inva­sores primeiro. Vá comandar os canhões nas muralhas.

— E você?

— Vou liderar um ataque frontal. Levar a batalha aos bastardos.

— Caterina vai tentar flanquear os Bórgia com as tropas dela.

— Ótimo, então teremos uma chance. Agora vamos!

— Espere!

— O que houve?

Ezio baixou o tom de voz.

— Onde está a Maçã? — Ezio não contou ao tio que as armas do códex tinham sido destruídas por um dos primeiros bombardeios. Intimamente, ele rezou para que, por algum milagre, cruzasse novamente o caminho de Leonardo, pois Ezio não duvidava que o mestre de todas as artes e ciências o ajudaria a reconstruí-las, caso fosse necessário. Enquanto isso, ele ainda tinha a lâmina oculta, e era um mestre no uso das armas convencionais.

— A Maçã está segura — garantiu Mario. — Agora vá. E se perceber que os Bórgia parecem estar a ponto de ultrapassar as muralhas, cuide da evacuação da cidade. Entendeu?

— Si, zio mio.

Mario pôs as mãos nos ombros do sobrinho e o fitou com seriedade por um longo momento.

— Nosso destino está apenas parcialmente em nossas mãos. Só po­demos controlar as coisas até certo ponto. Mas nunca, nunca se esqueça disso, sobrinho: o que quer que aconteça hoje a você ou a mim, um pardal nunca perde uma pena que não seja tocada pelo dedo de Deus.

— Eu entendo, capitano.

Houve um instante de silêncio entre os dois, e então Mario estendeu a mão.

— Insieme per la vittoria!

Ezio tomou a mão do tio e a apertou com força.

— Insieme!

Quando Mario se virou para ir, Ezio gritou:

— Capitano, tome cuidado!

Mario concordou com determinação.

Farei o melhor que puder! E você, pegue meu melhor cavalo e vá para as muralhas externas o mais rápido possível! — Ele sacou a espada e, reunindo os homens com um grande grito de guerra, correu para enfrentar os inimigos.

Ezio observou brevemente o tio e depois correu para o estábulo, onde encontrou à espera o velho cavalariço cujo corcel em fuga Ezio tinha recuperado no dia anterior. O imenso cavalo castanho estava se­lado e pronto.

— Maestro Mario já tinha enviado ordens — explicou o velho. — Posso não ser mais um garoto, mas ninguém poderia me acusar de ser ineficiente. Ma attenzione! Esse cavalo é cheio de vontade!

— Eu o controlei ontem, ele me conhecerá hoje.

— É verdade. Buona fortuna. Todos nós dependemos de você!

Ezio saltou para a sela e guiou o cavalo ansioso na direção das mu­ralhas externas.

Cavalgou pela já devastada cidade. O alfaiate jazia morto e mutilado diante da loja. Que mal ele fizera a alguém? E Angelina estava chorando diante da casa queimada, por que não mostrar piedade a ela?

Guerra. Era assim. Brutal e cruel. Malévola e infantil. Um nó se for­mou na garganta de Ezio.

Liberdade, misericórdia e amor. Essas eram as únicas coisas pelas quais valia a pena lutar e matar. E esses eram os principais elementos do Credo dos Assassinos. Da Irmandade.

Ao cavalgar, deparou-se com cenas terrivelmente desoladoras. De­vastação e caos o cercavam enquanto o cavalo o levava pela cidade em chamas.

— Meus filhos! Onde estão meus filhos?! — berrava uma jovem mãe no momento em que Ezio passava, sem ter qualquer ajuda.

— Junte o que puder e vamos dar o fora daqui! — gritou um homem.

— Merda, minha perna! O tiro me arrancou a perna! — urrava um cidadão.

— Como vamos escapar? — perguntavam muitas pessoas, correndo em pânico.

Cadê minha mãe? Mamma! Mamma! — soou a voz de uma criança.

Ezio teve de endurecer o coração. Não poderia resgatar cada um, não havia tempo. Porém, se ele organizasse as defesas de modo apro­priado, mais pessoas poderiam ser salvas.

Aiuto! Aiuto! — gritou uma adolescente, cercada por soldados dos Bórgia à medida que a derrubavam.

Com raiva, Ezio seguiu em frente. Ele os mataria. Mataria a todos, se fosse possível. Quem era esse impiedoso Cesare Bórgia? Poderia ser pior que o papa? Poderia existir um Templário ainda mais cruel?

— Água! Água! Tragam água! — pedia um homem, desesperado. — Tudo está queimando!

— Onde você está, ah, Deus! Onde você está, Marcello? — rogou uma mulher.

Ezio continuou cavalgando, com a expressão séria. Mas os pedidos de socorro ainda ecoavam nos ouvidos.

— Comè usciamo di qui?

— Corram! Corram! — soaram vozes mais altas do que o som do bombardeio.

Havia gritos e soluços, pedidos desesperados por socorro e por um meio de fugir da cidade destroçada, conforme os cruéis soldados dos Bórgia disparavam uma salva atrás da outra.

Por favor, Deus, não permita que eles ultrapassem as muralhas antes que nossas próprias armas tenham sido postas em ação, pensou Ezio. E, por mais que ele pudesse ouvir as explosões provocadas pelos tiros dos sacres e falconetes contra os invasores, ainda não tinha escutado o rugido dos grandes canhões que tinha visto no dia anterior, os únicos capazes de esmagar as enormes torres de madeira que os soldados dos Bórgia empurravam em direção às muralhas da cidade.

Ezio atiçou o cavalo rampa acima até as muralhas, e saltou ao chegar ao local onde tinha deixado o armeiro bêbado junto ao canhão de três metros. Lá estava ele, completamente sóbrio dessa vez, mandando os ar­tilheiros apontarem o canhão contra a torre que os invasores, altamente treinados, continuavam, lenta mas implacavelmente, a empurrar. Ezio podia ver que o topo da torre estava no mesmo nível das ameias no alto das muralhas.

— Malditos! — murmurou Ezio.

Mas como alguém poderia ter previsto a velocidade e — ele teria de admitir até para si mesmo— a perfeição estratégica do ataque?

— Fogo! — berrou o grisalho sargento veterano que estava no co­mando do primeiro grande canhão. A poderosa arma rufou e saltou para trás, mas a bala passou longe do alvo, arrancando apenas um pouco de madeira de um dos cantos do telhado da torre de cerco.

— Tentem acertar a maldita torre, seus imbecis! — gritou o sargento.

— Senhor, precisamos de mais munição!

— Então desça até o depósito, e ande logo com isso! Olhe! Eles estão atacando o portão!

O outro canhão urrou e cuspiu fogo. Ezio ficou feliz em ver um gru­po de soldados inimigos sendo esmagados em um mar de sangue e ossos.

— Recarregar! — ordenou o sargento. — Disparem novamente ao meu comando.

— Esperem até que a torre esteja mais perto — instruiu Ezio. — En­tão, mirem na base. Isso fará a estrutura inteira desabar. Nossos bestei­ros acabarão com qualquer sobrevivente.

— Sim, senhor!

O armeiro se aproximou.

— Você aprende as táticas rapidamente — disse ele a Ezio.

— É instinto.

— Bons instintos valem mais do que cem homens no campo — re­trucou o armeiro. — Mas você faltou ao treino desta manhã. Não há desculpa para isso!

— E quanto a você? — disse Ezio.

— Vamos lá. — O armeiro sorriu. — Temos outro destes cobrindo o flanco esquerdo, e o comandante da equipe de artilheiros deles morreu. Com uma flecha de besta no meio da testa. Morto antes de cair no chão. Você assume o comando. Já estou ocupado demais aqui garantindo que nenhum desses canhões rache ou aqueça demais.

— Está bem.

— Mas preste muita atenção quando mirar. As tropas da sua na­morada estão lá fora lutando contra os Bórgia. Não queremos que eles morram.

— Que namorada?

O armeiro piscou.

— Faça-me um favor, Ezio. Esta cidade é muito pequena.

Ezio foi até o segundo grande canhão. Um artilheiro passava uma esponja molhada no cano para resfriá-lo, enquanto outro soldado re­carregava a arma, empurrando a pólvora e a bola de ferro de 25 quilos bocarra abaixo. Um terceiro homem preparava o pavio, acendendo as duas pontas para que não houvesse atrasos se uma delas apagasse na hora do disparo.

— Vamos lá! — disse Ezio ao alcançá-los.

— Signorel

Ezio examinou o campo além da muralha. A grama verde estava manchada de sangue, e os mortos jaziam por entre os ramalhetes de trigo. Ele podia ver o amarelo, preto e azul dos uniformes dos homens de Caterina intercalados com as túnicas em tons de amarelo e vermelho dos Bórgia, cujo emblema era um touro negro de cabeça baixa em um campo de milho dourado, servindo muito bem como alvo.

— Usem algumas das armas menores para derrubar os soldados. Mandem mirar no preto-e-dourado dos inimigos — ordenou Ezio. — E vamos apontar este canhão contra aquela torre ali. Está chegando perto demais, e temos de destruí-la!

Os artilheiros viraram o canhão e baixaram o cano para que mirasse na base da torre que se aproximava, agora a menos de 50 metros das muralhas.

Ezio estava ocupado orientando a mira quando um sacre próximo foi atingido. O canhonete explodiu, lançando bronze incandescente para todos os lados. O canhoneiro de Ezio, a centímetros dele, teve a cabeça e os ombros decepados pelos estilhaços. Os braços do sujeito caíram no chão, e os restos do corpo logo os seguiram, jorrando sangue como uma fonte. O cheiro pungente de carne queimada encheu o nariz de Ezio quando ele saltou para tomar o lugar do canhoneiro.

— Mantenham a calma! — gritou ele para o resto da equipe. Ezio estreitou os olhos ao usar a mira do canhão. — Firme agora... e...fogo!

O canhão trovejou enquanto Ezio saltava para o lado e assistia ao impacto da bala contra a base da torre. Teria sido esse único tiro sufi­ciente? A torre balançou forte, pareceu se endireitar, e então, por Deus! desabou no solo, aparentemente em câmera lenta, jogando para campo aberto alguns dos homens que carregava e esmagando outros. Os gritos das mulas feridas que estiveram puxando a torre se somaram à cacofo­nia de pânico e morte presente em todas as batalhas. Ezio observou en­quanto as tropas de Caterina logo avançaram para executar os soldados dos Bórgia que sobreviveram à queda. A própria Caterina os liderava, com a couraça peitoral prateada reluzindo sob a fria luz do sol. Ela cra­vou a espada no olho de um capitão dos Bórgia, atingindo o cérebro. O corpo do sujeito estremeceu por um longo momento, preso à ponta da espada, com as mãos, automática e inutilmente, na agonia da morte, tentando agarrar a lâmina e arrancá-la.

Mas não houve tempo para se regozijar com o triunfo, ou para um merecido descanso. Ao olhar do alto das muralhas, Ezio viu que as tropas dos Bórgia traziam imensos aríetes até o portão principal e, ao mesmo tempo, ouviu o grito de aviso de Caterina. Vamos mandar mil soldados para Forli para ajudá-la contra esse bastardo do Cesare, Ezio prometeu a si mesmo.

— Se eles entrarem, todos nós seremos assassinados — afirmou al­guém, e quando Ezio se virou, se deparou com o velho sargento. Ele tinha perdido o capacete e sangrava por causa de um horrível ferimento na cabeça.

— Temos de tirar as pessoas daqui. Agora.

— Muitas já conseguiram partir. Mas aquelas mais necessitadas es­tão presas.

— Cuidarei disso — afirmou Ezio, lembrando o que o tio havia dito.

— Assuma o controle aqui, Ruggiero. Veja! Ali! Uma das torres alcan­çou as muralhas! Os inimigos estão assaltando as defesas! Mande alguns de nossos homens até lá, antes que eles nos dominem.

— Sim, senhor!

E então o sargento se foi, gritando ordens, comandando um pelo­tão que se reuniu rapidamente. Segundos depois, ele e seus soldados estavam engajados em um combate corpo a corpo contra os violentos mercenários dos Bórgia.

Ezio desceu até a cidade de espada na mão e abrindo caminho à força por entre os inimigos que se aproximavam. Ele rapidamente organizou um grupo de homens de Caterina que tinham sido forçados a bater em retirada para a cidade quando a maré da batalha se virou em favor dos Bórgia. Com a ajuda dos soldados, fez o possível para reunir os habitan­tes vulneráveis remanescentes e guiá-los até estarem na relativa seguran­ça da cidadela. Quando completou a tarefa, Caterina juntou-se a ele.

— Quais são as notícias? — perguntou Ezio.

— Péssimas — respondeu ela. — Eles derrubaram o portão princi­pal. Estão entrando na cidade.

— Então não temos um minuto a perder. Temos de recuar para a cidadela.

— Vou reunir o restante dos meus homens.

— Volte logo. Você viu Mario?

— Ele estava lutando lá fora.

— E os outros?

— Sua mãe e irmã já estão na cidadela. Estão guiando os cidadãos por um túnel de fuga que leva para o norte, além das muralhas, para um lugar seguro.

— Ótimo, tenho de ir encontrá-las. Junte-se a nós o mais rápido que puder. Temos de recuar.

— Matem todos! — gritou um sargento dos Bórgia ao virar uma esquina liderando uma pequena tropa.

Todos traziam espadas ensanguentadas erguidas, e um homem brandia uma lança, em cuja ponta estava cravada a cabeça de uma mu­lher. Ezio engoliu em seco ao reconhecer o rosto. Era Angelina. Com um rugido, ele se lançou contra os soldados dos Bórgia. Seis contra um não era nada para ele. Cortando e apunhalando, em segundos ele estava de pé no meio de um círculo de homens mutilados e moribundos, ofegante pelo esforço físico.

Ezio recuperou os sentidos e o controle. Caterina tinha sumido. Limpando o sangue, o suor e a fuligem do rosto, ele voltou para a ci­dadela, mandando os homens que a guardavam abrir as portas apenas para Mario e Caterina. Ezio foi até o alto da torre interna e olhou para baixo, para a cidade incendiada.

Além do crepitar das chamas e dos gemidos isolados dos feridos e moribundos, as coisas estavam quietas demais.

 

Mas não por muito tempo. Bem quando Ezio estava verificando se os canhões nas muralhas estavam corretamente alinhados e carregados, uma imensa explosão jogou os pesados portões de madeira da cidadela para os lados, atirando os guardas no pátio, abaixo de onde Ezio estava, e matando muitos deles.

Quando a fumaça e a poeira se dissiparam, Ezio percebeu um grupo de pessoas na entrada. Tio Mario parecia liderá-las, mas obviamente havia algo muito errado. O rosto dele estava acinzentado e pálido, e pa­recia ser muito mais velho do que os seus 62 anos. Seus olhos fixaram-se nos de Ezio quando o sobrinho saltou das ameias para enfrentar a nova ameaça. Mario caiu de joelhos e em seguida com o rosto no chão. Ten­tou se levantar, mas uma longa e fina espada de estoque, uma bilbao, se projetava por entre suas omoplatas. O jovem atrás dele o empurrou de volta para o chão com a ponta da bota preta, e um fio de sangue come­çou a escorrer no canto da boca do velho.

O jovem estava vestido de preto e uma máscara negra cobria parte do rosto maligno. Ezio reconheceu as pústulas da “nova doença” na pele do homem. Ele estremeceu por dentro. Não havia dúvida sobre a iden­tidade do inimigo.

Ao lado do homem de preto havia dois outros, ambos de meia-ida- de, e uma bela loura com lábios cruéis. Outro homem, também de preto, estava separado do grupo, um pouco mais para o lado, com um alfan­je ensanguentado na mão direita. A outra mão segurava uma corrente atada a uma coleira pesada no pescoço de Caterina Sforza, que estava amarrada e amordaçada. Os olhos da condessa queimavam de raiva e resistência. O coração de Ezio quase parou — ele não podia acreditar que naquela manhã estiveram juntos novamente e que agora ela tinha sido capturada pelo desprezível líder dos Bórgia. Como isso podia estar acontecendo? Seus olhos se encontraram com os dela por um instante do outro lado do pátio, enviando-lhe uma promessa de que ela não con­tinuaria prisioneira por muito tempo.

Sem tempo para tentar entender o que acontecia ao redor, o instinto guerreiro de Ezio assumiu o controle. Ele tinha de agir naquele instante ou perderia tudo. Ezio deu um passo à frente, fechando os olhos e se deixando cair da muralha, com a capa esvoaçando no seu rastro; foi um Salto de Fé até o pátio abaixo. Com a graça conquistada pela experiên­cia, ele aterrissou de pé, erguendo-se para enfrentar os inimigos com uma determinação gélida estampada no rosto.

O armeiro se aproximou cambaleante, com a perna ferida, e parou ao lado de Ezio.

— Quem são esses aí? — sussurrou ele.

— Ah — disse o homem de preto —, não nos apresentamos. Que negligência a nossa. Mas é claro que eu conheço você, Ezio Auditore, ou pelo menos a sua reputação. Que prazer. Finalmente poderei remover a maior pedra no meu caminho. Depois do seu querido tio, é claro.

— Afaste-se dele, Cesare!

Uma sobrancelha foi erguida e os olhos escuros flamejaram no rosto belo mas maculado.

— Ah, que honra você ter adivinhado meu nome corretamente. Mas permita-me apresentar-lhe minha irmã, Lucrécia. — Ele se virou e abra­çou a loura de uma forma nada fraternal enquanto ela apertava-lhe o braço e o beijava perigosamente perto da boca. — E os meus compa­nheiros: Juan Bórgia, primo, amigo e banqueiro; meu caro aliado fran­cês, general Octavien de Valois, e por fim, mas não menos importante, meu indispensável braço direito, Micheletto da Corella. O que seria de mim sem meus amigos?

— E o dinheiro do seu pai.

— Péssima piada, amigo.

Enquanto Cesare falava, suas tropas entraram na cidadela como fan­tasmas. Ezio não podia fazer nada para detê-las enquanto seus próprios homens, em esmagadora desvantagem numérica, eram rapidamente dominados e desarmados.

— Mas sou um bom soldado, e parte da diversão é escolher apoio eficiente — continuou Cesare. — Tenho de admitir que não achava que vocês fossem ser tão facilmente derrotados. Mas, é claro, vocês não es­tão ficando mais jovens, estão?

— Vou matar você — disse Ezio, calmamente. — Vou varrer você e os seus da face da Terra.

— Não hoje, de forma alguma — retrucou Cesare, sorrindo. — Ah, e olhe só o que eu achei, cortesia do seu tio.

Cesare meteu a mão coberta com uma luva em uma bolsa presa ao cinto e retirou, para horror de Ezio, a Maçã!

— Brinquedinho muito útil — disse Cesare com um sorriso fino. — Leonardo da Vinci, meu novo conselheiro militar, me contou que já sabe muitas coisas sobre ela, então eu espero que ele me ensine mais, o que te­nho certeza de que fará se quiser manter a cabeça sobre os ombros. Artis­tas! Podemos comprar dez por um centavo, você certamente concordará.

Lucrécia soltou uma risadinha insensível.

Ezio olhou para o velho amigo, mas Da Vinci se recusou a encontrar seu olhar. No chão, Mario estremeceu e gemeu. Cesare forçou seu rosto contra o chão com a bota e pegou uma arma. Era um novo projeto, Ezio reconheceu imediatamente, lamentando mais uma vez a destruição de quase todas as suas armas do códex no ataque inicial.

— Não é uma pistola de fecho de mecha — comentou o armeiro com severidade.

— É um fecho de roda — explicou Cesare. — Você claramente não é um idiota — acrescentou, Virando-se para o armeiro. — É um desenho muito mais previsível e eficiente do que as pistolas anteriores. Leonardo a inventou para mim. Rápida de recarregar também. Você gostaria de uma demonstração?

— Certamente! — respondeu o armeiro, deixando o interesse pro­fissional superar o instinto.

— Não seja por isso — retrucou Cesare, levantando a arma e ma­tando o armeiro com um tiro. — Recarregue, por favor — comandou Cesare, entregando a pistola ao general Valois e tirando outra igual do cinto. — Houve tanto derramamento de sangue — continuou ele — que é angustiante pensar que ainda será necessário continuar com a limpe­za. Paciência. Ezio, gostaria que você recebesse isto com o espírito que me motiva: da minha família para a sua.

Abaixando-se um pouco e colocando um dos pés no meio das costas de Mario, Cesare puxou a espada bilbao, deixando o sangue correr livre. Os olhos de Mario se arregalaram de dor enquanto ele lutava instintiva­mente para se arrastar na direção do sobrinho.

Cesare se inclinou para a frente e disparou a pistola à queima-roupa na nuca de Mario, cujo crânio se despedaçou.

— Não! — gritou Ezio, enquanto a lembrança do assassinato brutal do pai e dos irmãos lhe surgiu na mente. — Não! — Ezio se lançou con­tra Cesare, completamente tomado pela agonia da perda. O corpo de Mario se esparramou no chão.

Quando Ezio saltou para a frente, o general Octavien, tendo recarre­gado a primeira arma, lhe deu um tiro no ombro. Ezio cambaleou para trás, engasgando, e o mundo escureceu.

 

Quando Ezio acordou, a maré da batalha havia mudado novamente e os homens de Bórgia estavam sendo perseguidos do lado de fora da cidadela. Ele percebeu que estava sendo arrastado para um local seguro quando os soldados que haviam retomado o rocca fecharam o portão quebrado com uma barricada, reuniram os cidadãos remanescentes de Monteriggioni para o lado de dentro dos muros e começaram a organi­zar a fuga para as regiões vizinhas. Não havia como saber com certeza quanto tempo poderiam resistir aos ataques dos Bórgia, cuja força pa­recia ilimitada.

Ezio recebeu todas essas informações de um sargento grisalho, en­quanto se recuperava.

— Não se mexa, signore.

— Onde eu estou?

— Em uma maca. Estamos levando você para o Santuário. Para o salão interno sagrado. Ninguém conseguirá chegar até lá.

— Coloquem-me no chão. Eu consigo andar!

— Precisamos cuidar do seu ferimento.

Ezio, ignorando-o, deu a ordem aos maqueiros. Mas ao se levantar, o mundo pareceu girar rapidamente.

— Eu não posso lutar desse jeito.

— Oh, Deus, lá vem eles novamente — gritou o sargento ao ver a torre de cerco chocar-se contra as ameias superiores da cidadela, de­sembarcando mais uma leva de tropas recém-chegadas dos Bórgia.

Ezio virou-se na direção deles, a cabeça voltando devagar ao nor­mal, o autocontrole superando a dor lancinante do tiro que levara. Mas o ferimento em seu ombro era de tal proporção que o impossibilitava de levantar a espada. Os condottieri dos Assassinos rapidamente o cer­caram e repeliram os homens de Cesare. Eles conseguiram bater em retirada com poucas baixas, mas assim que chegaram ao vasto interior do castelo, Claudia gritou de uma das portas, ansiosa para saber sobre seu irmão. Ao dar o primeiro passo para fora, um capitão de Bórgia correu na direção dela, empunhando uma espada ensanguentada. Ezio viu a cena horrorizado, mas foi capaz de recuperar a compostura e gri­tar ordens a seus homens. Dois combatentes dos Assassinos correram na direção da irmã de Ezio, mas tiveram tempo apenas de se interpor entre ela e a espada assassina do homem dos Bórgia. Faíscas saíram do contato entre as três espadas quando os dois Assassinos levantaram suas guardas simultaneamente para aparar o golpe fatal. Claudia caiu para trás no chão, com a boca aberta em um grito sem som. O mais forte dos Assassinos, o sargento, empurrou a lâmina do inimigo para cima, prendendo o cabo da espada com as mãos enquanto o outro cravava a espada com precisão no peito do capitão. Claudia recuperou a calma e se levantou devagar. Agora a salvo sob a guarda dos Assassinos, ela correu na direção de Ezio, arrancando uma tira de tecido da saia para colocar sobre o ferimento no ombro dele. O tecido branco tingiu-se de vermelho rapidamente.

— Merda! Não se arrisque desse jeito! — disse Ezio, agradecendo ao sargento ao mesmo tempo em que seus homens repeliam os inimigos, derrubando alguns do alto do castelo enquanto outros fugiam.

— Precisamos levá-lo para dentro do Santuário — gritou Claudia.

— Vamos!

Ezio então permitiu que o carregassem outra vez. Havia perdido muito sangue. Enquanto isso, os cidadãos restantes que ainda não ha­viam conseguido escapar se aglomeravam em torno deles. Monteriggio­ni já estava deserta, completamente controlada pelas forças dos Bórgia. Somente a cidadela permanecia nas mãos dos Assassinos.

Finalmente alcançaram o objetivo: a fortificada sala cavernosa abai­xo da muralha norte do castelo, ligada ao prédio principal por uma pas­sagem secreta na biblioteca de Mario. Mas chegaram no último instan­te. Um de seus homens, um ladrão veneziano chamado Paganino, sob o controle de Antonio de Magianis, já estava fechando a porta secreta para a escadaria quando o último dos fugitivos adentrou.

— Nós pensamos que você estivesse morto, ser Ezio! — gritou ele.

— Ainda não foi dessa vez — respondeu Ezio de modo seco.

— Eu não sei o que fazer. Onde vai dar esta passagem?

— No norte, além das muralhas.

— Então é verdade. Sempre pensamos que fosse uma lenda.

— Bem, agora você sabe a verdade — disse Ezio, olhando para o ho­mem e se perguntando se, no calor do momento, havia revelado infor­mações demais a alguém que pouco conhecia. Ele ordenou ao sargento que fechasse a porta, mas no ultimo instante, Paganino passou por ela, de volta para o prédio principal.

— Aonde você vai?

— Eu preciso ajudar os defensores. Não se preocupe, eu os guiarei até aqui.

— Vou pregar essa porta. Se não vier agora, ficará por conta própria.

— Eu darei um jeito, senhoi. Eu sempre dou.

— Então vá com Deus. Preciso garantir a segurança dessas pessoas.

Ezio observou a multidão agrupada no Santuário. Na penumbra,

conseguiu reconhecer não só o rosto de sua irmã Claudia, mas também o de sua mãe. Ele respirou aliviado por um momento.

— Não podemos perder tempo — disse ele ao povo enquanto trava­va a porta com uma enorme barra de ferro.

 

Imediatamente, a mãe e a irmã de Ezio cuidaram do ferimento e depois o enfaixaram de modo apropriado, fazendo com que ele conseguisse ficar de pé. Então, Ezio instruiu o sargento a girar a alavanca oculta integrada que ficava na estátua do Mestre Assassino Leonius, ao lado de uma enorme chaminé no meio da parede norte do Santuário. A porta secreta se abriu, revelando um corredor pelo qual as pessoas poderiam escapar com segurança para o campo, saindo quase um quilômetro além dos limites da cidade.

Claudia e Maria ficaram ao lado da entrada, organizando a passa­gem dos outros cidadãos. O sargento foi à frente do grupo com um pe­lotão, levando tochas para guiar e proteger os refugiados durante a fuga.

— Rápido! — insistia Ezio com os cidadãos conforme entravam no túnel escuro. — Não entrem em pânico! Andem rápido, mas não cor­ram! Não queremos que haja um tumulto aí dentro.

— E quanto a nós? E quanto a Mario? — perguntou a mãe a Ezio.

Mario... como eu posso dizer isso a você? Mario foi assassinado. Eu quero que você e Claudia sigam para casa em Florença.

Mario morreu? — lamentou Maria.

— O que há em Florença para nós? — perguntou Claudia.

Ezio abriu as mãos.

— Nossa casa. Lorenzo de Médici e seu filho ficaram responsáveis por restaurar a mansão Auditore para nós, e a palavra deles é muito va­liosa. Agora a cidade está sob o controle de vostra Signoria novamente e eu sei que o governador Soderini cuida bem dela. Vão para casa. Fiquem sob os cuidados de Paola e Annetta. Eu me juntarei a vocês assim que puder.

— Você tem certeza? As notícias que ouvi de nossa velha casa são muito diferentes. Messere Soderini não chegou a tempo de salvá-la. De qualquer modo, queremos ficar com você. Para ajudá-lo.

Os últimos cidadãos já estavam entrando no túnel escuro e, enquan­to o faziam, um tremendo estouro e o som de batidas ressoaram na por­ta que separava o Santuário da parte externa.

— O que foi isso?

— São as tropas dos Bórgia! Rápido! Apressem-se!

Ele botou a família para dentro do túnel depois dos últimos cida­dãos e ficou na retaguarda com alguns poucos soldados sobreviventes dos Assassinos.

O caminho pelo túnel era difícil e, quando estavam na metade do cami­nho, Ezio ouviu o barulho dos homens dos Bórgia entrando pela porta do Santuário. Logo estariam no túnel. Ezio ordenou que todos à frente se apressassem, gritando aos retardatários para andarem mais depressa. En­tão, ele ouviu a marcha dos soldados armados correndo pelo túnel atrás deles. Enquanto o grupo passava correndo por um portão que delimitava uma das partes da passagem, Ezio segurou uma alavanca na parede ao lado da porta. E, assim que o último dos fugitivos passou, ele a puxou com for­ça, fazendo descer uma porta levadiça. Quando a porta desceu, o primeiro dos perseguidores alcançou o grupo, exatamente a tempo de ser esmagado no chão pela pesada estrutura de ferro. Os gritos de agonia do homem ecoaram pela passagem. Ezio já havia seguido em frente, sabendo que ti­nha conseguido um tempo precioso para que seu povo pudesse escapar.

Depois do intervalo de tempo de apenas alguns minutos, mas que pareceu ser de horas, a passagem começou a mudar de inclinação, fican­do mais nivelada e subindo suavemente. O ar começou a parecer mais fresco. Estavam quase do lado de fora. Nesse exato momento, todos ouviram o pesado estrondo de tiros de canhão. Os Bórgia finalmente abriram todo seu poder de fogo contra a cidadela, em um ato final de profanação. A passagem tremeu e pequenas nuvens de poeira caíram do teto. Um som que parecia gelo rachando podia ser ouvido, bem baixo a princípio, e então cada vez mais alto.

— Dio, ti prego, salvaci. O teto está caindo! — gritou uma das mu­lheres do grupo.

Os outros começaram a gritar à medida que o medo de serem enter­rados vivos dominou a multidão.

De repente, o teto começou a se abrir e uma torrente de terra e cas­calho começou a desabar. Os fugitivos correram mais rápido para tentar escapar da pedra que desabava, mas Claudia reagiu tarde demais, desa­parecendo em meio a uma nuvem de poeira. Ezio virou-se assustado, ouvindo sua irmã gritar, mas sem conseguir vê-la.

— Claudia! — gritou ele em pânico.

— Ezio! — Veio a resposta.

E, quando a poeira começou a baixar, a irmã de Ezio caminhou cui­dadosamente por entre os destroços.

— Graças a Deus está bem. Caiu alguma coisa em você? — pergun­tou ele.

— Não, estou bem. A nossa mãe está bem?

— Eu estou — respondeu Maria.

Eles bateram a poeira das roupas, agradecendo a Deus por terem sobre­vivido até ali, e caminharam pela última parte do túnel. Finalmente chega­ram a céu aberto. Nunca a grama e a terra tiveram um cheiro tão bom.

A saída do túnel era separada do campo por uma série de pontes de cordas penduradas sobre as ravinas. Elas foram concebidas dessa forma por Mario como parte de um plano de fuga magistral. Monteriggioni em si sobreviveria à profanação dos Bórgia. Depois que eles a tivessem saqueado, não teriam mais nenhum interesse. Ezio voltaria na hora cer­ta para reconstruí-la. Ela seria de novo a grande fortaleza dos Assas­sinos. Para Ezio isso era uma certeza. E seria ainda mais do que isso. Seria um monumento ao seu nobre tio, assassinado impiedosamente, Ezio prometeu a si mesmo.

Ele já havia aturado desgraças suficientes em relação a sua família, frutos de pura vilania.

Ezio planejava cortar as pontes depois que as cruzassem, mas os ve­lhos e feridos ainda estavam passando e ele podia ouvir o som de seus perseguidores se aproximando bem rápido. Ele estava incapacitado de carregar alguém nas costas, mas conseguiu apoiar uma mulher, cuja perna estava sem movimentos, em seu ombro bom, e os dois cruzaram devagar a primeira ponte, que balançou perigosamente com o peso.

— Vamos! — gritava, apressando a retaguarda que já estava lutando contra os soldados dos Bórgia.

Ele esperou na extremidade da ponte até que o último de seus ho­mens passasse. Todos conseguiram cruzá-la, mas dois soldados dos Bór­gia também passaram. Ezio entrou no caminho deles e, usando o braço bom para empunhar a espada, enfrentou os inimigos. Mesmo debilitado pelo ferimento, Ezio era mais do que capaz de enfrentar os oponentes. Sua espada aparava as espadas dos dois homens com uma velocidade impressionante, enfrentando ambas de uma vez só. Com um passo para o lado, agachou-se desviando de um golpe violento de um dos homens e usou a arma dele para cortar o joelho do soldado, exatamente na fenda da armadura. O homem cambaleou, com a perna esquerda inutilizada. O outro atacante investiu contra ele, achando que Ezio estaria desequi­librado, mas ele rolou para o lado, e a lâmina atingiu apenas as pedras no chão, mandando estilhaços para o fundo da ravina. O homem estre­meceu com a vibração da lâmina contra as pedras, causando um choque nos ossos da mão e do braço. Ezio aproveitou a chance, levantou-se e o golpeou por cima do braço abaixado do inimigo, acertando-o no rosto. O homem caiu, e em um movimento contínuo Ezio cortou as cordas que seguravam a ponte. Elas se partiram no mesmo instante. A tensão fez com que as cordas se debatessem violentamente contra as encostas da ravina. A ponte se desfez e os homens de Bórgia que haviam começa­do a cruzá-la caíram gritando no abismo.

Ao se virar, Ezio avistou Cesare do outro lado da ravina. Perto dele estava Caterina, ainda acorrentada, e sendo controlada por Lucrécia, que trazia um semblante perturbador. Juan Bórgia, Micheletto, páli­do como a morte, e o francês suado, general Octavien, estavam ao seu lado. Leonardo não parecia estar em parte alguma; mas como ele po­deria ter se aliado àquela gente? Com certeza alguma ameaça muito séria foi feita a ele. Ezio não podia acreditar que Leo se rebaixaria tanto assim voluntariamente.

Cesare balançava alguma coisa para Ezio.

— A sua será a próxima! — gritava ele, furioso.

Ezio percebeu que era a cabeça do tio.

 

Só havia um lugar para onde Ezio poderia ir agora. O caminho das tropas de Cesare havia sido bloqueado e eles levariam dias para dar a volta na ravina e alcançar os sobreviventes dos Assassinos. Ele dirigiu os refugiados para cidades fora do controle dos Bórgia, ao menos até o momento — Siena, San Gimignano, Pisa, Lucca, Pistoia e Florença —, onde encontrariam abrigo. Tentou também fixar a ideia de retornar a Florença na cabeça da mãe e da irmã, independente do destino da Villa Auditore e apesar de todas as memórias tristes que o lugar trazia, além do fato de todos estarem extremamente compelidos a vingar a morte de Mario.

Ezio seguiria para Roma, aonde, ele sabia, Cesare iria para se reagru­par. Talvez ele, com toda sua arrogância, pensasse que Ezio estava ven­cido, ou até morto na estrada, apodrecendo. Se fosse o caso, seria me­lhor ainda para o Assassino. Mas outro assunto perturbava Ezio. Com a morte de Mario, a Irmandade perdera seu líder. Maquiavel era uma força poderosa dentre os membros e, naquele momento, não parecia ser amigo de Ezio. 'Esse era um problema que precisava ser resolvido.

Parte do gado também havia escapado junto com os sobreviventes da cidade, e dentre os animais estava o enorme cavalo de guerra casta­nho de Mario. Ezio montava o corcel, conduzido pelo velho mestre de estábulos, que conseguiu salvá-lo apesar de, infelizmente, ter perdido a maior parte dos animais para os Bórgia.

Enquanto controlava as rédeas do animal, Ezio se despediu da mãe e da irmã.

— Você precisa mesmo ir a Roma? — perguntou Maria.

— Mãe, o único modo de ganharmos esta guerra é levando-a ao nosso inimigo.

— Mas como você pensa em sobreviver sozinho contra as forças dos Bórgia?

— Eu não sou o único inimigo deles. Além disso, Maquiavel já está lá. Preciso fazer as pazes com ele para trabalharmos juntos.

— Cesare está com a Maçã — disse Claudia, séria.

— Então vamos rezar para que ele não aprenda a usar os poderes dela — disse Ezio, apesar das dúvidas que sentia em seu coração.

Leonardo estava servindo a Cesare agora, e Ezio tinha pleno conhe­cimento da capacidade intelectual do antigo amigo. Se Leonardo ensi­nasse a Cesare os segredos da Maçã; ou pior, se Rodrigo conseguisse pegá-la de volta...

Ele sacudiu a cabeça para se livrar desses pensamentos. A hora de enfrentar os problemas envolvendo a Maçã chegaria no momento certo.

— Você ainda não está bem para cavalgar. Roma fica a vários qui­lômetros ao sul daqui. Não é melhor descansar por um ou dois dias? — perguntou Claudia.

— Os Bórgia não descansarão e o espírito cruel dos Templários está ao lado deles — respondeu Ezio secamente. — Nenhum de nós poderá descansar em paz até que o poder deles tenha sido destruído.

— Mas e se isso nunca acontecer?

— Não podemos nunca desistir de lutar. No minuto em que isso acontecer, tudo estará perdido.

— È vero. — Os ombros de sua irmã baixaram, mas então ela en­direitou-os novamente. — A luta nunca pode cessar — disse ela, com firmeza.

— Até a morte — disse Ezio.

— Até a morte.

— Tome cuidado na estrada.

— Tome cuidado na estrada.

Ezio recurvou-se na sela e beijou carinhosamente a mãe e a irmã antes de virar o cavalo para o sul. Sua cabeça latejava de dor pelo feri­mento e pelos esforços da batalha. Mas doíam ainda mais seu coração e sua alma pela morte de Mario e pela captura de Caterina. Estremeceu só de pensar nela nas garras perversas da família Bórgia. Ele conhecia muito bem o destino que a aguardava nas mãos deles. Ezio teria de dar conta das tropas dos Bórgia, mas seu coração dizia que, agora que Cesa­re havia conquistado seu objetivo principal, a fortaleza dos Assassinos, ele iria para casa. Havia também a questão da segurança de Caterina, mas Ezio sabia que se havia uma pessoa que não desistiria sem lutar, essa pessoa era ela.

O mais importante era extirpar o mal que estava infectando a Itália o mais rápido possível, antes que se espalhasse por todo o país.

Ele cravou os calcanhares com força nas ancas do cavalo e galopou para o sul pela estrada de terra.

Sua cabeça doía pela exaustão, mas a força de vontade o mantinha vivo. Ele jurou não descansar até chegar à capital arruinada de seu país sitiado. Havia muitos quilômetros pela frente antes que pudesse dormir.

 

Como ele tinha sido estúpido por cavalgar por tanto tempo ferido — parando apenas para o animal descansar. Um cavalo de posta teria sido uma escolha mais sensata, mas o corcel castanho, Campione, era sua última ligação com Mario.

Onde Ezio estava? Ele se lembrava de um subúrbio arruinado e sujo. E, se erguendo dele, uma arcada de pedra amarela imponente, um por­tal que outrora adentrava as muralhas de uma cidade majestosa.

Seu impulso foi encontrar Maquiavel, para consertar o erro que co­metera por não se certificar de que Rodrigo Bórgia estava morto.

Mas, por Deus, ele estava exausto.

Ezio se deitou em um colchão de palha Conseguia sentir o cheiro do feno seco, com um toque de cocô de vaca.

Onde estava?

A imagem de Caterina apareceu como um raio em sua memória. Ela precisava ser libertada. Eles tinham de ficar juntos.

Mas talvez fosse a hora de ele se libertar dela também, apesar de parte de seu coração dizer que isso não era o que ele realmente queria. Como poderia confiar nela? Como poderia um homem comum enten­der os delicados labirintos da mente feminina? Infelizmente, a tortura do amor não se tornava menos dolorosa com a idade.

Será que ela o estava usando?

Ezio sempre manteve com exclusividade uma parte de seu coração, um sanctum sanctorum, que era fechado até mesmo para os amigos mais íntimos, a mãe (que sabia de sua existência e a respeitava), a irmã e para os entes falecidos, o pai e os irmãos.

Teria Caterina conseguido entrar? Ele não foi capaz de impedir a morte do pai e dos irmãos e, por Deus, ele fez o melhor que pôde para proteger Maria e Claudia.

Caterina era capaz de se cuidar sozinha; ela era um livro que se man­tinha fechado. Mas, ainda assim... ainda assim, era o que ele mais dese­java ler.

“Eu amo você!”, gritava seu coração a Caterina, a despeito dele mes­mo. Ele finalmente encontrou a mulher de seus sonhos, naquela altura da vida. Mas o dever, disse a si mesmo, vinha primeiro; e Caterina... Caterina nunca revelou suas verdadeiras intenções. Seus enigmáticos olhos castanhos, seu sorriso, o modo como ela conseguia tocá-lo com facilidade com aquelas mãos habilidosas. Quase lá. Quase lá. Mas tam­bém havia o silêncio penetrante de seus cabelos, que sempre cheiravam a rosas e baunilha...

Como ele poderia confiar nela se, mesmo quando deitava a cabeça no colo dela depois de fazerem amor, ele ainda não se sentia seguro o suficiente?

Não! A Irmandade. A Irmandade. A Irmandade! Sua missão e seu destino.

Eu estou morto, disse Ezio a si mesmo. Já estou morto por dentro, mas farei o que precisa ser feito.

O sonho se desfez e seus olhos se abriram lentamente. Ele viu um corpo feminino vindo em sua direção; era uma mulher mais velha com um grande decote. Á túnica que usava se abria como o Mar Vermelho.

Ezio sentou-se rapidamente. Sua ferida estava corretamente enfaixa­da e a dor era tão suave que poderia até ser ignorada. Ao olhar em volta, viu-se em um pequeno quarto com paredes de pedra de acabamento precário. Cortinas de chita tampavam pequenas janelas e, em um dos cantos, um fogão de ferro estava aceso, suas brasas provendo a única iluminação do lugar. A porta se fechou, mas a pessoa que estava com ele no quarto acendeu uma vela.

Uma mulher de meia-idade que aparentava ser uma camponesa se ajoelhou ao seu lado e entrou em seu raio de visão. Seu rosto parecia gentil enquanto cuidava do ferimento dele, arrumando o emplastro e a bandagem.

Estava muito inflamado! Ezio se contorceu de dor.

— Calmatevi — disse a mulher. — A dor passará logo.

— Onde está meu cavalo? Onde está Campione?

— Ele está a salvo. Descansando. Deus sabe como ele merece. Estava sangrando pela boca. Um cavalo bom como aquele. O que você estava tentando fazer com ele?

A mulher colocou no chão a bacia d'agua que segurava e ficou es­perando.

— Onde eu estou?

— Em Roma, meu querido. Messere Maquiavel encontrou você des­maiado em sua sela, seu cavalo espumando, e os trouxe para cá. E não se preocupe, ele pagou a mim e ao meu marido muito bem para cuidarmos de você e de seu cavalo. Além de um extra pela nossa discrição. Você conhece messere Maquiavel, tentar enganar o homem é um risco tolo. Enfim, nós já prestamos esse tipo de serviço para a sua organização no passado.

— Ele deixou algum recado?

— Ah, sim. Você deve encontrar com ele assim que estiver melhor, no Mausoléu de Augusto. Sabe onde fica?

— É uma das ruínas, não é?

— Isso mesmo. Apesar de que não é muito mais ruína do que o resto dessa cidade horrível hoje. E pensar que um dia foi o centro do mundo! Olhe para ela agora, menor do que Florença, metade do tamanho de Veneza. Mas, ao menos, temos uma vantagem — disse ela, rindo.

— E qual é?

— Somente cinquenta mil pobres almas vivem nessa pilha de ruínas que um dia se chamou orgulhosamente Roma; e sete mil delas são pros­titutas. Isso deve ser um recorde! — continuou rindo. — Não é à toa que todo mundo por aqui está infectado com a Nova Doença. Não vá para a cama com ninguém aqui — acrescentou ela —, se não quiser morrer de varíola. Até os cardeais contraíram, e dizem por aí que o próprio papa e seu filho estão contaminados.

Ezio se lembrava de Roma como se fosse um sonho. Agora era um lugar bizarro, com muralhas ancestrais apodrecidas, criadas para abrigar uma população de um milhão de pessoas. A maior parte do território estava sendo usada pelos camponeses para o cultivo agrário.

Ele também se lembrava das ruínas do que um dia fora o Grande Fórum, hoje servindo de abrigo para cabras e ovelhas. O povo sa­queara as antigas estátuas de mármore que ficavam espalhadas pelos jardins para construir pocilgas ou triturar a cal. E em contraste com as moradias humildes e ruas imundas, os novos prédios do papa Sis- to IV e do papa Alexandre VI se agigantavam obscenamente, como bolos de casamento em uma mesa onde não havia mais do que pão dormido.

O engrandecimento da Igreja se confirmava, retornando a Roma de­pois do exílio papal em Avignon. O papa, a figura mais importante do mundo inteiro, ofuscando não só os reis, mas o próprio Sacro Impera­dor Romano Maximiliano, tinha novamente um lugar em Roma.

E não fora o papa Alexandre VI que dividiu, com sua imensa sa­bedoria, o continente sul das Novas Américas entre os países coloni­zadores Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas em 1494? Foi no mesmo ano em que a Nova Doença invadiu Nápoles, na Itália. Eles a chamavam de doença francesa; morbus gallicus. Mas todos sabiam que ela tinha vindo do Novo Mundo com Colombo e seus marinheiros genoveses. Era uma doença bem desagradável. Os rostos e corpos dos doentes se enchiam de bolhas e feridas até um ponto que, nos estágios mais avançados, os rostos deles ficavam deformados e irreconhecíveis.

Em Roma, os mais pobres sobreviviam à base de cevada e bacon, quando conseguiam bacon. E as ruas imundas espalhavam o tifo, a cólera e a Peste Negra. Quanto aos cidadãos, havia alguns muito ricos, obvia­mente, mas a maioria parecia gado e vivia em condições similares a ele.

O que era um contraste com a opulência dourada do Vaticano! A grande cidade de Roma tinha se tornado um monte de lixo histórico. Ao caminhar pelos becos sujos que eram chamados de ruas, nos quais cães selvagens e lobos viviam soltos, Ezio se lembrava das igrejas, que agora caíam aos pedaços, e os palácios desertos apodrecendo o lembravam da provável devastação da casa de sua própria família em Florença.

— Eu preciso me levantar. Preciso encontrar messere Maquiavel! — disse Ezio desesperadamente, arrancando as visões de sua mente.

— Tudo a seu tempo — respondeu a cuidadora. — Ele deixou novos trajes para você. Vista-se quando estiver pronto.

Ezio ficou de pé e sentiu a cabeça viajar. Ele se sacudiu para voltar a si, depois vestiu o traje que Maquiavel tinha deixado para ele — novo e feito de linho, com um capuz de lã suave ao tato que tinha a ponta parecida com um bico de águia. Havia luvas macias e resistentes e botas feitas de couro espanhol. Ele se vestiu, lutando contra a dor causada pelo esforço, e quando estava pronto, a mulher o guiou até a varanda. Ezio percebeu que não estava em uma choupana minúscula, mas nas ruínas do que fora um dia um grande palácio. Eles provavelmente estavam no piano nobile. Respirou fundo ao ver as ruínas da cidade à sua frente. Um rato subiu audaciosamente em seus pés e logo foi chutado.

— Ah, Roma — disse ele, ironicamente.

— O que sobrou dela — respondeu a mulher, rindo com sarcasmo.

— Obrigado, madonna. A quem eu devo...?

— Eu sou a contessa Margherita deghli Campi — disse ela, e na luz fraca ele pôde ver os traços finos de um rosto que foi muito belo um dia.

— Ou o que sobrou dela.

— Contessa — disse Ezio, tentando esconder a tristeza na voz en­quanto se curvava para cumprimentá-la.

— Lá está o mausoleo — respondeu ela, sorrindo e apontando. — É lá que vocês devem se encontrar.

— Eu não consigo enxergar.

— Fica naquela direção. Infelizmente não é possível enxergá-lo do meu palazzo.

Ezio apertou os olhos na escuridão.

— Será que é possível enxergar da torre daquela igreja?

Ela olhou para ele.

— Santo Stefano? Sim. Mas ela é só uma ruína. As escadas para a torre desabaram.

Ezio se preparou. Precisava chegar ao ponto de encontro o mais rá­pido possível e em segurança. Não queria ser atrasado por mendigos, ladrões e prostitutas que infestavam as ruas dia e noite.

— Isso não será problema — disse ele. — Vi ringrazio di tutto quello che avetefatto per me, buona contessa. Addio.

— Você é mais do que bem-vindo — respondeu ela, com um sorri­so tímido. — Mas tem certeza de que está bem o suficiente para ir tão cedo? Acho que você deveria ir a um médico. Eu lhe recomendaria um, mas não posso mais pagar por essas coisas. Eu limpei e enfaixei seu feri­mento, mas não sou nenhuma especialista.

— Os Templários não vão esperar a minha recuperação e nem eu posso — respondeu ele. — Obrigado novamente, e adeus.

— Vá com Deus.

Ele saltou da varanda para a rua, estremecendo com o impacto, e disparou pela quadra dominada pelas ruínas do palácio na direção da igreja. Por duas vezes ele perdeu a torre de vista e teve de refazer o ca­minho. Por três vezes ele foi cercado por mendigos leprosos e uma vez enfrentou um lobo, que se embrenhou por uma viela com o que parecia ser uma criança morta em sua boca. Mas enfim, ele encontrou a igreja. Ela estava lacrada com tábuas, e os santos esculpidos em calcário, que adornavam o portal, estavam deformados pela falta de manutenção. Ele não tinha certeza se poderia confiar nas pedras apodrecidas, mas não tinha opção. Precisava escalar.

Ele conseguiu chegar ao topo, apesar de ter perdido a pegada várias vezes e de até ter ficado pendurado pelas pontas dos dedos, após a queda do apoio de Seus Pés. Mas ele ainda era um homem forte e conseguiu se segurar e seguir em frente até chegar ao topo da torre. O domo do mau­soléu brilhava palidamente ao luar a vários quarteirões de distância. Era hora de ir até lá e esperar por Maquiavel.

Ezio ajustou as lâminas ocultas, a espada e a adaga. Estava prestes a dar um Salto de Fé e cair em uma carruagem de feno abaixo quando sentiu uma pontada de dor intensa no ferimento que o fez se contorcer.

— A contessa fizera um bom curativo, mas ela tinha razão, preciso ir a um médico — disse para si mesmo.

Ele desceu escalando dolorosamente até a rua. Não tinha ideia de onde encontrar um médico, então foi até uma estalagem, onde conse­guiu a informação por dois ducados, que também lhe compraram um odre com folhas sujas de Rhamnus glandulosa, que foi útil para aplacar a dor.

Já era tarde quando ele chegou ao consultório do médico. Bateu vá­rias vezes à porta antes que uma resposta abafada pudesse ser ouvida. Uma fresta se abriu e um homem gordo e barbudo de cerca de 60 anos, usando óculos grossos, apareceu. Ele estava muito malvestido e Ezio sentiu o bafo de bebida. Um dos olhos do homem parecia maior do que o outro.

— O que você quer? — disse o homem.

— Você é o dottore Antonio?

— E se for...?

— Eu preciso da sua ajuda.

— Está tarde — disse o doutor, mas os olhos dele se dirigiram para o ferimento no ombro de Ezio e ele pareceu ficar mais amigável, porém, ainda cauteloso. — Vai custar mais caro.

— Não estou em posição de negociar.

— Tudo bem, entre.

O médico abriu a corrente que prendia a porta e o deixou entrar. Pas­sando pelo corredor, Ezio reparou em uma série de potes de cobre e fras­cos de vidro nas prateleiras com morcegos, lagartos, ratos e cobras secas.

