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ISABEL DA BAVIERA / Alexandre Dumas
ISABEL DA BAVIERA / Alexandre Dumas

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ISABEL DA BAVIERA

 

            Um dos mais magníficos privilégios do historiador, esse rei do passado, é bastar-lhe quando percorre o seu império, tocar com a pena as minas e os cadáveres para reconstruir os palácios e ressuscitar os homens; à sua voz, como à de Deus, as ossadas dispersas reúnem-se, as carnes vivas recobrem-nas, as vestimentas sumptuosas revestem-nas, e, neste Josaphat imenso onde três mil séculos conduzem os seus filhos, basta-lhe escolher os eleitos pelo seu capricho e invocá-los pelo nome para que no mesmo instante os chamados ergam com a fronte as pedras das campas, afastem com a mão as pregas dos sudários e respondam, como Lázaro a Cristo:

            "Aqui estou. Senhor: que me quereis?" É todavia necessário um passo firme para descer às profundezas da história, uma voz imperiosa para interrogar os fantasmas, mão que não trema para escrever as palavras que eles ditam. Os mortos têm por vezes segredos terríveis que o coveiro selou com eles nos seus túmulos.

            Os cabelos de Dante embranqueceram ao escutar o relato do conde Ugolino, e os seus olhos guardaram dele um olhar tão sombrio, as suas faces uma palidez tão mortal, que, quando Virgílio o reconduziu à superfície da terra, as mulheres de Florença, adivinhando de onde vinha o estranho viajante, apontavam-no aos filhos, dizendo:

            "Vêem esse homem que passa, tão grave e tão triste. Desceu ao inferno!"

            É sobretudo a nós que se torna aplicável esta comparação dantesca e virgiliana: a porta das catacumbas de Saint-Denis, que vai abrir-se à nossa frente, tem na verdade algumas semelhanças com a do inferno; a mesma lenda fica maravilhosamente às duas, e, se levássemos o archote de Dante, e se fôssemos conduzidos pela mão de Virgílio, não teríamos de procurar muito tempo entre as três raças reais que povoam os sepulcros da velha abadia, para encontrar algum assassino cujo crime seja tão maldito como o do arcebispo Roger, alguma vítima cuja infelicidade seja tão digna de dó como foi a do prisioneiro da torre de Pisa.

            Há sobretudo, nesse vasto ossuário, um túmulo junto do qual nunca passámos sem nos determos, cruzarmos os braços e inclinarmos a fronte. E, numa cripta à esquerda, uma simples laje de mármore negro, sobre a qual estão deitadas lado a lado duas estátuas, uma de homem, outra de mulher. Há já quatro séculos que assim repousam, de mãos juntas, orando; porque o homem pede a Deus razão da sua cólera e a mulher misericórdia pela sua traição; é que essas estátuas, saibam-no, são as de um insensato e de uma adúltera; durante vinte anos, a loucura de um e os amores da outra ensanguentaram a França, e não foi sem razão, acreditem, que em torno do leito mortuário que os reúne, após estas palavras:

            "Aqui jazem o rei Carlos, o Bem-Amado, VI do nome, e a rainha Isabel da Baviera, sua mulher."

            A mesma mão acrescentou:

            "Orai por eles!"

            É, pois, em Saint-Denis, uma vez que aqui estamos, que vamos abrir os arquivos misteriosos desse reinado bizarro que passou, como disse um dos nossos poetas, "entre a aparição de um velho e a de uma pastora, e que deixou, como único monumento à sua duração, uma amarga ironia ao destino dos impérios e à fortuna dos homens: um jogo de cartas".

            Para algumas páginas albas que veremos neste livro, encontraremos muitas vermelhas de sangue, muitas negras de luto; porque Deus quis que tudo aqui em baixo se tingisse dessas três cores, quando delas fez o brasão da vida humana e lhe deu por divisa: inocência, paixões e morte.

            Abramos então este livro, como Deus abre a vida, nas suas páginas brancas; não tardaremos em chegar às páginas de sangue e às de luto.

 

            No domingo 20 de Agosto do ano de 1389 [segundo Froissait: os registos do Parlamento indicam 22], havia, desde o romper do dia, grande afluência de povo na estrada de Saint-Denis a Paris.

            É que a senhora Isabel, filha do duque Etienne da Baviera e mulher do rei Carlos VI, devia fazer, como rainha da França, a sua primeira entrada solene na capital do reino.

            Deve dizer-se, para justificar esta curiosidade, que se faziam maravilhosos relatos a respeito desta princesa; sabia-se que à sua primeira entrevista com ela, que tivera lugar a uma sexta-feira [ 15 de Julho de 1385 ], o rei ficara perdidamente apaixonado e só de má vontade concedera a seu tio, o duque da Borgonha, um prazo até à segunda-feira seguinte para os preparativos do casamento.

            Esta aliança, de resto, fora encarada com grandes esperanças em todo o reino; sabia-se que o rei Carlos V manifestara, ao morrer, o desejo de que o seu filho contraísse matrimónio com uma princesa da Baviera, para contrabalançar a influência de Ricardo de Inglaterra, que desposara a irmã do rei da Alemanha. O amor do jovem príncipe secundara, pois, miraculosamente, os últimos desejos de seu pai: além disso, as matronas encarregadas de examinar a noiva tinham-na declarado apta a dar herdeiros à coroa, e o nascimento de um filho viera, ao cabo de um ano, confirmar esta opinião. Houve evidentemente alguns profetas de desgraças, como sempre aparecem no início de todos os reinados, a afirmarem que tudo aquilo redundaria no pior, por ser a sexta-feira um mau dia para uma entrevista nupcial; mas nada acontecera ainda que desse crédito a tais previsões, e as suas vozes, se tivessem tentado fazer-se ouvir, teriam sido rapidamente abafadas pelos gritos de alegria que, no dia em que começamos este relato, se escapavam insuspeitadamente de todas as bocas.

            Como as figuras que desempenharão os principais papéis nesta crónica foram chamados, pelo seu nascimento ou pela sua dignidade, a tomar lugar ao lado ou no séquito da rainha, vamos, se o leitor concorda, seguir a marcha do cortejo, que só espera, para se pôr a caminho, a chegada do duque Luís da Touraine, irmão do rei, a quem os cuidados de indumentária, dizem uns, e uma noite de amor, afirmam outros, obrigaram a chegar com meia hora de atraso.

            Será, de resto, um processo, senão novo, pelo menos cómodo, de travar conhecimento com os homens e com as coisas; haverá, além disso, neste quadro que vamos tentar desenhar, segundo os velhos mestres(1), alguns pormenores a que não faltará talvez interesse nem originalidade. [1. Os autores que dão mais informações a respeito desta entrada são Froissart, o religioso de Saint-Denis e Juvenal des Ursines].

            Já dissemos que, nesse domingo, havia tanto povo fora de Paris que era uma maravilha de ver como se o tivesse feito obedecendo a uma ordem. A grande estrada estava apinhada de homens e de mulheres, tão apertados uns contra os outros como espigas num campo de trigo; e a comparação tornava-se ainda mais adequada a cada acidente que fazia ondular, como um trigal, aquela multidão demasiado compacta para que o mais pequeno estremecimento experimentado por uma das suas partes não se comunicasse instantaneamente à massa inteira.

            Às onze horas, grandes gritos que se fizeram ouvir à cabeça daquela multidão, e um estremecimento que a percorreu a todo o comprimento, anunciaram por fim à impaciência geral que ia passar-se alguma coisa de novo: eram a rainha Joana e a duquesa de Orleães, sua filha, que, com a ajuda dos sargentos que avançavam à frente delas, batendo no povo com os seus bastões, abriam caminho por entre aquelas vagas humanas, ao passo que, para as impedir de voltarem a fechar-se à sua passagem, avançavam a cavalo, em duas filas e pelas bermas da estrada, a "elite" dos burgueses de Paris, em número de mil e duzentos. Os que tinham sido escolhidos para formar aquela guarda de honra iam vestidos de longos fatos de seda verde e vermelha, cobertos por grandes chapéus cujas pontas lhes caíam para as costas, ou flutuavam como lenços, quando, por acaso, um sopro de vento refrescava a pesada atmosfera de Verão, tornada mais oprimente ainda pelo pó que se erguia sob os pés dos homens e dos cavalos. Cortado por este movimento, a turba transbordou para os campos que se estendiam de ambos os lados da estrada e no meio do caminho formou-se uma espécie de canal em que os burgueses de Paris faziam as vezes de bordos, e pelo fundo do qual o cortejo real podia circular livremente, Este movimento fez-se com menos dificuldade do que poderia pensar-se à primeira vista. Havia, nessa época, no povo que se apresentava ao seu rei, tanto amor e respeito, pelo menos, como curiosidade; e se a monarquia de então por vezes descia até ele, nunca ele se elevava até ela. Todos, pois, naquela espécie de expropriação que hoje não se faria sem gritos, sem polícias e sem blasfémias, se afastaram alegremente, e como o terreno dos campos era mais baixo do que a estrada, todos se puseram a correr para os pontos elevados de onde pudessem dominar o caminho. Num instante, as árvores e as casas espalhadas pelas cercanias encontraram-se invadidas e carregadas de frutos e de locatários estranhos, que, nas árvores, se acomodaram desde a copa aos ramos baixos e, nas casas, do telhado ao andar térreo; os que não ousaram tentar esta perigosa ascensão, escalonaram-se nos taludes da estrada, de que os burgueses coroavam a crista; as mulheres ergueram-se nas pontas dos pés, as crianças subiram aos ombros dos pais, e todos se postaram melhor ou pior, uns dominando os grandes chapéus dos burgueses, outros mergulhando modestamente os olhos entre as patas dos cavalos.

            A espécie de desordem causada pela passagem da rainha Joana e da duquesa de Orleães, que se dirigiam adiantadamente ao palácio [palácio da justiça], onde as esperava o rei, tinha-se acalmado um pouco quando foi avistada, saindo da rua direita de Saint-Denis, a tão esperada liteira da rainha. Havia, como já disse, entre a população reunida para aquele efeito, uma grande curiosidade por ver a jovem princesa, que ainda não tinha dezanove anos, e sobre quem repousava metade da esperança da monarquia; é possível, no entanto, que o primeiro olhar que a multidão lhe lançou justificasse mal a reputação de beleza que a precedera na capital, pois era uma beleza estranha, à qual era preciso as pessoas habituarem-se: isto devia-se ao violento contraste formado pelos seus cabelos, de um louro quase dourado, com as sobrancelhas de um negro de ébano, tipos opostos das raças do Norte e do Sul, que, cruzando-se naquela mulher, davam simultaneamente ao seu coração as paixões ardentes da jovem italiana, e à sua fronte a altivez desdenhosa da princesa alemã.

            Quanto ao resto da sua pessoa, um estatuário não poderia desejar, para modelo de Diana no banho, proporções mais harmoniosas. O seu rosto formava aquele oval perfeito a que, dois séculos mais tarde, Rafael deixou ligado o seu nome. Os vestidos justos e as mangas cingidas, que se usavam na época, não deixavam a mínima dúvida quanto à finura da sua cintura e ao modelado dos braços: e a mão, que por galanteria, talvez mais que por abandono, deixava pender, por uma das janelas, destacava-se sobre os velhos estofos que forravam a viatura como um baixo-relevo de alabastro sobre um fundo de ouro. O resto da sua pessoa ficava completamente escondido, é verdade, pela carroçaria da liteira; mas adivinhava-se facilmente, vendo o alto daquele corpo tão delicado e frágil, que devia ser suportado por pernas de fada e pés de criança. O estranho sentimento que se experimentava ao primeiro olhar desaparecia, pois, quase imediatamente, e o olhar ardente e aveludado dos seus olhos retomava esse império fascinador de que Milton e todos os poetas após ele fizeram a beleza característica e fatal dos seus anjos caídos.

            A Rainha Isabel era, como se sabe, filha de Estêvão, duque da Baviera-Ingolstadt, e de Tadeia de Milão.

            A liteira da rainha era acompanhada pelos seis primeiros fidalgos da França: os que cavalgavam à cabeça eram os duques da Touraine e de Bourbon. Sob este nome de duque da Touraine, que poderá iludi-los, os nossos leitores reconhecerão o irmão mais novo do rei Carlos, o jovem e belo Luís de Valois, que, apenas quatro anos mais tarde, receberia o título de duque de Orleães, que tornou tão célebre pelo seu espírito, os seus amores e as suas infelicidades. Casara um ano antes com a filha de Galeano Visconti, graciosa aparição histórica poetizada sob o nome de Valentina de Milão, e cuja beleza, desabrochante como a de uma flor, não bastava para reter junto dela essa borboleta real de asas douradas. É verdade que Luís era o mais belo, o mais rico e o mais elegante senhor da corte. Sentia-se, ao vê-lo, que nele tudo devia ser alegria e juventude, que recebera a vida para viver e que vivia; que as desgraças podiam sair-lhe ao encontro, mas que ele nunca as procuraria; que aquela despreocupada cabeça de pajem, de cabelos louros e olhos azuis, não fora feita para guardar durante muito tempo um grande segredo ou um pensamento triste, e que um e outro deviam escapar-se facilmente por aqueles lábios inconsequentes e rosados como os de uma mulher. Nesse dia, e com uma graça que era só dele, vestia uma indumentária maravilhosa, que mandara fazer propositadamente para aquela ocasião. Era um fato de veludo negro, debruado a vermelho, de cujas mangas descia um bordado representando um ramo de roseira: o tronco, que era de ouro, sustentava de ambos os lados folhas de esmeraldas, no meio das quais fulgiam, em cada braço, onze rosas de rubis e de safiras; as botoneiras, recordando uma antiga ordem instituída pelos reis de França, representavam ramos de giestas, com caules de pérolas; um dos panos, o que cobria o joelho do lado oposto à liteira, ficava completamente escondido por um sol de ouro, que o rei escolhera para sua divisa, o que Luís XIV renovaria mais tarde; o outro, sobre o qual a rainha detivera por várias vezes os olhos, porque continha evidentemente qualquer emblema escondido que ela procurava ler, o outro, dizia eu, representava um jovem leão de prata, de coleira e açaimado, que uma mão, perdida numa nuvem, conduzia à trela, com estas palavras: Aonde quiser. Esta rica indumentária era completada por um grande chapéu de veludo vermelho, em cujas pregas se entrelaçava uma magnífica corrente de pérolas, de que cada extremo caía tão baixo como as pontas do chapéu e com as quais o duque, enquanto conversava com a rainha, brincava com a mão que lhe deixava livre as rédeas do cavalo.

            Quanto ao duque de Bourbon, passaremos rapidamente por ele: era um desses príncipes que inscrevem o seu nome na história como filhos e antepassados de grandes homens.

            Atrás deles cavalgavam o duque Filipe da Borgonha e o duque de Berry, irmãos de Carlos V, tios do rei. Era o mesmo duque Filipe que, partilhando os perigos do rei João em Poitiers e o seu cativeiro na Inglaterra, mereceu, no campo de batalha e na prisão, o cognome de Ousado, que lhe fora dado por seu pai e confirmado por Eduardo no dia em que, durante uma refeição, tendo o copeiro do rei da Inglaterra servido o seu amo antes do rei de França, o jovem Filipe lhe aplicou uma bofetada, dizendo:

            - Mestre, quem te ensinou a servir o vassalo antes do senhor?

            O outro era o duque de Berry, que partilhou com o duque da Borgonha a regência da França, durante a demência do rei, e que, com a sua avareza, tanto contribuiu para arruinar o reino, pelo menos, como o duque de Orleães com as suas prodigalidades.

            Depois deles viam-se o senhor Pedro de Navarra e o conde de Ostrevant. Mas, como devem desempenhar um papel pouco importante nos factos que vamos relatar, endossamos os leitores que com eles queiram travar um conhecimento mais amplo às raras biografias que os mencionam.

            Atrás da rainha seguia, sem liteira, sobre um palafrém ricamente ajaezado e ornamentado, a duquesa de Berry, avançando a passo, conduzida pelos condes de Nevers e de La Marche. Aqui, uma vez mais, um dos nomes vai apagar o outro, e o mais pequeno perder-se-á na sombra do maior; porque o conde de Nevers, filho de Filipe e antepassado de Carlos, será, um dia, João da Borgonha. O pai chamava-se o Ousado, o neto chamar-se-ia o Temerário, e a história reservou-lhe o cognome de Sem Medo.

            O conde de Nevers, que desposara, a 12 de Abril de 1385, Margarida de Hainaut, tinha na altura de vinte a vinte e dois anos; sem ser de estatura elevada, era robusto e admiravelmente constituído: os seus olhos, se bem que pequenos e de um azul claro como os dos lobos, eram firmes e ameaçadores; os cabelos, que usava longos e lisos, eram desse negro violeta de que só a asa do corvo pode dar uma ideia; a barba, cuidadosamente escanhoada, punha a descoberto um rosto cheio e fresco, imagem de força e de saúde. Na maneira negligente como segurava as rédeas do cavalo, adivinhava-se a confiança do bom ginete: jovem como era, e embora não tivesse ainda sido armado cavaleiro, a sela de guerra era-lhe familiar, pois não negligenciara qualquer ocasião de endurecer-se nas fadigas e acostumar-se às privações. Rude para com os outros e para consigo mesmo, insensível à fome e à sede, ao frio e ao calor, dir-se-ia um desses homens de pedra sobre os quais as necessidades da vida não têm poder; altivo para com os grandes, afável para com os pequenos, semeava constantemente o ódio entre os seus iguais e o amor entre os seus inferiores; acessível a todas as paixões violentas, mas sabendo escondê-las no peito, e o peito sob a couraça, esse forte interior, esse bastião de aço e de carne, era um abismo onde não podia penetrar o olhar dos homens, e onde o vulcão, aparentemente adormecido, roía as suas próprias entranhas, até que julgasse chegado o momento favorável; então transbordava, sombrio e terrível, e infeliz daquele sobre quem se derramasse a lava devoradora da sua cólera! Nesse dia, e certamente para contrastar com Luís da Touraine, a indumentária de João de Nevers era de uma simplicidade exagerada: um fato mais curto do que habitualmente se usava, de veludo violeta, de mangas fendidas e pendentes, apertado na cintura por um cinturão de malha de aço, sustendo uma espada de guardas de ferro polido; a abertura sobre o peito deixava ver um casacão azul celeste, fechado no pescoço por um colar de ouro maciço, que substituía a gola; o seu chapéu era negro e um diamante solitário segurava-lhe as pregas, mas era aquele que, sob o nome de "Sancy"(1), fez mais tarde parte das jóias da coroa de França.

            [1 - este diamante, que quando da batalha de Granson, se encontrava no tesouro de Carlos, o Temerário, caiu nas mãos dos Suíços, foi vendido em 1422, em Lucerna, pelo preço de 5000 ducados, e passou daí a Portugal, para a posse de D. António, prior do Crato. Este último, descendente do ramo de Bragança, que perdera o trono, foi para Paris, onde morreu. O diamante foi então comprado por Nicolau de Harlai, senhor de Sancy; daí o seu nome. A última avaliação que lhe foi feita colocava, creio, o seu preço em 1.820.000 francos].

            Interessa-nos sobretudo dar a conhecer estes dois senhores, que encontraremos constantemente colocados à direita e à esquerda do rei, porque são, com a figura triste e poética de Carlos e a figura ardente e apaixonada de Isabel, os mais importantes protagonistas deste infeliz reinado.

            Porque, para eles, a França dividiu-se em dois partidos e teve dois corações, um batendo em nome de Orleães, o outro em nome da Borgonha: cada partido, partilhando o ódio e o amor daquele que escolhera como chefe, amava com o seu amor e odiava com o seu ódio, esquecendo tudo para recordar apenas isso; tudo, até o rei, que era senhor de todos; tudo, até a França, que era mãe de todos.

            Por uma das bermas da estrada, e sem seguir as fileiras avançava, sobre um cavalo branco, Valentina, que apresentámos aos nossos leitores como mulher do jovem duque da Touraine: deixara a sua bela região da Lombardia e vinha pela primeira vez à França, onde tudo lhe parecia rico e novo. À sua direita cavalgava Pedro de Craon, o favorito mais caro ao duque da Touraine, vestindo uma indumentária bastante parecida com a dele, que o duque lhe mandara fazer como prova da amizade que lhe dedicava. Era mais ou menos da mesma idade que Luís, belo como ele, e como ele afectava um ar de despreocupação e alegria. No entanto, olhando fixamente para aquele homem, era fácil perceber que todas as paixões de um coração violento brilhavam no fundo dos seus olhos sombrios, que era uma dessas vontades de ferro que alcançam sempre os seus objectivos, seja de ódio, seja de amor, e que havia muito a ganhar tendo-o como amigo, e muito a temer tendo-o como inimigo. À esquerda da duquesa, revestido da sua armadura de ferro, que usava com tanta facilidade como os outros senhores os seus fatos de veludo, ia Olivier de Clisson, condestável da França: a viseira levantada deixava ver o rosto franco e leal do velho soldado, e uma cicatriz que lhe dividia a testa, sangrenta recordação da batalha de Auray, provava que a ornamentada espada que lhe pendia da cinta fora concedida a leais e bons serviços e não a intrigas ou favores. Com efeito, Clisson, nascido na Bretanha, fora educado na Inglaterra; mas, com a idade de dezoito anos, regressara à França, e, desde essa altura, combatera ardorosa e valentemente nos exércitos reais.

            Contentar-nos-emos, após as pessoas que acabamos de fazer desfilar sob os olhos dos nossos leitores, em nomear simplesmente pelos seus nomes aqueles e aquelas que as seguiam.

            Eram a duquesa da Borgonha e a condessa de Nevers, conduzidas por Henrique de Bar e pelo conde de Namur.

            Era a senhora de Orleães, montando um palafrém ricamente ajaezado, conduzida por Jacques de Bourbon e Filipe d'Artois.

            Eram a senhora duquesa de Bar e sua filha, acompanhadas por Carlos d'Albret e pelo senhor de Coucy, cujo nome bastaria para despertar uma grande recordação, se não nos apressássemos a evocar em nome dele a sua divisa, talvez a mais modesta ou a mais altaneira do tempo:

            "Ne suis prince ni duc aussy, Je suis le seigneur de Coucy" [Não sou príncipe nem duque, sou o senhor de Coucy].

            Não faremos a mais pequena menção dos senhores, damas e donzelas que vinham atrás, em cavalos de batalha, carros abertos ou palafréns. Bastar-nos-á dizer que já a cabeça do cortejo, onde se encontrava a rainha, chegava aos arrabaldes da capital, e ainda os pajens e escudeiros que lhe formavam a cauda não tinham saído de Saint-Denis. Ao longo de toda a estrada, a jovem rainha fora acolhida por gritos de Natal! que substituíam na altura os de Viva o rei! porque, naquela época de fé profunda, o povo não tinha ainda encontrado uma palavra que exprimisse melhor a sua alegria do que a que recordava o dia do nascimento de Cristo. É agora quase inútil acrescentar que os olhares dos homens se partilhavam entre a Isabel da Baviera e Valentina de Milão, e os das mulheres entre o duque da Touraine e o conde de Nevers.

            Chegada à porta de Saint-Denis, a rainha deteve-se; porque ali fora preparada para ela uma primeira paragem. Era uma espécie de grande palco, todo coberto de cetim azul, com um dossel constelado de ouro: nas nuvens que corriam por esse céu, havia crianças, vestidas de anjos, que cantavam doce e melodiosamente, fazendo concerto com uma jovem muito bela que representava a Virgem Maria: tinha sobre os joelhos uma criança, imagem do Menino Jesus, que brincava com um carreto feito de uma grande noz; e o alto do céu, armoriado com os escudos da França e da Baviera, era iluminado por esse grande sol de ouro resplandecente que, como já dissemos, era a divisa do rei. A rainha ficou maravilhada com o espectáculo e elogiou muito a encenação; depois, quando os anjos acabaram os seus cânticos e se considerou que a rainha tinha examinado tudo, abriu-se o fundo do palco, mostrando toda a rua direita de Saint-Denis, coberta como uma tenda imensa, e todas as casas atapetadas de camelote e de seda, como se - diz Froissart - esses panos fossem de ínfimo valor, ou se estivesse em Alexandria ou em Damasco.

            A rainha deteve-se por um instante: dir-se-ia que hesitava em aventurar-se naquela capital que a esperava com tanta impaciência e a recebia com tanto amor. Um pressentimento dizia-lhe, a ela, jovem e bela, e que entrava assim acompanhada de tantas pompas e festejos, que o seu cadáver sairia um dia, execrado e maldito, daquela mesma cidade, transportado às costas de um bateleiro encarregado pelo porteiro do palácio de Saint-Paul de entregar o que restava de Isabel da Baviera aos religiosos de Saint-Denis?

            Voltou no entanto a pôr-se em movimento, mas viram-na empalidecer ao meter por aquela longa rua, e ao abrir aquela multidão imensa, em muralhas humanas, às quais bastaria aproximarem-se para esmagarem rainha, cavalos e liteira. Mas nada aconteceu, os burgueses mantiveram-se nos seus lugares, e o cortejo não tardou em chegar diante de uma fonte coberta de pano azul semeado de flores de lis bordadas a ouro; em torno desta fonte havia colunas pintadas e cinzeladas, das quais pendiam os mais nobres escudos da França; em vez de água, a fonte derramava pimentão e hipocraz, perfumados em especiarias e aromas da Ásia e, em torno das colunas, havia jovens segurando taças de ouro e vasos de prata, com os quais ofereciam de beber a Isabel e aos príncipes e senhores do seu séquito. A rainha tirou a taça das mãos de uma delas, levou-a aos lábios para lhe dar satisfação e devolveu-lha imediatamente; mas o duque da Touraine pegou vivamente na mesma taça, pareceu procurar o lugar onde os lábios da rainha se tinham pousado, e, de um só trago, bebeu o licor que a rainha tinha aflorado com a boca. As cores, banidas por um instante das faces de Isabel, reapareceram rapidamente; pois fora inequívoca a acção do duque, que, apesar de rápida, não deixou de ser notada; tanto que foi falada na corte, nessa mesma noite, de formas diversas, e muita gente de opiniões opostas se achou de acordo para considerar o duque bem temerário ao ousar permitir-se tal liberdade em relação à mulher do seu amo e senhor, e a rainha bem indulgente por só o ter repreendido com o seu rubor.

            Um novo espectáculo veio, de resto, distrair os presentes deste incidente: o cortejo tinha chegado junto ao convento da Trindade, e, diante da porta, erguia-se um estrado em forma de teatro, sobre o qual seria representado o passo de armas do rei Sallah-Eddin [Saladino]. Os cristãos estavam, consequentemente, dispostos num dos lados desse palco, e os sarracenos no outro. Entre as duas hostes reconheciam-se todas as figuras que tinham tomado parte nessa famosa justa, usando os actores que as representavam armaduras do século XIII e os escudos e divisas daqueles que encarnavam. Ao fundo, estava sentado o rei de França, Filipe-Augusto, e de pé, em torno dele, os doze pares do seu reino.

            No momento em que a liteira da rainha se deteve diante do estrado, o rei Ricardo Coração-de-Leão saiu de entre as fileiras, aproximou-se de Filipe da França, pôs um joelho em terra e pediu-lhe autorização para ir combater os Sarracenos; Filipe-Augusto concedeu-lha graciosamente; Ricardo levantou-se, foi juntar-se aos seus companheiros, dispô-los em ordem de batalha e atacou com eles os infiéis; travou-se então um grande combate, findo o qual os Sarracenos foram vencidos e postos em fuga. Uma parte dos fugitivos salvou-se pelas janelas do convento, que ficavam ao nível do palco e que tinham sido deixadas abertas para esse efeito; mas isso não impediu que houvesse um grande número de prisioneiros; o rei Ricardo levou-os à presença da rainha, que lhe pediu que os libertasse e que, como resgate, tirou uma das suas pulseiras de ouro que entregou ao vencedor.

            - Oh! - disse então o duque da Touraine, apoiando a mão na liteira - se soubesse que essa recompensa estava reservada ao actor, ninguém mais além de mim teria desempenhado o papel de Ricardo Coração-de-Leão!...

            Isabel olhou para a segunda pulseira, que ornamentava ainda um dos seus braços; mas, reprimindo este primeiro movimento, que traíra o seu pensamento, respondeu:

            - Sois louco e insensato, senhor duque; semelhantes jogos são bons para menestréis e bufões e não ficariam bem ao irmão do rei.

            O duque da Touraine ia sem dúvida responder, mas Isabel fez sinal para que o cortejo prosseguisse a sua marcha, e, voltando a cabeça para o duque de Bourbon, conversou com ele sem tornar a olhar para o cunhado, até que chegou diante da segunda porta de Saint-Denis, que se chamava a porta dos Pintores e que foi demolida no reinado de Francisco I. Fora ali erguido um castelo maravilhosamente simulado, e, como na primeira porta, um céu estrelado, no meio do qual apareciam em toda a sua majestade Deus Pai, o Filho e o Espírito Santo; depois, em torno da Trindade, crianças de coro cantavam docemente o Gloria e o Veni Creator. No momento em que a rainha passava, a porta do paraíso abriu-se e dois anjos de auréolas de ouro e asas pintadas, vestidos um de rosa e outro de azul, levando nos pés sandálias bordadas a prata, saíram por ela transportando uma grande coroa de ouro guarnecida de pedras preciosas, e, deixando-se deslizar até à rainha, puseram-lha na cabeça, cantando esta quadra:

            "Senhora rodeada de flores de lis, Sois a rainha de Paris, Da França e de todo o país E nós voltamos ao paraíso."

            E, com este último verso, tal como acabavam de dizer, subiram ao céu, cuja entrada se fechou sobre elas.

            Entretanto, do outro lado da porta, novas figuras esperavam a rainha, que foi discretamente prevenida, a fim de que não se assustasse ao vê-los, o que provavelmente não teria deixado de acontecer sem esta precaução; eram os deputados dos seis corpos dos mercadores, transportando um pálio, que vinha reclamar o velho privilégio que os autorizava a acompanhar, quando da sua entrada em Paris, os reis e as rainhas da França, da porta de Saint-Denis até ao palácio. Eram seguidos pelos representantes dos diferentes corpos de ofícios, vestindo máscaras que representavam os sete pecados mortais: Orgulho, Avareza, Preguiça, Luxúria, Inveja, Cólera e Gula; e, por oposição, as sete virtudes cristãs: Fé, Esperança? Caridade, Temperança, Justiça, Prudência e Força, enquanto junto deles, e formando um grupo à parte, se encontravam a Morte, o Purgatório, o Inferno e o Paraíso. Se bem que prevenida, a rainha manifestou, ao ver aquela mascarada, uma certa repugnância em entregar-se nas suas mãos. O duque da Touraine, pelo seu lado, ficou muito irritado por ter de abandonar o seu lugar junto da liteira; mas os privilégios do povo estavam ali, vivos, reclamando o seu lugar junto da realeza. O duque de Bourbon e os outros senhores tinham-se já afastado da viatura e regressado aos seus postos. Isabel voltou-se para o duque da Touraine, que se mantinha obstinadamente junto da porta.

            - Senhor - disse-lhe - quereis ceder o lugar a essa boa gente, ou esperais a nossa despedida para vos retirardes?

            - Sim, senhora rainha - respondeu o duque - esperava uma ordem vossa, e sobretudo um olhar que me desse força para lhe obedecer.

            - Senhor meu cunhado - respondeu Isabel, inclinando-se para o lado do duque - não sei se poderemos voltar a ver-nos durante esta tarde, mas não esqueçais que, a partir de amanhã, serei não só a rainha da França, como também rainha das justas, e que esta pulseira será a recompensa do vencedor.

            O duque inclinou-se até à porta da viatura de Isabel: os que se encontravam mais afastados do lugar onde se desenrolavam esta cena não viram na saudação do duque mais do que um sinal desse respeito que todo o súbdito, mesmo um príncipe de sangue, deve à sua soberana; mas alguns que, mais aproximados, puderam olhar através do pequeno intervalo que ficava entre a liteira e a montada do duque, julgaram notar que, naquele momento, os lábios de Luís de Valois, tendo encontrado a mão da cunhada, se tinham nela pousado com mais ardor e durante mais tempo do que o permitido pela etiqueta do beija-mão.

            Fosse como fosse, o duque voltou a erguer-se na sela, com o rosto resplandecente de alegria e felicidade: Isabel baixou, como um véu, as longas fitas que lhe pendiam da coifa; os dois trocaram um último olhar através da transparente gaze; depois o duque picou esporas e foi ocupar junto da esposa o lugar do condestável de Clisson. Entretanto, os representantes dos seis corpos de mercadores tinham-se colocado de ambos os lados da liteira, sustentando o pálio por cima da rainha; as virtudes cristãs e os pecados mortais apostaram-se a seguir, e atrás deles, lentamente e com a gravidade que convinha caminhavam a Morte, o Purgatório, o Inferno e o Paraíso. O cortejo recomeçou pois a avançar; mas um estranho incidente veio em breve alterar-lhe a ordem.

            Na esquina da rua dos Lombardos com a rua Saint-Denis, dois homens montados no mesmo cavalo provocavam grande agitação; a multidão era tal que parecia milagre terem chegado até ali; verdade se diga que pareciam pouco preocupados com as ameaças que lançavam contra eles os pobres diabos através dos quais abriam caminho; a audácia de ambos chegara mesmo ao ponto de desafiarem os sargentos, recebendo com estóica indiferença as pancadas de bastão com que estes esperavam obrigá-los a fazer meia volta; mas ameaças e pancadas não bastariam para convencê-los. Nem sequer deixavam de avançar, devolvendo prodigamente, à direita e à esquerda, os golpes que recebiam, fendendo o povo com o peito do cavalo, como um barco fende o mar com a sua proa, abrindo, no meio daquelas ondas que voltavam a fechar-se à sua passagem, um caminho lento mas firme. Tinham deste modo chegado a tempo de ver o cortejo, e todos esperavam que se contentariam com vê-lo passar tranquilamente, quando, no momento em que a rainha Isabel passava diante deles, o que empunhava as rédeas pareceu receber uma ordem do seu camarada. No mesmo instante, pronto a obedecer, bateu com a chibata que empunhava na cabeça e na garupa de dois cavalos da guarda burguesa que lhes barravam a passagem: um avançou, o outro recuou, abrindo assim uma espécie de brecha. Os cavaleiros aproveitaram-na para se lançarem para o meio do cortejo, passaram a dois passos do cavalo da duquesa da Touraine, que, assustado por esta brusca aparição, teria certamente desmontado Valentina se de Craon, segurando-o pelas rédeas, o não dominasse, e precipitaram-se em direcção à rainha, atirando o Paraíso contra o Inferno, a Morte contra o Purgatório e as virtudes cristãs contra os pecados capitais. Chegaram assim junto da liteira, no meio dos gritos de todo o povo, que os tomava por assassinos ou por loucos, e perseguidos pelos duques da Touraine e de Bourbon, que, ao vê-los correr para a rainha e receando da parte deles alguma má intenção, tinham empunhado as espadas para a defender.

            A rainha, pelo seu lado, sentira um grande medo ao ouvir todo aquele barulho. Ignorava ainda o que o causava, quando viu, entre os deputados dos mercadores que seguravam o pálio e a liteira, os dois culpados. O seu primeiro movimento foi inclinar-se para trás, mas o cavaleiro que seguia à garupa disse-lhe algumas palavras ao ouvido, tirou o chapéu, retirou dele uma grossa corrente de ouro guarnecida com flores de lis de diamantes, passou-a pelo pescoço da rainha, que se inclinou graciosamente para receber a oferta, e cravou as esporas nas ilhargas do cavalo, que partiu como uma seta. Quase no mesmo instante chegavam os duques da Touraine e de Bourbon, que não tendo visto o que se passara, a não ser que aqueles homens tinham a rainha em seu poder, brandiam as espadas, gritando:

            - À morte, à morte os traidores!

            O povo era de tal modo compacto que parecia não haver dúvidas de que conseguiriam alcançar os cavaleiros desconhecidos, tanto mais que estes estavam a encontrar tantas dificuldades em sair da rua como tinham tido ao entrar; todos esperavam pois uma catástrofe, quando a rainha, vendo o que acontecia, se soergueu na liteira e, estendendo um braço para o cunhado e para o primo, gritou:

            - Senhores, que ides fazer? É o rei!...

            Os dois duques detiveram-se imediatamente; depois, temendo por sua vez que acontecesse algum mal ao soberano, puseram-se quase de pé nos estribos e, estendendo com um gesto de comando as suas espadas para o povo, gritaram com voz forte:

            - É o rei, senhores!

            E então, tirando os chapéus, acrescentaram:

            - Honra e respeito ao rei!

            O rei, pois era efectivamente Carlos VI quem montava a garupa do cavalo de Carlos de Savois, respondeu a estas palavras levantando a sua cogula, e o povo pôde reconhecer pelos seus longos cabelos castanhos, pelos seus olhos azuis, pela sua boca um pouco grande, mas ornada de dentes magníficos, pela elegância do seu porte e sobretudo pelo ar de bondade de toda a sua pessoa, o soberano a que continuou a dar, apesar de todas as desgraças que trouxe aos súbditos no decurso do seu reinado, o nome de Bem-Amado, que lhe dera adiantadamente no dia em que ele subira ao trono.

            Então os gritos de Natal! brotaram de todos os lados; os escudeiros e os pajens agitavam as flâmulas dos amos, as damas as suas faixas e lenços; depois aquela serpente imensa, que rastejava a todo o comprimento da rua Saint-Denis como pelo fundo de uma enorme ravina, pareceu redobrar de vida, e rolou mais activamente da cabeça à cauda os seus anéis coloridos, pois fez-se um grande movimento em que todos tentavam ver o rei; mas, aproveitando o caminho que o respeito abria ante o seu incógnito traído, Carlos VI tinha já desaparecido.

            Passou-se bem meia hora antes que a desordem causada por este acontecimento se acalmasse. Corria ainda pela multidão um resto de agitação que a impedia de voltar a cerrar fileiras: Pedro de Craon aproveitou-a para observar maliciosamente Valentina que o marido, o único que poderia talvez abreviar aquela paragem voltando a ocupar o seu lugar junto dela, a prolongava, pelo contrário, conversando com a rainha e impedindo a liteira, que devia dar o sinal de partida, de pôr-se em marcha. Valentina tentou sorrir despreocupadamente ao escutar estas palavras, mas um suspiro abafado que lhe brotou do fundo do peito deu um desmentido aos seus olhos; depois respondeu, com uma voz em que tentou em vão esconder a emoção:

            - Messire Pedro, porque não faz essa observação ao próprio duque, já que lhe é tão fiel?

            - Não o farei sem sua ordem expressa, senhora; o seu regresso não me tirará o privilégio que me concede a sua ausência, o de velar por si?

            - O meu único e verdadeiro guardião é o senhor duque da Touraine, e, uma vez que só espera uma ordem minha, vá dizer-lhe que lhe peço que volte para junto de mim.

            Pedro de Craon inclinou-se e foi levar ao duque o recado da esposa. No momento em que voltavam juntos para perto dela, um grito agudíssimo partiu do meio da multidão; uma jovem acabava de desmaiar. O acidente era coisa demasiado comum em semelhantes circunstâncias para que as importantes figuras de que nos ocupamos de momento lhes prestassem a mínima atenção. Voltaram pois, sem sequer lançarem um olhar na direcção de onde partira o grito, a ocupar os seus lugares junto da duquesa da Touraine; e, como se o cortejo não esperasse outra coisa, voltou imediatamente a pôr-se em movimento. Não tardou, no entanto, em encontrar novo motivo para deter-se uma vez mais.

            À porta do Châtelet de Paris havia um grande palco, representando um castelo de madeira, pintado como se fosse de pedra, nos ângulos do qual se erguiam duas guaritas redondas suportando sentinelas armadas com todas as peças: a grande câmara do andar térreo desse castelo estava aberta aos olhos do público, como se tivesse sido abatida a muralha que dava para a rua:

            nessa câmara havia um leito tão ricamente ornamentado como o do rei no seu palácio de Saint-Paul, e, nesse leito, que representava o leito da justiça, estava deitada uma jovem, representando Santa Ana.

            Em torno do castelo tinham sido plantadas tantas e tão belas árvores que se diria uma floresta das mais densas, e nessa floresta corria uma multidão de lebres e de coelhos, enquanto inúmeras aves de todas as cores esvoaçavam de ramo em ramo, com grande espanto da multidão, que perguntava a si mesma como fora possível domesticar animais habitualmente tão ariscos. Mas a maravilha foi ainda maior quando do bosque se viu sair um belo veado branco, do tamanho dos que estavam fechados no palácio do rei, tão artisticamente trabalhado que se diria vivo e animado; mas um homem, escondido no seu corpo, fazia-o mexer os olhos, abrir a boca e caminhar. Tinha os galhos dourados, uma coroa semelhante à coroa real, do pescoço e sobre o peito pendia-lhe o escudo azul com as três flores de lis em ouro, representando as armas do rei da França. Assim altivo e belo, o nobre animal avançou até ao leito da justiça, pegou com a pata direita no gládio que é o seu símbolo e, erguendo-o, brandiu-o no ar. Nesse instante, da floresta oposta, saíram um leão e uma águia, símbolos da força, que quiseram roubar o gládio sagrado; mas doze jovens vestidas de branco, cada uma delas com um rosário de ouro numa das mãos e uma espada nua na outra, saíram por sua vez da Floresta e, símbolos da religião, rodearam o veado e preparam-se para defendê-lo. Após algumas tentativas vãs para conseguirem os seus desígnios, o leão e a águia, vencidos, voltaram à floresta. A muralha viva, que defendia a justiça, abriu-se, e o veado foi ajoelhar-se gentilmente diante da liteira da rainha, que o acariciou como tinha o hábito de fazer aos que o rei alimentava no seu palácio. Esta encenação foi muito apreciada pela rainha e por todos os senhores do seu séquito.

            Entretanto a noite tinha caído; porque, desde Saint-Denis, que se avançava muito lentamente, e os vários espectáculos escalonados ao longo do caminho tinham demorado bastante o cortejo. Aproximavam-se finalmente de Notre-Dame, aonde se dirigia a rainha. Já só faltava atravessar a ponte do Change e ninguém pensava que fosse possível inventar alguma coisa de novo quando subitamente se viu um espectáculo maravilhoso e inesperado; um homem vestido de anjo surgiu no alto das torres de Notre-Dame, levando um círio em cada mão e caminhando sobre uma corda tão fina que quase não se via, desceu por cima das casas, parecendo deslizar no ar como que por milagre, e acabou, fazendo uma imensidade de acrobacias, por pousar no telhado de uma das casas junto da ponte. [ Froissart e o religioso de Saint-Denis relatam o mesmo facto; apenas Froissart indica como cenário deste jogo a ponte de Saint-Michel, enquanto o religioso de Saint-Denis fala da ponte do Change. Froissart engana-se, evidentemente: um tal espectáculo não poderia ter sido montado sobre a ponte de Saint-Michel, situada do outro lado da igreja de Notre-Dame, e que, por consequência, não se encontrava no caminho da rainha].

            Quando a rainha chegou junto dele, proibiu-o de voltar pelo mesmo caminho, receando algum acidente; mas o homem, adivinhando o motivo que a levava a dar aquela ordem, não obedeceu, e, subindo a recuar, para não voltar as costas à soberana, regressou ao pináculo da catedral, desaparecendo pela mesma abertura por onde tinha saído. A rainha perguntou quem era aquele homem tão ligeiro e tão hábil; responderam-lhe que era genovês de origem, mestre naquele género de jogos.

            Durante este último espectáculo, os mercadores de aves tinham-se reunido em grande número no caminho do cortejo, levando em gaiolas uma imensidade de pássaros a que deram liberdade enquanto a rainha passava. Era um velho costume, que fazia alusão à esperança que o povo sempre tinha de que um novo reinado desse voo a novas liberdades; o costume perdeu-se, mas não a esperança.

            Chegada à igreja de Notre-Dame, a rainha encontrou de pé nos degraus do portal o bispo de Paris, revestido de mitra e estola, elmo e couraça de Nosso Senhor; em torno dele encontravam-se os altos prelados e os deputados da Universidade, à qual o seu título de filha mais velha do rei dava o privilégio de assistir à coroação. A rainha desceu da sua liteira, no que foi imitada pelas damas do seu séquito, assim como pelos cavaleiros, que entregaram os cavalos à guarda de pajens e criados, e, acompanhada pelos duques da Touraine, de Berry, da Borgonha e de Bourbon, entrou na igreja, seguindo o bispo e os prelados, que cantavam alto e claro louvores a Deus e à Virgem Maria.

            Chegada diante do grande altar, Isabel ajoelhou-se devotamente, e, tendo feito as suas orações, ofereceu à igreja de Notre-Dame quatro tapeçarias bordadas a ouro e a coroa que os anjos lhe tinham posto na cabeça junto da segunda porta de Saint-Denis. Em troca, João de La Rivière e João Lemercier apresentaram-lhe uma mais rica e mais bela, igual à que o rei usava quando se sentava no trono. O bispo pegou-lhe pela flor de lis que a fechava e os quatro duques, sustendo-a com as mãos, pousaram-na docemente na cabeça de Isabel; grandes gritos de alegria elevaram-se imediatamente de todos os lados; porque a partir daquele momento Isabel era verdadeiramente rainha da França.

            A rainha e os senhores saíram então da Igreja e voltaram a subir para a liteira e cavalos; havia, de ambos os lados do cortejo, seiscentos servidores empunhando velas, de sorte que a claridade era tanta nas ruas como se o sol brilhasse no céu. E assim a rainha foi conduzida ao palácio de Paris onde a esperava o rei, tendo à sua direita a rainha Joana e à sua esquerda a duquesa de Orleães. Ao chegar junto dele, a rainha apeou-se e pôs-se de joelhos, como fizera na igreja; indicava com isto que reconhecia Deus como seu senhor nos céus, e o rei como seu senhor na terra. O rei ergueu-a e beijou-a; o povo gritou Natal! por julgar, ao vê-los tão unidos, tão jovens e tão belos, que os dois guardiões do reino da França tinham saído da direita e da esquerda de Deus.

            Então os senhores despediram-se do rei e da rainha e voltaram aos seus palácios; só ali ficaram os que pertenciam à casa real; quanto ao povo permaneceu diante do palácio, a gritar Natal! até que o último pajem entrou atrás do último senhor; então a porta fechou-se, as luzes que iluminavam a praça dispersaram-se ou extinguiram-se pouco a pouco, a multidão espalhou-se por essas mil ruas divergentes que levam, como as artérias e as veias, a vida a todas as extremidades da capital; pouco depois todo aquele ruído não era mais do que um murmúrio, murmúrio que foi diminuindo pouco a pouco. Uma hora mais tarde, tudo era silêncio e escuridão e tudo o que se ouvia era esse vago e surdo rumor constituído pelos ruídos nocturnos e indefiníveis que parecem a respiração profunda de um gigante adormecido.

            Estendemo-nos longamente sobre a entrada da rainha Isabel em Paris, sobre os dignitários que a acompanhavam e sobre as festas que foram dadas nessa ocasião; e isto, não apenas para dar aos nossos leitores uma ideia dos usos e costumes do tempo, mas também para mostrar, débeis e tímidos como os rios nas suas nascentes, esses amores funestos e esses ódios mortais que, a partir de então, nasciam em volta do trono. Vamos agora vê-los agitarem-se a todos os ventos, aumentarem a todas as tempestades, e atravessarem, desenfreados e fatais, esta terra da França, onde deixariam tão profundos traços, e esse infeliz reinado, que a sua fúria deveria devastar.

 

            Há historiador ou romancista que não tenha feito a sua amplificação metafísica sobre as causas mínimas e os grandes efeitos; é que em verdade é impossível sondar as profundezas da história ou os recônditos do coração sem nos assombrarmos ao ver quão facilmente um incidente frívolo, que começou por passar indiferente e despercebido à nascença, no meio dessa imensidade de infinitamente pequenos acontecimentos que compõem a vida, pode, ao cabo de um certo lapso de tempo, tornar-se catástrofe para uma existência ou para um império; é por isso um dos mais atraentes estudos para o poeta ou para o filósofo, este de descer a essa catástrofe consumada, como ao fundo da cratera de um vulcão extinto, "e depois, seguindo-lhe todas as ramificações, subi-la até à fonte. É verdade que aqueles cujo espírito os leva a entregarem-se a tais pesquisas, que a elas se entregam longamente e com paixão, arriscam-se a trocar pouco a pouco as suas ideias antigas por ideias novas; e, segundo caminhem guiados pelo farol da ciência ou pela estrela da fé, de religiosos que eram tornam-se ateus, ou, de irreligiosos, crentes; porque, no encadeamento das circunstâncias, um julgou reconhecer o capricho fantástico do acaso, o outro julgou ver a mão inteligente de Deus. Um disse, como Ugo Foscolo: Fatalidade; o outro disse, como Sylvio Pellico: Providência; então foram proferidas por eles as duas únicas palavras que têm equivalentes completos na nossa língua: desespero e resignação.

            É sem dúvida devido ao desprezo que manifestam por estes pequenos pormenores e por estas curiosas pesquisas que os nossos historiadores modernos tornaram tão seco e fatigante o estudo da nossa história(1); o que há de mais interessante na organização da máquina humana, não são os órgãos necessários à vida, são os músculos que deles recebem a força e a combinação múltipla das veias que lhes levam o sangue. [1. É evidente que dos ataques deste género estão sempre exceptuados Guizot, Chateaubriand e Thierry].

            Em vez desta crítica a que quereríamos subtrair-nos, talvez incorramos na censura oposta; isto resulta da nossa convicção de que, na organização material da natureza, como na existência moral do homem, na sucessão dos seres como na dos acontecimentos da vida, nada é único, nenhum elo da escala de Jacob se quebrou, e de que cada espécie tem o seu elo, cada coisa o seu precedente.

            Faremos pois tudo o que estiver em nosso poder para que nunca esse fio, que ligará os pequenos acontecimentos às grandes catástrofes, se quebre entre as nossas mãos, e aos nossos leitores bastará segui-lo para percorrer connosco os mil desvios do jardim de Dédalo.

            Este exórdio pareceu-nos necessário no início de um capítulo que, à primeira vista, poderia parecer alheio ao que acabamos de escrever, e sem ligação com os que se lhe seguem; é verdade que rapidamente nos teríamos apercebido do equívoco; mas cedemos ao receio da experiência, e tememos que nos julguem pela parte, antes de nos abarcarem no todo. Dada esta explicação, voltamos ao nosso assunto.

            Se o leitor não teme arriscar-se connosco por essas ruas de Paris que lhe mostrámos no capítulo anterior, tão desertas e sombrias, levá-lo-emos à esquina da rua Coquillière com a rua do Séjour; mal lá nos postarmos, veremos, por uma porta escusa do palácio da Touraine, sair um homem envolto num desses grandes capotes cujo capuz se baixa para o rosto, quando aqueles que os usam pretendem não ser reconhecidos. Esse homem, depois de se ter detido para contar as horas, que soam dez vezes no grande relógio do Louvre, considera certamente que a hora é perigosa, pois, para não ser apanhado desprevenido, tira a espada da bainha, dobra-a apoiando-lhe a ponta no umbral da porta, como que para lhe verificar a têmpera, e, sem dúvida contente com o exame que acaba de fazer, põe-se despreocupadamente a caminho, arrancando, com a ponta da espada, faíscas às pedras da rua, e cantando a meia voz um velho poemeto do castelão de Coucy.

            Sigamo-lo pela rua de Etuves, mas lentamente, pois ei-lo que se detém junto da cruz de Tahoir para uma curta oração; depois, levantando-se, recomeça a canção onde a interrompeu e segue a rua Saint-Honoré, cantando cada vez mais baixo à medida que se aproxima da rua da Ferronnerie; aí chegado, deixa de cantar, avança silenciosamente ao longo do muro do cemitério dos Santos Inocentes, percorre três quartos do seu comprimento, e, subitamente, atravessando a rua em ângulo recto, detém-se diante de uma porta, na qual bate surdamente três pancadas; parece, de resto, que é esperado, pois, apesar de terem sido leves as pancadas, respondem-lhe estas palavras; - É o mestre Luís?

            O nosso homem responde afirmativamente, a porta abre-se e volta a fechar-se logo que ele passa o limiar.

            Apressado como nos pareceu ao princípio, este homem a quem acabamos de ouvir chamar mestre Luís detém-se no vestíbulo, volta a meter a espada na bainha, e, atirando para os braços da mulher que lhe abrira a porta a espécie de capote com mangas que o envolvia, aparece envergando uma vestimenta simples mas elegante; esta vestimenta, que era a de um escudeiro de boa casa, compunha-se de um chapéu de veludo negro e de um casacão do mesmo tecido e da mesma cor, fendido do punho ao ombro para deixar ver uma manga ajustada de cetim verde, e era completada por umas calças justas de tecido violeta, que tinham bordado numa das coxas um escudo com três flores de lis douradas, encimado por uma coroa ducal.

            Quando se desembaraçou do capote, mestre Luís, se bem que não tivesse luz nem espelho, dedicou um instante ao seu aspecto, e só depois de ter puxado o casacão, a fim de que este se lhe cingisse graciosamente ao corpo, e de ter-se assegurado de que os seus belos cabelos louros caíam bem lisos e arrumados sobre os ombros, disse, num tom de voz ligeiro e despreocupado:

            - Boa noite, ama Jehanne; é boa guarda, obrigado. Que faz a sua bela ama?

            - Espera-o.

            - Pois bem, aqui estou. No seu quarto, não é verdade?

            - Sim, mestre.

            - O pai.

            - Dorme.

            - Bom.

            Pôs então um pé no primeiro degrau da escada que conduzia aos andares superiores da casa e, se bem que não houvesse luz, subiu-a com a facilidade do homem que conhece o seu caminho. Chegado ao segundo piso, viu a réstea de luz que se filtrava pelas frinchas de uma porta; aproximou-se silenciosamente e bastou-lhe empurrar com uma mão para encontrar-se no interior de um quarto cujo mobiliário indicava pertencer a uma pessoa de condição média.

            O desconhecido tinha entrado nas pontas dos pés e sem ser ouvido. Pôde por isso apreciar por um instante o gracioso quadro que se lhe oferecia.

            Junto de um leito de colunas trabalhadas e com cortinados de damasco verde, uma jovem estava ajoelhada diante de um oratório; envergava um longo vestido branco cujas mangas, pendendo até ao soalho, mostravam, a partir do cotovelo, uns braços graciosamente arredondados, terminados por duas mãos brancas e afiladas, sobre as quais naquele momento repousava a cabeça; os longos cabelos louros, caindo-lhe sobre os ombros, seguiam-lhe as ondulações do corpo e desciam, como uma rede de ouro, até ao chão: havia naquela indumentária algo de tão simples, de tão celeste e etéreo que se poderia pensar que quem a usava não pertencia a este mundo, se alguns soluços abafados não denunciassem uma filha da terra, nascida da mulher e feita para sofrer.

            Ao escutar estes soluços, o desconhecido fez um movimento: a jovem voltou-se. O homem ficou imóvel, ao vê-la tão pálida e tão triste.

            Então a jovem ergueu-se, avançou lentamente para ele, que a via aproximar-se, silencioso e assombrado; chegando a poucos passos do homem, a jovem pôs um joelho em terra.

            - Que fazes, Odette? - perguntou ele. - Que significa essa atitude?

            - É - respondeu ela, abanando docemente a cabeça - a que convém a uma pobre rapariga como eu, quando se encontra frente a um grande príncipe, como é.

            - Sonhas, Odette?

            - Prouvesse aos céus que sonhasse, senhor, e que ao despertar me encontrasse como era antes de o ver, sem lágrimas nos olhos, sem amor no coração!

            - Pela minha alma, estás louca, ou alguém te disse uma mentira. Vejamos.

            Com estas palavras, passou os braços pela cintura da jovem e ajudou-a a erguer-se; mas ela afastou o peito do do duque, repelindo-o com as duas mãos e inclinando-se, para trás, sem no entanto romper o laço que a aprisionava.

            - Não estou louca, senhor - continuou, sem fazer, para libertar-se, mais qualquer esforço, que sabia inútil - e ninguém me disse uma mentira; vi-o.

            - Onde?

            - No cortejo, a falar com a nossa senhora, a rainha, e reconheci-o, embora estivesse magnificamente vestido, senhor.

            - Enganas-te, Odette, e confundes-me com alguém que se me assemelha.

            - Sim, tentei acreditar nisso, e teria acreditado, talvez; mas outro senhor foi falar-lhe, e reconheci aquele que veio, anteontem, aqui convosco, a quem chamou amigo e que disse estar, como o senhor, ao serviço do duque da Touraine.

            - Pedro de Craon?

            - Sim, é esse o nome, creio.., que me disseram. Fez uma pausa e continuou, tristemente:

            - Não me viu, senhor; porque só tinha olhos para a rainha: não ouviu o meu grito quando desmaiei, julgando morrer, porque só ouvia as palavras da rainha, o que é normal, sendo ela tão bela... Ah, meu Deus! meu Deus!

            Ao dizer estas palavras, a pobre rapariga começou a chorar amargamente.

            - E então, Odette, que importa o que eu seja, se continuo a amar-te?

            - Que importa, senhor? - exclamou ela, libertando-se dos seus braços. - Que importa, pergunta? Não o compreendo.

            Quase no mesmo instante, porém, e como que fatigada por aquele esforço, deixou pender a cabeça para o peito, continuando a olhar para o duque.

            - E que seria de mim agora - disse -, se, julgando-o meu igual, lhe tivesse cedido, na esperança de que me desposaria, o que me suplicava de joelhos? Esta noite, ao chegar aqui, ter-me-ia encontrado morta. Oh, mas não teria tardado em esquecer-me: a rainha é tão bela!

            - Vejamos, Odette; pois bem, é verdade, enganei-te ao dizer-te que era apenas escudeiro; sou o duque da Touraine, é verdade.

            Odette lançou um profundo suspiro.

            - Mas, diz-me, não me preferes rico e brilhante, como me viste ontem, a simples e pobre, como me vês agora?

            - Eu, senhor, não o amo.

            - Como? Mas disseste-me vinte vezes...

            - Amaria o escudeiro Luís, amaria aquele que era um igual da pobre Odette de Champdivers; amá-lo-ia o suficiente para lhe dar sorrindo o meu sangue e a minha vida: dá-los-ia igualmente, por dever, ao duque da Touraine. Mas que faria do meu sangue e da minha vida o nobre marido de Valentina de Milão, o galante cavaleiro da rainha Isabel da Baviera?

            O duque ia responder, quando a porta se abriu e apareceu a ama, com ar assustado.

            - Oh, minha pobre criança! - exclamou, correndo para Odette. Que querem eles fazer-lhe.

            - Quem? - perguntou-lhe o duque.

            - Oh, mestre Luís, vêm buscar a menina?

            - Da parte de quem?

            - Da corte. O duque franziu o sobrolho.

            - Da corte? Olhou para Odette.

            - E quem a manda buscar, se faz favor, acrescentou, olhando desconfiadamente para Jehanne.

            - Valentina de Milão.

            - Minha mulher? - exclamou o duque.

            - Sua mulher! - repetiu Jehanne, assombrada.

            - Sim, sua mulher - disse Odette, apoiando a mão nas costas da ama. - É o senhor duque, irmão do rei, quem aqui vês. Tem uma mulher, e deve ter-lhe dito, rindo: Há na rua da Ferronnerie, em frente do cemitério dos Santos inocentes, uma pobre rapariga que me recebe todas as noites, enquanto o seu velho pai... Oh! É incrível como ela me ama! E Odette pôs-se a rir amargamente.

            - Foi o que ele lhe disse, e é certamente por isso que a mulher deseja ver-me.

            - Odette - interrompeu-a violentamente o duque - se foi assim, que eu morra neste instante! Teria preferido perder cem mil libras a deixar que tal acontecesse! Oh, juro-o! E hei-de descobrir quem revelou o nosso segredo; e pobre daquele que assim troçou de mim!

            Fez menção de sair.

            - Aonde vai, senhor? - perguntou Odette.

            - Ninguém, no palácio da Touraine, tem o direito de dar ordens, a não ser eu próprio. Vou ordenar a essa gente que espera lá em baixo que se retire imediatamente.

            - É senhor de fazer o que quiser. Mas esses homens vão reconhecê-lo; dirão à senhora sua esposa que estava aqui, o que ela talvez ignore, e eu parecer-lhe-ei ainda mais culpada do que sou realmente, e não estarei irremediavelmente perdida.

            - Mas não irá ao palácio da Touraine?

            - Pelo contrário, senhor, é preciso que vá. Falarei com Valentina, e, se ela tiver apenas suspeitas, confessar-lhe-ei tudo; depois cairei de joelhos a seus pés, e ela perdoar-me-á. Quanto a si, senhor, perdoar-lhe-á também, e a sua absolvição será até mais fácil de obter do que a minha.

            - Faz como quiseres. Odette - respondeu o duque. - Tens sempre razão e és um anjo.

            Odette sorriu tristemente e fez sinal a Jehanne para que lhe desse o seu manto.

            - E como chegará ao palácio?

            - Esses homens trazem uma liteira - respondeu Jehanne, cobrindo com o manto os ombros nus da jovem.

            - Em todo o caso, velarei por ti - afirmou o duque.

            - Deus já se ocupou disso, senhor, e espero que me fará a graça de continuar a ocupar-se.

            Ao dizer estas palavras, saudou o duque com respeito e dignidade; depois, descendo as escadas, disse aos homens que a esperavam:

            Aqui estou, senhores, às suas ordens: levem-me aonde desejarem.

            O duque ficou por um momento imóvel e silencioso no lugar onde Odette o tinha deixado; depois, correndo para fora do quarto, desceu rapidamente a escada, deteve-se por um instante à porta da rua, para ver que direcção tinham tomado os homens que conduziam a liteira; viu-a avançar, entre dois archotes, em direcção à rua Saint-Honoré; meteu então, sempre a correr, pela rua Saint-Denis, virou pela rua Aux Fers, e, atravessando o mercado de trigo, chegou ao palácio da Touraine a tempo de ver o cortejo no extremo da rua de Etuves. Seguro de lhe ter ganho alguns minutos, entrou então pela pequena porta de onde o vimos sair, e, chegando aos seus aposentos, introduziu-se sem ruído num pequeno gabinete que comunicava com o quarto de dormir da esposa, através de cuja bandeirola poderia ver tudo o que lá se passasse.

            Valentina estava de pé, irritada e impaciente; ao menor ruído, virava os olhos para a porta, e as suas belas sobrancelhas negras, que formavam um arco tão perfeito quando o seu rosto estava calmo, contraíam-se com violência; estava, de resto, rica e cuidadosamente vestida; no entanto, de vez em quando, aproximava-se de um espelho, forçava o rosto a retomar aquela expressão de doçura que era o carácter dominante da sua fisionomia, e acrescentava algum ornamento ao seu penteado; pois queria esmagar duplamente aquela mulher que ousara ser sua rival, com a dignidade da sua condição e com o esplendor da sua beleza.

            Ouviu, finalmente, um ruído real na câmara que antecedia a sua; deteve-se. à escuta, e levou a mão à testa, enquanto, com a outra mão procurava um ponto de apoio no espaldar de um cadeirão ricamente esculpido; porque uma vertigem passava-lhe pelos olhos e sentia os joelhos trémulos. Finalmente, a porta abriu-se e apareceu um criado, anunciando que a jovem que a duquesa mandara buscar esperava que se dignasse recebê-la; com um gesto, a duquesa indicou-lhe que a mandasse entrar.

            Odette tinha deixado o manto na antecâmara; apareceu pois com aquela simples indumentária que lhe vimos vestida; tinha apenas feito uma trança com os seus longos cabelos, mas, como nada encontrara na liteira com que prendê-la no alto da cabeça, deixara-a cair de lado sobre o peito, de onde lhe pendia até aos joelhos. Deteve-se junto da porta, que se fechou atrás dela.

            A duquesa ficou muda e imóvel ante esta branca e pura aparição; assombrava-se ao ver aquela jovem, que julgara muito diferente, tão modesta e tão digna; compreendeu por fim que lhe competia a ela tomar a palavra, pois todo o embaraço estava do seu lado.

            - Aproxime-se - disse, com uma voz em que a emoção alterava a doçura natural.

            Odette avançou de olhos baixos, mas de rosto calmo; depois, chegando a três passos da duquesa, pôs um joelho em terra.

            - É então - continuou a duquesa - quem quer roubar-me o amor de meu esposo, e quem julga, depois disso, bastar-lhe ajoelhar-se diante de mim para que lhe perdoe?

            Odette ergueu-se vivamente e um rubor ardente cobriu-lhe as faces.

            - Pus um joelho em terra, senhora - disse - não para que me perdoasse, pois, graças ao céu, nada tenho a censurar-me em relação a si. Fi-lo porque é uma grande princesa e eu uma pobre rapariga; mas agora, que prestei essa honra à sua condição, falar-lhe-ei de pé. Que Sua Alteza me interrogue, estou pronta a responder.

            Valentina não esperava esta calma; compreendeu que só a candura poderia sustê-la, ou o descaro imitá-la. Viu aqueles belos olhos azuis, tão doces e tão transparentes, que pareciam destinados a deixar ver até ao fundo do coração, e sentiu que esse coração devia ser puro como o da Virgem.

            A duquesa da Touraine era boa, e o primeiro momento de ciúme italiano que a fizera agir e falar extinguiu-se; estendeu a mão para Odette e disse-lhe, com uma doçura indefinível:

            - Venha!

            Esta alteração no tom e nas maneiras da duquesa operou uma revolução súbita na pobre criança. Tinha-se preparado para encontrar cólera e não indulgência. Pegou na mão da duquesa e beijou-a.

            - Oh! - exclamou, soluçando. - Oh! juro-lhe que a culpa não foi minha. Ele foi a casa de meu pai como um simples escudeiro do duque da Touraine, sob o pretexto de comprar dois cavalos para o amo. Vi-o, eu vi-o, e ele é tão belo! Olhei-o sem desconfiança, julgando-o meu igual. Aproximou-se de mim e falou-me: nunca tinha ouvido uma voz tão doce. a não ser nos meus sonhos de criança, quando os anjos desciam ainda para embalar o meu sonho. Ignorava tudo: que fosse duque, que fosse casado, que fosse príncipe. Se o soubesse seu esposo, senhora, e se a conhecesse tão bela e magnífica como é, teria compreendido imediatamente que troçava de mim. Mas, enfim, está tudo dito: ele nunca me amou, e.., e eu já não o amo.

            - Pobre criança! - disse Valentina, olhando para ela. - Pobre criança que ainda pensa que é possível amar uma vez e esquecer!

            - Não disse que o esquecerei - respondeu Odette, tristemente - disse que já não o amava; pois só é possível amar os que são nossos iguais, só é possível amar um homem de quem se possa ser esposa. Oh! ontem, ontem, quando o vi nesse magnífico cortejo, com aquelas esplêndidas roupas; quando reconheci, feição por feição, aquele Luís que julgava meu, em Luís, duque da Touraine, que é seu, oh! juro-lhe, julguei que me tinham lançado algum malefício e que os meus olhos me enganavam. Ele falou: deixei de respirar e de viver para o escutar. Era a sua voz. Falava com a rainha. Oh, a rainha!

            Odette estremeceu convulsivamente e a duquesa empalideceu por um instante.

            - Não a odeia, à rainha? - perguntou Odette, com uma expressão de dor impossível de descrever.

            Valentina colocou vivamente a mão sobre a boca da jovem.

            - Silêncio, criança! - disse. - Isabel é nossa soberana: Deus deu-no-la por senhora e devemos amá-la.

            - Foi o que me disse meu pai - respondeu Odette - quando voltei a casa moribunda e lhe disse que não gostava da rainha.

            Os olhos da duquesa cravaram-se em Odette com uma expressão de doçura e de bondade extremas. Neste momento, a jovem ergueu timidamente os seus. Os olhares das duas mulheres encontraram-se: a duquesa abriu os braços, Odette caiu-lhe aos pés e beijou-lhe os joelhos.

            - Agora nada mais tenho a dizer-lhe - continuou Valentina. - Prometa-me apenas não voltar a vê-lo.

            - Não posso prometer-lhe isso, senhora, por infelicidade minha, porque o duque é rico e poderoso; pode, se eu ficar em Paris, chegar até mim; e se me afastar, poderá seguir-me. Não ouso portanto prometer-lhe não voltar a vê-lo; mas posso jurar-lhe que morrerei quando o vir.

            - É um anjo - disse a duquesa - e esperarei alguma felicidade neste mundo se rogar a Deus por mim.

            - Rogar a Deus por si, senhora? Não é então uma dessas princesas afortunadas que têm uma fada por madrinha? É jovem, é bela. é poderosa e é-lhe permitido amá-lo.

            - Rogue então a Deus para que ele me ame!...

            - Tentarei - murmurou Odette.

            A duquesa pegou num pequeno apito de prata pousado numa mesa e soprou-o. A esta chamada, o mesmo criado que introduzira Odette abriu a porta.

            - Acompanha esta jovem a sua casa - ordenou a duquesa - e vela para que nada lhe aconteça. Odette - acrescentou - se alguma vez tiver necessidade de ajuda, de protecção ou de socorro, pense em mim e venha a mim.

            E estendeu-lhe a mão, como a uma irmã.

            - Terei a partir de agora necessidade de bem pouco neste mundo, senhora; mas acredite que não me será necessário precisar de si para a recordar.

            Inclinou-se diante da duquesa e saiu.

            Ao ficar sozinha, Valentina sentou-se, deixou pender a cabeça para o peito e mergulhou em profundas reflexões. Havia já alguns minutos que estava absorta nos seus pensamentos, quando a porta do gabinete se abriu silenciosamente. O duque entrou sem ser ouvido, e, avançando para a mulher de modo a não ser notado por ela, foi apoiar-se ao espaldar do cadeirão onde ela estava sentada; depois, ao cabo de um instante, vendo que ela não se apercebia da sua presença, tirou do pescoço um colar de magníficas pérolas, e, suspendendo-o por cima da cabeça da duquesa, deixou-lhe cair sobre os ombros. Valentina lançou um grito e, erguendo a cabeça, viu o duque.

            O olhar que lhe lançou foi rápido e profundo; mas o duque estava preparado para aquela investigação e sustentou-o com o sorriso calmo do homem que nada sabe do que acaba de passar-se; depois, quando a duquesa baixou a cabeça, passou-lhe as mãos pelo pescoço e, levantando-lhe o rosto, voltou-a docemente, obrigando-a assim a olhá-lo uma segunda vez.