O médico o levou até uma sala interna com uma escrivaninha enor­me, bagunçada com papéis, uma cama estreita em um canto, um armá­rio aberto que continha mais frascos e uma maleta de couro, também aberta, contendo uma série de bisturis e pequenas serras.

Ao perceber o modo como Ezio observava, o médico soltou uma pequena gargalhada.

— Nós mediei somos apenas mecânicos metidos — disse ele. — Dei­te-se na cama e vamos dar uma olhada. Mas, antes, são três ducados adiantados.

Ezio entregou o dinheiro a ele.

O médico desenfaixou o ferimento e começou a empurrá-lo e pres­sioná-lo até que Ezio quase desmaiou de dor.

— Fique quieto! — reclamou o médico. Ele apalpou mais um pouco o ferimento, jogou sobre ele um líquido pungente, esfregou-o com um pe­daço de algodão, preparou bandagens limpas e amarrou-as com firmeza.

— Um homem da sua idade não pode se recuperar de um ferimento como esse com remédios. — O médico revirou o armário e pegou um frasco com alguma coisa que parecia espessa e pegajosa. — Mas isso aqui pode aliviar a sua dor. Não beba tudo de uma vez. Aliás, são mais três ducados. E não se preocupe. Você vai ficar bom com o tempo.

— Grazie, dottore.

— Quatro em cada cinco médicos sugerem sanguessugas, mas elas provavelmente não vão ajudar nesse tipo de ferimento. O que foi isso? Se não fossem tão raros, eu diria que foi um tiro de arma de fogo. Volte aqui se precisar. Ou posso recomendar alguns colegas na cidade.

— Eles custam tanto quanto você?

Dr. Antonio riu com desdém.

— Meu caro senhor, eu lhe dei um bom desconto.

Ezio caminhou até a rua. Uma chuva fina começou a cair e as ruas começavam a ficar enlameadas.

— “Um homem da sua idade”— balbuciou Ezio. — Che sobbalzo!

Ele voltou até a estalagem, onde tinha visto quartos para alugar. Fi­caria lá, comeria algo e iria para o mausoléu pela manhã. Então precisa­ria apenas esperar pelo companheiro assassino. Maquiavel poderia ter ao menos combinado um horário com a contessa. Mas Ezio sabia bem da mania de Maquiavel por segurança. Sem dúvida apareceria no local combinado em intervalos regulares todos os dias. Ezio não precisaria esperar muito.

Ele refez seu caminho pelas ruas e vielas deploráveis, escondendo-se nas sombras das portas sempre que via uma patrulha dos Bórgia, facil­mente reconhecível pelo símbolo do touro em disparada no peitoral de suas armaduras

Já era meia-noite quando chegou novamente à estalagem. Ele tomou um gole do líquido negro do frasco dado pelo médico. Era saboroso. Depois, bateu à porta com o cabo da espada.

 

No dia seguinte, Ezio saiu cedo da estalagem. Seu ferimento dificultava os movimentos, mas a dor estava mais branda e agora podia usar me­lhor o braço. Antes de partir, praticou alguns golpes com a lâmina ocul­ta e percebeu que poderia usá-la sem dificuldades, assim como a espada e a adaga convencionais. Era como se nunca tivesse sido atingido.

Não tendo certeza se os Bórgia e os Templários sabiam que ele havia escapado da batalha de Monteriggioni, e percebendo o grande número de soldados com armas de fogo e vestidos com as cores dos Bórgia, ele fez um caminho alternativo para o Mausoléu de Augustus. O sol já esta­va alto quando ele chegou lá.

Não havia quase ninguém ao redor e, após verificar a área e se cer­tificar de que nenhum guarda vigiava o local, Ezio se aproximou com cautela do prédio, entrando pela porta antiga para o interior sombrio.

Enquanto seus olhos se acostumavam à escuridão, ele pôde discernir uma figura vestida de preto, encostada na parede de pedra, parada como uma estátua. Ele olhou para os lados para verificar se havia algum lugar onde se esconder antes que a figura o percebesse, mas além dos tufos de grama entre as pedras quebradas da antiga ruína romana, não havia mais nada. Decidiu optar pela segunda melhor opção e começou a se mover rápido, mas de modo silencioso, pelos corredores escuros do mausoléu.

Era tarde demais. Quem quer que fosse, provavelmente o avistou as­sim que ele entrou pela porta, iluminado pela luz do exterior, e correu em sua direção. Com a aproximação, reconheceu a figura como sendo Maquiavel, que fazia sinal de silêncio, colocando um dedo nos lábios en­quanto se aproximava. Em um gesto discreto, mandou que Ezio o seguis­se e começou a caminhar para o interior, uma área mais escura da tumba do antigo imperador romano, construída há quase um milênio e meio.

Por fim, ele parou e se virou.

— Shh — disse ele, esperando e ouvindo atentamente.

— O que...?

— Fale baixo. Muito baixo — sussurrou Maquiavel, ouvindo quieto.

Por fim, ele relaxou.

— Tudo bem — disse ele. — Não há ninguém.

— O que você quer dizer?

— Cesare Bórgia tem olhos em toda parte. — Maquiavel relaxou um pouco. — Estou feliz em vê-lo aqui.

— Mas você deixou roupas para mim com a contessa...

Ela tinha ordens de vigiar a sua chegada a Roma. — Maquiavel sorriu. — Ah, eu sabia que você viria para cá. Logo que tivesse garantido a segurança da sua mãe e irmã. Afinal, elas são tudo que resta da família Auditore.

— Eu não gosto do seu tom — disse Ezio com um leve desdém.

Maquiavel abriu um pequeno sorriso.

— Não temos tempo para diplomacias, meu caro colega. Eu sei que você sente culpa pela perda da sua família, mesmo não tendo respon­sabilidade nenhuma pela grande traição. — Ele fez uma pausa. — As notícias sobre o ataque a Monteriggioni já se espalharam pela cidade. Alguns de nós tínhamos certeza de que você havia morrido lá. Eu deixei as roupas com nossa leal amiga, pois sabia que você não ia simplesmente morrer em uma hora tão crucial!

— Então você ainda tem fé em mim?

Maquiavel deu de ombros.

— Você foi estúpido. Uma vez. Porque seus instintos básicos lhe dis­seram para ser piedoso e confiar. Esses são bons instintos. Mas agora é hora de atacar, e atacar para valer. Vamos torcer para que os Templários nunca descubram que você está vivo.

— Mas eles já devem saber.

— Não necessariamente. Meus espiões me disseram que houve mui­ta confusão.

Ezio parou para pensar.

— Nossos inimigos em breve saberão que estou vivo, e muito. Quan­tos precisamos combater?

— Ah, Ezio, a boa notícia é que estreitamos o campo de batalha. Matamos multo! Templários na Itália e em várias outras terras além das fronteiras. A má noticia é que os Templários e a família Bórgia agora são uma organização só. E vão lutar como um leão acuado.

— Fale mais.

— Nós estamos muito isolados aqui. Precisamos nos perder na mul­tidão no centro da cidade. Vamos a uma tourada.

— Tourada?

— Cesare é um exímio toureiro. Afinal, ele é espanhol. Na verdade, não espanhol, mas catalão. E isso pode ser vantajoso para nós um dia.

— Como?

— O rei e a rainha da Espanha querem unificar o país. Eles são de Aragão e Castela. Os catalães são uma pedra no sapato deles, apesar de serem uma nação muito poderosa. Venha, com cuidado. Precisamos usar nossas habilidades para nos misturarmos, como Paola ensinou a você tempos atrás em Veneza. Espero que você não as tenha esquecido!

— Pode me testar.

Eles caminharam juntos pelas ruas da cidade imperial arruinada, mantendo-se nas sombras onde elas existiam ou entrando e saindo de multidões como peixes se misturando em cardumes. Finalmente chega­ram à arena de tourada, escolheram assentos no lado mais caro e lotado, onde havia sombra, e assistiram durante uma hora enquanto Cesare e seus muitos ajudantes matavam três touros poderosos. Ezio observou as técnicas de luta de Cesare: ele usava os bandarilheiros e picadores para ferir e cansar o animal antes de dar o coup de grâce pessoalmente, com pose e exibição. Mas eram inquestionáveis a coragem e a habilida­de dele durante o macabro ritual de morte, apesar do fato de ter quatro matadores iniciantes para ajudá-lo. Ezio olhou por cima do ombro para o camarote do presidente da luta e reconheceu o rosto severo, mas extre­mamente belo da irmã de Cesare, Lucrécia. Seria só imaginação ou ele a vira morder os próprios lábios com tanta força que sangrou?

De qualquer forma, ele aprendeu bastante sobre como Cesare se comportaria em um campo de batalha, e o quanto ele seria confiável em qualquer outro tipo de combate.

Havia guardas dos Bórgia observando o povo em toda parte, bem como nas ruas, e todos estavam com as novas armas de fogo de aparên­cia letal.

— Leonardo... — disse ele de modo involuntário, pensando no ve­lho amigo.

Maquiavel olhou para ele.

— Leonardo foi forçado a trabalhar para Cesare sob pena de morte; e teria sido uma morte extremamente dolorosa. Ê um detalhe... um de­talhe terrível, mas apenas um detalhe. O fato é que ele não está com seu novo mestre por vontade própria. Ele sabe que aquele homem nunca terá inteligência ou habilidade para operar a Maçã. Ou ao menos eu espero que não. Precisamos ter paciência. Nós a tomaremos de volta e resgataremos Leonardo junto.

— Eu queria ter toda essa certeza.

Maquiavel suspirou.

— Talvez seja mais sábio ter suas dúvidas — disse ele, por fim.

— A Espanha dominou a Itália — disse Ezio.

Valência dominou o Vaticano — respondeu Maquiavel. — E po­demos mudar isso. Temos aliados no Colégio de Cardeais, alguns po­derosos inclusive. Eles não são todos cãezinhos fiéis. E Cesare, apesar de toda a arrogância, depende do dinheiro do pai dele, Rodrigo. — Ele olhou para Ezio com um olhar incisivo. — É por isso que você deveria ter dado um jeito naquele papa intrometido.

— Eu não fazia ideia.

— A culpa é tão minha quanto sua. Eu deveria ter lhe dito. Mas como você mesmo disse, devemos nos preocupar com o presente e não com o passado.

— Amém.

— Amém.

— Mas como poderemos bancar tudo isso? — perguntou Ezio, enquanto mais um touro tombava aos pés de Cesare e sua espada impiedosa.

— O papa Alexandre é uma mistura estranha — respondeu Maquia­vel. — Ele é um grande administrador e já fez coisas boas para a Igreja, mas a parte má dele sempre se sobrepôs à boa. Ele foi o tesoureiro do Vaticano por anos e encontrou muitas maneiras de juntar dinheiro. A experiência foi muito boa para ele. Ele vende postos de cardeais, criando dezenas de homens que certamente ficarão ao lado dele. Ele deu inclu­sive perdão a assassinos que seriam enforcados, desde que tivewem di­nheiro para pagar por isso.

— Como ele justifica isso?

— Muito simples. Ele prega que é melhor para um pecador viver para se arrepender do que morrer e se livrar da dor.

Ezio não pôde controlar a risada, apesar de ter sido uma risada me­lancólica. Sua mente viajou para as celebrações do ano de 1500, o Gran­de Ano da Metade do Milênio. É verdade que havia muitos flagelados rondando o país à espera do Juízo Final, além do monge louco Savo­narola, que conseguiu controlar a Maçã brevemente, e que havia sido derrotado por ele mesmo em Florença. Naquela época, não foram todos enganados pela superstição?

Mil e quinhentos foi um grande ano de jubileu. Ezio se lembrou dos milhares de peregrinos esperançosos que tinham ido até a Santa Sé, vindos de todas as partes do mundo. O ano foi celebrado até naqueles pequenos postos avançados do outro lado do grande mar a oeste, nas Novas Terras, que foram descobertas por Colombo e alguns anos de­pois tiveram sua existência confirmada por Américo Vespúcio. Muito dinheiro entrou em Roma por meio dos fiéis que traziam indulgências para redimir seus pecados, esperando o retorno de Cristo à Terra para julgar os vivos e os mortos. Também foi a época em que Cesare come­çou a campanha para subjugar as cidades-estado de Romagna e em que o rei da França tomou Milão, justificando suas ações com a alegação de que era o herdeiro legítimo, bisneto de Gian Galeazzo Visconti.

O papa transformou seu filho Cesare em capitão-general dos exér­citos papais e gonfaloniere da Sacra Igreja Romana em uma grande ceri­mônia na manhã do quarto domingo da Quaresma. Cesare foi recebido por rapazes em togas de seda e quatro mil soldados usando sua farda pessoal. Seu triunfo parecia completo: no ano anterior, em maio, ele se casou com Charlotte dAlbret, irmã de João, rei dos Navarros, e o rei Luís da França — de quem os Bórgia eram aliados — deu-lhe o título de duque de Valência. Já tendo sido cardeal de Valência não é de admirar que o povo lhe tenha dado o apelido de Valentino.

Agora a víbora tinha chegado ao ápice de seu poder.

Como Ezio poderia derrotá-lo?

Ele dividiu os pensamentos com Maquiavel.

— No fim, usaremos a própria vanglória deles para derrubá-los — disse Nicolau. — Eles têm um calcanhar de Aquiles. Todos têm. E eu sei qual é o deles.

— E qual é? — perguntou Ezio, assustado.

— Eu não preciso dizer o nome dela. Cuidado — continuou Ma­quiavel, mas depois mudou de assunto e prosseguiu —, lembra-se das orgias?

— Elas continuam?

— Certamente continuam. E como Rodrigo, eu me recuso a cha­má-lo de papa, as adora! E você tem de admitir, ele tem 70 anos de ida­de. — Maquiavel riu de modo irônico e depois ficou sério novamente.

— Os Bórgia se afogarão sob o peso da própria autoindulgência.

Ezio se lembrava bem das orgias. Ele testemunhou uma. Houve um jan­tar, com cinquenta das melhores prostitutas da cidade, oferecido pelo papa em seu apartamento exageradamente decorado ao estilo de Nero. Elas gos­tam de ser chamadas de cortesãs, mas não passam de prostitutas. Quando o jantar, ou deveria ser chamado de comilança?, terminou, as mulheres dan­çaram com os servos do evento. A princípio estavam vestidas, mas depois foram tirando as roupas. Os candelabros que estavam sobre as mesas fo­ram colocados no chão de mármore e os convidados mais nobres assavam castanhas sobre eles. As prostitutas então engatinhavam pelo chão, como se fossem gado, com os traseiros para o ar, catando as castanhas. Depois, todos se juntavam. Ezio lembra-se com desgosto de como Rodrigo, Cesare e Lucrécia observavam tudo. No fim, vários presentes eram distribuídos: mantos de seda, botas de couro fino — da Espanha, claro —, chapéus de veludo incrustados de diamantes, anéis, braceletes, bolsas de brocado con­tendo cem ducados cada uma, adagas, consolos de prata; tudo que se possa imaginar, para os homens que fizessem sexo o maior número de vezes com as prostitutas que rastejavam. E a família Bórgia era quem julgava.

Os dois assassinos saíram da tourada e se misturaram à multidão que lotava as ruas no início da noite.

— Siga-me — disse Maquiavel com um tom diferente na voz. — Agora que você teve a chance de ver o seu principal oponente em ação, é uma boa ideia comprar qualquer equipamento que lhe falte. E tome cuidado para não chamar atenção.

— E eu já chamei alguma vez? — Ezio se viu mais uma vez sendo incomodado pelos comentários do jovem. Maquiavel não era o líder da Irmandade. Depois da morte de Mario, ninguém era. E esse problema precisaria ser resolvido. — De qualquer modo, eu tenho a minha lâmina oculta.

— E os guardas têm armas de fogo. Essas coisas que Leonardo criou para eles, e você sabe como ele não consegue controlar o próprio gênio, são rápidas de recarregar como você viu, além de possuírem canos revestidos de uma forma especial que fazem o tiro sair com mais precisão.

— Eu encontrarei Leonardo e falarei com ele.

— Você pode precisar matá-lo.

— Ele vale mais vivo do que morto. Você mesmo disse que ele não está trabalhando com eles por vontade própria.

— Eu disse que isso é o que eu espero. — Maquiavel parou. — Tome. Aqui está algum dinheiro.

— Grazie — disse Ezio, ao pegar a bolsa.

— Enquanto estiver me devendo, seja racional.

— Eu serei assim que começar a lhe ver sendo também.

Ezio deixou o amigo e se encaminhou para a quadra dos armeiros, onde poderia comprar um novo peitoral, braceletes de aço, uma adaga e uma espada de melhor qualidade e mais balanceada do que as que ele possuía. Sentia falta, sobretudo, da antiga braçadeira do códex, feita de um metal secreto, que o protegeu de tantos golpes que poderiam ter sido fatais. Mas agora era muito tarde para lamentar isso. Ele teria de confiar em suas habilidades e em seu treinamento. Ninguém, nem por acidente, poderia tirar isso dele.

Ele voltou a encontrar Maquiavel, que o esperava na estalagem con­forme haviam combinado.

Encontrou-o mal-humorado.

— Bene — disse Maquiavel. — Agora você já pode sobreviver a sua jornada de volta para Firenze.

— Talvez. Mas eu não vou voltar para Florença.

— Não?

— Talvez você devesse. Lá é o seu lugar. Eu não tenho mais uma casa lá.

Maquiavel abriu as mãos.

— É verdade que sua antiga casa foi destruída. Eu não queria lhe contar. Mas sua mãe e sua irmã estão a salvo lá. É uma cidade protegi­da dos Bórgia. Meu mestre, Piero Soderini, protege o lugar muito bem. Você pode recuperar a sua posição lá.

Ezio estremeceu ao ter confirmado seu maior medo. Então, ele se recompôs e disse:

— Eu ficarei aqui. Você mesmo disse, não haverá paz enquanto não derrubarmos a família Bórgia inteira e os Templários que os servem.

— Que discurso corajoso! E depois do que aconteceu com Monteriggioni.

— Isso é injusto, Nicolau. Como eu poderia saber que eles me des­cobririam tão rápido? Que eles matariam Mario?

Maquiavel falou com seriedade, segurando Ezio pelos ombros.

— Olhe, Ezio, aconteça o que acontecer, precisamos nos preparar com cuidado. Não podemos agir com raiva. Estamos lutando contra scorpioni; pior, contra serpentes! Elas são capazes de se enrolar no seu pescoço e picar as suas bolas em um movimento só. Elas não sabem o que é certo e o que é errado. Só sabem o que têm de fazer! Rodrigo se cercou de cobras e matadores. Até a filha dele, Lucrécia, foi transforma­da em uma arma fabulosa, e ela sabe tudo que há para saber sobre a arte do envenenamento. — Ele fez uma pausa. — No entanto, ela não é nada em comparação a Cesare!

— Ele outra vez.

— Ele é ambicioso, implacável e cruel além do que você possa ima­ginar. As leis dos homens não significam nada para ele. Ele matou o próprio irmão, o duque de Gândia, para chegar ao poder absoluto. Nada vai detê-lo.

— Eu vou acabar com ele.

— Só se você for racional. Ele tem a Maçã, não se esqueça disso. O céu que nos proteja se ele realmente aprender a usá-la.

a mente de Ezio te projetou nervosamente para Leonardo, que co­nhecia a Maçã bem demais...

— Ele não conhece perigo nem cansaço — continuou Maquiavel.

— Aqueles que não caíram pela espada de Cesare se juntaram às suas fileiras. As poderosas famílias Orsini e Colonna já se ajoelharam aos pés dele, e o rei Luís da França está ao lado dele. — Maquiavel fez outra pau­sa, pensativo. — Mas ao menos o rei Luís só será aliado dele enquanto lhe for útil...

— Você superestima o homem!

Maquiavel parecia não tê-lo ouvido. Estava perdido em seus pró­prios pensamentos.

— O que ele pretende fazer com todo esse poder? Com todo esse dinheiro? O que o incentiva?... Isso eu ainda não sei. Mas, Ezio — disse ele, olhando fixamente para o amigo —, Cesare de fato pretende tomar toda a Itália, e do jeito que as coisas vão, ele vai conseguir.

Ezio hesitou, chocado.

— Isso é... eu estou ouvindo admiração na sua voz?

O rosto de Maquiavel estava impassível.

— Ele sabe como conseguir o que quer. Uma virtude muito rara no mundo de hoje. E ele é o tipo de homem que poderia fazer o mundo se dobrar às próprias vontades.

— O que você quer dizer exatamente?

— Apenas isso: as pessoas precisam de alguém para admirar, ou até adorar. Pode ser Deus ou Cristo, mas melhor ainda seria alguém que pode ser visto, não uma imagem. Rodrigo, Cesare, até mesmo um grande ator ou cantor, desde que estejam bem-vestidos e tenham fé em si mesmos. O resto segue de maneira lógica. — Maquiavel bebeu um pouco de vinho. — É parte de nós, não interessa a mim, a você ou ao Leonardo, mas há pessoas por aí que têm a ambição de serem seguidas e elas são as mais perigosas. — Ele terminou de beber. — Por sorte, elas também podem ser manipuladas por pessoas como eu.

— Ou destruídas por pessoas como eu.

Sentaram-se em silêncio por um longo momento.

— Quem será o líder da Irmandade agora que Mario está morto? — perguntou Ezio.

— É uma boa pergunta! Estamos desorganizados e há poucos can­didatos. É um assunto importante, é claro, mas a escolha será feita. En­quanto isso, vamos. Temos um trabalho a fazer.

— Vamos levar cavalos? Mesmo que metade dela esteja em ruínas, Roma ainda é uma cidade bem grande — sugeriu Ezio.

— Falar é fácil. Cesare está cada vez mais perto de dominar com­pletamente a região de Romagna, e os Bórgia estão cada vez mais pode­rosos. Eles tomaram as melhores partes da cidade para si. Estamos em um rione, um distrito dos Bórgia agora. Não vamos conseguir cavalos nestes estábulos.

— Então a vontade dos Bórgia é a única lei por aqui agora?

— Ezio, o que você está insinuando? Que eu aprovo isso?

— Não se faça de burro comigo, Nicolau.

— Eu não me faço de burro com ninguém. Você tem um plano?

— Vamos improvisar.

Eles foram até a área dos estábulos, onde era possível alugar cava­los. No caminho Ezio percebeu que as ruas estavam ladeadas por lojas fechadas que, em circunstâncias normais, estariam funcionando. O que estava acontecendo? Realmente, quanto mais eles se aproxima­vam dos estábulos, mais numerosos e ameaçadores eram os guardas de amarelo e vermelho. Ezio notou que Maquiavel estava cada vez mais preocupado.

Não demorou muito para que o caminho deles fosse bloqueado por um musculoso sargento, seguido por mais ou menos uma dúzia de bru­tamontes uniformizados.

— O que o traz a estas bandas, amigo? — perguntou ele a Ezio.

— Hora de improvisar? — sussurrou Maquiavel.

— Queremos alugar cavalos — respondeu Ezio calmamente.

O sargento soltou uma gargalhada.

— Aqui é que não vai ser, amigo. Siga seu caminho — apontou ele na direção de onde eles tinham vindo.

— Não é permitido?

— Não.

— Por quê?

O sargento desembainhou a espada e os outros guardas o imitaram. Ele tocou o pescoço de Ezio com a ponta da espada e pressionou de leve, fazendo surgir uma gota de sangue.

— Você sabe o que a curiosidade fez ao gato, não sabe? Agora cai fora!

Com um movimento quase imperceptível, Ezio usou a lâmina ocul­ta para cortar os tendões do pulso que segurava a espada, que caiu inútil no chão. Com um enorme grito o sargento se curvou, agarrando a fe­rida. Ao mesmo tempo, Maquiavel saltou para a frente e atingiu hori­zontalmente os três guardas mais próximos em um movimento largo. Todos os três cambalearam para trás, surpresos com a audácia daqueles dois homens.

Ezio rapidamente recolheu a lâmina oculta e em um único movi­mento ágil desembainhou a espada e a adaga. As armas estavam livres e posicionadas bem a tempo de cortar os dois primeiros atacantes, que, recuperando a compostura, tinham avançado para vingar o sargento. Nenhum dos homens dos Bórgia era hábil o suficiente para enfrentar Ezio ou Maquiavel — o treinamento dos Assassinos era de uma clas­se completamente diferente. Mesmo assim, os dois amigos estavam em número muito inferior, o que equilibrava um pouco as chances. Entre­tanto, a ferocidade inesperada do ataque lhes deu uma vantagem quase insuperável.

Tomados quase completamente de surpresa, e desacostumados com situações negativas, os 12 homens logo foram despachados. Mas a co­moção tinha chamado atenção, e mais soldados chegaram, e então mais outros, e eram mais de duas dúzias, no total. Maquiavel e Ezio quase foram superados pela simples desvantagem numérica, e pelo esforço de enfrentar tantos inimigos de uma só vez. Os floreios estilísticos dos quais os dois eram capazes foram deixados de lado em troca de uma for­ma de esgrima muito mais rápida e eficiente: a vitória em três segundos, bastando um único golpe. Os dois homens resistiram bravamente, com a determinação marcada no rosto, e logo todos os inimigos tinham fu­gido ou jaziam feridos, moribundos ou mortos aos pés dos Assassinos.

— É melhor nos apressarmos — afirmou Maquiavel, ofegante. — Não vamos ganhar acesso aos estábulos só porque despachamos alguns capangas dos Bórgia de volta ao Criador. O povo continua amedronta­do. É por isso que muitos não abriram as lojas.

— Você tem razão — concordou Ezio. — Precisamos mandar um sinal para eles. Espere aqui!

Havia um fogo aceso em um braseiro próximo. Ezio catou um tição e escalou a parede do estábulo, onde uma bandeira dos Bórgia, com o touro negro no campo dourado, esvoaçava à brisa leve. Ezio a incendiou e, eriquanto o pano queimava, uma ou duas portas de loja se abriram cautelosamente, assim como os portões dos estábulos.

— Assim é melhor! — gritou Ezio, se virando para falar à peque­na multidão que se reunira. — Não temam os Bórgia! Não sejam os servos deles! Os dias dessa corja estão contados, e a hora da justiça se aproxima!

Mais pessoas se aproximaram, festejando.

— Eles voltarão — afirmou Maquiavel.

— Sim, voltarão, mas nós mostramos a essas pessoas que eles não são os tiranos todo-poderosos que imaginavam ser.

Ezio saltou da parede para o pátio do estábulo, onde Maquiavel se reuniu a ele. Rapidamente, escolheram duas montarias fortes e as selaram.

— Nós vamos voltar — prometeu Ezio ao chefe dos cavalariços. — Talvez vocês devessem limpar o lugar, agora que ele pertence novamen­te a vocês, como é de direito.

— Nós o faremos, meu senhor — respondeu o homem, que ainda parecia temeroso.

— Não se preocupe. Eles não vão machucar vocês, agora que vocês os viram sendo derrotados.

— E por que o senhor crê nisso?

— Eles precisam de vocês. Não podem continuar sem vocês. Basta mostrar que não se acovardarão ou não serão manipulados pela força e eles terão de implorar pela sua ajuda.

— Eles vão nos enforcar, ou coisa pior!

— Vocês preferem passar o resto das suas vidas sob o jugo deles? Enfrentem-nos. Os Bórgia terão de ouvir pedidos razoáveis. Nem mes­mo os tiranos podem sobreviver se um número suficiente de pessoas se recusar a obedecê-los.

Maquiavel, já montado, tirou um caderninho preto e começou a escrever nele, sorrindo distraidamente para si mesmo. Ezio montou o próprio cavalo.

— Achei que você tinha dito que estávamos com pressa — comen­tou Ezio.

— E estamos. Mas eu estava anotando o que você disse.

— Espero que isso seja um comentário elogioso.

— Ah, sim, muito elogioso. Mas vamos logo!

“Você é um mestre em abrir ferimentos, Ezio — continuou Maquiavel enquanto cavalgavam. — Mas você também saberia como fechá-los?

— Pretendo curar a doença que habita no coração da nossa socieda­de, e não ficar apenas perdendo tempo com os sintomas.

— Palavras corajosas. Mas você não precisa discutir comigo, es­tamos do mesmo lado, não se esqueça. Estou apenas colocando outro ponto de vista.

— Isso é um teste? — Ezio estava desconfiado. — Bem, vamos falar abertamente então. Eu acredito que a morte de Rodrigo Bórgia não teria resolvido o nosso problema.

— É mesmo?

— Bem, olhe só para essa cidade. Roma é o epicentro do poder dos Templários e dos Bórgia. O que eu acabei de dizer ao cavalariço conti­nua valendo. Matar Rodrigo não mudará as coisas. Corte a cabeça de um homem e ele morrerá, claro. Mas estamos lidando com uma Hidra.

— Entendo o que você quer dizer, como o monstro de sete cabe­ças que Hércules teve de matar. E mesmo assim as cabeças continua­vam crescendo de volta até que ele aprendeu o truque necessário para detê-las.

— Exatamente.

— Então você sugere que nós apelemos ao povo?

— Talvez. O que mais fazer?

— Perdoe-me, Ezio, mas o povo é volúvel. Depender dele é como construir um castelo de areia.

— Discordo, Nicolau. Nossa crença na humanidade certamente está no cerne do Credo dos Assassinos.

— E isso é algo que você pretende colocar em teste?

Ezio estava a ponto de responder quando em um instante um jovem ladrão passou correndo ao lado deles e, com a faca, cortou rápida e se­guramente os cadarços de couro que prendiam a bolsa de dinheiro de Ezio ao cinto.

— Mas que...? — gritou Ezio.

Maquiavel riu.

— Ele deve ser do seu círculo interno. Olhe só como corre! Talvez você o tenha treinado! Vá! Recupere o que foi roubado. Precisamos daquele dinheiro! Nós nos encontraremos no Campidoglio no monte Capitolino!

Ezio virou o cavalo e saiu galopando atrás do ladrão. O sujeito cor­reu por becos estreitos demais para o cavalo, e Ezio teve de dar a volta, preocupado em deixar a presa escapar. Porém, ele também estava ciente do triste fato de que não conseguiria alcançar o homem mais jovem a pé. Era quase como se o ladrão tivesse mesmo passado pelo treinamento dos Assassinos. Mas como isso poderia ter acontecido?

Finalmente Ezio encurralou o jovem em um beco sem saída e o em­purrou contra a parede dos fundos com o corpo do cavalo, prendendo-o.

— Devolva — comandou Ezio com frieza, desembainhando a espada.

O homem ainda parecia determinado a fugir, mas quando perce­beu quão desesperadora era a situação em que tinha se metido, ele se resignou, deixando o corpo relaxar e erguendo a mão com a bolsa sem dizer nada. Ezio tomou o dinheiro de volta e guardou a bolsa em um lugar seguro. Ao fazê-lo, deixou o cavalo se mexer um pouco, e em um piscar de olhos o ladrão escalou a parede com velocidade extraordinária e desapareceu do outro lado.

— Ei, volte aqui, eu ainda não terminei com você! — gritou Ezio, mas tudo que recebeu como resposta foi o som de alguém correndo para longe.

Suspirando e ignorando a pequena multidão que tinha se reunido, ele guiou o cavalo na direção do monte Capitolino.

Estava anoitecendo quando Ezio reencontrou Maquiavel.

— Conseguiu recuperar o dinheiro das mãos do nosso amigo?

Consegui.

— Uma pequena vitória.

— Elas se acumulam — retrucou Ezio. — E, com o tempo e muito trabalho, teremos mais algumas.

— Vamos torcer para que isso aconteça antes que Cesare nos en­contre e destrua outra vez. Ele quase conseguiu permanentemente em Monteriggioni. Agora, vamos continuar — disse Maquiavel, incitando o cavalo.

— Aonde vamos?

— Ao Coliseu. Temos um encontro marcado com um contato meu, Vinicio.

— E?

— Ele ficou de me trazer uma coisa. Vamos lá!

Enquanto eles cavalgavam pela cidade na direção do Coliseu, Ma­quiavel fez comentários irônicos sobre os vários novos prédios erguidos pelo papa Alexandre VI durante sua administração.

— Olhe todas essas fachadas, mascaradas como prédios do governo. Rodrigo mantém este lugar funcionando de uma forma muito inteli­gente. Assim ele engana os seus amigos, “o povo”, com muita facilidade.

— Quando é que você se tornou tão cínico?

Maquiavel sorriu.

— Eu não estou sendo nem um pouco cínico. Estou apenas descre­vendo a Roma que existe hoje! Mas você está certo, Ezio, talvez eu esteja um pouco amargurado, um pouco negativo demais. Talvez nem tudo esteja perdido. A boa notícia é que temos aliados na cidade. Você os conhecerá. E o Colégio dos Cardeais não está completamente dominado por Rodrigo, apesar dos esforços dele. Mas são muito precárias...

— O que são precárias?

— Nossas chances de sucesso final.

— Só nos resta tentar. Desistir é o caminho garantido da derrota.

— E quem falou em desistir?

Eles cavalgaram em silêncio e chegaram à enorme ruína soturna do Coliseu. Para Ezio, o lugar ainda estava coberto pela sombra dos horro­res dos jogos que tinham acontecido ali há milhares de anos. A atenção do Assassino logo se voltou a um grupo de soldados dos Bórgia com um mensageiro papal. De espadas em punho e brandindo ameaçadoramen­te as alabardas, além das tochas vermelhas, eles estavam intimidando um pequeno homem.

— Merda! — exclamou Maquiavel em voz baixa. — Aquele é Vini- cio. Eles chegaram primeiro.

De modo silencioso, os dois frearam os cavalos, se aproximando do grupo tão discretamente quanto possível, de modo a maximizar o ele­mento surpresa. Ao chegar mais perto, ouviram trechos da conversa.

— O que você tem aí? — perguntava um dos guardas.

— Nada.

— Tentando roubar correspondência oficial do Vaticano, é?

— Perdonatemi, signore, o senhor deve estar enganado.

— Não há engano algum, ladrãozinho — retrucou outro guarda, es­petando o homem com a alabarda.

— Para quem você está trabalhando, ladro?

— Ninguém.

Ótimo, então ninguém vai se importar com o que acontecer com você.

— Já ouvi bastante — afirmou Maquiavel. — Temos de salvar Vini- cio e a carta que ele carrega.

— Carta?

— Vamos lá!

Maquiavel cravou os calcanhares nos flancos da montaria, e o ca­valo, surpreso, disparou em um galope enquanto Maquiavel segurava as rédeas com força. O animal empinou, chutando loucamente com as patas dianteiras e acertando o guarda mais próximo direto na têmpo­ra, fazendo o capacete afundar para dentro do crânio. O homem caiu como uma pedra. Enquanto isso, Maquiavel tinha girado para a direita, se abaixando bem para fora da sela. Golpeando para baixo, ele acertou violentamente o ombro do guarda que ameaçava Vinicio, que largou a alabarda e caiu com a dor no ombro. Ezio esporeou o próprio cavalo, galopando por entre dois outros guardas e usando o pomo da espada para bater com força letal na cabeça do primeiro homem. Depois, acer­tou os olhos do segundo com a parte achatada da lâmina. Restava mais um guarda que, distraído pelo ataque, não percebeu quando Vinicio agarrou o cabo da alabarda e o puxou para a frente. A adaga de Vinicio esperava pelo guarda, perfurando-lhe a garganta. O sujeito caiu com um gorgolejar enquanto o sangue fluía para os pulmões. Mais uma vez, o elemento surpresa deu a vantagem aos Assassinos. Os soldados dos Bórgia claramente não estavam acostumados a enfrentar tamanha re­sistência ao abusar dos cidadãos. Vinicio não perdeu tempo e indicou com um gesto a rua principal que levava para fora da praça central. Um cavalo podia ser visto se afastando da praça, levando um homem que incitava o animal a correr mais.

— Dê-me a carta. Vamos logo com isso! — exigiu Maquiavel.

— Mas não está comigo, está com ele — gritou Vinicio, apontando para o cavalo em fuga. — Eles a tomaram de mim.

— Vá atrás dele! — ordenou Maquiavel a Ezio. — Custe o que custar, pegue a carta e leve para mim na Terme di Diocleziano até a meia-noite. Estarei esperando.

Ezio saiu em perseguição.

Dessa vez foi mais fácil do que pegar o ladrão. O cavalo de Ezio era melhor do que o do mensageiro, e o sujeito não era um lutador. O Assassino o puxou do cavalo com facilidade. Ele não queria matar o mensageiro, mas não poderia deixá-lo ir e soar o alarme.

— Requiescat in pace — murmurou enquanto cortava a garganta do homem.

Ezio guardou a carta fechada na bolsa do cinto e fez uma corda de reboque com a rédea do cavalo do mensageiro para que pudesse levá-lo com ele. Depois subiu novamente em sua própria montaria e partiu para as ruínas das Termas de Diocleciano.

Estava quase completamente escuro, exceto pelas ocasionais tochas em candeeiros nas paredes. Para chegar às termas, Ezio tinha de cruzar um considerável pedaço de terras ermas e, no meio do caminho, seu cavalo empinou e relinchou de medo. O outro cavalo fez o mesmo e Ezio teve de acalmá-los. Então ele ouviu um som horripilante, como o uivo de lobos, mas não igual, provavelmente ainda pior. Parecia mais com vozes humanas imitando os animais. Ele girou o cavalo nas trevas, soltando a corda de reboque que tinha feito. Uma vez livre, o cavalo do mensageiro se virou e galopou para a escuridão. Ezio esperava qae o animal encontrasse o caminho de volta para casa.

Ele não teve muito tempo para pensar nisso ao alcançar as termas desertas. Maquiavel não tinha chegado ainda, certamente estava metido em alguma de suas missões misteriosas na cidade, mas então...

Saídas de pequenos montes e das touceiras de grama que cresciam nas ruínas da antiga cidade romana, surgiram silhuetas, cercando-o. Pessoas de aparência selvagem, praticamente desprovidas de qualquer humanidade. Erguiam-se eretas, mas tinham longas orelhas, focinhos, garras e rabos, e estavam cobertas de pelagem cinzenta. Os olhos pare­ciam cintilar em vermelho. Ezio respirou fundo. O que seriam aquelas criaturas diabólicas? Seus olhos percorreram as ruínas. Ele estava cerca­do de pelo menos uma dúzia daqueles homens-lobo. Ezio sacou a espa­da novamente. Aquele dia não era um dos melhores.

Com rosnados e uivos de lobo, as criaturas se lançaram contra Ezio. Quando se aproximaram, Ezio percebeu que eram de fato homens como ele, mas aparentemente loucos, como se estivessem em alguma forma de transe sagrado. Empunhavam longas e afiadas garras de aço costuradas firmemente nas pontas de luvas grossas, e com elas atacaram suas per­nas e os flancos do cavalo, tentando derrubá-lo.

Ezio conseguiu mantê-los afastados com a espada. Como os disfar­ces não tinham nenhuma camada de metal ou qualquer outra proteção por baixo das peles de lobo, ele conseguiu feri-los com a lâmina afiada da espada. Cortou fora o braço de um deles na altura do cotovelo, e o ferido fugiu, berrando horrivelmente em meio às trevas. As estranhas criaturas pareciam ser mais agressivas do que habilidosas, e suas garras não eram páreo para a ponta cortante da espada. Ezio avançou rapida­mente, rachando o crânio de mais um e perfurando o olho esquerdo de um terceiro. Os dois homens-lobos caíram ali mesmo, mortalmente fe­ridos pelos ataques de Ezio. Então os outros homens-lobos começaram a reconsiderar a hipótese de continuar o ataque, e alguns deles sumiram nas trevas ou nas cavernas formadas pelas ruínas ao redor das termas. Ezio os perseguiu, rasgando fundo a coxa de um dos supostos atacan­tes e pisoteando outro sob os cascos do cavalo. Ao ultrapassar o sexto inimigo, Ezio se inclinou para baixo e, Virando-se para trás, abriu o estômago do sujeito que, tendo as tripas derramadas no chão, tropeçou sobre elas e morreu.

Finalmente, tudo ficou em silêncio.

Ezio acalmou o cavalo e ficou de pé nos estribos, forçando os olhos afiados a penetrar as trevas e os ouvidos a captar sinais que os olhos não poderiam ver. Ele concluiu que podia ouvir o ruído de alguém ofegando não muito longe, mesmo que nada fosse visível. Ezio fez o cavalo andar e avançou silenciosamente na direção do barulho.

Parecia vir das trevas de uma caverna rasa, formada por um arco desabado e recoberta de vinhas e mato. Após desmontar e amarrar o cavalo de modo firme a um toco de árvore, ele esfregou terra na lâmina da espada, para que ela não brilhasse e revelasse sua posição. Ezio avan­çou com cuidado. Pensou por um instante ter visto o tremeluzir de uma chama nas profundezas da caverna.

Quando Ezio entrou na caverna, morcegos o sobrevoaram e saíram para a noite. O lugar fedia com suas fezes. Insetos invisíveis e outras criaturas rastejavam e fugiam dele. Ezio os xingou pelo barulho que fa­ziam, tão alto quanto um trovão para ele, mas a emboscada, se é que havia alguma, não veio.

Então ele viu a chama de novo e ouviu o que jurava ser um leve cho­ramingar. Ezio percebeu que a caverna não era tão rasa quanto o arco tinha sugerido, e que o corredor se curvava suavemente, se estreitando e levando para trevas ainda mais profundas. Ao seguir a curva, os lam­pejos da chama que Ezio vira antes se combinavam em uma pequena fogueira, em cuja luz ele pôde ver um vulto encurvado.

O ar estava um pouco mais fresco ali. Certamente havia algum res­piro no teto que Ezio não conseguia ver. Por esse motivo o fogo conse­guia arder. Ezio ficou imóvel e observou.

Choramingando, a criatura estendeu a mão esquerda imunda e esquelética e pegou a ponta de uma barra de ferro que estava metida no fogo. A outra ponta estava incandescente e vermelha, e, tremendo, a criatura se preparou e tocou o ferro quente no toco sangrento do braço direito, sufocando um berro em uma tentativa de cauterizar a ferida.

Era o homem-lobo que Ezio tinha mutilado.

Durante o instante em que a atenção do homem-lobo estava voltada exclusivamente à dor e à tarefa que realizava, Ezio se lançou para a frente. Foi quase tarde demais, pois a criatura era rápida e chegou perto de esca­par, mas o punho de Ezio se fechou em volta do braço bom do homem. Foi difícil, pois o braço seboso estava escorregadio, e o fedor que a criatura soltou ao se mover era quase insuportável, mas Ezio segurou firme. Recu­perando o fôlego e chutando a barra de ferro para longe, Ezio perguntou:

— O que diabos é você?

— Urgh — foi tudo que o homem respondeu. Ezio lhe acertou um tapa violento na cabeça com a outra mão, ainda vestindo uma luva de cota de malha. O sangue espirrou perto do olho esquerdo do homem, que gemeu de dor.

— O que é você? Fale!

— Ergh. — A boca aberta exibia um conjunto de dentes partidos e cinzentos, e o fedor que emanava dela fazia o bafo de uma prostituta embriagada parecer perfume.

— Fale! — Ezio encostou a ponta da espada no cotoco e girou. Ele não tinha tempo a perder com aquele destroço de ser humano. Estava preocupado com o cavalo.

— Aargh! — Dessa vez um grito de dor. Então uma voz grosseira, quase incompreensível, emergiu dos grunhidos inarticulados, falando bom italiano.

— Sou um seguidor da Secta Luporum.

— A Seita dos Lobos? Que merda é essa?

— Você descobrirá. O que você fez hoje...

— Ah, cale-se. — Apertando mais forte, Ezio atiçou o fogo para for­talecer a luz e olhou em volta. Ele viu agora que estava em um tipo de câmara com um domo, talvez escavada deliberadamente. Havia muito pouco nela além de um par de cadeiras e uma mesa grosseira com um punhado de papéis com uma pedra em cima.

— Meus irmãos logo voltarão e... então...

Ezio o arrastou até a mesa, apontando os papéis com a espada.

— E isso? O que são esses papéis?

O homem olhou para ele e cuspiu. Ezio colocou a ponta da espada perto do cotoco ensanguentado novamente.

— Não! — uivou o homem. — De novo não!

— Então fale — Ezio olhou os papéis. Chegaria um momento em que ele teria de baixar a espada, por mais rápido que fosse, para pegar as folhas de papel. Alguns dos escritos estavam em italiano, outros em latim, e havia outros símbolos, que pareciam escrita, mas ele não con­seguia decifrar.

Ezio ouviu um ruído, vindo do corredor. Os olhos do homem-lobo brilharam.

— Nossos segredos... — afirmou ele.

No mesmo instante mais dois homens-lobos saltaram para o apo­sento, rugindo e cutilando o ar com as garras de aço. O prisioneiro de Ezio se libertou e teria se juntado a eles se o Assassino não tivesse sepa­rado sua cabeça do corpo, lançando-a rolando no chão até os compa­nheiros. Ezio correu para o outro lado da mesa, agarrando os papéis, e atirou a mesa contra os inimigos.

A luz do fogo diminuiu. A fogueira precisava ser atiçada de novo, precisava de mais lenha. Ezio fez um esforço para ver os dois últimos homens-lobos, que pareciam sombras cinzentas na sala. Ezio recuou para as trevas, guardou os papéis na túnica e esperou.

Os homens-lobos podiam ter a força dos loucos, mas certamente não eram nem um pouco habilidosos, exceto talvez na arte de assustar pessoas. Eles certamente não sabiam se calar ou se mover em silêncio. Usando os ouvidos mais do que os olhos, Ezio conseguiu circundar a sala, encostado na parede, até ficar atrás deles, enquanto eles ainda achavam que o Assassino estava em algum lugar na escuridão adiante.

Não havia tempo a perder. Ezio embainhou a espada, liberou a lâmi­na oculta, aproximou-se de um deles silenciosamente como um lobo de verdade e, segurando-o com firmeza por trás, lhe cortou a garganta. O homem morreu rápido e de modo silencioso, e Ezio baixou o corpo no chão com cuidado. Considerou a hipótese de capturar o outro, mas não havia tempo para interrogatórios. Poderia haver mais deles, e Ezio não sabia se teria força para lutar mais. Ele conseguia sentir o pânico do ou­tro homem, e teve certeza disso quando o sujeito abandonou a imitação de lobo e chamou, ansioso nas trevas.

— Sandro?

Foi muito fácil então localizá-lo, e novamente a garganta exposta foi o alvo escolhido por Ezio. Mas, dessa vez, o homem se virou, atacando freneticamente o ar com as garras. Ele podia ver Ezio, mas lembrou que as criaturas não usavam cota de malha sob as fantasias. Ezio recolheu a lâmina oculta e com a adaga, maior e menos sutil, que tinha a vantagem de uma lâmina serrilhada, abriu o peito do homem. O coração e os pul­mões expostos cintilaram à luz moribunda quando o último homem-lobo caiu com o rosto na fogueira. O cheiro de carne e cabelos queimados ameaçou derrubar Ezio quase imediatamente, mas ele saltou para trás e fugiu o mais rápido que pôde, subjugando o pânico e alcançando o ar dócil da noite.

Uma vez fora da caverna, Ezio viu que os homens-lobos não tinham tocado no cavalo. Talvez tivessem tanta certeza de que tinham prendi­do Ezio que não se deram ao trabalho de matar o animal ou espantá-lo dali. Ezio desamarrou o cavalo e percebeu que estava tremendo demais para montar. Em vez disso ele tomou as rédeas e guiou o animal de volta às Termas de Diocleciano. Era bom que Maquiavel estivesse lá, e estivesse bem armado. Por Deus, se ao menos Ezio ainda tivesse a pis­tola do códex! Ou uma daquelas armas que Leonardo tinha criado para o novo mestre. Mas Ezio tinha de fato a satisfação de saber que ainda podia vencer as lutas usando a inteligência e o treinamento; duas coisas que não poderiam ser tomadas dele até o dia que o pegassem e o tortu­rassem até a morte.

Ezio permaneceu completamente alerta na curta jornada de volta às ter­mas, e percebeu que se assustava com sombras, coisa que jamais teria acon­tecido quando era mais jovem. A ideia de alcançar as termas em segurança não lhe trouxe conforto algum. E se lá houvesse mais uma emboscada es­perando por ele? E se as criaturas tivessem surpreendido Maquiavel? Será que Maquiavel estava ciente da existência da Secta Luporum?

A quem ou a que Maquiavel era leal, afinal?

Ezio chegou sem problemas à sombria e vasta ruína, um memorial a uma era perdida na qual a Itália tinha dominado o mundo. Não havia sinal de vida que ele pudesse ver, mas então Maquiavel apareceu saindo detrás de uma oliveira e cumprimentou Ezio com seriedade.

— Por que se atrasou?

— Eu cheguei aqui primeiro. Mas então... algo me distraiu. — Ezio olhou o companheiro sem se abalar.

— O que você quer dizer?

— Um grupo de palhaços fantasiados. Parece familiar?

   O olhar de Maquiavel era aguçado.

— Fantasiados de lobos?

— Quer dizer que ouviu falar neles?

— Sim.

— Então por que sugeriu que nos encontrássemos aqui?

— Você está insinuando que...?

— O que mais eu poderia pensar?

— Caro Ezio. — Maquiavel deu um passo à frente. — Eu lhe garan­to, pela santidade do nosso Credo, que não fazia ideia de que eles esta­riam aqui. — Ele fez uma pausa. — Mas você tem razão. Eu busquei um ponto de encontro isolado, sem perceber que eles também poderiam ter feito o mesmo.

— E se eles foram avisados?

— Se você estiver duvidando da minha honra...

Ezio fez um gesto impaciente.

— Ah, deixe para lá — interrompeu. — Já temos problemas demais sem brigarmos um com o outro.

Na verdade, Ezio sabia que teria de confiar em Maquiavel por en­quanto. E, até agora, não teve motivo para não fazê-lo. Mas no futuro manteria as cartas perto do peito.

— Quem são eles? O quê são eles?

— A Seita dos Lobos. Às vezes se autodenominam Seguidores de Rômulo.

— Não seria melhor sairmos daqui? Consegui pegar alguns papéis deles, e eles podem voltar para buscar o que roubei.

— Primeiro, diga-me se conseguiu a carta e me conte rapidamente o que mais lhe aconteceu. Está com uma aparência de quem participou de várias guerras — comentou Maquiavel.

Depois do relato de Ezio, o amigo sorriu.

Duvido que voltem esta noite. Somos dois homens armados e treinados, e parece que você lhes deu uma bela surra. Mas isso por si só irá enfurecer Cesare. Veja bem, por mais que não exista muita evidên­cia, acreditamos que essas criaturas estão sob o comando dos Bórgia. Eles são um bando de falsos pagãos que andam aterrorizando a cidade há meses.

— Para quê?

Maquiavel estendeu as mãos.

— Fins políticos. Propaganda. A ideia é encorajar as pessoas a se co­locarem sob a proteção papal e, em troca, oferecer certo grau de lealdade.

— Que conveniente. Mas, mesmo assim, não seria melhor sair logo daqui? — Ezio estava súbita e obviamente cansado. Estava dolorido até a alma.

— Eles não voltarão mais esta noite. Sem querer diminuir sua proe­za, Ezio, mas os homens-lobos não são lutadores, nem mesmo matado­res. Os Bórgia os usam como intermediários de confiança, mas o traba­lho principal deles é assustar. São pobres almas iludidas que sofreram lavagem cerebral dos Bórgia e agora trabalham para eles. Acreditam que os novos mestres os ajudarão a reconstruir a Roma antiga, desde a ori­gem. Os fundadores de Roma foram Rômulo e Remo, que mamaram em uma loba quando bebês.

— Eu me lembro da lenda.

— Para os homens-lobos, pobres criaturas, não é lenda. Mas eles são uma ferramenta perigosa nas mãos dos Bórgia. — Maquiavel fez uma pausa rápida. — Agora, a carta! E os papéis que você pegou no covil dos homens-lobos. Muito bem feito, aliás.

— Isso se eles forem úteis.

— Veremos. Entregue-me a carta.

— Aqui está ela.

Apressadamente, Maquiavel rompeu o selo e desdobrou o perga­minho.

— Cazzo — murmurou. — Está criptografada.

— Como assim?