            - Que quer de mim, senhor? - perguntou Valentina.

            - É realmente uma vergonha para esse país do Oriente - disse o duque, pegando no colar que acabava de oferecer à mulher e abrindo-lhe suavemente os lábios com as pérolas. - Aqui está um colar que me foi enviado, como uma maravilha, pelo rei da Hungria, Segismundo do Luxemburgo; julga fazer-me um presente de imperador, e eis que tenho pérolas mais brancas e mais preciosas do que as dele.

            Valentina suspirou; o duque pareceu não o notar.

            - Sabe que nunca vi ninguém que se lhe assemelhasse, minha bela duquesa, e que sou um homem feliz por possuir um tal tesouro de beleza? Há alguns dias, o meu tio do Berry elogiava-me tanto os olhos acetinados da rainha, em que eu ainda não tinha reparado, que ontem aproveitei o lugar que tinha junto dela para os examinar à vontade.

            - E então? - perguntou Valentina.

            - E então recordei ter já visto outros dois, confesso que não me lembro muito bem onde, que poderiam facilmente suportar uma comparação com os dela. Olhe para mim. Ah, sim! foi em Milão que os vi, no palácio do duque Galeano; brilhavam sob as duas mais belas sobrancelhas negras que o pincel de um pintor tenha jamais traçado no rosto de uma italiana. Pertenciam a uma certa Valentina, que se fez mulher de um não sei que duque da Touraine, o qual, é preciso dizê-lo, não merecia tal felicidade.

            - E acha que lhe pareça muito grande essa felicidade? - perguntou Valentina olhando-o com uma expressão de tristeza e de amor.

            O duque pegou-lhe na mão e levou-a ao coração. Valentina tentou retirá-la; o duque reteve-a entre as suas, e, tirando de um dos seus dedos um anel magnífico, enfiou-o no da mulher.

            - Porquê esse anel? - perguntou Valentina.

            - Porque lhe pertence de direito, minha bela duquesa, pois foi quem mo deu a ganhar. Tenho de contar-lhe como foi.

            O duque abandonou o lugar que ocupava atrás da esposa e, sentando-se num tamborete, apoiou os cotovelos no braço do cadeirão.

            - Sim, ganhei-o - continuou. - E a esse pobre Coucy, ainda por cima.

            - Como?

            - Oh, fique sabendo, e aconselho-a a que lhe guarde rancor, que pretendia ter visto duas mãos tão belas como as suas.

            - E onde as tinha visto?

            - Ao ir comprar um cavalo, na Rua da Ferronnerie.

            - E a quem?

            - À filha de um negociante de cavalos. É evidente que neguei que tal coisa fosse possível. Por teimosia. Coucy manteve o que tinha dito, de tal sorte que apostámos, ele, este anel, eu, esse colar de pérolas.

            - Valentina olhava para o duque, como se quisesse ler-lhe no fundo da alma. - Disfarcei-me então de escudeiro para ver essa maravilha, e fui a casa do velho Champdivers, comprar, por um preço louco, os dois piores cavalos que jamais um duque montou para expiação dos seus pecados. Mas vi também a deusa de mãos brancas, como lhe teria chamado o divino Homero. E, é forçoso admiti-lo, Coucy não é um tão grande tolo como ao princípio pensei, pois é maravilhoso como uma tão bela flor pôde nascer em semelhante jardim. No entanto, minha bela duquesa, não me dei por vencido; como bravo cavaleiro que sou, sustentei a honra da dama dos meus pensamentos. Coucy manteve a sua opinião. Em conclusão, íamos pedir ao rei que autorizasse uma justa para resolver a coisa, quando nos lembrámos de levar connosco Pedro Craon, juiz de campo, grande perito nestas matérias. E assim lá fomos, há, creio, três dias, a casa dessa bela criança, e, por minha honra, Craon é um excelente juiz, e eis o anel no vosso dedo!... Que diz desta história?

            - Que já a conhecia, senhor - respondeu Valentina, olhando para o duque ainda duvidosa.

            - Oh, oh! E como é possível? Coucy é um cavaleiro demasiado galante para lhe ter feito tal confidência.

            - Não foi por ele que a soube.

            - Por quem foi, então? - perguntou o duque, aparentando um ar de perfeita indiferença.

            - Pelo seu juiz de campo.

            - Foi Pedro de Craon quem lha contou? Ah!...

            As sobrancelhas do duque contraíram-se violentamente e os seus dentes bateram uns contra os outros; mas retomou imediatamente o seu ar risonho.

            - Sim, compreendo - continuou. - Pedro sabe que o tenho por meu companheiro, sabe-se nas minhas boas graças e quis entrar também nas suas. Maravilhoso! Mas não lhe parece que se faz demasiado tarde para falar de coisas tão vãs? Lembro-lhe que o rei nos espera amanhã para o jantar, que depois há justa, que eu vou manter com a ponta da minha lança que é a mais bela, e que, aí, não terei como juiz de campo Pedro de Craon.

            Ao dizer estas palavras, o duque avançou para a porta, por cujos anéis passou a travessa de madeira forrada de veludo florido destinada a trancá-la por dentro. Valentina seguiu-o com o olhar; depois, quando ele regressou para junto dela, levantou-se e, lançando-lhe os braços ao pescoço, murmurou: - Oh! senhor, é bem culpado se me engana!

 

            No dia seguinte, o duque da Touraine levantou-se muito cedo e dirigiu-se ao palácio, onde encontrou o rei Carlos a preparar-se para ouvir missa. O rei, que o apreciava muito, avançou para ele, sorrindo; mas apercebeu-se de que, pelo seu lado, o duque parecia muito triste, e isto inquietou-o; estendeu-lhe a mão e, olhando-o fixamente, perguntou-lhe:

            - Meu irmão, que o entristece? Diga-mo, pois parece-me muito perturbado.

            - Senhor, tenho para tanto boas causas - respondeu o duque.

            - Vamos - disse o rei, passando um braço pelo do irmão e conduzindo-o para junto de uma janela.

            - Conte-me isso, que desejamos saber; e, se foi alguém que lhe fez injúria, trataremos de que lhe seja feita justiça.

            Então o duque da Touraine contou-lhe o que se passara na véspera e que já relatámos aos nossos leitores. Disse como Pedro de Craon traíra a sua confiança contando os seus segredos a Valentina, e isto com má intenção; depois, ao ver que o rei não partilhava do seu ressentimento, acrescentou:

            - Senhor, pela fé que vos devo, juro-vos que, se não fazeis justiça a esse homem, chamar-lhe-ei hoje traidor e mentiroso diante de toda a corte, e que morrerá às minhas mãos.

            - Não fará nada disso - respondeu o rei - porque lho pedimos, não é verdade? Mas mandar-lhe-emos dizer, esta noite o mais tardar, que deixe o nosso palácio e que já não temos necessidade dos seus serviços. Também não é a primeira queixa que nos é feita a seu respeito, e, se até agora fechámos os ouvidos, foi por consideração por si e por tratar-se de um dos seus amigos. O nosso irmão o duque de Anjou, rei de Nápoles, da Sicília e de Jerusalém, onde fica o Calvário - o rei benzeu-se - queixou-se, e acreditamos que assim seja, do desvio de grandes quantidades de dinheiro que Pedro de Craon lhe teria feito. Além disso, é primo do duque da Bretanha, que não tem em conta o nosso querer, e que no-lo prova todos os dias, pois não nos deu a reparação que lhe exigimos por conta do nosso bom condestável; além disso, foi-me dito que esse mau duque continua a não reconhecer a autoridade do Papa de Avinhão, que é o verdadeiro Papa, e que continua, a despeito da minha proibição, a cunhar moeda de ouro, se bem que a um vassalo só seja permitido cunhar moeda de cobre. Sei também - continuou o rei, animando-se cada vez mais -, e isto de boa fonte, meu irmão, que os oficiais da sua justiça não reconhecem a jurisdição do Parlamento de Paris, e, o que é quase um crime de alta traição, que vai mesmo ao ponto de receber o juramento absoluto dos seus vassalos, sem reserva para a minha suserania. Todas estas coisas, e muitas outras ainda, fazem com que os parentes e amigos desse duque não possam ser dos meus. Ainda bem. portanto, que veio queixar-se de Pedro Craon, contra quem eu próprio começava a sentir desconfiança. Assim, fique sossegado durante este dia, e à noite mande-lhe comunicar a sua vontade, que eu mandarei comunicar a minha. Quanto ao duque da Bretanha, é um assunto de suserano a vassalo, e, se o rei Ricardo nos conceder a trégua de três anos que lhe pedimos, se bem que seja apoiado pelo nosso tio da Borgonha, de quem a mulher é sobrinha, veremos qual dos dois, ele ou eu, é senhor do reino da França.

            O duque agradeceu ao rei a parte que ele tomara da sua injúria e fez menção de retirar-se; mas, como os sinos de Sainte-Chapelle tocavam naquele momento para a missa, o rei convidou-o a acompanhá-lo, tanto mais que, extraordinariamente, seria dita pelo arcebispo de Ruão. monsenhor Guilherme de Vienne, e a rainha assistiria.

            Depois da missa, o rei Carlos, a rainha Isabel e o duque da Touraine entraram na sala do festim, onde já se encontravam reunidos e aguardando-os todos os senhores e damas que pela sua posição, pela sua dignidade, ou por desejo do rei ou da rainha, tinham sido convidados para o jantar. A refeição era servida na grande mesa de mármore, e, contra uma das colunas, fora erguido o aparador do rei, ricamente coberto e ornamentado com baixelas de ouro e de prata; em torno de toda a mesa havia barreiras guardadas por soldados, a fim de que só pudessem entrar os que deviam servir à mesa; mas, apesar de todas estas precauções, só com grandes dificuldades o serviço podia ser feito, tão grande era a massa de povo. Quando o rei, os prelados e as damas acabaram de lavar as mãos nas bacias de prata que os criados lhes apresentavam de joelhos, o bispo de Noyon, que fazia de chefe da mesa do rei, sentou-se; após ele, o bispo de Langres, o arcebispo de Ruão, depois o rei; Carlos vestia uma sobreveste de veludo vermelho toda forrada a arminho e levava na cabeça a coroa da França; tinha junto de si a rainha Isabel, igualmente com uma coroa de ouro; à direita da rainha sentava-se o rei da Arménia, e, abaixo dele, pela ordem que vamos dar, a duquesa de Berry, a duquesa da Borgonha, a duquesa da Touraine, as meninas de Nevers e Bonne de Bar, a senhora de Coucy, a menina Marie de Harcourt; depois, por fim, ainda mais abaixo, a senhora de Sully, mulher de Guy de La Trémouille.

            Alem destas mesas, havia duas cujas honras eram feitas pelos senhores duques da Touraine e de Bourbon, em torno das quais se sentavam cerca de quinhentos senhores e damas; a gente era tanta que só com grande dificuldade os serviam.

            "Quanto aos pratos, que eram muitos e notáveis - diz Froissart - não saberei dar-vos contas; mas falar-vos-ei dos espectáculos, que foram tão bem encenados que melhor não poderiam ser."

            Este género de divertimento, que, na época, cortava a refeição em duas, estava muito na moda e era muito apreciado: logo que o primeiro serviço terminou, os convivas levantaram-se e foram ocupar, nas janelas, nos degraus, e até sobre mesas colocadas para esse efeito em torno do pátio, os melhores lugares que a cada um foi possível encontrar; era tal a multidão que a varanda onde se encontrava o rei e a rainha estava, como todas as outras, pejada de damas e de senhores.

            No pátio do palácio, os operários, que havia mais de dois meses se dedicavam a esse trabalho, tinham erguido um castelo de madeira com quarenta pés de altura e sessenta de comprimento, incluindo as alas: nos quatro cantos desse castelo havia quatro torres, e, no meio, uma quinta, mais alta do que todas as outras. O castelo representava a grande e forte cidade de Tróia, e a torre mais alta o palácio de llião; em torno das muralhas estavam pintadas, em pendões, as armas do rei Príamo, de Heitor, seu filho, e dos reis e princesas que se encontravam em Tróia com eles. Este edifício tinha sido montado sobre quatro rodas, de modo que os homens escondidos no seu bojo podiam imprimir-lhe todos os movimentos necessários á sua defesa: a habilidade destes homens não tardou em ser posta à prova, pois, avançando de dois lados, -aproximavam-se para o atacarem ao mesmo tempo um pavilhão e um navio: o pavilhão representava o exército e o navio a frota dos gregos. Ambos estavam cobertos com as armas dos mais valorosos cavaleiros que seguiam o rei Agamenon, de Aquiles de pés ligeiros até ao prudente Ulisses: havia bem uns duzentos homens, tanto no pavilhão como no navio, e, sob uma das portas das cavalariças do rei, via-se a cabeça do cavalo de madeira, que esperava tranquilamente o momento de entrar em cena. Mas, com grande desolação dos assistentes, a festa não pôde chegar a esse ponto; porque, no momento em que os gregos do pavilhão e do navio, com Aquiles à frente, assaltavam com maior coragem os troianos do castelo, maravilhosamente defendidos por Heitor, ouviu-se um grande estalido, seguido por movimentos e gritos assustadores: uma das bancadas situadas em frente da porta do parlamento acabava de desmoronar-se, arrastando na queda todos os que suportava.

            Então, e como sempre acontece em semelhantes ocasiões, todos os outros, temendo o mesmo acidente, puseram-se a gritar como se a coisa já lhes tivesse acontecido: e houve então uma grande agitação entre a turba, pois todos queriam descer ao mesmo tempo e precipitavam-se para os degraus, que não aguentavam o peso e se partiam. Se bem que a rainha e as damas, que se encontravam nas varandas de pedra do palácio, nada tivessem a temer, nem por isso deixaram de sentir-se dominadas pelo pânico, e, fosse por um terror irreflectido de um perigo que não podia atingi-las, fosse para não verem o terrível espectáculo que se apresentava a seus olhos, recuaram precipitadamente para voltarem à sala do festim, mas atrás delas tinha-se formado uma espessa muralha de pajens, escudeiros e criados: atrás destes estava o povo, que aproveitara o facto de também os soldados se terem amontoado junto das janelas para invadir a sala, de modo que a rainha, não podendo fender aquela multidão, caiu semimorta e desvanecida nos braços do duque da Touraine, que se encontrava a seu lado. O rei ordenou então que cessassem os jogos: levantaram-se as mesas, onde já estava preparado o segundo serviço, e abateram-se as barreiras, de modo que, no espaço por elas ocupado, os convivas puderam mover-se livremente. Felizmente, não se registara qualquer acidente grave: apenas a senhora de Coucy ficara um pouco magoada e a rainha Isabel continuava desmaiada: levaram-na para junto de uma janela isolada, cujos vidros foram partidos para que o ar lhe chegasse mais depressa, o que a fez voltar a si. Mas o susto fora tão grande que quis retirar-se imediatamente; quanto aos espectadores do pátio, houvera vários mortos e grande número de feridos mais ou menos graves.

            Em consequência, a rainha subiu para a sua liteira e, acompanhada por senhores e damas que formavam em torno dela um cortejo de mais de mil cavalos, dirigiu-se, pelas ruas, ao palácio de Saint-Paul. Quanto ao rei, desceu, num barco, até à ponte do Change, e daí subiu o Sena acompanhado pelos cavaleiros que iriam tomar parte na justa a que ele presidiria.

            Ao chegar ao seu palácio, o rei encontrou um belo presente que iam oferecer-lhe, em nome dos burgueses de Paris, quarenta dos mais notáveis da cidade: iam todos vestidos de tecido da mesma cor, como de uniforme. O presente encontrava-se numa liteira coberta de crepe de seda, que deixava ver as jóias que o compunham: eram quatro potes, quatro tinas e seis pratos, tudo de ouro maciço e pesando cinquenta marcos.

            Quando o rei apareceu, os portadores da liteira, que estavam vestidos como selvagens, pousaram-na à frente dele no meio da câmara, e um dos burgueses que a acompanhavam pôs um joelho em terra diante do rei e disse:

            - Mui caro senhor e nobre rei, os vossos burgueses de Paris presenteiam-vos, no feliz início do vosso reinado, com todas as jóias que estão nesta liteira; outras iguais são oferecidas, neste momento, à rainha e à duquesa da Touraine.

            - Muito grato lhes fico! - respondeu o rei. - Estes presentes são belos e ricos e recordaremos em todas as circunstâncias aqueles que no-los oferecem.

            Com efeito, duas liteiras iguais esperavam a rainha e a duquesa de Touraine; a da rainha era transportada por dois homens, um mascarado de urso, o outro de unicórnio, e continha um jarro, dois frascos, dois vasos, dois saleiros, seis pratos, seis tinas, tudo de ouro puro e maciço, e doze lâmpadas, vinte e quatro pratos e duas bacias de prata: ao todo, com trezentos marcos de peso.

            Quanto aos portadores que levavam a liteira destinada à duquesa de Touraine, iam vestidos de mouros, tinham os rostos escurecidos, usavam turbantes brancos, como se fossem sarracenos ou tártaros, e estavam cobertos de ricos tecidos de seda. A liteira continha, em objectos de ouro, um vaso, um grande pote, duas caixas, dois grandes pratos, vinte e quatro escudelas, vinte e quatro saleiros e vinte e quatro taças; tudo isto, tanto em ouro como em prata, pesava duzentos marcos. O valor geral dos objectos oferecidos ascendia, segundo Froissart, a mais de seiscentas mil coroas de ouro.

            Os burgueses, oferecendo estes ricos presentes à rainha, tinham a esperança de conseguir as suas boas graças e decidi-la a dar à luz na cidade de Paris, para obterem por este processo alguma diminuição nos impostos; mas nada disto aconteceu: pois, ao chegar o momento do parto, o rei levou consigo a rainha Isabel: foi aumentada a gabela e desvalorizada de doze e de quatro dinheiros a moeda que circulava desde o reinado de Carlos V; de tal modo que, sendo esta moeda a mais usada pela raia miúda e pelos mendigos, estes viram-se privados de coisas de primeira necessidade, por não lhes ser possível passá-la [*1. Froissart, o monge de Saint-Denis].

            Estes presentes, de resto, agradaram muito à rainha e à duquesa da Touraine, que agradeceram graciosamente aos que lhos tinham levado. Depois prepararam-se para dirigirem-se ao campo de Santa Catarina, onde fora preparada uma liça para os cavaleiros e um estrado para as damas.

            Dos trinta cavaleiros que deviam terçar armas naquele dia, e a que chamavam os "cavaleiros do sol de ouro", por usarem nos escudos um refulgente sol dourado, vinte e nove esperavam, já armados, na liça. O trigésimo entrou e todas as lanças se baixaram para o receber: era o rei. [1. Eram o rei, o duque de Berry, o duque da Borgonha, o duque de Bourbon, o conde de La Marche, messire Jacquemarl de Bourbon, seu irmão, messire Guilherme de Namur, messire Olivier de Clisson, messire João de Yienne, seu irmão, messire Guy de la Trémouille, messire Guilherme, seu irmão; messire Filipe de Bar, o senhor de Rochefort, o senhor de Ruis, sire de Beaumanoir, messire João de Barbançon, o conde da Flandres, o senhor de Couey, messire João de Bar, o senhor de Nantouillet, o senhor de La Rochefoucault, o senhor de Garaneières, messire João de Harpedanne, o barão de Saint-Very, messire Pedro de Craon, messire Regnault de Royce, messire Godofredo de Charny e messire Guilherme de Lignac].

            Um grande murmúrio anunciou quase no mesmo momento a chegada da rainha; sentou-se no estrado que fora preparado para ela, tendo à sua direita a senhora duquesa da Touraine e à esquerda Mademoiselle de Nevers(2). [2. Chamava-se mademoiselle a todas as mulheres cujos maridos não tivessem ainda sido armados cavaleiros].

            Atrás das duas princesas encontravam-se de pé os duques Luís e João, trocando de quando em quando algumas raras palavras, com essa fria delicadeza familiar às pessoas cuja condição força a ocultar os seus pensamentos. Logo que a rainha se sentou, todas as outras damas, que só esperavam esse momento, espalharam-se pelo recinto que lhes estava reservado, e que não tardou em colorir-se de tecidos bordados a ouro e a prata, no meio dos quais brilhavam os diamantes e as pedrarias.

            Nesse momento, os cavaleiros que tomariam parte no torneio puseram-se em ordem, um a um, com o rei à cabeça; após ele encontravam-se os duques de Berry, da Borgonha e de Bourbon e depois os outros vinte e seis senhores, pela ordem da sua condição ou da sua dignidade. Cada um deles, ao passar diante da rainha, baixava até ao solo a ponta da lança, e a rainha saudou tantas vezes quantos eram os cavaleiros.

            Terminada esta evolução, os combatentes dividiram-se em dois grupos. O rei tomou o comando de um e o condestável o do outro. Carlos conduziu o seu para junto do balcão da rainha. Clisson retirou-se para o extremo oposto.

            - Duque da Touraine - disse então o duque de Nevers -, não sentiste o desejo de estar com esses bravos cavaleiros e quebrar uma lança em honra da senhora vossa esposa?

            - Meu primo - respondeu secamente o duque - o rei, meu irmão, permitiu-me ser o único desafiador da justa de amanhã; não é um contra um e sim sozinho contra todos que quero sustentar a beleza da minha dama e a honra do meu nome.

            - E podeis acrescentar, senhor, que ambas as coisas poderiam ser sustentadas com outras armas que não esses brinquedos de criança de que nos servimos nestes jogos.

            - Estou pronto, meu primo, a sustentá-las com as armas de que se servirem para as atacar. Haverá, à porta do meu pavilhão, uma adarga de paz e outra de guerra: os que baterem na adarga de paz dar-me-ão honra; os que baterem na adarga de guerra dar-me-ão prazer.

            O duque de Nevers inclinou-se como um homem que, tendo-lhe sido dito o que queria saber, deseja que a conversa fique por ali, quando o duque da Touraine deu a impressão de não ter compreendido o objectivo daquelas perguntas, e pôs-se a brincar despreocupadamente com uma das faixas de renda que pendiam da coifa da rainha.

            E nesse momento soaram as trombetas; os cavaleiros, a esta chamada que lhes anunciava que o torneio ia começar, prenderam as adargas, firmaram-se nas selas, colaram as lanças ao riste das armaduras, de sorte que, quando soou a última nota da fanfarra, todos estavam prontos. Ouviram-se então as vozes dos dois juízes de campo, gritando ao mesmo tempo de ambos os lados da liça:

            - Deixai ir!

            Mal estas palavras foram pronunciadas, o solo desapareceu sob um turbilhão de poeira, no meio do qual era impossível seguir os combatentes. Quase no mesmo instante, ouviu-se o ruído das duas hostes entrechocando-se; a liça apareceu depois aos olhos dos espectadores como um mar encapelado, com cristas de ouro e de prata. De tempos a tempos via-se aparecer, como um floco de espuma no topo de uma vaga, um nobre penacho branco; mas quase todos os feitos de armas daquele primeiro encontro se perderam, e foi só quando as trombetas soaram para anunciar a trégua, retirando-se os dois grupos para os respectivos extremos da liça, que se pôde avaliar de que lado ficara a vantagem... Em torno do rei permaneciam, armados e montados, oito cavaleiros: eram o duque da Borgonha, messires Guilherme de Namur, Guy de La Trémouille e Jean de Harpedanne, o barão de Saint-Véry, messires Regnault de Royce, Filipe de Bar e Pedro de Craon.

            O rei tivera a ideia, no último instante, de proibir a este último que participasse no torneio, devido à cólera que sentia contra ele; mas reflectira que a sua retirada desorganizaria a festa, para a qual o número par de participantes era absolutamente indispensável.

            Apenas seis cavaleiros acompanhavam o condestável: eram o duque de Berry, Jean de Barbançon, Beaumanoir, Godofredo de Charny, Jean de Vienne e Coucy. Todos os outros tinham sido derrubados e já não lhes assistia o direito de voltar a montar, ou tinham tocado na barreira recuando à frente do seu adversário, pelo que eram considerados vencidos; a honra da primeira passagem era pois devida ao rei, que conservava mais cavaleiros.

            Os pajens e os criados tinham aproveitado esta pausa para regar a liça, a fim de abater a poeira: as damas aplaudiram muito esta intervenção, e os cavaleiros, certos de que as suas proezas seriam vistas e apreciadas, retomaram nova coragem; cada um deles mandou chamar os seus pajens ou escudeiros, para que examinassem as armaduras, apertassem as cilhas aos cavalos, atassem mais firmemente as adargas, e preparou-se para novo embate.

            O sinal não se fez esperar: as trombetas soaram pela segunda vez, as lanças voltaram a erguer-se, e, à voz de Deixai ir! os dois pequenos grupos, já reduzidos a menos de metade, correram um para o outro.

            Todos os olhos se voltaram para o rei e para Olivier de Clisson, que galopavam ao encontro um do outro. Encontraram-se a meio caminho: o rei atingiu o seu adversário em plena adarga, tão forte e firme que a lança se partiu; mas, a despeito da violência do embate, o velho soldado permaneceu direito na sela; apenas o cavalo dobrou um pouco as patas traseiras, mas endireitou-se nobremente ao primeiro golpe de esporas. Quanto ao condestável, que empunhara a lança como que para ameaçar o rei, levantara-lhe a ponta no momento do encontro, indicando assim que considerava uma honra enfrentar o seu soberano, mas que o respeitava demasiado para o atingir, mesmo num jogo.

            - Clisson, Clisson - disse-lhe o rei, rindo-se -, não vos servis melhor da vossa espada de condestável do que da vossa lança de cavaleiro, retirar-vos-ei a lâmina e deixar-vos-ei apenas a bainha; e, além disso, aconselho-vos a vir doravante às justas trazendo apenas uma rosa como arma: prestar-vos-á o mesmo serviço que a lança, se contais servir-vos dela sempre desta maneira.

            - Senhor, com uma rosa enfrentaria os inimigos de Vossa Majestade, e, com a ajuda de Deus, triunfaria deles, espero; pois o amor e o respeito que sinto por vós dar-me-iam tanta coragem para vos defender como me deram receio de vos atacar. Quanto ao modo como conto servir-me da minha lança contra qualquer outro, se quiserdes julgar por vós mesmo, olhai, senhor, e atentamente.

            Com efeito, Guilherme de Namur, que acabava de desmontar Godofredo de Clianiv, voltara ao campo e procurava com os olhos um adversário. Mas todos estavam ocupados e, se bem que lhe assistisse o direito de ir ajudar algum dos seus que se encontrasse em maiores dificuldades, desdenhou esta desigualdade. No mesmo instante ouviu a voz do condestável, que lhe gritava: - A mim, se vos apraz, senhor de Namur!

            Guilherme inclinou a cabeça, indicando que aceitava o desafio, firmou-se nos estribos, levantou a lança, pegou nas rédeas e correu sobre Olivier de Clisson, que, pelo seu lado, pôs o cavalo a galope, para poupar ao adversário metade do caminho; encontraram-se.

            Guilherme de Cliarny tinha dirigido a lança contra o elmo de Clisson, e o golpe foi tão bem calculado que a ponta atingiu o topo da viseira do condestável, descobrindo-lhe a cabeça. No mesmo instante, a lança de Clisson atingia o seu adversário em plena adarga. Guilherme de Namur era demasiado bom cavaleiro para cair da sela; mas a violência do embate foi tal que se partiu a cilha, e o cavaleiro, com a sela entre os joelhos, foi cair dez metros atrás do seu cavalo. Os aplausos brotaram de todos os lados. As damas agitaram os lenços. Fora um dos mais belos golpes de lança jamais vistos numa justa.

            Clisson não perdeu tempo a pedir outro elmo, pois viu que o seu grupo, que entretanto não conseguira recuperar-se da desvantagem, se encontrava em apuros. Lançou-se, de cabeça descoberta, para o meio da barafunda, quebrou a lança, já enfraquecida por três combates, contra o elmo de Jean de Harpedanne, arrancando-lho; puxando da espada no mesmo instante, atacou-o tão vivamente, antes que o adversário pudesse refazer-se, que o obrigou a recuar até à barreira. Voltou-se então para o campo de batalha. Já só restavam dois cavaleiros na liça: Pedro de Craon e Beaumanoir. Quanto ao rei, permanecera como espectador e não voltara a entrar na justa depois da sua corrida contra Clisson. O condestável imitou-o, aguardando o desfecho do combate entre o seu último cavaleiro e o seu último antagonista. A vantagem parecia pôr-se do lado de Beaumanoir, quando a sua espada, num golpe infeliz, se partiu contra o escudo de Pedro de Craon. Como não era permitido utilizar outras armas além da lança e da espada, e tendo Beaumanoir quebrado ambas, encontrou-se, com grande desespero seu, impossibilitado de prosseguir o combate, e fez sinal com a mão de que se considerava vencido. Pedro de Craon voltou-se, julgando ter ficado senhor do campo, quando avistou a dez passos dele Clisson, seu velho inimigo, que o olhava, rindo; a honra do dia ia decidir-se entre os dois.

            Pedro de Craon rugiu dentro do elmo; pois, se bem que fosse um hábil cavaleiro e conhecedor de todas as fintas de guerra, conhecia o homem de ferro contra quem ia lutar; não hesitou no entanto um instante sequer, e, largando as rédeas sobre o pescoço do cavalo, voltou-se quase até à garupa, empunhou a espada com ambas as mãos e correu para o condestável. Pelo caminho fez girar duas vezes aquela espada rápida e faiscante; depois abateu-a, com um ruído de um martelo a bater na bigorna, sobre a adarga com que Clisson protegia a cabeça nua. É certo que se aquela espada estivesse afiada, a adarga, apesar de espessa e feita do mais fino aço, teria sido uma fraca defesa contra tal golpe; mas combatia-se com armas de cortesia e o condestável não pareceu mais abalado do que se tivesse sido atingido por uma varinha empunhada pela mão débil de uma criança.

            O velho guerreiro voltou-se para Pedro de Craon, que, levado pelo impulso, se afastara alguns metros, mas que, já em guarda, o esperava de espada em riste. Dessa vez era o condestável quem atacava e Pedro quem se defendia. O ataque foi simples: Olivier de Clisson afastou com a sua a espada do adversário e, empunhando então a arma com ambas as mãos, e como se desdenhasse servir-se da lâmina, descarregou, com o punho uma tão violenta pancada no elmo de Craon que lhe fez uma mossa que bem poderia ter sido causada por uma maça de armas. O cavaleiro abriu os braços e tombou desmaiado, sem uma palavra.

            Então o condestável avançou para o rei, saltou do cavalo, e, empunhando a espada pela lâmina, apresentou-lhe o punho, declarando assim que se reconhecia vencido e cedia ao rei as honras do dia; mas o rei, vendo que este gesto era coisa de pura cortesia, desceu por sua vez do cavalo, abraçou Clisson e conduziu-o, no meio dos aplausos das damas e dos senhores, até ao balcão da rainha, onde foi longamente felicitado por Isabel, pelo duque da Touraine, que vira com enorme agrado a derrota de Pedro de Craon, e pelo duque de Nevers, que, se bem que simpatizando pouco com o condestável, era ele demasiado bom combatente para não admirar tais feitos de armas.

            Naquele momento um grupo de cavaleiros deteve-se diante da porta da igreja de Santa Catarina; o que parecia comandá-los desmontou e dirigiu-se à liça. Entrou, coberto de pó e de lama, e, avançando para o rei, pôs um joelho em terra e apresentou-lhe uma carta selada com as armas do rei da Inglaterra. Carlos abriu-a: continha a trégua concedida pelo rei Ricardo e pelos seus tios, trégua essa que deveria durar três anos, na terra e no mar, a saber, de 1 de Agosto de 1389 a 19 de Agosto de 1392. O rei leu-a imediatamente em voz alta, e aquela notícia, que todos esperavam com impaciência, e que chegava em semelhante ocasião, pareceu um novo e excelente presságio da felicidade que se esperava de um reinado que começava sob tão bons auspícios. Château-Morand, que fora o portador da mensagem, foi muito cumprimentado pela corte; e o rei, para lhe dar uma honra e manifestar o seu contentamento, convidou-o a jantar à sua mesa, levando-o tal como estava, sem lhe permitir sequer ir mudar de roupas.

            Nessa mesma noite, La Rivière e Jean Lemercier, da parte do rei, Jean de Beuil e o senescal da Touraine, da parte do duque, apresentaram-se no palácio de Pedro de Craon, situado perto do cemitério de Saint-Jean, e comunicaram-lhe que nem o rei nem o duque tinham mais necessidade dos seus serviços.

            Na noite seguinte, se bem que estivesse ainda bastante magoado em consequência da pancada e da queda, Pedro de Craon abandonou Paris com todas as suas bagagens e meteu pela estrada de Anjou onde possuía um grande e forte castelo, a que chamavam Sablé.

 

            No dia seguinte, ao despontar da manhã, arautos que envergavam a libré do duque da Touraine percorrem as ruas de Paris, precedidos de trombetas, detendo-se em todos os cruzamentos e praças para lerem as cartas de desafio que, havia já um mês, tinham sido enviadas para todos os pontos do reino, assim como para as principais cidades de Inglaterra, Itália e Alemanha; as cartas estavam concebidas nestes termos:

            "Nós, Luís de Valois, duque da Touraine, pela graça de Deus, filho e irmão de reis da França, pelo grande desejo que temos de ver e de travar conhecimento com nobres fidalgos, cavaleiros ou escudeiros, seja do reino da França, seja de outros reinos, fazemos saber, não por orgulho, ódio ou malquerença, mas pelo desejo de ter a sua honrosa companhia, com o consentimento do rei nosso irmão, que ocuparemos a liça após as dez horas da manhã até às três horas da tarde; e isto, contra o que se apresentar; e fora do nosso pavilhão, que se elevará à entrada do campo, estarão afixadas as nossas adargas e escudos armoriados; deve entender-se as nossas adargas de guerra e os nossos escudos de paz, e quem quiser combater, mandará tocar pelo seu escudeiro, ou tocará ele próprio, no nosso escudo, com a madeira da lança, se quiser a justa de paz; na nossa adarga, com o ferro da lança, se quiser a justa de guerra. E, para que todos os fidalgos, nobres cavaleiros e escudeiros que disto tenham conhecimento o tenham por firme e estável, mandámos publicar estas cartas e selámo-las com o selo das nossas armas. Escritas, feitas e dadas em Paris, no nosso palácio da Touraine, no vigésimo dia de Junho do ano 1389 depois da encarnação de Nosso Senhor."

            O anúncio de uma justa em que o primeiro príncipe de sangue(1) se apresentava como desafiador, havia já dado lugar a grande alvoroço. [1. Não se deve pensar, no entanto, que naquela época os príncipes de sangue fossem o que passaram a ser mais tarde sob o reinado de Henrique IV; foram apenas considerados como os primeiros fidalgos do reino e não partilhavam do carácter de que a realeza já se revestia].

            Os membros do conselho do rei tinham tentado opor-se, quando o duque da Touraine solicitara ao irmão autorização para esta empresa, por ocasião da entrada em Paris da rainha Isabel; o rei, que apreciava muito este tipo de jogos e que era também muito hábil no manejo das armas, mandara no entanto chamar o duque da Touraine para lhe pedir que renunciasse ao projecto; mas este respondera-lhe que se comprometera a fazê-lo diante de todas as damas da corte, e o rei, que conhecia o valor de tal comprometimento, consentira que a coisa se realizasse.

            Havia, de resto, poucos riscos a correr em semelhantes jogos; quase sempre os adversários combatiam com armas de cortesia, e a adarga de guerra, que fazia diante do pavilhão do desafiador companhia ao escudo de paz, só lá estava para indicar que o dono não recuaria ante o que quer que fosse e que estava disposto a aceitar todos os desafios. No entanto, acontecia por vezes que ódios particulares, aproveitando a ocasião, se insinuavam na liça como amigos, e, uma vez ali, desmascarando-se subitamente, iam travar um combate real em vez de um combate simulado; por isso havia sempre dentro do pavilhão, para o caso de serem necessárias, armas afiadas e um cavalo ajaezado para a guerra.

            Valentina, se bem que partilhasse do entusiasmo cavalheiresco da época, não deixava de sentir-se preocupada quanto às consequências do dia: o pedido do conselho parecera-lhe justo, e tinha receado, com o coração, o que os outros tinham pensado com a razão.

            Estava pois mergulhada em reflexões semelhantes às que acabamos de fazer, quando lhe anunciaram que a jovem que mandara chamar duas noites antes aguardava na antecâmara que lhe fizesse a honra de recebê-la. Valentina deu alguns passos em direcção à porta. Odette entrou.

            Mantinha toda a sua beleza, toda a sua graça, toda a sua candura; mas o rosto daquela doce criatura apresentava-se coberto por um véu de mortal melancolia.

            - Que tem? - perguntou a duquesa, assustando-se ao vê-la tão pálida -, a que devo a felicidade de voltar a vê-la?

            - Foi tão boa para mim - respondeu Odette - que não quis fechar a grade de um convento entre mim e o mundo sem me despedir de si.

            - Como, pobre criança? - exclamou a duquesa. - Toma o hábito?

            - Não, ainda não, senhora, pois meu pai fez-me prometer que não pronunciaria os votos enquanto ele vivesse; mas chorei tanto e tão forte contra o seu peito, tanto roguei a seus pés, que consentiu que me retire, como pensionista, para o convento da Trindade, de que a minha tia é superiora: é para lá que vou.

            A duquesa pegou-lhe na mão.

            - Não é só isso o que tem para contar-me, não é verdade? - perguntou, notando que os olhos da jovem continuavam a ter a mesma expressão de tristeza e de receio.

            - Não, queria falar-lhe de...

            - De quem?

            - De quem quer que lhe fale, a não ser dele? Por quem quer que tema, a não ser por ele?

            - Que pode temer?

            - Perdoa-me, não é verdade? Por vir falar-lhe do duque da Touraine. Mas, se algum perigo...

            - Algum perigo! - exclamou Valentina. - Explique-se; faz-me morrer!

            - O duque vai combater hoje, não é verdade?

            - Sim. E então?

            - Pois bem! foram ontem a casa de meu pai.., o meu pai, como sabe, tem a reputação de possuir os melhores cavalos de batalha que há em Paris.., pois foram ontem a sua casa alguns homens pedindo que lhes mostrasse o melhor e o mais forte cavalo de guerra que tivesse para vender. Meu pai perguntou-lhes se era para a justa de hoje e esses homens responderam-lhe que sim, que um cavaleiro desconhecido queria participar nela. Haverá então uma justa de guerra? perguntou meu pai. Claro responderam-lhe, rindo e bem rude ela será! Então, cheia de medo ao ouvir estas palavras, segui-os; desci atrás dele e vi-os escolher o cavalo mais forte que havia nas nossas cavalariças: puseram-lhe um arreio de batalha.

            Odette soluçou.

            Compreende, senhora? Oh! conte isto ao senhor duque: diga-lhe que há um projecto de ameaça contra ele. Diga-lho como eu o digo, de joelhos, de mãos juntas; diga-lho como eu lhe diria, se estivesse no seu lugar.

            E caiu de joelhos.

            - Obrigada, minha filha, obrigada.

            - Dirá aos seus escudeiros, não é verdade? Dir-lhes-á que escolham a sua mais forte armadura: quando foi buscá-la à Itália, deve ter trazido alguma de Milão, onde, diz-se, se fazem as melhores do mundo. Diga-lhes que velem por que o elmo fique bem seguro. Depois, se vir, o que é impossível, pois o duque da Touraine é o mais belo, o mais bravo e o mais hábil cavaleiro do reino... Que dizia eu? Ah, se vir que fraqueja, pois o seu adversário poderá utilizar algum sortilégio, rogue ao rei, o rei estará lá, não é verdade? rogue ao rei que faça cessar a justa: tem esse direito, perguntei ao meu pai. Bastará que os juízes de campo atirem os seus bastões para o meio dos combatentes para que o combate termine. Pois bem, rogue-lhe que mande interromper esse infeliz combate, uma vez que não é possível impedi-lo: eu, entretanto...

            Interrompeu-se.

            - Então, que fará. - perguntou mais friamente a duquesa.

            - Eu fechar-me-ei na igreja do convento. Agora que a minha vida pertence a Deus, devo orar por todos os homens e particularmente pelo meu soberano, seus irmãos e seus filhos. Pois bem, orarei por ele. com a fronte sobre o mármore: direi a Deus que leve os meus dias, pois já não tenho que fazer deles, em troca dos dele: e Deus escutar-me-á, Deus atenderá talvez o meu pedido... Pelo seu lado, reze também. Deus ouvirá, certamente, a sua voz antes de ouvir a minha, pois é uma grande princesa e eu não passo de uma pobre rapariga. Adeus, senhora, adeus!

            Com estas palavras, Odette ergueu-se, beijou uma vez mais a mão da duquesa e saiu da sala.

            A duquesa da Touraine dirigiu-se imediatamente aos aposentos do marido; mas já, havia uma hora, ele se encontrava no seu pavilhão, aonde se dirigira adiantadamente para se revestir das suas melhores armas.

            No mesmo instante foram prevenir a duquesa de que a rainha a esperava para se dirigirem ao campo de Santa Catarina.

            A justa teria lugar no mesmo local da véspera; apenas, no interior do recinto e por baixo do balcão do rei, fora erguida a tenda do duque da Touraine, coroada por um pendão com as suas armas e comunicando com uma ampla construção de madeira onde se encontravam os seus escudeiros e os seus cavalos, estes últimos em número de quatro, três destinados às justas de paz, o quarto armado para a guerra. Do lado esquerdo da tenda estava a adarga de guerra do duque, sem brasão algum, e mostrando por única divisa um pau nodoso com estas palavras: Ofereço o desafio.

            À direita estava o escudo da paz, tendo ao centro as três flores de lis douradas sobre campo azul, que eram as armas dos filhos da França. Em face, na extremidade oposta da liça, havia uma porta que dava para os campos adjacentes a Tournelles e que se destinava a dar entrada aos cavaleiros.

            Logo que o rei, a rainha, os senhores e as damas da corte se acomodaram, um arauto avançou, precedido por dois trombeteiros, e leu em voz alta as cartas de desafio de que já demos conhecimento aos nossos leitores no início deste capítulo; apenas os juízes de campo tinham-lhe acrescentado uma cláusula relativa à maneira de justar, a saber: todo o cavaleiro ou escudeiro que tocasse no escudo de paz comprometer-se-ia a correr apenas duas lanças; quanto aos que batessem na adarga de guerra, era hábito que as armas fossem à sua escolha.

            Feita esta proclamação, o arauto voltou à tenda. Os juízes de campo, que eram Olivier de Clisson e o duque de Bourbon, colocaram-se nas duas extremidades do campo fechado, e as trombetas fizeram soar a fanfarra do desafio. Valentina estava pálida como uma morta.

            Seguiu-se um momento de silêncio, findo o qual outra trombeta respondeu de fora da liça, repetindo os mesmos sons. As portas do fundo abriram-se e entrou um cavaleiro, de viseira levantada. Todos reconheceram Boucicaut le Jeune; a duquesa respirou ao vê-lo.

            Quando o cavaleiro foi reconhecido, um murmúrio de simpatia percorreu toda a galeria; os senhores saudaram-no com as mãos, as damas agitaram os seus lenços; porque aquele que acabava de entrar era um dos mais bravos e melhores justadores que havia entre os cavaleiros da época.

            Messire de Boucicaut inclinou-se, primeiro para agradecer o acolhimento que os espectadores lhe faziam; depois, avançando direito ao balcão da rainha, saudou-a graciosamente, baixando até ao solo a ponta da sua lança: então, fechando com a mão esquerda a viseira do seu elmo, bateu cortesmente com a madeira da sua lança no escudo de paz do duque da Touraine, e, pondo o cavalo a galope, ganhou a extremidade oposta da liça.

            No mesmo instante, o duque saiu do seu pavilhão completamente armado, com a adarga presa ao pescoço e a lança em riste. Tinha uma armadura milanesa, do mais fino aço, toda incrustada de ouro; a capa do cavalo era de veludo vermelho, e tudo o que é geralmente ferro, freio e estribos, era de pura prata; a couraça era, de resto, tão bem feita e tão artisticamente trabalhada que se prestava a todos os movimentos do dono, permitindo-lhe a mesma ligeireza que se envergasse uma cota de malha ou uma veste de pano.

            Se um murmúrio tinha acolhido Boucicaut, verdadeiros aplausos saudaram o duque, pois era impossível alguém apresentar-se e saudar com mais graça do que ele; os aplausos só cessaram quando o duque fechou o elmo; então as trombetas soaram, os dois adversários levantaram as lanças e os juízes de campo gritaram:

            - Deixai ir!

            Os dois cavaleiros picaram esporas e arrancaram um para o outro com toda a impetuosidade dos seus cavalos; ambos se atingiram em plena adarga e quebraram as lanças; os cavalos detiveram-se secamente, dobraram as patas traseiras e endireitaram-se, trémulos; mas nem um nem outro dos adversários perdera sequer um estribo; fizeram imediatamente meia-volta e empunharam novas lanças, que lhes foram entregues pelos respectivos escudeiros.

            Mal se encontraram preparados para a segunda corrida, as trombetas deram novamente o sinal; galoparam então um para o outro mais rapidamente ainda do que da primeira vez; mas ambos desviaram a direcção das suas lanças; tocaram-se nas viseiras, os elmos saltaram e os dois cavaleiros passaram um pelo outro; depois, voltando-se ambos, saudaram-se cortesmente. Era impossível terem mantido um contra o outro uma igualdade mais perfeita, pelo que se decidiu que a justa reverteria em honra igual para ambos os adversários.

            Os dois cavaleiros deixaram que os escudeiros apanhassem do solo os respectivos elmos e dirigiram-se, de cabeça descoberta, Boucicaut à porta por onde tinha entrado, o duque da Touraine à tenda de onde tinha saído.

            Um murmúrio de apreciação acompanhou este último até ao seu pavilhão; porque ele parecia o Arcanjo São Miguel, tão belo estava com os seus longos cabelos louros, os seus olhos azuis, doces como os de uma criança, e a sua pele de menina.

            A rainha inclinou-se completamente para fora do estrado para poder vê-lo mais tempo, e Valentina, recordando o que lhe dissera Odette. olhou para ela com um estremecimento.

            Ao cabo de certo tempo, as trombetas anunciaram que o duque estava pronto para nova corrida; ficaram vários minutos sem resposta, e já os espectadores se perguntavam se uma tão bela justa iria ficar por ali, por falta de adversários, quando outra trombeta se fez ouvir com um som desconhecido; no mesmo instante a porta abriu-se e apareceu um cavaleiro de viseira baixada e adarga ao pescoço.

            Valentina estremeceu; porque não reconhecia aquele novo adversário, e aquela justa de guerra que temia punha-lhe na alma um receio vago e contínuo, que aumentava à medida que via o cavaleiro desconhecido aproximar-se do pavilhão. Chegado diante do balcão real, o cavaleiro deteve a montada, pousou o coto da lança no solo, segurou-a com o joelho e, premindo a mola do elmo, tirou-o. Viu-se então um belo jovem com cerca de vinte e quatro anos, cujo rosto pálido e altivo era desconhecido para a maior parte dos presentes.

            - Saúdo o nosso primo de Lancastre, conde de Derby - disse o rei, que tinha reconhecido o primo de Ricardo da Inglaterra. - Sabe que não tinha necessidade da trégua que o nosso irmão de além-mar, que Deus conserve! nos concedeu, para ser bem-vindo à nossa corte: o nosso enviado Château-Morand tinha-nos anunciado ontem a sua chegada; é um mensageiro de boas notícias.

            - Senhor - disse o conde de Derby, inclinando-se novamente - chegou notícia à nossa ilha das maravilhosas justas e empresas que deveriam fazer-se na vossa corte, e, inglês como somos de corpo e de espírito, quisemos atravessar o mar, a fim de quebrar uma lança em honra das damas francesas; espero que o senhor duque da Touraine quererá esquecer que somos apenas primo de rei.

            O conde de Derby disse estas últimas palavras com uma amarga ironia, que provava que já nessa altura pensava em franquear a distância que o separava do trono.

            Então, saudando uma última vez o rei e a rainha, foi bater com a madeira da lança no escudo de paz do duque da Touraine. Só então reapareceram as cores que o receio banira das faces de Valentina; pois até ali temera que o ódio nacional da Inglaterra pela França pudesse ser o motivo da presença do conde de Derby naquele torneio.

            Os dois adversários antes de começarem ajusta, saudaram-se com a cortesia que devia distinguir dois tão nobres senhores; depois as trombetas soaram, ambos levantaram as lanças e correram um para o outro.

            Atingiram-se em plena adarga; mas, tendo-se os cavalos cruzado, foram ambos obrigados a largar as lanças, que tombaram na liça. O escudeiro do duque da Touraine e o do conde de Derby avançaram imediatamente para as apanhar e devolveram-nas aos amos; mas ambos fizeram um sinal ao mesmo tempo, e o escudeiro inglês foi oferecer ao duque da Touraine a lança do conde de Derby, enquanto o escudeiro francês ia apresentar ao conde de Derby a lança do duque da Touraine. Esta acção foi muito aplaudida e todos a acharam de um cavaliieiro perfeito.

            Os dois cavaleiros cruzaram-se de novo, para irem ocupar os respectivos lugares; depois, de lança em riste, voltaram a arrancar um para o outro.

            Dessa vez os cavalos serviram melhor a destreza dos cavaleiros; pois carregaram-se tão a direito que por um momento pareceu que iam chocar de cabeça. Ainda desta vez, como da primeira, os cavaleiros atingiram-se em plena armadura, com tal força que as duas lanças voaram em pedaços, ficando os adversários apenas com um coto na mão.

            Voltaram a saudar-se, o duque da Touraine voltou ao seu pavilhão e o conde de Derby saiu da liça; à porta esperava-o um pajem do rei, para lhe pedir, em nome do amo, que fosse ocupar ao lado da rainha um lugar entre os assistentes. O conde aceitou esta honra e apareceu, um pouco mais tarde, no estrado real, completamente armado, como tinha combatido, com excepção do elmo, que um pajem com a sua libré segurava atrás dele. Logo que o conde se sentou, as trombetas fizeram terceira chamada.

            Desta vez a resposta foi tão pronta que dir-se-ia um eco; apenas, foi dada por uma dessas longas trompas de guerra, cujo som, vibrante e terrível, se destinava a assustar o inimigo. Todos estremeceram e Valentina benzeu-se, murmurando:

            - Meu Deus, Senhor, tende piedade de mim!

            Todos os olhos se cravaram na porta, que se abriu para dar passagem a um cavaleiro armado para uma justa de guerra, isto é, com uma forte lança, uma dessas longas espadas que podiam ser empunhadas alternadamente com uma ou com ambas as mãos, e uma acha de armas: levava a adarga presa ao pescoço e o escudo no braço; o seu brasão, para responder ao do duque, que, como já dissemos, era um pau nodoso com estas palavras: Ofereço o desafio, era uma plaina para arrancar os nós ao pau, com esta resposta: Aceito-o.

            Todos cravaram os olhos no cavaleiro com a curiosidade que semelhante circunstância sempre despertava: mas a sua viseira estava hermeticamente fechada, nenhum brasão heráldico brilhava sobre a sua adarga; apenas o cimo ostentava um ornamento que indicava maravilhosamente o seu nascimento ou a sua dignidade: uma coroa condal de ouro puro.

            Avançou pela liça, manobrando o cavalo de guerra com essa agilidade graciosa que denunciava um cavaleiro afeito às armas. Chegado diante do balcão real, inclinou a viseira até à crina da montada, e, no meio de um silêncio que nem sequer as respirações ousavam perturbar, avançou para o pavilhão e bateu fortemente com o ferro da lança na adarga de guerra do nobre desafiador. A chamada à morte ressoou de um extremo ao outro do campo fechado; a rainha empalideceu e Valentina lançou um grito.

            Um escudeiro do duque da Touraine surgiu imediatamente à porta do pavilhão, examinou as armas ofensivas e defensivas do cavaleiro e, saudando-o cortesmente, disse:

            - Será feito como desejais, senhor.

            E retirou-se.

            O cavaleiro ganhou a extremidade da liça, onde devia esperar que o duque da Touraine estivesse pronto. Ao cabo de dez minutos, este último saiu da sua tenda, coberto pela mesma armadura que lhe servia desde o começo da manhã, mas montando outro cavalo, fresco e vigoroso: levava, como o seu adversário, uma forte lança de ferro pontiagudo, uma longa espada à cinta e uma acha de armas suspensa do arção da sela: todas as suas armas eram iguais à couraça, maravilhosamente ricas como ela, damasquinadas de ouro e de prata.

            O duque da Touraine fez um sinal com a mão para indicar que estava pronto: as trombetas soaram, os adversários firmaram as lanças, apoiando-as no riste e segurando-as com o braço: depois, picando esporas, arrancaram a toda a velocidade um para o outro, encontrando-se precisamente a meio da liça, por terem ambos posto a mesma ânsia em ir ao encontro do contrário.

            O embate foi violentíssimo; a lança do cavaleiro desconhecido atingiu o elmo do duque da Touraine, arrancando-lho e atirando-o a dez passos de distância: a lança do duque, pelo seu lado, alcançara o adversário em plena adarga, trespassando-a de um lado ao outro, chegara à couraça e, deslizando sobre a ombreira, fora ferir levemente o braço esquerdo; com a força do choque, a lança quebrara-se a um palmo do ferro e o coto ficara cravado na adarga.

            - Duque Touraine - disse o cavaleiro - colocai, peço-vos, outro elmo. enquanto eu arranco este coto de lança, que não me fere, mas me incomoda.

            - Obrigado, meu primo de Nevers - respondeu o duque, que o tinha reconhecido com aquele ódio profundo e inteligente que cada um deles nutria pelo outro. - Obrigado; dar-vos-ei todo o tempo necessário para tratar a vossa ferida, mas continuarei o combate tal como estou.

            - Será feito como desejais, senhor; mas, como um combate pode prosseguir-se tão bem com um ferro de lança cravado na adarga como com a cabeça descoberta, não necessito, para o recomeçar, de mais tempo do que o de deitar fora esta lança e empunhar a espada.

            E, juntando a acção à palavra, encontrou-se de espada na mão.

            O duque da Touraine seguiu-lhe o exemplo, e, largando as rédeas ao cavalo, cobriu a cabeça desarmada com o escudo; quanto ao conde de Nevers, deixou pender o braço esquerdo, de que não podia servir-se por ter a armadura falseada pelo coto da lança. Os escudeiros, que se tinham aproximado para socorrer os amos, retiraram-se ao verem que o combate prosseguia.

            Efectivamente, tinha recomeçado com um novo vigor; o conde de Nevers preocupava-se pouco com o incómodo que lhe causava a impossibilidade de servir-se do braço esquerdo, e, confiando na têmpera da armadura, oferecia-se, inteiramente coberto por ela, aos golpes do adversário; atacava pois sem descanso aquela cabeça descoberta, defendida apenas pelo escudo, em que cada um dos seus golpes se repercutia como a pancada de um martelo numa bigorna, enquanto o duque da Touraine, mais notável ainda pela sua habilidade e elegância do que pela sua força, girava em torno dele, procurando com a espada a abertura da armadura, atacando com a ponta o que sabia não poder atingir com o gume. Nem um murmúrio se ouvia no vasto recinto, onde ressoava o bater de ferro contra ferro; dir-se-ia que a própria respiração receava sair da boca dos espectadores e que a vida daquela multidão imóvel se concentrara toda nos olhos. No entanto, e como todos ignoravam a identidade do adversário, as simpatias gerais iam para o duque; a sua cabeça, sobre a qual o escudo lançava uma sombra, poderia servir de modelo a um estatuário para a imagem do Arcanjo São Miguel; a expressão despreocupada do seu rosto tinha desaparecido; os seus olhos lançavam chispas, os cabelos flutuavam como uma auréola, e os lábios, repuxados por uma crispação nervosa, mostravam o branco esmaltado dos dentes; de sorte que a cada golpe que abatia sem descanso a rija espada do seu adversário, um estremecimento percorria a assistência, como se cada pai receasse pelo seu filho, cada mulher pelo seu amante. Com efeito, o escudo protector cedia pouco a pouco, cada golpe arrancava-lhe um pedaço de aço, como se fosse descarregado sobre madeira; não tardou em fender-se ao meio, e o duque começou a sentir pesar-lhe no braço os golpes que até ali tinham caído sobre o escudo; por fim, um último golpe, deslizando-lhe ao longo do braço, atingiu-o na cabeça, abrindo-lhe ligeiramente a testa.

            O duque da Touraine, vendo que o escudo mutilado passara a ser para ele uma defesa inútil, que a sua espada era demasiado fraca para penetrar a armadura do adversário, obrigou o cavalo a dar um salto para trás, e, atirando para longe de si o escudo e a espada, empunhou com ambas as mãos a pesada acha de armas suspensa do arção da sela. Avançou então uma vez mais para o adversário e, antes que este pudesse adivinhar-lhe as intenções, descarregou-lhe sobre o elmo um tal golpe que as correias da viseira estalaram, e o conde de Nevers ficou com o rosto descoberto; sacudiu a cabeça e o elmo caiu; um grito enorme partiu da assistência, que o reconheceu.

            No mesmo instante, quando se erguia na sela para devolver o golpe por golpe, os bastões dos dois juízes de campo caíam entre ele e o duque, e a voz forte do rei gritou, acima de todas as outras vozes: Basta, senhores, basta!

            Porque, ao ver o sangue deslizar pela cara do duque da Touraine, Valentina desfalecera, e a rainha, apertando um braço do esposo, pálida e trémula, dissera-lhe:

            - Mandai cessar, senhor! Em nome do céu, mandai cessar!

            Os dois combatentes, embora encarniçados como estavam, cessaram imediatamente.

            O conde de Nevers deixou a espada pender da corrente; o duque da Touraine voltou a prender a acha ao cabeção da sela. Os escudeiros aproximaram-se dos seus amos: uns estancaram o sangue que escorria da ferida do duque, outros arrancaram da adarga do conde o coto da lança, cujo ferro lhe chegava até ao ombro.

            Terminada esta dupla operação, ambos se saudaram com fria cortesia, como homens que acabassem de dedicar-se a um jogo inocente. O conde de Nevers saiu da liça e o duque da Touraine voltou à sua tenda para colocar outro elmo. O rei levantou-se no seu estrado e disse em voz alta:

            - É nosso desejo, senhores, que a justa seja assim terminada e acabada.

            Consequentemente, o duque da Touraine, em vez de prosseguir no seu caminho, avançou para o balcão real a fim de receber a pulseira que era o prémio reservado ao desafiador da justa. Mas, quando chegou junto do estrado, a rainha disse-lhe graciosamente:

            - Subi até nós, senhor; pois, para dar mais valor ao nosso presente, queremos ser nós a colocar-vo-lo no braço.

            O duque desmontou agilmente, e, um instante depois, recebia, de joelhos diante da rainha, a pulseira que lhe fora prometida no cortejo; e, enquanto Valentina limpava a testa do marido, para se assegurar de que a ferida não era profunda, enquanto o rei convidava o conde de Derby a jantar no palácio, a mão do duque encontrava a da rainha Isabel, e o primeiro favor adúltero era misteriosamente dado e recebido.

 

            Terminadas todas estas festas e justas, o rei pensou na administração e governo do seu reino; no exterior tudo estava perfeitamente em paz e a França podia dormitar por um instante tranquila no meio dos seus aliados: a oriente, era o duque Galeano Visconti, que o casamento de Valentina ligava, através do duque da Touraine, à casa das flores de lis; a sul era o rei de Aragão, parente do rei da França através de sua mulher, Yolanda de Bar; a poente o duque da Bretanha, vassalo agitado e insubmisso, mas não inimigo declarado; por fim, a norte, era a Inglaterra, a mais antiga e a mais mortal inimiga da França, mas que, sentindo agitarem-se no seu seio todos os germes de uma guerra civil, acabava de deixar adormecer o seu ódio e conceder, como um favor, à sua rival, uma trégua de três anos que poderia ter pedido como uma mercê. Só as províncias reclamavam pois, naquela altura, a atenção do rei; mas reclamavam-na insistentemente. Pilhadas, arruinadas pelas administrações sucessivas dos duques de Anjou e de Berry, o Languedoc e a Guyenne, esgotadas de ouro e de sangue, estendiam para o jovem soberano as mãos descarnadas e suplicantes. Jean Lemercier e o senhor Guilherme de La Rivière, que eram os mais íntimos conselheiros do rei, exortavam-no havia algum tempo a visitar esses rincões distantes do reino. Carlos decidiu-se finalmente a fazê-lo e a partida foi marcada para o São Miguel seguinte [ 29 de Setembro de 1389]. O itinerário foi traçado por Dijon e Avinhão, e, consequentemente, o duque da Borgonha e o Papa Clemente foram avisados da próxima passagem do rei.

            No dia marcado, Carlos partiu de Paris acompanhado pelo duque Luís da Touraine, Couey e por muitos outros cavaleiros. Encontrou, em Châtillon-sur-Seine, o duque de Bourbon e o conde de Nevers, que se lhe tinham adiantado para o receberem. Chegado a Dijon, encontrou a duquesa da Borgonha, que se tinha rodeado de uma corte de damas e donzelas que sabia serem mais do agrado do rei: eram a senhora de Sully, mademoiselle de Nevers, a senhora de Vergy, e várias outras flores brotadas dos ramos das mais nobres famílias de França. Passou ali dez dias de festejos despedindo-se finalmente da tia, depois de muitos presentes e cumprimentos às damas da sua corte. Quanto ao duque, embarcou numa grande barca, desceu o Ródano e chegou a Avinhão quase ao mesmo tempo que o rei.

            Avinhão, a cidade santa, hoje triste e sombria como uma potência arruinada, mira-se eternamente no Ródano, procurando na fronte a tiara pontifícia. Era naquela altura a cortesã de Clemente VII. Um grande mestre da Ordem de Malta acabava de traçar-lhe em torno da cintura um novo cinturão de muralhas [2. Luís VIII mandara abater as primeiras]. João XXII, Bento XII, Clemente VI, Urbano V tinham-na dotado com o seu palácio pontifical, e São Bénézet com a sua ponta milagrosa. Tinha uma corte dourada de cardeais libertinos e abadessas mundanas; vivia, durante o dia numa atmosfera perfumada pelo incenso das suas cerimónias e das suas festas, e, de noite, adormecia voluptuosamente ao som dos cânticos melodiosos de Petrarca e dos murmúrios distantes da fonte de Vaucluse.

            Foi Filipe-o-Belo quem, recolhendo a coroa papal, caída da cabeça de Bonifácio VIII, com a bofetada que lhe deu Calonne, a colocou na cabeça de Clemente VI, e que, para reunir nas suas mãos e nas dos seus sucessores o poder espiritual ao poder temporal, concebeu o projecto de deserdar Roma da sua realeza católica e dotar com ela a França. Avinhão recebeu o hóspede sagrado do Vaticano, e o Ródano viu o vigário de Cristo estender da sua varanda a mão que une e desune, e os Franceses ouviram pela primeira vez pronunciar a bênção universal urbi et orbi. Um grande cisma nascera no seio da Igreja; Roma, que se assustara ao princípio recuperara a coragem e erguera altar contra altar. O mundo cristão dividira-se em dois partidos: um que reconhecia o Papa de Avinhão, outro que negando que pudesse existir um trono pontifício fora da Cidade Santa onde Pedro o tinha fundado. Os dois papas, pelo seu lado, longe de permanecerem inactivos naquela guerra civil em que tinham tão poderosos interesses, tinham-se feito chefes do duplo e grande exército cristão, e, ao excomungarem-se mutuamente, arruinavam o seu poder com o próprio poder e extinguiam imprudentemente os seus raios espirituais lançando-os um contra o outro.

            Nesta grande querela, e segundo fossem aliados ou inimigos da França, os povos tinham reconhecido o Papa de Avinhão ou o de Roma. Os únicos que na altura dobravam o joelho diante de Clemente VII eram os reis da Espanha, da Escócia e de Aragão; mas como só o faziam por consideração para com o rei da França, foi pois uma grande festa para Clemente receber o único soberano que lhe dava apoio contra as pretensões do seu rival; e, se, nos jantares e festas que oferecia, se fazia servir numa mesa à parte e primeiro do que ele, não tardou em tentar fazê-lo esquecer esta supremacia do altar sobre o trono, confiando ao rei a nomeação de setecentos e cinquenta benefícios à sua escolha em favor dos pobres clérigos do seu reino, concedendo-lhe a faculdade de nomear os bispos de Chartres e de Auxerre, e, finalmente, ordenando arcebispo de Reims o sábio Ferry Cassinel, que o rei honrava com a sua protecção, e que, um mês depois da sua nomeação, morreu envenenado pelos dominicanos.

            O rei da França, em troca destes favores, comprometeu-se a prestar-lhe ajuda e auxílio contra o anti-papa; prometeu-lhe que, ao regressar à França(1), se ocuparia activamente se preciso fosse pela via das armas, de destruir o cisma existente; por fim, ao cabo de oito dias na cidade de Avinhão, o rei despediu-se de Clemente e regressou a Villeneuve. [1. Avinhão não ficava na França: era a capital de um Estado separado, sob o título de condado].

            Uma vez ali, agradeceu aos tios, os duques de Berry e da Borgonha, a boa companhia que lhe tinham feito e, com grande espanto dos dois duques, declarou-lhes que o seu desejo era que regressassem, um a Dijon, o outro a Paris; quanto a ele, prosseguiria o seu caminho até Toulouse, acompanhado pelo duque da Touraine e pelo duque de Bourbon.

            Só então os dois tios do rei compreenderam qual fora o verdadeiro motivo daquela viagem, e que o rei, ao empreendê-la, não tivera outro objectivo senão levar a cabo um inquérito sobre o governo arbitrário que acabava de desolar o Languedoc. Deixavam com ele La Rivière e Lemercier, Montagne e Le Bègue de Villaine, que sabiam serem homens íntegros e severos, que o duque de Berry julgava seus inimigos pessoais e que, de facto, só eram inimigos das suas exacções. Por tudo isto, os dois duques partiram de Villeneuve muito preocupados.

            - Que pensa disto, meu irmão? - perguntou o duque de Berry ao duque da Borgonha, quando saíam da cidade.

            - Penso - respondeu este - que o nosso sobrinho é jovem, e que ainda terá desgostos por escutar conselhos de jovens; mas, de momento, é preciso suportá-lo. Um dia virá em que aqueles que o conduzem pelo caminho que leva se arrependerão, e o rei também. Quanto a nós, meu irmão, voltemos aos nossos ducados: enquanto estivermos juntos, ninguém poderá fazer-nos mal; porque, depois do rei, somos os maiores do reino da França.

            No dia seguinte, o rei passou em Nímes, e, sem deter-se na velha cidade romana, foi pernoitar em Lunel; no dia a seguir a este deteve-se para jantar em Montpellier, e foi aí que começou a ouvir os gemidos e as queixas: diziam-lhe que, quanto mais prosseguisse, mais arruinada encontraria a região; e que os seus dois tios, os duques de Anjou e de Berry, que sucessivamente acabavam de administrá-la, a tinham deixado tão pobre que os mais ricos e poderosos não tinham com que mandar sachar as vinhas ou trabalhar as terras.

            - Será um grande dó para vós, senhor - diziam-lhe - ver os vossos súbditos despojados de todos os seus bens, tendo de pagar sempre mais e mais impostos por ano, sempre esmagados por um novo antes de conseguirem liquidar o antigo, pois os senhores vossos tios levantaram arbitrariamente, entre o Ródano e a Gironda, mais de trinta mil libras.

            O duque de Anjou, pelo menos, só perseguia os ricos e os poderosos; mas o duque de Berry, que lhe tinha sucedido, não poupava ricos nem pobres; tudo ceifara à sua frente. Acrescentava-se que todas as exacções tinham sido feitas pelas mãos do seu tesoureiro, que era da cidade de Béziers, e a quem chamavam Bétisac, e que este Bétisac, ceifando onde o amo já tinha recolhido, não deixava sequer ao povo o que o fazendeiro deixa às aves do céu: a espiga que cai da carroça da ceifa.

            A estas palavras, o rei respondia que, se Deus lhe prestasse socorro, todas essas coisas cessariam e que não teria mais considerações com os duques, seus tios, do que se não fossem irmãos de seu pai; e que, quanto aos seus maus conselheiros e agentes, ordenaria que se levantassem inquéritos imparciais e severos. Foi no meio deste concerto de maldições que o rei entrou na cidade de Béziers, onde se encontrava Bétisac; mas Carlos ordenou o maior segredo sobre as queixas que lhe tinham sido feitas e dedicou ostensivamente aos festejos os três ou quatro primeiros dias da sua permanência, enquanto secretamente ordenava aos seus investigadores que procedessem a um inquérito. Ora, ao fim de quatro dias, esses investigadores comunicaram-lhe que se erguiam contra o tesoureiro de seu tio tais acusações que não era possível perdoá-las, pois mereciam a pena capital.

            O conselho do rei reuniu-se e Bétisac foi preso em sua casa, sendo imediatamente levado à presença dos juízes.

            Estes mostraram-lhe, sobre uma mesa, uma imensidade de papéis e de provas que evidenciavam as suas exacções, e disseram-lhe:

            - Bétisac, veja e responda. Que tem a dizer contra estas fraudes?

            A estas palavras, um escrivão pegou nelas e leu-as uma a uma; mas, para cada uma delas, Bétisac tinha respostas preparadas; umas, as que tinham a sua assinatura, estava disposto a reconhecê-las, mas acrescentava que agira segundo ordens do duque de Berry e que bastaria aos juízes interrogarem o seu amo para o confirmar; quanto às outras, negava-as, dizendo:

            - Não tenho conhecimento disso; falem com os senescais de Beaucaire e de Carcassona, ou com o chanceler de Berry.

            Os investigadores ficaram embaraçados; mas, enquanto esperavam por novas provas, mandaram Bétisac para a prisão. Logo que o tesoureiro foi encarcerado, os investigadores dirigiram-se ao seu palácio, apoderaram-se de todos os seus papéis, levaram-nos e estudaram-nos minuciosamente.

            Descobriram assim que aquele homem tinha cometido tais exacções e levantado tais somas que os que sabiam ler duvidavam do que liam; mandaram chamar Bétisac, que reconheceu a exactidão de todas as contas, dizendo que todas as somas estavam correctas; mas acrescentou que todo aquele dinheiro apenas passara pelas suas mãos antes de ser entregue ao senhor duque de Berry, e que, num lugar que indicou, poderiam encontrar recibos de todas elas; com efeito, esses recibos foram apresentados ao conselho e comparados às receitas, descobrindo-se que estavam pouco mais ou menos exactos. Correspondiam a uma soma de três milhões.

            Os investigadores ficaram estupefactos ante tais provas da cupidez do duque de Berry.

            Perguntaram a Bétisac o que teria o amo podido fazer com tais somas.

            - Não saberia dizê-lo, senhores - respondeu. - Uma grande parte foi, creio, gasta na compra de castelos, palácios, terras e pedrarias aos senhores condes de Bolonha e de Etampes; as suas casas, como bem sabem, estão esplendidamente decoradas. E deu tanto a Thibaut e Morinot, seus criados, que hoje são homens ricos.

            - E Bétisac - disse-lhe La Rivière - não recebeu cem mil francos de toda esta pilhagem?

            - Senhor - respondeu o tesoureiro - o duque de Berry recebia o seu poder do rei, eu recebia o meu do duque; portanto, fiz o que fiz autorizado de facto pelo rei, uma vez que era o executante do seu governador.

            Logo, todos os impostos que lancei foram legítimos. Quanto ao que me ficou nas mãos, tudo me foi dado pelo duque de Berry, que deseja que os que o servem sejam ricos; a minha riqueza é pois boa e razoável, uma vez que veio dele.

            - Isso é loucura - replicou-lhe Jean Lemercier. - Não pode ser boa e razoável uma riqueza mal adquirida. Volte à prisão, enquanto pesamos o que acaba de dizer-nos. Comunicaremos todas as suas defesas ao rei e far-se-á segundo a sua vontade.

            - Queira Deus aconselhá-lo - disse Bétisac.

            E, tendo saudado os seus juizes, foi reconduzido à prisão.

            Entretanto, tinha corrido pela região a notícia de que Bétisac estava preso e ia ser julgado por ordem do rei, pelo que todo o povo dos campos afluiu à cidade; os infelizes que ele tinha despojado entravam à força no palácio do rei e pediam justiça; quando ele saía, lançavam-se de joelhos à sua passagem e apresentavam-lhe queixas e súplicas. Uns eram filhos que ele tornara órfãos; outros eram mulheres que ele fizera viúvas: outros, finalmente, eram donzelas que ele fizera mães; onde a persuasão falhara, recorrera à força. Tudo exaurira, aquele homem, os tesouros, as veias, a honra. O rei bem via que o sangue do pobre povo gemia e gritava bem alto, reclamando vingança contra o prevaricador, e ordenou que o conselho ditasse a sentença contra ele.

            No entanto, no momento em que o conselho reunia, entraram dois cavaleiros: eram Nantouillet e Mespin.

            Vinham, em nome do duque de Berry, confessar tudo o que Bétisac fizera e pedir ao rei e ao seu conselho que lhes entregassem o preso e que voltassem, se tal desejassem, o inquérito contra o duque.

            O conselho encontrou-se então numa situação extremamente embaraçosa. O duque de Berry podia, de um momento para o outro, retomar sobre o rei o ascendente que tinha perdido: e, prevendo esta possibilidade, ninguém queria inimizar-se com ele. Por outro lado, os crimes e opressões de Bétisac eram tão patentes e visíveis que seria irar Deus deixá-lo sair intacto da sua prisão. Foi proposta a expropriação de todos os seus bens, que seriam vendidos e o dinheiro distribuído pelo povo; desta maneira, encontrar-se-ia pobre e nu, tal como o duque de Berry o tinha contratado; mas o rei não queria meia justiça: disse que só aqueles que ele tinha arruinado se contentariam com esta restituição; mas que, às famílias onde semeara a morte e a desonra, seriam necessárias a sua morte e a sua infâmia.

            No meio de tudo isto, um velhote apresentou-se diante do conselho: soubera do que se passava e ia oferecer ao rei e aos investigadores um meio de levar Bétisac a confessar um crime que o duque de Berry não pudesse tomar à sua conta. Perguntaram-lhe o que seria preciso fazer para o conseguir.

            - Meterem-me na mesma prisão que Bétisac - respondeu.

            Não quis dar mais explicações, declarando que o caso corria por sua conta e que o levaria a bom termo.

            Decidiu-se fazer como ele desejava; os guardas conduziram-no publicamente à prisão, o carcereiro recebeu instruções, levou o recém-chegado para a cela do tesoureiro e fechou a porta atrás dele.

            O velho pareceu ignorar completamente que a masmorra estivesse habitada; estendeu os braços à sua frente, como se não visse bem; depois, ao chegar ao extremo da cela, sentou-se encostado à parede e, dobrando os joelhos, apoiou neles os cotovelos e deixou cair a cabeça entre as mãos.

            Bétisac, cujos olhos, após uma permanência de oito dias, se tinham habituado à escuridão da cela, observava aquele novo hóspede com toda a curiosidade, normal de um homem em semelhante situação. Fez um movimento para atrair a atenção do outro; mas o vaDio permaneceu imóvel e como que mergulhado em profunda meditação; Bétisac optou então por dirigir-lhe a palavra, perguntando-lhe se vinha de fora.

            O velho ergueu os olhos e viu num canto o que o interrogava; estava de joelhos, como se orasse. Aquele homem ousava rezar. O velho estremeceu ao ver tão perto de si o homem que jurara perder. Bétisac repetiu a sua pergunta.

            - Sim - respondeu o velho, com uma voz cava.

            - E de que se falava na cidade? - continuou Bétisac a perguntar, afectando indiferença.

            - De um certo Bétisac - respondeu o velho.

            - E que se dizia? - insistiu timidamente aquele que tanto interesse tinha na pergunta que fazia.

            - Dizia-se que lhe seria finalmente feita justiça e que o enforcariam.

            - Meu Senhor Jesus! - exclamou Bétisac, erguendo-se.

            O velho voltou a esconder a cabeça entre as mãos; o silêncio da cela só era perturbado pela respiração agitada do homem que acabava de saber a notícia da sua morte.

            Bétisac ficou imóvel por um momento; mas as pernas falharam-lhe, encostou-se à parede e limpou o suor da testa com uma mão. Então, após um instante de silêncio, continuou, com voz rouca e sem mudar de atitude:

            - Santa Maria, não haverá a mínima esperança para ele?

            O velho permaneceu silencioso e imóvel, como se não tivesse ouvido a pergunta.

            - Pergunto-lhe se não há a mínima esperança? - disse Bétisac, avançando para ele e sacudindo-o nervosamente por um braço.

            - Sim - respondeu tranquilamente o velho. - Há uma: que a corda se parta.

            - Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! - exclamou Bétisac, torcendo as mãos. - Que fazer? Quem me dará um conselho?

            - Ah! - disse o velho, observando-o com um ar sombrio, como se não quisesse perder uma expressão que fosse do seu desespero. - É então o homem que todo o povo amaldiçoa? Devem na verdade ser difíceis de suportar as últimas horas de uma tal vida.

            - Oh! - gritou Bétisac. - Levem-me tudo; móveis, dinheiro, casas! Que as dêem a esse povo que grita e que me deixem a vida, tenha eu de passá-la numa masmorra, amarrado de pés e mãos, sem voltar a ver a luz do dia! Mas a vida, a vida! Oh, quero viver!

            O infeliz agitava-se como um condenado; o velho olhava-o fixamente; depois, quando o viu ofegante e exausto, disse-lhe:

            - E A quem lhe proporcionasse um meio de sair da situação?

            Bétisac pôs-se de joelhos; olhava para o velho como se quisesse ler-lhe no fundo do coração.

            - Que diz?

            - Digo que me faz pena, e que, se quiser seguir o meu conselho, tudo correrá bem.

            - Oh, diga! Sou rico! Toda a minha fortuna... O velho pôs-se a rir.

            - Isso, esperas resgatar a vida com o que te levou a perdê-la, não é verdade? Julgar-te-ias então desobrigado ante os homens e ante Deus.

            - Não, não, serei sempre um grande culpado, eu sei, e arrependo-me com toda a amargura da minha alma... Mas disse que havia um meio... Qual é?

            - Se estivesse no seu lugar, e Deus me guarde de tal! - Eis o que faria...

            Bétisac devorava as palavras à medida que elas saíam da boca do velho; este continuou:

            - Quando reaparecesse ante o conselho do rei, continuaria a negar...

            - Sim, sim - disse Bétisac.

            - Mas diria que, sentindo-me arrependido por outro crime, desejava confessá-lo e garantir a salvação da minha alma; diria ter por muito tempo pecado contra a fé, confessaria ser maniqueu e herético.

            - Mas isso não é verdade - interrompeu-o Bétisac. - Sou bom cristão, acredito em Jesus e na Virgem Maria.

            O velho continuou, como se Bétisac não tivesse falado:

            - Diria pois que sou maniqueu e herético, e que persisto na minha opinião; nessa altura o bispo de Béziers reclamar-me-ia, porque então passaria a pertencer à justiça eclesiástica; enviar-me-ia ao papa de Avinhão, e como o santo padre Clemente é grande amigo do duque de Berry...

            - Compreendo - exclamou Bétisac, interrompendo-o. - Sim, o duque de Berry não consentiria que me fosse feito qualquer mal. Ah, é o meu salvador!

            E quis lançar-se nos braços do velho, mas este repeliu-o. Naquele momento, a porta abriu-se; chamavam Bétisac à presença do conselho.

            O tesoureiro pensou que chegara o momento de utilizar a astúcia que lhe fora sugerida, e, pondo um joelho em terra, pediu para falar; a palavra foi-lhe imediatamente concedida.

            - Grandes senhores - disse - examinei a fundo os meus actos e a minha consciência e receio ter grandemente irado Deus, não por ter pilhado ou roubado o dinheiro do pobre povo, porque, graças a Deus, é patente a todos que só agi por ordens do meu amo, mas por ter errado contra a fé.

            Os juízes entreolharam-se, assombrados.

            - Sim, - continuou Bétisac - sim, senhores; porque o meu espírito recusa-se a aceitar que exista a Trindade, que alguma vez o Filho de Deus tenha descido do céu para vir encarnar-se numa mulher; e, da minha alma, penso que nada ficará quando morrer.

            Um murmúrio de assombro percorreu a assembleia. Então Lemercier, que no entanto era o pior inimigo daquele homem, levantou-se e disse:

            - Bétisac, pense no que acaba de dizer; são palavras que ferem profundamente a santa Igreja, nossa mãe, e que exigem o fogo. Pense bem.

            - Não sei - replicou Bétisac - o que as minhas palavras exigem, o fogo ou a água; mas esta opinião é a minha desde que uso da razão, e continuará a sê-lo até que a perca.

            Os juízes fizeram então o sinal da cruz, e, temendo, pela sua própria salvação, ouvir mais, ordenaram que Bétisac fosse reconduzido à prisão. Ao entrar na cela, o tesoureiro procurou o velho para lhe contar o que se tinha passado; mas o velho já ali não estava.

            O que se passou na alma daquele homem, dali até ao dia seguinte, só Deus o sabe. Quando amanheceu, no entanto, poderia ter negado ser o mesmo homem da véspera. Deus convertera as suas horas em anos; numa noite, os seus cabelos tinham-se tornado brancos.

            O rei, ao saber das palavras de Bétisac, ficou maravilhado com tais confissões.

            - Ah! - exclamou - é um mau homem. Julgávamo-lo apenas ladrão e eis que nos aparece herético; pensávamos que merecia apenas a corda, e eis que nos reclama também o fogo. Pois bem, seja; será enforcado e queimado; e agora que venha o meu tio de Berry tomar sobre si os seus crimes, e veremos se este lhe convém.

            A notícia da confissão feita por Bétisac não tardou em espalhar-se pela cidade; viu-se então, em todas as ruas, uma multidão transbordante de contentamento, pois o tesoureiro era extremamente odiado e execrado; mas os mais espantados pela notícia foram os dois cavaleiros que tinham ido reclamá-lo em nome do duque de Berry. Compreenderam que estava perdido e adivinharam que só poderia ter feito semelhante confissão por conselho de um inimigo; mas, fosse como fosse, a confissão estava feita e o rei tinha pronunciado a sua sentença; só lhes restava pois uma esperança, a de o convencerem a negar, no dia seguinte, o seu depoimento da véspera.

            Em consequência, correram à prisão, para vê-lo e acordar com ele a defesa; mas o carcereiro respondeu-lhes que lhe fora proibido pelo rei, a ele e aos quatro sargentos de armas enviados para esse efeito, consentir que fosse quem fosse falasse com Bétisac. Os cavaleiros entreolharam-se, furiosos, e, de regresso ao hotel, montaram a cavalo e voltaram para junto do duque de Berry, que os tinha enviado.

            No dia seguinte, cerca das dez horas da manhã, Bétisac foi tirado da prisão. Quando viu que o levavam, não à presença do conselho do rei, e sim ao palácio do bispo, começou a retomar coragem. Encontrou ali reunidos os investigadores do rei e os oficiais da santa Igreja; o que lhe provou uma vez mais que havia conflito entre a justiça temporal e a justiça eclesiástica; pouco depois o bailio de Béziers, que o mantivera na prisão, dizia à gente do bispo:

            - Senhores, eis Bétisac, que entregamos como herético e pregador contra a fé; se o seu crime fosse da alçada do poder real, justiça lhe teria sido feita; mas este homem pertence, pela sua heresia, à justiça eclesiástica: façam dele o que os seus actos exigem.

            Bétisac julgou-se salvo.

            O oficial do bispo perguntou-lhe então se era na verdade tão grande pecador como se dizia; Bétisac, vendo que o assunto tomava o rumo que lhe tinham indicado como mais favorável, respondeu que sim. Os oficiais mandaram então entrar o povo e disseram a Bétisac que repetisse diante dele a sua confissão, o que ele fez por três vezes, de tal modo o velho o tinha encantado, e por três vezes o povo o acolheu com um rugido semelhante ao do leão ao cheiro de sangue.

            O oficial fez um sinal e Bétisac foi devolvido às mãos dos sargentos de armas, que o fizeram sair no meio deles: o povo desceu em volta e atrás dele os degraus do palácio episcopal, envolvendo-o e apertando-o, como se temesse que a presa se lhe escapasse. Quanto a Bétisac, pensava que o levavam para fora da cidade para o conduzirem a Avinhão.

            Ao fundo da escada, encontrou o velho sentado num marco de pedra; o seu rosto tinha uma expressão de alegria que Bétisac interpretou mal; fez-lhe um sinal com a cabeça.

            - Sim, sim, vai tudo bem, não é verdade? - perguntou-lhe o velho.

            E pôs-se a rir; depois trepou para cima do marco e, dominando a multidão, gritou a Bétisac:

            - Bétisac, não esqueças a quem deves o conselho que te leva; é a mim.

            Então desceu do marco e meteu tão rapidamente quanto lho permitia a velhice por uma rua transversal que ia desembocar no palácio.

            Bétisac, pelo seu lado, era conduzido pela rua principal, sempre rodeado pela multidão, que, de vez em quando, lançava um desses grandes rugidos que bem conhecemos, por os termos ouvido tanta vez. O culpado interpretava aqueles gritos como expressão da cólera do povo, que via a presa escapar-se-lhe, e espantava-se por o deixarem tão facilmente sair dos muros de Béziers, quando, ao chegar à praça do palácio, dela se elevou um grande grito que foi repetido pelos que o acompanhavam. O cortejo abriu-se, precipitando-se para o centro; porque ali tinha sido erguida uma fogueira, do meio da qual se elevava uma forca, estendendo para a rua o seu braço descarnado, de cujo extremo pendia uma corrente com uma coleira de ferro. Bétisac encontrou-se sozinho no meio dos seus quatro guardas, pois todos os outros tinham procurado os melhores lugares possíveis em torno do cadafalso.

            Nesse momento, a terrível verdade surgiu aos olhos daquele homem; tinha a forma da morte.

            - Ah! Duque de Berry! - gritou. - Fui enganado! Socorrei-me! Socorrei-me!

            A multidão respondeu com gritos e maldições contra o duque de Berry e o seu tesoureiro. Então, como o culpado se recusava a avançar, os quatro sargentos agarraram-no pelos braços e arrastaram-no; Bétisac debatia-se e gritava que não era herético, que acreditava em Cristo feito homem e na Virgem Maria. Jurava por Deus a verdade das suas palavras, mas, sempre que falava, uma gargalhada enorme abafava-lhe a voz. Pedia socorro ao duque de Berry, e, de cada vez, os gritos de À morte! À morte! respondiam aos seus pedidos.

            Finalmente, os sargentos deixaram-no junto da fogueira, contra um dos postes que sustinham os toros; o velho estava apoiado ao monte de lenha.

            - Ah, maldito! - gritou Bétisac ao vê-lo. - Foste tu quem me trouxe a isto! Senhores, senhores, não sou culpado e aqui está o homem que me lançou um sortilégio! A mim, senhores, a mim!

            O velho pôs-se a rir.

            - Tens boa memória - disse-lhe - e não esqueceste o amigo que te deu tão bom conselho. Um último, Bétisac: pensa na tua alma.

            - Sim, meus senhores - disse Bétisac, tentando assim ganhar tempo. - Sim, um padre, um padre!

            - E para quê - gritou o velho - se não tens alma a salvar e o teu corpo está perdido?

            - À morte, à morte! - urrava o povo. O carrasco aproximou-se.

            - Bétisac - disse - foi ordenada a sua morte; as suas más acções trouxeram-no a este mau fim.

            Bétisac estava imóvel, com os olhos estupidificados, os cabelos eriçados. O carrasco pegou-lhe pela mão e ele deixou-se conduzir como uma criança. Ao chegar junto da fogueira, o carrasco ergueu-o nos braços e os seus ajudantes, abrindo a coleira, passaram-na em torno do pescoço do condenado. Bétisac ficou suspenso, sem ser estrangulado; no mesmo instante, o velho precipitou-se para o archote resinoso que ardia no suporte de ferro fundido e pegou fogo à lenha; o carrasco e os seus ajudantes saltaram para baixo.

            As chamas devolveram toda a energia ao infeliz que iam devorar. Então, sem um grito, sem voltar a pedir misericórdia, Bétisac agarrou-se com ambas as mãos à corrente de que estava suspenso, e, subindo à força de pulso pelos elos, chegou à trave da forca, que abraçou com as mãos e com os joelhos, afastando-se da fogueira o mais que podia. Manteve-se assim fora do alcance do fogo enquanto as chamas devoravam a parte inferior da fogueira, mas em breve estas propagavam-se às partes superiores, e como um ser animado e inteligente, como uma serpente que se ergue, estendiam as cabeças para Bétisac, cuspindo para ele fumo e fagulhas, até que começaram a lambê-lo com as suas línguas ardentes.

            O infeliz lançou um grito ao sentir esta carícia mortal; as suas roupas acabavam de pegar fogo.

            Fez-se então um silêncio solene, para que nada se perdesse daquela luta entre a criatura e o elemento, entre a vida e a morte; ouviam-se os gemidos lamentosos de um, os rugidos de alegria do outro. O homem e o fogo, isto é, a vítima e o carrasco, pareciam enlaçar-se, contorcer-se e agitar-se; mas ao cabo de um instante, o homem deu-se por vencido, os seus joelhos enfraquecidos abandonaram o suporte, as suas mãos não puderam continuar a agarrar-se à cadeia incandescente, lançou um longo e lamentoso grito, e, deixando-se cair, encontrou-se de novo suspenso entre as chamas durante alguns instantes mais. Aquele ser disforme, que fora uma figura humana, agitou-se convulsivamente no meio do fogo, ficou rígido, depois imobilizou-se. Um instante depois, a corrente desprendeu-se da forca, pois a madeira estava já calcinada, e então, como se fosse arrastado para o inferno, o cadáver caiu e desapareceu no meio das chamas.

            Nesse mesmo instante, toda a multidão debandou muda e silenciosa; junto da fogueira ficou apenas o velho, de modo que cada um perguntava a si mesmo se não seria o próprio Satanás, que fora ali reclamar uma alma condenada.

            Aquele velho era um homem cuja filha Bétisac violara.

 

            Agora, se os nossos leitores, para melhor abarcarem nos pormenores o conjunto de acontecimentos que nos comprometemos a fazer desfilar sob os seus olhos, quiserem seguir-nos para fora dos muros de Béziers, se consentirem em abandonar as ricas planícies do Languedoc e da Provença, as cidades de nomes sonoros, onde se fala uma língua filha de Roma e de Atenas, os campos de oliveiras de folhagem acinzentada por onde correm rios orlados de loureiros, as margens banhadas pelas ondas ainda tépidas do sol do Bósforo, trocando tudo isto pelas planícies montanhosas da Bretanha, pelas suas florestas de carvalhos seculares, pela sua língua primitiva e pelo seu oceano de águas verdes e profundas, vamos conduzi-los até poucas léguas da cidade de Vannes, e introduzi-los num desses castelos fortes, residência prudente de um dos grandes vassalos sempre prontos a transformarem-se em grandes rebeldes. Lá dentro, ao entreabrir a porta esculpida de uma sala baixa que serve de sala de jantar, veremos dois homens sentados a uma mesa, tendo no meio de ambos um jarro de prata cinzelada cheio de vinho aromatizado, com o qual um deles trava frequentes e amistosas relações, enquanto o outro, sóbrio como se estivesse a seguir um regime higiénico, recusa todas as ofertas que lhe são feitas, cobrindo o copo com a mão de cada vez que o companheiro, não podendo obrigá-lo a provar a bebida ainda virgem que lhe enche a taça até meio, tenta ao menos aumentar-lhe o volume.

            Dos dois, o que indicámos como menos partidário da temperança é um homem de cinquenta a sessenta anos, envelhecido sob o peso da armadura de guerra de que, apesar da hora, está quase completamente revestido; a sua testa, sobre a qual se dividem Os cabelos grisalhos, é morena e mais enrugada pelo eterno peso do elmo do que pelo dos anos; nos intervalos de repouso que lhe deixa a ocupação a que o vimos entregar-se, apoia os cotovelos no tampo da mesa; então repousa o queixo nas mãos poderosas, e a boca, coberta por um espesso bigode, que repuxa habilmente com o lábio inferior, fica à altura do jarro, no qual os seus olhos se afundam de quando em quando, como que para seguir na sua retirada a bebida que foge ante os seus reiterados ataques.

            O outro é um belo jovem vestido de seda e veludo, indolentemente estendido num grande cadeirão ducal, em cujo espaldar recosta a cabeça, e que só abandona esta atitude para cobrir, como já vimos, o copo com a mão, sempre que o velho guerreiro o ameaça com um aumento do nível da bebida que cada um deles parece apreciar de um modo tão diferente.

            - Por Deus! Meu primo de Craon - exclamou o velho, pousando uma vez mais o jarro sobre a mesa - deve dizer-se que, apesar de ser, como é, descendente do rei Roberto, pelas mulheres, aceitou de modo muito filosófico a afronta que lhe fez o duque da Touraine.

            - Eh, senhor da Bretanha - replicou Pedro de Craon, sem mudar de atitude - que queria que fizesse contra o irmão do rei?

            - Contra o irmão do rei, seja; se bem que, ao fim e ao cabo, isso para mim não tivesse servido de consideração; o irmão do rei é apenas duque e fidalgo como eu, e, se me fizesse a mim o que lhe fez... Mas comigo isso não aconteceria; não falemos portanto mais dele. Mas, como sabe, há um homem que tramou todo este caso.

            - Bem o creio - respondeu fleumàticamente o cavaleiro.

            - E esse homem - continuou o duque, que voltou a encher o copo e o levou a meio caminho da boca - esse homem...

            tão certo como este hipocraz, que de resto não parece agradar-lhe, ser feito com o melhor vinho que se vende em Dijon, o melhor mel que se recollie na Narbona e os mais finos aromas que se colhem nas terras da Ásia - e o duque despejou o copo - esse homem, dizia eu, não é outro senão o infame Clisson.

            E bateu na mesa com o punho e com o fundo do copo ao mesmo tempo.

            - Sou da sua opinião, senhor - respondeu com a mesma tranquilidade Pedro de Craon, que parecia decidido a redobrar de frieza à medida que o duque redobrava de exaltação.

            - E saiu de Paris com tal certeza no coração sem ter tentado vingar-se?

            - A ideia assaltou-me por um instante; mas uma reflexão deteve-me.

            - E qual foi, se pode saber-se? - perguntou o duque, reclinando-se por sua vez no cadeirão.

            - Qual? - repetiu Pedro.

            E, apoiando por sua vez os cotovelos na mesa, e o queixo nas mãos, olhou fixamente para o duque e continuou:

            - Vai saber qual, senhor. Disse para comigo mesmo: Esse homem que acaba de insultar-te, a ti, simples cavaleiro, certo dia insultou bem mais ultrajosamente ainda um dos maiores senhores da França, um duque, e um duque tão rico e poderoso que poderia fazer guerra a um rei! Esse duque tinha dado o castelo de Graves ao famoso Jean Chandos, e, quando anunciou a Clisson essa doação, que tinha certamente o direito de fazer, o condestável disse-lhe à laia de cumprimento:

            O Diabo, senhor, se terei um inglês por vizinho! Nessa mesma noite, o castelo de Graves era tomado e no dia seguinte estava arrasado. Já não recordo a quem fez o condestável esta afronta, mas sei que foi a um duque. À sua saúde, senhor.

            Pedro de Craon pegou no copo, despejou-o de um trago e voltou a pousá-lo na mesa.

            - Pela alma de meu pai! - exclamou o duque, empalidecendo. - Disse isso para me fazer mal, meu primo, pois bem sabe que foi a mim que a coisa aconteceu: mas sabe também que, seis meses mais tarde, esse homem estava prisioneiro neste mesmo castelo onde nos encontramos.

            - de onde saiu são e salvo.

            - Sim, pagando-me cem mil libras e abandonando-me uma cidade e três castelos.

            - Mas conservando a sua maldita vida - replicou Craon, erguendo a voz. - A vida que o poderoso duque da Bretanha não ousou tirar-lhe, por receio de incorrer no ódio do seu soberano. Cem mil libras, uma cidade e três castelos! Oh, que bela vingança a tirar de um homem que possui um milhão e setecentas mil libras de prata, dez cidades e vinte fortalezas. Não, não, meu primo, falemos francamente: tinha esse homem aqui, desarmado, acorrentado, na mais sombria das suas masmorras; tinha por ele um ódio mortal, mas não ousou dar-lhe a morte!

            - Tinha-o ordenado a Bavalan, mas Bavalan não o fez.

            - E teve razão, senhor; porque, quando o rei reclamasse o assassino do condestável, talvez quem lhe dera a ordem não tivesse ousado desafiar a cólera real, talvez o servidor fiel, que no entanto teria sido apenas a espada, tivesse sido abandonado pelo braço que o levara a ferir, e quanto mais fino for o aço de uma espada, mais facilmente se parte.

            - Meu primo - disse o duque, erguendo-se - suspeita da minha honra, creio; dei a Bavalan a minha palavra de como o protegeria, e tê-la-ia cumprido, por Deus! Fosse contra o rei da França, contra o imperador da Alemanha ou contra o papa de Roma! Só uma coisa lamento - continuou, voltando a sentar-se com uma expressão sombria, com o peito cheio de ódio. - É que Bavalan tenha desobedecido e que ninguém se preste a fazer o que ele não fez.

            - E se alguém se propusesse fazê-lo, poderia estar seguro, no caso de ser bem sucedido, de encontrar junto do duque da Bretanha um asilo seguro e um apoio firme?

            - Um asilo tão seguro como é o santuário de uma igreja - disse o duque, com voz solene - um apoio tão firme quanto possa dá-lo este braço; e isto, juro-o pela tumba de meus pais, pelo brasão das minhas armas, pela cruz da minha espada. Venha um homem, e é coisa oferecida.

            - E coisa aceite, senhor - exclamou Craon, levantando-se e apertando a mão do velho duque com uma força de que este nunca o teria julgado capaz.

            - Porque não mo disse mais cedo? A obra já estaria feita.

            O duque olhou para Craon com assombro.

            - Quer dizer - continuou este último, cruzando os braços - que pensou que a injúria deslizou sobre o meu peito como uma lança sobre o aço de uma couraça? Não, não! Entrou-me bem dentro e mordeu-me o coração. Pareci-lhe alegre e despreocupado, é verdade; mas, no entanto, disse-me algumas vezes que me via pálido. Pois bem! era esse cancro que me roía e me roerá o peito com os dentes desse homem, enquanto esse homem viver. Agora recuperarei as cores da alegria e da saúde; a partir de hoje, entro em convalescença, e dentro de alguns dias, espero, estarei completamente curado.

            - Como?

            Craon voltou a sentar-se.

            - Escute, senhor, pois só esperava essas palavras para lhe contar tudo. Tenho em Paris, perto do cemitério de Saint-Jean, um grande palácio que está apenas guardado por um porteiro, hoYnem, em quem tenho confiança absoluta. Escrevi-lhe, há mais de três meses, ordenando-lhe que fizesse no palácio grande provisão de vinhos, de farinhas e de carnes salgadas, que comprasse armaduras, cotas de malha, manoplas e capacetes de aço, o suficiente para armar quarenta homens; e esses quarenta homens encarreguei-me eu próprio de os recrutar e de os escolher, senhor: são homens duros, que não temem Deus nem o diabo, e que estariam prontos a descer às profundezas do inferno, desde que eu os comandasse.

            Mas - objectou o duque - seria notado se entrasse em Paris com essa tropa.

            Por isso não o farei. Há já dois meses que, à medida que os recruto, os vou enviando para a capital, em pequenos grupos de três ou de quatro; uma vez chegados ao palácio, têm ordens para não sair, e o porteiro tem ordens para nada lhes recusar: são uma espécie de monges que ganham o inferno. Compreende agora, senhor? Esse infame condestável passa quase todas as noites no palácio do rei, de onde só sai cerca da meia-noite; e, para dirigir-se ao seu palácio de Clisson. situado na grande rua de Bretanha, passa por trás do bastião do rei Filipe-Augusto, nas ruas desertas de Sainte-Catherine e das Poulies, diante do cemitério de Saint-Jean, onde fica o meu palácio.

            - Por minha fé, primo - exclamou o duque -, a coisa está bem começada.

            - E acabará bem, senhor, a menos que Deus se meta, pois tudo isto é obra do diabo.

            - E quanto tempo ficará ainda junto de nós, onde é de resto bem recebido.

            - O tempo de mandar selar o meu cavalo, senhor: tenho aqui uma carta do meu porteiro, trazida esta manhã por um dos criados, a anunciar-me que os meus últimos homens chegaram e que a companhia está completa.

            Ao dizer estas palavras, Pedro de Craon chamou o seu escudeiro e ordenou-lhe que preparasse o cavalo.

            - Não passará então esta noite no castelo de Hermine, meu primo? - perguntou o duque, ao ver estes preparativos.

            - Fico-lhe reconhecido, senhor; mas, agora que sei que tudo está pronto, e que só falta a minha presença, como quer que tarde uma hora, um minuto, um segundo? Como quer que repouse num leito, ou que me sente a uma mesa? É preciso que parta, senhor, e pelo caminho mais rápido e mais curto; tenho necessidade de ar, de espaço e de movimento.

            Adeus, senhor, tenho a sua palavra.

            - Que lhe renovo.

            - Pedir-lhe segunda seria duvidar da primeira: obrigado.

            Dizendo isto, Pedro de Craon cingiu o cinturão com a espada, puxou acima dos joelhos as botas de couro cinzento debruadas de pelúcia vermelha, e, despedindo-se uma vez mais do duque, montou agilmente a cavalo.

            Cavalgou tanto e tão bem que, perto do fim da tarde do sétimo dia, avistava Paris. Esperou que a noite tivesse caído completamente para entrar na cidade, e chegou ao seu palácio sem ser mais notado do que os homens que tinha enviado; mal desceu do cavalo, chamou o criado que guardava a porta, e ordenou-lhe, sob pena de ficar sem cabeça, que não deixasse entrar fosse quem fosse na sala onde se encontrava. O criado foi transmitir a mesma ordem ao porteiro, que guardava o palácio, e depois fechou num quarto a mulher, os filhos e a camareira.

            "E teve razão - diz ingenuamente Froissart - tanto mais que, se mulher e crianças saíssem para a rua, a chegada de Pedro de Craon não tardaria em ser conhecida; porque mulher e crianças, por natureza, calam com dificuldade o que vêem e se pretende manter secreto."

            Tomadas estas precauções, de Craon escolheu os mais inteligentes dos seus homens e deu-os a conhecer ao porteiro, para que pudessem entrar e sair livremente. Estes homens foram encarregados de espiar todos os movimentos do condestável e segui-lo passo a passo, para que o seu inimigo estivesse informado de tudo o que ele fizesse. Assim, todas as tardes, Pedro de Craon sabia onde o condestável passara o dia e onde deveria dirigir-se à noite: no entanto, as coisas permaneceram neste ponto, sem que uma ocasião certa se oferecesse à sua vingança, de 14 de Maio até 18 de Junho, dia da Festa de Deus.

            Nesse dia, o rei da França ofereceu uma grande festa no seu palácio de Saint-Paul, e todos os barões e senhores que se encontravam em Paris foram convidados para um jantar a que assistiam a rainha e a duquesa da Touraine. Depois desse jantar, e para distrair as damas, foi organizada uma justa para os jovens cavaleiros e escudeiros nos terrenos do palácio: e Guilherme da Flandres, conde de Namur, proclamado vencedor pelos arautos, recebeu o prémio das mãos da rainha e da duquesa da Touraine, depois houve baile até à uma da madrugada. A essa hora, os convidados começaram a retirar-se para os seus palácios ou casas, e quase todos saíram sem guarda. Olivier de Clisson tinha ficado entre os últimos, e, depois de se despedir do rei, passou pelos aposentos do duque da Touraine, encontrou-o ocupado a compor a sua indumentária, em vez de desfazê-la, e, ao ver isto, perguntou-lhe se ia dormir a casa de Poulain. Este Poulain era o tesoureiro do duque da Touraine, que, frequentemente, para desfrutar de mais liberdade, sob o pretexto de verificar as contas das suas finanças, deixava, ao cair da tarde, o palácio de Saint-Paul, de onde não poderia sair de noite, guardado como estava como residência real, dirigia-se à cruz do Tahoir, onde vivia este homem, e, daí, ia para onde o levava o seu prazer. O duque compreendeu o que o condestável queria dizer; e, pousando-lhe uma mão num ombro, respondeu sorridente.

            - Condestável, não sei ainda onde dormirei nem se terei de ir para longe ou para perto. Talvez não deixe o palácio de Saint-Paul esta noite; mas, quanto a si, vá, que são horas.

            - Deus lhe dê boa noite, senhor - disse o condestável.

            - Obrigado. Mas, a esse respeito - respondeu rindo o duque - não tenho de que queixar-me, e sou tentado a crer que se ocupa ainda mais das minhas noites que dos meus dias. Adeus, Clisson.

            O condestável compreendeu que incomodaria se ficasse mais tempo; inclinou-se, pois, em sinal de despedida e foi juntar-se aos seus homens, que o esperavam com os cavalos diante da porta do palácio. Estes homens eram oito, além de dois lacaios que transportavam archotes.

            Logo que o condestável montou, os dois lacaios acenderam os archotes, e, precedendo-o de alguns passos, meteram pela grande rua de Sainte-Catherine. Os outros avançavam atrás dele, com excepção de um escudeiro que Clisson chamara para junto de si, a fim de lhe recomendar que tratasse de um jantar que ofereceria no dia seguinte ao duque da Touraine, a de Coucy, a Jean de Vienne e a alguns outros, e para o qual desejava que nada fosse poupado.

            Nesse momento, dois homens passaram junto dos lacaios e apagaram os archotes.

            Clisson deteve-se; mas, pensando tratar-se de uma brincadeira do duque da Touraine, exclamou alegremente:

            - Ah! por minha fé, senhor, é mal feito. Mas perdoo-lhe, porque é jovem e para si tudo é brincadeira e prazer.

            Ao dizer estas palavras, voltou-se e viu que um grande número de cavaleiros desconhecidos se tinham misturado aos seus homens e que dois deles estavam a poucos passos. Suspeitou então de algum perigo e disse, detendo-se novamente.

            - Quem são? E que significa? ...

            - À morte, à morte, Clisson!

            - respondeu o homem que se encontrava mais perto dele, puxando da espada.

            - À morte Clisson? - exclamou o condestável.

            - Eis palavras bem arrogantes! E quem és tu para dizê-las?

            - Sou Pedro de Craon, seu inimigo - disse o cavaleiro. - E tanto me irou que é preciso que me vingue.

            Então, erguendo-se nos estribos, voltou-se para a sua gente:

            - Tenho aquele que queria! - gritou. - Sus! Sus!

            Com estas palavras, lançou-se sobre o condestável, enquanto os seus homens dispersavam os seus acompanhantes. Mas, embora sem armadura e colhido de surpresa, Olivier de Clisson não era peça de caça que se apanhasse facilmente. Empunhou uma adaga com cerca de dois pés de comprido, de que se munira mais como ornamento do que como defesa, e, cobrindo a cabeça com o braço esquerdo, obrigou o cavalo a recuar até à parede, a fim de que não pudessem atacá-lo pelas costas.

            - Matamos todos? - perguntavam os homens de Pedro de Craon.

            - Sim - respondeu este, atacando o condestável.

            - Mas a mim, a mim aqui! Que o maldito condestável morra! Venham!

            Dois ou três homens destacaram-se do grupo e correram para ele.

            A despeito de toda a força e destreza de Clisson, uma luta tão desigual não poderia durar, e, enquanto parava um golpe com o braço esquerdo e descarregava outro com o direito, a espada de Pedro de Craon abateu-se-lhe sobre a cabeça descoberta. Clisson lançou um suspiro, largou a adaga e caiu do cavalo, batendo com a cabeça numa porta que cedeu; ficou estendido por terra, tendo metade do corpo dentro da casa de um padeiro que fazia o seu pão e que, ao ouvir na rua grande ruído de homens e de cavalos, entreabrira a porta para ver o que se passava.

            Pedro de Craon tentou entrar naquela casa tal como estava, a cavalo; mas a porta era demasiado baixa e não lho consentiu.

            - Devo desmontar e acabar com ele? - perguntou um dos seus homens.

            Craon, sem responder, obrigou o cavalo a espezinhar as pernas e as coxas do condestável, e, vendo que ele não dava sinal de vida, disse:

            - É inútil, o trabalho está feito; se não está morto, pouco lhe falta; foi ferido na cabeça, e por bom braço, isso garanto-lhes. Assim, senhores, ao largo! Para a porta de Saint-Antoine! (1) [1. Craon indicava esta porta porque, depois da revolta dos azeiteiros, as correntes e as barreiras tinham sido retiradas por ordem do próprio condestável].

            Logo que os assassinos partiram, os homens do condestável, que não tinham sofrido muito, reuniram-se em torno do corpo do amo. O padeiro, vendo que aquele homem era o condestável, ofereceu de bom grado a sua casa; levaram o ferido para um leito, foram buscar uma luz e todos lançaram grandes gritos, pois o julgaram morto, ao verem-lhe na cabeça uma enorme ferida, de onde jorrava sangue em abundância.

            Entretanto, um deles tinha corrido ao palácio de Saint-Paul, onde, ao reconhecerem-no como um dos servidores do condestável, o introduziram nos aposentos do rei, que, fatigado pelo dia e pelo baile, se retirara dos aposentos da rainha e se preparava para passar a noite nos seus. Estava pronto para deitar-se quando aquele homem entrou, pálido, ofegante e gritando:

            - Oh! senhor, senhor, que triste coisa e que grande desgraça!

            - Que se passa? - perguntou o rei.

            - Oliver de Clisson, vosso condestável, acaba de ser assassinado.

            - E quem cometeu esse crime.

            - Infelizmente, não sabemos! Mas a desgraça aconteceu-lhe perto do seu palácio, na rua direita de Saint-Catherine.

            - A pé! - gritou o rei. - Aos archotes, aos archotes, meus servidores! Morto ou vivo, quero ver o meu condestável!

            Pôs apenas um manto pelos ombros, calçou-se apressadamente e em cinco minutos os sargentos e soldados da ronda estavam reunidos. O rei não quis sequer esperar por um cavalo e saiu a pé do palácio, acompanhado apenas pela ronda e pelos seus mordomos, Guilherme Martel e Hélion de Lignac. Caminhando a bom passo, não tardou em chegar à casa do padeiro; os soldados e os mordomos ficaram fora, mas ele entrou e, avançando direito ao leito, pegou na mão do ferido e disse-lhe:

            - Sou eu, condestável; como se sente?

            - Caro sire - respondeu o condestável, com voz débil.

            - E quem o pôs neste estado, meu caro Olivier?

            - Pedro de Craon e os seus cúmplices, que me atacaram traiçoeiramente quando me encontrava sem defesa e sem desconfiança.

            - Condestável - disse o rei, estendendo uma mão sobre ele - nunca crime algum será expiado como este, juro-lhe; mas agora ocupemo-nos de o salvar. Onde estão os médicos e os cirurgiões?

            - Já foram chamá-los, senhor - respondeu um dos homens do condestável.

            Nesse momento entravam os médicos. O rei avançou para o primeiro e levou-o até junto do leito, dizendo:

            - Examinem o meu condestável, senhores, e digam-me prontamente qual é o seu estado; porque estou mais triste do que se a espada me tivesse ferido a mim mesmo.

            Os médicos começaram a examinar o condestável, mas o rei estava tão impaciente que quase não lhes deu tempo de ligar a ferida.

            - Há perigo de morte, senhores? - perguntava a cada instante. - Respondam-me, inferno!

            Então aquele que parecia mais hábil voltou-se para o rei.

            - Não, sire, e juramos que, dentro de quinze dias, estará pronto a montar a cavalo.

            O rei procurou uma corrente, uma bolsa, qualquer coisa que pudesse dar àquele homem; mas, não encontrando coisa alguma, abraçou-o, e, aproximando-se do condestável, disse-lhe:

            - Ouviu, Olivier? Dentro de quinze dias estará a cavalo e tão bem como se nada lhe tivesse acontecido. Deram-nos boas notícias, senhores, e não esqueceremos a vossa habilidade. Quanto a si, Clisson, trate apenas de ficar bom; porque, disse-o e repito-o, nunca crime algum incorreu na pena que reservo para este, nunca traidores foram tão duramente punidos pela sua traição, nunca sangue derramado fará correr tanto sangue; descanse pois em mim: o caso é meu.

            - Deus vos pague, sire! - disse o condestável. - E sobretudo que vos recompense por esta visita que me fazeis.

            - E não será a última, meu caro Clisson, pois vou ordenar que o transportem para o nosso palácio, que fica menos distante do que o seu.

            Clisson quis levar aos lábios a mão do rei, mas Carlos abraçou-o como faria a um irmão.

            - Tenho de deixá-lo, Clisson - disse - porque mandei chamar ao palácio de Saint-Paul o preboste de Paris e tenho ordens a dar-lhe.

            Com estas palavras, despediu-se do condestável e voltou ao seu palácio, onde encontrou efectivamente o preboste da cidade.

            - Preboste - disse-lhe o rei - leve gente de todo o lado, de onde quiser, de onde puder; montem bons cavalos e, por estradas e caminhos, por montes e por vales, persigam esse traidor de Craon, que feriu o meu condestável; e saibam que não poderão fazer-me serviço mais agradável do que encontrá-lo, capturá-lo e trazer-mo.

            - Sire, farei tudo o que estiver em meu poder - respondeu o preboste. - Mas por que caminho se supõe que fugiu o assassino?

            - Cabe-lhe descobri-lo. Informe-se e apresse-se. Vá. O preboste saiu.

            A missão de que estava encarregado era difícil; porque naquela época, as quatro principais portas da cidade de Paris ficavam abertas de dia e de noite, em virtude de uma disposição tomada quando do regresso da batalha de Rosbecque, onde o rei derrotara os Flamengos; fora o próprio Olivier de Clisson, que apadrinhara essa ordem, para que o rei fosse sempre senhor dentro da cidade de Paris, onde os burgueses se tinham revoltado durante a sua ausência. A partir de então, as portas tinham sido tiradas dos gonzos, os batentes destruídos e as correntes retiradas das ruas e becos, para que a ronda do rei pudesse percorrê-las de noite. Não terá sido extraordinário, digam-me, que Olivier de Clisson, que solicitara a ordem, fosse o primeiro a sofrer-lhe as consequências?

            Porque, se as portas estivessem fechadas e as correntes postas, nunca Pedro de Craon teria ousado fazer ao rei e ao condestável a afronta que lhes fez, sabendo que, cometido o crime, não poderia fugir ao castigo.

            - Não acontecera assim, no entanto; ao chegarem ao local de encontro, Craon e os seus cúmplices encontraram as portas abertas e os campos livres. Uns dizem que atravessou o Sena pela ponte de Charenton; outros pretendem que rodeou as muralhas, passou junto de Montmartre, e, deixando à esquerda a porta de Saint-Honoré, atravessou o rio em Ponçon. O que é certo é que chegou a Chartres cerca das oito horas, com os mais bem montados da sua tropa: porque os outros tinham-se dispersado, fosse por fadiga das montadas, fosse para não despertar suspeitas com o seu grande número. Em Chartres, Craon encontrou cavalos prontos, em casa de um cónego seu amigo, que, sem saber a causa, os tinha preparado a seu pedido. Uma hora mais tarde, estava na estrada de Maine, e, trinta horas depois, no seu castelo de Sablé. Só ali se deteve, pois só ali se julgava em segurança.

            O preboste de Paris, entretanto, seguindo as instruções do rei, saíra de Paris com sessenta homens; decidira sair pela porta de Saint-Honoré, e, encontrando no solo rastos frescos de cavalos, seguiu-os até Chennevières; chegado aí, vendo que os rastos se dirigiam para o Sena, perguntara ao pontoneiro de Ponçon se, nessa manhã, alguém por ali tinha passado; o homem respondera-lhe que, cerca das duas horas, vira uma dúzia de homens a cavalo atravessar o rio, mas que não pudera reconhecer qualquer deles, visto que uns estavam cobertos de elmos e outros envoltos em mantos.

            - que caminho tomaram? - perguntara o preboste.

            - O de Evreux - respondera o homem.

            - É isso - dissera o preboste. - Vão direitos a Cherburgo.

            Metera então pelo caminho dessa cidade, abandonando o de Chartres. Ao cabo de três horas, tinham encontrado um fidalgo que caçava lebres, e que, às mesmas perguntas, respondera que vira, nessa manhã, cerca de quinze homens montados que pareciam indecisos e perdidos, e que, finalmente, tinham metido pela estrada de Chartres. O fidalgo conduziu-os ao local onde os cavaleiros tinham atravessado os campos, e, como o solo estava ainda mole das últimas chuvas, viram efectivamente os rastos deixados por um numeroso grupo; o preboste e os seus meteram pois a galope pelo caminho de Chartres. Mas o desvio fizera-os perder demasiado tempo e era já noite quando chegaram à cidade.

            Foram então informados de que Craon passara por lá de manhã. Disseram-lhe o nome do cónego em cuja casa comera e mudara de cavalos; mas todas estas informações chegaram demasiado tarde. Era impossível alcançar o culpado. O preboste deu ordem de regresso a Paris, onde chegou no sábado à tarde.

            O duque da Touraine, pelo seu lado, enviara na peugada do seu antigo favorito João de Barres; este tinha reunido cinquenta cavaleiros e, metendo primeiro pelo bom caminho, saíra com eles pela porta de Saint-Antoine; mas uma vez aí, não tendo guia nem informações, virara à direita, passara o Marne e o Sena pela ponte de Charenton, chegara diante de Etampes, e, por fim, no sábado à tarde, alcançara Chartres. Recebera então as mesmas informações que já tinham sido dadas ao preboste, e, desesperando como ele de alcançar os que perseguia, fizera meia volta e regressara a Paris.

            Entretanto, os sargentos do rei que batiam o campo tinham encontrado, numa aldeia a poucas léguas de Paris, dois homens de armas e um pajem que não tinham podido seguir a tropa devido à fadiga dos seus cavalos; foram imediatamente presos, conduzidos a Paris e encerrados no Châtelet.

            Dois dias mais tarde, foram levados à rua direita de Sainte-Catherine, ao local onde o crime fora cometido; aí cortaram-lhes as mãos, depois levaram-nos aos Halles, onde os decapitaram, e finalmente à forca, onde foram suspensos pelos pés.

            Na quarta-feira seguinte, a mesma justiça foi feita ao porteiro, porque, não tendo denunciado o crime, incorrera na mesma pena que os que o tinham cometido.

            O cónego em cuja casa Pedro de Craon mudara de cavalos foi capturado e julgado pela justiça eclesiástica. Foram-lhe retirados todos os seus bens e benefícios. Por favor especial, e porque ele negou insistentemente ter tido conhecimento do crime, pouparam-lhe a vida, mas condenaram-no a vivê-la a pão e água, em prisão perpétua.

            Quanto a Pedro de Craon, foi julgado à revelia; os seus bens foram confiscados, os seus móveis reverteram para o tesouro e as suas terras foram distribuídas pelo senhor duque da Touraine e outros cortesãos do rei.

            João de Vienne, encarregado da expropriação do castelo de Bernard, entrou de noite nesse castelo com os seus homens de armas; mandou levantar do seu leito Joana de Châtillon, esposa de Pedro de Craon. uma das mais belas mulheres do seu tempo, e pô-la nua, juntamente com a filha, à porta de sua casa. Quanto ao palácio onde o golpe fora tramado, o rei ordenou que fosse arrasado: depois foi passado a charrua o terreno onde se erguera e este terreno foi doado ao cemitério de Saint-Jean. A rua de Craon, que o nobre senhor tinha baptizado, recebeu o nome de rua dos Mauvais-Garçons, por que ainda hoje é conhecida.

            Ao saber destas coisas e do processo que lhe fora instaurado, Pedro de Craon deixou de sentir-se em segurança no seu castelo de Sablé e dirigiu-se ao do duque da Bretanha, este já sabia qual fora o resultado da empresa e que o seu inimigo não estava morto; por isso, quando viu entrar Pedro de Craon, envergonhado e cabisbaixo, naquela sala de onde saíra tão altivamente, não pôde impedir-se de gritar-lhe:

            - Ah, meu primo! Deve estar envergonhado por não ter conseguido matar um homem que estava em seu poder.

            - Senhor - respondeu Pedro de Craon.

            - Penso que todos os diabos do inferno, de onde ele veio, o guardaram e livraram das minhas mãos; pois descarreguei-lhe, pela minha parte, mais de sessenta golpes de espada, de tal sorte que, quando caiu do cavalo, por minha honra, julguei-o morto! Mas a sorte dele quis que uma porta estivesse entreaberta em vez de estar fechada, e que ele caísse lá dentro em vez de cair cá fora; se tivesse caído na rua, tê-lo-íamos esmagado com os cascos dos nossos cavalos.

            - Sim - murmurou o duque, sombriamente. - Mas não aconteceu assim, pois não? E, uma vez que está aqui, creio que não tardarei em ter notícias do rei. Mas não importa, meu primo. Por muitos ódios e muita guerra que me traga a sua presença, tinha a minha palavra; está aqui e é bem-vindo.

            O velho duque estendeu a mão ao cavaleiro e chamou um lacaio, para que lhes levasse hipocraz e dois copos.

 

            O duque da Bretanha não se enganava quanto aos perigos que corria dando asilo e protecção a Pedro de Craon. Com efeito, três semanas depois dos acontecimentos que acabamos de relatar, um cavaleiro portador das armas do rei deteve-se diante da porta do castelo de Hermine, chamou o duque da parte do seu real amo e entregou-lhe uma carta selada com as armas da França.

            Esta carta, de resto, era bem a de um suserano a um vassalo; o rei Carlos reclamava, em nome da justiça de Paris, Pedro de Craon, como traidor e assassino, e ameaçava, em caso de recusa, o duque da Bretanha de ir ele próprio capturar o culpado. O duque recebeu nobremente o correio real, tirou do peito uma corrente de ouro, passou-lha pelo pescoço e ordenou aos seus criados que o tratassem como merecia, enquanto esperava que ele respondesse ao rei. Dois dias mais tarde, esta resposta foi entregue ao cavaleiro, com novas provas de generosidade.

            O duque dizia, na sua carta, que o rei tinha sido enganado e que Pedro de Craon não se encontrava na Bretanha; que ignorava onde pudesse esconder-se o cavaleiro e quais os motivos do seu ódio por Olivier Clisson; que, em consequência, pedia ao rei que o tivesse por escusado.

            O rei recebeu esta carta no meio do seu conselho: leu-a e releu-a, com uma expressão cada vez mais sombria; depois, amarrotando-a entre as mãos, exclamou, rindo amargamente.

            - Sabem, senhores, o que me diz o meu primo da Bretanha? Diz-me, e sob a sua honra, que ignora onde se encontra esse traidor e assassino, Pedro de Craon. Não acham que a sua honra se aventura grandemente? Vejamos a vossa opinião.

            - Meu sobrinho - disse o duque de Berry, erguendo-se - creio que o duque da Bretanha diz o que deve dizer, e, uma vez que Craon não está com ele, não pode responder-vos.

            - E vós, meu irmão, que pensais?

            - Com vossa autorização, sire, penso que o duque da Bretanha só vos diz essas coisas para dar ao assassino o tempo necessário para chegar à Inglaterra, e...

            O rei interrompeu-o:

            - E tendes razão, Touraine, é tal como dizeis. Quanto a vós, meu tio, bem sabemos que o condestável não é dos vossos amigos, e ouvimos dizer, se bem que não vo-lo tenhamos referido, que, no dia em que se cometeu o crime se vos apresentou um familiar de Craon, o qual vos contou toda a conjura, e que, pretextando a pouca fé que destes às suas palavras, e para não perturbar a festa, deixastes a coisa chegar ao pior; sabemo-lo, meu tio, e isto de fonte segura; de resto, há um processo simples de provar-nos que estamos enganados ou que fomos mal informados: é acompanhar-nos à Bretanha, onde vamos fazer guerra. Esse duque, que não é inglês nem francês, que não é cão nem lobo, cansa-nos; porque não sabemos se ladra ou se uiva: a Bretanha não pode esquecer que foi reino e custa-lhe tornar-se província. Pois bem! Se necessário for, bateremos tanto e tão forte nessa coroa ducal que lhe arrancaremos as folhas de vinha e dá-la-emos como baronia a algum dos nossos servidores, tal como damos ao nosso irmão, neste momento, o ducado de Orleães em vez do de Touraine.

            O duque inclinou-se.

            - Sim, sim, meu irmão - continuou o rei - e damo-vo-lo tal como o teve Filipe, com todas as suas rendas e dependências, e a partir de agora deixaremos de chamar-vos Touraine, pois esse ducado reúne-se a partir de hoje à coroa, e passaremos a chamar-vos Orleães, pois esse ducado é vosso. Como ouvistes, caro tio, partimos todos, e vós sois dos nossos.

            - Caro sire - respondeu o duque de Berry - é-me sempre agradável acompanhar-vos para onde quer que ides; mas creio que seria aconselhável levar também o nosso irmão da Borgonha.

            - Pois bem! - disse o rei. - Pedir-lhe-emos que nos faça essa honra, e, se isso não bastar, ordenar-lho-emos, e, se isso ainda não bastar, iremos nós próprios chamá-lo. Quereis a nossa palavra em como não faremos a viagem sem ele? Pois tende-la. Quando se insulta um rei da França, insulta-se toda a nobreza, e não há brasão limpo quando o escudo real está manchado. Preparai pois as vossas equipagens de guerra, meu tio, porque antes de oito dias partiremos.

            E, dito isto, o rei terminou a sessão, fechando-se no gabinete com os seus secretários. Nesse mesmo dia, vinte importantes senhores, à cabeça dos quais estava o duque da Borgonha, receberam ordens para se juntarem ao rei com o maior número de homens que pudessem reunir. Esta ordem foi prontamente obedecida, pois o duque da Bretanha era muito odiado por todos os que eram verdadeiramente franceses, dizia-se que havia já muito tempo que o rei teria decidido marchar contra ele, se não fosse dissuadido pelo conde da Flandres e pela senhora da Borgonha, que o duque era inglês na alma e que só odiava Clisson daquele modo por o condestável se ter feito francês. Mas dessa vez as ordens eram tão precisas e tão severas que se esperava que o rei pudesse levar o seu projecto a bom termo, a menos que surgisse alguma traição, pois todos sabiam que alguns dos que iriam acompanhar o rei não o fariam de boa vontade, e havia quem murmurasse muito baixo os nomes do duque de Berry e do duque da Borgonha.

            Efectivamente, o duque da Borgonha fazia-se esperar, dizia que aquela viagem seria uma sobrecarga para as suas províncias, que era uma guerra sem razão e que acabaria mal, que havia pessoas a quem os conflitos entre o condestável e Pedro de Craon não interessavam e que era injusto obrigar esses a entrar em guerra por causa deles, que se podia muito bem resolver as querelas entre ambos sem envolver o pobre povo das províncias. O duque de Berry era da mesma opinião, mas o rei, o duque de Orleães e todo o conselho eram de opinião contrária, forçoso era pois que os dois duques se decidissem a obedecer. De resto, logo que o condestável se encontrou em condições de montar, o rei ordenou a partida de Paris, nessa mesma tarde, despediu-se da rainha, de Valentina, e das damas e donzelas que habitavam no palácio de Saint-Paul, depois foi cear com os duques de Orleães e de Bourbon, o conde de Namur e o senhor de Coucy no palácio de sire Montaigu, onde pernoitou.

            Partiu no dia seguinte, com grande aparato bélico, mas deteve-se em Saint-Germain-en-Laye, para aguardar os duques de Berry e da Borgonha. Vendo que eles não se apresentavam, enviou-lhes ordens tais que seria crime de rebelião não as executar. Feito isto, voltou a pôr-se em marcha, se bem que os médicos tentassem dissuadi-lo, dizendo-lhe que a sua saúde não se encontrava muito firme naquele momento, mas o rei sentia-se empurrado por uma tão grande vontade, que respondeu a todas estas observações que não sabia o que queriam dizer e que nunca se sentira tão bem.

            Partiu pois, apesar de tudo, passou o Sena, meteu pelo caminho de Chartres, e chegou, sem se deter, a Auneau, belo e nobre castelo pertencente a La Rivière, que o recebeu com grandes honras: Carlos demorou-se três dias neste castelo e ao amanhecer do quarto partiu uma vez mais para Chartres, onde foi recebido no palácio episcopal, assim como os duques de Bourbon e de Orleães, pelo irmão de Montaigu, bispo da cidade.

            Ao cabo de dois dias de espera, o rei viu chegar o duque de Berry e o conde de La Marche. Perguntou-lhe se tinham algumas notícias do Borgonha e disseram-lhe que o duque os seguia a pouca distância. Finalmente, ao quarto dia, anunciaram ao rei que o duque acabava de entrar na cidade.

            O rei permaneceu sete dias em Chartres e seguiu depois a caminho do Mans. Ao longo da estrada, e a todo o instante, juntavam-se-lhe homens de armas vindos do Artois, da Picardia, do Vermandois e de todas as zonas da França, mesmo as mais distantes, todos eles irritados com o duque da Bretanha, que os obrigava a tão desagradável tarefa, o rei alimentava com grande cuidado esta cólera, atiçando-a com a sua.

            Tinha, no entanto, sobrestimado as suas forças, o estado de irritação contínua em que o punham as tentativas dos tios para entravar a viagem faziam-lhe ferver o sangue, de tal modo que, ao chegar ao Mans, estava febril e incapaz de cavalgar, viu-se pois forçado a deter-se, embora dizendo que o repouso lhe custava mais do que a fadiga, mas os médicos, os tios e o próprio duque de Orleães foram de opinião que teria de permanecer onde estava durante quinze dias ou três semanas.

            Esta pausa foi aproveitada para convencer o rei a enviar nova mensagem ao duque da Bretanha, em consequência, foi ordenado a Regnault de Royce, a Garancières, Château-Morand e a Taupin de Cantemelle, castelão de Gisors, que fizessem a viagem, mas, dessa vez, o rei quis que a embaixada tivesse um carácter que não deixasse dúvidas quanto ao seu objectivo. Os quatro enviados partiram pois do Mans, acompanhados por quarenta lanças, atravessaram a cidade de Angers com trombetas a tocar e pendões desfraldados, e, dois dias depois, chegaram a Nantes, onde encontraram o duque.

            Expuseram-lhe o pedido do rei: que Pedro de Craon lhes fosse entregue, mas, como da primeira vez, o duque depois de ter oferecido valiosos presentes aos embaixadores, respondeu-lhes que lhe era impossível entregar-lhes o homem que reclamavam, pois não sabia onde se encontrava, que na verdade tinha ouvido dizer, havia já mais de um ano, que Pedro de Craon odiava o condestável com toda a sua alma e lhe tinha jurado uma guerra mortal, que o próprio cavaleiro lhe afirmara que, onde quer que encontrasse Clisson, fosse de dia fosse de noite, lhe daria a morte, mas que não sabia mais e que lhe parecia assombroso que o rei lhe fosse fazer guerra por uma coisa que não lhe dizia respeito.

            O rei estava muito doente quando lhe levaram esta resposta, mas nem por isso deixou de ordenar que se prosseguisse, chamando os seus escudeiros para que o armasse. No momento em que se levantava do leito, foi-lhe apresentado um correio chegado da Espanha, o homem entregou-lhe uma carta com os seguintes dizeres: Ao nosso muito temido senhor o rei de França e era assinada por Yolanda de Bar, rainha de Aragão, de Maiorca e da Sardenha.

            A carta era efectivamente da rainha de Aragão, que escrevia ao rei dizendo que, desejosa de agradar-lhe em todas as coisas, e sabendo do assunto que o preocupava naquele momento, mandara encerrar numa prisão de Barcelona um cavaleiro desconhecido que tentara alugar a peso de ouro um barco que o levasse a Nápoles, acrescentava que, suspeitando tratar-se de Pedro de Craon, dava parte das suas suspeitas ao rei, a fim de que este enviasse prontamente alguém que o reconhecesse e o levasse, no caso de não estar enganada. Terminava dizendo que ficaria feliz se aquelas notícias fossem agradáveis ao seu primo e senhor.

            À chegada desta carta, os duques de Berry e da Borgonha exclamaram que a companha estava terminada e que só lhes restava fazer meia-volta, pois o homem que perseguiam tinha sem dúvida sido capturado, mas o rei não lhes deu ouvidos e tudo o que foi possível obter dele foi que se enviasse alguém certificar-se da identidade do detido.

            Três semanas mais tarde, o mensageiro voltou, anunciando que o cavaleiro detido não era Pedro de Craon.

            O rei ficou então muito encolerizado contra os tios, compreendendo que todos estes atrasos provinham deles, e resolveu, em consequência, não executar outra vontade além da sua. Chamou os generais aos seus aposentos, pois a doença obrigava-o a ficar de cama, e ordenou-lhes que se avançasse o mais rapidamente possível para Angers, estando como estava decidido a não voltar para trás sem ter desapossado o duque e dado um governador à província.

            No dia seguinte, entre as nove e as dez da manhã, depois de ter ouvido missa e de ter desmaiado, o rei montou a cavalo, estava tão fraco que o duque de Orleães teve de ajudá-lo a içar-se para a sela. O duque da Borgonha encolhia os ombros ao ver esta teimosia e dizia que era tentar Deus querer prosseguir quando do céu desciam tais avisos, mas o duque de Berry, ouvindo estas palavras, aproximou-se dele e disse-lhe muito baixo:

            - Fique tranquilo, meu irmão. Tenho tudo previsto e, se Deus nos ajudar, voltaremos a passar, espero, esta noite na cidade do Mans.

            - Não sei o que quereis dizer com isso - respondeu o duque da Borgonha. - Mas seja qual for o processo de impedir esta infeliz viagem, esse processo será bom.

            Entretanto o rei tinha-se posto em movimento, seguido por todos os senhores. Pouco depois entravam numa densa e sombria floresta contemporânea dos druidas. O rei ia triste e melancólico, deixando o cavalo avançar segundo a sua vontade e mal respondendo aos que lhe dirigiam a palavra. Deixaram-no pois seguir sozinho à cabeça da coluna, como parecia desejar. Tinham assim cavalgado em silêncio durante cerca de uma hora quando, subitamente, um velho de cabeça nua e envolto num lençol branco surgiu de entre duas árvores e, agarrando as rédeas do cavalo do rei, o obrigou a deter-se, gritando:

            - Oh! rei, rei! Não cavalgues mais para a frente e volta para trás, pois és traído!

            O rei estremeceu violentamente ao avistar esta aparição inesperada, estendeu um braço e quis gritar, mas a voz gelou-se-lhe na garganta, tudo o que pôde fazer foi indicar, por gestos, que queria que afastassem dele aquele fantasma. Vários cavaleiros correram para ele e atacaram o homem, obrigando-o a largar as rédeas, mas, no mesmo instante, o duque de Berry correu em seu socorro, dizendo que era uma vergonha bater assim num pobre louco, pois bem via que aquele homem não podia ser outra coisa, e que deviam deixá-lo ir. Se bem que certo conselho não devesse ser escutado, pois teria sido aconselhável deter o desconhecido e interrogá-lo sobre as suas intenções, estavam todos tão perturbados que se fez como dizia o duque de Berry, e, enquanto o rei era socorrido, o causador de toda aquela comoção desaparecia e ninguém mais voltava a saber dele.

            Apesar deste incidente, que por um momento pareceu confirmar as esperanças dos duques de Berry e da Borgonha, o rei seguiu em frente e pouco depois a coluna alcançava a orla da floresta. Mal à passagem, à frescura da sombra, sucedeu uma luz ardente, o sol, no zénite, abrasava a atmosfera, o dia era dos mais quentes de Julho e nenhum tinha ainda sido devorador como aquele. Tão longe quanto a vista podia espraiar-se, deslizava sobre campos de areia que ondulavam como vagas, reflectindo a luz, os cavalos mais vivos baixavam a cabeça e relinchavam tristemente, os homens mais fortes sentiam-se enlanguescer e ofegavam. O rei, para quem se tinha receado a frescura matinal, vestia um casacão de veludo negro e levava na cabeça um simples chapéu de pano encarnado, em cujas pregas se entrelaçava um rosário de grandes pérolas, que a rainha lhe dera no momento da partida. Deixavam-no cavalgar afastado a fim de que sofresse menos com a poeira, apenas dois pajens o acompanhavam, avançando um atrás do outro, o primeiro levava na cabeça um elmo de Montauban, de aço fino e claro, que resplandecia ao sol, o segundo empunhava uma lança vermelha com o seu pendão de seda, no extremo dessa lança havia uma ponta de aço, maravilhosamente trabalhada, que saíra das forjas de Toulouse. La Rivière comprara doze iguais e dera-as ao rei, que por sua vez oferecera três ao duque de Orleães e outras três ao duque de Bourbon.

            Ora aconteceu que, enquanto assim cavalgavam, o segundo pajem, cedendo ao calor, adormeceu, e, durante o sono, deixou escapar a lança, o ferro foi bater no elmo do pajem que cavalgava à frente, e o choque do aço contra aço produziu um som claro e agudo. O rei estremeceu subitamente, fixou diante dele os olhos tresloucados, pôs-se terrivelmente pálido, então, cravando as esporas no ventre do cavalo, puxou da espada e correu para os dois pajens, gritando:

            - Para a frente! Para a frente! Sus aos traidores! Os pajens, assustados, separaram-se, fugindo cada qual para o seu lado. O rei continuou a sua galopada e avançou direito ao duque de Orleães. Este ficou sem saber se devia esperar ou fugir do irmão, quando ouviu a voz do duque da Borgonha, que lhe gritava:

            - Fuja, sobrinho de Orleães! Fuja, que o senhor rei quer matá-lo!

            Com efeito, o rei, que continuava a correr para ele, brandia a espada como um furioso, de modo que o duque só teve tempo de obrigar o cavalo a dar um salto para o lado. O rei seguiu em frente, mas, encontrando no seu caminho um cavaleiro de Guyenne, a quem chamavam "o bastardo de Polignac", cravou-lhe a espada na garganta: o sangue jorrou, o cavaleiro caiu. A vista do sangue, em vez de acalmar o rei, redobrou o seu furor. Pôs-se a correr ao acaso, atacando os que encontrava, sem deixar descansar o cavalo e gritando sempre:

            - Para a frente! Para a frente! Sus aos traidores!

            Então os escudeiros e cavaleiros que estavam revestidos com as suas armaduras formaram uma sebe em torno dele, deixando-se atacar sem devolver os golpes, até que as forças se lhe esgotaram. No mesmo instante um cavaleiro da Normandia, Guilherme Marcel, aproximou-se dele pelas costas e agarrou-lhe os braços. O rei desferiu ainda alguns golpes, mas finalmente a espada escapou-se-lhe da mão e atirou-se para trás, lançando um grande grito. Desmontaram-no do cavalo, que estava completamente encharcado em suor e tremia convulsivamente, depois tiraram-lhe o casacão e o chapéu, para o refrescar. Os tios e o irmão aproximaram-se dele, mas o rei tinha perdido o conhecimento e, se bem que os seus olhos estivessem abertos, era evidente que não distinguia o que se passava em seu redor.

            A estupefacção dos senhores e cavaleiros era grande, ninguém sabia o que dizer ou o que fazer. O duque de Berry apertou-lhe a mão e falou-lhe com amizade, mas o rei não respondeu, nem por gestos nem por palavras. Então o duque de Berry abanou a cabeça e disse:

            - Senhores, temos de voltar ao Mans. A viagem está feita, por esta estação.

            Amarraram o rei, receando que o furor voltasse a dominá-lo, estenderam-no numa liteira e retomaram tristemente o caminho da cidade, onde, como o próprio duque de Berry previra, chegaram ao fim da tarde.

            Foram imediatamente chamados vários médicos, porque uns pretendiam que o rei fora envenenado antes de sair do Mans, outros procuravam uma causa sobrenatural para a doença e diziam que lhe fora lançada uma sorte.