— Esta aqui era para estar em texto normal. Vinicio é, quer dizer, era um dos meus espiões infiltrados dentre os Bórgia. Ele me disse que boas fontes o informaram que a carta estaria em escrita normal. Idiota! Eles estão transmitindo informações em código. Sem a folha de cifra não temos nada.

— Talvez os papéis que eu peguei possam ajudar.

Maquiavel sorriu.

— Por Deus, Ezio, às vezes eu agradeço por estarmos do mesmo lado. Vamos dar uma olhada.

Rapidamente ele folheou os papéis que Ezio tinha conseguido e a expressão de preocupação se aliviou.

— Ajudou?

— Acho que... talvez... — Ele leu mais um pouco, com o cenho fran­zido novamente. — Sim! Por Deus, sim! Acho que conseguimos! — Ele deu um tapa no ombro de Ezio e riu.

Ezio riu também.

— Viu? Às vezes a lógica não é a única maneira de se ganhar uma guerra. A sorte pode participar também. Andiamo! Você disse que te­mos aliados na cidade. Vamos lá, leve-me até eles!

— Siga-me.

— E quanto ao cavalo? — perguntou Ezio.

— Solte-o. Ele vai encontrar o caminho de volta ao estábulo.

— Não posso abandoná-lo.

— Mas precisa. Vamos voltar à cidade. Se ele voltar conosco, sabe­rão que você retornou. E se encontrarem o cavalo aqui, com sorte pen­sarão que você ainda está vagando por esta área e farão a busca por aqui mesmo.

Ezio obedeceu de forma relutante, e Maquiavel o conduziu até uma escadaria oculta de pedra que levava ao subsolo. No final dos degraus havia uma tocha acesa, que Maquiavel pegou.

— Onde estamos? — indagou Ezio.

— Esse caminho leva a um sistema ancestral de túneis que se es­palham por sob a cidade. Seu pai os descobriu e eles se mantiveram como um segredo dos Assassinos desde então. Podemos usar essa rota para evitar os guardas que estiverem nos procurando, porque você pode ter certeza de que os homens-lobos que escaparam vão soar o alarme. Os túneis são grandes porque antigamente eram usados para transporte de cargas e tropas, e são bem construídos também, como tudo naquela época. Mas muitas das saídas dentro da cidade desmo­ronaram e estão bloqueadas, então temos de escolher o caminho cui­dadosamente. Mantenha-se próximo. Seria fatal se você se perdesse aqui embaixo.

Caminharam por duas horas pelo labirinto que parecia ser infinito. Ezio eventualmente espiava túneis laterais, entradas bloqueadas, estra­nhos baixos-relevos de deuses esquecidos sobre arcadas e escadarias ocasionais levando para cima, algumas para a escuridão, outras, menos frequentes, revelando um raio de luz no alto. Finalmente, Maquiavel, que tinha mantido um passo constante mas apressado o tempo todo, parou diante de um dos lances de degraus.

Chegamos — anunciou. — Vou primeiro, é quase alvorada e pre­cisamos ser cuidadosos. — Ele sumiu escada acima.

Depois do que pareceu ser uma eternidade, durante a qual Ezio che­gou a se perguntar se teria sido abandonado, ele ouviu um sussurro.

— Tudo certo — disse Maquiavel.

Apesar do cansaço, Ezio correu pelos degraus, feliz em sentir o ar fresco novamente. Tinha visto, naquela noite, o bastante de cavernas e túneis para o resto da vida.

Ele emergiu de algum tipo de bueiro em uma sala ampla, grande o suficiente para ter sido algum tipo de armazém um dia.

— Onde estamos?

— Em uma ilha no rio Tibre. Foi usada como depósito durante anos. Ninguém mais vem aqui, exceto nós.

— Nós?

— Nossa Irmandade. Este é, se preferir, nosso esconderijo em Roma.

Um jovem forte e confiante se levantou de um banco ao lado de uma

mesa coberta de papéis e dos restos de uma refeição e veio saudá-los. O tom dele era receptivo e amistoso.

— Nicolau! Ben trovato! — Ele se virou para Ezio. — E você deve ser o famoso Ezio! Bem-vindo! — Ele tomou a mão de Ezio e a apertou ca­lorosamente. — Fábio Orsini, ao seu serviço. Ouvi do meu primo muitas coisas boas sobre você, ele é um velho amigo seu: Bartolomeo d'Alviano.

Ezio sorriu ao ouvir o nome.

— Um bravo guerreiro.

— Foi Fábio quem descobriu este lugar — afirmou Maquiavel.

— Temos todas as conveniências aqui — comentou Fábio. — E do lado de fora está tudo tão coberto por hera e outras coisas que nem dá para saber que isto existe.

— É bom ter você do nosso lado.

— Minha família levou alguns duros golpes dos Bórgia recentemen­te, e meu objetivo é devolver os favores e restaurar nosso patrimônio

— Fábio olhou em volta com desconfiança. — É claro, isto aqui pode parecer meio pobre a você, depois das suas acomodações na Toscana.

— Aqui está perfeito.

Fábio sorriu.

— Bene, agora que vocês chegaram, preciso pedir licença e deixá-los imediatamente.

— Quais são seus planos? — perguntou Maquiavel.

A expressão de Fábio ficou mais séria.

— Sigo para iniciar preparativos em Romagna Hoje Cesare está no controle das minhas terras e dos meus homens, mas logo, eu espero, seremos livres novamente.

Buona fortunal

— Graziel

— Arrivedercil

Arrivedercil

E, com um aceno amistoso, Fábio se foi.

Maquiavel abriu um espaço na mesa e desenrolou a carta criptogra­fada e a página decodificadora dos homens-lobos.

— Preciso cuidar disso — afirmou. — Você deve estar exausto. Há comida e vinho ali, além de água romana boa e limpa. Recupere-se en­quanto eu trabalho, pois ainda há muito a ser feito.

— Fábio é um desses aliados de quem você falou?

— De fato. E há outros. Um deles é realmente muito importante.

— E quem é ele? Ou ela? — indagou Ezio, pensando a contragosto em Caterina Sforza.

Ele não conseguia tirá-la da cabeça, pois ainda era prisioneira dos Bórgia, e a prioridade pessoal do Assassino era libertá-la. Porém estaria Caterina jogando com ele? Ezio não conseguia se livrar de nem um grão de dúvida. Mas Caterina era um espírito livre, que não pertencia a ele. Só que Ezio não gostava da ideia de ser manipulado como um tolo. E nem queria ser usado.

Maquiavel hesitou, como se já tivesse falado demais, mas então revelou:

— É o cardeal Giuliano delia Rovere. Ele competiu pelo posto de papa com Rodrigo e perdeu, mas ainda é um homem poderoso, com amigos poderosos. Ele tem conexões potencialmente fortes com os franceses, mas está esperando a hora certa. Sabe que o rei Luís está ape­nas usando os Bórgia enquanto isso lhe for conveniente. Acima de tudo, o cardeal odeia os Bórgia profundamente. Você sabe quantos espanhóis os Bórgia instalaram em posições de poder? Corremos o risco de vê-los controlando a Itália.

— Então o cardeal é o homem certo. Quando poderei encontrá-lo?

— A hora ainda não chegou. Coma enquanto eu trabalho.

Ezio ficou grato pela hora de descanso, mas percebeu que a fome e até mesmo a sede, pelo menos a sede por vinho, tinham-no abando­nado. Agradecido, bebeu água e mordiscou uma coxa de galinha, en­quanto observava Maquiavel trabalhando nos papéis que tinha diante de si.

— Está funcionando? — perguntou depois de um bom tempo.

— Shhh!

O sol já tinha alcançado as torres das igrejas de Roma quando Maquiavel pousou a pena e pegou a folha de papel na qual estivera escrevendo.

— Está pronto.

Ezio aguardou com expectativa.

— São instruções para os homens-lobos — revelou Maquiavel. — Afirma que os Bórgia vão oferecer o pagamento habitual e ordena que os homens-lobos ataquem, ou seja, criem distrações aterrorizantes, em várias partes da cidade que ainda não estão sob o completo controle dos Bórgia. Os ataques precisam ser sincronizados com a aparição “afor­tunada” de um padre dos Bórgia, que usará os poderes da Igreja para “banir” os atacantes.

— O que você propõe?

— Se você concordar, Ezio, sugiro que comecemos a planejar nosso próprio ataque aos Bórgia. Continuar o bom trabalho que você iniciou nos estábulos.

Ezio hesitou.

— Você acredita que estamos prontos para tal ataque?

— Si.

— Eu gostaria de saber onde os Bórgia estão mantendo Caterina Sforza prisioneira. Ela seria uma aliada poderosa.

Maquiavel pareceu confuso.

— Se ela for prisioneira deles, deve estar no Castelo Sant'Angelo. Eles o transformaram em uma fortaleza. — Maquiavel fez uma pausa.

— É pena que eles controlem a Maçã. Ah, Ezio. como você foi deixar isso acontecer?

— Você não estava em Monteriggioni. — Foi a vez de Ezio fazer uma pausa, após um silêncio furioso. — Nós realmente sabemos o que nossos inimigos andam fazendo? Temos pelo menos uma rede de es­piões em Roma?

— Praticamente nenhuma. A maioria dos nossos mercenários, como Fábio, estão ocupados batalhando contra as forças de Cesare. E os franceses ainda o apoiam.

Ezio se lembrou do general francês em Monteriggioni, Octavien.

— E o que nós temos? — perguntou.

— Uma única fonte sólida. Temos garotas trabalhando em um bor­del. Lugarzinho de alta classe frequentado por cardeais e outros cida­dãos romanos importantes, mas há um problema. A madame que insta­lamos lá é preguiçosa e parece gostar de dar festas pela diversão, em vez de usá-las para recolher informações.

— E quanto aos ladrões da cidade? — inquiriu Ezio, pensando no hábil ladrão que quase lhe custara todo o dinheiro.

— Bem, si, mas eles se recusam a falar conosco.

— Por quê?

Maquiavel deu de ombros.

— Não faço ideia.

Ezio se levantou.

— É melhor você me dizer como sair daqui.

— Aonde você vai?

— Fazer alguns amigos!

— Posso lhe perguntar quais?

— Acho que, nesse momento, é melhor deixar esse assunto comigo.

 

O sol já se punha quando Ezio encontrou a sede da Guilda dos Ladrões de Roma. Ele passou um longo dia fazendo perguntas de modo discreto em tavernas, ganhando olhares desconfiados e respostas enganosas, até que, finalmente, os rumores se espalharam de que não havia proble­ma em deixar que ele soubesse do local secreto. Um garoto com roupas esfarrapadas o levou até um bairro pobre por um labirinto de becos e o deixou diante de uma porta, então desapareceu imediatamente pelo caminho de onde viera.

O lugar não era grande coisa: uma estalagem grande, com aparência decadente, com um letreiro meio torto que exibia uma raposa, adormecida ou morta. As janelas estavam cobertas com venezianas caindo aos peda­ços e a madeira precisava ser pintada. Aquela era a mesma Estalagem da Raposa Adormecida que ele e Mario tinham visitado uma semana antes.

A porta estava trancada, o que era estranho para uma estalagem. Ezio bateu com força, em vão.

Então foi surpreendido por uma voz vinda de trás de si, falando bai­xinho. Ezio girou. Ele não costumava deixar que alguém se aproximasse assim, em silêncio, às suas costas. Tinha de garantir que isso nunca mais aconteceria.

Felizmente a voz era amistosa, mesmo que reservada.

— Ezio.

O homem que falou saiu de detrás de uma árvore. Ezio o reconhe­ceu imediatamente: era o velho aliado Gilberto, La Volpe — A Raposa —, que fora o líder dos ladrões em Florença na aliança com os Assassi­nos alguns anos antes.

— La Volpe! O que você está fazendo aqui?

Gilberto sorriu enquanto eles se abraçavam.

— Por que não estou em Florença, você quer dizer? Bem, é uma resposta simples. O líder dos ladrões daqui morreu e eles me elegeram.

Achei que era a hora de uma mudança de ares, e meu velho assistente, Corradin, estava pronto para assumir o comando lá em casa. Além disso —     ele baixou a voz conspirativamente —, no momento atual, Roma me apresenta um pouco mais de... desafio, digamos assim?

— Isso me parece um motivo mais do que bom. Vamos entrar?

— É claro.

La Volpe bateu à porta, obviamente em código, pois a porta se abriu quase que de imediato, revelando um pátio espaçoso, com mesas e ban­cos espalhados, como era de se esperar em uma estalagem, mas ain­da assim bem humilde. Um punhado de pessoas, homens e mulheres, movia-se ocupadamente, entrando e saindo de portas que levavam do pátio à estalagem propriamente dita.

— Não parece grande coisa, né? — disse La Volpe, indicando um banco a Ezio e pedindo vinho.

— Francamente...

— É boa o bastante. E tenho planos. Mas o que o traz aqui? — La Volpe ergueu a mão. — Espere! Não diga. Eu acho que sei a resposta.

— Você geralmente sabe.

— Você quer colocar meus ladrões para trabalhar como espiões para você.

Exatamente — respondeu Ezio, se inclinando para a frente ansio­so. — Você se juntará a mim?

La Volpe ergueu o copo em um brinde silencioso e bebeu um pouco do vinho que tinha sido trazido, antes de responder, secamente.

— Não.

Ezio ficou surpreso.

— O quê? Por que não?

— Porque isso servirá aos interesses de Nicolau Maquiavel. Não, muito obrigado. Aquele sujeito é um traidor da nossa Irmandade.

Isso não foi muito surpreendente, mesmo que Ezio não estivesse muito convencido disso.

— Essa é uma alegação muito séria, vinda de um ladrão. Você tem alguma prova?

La Volpe parecia amargurado.

— Ele foi um embaixador da corte papal, sabia? E viajou como con­vidado pessoal do próprio Cesare.

— Ele fez tudo isso a nosso serviço.

— Será mesmo? Eu também sei que ele abandonou vocês logo antes do ataque a Monteriggioni.

Ezio fez um gesto de irritação.

— Pura coincidência. Olhe, Gilberto, Maquiavel pode não agradar a todos, mas ele é um Assassino, não um traidor.

La Volpe encarou Ezio com uma expressão determinada.

— Não estou convencido.

Neste ponto da conversa, um ladrão, que Ezio reconheceu como aquele que lhe roubou a bolsa, se aproximou e sussurrou no ouvido de La Volpe. O líder dos ladrões se levantou enquanto o outro se afastou. Ezio, pressentindo problemas, se levantou também.

— Peço desculpas pelo comportamento de Benito ontem — disse La Volpe. — Ele não sabia quem você era. Mas o viu cavalgando com Maquiavel.

— Que se dane o Benito. O que está acontecendo?

— Ah, Benito me trouxe notícias. Maquiavel vai se encontrar com alguém no Trastevere muito em breve. Vou lá verificar o que está acon­tecendo. Quer ir comigo?

— Mostre o caminho.

— Vamos usar uma das velhas rotas: os telhados. É mais difícil aqui do que era em Florença. Você acha que dá conta?

— É só me mostrar o caminho.

Foi um caminho difícil. Os telhados de Roma eram mais espaçados do que em Florença, e muitos estavam ruindo, dificultando o equilíbrio. Mais de uma vez, Ezio derrubou uma telha solta na rua. Mas havia pou­cas pessoas fora de casa, e os ladrões avançavam tão rápido que já esta­vam fora de vista quando algum guarda dos Bórgia aparecia para averi­guar. Finalmente chegaram à praça do mercado, com barracas fechadas, exceto uma ou duas bem iluminadas que vendiam vinho e atraíam al­gum público. Ezio e La Volpe pararam em um telhado com vista para a praça, se escondendo atrás de chaminés, e observaram.

Logo depois, o próprio Maquiavel entrou na praça, não sem antes olhar em volta com cuidado. Ezio observou atentamente quando outro homem, com o escudo dos Bórgia bordado no manto, se aproximou de Maquiavel e, de modo discreto, lhe entregou um bilhete antes de se afastar, quase sem diminuir o passo. Maquiavel também continuou an­dando, saindo da praça.

— O que você acha disso? — perguntou La Volpe a Ezio.

— Eu sigo Maquiavel, você segue o outro — retrucou Ezio, irritado.

Mas naquele momento uma briga irrompeu em uma das barracas de vinho. Eles ouviram gritos enfurecidos e viram o relampejar de armas.

— Ah, merda! São alguns dos meus homens. Eles arrumaram briga com um guarda dos Bórgia — gritou La Volpe.

Ezio viu de relance que Maquiavel escapou por uma rua que levava ao Tibre e então sumiu. Tarde demais para segui-lo agora. O Assassino voltou a atenção à briga. O guarda dos Bórgia jazia prostrado no chão. A maioria dos ladrões tinha se espalhado, escalando as paredes até a segurança dos telhados, mas um deles, um jovem mal saído da infân­cia, estava caído gemendo no chão, com o braço esguichando sangue de uma ferida.

— Socorro! Socorro! Meu filho foi ferido! — soou uma voz angustiada.

— Reconheço essa voz — comentou La Volpe com uma careta. — É Trimalchio. — Ele olhou atentamente para o ladrão ferido. — E aquele é Cláudio, seu filho mais novo1

Enquanto isso, guardas aos Bórgia com armas de fogo apareceram nos parapeitos de dois telhados, de ambos os lados da parede mais dis­tante do mercado, e estavam mirando.

— Vão atirar nele! — falou Ezio com urgência.

— Rápido então! Eu cuido do grupo da esquerda e você do da direita.

Havia três guardas de cada lado. Avançando invisíveis como som­bras, mas velozes como panteras, Ezio e La Volpe circundaram pe­los dois lados da praça. Ezio viu três artilheiros erguendo as armas e mirando no rapaz caído. Ele disparou ao longo do cume do telhado, com os pés mal tocando as telhas, e com um salto imenso se lançou sobre os três artilheiros. O salto foi alto o suficiente para que conse­guisse derrubar completamente o artilheiro do meio com o calcanhar, acertando-o bem na nuca. Em um único movimento, Ezio aterrissou de pé, se agachou para absorver o impacto do pouso e então endirei­tou os joelhos, estendendo os braços para os lados. Os dois artilheiros restantes caíram naquele instante: uma adaga perfurava o olho direito de um deles pelo lado, com a lâmina penetrando fundo no crânio. O outro artilheiro foi assassinado pela ponta finíssima da lâmina oculta de Ezio, que tinha entrado pela orelha, de onde o líquido escuro e viscoso escorria até o pescoço. Ezio olhou para o outro lado e viu que La Volpe tinha derrubado os oponentes dele com similar eficiência. Depois daquele minuto de massacre silencioso, todos os guardas com armas de fogo estavam mortos. Mas houve um novo perigo quando um pelotão de alabardeiros investiu na praça, com armas em riste e correndo contra o pobre Cláudio. As pessoas nas barracas de vinho se afastaram.

— Cláudio! Saia daí! — gritou La Volpe.

— Não consigo! Dói... demais...

— Aguente firme! — gritou Ezio, que estava um pouco mais perto de onde o garoto jazia caído. — Estou indo!

Ezio saltou do telhado, aparando a queda na cobertura de lona de uma das barracas do mercado, e logo estava ao lado do rapaz. Rapida­mente, checou o ferimento, que parecia mais sério do que era.

— Levante-se! — ordenou.

— Não consigo! — Cláudio estava claramente em pânico. — Eles vão me matar!

— Olha, você consegue andar, não consegue? — O rapaz fez que sim com a cabeça. — Então você também consegue correr. Preste aten­ção, siga-me. Faça exatamente o que eu fizer. Temos de nos esconder dos guardas.

Ezio botou o rapaz de pé e foi até a barraca de vinho mais próxima. Ao alcançá-la, rapidamente se misturou à multidão de bebedores ner­vosos e se surpreendeu ao ver com que facilidade Cláudio fez o mesmo. Eles passaram discretamente por dentro da barraca até a parede mais próxima, enquanto do outro lado alguns dos alabardeiros tentavam empurrar e abrir caminho por entre as pessoas. Bem a tempo, Ezio e Cláudio chegaram a um beco que levava para fora da praça. La Volpe e Trimalchio esperavam por eles.

— Imaginamos que vocês viriam para cá — comentou La Volpe en­quanto o pai abraçava o filho. — Vamos logo! — Ele exortou os dois.

— Não temos tempo a perder! Voltem à sede rapidamente e peçam a Teresina que cuide da ferida. Vão!

— E você fique fora de vista por um tempo, intesi? — acrescentou Ezio a Cláudio.

— Molte grazie, messere — agradeceu Trimalchio, partindo abraça­do ao filho, guiando-o, mas também admoestando: — Corril

— Você está encrencado agora — comentou La Volpe, depois que eles alcançaram a segurança de uma praça vazia. — Especialmente depois disso. Já vi pôsteres com o seu rosto depois da confusão nos estábulos.

— Nenhum de Maquiavel?

La Volpe balançou a cabeça.

— Não, mas é bem possível que eles não o tenham visto bem. Poucas pessoas sabem o quão bom ele é com uma espada.

— Mas você não acredita nisso.

La Volpe balançou a cabeça outra vez.

— E o que fazer quanto aos cartazes de “procurado”?

— Não se preocupe, meus rapazes já estão rasgando todos.

— Ainda bem que alguns deles são disciplinados e não ficam come­çando brigas inúteis com soldados dos Bórgia.

— Olhe, Ezio, há uma tensão na cidade que você ainda não vivenciou.

— É mesmo? — Ezio ainda não tinha contado ao amigo o episódio com os homens-lobos.

— Quanto aos arautos, alguns ducados para cada um deles deve ser o bastante para que calem a boca — continuou La Volpe.

— Ou eu poderia eliminar as testemunhas.

— Isso não é necessário — respondeu La Volpe, mais tranquilo.

— Você sabe como “desaparecer”. Mas seja muito cuidadoso, Ezio. Os Bórgia têm muitos outros inimigos além de você, mas nenhum deles é tão irritante. Eles não vão descansar enquanto seu cadáver não estiver pendurado nos ganchos do Castelo Sant'Angelo.

— Eles terão de me pegar primeiro.

— Fique alerta.

Eles voltaram à Guilda dos Ladrões por uma rota longa e complicada, e ao chegar encontraram Cláudio e o pai sãos e salvos. Teresina esta­va enfaixando o ferimento do rapaz, mas após estancar o sangramento, descobriram que não era nada além de um corte fundo no músculo do braço, muito doloroso embora não fosse sério, e o próprio Cláudio já estava muito mais animado.

— Mas que noite — comentou La Volpe, cansado, enquanto toma­vam uma taça de trebbiano e comiam um prato de salame barato.

— Eu que o diga. Seria melhor se eu não tivesse de enfrentar tantos deles.

— Vai ser difícil escaparmos disso enquanto a luta continuar.

— Escute, Gilberto — começou Ezio. — Eu sei o que nós vimos, mas tenho certeza de que você não tem nada o que temer de Maquiavel. Você conhece os métodos dele.

La Volpe encarou Ezio sem emoção.

— Sim, muito tortuosos. — Ele fez uma pausa. — Mas tenho de lhe agradecer por ter salvado a vida de Cláudio. Se você acredita que Ma­quiavel permanece leal à Irmandade, então estou inclinado a confiar no seu julgamento.

— E como fico com os seus ladrões? Vocês me ajudarão?

— Eu lhe disse que tenho planos para este lugar — respondeu La Volpe, pensativo. — Agora que, aparentemente, nós dois estamos tra­balhando juntos outra vez, gostaria de saber o que você acha também.

— Estamos trabalhando juntos, então?

La Volpe sorriu.

— Parece que sim. Mas ainda vou ficar de olho no seu amigo de roupas pretas.

— Bem, não fará mal. Só não faça nada impensado.

La Volpe ignorou o comentário.

— Bem, me diga, o que você acha que deveríamos fazer com este lugar?

Ezio considerou a pergunta.

Temos de garantir que os Bórgia ficarão afastados a todo custo. Talvez pudéssemos transformar isto em uma estalagem funcional.

— Gosto da ideia.

— Vai dar um trabalhão: pintura nova, reforma do telhado, uma nova placa...

— Tenho muitos homens. Sob o seu comando...

— Então vamos conseguir.

Seguiu-se um mês de descanso, ou pelo menos semidescanso, para Ezio. Ele se ocupou da tarefa de reformar a sede dos ladrões, com a ajuda de muitas mãos bem-dispostas. Os ladrões contavam com muitas habilidades diferentes, já que muitos deles eram artesãos que tinham perdido o trabalho porque se recusaram a se curvar para os Bórgia. No fim daquele período o lugar tinha sido transformado. A pintura era brilhante, as janelas estavam limpas e equipadas com venezianas novas. O telhado não era mais precário e a nova placa da estalagem exibia uma jovem raposa macho ainda dormindo, mas certamente não morta. O animal dava a impressão de que, se acordado, seria capaz de dar conta de cinquenta galinhas em um galinheiro com um golpe só. As portas duplas reluziam nas novas dobradiças e estavam abertas, revelando um pátio imaculado.

Ezio, que tinha partido para uma missão em Siena durante a última semana de trabalho, ficou satisfeito com o resultado final ao chegar. O lugar já estava pronto e funcionando.

— Mantive o nome — disse La Volpe. — Eu gosto dele. La Volpe Addormentata. Não sei por quê.

— Vamos torcer para que o nome provoque uma falsa sensação de segurança no inimigo — brincou Ezio, sorrindo.

— Pelo menos essa atividade toda não atraiu nenhuma atenção in­desejada. E estamos tocando os negócios como uma estalagem de ver­dade. Temos até um cassino. Ideia minha. Acabou se mostrando uma ótima fonte de renda, pois garantimos que os guardas dos Bórgia que são nossos clientes percam sempre!

— E onde...? — inquiriu Ezio, baixando a voz.

— Ah, por aqui. — La Volpe guiou Ezio até a ala oeste da estalagem, passando por uma porta marcada com as palavras Uffizi — Privato, onde dois ladrões montavam guarda muito discretamente.

Eles passaram por um corredor que levava a um conjunto de sa­las atrás de portas pesadas. As paredes estavam cobertas com mapas de Roma, e as mesas e escrivaninhas cheias de pilhas de papéis organiza­das nas quais homens e mulheres já estavam trabalhando, mesmo sendo ainda muito cedo.

— É aqui que fazemos nossos negócios de verdade — afirmou La Volpe.

— Parece muito eficiente.

— Uma das vantagens de se trabalhar com ladrões... pelo menos com os bons ladrões, é que são pensadores independentes e gostam de um pouco de competição, mesmo entre si.

— Eu me lembro.

— Você provavelmente poderia mostrar uma coisa ou duas a eles, se participasse do negócio.

-Ah, eu vou participar.

— Mas não seria seguro você ficar aqui — argumentou La Volpe.

— Nem para você, nem para nós. Mas venha nos visitar sempre que quiser... E com frequência.

— Eu o farei. — Ezio pensou nas próprias acomodações solitárias... solitárias mas confortáveis e muito discretas. Ele não ficaria feliz em ne­nhum outro lugar. Concentrou-se nas questões importantes. — Agora que estamos organizados, a coisa mais importante é localizar a Maçã. Precisamos recuperá-la.

— Va bene.

— Sabemos que está com os Bórgia, mas, apesar dos nossos melho­res esforços, não descobrimos onde exatamente a estão guardando. Até agora, pelo menos, eles parecem não tê-la usado. Acredito que ainda estejam estudando o artefato, e não chegaram a lugar algum.

— Será que procuraram... um especialista no assunto?

— Ah, tenho certeza que sim. Mas ele pode estar fingindo ser menos inteligente do que realmente é, ou pelo menos é o que eu espero. Vamos torcer para que os Bórgia não percam a paciência com ele.

La Volpe sorriu.

— Não vou insistir. Mas, enquanto isso, saiba que já temos gente vasculhando Roma em busca da Maçã.

— Eles a esconderam bem. Muito bem. Talvez até mesmo um do outro. Há um traço rebelde cada vez mais forte no jovem Cesare, e o pai não gosta disso.

— E para que mais servem os ladrões, além de farejar coisas valiosas e muito bem escondidas?

— Molto bene. E agora eu preciso ir.

— Uma saideira antes?

— Não, tenho muito a fazer. Mas nos veremos em breve.

— E para onde eu mando os meus relatórios?

Ezio pensou e respondeu:

— Ao ponto de encontro da Irmandade dos Assassinos, na Ilha Tiberina.

 

Ezio decidiu que já era a hora de procurar o velho amigo Bartolomeo d’Alviano, primo de Fábio Orsini. Eles tinham lutado ombro a ombro com os Orsini contra as forças papais em 1496 e Bartolomeo tinha voltado recentemente de uma temporada de serviço mercenário na Espanha.

Bartolomeo era um dos maiores dos condottieri e um velho com­panheiro de armas de Ezio. Apesar dos modos ocasionalmente idiotas e de uma tendência a ataques de raiva e depressão, ele também era um homem de lealdade e integridade inquebrantáveis. Tais qualidades fa­ziam dele um dos pilares da Irmandade... assim como o ódio infinito que nutria pela seita dos Templários.

Mas como Ezio poderia encontrá-lo agora? Bem, ele logo saberia. Tinha descoberto que Bartolomeo acabara de voltar da guerra e es­tava no quartel de seu exército particular, nos subúrbios de Roma. O quartel era bem fora da cidade, a nordeste no campo, mas não muito distante de uma das torres fortificadas que os Bórgia tinham erigi­do em vários pontos chave ao redor da cidade. No entanto, os Bórgia eram espertos demais para se meter com Bartolomeo, pelo menos não antes de eles se sentirem poderosos o suficiente para esmagá-lo como o inseto , que eles o consideravam. E o poder deles, Ezio sabia bem, crescia a cada dia.

Ele chegou logo após a hora do pranzo. O sol tinha passado do ápice, e o dia estava muito quente, mesmo que o desconforto fosse mitigado por uma brisa ocidental. Ao alcançar o enorme portão na alta paliçada que cercava o quartel, Ezio bateu forte com o punho.

Uma vigia encaixada no portão se abriu e Ezio sentiu um olhar o avaliando. Depois a vigia foi fechada e ele ouviu uma conversa abafada e curta. A vigia se abriu novamente, seguida de um alegre riso barítono e, após muitas trancas serem desfeitas, o portão se abriu. Um homem grande, um pouco mais jovem do que Ezio, estava ali parado de braços abertos, com as roupas militares simples um pouco menos bagunçadas do que o normal.

— Ezio Auditore! Seu filho da mãe! Entre! Entre! Eu mato você se não entrar!

Bartolomeo!

Os dois velhos amigos se abraçaram calorosamente, e então atraves­saram a praça do quartel em direção aos aposentos de Bartolomeo.

— Venha! Venha! — Bartolomeo incitou com sua empolgação cos­tumeira. — Quero que você conheça alguém.

Eles chegaram em uma longa sala de teto baixo, bem iluminada por grandes janelas que se abriam para o pátio interno. Era um aposento que claramente servia de sala de estar e de jantar, muito espaçoso e arejado. Mas havia algo que não era nada característico de Bartolomeo nele. Cortinas limpas nas janelas. Uma toalha bordada na mesa, que já tinha sido limpa dos restos do almoço. Havia quadros nas paredes. Até mesmo uma estante de livros. E Bianca, a grande e amada espada de Bartolomeo, não estava à vista. Acima de tudo, o lugar estava inacredi­tavelmente arrumado.

Espere aqui — disse Bartolomeo, estalando os dedos para pedir vinho a um servo. Ele estava claramente muito empolgado. — Agora adivinhe quem eu quero lhe apresentar.

Ezio olhou em volta pela sala.

— Bem, eu já conheci Bianca...

Bartolomeo fez um gesto de impaciência.

— Não, não! Ela está na sala dos mapas, onde mora hoje em dia. Tente de novo!

— Bem — continuou Ezio, astuto —, poderia ser... a sua esposa?

Bartolomeo pareceu tão decepcionado que Ezio quase lamentou ter

feito um palpite tão acurado. Não que isso tivesse sido difícil, mas logo o grandalhão se animou e continuou falando.

— Ela é preciosa! Você não acreditaria! — Bartolomeo se virou e berrou na direção dos aposentos interiores. — Pantasilea! Pantasilea!

O servo reapareceu com uma bandeja contendo doces, uma jarra de vinho e cálices.

— Onde está ela? — inquiriu Bartolomeo.

— Você já olhou atrás da mesa? — perguntou Ezio, brincalhão.

Foi então que Pantasilea apareceu, descendo uma escadaria que cor­ria ao longo da parede oeste da sala.

— Aí está ela!

Ezio se levantou para recebê-la e se curvou.

— Auditore, Ezio.

— Baglioni, Pantasilea, agora Baglioni dAlviano.

Ela ainda era jovem, vinte e tantos anos, Ezio calculou. Julgando pelo sobrenome, era de uma família nobre, e o vestido, mesmo modesto, era bonito e de bom gosto. O rosto, emoldurado pelos cabelos louros delica­dos, era oval, com o nariz de ponta arrebitada como uma flor e lábios ge­nerosos e bem-humorados, assim como os olhos inteligentes, que eram de um castanho escuro profundo. Eles eram convidativos quando ela olhava para você, porém parecia não lhe revelar tudo de si. Era alta, batendo no ombro de Bartolomeo, com ombros bem largos e quadris bem estreitos, braços longos e esguios e pernas torneadas. Bartolomeo claramente tinha encontrado um tesouro. Ezio esperava que ele conseguisse mantê-la.

— Lieta di conoscervi — cumprimentou Pantasilea.

— Altrettanto a lei.

Pantasilea olhou de um para o outro.

— Teremos tempo de sermos propriamente apresentados em outra ocasião — afirmou ela a Ezio, com o ar de uma mulher que não estava deixando os homens para que eles cuidassem dos negócios, mas que estava indo cuidar dos próprios assuntos.

— Fique um pouco, tesora mia.

— Não, Bartô, você sabe que eu tenho de ir ver o escrivão. Ele sem­pre embola todas as contas não sei como. E há algo errado com o supri­mento de água. Tenho de cuidar disso também. — Para Ezio ela disse:

— Ora, mi scusi, ma...

— Con piacere.

Sorrindo para os dois, ela subiu as escadas e desapareceu.

— O que você achou? — perguntou Bartolomeo.

— Estou encantado, verdadeiramente. — Ezio foi sincero. E tam­bém notou como o amigo se conteve na presença dela. Ele imaginou que os xingamentos deviam ser raros com Pantasilea por perto. E se perguntou o que será que ela viu no marido, mas, afinal, Ezio não a conhecia de verdade.

— Acho que ela faria qualquer coisa por mim.

— Onde você a conheceu?

— Essa é uma conversa para outra hora. — Bartolomeo pegou a jarra e os dois cálices e pôs a mão livre ao redor dos ombros de Ezio.

— Estou muito feliz que você tenha vindo. Acabei de voltar de uma campanha, como você já deve saber, e assim que ouvi que você estava em Roma, decidi que iria mandar homens para te localizar. Sei que você gosta de manter seu alojamento em segredo, e eu não o culpo, especialmente não neste ninho de víboras. Mas, felizmente, você veio me ver primeiro, o que é ótimo, porque quero conversar sobre guerra. Vamos à sala de mapas.

— Sei que Cesare está aliado aos franceses — comentou Ezio. — Como vai a luta contra eles?

— Bene. As companhias que deixei por lá, que lutarão sob o coman­do de Fábio, estão se virando bem. E tenho mais homens para treinar aqui.

Ezio ponderou isso.

— Maquiavel pareceu pensar que as coisas estariam mais... difíceis.

Bartolomeo deu de ombros.

— Bem, você conhece Maquiavel. Ele...

Eles foram interrompidos pela chegada de um dos sargentos de Bar­tolomeo. Pantasilea veio junto. O homem estava em pânico, mas ela es­tava calma.

— Capitano — disse o sargento. — Precisamos de sua ajuda agora. Os Bórgia lançaram um ataque.

— O quê? Não esperava por isso tão cedo! Com licença, Ezio. — Bartolomeo então gritou para Pantasilea: — Jogue-me Bianca!

A mulher imediatamente atirou a grande espada para ele e, afive­lando-a à bainha, Bartolomeo se atirou para fora da sala, seguindo o sargento. Ezio se levantou para segui-lo, mas Pantasilea o conteve, segu­rando-lhe o braço com força.

— Espere! — disse ela.

— O que houve?

Ela parecia profundamente preocupada.

— Ezio, permita-me ir direto ao ponto. A luta não vai muito bem. Nem aqui nem em Romagna. Fomos atacados pelos dois lados. Os Bór­gia estão em um flanco, os franceses do general Octavien, no outro. Mas saiba de uma coisa: a posição dos Bórgia é fraca. Se nós os derrotarmos, poderemos concentrar nossas forças no front francês. Tomar a torre nos ajudaria muito. Se alguém pudesse dar a volta...

Ezio inclinou a cabeça.

— Então acho que sei um jeito de ajudar. Suas informações foram valiosas. Mille grazie, madonna d'Alviano.

Ela sorriu.

— É o mínimo que uma esposa pode fazer pelo marido.

 

Os Bórgia lançaram um ataque surpresa contra o quartel, escolhendo a hora da siesta para fazê-lo. Os homens de Bartolomeo os tinham recha­çado usando armas tradicionais, mas conforme empurraram os inimigos de volta à torre, Ezio viu cada vez mais artilheiros de Cesare se reunindo nas ameias, todos equipados com as novas armas de fogo do tipo fecho de roda, que eles estavam mirando na multidão de condottieri abaixo.

Ezio contornou o combate corpo a corpo, conseguindo evitar qual­quer confronto com as tropas dos Bórgia. Ele deu a volta na torre, che­gando aos fundos. Como já esperava, a atenção de todos estava concen­trada na batalha que ocorria na frente. Ele escalou as paredes externas, encontrando facilmente pontos de apoio nas pedras grosseiramente cinzeladas. Os homens de Bartolomeo estavam armados com bestas, e havia alguns com armas de fecho de mecha, para longo alcance, mas eles não poderiam resistir ao fogo mortal das sofisticadas armas novas.

Ezio chegou ao topo, a uns 12 metros do solo, em menos de trinta segundos. Ele se levantou sobre o parapeito traseiro, com os tendões no limite, e silenciosamente se abaixou no telhado da torre. Ele se esguei­rou por trás dos mosqueteiros, aproximando-se dos inimigos com pas­sos silenciosos e deliberados. Sem fazer qualquer ruído, sacou a adaga e liberou a lâmina oculta. Parou detrás dos artilheiros e, em um frenesi súbito de movimento, despachou quatro inimigos com as duas lâminas. Foi só então que os mosqueteiros dos Bórgia perceberam que o inimigo estava entre eles. Ezio viu um dos homens virar a arma de fogo carrega­da e pronta para disparar em sua direção. O sujeito estava a quase cinco metros de distância, então Ezio simplesmente lançou a adaga no ar. A lâmina girou três vezes antes de se cravar entre os olhos do homem com um baque terrível. O soldado caiu, mas, ao fazê-lo, pressionou o gatilho do mosquete. Felizmente para Ezio, o cano não apontava mais para o alvo. A bala foi para a direita, acertando o companheiro ao lado, atravessando-lhe o pomo de adão e penetrando o ombro do homem atrás dele. Os dois caíram, deixando apenas três mosqueteiros dos Bórgia no teto da torre. Sem esperar, Ezio saltou para o lado, dando um tapa na cara do soldado mais próximo com tanta força que este caiu para trás por sobre as ameias. Ezio pegou o mosquete pelo cano enquanto o sujeito caía e golpeou com ele, acertando a coronha na cara do soldado seguinte, que seguiu o colega na queda com um grito agonizante. O último soldado ergueu as mãos para se render, tarde demais, pois a lâmina oculta do Assassino já penetrara por entre as costelas.

Ezio pegou outro mosquete e desceu as escadas correndo até o an­dar inferior. Havia quatro soldados ali, disparando por fendas estreitas nas paredes grossas. Ezio pressionou o gatilho, segurando o mosquete à altura do quadril. O mosqueteiro mais distante caiu com o impacto do tiro, seu peito explodindo em vermelho. Dando dois passos à frente, o Assassino brandiu o mosquete como uma clava, com o cano para cima desta vez, acertando o joelho de outro soldado, que desabou. Um dos dois últimos homens tinha se virado o suficiente para tentar um tiro. Ezio instintivamente rolou para a frente, sentindo o ar abrasador quan­do a bala passou muito perto do rosto dele e acertou a parede atrás. O impulso de Ezio o fez se chocar contra o mosqueteiro, que foi jogado para trás e rachou a cabeça na parede de pedra. O último homem tam­bém se virou para enfrentar a ameaça inesperada. Ele olhou para baixo quando Ezio saltou do chão, mas apenas por um instante, pois logo a lâmina oculta foi cravada sob a mandíbula do homem.

O soldado cujo joelho Ezio destruiu se moveu para pegar a própria adaga. Ezio simplesmente chutou a têmpora do homem e se virou, ig­norando o inimigo, para olhar a batalha abaixo. A peleja estava se trans­formando em uma fuga. Sem ter mais todo aquele poder de fogo brutal ao lado deles, os soldados dos Bórgia recuaram rápido e logo fugiram, abandonando a torre aos condottieri.

Ezio desceu a escada até o portão principal da torre, encontrando um punhado de guardas que resistiram bravamente antes de sucumbir à sua espada. Após se assegurar de que a torre estava livre de homens dos Bórgia, Ezio abriu os portões e foi se encontrar com Bartolomeo. A batalha tinha acabado, e Pantasilea tinha se reunido ao marido.

— Ezio! Muito bem! Juntos, nós botamos aqueles luridi codardi para correr de volta para a mamãe!

— É verdade! — Ezio trocou um sorriso secreto e conspiratório com Pantasilea, pois o conselho sensato dela tinha vencido a batalha tanto quanto qualquer espada.

— Essas novas armas de fogo... — comentou Bartolomeo. — Conse­guimos capturar algumas, mas ainda estamos tentando entender como são usadas. — Ele sorriu. — De qualquer maneira, agora que os cães do papa fugiram, vou poder convocar mais homens para lutar ao nosso lado. Mas, primeiro, e especialmente agora depois dessa batalha, quero reforçar nosso quartel.

— Ótima ideia, mas quem vai fazer isso?

Bartolomeo balançou a cabeça.

— Não sou muito bom com essas coisas. Você recebeu educação, por que não aprova o projeto?

— Você conseguiu um projeto já desenhado?

— Sim! Contratei os serviços de um jovem particularmente brilhan­te. Florentino como você. Chama-se Michelangelo Buonarroti.

— Nunca ouvi falar nele, mas va bene. Em troca eu preciso saber de todos os movimentos de Cesare e Rodrigo. Será que alguns de seus homens podem espioná-los para mim?

— Se há uma coisa que eu logo terei de sobra são homens. Pelo me­nos, tenho o suficiente para lhe dar uma mão de obra decente para o tra­balho de reconstrução e um punhado de batedores para vigiar os Bórgia para você.

— Excelente!

Ezio sabia muito bem que Maquiavel tinha posicionado espiões, mas que também costumava jogar com as cartas bem escondidas, ao contrário de Bartolomeo. Maquiavel era uma sala fechada, Bartolomeo era o céu aberto. E, por mais que Ezio não compartilhasse das suspeitas de La Volpe, que ao menos esperava terem diminuído um pouco, não havia mal nenhum em ter um plano B.

Ele passou o mês seguinte supervisionando o reforço do quartel, re­parando o dano feito no ataque, construindo torres de vigia mais altas e mais fortes, e substituindo as paliçadas por muralhas de pedra. Quando o trabalho se encerrou, ele e Bartolomeo fizeram uma inspeção com­pleta.

— Não está uma beleza? — perguntou Bartolomeo, orgulhoso.

— Muito impressionante, de fato.

— E a melhor notícia é que a cada dia que passa, mais e mais homens se juntam a nós. É claro, eu encorajo a competição entre eles. É bom para o moral, e é bom para o treinamento também, para quando eles forem lutar de verdade. — Bartolomeo mostrou a Ezio um grande quadro de madeira com o escudo dele no topo, montado em um cavalete. — Como você pode ver, este quadro mostra o ranking com nossos melhores guer­reiros. Quanto melhor você for, mais alto você fica na escala.

— E onde estou eu?

Bartolomeo olhou para Ezio e acenou para o ar acima do quadro.

— Em algum lugar aqui em cima, eu acho!

Um condottieri veio informar ao comandante que um dos melhores homens dele, Gian, tinha iniciado um combate competitivo no pátio de marcha.

— Se você quiser se mostrar, temos lutas de treino também. Agora, com licença, apostei dinheiro nesse garoto! — Rindo, ele se afastou.

Ezio foi até a nova e melhorada sala de mapas. A luz natural era melhor, e a sala tinha sido ampliada para acomodar mesas e cavaletes maiores. Ezio estava estudando um mapa de Romagna quando Pantasilea se aproximou.

— Onde está Bartolomeo? — perguntou ela.

— Na luta.

Pantasilea suspirou.

— Ele tem uma visão de mundo tão agressiva. Eu, entretanto, penso que a estratégia é igualmente importante, você não concorda?

— Concordo.

— Vou lhe mostrar uma coisa.

Pantasilea levou Ezio até uma larga varanda com vista para um pátio interno do quartel. Em um dos lados havia um grande pombal novo, carregado de aves.

— Esses são pombos-correio — explicou Pantasilea. — Cada um deles, enviado por Nicolau Maquiavel na cidade, agora me traz o nome de um agente dos Bórgia em Roma. Os Bórgia se fartaram com o Jubileu do ano 1500. Muito dinheiro trazido por peregrinos ansiosos, dispostos a comprar absolvição. E quem não pagou foi roubado.

Ezio a fitou com seriedade.

— Mas seus muitos ataques criaram problemas sérios para os Bór­gia — continuou Pantasilea. — Os espiões deles vasculham a cidade, buscando nossos aliados e os expondo sempre que podem. Maquiavel descobriu os nomes de alguns deles, e esses ele também manda frequen­temente para mim pelos pombos. Enquanto isso, Rodrigo acrescentou ainda mais novos membros à Cúria em uma tentativa de manter o equi­líbrio de poder dentre os cardeais. Como você sabe, ele tem décadas de experiência na política do Vaticano.

— De fato, isso ele tem.

— Você precisa levar esses nomes consigo quando voltar a Roma. Eles lhe serão úteis.

— Estou pasmo de admiração, madonna.

— Cace essas pessoas, elimine-as se possível, e todos nós vamos res­pirar mais aliviados.

— Tenho de voltar a Roma sem atraso. E lhe direi algo que me faz respirar mais aliviado.

— O quê?

— O que você acaba de me revelar prova sem dúvida que Maquiavel é um de nós. — Mas então Ezio hesitou. — Mesmo assim...

— O que foi?

— Tenho um arranjo similar com Bartolomeo. Dê-me uma sema­na, e então peça a ele que vá se encontrar comigo na Ilha Tiberina. Ele conhece o lugar, e ouso crer que você também. Diga-lhe que leve o que descobriu sobre Rodrigo e Cesare.

— Você ainda duvida de Maquiavel?

— Não, mas tenho certeza de que você irá concordar que é melhor confirmar toda informação que se recebe, ainda mais em tempos como esses.

Uma sombra pareceu passar no rosto dela, mas então Pantasilea sor­riu e respondeu:

— Ele estará lá.

 

De volta a Roma, Ezio fez sua primeira parada no bordel mencionado por Maquiavel como outra fonte de informações. Talvez alguns dos nomes que ele estava enviando para Pantasilea por meio de pombos-correios viessem de lá. Ezio precisava descobrir como as garotas conseguiam as informações, e decidiu ir até lá sem revelar sua identidade. Se elas sou­bessem quem ele era, talvez lhe oferecessem apenas as informações que elas achavam que ele queria ouvir.

Chegou ao endereço e leu a placa: Rosa in Fiore. Não restavam dú­vidas de que aquele era o lugar, porém, não parecia o tipo de casa que os Bórgia frequentassem normalmente. A não ser que fossem lá para visitar os pobres. Certamente nem se comparava ao estabelecimento de Paola em Florença, ao menos pelo lado de fora. Entretanto, o estabele­cimento de Paola também mantinha uma fachada discreta. Ele bateu hesitante na porta.

Ela foi aberta imediatamente por uma jovem muito atraente, cheia de curvas, com mais ou menos 18 anos. Usava um vestido de seda com aparência desgastada.

A moça lhe deu um sorriso profissional.

— Bem-vindo, estranho! Bem-vindo ao Rosa in Fiore.

— Salve — disse ele enquanto adentrava. A sala de recepção era cer­tamente melhor do que o exterior, mas, ainda assim, tinha um ar de abandono.

— O que você gostaria de fazer hoje? — perguntou a moça.

— A Srta. poderia chamar a sua chefe para mim?

Os olhos da garota se apertaram.

Madonna Solari não está.

— Entendo.

Ele parou por um momento, incerto do que fazer.

— Você sabe onde ela está?

— Ela saiu.

A garota estava visivelmente menos amistosa.

Ezio ofereceu seu sorriso mais charmoso, mas ele já não era um ga­roto e percebeu que não conseguiria ter nenhum efeito sobre a moça. Ela concluiu que ele deveria ser algum tipo de oficial. Droga! Bem, se ele quisesse se aprofundar mais, teria de fingir ser um cliente. E se fingir significasse, de fato, virar um cliente, então ele o faria.

Havia acabado de decidir seu curso de ação quando a porta se abriu repentinamente e outra moça entrou, com o cabelo bagunçado e o ves­tido amarrotado. Estava em prantos

Aiuto! Aiuto! — gritou ela, desesperada. — madonna Solari... — choramingou, incapaz de falar.

— O que aconteceu, Lucia? Componha-se. O que você está fazendo de volta tão cedo? Pensei que tivesse saído com a madonna e alguns clientes.

— Aqueles homens não eram clientes, Agnella! Eles... eles disseram que estavam nos levando a um lugar que conheciam perto do rio Tibre, mas havia um barco aportado lá. Eles começaram a nos bater e sacaram as facas. Levaram a madonna Solari a bordo e a acorrentaram.

— Lucia! Dio mio! Como você conseguiu escapar? — Agnella abra­çou a amiga e levou-a até um sofá encostado na parede. Pegou um lenço e passou suavemente no inchaço vermelho que estava começando a apa­recer no rosto de Lucia.

— Eles me deixaram voltar, me enviaram de volta com uma mensa­gem. São mercadores de escravos, Agnella! Eles disseram que só a liber­tarão se nós pudermos comprá-la de volta! Do contrário, eles a matarão.

— Quanto eles querem? — perguntou Ezio.

— Mil ducados.

— E quanto tempo eles deram?

— Eles esperarão por uma hora.

— Então ainda temos tempo. Esperem aqui! Eu vou resgatá-la.

Cazzo, pensou Ezio. A situação é ruim. Eu preciso falar com aquela mulher.

— Onde eles estão exatamente?

— Em um píer, messere. Perto da Ilha Tiberina. Você conhece o lugar?

Conheço muito bem.

Ezio correu. Não haveria tempo de ir ao banco de Chigi e nenhuma das três filiais ficava no caminho, portanto, ele precisou apelar para um agiota, que barganhou duramente, mas acabou emprestando a quanti­dade de dinheiro necessária para inteirar mil ducados, com o dinheiro que Ezio já levava. Com o dinheiro em mãos, mas determinado a não entregar nem um centavo se pudesse evitar, ele jurou para si mesmo cobrar os juros que teria de pagar ao agiota dos desgraçados que leva­ram justamente a pessoa com quem ele mais precisava falar. Alugou um cavalo e cavalgou apressadamente pelas ruas em direção ao rio Tibre, assustando a todos que nelas estavam àquela hora.

Ele encontrou, sem dificuldade, o barco — quase um pequeno navio —, desmontou e correu até o fim do píer onde ele estava ancorado, gri­tando o nome de madonna Solari.

Mas os bandidos estavam preparados. Já havia dois homens no con­vés, mirando pistolas na direção dele. Os olhos de Ezio se apertaram. Pistolas? Nas mãos de simples bandidos?

— Nem mais um passo.

Ezio deu um passo para trás, mas manteve o dedo no gatilho de sua lâmina oculta.