            Como, num ou noutro caso, as suspeitas pairavam sobre os príncipes, estes ordenaram que lhe fosse feito um severo exame, chamaram os que tinham servido o rei ao jantar e perguntaram-lhe se o soberano comera muito ou pouco, os servidores responderam que Sua Majestade mal tinha tocado num ou dois pratos, que parecera pensativo e triste, apertando de vez em quando a cabeça entre as mãos, como se tivesse dores. Mandaram chamar Robert de Teukes, chefe da copa, e perguntaram-lhe quem servira ao rei de beber pela última vez, Teukes respondeu que fora Hélion de Lignac. Este último foi imediatamente chamado e perguntaram-lhe de onde viera o vinho que o rei bebera antes da sua partida, Lignac respondeu que não sabia, mas que o tinha provado com Robert de Teukes, aproximou-se então de um armário, tirou dele uma garrafa meio cheia, despejou o vinho num copo e bebeu-o. Nesse momento, um médico saiu do quarto do rei, e, ouvindo a discussão, avançou para os príncipes, dizendo:

            - Senhores, preocupai-vos e debateis em vão: o rei não foi envenenado nem enfeitiçado, o rei foi atingido pela doença do calor, está louco!

            Os duques da Borgonha e de Berry entreolharam-se, estando o rei louco, a regência do reino pertencia de direito ao duque de Orleães ou a eles os dois. O duque de Orleães era demasiado jovem para que o conselho o encarregasse de tão grande tarefa. O duque da Borgonha quebrou então o silêncio, dirigindo-se aos outros dois.

            - Meu irmão e meu sobrinho, creio que nos convém voltar o mais rapidamente possível a Paris, pois o rei será lá mais bem tratado do que nestas paragens distantes em que nos encontramos, depois o conselho decidirá em que mãos ficará a regência.

            - Sou da vossa opinião - respondeu o duque de Berry. - Mas para onde o levaremos?

            - Sobretudo não para Paris - disse vivamente o duque de Orleães. - A rainha está grávida e um tal espectáculo poderia fazer-lhe grande mal.

            Os duques da Borgonha e de Berry trocaram um sorriso.

            - Pois bem! - continuou o primeiro - levá-lo-emos para o castelo de Creil, o ar é bom, a paisagem é bela e o rio corre-lhe aos pés. Quanto à rainha, o que diz o nosso sobrinho de Orleães é muito justo, e, se ele quiser partir antes de nós a fim de a preparar para a notícia, ficaremos ainda um ou dois dias perto do rei, velando para que nada lhe falte, e iremos depois encontrá-lo em Paris.

            - Seja feito como dizeis - respondeu o duque de Orleães.

            E saiu para preparar as suas bagagens.

            Os duques da Borgonha e de Berry, ficando sozinhos, retiraram-se para o vão de uma janela, onde poderiam falar tranquilamente.

            - Então, meu irmão, que vos parece tudo isto? - perguntou o duque da Borgonha.

            - O que sempre me pareceu, que o rei era uma cabeça levada por conselhos demasiado jovens e que esta guerra na Bretanha acabaria mal. Mas não quiseram ouvir-me: agora tudo se faz por teimosia ou capricho, nada pela razão.

            - Será preciso dar remédio a tudo isso, e prontamente - disse o duque da Borgonha. - Não há a mínima dúvida de que a regência do reino nos será confiada. Além disso, o nosso sobrinho de Orleães anda demasiado ocupado para desejar o governo. Assim, meu irmão, recordai o que vos disse no dia em que o rei nos despediu de Montpellier: somos os dois mais poderosos senhores do reino e, enquanto nos mantivermos unidos, ninguém poderá seja o que for contra nós. Pois bem, chegou o momento em que poderemos tudo contra os outros!

            - Desde que isso esteja de acordo com os interesses do reino, meu irmão, é do nosso interesse afastar os nossos inimigos. De resto, combateriam todos os nossos projectos, entravariam todas as nossas decisões. O reino, puxado de um lado por eles, retido do outro por nós, teria muito a sofrer, é preciso, para que tudo corra bem, união perfeita entre a cabeça e os braços. Pensa que o condestável obedecerá de boa vontade às ordens que receber de nós? Esta desunião poderia, em caso de guerra, causar grande mal à França. A espada de condestável deve ser empunhada pela mão direita do governo.

            - Tendes toda a razão, meu irmão, mas há-os que, em tempo de paz, são tão perigosos como o condestável o seria em tempo de guerra, refiro-me a La Rivière, Montaigu, Bègue de Villaine, e outros.

            - Sim, sim, será preciso afastar todos esses homens, que levaram o rei a cometer tantos erros.

            - Mas o duque de Orleães não os apoiará?

            - Não vos apercebestes - perguntou o duque de Berry, olhando em torno e baixando a voz - de que o nosso sobrinho de Orleães tem grandes preocupações de amor neste mesmo instante? Acreditai no que vos digo, deixemo-lo em paz, e ele fará o mesmo em relação a nós.

            Silêncio, aí vem ele - disse o duque da Borgonha. Efectivamente, o duque de Orleães, desejoso de voltar a Paris, como os tios tinham adivinhado, ia despedir-se deles. Entrou no quarto do rei com os duques de Berry e da Borgonha e perguntaram aos camareiros se Carlos tinha dormido, responderam-lhes que não, que não tivera sequer um momento de repouso. O duque da Borgonha abanou a cabeça.

            - São tristes notícias, meu sobrinho - disse, voltando-se para o duque de Orleães.

            - Deus guardará o rei - respondeu o duque. Aproximou-se do leito do rei e perguntou-lhe como se sentia. O enfermo não respondeu, tremia convulsivamente, tinha os cabelos eriçados, os olhos fixos, e um suor gelado escorria-lhe da testa, de vez em quando erguia-se no leito, gritando:

            - À morte! À morte os traidores!

            Depois voltava a cair sem forças, até que um novo acesso de febre lhe devolvia algumas energias.

            - Aqui nada temos a fazer - disse o duque da Borgonha - e fatigamo-lo mais do que o ajudamos.

            Tem, neste momento, mais necessidade dos médicos do que dos tios e do irmão. Saiamos.

            O duque de Orleães ficou sozinho, inclinou-se para o leito, tomou o irmão nos braços e olhou-o tristemente, em breve as lágrimas enchiam-lhe os olhos e deslizavam-lhe silenciosamente pelas faces, e tinha razão, pois aquele pobre louco que ali jazia tinha-o amado muito, e talvez em troca daquela santa amizade, ele, duque, tivesse a censurar-se ter dado apenas traição e ingratidão, sem dúvida, ao deixá-lo assim, talvez para o trair novamente, perscrutou a sua alma e reconheceu com remorsos que, passado o primeiro instante, não lamentava tanto quanto deveria a infelicidade daquele irmão. Isto porque procuramos sempre, de tal modo o mal em nós domina o bem, descobrir como o infortúnio dos outros pode ser vantajoso aos nossos interesses, e se os desgostos e as lágrimas de outrem não desvendam, para nós, alguma fonte até então desconhecida de tranquilidade e de prazeres, então, se é assim, a sensibilidade embota-se, o coração adormece, o véu que descera sobre os nossos olhos desaparece, o futuro que julgávamos para sempre sombrio rebrilha numa das suas mil faces: os princípios do bem e do mal lutam ainda durante algum tempo dentro de nós, mas, as mais das vezes, miseráveis como somos, é Arimane quem vence, de tal modo que, por vezes, com os olhos húmidos e o coração feliz, não desejamos no dia seguinte que a desgraça da véspera não tivesse acontecido: é que o egoísmo é o médico do coração.

            Entretanto, os tios do rei davam as suas ordens a todos os marechais, para que os senhores e seus cavaleiros regressassem tranquilamente às suas províncias, sem fazer desgastes nem violências na região, dizendo que, onde quer que fossem cometidos desmandos, os senhores seriam responsáveis pelos delitos dos seus homens de armas.

            Dois dias depois da partida do duque de Orleães, o rei pôs-se a caminho, transportado numa cómoda liteira, que parava de onde em onde. O rumor do seu acidente espalhara-se com uma rapidez fantástica: as más notícias têm asas de águia. O assunto era debatido das mais diversas maneiras e, segundo a sua opinião, cada um atribuía a doença a causas diferentes, os senhores viam nela um malefício diabólico, os padres um castigo divino, os partidários do papa de Roma afirmavam tratar-se de uma punição por o rei ter reconhecido o papa Clemente, os sectários do papa Clemente pretendiam, pelo contrário, que Deus atingira o rei por ele não ter destruído o cisma fazendo a guerra à Itália, como prometera, quanto ao povo, esse sentia-se triste e infeliz: pusera grandes esperanças na bondade e justiça do rei. Por isso enchia as igrejas, onde tinham sido ordenadas preces públicas onde quer que houvesse um santo conhecido por curar a loucura, despachavam-se a toda a pressa homens portadores de presentes, e enviava-se a São Aquário, o mais famoso de todos neste género de especialidade, uma imagem do rei, em tamanho natural, modelada em cera, e um magnífico círio, para que ele suplicasse a Deus que a doença do rei fosse curada, mas tudo isto foi inútil e o rei chegou ao castelo de Creil sem se ter registado qualquer melhoria sensível no seu estado.

            Entretanto, não tinham sido negligenciados os meios humanos: Coucy falara de um médico muito sabedor, Guilherme de Hersilly, e tinham-no mandado vir de uma aldeia perto de Laon, onde residia. Este médico ocupara-se pois da soberana administração da doença do rei, que de resto declarou conhecer perfeitamente.

            Quanto à regência do reino, tinha sido entregue, como tudo fazia prever, aos tios do rei, o conselho, ao fim de quinze dias de deliberações, declarara o duque de Orleães demasiado jovem para tomar tal responsabilidade, atribuindo-a, consequentemente, aos duques de Berry e da Borgonha. No dia seguinte ao da nomeação, Clisson apresentou-se, com os seus homens, no palácio do duque da Borgonha. O porteiro abriu-lhe a porta, como de costume. Desmontaram dos seus cavalos e Clisson, seguido apenas por um escudeiro, subiu a escadaria do palácio. Chegando á primeira sala, encontrou dois cavaleiros do duque, perguntou-lhes onde este se encontrava e se poderia falar-lhe, um deles saiu para procurar o duque, que falava com um arauto a propósito de uma grande festa que acabava de ter lugar na Alemanha.

            - Senhor - disse o cavaleiro, interrompendo o duque - está aqui Olivier de Clisson, que vem para falar a Vossa Senhoria, se tal for do vosso agrado.

            - Por Deus! - exclamou o duque. - Façam-no entrar, e prontamente, pois vem muito a propósito para algo que desejamos dizer-lhe.

            O cavaleiro voltou pois para junto do condestável, deixando todas as portas abertas e fazendo-lhe sinal de que podia entrar. O condestável entrou. O duque, ao vê-lo, mudou de cor. Clisson pareceu não o notar e, tirando o chapéu, inclinou-se.

            - Senhor - disse - vim aqui para receber as vossas ordens e perguntar como irá o reino.

            - Como irá o reino, Clisson? - exclamou o duque, com voz alterada. - É coisa que me diz respeito, e a ninguém mais. Quanto às minhas ordens, ei-las: abandonai neste mesmo instante a minha presença, dentro de cinco minutos este palácio e dentro de uma hora a cidade de Paris.

            Foi a vez de Clisson empalidecer. O duque era o regente da França, forçoso se tornava obedecer. Saiu da sala, atravessou os aposentos pensativo e cabisbaixo, montou a cavalo, regressou ao seu palácio, ordenou que lhe preparassem imediatamente as bagagens e nesse mesmo dia, acompanhado apenas por dois homens, saía de Paris, atravessava o Sena em Charenton e chegava, já de noite, ao castelo de Montlhéry, que lhe pertencia.

            O plano que o duque da Borgonha acabava de seguir em relação a Clisson estendia-se a todos os favoritos do rei. Montaigu, logo que soube o que acontecera ao condestável, saiu secretamente de Paris pela porta de Saint-Antoine, tomou o caminho de Troyes e só se deteve em Avinhão. Jean Lemercier quis fazer outro tanto, mas, menos feliz, encontrou guardas à sua porta, e foi conduzido ao castelo do Louvre onde já se encontrava Bègue de Villaine. Quanto a La Rivière, apesar de ter sido prevenido a tempo, não quis deixar o seu castelo, dizendo que nada tinha a censurar-se e que aconteceria o que Deus quisesse, assim, quando lhe disseram que homens armados pretendiam entrar em sua casa, mandou abrir todas as portas e saiu-lhes cortesmente ao encontro.

            Então todos os actos de uma reacção odiosa se cumpriram sobre eles, o que fora feito contra Craon, o assassino, foi feito contra eles, que estavam inocentes. Os bens e heranças que Jean Lemercier possuía em Paris e em todo o reino foram confiscados e partilhados, uma bela casa que possuía na diocese de Laon, e que lhe custara bem cem mil libras pelos melhoramentos que nela fizera, foi dada a Coucy, assim como todas as suas dependências, rendas, terras e possessões.

            Quanto a La Rivière, foram ainda mais severos para com ele, pois tiraram-lhe tudo, .como a Jean Lemercier, deixando apenas à esposa o que ela tinha de próprio, além disso, La Rivière tinha uma filha, jovem e bela, que desposara por amor de Châtillon, cujo pai foi mais tarde mestre dos besteiros da França. Todo o que havia de poderoso ante os homens unira aquele casamento, tudo o que havia de santo ante Deus tinha-o consagrado. Essa união foi desfeita sem piedade nem remorsos, cortou-se o laço que só o Papa tinha o direito de desligar e as duas crianças foram forçadas a casar com quem mais agradou ao duque da Borgonha.

            E todas estas perseguições se faziam sem que o rei pudesse opor-se-lhes, porque o seu estado continuava a ser o pior possível e já só restava uma única esperança: o efeito que pudesse ter sobre ele a presença da rainha. Como ela era a pessoa que o rei mais amara, esperava-se que, tendo-se esquecido de todos os outros, se recordasse ainda dela.

 

            Como vimos no capítulo anterior, o acidente ocorrido ao rei provocara uma revolução completa nos assuntos do reino. Os favoritos da sua razão eram os desgraçados da sua demência, o governo do Estado, escapado das suas mãos débeis, caíra por completo nas dos duques da Borgonha e de Berry, que, submetendo a política geral às suas paixões pessoais, tinham empunhado a espada do ódio e não o gládio da justiça. Só o duque de Orleães teria podido contrabalançar a influência dos tios no conselho, mas, todo entregue ao seu amor pela rainha, abandonara facilmente as suas pretensões à regência e não se sentira com coragem de lutar por ele próprio nem pelos seus amigos.

            Confiando no seu título de irmão do rei, descansando no seu poder ducal, imensamente rico, jovem e despreocupado, reprimia no peito qualquer germe de ambição que pudesse pôr nuvens no céu azul da sua felicidade. Livre de ver a sua real amante a qualquer hora, em qualquer lugar, essa alegria enchia-lhe a vida, e se, de tempos a tempos, um suspiro abafado traía os remorsos escondidos no fundo do seu coração, se a sua fronte se enrugava subitamente devido a qualquer triste recordação, bastava uma palavra da amante para lha desenrugar, uma carícia para lhe adormecer o coração. Quanto a Isabel, jovem como era, era já bem a Italiana que sabemos, com o seu amor de loba e o seu ódio de leoa, só conhecendo da vida os sentimentos apaixonados, só procurando as emoções extremas, pouco à vontade nas situações ordinárias porque qualquer coisa lhe faltava, como o simoun falta ao deserto e a tempestade ao Oceano.

            E bela, bela de fazer perder todas as almas, porque, não fora esse brilho infernal que, a intervalos, lhe iluminava os olhos, seria a imagem perfeita de um anjo, e quem a visse deitada como estava no momento em que voltamos junto dela, tendo um oratório perto do leito e sobre esse oratório um livro de horas aberto, tomá-la-ia por alguma virgem pura, aguardando o beijo que sua mãe, todas as manhãs, ia depor-lhe na testa, era uma esposa adúltera que esperava o seu amante, e esse amante era o irmão do seu marido, do seu senhor e do seu rei, moribundo e louco.

            Pouco depois, uma porta escondida por uma tapeçaria, que dava para os aposentos do rei, abriu-se, e o duque de Orleães apareceu, certificou-se de que ninguém acompanhava a rainha e, fechando a porta, avançou rapidamente para o leito. Estava pálido e agitado.

            - Que tendes, meu belo duque? - perguntou Isabel, estendendo-lhe os braços e sorrindo, pois já estava habituada àqueles frequentes acessos de tristeza que tornavam sombrio o rosto do amante. - Vinde contar-me isso.

            - Ah! acabam de dizer-me, senhora - disse, pondo-se de joelhos e passando os braços pelo pescoço da rainha - que vos enviam a Creil e que é necessário que estejais perto do rei.

            - Sim, Guilherme de Hersilly pretende que a minha presença lhe fará bem. Que pensais disso, senhor?

            - Penso que, na primeira ocasião em que ele se afaste do castelo para a floresta de Beaumont, mandá-lo-ei enforcar do ramo mais sólido da árvore melhor enraizada. Miserável ignorante que, chegado ao limite da sua ciência, quer servir-se de vós como de um remédio, sem pensar nos perigos a que vos expõe!

            - Sim? E que perigo posso eu correr? - perguntou a rainha olhando ternamente para o duque.

            - Oh, senhora, o risco da vossa vida! A loucura do rei é furiosa. E, no momento em que foi por ela dominado, não matou o bastardo de Polignac, não feriu três ou quatro senhores? Pensais que vos reconhecerá, quando não me reconheceu a mim, quando me atacou de espada levantada, de sorte que só escapei graças à agilidade do meu cavalo? De resto, talvez tivesse sido melhor ele ter-me morto.

            - Ter-vos morto, senhor? Oh, fazei mais caso da vida! Tornamo-vo-la bela e feliz com o nosso amor e é-nos desagradável ouvir-vos falar assim.

            - Mas recear por vós, minha Isabel, tremer a cada ruído que sair desse apartamento maldito, estremecer ao ver cada servidor que abrir a minha porta, saber-vos sozinha dia e noite com um louco!

            - Oh, não há perigo, senhor, e creio que vos preocupais em vão. Foi o ruído do ferro, foi a vista das armas que o puseram louco. - Olhou fixamente para o duque. - Em vez disso, usarei da minha mais terna voz para falar-lhe, e ele reconhecer-me-á, depois, com doçuras e carícias, farei do leão um cordeiro. Bem sabeis como ele me ama!

            Ao ouvir estas palavras, o rosto do duque tornara-se sombrio, levantou-se bruscamente, libertando-se dos braços da rainha.

            - Sim, sim, ele ama-vos, bem sei - disse, com uma voz cava. - E essa é a verdadeira causa da minha dor! Não, não vos fará mal, sem dúvida. Pelo contrário, como dizeis, a vossa voz acalmá-lo-á, as vossas carícias amansá-lo-ão. A vossa voz, as vossas carícias, meu Deus!

            Apertou a cabeça entre as mãos, Isabel observava-o, meio erguida sobre um cotovelo.

            - E eu, quanto mais calmo o vir, mais direi para mim mesmo: Ela foi terna. E então far-me-eis amaldiçoar o céu por aquilo que deveria agradecer-lhe, pela cura de meu irmão, e, de ingrato que já sou, fareis de mim... O vosso amor, o vosso amor!... Era o meu Éden, o meu paraíso, e tinha-me habituado a possuí-lo sozinho. Que farei quando tiver de partilhá-lo? Oh, guardai-o todo inteiro, esse amor fatal, para ele ou para mim!

            - Porque não me dissestes isso imediatamente? - perguntou Isabel, triunfante.

            - E para quê?

            - Porque imediatamente vos teria respondido que não iria ao castelo de Creil.

            - Não ireis? - exclamou o duque, precipitando-se para ela.

            Depois, detendo-se, perguntou.

            - E como fareis para não ir? E que dirão os duques da Borgonha e de Berry?

            - Achais que eles desejam sinceramente o restabelecimento do rei?

            - Não, por minha alma! O duque da Borgonha é insaciável de poder, o duque de Berry de riquezas, a demência de meu irmão duplica o poder de um e cunha moeda para o outro, mas eles sabem fingir, e, quando souberem que vos recusais a ir... E, de resto, podeis fazê-lo? Oh, meu irmão, meu pobre irmão!...

            Grossas lágrimas deslizaram dos olhos do duque. A rainha levantou a cabeça do amante com uma das mãos, limpando-lhe as lágrimas com a outra.

            - Vamos, consolai-vos, meu belo duque, pois não irei a Creil, o rei curar-se-á e o vosso coração fraternal - acrescentou, com uma ligeira nota de ironia -, nada terá a censurar-se, encontrámos um meio.

            Sorriu com uma expressão indefinível de malícia.

            - E qual é? - perguntou o duque.

            - Dir-vo-lo-emos mais tarde, é o nosso segredo. Tranquilizai-vos, entretanto, e olhai-me com os vossos olhos mais ternos.

            O duque olhou para ela.

            - Como sois belo, senhor! - continuou a rainha. - Tendes uma pele que me faz inveja. Deus tinha começado por fazer-vos mulher, mas depois pensou que precisaria de um homem para um dia me enlouquecer.

            - Minha Isabel!

            - Vede, senhor - disse Isabel, tirando um medalhão de cima da mesa de cabeceira. - Que dizeis desta imagem?

            - O vosso retrato! - exclamou o duque, arrancando-lho das mãos e levando-o aos lábios. - O vosso retrato querido, adorado...

            - Escondei-o depressa, vem aí alguém.

            - Sim, sim, no meu peito, sobre o coração, para sempre.

            A porta abriu-se, com efeito, e a senhora de Coucy entrou.

            - A pessoa que a senhora rainha mandou chamar está aqui - anunciou.

            - Vede, senhora de Coucy - disse então a rainha - está aqui o nosso cunhado de Orleães, que veio pedir-nos de joelhos para não irmos ao castelo de Creil, onde receia que a nossa pessoa corra algum perigo. Era, creio, a vossa opinião, quando ontem o duque da Borgonha, nosso tio bem amado, veio dizer-nos que esse médico dado pelo vosso marido ao rei pretendia que a nossa presença poderia aliviar de algum modo o mal de Sua Majestade. Continua a ser essa a vossa opinião?

            - Sim, senhora, assim como a de muitas pessoas na corte.

            - Pois bem, isso decide-me, não irei. Adeus, senhor duque, agradecemo-vos os vossos bons sentimentos e estamo-vos reconhecida.

            O duque inclinou-se e saiu.

            - É a superiora do convento da Trindade, não é verdade, senhora de Coucy? - perguntou Isabel, voltando-se para a sua dama de honor.

            - Ela própria.

            - Mandai-a entrar.

            A superiora entrou, a senhora de Coucy deixou-a sozinha com a rainha.

            - Minha madre - começou Isabel - quis falar-vos sem testemunhas a respeito de um assunto muito importante e que concerne à administração do reino.

            - A mim, senhora rainha? - exclamou humildemente a abadessa. - E como poderei eu, retirada deste mundo e toda entregue a Deus, misturar-me com as coisas da terra?

            - Sabeis - continuou a rainha, sem responder à pergunta - que depois do belo espectáculo que me foi oferecido diante do vosso convento quando da minha entrada em Paris, vos mandei entregar, para vos agradecer e indemnizar, um relicário de prata destinado a Santa Marta, à qual sei que tendes uma devoção muito particular?

            - Sou de Tarascon, senhora, onde Santa Marta é muito venerada, e fiquei muito reconhecida por um tão rico presente.

            - Depois disso, como sabeis, sempre escolhi, nas festas da Páscoa, a vossa comunidade para fazer as minhas devoções, e, sempre que lá fui, apercebeste-vos, espero, de que a rainha da França não é avara nem esquecida.

            - Sentimo-nos tanto mais gratas por esse favor, quanto ainda nada pudemos fazer para o merecer.

            - Somos suficientemente influentes junto do nosso santo padre de Avinhão para acrescentarmos os dons espirituais aos dons temporais, e ele não nos recusaria certamente as indulgências que lhe pedíssemos para a vossa comunidade.

            Nos olhos da abadessa surgiu um brilho de santa ambição.

            - Senhora, sois uma grande e poderosa rainha, e se o nosso convento puder fazer alguma coisa...

            - O convento, não, mas talvez vós, minha madre.

            - Eu, senhora? Ordenai, e se estiver em meu poder...

            - Oh, é coisa bem fácil! O rei foi atingido, como sabeis, por uma grave doença. Até agora, fechado com homens vestidos de negro e mascarados para lhe inspirarem terror, são eles que o forçam a submeter-se às indicações dos médicos, mas o estado de agitação em que o mantém esta violência impede que os remédios possam ter um efeito completo. Deseja-se tentar conseguir pela persuasão um resultado que, até aqui só foi obtido pela força, e pensou-se que uma das vossas irmãs, por exemplo, jovem e doce, aparecendo como um anjo no meio dos fantasmas que o rodeiam, seria para ele como que uma aparição celeste: que o seu espírito recuperaria alguma calma, e só a calma pode devolver a razão a essa pobre cabeça perdida. Pensei então em vós, e quis que a honra da cura do rei recaísse sobre o vosso convento, será certamente atribuída às vossas orações, à intercessão de Santa Marta, à santidade da digna abadessa que dirige o branco rebanho das irmãs da Trindade. Eis por que vos mandei chamar, minha madre. Ter-me-ei enganado ao pensar que um tal pedido vos seria agradável?

            - Oh! sois demasiado boa, senhora rainha, e só a partir de hoje o nosso convento foi verdadeiramente eleito. Conheceis várias das nossas filhas, indicai aquela a quem reservais a honra de velar sobre o precioso enfermo por cuja cura toda a França ora.

            - Deixo inteiramente esse cuidado à vossa solicitude, minha madre, escolhei quem quiserdes para essa santa missão, as pombas que o Senhor vos deu a guardar são todas belas e puras: tomai ao acaso. Deus conduzirá a vossa mão, as bênçãos do povo cairão sobre ela e os favores da rainha espalhar-se-ão sobre a sua família.

            Um brilho de ambição iluminou, sob a touca, a fronte da velha abadessa.

            - Estou pronta a obedecer às vossas ordens, senhora rainha - disse - e a minha escolha está feita, indicai-me apenas o que devo fazer.

            - O mais rapidamente possível, acompanhareis essa jovem ao castelo de Creil, serão dadas ordens para que os aposentos do rei lhe sejam abertos. O resto fica nas mãos de Deus.

            A abadessa inclinou-se e deu alguns passos em direcção à porta.

            - A propósito - disse a rainha - esqueci-me de prevenir-vos que ordenei que fosse levado a vossa casa, esta manhã, um relicário de ouro puro, no qual está fechado um pedaço da verdadeira cruz, que me foi enviado pelo rei da Hungria, que por sua vez o recebeu do imperador de Constantinopla. Atrairá, espero, sobre o vosso convento as graças do Senhor, e, para o vosso tesouro, as esmolas do povo. Encontrá-lo-eis na vossa igreja.

            A abadessa inclinou-se uma vez mais e saiu. A rainha chamou imediatamente as suas aias, vestiu-se, pediu a sua liteira e saiu para ir visitar, na rua Barbette, um pequeno palácio que acabava de comprar e onde contava estabelecer um retiro.

            O rei entretanto, como ela dissera, rodeado por doze homens vestidos de negro e mascarados, só pela força fazia alguma coisa: dominado por uma negra melancolia, os seus dias dividiam-se em períodos de furor e de atonia, segundo a febre o assaltasse ou o deixasse, no primeiro caso, parecia arder nos piores fogos no inferno, no segundo, tremia como se tivesse sido exposto completamente nu ao frio mais rigoroso, quanto ao resto, não tinha a mínima recordação, a mínima memória, o mínimo raciocínio para discernir, nenhum sentimento além do da sua dor.

            Logo nos primeiros dias, o doutor Guilherme estudara a doença com o maior cuidado, notara assim que qualquer ruído mais forte o fazia estremecer e o perturbava durante muito tempo: ordenara em consequência que os sinos deixassem de tocar, apercebera-se de que a vista das flores de lis, sem que se soubesse porquê, punha o rei num estado de cólera terrível: tinham por isso sido retirados do castelo todos os emblemas heráldicos da realeza, recusava-se a beber ou a comer, não queria deitar-se quando estava a pé e não queria levantar-se quando estava deitado: o médico imaginou o expediente de o mandar servir por homens bizarramente vestidos e mascarados de negro: estes homens entravam bruscamente, e então a coragem moral desaparecia com a razão do rei, deixando apenas o instinto animal da conservação. Carlos, tão ousado e tão bravo, tremia como uma criança, obedecia como um autómato, mal respirava e deixava até de falar para queixar-se. Mas o hábil médico não deixara de notar que o bem físico que teriam podido produzir os remédios que o doente era forçado a tomar por este processo, era muito diminuído, senão completamente anulado, pelos estragos morais que o próprio processo causava, fora então que pensara em substituir a violência pela doçura. Fosse por progresso em direcção à cura, fosse por prostração de forças, o certo era que o rei estava sensivelmente acalmado, havia pois a esperança de que uma voz amada lhe fosse buscar ao fundo do coração a memória que lhe fugira da cabeça, e de que ele visse com prazer um rosto doce e gracioso suceder-se às horríveis máscaras dos seus guardas: lembrara-se então da rainha e solicitara-lhe que fosse continuar a cura tão felizmente começada. Acabamos de ver os motivos que impediram Isabel de submeter-se a este plano, e a substituição com que esperava, apesar de tudo, vê-lo cumprir-se.

            Mestre Guilherme foi informado das modificações que acabavam de ser introduzidas no seu projecto, se bem que menos seguro do êxito, devido à substituição, decidiu-se no entanto a executá-lo, e aguardou com alguma esperança a jovem irmã que lhe seria enviada.

            E ela chegou à hora combinada, acompanhada pela superiora, era na verdade a cabeça angélica que o médico poderia ter sonhado para aquela cura maravilhosa, não vestia, no entanto, o hábito das irmãs da Trindade, e os seus cabelos, intactos em todo o seu comprimento, anunciavam que não tinha ainda pronunciado os votos.

            Mestre Guilherme julgou dever tranquilizar a pobre jovem, mas viu-a tão submissa e resignada que tudo o que pôde fazer foi abençoá-la: tinha preparado uma série de recomendações, mas nem uma lhe saiu da boca.

            e abandonou tudo ao sentimento e à inspiração daquela alma pura que se dedicava.

            Odette (pois era ela) cedera às instâncias da tia, ao aperceber-se de que havia uma profunda devoção naquilo que solicitavam dela: quando o amor é reprimido no fundo de uma alma generosa, brota mais cedo ou mais tarde sob a forma de uma grande virtude, e só aqueles que levantem o véu que a cobre poderão reconhecê-la pelo que na verdade é, mas os que apenas a vêem passar, persistem no seu erro e chamam-na pelo nome que adoptou.

            Carlos tinha saído com os seus guardas: o sol do meio-dia fazia-o sofrer, de modo que se aproveitavam as manhãs e as tardes para os seus passeios. Odette encontrou-se pois sozinha na câmara real. Passou-se então uma coisa estranha na alma daquela criança, nascida tão longe do trono, para onde o destino insistia em empurrá-la, como um pequeno barco atirado contra um rochedo. Tudo, naquele quarto, indicava a presença de cuidados mercenários e o abandono das pessoas queridas, sentiu-se então dominada por uma grande compaixão para com aquela infelicidade. A realeza, coberta de luto e sem coroa, a implorar os cuidados de uma rapariga do povo, pareceu-lhe sublime: porque Cristo flagelado e transportando a sua cruz tem mais grandeza do que Jesus expulsando os vendilhões do templo.

            Tudo era silencioso e triste naquele quarto imenso, onde a luz do dia só entrava através de vitrais coloridos, uma grande lareira de pedra esculpida, na qual ardia um grande fogo, apesar de se estar na época de maior calor, fazia face a um grande leito coberto por cortinas de damasco verde com flores bordadas a ouro. Essas cortinas, rasgadas em farrapos, falavam das lutas frenéticas que a loucura com elas tinha travado. O soalho estava juncado de fragmentos de móveis e de jarros que o rei destruía durante os seus acessos e que ninguém se lembrara de retirar, tudo, enfim, apresentava a imagem da destruição selvagem: via-se que só a matéria habitava aquele quarto, e o desastre cujos traços se reconheciam mais parecia causado pela presença de algum animal feroz do que pela habitação de um homem.

            Ao ver isto, esse temor que é tão próprio da fraqueza feminina apoderou-se de Odette, sentiu que, pobre e tímida gazela, tinha sido atirada para o antro de um leão, que ao louco lhe bastaria tocá-la para a quebrar também, como um desses móveis cujos destroços pisava com os pés. E ela não tinha a harpa de David para encantar Saul.

            Estava entregue a estes pensamentos quando ouviu um grande ruído, eram queixumes e gritos como os que lança um homem dominado pelo terror, depois, a estes ruídos, juntaram-se as vozes de várias outras pessoas, que pareciam perseguir alguém, com efeito, o rei acabava de escapar-se à vigilância dos seus guardas, que só tinham conseguido alcançá-lo no aposento contíguo, onde começava a travar-se uma luta. Ao ouvir estes gritos e vociferações, Odette sentiu-se tremer, procurou, para fugir, a porta escondida pela tapeçaria, por onde tinha entrado, e, não a encontrando, correu para a outra porta, mas o tumulto aproximava-se de tal modo que lhe pareceu que só a madeira a separava dos que o causavam, correu então para um dos ângulos da cama, envolvendo se nos cortinados para se esconder, se fosse possível, dos primeiros olhares do rei furioso. Mal o tinha feito, ouviu-se a voz de mestre Guilherme, gritando:

            - Deixai o rei!

            E a porta abriu-se.

            Carlos entrou, tinha os cabelos eriçados, o rosto pálido e coberto de suor, as roupas em farrapos, correu para o fundo do quarto, procurando uma arma com que pudesse defender-se, mas, não encontrando nenhuma, voltou-se aterrado para a porta. Tinham-na fechado, o que pareceu tranquilizá-lo um pouco. Olhou fixamente para ela durante alguns segundos, e então, avançando nas pontas dos pés para não ser ouvido, deu rapidamente volta à chave, fechando-se assim por dentro. Procurou depois com os olhos qualquer meio de defesa a que pudesse recorrer, e, vendo o leito, agarrou-o pelo lado contrário àquele onde se encontrava Odette e arrastou-o para diante da porta, que queria defender contra os seus inimigos, lançou então uma dessas gargalhadas de louco que causam arrepios a quem as ouve, e, deixando pender os braços ao longo do corpo e a cabeça para o peito, foi lentamente sentar-se junto da lareira, sem ver Odette, que permanecera no mesmo lugar, mas agora descoberta.

            Então, fosse por o acesso da febre ter passado, fosse por o medo ter desaparecido com o afastamento dos objectos que o causavam, a fraqueza seguiu-se ao furor, e o rei afundou-se no cadeirão onde se sentara, queixando-se tristemente, muito baixo. Pouco depois começou a tremer, batendo os dentes, via-se que devia sofrer horrivelmente.

            Ao ver isto, o medo desapareceu da alma de Odette, tornava-se forte à medida que o rei enfraquecia. Estendeu as mãos para ele e, ainda sem ousar erguer-se, perguntou com uma voz muito tímida:

            - Senhor, que posso fazer por vós?

            O rei voltou a cabeça ao ouvi-la e avistou Odette no outro extremo do aposento, olhou-a então por um instante com esse olhar triste e doce que era o seu quando gozava de saúde, e depois disse lentamente, com uma voz que ia enfraquecendo cada vez mais: - Carlos tem frio.., frio... frio...

            Odette aproximou-se vivamente e pegou-lhe nas mãos, estavam efectivamente geladas. Voltou para junto do leito e, pegando numa manta, aqueceu-a ao lume e envolveu nela o rei, isto deve ter-lhe dado algum alívio, pois pôs-se a rir como uma criança. Odette recuperou um pouco de coragem.

            - E porque tem o rei tanto frio? - perguntou.

            - Que rei?

            - O rei Carlos.

            - Ah, Carlos!

            - Sim, porque tem Carlos tanto frio?

            - Porque Carlos teve medo. E recomeçou a tremer.

            - E como pode Carlos, que é um rei tão grande e tão forte, ter medo?

            - Carlos é grande e forte, e não tem medo dos homens - aqui baixou a voz -, mas tem medo do cão negro.

            O rei dissera aquelas palavras com uma tal expressão de terror, que Odette olhou em torno para ver se avistava o animal de que ele falava.

            - Não, não, ele não entrou - disse Carlos. - Mas entrará quando eu me deitar: é por isso que não quero deitar-me... Não quero... Não quero. Carlos quer ficar perto do fogo. De resto. Carlos tem frio.., frio... frio...

            Odette voltou a aquecer a manta e a envolver o rei, depois, sentando-se aos pés dele, tomou-lhe as mãos entre as suas.

            - ,É então muito mau, o cão negro?

            - Não, mas sai do rio, e é gelado.

            - E correu atrás de Carlos esta manhã?

            - Carlos saiu, porque ardia e tinha necessidade de ar, desceu a um belo jardim onde havia flores, e Carlos sentia-se muito contente...

            O rei retirou as mãos de entre as de Odette e apertou a cabeça, como se quisesse adormecer uma dor. Depois continuou:

            - Carlos caminhava sempre sobre uma erva muito verde, cheia de margaridas dos prados, caminhou tanto, tanto, que ficou cansado. Então viu uma bela árvore, que tinha maçãs de ouro e folhas de esmeraldas, e deitou-se debaixo dela, olhando para o céu:

            estava todo azul, com estrelas de diamante. Carlos olhou durante muito tempo, porque era um bonito espectáculo, subitamente ouviu uivar o cão, mas ainda longe, muito longe. Então o céu tornou-se negro, as estrelas tornaram-se vermelhas, os frutos da árvore foram sacudidos, como se houvesse muito vento, fazendo, de cada vez que se chocavam, o mesmo ruído que faz uma lança ao bater num elmo, subitamente nasceram, a cada um daqueles belos frutos de ouro, duas asas de morcego, que começaram a agitar-se, depois apareceram-lhes olhos, um nariz, uma boca, como nas cabeças de mortos. O cão uivou de novo, mas mais perto, mais perto, então a árvore tremeu até à raiz, as asas agitaram-se, as cabeças lançaram gritos, as folhas cobriram-se de suor, e todas as gotas caíram, frias, frias, frias, sobre Carlos. Então Carlos quis levantar-se e fugir, mas o cão uivou pela terceira vez, mesmo ao lado, mesmo ao lado... E Carlos sentiu que ele se deitava sobre os seus pés, esmagando-os com o seu peso, e ele subia lentamente, lentamente, para o seu peito, pesando como uma montanha, Carlos quis repeli-lo com as mãos, e o cão lambeu-lhas com a sua língua de gelo... Oh! oh! oh!... Carlos tem frio.., frio.., frio.

            - Mas, se Carlos se deitasse - disse Odette - não teria talvez menos frio?

            - Não, não, Carlos não quer deitar-se, não quer, não quer... Logo que Carlos se deita, o cão negro entra, gira em torno da cama, levanta as mantas e deita-se sobre os seus pés, e Carlos prefere morrer.

            E o rei fez um movimento, como que para fugir.

            - Pois bem! Não, não - disse Odette, levantando-se e tomando o rei entre os seus braços. - Carlos não se deitará.

            - Carlos gostaria no entanto de poder dormir - disse o rei.

            - Pois Carlos dormirá aqui, sobre o meu peito. Sentou-se no braço do cadeirão, passou uma mão pelo pescoço do rei e fixou-lhe a cabeça sobre o seio.

            - Carlos está bem assim? - perguntou.

            O rei ergueu os olhos para ela, com uma inefável expressão de reconhecimento.

            - Oh, sim, Carlos está bem... bem... bem...

            - Então Carlos pode dormir, e Odette velará para que o cão negro não entre.

            - Odette! - disse o rei. - Odette!

            E pôs-se a rir com a expressão apatetada da infância.

            - Odette!

            E repousou a cabeça no seio da jovem, que ficou imóvel, contendo a respiração.

            Cinco minutos depois, a pequena porta abriu-se e o médico Guilherme entrou silenciosamente, avançou nas pontas dos pés para o grupo imóvel, pegou na mão que o rei deixava pender e tacteou-lhe o pulso, aproximou uma orelha do seu peito e escutou-lhe a respiração.

            Depois, endireitando-se com uma expressão radiante, disse muito baixo:

            - O rei dorme melhor do que jamais dormiu durante este mês. Deus a abençoe, minha filha, pois fez um milagre.

 

            A notícia da doença do rei espalhara-se pela Inglaterra quase ao mesmo tempo que pela França, e, como na França, causara grandes divisões. O rei Ricardo e o duque de Lancastre, que apreciavam Carlos, tinham ficado preocupados, o duque de Lancastre, sobretudo, deplorava este acidente, como fatal não apenas para a França, como para toda a cristandade.

            - Esta loucura é uma grande infelicidade - repetia frequentemente aos cavaleiros e escudeiros que o rodeavam porque o rei Carlos era um homem de vontade e de poder e que só desejava tanto a paz entre os dois reinos para marchar contra os infiéis: e, agora, tudo isso fica adiado, porque ele teria sido a alma dessa cruzada, e só Deus sabe se agora se poderá fazer.

            Com efeito, Mourad-Bey - cujo nome os franceses traduziram para Amurat, e a quem Froissart chama, na sua linguagem antiga, o Morabaquin - acabava de apoderar-se do reino da Arménia e ameaçava destruir o império cristão do Oriente. O rei Ricardo e o duque de Lancastre eram pois de opinião que as tréguas concedidas aquando da entrada da rainha Isabel em Paris deviam ser mantidas e até prolongadas.

            Quanto ao duque de Gloucester e ao conde de Essex, eram de opinião contrária, tinham captado para o seu partido o conde de Buckingham, condestável da Inglaterra, e eram secundados por todos os jovens cavaleiros que desejavam fazer a guerra, exigiam-na, dizendo que o momento era propício e que deviam aproveitar, no fim das tréguas, a grande perturbação que a doença do rei causara na França para reclamar a execução do tratado de Brétigny. Mas a vontade de Ricardo e do conde de Lancastre impôs-se, e os parlamentos reunidos em Westminster, compostos por prelados, nobres e burgueses, decidiram que as tréguas por mar e por terra assinadas, com a França, e que deveriam expirar a 16 de Agosto de 1392, seriam prolongadas por um ano.

            Entretanto, os duques de Berry e da Borgonha dirigiam a seu grado o reino da França. Não tinham esquecido o seu ódio contra Clisson e o exílio de Paris não lhes parecera pena suficiente: a vingança de ambos pedia mais, e obteve-a. Como o condestável tinha abandonado Montlhéry, demasiado próximo de Paris para que se julgasse em segurança, e se dirigira a um forte que possuía na Bretanha, chamado Châtel-Gosselin, desesperaram de capturá-lo. Mas quiseram pelo menos retirar-lhe as suas dignidades e o seu cargo, em consequência, Clisson foi intimado a comparecer ante o Parlamento de Paris, para responder às acusações contra ele feitas, sob pena de ver-se degradado dos seus títulos e do posto de condestável. O processo foi, de resto, feito com toda a ordem: todos os adiamentos que os acusados obtêm nestes casos lhe foram concedidos, por fim, quando se cumpriu a última quinzena de adiamento, chamaram-no por três vezes na câmara do Parlamento, três vezes à porta do palácio e três vezes ao fundo da escadaria do pátio: e, como ele não respondesse, nem ninguém por ele, foi banido do reino como mau e falso, traidor contra a coroa de França, condenado a cem mil marcos de prata de multa, como restituição pelas extorsões que o acusavam de ter cometido no exercício do seu cargo, e, finalmente, demitido do seu cargo de condestável. O duque de Orleães foi convidado a assistir à leitura desta sentença, mas, não podendo impedi-la, não quis, pelo menos, sancioná-la com a sua presença, e recusou-se a comparecer na câmara, mas os duques de Berry e da Borgonha não deixaram de o fazer e a condenação foi pronunciada na presença de ambos e de um grande número de barões e cavaleiros. Este julgamento levantou grande celeuma em todo o reino e foi acolhido das mais diversas maneiras, mas todos concordavam em dizer que tinham feito bem em aproveitar a doença do rei para o levar a cabo, pois, se o soberano estivesse de saúde, nunca o teria consentido.

            Entretanto, o rei estava em vias de curar-se. Todos os dias eram recebidas notícias maravilhosas sobre as melhoras da sua saúde. Uma das coisas que mais tinham contribuído para o distrair da sua melancolia fora uma invenção nova de um pintor chamado Jacquemin Gringonneur, que habitava na rua da Verrerie. Odette recordara-se desse homem, que conhecera em casa do pai, escrevera-lhe, pedindo-lhe que fosse a Creil e levasse consigo as imagens bizarramente coloridas que lhe vira fazer. Jacquemin foi, com o seu jogo de cartas.

            O rei gostou muito daquelas figuras, que começou por examinar com a ingénua curiosidade de uma criança, mas passou a entreter-se muito mais, à medida que recuperava a razão, quando soube que cada uma daquelas figuras tinha um significado e que podia desempenhar um papel num jogo alegórico, imagem da guerra e do governo. Jacquemin ensinou-lhe que o "às" devia ter a primazia sobre todas as outras cartas, e até sobre os reis, porque o seu nome vinha de uma palavra latina que significa "dinheiro", ora todos sabiam que o dinheiro era o nervo da guerra. Eis porque, quando um rei não tem dinheiro, fica tão fraco que pode ser vencido por um lacaio que o tenha. Disse-lhe que o "trevo", essa erva das nossas pradarias, tinha por objectivo recordar aquele que o cortasse que um general nunca devia assentar o seu campo num lugar onde a forragem pudesse faltar ao seu exército.

            Quanto aos "picos" [ trevos, picos, quadrados e corações correspondem, evidentemente, à nossa denominação de paus, espadas, ouros e copas], não era difícil adivinhar que designavam as alabardas que, na época, os soldados de infantaria usavam, e os "quadrados" os ferros com que se armavam as pontas desses dardos chamados virotões, que eram disparados por uma besta. Os "corações", pelo seu lado, eram evidentemente o emblema da coragem dos capitães e dos soldados. De resto, os nomes dados aos quatro reis, "David", "Alexandre", "César" e "Carlos-Magno", provavam que, por numerosas e bravas que fossem as taipas, era preciso, para ter a certeza da vitória, dar-lhes por chefes homens prudentes, corajosos e experimentados. Mas, como a bravos generais são necessários bravos ajudantes-de-campo, tinham sido escolhidos como "valetes", entre os antigos, "Lancelote" e "Ogier", e entre os modernos "Renaud" [Renaud, castelão de Coucy] e "Hector"! [ Hector de Galard]. Como este título de "valete" era perfeitamente honroso, e os maiores senhores o usavam até serem armados cavaleiros, os "valetes" representavam os nobres, tendo sob as suas ordens os "dez", os "noves", os "oitos" e os "setes", que não eram outra coisa senão os soldados e os homens comuns.

            Quanto às damas, Jacquemin não lhes tinha ainda dado outro nome além do dos maridos, indicando assim que a mulher nada era por si própria e que de força e esplendor só tinha o que recebia do seu senhor e amo(1).

            [1. Só no reinado seguinte foram baptizadas, Argine, damme, de Paus, cujo nome é o anagrama de "regina", designava a rainha Maria de Anjou, mulher de Carlos VII; a bela Raquel, dama de Ouros, não era outra senão Agnes de Sorel; a donzela de Orleãs reconhecia-se sob o nome da casta e guerreira Pallas, por fim, Isabel da Baviera, traindo-se sob o nome de dama de copas, ressuscitou sob o nome da imperatriz Judite, mulher de Luís le Dubonnaire, que não se deve confundir, sob pena de cometer um grave erro, com a severa Judite que cortou a cabeça a Holofernes].

            Esta distracção proporcionou ao rei a tranquilidade de espírito, e a tranquilidade de espírito a recuperação das forças, em breve começava a comer e a beber com prazer: os pesadelos terríveis, provocados pela febre, começaram a desaparecer pouco a pouco, já não temia repousar no seu leito, e, desde que Odette velasse junto dele, dormia tranquilo. Um dia, mestre Guilherme considerou-o suficientemente forte para montar uma mula. No dia seguinte, apresentaram-lhe o seu cavalo favorito, no qual fez um longo passeio, por fim, organizou-se uma caçada às cotovias, e Carlos e Odette, com os seus gaviões, apresentaram-se nos campos circundantes, onde foram acolhidos, um com gritos de alegria, a outra com gritos de reconhecimento.

            Na corte da França, de resto, só se falava no regresso do rei à saúde, e no modo miraculoso como essa cura fora conseguida. Muitas damas invejavam a bela desconhecida, cuja conduta, segundo elas, não passava de cálculo, todas, a acreditar no que diziam, teriam mostrado a mesma dedicação, se bem que, nos dias infelizes, nenhuma se tivesse oferecido. Temia-se a influência que aquela jovem, por pouco ambiciosa que fosse, pudesse ter sobre o rei. Até a rainha se inquietou com os resultados da sua própria obra, mandou chamar a superiora do convento da Trindade, enviou ricos presentes à sua comunidade e pediu-lhe que fosse buscar a sobrinha. Odette recebeu, consequentemente, ordens para regressar ao convento.

            No dia marcado para a sua partida, Odette avançou, com os olhos cheios de lágrimas, ao encontro do rei, e pôs um joelho em terra: Carlos observou-a com temor, e, pensando que alguém lhe causara alguma inquietação, estendeu uma mão para ela, perguntando-lhe por que chorava.

            - Caro sire - respondeu a jovem -, choro porque tenho de deixar-vos.

            - Deixar-me, tu, Odette? - exclamou o rei, assombrado. - E porquê, minha criança?

            - Porque já não tendes necessidade de mim, sire.

            - E temes ficar demasiado tempo junto de um pobre louco? Sim, é verdade, já roubei demasiados dias à tua vida jovem e alegre para os entristecer com a sombra dos meus, já roubei demasiadas flores à tua fresca coroa para as emurchecer com as minhas mãos ardentes. Estás cansada da reclusão em que vives e o prazer chama-te. Vai! - sentou-se, escondendo o rosto entre as mãos.

            - Sire, é a superiora da Trindade quem vem buscar-me e é o convento o que me espera.

            - Não és então tu quem quer deixar-me, Odette? - perguntou o rei, erguendo vivamente a cabeça.

            - A minha vida pertence-vos, senhor, e seria feliz consagrando-vo-la até ao último dos meus dias.

            - E quem te afasta então de mim?

            - A rainha, creio, em primeiro lugar, e depois os vossos tios da Borgonha e de Berry.

            - A rainha, os meus tios da Borgonha e de Berry? Eles, que me abandonaram nos dias da minha fraqueza, querem voltar para mim nos dias da minha força! Odette, Odette, tu não queres deixar-me, não é verdade?

            - Não tenho outra vontade que a do meu amo e senhor. Farei o que ele ordenar.

            - Pois bem, então ordeno que fiques - disse Carlos, radiante. - Este castelo não é então uma prisão para ti, querida criança? Os cuidados que me prodigalizas não são apenas os da caridade? Oh, se assim fosse, Odette, se assim fosse poderia ser feliz! Olha-me, oh! não te escondas assim.

            - Sire, sire, fazeis-me morrer de vergonha.

            - Odette, sabes - disse o rei, pegando-lhe nas mãos e atraindo-a para si -, sabes que me habituei a ver-te, de noite quando adormeço, depois quando sonho, de manhã quando abro os olhos. Sabes que és o anjo da guarda da minha razão, que foste tu, com a tua varinha mágica, quem expulsou os demónios que uivavam em torno de mim.

            Tornaste os meus dias puros, as minhas noites tranquilas. Odette, Odette, sabes que a gratidão é um bem fraco sentimento para tais dádivas? Odette, sabes que te amo? Odette lançou um grito, libertou as mãos das do rei e ficou diante dele, trémula.

            - Senhor, senhor! - exclamou. - Que dizeis?

            - Digo - continuou Carlos - que agora és necessária à minha vida. Não fui eu quem foi procurar-te, não é verdade? Ignorava até que existisses. Foste tu, alma de anjo, quem adivinhou que eu sofria, e por isso vieste. Devo-te tudo, pois devo-te a razão, e a minha razão é a minha força, o meu poder, a minha realeza, o meu império. Pois bem, vai-te, e deixar-me-ás tão pobre e tão nu como quando me encontraste; porque a minha razão irá contigo. Oh! sinto-o, só à ideia de perder-te, ela flutua já numa nuvem...

            Levou as duas mãos à cabeça.

            - Oh! meu Deus! meu Deus! - exclamou, assustado. - Voltarei a ficar louco? Meu Deus, Senhor, tende piedade de mim!

            Odette lançou um grito e precipitou-se para o rei.

            - Oh, sire, sire! Não faleis dessa maneira. - Carlos fixou nela uns olhos tresloucados.

            - Oh! sire, não me olheis assim. Meu Deus, meu Deus, é o vosso olhar de louco que me fez tanto mal.

            - Tenho muito frio - disse Carlos.

            Odette lançou-se nos braços do rei, apertando-o contra o peito para o aquecer e envolvendo-o nos braços com todo o abandono da inocência.

            - Afasta-te, Odette, afasta-te - murmurou o rei.

            - Não, não - continuou Odette, sem o ouvir - não voltareis a ficar louco, não, Deus levará o meu sangue, levará os meus dias e deixar-vos-á a vossa razão. Ficarei junto de vós, não vos deixarei um minuto sequer, nem um segundo. Estarei aqui, sempre aqui.

            - Assim, nos meus braços? - perguntou o rei.

            - Sim, nos vossos braços.

            - E amar-me-ás? - continuou Carlos, obrigando-a a sentar-se-lhe nos joelhos.

            - Eu, eu - murmurou Odette, fechando os olhos e deixando pender a cabeça para o ombro do rei.

            - Oh! não devo, não posso. Os lábios ardentes de Carlos fecharam-lhe a boca.

            - Por misericórdia, sire, morro - murmurou ela. E desmaiou.

            Odette ficou.

 

            Alguns dias após a cena que acabamos de relatar, e enquanto Odette estava deitada aos pés de Carlos, olhando-o com a cabeça apoiada nos joelhos do rei, mestre Guilherme entrou vivamente, anunciando a rainha.

            - Ah! - exclamou Carlos -, já não tem medo de encontrar-se com o pobre louco. Disseram-lhe que recuperei a razão e já ousa aventurar-se no antro do leão. Mandai entrar Isabel para o aposento contíguo.

            Mestre Guilherme saiu.

            - Que tens tu? - perguntou o rei a Odette.

            - Nada - respondeu ela, limpando uma grossa lágrima.

            - Tola - disse o rei.

            Depois beijou-a na testa, e, tomando-lhe a cabeça entre as duas mãos, levantou-se, voltou a pousá-la no cadeirão, beijou-a uma vez mais e saiu. Odette ficou na posição em que o rei a tinha deixado. Um instante mais tarde, pareceu-lhe ver uma sombra projectar-se até ela, voltou-se.

            - O senhor duque de Orleães! - exclamou, escondendo o rosto entre as mãos.

            - Odette!... - exclamou o duque.

            E ficou a olhar para ela, imóvel e estupefacto.

            - Ah! - disse amargamente, após um instante de silêncio -, sois então vós, senhora, quem faz tais milagres? Já sabia que éreis uma poderosa encantadora, sabia que podíeis tirar a razão, mas ignorava que pudésseis devolvê-la.

            Odette suspirou.

            - Agora - continuou o duque - compreendo essa virtude severa e armada: alguma cigana vos predisse que seríeis rainha da França, e o amor do primeiro príncipe de sangue não vos bastava.

            - Senhor - disse Odette, erguendo-se e mostrando ao duque um rosto calmo e digno -, quando vim para junto do rei, nosso senhor, fi-lo como uma vítima que se dedica, e não como uma cortesã que busca fortuna, é possível que, se então tivesse encontrado junto do rei algum príncipe de sangue, a sua presença me tivesse sustido, mas vi aqui um infeliz cuja única coroa era a de espinhos, um ser abandonado por Deus, privado da razão e do instinto, não tendo sequer aquilo que a natureza deu ao último dos animais, o sentimento da própria conservação. Pois bem, esse homem, esse infeliz, era na véspera um rei belo, jovem, poderoso, no espaço de uma noite, tinha vivido trinta anos, entre dois sóis, a sua fronte enrugara-se como a de um velho, de todo o seu poder, não lhe restava sequer o desejo de ser poderoso, pois o seu espírito deixara escapar a memória e a razão. Então, ao ver essa juventude envelhecida, essa beleza emurchecida, esse poder desaparecido, deixei-me dominar por uma grande compaixão por uma tão grande infelicidade. A realeza sem trono, sem ceptro, sem coroa, a antiga, a santa realeza, arrastando-se sobre os joelhos, gritando por misericórdia, e ninguém lhe respondia, estendia os braços, e ninguém lhe oferecia a mão, derramava lágrimas, e ninguém lhe limpava o rosto. Oh! senti então que fora escolhida, que Deus me reservara para uma grande missão, que havia posições tão fora dos cálculos ordinários da vida, que as convenções habituais da vida se apagavam diante delas, que a palavra virtude era, neste caso, um punhal com o qual se acabava de matar um moribundo, e que mais valia perder a alma e salvar uma vida, quando essa alma não passava da de uma pobre rapariga, e essa vida era a de um grande rei.

            O duque de Orleães olhou-a com assombro, escutava aquela eloquência do coração, que lhe viera subitamente, como essas flores que desabrocham numa noite.

            - Sois uma rapariga estranha, Odette - disse o duque - e seríeis um anjo se o que me dizeis é verdade.

            Mas quero acreditar que sim. Peço-vos perdão por vos ter ofendido, mas foi porque vos amei tanto!

            - E eu, senhor? Oh! se tivésseis sido infeliz!...

            - Oh! Carlos, Carlos! - exclamou o duque de Orleães, batendo na testa.

            Neste momento, o rei entrou. Os dois irmãos lançaram-se nos braços um do outro, mestre Guilherme entrara atrás do rei.

            - Senhor duque de Orleães - disse -, graças a Deus, eis o rei em bom estado, entrego-vo-lo livre, mas, doravante, que todos se guardem de o irritar ou sobrecarregar, porque não está ainda muito firme nos seus espíritos, e sobretudo - acrescentou, olhando para Odette - não o afastem do seu génio bom, enquanto a tiver junto de si, respondo por tudo.

            - Mestre Guilherme - respondeu o duque - não estimais suficientemente a vossa ciência, que é demasiado necessária ao rei para que o deixeis já.

            - Oh, senhor - disse mestre Guilherme, abanando a cabeça - sou um pobre velho fraco e impotente, incapaz de habituar-me aos hábitos da corte, deixai-me voltar à minha cidade de Laon. Cumpri o meu destino e agora posso morrer.

            - Mestre Guilherme - disse então o duque - a vossa recompensa compete aos duques de Berry e da Borgonha, e espero que vo-la farão bela e rica. Em todo o caso, se não ficardes contente com eles, procurai Luís de Orleães, e vereis que não usurpou a reputação de magnífico.

            - Deus já fez por mim mais do que os homens poderiam fazer - respondeu o médico, inclinando-se -, e o pouco que eles façam depois dEle será sempre demasiado em relação aos seus méritos.

            Mestre Guilherme inclinou-se e saiu, no dia seguinte, apesar de todos os pedidos que lhe foram feitos, deixou o castelo de Creil e voltou à sua casa, perto da cidade de Laon, para nunca mais voltar a Paris, apesar de lhe terem sido oferecidas cem mil coroas de ouro e postos à sua disposição, para a viagem, quatro cavalos das estrebarias do rei.

            Carlos, pelo seu lado, voltou ao palácio de Saint-Paul, perto do qual ofereceu uma pequena casa a Odette, e tudo voltou a ser pouco mais ou menos como antes da sua doença.

            O rei apressou sobretudo o seu regresso aos assuntos do reino para dar o seu apoio a uma grande e santa empresa com que sempre tinha sonhado: uma cruzada contra os Turcos.

            Tinham chegado a Paris embaixadores de Segismundo, enquanto o rei se encontrava em Creil, a relatar os projectos de Bajazet, que sucedera a seu pai, morto numa grande batalha travada contra o rei dos Húngaros. O próprio Bajazet anunciara os seus planos, que não eram outros senão invadir a Hungria, atravessar os reinos da cristandade, colocando-os sob o seu domínio, e deixando depois a cada um a liberdade de seguir a sua lei, depois chegar a Roma com todo o seu poder e dar aveia a comer ao seu cavalo de batalha no altar-mor de São Pedro. Isto eram abomináveis blasfémias, que deviam sublevar contra o descrente todos os que tivessem um coração cristão.

            Por isso o rei Carlos jurara que a França, essa filha mais velha da Igreja de Cristo, não consentiria numa tal profanação, nem que tivesse ele de marchar em pessoa contra os infiéis, como tinham feito os reis Filipe Augusto, Luís IX e Luís VII, seus antecessores. O conde de Eu, que retomara a espada de condestável das mãos de Clisson, e o marechal Boucicaut, que viajara pelos países dos infiéis, apoiavam fortemente a resolução do rei, e diziam que era dever de todo o cavaleiro que fizesse o sinal da cruz unir-se contra o inimigo comum.

            Quem mais levara a peito esta empresa, porém, fora o duque Filipe da Borgonha: era a isso levado pelo filho, o conde de Nevers, que esperava ser nomeado chefe desse exército de "elite" e fazer, com ele, grandes e belos feitos de armas. O duque de Berry, pelo seu lado, não se opunha, a empresa foi pois rapidamente aprovada pelo conselho. Despediram-se então os embaixadores, com a palavra do rei, foram enviados mensageiros ao imperador da Alemanha e ao duque da Áustria, solicitando passagem pelos seus Estados, e escreveu-se ao grande mestre da ordem Teutónica e aos cavaleiros de Rodes para lhes anunciar que João da Borgonha marcharia em seu socorro, acompanhado por mil cavaleiros e escudeiros escolhidos entre os mais valorosos homens do reino, a fim de resistir às ameaças e palavras do rei Bajazet, chamado o "Amorath-Baquin".

            O duque da Borgonha ocupou-se então activamente de montar a casa militar do filho, pois queria-a digna de um príncipe da flor de lis. A primeira coisa em que pensou foi dar-lhe como companheiro um cavaleiro de grande experiência e grande coragem. Escreveu a sire de Coucy, que acabava de chegar de Milão, pedindo-lhe que fosse falar-lhe ao palácio de Artois, onde habitavam. Enguerrand aceitou imediatamente este convite, e mal o duque e a duquesa o avistaram, saíram-lhe ao encontro, dizendo:

            - Sire de Coucy, com certeza ouvistes falar da cruzada que se prepara e de que o nosso filho será o chefe, sabeis que esse filho será o sol da casa da Borgonha. Pois bem! Confiamo-lo inteiramente a vós e à vossa grande coragem, porque sabemos que, de todos os cavaleiros da França, sois o mais hábil no mister das armas. Suplicamo-vos pois que sejais seu companheiro e conselheiro durante a rude viagem que vai empreender e que, .rogamo-lo a Deus, se converterá em honra nossa e de toda a cristandade.

            - Senhor, e vós, senhora - respondeu de Coucy -, um tal pedido é para mim uma ordem, e, se vai agradar a Deus, farei essa viagem por duas razões: a primeira, por devoção e para defender a fé de Jesus Cristo, a segunda, para tentar tornar-me digno da honra que me fazeis. No entanto, senhor e senhora, deveríeis dispensar-me dessa responsabilidade e encarregar dela alguém mais digno, por exemplo, mestre sire Filipe d'Artois, conde de Eu e condestável da França, ou então o seu primo, o conde de La Marche: ambos farão certamente parte da expedição, e ambos são mais próximo de sangue e de armas.

            - Sire de Coucy - interrompeu-o o duque - vistes e fizestes mais do que esses que nomeais. Conheceis o país que é preciso atravessar, e eles nunca o percorreram: eles são bravos e leais cavaleiros, mas vós sois mestre em lealdade e em bravura e renovamo-vos o nosso pedido.

            - Senhor - respondeu de Coucy - obedecerei à vossa ordem, e cumpri-la-ei com honra, espero-o, com a ajuda de Guy de La Trémouille, de Guilherme, seu irmão, e do almirante de França, João de Vienne.

            Decidido isto, o duque ocupou-se de arranjar o dinheiro necessário à empresa. Lançou um imposto, por ocasião da ascensão do filho à cavalaria, sobre toda a região plana, sobre os senhores dos castelos e sobre os burgueses das cidades muradas, imposto que ascendeu a cento e vinte mil coroas de ouro, mas, como isto não chegava nem de longe para pagar as despesas que se esperavam, ordenou a todos os senhores e damas dos seus feudos que se aprestassem para partir, tendo-os designado como devendo fazer parte da casa do filho, livres no entanto que eram de dispensar-se da viagem mediante um imposto razoável, este imposto era, para uns, de duas mil coroas, para outros, de mil, e, finalmente, para outros ainda, de quinhentas coroas, dependendo das receitas das suas terras.

            As velhas damas e cavaleiros, que, como diz Froissart, temiam o trabalho do corpo, pagaram o que o duque quis: quanto aos jovens, foi-lhes dito que não era o seu dinheiro, e sim as suas pessoas, o que se requeria, por conseguinte, que se aprestassem a fazer a viagem à própria custa, acompanhando na santa empresa o seu senhor João, e, com este segundo imposto, o duque conseguiu reunir mais sessenta mil coroas.

            Tudo se preparou pois o mais rapidamente possível, de sorte que, a 15 de Maio, encontrando-se todos prontos para a guerra, o conde João deu o sinal de partida, ao meter-se a caminho. Era seguido por mais de mil cavaleiros e escudeiros, tudo gente de valor e de condição, entre os quais se contavam senhores como o conde de Eu, condestável da França, Henrique e Filipe de Bar, de Coucy, e Guy de La Trémouille, Boucicaut, marechal da França, Regnault de Royce, Saint-Py e João de Vienne. A vinte de Maio, todo este exército entrou na Lorena, depois, atravessando o condado de Bar e a Borgonha, passou para a Alsácia, atravessou a região de Aunay e o rio Reno, fez uma curta paragem em Wurtemberga e alcançou a Áustria, onde os que o compunham foram recebidos com grandes honras pelo duque, que os aguardava, ali, separaram-se, para maior facilidade da marcha, tendo combinado como ponto de encontro a cidade de Buda, na Hungria.

            Entretanto, grandes e importantes assuntos eram tratados em Paris, tinham chegado embaixadores da Inglaterra, pedindo em casamento, para o rei Ricardo, Isabel da França, que era ainda uma criança. Esta união, exceptuando o pormenor da idade, era a todos os títulos conveniente, sendo a Inglaterra um reino e Ricardo um rei que podiam perfeitamente aliar-se ao reino e ao rei da França. Além disso, tal união poria definitivamente termo a essa guerra de extermínio que, havia quatro reinados, devastava dois países nascidos na mesma terra, ramos de um mesmo tronco, que, enfraquecidos pelo seu isolamento, apoiando-se um no outro poderiam resistir a todas as tempestades. O casamento foi pois combinado sem oposições e Isabel ficou noiva de Ricardo da Inglaterra, que deveria, no ano seguinte, ir recebê-la em Calais das mãos de Carlos de França. [ O casamento foi efectivamente celebrado na igreja de Saint-Nicolas de Calais, a 4 de Novembro de 1396].

            Entretanto, as recomendações que mestre Guilherme deixara a respeito dos cuidados a dispensar ao rei tinham sido pontualmente seguidas, sobretudo proporcionadas. Todos os dias havia passeios a cavalo, jantares no Louvre ou no palácio e, todas as noites, bailes no palácio de Saint-Paul, todos, para fazerem a corte ao rei e aos seus parentes, torturavam-se para inventar novas brincadeiras, e as mais loucas eram sempre as mais bem recebidas. Quanto a Odette, participava pouco de todas estas festas, de que o seu feitio simples a teria afastado mesmo que uma causa mais sagrada não lhas proibisse. Ia ser mãe!

            O rei, pelo seu lado, amava-a com esse amor profundo e reconhecido das almas elevadas: nem um dia se passava sem que encontrasse uma hora para dedicar à sua doce enfermeira, e quando, de noite, recapitulava as festas do dia, e de manhã os prazeres da noite, era sempre a hora passada junto dela que lhes parecia luminosa entre as horas de repouso.

            Ora acontece que, por esta altura, um jovem cavaleiro de Vermandois, que fazia parte do séquito do rei, desposou uma donzela alemã que pertencia à casa da rainha. Os augustos patronos dos jovens esposos decidiram, em consequência, que a boda se faria no palácio de Saint-Paul, e todos se puseram em busca de novas invenções, a fim de que aquela festa fosse a mais alegre e a mais agradável de todos os tempos. Como o baile era de máscaras, o rei tentou decidir Odette a assistir: mas ela recusou, alegando o perigo da sua situação e a fraqueza da sua saúde.

            A noite da festa chegou finalmente, todos tinham feito secretamente os seus preparativos, a fim de produzir mais efeito pela surpresa que tencionavam causar, o baile foi aberto por quadrilhas de máscaras vulgares, mas, cerca das onze horas, fizeram-se ouvir gritos de Dai lugar! Dai lugar! e um "valete" de "Picos" e outro de "Quadrados", de alabardas na mão e vestidos com as suas indumentárias características, colocaram-se de ambos os lados da porta, que no mesmo instante deu passagem a um jogo de cartas completo: os reis entraram por ordem de antiguidade, David caminhava à frente, seguido por Alexandre, atrás vinha César e, finalmente, Carlos-Magno. Cada um deles dava a mão à dama da sua cor, cujas caudas dos vestidos eram levadas por escravos.

            O primeiro desses escravos representava o jogo da péla, o segundo, o bilhar, o terceiro, o xadrez, o quarto, os dados. Atrás deles avançavam, como fazendo parte das casas respectivas, dez ases, vestidos como capitães dos guardas, comandando cada um nove cartas. O cortejo era encerrado pelos "valetes" de Trevos e de Corações, que fecharam a porta, para indicar que não havia mais ninguém, a entrar. Então a música do baile deu o sinal para a dança, os reis, as damas e os "valetes" formaram grupos de três e de quatro, divertindo muito a assistência, depois, por fim, tendo-se os vermelhos alinhado de um lado e os negros do outro, o bailado terminou por uma contradança geral em que todas as cores se encontraram misturadas sem distinção de idade, condição ou sexo.