— Trouxe a porra do dinheiro, cara?

Ele mostrou a bolsa de dinheiro lentamente com a outra mão.

Ótimo. Agora vamos ver se o capitão está de bom humor e não corta a garganta dela.

— Capitão?! Quem diabos você pensa que é? Traga a mulher para fora! Agora!

O ódio na voz de Ezio assustou o comerciante de escravos que ti­nha falado. Ele se virou lentamente e chamou alguém no porão, que com certeza ouviu toda a conversa, já que dois homens subiram a ram­pa vindos de baixo, empurrando uma mulher de mais ou menos 35 anos. A maquiagem estava toda borrada tanto pelas lágrimas quanto pelos maus-tratos. Havia marcas de feridas no rosto, nos ombros e nos seios, que ficaram expostos onde o vestido lilás fora rasgado. Havia sangue na parte de baixo do vestido e ela estava agrilhoada nos pés e nas mãos.

— Aqui está o pequeno tesouro — zombou o mercador que havia falado primeiro.

Ezio respirou fundo. Eles estavam em uma curva isolada do rio, mas ele podia enxergar a Ilha Tiberina a cinquenta metros de distância. Se ao menos pudesse se comunicar com os amigos... Mas se eles ouvissem alguma coisa, apenas presumiriam ser um bando de marinheiros bêba­dos e, Deus sabe, havia bastante deles nas margens do rio hoje em dia. Se Ezio elevasse a voz para pedir ajuda, La Solari seria morta imediatamen­te e ele também, a não ser que os atiradores fossem muito ruins, pois a distância era mínima.

No momento em que os olhos desesperados da mulher encontraram Ezio, um terceiro homem, vestido com os restos esfarrapados do que um dia foi uma casaca de capitão, subiu a escada. Ele olhou para Ezio e para o saco de dinheiro.

— Jogue para cá — disse ele, com uma voz dura.

— Ela primeiro. E tire os grilhões.

— Você é surdo, seu idiota? Jogue. O. Maldito. Dinheiro!

Ezio se moveu involuntariamente na direção dele. As armas foram erguidas no mesmo instante, o capitão sacou um alfanje e os outros dois seguraram a mulher com mais força, fazendo-a gemer de dor.

— Nem mais um passo! Se chegar perto, ela morre!

Ezio parou, mas não recuou. Mediu a distância de onde ele estava para o convés com os olhos. Os dedos dele tremiam sobre o gatilho da lâmina oculta.

— Eu estou com o dinheiro todo aqui — disse ele, balançando a bolsa e dando mais um passo enquanto os homens estavam distraídos olhando para ela.

— Fique onde está! Não me teste. Se você chegar mais perto, eu mato a mulher!

— Se fizer isso, perderá o dinheiro.

— Ah, é? Há cinco de nós e você é um só. Nem pense que é capaz de pisar no meu convés sem virar uma peneira de balas.

— Liberem ela primeiro!

— Qual é o seu problema? Você é demente? Ninguém se aproxima desse maldito barco! A não ser que você queira que essa puttana morra!

— Messere! Aiutateme! — choramingou a mulher.

— Cale essa boca, sua vadia! — rosnou um dos homens que a segu­ravam, enquanto a acertava no rosto com o cabo da adaga.

— Tudo bem! — gritou Ezio, ao ver o sangue escorrendo do rosto da mulher. — Já chega. Soltem ela. Agora!

E ele jogou a bolsa de dinheiro aos pés do “capitão”.

Agora melhorou — disse o comerciante de escravos. — Vamos concluir a negociação.

Antes que Ezio pudesse reagir, o capitão colocou a lâmina no pes­coço da mulher e cortou a garganta dela profundamente, quase arran­cando a cabeça.

— Se quiser reclamar, fale com messere Cesare — zombou o homem enquanto o corpo caía no convés em uma poça de sangue. Quase imper- ceptivelmente, ele gesticulou para os dois homens armados.

Ezio sabia o que ia acontecer e estava preparado. Rápido como um relâmpago, ele desviou dos dois tiros e, no mesmo movimento, saltou no ar e acionou a lâmina oculta. Caiu sobre um dos homens que seguravam a prisioneira, esfaqueando-o pelo olho esquerdo e penetrando até o cé­rebro. Antes que o homem caísse ao chão, Ezio, desviando de um golpe certeiro do capitão, cravou a lâmina na barriga do segundo homem que guardava a mulher, bem baixo, se movendo enquanto penetrava. A lâ­mina não foi projetada para cortar e entortou um pouco, rasgando em vez de cortar. Mas isso não fez diferença.

Agora ele precisava dar conta dos atiradores. Como era de se es­perar, tentavam desesperadamente recarregar. Mas o pânico os havia deixado desajeitados. Ezio recolheu rapidamente a lâmina e desembai­nhou a adaga pesada. A luta acontecia em um alcance muito curto para permitir o uso de espada. Além disso, ele precisava da lâmina pesada e serrilhada da adaga. Com um movimento, decepou a mão que segurava a arma de um dos homens e depois cravou a adaga em sua costela. Mas ainda não tinha acabado, pois o outro atirador, vindo por trás, acertou a cabeça dele com o cabo da pistola. Por sorte, o golpe não foi preciso e Ezio, sacudindo a cabeça, virou-se e conseguiu cravar a adaga no co­ração do atacante, que já estava preparado para tentar outro golpe e, ao levantar o braço, deixou o peito exposto.

Ezio olhou em volta. Onde estava o capitão?

Ele enxergou o homem correndo desajeitadamente pela margem do rio, levando a bolsa de dinheiro. Um idiota, pensou Ezio, ele devia ter pegado o cavalo. Pânico novamente. Ezio correu atrás do homem, alcançando-o com facilidade, porque a bolsa de dinheiro estava pesada demais. O Assassino segurou o capitão pelo cabelo e chutou as pernas dele, forçando-o a ficar de joelhos com a cabeça para trás.

— Agora você vai provar seu próprio remédio — disse, e fez com o capitão exatamente o mesmo que ele havia feito à mulher.

Ezio pegou o saco de dinheiro e deixou o corpo cair no chão para apodrecer. Voltou ao barco catando as moedas que haviam caído pelo caminho. Um dos homens, que estava ferido, gemia caído no convés. Ezio o ignorou e desceu ao porão, para revistar a cabine. Encontrou ra­pidamente um pequeno cofre, que abriu com facilidade usando a adaga ensanguentada. Estava repleto de diamantes.

— Isso vai servir — disse Ezio para si mesmo, segurando o baú de­baixo do braço e voltando para o convés.

Ele colocou o saco de dinheiro e o cofre com os diamantes nos alfor­jes de seu cavalo e guardou também as duas pistolas. Depois, caminhou de volta até o homem ferido, quase escorregando na poça de sangue que se formava. Ele se agachou e cortou um dos tendões de aquiles do homem, com a mão sobre a boca dele para abafar o grito. Isso provavel­mente o atrasaria, de uma vez por todas.

Colocou a boca perto do ouvido dele e sussurrou.

— Se você sobreviver — disse ele — e voltar até aquele saco de es­trume bexiguento que você chama de mestre, diga a ele que isso aqui foi feito com os cumprimentos de Ezio Auditore. Se não sobreviver, requiescat in pace.

 

Ezio não retornou ao bordel imediatamente. Já era tarde. Ele devolveu o cavalo, comprou uma sacola do rapaz da estrebaria por algumas moe­das e guardou o espólio e o dinheiro nela. Jogou-a por cima do ombro e caminhou até o agiota, que ficou surpreso e desapontado ao vê-lo de volta tão cedo. Ezio pagou ao homem o que devia e caminhou até o alojamento, tomando o cuidado de se misturar com as pessoas ao ver guardas dos Bórgia.

Ao chegar lá, pediu água para se banhar, tirou a roupa e, cansado, se lavou, desejando que Caterina aparecesse mais uma vez à sua porta para surpreendê-lo. Mas dessa vez, ninguém o interrompeu. Trocou as roupas por outras novas e enfiou as que estivera vestindo em um saco, pois ficaram arruinadas pelo dia de trabalho. Haveria tempo para se li­vrar delas mais tarde. Limpou as pistolas e as guardou na bolsa. Pensou em ficar com elas, mas eram pesadas e incômodas, então decidiu en­tregá-las a Bartolomeo. A maioria dos diamantes iria para Bartolomeo também, mas, após examiná-los, escolheu cinco dos melhores e maiores e guardou-os consigo. Assim, não precisaria ficar procurando dinheiro caso precisasse novamente.

Todo o resto iria para La Volpe, para ser enviado ao quartel. Se não se pode confiar em um ladrão amistoso, em quem mais se poderia confiar?

Ezio estava pronto para sair novamente. Já tinha jogado a sacola so­bre o ombro e posto a mão na maçaneta quando sentiu o cansaço bater. Estava cansado de matar. Cansado da ganância e da sede de poder, can­sado da miséria que tudo aquilo gerava.

Estava quase cansado da própria luta.

Tirou a mão da maçaneta e deixou a sacola cair sobre a cama. Tran­cou a porta e tirou novamente a roupa. Soprou a vela e desabou na cama. Teve tempo apenas de lembrar-se de abraçar a sacola e protegê-la antes de dormir.

Ezio sabia que seu descanso não duraria muito.

Na Raposa Adormecida, Ezio entregou a sacola com instruções precisas. Não era de seu feitio delegar esse tipo de trabalho, mas, em Roma, era necessário. Os relatos que os espiões de La Volpe trouxeram foram pou­cos, mas os resultados coincidiram exatamente com os que Maquiavel havia enviado por pombo-correio a Pantasilea, o que praticamente ex­cluiu quaisquer dúvidas remanescentes sobre seu amigo. Apesar disso, podia ver que La Volpe mantinha reservas. Era compreensível. Maquia­vel poderia ser visto como um homem distante e frio. Apesar dos dois serem compatriotas florentinos, e Florença não ter nenhuma estima por Roma, especialmente pelos Bórgia, parecia que La Volpe, a despeito de todas as evidências, ainda tinha dúvidas.

— Pode chamar de intuição. — Foi tudo que o homem disse ao ser questionado por Ezio.

Não havia notícias sobre a Maçã, exceto de que ela ainda estava em poder dos Bórgia. Mas não se sabia se estaria com Rodrigo ou com Cesare. Rodrigo conhecia bem o potencial dela, mas parecia imprová­vel a Ezio que ele fosse revelar o que sabia ao filho, dada a tensão atual entre eles. Já Cesare era a última pessoa vista em posse dela, mas não havia sinais de que a teria usado. Ezio rezou para que a pessoa que tinha recebido a Maçã para estudo, se é que isso aconteceu mesmo, estivesse perplexa com seus mistérios ou os estivesse escondendo de seu mestre.

Maquiavel estava desaparecido. Mesmo no esconderijo dos As­sassinos na Ilha Tiberina não havia notícias. A única informação que Ezio conseguiu foi a de que ele estava “fora”, mas não havia notícias de que estivesse em Florença. Baldassare Castiglione e Pietro Bembo, dois jovens amigos que estavam temporariamente em Roma e toma­vam conta do esconderijo, eram totalmente confiáveis e já haviam se tornado membros da Irmandade, pois um deles tinha conexões com Cesare e o outro com Lucrécia. Era uma pena que eles precisassem voltar para Mântua e Veneza respectivamente. Ezio se consolou com o fato de que eles ainda poderiam ser úteis mesmo em suas cidades natais.

Satisfeito por ter feito tudo que podia naquele lugar, Ezio voltou a pensar no Rosa in Fiore.

Dessa vez, quando chegou ao bordel, as portas estavam abertas. O lugar parecia mais arejado e claro. Ele lembrava o nome das garotas que conheceu na visita anterior e, após dar os nomes às mulheres mais ve­lhas e sofisticadas que o atenderam, dessa vez protegidas por dois jo­vens, educados e fortes guardas, foi levado ao pátio interno. Foi lhe dito que poderia encontrar as garotas lá.

O pátio interno era um jardim de rosas, cercado por enormes pare­des de tijolos vermelhos. Uma pérgula quase escondida sob as exube­rantes flores corria por uma das paredes, e no centro havia uma peque­na fonte rodeada por banquinhos brancos de mármore. As garotas que ele procurava estavam com um grupo de moças, conversando com duas mulheres mais velhas que estavam de costas para ele. Mas, quando Ezio se aproximou, as duas se viraram.

Estava decidido a se apresentar, tentaria uma abordagem diferente dessa vez, quando veio a surpresa.

— Mãe! Claudia! O que vocês estão fazendo aqui?

— Esperando por você. Antes de partir, ser Maquiavel nos disse que poderíamos encontrá-lo aqui.

— Onde ele está? Vocês o viram em Florença?

— Não.

— Mas o que estão fazendo aqui em Roma? — repetiu ele, estupefa­to. Estava chocado e ansioso. — Florença foi atacada?

— Não, o motivo não é esse, mas os boatos eram verdadeiros. Nosso palazzo foi destruído. Não nos resta nada lá.

— E, ainda que não estivesse em ruínas, eu nunca poderia voltar ao rocca de Mário em Monteriggioni — comentou Claudia.

Ezio olhou para ela e concordou. Ele sabia que uma região isola­da como Monteriggioni era desconfortável para uma mulher como ela, mas seu coração estava cheio de dúvidas.

— Por isso tivemos de vir para cá. Conseguimos uma casa em Roma. Nosso lugar é ao seu lado — afirmou Maria.

Vários pensamentos passaram pela mente de Ezio. No fundo do co­ração, apesar de não poder admitir conscientemente, ele ainda pensava que poderia ter impedido a morte de seu pai e seu irmão. Ele havia fa­lhado com eles. Maria e Claudia eram tudo que restava de sua família. Será que não falharia com elas também? Não queria que elas dependes­sem dele.

Ezio atraía o perigo. Se elas estivessem por perto, não atrairia o peri­go para sua mãe e irmã também? Não queria ter a vida delas nas mãos. Seria melhor se elas fossem para Florença, onde tinham amigos, onde sua segurança, em uma cidade sob o controle de Piero Soderini, seria assegurada.

— Ezio — insistiu Claudia, interrompendo os pensamentos dele —, nós queremos ajudá-lo.

— Eu queria mantê-las a salvo enviando-as a Firenze. — Ezio tentou ocultar a impaciência na voz, mas percebeu que sua irritação era clara.

Maria e Claudia olharam em choque e, apesar da mãe ter relevado rapidamente, Claudia havia ficado ofendida e magoada. Teria ela adivi­nhado seus pensamentos?

Por sorte, eles foram interrompidos por Agnella e Lúcia.

— Messere, com licença, estamos ansiosas. Ainda não sabemos o que aconteceu com madonna Solari. Você sabe o que aconteceu com ela?

Ezio ainda estava pensando em Claudia e no jeito como ela olhou para ele, mas sua atenção se voltou para a pergunta. Cesare deve ter fei­to um ótimo trabalho para encobrir tudo. Por outro lado, corpos eram encontrados no Tibre quase todos os dias, e alguns eram encontrados vários dias depois de mortos.

— Ela está morta — disse ele abruptamente.

— O quê? — gritou Lucia

— Merda — disse Agnella, sucinta.

A notícia se espalhou rápido entre as garotas.

— O que faremos agora? — perguntou uma delas.

— Teremos de fechar? — indagou outra.

Ezio deduziu a fonte da ansiedade delas. Sob o comando de Madon­na Solari, por mais ineficiente que Maquiavel a considerasse, as garotas coletavam informações para os Assassinos. Sem proteção e, como sugeria a morte de Solari, com Cesare suspeitando das atividades do Rosa in Fiore, que futuro elas teriam? Por outro lado, se ele achasse que existiam outras espiãs além de Solari no lugar, já não teria atacado?

Essa era a resposta. Ainda havia esperança.

— Vocês não podem fechar — disse ele —, eu preciso da ajuda de vocês.

— Mas messere, sem alguém para administrar as coisas, não pode­mos continuar.

Uma voz perto dele disse, decididamente:

— Eu administro.

Era Claudia.

Ezio virou-se para ela e disse:

— Aqui não é o seu lugar, irmã!

— Eu sei administrar um negócio — respondeu ela, continuando em seguida. — Eu administrei as propriedades do tio Mario por vários anos.

— Mas isso é diferente!

A mãe deles interveio, com voz calma.

— Que escolha você tem, Ezio? Precisa arrumar alguém rápido, evi­dentemente, e sabe que pode confiar na sua irmã.

Ezio viu a lógica da escolha, mas isso significaria colocar Claudia na linha de frente, exatamente no lugar onde ele não queria que ela estives­se. Ele a encarou, e ela retornou o olhar de forma desafiadora.

— Se quiser fazer isso, Claudia, estará por conta própria. Não terá proteção especial da minha parte.

— Eu tenho vivido perfeitamente bem sem ela por vinte anos — re­trucou ela de modo seco.

— Muito bem — concordou Ezio, com frieza. — Mãos à obra, então. Primeiro, eu quero este lugar totalmente limpo, redecorado e melhora­do de todas as formas possíveis. Até este jardim precisa ser refeito. Que­ro que este lugar se torne o melhor estabelecimento da cidade. E Deus sabe quanta concorrência nós temos. Quero as garotas limpas. Essa tal Nova Doença, que ninguém conhece muito bem, tem se espalhado real­mente rápido em cidades portuárias e nas maiores cidades, então, acho que vocês sabem o que isso quer dizer.

— Nós faremos tudo o que disse — respondeu Claudia friamente.

— É melhor mesmo. E mais uma coisa. Enquanto estiverem traba­lhando, preciso que suas cortesãs descubram a localização de Caterina Sforza — continuou ele, com o rosto imutável.

— Pode contar conosco.

— Você está no meio da guerra agora, Claudia. Se cometer qualquer erro, virão atrás da sua cabeça.

— Posso me cuidar, irmão.

— Espero que sim — esbravejou Ezio, dando meia-volta.

 

Ezio ficou ocupado pelas semanas seguintes, consolidando as forças restantes da Irmandade em Roma e decidindo como poderia usar as informações iniciais obtidas por La Volpe e nos relatórios recebidos de Bartolomeo. Ele não se dava ao luxo de acreditar que a maré estava se virando contra os Bórgia, mas esse poderia ser o começo do fim. Porém, ele se lembrou de um antigo adágio sobre como era mais fácil controlar um leão jovem do que se aproximar de um mais velho e experiente. E, contradizendo o seu otimismo cauteloso, havia o fato de que o controle de Cesare sobre Romagna estava cada vez mais forte e de que os france­ses dominavam Milão. Além disso, os franceses não haviam suspendido seu suporte ao comandante papal. Anos antes, o cardeal de San Pietro in Vincula, Giuliano della Rovere, o grande inimigo do papa, tentou voltar os franceses contra os Bórgia e derrubar Alexandre de seu trono, mas Alexandre foi mais esperto do que ele. Como poderia Ezio triunfar onde della Rovere havia falhado? Pelo menos, ninguém envenenou o cardeal. Ele era poderoso demais para isso. E continuava sendo o ás na manga de Ezio.

Ele havia finalmente decidido, em segredo, que sua missão deve­ria ser encorajar a Irmandade a realocar o quartel-general permanen­temente para Roma. Lá era o centro dos negócios — e da corrupção —  do mundo. Que outro lugar seria melhor, agora que Monteriggioni não era mais uma opção viável? Também tinha planos para um sistema de distribuição dos fundos da Irmandade como recompensa a missões bem-sucedidas cumpridas por Assassinos. Aqueles diamantes que reco­lheu dos comerciantes de escravos seriam uma ótima adição aos fundos de campanha.

Um dia...

Mas “um dia” ainda estava muito longe. A Irmandade ainda não ha­via escolhido um novo líder, apesar do senso comum e por virtude de suas ações, ele e Maquiavel terem se tornado seus líderes temporários. Mas eram apenas temporários. Nada havia sido ratificado por um con­selho formal.

E Caterina continuava em sua mente.

Ele permitiu que Claudia supervisionasse a renovação do Rosa in Fiore sem nenhuma interferência. Deixou que ela nadasse ou afundasse por conta da própria autoconfiança. Não seria culpa dele se ela fracas­sasse. Mas o bordel era um ponto importante na rede de informações dele, e Ezio acabou admitindo para si mesmo que, se não tinha nenhu­ma confiança na capacidade da irmã, deveria ter cobrado mais dela des­de o começo. Agora era hora de colocar o trabalho de Claudia — o que ela havia conseguido — à prova.

Ao chegar ao Rosa in Fiore, ele ficou tão surpreso quanto satisfeito. O lugar tinha se tornado tão bem-sucedido quanto suas outras transforma­ções na cidade e no quartel de Bartolomeo, apesar de Ezio ser modesto e realista o suficiente para não levar todo o crédito por nenhuma delas. Mas ele escondeu seu contentamento ao observar os suntuosos cômodos cobertos por tapeçarias, almofadas de seda macias e com garrafas de vi­nho branco resfriadas com gelo — um luxo extremamente caro.

As moças pareciam damas, não prostitutas, e a julgar pelos seus mo­dos, alguém certamente as ensinou grande refinamento. Quanto à clien­tela, pôde supor que os negócios iam muito bem e, apesar de ter certas reservas quanto à natureza da clientela antes, agora não havia dúvidas. Ao olhar ao redor no salão central, pôde ver pelo menos uma dúzia de cardeais e senadores, assim como vários membros da Câmara Apostóli­ca e outros oficiais da Cúria.

Todos felizes, relaxados e sem suspeitar de nada. Pelo menos era o que ele esperava. Mas a prova final estaria na qualidade das informações obtidas daquele bando de porcos corruptos pelas cortesãs de Claudia.

Ezio viu sua irmã, vestida castamente para seu alívio, falando de forma carinhosa (pelo menos a seu ver) com Ascanio Sforza, o ex-vice-chanceler da Cúria, outra vez em Roma após sua breve desgraça, ten­tando comprar seu retorno às graças papais. Quando Claudia viu Ezio, sua expressão mudou. Ela pediu licença ao cardeal e caminhou na dire­ção do irmão, com um sorriso frágil no rosto.

— Bem-vindo ao Rosa in Fiore, irmão — disse ela.

— Obrigado — respondeu ele sem sorrir.

— Como você pode ver, é o bordel mais popular de Roma.

— Corrupção ainda é corrupção, por mais bem vestida que esteja.

Ela mordeu o lábio.

— Nós fizemos um bom trabalho. E não se esqueça da razão pela qual este lugar realmente existe.

— Sim — respondeu ele. — O dinheiro da Irmandade parece ter sido muito bem investido.

— Não é só isso. Venha ao meu escritório.

Para a surpresa de Ezio, Maria estava lá, cuidando da papelada com alguns contadores. Mãe e filho se cumprimentaram discretamente.

— Eu quero lhe mostrar isso — disse Claudia, pegando um livro.

— Aqui está uma lista de todas as habilidades que ensinei às minhas meninas.

— Suas meninas? — Ezio não conseguiu conter o sarcasmo na voz. A irmã dele estava se adaptando a isso tão bem quanto um pato se adap­ta à água.

— Por que não? Dê uma olhada. — Ela agora falava mais severa.

Ele folheou o livro.

— Você não está ensinando muito a elas.

— Acha que faria melhor? — retrucou ela, sarcasticamente.

— Nessun problema — falou Ezio, desagradável.

— Percebendo problemas, Maria abandonou os contadores e se dirigiu a eles.

— Ezio, os Bórgia tornam a vida das garotas de Claudia bem difícil. Elas não se metem em confusão, mas é difícil evitar suspeitas. Há várias coisas que você poderia fazer para ajudá-las...

— Manterei isso em mente, preciso fazer uma avaliação delas pri­meiro. — Ezio se virou novamente para Claudia. — Mais alguma coisa?

— Não. — Ela fez uma pausa e disse: — Ezio...

— Sim?

— Nada.

Ezio se virou para ir embora. Por fim, disse:

— Você encontrou Caterina?

Estamos trabalhando nisso — respondeu Claudia friamente.

— Fico feliz em saber. Bene. Venha me encontrar na Ilha Tiberina no instante em que descobrir o local exato do cativeiro dela. — Ele in­clinou a cabeça para ouvir o som da alegria vindo do salão principal. — Com toda essa clientela, não deve ser tão difícil.

E com isso ele partiu.

Já na rua, ele se sentiu mal pelo jeito como as tratou. Elas estavam fa­zendo um ótimo trabalho. Mas será que Claudia seria capaz de se man­ter sozinha?

Intimamente, Ezio encolheu os ombros. Mais uma vez, ele percebeu que a verdadeira fonte de sua fúria era a própria ansiedade sobre o fato de ser capaz de proteger seus entes queridos. Precisava delas, ele sabia, mas estava consciente de que o temor pela segurança das duas o tornava vulnerável.

 

A tão aguardada reunião de Ezio com Maquiavel finalmente aconteceu na Ilha Tiberina, logo depois da conversa no bordel. Ezio permaneceu reservado no início. Não gostava quando algum dos Irmãos desaparecia sem dizer para onde, mas ele acreditava, no fundo do coração, que de­veria abrir uma exceção para Maquiavel. E de fato, a Irmandade era uma associação de indivíduos livres de mente e espírito, agindo juntos não por coerção ou obediência, mas por interesses comuns. Ele não tinha direito algum de controlar nenhum deles.

Sério e determinado, apertou a mão de seu antigo amigo. Maquiavel evitou o calor de um abraço.

— Precisamos conversar — disse Ezio.

— Certamente que sim. — Maquiavel olhou para ele. — Creio que você esteja sabendo do meu pequeno acordo com Pantasilea?

— Sim.

— Muito bom. Aquela mulher tem mais senso de estratégia no dedo mindinho do que o marido dela tem no corpo inteiro. Não que ele não seja o melhor homem possível na sua própria especialidade. — Ele fez uma pausa.— Eu consegui adquirir algo de grande valor de um de meus contatos. Agora temos uma lista com o nome dos nove principais tem­plários recrutados por Cesare para aterrorizar Roma.

— Basta me dizer como encontrar todos eles.

Maquiavel ponderou.

— Sugiro que procure por sinais de confusão em qualquer um dos distritos da cidade. Fale com as pessoas. Talvez descubra cidadãos dis­postos a lhe indicar o caminho certo.

— Você conseguiu essa informação com um oficial dos Bórgia?

— Sim — disse Maquiavel cautelosamente, após uma breve pausa.

— Como você sabe?

Ezio, pensando no encontro que ele e La Volpe tinham testemu­nhando no mercado, ponderou que aquele poderia não ter sido o pri­meiro. Maquiavel deve ter investido bastante naquele contato depois daquele dia.

— Palpite de sorte — respondeu. — Grazie.

— Olhe. Claudia, Bartolomeo e La Volpe estão esperando por você na sala interna. — Ele fez uma pausa. — Isso foi um palpite de sorte.

— Virtú, caro Nicolau, só isso — retrucou Ezio, andando na frente.

— Virtude? — repetiu Maquiavel para si mesmo, seguindo Ezio.

Os companheiros da Irmandade estavam esperando quando ele en­trou no santuário interno do esconderijo. Seus rostos estavam sombrios.

Buona sera — disse Ezio, indo direto ao assunto. — O que vocês descobriram?

Bartolomeo foi o primeiro a falar.

— Descobrimos que aquele bastardo do Cesare está agora no Castel Sant’Angelo, com o papa.

La Volpe continuou:

— E meus espiões confirmaram que a Maçã foi mesmo entregue a alguém para ser estudada secretamente. Estou trabalhando para desco­brir a identidade dessa pessoa.

— Não podemos deduzir?

— Deduções não nos servem de nada. Precisamos saber com certeza.

— Eu tenho notícias de Caterina Sforza — revelou Claudia. — Ela será levada à prisão do castelo na próxima semana, na quinta-feira ao cair da noite.

O coração de Ezio parou involuntariamente ao ouvir aquela notícia. Mas todos os relatos eram bons.

— Bene — comentou Maquiavel. — Então é para o castelo que ire­mos. Roma irá se recuperar rapidamente depois que Cesare e Rodrigo morrerem.

Ezio levantou a mão.

— Eu só o farei se a oportunidade correta de assassinar os dois surgir.

Maquiavel ficou irritado.

— Não repita o erro que cometeu na Câmara. Você precisa matá-los dessa vez.

— Eu concordo com Nicolau — afirmou Bartolomeo. — Não deve­mos esperar.

— Bartolomeo está certo — concordou La Volpe.

— Eles devem pagar pela morte de Mario — disse Claudia.

Ezio os acalmou, dizendo:

— Não se preocupem, meus amigos. Eles morrerão. Vocês têm a mi­nha palavra.

 

No dia marcado para a transferência de Caterina para o Castel Sant’Angelo, Ezio e Maquiavel se juntaram à multidão que se reuniu diante de uma bela carruagem, com as cortinas fechadas por persianas e o símbolo dos Bórgia na porta. Os guardas em torno da carruagem mantinham as pessoas afastadas, como era de se imaginar, pois o humor do povo não era de um entusiasmo unânime. Um dos cocheiros saltou de seu banco e deu a volta na carruagem rapidamente para abrir a porta lateral, puxou os degraus e ficou preparado para ajudar os ocupantes a descerem.

Depois de um breve momento, a primeira figura surgiu, usando um vestido longo azul-escuro com um corpete. Ezio reconheceu imediata­mente a belíssima loira com lábios cruéis. Ele a havia visto na batalha de Monteriggioni e mais recentemente durante uma tourada, mas era um rosto do qual nunca esqueceria. Lucrécia Bórgia. Ela desceu, cheia de decoro, mas o perdeu quando puxou com força alguma coisa ou alguém de dentro da carruagem.

Ela arrastou Caterina Sforza para fora pelo cabelo e a jogou ao chão. Suja e acorrentada, usando um vestido marrom desgastado, Caterina ainda tinha uma presença e um espírito maior do que a sua captora jamais teria. Maquiavel precisou segurar os braços de Ezio quando ele começou a avançar automaticamente. Ezio já havia presenciado o sofri­mento de pessoas amadas vezes demais. Mas agora era o momento de ter autocontrole. Uma tentativa de resgate ali seria falha na certa.

Lucrécia, com um pé sobre a vítima prostrada, começou a falar:

— Salve, cittadini de Roma! Contemplem esta exuberante visão. Ca­terina Sforza, a prostituta de Forli! Por muito tempo ela nos desafiou! Agora, finalmente, está no lugar que merece!

Houve pouca reação do povo e, aproveitando o silêncio, Caterina levantou a cabeça e gritou:

— Rá! Ninguém se rebaixa mais do que Lucrécia Bórgia. Quem lhe mandou fazer isso? Seu irmão? Seu pai? Talvez um pouco dos dois? Tal­vez ao mesmo tempo, até? Afinal, vocês todos vivem no mesmo antro!

— Chiudi la bocca! — gritou Lucrécia, chutando-a. — Ninguém fala mal dos Bórgia!

Ela se abaixou, puxou Caterina até deixá-la de joelhos e lhe deu um tapa fortíssimo, derrubando-a na lama outra vez. Depois, levantou a ca­beça orgulhosa e disse:

— O mesmo acontecerá com qualquer um, qualquer um, que ousar nos desafiar.

Lucrécia gesticulou para os guardas, que seguraram Caterina, colo­caram-na de pé e a arrastaram na direção dos portões do castelo. Ainda assim, Caterina conseguiu gritar:

— Bom povo de Roma, seja forte. A vez de vocês chegará! Vocês se libertarão deste jugo, eu prometo!

Quando ela desapareceu e Lucrécia entrou de volta na carruagem para segui-la, Maquiavel se virou para Ezio.

— Bem, a contessa parece não ter perdido a presença de espírito.

Ezio sentiu um desalento enorme.

— Eles vão torturá-la.

— É uma pena que Forli tenha caído. Mas nós a recuperaremos. E resgataremos Caterina também. Agora precisamos nos concentrar. Você está aqui agora para matar Cesare e Rodrigo.

— Caterina é uma aliada poderosa, uma de nós. Se conseguirmos ajudá-la agora, enquanto está fraca, ela nos ajudará quando precisarmos.

— Talvez. Mas você precisa matar Cesare e Rodrigo primeiro.

A multidão começou a se dispersar e, além das sentinelas no portão, os guardas dos Bórgia entraram no Castel. Em pouco tempo, só sobra­ram Maquiavel e Ezio, parados nas sombras.

— Deixe-me sozinho, Nicolau — rogou Ezio, conforme a sombra aumentava. — Eu tenho um trabalho a fazer.

Ele olhou para cima, para as paredes inclinadas da antiga estrutura circular, o mausoléu do imperador Adriano, com mais de mil anos, que havia se tornado uma fortaleza inacessível. As poucas janelas ficavam muito altas e as paredes eram muito inclinadas. Era conectada à Basílica de São Pedro por um corredor de pedra fortificado. Havia sido a grande fortaleza papal por duzentos anos.

Ezio estudou as paredes. Nada era completamente impenetrável. Pela luz das tochas que tremulavam nos candeeiros ao cair da noite, os olhos dele começaram a perceber pequenas reentrâncias, fissuras, im­perfeições que, por menores que fossem, lhe permitiriam escalar. De­pois de planejar a rota, ele pulou como um gato, agarrando o primeiro apoio, se concentrando nos dedos e nas pontas dos pés, controlando a respiração. Depois, vagarosamente, começou a escalar a parede, mantendo-se o mais distante possível da luz das tochas.

No meio da subida, encontrou uma abertura, uma janela de pedra sem vidro, sob a qual, no lado de dentro, ficava uma passarela para guar­das. Ele olhou para os dois lados e viu que estava deserta. Silenciosa­mente, Ezio se apoiou e olhou para baixo, para o outro lado da passarela, onde identificou rapidamente um estábulo. Quatro homens andavam por lá e ele reconheceu todos. Cesare estava tendo uma espécie de con­ferência com três de seus principais tenentes: o general francês Octavien de Valois, o associado mais próximo de Cesare, Juan de Bórgia Lanzol de Romaní e um homem magro vestido de preto, com uma cicatriz hor­rível no rosto, Micheletto da Corella, o braço direito de Cesare e seu assassino mais confiável.

— Esqueçam o papa. Vocês respondem somente a mim. Roma é o pilar que sustenta todo o nosso empreendimento. A cidade não pode vacilar. O que quer dizer que vocês também não podem!

— E quanto ao Vaticano? — perguntou Octavien.

— O que tem ele? Não passa de um clube de velhos cansados — res­pondeu Cesare desdenhoso. — Joguem o jogo dos cardeais por enquan­to, em breve não teremos mais nenhuma necessidade deles.

Ao dizer isso, ele passou pela porta que saía do estábulo, deixando os outros três sozinhos.

— Bem, parece que ele deixou Roma para administrarmos — co­mentou Juan algum tempo depois.

— Então a cidade está em boas mãos — respondeu Micheletto.

Ezio escutou mais um pouco, mas nada mais relevante foi dito. Ao menos, nada que ele já não soubesse. Então, continuou a escalar a pare­ de externa, em sua missão de localizar Caterina. Ele viu luzes em outra janela, dessa vez envidraçada, mas aberta aos ares da noite e com um peitoril externo no qual era possível se apoiar parcialmente. Ao fazê-lo, olhou cautelosamente pela abertura e viu um corredor iluminado por velas, com paredes de madeira simples. Lá estava Lucrécia, sentada em um banco forrado, escrevendo em um diário. De tempos em tempos ela erguia o olhar, como se estivesse esperando alguém.

Alguns minutos depois, Cesare entrou por uma porta oposta e cor­reu até a irmã.

— Lucrécia — disse ele, e a beijou de uma maneira nada fraternal.

Depois de se cumprimentarem, ele tirou as mãos dela do próprio pescoço e, ainda segurando-as, olhou-a nos olhos e disse:

— Eu espero que você esteja sendo gentil com a nossa convidada.

Lucrécia fez cara de ódio.

— Aquela boca maldita!... Eu adoraria costurá-la.

Cesare sorriu.

— E eu prefiro bem aberta.

— É mesmo?

Ignorando a zombaria dela, ele continuou:

— Você falou com nosso pai sobre os fundos solicitados pelo meu banqueiro?

— O papa está no Vaticano agora, mas ele pode precisar ser conven­cido quando voltar. Assim como o banqueiro dele. E você sabe como Agostino Chigi é cauteloso.

Cesare riu por um instante.

— Bom, ele certamente não ficou rico sendo descuidado. Mas isso não será um problema, não é mesmo?

Lucrécia colocou os braços ao redor do pescoço do irmão novamen­te, se esfregando contra o corpo dele.

— Não, mas eu fico tão sozinha sem você aqui. Temos passado tão pouco tempo juntos hoje em dia, agora que você vive ocupado com suas outras conquistas.

Cesare a segurou com força contra ele.

— Não se preocupe, minha linda. Em breve, assim que eu assegurar o trono da Itália, farei de você a minha rainha. E essa solidão será coisa do passado.

Ela se afastou um pouco e olhou para ele.

— Mal posso esperar.

Ele passou as mãos pelos belos cabelos loiros dela e disse:

— Comporte-se enquanto eu estiver fora.

Então, depois de mais um beijo demorado, Cesare deixou a irmã e saiu pela mesma porta por onde entrou. Ela, triste, caminhou na direção oposta.

Onde Cesare iria? Será que sairia logo em seguida? Pelo discurso de despedida, parecia provável. Agilmente Ezio manobrou pela parede circular de modo a observar o portão de entrada do castelo.

E foi na hora certa. Enquanto ele observava, o portão estava sendo aberto em meio aos gritos dos soldados:

— Atenção! O capitão-general está partindo para Urbino!

E, logo depois, Cesare apareceu em um cavalo negro acompanhado por um pequeno grupo.

Buona fortuna, padrone Cesare! — gritou um dos oficiais da guarda.

Ezio observou seu arqui-inimigo cavalgando noite adentro. Foi uma visita muito rápida, pensou ele. E não houve nenhuma chance de ma­tá-lo. Nicolau ficará muito desapontado.

 

Ezio voltou sua atenção à tarefa da vez: encontrar Caterina. Bem no alto, no lado oeste do castelo, ele notou uma pequena janela, escavada bem funda na parede. Uma luz tênue emanava dela. Decidiu ir até lá. Ao chegar, percebeu que não havia um parapeito onde pudesse descansar, encontrando somente uma trave estreita sobre a janela onde poderia se segurar com força com uma das mãos.

Ele espiou a sala. Estava vazia, com apenas uma tocha queimando na parede. Parecia ser uma sala de guardas, portanto Ezio deduziu que provavelmente estava no caminho certo.

Mais adiante, na mesma altura, havia outra janela similar. Ezio foi até lá e olhou através das grades, não vendo motivo nenhum para que a janela fosse gradeada. Ninguém que fosse magro o suficiente para pas­sar pela janela seria capaz de descer os 45 metros de parede até o chão e cruzar o campo aberto até o rio e a possível segurança. A luz era ainda mais tênue ali, mas Ezio pode ver imediatamente que se tratava de uma cela.

Então ele respirou fundo ao observar. Lá estava Caterina, ainda acorrentada! Estava sentada em um banco rústico encostado em uma das paredes, mas Ezio não conseguia ver se ela estava atada a ele. Ca­terina estava cabisbaixa e ele não viu se estava acordada ou dormindo.

Independente disso, ela levantou abruptamente a cabeça ao ouvir o barulho forte de batidas na porta.

— Abram a porta! — Ezio ouviu Lucrécia gritar.

Um dos dois guardas do lado de fora, que estavam tirando uma so­neca, obedeceu prontamente.

— Sim, altezza! Imediatamente, altezza.

Uma vez dentro da cela, seguida por um dos guardas, Lucrécia não perdeu tempo. Pela conversa que Ezio ouviu era possível deduzir o mo­tivo de sua fúria: ciúmes. Lucrécia achava que Caterina e Cesare haviam se tornado amantes. Ezio não podia acreditar que fosse verdade. O mero pensamento de Caterina sendo profanada por um monstro daqueles era algo que sua mente se recusava a conceber.

Lucrécia atravessou a cela rapidamente e puxou Caterina pelos cabe­los até que ela ficasse de pé, ficando as duas com o rosto bem próximo.

— Sua vadia! Como foi sua viagem de Forli para Roma? Você viajou na carruagem pessoal de Cesare? O que vocês fizeram?

Caterina olhou-a nos olhos e disse:

— Você é patética, Lucrécia. Ainda mais do que eu pensava, se acha que eu sou como você.

Enfurecida, Lucrécia jogou a mulher no chão.

— Sobre o que vocês falaram? Sobre os planos dele para Nápoles? Você... gostou?

Limpando o sangue do rosto, Caterina disse:

— Eu realmente não lembro.

A insolência quieta de Caterina levou Lucrécia a um estado de fúria cega. Empurrando o guarda, ela pegou uma barra de ferro que servia para travar a porta e bateu com força nas costas de Caterina.

— Acho que você vai se lembrar disso!

Dessa vez, Caterina gritou, em dor intensa. Lucrécia ficou observan­do, satisfeita.

— Muito bom. Agora você está onde merece, finalmente!

Ela jogou a barra de ferro no chão e saiu rapidamente da cela. O guarda a seguiu e a porta foi fechada com força. Ezio percebeu que havia uma grade nela também.

— Tranque a porta e me dê a chave — ordenou Lucrécia do lado de fora.

Ouviu-se um barulho de metal enquanto a porta era trancada e o barulho da corrente com a chave sendo entregue.

— Aqui está, altezza.

A voz do homem tremia.

— Bom. Agora prestem atenção. Se eu voltar aqui e encontrar vo­cês dormindo mais uma vez, serão açoitados Cem chibatadas cada um. Entendido?

— Sim, altezza.

Ezio ouviu os passos de Lucrécia se afastando. Ele pensou. A melhor maneira de chegar até a cela seria por cima.

Escalou até chegar à outra abertura, que dava para uma passarela da guarda. Desta vez, havia sentinelas a postos, mas eram apenas dois guar­das fazendo a ronda juntos. Ele calculou cinco minutos para que eles completassem o circuito e esperou até que passassem por ele, entrando novamente depois disso.

Bem abaixado, Ezio seguiu os guardas à distância e alcançou uma porta que se abria para uma escada de descida. Ele sabia que havia esca­lado dois andares acima de onde a cela de Caterina estava, então desceu dois lances de escada e saiu em um corredor similar àquele onde Cesare se encontrou com Lucrécia. Mas, dessa vez, as paredes eram de pedra, não de madeira. Ezio partiu na direção da cela de Caterina sem encon­trar ninguém, mas passando por várias portas pesadas gradeadas que pareciam ser celas. Seguindo pelo corredor que ia se curvando, acom­panhando o formato do castelo, ele ouviu vozes e reconheceu o sotaque piemontês do guarda que falou com Lucrécia.

— Este lugar não é pra mim — reclamou ele. — Você ouviu o jeito como ela falou comigo? Eu só queria voltar à maldita Turim.

Ezio se inclinou para a frente. Os guardas estavam olhando a porta quando Caterina apareceu na grade. Ela viu Ezio atrás deles por um momento, antes de ele se esconder nas sombras.

— Ah, minhas costas — gemeu ela aos guardas. — Vocês poderiam me dar um pouco de água?

Havia uma jarra de água na mesa próxima a porta à qual os guardas estavam sentados antes. Um deles pegou a jarra e levou-a para perto da grade.

— Mais alguma coisa, princesa? — perguntou ele sarcasticamente.

O guarda de Turim deu uma risada irônica.

— Por favor, tenham piedade — rogou ela. — Se vocês abrirem a porta, posso lhes mostrar uma coisa que vai valer a pena.

Os guardas ficaram sérios imediatamente.

— Não há necessidade, contessa. Nós temos nossas ordens. Tome.

O guarda destrancou a abertura e passou a jarra para Caterina atra­vés dela. Depois a fechou.

— Já era hora de nos renderem, não é? — comentou o guarda piemontês.

— Sim, Luigi e Stefano já deviam ter chegado.

Eles se entreolharam.

— Você acha que aquela vadia da Lucrécia vai voltar aqui por agora?

— Acho que não.

— Então por que não vamos até a sala dos guardas para ver o que está acontecendo?

— Boa ideia. Só vai levar uns minutos mesmo.

Ezio os viu desaparecer na curva da parede e foi até a grade.

— Ezio — sussurrou Caterina. — Que diabos está fazendo aqui?

— Visitando meu alfaiate... O que você acha?

— Pelo amor de Deus, Ezio, você acha que isso é hora para piadas?

— Eu vou tirar você daqui. Hoje.

— Se você fizer isso, Cesare vai caçá-lo como um cão.

— Eu acho que ele já está fazendo isso. Mas os homens dele não parecem tão fanáticos, a julgar por esses dois. Você sabe se eles têm outra chave?

— Creio que não. Os guardas entregaram a chave à Lucrécia. Ela me fez uma visita.

— Eu sei, eu vi.

— E por que você não a impediu?

— Eu estava do lado de fora da janela.

— Lá fora? Você é louco?

— Não, só atlético. Se Lucrécia está com a única chave que existe, é melhor eu ir pegá-la. Sabe onde ela está?

Caterina pensou por um momento.

— Eu a ouvi dizer que seu quarto fica no topo do castelo.

— Ótimo. A chave já é minha! Fique aqui até eu voltar.

Caterina olhou para ele com cara de deboche e mostrou as correntes e a porta.

— Aonde você acha que eu posso ir? — disse ela com um sorriso seco.

 

Ezio já estava acostumado aos contornos das paredes externas do Castel Sant’Angelo e descobriu que, quanto mais alto ele escalava, mais fácil era encontrar lugares onde se segurar. Sua capa esvoaçava com a brisa, e logo ele alcançou o parapeito mais alto, se erguendo silenciosamente sobre ele.

A queda do outro lado foi curta, um metro e meio até uma passarela estreita de tijolos, com uma escadaria de descida, dividida em lances, que levava a um jardim no telhado, com uma pequena construção de pedra bem no centro, um andar de altura e o teto plano. Tinha janelas largas, portanto não era uma fortificação extra, e a luz de muitas velas resplandecia lá dentro. O interior era suntuosamente decorado com ex­tremo bom gosto.

A passarela estava deserta, mas o jardim não. Lucrécia estava sen­tada em um banco sob os galhos de uma grande árvore, de mãos dadas com um belo rapaz que Ezio reconheceu como sendo um dos maiores atores românticos de Roma, Pietro Benintendi. Cesare não ficaria muito satisfeito em saber disso! Ezio, pouco mais do que uma sombra, se es­gueirou pela passarela, chegando o mais perto possível do casal. A lua o ajudava, pois concedia não só luz, mas também algumas sombras bem localizadas. Ele parou e ouviu.

— Eu a amo tanto que meu desejo é cantar o meu amor aos céus! — disse Pietro ardentemente.

Lucrécia o calou.

— Por favor! Você deve sussurrar só para si mesmo. Se Cesare des­cobrisse, eu não sei nem o que aconteceria.

— Mas você é livre, não é? É claro que eu ouvi falar de seu falecido marido e eu sinto muito, mas...

— Cale a boca, seu idiota! — Os olhos de Lucrécia brilharam. — Você não sabe que Cesare mandou matar o duque de Bisceglie? Meu marido foi estrangulado.

— O quê?

— Essa é a verdade.

— O que aconteceu?

— Eu amava meu marido e Cesare ficou com ciúmes. Alfonso era um homem muito bonito e Cesare tinha consciência das mudanças que a Nova Doença lhe causou ao rosto, e Deus sabe que foram muito sua­ves. Ele mandou seus homens emboscarem Alfonso e espancarem-no. Pensou que serviria como um aviso. Mas Alfonso não era um frouxo. Ele atacou de volta. Enquanto ainda estava se recuperando do ataque de Cesare, mandou seus próprios homens retaliarem. Cesare teve sorte de escapar do destino de San Sebastiano! Então, com todo o ódio de seu coração, ele mandou Micheletto da Corella entrar no quarto de Alfonso, onde ele ainda se recuperava, e estrangulá-lo.

Não é possível. — Pietro parecia nervoso.

— Eu amava meu marido. Hoje, finjo amar Cesare para afastar as suspeitas dele. Mas ele é uma cobra, sempre alerta, sempre venenoso.

— Ela olhou nos olhos de Pietro. — Graças a Deus eu tenho você para me consolar. Cesare sempre tem ciúmes de quem detém minha atenção, mas isso não vai nos impedir. Além disso, ele partiu para Urbino para continuar a campanha. Não há nada que possa nos atrapalhar.

— Você tem certeza?

— Eu vou guardar nosso segredo se você guardar também — afir­mou Lucrécia intensamente.

Ela soltou uma de suas mãos da dele e a colou na coxa do ator.

— Oh, Lucrécia! Como seus lábios me chamam! — suspirou Pietro.

Eles se beijaram, delicadamente no início, mas cada vez mais apai­xonadamente em seguida. Ezio mudou de posição e sem querer, um tijolo solto caiu no jardim. Ele ficou completamente parado.

Lucrécia e Pietro se afastaram.

— O que foi isso? — inquiriu ela. — Ninguém tem permissão de acessar o meu jardim ou o meu apartamento sem a minha autorização. Ninguém!

Pietro já estava de pé, olhando ao redor assustado.

— É melhor eu ir embora — disse ele rapidamente. — Eu... Eu preci­so preparar meu ensaio, ler as falas para amanhã de manhã. Eu preciso ir!

Ele deu um último beijo em Lucrécia.

— Adeus, meu amor!

— Fique, Pietro. Eu tenho certeza de que não foi nada!

— Não, já é tarde. Preciso ir embora!

Com uma expressão de tristeza, ele cruzou o jardim e saiu por uma porta na parede de trás.

Lucrécia esperou por um momento, se levantou e estalou os dedos. De dentro de uns arbustos altos saiu um de seus guardas pessoais, que fez uma saudação.

— Eu ouvi toda a conversa, mia signora, e posso testemunhar.

Lucrécia mordeu os lábios.

— Ótimo. Conte a Cesare. Vamos ver o que ele acha do próprio remédio.

— Sim, signora.

Com mais uma saudação, o guarda se foi.

Sozinha, Lucrécia colheu uma margarida em um dos canteiros e co­meçou a arrancar as pétalas uma por uma.

— Bem me quer; mal me quer; bem me quer; mal me quer...

Ezio desceu pela escadaria mais próxima e caminhou até ela. Lucré­cia estava sentada novamente e o viu se aproximar. Ela não demonstrou medo algum, apenas uma leve surpresa. Bom, se restasse mais algum guarda escondido no jardim, Ezio daria conta dele rapidamente.

— Por favor, continue. Eu não queria interromper — cumprimen­tou Ezio, curvando-se em reverência, mas com um óbvio ar irônico.

— Ora, ora. Ezio Auditore de Firenze. — Ela deu a mão para que ele a beijasse. — Que agradável poder enfim conhecê-lo pessoalmente. Ouvi falar muito de você, especialmente nos últimos tempos. Ou pelo menos eu imagino que ninguém mais possa ser responsável pelas pe­quenas confusões que têm acontecido aqui em Roma.

Ela parou por um momento.

— É uma pena que Cesare não esteja mais aqui. Ele teria adorado participar desta reunião.

— Eu não tenho nada pessoal contra você, Lucrécia. Liberte Caterina e eu a deixarei viver.

A voz dela endureceu subitamente.

Creio que isso não seja possível.

Ezio espalmou as mãos e disse.

— Então creio que você não me deixa outra escolha!

Ele se aproximou dela cautelosamente. Ela tinha unhas compridas.

— Guardas!

Lucrécia berrou, se transformando instantaneamente de mulher nobre em uma harpia louca, tentando arranhar os olhos de Ezio. Com reflexos impecáveis, ele segurou o pulso dela. Com um pedaço de corda de sua bolsa, amarrou os pulsos dela por trás das costas rapidamente, jogou-a no chão e pisou na barra do vestido dela de modo que ela não pudesse se levantar e correr. Então, Ezio sacou a espada e a adaga e ficou em guarda, preparado para quaisquer guardas que aparecessem. Para a sorte de Ezio, estavam com armas leves, eram fortes e pesados e não usavam armaduras. Ele não podia mudar de posição, pois não po­deria permitir que Lucrécia, que já estava tentando morder o calcanhar dele, fugisse. Esquivou-se por baixo do golpe da espada do primeiro guarda e lacerou o flanco exposto do sujeito. Um a menos. O segundo foi mais cuidadoso, mas, percebendo Lucrécia rosnando no chão, par­tiu para atacar Ezio. O homem se lançou contra o peito do assassino. Ezio aparou o golpe para cima e travou a guarda das duas espadas. De­pois, simplesmente lhe cravou a adaga na cabeça com a mão esquerda. Dois a menos. O último homem, esperando tirar vantagem do fato de que as duas lâminas de Ezio estavam ocupadas, correu para cima dele. Ezio virou rapidamente o braço direito, lançando a espada do segundo guarda em uma espiral contra o terceiro. O último guarda precisou le­vantar a espada para afastar o golpe, mas não foi rápido o suficiente e a espada voadora o acertou de raspão no braço. O homem estremeceu de dor, mas continuou em frente, brandindo a arma contra o assassino. Ezio já havia recuperado a postura e defendeu o ataque com a adaga, deixando a mão da espada livre para acertar violentamente o torso do homem. Estava acabado. Os guardas estavam mortos ao redor dele e Lucrécia estava quieta pela primeira vez. Ofegante, Ezio colocou a pri­sioneira de pé.

— Agora venha comigo. E não grite. Se gritar, serei forçado a arran­car sua língua.

Ele a arrastou pela porta por onde Pietro havia saído e se viu em um corredor. Continuou empurrando e arrastando Lucrécia para os andares inferiores da torre, na direção das celas.

— Resgatando princesas de castelos? Que romântico! — cuspiu Lucrécia.

— Cale a boca.

— Imagino que você acredite que está realizando grandes feitos, an­dando por aí instaurando o caos e matando quem bem entende.

— Eu disse pra calar a boca.

— Mas será que seu plano tem algum sentido? O que acha que vai conseguir com isso? Não conhece o nosso poder?

Ezio hesitou ao descer uma das escadarias.

— Para qual lado? — perguntou.

Ela riu e não respondeu.

Ele a sacudiu.

— Para qual lado?

— Para a esquerda! — respondeu, mal-humorada.

Lucrécia ficou calada por alguns momentos e recomeçou. Dessa vez, Ezio a deixou tagarelar. Agora ele sabia para onde estava indo. Ela se debatia tentando se soltar, mas ele estava concentrado em duas coisas: segurá-la com força e ficar atento a quaisquer emboscadas dos guardas do castelo.

— Você sabe o que foi feito com a família Pazzi em Florença depois que você os deixou de joelhos? O seu querido amigo Lorenzo, conhe­cido como o Magnífico, confiscou tudo o que eles tinham e os jogou na prisão. Todos eles. Até aqueles que não tiveram participação em toda a conspiração.

A mente de Ezio se voltou para a vingança de Caterina contra os rebeldes em Forli. Os atos dela excederam em muito os de Lorenzo. Fi­zeram-no parecer suave. Ezio afastou os pensamentos.

— As mulheres foram proibidas de casar e todas as lápides foram apagadas — continuou Lucrécia. — Foram eliminados de todos os livros de história. Puf! Em um instante!

Mas não foram torturados ou mortos, pensou Ezio. Bom, é possí­vel que Caterina tenha considerado sua atitude justificável naquele momento. Ainda assim, a crueldade dela custou a lealdade de alguns alia­dos nos quais ela sempre pôde confiar. Talvez tenha sido esse o único motivo pelo qual Cesare tenha finalmente conseguido conquistar Forli.

E ela era uma aliada importante. Era disso que Ezio precisava se lembrar. Disso e de reprimir os sentimentos, reais ou imaginários, que nutria por ela.

— Você e seus amigos Assassinos ignoram as consequências de seus atos. Vocês se dão por satisfeitos ao colocar as coisas em movimento, e nunca terminam o que começaram. — Lucrécia parou para respirar, e Ezio deu-lhe um forte empurrão para a frente. Mas isso não a fez parar de falar. — Diferentemente de vocês, Cesare terminará o que começou e trará a paz para a Itália. Ele mata com um propósito maior, ou seja, diferente de vocês.

— Os ignorantes e os passivos são alvos fáceis — retrucou Ezio.

— Diga o que quiser — respondeu Lucrécia, percebendo que tinha tocado um ponto sensível. — Minhas palavras foram desperdiçadas em um ipocrita como você.

Eles haviam acabado de chegar à cela.

Lembre-se... — ameaçou Ezio, desembainhando a adaga. — Se tentar alertar os guardas, a sua língua...

Lucrécia suspirou fundo, mas ficou em silêncio. Atento, Ezio avançou. Dois novos guardas estavam sentados à mesa jogando cartas. Ele jogou Lucrécia no chão e saltou na direção dos guardas. Os dois morreram an­tes de terem tempo de reagir. Depois, ele se virou e correu na direção de Lucrécia, que já havia se levantado e estava fugindo e gritando por ajuda. Ele a alcançou, tampou-lhe a boca com a mão e a virou com o outro braço, levando-a até a cela de Caterina. Ela tentou morder a luva de couro, mas ao ver que não seria capaz de causar dano nenhum, ficou quieta.

Caterina já estava na portinhola, que foi aberta por Ezio.

— Salute, Lucrécia. — disse Caterina, com um sorriso desagradável.

— Eu senti tanto a sua falta.

— Vai a farti fottere, troia...

— Como sempre, um encanto, me xingando, dessa vez de vadia, e mandando eu me foder! — comentou Caterina. — Ezio! Chegue mais perto. Eu vou pegar a chave.

Ela colocou as mãos para fora quando Ezio a obedeceu. Ele percebeu que Caterina arranhou os seios de Lucrécia enquanto pegava a chave no meio deles.

Caterina entregou a chave a Ezio, que destrancou a porta rapida­mente. A mesma chave abriu os cadeados das correntes. Enquanto Ca­terina se livrava de seus grilhões, Ezio jogou Lucrécia na cela.

— Guardas! Guardas! — gritou Lucrécia.

— Ah, cale essa boca — exclamou Caterina, pegando um trapo sujo na mesa dos guardas e enfiando na boca da inimiga. Ezio pegou outro pedaço de corda e amarrou os tornozelos de Lucrécia, antes de fechar a cela e trancá-la.

Ezio e Caterina olharam um para o outro.

— Meu herói — comentou secamente.

Ezio a ignorou.

— Você consegue andar?

Caterina tentou, mas não conseguiu.

— Acho que não. Os grilhões devem ter me ferido mais do que eu imaginava.

Ezio suspirou e a ergueu. Ele teria de largá-la como um saco de ba­tatas se fossem surpreendidos por guardas e se precisasse sacar as armas rapidamente.

— Para onde vamos? — perguntou ela.

— Primeiro, aos estábulos. Depois, ao caminho de saída mais rápido.

— Por que você me salvou, Ezio? Sério? Com Forli conquistada, eu não sirvo de nada para vocês.

— Você ainda tem uma família.

— Mas não é a sua família.

Ezio continuou andando. Ele lembrava onde eram os estábulos e para qual direção deveria ir. Foi uma sorte Caterina ser a única prisio­neira naquela parte do castelo. Não havia mais guardas. Ainda assim, ele andou com cuidado, controlando a velocidade para não cair em uma emboscada. De tempos em tempos, ele parava para escutar. Caterina era leve nos braços dele e, apesar do aprisionamento, o cabelo dela ain­da cheirava a rosas e baunilha, lembrando-o dos momentos felizes que passaram juntos.

Escute, Ezio, aquela noite em Monteriggioni, quando tomamos banho juntos, eu precisava garantir a sua aliança. Para proteger Forli. Era do interesse dos Assassinos assim como meu, mas... — Ela não con­seguiu continuar. — Você entende?

— Se você queria minha aliança, era só pedir.

— Eu precisava de você ao meu lado.

— Minha lealdade e minha espada ao seu lado não eram o suficien­te. Você queria o meu coração também. — Ezio continuou caminhando, passando o peso dela de um braço ao outro. — Mas, è lapolitica. É claro. Eu sabia. Você não precisa se explicar.

Por dentro, o coração dele parecia ter caído em uma mina sem fun­do. Como o cabelo dela podia continuar cheiroso?

— Caterina — perguntou ele com a garganta seca —, eles forçaram você... Cesare forçou você a...?

Ela percebeu levemente como ele se sentia e sorriu, com os lábios, não com os olhos.

— Não aconteceu nada. Meu nome ainda deve ter algum valor. Eu fui deixada... intacta.

Eles haviam acabado de chegar à entrada dos estábulos. Estava des­protegida, mas muito bem trancada. Ezio colocou Caterina no chão.

— Tente caminhar um pouco. Você precisa recuperar a força nos calcanhares.

Ele procurou por um meio de abrir a porta. Não havia fechaduras ou maçanetas. Mas tinha de haver um jeito...

— Tente aquilo ali — sugeriu Caterina, — Não é um tipo de alavanca?

Espere aqui — respondeu Ezio.

— Como se eu tivesse escolha.

Ele caminhou até a alavanca, no caminho reparando em um alçapão quadrado e aberto. Pelo cheiro, parecia um silo de grãos. Ao olhar lá para baixo, ele viu um grande número de sacas. Mas havia umas caixas também, que pareciam conter pólvora.

— Rápido — disse Caterina.

Ele segurou a alavanca com as duas mãos e puxou. Estava dura no início, mas com um pouco mais de força ela começou a afrouxar. De­pois, cedeu facilmente e a porta se abriu.

Havia dois guardas nos estábulos, que se viraram ao ranger da porta. Vieram correndo, puxando as espadas.

— Ezio! Aiuto!

Ezio correu até Caterina, pegou-a e correu para o alçapão.

— O que você está fazendo?!

Ezio a segurou sobre o buraco.

— Não ouse!

Ao soltá-la, sentiu um pouco de remorso ao ouvir o grito de dor dela. A queda foi curta e ele teve tempo de vê-la cair em segurança sobre alguns sacos antes de se virar para enfrentar os guardas. A luta foi rápida e impiedosa, os guardas estavam cansados e foram pegos de surpresa. A habilidade de Ezio com a espada era muito superior a dos dois homens somados. Porém, um deles conseguiu acertar um golpe de sorte. Cortou apenas o tecido do colete de Ezio e não atingiu a pele. Era sinal de que Ezio também estava cansado.

Depois da luta, Ezio resgatou Caterina do alçapão.

— Figlio di puttana — xingou Caterina, limpando a poeira das rou­pas. — Nunca mais faça isso comigo.

Ele percebeu que ela já andava um pouco melhor.

Rapidamente, Ezio selou dois cavalos, ajudou Caterina a montar em um deles e montou no outro. Um portal em um dos lados do estábulo levava à frente do castelo. Ele conseguia ver o portão principal. O ca­minho estava cheio de guardas, mas os portões estavam abertos. O dia estava nascendo e muitos comerciantes da cidade eram esperados para abastecer o castelo.

— Cavalgue o mais rápido que puder — ordenou Ezio. — Temos de sair antes que eles entendam o que está acontecendo. Cruze a ponte e ca­valgue para a Ilha Tiberina. Lá você estará a salvo. Encontre Maquiavel. Ele estará esperando por mim.

— Mas nós dois precisamos escapar!

— Eu vou logo em seguida. Antes eu preciso dar conta de alguns guardas e criar uma distração, alguma coisa para atrasá-los.

Caterina segurou as rédeas do cavalo e se preparou.

— Volte inteiro, ou eu nunca perdoarei você!

Ezio torceu para que ela estivesse sendo sincera e observou enquan­to ela pôs o cavalo a galopar. Ela disparou por entre os guardas do por­tão principal, espalhando-os. Logo que viu que Caterina já tinha saído, Ezio cavalgou de volta aos estábulos e até o depósito de grãos e pólvora. Pegou uma tocha e arremessou no buraco. Virou o cavalo rapidamente e galopou o mais rápido que pôde, com a espada na mão.

Os guardas formaram uma linha esperando por ele, com as alabar- das em punho. Ezio não conhecia o cavalo, mas sabia o que teria de fazer. Cavalgou em linha reta contra os guardas, e no último minuto, puxou as rédeas com força, inclinando-se para a frente e cravando os calcanhares no animal. Ao mesmo tempo em que o cavalo disparou, uma grande explosão se desencadeou no fundo. Ele estava certo! Era pólvora! O chão tremeu com a explosão e os guardas instintivamente se abaixaram. O cavalo, também assustado com a explosão, ficou ainda mais determinado a fugir de lá. Ele saltou, passando por cima dos guar­das espalhados como se pulasse uma cerca.

Deixando pânico e confusão em seu encalço, Ezio cavalgou em di­reção ao sol nascente. Seu coração se encheu de alegria. Tinha salvado Caterina!

 

Após se assegurar de que não estava sendo seguido, Ezio devolveu o valo. Ele odiava perder um animal tão bom, mas o levou até o esconderijo, acompanhado de Maquiavel, tinha alugado cavalos há um te. que parecia longo demais, e entregou a montaria ao cavalariço-chefe. O estábulo era organizado e limpo, e podia-se ver que os negócios iam muito bem, em um distrito que parecia ter se livrado do controle do Bórgia e, pelo menos temporariamente, mantido a independência. Par fim, Ezio voltou à Ilha Tiberina a pé. A balsa secreta dos Assassinos estava esperando na margem e, após desembarcar do outro lado, Ezio correu para o esconderijo.

Lá dentro, ele descobriu que Caterina tinha chegado em seguran­ça. Ela estava deitada em uma cama improvisada perto da porta, sendo atendida por um médico. Caterina sorriu ao vê-lo, e tentou se sentar, mas o médico a conteve gentilmente.

— Ezio! Estou aliviada em vê-lo.

Ezio tomou a mão de Caterina e a apertou.

— Onde está Maquiavel? — Caterina não apertou a mão dele de vol­ta, mas talvez estivesse fraca demais.

— Eu não sei.

La Volpe emergiu das sombras no fundo da sala.

— Ezio! Bom vê-lo novamente! — O ladrão abraçou o homem mais jovem. — Eu lhe trouxe a sua contessa de volta. Quanto a Maquiavel...

Foi então que a porta principal se abriu e o próprio Maquiavel en­trou. Ele parecia preocupado.

— Por onde você andou? — perguntou La Volpe.

— Procurando Ezio, não que eu lhe deva satisfações — retrucou Maquiavel, e Ezio ficou triste ao perceber que a tensão ainda existia en­tre os dois amigos dele. Maquiavel se virou para Ezio e, sem cerimônia, perguntou: — E quanto a Cesare e Rodrigo?

— Cesare partiu quase imediatamente para Urbino. Quanto a Ro­drigo, estava no Vaticano.

— Que estranho — comentou Maquiavel. — Rodrigo deveria estar no Castel.

— Que estranho, de fato — repetiu La Volpe friamente.

Se Maquiavel percebeu a alfinetada, ele a ignorou.

— Que oportunidade perdida — ponderou Maquiavel. Em seguida, percebendo o que tinha dito, acrescentou à Caterina. — Ah, perdoe mi­nha rudeza, contessa. Estamos felizes em vê-la sã e salva.

— Não houve ofensa — respondeu ela.

— Agora que Cesare partiu para Urbino, temos de nos concentrar em desenvolver nossas forças aqui.

Maquiavel ergueu as sobrancelhas.

— Mas eu pensei que pretendíamos atacar agora! Temos de ir atrás dele e destruí-lo sem demora.

— Isso seria impossível — argumentou Caterina. — Eu vi o exército dele, é gigantesco. Vocês nunca o alcançariam.

— Acredito que temos de trabalhar aqui, em Roma, onde já fizemos um bom começo. Precisamos continuar desgastando a influência dos Bórgia enquanto restauramos a nossa. E, de fato, quero começar ime­diatamente — disse Ezio.

— Você fala como se já fosse nosso líder — afirmou Maquiavel.

— Mas o posto não foi discutido, muito menos ratificado, pelo nosso conselho.

— E eu acredito que precisamos de um líder, e precisamos agora — retrucou La Volpe. — Não temos tempo para conselhos e ratificações. Temos de consolidar a Irmandade novamente, e, até onde eu posso ver, Ezio é a pessoa certa para a tarefa. Maquiavel, eu lhe faço um apelo: você e eu somos dois dos Assassinos restantes mais graduados. Bartolomeo certamente concordará. Vamos tomar a decisão agora, e mantê-la secre­ta, se você assim preferir, e então mais tarde podemos submetê-la a uma votação formal.

Maquiavel parecia estar prestes a falar, mas desistiu e simplesmente deu de ombros.

— Eu não os deixarei na mão — afirmou Ezio. — Gilberto, gostaria que você trouxesse Bartolomeo e minha irmã, Claudia, até aqui. Temos assuntos a debater. Nicolau, por favor, venha comigo.

Ao sair, Ezio parou ao lado da cama de Caterina.

— Cuide bem dela — disse ele ao médico.

— Aonde vamos? — perguntou Maquiavel quando os dois chegaram ao centro da cidade.

— Há algo que quero lhe mostrar.

Ezio guiou Maquiavel até a praça de mercado mais próxima. Metade das barracas e lojas estava aberta para negócios. Havia um padeiro, um açougueiro que espantava moscas da mercadoria e um verdureiro que oferecia produtos muito envelhecidos. Por mais que ainda fosse cedo, eram os vendedores de vinho que faziam mais negócios. E, como Ezio esperava, um pequeno grupo de guardas dos Bórgia estava intimidando o dono de uma barraca de produtos de couro.

— Olhe — indicou Ezio, enquanto os dois se misturavam ao peque­no contingente de compradores.

— Eu sei o que está acontecendo — respondeu Maquiavel.

— Sei que você sabe, Nicolau — concordou Ezio. — Perdoe-me, mas você vê o quadro geral. Você entende o que deve ser feito politi­camente para derrotar os Bórgia, e eu não duvido de forma alguma de sua sinceridade. — Ezio fez uma pausa. — Mas nós temos de começar nosso trabalho em um nível mais fundamental. Os Bórgia tomam o que querem do povo com completa impunidade, para manter o poder.

A dupla observou os guardas derrubarem o homem com um em­purrão e então, rindo, levarem o que queriam da barraca do sujeito e irem embora. O homem se levantou, olhou os guardas indo embora com raiva impotente e, quase chorando, começou a arrumar os produ­tos. Uma mulher veio consolá-lo, mas ele a afastou. Mesmo assim ela continuou por perto, com preocupação e carinho no olhar.

— Por que você não o ajudou? — perguntou Maquiavel. — Por que não colocou os guardas para correr?

— Olhe só — respondeu Ezio. — Ajudar um homem é um ato bom, mas não vai resolver o problema. Eles voltarão outro dia, quando não estivermos aqui, e farão as mesmas coisas outra vez. Veja a qualidade das coisas vendidas neste lugar. As verduras são velhas, a carne está infesta­da de moscas, e o pão certamente está dormido. Tudo que há de melhor vai para os Bórgia. E por que você acha que há tanta gente bebendo?

— Eu não sei — admitiu Maquiavel.

— Porque as pessoas estão sofrendo — explicou Ezio. — Estão deses­peradas e oprimidas. Querem esquecer tudo. Mas podemos mudar isso.

— Como?

— Recrutando essa gente para nossa causa. — Ezio estendeu os bra­ços. — São essas pessoas que vão formar a espinha dorsal de nossa resis­tência contra os Bórgia.

— Já discutimos isso antes — retrucou Maquiavel, irritado. — Você não pode estar falando sério.

— Vou começar com aquele vendedor. Para vencer esta guerra, Ni- colau, precisamos de soldados leais, independente da forma como luta­rão por nós. Temos de plantar as sementes da rebelião nas mentes deles.

— Ezio fez uma pausa, e então continuou com vontade. — Recrutando aqueles que foram abusados e transformados em inimigos pelo Estado, armaremos as pessoas que foram desvalorizadas pelos Bórgia.

Maquiavel olhou longa e duramente para o amigo.

— Vá, então — disse. — Vá e recrute nossos primeiros noviços.

— Ah, é isso que eu farei — afirmou Ezio. — E você verá que deste grupo de homens e mulheres determinados que reunirei ao nosso redor é que forjarei uma espada capaz de cortar os membros e a cabeça do torso dos Bórgia e dos próprios Templários.

 

Ezio voltou ao centro de operações dos Assassinos na Ilha Tiberina após uma boa manhã de trabalho, convertendo discretamente vários cida­dãos insatisfeitos à causa.

Além dos leais servos que atendiam e guardavam o lugar, a base es­tava deserta, e Ezio ficou feliz em ter algum tempo de sossego para pen­sar e planejar. Mas, ao se aproximar, descobriu que havia um visitante. Alguém que queria ter certeza de que não seria notado, e que, então, esperou até que os funcionários estivessem cuidando de assuntos em outras partes do prédio antes de se apresentar.

— Psiu! Ezio! Aqui!

— Quem está aí? — disse Ezio, já em alerta, mesmo que reconhe­cendo a voz.

Arbustos altos margeavam os dois lados do caminho que levava ao esconderijo, e ninguém fora da Irmandade conhecia a existência do lu­gar. Se houvesse alguma chance do segredo ter sido descoberto...

— Venha cá!

— Quem é?

— Sou eu!

E Leonardo da Vinci, tão elegante e distraído como sempre, saiu do esconderijo para a trilha.

— Leo! Meu Deus!

Mas então Ezio, lembrando-se de quem era o novo mestre de Leonardo, controlou o impulso inicial, que era correr e abraçar o velho amigo.

A reação foi percebida por Leonardo, que parecia um pouco mais ve­lho, certamente, mas que não tinha perdido nada do seu ardor, do entu­siasmo vigoroso. Ele deu um passo à frente, mas manteve a cabeça baixa.

— Não estou surpreso que você não esteja muito feliz em me ver novamente.

— Bem, Leo, tenho de admitir que você me decepcionou.

Leonardo estendeu os braços.

— Eu sei que você está por trás da invasão no Castel. Só pode ter sido você. Então eu soube que ainda estava vivo!

— Imaginei que seus mestres lhe teriam contado isso.

— Eles não me contam nada! Não sou nada além de um escravo para eles. — Havia um leve brilho no olhar de Leonardo. — Mas eles precisam confiar em mim.

— Desde que você continue entregando as invenções.

— Acho que sou esperto o suficiente para ficar um passo à frente de­les. — Leonardo deu mais um passo na direção de Ezio, com os braços meio estendidos. — É bom vê-lo novamente, meu amigo.

— Você desenhou armas para eles. Novas pistolas que nos deixam em desvantagem.

— Eu sei. Mas se você me deixar explicar...

— E como encontrou este lugar aqui?

— Eu posso explicar...

Leonardo parecia tão arrependido e tão infeliz e transmitia tanta sinceridade que o coração de Ezio se comoveu com o velho amigo, ape­sar de tudo. Também refletiu que, afinal, Leonardo tinha vindo vê-lo, sem dúvida correndo grande risco, e se ele procurou uma reaproximação, Ezio seria um líder incrivelmente tolo ao rejeitar a amizade e a par­ceria de tal homem.

— Venha cá! — exclamou Ezio, abrindo bem os braços.

— Ah, Ezio! — Leonardo se adiantou e os dois se abraçaram calo­rosamente.

Ezio levou o amigo para dentro e os dois sentaram. Ezio sabia que Caterina tinha sido levada para uma sala interna, onde poderia se recu­perar em paz e com tranquilidade. Além disso, o médico dera a orien­tação para que ela não fosse incomodada. Ele se sentiu tentado a deso­bedecer, mas haveria tempo para que conversassem mais tarde. Além disso, o aparecimento de Leonardo exigia uma mudança de prioridades.

Ezio pediu que lhes trouxessem vinho e bolos.

— Conte-me tudo — começou Ezio.

— Eu vou. Em primeiro lugar, você precisa me perdoar. Os Bórgia contam com os meus serviços, mas à força. Se eu tivesse me recusado, teriam me submetido a uma morte longa e dolorosa. Eles descreveram o que teriam feito comigo se eu tivesse negado ajuda. Mesmo agora, fico nervoso só de lembrar.

— Você está bem seguro agora.

Leonardo balançou a cabeça.

— Não! Eu tenho de voltar. Serei muito mais útil a você se os Bór­gia pensarem que eu ainda trabalho para eles. Até agora, eu fiz o má­ximo que pude para criar o menor número possível de invenções para satisfazê-los. — Ezio estava a ponto de interrompê-lo quando Leonardo ergueu a mão nervosamente. — Por favor, isto é como uma confissão, e eu gostaria de completá-la. Então você poderá me julgar como achar melhor.

— Ninguém está julgando você, Leonardo.

O comportamento do inventor ficou mais intenso. Ignorando o lan­che, Leonardo se inclinou para a frente.

— Eu disse que trabalho para eles sob ameaças, só que é mais do que isso. Você sabe que eu não me meto em política. Gosto de me manter limpo. Mas os homens que desejam poder me procuram porque sabem o que posso fazer por eles.

— Disso eu sei.

— Mas eu participo desse jogo também. Participo para permanecer vivo. E por que eu quero permanecer vivo? Porque ainda tenho tanto a fazer! — Leonardo respirou fundo. — Não tenho como lhe contar, Ezio, como meu cérebro está cheio de ideias! — Leonardo fez um gesto que parecia tanto incluir o mundo todo quanto demonstrar o desespero que sentia. — Ainda há tanta coisa para se descobrir!

Ezio permaneceu calado. Disso ele também sabia.

— Então — concluiu Leonardo. — Agora você sabe.

— Por que você veio até aqui?

— Para fazer as pazes. Eu tinha de assegurar você de que meu cora­ção não está com eles.

— E o que eles querem de você?

— Qualquer coisa que puderem tirar de mim. Máquinas de guerra, principalmente. Eles sabem do que sou capaz.

Leonardo entregou um maço de papéis a Ezio.

— Aqui estão alguns dos projetos que eu fiz para eles. Veja, este é um veículo blindado que, se for corretamente construído, será capaz de se mover em qualquer terreno, enquanto os homens escondidos dentro dele poderão disparar armas, grandes armas de fogo, completamente protegidos dos inimigos. Eu o chamo de tanque.

Ezio empalideceu ao observar os desenhos.

— E isso está... serido construído?

Leonardo fez uma expressão astuta.

— Eu disse “se for corretamente construído”. Infelizmente, segundo esse projeto, ele será capaz apenas de girar sobre o próprio eixo!

— Entendi. — Ezio sorriu.

— E olhe só isso.

Ezio examinou um desenho de um cavaleiro controlando dois cava­los, amarrados lado a lado. À frente e atrás havia dois dispositivos como foices giratórias, atados aos arreios por longas varas horizontais. As foi­ces cortariam qualquer inimigo atacado pelo cavaleiro.

— Um engenho cruel — comentou o Assassino.

— Sim! Mas, infelizmente, o cavaleiro está... completamente expos­to. — Os olhos de Leonardo brilharam mais um pouco.

O sorriso de Ezio se alargou, mas desapareceu logo em seguida.

— E quanto às armas de fogo que você deu a eles?

Leonardo encolheu os ombros.

— É preciso jogar um osso para Cérbero. — Foi a resposta. — Eu fui obrigado a lhes dar alguma coisa realmente útil para que eles não ficassem desconfiados.

— Mas são armas muito eficientes.

— De fato, elas são, mas não chegam perto daquela pistolinha que fiz para você uma vez, anos atrás, baseada no projeto da página do códex. Uma pena, realmente, eu tive dificuldades em me controlar na­quele caso.

Ezio lembrou com tristeza das armas do códex que tinha perdido. Mas ele falaria nelas depois.

— O que tem mais nesse maço de papéis?

Mesmo que eles estivessem sozinhos, Leonardo baixou a voz.

— Eu copiei os planos não só das grandes máquinas, mas também de onde elas serão usadas em batalha. — Leonardo estendeu as mãos, ironicamente. — Puxa, que pena que elas não podem ser mais eficientes.

Ezio olhou com admiração o velho amigo. Aquele era o homem que tinha projetado um submarino para que os venezianos usassem contra as galeras turcas. Se ele não tivesse decidido incluir defeitos naqueles projetos, não haveria esperança alguma na luta contra os Bórgia. Ele valia mais do que dois exércitos.

— Pelo amor de Deus, Leo, tome um cálice de vinho, pelo menos. Eu sei que jamais poderei recompensá-lo o suficiente por tudo isso.

Mas Leonardo recusou a garrafa com um gesto.

— Há notícias muito mais graves. Você sabia que eles estão com a Maçã?

— É claro.

— Eles entregaram-na a mim para que eu a estudasse. Nós dois já conhecemos parte dos poderes dela, Rodrigo conhece um pouco me­nos, mas ele é mais inteligente do que Cesare, mesmo que Cesare seja mais perigoso.

— Quanta informação sobre a Maçã você deu a eles?

— O mínimo possível, mas tive de dar alguma coisa. Felizmente, Ce­sare parece estar satisfeito, pelo menos por enquanto, com as aplicações limitadas que eu lhe confiei. Mas Rodrigo sabe que ela pode mais, e está ficando impaciente. — Leonardo fez uma pausa. — Considerei algumas formas de roubá-la, mas é mantida sob vigilância constante, e só tenho acesso a ela com supervisão severa. Mas fui capaz de usar os poderes dela para encontrar você. Ela é capaz disso, sabia? Muito fascinante.

— E você ensinou esse truque a eles?

— Claro que não! Eu só quero devolvê-la ao dono de direito.

— Não há o que temer Leo. Vamos recuperá-la. Enquanto isso, atra- se-os o máximo que puder, e, se isso for possível, mantenha-me infor­mado do quanto você lhes deu.

— Eu o farei.

Ezio fez uma pausa.

— Há mais uma coisa.

— Diga-me.

— Perdi todas as armas do códex que você fez para mim.

Percebo.

Exceto pela lâmina oculta original. Mas a pistola, a lâmina enve­nenada, a lâmina dupla, a braçadeira milagrosa... Tudo perdido.

— Hum — comentou Leonardo, sorrindo em seguida. — Bem, re­criá-las para você não será um problema.

— É mesmo? — Ezio mal podia acreditar.

— Os projetos que você me entregou ainda estão em Florença, bem escondidos com os meus velhos assistentes, Agniolo e Innocento. Os Bór­gia jamais os terão. Agniolo tem ordens estritas de destruí-las se, Deus nos proteja, os Bórgia algum dia tomarem Florença, ou mesmo se os franceses o fizerem. E nem mesmo Agniolo e Innocento seriam capazes de recriá-las sem mim, não que eu não confie completamente neles. Mas, eu, eu nunca esqueço um projeto. Entretanto... — Ele hesitou, quase envergonhado. — Você terá de pagar pelas matérias-primas que eu terei de usar. Adiantado.

Ezio estava espantado.

— E mesmo? Eles não estão pagando você direito em il Vaticano?

Leonardo tossiu.

— Pouco... muito pouco. Imagino que acreditem que me manter vivo já é recompensa suficiente. E eu não sou tolo o bastante para achar que, assim que os meus serviços se tornarem... supérfluos, eles não me matarão com a mesma naturalidade com que matam um cão.

— Ah, sim — comentou Ezio. — Eles prefeririam vê-lo morto a vê-lo trabalhando para outras pessoas.

Exato, eu estava pensando em algo muito parecido — concordou Leonardo. — E eu não tenho para onde fugir. Não que eu queira fugir. Quero ver os Bórgia destruídos. Vou me meter em política o suficiente para poder dizer isso. Mas minha amada Milão está em mãos france­sas... — Ele começou a pensar. — Talvez... mais tarde... quando tudo isso tiver acabado... eu possa tentar minha sorte na França. Dizem que é um país muito civilizado...

Era hora de trazê-lo de volta à realidade. Ezio foi até um baú refor­çado com ferro e retirou uma bolsa de couro abarrotada de ducados, entregando-a a Leonardo em seguida.

— Pagamento pelas armas do códex — anunciou Ezio rapidamente.

— Quando você as terá prontas?

Leonardo considerou.

— Não será tão fácil quanto da última vez — disse ele. — Terei de trabalhar em segredo e sozinho, pois não posso confiar nos assistentes que trabalham para mim aqui — Ele fez uma pausa. — Deixe-me entrar em contato com você novamente O mais rápido possível, prometo. — Leonardo avaliou a pesada bolsa na mão — E, quem sabe, com tanto dinheiro eu até possa incluir mais um pai de armas novas; invenções minhas, é claro, mas muito eficientes, como você logo descobrirá.

— O que quer que faça por nós, você conquistará minha gratidão e proteção eternas, onde quer que você esteja — anunciou Ezio.

Ele gravou na memória ter de delegar um punhado de recrutas, as­sim que eles completarem o treinamento, para vigiar Leonardo e lhe fazer relatórios constantes.

— Então, como poderemos manter contato?

— Eu já pensei nisso — respondeu Leonardo, pegando um pedaço de giz e desenhando na mesa a mão direita de um homem, apontando.

— É uma bela ilustração — disse Ezio.

— Obrigado. É só o esboço de uma pintura que ando pensando em fazer, de são João Batista. Se eu tiver tempo um dia. Vá sentar onde ela está apontando.

Ezio obedeceu.

— É isso — concluiu Leonardo. — Diga aos seus homens para pres­tar atenção. Se eles virem uma destas; e isso vai parecer simplesmente mais um graffiti para as outras pessoas, mande que eles lhe avisem, e siga a direção. É assim que nós vamos nos encontrar.

— Esplêndido — disse Ezio.

— E não se preocupe, eu o deixarei de sobreaviso antes de marcar alguma parede, para o caso de você pensar em sair pelo mundo em al­guma missão.

— Obrigado.

Leonardo se levantou.

— Tenho de ir. Senão sentirão minha falta. Mas primeiro...

— Primeiro o quê?

Leonardo sorriu e chacoalhou a bolsa de dinheiro.

— Primeiro eu vou fazer compras.

 

Ezio deixou o esconderijo logo após Leonardo, para continuar o traba­lho de recrutamento, mas também para se manter ocupado. Ele estava impaciente para receber as armas do códex de novo.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Ezio voltou para participar de uma reunião, e viu que Maquiavel tinha chegado primeiro. Caterina estava com ele, sentada em uma cadeira, com os joelhos protegidos por uma coberta de pelo. Como de costume, Maquiavel não se deu ao trabalho de se levantar.

— Onde você esteve? — inquiriu Maquiavel.

Ezio não gostou do tom de voz dele.

— Todos nós temos nossos segredos — retrucou, mantendo a voz calma. — E posso saber o que você anda fazendo?

Maquiavel sorriu.

— Refinando nosso sistema de pombos-correios. Agora podemos usá-los para mandar ordens aos novos recrutas espalhados pela cidade.

— Excelente. Obrigado, Nicolau.

Eles se entreolharam. Maquiavel era quase dez anos mais novo do que Ezio, porém não restava dúvida sobre a independência e a ambição por trás daqueles olhos velados. Será que ele se ressentia de sua liderança? Teria ele esperado se tornar líder no lugar de Ezio? Ele afastou o pensamento. Não, certamente aquele homem era mais um teórico, um diplomata, um animal político. E não poderia haver dúvidas sobre a utilidade dele ou sobre a fidelidade dele à Irmandade. Se ao menos Ezio conseguisse convencer completamente La Volpe desses fatos.

Como se em uma peça de teatro, La Volpe entrou acompanhado de Claudia.

— Que notícias me traz? — perguntou Ezio, após os dois se cum­primentarem.

— Bartolomeo manda desculpas. Parece que o general Valois está tentando atacar o quartel novamente.

— Entendo.

— Eles redobraram o assalto, mas estamos nos mantendo firmes.

— Ótimo. — Ezio se virou para a irmã de forma gélida. — Claudia

— saudou, inclinando a cabeça.

— Irmão — respondeu ela com a mesma frieza.

— Por favor, sentem-se, todos vocês — pediu Ezio. Depois que to­dos escolheram um lugar, continuou. — Tenho um plano preparado para lidar com os Bórgia.

— Eu sugiro — começou Maquiavel imediatamente — que ataque­mos os suprimentos deles ou os seguidores de Cesare.

— Obrigado, Nicolau — respondeu Ezio calmamente. — Meu plano é atacar ambos. Se pudermos cortar os fundos dele, Cesare perderá o exército e voltará sem soldados. Como ele consegue o dinheiro?

— Sabemos que ele depende de Rodrigo para a maior parte dos fundos — explicou La Volpe. — E o banqueiro de Rodrigo é Agostino Chigi. Mas Cesare também tem seu próprio banqueiro, cuja identidade ainda precisa ser confirmada, mesmo que já tenhamos nossas suspeitas.

Ezio decidiu, por enquanto, manter as próprias suspeitas silenciosas. Seria melhor que elas fossem confirmadas, se possível, pelos homens de La Volpe.

— Eu conheço alguém, um cliente nosso no Rosa in Fiore, que deve dinheiro a esse banqueiro. O senador Egidio Troche reclama dos juros o tempo todo.

— Bene — disse Ezio. — Então precisamos investigar isso.

— Há mais uma coisa — acrescentou Maquiavel. — Temos notícias de que eles planejam posicionar tropas francesas na estrada que leva ao Castel Sant'Angelo. Seu ataque realmente deve tê-los abalado. E, ao que tudo indica, Cesare planeja voltar a Roma. Imediatamente. Por que tão cedo é algo que eu não sei, mas vamos descobrir. De qualquer maneira, quando ele chegar, estará tão bem protegido que você jamais poderá atacá-lo. E, por último, nossos espiões nos dizem que ele planeja manter o retorno em segredo, pelo menos por enquanto.

— Ele tem algo escondido na manga — comentou La Volpe.

Brilhante — retrucou Maquiavel, e os dois homens trocaram olhares nada amistosos.

Ezio considerou isso.

— Então parece que o nosso melhor curso de ação é encurralar esse general francês deles, Octavien, e matá-lo. Uma vez que ele estiver fora do caminho, Bartolomeo colocará os franceses na defensiva, e eles aban­donarão a guarda do Castel.

Caterina falou pela primeira vez.

— Mesmo assim, Ezio, ainda que sem as tropas francesas, a Guarda Papal continuará protegendo a ponte e o portão principal.

— Ah — exclamou La Volpe. — Mas há uma entrada lateral. O mais novo brinquedinho de Lucrécia, o ator Pietro Benintendi, tem uma chave.

— E mesmo? — indagou Ezio. — Eu vi Pietro com ela no Castel.

— Mandarei meus homens descobrirem onde ele está — prometeu La Volpe. — Não deve ser muito difícil.

Caterina sorriu.

— Parece uma boa ideia. Eu gostaria de ajudar. Creio que conse­guiremos assustá-lo o bastante para que ele nos dê a chave, e ele vai parar de ver Lucrécia. Farei qualquer coisa para afastar aquela vadia de qualquer prazer.

— Momentino, contessa — interrompeu Maquiavel. — Teremos de nos virar sem a sua ajuda.

Caterina olhou para ele, surpresa.

— Por quê?

— Porque vamos tirá-la da cidade, mandá-la talvez para Florença, até que seja possível reconquistar Forli para você. Seus filhos já estão lá em segurança. — Nicolau olhou em volta. — O resgate de Ezio não ocorreu sem consequências. Há arautos pela cidade inteira, proclaman­do uma rica recompensa pela captura da contessa, viva ou morta. E ne­nhuma propina conseguiu calá-los.

Houve silêncio. Então Caterina se levantou, deixando a coberta cair no chão.

— Parece que eu abusei da sua hospitalidade — anunciou ela. — Com licença.

— Do que você está falando? — perguntou Ezio, alarmado.

— Do fato de eu estar em perigo aqui...

— Nós a protegeremos!

— ...E, mais importante, do fato de eu representar um risco para vocês. — Ela olhava para Maquiavel enquanto falava. — Não é mesmo, Nicolau?

Maquiavel permaneceu calado.

— Eis a minha resposta — concluiu Caterina. — Iniciarei os prepa­rativos imediatamente.

 

— Você tem certeza de que consegue cavalgar? — indagou Ezio.

— Cavalguei do Castel até aqui quando você me resgatou, não foi?

— Sim, mas não havia escolha.

— E há escolha agora?

Ezio ficou calado. Era a manhã seguinte, e ele assistiu enquanto Caterina e suas duas ajudantes arrumavam as poucas roupas e suprimentos que Claudia tinha separado para a jornada. Ela teria de partir antes da alvorada. Uma pequena escolta de homens de Ezio as acompanharia em parte do caminho, para garantir sua segurança até que estivesse longe de Roma. Ezio tinha se oferecido para ir junto, mas Caterina recusara.

— Não gosto de despedidas — afirmou ela. — E quanto mais longas elas forem, pior.

Ezio ficou olhando Caterina enquanto ela se ocupava com a baga­gem. Pensou em todos os momentos que tiveram juntos, há muito tem­po em Forli, e então sobre o que ele imaginou carinhosamente ser um reencontro em Moteriggioni. A Irmandade dos Assassinos parecia ter tomado a vida dele e o deixado sozinho.

— Eu queria que você pudesse ficar — comentou.

— Ezio, eu não posso. Você sabe disso.

— Dispense suas servas.

— Eu tenho de ir logo.

— Dispense-as. Isso não vai demorar.

Caterina pediu às mulheres que saíssem, mas ele viu que tinha sido com relutância, e então ela disse:

— Voltem em cinco minutos, pelo relógio d agua.

Uma vez a sós, ele não sabia por onde começar.

— Bem? — disse Caterina, de forma mais gentil, e ele viu que os olhos dela estavam preocupados, mesmo que ele não soubesse com o quê.

— Eu... eu resgatei você — afirmou ele, desajeitado.

— Você me resgatou, e eu lhe sou grata. Mas, afinal, você disse a todos que você o fez só porque eu ainda sou uma aliada útil, mesmo sem ter Forli?

— Vamos reconquistar Forli.

— E então irei para lá novamente.

Ezio ficou calado de novo. O coração dele parecia vazio.

Caterina foi até ele e pôs as mãos em seus ombros.

— Ezio, escute. Eu não tenho utilidade alguma sem Forli. Se eu par­to agora, é para buscar segurança, e para estar com os meus filhos. Você não deseja tais coisas para mim?

— Desejo.

— Bem, então...

— Eu não resgatei você pelo seu valor à causa.

Foi a vez de ela permanecer calada.

— Mas porque...

— Não diga isso, Ezio.

— Por que não?

— Porque eu não posso lhe dizer o mesmo de volta.

Nenhuma arma poderia ter cortado o coração de Ezio tão fundo quanto aquelas palavras.

— Você me usou, então?

— Isso soou horrível.

— Que outras palavras você gostaria que eu usasse?

— Eu tentei explicar mais cedo.

— Você é uma mulher implacável.

— Eu sou uma mulher com um dever a cumprir e um trabalho a realizar.

— Então o que quer que sirva à sua causa é válido?

Caterina ficou em silêncio por mais algum tempo, e então falou.

— Eu já tentei lhe explicar isso. Você precisa aceitar. — Caterina ti­rou as mãos dos ombros dele. Ezio podia ver que ela voltara a pensar na jornada, e olhava para as coisas que precisavam ser guardadas.

Então Ezio pensou, impulsivamente, Ao inferno com a Irmandade! Eu sei o que eu quero! Por que não posso viver para mim, para variar?

— Eu vou com você — anunciou ele.

Ela se virou, com uma expressão muito séria.

— Escute, Ezio. Talvez você esteja fazendo uma escolha, mas já é tarde demais. Talvez eu tenha feito a mesma coisa. Você é líder dos As­sassinos agora. Não desista do trabalho que iniciou, o grande trabalho de reconstruir a ordem após o desastre em Monteriggioni. Sem você, as coisas desmoronarão novamente, e quem estará lá para nos salvar?

— Você nunca me quis de verdade.

Ezio fitou Caterina. Ela ainda estava ali, no quarto, com ele, mas o espírito já havia partido. Há quanto tempo ela o tinha abandonado, Ezio não sabiá. Talvez ela nunca tenha estado com ele de verdade. Talvez tudo aquilo tivesse sido apenas fruto da esperança ou da imaginação de Ezio. Naquele momento, ele se sentia como se estivesse olhando o cadáver do amor, mas ainda assim se recusando a aceitar aquela morte. Mas, como acontecia com qualquer outra morte, ele viu que não tinha escolha além de se acostumar à realidade dela.

Alguém bateu à porta.

— Entrem — disse Caterina, e as servas voltaram.

Ezio as deixou fazendo as malas.

Na manhã seguinte ele estava determinado a não ir vê-las partir, mas não conseguiu evitar. Estava frio, e quando Ezio chegou à praça desig­nada, em um distrito seguro da cidade, o grupo já estava montado e os cavalos inquietos. Talvez, mesmo agora, no momento final, ela fosse ceder.

Mas os olhos dela estavam distantes, ainda que bondosos. Ezio pen­sou que poderia ter aguentado melhor a situação se ela não tivesse olha­do para ele com tanta bondade. A bondade era quase humilhante.

Buona fortuna, contessa, e... adeus. — Foi tudo que ele conseguiu dizer.

— Vamos torcer para que não seja “adeus”.

— Ah, acredito que seja.

Caterina fitou Ezio mais uma vez.

— Bem, então... buona fortuna anche, meu príncipe, e... Vittoria agli Assassini!

A condessa virou o cavalo e sem mais uma palavra, nem mesmo um olhar para trás, galopou para o norte, saindo da cidade e da vida de Ezio. Ele os observou até que fossem meros pontos ao longe, um homem solitário de meia-idade que tinha recebido uma última chance no amor e a tinha perdido.

— Vittoria agli Assassini — murmurou Ezio para si mesmo, ao se virar e voltar pela cidade ainda adormecida.

 

Com o retorno iminente de Cesare, Ezio teve de pôr sua dor particular de lado e dar continuidade ao trabalho que o destino lhe tinha confiado. Para cortar o acesso de Cesare ao dinheiro, o primeiro passo seria locali­zar e neutralizar o banqueiro dele, e a pista inicial viria do Rosa in Fiore.

— O que você quer? — Claudia não poderia ter sido mais hostil.

— Você mencionou um senador na reunião.

— Mencionei sim, por quê?

— Você afirmou que ele devia dinheiro ao banqueiro de Cesare. Ele está aqui;

Claudia deu de ombros.

— Você provavelmente o encontrará no Campidoglio. Com certeza não precisará da minha ajuda para isso

— Qual é a aparência dele?

— Ah, deixe-me ver... comum?

— Não brinque comigo, irmã.

Claudia cedeu um pouco.

— Ele tem uns 60 anos, é magro, parece estar sempre preocupado, com a barba feita, cabelos grisalhos e mais ou menos a sua altura. Chama-se Egidio Troche. É do tipo teimoso, Ezio, e pessimista, metódico. Você terá grandes dificuldades em tentar contorná-lo.

— Obrigado. — Ezio fitou-a duramente. — Pretendo rastrear esse banqueiro e matá-lo. Tenho uma boa ideia da identidade dele, mas pre­ciso descobrir onde ele vive. O senador pode me levar até ele.

— A segurança do banqueiro é bem reforçada. Assim como a sua seria, se você estivesse em uma posição como a dele.

— Você acha que minha segurança é fraca?

— Como se eu me importasse.

— Ouça, Claudia... Sou duro com você porque me preocupo.

— Poupe-me.

— Você está indo muito bem...

— Obrigada, gentil senhor...

— Mas eu preciso que você organize um serviço importante para mim. Assim que eu tiver neutralizado esse tal banqueiro, preciso que as suas meninas levem o dinheiro dele a um lugar seguro.

— Baste me avisar quando, ou melhor, se conseguir.

— Apenas fique alerta.

Em um péssimo humor, Ezio partiu para o monte Capitolino, o cen­tro administrativo de Roma. Lá ele se deparou com muita gente ocu­pada. Havia vários senadores cuidando dos negócios na larga piazza cercada pelos prédios do governo, acompanhados de secretários e assis­tentes que carregavam papéis em pastas de couro, seguindo os mestres de prédio em prédio. Todos tentavam parecer tão ocupados e impor­tantes quanto fosse possível. Ezio tentou se misturar como pôde à mul­tidão, mantendo um olho atento a qualquer homem que se encaixasse na descrição de Claudia. Ao se mover por entre toda aquela gente, Ezio manteve os ouvidos abertos para qualquer pista sobre a presa. Certa­mente não havia nenhum sinal de Egidio dentre os senadores naquele momento, mesmo que ele fosse o assunto principal das conversas dos colegas.

— Egidio andou pedindo dinheiro de novo — comentou um deles.

— E quando é que ele não o faz? Para que ele quer fundos desta vez?

— Ah, para algum tipo de proposta para reduzir o número de exe­cuções públicas.

— Ridículo!

Ezio foi até outro grupo de senadores e adquiriu mais informações. Ainda não tinha certeza, pelo que tinha escutado, se Egidio era um re­formista liberal militante (e portanto um tolo) ou algum tipo de golpista desajeitado.

— Egidio está peticionando o fim da tortura às testemunhas nos tri­bunais criminais — dizia alguém no grupo seguinte.

— Que absurdo! — retrucou o homem de aparência atormentada com quem ele conversava. — É tudo desculpa, de qualquer maneira, ele só quer é dinheiro para pagar as dívidas!

— E ele quer se livrar das licenças de isenção.

— Como assim?! Como se isso fosse acontecer algum dia! Todo ci­dadão que se sentir incomodado com nossas leis tem o direito de pagar por uma isenção dessas leis! É o nosso dever! Afinal de contas, foi nosso próprio Santo Padre que nos trouxe as licenças de isenção, e ele segue o exemplo do próprio Cristo: “Abençoados sejam os misericordiosos!”

Outra falcatrua dos Bórgia para faturar mais ouro, pensou Ezio, en­quanto o outro senador contribuía:

— Por que daríamos qualquer dinheiro a Egidio? Todo mundo sabe o que ele faria com a soma.

Os dois riram e seguiram em frente.

A atenção de Ezio foi atraída para um pequeno grupo de guardas dos Bórgia, com seus uniformes de cores vermelha e amarela, mas Ezio per­cebeu que estes tinham o brasão pessoal de Cesare, dois touros verme­lhos e flores-de-lis, costurado na túnica. Como isso sempre significava problemas, Ezio foi até eles e viu, ao se aproximar, que tinham cercado um senador. Os outros parlamentares continuavam cuidando dos pró­prios assuntos como se nada de mais estivesse acontecendo, mas Ezio percebeu que eles mantinham um belo espaço em relação aos guardas.

O senador desafortunado correspondia perfeitamente à descrição de Claudia.

— Chega de discussão — dizia o sargento dos guardas.

— Seu pagamento está atrasado — acrescentou o cabo. — Dívida é dívida.

Egidio dispensou qualquer pretensão de dignidade. Ele estava im­plorando.

— Façam uma exceção para um velho! — rogou ele trêmulo. — Eu lhes imploro!

— Não — rosnou o sargento, acenando com a cabeça para dois dos soldados, que seguraram os braços de Egidio e o atiraram ao chão. — O banqueiro nos mandou para cobrar, e você sabe o que isso significa!

— Olhe, me dê até amanhã, melhor, hoje à noite! Eu terei o dinheiro então.

— Tarde demais — retrucou o sargento, chutando o senador no es­tômago com força. Ele deu um passo atrás e o cabo e os dois guardas cuidaram de dar uma surra no velho prostrado.

— Isso não fará o dinheiro aparecer — afirmou Ezio, dando um pas­so à frente.

— Quem é você? Amigo dele?

— Sou um transeunte preocupado.

— Você pode levar a sua preocupação daqui e enfiar sabe onde! E cuide da porra dos seus próprios problemas!

O sargento se aproximou demais, como Ezio esperava. Com a fa­cilidade trazida pela experiência, Ezio ativou a lâmina oculta e abriu a garganta do sargento logo acima da armadura. Os outros guardas fica­ram olhando, paralisados de espanto enquanto o líder caía de joelhos e tentava em vão estancar com as mãos o chafariz de sangue que espir­rava. Antes que pudessem reagir, Ezio se lançou contra eles e, alguns segundos depois, os três tinham se juntado ao sargento do Outro Lado, todos com gargantas cortadas. A missão de Ezio não lhe deixava tempo para duelos de espada, apenas assassinatos rápidos e eficientes.

A piazza tinha se esvaziado como se por mágica. Ezio ajudou o se­nador a se levantar. Havia sangue nas roupas do homem, que estava em estado de choque. Mas o choque se misturava ao alívio.