            Ainda se ria desta ideia, que todos tinham achado extremamente divertida, quando uma voz, vinda da sala ao lado, pediu em francês que abrissem a porta. Todos imaginaram que este pedido era feito para a introdução de uma nova mascarada, pelo que a porta foi prontamente aberta. Com efeito, o que reclamava a abertura da porta era um chefe selvagem, conduzindo por uma corda cinco ou seis súbditos, ligados uns aos outros e envergando cotas de pano, sobre as quais, com a ajuda de pez resinados, tinha sido colado linho esfiapado e pintado da cor dos cabelos, aqueles seis homens pareciam pois nus e cobertos de pêlos, como os sátiros. As damas lançaram grandes gritos e recuaram ao vê-los, de modo que se formou no meio da sala um círculo vazio, onde os recém-chegados executaram as danças mais grotescas. Ao cabo de um instante, o temor desaparecera e as damas tinham-se aproximado, com excepção da duquesa de Berry, que persistia em ficar no seu canto, ao ver isto, o chefe dos selvagens aproximou-se dela, julgando fazer-lhe medo. No mesmo instante, grandes gritos soaram na sala. O duque de Orleães acabava de aproximar imprudentemente um archote de um dos mascarados, e os cinco selvagens tinham-se visto instantaneamente envolvidos pelas chamas. Um deles lançou-se para fora da sala, enquanto que o outro, esquecendo o próprio perigo e a sua própria dor, fez ouvir estas palavras terríveis.

            - Salvai o rei! Em nome de Deus, salvai o rei! Então a duquesa de Berry, adivinhando que quem se aproximava dela não era outro senão o próprio Carlos, lançou-lhe os braços em torno do corpo, porque ele queria voltar para junto dos companheiros, se bem que não pudesse levar-lhes qualquer socorro e corresse o risco de arder com eles, a duquesa, agarrando-se a ele, impediu-o de fazê-lo, gritando por socorro, continuavam a ouvir-se os mesmos gritos de dor e a mesma voz que dizia com angústia:

            - Salvai o rei! Salvai o rei!

            Era um espectáculo horrível, ver aqueles quatro homens em fogo, sem que ninguém ousasse aproximar-se deles, porque o pez, como um suor ardente, escorria-lhe dos corpos para o chão, e os farrapos que arrancavam daquelas roupas malditas traziam consigo pedaços de carne viva, como a túnica de Nessus, de sorte que naquela sala de Saint-Paul, sobre a hora da meia-noite, diz Froissart, o espectáculo era horroroso de ver e de ouvir, porque, dos quatro que ardiam, havia já dois mortos: um era o jovem conde de Joigny e o outro Mery de Poitiers. Quanto aos outros, foram levados muito queimados para os seus palácios: eram Henrique de Guisay e o bastardo de Foix, que continuava a dizer com voz débil, sem pensar no seu próprio martírio: Salvai o rei! Salvai o rei!

            O quinto, que tinha deixado a sala envolto em chamas, era o sire de Nantouille: recordara-se de ter passado, ao entrar, por uma garrafaria, e de ter visto umas grandes celhas cheias de água onde se lavavam os jarros e os copos, lançara-se pois para esse lado e atirara-se para uma delas, esta presença de espírito salvara-lhe a vida.

            Quanto ao rei, dera-se a conhecer á sua tia de Berry, e esta, mostrando-lhe Isabel desmaiada nos braços das suas aias, conseguira convencê-lo a correr aos seus aposentos para mudar de roupa, o medo que todos tinham sentido, em relação a ele, não tardou pois a acalmar-se, porque o rei voltou à sala ao cabo de alguns minutos, vestindo as suas roupas habituais. A rainha Isabel só recuperou os sentidos ao ouvir a sua voz e, mesmo assim, duvidou durante muito tempo de que nada lhe tivesse acontecido.

            Quanto ao duque de Orleães, estava desesperado, mas a sua dor para nada servia, a não ser para provar que o acidente só se devera à sua demasiada imprudência e juventude, gritava a quem quisesse ouvi-lo que tudo devia recair sobre ele, punição e arrependimento, e que, ao ver a desgraça que acontecera devido à sua loucura, daria a sua vida para resgatar as dos infelizes que tinha morto. O rei perdoou-lhe, pois era evidente que não houvera qualquer má intenção da sua parte.

            A notícia deste acidente espalhou-se rapidamente por Paris: apenas ignorava-se que o rei tinha sido salvo, de sorte que, na manhã seguinte, havia em todas as ruas grande ajuntamento de povo, murmurando em voz alta contra os jovens insensatos que entretinham o rei com semelhantes futilidades. Falava-se de vingar a sua morte sobre os que a tinham causado e já vagas suspeitas circulavam sobre o duque de Orleães, para cujas mãos passaria, por morte de Carlos, o ceptro da França. Os duques de Berry e da Borgonha, que iam, o primeiro do palácio de Nesle, o segundo do palácio de Artois, encontrar-se em Saint-Paul, passaram pelo meio da multidão e ouviram os rugidos surdos do leão, conheciam e temiam a sua cólera, dirigiram-se pois ao rei, aconselhando-o a montar a cavalo e passear pelas ruas de Paris, quando o rei assentiu, o duque da Borgonha mandou abrir uma janela, avançou para a varanda e gritou ao povo:

            - O rei não está morto, boa gente, e ides vê-lo.

            Um instante depois, o rei saiu efectivamente, acompanhado pelos tios, e, depois de ter cavalgado por Paris, para apaziguar o povo, voltou à grande igreja de Notre-Dame, onde ouviu missa e fez as suas oferendas.

            Voltava ao seu palácio de Saint-Paul, depois de ter cumprido este dever, quando, ao passar pela rua dos Jardins, ouviu um grito tão profundamente saído do coração que estremeceu e levantou a cabeça. Quem acabava de gritar era uma jovem meio caída nos braços da sua ama. O rei, mal a viu, saltou do cavalo, disse aos tios que voltassem sem ele ao palácio, correu para a casa onde vira a mulher, subiu rapidamente as escadas e lançou-se para um quarto, gritando, assustado.

            - Que tens tu, querida criança, para estar assim pálida e trémula?

            - Tenho, senhor - respondeu Odette - que vos julguei morto, e que morro.

 

            Odette julgara efectivamente morrer ao pronunciar estas palavras, pois tinha desmaiado, Carlos tomou-a nos braços e levou-a para o leito que ela acabava de deixar. Jehanne deixou-lhe cair algumas gotas de água sobre o rosto, a jovem reabriu os olhos.

            - Ah! - exclamou, lançando os braços em torno do pescoço do amante. - Ah! meu Carlos, meu rei, meu senhor, não estais morto!

            E toda a vida daquela angélica criatura parecia concentrar-se-lhe nos olhos.

            - Minha querida criança - murmurou o rei - vivo ainda para amar-te.

            - Para amar-me?

            - Oh, sim!

            - É bom ser amada, ajuda a morrer - disse tristemente Odette.

            - Morrer? - repetiu o rei, assustado. - Morrer? É a segunda vez que dizes essa palavra, mas estás doente, sofres? Porque estás tão pálida?

            - Ainda perguntais, senhor? Não sabeis que uma funesta notícia correu pela cidade, que entrou aqui como em todo o lado, e que se ergueu na noite um grande grito que foi ouvido em Paris inteira: O rei morreu? Calculais, senhor, o que senti ao ouvir estas palavras? Entraram-me no coração, como um punhal, e senti que em mim se quebrava alguma coisa necessária à vida: então fiquei contente, pois tive a certeza de que não vos sobreviveria, e agradeci a Deus, agora vejo que estais vivo e que sou só eu que morro, e agradeço novamente a Deus. A sua bondade é grande, a sua misericórdia infinita!

            - Que dizes tu, Odette? Morrer, tu, morrer? Mas porquê? Mas como?

            - Porquê, já vo-lo disse: como, não sei. Sei apenas que a minha alma esteve prestes a deixar-me, e que, ao saber que estais vivo, só pedi a Deus uma coisa: voltar a ver-vos: porque, pedir-lhe para viver também, senti que era inútil. Voltei a ver-vos, estou feliz, posso morrer. Oh! meu Deus, meu Deus, perdoai-me se todos os meus pensamentos são para ele! Carlos, sofro tanto! Oh! aperta-me nos teus braços, quero morrer entre os teus braços!

            E desmaiou segunda vez.

            O rei julgou-a morta, apertou-a contra o peito, com gritos e soluços. Subitamente estremeceu, pois sentira um movimento estranho, era a criança que se agitava no ventre da mãe.

            - Oh! - exclamou Carlos, recuperando toda a sua presença de espírito. - Oh! correi, Jehanne, correi a casa do meu próprio médico e trazei-o aqui. Dizei-lhe, se for preciso, que sou eu quem está a morrer, mas ele que venha, que venha imediatamente, não está morta e talvez possa ainda salvar-se.

            Jehanne precipitou-se para fora de casa e correu tão depressa quanto lho permitia a idade, para a morada que o rei lhe dera. Dez minutos mais tarde, reaparecia, seguida pelo médico.

            Odette tinha voltado a si, mas tão fraca que não podia falar. Carlos, com os olhos cravados nos dela, imóvel, a testa coberta de suor, espiava-a avidamente, de vez em quando, Odette lançava um pequeno grito.

            - Oh! vinde, vinde, mestre! - exclamou Carlos ao avistar o médico. - Vinde e salvai-ma, e então tereis salvo mais do que a minha coroa, mais do que o meu reino, mais do que a minha vida, pois salvareis aquela que me devolveu a razão quando estava louco, aquela que, perto de mim, dedicada e paciente como um anjo, velou durante longos dias e eternas noites: depois, quando a tiverdes salvo, pedi o que quiserdes, e tê-lo-eis, desde que o desejardes possa ser feito pelo mais poderoso rei da cristandade.

            Odette olhou para o rei com uma indizível expressão de reconhecimento.

            O médico aproximou-se dela e tacteou-lhe o pulso.

            - Esta jovem vai entrar nas dores de parto - disse, dirigindo-se ao rei -, mas o seu fruto será prematuro, deve ter tido algum susto violento, alguma emoção inesperada.

            - Sim, foi isso! - exclamou o rei. - Pois bem, mestre, uma vez que conheceis tão bem a causa do seu mal, podereis salvá-la, não é verdade?

            - Senhor, deveríeis voltar ao palácio de Saint-Paul, onde iriam informar-vos quando tudo estivesse terminado.

            Odette fez um movimento para reter o rei, depois, quase no mesmo instante, abrindo os braços e deixando-os cair sobre o leito, disse, com voz débil:

            - Senhor, o mestre tem razão, mas voltareis, não é verdade?

            O rei levou o médico para um canto e olhou-o fixamente:

            - Mestre - disse-lhe -, quereis afastar-me? Isto é para que não a veja morrer? Então nada me fará sair. Não ma roubeis por uns minutos sequer, por um segundo, se não podeis devolver-ma viva.

            O médico aproximou-se de Odette, voltou a tomar-lhe o pulso, olhou-a atentamente, depois, regressando para junto do rei, disse:

            - Podeis ir, senhor, esta criança viverá até amanhã. O rei apertou convulsivamente as mãos do médico e duas lágrimas deslizaram-lhe pelas faces.

            - É então verdade que está condenada? - murmurou, com uma voz cava. - Vai então morrer? Vou perdê-la? Oh, não a deixarei! Nada me fará sair daqui, nada no mundo!

            - Saireis, senhor, e uma só palavra bastará para vos convencer: a emoção causada pela vossa presença pode tornar mais dolorosa e mais difícil a crise que se aproxima, e tudo depende dessa crise, se há alguma esperança, está aí.

            - Vou, eu vou! Deixo-a! - exclamou o rei. Depois, correndo para Odette, apertou-a nos braços.

            - Odette - disse-lhe - sê paciente e corajosa, não queria deixar-te, mas dizem-me que é preciso. Guarda-te para mim. Eu volto, eu volto.

            - Adeus, senhor - disse tristemente Odette.

            - Não, adeus não. Até breve.

            - Deus o queira! - murmurou a pobre rapariga, fechando os olhos e deixando cair a cabeça na almofada.

            O rei voltou ao palácio de Saint-Paul chorando desesperadamente, fechou-se nos seus aposentos, onde passou duas horas que lhe pareceram séculos, tentando em vão distrair-se, continuamente obcecado pelo mesmo pensamento, sentia dores agudas atravessarem-lhe a cabeça, chamas passarem-lhe diante dos olhos, apertava a fronte ardente entre as mãos, como que para não deixar fugir a razão, porque, voltada havia tão pouco, via-a escapar-se-lhe de novo. Finalmente, ao cabo de algum tempo, sentiu que não podia suportar mais, precipitou-se para fora dos seus aposentos, saiu a correr do palácio, meteu pelo caminho da rua dos Jardins, chegou diante da casa e deteve-se, tremia convulsivamente. Pouco depois recomeçou a andar, mas tão lentamente como se já seguisse O cortejo fúnebre. Atravessou por fim, hesitante, o limiar da porta, pensando ainda em voltar ao palácio e esperar lá que fossem chamá-lo, como lhe tinham prometido. Subiu maquinalmente a escada, chegou diante da porta, e, prestando atenção, ouviu gritos.

            Ao fim de alguns minutos, os gritos cessaram. Jehanne abriu rapidamente a porta, o rei estava ajoelhado em frente dela.

            - Então? - perguntou, com angústia. - Odette? Odette?

            - A criança nasceu, e ela espera-vos.

            O rei precipitou-se para o quarto, rindo e chorando ao mesmo tempo, depois deteve-se subitamente diante do leito onde Odette estava deitada, com a filha nos braços, pálida como uma madona de mármore.

            E no entanto, a despeito daquela palidez, havia nos lábios da jovem mãe um sorriso doce e cheio de esperança, um sorriso inefável e desconhecido, um sorriso como a mãe tem para o seu filho, um desses sorrisos compostos de amor e de oração ao mesmo tempo.

            Esta filha, que se chamou Margarida de Valois, desposou de Hatpudanne, e recebeu como dote a torre de Belleville, no Poitou.

            Vendo a hesitação de Carlos, reuniu todas as suas forças, pegou na criança e apresentou-a ao rei. - Senhor, eis o que vos ficará de mim - disse.

            - Oh, a mãe e a criança viverão! - exclamou Carlos, reunindo-as num mesmo abraço. - Deus deixará no mesmo ramo a rosa e o botão, que lhe teríamos feito para que nos separasse?

            - Senhor - disse o médico - seria bom essa pobre criança ter algum repouso.

            - Oh! deixai-mo pediu Odette - o meu repouso será mais doce e mais calmo sabendo-o aqui. Não esqueçais que se ele me deixar não poderei voltar a vê-lo e que só vivi tanto tempo porque a natureza fez um milagre em favor da criança que devia nascer.

            Com estas palavras, deixou pender a cabeça para um ombro de Carlos. Jehanne pegou na criança e saiu, acompanhada pelo médico. Odette e o rei ficaram sós.

            - Agora, minha querida, é a minha vez de velar à tua cabeceira, como tu velaste tanto tempo junto da minha. Deus fez um milagre em teu favor: eu sou menos digno do que tu da sua bondade, mas espero na sua indulgência. Dorme, eu rezarei.

            Odette sorriu tristemente, apertou de um modo quase insensível a mão do rei, e fechou os olhos. Alguns minutos depois, a sua respiração compassada anunciava que tinha adormecido.

            Carlos, contendo a respiração, sem um movimento, contemplava aquele rosto pálido, que dir-se-ia pertencer já à tumba, se os lábios, coloridos por um vermelho vivo, e o latejar precipitado das artérias não indicassem que uma vida febril lhe corria ainda pelas veias. De tempos a tempos, movimentos nervosos percorriam todo aquele débil corpo, e, logo a seguir, grossas gotas de suor gelado deslizavam da testa da jovem. Por fim, estes movimentos tornaram-se mais frequentes, suspiros abafados brotavam-lhe dos lábios, pequenos gritos inarticulados anunciaram que Odette se debatia sob o peso de um sonho. Carlos viu que o seu sono se transformara em sofrimento e despertou-a.

            Odette levantou as pálpebras, os seus olhos, já vidrados, permaneceram por um instante vagos e incertos, percorrendo todos os objectos que a rodeavam, detiveram-se finalmente no rei: reconheceu-o e emitiu um pequeno grito de alegria.

            - Oh! estais aqui, senhor! Era um sonho, ainda não vos deixei!

            Carlos apertou-a contra o peito.

            - Imaginai - disse ela - que mal adormeci, um anjo desceu até ao meu leito, tinha uma auréola de ouro na cabeça, asas brancas nas costas e uma palma na mão. Olhou-me docemente e disse-me: Venho buscar-te, Deus chama-te.

            "Mostrei-lhe que me tínheis nos vossos braços e respondi-lhe que não podia deixar-vos. Então ele tocou-me com a sua palma e eu senti que tinha asas. Depois, não sei como isso aconteceu, era eu que velava e vós que dormíeis. Então o anjo elevou-se, e eu segui-o, levando-vos nos braços, e começámos a subir juntos para o céu.

            Ao princípio sentia-me feliz, forte e ligeira, e respirava facilmente, mas, pouco a pouco, senti que começáveis a pesar-me nos braços, mas continuei a subir, até que a minha respiração se tornou penosa, ofegante. Quis despertar-vos, mas não consegui, dormíeis um sono de chumbo. Tentei gritar, esperando que ouviríeis a minha voz, mas a voz deteve-se-me na garganta, voltei a cabeça para o anjo, para lhe pedir socorro, ele esperava-me à porta do céu, fazendo-me sinal para que o seguisse. Quis dizer-lhe que já não podia avançar, que sufocava, que me pesáveis nos braços como um mundo, mas nem um som, nem uma palavra me saía da boca, sentia os braços entorpecidos, compreendi que ia deixar-vos escapar. Já só me faltavam duas batidelas de asas para alcançar o anjo, já quase o tocava! Estendi uma mão para agarrar a orla da sua veste: era o meu último esforço! Encontrei apenas um vapor sem resistência e sem força, o braço que vos suportava caiu como se estivesse morto, e então vi-vos rolar, precipitando-vos para a terra. Lancei um grito.., e foi então que me acordastes. Obrigada, obrigada!"

            Colou os lábios à face de Carlos e, sucumbindo às emoções do sonho, voltou a fechar os olhos.

            O rei viu-a adormecer. Durante algum tempo ainda, velou o seu sono, receando que outro pesadelo fosse atormentá-la. Depois sentiu que a cabeça lhe era atravessada por vertigens, os objectos que o rodeavam pareciam girar em torno dele, a cadeira onde se sentava oscilava de um lado para o outro.

            Quis levantar-se, abrir uma janela, expulsar aquela espécie de delírio, mas teria de acordar Odette, Odette que dormia tão calmamente nos seus braços, cujos lábios se tinham tornado pálidos, cujo sangue sossegara: Odette, a quem duas horas de repouso poderiam devolver as forças: e não teve coragem de fazê-lo. Para escapar ao delírio, pousou a cabeça junto da de Odette, fechou os olhos por sua vez, continuou a ver, durante algum tempo, os objectos estranhos e inalcançáveis que flutuavam no ar e passavam sem tocar no solo, uma espécie de fumo, no meio do qual fulgiam centelhas, veio cobrir tudo aquilo, depois as centelhas extinguiram-se e tudo voltou à imobilidade, à escuridão e ao silêncio: adormeceu.

            Ao cabo de uma hora, uma sensação gelada despertou-o: a cabeça de Odette tinha descaído contra a sua face e era ali que sentia o frio: sentiu-se esmagado pelo peso do corpo da jovem. Quis estendê-la no leito: Odette estava mais pálida do que nunca: todas as cores tinham desaparecido dos seus lábios. Aproximou a boca da dela e não lhe sentiu o hálito, então precipitou-se para ela, cobrindo-a de beijos. E, subitamente, lançou um grande grito.

            Jehanne e o médico entraram e correram para o leito. Odette já ali não estava. Olharam em torno e viram, num canto, Carlos sentado numa cadeira, tendo nos braços o corpo da jovem, envolta nos lençóis, os olhos de Odette estavam fechados, os de Carlos abertos e fixos. Odette estava morta, Carlos estava louco.

            Levaram o rei para o palácio de Saint-Paul, tinha perdido todo o sentimento e toda a memória, deixando-se conduzir como uma criança. A notícia da desgraça que lhe tinha acontecido espalhou-se rapidamente pelo palácio, e todos a atribuíram ao horror da noite. A rainha soube da notícia ao voltar da rua Barbette, onde estava a mobilar um pequeno retiro: correu imediatamente á câmara do rei. Carlos continuava na mesma imobilidade: mas mal avistou as flores de lis bordadas no vestido de Isabel, o seu antigo ódio por aquele emblema de realeza reapareceu. Lançando um grito, que mais parecia o rugido de um leão, empunhou uma espada imprudentemente deixada junto do seu cadeirão e avançou para a esposa, disposto a ferir. A rainha, ameaçada, agarrou, com as mãos nuas, o ferro perto do punho, no lugar onde não corta, mas Carlos, puxando violentamente pela espada que queria libertar, fez deslizar a lâmina em todo o seu comprimento entre as mãos de Isabel. O sangue jorrou: a rainha correu para a porta, lançando grandes gritos, e aí encontrou o duque de Orleães, a quem mostrou as suas feridas.

            - Que se passa? - exclamou o duque, empalidecendo. - Quem vos tratou assim?

            - Passa-se - gritou a rainha -, que o rei está mais louco e mais feroz do que nunca e que quis matar-me, como vos quis matar a vós da primeira vez. Oh. Carlos, Carlos! - continuou, voltando-se para o rei e sacudindo as mãos de onde escorria o sangue. - Este sangue cairá sobre a tua cabeça! Maldito sejas, maldito!

 

            Entretanto, os cruzados tinham passado o Danúbio e entrado na Turquia, tudo correra da melhor das maneiras e tinham tomado cidades e castelos sem que ninguém lhes saísse ao encontro para oferecer resistência. Chegaram assim diante de Nicopolis, e, tendo-lhe posto cerco, atacavam duramente, lançando assalto sobre assalto, de sorte que, como continuassem a não ter notícias de Bajazet, o rei da Hungria dizia já aos senhores franceses, aos condes de Nevers, de Eu, de La Marche, de Soissons, ao senhor de Coucy e aos cavaleiros e barões da Borgonha:

            - Meus senhores, graças a Deus, a estação foi boa, porque fizemos grandes feitos de armas, aniquilámos o poder da Turquia, de que esta cidade é o último baluarte, uma vez conquistada, pois não duvido de que a conquistaremos, a minha opinião é que não devemos ir mais para a frente este ano: retirar-nos-emos, se vos aprouver, para o meu reino da Hungria, onde tenho incontáveis fortalezas, cidades e castelos prontos a receber-nos. Este Inverno será utilizado na preparação de todas as medidas para o Verão seguinte, escreveremos ao rei da França, dir-lhe-emos em que estado estão os nossos trabalhos, e, na próxima Primavera, ele enviar-nos-á tropas frescas, é até possível que, quando souber como estamos, venha ele próprio juntar-se-nos, pois é jovem, de grande vontade e grande apreciador das armas, como todos sabeis, mas, quer venha quer não, no próximo Verão, se Deus quiser, expulsaremos os infiéis do reino da Arménia, passaremos o braço São Jorge [ o estreito dos Dardanelos] e iremos à Síria libertar os portos de Jafa e de Beirute, e conquistar Jerusalém e toda a Terra Santa, e se o sultão sair ao nosso encontro, não se irá sem batalha.

            Semelhantes projectos agradaram extremamente ao carácter e à coragem dos cavaleiros franceses, por isso, todos os acolheram com entusiasmo, e os dias passavam-se no meio dessa brava e despreocupada alegria que é, nos nossos soldados, menos um efeito do seu orgulho do que dessa ingénua confiança que depositam tão facilmente nos chefes de condição e de coragem: as coisas, no entanto, deveriam passar-se de um modo muito diferente do que esperavam.

            Bajazet, de quem não se ouvia falar, e cuja pretensa inércia mantinha os cavaleiros na sua confiança, passara o Verão a reunir o seu exército, este compunha-se de soldados vindos de todos os países, e o rei prometera-lhes tais vantagens que muitos tinham vindo até dos confins da Pérsia. Mal se vira rodeado de tamanho poder, atravessara os Dardanelos, detivera-se em Adrinopla o tempo suficiente para refazer o seu exército, e chegara a poucas léguas da cidade que os cristãos tinham sitiada: então encarregara Urnus-Bey, um dos seus mais bravos e mais fiéis seguidores, de reconhecer a região e, se fosse possível, chegar à fala com Dogan-Beg, governador de Nicopo-lis, mas o mensageiro voltara, dizendo que um incontável exército cristão fechava todas as saídas e o impedira de comunicar com os sitiados. Bajazet sorrira com desprezo, e, ao cair da noite, ordenou que lhe levassem o seu melhor cavalo, saltou-lhe para o dorso, e, atravessando todo o campo cristão adormecido, ligeiro e silencioso como um espírito do ar, chegou ao cume de uma colina que dominava Nicopolis, deteve-se aí, e, com uma voz tonitruante, gritou:

            - Dogan-Beg!

            O governador da cidade, cuja boa estrela o conduzira às muralhas, reconheceu a voz que o chamava, e respondeu-lhe, então o sultão interrogou-o, em língua turca, sobre o estado da cidade, sobre os víveres e as munições. Dogan, depois de ter desejado ao sultão uma longa vida e uma grande felicidade, respondeu-lhe:

            - Pela graça de Maomé, as portas e as muralhas da cidade são fortes e bem defendidas, os soldados, como vês com os teus olhos sagrados, velam de dia, velam de noite, e têm suficientes víveres e munições.

            Então Bajazet, tendo sabido o que desejava saber, desceu da colina, porque de Helly, que comandava uma patrulha nocturna, tendo ouvido a voz que interrogava, dera o alarme e marchava para a colina, subitamente viu passar à sua frente uma espécie de fantasma a cavalo, ligeiro como o vento, e que, como ele, rasava rapidamente a terra. Iniciou a perseguição com a sua tropa, mas, se bem que fosse um dos cavaleiros mais bem montados do exército, não conseguiu sequer alcançar a poeira que o corcel real levantava na sua fuga. Bajazet percorreu assim oito léguas no espaço de uma hora, e, chegado ao meio do seu exército, lançou um grande grito, que acordou os homens e fez relinchar os cavalos, é que queria aproveitar o que restava da noite para aproximar-se o mais possível do exército cristão, pôs-se pois imediatamente em marcha, e, logo que nasceu o dia, dispôs os seus em ordem de batalha. Experiente como era, e conhecendo a coragem dos cruzados, lançou oito mil turcos ao ataque como guarda avançada, seguindo-os à distância de cerca de uma légua com o resto do exército, a que deu a forma de um V invertido, colocando-se no vértice, e ordenando às duas alas que envolvessem o exército inimigo, logo que a fuga simulada da guarda-avançada o atraísse para o espaço vazio deixado por este dispositivo, este corpo de exército e as duas alas, formavam um total de aproximadamente cento e noventa mil homens.

            Enquanto este exército avançava, numeroso como os grãos de areia, devorador como o vento do deserto, os cavaleiros cristãos passavam o seu tempo em festas e orgias, o campo transformara-se numa verdadeira cidade, onde pareciam ter-se reunido todas as delícias da vida. As tendas dos simples cavaleiros eram feitas com tapeçarias bordadas a ouro, seguiam-se as modas da França, e inventavam-se outras, ou, faltando a imaginação, exageravam-se as antigas. Assim, exagerara-se de tal modo as biqueiras das polainas que o círculo que elas formavam ao encurvarem-se impediam os pés de entrar nos estribos, alguns tinham mesmo tido a ideia de prender-lhes as pontas aos joelhos com correntes de ouro. Esta dissolução e este luxo eram motivo de grande assombro para os povos estrangeiros, não conseguiam compreender como senhores que faziam a cruzada para honra da religião davam aos infiéis um tão grande escândalo, como era possível cavaleiros tão bravos no combate tornarem-se tão fúteis uma vez desarmados, e como os mesmos homens podiam usar ao mesmo tempo roupas tão ligeiras e armaduras tão pesadas.

            Estava-se a 28 de Outubro, dia da festa do arcanjo São Miguel, eram dez horas da manhã, toda a nobreza francesa se encontrava reunida na tenda do conde de Nevers, que oferecia um grande banquete. Tinham-se bebido com profusão vinhos da Hungria e de Archipel, e toda aquela juventude barulhenta e alegre falava do futuro, que bordava de projectos dourados. Só Jacques de Helly permanecia triste e sombrio, pelo que todos troçavam daquela taciturnidade, durante algum tempo, deixou falar aqueles loucos jovens, depois, levantando o rosto tisnado pelo sol do oriente, disse:

            - Senhores, ride e troçai, não faz mal, dormíeis enquanto eu velava, e não vistes nem ouvistes aquilo que eu vi e ouvi. Esta noite, enquanto fazia a guarda do campo, vi um prodígio celeste, e ouvi uma voz humana, e muito receio que o céu e a terra não nos pressagiem nada de bom.

            Os cavaleiros puseram-se a rir, troçando do Amorath-Baquin, pela sua ausência, alguns diziam mesmo que um cão infiel como ele não ousaria atacar cavaleiros cristãos.

            - O rei Basaac é um infiel, é verdade - respondeu de Helly -, mas é um príncipe sincero e sério na sua falsa crença, segue com tanto cuidado as instruções do seu falso profeta, como nós seguimos com pouco zelo os mandamentos do verdadeiro Deus. Quanto à sua bravura, aquele que a viu, como eu, num dia de batalha, nunca poderá duvidar dela. Chamais por ele aos gritos, e ele virá, ficai descansados, se é que não chegou já.

            - Messire Jacques - disse o conde de Nevers, erguendo-se e apoiando a mão no ombro do marechal de Boucicaut, em parte por amizade, em parte pela necessidade de manter o equilíbrio - já não sois jovem, o que é uma infelicidade, não sois alegre, o que é um vício, e quereis entristecer-nos a nós, o que é um crime! No entanto, sois um cavaleiro de grande experiência e de grande coragem: contai-nos o que vistes e ouvistes. Sou o chefe da cruzada, fazei-me o vosso relatório.

            Depois, pegando no copo e voltando-se para os criados acrescentou:

            - Sirvam-me vinho de Chipre, se é o último, que seja bom. Então, erguendo a taça, brindou: - Senhores, à maior glória de Cristo e à saúde do rei Carlos!

            Todos se levantaram, despejaram as respectivas taças e voltaram a sentar-se. Só Jacques de Helly ficou de pé.

            - Escutamo-vos - disse o conde de Nevers, pousando os cotovelos na mesa e descansando o queixo sobre os punhos fechados.

            - Senhores, fazia, como vos disse, a guarda de noite, quando ouvi no céu, das bandas do oriente, gritos que nada tinham de humano: voltei-me para esse lado e vi, e isto foi visto por todos os que estavam comigo, uma grande estrela assaltada por cinco pequenas: os gritos vinham desse ponto do céu, onde se travava o estranho combate, e eram trazidos até aos nossos ouvidos por um vento maravilhoso que parecia morrer nos limites do campo, como se, mensageiro de funestos presságios, Deus o tivesse encarregado de os trazer até nós, e que, cumprida essa missão, não tivesse necessidade de ir mais longe. Por diante daquela estrela passavam e repassavam sombras que tinham a forma de homens armados, e que se tornavam cada vez mais espessas, até que por fim a estrela desapareceu, extinguindo consigo duas das suas inimigas, então as três que restavam dispuseram-se em triângulo e todos as vimos, até ao nascer do dia, brilhar dessa forma simbólica. Caminhávamos, ainda preocupados com um tal prodígio, e procurando em vão explicá-lo, quando, ao passar por uma ravina cravada entre a montanha e as muralhas, ouvimos uma voz, mas, dessa vez, era bem uma voz de homem, que partia da colina, passava sobre as nossas cabeças e ia morrer na cidade. No mesmo instante uma outra voz respondeu-lhe das muralhas, falaram assim durante algum tempo, enquanto que, com os olhos na colina, procurávamos distinguir o homem que, no meio do nosso campo, assim gritava em língua estrangeira. Avistámos finalmente uma sombra que parecia deslizar como uma nuvem ao longo da colina, avançámos para ela, e então, a poucos passos de nós passou um corpo bem real e bem verdadeiro. Os nossos soldados, ao vê-lo vestido de branco, tomaram-no por um fantasma envolto num sudário, mas eu reconheci um cavaleiro árabe, envolto no seu albornoz, e corri atrás dele. Todos conheceis, senhores, o meu cavalo Tadmor, é dessa raça árabe que só cede ante os descendentes de Al-Borak. Pois bem, com algumas passadas, o cavalo do desconhecido tinha deixado Tadmor tão para trás como Tadmor deixaria os vossos. Digo pois, que como só o rei Basaac possui tais cavalos, esse cavaleiro era um dos seus generais, a quem tivesse emprestado a preciosa montada, ou talvez, senhores, fosse o anjo exterminador, o Anti-Cristo, Basaac em pessoa.

            Sire Jacques sentou-se e às suas palavras seguiu-se um grande silêncio, pois falara com um acento de tal veracidade que a convicção descera sobre todos os corações. Os mais jovens dos cavaleiros tinham ainda um sorriso nos lábios, mas os mais experimentados, como o condestável, de Coucy, o marechal de Boucicaut e João de Vienne, indicavam, pela contracção das sobrancelhas, que pensavam, como Jacques de Helly, que alguma grande desgraça ameaça o exército.

            No mesmo instante, as cortinas da tenda abriram-se, e um batedor coberto de suor e de pó, gritou da entrada:

            - A cavalo, senhores, aprestai-vos e armai-vos, para que não sejais apanhados de improviso, pois eis que oito ou dez mil turcos cavalgam para aqui.

            Dito isto desapareceu, para ir levar o mesmo aviso aos outros chefes do exército.

            Os cavaleiros tinham-se levantado, olhando uns para os outros com estupefacção, quando o conde de Nevers, correndo para a porta da tenda, gritou com uma voz tão potente que todos o ouviram:

            - Às armas, senhores! Às armas! O inimigo está aí! Pouco depois este grito repetia-se por todo o campo.

            Os pajens apressavam-se a selar os cavalos, os cavaleiros chamavam os escudeiros, e todos eles, ainda entontecidos pela orgia, corriam para vestir as armaduras.

            Como os jovens cavaleiros tivessem dificuldade em enfiar os pés nos estribos, devido às biqueiras das polainas, o conde de Nevers deu o exemplo, cortando com a espada o bico encurvado das suas. Num instante, aqueles homens de veludo encontraram-se cobertos de ferro. Cada um deles saltou para o seu cavalo de batalha e foi alinhar-se sob o seu pendão. Foi desfraldada ao vento a bandeira de Nossa Senhora, e João de Vienne, almirante da França, recebeu-a das mãos do conde de Nevers.

            Nesse momento, um cavaleiro transportando um pendão com as suas armas, que eram de prata com uma cruz negra ancorada, chegou a todo o galope, e detendo-se diante da bandeira de Nossa Senhora, em torno do qual se reunira a grande maioria dos barões de França, disse em voz alta:

            - Eu, Henry d'Eslen Lemhalle, marechal do rei da Hungria, sou por Sua Majestade enviado ante vós, para vos aconselhar, e ordenar que não traveis batalha sem ter recebido outras notícias, pois Sua Majestade receia que os batedores tenham visto mal e que o exército seja mais considerável do que se disse, enviará pois esclarecedores que irão mais longe do que os primeiros. Ora, senhores, fazei o que vos digo, pois são estas as ordens do rei e do seu conselho, e agora regresso, pois não posso ficar mais tempo.

            Com estas palavras, partiu tão rapidamente como tinha chegado.

            Então o conde de Nevers perguntou a Coucy o que achava que devia fazer-se.

            - Devemos seguir os conselhos do rei da Hungria - respondeu Enguerrand -, pois parecem-me bons.

            O conde de Eu, no entanto, avançou para o conde de Nevers, irritado por a opinião de Coucy ter sido requerida antes da sua.

            - Sim, é isso, senhor - disse. -, O rei da Hungria quer ficar com as honras do dia, tínhamos a guarda-avançada e agora quer retomá-la. Obedeça-lhe quem quiser,-eu não o farei.

            E, tirando da bainha a sua espada de condestável, gritou ao cavaleiro que empunhava o seu estandarte:

            - Avante o meu estandarte! Em nome de Deus e de São Jorge, para a frente! É o grito de todo o bom cavaleiro.

            Quando de Coucy viu como iam as coisas, voltou-se para João de Vienne, que tinha a bandeira de Nossa Senhora.

            - E agora, que fazemos? - perguntou. - Pois bem vedes o que se passa.

            - Que fazemos? - troçou La Trémouille. - Fazemos que os velhos cavaleiros fiquem para trás, deixando os jovens ir à frente!...

            - Messire de La Trémouille - respondeu tranquilamente Coucy -, não tardaremos em ver quem irá à frente e quem ficará para trás, ocupai-vos apenas de que a cabeça do vosso cavalo siga a cauda do meu. Mas não é convosco que falo e sim com João de Vienne, e pergunto-lhe, pela segunda vez, o que ele pensa que deve ser feito.

            - Meu caro Enguerrand - respondeu João de Vienne.

            - Onde a razão não consegue fazer-se ouvir, é preciso que a temeridade reine. Sim, sem dúvida que deveríamos esperar pelo rei da Hungria, ou, pelo menos, pelos trezentos dos nossos que esta manhã mandei às forragens, mas, uma vez que o conde de Eu quer marchar contra o inimigo, é preciso segui-lo, e combater o melhor que for possível. De resto, olhai em torno, e vereis que, mesmo que quiséssemos retroceder, seria demasiado tarde.

            Com efeito, à direita e à esquerda dos cavaleiros, erguia-se uma densa nuvem de poeira, no meio da qual uma armadura brilhava de tempos a tempo,s como um relâmpago. Eram as duas alas do exército de Bajazet, que, tendo ultrapassado o local onde se encontravam os cristãos, se preparavam para os envolver. Então todos os que tinham alguma experiência de guerra viram que o dia estava perdido, mas, longe de tentar uma retirada, João de Vienne foi o primeiro a gritar:

            - Para a frente!

            E pôs o seu cavalo a galope. No mesmo instante todos os senhores, repetindo este grito, seguiram a bandeira de Nossa Senhora, e assistiu-se então a um estranho espectáculo: setecentos cavaleiros atacavam cento e noventa mil homens.

            Chegaram assim, a galope rasgado e de lança em riste, sobre a vanguarda dos Turcos, que recuou, descobrindo uma barreira de estacas aguçadas montadas diagonalmente, contra a qual os cavalos dos franceses chocaram de peito. Uma tal barreira deveria ser levantada pela infantaria, mas esta arma estava toda inteira sob as ordens do rei da Hungria. Vários cavaleiros saltaram pois das suas montadas e começaram a despeito das setas que os turcos faziam chover sobre eles, a abater com grandes golpes de acha aquela paliçada. Pouco depois abriram uma brecha por onde podiam passar vinte cavaleiros de frente, era mais do que o necessário, todo o exército dos cruzados se lançou por aquela abertura suficientemente larga para o ataque, sem pensar sequer se seria suficientemente larga para a retirada. Chegaram assim sobre a infantaria turca, atravessaram-na de um lado ao outro, fizeram meia volta, atacaram-na de novo e espezinharam-na sob os cascos dos seus cavalos. Então ouviram, à direita e à esquerda, um grande ruído de trombetas e de címbales, eram as duas alas do exército turco que se aproximavam, enquanto o corpo de cavalaria, composto por oito mil homens, e de que Bajazet fizera, como já dissemos, a sua guarda-avançada, galopava de frente para eles. Quando viram aquela tropa de "elite" toda resplandecente de ouro, os cristãos pensaram que o sultão se encontrava com eles, e, formando em ordem de batalha, caíram sobre ela com o mesmo impulso com que tinham atacado a infantaria. Este grupo não resistiu mais do que o primeiro à impetuosidade francesa, e, a despeito da superioridade numérica, dispersou-se em todas as direcções, como um rebanho de carneiros no meio do qual tivesse surgido uma alcateia de lobos.

            Os Franceses, perseguindo-os, foram chocar contra a verdadeira frente de batalha de Bajazet, e foi aí que começou a resistência, pois era ali que estava o imperador. Os nossos cavaleiros, no entanto, entraram naquela massa espessa como uma cunha de ferro num tronco de carvalho, mas, como uma cunha, não tardaram em encontrar-se aprisionados pela hoste inimiga. Foi então que todos compreenderam como tinham feito mal em não esperar pelo rei da Hungria e os seus sessenta mil homens, porque o exército cristão formava um pequeno ponto no meio daquela multidão de infiéis, aos quais parecia bastar apertarem-se para esmagar aquele punhado de homens que tão temeràriamente se tinham colocado em tal situação.

            Foi então que o condestável, que cometera o erro, o teria reparado se para tanto a bravura bastasse: rodeado por todos os lados, fazia face a todos, começara por partir a lança, depois a sua espada de condestável, desprendera então da sela um desses montantes que hoje nos parecem armas forjadas por uma raça de gigantes, e, fazendo-o girar acima da cabeça, abatia todos os que tocava com a terrível lâmina. O marechal de Boucicaut, pelo seu lado, lançava-se para os lugares onde os inimigos eram mais espessos, e abria caminhos como um ceifador numa seara, sem querer saber se esses caminhos voltavam a fechar-se após a sua passagem, avançando sempre, fazendo à direita e à esquerda uma terrível chacina; Coucy lançara-se para o meio de um corpo de infiéis armados de maças, cujos golpes choviam sobre a sua armadura como os de lenhadores sobre um carvalho, mas todas as pancadas eram amortecidas pelo aço, enquanto ele, devolvendo golpe por golpe, abria horríveis feridas em troca das contusões que recebia.

            Os La Trémouille avançavam ao lado um do outro, o filho parando os golpes dirigidos ao pai, o pai preocupando-se apenas com os golpes destinados ao filho, o cavalo deste último foi morto, o outro cobriu-o com o escudo, enquanto se libertava dos estribos, depois, girando em torno dele como uma leoa em torno da sua cria, abatia todos os braços que se estendiam para o agarrar, enquanto o filho, que já se levantara, trespassando os cavalos com a ponta da espada, derrubava com eles os cavaleiros, que o pai liquidava antes que tivessem tempo de refazer-se. Jacques de Helly atravessou toda a batalha por um caminho de sangue e encontrou-se do outro lado do exército turco. Uma vez ali, poderia ter confiado a vida à ligeireza de Tadmor, fugir e pôr o Danúbio entre ele e os inimigos, mas, quando, ao voltar a cabeça, viu entre os infiéis os seus já escassos companheiros, que, montados nas suas altas selas, os ultrapassavam em altura por uma cabeça, como acontece com as espigas de centeio no meio de um campo de trigo, voltou à batalha e serviu-se tão maravilhosamente da sua espada que não tardou em encontrar-se junto do conde de Nevers, cujo cavalo acabava de ser abatido e que fazia bravamente o seu papel de chefe do exército no meio de um baluarte de inimigos mortos. Ao avistar perto de si o cavaleiro, em vez de pensar em pedir-lhe socorro, gritou-lhe:

            - Messire de Helly, que aconteceu à bandeira de França? Continua honrosamente de pé, espero?

            - Sim, de pé e ao vento - respondeu Jacques. - E ides vê-la vós mesmo, senhor.

            Dizendo isto, saltou abaixo de Tadmor, apresentando-o ao duque. Este recusava-se a aceitá-lo, mas Helly disse-lhe:

            - Senhor, sois o nosso chefe. Se morreis, o exército está perdido. Em nome do exército, ordeno-vos pois que monteis este cavalo.

            O conde de Nevers cedeu e, mal se içou para a sela, avistou messire Jean de Vienne, que nesse dia fazia mais do que se pode esperar de um homem. O conde de Nevers e o sire de Helly correram em seu socorro, e encontraram-no combatendo, apenas com dez dos seus e perdendo sangue por terríveis feridas. Era a quinta vez que trocava de cavalo. Cinco vezes o tinham julgado morto, vendo desaparecer o estandarte, e cinco vezes voltara a montar, com a ajuda dos cavaleiros que o rodeavam, e de todas as vezes grandes gritos tinham saudado a bandeira, sempre abatida e sempre de pé.

            - Senhor - disse, ao avistar o conde de Nevers -, chegou o nosso último dia. Mas mais vale morrer mártir do que viver descrente. Que Deus vos salve, e para a frente São João e Nossa Senhora!

            E, com estas palavras, lançou-se de novo para o meio dos infiéis, caindo uma sexta vez para não mais se levantar.

            Foi assim que a batalha se perdeu e que os cavaleiros franceses morreram, quanto aos húngaros, que tinham fugido sem combater, a cobardia não os salvou, os Turcos, melhor montados do que eles, alcançaram-nos e fizeram nas suas tropas uma enorme carnificina. Dos sessenta mil homens que comandava, o rei salvou-se apenas com seis, e teve a felicidade de alcançar, com Filiberto de Naillac, grão-mestre de Rodes, a frota veneziana, comandada por Thomas Moncenigo, que os recebeu a bordo e levou Filiberto de Naillac a Rodes e Segismundo à Dalmácia.

            A batalha durou três horas. Foram precisas três horas a cento e noventa mil homens para aniquilar setecentos. Quando terminou, Bajazet percorreu o campo dos cristãos, e, escolhendo para si a tenda do rei da Hungria, onde ainda se encontrava toda a baixela de ouro e de prata em que lhe fora servida a última refeição, abandonou as outras aos seus chefes e soldados, depois, fazendo-se desarmar para refrescar-se, pois tinha combatido como o último dos seus soldados, sentou-se diante da porta, com as pernas cruzadas, sobre um tapete, e mandou chamar à sua presença os seus generais e os seus amigos, para falar com eles a respeito da vitória que tinha alcançado. Todos obedeceram imediatamente a esta ordem, e, como o sultão estava satisfeito com o resultado do dia, ria e brincava com eles, dizendo que a seguir iriam conquistar a Hungria, e, depois dela, todos os outros reinos e países cristãos, porque, dizia ele, queria reinar como o seu antepassado Alexandre da Macedónia, que, durante doze anos, dominou o mundo, e todos se inclinavam diante dele, aprovando-o e felicitando-o. O sultão deu então três ordens: a primeira que todos os prisioneiros fossem levados à sua presença na manhã seguinte; a segunda, que todos os mortos fossem revistados e que se pusessem de parte, como uma hecatombe, os que parecessem mais nobres e poderosos, pois contava ir cear diante dos seus cadáveres; a terceira, que o informassem se o rei da Hungria estava morto, salvo ou prisioneiro.

            Logo que Bajazet se refrescou e deu estas ordens, levaram-lhe um cavalo fresco, pois tinham-lhe dito que o combate fora duro para os seus homens e queria visitar o campo de batalha, além disso, não queria acreditar no que lhe diziam a respeito da chacina feita por aquele punhado de cavaleiros cristãos. Avançou pois pelo campo, descobrindo que ainda lhe tinham escondido a verdade, pois, por cada cristão morto, havia trinta infiéis sem vida. O sultão ficou furioso e disse, em voz alta:

            - A batalha foi cruel para a nossa gente e esses cristãos defenderam-se como leões: mas ficai tranquilos, farei com que os vivos paguem pelos mortos. Andemos para a frente.

            E andou mais para a frente, e quanto mais andava, mais se maravilhava com os feitos de armas dos seus inimigos. Chegou ao lugar onde La Tremouille e o filho estavam caídos um sobre o outro, tendo em torno uma montanha de mortos. Seguiu o caminho percorrido por João de Vienne, e viu-o, à direita e à esquerda, juncado de cadáveres.

            Chegou finalmente ao ponto onde o bravo cavaleiro tinha caído, e encontrou-o estendido sobre a bandeira de Nossa Senhora, que tinha tão fortemente apertada entre as mãos que tiveram de cortar-lhas para lha tirar.

            Bajazet, tendo gasto duas horas nesta inspecção, voltou à sua tenda e passou a noite a amaldiçoar aqueles infiéis, frente aos quais uma vitória custava mais caro do que uma derrota frente a outros. Na manhã seguinte, quando abriu os cortinados da sua tenda, encontrou alinhados diante dela os principais do seu exército, que esperavam para saber o que ia fazer-se dos prisioneiros, pois correra o rumor de que seriam todos decapitados, sem que nem um só fosse poupado, Bajazet, no entanto, pensara nos resgates que poderia conseguir por tão nobres senhores: mandou chamar os seus intérpretes e perguntou-lhes quem eram, entre os que tinham sobrevivido à batalha, os mais ricos e os mais poderosos, os intérpretes responderam-lhe que seis deles tinham declarado os seus nomes como sendo dos mais nobres da cavalaria, eram, em primeiro lugar, João da Borgonha, conde de Nevers, chefe de todos os outros, depois, Filipe d'Artois, conde de Eu, depois, Enguerrand de Coucy, conde de La Marche, Henri de Bar e Guy de La Trémouille. Bajazet quis vê-los e os seis cavaleiros foram levados à sua presença, foi-lhes então ordenado, pela sua honra e pela sua fé, que dissessem quem eram, e todos juraram que os nomes que tinham dado eram bem os seus. Ao ouvir esta resposta, Bajazet fez sinal ao conde de Nevers para que se aproximasse dele.

            - Se és na verdade - disse-lhe através do intérprete -, aquele que dizes ser, isto é, João da Borgonha, terás a vida salva, não devido ao teu nome nem ao resgate que por ti poderia conseguir, mas porque um astrólogo me predisse que, sozinho, verterias mais sangue francês do que todos os Turcos juntos.

            - Basaac - respondeu-lhe o conde de Nevers - nada de favores para mim, peço-te, pois é meu dever seguir a mesma sorte que todos os que conduzi contra ti; se pedires resgates, comprarei a minha vida, se os matares, morrerei com eles.

            - Será feito segundo a minha vontade e não segundo a tua - respondeu-lhe o imperador.

            Mandou-o voltar para junto dos companheiros, com os quais regressou à tenda que lhes servia de prisão.

            Ora aconteceu que, estando o sultão muito desejoso de saber se aqueles senhores eram na verdade quem diziam ser, levaram à sua presença um cavaleiro que servira no exército do seu irmão Amurat e que falava um pouco a língua turca. Era Helly. Bajazet recordou-se de tê-lo visto noutra ocasião e perguntou-lhe se conhecia bem os senhores que se encontravam na tenda dos prisioneiros. Helly respondeu-lhe que, por pouco que contassem na cavalaria francesa, poderia dizer ao sultão quem eram. Então Bajazet mandou que o conduzissem ante eles, depois de o ter proibido de trocar uma só palavra com os outros, receando qualquer engano. Helly bastou-lhe vê-los para reconhecê-los. Voltou imediatamente para junto de Bajazet, que lhe perguntou os nomes daqueles que tinha visto, ao que o cativo respondeu que os cavaleiros eram o conde de Nevers, Filipe d'Artois, Enguerrand de Coucy, o conde de La Marche, Henri de Bar e Guy de La Trémouille, isto é, o que havia de mais nobre e de mais rico na cavalaria francesa, e que alguns eram até parentes do rei.

            - Está bem - disse o imperador. - Esses terão a vida salva. Que os conduzam para um lado da minha tenda, e o resto dos cativos para o outro.

            A ordem de Bajazet foi imediatamente executada. Os seis cavaleiros foram colocados à direita do imperador. Ao cabo de um instante viram avançar, nus até à cintura, trezentos dos seus companheiros, prisioneiros como eles, mas aqueles estavam destinados a morrer. Conduziram-nos, um a um, à presença de Bajazet, que os observava com despreocupada curiosidade e depois fazia um sinal para que os levassem. Os infelizes passavam então entre duas filas de infiéis empunhando espadas, e, num instante, eram feitos em pedaços, isto sob os olhos do conde de Nevers e dos seus seis companheiros.

            Ora aconteceu que, entre aqueles homens julgados, estava o marechal de Boucicaut, levaram-no como os outros à presença de Bajazet, e, como os outros, ia ser enviado para a morte, quando João da Borgonha o avistou, deixando os companheiros e aproximando-se do imperador, o conde pôs um joelho em terra, rogando que o poupassem, dizendo que aquele homem era aliado do rei da França e explicando, com gestos, que poderia pagar um resgate de príncipe. Bajazet inclinou-se em sinal de condescendência, Boucicaut e João da Borgonha lançaram-se nos braços um do outro e Bajazet fez sinal para que a chacina recomeçasse, durou três horas.

            Quando o último cristão caiu, quando todos ficaram mortos sem terem lançado outro grito além destas palavras: "- Senhor Jesus Cristo, tende piedade de nós!" Bajazet disse que queria comunicar a sua vitória ao rei da França, e, apresentando ao conde de Nevers Jacques de Helly e dois outros senhores que poupara para esse fim, perguntou-lhe qual daqueles três cavaleiros escolhia para ir tratar do seu resgate e do dos companheiros, o conde de Nevers indicou Jacques de Helly, no mesmo instante, os outros dois cavaleiros foram mortos.

            Então João da Borgonha e os outros cinco fidalgos entregaram cartas a Jacques de Helly: o conde de Nevers para o duque e a duquesa da Borgonha, de Coucy para a sua esposa e os outros para os seus parentes ou tesoureiros, depois, quando isto foi feito, o próprio Bajazet traçou ao mensageiro o caminho que devia seguir, ordenou-lhe que passasse por Milão, a fim de dar conta da sua vitória ao duque daquela cidade, e fê-lo jurar sobre a sua fé de cavaleiro que voltaria a colocar-se em seu poder logo que cumprisse a missão de que o encarregava.

            Jacques de Helly pôs-se a caminho nessa mesma tarde.

            Precedamo-lo em França e lancemos uma vista de olhos às posições que tomaram os diferentes partidos desde que de lá saímos.

            Ninguém conhecia a verdadeira causa da demência do rei. Odette evitara constantemente toda e qualquer ostentação, a sua influência sobre o rei só se manifestara no bem que encontrara modo de fazer-lhe, e pusera tanto cuidado em ocultar a sua vida a todos os olhos como as outras favoritas punham, regra geral, em reflectir a luz do sol. Desaparecera pois sem ruído, e ninguém mais, além de Carlos, soubera que uma das suas mais puras estrelas caíra do céu da realeza.

            Quanto ao duque de Orleães, embora os seus amores com a rainha continuassem, já não ocupavam no seu coração um lugar tão grande que abafassem, como quando da primeira demência do rei, a ambição e o desejo de poder, fosse por cálculo, fosse por reconhecimento, aproveitara o intervalo de razão do rei para obter a libertação de Jean Lemercier e de La Rivière, Montaigu, pelo seu lado, fora novamente chamado à administração das finanças do rei, a pedido do duque. O duque de Bourbon, que o tinha educado, elogiava sem cessar as suas belas qualidades, escondendo os seus defeitos, o duque de Berry, que era sempre possível atrair para qualquer partido, desde que houvesse dinheiro, recebera do sobrinho somas consideráveis, e prometera-lhe, em troca, o seu apoio, se alguma vez o duque de Orleães dele tivesse necessidade, o conselho, conquistado pelos seus modos afáveis, arrastado pela sua eloquência, deixara-o formar, no seu próprio seio, um partido que começava a contrabalançar o poder do duque da Borgonha.

            As desinteligências entre os príncipes tornavam-se pois cada vez mais acentuadas, e cada um deles empregava todo o seu crédito na tentativa de arruinar o do adversário. Carlos, débil de corpo e de espírito, puxado de um lado para o outro pelo seu manto real, não tinha sequer vontade para interpor a sua autoridade e acabar com as querelas, todos esperavam portanto discórdias fatais, quando uma terrível notícia começou a circular na França e uniu toda a gente na mesma dor.

            Os trezentos cavaleiros que, como já dissemos, tinham ido recolher forragem no momento em que se iniciara a batalha, tinham fugido a toda a pressa, dispersando-se e tomando cada qual o caminho que lhe parecera mais curto, tinham finalmente chegado a Valáquia. Mas ali começara para eles uma série de desgraças e de fadigas às quais muitos sucumbiram. Os habitantes da região já sabiam qual fora o resultado da batalha, de sorte que, pensando nada ter a temer dos infelizes fugitivos, tinham-nos deixado entrar nas suas cidades, como que para lhes oferecer boa e franca hospitalidade, e, quando os apanhavam entre os muros, roubavam-lhes as armas e os cavalos: muito felizes eram aqueles que deixavam ir com pão e dinheiro para a viagem, e para tanto era preciso que fossem grandes senhores, pois os que fossem reconhecidos como escudeiros de pequenas casas ou nobres de pouca importância, eram despojados e espancados sem piedade. Encontraram pois grandes dificuldades na travessia da Valáquia e da Hungria, mendigando pão, conseguindo, à custa de súplicas, abrigo em estrebarias e celeiros, cobertos de farrapos que os mais pobres tinham partilhado com eles. Foi assim que chegaram a Viena, onde a população os recebeu mais carinhosamente e lhes deu roupas e algum dinheiro para o prosseguimento da viagem. Pouco depois chegavam à Boémia, onde encontraram o auxílio de que tanta necessidade tinham, isto foi para eles uma grande felicidade, pois se os Alemães se tivessem mostrado tão impiedosos como os habitantes da Valáquia e da Hungria, todos teriam ficado mortos de fome e de miséria pelas bermas dos caminhos. Avançavam pois em direcção à França, contando por todo o lado terríveis notícias, até que finalmente atravessaram a fronteira e alguns chegaram a Paris.

            Então ninguém quis acreditar naquilo que diziam, os seus relatos eram demasiado tristes para que se lhes pudesse dar fé sem mais nem menos. Longe disso, havia quem pensasse que aqueles homens não passavam de miseráveis aventureiros, que tentavam explorar a caridade pública, e dizia-se alto e bom som, pelas ruas, que o que havia a fazer era enforcar aquela canalha que assim espalhava tão infames mentiras, mas, apesar destas ameaças todos os dias chegavam novos fugitivos, contando as mesmas coisas, de sorte que estas notícias, à força de correrem entre o povo, acabaram por chegar aos ouvidos dos grandes. O rei, no meio da sua doença, ouviu falar disto no palácio de Saint-Paul.

            Foram novas nuvens no seu céu já tão sombrio. Foi então dada ordem para abafar aqueles rumores enquanto não se recebessem notícias certas e para que fosse levado à presença do rei o primeiro cavaleiro de algum renome que voltasse da cruzada.

            Ora, durante a noite de Natal, e enquanto a rainha, o duque de Orleães, os duques de Bourbon, de Berry e da Borgonha, o conde de Saint-Pol e uma grande assembleia de senhores e de damas, rodeavam o rei no seu hotel e festejavam com ele a solenidade do Natal, foi anunciado um senhor chegado de Nicopolis e trazendo notícias seguras a respeito do conde de Nevers e do seu exército. O cavaleiro foi imediatamente introduzido na sala, poeirento e coberto de lama: era Jacques de Helly. Entregou ao rei e ao duque da Borgonha as cartas de que o tinham encarregado e contou tudo aquilo que já sabemos.

 

            É fácil de calcular a consternação que semelhante relato causou entre a nobre assembleia, não havia um único senhor que não tivesse perdido alguém que lhe fosse querido entre os mortos ou os prisioneiros: um perdia um irmão, outra um esposo, o rei da França perdia a sua bela e rica cavalaria.

            No entanto, enquanto se choravam os mortos, pensava-se em libertar os cativos, propôs-se enviar um presente a Bajazet, a fim de o dispor favoravelmente para as negociações que iam ser abertas com ele, e averiguou-se que coisas lhe seriam mais agradáveis. Sabia-se que apreciava muito a caça às aves e que todos os anos o seu bom amigo, o senhor Gallano de Milão, lhe enviava falcões brancos. Compraram-se a peso de ouro, pois a espécie é muito rara, doze belos gerifaltos perfeitamente treinados, depois Jacques de Helly, que notara o gosto de Bajazet pelas tapeçarias, aconselhou que se juntasse a este primeiro presente algumas dessas belas tapeçarias que só em Arras sabem fazer. O duque da Borgonha dirigiu-se em pessoa a essa cidade e comprou um tapete magnífico, que representava por inteiro a história do grande rei Alexandre da Macedónia, de quem Bajazet se dizia descendente, a isto acrescentaram-se algumas peças de ourivesaria trabalhadas pelos melhores ourives, tecidos de Reims, escarlate de Bruxelas, doze grandes galgos e dez belos cavalos com jaezes de veludo resplandecentes de ouro e de marfim.

            Helly, tendo terminado a sua missão, foi despedir-se do rei e do duque de Borgonha, pois, cumprindo a palavra dada, ia entregar-se de novo a Bajazet. O duque Filipe pediu-lhe que se encarregasse dos presentes que enviava ao sultão, pensando que este teria mais prazer em recebê-los das mãos do homem que escolhera como mensageiro, mas o bravo cavaleiro observou que não sabia que sorte lhe reservaria o vencedor e que era possível que nunca mais voltasse à França, de modo que o fizeram acompanhar, para trazerem notícias da embaixada, por Vergy, governador do condado da Borgonha, Château-Morand, que negociara com tanta felicidade as tréguas com a Inglaterra, e Leuringhen, governador do condado da Flandres. A senhora de Coucy, pelo seu lado, enviou para junto do marido e dos seus dois irmãos um cavaleiro de Cambrésis, Robert Desne, e deu-lhe, para o acompanhar, um séquito de cinco escudeiros. Esta dupla embaixada devia passar por Milão, e, recomendada pela princesa Valentina, recolher cartas do duque Galeano para Bajazet: foi em reconhecimento por este serviço que o rei da França autorizou este senhor a colocar flores de lis nas suas armas.

            Logo que os mensageiros partiram, o duque e a duquesa da Borgonha encarregaram-se de reunir o dinheiro necessário ao resgate dos cativos, consequentemente, deixaram Paris e retiraram-se para Dijon, a fim de considerarem os impostos que iam levantar sobre os seus Estados. O duque de Orleães ficou pois sozinho no poder, e aproveitou rápida e habilmente esta circunstância para nele se consolidar, de tal modo que o rei lhe atribuiu o governo inteiro e absoluto do reino, com o direito de o substituir em tudo, no caso de não se encontrar ele próprio em estado de gerir.

            Mais ou menos por esta altura, rebentou na Inglaterra uma revolução que iria ter grande influência no destino da França.

            O conde de Derby, que vimos, no início desta história, lutar numa justa contra o duque de Orleães, quando das festas dadas por ocasião da entrada da rainha Isabel em Paris, era, como dissemos, filho do duque de Lancastre, e tinha um poderoso partido em Inglaterra. O seu pai acabava de morrer, e o rei Ricardo, temendo que ele se servisse da rica herança que tinha a receber para aliciar mais correligionários, recusara-se, contra todo o direito, a entregar-lha. O conde de Derby encontrava-se nessa altura na França, já não como mensageiro da coroa, como da primeira vez, e sim como exilado. Uma querela particular que tivera com o conde de Nottingham fornecera ao rei um pretexto para afastar da Inglaterra aquele que já começava a considerar um rival.

            Esta injustiça do rei em relação ao conde de Derby produzira um efeito contrário ao que Ricardo esperara, toda a nobreza e o clero se tinham colocado do lado do exilado. O povo, carregado de impostos, esmagado pelas depredações dos homens de guerra, que, não sendo pagos, viviam de espoliar os camponeses e roubar os mercadores, murmurava surdamente contra estes vexames a que não estava habituado, e parecia só esperar uma ocasião para fazer, contra o rei, causa comum com a nobreza. O conde de Derby, com os olhos postos na Inglaterra, aguardava que as coisas estivessem a ponto. O que não tardou a acontecer, enquanto Ricardo se encontrava ausente, a guerrear na Irlanda, o conde recebeu aviso de que, caso se sentisse suficientemente forte para arriscar a cabeça contra um reino, era tempo de atravessar o canal. Sem hesitar um instante, de Derby despediu-se do duque da Bretanha, seu primo, junto de quem se tinha retirado, partiu do Havre e, após dois dias e duas noites de navegação, desembarcou em Ravenspur, no Yorkshire, entre Hull e Britington.

            A sua marcha para Londres foi um triunfo contínuo, de tal modo o rei era odiado. Os burgueses das cidades abriam-lhe as portas e apresentavam-lhe as chaves de joelhos, os menestréis seguiam-no cantando baladas em seu louvor, as mulheres lançavam flores para o caminho que ele devia seguir. Ricardo, ao saber disto, voltou à capital à cabeça do seu exército, mas, abandonado pelos seus soldados, sem ter podido decidi-los a combater, foi obrigado a deixar-se aprisionar. Encerraram-no na grande torre de Londres, o seu processo foi instruído, as câmaras depuseram-no e o conde de Derby, proclamado rei sob o nome de Henrique IV, recebeu o ceptro e a coroa das mãos do homem que tinha destronado.

            Esta notícia trazida à França pela senhora de Coucy, que se encontrava junto da princesa Isabel, esta pobre criança, que do amor só conhecera os seus desgostos, da realeza as suas infelicidades, voltava à França viúva de um marido ainda vivo, mas já condenado. Todos sentiam que semelhante afronta feita à coroa de França não podia ficar impune, mas, ao mesmo tempo, compreendia-se a impossibilidade de fazer a guerra, de tal modo o reino estava arruinado em homens e em dinheiro. O duque de Orleães sentiu uma tal cólera por este insulto, um tal desgosto por esta impotência, que mandou Orleães, seu arauto, e Champagne, seu escudeiro-mor, desafiar o rei da Inglaterra para um combate de morte, em qualquer lugar que Henrique IV escolhesse e com qualquer arma que lhe conviesse. Henrique IV recusou o combate.

            Entretanto o duque de Orleães governava como um homem que, diz Juvenal, o severo historiador desta época, precisasse ele próprio de um governador, para fazer face às suas despesas e às da rainha, os impostos sucediam-se com uma tal rapidez que muitas vezes era lançado um novo sem que o antigo estivesse pago. Por fim, quando o povo já não podia pagar, o duque decretou um imposto sobre o clero, é verdade que, para disfarçar esta extorsão, se fez ordenar padre. Isto provocou grandes divisões entre os prelados, pois uns recusaram-se a pagar e deixaram que lhes tirassem pela força um quarto das suas colheitas nas granjas e celeiros, enquanto outros, pelo contrário, fervorosos bajuladores do duque, excomungaram todos os que se recusassem a obedecer ao édito. O regente, longe de travar a sua ambição à vista deste escândalo, respondeu ao cisma lançando um imposto geral, desta vez atingindo a nobreza, o clero e o povo, a acta anunciava que a coisa fora decidida na presença e com o consentimento dos duques da Borgonha, de Bourbon e de Berry, o que era falso. Os dois últimos declararam que nada tinham a ver com aquele imposto, quanto ao duque da Borgonha, que já tinha resolvido o resgate do filho e a quem tinham dito que o conde de Nevers estava de regresso a casa, decidiu dirigir-se a Paris para desmentir ele próprio o sobrinho.

            Logo que o soube a caminho, o duque de Orleães compreendeu que não poderia manter a posição que tinha tomado, apressou-se pois a mandar publicar que o rei, a instâncias suas e da rainha Isabel, decidira anular o último imposto, que consequentemente não seria lançado, isto não bastou para deter o duque Filipe, viu, pelo contrário, nesta retirada, uma confissão da fraqueza do seu adversário, e resolveu aproveitá-la. Assim, mal chegou a Paris, entendeu-se com os duques de Berry e de Bourbon, cujos nomes tinham sido comprometidos ao mesmo tempo que o seu, e, fazendo respeitosas observações ao rei, obtiveram dele que o conselho se reunisse para decidir qual dos dois príncipes permaneceria no poder, propondo, de resto, para que a discussão se fizesse com a maior liberdade, não comparecer na assembleia, se, do seu lado, o duque de Orleães se comprometesse a fazer outro tanto. O duque de Orleães aceitou, se bem que calculasse que a decisão lhe seria desfavorável, porque lhe concediam geralmente todas as qualidades de um bom e gentil cavaleiro, mas negaram-lhe, também geralmente, que tivesse alguma das virtudes de um homem de Estado, sentiu pois mais despeito do que assombro ao ser-lhe anunciado que o partido do duque da Borgonha levara a melhor sobre o seu e que este passaria a dirigir os assuntos do reino em vez dele.

            Os dois rivais voltaram pois a encontrar-se com um novo ódio, e, no entanto, tinham já tantos no fundo do coração que nem eles próprios teriam acreditado que lá coubesse mais um. O duque de Orleães pareceu consolar-se deste revés fazendo uma corte ostensiva e assídua à senhora condessa de Nevers, nora do duque. Era a sua maneira de vingar-se, não tardaremos a ver qual foi a do conde de Nevers.

            Tudo tinha sido resolvido, como dissemos, com Bajazet, para o resgate dos cinco cativos, pois já eram apenas cinco, de Coucy morrera no cativeiro, para grande dor de todos os seus companheiros. O imperador concedera a liberdade a Jacques de Helly, elogiando muito a sua coragem e a sua lealdade, os cavaleiros dirigiram-se pois à audiência de despedida que lhes concedera o imperador. O conde de Nevers encarregou-se, em nome dos amigos e em seu nome, de agradecer a cortesia com que tinham sido tratados, então Bajazet mandou-o aproximar-se, e, ao ver que o conde ia pôr um joelho em terra, pegou-lhe na mão e disse-lhe, em língua turca, estas palavras, que os intérpretes traduziram para latim:

            - João, sei que és, na tua terra, um grande senhor, filho de um nobre pai que tem antepassados reais: és jovem, e é possível que, de regresso ao teu país, te censurem ou te zombem pelo malogro da tua primeira expedição de armas, e que tu, na esperança de refazer a honra, reúnas uma grande força de homens para fazer, como vocês lhe chamam, uma nova cruzada, se te temesse, obrigar-te-ia, assim como aos que te acompanham, a jurar pela tua fé e pela tua honra nunca mais pegar em armas contra mim, mas, longe disso, uma vez que regresses ao teu país, faz o que melhor te aprouver: reúne contra mim o maior exército que te for possível, vem, e encontrar-me-ás sempre pronto e armado para a batalha. E digo-te isto, não apenas para ti, como também para todos aqueles a quem quiseres repetir as minhas palavras, porque nasci para as empresas de guerra e para conquistar cidades.