— É melhor sairmos daqui — comentou Ezio.

— Eu tenho um lugar. Siga-me — respondeu Egidio, que saiu andan­do com velocidade impressionante até um beco entre dois dos maiores prédios governamentais. Eles passaram apressados e viraram à esquer­da, em seguida descendo alguns degraus até uma porta em um porão. O senador rapidamente a destrancou e guiou Ezio até um apartamento pequeno e escuro, mas confortável.

— Meu esconderijo — anunciou Egidio. — Ütil quando você tem tantos cobradores quanto eu.

— Exceto quando você tem um só, dos grandes.

— Meu erro foi consolidar todas as minhas dívidas com o banquei­ro. Eu não estava completamente ciente das conexões dele então. Deve­ria ter ficado com Chigi. Pelo menos ele é honesto, ou tão honesto quan­to um banqueiro pode ser. — Egidio fez uma pausa. — Mas, e quanto a você? Um Bom Samaritano em Roma? Achei que vocês estivessem em extinção.

Ezio ignorou o último comentário.

— Você é o senatore Egidio Troche?

Egidio pareceu surpreso.

— Não me diga que eu lhe devo dinheiro também!

— Não, mas você pode me ajudar. Eu estou procurando o banqueiro de Cesare.

O senador sorriu de leve.

— O banqueiro de Cesare Bórgia? Rá! E você é...?

— Digamos que sou um amigo da família.

— Cesare tem muitos amigos hoje em dia. Infelizmente, não sou um deles. Então, se você me der licença, tenho de fazer as malas.

— Eu posso pagar.

Egidio deixou de parecer nervoso.

— Rá! Você pode pagar? Ma che meraviglia! Ele mata guardas pri­meiro e depois oferece dinheiro! Diga-me, por onde você andou duran­te toda a minha vida?

— Bem, eu não caí do céu. Se você me ajudar, eu ajudarei você. Sim­ples assim.

Egidio considerou isso.

— Vamos à casa do meu irmão. Os Bórgia não têm problemas com ele, e não podemos ficar aqui. É deprimente demais, e perto demais dos meus... ou seriam os nossos?... inimigos.

— Vamos lá então.

— Mas você terá de me proteger. Vamos nos deparar com mais guardas de Cesare pelo caminho, procurando por mim, e não estarão com humor muito amistoso, se é que você me entende. Especialmente depois do espetáculo que você proporcionou na piazza.

— Vamos.

Egidio foi na frente, cuidadosamente, assegurando-se de que o ca­minho estava limpo antes de partirem por uma rota labiríntica que pas­sava por becos escuros e ruas suspeitas, atravessando pequenas piazze e contornando as beiradas das feiras. Duas vezes eles se depararam com pares de guardas, e duas vezes Ezio teve de lutar com eles, dessa vez usando a espada. Parecia que a cidade estava em alerta máximo em bus­ca dos dois homens que, fugindo juntos, eram um alvo muito apetitoso para os capangas dos Bórgia. O tempo não estava do lado de Ezio, então, quando o par seguinte de guardas apareceu do lado oposto de uma pe­quena piazza, eles simplesmente saíram correndo. Ezio, acompanhando o senador, não pôde subir aos telhados, e teve de depender apenas do conhecimento aparentemente inesgotável que Egidio tinha dos becos de Roma. Mas finalmente os dois alcançaram os fundos de uma villa nova e discretamente esplêndida, que se erguia no centro de um pátio murado, a alguns quarteirões a leste da basílica de São Pedro. Egidio abriu um pequeno portão de ferro com uma chave e os dois entraram.

Do lado de dentro, puderam recuperar o fôlego.

— Alguém quer muito ver você morto — comentou Ezio.

— Ainda não. Eles querem que eu pague antes.

— Porque apenas assim receberão o dinheiro...? E, pelo que ouvi, você é uma galinha dos ovos de ouro para eles.

— Não é tão simples. O fato é que eu fui um idiota. Não sou amigo dos Bórgia, mesmo que tenha pegado dinheiro emprestado com eles, e recentemente recebi algumas informações que me deram a chance de prejudicá-los, pelo menos um pouco.

— E essas informações foram...?

— Alguns meses atrás, meu irmão Francesco, que é camareiro de Cesare... Eu sei, eu sei, nem vamos tocar nesse assunto. Francesco me contou muita coisa dos planos de Cesare para Romagna. O que ele pre­tende fazer lá, quero dizer. E o que ele quer fazer é criar um minirreino a partir do qual pretende conquistar e controlar o resto do país. Como Romagna fica na entrada dos territórios venezianos, Veneza já está fu­riosa com os avanços de Cesare na região.

— E o que você fez?

Egidio estendeu as mãos.

— Escrevi ao embaixador veneziano, passando todas as informa­ções que recebi de Francesco, e o alertando. Mas uma das minhas cartas deve ter sido interceptada.

— Mas isso não implicaria o seu irmão?

— Ele conseguiu se manter seguro até agora.

— Mas o que diabos levou você a fazer tal coisa?

— Eu tinha de fazer algo. O Senado não faz nada hoje em dia, na realidade, além de permitir todos os decretos dos Bórgia. Se não o fizesse, deixaria de existir. Do jeito que as coisas estão, não há nada que alguém possa fazer sozinho. Você sabe qual é a sensação de não se ter un cazzo a fazer? — Egidio balançou a cabeça. — Isso muda um homem. Admito que até eu passei a beber, jogar...

— E frequentar bordéis...

O senador olhou para ele.

— Ah, você é bom nisso. Você é muito bom. O que foi que me de­nunciou? O perfume nas minhas mangas?

Ezio sorriu.

— Algo do tipo.

— Hum. De qualquer maneira, como eu estava dizendo, os senado­res costumavam fazer o que os senadores devem fazer: petições sobre questões relevantes, como... ah, por onde começar?... como crueldade ilegal, crianças abandonadas, criminalidade nas ruas, juros de emprésti­mos, colocar algumas rédeas em Chigi e nos outros banqueiros. Agora a única legislação que temos permissão de criar diz respeito a coisas como a largura apropriada das mangas de vestidos femininos.

— Mas você não é assim. Você tenta juntar dinheiro para causas fal­sas de modo a poder pagar suas dívidas de jogo.

— Não se trata de causas falsas, meu rapaz. Assim que tivermos um governo de verdade novamente, e assim que eu estiver em uma situação financeira estável outra vez, pretendo trabalhar nessas causas com mui­ta seriedade.

— E quando você acha que isso vai acontecer?

— Temos de ser pacientes. A tirania é insuportável, mas nunca dura. É muito frágil.

— Gostaria de poder acreditar nisso.

— É claro que você precisa se erguer contra ela. Não importa o que acontecer. Você obviamente precisa. — Ele fez uma pausa. — Eu sou provavelmente... quantos? De dez a quinze anos mais velho do que você. Tenho de usar o meu tempo do melhor jeito possível. Ou você nunca olhou para um túmulo e pensou: “Essa é a coisa mais significativa que eu farei: morrer.”

Ezio continuou calado.

— Não — prosseguiu Egidio. — Acho que não. Maledettas cartas! Eu jamais deveria tê-las enviado ao embaixador. Agora Cesare me mata­rá assim que puder, com dívida ou sem dívida, a não ser que, por algum milagre, ele agora decida descontar sua fúria em alguma outra pessoa. Deus sabe que ele é caprichoso o suficiente.

— Alguma outra pessoa? Como seu irmão?

— Eu jamais me perdoaria.

— Por que não? Você é um político.

— Não somos todos ruins.

— E onde está seu irmão?

— Não faço ideia. Não está aqui, graças a Deus. Não nos falamos desde que ele descobriu sobre as cartas, e eu já sou um risco grande demais para ele. Se ele visse você...

— Podemos cuidar dos negócios? — pediu Ezio.

— É claro. Uma mão lava a outra e tal. Bem, o que você queria mesmo?

— Eu quero saber onde está o banqueiro de Cesare. Onde ele traba­lha. Onde ele vive. E, acima de tudo, quem é ele.

Egidio subitamente ficou todo animado.

— Certo! Preciso chegar com dinheiro. — Ele estendeu as mãos no­vamente. — O problema é que eu não tenho nenhum.

— Eu já falei que arranjaria o dinheiro. Basta me dizer quanto. E onde você vai encontrar esse banqueiro.

— Eu nunca sei até que eu chegue lá. Geralmente vou a um de três pontos combinados com antecedência. Os associados dele aparecem e me levam até ele. Eu estou devendo dez mil ducados.

— Sem problema.

— Sul serio? — Egidio parecia um menino no natal. — Você tem de parar com isso! Está quase me dando esperanças!

— Fique aqui. Eu voltarei com o dinheiro ao pôr do sol.

Com a chegada do crepúsculo, Ezio reencontrou Egidio, que estava cada vez mais incrédulo, e colocou duas bolsas de couro nas mãos do senador.

— Você voltou! Voltou de verdade!

— Você me esperou.

— Sou um homem desesperado. Não posso acreditar que você sim­plesmente faria... isso.

— Há uma condição.

— Eu sabia.

— Escute — começou Ezio. — Se você sobreviver, e eu espero que você sobreviva, quero que fique de olho na situação política da cidade. E quero que relate tudo que descobrir à... — Ezio hesitou, mas continuou.

— À Madonna Claudia, no bordel chamado Rosa in Fiore. Especial­mente as coisas que descobrir sobre os Bórgia. Você conhece esse lugar?

— indagou Ezio, sorrindo por dentro.

— Eu... tenho um amigo que às vezes vai lá. — Egidio tossiu.

— Ótimo.

— O que você fará com essas informações? Vai fazer com que os Bórgia desapareçam?

Ezio sorriu.

— Estou apenas... recrutando você.

O senador olhou para as bolsas de dinheiro.

— Odeio dar essa grana a eles. — E ficou em silêncio, pensando, en­tão falou. — Meu irmão me protegeu porque somos parentes. Eu odeio aquele pezzo di merda, mas ele ainda é meu irmão.

— Ele trabalha para Cesare.

Egidio se recompôs.

— Va bene. Eles me informaram o local do encontro de hoje en­quanto você estava fora. Não poderia ser mais conveniente. Estão impa­cientes para receber o dinheiro, então o encontro será hoje à noite. Eu suei sangue, sabia, quando disse ao mensageiro que certamente levaria o dinheiro. — Egidio fez mais uma pausa. — Teremos de partir em breve. O que você fará? Vai me seguir?

— Não seria muito bom se você não chegasse sozinho.

Egidio concordou com a cabeça.

— Ótimo. Temos tempo apenas para um cálice de vinho. Quer?

— Não.

— Bem, eu definitivamente preciso de um.

 

Ezio seguiu o senador por mais um labirinto de ruas, só que estas, que levavam para perto do Tibre, lhe eram mais familiares, e Ezio passou por monumentos, praças e fontes que conhecia, além de prédios em construção, pois os Bórgia gastavam fortunas em palazzi e teatros e até mesmo galerias de arte, na busca pela própria glória pública. Finalmen­te Egidio parou em uma bela praça cercada de residências particulares em dois lados e de uma fileira de lojas caras em um terceiro lado. O quarto lado era um pequeno e bem-cuidado parque que descia até o rio. Esse era o destino de Egidio. O senador escolheu um banco de pedra e parou ao lado dele nas sombras que cresciam, olhando para os lados, mas ainda assim tranquilo. Ezio admirou a compostura dele, que tam­bém era útil. Qualquer sinal de nervosismo teria posto os capangas do banqueiro em estado de alerta.

Ezio se posicionou junto a um cedro e esperou. Não teve de aguar­dar muito tempo. Minutos após a chegada de Egidio, um homem alto vestindo um uniforme que ele não reconheceu foi até o senador. Um distintivo no ombro trazia, em uma das metades, um touro vermelho em um campo dourado e, na outra, largas listras horizontais negras e douradas. Ezio não conhecia o brasão.

— Boa noite, Egidio — saudou o recém-chegado. — Parece que você está preparado para morrer como um cavalheiro!

— Isso não foi nada amistoso da sua parte, capitano — respondeu Egidio. — Considerando que eu trouxe o dinheiro.

O homem ergueu uma sobrancelha.

— É mesmo? Bem, isso faz toda a diferença. O banqueiro ficará muito satisfeito. Você veio sozinho, acredito?

— Você vê mais alguém por aqui?

— Apenas me siga, furbacchione.

Eles partiram, voltando pelo caminho para leste e cruzando o Tibre. Ezio os seguiu a uma distância discreta, mas ficando perto o bastante para ouvi-los.

— Há notícias do meu irmão, capitanol — perguntou Egidio en­quanto caminhavam.

— Posso lhe dizer apenas que o duque Cesare deseja muito conver­sar com ele. Assim que voltar de Romagna, quero dizer.

— Ele está bem, espero.

— Se não tiver nada a esconder, não terá nada a temer.

Eles continuaram em silêncio, e ao chegar à igreja de Santa Maria sopra Minerva, viraram para o norte, na direção do Panteão.

— O que acontecerá ao meu dinheiro? — indagou Egidio. Ezio per­cebeu que ele estava tentando extrair informações do capitão. Homem inteligente.

— Seu dinheiro? — O capitão riu. — Espero que os juros estejam todos aqui.

— Estão.

— É melhor que estejam mesmo.

— Então?

— O banqueiro gosta de ser generoso com os amigos. Ele os trata bem. Tem dinheiro para isso.

— E ele trata você bem, é?

— Gosto de pensar que sim.

— Mas quanta generosidade — comentou Egidio, com tanto sarcas­mo que até o capitão notou.

— O que você disse? — perguntou o homem ameaçadoramente, pa­rando de andar.

— Ah... nada.

— Vamos, já chegamos.

A magnitude do Panteão se erguia das trevas na piazza apertada. O alto pórtico coríntio do prédio de 1500 anos, construído como templo para todos os deuses romanos mas há muito tempo consagrado como igreja, se erguia sobre eles. Nas sombras havia três homens esperando. Dois estavam vestidos de maneira semelhante ao capitão. O terceiro era um civil, um homem alto, mas ressequido e murcho, cujas vestes refinadas não lhe serviam bem. Eles saudaram o capitão, e o civil acenou friamente com a cabeça para Egidio.

— Luigi! Luigi Torcelli! — disse Egidio bem alto, para que Ezio ou­visse. — E bom vê-lo novamente. Ainda agente do banqueiro, estou ven­do. Achei que você já teria sido promovido a essa altura. Algum serviço de escrivaninha e coisa e tal.

— Cale a boca — retrucou o homem de modo intimidador.

— Ele trouxe o dinheiro — anunciou o capitão. Os olhos de Torcelli cintilaram.

— Bem, bem! Isso deixará meu mestre com um ótimo humor. Ele está oferecendo uma festa muito especial esta noite, então entregarei o dinheiro a ele pessoalmente, em seu palazzo. E preciso me apressar. Tempo é dinheiro. Então passe logo para cá!

Egidio claramente odiava obedecer, mas os dois guardas apontaram as alabardas de forma ameaçadora, e o senador entregou as bolsas.

— Ufa! — exclamou. — Que peso. Fico feliz em me livrar delas.

— Cale a boca — repetiu o agente, que se virou para os guardas e ordenou: — Mantenham-no aqui até eu voltar.

Com isso, ele desapareceu dentro da igreja cavernosa e deserta, fe­chando firmemente as poderosas e pesadíssimas portas.

Ezio precisava segui-lo, mas não havia jeito de atravessar aquelas portas e, de qualquer maneira, primeiro seria necessário passar silen­ciosamente pelos guardas. Mas Egidio deve ter adivinhado isso, pois começou a puxar conversa com os guardas, irritando-os, mas, acima de tudo, distraindo-os.

— Então, por que não me soltar? Eu paguei! — reclamou ele, indignado.

— E se você tiver tentado nos enrolar? — retrucou o capitão. — O dinheiro precisa ser contado primeiro. Você deve entender isso.

— O quê? Dez mil ducados? Vai levar a noite toda!

— Tem de ser feito.

— Se o Luigi se atrasar, vai se dar mal. Só posso imaginar o tipo de homem que o banqueiro deve ser.

— Cale a boca.

— Vocês têm um vocabulário realmente limitado. Olhe, pense no pobre Torcelli, se ele não chegar logo com o dinheiro, o banqueiro provavelmente não o deixará participar da diversão. Ele deixa os capangas participarem da diversão?

O capitão deu um murro com impaciência na cabeça de Egidio, que se calou, ainda sorrindo. Ele tinha visto Ezio se esgueirando por eles e escalando a fachada do prédio até o domo que havia atrás.

Uma vez no telhado do edifício circular, cuja frente clássica era par­cialmente escondida, Ezio correu até a abertura redonda — o olho — que sabia existir no centro. Seria um teste de todas as habilidades de escalada dele, mas, uma vez lá dentro, encontraria o agente e poria em prática a próxima etapa do plano, que estava se formando rapidamente em sua mente. O agente tinha mais ou menos o seu tamanho, embora fosse muito menos musculoso, e a capa larga com capuz esconderia o físico de Ezio, se tudo desse certo.

A parte mais complicada seria se abaixar pela abertura no ápice do domo e então encontrar alguma forma de descer dali. Mas ele já visitara a igreja antes e sabia que os incensórios, que chegavam quase ao solo, estavam suspensos por correntes presas ao teto. Se conseguisse alcançar uma delas... e elas aguentassem o peso dele...

Bem, não havia outro jeito. Ezio sabia muito bem que nem ele seria capaz de descer como uma mosca pela curvatura interna do domo, mais de quarenta metros acima das pedras cinzentas do piso.

Ezio se pendurou sobre a beira da abertura e espiou a escuridão abaixo. Um mínimo ponto de luz bem distante lá embaixo mostrava onde estava o agente, sentado em um banco que corria paralelo à pare­de. Estava com o dinheiro ao lado, contando-o à luz de vela. Em seguida, Ezio procurou as correntes. Nenhuma estava ao alcance dele, mas se pelo menos pudesse...

Ezio mudou de posição e baixou as pernas pela beira da abertura circular, segurando-se com as duas mãos. Era um risco enorme, mas as correntes pareciam ser sólidas e velhas, e muito mais pesadas do que ele pensara. Ezio olhou para o ponto de fixação no teto e, pelo que pôde ver, estavam bem presas à pedra sólida.

Bem, não havia outra maneira. Empurrando forte com as mãos, ele se atirou para a frente e de lado no vazio.

Por um momento Ezio se sentiu como se estivesse suspenso no ar, sustentado por suas correntes, mas então ele começou a cair.

Ezio agitou e girou os braços, e fez um esforço mental para alcançar a corrente mais próxima. E conseguiu! Os elos escorregaram sob as lu­vas e Ezio deslizou alguns metros até conseguir agarrar firme, e então percebeu que estava balançando suavemente nas trevas. Ezio estutou. Não havia som algum, e estava escuro demais para que o agente visse a corrente balançando, lá longe de onde estava sentado. Ele olhou para a luz, que ainda brilhava constante. Não houve chamados de alarme.

Com cuidado, Ezio desceu pela corrente até chegar perto do chão, talvez uns 6 metros de altura. Estava bem perto do agente e podia ver sua silhueta encurvada sobre as bolsas de dinheiro, enquanto as moedas cintilavam à luz da vela. Ezio ouviu o homem murmurando e o clique suave e rítmico do ábaco.

Subitamente, porém, houve um som fortíssimo vindo do alto. O ponto de fixação da corrente no teto não conseguiu mais suportar o peso extra e se soltou. Ezio largou a corrente quando ela ficou frouxa em suas mãos e se atirou para a frente, na direção da vela. Enquanto voava no ar, ouviu um “Quem está aí?” assustado do agente, e o matra­quear aparentemente infinito de 40 metros de corrente caindo no chão. Ezio agradeceu a Deus pelo fato de as portas da igreja estarem fechadas. A espessura delas certamente abafaria qualquer barulho que viesse de dentro.

Ele caiu sobre o agente com todo o seu peso, deixando o homem sem fôlego. Os dois se espatifaram no chão, e o agente ficou debaixo de Ezio com os braços e pernas abertos.

Luigi se soltou, mas Ezio segurou-lhe o braço.

— Quem é você? Cristo me proteja! — gritou o agente, aterrorizado.

— Lamento, amigo — murmurou Ezio, liberando a lâmina oculta.

— O quê? Não! Não! — tagarelou o agente. — Olhe o dinheiro! É seu! É seu!

Ezio ajeitou a mão que segurava o homem e o puxou mais para perto.

— Afaste-se de mim!

— Requiescat in pace — disse Ezio.

 

Deixando o corpo no chão, Ezio rapidamente despiu o agente do manto exterior e o vestiu por cima das próprias roupas, cobrindo a parte infe­rior do rosto com um cachecol e puxando a aba do chapéu para baixo. O manto era um pouco apertado, mas isso não era perceptível. Então, ter­minou de transferir o dinheiro das bolsas à caixa de metal que o agente tinha trazido para isso. A maior parte do dinheiro estava arrumada e empilhada na caixa. Ezio acrescentou o livro-caixa e, abandonando o ábaco e as bolsas de couro, meteu a pesada caixa sob o braço e foi até a porta. Tinha ouvido o jeito de falar do homem o bastante para imitá-lo toleravelmente, esperava. De qualquer maneira, teria de correr o risco.

Ezio foi até a porta e, ao abri-la, o capitão gritou:

— Está tudo bem por aí?

— Já acabei.

— Bem, vamos lá, Luigi, ou chegaremos atrasados.

Ezio emergiu no pórtico

— A contagem está completa?

Ezio assentiu com a cabeça.

— Va bene — respondeu o capitão. Então, Virando-se para os ho­mens que guardavam Egidio, ele ordenou: — Matem-no.

Espere! — disse Ezio.

— O quê?

— Não o matem.

O capitão pareceu surpreso.

— Mas isso... isso não é exatamente o procedimento padrão, é, Luigi? Além disso, você sabe o que esse cara fez?

— Tenho minhas ordens. Diretamente do banqueiro. Esse homem deve ser poupado.

— Posso perguntar por quê?

— Você questiona as ordens do banqueiro?

O capitão deu de ombros e assentiu aos guardas, que soltaram o se­nador.

— Sorte sua — disse ele a Egidio, que teve o bom senso de não olhar para Ezio antes de ir embora apressado, sem dizer mais nada.

O capitão se virou para Ezio.

— Certo, Luigi, mostre o caminho.

Ezio hesitou. Ele estava empacado, pois não fazia ideia de onde ir. Ergueu a caixa.

— Isto é pesado. Mande os guardas carregarem.

— Certamente.

Ele passou a caixa, mas continuou parado.

Os guardas esperaram.

— Ser Luigi — disse o capitão após alguns momentos. — Com todo respeito, temos de entregar isto ao banqueiro dentro do prazo. E claro, não estou questionando a sua autoridade, mas... não era melhor nós ir­mos andando?

De que adiantaria tentar ganhar mais tempo? Ezio sabia que teria de arriscar um palpite. Era provável que o banqueiro vivesse perto do Castel SantAngelo ou do Vaticano. Mas qual dos dois? Ele chutou que seria o Castel e saiu andando para o oeste. Os guardas de segurança dele se entreolharam, mas o seguiram. Mesmo assim, ele pressentiu a inquietude e, de fato, depois que eles andaram um pouco, Ezio ouviu os dois guardas sussurrando.

— Será que isso é algum teste?

— Não sei bem.

— Talvez seja cedo demais.

— Quem sabe a gente esteja pegando a rota mais longa de propósito, por algum motivo.

Finalmente o capitão chamou Ezio e indagou:

— Luigi, está tudo bem?

— E claro que está!

— Então, com todo respeito novamente, por que você está nos le­vando na direção do Tibre?

— Motivos de segurança.

— Ah, eu bem que me perguntei. Normalmente vamos direto para lá.

— Esta é uma tarefa particularmente importante — afirmou Ezio, esperando que fosse mesmo. Mas o capitão nem piscou.

Enquanto eles pararam para conversar, um dos guardas murmurou para o outro.

— Que grande bobagem, se você quer saber. Este tipo de palhaçada me dá saudades do tempo que eu era um ferreiro.

Estou faminto, quero ir logo para casa — resmungou o outro. — Dane-se a segurança, é só a dois quarteirões ao norte daqui.

Ao ouvir isso, Ezio finalmente suspirou aliviado, pois surgiu na mente dele a localização do palazzo do outro banqueiro, Agostino Chigi, que cuidava dos assuntos do papa. Ficava um pouco a nordeste de onde eles estavam agora. Fazia sentido que a casa do banqueiro de Cesare não ficasse muito longe, no distrito financeiro. Ezio sentiu- se tolo por ter pensado nisso antes. Mas esse tinha sido mais um dia daqueles.

— Já fizemos um desvio grande o suficiente — afirmou Ezio decidi­do. — Vamos tomar uma rota direta daqui.

Ele partiu na direção do Palazzo Chigi e viu que estava certo pelo senso de alívio que percebeu nos companheiros. Depois de algum tem­po, o capitão até decidiu tomar a dianteira. Aceleraram o passo e logo chegaram a um distrito de ruas limpas e largas. O grande e bem-ilumi­nado edifício de mármore a que eles se dirigiam tinha guardas diferen­tes de serviço ao pé dos degraus da entrada e diante da imponente porta dupla à frente.

Evidentemente, o grupo de Ezio era esperado.

— Já não era sem tempo — comentou o líder dos novos guardas, que claramente tinha a patente mais alta do que a do capitão. Virando-se para Ezio, acrescentou: — Entregue a caixa aos meus homens, Luigi. Cuidarei para que o banqueiro a receba. Mas é melhor você vir também. Há alguém que quer falar com você. — Ele olhou em volta. — Onde está o senador Troche?

— Cuidamos dele conforme ordenado — respondeu Ezio rapida­mente, antes que alguém pudesse dizer algo.

Ótimo — disse o líder dos guardas.

Ezio seguiu a caixa, agora nas mãos de novos guardas, escada acima. Atrás dele, o capitão foi barrado.

— Você não — comandou o líder.

— Não podemos entrar?

— Hoje não. Você e seus homens devem acompanhar a patrulha. E você pode mandar um deles para buscar outro destacamento. Estamos em segurança máxima. Ordens do duque Cesare.

Porco puttana — grunhiu um dos guardas de Ezio, o ex-ferreiro, para o amigo.

Ezio deixou os ouvidos bem atentos. Cesare? Aqui? Pensou ele com a mente correndo a toda, e entrou pelas portas abertas para um hall ful­gurante de tanta luz e, felizmente, cheio de gente.

O capitão e o líder dos guardas ainda estavam discutindo sobre a patrulha extra quando um destacamento de polícia da cidade papal veio correndo até eles. Estavam sem fôlego, com a preocupação estampada no rosto.

— O que houve, sargento? — perguntou o líder ao comandante da patrulha.

— Peráone, colonnello, mas estávamos na nossa rota perto do Pan­teão... As portas estavam abertas...

— E?

— E então investigamos. Mandei alguns homens entrarem...

— Fale logo homem!

— Encontramos messer Torcelli, senhor. Assassinado.

— Luigi? — O líder se virou para olhar a porta da frente, pela qual Ezio tinha acabado de desaparecer. — Absurdo. Ele chegou há alguns minutos. Com o dinheiro. Deve haver algum erro.

 

Após ter se livrado o mais rápido que pôde das vestimentas de Luigi e tê-las escondido atrás de uma coluna, Ezio caminhou por entre os con­vidados ricamente vestidos, muitos dos quais usavam máscaras. Man­tinha sempre um olhar atento sobre a caixa de dinheiro, e resolveu se aproximar dos guardas que a levavam quando eles pararam próximos a um criado muito bem vestido, a quem a entregaram.

— Para o banqueiro — anunciou um dos guardas, enquanto entre­gavam a caixa ao criado.

O servo acenou com a cabeça, segurando a caixa com facilidade, e se virou para caminhar em direção ao fundo do salão. Ezio estava prestes a seguir o homem, quando três garotas passaram esbarrando nele. As roupas delas eram tão luxuosas quanto as dos outros hóspedes, mas com um decote que escondia muito pouco. Em choque e surpreso, Ezio as reconheceu como cortesãs do Rosa in Fiore. Ele claramente subestimou a irmã. Não era à toa que estava tão furiosa.

— Nós tomaremos conta a partir daqui, Ezio — exclamou uma das garotas.

— E não vai funcionar se você ficar perto de nós — completou a segunda.

— Mas fique de olho na gente.

Elas caminharam, graciosas como garças, até o criado. Uma delas começou a puxar assunto.

— Olá — disse a moça.

— Boa noite — respondeu o homem, desconfiado, apesar de saber que estava perdendo toda a diversão da festa, ficando preso ao trabalho o tempo todo.

— Você se importaria se eu caminhasse ao seu lado? Com essa gente toda, fica difícil para uma dama como eu chegar a algum lugar.

Claro! Quer dizer... Eu não me importo se você quiser me fazer companhia.

— Eu nunca estive aqui antes.

— De onde você é?

Trastevere — contou ela, enquanto encenava um tremor de pa­vor. — Precisei passar por umas ruínas para chegar aqui. Fiquei com muito medo.

— Você está segura aqui.

— Quer dizer, ao seu lado?

O criado sorriu.

— Eu poderia protegê-la, se fosse necessário.

— Tenho certeza que sim. — Ela desviou os olhos para a caixa e exclamou. — Nossa, que baú lindo você tem!

— Não é meu.

— Ah, mas está carregando com esses braços fortes. Você tem tantos músculos.

— E você quer pegar nos meus músculos?

— Santò cielo! Mas como eu poderia confessar isso ao padre depois?

A essa altura, eles já haviam chegado a um portão de ferro, protegi­do por dois guardas. Um deles bateu à porta e, alguns momentos depois, uma figura de vestes vermelhas como as de um cardeal apareceu na en­trada, com um criado semelhante ao primeiro ao seu lado.

— Aqui está o dinheiro que era aguardado, Vossa Eminência — afir­mou o primeiro criado, enquanto entregava a caixa ao segundo.

Ezio respirou fundo. Suas suspeitas se confirmaram. O banqueiro era ninguém menos do que Juan Bórgia, o Ancião, arcebispo de Monreale e padre-cardeal de Santa Susanna. O mesmo homem que tinha visto ao lado de Cesare em Monteriggioni e no estábulo do Castel Sant' Angelo!

Ótimo — respondeu o banqueiro. Seus olhos negros brilharam no rosto pálido. Ele observava a garota, que estava ao lado do primeiro criado. — Acho que vou ficar com ela também.

O homem agarrou-a pelo pulso e puxou-a para perto de si. Ele olhou altivamente para o primeiro criado e ordenou:

— Quanto a você, está dispensado.

— Onoratissima! — exclamou a mulher, desejosamente se esfregan­do no corpo do banqueiro enquanto o criado se esforçava para controlar a cara de ódio. O segundo criado entrou na sala e a fechou, desaparecen­do de vista. O banqueiro conduziu a moça até a festa.

O primeiro homem os observou e suspirou melancólico e confor­mado. Ele começou a caminhar para ir embora quando, instintivamen­te, verificou seus pertences.

— Minha bolsa de moedas! O que aconteceu com ela? — murmu­rou e olhou na direção para onde o banqueiro tinha ido com a garota. Eles estavam cercados de convidados sorridentes, com servos passando o tempo todo levando bandejas de prata, servindo comida e bebida. — Ah, merda! — reclamou consigo mesmo enquanto caminhava na dire­ção da porta da frente.

Ao passar por elas, as portas se fecharam. Evidentemente, todos os convidados já haviam chegado. Ezio observou o criado saindo e pensou: se eles continuassem a tratar as pessoas dessa maneira, ele não teria difi­culdade alguma em alistar os novos recrutas.

Ezio se virou e se encaminhou até um lugar próximo ao banqueiro. No mesmo instante, um arauto apareceu na galeria e um trombeteiro que o acompanhava tocou, pedindo silêncio.

— Eminenze, signore, signori — anunciou o arauto.

— Nosso estimado senhor e convidado de honra, o duque de Va­lência e Romagna, capitão-general da forze armate papal, príncipe de Andria e Venafro, conde de Dyois e lorde de Piombino, Camerino e Urbino, Vossa Graça messer Cesare Bórgia está prestes a nos honrar com um discurso no grande salão interno.

— Vamos, querida. Você vai se sentar ao meu lado — informou o banqueiro à cortesã enquanto apalpava suas nádegas.

Ezio seguiu a multidão que se encaminhava em uníssono pela porta dupla da sala interna. Reparou que as duas outras garotas não estavam longe, mas haviam passado a ignorá-lo sensatamente. Ele se perguntou quantos outros aliados sua irmã teria conseguido infiltrar na festa. Se ela tivesse, de fato, conseguido tudo que ele solicitou, ele teria de pedir desculpas de joelhos a ela. Mas ao menos, ele se sentia orgulhoso e confiante.

O líder dos Assassinos se sentou em uma fileira de cadeiras próxima ao meio do salão. Os guardas papais estavam formados junto às pare­des da sala e diante do palanque erguido no fundo. Depois que todos tomaram seus lugares, uma figura familiar vestida de preto subiu ao pa­lanque. Ele estava acompanhado pelo pai, mas o papa apenas se sentou no fundo. Para seu alívio, Lucrécia não estava por lá. A essa altura, ela provavelmente já havia sido libertada de sua cela.

— Bem-vindos, meus amigos — iniciou Cesare, com um leve sorri­so. — Eu sei que todos teremos uma longa noite pela frente. — Fez uma pausa para as gargalhadas e as palmas de alguns convidados. — Mas não pretendo detê-los por muito tempo. Meus queridos, é uma grande honra que o cardeal de Santa Susanna tenha tido todo esse trabalho para celebrar minhas vitórias recentes.

Aplausos.

— E que maneira melhor haveria de celebrar do que uma reunião da irmandade dos homens? Em breve, nós nos reuniremos aqui no­vamente para uma ocasião ainda mais especial, pois celebraremos a unificação da Itália. Quando esse dia chegar, meus amigos, não cele­braremos por uma noite ou duas, nem mesmo por uma semana. Nossa celebração durará quarenta dias!

Ezio viu o papa se enrijecer ao ouvir isso, mas Rodrigo não disse nada nem interrompeu Cesare. O discurso, como prometido, foi curto. Apenas fez uma lista das novas cidades-estados sob seu controle e ex­pressou por alto seus planos de conquista para o futuro. Quando termi­nou, em meio a aplausos e gritos de aprovação, Cesare se virou para ir embora, mas seu caminho foi bloqueado por Rodrigo, que lutava para conter a fúria. Ezio caminhou disfarçadamente à frente para ouvir a pe­quena discussão que havia começado à sotto voce entre pai e filho. Os outros convidados começaram a se encaminhar para o salão principal, já pensando nos prazeres da festa que os esperava.

— Nunca concordamos em conquistar toda a Itália — esbravejou Rodrigo, cheio de raiva.

— Mas, caro padre, se seu brilhante capitão-general afirma que é possível, por que não relaxar e deixar que as coisas aconteçam?

— Você está arriscando tudo! Pode acabar desfazendo um equilí­brio de poder que nós trabalhamos com tanto esforço para estabelecer!

Cesare apertou os lábios.

— Eu agradeço por tudo o que você fez por mim, caro padre. Mas não se esqueça de que sou eu que controlo o exército agora, o que quer dizer que eu tomo as decisões. — Ele parou por um momento para que suas palavras fossem absorvidas. — Não fique tão melancólico, aprovei­te a festa!

Com essas palavras, Cesare desceu do palco e entrou por uma porta atrás das cortinas. Rodrigo observou o filho caminhando por um momento. Depois, murmurando consigo mesmo, seguiu o mes­mo caminho.

Exiba-se o quanto quiser agora, Cesare, pensou Ezio. Vou derrubá-lo. Enquanto sua hora não chega, seu banqueiro pagará o preço por se envol­ver com você.

Andando novamente como se fosse um dos convidados, ele partiu na mesma direção dos outros. Durante o discurso, o salão principal foi transformado. Camas e poltronas foram colocadas sob dosséis e o chão fora coberto de almofadas bordadas e tapetes grossos. Os servos conti­nuavam a passar por entre os convidados, servindo vinhos e comidas de todo tipo. Os convidados, por sua vez, pareciam ter ficado mais in­teressados uns nos outros. Por toda a sala, homens e mulheres tiravam as roupas, em pares, trios ou mais. O cheiro de suor surgiu com o calor.

Várias mulheres e alguns homens ainda não envolvidos nas “cele­brações” olharam para Ezio com desejo, mas poucos deram atenção en­quanto ele caminhava, ocultando-se atrás das colunas, na direção do banqueiro. O homem estava se despindo de sua biretta, de seu belíssimo ferraiolo e de sua sotaina, revelando um corpo magro, coberto apenas por uma camisa de algodão branco e ceroulas de lã. Ele e a cortesã esta­vam recostados em um dos sofás, que foi colocado em uma alcova, mais ou menos escondido do resto dos convidados. Ezio se aproximou.

— E você está tendo uma noite agradável, querida? — dizia o ban­queiro, enquanto alisava desajeitadamente o corpo da mulher.

— Sim, Eminenza, sem dúvida estou. Há tanto para se ver.

— Isso é ótimo. Eu não poupei um centavo, sabe? — Os lábios do homem percorriam o pescoço da cortesã. Ele lambia e mordia enquanto levava a mão da mulher para baixo.

Estou vendo — respondeu ela, olhando nos olhos de Ezio por cima do ombro do banqueiro. O olhar dela avisou Ezio para manter distância, por enquanto.

— E isso, minha querida. O acesso às coisas mais luxuosas da vida torna o poder tão desejável. Se eu vejo uma maçã em uma árvore, eu simplesmente a pego. Ninguém pode me impedir.

— Bem — sussurrou a mulher —, creio que isso dependa um pouco de quem é o dono da árvore.

O banqueiro riu.

— Eu acho que você não entendeu, minha cara. Todas as árvores são minhas!

— Não a minha, meu querido.

O banqueiro se afastou um pouco, e quando falou novamente, foi frio como a morte.

— Ao contrário, meu tesouro. Eu vi você roubar a bolsa do meu criado. Creio que ganhei o direito de fazer o que eu quiser com você em troca do perdão. Aliás, eu vou fazer o que eu quiser a noite toda!

— De graça?

Ezio torceu para que a garota não estivesse abusando da sorte. Ele observou a sala. Os poucos guardas que lá permaneciam estavam esta­cionados em intervalos de 5 metros. Nenhum deles estava por perto. O banqueiro, que estava em seu próprio território, se sentia muito seguro. Provavelmente seguro demais.

— Foi exatamente o que eu disse — respondeu o banqueiro, com certo tom de ameaça velada na voz. Então um novo pensamento passou por sua cabeça. — Você tem uma irmã, por acaso?

— Não, mas eu tenho uma filha.

O banqueiro ponderou.

— Trezentos ducados?

— Setecentos.

— Você barganha caro, mas... eu aceito! Foi um prazer fazer negó­cios com você.

 

A noite prosseguiu. Ezio ouvia vozes ao seu redor o tempo todo: “Faça outra vez! Não, não, você está me machucando! Não, você não pode fazer isso. Eu não vou deixar!” Todos os sons de prazer e dor: dor real e prazer fingido.

O banqueiro estava cada vez mais ansioso, infelizmente, e começou a rasgar o vestido da cortesã. Ainda assim, ela implorou com os olhos para que Ezio não se metesse. Ela parecia dizer com os olhos que daria conta do recado.

Ele observou a sala novamente. Alguns dos criados e a maioria dos guardas haviam sido seduzidos pelos convidados a se juntarem à festa. Ele viu algumas pessoas segurando consolos de marfim e de madeira e pequenos chicotes negros.

O momento estava chegando...

— Venha aqui, minha querida — sussurrava o banqueiro enquanto empurrava a mulher contra o sofá e a prendia com seu peso. Então, o homem pôs as mãos em volta do pescoço dela e começou a estrangu­lá-la. A mulher lutou para respirar por alguns segundos e desmaiou.

— Ah, sim! Eu adoro isso! — Ele ofegava, suas veias pulsando com o esforço e com a emoção, enquanto seus dedos apertavam o pescoço da mulher. — Isso deve aumentar o seu prazer. Com certeza aumenta o meu! — Um minuto depois, ele terminou com a garota e deixou seu peso cair sobre o corpo dela, pingando de suor e arfando.

Ele não matou a mulher. Ezio conseguia ver o peito dela se movendo com a respiração.

O banqueiro se arrastou até ficar de pé e deixou a prostituta caída, com a metade do corpo para fora do sofá.

Gritou uma ordem para dois criados próximos que ainda estavam concentrados no serviço:

— Livrem-se dela!

Enquanto o banqueiro caminhava para o meio da orgia principal, Ezio e os criados o observaram. Quando o homem saiu de perto e se ocupou com outras coisas, os criados colocaram a moça gentilmente no sofá, com um jarro de água do lado, e a cobriram com um tapete de pele. Um deles viu Ezio. O assassino pôs um dedo nos lábios. O homem sorriu e acenou com a cabeça. Ao menos, havia pessoas boas naquele buraco fedido.

Ezio seguiu o banqueiro enquanto ele segurava suas ceroulas, indo de grupo em grupo e murmurando palavras de apreciação, tal qual um connoisseur em uma galeria de arte.

— Ah, bellissimal — comentava ele de vez em quando, ao observar uma cena particularmente atraente.

Por fim, caminhou até a porta de ferro da qual havia saído no início da noite e bateu nela. Ela foi aberta por dentro, pelo criado que lá ficou a noite toda, provavelmente contando o dinheiro.

Ezio não lhes deu a chance de fechar a porta. Saltou à frente, e o seu impulso empurrou os dois homens para dentro. Fechou a porta cui­dadosamente e se virou para os dois inimigos. O criado, um homem pequeno e fraco, choramingou e caiu de joelhos, desmaiando logo em seguida. Ezio reparou uma mancha amarelada que se formou nas calças do servo. O banqueiro, por sua vez, se pôs de pé.

—Você! — disse ele. — Assassino! Mas não por muito tempo. — O banqueiro tentou alcançar a corda de um sino, mas Ezio foi mais rápido. Com a lâmina oculta, cortou os dedos da mão que o banqueiro esticou. O homem gemeu de dor e segurou com força a mão ferida enquanto três de seus dedos se espalhavam pelo carpete. — Fique longe de mim!

— gritou o homem. — Se você me matar, não vou lhe servir de nada! Cesare irá atrás de você! Mas...

— Mas?

Uma expressão de malícia tomou o rosto do homem.

— Se você me deixar viver...

Ezio sorriu. O banqueiro entendeu. Ele segurou a mão arruinada.

— Bem — disse ele. — Ao menos eu vivi muito bem. Vi, senti e provei muitas coisas. E não me arrependo de nenhuma delas. Não me arrependo de nenhum momento da minha vida.

— Você brincou com os berloques que o poder concede. Um ho­mem poderoso de verdade desdenharia de coisas como essas.

— Eu dei às pessoas o que elas queriam!

— Está mentindo para si mesmo.

— Poupe-me.

— O seu débito é grande, Eminenza. O prazer não merecido apenas consome a si mesmo.

O banqueiro ficou de joelhos, murmurando meias orações.

Ezio levantou a lâmina oculta.

— Requiescat in pace — disse ele.

Ezio deixou a porta aberta ao sair. A orgia havia desacelerado e se tor­nado apenas um aninhamento de corpos sonolentos e suados. Um ou dois convidados estavam vomitando, com ajuda dos criados. Um outro par de criados estava carregando um cadáver. Evidentemente, a festa foi demais para o coração de alguém. Não havia mais ninguém de guarda.

— Estamos prontas — disse uma voz saída detrás dele.

Ele se virou e viu Claudia. Ao redor dela e por toda a sala, uma dúzia de mulheres se levantou. Dentre elas, vestida novamente, estava a mu­lher que fora violentamente molestada pelo banqueiro. Os servos que a ajudaram estavam ao lado dela. Mais recrutas.

— Vá embora daqui — falou Claudia. — Nós vamos recuperar o dinheiro. E com juros.

— Você acha que...

— Só desta vez, Ezio, confie em mim.

 

Apesar de estar completamente apreensivo por deixar a irmã no coman­do, Ezio teve de admitir que, no fim das contas, ele havia pedido a ela que fizesse esse serviço. Havia muita coisa em jogo, mas ele sabia que o melhor a fazer era obedecer e confiar nela.

Fazia frio nas primeiras horas do novo dia. Ezio puxou o capuz ao passar pelos guardas sonolentos, no portão da casa do banqueiro. Com as tochas quase apagadas, a casa parecia muito mais velha e decaída. Brincou com a ideia de ir atrás de Rodrigo, que Ezio havia visto pela última vez saindo furioso do palanque após o discurso de Cesare — e o filho claramente havia escolhido não ficar para a festa —, mas logo deixou a brincadeira de lado. Ele não conseguiria invadir o Vaticano sozinho. Além do mais, estava cansado.

Fez o caminho de volta à Ilha Tiberina para se limpar e descansar, mas não ficou lá por muito tempo. Precisava descobrir, o mais rápido possível, como Claudia havia se saído. Só depois disso ele poderia rela­xar de verdade.

O sol estava aparecendo no horizonte, colorindo os telhados de Roma de dourado, enquanto ele caminhava em direção ao Rosa in Fio­re. Do ponto onde estava, conseguia ver um grande número de patru­lhas dos Bórgia rondando a cidade em um estado de agitação incomum. Mas o bordel era muito bem escondido e seu endereço era um segredo muito respeitado pelos clientes. Certamente não iriam querer responder a Cesare se o segredo se espalhasse. Por isso, Ezio não se surpreendeu ao ver que não havia mais homens com uniformes dos Bórgia na vizi­nhança. Desceu em uma rua próxima e caminhou, se contendo para não correr em direção ao bordel.

Ao se aproximar, ficou mais tenso. Do lado de fora havia sinais de luta e o chão estava sujo de sangue. Desembainhando a espada, entrou pela porta semiaberta, com o coração palpitando.

Os móveis da recepção foram revirados e o lugar estava uma ba­gunça. Havia vasos quebrados no chão e os belos quadros na parede —  ilustrações de bom gosto de alguns dos episódios mais aprazíveis de Boccacio estavam rasgados. Mas não era só isso. Os corpos de três guardas dos Bórgia jaziam na entrada, e havia sangue por toda parte. Ezio começou a seguir em frente quando uma das cortesãs, a mesma mulher que havia sofrido nas mãos do banqueiro, veio recebê-lo. O ves­tido e as mãos dela estavam ensanguentados, mas seus olhos brilhavam como nunca.

— Ah, Ezio! Graças a Deus você está aqui!

— O que aconteceu? — O pensamento dele foi direto para a irmã e para a mãe.

— Nós conseguimos escapar em segurança, mas um dos guardas dos Bórgia deve ter nos seguido até aqui...

— E o que houve?

— Eles tentaram nos prender aqui dentro, nos emboscar.

— Onde Claudia e Maria estão?

A garota estava em prantos.

— Venha comigo.

Ela caminhou na direção do pátio interno do Rosa in Fiore. Ezio a seguiu, ainda muito nervoso, mas reparou que a mulher estava de­sarmada e, apesar do nervosismo, caminhava sem medo. Que tipo de massacre teria acontecido? Os guardas teriam matado todas menos ela? Como escapou? Ela saiu, levando o dinheiro?

A garota abriu a porta do pátio interno. Uma visão chocante se reve­lou diante de seus olhos. Mas não era nada do que ele esperava.

Havia guardas dos Bórgia mortos por todo lado, e aqueles que ainda não estavam mortos estavam muito feridos e morrendo. No meio deles, estava Claudia, com o vestido cheio de sangue e com uma adaga de lâmina larga em uma mão e um estilete na outra. A maioria das mulheres que Ezio encontrou no palazzo do banqueiro estavam ao lado dela, igualmente armadas. De um dos lados, protegida por três mulheres, estava Maria. Atrás dela, empilhadas, estavam nada menos do que sete caixas de metal iguais a que Ezio havia entregado ao banqueiro.

Claudia ainda estava em guarda, junto com as outras mulheres, es­perando mais uma onda de ataques.

— Ezio! — exclamou ela.

— Sim, sou eu — respondeu ele, olhando para a pilha de corpos.

— Como você chegou até aqui?

— Pelos telhados, desde a Ilha Tiberina.

— Você viu mais deles lá fora?

— Sim, vários. Mas estavam todos correndo em círculos. Nenhum aqui por perto.

A irmã dele relaxou um pouco ao ouvir a notícia.

— Graças a Deus. Agora precisamos limpar a rua lá fora e fechar a porta. Depois precisamos dar um jeito nessa bagunça.

— Alguma de vocês... morreu?

— Duas. Lucia e Agnella. Nós já as colocamos nas camas. Elas mor­reram bravamente.

Claudia não estava sequer tremendo.

— Você está bem? — perguntou Ezio, hesitante.

— Perfeitamente — respondeu ela, recomposta. — Vamos precisar de ajuda para nos livrarmos desses corpos. Você pode mandar alguns recrutas para nos ajudar? Deixamos nossos novos amigos no palazzo, para despistar qualquer pessoa que pergunte demais.

— Algum soldado desta patrulha escapou?

Claudia ainda estava muito séria. Ainda não havia baixado as armas.

— Não, nenhum. As notícias não chegarão a Cesare.

Ezio ficou em silêncio por um momento. Não se podia ouvir nada além do barulho da fonte e do canto dos pássaros.

— Há quanto tempo isso aconteceu?

Ela abriu um pequeno sorriso.

— Você perdeu a festa por pouco.

Ele sorriu de volta.

— Ninguém precisava de mim. Minha irmã sabe como usar uma faca.

— E estou pronta para usá-la de novo.

— Você fala como uma verdadeira Auditore. Desculpe-me, irmã.

— Você precisava me testar.

— Eu queria protegê-la.

— Como você pode ver, sei me cuidar sozinha.

— É, agora eu vejo.

Claudia largou as facas e fez um gesto apontando os baús de tesouro.

— Os juros são suficientes para você?

— Estou vendo que você agiu muito melhor do que eu e estou total­mente admirado.

— Que bom.

Depois, fizeram o que realmente queriam pelos últimos cinco minu­tos. Eles se abraçaram com força, longamente.

— Excelente! — disse Maria, juntando-se a eles. — É bom ver que vocês dois finalmente recobraram o juízo!

 

— Ezio!

Ezio não esperava ouvir a voz familiar tão cedo novamente. Uma parte pessimista dele não esperava ouvi-la nunca mais. Ainda assim, ele tinha ficado satisfeito ao receber o bilhete na Ilha Tiberina, marcando um encontro na Raposa Adormecida, o quartel-general da Guilda dos Ladrões de La Volpe em Roma, para onde ele se dirigia agora.

Ele olhou ao redor, mas não viu ninguém. As ruas estavam vazias. Nem mesmo os guardas dos Bórgia circulavam por lá, pois o distrito era dominado pelos homens de La Volpe.

— Leonardo?

— Aqui! — A voz saía de um portal obscurecido.

Ezio caminhou até o portal e Leonardo o puxou para as sombras.

— Você fòi seguido?

— Não.

— Graças a Deus. Eu estava suando sangue!

— E você? Foi seguido?

— Não, um amigo meu, messer Salai, está vigiando a minha reta­guarda. Eu confio nele com a minha vida.

— Seu amigo?

— Sim, somos muito próximos.

— Tenha cuidado, Leo. Esse seu coração mole para com os jovens pode acabar sendo a brecha na sua armadura um dia.

— Eu posso ter o coração mole, mas não sou idiota. Agora vamos.

Leonardo puxou Ezio porta adentro após olhar para os dois lados da

rua. Alguns metros à frente e à direita, entraram em um beco que passa­va por entre prédios sem janela e com paredes velhas e caminharam por duzentos metros ou mais até chegarem a um cruzamento de três outras vielas. Leonardo seguiu pelo caminho da esquerda e, depois de mais alguns metros, chegou a uma porta pintada de verde-escuro.