            Depois destas palavras, de que se recordaram por toda a vida aqueles que as ouviram, os prisioneiros foram entregues aos senhores de Mételin e de Abydos, que se tinham encarregado das negociações e as tinham levado a bom termo. Depois os homens do imperador acompanharam-nos até às galeras, só os deixando no momento em que levantavam âncora. A frota tomou o rumo de Mételin, onde chegou sem acidente.

            Os cavaleiros eram lá esperados com impaciência: foram maravilhosamente recebidos pela mulher desse senhor, que fora dama de companhia da imperatriz de Constantinopla, e que, durante esse tempo, ouvira maravilhosos relatos a respeito da França. Ficou pois muito honrada ao receber alguns dos seus mais nobres filhos, mandou preparar para eles os melhores quartos do palácio, e, nesses quartos, encontraram, no lugar das suas roupas rasgadas e velhas, indumentárias gregas feitas dos melhores tecidos da Ásia. Acabavam de vestir-se quando foi anunciada a chegada de Jacques de Braquemont, marechal de Rodes: ia buscar os cavaleiros para conduzi-los àquela ilha, onde eram aguardados pelo prior com desejo e impaciência. Despediram-se pois do senhor e da senhora de Mételin, que tão cortesmente os tinham recebido, e fizeram-se ao mar. Alguns dias de travessia bastaram-lhes para alcançar o porto, onde os aguardavam, para os honrar, os maiores senhores de Rodes, bons juízes em matéria de religião e de cavalaria, pois usavam sobre os hábitos a cruz branca, em memória da Paixão, e levavam a cabo, todos os dias, algum novo assalto contra os infiéis.

            O grão-mestre, e, após ele, os mais nobres cavaleiros, partilharam entre si a honra de receber o conde de Nevers e os seus companheiros, chegaram até a oferecer-lhes dinheiro, coisa de que tinham grande necessidade, e João de Nevers aceitou, para ele e para os amigos, uma soma de trinta mil francos, que considerou como uma dívida pessoal para com o grande prior, apesar de ter distribuído pelo menos um terço pelos companheiros.

            Enquanto se encontravam na cidade de São João, aguardando a galera de Veneza que deveria ir buscá-los, Guy de La Trémouille, senhor de Sully, caiu doente e morreu. Parecia que a morte se recusava a deixar escapar aqueles homens que tinham estado tão perto da tumba, já de Coucy tinha sucumbido, e eis que, por sua vez, de La Trémouille fechava os olhos para não mais os abrir. Os cavaleiros pensaram que alguma maldição pesava sobre eles e que nem um único estava destinado a rever o solo da pátria, prestaram tristemente as honras fúnebres ao amigo, cuja morte reduzia a quatro o número de sobreviventes, e, tendo-o deposto na igreja de São João de Rodes, embarcaram nas naves venezianas, que tinham entrado no porto enquanto cumpriam este último dever.

            À partida foi ordenado ao piloto, para menor fadiga e para que o conde pudesse visitar as terras entre Veneza e Rodes, que abordasse de ilha em ilha. Foi assim que os navegadores desembarcaram sucessivamente em Modon, Corfu, Leucádia e Cefalónia, onde se demoraram alguns dias, pois as mulheres desta ilha pareceram-lhes tão belas que as tomavam por ninfas e fadas, e o duque de Nevers e os seus companheiros gastaram em presentes a maior parte do ouro que lhes fora emprestado, sem dúvida com outra intenção, pelo bom prior dos cavaleiros de Rodes.

            Não foi sem dificuldade que os arrancaram àquele paraíso, mas foi preciso que o fizessem, pois tinham ainda muito que ver até Veneza. Voltaram pois aos navios e, à vela e a remo, chegaram a Raguza, a Zara e a Parenzo, aqui embarcaram em navios mais ligeiros, a fim de poderem chegar até Veneza, uma vez que o mar que banha a cidade não era suficientemente profundo para o calado das grandes galeras.

            Chegado a Veneza, o conde de Nevers encontrou uma parte da sua gente, que o duque e a duquesa tinham enviado a recebê-lo. Pouco depois chegavam Haugier e Helly, chefiando o resto da sua casa e levando com eles carroções carregados com baixelas de ouro e de prata, com indumentárias magníficas e roupas de todo o género. João da Borgonha pôs-se pois a caminho com o esplendor que convinha a um senhor da sua condição, e chegou à França mais como vencedor do que como vencido.

            Pouco tempo após o seu regresso, morreu, no seu castelo de Halle, com setenta e três anos de idade, Filipe o Ousado, e, por esta morte, a regência voltou ao duque de Orleães.

            O conde de Nevers passou a ser o duque da Borgonha.

            Onze meses mais tarde, a duquesa morreu, e o duque João da Borgonha passou a ser o conde da Flandres e do Artois, senhor de Salins, palatino de Malines, de Alost e de Talmund, isto é, um dos mais poderosos príncipes da cristandade.

 

            Estes acontecimentos iam trazer à luz do dia as discussões que até àquele dia tinham dividido as duas famílias. Até ali, o respeito pela idade do duque Filipe, e a prudência que lhe vinha dessa mesma idade, tinham lançado sobre as discórdias entre os príncipes um verniz político que ia desaparecer, os ódios particulares, os ódios de ambição pessoal, os ódios de amor próprio ofendido, os ódios vivazes e sangrentos, enfim, iam erguer as cabeças desmascaradas e travar uma luta feroz. Todos adivinhavam o futuro prenhe de desgraças, todos sentiam no ar alguma coisa de terrível, todos sabiam que, quando a tempestade estalasse, choveria sangue.

            E, no entanto, nem um nem outro dos dois príncipes tinham ainda dado publicamente sinais do seu ódio.

            O duque da Borgonha ficara retido nos seus Estados, para receber as homenagens das suas cidades, e, ocupado por estes cuidados só de tempos a tempos podia lançar para Paris um olhar carregado de promessas de vingança.

            Quanto ao duque de Orleães, naturalmente despreocupado como era, pouco se interessava pelo que fazia o duque da Borgonha, os seus amores com Isabel tinham retomado um novo ardor, e, nos instantes de liberdade que lhe deixavam, divertia-se a discutir sabiamente com os doutores e os homens da lei, depois pensava nos processos de levantar novos impostos. Era quase a sua única interferência no governo. Deste modo, no reino tudo ia de mal a pior. As tréguas com a Inglaterra eram letra morta, e, à falta de uma declaração de guerra aberta e geral, empreendimentos particulares, autorizados por ambos os governos, ensanguentavam ora um porto da Inglaterra ora uma província da França. Jovens fidalgos da Nor mandia, tendo à cabeça de Martel, de La Roche-Guyon e de Acqueville, sem terem pedido autorização ao rei nem ao duque de Orleães, embarcaram, em número de duzentos e cinquenta, abordaram à ilha de Portland e pilharam-na, mas os habitantes, refeitos do primeiro susto, e vendo o pequeno número dos inimigos, lançaram-se a eles, mataram uma grande parte e aprisionaram os restantes.

            Os Bretões, pelo seu lado, mas desta vez com autorização do conselho do rei, tentaram um novo ataque, que não foi mais feliz: foi chefiado por Guilherme Duchâtel, La Jaille e Châteaubriant, Guilherme Duchâtel foi morto em combate.

            Tanneguy, seu irmão, pôs-se à frente de quatrocentos fidalgos, desembarcou perto de Darmouth e pôs tudo a ferro e fogo. Guilherme, vingado, teve uma hecatombe e uma fogueira.

            No entanto, a guerra não tardaria a ser declarada e a fazer-se em maiores proporções. Um jovem exilado inglês tinha vindo pedir asilo na corte de França, era Oven Glendor, descendia dos antigos príncipes de Gales e era filho de Ivan de Gales, que, ligado por fraternidade de armas aos cavaleiros franceses, sucumbira ao serviço do rei Carlos, pedia socorro contra Henrique de Lancastre, e este apelo aos velhos ódios da França contra a Inglaterra tinha demasiados ecos no reino para não ser ouvido. Decidiu-se que seria equipada uma poderosa frota no porto de Brest e que o comando de uma expedição composta por oito mil homens seria confiado ao jovem conde de La Marche, que vimos combater, em Nicopolis, ao lado de João da Borgonha.

            Os Ingleses, conhecedores destes preparativos, resolveram destruí-los antes que estivessem terminados. Desembarcaram perto de Guérande, que esperavam apanhar de surpresa, mas Clisson velava, o seu braço não ficara desarmado ao ser-lhe tirada a espada de condestável: restava-lhe a sua. Ao grito de alarme que lançou, acorreu Tanneguy Duchâtel, com quinhentas lanças, e, abatendo com um golpe de acha o conde de Beaumont, capitão da empresa, forçou os Ingleses a reembarcar, depois de lhes ter morto ou capturado metade dos efectivos.

            Entretanto, a frota ficou pronta para fazer-se à vela, os cavaleiros estavam reunidos, só se esperava o comandante da expedição. E continuaram a esperá-lo em vão durante cinco meses. O conde de La Marche esquecera, nos bailes, nos jogos de cartas e de dados, que tinha de envergar a armadura de combate.

            Esta expedição abortada custou muito caro e só serviu para fornecer ao duque de Orleães um pretexto para lançar novo imposto sobre todo o reino.

            Desta vez, o duque da Borgonha, que se poderia julgar adormecido, despertou para ordenar aos seus súbditos que não pagassem.

            O duque de Orleães, que não tinha qualquer meio de execução nos Estados do duque da Borgonha, vingou-se dele casando a menina de Harcourt, prima do rei, com o duque de Gueldre, inimigo mortal do duque da Borgonha. O golpe deu em cheio, porque, no dia do casamento, um arauto entrou na sala do festim, e, em frente de todos os convivas, desafiou o duque de Gueldre em nome do conde António da Borgonha, que devia herdar o ducado do Limburgo. O duque de Gueldre ergueu-se, despiu o seu fato de núpcias, deu-o ao arauto para lhe fazer honra, e aceitou o desafio.

            Por aquele lado, também, a guerra estava declarada.

            A todos estes sinais da terra, começaram a juntar-se os presságios do céu. Num dia em que, na floresta de Saint-Germain, a rainha passeava de liteira e o duque a cavalo, estalou subitamente uma grande tempestade, a rainha abriu a porta da liteira e ofereceu ao amante um lugar a seu lado, mal o duque se instalou, um raio fulminou o cavalo que acabava de desmontar. O estrondo e o espectáculo assustaram os animais que puxavam a liteira, que se lançaram a galope, arrastando-a em direcção ao Sena, onde se teriam precipitado com ela se, como por milagre, os tirantes não se tivessem partido. Os cavalos mergulharam no rio, como se algum demónio os empurrasse.

            Os piedosos viram neste acontecimento um aviso da Providência: excitado por eles, o confessor do duque de Orleães falou-lhe com firmeza e sinceridade, censurando a vida dissoluta e antirreligiosa que fazia. O duque concordou que era um grande pecador, prometeu emendar-se, e, como prova da sua conversão, mandou publicar, ao som de trompas, que ia pagar as suas dívidas, marcou, em consequência, aos credores, um dia para se apresentarem no seu palácio.

            Segundo o religioso de Saint-Denis, foram oitocentos os que nesse dia se apresentaram, levando as suas contas devidamente somadas e em forma, mas já se tinham passado sete dias sobre o acidente de Saint-Germain, o céu voltara a pôr-se de um azul sem mácula e a última nuvem levara consigo os remorsos do duque, consequentemente, os seus cofres estavam fechados. Os credores levantaram grandes clamores, declarando que não se retirariam sem o seu dinheiro, responderam-lhes então que as reuniões eram proibidas e que, se não se retirassem prontamente, os sargentos da guarda saberiam dispersá-los.

            Entretanto, as mesmas pessoas que tinham feito queixas ao duque, aproveitaram um momento de lucidez do rei para lhas fazerem a ele. Mostraram-lhe o ouro dos particulares e o ouro do Estado fundindo-se nas mãos do duque e da rainha como um crisol. Disseram-lhe que prestasse atenção, e o rei ouviu os gritos do povo. Disseram-lhe que abrisse os olhos, e o rei viu que a miséria pública entrara já no seu palácio. Resolveu imediatamente informar-se, e ficou a saber coisas incríveis: mandou chamar a governanta dos seus filhos, e ela confessou-lhe que muitas vezes os jovens príncipes não tinham o necessário, que chegara a não saber o que dar-lhes de comer e de vestir. Chamou o duque de Aquitânia, e a criança apareceu-lhe meia nua e dizendo que tinha fome. Então o rei lançou um profundo suspiro, procurou dinheiro para dar à governanta, e, não o encontrando, entregou-lhe para que a vendesse uma taça de ouro, por onde acabava de beber.

            Com aquele instante de razão, o pobre louco recuperou algumas energias. Ordenou a reunião do conselho geral, a fim de avisar prontamente sobre os remédios a dar aos males do Estado, depois, sem prevenir fosse quem fosse, escreveu ao duque da Borgonha, convidando-o a assistir às deliberações.

            Era tudo o que o duque esperava.

            No dia seguinte, partiu de Arras com oitocentos homens e marchou sobre Paris.

            Ao chegar a Louvres, recebeu cartas a anunciar-lhe que o duque de Orleães e a rainha, tendo sabido da sua chegada, tinham abandonado Paris para se dirigirem a Melun, e dali a Chartres, deixando ordem ao príncipe Luís da Baviera para que lhes levasse a essa cidade o duque de Aquitânia, delfim de Viena. Apesar da urgência destas notícias, o duque estava tão fatigado que se deteve para dormir algumas horas. No dia seguinte, ao despontar da manhã, partiu para Paris, mas chegou demasiado tarde: o delfim acabava de partir.

            Então o duque da Borgonha, sem sequer mudar de cavalo, lançou-se a galope e ordenou aos seus que o seguissem. Atravessou Paris de um lado ao outro, meteu pela estrada de Fontainebleau, e alcançou o delfim entre Villejuif e Corbeil. O jovem príncipe era acompanhado pelo tio, Luís da Baviera, pelo marquês de Pont, pelo conde de Dammartin, por Montaigu, grão-mestre do palácio do rei, e por outros senhores: a seu lado, na liteira, sentavam-se a sua irmã, Jeanne, e a dama de Préaux, mulher do senhor de Bourbon. O duque da Borgonha aproximou-se da porta, inclinou-se diante do delfim e pediu-lhe que voltasse a Paris, dizendo-lhe que precisava de falar-lhe a respeito de certas coisas que lhe respeitavam de muito perto, então o príncipe Luís, vendo que o desejo do duque da Aquitânia era efectivamente voltar a Paris com João da Borgonha, avançou e disse:

            - Senhor duque, deixai ir o senhor da Aquitânia, meu sobrinho, para junto da rainha, sua mãe, e do senhor de Orleães, seu tio, pois para tanto tem o consentimento do rei, seu pai.

            E, com estas palavras, o príncipe Luís proibiu a quem quer que fosse voltar para trás, ordenando ao cocheiro que avançasse. O grupo ia pois pôr-se a caminho, quando o duque da Borgonha, agarrando as rédeas dos cavalos, os obrigou a voltarem-se para o lado de Paris, e, empunhando a espada, gritou:

            - Cocheiro, se aprecias a vida, avança, e prontamente.

            O cocheiro, tremendo de medo, pôs os cavalos a galope, os homens do duque rodearam a liteira, e, enquanto o delfim voltava à capital, acompanhado pelo tio, Luís da Baviera, que não quisera deixá-lo, o duque de Bar, o conde de Dammartin e o marquês de Pont chegavam a Corbeil e contavam ao duque de Orleães e à rainha o que acabava de passar-se.

            Esta acção dava uma medida da ousadia do duque da Borgonha. O duque e a rainha, que acabavam de sentar-se à mesa, interromperam o jantar e partiram imediatamente para Melun. Quanto ao duque da Borgonha, encontrou à entrada de Paris o rei da Navarra, o duque de Berry, o duque de Bourbon, o conde de La Marche, outros senhores e uma multidão de burgueses, que, louvando muito esta iniciativa, exprimiam o seu regozijo por verem novamente o jovem delfim. Então o duque da Borgonha, que se encontrava junto da porta da liteira com os seus dois irmãos, ordenou que o cortejo avançasse a passo, tão grande era a multidão, e chegou deste modo ao castelo do Louvre onde o delfim ficou alojado. O duque da Borgonha permaneceu junto dela, a fim de montar em torno do jovem príncipe uma boa e segura guarda.

            A vigilância era ainda mais fácil porque, ao apelo do duque da Borgonha e dos seus irmãos, numerosos homens de armas chegavam de todos os lados, vindos dos seus Estados, ao cabo de poucos dias, encontrou-se à frente de sessenta mil combatentes, comandados pelo conde de Clèves e pelo bispo de Liège, a quem chamavam João Sem Piedade.

            O duque de Orleães, pelo seu lado, também não perdera tempo, enviara mensageiros a todos os seus ducados e condados, com ordens aos seus capitães para reunirem o maior número de homens que lhes fosse possível e lhos levarem imediatamente. Pouco depois, apresentavam-se-lhe Harpedanne com os seus bolonheses, o duque da Lorena com os homens de Chartres e de Dreux, e, finalmente, o conde de Alençon, com os cavaleiros e soldados de Orleães.

            Todos estes movimentos de tropas saíam bem caros ao pobre povo dos arredores de Paris. Os soldados dos dois partidos percorriam a Brie e a Ile-de-France, pilhavam e devastavam tudo. Os do duque de Orleães tinham adoptado por estandarte o pau nodoso de que o príncipe fizera a sua divisa durante o torneio, com as mesmas palavras: Ofereço o desafio! Os borgonheses, pelo seu lado, tinham-se unido sob a plaina do duque João, tomando por palavra de ordem: Aceito-o.

            Os dois grupos encontravam-se pois em presença, e, se bem que não tivesse havido entre os dois duques qualquer declaração de guerra patente, todos sabiam que bastaria uma querela particular entre dois soldados para provocar o choque entre os dois exércitos e mergulhar na guerra civil toda a França.

            Esta situação durou algum tempo, até que o duque de Orleães decidiu pôr-lhe termo com uma manobra decisiva. Em consequência, deu ordens ao seu exército para marchar sobre Paris. O duque da Borgonha estava no seu palácio do Artois quando lhe foram dizer que o inimigo avançava com todo o seu poder. Fez-se armar imediatamente, saltou para o seu cavalo de batalha, correu ao palácio de Anjou, onde encontrou o rei da Sicília, os duques de Berry e de Bourbon e outros príncipes e senhores do rei, estabeleceu, diante de todos, que não era ele quem abria as hostilidades, e, colocando-se à cabeça das suas tropas, foi dispô-las em ordem de batalha diante de Montfaucon.

            Ao verem o duque e os seus soldados a atravessar a galope as ruas de Paris, os burgueses emocionaram-se vivamente. O duque de Orleães imprimira, pelas suas exacções, um tal selo de cobiça no seu governo, que correu o boato de que voltava a Paris para a pôr a saque. No mesmo instante, toda a cidade se ergueu em massa e correu para as portas: os estudantes pegaram em armas e desceram a Universidade, demoliram-se várias casas dos arredores e as pedras foram usadas para levantar barricadas na estrada, enfim, foram tomadas todas as medidas para secundar o duque da Borgonha e combater o duque de Orleães.

            Nesse momento passaram pelos trabalhadores o rei da Sicília e os duques de Berry e de Bourbon, dirigiam-se ao campo do duque de Orleães, para o informarem das disposições tomadas na cidade e suplicarem-lhe que evitasse toda e qualquer efusão de sangue. O duque respondeu-lhes que não fora ele, e sim o seu primo da Borgonha, quem iniciara as hostilidades, ao roubar à mãe o jovem duque da Aquitânia, que, de resto, estava pronto a escutar qualquer proposta razoável e, que, como prova disso, interrompia o seu avanço. Com efeito, acantonou os seus homens em Corbeil e em torno da ponte de Charenton, conduziu a rainha a Vincennes e retirou-se para o seu castelo de Beauté.

            As conversações iniciaram-se imediatamente e duraram oito dias, ao fim dos quais começou a surgir um entendimento: os dois duques concordaram em dispensar as suas tropas e confiar a resolução das suas divergências ao julgamento do conselho do rei. Ambos juraram sobre o Evangelho e o licenciamento das respectivas tropas foi o primeiro passo na execução do acordo.

            Quando Paris se viu livre dos homens de armas dos dois partidos, a rainha decidiu-se a voltar, foi uma grande festa para a capital, aquela prova de confiança que a rainha Isabel dava aos seus súbditos, voltando para o meio deles, toda a população saiu alegremente para a receber. A rainha transportava-se no primeiro carro suspenso jamais construído, que lhe fora oferecido pelo duque de Orleães, as damas seguiam-na em liteiras, os dois duques reconciliados avançavam a cavalo, de mãos dadas, e levando cada um deles a divisa do seu adversário. Depois de terem conduzido Isabel ao palácio do rei, dirigiram-se ambos a Notre-Dame, comungaram com a mesma hóstia partida em duas, beijaram-se junto do altar e, dando mais uma prova de reconciliação e de confiança, o duque da Borgonha pediu ao duque de Orleães hospitalidade para aquela noite. O duque de Orleães ofereceu-lhe então metade do seu próprio leito, João da Borgonha aceitou. O povo, deixando-se como sempre iludir pelas aparências, acompanhou-os, gritando: "Natal!", até ao novo palácio do duque de Orleães, situado atrás de Saint-Paul.

            Estes homens, que oito dias antes marchavam um contra o outro sob estandartes opostos e vestindo as suas armaduras de guerra, entraram no palácio de braço dado, como dois amigos que se reencontram após uma longa ausência.

            Encontraram no palácio os duques de Berry e de Bourbon, seus tios, que não podiam acreditar nos seus olhos e ouvidos. O duque da Borgonha confirmou-lhes uma vez mais a sinceridade da reconciliação e o duque de Orleães disse-lhes que jamais dia algum lhe parecera tão belo como aquele que acabava.

            Os dois duques, uma vez sozinhos, continuaram a passear, conversando. Serviram-lhes vinho aromatizado, que beberam trocando as taças. O duque da Borgonha, principalmente, mostrava-se de um abandono extremo. Elogiou muito a decoração do quarto de dormir, examinou com uma atenção minuciosa as tapeçarias e todas as portas. A dada altura, indicando com um dedo uma chave que abria uma porta secreta, perguntou, rindo, se não seria aquela a entrada para os aposentos de Valentina.

            O duque de Orleães passou vivamente entre João da Borgonha e a tapeçaria, pondo a mão sobre a chave.

            - Nada disso, meu primo - respondeu - é-lhe até, pelo contrário, expressamente proibido lá entrar, esta porta é a de um oratório onde faço as minhas devoções secretas.

            Depois, rindo, e como que por inadvertência, tirou a chave da fechadura, brincou com ela durante algum tempo, sem parecer mesmo saber que a tinha na mão, e acabou por guardá-la num bolso do seu gibão, com um ar de distracção perfeitamente natural.

            - E se nos deitássemos, meu primo? - disse.

            João da Borgonha respondeu tirando a corrente de ouro de onde tinha suspenso o punhal e a bolsa e pousando estes objectos num cadeirão. O duque de Orleães, pelo seu lado, começou a despir-se, e, tendo terminado primeiro do que o primo, meteu-se na cama, deixando o lado de fora, isto é, o lugar de honra, ao duque de Borgonha, que não tardou em ocupá-lo.

            Os dois príncipes conversaram ainda durante algum tempo a respeito de guerra e de amor, depois, por fim, o duque João pareceu sentir a necessidade de ceder ao sono, o duque de Orleães deixou de falar.

            olhou ainda durante uns momentos para o primo, que tinha adormecido instantaneamente, e então, fazendo o sinal da cruz, murmurou algumas orações e fechou os olhos por sua vez.

            Ao cabo de uma hora de imobilidade, os do duque João abriram-se, voltou cuidadosamente a cabeça para o lado do primo: este dormia como se todos os anjos do céu velassem por ele.

            Quando teve a certeza de que este sono não era fingido, João levantou-se lentamente sobre um cotovelo, pôs uma perna de fora, depois a outra, procurou o soalho com a ponta do pé, e, tendo-o encontrado, deslizou silenciosamente para fora da cama, aproximou-se do cadeirão onde o duque de Orleães deixara as suas roupas, procurou no bolso do gibão, tirou a pequena chave que o primo lá tinha guardado, pegou na candeia que o lacaio deixara sobre a mesa, avançou sem ruído e contendo a respiração para a porta secreta e meteu cautelosamente a chave na fechadura: a porta abriu-se e o duque entrou no gabinete misterioso.

            Um minuto depois voltou a sair, pálido e de sobrolho carregado, deteve-se durante algum tempo, como que tentando decidir o que fazer, estendeu a mão para o punhal que deixara sobre o cadeirão, mas, mudando de ideias, pousou a candeia em cima da mesa. O leve ruído provocado por este último movimento despertou o duque de Orleães.

            - Tendes necessidade de alguma coisa, meu primo? - perguntou.

            - De nada, senhor. Mas esta candeia impedia-me de dormir e levantei-me para apagá-la.

            Com estas palavras, soprou a candeia e voltou para a cama, deitando-se de novo.

 

            Vários meses se tinham passado sobre esta noite de reconciliação, quando, na tarde de 23 de Novembro de 1407, dois homens a cavalo detiveram-se, na rua Barbette, em face da pensão "Imagem de Nossa Senhora", olharam em torno, a fim de se certificarem do lugar onde se encontravam, e um deles disse ao outro.

            - É aqui.

            Desmontaram então, conduziram as montadas para debaixo de um telheiro, amarraram as rédeas a um dos postes e começaram a passear silenciosamente de um lado para o outro. Um instante depois, outros dois homens chegaram, pareceram entregar-se à mesma investigação, desmontaram como os primeiros, e, vendo as armaduras de aço reluzir na sombra, foram juntar-se aos que as vestiam. Não se tinham passado dez minutos quando ouviram o ruído de novos recém-chegados: finalmente, ao cabo de meia hora, o grupo sucessivamente aumentado contava dezoito homens.

            Estava completo havia cerca de um quarto de hora quando se ouviu no extremo da rua o galope de um cavalo solitário. No momento em que o cavaleiro passava em frente do telheiro, uma voz interpelou-o: - Sois vós, de Courteheuse?

            - Sou eu - respondeu o cavaleiro, detendo a montada. - Quem me chama, amigo ou inimigo?

            - Amigo - disse o que parecia ser o chefe do grupo, saindo a pé da sombra onde se tinha ocultado e aproximando-se de Thomas de Courteheuse. - Então, estamos prontos?

            E apoiou a mão no pescoço do cavalo.

            Ah! És tu, Raoullet d'Octouville! exclama o cavaleiro. Bem, estás com todos os teus homens?

            - Sim, e já esperamos há uma boa meia hora.

            - Houve um atraso na ordem, creio que no momento de agir lhe faltou a coragem.

            - Como? Terá renunciado ao seu propósito?

            - Não.

            - E faz bem, pois tomá-lo-ia por minha conta.

            - Não esqueci que esse duque, que Deus condene, me tirou, durante o seu governo, do serviço dos generais, onde o rei me colocara a pedido do defunto duque Filipe da Borgonha. Sou Normando. Thomas, e sou rancoroso, ele pode pois contar com dois bons golpes de adaga, fique seguro, o primeiro, pela promessa que fiz ao duque, e o segundo pela promessa que fiz a mim mesmo.

            - Mantém-te nessa boa disposição, meu braço caçador, pois a caça está levantada e daqui a um quarto de hora trago-ta.

            - Vá então!... - disse Raoullet, dando uma palmada na garupa do cavalo, que partiu a galope.

            Raoullet voltou para debaixo do alpendre.

            Deixemos o cavaleiro seguir o seu caminho e entremos no pequeno retiro da rainha.

            Era um bonito palácio que tinha comprado a sire de Montaigu, e para onde se retirara quando o rei, num acesso de loucura, lhe golpeara as mãos com a sua espada. A partir dessa altura, só voltara a Saint-Paul nas ocasiões solenes, e nunca lá permanecera mais tempo do que o estritamente necessário às conveniências, isto, de resto, dava mais liberdade aos seus amores com o duque.

            Naquela tarde, portanto, a rainha encontrava-se, como era hábito, no pequeno palácio, mas de cama, em consequência de um parto abortado, em que a criança nascera morta. O duque de Orleães estava sentado à sua cabeceira, e acabavam de servir-lhe uma ceia, que a convalescença da doente tornara muito alegre, quando Isabel, olhando para o amante com olhos onde o regresso da saúde começava a fazer brilhar o amor, lhe disse:

            - Meu belo duque, um dia, quando estiver completamente restabelecida, tereis de oferecer-me uma ceia no vosso palácio, como eu acabo de oferecer-vos no meu, depois pedir-vos-ei um favor.

            - Dizei que me dareis uma ordem, minha nobre Isabel - respondeu o duque - e acrescentai que a executarei de joelhos.

            - Isso não é certo, Orleães - continuou a rainha, olhando para ele, desta vez com uma expressão de dúvida - e receio muito que, quando souberdes o meu pedido, vos recuseis a satisfazê-lo.

            - Nada podeis pedir-me que me seja mais caro do que a vida, e bem sabeis que a minha vida vos pertence.

            - A mim.., e à França, cada uma de nós tem o direito de reclamar a sua parte, é o que não deixam de fazer as damas da minha corte.

            O duque de Orleães sorriu.

            - Ciúme?

            - Oh, não, apenas curiosidade, ora, como sou muito curiosa, gostaria de entrar num certo gabinete contíguo ao quarto de dormir do senhor duque de Orleães, onde se diz encontrarem-se os retratos de todas as suas amantes.

            - E quereríeis saber?...

            - Se estou em boa companhia, mais nada.

            - Se tal acontecesse, minha Isabel, ver-vos-íeis sozinha, como estais no meu coração e sobre o meu coração.

            E, dizendo isto, tirou do peito o retrato que a rainha lhe tinha dado.

            - Oh! mas aqui está uma prova por que não esperava. Como, ainda usais essa imagem?

            - Só morto ma tirarão.

            - Não faleis em morrer, senhor, senti, ao ouvir essa palavra, um estremecimento percorrer-me as veias e uma estranha tontura passar-me pelos olhos. Oh! quem é? Quem vem? Que me querem?

            - É Thomas de Courteheuse, camareiro do rei, que pergunta pelo senhor duque - respondeu o pajem que abrira a porta.

            - Consentis que entre, minha bela rainha? - perguntou o duque de Orleães.

            - Sim, certamente. Mas que quer ele? Estou toda a tremer.

            Messire Thomas entrou.

            - Senhor - disse, inclinando-se -, o rei chama-vos, com urgência, à sua presença, pois precisa de falar-vos de coisas que interessam a ele e a vós.

            - Dizei ao rei que vos sigo, messire - respondeu o duque.

            Thomas montou a cavalo, partiu a galope e, ao passar diante do telheiro, gritou estas palavras:

            - Alerta, Raoullet! Vem aí a caça! E desapareceu.

            No mesmo instante, um movimento confuso fez-se sob o telheiro: ouviu-se o chocar de ferro contra ferro, quando aqueles homens montaram a cavalo, depois o ruído cessou e tudo voltou ao silêncio.

            Ao cabo de alguns minutos, este silêncio foi quebrado por uma voz doce que vinha do lado da rua do Templo, e que cantava um poema de Froissart, um instante mais tarde foi possível distinguir o cantor, que era precedido por dois lacaios empunhando archotes: à frente deles cavalgavam dois escudeiros montados no mesmo cavalo e atrás dele seguiam quatro homens armados, o homem vestia uma grande veste de damasco negro, montava uma mula e brincava com uma luva, que atirava ao ar e voltava a apanhar.

            Chegado a pouca distância do alpendre, o cavalo dos dois escudeiros relinchou, outro relincho partido do telheiro respondeu-Lhe, como um eco.

            - Está aí alguém? - perguntaram os escudeiros.

            Ninguém respondeu.

            Então apertaram com os joelhos os flancos do cavalo, mas o animal encabritou-se, picaram-no com as esporas, e o cavalo saltou para a frente e partiu a galope, como se passasse pelo meio de chamas.

            - Agarra-te bem, Simon - gritou o cantor, rindo da aventura -, e anuncia-me ao rei, pois, se continuas a essa velocidade, chegarás ao palácio um quarto de hora antes de mim!

            - É ele! - disse uma voz sob o telheiro.

            E vinte homens a cavalo lançaram-se para a rua: um deles avançou direito ao duque, gritando: À morte! À morte!

            E então, com um golpe de acha, decepou-lhe uma das mãos.

            O duque lançou um grande gemido, gritando:

            - Que é isto? Que significa isto? Sou o duque de Orleães.

            - És quem nós procuramos! - respondeu o mesmo homem que já o tinha ferido.

            E, desferindo-lhe um novo golpe de acha, abriu-lhe todo o lado direito da cabeça, da testa até à mandíbula. O duque de Orleães lançou um suspiro e tombou.

            Conseguiu ainda pôr-se de joelhos, mas nesse mo momento todos os assaltantes lhe caíram em cima, ferindo cada um com uma arma diferente, uns com uma espada, outros com uma maça, outros ainda com punhais e adagas, um pajem alemão, que tentou defender o duque, caiu sobre ele, mortalmente ferido, e os golpes dividiram-se entre a criança e o amo, o outro pajem, ligeiramente ferido por um golpe de espada, refugiou-se numa loja da rua das Roseiras, a gritar por socorro. A mulher de um sapateiro abriu a janela, e, ao ver vinte homens a atacar dois, começou a gritar.

            - Cala-te! - gritou-lhe um dos assassinos.

            E, ao ver que ela continuava, meteu uma seta na besta e disparou-a, a seta foi cravar-se na portada da janela que a mulher tinha aberto.

            Havia, entre os assassinos, um homem cuja cabeça estava coberta por um grande chapéu vermelho, que lhe escondia o rosto, este não feria, mas via ferir.

            Quando viu o duque sem movimentos, pegou num archote e aproximou-lho do rosto.

            - Já basta - disse. - Está morto.

            No mesmo instante, lançou o archote contra um monte de palha colocado junto da parede da pensão, as chamas propagaram-se rapidamente. O homem saltou então para o seu cavalo, gritando Fogo! Fogo! e partiu a galope, metendo pela rua que desembocava nos jardins do palácio de Artois. Os companheiros seguiram-no, gritando como ele, Fogo! Fogo, e deixando a rua juncada de armadilhas para raposas, a fim de não serem perseguidos.

            Entretanto, o cavalo que transportava os dois escudeiros tinha-se acalmado e os cavaleiros tinham conseguido fazê-lo voltar ao lugar onde se assustara, quando avistaram a mula do duque, que galopava sem cavaleiro, pensaram que o animal o tinha derrubado e, levando-o pelas rédeas, voltaram até junto do telheiro. Chegados ali, viram, à luz do incêndio, o duque estendido, perto dele estava a mão decepada e, na valeta, uma parte do seu cérebro.

            Galoparam então a toda a velocidade para o pequeno palácio da rainha, onde entraram lançando grandes gritos, pálidos e arrancando os cabelos. Um deles foi imediatamente conduzido ao quarto de Isabel, que lhe perguntou o que se passava.

            - Uma grande desgraça - respondeu. - O duque de Orleães acaba de ser assassinado na rua Barbette, em frente do palácio do marechal de Rieux.

            Isabel empalideceu terrivelmente, depois, pegando numa bolsa cheia de ouro que tinha sobre a mesa de cabeceira, agarrou com a outra mão um braço daquele homem, dizendo-lhe:

            - Vês esta bolsa? Pois bem, é tua, se a quiseres.

            - Que terei de fazer? - perguntou o escudeiro.

            - Correr para junto do teu amo, antes que alguém leve o corpo, compreendes?

            - Sim, e então?

            - Então tira-lhe um retrato meu que ele usa ao peito.

 

            Já agora preciso que o leitor, se quiser seguir-nos, franqueie connosco o intervalo de dez anos que acaba de decorrer entre o assassínio do duque de Orleães e a época em que retomamos esta crónica. Dez anos, que tanto lugar ocupam na vida de um homem, não são mais do que um passo na marcha do tempo. Esperemos pois que, reflectindo na dificuldade de dizer tudo no espaço a que estamos restritos, nos perdoem esta lacuna, que, de resto, preencheremos um dia, no grande trabalho que nos propomos fazer sobre a nossa história, supondo todavia que o público nos encoraje a empreendê-lo.

            Estava-se pois nos fins do mês de Maio de 1417, quando, cerca das sete horas da manhã, a barreira da porta Saint-Antoine foi levantada para deixar sair da cidade de Paris um pequeno grupo de homens a cavalo, que meteu imediatamente pela estrada de Vincennes. Dois homens cavalgavam à cabeça deste grupo, e os outros, que pareciam mais do seu séquito do que seus companheiros, mantinham-se atrás deles, a alguns passos de distância, regulando, com inequívocos sinais de respeito, o seu andamento pelo das duas figuras, de que vamos tentar dar uma ideia ao leitor.

            O que seguia do lado direito da estrada montava uma mula espanhola treinada para andar a passo travado, e que parecia adivinhar a fraqueza do dono, de tal modo o seu passo era suave e regular. Com efeito, o cavaleiro, se bem que tivesse apenas quarenta e nove anos, parecia velho, e sobretudo sofredor; de resto, a sua confiança na montada era tal que, de tempos a tempos, abandonava completamente as rédeas, para apertar, como que num movimento convulsivo, a cabeça entre as duas mãos. Se bem que o ar da manhã estivesse ainda frio, e que uma ligeira névoa pairasse sobre os campos, levava o chapéu suspenso do lado direito da sela, e nada lhe protegia a cabeça contra o orvalho que tremia em gotas nos anéis dos seus raros cabelos brancos, que lhe desciam das têmporas ao longo do rosto magro, pálido e melancólico. Longe de parecer incomodado pela frescura desse orvalho, via-se, pelo contrário, que as gotas geladas que recebia sobre a cabeça calva lhe aliviavam um pouco as dores que o obrigavam a repetir o movimento que já indicámos como sendo-lhe habitual. Quanto à sua indumentária, nada a distinguia da dos senhores idosos da época. Era uma espécie de veste de veludo negro, aberta à frente e guarnecida de peles brancas mosqueadas de negro, cujas mangas largas, fendidas e pendentes, deixavam sair pelas aberturas as mangas cingidas de um gibão de brocado de ouro, cuja riqueza e elegância eram consideràvelmente diminuídas pelos longos serviços que parecia ter já prestado ao seu proprietário. Por baixo desta veste, e libertos do incómodo dos estribos, pendiam, metidos numa espécie de botas forradas e pontiagudas, os pés do cavaleiro, que, pelo seu balançar contínuo, bem teriam podido acabar com a paciência do pacífico animal a que o cavaleiro se confiava completamente, se não tivesse havido a precaução de tirar-lhes as esporas douradas e aguçadas, que nessa época eram ainda a marca distintiva dos senhores e dos cavaleiros. Os nossos leitores teriam pois alguma dificuldade em reconhecer, por esta descrição tão diferente da que demos do mesmo personagem no início da obra, o rei Carlos VI, que se dirigia a Vincennes para visitar a rainha Isabel, se, como já dissemos, dez anos não ocupassem tanto lugar na vida de um homem, e se, durante esses dez anos, tudo não tivesse andado de mal para pior no reino de França.

            À sua esquerda, e aproximadamente à mesma altura, avançava, contendo com dificuldade um bom cavalo de batalha, um cavaleiro de estatura colossal, coberto de ferro como se marchasse para o combate; a sua armadura, mais forte do que elegante, atestava, todavia, pela facilidade com que se adaptava a todos os movimentos dos braços, da perícia do artesão milanês que a fizera. Da sela de guerra pendia, do lado direito, uma pesada e denteada maça de armas, que parecia ter sido ricamente damasquinada de duro, mas que, nos contactos frequentes a que o braço do dono a obrigara com os elmos inimigos, tinha perdido essa rica ornamentação, sem que essa perca diminuísse por pouco que fosse a sua robustez. Do lado oposto, e como que para a equilibrar, pendia uma arma não menos respeitável sob todos os aspectos: era uma longa espada de lâmina larga em cima, estreitando-se depois como um punhal, e que, pelas flores de lis que lhe ornamentavam a bainha, se reconhecia como sendo a do condestável. Se o dono a tirasse da rica bainha onde naquele instante repousava, o aço da comprida lâmina teria também certamente, dado provas, pelas suas mossas, dos golpes que descarregara; mas, de momento, aquelas duas armas pareciam ser mais uma precaução do que uma necessidade. Estavam apenas ali, como esses servidores fiéis a quem se não permite que se afastem, seja de dia seja de noite, para que, em caso de perigo, baste estender uma mão para os encontrar.

            Como já dissemos, no entanto, nenhum perigo parecia iminente, e, se o rosto do cavaleiro se apresentava sombrio, via-se que tal se devia mais à fixidez de uma ideia do que a uma preocupação instante. De resto, a sombra da viseira, que se estendia sobre os seus olhos negros, contribuía talvez para lhes aumentar a impressão de dureza. Como, no entanto, um nariz aquilino e fortemente pronunciado, uma pele queimada pelos ventos de muitas guerras, uma cicatriz que lhe fendia a face, e cujas extremidades iam perder-se, uma no arco de uma espessa sobrancelha negra, a outra no início de uma barba basta e grisalha, podia pensar-se, ao primeiro olhar, que a alma que habitava aquele invólucro de ferro era como ele experimentada e inflexível.

            Se o retrato que acabamos de traçar não bastasse aos nossos leitores para reconhecer Bernard VII, conde de Armagnac, de Rouerge e de Fezenzac, condestável do reino da França, governador-geral da cidade de Paris, capitão de todas as praças fortes do reino, bastar-lhes-ia desviar os olhos para o pequeno grupo que o seguia; poderiam distinguir, no meio dele, um escudeiro, envergando um casacão verde com a cruz branca, levando o escudo do seu amo, com os quatro leões de Armagnac(1), encimados por uma coroa condal, e assim dissipariam todas as suas dúvidas, por pouco conhecedores que fossem da ciência heráldica, bastante espalhada naquela época, tal como está bastante esquecida na nossa. [1. Esquartelado no primeiro e no quarto de prata com leão de goles, no segundo de goles, e no terceiro de goles com leão mosqueado de ouro].

            Os dois cavaleiros tinham avançado em silêncio desde a porta da Bastilha até à ramificação dos dois caminhos, dos quais um conduzia ao convento de Saint-Antoine, e o outro à Croix-Faubin, quando a mula do rei, entregue, como já dissemos, à sua própria sagacidade, se deteve no meio da estrada. Estava habituada a ir, ora a Vincennes, aonde nesse dia se dirigia o rei, ora ao convento de Saint-Antoine, onde o soberano fazia muitas vezes as suas devoções, e esperava que uma indicação do cavaleiro lhe dissesse qual dos caminhos devia tomar; mas o rei estava num desses momentos de atonia que não lhe permitiam adivinhar o que lhe perguntava a sua montada; ficou pois imóvel sobre a mula, no lugar onde ela se detivera, sem que nada indicasse sequer que se tivesse apercebido de que passara do movimento à imobilidade. O conde Bernard tentou chamar o rei a si mesmo dirigindo-lhe a palavra; mas esta tentativa foi inútil. Obrigou então o cavalo a adiantar-se à mula, na esperança de que o teimoso animal o seguisse, mas a mula levantou a cabeça e ficou a vê-lo afastar-se, sacudiu as crinas e permaneceu imóvel. O conde Bernard, irritado com esta demora, saltou do cavalo, entregou as rédeas ao escudeiro e avançou para o rei; tão grande era ainda o respeito pela realeza, que só a pé ousava, poderoso como era, tocar, para a dirigir, nas rédeas da mula do pobre Carlos o Louco. Mas este respeito e esta intenção estiveram longe de ser coroados de êxito; pois mal o rei viu um homem agarrar-lhe as rédeas da montada, lançou um grito agudo, procurou uma arma no lugar de onde deveria pender a sua espada e o seu punhal, e, não a encontrando, pôs-se a gritar com uma voz rouca e entrecortada pelo terror:

            - A mim!... A mim, meu irmão de Orleães!... A mim! É o fantasma!

            - Senhor rei - disse Bernard d'Armagnac, adoçando o mais que pôde a sua rude voz - quisesse Deus e São Tiago que o vosso irmão de Orleães vivesse ainda! Não para vir em vosso socorro, pois eu não sou um fantasma e nenhum perigo vos ameaça, mas para nos ajudar com a sua espada e o seu conselho contra os Ingleses e os Borgonheses.

            - Meu irmão! Meu irmão! - murmurava o rei, cujo receio parecia diminuir, mas cujos olhos tresloucados e cabelos eriçados provavam bem que a irritação dos seus nervos estava longe de se ter acalmado. - Meu irmão Louis!

            - Não recordais então, senhor, que fará em breve dez anos que o vosso irmão bem amado foi traiçoeiramente assassinado, na rua Barbette, pelo duque Jean da Borgonha, que, a esta hora, marcha como súbdito desleal contra o seu rei, o que eu, vosso defensor dedicado, provarei em tempo e lugar, com a ajuda de São Bernardo e da minha espada?

            O olhar vago do rei fixou-se lentamente em Bernard; e, como se de tudo o que ele dissera, só tivesse ouvido uma coisa, perguntou, com um resto de alteração na voz:

            - Dizíeis então, meu primo, que os Ingleses desembarcaram nas nossas costas da França?

            E pôs a mula a passo, fazendo-a avançar pelo caminho de Vincennes.

            - Sim, alteza - respondeu Bernard, voltando a montar e retomando o seu lugar junto do rei.

            - Onde?

            - Em Touques, na Normandia. E acrescentei que o duque da Borgonha se apoderou de Abeville, de Amiens, de Montdidier e de Beauvais. O rei lançou um suspiro.

            - Sou muito infeliz, meu primo! - disse, apertando a cabeça entre as duas mãos.

            Bernard deixou-lhe um momento de reflexão, esperando que recuperasse as suas faculdades e pudesse continuar com alguma sequência uma conversa tão importante para a salvação da monarquia.

            - Sim, muito infeliz - continuou o rei, deixando pender molemente as mãos ao longo do corpo e baixando a cabeça para o peito. - E que contais fazer, meu primo, para repelir ao mesmo tempo esses dois inimigos? Digo vós.., porque eu, eu sou demasiado fraco para vos ajudar.

            - Alteza, já tomei as minhas medidas, que vós aprovastes. O delfim Carlos foi por vós nomeado lugar-tenente geral do reino.

            - Sim, é verdade... Mas observei-vos, meu primo, que o príncipe é muito jovem. Porque não me indicastes, para esse cargo, o seu irmão mais velho, Jean?

            O condestável olhou para o rei com assombro; um suspiro saiu-lhe do peito enorme e abanou tristemente a cabeça. O rei repetiu a pergunta.

            - Alteza - respondeu por fim o condestável - poderão os sofrimentos humanos ser levados ao extremo de um pai esquecer a morte do seu filho?

            O rei estremeceu, voltou a apertar a cabeça entre as mãos, e, quando as afastou do rosto, o condestável viu que duas grossas lágrimas lhe deslizavam pelas faces enrugadas.

            - Sim, sim... recordo-me. Morreu na nossa cidade de Compiègne.

            Depois acrescentou, mais baixo:

            - E Isabel disse-me que tinha morrido envenenado... Mas, chut!... Não o devemos repetir... Meu primo, pensais que isto seja verdade?

            - Os inimigos do duque de Anjou acusaram o príncipe de o ter feito, e basearam esta acusação no facto de tal morte aproximar do trono o delfim Carlos, seu genro. Mas o rei da Sicília era incapaz de cometer um tal crime, e, se o cometeu, Deus não quis que colhesse os seus frutos, pois ele próprio morreu em Angers, seis meses após aquele de quem o acusaram de ter sido o assassino.

            - Sim, morto.., morto!... É tudo o que me responde o eco, quando chamo os meus filhos e os meus parentes. O vento que sopra em torno dos tronos é mortal, meu primo, e, de toda esta rica família de príncipes resta apenas a árvore jovem e o velho tronco... Assim, pois, o meu Carlos bem amado...?

            - Partilha comigo o comando das tropas; e, se tivéssemos dinheiro para recrutar outras,..

            - Dinheiro, meu primo? Não temos os fundos reservados às necessidades do Estado?

            - Foram levantados, alteza.

            - E por quem?

            - O respeito detém a acusação nos meus lábios...

            - Meu primo, ninguém além de mim tinha o direito de dispor desses fundos, e ninguém podia levantá-los sem uma autorização assinada pela minha mão e autenticada com o meu selo.

            - Alteza, a pessoa que os levantou serviu-se, efectivamente, do selo real, se bem que tenha considerado a vossa assinatura inútil.

            - Sim, sim, consideram-me já como morto. Os Ingleses e os Borgonheses partilham o meu reino, a minha mulher e o meu filho os meus bens. Foi um deles, não é verdade, meu primo, quem cometeu esse roubo, pois de um roubo se trata, uma vez que o Estado tinha necessidade desse dinheiro.

            - Alteza, o delfim Carlos é demasiado respeitoso para não esperar, seja para o que for, as ordens do seu senhor e pai.

            - Então, conde, foi a rainha? ... E suspirou profundamente.

            - A rainha! Pois bem, vamos vê-la, e pedir-lhe-ei que me restitua esse dinheiro; compreenderá que deve entregar-mo.

            - Alteza, foi gasto da compra ne móveis e de jóias.

            - Que fazer então, meu pobre Bernard? Lançaremos um novo imposto sobre o povo!

            - Está já esmagado por eles.

            - Não nos restarão alguns diamantes?

            - Os da vossa coroa, e mais nenhum. Alteza, sois demasiado brando para com a rainha; ela perde o reino, e, ante Deus, sois vós o responsável. Vede se a miséria pública diminuiu o seu luxo; pelo contrário, parece que só aumenta à custa da pobreza geral; as senhoras e donzelas do seu palácio fazem a vida de sempre, gastam loucamente, usando indumentárias tão ricas que espantam toda a gente. Esses jovens senhores que a rodeiam desbaratam em rendas, sobre os seus gibões, um ano de soldo das tropas. Pretextando o perigo que corre com estas perturbações de guerra, pediu ao Estado uma guarda inútil, e o Estado paga-a. Os sires de Graville e de diac, que comandam essa tropa, obtêm continuamente, da rainha Isabel, dinheiro e jóias. É uma prodigalidade que faz murmurar as pessoas de bem, alteza.

            - Condenável disse o rei, no tom de um homem que sabe o momento mal escolhido para dar uma notícia, mas que não pode deixar de fazê-lo -, condestável, prometi ontem nomear capitão do castelo de Vincennes o cavaleiro de Bourdon; apresentareis a sua nomeação para que a assine.

            - Fizestes isso, alteza?

            E os olhos do condestável chisparam.

            O rei murmurou um "sim" quase ininteligível, como uma criança que sabe ter procedido mal e que teme ser repreendida.

            Tinham chegado à altura da Croix-Faubin, e o caminho, que deixava de ser circular, permitia avistar, ainda a alguma distância, avançando ao encontro do pequeno grupo, um cavaleiro vestido com todo o esmero da época. O seu chapéu azul (era a cor da rainha) flutuava-lhe elegantemente sobre o ombro esquerdo, e, formando como que uma faixa, ia cair-lhe na mão direita, à qual servia de brinquedo.

            Da cinta pendia-lhe uma espada de aço polido, tão ligeira que parecia mais um ornamento do que uma defesa. Usava uma veste curta e flutuante, de veludo vermelho, e, sob esta veste, desenhando uma cintura elegante, resplandecia de bordados um gibão de veludo azul, apertado na cintura por uma corrente de ouro; uns calções de tecido cor de sangue de boi e sapatos de veludo negro, tão pontiagudos e recurvados que tinham dificuldade em passar pelos estribos, completavam esta indumentária, que o mais rico e o mais elegante dos senhores da corte poderia tomar por modelo. Juntai a isto uns cabelos louros e encaracolados, um rosto despreocupado e alegre, mãos de mulher, e tereis um retrato exacto do cavaleiro de Bourdon, o favorito, e, segundo alguns, o amante, da rainha.

            O condestável reconheceu-o mal o viu. Odiava Isabel e combatia a sua influência no espírito do rei; sabia Carlos ciumento: decidiu pois aproveitar a ocasião que se lhe apresentava para conseguir a execução de um grande propósito político: o exílio da rainha. Mas nenhuma alteração do seu rosto anunciou que tivesse reconhecido o cavaleiro que se aproximava.

            - Desejo que comuniqueis a esse jovem que ratifico a sua nomeação - continuou Carlos.

            - É provável que ele já o saiba, alteza.

            - E quem lho teria dito?

            - A mesma pessoa que vo-la pediu com tanta instância.

            - A rainha?

            - Tem tanta confiança na bravura desse cavaleiro, que, para lhe confiar a guarda do castelo, não esperou que lhe fosse concedido o seu posto de capitão.

            - Como?

            - Olhai para diante de vós, alteza.

            - O cavaleiro de Bourdon!

            O rei empalideceu; uma suspeita mordia-lhe o coração.

            - Passou a noite no castelo; é impossível que, a estas horas, tenha partido de Paris e volte já de Vincennes.

            - Tendes razão, conde. Que se diz, na minha corte, a respeito desse jovem?

            - Que tem muito êxito junto das damas e que se aproveita disso. Pretende-se que nem uma só lhe resistiu.

            - E não se exceptua nenhuma, conde?

            O rei pôs-se pálido e o conde estendeu uma mão, julgando que ele ia cair. Mas Carlos repeliu-a docemente.

            - Será por isso - perguntou, com voz surda -, que pretende que lhe seja confiada a guarda do castelo? Jovem insolente! Bernard, Bernard, não traz um chapéu azul?

            - É a cor da rainha.

            O cavaleiro de Bourdon estava já tão perto deles que podiam ouvir as palavras da canção que cantava; era um poema de Alain Chartier dedicado à rainha. O aparecimento do rei e do conde não pareceu ao cavaleiro um motivo suficiente para interromper esta melodiosa ocupação; contentou-se com afastar graciosamente o cavalo, e, ao chegar à altura do rei, cumprimentou-o levemente com uma inclinação de cabeça.

            A cólera devolveu por um instante ao velho toda a sua energia de jovem: deteve a sua montada e ordenou, com voz forte:

            - Pé em terra, criança! Não é assim que se cumprimenta, quando a realeza passa! Pé em terra e saudai!

            O cavaleiro de Bourdon, em vez de obedecer a esta ordem, cravou as esporas nas ilhargas do cavalo e em poucas passadas encontrou-se a vinte metros do rei. Depois voltou à mesma velocidade que trazia e recomeçou a cantar a mesma canção no ponto em que a interrompera.

            O rei disse algumas palavras ao conde Bernard: este voltou-se para a sua pequena tropa.

            - Tanneguy - ordenou, dirigindo-se ao preboste de Paris, que tinha junto de si dois guardas completamente armados -, mandai prender esse jovem: o rei o quer.

            Tanneguy fez um sinal e os dois soldados iniciaram a perseguição ao cavaleiro de Bourdon.

            Estes preparativos hostis não tinham escapado ao jovem cavaleiro, se bem que não parecesse preocupar-se muito com eles. No entanto, quando viu os dois guardas lançarem-se para ele, e não podendo alimentar a mínima dúvida quanto aos propósitos que os animavam, deteve o cavalo e fez-lhes frente, estavam a menos de dez passos dele.

            - Olá, meus senhores! - gritou-lhes. - Nem um passo mais, se é a mim que procuram, a menos que tenham esta manhã encomendado as almas a Deus.

            Os dois guardas, sem responder, continuaram a avançar.

            - Ah, senhores guardas - continuou Bourdon -, parece que o nosso rei aprecia os torneios de estrada?

            Os dois soldados estavam tão perto do cavaleiro que já estendiam a mão para o agarrar.

            - Muito bem, meus senhores! - exclamou este, obrigando o cavalo a dar um salto para trás. - Muito bem! Dai-me um momento, e estou à vossa disposição.

            Com estas palavras, obrigou o cavalo a um galope tão rápido que, por um instante, deu a impressão de procurar a salvação na fuga; os dois guardas, compreendendo a inutilidade da perseguição, deixaram-se ficar onde estavam, estupefactos, seguindo-o com os olhos, não pensando sequer em gritar-lhe que se detivesse. O assombro de ambos duplicou quando, ao cabo de uns instantes, o viram fazer meia volta e galopar para eles.

            Um momento bastara ao cavaleiro de Bourdon para fazer os seus preparativos para o combate; estes tinham sido tão simples como curtos, e, quando se voltou, a faixa ondulante que lhe pendia do chapéu estava enrolada em torno do seu braço esquerdo, formando como que um escudo. Tinha na mão direita a sua curta espada, na qual se notavam as caneleiras douradas, destinadas a deixar escorrer o sangue: as rédeas do cavalo, presas ao cabeção da sela, deixavam aos dois braços do cavaleiro uma liberdade que certamente não tardaria em ter necessidade.

            Os guardas hesitaram por um instante em aceitar o combate; fora-lhes ordenado que detivessem o cavaleiro de Bourdon, não que o matassem, e os preparativos de defesa deste último pareciam indicar claramente que não estava disposto a cair vivo nas mãos deles. O cavaleiro viu a indecisão dos inimigos e a sua temeridade aumentou.

            - Vamos, meus senhores, sus! Sus! Espada na mão e, com a ajuda de Deus e de São Miguel, não tardaremos em ver sangue vermelho e quente sobre esta estrada!

            Os dois guardas puxaram das espadas e lançaram-se por sua vez contra o cavaleiro, deixando entre ambos um pequeno espaço, a fim de o atacarem cada qual pelo seu lado. Com um rápido olhar, Bourdon viu que podia passar entre os seus dois inimigos e cravou as esporas no ventre do cavalo, que saltou para a frente rápido como o vento; então, quando viu, apenas a alguns passos da sua cabeça as pontas das duas espadas, deixou-se deslizar ao longo do pescoço da montada, como se quisesse apanhar alguma coisa do solo sem largar os estribos, de modo que o seu corpo ficou numa posição quase horizontal, agarrando-se com a mão direita às crinas da montada, enquanto que, com a esquerda, apanhava a perna de um dos seus inimigos, e, erguendo-se vivamente, derrubou-o do cavalo; as espadas dos dois guardas cortaram apenas o ar.

            Quando o homem que acabava de dar esta prova de destreza se voltou, viu que o guarda que derrubara não conseguira libertar o pé do estribo, onde ficara preso pela espora, e que o cavalo o arrastava atrás de si, assustado pelo ruído provocado pela armadura ao chocar contra o terreno, a uma velocidade sempre crescente, pois os gritos do infeliz só serviam para o assustar cada vez mais. Todos os espectadores do combate o seguiam com os olhos, sentindo o coração apertado, contendo a respiração, estremecendo a cada pancada da armadura, estendendo os braços, como se pudessem detê-lo. O cavalo corria cada vez mais depressa, levantando nuvens de poeira, enquanto que a armadura arrancava chispas a cada pedra que encontrava. Por onde ele passava, sobre a estrada, viam-se pedaços de aço, brilhando ao sol. Aquele ruído assustador não tardou em tornar-se menos distinto, fosse devido à distância, fosse por já só serem a carne e os ossos que chocavam contra o solo; depois, na curva do caminho de que já falámos, cavalo e cavaleiro desapareceram subitamente, como uma visão. Os homens respiraram e a voz de Bernard d'Armagnac fez ouvir pela segunda vez estas palavras:

            - Tanneguy Duchâtel, mandai prender esse homem, o rei o quer.

            O segundo guarda, ao ouvir esta nova ordem, voltou a atacar o cavaleiro com uma raiva que a terrível morte do companheiro duplicava. Quanto a Bourdon, parecia absorto na contemplação do espectáculo que tentámos descrever; tinha os olhos cravados no ponto onde o cavalo e o cavaleiro tinham desaparecido, e era evidente que ao princípio não contara que o combate se revestisse daquela gravidade. Só voltou a si ao ver reluzir sobre a sua cabeça uma espécie de relâmpago: era a espada que o seu segundo inimigo empunhava com ambas as mãos, fazendo-a girar antes de abatê-la. Entre a espada e a cabeça não havia mais de meio metro, apenas um segundo mediava entre o golpe e a morte; um salto para a frente colocou o cavaleiro ao lado do soldado que, erguido nos estribos, com ambas as mãos levantadas acima da cabeça, se preparava para ferir. Bourdon envolveu-o com o braço esquerdo, abraçando-lhe ao mesmo tempo um ombro e o pescoço; com uma força de que parecia incapaz, derrubou-o ao primeiro sacão, obrigando-o a dobrar-se para a garupa do cavalo, e, com um rápido olhar, procurou naquele homem coberto de ferro uma passagem para a morte. A posição forçada a que obrigava o inimigo levantava-lhe a gorgeira do elmo, e, pelo estreito intervalo entre as duas lâminas de aço, só uma espada tão fina como a do cavaleiro poderia passar. E passou duas vezes, voltando a sair ensanguentada. Depois, largando a cabeça e o braço do adversário, sacudiu a espada. Um suspiro abafado pelo elmo do soldado anunciou que o infeliz deixara de viver.

            Bourdon tinha ficado no meio da estrada; voltou a cabeça do cavalo para o grupo do rei, e ali, excitado pelo seu duplo triunfo, troçava e desafiava. Duchâtel hesitava em repetir aos homens que o acompanhavam a ordem de capturá-lo, deliberando se não seria melhor cumprir ele próprio essa missão, quando o conde de Armagnac, cansado de tão longa espera, fez um sinal. O pequeno grupo afastou-se para deixá-lo passar: o gigante avançou lentamente para o cavaleiro, detendo-se a dez passos dele.

            - Cavaleiro de Bourdon - disse-lhe, com uma voz onde era impossível distinguir o mínimo traço de emoção -, em nome do rei, a vossa espada. Se recusastes entregá-la a dois obscuros soldados, talvez vos pareça menos humilhante entregá-la a um condestável de França.

            - Só a entregarei - respondeu Bourdon, altivamente - a quem ousar vir tirar-ma.

            - Louco! - murmurou Bernard.

            No mesmo instante, e com um movimento rápido como o pensamento, desprendeu da sela a pesada maça de armas de que já falámos; a arma girou como uma funda sobre a sua cabeça, e, escapando-lhe da mão com a velocidade e o silvo de uma pedra disparada por uma máquina de guerra, dobrou-se como um junco contra a cabeça do cavalo. O animal, mortalmente atingido, ergueu-se, sangrando, sobre as patas traseiras, permaneceu um instante nesta posição, e, no momento seguinte, cavalo e cavaleiro caíram de costas e ficaram estendidos na estrada.

            - Ide apanhar essa criança - ordenou Bernard. E voltou tranquilamente para junto do rei.

            - Está morto? - perguntou Carlos.

            - Não, alteza. Creio que apenas desmaiado.

            Tanneguy confirmou o que o condestável acabava de dizer. Entregou ao rei uns papéis encontrados entre as roupas de Bourdon. Entre eles havia uma carta cujo endereço fora escrito pela mão de Isabel da Baviera: o rei pegou-lhe convulsivamente. No mesmo instante os dois senhores afastaram-se com discrição, seguindo com os olhos a alteração crescente do rosto de Carlos VI. Por várias vezes, durante a leitura, o rei limpou o suor que lhe escorria da testa; depois, quando terminou, amachucou a carta entre as mãos, rasgou-a em mil pedaços, que lançou ao vento, e disse com uma voz surda, que parecia sair do peito de um cadáver:

            - O cavaleiro para a prisão do Châtelet, a rainha para Tours! E eu.., eu para a abadia de Saint-Antoine. Não me sinto com forças para voltar a Paris.

            Estava com efeito, tão pálido e tão trémulo que parecia prestes a morrer.

            Instantes depois, seguindo as ordens dadas, o séquito do rei dividia-se em três grupos, formando um triângulo: Dupuy, a alma danada de Bernard, e dois capitães, dirigiam-se a Vincennes, para comunicar à rainha a sua ordem de exílio; Tanneguy Duchâtel regressava a Paris com o seu prisioneiro, que continuava sem sentidos; e o rei, ficando sozinho com o condestável, que o sustinha, ia, através dos campos, pedir aos monges da abadia de Saint-Antoine asilo, repouso e orações.

 

            ENQUANTO a porta da abadia de Saint-Antoine se abre para o rei, e a da prisão do Châtelet para o cavaleiro de Bourdon, enquanto Dupuy se detém a um quarto de légua de Vincennes, para aguardar um reforço de três companhias que lhe envia o preboste Tanneguy Duchâtel, transportaremos o leitor ao castelo onde reside Isabel da Baviera. Vincennes era simultaneamente, naquela época de perturbações, em que as espadas se empunhavam num baile e o sangue corria no meio de uma festa, um castelo forte e uma residência de Verão. Se fizermos a volta às suas muralhas exteriores, os seus amplos fossos, os seus bastiões a cada canto dos muros, as suas pontes-levadiças, que se erguem, todas as noites, fazendo gemer as pesadas correntes, as suas sentinelas espalhadas pelas ameias, apresentar-nos-ão o aspecto severo de uma fortaleza em que nenhum aspecto da defesa foi descurado. Se penetrarmos no interior, o espectáculo mudará; veremos ainda, é verdade, as sentinelas nas altas muralhas; mas a despreocupação com que as veremos cumprir este serviço, a assiduidade com que observam, no interior do primeiro pátio, cheio de soldados, os jogos dos seus camaradas, em vez de verem se, ao longe, na planície, algum partido inimigo avança para o castelo, falarão da impaciência que sentem por trocar o arco e as setas por um copo de dados e não deixarão a mínima dúvida de que o dever que lhes é imposto se deve mais a uma questão de disciplina geral do que ao receio de um ataque. Se passarmos deste primeiro pátio para o segundo, o aparato militar desaparecerá completamente. Aí só há falcoeiros chamando os seus falcões, pajens treinando cães, escudeiros ensinando cavalos; depois, no meio dos gritos, dos risos, dos apitos, veremos algumas donzelas, passando ligeiras e vaporosas, lançando uma graça aos falcoeiros, um sorriso aos pajens, uma promessa aos escudeiros, antes de desaparecerem, como uma visão, por uma porta baixa e abobadada, situada face à do primeiro pátio e constituindo a entrada para os aposentos. Se se inclinam ao passar sob esta porta com uma coqueteria mais respeitosa, tal não se deve às duas imagens de santos que ornamentam a entrada, e sim ao facto de encontrarem-se sentados de cada lado, junto às imagens encostadas à parede, de pernas cruzadas, vestindo elegantes fatos de veludo e damasco, dois jovens e belos senhores, Graville e Giac, falando de caça e de amor. Certamente quem assim os visse teria dificuldade em reconhecer, nos seus rostos despreocupados, essa marca fatal que o dedo do destino imprime, diz-se, na fronte dos que devem morrer jovens.

            Um astrólogo, ao estudar as linhas das suas mãos brancas e bem tratadas, ter-lhes-ia anunciado longos e alegres anos: no entanto, cinco anos mais tarde, a lança de um inglês deveria trespassar de lado a lado o peito do primeiro, e não se passariam oito anos sem que as águas do Loire se fechassem sobre o corpo do segundo.

            Se passarmos para além dessa entrada, se subirmos, à nossa esquerda, uma escada de corrimão rendilhado, se entreabrirmos a porta em ogiva do primeiro piso, para atravessarmos, sem nos determos, essa primeira sala que, na divisão moderna das nossas casas, se chama antecâmara, e se, caminhando nas pontas dos pés e contendo a respiração, levantarmos a tapeçaria bordada a flores de ouro que separa essa sala da segunda, veremos um espectáculo que, no meio da longa descrição que acabamos de fazer, merece uma menção especial.

            Num quarto quadrado como a torre de que forma o primeiro piso, iluminado pela luz do sol, que atravessa com dificuldade os cortinados de damasco bordados com flores douradas que cobrem as estreitas janelas de vitrais coloridos, sobre um desses enormes leitos góticos, de colunas cinzeladas, uma mulher, ainda bela, se bem que já tenha passado a idade da primeira juventude, está deitada e adormecida. De resto, a penumbra que reina no quarto parece mais um cálculo da coqueteria do que um acidente do acaso. Aquelas meias-tintas nada roubam à rotundidade das formas, antes as adoçam, prestando um maravilhoso socorro à suavidade desse braço que pende para fora do leito, à frescura daquela cabeça pousada sobre um ombro nu, ao brilho daqueles cabelos soltos, dos quais uma parte se derrama sobre a almofada, enquanto que a outra acompanha o braço pendente, passa a extremidade dos dedos e cai até ao soalho.

            Teremos necessidade de pôr um nome por baixo deste retrato para que os nossos leitores reconheçam a rainha Isabel, em cujo rosto os anos de prazer imprimiram mais levemente as marcas da sua passagem do que os anos de sofrimento no do marido?

            Ao cabo de um instante os lábios da bela adormecida separaram-se com um ruído semelhante ao de um beijo; os seus grandes olhos negros abriram-se com um langor que venceu durante alguns momentos a expressão de dureza habitual, langor que talvez devesse a um sonho, ou melhor, a uma recordação de volúpia. A luz do dia, débil como era, pareceu no entanto demasiado viva aos seus olhos fatigados; voltou a fechá-los por um instante, depois ergueu-se sobre um cotovelo, procurou sob as almofadas do leito um pequeno espelho de aço polido e olhou-se nele com um sorriso satisfeito; então, pousando-o sobre uma mesa, ao alcance da mão, pegou num pequeno apito de prata e fez ouvir um som duas vezes repetido, e, como que esgotada pelo esforço, voltou a cair sobre o leito, lançando um suspiro que se via ser mais uma expressão de fadiga do que de tristeza.

            Mal o som do apito deixou de soar, a tapeçaria que cobria a porta de entrada ergueu-se para dar passagem à cabeça de uma jovem de dezanove ou vinte anos.

            - A senhora rainha chama-me? - perguntou, com uma voz doce e receosa.

            - Sim, Charlotte, vinde.

            A jovem avançou, pousando tão delicadamente os pés nas esteiras finas e finamente entrelaçadas que serviam de tapete, que era evidente que se tinha treinado, quando, durante o sono da sua bela e imperiosa ama, as suas funções a chamavam àquele quarto.

            - Estais pronta, Charlotte - disse a rainha, sorrindo.

            - É o meu dever, senhora.

            - Aproximai-vos... Mais perto.

            - Desejais levantar-vos, senhora?

            - Não, conversar um pouco.