Ele destrancou a porta e os dois tiveram de se espremer para entrar. Mas do lado de dentro, o cômodo era um grande salão arqueado. A luz natural inundava o lugar pelas janelas altas, e a sala estava cheia de mesas e cavaletes, com todo tipo de coisa jogado por cima: havia dese­nhos pregados nas paredes, esqueletos de animais, livros empoeirados, mapas raros e preciosos, como todos os mapas — a própria coleção da Irmandade dos Assassinos tinha sido de valor inestimável, mas os Bór­gia, em sua ignorância, destruíram a sala de mapas com os bombardeios de canhões —, lápis, canetas-tinteiro, pincéis, quadros, pilhas de papéis. Resumindo, a bagunça típica e familiar dos estúdios de Leonardo, onde quer que fossem.

— Este é meu próprio espaço — disse Leonardo, com orgulho. — O mais longe possível do meu lugar de trabalho oficial perto do Castel SantAngelo. Ninguém entra aqui além de mim. E Salai, é claro.

— Eles não vigiam você?

— Vigiaram por um tempo, mas sou muito bom na arte do conven­cimento e acabaram acreditando em tudo que contei. Aluguei essa casa do cardeal de San Pietro in Vincoli. Ele sabe manter segredo. Sem falar que ele não tem nenhuma simpatia pelos Bórgia.

— Além do mais, que mal há em garantir o futuro, não é mesmo?

— Ezio, meu amigo, você não deixa passar nada mesmo, não é? Ago­ra, vamos aos negócios. Eu não sei se posso oferecer alguma coisa para você beber. Eu sei que deve ter uma garrafa de vinho aqui em algum lugar.

— Deixa pra lá, não se preocupe. Mas então, por que me chamou?

Leonardo foi até uma das mesas no lado direito do salão e revirou uma pilha de coisas que estavam guardadas debaixo dela. Tirou uma longa caixa de madeira, encapada com couro preto, e colocou-a na mesa.

— Aqui está! — Ele a abriu com um floreio.

A caixa era revestida de veludo roxo.

—A ideia foi de Salai! — explicou Leonardo.

Dentro dela, havia cópias perfeitas das armas do códex perdidas por Ezio: a braçadeira do antebraço esquerdo, a pequena pistola retrátil, a adaga de duas lâminas e a lâmina aplicadora de veneno.

— A braçadeira foi a parte mais complicada — continuou Leonar­do. — Foi muito difícil encontrar um metal tão extraordinário quanto o original. Mas, pelo que você me contou sobre o acidente no qual perdeu os originais, ele pode ter sobrevivido. Talvez você possa recuperá-lo...

— Se ele de fato sobreviveu, deve estar enterrado sob várias tone­ladas de destroços. É como se estivesse perdido no fundo do mar. — Ezio esclareceu enquanto colocava a braçadeira. Parecia um pouco mais pesada do que a primeira, mas serviria muito bem ao propósito. — Eu nem sei como lhe agradecer.

— Isso é fácil! — respondeu Leonardo. — Com dinheiro! Mas isso não é tudo. — Ele mexeu debaixo da mesa novamente e pegou outra caixa, maior do que a primeira. — Estas aqui são novidades e podem lhe ser úteis de vez em quando.

Ele abriu a tampa, e dentro havia uma besta extremamente leve com um conjunto de flechas, um conjunto de dardos e um par de luvas de couro com malha de ferro.

— Os dardos são venenosos — disse Leonardo —, nunca toque na ponta deles com as mãos nuas. Se conseguir arrancá-los de seus alvos, podem ser reutilizados uma dúzia de vezes.

— E as luvas?

Leonardo sorriu.

— Estou particularmente orgulhoso delas. Vão permitir que você escale qualquer superfície com facilidade. Praticamente transformam você em uma aranha. — Ele fez uma pausa, um pouco preocupado. — Só não testamos em vidro, mas eu duvido que você encontre uma su­perfície tão lisa. A besta, por sua vez, é uma besta comum, mas é bem compacta e leve. O que a torna especial é que ela é tão forte quanto as bestas pesadas que estão hoje sendo substituídas pelas minhas pistolas de fecho de roda. E claro, tem a vantagem de ser relativamente silencio­sa, se comparada a uma arma de fogo.

— Eu não posso levar isso tudo comigo agora.

Leonardo deu de ombros.

— Sem problema. Eu mando entregar. Na Ilha Tiberina?

Ezio pensou por um momento.

— Não, há um bordel chamado Rosa in Fiore. Fica no rione Mon- tium et Biberatice, perto do antigo fórum com a coluna.

— Nós encontraremos.

Entregue à minha irmã, Claudia. Posso escrever um recado? — Ezio pegou uma folha de papel e escreveu algo rapidamente. — Entre­gue isto a ela. Esbocei a localização, pois pode ser um pouco difícil de encontrar. Vou conseguir o dinheiro o mais rápido possível.

— Cinco mil ducados.

— Isso tudo?

— Esses materiais são caros...

Ezio apertou os lábios.

— Tudo bem. — Anotou mais uma linha no bilhete. — Recente­mente encontramos algum dinheiro inesperado. Minha irmã pagará a você. E, escute, Leo. Eu confio em você. Ninguém pode saber de nada.

— Nem mesmo Salai?

— Pode contar a Salai, se precisar. Mas se a localização do bordel for descoberta pelos Bórgia, eu vou matar Salai e você, meu amigo.

Leonardo sorriu.

— Eu sei que são tempos complicados, meu caro. Mas quando foi que eu o decepcionei antes?

Satisfeito com a resposta, Ezio se despediu do amigo e seguiu caminho até a Raposa Adormecida. Ele estava atrasado, mas o encontro com Leo­nardo valera a pena.

Ele atravessou o pátio, feliz ao ver que os negócios estavam prospe­rando, e estava prestes a se apresentar aos ladrões que estavam de guar­da na porta com a placa Uffizi, quando La Volpe apareceu pessoalmente, saindo de lugar nenhum. Ele era muito bom em fazer isso.

— Buon giorno, Ezio!

— Ciao, Gilberto!

— Estou feliz que tenha vindo. De que você precisa?

— Vamos sentar em algum canto silencioso.

— No Uffizi?

— É melhor ficarmos por aqui. O que eu tenho a dizer é sigiloso.

Ótimo, pois eu tenho algo para lhe falar que também deve ficar só entre nós dois, por enquanto.

Sentaram-se à mesa em um canto vazio do bar, longe dos bêbados e dos jogadores.

— Está na hora de visitarmos o amante de Lucrécia, Pietro — disse Ezio.

— Ótimo, já despachei alguns homens para procurá-lo.

— Molto bene, um ator famoso como ele não deve ser difícil de encontrar.

La Volpe balançou a cabeça.

— Ele é famoso o bastante para ter seus próprios guarda-costas. Além disso, achamos que pode ter se escondido, pois está com medo de Cesare.

— Faz sentido. Bem, faça o melhor que puder. Agora, me diga, o que você tem para me contar?

La Volpe hesitou por um momento, e disse:

— É um assunto delicado, Ezio...

— O que é?

— Alguém alertou Rodrigo a ficar longe do Castel Sant’Angelo.

— E você acha que esse alguém... foi Maquiavel?

La Volpe ficou em silêncio.

— Você tem alguma prova? — pressionou Ezio.

— Não, mas...

— Sei que você não gosta de Maquiavel, mas escute, Gilberto, não podemos ser destruídos por meras suspeitas.

Foi então que a porta se abriu com força e eles foram interrompidos pela chegada de um ladrão ferido, que cambaleou até a mesa.

— Más notícias! — gritou o homem. — Os Bórgia sabem onde estão nossos espiões!

— Quem contou a eles? — perguntou La Volpe, se levantando furioso.

— Maestro Maquiavel estava perguntando sobre nossa busca pelo ator hoje cedo.

A mão de La Volpe se fechou, em forma de punho.

— Ezio? — sussurrou ele.

— Eles capturaram quatro de nossos homens de surpresa. Eu tive sorte de escapar! — continuou o ladrão.

— Onde?

— Aqui perto, ao lado de Santa Maria deli’ Orto.

Vamos! — gritou La Volpe para Ezio.

Em alguns minutos, os homens de La Volpe selaram dois cavalos e os dois Assassinos saíram da Raposa Adormecida a toda velocidade.

— Eu ainda não consigo acreditar que Maquiavel tenha se tornado um traidor — insistiu Ezio, enquanto cavalgavam.

— Ele ficou sumido por um tempo, para afastar nossas dúvidas.

— La Volpe rebateu de pronto. — Mas preste atenção aos fatos: pri­meiro, o ataque a Monteriggioni. Depois, os acontecimentos no Castel Sant'Angelo, e agora isso! Ele está por trás de tudo!

— Cavalgue o mais rápido que puder, só isso! Talvez ainda possa­mos salvar os homens!

Os dois cavalgaram apressados pelas ruas estreitas, seguindo sempre em frente, enquanto tentavam evitar machucar as pessoas e destruir as barracas de feira no caminho. Pessoas e animais saíam da frente de ime­diato, mas quando os guardas dos Bórgia tentavam pará-los com suas alabardas, eram simplesmente atropelados.

Chegaram ao lugar indicado pelo ladrão ferido em menos de sete mi­nutos, a tempo de ver os guardas com uniformes dos Bórgia colocando os quatro ladrões capturados em uma carruagem, distribuindo coronhadas e xingamentos. Em questão de segundos, Ezio e La Volpe caíram sobre os guardas como fúrias vingadoras. Com as espadas em mãos, conduziram as montarias habilmente entre os guardas, afastando-os dos prisioneiros e dispersando-os no quarteirão, em frente à igreja. La Volpe cavalgou na direção do condutor da carruagem e, controlando o cavalo só com as pernas, agarrou o chicote do homem e bateu com força no flanco dos cavalos, que saíram puxando a carruagem sem direção definida. O con­dutor ainda tentou retomar o controle, mas foi em vão. Deixando o chi­cote de lado, La Volpe retomou as rédeas do cavalo e se juntou a Ezio, que estava sendo cercado por cinco guardas. Eles atacavam o peito e o flanco do cavalo com suas alabardas. Virando o cavalo em um círculo, ele girou a espada e decapitou um dos guardas com habilidade. Enquanto isso, La Volpe despachou o último dos guardas que ainda fazia alguma oposição. Todos os outros estavam mortos, feridos no chão ou haviam fugido.

— Corram, seus porcos — gritou La Volpe para seus homens. — De volta para a base! Agora! Nós os encontraremos lá!

Os quatro ladrões se recompuseram e saíram correndo pela rua principal, misturando-se à multidão que se juntara para ver a luta. Ezio e La Volpe cavalgaram atrás deles, guardando-os para garantir que to­dos chegariam inteiros.

Eles entraram na Raposa Adormecida por uma porta lateral e ra­pidamente se reuniram no bar, que havia sido fechado. La Volpe pediu que servissem cerveja a seus homens, mas não esperou a bebida chegar para começar o interrogatório.

— O que vocês descobriram?

— Chefe, há um plano para matar o ator esta noite. Cesare enviou aquele “carrasco” para fazer o trabalho.

— Quem é o carrasco? — perguntou Ezio

— Você já o viu — respondeu La Volpe. — Micheletto Corella. Nin­guém esquece um rosto como aquele.

Então, Ezio visualizou em sua mente o homem que estava a direi­ta de Cesare em Monteriggioni, e outra vez nos estábulos do Castel Sant'Angelo. Ele tinha um rosto cruel, que parecia muito mais velho do que seu dono, e uma cicatriz na boca dava a ele um sorriso sádico per­manente. Micheletto Corella. Originalmente chamado de Miguel de Co­rella. Será que Corella, aquela região de Navarra que produzia um vinho tão bom, poderia produzir um torturador assassino como esse?

— Ele pode matar pessoas de 150 formas diferentes — continuou La Volpe. — Mas seu método preferido é a estrangulação. Sem dúvida, ele é o matador mais competente de Roma. Ninguém nunca escapou dele.

— Vamos torcer para que hoje seja a primeira vez — comentou Ezio.

— Onde vai acontecer? Vocês sabem? — perguntou La Volpe aos ladrões.

— Pietro vai atuar em uma peça religiosa hoje à noite. Ele tem en­saiado em um local secreto.

— Deve estar assustado. O que mais?

— Ele vai fazer o papel de Cristo. — Um dos outros ladrões soltou uma risadinha. La Volpe olhou sério para ele. — Ele pretende ser sus­penso em uma cruz. Micheletto chegará até ele com uma lança e perfu­rará a costela dele. Só que será de verdade.

— Você sabe onde Pietro está?

O ladrão balançou a cabeça.

— Isso eu não sei dizer. Não conseguimos descobrir. Mas sabemos que Micheletto estará esperando na antiga casa de banho do imperador Trajano.

— A Terme di Traiano?

— Sim, eu acho que o plano é o seguinte: Micheletto pretende dis­farçar seus homens com as fantasias e fazer o assassinato parecer um acidente.

— Mas onde será encenada a peça?

— Não sabemos, mas não deve ser longe de onde Micheletto ficará esperando seus homens.

— Eu vou segui-lo — decidiu Ezio. — E ele me levará até o amante de Lucrécia.

— Mais alguma informação? — perguntou La Volpe.

Os homens negaram, balançando as cabeças. Um garçom chegou, trazendo uma travessa com cerveja, pão e salame. Os ladrões começa­ram a comer avidamente. La Volpe puxou Ezio para um canto.

— Ezio, eu sinto muito, mas estou certo de que Maquiavel nos traiu.

— Ele levantou a mão. — Não me importa o que você diga, não me convencerá do contrário. Eu sei que nós dois preferíamos que não fos­se verdade, mas está tudo muito claro. Acho que devemos fazer o que precisa ser feito. — Ele fez uma pausa. — E se você não o fizer, farei eu.

— Entendo.

— E há mais uma coisa, Ezio. Deus sabe como eu sou leal, mas tam­bém preciso me preocupar com o bem-estar de meus homens. Até que essa situação tenha sido resolvida, não vou colocá-los em risco.

— Você tem suas prioridades, Gilberto, e eu tenho as minhas.

Ezio saiu, preparando-se para o trabalho da noite. Pegou um dos cavalos de La Volpe emprestado e viajou de volta para o Rosa in Fiore. Claudia o recebeu.

— Chegou uma encomenda para você — disse ela.

— Mas já?

— Dois homens vieram aqui, ambos muito bem vestidos. Um jo­vem, de aparência suspeita, mas muito bonito. O outro devia ter uns 50 anos, um pouco mais velho do que você. Eu o reconheci de imediato, era seu amigo Leonardo, mas estava muito formal. Ele me entregou esta nota e eu o paguei.

— Isso foi rápido.

Claudia sorriu.

— Ele disse que você gostaria de uma entrega rápida.

Ezio sorriu de volta. Seria bom ter em mãos hoje as armas do códex feitas por seu amigo, antes de encontrar os homens de Micheletto, que certamente deviam ser muito bem treinados. Mas ele também precisava de um plano de contingência. Pela atitude de La Volpe, ele sabia que não poderia pedir um grupo de ladrões emprestados.

Pensou imediatamente em sua própria milícia de novos recrutas. Era a hora de colocar alguns deles no ritmo.

 

Sem saber sobre Ezio, messer Corella precisava concluir outro negócio para seu chefe antes do evento principal da noite. Mas ainda era cedo.

Ele estava parado em silêncio na doca deserta do rio Tibre. Algu­mas barcas e dois navios estavam ancorados, movendo-se suavemente com o fluxo do rio. As velas dos navios balançavam ao vento. Vários guardas com a insígnia de Cesare foram em sua direção, carregando um homem vendado entre eles. Diante dos soldados estava o próprio Cesare.

Micheletto reconheceu o homem, sem surpresa, como sendo Francesco Troche.

— Por favor — choramingava Francesco. — Eu não fiz nada de errado.

— Francesco, meu querido amigo — discursou Cesare. — Os fatos são claros: Você contou ao seu irmão sobre meus planos em Romagna, e ele contatou o embaixador veneziano. Não posso remover essa culpa de você.

— Foi um acidente. Eu continuo sendo seu servo e aliado.

— Você está exigindo que eu desconsidere seus atos e confie apenas na amizade?

— Eu estou... pedindo, não exigindo.

— Francesco, meu querido, para poder unificar a Itália, eu preciso ter todas as instituições sob meu controle. Você sabe que servimos a uma organização superior, a Ordem dos Templários, da qual eu sou o líder agora.

— Eu pensei... Seu pai...

— E se a Igreja não entrar na linha — continuou Cesare, com firme­za —, eu terei que eliminá-la completamente.

— Mas você sabe que eu trabalho para você e não para o papa.

— Será mesmo, Troche? Só há uma maneira de ter certeza disso agora.

— Você não pode estar mesmo pensando em me matar. Logo eu, seu amigo mais leal?

Cesare sorriu.

— É claro que não. — Ele estalou os dedos. Micheletto aproximou-se silenciosamente por trás.

— Você vai me deixar ir embora? — O alívio inundou a voz de Troche. — Obrigado, Cesare. Obrigado de todo meu coração. Você não se arrependerá...

Mas as palavras dele foram cortadas quando Micheletto, com uma corda fina enrolada nas mãos, envolveu o pescoço dele. Cesare obser­vou por um momento, mas antes mesmo de Francesco estar totalmente morto, ele se virou para o capitão da guarda e perguntou:

— Você está com as vestimentas da peça prontas?

— Sim, senhor!

— Então entregue a Micheletto, quando ele terminar.

— Sim, senhor!

— Lucrécia é só minha. Não pensei que ela fosse tão importante para mim, mas quando recebi o recado em Urbino, de um dos próprios homens dela, dizendo que aquele atorzinho patético estava passando as patas nela e babando sobre ela, voltei imediatamente! Você consegue entender uma paixão como essa, capitão?

— Sim, senhor!

— Então é um tolo. Você já terminou, Micheletto?

— Messere, o homem está morto.

— Então amarre umas pedras nele e jogue-o no Tibre.

— Como quiser, Cesare.

O capitão deu a ordem a seus homens, que pegaram duas sacolas de pano grandes e carregaram até lá.

— Aqui estão as fantasias para seus homens. Tenha certeza absoluta de que o serviço será muito bem feito.

— Certamente, messere.

Cesare partiu, deixando seus subordinados para realizarem os pre­parativos. Sinalizando para que os guardas o seguissem, Micheletto ca­minhou em direção às Termas de Trajano.

Ezio e seus recrutas já estavam lá, escondidos sob um pórtico arruinado. Ele viu um grupo de homens de preto reunido e observou cuidadosa­mente quando Micheletto apareceu. Os guardas colocaram os sacos com as fantasias no chão e Micheletto ordenou que eles fossem embora. As sombras eram densas e Ezio sinalizou para que seus próprios homens se preparassem. Ele havia colocado a braçadeira no braço esquerdo e a lâmina envenenada no braço direito.

Os homens de Micheletto formaram uma linha. Cada um caminha­va até o líder e recebia uma fantasia de legionário romano da época de Cristo. Ezio reparou que Micheletto vestiu um uniforme de centurião.

Conforme cada homem se afastava para vestir a fantasia, Ezio o es­perava, pronto. Silenciosamente, usou a lâmina envenenada que Leo­nardo havia acabado de recriar para ele. Os homens morreram calados, um de cada vez. Depois, os próprios recrutas de Ezio vestiram as roupas teatrais e esconderam os corpos.

Absorto em seu trabalho, Micheletto não percebeu nada. Por fim, os homens que ele comandava não eram mais os dele. Eles o seguiram, com Ezio logo atrás, na direção do Coliseu.

Um palco foi erguido nas ruínas do antigo anfiteatro romano, onde, desde os tempos do imperador Tito, gladiadores se enfrentavam até a morte, os bestiarii soltavam milhares de animais e os cristãos eram joga­dos aos leões. Era um lugar soturno, mas que ficava com uma aparência muito melhor quando havia centenas de tochas iluminando o palco, e a plateia, espalhada em bancos de madeira, estava absorta, assistindo a uma peça sobre a Paixão de Cristo.

— Estou procurando Pietro Benintendi — disse Micheletto ao por­teiro, mostrando-lhe uma autorização.

— Ele está no palco, signore — respondeu o porteiro. — Mas um dos meus homens levará vocês até um lugar onde possam esperar por ele.

Micheletto se virou para os companheiros.

— Não se esqueçam, estarei vestindo a capa preta com a estrela branca no ombro. Me deem cobertura e esperem pela deixa, que será quando Pôncio Pilatos der a ordem ao Centurião para atacar.

Preciso chegar até Pietro antes dele, pensou Ezio, caminhando na parte de trás do grupo que seguia o líder no Coliseu.

No palco, três cruzes haviam sido erguidas. Ele observou enquanto seus recrutas se posicionaram conforme as ordens de Micheletto. Por fim, viu o próprio Micheletto esperando ao lado do palco.

A peça estava chegando ao clímax:

— Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? — gritou Pietro, de uma cruz.

— Ouçam — disse um dos homens que representava um fariseu. — Ele chama pela salvação de Elias.

Um deles, vestido como um legionário romano, banhou uma espon­ja no vinagre e colocou na ponta da lança.

— Espere e vejamos se Elias virá salvá-lo.

— Minha sede é enorme, ela é enorme — gritou Pietro.

O soldado levantou a esponja até os lábios de Pietro.

— Tu não devereis mais beber — gritou outro fariseu.

Pietro ergueu a cabeça.

— Senhor Deus majestoso — declamou. — Nunca deixarei de tra­balhar para cumprir vossa vontade. Entrego a ti meu espírito. Recebei, ó Senhor, em vossas mãos. — Pietro soltou um forte suspiro e disse: — Consummatum est!

A cabeça dele pendeu. Cristo havia “morrido”.

Esta foi a deixa para Micheletto entrar no palco. O uniforme de cen­turião brilhava sob a capa preta. Ezio observou, perguntando-se o que te­ria acontecido com o ator original. Então, concluiu que ele provavelmen­te teve um destino parecido com o da maioria das vítimas de Micheletto.

— Senhores, eu lhes digo — recitou Micheletto com muito ímpeto —, esse era realmente o Filho de Deus Pai, todo-poderoso. Eu sei que assim é. Sei pelo seu grito que ele cumpriu a profecia, e que a mão de Deus se revelou nele!

— Centurião — falou o ator no papel de Caifás —, Deus seja minha testemunha, tua tolice é grande demais. Tu não entendes! Quando vires o coração dele sangrar, entenderás o que digo. Longino! Pega esta lança em tuas mãos.

Caifás entregou uma lança de madeira ao ator interpretando Lon­gino, um homem enorme com longos cachos. Claramente um dos favo­ritos do público, e sem dúvida, pensou Ezio, um amargo rival de Pietro.

— Pega a lança e faz bom uso — gritou um dos fariseus. — Deves perfurar o corpo de Jesus de Nazaré, para termos certeza de que ele está morto.

— Farei o que me pedem — declamou Longino, na frente do palco.

— Mas tudo recairá sobre vossas cabeças. Qualquer que seja a conse­quência, eu lavo minhas mãos.

Então, o ator fez uma grande demonstração ao perfurar Jesus com a lança cenográfica, fazendo escorrer água com sangue de uma bolsa escondida na fantasia de Pietro. Por fim, Longino começou seu grande discurso. Ezio via o brilho de ciúmes nos olhos do “Jesus morto”, en­quanto assistia a tudo disfarçadamente.

— Altíssimo Senhor do Céu, eu vejo vossa face. Que vossa água caia e lave minhas mãos e minha lança! E que lave meus olhos também, permitindo-me ver-te com mais clareza. — Fez uma pausa dramática

— O que será de mim agora! O que foi que eu fiz? Creio que matei um homem, mas não um homem qualquer. Senhor Deus do Céu, eu rogo vossa misericórdia, pois foi meu corpo que guiou minhas ações, não minha alma. — Após mais uma pausa para uma rodada de aplausos, ele continuou: — Senhor Jesus, muito ouvi falar sobre ti. Que tu havias curado os enfermos e os cegos. E que vosso nome seja louvado, pois hoje me curaste de minha cegueira! A cegueira de meu espírito. Deste dia em diante, serei teu seguidor. E em três dias, te erguerá novamente para julgar a todos nós!

O ator no papel de José de Arimatéia, o rico líder judeu que doou a própria tumba para guardar o corpo de Cristo, falou:

— Ó Senhor Deus, por que permitistes que matassem esse homem diante de nós, pendurado na cruz? Um homem que nunca fez nada de errado? Pois com certeza, esse é o filho de Deus. Portanto, na tumba que fora para mim construída, o corpo dele deve ser enterrado. Pois ele é o rei das bênçãos!

Nicodemos, um colega de José no Sinédrio e também simpatizante, concordou.

— Senhor José, eu digo com certeza que este é o filho de Deus todo-poderoso. Vamos pedir o corpo dele a Pôncio Pilatos e lhe dar um funeral nobre. Eu te ajudarei a descê-lo da cruz.

José virou-se para o ator que interpretava Pilatos e falou outra vez:

— Ser Pilatos, peço-te um favor especial. Esse profeta morreu hoje. Permita-me levar o corpo dele!

Enquanto isso, Ezio se encaminhava para os fundos do palco. Micheletto havia se posicionado próximo à cruz central. Revirou rapida­mente um conjunto de mudas de roupa e encontrou vestes de rabino, que colocou logo em seguida. Ele precisava subir ao palco pessoalmen­te. De modo sorrateiro, posicionou-se atrás de Micheletto sem que nin­guém percebesse.

— José, se Jesus de Nazaré está mesmo morto e o Centurião confir­mar, não negarei a custódia do corpo. — Virando-se para Micheletto, Pilatos falou de novo. — Centurião! Jesus está morto?

— Sim, Ser governador — disse Micheletto secamente, e Ezio reparou enquanto ele puxava um estilete debaixo da capa. Ezio havia trocado a lâmina envenenada, que havia sido exaurida de toxina, por sua velha e confiável lâmina oculta. Com ela, perfurou a costela de Micheletto en­quanto segurava o homem de pé e o encaminhava para fora do palco, pela direção de onde ele veio. Já nos bastidores, ele deitou o homem no chão.

Micheletto o encarou com olhar reluzente.

— Rá! — disse ele. — Você não pode salvar Pietro. O vinagre na es­ponja estava envenenado. Assim como prometi a Cesare, me certifiquei duplamente. — Ele lutava para respirar. — Agora é melhor você acabar comigo.

— Eu não vim aqui para matá-lo. Você ajudou seu mestre a se erguer e, agora, cairá com ele. Não precisará da minha ajuda, você é o agente da sua própria destruição! Se você sobreviver, voltará para seu mestre como um cachorrinho, e me levará ao meu verdadeiro objetivo.

Não havia mais tempo, Ezio precisava salvar Pietro.

Ele voltou correndo para o palco e viu o caos instaurado. Pietro es­tava se contorcendo na cruz e vomitando. O público estava alvoroçado.

— O que está havendo? O que aconteceu? — gritou Longino, en­quanto os outros atores se espalhavam.

— Tirem-no daí! — gritou Ezio aos recrutas.

Alguns arremessaram adagas com precisão e cortaram as cordas que prendiam Pietro à cruz, enquanto outros se prepararam para pegá-lo.

Os demais estavam repelindo guardas dos Bórgia que apareceram inesperadamente e estavam atacando o palco.

— Isso não estava no roteiro! — balbuciou Pietro, ao cair nos braços dos recrutas.

— Ele vai morrer? — perguntou Longino, esperançoso.

Um rival a menos era sempre uma boa notícia em uma profissão tão dura.

— Detenham os guardas! — gritou Ezio, enquanto levava Pietro do palco e atravessava o Coliseu. Os últimos raios de sol brilhavam e colo­riam Ezio e Pietro de vermelho escuro.

Os recrutas haviam sido muito bem treinados, e os que estavam pro­tegendo a retaguarda estavam conseguindo deter os guardas dos Bórgia enquanto os outros fugiam do Coliseu e se embrenhavam no labirinto de ruas ao norte. Ezio foi na frente, em direção à casa de um médico que ele conhecia. Bateu na porta e, ao conseguir permissão para entrar, colocou Pietro sobre uma mesa no consultório do médico. Nas paredes, inúmeras ervas secas estavam penduradas, dando à sala um cheiro pun­gente. Nas prateleiras, via-se uma variedade de objetos indescritíveis e partes de criaturas flutuando em garrafas com líquidos turvos.

Ezio ordenou aos homens que ficassem do lado de fora, montando guarda. Ele imaginou o que os pedestres pensariam ao ver um grupo de soldados romanos. Provavelmente pensariam em fantasmas e correriam para o mais longe que pudessem. Ele já havia se livrado da fantasia de fariseu na primeira oportunidade.

— Quem é você? — murmurou Pietro. Ezio estava preocupado ao ver que os lábios dele estavam azuis.

— Seu salvador — respondeu Ezio. Depois, disse ao médico: — Ele foi envenenado, dottore Brunelleschi.

O médico examinou o ator rapidamente, refletindo uma luz em seus olhos.

— Pela palidez, parece que usaram cantarella. O veneno preferido de nossos queridos mestres, os Bórgia. — Então, falou com Pietro: — Fique parado.

— Estou com sono — resmungou Pietro.

— Fique parado! Ele vomitou? — perguntou a Ezio.

Vomitou.

Ótimo.

O médico misturou uma série de ervas e líquidos de vários vidros coloridos com grande habilidade e derramou a mistura em um frasca Entregou-o nas mãos de Pietro e levantou-lhe a cabeça.

— Beba isso.

— Rápido! — disse Ezio, ansioso.

— Dê um instante a ele.

Ezio ficou observando, ansioso, pelo que pareceu um ano. Final­mente, o ator se sentou.

— Acho que já estou me sentindo melhor — disse o ator.

— Miracolol — disse Ezio aliviado.

— Na verdade, não — disse o doutor. — Ele ingeriu só uma peque­na quantidade, e por todos os meus pecados, eu tenho uma boa expe­riência com vítimas de cantarella. Eu consegui desenvolver um antídoto bem eficaz. Agora, coloque algumas sanguessugas. Vão ajudá-lo a se re­cuperar totalmente. Você pode descansar aqui um pouco, garoto, e em breve estará como novo. — O homem abriu um pote cheio de criaturas negras repulsivas e pegou um punhado.

— Eu nem sei como lhe agradecer — disse Pietro a Ezio.

— Mas eu sei — retrucou Ezio, de súbito. — A chave do portão por onde você entra no Castel Sant'Angelo para ficar com Lucrécia. Entre­gue agora!

Uma expressão de apreensão dominou o rosto de Pietro.

— Do que está falando? Eu sou só um pobre ator, vítima das cir­cunstâncias...

— Escute, Pietro. Cesare sabe sobre você e Lucrécia.

Imediatamente a apreensão foi substituída por medo.

— Oh, Deus!

— Mas eu posso ajudá-lo, se você me der a chave.

Em silêncio, Pietro colocou a mão dentro da tanga que vestia e en­tregou a chave.

— Eu sempre guardo comigo.

— Muito sábio — respondeu Ezio, guardando a chave no bolso. Era ótimo tê-la, pois garantia acesso ao Castelo quando precisasse. — Meus homens lhe trarão roupas e escoltarão você até um lugar segura. Vou escolher dois deles para ficarem protegendo você. Tente se manter es­condido por enquanto.

— Mas... E quanto ao meu público?

— Eles vão ter de se contentar com Longino até que seja seguro bo­tar a sua cara na rua de novo. — Ezio sorriu. — Eu não me preocuparia. Ele não chega nem aos seus pés.

— Ah, você acha mesmo?

— Sem dúvida.

— Ai! — gritou Pietro quando a primeira sanguessuga foi colocada.

E em um piscar de olhos, Ezio saiu da casa e deu as ordens a seus homens.

— Tirem essas fantasias o mais rápido possível. As Termas de Traja- no não ficam longe daqui. Com sorte, suas roupas ainda estarão lá.

Ele partiu sozinho, mas não chegou longe antes de perceber uma figura o fitando das sombras. Assim que o homem percebeu o olhar de Ezio, se virou e correu, mas ainda assim, Ezio o reconheceu. Paganino, o ladrão que decidiu ficar para trás durante a invasão de Monteriggioni.

Ei! — gritou Ezio, correndo atrás dele. — Un momento!

O ladrão com certeza sabia por onde ir nas ruas da cidade. Era tão ágil que Ezio o perdeu de vista, tendo que subir nos telhados várias ve­zes para visualizar as ruas e localizá-lo. Ele descobriu que as luvas mági­cas de Leonardo eram incrivelmente úteis para isso.

Por fim conseguiu cercar o homem, bloqueando a rota de fuga. O ladrão puxou sua adaga, uma cinquedea suja, mas Ezio o desarmou rapi­damente, de modo que ela bateu de forma inofensiva no chão.

— Por que você fugiu? — perguntou Ezio, rodeando o homem.

Então, ele percebeu uma carta presa ao cinto de couro do ladrão. O selo era inconfundível. Era do papa Alexandre VI, Rodrigo, o Espanhol!

Ezio soltou um longo suspiro, ao perceber uma série de suspeitas se encaixando. Paganino foi, por muito tempo, membro da Guilda dos La­drões de Antonio de Magianis’, em Veneza. Ele deve ter recebido muito dinheiro dos Bórgia para ser persuadido a mudar de lado e se infiltrar no grupo de La Volpe. Os Bórgia tinham um espião no coração da orga­nização dos Assassinos.

Aí estava o traidor, e não era Maquiavel!

Mas enquanto Ezio estava distraído, o ladrão se soltou e pegou a arma caída no chão. Seus olhos desesperados encontraram os de Ezio.

— Vida longa aos Bórgia! — gritou, ao cravar a cinquedea com força no próprio peito.

Ezio observou o homem caído enqüanto ele agonizava. Bom, antes uma morte rápida como essa do que uma morte lenta nas mãos de seus mestres. Ele sabia bem o preço que se pagava ao se fracassar com os Bórgia. Ele guardou a carta em um dos bolsos e partiu.

Merda, pensou consigo mesmo, eu estava certo. E agora eu preciso impedir La Volpe, antes que ele encontre Maquiavel.

 

Enquanto cruzava a cidade, Ezio foi abordado por Saraghina, uma das garotas do Rosa in Fiore.

— Você precisa vir imediatamente — disse ela. — A sua mãe quer lhe falar com urgência.

Ezio mordeu os lábios. Teria de dar tempo.

-    Depressa — disse ele.

Chegando ao bordel, encontrou Maria esperando. O rosto dela transparecia ansiedade.

— Ezio — disse ela —, obrigada por vir me ver.

— Eu não posso demorar, mãe.

— Há algo de errado.

— Diga-me.

— A antiga dona deste estabelecimento...

Madonna Solari?

— Sim — Maria se recompôs. — Descobri que era uma trapaceira mentirosa. A mulher estava fazendo il doppio gioco, e tinha conexões com o Vaticano. E o pior é que várias das meninas empregadas aqui podem ainda...

— Não se preocupe, madre. Vou descobrir quem são e arrancá-las. Vou enviar meus homens de confiança para entrevistar as garotas. Sob a coordenação de Claudia, eles descobrirão a verdade rapidamente.

— Obrigada, Ezio.

— Vou me certificar de que só as garotas leais permaneçam aqui. O resto delas... — Ezio fez uma expressão cruel.

— Eu tenho outras notícias.

— Quais?

— Recebemos notícias de que os embaixadores do rei Ferdínando da Espanha e do Sacro Imperador Romano, Maximiliano, chegaram a Roma. Parece que buscam uma aliança com Cesare.

— Você está certa disso, mãe? Para que precisariam de Cesare?

— Eu não sei, figlio mio.

Ezio ficou tenso.

— É melhor prevenir do que remediar. Peça a Claudia para investi­gar isso para mim. Eu darei a ela plenos poderes sobre os recrutas que enviarei para cá.

— Você confia nela para essa tarefa?

— Mãe, depois da missão do banqueiro, confio cegamente em vocês duas. Sinto vergonha por não ter confiado antes, mas eu temia pela se­gurança de vocês e...

Maria levantou a mão.

— Você não precisa se explicar. E não há nada a ser perdoado. So­mos todos uma família de novo. É isso que importa.

— Obrigado. E os dias de Cesare estão contados. Mesmo que os em­baixadores conquistem o apoio dele, em breve descobrirão que não vale de nada.

— Espero que essa confiança toda tenha fundamento.

— Acredite em mim, mãe. Ela tem ou ao menos terá se eu conseguir- salvar Maquiavel das suspeitas erradas de La Volpe.

 

Pegando emprestado um dos cavalos do estábulo, Ezio cavalgou o mais rápido que pôde em direção à Raposa Adormecida. Era muito impor­tante chegar lá antes que acontecesse alguma coisa com Maquiavel. Se o perdesse, perderia uma das melhores mentes da Irmandade.

Ainda não era tarde da noite, e ele ficou preocupado ao ver a estalagem fechada. Ezio tinha sua própria chave e entrou pelo portão gradeado.

A cena que ele testemunhou ao entrar era a prova de que havia che­gado no momento exato. Todos os membros da Guilda dos Ladrões estavam presentes. La Volpe e seus principais tenentes estavam juntos, discutindo, ao que tudo indicava, algo muito importante. Uma decisão parecia ter sido tomada, pois havia uma expressão maligna no rosto de La Volpe, que se aproximava de Maquiavel com um basilard na mão esquerda. Maquiavel, por sua vez, aparentava estar tranquilo, sem ter nenhuma ideia do que estava acontecendo.

— Parem! — gritou Ezio, entrando na cena e recuperando o fôlego após a corrida.

Todos se viraram para ele e La Volpe ficou parado no mesmo lugar.

— Abaixe a arma, Gilberto — ordenou Ezio. — Eu descobri o ver­dadeiro traidor!

— O quê? — disse La Volpe, chocado, em meio ao burburinho.

— Ele é... era... um de seus próprios homens! Paganino! Estava pre­sente no ataque a Monteriggioni e descobri a participação dele em vá­rios de nossos infortúnios recentes.

— Você tem certeza disso?

— Ele mesmo admitiu a culpa.

O semblante de La Volpe escureceu. Ele guardou a adaga e disse:

— Onde ele está?

— Onde não pode mais ser encontrado.

Morto?

— Pelas próprias mãos. Ele estava levando esta carta. — Ezio segu­rava o pergaminho selado e entregou a carta a La Volpe. Maquiavel se levantou enquanto o líder da Guilda quebrava e abria o lacre.

— Meu Deus! — disse La Volpe, ao ler rapidamente as palavras.

— Deixe-me ver isso — pediu Maquiavel.

— É claro — respondeu La Volpe, desapontado.

— É uma carta de Rodrigo para Cesare. Conta detalhes de nossos planos para o general francês, Octavien, entre outras coisas — esclare­ceu Maquiavel ao ler.

— Um de meus homens!

— São boas notícias — disse Maquiavel para Ezio. — Podemos subs­tituir esta carta por outra, contendo informações falsas, para despistá-los.

— Boas notícias, de fato — respondeu Ezio, friamente. — Gilberto, você devia ter me ouvido.

— Mais uma vez, eu lhe devo desculpas, Ezio — assentiu La Volpe, humildemente.

Ezio deu um pequeno sorriso.

— Não há necessidade desse tipo de coisa entre amigos que con­fiam, que precisam confiar uns nos outros.

Antes da resposta de La Volpe, Maquiavel começou a falar.

— Aliás, parabéns. Eu fiquei sabendo que você ressuscitou Cristo com três dias de antecedência!

Ezio gargalhou, pensando no resgate de Pietro. Como Maquiavel descobria as coisas tão rápido?

La Volpe olhou para os homens e as mulheres da Guilda reunidos em torno deles.

— O que vocês estão olhando? Estamos perdendo negócios!

Mais tarde, após Maquiavel ter saído para cuidar da carta interceptada, La Volpe puxou Ezio de lado.

— Estou feliz que esteja aqui. E não é só por ter me impedido de fazer papel de tolo.

— Fiz mais do que isso — acrescentou Ezio, calmamente. — Você tem ideia do que eu faria com você se tivesse matado Nicolau?

La Volpe grunhiu.

— Ezio... — começou a dizer.

Ezio deu um tapinha nas costas dele.

— Mas está tudo bem. Acabaram-se as brigas internas. Não pode­mos nos dar ao luxo de admitir esse tipo de coisa dentro da Irmandade. Agora, o que você queria me dizer? Precisa da minha ajuda?

— Sim. A Guilda é forte, mas muitos dos meus homens são jovens e inexperientes. Veja, por exemplo, aquele garoto que tentou roubar sua bolsa, o jovem Cláudio...

— E o que você quer que eu faça?

— Eu já ia chegar lá. Os ladrões de Roma são, no geral, homens e mulheres jovens. Eles são bons no que fazem, claro, mas são jovens. Pro­pensos a brigas e rivalidades. E essas rivalidades são perigosas.

— Você está falando de outra gangue?

— Sim. Uma em particular pode ser uma ameaça. Eu preciso de re­forços para dar um jeito neles.

— Meus recrutas?

La Volpe ficou em silêncio e depois respondeu.

— Eu sei que eu me recusei a ajudá-lo quando suspeitava de Nico­lau, mas agora...

— Quem são eles?

— Eles se chamam de Cento Occhi, os Cem Olhos. São lacaios de Cesare Bórgia e estão nos causando problemas sérios.

— Onde é a base deles?

— Meus espiões a localizaram.

— Onde?

— Calma. Eles estão furiosos e querendo briga.

— Então precisamos surpreendê-los.

— Benel

— Mas precisamos estar preparados para a retaliação.

— Atacaremos primeiro! E não deixaremos sobrar ninguém para retaliar! — La Volpe, parecendo um pouco mais ele mesmo, esfregava as mãos ansiosamente. — O principal é matar os líderes deles. São o único contato da gangue com os Bórgia. Mate-os e os Cento Occhi ficarão sem cabeça.

— E você precisa mesmo de ajuda para isso?

— Você dominou os homens-lobos.

— Sem a sua ajuda.

— Eu sei.

— Quem me ajudou a dominar os homens-lobos foi...

— Eu seil

— Ouça, Gilberto. Podemos unir nossas forças e fazer o que precisa ser feito, sem dúvida. Então, acredito que a Guilda se tornará o cartel dominante de Roma.

— Isso é verdade — concordou La Volpe de forma relutante.

— Mas se quer minha ajuda — disse Ezio calmamente —, há uma condição.

— E qual é?

— Que você nunca mais ameace a união da Irmandade, como quase fez agora.

La Volpe abaixou a cabeça.

— Eu aprendi a lição — disse ele, obediente.

— Mesmo que o seu plano não dê certo.

— Mesmo que o plano não dê certo — concordou La Volpe. — Mas vai.

— Vai o quê?

La Volpe abriu um sorriso cínico e disse.

— Vai dar certo.

 

Após separar um grupo de recrutas de sua milícia crescente para ajudar La Volpe no esforço contra os Cento Occhi, Ezio voltou para o alojamen­to. Estava exausto e dormiu rapidamente.

Ao acordar, reabasteceu o frasco da lâmina venenosa com o veneno especial preparado por Leonardo e depois checou e limpou a pistola retrátil, a lâmina dupla e a nova besta e os dardos venenosos.

O trabalho foi interrompido por uma mensagem de Bartolomeo, pe­dindo que ele fosse ao quartel dos mercenários o mais rápido possível. Pressentindo problemas, e preocupado com isso, porque esperava que Bartolomeo e seus condottieri estivessem mantendo os franceses sob vigilância, arrumou as armas do códex que julgou necessárias em um alforje e correu para o estábulo, onde alugou seu cavalo favorito e partiu. O dia estava limpo e as estradas estavam relativamente secas havia uma semana. Os campos pareciam até um pouco poeirentos demais pelo ca­minho obscuro escolhido por ele para não atrair a atenção de soldados dos Bórgia. Passou por vários atalhos pelas florestas e por pastagens onde vacas levantavam a cabeça para vê-lo passar.

Já era de tarde quando ele chegou ao quartel, e tudo parecia calmo. Percebeu que desde a renovação, as muralhas haviam recebido algum dano leve dos canhões franceses, mas alguns homens já estavam ocupa­dos em andaimes ou em cestas penduradas nas ameias para reparar as fendas e rachaduras.

Ele desmontou e entregou a rédea a um cavalariço, que veio corren­do. Limpou um pouco de espuma que havia se formado no canto da boca do cavalo e deu alguns tapinhas gentis no focinho. Depois, seguiu em frente, sem ser anunciado, em direção ao alojamento de Bartolomeo.

Ezio se concentrava no próximo passo do plano, agora que o ban­queiro de Cesare havia sido eliminado. Estava pensando em quais medi­das o inimigo teria tomado para garantir que os fundos não deixassem de chegar. De repente, deu de cara com a ponta de Bianca, a grande espada de Bartolomeo.

— Quem está aí? — gritou Barolomeu.

— Salve a você também! — respondeu Ezio.

Bartolomeo soltou uma risada bem alta.

— Peguei você!

— É bom pra eu aprender a ser mais silencioso.

— Na verdade — Bartolomeo deu uma piscada exagerada —, eu es­tava esperando a minha mulher.

— Tudo bem.

Bartolomeo baixou a espada e abraçou Ezio. Depois do abraço, a expressão dele ficou séria.

— Estou feliz que tenha vindo, Ezio.

— Em que posso ajudar?

— Veja!

Ezio seguiu o olhar do amigo e viu um pelotão de mercenários feri­dos entrando no forte.

— Aquelas puttane francesas estão nos pressionando novamente — respondeu Bartolomeo à pergunta que Ezio nem precisou fazer.

— Pensei que tivessem colocado o general deles para correr. Como era mesmo o nome dele?

— Octavien de Valois. Ele pensa que é um descendente da casa no­bre de Valois. Deve ser só um maldito bastardo.

Enquanto Bartolomeo falava, mais um contingente de soldados fe­ridos apareceu.

— Parece sério — comentou Ezio.

— O rei Luís deve ter enviado reforços para ajudar Cesare, já que demos uma surra em Valois. — Bartolomeo coçou a barba. — Acho que eu devia estar lisonjeado.

— O quão ruim é a situação?

— Eles tomaram a maldita torre de volta — rugiu Bartolomeo.

— Nós vamos retomá-la. Onde está Valois agora?

— Você está certo! — Bartolomeo ignorou a pergunta. — É claro que vamos retomar a torre. Vamos botar aqueles vigaristas pra correr antes que você consiga falar fottere! É só questão de tempo.

Nesse exato momento, uma bala zuniu por eles e se alojou na parede.

— Estava tudo tão calmo quando eu cheguei — comentou Ezio. Ele olhou para o céu e reparou que o sol havia se escondido atrás de grandes nuvens que apareceram de repente.

— Parecia calmo, você quer dizer. Os franceses são uns desgraçados furtivos. Mas eu vou cortar a garganta de Valois muito em breve, pode anotar. — Ele se virou e gritou uma ordem a um sargento que vinha correndo. — Fechem os portões! Tire os homens da muralha externa! Rápido!

Os homens corriam para cima e para baixo nas muralhas, apontan­do o canhão.

— Não se preocupe, meu amigo — afirmou o grande conáottiero. — Estou no controle da situação.

Nesse exato momento, uma grande bala de canhão se chocou contra a muralha mais próxima de onde estavam, mandando poeira e destro­ços pelos ares.

— Eles parecem estar chegando mais perto! — gritou Ezio.

Os homens de Bartolomeo dispararam uma salva de canhão em resposta. As muralhas tremeram com o coice da grande arma. Mas a resposta da artilharia francesa foi igualmente feroz. O som trovejante de duas grandes armas rasgou o ar, e dessa vez as balas encontraram seus alvos com mais precisão. Os homens de Bartolomeo ainda estavam de­sesperados tentando restabelecer a ordem defensiva quando outra salva dos franceses sacudiu as muralhas do quartel. Dessa vez, aparentemen­te, os franceses estavam atirando contra o portão principal, e dois dos guardas caíram-mortos, atingidos pelo bombardeio.

— FECHEM OS MALDITOS PORTÕES! — esbravejou Bartolomeo.

Os soldados bem-treinados sob o comando de Bartolomeo corre­ram à frente para repelir o ataque das tropas francesas que, sem nenhum aviso, apareceram na entrada do quartel. Os franceses estavam obvia­mente se preparando para o ataque surpresa e, infelizmente, estavam em vantagem. A fortaleza de Bartolomeo foi pega despreparada.

Bartolomeo saltou das ameias e correu para o portão a toda veloci­dade. Girando Bianca, ele investiu contra os franceses, e sua enorme es­pada partia cruelmente os inimigos. Os soldados franceses pareciam ter parado, assustados com a chegada de Bartolomeo. Enquanto isso, Ezio coordenava os mosqueteiros para dar cobertura aos homens que luta­vam para segurar o portão fechado, impedindo que o inimigo ganhasse terreno dentro do forte. As tropas dos Assassinos se reorganizaram com a presença de seu líder e conseguiram trancar os portões. Mas segundos depois, ouviu-se um poderoso estrondo e a grande barra de madeira que mantinha o portão fechado entortou assustadoramente. Os franceses conseguiram levar um aríete até o portão principal enquanto a atenção dos defensores estava nos soldados franceses que atacavam as muralhas.

— Nós deveríamos ter construído um maldito fosso! — gritou Bartolomeo.

— Não havia tempo pra isso!

Ezio gritou para que os mosqueteiros direcionassem os tiros para as tropas francesas reunidas do lado de fora do portão. Bartolomeo subiu nas ameias e ficou ao lado de Ezio. Ele congelou ao ver a cena que se desdobrava Tropas francesas haviam aparecido de lugar nenhum, em grandes números.

— Estamos cercados pelos filhos da mãe! — praguejou Bartolomeo.

Atrás deles, um dos portões menores estourou em uma chuva de farpas, e, antes que qualquer um dos defensores pudesse fazer alguma coisa, um grande destacamento de infantaria francesa invadiu o forte, com espadas na mão e vontade de lutar até a morte. Essa invasão repen­tina conseguiu isolar o quartel de Bartolomeo dos italianos.

— Meu deus, o que eles estão planejando agora? — gritou Bar­tolomeo.

Os soldados dos Assassinos eram mais bem treinados do que os franceses e, normalmente, mais dedicados à causa, mas a desvantagem numérica e o ataque de surpresa os pegaram despreparados. Tudo o que podiam fazer era manter a linha de defesa e, vagarosamente, tentar re­pelir os franceses. O caos do combate corpo a corpo permeava o ar. Eram tantos combatentes dividindo o mesmo local que em certos pon­tos a batalha parecia ter se tornado uma briga de socos, pois não havia espaço para usar armas.

A atmosfera também estava quente e claustrofóbica com a tempesta­de que se formava. Os deuses pareciam estar desgostosos com a cena, e formavam grandes nuvens opressivas no céu. A poeira do chão do pátio se levantou como uma névoa, e o dia, que estava tão bonito, ficou negro como a noite. Logo depois, a chuva começou a cair torrencialmente. A batalha apertada se tornou um tumulto confuso, no qual duas forças opostas mal conseguiam enxergar o que estavam fazendo. O chão virou lama e a luta ficou cada vez mais caótica e desesperadora.

Então, como se os inimigos tivessem cumprido algum objetivo, as trombetas francesas soaram e os homens de Valois debandaram com a mesma rapidez que chegaram.

Demorou algum tempo para restaurarem a ordem, e a primeira preocupação de Bartolomeo foi substituir o portão destruído. Obvia­mente, eles já tinham um substituto pronto para o caso de uma even­tualidade, mas levaria uma hora para instalá-lo. Enquanto isso, ele levou Ezio para seu alojamento.

— O que diabos eles queriam? — perguntou ele ao vento. — Meus mapas? Eles são preciosos!

Mas foi interrompido por mais um toque das trombetas francesas. Com Ezio ao seu lado, ele subiu uma das escadarias que levavam às ameias mais altas, sobre o portão principal. Lá, na planície desarruma­da em frente ao forte, um pouco distante, estava o Général Duc Octavien de Valois pessoalmente, em um cavalo, cercado por um pequeno destacamento de oficiais e a infantaria. Dois dos soldados da infanta­ria levavam um prisioneiro que tinha a cabeça ocultada por um saco.

— Bonjour, Général d’Alviano — gritou o francês imundo, olhando para Bartolomeo. — Êtes-vous prêt à vous rendre? Vocês estão prontos para se renderem?

— Por que você não chega mais perto e descobre, seu idiota encardido?

— Tut, tut, mon général. Você realmente precisa aprender francês. Isso lhe ajudaria a controlar seus rompantes bárbaros, mais franchement, je rríen doute. — Sorrindo, ele olhou para seus oficiais, que gesti­cularam concordando.

— Talvez você possa me ensinar — gritou de volta Bartolomeo. — E eu ensino você a lutar como um homem, já que parece que você não sabe. Ao menos, não com honra, como um cavalheiro!

Valois sorriu.

— Hum. Bem, cher ami, por mais divertida que nossa pequena con­versa tenha sido, devo repetir o meu pedido. Eu quero sua rendição in­condicional ao nascer do sol.

— Venha aqui pegar. Minha senhora Bianca vai sussurrar isso no seu ouvido!

— Ah, mas eu acho que uma outra senhora pode ter alguma objeção quanto a isso.

Ele fez sinal para seus homens, que tiraram o saco da cabeça do pri­sioneiro. Era Pantasilea!

— Il mio marito vi ammazzerà tutti — repetia ela desafiadoramente que o marido mataria todos eles, cuspindo pedaços de saco e poeira.

Bartolomeo precisou de um momento para se recuperar do choque. Ezio segurou o braço dele, enquanto seus homens olhavam uns para os outros, perdidos.

— Eu vou arrancar as suas tripas, fotutto francese! — gritou ele.

— Meu Deus, acalme-se homem! — desdenhou Valois. — Pelo bem da sua mulher. E não se preocupe, nenhum francês machucaria uma mulher sem necessidade. — O tom dele ficou mais sério. — Mas mesmo um selvagem como você deve entender o que acontecerá se você não concordar com meus termos. — Ele virou o cavalo e se preparou para ir embora. — Venha ao meu quartel-general ao amanhecer, desarmado. E aprenda alguma coisa de francês. Em breve, toda a Itália estará falando francês!

Ele levantou a mão. Os soldados jogaram Pantasilea sobre o cavalo de um dos oficiais e o grupo todo partiu.

— Eu vou te pegar, seu pezzo di merda, figlio di puttana! — gritou Bartolomeo, impotente. — Aquele merdinha, filho de uma puta! — res­mungou para Ezio e saiu.

— Onde você está indo? — gritou Ezio, seguindo-o.

— Pegar minha mulher de volta!

— Bartolomeo, espere!

Mas ele seguiu em frente. Quando Ezio o alcançou, Bartolomeo já estava na sela de um cavalo, ordenando para que abrissem os portões.

— Você não pode fazer isso sozinho! — apelou Ezio.

— Eu não estou sozinho — respondeu o condottiero, acariciando Bianca, que estava ao seu lado. — Venha comigo, se quiser! Mas se apres­se! — Ele esporeou o cavalo e foi em direção ao portão agora aberto.

Ezio nem esperou para vê-lo partir. Gritou ordens ao capitão da ca­valaria de Bartolomeo e, em minutos, ele e uma unidade montada de condottieri estavam galopando atrás de seu líder.

 

O quartel-general de Valois ficava nas ruínas de um antigo e fortificado quartel romano, onde habitavam as tropas pessoais dos antigos imperado­res, a Guarda Pretoriana. Ficava no décimo oitavo rione, no canto nordeste de Roma, agora do lado de fora da cidade bem menor que ela havia se tor­nado. Pois em seus dias de glória, 1500 anos antes, Roma chegou a ter um milhão de habitantes, sendo uma cidade vasta, de longe a maior do mundo.

Ezio e suas tropas alcançaram Bartolomeo na estrada e estavam reu­nidos em um monte perto do acampamento francês. Haviam tentado um ataque, mas suas balas ricochetearam inutilmente contra as paredes fortificadas modernas, construídas por Valois sobre as antigas. Agora estavam fora de alcance, depois de fugirem da salva de tiros dos fran­ceses em resposta ao ataque deles. Tudo que Bartolomeo podia fazer, e estava fazendo, era praguejar contra os inimigos.

— Seus covardes! Roubam a mulher de um homem e se escondem em uma fortaleza? Ah! Vocês não têm nada pendurado entre as pernas, estão ouvindo? Nada! Vous ríavez même pas une couille entre vous tous! Aí está! É francês suficiente para vocês, bastardi? Na verdade, acho que vocês nem têm bolas!

Os franceses dispararam um canhão. Eles estavam dentro do alcan­ce. O tiro atingiu o chão a alguns metros de onde eles estavam.

— Escute, Barto — argumentou Ezio. — Acalme-se. Você não vai conseguir nada se estiver morto. Vamos nos reagrupar e atacar os por­tões, exatamente como fizemos no Arsenal, daquela vez em Veneza quando estávamos perseguindo Silvio Barbarigo.

— Não vai funcionar — lamentou Bartolomeo, triste. — A entrada tem mais franceses do que as ruas de Paris.

— Então podemos escalar as muralhas.

— Elas não podem ser escaladas. E mesmo que pudessem, estaría­mos em tanta desvantagem que nem você conseguiria aguentar. — Ele pensou. — Pantasilea saberia o que fazer. — Pensou mais um pouco e Ezio começou a ver seu amigo ficar desapontado. — Talvez esse seja o fim. Eu vou ter de fazer o que ele mandou, entrar no acampamento pela manhã, levando presentes de conciliação, na esperança de que aquele maldito poupe a vida dela. Covarde filho da mãe!

Mas Ezio estava pensando também. E então, estalou os dedos, agitado.

— Perché non ci ho pensato prima?. Como não pensei nisso antes!

— O quê? Eu disse alguma coisa?

Os olhos de Ezio brilhavam.

— De volta ao forte!

— O quê?

— Chame seus homens de volta ao forte. Eu explicarei quando che­garmos lá. Vamos!

— É melhor que seja uma boa ideia — resmungou Bartolomeo, en­quanto ordenava que seus homens se retirassem.

Já era noite quando chegaram. Depois de guardarem os cavalos, Ezio e Bartolomeo foram para a sala de mapas e começaram a conversar.

— Então, qual é o seu plano?

Ezio desenrolou um mapa que mostrava a Castra Praetoria e seus arredores detalhadamente. Ele apontou para dentro da fortaleza.

— Uma vez lá dentro, seus homens serão capazes de dominar as pa­trulhas do acampamento, correto?

— Sim, mas...

— Especialmente se forem surpreendidas?

— Ma certo. O elemento surpresa é sempre...

— Então, precisamos de um monte de uniformes franceses. E das armaduras deles. Rápido. Pela manhã entraremos lá, de cabeça erguida, mas não há tempo a perder.

O entendimento inundou o rosto de Bartolomeo. Entendimento e esperança.

— Ah! Seu canalha esperto! Ezio Auditore, você é realmente um ho­mem que tem um coração como o meu! Mas com poder de pensamento comparável ao da própria Pantasilea! Magnifico!

— Dê-me alguns homens. Eu vou fazer uma incursão à torre deles e pegar tudo de que preciso.

— Você pode pegar os homens que quiser. Eles podem pegar os uni­formes dos franceses mortos.

— Ótimo.

— E Ezio...

— Sim?

— Mate-os da forma mais limpa que puder. Não queremos unifor­mes sujos de sangue.

— Eles não vão nem sentir — disse Ezio, com um olhar firme. — Confie em mim.

Enquanto Bartolomeo escolhia os homens para fazer o serviço, Ezio pegou o alforje e separou a lâmina com veneno.

Eles cavalgaram silenciosamente até a Torre dos Bórgia, que estava sob domínio dos franceses. As patas dos cavalos foram abafadas com sacos. Depois de desmontarem ainda longe da torre, Ezio mandou que os homens esperassem enquanto ele escalava a parede externa, com a habilidade de um habitante dos Alpes e a graça de um gato. Bastava um arranhão da lâmina envenenada para matar, e os fran­ceses, superconfiantes, colocaram poucos guardas de vigia. Os que estavam lá foram pegos totalmente de surpresa e estavam mortos antes mesmo de saber que algo tinha acontecido. Depois de tirar os guardas do caminho, Ezio abriu o portão principal, que rangeu muito alto. O coração de Ezio disparou, mas ele escutou por alguns momentos e nenhum guarda veio checar. Em silêncio, os homens dele correram para a torre, entraram na guarnição e dominaram os soldados quase sem esforço. Pegar os uniformes foi um pouco mais trabalhoso, mas dentro de uma hora eles haviam voltado ao forte. Missão cumprida.

— Tem um pouco de sangue nesse aqui — murmurou Bartolomeo, inspecionando os soldados.

— Foi uma exceção. O único homem que estava atento. Tive que matá-lo do modo convencional, com a espada — disse Ezio, enquanto os homens escolhidos para a operação trocavam de roupa.

— Bem, é melhor você me trazer uma cota de malha desses malditos também.

— Você não vai usar uniforme — afirmou Ezio, enquanto vestia um uniforme de tenente francês.

— O quê?

— Claro que não! O plano é ter você como nosso prisioneiro. Sere­mos uma patrulha francesa, levando você até o Général Duc de Valois.

— É claro. — Bartolomeo pensou por um instante. — E o que vem depois?

— Barto, você não estava prestando atenção, não é? Depois, seus homens atacam ao meu sinal.

— Bene! — falou Bartolomeo. — Vamos logo com isso! — ordenou ele aos homens que ainda estavam se vestindo. — Eu já estou sentindo o cheiro da manhã, e o caminho é longo.

Os homens entraram em formação. Cavalgaram intensamente durante a noite, mas deixaram os cavalos um pouco distante do acampamento e seguiram andando. Antes de deixá-los, Ezio checou a pequena pistola fabricada por Leonardo, com o desenho melhorado para poder disparar mais de um tiro antes de recarregar, e a amarrou discretamente no pulso. Ele e seu grupo de soldados “franceses” seguiram até a Castra Praetoria.

— Valois pensa que Cesare permitirá que a França governe a Itália

— explicou Bartolomeo, enquanto ele e Ezio marchavam lado a lado. Ezio estava no papel de oficial sênior e entregaria Bartolomeo pes­soalmente. — Idiota. Está tão cego com a gota de realeza que há em seu sangue que não consegue ver o plano na frente de seu nariz. Retardado maldito, isso é o que ele é! — Ele fez uma pausa. — Mas sabemos que, independentemente do que a França pensa, Cesare quer ser o primeiro rei a unificar a Itália.

— Não se nós o impedirmos.

— Sim. — Bartolomeo refletiu. — Sabe, por mais brilhante que seja o seu plano, não gosto de usar esse tipo de recurso. Acredito em uma luta justa, e que o melhor homem vença!

— Cesare e Valois podem ter estilos diferentes, Barto, mas os dois lutam sujo, e não temos escolha senão lutar como eles.

Hum. “Chegará o dia em que os homens não trapacearão mais. E quando esse dia chegar, descobriremos do que a humanidade realmente é capaz” — citou ele.

— Eu já ouvi isso antes em algum lugar.

— Você deveria saber. Seu pai escreveu essa frase.

— Psiu!

Eles estavam próximos ao acampamento francês. Mais à frente, Ezio via figuras se movendo, os guardas de perímetro franceses.

— O que faremos? — perguntou Bartolomeo, silenciosamente.

— Eu vou matá-los. Não há muitos. Mas precisamos fazer isso sem barulho ou confusão.

— Ainda tem bastante veneno nesse seu instrumento?

— Esses aí estão atentos e muito espaçados. Se eu matar um deles e for descoberto, talvez não consiga impedir que algum outro entre e soe o alarme.

— Por que matá-los? Estamos em uniformes franceses. Quer dizer, vocês estão.

— Eles farão perguntas. Se aparecermos com você acorrentado...

— Acorrentado?!

— Shh! Se conseguirmos entrar, Valois ficará tão empolgado que nem perguntará de onde saímos. Pelo menos, eu espero que não.

— Aquele cérebro de galinha? Não se preocupe! Mas como vamos nos livrar deles? Não podemos atirar, o barulho das armas chamaria muita atenção.

— Vou atirar com isso. — Ezio puxou a besta compacta de recarga rápida criada por Leonardo. — Eu contei cinco deles. Tenho seis flechas. A luz ainda está muito fraca para mirar daqui. Preciso chegar mais per­to, fique aqui com o resto do pessoal.

Ezio se arrastou até estar a vinte passos da sentinela francesa mais próxima. Puxou a corda e colocou a primeira flecha na arma, apoiou no ombro e disparou contra o peito do primeiro homem. Houve um som abafado e um chiado. O homem caiu ao chão imediatamente. Ezio logo partiu em direção à sua próxima vítima. A corda da besta era quase inaudível. A pequena flecha atingiu a garganta do segundo homem, que fez um som engasgado baixo e caiu ao chão. Depois de cinco minutos, tudo já havia terminado. Ele usou as seis flechas,pois errou o primeiro tiro contra o quinto homem. Mas, rapidamente, preparou a besta e disparou outra vez, antes que o soldado tivesse tempo de reagir ao som estranho que havia ouvido.

A munição da besta acabou, mas Ezio agradeceu em silêncio a Le­onardo. Ele sabia que a arma seria útil no futuro. Ezio arrastou silen­ciosamente os soldados franceses para uma moita esparsa, esperando que fosse o suficiente para escondê-los de algum passante casual. Ao fazê-lo, pegou as flechas de volta, lembrando-se do conselho de Leonar­do. Guardando a besta, caminhou de volta até Bartolomeo.

— Terminou? — indagou o enorme homem.

— Sim.

— Valois é o próximo — prometeu Bartolomeo. — Eu o farei gritar como um porco.

O céu estava clareando e a alvorada, vestindo um manto ruivo, ca­minhava sobre o orvalho nas colinas distantes ao leste.

— É melhor irmos logo — comentou Bartolomeo.

— Vamos lá, então — respondeu Ezio, fechando grilhões nos pulsos do amigo antes que ele pudesse reclamar. — Não se preocupe, são falsos, com fechos de mola. Basta cerrar os punhos com rapidez para que eles caiam. Mas, pelo amor de Deus, espere o meu sinal. E, aliás, o guarda à sua esquerda ficará perto de você. Ele leva Bianca sob o manto. Tudo que você precisa fazer é estender o braço e... — a voz de Ezio tomou um tom de aviso sério. — Mas ao meu sinal!

— Sim, sim, senhor. — Bartolomeo sorriu.

Seguido pelos soldados e com Bartolomeo logo atrás, acompanhado de uma escolta especial de quatro guardas, Ezio marchou corajosamente até o portão principal do quartel-general francês. O sol nascente reluzia nas cotas de malha e peitorais.

— Halte-là! — ordenou um sargento-comandante no portão. Ele estava acompanhado de uma dúzia de sentinelas muito armadas, mas já tinha visto os uniformes dos soldados que se aproximavam. — Déclarez-vous!

— Je suis le lieutenant Guillemot, et jemmène legénéral d’Alviano ici présent à Son Excellence le duc-général Monsieur de Valois. Le général d’Alviano s’est rendu, seul et sans armes, selon les exigences de Monsieur le Duc' — respondeu Ezio fluentemente, fazendo Bartolomeo levantar uma sobrancelha.

— Bem, tenente Guillemot, o general ficará satisfeito em ver o gene­ral d’Alviano, e saber que ele tomou a decisão certa, rendendo-se e vindo sozinho e desarmado — afirmou o capitão da guarda, que se apressou em assumir o comando. — Mas há algo, apenas um traço, no seu sotaque que eu não consigo identificar. Diga-me, de que parte da França você veio?

Ezio respirou fundo.

Montréal — respondeu com firmeza.

— Abra os portões — ordenou o capitão da guarda ao sargento.

— Abram os portões! — gritou o sargento.

Segundos depois, Ezio liderava os homens ao coração do quartel-general francês. Ele deixou que Bartolomeo e a escolta do “prisioneiro” caminhassem ao seu lado.

— Eu vou matar todos eles — murmurou Bartolomeo. — E vou co­mer os rins deles fritos no café da manhã. Aliás, não sabia que você falava francês.

— Aprendi em Florença — explicou Ezio, casualmente. — Com al­gumas moças que conheci. — Ezio guardava para si a satisfação por seu sotaque ter passado pela inspeção.

— Seu bandido! Bem, dizem que esse é o melhor lugar para se aprender uma língua.

— O quê? Em Florença?

— Não, idiota, na cama!

— Cale a boca.

— Você tem certeza de que estes grilhões são falsos?

— Ainda não é a hora, Barto. Seja paciente! E cale a boca.

— Isso está consumindo toda a minha paciência. O que eles estão dizendo?

— Eu conto mais tarde.

E era uma boa coisa que o francês de Bartolomeo se limitasse a al­gumas palavras, pensou Ezio, ao ouvir alguns dos insultos dirigidos ao amigo: “Chien d’italien”, cão italiano; “Prosterne-toi devant tes supé­rieurs”, ajoelhe-se diante dos seus superiores; “Regarde-le, comme il a honte de ce quil est devenu!”, olhem só para ele, como está envergonha­do da própria derrota!

Mas a tortura logo acabou. Eles alcançaram a base de uma larga escadaria que levava à entrada dos alojamentos do general francês. O próprio Valois estava no topo com um grupo de oficiais, e a prisioneira, Pantasilea, ao lado. A mulher estava com as mãos atadas atrás das costas e trazia grilhões frouxos nos tornozelos, que lhe permitiam andar, mas apenas em passos curtos. Ao vê-la, Bartolomeo não conseguiu evitar um rosnado furioso. Ezio o chutou.

Valois ergueu a mão.

— A violência é desnecessária, tenente, mas eu o congratulo pelo seu zelo. — Em seguida, se voltou para Bartolomeo. — Meu caro gene­ral, parece que você finalmente viu a luz.

— Chega dessa palhaçada! — rosnou Bartolomeo. — Liberte minha mulher! E tire essas algemas de mim!

— Ah, céus — exclamou Valois. — Tanta arrogância vinda de alguém nascido sem berço ou fortuna.

Ezio estava a ponto de dar o sinal quando Bartolomeo retrucou, erguendo a voz.

— Meu nome é de valor verdadeiro, ao contrário do seu, que é falsificado!

As tropas ao redor se calaram.

— Como ousa! — gritou Valois, branco de raiva.

— Você acha que comandar um exército basta para lhe conferir status e nobreza? A verdadeira nobreza de espírito é conquistada quando se luta ao lado dos próprios soldados, e não quando se sequestra uma mulher para trapacear uma vitória em combate. Por que não liberta mi­nha mulher?

— Vocês selvagens nunca aprendem — afirmou Valois malevola­mente e, sacando uma pistola, engatilhou-a e a apontou para a cabeça de Pantasilea.

Ezio sabia que tinha de agir com rapidez. Ele sacou uma pistola e disparou para o alto. Ao mesmo tempo, Bartolomeo, que estava espe­rando loucamente por aquele momento, cerrou os punhos e os grilhões saltaram.

O pandemônio se seguiu. Os condottieri disfarçados que acompa­nhavam Ezio logo atacaram os espantados soldados franceses, e Bar­tolomeo, pegando Bianca com o “guarda” ainda à esquerda dele, saltou escadaria acima. Mas Valois foi rápido demais para ele. Segurando Pan­tasilea com força, ele recuou para o alojamento, batendo a porta depois de passar.

— Ezio! — implorou Bartolomeo. — Você tem de salvar minha mu­lher! Só você pode fazê-lo! Este lugar foi construído como uma caixa- forte!

Ezio assentiu e tentou mostrar ao amigo um sorriso tranquilizador. O assassino esquadrinhou o edifício. Não era muito grande, mas era uma nova estrutura, construída pelos engenheiros militares franceses e projetada para ser intransponível. Não havia opção além de tentar en­trar pelo telhado, de onde ninguém esperaria um ataque e onde, portan­to, os pontos fracos poderiam estar. Poderiam.

Bem, só restava tentar. Ezio saltou escadaria acima e, aproveitan­do-se da batalha, que ocupava a atenção de todos os outros, procurou o melhor lugar para iniciar a escalada. De repente, uma dúzia de fran­ceses partiu contra ele, com espadas afiadas reluzindo ao sol da manhã, mas em um instante Bartolomeo se interpôs entre eles e Ezio, brandindo Bianca ameaçadoramente.

As paredes foram projetadas para serem inatacáveis, mas havia ni­chos e protuberâncias suficientes para que Ezio pudesse planejar uma rota com o olhar, e alguns momentos depois ele estava no telhado, que era plano e feito de madeira coberta de telhas. Havia cinco sentinelas francesas posicionadas ali em cima. Eles desafiaram Ezio, quando este saltou sobre o parapeito, exigindo uma senha. Ele não tinha nenhuma, e então os soldados investiram contra ele, apontando as alabardas. Por sorte não estavam equipados com mosquetes e pistolas. Ezio atirou no primeiro, em seguida desembainhando a espada e enfrentando os outros quatro, que resistiram com desespero, cercando-o e estocando ferozmente com as pontas das armas. Um deles rasgou a manga de Ezio, ferindo o cotovelo de raspão e fazendo-o sangrar, mas em segui­da a lâmina deslizou inofensiva pela braçadeira de metal no antebraço esquerdo.

Usando a braçadeira e a espada, Ezio foi capaz de se defender con­tra os ataques cada vez mais frenéticos. A habilidade de Ezio com sua lâmina era contrabalanceada com a necessidade de enfrentar quatro oponentes de uma só vez. Mas a lembrança da amada esposa de Barto­lomeo o impulsionou. Ezio sabia que simplesmente não poderia falhar, não tinha o direito de falhar. A maré da batalha se virou a favor dele. Ele se abaixou sob duas espadas que buscavam sua cabeça e bloqueou uma terceira com a braçadeira, ficando livre para afastar a lâmina do quarto soldado. A manobra lhe proporcionou uma abertura, e Ezio der­rubou o adversário com um corte na mandíbula. Faltavam três. O as­sassino avançou contra o francês mais próximo, penetrando a guarda dele, deixando-o atrapalhado e impedindo que usasse a espada. Ezio abriu a lâmina oculta e a cravou no abdome do inimigo. Restavam dois, ambos parecendo mais nervosos. Ezio precisou de apenas dois minutos para despachar o par de guardas restantes, que não contavam mais com a vantagem numérica. A habilidade deles simplesmente não era páreo para a maestria de Ezio com a espada. Ofegante e se apoiando na espa­da, Ezio ficou parado dentre mais cinco inimigos mortos.

No meio do telhado havia uma grande abertura quadrada. Depois de recarregar a pistola, Ezio se aproximou cuidadosamente da abertura. Como esperava, se deparou com um pátio, livre de decoração, plantas, mesas ou cadeiras, contando apenas com dois ou três bancos de pedra arrumados ao redor de uma fonte seca.

Enquanto espiava pela borda, um tiro soou e uma bala zuniu ao lado da orelha esquerda de Ezio. Ele recuou um pouco, pois não sabia quan­tas pistolas Valois carregava. Se fosse apenas uma, Ezio calculava que o general levaria talvez dez segundos para recarregá-la. Ele lamentou pela besta, mas não havia nada a ser feito quanto a isso. Ele tinha cinco dar­dos venenosos metidos no cinto, mas teria de chegar muito perto para usá-los, e não queria fazer nada que pusesse Pantasilea em risco.

— Não chegue mais perto! — berrou Valois lá de baixo. — Eu a ma­tarei se você o fizer!

Ezio espiou o pátio do alto do telhado, mas a linha de visão era limi­tada pela borda, e ele não conseguia ver ninguém, mas sentia o pânico na voz de Valois.

— Quem é você? — inquiriu o general. — Quem mandou você? Ro­drigo? Diga a ele que foi tudo plano de Cesare!

— É melhor você me contar tudo se quiser voltar inteiro à Borgonha!

— Se eu contar, você me deixará ir?

— Veremos. A mulher não pode ser ferida. Venha até onde eu possa vê-lo — ordenou Ezio.

Abaixo, Valois saiu cauteloso de debaixo da colunata que cercava o pátio e se posicionou ao lado da fonte morta. Ele tinha amarrado as mãos de Pantasilea atrás das costas dela, e a segurava por uma rédea amarrada a uma coleira no pescoço. Ela tinha chorado, Ezio pôde ver, mas estava calada agora, e tentava manter a cabeça erguida. O olhar que a mulher lançava a Valois era tão venenoso que, se fosse uma arma, seria mais poderosa do que todos os equipamentos do códex juntos.

Quantos homens ele teria consigo lá embaixo, escondidos? Mas a voz dele soava muito assustada, e sugeria que o general tinha ficado sem opções e estava encurralado.

— Cesare andou subornando os cardeais, para tirá-los do lado do papa e trazê-los para si. Depois que ele terminasse de subjugar o resto do país sob Roma, eu deveria ter marchado sobre a capital e con­quistado o Vaticano e quem mais se opusesse à vontade do general- capitão.

Valois estava brandindo a pistola de um lado para o outro. Quando ele se virou, Ezio viu que tinha mais duas pistolas metidas no cinto.

— Não foi ideia minha — continuou Valois. — Estou acima de tais conspirações. — Um traço da velha vaidade estava voltando à voz dele. Ezio se perguntava se tinha dado muito espaço ao homem. Ele se levantou e saltou corajosamente até o pátio, aterrissando agachado como uma pantera.

— Para trás! — berrou Valois. — Ou eu...

— Machuque um fio de cabelo dela e meus arqueiros lhe cravarão com mais flechas que San Sebastiano — sibilou Ezio. — Então, sua po­bre alma nobre, o que ela ganhou com isso?

— Como sou da Casa de Valois, Cesare me dará a Itália. Governarei aqui, de acordo com meu direito de nascença.

Ezio quase riu. Bartolomeo não tinha exagerado, muito pelo con­trário, quando chamou esse arrogante pomposo de cérebro de galinha! Mas ele ainda estava com Pantasilea, e ainda era perigoso.

— Ótimo. Agora, solte a mulher.

— Tire-me daqui primeiro. Então eu a soltarei.

— Não.

— Tenho a atenção do rei Luís. Peça-me o que quiser na França e será seu. Terras, talvez? Um título de nobreza?

— Eu já tenho essas coisas. Aqui. E você jamais os governará.

— Os Bórgia tentam mudar a ordem natural das coisas — rogou Valois, mudando a abordagem. — Pretendo trazer o país de volta à tradi­ção. Só o sangue real pode governar, não a substância pútrida e profana que corre nas veias deles. — Ele fez uma pausa. — Sei que você não é um bárbaro, como eles.

— Nem você, nem Cesare, nem o papa, nem ninguém que não es­tiver do lado da justiça e da paz jamais governará a Itália enquanto eu viver — afirmou Ezio, avançando lentamente.

O medo parecia ter paralisado o general francês onde ele se encon­trava. A mão que segurava a pistola contra a têmpora de Pantasilea tre­mia e ele não recuou. Evidentemente os três estavam sozinhos nos alo­jamentos do general, a não ser que os únicos outros ocupantes fossem servos com o bom senso de se esconder. Ouvia-se um barulho constante e pesado, como se golpes lentos e deliberados fossem aplicados, e as por­tas externas do alojamento vibravam. Bartolomeo deve ter derrotado os franceses e trazido os aríetes.

— Por favor — implorou o general, trêmulo, despido da sofisticação.

— Eu vou matá-la. — Valois olhou para a abertura no teto, tentando ver os arqueiros imaginários de Ezio. Ele nem pensou, como Ezio tinha temido ao mencioná-los, que tais soldados tinham sido superados na guerra moderna, mesmo que o arco ainda fosse muito mais rápido de recarregar do que a pistola ou o mosquete.

Ezio deu mais um passo à frente.

— Eu lhe darei tudo que você quiser. Há dinheiro aqui, muito di­nheiro. É para pagar meus homens, mas você pode levar tudo. E eu, eu, eu farei o que você quiser! — Valois estava implorando agora, e a imagem era tão patética que Ezio mal podia conter o desprezo. Aquele sujeito realmente se viu como rei da Itália?!

Parecia que mal valeria a pena matá-lo.

Ezio estava perto agora. Os homens se entreolharam. Ezio tomou lentamente a pistola e depois a rédea das mãos sem força do general. Com um suspiro de alívio, Pantasilea saiu do caminho, assistindo à cena com olhos arregalados.

— Eu... eu só queria respeito — murmurou o general, baixinho.

— Mas o respeito é conquistado — retrucou Ezio. — Não é herdado ou comprado. E não pode ser ganho à força. Oderint dum metuant deve ser um dos ditos mais imbecis jamais cunhados. Não me espanta que Calígula tenha-o adotado. “Deixe que odeiem, desde que temam.” E não me espanta que o nosso Calígula moderno viva de acordo com ele. E você o serve.

— Eu sirvo ao meu rei, Luís XII! — Valois parecia derrotado. — Mas talvez você esteja certo. Eu vejo isso agora. — A esperança cintilou no olhar dele. — Preciso de mais tempo...

Ezio suspirou.

— Infelizmente, amigo, o seu tempo acabou. — Ezio desembainhou a espada e Valois, compreendendo e finalmente agindo com dignidade, se ajoelhou e baixou a cabeça.

— Requiescat in pace — disse Ezio.

Com um estrondo imenso, as portas externas do alojamento se estilha­çaram e caíram, revelando Bartolomeo, empoeirado e ensanguentado, mas ileso, diante das tropas. O guerreiro correu até a mulher e a abraçou com tanta força que a deixou sem fôlego, e em seguida tentou soltar a coleira do pescoço dela. Só que Bartolomeo estava tão nervoso que Ezio teve de fazê-lo por ele. Então Bartolomeo cortou os grilhões dos pés dela com dois golpes poderosos da Bianca e desamarrou as cordas que atavam os pulsos.

— Oh, Pantasilea, minha amada, minha querida, minha alma! Nun­ca mais desapareça assim! Fiquei perdido sem você!

— Não, não ficou. Você me resgatou!

— Ah. — Bartolomeo parecia envergonhado. — Não. Não fui eu. Foi Ezio! Ele que teve a ideia...

Madonna, estou feliz que você esteja a salvo—inAenoHpatAiB.

— Meu caro Ezio, como posso lhe agradecer? Você me sahoo!

— Fui apenas um instrumento, uma simples parte do plano brilhan­te do seu marido.

Bartolomeo olhou Ezio com uma expressão de gratidão e confusão no rosto.

— Meu príncipe! — exclamou Pantasilea ao abraçar o marido. - Meu herói!

Bartolomeo corou e, piscando para Ezio, disse:

— Bem, se sou seu príncipe, então é melhor eu conquistar esse títu­lo. Honestamente, não foi tudo ideia minha, sabe...

Quando eles se viraram para partir, Pantasilea esbarrou em Ezio e sussurrou:

— Obrigada.

 

Alguns dias mais tarde, depois que Bartolomeo terminou de arrebanhar os restos do exército desencorajado de Valois, Ezio se encontrou com La Volpe, os dois a caminho de uma reunião geral convocada por Ezio no esconderijo da Irmandade na Ilha Tiberina.

— Como estão as coisas aqui em Roma? — Foi a primeira pergunta de Ezio.

— Muito boas, Ezio. Com o exército francês derrotado, Cesare per­deu um apoio importante. Sua irmã, Claudia, nos conta que os espa­nhóis e os embaixadores do Sacro Império Romano partiram apressa­dos. Meus homens puseram os Cento Occhi para correr.

— Ainda há muito a fazer.

Eles chegaram ao destino e se depararam com o restante dos com­panheiros já reunidos no salão interno do esconderijo. O fogo ardia em uma lareira no meio do piso.

Depois de todos terem se cumprimentado e se sentado, Maquiavel se levantou e entoou em árabe:

— Laa shaya waqiun moutlaq bale kouloun moumkine. A Sabedoria do nosso Credo é revelada por essas palavras: Trabalhamos nas Trevas para servir à Luz. Somos Assassinos.

Ezio se levantou e se dirigiu à irmã.

— Claudia. Dedicamos nossas vidas a proteger a liberdade da raça humana. Mario Auditore e nosso pai, Giovanni, irmão dele, um dia se reuniram ao redor de um fogo parecido com este, engajados na mesma tarefa. Agora, eu lhe ofereço a escolha: juntar-se a nós.

Ezio estendeu a mão. Claudia então a segurou. Maquiavel retirou do fogo o ferrete familiar, que terminava em dois pequenos semicírculos, como a letra C, e podiam ser unidos por meio de uma alavanca no cabo.

— Nada é verdade, tudo é permitido — entoou Maquiavel com gra­vidade, e os outros, Ezio, Bartolomeo e La Volpe repetiram as palavras.

Assim como Antônio de Magianis um dia fez a Ezio, agora Maquia­vel solenemente aplicou o ferrete ao dedo anular de Claudia e fechou a alavanca, para que a marca de um anel ficasse queimada ali para sempre.

Claudia estremeceu, mas não gritou. Maquiavel removeu o ferro e pôs de lado em segurança.

Bem-vinda à nossa Ordem, à nossa Irmandade — disse Maquia­vel formalmente a Claudia.

— Então agora somos irmãos e irmãs também? — indagou ela, pas­sando um unguento anestésico no dedo marcado, de um vidro que Bar­tolomeo tinha oferecido.

Maquiavel sorriu.

Exatamente.

Todos o olharam quando ele se virou para Ezio.

— Discordamos em muitas questões...

Nicolau... — interrompeu Ezio, mas Maquiavel ergueu a mão para detê-lo.

— Mas desde a epifania na Câmara sob a Capela Sistina, e mesmo antes disso, você provou mais de uma vez que era exatamente aquilo de que a Irmandade precisava. Você liderou a investida contra os Tem­plários, carregou nosso gonfalon com orgulho e presteza, e reconstruiu corajosamente nossa Irmandade depois do que sofremos após a tragédia em Monteriggioni. — Ele olhou em volta. — Chegou o momento, meus amigos, de nomear formalmente Ezio à posição que ele já ocupa pelo nosso consentimento geral: a de nosso líder. Eu lhes apresento Ezio Au ditore di Firenze, o grão-mestre da nossa Ordem. — Ele se virou para Ezio. — Meu amigo, de agora em diante você será conhecido como il Mentore, o guardião da nossa Irmandade e dos nossos segredos.

Ezio ficou absolutamente comovido, mesmo que em parte ainda qui­sesse se livrar daquela vida na qual a grande tarefa exigia dele todas as ho­ras que ele passava acordado, e lhe deixava raras horas para dormir. Ainda assim, ele deu um passo à frente e repetiu as palavras centrais do Credo:

— Onde outros homens são limitados pela moralidade e pela lei, devemos, na busca de nossos objetivos sagrados, sempre lembrar: Nada é verdade, tudo é permitido. Nada é verdade, tudo é permitido.

Os outros repetiram a fórmula em seguida.

— E agora chegou a hora — anunciou Maquiavel — da nossa mais nova integrante realizar seu Salto de Fé.

Eles foram todos até a igreja de Santa Maria in Cosmedin e subiram à torre do sino. Guiada cuidadosamente por Bartolomeo e La Volpe, Claudia se atirou sem medo no vazio bem quando o orbe dourado do sol se libertou do horizonte oriental e pintou as dobras do vestido pra­teado dela com luz, dourando-o também. Ezio assistiu enquanto a irmã pousou em segurança e foi até a colunata próxima com Bartolomeo e La Volpe. Agora, Maquiavel e Ezio estavam sozinhos. Quando Maquiavel ia saltar, Ezio o impediu.

— Por que essa mudança súbita de opinião, Nicolau?

Maquiavel sorriu.

— Que mudança de opinião? Eu sempre apoiei você. Sempre fui leal à causa. Meu defeito é o pensamento independente. Foi isso que causou as dúvidas na sua mente... e na de Gilberto. Agora estamos todos livres dessas inconveniências. Eu nunca busquei a liderança. Sou mais... um observador. Agora, vamos dar nosso Salto de Fé juntos, como amigos e guerreiros companheiros do Credo!

Ele estendeu a mão e, também sorrindo, Ezio a segurou com força. Então os dois se atiraram do telhado da campanile juntos.

Mal se reuniram aos companheiros, um mensageiro chegou a cava­lo. Sem fôlego, ele anunciou.

— Maestro Maquiavel, Cesare voltou a Roma sozinho, após sua últi­ma viagem a Romagna. Ele cavalga para o Castel SantAngelo.

— Grazie, Alberto — disse Maquiavel quando o mensageiro deu meia-volta com o cavalo e disparou na direção de onde tinha vindo.

— Bem? — perguntou Ezio.

Maquiavel mostrou as palmas.

— A decisão é sua, não minha.

— Nicolau, é melhor você não parar de me dizer o que você pensa. Eu agora busco a opinião do meu conselheiro mais confiável.

Maquiavel sorriu novamente.

— Nesse caso você já sabe a minha opinião. Ela não mudou. Os Bór­gia precisam ser erradicados. Vá e mate-os, Mentore. Termine o serviço que começou.

— Bom conselho.

— Eu sei. — Maquiavel observou Ezio, como se o avaliasse.

— O que foi? — perguntou Ezio.

— Andei pensando em escrever um livro sobre os métodos de Cesa­re. Agora acho que vou equilibrá-los com uma análise dos seus.

— Se você for escrever um livro sobre mim — disse Ezio —, é me­lhor que seja curto!

 

Ezio chegou ao Castel Sant’Angelo e se deparou com uma multidão reu­nida na margem oposta do Tibre. Misturando-se à massa de gente, Ezio seguiu para a entrada e viu que os soldados franceses, responsáveis pela guarda do Castel e da ponte que levava a ele, estavam mergulhados em uma completa confusão. Alguns já arrumavam o equipamento para a partida, enquanto oficiais moviam-se freneticamente entre eles, orde­nando que desarrumassem as malas. Algumas das ordens eram con­traditórias e, como resultado, aqui e ali brigas começavam. A multidão italiana assistia a tudo com silenciosa satisfação, percebeu Ezio. Apesar de estar carregando as próprias roupas em uma bolsa pendurada no om­bro, Ezio tinha tomado a precaução de vestir o uniforme francês que guardou após o ataque à Castra Praetoria, e então despiu o manto que vestira para cobrir o traje e avançou rapidamente até a ponte. Ninguém lhe deu a menor atenção, mas, ao passar pelas tropas francesas, entreou­viu alguns pedaços úteis de conversa.

— Para quando esperamos o ataque de d'Alviano e seus mercenários?

— Dizem que ele está a caminho agora.

— Então por que estamos fazendo as malas? Vamos nos retirar?

— Espero que sim! Tout cela, cest rien quun tas de merde.

Um soldado notou Ezio.

— Senhor! Senhor! Quais são nossas ordens?

— Estou indo descobrir — respondeu Ezio.

— Senhor!

— O que foi?

— Quem está no comando, senhor, agora que o general Valois morreu?

— Sem dúvida estão enviando um substituto.

— É verdade, senhor, que ele morreu corajosamente em batalha?

Ezio sorriu para si mesmo.

— É claro que é verdade. Ele morreu na vanguarda da batalha, lide­rando os homens.

Ezio seguiu em frente, em direção ao Castel.

Quando estava lá dentro, subiu até o alto das muralhas e, daquele ponto avançado, vislumbrou o pátio, onde localizou Cesare falando com um capitão da Guarda Papal postado à porta da cidadela interior.

— Preciso ver o papa! — disse Cesare com urgência. — Preciso ver meu pai agora!

— É claro, Vossa Graça. O senhor encontrará Sua Santidade em seus aposentos no topo do Castel.

— Então saia do meu caminho, imbecil! — Cesare passou rapi­damente pelo pobre capitão enquanto este deu ordens apressadas para que uma portinhola fosse aberta na porta principal para deixar Cesare entrar.

Ezio observou por um momento e então deu a volta na circunferên­cia do Castel até alcançar o portão secreto. Ele desceu e entrou usando a chave de Pietro.

Uma vez dentro, olhou em volta com cautela e, não vendo ninguém, desceu por uma escadaria na direção das celas de onde tinha resgatado Caterina Sforza. Após encontrar um lugar calmo, Ezio logo tirou o uni­forme de tenente francês e vestiu as próprias roupas, mais apropriadas para o trabalho que teria pela frente. Ele verificou as armas rapidamente, vestindo a braçadeira com a lâmina venenosa e confirmando que tinha um suprimento de dardos venenosos guardados no cinto. Em seguida, mantendo-se colado às paredes, partiu na direção da escadaria que leva­va ao topo do Castel. O caminho era protegido e ele teve de enviar três guardas para o Criador antes de poder continuar.

Finalmente Ezio chegou ao jardim onde tinha observado Lucrécia e o namorado se agarrando. À luz do dia, pôde ver que os aposentos dela faziam parte de um complexo. Outros, maiores e ainda mais grandiosos, ficavam além, e Ezio deduziu que seriam do papa. Mas, ao se aproxi­mar deles, ouviu uma conversa vinda dos aposentos de Lucrécia. Ele foi discretamente até a janela aberta de onde vinham as vozes e parou para escutar. Conseguia vê-la, aparentemente nem um pouco abalada pelo tempo que passou nas celas, falando com o mesmo servo a quem ela tinha confiado a informação sobre o caso com Pietro. O servo então tinha transmitido o fato ao seu ciumento irmão com grande sucesso, a julgar pelo retorno veloz de Cesare a Roma.

— Eu não entendo — reclamava Lucrécia, irritada. — Mandei que me entregassem um lote novo de cantarella ontem à noite. Toffana de­veria ter entregado o veneno pessoalmente a mim ao meio-dia. Você a viu? O que está acontecendo?

— Lamento muitíssimo, mia signora, mas acabei de ouvir que o papa interceptou a entrega. Ele tomou tudo para si mesmo.

— Aquele velho idiota. Onde ele está?

— Nos aposentos dele, madonna. Está em uma reunião...

— Uma reunião? Com quem?

O servo hesitou.

— Com Cesare, madonna.

Lucrécia refletiu sobre a notícia, e em seguida falou consigo mesma.

— Que estranho. Meu pai não me contou que Cesare tinha voltado.

Imersa em pensamentos, ela deixou o aposento.

Sozinho, o servo começou a arrumar as coisas, colocando mesas e cadeiras no lugar enquanto murmurava. Ezio esperou por um momento para ver se ele diria mais alguma coisa útil, mas tudo que o servo falou foi:

— Aquela mulher me cria tantos problemas... Por que eu não fiquei nos estábulos, onde eu estava bem? Chamam isso de promoção? Eu po­nho meu pescoço na forca cada vez que faço um serviço. E tenho de provar a comida dela todas as vezes que ela se senta para comer! — Ele fez uma pausa por um momento. — Que família! — acrescentou.

 

Ezio já tinha saído antes de ouvir essas últimas palavras. Ele se esgueirou pelo jardim em direção aos aposentos do papa e encontrou um lugar por onde poderia escalar até uma das janelas principais do edifício sem ser vis­to, pois a única entrada estava fortemente protegida, e ele preferia evitar atenção, já que não demoraria muito para que os cadáveres dos guardas que matou fossem descobertos. Seu palpite de que aquela janela daria visão à câmara principal do papa estava correto, e ela tinha um largo peitoril no qual ele poderia se posicionar sem ser visto. Usando a lâmina da adaga, Ezio abriu um pouco uma das venezianas, de modo a ouvir tudo que fosse dito.

Rodrigo, o papa Alexandre VI, estava sozinho na sala, sentado à uma mesa sobre a qual havia uma grande tigela de prata contendo ma­çãs vermelhas e amarelas, cuja posição ele arrumava nervosamente bem quando a porta se abriu e Cesare entrou sem ser anunciado. Estava fu­rioso e, sem preâmbulo, se lançou em uma reprimenda amargurada.

— O que diabos está acontecendo? — começou.

— Não sei do que você está falando — respondeu o pai, reservado.

— Ah, sim, você sabe muito bem! Meus fundos foram cortados e minhas tropas dispensadas.

— Ah. Bem, você sabe que, após o trágico... falecimento do seu ban­queiro, Agostino Chigi assumiu todos os negócios dele...

Cesare riu de forma irônica.

— O seu banqueiro! Eu deveria ter sabido! E os meus homens?

— Dificuldades financeiras atingem a todos ocasionalmente, meu rapaz, mesmo aqueles de nós com exércitos e ambições exageradas.

— Você vai mandar Chigi liberar dinheiro para mim ou não?

— Não.

— Bem, então veremos!

Furioso, Cesare catou uma maçã da tigela. Ezio viu que o papa ob­servava o filho cuidadosamente.

Chigi não vai ajudá-lo — retrucou o papa, calmamente. — E ele é poderoso demais até para você.

— Nesse caso — argumentou Cesare, com uma careta de desprezo.

— Eu usarei o Pedaço do Éden para conseguir o que quero. Tornarei a sua ajuda desnecessária. — Ele mordeu a maçã com um sorriso maldoso.

— Você já deixou isso incrivelmente claro — comentou Rodrigo com frieza. — Aliás, imagino que você já saiba que o general Valois está morto.

O sorriso de Cesare desapareceu em um segundo.

— Não, acabei de chegar a Roma. — Seu tom se tornou ameaçador.

— Foi você que...?

O papa estendeu as mãos.

— E que motivo eu poderia ter para matá-lo? Ou será que ele estava tramando contra mim, quem sabe, com o meu próprio querido, brilhan­te e traiçoeiro capitão-general?

Cesare deu outra mordida na maçã.

— Eu não vou aceitar isso! — rosnou enquanto mastigava.

— Se você quer saber, foram os Assassinos que o mataram.

Cesare engoliu, de olhos arregalados. Em seguida, o rosto escureceu de raiva.

— Por que você não os impediu?

— Como se eu pudesse! Foi decisão sua atacar Monteriggioni, não minha. Já passou da hora de você assumir a responsabilidade pelos seus erros, se já não é tarde demais.

— Minhas ações, você quer dizer — respondeu Cesare, orgulhoso.

— Apesar das constantes interferências de fracassados como você.

O jovem se virou para sair, mas o papa deu a volta na mesa correndo e bloqueou o caminho até a porta.

— Você não vai a lugar algum — grunhiu Rodrigo. — E você está iludido. Eu estou com o Pedaço do Éden.

— Mentiroso! Saia do meu caminho, velho idiota!

O papa balançou a cabeça, entristecido.

— Eu lhe dei tudo que pude, e nunca foi o bastante.

Nesse instante Ezio viu Lucrécia irromper na sala, de olhos arre­galados.

— Cesare! — berrou ela. — Cuidado! Ele quer envenená-lo!

Cesare ficou paralisado. Olhou para a maçã na mão, cuspindo o pe­daço que tinha acabado de morder, com uma expressão indecifrável. O rosto do próprio Rodrigo mudou do triunfo ao medo. Ele se afastou do filho, colocando a mesa entre os dois.

Me envenenar? — repetiu Cesare, com o olhar perfurando os olhos do pai.

— Você não ouvia a voz da razão! — gaguejou o papa.

Cesare sorriu enquanto avançou, muito deliberadamente, contra Rodrigo.

— Pai. Querido pai. Você não vê? Eu controlo tudo. Tudo que existe. Se eu quiser viver, apesar dos seus esforços, eu viverei. E se houver algu­ma coisa, qualquer coisa, que eu quiser, eu a tomarei. — Ele se aproxi­mou do papa e o agarrou pelo colarinho, erguendo a maçã envenenada.

— Por exemplo, se eu quiser que você morra, você morrerá!

Puxando o pai mais para perto, Cesare enfiou a maçã na boca aberta dele antes que tivesse tempo de fechar. Rodrigo lutou e se engasgou com a maçã, incapaz de respirar. Caiu no chão em agonia enquanto os dois filhos friamente o observaram morrer.

Cesare não perdeu tempo. Ajoelhou-se e vasculhou as vestes do pai. Não encontrou nada. Ele se levantou e partiu para cima da irmã, que recuou.

— Você... você precisa procurar ajuda. Também está envenenado — gritou ela.

— Não o suficiente — latiu Cesare, rouco. — E você acha que eu sou idiota a ponto de não ter tomado um antídoto profilático antes de vir para cá? Eu sei o quão podre nosso pai realmente era, e sei como ele iria reagir se pensasse, por um momento que fosse, que o poder estava escapando das mãos dele, vindo na minha direção. Agora, ele falou que estava com o Pedaço do Éden.

— Ele... ele... estava falando a verdade.

Cesare deu um tapa em Lucrécia.

— Por que eu não fui avisado?

— Você estava fora... ele mandou mudá-la de lugar... temia que os assassinos pudessem...

Cesare lhe deu outro tapa.

— Você tramou com ele!

— Não! Não! Eu achei que ele tinha mandado mensageiros para lhe contar...

— Mentirosa!

— Juro que é verdade! Eu realmente pensei que você soubesse, ou pelo menos tivesse sido avisado do que ele fez.

Cesare a esbofeteou de novo, com mais força, e Lucrécia perdeu o equilíbrio e caiu.

— Cesare — disse ela enquanto se esforçava para respirar, com pâ­nico e medo nos olhos. — Você está louco? Sou Lucrécia! Sua irmã! Sua amiga! Sua amante! Sua rainha! — Lucrécia se levantou, timidamente pondo as mãos no rosto do irmão, para acariciá-lo.

A reação de Cesare foi agarrar a garganta dela e chacoalhá-la, como um cão de caça faria com um furão.

— Você não passa de uma vaca! — Cesare aproximou-se do rosto da irmã de forma agressiva. — Agora diga-me — continuou ele, com a voz perigosamente baixa. — Onde ela está?

Com descrença na voz ao responder, Lucrécia engasgava ao tentar falar com muita dificuldade.

— Você... nunca me amou?

Cesare largou o pescoço da irmã e bateu nela de novo, dessa vez lhe dando um soco perto do olho.

— Onde está a Maçã! A Maçã! — gritou ele. — Me diga!

Lucrécia cuspiu no rosto de Cesare, que segurou-lhe o braço e a ati­rou no chão, chutando-a com força e repetindo a pergunta sem parar. Ezio ficou tenso, obrigando-se a não intervir mesmo que estivesse cho­cado com o que via, pois ele também precisava saber a resposta.

— Tudo bem! Tudo bem! — disse ela, afinal, com uma voz en­trecortada.

Cesare levantou a irmã, que colocou os lábios perto do ouvido dele, sussurrando, para a fúria de Ezio.

Satisfeito, Cesare a afastou.

— Decisão inteligente, irmãzinha.

Ela tentou se agarrar a ele, mas Cesare a empurrou com um nojo e saiu da sala.

Assim que ele fechou a porta, Ezio atravessou a janela e aterrissou perto de Lucrécia. A mulher, cujo espírito aparentemente tinha sido drenado, estava caída encostada à parede. Ezio se ajoelhou ao lado do corpo inerte de Rodrigo e verificou o pulso.

Não havia mais.

— Requiescat in pace — sussurrou Ezio, se levantando e confrontan­do Lucrécia. Ao vê-lo, ela sorriu amargurada, com um pouco de fogo de volta ao olhar.

— Você estava ali? O tempo todo?

Ezio concordou com a cabeça.

— Ótimo — disse ela. — Eu sei aonde o bastardo vai.

— Diga-me.

— Com prazer. A Basílica de São Pedro. O pavilhão no pátio...

— Obrigado, madonna.

— Ezio...

— Sim?

— Tome cuidado.

 

Ezio correu ao longo do Passetto di Borgo, uma passagem que atravessa­va o rione de Borgo e conectava o Castel Sant'Angelo ao Vaticano. Dese­jou ter podido trazer alguns de seus homens, ou que tivesse tido tempo de encontrar um cavalo, mas a urgência deu asas a seus pés, e quaisquer guardas que aparecessem eram logo atirados para o lado por sua inves­tida brutal.

Uma vez no Vaticano, Ezio foi até o pavilhão no pátio, onde Lucrécia tinha dito que a Maçã estava. Com Rodrigo morto, havia uma grande chance de o novo papa estar livre da influência dos Bórgia, já que o Colégio dos Cardeais, com exceção daqueles membros que tinham se vendido de corpo e alma, estava farto e enojado de ser manipulado por aquela família estrangeira.

Mas Ezio tinha de deter Cesare agora, antes que ele pudesse pegar a Maçã e usar seus poderes, mesmo com o entendimento limitado das capacidades dela, para recuperar o terreno perdido.

Chegara a hora de derrotar o inimigo de vez. Era agora ou nunca.