            Charlotte corou de prazer; porque tinha um pedido a fazer à rainha, e bem via que a sua nobre ama estava num desses momentos de felicidade em que os poderosos deste mundo concedem tudo o que podem conceder.

            - Que barulho é este que se ouve no pátio? - perguntou a rainha.

            - Os pajens e os escudeiros que riem.

            - Mas ouço outras vozes.

            - As de Giac e Graville.

            - O cavaleiro de Bourdon não está com eles?

            - Não, senhora, ainda não chegou.

            - E nada de novo perturbou esta noite a tranquilidade do castelo?

            - Nada. Apenas, alguns instantes antes do nascer do dia, a sentinela viu uma sombra deslizar sobre as muralhas. Gritou: Quem vive? E o homem, porque era um homem, saltou para o outro lado do fosso, apesar da distância e da altura; então a sentinela enviou-lhe uma seta com a sua besta.

            - E então? - perguntou a rainha, ficando subitamente pálida.

            Oh! Raymond é um desajeitado! Falhou o alvo e, esta manhã, viu a seta cravada numa das árvores que crescem no fosso.

            - Ah! - exclamou Isabel, respirando mais livremente. - O louco! - murmurou depois, como se falasse consigo mesma.

            - Sim, deve ser um louco ou um espião; porque, nove em cada dez teriam morrido. O que é espantoso é que é já a terceira vez que isto acontece, é inquietante, não é verdade, senhora, para os que vivem neste castelo?

            - Sim, minha filha; mas, quando o cavaleiro de Bourdon for seu governador, tal não voltará a acontecer. E um sorriso indefinível passou pelos lábios da rainha, enquanto que as cores das suas faces, ausentes por um instante, reapareciam com uma lentidão indicadora de que, fosse qual fosse o sentimento que as afastara, fora violento e profundo.

            - Oh! É um tão bravo cavaleiro, o cavaleiro de Bourdon!

            A rainha sorriu.

            - Gostas dele?

            - Com todo o meu coração! - respondeu ingenuamente a jovem.

            - Dir-lho-ei, Charlotte, e ele ficará muito orgulhoso.

            - Oh! senhora, não lho digais; tenho uma coisa a pedir-lhe e não ousaria...

            - Tu?

            - Sim.

            - E o que é?

            - Oh! senhora...

            - Vamos, diz-me. Quero...

            - Oh! não ouso.

            - Fala.

            - Quero pedir-lhe um lugar de escudeiro.

            - Para ti? - perguntou a rainha, rindo.

            - Oh!... - exclamou Charlotte, corando e baixando os olhos.

            - O teu entusiasmo por ele poderia levar-me a pensá-lo. Para quem, então?

            - Para um homem.

            Charlotte murmurou estas palavras tão baixo que a rainha quase não as ouviu.

            - Ah! E quem é ele?

            - Meu Deus, senhora!... Mas vós dignais-vos...

            - Vamos, quem é ele? - insistiu Isabel, com uma nota de impaciência.

            - O meu noivo - apressou-se Charlotte a responder.

            E duas lágrimas tremeram nos longos cílios negros das suas pestanas.

            - Estás então apaixonada, minha criança? - perguntou a rainha, num tom de voz tão doce que dir-se-ia uma mãe a interrogar a filha.

            - Oh! sim, por toda a vida...

            - Por toda a vida! Está bem, Charlotte, encarrego-me disso: pedirei a Bourdon esse lugar para o teu noivo; dessa maneira ele ficará constantemente junto de ti. Sim, compreendo, é bom não estar um só instante separada da pessoa que se ama.

            Charlotte caiu de joelhos, beijando as mãos da rainha, cujo rosto, habitualmente tão altaneiro, tinha naquele momento uma doçura angélica.

            - Oh! como sois boa - exclamou. - Oh! como vos agradeço! Que Deus e São Carlos estendam a mão sobre a vossa cabeça!... Obrigada, obrigada... Como ele ficará feliz!... Permiti que vá dar-lhe a boa notícia.

            - Ele está então aqui?

            - Sim - respondeu a jovem, com um pequeno movimento de cabeça. - Sim, ontem disse-lhe que o cavaleiro de Bourdon seria provavelmente nomeado governador do castelo, e esta noite ele pensou no que acabo de dizer-vos, de sorte que, esta manhã, correu a falar-me do projecto.

            - E onde está ele?

            - À porta, na antecâmara.

            - E tu ousastes...?

            Os olhos de Isabel chisparam; a pobre Charlotte, de joelhos, com as mãos cruzadas, inclinou-se para trás.

            - Oh! perdão! perdão! - murmurou. Isabel reflectiu.

            - Esse homem seria sinceramente dedicado aos nossos interesses?

            - Depois do que acabais de prometer, senhora, passaria por vós sobre carvões incandescentes.

            A rainha sorriu.

            - Manda-o entrar, Charlotte; quero vê-lo.

            - Aqui? - exclamou a pobre jovem, passando do terror ao assombro.

            - Aqui; quero falar-lhe.

            Charlotte apertou a cabeça entre as mãos, como que para certificar-se de que não sonhava; depois levantou-se lentamente, olhou para a rainha com um ar assombrado, e, a um último sinal da ama, saiu do aposento.

            A rainha aproximou as duas cortinas do leito, fechando-as por baixo do queixo com as duas mãos, sabendo perfeitamente que a sua pele nada perdia com a tonalidade avermelhada que a cor do tecido lhe reflectia nas faces.

            Mal tinha acabado de tomar esta precaução, Charlotte entrou, seguida pelo amante.

            Era um belo jovem de vinte ou vinte e dois anos, de testa ampla e descoberta, olhos azuis e vivos, cabelos castanhos e pele clara; vestia um casacão de pano verde, aberto nos cotovelos, para deixar passar a camisa; uns calções da mesma cor desenhavam os músculos fortemente pronunciados das pernas; um cinturão de couro amarelo suportava uma adaga de aço de lâmina larga, que devia o polido do punho ao hábito que o dono tinha de lá levar uma mão, enquanto que com a outra segurava um pequeno chapéu de feltro, do género dos nossos chapéus de caça.

            Deteve-se a dois passos da porta. A rainha lançou-lhe um rápido olhar; sem dúvida teria prolongado o seu exame se tivesse podido adivinhar que tinha à sua frente um desses homens aos quais o destino deu, nas suas vidas, uma hora durante a qual devem alterar a face das nações. Mas, já o dissemos, nada nele anunciava este estranho destino, e de momento era apenas um jovem, pálido, tímido e apaixonado.

            - O vosso nome? - perguntou a rainha.

            - Perrinet Leclerc.

            - De quem sois filho?

            - Do almotacel Leclerc, guarda das chaves da porta de Saint-Germain.

            - E que fazeis?

            - Sou vendedor de ferro em Petit-Pont.

            - E deixareis a vossa profissão para entrar ao serviço do cavaleiro de Bourdon?

            - Deixarei tudo para ver Charlotte.

            - E não vos embaraçareis no vosso novo serviço?

            - De todas as armas que tenho em minha casa, como vendedor de ferro, desde a maça até à adaga, desde a besta até à lança, poucas haverá que não maneje tão bem como o melhor cavaleiro.

            - E, se obtiver para vós esse lugar, Leclerc, ser-me-eis dedicado?

            O jovem levantou os olhos, cravou-os nos da rainha e respondeu, com segurança:

            - Sim, senhora, em tudo o que concordar com o que devo a Deus e ao rei Carlos.

            A rainha franziu levemente o sobrolho.

            - Está bem - disse. - Podeis considerar o pedido como aceite.

            Os dois amantes trocaram um olhar de indizível felicidade.

            Nesse momento, fez-se ouvir um violento tumulto.

            - Que é isso? - perguntou a rainha.

            Charlotte e Leclerc precipitaram-se para a mesma janela e olharam para o pátio.

            - Oh, meu Deus! - exclamou a jovem, com assombro e terror.

            - Que se passa? - perguntou por segunda vez a rainha.

            - Oh! senhora, o pátio está cheio de soldados que desarmaram a guarnição; Giac e Graville estão prisioneiros.

            - Será uma surpresa dos Borgonheses? - perguntou a rainha.

            - Não - respondeu Leclerc. - São Armagnacs; usam a cruz branca.

            - Oh! - exclamou Charlotte - aquele é o chefe deles; é Dupuy. Tem com ele dois capitães e perguntam pelos aposentos da rainha, pois estão a indicar-lhos! Vêm para aqui, entram, sobem!

            - Devo detê-los? - perguntou Leclerc, tirando parcialmente a adaga da bainha.

            - Não, não - respondeu vivamente a rainha. - Jovem, escondei-vos rapidamente nesse gabinete; talvez possais ser-me útil, se ignorarem que estais aqui, enquanto que, no caso contrário, podeis perder-nos.

            Charlotte empurrou Leclerc para uma espécie de pequena câmara escura, cuja porta se abria perto da cama de Isabel. A rainha levantou-se, cobriu-se com um roupão de brocado, guarnecido de peles, e envolveu-se nele, sem ter sequer tempo de fechá-lo a não ser cruzando-o com as mãos sobre o peito; os cabelos caíam-lhe sobre os ombros e desciam-lhe mais abaixo do que a cintura. No mesmo instante, Dupuy, seguido pelos dois capitães, levantou a tapeçaria e, sem tirar o chapéu, dirigiu-se à rainha:

            - Senhora rainha, sois minha prisioneira.

            Isabel lançou um grito em que havia tanto de assombro como de raiva; depois, sentindo que as pernas lhe cediam, caiu sentada no leito, olhando para aquele homem que Lhe dirigia a palavra em termos tão pouco respeitosos, e disse-Lhe com um riso áspero:

            - Estais louco, Dupuy.

            - É o rei nosso senhor quem, infelizmente, está louco - respondeu o homem -, pois de contrário, senhora, já há muito vos teria dito pela primeira vez o que acabo de dizer-vos neste momento.

            - Posso ser vossa prisioneira, mas ainda sou a rainha, e, não o fosse, seria sempre mulher. Falai pois, de chapéu na mão, senhor, como falaríeis com vosso amo o condestável, pois presumo que foi ele quem vos enviou.

            - Não vos enganais: venho por sua ordem - respondeu Dupuy, tirando lentamente o chapéu, como um homem que obedece mais à sua própria vontade do que a uma ordem.

            - Muito bem; mas, como espero o rei, veremos qual dos dois, ele ou o condestável, é senhor nesta casa.

            - O rei não virá.

            - Digo-vos que o espero.

            - Encontrou, a meio do caminho, o cavaleiro de Bourdon.

            A rainha estremeceu; Dupuy notou-o, e sorriu.

            - E então? - perguntou Isabel.

            - Então, esse encontro alterou os seus projectos, e, sem dúvida, os do cavaleiro também, pois esperava voltar a Paris sozinho, e a esta hora deve estar a chegar lá sob boa escolta; esperava também voltar aos seus aposentos em Saint-Paul, enquanto que estamos a reservar-lhe uns no Chatelet.

            - O cavaleiro está preso? E porquê? Dupuy sorriu.

            - Deveis sabê-lo melhor do que nós, senhora.

            - A sua vida não corre perigo, espero?

            - O Châtelet fica tão perto da Greve - respondeu Dupuy, rindo.

            - Não ousariam assassiná-lo!

            - Senhora rainha - replicou Dupuy, olhando-a duramente. - Recordai-vos do duque de Orleães: era o primeiro do reino após o rei nosso senhor; tinha com ele quatro lacaios a pé levando archotes, dois escudeiros a cavalo levando lanças, e dois pajens armados de espada, quando, na última noite, passou pela rua Barbette, depois de ter estado a cear convosco... Vai uma enorme distância de um tão nobre senhor a um tão pequeno cavaleiro... E, se ambos cometeram o mesmo crime, porque não hão-de ambos sofrer o mesmo castigo?

            A rainha ergueu-se com uma expressão da mais violenta cólera; o sangue subiu-lhe tão rapidamente ao rosto que deu a impressão de ir brotar-lhe por todas as veias. Estendeu uma mão para a porta, deu um passo em frente e, com voz rouca, gritou esta palavra:

            - Fora!

            Dupuy, intimidado, recuou um passo.

            - Está bem, senhora - disse. - Mas, antes de sair, tenho algo a acrescentar: é desejo expresso do rei e do senhor condestável que partais sem demora para a cidade de Tours.

            - Na vossa companhia, sem dúvida?

            - Sim, senhora.

            - Escolheram-vos então para meu carcereiro? O lugar é honroso e fica-vos maravilhosamente.

            - É alguma coisa no Estado, senhora, o homem encarregado de encarcerar uma rainha de França.

            - Pensais então que elevariam o carrasco à nobreza se ele me cortasse a cabeça?

            E voltou-lhe as costas, como se tivesse dito tudo e não quisesse continuar a conversa. Dupuy rilhou os dentes.

            - Quando estareis pronta, senhora?

            - Mandar-vos-ei avisar.

            - Recordai, senhora, que vos disse que o tempo foge.

            - Recordai, senhor, que sou a rainha e que vos disse para sair.

            Dupuy murmurou algumas palavras; mas, como todos conheciam o grande poder que a rainha Isabel conservava sobre o espírito do rei, receou que ela viesse a retomar, quando estivesse junto dele, esse poder que lhe escapara havia apenas um instante. Inclinou-se pois com mais respeito do que mostrara até ali e saiu como a rainha lhe tinha ordenado.

            Mal a porta se fechou sobre ele e os dois homens que o acompanhavam, a rainha caiu, mais do que se sentou, num cadeirão; Charlotte rompeu em soluços e Perrinet Leclerc lançou-se para fora do gabinete.

            Estava ainda mais pálido do que de costume; mas via-se que essa palidez se devia à cólera e não ao medo.

            - Quereis que mate esse homem? - perguntou à rainha, com os dentes apertados e a mão no punho da adaga.

            Isabel sorriu amargamente; Charlotte lançou-se chorando a seus pés.

            O golpe desferido na rainha atingira ao mesmo tempo aqueles dois jovens.

            - Matá-lo! -exclamou Isabel. - Pensas, jovem, que para isso teria necessidade do teu braço e do teu punhal? Matá-lo! E para quê? Vê, o pátio está cheio de soldados... Matá-lo? E isso salvaria Bourdon?

            Charlotte chorou com mais força; à sua dor pela infelicidade da ama, misturava-se uma outra, pessoal, mas não menos viva. A rainha perdia a felicidade do amor, Charlote perdia-lhe a esperança; das duas, era ela quem mais tinha de que queixar-se.

            - Tu choras, Charlotte, tu choras! - continuou a rainha. - Mas aquele que amas fica contigo, só serão separados por uma ausência momentânea!... Tu choras, e no entanto trocaria a minha sorte pela tua... Choras! Mas não sabes que eu, eu que não posso chorar, amava Bourdon como tu amas este jovem! Pois bem! Eles vão matá-lo, sabes? Porque não perdoam. Vão matar aquele que eu amo tanto como tu amas este que aqui está, e nada poderei fazer para impedir esse assassínio, não saberei em que momento lhe cravarão o ferro no peito, e todos os minutos da minha vida serão para mim os da sua morte, e direi a cada instante: A esta hora talvez ele me chame, talvez grite o meu nome, talvez se debata no meio do seu próprio sangue e se torça na agonia, e ai, eu não estou lá, nada posso fazer, e no entanto sou a rainha, a rainha de França!... Maldição! E eu não choro, e eu não posso chorar!..

            A rainha torcia as mãos e arranhava a cara; os dois jovens choravam, já não pela sua própria dor, e sim pela da rainha.

            - Oh! que poderemos fazer? - perguntava Charlotte.

            - Ordenai - dizia Leclerc.

            - Nada, nada... Oh! todo o inferno está nesta palavra. Estar pronta a dar o sangue, a vida, por aquele que se ama, e nada poder fazer!... Oh! se os tivesse em meu poder, esses homens que por duas vezes me torturaram o coração! Mas nada contra eles, nada por ele! E no entanto eu era poderosa; num momento de loucura do rei, poderia tê-lo levado a assinar a sentença de morte do condestável, e não o fiz. Oh! louca! Devia tê-lo feito. E neste momento seria Armagnac quem se encontraria numa masmorra, à espera da morte, como ele está! Ele, tão belo, tão jovem, ele que nunca lhes fez mal!... Ah! matá-lo-ão como mataram Louis de Orleães, que também nunca lhes fizera mal algum. E o rei, o rei, que vê todos estes crimes, que patinha no sangue, e que, quando escorrega, se agarra aos braços dos assassinos! O rei louco! O rei estúpido! Oh, meu Deus, meu Deus! Tende piedade de mim! Salvai-me! vingai-me!...

            - Misericórdia! - soluçava Charlotte.

            - Maldição! - gritava Leclerc.

            - Eu, partir! Querem que eu parta! Pensam que partirei! Não, não, não partirei sem saber o que lhe aconteceu! Arrancar-me-ão daqui aos pedaços! Veremos se ousam erguer a mão contra a rainha. Agarrar-me-ei a estes móveis com as mãos, com os dentes. Oh! terão de dizer-me o que lhe aconteceu. Ou melhor, irei eu própria, quando a noite cair, irei eu própria à prisão. - Pegou num cofre e abriu-o. - Tenho ouro, vejam!... Ouro para o resgate de um homem, sangue e alma; e, se este não for bastante, tenho jóias, pérolas, o suficiente para comprar um reino. Pois bem, darei tudo, tudo, ao carcereiro, e dir-lhe-ei: Devolve-mo vivo! Devolve-mo sem que tenham tocado num só dos seus cabelos, e tudo isto que aqui vês, ouro, pérolas, jóias, diamantes, tudo isto será teu, porque me terás devolvido muito mais do que isto. E ficar-te-ei ainda devedora, e dar-te-ei mais!

            - Senhora rainha - disse Leclerc. - Quereis que vá a Paris? Tenho amigos, reuni-los-ei e marcharemos contra o Châtelet.

            - Sim, sim - respondeu amargamente a rainha - e apressarás a sua morte, não é verdade? E, mesmo que conseguissem entrar na prisão, encontrariam, ao entrar na masmorra, um cadáver ainda quente e sangrante, porque é preciso menos tempo a um punhal para chegar ao coração de um homem, do que a ti e aos teus amigos para derrubar dez portas, dez portas de ferro! Não, nada pela força: matá-lo-íamos... Vai, parte, passa a noite diante do Châtelet; se o conduzirem vivo até outra prisão, segue-o até à porta; se o assassinarem, acompanha o seu corpo até ao túmulo, e, num ou noutro caso, vem dizer-mo, a fim de que, vivo ou morto, eu saiba onde ele está.

            Leclerc fez um movimento para sair; a rainha reteve-o.

            - Por aqui - disse, levando um dedo aos lábios. Voltou a abrir a porta do gabinete, premiu uma mola e a parede deslizou para um lado, mostrando os degraus de uma escada.

            - Segue-me, Leclerc - disse a rainha.

            E a imperiosa Isabel, feita mulher e trémula, pegou numa mão do humilde vendedor de ferro, que, naquele momento, era a sua única esperança; conduziu-o, caminhando à frente dele, avisando-o dos ângulos da parede, sondando o terreno com a ponta de um pé, ao longo do corredor estreito e sombrio por onde tinham metido. Após algumas voltas, Leclerc avistou a luz do dia através das fendas de uma porta; a rainha abriu-a. Dava para um jardim isolado, no extremo do qual se erguiam as muralhas. Seguiu com os olhos o jovem, que trepou às ameias, fez-lhe um último sinal de esperança e de respeito e desapareceu, saltando para o outro lado do fosso.

            A confusão era tal que ninguém o viu.

            Enquanto a rainha volta aos seus aposentos, sigamos Leclerc, que chega, através dos campos, até à Bastilha, desce sem se deter a rua Saint-Antoine, passa pela praça de Greve, lançando um olhar inquieto à forca que estende o seu braço descarnado para o rio, detém-se por um instante, para respirar, na ponte de Notre-Dame, alcança a esquina do edifício do Grande-Matadouro, e, apercebendo-se que, daquela posição, ninguém pode entrar ou sair do Châtelet sem que ele veja, se mistura a um grupo de burgueses que falam da prisão do cavaleiro.

            - Asseguro-vos, Bourdichon - dizia uma velha a um burguês, agarrando-o por um botão do gibão, a fim de obrigá-lo a conceder-lhe uma atenção mais aturada -, que voltou a si; soube-o por Cochette, a filha do carcereiro do Chatelet; disse-me que tem apenas uma ferida na nuca e nada mais.

            - Não digo o contrário, mãe Jehanne - respondeu o homem. - Mas nada disso me diz por que motivo foi preso.

            - Oh! isso é fácil de adivinhar: entendia-se com os Ingleses e os Borgonheses para lhes entregar Paris, pôr tudo a ferro e fogo, cunhar moeda com os vasos das igrejas... E o que é mais, diz-se que foi levado a isso pela rainha Isabel, que odeia os parisienses desde o assassínio do duque de Orleães, tanto que jurou não descansar enquanto não vir arrasada a rua Barbette e incendiada a casa da "Imagem de Nossa Senhora".

            - Dai passagem! - gritou um magarefe. - Vem aí o torturador.

            Um homem vestido de vermelho passou pelo meio da multidão, que se afastou. À sua aproximação, a porta do Chatelet abriu-se sozinha, como se o reconhecesse, e voltou a fechar-se atrás dele.

            Todos os olhos o seguiram. Houve um instante de silêncio, após o que a conversa interrompida recomeçou.

            - Oh! ainda bem! - disse a mulher, largando o gibão de Bourdichon. - Conheço a filha do carcereiro e talvez consiga assistir ao interrogatório.

            E pôs-se a correr para o Chatelet, tão depressa quanto lho permitiam a idade e as pernas, que não eram exactamente do mesmo comprimento.

            Bateu à porta; abriu-se um pequeno postigo, e uma jovem loura meteu por ele a cabeça redonda e alegre. Seguiu-se um pequeno colóquio, que não teve, segundo as aparências, o resultado que a mãe Jehanne esperava, pois a porta continuou fechada; a jovem, no entanto, metendo um braço pela abertura gradeada, indicou com a mão o respiradouro da masmorra, e desapareceu. A velha fez sinal ao grupo para que se aproximasse; alguns dos presentes seguiram a indicação; a velha estava de joelhos diante do respiradouro e disse aos que a rodeavam:

            - Venham para aqui, meus filhos; é o respiradouro da prisão; não o veremos, mas ouvi-lo-emos gritar; sempre é melhor do que nada.

            O grupo comprimiu-se avidamente contra aquela abertura, que se poderia ter tomado por uma saída do inferno; dez minutos depois, ouviam-se, vindos de baixo, ruídos de correntes, gritos de raiva e pragas furiosas.

            - Oh! estou a ver o braseiro - dizia a velha. - O torturador está a meter nele uma tenaz de ferro.., e a soprá-lo.

            A cada sopro do fole, o braseiro lançava uma chama tão viva que se diria um fogo subterrâneo.

            - Está a pegar na pinça; está tão quente que lhe queima os dedos. Vai para o fundo da masmorra; já só lhe vejo as pernas. Chut, calem-se! Vamos ouvir...

            Soou um grito de agonia; as cabeças aproximaram-se mais do respiradouro.

            - Ah! o juiz interroga-o - continuou a velha, que, por ter sido a primeira a chegar, tinha a cabeça completamente enfiada entre os dois barrotes do respiradouro. - Ele não responde. Responde, malandro! Responde, assassino! Confessa os teus crimes!

            - Silêncio - disseram várias, vozes.

            A velha retirou a cabeça do buraco; mas agarrou um barrote com cada mão, para garantir o lugar. Então disse, com a convicção de quem sabe do que está a falar:

            - Como se sabe, se ele não confessar, não poderão enforcá-lo.

            Um segundo grito obrigou-a a voltar a meter a cabeça na abertura.

            - Ah! - exclamou - a tenaz está no chão, ao lado do braseiro. Ter-se-á cansado tão depressa, o torturador?

            Ouviram-se pancadas de martelo.

            - Não, não - continuou a mulher, satisfeita - estão a meter-lhe as cavilhas.

            As cavilhas eram duas pranchas que se amarravam com cordas em torno das pernas do paciente. Depois, metia-se entre ambas uma cunha, de ferro sobre a qual se batia até que, aproximando-se, as pranchas esmagassem a carne e partissem os ossos.

            Parecia que o cavaleiro se recusava a confessar fosse o que fosse, pois as pancadas de martelo sucediam-se com força e rapidez crescentes. O torturador começava a enfurecer-se.

            Havia já algum tempo que não se ouviam gritos, apenas alguns surdos gemidos; até que estes cessaram também e as pancadas do martelo deixaram de ouvir-se.

            A mãe Jehanne ergueu-se imediatamente.

            - Por hoje acabou-se - disse, sacudindo a poeira que se lhe agarrara aos joelhos e ajeitando a touca. - Desmaiou sem dizer palavra.

            E afastou-se, convencida de que uma espera mais longa seria inútil.

            O profundo conhecimento que parecia ter de como aquelas coisas se passavam geralmente fez com que a seguissem todas as testemunhas desta cena, com excepção de um homem que continuou de pé, encostado à parede; era Perrinet Leclerc.

            Um instante depois, tal como Jehanne previra, o torturador saiu.

            Cerca do fim da tarde, um padre entrou na prisão.

            Quando a noite caiu completamente, foram colocadas sentinelas no exterior, e uma delas obrigou Leclerc a afastar-se; o jovem foi sentar-se num marco, junto da ponte de Meuniers.

            Passaram-se duas horas; se bem que a noite estivesse escura como breu, os olhos de Leclerc tinham-se de tal modo habituado à escuridão que distinguiam nas muralhas acinzentadas o buraco negro que era a porta da prisão. Não pronunciara uma palavra, não tirara a mão do punho da sua adaga, não pensara em beber nem em comer.

            Bateram as onze horas.

            A última badalada soava ainda quando se abriu a porta do Châtelet; dois soldados, levando numa mão a espada e na outra um archote, apareceram no limiar; atrás deles surgiram quatro homens transportando um fardo, seguidos por um indivíduo cujo rosto ficava escondido pelas abas de um chapéu vermelho; aproximaram-se em silêncio da ponte de Meuniers.

            Quando passaram em frente de Perrinet, o jovem viu que o objecto que transportavam era um saco de couro. Pôs-se à escuta e ouviu um débil gemido; não havia a mínima dúvida.

            Num segundo a sua adaga estava fora da bainha, dois dos portadores por terra e o saco rasgado de alto a baixo. Dele caiu um homem.

            - Salvai-vos, cavaleiro! - gritou Leclerc.

            E, aproveitando a estupefacção que o seu ataque causara entre o pequeno grupo, pôs-se rapidamente ao abrigo de qualquer perseguição, deixando-se deslizar ao longo do talude do rio e desaparecendo aos olhos de todos.

            Aquele a quem tentara, com uma coragem tão incrível, devolver a liberdade, quis fugir; levantou-se, mas as suas pernas, que os ossos partidos não podiam suster, dobraram-se, e voltou a cair com um grito de dor e de desespero, perdendo os sentidos.

            O homem de chapéu vermelho fez um sinal; os dois carregadores que não tinham sido feridos transportaram o corpo aos ombros. Quando chegaram ao meio da ponte, o chefe deteve-se e disse:

            - Chega. Atirem-no aqui.

            A ordem foi imediatamente executada; um objecto disforme girou por um instante no espaço vazio entre a ponte e o rio; logo a seguir ouviu-se um ruído de um corpo caindo na água.

            No mesmo instante, uma barca tripulada por dois homens avançou para o ponto onde o corpo tinha caído. Alguns segundos depois, enquanto um dos homens remava, o outro apanhava com o arpão um objecto que voltava à tona da água, e preparava-se para o lançar para dentro da barca quando o homem de chapéu vermelho subiu para o parapeito da ponte, e, daí, lançou ao vento, com voz forte, estas palavras sacramentais:

            - Deixai passar a justiça do rei!

            O pescador sobressaltou-se, e, a despeito dos pedidos do companheiro, voltou a atirar ao rio o corpo do cavaleiro de Bourdon.

 

            CERCA de seis meses se tinham passado sobre a cena que tentámos descrever no capítulo anterior. A noite descia sobre a grande cidade, e, do alto da porta de Saint-Germain, via-se lenta e sucessivamente, segundo estivessem mais longe ou mais perto, desaparecerem na bruma os campanários e as torres de que se eriçava Paris em 1417. Primeiro foram as torres agudas do Templo e de Saint-Martin, que, para o norte, se confundiram com a sombra, que subia, rápida e espessa como uma maré; pouco depois a escuridão atingia e envolvia as agulhas pontiagudas e rendilhadas de Saint-Gilles e Saint-Luc, que, de longe pareciam, no meio do crepúsculo, dois gigantes prestes a lutar, alcançava Saint-Jacques-la-Boucherie, que na bruma ficou apenas como uma linha vertical mais pronunciada, para finalmente juntar-se à névoa que subia do Sena, e que um vento baixo e chuvoso levantava em imensos flocos; foi ainda possível distinguir por um instante, através de um véu de vapor, o velho Louvre e as suas torres, Notre-Dame, a metropolitana e o alto campanário da Sainte-Chapelle; depois, como um cavalo de corrida, a sombra avançou para a Universidade, envolveu Sainte-Geneviève, alcançou a Sorbona, amontoou-se em turbilhões sobre os telhados das casas, desceu para as ruas, ultrapassou as muralhas, espraiou-se pelos campos, foi apagar no horizonte a linha avermelhada que o sol tinha deixado, como um último adeus à terra, e sobre a qual, alguns minutos antes, se destacava ainda a silhueta negra dos três campanários da abadia de Saint-Germain-des-Près.

            Sobre a linha de muralhas que cingia como um cinto o colosso adormecido, distinguiam-se, de cem em cem passos, os guardas encarregados de velar pela sua segurança; o ruído medido e monótono dos seus passos assemelhava-se, se quisermos levar mais longe a comparação, à palpitação do pulso que anuncia que a vida está ali, se bem que por um instante revestida com a aparência da morte; de tempos a tempos o grito de: Sentinela alerta! partia de um ponto, e, como um eco, percorria toda aquela linha circular, para ir morrer no ponto de onde partira.

            Sob a sombra projectada pela porta Saint-Germain, cuja massa quadrada se elevava acima das muralhas, uma dessas sentinelas passeava-se mais triste e mais silenciosa do que as outras. Pela sua indumentária meio civil meio militar adivinhava-se facilmente que, embora aquele que a usava desempenhasse momentaneamente as funções de um soldado, pertencia a uma das corporações de trabalhadores que, por ordem do condestável de Armagnac, fornecera quinhentos homens para a guarda da cidade; de vez em quando o homem detinha-se, apoiava-se à partazana de que estava armado, fixava um olhar vago num ponto do espaço, e depois, com um suspiro, recomeçava o seu lento e circunscrito passeio.

            Subitamente a sua atenção foi atraída pela voz de um homem que, do caminho que bordejava os fossos exteriores, pedia a abertura da porta Saint-Germain; o retardatário parecia contar com a condescendência do guarda, que era o único a poder, passadas as nove horas da noite, permitir-lhe a entrada, e sob sua exclusiva responsabilidade. E temos de admitir que não se enganava quanto à influência que exercia junto do guarda, pois a sentinela, mal lhe ouviu a voz, desce da plataforma formada interiormente pela muralha e foi bater a uma pequena janela denunciada pela claridade de uma candeia, gritando suficientemente alto para ser ouvido do interior:

            - Meu pai, levantai-vos depressa e ide abrir a porta a messire Juvenal des Ursins.

            A candeia anunciou, pelos seus movimentos, que estas palavras tinham sido ouvidas; da casa saiu um velho, levando numa mão a candeia e na outra um chaveiro, e avançou, acompanhado pelo jovem que o chamara, para a abóbada formada pela maciça porta.

            No entanto, antes de meter a chave na fechadura, e como se a afirmação feita pelo filho não fosse suficiente, dirigiu-se ao indivíduo, que se ouvia caminhar de um lado para o outro, batendo com os pés, para além da porta:

            - Quem sois?

            - Abri, mestre Leclerc. Sou Jean Juvenal des Ursins, conselheiro no parlamento do senhor nosso rei. Atardei-me em casa do prior de Saint-Germain-des-Prés, e, como somos velhos amigos, contei convosco.

            - Sim, sim - resmungou Leclerc -, tão velhos amigos quanto podem sê-lo um velho e uma criança. O vosso pai, jovem, é que poderia falar assim, pois ambos nascemos na cidade de Troyes, em 1340, e um conhecimento de sessenta e oito anos, merecia mais do que o nosso o título que lhe dais.

            Dizendo estas palavras, o guarda fez girar duas vezes a chave na fechadura, fixou numa posição vertical a barra de ferro horizontal que trancava a porta, e, com ambas as mãos, empurrando com uma e puxando com a outra, entreabriu os maciços batentes, para dar passagem a um jovem de vinte e seis a vinte e oito anos.

            - Obrigado, mestre Leclerc - disse este, batendo nas costas do velho com um gesto mescla de amizade e respeito. - Obrigado; e contai comigo quando tiverdes necessidade, tal como eu contei convosco.

            - Messire Juvenal - disse então o jovem sentinela - posso reclamar a minha parte dessa promessa, tal como tive a minha parte no serviço que meu pai acaba de prestar-vos? Porque, se eu não o tivesse prevenido, teríeis corrido o risco de passar a noite do outro lado das muralhas.

            - Ah, és tu, Perrinet! E que fazes tu aqui a estas horas da noite?

            - Faço guarda por ordem do senhor condestável, e, como tinha a liberdade de escolher o posto, vim pedir de jantar ao meu velho pai...

            - E foi bem-vindo - interrompeu-o o velho - pois é um rapaz honrado, que teme Deus, respeita o rei e ama os seus parentes.

            O velho Leclerc estendeu ao filho uma mão enrugada e trémula; o jovem apertou-a entre as suas; Juvenal pegou na outra.

            - Agradeço-vos segunda vez, meu velho amigo; não fiqueis mais tempo cá fora; espero que mais nenhum retardatário venha pôr à prova a vossa condescendência.

            - E razão terá em não vir, messire Juvenal; pois, fosse ele nosso senhor o delfim, que Deus conserve, não creio que fizesse por ele o que acabo de fazer por vós. É uma grande responsabilidade, nestes tempos que correm, a guarda das chaves de uma cidade. Por isso, quando velo, não me saem da cintura, e, quando durmo, não deixam a minha cabeceira.

            Depois de ter prestado este louvor à sua própria vigilância, o velho apertou uma vez mais as duas mãos que segurava, pegou na candeia que tinha pousado no solo e voltou a casa, deixando os dois jovens sozinhos.

            - Que querias tu pedir-me, Perrinet? - perguntou Juvenal, apoiando-se ao braço do jovem vendedor de ferro que apresentámos no capítulo anterior e que aqui voltamos a encontrar.

            - Notícias, messire... Vós que sois mestre de inquéritos e conselheiro, deveis saber tudo o que se passa, e eu sinto-me bastante inquieto; diz-se que grandes coisas se passaram para o lado de Tours, onde está a rainha.

            - Na verdade - disse Juvenal - não podias ter-te dirigido melhor, e vou contar-tas bem frescas.

            - Subamos, se não vos importais, à muralha; o condestável é capaz de fazer a sua ronda, e, se não me encontra no meu posto, o meu velho pai pode bem ficar sem o seu lugar e eu posso ganhar algumas pancadas nos rins.

            Juvenal deu familiarmente um braço a Perrinet e pouco depois ambos reapareciam na plataforma da muralha, que ficara deserta por um instante.

            - Eis como se passaram as coisas - começou Juvenal, atentamente escutado pelo jovem. - Sabes que a rainha estava prisioneira em Tours, à guarda de Dupuy, o mais desconfiado e o menos amável dos carcereiros. No entanto, apesar da vigilância, a rainha tinha encontrado modo de escrever ao duque da Borgonha e pedir-lhe socorro. Este compreendeu sem tardança como lhe poderia ser útil uma aliada tão poderosa como Isabel da Baviera, pois, aos olhos de todos, a sua revolta contra o rei apareceria como protecção cavalheiresca concedida a uma dama.

            "Como Madame e a duquesa da Baviera não eram tão estreitamente vigiadas como a rainha, esta última tinha, por intermédio delas, notícias do duque, e, ao saber que ele e os seus homens tinham posto cerco a Corbeil e avançado até Chartres, não desesperou de salvar-se.

            "Em consequência, simulou uma profunda devoção pela abadia de Marmoutiers, e disse a Madame que pedisse a Dupuy autorização para que as princesas e as suas aias lá fossem assistir à missa. Dupuy, apesar de brutal como é, não ousou recusar à filha do seu rei um favor que lhe parecia tão sem consequências. A rainha habituou insensivelmente o seu carcereiro a vê-la ir fazer as suas devoções a Marmoutiers. Parecia já não reparar na insolência daquele homem e falava-lhe docemente. Dupuy, satisfeito ao ver curvar-se à sua vontade o orgulho de uma rainha, começou a humanizar-se. Deixava-a ir à abadia sempre que ela queria, tomando a precaução de estar sempre com ela e de colocar na estrada corpos de guardas de tanta em tanta distância, se bem que lhe parecessem inúteis tantos cuidados, estando como estava a cinquenta léguas do inimigo.

            "Mas a rainha notou que os seus guardas, convencidos da inutilidade dos seus cuidados, faziam o serviço com extrema negligência, e que, atacando-os de improviso, não seria difícil vencê-los. Concebeu então o projecto de fazer-se raptar, em Marmoutiers, pelo duque da Borgonha; comunicou-lhe, por intermédio de um servidor, o que tencionava fazer. O duque gostou do plano e a rainha, através de nova mensagem, indicou-lhe o dia em que deveria ser posto em prática.

            "A empresa era arriscada; era preciso atravessar uma região de cinquenta léguas sem ser descoberto. Se o duque da Borgonha tentasse este golpe-de-mão com pouca gente, Dupuy tinha guardas suficientes para resistir-lhe; se levasse um grande número de homens, parecia impossível que Dupuy não fosse avisado e nesse caso poderia levar a rainha para Maine, Berry ou Anjou. O duque da Borgonha não recuou ante estas dificuldades. Bem sabia que o único modo de suster o seu partido era conseguir a adesão de Isabel. Tomou pois as suas medidas, e tão boas elas foram que conseguiu o seu objectivo sem ser descoberto. Eis como...

            A atenção de Perrinet Leclerc pareceu redobrar.

            - Escolheu no seu exército dez mil cavaleiros, que fossem os mais valentes e tivessem os cavalos mais robustos; mandou preparar uns e outros e, na noite do oitavo dia do cerco de Corbeil, colocou-se à frente deles e meteu a caminho de Tours. Cavalgaram durante toda a noite no mais profundo silêncio, detendo-se apenas uma hora antes do nascer do dia para dar de comer aos cavalos; depois cavalgaram durante mais quinze horas seguidas, mas bastante mais depressa do que tinham feito de noite. Ao fim do dia, detiveram-se uma vez mais. Estavam apenas a seis léguas de Tours. Este exército lançara o assombro por onde passara; as pessoas surpreendiam-se com o seu silêncio e com a rapidez do seu avanço. No dia seguinte, às oito da manhã, o duque da Borgonha chegava a Marmoutiers, cercava a abadia e ordenava a Hector de Saveuse que lá entrasse com sessenta homens. Quando Dupuy avistou esta tropa, que reconheceu como sendo borgonheses pelas cruzes vermelhas que usavam, ordenou à rainha que o seguisse, querendo fazê-la sair por uma pequena porta lateral, junto da qual a esperava a viatura; mas a rainha recusou-se formalmente. Dupuy fez então um sinal a dois guardas, que tentaram levá-la à força, mas ela agarrou-se à balaustrada do coro, junto do qual estava ajoelhada, passando os braços através das barras e jurando, por Cristo, que mais depressa a matariam do que a arrancariam dali. As damas e princesas que a acompanhavam corriam de um lado para o outro, gritando por socorro, de modo que Saveuse, vendo que não podia hesitar, fez o sinal da cruz para que Deus, em cuja casa se encontrava, lhe perdoasse aquela acção, e empunhou a espada, sendo imitado pelos seus guardas.

            "Então Laurent Dupuy compreendeu que estava tudo perdido para ele; fugiu pela porta pequena, saltou para o cavalo, e voltou a todo o galope para a cidade de Tours, onde lançou o alarme, preparando-se imediatamente para a defesa.

            "Logo que ele desapareceu, Saveuse avançou para a rainha e saudou-a respeitosamente em nome do duque da Borgonha.

            - Onde está ele? - perguntou ela.

            - Diante da igreja, Onde vos espera.

            "A rainha e as princesas avançaram então para a porta, no meio de uma multidão de homens que gritavam:

            - Vivam a rainha e o delfim!

            "O duque da Borgonha, ao vê-la, desmontou e pôs um joelho em terra.

            - Meu caro primo - disse a rainha, aproximando-se graciosamente dele e erguendo-o - devo apreciar-vos mais do que a qualquer outro homem do reino. Tudo largastes para vir em meu socorro e libertastes-me da prisão. Ficai seguro de que nunca esquecerei estas coisas. Bem vejo que sempre amastes o senhor nosso rei, a sua família, o reino e a coisa pública.

            "E, dizendo isto, deu-lhe a mão a beijar.

            "O duque respondeu com algumas palavras de respeito e de dedicação, deixou junto dela Saveuse com mil cavaleiros, e, com o resto do seu exército, avançou rapidamente para Tours, antes que esta cidade se tivesse refeito do seu assombro. Não lhe opuseram a mínima resistência e, enquanto os seus homens penetravam na cidade pelos pontos mais baixos, o duque fazia a sua entrada pela porta, que os soldados de Dupuy tinham abandonado. Este infeliz foi aprisionado e o seu castigo ficou como exemplo para a posteridade de que não se deve nunca faltar ao respeito às cabeças coroadas, sejam quais forem os extremos a que estejam reduzidas."

            - Que lhe aconteceu? - perguntou Perrinet.

            - Foi enforcado ao meio-dia.

            - E a rainha?

            - Voltou a Chartres, de onde partiu para Troyes, onde tem a sua corte. As cortes gerais de Chartres, compostas por homens que lhe são dedicados, declararam-na regente, de modo que mandou cunhar um selo, onde estão, de um lado, as armas esquarteladas da França e da Baviera, e, do outro, o seu retrato com estas palavras: Isabel, pela graça de Deus, rainha regente de França.

            Estes pormenores políticos pareciam interessar muito pouco a Perrinet Leclerc, enquanto que, pelo contrário, parecia querer conhecer outros, se bem que hesitasse em pedi-los; finalmente, após um instante de silêncio, ao ver que messire Juvenal se preparava para se despedir dele, perguntou, num tom que tentou tornar o mais indiferente possível:

            - E fala-se de ter acontecido algum acidente às damas que acompanhavam a rainha?

            - Nenhum - respondeu Juvenal. Perrinet respirou.

            - E em que ponto da cidade tem a rainha a sua corte?

            - No castelo.

            - Uma última pergunta, messire. Vós que sois um sábio, que conheceis o latim, o grego e a geografia, dizei-me, peço-vos, para que ponto do horizonte devo voltar-me para ficar virado para a cidade de Troyes?

            Juvenal orientou-se rapidamente; depois, pegando com a mão esquerda na cabeça de Perrinet, virou-a para um ponto do espaço que apontava com a mão direita.

            - Olha, entre os dois campanários de Saint-Yves e da Sorbona, um pouco à esquerda da lua que se eleva por detrás da torre, vês uma estrela mais brilhante do que as outras?

            Perrinet assentiu com a cabeça.

            - Chamam-lhe Mercúrio. Pois bem, traçando uma linha vertical do lugar onde ela te parece suspensa até à terra, essa linha, vista daqui, dividiria em duas a cidade cuja localização me perguntas.

            Perrinet deixou passar sem observações o que lhe parecia pouco claro na demonstração astronómica-geométrica do jovem mestre de inquéritos e reteve apenas que, olhando um pouco à esquerda do campanário da Sorbona, os seus olhos estariam voltados para o ponto do mundo onde Charlotte respirava. Pouco lhe importava o resto: aquele lugar não era, para ele, o mundo inteiro?

            Agradeceu com um gesto a Juvenal, que se afastou gravemente, encantado por ter dado ao seu jovem compatriota aquela prova de uma ciência cuja afectação era, com a mania de querer persuadir os outros de que descendia da família Orsini,(1) o único defeito que se pode censurar a esse imparcial e severo historiador. [1. O pai de Juvenal tirara o seu nome do palácio de Ursins, que lhe dera a cidade de Paris, e sobre cujo pórtico estavam esculpidos dois jovens ursos].

            Perrinet ficou sozinho, apoiado a uma árvore, e, se bem que a parte de Paris a que na altura se chamava a Universidade, estivesse diante dos seus olhos, o seu espírito, transportando-se para além dela, apagava-a completamente. Pouco depois, como se o seu olhar atravessasse verdadeiramente o espaço, viu no horizonte a cidade de Troyes, e na cidade o velho castelo, e no castelo apenas um quarto, o que era habitado por Charlotte!... E esse quarto abria-se para ele como esses cenários de teatro, fechados por todos os lados menos por aquele que ficava virado para os espectadores; e, aí, nesse quarto, de que ele imaginava a cor das paredes, a forma dos móveis, livre dos cuidados que lhe impunham as suas funções junto da rainha, via uma jovem loura e graciosa, iluminando com as suas roupas brancas o apartamento sombrio, como esses anjos de Martin e de Dandy, que, irradiando da sua própria luz, iluminam o caos que atravessam, sobre o qual não luziu ainda o primeiro sol.

            À força de concentrar todas as forças do seu espírito num único pensamento, aquela aparição tornara-se, para ele, uma realidade; e se a sua imaginação lhe tivesse apresentado, em vez de uma Charlotte calma e sonhadora, uma Charlotte correndo qualquer perigo, certamente ele teria estendido os braços, precipitando-se para a frente, pensando bastar-lhe um passo para poder protegê-la.

            Perrinet estava de tal modo absorto nesta contemplação, que é capaz de levar aqueles que a experimentaram a acreditar que existe, em certos momentos e em certas organizações, um dom real da dupla visão, que não ouviu o ruído provocado, na rua Paon, por um grupo de homens a cavalo, que, um instante depois, desembocou a poucos passos dele sobre a muralha, por cuja segurança ele estava encarregado de velar.

            O homem que comandava aquela ronda nocturna fez sinal aos seus para que se detivessem e avançou sozinho pela muralha. Procurou com os olhos a sentinela que deveria encontrar-se ali e acabou por avistar Perrinet, que, na mesma posição e entregue ao mesmo sonho, nada vira do que se passava em seu redor.

            O comandante do pequeno grupo avançou então ao encontro daquela sombra imóvel e levantou com a ponta da espada o pequeno chapéu de feltro que cobria a cabeça de Leclerc. A visão desvaneceu-se com a rapidez de um palácio dourado que se desmorona e desaparece sob a sacudidela de um tremor de terra; uma espécie de choque eléctrico percorreu todo o corpo de Perrinet, que, com um gesto instintivo, afastou com a lança a espada que o ameaçava, gritando:

            - A mim, os estudantes!

            - Ainda não estás bem acordado, jovem, ou sonhas em voz alta - disse o condestável de Armagnac, cortando como se fosse um junco a lança guarnecida de ferro que Leclerc lhe dirigia à viseira do elmo e cuja ponta caiu por terra.

            Leclerc reconheceu a voz do governador de Paris, deitou fora o troço de lança que lhe ficara na mão, cruzou os braços sobre o peito e esperou com calma que o condestável fixasse a punição que sabia ter merecido.

            - Ah! senhores burgueses - continuou o conde de Armagnac - confia-se-vos a guarda da vossa cidade, e é assim que cumpris o vosso dever? Eh! - acrescentou, virando-se para o grupo, que fez um movimento para aproximar-se dele. - Três homens de boa vontade!

            Três soldados destacaram-se do grupo.

            - Que um de vocês acabe a guarda deste pândego - ordenou o condestável.

            Um dos soldados desmontou, entregou as rédeas do cavalo a um companheiro e foi ocupar, sob a sombra da porta de Saint-Germain, o lugar de Leclerc.

            - Quanto a vocês - continuou o condestável, dirigindo-se aos outros dois -, pé em terra, meus filhos, e contai sobre as costas deste patife vinte e cinco vergastadas com as bainhas das vossas espadas.

            - Senhor - disse friamente Leclerc - isso é uma punição de soldado, e eu não o sou.

            - Façam o que vos disse - replicou o condestável, pondo um pé no estribo.

            Leclerc avançou para ele e agarrou-lhe um braço.

            - Pensai bem, senhor.

            - Disse vinte e cinco; nem uma mais, nem uma menos.

            E de Armagnac içou-se para a sela.

            - Senhor - insistiu Leclerc, agarrando as rédeas do cavalo - senhor, essa é uma punição para servos e para vassalos, e eu não sou uma coisa nem outra; sou um homem livre e burguês da cidade de Paris; condenai-me a quinze dias de prisão, a um mês de prisão, e obedecerei.

            - Querem ver - exclamou o condestável - que agora temos de escolher para estes miseráveis um castigo a seu gosto? Para trás!

            Com estas palavras, esporeou o cavalo, que deu um salto para a frente, e descarregou sobre a cabeça nua de Leclerc o punho metido no guante de ferro, estendendo-o aos pés dos dois soldados que deviam ser os executores da ordem que acabava de dar.

            Ordens como aquela eram sempre bem recebidas pelos soldados, desde que o paciente fosse um burguês. Havia, entre os soldados e as corporações, um ódio real, que as aproximações políticas que, de tempos a tempos, se operavam entre eles, não conseguiam extinguir: era pois bem raro que, de noite, um estudante e um soldado se encontrassem em qualquer ruela escusa sem que um não empunhasse o cajado e o outro a espada. Somos forçados a confessar que Perrinet Leclerc não era dos que, chegada a ocasião, cediam a passagem para evitar tais lutas.

            Foi pois uma verdadeira alegria, para os homens do condestável, a execução de que os encarregara o comandante. Mal Perrinet lhes rolou aos pés, caíram-lhe em cima e, quando o jovem voltou a si do aturdimento provocado pela pancada, encontrou-se nu da cintura para cima e com os braços amarrados pelos pulsos e presos ao ramo de uma árvore, de modo que só as pontas dos seus pés tocavam no solo; os soldados tiraram então as espadas dos cinturões, pousaram as lâminas sobre a erva e, com as bainhas de couro, começaram a bater, alternando-se com tanta fleuma e regularidade como os pastores de Virgílio.

            O terceiro soldado tinha-se aproximado e contava as pancadas.

            As primeiras ressoaram sobre aquele corpo firme e branco sem parecerem causar a menor impressão no que as recebia, se bem que, à luz da lua, fosse possível distinguir os vergões azulados que deixavam na pele: mas não tardou que as bainhas, dobrando-se como verdascas contra o corpo do supliciado, começassem a levantar a pele. Insensivelmente, o ruído das pancadas mudou de natureza: de agudo e sibilante que fora áo princípio, tornou-se surdo e abafado, como se caíssem sobre lama; depois, já perto do fim da execução, os dois soldados foram obrigados a bater só com uma mão, tendo a outra ocupada em proteger o rosto dos jorros de sangue e pedaços de carne que saltavam a cada vergastada.

            À vigésima quinta pancada, detiveram-se, sendo como eram religiosos cumpridores das ordens recebidas. O condenado não tinha lançado um grito, proferido um queixume.

            Um dos soldados voltou a pegar tranquilamente na espada e a metê-la na bainha, enquanto que o outro, servindo-se da sua, cortava a corda entre o ramo e as mãos do paciente.

            Logo que a corda foi cortada, Perrinet Leclerc, que só se mantinha de pé graças a ela, caiu como um saco e perdeu os sentidos.

 

            Um mês depois de estas coisas se terem passado em Paris, grandes acontecimentos políticos tinham lugar nos arredores da capital.

            Nunca a monarquia francesa se vira ameaçada por uma ruína tão iminente como naquele momento: três partidos rasgavam o reino e era ver qual deles lhe arrancava os mais belos pedaços.

            Henrique V, rei da Inglaterra, acompanhado pelos duques de Clarence e Glocester, seus irmãos, tinha, como já dissemos, desembarcado em Touques, na Normandia; atacara imediatamente o castelo desse nome, que, após quatro dias de combates, capitulara; daí, fora pôr cerco a Caen, defendida por dois senhores de mérito e de nome, La Fayette e Montenais. A resistência teimosa que ofereceram ao invasor só serviu para que a cidade fosse tomada de assalto. A recordação recente das vitórias de Honfleur e de Azincourt e a notícia destes novos triunfos espalharam a consternação por toda a Normandia; mais de cem mil pessoas emigraram para a Bretanha, de sorte que ao rei da Inglaterra bastou, para tomar Harcourt, Beaumont-le-Roger, Evreux, Falaise, Baycux, Lisieux, Coutances, Saint-Lô, Avranches, Argentan e Alençon, mostrar-se diante destas cidades, ou enviar-lhes destacamentos. Só Cherburgo, defendida por Jean d'Angennes, o deteve mais tempo diante dos seus muros do que todas as cidades que acabamos de nomear reunidas: mas esta praça acabou por render-se também, e, com ela, toda a Normandia, a que serve deporta, caiu sob o domínio de Henrique V da Inglaterra.

            Pelo seu lado, a rainha e o duque ocupavam a Champagne, a Borgonha, a Picardia, e uma parte da Île-de-France; Senlis estava pelos Borgonheses; e Jean de Villiers, senhor de L'Ile-Adam, que comandava, em nome do rei, em Pontoise, tendo razões de queixa contra o condestável, que o tratava com altivez, entregara essa cidade, situada a poucas léguas de Paris, ao duque da Borgonha, que para lá enviara um reforço, mantendo L'Ile-Adam como governador.

            O resto da França, onde comandava o condestável, em nome do rei e do delfim, era tanto menos capaz de resistir por muito tempo a todos os seus inimigos quanto o conde de Armagnac, obrigado a concentrar todas as suas tropas na capital do reino, não pudera executar este movimento sem que os burgueses da cidade e os camponeses dos arredores sofressem muito com a passagem e a permanência dos soldados, que, tendo falta de soldada e de víveres, viviam à sua custa. O descontentamento era pois geral e o condestável tinha quase tanto a temer por parte dos seus aliados como dos seus inimigos.

            O duque da Borgonha, desesperando de apoderar-se de Paris pela força, tentou tirar partido do descontentamento geral que o condestável sublevara contra o governo do rei e conseguir aliados dentro da praça. Agentes que lhe eram dedicados entraram disfarçadamente na cidade e formou-se uma conspiração para lhe entregar a porta de Saint-Merceau. Um homem da Igreja e alguns burgueses que moravam nas cercanias tinham mandado fazer chaves falsas e enviado uma mensagem ao duque para combinar o dia e a hora da empresa. O duque encarregou da tarefa Hector de Saveuse, que já lhe dera, ao raptar a rainha, provas da sua habilidade e da sua coragem, e ele próprio, com seis mil homens, pusera-se a caminho para apoiá-lo.

            Enquanto este exército avança silenciosamente para tentar a difícil empresa, introduziremos o leitor na grande sala do castelo em Troyes, em Champagne, onde a rainha Isabel reúne a sua corte, rodeada pela nobreza borgonhesa e francesa.

            Quem a visse assim sentada num cadeirão dourado, naquela sala gótica, onde se ostentava todo o luxo da casa da Borgonha, quem a visse, dizia eu, sorrir a um, estender graciosamente a sua bela mão a outro, dirigir algumas palavras de amabilidade a um terceiro, e quem, descendo ao fundo do coração daquela orgulhosa princesa, lá pudesse ler os sentimentos de ódio e de vingança que ali fervilhavam, espantar-se-ia com o combate que devia travar para esconder tantas paixões no seu seio, apresentando em contraste um aspecto exterior tão calmo.

            O jovem senhor que se encontra de pé à sua direita, e a quem dirige mais frequentemente a palavra, por ser ele a última aquisição da sua corte, é Villiers de L'íle-Adam. Também ele esconde, sob um sorriso gracioso e palavras amáveis, projectos de vingança e de ódio, dos quais já pôs uma parte em execução ao entregar ao duque da Borgonha a cidade confiada à sua guarda. Apenas, como o duque pensou que, traidor uma vez, poderia sê-lo duas, não quis que o acompanhasse no golpe-de-mão que tenta contra Paris, e, como que num posto de honra, deixou-o junto da rainha.

            De ambos os lados de Isabel, e um pouco recuados, apoiando-se, numa pose meio respeitosa, meio familiar, no espaldar do seu cadeirão, falam a meia voz, travando uma conversa particular, os nossos antigos conhecidos, Giac e Graville, que, tendo pago resgate, se encontraram livres para voltar a oferecer à bela soberana o seu amor e as suas espadas. De cada vez que Isabel olha para eles, o seu rosto torna-se sombrio, pois aqueles dois cavaleiros eram os irmãos de armas do cavaleiro de Bourdon, e muitas vezes o nome do infeliz jovem, pronunciado por um ou pelo outro, parece-lhe um eco doloroso e inesperado da voz que grita por vingança do fundo do seu coração.

            À sua direita, e ao fundo dos degraus do estrado que eleva o cadeirão real como se fosse um trono, o barão Jean de Vaux conta a Chastellux, a Laon e a Bar, como, com o seu parente Hector de Saveuse, surpreenderam, apenas há alguns dias, na igreja de Notre-Dame de Chartres, Hélion de Jacqueville, cuja morte tinham jurado, e como, para não mancharem com o seu sangue o mármore do altar, o arrastaram para fora da igreja, e ali, a despeito das suas súplicas, apesar da oferta de um resgate de cinquenta mil escudos de ouro, lhe fizeram tão profundas feridas que em três dias lhe causaram a morte.

            Atrás de cada um destes senhores, e numa linha circular, pode ver-se uma imensidade de pajens ricamente vestidos com as cores dos seus amos ou das suas damas, falando também, embora em voz mais baixa, de caça e de amor.

            No meio deste burburinho geral provocado por todas estas conversas separadas, elevava-se de vez em quando a voz da rainha; então tudo voltava ao silêncio e todos ouviam distintamente a pergunta que ela dirigia a um dos senhores que ali se encontravam, assim como a resposta que este desse. Depois cada uma das conversas retomava o seu curso.

            - Dizeis então, Graville - disse a rainha, voltando-se um pouco para dirigir a palavra ao jovem cavaleiro e provocando, apenas com o som da sua voz, uma dessas interrupções de que já falámos -, que o nosso primo de Armagnac jurou, pela Virgem e por Cristo, nunca usar vivo a cruz vermelha da Borgonha, que nós, sua soberana, adoptámos como sinal de reunião dos nossos bravos e leais servidores?

            - Foram as suas próprias palavras, senhora rainha.

            - E não lhas enfiastes pela boca abaixo com o punho da vossa espada ou com o copo do vosso punhal, Graville? - perguntou, num tom de voz em que transparecia uma nota de ciúme, Villiers de L'Ile-Adam.

            - Para começar, não tinha punhal nem espada, uma vez que era seu prisioneiro; e depois, um tão grande homem de guerra não deixa de impor um certo respeito a quem se encontre face a ele, por muito bravo que seja. De resto, sei de alguém a quem o condestável disse, certa vez, palavras bem mais duras; esse alguém estava livre, tinha à cinta uma adaga e uma espada, e no entanto não ousou, que eu saiba, pôr em prática o conselho que agora me dá com uma audácia à qual a ausência do condestável deve roubar um pouco do seu valor aos olhos da nossa real soberana.

            E Graville recomeçou tranquilamente a conversar com Giac.

            L'Ile-Adam fez um movimento; a rainha deteve-o.

            - Será que não obrigaremos o condestável a faltar ao seu juramento, Villiers? - perguntou.

            - Escutai, senhora - respondeu L'íle-Adam - faço voto, como ele, pela Virgem e por Cristo, de não comer a uma mesa nem deitar-me num leito sem ter visto com os meus olhos o condestável de Armagnac usar a cruz vermelha da Borgonha, e, se faltar a este voto, que Deus não tenha misericórdia da minha alma, nem neste mundo nem no outro.

            - Villiers - disse o barão Jean de Vaux, voltando a cabeça e olhando-o ironicamente por cima de um ombro -, faz um voto que não terá grande dificuldade em cumprir; pois o mais provável é que, antes que sinta sono ou apetite, saibamos, ainda esta noite, que o duque da Borgonha entrou na capital, e, nesse caso, o condestável ficará muito feliz em apresentar de joelhos à rainha as chaves da cidade.

            - Deus vos ouça, barão - disse Isabel da Baviera. - Já é tempo de que este belo reino de França recupere um pouco de paz e de tranquilidade, e estou muito satisfeita por se nos ter deparado uma ocasião de retomar Paris sem correr os riscos de um combate, em que a vossa coragem nos asseguraria certamente a vitória, mas em que cada gota de sangue derramado sairia das veias de um dos meus súbditos.

            - Meus senhores - perguntou Giac - para quando a nossa entrada na capital?

            Neste instante ouviu-se no exterior um grande tumulto, como o de um numeroso grupo de homens a cavalo que regressasse a galope. Passos apressados soaram no peristilo, abriram-se as duas portas, um cavaleiro completamente armado, coberto de poeira, com a couraça aberta e cheia de mossas, avançou até meio da sala, e, juntamente com uma blasfémia, atirou para cima de uma mesa o elmo manchado de sangue.

            Era o duque da Borgonha.

            Todos os que ali se encontravam lançaram gritos de surpresa e ficaram assustados ao ver a palidez que lhe cobria o rosto.

            - Traídos! - gritou, batendo na testa com os dois punhos metidos nas manoplas de ferro. - Traídos por um miserável mercador de peles! Ver Paris, tocar-lhe... Paris, a minha cidade, "ter estado a meia légua, bastar-me estender uma mão para a tomar, e falhar! Falhar pela traição de um maldito burguês cujo coração não foi suficientemente grande para guardar um segredo! Sim, sim, senhores! Olhais para mim com ares de espanto! Julgáveis-me, não é verdade, a bater à porta do Louvre ou do palácio de Saint-Paul? Pois bem, não! Eu, João da Borgonha, a quem deram o sobrenome de Sem Medo, fugi! Sim, senhores, fugi! E deixei caído no campo Hector de Saveuse, que não pôde fugir, e deixei na cidade homens cujas cabeças neste momento tombam sob o machado, gritando Viva Borgonha! e não posso socorrê-los! Compreendeis senhores? É uma terrível desforra que temos de tirar, e tirá-la-emos, não é verdade? Será então a nossa vez de dar trabalho ao carrasco, será a nossa vez de ver cair cabeças e de ouvir homens gritar Viva Armagnac! Será a nossa vez, infernos e demónios, a nossa vez! Oh! maldito seja esse condestável! Esse homem há-de dar comigo em doido, se não deu já!

            O duque João lançou uma gargalhada horrível de ouvir; depois girou sobre si mesmo, puxando os cabelos com ambas as mãos, e foi rolar, mais do que sentar-se, nos degraus do cadeirão da rainha.

            Isabel, assustada, inclinou-se para trás.

            O duque olhou para ela, com o queixo apoiado nos punhos e abanando a cabeça, sobre a qual os seus cabelos se eriçavam como a juba de um leão:

            - Rainha - disse -, e no entanto é por vós que se fazem todas estas coisas. Não falo do meu sangue - e passou a mão pela testa, aberta por uma ferida -, ainda me resta bastante, como vedes, para não chorar o que perdi, mas do que tantos outros, com o qual adubamos as planícies dos arredores de Paris o suficiente para que este ano haja colheitas duplas; e tudo isto, Borgonha contra França, irmã contra irmã, enquanto o Inglês desembarca, o Inglês que ninguém detém, que ninguém combate! Oh! sabeis, senhores, que somos uns loucos?

            Todos compreenderam que o duque atravessava um desses momentos de violência que não permitem interrupções nem conselhos; deixaram-no falar, sabendo que não tardaria em voltar ao seu ódio contra o rei e o condestável, e ao seu projecto favorito: a tomada de Paris.

            - Quando penso que neste momento poderia estar no palácio de Saint-Paul, onde se encontra o delfim, a ouvir essa brava população de Paris, de que, ao fim e ao cabo, mais de três quartos me são leais, gritar Viva Borgonha!, que vós, minha rainha, poderíeis dar em toda a França verdadeiras ordens, assinar verdadeiros éditos. Quando verei esse maldito condestável a pedir misericórdia? Oh! hei-de vê-lo - continuou, dirigindo-se aos presentes - hei-de vê-lo, não é verdade, senhores?

            Hei-de vê-lo, porque quero. E se um só de vós me disser que não, terá mentido pela gorja!

            - Senhor duque - interveio a rainha - acalmai-vos. Vou mandar chamar um médico para que trate da vossa ferida, a menos que preferis que eu própria...

            - Obrigado, senhora, obrigado - respondeu o duque. - É apenas um arranhão e tivesse Deus querido que o meu bravo Hector de Saveuse não tivesse sofrido mais!

            - Foi muito ferido?

            - E que sei eu? Tive acaso tempo para desmontar e ir perguntar-lhe se estava morto ou vivo? Não; vi-o cair com um virote plantado no meio do corpo como uma estaca numa vinha! Pobre Hector! Foi o sangue de Hélyon de Jacqueville que caiu sobre ele! Jean de Vaux, tende cuidado; também tomastes parte nesse assassínio; venha um combate e talvez tenhais também parte da punição.

            - Muito obrigado, senhor - disse Jean de Vaux. - Mas, se tal se der, o meu último suspiro será para o meu nobre senhor, o duque da Borgonha, o meu último pensamento para a minha nobre senhora, a rainha Isabel da Baviera.

            - Sim, sim, meu velho barão - disse sorrindo João Sem Medo, que pouco a pouco esquecia a sua cólera - sei que és um bravo e que no último momento, se Deus não quiser a tua alma, serás capaz de disputá-la ao Diabo e de conservá-la, apesar de uns pecadilhos que dão a Satanás alguns direitos sobre ela.

            - Farei o melhor que puder, senhor.

            - Bem; mas, se a rainha nada mais nos ordena, a minha opinião, senhores, é que tomemos um repouso que amanhã não nos será inútil. É toda uma guerra a recomeçar, e só Deus sabe como terminará.

            A rainha Isabel levantou-se, indicando assim que aprovava a proposta do duque da Borgonha, e saiu da sala, apoiada ao braço que Graville lhe oferecera.

            O duque da Borgonha, tendo já esquecido o que se passara, como se fosse um sonho, seguiu-os, rindo com Jean de Vaux e parecendo totalmente insensível à dor da ferida que lhe abria na testa dois lábios vermelhos e sangrantes. Chastellux, laon e Bar saíram atrás deles, e, por fim, Giac e L'Île-Adam. Encontraram-se junto da porta.

            - E o vosso voto? - perguntou Giac, rindo.

            - Cumpri-lo-ei - -respondeu Lile-Adam -, e a partir desta noite. Saíram.

            Alguns minutos depois, aquela sala, tão cheia, um instante antes, de ruídos confusos e de luzes, voltou ao domínio do silêncio e da escuridão.

            Se conseguimos dar aos nossos leitores um conhecimento exacto do carácter de Isabel da Baviera, não lhes será difícil calcular que a notícia dada por João da Borgonha, e que lhe matava todas as esperanças, tivera nela um efeito diametralmente oposto ao que causara no duque; do sangue-frio do combate, este último passara à cólera da reflexão, que se desvanecera por sua vez, ao poder evaporar-se em palavras.

            Isabel, pelo contrário, -escutara o relato com a calma de uma alma rancorosa, mas política; era mais fel vertido no seu coração já tão cheio de fel, onde tantas paixões se amassavam em silêncio, escondidas a todos os olliares, para de lá saírem todas ao mesmo tempo, como da cratera de um vulcão saem, no dia da erupção, com as suas próprias entranhas, todos os corpos estranhos que, durante os seus intervalos de repouso, para lá lançou a mão do homem.

            Apenas, ao voltar aos seus aposentos, tinha o rosto pálido, os braços rígidos, os dentes apertados. Demasiado agitada para sentar-se, demasiado trémula para estar de pé, agarrou-se com uma convulsão nervosa a uma das colunas do leito, descaiu a cabeça para o braço assim estendido e, meio inclinada, com a respiração ofegante, chamou por Charlotte.

            Passaram-se alguns segundos sem que obtivesse resposta, sem que qualquer ruído, na sala contígua, anunciasse que tinha sido ouvida.

            - Charlotte! - gritou novamente, batendo com um pé e dando à voz uma expressão surda e inarticulada que assemelhava a palavra a um grito de amor ou de raiva de um animal feroz mais do que a um nome pronunciado por uma boca humana.

            Quase no mesmo instante a jovem apareceu, receosa e trémula; tinha distinguido no tom, bem conhecido, da ama, tudo o que ele continha de cólera e de ameaça.

            - Não ouvis quando vos chamo? - exclamou a rainha. - Terei sempre de chamar-vos duas vezes?

            - Mil perdões, minha nobre ama; mas estava ali.., com...

            - Com quem?

            - Com um jovem que conheceis e que já vistes.., e por quem tivestes a bondade de vos interessar.

            - Quem?

            - Perrinet Leclerc.

            - Leclerc? De onde vem ele?

            - De Paris.

            - Quero vê-lo.

            - Também ele, senhora, queria ver-vos e pedir-vos audiência; mas eu não ousava...

            Manda-o entrar, já te disse. Imediatamente! Onde está ele?

            - Ali - respondeu a jovem. E, erguendo a tapeçaria, chamou:

            - Perrinet!

            O jovem precipitou-se mais do que entrou no aposento; a rainha e ele encontraram-se frente a frente.

            Era a segunda vez que o pobre vendedor de ferro ia tratar de igual para igual com a orgulhosa rainha de França; por duas vezes, a despeito da diferença de condição, os mesmos sentimentos levavam aqueles dois extremos da escala social ao encontro um do outro. Apenas da primeira vez o sentimento fora o amor, e da segunda a vingança.

            - Perrinet! disse a rainha.

            - Senhora? - respondeu ele, olhando-a fixamente, sem que o olhar da soberana o obrigasse a desviar o seu.

            - Não voltei a ver-te.

            - E para quê? Tínheis-me dito que, se o transportassem vivo para outra prisão, o seguisse até à porta; se depusessem o seu corpo num túmulo, o acompanhasse até lá, e que, morto ou vivo, voltasse para dizer-vos: Está em tal sítio. Rainha, eles previram que poderíeis salvar o prisioneiro ou desenterrar o cadáver, e lançaram-no, vivo e mutilado, às águas do Sena.

            - E porque não o salvaste nem vingaste, infeliz?

            - Estava sozinho, eles eram seis; dois estão mortos. Fiz o que pude. Hoje estou aqui para fazer mais.

            - Vejamos.

            - Ah! execrais o condestável, não é verdade, senhora? Gostaríeis de retomar Paris? Que daríeis ao homem que ao mesmo tempo vos entregasse Paris e vos vingasse do condestável?

            A rainha sorriu com uma expressão que era só dela.

            - Oh! tudo o que esse homem me pedisse!... Tudo! A metade dos meus dias, a metade do meu sangue. Mas onde está ele?

            - Quem?

            - Esse homem!...

            - Sou eu, rainha.

            - Vós? Tu? - exclamou Isabel, assombrada.

            - Sim, eu.

            - E como?

            - Sou filho do almotacel Leclerc; o meu pai guarda, durante a noite, as chaves da cidade sob a sua almofada; posso ir a sua casa, beijá-lo, sentar-me à sua mesa, esconder-me lá em vez de voltar a sair, e, de noite, introduzir-me no seu quarto, roubar as chaves, abrir as portas...

            Charlotte lançou um pequeno grito; Perrinet pareceu não o ouvir; a rainha não lhe prestou atenção.

            - Sim, isso é verdade - disse, pensativamente.

            - E será como eu disse - continuou Leclerc.

            - Mas - interveio timidamente Charlotte - se no momento em que tirares as chaves o teu pai despertar?

            Os cabelos de Leclerc eriçaram-se-lhe na cabeça, o suor deslizou-lhe pela testa; mas, no instante seguinte, levou a mão ao punho do punhal, tirou-o parcialmente da bainha e pronunciou estas palavras:

            - Voltarei a adormecê-lo.

            Charlotte lançou um segundo grito e caiu num cadeirão.

            - Sim - continuou Leclerc, sem prestar atenção à amante, quase desfalecida -, sim, serei traidor e parricida, mas vingar-me-ei!

            - Que te fizeram eles? - perguntou Isabel, aproximando-se dele, agarrando-lhe num braço e olhando-o com a expressão da mulher que compreende a vingança, por muito atroz que seja, por muito que custe.

            - Que vos importa, rainha? É o meu segredo. Tudo o que tendes necessidade de saber é que cumprirei a minha palavra, se cumprirdes a vossa.

            - Pois bem, que queres tu? É Charlotte, que amas?

            Perrinet abanou a cabeça, com um riso amargo.

            - É ouro? Dar-to-ei.

            - Não - disse Leclerc.

            - É a nobreza, as honras? Se tomarmos Paris, dar-te-ei o comando da cidade e far-te-ei conde.

            - Não é isso - murmurou Leclerc.

            - O que é então?

            - Sois regente da França?

            - Sim.

            - Tendes o direito de vida e de morte?

            - Sim.

            - Mandastes fazer um selo real que pode conferir o vosso poder ao portador de um pergaminho selado com ele?

            - E então?

            - Pois bem, quero esse selo num pergaminho, e que esse pergaminho me dê uma vida, uma vida com a qual poderei fazer o que quiser, de que não terei de dar contas seja a quem for, que terei o direito de disputar ao próprio carrasco.

            A rainha empalideceu.

            - Não é a do delfim Carlos nem a do rei? - perguntou.

            - Não.

            - Um pergaminho e o meu selo real! - disse vivamente Isabel.

            Leclerc foi buscar, acima de uma mesa, ambas as coisas, e apresentou-lhas. A rainha escreveu:

            "Nós, Isabel da Baviera, pela graça de Deus, regente da França, tendo, devido à ocupação de nosso senhor o rei, o governo do reino, cedemos a Perrinet Leclerc, vendedor de ferro em Petit-Pont, o nosso direito de vida e de morte sobre..."

            - O nome?

            - Sobre o conde Bernard d'Armagnac, condestável do reino da França, governador da cidade de Paris - respondeu Leclerc.

            - Ah! - exclamou Isabel, deixando cair a pena.

            - É para matá-lo que me pedes a sua vida, não é verdade?

            - Sim.

            - E dir-lhe-ás, no momento da sua morte, que lhe tomo a sua querida Paris, a sua capital, em troca da existência do meu amante, que ele me roubou: troca por troca. Dir-lho-ás, espero.

            - Nada de condições.

            - Nada de selo, nesse caso - disse a rainha, pousando o pergaminho.

            - Dir-lho-ei; apressai-vos.

            - Sobre a tua alma?

            - Sobre a minha alma!

            A rainha voltou a pegar na pena e escreveu:

            ".., o conde Bernard d'Armagnac, condestável do reino da França, governador da cidade de Paris; renunciando por todo o sempre a reclamar quaisquer direitos sobre a pessoa do dito condestável."

            Assinou e aplicou o selo ao lado da assinatura. - Toma - disse, estendendo o pergaminho.

            - Obrigado, - respondeu Leclerc, aceitando-o.

            - É infernal! - exclamou Charlotte. A jovem, branca e pura, parecia um anjo forçado a assistir a um pacto assinado entre dois demónios.

            - Agora - disse Leclerc - um homem de execução com o qual possa entender-me; nobre ou plebeu, pouco me importa, desde que tenha poder e vontade.

            - Chama um criado, Charlotte. Charlotte chamou; apareceu um criado.

            - Dizei ao senhor de L'Íle-Adam que o espero neste mesmo instante e trazei-o aqui.

            O criado inclinou-se e saiu.

            L'ile-Adam, fiel ao seu voto, tinha-se deitado no chão, completamente vestido, envolto no seu manto de guerra; bastou-lhe pois erguer-se para estar em condições de apresentar-se à rainha.

            Cinco minutos mais tarde, entrava no aposento.

            Isabel avançou para ele e, sem prestar atenção ao seu respeitoso cumprimento, disse-lhe:

            - Villiers, está aqui um jovem que me entrega as chaves de Paris; tenho necessidade de um senhor de coragem e de acção a quem ele as dê: pensei em vós.

            L'íle-Adam estremeceu; os seus olhos inflamaram-se e voltou-se para Leclerc, estendendo-lhe a mão; mas ao ver, pela indumentária do vendedor de ferro, qual era a baixa condição daquele a quem ia tratar como um igual, deixou cair o braço ao longo do corpo e o seu rosto retomou a expressão de altivez que lhe era habitual e que por um instante tinha abandonado.

            Nenhum destes movimentos escapou a Leclerc, que permaneceu imóvel, com os braços cruzados sobre o peito, tanto quando L'Ile-Adam lhe estendeu a mão como quando a deixou cair.

            - Guardai a vossa mão para ferir o inimigo, senhor de L'ile-Adam - disse Leclerc, rindo -, se bem que eu tenha algum direito de vo-la tocar, pois, tal como vós, vendo o meu rei e a minha pátria. Guardai a vossa mão, cavaleiro Villiers, se bem que sejamos irmãos na traição.

            - Jovem! - exclamou L'Ile-Adam.

            - Está bem, falemos de outra coisa. Respondeis-me por quinhentas lanças?

            - Tenho mil homens de armas na cidade de Pontoise, que comando.

            Metade dessa tropa bastará, se for brava. Introduzi-la-ei, convosco, na cidade. Aí terminará a minha missão. Não me pedireis mais seja o que for.

            - Encarrego-me do resto.

            - Pois bem, partamos sem perder um instante, e, pelo caminho, explicar-vos-ei os meus projectos.

            - Sorte e coragem, L'Íle-Adam - disse a rainha. L'ile-Adam pôs um joelho em terra, beijou a mão que lhe estendia a sua nobre senhora e saiu.

            - Recordai-vos da vossa promessa, Perrinet - disse a rainha. - Que ele saiba, antes de morrer, que sou eu, sua inimiga mortal, que lhe tiro a sua cidade em troca da vida do meu amante.

            - Sabê-lo-á - respondeu Leclerc, metendo o pergaminho no peito e abotoando o gibão por cima.

            - Adeus, Leclerc - disse Charlotte a meia voz. Mas o jovem não a ouviu e saiu do aposento sem responder.

            - Que o inferno os conduza e que cheguem ao fim! - disse a rainha.

            - Que Deus vele por eles! - murmurou Charlotte. Os dois homens desceram às cavalariças; L'íle-Adam escolheu dois dos seus melhores cavalos, selaram-nos e montaram-nos.

            - Onde encontraremos outros, quando estes morrerem? - perguntou Leclerc. - Porque, à velocidade a que cavalgaremos, não farão mais do que um terço do caminho.

            - Dar-me-ei a conhecer nos postos borgonheses que encontrarmos no nosso caminho e dar-nos-ão outros.

            - Bem.

            Cravaram as esporas nos ventres das montadas, largaram as rédeas e partiram como o vento.

            Certamente quem os visse, à luz das chispas que os cascos dos animais arrancavam às pedras do caminho, na escuridão da noite, deslizar assim lado a lado, cavalos e cavaleiros devorando o espaço, teria contado, durante longos anos, ter assistido à passagem de um novo Fausto e de um outro Mefistófeles, dirigindo-se, montando corcéis fantásticos, a qualquer reunião infernal.

 

            O momento não poderia ter sido melhor escolhido, para a consumação do projecto concebido por Perrinet Leclerc; o desespero dos burgueses estava no auge, e toda a gente acusava o condestável, que, a cada dia, redobrava de rigor e de crueldade para com os parisienses, dos males que eram fruto dos tempos. Os seus homens de armas maltratavam os cidadãos, sem que estes pudessem conseguir justiça dos maus tratos que recebiam. A derrota sofrida diante de Senlis, cujo cerco se tinham visto obrigados a levantar, tornara-os ainda mais furiosos. Ninguém podia sair da cidade, e se alguém, por acaso, tentava fazê-lo contra as ordens dadas e era surpreendido pelos soldados, não se livrava sem ser roubado e espancado; depois, se ia queixar-se ao condestável ou ao preboste, estes respondiam:

            - Muito bem, e que íeis lá fazer?

            - Não vos queixaríeis assim se, se tratasse dos vossos amigos Borgonheses.

            Conta o Journal de Paris que os vexames se estendiam até aos servidores do palácio do rei. Alguns deles tinham ido ao bosque de Bolonha apanhar árvores para festejar o 1° de Maio; os soldados que guardavam a Ville-l'Evêque, e que pertenciam ao condestável, perseguiram-nos, mataram um e feriram vários outros. E isto não era tudo: como o dinheiro faltava, o condestável resolveu consegui-lo por todos os meios possíveis. Mandou confiscar os ornamentos das igrejas e até os vasos de Saint-Denis. Os campos, devastados, já não forneciam víveres. Obrigavam-se a trabalhar nas muralhas e nas máquinas de guerra pobres operários aos quais não se pagava e que ainda por cima eram espancados e tratados de canalhas se tinham a imprudência de reclamar os seus salários. Estes vexames, todos eles originados pelo conde de Armagnac, ocasionavam, de noite, reuniões de povo nas ruas de Paris. Então circulavam os boatos mais ridículos, sempre acolhidos com gritos de ódio e de vingança; mas não tardava que um grupo de soldados surgisse na extremidade da rua, ocupando-lhe toda a largura; os homens de guerra pegavam nas espadas, punham os cavalos a galope e varriam a multidão, ferindo e esmagando todos os que encontrassem pela frente, até que o povo dispersava e ia reunir-se noutro lado.

            Na noite de 28 de Maio, uma destas reuniões enchia de povo a praça da Sorbona. A maior parte era constituída por estudantes, armados de cajados, magarefes, com as suas facas à cinta, e operários, empunhando as ferramentas de que se utilizavam no seu trabalho, e que, em rigor e nas mãos de homens de tal modo exasperados, podiam ser consideradas como armas. As mulheres desempenhavam igualmente um papel activo, e nem sempre isento de riscos, pois os soldados atacavam indiferentemente homens, mulheres, crianças e velhos, quer se defendessem quer não, quer fossem inimigos ou simples curiosos, estabelecendo as bases de uma arte que os governos modernos parecem ter reencontrado todas as tradições.

            - Sabeis, mestre Lambert - dizia uma velha, erguendo-se sobre a mais comprida das suas pernas, a fim de chegar ao cotovelo do homem a quem dirigia a palavra - por que motivo confiscaram pela força todo o tecido das casas dos mercadores? Dizei-me, sabeis?

            - Presumo, mãe Jehanne - respondeu o homem, que era um fabricante de potes de estanho, conhecido por não deixar passar um daqueles ajuntamentos sem se envolver - presumo, dizia, que é para fazer, como disse o maldito condestável, pavilhões e tendas para o exército.

            - Pois bem, enganai-vos; é para meter todas as mulheres em sacos e atirá-las ao rio.

            - Ah! - exclamou mestre Lambert, a quem esta arbitrária medida parecia indignar muito menos do que à sua interlocutora. - E parece-vos que seja verdade?

            - Tenho a certeza.

            - Bah! Se fosse só isso! - exclamou um burguês.

            - E que mais quereis, mestre Bourdichon? - replicou a nossa velha conhecida, a mãe Jehanne.

            - Não é das mulheres que os Armagnacs têm medo. é das corporações de homens; por isso, todos os que fazem parte dessas associações serão degolados. Só serão poupados aqueles que fizerem juramento de mais depressa entregar Paris aos Ingleses do que aos Borgonheses.

            - E como seriam esses reconhecidos? - interrompeu-o o fabricante de potes, com uma precipitação que denunciava a importância que dava à notícia.

            - Por um escudo de chumbo tendo de um lado a cruz vermelha e do outro o leopardo de Inglaterra.

            - Eu - disse um estudante, trepando para cima de um marco - vi um estandarte com as armas do rei Henrique V da Inglaterra; tinha sido bordado no colégio de Navarra, que é exclusivamente composto por Armagnacs, e os mestres deviam içá-lo sobre as portas de Paris.

            - A saque! A saque o colégio! - gritaram várias vozes, que, felizmente, se foram extinguindo umas atrás das outras.

            - A mim - disse um trabalhador - obrigaram-me a trabalhar durante vinte e cinco dias na grande máquina de guerra que estão a construir, e, quando pedi o meu dinheiro ao preboste, ele respondeu-me: Canalha, não tens uma moeda para comprar uma corda com que te enforques?

            - À morte, à morte o preboste e o condestável! Vivam os Borgonheses!

            Estes gritos tiveram mais eco do que os anteriores e não tardaram em ser repetidos por todas as bocas.

            No mesmo instante, brilharam no extremo da rua as lanças de uma companhia franca, composta por genoveses que estavam ao serviço particular do condestável.

            Começou então uma dessas cenas de que já falámos e que não temos necessidade de descrever, convencidos como estamos de que todos podem imaginá-la. Homens, mulheres e crianças puseram-se a fugir, lançando gritos aflitivos. A tropa estendeu-se por toda a largura da rua, e, como um vendaval varre as folhas de Outono, varreu à sua frente aquele turbilhão de criaturas humanas, ferindo uns com as pontas das lanças, esmagando outros com os cascos dos cavalos, procurando bem nos recantos das casas, nos umbrais das portas, com esse encarniçamento desumano de que quase sempre dão prova os homens de guerra quando têm de entender-se com civis.

            No momento em que os guardas apareceram, toda a gente, como já dissemos, procurara fugir, com excepção de um jovem coberto de poeira, que se juntara à multidão havia alguns minutos apenas: este contentara-se com virar-se para a porta a que se tinha apoiado, e, introduzindo a lâmina do punhal entre a fechadura e a parede, tinha, utilizando-a como alavanca, forçado a entrada, metendo-se no pátio e voltando a fechar a porta atrás de si. Depois, quando o ruído dos cavalos, afastando-se, lhe anunciou que o perigo tinha passado, entreabriu a porta e espreitou para a praça; vendo que, com excepção de alguns moribundos que agonizavam, estava deserta, metera tranquilamente pela rua dos Cordeliers, descendo-a até à muralha de Saint-Germain, e, detendo-se diante de uma pequena casa. premiu uma mola escondida e a porta abriu-se.

            - Ah! és tu, Perrinet? perguntou um velho.

            - Sim, meu pai; venho pedir-vos de jantar.

            - Sê bem-vindo, meu filho.

            - Não é tudo, meu pai; há grande revolta entre a populaça de Paris e as ruas não são seguras de noite. Gostaria de dormir aqui.

            - E então - respondeu o velho -, não continuas a ter o teu quarto e a tua cama, o teu lugar junto da lareira e a mesa? Alguma vez me ouviste queixar-me de os vires ocupar demasiadas vezes?

            - Não, meu pai - respondeu o jovem, deixando-se cair numa cadeira e apertando a cabeça entre as mãos -, não, sois bom e amais-me.

            - Só te tenho a ti, meu filho, e nunca me deste desgostos.

            - Meu pai - disse Perrinet, erguendo-se -, sinto-me doente; permiti que me retire para o meu quarto; não poderei cear convosco.

            - Vai, meu filho; és livre, estás em tua casa.

            Perrinet abriu uma pequena porta que compreendia em si mesma os três primeiros degraus de uma escada cuja continuação tinha sido praticada na parede e subiu lentamente, sem voltar a cabeça, sem olhar para o pai.

            - Este rapaz anda triste de há uns dias para cá - murmurou, com um suspiro, o velho Leclerc.

            E sentou-se sozinho à mesa, onde já tinha posto dois lugares.

            Durante algum tempo ouviu por cima da sua cabeça os passos do filho; depois, ao deixar de ouvi-los, pensou que tivesse adormecido e, murmurando algumas orações em sua intenção, foi para o seu quarto e deitou-se, depois de ter tomado a precaução, como de costume, de meter as chaves confiadas à sua guarda sob o travesseiro onde repousava a cabeça.

            Passou-se cerca de uma hora sem que o silêncio que reinava em casa do velho almotacel fosse perturbado. Subitamente, ouviu-se um leve ruído no quarto do primeiro piso; a porta de que já falámos abriu-se e os três degraus de madeira gemeram sucessivamente sob o peso de Perrinet, pálido e contendo a respiração. Quando sentiu o soalho sob os pés, deteve-se por um instante, à escuta. Nenhum ruído lhe anunciou que tivesse sido ouvido. Então avançou nas pontas dos pés, limpando com uma mão o suor que lhe escorria da testa, para o quarto do pai; a porta não estava fechada; empurrou-a.

            A lanterna que servia ao velho, quando, por acaso, era forçado a levantar-se para ir abrir a porta a algum burguês retardatário, ardia sobre a lareira, e a luminosidade pálida que lançava seria o suficiente para que o almotacel, se despertasse, se apercebesse de que não estava sozinho no quarto; mas Leclerc temia, apagando-a, chocar na escuridão com qualquer móvel e despertar o pai do sono em que estava mergulhado, resolveu pois deixá-la arder.

            Era terrível ver aquele jovem, de cabelos eriçados, com o suor a escorrer-lhe da testa, a mão esquerda pousada no cabo do punhal, apoiando-se com a direita à parede, detendo-se a cada passo, para dar ao soalho tempo de afirmar-se sob o seu peso, avançando lentamente, mas avançando sempre para aquele leito de onde não tirava os olhos rutilantes, seguindo, para lá chegar, uma linha circular como a do tigre, sobressaltando-se ao ruído do bater precipitado do seu próprio coração, que contrastava com a respiração calma do velho; avançou ainda alguns passos, estendeu uma mão, pousou-a na coluna do leito, de teve-se por um instante, para respirar; depois, soerguendo um pouco o corpo, fez deslizar a mão húmida e trémula pela cabeceira da cama, muito lentamente, contendo a respiração, insensível às dores que aquela posição forçada lhe causava; porque sabia que da parte do pai, um movimento, um suspiro, faria dele um parricida.

            Sentiu finalmente o frio do ferro; os seus dedos crispados tocavam nas chaves; passou-os pelo anel que as unia e puxou lentamente, recebeu-as na outra mão, agarrou-as de modo a evitar que se entrechocassem, e, com as mesmas precauções que usara ao entrar, dirigiu-se para a porta, possuidor de um tesouro que deveria assegurar a sua vingança.

            À porta da rua, as pernas falharam-lhe e caiu nos degraus que conduziam à muralha; estava assim havia alguns minutos quando o sino do convento dos Cordeliers bateu as onze horas.

            Perrinet ergueu-se à décima primeira badalada. L'íle-Adam e os seus quinhentos homens deviam estar a poucos passos da muralha.

            Subiu rapidamente a escada. Quando chegou ao topo, ouviu o ruído de vários cavalos que se dirigiam para aquele lado, vindos da cidade.

            - Quem vive? - gritou a sentinela.

            - Ronda de noite - respondeu a voz rude do condestável.

            Perrinet estendeu-se no solo. O destacamento passou a poucos passos dele; a sentinela foi rendida e uma outra deixada no seu lugar; o destacamento afastou-se.

            Perrinet rastejou, como uma serpente, em direcção ao meio da linha que a sentinela fazia no seu passeio; depois, quando a viu passar à sua frente, levantou-se subitamente, e, antes que o soldado pudesse esboçar um gesto de defesa, cravou-lhe o punhal na garganta.

            O homem caiu sem um gemido.

            Perrinet arrastou o cadáver para o lugar onde a saliência da porta tornava a sombra mais densa, e, colocando na cabeça o capacete da sentinela e pegando na lança, a fim de ser tomado por ela, aproximou-se da beira da muralha e cravou os olhos na planície; por fim, quando os habituou à escuridão, julgou avistar uma linha negra e densa que avançava silenciosamente.

            Levou as duas mãos à boca e imitou o pio de um mocho.

            Um grito semelhante respondeu-lhe da planície; era o sinal combinado.

            Desceu e abriu a porta. Um homem já estava apoiado, do lado de fora, ao batente; era L'Íle-Adam, cuja impaciência o levara a adiantar-se aos outros.

            - Muito bem, és fiel - disse, a meia voz.

            - Os vossos homens?

            - Estão aqui.

            Com efeito, a coluna, comandada por Chevreuse, Ferry de Mailly e o conde Lyonnet de Bournonville, apareceu na esquina da última casa do arrabalde de Saint-Germain, introduziu a cabeça pela abertura da porta, e, como uma longa serpente, deslizou para o interior da cidade. Perrinet voltou a fechar a porta, subiu ao alto da muralha e atirou as chaves para os fossos cheios de água.

            - Que fizeste? perguntou-lhe L'Íle-Adam.

            - Acabo de tirar-vos a possibilidade de olhar para trás - respondeu ele.

            - Avancemos, então.

            - Este é o vosso caminho - disse Leclerc, indicando-lhe a rua Paon.

            - E tu?

            - Eu? Tomo um outro.

            E lançou-se pela rua dos Cordeliers, chegou à ponte de Notre-Dame. atravessou o rio, desceu a rua Saint-Honoré até ao palácio de Armagnac e escondeu-se atrás de um ângulo da parede, onde ficou tão imóvel como uma estátua de pedra.

            Entretanto, L'Île-Adam chegara ao rio, subira-o até ao Châtelet e, chegado aí, dividira o seu pequeno exército em quatro grupos: um deles, comandado por Chevreuse, dirigiu-se ao palácio do delfim, na rua da Verrerie; o segundo, conduzido por Ferry de Mailly, desceu a rua Saint-Honoré para atacar o palácio de Armagnac e surpreender o condestável, que L'Íle-Adam ordenara, sob pena de morte, que lhe fosse levado vivo: o terceiro, sob as ordens do próprio L'Île-Adam, avançou para o palácio de Saint-Paul, onde se encontrava o rei; o quarto, que obedecia a Lyonnet de Bournonville, ficou na praça do Châtelet, a fim de correr em socorro daquele dos outros três que disso tivesse necessidade.

            Todos gritavam:

            - Nossa Senhora da paz! Viva o rei! Viva Borgonha! Que os que querem a paz se armem e nos sigam !

            A estes gritos, e ao longo de todas as ruas, abriam-se as janelas e rostos assustados espreitavam para fora, escutavam estas vociferações, reconheciam as cores e a cruz de Borgonha e respondiam com gritos de:

            Morte aos Armagnacs! Vivam os Borgonheses!

            E o povo, burgueses, estudantes, seguiam em armas e em tumulto cada um dos grupos.

            Foi, sem dúvida, da parte dos que os comandavam, uma grande imprudência dar assim o alarme, pois os mais preciosos prisioneiros que esperavam fazer escaparam-se-lhes. Tanneguy Duchâtel, ao primeiro ruído, correu ao palácio do delfim, derrubou tudo o que se opôs à sua passagem, chegou ao quarto onde ele estava deitado, e, encontrando-o deitado no leito, a ouvir o tumulto que de longe lhe chegava até ali, sem perder um minuto, sem responder às suas perguntas, envolveu-o nas mantas da cama, atirou-o para cima dos ombros e levou-o. Robert Masson, seu chanceler, tinha um cavalo preparado para ele; montou-o, carregando o seu precioso fardo, e, dez minutos mais tarde, a Bastilha inexpugnável fechava-se sobre eles, pondo ao abrigo das suas espessas muralhas o único herdeiro da velha monarquia francesa.

            Ferry de Mailly, que avançava para o palácio de Armagnac, não foi mais feliz do que Chevreuse; o condestável, que vimos comandando uma patrulha nocturna, ouvira os gritos dos Borgonheses, e, em vez de voltar ao seu palácio, tendo compreendido que resistir seria inútil, pensou na própria vida. Refugiou-se em casa de um pobre pedreiro, confessou-lhe quem era e prometeu-lhe uma recompensa proporcional ao serviço que lhe pedia; o homem escondeu-o e prometeu guardar o segredo.

            O grupo que esperava surpreendê-lo aproximou-se pois do palácio de Armagnac, fechou-lhe todas as saídas e pôs-se a atacar a porta principal; no momento em que a madeira cedeu, um homem destacou-se da parede da casa fronteira, afastou toda a gente e foi o primeiro a entrar no palácio; Ferry de Mailly entrou atrás dele.

            Entretanto, L'lÎle-Adam, mais feliz, atacava o palácio de Saint-Paul, e, após um curto combate com os guardas, entrava nos aposentos e chegava aos do rei. O pobre e velho monarca, de quem troçavam os servidores que havia já muito não obedeciam às suas ordens, parecia ter sido, nessa noite, completamente esquecido por todos; uma candeia já moribunda iluminava dèbilmente o aposento; os restos de um fogo que não podia bastar para expulsar o frio e a humidade daquele vasto quarto tremeluziam na lareira gótica, junto da qual, sentado num banco, tremia um velho meio nu.

            Era o rei da França.

            L'Ile-Adam precipitou-se para o interior do quarto e foi direito ao leito, que encontrou vazio; voltando-se, avistou o velho monarca, que, com as suas mãos enrugadas, tentava reunir os tições quase apagados.

            Avançou respeitosamente para ele e saudou-o em nome do duque da Borgonha.

            O rei voltou-se, deixando as mãos estendidas para o lume olhou vagamente para o que falava e disse:

            - Como está o meu primo da Borgonha? Há já muito que não o vejo.

            - Alteza, envia-me até vós para que todas as calamidades que assolam o vosso reino tenham um fim.

            O rei voltou-se para o fogo, sem responder.

            - Alteza - continuou L'Île-Adam, vendo que, naquele momento de demência, o rei não poderia compreender nem seguir as razões políticas que ia expor - o duque da Borgonha pede-vos que monteis a cavalo e que apareçais, a meu lado, nas ruas de Paris.

            Carlos VI levantou-se maquinalmente, apoiou-se ao braço de L'Ile-Adam e seguiu-o sem resistência, pois já não restava àquele pobre príncipe memória nem razão.

            Pouco lhe importava quem ordenava em seu nome nem em que mãos caía. Já nem sequer sabia o que era um Armagnac ou um Borgonhês.

            Lile-Adam, com o seu real prisioneiro, dirigiu-se para o Châtelet. O capitão compreendera que a presença do monarca entre os Borgonheses seria como que um sinal de aprovação real para tudo o que ia passar-se; entregou pois o rei aos cuidados de Lyonnet de Bournonville, recomendando-lhe uma vigilância activa, mas cheia de respeito.

            Tomada esta medida política, meteu o cavalo a galope pela rua Saint-Honoré e desmontou à porta do palácio de Armagnac, no interior do qual só se ouviam gritos e imprecações: lançando-se para as escadas, chocou tão violentamente com um homem que as descia que ambos tiveram de agarrar-se um ao outro para não caírem. Reconheceram-se.

            - Onde está o condestável? - perguntou L'íle-Adam.

            - Procuro-o - respondeu Perrinet Leclerc. - Maldito seja Ferry de Mailly, que o deixou escapar! Ele não voltou ao palácio.

            E correram ambos para o exterior, metendo cada qual pela primeira rua que se lhes deparou.

            Entretanto, a cidade era palco de uma terrível carnificina. Só se ouviam gritos de:

            - À morte! À morte os Armagnacs! Matai-os todos! Todos!

            Grupos de estudantes, de burgueses, de magarefes, percorriam as ruas, arrombando as portas das casas que se sabia pertencerem a partidários do condestável, e destroçavam os infelizes a golpes de machado e de espada. Enxames de mulheres e de crianças liquidavam, com as suas facas, os que ainda respirassem.

            O povo nomeara, mal se vira livre do jugo do condestável, Vaux de Bar como preboste de Paris, em substituição de Duchatel. O novo magistrado, encontrando os parisienses agitados por uma tal raiva, não ousava resistir-lhes, e dizia, ao ver estes massacres: - Meus amigos, fazei como quiserdes.

            Em breve, toda a cidade era um imenso matadouro. Alguns Armagnacs tinham-se refugiado na igreja de Saint-Eloi. Os Borgonheses descobriram o esconderijo. Foi em vão que, para os proteger, Villette, abade de Saint-Denis, avançou para a porta, vestindo os seus hábitos sacerdotais e levando nas mãos a hóstia sagrada. Já vários machados sujos de sangue se erguiam para ele quando Chevreuse o tomou sob a sua protecção e o levou dali. A sua partida foi o sinal para uma matança geral no interior da igreja; ouviam-se gritos, viam-se cintilar machados e espadas; os mortos amontoavam-se na nave e, daquele monte de corpos humanos corria, como de uma fonte na base de uma montanha, um ribeiro de sangue. L'Île-Adam, que passava, lançou-se a cavalo para o portal.

            - Muito bem - disse, ao ver o que se passava.

            - Isto vai bem, tenho bons magarefes!... Filhos, vistes o condestável?

            - Não, não! - gritaram vinte vozes ao mesmo tempo. - Morte ao condestável! Morte aos Armagnacs!

            E a destruição continuou.

            L'Île-Adam voltou o cavalo e foi procurar o seu inimigo alhures.

            Uma cena do mesmo género passava-se na torre do palácio. Algumas centenas de homens tinham-se lá refugiado e tentavam defender-se. No meio deles, de crucifixo na mão, encontravam-se os bispos de Coutances, de Bayeux, de Senlis e de Saintes; o assalto durou apenas um instante; os Borgonheses escalaram as paredes, apesar da chuva de pedras, e, uma vez senhores do palácio, mataram todos os que lá se encontravam.

            No meio desta carnificina, um homem mais pálido, mais ofegante, mais coberto de suor do que os outros, precipitou-se para um grupo de Borgonheses.

            - O condestável? - perguntou. - Está aqui?

            - Não - responderam-lhe.

            - Onde está?

            - Não sabemos, mestre Leclerc; o capitão L'Île-Adam mandou proclamar que daria mil escudos de ouro a quem lhe revelasse o seu esconderijo.

            Perrinet não quis ouvir mais; precipitou-se para uma das escadas encostadas à torre e, deixando-se deslizar ao longo dela, encontrou-se na rua.

            Um grupo de besteiros genoveses tinha sido surpreendido junto do claustro Saint-Honoré, e, se bem que se tivessem rendido e lhes tivesse sido prometida a vida, degolavam-nos depois de os desarmarem; estes infelizes recebiam a morte de joelhos e gritando por misericórdia. Dois homens, no entanto, empunhando archotes, contentavam-se com arrancar-lhes os capacetes, examinando-os uns após outros e deixando aos que os seguiam o cuidado de matá-los, entregando-se a esta investigação com a minúcia da vingança. Encontraram-se no meio da multidão e reconheceram-se.

            - O condestável? - perguntou L'Île-Adam.

            - Procuro-o - respondeu Perrinet.

            - Senhor Leclerc! - chamou nesse momento uma voz.

            Perrinet voltou a cabeça e reconheceu quem o chamava.

            - Que se passa, Thiébert, que me queres?

            - Sabeis dizer-me onde posso encontrar o cavaleiro L'Île-Adam?

            - Sou eu - disse o capitão.

            Um homem vestindo um gibão sujo de gesso e de cal avançou para eles.

            - É verdade - perguntou - que dareis mil escudos de ouro a quem vos entregar o condestável?

            - Sim.

            - Então entregai-mos - continuou o pedreiro - e indicar-vos-ei o lugar onde está escondido.

            - Estende a tua escarcela - disse L'Íle-Adam. E atirou-lhe para dentro punhados de ouro.

            - Vamos, onde está?

            - Em minha casa; vou levar-vos lá.

            Uma gargalhada soou atrás deles; L'Île-Adam voltou-se para procurar Perrinet, mas este tinha desaparecido.

            - Vamos, depressa - disse o capitão. - Guia-me.

            - Um instante - replicou Thiébert. - Aproximai esse archote; quero contar.

            L'Íle-Adam, tremendo de impaciência, alumiou o pedreiro, que contou cuidadosamente os escudos, do primeiro ao último; faltavam uns cinquenta.

            - Não está certo - disse.

            L'íle-Adam atirou-lhe uma corrente de ouro que valia seiscentos escudos. Thiébert pôs-se a caminhar à frente dele.

            Um homem tinha-os precedido: era Perrinet Leclerc.

            Mal ouvira o mercado de sangue concluído entre Thiébert e o capitão, lançara-se a correr em direcção ao esconderijo do condestável. Deteve-se diante da porta da casa de Thiébert; estava fechada por dentro: o punhal prestou-lhe o mesmo serviço que já lhe tinha prestado na praça da Sorbona e a porta abriu-se.

            Ouviu um ruído na segunda sala.

            - Está ali!... - murmurou para si mesmo.

            - Sois vós, meu anfitrião? - perguntou a meia voz o condestável.

            - Sim - respondeu Leclerc. - Mas apagai a vossa luz, que pode trair-vos.

            Viu, através das fendas da porta, que o condestável seguia o seu conselho.

            - Agora deixai-me entrar.

            A porta entreabriu-se; Perrinet lançou-se sobre o condestável, que gritou; o punhal de Perrinet acabava de atravessar-lhe o ombro direito.

            Entre os dois homens iniciou-se uma luta de morte.

            O condestável, que, fiando-se em Thiébert, se julgava em segurança, estava sem armas e semidespido. Apesar desta desvantagem, teria facilmente estrangulado Leclerc entre as suas possantes mãos se não fosse a ferida, que lhe paralisava os movimentos de um braço; apesar disso, com o que lhe restava, envolveu o jovem, apertando-o contra o peito, e, pesando sobre o inimigo com todo o seu peso e toda a sua força, deixava-se cair com ele, na esperança de esmagar-lhe o crânio contra o soalho.

            E tê-lo-ia conseguido, se a cabeça de Perrinet não tivesse caído sobre um colchão que o pedreiro estendera no chão para servir de leito.

            O condestável lançou um segundo grito.

            Perrinet, que não largara o seu punhal, acabava de cravar-lho no braço esquerdo.

            O conde de Armagnac largou o jovem, ergueu-se, cambaleante, e foi cair de costas sobre uma mesa que se encontrava no meio do quarto, perdendo pelas feridas o sangue e as forças.

            Perrinet ergueu-se, chamando-o aos gritos, quando uma terceira figura, empunhando um archote, apareceu na porta, iluminando a cena.

            Era LÎle-Adam.

            Perrinet saltou novamente para o condestável.

            - Detém-te! - ordenou L'Île-Adam. - Sobre a tua vida, detém-te!

            E agarrou-lhe um braço.

            - Senhor de L'Île-Adam, a vida deste homem pertence-me - replicou-lhe Perrinet. - A rainha concedeu-ma. Eis o seu selo; deixai-me em paz.

            Tirou o pergaminho do peito e mostrou-o ao capitão.

            O conde de Armagnac, tombado sobre a mesa, inutilizado pelas duas feridas, impossibilitado de defender-se, olhava para aqueles dois homens, com os braços pendentes, a escorrer sangue.

            - Está bem - disse L'Île-Adam. - Não é a vida dele que me interessa.

            - Sobre a vossa alma? - disse Perrinet, detendo-o.

            - Sobre a minha alma! Mas tenho um voto a cumprir, deixai-me fazê-lo.

            Leclerc cruzou os braços e ficou à espera do que ia passar-se. L'Île-Adam empunhou a espada, agarrou-a pela lâmina, de modo a que a ponta ficasse apenas a cinco centímetros da sua mão, e aproximou-se do condestável.

            Este, vendo que estava tudo perdido, fechou os olhos, inclinou a cabeça para trás e pôs-se a orar.

            - Condestável - disse L'Île-Adam, arrancando-lhe a camisa que lhe cobria o peito - recordas-te de ter jurado um dia, pela Virgem e por Cristo, não usar vivo a cruz de Borgonha?

            - Sim - respondeu o condestável. - E cumpro o meu juramento, pois vou morrer.

            - Conde de Armagnac - continuou L'íle-Adam, inclinando-se para ele e rasgando-lhe o peito com a ponta da espada, de modo a traçar sobre a carne uma cruz ensanguentada.

            - Mentiste pela gorja, pois usas vivo a cruz vermelha da Borgonha. Faltaste ao teu juramento e eu cumpri o meu.

            O condestável respondeu apenas com um suspiro. L'Île-Adam voltou a meter a espada na bainha.

            - Era tudo o que queria de ti - disse. - Agora, morre como um perjuro e como um cão. É a tua vez, Perrinet Leclerc.

            O condestável abriu os olhos e repetiu, com uma voz já débil:

            - Perrinet Leclerc!

            - Sim - exclamou o jovem, avançando uma vez mais para o infeliz conde de Armagnac, prestes a expirar - sim, Perrinet Leclerc, aquele a quem os teus soldados destroçaram as costas à chibatada. Parece que aqui ambos fizeram um juramento? Pois bem, eu fiz dois; o primeiro, condestável, foi que morrerias sabendo que é a rainha Isabel da Baviera quem te tira Paris em troco da vida do cavaleiro de Bourdon; está cumprido, pois já o sabes. O segundo, conde de Armagnac, foi que morrerias ao sabê-lo; e esse - acrescentou, cravando-lhe o punhal no coração - esse cumpri-o tão religiosamente como o primeiro. Deus ajude, neste mundo e no outro, os homens que cumprem honestamente a sua palavra!

 

            Foi assim que Paris, inexpugnável para o poderoso duque da Borgonha e o seu numeroso exército, se entregou de noite, como uma cortesã caprichosa, a um simples capitão comandando setecentas lanças. Os Borgonheses, com o fogo numa mão e a espada na outra, espalharam-se pelas velhas ruas da cidade real, extinguindo o fogo com o sangue, secando o sangue com o fogo. Perrinet Leclerc, causa obscura deste grande acontecimento, depois de dele ter tirado aquilo que queria, a vida do condestável, voltara às fileiras do povo, onde a partir de então a história o procurará em vão, onde morrerá obscuro como nascera desconhecido, e de onde saíra por uma hora para ligar a uma das maiores catástrofes da monarquia o seu nome popular, ornamentado pela imortalidade de uma grande traição.

            Entretanto, por todas as suas portas, convergiam para Paris, como abutres para um campo de batalha, os senhores e os homens de armas que queriam a sua parte da grande presa, que até então só a realeza tivera o privilégio de devorar. Era, antes de nenhum outro, L'Île-Adam, que, tendo chegado em primeiro lugar, tomara a parte de leão; eram o senhor de Luxemburgo, os Lipiãos Fosseuse, Grèvecoeur e Jean de Poix; eram, após os senhores feudais, os capitães das guarnições da Picardia e da Île-de-France; eram, por fim, atrás dos capitães, os camponeses dos arredores, que, para nada deixarem, pilhavam o cobre onde os seus senhores tinham pilhado o ouro.

            Depois, quando todos os vasos das igrejas estavam já derretidos, quando os cofres do Estado ficaram vazios, quando já não restava uma franja nem uma flor de lis de ouro no manto real, lançaram o veludo nu sobre os ombros do velho Carlos, sentaram-no num trono meio quebrado, deram-lhe uma pena e colocaram-lhe à frente quatro cartas de patente, sobre uma mesa. L'Île-Adam e Chastellux foram nomeados marechais; Charles de Lens, almirante; Robert de Maillet, grande chanceler. E, depois de ter assinado, o rei julgou ter reinado.

            O povo observava tudo isto através das janelas do Louvre.

            - Bom! - comentava. - Depois de terem pilhado o ouro, ei-los que pilham lugares; felizmente, há mais assinaturas na pena do rei do que moedas havia nos seus cofres. Tomai, tomai, senhores; mas Hannotin de Flandres há-de vir, e, se não ficar contente com o que lhe deixarem, é possível que faça uma só parte com todas as vossas.

            Entretanto, Hannotin de Flandres (era o nome que o duque da Borgonha, por brincadeira, dava por vezes a si mesmo) parecia não ter pressa de ir; não fora sem inveja que vira um dos seus capitães entrar numa cidade a cujas portas batera por duas vezes com a sua espada sem que ela lhas abrisse. Recebeu em Montbéliard a mensagem que lhe transmitia esta inesperada notícia, e, no mesmo instante, em vez de prosseguir o seu caminho, retirou-se para Dijon, uma das suas capitais. A rainha Isabel, pelo seu lado, ficara em Troyes, excitada ainda pelo êxito da sua empresa; o duque e ela não se viam, não se escreviam; dir-se-iam dois cúmplices de um assassínio nocturno que hesitassem em encontrar-se face a face à luz do sol.

            Paris vivia uma vida febril e convulsiva. Como se dizia que a rainha e o duque não voltariam à cidade enquanto lá restasse um Armagnac, e como todos desejavam voltar a ver uma e outro, todos os dias este boato, ao qual a dupla ausência parecia dar alguns fundamentos, era pretexto para novo massacre. Todas as noites havia gritos de alarme. O povo percorria a cidade munido de archotes. Tão depressa os Armagnacs, dizia-se, voltavam pela porta Saint-Germain, como pela porta do Templo. Grupos de homens, à cabeça dos quais se distinguiam os magarefes, pelas grandes facas que luziam nos extremos dos seus braços nus, percorriam Paris em todas as direcções; depois, alguém dizia:

            - Eh! Esta casa é de um Armagnac!

            Então as facas faziam justiça ao dono e o fogo à casa. Era necessário, para andar sem temor pelas ruas, usar um chapéu azul com uma cruz vermelha. Alguns adeptos formaram uma companhia borgonhesa, a que foi dado o nome de "Santo-André"; cada um dos seus membros usava uma coroa de rosas vermelhas; e, como muitos padres tinham aderido, uns por prudência, outros por sentimento, diziam a missa com este ornamento na cabeça. Em resumo, vendo tais coisas, poderia julgar-se Paris na euforia do Carnaval, se não se encontrassem nas ruas tantos lugares negros, onde tinham existido casas devoradas pelo fogo, e tantos lugares vermelhos, onde tinham caído homens fulminados pela morte.

            Entre os mais encarniçados corredores de noite e de dia, havia um que se fazia notar pela sua impassibilidade no massacre e pela sua habilidade na execução. Não havia incêndio a que ele não chegasse o seu archote, assassínio em que não ensanguentasse a sua mão. Quando o avistavam com o seu chapéu vermelho, a sua veste cor de sangue de boi, o seu cinturão de couro apertando-lhe contra o peito uma enorme espada de dois gumes, cujo punho lhe tocava no queixo e a ponta nos pés, quem quisesse ver decapitar limpamente um Armagnac só tinha que segui-lo; pois havia um provérbio popular que dizia que mestre Cappeluche era capaz de fazer saltar uma cabeça antes que o chapéu tivesse tempo de dar por isso.

            Assim Cappeluche era o herói destas festas; os próprios magarefes reconheciam-no como chefe e cediam-lhe a passagem.

            Era ele quem se encontrava à cabeça de todos os ajuntamentos, a alma de todos os motins. Com uma palavra, detinha a multidão que o seguia; com um gesto, lançava-a para a frente; Era fantástico ver como todos aqueles homens obedeciam a um só.

            Enquanto Paris ressoava com todos estes gritos, resplandecia com todas estas luzes, e todas as noites, despertava em sobressalto, a velha Bastilha erguia-se na sua extremidade oriental, negra e silenciosa. Os gritos do exterior não encontravam eco dentro das suas paredes, o brilho dos archotes não tinha reflexos; a sua ponte mantinha-se erguida, a sua grade descida. De dia, nenhum ser vivo se mostrava nas muralhas; a cidadela parecia guardar-se a si mesma; apenas, quando algum ajuntamento de povo se aproximava mais do que lhe parecia conveniente, viam-se surgir em cada andar e apontar para a multidão tantas pontas de seta quantas eram as seteiras, sem que fosse possível distinguir se eram homens ou uma máquina quem as movia. Ao ver isto, a multidão, fosse ela conduzida por Cappeluche em pessoa, voltava costas, abanando a cabeça; as pontas de seta desapareciam à medida que o ajuntamento se afastava e a velha fortaleza retomava, ao cabo de um instante, um ar despreocupado e satisfeito, semelhante ao do porco-espinho, que, quando o perigo se afasta, deita sobre o dorso, como se fossem pelos, as mil lanças a que deve o respeito que por ele sentem os restantes animais.

            De noite, o mesmo silêncio e a mesma escuridão. Era em vão que Paris iluminava as suas ruas e os seus passeios, pois nenhuma luz brilhava através das janelas gradeadas da Bastilha, nenhuma voz humana se fazia ouvir no interior das muralhas; apenas, de tempos a tempos, nas janelas das torres que se elevavam em cada um dos quatro ângulos, surgia a cabeça vigilante de uma sentinela, que só nessa posição podia velar para que nenhuma surpresa fosse preparada junto da base dos muros; e essa cabeça, depois de aparecer, ficava de tal modo imóvel, que seria possível tomá-la, quando algum raio de lua a iluminava, por uma dessas máscaras góticas que a fantasia dos arquitectos punha, como um ornamento fantástico nos arcos das pontas ou no entablamento das catedrais.

            No entanto, certa noite sombria, para os fins do mês de Junho, enquanto as sentinelas velavam nos quatro cantos da Bastilha, dois homens subiam a escada estreita e tortuosa que conduzia à plataforma. O primeiro que apareceu no terraço era um homem de quarenta e dois a quarenta e cinco anos, de estatura colossal, cuja força devia ser a que essa estatura prometia. Estava coberto por uma armadura completa, se bem que, por arma ofensiva, no lugar onde devia pender a espada, o cinturão só suportasse o peso de um desses punhais longos e pontiagudos a que era dado o nome de punhais de misericórdia; a sua mão esquerda apoiava-se por hábito no punho da arma, enquanto que na direita tinha um desses chapéus de veludo guarnecidos de pele com que por vezes os cavaleiros substituíam, nos seus momentos de repouso, os elmos de batalha, cujo peso alcançava frequentemente as quarenta ou quarenta e cinco libras. A sua cabeça nua mostrava, sob umas espessas sobrancelhas, uns olhos de um azul carregado, um nariz aquilino, uma pele tostada pelo sol, dando ao conjunto daquela fisionomia um ar de austeridade que uma barba com o comprimento de uma polegada, cortada em redondo, e os longos cabelos negros caindo-lhe de ambos os lados da face, não contribuíam para adoçar.

            Mal o homem que acabamos de descrever chegou à plataforma, voltou-se e estendeu um braço para a abertura praticada no solo que acabava de dar-lhe passagem. Uma mão fina e bem tratada passou por ela e agarrou-se àquela mão forte e poderosa, e no mesmo instante, com a ajuda daquele ponto de apoio, um jovem de dezasseis ou dezassete anos, todo de veludo e seda, cabeça loura, corpo delgado, membros delicados, subiu para o terraço, e, apoiando-se ao braço do companheiro, como se aquela pequena subida tivesse sido um longo esforço, pareceu procurar por hábito um assento onde pudesse repousar-se. Mas, vendo que tal ornamento fora considerado inútil na plataforma da fortaleza, fez com a sua segunda mão, que juntou à primeira, um anel com a ajuda do qual passou para o atlético braço do companheiro, do qual se suspendia mais do que se apoiava, metade do peso que a natureza destinara às suas pernas, e começou assim um passeio que parecia fazer mais por condescendência para com quem o acompanhava do que por uma decisão da sua própria vontade.

            Passaram-se alguns minutos sem que qualquer deles perturbasse o silêncio da noite com uma simples palavra ou interrompesse aquele passeio, que a exiguidade da plataforma tornava verdadeiramente restrito. Os passos dos dois homens faziam um só ruído, de tal modo o caminhar ligeiro da criança se confundia com a marcha pesada do soldado; dir-se-ia um corpo e a sua sombra, poderia pensar-se que um vivia pelos dois. Subitamente, o homem de armas de teve-se, com o rosto virado para Paris, e forçou o seu jovem companheiro a fazer outro tanto: dominavam toda a cidade .

            Era precisamente uma daquelas noites de tumulto que já tentámos descrever. Primeiro só se distinguia, da plataforma, um amontoado confuso de casas estendendo-se para oriente e para ocidente, e cujos telhados, na escuridão, pareciam encostados uns aos outros, como os escudos de um grupo de soldados avançando para o assalto. Mas, subitamente, e quando algum ajuntamento de povo tomava um caminho paralelo ao círculo abrangido pelos olhares, a luz dos archotes, iluminando uma rua em todo o seu comprimento, parecia fender um quarteirão da cidade; sombras avermelhadas agitavam-se confusamente, no meio de gritos e de gargalhadas; depois, no primeiro beco que mudasse de direcção, aquela multidão desaparecia com as suas luzes, mas não com o seu ruído.

            Tudo voltava à escuridão e o rumor que se ouvia parecia os queixumes abafados da cidade, a que a guerra civil rasgava as entranhas com o ferro e o fogo.

            Ao ver este espectáculo, ao ouvir estes ruídos, o rosto do soldado tornou-se ainda mais sombrio do que de costume; franziu as sobrancelhas, estendeu o braço esquerdo na direcção do Louvre, e as palavras que pronunciou, dirigidas ao seu jovem companheiro, tiveram dificuldade em passar-lhe através dos lábios, de tal modo tinha os dentes apertados.

            - Senhor, eis a vossa cidade; reconhecei-la?

            O rosto do jovem adoptou uma expressão de melancolia de que, um instante antes, ninguém o julgaria capaz. Cravou os olhos nos do homem de armas e, depois de o ter olhado por um instante em silêncio, respondeu.

            - Meu bravo Tanneguy, muitas vezes a vi, a esta hora, das janelas do palácio de Saint-Paul, como neste momento a vejo do terraço da Bastilha. Por vezes vi-a tranquila, mas não me lembro de alguma vez a ter visto feliz.

            Tanneguy sobressaltou-se: não esperara uma tal resposta do jovem delfim. Interrogara-o, julgando falar a uma criança, e ele respondera-lhe como teria feito um homem.

            - Que Vossa Alteza me perdoe - disse Duchâtel - mas até este dia pensei que vos interessavam mais os prazeres do que os negócios da França.

            - Meu pai - desde que Duchâtel salvara o jovem delfim das mãos dos Borgonheses, ele dava-lhe este nome - essa censura só em parte é justa. Enquanto vi perto do trono da França os meus dois irmãos, que agora estão perto do trono de Deus, sim, é verdade, só houve lugar na minha alma para as alegrias e as loucuras; mas, depois que o Senhor os chamou a si de um modo tão inesperado como terrível, esqueci todas as frivolidades para só me lembrar de uma coisa: A morte do meu pai bem amado, que Deus conserve!, este belo reino de França não terá outro senhor além de mim.

            - Assim, meu jovem leão - disse Tanneguy, com uma expressão visível de alegria - estais disposto a defendê-lo, com unhas e dentes, contra Henrique da Inglaterra e o conde Jean da Borgonha?

            - Contra cada um deles separadamente, Tanneguy, ou contra os dois ao mesmo tempo, se quiserem.

            - Ah! senhor, Deus inspira-vos essas palavras para aliviar o coração deste vosso velho amigo. Em três anos, é a primeira vez que respiro a plenos pulmões. Se soubésseis que dúvidas passam pelo coração de um homem como eu, quando a monarquia a que dedicou o seu braço, a sua vida, talvez até a sua honra, é atingida por golpes tão rudes como aquela de que sois hoje a última esperança; se soubésseis quantas vezes perguntei a mim mesmo se não seria tempo de esta monarquia ceder o lugar a uma outra, se não seria revolta contra Deus tentar sustê-la quando ele parecia tê-la abandonado; porque.., que o Senhor me perdoe se blasfemo! porque, há já trinta anos, de cada vez que virou os olhos para a vossa nobre raça, foi para a castigar, e nunca para se apiedar dela. Sim, pode pensar-se que é um sinal fatal para uma dinastia quando o seu chefe cai doente de corpo e de espírito, como aconteceu ao nosso senhor o rei; pode-se pensar que tudo está acabado quando se vê o primeiro vassalo de uma coroa atacar com a acha e com a espada os ramos da árvore real, como fez o traidor Jean em relação ao nobre duque de Orleães, vosso tio; pode-se acreditar, por fim, que o Estado está perdido quando se vê dois jovens nobres, como eram os dois irmãos de Vossa Alteza, caírem vítimas de uma doença tão súbita e singular que, se não se temesse ofender Deus e os homens, dir-se-ia que um nada teve a ver com isso, enquanto que os outros tiveram tudo; e quando, para resistir à guerra estrangeira, à guerra civil, às revoltas populares, nada mais resta do que um débil jovem como vós. Oh! senhor, senhor, a dúvida que por tantas vezes esteve prestes a vencer o meu coração é bem natural e perdoar-ma-eis! O delfim lançou-lhe os braços ao pescoço.

            - Tanneguy, todas as dúvidas são permitidas àquele que, como tu, duvida depois de ter agido, àquele que, como tu, pensa que Deus, na sua cólera, castiga uma dinastia até ao seu último herdeiro, mas mesmo assim não hesita em subtrair esse mesmo herdeiro à cólera divina.

            - E não hesitei, meu jovem senhor. Quando vi os Borgonheses na cidade, corri para vós como uma mãe para o seu filho; pois quem poderia salvar-vos, se não eu? Não era o rei vosso pai. A rainha, de longe, não poderia tê-lo feito, e, de perto, Deus lhe perdoe, não o teria talvez desejado.

            "E vós, senhor, tivésseis ficado livre, tivésseis encontrado desertos os corredores do palácio de Saint-Paul e aberta a sua porta, que uma vez na rua, ter-vos-íeis visto mais embaraçado nessa cidade de mil becos do que o último dos vossos súbditos. Só me tínheis pois a mim; naquele instante, senhor, pareceu-me também que Deus não abandonava a vossa nobre família, de tal modo senti as minhas forças duplicadas. Levei-vos nos braços, senhor, e não me pesastes mais do que uma ave nas garras de uma águia.

            "Oh! tivesse eu encontrado todo o exército do duque da Borgonha, com o duque à cabeça, e pareceu-me que teria derrubado o duque e atravessado o exército sem que nos acontecesse algum mal a qualquer de nós. Porque nesse momento, tenho a certeza, Deus estava comigo.

            "Mas depois, senhor, depois de vos ver em segurança atrás das muralhas inexpugnáveis da Bastilha, quando cada noite, depois de ter contemplado sozinho, do alto deste terraço, o espectáculo que, esta noite, contemplamos juntos, quando, depois de ter visto Paris, a cidade real, presa de tais revoluções que é o povo quem reina e a realeza quem obedece, quando, com o tumulto a ressoar-me nos ouvidos, os olhos fatigados pela luz de tanto incêndio, descia ao vosso quarto, e, silencioso e apoiado à vossa cabeceira, via como dormíeis calmamente, enquanto a guerra civil atravessava o vosso Estado e o incêndio devorava a vossa capital, perguntava a mim mesmo se seria digno do reino aquele que dormia um sono tranquilo e despreocupado, enquanto o seu reino tinha uma noite tão agitada e sangrenta.

            Uma expressão de descontentamento passou, como uma nuvem, pelo rosto do delfim.

            - Espiavas então o meu sono, Tanneguy?

            - Senhor, orava, junto do vosso leito, pela França e por Vossa Alteza.

            - E se, esta noite, não me tivesses encontrado tal como desejavas, qual era a tua intenção?

            - Teria conduzido Vossa Alteza a lugar seguro e lançar-me-ia, sozinho e sem armadura, para o meio do inimigo, pois já só me restaria morrer, e quanto mais depressa melhor.

            - Pois bem, Tanneguy, em vez de ires sozinho e sem armadura ao encontro do inimigo, iremos os dois e bem armados. Que dizes?

            - Que o Senhor vos deu a vontade. É agora preciso que vos dê a força.

            - Tu estarás a meu lado, para me apoiar.

            - É uma guerra longa a que vamos fazer, senhor; longa e fatigante, não para mim, que, há trinta anos, vivo na minha couraça, como vós viveis há quinze no vosso veludo. Tendes dois inimigos a combater, dos quais um só bastaria para fazer tremer um grande rei. Uma vez a espada fora da bainha e a auriflama fora de Saint-Denis, será preciso que nem uma nem a outra descansem sem que os vossos dois inimigos, o duque da Borgonha e o rei da Inglaterra, estejam, o primeiro sob a terra de França, o segundo fora dela.

            "Para o conseguir, será preciso travar rudes combates. As noites de vigia são frias, os dias no campo assassinos; é uma vida de soldado a começar, em vez de uma vida de príncipe a continuar; não é uma hora de torneio, são dias de combates; não são alguns meses de escaramuças e de encontros, são anos inteiros de lutas e de batalhas. Senhor, pensai bem.

            O jovem delfim, sem responder a Tanneguy, afastou-se dele, avançou direito a um dos soldados que vigiava de uma das torretas da Bastilha, e, num instante, tinha cingido em torno da cintura o cinturão com a aljava e empunhava o arco de freixo da sentinela. A voz do jovem tinha adquirido um tom de firmeza que até então ninguém lhe conhecera, quando, ao virar-se para o surpreendido Duchâtel, lhe disse:

            - Meu pai, dormirás tranquilo, espero, se bem que seja a primeira velada de armas do teu filho.

            Duchâtel ia responder-lhe quando um desenvolvimento da cena que se desenrolava junto da Bastilha foi desviar a direcção dos seus pensamentos.

            Havia já algum tempo que o tumulto se aproximava e uma luz muito forte subia a rua Cerisaie; era no entanto impossível avistar os que causavam este ruído, ou adivinhar a verdadeira causa daquela luz, pois a situação transversal da rua e a altura das casas impediam o olhar de descer até ao ajuntamento que ocasionava ambas as coisas.

            Subitamente, ouviram-se gritos mais distintos e um homem seminu saiu a correr da rua Cerisaie e lançou-se pela rua Saint-Antoine, gritando por socorro. Era perseguido, a curta distância, por um grupo de homens, que gritavam:

            - À morte! À morte o Armagnac! Mata o Armagnac!

            À cabeça dos que perseguiam o infeliz reconhecia-se, pela sua enorme espada, que levava nua e ensanguentada, pela veste cor de sangue de boi, que lhe deixava as pernas nuas, mestre Cappeluche. O fugitivo, no entanto, a quem o medo impelia a correr a uma velocidade fantástica, ia escapar aos seus perseguidores alcançando a esquina da rua Saint-Antoine e lançando-se para trás do muro das Tournelles, quando as suas pernas se embaraçaram na corrente que todas as noites era estendida na extremidade da rua. Deu alguns passos, cambaleando, e foi cair à distância de um tiro de seta das muralhas da Bastilha. Os que o perseguiam, prevenidos pela sua própria queda, saltaram por cima da corrente, de sorte que, quando o infeliz quis levantar-se, viu brilhar acima da sua cabeça a espada de Cappeluche. Compreendeu então que estava perdido e caiu de joelhos, gritando: Misericórdia!, não aos homens, mas a Deus.

            A partir do momento em que a cena que acabamos de descrever teve por teatro a rua Saint-Antoine, nenhum dos seus pormenores escapou a Tanneguy nem ao delfim. Este, menos habituado a tal género de espectáculos, seguia-a com um interesse que se traía nos seus movimentos convulsivos e nos sons inarticulados que lhe saíam da garganta, de sorte que, quando o Armagnac caiu, Cappeluche não foi mais rápido ao precipitar-se para a vítima do que o jovem a tirar uma seta da aljava e ajustá-la à corda do arco com dois dedos da mão direita. O arco dobrou-se como se fosse uma débil vara, baixando-se na mão esquerda, enquanto que a direita levava a corda até ao ombro do príncipe, de modo que seria difícil, apesar das diferentes distâncias, julgar qual das duas chegaria primeiro ao seu destino, se a flecha do delfim ou a espada de Cappeluche, quando Tanneguy, estendendo rapidamente um braço, agarrou a seta pelo meio, quebrando-a entre as mãos do arqueiro real.

            - Que fazes, Tanneguy, que fazes? - exclamou o delfim, batendo com um pé. - Não vês que esse homem vai matar um dos nossos, que um borgonhês vai assassinar um Armagnac?

            - Morram todos os Armagnacs, senhor, antes que Vossa Alteza suje o ferro de uma das suas setas com o sangue de tal homem!

            - Mas, Tanneguy, Tanneguy!... Ah! olha!...

            Ao grito do delfim, Tanneguy voltou a cabeça para a rua Saint-Antoine; a cabeça do Armagnac estava a dez passos do seu corpo e mestre Cappeluche limpava tranquilamente o sangue da sua espada, assobiando a conhecida canção:

            "Duque da Borgonha, Deus te tenha em alegria!"

            - Vê, Tanneguy, vê! -dizia o delfim, chorando de raiva. - Se não fosses tu! Se não fosses tu!... Mas vê...

            - Sim, sim, estou a ver - respondeu Tanneguy. - Mas repito, esse homem não podia morrer pela vossa mão.

            - Mas, sangue de Deus, quem é esse homem? -Esse homem, meu senhor, é mestre Cappeluche.

            o carrasco da cidade de Paris.

            O delfim deixou pender os braços e inclinou a cabeça para o peito.

            - Oh! meu primo da Borgonha! - disse, com voz surda. - Não quereria, para conservar os quatro mais belos reinos da cristandade, utilizar os homens e os meios de que vos servis para roubar o que me resta do meu.

            Entretanto, um dos homens do grupo de Cappeluche agarrava pelos cabelos a cabeça do morto e aproximava-a de um archote que empunhava com a outra mão. A luz bateu em cheio naquele rosto, cujas feições não tinham ficado suficientemente distorcidas pela morte para que Tanneguy, do alto da Bastilha, não pudesse reconhecer Henri de Marle, seu amigo de infância e um dos mais dedicados Armagnacs; um profundo suspiro brotou do seu peito imenso.

            - Raios! Mestre Cappeluche - disse o homem do povo, levando a cabeça ao carrasco - não se pode dizer que vos custe mais cortar limpamente a cabeça ao primeiro chanceler da França do que ao último dos patifes!

            O carrasco sorriu, satisfeito; também ele tinha os seus aduladores(1).

            [1. Barante deve ter ido buscar estes pormenores a Juvenal de Ursins, autor contemporâneo com quem os nossos leitores já travaram conhecimento].

            Nessa mesma noite, duas horas antes do nascer do dia, um grupo pouco numeroso, mas bem montado e bem armado, saía com precaução pela porta exterior da Bastilha, metia em silêncio pelo caminho da ponte de Charenton, e, depois de tê-la atravessado, seguia durante cerca de oito horas a margem direita do Sena, sem que uma palavra fosse pronunciada, sem que uma viseira se levantasse. Finalmente, cerca das onze horas da manhã, o grupo chegava à vista de uma cidade fortificada.

            - Agora, senhor - disse Tanneguy ao cavaleiro que se encontrava mais perto dele - podeis levantar a vossa viseira e gritar: São Carlos e França!, pois aí está o estandarte branco dos Armagnacs e ides entrar na vossa fiel cidade de Melun.

            Foi assim que o delfim Carlos, a que a história deu mais tarde o cognome de "o Vitorioso", passou a sua primeira noite de vigília e fez a sua primeira marcha de guerra.

            Se nos acusassem de exagerar a descrição destes pormenores responderíamos que não é nosso o gosto nem nossa a culpa, que cabe toda à História. Uma citação, tirada de Os duques da Borgonha, de Barante, provará talvez que não escolhemos as tintas mais lúgubres nem os quadros mais horríveis desta infeliz época. Quando os príncipes e os reis armam os povos para a guerra civil, quando se servem de instrumentos humanos para resolver os seus diferendos ou defender os seus interesses, a culpa não é do instrumento que fere e o sangue derramado cai sobre a cabeça que ordena e o braço que conduz.

            Voltemos à nossa citação; ei-la:

            "Nos pátios das prisões havia sangue à altura dos tornozelos; matava-se igualmente na cidade e nas ruas. Os infelizes besteiros genoveses eram expulsos das casas onde se tinham alojado e entregues à populaça furiosa. Mulheres e crianças eram feitos em pedaços; uma infeliz mulher grávida foi lançada morta para o meio da rua, e um, vendo a criança agitar-se-lhe no ventre, comentava: - Vejam o cão ainda mexe. Sobre os cadáveres cometiam-se mil horrores: faziam-lhes marcas sangrentas, como ao condestável, arrastavam-nos pelas ruas; os corpos do conde de Armagnac, do chanceler Robert de Masson, de Raimond de La Guerre, foram assim passeados numa padiola por toda a cidade e depois abandonados, durante três dias, sobre os degraus do palácio".

 

            OS motivos políticos que retinham o duque da Borgonha longe da capital são fáceis de explicar.

            A partir do momento em que um outro, mais feliz do que ele, se apoderara de Paris, pensara em deixar-lhe a honra, que de resto não podia tirar-lhe, mas guardando para si mesmo os benefícios que daí pudessem advir. Não lhe fora difícil prever que as reacções naturais, que se seguem a alterações políticas daquela importância, arrastariam consigo crimes e vinganças sem conta; que a sua presença em Paris não os poderia impedir sem o fazer perder popularidade aos olhos dos seus próprios partidários, enquanto que a sua ausência lhe poupava a responsabilidade do sangue derramado. De resto, esse sangue brotava das veias de Armagnacs; era uma grande sangria que enfraqueceria por muito tempo o partido que se lhe opunha; os seus inimigos caíam, uns após outros, sem que ele tivesse sequer o trabalho de os atingir. Depois, quando lhe parecesse que o povo estaria cansado de massacres, quando visse a cidade chegada a esse ponto de lassidão em que a necessidade de repouso substitui a de vingança, quando fosse possível poupar sem perigo os restos de um partido mutilado e privado dos seus chefes, então voltaria à cidade, como o anjo guardião dos seus muros, extinguindo o fogo, estancando o sangue e proclamando paz e uma amnistia para todos.

            Acontece que o pretexto que motivava esta ausência tem com o seguimento da nossa história uma relação demasiado grande para que não o expliquemos aos nossos leitores.

            O jovem Giac, que vimos, no castelo de Vincennes, disputando a Graville e a L'Île-Adam o coração de Isabel da Baviera, tinha, como já dissemos, acompanhado a rainha a Troyes. Encarregado pela sua soberana de várias mensagens importantes para o duque da Borgonha, vira, na corte do príncipe, a menina Catherine de Thian, uma das aias da duquesa de Charolais(1). [1. O conde de Charolais, filho do duque Jean, desposara a princesa Michelle, filha do rei Carlos VI].

            Jovem, bravo e belo, pensara que estas três qualidades, aliadas à confiança que lhe dava a certeza de possuí-las, seriam títulos suficientes diante daquela nobre e bela jovem; foi pois com um assombro sempre crescente que viu as suas homenagens serem recebidas de um modo em nada diferente das dos outros senhores.

            A ideia de um rival foi a primeira que atravessou o espírito de Giac; passou a seguir a menina de Thian como se fosse a sua sombra, a espiar-lhe todos os gestos, a surpreender-lhe todos os olhares, e acabou, a despeito da perseverança do ciúme, por ficar convencido de que nenhum dos jovens senhores que a rodeavam era mais feliz do que ele. Era rico, usava um nome nobre; pensou que uma proposta de casamento seduziria talvez, à falta de amor, a vaidade da jovem. A resposta da menina de Thian foi ao mesmo tempo tão precisa e tão delicada que Giac perdeu o que lhe restava de esperança, conservando todo o seu amor. Era de dar em doido, à força de pensar naquilo sem conseguir compreender. O seu último recurso era a ausência: teve a força suficiente para lançar mão dele. Consequentemente, despediu-se do duque e voltou para junto da rainha.

            Tinham-se passado apenas seis semanas quando uma nova mensagem o obrigou a voltar a Dijon. A ausência fora-lhe mais favorável do que a presença. O duque recebeu-o com mais amizade e a menina de Thian com mais abandono; Giac duvidou ainda, durante algum tempo, da sua felicidade, até que, certo dia, o duque se ofereceu para fazer ele próprio nova tentativa junto daquela que ele amava. Uma tão poderosa protecção devia aplainar bastantes dificuldades; Giac aceitou a oferta com alegria, e, duas horas depois, uma segunda resposta, tão favorável quanto a primeira fora desesperante, provava que, fosse por a menina de Thian ter reflectido melhor sobre os méritos do cavaleiro, fosse devido à poderosa influência do duque, nunca se devia dar um crédito demasiado pronto à primeira recusa de uma mulher.

            O duque declarou então que não voltaria a Paris sem se terem realizado as núpcias dos dois jovens. Realizaram-se, e foram esplêndidas. O duque insistiu em que fossem feitas à sua custa. De manhã, houve torneios e justas, onde se viram belos feitos de armas; o jantar foi interrompido por representações magníficas e muito engenhosas, e, de tarde, foi representado um mistério, de que o assunto era Adão recebendo Eva das mãos de Deus. Tinha sido chamado, para esse efeito, de Paris, um poeta de renome; foi-lhe paga a viagem e recebeu vinte e cinco escudos de ouro. Estas coisas passaram-se de 15 a 20 de Junho de 1418.

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